PRINCÍPIOS DO DIREITO COLETIVO DO TRABALHO

Messias Pereira Donato, Cadeira n. 34*

O desenvolvimento do tema requer duas observações preliminares, voltadas para seu conteúdo. A primeira delas diz respeito ao significado da expressão Direito coletivo do Trabalho. Trata-se, na realidade, de uma das divisões do Direito do Trabalho e não de ramo de direito autônomo ou de tendência a tornar-se autônomo. Daí que os princípios objeto da dissertação, apesar de seu relevante nível de especificidade, são de fato, princípios do Direito do Trabalho, relativos às relações coletivas de trabalho. A segunda observação está em que tais princípios específicos coexistem com os princípios gerais do Direito do Trabalho de correlação mais íntima com as relações individuais de trabalho, com destaque para a abrangência do Princípio de Proteção, cuja tônica se revela em doses fortes tanto nas relações individuais como nas relações coletivas de trabalho. Os princípios específicos e os princípios gerais compõem assim os Princípios do Direito do Trabalho. Embasamento dos Princípios do Direito do Trabalho

Na enunciação dos Princípios do Direito do Trabalho, sejam os princípios gerais, sejam os específicos, é de se terem em vista: 1. os princípios e normas relacionados com a disciplina, inseridos na Constituição da República; 2. a legislação infraconstitucional, 3. os princípios pertinentes contidos em tratados internacionais de que o País for signatário. No plano da Constituição, repositório ímpar e casuísta de preceitos e princípios de Direito do Trabalho, estão estes presentes, como âncora de um Estado Democrático de Direito (art. 1º), cuja atividade econômica e cuja ordem social devem ser programadas e planejadas para a obtenção do bem comum, pressuposto básico da meta principal, que é o alcance da justiça social (artigos 170 e 193). De conteúdo econômico e de conteúdo ético, a justiça social repousa na aspiração de melhoria das condições materiais do homem, cuja fonte de riqueza está no trabalho e na promoção do trabalhador, como pessoa, como integrante de uma categoria profissional e na qualidade de cidadão, participante da sociedade política. A dosificação da desigualdade1, a busca da solidariedade dos homens do trabalho e da solidariedade com os homens do trabalho2 encontram-se à sua raiz. No campo jurídico, a dosificação da desigualdade e a solidariedade dos e com os homens do trabalho, em um Estado Democrático de Direito, requerem, na esfera do Direito do Trabalho, a diversificação de centros
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Venturini, Jorge L. Garcia. Politeia. Buenos Aires: Ed. Troquel, 5ª.ed., 1980, p. 24. Papa João Paulo II, Encíclica Laborem Exercens, in Santiago, J. Rubinstein. Fundamentos Del Derecho Laboral. Buenos Aires: Depalma, 1988, p. 29.

em que deve primar o respeito pela dignidade do homem no trabalho. o Estado inspira-se na valorização social do trabalho. a “redução das desigualdades sociais e regionais”. comum a empregados e empregadores. como se lê na Constituição da República. a tônica está na solidariedade geradora da categoria e. Para a dosificação das desigualdades por via legal. e proclama ter por objetivos.irradiadores de poderes. Assim como o Estado é devedor de prestações. Sua base jurídica firma-se no princípio da liberdade sindical e no princípio da autonomia sindical. manifesta-se nos planos individual e coletivo. A organização sindical livre e independente é a via de representatividade coletiva por excelência. com atribuição às organizações sindicais da missão de “defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria”. o Estado voltase para a proteção do trabalhador e para sua promoção social. em função desta. “a cidadania. a dignidade da pessoa humana os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”. A especificidade da via sindical defende o trabalhador como componente de uma coletividade sedimentada em interesses comuns. Com vista à dosificação das desigualdades por via legal. quando apregoa serem princípios fundamentais. dentre outros. cuida de reconhecer a liberdade de associação profissional ou sindical. com vista a uma sociedade justa e solidária. na dosificação das desigualdades por via sindical. Os núcleos jurígenos passam a ter sede na atuação do Estado e na atuação das entidades sindicais. . na sustentação do interesse coletivo para a defesa de direitos e interesses do indivíduo na condição de membro dela. centrada no poder gerador de normas coletivas. Princípio da liberdade sindical O princípio da liberdade sindical.

ou pela difusão de nomes de reclamantes colhidos nas pautas dos tribunais. a liberdade sindical revela-se sob tríplice aspectos: A. práticas de preparação e utilização da lista negra. Liberdade de fundação de sindicato. através de divulgação de seu nome entre empresas. O emprego de lista negra consiste em ser o trabalhador congelado. pelo fato de. por exemplo. para depreciá-lo junto a consumidores. alteração de seu horário de trabalho. para que não venham a ser contratados. por ser judicialmente condenada em processos de ofensa à dignidade do trabalhador. 3 Spyropoulos. é ele posto em lista negra pelo sindicato profissional. . o que importa na vedação de medidas discriminatórias por parte da Empresa ou do Estado e de práticas anti-sindicais. seja. como prêmios.No plano individual. p. 216. O proselitismo é de sua essência. como remoção abusiva do trabalhador. consistentes na inserção em instrumentos coletivos normativos de cláusulas de filiação sindical e de segurança sindical. 1956. atos que envolvem perseguição ou medida punitiva. contratar trabalhador não sindicalizado3. Como discriminações por atos da empresa citem-se iniciativas restritivas de vantagens alcançadas pelo trabalhador. La Liberte syndicale. Em relação a empregador. o que envolve a possibilidade de arregimentação. B. promoção. tido por indesejável. Implica em liberdade de manter sindicato e participar de suas atividades. a clientes. Liberdade de aderir a sindicato. Paris: LGDJ. por exemplo. Georges. pela seleção dos que participam ativamente de greve. medidas disciplinares desarrazoadas ou desfundamentadas.

p. consiste no direito de não 4 V. é de se rejeitar que ainda estejam em vigor. que estipula o compromisso formal do trabalhador de não se filiar a sindicato4. Cox. de tal vulto. sindicatos de empresa. 1975. Direito Sindical. p. C. Curtis Bok. segundo se pode verificar do contexto dos artigos 544 e 546 da Consolidação das Leis do Trabalho. Ademais. Russomano. por infringirem frontalmente o princípio de isonomia abrigado na Constituição da República. Labor Law. manipulados de conformidade com os interesses de seu fundador. Derek. sua manutenção ou a despedida dele. No plano legal. importaria em sua violação cláusula que condicionasse a admissão em emprego.Exemplo de desvirtuamento da liberdade sindical é o dos sindicatos fantasmas. Liberdade de não sindicalizar-se. J.M. Archibald. que as vantagens neles contidas tornariam irresistível àquelas ou a estes deixarem de sindicalizar-se. 1969. sindicatos fantoches. Embora não derrogados por preceito expresso. Mozart Victor. New York: The Foundation Press. Revue Internationale du Travail. restritiva do poder do sindicato e permissiva de livre contratação pelo empregador de trabalhadores sindicalizados ou não sindicalizados. pelo fato de o trabalhador não ser sindicalizado ou recusar a filiar-se a sindicato. as medidas discriminatórias dizem respeito à concessão de favores ou de preferência a empresas ou a trabalhadores sindicalizados. subvencionados ou mantidos por empresa ou grupos de empresas. por haver ratificado a Convenção nº 98. Sob o regime de unicidade sindical. como ocorre no direito positivo pátrio. Servais. como a cláusula open shop. 314. da Organização Internacional do Trabalho. ou a cláusula yellow dog. 7th ed. Les politiques antisyndicales em matière d’emploi. mai/juin 1977. Rio de Janeiro: Konfino. São por demais conhecidas as cláusulas de interdição de filiação sindical. . de instituição estimulada. 66.

É de se pôr sob indagação este aspecto da liberdade sindical. como condição de contratação exclusiva ou preferencial de trabalhadores. A liberdade de não sindicalizar-se em tal situação importa em admitir que o interesse do individuo prepondere sobre o interesse coletivo. Embora beneficiário das vantagens alcançadas pelo sindicato. ou seja. com vista ao resguardo da liberdade individual.à abstinência de sindicalização. a titularidade da liberdade de não sindicalizar-se permite ao trabalhador beneficiar-se dos efeitos positivos dos instrumentos normativos e fazer vista grossa da entidade sindical. inclusive dos trabalhadores não sindicalizados. com alcance de toda a categoria. em relação aos ordenamentos jurídicos em que os instrumentos coletivos normativos têm eficácia vinculante erga omnes. Dentro dessa linha de entendimento. assegurada na Constituição da República. De par com cláusulas de interdição de filiação sindical subsistem cláusulas de segurança sindical sobre obrigação de filiação sindical ou de obrigação de contribuição para o sindicato. o Tribunal Superior do Trabalho reputa como ofensiva à liberdade sindical. Tais cláusulas vêm sofrendo temperamentos. a inserção em instrumentos normativos de cláusula que disponha sobre obrigatoriedade de contribuição assistencial para entidades sindicais por parte de trabalhadores não sindicalizados (Orientação Jurisprudencial nº 17 da Seção de Dissídios Coletivos). . dentre eles os que se referem: 1.filiar-se a sindicato. de verificação em práticas no Egito e nos Estados Unidos. por invocação de motivos de consciência e de objeção religiosa. Ao trabalhador no caso é dado colher os bônus e rejeitar os ônus.

ou seja. LTr. Leap. 1997. 7 Sobre os diversos tipos de cláusulas. Terry . à abstinência de sindicalização. 254. Pela cláusula closed shop (oficina fechada) a empresa somente pode contratar trabalhadores que forem filiados ao sindicato convenente. Pamplona Filho. com o fim de limitação do número de despedidas que o sindicato pode exigir no curso de um mês ou de submissão das despedidas à apreciação e decisão de uma comissão arbitral escolhida para o fim. New York: Macmillan. LTr. Pela cláusula union shop. e Voelker. quando da celebração da convenção coletiva6 Pela cláusula preferential hiring ou preferential shop. o empregador é livre de contratar. de obrigação do trabalhador sindicalizado de permanecer filiado ao sindicato até o termo da convenção em que tiver sido estipulada. como ocorre nos Estados Unidos5.ainda: Sauer. 1993..Usine et syndicats d’Amérique. a empresa obriga-se a dar certa preferência a trabalhadores sindicalizados7 5 6 Crozier. A restrição opera-se em relação ao trabalhador. reconhecido aos trabalhadores já contratados. Direito Coletivo do Trabalho. Uma vez contratado. Robert L. New Jersey: Prentice Hall. salvo se a recusa resultar de motivo mal fundado. 1951. Ressalva-se o direito de não filiação a sindicato. Spyropoulos. p. Michel. Keith E. Georges. Idem. Collective Bargaining and Labor Relations. Rodolfo.Paris: Éditions Ouvrières. em vista de recusa de adesão do interessado por parte do sindicato. Delgado. p. Esta cláusula pode articular-se com a cláusula de manutenção de filiação. 1993.. . Pluralidade Sindical e Democracia. v. Op. 2001. Cláusula existe que requer tão só o pagamento de contribuições pelo não sindicalizado. 83.2. Labor Relations. Maurício Godinho. LTr. se não vier a sindicalizar-se dentro de certo prazo. Princípios de Direito Individual e Coletivo do Trabalho. cit. 1948. como se dá na Inglaterra. obriga-se o empregador a despedi-lo. Existem sub-cláusulas de amenização da union shop. Structure and Process. .

No regime de pluralidade sindical. a liberdade de ação sindical ancora-se no princípio de autodeterminação coletiva. Princípio da autonomia sindical Na esfera da autonomia do sindicato inserem-se sua liberdade de funcionamento e sua liberdade de ação. a de filiar-se a sindicato de sua escolha e a de filiar-se a mais de um sindicato. poder constituinte. . através do qual sua Assembléia Geral institucionaliza a coletividade. ou seja. A liberdade sindical no plano coletivo manifesta-se por meio da autonomia sindical. de sistematização do ordenamento. Inserem-se neste princípio as seguintes prerrogativas: 1. à liberdade de não sindicalizar-se acrescentam-se três outras: a de não filiar-se a um sindicato qualquer. de constituição e funcionamento de seus órgãos. ao propiciar-lhe meios de autodeterminar-se. Funcionamento do sindicato: princípio da autodeterminação institucional O princípio da autodeterminação institucional traduz a capacitação da entidade para a produção de seu ordenamento jurídico e para auto-dirigir-se. cuja tônica é a normatividade e nos princípios de concertação social e de autotutela. elabora instrumentos normativos. Para tanto. na potestade de estruturar-se juridicamente. A primeira liberdade ampara-se no princípio de autodeterminação institucional. que estabelecem as regras de seu governo.

propostas e soluções sobre a convivência. efetiva e permanente dos filiados em seu funcionamento e em suas decisões. como liberdade de pensamento. estabelecer e desenvolver se programa de ação. deveres e obrigações de seus associados. de ser por ela representado de forma lisa e legítima. fixar direitos. A exemplo do que se dá no campo político. 1996. a interação de interesses individuais e coletivos. de par com direitos e garantias próprios ao status de associado. p. 8 Landa Zapirain. gerir seu patrimônio. . para o associado do sindicato o direito de votar e ser votado nas eleições sindicais. direito de autodirigir-se. Constituem garantias de franquia democrática. 3. eleger dirigentes. de vigilância e fiscalização de seu funcionamento. de exigência de participação ativa. se discutem. constituem pressupostos para o exercício da atividade sindical o reconhecimento das liberdades públicas. do grau de representação da categoria. de participar das decisões da entidade. 157. liberdade de difusão de opiniões e idéias. por exemplo. Democracia sindical interna. de defesa com os recursos e procedimentos pertinentes. direito de fixar contribuição para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva. Juan Pablo. se maturam temas e teses. condições e meios necessários à consecução de seus fins.2. Daí que no plano de suas normas internas. Madrid: Editorial Civitas. o sindicato é uma escola de democracia inspirada no padrão político geral8 Perante ela se colocam. deliberar sobre iniciativas. impõe-se a observância de direitos e garantias individuais. do direito de reunião e de informação ao associado. no sentido de prover sua administração. Liberdade de ação sindical: escola de democracia Dimensionado em função de sua estrutura.

desjudicialização e normatização das relações coletivas de trabalho. desvinculando-se de suas preferências filosóficas. 9 Durand. 1983. p. “não é só incompatível com a Convenção nº 87. 3. Pondera Paul Durand que “os membros das profissões não podem cuidar do estudo dos problemas profissionais. Está em consonância com esse entendimento a tese de que não se desejará tampouco venha a entidade sindical ser caudatária ou venha a conviver em comunhão orgânica com partidos políticos10. DESJUDICIALIZAÇÃO E NORMATIZAÇÂO DAS RELAÇÕES COLETIVAS DE TRABALHO A garantia de liberdade de ação sindical está à raíz da deslegalização. Esta dissolução se tornaria impossível à unidade psicológica do homem. Organização Internacional do Trabalho. Libertad sindical y negociación colectiva. diz a Comissão de Técnicos na Aplicação de Convenções e Recomendações da Organização Internacional do Trabalho. Compreende-se ser irreal pretender que ela se abstenha de atividade política no trato dos problemas da vida profissional. DESLEGALILZAÇÃO. Traité. Nº 384.´políticas ou religiosas. de concertação social e de autotutela.A entidade sindical funciona e atua no meio econômico. “A proibição geral de exercer atividades políticas”. E o seria igualmente porque. em seu sentido mais completo. Encontra ela resposta e apoio nos princípios de autodeterminação normativa. Genève. as questões filosóficas são questões políticas”9. político e social em que se instala. como é impossível fazê-la respeitada na prática”. Paul. 10 .

em regra. tais efeitos são de aplicação imediata. Em relação ao ordenamento jurídico do Estado. A Consolidação das Leis do Trabalho reputa tais condições disformes como nulas.sindicatos – atuam no interesse das respectivas categorias ou de parte delas e criam normas superiores às do regulamento contratual individual ou às do regulamento interno empresarial. Criam direitos e obrigações para o empregador e para o empregado. Sua derrogação pode ser prevista no próprio instrumento normativo. em grau de hierarquia inferior às normas legais. Em alguns casos podem ser derrogatórias de leis de ordem pública. 619). de aplicação aos integrantes da categoria ou de parte dela. em relação ao momento de sua entrada em vigor. independentemente de sua vontade. sejam obrigacionais ou normativas. Em conseqüência. avaliada pelos interessados. pode decorrer de condições mais vantajosas estipuladas no contrato de trabalho. Durante o prazo de sua vigência. em regulamento de empresa ou em acordo coletivo ou convenção coletiva de trabalho. . Em segundo lugar. Ernesto. Têm eficácia vinculante.Princípio de autodeterminação normativa Pelo princípio de autodeterminação normativa ou do regulamento coletivo. diz Krotoschin11. possuem efeitos erga omnes. Tais efeitos são imperativos. 11 Krotoschin. O efeito automático supera o mero efeito obrigatório. ou ainda em razão de grave crise econômica. comparadas com as condições estabelecidas em instrumento normativo em vigor. situam-se elas. nulidade absoluta (ar. mas são derrogatórias de leis dispositivas. seres coletivos . incidirão sobre os contratos de trabalho em vigor e sobre os contratos que sobrevierem em seu curso.

tornaos passíveis de penalidades.A inobservância do instrumento normativo. No âmbito da criação de normas. 622 da CLT). ocorre quando inspira o legislador na criação de normas. não se trata de invocar a atuação sindical como centro produtor de direito. particularmente para a elaboração da linha mestra da política social. da CLT). ao nível de instituições e na macroeconomia. VIII. em decorrência do princípio de autodeterminação normativa das entidades sindicais. Na esfera jurídica. que dele devem constar. consistirão elas de multas. o princípio manifesta-se sob tríplice aspecto: na criação. mas de situações em que a atuação sindical tem servido como integradora e derrogatória de normas. No primeiro caso. na integração e na derrogação de normas jurídicas. requestada pela imensa carga de responsabilidade do Estado social de direito. em caráter obrigatório (art. para o empregado não poderá exceder a metade do valor da multa que for estipulada para a empresa (art. Princípio da concertação social É princípio próprio à negociação coletiva Consiste na interação econômica. 513. pela transposição para o texto legal de vivências oriundas de acordos ou de convenções coletivas de trabalho. Nos planos econômico e social consubstancia-se na co-participação ao nível da empresa. segundo preconizado na Constituição da República. social e jurídica do poder estatal com as categorias econômica e profissional. Em relação ao empregado e à empresa. Esta diretriz foi responsável pela inserção na Constituição da República de várias disposições de proteção ao . ou ainda pelo empregado. seja pelos sindicatos ou da parte de empresa ou empresas convenentes. cujo valor.

previdenciário social e tributário. . em relação à duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais. das atividades econômica e social12. empresários e trabalhadores. Luiz Paulo e Benites Filho. das constantes mudanças nos setores econômico. estabilidade provisória. 1995. ou ainda apela conversão em lei de conquista coletiva. os resultados são desanimadores. Sem dúvida que. em que se leve em conta a natureza tripartite dos co-participantes. como. através das sentenças normativas. c. no campo das negociações coletivas. do abono de férias. os instrumentos coletivos normativo são passíveis de abranger disposições de leis imperativas em três situações: a. Contudo. no tocante à jornada de trabalho realizada em turnos ininterruptos de revezamento (art. XIII e XIV da Constituição da República). Flávio Antonello. dentro desse contexto. Reclamam o sindicatos da ausência de política industrial amplamente discutida entre governo. da fragilidade ou da comodidade das entidades sindicais como grupos de pressão. a atuação do Poder Normativo da Justiça do Trabalho. representa um freio à ação sindical. pp 224/225. em caso de irredutibilidade salarial. VI. garantia sindical. Negociaçõies Tripartites na Itália e no Brasil. piso salarial. 7•. como no caso do 13º salário. por efeito da flexibilização da legislação do trabalho. do desinteresse na elaboração de uma “legislação de sustento”. de uma legislação mesclada de normas de origem corporativista e de normas 12 Bresciani. b. São Paulo: LTr Editora. Na área da derrogação de normas legais.trabalhador. acordos sobre jornada em turnos ininterruptos de revezamento. em termos de adequação das negociações coletivas à realidade econômico-social do País. No campo da interação econômica. por exemplo.

com vista a garantir a observância das normas negociadas pelo sindicato e integrantes do ordenamento jurídico democrático e das normas legais que o amparam. ameniza. quanto a procedimentos e quanto à interferência da Justiça do Trabalho. a exigência de obrigação de negociar preceituada na Consolidação das Leis do Trabalho (art. A Constituição da República. 623 da Consolidação das Leis do Trabalho faculta ao Ministério do Trabalho. em distanciamento do princípio da concertação social. ao nível das categorias e ao nível dos locais de trabalho voltada para a criação de regras coletivas e . Falta tratamento legal uniforme quanto à negociação nas atividades trabalhistas privadas e na área pública. 616. ocasionalmente indispensável. 8º. O art. sem recurso necessários a outros centros de poder e de decisão. Manifesta-se sob tríplice aspecto: A.liberais. através de meios e métodos. pela representação unitária dos trabalhadores. na defesa dos direitos e interesses da categoria. Princípio de autotutela A autotutela consiste no exercício da ação sindical. caput). não deixa de representar uma fonte de paternalismo. para pior. declarar nulas as disposições de instrumentos normativos contrárias à política econômico-financeira do Governo ou à política social vigente. que o torna frágil instrumento de sustentação das reivindicações sindicais. III). nesse passo. mediante representação. A Constituição da República acolhe de modo amplo o direito de greve. para estabelecer tão só a participação dos sindicatos nas negociações coletivas espontâneas que houver (art. mas a lei ordinária o regulamenta com minúcias.

C. mas não recepcionadas por falta de consenso entre os interessados. seja porque a solução judicial dos conflitos de trabalho alcança tão somente os de natureza individual13.. Onde há sistema de negociação coletiva avançada. estabelece que cumpre ao Tribunal do Trabalho “respeitar as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho. Isto significa que. seja em virtude da responsabilidade que o sindicato passa a assumir. encontra óbice no poder normativo da Justiça do Trabalho.Bresciani. proibitiva de ação direta. pela ação direta. se nas novas reivindicações o contexto de tais regras tiver sido modificado para melhor.12.2004. cujas sentenças normativas invadem a área de 13 . O princípio de autotutela está longe de alcançar satisfação no direito positivo pátrio. uma vez reivindicadas as disposições mínimas convencionadas e vigentes ao ensejo das novas negociações. Com efeito. Flávio Antonello. reforçou a eficácia de tais regras. cit. de 8. No plano institucional. bem como as convencionadas anteriormente”. pela atuação das entidades sindicais em órgãos de colaboração e conciliação de que participam. p. É-lhe facultado alterá-las. por participar das decisões de políticas do Estado. no curso de sua vigência. após a Emenda constitucional nº 45. Op. ao dispor sobre o julgamento de dissídio coletivo de natureza econômica. B.para sua aplicação à categoria ou à empresa. terão sua eficácia mantida pelo Julgador. nos limites do Poder Normativo.. A este é vedado desprezá-las ou decidi-las in pejus. Luís Paulo e Benites Filho. é habitual fazer constar dos instrumentos coletivos normativos cláusula de paz social. Os acordos tripartites têm estimulado a autotuela. O texto constitucional. em especial através do exercício do direito de greve. . 219 e seguintes.

primeiro. O único dispositivo sobre a matéria limita-se à obrigatoriedade de um representante dos trabalhadores. Instrumento de autotutela é a ação direta. Paulo. 621 da CLT. quando provocado a tanto pelo Antunes. Depois. mesmo em caráter excepcional. por eles eleito. às quais o regime militar então vigente manifestou forte rejeição14. Ricardo C.01.958. 1982. nas empresas de mais de duzentos empregados. atentar para o fato de ser o 14 da República. Não atrai a simpatia dos trabalhadores a previsão legal de instituição em instrumentos normativos de comissões mistas de consulta e colaboração (art. . Arnaldo. em nada contribuem para melhoria do nível de tutela sindical. não prevê a obrigatoriedade de um parceiro em negociar. “com a finalidade de promover-lhes o entendimento com os empregadores” (art. para que delas ele cuide. de intensa reivindicação operária. No campo do direito positivo. As que vierem a ser criadas na área do sindicato serão regidas por instrumentos normativos.normatização sindical. pp. em algumas grandes empresas. de 12. em relação às comissões de consulta e colaboração no plano da empresa. Passíveis de ser instituídas nas empresas. prejudicam-no. o obstáculo está na ausência de previsão de órgãos de representação. podendo a Empresa criá-las. 621/CLT). 96/106. As Comissões Mistas de Conciliação Prévia. Na década de 60 e 70. comissões de fábrica foram criadas em Osasco. Agravam-se as dificuldades de sua instituição ao nível sindical. sua ordenação se dará pela retro-citada lei. da qual a greve constitui modalidade mais importante. Ao contrário. o que já estava previsto no art. não irá participar de negociação com o sindicato. Cumpre.2000. no Estado de S. O que são coimissões de fábrica? São Paulo: Editora Brasiliense. 7º XI). diferentemente da CLT. pende de lei ordinária (art. porque a Constituição outro. porque. objeto da Lei nº 9. 11). A participação na gestão da empresa. porém. e Nogueira. prevista na Constituição da República.

Em terceiro lugar. em virtude de ter provocado a instituição de órgãos menores de colaboração com o sindicato. Os direitos assegurados no curso da greve são do trabalhador. convenções. com vista a autodeterminação coletiva e à autotuela.indivíduo e não o sindicato o titular do direito de greve. comissões de empresa. a saber. 1994. após o término do movimento coletivo. Função e pressupostos da negociação coletiva A negociação coletiva é a fonte mater dos princípios de autodeterminação normativa. ou por efeitos indiretos. . à luz do princípio de concertação social Desconflita tensões e constitui procedimento para a celebração de acordos. pp 86. de concertação social e de autotutela. Sistema de auto-composição. A atribuição dessa magnitude de responsabilidades ao trabalhador conflita com sua total insegurança no emprego. Estructura de la negociación colectiva y relaciones entre convênios Madrid: Editorial Civitas..82. Jesus R. Ao sindicato incumbe a tarefa de convocação da Assembléia Geral dos trabalhadores. ela é um processo direcionado a entendimento de comum acordo entre os interessados. É igualmente um método voltado para a administração de conflitos. fez dela instrumento de participação. Unguina. conselhos de empresa. por via direta. a negociação coletiva é também sistema de produção normativa15. contratos coletivos de trabalho e para a abertura de perspectivas à missão do 15 Mercader. Sua utilização no seio da empresa. pode assumir a feição de um direito de negociação. a quem cabe decidir sobre a matéria. Aos trabalhadores é que cabe decidir sobre a oportunidade de seu exercício e sobre os interesses que devam por meio dela defender. Como sistema de decisão. por dispor o empregador do direito potestativo de despedida. na sua função integrativa ou derrogatória de normas.

Não se trata. para se estabelecerem táticas e critérios de negociação. do dever de adequação. cuja eficácia depende do sistema e para cuja realização o Direito do Trabalho contribui como componente do ordenamento jurídico. A prática das negociações encontra no princípio geral de boa-fé critério de entendimento dos direitos sob uma ótica social. Já a negociação como dever de paz seria quando muito dever jurídico. a qualquer 16 Montoya Melgar. Ele comanda os atos jurídicos em geral. passível de recusa pela contraparte ou de malogro pelo desentendimento entre os co-partícipes do processo (art. na realidade. Alfredo. a negociação coletiva passa por uma série de fases ou etapas. Na verdade. 7º. A Consolidação das Leis do Trabalho reconhece aos sindicatos e às empresas o direito à negociação coletiva. seja público ou privado16. . Na ocorrência de uma ou de outra das duas situações. A abertura das negociações coletivas requer a fixação de sua estratégia. 422 do Código Civil). Nas táticas de negociação autores há que fazem incluir as táticas procedimentais. La Buena Fé en el Derecho del Trabajo. As táticas procedimentais são regras de conduta próprias à dinâmica e ao objetivo da negociação. do dever de influência. na interpretação dos negócios jurídicos (art. seja em matéria sindical-coletiva. pp 9 e 14. de princípios específicos. o princípio da boa-fé é princípio geral de direito. 113 do Código Civil). compreendendo a negociação de boa-fé e a negociação como dever de paz. seja quanto ao regime dos contratos (art. como princípios procedimentais. abrangentes do dever de informação. 616). 2001. na fixação da jornada de trabalho realizada em turnos ininterruptos de revezamento (art.legislador. A Constituição da República abre-lhe espaço para possibilitar-lhe função derrogatória. XIV). Em sendo processo. O dever de paz social constitui valor jurídico. Outros autores acolhem como princípios os critérios de negociação. Madrid: Real Academia de Jurisprudência y Legislación.

Ao inovar a ordenação da matéria. encontrar no Judiciário a solução do conflito. por se tratar de mera faculdade). se se puserem de comum acordo. “não podem recusar-se à negociação”. constitui mera faculdade). (o apelo a árbitros. desejam ou não alcançar comum acordo para a submissão . É que.dos interessados seria facultado o ajuizamento de dissídio de natureza econômica. Negociação frustrada não importa necessariamente em recusa de negociação. a Constituição propicia-lhes a oportunidade de negociarem sobre se. cujo parágrafo 2º dispõe que. da hipótese de frustração da negociação coletiva (se os interessados não desejarem ou não acordarem em recorrer a árbitros. será de se recorrer ao citado art. “se malograr a negociação entabulada. Subsiste o vazio da negociação levada a efeito. é facultado às partes. com vista à celebração de acordo coletivo ou convenção coletiva de trabalho. Na falta de disposição expressa da Constituição da República sobre como agirem os interessados. não obstante a recusa. quando provocados. é facultado aos Sindicatos ou às empresas interessadas a instauração de dissídio coletivo”. pois o desacordo é fruto desta. já se viu. na hipótese de um deles se recusar à negociação espontânea. A Constituição ameniza a exigência da CLT no sentido de que os parceiros. 616 da CLT. b em caso de recusa da negociação coletiva “por qualquer das partes”. a Constituição da República cuida: a. mas frustrada.

ou seja. é dela permeada. nos limites dos quais dominam os princípios do direito coletivo do trabalho e alcança. a tentativa de comum acordo requer negociação coletiva. em que o ajuizamento do dissídio coletivo é assegurado a qualquer dos interessados. Ora. com vista a obter desta um comando estatal. embora como projeção dela. por meio de proposta. ficará caracterizado o malogro da negociação. em conseqüência. membro da Academia Nacional de Direito do Trabalho. Verifica-se pelo exposto que a negociação coletiva extravasa os limites da negociação coletiva espontânea direcionada à celebração de instrumentos normativos. o preâmbulo da sentença normativa que. por sua vez. Recai-se. na hipótese de frustração. . Reclama provocação de interessados a outros. A provocação suscitará discussão e é certo que exigirá manifestação expressa ou tácita do provocado ou provocados.da controvérsia à apreciação da Justiça do Trabalho. * Messias Pereira Donato é professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. membro da Academia Iberoamericana de Derecho del Trabajo y de la Seguridad Social. Na omissão destes quanto à proposta ou na rejeição dela.

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