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O MEU MUNDO

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2011
O MEU MUNDO

MAD Novas Oportunidades 01-01-2011

A cidade era constituída basicamente por casas de um ou dois pisos e grandes quintais. De um modo geral todas as pessoas disponham de um pomar variado e hortas. enquanto os meus pais saíam. Algumas vezes acompanhava-os quando iam à caça. Serpa-Pinto era uma pequena cidade onde todos se conheciam e as suas actividades sociais eram basicamente. por sua opção. porque só lá vivi até aos oito anos. papaias. Tínhamos uma grande casa. Não conheço por isso as grandes cidades de Angola. maracujás. contando os anos de serviço a dobrar. bananas. Caçavam basicamente animais de pequeno porte e aves. Os últimos anos que passámos em Angola foram no sul. que tinha uma criação de coelhos. para onde ninguém queria ir. as competições de tiro. Benguela ou Nova-Lisboa. o restaurante. Normalmente ficava em casa com os empregados. desertas e perigosas. As estradas eram largas e havia grandes espaços verdes. Alguns criavam ainda animais. Era uma cidade em crescimento e que poderia ter-se desenvolvido a um nível de grande cidade se a guerra não tivesse surgido. as competições de xadrez e a caça. o cinema. com um terraço a toda à volta e amplos espaços verdes. Isso proporcionava alguma auto-suficiência e também era um meio de ocupar o tempo. foi sempre destacado para zonas mais interiores. Devido ao trabalho do meu pai. com uma grande variedade de árvores de fruto. era o caso do meu pai. Chefe do Serviço Meteorológico. goiabas eram frutos que proliferavam no nosso quintal. numa cidade de nome SerpaPinto. . Exactamente por isso usufruía de benefícios monetários e regalias extraordinárias. como é o caso de Luanda. que. Mamões. que lhes forneciam a maior parte dos alimentos de primeira necessidade. As crianças tinham muito espaço para brincar e corriam livremente.As minhas recordações de Angola são vagas.

pois conheciam toda a gente. Sempre brinquei com meninos de cor e para nós eram como irmãos. Todo o processo de cablagem eléctrica e de tubagem era feito muito mais facilmente. portas e até . que a construção tradicional não permitia. Os transportes públicos eram o nosso meio de locomoção e depressa nos habituámos a gerir a nossa vida com base no horário destes. que foram os hotéis os primeiros a apostar no pladur. os meus pais conseguiram reaver os nossos pertences junto das sedes dos partidos. mas a guerra trouxe um ódio escondido e um desejo de poder e de riqueza que afectou a maior parte das pessoas. como um meio mais barato e prático de construção. A minha casa foi roubada várias vezes e algumas. Permitia fazer uma quantidade de coisas. muito irregulares e sempre atrasados. Permitia ainda todo um processo de isolamento acústico e térmico e o espaço ocupado pela parede era reduzido e permitia a criação fácil de janelas. A primeira vez que ouvi falar deste material já tinha 22 anos. pelo que o clima de terror apoderou-se das pessoas.Com o começo da guerra ficámos restritos ao interior das habitações. permitindo ainda em qualquer altura fazer arranjos ou ajustes a essa mesma instalação. mas com o passar do tempo. mas não era conhecido de muita gente. Em Portugal encontrámo-nos rodeados de cimento. cimento e tijolo. Esta situação veio a tornar-se insustentável e quando os meus pais resolveram vir para Portugal. A cidade era constituída basicamente por prédios e as moradias existentes ocupavam espaços muito menores do que as de Angola. sendo muito perigoso andar na rua. Mas sentia-se segurança nas ruas e nós podíamos ficar a brincar na rua até tarde. algumas firmas foram aparecendo com inovações como o pladur. ter a certeza. já eram poucos os brancos que não tinham fugido. no entanto. Os prédios em Portugal sempre foram construídos da maneira tradicional. Penso sem. não sei realmente há quanto tempo era utilizado em Portugal. com poucas zonas verdes. As ruas eram estreitas e as zonas verdes eram reduzidas a pequenos jardins públicos.

com a correspondente facilidade de embutir luzes directas ou indirecta. no entanto. e tectos com curvas e vários níveis. Também fiz alguns cinemas. O mesmo material permitia a criação de tectos falsos. As casas antigas sofrem mais deste mal e no Inverno a humidade afecta as paredes e cria zonas de desconforto visual a par do desconforto que o próprio frio traz. que em Portugal ainda não era muito utilizado. fiz todo o género de trabalhos. todas as irregularidades existentes e permitindo passar todo o género de matérias. não eram repetitivos e requeriam a construção de elementos decorativos mais arriscados e de maior espaço de manobra para a imaginação. escondendo. As casas que conheci eram todas construídas com este material e talvez por isso o nível de conforto térmico era muito superior ao português. Em Portugal . mas reduzidos. Todas as casas tinham um sistema de aquecimento central. O pladur existe para todos os fins. interiores e exteriores. As casas portuguesas são na maioria feitas a pensar apenas no dimensionamento do espaço e raramento estão preparadas para as mudanças de temperatura. anti-humidade. mas os trabalhos que davam mais prazer fazer eram para particulares. entre outros. isolamento térmico ou acústico.armários embutidos. Os hotéis. Os trabalhos para particulares eram mais personalizados e nunca eram iguais. Isto faz com que sejam frias no Inverno e quentes no Verão. as escolas e as grandes superfícies comerciais eram os principais clientes. através de um processo de colagem. Durante o tempo que trabalhei com o pladur. No Verão torna-se praticamente impossível ficar dentro de casa com o calor. sem que ficassem visíveis e inestéticos. Ao contrário das grandes obras. Para espaços degradados. para particulares e para empresas. fiquei agradavelmente surpreendido ao descobrir que há muito tempo que eles utilizavam o pladur na construção. escondidas pelas sancas. as placas podiam ser aplicadas directamente nas paredes existentes. aumentando as capacidades de decorações dos espaços. Quando me mudei para Inglaterra.

contrariamente à portuguesa. como Portugal estava décadas atrasado em relação à Inglaterra. Quando comprei a casa onde vivo actualmente. onde. tornando fácil fazermo-nos transportar rapidamente de um lado para o outro. Mas as áreas de casa são pequenas e para habitação permanente nunca a teria comprado.começa-se a ter ar condicionado nas casas novas. Os meios de transporte eram impressionantemente pontuais e percorriam todas as zonas. A casa é um T2 e têm tectos em madeira no formato quatro águas. ao contrário dos portugueses. usufruindo de bastante espaço no exterior onde as crianças poderiam brincar. agradou-me. A rapidez e eficiência dos serviços públicos era exemplar e foi com pesar. havia muitas casas térreas e grandes parques públicos. como os portugueses. Em Inglaterra encontrei-me mais uma vez num pais. Os empregos que tive também me deixaram triste. a maneira de ser tratado era. e viam-se imensos esquilos a correr livremente pelos parques. Tive consulta de dentes no mesmo dia que a marquei e surpresa a minha. apesar de existirem muitos prédios. muito boa. uma cidade que eu acho lindíssima. está localizada mesmo junto a Igreja do Carmo e a zona é calma. Encontrava-me na altura a viver em Lisboa e a ideia de ter uma casa de férias em Tavira. As leis eram seguidas à risca e o patrão tratava o empregado com muito mais humanidade e justiça. por ser muito dispendioso. Apesar de se perceber um nível económico mais elevado. mas a maioria ainda não o utiliza. e de os ordenados serem maiores. foi apenas a pensar em utilizá-la nas férias. porque me encontrava desempregado na altura. As zonas eram mais limpas e as pessoas mais educadas. foi de graça. que descobri. limitandose a ter em casa apenas o necessário para o dia-a-dia. A saúde padecia da mesma virtude e facilmente se tinha consulta de qualquer que fosse a especialidade. as pessoas eram mais simples e não gastavam tanto dinheiro com luxos. de Verão é quente e de Inverno é gelada. Os espaços públicos eram tratados com cuidado. Sofre também do mesmo problema descrito anteriormente. .

eram absolutamente absurdas e foi com alguma relutância que lá fui. e lá dentro encontravam-se réplicas de todos os grandes músicos da actualidade. agora tenho dois filhos e ambos com idade para apreciarem essa experiência. todos têm o seu espaço neste museu. também era muito mais cara. Madona. Quando penso na visita que fiz ao Museu de Cera em Londres (Museu Madame Tussaud). O palco era giratório e enquanto a música tocava. bem patente na minha memória. as luzes apagavam-se e o espectáculo começava. A entrada tinha uma réplica em cera da Madona. a cultura. Sei que se voltar a Londres.ainda hoje. Freddy Mercory e tantos outros músicos. A magia do momento continua . a animação.Por outro lado a oferta de zonas de diversão e de cultura apesar de ser muito mais. visitarei novamente este museu. Parecia realmente que estávamos a ver e ouvir um concerto. as personagens iam-se alternando ao som dos seus êxitos. era dificilmente acessível. Depois de nos sentarmos. os actores e os modelos. É verdade que valeu a pena. As entradas para o Museu de Cera. por exemplo. Havia uma sala com um palco e varias filas de cadeiras. uma coisa que pretendo fazer brevemente. Michael Jackson. em que actuavam os melhores músicos do planeta. Estive realmente na presença de Elton John. e o acesso a essa oferta. a família real inglesa. os líderes dos diferentes países. considerada luxo. como se estivessem realmente a actuar. enfim as maiores personalidades da história. O desporto. a única fotografia que tirei. Na altura só tinha uma filha e era bebé. A cultura é das poucas coisas que não ocupa espaço. considero que o dinheiro foi bem gasto e que deveria ter visitado mais sítios. As estátuas eram perfeitas e se não soubesse acharia estar na presença de personagens verdadeiras. Espero por . mas acredito que haja muita gente que não esteja disposta a gastar tanto dinheiro. até porque sei que as figuras agora são mais e englobam não só músicos. Eles mexiam-se e gesticulavam.

penso que isso se deve ao nível de evolução. ao que já era prestado pelos ingleses naquela altura. como em Portugal actualmente. Isto porque Londres tem uma população muito heterogénea. o trabalhador nunca foi tão mal tratado como é agora. no meu ver. diminui . e. Considero. Passa-se mais tempo a preencher papéis. fazendo estes os serviços máximos. O aumento da fiscalização aos níveis de higiene dos estabelecimentos. O que também se verifica neste momento em Portugal. tão desejada por alguns. não foi acompanhado por uma fiscalização das condições de trabalho e na maior parte dos casos houve uma deterioração da qualidade dos serviços. nem vale a pena pensar. como há agora. Não me lembro de haver tantos assaltos e outros crimes. os clientes afastam-se e as firmas. e agora. Esta mistura de raças e a possibilidade de se circular livremente de um país para outro. A globalização aumentou a competividade. onde convivem pessoas de todas as nacionalidades e hábitos diferentes. que a nível de direitos de trabalho. A saúde. Mas isso não traz um nível de segurança maior. A abertura do espaço Europeu proporcionou em Portugal. na Inglaterra na altura. naquela altura do que é agora. igrejas e lugares possíveis. é muito maior. Mas o nível evolutivo de Portugal continua muito aquém do inglês e as nossas instituições e os nossos transportes continuam. então. ou trabalham com os empregados mínimos. desta vez. do que a servir os clientes. uma situação semelhante à de Londres. ou fecham. A polivalência. O policiamento tanto. visitar o maior número de exposições. ajudou a aumentar a insegurança. nem se faz parte das nossas funções.isso poder voltar lá o mais rapidamente. criou uma classe de empregadores abusivos e de trabalhadores abusados. a prestar um serviço muito inferior actualmente. Tem que fazer-se tudo. A segurança por outro lado pareceu-me menor que em Portugal. museus. Portugal também era muito mais seguro. não interessa se bem.

o profissionalismo e apesar de trazer evolução a nível industrial. . o divertimento e a cultura num luxo. transformou. tal como em Inglaterra. só suportado por alguns.

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