Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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..................... 205 Queixas Noturnas ............................. 166 A Luva .......... 168 Noite de um Visionário .......................................................................................................................................................... 170 A Vitória do Espírito ........................................................................ 203 Vênus Morta .................................................................... 156 Gemidos de Arte ... 204 Viagem de um Vencido .. 155 Mater ................................................................ 173 A Ilha de Cipango ............................................................................................... 142 À Mesa ................................................ 176 Ave Libertas .................. 192 Ode ao Amor .......................... 179 Estrofes Sentidas ...................................................................... 190 Mistérios de um Fósforo ......................................................... 195 Numa Forja ....................................................................................................................................... 186 Insônia ..................................................................... 129 A Caridade ............ 162 Versos de Amor ..................................................................................................... 175 Barcarola ..... 180 Canto Íntimo ................... 183 História de Um Vencido ................................................................. 184 Idealizações ........ 157 A Meretriz ............... 199 Tristezas de um Quarto Minguante ................................ 212 5 ........................... 182 Canto de Agonia ............................. 200 Mãos . 209 Poema Negro .....................................................123 Uma noite no Cairo . 155 Duas Estrofes ............. 197 Quadras .128 As Cismas do Destino .......................................................... 183 Gozo Insatisfeito ........................................................................................................................................................................ 141 Os Doentes ..........Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .............................................................

A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. segundo as síndromes patológicas revelados. em suas mensagens de angústia.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. que o não convencia de todo. o eu fora do Eu. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. RJ. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. numa atitude de respeito e reflexão. ao menos. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. É preciso. entrava em crise espiritual. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Não me parece. pois. quando. Por conseguinte. ed. nesse estado de superexcitação. 1962) 6 . já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. que é de todas a menos operante. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. senão em mais de um. Gráfica Ouvidor. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. poder conhecer a árvore pelo fruto. no que há de mais sutil e imponderável. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. compreendendo inclusive a estilística. não conhecemos sequer a nossa. isto é. Deste modo. Sua personalidade singular ali se projeta. na verdade. na chaga viva de sua consciência. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Fazer o elogio do poeta. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Nalgum ponto. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. contudo. Teria sido um neurótico para uns. Nessa tentativa de interpretação psicológica. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. nos moldes da velha orientação impressionista. paremos reverentes à porta do templo. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. e era aí. um psicastênico para outros. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. desejosos de.

Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. no final. repetindo conceitos. Isto posto. Byron. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. a partir de Lombroso. enfim. por motivos vários. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. não é possível interpretar a obra de um escritor. sobre o seu caso clínico. a de Leopardi. a de Nietzche. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Nietzche. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. nas modalidades do caráter. a de Wilde. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. sobretudo quando provém da linha materna. Por seu parentesco espiritual. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. da inteligência. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. na classificação dos antropologistas do século passado. como é do gosto da crítica científica. em relação com a casuística. que já era constitucionalmente quase louca. Obviamente. aos que se acomodam. estudante de medicina. E por curiosa coincidência. nem os que vieram depois. igualmente inteligentes. Explica-se deste modo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. sestros. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. de fundo genético. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. caracterizado por uma sensibilidade doentia. A mãe do poeta. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. perturbou-a por muito tempo. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. com preocupações de grandeza e fidalguia. causada pela perda imprevista de um irmão querido. a de Byron. fobias. tiques nervosos. Pai e irmãos passavam por normais. por vezes controvertidos. todo o seu temperamento emocional. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. não há negar também a dos psicológicos. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. do sentimento. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. Assim como a mãe de Augusto. só ele dava a impressão de um desajustado. o refinamento de suas faculdades morais. Juízo é coisa que todos julgam ter. choques emocionais. Augusto não era um homem igual aos outros. enfim. menos a de Byron. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. que nada explica.for. Sem o concurso da causa primária. reduzir tudo a categorismo. além mesmo da gravidez. aos que se rebaixam para subir. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . Ao que se sabe. Nem os que nasceram antes.

numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Sílvio Romero. sofreu duros reveses. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. a sua própria vida sem problemas. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. conforme disse num soneto que não consta. com o título Eu e Outras Poesias. em contraste com a mocidade e a inteligência. Muito cedo. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. que lançou em 1919. saído da roça. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. Deste modo. é a vocação que já revelava para o infortúnio. no último ano do século passado. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. na várzea do Paraíba. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. cuja vida corria sem obstáculos. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. em Monólogos de uma Sombra. aprendeu a ler e. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. guiado apenas pela ilustração paterna. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. que a metafísica estava morta. logo mais. O rapazinho de 16 anos. sofregamente bebida nas academias. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. A par disso. visto ter nascido poeta. para maior complicação de sua personalidade. mas no final 8 . bradava para o conceituado mestre que o argüia. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. para aprazimento intelectual das elites. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Coelho Rodrigues. a rigor. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em prefácio à segunda edição do Eu. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. A paisagem bucólica da várzea. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. Alexandre dos Anjos. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. inspirado na natureza e no amor. até o túmulo. dr. estavam a fazer dele um lírico. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. do Eu. cinco anos após a sua morte. em 1900. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. Com seu pai. a quietude da vida na província. os quais o acompanhariam. segundo os primeiros retratos que temos dele. Nada de admirar. Falava nele o positivista que. ao invés de um estudante bisonho. sem afastar-se do lar. O que há de singular nele não é.Augusto com a sua personalidade psicológica. Já em 1875. Era de fato um excêntrico. em sua linha tomista. como expressão do pensamento nacional. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. o seu tipo de pássaro molhado. Logo mais. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. evolvia para o evolucionismo de Speneer. mas não era somente isso. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. era um introvertido. como uma fatalidade.

introduziu entre nós a poesia científica. dupla feição de filósofo e de poeta. já lidos nos filósofos da natureza. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. proceda ou não proceda. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. Esquisitão que era. tentou o milagre de 9 . Ao que parece. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Aliás. Martins Júnior. de que católico era sinônimo de burro. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Na Paraíba. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. mas a origem simiesca do homem. como uma velharia do século. Desta forma. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. desde Haller. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Por todo o Nordeste. Embora educado na religião católica. emancipou-se dela intelectualmente. nas concepções filosóficas de seus poemas. isto é. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. a velha Escolástica. Até no Piauí. aliás bem pouco lisonjeiro. faziam praça de livres pensadores. já no seu ocaso. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. firmava-se o conceito. suportou a mais dura crise. confundidas ambas na unidade cósmica. em sua. entre o mundo da forma e o mundo da razão. o pensamento ao longe. os intelectuais mais dotados. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. um século antes de Hugo. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. Ainda na fase preparatória de estudos. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. está sujeita também ao processo da evolução. ou mesmo. que. Desses embates. O beatério era o último reduto do catolicismo. adepto do positivismo. com a evolução da matéria e do espírito. Nas rodas que se faziam na Paraíba. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. de onde saiu formado em 1907. Laurindo Leão. José Américo de Almeida. Os menos letrados. em seu livro Frases e Notas. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. ficava a escutar os companheiros. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Augusto pouco falava. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. que só cuidava de preocupações teológicas. a exemplo de Victor Hugo. aliás. se o diabo é tão feio como o pintam. Comte passou. como toda substância animada. conciliada. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século.

Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Rimbaud escrevera Bateau ivre. numa caminhada de 31 estâncias. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Vejamos. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas.. como bem observa Cavalcanti Proença. a consciência 10 . chega aos seres mais complexos. Quem já o leu uma vez. A saúde das forças subterrâneas. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Integrado na sociedade. identifica-se na substância primeva. já diferenciado na mônada. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. nas duas composições uma coincidência de temas. na larva que procede do caos telúrico. Pólipo de recônditas reentrâncias. Da substância de todas as substâncias. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. Não sofre apenas a sua dor. e—crente no tema. que passou do reino vegetal para o animal. É a sua confissão de f transformista. até adquirir a forma humana. vibra A alma dos movimentos rotatórios.. ora transfigurado em filósofo moderno. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. 186 versos. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. fundado na unidade cósmica. que é a derrota da humanidade. A partir da monera. começa então o drama crucial da consciência. Aos 17 anos. O aspecto conceptual do poema. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Do cosmopolitismo das moneras. Não há. naquela mesma idade em que. enfim.. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. “esse mineiro doido das origens”. todavia. trinta anos antes. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. simultâneas. já desiludido.reduzir a um campo único a ciência e a arte. A simbiose das coisas me equilibra. terso na linguagem. por força das sucessivas mutações da matéria. E assim continua. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Venho de outras eras. facilmente o identifica. Em minha ignota mônada. incomparável na forma musicada. depois de infinitas transformações. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. como amostra. ampla. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. E é de mim que decorrem. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Larva do caos telúrico. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. Encontra-se. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche.

Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. Nada obstante. diante das maravilhas do aparelho encefálico. uma espécie de fogo que devora e não consome. entendia o agregado abstrato da saudade. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. do ponto de vista metafísico. o que vale dizer. centro de toda a acuidade sensorial. com sótão e porão. A rigor. segundo querem os frenologistas. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. já havia dito. A partir dai. que tinha os ouvidos totalmente tapados. conheci um sujeito. No fundo. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. cuido não estar proferindo uma heresia. o sofrimento de toda a humanidade.No princípio era o Verbo. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. há que distinguir um pormenor. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . dezenove séculos antes. ouvia mais que um tísico. dentro do mundo fenomenal.conspurcada de gozo malsão. noção trivialíssima das funções orgânicas. assombrado com o não-ser. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Por alma. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. no princípio era a força. natural de minha terra. No tocante à transformação da matéria. em esconderijos apropriados. É a concepção monística. que a ele não interessava considerar. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. o vidente de Patmos: . numa espécie de solidariedade subjetiva. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. manifestou o seu espanto. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. chamando a si. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. no entanto. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. O próprio Augusto. Nesse estado d’alma. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. A mesma coisa. o remorso já acordado na caverna escura. como está dito em Monólogos de uma Sombra. tantas vezes exaltada pelo poeta. temos aí um transformismo metafísico. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. Por fim. que faz quase lembrar a reencarnação. entrega-se ao sacrifício. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra.

que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. uma natureza gasta. cadáveres e bocas necrófagas.. Por toda parte. Profundissimamente hipocondríaco. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. a matéria putrefata. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. filho do carbono e do amoníaco. Este ambiente me causa repugnância. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. solta blasfêmias. desde a epigênese da infância. Querendo fugir a essas coisas. que é o Deus materialista de Haeckel. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. dominado por um ceticismo acabrunhador. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.este operário das ruínas. vermes. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista.Fazer a luz do cérebro que pensa. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Custa crer que este soneto . Monstro de escuridão e rutilância. onde imperam sombras. procura 12 . rasgar do mundo o velário espêsso. só serviu para adensar o clima de alucinação. Sofro. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. o lado malsão da vida. impreca. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. O mundo em que vive é um vasto hospital. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida.Psicologia de um Vencido . Já o verme . Nem por isso admite Deus. A influência má dos signos do zodíaco. Em tudo. fonte inesgotável de vida. admite o éter.. causa-lhe repugnância. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Exausto da luta. O próprio amor. procura penetrar o mistério da substância universal. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. onde não há lugar para a alegria. o éter cósmico. No auge da inquietação. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Ao invés de fecundação do espírito.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. sem problemas materiais: Eu. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. na melhor das suposições. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença.

como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. com o poder de sua imaginação. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. E via em mim.refúgio na inexistência espiritual. paralelamente. sente o desejo. Grita a sua dor por toda parte e. E para não capitular a esse apelo. tenta ir ao fundo da crença monística. podia fazer dele um triste. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Há. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer.. numa atitude mental de fuga à realidade. já cansado de escutar a natureza. no todo ou em parte. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. uma desgraça na vida do poeta. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Com efeito. Espera aí encontrar o seu nirvana. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. acompanham-no. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. O subconsciente o aturde. em suas visões oníricas. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. a perda da crença e. não há homem que sofra mais. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. E é nesta manumissão schopenhauriana. Onde quer que se refugie. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Algo de mais grave. que ele denomina um sonho ladrão. Por um instante. como se supunha. nem Haeckel compreenderam. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. O resultado de bilhões de raças Que. monstros terríveis. que os anos não carcomem. o Eu e Outras Poesias. com efeito. Até agora 13 . A julgar pelos seus gemidos. diz ele. Antes de mais nada. evadido de si mesmo. Mas o diabo não larga a sua presa. Tudo isso. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. a terrível moléstia que se atribui. coberto de desgraças. Nenhum pintor. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme.. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. deve ter acontecido na sua juventude. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Depois disso. gasta imensas energias e enche de culminâncias.

Lembro-me bem. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Por enquanto. não pode ocultar que foi vítima dele. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias.. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. dada a ausência de biografia. Gozei numa hora séculos de afagos. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. que é o drama mais doloroso de sua consciência.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. desespero virtual e não real. no capítulo do amor. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. inútil seria qualquer esforço. sempre se revela.. pois. Por mais que procure fugir ao assunto. Por mais que Augusto negue o amor. Ele próprio. .. Trata-se. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . em . no tocante a esse drama. Iríamos a um país de eternas pazes. Por suas próprias palavras. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Exatamente aí. de uma paixão. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

nunca foi chegado a santos. confessa mais uma vez a sua culpa. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. em mágoa. como é sabido. O poeta.. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. como em . Noite.. surpreende com a invocação de Santa Francisca. mas no poema .extravasava desta forma o seu lamento: 19 .santa. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Como um bemol ou como um sustenido. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.. contrito. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Sonâmbulo. eu também vou passando Sonâmbulo. ao mesmo tempo que..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.. Sonâmbulo.Queixas Noturnas .Insônia . que não é das mais invocadas.. Depois de embebedado deste vinho. E invejo o sofrimento desta Santa.

ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. entretanto. não para ele. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Mãe. Madrugada de treze de janeiro. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. quando a morte o olhar lhe vidra. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. que parece se deixou levar por pressão da família.As Cismas do Destino . cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. sem resolver a verdade interior. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. ama-o até mesmo na atômica desordem. sonhando. pouco fala. dormir primeiro. entre estes monstros. num carro azul de glórias. Nem uma névoa no estrelado véu. E porque a visão da morte não o deixa em sossego.brada: 20 .Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. apenas três vezes. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Ao vê-lo morto. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Rezo. o ofício da agonia. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Ao pai. Como Elias. A morte é o fim de tudo. Da mãe.. Minha alma sai agoniada. entre as estrelas flóreas. mas para os que crêem há ainda uma esperança. expressa a sua mágoa numa comovente unção. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. que não admite a vida espiritual. Em .. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. luta por fugir dela. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Mas pareceu-me. como perseguido pela sinistra ceifeira.

Já que não crê em Deus. Forma difusa da matéria imbele. não cria em Deus. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente.. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. E ainda.Morte. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Por tua causa apodreci nas cruzes. como em toda a obra. que Augusto era um cerebral. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. quando recebeu os 22 açoites da natureza. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. escravo do raciocínio frio. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. cheio de imperfeições. Acha Flósculo da Nóbrega. Minha filosofia te repele. ardendo em indagações subjectivas. Vivia um mundo à parte. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. habitado por monstros humanos. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Nestas condições. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. levava-o a recolher-se em si mesmo. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. embora ansiasse por encontrá-lo. Nada o consolava nesse estado de espírito. devia ter na época. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Não me parece tenha razão 21 . que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Aqui... Procura assim desoprimir o coração. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. 22 anos de idade. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. ponto final da última cena.

que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. em 1912. torturado no sentimento do desamparo. ao redor da capela do engenho. Não que tenha recebido ofensas dela. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Na luta em que Augusto se debate. tinha-se na conta de um doente.o ilustre intelectual paraibano. sua musa empalideceu à falta de ambiente. mas porque se sente um desajustado. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Fosse como ele diz. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. como um sonâmbulo. os de maior densidade emocional. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. passos largos. que o 22 . No fundo. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. foram produzidos no Pau D’Arco. Ao contemplar esse ambiente. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. noite a dentro. Punha-se então a passear. De um modo geral. conforme declarou nesta honesta confissão. O que produziu no sul do País. Depois que o poeta deixou a Paraíba. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. A inspiração despertava com a dor. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Não importa que tenha morrido de pneumonia. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. entrava em crise espiritual. Os seus melhores versos. o cérebro em fogo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Nem ele próprio se conhecia. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. ao contrário. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. no caso. volta-se vez por outra contra a sociedade. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Há. um homem excluído do mundo. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. andar bamboleante. e a mim pergunto. nunca recebeu hostilidades. Desta. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. além de pouco. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. Era. que só repugnância lhe causava. contudo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. que o acolhia com carinho. de vez que ninguém o compreendia. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. mas no particular.

Lá para o fim do poema. Eu bem sabia.próprio poeta confessava. Perdido o amor. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. Em As Cismas do Destino. que admirar chore um dia a crença perdida. Essa real ou imaginária doença. “na urbe natal do Desconsolo”. perdeu também a crença. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. Já cansado do ceticismo. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. como se já tivesse perdido o alento de viver. como um arrependido. fez dele um misantropo. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. num desalento ainda maior. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Na ascensão barométrica da calma. o soneto Vandalismo. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. à guisa de ácido resíduo. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Mais adiante. 23 . depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. hosanas ao Senhor. numa emoção que comove. Não há. onde os anjos cantavam. entra a descrever a cidade dos lázaros. atormenta-se com a idéia de que. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. eis que escuta. confessa-se minado pela tuberculose. como ele chamava. Parece que desperta para a vida. passa a chorar a sua dor e a alheia. na terra onde pisava. em Os Doentes. os acordes saudosos do coração. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. imaginária cidade à margem do Paraíba. sob os seus pés. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. aliada à descrença. ansiado e contrafeito. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. De início. pois. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Depois disso. Era ali. em serenata.

Não é. quase todos. João Lélis. Santos Neto. Templos de priscas e longínquas datas. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Sua obra. No final de contas. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. destaco Órris Soares. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. A arte. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. apenas como autor de um livro apologético. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura.Meu coração tem catedrais imensas. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. No desespero dos iconoclastas. na Academia Paraibana de Letras. Ao contrário da incontinente afirmativa. Canta a aleluia virginal das crenças. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. já na 27ª edição. ler. em gemidos de dor. por exemplo. era apenas o meio de formular soluções. Raul Machado. muitas opiniões foram veiculadas. para ele. que se afundava a alma do poeta.. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Nesse decurso. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. pois. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. João Lélis e De Castro e Silva. há sempre o que referir. posto que. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Sabe-se como compunha. em serenatas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Enfim. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Dos outros. José Américo de Almeida. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. que não é biografia e não chega a ser estudo. Onde um nume de amor. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Assim é que. Flóscolo da Nóbrega. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos.. Álvaro de Carvalho. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. este último. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. tenham bordejado na superfície do abismo em. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade.

surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. No entanto. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. também 25 .devoradoras. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. olhar perdido no espaço. à primeira vista incompatível com a poesia. Euclides da Cunha. um em 1920. Órris Soares. reside justamente no termo técnico. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. sangue de vísceras dilaceradas. claro que avulta ainda mais o seu mérito. o sentimento parece ter outra dimensão. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. entrava disciplinada em seus versos. a passear a esmo. Só depois de elaborada é que ia para o papel. que pretende ser de interpretação psicológica. lábios crispados. Em ter ficado sozinho. disse que uma das suas forças. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. como lamenta o crítico. essa linguagem. o outro 25 anos depois. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Poe e Rimbaud. impressionam pelo poder da dialética. Os versos espoucavam no momento da inspiração. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Seus versos. Neles. a sua personalidade psicológica. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. num timbre especial de voz. como em compasso de música. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. Muitas vezes. entre nós. de um a outro canto da sala. túmulos. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. figuras espectrais e outras visões sinistras. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. vermes. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. lá fora. na época. sobretudo da crítica provinciana. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. escarros. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. o que era. duendes. insulado em sua própria grandeza. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. o que acabava de compor. este na prosa. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. enquanto forjava mentalmente a composição. com efeito. Foi então que recitou de inopino. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. associado à vibração sonora. Essa crítica. em 1945. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Cavalcanti Proença. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. que não tenha fecundado a poesia nacional. a densidade. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. Por tudo isso. Em ambos.

ficaram sem seguidores. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. que apenas transparece em linguagem evasiva. Nem por isso. reconheça-se que essa poesia é humana. elogios ou restrições. Com Mallarmé. aparelhou. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. com efeito. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. na interpretação de um drama emocional. no duelo da carne. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. a fim de atingir. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. neste ensaio de exegese literária. Há. Com Verlaine. O anojamento de Álvaro de Carvalho. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Ou então. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. nem tudo pode ter cabimento. num dos seus últimos sonetos. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. como se vê. pelas crises espirituais porque ambos passaram. é mais uma aversão de olfato alérgico. Mas é preciso notar que essa musa. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. pela tristeza indefinível da alma. Não pode o critico ser ortodoxo. por isso mesmo poética. está em tempo de ser feita. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. de sentido mais profundo. Com Baudelaire. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. 26 . manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Eis porque. não lhe tira o vigor da expressão verbal. mesmo doentia. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia.

visionário. em grupos prosternados. em tropos ousados. a idéia pura das coisas. Com Leopardi. de mistura com alucinações. vem o barulho das matracas. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. um grande medo toma conta do poeta. Com Antero do Quental. as mesmas figuras de linguagem. De lá de fora. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. Só com Rimbaud. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. em quem se acumulam. A mesma coisa ocorre com Augusto. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Encontra-se. Honesto em tudo. Súbito. Não fica apenas aí o confronto. ao pé de um muro carcomido pelo tempo.através da sensação. como neste exemplo: 27 . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. palavras raras e eruditas. sensações simples e cenestesias. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. “Na Eternidade. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. na terra santa. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. por sua natureza. Também no amor os dois se assemelham. O único que mencionou Rimbaud. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. num artigo publicado em 1914. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos.. um mês após a morte de Augusto. Segundo Delahaye. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. só nesse ponto dissimula o pensamento. pelo sentido da dor universal. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano.. de uma honestidade quase bravia. Augusto lembra Rimbaud. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. a filosofia da dor. desejada por um. temida pelo outro. encontra-se em Roma. guardando o corpo do Divino Mestre. crematismos.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. em termos de comparação. foi José Américo de Almeida. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. numa sexta-feira santa. na postura de um campônio rústico. os mesmos descuidos de metro e rima. desde a sua fase inicial. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. Ouvindo isso. citado por Augusto Meyer. Vez por outra. isso mesmo de passagem. havia acentuada tendência do poeta. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. assentado sobre cacos de pote e urtigas. no ar de minha terra. Até nas aliterações e metáforas. É. para a neologia e o vocábulo raro. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. que dialoga com os elementos imponderáveis.

Descasco-a. homens de bem cheios de nobres intenções. . é como a cana azeda. Em cada um deles. uma diferença de fundo entre os dois poetas. o bem e o mal caminhando juntos. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. segundo é fama. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. por causas várias. andou conspurcado de sensações súcubas. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. sente-se que há um complexo de culpa. chupo-a. No tempo de jovem. E como não 28 . Depois desse fato. Ninguém sofre mais do que ele. é verdade. é improfícuo. em busca do paraíso terrestre. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. como Tântalo. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. provo-a. um suave concerto espiritual na natureza. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. contudo. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço.”. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. embora tenham se casado e tido filhos. vítima de injustiças humanas. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. à beira da água. largou-se para a África. Augusto sentia-se puro.. exacerbava-a. poeta. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. ilusão treda! O amor. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. em suma. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. mas que o levaram ao resultado conhecido. onde se casou com uma nativa da Abissínia. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Rimbaud. Não sou capaz de amar mulher alguma. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava.. A toda boca que o não prova engana. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. na Bélgica. Motivos escabrosos.. que era o seu anseio máximo. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. filha legítima de sua alma. é inútil. a julgar pelos seus lamentos. Há. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração.

Tais similitudes valeriam. Por curioso paradoxo. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Mesmo assim. Augusto vai irredento até o fim. contra a sua grei. contra a sociedade. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. numa reação inócua. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. tudo quanto desperta a alma. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. o amor. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. isto é. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. como fontes de inspiração. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. som. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Neste passo. como Camões na de Petrarca e de Vergílio.. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais.Une Saison en Enfer . como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. luz. mas nem isso acredito tenha havido. conforme confissão feita a Mário de Alencar. entre a voz do sentimento e a da razão. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. 29 . Possuído do demônio da dúvida. dessa conversão ao materialismo. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. silvos de labaredas e suspiros de empestados. perfume. porém. revolta-se contra o mundo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Um problema sempre gera outro. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. do qual se considerava prisioneiro. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. os mistérios da natureza. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. A vida. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Foi a partir daí. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . beleza. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. perdia-se no estado de dúvida. martelada em versos magníficos e candentes. cor. depois que perdeu a ilusão dos homens. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta.pode reformar o mundo. a criação. chegaríamos por certo ao pai Homero que. tudo quanto eleva os sentidos. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. deixava-se ficar no interior da concha. Não raras vezes. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. onde não faltavam o ranger de dentes. imitação. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. quando muito. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja.espécie de autobiografia moral. sem preencher esse vácuo. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. isto é. Há muitas espécies de conversões em literatura.

no desespero de tantos sofrimentos. Se o Cristo não vem em seu auxílio. se manifesta ainda escravo do batismo. em torrentes de eloqüência. Ora. quando não proferida por modo vulgar e chulo. uns afirmando. Apurada a eleição e com base no resultado. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. a essência dos Evangelhos. Se há Deus. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. É o que há. afetando melindres de devotos. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. que se veja na blasfêmia. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Todos nós. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Isso mostra que ele. proclamou que Deus não existe. com raríssimas exceções. via de regra. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. um pedido de socorro. aceitar as imperfeições do mundo. supria-se do mais no magistério particular. Convém. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. é. mas os que o seguem desconhecem. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Vale mencionar. Os oradores. na realidade. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. tal como Rimbaud. todavia. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. se não há Deus. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. porquanto Deus é princípio e é fim.Enredado em idéias preconcebidas. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. viram nisso o pecado da blasfêmia. se sucediam na tribuna. Ao cabo do bombardeio oratório. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. No meio em que viveu era querido e admirado. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Na prática. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Alguns críticos. a meu ver. 30 . olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. é questão que não deve ser formulada. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. como ninguém ainda se entendesse. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. resolveu o presidente submeter a questão a votos. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. a propósito. nas Alterosas. outros negando. heresia maior que a do poeta quando. em meio a tantas emoções extravasadas.

explodiu em As Cismas do Destino. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. A denominação. Por outro lado.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. vem de muito longe. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. coisa que não cabe na boca de um ateu. Abraçada com a própria Eternidade. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Voltando à pátria da homogeneidade.Debaixo do Tamarindo. sob estes galhos. dá à alma a denominação de sombra. os filósofos iônios. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. por mãos de seu filho Pirro. De inflexões mentais sua obra anda cheia. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. Como uma vela fúnebre de cera. virtudes que cultivava com extremado zelo. como se vê. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. No tempo de meu Pai. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. desde Tales de Mileto.atormentado por visões escatológicas. entendiam a alma. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. E como era sincero e honesto. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. através dos séculos. 31 . Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. De outras vezes. como uma caixa derradeira. começa o poema “Sou uma Sombra. o sacrifício da linda moça Polixena.

até que morre numa cidade das Alterosas. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. virtualidade espiritual. mas com o que ai está me contento. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. desde o declínio das crenças mitológicas. até mesmo num grão de areia. mas dentro da alma aflita Via Deus . 32 . Mais poderia dizer agora. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. !" Este trabalho. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. vacilante na ciência fria. acrescenta. em Leopoldina. aos 30 anos de idade. tal como a entendiam os filósofos iônios. Que outros. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. nas composições que vão até o fim do livro.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. assaltado de alucinações. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Daí por diante. como entidade eterna. Até Deus. larva do caos telúrico. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. para ele. a 12 de novembro de 1914. Choram ainda dentro dele. as formas microscópicas do mundo. sua intimidade numenal. Assim vai. era uma mônada. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. na Federação das Academias de Letras do Brasil. em soluços quase humanos. em briga com o dualismo. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. É a substância primeva.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. que procede do éter cósmico. perdendo-se novamente no enleio cósmico. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. tal como se apresenta. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. isto é. da substância de todas as substâncias. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres.

vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Conservo de memória tudo quanto produzo. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. dos Anjos e D. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. da chamada vida física. o que não impede. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. presumo. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Sofre de insônia. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. R. Rio de Janeiro. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. entretanto. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. de abusar um pouco do café. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Tenho insônia raras vezes. Eu. Engenho Pau d'Arco. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Córdula C. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. 33 .

Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. Ao meu quarto me recolho.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite.. Produndissimamente hipocondríaco. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. igual a um olho.” -. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Chego A tocá-lo. Esforços faço. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Monstro de escuridão e rutilância. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.. Minh’alma se concentra.. agora.. e à vida em geral declara guerra. desde a epigênese da infância. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Já o verme -. filho do carbono e do amoníaco. “Vou mandar levantar outra parede. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Sofro. Meu Deus! E este morcego! E. E há de deixar-me apenas os cabelos. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.Digo. A influência má dos signos do zodíaco. E vejo-o ainda. Este ambiente me causa repugnância.

A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. e depois.. de repente.. Deixa circunferências de peçonha. Anoitece. tênue. Riem as meretrizes no Cassino. quando sonha. Que. Mas.. e quase morta. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. raquítica. Chega em seguida às cordas da laringe. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo.. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. À noite. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Delibera. em desintegrações maravilhosas. Tísica. Quebra a força centrípeta que a amarra. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . mínima.

a feder?! Ah! Possas tu dormir. feto esquecido. Tragicamente anônimo. em vez de achar a luz que os Céus inflama.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. E. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Que poder embriológico fatal Destruiu. Agregado infeliz de sangue e cal. com a sinergia de um gigante. Fruto rubro de carne agonizante. Em que lugar irás passar a infância.. Realizavam-se os partos mais obscuros. em letras garrafais. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros ..

Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Na superabundância ou na miséria. Ah! Para ele é que a carne podre fica.. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea..VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Suficientíssima é. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Cão! -. Filho da teleológica matéria.é o seu nome obscuro de batismo. afaga-a. ampara-a. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Verme -. em que tu dormes... rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Livre das roupas do antropomorfismo. E irás assim. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Janta hidrópicos. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. pelos séculos adiante. E vive em contubérnio com a bactéria. Almoça a podridão das drupas agras. para provar A incógnita alma. arrima-a.

e. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Como uma vela fúnebre de cera.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. como uma caixa derradeira. Dr. portanto. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. esta árvore. sob estes galhos.. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome... Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . esta tesoura.corte Minha singularíssima pessoa. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. de amplos agasalhos. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Voltando à pátria da homogeneidade. Guarda.

essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. um dia. com uma ânsia sibarita. com o esqueleto ao lado. Como um pagão no altar de Proserpina. Na guturalidade do meu brado. mas dentro da alma aflita Via Deus -. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. por toda a pro-dinâmica infinita. como quem tudo repele. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. -..Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Alheio ao velho cálculo dos dias. Por trás dos ermos túmulos.

Em que é mister que o gênero humano entre. vede: É o grande bebedeouro coletivo. talvez.. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. moços do mundo. Onde os bandalhos. autônoma e sem normas. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. nesta rede. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Dentro do ângulo diedro da parede.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste.. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Todas as noites. Oh! Mãe original das outras formas. Nos estados prodrômicos da vida. mísera e mofina. como um gado vivo. Ah! De ti foi que. Como quase impalpável gelatina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo.

. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. É. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. como o filósofo mais crente. O mundo fique imaterializado -. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. é o ego sum qui sum . é o pneuma .. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. para o amor sagrado.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . perante a evolução imensa. Creio. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. É a morte. Amo o coveiro -.IDEALISMO Falas de amor. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira.

. cartilagens Oriundas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. subi talvez às máximas alturas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. caixas cranianas. e. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Cinzas.. Mas. nele. como os sonhos dos selvagens. talvez as Musas. com a alma às escuras. Era tarde! Fazia muito frio. À meia-noite.. Vaguei um século. improficuamente. Comi meus olhos crus no cemitério. inclusas. se hoje volto assim. Pelas monotonias siderais.. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam.

fontes de perdão -. tuas sementes! E assim. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. Na multiplicidade dos teus ramos. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. reunidos. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. Depois da morte. com o envelhecimento da nervura.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Tamarindo de minha desventura. trilhos. inda teremos filhos! 43 . Eu. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. selvas. pois. no Dia de Juízo. porém. Tu. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. glebas. vales. para o Futuro. em diferentes Florestas. Pelo muito que em vida nos amamos. Se fosses Deus.

Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.. Como a cinza que vive junto à brasa. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde.. Ter o destino de uma larva fria. na hierarquia Das formas vivas.. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. à categoria Das organizações liliputianas. asa De mau agouro que.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Como os Goncourts. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Apraz-me. Na orgia heliogabálica do mundo. nos doze meses. Perseguido por todos os reveses. É-me grato adstringir-me. Ganem todos os vícios de uma vez. É meu destino viver junto a esa asa. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -..

É como o paralítico que. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. mamífero inferior. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor... rasga o papel. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. a mim. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. o Homem. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. aos soluços. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. conquanto ainda hoje em dia. Ouvindo a Escada e o Mar. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. com os dedos brutos Para falar. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. violento. em desalento. puxa e repuxa a língua. “À luz da epicurista ataraxia. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . o Hércules.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. “Homem.

Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. hipócrita. Vejo.. Eu furtei mais.. como cruéis e hórridas hastas. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Em sucessivas atuações nefastas. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava.. minha ama.Não. o ouro que brilha. Ele hoje vê que. Tu só furtaste a moeda. afetava Susceptibilidade de menina: “-. em minha cama. agora. Sinhá-Mocinha.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Furtaste a moeda só. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. então. Que ela absolutamente não furtava. ralhava.. Que a mim somente cabe o furto feito. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. mas eu. minha Mãe. após tudo perdido. entretanto.

A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.. Hoje.. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. do que este que palmilho E que me assombra. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. Assim Tântalo. E tu mesmo. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta... porém. É noite. à noite. aos reais convivas. Hás de engolir. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . num festim. igual a um porco... e. após a árdua e atra refrega.a mãe comum -.o brilho Destes meus olhos apagou!..

meu Pai?! Que mão sombria. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. é justo. O Amor e a Paz. Às alegrias juntam-se as tristezas.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto.. Tu.. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. O que o homem ama e o que o homem abomina. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. e sendo justo. Eu. Irei também.. trilhando as mesmas ruas. gemendo. e o ângulo reto. Deus. pois. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. o Ódio e a Carnificina. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . para onde fores.. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Pai. para amenizar as dores tuas.

o ofício da agonia.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. num carro azul de glórias. entre as estrelas flóreas.. Mas pareceu-me. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Como Elias.. Rezo. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Mãe. Nem uma névoa no estrelado véu. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . sonhando. cuidei que ele dormia. E a marcha das moléculas regulam. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.

É preciso cortá-la. possui minh’alma!. meu filho. Livre deste cadeado de peçonha. meu pai.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter.As árvores.e ajoelhou-se. numa rogativa: “Não mate a árvore..Meu pai. Esta árvore. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. sôfrega e ansiosa. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. -.Disse -. pois. no junquilho.. enfim. Caiu aos golpes do machado bronco... meu filho.. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. pai. Apraz-me.. Para que eu tenha uma velhice calma! -. para que eu viva!” E quando a árvore. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. olhando a pátria serra.. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -.

por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Pões-te a assobiar. desde o mais prístino mito. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Olha a atmosfera livre.. Tu nunca mais verás a liberdade!.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. preto e amarelo. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. não tens mais! E pois.. mergulhou a cabeça no Infinito. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 .. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. de à antiga rota Voar. bruto. o amplo éter belo. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Foi este mundo que me fez tão triste. Continua a comer teu milho alpiste. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota.

cismava Em meu destino!. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Onde um nume de amor. ególatra céptico. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu.. Noite alta. em serenatas... na diuturna discórdia.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Templos de priscas e longínquas datas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. Ante o telúrico recorte. Canta a aleluia virginal das crenças. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.

Acende teu cigarro! o beijo. Veio depois um domador de hienas E outro mais. A mão que afaga é a mesma que apedreja. entre feras. e. E qual mais pronto. por fim. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. veio um atleta. E à rutilância das espadas. e doma Meu coração -. sente invevitável Necessidade de também ser fera.. Meu coração triunfava nas arenas. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. toma A adaga de aço. ao todo.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Vieram todos. amigo. nesta terra miserável. Toma um fósforo. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . por fim. é a véspera do escarro.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. uns cem.. Mora. guerreiro. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Apedreja essa mão vil que te afaga. Somente a Ingratidão -. que. o gládio de aço. E não pôde domá-lo enfim ninguém.

... mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. chorando. E é em suma.. podendo mover milhões de mundos. nada há que traga Consolo à Mágoa. Da luz que não chegou a ser lampejo. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste.. Sabe que sofre. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. pancada por pancada.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. Quer resistir. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. a escutar. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. Da transcendência que se não realiza. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. pois. Que. Ouço. a que só ele assiste. A sucessividade dos segundos. em sons subterrâneos. do Orbe oriundos. No rudimentarismo do Desejo! 54 . e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga..

Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. pensando. me desencarcero. eu. Morto o comércio físico nefando. feito força. sincero Encontrei. num grito de emoção. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. a animar o cosmos ermo. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. que os anos não carcomem. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Como a última expressão da Dor sem termo. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Parem as vidas. Foi que eu. De que. Cesse a luz. afinal. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião.

Onde a alva flama psíquica trabalha. E o Homem — negro e heteróclito composto. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto.. o ouvido. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. e. há inúmeros milênios. Diafragmas. numa alta aclamação. ao sol posto. Em tua podridão a herança horrenda. feixe de mônadas bastardas. pois. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. Era. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. "Com essa intuição monística dos gênios. decompondo-se. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. sem retumbância. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. o olfato e o gosto! Carne. muito embora a alma te acenda.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto.. a irmanar diamantes e hulhas. sem gritos.. Dói-me ver. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . a vista.. A dardejar relampejantes brilhos. arpões.

. Que produz muita vez. no Mundo. é a essência pura. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. para mim que a Natureza escuto. sem dor. à espera de quem passa Para abrir-lhe. Este pântano é o túmulo absoluto.O PÂNTANO Podem vê-lo. opondo-se à Inércia. E o nada do meu homem interior! 57 . a porta. na noite escura. às escâncaras. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. A convulsão meteórica do vento. é o transunto. meus semelhantes! Mas. É a síntese.. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. Tragicamente. e. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou.

ainda algum dia. O espanto Convulsiona os espíritos.A UM GÉRMEN Começaste a existir. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. "Menos interiormente me conheça?!" 58 .. Vence o granito. causa do Mundo. como o gérmen de outros seres. em conjugação com a terra nua. E hás de crescer.. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. geléia humana. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. entanto.. Antes o Nada. um dia. no teu silêncio. Volvas à antiga inexistência calma!. em realidade. que ainda haveres De atingir. Reconcentrando-se em si mesma. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. geléia crua. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. e. é natural.. tanto Que. Teu desenvolvimento continua! Antes. oh! gérmen. porventura. deprimindo-o . não progridas E em retrogradações indefinidas.

que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.. é ânsia... Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . no seu arcano... São absolutamente negativas! Araucárias.Todas as hermenêuticas sondagens. .. Vivem só.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!.... na ordem cósmica. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. . nele. É a Natureza que. é inquietude. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. é o instinto horrendo De subir. é transporte. trancada num disfarce. Bracejamentos de álamos selvagens. traçando arcos de ogivas. descendo A irracionalidade primitiva. os elementos broncos.. E a coorte Das raças todas.As ambições que se fizeram troncos. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. Como um convite para estranhas viagens.

O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande... psíquico tesouro. sem convulsão que me alvorece. Riqueza da alma. saúde dos seres que se fanam.. inteira.. E.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. Que o sarcófago. Dói-lhe. ancoradouro Dos desgraçados. acérrima e latente. oh! Dor. À humana comoção impondo-a. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. em suma.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . sol do cérebro. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. assim. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam.

em épocas futuras.. Dai-me asas... Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Ions emanados do meu próprio ideal. Benditos vós. pois. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o .. para o último remígio. Minha continuidade emocional! 61 . que. pois.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Dai-me alma. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. ) Com o vosso catalítico prestígio. Haveis de ser no mundo subjetivo. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Expressões do universo radioativo.

as mãos... A carne é fogo. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.. A alma arde. O cosmos sintético da Idéa Surge. Eu sinto. então. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Subitamente a cerebral coréa Pára. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. Arranco do meu crânio as nebulosas. A espaços As cabeças. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Emoções extraordinárias sinto.. os pés e os braços Tombara.

criatura cega. enquanto as almas se confrangem. Hebdômadas hostis Passam. na ânsia voraz que. o alfa e o omega Amarguram-te. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. ávida. Deixa a tua alegria aos seres brutos. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. entretanto. aumenta. Os dentes antropófagos que rangem. e. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Teu coração se desagrega.. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Superexcitadíssimos. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Realidade geográfica infeliz. Porque. Montão de estercorária argila preta. Receando outras mandíbulas a esbangem. No desembestamento que os arrasta.. carne sem luz. Excrescência de terra singular. os dois Representam. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. tragando a ambiência vasta. Rugindo. Sangram-te os olhos.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. na superfície do planeta.

a Ciência. O Amor. soluçando. mordem-se. homens felizes. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Que força alguma inibitória acalma.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. Sob pena. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. Da dor humana. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. E trago em mim. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. a Glória.. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo.. o Inferno.. sou maior que Dante. aparelhou. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante..

.. Que. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. em voz muito alta. urdo o crime.. Teço a infâmia. O epitalâmio da Suprema Falta. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . (Hoje. cresto o sonho.O CANTO DOS PRESOS Troa. Entoado asperamente.. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Uiva. Existo Como o cancro. a alardear bárbaros sons abstrusos. à luz de fantástica ribalta. ontem. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. não cabendo mais dentro dos peitos. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. È a saudade dos erros satisfeitos. a exigir que os sãos enfermem. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.

O Infinitésimo e o Indeterminado.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. à noite. Transponho ousadamente o átomo rude E. minha alma. dona. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão..VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -... por fim. ausculto. Feita dos mais variáveis elementos. transmudado em rutilância fria. o Céu e o Inferno absorvo. Ceva-se em minha carne. agarro. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. enfim. invado. apreendo. Nos paroxismos da hiperestesia.. como um corvo. o Infinito se levanta À luz do luar. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .

projetado muito além da História. arder. como a luz do amanhecer. Laquesis... Como a luz que arde.. virgem. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.. como um astro. aos trismos Da epilepsia horrenda. Átropos. Sentia dos fenômenos o fim. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. Eu. num monturo. Tifon.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. E acima deles. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Siva. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair.

rábido. Grita em meu grito. a afagar tantas feridas. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. Hão de encontrar as gerações futuras Só.. nem mesmo ao ronco Do furacão que. esse mundo incoerente.... Branda. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . tenta transpor o Ideal.Trilhões de células vencidas. alarga-se em meu hausto. remoinha. a soluçar de dor?! -. Nutrindo uma efeméride inferior.. entanto. E. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Roem-na amarguras Talvez humanas. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.) Quem sou eu. às apalpadelas e às escuras. neste ergástulo das vidas Danadamente.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor.... Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. Folhas e frutos. nas minhas formas carcomidas.

revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. sânie e perfume. desconforto E ataraxia. aliando Buda ao sibarita.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. feto vivo e aborto.. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. -. Sou eu que. em que me inundo. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. Apreendo. ateando da alma o ocíduo lume. Massa palpável e éter..Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. hirto. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. em cisma abismadora absorto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Penetro a essência plásmica infinita. -. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.

Porque. na abismal sustância informe.Tal é. quatro.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. cérebros. somente em. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. rádios e úmeros. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Reduzir carnes podres a algarismos. três. em fúlgidos letreiros. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. infinita como os próprios números. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque... por hipótese.. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. crânios.. -. cinco. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. dois. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. sem complicados silogismos. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 .

De onde rebenta. na natureza espiritual. afinal. Qual é. e dize-me. porventura. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Por um abortamento de mecânica. recalcados. em contrações de dor. amam jazer. íngremes. oh! delumbrada alma. Estacionadas. Quem sabe. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. alma. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . assim. me semente. perscruta O puerpério geológico interior. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. a alma.

APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. derrota Na atual força. e. E eu só. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos.. subjugue-as ou difarce-as. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. em noite aziaga e ignota... É a subversão universal que ameaça A Natureza. Espião da cataclísmica surpresa. Federações sidéricas quebradas. babando. que o Éter indica.. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. a amarra agarrada à âncora. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. Pára e. se as Tem. alçando o hirto esporão guerreiro. pelo orbe adiante. A íngreme cordoalha úmida fica.. integérrima. da Massa. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . o último a ser.. Zarpa. derrubadas. sonha! Mágoas.

Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Dentro dos ossos. que ela encheu. Para a perpetuação da Espécie forte. o dolo sáxeo. em que arde o Ser. adstrito à ciência grave. Em convulsivas contorções sensuais. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. cave. Tragicamente. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. num triunfo surpreendente. Haurindo o gás sulfídrico das covas.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. ao cabo do último milênio. e. ainda depois da morte. vazio! 73 . Sôfrego.. Os nossos esqueletos descarnados. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Arrancar. E quando..

agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Olhou-se no espelho. Disse.. mancha a gleba.. Somente. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Viu vísceras vermelhas pelo chão. iguais a espiões que acordam cedo. E. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. Na mão dos açougueiros. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada.. E amou. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. há instantes. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.. Horrível! O osso Frontal em fogo. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . com um berro bárbaro de gozo. Ia talvez morrer. fora.. Extraordinariamente atordoadora.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. vendo sangue. Era tão moço.. antes do almoço... À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. eis que viu. A água transubstancia-se.

Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Leio o obsoleto Rig-Veda. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. Rasgo dos mundos o velário espesso.. reconheço O império da substância universal ! 75 .. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!.. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. No mar de humana proliferação.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.... E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. me não consolo. E. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino.. E em tudo igual a Goethe. ante obras tais.

Parecia dIzer-me: "É tarde. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. em meio. Fora da sucessão. Eu a bendigo da descrença. ao meu lado. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Porque eu hoje só vivo da descrença. imóvel. Se acende o círio triste da Saudade. resignado. imensa. Para dar vida à dor e ao sofrimento.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. atro e subterrâneo. Era de vê-lo. estranho ao mundo. E o coração me rasga atroz. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Tragicamente de si mesmo oriundo.. P’ra iluminar-me a alma descontente.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. A Idéia estertorava-se. Mas que no entanto me alimenta a vida. 76 . No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Hirta.

Ah. gárrulos voando . volvi ao ceticismo. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo.o exorcismo Terrível me feriu. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Cansado de lutar no mundo insano. seu olhar magoado. desgraçado réu. e então sereno. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Da Igreja . Fugazes sonhos.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. entre o medo que o meu Ser aterra. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Onde a dúvida ergueu altar profano.Todas se foram num festivo bando. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. de ilusões tão bela. em fundo misticismo: . sombras cor-de-rosa . Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste.Oh! Deus.a Grande Mãe . Fraco que sou. Não sei se viva p’ra morrer na terra. eu creio em ti.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Hoje ela habita a erma soledade.

Revolvo as cinzas de passadas eras. E que tornou-o assim. Eterno pegureiro caminhando. Morreram todas. Quando a morte matar meus dissabores. Desfeitas todas num guaiar dorido. senhora. Exausto de pisar mágoas pisadas. pálidas agora. Todas murcharam. Minh’alma levo aflita à Eternidade. num mês de tantas flores. todas sem olores. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . triste pela vida afora. triste e descrido. Ouvi. tristes. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Sombrio e mudo e glacial. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. senhora. Tristes fanaram redolentes rosas. Cansado de chorar pelas estradas. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI.MÁGOAS Quando nasci. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. senhora. de amor ferido. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. langorosas. SENHORA Ouvi. amei.

um tresloucado. venceu batalhas. olímpica e singela! E partiu. Apaixonou-se d’uma virgem bela. E voltou. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. mas a fronte aureolada. Louco vivia. Alma viúva das paixões da vida. e o pesar negro e profundo. Ao chegar. enamorado dela. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. pendeu triste e desmaiada. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. No sepulcro da loura virgem bela. Tu que. Era o soldado. Vivia alegre o vate apaixonado. Esconde à Natureza o sofrimento. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. 79 . INFELIZ Alma viúva das paixões da vida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Cantaste e riste. Mas a Pátria chamou-o. Alma arrancada do prazer do mundo. coração amargurado. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. na estrada da existência em fora. E fica no teu ermo entristecida. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Altivo lutador. Oh! Tu.

Quando da vida. Resvalando nas sombras dos ciprestes. no eternal soluço. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Há de chegar. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. E a mesma frase o noivo repetia. ardentes . São minhas crenças divinais.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Ambos unidos soluçara um beijo. soturnais. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. a brisa respondia. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Chegara enfim o dia desejado. Vinha rompendo a aurora majestosa. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Fora no campo pássaros trinavam. pálidos. funéreos. silentes. Desliza então a lúgubre coorte. Quando há de ser!? E os pássaros falavam.

Mas se das minhas dores ao calvário. Espumando e rugindo em marulhada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. A morte me será vingança eterna. porém. E espuma e ruge a cólera entranhada. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. No delírio. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Em luta co’a natura sempiterna. Aí existe a mágoa em sua essência. E onde a vida borbulha e o sangue medra. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Assim a turba inconsciente passa. Já que do mundo não vinguei-me em vida. 81 . Dores que ferem corações de pedra. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida.

Foste do amor o mártir sacrossanto. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Enquanto outros que podem. estulto. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Jóias." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Quantos. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Morrera um dia desvairado. Irmão querido. Tu’alma ri-se descuidosamente. dão-te enganos. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Pois se da Religião fizeste culto. Su’alma livre para o Céu se alara. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. num abraço de ternura santa. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . bonecos de formoso busto.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. bom Papá. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Somente assim festejarei teus anos. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura.

que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. aveludado. Moldada pela mão da Natureza. presa. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Dançavam-lhe no colo perfumado. A chama cruel que arrasta os corações. Do fado. Do destino fatal. Tornou-se a pecadora vil. Os seios brancos. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. amigo verdadeiro. Bela. palpitantes. Balbuciou. divina. tomando a enxada gravemente. esta mulher de grã beleza. mornos. No entanto. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos.

Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. úmidas arcadas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Assim canta também meu coração. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. addio! 84 . Trovador torturado e angustioso. Subindo pelo Azul da Inspiração. mavioso. No sigilo das rezas misteriosas. os sons esmorecendo.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. addio. desnudas. dolente. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. E à noute quando rezam na clausura. Repercute.Addio. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Que guardam pér’las de funéreas rosas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. não acordeis. Ai! não. . pouco a pouco. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Eleonora. E as mesmas portas impassíveis.

os teus fulgores. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá.O segredo d’um peito torturado E hoje. Canta.a veste desgrenhada. gargalha.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Num sepulcro de rosas e de flores. Na auréola azul dos dias teus risonhos. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Eu sei a sua história. para guardar a mágoa oculta. Moça.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. O cabelo revolto em desalinho. porém. Vai morta em vida assim pelo caminho. o triste outono.coração saudoso. Da desdita ferida pelo espinho. . Primavera gentil dos meus amores! 85 . soluça . Arca sagrada de cerúleos sonhos.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Chora. tão moça e já desventurada. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. a desgraçada estulta. No sudário de mágoa sepultada. . Primavera.

Muita gente infeliz assim não pensa. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. risonha. Sirva-te a crença de fanal bendito. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Mas não queiras saber nunca.avança! E eu. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Sonâmbulo da dor angustiado. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Senhora.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. É minha sina perenal. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. não busques saber por que. 86 . Também como ela não sucumbe a Crença. Também espero o fim do meu tormento. ergue o teu grito. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Foi outrora do riso abençoado. O berço onde as venturas se embalaram. túm’lo do prazer finado. ela não cansa. delirante e vário. Salve-te a glória no futuro . tristonha . que vivo atrelado ao desalento. eu trajo o luto do passado. No entanto o mundo é uma ilusão completa. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. portanto.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.

nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Quem me dera morrer então risonho. santíssima. Chora . Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Tenta às vezes. Sombra perdida lá do meu Passado. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. sublime na Descrença. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Bela na Dor. Mas volta logo um negro desconforto. porém. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Quando o rosário de seu pranto rola.

Rendilhando-lhe o colo de sultana. crê em Deus.. Dorme talvez. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Branca. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. mimosa. pois. Enquanto o amante pálido. nevada. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Na altura Imensa. a seu lado Medita.. ama. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. a fronte triste. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. púbere. e. Estende o teu olhar à Natureza. As níveas pomas do candor da rosa.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Essa sublime adoração do crente.

lânguida e bela. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! .Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. . Tem pena dessas cinzas que ficaram. A alma saudosa pelo amor vibrada.Quero abraçar o meu passado morto. Eu vivo dessas crenças que passaram. Dos romeiros saudosos da desgraça. o meu Passado. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. além. A procissão dos tristes. E na choça a lamúria que traspassa O coração. porém. Vai Corina mendiga e esfarrapada. . e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Entre todos. dos proscritos.TEMPOS IDOS Não enterres. A romaria eterna dos aflitos. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. coveiro. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão.A Stella Matutina da Desgraça! 89 .

adeus. Auroreando a humana consciência. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. se eleva em busca do infinito. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. devassando a terra.eu disse. adeus! E. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Cheia da luz do cintilar de um astro.ADEUS. 90 . Hermeto Lima Adeus. Perto. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Saí deixando morta a minha amada. ADEUS! E. ADEUS. apenas restam mágoas. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Fitando o abismo sepulcral dos mares. É como um despertar de estranho mito. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Voa. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. suspirando. Sulcando o espaço.

Envolto da tristeza no delírio. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa.LIRIAL Por que choras assim. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. triste.A sombra deste afeto estiolado. tristonho lírio. E eu disse . Viu o adeus que do Céu ela enviava. Disse. Minh’alma que de longe a acompanhava. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade.Vai-te. Mas a noute chegou. . irmã pálida da Aurora. onde não pousa a desventura. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. com ela Negras sombras também foram chegando. Estrela esmaecida do Martírio. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Lá onde nunca chegue esta saudade. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim.

e eu gemo o último harpejo.e estertorada A minha voz soluça num gemido.então. por entre a dolorosa estrada. E na atitude do Crucificado. E eu balbucio trêmula balada: . Estendo à Dulce a mão. a minha bem amada. E dos lábios de Dulce cai um beijo. Pedir a Dulce. O olhar azul pregado n’amplidão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso..Senhora. A praça estava cheia.. Vítima augusta de indelével falso. o olhar enlanguescido. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. 92 . Depois.o criminoso . perdão. Puro de crime. a fé perdida. A esmola dum carinho apetecido. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. o algoz . Morre-me a voz. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E ela fita-me. isento de pecado. dai-me u’a esmola .

nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Num desespero rábido. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses.segue a trilha que te traça O Destino. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. onde d’água raso O olhar não trago. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. ave negra da Desgraça. E as trevas moram... Gênio das trevas lúgubres. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Lá. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. e. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. obumbra-me em teu seio.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . acolhe-me. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.crença Perdida . Há perfumes d’amor ..venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.. assassino. Empenhada na sanha dos abutres.

Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Os nimbos das procelas desta vida. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. num mar de esp’rança. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Que o guia e o leva ao porto da bonança. sem nenhuma Nuvem sequer. dentre a escura Treva do oceano. Que o céu reflete. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Abismados na bruma enegrecida. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Treme na treva a púrpura da tarde. só descanta. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Mas quando o céu é límpido. Reflete a luz do sol que já não arde. então. O MAR O mar é triste como um cemitério. Banhando a fria solidão das fragas. sem bruma Que a transparência tolde.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. a vida é qual risonho Batel. e a alma é a Flâmula do sonho. Quando vos vejo.

Triste criança virginal. Agora. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. é desengano. foge . Dia do meu Passado! Irrompe. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.1902 95 .. O grande Sol de afeto .o Sol que as almas doura! Fugiu.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Nem vibra a corda que a saudade esconde.1902 AURORA MORTA. quem dera Voar est’alma a ti. agita as tuas asas. Adeus oh! Dia escuro. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Anseios d’alma aqui se perdem. Aurora morta. o meu único Norte. é dor. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. FOGE! Aurora morta.) Nessas paragens desoladas. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.. E eu ergo preces que ninguém responde. Ascende à Claridade.. e em si a Luz consoladora Do amor . Hoje é trevas. lá nos espaços.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. meu Futuro. oh! Minha Mágoa. Cantarias do amor a primavera..

1902 96 .Cítara suave dos apaixonados. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. No alto.. Ah! num delíquio de ventura louca. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. no teu riso de anjos encantados. despertando sonhos. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Bendito o riso assim que se desata . Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. e.NO CAMPO Tarde. ao luar. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. nitente. entretanto.a Louca tenebrosa.. chorando enfloram. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Quando. as águas límpidas alvejam Com cristais. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . as flores também choram Num chuveiro de pétalas. emergindo às trevas que a negrejam.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. E há. Branca. Pendem e caem . Chora a corrente múrmura. à dolente Unção da noute. Sonorizando os sonhos já passados.

PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Também envolta num sudário — a Dor. Flor dos mistérios d'alma. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. é como os prantos Níveos. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. toda a cálida Mística essência desse alampadário.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Eu. P'ra desvendar os seus segredos santos. virginais aromas De essência estranha. Se evolarn castos. 97 . Derramam a urna dum perfume vário. eterna noctâmbula do Amor. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. sacrossantos. se duas eu tivera. que a virgem chora. Ah! como a branca e merencórea lua. Pau d'Arco -1902. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. E a lua é como um pálido sacrário. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. noctâmbulo da Dor e da Saudade.

Que desespero insano me apavora! Aqui.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. sonhar novas idades. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Ali.. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria.Quero Correr em busca do Futuro. Tanto que cantas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Tanto que gemes. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . vindo de profundas fráguas. Quando alta noute. E vais aos poucos soluçando mágoas. a lua é triste e calma. pompeia a luz da branca aurora. Choras. Teu canto. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. e ilusões acordas.Quero partir em busca do Passado. . Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. soluças. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .. chora um ocaso sepultado. bandolim do Fado. Um dia morto da Ilusão às bordas.

E eu vi os seios teus virem inconhos . NA ETÉREA LIMPIDEZ. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. grave e lenta. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Caíste morta ao celestial preceito. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. qual hóstia. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Quiseste-me beijar a ara do peito. Tocando n'ara negra o níveo seio. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. também ria! 99 . senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Fulgia a bruma para sempre. E.. Meiga. e como Lúcia. E eu quis beijar-te o lábio redolente. mas eis que neste enleio. Na etérea limpidez de um sonho branco.ARA MALDITA Como um'ave. O sol. cindindo os céus risonhos. O céu tremia em seu trevoso flanco..Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. à voz de Lúcia. caindo dos altares. E beijei-te. agora. alegre e rubro.Foge. tu vinhas a cindir os ares.

Flores mortas da Aurora. Sentes o peito em ânsias revoltadas. Que beija a terra e que abençoa os campos. E. Diluis teu peito em sensações profundas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. a Virgem Mãe dos céus escampos. em banho ideal de amor te inundas. Longe das sombras aurorais e amadas. Agora. Que. Mas. eis que emerges. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. e. urnas de Sonho. E a rasgar. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! .A colunata êxul do Sonho Morto .TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas.o círio Da Quimera Falaz. E a lua. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. e. luminosa. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . em bando. ante o branco estendal das madrugadas. Nua.ei-lo que avisto. E em mim como no Templo. ao ver-te nua. o Mundo se concentre. o túmulo da Crença. a rasgar o lúrido sacrário. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Em mim como no Templo a Angústia se condensa.

santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . tudo! Quando Ela passa. formosa entre as formosas. e a Peste ri-se.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. como o sol . entre esplendores. Etéreo como as Wilis vaporosas.É o castigo de Deus que passa mudo! .A PESTE Filha da raiva de Jeová .Fúlgido foco de escaldantes brasas . enquanto Vai devastando o coração das casas..o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. formosa. 101 .Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim... Plena de graça. . Quero-te assim . semeando a Morte.O sol a segue. ela. Como o Cristo sagrado dos altares. tudo chora.. Colmado o seio de virentes flores. A alma diluída em eterais cismares.. Embaladas no albor da adolescência.. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.

ah! ninguém me responde. Eu venho arrependido. eis-me a teus pés. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.. pátria da Aurora exilada do Sonho! . pois. assim. a teus pés. insânia. pelo mundo. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. E para mim. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste....Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos... Chegou a Noite.. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. insânia.CÍTARA MÍSTICA Cantas. perdoa o teu vencido. .dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. o meu Sonho morreu! Perdão. meu anjo. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. penseroso e pasmo. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho... Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.. Como o santo levita dos Martírios. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. Açucena de Deus.Irei agora.

Por um Cocito ardente e luxurioso. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. no Inferno do Gozo. Onde nunca gemeu o humano passo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 .AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. porém. Banhou-me o peito.. Turificando a languidez dum seio! O amor. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. . supremos.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. sem Calvário. Da Messalina fria no regaço. Em ânsia de repouso... Mas. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. e. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. que da Desgraça veio Maldito seja. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor..

. E vi-te triste. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. E estavas morta.. . Como um'alma de mãe.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . eu que te almejo. a noute é tumbal.. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. eu vi. desvalida e nua! E o olhar perdi... ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Sombra de gelo que me apaga a febre. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta... lá dos braços hercúleos... O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.E tu velas. Ah! que um dia da Vida.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.SOMBRA IMORTAL . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. .. mulher. também da Dor. estes dardos acúleos Caíam. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo... Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. e a saudade da infância. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. a sós.

. E um canto vai morrer no vale fundo. ajoelhando à imagem do Carinho. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Alvorejando em arrebol de prata. Somente tristes os teus olhos vejo.. tu.. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. Bendita a Santa do Carinho...imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho.. Que luz é esta que das brumas vasa. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . o seio branco. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . chegando.. inata! E. entanto. te acolheu a mata. e é noute de fatais abrolhos.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Chegaste. profundo?! Rumores santos. Pérolas e ouro pela serrania. Alva d'aurora. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Branca bem como empalecido arminho. Que canto é este. virginal. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. e no Santo harpejo. e.. Choras.. no negror me abrasa. Uma pantera foi se ajoelhando.

Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. mórbidos encantos. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros... Fria como um crepúsculo da Judéia. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Triste como um soluço de Dalila. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. e lânguida. Já Vésper. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. no Alto.PELO MUNDO Ânsias que pungem. 106 . E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos... E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila.

Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.Eterno fogo. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.O RISO "Ri.. Riso. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. clown da Sorte . coração.o voltairesco clown . os gaturamos Num recesso de névoa.Fogo sagrado nos festins da Morte . QUERIDA! Vamos. Silfos morriam. e a todo o seu assédio. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas..Ele. que ao frio alvor da Mágoa Humana. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Na Via-Látea fria do Nirvana. adormecida. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . No ar...quem mede-o?! . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .A hora dos tristes e dos descontentes. querida! Já é Ave-Maria . sonolento e tardo.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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mas meus movimentos Susto. A incandescência irial dos candelabros. vão bater.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe.) Chove. O dia Foge.. NOTURNO (CHOVE. violentos. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria.. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Saio de casa. De encontro ás torres e de encontro aos muros.. Os passos mal seguros Trêmulo movo. Surge agora a Lua. batendo em todas as retinas. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Desencadeados. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. LÁ FORA. Os ventos.. Vibra.. diante do vulto dos conventos. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. E em meio ás refrações verdes e hialinas.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Negro.

enquanto o Tédio a carne me trabalha. Que há muito tempo não cantava lá. Primavera. os vermes vis..Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. verão.... E hoje... poetas. . Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. inverno! 113 . outono. Já que perdi a última batalha! E. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. Diluiu o silêncio em litanias. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu.

ela.A DOR Chama-se a Dor. .Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. enxuta A face. onde. e quando passa.. Carpem na sombra pássaros ascetas. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. ao noturno açoute. Ela. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. inda altiva. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Aqui é o Campo-Santo. Pare chorando nesta Terra Santa. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. e o travo há de sentir. Gemem poetas . E se cantar como a Saudade canta. enxuto o olhar.pássaros da Noute! 114 . O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. abraçado às campas dos poetas.

De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . na Suprema Altura Sinto. a crença e o amor. Vence. poeta. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. surjam tédios na Descrença. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. e morrem os vermes que o consomem. eu penso na Ventura! E o pensamento. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê.O SONHO. Luta. assomem Descrenças. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. A CRENÇA E O AMOR O sonho. o sonho. nada há que o abata e o vença! Por isso. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. e por fim.

. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. por fim. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. estudares.. e. auríferos tesouros. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. Feito no decurso de dois minutos. Foi-te mister sondar a substância das cousas .. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.. Tesouros reais. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.. pois. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. por fim. profundo. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade..PARA QUEM TEM NA VIDA. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . nada achaste. para penetrar o mistério das lousas. De que te serviu.Construíste de ilusões um mundo diferente... Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.

santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. no entanto. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços... Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. São dois colossos. .O NEGRO Oh! Negro. Embora oculta. dois gigantes mudos..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.. em ânsias. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. ela subiu. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto..ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 ..

.Novo Sileno.Quer fugir. na atra estrada que trilhei.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. como eu. .Se ao menos voasse! . Nisto. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. ira-o morrer também.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.Era o suplício!. Mas eu não contarei nunca a ninguém. O Sol ardia. Daí a pouco. ouve o canto aziago da coruja! . Implora a Deus como a um fetiche vago. Trás de mim.. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Quantos também... . foram buscar a Glória E que... quantos também deixei. e não vê por onde fuja. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Buscava Em verdes nuanças de miragens. ver Se nesta ânsia suprema de beber. Saiu. ela seria morta. como eu..E o horror começa! Rasga As vestes.

Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.. E afora disto.Foi saudade? Foi dor? . Mas.Continua a cantar.. Por isso." Pau d'Arco -1905 119 .. Não há quem nele um só tremor denote! ..Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. vivia. ele a morrer..Aqui ainda havia alguma cousa.. pressentindo a lousa. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. de repente. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Sei que na infância nunca tive auroras... diz ao povo: "É pena! . canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste... eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. a alma serena. Assim como uma casa abandonada. Olha essa neve pura! .

. em Tebas . E. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. E eu me elevava. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .. diz que ele é vivo.. persuadido fica do que diz.. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.. inda com o braço altivo. não andei mais sozinho! Abraçou-me. Da tribo alegre que povoa os ares. Bem como tu. Para onde eu ia. Diz que ele não morreu. o vulto ia a meu lado E desde então.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado.a tumbal cidade. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. Dizes Tudo que sentes. Não mentes... sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. . A múmia de um herói do tempo de Ísis..

assim.. quando Eu. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. triste e sem cantar. Existo! . Por toda a parte. morrer. à tarde. assim como o de Jesus Cristo.. amigos. onde.. com medo do Infinito. ia.E apesar disto.O tamarindo reverdeça ainda.. Nada se altere em sua marcha infinda . A percorrer desertos e desertos. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. aos tropeços. Teve sede e fome.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. pois. como um cão covarde.. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. Saiu aos tombos. de saudades me despedaçando De novo. antes de viver! Meu corpo. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. assombrado. A lua continue sempre a nascer! 121 . E.

A LÁGRIMA . água e albumina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . Ah! Basta isto.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.. . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.O farmacêutico me obtemperou.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.

À luz do americano plenilúnio. Amo o esterco.O metafisicismo de Abidarma -E trago. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana.Esta universitária sanguessuga Que produz. sem dispêndio algum de vírus. A podridão me serve de Evangelho. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Do cosmopolitismo das moneras.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras.. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. vibra A alma dos movimentos rotatórios. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. Larva de caos telúrico. sem bramânicas tesouras. 123 ... E é de mim que decorrem. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Amarguradamente se me antolha. Não conheço o acidente da Senectus -. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. simultâneas. ampla.. Em minha ignota mônada. Como um dorso de azêmola passiva.. possuo uma arma -. Pólipo de recônditas reentrâncias.

Com a cara hirta. bestas agrestes. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. a coçar chagas plebéias. Quimiotaxia. abdômen. amanhã. magnetismo misterioso. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. o Homem. 124 . A vida fenomênica das Formas. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. O coração.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. já nos últimos momentos. Fonte de repulsões e de prazeres. Como quem se submete a uma charqueada. E apenas encontrou na idéia gasta. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. em síntese. Aí vem sujo. Sonoridade potencial dos seres. ondulação aérea. iguais a fogos passageiros. Raio X. luzem. O horror dessa mecânica nefasta. -. Ao clarão tropical da luz danada. quebrando estéreis normas.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Que. a boca. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. causa ubíqua de gozo.

Suas artérias hírcicas latejam. Sôfrego. Negra paixão congênita. E à noite. À guisa de um faquir. No sombrio bazer domeretrício. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. O cuspo afrodisíaco das fêmeas.. Sentindo o odor das carnações abstêmias.. Brancas bacantes bêbadas o beijam. No horror de sua anômala nevrose.. Numa glutonaria hedionda. Do seu zooplasma ofídico resulta. Uivando. 125 .. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. o monstro as vítimas aguarda. pelos cenóbios?!. ébrio de vício. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. E após tantas vigílias. Como que. Como no babilônico sansara . vai gozar. E até os membros da família engulham..A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. E explode. à noite. Num suicídio graduado. bastarda. em suas clélulas vilíssimas. fazendo um s. brincam. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. em lúbricos arroubos. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. igual à luz que o ar acomete. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece... consumir-se. Toda a sensualidade da simbiose.

. Hirto. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Numa coreografia de danados. Essa necessidade de horroroso. Abranda as rochas rígidas. observa a ciência crua. Sente que megatérios o estrangulam. Mas muitas vezes. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -.. em rembrandtescas telas várias.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. quando a noite avança. Que tateando nas tênebras. Na própria ânsia dionísica do gozo. bêbedo de sono. As alucinações tácteis pululam.Macbeths da patológica vigília. Mostrando. Assim também. Fazendo ultra-epiléticos esforços. A família alarmada dos remorsos. esculpindo a humana mágoa. E de su’alma na caverna escura. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. A asa negra das moscas o horroriza. Acorda. Reconhecendo. com os candeeiros apagados. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família.. se estende Dentro da noite má. Quando o prazer barbaramente a ataca. Somente a Arte.. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca.

Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . E. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. entanto. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. À condição de uma planície alegre.O homicídio nas vielas mais escuras. Era a canção da Natureza exausta. -.. -. Há-de ferir-me as auditivas portas. Continua o martírio das criaturas: -.. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Julgava ouvir monótonas corujas. a desintegre. ouvindo estes vocábulos. sem que.E reduz. entre daveiras sujas. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Na produção do sangue humano imenso.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Executando. Da luz da lua aos pálidos venábulos. em suas bases. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. até que minha efêmera cabeça. Prostituído talvez.

. Vaga no espaço um silfo solitário. Num quiosque em festa alegre turba grita. das pirâmides o quedo E atro perfil. Resplandece a celeste superfície. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Apenas como um velho stradivário. Os mastins negros vão ladrando à lua.. Embaixo.. O Cairo é de uma formosura arcaica. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita.. na mais próxima planície. O céu claro e produndo Fulgura. no apogeu da fúria. Tonto do vinho. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Dorme soturna a natureza sábia. Convulso e roto. discutindo.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. exposto ao luar.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. conversando. A rua é triste. A Lua cheia Está sinistra.. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. um saltimbanco da Ásia.. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 .

e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Eu vi. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Atravessando uma estação deserta. Lembro-me bem. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos.. O calçamento Sáxeo. O trabalho genésico dos sexos. com a boca aberta. Pensava no Destino. parodiando saraus cínicos. 129 . A ponte era comprida. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . a irritar-me os globos oculares. Copiava a polidez de um crânio alvo. E aprofundando o raciocínio obscuro.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Profundamente lúbrica e revolta. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Ponte Buarque de Macedo. atro e vidrento. Assombrado com a minha sombra magra. Eu. A matilha espantada dos instintos! Era como se. indo em direção à casa do Agra. Dançavam. na alma da cidade. Livres de microscópios e escalpelos. de asfalto rijo. à luz de áureos reflexos.. Uivava dentro do eu . então. Fazendo à noite os homens do Futuro. Mas. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Mostrando as carnes.

A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. No ardor desta letal tórrida zona. Ah! Com certeza. ainda na placenta. E. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. 130 . A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. como um réu confesso. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. na ígnea crosta do Cruzeiro. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. pelo menos. Ninguém compreendia o meu soluço. Deus me castigava! Por toda a parte. É bem possível que eu umdia cegue. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte.Fetos magros.

aos poucos. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. estranha. Na ascensão barométrica da calma. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. para não cuspir por toda a parte. Ia engolindo. quatro. Não! Não era o meu cuspo. três. cinco. Sob a forma de mínimas camândulas. quotidianamente. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. em minha boca. à guisa de ácido resíduo. de tal arte. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Benditas sejam todas essas glândulas. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. cujas caudais meus beiços regam. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Eu bem sabia. Que eu. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. 131 . ansiado e contrafeito. Que. Arrebatada pelos aneurismas.E até ao fim. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava.

Davam pancadas no adro das igrejas. Livres do acre fedor das carnes mortas. a espiar-me. Nessa hora de monólogos sublimes. Buscando uma taverna que os açoite. À anatomia mínima da caspa. Siva e Arimã. maior talvez que Vinci. Ninguém. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Mas um lampião. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . de certo. com as brancas tíbias tortas. E o luar. então. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. estava ali. Imitando o barulho dos engasgos. o In e os trasgos. lembrava ante o meu rosto.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Rodopiavam. da cor de um doente de icterícia. sem pudicícia. a rir. Vai pela escuridão pensando crimes. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Iluminava. Perpetravam-se os atos mais funestos. ali posto De propósito. Um sugestionador olho. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. os duendes. para hipnotizar-me! Em tudo. A companhia dos ladrões da noite. Com a força visualística do lince. A camisa vermelha dos incestos.

Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. distingo-a. e vence-O. Cansados de viver na paz de Buda. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. E o meu sonho crescia nosilâncio. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Na atra dissoluçào que tudo inverte. em que. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. 133 . Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Como bolhas febris de água. Todos os personagens da tragédia. E a palavra embrulhar-se na laringe. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. A pedra dura. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca.

na dor forte do vômito. Fabricavam destarte os bastodermas.A planta que a canícula ígnea torra. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. a sós. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Um conjunto de gosmas amarelas. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . berrava. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. E apesar de já não ser assim tão tarde. na glória da concupiscência. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. No meu temperamento de covarde! Mas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. refletindo. Os bêbedos alvares que me olhavam. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. 134 . sobre o meu caso Vi que. aflita. Aquela humanidade parasita. Como um bicho inferior. igual a um amniota subterrâneo.

. nas catedrais mais ricas. Numa impressionadora voz interna. Minha filosofia te repele. em tudo imerso. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. o eco particular do meu Destino. pior que o remorso do assassino. Reboou. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. tal qual..Prostituição ou outro qualquer nome. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. numa ânsia rara. Nessas perquisições que não têm pausa. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. ponto final da última cena. por tua causa. a morte é ingrata.e. num fundo de caverna. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Rolam sem eficácia os amuletos. como um cordão. Forma difusa da matéria embele. Fazer da parte abstrada do Universo. embora o homem te aceite. Ao pensar nas pessoas que perdera. 135 . III “Homem! por mais que a Idéia deintegres.

136 . não como és. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. espirra. sondas A estéril terra. em síntese. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque.Jamais. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. para que a Dor perscrutes. Trazes. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. por vezes. E se. com a bronca enxada árdega. antes Fosses. A formação molecular da mirra. o cordeiro simbólico da Páscoa. se divide. estriada. a refletir teus semelhantes. e a hialina lâmpada oca. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. fora Mister que. magro homem. Mesmo ainda assim. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta.

As projeções flamívomas que ofuscam. O fogão apagado de uma casa. O achatamento ignóbil das cabeças. Lembram paióis de pólvora explodindo. A mentira meteórica do arco-íris. abalando os solos.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. sem mortalha. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. Onde morreu o chefe da família. As pálpebras inchadas na vigília. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. A cristalização da massa térrea. 137 . à espera que a mansa vítima o entre. Que ainda degrada os povos hotentotes. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. Deixa os homens deitados. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. Os terremotos que. O antagonismo de Tífon e Osíris. as nódoas mais espessas. O tecido da roupa que se gasta. a fera ultriz que o fojo Entra. O Amor e a Fome. Como uma pincelada rembrandtesca. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. Na sangueira concreta dos massacres.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. -. As aves moças que perderam a asa.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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Criando as superstições de minha terra. Além jazia os pés da serra. sobre as hortas. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. magnânima e magnífica. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Benigna água. o urro Reboava. satisfeito. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. Apenas eu compreendo. 143 . a abóbora. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. A Paraíba indígena se lava! A manga. No Alto. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. a ameixa. como as ervas. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. alto e hórrido. a amêndoa. olhando os campos Circunjacentes. de errante rio.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. em quaisquer horas. Em cuja álgida unção. branda e beatífica. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Meu ser estacionava.

Restos repugnantíssimos de bílis. como inúmeros soldados. Um português cansado e incompreensível. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Alucinado. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. OH! desespero das pessoas tísicas. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. adstritos ao quimiotropismo Erótico. dores não recebem. os micróbios assanhados Passearem. Reboando pelos séculos vindouros. Vômitos impregnados de ptialina. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Estas não cospem sangue. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. 144 . estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Cortanto as raízes do último vocábulo. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. entre estrépitos e estouros. aos bocados. Adivinhando o frio que há nas lousas.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. a existência Numa bacia autômata de barro. O ruído de uma tosse hereditária. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava.

Onde a Resignação os braços cruza. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Saía. em sonhos mórbidos. com efeito. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. A mágoa gaguejada de um cretino. 145 . onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. hoje. resfriando-vos o rosto. me acorda. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. a água. É a alfândega. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. no Amazonas. Consoante a minha concepção vesânica.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Nos ardores danados da febre hética. naquele instante. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. com o vexame de uma fusa. Pelas algentes Ruas. magras mulheres. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes.

entregue a vísceras glutonas. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Recebeu.. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema.Fedia. todas as inúbias. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. adstrito à étnica escória. 146 . Com uma clarividência aterradora. De repente. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . diante a xantocróide raça loura. E agora. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. A civilização entrou na taba Em que ele estava. por fim.. Ah! Tudo. Na tumba de Iracema!. acordando na desgraça.. Desterrado na sua própria terra. como um lúgubre ciclone. espantada. Jazem. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. tendo o horror no rosto impresso. sem difíceis nuanças dúbias. Viu toda a podridão de sua raça. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.. A carcaça esquecida de um selvagem. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. caladas.

: o homem e o ofídio. rolando sobre o lixo. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. com voz estentorosa. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. A peçonha inicial de onde nascemos. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Maldiziam.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. roído pelos medos. No horror daquela noite monstruosa. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. E eu. 147 . Todos os vocativos dos blasfemos. ex. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.

com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Sem diferenciação de espécie alguma. em suma. Reduzido à plastídula homogênea. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. cansado. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Consubstanciar-me todo com a imundície. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. como Cristo. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. perante a cova. Eu voltarei. o anelo instável De. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico.E. como um homem doido que se enforca. Tentava. às vezes. por epigênese. Anelava ficar um dia. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. na terráquea superfície. porém. 148 .

Mas.. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. quando o éreis.. Estendestes ao mundo. com violência. vítima última da insânia. Nem tínheis. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. 149 . Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. ignóbil. virgem fostes. Uma. Acordavam os bairros da luxúria.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. e as mãos. entre oscilantes chamas. derreada de cansaço. à-toa. De certo. agora. As prostitutas. embalde. alva. análoga era. Não tínheis ainda essa erupção cutânea.. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. no horizonte.. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Se extenuavam nas camas. a saraiva Caindo. Quase que escangalhada pelo vício. doentes de hematúria. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. para além.. até que.. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. e.

E estais velha! -. que a sociedade vos enxota. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. eu. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. argots e aljâmias. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. na craniana caixa tosca. porém.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. no chão frio da igreja. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. A racionalidade dessa mosca. inquieto. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Como quem nada encontra que o perturbe. Como uma associação de monopólio. Sentia. E hoje. Eu pensava nas coisas que perecem. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço.De vós o mundo é farto. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. 150 .

Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. E a ébria turba que escaras sujas masca. Apareceu. Sem ter. sobre a palha espessa. Absorvia com gáudio absinto. E o cemitério. roubada à humana coorte Morre de fome. escorraçando a festa. Quanta gente. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. em que eu entrei adrede. Vem para aqui. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. nesta hora. Rugindo fundamente nos neurônios. Pela degradação dos que o povoam. Mas. assim inchado. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. palpável. Já podre. nos braços de um canalha 151 .A estática fatal das paixões cegas. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. como Ugolino. O ar ambiente cheirava a ácido acético. de repente. À falta idiossincrásica de escrúpulo. com o ar de quem empesta. estriges voam. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua.Aquilo era uma negra eucaristia. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. O fácies do morfético assombrava! -. após baixar ao caos budista.

Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. iguais a irmãs de caridade. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. a alma aos arrancos. como quem salta. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Todos os meus cabelos se arrepiaram.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Pisando. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. a camisa suada. ao clarão de alguns archotes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Na impaciência do estômago vazio. entre fardos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. cheio de vermes. À sodomia indigna dos moscardos. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Comendo carne humana. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Num prato de hospital. Vendo passar com as túnicas obscuras. Ao pegar num milhão de miolos gastos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza.

Como o íncola do pólo ártico. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Dentro da filogênese moderna. em vez de hiena ou lagarta. De quem possui um sol dentro de casa. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. após a noite de seis meses. E eis-me a absorver a luz de fora. déspota e sem normas. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. trazendo-me ao sol claro. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Absorve. Manhã. às vezes. Uma sobrevivência de Sidarta. O benefício de uma cova fresca. No frio matador das madrugadas.Como indenização dos meus serviços. Proporcionando-me o prazer inédito. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Os raios caloríficos da aurora. No céu calamitoso de vingança Desagregava. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 .

. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. A gestação daquele grande feto. Vinha da original treva noturna. Hirto de espanto. O ar que.. em vão teu ódio exerces! Mas. entanto. numa furna. Igual a um parto. Eu sentia nascer-me n’alma.. Acompanhava. em colônias fluídas.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . O Espaço abstrato que não morre Cansara. tudo a extenuar-se Estava. com os pés atolados no Nirvana.. com um prazer secreto. corre. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. oh! Morte. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. a meu ver. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. o vagido de uma outra Humanidade! E eu.

Ai! Como Os que.. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Rodeado pelas moscas repugnantes. têm carne. É a hora De comer. amigo. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Antegozando a ensangüentada presa.. como eu. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Apenas com uma diferença triste. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago.. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Coisa hedionda! Corro.. Como! E pois que a Razão me não reprime. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. não existes mais! 155 . Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. E agora. bela como um brinco.

Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. à amostra. oh! Mãe. Há de crescer.. um novo Ser. Assim. a atmosfera se encherá de aromas. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. sujo de sangue. nas vitrinas.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. E o antigo leão.. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . entre dores. quanto a mim. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. No lábio róseo a grande teta farta -. sem pretensões. Do que essa pequenina sanguessuga. haurindo amplo deleite. Relembrarás chorando o que eu te disse. que te esgotou as pomas. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. Clara. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. comparo.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. O Sol virá das épocas sadias. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.

Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes..GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Beber a acre e estagnada água do charco. mordendo glabros talos. Por causa disto. maior do que Laplace. roendo a substância córnea de unha. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. nos fortes fulcros.. também gira e redemoinham. eu vivo pelos matos. Tais quais. Magro. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. as tesouras Brônzeas.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Os pães -. numa ininterrupta Adesão. com que guarda meus sapatos. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. haurindo o tépido ar sereno.

Dorme num leito de feridas. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Subtraída à hediondez de ínfimo casco.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. cheio de chamusco. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Úmido. E eu vou andando. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. no agudo grau da última crise. goza O lodo. Beija a peçonha. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Com a flexibilidade de um molusco. apalpa a úlcera cancerosa. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 .

.. fustigue. Nos terrenos baixos..Augusto . quero. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. depois de tanta Tristeza. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.. De árvore em árvore e de galho em galho. depois de morrer.. No chão coleia a lagartixa. queime. Os ventos vagabundos batem. A terra cheira. largando pêlos. Em grandes semicírculos aduncos. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. Entrançados. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. bolem Nas árvores.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. O ar cheira. Eu. pelo ar. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Com a rapidez duma semicolcheia. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. salta. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. em vez do nome -. corte.. morda!. no árdego trabalho.

em vez de flores. Os musgos. Por saibros e por cem côncavos vales. Une todas as coisas do Universo! 160 . Urram os bois. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Como pela avenida das Mappales. Viveu. Aqui. dos esconderijos. O aziago ar morto a morte Fede. Como um anel enorme de aliança. como exóticos pintores. batendo a cauda. Quantas flores! Agora. Nédios. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Na bruta dispersão de vítreos cacos. À dura luz do sol resplandecente. outrora. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Amontoadas em grossos feixes rijos. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Trôpega e antiga. O lodo obscuro trepa-se nas portas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. sem conchego nobre. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. As lagartixas. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Pintam caretas verdes nas taperas.

trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. aqui. Julgo ver este Espírito sublime. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre.. Só. De pé.. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.. Súbito. como quem raspa a sarna.. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. À carbonização dos próprios ossos! 161 .. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. à luz da consciência infame. arrebentando a horrenda calma. Que por vezes me absorve. é o óbolo obscuro. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. A lamparina quando falta o azeite Morre. Grito.E assim pensando. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. da mesma forma que o homem morre.. com a misericórdia de um tijolo!. sem pai que me ame.

A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. urna de ovos mortos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. funcionária dos instintos. Reduzidos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Ouvem-se os brados Da danação carnal. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. a âmbulas moles. em contorções sombrias. à luz do olhar protervo. a arquivar credos desfeitos. Lúbrica. Bramando. Entre farraparias e esplendores. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. recebe. espremendo os peitos. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Sente. ébria e lasciva. O Vício estruge. alta noite. E a mulher. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. por fim. 162 . como o estepe.. de cabelos ruivos. em coréas doudas. hórridos uivos Na mesma esteira pública.. à lua. através os meus sentidos. Com as mãos chagadas. Espicaça-a a ignomínia. aliando. hirta.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo.

pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.. Ei-la. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.. já morta essencialmente. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.Chão de onde unia só planta não rebenta. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. filha do inferno. E a dor profunda da incapacidade Que.. Fulgia. E a Carne que. É o hino Da matéria incapaz. em cada humana nebulosa. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Na óptica abreviatura de um reflexo. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início... alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . de bruços.... Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos.

.. talvez.. rubros.. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . Que. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. Mas que. Libertos da ancestral modorra calma.. sonhos de culminância.O atavismo das raças sibaritas. Saem da infância embrionária e erguem-se. Pudera progredir. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. adultos. Irradiava-se-lhe.. radiando. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. e a estraga Na delinqüência ... momentaneamente luz fecunda.. adstrito a inferior plasma inconsútil. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora.. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias.. ânsia De perfeição. Ficou rolando. como aborto inútil. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. hírcica. Na homofagia hedionda que o consome... Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito.. impune. Numa cenografia de diorama. Como o . decerto.

.. 165 ......... .................... Mordeu-lhe a boca e o rosto............................................. oca....................................................... ............................................................................................................................................................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto.... ... .... ................. .................................................................................................................................. ... ........................... ....................................... ao trágico ditame.......................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos............................. ......................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia........................ .... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............Sugando a seiva da árvore a que se une! .............................................................. condenada............

poeta. o egoísta amor este é que acinte Amas. É assim como o ar que a gente pega e cuida. enfim.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. pois. tal como eu o estou amando. provo-a. Integralmente desfibrado e mole. em ânsias. Quis saber que era o amor. Diverso é. entretanto. Cuida. Descasco-a. Oposto ideal ao meu ideal conservas. o ponto outro de vista Consoante o qual. é substância fluida. Como Mársias -. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Pudera eu ter. do egoísta Modo de ver. é éter.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. chegando à última calma Meu podre coração roto não role.. este o amor não é que. chupo-a. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . Para que. por experiência. enfim.. A toda a boca que o não prova engana. Porque o amor. ilusão treda! O amor. É Espírito. eu que idolatro o estudo. conheço o seu conteúdo. amo Mas certo. é como a cana azeda. oposto a mim. o observas. E hoje que. observo o amor. Imponderabilíssima e impalpável. atenta a orelha cauta. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. consoante o qual. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante.

A maldade do mundo é muito grande. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Sem ter uma alma só que me idolatre. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Trabalharei assim dias inteiros. a tumbal janela E diz. trágico e maldito. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. que devia. com o seu grande grito. abre. trabalhar contente. Que importa que. olhando o céu que além se expande: ". em ânsias.. Entendi. Como Vulcano. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim..A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito.. depois disso. no quadrilátero da alcova.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso.... Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. . opresso. os monstros zombeteiros. E só. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. 167 . contra ele.

sacudindo-o todo. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade".

Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. E a cimalha minúscula das ervas. Cortanto o melanismo da epiderme. nas telúrias reservas. Rua Direita. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. e erguia. por ver-vos. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.Dizia. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. oh! céu. E não haver quem. Com os ligamentos glóticos precisos. 169 . recebendo injúrias. num canto de carro. banhava minhas tíbias. lhe entregue. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. O reino mineral americano Dormia. alto. Como um cara. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. Que forma a coerência do ser vivo. íntegra. A essa hora. e absorve em cada viagem Minh’alma -. sob os pés do orgulho humano. Recebiam os cuspos do desprezo.

o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. o ancilóstomo. com o ar horrível. O vibrião. com a símplice sarcode. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. me pediam.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 .A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Pela alta frieza intrínseca. Pareciam talvez meu epitáfio. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Onde minhas moléculas sofriam. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. em diástoles de guerra. úmida e fresca. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Mais tristes que as elegais de Propércio. Com a abundância de um geyser deletério. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam.

. funeral mesquita. Feras rompiam tolos e balseiros. se desenrolava A esteira astral da retração etérea.Um vento frio começou gemendo. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . .. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. E pelas catacumbas desprezadas. Eternamente aberta ao sol e à chuva. foi transpondo a porta. e o olhar errante. A Lua encheu o espaço sem limites E. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Parou em frente da mesquita morta. a viúva. o passo constrangendo. nos altares esboroados. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Era uma viúva. Em passo lento. Uma vez. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. ampla e brilhante. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. dentro. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Mochos vagavam como sentinelas. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Súbito alguém.

Além. Como uma exposição de carnes vivas. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . na redoma clara Que envolve a porta da região etérea.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Morria a noite. E sobre o corpo da viúva exangue. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. contra ela. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. entanto. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Fora. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. arremetendo. infernais ardendo Todas as feras. E raivosas. entretanto. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.

E ao longe soam trágicos fracassos De heróis.. num enleio doce.. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Assim. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. 173 .. no meio. tenho alucinações de toda a sorte. Atravessando os ares bruscamente. em luz perpétua. ostentando amplo floral risonho. afetando a forma de um losango. entre assombros. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. Da qual. Pára. brilha A árvore da perpétua maravilha. Na ilha encantada de Cipango tombo. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente.. ao sol. Rica.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Verde. em plena podridão. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. A saudade interior que há no meu peito.. pela vez primeira. quem diante duma cordilheira. exata. trêmulo... Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. Qual num sonho arrebatado fosse.. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos..

Passa o seu enterro!. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Gozei numa hora séculos de afagos. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos.. Banhei-me na água de risonhos lagos. A tarde morre. E finalmente me cobri de flores..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.... E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha.

Vagueia um poeta num barco. Quem as esconda. outro se ergue e sonha. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Vai uma onda. Espelham-se os esplendores Do céu.globo de louça Surgiu. as esconda.. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. de cima.. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. em reflexos. em lúcido véu. Se um cai. nas Águas. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . O Céu. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. A Lua . fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. esse vai Para o túmulo que o cobre.BARCAROLA Cantam nautas. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. outro cai.

. "Mas nunca mais.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. porém. forte. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 .. "Viajeiro da Extrema-Unção. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.. poeta da Morte!" .E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre... "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.

Oh! Liberdade. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. levando ao mundo inteiro. e. risonho. Manchar não pode as aras da República. Fulgente do valor da vossa glória. pois. Não! que esse ideal puro. fazei que destes brilhos. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. oh Pátria. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. esplendorosa.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. E ali do despotismo entre os escombros. Vós. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. oh! Redentora d'alma. Da liberdade ao toque alvissareiro. Da República a nova sublimada. Como um Tritão. Caia do santuário lá da História. A República rola-lhe nos ombros. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. A Liberdade assoma majestosa. Essa luz etereal bendita e calma. . essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Que apouca o triunfo e que se chama sangue.

Além. desvairado. Uma montanha que se desmorona. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. nas oliveiras. Estremecendo em suas próprias bases. ao matinal assomo. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma.. O amor reduz-nos a uniformes placas. E.Mas hoje. 178 . Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Passa um rebanho de carneiros dóceis.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra.. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Na área em que estou. à luz das minhas frases. Aves de várias cores e de várias Espécies. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. cantam óperas inteiras. vendo o horror dos meus destroços.

Tal qual ela é. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. sinto um violento Rancor da Vida . Da observação nos elevados montes Prefiro. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. ébria de fumo e de ópio. à frente dele... E quando a Dor me dói. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. demonstrando-a.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. à nitidez real dos aspectos. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. heroicamente. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 .

em sonhos erra. dos grandes espaços. Muito longe. erra. se duvidas. Vem cá. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Passo longos dias. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. De lá. a esmo. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. olha estas feridas. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . em sonhos. Muito longe.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Que o amor abriu no meu peito.

Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Mas. a sós..Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. quanto mais me desespero.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. uma nuvem que corre.. escuridão e eterna claridade.Diz e morre-lhe a voz. agonia! . Sem um domingo ao menos de repouso. num volutuoso assomo. e o sofrimento De minha mocidade. Caminha e vai. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. oração. prece que ainda Entre saudades rezo. amor e frio.. triste. Neve da minha dor. Numa prece de amor. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço.. vendo-a. Neve que me embala como um berço divino. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . agonia. ontem. Agonia de amar. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. murmura: . Amor. experimento O mais profundo e abalador atrito. numa delícia infinda.. Frio que me assassina.. agonia.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Fazer parar a máquina do instinto. Delícia que ainda gozo. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. neve. agonia bendita! ... Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. o louco. abraça a sombra e. . e cansado e morrendo O Viajeiro vai.

aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. acende O pó.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. Por seis horas seu braço empenhado na luta. Rasgando.. oito vezes.. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. foi aos poucos se arrastando. Fez reboar pelo solo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Mas o braço cansou! Trabalhou. do agro solo.. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. a superfície bruta. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. lúgubre e só. funéreo 182 . E o Velho veio para o labor cotidiano. Triste. mordendo a atra terra infecunda. E em tudo que o rodeava. A terra escalda: é um forno.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! .. e o trabalho .

.. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. e compreendendo tudo.o último esforço. Num instante viu tudo. o precipício estava.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. flutua! Ninguém o vê. Caminhava. pois! Somente morreria Se da Vida. os filhos.. tombando. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. o peito arqueou-se. o Velho caminhava. a rugir-lhe aos pés. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. avistar a Árvore da Esperança. louco. a família! Não morreria. o acalenta. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. Quis fazer um esforço . sozinho.. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. e o braço Pendeu exangue. onde arde e floresce a Crença. avistando uma frondosa tília Julgou. a toa. era a turba trovadora Que assim cantava. ninguém o acalenta. ele pisasse os trilhos. E amplo. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. o cansaço Empolgara-o. Nem viu que era chegado o termo da viagem.. a flux d'água. bêbado de miragem. e a sonhar.. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico.

. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . Atros. Na majestade dum condor bendito.Asas de corvo pelo coração. sangrento O sol. mudo.eis tudo! E no meu peito . pompeiam (triste maldição!) . aos astrais desígnios. ígneo. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. mudo... luminosas. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Raios flamejam e fuzilam ígneos. a Sombra . dourando as névoas dos espaços.. E a Noite emerge. rubro.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. mudo. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. E há no meu peito . Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. Descem os nimbos. volaterizadas. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Subindo á majestade do Infinito. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas..condensada treva A sombra desce. fulvos.. e. . e o meu pesar se eleva E chora e sangra. alvas.ocaso nunca visto. Além. Negras.

185 . o tigre. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. entre esplendores. em plena e fulva reverberação. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. se tornassem ferros?! IV Poeta. O leão. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. de que serve. se. há-de Alva. A alma se abate. ciclópico. em vão na luz do sol te inflamas. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. se erguer. Fantástico. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. lodo.. Sírius me deslumbra.hóstia da Aurora. assassino Ébrio de fogo. Ah! Como tu. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. E corno a Aurora . o mastodonte. a lesma. curvo ao seu destino. Como Herculanum foi após as chamas. A Mágoa ferve e estua. ontem moribundo. e hás de ser após as chamas. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Hoje de novo. como se esses raios N'alma caindo. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios.. em lodo tudo acaba.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. a Aurora. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. III De novo. se. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. como tombou outrora. Vésper me encanta.o Sol .

E foi deixando essas funéreas. a Lua que no céu se espalha. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Então. banha As serranias duma luz estranha. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. sobe ao pedestal..Fera rendida à música divina. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Sírius me deslumbra. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Pelos rochedos. como abutres Medonhos. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte.. Iluminando as serranias.. E arrasta os coraç5es pela Descrença.. Medonhas valas. pois poeta.. e. Vésper me encanta. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. e minh'alma cobre-se de flores . pelas escarpas. pelas penedias. foi valas funerais deixando. Ergue. de ilusões te nutres. onde. frias. Canto.Arrasta as almas pela Escuridão.. Como recordação da festa diurna.. de ossos.

. Mas.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . A dispersão dos sonhos vagos reuno.INSÔNIA Noite.. sonâmbulo.... eu também vou passando Sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. nos céus altos. 187 . E invejo o sofrimento desta Santa.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. em mágoa. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta... sonâmbulo. triunfalmente. Depois de embebedado deste vinho. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.

. por exemplo. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Em que o Tédio. Recordam santos nos seus próprios nichos.. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Com o olhar a verde periferia abarco. Aqui. hedionda. o funerário. Agora. neste silêncio e neste mato. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. estronda Como um grande trovão extraordinário. Atro dragão da escura noite. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá.Vagueio pela Noite decaída. batendo na alma. Cercado destas árvores. os corimbos. as flores. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .. equilibrando-se na esfera. O Sol.. Estou alegre. As árvores. porém. em mágoa imerso.

"Miniatura alegórica do chão. é mais de um. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. Risco-o Depois. amorfo e lúrido."Cinza. aparece. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. síntese má da podridão. "Onde nenhuma lâmpada se acende. a esvaziar báquicos odres: . ébrio. Olho-o. porque um. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. barro. e na ínfima ânfora. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. os beiços na ânfora ínfima. certo. Todos os organismos são oriundos. Presto. harto. Olho-o ainda.Mucosa nojentíssima de pus. De onde. Dois são. "Na tua clandestina e erma alma vasta. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . o arquitetural e íntegro aspecto 189 . irrupto.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. E o que depois fica e depois Resta é um ou. por epigênese geral. Mergulho. por outra. "Onde os ventres maternos ficam podres. através ovóide e hialino Vidro.

Migalha de albumina semifluida. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. na terra instável. do meu espírito.Do mundo o mesmo inda e. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. ora. Se escapa. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Move todos os meus nervos vibráteis. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. cósmico zero. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Em que todos os seres se resolvem! 190 .. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Sob a morfologia de um moinho. que. o que nele Morre.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. é o céu abscôndito do Nada. sozinho. mônada vil.. Então. Na síntese acrobática de um salto. em segredo. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. muito alto. Vida. sois vós. sou eu. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. como nunca outro homem viu. Depois. dentre as tênebras. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!.

De onde quimicamente tu derivas. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.. Adeus! Que eu veio enfim. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E eis-me outro fósforo a riscar. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda..

a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. chora e se lamenta e vibra. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. 192 .. E. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. Sinos além bimbalham. . tangendo tiorbas em volatas. Troa o conúbio dos amores velhos . Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. E em tudo estruge a tua dúlia . Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Ora. vezes.. Amor. lembras. .ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Cantas a Vida que sangrando matas. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.. medras Nalma de cada virgem. davas brandindo em seva e insana Fúria.. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Retroa o sino.

Irene. fosforeando. 193 . Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Irene. pois. esse poder terrível. Eis o motivo porque fiz esta ode. quando Entre estrias de estrelas. Quedo. Assim. beija os áureos pés dos ídolos. eis-me de ti cativo! Cativaste-me.Essa dominação aterradora . . Entre timbales e anafis estrídulos. e eis o motivo. aos astros. sonhei-a. Irene.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. ontem. impassível! Esta de amor ode queixosa.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. Cativo.

NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Dentro. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Quase com febre. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. berrar. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. tinir. ao meio-dia. E eu nervoso. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Da qual. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Trinta e seis graus à sombra. irritado. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. bruta. Inopinadamente 194 . Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. erguido do pó. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor.

Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. . Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . afinal. A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava.

. oh! morena . Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. perdeste a ciência. Aperta-me em teu peito. divina. Eu quero o meu Calvário . De lírios e boninas Um veludíneo leito. E dá-me assim. Aperta-me em teu peito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei.QUADRAS Embala-me em teus braços. Embala-me em teus braços! 196 . Morreu-te a redolência. Assim como Jesus.. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.

3 de maio. Vista. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. duas. Dói-me a cabeça.ª-feira. No bruto horror que me arrebata. três. Aumentam-se-me então os grandes medos. e. quando a noite cresce.Uma. E aos tombos. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. em suma... através do vidro azul. Tenho 300 quilos no epigastro.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. em ânsias: .. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .Uma.. embora a lua o aclare. quatro. A conta recomeço. 6... Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.

. Elevam-se fumaças Do engenho enorme... Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Cinco lençóis balançam numa corda. . Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Mas aquilo mortalhas me recorda. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Por muito tempo rolo no tapete. A luz fulge abundante 198 . Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. numa festa. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Tomba uma torre sobre a minha testa. Acho-me.. .. Súbito me ergo.. O suor me ensopa... A lua é morta."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Meu tormento é infindo.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos .vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa.. Tal urna planta aquática submersa.. Ponho o chapéu num gancho. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. E o amontoamento dos lençóis desmancho.Sucede a uma tontura outra tontura. por exemplo.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .

Entretanto. De mim diverso. Broncos e feios. radiante e estriado. hierática. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. Côncavo. Vários reptis cortam os campos. a terra resfolega Estrumada. longe do pão com que me nutres Nesta hora. feliz. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. A ouvir. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. o céu. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. numa última cobiça. observa A universal criação. em diâmetro. No húmus feraz. cheia de adubos. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. no ato da entrega Do mato verde. passei o dia inquieto. Babujada por baixos beiços brutos.

quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. às da neve. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Umas. Monstruosíssimas mãos.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Outras. Assinalados pelo mancinismo. ás dos cristais. Mãos adúlteras. em sangue. tentáculos sutis.. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. pituitárias Olfativas. Pertencentes talvez. E à noite. Mãos que adquiriram olhos. a delinqüentes natos. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. 200 .. negras.. a farpas de rochedo Completamente iguais. vão cheirar..

. Rola a violeta santa dos teus olhos . No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Guarda a saudade que levou do Mame. pálida camélia.a Carne. Opalescência trágica da lua! Tu. E como um nume de pesar. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Mas neste sonho. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Pareces reviver a antiga Ofélia. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 .. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. plangente. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Sonho abraçar-te. langue e seminua.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. oh Quimera.

A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Eu procurava. com soluços quase humanos. com uma vela acesa. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Aprazia-me assim. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Aves com frio. Convulsionando Céus. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Choravam. Cruzes na estrada. num ruidoso borborinho Bruto. como num chão profundo. No desespero de não serem grandes! 202 . uivando hoffmânnicos dizeres. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. O feto original.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. na escuridão.. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza.. análogo ao peã de márcios brados. era só O ocaso sistemático de pó. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. E. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim.

A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Como o protesto de uma raça invicta. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. me tornara A assembléia belígera malsã. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. na ânsia dos párias. de onde se vê o Homem de rastros. vingadora. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral.Vinha-me á boca. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Noite alta. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. perdido no Cosmos. Fluía. frias como lousas. com a sidérica lanterna. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. horrenda e monótona. Mas das árvores. uma voz 203 . A abstinência e a luxúria. Brilhava. assim. ao colher simples gardênia. Maior que o olhar que perseguiu Caim.

Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. arvoredos desterrados. Tragicamente. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. em suma. entres Na química genésica dos ventres. Na prisão milenária dos subsolos. Nós. oh! filho dos terráqueos limos. amanhã píncaros galgas.. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. pois. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. enquanto Deus. na ânsia cósmica. Rimos. Se hoje. a espiar enigmas. diante do Homem. do Equador aos pólos. isto é. montanha.Tão grande. árvore. ovário. Para erguer. choramos. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. que. tão profunda. obscuro. com a febre mais bravia. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Porque em todas as coisas. Crânio. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . porque. Não trabalham.. afinal. Rasgando avidamente o húmus malsão. Para esconder-se nessa esfinge grande. iceberg.

As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. a erguer-me. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. A voz cavernosíssima de Deus. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. astro decrépito. Eu fora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . alheio ao mundanário ruído. desgraçadamente magro. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. naquela noite de ânsia e inferno. a escalar Céus e apogeus. Eu. em destroços.

E muitas vezes a agonia é tanta Que. rolando dos últimos degraus. arrancado das prisões carnais. quero até rompê-las! Quero.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio.. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Para pintá-lo. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. armado de arcabuz. 206 .. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. pela boca. em coalhos. Viver na luz dos astros imortais. é o prélio enorme. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. entre estes monstros. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. As minhas roupas. Minh'alma sai agoniada. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Na ânsia incoercível de roubar a luz. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. no combate.

Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Seja este... Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.. enfim. E tombe para sempre nessas lutas. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. é improfícuo. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.esta arca. faz mal. a água que bebo. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . E é tudo: o pão que como. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. é inútil. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . A bênção matutina que recebo. em suma. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem..

Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez.Faminta e atra mulher que. A Morte. Então meu desvario se renova. estudo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.. e a mim pergunto. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Sai para assassinar o mundo inteiro. ouvindo um grande estrondo. a 1 de Janeiro. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.. Corro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . sozinho. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.. Mas de repente. rio Sinistramente. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.. abrindo todos os jazigos. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Intimamente sei que não me iludo. Como que. à meia-noite. come.. na vertigem: -. -.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. numa cova.. em trajes pretos e amarelos.

e após gritar a última injúria. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. e quando vi o que era. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.. Vi que era pó. em grupos prosternados. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre.. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.. que em mim dorme. Eu desafio. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Tu não és minha mãe. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Deixa-te estar. e de declínio Em declínio. Como as estalactites da caverna. canalha. desta cova escura. Por tua causa apodreci nas cruzes. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod... acorda em berros Acorda. Perante a qual meus olhos se extasiam. Quis ver o que era. Amarrado no horror de tua rede. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Com as longas fardas rubras. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. como a gula de uma fera. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . É Sexta-feira Santa.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez.

enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Dentro da igreja de São Pedro. quieta.. e a gente.. A desagregação da minha Idéia Aumenta. vendo-o. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas.Um esqueleto. A árvore dorme Eu. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Como as chagas da morféia O medo. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na Eternidade.. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo.. O vento entoa cânticos de morte. no ar de minha terra. As luzes funerais arquejam fracas. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. O céu dorme. Roma estremece! Além. Na molécula e no átomo. Desperto. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. somente eu. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa.

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