EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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................................................................................................................. 203 Vênus Morta ......................................................................................................................................................................................................... 182 Canto de Agonia ....... 168 Noite de um Visionário ...........123 Uma noite no Cairo ...................................................................................128 As Cismas do Destino ................... 162 Versos de Amor .................... 200 Mãos ........... 156 Gemidos de Arte .............................................................................................................. 180 Canto Íntimo ..................... 166 A Luva ................... 142 À Mesa ............. 175 Barcarola ........................................................................................................... 199 Tristezas de um Quarto Minguante .............................................. 129 A Caridade ........................................ 197 Quadras ................................................................................................................................... 183 História de Um Vencido ...................................... 173 A Ilha de Cipango ................................... 190 Mistérios de um Fósforo .......................... 155 Duas Estrofes ......................................... 212 5 ....... 157 A Meretriz ....................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ................................. 186 Insônia ................................................................. 170 A Vitória do Espírito .......... 183 Gozo Insatisfeito . 192 Ode ao Amor ...... 176 Ave Libertas .. 195 Numa Forja ............................................................................................. 141 Os Doentes ........................................................ 155 Mater ............... 209 Poema Negro .............................................................. 204 Viagem de um Vencido ...... 205 Queixas Noturnas ........................ 179 Estrofes Sentidas ......................................................... 184 Idealizações .......................................................................

quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Deste modo. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. nos moldes da velha orientação impressionista. poder conhecer a árvore pelo fruto. na chaga viva de sua consciência. quando. o eu fora do Eu. senão em mais de um. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. entrava em crise espiritual. 1962) 6 .INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. numa atitude de respeito e reflexão. Teria sido um neurótico para uns. ao menos. Nessa tentativa de interpretação psicológica. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. paremos reverentes à porta do templo. RJ. Não me parece. Gráfica Ouvidor. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. um psicastênico para outros. no que há de mais sutil e imponderável. isto é. e era aí. que o não convencia de todo. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. compreendendo inclusive a estilística. não conhecemos sequer a nossa. que é de todas a menos operante. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. desejosos de. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Por conseguinte. Fazer o elogio do poeta. Sua personalidade singular ali se projeta. segundo as síndromes patológicas revelados. contudo. Nalgum ponto. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. na verdade. ed. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. em suas mensagens de angústia. É preciso. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. pois. nesse estado de superexcitação. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas.

Juízo é coisa que todos julgam ter. todo o seu temperamento emocional. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. tiques nervosos. a de Nietzche. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. de fundo genético. enfim. com preocupações de grandeza e fidalguia. estudante de medicina. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. sobretudo quando provém da linha materna. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. no final. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Sem o concurso da causa primária. repetindo conceitos. o refinamento de suas faculdades morais. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. igualmente inteligentes. causada pela perda imprevista de um irmão querido. além mesmo da gravidez. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. nem os que vieram depois. tem sido Augusto comparado a Leopardi. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. por vezes controvertidos. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. Por seu parentesco espiritual. a de Byron. não há negar também a dos psicológicos. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. em relação com a casuística. E por curiosa coincidência. do sentimento. sobre o seu caso clínico. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. aos que se acomodam. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. fobias. menos a de Byron.for. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . caracterizado por uma sensibilidade doentia. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. a de Leopardi. Nietzche. na classificação dos antropologistas do século passado. reduzir tudo a categorismo. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. A mãe do poeta. Ao que se sabe. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. Nem os que nasceram antes. Assim como a mãe de Augusto. por motivos vários. da inteligência. como é do gosto da crítica científica. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. só ele dava a impressão de um desajustado. Isto posto. perturbou-a por muito tempo. Pai e irmãos passavam por normais. que nada explica. Augusto não era um homem igual aos outros. Obviamente. aos que se rebaixam para subir. a partir de Lombroso. a de Wilde. não é possível interpretar a obra de um escritor. nas modalidades do caráter. choques emocionais. Explica-se deste modo. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. que já era constitucionalmente quase louca. Byron. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. sestros. enfim.

sofregamente bebida nas academias. o seu tipo de pássaro molhado. Alexandre dos Anjos. logo mais. estavam a fazer dele um lírico. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. a quietude da vida na província. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. dr. era um introvertido. Logo mais. A par disso. mas no final 8 . Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. em contraste com a mocidade e a inteligência. Com seu pai. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Já em 1875. conforme disse num soneto que não consta. na várzea do Paraíba. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. os quais o acompanhariam. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. saído da roça. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. segundo os primeiros retratos que temos dele. no último ano do século passado. para aprazimento intelectual das elites. que lançou em 1919. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. ao invés de um estudante bisonho. mas não era somente isso. Coelho Rodrigues. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. a sua própria vida sem problemas. inspirado na natureza e no amor. que a metafísica estava morta. cuja vida corria sem obstáculos. sem afastar-se do lar. Falava nele o positivista que. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. Muito cedo. a rigor. visto ter nascido poeta. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Nada de admirar. com o título Eu e Outras Poesias. em sua linha tomista. em 1900. até o túmulo. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Sílvio Romero. Era de fato um excêntrico. O que há de singular nele não é. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. A paisagem bucólica da várzea. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. guiado apenas pela ilustração paterna. como expressão do pensamento nacional. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. para maior complicação de sua personalidade.Augusto com a sua personalidade psicológica. Deste modo. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. cinco anos após a sua morte. em Monólogos de uma Sombra. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. O rapazinho de 16 anos. como uma fatalidade. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. em prefácio à segunda edição do Eu. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. aprendeu a ler e. sofreu duros reveses. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. do Eu.

introduziu entre nós a poesia científica. Desta forma. Martins Júnior. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Laurindo Leão. Até no Piauí. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Embora educado na religião católica. como uma velharia do século. desde Haller.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. em seu livro Frases e Notas. o pensamento ao longe. mas a origem simiesca do homem. proceda ou não proceda. entre o mundo da forma e o mundo da razão. confundidas ambas na unidade cósmica. Na Paraíba. já lidos nos filósofos da natureza. a exemplo de Victor Hugo. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. Ao que parece. nas concepções filosóficas de seus poemas. adepto do positivismo. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. já no seu ocaso. conciliada. faziam praça de livres pensadores. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. dupla feição de filósofo e de poeta. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Esquisitão que era. suportou a mais dura crise. de onde saiu formado em 1907. como toda substância animada. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. ficava a escutar os companheiros. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Augusto pouco falava. ou mesmo. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. que só cuidava de preocupações teológicas. O beatério era o último reduto do catolicismo. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. aliás. com a evolução da matéria e do espírito. a velha Escolástica. se o diabo é tão feio como o pintam. um século antes de Hugo. Desses embates. Nas rodas que se faziam na Paraíba. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. tentou o milagre de 9 . Os menos letrados. que. Aliás. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. em sua. emancipou-se dela intelectualmente. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. de que católico era sinônimo de burro. Por todo o Nordeste. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. José Américo de Almeida. está sujeita também ao processo da evolução. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. os intelectuais mais dotados. firmava-se o conceito. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. aliás bem pouco lisonjeiro. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. isto é. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Ainda na fase preparatória de estudos. Comte passou. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta.

“esse mineiro doido das origens”. terso na linguagem. ampla. até adquirir a forma humana. depois de infinitas transformações. nas duas composições uma coincidência de temas. 186 versos.. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. identifica-se na substância primeva. vibra A alma dos movimentos rotatórios. que é a derrota da humanidade. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Venho de outras eras. A partir da monera.reduzir a um campo único a ciência e a arte. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. Do cosmopolitismo das moneras. Não sofre apenas a sua dor. Da substância de todas as substâncias. Pólipo de recônditas reentrâncias. naquela mesma idade em que. por força das sucessivas mutações da matéria. É a sua confissão de f transformista. A saúde das forças subterrâneas. já diferenciado na mônada. Vejamos. enfim. E é de mim que decorrem. que passou do reino vegetal para o animal. Integrado na sociedade. começa então o drama crucial da consciência. já desiludido. trinta anos antes. incomparável na forma musicada. e—crente no tema. procedo Da escuridão do cósmico segredo. E assim continua. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Não há. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. numa caminhada de 31 estâncias. O aspecto conceptual do poema. ora transfigurado em filósofo moderno. Larva do caos telúrico. todavia.. Rimbaud escrevera Bateau ivre. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. A simbiose das coisas me equilibra. Quem já o leu uma vez. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. como amostra. facilmente o identifica.. simultâneas. na larva que procede do caos telúrico. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Em minha ignota mônada. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. Encontra-se. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Aos 17 anos.. chega aos seres mais complexos. fundado na unidade cósmica. a consciência 10 . como bem observa Cavalcanti Proença. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche.

No fundo. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. centro de toda a acuidade sensorial. há que distinguir um pormenor. que faz quase lembrar a reencarnação. chamando a si. É a concepção monística. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Nada obstante. o sofrimento de toda a humanidade. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. no princípio era a força. O próprio Augusto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . entendia o agregado abstrato da saudade. já havia dito. conheci um sujeito. assombrado com o não-ser. o remorso já acordado na caverna escura. noção trivialíssima das funções orgânicas. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. segundo querem os frenologistas. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. do ponto de vista metafísico. uma espécie de fogo que devora e não consome. tantas vezes exaltada pelo poeta. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. A rigor. temos aí um transformismo metafísico. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. entrega-se ao sacrifício. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Por fim. com sótão e porão. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. A partir dai. ouvia mais que um tísico. dezenove séculos antes. Nesse estado d’alma. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. manifestou o seu espanto.conspurcada de gozo malsão. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. natural de minha terra. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. que tinha os ouvidos totalmente tapados. cuido não estar proferindo uma heresia. diante das maravilhas do aparelho encefálico.No princípio era o Verbo. o que vale dizer. Por alma. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. em esconderijos apropriados. no entanto. que a ele não interessava considerar. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. No tocante à transformação da matéria. dentro do mundo fenomenal. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. numa espécie de solidariedade subjetiva. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. A mesma coisa. o vidente de Patmos: .

uma natureza gasta. Querendo fugir a essas coisas. Profundissimamente hipocondríaco. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. cadáveres e bocas necrófagas. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. a matéria putrefata. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Já o verme . Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. solta blasfêmias. Monstro de escuridão e rutilância. procura penetrar o mistério da substância universal. rasgar do mundo o velário espêsso. Custa crer que este soneto . Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras.Fazer a luz do cérebro que pensa. dominado por um ceticismo acabrunhador. procura 12 .. vermes. filho do carbono e do amoníaco. Por toda parte. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. na melhor das suposições.Psicologia de um Vencido . o éter cósmico. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. onde não há lugar para a alegria. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. só serviu para adensar o clima de alucinação. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. sem problemas materiais: Eu.este operário das ruínas.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. que é o Deus materialista de Haeckel. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Este ambiente me causa repugnância. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Em tudo. E há-de deixar-me apenas os cabelos. impreca. A influência má dos signos do zodíaco. causa-lhe repugnância. o lado malsão da vida. Exausto da luta. onde imperam sombras. servindo de pasto a uma civilização corrompida. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. admite o éter. O próprio amor. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Sofro. No auge da inquietação. desde a epigênese da infância. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Nem por isso admite Deus. fonte inesgotável de vida. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se.. Ao invés de fecundação do espírito. O mundo em que vive é um vasto hospital.

refúgio na inexistência espiritual. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne.. a terrível moléstia que se atribui. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. Onde quer que se refugie. o Eu e Outras Poesias. Tudo isso. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. acompanham-no. coberto de desgraças. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Grita a sua dor por toda parte e. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. uma desgraça na vida do poeta. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. tenta ir ao fundo da crença monística. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Com efeito. já cansado de escutar a natureza. nem Haeckel compreenderam. E é nesta manumissão schopenhauriana. E via em mim. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. deve ter acontecido na sua juventude. Nenhum pintor. gasta imensas energias e enche de culminâncias. paralelamente. que ele denomina um sonho ladrão. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Até agora 13 .. O subconsciente o aturde. A julgar pelos seus gemidos. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. sente o desejo. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. Antes de mais nada. monstros terríveis. Mas o diabo não larga a sua presa. no todo ou em parte. não há homem que sofra mais. E para não capitular a esse apelo. com efeito. evadido de si mesmo. diz ele. Espera aí encontrar o seu nirvana. a perda da crença e. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. podia fazer dele um triste. que os anos não carcomem. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Depois disso. em suas visões oníricas. como se supunha. O resultado de bilhões de raças Que. Há. Por um instante. com o poder de sua imaginação. numa atitude mental de fuga à realidade. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. Algo de mais grave.

depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Lembro-me bem. sempre se revela. Por mais que Augusto negue o amor. . no capítulo do amor. Por suas próprias palavras. em . cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. no tocante a esse drama. desespero virtual e não real. inútil seria qualquer esforço. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Exatamente aí. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Ele próprio. Trata-se. pois. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. dada a ausência de biografia.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Iríamos a um país de eternas pazes. Gozei numa hora séculos de afagos. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça.. que é o drama mais doloroso de sua consciência. de uma paixão.. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar.. não pode ocultar que foi vítima dele. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Por enquanto. Por mais que procure fugir ao assunto.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

E invejo o sofrimento desta Santa... eu também vou passando Sonâmbulo.Queixas Noturnas . mas no poema . Noite. como é sabido. Sonâmbulo.. em mágoa. como em ..extravasava desta forma o seu lamento: 19 . ao mesmo tempo que.santa.. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. confessa mais uma vez a sua culpa. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. nunca foi chegado a santos. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.Insônia . O poeta. Como um bemol ou como um sustenido. Sonâmbulo.. contrito. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Depois de embebedado deste vinho. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. que não é das mais invocadas. surpreende com a invocação de Santa Francisca.

Da mãe. Rezo. que parece se deixou levar por pressão da família. Minha alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. A morte é o fim de tudo. Madrugada de treze de janeiro.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Ao vê-lo morto. ama-o até mesmo na atômica desordem. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. mas para os que crêem há ainda uma esperança. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. sem resolver a verdade interior. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. quando a morte o olhar lhe vidra. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. dormir primeiro. pouco fala. Mãe. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Como Elias. expressa a sua mágoa numa comovente unção. entre as estrelas flóreas. não para ele. apenas três vezes. luta por fugir dela. sonhando.. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida.As Cismas do Destino . assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. que não admite a vida espiritual.brada: 20 . De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Nem uma névoa no estrelado véu. num carro azul de glórias. Mas pareceu-me. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. o ofício da agonia. entre estes monstros. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. entretanto.. Ao pai. como perseguido pela sinistra ceifeira. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Em . Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu.

Não me parece tenha razão 21 . desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. devia ter na época. Nada o consolava nesse estado de espírito. Procura assim desoprimir o coração. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. que Augusto era um cerebral. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. Acha Flósculo da Nóbrega. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. como em toda a obra. escravo do raciocínio frio. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Nestas condições. Por tua causa apodreci nas cruzes. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. quando recebeu os 22 açoites da natureza. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. habitado por monstros humanos. E ainda. cheio de imperfeições. Forma difusa da matéria imbele. 22 anos de idade. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Minha filosofia te repele.. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente.. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. ardendo em indagações subjectivas... Já que não crê em Deus. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Vivia um mundo à parte. não cria em Deus. levava-o a recolher-se em si mesmo. ponto final da última cena. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. embora ansiasse por encontrá-lo. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente.Morte. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Aqui.

Há. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Depois que o poeta deixou a Paraíba. tinha-se na conta de um doente. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. em 1912. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. que só repugnância lhe causava. mas porque se sente um desajustado. Na luta em que Augusto se debate. conforme declarou nesta honesta confissão. Punha-se então a passear. entrava em crise espiritual. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. mas no particular. No fundo. sua musa empalideceu à falta de ambiente. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. Era. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. nunca recebeu hostilidades. noite a dentro. Fosse como ele diz. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Não que tenha recebido ofensas dela. A inspiração despertava com a dor. contudo. Desta.o ilustre intelectual paraibano. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. passos largos. um homem excluído do mundo. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. ao redor da capela do engenho. Não importa que tenha morrido de pneumonia. no caso. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. De um modo geral. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. torturado no sentimento do desamparo. que o 22 . Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Nem ele próprio se conhecia. além de pouco. Os seus melhores versos. de vez que ninguém o compreendia. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. volta-se vez por outra contra a sociedade. andar bamboleante. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. ao contrário. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Ao contemplar esse ambiente. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. O que produziu no sul do País. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. o cérebro em fogo. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. foram produzidos no Pau D’Arco. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. como um sonâmbulo. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. os de maior densidade emocional. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. e a mim pergunto. que o acolhia com carinho.

em serenata. hosanas ao Senhor. Perdido o amor. confessa-se minado pela tuberculose. como ele chamava. Essa real ou imaginária doença. atormenta-se com a idéia de que. Era ali. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Já cansado do ceticismo. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. na terra onde pisava. Na ascensão barométrica da calma. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. à guisa de ácido resíduo. como um arrependido. como se já tivesse perdido o alento de viver. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. passa a chorar a sua dor e a alheia. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. fez dele um misantropo. aliada à descrença. Em As Cismas do Destino. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. sob os seus pés. 23 . pois. Parece que desperta para a vida. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. num desalento ainda maior. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. em Os Doentes. ansiado e contrafeito. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. De início. Lá para o fim do poema.próprio poeta confessava. Eu bem sabia. o soneto Vandalismo. numa emoção que comove. Depois disso. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. que admirar chore um dia a crença perdida. onde os anjos cantavam. Não há. Mais adiante. imaginária cidade à margem do Paraíba. “na urbe natal do Desconsolo”. perdeu também a crença. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. os acordes saudosos do coração. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. eis que escuta. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. entra a descrever a cidade dos lázaros. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. apenas como autor de um livro apologético. Canta a aleluia virginal das crenças. chegou a dizer que Augusto não era poeta. era apenas o meio de formular soluções. A arte. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Dos outros. pois. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Nesse decurso. Sabe-se como compunha. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. João Lélis. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. ler. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . para ele. tenham bordejado na superfície do abismo em. No final de contas. que não é biografia e não chega a ser estudo. Ao contrário da incontinente afirmativa. Flóscolo da Nóbrega. No desespero dos iconoclastas. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Onde um nume de amor. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. muitas opiniões foram veiculadas. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Álvaro de Carvalho. gostar e não gostar é coisa que se não discute.. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. José Américo de Almeida. Não é. há sempre o que referir.. Enfim. por exemplo. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Templos de priscas e longínquas datas. Sua obra. na Academia Paraibana de Letras.Meu coração tem catedrais imensas. Raul Machado. este último. Assim é que. posto que. em gemidos de dor. em serenatas. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. já na 27ª edição. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Santos Neto. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. João Lélis e De Castro e Silva. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. quase todos. que se afundava a alma do poeta. destaco Órris Soares.

Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. túmulos. olhar perdido no espaço. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. lá fora. vermes. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Neles. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. enquanto forjava mentalmente a composição. Foi então que recitou de inopino. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. sobretudo da crítica provinciana. reside justamente no termo técnico. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. disse que uma das suas forças. entre nós. escarros. em 1945. Poe e Rimbaud. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. essa linguagem. com efeito. Só depois de elaborada é que ia para o papel. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. Os versos espoucavam no momento da inspiração. claro que avulta ainda mais o seu mérito. No entanto. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. na época. também 25 . essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. a passear a esmo. Essa crítica. Por tudo isso. de um a outro canto da sala. Órris Soares. associado à vibração sonora. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. o sentimento parece ter outra dimensão. o outro 25 anos depois. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. Muitas vezes. entrava disciplinada em seus versos. Em ter ficado sozinho. à primeira vista incompatível com a poesia. certa preocupação inclusive dos simbolistas. sangue de vísceras dilaceradas. num timbre especial de voz. que pretende ser de interpretação psicológica. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. como em compasso de música. impressionam pelo poder da dialética. a sua personalidade psicológica. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. o que era. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Em ambos. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. um em 1920. duendes. figuras espectrais e outras visões sinistras. a densidade. Euclides da Cunha. este na prosa. o que acabava de compor. Seus versos. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual.devoradoras. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. Cavalcanti Proença. insulado em sua própria grandeza. como lamenta o crítico. lábios crispados. que não tenha fecundado a poesia nacional.

num dos seus últimos sonetos. a fim de atingir. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Não pode o critico ser ortodoxo. mesmo doentia.ficaram sem seguidores. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. nem tudo pode ter cabimento. reconheça-se que essa poesia é humana. na interpretação de um drama emocional. está em tempo de ser feita. aparelhou. pela tristeza indefinível da alma. no duelo da carne. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Mas é preciso notar que essa musa. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Ou então. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. de sentido mais profundo. que apenas transparece em linguagem evasiva. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Eis porque. com efeito. Há. como se vê. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. neste ensaio de exegese literária. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Nem por isso. por isso mesmo poética. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. O anojamento de Álvaro de Carvalho. é mais uma aversão de olfato alérgico. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Com Baudelaire. Com Verlaine. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Com Mallarmé. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. 26 . Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. elogios ou restrições. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação.

Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Com Antero do Quental. isso mesmo de passagem. Também no amor os dois se assemelham. Súbito. Honesto em tudo.através da sensação. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. os mesmos descuidos de metro e rima. havia acentuada tendência do poeta. a filosofia da dor. em tropos ousados. como neste exemplo: 27 . em termos de comparação. “Na Eternidade. Vez por outra.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. num artigo publicado em 1914. Só com Rimbaud. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. de uma honestidade quase bravia. Segundo Delahaye. foi José Américo de Almeida.. visionário. um grande medo toma conta do poeta. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Augusto lembra Rimbaud. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. temida pelo outro. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. pelo sentido da dor universal. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. de mistura com alucinações. De lá de fora. na terra santa. na postura de um campônio rústico. Ouvindo isso. crematismos. encontra-se em Roma. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. Com Leopardi. vem o barulho das matracas. desde a sua fase inicial. no ar de minha terra. Até nas aliterações e metáforas. guardando o corpo do Divino Mestre. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. sensações simples e cenestesias. citado por Augusto Meyer.. Encontra-se. para a neologia e o vocábulo raro. as mesmas figuras de linguagem. um mês após a morte de Augusto. a idéia pura das coisas. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. só nesse ponto dissimula o pensamento. por sua natureza. numa sexta-feira santa. em grupos prosternados. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. que dialoga com os elementos imponderáveis. desejada por um. A mesma coisa ocorre com Augusto. palavras raras e eruditas. O único que mencionou Rimbaud. em quem se acumulam. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. É. assentado sobre cacos de pote e urtigas. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Não fica apenas aí o confronto.

Ninguém sofre mais do que ele. Rimbaud. largou-se para a África.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. é improfícuo. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. uma diferença de fundo entre os dois poetas. como Tântalo. vítima de injustiças humanas. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. que era o seu anseio máximo. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. onde se casou com uma nativa da Abissínia. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. contudo. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. por causas várias. chupo-a. exacerbava-a. Descasco-a. poeta. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. à beira da água. a julgar pelos seus lamentos. . A toda boca que o não prova engana.. Augusto sentia-se puro. Em cada um deles. um suave concerto espiritual na natureza. é como a cana azeda.”. segundo é fama.. homens de bem cheios de nobres intenções. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras.. Há. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Não sou capaz de amar mulher alguma. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. o bem e o mal caminhando juntos. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. mas que o levaram ao resultado conhecido. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. em suma. No tempo de jovem. embora tenham se casado e tido filhos. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. ilusão treda! O amor. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. provo-a. E como não 28 . é verdade. é inútil. Motivos escabrosos. na Bélgica. sente-se que há um complexo de culpa. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. em busca do paraíso terrestre. andou conspurcado de sensações súcubas. filha legítima de sua alma. Depois desse fato. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas.

isto é. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Um problema sempre gera outro. entre a voz do sentimento e a da razão. revolta-se contra o mundo. dessa conversão ao materialismo. a criação. Não raras vezes.Une Saison en Enfer . Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. luz. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Mesmo assim. Mallarmé também passou pelas mesmas crises.. Há muitas espécies de conversões em literatura. chegaríamos por certo ao pai Homero que. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. tudo quanto desperta a alma. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. o amor. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Augusto vai irredento até o fim. Por curioso paradoxo. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. onde não faltavam o ranger de dentes. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. sem preencher esse vácuo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. cor. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. perfume. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. mas nem isso acredito tenha havido. som. imitação. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. tudo quanto eleva os sentidos. contra a sua grei. isto é. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. do qual se considerava prisioneiro.espécie de autobiografia moral. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. depois que perdeu a ilusão dos homens. Foi a partir daí. como fontes de inspiração. deixava-se ficar no interior da concha. Tais similitudes valeriam. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. segundo apregoam os fundibulários da crítica. 29 . Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. contra a sociedade. porém. silvos de labaredas e suspiros de empestados. numa reação inócua. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. quando muito. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Neste passo.pode reformar o mundo. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . perdia-se no estado de dúvida. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Possuído do demônio da dúvida. beleza. martelada em versos magníficos e candentes. A vida. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. os mistérios da natureza.

a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. porquanto Deus é princípio e é fim. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. supria-se do mais no magistério particular. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. em torrentes de eloqüência. se não há Deus. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Ora. É o que há. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. uns afirmando. nas Alterosas. é questão que não deve ser formulada. na realidade. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. viram nisso o pecado da blasfêmia. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. um pedido de socorro. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro.Enredado em idéias preconcebidas. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. tal como Rimbaud. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Se o Cristo não vem em seu auxílio. proclamou que Deus não existe. mas os que o seguem desconhecem. Os oradores. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. como ninguém ainda se entendesse. Na prática. Convém. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. afetando melindres de devotos. Apurada a eleição e com base no resultado. No meio em que viveu era querido e admirado. no desespero de tantos sofrimentos. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. Alguns críticos. a essência dos Evangelhos. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Vale mencionar. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. Ao cabo do bombardeio oratório. outros negando. Isso mostra que ele. aceitar as imperfeições do mundo. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. via de regra. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. 30 . descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. com raríssimas exceções. se sucediam na tribuna. que se veja na blasfêmia. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. é. Se há Deus. a propósito. em meio a tantas emoções extravasadas. resolveu o presidente submeter a questão a votos. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. a meu ver. se manifesta ainda escravo do batismo. Todos nós. quando não proferida por modo vulgar e chulo. todavia. heresia maior que a do poeta quando.

explodiu em As Cismas do Destino. desde Tales de Mileto. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Como uma vela fúnebre de cera. 31 . vem de muito longe. como se vê. De outras vezes. coisa que não cabe na boca de um ateu. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Abraçada com a própria Eternidade. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Por outro lado. virtudes que cultivava com extremado zelo.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . por mãos de seu filho Pirro.atormentado por visões escatológicas. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. E como era sincero e honesto. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. dá à alma a denominação de sombra. como uma caixa derradeira. De inflexões mentais sua obra anda cheia. Voltando à pátria da homogeneidade. os filósofos iônios. sob estes galhos. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. começa o poema “Sou uma Sombra. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. através dos séculos. A denominação. No tempo de meu Pai. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. não se pode dizer fosse ele um materialista ético.Debaixo do Tamarindo. o sacrifício da linda moça Polixena. entendiam a alma. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo.

larva do caos telúrico. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. desde o declínio das crenças mitológicas. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. acrescenta. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. até que morre numa cidade das Alterosas. virtualidade espiritual. em briga com o dualismo. aos 30 anos de idade. perdendo-se novamente no enleio cósmico.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. Choram ainda dentro dele. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. É a substância primeva. nas composições que vão até o fim do livro. tal como se apresenta. assaltado de alucinações. sua intimidade numenal. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. em Leopoldina. a 12 de novembro de 1914. Que outros. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Até Deus. na Federação das Academias de Letras do Brasil. mas dentro da alma aflita Via Deus . conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. mas com o que ai está me contento. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. vacilante na ciência fria. era uma mônada. Daí por diante. para ele. como entidade eterna. em soluços quase humanos. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. até mesmo num grão de areia. isto é. 32 . da substância de todas as substâncias. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. as formas microscópicas do mundo. Mais poderia dizer agora. !" Este trabalho. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. que procede do éter cósmico.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Assim vai. tal como a entendiam os filósofos iônios. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência.

Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Córdula C. 33 . dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. entretanto. da chamada vida física. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. R. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. presumo. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Conservo de memória tudo quanto produzo. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. mas a cefalalgia persegue-me constantemente.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. de abusar um pouco do café. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Rio de Janeiro. Engenho Pau d'Arco. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. dos Anjos e D. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Eu. o que não impede. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Sofre de insônia. Tenho insônia raras vezes. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia.

A influência má dos signos do zodíaco. Fecho o ferrolho E olho o teto. Minh’alma se concentra. Ergo-me a tremer. Produndissimamente hipocondríaco.. Monstro de escuridão e rutilância. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau.. desde a epigênese da infância. igual a um olho. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Meu Deus! E este morcego! E.. E vejo-o ainda. Já o verme -. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Chego A tocá-lo.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Esforços faço. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. agora.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. E há de deixar-me apenas os cabelos. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Sofro. Ao meu quarto me recolho. Este ambiente me causa repugnância. e à vida em geral declara guerra.” -.Digo. filho do carbono e do amoníaco. “Vou mandar levantar outra parede.

tênue.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. quando sonha. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Deixa circunferências de peçonha. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. e depois. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. Chega em seguida às cordas da laringe. Delibera. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Mas. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .. raquítica. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.. À noite. Tísica. de repente. mínima. Que. e quase morta. Quebra a força centrípeta que a amarra. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos.. Anoitece. em desintegrações maravilhosas.. Riem as meretrizes no Cassino.

Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Em que lugar irás passar a infância. Agregado infeliz de sangue e cal. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. feto esquecido. Realizavam-se os partos mais obscuros. Que poder embriológico fatal Destruiu. em letras garrafais. E.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . a feder?! Ah! Possas tu dormir. Tragicamente anônimo. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão... Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Fruto rubro de carne agonizante. com a sinergia de um gigante.

ampara-a. Filho da teleológica matéria. Janta hidrópicos. E vive em contubérnio com a bactéria. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Cão! -. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência... Almoça a podridão das drupas agras. arrima-a. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Suficientíssima é. em que tu dormes. Verme -. Ah! Para ele é que a carne podre fica. E irás assim. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . afaga-a. pelos séculos adiante. Na superabundância ou na miséria.. Livre das roupas do antropomorfismo.é o seu nome obscuro de batismo.. para provar A incógnita alma. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão.

e. Voltando à pátria da homogeneidade. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .corte Minha singularíssima pessoa. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Guarda. portanto. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.. sob estes galhos... como uma caixa derradeira. Dr. de amplos agasalhos. Como uma vela fúnebre de cera. esta tesoura. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. esta árvore.

com uma ânsia sibarita. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. por toda a pro-dinâmica infinita. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. mas dentro da alma aflita Via Deus -. com o esqueleto ao lado..essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Como um pagão no altar de Proserpina. -. um dia. como quem tudo repele. Por trás dos ermos túmulos.. Alheio ao velho cálculo dos dias. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Na guturalidade do meu brado.

nesta rede. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 .. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. como um gado vivo.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. moços do mundo. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Onde os bandalhos. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Nos estados prodrômicos da vida. mísera e mofina. talvez. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Em que é mister que o gênero humano entre.. Dentro do ângulo diedro da parede. Ah! De ti foi que. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. autônoma e sem normas. Oh! Mãe original das outras formas. Como quase impalpável gelatina. Todas as noites.

como o filósofo mais crente.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. É.. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous .IDEALISMO Falas de amor. É a morte. para o amor sagrado.. é o pneuma . Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . é o ego sum qui sum . Creio. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. Amo o coveiro -. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. perante a evolução imensa. O mundo fique imaterializado -.

À meia-noite. Era tarde! Fazia muito frio. se hoje volto assim. com a alma às escuras. improficuamente. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Cinzas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente... talvez as Musas. nele. Comi meus olhos crus no cemitério. e. como os sonhos dos selvagens.. caixas cranianas.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. cartilagens Oriundas. inclusas. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Vaguei um século. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. subi talvez às máximas alturas. Mas.. Pelas monotonias siderais.

tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Pelo muito que em vida nos amamos. tuas sementes! E assim. trilhos. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Tu. pois. porém. para o Futuro. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. glebas.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. com o envelhecimento da nervura. Eu. reunidos.fontes de perdão -. selvas. no Dia de Juízo. em diferentes Florestas.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. inda teremos filhos! 43 . Na multiplicidade dos teus ramos. Tamarindo de minha desventura. Depois da morte. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Se fosses Deus. vales.

asa De mau agouro que. É-me grato adstringir-me. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Ter o destino de uma larva fria. Como a cinza que vive junto à brasa.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -... Na orgia heliogabálica do mundo. Como os Goncourts. à categoria Das organizações liliputianas. Perseguido por todos os reveses.. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. nos doze meses. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. É meu destino viver junto a esa asa. Apraz-me. Ganem todos os vícios de uma vez. na hierarquia Das formas vivas.

“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. violento. o Hércules.. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . É como o paralítico que. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. mamífero inferior. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. Ouvindo a Escada e o Mar. puxa e repuxa a língua. aos soluços. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. rasga o papel. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor.. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. “Homem. conquanto ainda hoje em dia. “À luz da epicurista ataraxia. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. em desalento. a mim. com os dedos brutos Para falar. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. o Homem.

hipócrita. minha Mãe. Eu furtei mais. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Tu só furtaste a moeda. Que ela absolutamente não furtava. ralhava. após tudo perdido. afetava Susceptibilidade de menina: “-. como cruéis e hórridas hastas. minha ama. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . o ouro que brilha.Não. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Furtaste a moeda só. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. entretanto... Ele hoje vê que. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. em minha cama. agora.. mas eu. então. Vejo. Sinhá-Mocinha. Que a mim somente cabe o furto feito. Em sucessivas atuações nefastas..DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram.

a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. Hás de engolir.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos... porém. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. após a árdua e atra refrega. E tu mesmo. É noite. Assim Tântalo. aos reais convivas. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . à noite. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.o brilho Destes meus olhos apagou!.. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.. Hoje. do que este que palmilho E que me assombra. num festim....a mãe comum -. e. igual a um porco..

meu Pai?! Que mão sombria. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Tu. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. e o ângulo reto. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. gemendo. Deus. Às alegrias juntam-se as tristezas. para amenizar as dores tuas.. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Pai. O que o homem ama e o que o homem abomina. trilhando as mesmas ruas. pois. é justo. O Amor e a Paz.. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. e sendo justo. o Ódio e a Carnificina. Eu.. para onde fores. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes..CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Irei também.

num carro azul de glórias. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . o ofício da agonia.. cuidei que ele dormia. Como Elias. Mas pareceu-me. Nem uma névoa no estrelado véu.. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. sonhando. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Rezo. E a marcha das moléculas regulam. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. entre as estrelas flóreas..SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Mãe. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.

e ajoelhou-se. Livre deste cadeado de peçonha. possui minh’alma!.Disse -.. meu pai.. meu filho.. sôfrega e ansiosa. meu filho. olhando a pátria serra. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. -. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .. no junquilho. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.As árvores. Caiu aos golpes do machado bronco. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. pois. enfim.. numa rogativa: “Não mate a árvore.. Esta árvore. Para que eu tenha uma velhice calma! -. Apraz-me. É preciso cortá-la.. pai.Meu pai.. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. para que eu viva!” E quando a árvore.

Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha.. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. preto e amarelo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Pões-te a assobiar. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Continua a comer teu milho alpiste. não tens mais! E pois. mergulhou a cabeça no Infinito. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . bruto. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. de à antiga rota Voar. desde o mais prístino mito.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Olha a atmosfera livre. Tu nunca mais verás a liberdade!. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota... Foi este mundo que me fez tão triste. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. o amplo éter belo.

. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Ante o telúrico recorte. em serenatas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Templos de priscas e longínquas datas. cismava Em meu destino!. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu... Onde um nume de amor. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. na diuturna discórdia. Noite alta. ególatra céptico.. Canta a aleluia virginal das crenças. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava.

Toma um fósforo. e doma Meu coração -. amigo. e. é a véspera do escarro. por fim. Veio depois um domador de hienas E outro mais. entre feras.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. E não pôde domá-lo enfim ninguém. toma A adaga de aço. nesta terra miserável. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . E à rutilância das espadas. guerreiro. uns cem. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Meu coração triunfava nas arenas. Apedreja essa mão vil que te afaga. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Acende teu cigarro! o beijo. Vieram todos. que. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Mora. E qual mais pronto.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. ao todo. veio um atleta. sente invevitável Necessidade de também ser fera. o gládio de aço..VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão -. por fim..

. Sabe que sofre. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. A sucessividade dos segundos. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. a escutar. Da transcendência que se não realiza. Quer resistir.. Ouço. podendo mover milhões de mundos. nada há que traga Consolo à Mágoa. Que... do Orbe oriundos. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. E é em suma.. Da luz que não chegou a ser lampejo. pancada por pancada. em sons subterrâneos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. pois.. chorando. a que só ele assiste. No rudimentarismo do Desejo! 54 .

a animar o cosmos ermo. Oh! Nauta aflito do Subliminal. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. me desencarcero. Foi que eu. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Morto o comércio físico nefando. que os anos não carcomem. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. pensando. eu. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . sincero Encontrei. De que. afinal. Cesse a luz. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. feito força. Parem as vidas. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Como a última expressão da Dor sem termo. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. num grito de emoção. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim.

A dardejar relampejantes brilhos.. o olfato e o gosto! Carne. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. numa alta aclamação. sem retumbância. o ouvido. Dói-me ver. "Com essa intuição monística dos gênios. a vista. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Diafragmas. pois. muito embora a alma te acenda. arpões. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. há inúmeros milênios. E o Homem — negro e heteróclito composto. feixe de mônadas bastardas. Em tua podridão a herança horrenda.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Era. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. ao sol posto. a irmanar diamantes e hulhas. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. e... sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. decompondo-se.. Onde a alva flama psíquica trabalha. sem gritos.

Que produz muita vez. Este pântano é o túmulo absoluto. opondo-se à Inércia. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. para mim que a Natureza escuto. a porta. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. no Mundo. sem dor. na noite escura. às escâncaras.. E o nada do meu homem interior! 57 . é a essência pura. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. É a síntese. à espera de quem passa Para abrir-lhe.O PÂNTANO Podem vê-lo. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. A convulsão meteórica do vento. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. meus semelhantes! Mas. Tragicamente. e. é o transunto..

Volvas à antiga inexistência calma!.. deprimindo-o . geléia crua. em conjugação com a terra nua. não progridas E em retrogradações indefinidas.. Vence o granito. Reconcentrando-se em si mesma. é natural. geléia humana. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. porventura. no teu silêncio. que ainda haveres De atingir. Antes o Nada. causa do Mundo.. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. entanto. tanto Que. O espanto Convulsiona os espíritos.A UM GÉRMEN Começaste a existir. e. E hás de crescer. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela.. como o gérmen de outros seres. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . ainda algum dia. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. em realidade. um dia. oh! gérmen. Teu desenvolvimento continua! Antes.

na ordem cósmica.. é transporte. é o instinto horrendo De subir. É a Natureza que.. traçando arcos de ogivas.. descendo A irracionalidade primitiva.. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva... é inquietude. os elementos broncos. Bracejamentos de álamos selvagens.As ambições que se fizeram troncos. no seu arcano. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.. nele. Vivem só. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. . que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. Como um convite para estranhas viagens.Todas as hermenêuticas sondagens. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. E a coorte Das raças todas. é ânsia. . São absolutamente negativas! Araucárias... Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . trancada num disfarce.

Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. acérrima e latente. saúde dos seres que se fanam. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. ancoradouro Dos desgraçados. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Dói-lhe. assim. oh! Dor. sol do cérebro. Riqueza da alma. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. em suma..... psíquico tesouro. E. sem convulsão que me alvorece. Que o sarcófago. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. inteira. À humana comoção impondo-a. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor...

Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Dai-me asas. pois. Dai-me alma.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Minha continuidade emocional! 61 . para o último remígio. em épocas futuras.... Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . pois.. que. Benditos vós. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o .. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. ) Com o vosso catalítico prestígio. Ions emanados do meu próprio ideal. Haveis de ser no mundo subjetivo. Expressões do universo radioativo. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.

cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. então. Subitamente a cerebral coréa Pára.. os pés e os braços Tombara. Arranco do meu crânio as nebulosas. Eu sinto. A carne é fogo. O cosmos sintético da Idéa Surge. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. as mãos. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .. A espaços As cabeças. A alma arde. Emoções extraordinárias sinto... sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.

Sangram-te os olhos. os dois Representam. Realidade geográfica infeliz. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno.. Porque. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . enquanto as almas se confrangem. entretanto. Rugindo.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. o alfa e o omega Amarguram-te.. e. na superfície do planeta. Receando outras mandíbulas a esbangem. Montão de estercorária argila preta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. carne sem luz. na ânsia voraz que. ávida. criatura cega. aumenta. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Superexcitadíssimos. Os dentes antropófagos que rangem. tragando a ambiência vasta. Excrescência de terra singular. Teu coração se desagrega. Hebdômadas hostis Passam. Deixa a tua alegria aos seres brutos. No desembestamento que os arrasta.

num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. a Ciência. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. a Glória. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. O Amor. sou maior que Dante. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas.. aparelhou. o Inferno.. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. E trago em mim.. mordem-se.. Sob pena. soluçando. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. homens felizes. Da dor humana. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Que força alguma inibitória acalma. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou.

Uiva. Existo Como o cancro. em voz muito alta.. a alardear bárbaros sons abstrusos. cresto o sonho.. È a saudade dos erros satisfeitos. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. O epitalâmio da Suprema Falta. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância.O CANTO DOS PRESOS Troa. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere.. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. ontem. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. à luz de fantástica ribalta. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Que. (Hoje.. Teço a infâmia. não cabendo mais dentro dos peitos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . urdo o crime. Entoado asperamente. a exigir que os sãos enfermem. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos.

invado. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. minha alma.. como um corvo. Ceva-se em minha carne. apreendo. enfim. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Feita dos mais variáveis elementos. à noite.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Transponho ousadamente o átomo rude E. transmudado em rutilância fria. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. Nos paroxismos da hiperestesia. o Infinito se levanta À luz do luar.. ausculto. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. por fim. O Infinitésimo e o Indeterminado. dona.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. o Céu e o Inferno absorvo. agarro.

como um astro. num monturo. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. projetado muito além da História. Como a luz que arde. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair.. Átropos. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. E acima deles.. aos trismos Da epilepsia horrenda. Laquesis. Sentia dos fenômenos o fim. Siva. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.. arder. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Tifon. virgem. como a luz do amanhecer.. Eu.

entanto. Roem-na amarguras Talvez humanas... Branda. Folhas e frutos. a afagar tantas feridas.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. alarga-se em meu hausto.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.) Quem sou eu. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. E.Trilhões de células vencidas. esse mundo incoerente. Nutrindo uma efeméride inferior. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. nas minhas formas carcomidas... remoinha. Grita em meu grito. rábido. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 .. Hão de encontrar as gerações futuras Só. a soluçar de dor?! -. neste ergástulo das vidas Danadamente. tenta transpor o Ideal... às apalpadelas e às escuras. nem mesmo ao ronco Do furacão que.

em que me inundo. -.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Apreendo. em cisma abismadora absorto. -. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Sou eu que. ateando da alma o ocíduo lume.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. Penetro a essência plásmica infinita. feto vivo e aborto. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. aliando Buda ao sibarita.. sânie e perfume. hirto. desconforto E ataraxia.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Massa palpável e éter. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.

infinita como os próprios números. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. somente em. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. rádios e úmeros.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado... na abismal sustância informe. quatro. cérebros. -. por hipótese.Tal é. Porque. Reduzir carnes podres a algarismos. dois. sem complicados silogismos. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. em fúlgidos letreiros. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. cinco... Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. três. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. crânios. A aritmética hedionda dos coveiros! Um.

A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. oh! delumbrada alma. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. Estacionadas. a alma. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. amam jazer. na natureza espiritual. alma. Quem sabe. me semente. íngremes. afinal. porventura. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. e dize-me. assim. recalcados. Por um abortamento de mecânica. De onde rebenta. em contrações de dor. perscruta O puerpério geológico interior. Qual é.

se as Tem. Pára e. Espião da cataclísmica surpresa. derrubadas. E eu só. da Massa. derrota Na atual força. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. subjugue-as ou difarce-as. Zarpa. pelo orbe adiante. A íngreme cordoalha úmida fica.. alçando o hirto esporão guerreiro.. que o Éter indica. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação.. sonha! Mágoas. babando. em noite aziaga e ignota. e.. o último a ser. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . É a subversão universal que ameaça A Natureza.. a amarra agarrada à âncora.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. integérrima. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões.. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Federações sidéricas quebradas.

Em convulsivas contorções sensuais. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. o dolo sáxeo. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros.. Dentro dos ossos. e. E quando. ao cabo do último milênio. que ela encheu. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. em que arde o Ser. ainda depois da morte. num triunfo surpreendente. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Sôfrego. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. cave. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. adstrito à ciência grave. Para a perpetuação da Espécie forte. Os nossos esqueletos descarnados.. Tragicamente. vazio! 73 . Haurindo o gás sulfídrico das covas. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Arrancar.

com um berro bárbaro de gozo.. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . eis que viu.. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter.. há instantes... A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Viu vísceras vermelhas pelo chão. Somente. vendo sangue. A água transubstancia-se. iguais a espiões que acordam cedo.. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. fora.. E. Na mão dos açougueiros. Era tão moço. antes do almoço. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. Ia talvez morrer.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. mancha a gleba. Olhou-se no espelho. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Extraordinariamente atordoadora. Horrível! O osso Frontal em fogo. Disse. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. E amou. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.

. No mar de humana proliferação. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. Rasgo dos mundos o velário espesso. E em tudo igual a Goethe.. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. ante obras tais.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. me não consolo.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. reconheço O império da substância universal ! 75 ... E.. Leio o obsoleto Rig-Veda. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.

Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Parecia dIzer-me: "É tarde. ao meu lado. 76 . A Idéia estertorava-se. atro e subterrâneo. Era de vê-lo. imensa.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. imóvel. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. estranho ao mundo. resignado. E o coração me rasga atroz. E assim afeito às mágoas e ao tormento. E à dor e ao sofrimento eterno afeito.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Hirta. P’ra iluminar-me a alma descontente. Eu a bendigo da descrença. Para dar vida à dor e ao sofrimento. em meio. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Porque eu hoje só vivo da descrença. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado.. Se acende o círio triste da Saudade. Fora da sucessão. Mas que no entanto me alimenta a vida. Tragicamente de si mesmo oriundo.

CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.a Grande Mãe . Da Igreja .ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. de ilusões tão bela. Ah. gárrulos voando . Fugazes sonhos. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. desgraçado réu. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .o exorcismo Terrível me feriu. seu olhar magoado. entre o medo que o meu Ser aterra. volvi ao ceticismo. Hoje ela habita a erma soledade. eu creio em ti. Não sei se viva p’ra morrer na terra. e então sereno.Todas se foram num festivo bando.Oh! Deus. Onde a dúvida ergueu altar profano. em fundo misticismo: . Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Cansado de lutar no mundo insano. sombras cor-de-rosa . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Fraco que sou.

Morreram todas. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. num mês de tantas flores. Desfeitas todas num guaiar dorido. Ouvi. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . senhora. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. SENHORA Ouvi. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Cansado de chorar pelas estradas. triste pela vida afora. Exausto de pisar mágoas pisadas. Tristes fanaram redolentes rosas.MÁGOAS Quando nasci. langorosas. senhora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. de amor ferido. tristes. todas sem olores. pálidas agora. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. triste e descrido. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras. Sombrio e mudo e glacial. amei. Quando a morte matar meus dissabores. Eterno pegureiro caminhando. Todas murcharam. E que tornou-o assim.

E voltou. mas a fronte aureolada. e o pesar negro e profundo. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Esconde à Natureza o sofrimento. No sepulcro da loura virgem bela. venceu batalhas. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. pendeu triste e desmaiada. 79 . Vivia alegre o vate apaixonado. Louco vivia. um tresloucado. Alma viúva das paixões da vida. Tu que. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Mas a Pátria chamou-o. Altivo lutador. Cantaste e riste. olímpica e singela! E partiu. Era o soldado. na estrada da existência em fora. coração amargurado. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. E fica no teu ermo entristecida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. enamorado dela. Oh! Tu. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Ao chegar. Alma arrancada do prazer do mundo. Se nada te aniquila o desalento Que te invade.

Ambos unidos soluçara um beijo. pálidos. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Há de chegar. Fora no campo pássaros trinavam. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. no eternal soluço. São minhas crenças divinais.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Vinha rompendo a aurora majestosa. silentes. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. ardentes . Era o supremo beijo de noivado! 80 . Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Chegara enfim o dia desejado. Desliza então a lúgubre coorte. funéreos. a brisa respondia.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. E a mesma frase o noivo repetia. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Quando da vida. soturnais. Hoje rolando nos umbrais marmóreos.

81 . Dores que ferem corações de pedra. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. porém. Aí existe a mágoa em sua essência. E espuma e ruge a cólera entranhada. A morte me será vingança eterna. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E onde a vida borbulha e o sangue medra.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Em luta co’a natura sempiterna. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Assim a turba inconsciente passa. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Espumando e rugindo em marulhada. No delírio. Mas se das minhas dores ao calvário.

Jóias. bom Papá. Pois se da Religião fizeste culto. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. estulto.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. num abraço de ternura santa. Enquanto outros que podem. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Irmão querido. Somente assim festejarei teus anos. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. bonecos de formoso busto. dão-te enganos. Tu’alma ri-se descuidosamente. Morrera um dia desvairado. Foste do amor o mártir sacrossanto. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Quantos. Su’alma livre para o Céu se alara. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá.

Moldada pela mão da Natureza. palpitantes. presa. Balbuciou. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Do fado. esta mulher de grã beleza. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. A chama cruel que arrasta os corações. mornos. Bela. amigo verdadeiro. aveludado. Do destino fatal. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. tomando a enxada gravemente. Os seios brancos. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Tornou-se a pecadora vil. divina. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. No entanto. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Dançavam-lhe no colo perfumado.

Que guardam pér’las de funéreas rosas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. . E à noute quando rezam na clausura. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Subindo pelo Azul da Inspiração. E as mesmas monjas sempre tristurosas. No sigilo das rezas misteriosas. não acordeis. Eleonora. os sons esmorecendo.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Assim canta também meu coração. Repercute.Addio. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. E as mesmas portas impassíveis. addio! 84 . Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. mavioso. pouco a pouco. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Trovador torturado e angustioso. desnudas. addio. dolente. úmidas arcadas. Ai! não.

. o triste outono. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. . Chora.O segredo d’um peito torturado E hoje. Da desdita ferida pelo espinho. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Vai morta em vida assim pelo caminho. Primavera gentil dos meus amores! 85 .Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Eu sei a sua história. para guardar a mágoa oculta. a desgraçada estulta. Canta. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Arca sagrada de cerúleos sonhos. Moça. tão moça e já desventurada. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. os teus fulgores.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . soluça .Arca cerúlea de ilusões etéreas. O cabelo revolto em desalinho. gargalha. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. No sudário de mágoa sepultada. Num sepulcro de rosas e de flores.a veste desgrenhada.coração saudoso. Primavera. porém. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende.

Muita gente infeliz assim não pensa. Mas não queiras saber nunca. ergue o teu grito. Também espero o fim do meu tormento. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Também como ela não sucumbe a Crença. risonha.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Foi outrora do riso abençoado. túm’lo do prazer finado. Sonâmbulo da dor angustiado.avança! E eu. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. O berço onde as venturas se embalaram. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. delirante e vário. Sirva-te a crença de fanal bendito. É minha sina perenal. não busques saber por que. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. eu trajo o luto do passado. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Salve-te a glória no futuro . ela não cansa. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. No entanto o mundo é uma ilusão completa. portanto. que vivo atrelado ao desalento. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Senhora. 86 . tristonha .

o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Tenta às vezes. Bela na Dor. Sombra perdida lá do meu Passado. Quando o rosário de seu pranto rola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Mas volta logo um negro desconforto. sublime na Descrença. porém. Chora . Quem me dera morrer então risonho. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. santíssima.

crê em Deus. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. a fronte triste. As níveas pomas do candor da rosa. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Branca. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. nevada. Na altura Imensa.. e. Enquanto o amante pálido. púbere. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana.. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Rendilhando-lhe o colo de sultana. mimosa. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Estende o teu olhar à Natureza. Essa sublime adoração do crente. pois. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Dorme talvez.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. ama. a seu lado Medita.

e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Vai Corina mendiga e esfarrapada. Eu vivo dessas crenças que passaram. Entre todos. E na choça a lamúria que traspassa O coração. A alma saudosa pelo amor vibrada. além. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. porém. Tem pena dessas cinzas que ficaram. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! .A Stella Matutina da Desgraça! 89 . A procissão dos tristes. lânguida e bela. dos proscritos.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. coveiro. . Dos romeiros saudosos da desgraça.TEMPOS IDOS Não enterres. . Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. A romaria eterna dos aflitos.Quero abraçar o meu passado morto. o meu Passado. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa.

Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Voa. Perto. Vencendo o azul que ante si s’erguera. adeus! E. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Auroreando a humana consciência. ADEUS. suspirando. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . adeus. se eleva em busca do infinito. devassando a terra. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Para mim no mundo Tudo acabou-se. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. 90 . Hermeto Lima Adeus. É como um despertar de estranho mito. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos.ADEUS. ADEUS! E. Saí deixando morta a minha amada. Sulcando o espaço. Cheia da luz do cintilar de um astro. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. apenas restam mágoas. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava.eu disse. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo.

E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . triste. E eu disse . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . Envolto da tristeza no delírio.Vai-te. tristonho lírio. irmã pálida da Aurora. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa.LIRIAL Por que choras assim. Disse. com ela Negras sombras também foram chegando.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza.A sombra deste afeto estiolado. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Estrela esmaecida do Martírio. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Mas a noute chegou. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Viu o adeus que do Céu ela enviava. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Minh’alma que de longe a acompanhava. onde não pousa a desventura. . Lá onde nunca chegue esta saudade.

o algoz . Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. a fé perdida. Depois. 92 . e eu gemo o último harpejo. E ela fita-me.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Estendo à Dulce a mão. perdão. Puro de crime. E eu balbucio trêmula balada: . dai-me u’a esmola .. isento de pecado. A esmola dum carinho apetecido. a minha bem amada.o criminoso .então. Vítima augusta de indelével falso. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. o olhar enlanguescido. Pedir a Dulce. E dos lábios de Dulce cai um beijo. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A.. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. E todo o dia eu vou como um perdido De dor.Senhora. E na atitude do Crucificado. A praça estava cheia.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. O olhar azul pregado n’amplidão. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Morre-me a voz. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. por entre a dolorosa estrada.

crença Perdida . Lá.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. Gênio das trevas lúgubres. e. acolhe-me. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. onde d’água raso O olhar não trago. assassino. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. acolhe-me N’asa da Morte redentora..AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre .segue a trilha que te traça O Destino. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Num desespero rábido. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. Há perfumes d’amor . Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Empenhada na sanha dos abutres.. obumbra-me em teu seio. ave negra da Desgraça. E as trevas moram.. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora.

a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Banhando a fria solidão das fragas. e a alma é a Flâmula do sonho. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. sem bruma Que a transparência tolde. num mar de esp’rança. só descanta. sem nenhuma Nuvem sequer. Que o guia e o leva ao porto da bonança. O MAR O mar é triste como um cemitério. Que o céu reflete. Abismados na bruma enegrecida. Quando vos vejo. Os nimbos das procelas desta vida. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Reflete a luz do sol que já não arde. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. dentre a escura Treva do oceano. Mas quando o céu é límpido. Treme na treva a púrpura da tarde. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. a vida é qual risonho Batel.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. então.

lá nos espaços.1902 95 ..o Sol que as almas doura! Fugiu. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Hoje é trevas.. e em si a Luz consoladora Do amor . E eu ergo preces que ninguém responde.. é desengano.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . Cantarias do amor a primavera. meu Futuro. Dia do meu Passado! Irrompe.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. O grande Sol de afeto . quem dera Voar est’alma a ti. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Agora. Ascende à Claridade. agita as tuas asas. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora.. Nem vibra a corda que a saudade esconde. Anseios d’alma aqui se perdem. Aurora morta. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. foge . Triste criança virginal. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. é dor. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. oh! Minha Mágoa. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.1902 AURORA MORTA. FOGE! Aurora morta. o meu único Norte. Adeus oh! Dia escuro.) Nessas paragens desoladas.

despertando sonhos. as águas límpidas alvejam Com cristais.NO CAMPO Tarde. Sonorizando os sonhos já passados. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. emergindo às trevas que a negrejam.. Um arroio canta pela umbrosa Estrada.Cítara suave dos apaixonados. no teu riso de anjos encantados. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. Branca. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. chorando enfloram.. e. Ah! num delíquio de ventura louca. No alto.1902 96 . entretanto. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. à dolente Unção da noute. Bendito o riso assim que se desata . Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. nitente. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Quando. Chora a corrente múrmura. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos.a Louca tenebrosa. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Pendem e caem . E há. ao luar.

É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. P'ra desvendar os seus segredos santos. E a lua é como um pálido sacrário. Pau d'Arco -1902. Também envolta num sudário — a Dor. 97 . E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Flor dos mistérios d'alma. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. sacrossantos. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. é como os prantos Níveos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Eu.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. noctâmbulo da Dor e da Saudade. Se evolarn castos. eterna noctâmbula do Amor. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. toda a cálida Mística essência desse alampadário. se duas eu tivera. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Ah! como a branca e merencórea lua. virginais aromas De essência estranha. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Derramam a urna dum perfume vário. que a virgem chora. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas.

E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. e ilusões acordas. a lua é triste e calma.Quero partir em busca do Passado. sonhar novas idades. Um dia morto da Ilusão às bordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 .INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia.Quero Correr em busca do Futuro.. Quando alta noute. soluças. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. chora um ocaso sepultado. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. pompeia a luz da branca aurora. Teu canto. bandolim do Fado. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Ali. . Tanto que gemes. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Tanto que cantas. Choras. vindo de profundas fráguas. E vais aos poucos soluçando mágoas. Que desespero insano me apavora! Aqui.. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas.

senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . mas eis que neste enleio. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. também ria! 99 . alegre e rubro. Caíste morta ao celestial preceito...Foge. E eu vi os seios teus virem inconhos . Meiga. NA ETÉREA LIMPIDEZ. Na etérea limpidez de um sonho branco. E eu quis beijar-te o lábio redolente. e como Lúcia.ARA MALDITA Como um'ave. O céu tremia em seu trevoso flanco. caindo dos altares. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. à voz de Lúcia. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. Fulgia a bruma para sempre. cindindo os céus risonhos. Tocando n'ara negra o níveo seio. E. grave e lenta. Quiseste-me beijar a ara do peito. agora.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. E beijei-te. tu vinhas a cindir os ares. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. qual hóstia. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. O sol.

ao ver-te nua. urnas de Sonho. Nua. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. Flores mortas da Aurora. em bando.ei-lo que avisto. E. luminosa. Sentes o peito em ânsias revoltadas. Diluis teu peito em sensações profundas.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Mas. E em mim como no Templo. E a rasgar. em banho ideal de amor te inundas. e. o túmulo da Crença. E a lua. Que beija a terra e que abençoa os campos. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Longe das sombras aurorais e amadas.o círio Da Quimera Falaz. o Mundo se concentre. a rasgar o lúrido sacrário. Que. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Agora. ante o branco estendal das madrugadas. e. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. eis que emerges.A colunata êxul do Sonho Morto . a Virgem Mãe dos céus escampos.

a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.. . tudo! Quando Ela passa. formosa entre as formosas.. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.. ela. 101 .. tudo chora. enquanto Vai devastando o coração das casas. semeando a Morte.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.Fúlgido foco de escaldantes brasas . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Plena de graça. entre esplendores. A alma diluída em eterais cismares.É o castigo de Deus que passa mudo! . Quero-te assim . De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e.A PESTE Filha da raiva de Jeová .. Etéreo como as Wilis vaporosas.O sol a segue. e a Peste ri-se.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . como o sol . Embaladas no albor da adolescência. Colmado o seio de virentes flores. formosa..Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. Como o Cristo sagrado dos altares.

E para mim.. Eu venho arrependido. . lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. perdoa o teu vencido.. Chegou a Noite. penseroso e pasmo. eis-me a teus pés.. Como o santo levita dos Martírios..CÍTARA MÍSTICA Cantas.. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.Irei agora.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. Açucena de Deus. insânia. a teus pés. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina... ah! ninguém me responde. pelo mundo.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . meu anjo. pois. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria.. o meu Sonho morreu! Perdão. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. insânia. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. pátria da Aurora exilada do Sonho! . E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. assim. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.

Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.. sem Calvário. Por um Cocito ardente e luxurioso. Mas. Turificando a languidez dum seio! O amor. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. que da Desgraça veio Maldito seja.. porém. e. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. . e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. no Inferno do Gozo. Banhou-me o peito. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. supremos. Da Messalina fria no regaço.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 ... Onde nunca gemeu o humano passo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Em ânsia de repouso.

a sós. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.. Sombra de gelo que me apaga a febre. lá dos braços hercúleos. eu que te almejo.. E vi-te triste. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. . num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. e a saudade da infância. E estavas morta. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. estes dardos acúleos Caíam..Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Ah! que um dia da Vida... Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. Como um'alma de mãe... a noute é tumbal.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.E tu velas. desvalida e nua! E o olhar perdi. também da Dor... mulher. eu vi..Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais..SOMBRA IMORTAL . .

) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.. no negror me abrasa. entanto. ajoelhando à imagem do Carinho. Que luz é esta que das brumas vasa. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Bendita a Santa do Carinho..NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. te acolheu a mata. virginal. e é noute de fatais abrolhos. E um canto vai morrer no vale fundo. o seio branco.. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. e.. Alva d'aurora. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .. e no Santo harpejo. Que canto é este. tu.. profundo?! Rumores santos. Choras. Pérolas e ouro pela serrania. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. chegando. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Chegaste. inata! E. Uma pantera foi se ajoelhando.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa... Somente tristes os teus olhos vejo.. Branca bem como empalecido arminho. Alvorejando em arrebol de prata.

PELO MUNDO Ânsias que pungem. Já Vésper. no Alto. Fria como um crepúsculo da Judéia. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. e lânguida. mórbidos encantos. Triste como um soluço de Dalila. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros... E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa... 106 . Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.

Ele. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.A hora dos tristes e dos descontentes.Fogo sagrado nos festins da Morte . saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.. querida! Já é Ave-Maria . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . QUERIDA! Vamos. clown da Sorte . Na Via-Látea fria do Nirvana. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .. que ao frio alvor da Mágoa Humana.O RISO "Ri. e a todo o seu assédio. sonolento e tardo. coração. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.. os gaturamos Num recesso de névoa. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Silfos morriam.quem mede-o?! .o voltairesco clown .Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. adormecida. No ar.. Riso.Eterno fogo. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. O dia Foge. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . mas meus movimentos Susto. diante do vulto dos conventos. Negro. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. vão bater. batendo em todas as retinas. Desencadeados. Saio de casa.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão... Vibra... A incandescência irial dos candelabros. violentos. LÁ FORA. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Os passos mal seguros Trêmulo movo. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. Os ventos. E em meio ás refrações verdes e hialinas.) Chove. Surge agora a Lua. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer.. NOTURNO (CHOVE. De encontro ás torres e de encontro aos muros..

mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. os vermes vis. Que há muito tempo não cantava lá.. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno... tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. poetas. enquanto o Tédio a carne me trabalha.. Já que perdi a última batalha! E.. Diluiu o silêncio em litanias.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. inverno! 113 . . verão.. E hoje. outono. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. Primavera.

Ela. e quando passa. ao noturno açoute. Gemem poetas . enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora.A DOR Chama-se a Dor. enxuta A face. ela. . abraçado às campas dos poetas. E se cantar como a Saudade canta. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.pássaros da Noute! 114 . aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. onde.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. Pare chorando nesta Terra Santa. inda altiva. Carpem na sombra pássaros ascetas.. e o travo há de sentir. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Aqui é o Campo-Santo. enxuto o olhar..

O SONHO. o sonho. surjam tédios na Descrença. eu penso na Ventura! E o pensamento. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. e morrem os vermes que o consomem. A CRENÇA E O AMOR O sonho. assomem Descrenças. Luta. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. a crença e o amor. poeta. e por fim. Vence. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. na Suprema Altura Sinto. nada há que o abata e o vença! Por isso.

por fim. por fim. para penetrar o mistério das lousas.. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.PARA QUEM TEM NA VIDA.. estudares. De que te serviu. pois. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade.. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.. Foi-te mister sondar a substância das cousas . Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. nada achaste. e. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. auríferos tesouros. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 .. profundo.. Tesouros reais. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo... Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. Feito no decurso de dois minutos.Construíste de ilusões um mundo diferente.

o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. dois gigantes mudos. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. . São dois colossos.. em ânsias.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . ela subiu. Embora oculta.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos... Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. .O NEGRO Oh! Negro. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. no entanto..

ver Se nesta ânsia suprema de beber.Novo Sileno. ouve o canto aziago da coruja! .em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. .O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. na atra estrada que trilhei. .. como eu. Quantos também.Era o suplício!.Quer fugir. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . foram buscar a Glória E que.. como eu.. Saiu..E o horror começa! Rasga As vestes. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. Implora a Deus como a um fetiche vago. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .. quantos também deixei.. Buscava Em verdes nuanças de miragens. Trás de mim. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Mas eu não contarei nunca a ninguém.. Nisto.. O Sol ardia. e não vê por onde fuja. ela seria morta. ira-o morrer também.Se ao menos voasse! . Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. Daí a pouco.

vivia. Sei que na infância nunca tive auroras.Aqui ainda havia alguma cousa...... diz ao povo: "É pena! .Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Por isso... E afora disto. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. de repente. Olha essa neve pura! . ele a morrer.. Não há quem nele um só tremor denote! ." Pau d'Arco -1905 119 .. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Assim como uma casa abandonada. a alma serena.Foi saudade? Foi dor? . Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. Mas.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. pressentindo a lousa. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.Continua a cantar.

MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. E eu me elevava. persuadido fica do que diz. Da tribo alegre que povoa os ares. Para onde eu ia.. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. Dizes Tudo que sentes. em Tebas . Diz que ele não morreu. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Bem como tu.. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. inda com o braço altivo. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. E... Não mentes.a tumbal cidade. A múmia de um herói do tempo de Ísis.. . e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. não andei mais sozinho! Abraçou-me. o vulto ia a meu lado E desde então... diz que ele é vivo. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i..

como um cão covarde. assombrado.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe... E. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. ia. Nada se altere em sua marcha infinda . aos tropeços. amigos. triste e sem cantar. Por toda a parte. de saudades me despedaçando De novo. A percorrer desertos e desertos. antes de viver! Meu corpo. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. A lua continue sempre a nascer! 121 . assim como o de Jesus Cristo. morrer. Existo! .E apesar disto. pois. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo..O tamarindo reverdeça ainda. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. Teve sede e fome. quando Eu. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. assim. onde. Saiu aos tombos.. com medo do Infinito.. à tarde.. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.

A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina..A LÁGRIMA . . Ah! Basta isto..O farmacêutico me obtemperou. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. água e albumina. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .

Larva de caos telúrico. Em minha ignota mônada.Esta universitária sanguessuga Que produz. Amo o esterco. Como um dorso de azêmola passiva. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. sem dispêndio algum de vírus. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. simultâneas.. vibra A alma dos movimentos rotatórios. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Amarguradamente se me antolha.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. possuo uma arma -.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Não conheço o acidente da Senectus -. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. À luz do americano plenilúnio. Do cosmopolitismo das moneras. 123 . Pólipo de recônditas reentrâncias.. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras... ampla. sem bramânicas tesouras.. E é de mim que decorrem. A podridão me serve de Evangelho.

Quimiotaxia. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. iguais a fogos passageiros. amanhã. O horror dessa mecânica nefasta. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. em síntese. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Fonte de repulsões e de prazeres. Que. ondulação aérea. Com a cara hirta. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. -. bestas agrestes. causa ubíqua de gozo. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. quebrando estéreis normas. abdômen. a boca. a coçar chagas plebéias.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. Aí vem sujo. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Sonoridade potencial dos seres.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. luzem. o Homem. 124 . Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. E apenas encontrou na idéia gasta. já nos últimos momentos. Como quem se submete a uma charqueada. A vida fenomênica das Formas. O coração. Ao clarão tropical da luz danada. Raio X. magnetismo misterioso. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar.

ébrio de vício. E explode. bastarda. E após tantas vigílias. Como que. Uivando. pelos cenóbios?!. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. No horror de sua anômala nevrose. 125 . o monstro as vítimas aguarda.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. à noite. Suas artérias hírcicas latejam. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Toda a sensualidade da simbiose. À guisa de um faquir. em lúbricos arroubos. consumir-se. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. brincam. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo.... Do seu zooplasma ofídico resulta. Negra paixão congênita. vai gozar... Como no babilônico sansara .. fazendo um s. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. em suas clélulas vilíssimas.. igual à luz que o ar acomete. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Sôfrego.. Numa glutonaria hedionda. E à noite. E até os membros da família engulham. Brancas bacantes bêbadas o beijam. No sombrio bazer domeretrício. Num suicídio graduado.

torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Na própria ânsia dionísica do gozo. Mas muitas vezes. Acorda. Reconhecendo. As alucinações tácteis pululam. Abranda as rochas rígidas. quando a noite avança. E de su’alma na caverna escura. observa a ciência crua. esculpindo a humana mágoa. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família.. Hirto. Assim também. bêbedo de sono. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. se estende Dentro da noite má. em rembrandtescas telas várias. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Que tateando nas tênebras. Somente a Arte. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Mostrando..Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. com os candeeiros apagados. Numa coreografia de danados. A asa negra das moscas o horroriza. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Essa necessidade de horroroso.. Quando o prazer barbaramente a ataca.Macbeths da patológica vigília. Sente que megatérios o estrangulam. A família alarmada dos remorsos.

A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. E.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . ouvindo estes vocábulos. Prostituído talvez. Na produção do sangue humano imenso. entre daveiras sujas.. Há-de ferir-me as auditivas portas. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. sem que. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Julgava ouvir monótonas corujas.. até que minha efêmera cabeça. a desintegre. Da luz da lua aos pálidos venábulos. entanto. em suas bases. -. -. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases.O homicídio nas vielas mais escuras.E reduz. Continua o martírio das criaturas: -. À condição de uma planície alegre. Era a canção da Natureza exausta. Executando.

discutindo... conversando.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Apenas como um velho stradivário. no apogeu da fúria. Vaga no espaço um silfo solitário. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Resplandece a celeste superfície. O céu claro e produndo Fulgura. O Cairo é de uma formosura arcaica. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres.. Os mastins negros vão ladrando à lua. A rua é triste. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. A Lua cheia Está sinistra. Num quiosque em festa alegre turba grita.. Convulso e roto. na mais próxima planície. exposto ao luar. Embaixo.. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. das pirâmides o quedo E atro perfil.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Tonto do vinho. Dorme soturna a natureza sábia. um saltimbanco da Ásia. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo.

. então. O calçamento Sáxeo. Mostrando as carnes. E a minha sombra enorme enchia a ponte. E aprofundando o raciocínio obscuro. Ponte Buarque de Macedo. Livres de microscópios e escalpelos. Atravessando uma estação deserta. Uivava dentro do eu . indo em direção à casa do Agra. de asfalto rijo. na alma da cidade. Profundamente lúbrica e revolta. Eu vi. Dançavam.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Copiava a polidez de um crânio alvo. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. com a boca aberta. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. atro e vidrento. à luz de áureos reflexos. 129 . parodiando saraus cínicos. Pensava no Destino. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Mas. A ponte era comprida. O trabalho genésico dos sexos. Eu.. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Fazendo à noite os homens do Futuro. Lembro-me bem. a irritar-me os globos oculares. Assombrado com a minha sombra magra.

na ígnea crosta do Cruzeiro. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Ninguém compreendia o meu soluço. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Ah! Com certeza. Deus me castigava! Por toda a parte. como um réu confesso. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. E. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. É bem possível que eu umdia cegue.Fetos magros. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. ainda na placenta. pelo menos. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. 130 . Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. No ardor desta letal tórrida zona.

Eu bem sabia. 131 . cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. em minha boca. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Na ascensão barométrica da calma. de tal arte. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Que. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Sob a forma de mínimas camândulas. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Não! Não era o meu cuspo. três. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro.E até ao fim. cujas caudais meus beiços regam. ansiado e contrafeito. para não cuspir por toda a parte. aos poucos. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. quatro. à guisa de ácido resíduo. quotidianamente. Arrebatada pelos aneurismas. Benditas sejam todas essas glândulas. cinco. Que eu. Ia engolindo. estranha.

Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Um sugestionador olho.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Ninguém. A camisa vermelha dos incestos. maior talvez que Vinci. lembrava ante o meu rosto. À anatomia mínima da caspa. sem pudicícia. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. o In e os trasgos. para hipnotizar-me! Em tudo. estava ali. com as brancas tíbias tortas. ali posto De propósito. Com a força visualística do lince. Livres do acre fedor das carnes mortas. Vai pela escuridão pensando crimes. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Perpetravam-se os atos mais funestos. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. da cor de um doente de icterícia. então. Imitando o barulho dos engasgos. A companhia dos ladrões da noite. Iluminava. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Siva e Arimã. E o luar. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. os duendes. Davam pancadas no adro das igrejas. Buscando uma taverna que os açoite. Mas um lampião. Nessa hora de monólogos sublimes. a espiar-me. a rir. Rodopiavam. de certo.

Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. A pedra dura. distingo-a. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Na atra dissoluçào que tudo inverte. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Todos os personagens da tragédia. E o meu sonho crescia nosilâncio. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. E a palavra embrulhar-se na laringe. Como bolhas febris de água. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. em que. e vence-O. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Cansados de viver na paz de Buda. 133 .

Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. No meu temperamento de covarde! Mas. na glória da concupiscência. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. aflita. berrava. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Como um bicho inferior. Fabricavam destarte os bastodermas. na dor forte do vômito. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares.A planta que a canícula ígnea torra. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Os bêbedos alvares que me olhavam. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. igual a um amniota subterrâneo. 134 . sobre o meu caso Vi que. Aquela humanidade parasita. a sós. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. refletindo. E apesar de já não ser assim tão tarde. Um conjunto de gosmas amarelas. Iam depois dormir nos lupanares Onde.

nas catedrais mais ricas.. Minha morada equilibrada e firme! Nisto.Prostituição ou outro qualquer nome. Fazer da parte abstrada do Universo. Ao pensar nas pessoas que perdera. numa ânsia rara. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. como um cordão. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal.. em tudo imerso. 135 . ponto final da última cena. Rolam sem eficácia os amuletos. pior que o remorso do assassino. embora o homem te aceite. a morte é ingrata. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Nessas perquisições que não têm pausa. num fundo de caverna. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter.e. o eco particular do meu Destino. por tua causa. Minha filosofia te repele. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Numa impressionadora voz interna. Forma difusa da matéria embele. Reboou. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. tal qual.

por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. A formação molecular da mirra. Mesmo ainda assim. estriada. 136 . sondas A estéril terra. magro homem. antes Fosses. para que a Dor perscrutes. a refletir teus semelhantes. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. Trazes. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. se divide. espirra.Jamais. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. não como és. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. com a bronca enxada árdega. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. por vezes. o cordeiro simbólico da Páscoa. fora Mister que. e a hialina lâmpada oca. E se. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. em síntese. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado.

O fogo-fátuo que ilumina os ossos. Lembram paióis de pólvora explodindo. Os terremotos que. As projeções flamívomas que ofuscam. à espera que a mansa vítima o entre. As aves moças que perderam a asa. Deixa os homens deitados. Como uma pincelada rembrandtesca. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A mentira meteórica do arco-íris. O fogão apagado de uma casa. A cristalização da massa térrea. a fera ultriz que o fojo Entra. Onde morreu o chefe da família. sem mortalha. O achatamento ignóbil das cabeças.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. O tecido da roupa que se gasta. -. Que ainda degrada os povos hotentotes. abalando os solos.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. As pálpebras inchadas na vigília. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. 137 . A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O antagonismo de Tífon e Osíris. as nódoas mais espessas. Na sangueira concreta dos massacres. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O Amor e a Fome.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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de errante rio. alto e hórrido. satisfeito. Criando as superstições de minha terra. A Paraíba indígena se lava! A manga. a abóbora. a ameixa. olhando os campos Circunjacentes. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. branda e beatífica. No Alto. como as ervas. em quaisquer horas. sobre as hortas. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. 143 . os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. a amêndoa. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Benigna água. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. Em cuja álgida unção. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. magnânima e magnífica.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. o urro Reboava. Além jazia os pés da serra. Apenas eu compreendo. Meu ser estacionava.

os micróbios assanhados Passearem. como inúmeros soldados. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. a existência Numa bacia autômata de barro. Um português cansado e incompreensível. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. O ruído de uma tosse hereditária. dores não recebem. Estas não cospem sangue. adstritos ao quimiotropismo Erótico. entre estrépitos e estouros. Alucinado. 144 . Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Vômitos impregnados de ptialina. Restos repugnantíssimos de bílis. OH! desespero das pessoas tísicas. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. aos bocados. Cortanto as raízes do último vocábulo. Adivinhando o frio que há nas lousas. Reboando pelos séculos vindouros.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles.

como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. no Amazonas. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. resfriando-vos o rosto. 145 . Onde a Resignação os braços cruza. me acorda. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. naquele instante. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. hoje.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. magras mulheres. a água. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Saía. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. É a alfândega. Consoante a minha concepção vesânica. A mágoa gaguejada de um cretino. com efeito. Nos ardores danados da febre hética. Pelas algentes Ruas. em sonhos mórbidos. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. com o vexame de uma fusa.

Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Jazem. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. adstrito à étnica escória. diante a xantocróide raça loura.Fedia. Na tumba de Iracema!. De repente. 146 . tendo o horror no rosto impresso. E agora.. caladas. como um lúgubre ciclone.. Desterrado na sua própria terra. A carcaça esquecida de um selvagem. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. espantada. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra.. Com uma clarividência aterradora.. acordando na desgraça. sem difíceis nuanças dúbias. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. todas as inúbias. por fim. A civilização entrou na taba Em que ele estava. entregue a vísceras glutonas. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Recebeu. Viu toda a podridão de sua raça. Ah! Tudo.

com voz estentorosa. A peçonha inicial de onde nascemos. Maldiziam. 147 . E eu. No horror daquela noite monstruosa. rolando sobre o lixo. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Todos os vocativos dos blasfemos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava.: o homem e o ofídio.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. roído pelos medos. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. ex.

da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. na terráquea superfície. como um homem doido que se enforca. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Consubstanciar-me todo com a imundície. Eu voltarei. Tentava. o anelo instável De. às vezes. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Sem diferenciação de espécie alguma. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. cansado. Anelava ficar um dia. como Cristo. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. em suma. porém. Reduzido à plastídula homogênea. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . 148 . por epigênese. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico.E. perante a cova. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força.

embalde. e.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. ignóbil. até que. Acordavam os bairros da luxúria. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. e as mãos. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. vítima última da insânia. a saraiva Caindo. De certo. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Uma.. agora. para além. Estendestes ao mundo. quando o éreis. Quase que escangalhada pelo vício. no horizonte. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. alva. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. com violência. entre oscilantes chamas.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira.. derreada de cansaço. As prostitutas. Mas. análoga era. Nem tínheis. Não tínheis ainda essa erupção cutânea.. virgem fostes... doentes de hematúria. à-toa. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. 149 . O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Se extenuavam nas camas.

E hoje. que a sociedade vos enxota. inquieto. Como uma associação de monopólio. Eu pensava nas coisas que perecem. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. no chão frio da igreja. eu. 150 .Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço.De vós o mundo é farto. Sentia. porém. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. na craniana caixa tosca. argots e aljâmias. Como quem nada encontra que o perturbe. A racionalidade dessa mosca. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. E estais velha! -. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. A consciência terrível desse inseto! Regougando.

Absorvia com gáudio absinto. como Ugolino. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. após baixar ao caos budista. Já podre. Mas. roubada à humana coorte Morre de fome. assim inchado.Aquilo era uma negra eucaristia. nesta hora. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. sobre a palha espessa. Rugindo fundamente nos neurônios. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. E o cemitério. escorraçando a festa. Vem para aqui. de repente. Apareceu. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. em que eu entrei adrede. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. E a ébria turba que escaras sujas masca. Pela degradação dos que o povoam. palpável.A estática fatal das paixões cegas. com o ar de quem empesta. O fácies do morfético assombrava! -. nos braços de um canalha 151 . Sem ter. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Quanta gente. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. À falta idiossincrásica de escrúpulo. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. estriges voam. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas.

a alma aos arrancos. Na impaciência do estômago vazio. Todos os meus cabelos se arrepiaram. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Pisando. entre fardos. como quem salta. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. À sodomia indigna dos moscardos. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. cheio de vermes. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Num prato de hospital. a camisa suada. iguais a irmãs de caridade. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Comendo carne humana. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Vendo passar com as túnicas obscuras. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. ao clarão de alguns archotes.

O benefício de uma cova fresca. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. em vez de hiena ou lagarta. Os raios caloríficos da aurora. às vezes. Dentro da filogênese moderna. déspota e sem normas. No frio matador das madrugadas. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda.Como indenização dos meus serviços. trazendo-me ao sol claro. Absorve. Uma sobrevivência de Sidarta. Manhã. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Como o íncola do pólo ártico. após a noite de seis meses. De quem possui um sol dentro de casa. E eis-me a absorver a luz de fora. Proporcionando-me o prazer inédito. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera.

em colônias fluídas. Igual a um parto. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. O Espaço abstrato que não morre Cansara. tudo a extenuar-se Estava.. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. A gestação daquele grande feto. Hirto de espanto. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Vinha da original treva noturna. Acompanhava. a meu ver. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. em vão teu ódio exerces! Mas. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. O ar que.. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral.. com um prazer secreto. numa furna. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. corre.. oh! Morte. Eu sentia nascer-me n’alma. com os pés atolados no Nirvana. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. entanto.

como eu. não existes mais! 155 . Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Apenas com uma diferença triste. Ai! Como Os que. amigo. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Como! E pois que a Razão me não reprime.. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. E agora.. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.. Coisa hedionda! Corro. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Antegozando a ensangüentada presa. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Rodeado pelas moscas repugnantes.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. bela como um brinco. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. É a hora De comer. têm carne..

. sujo de sangue. quanto a mim. nas vitrinas. haurindo amplo deleite. No lábio róseo a grande teta farta -. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. Há de crescer.. O Sol virá das épocas sadias. a atmosfera se encherá de aromas. Clara.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Do que essa pequenina sanguessuga. à amostra. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. entre dores. comparo. sem pretensões. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. oh! Mãe. um novo Ser. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Assim. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Relembrarás chorando o que eu te disse. que te esgotou as pomas. E o antigo leão.

. maior do que Laplace.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. haurindo o tépido ar sereno. roendo a substância córnea de unha. com que guarda meus sapatos. eu vivo pelos matos. mordendo glabros talos. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Por causa disto. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Magro. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Beber a acre e estagnada água do charco. nos fortes fulcros. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Tais quais. numa ininterrupta Adesão. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. as tesouras Brônzeas. também gira e redemoinham. Os pães -. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes.

Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. apalpa a úlcera cancerosa. no agudo grau da última crise. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Beija a peçonha.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Úmido. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. goza O lodo. E eu vou andando. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Dorme num leito de feridas. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Com a flexibilidade de um molusco. cheio de chamusco.

A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. corte. Ladra furiosa a tribo dos podengos. depois de tanta Tristeza. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. no árdego trabalho. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen..E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. bolem Nas árvores. salta. pelo ar. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. largando pêlos. Os ventos vagabundos batem. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos.. morda!. em vez do nome -. Nos terrenos baixos. A terra cheira. queime.. Em grandes semicírculos aduncos. Com a rapidez duma semicolcheia. Entrançados. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. quero. depois de morrer. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. fustigue.Augusto . De árvore em árvore e de galho em galho.. No chão coleia a lagartixa. Eu. O ar cheira...

Como pela avenida das Mappales. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Os musgos. em vez de flores. As lagartixas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Pintam caretas verdes nas taperas. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. batendo a cauda. Nédios. Quantas flores! Agora. Por saibros e por cem côncavos vales. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Viveu. outrora. sem conchego nobre. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. À dura luz do sol resplandecente. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O aziago ar morto a morte Fede. como exóticos pintores. Na bruta dispersão de vítreos cacos. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. dos esconderijos. Trôpega e antiga. Amontoadas em grossos feixes rijos. Une todas as coisas do Universo! 160 . Urram os bois. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Como um anel enorme de aliança. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Aqui. O cupim negro broca o âmago fino Do teto.

Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. Súbito. com a misericórdia de um tijolo!..E assim pensando.. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. À carbonização dos próprios ossos! 161 . aqui. A lamparina quando falta o azeite Morre. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol.. Que por vezes me absorve. arrebentando a horrenda calma. como quem raspa a sarna. sem pai que me ame. é o óbolo obscuro. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Grito. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. da mesma forma que o homem morre. Julgo ver este Espírito sublime... olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada.. De pé. à luz da consciência infame. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. Só. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.

espremendo os peitos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que.. hirta. aliando. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Bramando. alta noite. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. O Vício estruge. através os meus sentidos. E a mulher. a arquivar credos desfeitos. em coréas doudas. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. por fim. Com as mãos chagadas. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Espicaça-a a ignomínia. Reduzidos. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. de cabelos ruivos. em contorções sombrias. funcionária dos instintos. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. 162 . urna de ovos mortos. a âmbulas moles. Lúbrica. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. como o estepe. recebe.. à lua. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. ébria e lasciva. Entre farraparias e esplendores. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Sente. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Ouvem-se os brados Da danação carnal. à luz do olhar protervo. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que.

Na óptica abreviatura de um reflexo.. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza..Chão de onde unia só planta não rebenta. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório... de bruços. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. Fulgia. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. E a dor profunda da incapacidade Que.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. Ei-la. já morta essencialmente. E a Carne que... filha do inferno. É o hino Da matéria incapaz. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. em cada humana nebulosa. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente.

Saem da infância embrionária e erguem-se. radiando. rubros. Pudera progredir. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo.. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . Na homofagia hedionda que o consome. Numa cenografia de diorama. impune. Irradiava-se-lhe....O atavismo das raças sibaritas. como aborto inútil. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. Como o . Que... do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. talvez. Libertos da ancestral modorra calma. sonhos de culminância. hírcica. ânsia De perfeição. adultos.. adstrito a inferior plasma inconsútil.. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. e a estraga Na delinqüência . Ficou rolando. Mas que. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços... A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. momentaneamente luz fecunda... decerto.. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora.

................. condenada............... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto............................................................................................................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.................................. ...................................... ............. .................. ......................................................... ......................... .................. ................. ................................ ao trágico ditame........... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia............. ......................................................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos. ................................... oca................................................................................ 165 ........................................ .....................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! .......................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto..................

poeta. E hoje que. é substância fluida. enfim. provo-a. Como Mársias -.. por experiência. o egoísta amor este é que acinte Amas. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. tal como eu o estou amando. eu que idolatro o estudo. é éter. conheço o seu conteúdo. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . É Espírito. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Cuida. Diverso é.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. amo Mas certo. Descasco-a. Integralmente desfibrado e mole. observo o amor. do egoísta Modo de ver. é como a cana azeda. Quis saber que era o amor. o ponto outro de vista Consoante o qual. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. A toda a boca que o não prova engana. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Pudera eu ter. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. oposto a mim. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. consoante o qual. enfim. pois. este o amor não é que. entretanto. chupo-a. Para que. o observas. É assim como o ar que a gente pega e cuida.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. atenta a orelha cauta. Porque o amor. em ânsias. Imponderabilíssima e impalpável. ilusão treda! O amor..

com o seu grande grito. .A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. depois disso.. trabalhar contente. em ânsias. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora.. 167 . que devia. os monstros zombeteiros. a tumbal janela E diz.. Que importa que. olhando o céu que além se expande: ".O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Entendi. contra ele. Trabalharei assim dias inteiros. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.. E só.. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. opresso. abre. Sem ter uma alma só que me idolatre. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Como Vulcano. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.. trágico e maldito. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. no quadrilátero da alcova.A maldade do mundo é muito grande.

sacudindo-o todo. Batem-lhe os nervos. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Sobre a cidade geme a chuva. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .

num canto de carro. por ver-vos. E não haver quem.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -.Dizia. Com os ligamentos glóticos precisos. Recebiam os cuspos do desprezo. banhava minhas tíbias. lhe entregue. E a cimalha minúscula das ervas. 169 . Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. alto. Cortanto o melanismo da epiderme. recebendo injúrias. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. sob os pés do orgulho humano. Que forma a coerência do ser vivo. A essa hora. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Como um cara. e erguia. O reino mineral americano Dormia. Rua Direita. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. oh! céu.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. e absorve em cada viagem Minh’alma -.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. nas telúrias reservas. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. íntegra.

Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Onde minhas moléculas sofriam. Pareciam talvez meu epitáfio.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Com a abundância de um geyser deletério. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. com o ar horrível. em diástoles de guerra. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. o ancilóstomo. com a símplice sarcode. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Mais tristes que as elegais de Propércio. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. úmida e fresca. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Pela alta frieza intrínseca. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. me pediam. O vibrião.

. E pelas catacumbas desprezadas. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. e o olhar errante. Era uma viúva.Um vento frio começou gemendo. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Mochos vagavam como sentinelas. foi transpondo a porta. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Uma vez. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. nos altares esboroados. Súbito alguém. ampla e brilhante. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. A Lua encheu o espaço sem limites E. funeral mesquita.. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Em passo lento. o passo constrangendo. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. a viúva. dentro. Parou em frente da mesquita morta. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Eternamente aberta ao sol e à chuva. . Feras rompiam tolos e balseiros. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela.

Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E raivosas. contra ela. arremetendo. Morria a noite. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . infernais ardendo Todas as feras. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Além. entanto. entretanto. E sobre o corpo da viúva exangue. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. Como uma exposição de carnes vivas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. Fora. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras.

Verde. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. A saudade interior que há no meu peito. 173 .... tenho alucinações de toda a sorte. Assim. no meio. pela vez primeira. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos.. num enleio doce. em plena podridão. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. brilha A árvore da perpétua maravilha. Na ilha encantada de Cipango tombo. Atravessando os ares bruscamente.. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. quem diante duma cordilheira. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. ostentando amplo floral risonho. Qual num sonho arrebatado fosse. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Pára.. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Rica. exata... em luz perpétua. entre assombros. Da qual. afetando a forma de um losango. trêmulo. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango... Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. ao sol.

A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.... E finalmente me cobri de flores.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. A tarde morre.. Banhei-me na água de risonhos lagos.. Gozei numa hora séculos de afagos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .. Passa o seu enterro!.

de cima. O Céu. as esconda. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Se um cai.globo de louça Surgiu. A Lua . Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.. Vagueia um poeta num barco. Espelham-se os esplendores Do céu. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas.BARCAROLA Cantam nautas. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Quem as esconda. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . outro se ergue e sonha. em reflexos. esse vai Para o túmulo que o cobre. outro cai. em lúcido véu.. Vai uma onda. nas Águas. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados.

"Viajeiro da Extrema-Unção. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. forte. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. poeta da Morte!" .E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou.. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê... "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. "Mas nunca mais.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar.. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. porém.. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.

Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Como um Tritão. oh! Redentora d'alma. E ali do despotismo entre os escombros.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. A República rola-lhe nos ombros. Vós.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. levando ao mundo inteiro. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Manchar não pode as aras da República. risonho. A Liberdade assoma majestosa. Caia do santuário lá da História. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. Da República a nova sublimada. Essa luz etereal bendita e calma. Não! que esse ideal puro. e. oh Pátria. esplendorosa. Fulgente do valor da vossa glória. . Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. fazei que destes brilhos. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. pois. Da liberdade ao toque alvissareiro. Oh! Liberdade. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro.

à luz das minhas frases. Passa um rebanho de carneiros dóceis. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. cantam óperas inteiras. Estremecendo em suas próprias bases. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. O amor reduz-nos a uniformes placas. ao matinal assomo. Na área em que estou. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Uma montanha que se desmorona. Aves de várias cores e de várias Espécies. 178 .. desvairado. Além. E. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma..Mas hoje. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. nas oliveiras. vendo o horror dos meus destroços.

heroicamente. à nitidez real dos aspectos. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. Da observação nos elevados montes Prefiro. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. E quando a Dor me dói. demonstrando-a. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.. Tal qual ela é. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . sinto um violento Rancor da Vida . Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos.. à frente dele. ébria de fumo e de ópio. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes.

Que o amor abriu no meu peito. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. erra.CANTO ÍNTIMO Meu amor. em sonhos. em sonhos erra. Muito longe. Passo longos dias. Muito longe. Vem cá. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. dos grandes espaços. a esmo. se duvidas. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . olha estas feridas. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. De lá.

sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . ontem.Diz e morre-lhe a voz. Caminha e vai. Sem um domingo ao menos de repouso. numa delícia infinda. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. uma nuvem que corre.. num volutuoso assomo..CANTO DE AGONIA Agonia de amor. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. murmura: ... Neve que me embala como um berço divino. Fazer parar a máquina do instinto. . e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. Mas. agonia. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. Numa prece de amor. escuridão e eterna claridade.. triste. Neve da minha dor. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito..Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. neve. Agonia de amar. quanto mais me desespero. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. o louco.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. agonia bendita! . agonia! .. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. a sós. experimento O mais profundo e abalador atrito. Amor. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. e o sofrimento De minha mocidade. prece que ainda Entre saudades rezo. Delícia que ainda gozo. Frio que me assassina. abraça a sombra e. amor e frio.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. vendo-a. oração. agonia..

aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. oito vezes. foi aos poucos se arrastando... acende O pó. E em tudo que o rodeava. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Fez reboar pelo solo... trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. Por seis horas seu braço empenhado na luta.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. funéreo 182 . a superfície bruta. Rasgando. Triste. lúgubre e só.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . e o trabalho . e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. A terra escalda: é um forno. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. do agro solo.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. mordendo a atra terra infecunda. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. E o Velho veio para o labor cotidiano. Mas o braço cansou! Trabalhou.

o cansaço Empolgara-o.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. o peito arqueou-se. a toa. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. o Velho caminhava. e compreendendo tudo. Nem viu que era chegado o termo da viagem. era a turba trovadora Que assim cantava.. e a sonhar. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. o precipício estava. Quis fazer um esforço . os filhos. a família! Não morreria. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. Num instante viu tudo. ninguém o acalenta. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . avistar a Árvore da Esperança. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. onde arde e floresce a Crença. ele pisasse os trilhos. Caminhava. louco. a flux d'água. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto.. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos.. o acalenta. bêbado de miragem. pois! Somente morreria Se da Vida. e o braço Pendeu exangue. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico... no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor.. avistando uma frondosa tília Julgou. sozinho. flutua! Ninguém o vê. E amplo.. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. tombando..o último esforço. a rugir-lhe aos pés.

dourando as névoas dos espaços. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro..eis tudo! E no meu peito . luminosas.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Descem os nimbos. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Subindo á majestade do Infinito. Negras.. ígneo.. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. mudo. Além. volaterizadas. mudo. pompeiam (triste maldição!) . alvas. rubro. e. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. e o meu pesar se eleva E chora e sangra.ocaso nunca visto. .Asas de corvo pelo coração. a Sombra .IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. mudo. Na majestade dum condor bendito. E há no meu peito . Atros.. fulvos. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. aos astrais desígnios. E a Noite emerge. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. sangrento O sol.condensada treva A sombra desce. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. Raios flamejam e fuzilam ígneos.

185 . entre esplendores. ciclópico. Hoje de novo. curvo ao seu destino. Ah! Como tu. E corno a Aurora .o Sol . á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. o mastodonte. se.. Fantástico. como tombou outrora. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. como se esses raios N'alma caindo. Como Herculanum foi após as chamas. ontem moribundo.hóstia da Aurora. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. III De novo. em vão na luz do sol te inflamas. em lodo tudo acaba. há-de Alva. assassino Ébrio de fogo. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. se tornassem ferros?! IV Poeta. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. a Aurora. em plena e fulva reverberação. A Mágoa ferve e estua. Sírius me deslumbra. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. se erguer. lodo. de que serve.. Vésper me encanta. se. a lesma. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. A alma se abate. o tigre. e hás de ser após as chamas. O leão.

pelas escarpas.. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Ergue. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. a Lua que no céu se espalha. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Pelos rochedos. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. frias. pois poeta. onde. E foi deixando essas funéreas.. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. como abutres Medonhos. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte.. Canto. Como recordação da festa diurna... Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Vésper me encanta. e. de ossos. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. foi valas funerais deixando.Arrasta as almas pela Escuridão. pelas penedias.Fera rendida à música divina. banha As serranias duma luz estranha. sobe ao pedestal.. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. e minh'alma cobre-se de flores . Sírius me deslumbra. Iluminando as serranias. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. de ilusões te nutres.. Medonhas valas. Então. E arrasta os coraç5es pela Descrença.

Mas.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .. eu também vou passando Sonâmbulo.. em mágoa. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.. E invejo o sofrimento desta Santa. triunfalmente. sonâmbulo. sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha.. nos céus altos. Depois de embebedado deste vinho. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. 187 . A dispersão dos sonhos vagos reuno.INSÔNIA Noite...

Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. O Sol. Atro dragão da escura noite.Vagueio pela Noite decaída.. As árvores. Aqui. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Em que o Tédio. equilibrando-se na esfera.. Estou alegre. Recordam santos nos seus próprios nichos. Com o olhar a verde periferia abarco. porém. Agora. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. as flores. neste silêncio e neste mato.. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. hedionda. batendo na alma. estronda Como um grande trovão extraordinário. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. o funerário. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato.. os corimbos. Cercado destas árvores. em mágoa imerso. por exemplo.

é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. por epigênese geral. barro. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. por outra. aparece. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. "Miniatura alegórica do chão. síntese má da podridão. Todos os organismos são oriundos. "Na tua clandestina e erma alma vasta. "Onde os ventres maternos ficam podres. porque um. "Onde nenhuma lâmpada se acende. Presto. a esvaziar báquicos odres: . ébrio. E o que depois fica e depois Resta é um ou. Olho-o. Risco-o Depois. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta .Mucosa nojentíssima de pus. amorfo e lúrido. os beiços na ânfora ínfima. Olho-o ainda. através ovóide e hialino Vidro. harto. Mergulho. certo. é mais de um. De onde. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. irrupto. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . e na ínfima ânfora. Dois são."Cinza.

Se escapa. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . é todo aquele Que vem de um ventre inchado. é o céu abscôndito do Nada. sozinho. sou eu. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. o que nele Morre. sois vós. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. que. mônada vil. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Depois. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. ora. como nunca outro homem viu. Em que todos os seres se resolvem! 190 .. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Então.Do mundo o mesmo inda e. muito alto. Sob a morfologia de um moinho. Migalha de albumina semifluida. do meu espírito. em segredo. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. dentre as tênebras. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Na síntese acrobática de um salto. Move todos os meus nervos vibráteis. na terra instável. cósmico zero. Vida..

com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E eis-me outro fósforo a riscar.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila... E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. Adeus! Que eu veio enfim. De onde quimicamente tu derivas.

.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. 192 . chora e se lamenta e vibra. Retroa o sino.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.. Ora. davas brandindo em seva e insana Fúria. Troa o conúbio dos amores velhos . e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Amor. E em tudo estruge a tua dúlia . desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. . Sinos além bimbalham... Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Cantas a Vida que sangrando matas. E. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. tangendo tiorbas em volatas.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . vezes.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma.. medras Nalma de cada virgem. lembras.

e eis o motivo. . pois. Assim. Irene. beija os áureos pés dos ídolos. Entre timbales e anafis estrídulos. aos astros. fosforeando.Essa dominação aterradora . Irene. Eis o motivo porque fiz esta ode. ontem. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Quedo. quando Entre estrias de estrelas. 193 . Irene. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. sonhei-a. Cativo. impassível! Esta de amor ode queixosa.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. esse poder terrível.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens.

No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. ao meio-dia. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. irritado. Quase com febre. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Da qual. E eu nervoso. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Dentro. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. tinir. Inopinadamente 194 . bruta. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. erguido do pó. berrar. Trinta e seis graus à sombra.

Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. A ouvir todo esse cosmos potencial. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava.O ígneo jato vulcânico Que. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. afinal. . Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.

oh! morena . Eu quero o meu Calvário . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei... Assim como Jesus. Morreu-te a redolência. Embala-me em teus braços! 196 . Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. divina.QUADRAS Embala-me em teus braços. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Aperta-me em teu peito. E dá-me assim. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. perdeste a ciência.

. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. quando a noite cresce. quatro.. Vista.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. duas. através do vidro azul. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .Uma. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. embora a lua o aclare. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.. tonta Sinto a cabeça e a conta perco.ª-feira. A conta recomeço. 6.. três. em ânsias: .. 3 de maio.Uma. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. E aos tombos.. Aumentam-se-me então os grandes medos. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . em suma. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. Tenho 300 quilos no epigastro. Dói-me a cabeça. e.. No bruto horror que me arrebata.

. Meu tormento é infindo.. A luz fulge abundante 198 . Súbito me ergo. . Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . O suor me ensopa... numa festa. Mas aquilo mortalhas me recorda."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Tal urna planta aquática submersa.Sucede a uma tontura outra tontura. Tomba uma torre sobre a minha testa. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Cinco lençóis balançam numa corda. . Ponho o chapéu num gancho. A lua é morta.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Elevam-se fumaças Do engenho enorme.. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Por muito tempo rolo no tapete.... Acho-me.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . por exemplo..

se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. No húmus feraz. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. Vários reptis cortam os campos. Côncavo. no ato da entrega Do mato verde. De mim diverso.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. cheia de adubos. observa A universal criação. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. feliz. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. o céu. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. Entretanto. Babujada por baixos beiços brutos. em diâmetro. longe do pão com que me nutres Nesta hora. numa última cobiça. A ouvir. hierática. passei o dia inquieto. radiante e estriado. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. a terra resfolega Estrumada. Broncos e feios.

200 .. às da neve. E à noite. Umas.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. a delinqüentes natos. Mãos adúlteras. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Pertencentes talvez. pituitárias Olfativas. vão cheirar. negras.. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis.. Assinalados pelo mancinismo. ás dos cristais.. a farpas de rochedo Completamente iguais. Mãos que adquiriram olhos. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Monstruosíssimas mãos. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Outras. tentáculos sutis. em sangue.

Sonho abraçar-te. langue e seminua. Pareces reviver a antiga Ofélia. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. plangente. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. oh Quimera.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.a Carne. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. pálida camélia. Rola a violeta santa dos teus olhos . Guarda a saudade que levou do Mame. Opalescência trágica da lua! Tu. Mas neste sonho. . Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria ..Tufos de goivo em conchas de esmeralda. E como um nume de pesar.. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.

era só O ocaso sistemático de pó. Convulsionando Céus. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Choravam. análogo ao peã de márcios brados. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. com soluços quase humanos. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. como num chão profundo. Cruzes na estrada. num ruidoso borborinho Bruto. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. E.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. na escuridão.. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Aves com frio. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. uivando hoffmânnicos dizeres. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. No desespero de não serem grandes! 202 . Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Eu procurava. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Aprazia-me assim. O feto original.. com uma vela acesa.

uma voz 203 . Brilhava. perdido no Cosmos. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. ao colher simples gardênia. Como o protesto de uma raça invicta. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. me tornara A assembléia belígera malsã. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. com a sidérica lanterna. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. assim. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. de onde se vê o Homem de rastros. Noite alta. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. na ânsia dos párias. A abstinência e a luxúria. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. frias como lousas. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância.Vinha-me á boca. horrenda e monótona. vingadora. Mas das árvores. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Fluía.

Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . Rimos. do Equador aos pólos. arvoredos desterrados. diante do Homem. choramos. tão profunda. Rasgando avidamente o húmus malsão.. enquanto Deus. porque. Porque em todas as coisas. na ânsia cósmica.. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. entres Na química genésica dos ventres.Tão grande. Não trabalham. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. em suma. Na prisão milenária dos subsolos. amanhã píncaros galgas. ovário. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Nós. com a febre mais bravia. montanha. árvore. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Crânio. Tragicamente. obscuro. Se hoje. isto é. Para esconder-se nessa esfinge grande. pois. a espiar enigmas. afinal. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. que. oh! filho dos terráqueos limos. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Para erguer. iceberg.

As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. A voz cavernosíssima de Deus. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. a erguer-me. Eu. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. Eu fora. astro decrépito. desgraçadamente magro. alheio ao mundanário ruído. naquela noite de ânsia e inferno. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. a escalar Céus e apogeus. em destroços. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 .

Para pintá-lo. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. 206 .. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. quero até rompê-las! Quero. rolando dos últimos degraus. arrancado das prisões carnais. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. armado de arcabuz. em coalhos. no combate. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. As minhas roupas. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. pela boca. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Na ânsia incoercível de roubar a luz. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito.. Viver na luz dos astros imortais. é o prélio enorme. entre estes monstros. Minh'alma sai agoniada.

. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. é improfícuo. a água que bebo. faz mal. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. E tombe para sempre nessas lutas. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . enfim.. em suma. Seja este. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. A bênção matutina que recebo.. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 .. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. E é tudo: o pão que como. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. é inútil.esta arca.

abrindo todos os jazigos.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. sozinho. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. Intimamente sei que não me iludo. numa cova. estudo. Sai para assassinar o mundo inteiro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez.. Mas de repente..Faminta e atra mulher que.... em trajes pretos e amarelos. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.. na vertigem: -. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. come. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. -. Então meu desvario se renova. rio Sinistramente. e a mim pergunto. a 1 de Janeiro. Corro. Como que. à meia-noite. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. A Morte.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. ouvindo um grande estrondo.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.

Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. canalha. Por tua causa apodreci nas cruzes. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. desta cova escura. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Tu não és minha mãe. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. que em mim dorme. Perante a qual meus olhos se extasiam. Como as estalactites da caverna.. e após gritar a última injúria. acorda em berros Acorda. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.. e de declínio Em declínio. Quis ver o que era. É Sexta-feira Santa. e quando vi o que era. como a gula de uma fera.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Deixa-te estar. Com as longas fardas rubras. Eu desafio. Amarrado no horror de tua rede.. Vi que era pó.. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.. em grupos prosternados. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos.

Na molécula e no átomo. no ar de minha terra. Na Eternidade. Desperto... A desagregação da minha Idéia Aumenta. O vento entoa cânticos de morte.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. e a gente.Um esqueleto.. vendo-o. quieta. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. Como as chagas da morféia O medo. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Dentro da igreja de São Pedro. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. As luzes funerais arquejam fracas. O céu dorme. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Roma estremece! Além. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. A árvore dorme Eu. somente eu. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas.