EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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................................................... 179 Estrofes Sentidas .... 142 À Mesa ............................... 205 Queixas Noturnas ............................... 141 Os Doentes .................................................................................................................................................................................................................................... 183 Gozo Insatisfeito .................... 162 Versos de Amor ............. 129 A Caridade .............................................................................................................................. 156 Gemidos de Arte .......................... 166 A Luva ..................................... 197 Quadras ......................................................................................................123 Uma noite no Cairo ........................ 192 Ode ao Amor ..... 212 5 ....................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ................... 203 Vênus Morta ...................................................... 155 Duas Estrofes .............................. 168 Noite de um Visionário ............... 175 Barcarola ................................... 209 Poema Negro ......................... 184 Idealizações ..................................................... 183 História de Um Vencido ............................................................................................................................. 204 Viagem de um Vencido ............... 182 Canto de Agonia .................................................................................................................. 173 A Ilha de Cipango ............................................................................................ 155 Mater ......... 157 A Meretriz ..................................... 200 Mãos ...... 199 Tristezas de um Quarto Minguante ........................................... 186 Insônia ............................ 176 Ave Libertas ..............................................128 As Cismas do Destino ...... 180 Canto Íntimo ............................................... 170 A Vitória do Espírito ................................................................ 190 Mistérios de um Fósforo ................................... 195 Numa Forja ....

contudo. isto é. Não me parece. ed. que é de todas a menos operante. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. não conhecemos sequer a nossa. poder conhecer a árvore pelo fruto. nesse estado de superexcitação. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. em suas mensagens de angústia. desejosos de. Por conseguinte. Nalgum ponto. Sua personalidade singular ali se projeta. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Deste modo. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. no que há de mais sutil e imponderável. ao menos. entrava em crise espiritual. numa atitude de respeito e reflexão. pois. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. Nessa tentativa de interpretação psicológica. na verdade. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. paremos reverentes à porta do templo. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. compreendendo inclusive a estilística. o eu fora do Eu. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. RJ. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. e era aí. na chaga viva de sua consciência. um psicastênico para outros. que o não convencia de todo. nos moldes da velha orientação impressionista. segundo as síndromes patológicas revelados. 1962) 6 . Teria sido um neurótico para uns. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. quando. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Gráfica Ouvidor. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Fazer o elogio do poeta. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. É preciso. senão em mais de um. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas.

de fundo genético. sobretudo quando provém da linha materna. a de Nietzche. choques emocionais. além mesmo da gravidez. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. no final. a de Leopardi. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. perturbou-a por muito tempo. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. sobre o seu caso clínico. Por seu parentesco espiritual. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. aos que se rebaixam para subir. E por curiosa coincidência. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. menos a de Byron. a partir de Lombroso. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. reduzir tudo a categorismo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. estudante de medicina. da inteligência. tem sido Augusto comparado a Leopardi. caracterizado por uma sensibilidade doentia. igualmente inteligentes. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Nem os que nasceram antes. Isto posto. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. todo o seu temperamento emocional. Ao que se sabe. que já era constitucionalmente quase louca. Nietzche. como é do gosto da crítica científica. Juízo é coisa que todos julgam ter. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. nem os que vieram depois. enfim. Augusto não era um homem igual aos outros. só ele dava a impressão de um desajustado. com preocupações de grandeza e fidalguia.for. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . causada pela perda imprevista de um irmão querido. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. repetindo conceitos. fobias. não é possível interpretar a obra de um escritor. Obviamente. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. por vezes controvertidos. Assim como a mãe de Augusto. Byron. a de Wilde. A mãe do poeta. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. em relação com a casuística. Pai e irmãos passavam por normais. sestros. Sem o concurso da causa primária. que nada explica. nas modalidades do caráter. o refinamento de suas faculdades morais. aos que se acomodam. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. enfim. por motivos vários. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. a de Byron. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. do sentimento. tiques nervosos. Explica-se deste modo. não há negar também a dos psicológicos. na classificação dos antropologistas do século passado.

numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Sílvio Romero. O que há de singular nele não é. para maior complicação de sua personalidade. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. visto ter nascido poeta. Nada de admirar. com o título Eu e Outras Poesias. A paisagem bucólica da várzea. do Eu. o seu tipo de pássaro molhado. a sua própria vida sem problemas. sofregamente bebida nas academias. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. ao invés de um estudante bisonho. mas não era somente isso. até o túmulo. guiado apenas pela ilustração paterna. dr. Era de fato um excêntrico. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. é a vocação que já revelava para o infortúnio. mas no final 8 . evolvia para o evolucionismo de Speneer. Muito cedo. logo mais. em sua linha tomista. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. os quais o acompanhariam. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Já em 1875. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. conforme disse num soneto que não consta. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. inspirado na natureza e no amor. Coelho Rodrigues. saído da roça. bradava para o conceituado mestre que o argüia. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. no último ano do século passado. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. na várzea do Paraíba. em prefácio à segunda edição do Eu. Alexandre dos Anjos. como uma fatalidade. para aprazimento intelectual das elites. segundo os primeiros retratos que temos dele. Logo mais. Com seu pai. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. estavam a fazer dele um lírico. cuja vida corria sem obstáculos. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. sem afastar-se do lar. Falava nele o positivista que. em 1900. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. como expressão do pensamento nacional. em Monólogos de uma Sombra.Augusto com a sua personalidade psicológica. A par disso. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. aprendeu a ler e. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. a rigor. era um introvertido. cinco anos após a sua morte. a quietude da vida na província. que a metafísica estava morta. que lançou em 1919. Deste modo. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. O rapazinho de 16 anos. sofreu duros reveses. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. em contraste com a mocidade e a inteligência.

Aliás. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. Desta forma. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. um século antes de Hugo. dupla feição de filósofo e de poeta. Embora educado na religião católica. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Na Paraíba. em seu livro Frases e Notas.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. Augusto pouco falava. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. confundidas ambas na unidade cósmica. Laurindo Leão. proceda ou não proceda. Comte passou. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. faziam praça de livres pensadores. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. Por todo o Nordeste. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. isto é. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. está sujeita também ao processo da evolução. os intelectuais mais dotados. já lidos nos filósofos da natureza. suportou a mais dura crise. como toda substância animada. emancipou-se dela intelectualmente. mas a origem simiesca do homem. de onde saiu formado em 1907. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. se o diabo é tão feio como o pintam. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. Ao que parece. Martins Júnior. José Américo de Almeida. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. em sua. adepto do positivismo. com a evolução da matéria e do espírito. a velha Escolástica. Os menos letrados. O beatério era o último reduto do catolicismo. Ainda na fase preparatória de estudos. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. aliás bem pouco lisonjeiro. entre o mundo da forma e o mundo da razão. ou mesmo. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Nas rodas que se faziam na Paraíba. que só cuidava de preocupações teológicas. nas concepções filosóficas de seus poemas. a exemplo de Victor Hugo. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. de que católico era sinônimo de burro. desde Haller. que. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. como uma velharia do século. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. ficava a escutar os companheiros. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. Até no Piauí. Desses embates. Esquisitão que era. o pensamento ao longe. já no seu ocaso. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. conciliada. aliás. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. firmava-se o conceito. tentou o milagre de 9 . que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. introduziu entre nós a poesia científica. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento.

ampla. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Rimbaud escrevera Bateau ivre. E é de mim que decorrem. 186 versos. Não sofre apenas a sua dor. A saúde das forças subterrâneas. “esse mineiro doido das origens”. na larva que procede do caos telúrico. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. O aspecto conceptual do poema. terso na linguagem. Vejamos. ora transfigurado em filósofo moderno.. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. simultâneas. É a sua confissão de f transformista. nas duas composições uma coincidência de temas. Aos 17 anos. como amostra. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Pólipo de recônditas reentrâncias. numa caminhada de 31 estâncias. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. chega aos seres mais complexos. Da substância de todas as substâncias. E assim continua. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Quem já o leu uma vez. Do cosmopolitismo das moneras. começa então o drama crucial da consciência.. e—crente no tema. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro.. Larva do caos telúrico. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. facilmente o identifica. identifica-se na substância primeva. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. depois de infinitas transformações. que é a derrota da humanidade. Venho de outras eras. Não há. até adquirir a forma humana. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. poema que abre o Eu e Outras Poesias. por força das sucessivas mutações da matéria. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. enfim. naquela mesma idade em que. Integrado na sociedade. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Encontra-se. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. procedo Da escuridão do cósmico segredo. A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota.. que passou do reino vegetal para o animal. incomparável na forma musicada. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. como bem observa Cavalcanti Proença. todavia. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. já desiludido. já diferenciado na mônada. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. a consciência 10 . A partir da monera. trinta anos antes. fundado na unidade cósmica.reduzir a um campo único a ciência e a arte.

No princípio era o Verbo. dentro do mundo fenomenal. A mesma coisa. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. no princípio era a força. como está dito em Monólogos de uma Sombra. A partir dai. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. manifestou o seu espanto. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. dezenove séculos antes. tantas vezes exaltada pelo poeta. entendia o agregado abstrato da saudade. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. uma espécie de fogo que devora e não consome. conheci um sujeito. Nesse estado d’alma. o sofrimento de toda a humanidade. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. A rigor. diante das maravilhas do aparelho encefálico. ouvia mais que um tísico. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. centro de toda a acuidade sensorial. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. É a concepção monística. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. já havia dito. assombrado com o não-ser. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. Por alma. o remorso já acordado na caverna escura. Por fim. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . que tinha os ouvidos totalmente tapados. no entanto. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. No tocante à transformação da matéria. chamando a si. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos.conspurcada de gozo malsão. natural de minha terra. o que vale dizer. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. temos aí um transformismo metafísico. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. segundo querem os frenologistas. Nada obstante. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. No fundo. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. o vidente de Patmos: . há que distinguir um pormenor. do ponto de vista metafísico. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. O próprio Augusto. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. que a ele não interessava considerar. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. noção trivialíssima das funções orgânicas. com sótão e porão. cuido não estar proferindo uma heresia. numa espécie de solidariedade subjetiva. que faz quase lembrar a reencarnação. entrega-se ao sacrifício. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. em esconderijos apropriados.

o éter cósmico. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. O próprio amor. a matéria putrefata. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. na melhor das suposições. dominado por um ceticismo acabrunhador. desde a epigênese da infância. Por toda parte. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Custa crer que este soneto . Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. A influência má dos signos do zodíaco. Querendo fugir a essas coisas.este operário das ruínas. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida..tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. solta blasfêmias. onde não há lugar para a alegria. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. uma natureza gasta. o lado malsão da vida. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Nem por isso admite Deus. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. causa-lhe repugnância. procura 12 .Fazer a luz do cérebro que pensa. No auge da inquietação. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. fonte inesgotável de vida. Já o verme . Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. rasgar do mundo o velário espêsso. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Monstro de escuridão e rutilância. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. onde imperam sombras. Sofro. Este ambiente me causa repugnância. vermes. impreca. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. só serviu para adensar o clima de alucinação. O mundo em que vive é um vasto hospital. filho do carbono e do amoníaco. procura penetrar o mistério da substância universal. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Ao invés de fecundação do espírito. Exausto da luta. Em tudo. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. admite o éter. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes.Psicologia de um Vencido .. Profundissimamente hipocondríaco. cadáveres e bocas necrófagas. sem problemas materiais: Eu. que é o Deus materialista de Haeckel.

o Eu e Outras Poesias. Algo de mais grave.refúgio na inexistência espiritual. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Com efeito. como se supunha. deve ter acontecido na sua juventude. E é nesta manumissão schopenhauriana. tenta ir ao fundo da crença monística. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. não há homem que sofra mais. no todo ou em parte. uma desgraça na vida do poeta. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Onde quer que se refugie. que ele denomina um sonho ladrão. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. diz ele. que os anos não carcomem. podia fazer dele um triste. Até agora 13 . em suas visões oníricas. sente o desejo. O resultado de bilhões de raças Que. com efeito. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. coberto de desgraças. monstros terríveis. paralelamente. evadido de si mesmo.. a terrível moléstia que se atribui. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. Espera aí encontrar o seu nirvana. Tudo isso. Nenhum pintor. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. com o poder de sua imaginação. Há. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. nem Haeckel compreenderam. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Grita a sua dor por toda parte e. Mas o diabo não larga a sua presa. acompanham-no. Depois disso. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. A julgar pelos seus gemidos. E para não capitular a esse apelo. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Por um instante. Antes de mais nada. numa atitude mental de fuga à realidade. a perda da crença e. gasta imensas energias e enche de culminâncias. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. O subconsciente o aturde. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. E via em mim. já cansado de escutar a natureza..

depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Por mais que Augusto negue o amor. Gozei numa hora séculos de afagos. Lembro-me bem. de uma paixão. inútil seria qualquer esforço.. Ele próprio. desespero virtual e não real. no capítulo do amor. . não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Por mais que procure fugir ao assunto. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . pois. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Por enquanto. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias...A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Por suas próprias palavras. dada a ausência de biografia. em . não pode ocultar que foi vítima dele. Exatamente aí. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. no tocante a esse drama. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. sempre se revela. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. Trata-se. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Iríamos a um país de eternas pazes.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

mas no poema . O poeta. como é sabido.Queixas Noturnas .. ao mesmo tempo que. em mágoa. Como um bemol ou como um sustenido. confessa mais uma vez a sua culpa. contrito. Depois de embebedado deste vinho. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta... E invejo o sofrimento desta Santa.santa.Insônia . Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes..extravasava desta forma o seu lamento: 19 . surpreende com a invocação de Santa Francisca. Sonâmbulo. eu também vou passando Sonâmbulo.. como em . Sonâmbulo. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. nunca foi chegado a santos. que não é das mais invocadas.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Noite. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha..

mas para os que crêem há ainda uma esperança. que não admite a vida espiritual. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. luta por fugir dela. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. Ao pai. o ofício da agonia. ama-o até mesmo na atômica desordem. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Nem uma névoa no estrelado véu. como perseguido pela sinistra ceifeira. sonhando. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. pouco fala. Em . isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. não para ele. apenas três vezes.brada: 20 . quando a morte o olhar lhe vidra.. entre as estrelas flóreas. sem resolver a verdade interior. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. dormir primeiro. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Como Elias. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Ao vê-lo morto.As Cismas do Destino . Minha alma sai agoniada. num carro azul de glórias. Madrugada de treze de janeiro. que parece se deixou levar por pressão da família. Mãe. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Mas pareceu-me. expressa a sua mágoa numa comovente unção. A morte é o fim de tudo. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. entretanto. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. entre estes monstros. Rezo. Da mãe.

Não me parece tenha razão 21 . Aqui. quando recebeu os 22 açoites da natureza. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. levava-o a recolher-se em si mesmo. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino.. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe.. Vivia um mundo à parte. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Minha filosofia te repele.. Já que não crê em Deus. ardendo em indagações subjectivas. habitado por monstros humanos. escravo do raciocínio frio. Por tua causa apodreci nas cruzes. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. embora ansiasse por encontrá-lo. que Augusto era um cerebral. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Nada o consolava nesse estado de espírito. Procura assim desoprimir o coração. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. Acha Flósculo da Nóbrega. Ao invés de ajustá-lo à realidade. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. cheio de imperfeições.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. não cria em Deus. Nestas condições. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente.Morte. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. ponto final da última cena. devia ter na época. Forma difusa da matéria imbele. E ainda. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. 22 anos de idade. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. como em toda a obra. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito.

Era. torturado no sentimento do desamparo. Há. Nem ele próprio se conhecia. Fosse como ele diz. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. De um modo geral. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. noite a dentro. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. como um sonâmbulo. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. No fundo. andar bamboleante. nunca recebeu hostilidades. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. mas no particular. ao contrário. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Na luta em que Augusto se debate. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Punha-se então a passear. de vez que ninguém o compreendia. que o 22 . em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. que só repugnância lhe causava. Depois que o poeta deixou a Paraíba. passos largos. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. que o acolhia com carinho. Não importa que tenha morrido de pneumonia. contudo. em 1912. volta-se vez por outra contra a sociedade. um homem excluído do mundo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. entrava em crise espiritual. Os seus melhores versos. ao redor da capela do engenho.o ilustre intelectual paraibano. mas porque se sente um desajustado. Não que tenha recebido ofensas dela. A inspiração despertava com a dor. tinha-se na conta de um doente. no caso. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. e a mim pergunto. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. sua musa empalideceu à falta de ambiente. conforme declarou nesta honesta confissão. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. o cérebro em fogo. foram produzidos no Pau D’Arco. Ao contemplar esse ambiente. Desta. O que produziu no sul do País. além de pouco. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. os de maior densidade emocional.

numa emoção que comove. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. ansiado e contrafeito. Mais adiante. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Essa real ou imaginária doença. aliada à descrença. que admirar chore um dia a crença perdida. à guisa de ácido resíduo. Em As Cismas do Destino. Não há. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. como um arrependido. Parece que desperta para a vida. em Os Doentes. os acordes saudosos do coração. Eu bem sabia. Já cansado do ceticismo. Perdido o amor. sob os seus pés. eis que escuta. De início. onde os anjos cantavam. em serenata. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. perdeu também a crença. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. imaginária cidade à margem do Paraíba. como se já tivesse perdido o alento de viver. Lá para o fim do poema. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. passa a chorar a sua dor e a alheia.próprio poeta confessava. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. pois. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. 23 . “na urbe natal do Desconsolo”. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Na ascensão barométrica da calma. fez dele um misantropo. hosanas ao Senhor. o soneto Vandalismo. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. num desalento ainda maior. Era ali. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. entra a descrever a cidade dos lázaros. como ele chamava. confessa-se minado pela tuberculose. atormenta-se com a idéia de que. Depois disso. na terra onde pisava.

pois. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Raul Machado. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Sabe-se como compunha. por exemplo. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Santos Neto. Flóscolo da Nóbrega. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. em gemidos de dor. Nesse decurso.. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. que não é biografia e não chega a ser estudo. já na 27ª edição. destaco Órris Soares. Assim é que. este último. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. chegou a dizer que Augusto não era poeta. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . João Lélis e De Castro e Silva. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. posto que. A arte. era apenas o meio de formular soluções. Enfim. para ele. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações.. que se afundava a alma do poeta. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. na Academia Paraibana de Letras. apenas como autor de um livro apologético. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Onde um nume de amor. em serenatas. No desespero dos iconoclastas. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. José Américo de Almeida. há sempre o que referir. Dos outros. João Lélis. Templos de priscas e longínquas datas. Ao contrário da incontinente afirmativa. Sua obra. Álvaro de Carvalho. Canta a aleluia virginal das crenças. tenham bordejado na superfície do abismo em. Não é.Meu coração tem catedrais imensas. No final de contas. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. muitas opiniões foram veiculadas. gostar e não gostar é coisa que se não discute. ler. quase todos. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos.

à primeira vista incompatível com a poesia. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Euclides da Cunha. enquanto forjava mentalmente a composição. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. entrava disciplinada em seus versos. figuras espectrais e outras visões sinistras. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. olhar perdido no espaço. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. associado à vibração sonora. o que acabava de compor. um em 1920. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. num timbre especial de voz. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. insulado em sua própria grandeza. impressionam pelo poder da dialética. túmulos. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. entre nós. Essa incompreensão a respeito de Augusto. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Só depois de elaborada é que ia para o papel. em 1945. Muitas vezes. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. a passear a esmo. a densidade. Essa crítica. reside justamente no termo técnico.devoradoras. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. que não tenha fecundado a poesia nacional. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. certa preocupação inclusive dos simbolistas. como em compasso de música. o que era. também 25 . Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. Seus versos. este na prosa. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Por tudo isso. Em ter ficado sozinho. No entanto. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. de um a outro canto da sala. o sentimento parece ter outra dimensão. Órris Soares. sangue de vísceras dilaceradas. disse que uma das suas forças. Neles. sobretudo da crítica provinciana. essa linguagem. duendes. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. como lamenta o crítico. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. vermes. que pretende ser de interpretação psicológica. o outro 25 anos depois. Cavalcanti Proença. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. a sua personalidade psicológica. lábios crispados. com efeito. claro que avulta ainda mais o seu mérito. na época. lá fora. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. escarros. Em ambos. Foi então que recitou de inopino. Poe e Rimbaud. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos.

Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. é mais uma aversão de olfato alérgico. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Nem por isso. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. por isso mesmo poética. Com Verlaine. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. O anojamento de Álvaro de Carvalho. aparelhou. na interpretação de um drama emocional. Ou então. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Com Mallarmé. de sentido mais profundo. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. não lhe tira o vigor da expressão verbal. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. nem tudo pode ter cabimento. que apenas transparece em linguagem evasiva. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio.ficaram sem seguidores. elogios ou restrições. está em tempo de ser feita. mesmo doentia. Eis porque. Com Baudelaire. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. pela tristeza indefinível da alma. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Há. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Não pode o critico ser ortodoxo. no duelo da carne. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. 26 . num dos seus últimos sonetos. com efeito. a fim de atingir. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Mas é preciso notar que essa musa. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. neste ensaio de exegese literária. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. reconheça-se que essa poesia é humana. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. como se vê. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo.

O único que mencionou Rimbaud.. Augusto lembra Rimbaud. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. visionário. só nesse ponto dissimula o pensamento. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Honesto em tudo. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Só com Rimbaud. a filosofia da dor. em grupos prosternados. De lá de fora. em quem se acumulam. É. A mesma coisa ocorre com Augusto. de uma honestidade quase bravia. encontra-se em Roma. citado por Augusto Meyer. desde a sua fase inicial. num artigo publicado em 1914. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. havia acentuada tendência do poeta. Súbito. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema.. um mês após a morte de Augusto. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Até nas aliterações e metáforas. na postura de um campônio rústico. “Na Eternidade. crematismos. Não fica apenas aí o confronto. isso mesmo de passagem. vem o barulho das matracas. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. as mesmas figuras de linguagem. como neste exemplo: 27 .” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. Ouvindo isso. temida pelo outro. a idéia pura das coisas. no ar de minha terra. Com Antero do Quental. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. numa sexta-feira santa. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas.através da sensação. guardando o corpo do Divino Mestre. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. sensações simples e cenestesias. em tropos ousados. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. Também no amor os dois se assemelham. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Encontra-se. um grande medo toma conta do poeta. os mesmos descuidos de metro e rima. Com Leopardi. por sua natureza. pelo sentido da dor universal. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. palavras raras e eruditas. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. assentado sobre cacos de pote e urtigas. foi José Américo de Almeida. desejada por um. Segundo Delahaye. que dialoga com os elementos imponderáveis. Vez por outra. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. para a neologia e o vocábulo raro. na terra santa. em termos de comparação. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. de mistura com alucinações.

A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Motivos escabrosos. na Bélgica. o bem e o mal caminhando juntos. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. homens de bem cheios de nobres intenções. como Tântalo. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. filha legítima de sua alma. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. poeta. onde se casou com uma nativa da Abissínia. a julgar pelos seus lamentos. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. . A toda boca que o não prova engana. em busca do paraíso terrestre. provo-a. Não sou capaz de amar mulher alguma. Rimbaud. Descasco-a. por causas várias. é como a cana azeda. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. Há. sente-se que há um complexo de culpa. é inútil. em suma. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana.. à beira da água. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. mas que o levaram ao resultado conhecido. ilusão treda! O amor. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. contudo. embora tenham se casado e tido filhos. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. que era o seu anseio máximo. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. um suave concerto espiritual na natureza. chupo-a. Em cada um deles. é verdade. Depois desse fato. Augusto sentia-se puro. E como não 28 . Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. largou-se para a África. exacerbava-a. é improfícuo. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante.. Ninguém sofre mais do que ele. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Nem há mulher talvez capaz de amar-me.”. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. vítima de injustiças humanas.. No tempo de jovem. segundo é fama. uma diferença de fundo entre os dois poetas. andou conspurcado de sensações súcubas. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão.

A vida. Foi a partir daí. quando muito. como fontes de inspiração. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe.. segundo apregoam os fundibulários da crítica. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. mas nem isso acredito tenha havido. porém. Há muitas espécies de conversões em literatura. Augusto vai irredento até o fim. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. Não raras vezes. Possuído do demônio da dúvida. imitação. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. martelada em versos magníficos e candentes. dessa conversão ao materialismo. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. revolta-se contra o mundo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. luz. cor. isto é.pode reformar o mundo. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Mesmo assim. silvos de labaredas e suspiros de empestados. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. 29 . Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. a criação. depois que perdeu a ilusão dos homens. Neste passo. tudo quanto desperta a alma. os mistérios da natureza. Por curioso paradoxo. Tais similitudes valeriam. tudo quanto eleva os sentidos. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. do qual se considerava prisioneiro. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. perfume. deixava-se ficar no interior da concha. isto é. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida.espécie de autobiografia moral. beleza. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. o amor. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. som. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. sem preencher esse vácuo. Um problema sempre gera outro. entre a voz do sentimento e a da razão. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. perdia-se no estado de dúvida. onde não faltavam o ranger de dentes. numa reação inócua. contra a sociedade. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. contra a sua grei.Une Saison en Enfer . nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta.

Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. a propósito. Apurada a eleição e com base no resultado. Se o Cristo não vem em seu auxílio. como ninguém ainda se entendesse. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Todos nós. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. em torrentes de eloqüência. nas Alterosas. Convém. quando não proferida por modo vulgar e chulo. aceitar as imperfeições do mundo. a meu ver. é. que se veja na blasfêmia. viram nisso o pecado da blasfêmia. É o que há. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. todavia. uns afirmando. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. No meio em que viveu era querido e admirado. em meio a tantas emoções extravasadas. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. se manifesta ainda escravo do batismo. é questão que não deve ser formulada. Ao cabo do bombardeio oratório. se sucediam na tribuna. Ora. proclamou que Deus não existe. afetando melindres de devotos. Se há Deus. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. outros negando. a essência dos Evangelhos. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. tal como Rimbaud. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. heresia maior que a do poeta quando. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Os oradores. porquanto Deus é princípio e é fim. um pedido de socorro. com raríssimas exceções. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. mas os que o seguem desconhecem. Isso mostra que ele. na realidade. no desespero de tantos sofrimentos. Vale mencionar. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Alguns críticos.Enredado em idéias preconcebidas. Na prática. 30 . se não há Deus. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. supria-se do mais no magistério particular. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. via de regra. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. resolveu o presidente submeter a questão a votos.

esta árvore de amplos agasalhos Guarda. 31 .” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . os filósofos iônios. vem de muito longe. De outras vezes.atormentado por visões escatológicas. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. E como era sincero e honesto. como se vê. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. desde Tales de Mileto. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. No tempo de meu Pai. A denominação. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. através dos séculos. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Voltando à pátria da homogeneidade. começa o poema “Sou uma Sombra.Debaixo do Tamarindo. De inflexões mentais sua obra anda cheia. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Como uma vela fúnebre de cera. explodiu em As Cismas do Destino. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. entendiam a alma. por mãos de seu filho Pirro. sob estes galhos. virtudes que cultivava com extremado zelo. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. dá à alma a denominação de sombra. o sacrifício da linda moça Polixena. coisa que não cabe na boca de um ateu. Por outro lado. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Abraçada com a própria Eternidade. como uma caixa derradeira. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia.

Daí por diante. mas com o que ai está me contento. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. assaltado de alucinações. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. como entidade eterna. Até Deus. era uma mônada. acrescenta. vacilante na ciência fria. até mesmo num grão de areia. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. Assim vai. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. até que morre numa cidade das Alterosas. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. em soluços quase humanos. a 12 de novembro de 1914. virtualidade espiritual. Mais poderia dizer agora. tal como se apresenta. perdendo-se novamente no enleio cósmico. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. tal como a entendiam os filósofos iônios. as formas microscópicas do mundo. da substância de todas as substâncias. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. mas dentro da alma aflita Via Deus . larva do caos telúrico. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. Que outros. em briga com o dualismo. nas composições que vão até o fim do livro. Choram ainda dentro dele. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. É a substância primeva. para ele. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. desde o declínio das crenças mitológicas. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. aos 30 anos de idade. sua intimidade numenal. !" Este trabalho. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. na Federação das Academias de Letras do Brasil. que procede do éter cósmico. 32 . à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. em Leopoldina. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. isto é.

presumo. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. dos Anjos e D. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. entretanto. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. R. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Engenho Pau d'Arco. Sofre de insônia. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Córdula C. o que não impede. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. da chamada vida física. Eu. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. de abusar um pouco do café. Tenho insônia raras vezes. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. 33 . Rio de Janeiro. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Conservo de memória tudo quanto produzo. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado.

Na frialdade inorgânica da terra! 34 .este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Esforços faço.. E há de deixar-me apenas os cabelos. Chego A tocá-lo. Monstro de escuridão e rutilância. Fecho o ferrolho E olho o teto. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Sofro. Ao meu quarto me recolho. E vejo-o ainda. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. A influência má dos signos do zodíaco. Este ambiente me causa repugnância. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.. filho do carbono e do amoníaco. Já o verme -. agora. Ergo-me a tremer.. desde a epigênese da infância. igual a um olho. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Produndissimamente hipocondríaco. Minh’alma se concentra.. Meu Deus! E este morcego! E.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.Digo. e à vida em geral declara guerra. “Vou mandar levantar outra parede.” -.

e depois. Que. Marcas oriundas de úlceras e antrazes.. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. em desintegrações maravilhosas. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. raquítica. Riem as meretrizes no Cassino. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes.. tênue. Delibera. À noite. Chega em seguida às cordas da laringe. Quebra a força centrípeta que a amarra. e quase morta.. Tísica. Anoitece. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. mínima. quando sonha. Mas. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos.. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Deixa circunferências de peçonha. de repente.

E. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Realizavam-se os partos mais obscuros. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância.. em letras garrafais. Que poder embriológico fatal Destruiu. Tragicamente anônimo. com a sinergia de um gigante.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros .Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Fruto rubro de carne agonizante. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. feto esquecido. Em que lugar irás passar a infância. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Agregado infeliz de sangue e cal.. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 .

Filho da teleológica matéria.é o seu nome obscuro de batismo. arrima-a.. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Cão! -. acode-a A escala dos latidos ancestrais. ampara-a. Almoça a podridão das drupas agras.. em que tu dormes. E irás assim. Ah! Para ele é que a carne podre fica. afaga-a. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .. Livre das roupas do antropomorfismo.. Janta hidrópicos. E vive em contubérnio com a bactéria. pelos séculos adiante.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Suficientíssima é. para provar A incógnita alma. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Na superabundância ou na miséria. Verme -.

. de amplos agasalhos. Voltando à pátria da homogeneidade. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Dr. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . como uma caixa derradeira. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Como uma vela fúnebre de cera. Guarda.. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. esta árvore. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração.. sob estes galhos. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. esta tesoura. e.corte Minha singularíssima pessoa.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. portanto. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo.

com o esqueleto ao lado. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Na guturalidade do meu brado. -. Como um pagão no altar de Proserpina.. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Por trás dos ermos túmulos. por toda a pro-dinâmica infinita. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. mas dentro da alma aflita Via Deus -. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. como quem tudo repele. Alheio ao velho cálculo dos dias. um dia.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 .. com uma ânsia sibarita.

Oh! Mãe original das outras formas. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. como um gado vivo. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Nos estados prodrômicos da vida. Onde os bandalhos. mísera e mofina. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és.. moços do mundo. Ah! De ti foi que. talvez.. Como quase impalpável gelatina. nesta rede.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Todas as noites. Em que é mister que o gênero humano entre. autônoma e sem normas. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Dentro do ângulo diedro da parede. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. vede: É o grande bebedeouro coletivo.

É a morte. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. perante a evolução imensa. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. para o amor sagrado. Amo o coveiro -.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira... Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . Creio. É. é o ego sum qui sum . e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. é o pneuma .IDEALISMO Falas de amor.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. O mundo fique imaterializado -. como o filósofo mais crente.

Cinzas. Vaguei um século. subi talvez às máximas alturas. como os sonhos dos selvagens. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. cartilagens Oriundas... Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. improficuamente. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . talvez as Musas. caixas cranianas. Comi meus olhos crus no cemitério. se hoje volto assim. Era tarde! Fazia muito frio. com a alma às escuras.. e. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio.. inclusas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. nele. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. À meia-noite.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Pelas monotonias siderais. Mas.

no Dia de Juízo. Se fosses Deus. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. trilhos. reunidos. Na multiplicidade dos teus ramos. tuas sementes! E assim. porém. para o Futuro.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. glebas. em diferentes Florestas. Tamarindo de minha desventura. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. Eu. selvas. Tu. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão.fontes de perdão -. inda teremos filhos! 43 . vales. Depois da morte. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Pelo muito que em vida nos amamos. pois. com o envelhecimento da nervura.

adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. nos doze meses.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 .. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. asa De mau agouro que. Apraz-me... como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Na orgia heliogabálica do mundo. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Ter o destino de uma larva fria. na hierarquia Das formas vivas.. à categoria Das organizações liliputianas. Perseguido por todos os reveses. Como a cinza que vive junto à brasa. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Como os Goncourts. Ganem todos os vícios de uma vez. É meu destino viver junto a esa asa. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. É-me grato adstringir-me.

“O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. É como o paralítico que. Ouvindo a Escada e o Mar. em desalento. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto.. conquanto ainda hoje em dia. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. com os dedos brutos Para falar. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. mamífero inferior. o Hércules. a mim. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . aos soluços. “Homem. “À luz da epicurista ataraxia. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. puxa e repuxa a língua. violento. rasga o papel. o Homem.. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor.

. Furtaste a moeda só. Eu furtei mais. Que a mim somente cabe o furto feito. hipócrita. Tu só furtaste a moeda. Vejo. mas eu. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. ralhava.. Em sucessivas atuações nefastas. o ouro que brilha.. Que ela absolutamente não furtava. não fora ela! --“ E maldizia a sina. após tudo perdido. afetava Susceptibilidade de menina: “-. minha Mãe.. Ele hoje vê que. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. então. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Sinhá-Mocinha. em minha cama. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. entretanto. como cruéis e hórridas hastas. agora. minha ama.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram.Não.

.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. do que este que palmilho E que me assombra... num festim.. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.a mãe comum -. É noite. após a árdua e atra refrega. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. E tu mesmo. Hoje. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. porém... os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. igual a um porco. Assim Tântalo. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. à noite.. aos reais convivas.o brilho Destes meus olhos apagou!. Hás de engolir. e.. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.

gemendo. é justo. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -.. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Tu. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso... pois. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Irei também. Às alegrias juntam-se as tristezas. para amenizar as dores tuas. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Pai.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. trilhando as mesmas ruas. O que o homem ama e o que o homem abomina.. e sendo justo. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. para onde fores. Deus não havia de magoar-te assim! 48 .CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. o Ódio e a Carnificina. Eu. e o ângulo reto. O Amor e a Paz. meu Pai?! Que mão sombria. Deus. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.

cuidei que ele dormia.. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. sonhando. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Como Elias... como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Rezo. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Nem uma névoa no estrelado véu. Mãe. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. o ofício da agonia.. E a marcha das moléculas regulam. Mas pareceu-me. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. num carro azul de glórias. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. entre as estrelas flóreas.

por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.Meu pai. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa.. possui minh’alma!. pois. pai. para que eu viva!” E quando a árvore..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter.Disse -. meu filho.. sôfrega e ansiosa..As árvores. enfim. -. É preciso cortá-la. no junquilho. Apraz-me. meu pai. Esta árvore. numa rogativa: “Não mate a árvore. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . Livre deste cadeado de peçonha. Para que eu tenha uma velhice calma! -. olhando a pátria serra.. meu filho. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. Caiu aos golpes do machado bronco.e ajoelhou-se....

E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.. não tens mais! E pois. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Olha a atmosfera livre. Tu nunca mais verás a liberdade!. Pões-te a assobiar. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. o amplo éter belo.. Continua a comer teu milho alpiste.. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. de à antiga rota Voar.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. bruto. mergulhou a cabeça no Infinito. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota.. desde o mais prístino mito. preto e amarelo. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Foi este mundo que me fez tão triste. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito.

Ante o telúrico recorte. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. cismava Em meu destino!. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Onde um nume de amor. Noite alta. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu.. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.. ególatra céptico. Templos de priscas e longínquas datas. em serenatas.. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .. Canta a aleluia virginal das crenças. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. na diuturna discórdia. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava.

o gládio de aço. é a véspera do escarro. e. E qual mais pronto. Apedreja essa mão vil que te afaga. veio um atleta. Toma um fósforo... ao todo. entre feras. que. uns cem. guerreiro. A mão que afaga é a mesma que apedreja. por fim.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. toma A adaga de aço. Mora. E à rutilância das espadas. Meu coração triunfava nas arenas. amigo. Vieram todos. Acende teu cigarro! o beijo. sente invevitável Necessidade de também ser fera. nesta terra miserável.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. E não pôde domá-lo enfim ninguém. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. e doma Meu coração -. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Veio depois um domador de hienas E outro mais. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . por fim. Somente a Ingratidão -.

é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. pancada por pancada. a que só ele assiste... em sons subterrâneos. No rudimentarismo do Desejo! 54 . pois.. a escutar. Ouço. do Orbe oriundos.. Sabe que sofre.. Da luz que não chegou a ser lampejo.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. podendo mover milhões de mundos. A sucessividade dos segundos. E é em suma.. chorando. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Da transcendência que se não realiza. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. nada há que traga Consolo à Mágoa. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. Quer resistir. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. Que. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa.

pensando. me desencarcero. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Cesse a luz. num grito de emoção. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Parem as vidas. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. sincero Encontrei. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. feito força. Foi que eu. Morto o comércio físico nefando. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Como a última expressão da Dor sem termo. a animar o cosmos ermo. eu. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. De que. que os anos não carcomem. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. afinal.

sem retumbância. o olfato e o gosto! Carne. ao sol posto. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. a irmanar diamantes e hulhas. Em tua podridão a herança horrenda. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. e. pois.. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. arpões. Era. Dói-me ver. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade.. Onde a alva flama psíquica trabalha.. feixe de mônadas bastardas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Diafragmas. muito embora a alma te acenda. o ouvido. decompondo-se. A dardejar relampejantes brilhos. há inúmeros milênios. sem gritos. numa alta aclamação. "Com essa intuição monística dos gênios. E o Homem — negro e heteróclito composto. a vista.. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 .

na noite escura. Tragicamente. e. opondo-se à Inércia. à espera de quem passa Para abrir-lhe. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga.. É a síntese. para mim que a Natureza escuto. E o nada do meu homem interior! 57 ..O PÂNTANO Podem vê-lo. sem dor. a porta. é o transunto. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. A convulsão meteórica do vento. meus semelhantes! Mas. no Mundo. às escâncaras. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. é a essência pura. Este pântano é o túmulo absoluto. Que produz muita vez.

Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. em realidade. E hás de crescer.. no teu silêncio.A UM GÉRMEN Começaste a existir. oh! gérmen. entanto. Volvas à antiga inexistência calma!. geléia humana. O espanto Convulsiona os espíritos. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. em conjugação com a terra nua. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. ainda algum dia. não progridas E em retrogradações indefinidas. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. deprimindo-o . "Menos interiormente me conheça?!" 58 . é natural.. Antes o Nada. Teu desenvolvimento continua! Antes. que ainda haveres De atingir. e. como o gérmen de outros seres. um dia. Vence o granito. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. porventura.. Reconcentrando-se em si mesma. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. geléia crua. causa do Mundo. tanto Que..

São absolutamente negativas! Araucárias. E a coorte Das raças todas. é inquietude.. Vivem só..Todas as hermenêuticas sondagens. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. é ânsia. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . Bracejamentos de álamos selvagens.. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. É a Natureza que.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. é o instinto horrendo De subir. traçando arcos de ogivas. trancada num disfarce.As ambições que se fizeram troncos. é transporte.. . no seu arcano. . nele. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Como um convite para estranhas viagens. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. os elementos broncos.... descendo A irracionalidade primitiva. na ordem cósmica..

psíquico tesouro... É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. sem convulsão que me alvorece. ancoradouro Dos desgraçados. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. oh! Dor. inteira. saúde dos seres que se fanam. em suma..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. E.. acérrima e latente.. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Dói-lhe. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. Que o sarcófago. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. sol do cérebro. À humana comoção impondo-a. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. Riqueza da alma.. assim..

ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. ) Com o vosso catalítico prestígio. Minha continuidade emocional! 61 . Dai-me asas. pois. Haveis de ser no mundo subjetivo. Benditos vós. Dai-me alma... Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . em épocas futuras. que. para o último remígio. Ions emanados do meu próprio ideal. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Expressões do universo radioativo.. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea.. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. pois..

. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. O cosmos sintético da Idéa Surge.. as mãos.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. A espaços As cabeças. Arranco do meu crânio as nebulosas.. A carne é fogo. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . então. os pés e os braços Tombara.. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Emoções extraordinárias sinto. Eu sinto. A alma arde. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Subitamente a cerebral coréa Pára. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.

Receando outras mandíbulas a esbangem. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Montão de estercorária argila preta. tragando a ambiência vasta. e. Sangram-te os olhos. Hebdômadas hostis Passam. Os dentes antropófagos que rangem. carne sem luz. o alfa e o omega Amarguram-te. na ânsia voraz que. os dois Representam... enquanto as almas se confrangem. Teu coração se desagrega. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Deixa a tua alegria aos seres brutos. criatura cega. ávida. No desembestamento que os arrasta. na superfície do planeta. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Excrescência de terra singular.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Superexcitadíssimos. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . entretanto. aumenta. Porque. Rugindo. Realidade geográfica infeliz.

MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. homens felizes. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo.. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Que força alguma inibitória acalma. E trago em mim. O Amor. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. o Inferno. sou maior que Dante. a Ciência... soluçando. mordem-se. Da dor humana. Sob pena. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. a Glória. aparelhou. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante.

à luz de fantástica ribalta. Entoado asperamente. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Teço a infâmia. em voz muito alta. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Existo Como o cancro.. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. não cabendo mais dentro dos peitos. a alardear bárbaros sons abstrusos.O CANTO DOS PRESOS Troa. a exigir que os sãos enfermem. (Hoje. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. ontem. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. urdo o crime. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração... cresto o sonho. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.. È a saudade dos erros satisfeitos. O epitalâmio da Suprema Falta. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Uiva. Que.

. enfim. apreendo. como um corvo. minha alma. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. Transponho ousadamente o átomo rude E. O Infinitésimo e o Indeterminado. por fim..VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. transmudado em rutilância fria. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. Feita dos mais variáveis elementos. Ceva-se em minha carne. Nos paroxismos da hiperestesia. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .. o Céu e o Inferno absorvo. à noite. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. agarro.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. dona. invado.. o Infinito se levanta À luz do luar. ausculto. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.

. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. Laquesis.. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Tifon. como um astro. Como a luz que arde. arder.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Átropos. aos trismos Da epilepsia horrenda. como a luz do amanhecer. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. Siva. E acima deles.. Sentia dos fenômenos o fim. projetado muito além da História. Eu. num monturo.. virgem. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair.

A estrutura de um mundo superior! Alta noite.. Folhas e frutos.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. E. entanto. tenta transpor o Ideal. nem mesmo ao ronco Do furacão que.. neste ergástulo das vidas Danadamente. a soluçar de dor?! -. alarga-se em meu hausto. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei.Trilhões de células vencidas.. rábido.. a afagar tantas feridas.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.. nas minhas formas carcomidas. Nutrindo uma efeméride inferior. remoinha. Roem-na amarguras Talvez humanas. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. Branda. às apalpadelas e às escuras.. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. Grita em meu grito. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . Hão de encontrar as gerações futuras Só.. esse mundo incoerente. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que.) Quem sou eu.

revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. em cisma abismadora absorto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Apreendo. Massa palpável e éter. Sou eu que.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. -.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. feto vivo e aborto. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. -. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. aliando Buda ao sibarita. sânie e perfume. desconforto E ataraxia.. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. ateando da alma o ocíduo lume. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. em que me inundo. Penetro a essência plásmica infinita.. hirto. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia.

Tal é. três. crânios. cérebros. somente em. cinco. rádios e úmeros. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.. por hipótese. dois.. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. -. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. quatro. sem complicados silogismos.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. em fúlgidos letreiros. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. infinita como os próprios números.. Porque. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . na abismal sustância informe.. Reduzir carnes podres a algarismos. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética.

Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. recalcados. e dize-me. em contrações de dor. Quem sabe. me semente. amam jazer. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. alma. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. Estacionadas. porventura. oh! delumbrada alma. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Qual é. Por um abortamento de mecânica. na natureza espiritual. De onde rebenta. a alma. perscruta O puerpério geológico interior. afinal. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. assim.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. íngremes. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 .

.. Federações sidéricas quebradas.. alçando o hirto esporão guerreiro. derrubadas. subjugue-as ou difarce-as.. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. em noite aziaga e ignota. E eu só. babando...APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. que o Éter indica. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica. e. sonha! Mágoas. integérrima. a amarra agarrada à âncora. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. o último a ser. derrota Na atual força. É a subversão universal que ameaça A Natureza. Pára e. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. da Massa. pelo orbe adiante. Espião da cataclísmica surpresa. se as Tem.

Arrancar. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. que ela encheu. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. cave. Sôfrego.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. e. em que arde o Ser. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. ao cabo do último milênio. adstrito à ciência grave. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Dentro dos ossos. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Tragicamente. E quando. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. o dolo sáxeo. Os nossos esqueletos descarnados. num triunfo surpreendente. Para a perpetuação da Espécie forte.. Haurindo o gás sulfídrico das covas. ainda depois da morte. Em convulsivas contorções sensuais.. vazio! 73 .

com um berro bárbaro de gozo. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter.. vendo sangue. iguais a espiões que acordam cedo. há instantes. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Horrível! O osso Frontal em fogo. fora. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 .. Disse. Ia talvez morrer. E amou. Extraordinariamente atordoadora. Na mão dos açougueiros.. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios... À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. eis que viu. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. antes do almoço. E. mancha a gleba. Olhou-se no espelho.. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Viu vísceras vermelhas pelo chão.. A água transubstancia-se. Era tão moço.. Somente.

Rasgo dos mundos o velário espesso. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. Leio o obsoleto Rig-Veda.. me não consolo. reconheço O império da substância universal ! 75 ... E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. E em tudo igual a Goethe. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. ante obras tais. E... dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. No mar de humana proliferação..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.

Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Eu a bendigo da descrença. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. imóvel. Fora da sucessão. A Idéia estertorava-se. 76 . resignado. E o coração me rasga atroz. Tragicamente de si mesmo oriundo. Hirta. E assim afeito às mágoas e ao tormento. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Porque eu hoje só vivo da descrença. Mas que no entanto me alimenta a vida. estranho ao mundo. ao meu lado.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Parecia dIzer-me: "É tarde. P’ra iluminar-me a alma descontente. atro e subterrâneo. Se acende o círio triste da Saudade. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Para dar vida à dor e ao sofrimento. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa..O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Era de vê-lo. em meio. imensa. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.

Cansado de lutar no mundo insano.a Grande Mãe .ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . volvi ao ceticismo. de ilusões tão bela. seu olhar magoado. e então sereno. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam.o exorcismo Terrível me feriu. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Da Igreja .Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Fraco que sou. desgraçado réu. em fundo misticismo: . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.Todas se foram num festivo bando. Ah. Fugazes sonhos. entre o medo que o meu Ser aterra. gárrulos voando .Oh! Deus. Hoje ela habita a erma soledade. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Onde a dúvida ergueu altar profano. eu creio em ti. Não sei se viva p’ra morrer na terra. sombras cor-de-rosa . CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.

Exausto de pisar mágoas pisadas. Eterno pegureiro caminhando. Quando a morte matar meus dissabores. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Sombrio e mudo e glacial. num mês de tantas flores. Ouvi. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Morreram todas. Tristes fanaram redolentes rosas. todas sem olores. senhora. senhora. pálidas agora. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. de amor ferido. E que tornou-o assim. triste pela vida afora. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. SENHORA Ouvi. tristes. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras. Desfeitas todas num guaiar dorido. triste e descrido. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade.MÁGOAS Quando nasci. amei. Minh’alma levo aflita à Eternidade. langorosas. Todas murcharam. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Cansado de chorar pelas estradas.

E voltou. mas a fronte aureolada.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Tu que. Louco vivia. coração amargurado. Era o soldado. venceu batalhas. Alma arrancada do prazer do mundo. 79 . Mas a Pátria chamou-o. pendeu triste e desmaiada. Cantaste e riste. No sepulcro da loura virgem bela. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Oh! Tu. na estrada da existência em fora. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Altivo lutador. Alma viúva das paixões da vida. Vivia alegre o vate apaixonado. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. um tresloucado. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. e o pesar negro e profundo. E fica no teu ermo entristecida. Ao chegar. olímpica e singela! E partiu. enamorado dela. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Esconde à Natureza o sofrimento.

silentes. Vinha rompendo a aurora majestosa. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. E a mesma frase o noivo repetia.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Fora no campo pássaros trinavam. Ambos unidos soluçara um beijo. Há de chegar. no eternal soluço.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. funéreos. São minhas crenças divinais. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. pálidos. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Chegara enfim o dia desejado. Desliza então a lúgubre coorte. ardentes . Era o supremo beijo de noivado! 80 . Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Resvalando nas sombras dos ciprestes. a brisa respondia. Quando da vida. soturnais. Hoje rolando nos umbrais marmóreos.

Mas se das minhas dores ao calvário. Assim a turba inconsciente passa. Em luta co’a natura sempiterna. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. 81 . No delírio. E espuma e ruge a cólera entranhada.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Espumando e rugindo em marulhada. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Dores que ferem corações de pedra. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Aí existe a mágoa em sua essência. A morte me será vingança eterna. porém.

Pois se da Religião fizeste culto. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Quantos. estulto.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Irmão querido. Somente assim festejarei teus anos. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Su’alma livre para o Céu se alara. num abraço de ternura santa. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Enquanto outros que podem. Jóias. bom Papá. bonecos de formoso busto. Foste do amor o mártir sacrossanto." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Morrera um dia desvairado. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Tu’alma ri-se descuidosamente. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. dão-te enganos.

Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. mornos. esta mulher de grã beleza. Dançavam-lhe no colo perfumado. A chama cruel que arrasta os corações. Bela. Moldada pela mão da Natureza. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. tomando a enxada gravemente. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Balbuciou. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. amigo verdadeiro. Do destino fatal. presa. No entanto. aveludado. divina. palpitantes. Tornou-se a pecadora vil. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Os seios brancos. Do fado.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida.

Ai! não. Assim canta também meu coração. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. . dolente.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. E as mesmas monjas sempre tristurosas. não acordeis. addio. E as mesmas portas impassíveis. Eleonora. addio! 84 . desnudas. E à noute quando rezam na clausura. Trovador torturado e angustioso. mavioso.Addio. Que guardam cinzas de ilusões passadas. úmidas arcadas. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Que guardam pér’las de funéreas rosas. No sigilo das rezas misteriosas. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. os sons esmorecendo. Subindo pelo Azul da Inspiração. pouco a pouco. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Repercute.

para guardar a mágoa oculta. . porém. gargalha.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Da desdita ferida pelo espinho. os teus fulgores. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Eu sei a sua história. Canta. Chora.O segredo d’um peito torturado E hoje. Primavera. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. o triste outono. Moça. a desgraçada estulta. tão moça e já desventurada. No sudário de mágoa sepultada. Num sepulcro de rosas e de flores. Arca sagrada de cerúleos sonhos.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. O cabelo revolto em desalinho.a veste desgrenhada. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende.coração saudoso. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Vai morta em vida assim pelo caminho. soluça .

Sirva-te a crença de fanal bendito. portanto. tristonha .avança! E eu. É minha sina perenal. ela não cansa. delirante e vário.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Senhora. Salve-te a glória no futuro . Também como ela não sucumbe a Crença. que vivo atrelado ao desalento. Também espero o fim do meu tormento. Voltam sonhos nas asas da Esperança. eu trajo o luto do passado. Muita gente infeliz assim não pensa. Foi outrora do riso abençoado. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. ergue o teu grito. Sonâmbulo da dor angustiado. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. O berço onde as venturas se embalaram. 86 . EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. túm’lo do prazer finado. Mas não queiras saber nunca. No entanto o mundo é uma ilusão completa. não busques saber por que. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. risonha.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Vão-se sonhos nas asas da Descrença.

Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Quando o rosário de seu pranto rola. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. santíssima. Tenta às vezes. Sombra perdida lá do meu Passado. porém. Chora . Quem me dera morrer então risonho. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. sublime na Descrença.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Mas volta logo um negro desconforto. Bela na Dor. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça.

ama. Na altura Imensa. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. crê em Deus. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. púbere. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Dorme talvez.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. mimosa. Enquanto o amante pálido. Estende o teu olhar à Natureza. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem.. e. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. a fronte triste. Essa sublime adoração do crente.. nevada. As níveas pomas do candor da rosa. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Branca. pois. a seu lado Medita.

Vai Corina mendiga e esfarrapada. Tem pena dessas cinzas que ficaram. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. dos proscritos. Dos romeiros saudosos da desgraça. . E na choça a lamúria que traspassa O coração. A romaria eterna dos aflitos. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. coveiro. A procissão dos tristes. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. A alma saudosa pelo amor vibrada.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. além. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . porém. o meu Passado.Quero abraçar o meu passado morto. Entre todos. Eu vivo dessas crenças que passaram. .TEMPOS IDOS Não enterres. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. lânguida e bela.A Stella Matutina da Desgraça! 89 .

SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Perto. Hermeto Lima Adeus. suspirando. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Fitando o abismo sepulcral dos mares.eu disse. ADEUS. apenas restam mágoas. 90 . A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. adeus. se eleva em busca do infinito. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Cheia da luz do cintilar de um astro. Saí deixando morta a minha amada. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Auroreando a humana consciência. adeus! E. devassando a terra. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Voa. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando.ADEUS. Sulcando o espaço. ADEUS! E. É como um despertar de estranho mito. Para mim no mundo Tudo acabou-se.

. tristonho lírio.Vai-te. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Viu o adeus que do Céu ela enviava. onde não pousa a desventura.A sombra deste afeto estiolado. Mas a noute chegou. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. E eu disse . triste. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Envolto da tristeza no delírio. Lá onde nunca chegue esta saudade. irmã pálida da Aurora. Estrela esmaecida do Martírio. Disse.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza.LIRIAL Por que choras assim. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. com ela Negras sombras também foram chegando. Minh’alma que de longe a acompanhava. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 .

E todo o dia eu vou como um perdido De dor. e eu gemo o último harpejo. E dos lábios de Dulce cai um beijo. O olhar azul pregado n’amplidão. 92 .A PRAÇA ESTAVA CHEIA.o criminoso . Morre-me a voz. o olhar enlanguescido. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. isento de pecado. Pedir a Dulce. perdão. Estendo à Dulce a mão. A esmola dum carinho apetecido.então. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. E na atitude do Crucificado. dai-me u’a esmola . E eu balbucio trêmula balada: . Vítima augusta de indelével falso.. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. a fé perdida. Puro de crime. a minha bem amada. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A.. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.Senhora. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. A praça estava cheia. por entre a dolorosa estrada. Depois. o algoz .e estertorada A minha voz soluça num gemido. E ela fita-me.

crença Perdida . acolhe-me. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. Há perfumes d’amor . nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. obumbra-me em teu seio. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . E hás de tombar um dia em mágoas lentas. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Gênio das trevas lúgubres.. Empenhada na sanha dos abutres. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E as trevas moram. Num desespero rábido. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. assassino. Lá. e. onde d’água raso O olhar não trago.segue a trilha que te traça O Destino.. ave negra da Desgraça.

Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Que o céu reflete. Os nimbos das procelas desta vida. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. O MAR O mar é triste como um cemitério. Quando vos vejo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . a vida é qual risonho Batel. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. e a alma é a Flâmula do sonho. dentre a escura Treva do oceano.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. sem bruma Que a transparência tolde. Treme na treva a púrpura da tarde. sem nenhuma Nuvem sequer. Reflete a luz do sol que já não arde. Mas quando o céu é límpido. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Abismados na bruma enegrecida. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Banhando a fria solidão das fragas. então. Que o guia e o leva ao porto da bonança. num mar de esp’rança. só descanta.

ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.) Nessas paragens desoladas. Agora.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . Adeus oh! Dia escuro. Anseios d’alma aqui se perdem. é desengano. Ascende à Claridade.o Sol que as almas doura! Fugiu. O grande Sol de afeto .. Hoje é trevas. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. agita as tuas asas. Dia do meu Passado! Irrompe. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. e em si a Luz consoladora Do amor . Triste criança virginal. Cantarias do amor a primavera. o meu único Norte.. Aurora morta. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. FOGE! Aurora morta.1902 95 . foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. oh! Minha Mágoa. meu Futuro. quem dera Voar est’alma a ti. é dor.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. lá nos espaços.1902 AURORA MORTA.. E eu ergo preces que ninguém responde. Nem vibra a corda que a saudade esconde. foge ..

Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. e. emergindo às trevas que a negrejam. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.NO CAMPO Tarde. Sonorizando os sonhos já passados. Ah! num delíquio de ventura louca.1902 96 . as flores também choram Num chuveiro de pétalas. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. no teu riso de anjos encantados.Cítara suave dos apaixonados. E há.a Louca tenebrosa. Quando. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Pendem e caem . as águas límpidas alvejam Com cristais. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. ao luar.. nitente. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Chora a corrente múrmura. No alto. entretanto. à dolente Unção da noute. chorando enfloram.. despertando sonhos. Branca. Bendito o riso assim que se desata .

Também envolta num sudário — a Dor. que a virgem chora. é como os prantos Níveos. Derramam a urna dum perfume vário. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Pau d'Arco -1902. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. se duas eu tivera. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. E a lua é como um pálido sacrário. Flor dos mistérios d'alma. 97 . A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. eterna noctâmbula do Amor. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Ah! como a branca e merencórea lua. sacrossantos. Eu. virginais aromas De essência estranha. noctâmbulo da Dor e da Saudade. Se evolarn castos. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. P'ra desvendar os seus segredos santos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902.

pompeia a luz da branca aurora. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. vindo de profundas fráguas. Um dia morto da Ilusão às bordas. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. Ali. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Que desespero insano me apavora! Aqui. chora um ocaso sepultado. Choras.. a lua é triste e calma. bandolim do Fado.. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. . Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Teu canto. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Quando alta noute. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . sonhar novas idades. e ilusões acordas. soluças. Tanto que cantas. E vais aos poucos soluçando mágoas.Quero Correr em busca do Futuro.Quero partir em busca do Passado. Tanto que gemes.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .

Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. NA ETÉREA LIMPIDEZ. E eu quis beijar-te o lábio redolente. Fulgia a bruma para sempre.Foge. grave e lenta.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. Na etérea limpidez de um sonho branco. O céu tremia em seu trevoso flanco.. à voz de Lúcia.. mas eis que neste enleio.ARA MALDITA Como um'ave. E beijei-te. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. e como Lúcia. caindo dos altares. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. agora. Caíste morta ao celestial preceito. Tocando n'ara negra o níveo seio. qual hóstia. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Meiga. cindindo os céus risonhos. O sol. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. também ria! 99 . alegre e rubro. E. E eu vi os seios teus virem inconhos . Quiseste-me beijar a ara do peito. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. tu vinhas a cindir os ares. Foste caindo n'ara dos meus sonhos.

o Mundo se concentre. e. eis que emerges. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Diluis teu peito em sensações profundas.ei-lo que avisto. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. luminosa. Flores mortas da Aurora. a Virgem Mãe dos céus escampos. urnas de Sonho. o túmulo da Crença. E a lua. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Que beija a terra e que abençoa os campos. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário.A colunata êxul do Sonho Morto . Sentes o peito em ânsias revoltadas. Que. E. Agora. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio.o círio Da Quimera Falaz. a rasgar o lúrido sacrário. ao ver-te nua. ante o branco estendal das madrugadas. Mas. Longe das sombras aurorais e amadas. em bando. Nua. e. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . em banho ideal de amor te inundas. E a rasgar. E em mim como no Templo.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas.

e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência..O sol a segue. Colmado o seio de virentes flores. Etéreo como as Wilis vaporosas. tudo! Quando Ela passa. Embaladas no albor da adolescência. . tudo chora.. como o sol .Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.A PESTE Filha da raiva de Jeová . Como o Cristo sagrado dos altares. Plena de graça. e a Peste ri-se. formosa.. 101 . formosa entre as formosas.É o castigo de Deus que passa mudo! .o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. A alma diluída em eterais cismares.. Quero-te assim . enquanto Vai devastando o coração das casas. semeando a Morte..a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . entre esplendores..Fúlgido foco de escaldantes brasas . ela.

Chegou a Noite. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. a teus pés.. Eu venho arrependido. pelo mundo.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos... pátria da Aurora exilada do Sonho! .. .. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. o meu Sonho morreu! Perdão...CÍTARA MÍSTICA Cantas. Açucena de Deus.. Como o santo levita dos Martírios. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . pois. assim. insânia. eis-me a teus pés. meu anjo. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. perdoa o teu vencido. penseroso e pasmo.Irei agora.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . ah! ninguém me responde. insânia. E para mim.

e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . que da Desgraça veio Maldito seja. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Banhou-me o peito. Da Messalina fria no regaço. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. sem Calvário. Por um Cocito ardente e luxurioso. porém. Onde nunca gemeu o humano passo. e..Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço.. no Inferno do Gozo. Turificando a languidez dum seio! O amor.. Em ânsia de repouso. . Mas..AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. supremos.

num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. .E tu velas.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. eu que te almejo. desvalida e nua! E o olhar perdi.. também da Dor.. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. Ah! que um dia da Vida.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. mulher. a noute é tumbal. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. a sós. Sombra de gelo que me apaga a febre... lá dos braços hercúleos. E vi-te triste... e a saudade da infância... estes dardos acúleos Caíam. eu vi... Como um'alma de mãe.SOMBRA IMORTAL . me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. .. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua.. E estavas morta.

. e é noute de fatais abrolhos.. Branca bem como empalecido arminho. profundo?! Rumores santos.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . no negror me abrasa. Bendita a Santa do Carinho. e no Santo harpejo. entanto. Alvorejando em arrebol de prata. Choras. Chegaste. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. o seio branco. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Que canto é este.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. chegando.. ajoelhando à imagem do Carinho.. Pérolas e ouro pela serrania.. Alva d'aurora. Uma pantera foi se ajoelhando.. Que luz é esta que das brumas vasa. O roble altivo entreteceu4e um ninho. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. te acolheu a mata. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. E um canto vai morrer no vale fundo... virginal. tu. Somente tristes os teus olhos vejo. inata! E. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. e. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz..

E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Qual rosa branca que ao tufão vacila. mórbidos encantos. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. e lânguida. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila.. no Alto... Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Já Vésper. Fria como um crepúsculo da Judéia. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Triste como um soluço de Dalila. 106 .

adormecida. Riso.Fogo sagrado nos festins da Morte . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . os gaturamos Num recesso de névoa... querida! Já é Ave-Maria .quem mede-o?! . saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.Eterno fogo. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . Na Via-Látea fria do Nirvana. clown da Sorte . que ao frio alvor da Mágoa Humana.A hora dos tristes e dos descontentes. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. QUERIDA! Vamos. No ar. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . sonolento e tardo. Silfos morriam.O RISO "Ri. e a todo o seu assédio.. coração.Ele.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas..o voltairesco clown .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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) Chove. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. violentos. Os ventos. E em meio ás refrações verdes e hialinas. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. NOTURNO (CHOVE. Surge agora a Lua. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . De encontro ás torres e de encontro aos muros. Desencadeados. vão bater. A incandescência irial dos candelabros. O dia Foge... mas meus movimentos Susto. Saio de casa. diante do vulto dos conventos. Os passos mal seguros Trêmulo movo.. LÁ FORA. Negro. Vibra. batendo em todas as retinas.. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus...

verão.. . os vermes vis.. Diluiu o silêncio em litanias. E hoje. Já que perdi a última batalha! E. poetas.. Primavera.. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. inverno! 113 . mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. Que há muito tempo não cantava lá... outono. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. enquanto o Tédio a carne me trabalha.

ao noturno açoute. ela. Pare chorando nesta Terra Santa.pássaros da Noute! 114 . onde. Ela. Gemem poetas . e quando passa. Aqui é o Campo-Santo. .Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. Carpem na sombra pássaros ascetas. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. abraçado às campas dos poetas. e o travo há de sentir. enxuto o olhar.. enxuta A face. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber.. E se cantar como a Saudade canta. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.A DOR Chama-se a Dor. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. inda altiva.

surjam tédios na Descrença. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. o sonho. e por fim. assomem Descrenças. poeta. a crença e o amor. na Suprema Altura Sinto. Luta. e morrem os vermes que o consomem. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . nada há que o abata e o vença! Por isso. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. A CRENÇA E O AMOR O sonho. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. Vence.O SONHO. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. eu penso na Ventura! E o pensamento.

em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.PARA QUEM TEM NA VIDA. Foi-te mister sondar a substância das cousas .. para penetrar o mistério das lousas.. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade.Construíste de ilusões um mundo diferente. auríferos tesouros. nada achaste.. e. estudares. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo... De que te serviu. por fim. Tesouros reais. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.. profundo. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. pois. por fim. Feito no decurso de dois minutos..

Embora oculta.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. dois gigantes mudos.. no entanto. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. . ela subiu.. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto...ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .O NEGRO Oh! Negro.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. São dois colossos. em ânsias.. . Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.

Buscava Em verdes nuanças de miragens.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. quantos também deixei. Saiu.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. como eu. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.Era o suplício!.E o horror começa! Rasga As vestes.Se ao menos voasse! . Nisto.Quer fugir. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . e não vê por onde fuja. . O Sol ardia... Mas eu não contarei nunca a ninguém. ira-o morrer também.. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. ouve o canto aziago da coruja! . Implora a Deus como a um fetiche vago. foram buscar a Glória E que. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . ela seria morta. na atra estrada que trilhei. Trás de mim. Daí a pouco. Quantos também. como eu.Novo Sileno... Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava .... ver Se nesta ânsia suprema de beber. . Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta.

diz ao povo: "É pena! .Aqui ainda havia alguma cousa. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.. pressentindo a lousa. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Assim como uma casa abandonada.. Mas. ele a morrer. Sei que na infância nunca tive auroras. de repente. Não há quem nele um só tremor denote! ." Pau d'Arco -1905 119 . Olha essa neve pura! .. E afora disto. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina..Foi saudade? Foi dor? . a alma serena.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica..... Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.SENECTUDE PRECOCE Envelheci.Continua a cantar.. Por isso. vivia. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas..

não andei mais sozinho! Abraçou-me.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. . A múmia de um herói do tempo de Ísis. o vulto ia a meu lado E desde então. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. Não mentes... Dizes Tudo que sentes. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. inda com o braço altivo. Bem como tu. Da tribo alegre que povoa os ares.. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.a tumbal cidade. E.. diz que ele é vivo... Diz que ele não morreu..Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. persuadido fica do que diz. E eu me elevava. Para onde eu ia. em Tebas . beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado..

. assombrado. A lua continue sempre a nascer! 121 . a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. assim como o de Jesus Cristo.. Nada se altere em sua marcha infinda . com medo do Infinito. Existo! .O tamarindo reverdeça ainda. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. aos tropeços. como um cão covarde. morrer.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. assim.. quando Eu. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. à tarde. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. de saudades me despedaçando De novo. Teve sede e fome. Saiu aos tombos. triste e sem cantar. pois. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. A percorrer desertos e desertos.E apesar disto. onde.. ia. antes de viver! Meu corpo. E. Por toda a parte. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me.. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.. amigos.

Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .A LÁGRIMA .. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . água e albumina.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Basta isto. .O farmacêutico me obtemperou..

ampla. A podridão me serve de Evangelho. Amo o esterco.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. sem bramânicas tesouras.. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. À luz do americano plenilúnio. E é de mim que decorrem. sem dispêndio algum de vírus. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Pólipo de recônditas reentrâncias. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana.. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos.. Larva de caos telúrico...O metafisicismo de Abidarma -E trago. Em minha ignota mônada. Amarguradamente se me antolha. 123 . vibra A alma dos movimentos rotatórios. Como um dorso de azêmola passiva. possuo uma arma -. Do cosmopolitismo das moneras. Não conheço o acidente da Senectus -. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha.Esta universitária sanguessuga Que produz. simultâneas..

Com a cara hirta. Ao clarão tropical da luz danada. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Sonoridade potencial dos seres. Fonte de repulsões e de prazeres. já nos últimos momentos. Que. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. 124 . bestas agrestes. iguais a fogos passageiros. Raio X. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. magnetismo misterioso. abdômen. em síntese. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. luzem. O coração. o Homem. a boca. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. a coçar chagas plebéias. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. A vida fenomênica das Formas. Como quem se submete a uma charqueada. causa ubíqua de gozo. O horror dessa mecânica nefasta. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. E apenas encontrou na idéia gasta. Quimiotaxia. Aí vem sujo. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. -. ondulação aérea. quebrando estéreis normas. amanhã.

Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Como que.. vai gozar. fazendo um s.. à noite. Negra paixão congênita. Do seu zooplasma ofídico resulta. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. o monstro as vítimas aguarda. ébrio de vício. Como no babilônico sansara .. consumir-se.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. E após tantas vigílias. 125 .. Sôfrego. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Uivando. igual à luz que o ar acomete. No horror de sua anômala nevrose. Num suicídio graduado. E até os membros da família engulham. Brancas bacantes bêbadas o beijam. No sombrio bazer domeretrício. Toda a sensualidade da simbiose. bastarda. brincam. À guisa de um faquir. em lúbricos arroubos. E à noite. pelos cenóbios?!... reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. E explode. em suas clélulas vilíssimas.. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Suas artérias hírcicas latejam. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Numa glutonaria hedionda.

observa a ciência crua. A família alarmada dos remorsos. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. quando a noite avança. Reconhecendo. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família.. se estende Dentro da noite má. E de su’alma na caverna escura.Macbeths da patológica vigília. em rembrandtescas telas várias. Abranda as rochas rígidas. Essa necessidade de horroroso. Que tateando nas tênebras. Hirto. com os candeeiros apagados. Assim também. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. esculpindo a humana mágoa. bêbedo de sono. Mostrando... As alucinações tácteis pululam. A asa negra das moscas o horroriza. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Acorda. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Somente a Arte.. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Quando o prazer barbaramente a ataca.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Mas muitas vezes. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Sente que megatérios o estrangulam. Numa coreografia de danados. Na própria ânsia dionísica do gozo.

Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. sem que. À condição de uma planície alegre.O ferido que a hostil gleba atra escarva. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. ouvindo estes vocábulos. até que minha efêmera cabeça. Executando. E. a desintegre. Era a canção da Natureza exausta. Na produção do sangue humano imenso. Há-de ferir-me as auditivas portas. em suas bases. Prostituído talvez.O homicídio nas vielas mais escuras. -. entre daveiras sujas.. -. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo.E reduz.. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . entanto. Continua o martírio das criaturas: -. Julgava ouvir monótonas corujas.

Vaga no espaço um silfo solitário.. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. exposto ao luar.. Embaixo. A Lua cheia Está sinistra. Convulso e roto.. Dorme soturna a natureza sábia.. discutindo. das pirâmides o quedo E atro perfil. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia..Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. A rua é triste. no apogeu da fúria. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. na mais próxima planície. O céu claro e produndo Fulgura. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. um saltimbanco da Ásia. Tonto do vinho. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. conversando. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Apenas como um velho stradivário. Os mastins negros vão ladrando à lua.. Resplandece a celeste superfície. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. Num quiosque em festa alegre turba grita. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . O Cairo é de uma formosura arcaica.

Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Mas. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. então. parodiando saraus cínicos. Dançavam. 129 . na alma da cidade. O trabalho genésico dos sexos. atro e vidrento.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. A matilha espantada dos instintos! Era como se. à luz de áureos reflexos. A ponte era comprida. Profundamente lúbrica e revolta. Pensava no Destino.. Ponte Buarque de Macedo. Livres de microscópios e escalpelos. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Mostrando as carnes. Apregoando e alardeando a cor nojenta. E aprofundando o raciocínio obscuro. indo em direção à casa do Agra. Atravessando uma estação deserta. Eu. a irritar-me os globos oculares. Lembro-me bem. Fazendo à noite os homens do Futuro.. O calçamento Sáxeo. Uivava dentro do eu . Eu vi. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Copiava a polidez de um crânio alvo. com a boca aberta. Assombrado com a minha sombra magra. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. E a minha sombra enorme enchia a ponte. de asfalto rijo.

O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. 130 . Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Deus me castigava! Por toda a parte. na ígnea crosta do Cruzeiro.Fetos magros. É bem possível que eu umdia cegue. ainda na placenta. Ninguém compreendia o meu soluço. como um réu confesso. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. No ardor desta letal tórrida zona. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Ah! Com certeza. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. E. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. pelo menos. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas.

estranha. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Benditas sejam todas essas glândulas. Que eu. em minha boca. Ia engolindo. ansiado e contrafeito. quotidianamente. à guisa de ácido resíduo. três. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. aos poucos. de tal arte. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Arrebatada pelos aneurismas. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava.E até ao fim. Eu bem sabia. Que. cujas caudais meus beiços regam. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. cinco. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Na ascensão barométrica da calma. Sob a forma de mínimas camândulas. 131 . para não cuspir por toda a parte. quatro. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Não! Não era o meu cuspo. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

Siva e Arimã. Nessa hora de monólogos sublimes. E o luar. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. ali posto De propósito. Livres do acre fedor das carnes mortas. estava ali. Davam pancadas no adro das igrejas. Vai pela escuridão pensando crimes. sem pudicícia. Ninguém. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Imitando o barulho dos engasgos. Rodopiavam. a rir. a espiar-me. Com a força visualística do lince. Iluminava. Perpetravam-se os atos mais funestos. Buscando uma taverna que os açoite. A camisa vermelha dos incestos. lembrava ante o meu rosto. o In e os trasgos. À anatomia mínima da caspa. A companhia dos ladrões da noite. os duendes. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. para hipnotizar-me! Em tudo. Mas um lampião. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. maior talvez que Vinci. então. de certo. Um sugestionador olho. da cor de um doente de icterícia. com as brancas tíbias tortas.

Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. E o meu sonho crescia nosilâncio. e vence-O. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. E a palavra embrulhar-se na laringe. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Na atra dissoluçào que tudo inverte. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Todos os personagens da tragédia. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. A pedra dura. Cansados de viver na paz de Buda. em que. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. distingo-a. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. 133 . Como bolhas febris de água. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria.

134 . refletindo. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . No meu temperamento de covarde! Mas. na dor forte do vômito. Os bêbedos alvares que me olhavam. berrava.A planta que a canícula ígnea torra. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. igual a um amniota subterrâneo. E apesar de já não ser assim tão tarde. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Um conjunto de gosmas amarelas. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. na glória da concupiscência. a sós. sobre o meu caso Vi que. Aquela humanidade parasita. Fabricavam destarte os bastodermas. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Iam depois dormir nos lupanares Onde. aflita. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Como um bicho inferior.

Numa impressionadora voz interna. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. o eco particular do meu Destino. nas catedrais mais ricas. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. embora o homem te aceite. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. como um cordão.. Forma difusa da matéria embele. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. por tua causa.Prostituição ou outro qualquer nome. em tudo imerso. Minha morada equilibrada e firme! Nisto.. 135 . Minha filosofia te repele. Fazer da parte abstrada do Universo. tal qual. Nessas perquisições que não têm pausa. Rolam sem eficácia os amuletos. numa ânsia rara. Ao pensar nas pessoas que perdera. a morte é ingrata. ponto final da última cena. Reboou. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal.e. pior que o remorso do assassino. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. num fundo de caverna.

estriada.Jamais. em síntese. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. por vezes. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. E se. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. A formação molecular da mirra. se divide. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. para que a Dor perscrutes. o cordeiro simbólico da Páscoa. antes Fosses. e a hialina lâmpada oca. Mesmo ainda assim. fora Mister que. magro homem. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. sondas A estéril terra. com a bronca enxada árdega. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. Trazes. espirra. a refletir teus semelhantes. 136 . não como és. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado.

Como uma pincelada rembrandtesca. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. As pálpebras inchadas na vigília. abalando os solos. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. -. A mentira meteórica do arco-íris. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. Lembram paióis de pólvora explodindo. As aves moças que perderam a asa. Deixa os homens deitados. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. 137 . O Amor e a Fome. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A cristalização da massa térrea. As projeções flamívomas que ofuscam. O achatamento ignóbil das cabeças. as nódoas mais espessas. O tecido da roupa que se gasta. à espera que a mansa vítima o entre. Onde morreu o chefe da família. O fogão apagado de uma casa. Que ainda degrada os povos hotentotes. Os terremotos que. sem mortalha. O antagonismo de Tífon e Osíris. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. a fera ultriz que o fojo Entra.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. Na sangueira concreta dos massacres.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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a ameixa. como as ervas. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a amêndoa. a abóbora. Meu ser estacionava. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Benigna água. Em cuja álgida unção. Criando as superstições de minha terra. olhando os campos Circunjacentes. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. branda e beatífica. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. em quaisquer horas. No Alto. 143 . magnânima e magnífica.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Além jazia os pés da serra. A Paraíba indígena se lava! A manga. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Apenas eu compreendo. de errante rio. sobre as hortas. alto e hórrido. o urro Reboava. satisfeito.

como inúmeros soldados. Cortanto as raízes do último vocábulo. Restos repugnantíssimos de bílis. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. OH! desespero das pessoas tísicas. Alucinado. Reboando pelos séculos vindouros. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Vômitos impregnados de ptialina.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Adivinhando o frio que há nas lousas. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. O ruído de uma tosse hereditária. 144 . Estas não cospem sangue. a existência Numa bacia autômata de barro. adstritos ao quimiotropismo Erótico. dores não recebem. entre estrépitos e estouros. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. os micróbios assanhados Passearem. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Um português cansado e incompreensível. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. aos bocados. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos.

hoje.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. É a alfândega. magras mulheres. A mágoa gaguejada de um cretino. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Nos ardores danados da febre hética. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. naquele instante. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. 145 . em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. no Amazonas. com efeito. em sonhos mórbidos. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. resfriando-vos o rosto. Onde a Resignação os braços cruza. Consoante a minha concepção vesânica. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Pelas algentes Ruas. com o vexame de uma fusa. me acorda. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. a água. Saía. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis.

todas as inúbias. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. espantada. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. Recebeu. Ah! Tudo. como um lúgubre ciclone. acordando na desgraça. tendo o horror no rosto impresso. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. adstrito à étnica escória. E agora. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo .. Com uma clarividência aterradora.. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. por fim. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. diante a xantocróide raça loura. caladas. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. entregue a vísceras glutonas. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Jazem.. A carcaça esquecida de um selvagem. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. sem difíceis nuanças dúbias.Fedia. De repente. Viu toda a podridão de sua raça.. 146 . Na tumba de Iracema!. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Desterrado na sua própria terra.

As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. ex. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava.: o homem e o ofídio. No horror daquela noite monstruosa. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Todos os vocativos dos blasfemos. roído pelos medos. A peçonha inicial de onde nascemos. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. com voz estentorosa. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Maldiziam. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. 147 . Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. rolando sobre o lixo. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. E eu.

Eu voltarei. perante a cova. Anelava ficar um dia. cansado. 148 . às vezes. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Reduzido à plastídula homogênea. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. em suma. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . por epigênese. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. como um homem doido que se enforca. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. como Cristo. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Tentava.E. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. Consubstanciar-me todo com a imundície. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. porém. o anelo instável De. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Sem diferenciação de espécie alguma. na terráquea superfície.

para além. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre.. virgem fostes. ignóbil. e as mãos. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. análoga era. Uma. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. quando o éreis. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. e. à-toa. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Mas.. embalde. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.. entre oscilantes chamas. doentes de hematúria. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. a saraiva Caindo. derreada de cansaço. Nem tínheis. As prostitutas. alva.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. Quase que escangalhada pelo vício. Estendestes ao mundo. Acordavam os bairros da luxúria. vítima última da insânia.. no horizonte. até que. Se extenuavam nas camas. com violência. 149 . De certo. agora... a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto.

A consciência terrível desse inseto! Regougando. Eu pensava nas coisas que perecem. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. na craniana caixa tosca.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde.De vós o mundo é farto. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. que a sociedade vos enxota. Como uma associação de monopólio. porém. E estais velha! -. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. no chão frio da igreja. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. A racionalidade dessa mosca. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. eu. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. argots e aljâmias. inquieto. 150 . E hoje. Como quem nada encontra que o perturbe. Sentia.

À falta idiossincrásica de escrúpulo. Pela degradação dos que o povoam. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Apareceu. palpável. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Vem para aqui. com o ar de quem empesta. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. assim inchado. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. E a ébria turba que escaras sujas masca. E o cemitério. O ar ambiente cheirava a ácido acético. após baixar ao caos budista. roubada à humana coorte Morre de fome. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Sem ter. Rugindo fundamente nos neurônios. Já podre. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Absorvia com gáudio absinto. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua.A estática fatal das paixões cegas. nos braços de um canalha 151 . nesta hora. em que eu entrei adrede. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. O fácies do morfético assombrava! -. estriges voam.Aquilo era uma negra eucaristia. Mas. escorraçando a festa. sobre a palha espessa. Quanta gente. de repente. como Ugolino.

Vendo passar com as túnicas obscuras. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. a alma aos arrancos. a camisa suada. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. cheio de vermes. como quem salta. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Na impaciência do estômago vazio. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Pisando. ao clarão de alguns archotes. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Num prato de hospital. À sodomia indigna dos moscardos. entre fardos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. iguais a irmãs de caridade. Comendo carne humana.

No céu calamitoso de vingança Desagregava. após a noite de seis meses. Os raios caloríficos da aurora. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . De quem possui um sol dentro de casa. Uma sobrevivência de Sidarta. em vez de hiena ou lagarta. Proporcionando-me o prazer inédito. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. déspota e sem normas. Manhã. às vezes. trazendo-me ao sol claro. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. No frio matador das madrugadas. Dentro da filogênese moderna. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Como o íncola do pólo ártico.Como indenização dos meus serviços. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. E eis-me a absorver a luz de fora. Absorve. O benefício de uma cova fresca. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera.

Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . oh! Morte. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. A gestação daquele grande feto. a meu ver. corre. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. O Espaço abstrato que não morre Cansara. com os pés atolados no Nirvana. com um prazer secreto.. em vão teu ódio exerces! Mas. em colônias fluídas. tudo a extenuar-se Estava. Acompanhava.. Vinha da original treva noturna.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Igual a um parto. Hirto de espanto. Eu sentia nascer-me n’alma. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.. O ar que.. entanto. numa furna. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto.

. têm carne. Como! E pois que a Razão me não reprime. E agora. Antegozando a ensangüentada presa.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. bela como um brinco. Coisa hedionda! Corro. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Apenas com uma diferença triste. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Ai! Como Os que.. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. como eu. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. não existes mais! 155 . Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco.. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa.. É a hora De comer. amigo. Rodeado pelas moscas repugnantes. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais.

te emergiu do ventre! E puseste-lhe. nas vitrinas.. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . haurindo amplo deleite. Do que essa pequenina sanguessuga. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. Clara.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Assim. à amostra.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. oh! Mãe. sujo de sangue. sem pretensões. E o antigo leão. entre dores. comparo. que te esgotou as pomas. Relembrarás chorando o que eu te disse. a atmosfera se encherá de aromas. No lábio róseo a grande teta farta -. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos.. um novo Ser. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. quanto a mim. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Há de crescer. O Sol virá das épocas sadias.

também gira e redemoinham. eu vivo pelos matos. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos.. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. numa ininterrupta Adesão. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Por causa disto.. haurindo o tépido ar sereno. Os pães -. mordendo glabros talos. Beber a acre e estagnada água do charco. Magro. maior do que Laplace.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. com que guarda meus sapatos. Tais quais. as tesouras Brônzeas. roendo a substância córnea de unha. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. nos fortes fulcros.

Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. no agudo grau da última crise. Dorme num leito de feridas. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Beija a peçonha. cheio de chamusco. goza O lodo. Com a flexibilidade de um molusco. apalpa a úlcera cancerosa. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Úmido.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. E eu vou andando.

no árdego trabalho. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen... Em grandes semicírculos aduncos.. A terra cheira. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. depois de morrer. quero. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. em vez do nome -.Augusto .. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. depois de tanta Tristeza. De árvore em árvore e de galho em galho. corte. pelo ar. largando pêlos. No chão coleia a lagartixa. queime. Com a rapidez duma semicolcheia.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. salta. Nos terrenos baixos. Os ventos vagabundos batem. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Eu. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.. Entrançados.. O ar cheira. bolem Nas árvores. fustigue. morda!.

Viveu. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Amontoadas em grossos feixes rijos. Como pela avenida das Mappales. À dura luz do sol resplandecente. O aziago ar morto a morte Fede. As lagartixas. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Trôpega e antiga. Na bruta dispersão de vítreos cacos. batendo a cauda. Como um anel enorme de aliança. Pintam caretas verdes nas taperas. em vez de flores. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. dos esconderijos. Os musgos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Quantas flores! Agora. Une todas as coisas do Universo! 160 . outrora. como exóticos pintores. Nédios. sem conchego nobre. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Aqui. O lodo obscuro trepa-se nas portas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Urram os bois. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Por saibros e por cem côncavos vales. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos.

Julgo ver este Espírito sublime.. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. como quem raspa a sarna. Só.. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. da mesma forma que o homem morre. é o óbolo obscuro. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. com a misericórdia de um tijolo!. Grito. À carbonização dos próprios ossos! 161 . Que por vezes me absorve. sem pai que me ame. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. arrebentando a horrenda calma. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares.E assim pensando.. A lamparina quando falta o azeite Morre. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol.. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. à luz da consciência infame. De pé.. Súbito.. aqui.

espremendo os peitos. hórridos uivos Na mesma esteira pública. em coréas doudas. através os meus sentidos. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. O Vício estruge. a âmbulas moles. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Lúbrica. funcionária dos instintos. de cabelos ruivos. hirta.. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Bramando. Ouvem-se os brados Da danação carnal. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que.. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. como o estepe. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. à luz do olhar protervo. Espicaça-a a ignomínia. Entre farraparias e esplendores. recebe. Com as mãos chagadas.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. por fim. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. alta noite. aliando. ébria e lasciva. urna de ovos mortos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. 162 . em contorções sombrias. à lua. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. Reduzidos. a arquivar credos desfeitos. Sente. E a mulher. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que.

E a dor profunda da incapacidade Que.Chão de onde unia só planta não rebenta. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Na óptica abreviatura de um reflexo.. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. É o hino Da matéria incapaz. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Fulgia. de bruços. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. filha do inferno. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório... já morta essencialmente... E a Carne que. em cada humana nebulosa.. Ei-la. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.

talvez. Numa cenografia de diorama. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. momentaneamente luz fecunda. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. Na homofagia hedionda que o consome.. Mas que. hírcica. Ficou rolando. Irradiava-se-lhe. rubros.. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . decerto.. e a estraga Na delinqüência ...... adstrito a inferior plasma inconsútil. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. adultos. Saem da infância embrionária e erguem-se. impune. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Libertos da ancestral modorra calma. ânsia De perfeição. Pudera progredir.. sonhos de culminância. Que. como aborto inútil... Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.O atavismo das raças sibaritas.. Como o . Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias.. radiando.

.................................................... .............................................................................................................................................. ....... ..... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.......... .......................... condenada.........Sugando a seiva da árvore a que se une! ................................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E................................... .................................. ...................................... .............................. ao trágico ditame............ ........ ............. ........................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto..................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto.......... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos........................................................ ... 165 ........................................................................................ oca..................................................

pois.. Porque o amor. provo-a. o egoísta amor este é que acinte Amas. o observas. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. amo Mas certo. é éter. tal como eu o estou amando. Imponderabilíssima e impalpável. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. Descasco-a.. Quis saber que era o amor. é substância fluida. chupo-a. É assim como o ar que a gente pega e cuida. por experiência. enfim. Integralmente desfibrado e mole. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. E hoje que. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Para que. em ânsias. o ponto outro de vista Consoante o qual. Oposto ideal ao meu ideal conservas. ilusão treda! O amor. Diverso é. enfim. oposto a mim. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . este o amor não é que. observo o amor. entretanto. atenta a orelha cauta.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. é como a cana azeda. Como Mársias -. eu que idolatro o estudo.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Cuida. Pudera eu ter. do egoísta Modo de ver. conheço o seu conteúdo. É Espírito. consoante o qual. poeta. A toda a boca que o não prova engana.

Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. trágico e maldito.. Que importa que. Como Vulcano..O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Entendi. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. . Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens.. no quadrilátero da alcova. opresso. os monstros zombeteiros. Trabalharei assim dias inteiros.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito.. em ânsias. que devia. a tumbal janela E diz.. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. com o seu grande grito. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.. trabalhar contente. contra ele. 167 .A maldade do mundo é muito grande. depois disso. abre. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. olhando o céu que além se expande: ". E só. Sem ter uma alma só que me idolatre.

Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. sacudindo-o todo. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos.

E não haver quem.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. banhava minhas tíbias. Cortanto o melanismo da epiderme.Dizia. alto.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. íntegra. lhe entregue. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. por ver-vos. oh! céu. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. sob os pés do orgulho humano. E a cimalha minúscula das ervas. O reino mineral americano Dormia. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Recebiam os cuspos do desprezo.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Rua Direita. A essa hora. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. recebendo injúrias. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. e erguia. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. 169 . nas telúrias reservas. Com os ligamentos glóticos precisos. Como um cara. Que forma a coerência do ser vivo.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. num canto de carro.

coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. me pediam. Mais tristes que as elegais de Propércio. com a símplice sarcode. Onde minhas moléculas sofriam. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. úmida e fresca. em diástoles de guerra. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. com o ar horrível. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Pela alta frieza intrínseca. Pareciam talvez meu epitáfio. O vibrião. o ancilóstomo.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Com a abundância de um geyser deletério. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam.

E pelas catacumbas desprezadas. Súbito alguém. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Mochos vagavam como sentinelas. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Parou em frente da mesquita morta. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. a viúva. Eternamente aberta ao sol e à chuva. ampla e brilhante. foi transpondo a porta.Um vento frio começou gemendo. dentro. o passo constrangendo. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Feras rompiam tolos e balseiros.. nos altares esboroados. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. A Lua encheu o espaço sem limites E. Uma vez. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Era uma viúva.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. . funeral mesquita.. e o olhar errante. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Em passo lento. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas.

por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. infernais ardendo Todas as feras. E sobre o corpo da viúva exangue. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 .O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Fora. Como uma exposição de carnes vivas. contra ela. Além. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. arremetendo. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. Morria a noite. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. entretanto. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. E raivosas. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. entanto. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas.

em plena podridão. Da qual. num enleio doce. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. 173 . À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. pela vez primeira. afetando a forma de um losango. tenho alucinações de toda a sorte. A saudade interior que há no meu peito. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Rica. Pára.. brilha A árvore da perpétua maravilha.. ostentando amplo floral risonho. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.... Qual num sonho arrebatado fosse.. entre assombros. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Atravessando os ares bruscamente. exata. no meio. quem diante duma cordilheira.. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. trêmulo. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. Verde.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. Na ilha encantada de Cipango tombo. Assim.. ao sol. em luz perpétua.

. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Banhei-me na água de risonhos lagos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. A tarde morre.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. E finalmente me cobri de flores.... Passa o seu enterro!. Gozei numa hora séculos de afagos.. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .

globo de louça Surgiu. O Céu. outro se ergue e sonha. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Quem as esconda. de cima. em reflexos. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. esse vai Para o túmulo que o cobre. em lúcido véu. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Se um cai. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Vagueia um poeta num barco. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. A Lua . as esconda.BARCAROLA Cantam nautas. outro cai. nas Águas. Espelham-se os esplendores Do céu. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem.. Vai uma onda..

E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre...E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas... "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. "Mas nunca mais. "Viajeiro da Extrema-Unção.. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. forte. poeta da Morte!" . porém.. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.

Da República a nova sublimada. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. fazei que destes brilhos. . Fulgente do valor da vossa glória. oh Pátria. e. risonho. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. E ali do despotismo entre os escombros. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Caia do santuário lá da História. oh! Redentora d'alma. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. pois. Como um Tritão. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. Manchar não pode as aras da República. A República rola-lhe nos ombros. A Liberdade assoma majestosa. Essa luz etereal bendita e calma. esplendorosa. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Oh! Liberdade. Da liberdade ao toque alvissareiro. levando ao mundo inteiro. Não! que esse ideal puro. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Vós.

.Mas hoje. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor.. O amor reduz-nos a uniformes placas. Na área em que estou. Além. à luz das minhas frases. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. Uma montanha que se desmorona. cantam óperas inteiras. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. nas oliveiras. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. desvairado. Aves de várias cores e de várias Espécies. vendo o horror dos meus destroços. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. ao matinal assomo. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Estremecendo em suas próprias bases. E. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. 178 . Passa um rebanho de carneiros dóceis.

Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. demonstrando-a.. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . ébria de fumo e de ópio. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. à frente dele. heroicamente. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. E quando a Dor me dói.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. Tal qual ela é. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.. sinto um violento Rancor da Vida . Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. à nitidez real dos aspectos. Da observação nos elevados montes Prefiro.Observo então a condição tristonha Da Humanidade.

em sonhos.CANTO ÍNTIMO Meu amor. De lá. se duvidas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. em sonhos erra. Vem cá. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. olha estas feridas. Muito longe. a esmo. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Muito longe. Passo longos dias. dos grandes espaços. Que o amor abriu no meu peito. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . erra.

agonia. num volutuoso assomo.Diz e morre-lhe a voz. ontem. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 .. agonia! .. e o sofrimento De minha mocidade. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. Agonia de amar. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. triste. Fazer parar a máquina do instinto. Sem um domingo ao menos de repouso. Neve da minha dor.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. oração. murmura: . quanto mais me desespero. Delícia que ainda gozo. agonia bendita! .. .. abraça a sombra e. a sós.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Frio que me assassina. Caminha e vai. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Amor. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. uma nuvem que corre. escuridão e eterna claridade.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. amor e frio. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. neve. vendo-a. prece que ainda Entre saudades rezo. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. numa delícia infinda.. o louco. Neve que me embala como um berço divino.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve... experimento O mais profundo e abalador atrito. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Numa prece de amor. agonia. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor.. Mas.

foi aos poucos se arrastando. A terra escalda: é um forno.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! .. e o trabalho .. mordendo a atra terra infecunda. Fez reboar pelo solo.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. oito vezes. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. Por seis horas seu braço empenhado na luta. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. E em tudo que o rodeava. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. do agro solo. Rasgando. Triste. funéreo 182 . Mas o braço cansou! Trabalhou... A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. E o Velho veio para o labor cotidiano. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. acende O pó. lúgubre e só. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. a superfície bruta. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano.

o precipício estava. o cansaço Empolgara-o. Num instante viu tudo. onde arde e floresce a Crença. E amplo. a rugir-lhe aos pés... a flux d'água. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . ninguém o acalenta. sozinho. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. avistar a Árvore da Esperança. o Velho caminhava.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Caminhava. o peito arqueou-se. e compreendendo tudo. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto... Nem viu que era chegado o termo da viagem. a toa. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. ele pisasse os trilhos.o último esforço. a família! Não morreria. o acalenta. flutua! Ninguém o vê. e a sonhar. os filhos.. pois! Somente morreria Se da Vida. louco. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.. tombando.. Quis fazer um esforço . bêbado de miragem. e o braço Pendeu exangue. avistando uma frondosa tília Julgou.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. era a turba trovadora Que assim cantava.

. luminosas.ocaso nunca visto. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. ígneo. Negras. mudo. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. .Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Descem os nimbos. pompeiam (triste maldição!) . a Sombra .. Atros. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. E a Noite emerge.. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Raios flamejam e fuzilam ígneos. e. fulvos. alvas. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.. e o meu pesar se eleva E chora e sangra.condensada treva A sombra desce. mudo.Asas de corvo pelo coração. dourando as névoas dos espaços. Além..eis tudo! E no meu peito .. Na majestade dum condor bendito. aos astrais desígnios. E há no meu peito . volaterizadas. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. sangrento O sol. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Subindo á majestade do Infinito. mudo. rubro. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa.

Hoje de novo. se. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. Fantástico. se. 185 . O leão. a lesma. lodo. como se esses raios N'alma caindo. assassino Ébrio de fogo. entre esplendores. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba.hóstia da Aurora. e hás de ser após as chamas. III De novo. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. em lodo tudo acaba. A Mágoa ferve e estua. se erguer. a Aurora. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. o tigre. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. se tornassem ferros?! IV Poeta. ontem moribundo. A alma se abate. de que serve. Ah! Como tu. em plena e fulva reverberação. o mastodonte. E corno a Aurora . Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.. Como Herculanum foi após as chamas. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. como tombou outrora. há-de Alva.. curvo ao seu destino. Vésper me encanta. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios.o Sol . de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. em vão na luz do sol te inflamas. Sírius me deslumbra. ciclópico. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo.

e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Pelos rochedos. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. a Lua que no céu se espalha. onde. Como recordação da festa diurna. pelas penedias. foi valas funerais deixando. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores.. de ilusões te nutres.Arrasta as almas pela Escuridão. E foi deixando essas funéreas.. e. sobe ao pedestal. Medonhas valas.. pois poeta. de ossos.. Então.. como abutres Medonhos.Fera rendida à música divina. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Canto.. e minh'alma cobre-se de flores .. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Iluminando as serranias. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. frias. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Sírius me deslumbra.. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Ergue. Vésper me encanta. pelas escarpas. banha As serranias duma luz estranha. E arrasta os coraç5es pela Descrença.

Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.. A dispersão dos sonhos vagos reuno. eu também vou passando Sonâmbulo. em mágoa.. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .. sonâmbulo.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. Depois de embebedado deste vinho. E invejo o sofrimento desta Santa. 187 .. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. triunfalmente. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. nos céus altos..INSÔNIA Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. sonâmbulo. Mas.

Vagueio pela Noite decaída.. Atro dragão da escura noite. os corimbos. O Sol. Agora. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. por exemplo. batendo na alma.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. porém. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Cercado destas árvores. As árvores. o funerário. Recordam santos nos seus próprios nichos. em mágoa imerso. as flores.. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera.. estronda Como um grande trovão extraordinário. equilibrando-se na esfera. Com o olhar a verde periferia abarco. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. hedionda. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Em que o Tédio. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . neste silêncio e neste mato. Estou alegre. Aqui.

e na ínfima ânfora. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . amorfo e lúrido. "Onde nenhuma lâmpada se acende. "Onde os ventres maternos ficam podres. harto. ébrio.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. Olho-o. Presto. Risco-o Depois. "Na tua clandestina e erma alma vasta."Cinza. Mergulho. através ovóide e hialino Vidro. síntese má da podridão. os beiços na ânfora ínfima. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. a esvaziar báquicos odres: . irrupto. por outra. "Miniatura alegórica do chão. De onde. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. barro. E o que depois fica e depois Resta é um ou. aparece. porque um. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. por epigênese geral. Todos os organismos são oriundos. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Dois são. certo.Mucosa nojentíssima de pus. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . é mais de um. Olho-o ainda. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo.

cósmico zero. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. na terra instável. sois vós.. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. o que nele Morre. Na síntese acrobática de um salto. Sob a morfologia de um moinho. mônada vil. ora. Vida. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Em que todos os seres se resolvem! 190 . que. Move todos os meus nervos vibráteis. Então. Migalha de albumina semifluida.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. dentre as tênebras. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. é o céu abscôndito do Nada. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Depois. muito alto.Do mundo o mesmo inda e. sozinho. Se escapa. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. sou eu.. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. do meu espírito. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. como nunca outro homem viu. em segredo.

De onde quimicamente tu derivas.. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. E eis-me outro fósforo a riscar. Adeus! Que eu veio enfim.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .

medras Nalma de cada virgem. . E. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. vezes.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. .As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos.. E em tudo estruge a tua dúlia . desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Cantas a Vida que sangrando matas. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. 192 . bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Troa o conúbio dos amores velhos . lembras. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . tangendo tiorbas em volatas.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Retroa o sino. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Ora. davas brandindo em seva e insana Fúria... Amor. Sinos além bimbalham. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. chora e se lamenta e vibra..

beija os áureos pés dos ídolos. e eis o motivo. impassível! Esta de amor ode queixosa. Irene. Eis o motivo porque fiz esta ode. Assim. Quedo. .Essa dominação aterradora . esse poder terrível.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. aos astros.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. sonhei-a. 193 . fosforeando. Irene. ontem. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. Irene. Cativo. quando Entre estrias de estrelas. Entre timbales e anafis estrídulos. pois.

Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Quase com febre. ao meio-dia. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. irritado. tinir. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. erguido do pó. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. bruta.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Trinta e seis graus à sombra. Da qual. E eu nervoso. berrar. Dentro. Inopinadamente 194 . a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. num sardonismo doloroso De ingênita amargura.

Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. . A ouvir todo esse cosmos potencial. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.O ígneo jato vulcânico Que. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. afinal. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 .

Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Aperta-me em teu peito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Assim como Jesus. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.. Morreu-te a redolência.QUADRAS Embala-me em teus braços. perdeste a ciência. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. oh! morena .. Embala-me em teus braços! 196 . Aperta-me em teu peito. De lírios e boninas Um veludíneo leito. E dá-me assim. divina. Eu quero o meu Calvário .

através do vidro azul. 3 de maio. e. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. A conta recomeço. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. quatro. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho...TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. três. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. 6.Uma. Tenho 300 quilos no epigastro. em suma.ª-feira. No bruto horror que me arrebata. duas. Vista. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Dói-me a cabeça. quando a noite cresce. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra..Uma. E aos tombos.. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.. Aumentam-se-me então os grandes medos. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. em ânsias: . embora a lua o aclare... de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.

.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Por muito tempo rolo no tapete. A luz fulge abundante 198 . Súbito me ergo. Ponho o chapéu num gancho... Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Elevam-se fumaças Do engenho enorme..vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. numa festa."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".Sucede a uma tontura outra tontura.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Tomba uma torre sobre a minha testa. Cinco lençóis balançam numa corda. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . .. Tal urna planta aquática submersa. Meu tormento é infindo. Mas aquilo mortalhas me recorda. . por exemplo.. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Acho-me... A lua é morta. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela.. O suor me ensopa. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.

radiante e estriado. A ouvir. Babujada por baixos beiços brutos. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. longe do pão com que me nutres Nesta hora. No húmus feraz. Côncavo.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. a terra resfolega Estrumada. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. Vários reptis cortam os campos. em diâmetro. hierática. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . passei o dia inquieto. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. no ato da entrega Do mato verde. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. observa A universal criação. cheia de adubos. o céu. De mim diverso. Broncos e feios. numa última cobiça. Entretanto. feliz.

MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Monstruosíssimas mãos. negras. Outras. às da neve. a delinqüentes natos. a farpas de rochedo Completamente iguais. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. 200 . Pertencentes talvez. Mãos adúlteras. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela... tentáculos sutis. vão cheirar. ás dos cristais.. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. pituitárias Olfativas. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. em sangue.. E à noite. Umas. Assinalados pelo mancinismo. Mãos que adquiriram olhos.

Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Guarda a saudade que levou do Mame. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. langue e seminua. Pareces reviver a antiga Ofélia.. Mas neste sonho. plangente..Tufos de goivo em conchas de esmeralda.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Sonho abraçar-te.a Carne. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Rola a violeta santa dos teus olhos . oh Quimera. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Opalescência trágica da lua! Tu. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. pálida camélia. E como um nume de pesar. .

Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Eu procurava. E. na escuridão. Aprazia-me assim. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. No desespero de não serem grandes! 202 . Cruzes na estrada. Aves com frio.. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. num ruidoso borborinho Bruto. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho.. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Choravam. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Convulsionando Céus. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. com soluços quase humanos.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. uivando hoffmânnicos dizeres. como num chão profundo. O feto original. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. com uma vela acesa. análogo ao peã de márcios brados. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. era só O ocaso sistemático de pó. enquanto eu tropeçava sobre os paus.

Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. na ânsia dos párias. com a sidérica lanterna. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. horrenda e monótona. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. frias como lousas. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Mas das árvores. Brilhava. ao colher simples gardênia. A abstinência e a luxúria. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. me tornara A assembléia belígera malsã. perdido no Cosmos. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Noite alta. de onde se vê o Homem de rastros.Vinha-me á boca. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. assim. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. uma voz 203 . Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. vingadora. Fluía. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Como o protesto de uma raça invicta.

. arvoredos desterrados. Se hoje. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. a espiar enigmas. Para erguer. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Rimos. choramos. tão profunda. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Nós. porque. Crânio. na ânsia cósmica. afinal. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. pois. Para esconder-se nessa esfinge grande. Na prisão milenária dos subsolos. árvore. enquanto Deus.. entres Na química genésica dos ventres. diante do Homem. Não trabalham. em suma. com a febre mais bravia. isto é. obscuro. oh! filho dos terráqueos limos. montanha. Porque em todas as coisas. Rasgando avidamente o húmus malsão.Tão grande. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . do Equador aos pólos. ovário. iceberg. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Tragicamente. que. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. amanhã píncaros galgas.

As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Eu fora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . astro decrépito. naquela noite de ânsia e inferno. a erguer-me. A voz cavernosíssima de Deus. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. a escalar Céus e apogeus. desgraçadamente magro. em destroços. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. Eu. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque.

206 . Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. em coalhos. rolando dos últimos degraus. arrancado das prisões carnais. é o prélio enorme. entre estes monstros. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. Minh'alma sai agoniada. Para pintá-lo. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. quero até rompê-las! Quero. Viver na luz dos astros imortais. pela boca. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Na ânsia incoercível de roubar a luz. armado de arcabuz. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta.. As minhas roupas. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. no combate..QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio.

. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Seja este. faz mal. enfim. E é tudo: o pão que como.esta arca. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . é improfícuo. E tombe para sempre nessas lutas. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. é inútil. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.. a água que bebo. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça.. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.. A bênção matutina que recebo. em suma.

Mas de repente. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. sozinho.Faminta e atra mulher que. -. Como que. e a mim pergunto.. estudo.. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.. a 1 de Janeiro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . em trajes pretos e amarelos.. come. Então meu desvario se renova.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.. numa cova. Sai para assassinar o mundo inteiro. abrindo todos os jazigos.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. rio Sinistramente. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Corro.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.. na vertigem: -. A Morte. Intimamente sei que não me iludo. à meia-noite. ouvindo um grande estrondo.

. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. É Sexta-feira Santa. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. desta cova escura. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. Como as estalactites da caverna. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta.. e quando vi o que era.. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Amarrado no horror de tua rede. e de declínio Em declínio. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Perante a qual meus olhos se extasiam. Com as longas fardas rubras. Eu desafio. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. que em mim dorme. acorda em berros Acorda. Quis ver o que era. e após gritar a última injúria. Deixa-te estar. em grupos prosternados.. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. canalha.. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Vi que era pó. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. como a gula de uma fera. Por tua causa apodreci nas cruzes. Tu não és minha mãe.

o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores.. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. somente eu. quieta. O vento entoa cânticos de morte. Desperto. A árvore dorme Eu. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. vendo-o. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. As luzes funerais arquejam fracas. Dentro da igreja de São Pedro. A desagregação da minha Idéia Aumenta. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas.Um esqueleto. O céu dorme. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. Roma estremece! Além. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Na Eternidade. e a gente... com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo.. Como as chagas da morféia O medo. Na molécula e no átomo. no ar de minha terra.

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