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Programacao e Resumos do XIII CEL - Congresso de Estudos Literários do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFES

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PROGRAMAÇÃO E RESUMOS

XIII CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:
Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

Realização: Programa de Pós-Graduação em Letras Centro de Ciências Humanas e Naturais Universidade Federal do Espírito Santo

Vitória 05 a 07 de outubro de 2011

Universidade Federal do Espírito Santo Reitor Reinaldo Centoducatte Pró-reitoria de pesquisa e Pós-Graduação Pró-reitor Francisco Guilherme Emmerich Centro de Ciências Humanas e Naturais Diretor Edebrande Cavalieri Departamento de Línguas e Letras Chefe Santinho Ferreira de Souza

Comissão organizadora: Adélia Miglievich Ribeiro Fabíola Padilha Trefzger Jurema José de Oliveira Leni Ribeiro Leite Orlando Lopes Albertino

Secretaria Geral: Wander Magnago Alves

XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

SUMÁRIO

Apresentação.................................................................................................................. 5 Programação.................................................................................................................. 7 Resumo das Conferências............................................................................................. 15 Resumo das Mesas Redondas....................................................................................... 17 Resumo das Comunicações........................................................................................... 19

XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

APRESENTAÇÃO
A modernidade contemporânea, para alguns, a pós-modernidade para outros, evidencia nas várias esferas da vida e nos campos de saber, dentre eles, a literatura, o vazio, numa perspectiva nostálgica, e o campo de possibilidades, numa mirada otimista, aberto pelo desmoronamento das identidades fixas, imutáveis, essenciais. “Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras”, título de nosso XIII CEL (Congresso de Estudos Literários), promovido pelo PPGL-Ufes, ao invés de preconizar um resgate do autor-Deus, o que contrariaria as tendências filosóficas da crítica do sujeito, realiza precisamente o inverso, pergunta acerca do autor, sabendo-o plástico, performático, capaz de um autoengendramento ou de um esforço consciente de desenhar uma imagem de si, façanha desconhecida outrora. Noutros termos, o retorno do autor para o qual chamamos atenção é aquele a se alinhar, num aparente paradoxo, à desconstrução da identidade e à reconfiguração contemporânea das subjetividades. Não mais se trata do retorno de um sujeito pleno, fundamento e autoridade transcendente do texto, mas de sujeitos fragmentados e suscetíveis de autocriação no ato mesmo da escrita e em sua pretensão de ser lido. Autores, portanto, que traduzem eus inquietos e desassossegados. Não falamos, porém, apenas do autor-indivíduo, mas também das chamadas subjetividades coletivas (nação, “raça”, etnia, gênero…), que mediante as narrativas de si colaboram para a urdidura de uma trama identitária necessariamente multifária, incompleta e provisória e, em muitos casos, eficazes. É o caso da ênfase na afirmação da diferença nas narrativas literárias, desta vez, esta podendo falar por si mesma, reivindicando a autonomia da enunciação, o que implica a quebra dos padrões até então intocáveis perante os quais as infindas variações que compõem o universo dos seres humanos deveriam ser classificadas (e subestimadas). Assim, a visibilidade das narrativas e escrituras de autores antes negligenciados, para dizer o mínimo, dentre eles, mulheres, judeus, negros, africanos, indianos, indígenas, palestinos, presos, exilados, mutilados, excluídos, doentes, loucos torna-se, também, problemática do XIII CEL, na medida em que se supõe que o olhar que os caracteriza é produto da experiência dos deslocamentos físicos e psíquicos, reais e metafóricos, o que lhes permite, nalgum sentido, a sua localização num entre-lugar, nas fronteiras, a partir das quais enxergam seus vários eus, a alteridade em si, as alteridades no mundo e, quiçá, as semelhanças que nos possibilitam ainda a expansão do universal mediante o reconhecimento da diversidade. Incertezas e vulnerabilidades acompanham o curso da constituição das pessoas, grupos, coletividades, povos, humanidades. Fragilidades, “negociações”, representações encontram na literatura um lócus privilegiado de observação e busca de compreensão dos sentidos para os deslocamentos, as experiências e as fronteiras no dito e no não-dito na escrita e na combinação entre memória e imaginação. “Que autor sou eu?” projeta-se como um exercício crítico da literatura também como enunciação de inéditas relações no tempo e no espaço, facultando a emergência de distintos eus. Comissão Organizadora XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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PROGRAMAÇÃO DO XIII CEL
05 de outubro, 4ª feira, 17h às 21h
Conferências de abertura (Auditório do IC-2) RETRATO DO AUTOR ENQUANTO ANIMAL OU COISA Prof. Dr. Evando Nascimento (UFJF) DA TESTEMUNHA AO TESTEMUNHO: TRÊS CASOS DE CÁRCERE NO BRASIL (GRACILIANO RAMOS, ALEX POLARI, ANDRÉ DU RAP) Prof. Dr. Wilberth Salgueiro (Ufes) Mediador: Prof. Dr. Paulo Roberto Sodré (Ufes)

06 de outubro, 5ª feira, 8h às 11h
Mesa Redonda: Deslocamentos, Crítica e Missão: cineastas e literatos nas fronteiras (Auditório do IC-2) CINEMA À MARGEM: NACIONALISMO OU UNIDADE REGIONAL EM CINEASTAS LATINOAMERICANOS DOS 1960? Prof. Dr. Paulo Marcondes (UFPE) O FENÔMENO DA REINVENÇÃO LINGUÍSTICA NA NARRATIVA AFRICANA CONTEMPORÂNEA Profª Drª Jurema Oliveira (Ufes) Mediador: Prof. Dr. Deneval Siqueira de Azevedo Filho (Ufes)

06 de outubro, 5ª feira, 13h30min às 17h30min
Simpósio 1: Pensamento liminar, narrativas e literaturas pós-coloniais Coordenadoras: Prof. Dr. Osvaldo Martins de Oliveira (Ufes) e Profª Drª Jurema Oliveira (Ufes) MESA 1 - O discurso e os reflexos da história (Sala 1 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Ana Lúcia Trevisan - Narrativas da conquista sob o olhar literário: as subversões de Carlos Fuentes no romance Terra nostra Alessandra Batista - O “espanto” silenciado nas letras da História, aguçado na voz da ficção MESA 2 - O descentramento e a ambivalência do discurso colonial (Sala 1 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Flávia Arruda Rodrigues - A reedição de Gentio de Timor e a ressignificação das relações sociopolíticas de Timor-Leste e Portugal Igor Nunes Costa - O descentramento em “As ideias fora do lugar” de Roberto Schwarz

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Simpósio 2: Escritas de si e performances autorais Coordenadores: Profª Drª Andréia Delmaschio (Ifes), Profª Me. Daise de Souza Pimentel (Doutoranda PPGL/Ufes), Profª Drª Fabíola Padilha (Ufes) e Prof. Me. Pedro Antônio Freire (Doutorando PPGL/Ufes) MESA 1 - Modalidades de cunho biográfico (Sala Clarice Lispector – Prédio Bernadette Lyra) Pedro Antônio Freire - O signo de si: autoria e alteridades (coordenador) Ataide José Mescolin Veloso - Paisagens da memória: a revisitação da infância na poética limiana Cíntia França Ribeiro - Habitar a voz: a autobiografia em Photomaton e vox, de Herberto Helder Douglas Fiório Salomão - Arnaldo Antunes: que autor é isso? Fernanda de Souza Hott - A criação poética segundo textos críticos e poemas de Ester Abreu Vieira de Oliveira José Juvino da Silva Júnior - Poesia da experiência xamânica: Roberto Piva & a escritura do real cósmico Ana Maria Quirino - Ferreira Gullar: um autor no rabo do foguete Ana Carla Marinato - Autores em cena em A hora da estrela MESA 2 - Múltiplas performances autorais (Sala Guimarães Rosa – Prédio Bernadette Lyra) Daise de Souza Pimentel - A presença do eu nas expressões do contemporâneo: relendo Walter Benjamin (coordenadora) Guaraciara Roberta Loterio - O sujeito na auto-escritura de Walter Benjamin Lairane Menezes do Nascimento - Literatura e testemunho no romance Em câmara lenta, de Renato Tapajós Lucas dos Passos - História, trauma e autoficção: Em câmara lenta, de Renato Tapajós Miguel Rettenmaier da Silva - Riscos e manuscritos sob os riscos do regime: a escrita de Josué Guimarães Aurélia Hubner Peixouto - A ave faminta Giselly Rezende Vieira - Um passeio no diário de Vargas: ecos do ressentimento, autoridade perdida e humilhação experimentada Miqueline Ferreira de Freitas - Memória: Um resgate histórico do ator político ‘Lindolfo Collor’ Selomar Claudio Borges - Fissuras de um autor na ficção: escritura e eu em El escritor y el otro de Carlos Liscano Simpósio 3: Gritos e ecos da prosa brasileira contemporânea – as formas da pátina: conto ou não conto? Coordenador: Prof. Dr. Deneval Siqueira de Azevedo Filho (Ufes/GEITES - Grupo de Estudos Interdisciplinares de Transgressão - Espírito Santo) MESA 1 (Sala 2 do IC-3) Adriana Pin - O texto de Paulo Coelho: da periferia para o centro Alemar Silva Araujo Rena - Multidão, criação colaborativa e emergência: novas configurações no ciberespaço Deneval Siqueira De Azevedo Filho - A literatura tatuada de Ó, de Nuno Ramos

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Simpósio 4: As marcas do texto e os deslocamentos do eu: análise, interpretação e significação das imagens do eu e do real na construção de territórios poéticos Coordenadores: Prof. Dr. Alexandre Jairo Marinho Moraes (Ufes) e Profª Me. Rafaela Scardino Lima Pizzol (Doutoranda PPGL/Ufes) MESA 1 (Sala 6 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Marcela Ribeiro Pacheco Paiva - Morte do pai e universo da culpa Marcelo Lins de Magalhães e Marcus Alexandre Motta - Presságios, marcas e territórios: Emerson, Thoreau, Waltercio Caldas e Richard Serra Alexandre Rodrigues da Costa - Corpos cegos: a dissolução da identidade nas obras de Georges Bataille e de Hans Bellmer MESA 2 (Sala 6 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Rafaela Scardino - O horizonte flutuante do autor Pedro Granados - Pacto poético e internet: El caso de Cristóbal “Tobi” Kanashiro Jefferson Diório do Rozário - Eu vagabundo: agenciamentos de sujeitos ficcionais em Rubem Fonseca Simpósio 5: Ficcionalidades Coordenadores: Prof. Dr. Sérgio da Fonseca Amaral (Ufes), Prof. Me. Adolfo Oleare (Ifes), Prof. Me. Vitor Cei (Doutorando-UFMG) MESA 1 - Literatura. História. Memória. (Sala 7 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Coordenador: Vitor Cei (UFMG) Arnon Tragino - A ficção e a história em O templo e a forca – romance de Luiz Guilherme Santos Neves Cláudia Fachetti Barros - Autor-criador, escrito e função-autor: ficção/realidade em Luiz Guilherme Santos Neves Maria Amélia Dalvi - O livro didático de literatura tem um autor: que autor é ele? Rafael Azevedo Nespoli - Roque Santeiro: permanências e mudanças na sociedade brasileira Renato Prelorentzou - O Passado: leituras e escrituras da história e da ficção, da autoficção e da autobiografia Rodrigo Moreira de Almeida - A Guerra de Canudos em João Abade MESA 2 – Literaturas (Sala 7 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Coordenador: Adolfo Oleare (Ifes) Alana Rúbia Stein Rocha - Apocalipsis de Solentiname: o real político na ficção Fabiana Curto Feitosa - Saramago e o jogo para entender o mundo contemporâneo Felipe Vieira Paradizzo - Apontamentos sobre a experiência urbana moderna em To a Stranger e Out of the rolling ocean the crowd, de Walt Whitman Leonardo Mendes Neves - Concepções de língua e literatura em Rayuela Luciana Marquesini Mongim - Entre becos e vielas, as vozes da quebrada: uma leitura de Capão Pecado, de Ferréz Sandra Mara Moraes Lima - Resposta e autoria em Desenredo Sarah Maria Forte Diogo - Quando eu quero eu mudo: o jogo das identidades em “Meu tio o Iauaretê”

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Simpósio 6: Marginais e intelectuais: escritas e imagens do Brasil contemporâneo Coordenadores: Prof. Dr. Jorge Nascimento (Ufes), Andressa Nathanailidis (Doutoranda PPGL/Ufes), Michele Freire Schiffler (Doutoranda PPGL/Ufes) MESA 1 (Sala 8 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Suely Bispo - Solano Trindade - Para além da liberdade estética Guilherme Horst Duque - “Rasgábil, inflamábil e até mesmo legíbil”: Glauco Mattoso e o Jornal Dobrabil Jorge Henrique da Silva Romero - As formas de resistência na poética de Patativa do Assaré Leandra Postay Cordeiro - Proibido para menores de cinco cruzeiros: pornografia mimeografada de Nicolas Behr MESA 2 (Sala 8 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Marihá Barbosa e Castro - A construção da subjetividade coletiva na poesia de Leila Míccolis Michel Mingote - Errâncias: vagabundeios, derivas e desterritorialização em Crônica de um vagabundo, de Samuel Rawet Helciclever Barros da Silva Vitoriano - Plínio Marcos: convicções políticas, estéticas e ideológicas de um peculiar intelectual brasileiro Simpósio 7: Música na Literatura : Literatura na Música Coordenadora: Profª Drª Mónica Vermes (PPGL, PPGA, DTAM – Ufes) MESA 1 (Sala 9 do IC-3) Mónica Vermes - A música na crônica de Luiz Edmundo Robson Leitão - Bug Jargal: o Haiti não é aqui! André Luís Gomes e Beatriz da Silva Lopes Pereira - Diálogos interartes na Pauliceia: melopoética e polifonia cultural em Mário de Andrade Luciana Fernandes Ucelli Ramos - Ensaio sobre uma possível crítica da canção como canção Marcus Vinicius Marvila das Neves - Entre sins e nãos: escutando “Todos os sons”, de Augusto de Campos Rafael Barcellos de Moraes e Sirlei Santos Dudalski - A música de cena em Noite de Reis, de Shakespeare

06 de outubro, 5ª feira, 18h às 21h
Mesa redonda: Literatura e cinema: novos olhares e escritas no Brasil contemporâneo (Auditório do IC-2) A AUTOFICÇÃO EM CLOSE-UP: KIAROSTAMI, O CINEMA E A IMAGEM-TESTEMUNHA Prof. Dr. Tadeu Capistrano (UFRJ) IMAGENS E LETRAS, FALAS E BALAS: NARRATIVAS DO BRASIL CONTEMPORÂNEO Prof. Dr. Jorge Nascimento (Ufes) Mediador: Prof. Dr. Alexandre Curtiss (Ufes)

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11 07 de outubro, 6ª feira, 8h às 11h
Mesa redonda: Potencialidades autorais: dos grafites de Pompeia às grafias de Rosa (Auditório do IC-2) GRAFITES ROMANOS EM POMPEIA: AUTORIA E DIVERSIDADE NA ANTIGUIDADE Profa.Dra. Renata Senna Garraffoni (Dehis/UFPR) O MUNDO, UM OUTRO E EU EM COAUTORIA? (SOBRE UM ROMANCE NÃO ESCRITO POR J. G. ROSA) Prof. Dr. Lino Machado (Ufes) Mediadora: Profa. Dra. Leni Ribeiro Leite (Ufes)

07 de outubro, 6ª feira, 13h30min às 17h30min
Simpósio 1: Pensamento liminar, narrativas e literaturas pós-coloniais Coordenadoras: Prof. Dr. Osvaldo Martins de Oliveira (Ufes), Profª Drª Jurema Oliveira (Ufes) MESA 1 - Transculturação, hibridismo e pós-colonialismo (Sala 1 do IC-3 – 13h30min às 14h30min) Lenice Garcia - Em Diálogo entre o Pós-colonialismo e a Literatura Contemporânea é Possível Identificar Marcas de Subjetividade do Autor Através das Vozes das Personagens? Lídia da Cruz - Transculturação e hibridismo na ficção de Helena María Viramontes MESA 2 - Vozes da diáspora (Sala 1 do IC-3 – 14h30min às 16h10min) Esteban Reyes e Stéphanie Soares - Do mito do lugar e do lugar do mito na obra Órfãos do Eldorado de Milton Hatoum Renata O. Bomfim - O princípio revolucionário da poesia hispano-americana na poética de Rubén Darío Wellington Rogério da Silva - Maux dits: A poesia migrante de Anissa Mohammedi. MESA 3 - Historiografia, resistência e opressão (Sala 1 do IC-3 – 16h20min às 17h30min) Arnaldo Rosa Vianna Neto - Identidades pós-coloniais e ethoï undergrounds em narrativas de Nélida Piñon e Réjean Ducharme Carlos Vinicius Costa de Mendonça - O Olhar de Clio na era Vargas: silêncio feminino e ressentimento masculino na obra de José Lins do Rego (1932 – 1943) Simpósio 2: Escritas de si e performances autorais Coordenadores: Profª Drª Andréia Delmaschio (Ifes), Profª Me. Daise de Souza Pimentel (Doutoranda PPGL/Ufes), Profª Drª Fabíola Padilha (Ufes) e Prof. Me. Pedro Antônio Freire (Doutorando PPGL/Ufes) MESA 1 - Estratégias autobiográficas na narrativa contemporânea (Sala Clarice Lispector – Prédio Bernadette Lyra) Andreia Penha Delmaschio - Hieróglifos no peito (coordenadora) Cibele Lopresti Costa - Experiência e ficcionalidade em Morreste-me, de José Luís Peixoto XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Nelson Martinelli Filho - Confissão e autoficção em Sueli: romance confesso, de Reinaldo Santos Neves Paulo Muniz da Silva - Memórias e estórias-coberturas nas tramas dum falso mentiroso Selomar Claudio Borges - Fissuras de um autor na ficção: escritura e eu em El escritor y el otro de Carlos Liscano João Paulo Matedi Alves - O homem que não estava lá e a volta dos que não foram Fabíola Padilha - O a(u)tor e suas interversões em Retrato desnatural (diários – 2004 a 2007), de Evando Nascimento Henrique de Oliveira Lee - Uma minúscula imitação da morte: espaço autobiográfico e efeitos performativos em Yukio Mishima MESA 2 - Deslocamentos, experiências e fronteiras (Sala Guimarães Rosa – Prédio Bernadette Lyra) Carlos André de Oliveira - A volta amigável do autor no texto “Noites de Paris” de Roland Barthes: a escrita de vida ou o fictício da identidade (coordenador) Cinthia Mara Cecato da Silva - Lima Barreto no entre-lugar da ficção: reminiscências entre autor e obra Daniela Aguiar Barbosa e Waleska de Paula Carvalho Rocha - Blog: um ‘espaço biográfico’ contemporâneo João Gonçalves Ferreira Christófaro Silva - Deslocamentos: a construção da imagem do escritor nos Diários de Lima Barreto Josely Bittencourt Gonçalves - Conficção de cartas: um tecido de envios e desvios em Ana C. Maria Inês de Moraes Marreco - A literatura do ‘Eu’ na obra memorialística de Maria Helena Cardoso Laércio Rios Guimarães - O ethos discursivo no diário de Simonton: um olhar sobre os registros na missão no Brasil Iran Felipe Alvarenga e Gomes - Metaficção na criação do eu autoral: analizsando a personagem Reta Winters de Carol Shields Simpósio 4: As marcas do texto e os deslocamentos do eu: análise, interpretação e significação das imagens do eu e do real na construção de territórios poéticos Coordenadores: Prof. Dr. Alexandre Jairo Marinho Moraes (Ufes) e Profª Me. Rafaela Scardino Lima Pizzol (Doutoranda PPGL/Ufes) MESA 1 (Sala 9 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Alexandre Moraes - Que autor encontramos nas marcas do texto? Marcos Ramos - A poesia como convocação (sobre Casé Lontra Marques) Leonardo Barros Sasaki - A “cicatriz de tinta”: sujeito, escrita e experiência em Al Berto Alexander Nassau - Fiama Hasse e um eu que desrealiza tudo quanto toca MESA 2 (Sala 9 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Marcelo Antonio Milaré Veronese - A intertextualidade da primeira poesia de Roberto Piva Maria Lúcia Kopernick - A escrita autoral como etiqueta de si. Breve passeio pelo território poético de Viviane Mosé Danilo Barcelos Corrêa - O lugar no poema “Confidência do itabirano”, de Carlos Drummond de Andrade

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Simpósio 5: Ficcionalidades Coordenadores: Prof. Dr. Sérgio da Fonseca Amaral (Ufes), Prof. Me. Adolfo Oleare (Ifes), Prof. Me. Vitor Cei (Doutorando PPGL/UFMG) MESA 1 - Crônica. Teatro. Crítica. (Sala 11 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Coordenador: Vitor Cei Ednaldo Cândido Moreira Gomes - Horizontes e limites da ficção oitocentista: o crítico Bernardo Guimarães Fernanda Maia Lyrio - O Álbum de Família e a multifacetada tragédia rodriguiana Geraldo Magela Cáffaro - Sujeitos pré-textuais: autoria em prefácios de Hawthorne e James João Guilherme Dayrell - O (neo) barroco de Severo Sarduy: linguagem da voz, voz da linguagem Moisés Nascimento - Sob a pena do mestre: leituras da crítica de Antonio Candido às memórias de Pedro Nava Tamilis Loredo de Oliveira e Cristiano Augusto da Silva Jutgla - Era uma vez... os gêneros: transformações da narrativa em Sérgio Sant’Anna Sérgio da Fonseca Amaral - Um reacionário sob suspeita: crônicas de Nelson Rodrigues MESA 2 – Intersemioses (Sala 11 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Coordenador: Sérgio da Fonseca Amaral Adolfo Miranda Oleare - A procedência afetiva do eu na concepção nietzschiana do corpo Carlos André Ferreira - Ditaduras no Brasil e na Alemanha Oriental: representações da violência e do sujeito em Caio Fernando Abreu e Thomas Brussig Fernanda Valim Côrtes Miguel, Mayra Helena Alves Olalquiaga e Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi - Limiares da ficcionalidade na escrita de Valêncio Xavier Juan Filipe Stacul - Eros em trânsito; relações intertextuais entre Tennessee Williams e Caio Fernando Abreu Maria Angélica Amancio Santos - Nos bastidores das grandes telas: o autor literário no Cinema Roberto Muniz Dias - A voz do sereio – a autoria homotextualizada Vitor Cei - Heidegger e a angústia do autor Simpósio 6: Marginais e intelectuais: escritas e imagens do Brasil contemporâneo Coordenadores: Prof. Dr. Jorge Nascimento (Ufes), Andressa Nathanailidis (Doutoranda PPGL/Ufes), Michele Freire Schiffler (Doutoranda PPGL/Ufes) MESA 1 (Sala 12 do IC-3 – 13h30min às 15h20min) Andressa Zoi Nathanalidis - Do estigma à canção: considerações sobre o RAP no mundo globalizado. Gabriela Alves - O fotógrafo-escritor Monteiro Lobato Luiz Eduardo Neves da Silveira - Transnação Hip-hop: a viagem do discurso sem fronteiras MESA 2 (Sala 12 do IC-3 – 15h40min às 17h30min) Ricardo Ibrhaim Matos Domingos - O corpo na/da escrita: estratégias estético-temáticas no livro Vão, de Allan da Rosa Michele Freire Schiffler - Resistência, memória e representação em versos de Ticumbis no Norte do Espírito Santo Marcos Pasche - Ferréz: de sola no social. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

14 07 de outubro, 6ª feira, 18h às 21h
Conferências de encerramento (Auditório do IC-2) ESCREVENDO A NAÇÃO NO FEMININO: FICÇÃO E HISTÓRIA Profa.Dra. Stelamaris Coser (Ufes) LITERATURA E EXISTÊNCIA (UMA MODERNIDADE ESQUECIDA?) Profa.Dra. Diana Klinger (UFF) Mediadora: Profa. Dra. Fabíola Padilha (Ufes)

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RESUMOS
Conferências

Profa.Dra. Diana Klinger (UFF) LITERATURA E EXISTÊNCIA (UMA MODERNIDADE ESQUECIDA?) Uma série de práticas literárias contemporâneas vem problematizando a relação entre obra e sujeito da escrita, entre arte e experiência vivida. Essas escritas podem ser pensadas não apenas como objetos, mas também como acontecimentos que remetem a um exterior e assim produzem a impugnação da categoria de obra como forma autônoma e distanciada do real. Essa perspectiva implica ir de encontro à compreensão moderna hegemônica de arte e de literatura, segundo a qual a arte adquire potencial crítico justamente a partir de seu caráter autônomo e de seu divórcio com a experiência. Os projetos de alguns escritores contemporâneos, no entanto, adquirem seu valor pela coerência de um universo, que inclui as correspondências que o artista estabelece entre sua existência, seu dispositivo de produção e seus processos de visibilidade. Trata-se de práticas que mobilizam o que Bourriaud chama de “estéticarelacional”: elas enfatizam processos em lugar de “definir” produtos e visam menos à representação do que à configuração de sentidos compartilhados, levando assim ao questionamento da relação entre autonomia e resistência. Nessa transitividade se exerceria sua função estética, ética e política, que implicaria tanto o questionamento de uma identidade formal de obra, quanto um radical deslocamento de práticas e valores críticos relativos à subjetividade.

Prof. Dr. Evando Nascimento (UFJF) RETRATO DO AUTOR ENQUANTO ANIMAL OU COISA Pensar a autoria como o lugar mesmo da produção e da recepção transdisciplinar. Trata-se de uma instância de passagem, em que são articulados e retransmitidos diversos discursos: literatura, filosofia, artes, mídia etc. O autor é um dispositivo tanto pessoal quanto impessoal, no limite do anonimato. É-se autor em princípio em primeira pessoa, “Eu escrevo”/ “Eu falo”, mas em seguida é preciso que esse “eu” se altere performativamente em diversas outras figuras, tanto discursivas quanto empíricas: ele/eles, você/tu, nós. Um autor plenamente autoidentificado seria natimorto, pois incapaz de assumir outras máscaras, sem as quais não há autoria: vozes narrativas, personagens, sujeitos poéticos, vozes dramáticas, personae ensaísticas, biográficas, sociais. A autoria seria, antes de tudo, um espaço-tempo de enunciação. Nesse sentido, caberia pensar a animalidade e a coisalidade do autor: seu deviranimal e/ou coisa. Trata-se de palestra teórico-crítica, com referências ao pensamento de Heidegger, Derrida, Barthes, Foucault, Deleuze/Guattari e à ficção de Lispector, Rosa, Cortázar, Kafka, Coetzee, Sebald, entre outros.

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Profa.Dra. Stelamaris Coser (Ufes) ESCREVENDO A NAÇÃO NO FEMININO: FICÇÃO E HISTÓRIA A fundação das colônias ao longo do continente americano se faz com base em relatos documentais de navegadores e colonizadores europeus, e a representação literária desses espaços continua sendo elaborada por autores homens e brancos mesmo após a independência total ou parcial. A decadência dos centros metropolitanos tradicionais e os diversos tipos de movimentos de libertação na segunda metade do século XX, porém, colaboram para a inserção de novos grupos e indivíduos no cenário nacional e a gradual proliferação de olhares e narrativas. No centro do continente, situado num poroso lugar ‘entre’ que inclui e confunde sul e norte, ameríndios, europeus e africanos, anglos e hispânicos, o Porto Rico desenhado pela escritora Rosário Ferré parece refletir e ao mesmo tempo contradizer aspectos hegemônicos dos textos fundadores. Com o viés feminista e politizado e um caráter metaficcional, romances e contos de Ferré abordam a construção desse território-nação ambivalente, fronteiriço e particularmente controverso. Enquanto problematiza o registro da ‘verdade’ via manuscritos pessoais e documentos oficiais, seu texto dialoga com a tradição literária das Américas ao alinhavar cruzamentos intertextuais e inserir a questão de gênero no debate sobre autoria, memória e poder.

Prof. Dr. Wilberth Salgueiro (Ufes) DA TESTEMUNHA AO TESTEMUNHO: TRÊS CASOS DE CÁRCERE NO BRASIL (GRACILIANO RAMOS, ALEX POLARI, ANDRÉ DU RAP) Notáveis escritores fizeram da estadia na prisão uma espécie de escada – tortuosa, sem dúvida – para a criação: Cervantes, Wilde, Genet, Dostoiévski, Sade. Aqui, abordaremos três obras brasileiras que relatam a passagem de seus autores pela cadeia: Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, fala da detenção do escritor alagoano, nos anos 1930, nebulosamente acusado de subversivo pelo aparelho getulista; Camarim de prisioneiro, de Alex Polari, faz um balanço, em prosa e verso, dos anos (1971 a 1980) em que o militante da VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, permaneceu trancafiado; Sobrevivente André Du Rap (do Massacre do Carandiru), de André du Rap, conta a versão da matança do Carandiru, em 1992, da perspectiva de quem estava, no exato momento, encarcerado. O que se quer pôr em pauta com estes relatos é a problematização do “teor de verdade” que tais relatos solicitam. Para avaliar o grau de veracidade que cada obra postula, um caminho é examinar a concepção de linguagem que sustenta o imaginário de seus autores e, mesmo, a feitura de cada uma delas. Textos como “A testemunha” de Agamben (O que resta de Auschwitz) e “O testemunho” de Ricoeur (A memória, a história, o esquecimento) entrarão como contraponto teóricometodológico para o avanço do debate.

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Mesas redondas Prof. Dr. Jorge Nascimento (Ufes) IMAGENS E LETRAS, FALAS E BALAS: NARRATIVAS DO BRASIL CONTEMPORÂNEO A partir do estudo de obras artísticas brasileiras - literárias e cinematográficas - e com arcabouço teórico relacionado aos estudos da contemporaneidade, pretende-se propiciar um diálogo entre tais obras e alguns conceitos, tais como: eurocentrismo, pluralidade, reconhecimento e hibridismo. Serão ventiladas as seguintes obras: Cidade de Deus - livro e filme; O invasor – livro e filme; Diário de um detento – livro, RAP, videoclip. Profª Drª Jurema Oliveira (Ufes) O FENÔMENO DA REINVENÇÃO LINGUÍSTICA NA NARRATIVA AFRICANA CONTEMPORÂNEA A obra de Boaventura Cardoso, José Luandino Vieira e Mia Couto tem como característica predominante a fusão entre o histórico e o literário. Esse processo advém da necessidade, ou melhor, do desejo desses escritores de preencherem as lacunas existentes na memória das sociedades onde vivem - a angolana e a moçambicana -, fraturadas pelo advento do colonialismo. É necessário reinventar uma memória histórica que perpasse ou fundamente ficcionalmente uma narrativa que englobe o conceito de nação e os vários segmentos sociais da contemporaneidade. Privilegiando um discurso polifônico, dialógico, o que em parte remonta à tradição, com suas vozes sonantes, capazes de partilhar as experiências de forma conjuntiva, esses escritores africanos contemporâneos recorrem a um produtivo artifício artístico: criam um personagem com os traços do griot para dar a veracidade necessária à enunciação. O griot procura dar um direcionamento à estória, mas partilha com os vários outros personagens o ato de narrar. Essa nova modalidade da oratura explicita a interação entre a tradição e modernidade nas obras ficcionais da atualidade. Prof. Dr. Lino Machado (Ufes) O MUNDO, UM OUTRO E EU EM COAUTORIA? (SOBRE UM ROMANCE NÃO ESCRITO POR J. G. ROSA) Discutiremos um aspecto incomum de “Sobre a escova e a dúvida”, um dos quatro prefácios de Tutaméia, de João Guimarães Rosa: a sequência de coincidências estranhas envolvendo um romance apenas projetado pelo escritor (A fazedora de velas), a sua própria existência e a novela Dona Sinhá e o filho padre, de Gilberto Freyre, a qual também entrou num jogo de semelhanças esquisitas com a vida do seu autor. Mesmo que anômalas, tais coincidências não precisam ser consideradas inexplicáveis, pois foi proposta uma conceituação apta a dar conta de fenômenos parecidos: a de sincronicidade, de Carl Gustav Jung. Com a colaboração do cientista Wolfgang Pauli, Jung estabeleceu paralelos entre o fenômeno de sincronicidade e a física moderna (sobretudo a mecânica quântica), os quais pretendemos explorar. Se, de acordo com a Interpretação de Copenhague da física quântica, não existe uma separação nítida, na esfera dos fenômenos subatômicos, entre sujeito pesquisador e objeto pesquisado, igualmente Jung vislumbrou, no terreno macroscópico do cotidiano, uma espécie de intercessão entre a experiência contextual, dita externa, e a atividade mental, dita interna, que o psicólogo tratou como psicóide (ligado ao que ele considerou inconsciente coletivo). A experiência de Rosa com o seu romance afinal não escrito parece mostrar que, em termos de

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autoria, o processo se desloca da figura do eu, do indivíduo isolado, relativizando as fronteiras entre este e o próprio mundo. Prof. Dr. Paulo Marcondes (UFPE) CINEMA À MARGEM: NACIONALISMO OU UNIDADE REGIONAL EM CINEASTAS LATINOAMERICANOS DOS 1960? Pretendo refletir diferenciações entre um cinema da diáspora e uma estrutura de sentimento acentuadamente marcada por referencia ao lugar, na forma do nacionalismo ou do regionalismo ou de um estado de exílio. Essa é uma questão central para a investigação de parte da produção cinematográfica na A. L. e regiões da periferia do capitalismo hegemônico. Tais reflexões partem de uma pesquisa em andamento sobre as idéias de cinema de cineastas latino-americanos dos anos 1960 a propósito de uma estética descolonizada. Embora heterogêneo o grupo fomentou um diálogo nacionalista, mas que expressava o desejo de constituição de uma unidade regional autônoma. Nestes termos, o grupo acentuou uma estrutura de sentimento afirmativa de uma ruptura regional na perspectiva de uma nova ordem, vis a vis o bloco ocidental hegemônico. O resultado indicou um sentimento de elo perdido ou de auto-exílio, não propriamente de uma diáspora: mais multifacetada e híbrida, característica da produção atual. Profa.Dra. Renata Senna Garraffoni (Dehis/UFPR) GRAFITES ROMANOS EM POMPEIA: AUTORIA E DIVERSIDADE NA ANTIGUIDADE Durante muito tempo entendidos como grotescos ou exemplos de latim vulgar, os grafites de Pompeia, embora registrados por epigrafitas, dificilmente eram estudados. Nas últimas décadas, no entanto, a partir do desenvolvimento da arqueologia pós-processual e sua abordagem crítica aos modelos normativos de cultura, os grafites e as inscrições parietais passaram a ocupar um lugar de mais destaque entre os epigrafitas. Por terem sido escritos por pessoas das camadas populares, para além de indicarem as formas diversas de escrita do latim, os grafites tem se mostrado registros importantes da diversidade de forma de pensamentos e visões de mundo nesse momento do império romano. Nesse sentido, a presente comunicação tem o objetivo de explorar as potencialidades desses registros para pensarmos diversidade, autoria e pluralidade no mundo antigo. Prof. Dr. Tadeu Capistrano (UFRJ) A AUTOFICÇÃO EM CLOSE-UP: KIAROSTAMI, O CINEMA E A IMAGEM-TESTEMUNHA Close-up (1990), de Abbas Kiarostami, apresenta a narrativa de Hossain Sabzian que, ao se fazer passar pelo diretor de cinema Mohsen Makhmalbaf, engana uma família prometendo um filme. Preso, ele é julgado pelo crime que cometeu. No entanto, quando esta situação é restituída pelo cinema ocorre um sofisticado jogo metafílmico que mobiliza discussões sobre imagem e autoria, e que eleva a arte cinematográfica ao estatuto de testemunha de defesa dos abalos entre ficção e realidade. A partir dessa questão estética e política observaremos como o filme de Kiarostami se tornou uma obra paradigmática para se pensar as relações entre sujeito e representação, bem como a metáfora do cinema como um tribunal onde verdade, origem e justiça estão radicalmente sob acusação.

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Comunicações Profa. Dra. Adélia Miglievich Ribeiro (PPGCS/Ufes; PPGL/Ufes) RAHEL, MULHER E JUDIA: “PROVINCIALIZANDO A EUROPA” A PARTIR DO ROMANCE DE HANNAH ARENDT A crítica pós-colonial põe em xeque a concepção linear da moderna história ocidental, evidenciando pelo pensamento liminar (Mignolo, 2003) que toda enunciação não é apenas híbrida se não, também, fraturada em situações de dominação. Nesse sentido, a perspectiva pós-colonial tende a oferecer novos horizontes de análise para além daquela rigidamente construída segundo os parâmetros de uma modernidade que silenciou inúmeras vozes e tentou aniquilar as diferenças. Tal critica, na Europa Ocidental, está fundamentalmente ligada à contribuição de Derrida, Lacan, Foucault, da Escola de Frankfurt e de Raymond Williams. Ainda pouco se fala, porém, de Hannah Arendt na conexão entre seu pensamento e aquele que marca os estudos póscoloniais. Contudo, postulo que sua condição híbrida de alemã e judia, mulher e humanista coloca-a como intérprete privilegiada daquelas questões que ganharão evidência a partir, sobretudo, dos intelectuais diaspóricos, dentre os quais a filósofa pode ser inscrita. A par disso, também, a atenção do pós-colonial às inscrições de “raça” e gênero, ainda, a radicalização da crítica pós-colonial ao Estado-nação encontram em Hannah Arendt um eco expressivo. Arendt está deslocada em seu tempo e seus trânsitos definem seu pensamento comprometido irreversivelmente com a auto-determinação que não nega, ao contrário, soma no empenho por um universalismo ético de outro tipo que não aquele que vigora até hoje. Trazendo ao debate um dos mais destacados representantes dos chamados estudos subalternos, Dipesh Chakrabarty, é justo dizer que que não só não é a Europa a sede do conhecimento visto que este é produzido em toda parte, logo, a modernidade é bem mais que o eurocentrismo; como também que a modernidade ocidental é, também, transcultural. Nesse sentido, o moderno pressupõe o tradicional, a cidadania supõe a repressão e a violência. Tal esforço de enxergar por trás da homogeneidade que parece consagrar a vitória do projeto iluminista, mais do que nunca, hoje em xeque, requer, para Chakrabarty, “provincializar a Europa”, no sentido estrito de examiná-la também como “local” em suas contradições, lutas e constituição de hegemonia. Contudo, o estudioso pós-colonial sabe que a historiografia declaradamente européia está longe da posição descentrada de que se requer para efetivamente recontar as histórias dos vários acontecimentos que forjaram o que hoje se chama modernidade. Tendo tal preocupação em foco, trago uma peça da literatura, não no seu sentido canônico – que me impediria de criticar a modernidade ocidental – a saber, “Rahel Varnhagen. A vida de uma judia alemã na época do Romantismo”, biografia escrita por Hannah Arendt acerca de uma mulher judia de presença marcante no cenário cultural da Alemanha na passagem do século 18 para o 19, em sua luta pessoal por se descolar da condição de pária em busca da assimilação. A trajetória recontada por Arendt traz à tona temas caros para a filósofa em afinidade ao pós-colonial, tais como sua desconfiança do racionalismo iluminista e a problemática do desenraizamento e da luta por reconhecimento. Prof. Me. Adolfo Miranda Oleare (Ifes) A PROCEDÊNCIA AFETIVA DO EU NA CONCEPÇÃO NIETZSCHIANA DE CORPO Os termos “si mesmo”, “ser próprio” e “corpo” aparecem como sinônimos no discurso “Dos desprezadores do corpo”, na primeira parte de Assim falou Zaratustra. No texto, Nietzsche os XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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constrói como modos de superação do dualismo corpo e alma, a partir do qual a filosofia moderna instituiu o sujeito e o eu, entendidos como substância autônoma, completa, independente, una, sempre coesa e idêntica a si mesma. Palavras-chave: Assim falou Zaratustra (Nietzsche); corpo; eu. Profa. Me. Adriana Pin (Ifes / Doutoranda-Ufes) O TEXTO DE PAULO COELHO: DA PERIFERIA PARA O CENTRO No empenho de promover a leitura, de levar a população a ter acesso a livros, está subentendido, geralmente, que esses textos devem ser de qualidade, ou seja, conter uma linguagem bem elaborada associada a uma imaginação incomum, original, criativa. E aqui começa a seleção e a exclusão, pois para a crítica literária, intelectuais e estudiosos da Literatura, em geral, nem toda leitura é válida. Há textos de qualidade e outros não. Cria-se, portanto, um impasse, em que grande parte da população não tem contato, não lê, não se interessa pelos cânones, tidos como ideal de leitura. Os motivos são diversos e complexos: falta de repertório linguístico e intelectual, baixo poder aquisitivo para comprar um livro... Em contrapartida, consomem os de mais fácil acesso, encontrados em bancas de revista, ou aqueles considerados mais interessantes, “o mais lido/vendido do momento”. Diante dessa situação, assume-se ora uma postura de exclusão por parte de alguns intelectuais, acadêmicos, escritores, crítica literária e outros; ora um lucrativo negócio por parte da indústria cultural. E os best-sellers, literatura de autoajuda e esotérica, entre outros, vão construindo “a terceira margem” da Literatura. O itinerário da escrita construído por Paulo Coelho circunscreve um gradativo deslocamento das margens até o centro, tornando-se um fenômeno de "marketing" no âmbito da Literatura. Sabe-se do grande sucesso editorial que o autor, tanto no Brasil como na Europa, Estados Unidos e em outros países, no entanto, parte da crítica literária brasileira o vê com bastante reserva , no que se refere à qualidade de suas obras. Adentrando a narrativa coelhiana, percebe-se que não é só pela estratégia de “marketing” que o escritor é tão lido. Há, no texto de Paulo Coelho, um “segredo” que move o leitor, página a página, algo além do cotidiano, do olhar racional, da ciência. A linguagem é simples, chegando até o leitor “comum”. Elementos do tipo: a teoria dos cristais, cristianismo popular, sabedoria árabe, astrologia, alquimia, irracionalismo, misturados numa religião globalizada para o milênio atraem o leitor de Paulo Coelho. Mas quem é esse leitor? Qual sua condição histórica? Por que Paulo Coelho é tão lido num universo em que “pouco se lê”? Fundamentado em autores que estudam a obra de Paulo Coelho, como Mário Maestri, Richard Romancini e Maria Ivaneti Busnardo Ramadan, bem como nos teóricos da indústria cultural, a saber, Theodor Adorno, Luís Costa Lima, além dos estudos realizados por Roberto Schwarz e Michel Foucault acerca “do que é um autor”, entre outros, este trabalho propõe uma análise, buscando discutir as questões apontadas, a partir da obra O Demônio e a Srta. Prym de Paulo Coelho, a qual narra a chegada de um misterioso estrangeiro a uma pequena cidade chamada Viscos, “um vilarejo esquecido no tempo e no espaço”, em cujo contexto será desenvolvida a história de seus habitantes, alterada e “invadida” por um homem e uma pergunta inquietante, relativa à vida, à morte e ao poder. Palavras- chave: autor; Paulo Coelho; literatura e indústria cultural.

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Alana Rúbia Stein Rocha (Mestranda-Ufes) APOCALIPSIS DE SOLENTINAME: O REAL POLÍTICO NA FICÇÃO Este estudo tem por objetivo a análise do texto cortazariano “Apocalipsis de Solentiname” sob a ótica dos estudos da escrita autobiográfica. A obra narra uma viagem realizada por Cortazar à ilha de Solentiname, na Nicarágua, a convite de seu amigo Ernesto Cardenal, também escritor. Lá chegando, Cortázar se depara com as pinturas näif, fruto de trabalho social realizado por Cardenal junto aos camponeses locais. Entusiasmado com as pinturas, decide fotografá-las e levá-las para Paris, onde, jocosamente, julga que terão uma dimensão mais realista do que ali. Em sua análise das fotografias, já de volta a sua casa, choca-se com um cenário de devastação e violência registrado por suas lentes. Curiosamente, a narrativa encerra uma coincidência entre a personagem do conto e seu autor, condição elementar à escrita de si. Enquanto gênero, a autobiografia apresenta uma série de elementos básicos à sua constituição e delineamento, dos quais muitos são passíveis de contestação, principalmente quando apontados por teorias herméticas e tradicionais. Por outro lado, a complexidade de certos textos ficcionais nos impele à investigação de alguns de seus traços que esbarram no gênero autobiográfico, sem, no entanto, preterir de um alto teor de ficção. Em geral, tratam-se de textos que brincam com a própria ficcionalidade, de modo desconsertar as certezas prévias do leitor sobre o caráter da obra de que está diante: apresentam uma dinâmica pouco convencional, que transita entre a ficção, a veracidade e a verossimilhança; impugnam os postulados da “realidade”, burlam a dicotomia “real X ficcional” e estendem seus questionamentos à precisão e à inflexibilidade dos gêneros. Esse movimento é amplamente observado na obra de Cortázar, em especial no texto que, aqui, tomamos como corpus, “Apocalipsis de Solentiname”. Assim, a análise que aqui pretendemos não visa à inserção do texto corpus na categoria da autoficção ou da autobiografia, mas, antes, o estudo de alguns de seus elementos que apresentem indícios da escrita de si, conjugados ao caráter fantástico do conto. Esse movimento analítico visa ao deslindamento do caráter autorreferencial e autocrítico da literatura de Cortázar, a partir do jogo entre realidade e ficção. Para tanto, nos apoiaremos nas considerações de Diana Klinger em “A escrita de si – O retorno do autor” (2007), por se tratar de um texto que avalia, de forma pertinente ao nosso estudo, as dimensões do real e do fictício no campo da narrativa de si. Palavras-chave: fato real e fato ficcional; fantástico; autoficção. Prof. Me. Alemar S. A. Rena (Doutorando-UFMG) MULTIDÃO, CRIAÇÃO COLABORATIVA E EMERGÊNCIA: NOVAS CONFIGURAÇÕES DA AUTORIA NO CIBERESPAÇO O presente trabalho propõe refletir sobre as novas configurações da figura do autor no ciberespaço tendo em vista rupturas que esta nova figura apresenta em relação à noção tradicional de autor construída ao longo da Era Moderna. Para tanto, pretende-se investigar três tendências inter-relacionadas na produção cultural e literária no ciberespaço: o esmaecimento da marca de autoria tendo em vista a profusão infinita de vozes em escala atomizada, levando a uma cultura marcada pela ideia de emergência; a construção de valor e seleção vinculados a novas formas de filtragem e distribuição de conteúdos, pautadas em robôs eletrônicos, inteligência coletiva, comunidades virtuais, redes sociais, e distantes dos métodos de valoração da cultural tradicional (erigidos em torno da crítica especializada, mídia, mercado, editoras e com forte importância dada à figura do autor); a profusão de obras atravessadas por uma estética da anonimidade, colaboração, hipertextualidade, fragmentação, efemeridade e interatividade leitor-obra-máquina-autor. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Propõe-se contrastar estas novas marcas da autoria nas produções em rede com a figura tradicional de autor, pensada estudada pelos seguintes pensadores: Michel Foucault, na conferência "O que é um autor", de fevereiro de 1969; Antoine Compagnon, em O Demônio da Teoria (capítulo "O autor"); e Hans Ulrich Gumbrecht, em Modernização dos sentidos (capítulos "O autor como máscara: contribuição à arqueologia do impresso" e "A mídia literatura"). Para melhor compreendermos o autor na cibercultura em linhas de contiguidade e/ou ruptura em relação a essa figura moderna de autor, conceituaremos uma nova figura de produtor de conteúdos culturais e literários, a que chamaremos de agenciador cibernético, tendo como ponto de partida o conceito filosófico de agenciamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari; a releitura do conceito de Flânerie em Walter Benjamin, trazendo-o para o âmbito da "cidade de bits"; o artigo "Arte e interatividade: autor-obra-recepção", de Julio Plaza, e o livro Processos criativos com os meios eletrônicos: poéticas digitais, de Plaza e Monica Tavares. Buscaremos mostrar que a autoria no ciberespaço é constantemente atravessada por processos que relativizam a centralidade da figura autoral, seja por meio da ampliação das complexidades e possibilidades técnicas da criação com máquinas e softwares, seja por meio, num movimento ao mesmo tempo externo e interno ao processo criativo, do estabelecimento de uma lógica de redes, trocas, remixagem e interações horizontais e em processo. Assim como no agenciamento deleuziano e guattariano, o movimento rizomático, não-linear, veloz e tomado por territorializações e desterritorializações está em curso, levando-nos a questionar e repensar a estabilidade do sujeito criador da Era Moderna e das verdades universalizantes ou totalizantes da crítica. Igualmente, nos perguntamos em que medida a desinstitucionalização e descentralização da prática criativa e dos seus agentes periféricos (crítica, mercado, mídia) oferecem condições para afirmarmos que, ainda de forma mais radical do que sugeriu Barthes, o autor como o conhecemos nos últimos séculos, nascido com o advento do livro impresso e a expansão do capitalismo, está, de fato, pelo menos por um certo viés, morto. Palavras-chave: autoria; emergência nas redes; criação colaborativa. Alessandra Batista (Mestranda-FFLCH/Usp) O “ESPANTO” SILENCIADO NAS LETRAS DA HISTÓRIA, AGUÇADO NA VOZ DA FICÇÃO Em razão de a escrita literária pressupor inevitavelmente o diálogo com um leitor, não há escolhas gratuitas no trabalho do escritor. Este estudo se debruça sobre o romance Nós, os do Makulusu, de Luandino Vieira, visando pontuar a existência e as causas de um “espanto” que se daria no leitor ao confrontar-se com o texto do romance. Toma-se o termo “espanto” da obra O Princípio Esperança, de Ernest Bloch, a fim de instrumentalizar nosso olhar a uma dada disposição anímica que tomaria conta desse leitor, por força da complexa construção textual engendrada pelo autor. Tendo em conta esse fenômeno, a análise buscará uma aproximação entre a estrutura que dispõe as linhas do livro e aquela que disporia as intermináveis linhas da História, acentuandose em uma e outra o caráter comum da incompletude constitutiva – que não se confunde com “imperfeição” ou “falha”. Com isso, propor-se-á que, além do conteúdo, a própria forma com que o todo do romance se apresenta seria produto de um ato engajado de Vieira, apto a problematizar a perspectiva dual que se organizou no interior dos territórios ocupados e que desencadeou o confronto entre colonizador e colonizado. Partindo dessa problematização, o estudo visa a tratar, em especial, a questão das tentativas de apagamento histórico, cultural e identitário do continente africano, com enfoque em Angola, e a questão da insuficiência e/ou inadequação das presentes teorias do romance, para a produção crítica voltada às narrativas das literaturas africanas. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Girando em torno dessas questões, o estudo contempla em sua bibliografia, entre outros títulos, capítulos da História da África Negra, de Joseph Ki-Zerbo, bem como textos de Frederic Jameson, em sua obra Marxismo e Forma - Teorias dialéticas da literatura no século XX, também considerando como imprescindível o cotejo com a Teoria do Romance, de Georg Lukács. Assim norteada, e com seu principal fundamento em proposições de Bloch – como naquelas em que salienta que “toda grande obra de arte, para além de sua essência manifesta, ainda foi concebida sobre uma latência do aspecto vindouro” (BLOCH, Ernest. O princípio esperança, vol. 1, 2005), a análise buscará mostrar, por fim, que enquanto a incompletude seria um elemento constitutivo do texto manifesto do romance, a esperança no poder contido nas latências – o texto (ainda) não manifesto – seria peça-chave para a leitura, sendo destacável que tal condicionamento se configure pela excelência da execução estilística e do posicionamento ideológico adotados por Vieira. Palavras-chave: literatura angolana; teorias do romance; princípio esperança. Prof. Dr. Alexandre Jairo Marinho Moraes (Ufes) QUE AUTOR ENCONTRAMOS NAS MARCAS DO TEXTO? Entre o sujeito e o eu encontramos o autor ou seria o autor uma estrutura autônoma entre esses limites? No texto literário podemos encontrar as marcas tanto do autor quanto aquelas do sujeito/eu e, nisto, ainda verificar que o sujeito se caracteriza por ser uma espécie de impossibilidade; ou seja, só podemos vivê-lo ou ter algum saber sobre ele através de um processo que, normalmente, denominamos “eu”. O autor, quer dizer, o sistema de estruturas que se esconde, por um lado e, paradoxalmente, mostra, por outro, nome e sobrenome ou textos, intertextos, subtextos, vozes, dizeres, intensidades e possibilidades de vir a ser território de experiências de um sujeito/eu é também uma criação assim como o sujeito e que, a partir da modernidade, é questionado, vivenciado em sua criação, multiplicação, instabilidade e existência. O eu, que se efetiva como uma espécie de resistência ao olhar e ao saber de si é, no entanto, ele mesmo, a ponte para o sujeito. O autor, neste quadro, como se constitui e se diferencia do sujeito e do eu? O autor é uma estratégia que se verifica no interior da possibilidade entre o eu e o sujeito. Só há a existência de um autor nesta possibilidade de estar entre, de estar no paradoxo do sujeito e do eu já estabelecidos no indivíduo. O autor que, no dizer de Barthes, “é um experimentador público”, um ser coletivo quando visto por esse prisma, nos diz de um saber não de si, mas de sua invenção que opera entre outras invenções. O autor nos coloca vivenciando e experimentando não uma estrutura plástica biografada, como poderíamos biografar e travar experiências com um indivíduo determinado, mas nos demonstra e coloca em circulação sistemas de estruturas de sentido que intensificam e produzem diversos eus/sujeitos e, sobretudo, biografias incessantes. Em outras palavras, o autor é tanto constituído de matéria de sentido público quanto único; tanto escondido entre as intensidades subjetivas do sujeito e do eu tanto quanto se distancia e se diferencia do sujeito e do eu. O objetivo maior deste trabalho é pensar como o eu e o sujeito se organizam para refletir sobre textos de autores como Cecília Meireles, Fiama Hassen Pais Brandão, Carlos Drummond de Andrade, Armando Freitas Filho, Michel Deguy, Dominique Fourcade, Dora Ribeiro, Renato XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Rezende e Casé Lontra Marques, indagando dessas entidades grifadas que autores são eles e como se organizam entre sujeitos e eus. A pesquisa de que esta fala se origina trata das relações entre o eu/sujeito e como se estabelecem tanto a autoria como as experiências da subjetividade na lírica a partir do modernismo, tendo como orientação teórica interfaces de teoria da literatura (a partir dos anos 1960) e a psicanálise, levando ainda em consideração elementos cruciais da filosofia existencial. Palavras-chave: sujeito e eu; lírica e autoria; teoria literária e interfaces. Prof. Dr. Alexandre Rodrigues da Costa CORPOS CEGOS: A DISSOLUÇÃO DA IDENTIDADE NAS OBRAS DE GEORGES BATAILLE E DE HANS BELLMER A partir da obra do artista plástico alemão Hans Bellmer e do pensador e poeta francês Georges Bataille, pretende-se abordar como se dá a questão da dissolução da identidade em suas obras, mais especificamente nas séries de fotografias que Bellmer realizou, nas décadas de 30 e 40, de suas bonecas desarticuladas e mutiladas, e nos poemas escritos por Bataille, que evocam o sacrifício e o fracasso. Hans Bellmer articula, em suas fotos de boneca, nada mais do que uma série de sacrifícios com o objetivo de questionar os papéis sociais da Alemanha de sua época, mas também a própria noção de representação. Para que isso ocorra, as imagens de sua boneca se estabelecem como parte de um processo de perda, de afirmação da inutilidade do corpo feminino. Não é à toa, portanto, que ele se utilize de bonecas em sua obra, uma vez que a sociedade tende a estereotipar o papel da figura feminina através delas, simplificando e infantilizando o corpo da mulher. A questão é que Bellmer, ao mutilar suas bonecas, não só vai contra a visão que a sociedade alemã lança sobre a mulher, mas instaura rituais de sacrifício, nos quais ele também se sacrifica, a ponto de perder sua própria identidade. Nos poemas escritos por Georges Bataille, a perda da identidade é abordada a partir de um eu que se debruça sobre o vazio ante a iminência da morte. Na verdade, o que Bataille faz, ao abordar a experiência do eu e de sua improbabilidade, é discutir de que forma a morte não se opõe à existência, mas se mescla a ela, no instante em que aquele que morre se regozija ante a nudez de sua ausência. Diante da expectativa da morte, o eu que se projeta para fora de si, cria o objeto de sua paixão, mas em oposição a esse objeto está a catástrofe, a linguagem poética que vive a aniquilação que a constitui. O poema, na concepção de Bataille, só pode existir a partir do ódio dirigido a ele, do sacrifício que se faz dele. O sacrifício seria, portanto, o momento em que o poema revela a existência ilusória do eu, inutilidade de todas as coisas que o constituem, aquilo que o poeta definiu como o impossível. Como aquele que vai ser sacrificado, as palavras do poema perdem seu valor de uso, para se tornarem sagradas, uma vez que elas se projetam dentro dessa morte que as fecha como transcendentes e mundanas. Se o papel do sacrifício é confundir a vida com a morte, a destruição do eu equivale ao fracasso da linguagem, já que o incompreensível se revela em concordância com aquele que morre. Palavras-chave: identidade; sacrifício; mutilação. Ana Carla Lima Marinato (Mestranda-Ufes) AUTORES EM CENA EM A HORA DA ESTRELA Em A hora da estrela, é possível perceber uma constante afirmação de certas ausências. Em um primeiro plano, salta-nos aos olhos a ausência material de Macabéa, que se reveste, de um ponto de vista mais amplo, de uma ausência de si como ser humano inserido em determinada XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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sociedade. Em seu posto, o narrador tenta acompanhar essa ausência, no propósito de se aproximar da personagem que constroi: ao elaborar conceitos a respeito de elementos diversos – vida, verdade, existência, dor, a própria narrativa – o texto se reveste de jogos linguísticos – entre os quais a metáfora é exemplar – que encaminham para esse vazio, o qual se insere no que haveria por trás da palavra, ao seu avesso. Do mesmo modo, a narrativa se encaminha para o seu próprio desnudamento quando o narrador exibe os bastidores da escrita, o que o coloca na posição de autor, ao mesmo tempo em que, em outras situações, assume a postura de personagem. Assim também Macabéa, personagem criada a partir de um “parto ficcional”, como afirma Nádia Battella Gotlib em “Macabéa e as mil pontas de uma estrela”, ganha sua independência em relação a Rodrigo S.M. e se torna também autora de sua história. Temos aí uma narrativa construída em dois níveis ficcionais, que se desdobram, a princípio, em dois níveis autorais – os quais se encontram em uma unidade que não é explicitamente perceptível. Esse desdobramento de papeis pode ser analisado partindo-se do paratexto que também compõe a obra: após a contra-capa, que expõe o título da obra – A hora da estrela –, estabelecido, ao que tudo indica, pela escritora, Clarice Lispector, deparamonos com uma espécie de segunda contra-capa, na qual aparecem treze títulos possíveis, entre os quais, A hora da estrela. Sintomaticamente, intercalado a esses títulos, está o nome da escritora. Virando essa página, temos uma “Dedicatória do autor (na verdade Clarice Lispector)” (grifo meu). Então Clarice Lispector não é efetivamente a autora de sua obra? Dirse-ia que ela é também autora de sua obra. A dedicatória aponta para a inserção da autora numa massa de eus que incluem os personagens da obra, tornando-se um só nós – isso acontece tanto de maneira clara e explícita, quanto por uma convergência percebida entre concepções de mundo e angústias de Clarice Lispector (na própria dedicatória) e Rodrigo S.M. (ao longo da narrativa). Ao fim, essas vozes se encontram na morte de Macabéa, que se estende como metáfora no caso do narrador e os possíveis autores – a narrativa termina, e tudo o que temos são palavras. Vemos, então, uma concepção do papel autoral semelhante àquele que propuseram os pós-estruturalistas franceses anos depois da escrita do romance – em destaque, Roland Barthes em “A morte do autor” e Michel Foucault em “O que é um autor”: a presença do autor se afirma pela sua ausência, pela sua morte. É sob essa perspectiva que se pretende compreender certa presença/ausência autoral em A hora da estrela. Palavras-chave: literatura brasileira; performances autorais; Clarice Lispector. Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan (Universidade Presbiteriana Mackenzie) NARRATIVAS DA CONQUISTA SOB O OLHAR LITERÁRIO: AS SUBVERSÕES DE CARLOS FUENTES NO ROMANCE TERRA NOSTRA O romance Terra nostra (1975), do escritor mexicano Carlos Fuentes, compõe o objeto de pesquisa a ser estudado neste trabalho. As descrições do “mundo nuevo”, reveladas pelo ponto de vista do homem europeu, representado na figura do narrador testemunha denominado Peregrino, são o ponto de partida para uma discussão a respeito das atribuições de sentido que compuseram a tônica de muitas narrativas da conquista e colonização da América Hisp. O romance se aproxima dos relatos clássicos de cronistas e descobridores do século XVI, justamente, para subvertê-los e, nesse sentido, propõe uma perspectiva reflexiva que se vincula às leituras propostas pelos estudos pós-coloniais. São examinados os modelos de narrativa histórica, que se tornaram sinônimo de verdades históricas, por meio da confrontação com uma estrutura formal desarticuladora da ordenação cronológica. A composição ficcional de Carlos Fuentes permite uma visualização das narrativas coloniais como um binômio que associou formas e conteúdos, cristalizando uma ordenação aceita como única e verdadeira. Em Terra nostra o leitor percebe a representação narrativa do encontro entre o mundo europeu e o mundo americano por meio de uma estrutura circular, concebida como XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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repetição, como reiteração de um modelo mítico de atos primigênios. A forma cíclica que impregna a segunda parte do romance, denominada “Mundo Nuevo”, aponta indireta e criticamente para a forma narrativa linear de representação dos universos simbólicos americanos, apresentada pelos europeus, e insere a possibilidade de reflexão sobre o pensamento mítico, referendando a ordem indígena de concepção do tempo. Utilizando os estudos teóricos de Hayden White, Walter Mignolo e as perspectivas filosóficas de Hans-Georg Gadamer, pretende-se discutir que o romance de Fuentes não deseja ser História e também não se limita a reconstruir a História, reagrupando fragmentos. Ele constrói uma narrativa que dialoga com as perspectivas discursivas que pertencem tanto à literatura como à historiografia. Negando as formas tradicionais do registro histórico, ele as explicita como forma e explicitando-as como forma, ele desarticula a perpetuação de paradigmas e valores objetivados pelas construções históricas que reivindicam para si a “verdade”. Na ausência das formas tradicionais, sua presença ressurge como referência implícita. Para aceitar a História comprometida com a “convenção da veracidade”, será necessária uma organização formal previamente estabelecida, a qual se articula em nome de uma inteligibilidade. Logo, a verdade fica submetida a uma forma de construir o discurso. Se aceitarmos isso, aceitamos a imanência do discurso frente à “verdade” e, então, “Literatura” e “História” possuem horizontes semelhantes que se cruzam na utilização da linguagem. Não é possível negar o “fato”, mas sabemos que a sua perpetuação, a sua carga simbólica implícita será registrada pela escrita histórica, de uma ou de outra forma, seguindo os preceitos e modus de compreensão que variam de uma época determinada para outra. O romance, que será a base desta problematização, busca incessantemente discutir o processo de elaboração da narrativa e tanto os fragmentos mínimos como a meta-narrativa surgem em Terra nostra para deflagrar a idéia de que a realidade e a verdade são construções discursivas. Palavras-chave: romance; colonização; México. Profa. Me. Ana Maria Quirino (Ifes) FERREIRA GULLAR: UM AUTOR NO RABO DO FOGUETE Trata da escrita autobiográfica do poeta Ferreira Gullar na obra Rabo de foguete. Ao tratar de fatos significativos de sua vida, o autor assume o papel de personagem e compartilha com o leitor a experiência do como cidadão e do escritor. Dá-se, neste estudo, ênfase ao processo de gênese da obra Poema sujo, na qual o poeta mescla memórias, sentimentos e experiências. Estudos teóricos de Octavio Paz, Eleonora Z. Camenietzki e do próprio Ferreira Gullar são o suporte das análises realizadas. Palavras-chave: Ferreira Gullar; autobiografia; Rabo de foguete Prof. Dr. André Luís Gomes (UnB) DIÁLOGOS INTERARTES NA PAULICEIA: MELOPOÉTICA E POLIFONIA CULTURAL EM MÁRIO DE ANDRADE (em co-autoria com Beatriz da Silva Lopes Pereira) O presente trabalho tem como objetivo o estudo das interações culturais entre a literatura e outras linguagens artísticas, a partir de textos críticos, anotações e crônicas jornalísticas de Mário de Andrade, presentes nas obras De São Paulo e A música popular brasileira na vitrola de Mario de Andrade, organizadas, respectivamente, por Telê Ancona Lopes e Flávia Camargo XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Toni ; obras que se fundaram não só nas relações entre Cultura e Espaço, ou seja, da íntima interação do autor com a cidade de São Paulo e a modernização no início do século, bem como na “escuta aberta”, singular e crítica das diversas manifestações artísticas da época, em particular, da música popular brasileira, em suas pesquisas e, sobretudo, em sua vitrola. Para tanto, à luz das contribuições teóricas de Mikhail Bakhtin e de Solange Ribeiro de Oliveira, o recorte em estudo se propõe a identificar e a analisar, nos referidos textos, as marcas desses diálogos, com base nos possíveis e criativos processos lítero- musicais –melopoética e a polifonia–, que compõem a polifonia cultural em Mário de Andrade. Assim, na abordagem que ora empreendemos,destacamos as referências em que predominam a tipologia descrita por Solange Ribeiro de Oliveira como música na literatura ou melopoética músico- literária, explorando nesse percurso a interface entre a crônica e a crítica literária e a musicológica, bem como as instigantes contribuições filosóficas e teóricas de Bakhtin aos estudos literários, sobretudo a articulação dialógica como pressuposto básico de qualquer produção cultural e a polifonia, sua força suprema, visto que as categorias presentes na arquitetura do discurso crítico ou literário, tanto enriquecem a análise das relações entre cultura e espaço, bem como potencializam as interações entre a música e a literatura nos textos de Mário de Andrade. Com efeito, os inumeráveis diálogos inteartes que se estabelecem na produção crítica e literária de Mário de Andrade constituem, na verdade, parte de um processo criativo e intelectual socialmente determinado de sua orquestração polifônica em que gêneros e estilos, marcas estéticas, sociais e culturais iluminam-se mutuamente, relativizando-se uns aos outros, como um processo dinâmico ora expresso ora subjacente, mas sempre pulsante na polifonia cultural de Mário de Andrade. Essa polifonia cultural é engendrada através de um processo altamente dialógico, em que artistas e teóricos das Letras, da Música, da Pintura e de outras artes são resgatados ou apresentados e compõem, simultaneamente, as interações com seu tempo-espaço, agregando valores estéticos, sociais e culturais, tanto da tradição como das vanguardas, ao seu fazer artístico e legitimando suas concepções como intelectual que, inserido nos dilemas da modernidade, estava sempre preocupado em propor caminhos para o estudo do processo cultural brasileiro e para uma produção artística ao mesmo tempo modernista e nacional. Implica, ao mesmo tempo, um confronto entre práticas e discursos sociais mais amplos, e é através desse confronto que o autor exprime as contradições da época, mas não se fecha nelas, pois a literatura como unidade diferenciada da cultura de uma época é uma unidade aberta, “sua plenitude só se revela no grande tempo”. Palavras-chave: melopoética; polifonia; Mário de Andrade. Profa. Dra. Andréia Delmaschio (Ifes) HIERÓGLIFOS NO PEITO Ao retornar ao Brasil, José Costa é perseguido, num beco carioca, por um skinhead que tenta matá-lo, tendo confundido-o com um “veado”. O ghost writer reconhece então, nos olhos do rapaz tatuado, o filho que há muito tempo abandonara... Depois de várias viagens à Hungria, onde aprende, magicamente, o magiar, Kósta, que passara a vida inteira escrevendo textos que jamais assinou, depara-se com mais esse rebento, também nunca completamente assumido - e que outrora fora uma criança muda. Neste ensaio acompanhamos sobre Budapeste, de Chico Buarque, o modo como as questões arroladas ali obrigam a repensar algumas categorias que a crítica literária está acostumada a manipular com relativa e por vezes impensada simplicidade, como sujeito e autor, identidade e estilo. Para tanto, consideramos ainda uma vez a famigerada polêmica Barthes-Foucault sobre a morte do autor. Palavras-chave: Budapeste; Chico Buarque; autoria. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Andressa Zoi Nathanalidis (Doutoranda-Ufes) DO ESTIGMA À CANÇÃO: CONSIDERAÇÕES SOBRE O RAP NO MUNDO GLOBALIZADO Na Grécia Antiga, o conceito de estigma remetia aos sinais corporais por meio dos quais se evidenciavam características extraordinárias ou ruins acerca do status moral daqueles que as recebiam em seu próprio corpo. Cortes variados e queimaduras anunciavam à sociedade que quem estava ali era um escravo, traidor ou criminoso: alguém cuja companhia deveria ser evitada, sobretudo em lugares públicos. Erving Goffman (2008) considera que, em dias atuais, o conceito de estigma, embora permaneça amplamente utilizado com sentidos próximos ao do original, remete mais às desgraças atravessadas por um ser humano, do que ao sentido físico da questão. Talvez compondo um dos grupos mais estigmatizados da história mundial, a população negra traz as marcas de um povo emudecido, colocado às margens da hegemonia capitalista; formado por pessoas que integram as classes sociais menos favorecidas, guetizadas, colocadas em “nichos periféricos” desprovidos de condições físico-estruturais básicas. Ser negro, aos olhos do sistema, significa “ter o rosto” das “classes perigosas” e “não merecedoras” do livre convívio e experiência social; significa “não ter o direito” do exercício à cidadania e viver vigiado por um sistema devorador, na ausência total de meios materiais e morais. Entretanto, com o advento da globalização e consequente dissolução de fronteiras e intensificação tecnológica, abrem-se novas possibilidades que parecem, inclusive, dar voz às camadas marginalizadas. Iniciado no final dos anos 80, o processo de globalização intensifica a concorrência e o crescimento econômico em redes de conhecimento, mas, também, reflete suas conseqüências nos padrões de relacionamento entre as unidades culturais nacionalistas, suas sociedades “regidas” e “cidadãos”. Neste sentido, as culturas deixam de estar vinculadas a uma única ideologia nacional e passam a ser cada vez mais fragmentadas. As práticas sociais são constantemente examinadas à luz de informações renovadas sobre estas próprias práticas, alterando assim, constitutivamente seu caráter (GIDDENS, 1991, p.45). Desta forma, os indivíduos criam seus próprios estilos de vida, suas próprias identidades. Constatam-se desterritorializações e reterritorializações culturais diversas, inclusive, a nível transnacional (Fietherstone, 1999, p.7). Nascido nos guetos de grandes metrópoles americanas, o rap se espalhou pelo mundo no final dos anos 80, consolidando-se como a arte de resistência negra, integrante do movimento HipHop. Tendo em vista que sua difusão concorre com o início dos processos de globalização, surge a proposta deste trabalho. A partir da seleção esparsa de letras pertencentes ao gênero “ideológico” e produzidas em diferentes nações, pretende-se identificar o que dizem os discursos rappers no mundo e de que maneira o estigma se faz canção. Este trabalho propõese a investigar se o rap pode ser fruto de uma criação de identidades entre indivíduos fisicamente separados; a possível existência de semelhanças e diferenças entre os discursos de cada nação; além de possíveis efeitos concretos oriundos desta produção artística. Haveria na música rap a incitação de “praxis libertadoras” (SANTOS, 1993, p.51) em seus ouvintes? Afinal, periferia é mesmo periferia em qualquer lugar? Palavras-chave: Estigma; Rap; globalização. Prof. Dr. Arnaldo Rosa Vianna Neto (UFF) IDENTIDADES PÓS-COLONIAIS E ETHOÏ UNDERGROUNDS EM NARRATIVAS DE NÉLIDA PIÑON E RÉJEAN DUCHARME

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Esse texto é fruto de uma pesquisa que pretende viabilizar o estudo da representação cultural do Brasil e do Quebec em um determinado momento histórico a partir das obras de Nélida Piñon e Réjean Ducharme, registrando as semelhanças que os aproximam e as diferenças que os identificam sob o processo do neocolonialismo contemporâneo. Segundo Eneida Maria de Souza (1994), o caminho teórico da literatura comparada pretende conjugar a tradição de culturas nacionais com as estrangeiras - abstraindo-se da concepção estreita de lugares regionalmente marcados - e produzir objetos teóricos que revelem o efeito desconstrutor das relações interculturais. Valendo-se ainda dessa perspectiva analítica, o texto ficcional - ou artístico - assume funções próximas às do texto teórico, podendo ser interpretado como imagem em movimento na qual a rede metafórica é produtora de redes conceituais. Nesse sentido, esta pesquisa desenvolve os seguintes temas: opressão e transgressão em contextos pós-coloniais; astúcias, “artes de fazer” e estratégias de seres ex-cêntricos; tradução e travessia de fronteiras; representação do cotidiano como invenção nas literaturas periféricas, constantes da linha de pesquisa Literatura e Vida Cultural, nas séries literárias de Réjean Ducharme e Nélida Piñon e na série teórica indicada em seguida. Nas séries literárias de Ducharme e Nélida Piñon interessa à pesquisa proposta a análise dos romances: Le nez qui voque (1967), L’Océantume (1968), La fille de Christophe Colomb (1969), Va savoir (1994); Tebas do meu coração (1974), A república dos sonhos (1984) e A doce canção de Caetana (1987). Privilegiando-se o diálogo entre essas séries literárias, estudar-se-á a representação do ethos underground no universo dos autores onde ela emerge de práticas privilegiadas como o exercício da astúcia e dos desvios, a errância outsider e outras formas de movência através das fronteiras. A partir da perspectiva da invenção do cotidiano de Michel de Certeau e de ensaios de outros autores como Lise Gauvin, Gilles Marcotte e Régine Robin, a leitura evidencia a déroute du sens nas relações entre os personagens e a linguagem canônica. O estudo dessas relações entre os discursos de representação marginal e os de expressão ortodoxa será abordado também a partir da problemática da economia dialógica do oral e do escrito. A passagem da oralidade à escritura será analisada sob a ótica de Édouard Glissant e sua análise sobre a sociedade contemporânea em termos de encontro, de relação entre a cultura escrita do Ocidente e a oralidade das outras culturas. Para uma melhor compreensão da complexidade da construção identitária nas Américas, pretende-se analisar o discurso e as práticas da reciclagem cultural, assinalada por Walter Moser como meio para o reaproveitamento, a reutilização de materiais que perderam sua função pragmática em um contexto canônico, e sua ressignificação em um contexto underground. Finalmente, ao pesquisar nas narrativas de Réjean Ducharme e Nélida Piñon o registro das pequenas histórias do cotidiano pela literatura, na reescrita dos signos históricos impostos pelo paradigma de poder, pretende-se priorizar a análise da evolução do conceito de identidade na representação do periférico no Brasil e no Quebec. Palavras-chave: identidade; ethos; underground. Arnon Tragino (Graduando-Ufes) A FICÇÃO E A HISTÓRIA EM O TEMPLO E A FORCA – ROMANCE DE LUIZ GUILHERME SANTOS NEVES Na narração de O templo e a forca, romance de Luiz Guilherme Santos Neves, observamos que há uma interdiscursividade entre ficção e história. Trata-se, pois, de um diálogo com a historiografia de uma revolta de escravos: a Insurreição do Queimado. Ocorrida na freguesia de São José do Queimado no Espírito Santo em 1849 (essa região, hoje desabitada, é próxima ao município da Serra), o levante se estendeu pelos dias 18 e 19 de março daquele ano. Foram apenas dois dias, mas que tiveram fama o suficiente para preocupar toda a província. O conflito se iniciou após a revolta de alguns escravos que, ao terminarem de construir a igreja da região, cobraram de frei Gregório José Maria de Bene (religioso responsável pela obra) a XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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alforria que supostamente prometera. Nesta revolta, quase 200 negros se envolveram no conflito, mas apenas 41 foram capturados. Entre estes, os líderes: Elisiário, João Pequeno, Carlos, João da Viúva e Chico Prego, sendo que apenas os dois últimos foram enforcados. No diálogo mencionado, podemos ver no romance a observância da trajetória dos negros para o e no conflito. A narrativa é um exercício discursivo em primeira pessoa e heterodiegética acerca de todo o meio social e hostil do levante. O narrador descreve as cenas cotidianas dos cativos, dos seus senhores, das ações dos envolvidos no ambiente do Queimado e, ainda, a sua própria preocupação como observador da revolta. Nesse enredo, a narrativa também apresenta como protagonistas Chico Prego e João da Viúva, que, no cárcere, antes do enforcamento, relembram a história da construção da igreja, assim como os dizeres do frei Gregório de Bene e da maldade do ex-capitão do mato, Rodrigues Velho. A maior parte do romance é a narrativa das lembranças dos dois negros que muito refletem sobre a má sorte que tiveram em promover a revolta. Assim, neste trabalho, iremos mostrar esse arranjo textual interdiscursivo que pode ser visto como uma ficcionalização historiográfica, que conduz a progressão narrativa do romance. Através desse processo, a narrativa expande sua maleabilidade discursiva para “cutucar” o que a história postulou como fato, apontando, dessa maneira, a frágil “verdade” propagada pelo discurso histórico. Para o trabalho, então, optamos principalmente pelos estudos de Michel de Certeau, acerca da escrita da história, Wolfgang Iser, a respeito dos processos de ficcionalização, Luiz Costa Lima, sobre as relações discursivas entre história, ficção e literatura, e Linda Hutcheon, com suas reflexões sobre as narrativas pós-modernas, para guiar o rumo teórico-crítico da análise sobre um romance que “conta uma história” peculiarmente capixaba. Palavras-chave: interdiscursividade; o templo e a forca; Luiz Guilherme Santos Neves. Prof. Dr. Ataide José Mescolin Veloso (UNESA / UNISUAM / CBNB) PAISAGENS DA MEMÓRIA: A REVISITAÇÃO DA INFÂNCIA NA POÉTICA LIMIANA Este trabalho tem como objetivo fazer um estudo de como Jorge de Lima, escritor alagoano da assim denominada “Segunda geração do Modernismo”, trabalha o devaneio e o sonho em suas coletâneas de poemas, sempre num processo ininterrupto de revisitação da infância. Não serão consideradas as associações diretas entre a obra e a vida do autor, como fazia a crítica positivista do século XIX. Tal crítica estava totalmente fundamentada no aspecto psicológico e nos acontecimentos históricos. Estudava-se não a obra em si, mas sim aquilo que estava refletido nela. Assim, o sentido do texto passava a ser o que o autor pretendia dizer. Tomavase como base quem o escreveu, como se a escritura fosse a voz do autor que se entrega à confidência. No texto moderno, o autor é afastado. Roland Barthes considera que todo o texto é escrito sempre aqui e agora. O autor passa a ser um “escritor de papel”, não uma pessoa que tem existência própria antes da enunciação, mas sim o sujeito que emerge concomitantemente ao ato da escrita. Ao revisitar e recriar a infância, Jorge de Lima se aproxima dos dois tipos de onirismo descritos por Gaston Bachelard: o sonho (revê) e o devaneio (rêverie). O primeiro deles, o sonho noturno, relaciona-se ao animus, substantivo que se refere ao componente masculino do psiquismo humano, na visão de Jung. A esse tipo de onirismo pertencem os monstros, os fantasmas e os demais causadores do medo. Na poética limiana, as diversas lendas do folclore brasileiro são contadas pelas negras velhas, levando o menino-poeta a conhecer tal sentimento. Em alguns momentos, o medo é personificado nas figuras do bicho Carrapatu e do negro velho do surrão, mobilizando, destarte, o imaginário infantil. Já o segundo tipo de onirismo é aquele que procura proporcionar à consciência do sonhador uma sensação de alívio, apresentando constantemente um caráter repousante. É considerado um onirismo diurno, associado também à anima: personificação das tendências psicológicas femininas. Segundo Bachelard, quando nos deixamos envolver pelas solidões mais profundas dos nossos devaneios, passamos a sentir uma espécie de libertação e a alma fica XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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sob as influências de anima. Em Jorge de Lima, o devaneio do poeta o conduz a lugares marcantes da sua infância, como por exemplo, a Lagoa Mundaú, local aprazível e bastante propício para a meditação. Lá o poeta se deixa envolver pelas solidões mais profundas. A princípio, a beleza do lugar fascina, mas logo a seguir o seu olhar se volta para os meninos pobres que iam tirar sururu e amassar barro para fazer balas: cena que contribui para que o poeta se sinta melancólico em meio à tranquilidade local. Palavras-chave: infância; memória; Jorge de Lima. Profa. Me. Aurélia Hubner Peixouto (Ifes) A AVE FAMINTA Este trabalho pretende, como orienta o simpósio em que se inscreve, investigar uma das várias formas de escrita de si em prática na contemporaneidade. Apresentaremos uma leitura crítica da obra Suindara, de Leila Jalul, escritora acreana. Sendo este o nosso objeto de pesquisa, o referencial teórico que norteará nosso estudo é o conjunto de textos do biólogo chileno Humberto Maturana, reunidos em A ontologia da realidade. Encontramos dificuldade em rotular as experiências escritas de Leila como relato, ou testemunho, diário, correspondência ou uma fiel autobiografia. No entanto há tudo isso na obra que reúne o que por enquanto chamamos de contos bioficcionais. Suindara (nome tupi que designa uma coruja, “a que não come”) é ainda, simultaneamente, o resultado de um intenso mergulho individual nas memórias e um coletivo processo de seleção e reescrituras orientadas em grupo. A história de sua calorosa recepção entre os acreanos que, da geração da autora, receberam o livro em seu lançamento em 2007, a história das suas leituras na internet, a produção do curta baseado em dois de seus contos, dirigido pela autora deste trabalho, e outros desdobramentos desta escrita “tão de si” que envolveu tão fortemente outros, fará parte de nossa exposição. Entre muitas possibilidades que um baú com centenas de escritos proporcionava a três revisores e consultores famintos, a autora e seus ajudantes escolheram privilegiar a exposição de histórias, salvo alguma exceções, que apresentavam personagens descritos por Leila, apresentados em narrativas curtas. Quanto ao baú de escritos, ao contrário do que nossa expectativa nos fazia crer, ele não foi uma coleção acumulada durante os anos. Todos os textos foram escritos em curto período de tempo, durante a aposentadoria da autora, já os fatos distanciados, ou desanuviados, como anunciaria Leila em “Doces Lembranças”: “De tanto ver, a gente acaba não exergando. Tem que espanar a névoa da memória e procurar por velhos amigos (...)” (2007, p. 75). Em “O que é ver?”, Maturana no diz que o processo conotado pela palavra perceber não é a captação de traços de um mundo exterior (2002, p.80). Para ele, ainda, “o fenômeno da percepção se constitui na descrição que um observador faz como uma maneira de se referir à operação de um organismo em congruência com o ambiente particular no qual é observado” (2002, p. 77 e 78). As idéias de Maturana sobre a realidade, a representação, a percepção, e a linguagem serão perturbadoras dos conceitos de verdade e ficcionalidade com que lidamos até pouco tempo, e, cotejados à obra de Leila, nos revelarão inquietações a respeito das fronteiras, ou da falta delas, entre a verdade e a ficção. Palavras-chave: memória; ficção; literatura acreana. Beatriz da Silva Lopes Pereira (Mestranda-UnB) DIÁLOGOS INTERARTES NA PAULICEIA: MELOPOÉTICA E POLIFONIA CULTURAL EM MÁRIO DE ANDRADE XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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(em co-autoria com André Luís Gomes) O presente trabalho tem como objetivo o estudo das interações culturais entre a literatura e outras linguagens artísticas, a partir de textos críticos, anotações e crônicas jornalísticas de Mário de Andrade, presentes nas obras De São Paulo e A música popular brasileira na vitrola de Mario de Andrade, organizadas, respectivamente, por Telê Ancona Lopes e Flávia Camargo Toni ; obras que se fundaram não só nas relações entre Cultura e Espaço, ou seja, da íntima interação do autor com a cidade de São Paulo e a modernização no início do século, bem como na “escuta aberta”, singular e crítica das diversas manifestações artísticas da época, em particular, da música popular brasileira, em suas pesquisas e, sobretudo, em sua vitrola. Para tanto, à luz das contribuições teóricas de Mikhail Bakhtin e de Solange Ribeiro de Oliveira, o recorte em estudo se propõe a identificar e a analisar, nos referidos textos, as marcas desses diálogos, com base nos possíveis e criativos processos lítero- musicais –melopoética e a polifonia–, que compõem a polifonia cultural em Mário de Andrade. Assim, na abordagem que ora empreendemos,destacamos as referências em que predominam a tipologia descrita por Solange Ribeiro de Oliveira como música na literatura ou melopoética músico- literária, explorando nesse percurso a interface entre a crônica e a crítica literária e a musicológica, bem como as instigantes contribuições filosóficas e teóricas de Bakhtin aos estudos literários, sobretudo a articulação dialógica como pressuposto básico de qualquer produção cultural e a polifonia, sua força suprema, visto que as categorias presentes na arquitetura do discurso crítico ou literário, tanto enriquecem a análise das relações entre cultura e espaço, bem como potencializam as interações entre a música e a literatura nos textos de Mário de Andrade. Com efeito, os inumeráveis diálogos inteartes que se estabelecem na produção crítica e literária de Mário de Andrade constituem, na verdade, parte de um processo criativo e intelectual socialmente determinado de sua orquestração polifônica em que gêneros e estilos, marcas estéticas, sociais e culturais iluminam-se mutuamente, relativizando-se uns aos outros, como um processo dinâmico ora expresso ora subjacente, mas sempre pulsante na polifonia cultural de Mário de Andrade. Essa polifonia cultural é engendrada através de um processo altamente dialógico, em que artistas e teóricos das Letras, da Música, da Pintura e de outras artes são resgatados ou apresentados e compõem, simultaneamente, as interações com seu tempo-espaço, agregando valores estéticos, sociais e culturais, tanto da tradição como das vanguardas, ao seu fazer artístico e legitimando suas concepções como intelectual que, inserido nos dilemas da modernidade, estava sempre preocupado em propor caminhos para o estudo do processo cultural brasileiro e para uma produção artística ao mesmo tempo modernista e nacional. Implica, ao mesmo tempo, um confronto entre práticas e discursos sociais mais amplos, e é através desse confronto que o autor exprime as contradições da época, mas não se fecha nelas, pois a literatura como unidade diferenciada da cultura de uma época é uma unidade aberta, “sua plenitude só se revela no grande tempo”. Palavras-chave: melopoética; polifonia; Mário de Andrade. Carlos André de Oliveira (Doutorando-Ufes) A VOLTA AMIGÁVEL DO AUTOR NO TEXTO “NOITES DE PARIS” DE ROLAND BARTHES: A ESCRITA DE VIDA OU O FICTÍCIO DA IDENTIDADE É possível constatar no texto “Noites de Paris”, de Roland Barthes, que encontra-se no livro Incidentes, aquilo que o próprio Barthes chama de “uma volta amigável do autor”. Nele encontramos fragmentos que vêm de origens diversas, mas sobretudo pedaços, pormenores, que vêm da vida do autor empírico, da vida de Roland Barthes: a homossexualidade, suas XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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buscas amorosas, a frustração, a solidão, a literatura compreendida como uma forma de sublimar o desejo ou substituir o objeto de desejo. Barthes, o autor empírico, de acordo com seu biógrafo, Louis – Jean Calvet, era homossexual, mas sempre escondeu sua homossexualidade, talvez porque à época o homossexualismo não era tolerado ou porque ele não queria chocar sua mãe. Ele prossegue afirmando que “Noites de Paris” surpreende os leitores porque descreve de maneira simples e direta suas buscas amorosas. Todavia, hipótese minha, nessa volta amigável do autor o que retorna ao texto de Barthes não é a identidade, a repetição, o autor empírico, a pessoa civil, passional, biográfica, mas sim a diferença: retorna o autor, o sujeito, mas como ficção, ficção das mais raras: o fictício da identidade. Barthes nos seus textos, particularmente em seu artigo “A morte do autor”, sempre demonstrou o desejo de apagamento do Eu em benefício do Texto, da Escrita, pois a Escrita destrói, rasura toda a voz, toda a origem. Na escrita toda identidade desaparece, a começar precisamente pela identidade de quem escreve. Portanto, conhecendo Barthes (sua compreensão de texto, escritura, autor, imaginário) seria muita ingenuidade do leitor confundir o narrador que diz “eu” em “Noites de Paris” com o autor empírico, a pessoa que escreveu o texto. Quem diz “eu” no texto, quem relata suas paqueras, suas idas e vindas em busca do objeto desejado (rapazes), sua frustração amorosa, é o “eu” da escrita. Por outro lado, nos seus últimos textos, refiro-me à Preparação do romance II: a obra como vontade, Barthes fala de uma “volta do autor” ou “desrecalque” do autor, da escrita de vida, biografemática, que está inteiramente tecida com elementos da vida do autor, mas onde o autor, o pai da obra, é varrido ou pulverizado: ele é apenas um ator de escrita. Meu trabalho traz esta conclusão: em “Noites de Paris” o autor empírico não pode ser desconsiderado ou ignorado, pois há nesse texto um tom confessional, biografemas, pequenas unidades biográficas, elementos ou informações que permitem relacionar a pessoa civil que criou o texto (Roland Barthes) com o narrador. Ou seja, o eu que conta, apresenta os relatos de suas buscas amorosas, apresenta correspondências com o autor, enquanto pessoa real. Mas no momento em que esse eu fala de si mesmo no espaço da escrita, do texto, os fatos biográficos se abolem no significante, tornam-se biografemas que pertencem ao campo do imaginário, e o eu torna-se ficção. O texto “Noites de Paris” não pertence ao gênero diário, tampouco ao gênero autobiográfico, mas sim a algo diferente: ele pertence àquilo que Barthes nos seus últimos cursos no Collège de France chamou de “escrita de vida”: uma escrita biografemática, tecida com elementos que vêm da vida do autor, dele mesmo, de seus lugares, de seus amigos, etc. O suporte teórico para o trabalho veio principalmente dos textos de Roland Barthes. Palavras-chave: autor; volta; biografema. Prof. Dr. Carlos Vinícius Costa de Mendonça (Ufes) O OLHAR DE CLIO NA ERA VARGAS: SILÊNCIO FEMININO E RESSENTIMENTO MASCULINO NA OBRA DE JOSÉ LINS DO REGO (1932 – 1943) No interior da historiografia ainda há uma resistência/ estranhamento que questiona o que faz um historiador voltar-se para uma obra literária, se ele por uma questão de ofício tem que orientar as suas análises para objetividade e a verdade. De fato, o historiador não é um leitor comum, que busca a pura fruição do texto e o prazer da leitura e tão pouco deve ser confundido com aquele estudioso que avalia na obra literária as suas qualidades estéticas e seus valores intrínsecos. Ele é um tipo especial de leitor, cuja missão é ao mesmo tempo, narrativa e interpretativa do passado a fim de conseguir uma versão plausível e coerente daquilo que teria ocorrido em conjunturas, períodos ou temporalidades específicas. Essa posição não significa considerar a obra literária como uma fonte/ documento que contribua e comprove as evidências de um quadro mais amplo de referências sobre uma época dada. Para nós a literatura se constitui em “algo mais”, inestimável para o historiador – o resgate das sensibilidades, ou da possibilidade que permita captar o passado de outra forma XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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obedecendo a sintonia fina da metáfora de Clio – musa da poética e da história – apanágio da História Cultural, que defende posturas epistemológicas, flexíveis, procurando diluir fronteiras ou relativizar a dualidade verdade/ ficção; real/não real; ciência ou arte. Desse modo, a proposta dessa comunicação é resignificar o olhar de Clio na Era Vargas – período marcado pela necessidade de orientar o País no sentido de uma inevitável modernização institucional, face ao impacto da emergente sociedade urbano-industrialtecnológica e de massas, então emergentes no processo político nacional; de superação das autonomias regionalistas e dos particularismos e facciosismos político-partidários; do fortalecimento do Poder Central; do Estado Forte; da penetração capitalista no meio rural, sobretudo, no Nordeste; revisionismo constitucional; tradicionalismo, modernismo, autoritarismo, liberalismo, integralismo, comunismo – com vistas a estabelecer uma sintonia produtiva com a produção ficcional de José Lins do Rego escrita e publicada entre 1932 e 1943, analisando como as narrativas dos romances Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, O Moleque Ricardo, Usina, Pedra Bonita e Fogo Morto constrõem enquanto possibilidades / reais na verdade do simbólico, personagens silentes no caso feminino e ressentidos no que se refere ao masculino. Assim, estamos convencidos que as disciplinas se definem pelo seu tema, seu domínio ou os objetos de seus estudos, ou então pelos conceitos que seguem e que formam um mundo coerente de significações; mas esse não é o caso da história. Contemporaneamente, ela pode tirar o seu tema de qualquer domínio da vida humana, tratá-lo em dimensão micro ou macro, e, quanto aos conceitos, como na nossa proposta, iremos buscá-los na literatura, na lingüística, na antropologia, na psicologia. Palavras-chave: história; silêncio; ressentimento. Profa. Me. Cibele Lopresti Costa (Doutoranda-Usp) EXPERIÊNCIA E FICCIONALIDADE EM MORRESTE-ME, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO Morreste-me, publicado em 2000, foi o primeiro livro lançado por José Luís Peixoto. A nota bibliográfica da oitava edição relata que foi escrito entre “maio de 1996 e maio de 1997” e que seu primeiro capítulo foi publicado no suplemento juvenil do Diário de Notícias, a sete de maio de 1996. Com ele, o autor ganhou prêmios, o que permitiu a publicação da versão integral na Colectanêa de Textos Criadores 98. O que nos despertou para esse livro foi a apresentação das duas informações iniciais anteriores à narrativa: na segunda página, o livro se apresenta como ‘ficção’, na página seguinte, há a dedicatória do autor ao pai morto. “à memória de José João Serrano Peixoto”(p. 7). A relação entre elas sugere que esse texto surgiu de um acontecimento real - a morte do pai - e que a voz autoral se realizou na medida em que se distanciou do real em direção à literariedade. Ou seja, na confecção do texto, na tessitura literária, a autoria se efetiva e se constitui. Dessa forma, o que nos interessa é verificar como o acontecimento na relação entre pai e filho se concretiza em literatura e como José Luís Peixoto singulariza sua escritura, incorporando procedimentos estéticos e se distanciando da experiência concreta. A narrativa em primeira pessoa começa dirigindo-se ao pai por meio de um vocativo e ao longo dos quatro capítulos o chamamento permanece. Regressei hoje a esta terra cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante e fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida. Como no hospital. Dizia nunca esquecerei, e hoje lembro-me. (...) (2000: 9-10) O narrador declara sair do momento de sofrimento da morte e voltar à origem, à terra que fora do pai e ao tempo de sua infância. Entretanto, podem-se considerar outros retornos, pois ao longo da narrativa, percebem-se marcas da busca de um momento pleno, de criação, de inauguração de uma escrita particular. Percebe-se, assim, a tentativa de se ter um texto em que esteja expressa a criação de uma novidade. O texto O que é autoridade, de Hanna Arendt, contribui para a reflexão aqui proposta. Segundo a autora, pode-se ter como princípio de autoria essa busca pelo novo, pelo inusitado. Assim, temos que o autor, em Morreste-me, dispara sua escrita a partir de um dado da realidade, mas se ficcionaliza no enredamento narrativo. Palavras-chave: José Luís Peixoto; autoria; subjetividade. Profa. Me. Cinthia Mara Cecato da Silva LIMA BARRETO NO ENTRE-LUGAR DA FICÇÃO: REMINISCÊNCIAS ENTRE AUTOR E OBRA O legado de Lima Barreto, durante décadas, permaneceu engessado por considerações que o alocavam em um espaço literário menor. Mediante parâmetros de cunho pessoal e classificatório, sua obra tornou-se resignada e friamente vista como de precariedade semântica e, ao mesmo tempo, autobiográfica – devido à similaridade de seus enredos com sua própria vida. Tal entorno, trouxe então, à época, um desprestígio, relegando o autor ao silêncio da crítica que conseguiu, influenciada por outros interesses – não exclusivamente literários – manipular sua recepção. Houve, porém, ainda no século XX, uma ressignificação de sua produção por meio de sendas que fizeram emanar um estilo e uma visão antes não considerados. Apoiado nesse panorama, revisitar, na contemporaneidade, o patrimônio estético produzido pelo autor mulato implica deparar-se com uma escrita ousada e repleta de percepções. Mergulhar nas entrelinhas de seus textos permite aos seus interlocutores conhecer suas vivências não de modo linear, como julgado por muitos, mas de forma transfigurada, reveladora de um sujeito de fluxos e influxos – inspirado e transformado por um meio social, político e econômico – que se projeta para o além-texto. Sujeito e ficção apresentam-se, nessa configuração, interpenetrados no palco literário quando em cena Afonso Henriques de Lima Barreto e seus escritos. As imagens projetadas pela sua autoria sinalizam os deslocamentos, as experiências, as semelhanças e as fronteiras atinentes à construção do eu, dando ensejo à manifestação de múltiplas performances autorais. Evidencia-se, nesse ponto, um mesmo autor com plurais convicções. Penetrar nessas questões significa ultrapassar o limite estabelecido entre leitor e obra, ampliando o rol de significações que não pode se deter a visões unilaterais. No exercício de sua função, o literato assumiu vários papéis com indefinidos objetivos, concedendo ao leitor a oportunidade de testemunhar não um texto apoiado em dados biográficos de uma vida um tanto quanto conturbada, mas um produto aberto, localizado, estrategicamente, no entre-lugar da diversidade. Vislumbrando esse rol de considerações, apoiada em teorias aventadas por Pierre Bourdieu, Osman Lins entre outros pesquisadores que se debruçaram sobre os escritos barretianos, esta comunicação pretende suscitar questionamentos que conduzam a perceber que um autor não poderá ausentar-se de sua obra, por mais que sua criação busque revelar um não-eu, negligenciando dentro de sua produção a presença de suas vivências. Sempre impressa estarão, na tessitura de seus textos, suas marcas mais pessoais, mais recônditas, mesmo que transfiguradas pelo campo intelectual. E, essa questão, no caso de Lima Barreto, tão julgado pela aproximação de seus XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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textos com sua vida, ajuda a emoldurar um novo quadro, suscitando outros olhares sob sua literatura. Palavras-chave: Lima Barreto; literatura; texto autobiográfico. Cíntia França Ribeiro (Mestranda-UFMG/CAPES) HABITAR A VOZ: A AUTOBIOGRAFIA EM PHOTOMATON E VOX, DE HERBERTO HELDER A preocupação do escritor português Herberto Helder com a configuração da própria imagem é um traço marcante de sua literatura. Contudo, Helder não procede segundo a autovalorização individual da autobiografia tradicional, consistente na narrativa pretensamente verdadeira da própria história. Em Photomaton e vox, publicado pela primeira vez em 1979, a motivação da exposição de si por meio da narração de fatos vividos é deslocada. Por um lado, a experiência que importa é apenas uma hipótese a ser explorada na escrita, que resulta inevitavelmente em invenção: “a experiência é mantida como hipótese de investigação *...+ A experiência é uma invenção.” (HELDER, 2006, p. 65-66) A virtude de recriar a própria vida na literatura não é apresentar uma versão coerente de si, mas formular e manter fraturas e tensões cuja força, por vezes, leva a linguagem ao limite do sentido, produzindo um símbolo mais poderoso que a própria realidade a partir da infidelidade da escrita. Por outro lado, o processo de invenção da experiência pela escrita implica também a morte, e a autobiografia é frequentemente associada ao crime: “O autobiógrafo é a vítima do seu crime. [...] Onde me conduzia o livro, o tema, essa perseguição? Que morte me vigiava, de dentro e de fora?” (ibidem, p. 32-33) Não se produz, em Helder, uma narrativa de reconstituição da vida, mas assiste-se a uma morte: “O fim da aventura criadora é sempre a derrota irrevogável, secreta. Mas é forçoso criar. Para morrer nisso e disso. Os outros podem acompanhar com atenção a nossa morte. Obrigado por acompanharem a minha morte.” (ibidem, p. 67) A criação da própria morte dentro da escrita da vida se relaciona com a criação do silêncio pela palavra e com a violência do ato de escrever. Introduz-se, dessa forma, a dimensão negativa da vida e da língua no texto que deveria ser, tradicionalmente, uma espécie de eternização da vida individual e consagração do suposto poder da escrita de comunicar a verdade. Assim, é possível observar no “autobiógrafo” helderiano as duas negatividades que, segundo Giorgio Agamben (2006), marcam a existência humana. De acordo com o pensamento do filósofo italiano em A linguagem e a morte, a experiência do homem como ser de fala lança-o na negatividade, dando lugar à proposição de uma relação existencial entre a instância de discurso e os dispositivos de linguagem que permitem sua indicação, e da “pura voz” como “portadora de um significado desconhecido.” (AGAMBEN, 2006, p. 53) A hipótese que se pretende investigar, a partir das relações entre linguagem e morte traçadas por Agamben é a de que, em Photomaton e vox, a autobiografia possa se constituir como experiência dessa voz. Palavras-chave: Herberto Helder; autobiografia; negatividade. Prof. Me. Cláudia Fachetti Barros AUTOR-CRIADOR, ESCRITOR E FUNÇÃO-AUTOR: FICÇÃO/REALIDADE EM LUIZ GUILHERME SANTOS NEVES O presente trabalho versa sobre a noção de autoria na narrativa ficcional. A ficção, muitas vezes, se apropria do discurso histórico e traz à tona questionamentos pertinentes XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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à historiografia. Neste contexto, o romance histórico torna-se um importante veículo que permite compreender as relações existentes entre História e Literatura, principalmente diante da fusão entre o fato e a ficção presentes na trama. Desde a antiguidade, as histórias estavam em contínuo processo de criação, os contadores tinham o direito de decidir, segundo sua própria vontade, o que acrescentar, melhorar ou modificar. As narrativas, textos hoje de Literatura, eram postas em circulação sem que se colocasse em questão a autoria. A própria antiguidade era garantia de autenticidade. Com o passar dos tempos, esses conceitos foram se transformando desde exaltação ou execração do indivíduo, reconhecido como autor, até as regras do direito autoral – fruto de um nascente e crescente capitalismo. A figura “autor” era delineada conforme a fase histórica em que se encontrava. Assim, na Renascença, vários fatores de caráter econômico, político e social contribuíram para a invenção e exaltação do indivíduo, o qual, na arte, corresponde à figura do autor. Na Idade Média, aconteceram vários movimentos para se estabelecer identidade de autoria, cujo objetivo era punir os responsáveis por transgressões. Esses eram denominados autores. No Final do século XVIII, início do XIX, questões ligadas à transgressão foram retomadas. O regime de propriedade dos textos – direito de autor – criminalizava a prática. Bakhtin, Barthes e Foucault, entretanto, trazem novas discussões acerca do tema e, com suas particularidades teóricas, questionam a unicidade do sujeito a partir da negação de uma voz única. Explicam, ainda, o desenvolvimento da noção de autoria levando em conta as implicações sociais, políticas, culturais e econômicas e suas repercussões no fazer literário. Para Bakhtin, há uma diferença significativa entre “autor-criador” – elemento da obra – e “autor-pessoa” – componente da vida. É a exotopia, segundo o estudioso, que dará forma ao objeto estético. Barthes ensina que o corpo que escreve não é autor, mas escritor. O “escritor” não é uma pessoa e sim um sujeito que não tem existência fora da linguagem. Nesse sentido, tanto autor quanto leitor são produtores do texto, portanto, escritores. Foucault revela um processo que constrói certo ser racional que chamamos de autor. Para ele, a “função-autor” é definida pelos próprios textos que, por sua vez, podem remeter não a um indivíduo singular, mas a uma pluralidade de eus. À luz desses pressupostos teóricos, o intuito é abordar, em linhas gerais, a ficção/realidade de Luiz Guilherme Santos Neves nos romances A nau decapitada, As chamas na missa, O templo e a forca e O capitão do fim, evidenciando que o indivíduo não é mais autor, posto que a autoria é um fenômeno complexo perpassado por várias instâncias: autor-criador, escritor e funçãoautor. Palavras-chave: narrativa ficcional; noção de autoria; Luiz Guilherme Santos Neves. Prof. Dr. Cristiano Augusto da Silva Jutgla (Uesc) ERA UMA VEZ... OS GÊNEROS: TRANSFORMAÇÕES DA NARRATIVA EM SÉRGIO SANT’ANNA (em co-autoria com Tamilis Loredo de Oliveira) A presente comunicação pretende analisar as reconfigurações de gêneros tradicionais empreendidas por Sérgio Sant’Anna em sua obra O monstro (1994). Tal “desmonte” e reconstrução destes gêneros aparecem, por exemplo, na terceira narrativa do livro, na qual o leitor tem a impressão de estar diante de uma novela, no entanto, no desenrolar da trama, depara-se com um gênero jornalístico ou até mesmo com o gênero epistolar. Semelhante processo de reapropriação de um gênero textual aparece nas duas outras histórias do livro, também voltadas para temáticas amorosas. Nesse sentido, as três narrativas apresentam discursos marcados por uma profunda revisão crítica de certos gêneros tradicionais da prosa. Soma-se a isso a presença de personagens que, embora de alta instrução formal, surpreendem os leitores não por serem “cultos” ou éticos, mas por se constituírem por traços de uma profunda desumanidade somada a intensa fragmentação psíquica. Como exemplo, no primeiro conto, “Uma carta”, há um processo similar ao conto “O monstro” no que toca à reapropriação XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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de um gênero textual, pois, ao narrar sua história na carta, a personagem põe em cheque determinados modos tradicionais de organização do discurso literário, ao mesmo tempo em que apresenta várias expressões sentimentais e coloca em xeque se aquele texto de fato era uma carta. Dessa forma, o segundo conto, “O monstro”, é construído semelhante a uma entrevista jornalística, com extensos questionamentos que fazem do narrador, do personagem e do leitor indivíduos questionadores de uma realidade contribuinte de uma ficção. Sendo assim, o conto apresenta esse universo ora como visibilidade do real, representado por elementos discursivos da entrevista jornalística, ora por meios de ficção, pois se trata de uma narrativa. Assim, se tudo está em constante mudança, a narrativa abrange essa transformação constante como forma de caracterizar seus personagens, pois em “O monstro” há nitidamente a presença de uma identidade confusa no protagonista, acusado de cometer um crime bárbaro, juntamente com sua amante, ao qual se soma sua personalidade fria e ambígua. Na última narrativa, “As cartas não mentem jamais”, a história é tratada sob a perspectiva da memória. É importante ressaltar o modo dos personagens que possuem personalidade fria e destemida e como esse leque faz ligação com a própria realidade. Nesse sentido, um dos pontos centrais da pesquisa é compreender como na obra de Sérgio Sant´Anna os gêneros tradicionais vão, sutilmente, se modificando de acordo com a leitura das três narrativas. Para a discussão proposta nos valeremos principalmente dos trabalhos de Andreas Huyssen (1990), Jacques Le Goff (1996), Jane Quintiliano G. Silva (1999), Liane Bonato (2003), Stuart Hall (2005) e Walter Benjamin (1994). Palavras-chave: Sérgio Sant´Anna; O monstro; gêneros literários. Daise de Souza Pimentel (Doutoranda-Ufes) A PRESENÇA DO EU NAS EXPRESSÕES DO CONTEMPORÂNEO: RELENDO WALTER BENJAMIN Nos 60, com Foucault e Barthes, o reino do autor foi abalado, mas na produção literária contemporânea o movimento do “retorno do autor” se apresenta como forte tendência, verificável em várias obras de autores brasileiros como O falso mentiroso: memórias, de Silviano Santiago, Budapeste, de Chico Buarque, Nove noites, de Bernardo Carvalho e Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll, entre outros mais recentes. Todos eles põem em questão o papel do autor – e também o gênero literário autobiografia – ao fazer autoficção. Essa reinvenção do jogo entre o sujeito empírico e o ficcional decorre das mudanças na produção de subjetividades e do surgimento de novas formas textuais, consequências da relação com os meios tecnológicos e, principalmente, digitais. E a literatura, veículo privilegiado para a expressão das subjetividades, tem tentado se reinventar com essa expressão do vivido, a ficcionalização de passagens da vida de um “eu”, que se diz autor e personagem. Observa-se que esse processo de estetização da vida constitui-se dialeticamente porque nele se mantém a diferença entre o eu que escreve e o protagonista. A insistência na autorreferencialidade pode ser facilmente notada em outros meios como a TV, o cinema e a internet, que se constituem em campo fértil para a transmissão das “experiências” de agora: impressões, desejos, fatos corriqueiros da vida de um eu que quer ser notado e, mais ainda, ser reconhecido. A discussão sobre a exposição do sujeito e de suas experiências reais nas páginas de um livro, como também nas telas virtuais, ocorre muitas décadas depois dos célebres ensaios de Walter Benjamin “Experiência e pobreza”, de 1933 e “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, de 1936. Para Benjamin, a crise da narrativa foi consequência da perda da comunicabilidade da experiência na modernidade, era da informação e da técnica. Neste trabalho, proponho a releitura do pensamento benjaminiano sobre a experiência a partir das tentativas de síntese de algumas das minhas recentes leituras acerca do sujeito na XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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atualidade e o modo como ele se reapresenta neste cenário. Nas expressões literárias hodiernas é no “espaço biográfico”, seguindo a teórica argentina Leonor Arfuch, que se promove o encontro com o eu e com o outro daquele que escreve. Esse encontro também ocorre em outros espaços propícios à expressão das subjetividades como o espaço midiático, que por sua própria estrutura, permite a visibilidade tão desejada por grande parte dos anônimos e invisíveis sujeitos da contemporaneidade. Palavras-chave: autorreferencialidade; estetização da vida; visibilidade. Daniela Aguiar Barbosa (Mestranda-Uenf) BLOG: UM “ESPAÇO BIOGRÁFICO” CONTEMPORÂNEO (em co-autoria com Waleska de Paula Carvalho Rocha) No cenário cultural contemporâneo é possível perceber o fascínio e a procura do grande público por produtos que exibem a intimidade. Autobiografias, vídeos no youtube, orkut, facebook, twitter, realityshows, talkshows, fotologs, diários íntimos na internet transformam vida e vivido em material de entretenimento e consumo. Surge a espetacularização do “eu”, alguém que quer ser visto e comentado. A busca contínua desse “eu” que quer ser conhecido por todos, deixa, no momento atual, os limites entre público e privado cada vez mais “escorregadios”. O que antes era íntimo e velado, hoje, é compartilhado para quem quiser “espiar”. Com a interferência cada vez maior dos recursos tecnológicos, que favorecem o voyeurismo, essa fronteira torna-se mais tênue e imprecisa. Considerando essa proliferação de discursos em primeira pessoa, o presente trabalho pretende utilizar como viés de análise a ferramenta do blog, que por sua vez, surgiu como diário íntimo na internet e, que com o passar do tempo, foi adquirindo desdobramentos, entre eles os blogs literários. Ambos, por sua vez, adquirem fronteiras bem porosas, levando o leitor a agir como “cão de caça” diante desse “eu” que surge na web, - vasculhando a trajetória de vida do blogueiro, ora pensando estar diante de um diário íntimo - validando assim o pacto autobiográfico teorizado por Lejeune - ora acreditando num fingimento do escritor, que mesmo sendo ao mesmo tempo autor, narrador e personagem não deixa de ser uma ficção, principalmente, pelo fato de se construir na linguagem. Longe da relação face a face, o diarista cria a imagem do “eu” em permanente diálogo com o outro, contribuindo para a figura do sujeito que se narra. Todavia, essa troca e essa cooperação entre quem escreve e quem lê supõem, em alguns momentos, a utilização de máscaras por parte do escritor, que pode encenar sua vida e obra, retratando uma aparição mentirosa e fingida, é o que Ana Cláudia Viegas chama de “invenção biográfica” e “autoficções”. Por facilmente deslizar entre o plano literário e íntimo, o blog traz consigo algumas problemáticas: Como saber se o que está sendo narrado representa, realmente, a vida e obra o escritor blogueiro? Qual é o limite entre o real e o ficcional nesse escrito? Para responder tais questionamentos utilizarei como estratégia de análise, a leitura crítica de blogs de escritores já consagrados pela crítica literária, que possuem livros impressos, entre eles Henrique Rodrigues, Paloma Vidal e Fabrício Carpinejar. Tendo por base todas as especificidades da escrita no blog e, numa tentativa de abarcar as reconfigurações das subjetividades contemporâneas, o presente trabalho pretende pensar esta ferramenta de produção da cultura como um “espaço biográfico” pautando-se na teoria de Leonor Arfuch. Palavras-chave: Blog; espaço biográfico; autoficções. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Prof. Me. Danilo Barcelos Corrêa (Doutorando-Ufes) O LUGAR NO POEMA CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Em A caminho da linguagem, Martin Heidegger define lugar como “aquilo para onde tudo converge”. Ponto de convergência, e também de re-união, o lugar concentra em si todas as possibilidades e virtualidades, potente. Lembrando que para o filósofo em questão a poesia é um lugar, com sua “esfera de poder”, capaz de fundar o ser graças a força criadora da poiésis, pensamos como Carlos Drummond de Andrade, em Confidência do itabirano, confere à cidade de Itabira uma condição de lugar poético, tornando-a plena de virtualidades, onde o eu pode, sempre, suspender-se. Essa suspensão se dá depois do confronto entre o eu e os elementos que formam a sua subjetividade: o contato com tudo que teve por nascer em Itabira. Nascer no sentido lacaniano de se perceber enquanto eu e de instaurar a sua subjetividade através da relação simbólica que estabelece com o mundo circundante. É em Itabira que também se formam a vontade de amar e o hábito de sofrer, elementos que o eu traz como doce herança, legado do qual não se abdica. A confrontação da memória, do passado fragmentado, com as prendas ofertadas unem sentimentos e coisas numa situação em que tudo pode ser ofertado: a pedra que traz em si, naquele presente, seu devir; o santo e o couro de anta, como a cristalização do passado criando a ponte com o presente, e a subjetividade mutante no orgulho e na cabeça baixa. O elemento conectivo entre ontem e hoje, a efetivação desta dupla de tempos que coexistem no presente do contato está na fotografia da parede. Ali, diante do eu, a Itabira é eternamente aquela da memória, cristalizada no instante do registro, mas impossível de se estar nela efetivamente. A partir disso, notamos que a relação do eu com o tempo é dupla: habita na Confidência o tempo e o lugar de forma poética, nos fragmentos do movimento em tornar-se presente, mantendo-se passado no agora de sua rememoração. Neste lugar, depois do contato com seus restos, num espaço em que coisas, sentimentos e ideias coexistem e se mesclam, o eu se re-faz, suspendendo-se momentaneamente na força reorganizadora e fundadora que é “esfera de poder da poesia”. Neste sentido, o itabirano do poema passa a ser qualquer um que se reconheça no texto, graças à “carga universalizante da palavra poética”, fazendo com que autor e eu caminhem juntos rumo à experimentação e à experienciação do contato com a memória e suas reverberações via palavra poética. Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade; teoria da literatura; poiésis Prof. Dr. Deneval Siqueira de Azevedo Filho (Ufes) A LITERATURA TATAUADA DE Ó, DE NUNO RAMOS Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, anos após O pão do corvo, Ó foi publicado em 2008. O movimento de expansão da escrita – do aforismo ao verbete – do primeiro para o segundo livro aqui se torna outro: os textos de Nuno Ramos, em Ó, literalmente ganham corpo, um corpo que mantém algumas inflexões e que parece continuamente investigar o próprio corpo e seus limites na linguagem. Neste aspecto, em Manchas na pele, linguagem, narrativa que abre o livro, a linguagem permanece tensa, desconfiada do mundo dos nomes, ficando suspensa em um “reino da pergunta”: “Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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cada ser que chama a minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos.” A linguagem, geralmente posta em dúvida pelos limites das narrativas de Nuno Ramos, seria esse véu que ilude em torno da impressão de continuidade no mundo. Nuno Ramos, deste modo, combina pathos, drama e gesto – para citar Georges DidiHuberman – para em Ó, em linhas gerais, abordar que somos seres descontínuos e que um abismo separa cada um de nós – para citar Georges Bataille. A linguagem seria uma ilusão que preenche esta lacuna. A narratividade por demais contemporânea, ao mesmo tempo ensaística, contística e de cronista será minha análise do corpus escolhido para esta fala: focará conceitos diversos, desde o Narrador contemporâneo à Descontinuidade, Intragêneros e Códigos estéticos, Literatura e Artes Visuais, Narrativas Híbridas, Linguagem e Performance, Linguagem e Intervenção, Simulacros, Simulação e Desconstrução e Multiarte e Literariedade visual. Palavras-chave: Nuno Ramos, Ó, Narrador contemporâneo Prof. Me. Douglas Fiório Salomão (Doutorando-Ufes) ARNALDO ANTUNES: QUE AUTOR É ISSO? Em 1968, Roland Barthes, à luz de princípios estruturalistas, defendeu como ideia central a morte do autor em um polêmico artigo, de título homônimo a essa tese. Segundo o filósofo, o texto deve ser entendido como um espaço de dimensões múltiplas, depositário de citações de várias culturas e lugar neutro onde a escrita opera tal qual uma estrutura oblíqua – cuja funcionalidade meramente discursiva implica não outra coisa senão o afastamento daquele que origina a obra. Um ano após a elaboração do artigo de Barthes, em 1969, o pensador francês Michel Foucault apresenta à Société Française de Philosophie argumentos que intensificam a discussão a respeito da figura do autor. Nessa conferência intitulada “O que é um autor?”, Foucault assinala que, embora o apagamento daquele que origina a obra tenha se tornado um tema cotidiano, o essencial não era “constatar uma vez mais seu desaparecimento; é preciso descobrir, como lugar vazio – ao mesmo tempo indiferente e obrigatório –, os locais onde sua função é exercida”. Com isso, Foucault pretende investigar “a maneira com que o texto aponta para essa figura *o autor+ que lhe é exterior e anterior, pelo menos aparentemente”. Mais tarde, retomando questões colocadas por Michel Foucault, especialmente as da conferência “O que é um autor?”, Giorgio Agamben, no ensaio “O autor como gesto”, busca ampliar a discussão em torno do paradoxo da presença-ausência do autor na obra. Agamben lembra que Foucault, à luz de Beckett – o que importa quem fala –, deixa patente que a marca do autor está não de outra forma senão na singularidade da sua ausência. Ao cotejar tal raciocínio com a sentença beckettiana, o filósofo italiano traz à baila uma importante contradição que lhe serve de mote para discutir o paradigma em causa: “o mesmo gesto que nega qualquer relevância à identidade do autor afirma, no entanto, a sua irredutível necessidade”. Com vista ao exposto – e sem almejar empreender uma abordagem que considere a figura do autor como sendo a fonte inesgotável de segredos ou a chave de respostas para a compreensão do sentido literário do texto –, pretendemos analisar alguns aspectos compositivos presentes nas criações poéticas do artista multimidiático Arnaldo Antunes, a fim de entender que elementos disseminados em sua obra o singularizam como autor de seus poemas. A propósito, vale lembrar que seus trabalhos estão situados no território da poesia visual, no qual se inclui o concretismo, e com este dialogam intensamente. Desse modo, para XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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que seja possível levar adiante tal tarefa, irão servir-nos aqui, sobretudo, estudos críticos dos três pensadores supracitados, bem como notas acerca da produção plural arnaldiana. Palavras-chave: Arnaldo Antunes; autoria; singularidade. Prof. Me. Ednaldo Candido Moreira Gomes (Doutorando-Unicamp) HORIZONTES E LIMITES DA FICÇÃO OITOCENTISTA: O CRÍTICO BERNARDO GUIMARÃES A presente comunicação pretende analisar a crítica literária de Bernardo Guimarães publicada nos periódicos: Ensaios Literários (1847-1850) de São Paulo e no A Atualidade (1858-1859) do Rio de Janeiro. Esse conjunto de textos produzidos num intervalo de vinte anos revela uma agudeza crítica e uma acuidade metodológica de um escritor preocupado em: 1) dialogar com os principais protocolos críticos oitocentistas; 2) debater o horizonte de expectativas da criação ficcional na língua portuguesa. A tradição clássica; a presença da ficção imitatio – intérprete da heterogeneidade brasileira; o engendramento da tradição oral com a criação poética; a popularização de tropos filosóficos através da ficção; são algumas das questões debatidas à luz da análise textual de Gonçalves Dias, Correia de Almeida, António Feliciano de Castilho, Dutra e Melo, Joaquim Manuel de Macedo, dentre outros. No que concerne aos problemas específicos da criação ficcional lusobrasileira, a saber: excesso de galicismos, imitação servil, formalização excessiva e realismo científico, Bernardo Guimarães proporia uma reaproximação entre as literaturas de língua portuguesa através da mediação exercida pelo conhecimento da tradição clássica. A saída proposta por Bernardo Guimarães estaria condicionada pelo estudo dos textos da tradição poética do idioma e pelo retorno da questão da mímese: por ele compreendida como o retorno da arte imitativa da natureza, diga-se, da natureza apreendida pela imaginação. Essa pressuposição permitiria à ficção suspender, em tese, a prolixidade da interpretação do Brasil: símile de criação literária no século XIX. Em síntese, pode-se dizer que trabalharemos com o seguinte horizonte conceitual: a questão da representação literária oitocentista, a questão da mímese poética e, também, a questão do controle do imaginário literário imposto pelo contexto de edificação do estado nação e da cópia do modelo literário francês. Esta pesquisa é inspirada na leitura de um texto escrito por Waltensir Dutra e Fausto Cunha (1970) e pela leitura sistemática da obra de Luiz Costa Lima que, nesta comunicação específica, se restringirá aos livros: Dispersa Demanda, Mímesis e modernidade, Limites da Voz, História. Ficção. Literatura e Trilogia do Controle. A hipótese principal dos estudiosos era a urgente necessidade de reavaliar o conjunto da obra – textos literários e textos críticos dispersos – de Bernardo Guimarães face às considerações dos manuais literários que o consideram um autor “menor”, justamente por não possuir uma perspectiva própria diante do fazer literário. Essa pesquisa tentará, de forma discursiva-crítica, suspender parte desses juízos avaliativos. Palavras-chave: ficção oitocentista; Bernardo Guimarães; controle do imaginário. Prof. Dr. Esteban Reyes Celedón (Ufam) DO MITO DO LUGAR E DO LUGAR DO MITO NA OBRA ÓRFÃOS DO ELDORADO DE MILTON HATOUM XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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(em co-autoria com Stéphanie Soares Girão, Mestranda-Ufam) Este artigo propõe uma análise mitológica e conceitual da novela Órfãos do Eldorado do escritor amazonense Milton Hatoum através do espaço imaginado pelas personagens a cerca da Cidade Encantada. No relato em primeira pessoa, o protagonista Arminto Cordovil (filho de Armando e neto de Edílio, homens que fizeram fortuna a ferro e fogo no meio da floresta amazônica) teima em não ser um verdadeiro herdeiro das ambições sem medidas e frieza econômica dos patriarcas, preferindo nutrir a paixão juvenil por uma órfã das carmelitas de Vila Bela, Dinaura, moça que parece filha do mato. Após o inexplicável sumiço da jovem, o inconformado namorado passa a vida, por um lado, consumindo e destruindo a herança paterna e, por outro, à procura da amada que, segundo informações duvidosas (ecos, boatos, versões, lembranças, mitos e lendas), teria partido rumo à Cidade Encantada. Na lembrança da infância do protagonista e da cultura amazonense, ecoam relatos, traduzidos da língua geral, onde ganham vida crenças num lugar encantado situado (ou não situado) no fundo do imenso e quase infinito rio Amazonas. Num movimento de procura e fuga, Arminto gasta sua vida. Foge da lembrança (pesadelo) do seu pai, do seu passado, da sua herança, da sua cultura capitalista ocidental: “Amando não estava em lugar nenhum, mas parecia seguir meus passos” (p.80); “Passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas, mas que pareciam tão vivas que me davam medo, então falava sozinho para esquecer o pesadelo” (p.96). Procura um sonho, uma amada, uma lenda, uma cultura amazonense, uma infância perdida, uma língua materna, uma mãe, um lugar inventado, um não-lugar. Procura o rio, sua imensidão, sua infinitude, seu eterno movimento, seu sempre ir, fluir, fugir: “Passa a vida procurando o corpo” (p.13); “A outra feriu meu coração e a minha alma, me deixou sozinho na beira desse rio, sofrendo, à espera de um milagre” (p.13); “Arminto Cordovil é doido. Só porque passo a tarde de frente para o rio. Quando olho o Amazonas, a memória dispara” (p.14); “Quando decidi viver com minha amada no palácio, ela sumiu deste mundo. Diziam que morava numa cidade encantada, eu não acreditava” (p.14). Arminto não quer acreditar nos boatos, mas não pode ignorar os mitos e lendas que emergem do fundo do grande rio. As personagens acreditam que eles existam, pois fazem parte da criação dessas personagens. Gaston Bachelard em A poética do espaço trata da imensidão íntima, da dialética do exterior e do interior das personagens, é através deste prisma que a análise do não-lugar será realizada. Mas também, à procura de um entendimento mais antropológico do ponto de vista dos ameríndios amazonenses, se usará a leitura do ensaio A inconstância da alma selvagem, do antropólogo carioca Eduardo Viveiros de Castro, junto com outros artigos pertinentes. Palavras-chave: literatura amazonense; mitos amazonenses; Milton Hatoum. Profa. Me. Fabiana Curto Feitosa (Doutoranda-Ufes) SARAMAGO E O JOGO PARA ENTENDER O MUNDO CONTEMPORÂNEO A pretensão maior deste trabalho é articular alguns pressupostos iniciais da pesquisa de doutoramento que desenvolvo acerca de uma questão fundamental: pensar a contemporaneidade a partir da relação entre a cidade e o homem, na obra de José Saramago. Neste artigo, procuro dialogar com algumas contribuições filosóficas de Gilles Deleuze, Guattari, Rancière, Stuart Hall e Walter Benjamin, na tentativa de refletir sobre os limites entre civilização e barbárie, bem como seus desdobramentos no mundo contemporâneo. Durante a vida, o ser humano vivencia um processo contínuo de construção enquanto indivíduo ou grupo. Ele passa por experiências que, de certo modo, vão modificando sua postura e seu comportamento diante dos outros seres e da vida. Esses agenciamentos construídos ao longo de sua trajetória são fluxos e produtores de conectivos entre os múltiplos territórios, que este ser humano percorrerá durante sua existência. Outro elemento a ser examinado é como, no XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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percurso da escritura saramaguiana, as fronteiras entre narrativa e lírica parecem diluídas. Ao edificar suas construções textuais, Saramago possibilita a nós, leitores, um olhar múltiplo diante do fluxo de sua linguagem. Em Ensaio sobre a cegueira, obra a ser analisada neste artigo, as personagens apresentam-se como fruto de um atravessamento de fluxos históricos e sociais. Na obra, o autor usa a linguagem de forma erosiva, desgastando as relações, expondo as fissuras, compartilhando experiências do saber e do fazer político. Para o autor português, escrever é um ato político, uma política da escrita que busca partilhar sentidos e não mapear territórios. Na escrita, Saramago traduz seu “eu” inquieto, seu desassossego, e mantém seu diálogo com a sociedade. Assim, não podemos separar a voz política da sua literatura. É uma produção literária com compromisso social. Nesse entendimento, nossa leitura trabalha sobre a vertente “engajada” da escrita saramaguiana, que coloca em xeque os mitos e os sistemas democráticos e político do ocidente, com o objetivo de questionar as concepções identitárias tradicionais, na tentativa de dar visibilidade às alteridades do mundo, reconfigurando as subjetividades e reconhecendo as diversidades. No diálogo com o leitor, a escritura de Saramago não conforta; inquieta, como a própria inquietude da vida, e nos torna impotentes diante das artimanhas do texto, obrigando-nos a encarar o jogo proposto, a sinuosidade dos caminhos, seus desvios, os territórios movediços. E assim, mais peças do jogo saramaguiano para compreender o mundo contemporâneo vão sendo apresentadas: o esvaziamento dos valores e do direito, o advento do individualismo, a violência nas relações de gênero, o processo de desumanização, enfim, as questões que marcam a sociedade hodierna. Palavras-chave: civilização; barbárie; contemporaneidade. Prof. Me. Felipe Vieira Paradizzo APONTAMENTOS SOBRE A EXPERIÊNCIA URBANA MODERNA EM TO A STRANGER E OUT OF THE ROLLING OCEAN THE CROWD, DE WALT WHITMAN A importância de Walt Whitman para a lírica moderna, assim como a reverberação e influência de sua obra na poesia ocidental, vem sendo objeto de crítica e pesquisa por algumas gerações. Possivelmente, a primeira edição de seu célebre livro, Leaves of Grass, de 1855, portadora da primeira versão de Song of Myself, não caminha sozinha entre as grandes obras do poeta. Os poemas que se somam a esta obra em 1856 e 1860 habitam o mesmo ambiente de inovação e ruptura que forjaram a modernidade lírica norte-americana. Leaves of Grass não apenas se tornou um livro, mas também um projeto político e religioso ao longo de suas reedições. Como o próprio poeta sinalizou sobre as múltiplas edições de Leaves of Grass: “um profundo propósito sustentava os outros, e tem os sustentado e fundamentado suas execuções desde então – e esse plano tem sido o propósito Religioso.” (WHITMAN, 2004, p. 775-776). Dos quarenta e cinco poemas da série Calamus, agregados na edição de 1860, este estudo se deterá inicialmente ao poema To a Stranger, a fim de analisar a aglutinação de alguns dos temas nevrálgicos em Whitman, como a democracia e a camaradagem, implicados na percepção do fenômeno urbano e nas relações e encontros emergentes desse novo espaço. A experiência urbana moderna, a criação da metrópole e a multidão de imigrantes que desembarcavam nos portos de Nova York na metade do século XIX estão diretamente ligadas ao projeto político e “cósmico” que corta a obra de Whitman e aparece com relevante visibilidade em To a Stranger. Pretendemos também observar de forma incipiente a presença dos temas analisados no poema de Calamus em Out of the rolling ocean the crowd, poema que faz parte da edição de 1891 do projeto lírico de Walt Whitman. Para tal fim, buscamos fazer convergir três referenciais teóricos: 1) os estudos sobre a percepção de identidade nacional norte-americana de Maria Ligia Coelho Prado, em América Latina no Século XIX: Tramas, Telas e Textos (1999); 2) algumas das obras críticas contemporâneas dedicadas a comentar a obra e o contexto cultural, político e artístico sobre o XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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qual escreve Walt Whitman, principalmente as análises de David Reynolds, Ed Folsom e C. K. Williams; 3) o breve ensaio do filósofo francês Gilles Deleuze, presente no livro Crítica e Clínica (1997), em que a obra do poeta norte-americano encontra o rizoma conceitual deleuzeano, agregando ao tema da camaradagem whitmaniana contornos próprios de sua filosofia. Deleuze revisita Walt Whitman em seu último livro à espreita da celebração de um poeta que atravessou oceanos, continentes, gerações e que permanece pertinente para a criação literária e o exercício crítico contemporâneo. Palavras-chave: Walt Whitman; poesia norte-americana; Gilles Deleuze Profa. Me. Fernanda de Souza Hott (CESV) A CRIAÇÃO POÉTICA SEGUNDO TEXTOS CRÍTICOS E POEMAS DE ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA O trabalho mostra a poesia de Ester Abreu Vieira de Oliveira no capítulo “Poemas da Criação” do livro Salmos de Inquietação e Eclosão do Ser, de 2006, como expressão do pensamento da autora sobre a criação poética. Propõe uma análise desses poemas com base nos estudos da própria autora em Ultrapassando Fronteiras em Metapoemas , publicado em 2004, em que apresenta uma visão crítica – analítica sobre obras de diferentes autores espanhóis, brasileiros, e hispânicos de várias épocas. Em tais estudos, o foco está quase sempre voltado para a relação entre “o criador” (autor) e “suas criaturas” (poemas). Nessa obra são destacados trechos do capítulo intitulado “A Poesia em Torno de sua Própria Textura”, em que a autora exemplifica suas colocações sobre o ato da criação poética e sua estética com poemas de Adolfo Bécquer, Pablo Neruda, Octavio Paz, entre outros. Em Salmos de Inquietação e Eclosão do Ser, de 2006, o pensamento de Ester Abreu sobre a criação poética, principalmente no capítulo intitulado “A Criação”, agora aparece expresso em sua própria poesia. Assim, destacamos trechos do estudo científico da autora em seu livro de crítica em paralelo com trechos de poemas da autora no intuito de verificar como a autora traduz, em sua prática, seu pensamento sobre o fazer poético. Em suma, na publicação crítica de 2004, Ester Abreu analisa a criação em metapoemas alheios, e na publicação literária de 2006, suas posições sobre estética da criação são observadas em seus próprios metapoemas. O trabalho discute a questão da autoria e da relação do autor com o texto com base na proposta de Michel Foucault na conferência “O que é um autor? descrita na obra Ditos e Escritos: Estética – literatura e pintura, música e cinema, principalmente nas relações de atribuição e posição do autor. De acordo com Foucault, na relação de atribuição, “o autor é aquele a quem se pode atribuir o que foi dito ou escrito. Mas a atribuição - mesmo quando se trata de um autor conhecido - é o resultado de operações críticas complexas e raramente justificadas.” Quanto à posição do autor, Foucault propõe a observação da “posição do autor no livro (uso dos desencadeadores; funções dos prefácios;simulacros do copista, do narrador, do confidente, do memorialista). Posição do autor nos diferentes tipos de discurso (no discurso filosófico, por exemplo). Posição do autor em um campo discursivo (o que é o fundador deuma disciplina?, o que pode significar o "retorno a..." como momento decisivo na transformação de um campo discursivo?).” O trabalho propõe, contudo, a observação da autora sob dois pontos de vista: o de observadora crítica e teórica da criação, em Ultrapassando Fronteiras em Metapoemas, e o da poeta em Salmos de Inquietação e Eclosão do Ser . Palavras-chave: metapoemas; criação poética; crítica literária. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Fernanda Maia Lyrio (Mestranda – Ufes) O ÁLBUM DE FAMÍLIA E A MULTIFACETADA TRAGÉDIA RODRIGUIANA Escrita em 1945, a peça Álbum de Família – objeto de estudo desta proposta de comunicação – firmou-se como a pioneira de um caminho árduo, inconstante, seguido de duras críticas que marcaram a dramaturgia do escritor pernambucano Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980), autor que intitulou a sua própria fortuna teatral com o epíteto de “Teatro Desagradável”. Repulsiva ou não, a visão trágica e dolorosa da existência humana – censurada na década de 1940 – condenou a supracitada peça a cerca de 20 anos de afastamento dos palcos, pois somente aos dias 03 de dezembro de 1965 a Censura liberou o texto teatral (interditado em 17 de março de 1946) – o que culminou com a estreia do espetáculo apenas dois anos depois, em 28 de julho de 1967, no Teatro Jovem do Rio. Assim, após (re)conhecer o sucesso de público e de crítica das obras teatrais A Mulher Sem Pecado (1941) e de Vestido de Noiva (1943), o dramaturgo brasileiro amargou, com Álbum de Família, o seu relacionamento com a crítica teatral e com muitos de seus leitores/espectadores, pois viu-se diante de acusações pautadas em juízos morais e não artísticos da obra. Em vista das incontáveis declarações polêmicas dadas por Nelson Rodrigues ao longo de sua carreira como escritor, cronista e dramaturgo, não é de se admirar que o autor tenha esbanjado simultaneamente sarcasmo e consciência da repercussão que, de fato, Álbum de Família teria na cena literária e também na sociedade nacional, uma vez que a brutalidade das temáticas envoltas na peça iria de encontro aos valores mais intocáveis no que se refere às questões de ordem moral e aos princípios de considerável parte dessa sociedade brasileira que viveu entre as décadas de 1940 e 1960 – período que compreende a data em que o texto dramático foi criado, abarcando o longo tempo de censura a que a obra foi submetida até a sua liberação para a primeira apresentação nos palcos nacionais. A proposta aqui apresentada visa a observar os aspectos do trágico na supracitada peça à luz de estudiosos da dramaturgia rodriguiana, como Eudinyr Fraga, Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado, Victor Adler Pereira, Adriana Facina dentre outros trabalhos acadêmicos mais recentes sobre Nelson Rodrigues. Serão utilizados para essa análise aparatos críticos e teóricos das noções de tragicidade e de contextualização da obra no cenário nacional, apontando-se as apropriações que o dramaturgo brasileiro fez do gênero, principalmente no que concerne às inovações que ele propôs para que a noção de “trágico” ganhasse contornos mais singulares em sua dramaturgia. Nosso intento, portanto, é apontar o que de fato há de trágico em Álbum de Família à luz desses estudiosos, reforçando a noção de que o trágico rodriguiano é repleto de singularidades, multifacetado e, em alguns momentos, controverso e ambíguo. Palavras-chave: Álbum de Família; Nelson Rodrigues; tragédia rodriguiana. Profa. Me. Fernanda Valim Côrtes Miguel (UFVJM / Doutoranda-UFMG) LIMIARES DA FICCIONALIDADE NA ESCRITA DE VALÊNCIO XAVIER (em co-autoria com Mayra Helena Alves Olalquiaga e Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi) A partir de uma leitura do conto “Rremembranças da menina de rua morta nua”, que dá título à coletânea em que foi publicado, este artigo propõe uma discussão do informe e do sombrio na escrita de Valêncio Xavier. A partir da noção de rastro de Jacques Derrida, o artigo explora XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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a construção da narrativa-fragmento de Xavier e seus rastros iconográficos, que recuperam memórias da dor, da feiúra e da morte, e apontam para os limites entre realidade e ficção, erotismo e violência, sensacionalismo e barbárie. O projeto literário de Xavier se constitui na tensão estabelecida entre o fazer literário e discursos formadores de práticas sociais, como o discurso jornalístico, em que o espaço ficcional aparece como espaço de instabilidade e de experiências vazias, de sentido, de redenção, de racionalidade, de explicação. Trazendo para o campo literário o texto e a imagem jornalísticos para narrar o assassinato de uma menina de rua em um parque de diversões de São Paulo, a escrita de Xavier rompe o limite seguro e aceitável da literatura tradicional, dissolvendo-o em um estreitamento tênue e obscuro com o caráter real do cotidiano da sociedade brasileira. Por meio dos rastros (e dos rastros dos rastros) que se entrecruzam na escrita de Xavier, pode-se afirmar que o limiar entre o ficcional e o real atravessa as fronteiras literárias para a configuração dos elementos constituintes da performance art. Para Hans Lehmann os conceitos performáticos têm como um dos eixos norteadores a busca da ação real, em contraposição às ações simuladas. O conto de Xavier possui em seu enredo um processo gradativo de transformação, em que o caráter do real é dado a todo instante, diluindo a barreira entre ilusão e realidade. A narrativa da morte da menina, atravessada por elementos constituintes da performance, denuncia o processo de consumo e de esquecimento que marca a vida nas grandes cidades, o consumo de vidas, da miséria alheia, da morte e da tragédia alheia. A escrita de Valêncio Xavier se apresenta como escrita do desvio e do informe, em que o sentido produzido não é dissociável do estranhamento e do horror causados pelo fato recuperado. Residiria justamente aí, nesses jogos de cena, jogos de linguagem e processos metonímicos, uma força expressiva e intensa. Não se trata do próprio sujeito narrador de sua história de trauma, mas da própria narrativa que reflete, como num jogo espectral, a questão da ficcionalidade e da construção estética da ficção. Palavras-chave: Valêncio Xavier; ficcionalidade; limiares. Profa. Me. Flávia Arruda Rodrigues (Doutoranda - Puc-Rio) A REEDIÇÃO DE GENTIO DE TIMOR E A RESSIGNIFICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIOPOLÍTICAS DE TIMOR-LESTE E PORTUGAL O objetivo do trabalho é articular uma discussão em torno da reedição de Gentio de Timor, do colonialista português Armando Pinto Corrêa. Originalmente editado em 1935, o livro reúne uma coleção de relatórios burocráticos escritos por Corrêa, militar que exerceu o cargo de administrador-chefe da circunscrição de Baucau, na então colônia portuguesa de Timor-Leste. Ocorre que uma nova edição de Gentio de Timor foi lançada em 2009, a pedido do bispo emérito de Díli e Prêmio Nobel da Paz 2006, Dom Ximenes Belo. A edição foi coordenada pela Associação de Escritores da Ilha da Madeira, não por acaso a terra natal de Corrêa. A peculiaridade do evento reside no fato de Gentio de Timor ter sido um dos livros premiados pelo Concurso de Literatura Colonial da Agência Geral das Colónias (AGC), órgão administrativo subordinado ao Ministério das Colónias do Estado Novo português. O concurso foi realizado entre 1926 e 1974, caracterizando-se como elemento pedagógico de dominação da colonização portuguesa. Gentio de Timor foi premiado ainda em 1935, ano de seu lançamento. O livro não só teve uma segunda edição sem qualquer modificação em relação à tiragem inicial – hoje esgotada – como agora traz um prefácio elogioso de Dom Ximenes Belo, no qual ele se refere a Armando Pinto Corrêa como “herói”. Não consta do texto, por exemplo, a informação de que se trata de um livro colonial ou que tenha sido premiado pela AGC. A textualidade do livro de Corrêa, entretanto, é plena de exemplos do que Homi K. Bhabha denominou ambivalência do discurso colonial. A representação do indivíduo nativo se vale de XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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estereótipos, que tanto o fixam em categorias imutáveis quanto se repetem incessantemente, deixando evidente a atração e a repulsa que representavam para o colonizador português que, por outro lado, se constituía pela própria escrita. O principal tópico a ser discutido no trabalho será a ressignificação do papel que Portugal passou a desempenhar em relação a Timor-Leste. Colonizador até 1975, o país passou a exercer a função de garantidor do processo democrático nos estertores da dominação indonésia, em 2002, conforme observado em artigo pelo antropólogo português Miguel Vale de Almeida. Esse processo revisional que implica num estreitamento de laços sócio-políticos com a antiga metrópole interessa a Timor-Leste, na medida em que representa a possibilidade de inserção do país asiático no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entidade na qual Portugal tem importante força de atuação. O debate acerca de Gentio de Timor consta da dissertação de mestrado Narrativas da dominação no Concurso de Literatura Colonial da Agência Geral das Colónias (1926-1951), defendida por mim perante banca no Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), em agosto de 2010. Palavras-chave: Gentio de Timor; literatura colonial portuguesa; dominação. Profa. Dra. Gabriela Alves (Ufes) O FOTÓGRAFO-ESCRITOR MONTEIRO LOBATO A comunicação aborda a relação entre fotografia e literatura na obra de Monteiro Lobato, partindo da compreensão do fazer literário como fenômeno estético, possibilidade, portanto, de registro do movimento que realiza o homem na sua historicidade, seus anseios e suas visões do mundo. Assim, mesmo que os literatos a tenham produzido sem um compromisso com a verdade dos fatos, é inegável que, através dos textos artísticos, a imaginação produz imagens, e o leitor, no momento em que lê, recupera tais imagens, encontrando outra forma de ler os acontecimentos constitutivos da realidade motivadora da arte literária. Leitor e tradutor – responsável por obras como Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Lobo e o Mar, de Jack London – é nesse processo de leitura de textos e produção de imagens que Lobato traduz sua visão de mundo. E antes da fotografia, e mesmo da literatura, o escritor-fotógrafo descobriu sua primeira vocação artística, a pintura, que por força das circunstâncias (seu avô preferiu que ele cursasse a faculdade de Direito) não pôde ser lapidada num curso de Belas Artes. Desistindo de uma arte, entregou-se a outra. Fez-se escritor, em uma transposição vocacional que se refletiria por toda sua obra. No prefácio de Urupês, Artur Neiva afirma: “Há em seu estilo todas as cores da palheta do pintor. E a pintura escrita de Monteiro Lobato é excepcionalmente boa – larga, sem insistência em detalhes inúteis e de pinceladas elegantes”. Ao ponderar sobre sua vocação pelas telas, Lobato admitia uma espécie de saudosismo do que poderia ter sido, se houvesse optado pela pintura: “No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério (...) arranjei este derivativo da literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. Minha impressão dominante é puramente visual.” A literatura lobatiana é, assim, uma fonte privilegiada de acesso ao imaginário de Lobato, já que exprime uma forte relação de proximidade com a imagem, seja num primeiro momento com a pintura ou futuramente com a fotografia. A fotografia pode ser compreendida, então, XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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como uma espécie de extensão da impressão visual de Lobato iniciada com a pintura, como uma maneira de sonhar ideias, desenhar frases e registrar cenários. E a relação de sua literatura com as imagens reforça essa teoria. Fonte especialíssima, a obra literária é capaz de apontar traços e pistas que certamente outras fontes não dariam porque exibe, de forma por vezes cifrada, as imagens sensíveis do mundo. Palavras-chave: Monteiro Lobato; fotografia; Literatura Prof. Me. Geraldo Magela Cáfaro (Doutorando – UFMG) SUJEITOS PRÉ-TEXTUAIS: AUTORIA EM PREFÁCIOS DE HAWTHORNE E JAMES Os estudos sobre textos ditos referenciais, como autobiografias, diários, cartas, entre outros, têm possibilitado novas reflexões sobre a figura do autor. Não mais visto como entidade empírica estável e transcendente, o autor retorna como um sujeito que se constrói discursivamente e por meio de práticas inseridas em contextos históricos específicos. Além dos gêneros já mencionados, o prefácio constitui-se como um espaço discursivo de grande interesse dentro desse cenário de reavaliação do autor. Por meio de análises de prefácios, podemos identificar as ansiedades autorais que perfazem a publicação de uma obra, e a forma como os autores lidam com essas ansiedades. Como a ansiedade é uma forma de antecipação, e o prefácio um texto fora de lugar (por se colocar como um pré-texto quando o texto já foi escrito), o sujeito da enunciação pode ser visto como um sujeito deslocado, tentando lidar com os diversos vetores de tensão implicados na publicação, a saber: as posições estéticas tomadas durante a composição da obra, a necessidade de se legitimar como artista em um campo literário específico, e a destinação da obra junto a um público leitor. A esse sujeito dou o nome de sujeito pré-textual, que deve servir como termo de contraste com o sujeito empírico e ficcional. A partir de reflexões oriundas do estruturalismo e pós-estruturalismo (Genette, Derrida e Foucault) sobre o prefácio e o autor, da sociologia literária de Pierre Bourdieu, e da psicanálise freudiana, proponho um estudo dos prefácios de Nathaniel Hawthorne e Henry James, tendo em vista a idéia de sujeito pré-textual sugerida acima. Tais autores oferecem um corpus substancial de prefácios escritos para várias de suas obras, o que evidencia uma preocupação com as negociações autorais necessárias em suas épocas. Em um momento de se repensar o autor, parece relevante entender como escritores ajudaram a forjar imagens de autoria em resposta a uma demanda cada vez maior por obras assinadas e identificadas com um sujeito empírico. Trata-se de um olhar para o passado mediado por perspectivas problematizadoras das categorias do sujeito e do autor, em sintonia com as tendências críticas contemporâneas nesse sentido. O texto de Genette que oferece suporte para esse trabalho é Paratexts: thresholds of interpretation, no qual o autor apresenta a noção de limiar (seuils) de acordo com a qual o prefácio estaria a meio caminho entre a obra propriamente dita e o contexto no qual ela está inserida. Um contraponto à teoria de Genette será o texto Outwork de Derrida, uma espécie de metaprefácio que abre o livro Disseminations e que deve auxiliar na discussão sobre as anomalias temporais evidenciadas no prefácio. A reflexão teórica sobre o autor é sustentada aqui principalmente por O que é o autor, de Foucault, e os conceitos de campo literário e derivados vêm de As Regras da Arte de Bourdieu. Finalmente a teorização de Freud sobre a ansiedade servirá de ponto de partida para a discussão da idéia de ansiedade pré-textual. Palavras-chave: autoria; prefácios; Hawthorne, James Giselly Rezende Vieira (Graduanda-Ufes) UM PASSEIO NO DIÁRIO DE VARGAS: ECOS DO RESSENTIMENTO, AUTORIDADE PERDIDA E HUMILHAÇÃO EXPERIMENTADA XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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A pesquisa pretende resgatar as representações das memórias, dos esquecimentos e silêncios de Getúlio Vargas, ator político que teve papel decisivo e fundamental no processo histórico republicano brasileiro. Assim, se preocupa em analisar memória e história a partir da autobiografia, utilizando seu diário pessoal, escrito entre 1930 a 1942. O presente trabalho tentará recuperar, no interior das reflexões em torno da memória e do ressentimento, a trajetória e o contexto histórico que envolve a Era Vargas suas ambigüidades e contradições. Com esse objetivo a metodologia utilizada está baseada nas reflexões dos ensaios de Maurice Halbwachs, Memória, Esquecimento e Silêncio, onde o autor enfatiza as interfaces entre a memória individual e a memória coletiva, enfatizando a questão da seletividade da memória e do esquecimento. Pierre Ansart, História e Memória dos Ressentimentos, obra que sugere que o ressentimento pode ser uma condição associada a formas de agressividade, ciúme, inveja, solidão, raiva. Ou seja, sentimentos que acarretam desejos de vingança, que são mediados e recalcados. René Rémond, Por uma História Política, elabora-se uma reflexão em torno do ressurgimento da História Política como eixo de representações que podem fazer sintonia com narrativas e textos das ciências sociais e da literatura. Já Pierre Bourdier, no seu Poder Simbólico, indica a questão do discurso como objeto de reflexão das manifestações de imagens e símbolos de textos e de intertextos. Jacques Le Goff, no seu ensaio Memória, destaca a importância das lembranças e da seletividade da memória enfatizando as sintonias entre o registro e o distanciamento histórico da análise discursal dos depoimentos orais. Desse modo, estabelecendo uma relação dos acontecimentos históricos às manifestações e ressentimentos, pensando as suas tipologias e intensidades, o projeto apresentado sugere um recorte nos estudos sobre a história republicana brasileira. Desde logo, uma observação: a obra que elencamos como fonte e objeto de nossa pesquisa não será vista como reprodução da realidade, mas como produções simbólicas dessa realidade que o ator político vivenciou e atuou. Assim, o procedimento que adoto no trato das memórias de Getúlio Vargas é considerá-las como um exercício de reconstrução e representação. Ao trabalhar no âmbito da história conceitual do político e da história das representações políticas, adoto um referencial teórico onde é necessário refletir sobre testemunhos que podem ser aprendidos através da análise do discurso. Na análise do diário de Vargas, pretendo compreender como os agentes históricos se articularam no conjunto de representações que constituem sua visão de mundo. Para isso realizo uma análise tipológica, procurando agrupar tropos retóricos e conceitos teóricos que permitem um diálogo e sintonia entre História, Psicologia, Literatura e Lingüística. Palavras-chave: ressentimento; memória; diário. Profa. Me. Gloria Regina Alves de Carvalho Amaral BOTES NA AREIA, ARTE FORA DA TELA: SUJEITOS À DERIVA EM BARCO A SECO Esta comunicação pretende apresentar algumas reflexões sobre a obra Barco a Seco, de Rubens Figueiredo. Na obra, o ato literário se encarrega de abrir circunstâncias para a relação entre literatura e artes plásticas. No entanto, ao longo das páginas, questões como o duplo, o falsário, o simulacro e, mesmo a possível falsificação das obras do pintor-personagem, deixam pistas sobre o fingimento atuante no próprio texto. Neste sentido, a comunicação apresenta algumas possíveis idéias para a leitura dessa obra, a partir, principalmente, da seguinte questão: os recursos literários na obra estabelecem um jogo de fingimento, no qual o leitor tem um papel a cumprir, ao abrir algumas possibilidades de leituras na medida em que se falseia a autoridade necessária para discursar sobre artes plásticas. Quando parece falar do Outro (pintura), o texto continua tratando de Si, pois utiliza os próprios códigos, os próprios instrumentos, a sua própria linguagem. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Nossa leitura interessa-se, então, pelo texto que se escreve como um gesto literal, fala de Si, ao falar do Outro que é a pintura, aponta algumas das diversas possibilidades do fazer literário. Quando nos deparamos com trocas de identidades dos personagens; com a questão da autoria das obras do pintor-personagem; quando encontramos capítulos que se dão a ler como contos; ou ainda quando constatamos o cruzamento entre este romance e alguns contos de outros livros do mesmo autor, iluminam-se leituras sobre questões como a autoria, o papel do leitor no “funcionamento” da obra, e, aí também, a relação especular ou de duplicidade entre autor/leitor. Nas convergências e divergências dos personagens, mas também do leitor e do autor, encontramos uma espécie de espelhamento. A leitura do cruzamento dessas subjetividades criadora e criativa, do autor/artista e do leitor/crítico, da narrativa pretende acompanhar o processo por que passam, que reforça a interseção, a multiplicidade e o reflexo. Subjetividades meio estrangeiras, no sentido que usa Nelson Brissac Peixoto: aquele que procura esquecer o passado e quer virar outro, nesta esquizofrenia, tem necessidade de adotar outras identidades. Construídas e desconstruídas no confronto com a do outro, cada uma ajuda a revelar e desvendar o "enigma" do seu Outro no espelhamento das identificações. E o texto acaba jogando também esse jogo e nos ensina como montou, na verdade, um enredo metalingüístico. Se os personagens se criam e se desconstroem, se as camadas de texto pinceladas pelo narrador podem ser descascadas pelo leitor, esse texto também é um duplo de si mesmo. Aquele que o assina, entrega ao leitor e ao narrador a tarefa de escrever por cima de suas palavras. Neste sentido, pode-se tratar a questão da autoria, do fingimento escondido numa assinatura. Roland Barthes, Foucault, Luis Costa Lima, Walter Benjamin, Nizia Villaça, Peter Pál Pelbart e outros, nos ajudam a problematizar essas diversas questões. Palavras-chave: autoria; leitor; identidade. Guaraciara R. Loterio (Mestranda-Unicamp) O SUJEITO NA AUTO-ESCRITURA DE WALTER BENJAMIN Discorrer sobre à auto-escritura em Walter Benjamin não se trata de tarefa fácil. Isto porque o autor não apenas produziu textos que facilmente são classificados como autobiográficos, como outros trabalhos que inauguram uma nova maneira de se auto-retratar por meio da escrita. Tais trabalhos - Rua de Mão Única (Einbahnstrasse); Infância em Berlim por Volta de 1900 (Berliner Kindheit um Neunzehnhundert); Imagens do Pensamento (Denkbilder), Diário de Moscou (Moskauer Tagebuch) – aparentam estar em acordo com a teoria benjaminiana de um sujeito descrito como aquele cuja identidade é definida pela condição de não ser ele mesmo, um sujeito que negocia sua construção e a dispersão de sua autenticidade na linguagem. Por meio desses textos Benjamin partilha a dissolução de si mesmo em múltiplas leituras, abrindo uma via para se pensar um sujeito que permanece indefinido. Ainda, como enfatiza Gerhard Richter, tal dissolução revela um sujeito em sua alteridade. Pretendemos analisar tais escritos autobiográficos de Benjamin, em cujo sujeito afina-se não a linearidade e ao referencial da linguagem benjaminiana, mas aos movimentos constantes através dos quais essa linguagem se transforma. Como Rodolphe Gasché identifica quando trata da constituição do sujeito na autobiografia, podemos compreender a “desapropriação” da identidade do sujeito pela linguagem como uma espécie de extensão, uma representação dessa própria “desapropriação”, a qual ocorre quando o autor concebe o “eu” como “existência”, transpondo-o para a escrita. Também nesse sentido, Paul De Man diz metaforicamente que “as portas” pelas quais temos acesso aos escritos autobiográficos são “giratórias”; imagem que, segundo o autor, representa o “movimento dos tropos” à medida XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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que eles se tornam “eventos” dentro de uma estrutura lingüística. Isto significa que o “movimento dos tropos” desapropria a identidade do sujeito, tomando aquilo que é “fornecido” por um autor e o tornando algo inevitavelmente “projetado”. Analogamente, nossa leitura dos demais escritos autobiográficos de Benjamin visa privilegiar não a forma linear e simbólica pela qual o sujeito se constitui nesses textos, mas antes, a maneira irregular, alegórica, pela qual esse sujeito busca extrair seus sentidos do abismo entre a expressão e a significação. Palavras-chave: Walter Benjamin; autobiografia; sujeito. Guilherme Horst Duque (Ufes) “RASGÁBIL, INFLAMÁBIL E ATÉ MESMO LEGÍBIL”: GLAUCO MATTOSO E O JORNAL DOBRABIL Glauco Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, é um dos principais representantes da geração de poetas que surge no Brasil na década de 70, os chamados poetas marginais, ou a geração do desbunde, caracterizada por colocar em circulação seus livrinhos à margem do sistema editorial oficial, tendo sua produção e distribuição feitas pelos próprios poetas, imprimindo seus livrinhos com mimeógrafos e vendendo-os de mão em mão. O poeta, portador de glaucoma (doença motivadora do seu pseudônimo), possui uma vasta obra literária, estando ainda hoje ativo, fortemente marcada pelo erotismo e seu fetichismo pelo pé masculino. Uma de suas principais criações, se não a principal, é o Jornal Dobrabil. Composto por imagens, frases soltas imitando manchetes e textos curtos, o Jornal Dobrabil foi produzido por Glauco entre 1977 e 1981 e enviado através do correio para intelectuais diversos Brasil afora. Era impresso em folhas em formato de um periódico, cujo nome é uma paródia de “Jornal do Brasil”. Suas 53 edições – todas numeradas de forma idêntica: “número hum” – foram reunidas em um volume único pela editora Iluminuras. A descompostura que impera na produção jornal mistura elementos da cultura erudita com o palavreado baixo, ligado a resíduos e fluidos corporais, o que dá ao conjunto uma cara grotesca, o que parece ser exatamente o objetivo de Glauco: rebaixar o cultismo da arte. A pornografia e o trocadilho pornográfico são elementos frequentes, bem como a recorrência à visualidade, trabalhada com mestria em toda a composição: desde a divisão do cabeçalho em colunas, às manchetes e desenhos feitos usando a tipografia ou os próprios poemas visuais que nele aparecem (como quando dispondo as letras que formam “SEMINEURÓTICO” de um modo específico, o autor faz com que seja possível ler também “SEMINUERÓTICO”). Essa manipulação do espaço aparece apenas nesta primeira fase de sua produção poética pois o progresso de sua doença faz com que o autor tenha de abandonar a prática devido à perda da visão. As colunas, seções, comentários e textos que fazem parte do jornal são assinados com nomes diferentes, variações de Pedro ou Glauco, ora recorrendo ao inglês, ao espanhol ou o francês, assumindo, assim, diversas personas: Glauco Mattoso, Pietro el Putrido, Glauco Espermattoso, Pedro o Podre, Pedlo o Glande e Glauque Matteaux. Propomos neste artigo uma descrição geral da obra e das “várias vozes” que fazem coro ao conjunto, com a análise de alguns dos textos que a compõem, colocando em discussão seu envolvimento com a política e sua desconstrução do conceito de “alta poesia”. Palavras-chave: Glauco Mattoso; Jornal Dobrabil; testemunho. Helciclever Barros da Silva Vitoriano (Mestrando-UnB) PLÍNIO MARCOS: CONVICÇÕES POLÍTICAS, ESTÉTICAS E IDEOLÓGICAS DE UM PECULIAR INTELECTUAL BRASILEIRO XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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A presente exposição objetiva discutir e analisar a formação e conformação intelectual de Plínio Marcos de Barros, dramaturgo, roteirista, ator, jornalista, palhaço, tarólogo, vendedor ambulante das próprias obras teatrais, artista circense e agitador/perturbador cultural brasileiro que “ascendeu” para a cena teatral no final da década de 1950 e que teve sua produção silenciada pela ditadura de 1964, gerando diversos protestos para que o Estado de exceção liberasse suas peças, sendo preso diversas vezes pelos militares por “desobedecer” ordens de não representar suas peças ou por não prestar esclarecimentos quando convocado. Pretende-se analisar sucintamente a peça teatral Navalha na Carne (1967) e, brevemente, o respectivo contexto histórico-cultural e sociopolítico da obra e do autor, em busca de uma maior compreensão da singular expressão intelectual de Plínio Marcos, escritor engagé em termos sartrianos e “exilado”, “fora do lugar” na perspectiva de Edward Said. O exemplo de Plínio Marcos coloca a prova os conceitos, concepções e funções que temos do sujeito intelectual historicamente e mesmo na atualidade. Observá-lo como agente intelectual, levando em consideração sua biografia nada afeta aos preceitos tradicionais e locus de formação dos pensadores da cultura, tais como escolas e universidades parece ser ainda um desafio epistemológico para seguidores de uma postura teórica mais específica sobre o tema dos intelectuais. A escola de Plínio Marcos foi a rua, a sua “quebrada do mundaréu” e, obviamente, o palco teatral. Assim, falar de um sujeito encarado como intelectual e que ao mesmo tempo “camelava” suas peças em plena rua, mantendo um contato direto com o povo, pagando conscientemente o preço de tal atitude, apenas reaparecerá na cena cultural brasileira recentemente com os movimentos de “escritores marginais”. Independentemente da abordagem teórica escolhida parece ser comum a todas que o intelectual é um ser inquieto e irresoluto que não se deixa vencer pela opinião da maioria; que está em constante mutação de si mesmo e almeja isso para os demais seres humanos; que advoga a liberdade incondicional e a justiça para todos; é um utópico irremediável; nada contra a maré, consciente dos riscos e consequências. Tudo isso se encaixa perfeitamente na figura pliniana. A contribuição de Plínio Marcos para a cena cultural brasileira não foi pequena: de mambembe a dramaturgo, ele se posicionou sempre pela liberdade incondicional seja em termos estéticos, seja, políticos. Foi um renovador do teatro nacional, conviveu com o submundo paulista e de igual modo, conviveu com a elite cultural e intelectual brasileira. Críticos de teatro o aclamaram; atores consagrados davam notoriedade a seus textos, escritores de peso o defendiam como foi o caso de Clarice Lispector no famoso episódio da defesa do uso dos palavrões no teatro. Assim, o caso de Plínio Marcos é exemplar como oportunidade para discutirmos o uso da arte como defesa pessoal em momentos de instabilidade e tensão política, ao mesmo tempo em que expõe sua visão da conjuntura social brasileira, carregada de misérias e injustiças, focando em grupos minoritários normalmente desprezados. Palavras-chave: Intelectual; marginal; Plínio Marcos Prof. Me. Henrique de Oliveira Lee (Doutorando-UFMG) UMA MINÚSCULA IMITAÇÃO DA MORTE: ESPAÇO PERFORMATIVOS EM YUKIO MISHIMA

AUTOBIOGRÁFICO

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EFEITOS

Quando se fala de um jogo de textos, que pode abranger uma autobiografia e que tem por função construir e produzir uma imagem do autor, Philippe Lejeune utilizará o termo espaço autobiográfico. Tal espaço é uma arquitetura de textos que estabelecem relações mútuas, alguns de ficção, outros de crítica, ensaios, escritos íntimos, prefácios, todos eles remetendo a uma certa imagem do autor. Uma imagem que não coincide exatamente com um conteúdo enunciado, mas que é um efeito de enunciação, e por isso produz uma certa ambigüidade do pacto de leitura. O objetivo do nosso trabalho é investigar este efeito de enunciação no espaço autobiográfico do escritor japonês Yukio Mishima. A obra deste escritor trata de maneira consistente e recorrente o tema das “irmandades de sangue” e o suicídio ritual como XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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conseqüência da constituição deste laço irrevogável. Ao devotar os últimos anos de sua vida a uma “irmandade de sangue”, a Tatenokai (sociedade do escudo), e através dela ter planejado o ato que serviu de plataforma para o seu suicídio ritual, o escritor japonês selou a sua vida como uma espécie de fábula paralela, e fez dela mais uma das obras que compõe o seu espaço autobiográfico. Mais do que especular sobre os motivos do suicídio de Mishima, o que talvez pertença a uma impenetrável esfera de mistério que é a vida de cada homem, nosso intuito é pensar as conseqüências deste ato como efeito de enunciação em seu espaço autobiográfico. Para tanto, centraremos este trabalho em uma análise do ensaio intitulado Sol e Aço de 1968, classificado por Paulo Leminski, que traduziu o texto para o português, como uma espécie de texto/testamento. Neste ensaio o autor empreende uma releitura de sua obra e sua trajetória, apontado para os signos que anunciavam o seu destino: Todavia me parece certo que meu espírito, com toda liberdade – libertinagem, até – que permitia às palavras, e com toda prodigalidade que permitiu ao jovem autor no usá-las, mesmo assim meu espírito estava cônscio do “fim”. Relendo aqueles trabalhos agora, todos os signos desta consciência estão lá para quem quiser ver. O ato final de Mishima selou inexoravelmente um pacto de leitura para Sol e aço. Talvez o seu suicídio tenha sido o “recentramento pós-fato” que nos faz enxergar neste ensaio um autoretrato, pois, de outro modo, Sol e aço poderia ser considerado apenas um escrito sobre uma série de reflexões dispersas, sobre o corpo e a mente, o fundo e a superfície, o olhar e o ser olhado, a literatura e a vida, entre outros. Temos aí, talvez, as particularidades do ato performativo em Mishima: mais do que fazer comparecer o vivido em sua obra literária, este autor parece ter comprometido o seu destino com os signos de sua produção literária. O efeito de ficcionalização operaria uma função distinta da usual, ao invés de um efeito mimético e retrospectivo a ficcionalização pode ser lida como uma espécie de prospecção e anunciação de um destino. Tal produção literária gera como efeito de enunciação uma espécie de convite, para as comunidades de leitores por vir, a uma reflexão sobre aquilo pelo qual estaríamos dispostos a morrer. Palavras-chave: espaço autobiográfico; Yukio Mishima; suicídio. Igor Nunes Costa (Mestrando-Ufes) O DESCENTRAMENTO EM “AS IDEIAS FORA DO LUGAR” DE ROBERTO SCHWARZ A idéia de descentramento é característica central e constitutiva das identidades culturais na pós-modernidade (HALL, 1992). Carvalho (2001), retirando de Derrida a idéia de descentramento, observa que no campo da Antropologia houve dois fenômenos desse, sendo que do último surgiram dois “pólos”. O segundo pólo do segundo descentramento provocou uma variedade dos “modos de ser etnógrafo nativo” em que sujeito e objeto se encontram em um mesmo “espaço existencial”. Para que haja desenvolvimento deste pólo, Carvalho afirma que é necessário que haja uma “relocação” dos olhares, considerando a “posicionalidade” e a “situação do autor no jogo geopolítico”, termos que retira, respectivamente, de Hall e Mignolo. Ou seja, as identidades do sujeito são produzidas por uma variedade de posições dele dentro de uma cadeia discursiva (HALL, 1992 e 1996) e dependem de uma geo-política do conhecimento (MIGNOLO, 2008). Esta geo-política do conhecimento e do saber deve estar associada a uma desobediência epistêmica (MIGNOLO, 2008) que não subsuma na razão imperial construída nos fundamentos das línguas grega e latina e das seis línguas imperiais européias. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Uma dessas línguas imperiais européias, de acordo com Mignolo (2008), é a língua portuguesa falada no Brasil e para que haja uma desobediência epistêmica é necessário “aprender a desaprender”, ou seja, promover uma crítica que não esteja inserida nas regras do jogo da razão imperial. Observando isso, se torna importante analisar essa tentativa de relocação, já de grande prestígio, que é o entendimento que o crítico literário Roberto Schwarz tem por descentramento, que consta no capítulo um de seu livro Ao Vencedor as Batatas, As idéias Fora do Lugar. Schwarz analisando a gravitação das idéias e o quadro social no Brasil do oitocentos, em que conviviam as idéias liberais, “homens livres” e escravos tira as conseqüências disso e se surpreende com aquele “qüiproquó” de idéias aos olhos do estrangeiro, que sintetizo com sua frase de que “a novidade no caso ... está na dissonância propriamente incrível que ocasionam o saber e a cultura de tipo “moderno”quando postos neste contexto” (SCHWARZ, 2000, p. 19). Esse movimento de descentramento, de deslocamento das idéias derivado de nossa inserção internacional subordinada e da absorção de idéias estrangeiras em um ambiente, o brasileiro, que acomoda o individualismo burguês e o paternalismo gera idéias que não são nem as estrangeiras, dado que já foram mais ou menos assimiladas no Brasil, e nem são idéias nossas já que vindas do exterior. Tais idéias não podem deixar de serem absorvidas já que no Brasil o Capital também constrói sua sociedade e nem podem ter efeito completo dado que não encontra chão histórico para tal. OBJETO: A idéia de descentramento em “As idéias fora do lugar” de Roberto Schwarz. ELEMENTOS EXAMINADOS: Descentramento (ou deslocamento) no texto “As idéias fora do lugar”; A operação do descentramento em Ao Vencedor as Batatas, em Um Mestre na Periferia do Capitalismo e em Que Horas São? ORIENTAÇÃO TEÓRICA: Dentro do Pensamento Social Brasileiro, a orientação é a do pensamento descolonial. Palavras-chave: descentramento; idéias; Schwarz. Iran Felipe Alvarenga e Gomes (Graduando-UFMG) METAFICÇÃO NA CRIAÇÃO DO EU AUTORAL: ANALIZSANDO A PERSONAGEM RETA WINTERS DE CAROL SHIELDS A busca de identidade por meio da escrita não é algo incomum. O diferencial na escrita contemporânea é o aumento do número de personagens que são escritoras. Mary Egleatlon (2005) afirma que a escritora contemporânea, ao utilizar a metaficção, pode explorar ao menos em parte sua própria situação de vida como autora, assim como pode também expressar suas ansiedades e aspirações. Como resultado desse processo, percebe-se uma sutil busca por uma identidade sempre em construção, com a autoavaliação da personagem durante o processo de criação, que gira em torno de sua posição como mulher, mãe e escritora. Ou seja, pode-se afirmar que o processo de escrita se torna quase autobiográfico. A obra de Carol Shields, escritora canadense, é considerada por muitos críticos como sendo toda ela metaficcional e pós-moderna. Seu último romance intitulado Bondade (título original Unless) traz essa marca bem evidente. Reta Winters, a personagem principal (escritora, tradutora e mãe), questiona seu processo de criação e sua posição como autora, além de apresentar suas preocupações com a imagem que a sociedade tem das mulheres em sua posição. O autoquestionamento da personagem começa quando sua filha mais velha abandona a faculdade e vai para as ruas pedir esmola em nome da bondade. Isto fica claro quando Reta diz “na minha nova vida – verão do ano 2000 – estou tentando contar as bênçãos que recebi” (SHIELDS, 2007, p.9), evidenciando que ela passa por uma reconstrução do eu XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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efetuado por meio da escrita. Os amigos a consolam dizendo que ela tem a escrita como refúgio da fase de tristeza na qual se encontra, mas ela pensa: “‘meus escritos’: um pequeno consolo para enfrentar meu sofrido eu” (SHIELDS, 2007, p.10). Quando Reta discute a criação de seu segundo romance, que seria a continuação do primeiro, explica que mudanças serão feitas, pois a tristeza que ela sofre será refletida em seus personagens. Ela ainda afirma sua conexão com a personagem: “estou na pele de Alicia” (SHIELDS, 2007, p. 98), mostrando como ela estende a busca do seu próprio eu com a busca de outras mulheres por ela criadas. Reta tenta conciliar suas muitas identidades e não se deixa levar pelo feminismo radical profetizado por sua amiga e mentora Danielle Westerman. No início do romance ela discorda que o feminismo faça parte da construção de sua identidade, mas com o desenrolar da estória, assume que, como escritora, tem um papel importante tanto na defesa dos direitos das mulheres quanto como uma fonte de inspiração para a formação do eu de suas leitoras. Este trabalho se propõe a analisar a construção do eu pela personagem Reta Winters. Para isso, será discutido o papel das outras personagens e como fatores, tais como o papel de Reta como escritora, seu trabalho como tradutora das obras de Danielle Westerman e a “perda” da sua filha, influenciam nessa construção. Para a realização da análise e discussão, adotarei como base teórica os trabalhos de Mary Egleaton (2005); Linda Hutcheon (1980); Patricia Waugh (1984) e, Nora Foster Stovel (2006). Palavras-chave: metaficção; identidade; Carol Shields. Prof. Me. Jefferson Diório do Rozário (PMCI / SEDU) EU VAGABUNDO: AGENCIAMENTOS DE SUJEITOS FICCIONAIS DE RUBEM FONSECA Este trabalho tem por objetivo investigar aspectos da subjetividade em alguns textos de Rubem Fonseca. Como se delineia a identidade em sujeitos ficcionais que permeiam a escritura fonsequiana, quais elementos se mostram ou se ocultam em suas subjetividades são alguns dos pontos a serem estudados. No mundo de identidades cambiantes, ausente de raízes, duas figuras se destacam, a do turista e a do vagabundo. Enquanto aquele está em movimento contínuo por opção de não fixar-se, este, em contrapartida, não possui um lar, é, portanto, obrigado a transitar. Uma “liberdade” que lhe é imposta. Para o vagabundo, a liberdade seria o avesso da condição que a ele se impõe, “estar livre significa não ter de viajar de um lado para outro. Ter um lar e ser permitido ficar dentro dele”. Uma mobilidade imposta e indesejada, pois os vagabundos se movem “porque acham o mundo insuportavelmente inóspito”. O protagonista de A força humana nega a condição de vagabundo, mas nega também vários outros modelos de existência. Movimenta-se – ora por imposição, ora por escolha – entre as possibilidades que lhe aparecem. Essa movimentação subjetiva configura-se como “mudança, tanto da subjetividade quanto das formas de elaborá-la”. Movimento que define um “migrante subjetivo”, caracterizado pela intensidade de deslocamentos da subjetividade, sob condições de descontinuidade, ruptura e multiplicidade. As multiplicidades são a própria realidade, compostas de singularidades e devires. Não há uma fixação em um ponto ou em uma ordem, prevalecem princípios de conexão e heterogeneidade, em que pontos quaisquer se conectam aos outros. As multiplicidades se definem pelo fora, pela linha abstrata de fuga, de desterritorialização. Logo, o princípio de ruptura comporta-se como asignificante. Encontramos sujeitos ficcionais de Rubem Fonseca que encenam subjetividades que perpassam pela desterritorialização, pela fuga do que supostamente possa parecer com imposição – como negar o pagamento do que a sociedade impõe e assumir uma postura de constante cobrança. Postura que se coloca como de minoria, mas também como devir potencial, pois se desvia do modelo imposto. Um detonador de movimentos incontroláveis e XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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de desterritorialização da média, da maioria. Se atender às cobranças sociais é a média, o desvio desse modelo é a opção pela rejeição do pagamento. Ainda mais além, assumir a outra ponta – passar à cobrança - configura-se como uma conexão entre pontos quaisquer, direções movediças – não estar fadado a pagar, mas mover-se para a cobrança. Assim, perseguindo os deslocamentos de personagens fonsequianos, identificamos no texto literário elementos que colaboram para a compreensão de muitos dos complexos agenciamentos que compõem o incessante processo de elaboração, reelaboração da subjetividade; via constantes desterritorialização e reterritorialização, fugas, encontros e desencontros, que não se cessam e inserem o sujeito num continuado deslocamento. Palavras-chave: deslocamento; multiplicidade; subjetividade. João Gonçalves Ferreira Christófaro Silva (Mestrando-UFMG) DESLOCAMENTOS: A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DO ESCRITOR NOS DIÁRIOS DE LIMA BARRETO O presente trabalho pretende investigar a construção da imagem do escritor no Diário íntimo e no Diário do hospício de Lima Barreto. Considerando principalmente as contribuições teóricas de Jerzy Lis e Myriam Ávila para o estudo do diário de escritor, tomamos este gênero (ou subgênero) como lugar privilegiado para a observação da construção de tal imagem, já que ele impede, quase que estruturalmente, as possibilidades de totalização da vida e do sujeito que ali se inscrevem: o diário não é escrito como retrospectiva que permite a seleção e omissão de fatos de modo a erigir uma história de vida coesa e fechada, em que todos os elementos se articulam como causas e efeitos, tendo sempre em vista um fim (como término e como finalidade). Ao contrário, constituindo-se como um acúmulo de fragmentos cujos tempos de referência do presente são variáveis e cujos próprios alcances temporais são, de um modo geral, limitados, o diário está sujeito às vicissitudes de cada dia em que é escrito. Soma-se a isto o fato de este gênero não impor sequer exigência de unidade temática ou regularidade temporal: há entradas sobre os mais variados assuntos, extensas ou não, regulares ou não. Por todos estes motivos, o diário acaba por apresentar-se como uma estrutura precária, lacunar, incoerente e aberta. Este inacabamento constitutivo engloba, é certo, a tentativa de controle do escritor sobre sua própria imagem, imagem esta que ele tenta moldar diante da desconfiança de que seus diários serão, um dia, publicados. No entanto, tal tentativa, longe de apaziguar as contradições e ambivalências das construções de si, acaba por provocá-las ou intensificá-las. Podemos ver, nos diários de Lima Barreto, que a construção de sua imagem se dá em grande parte por uma série de deslocamentos, reais e metafóricos. Parecem ser significativos, nesta construção, movimentos de aproximação e afastamento de meios intelectuais próximos e meios intelectuais almejados, interpretações e metaforizações de dados biográficos que os lançam em direção à vida e à memória de escritores canônicos e a descrição de uma vivência da escrita e da literatura que pressupõe uma determinada posição deslocada do escritor. Tais deslocamentos muitas vezes incluem a construção de narrativas que dão à escrita e à literatura um caráter de phármakon, em toda a indecidibilidade de sua significação, como o expôs Derrida. Esta indecidibilidade do phármakon pode tanto nos ajudar a pensar de modo dinâmico e não-binário as relações do escritor com a escrita e o meio literário de um modo geral, que oscilam entre significações mais positivas ou mais negativas (cura/doença, remédio/veneno, etc.), sem nunca se fixarem em polaridades estáticas e excludentes, quanto nos auxiliar nas reflexões a respeito das relações entre escrita de si, memória e esquecimento nos diários em questão: a escrita de si, aparecendo muitas vezes misturada ou confundida implícita ou explicitamente com a escrita ficcional e a construção de personagens, acaba por XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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tornar indecidíveis suas relações com a memória, o esquecimento, o relato, a ficção, a biografia, etc. Palavras-chave: diário de escritor; deslocamento; phármakon. Prof. Me. João Guilherme Dayrell (Doutorando-UFMG) O (NEO) BARROCO DE SEVERO SARDUY: LINGUAGEM DA VOZ, VOZ DA LINGUAGEM A comunicação toma como base o texto Barroco (1974), do poeta e ensaísta cubano Severo Sarduy, para delinear aspectos do pensamento do autor – e de estudos de outrem dos quais se vale Sarduy para a construção de suas inferências – que permitam uma re-leitura anacrônica da arte barroca evocando, inclusive, sua pertinência na situação contemporânea: o que gera, por fim, a postulação do termo neo-barroco, responsável, outrossim, por designar a retomada por artistas contemporâneos do estilo outrora visto como degeneração do gosto renascentista. Atenta-se, em primeira instância, para a figura espacial da câmera de eco, com a qual Sarduy abre seu texto, que se consiste numa espécie de caixa de ressonância temporal. Nesta, presencia-se o eco que precede a voz, permitindo ressonâncias entre modelos que independem da causalidade e da contigüidade no tempo e no espaço, premissa para a construção do que, anos depois, Georges Didi-Huberman chamará de Ponto de vista anacrônico. Por meio deste procedimento abre-se o panorama para uma “história lida ao revés ou dispersão da história sancionada, aprovada”, tendo em vista que a Camara de Eco de Sarduy opera pela potência do inacabado – característica fundamental e própria do barroco, como já constatava Heinrich Wölfflin, em 1888 –, que permite ligar pontos aparentemente distantes, em certa semelhança com o protótipo rizomático de Gilles Deleuze. Para Sarduy, a arte barroco oblitera a “concordância entre palavra e coisa, onde se tem sentido último, verdade plena e central”, permitindo com que o Barroco perverta a cronologia localizável, “sendo não um estilo histórico, mas um estilo de cultura”, tal qual afirmava Eugênio D’ors. Destarte, não há relação de causa e efeito entre Renascença e Barroco, mas sim a solidificação da presença – viés sob o qual se manifesta a metafísca ocidental, para Jacques Derrida – e da plenitude do sujeito, que marca a arte renascentista vigorada pelo desenvolvimento da ciência, e, no outro lado, a saturação e o excesso barroco que, por sua vez, nos permite ver o vácuo inicial, como diz Sarduy. A relação é análoga que faz Lacan dizer Kant com Sade, ou seja, que a ausência é condição para presença. No contemporâneo, para Sarduy, o excesso barroco, ou neobarroco, se coloca como uma paródia à burguesia, que vive sob a égide de uma cultura do acúmulo, o que o aproxima de Georges Bataille. Por fim, vale a importância das aproximações anacrônicas como, também, das singularidades que marcam a diferença entre uma arte produzida no âmbito da igreja e a produção contemporânea. Roland Barthes, em seu artigo a sobre a poesia de Severo Sarduy, nos afirmava que o dispêndio livre do significante na obra do poeta cubano mostrava “que não há nada por de trás da linguagem”. Paul Valery – trazido por Giorgio Agambem –, ao ler Mallarmé, destaca que não seria a “linguagem mesmo” que fala na poesia, mas antes uma voz que precede o ato de se perder na linguagem, como acontece no barroco. Talvez, polaridades em que se jogaria barroco e neobarroco: linguagem da voz, voz da linguagem Palavras-chave: barroco; Severo Sarduy; linguagem da voz, voz da linguagem. Prof. Me. João Paulo Matedi (Doutorando-Ufes) O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ E A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM Partindo dos textos "A morte do autor", "O que é um autor" e "O autor como gesto" de autoria respectivamente de Roland Barthes, Michel Foucault e Giorgio Agamben, e apoiando-se ainda em nomes como os de Georges Mounin, Lawrence Venuti e Leonor Arfuch, pretende-se XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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discutir porque, no quadro de reavaliação da figura autoral e de valorização de outros agentes da escrita – a escrita em si mesma e o leitor –, o tradutor (quase) não teve (tem) espaço. A questão é: "por que a morte do autor não se pagou também com o nascimento do tradutor?"; e mais: por que alguém teve de morrer? Indo nessa direção, em contraposição à literatura do século XX, serão colocadas questões concernentes à tradução durante o mesmo período, e, em contraposição ao autor e ao leitor, será trazido à baila o tradutor. Palavras-chave: tradução; tradutor; autoria. Jorge Henrique da Silva Romero (Doutorando-Unicamp) AS FORMAS DE RESISTÊNCIA NA POÉTICA DE PATATIVA DO ASSARÉ A poética de Patativa do Assaré poderia ser considerada de acordo com as muitas formas que a resistência assume. Como afirma Octavio Paz a atividade poética é por natureza revolucionária. Nesse sentido, a poesia de Patativa expõe as múltiplas formas que a palavra resistência pode significar. No campo fragmentado dos discursos de legitimação, a arte pode ser considerada como a única forma de resistir às múltiplas tentativas de dominação. Nesse ponto, o poético revela-se como possibilidade de ação no mundo. Nas palavras de Bosi “Essas formas estranhas pelas quais o poético sobrevive em meio hostil ou surdo, não constituem o ser da poesia, mas apenas o seu modo historicamente possível de existir no interior do processo capitalista” (BOSI, A. O ser e o tempo da poesia. 7º edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2004: 165). Se a resistência tem diversas faces, como afirma Bosi, a poesia é sua face mais paradoxal: real e fantasiosa, profana e sagrada, conservadora e libertária. A poesia é o prisma onde os raios discursivos da nossa sociedade são projetados em suas cores mais vivas. Na poesia de Patativa, os temas da desigualdade social, exploração dos trabalhadores rurais, a miséria, emigração e todas as contradições se constituem de forma singular. Na obra de Patativa, os poemas “ABC do Nordeste Fragelado” e “A triste partida” representam a mais sensível defesa dos emigrantes nordestinos, a denúncia das condições de vida dos sertanejos, obrigados a abandonar seus lares devido às secas frequentes, a inércia do estado diante desse flagelo, enfim, a resistência do sertanejo diante da seca que elimina as condições essenciais de vida nos sertões. Desenraizado, o sertanejo procura um patrão nos centros urbanos, onde só encontra mais miséria, sofrimento e opressão. Patativa compõe um retrato desse Nordeste devastado pela seca. O recurso mnemônico que o gênero ABC possibilita, através da utilização de cada letra do alfabeto iniciando cada estrofe, serve para que todos tomem conhecimento desse imenso Nordeste em flagelo. Nesse sentido, o ABC ensina, informa, denuncia, alerta e expõe a resistência do sertanejo e sua luta contra os impactos da seca e das políticas de esquecimento. Patativa transita entre o campo de luta e da poesia, sua voz poética se constitui como a voz dos expropriados, dos explorados e oprimidos, enfim sua voz é uma voz de resistência através da poesia, ou seja, a obra do poeta de assaré se afirma como uma poética da resistência. Palavras-chave: Patativa do Assaré; poesia brasileira contemporânea; resistência poética Prof. Me. José Juvino da Silva Júnior (Instituto de Assistência Social e Cidadania – Prefeitura do Recife) POESIA DA EXPERIÊNCIA XAMÂNICA: ROBERTO PIVA & A ESCRITURA DO REAL CÓSMICO XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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O presente artigo trata de articular uma leitura que revolve e imerge nos universos simbólicos e nas composições de lugares e personagens incrustados e postos em circulação na recente poesia do autor Roberto Piva, mais precisamente os poemas que se encontram contidos nos livros Ciclones (1997) e Estranhos Sinais de Saturno (2008): a experiência visionária, mística, psicodélica, erótica, a diluição das fronteiras entre o sujeito poético e o sujeito empírico, o agenciamento subjetivo das vivências biográficas para o exercício poético, a reiteração de uma literatura de ação mágica que conduza ao êxtase e ao delírio e a criação de circunstâncias lingüísticas especiais que culminam em poemas que abrem fendas, brechas no sentido estanque de realidade – fulgurações que escapam aos limites estreitos impostos pela especulação racional do ocidente e da lógica formal. Amparado nas contribuições da teoria da literatura e da crítica literária, este artigo lança um olhar atento sobre os diálogos, trocas, negociações, jogo de sombras e influências que se processa entre a atuação vivencial do poeta em relação à figura do xamã e seus saberes e práticas ancestrais. E também investiga a deflagração, propiciada na configuração do registro poético das visões extáticas, de significados cósmicos calcados no território de entrecruzamento entre uma realidade simultaneamente transcendente e imanente. Os dispositivos de uma poética do arrebatamento e de visões, presente em diversos poemas, são trazidos para o terreno de interesses da análise deste artigo, bem como as presenças das alteridades animais, vegetais, minerais, míticas e, ainda, as emergências das paisagens abertas e as presenças de corpos celestes (sol, lua, etc.) incorporados na tessitura narrativa com a qual o poeta Roberto Piva erige sua ação poética. Com este artigo, ao averiguar o exercício de visões mágicas e extáticas deflagradas na poética de Roberto Piva, podemos vislumbrar novos arranjos e formas possíveis para conceitos como verdade, existência e sujeito: a escritura do real cósmico coloca em xeque os postulados e as posturas que não considerem as demandas do mundo natural e seu jogo de complexidades para a configuração das subjetividades humanas, do diálogo de um eu todo retorcido irmanado às alteridades do mundo animal e demais reinos, inclusive as esferas do imaginário mítico, e ventila a força com que irrompe dentro da própria mente e seus jogos de linguagem as repercussões do contato íntimo com as forças ancestrais, imprevisíveis e criativamente caóticas da vida. Este estudo da poesia da experiência xamânica exercitada por Roberto Piva possibilita percepções que fogem às amarras de uma vontade de separação irrestrita entre literatura e vida, entre poema e existência, destacando as invenções e descobertas possíveis na fertilidade do encontro e fricção entre a vivência e a apreensão mítica da realidade e o êxtase e entusiasmo onírico da palavra poética, campo largo onde é instigado um cenário de deslocamentos, câmbios, movimentos e fluxos de subjetividades mutantes, recombináveis com as energias do caos e do cosmos. Palavras-chave: poética da experiência xamânica; Roberto Piva; êxtase. Josely Bittencourt (Mestranda-Ufes) CONFICÇÃO DE CARTAS: UM TECIDO DE ENVIOS E DESVIOS EM ANA C A proposta deste trabalho se divide em dois momentos. O primeiro se trata de uma breve descrição, pelo viés histórico, do uso de correspondências como escrita de si para o outro, com o intuito de refletir sobre a forte cumplicidade que se tece consigo e com o destinatário. A arte epistolar é um legado cuja composição é transmitida há mais de dois mil anos. Algumas regras de sua formatação instruídas na antiguidade são ainda hoje retomadas no ensino de redação, visto que é um gênero freqüentemente solicitado em processos seletivos. Sua estrutura adaptou-se aos novos modos de comunicação e com o advento da internet se tornou o virtual “correio eletrônico”. Prioritariamente, num segundo momento, a correspondência será discutida como suporte para entrechos ficcionais, pois há, desde a Antiguidade Clássica, emblemáticos missivistas (Cícero e Sêneca, dentre muitos outros) que fizeram da escrita epistolar uma arte. Não parece gratuito que no formalismo da ars dictaminis medieval e XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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também nas regras da “nova epistolografia” humanista exista um preceito comum: o de adequação do caráter funcional do gênero ao fenômeno estético, já que a matéria proteiforme das correspondências pode engendrar um espaço favorável à ficção. Por esse motivo, uma carta, além de relacionar destino e estilo, pode conferir outros inúmeros elementos, sem retirá-la da categoria epistolar. Esse aspecto crucial evidencia um lugar propício à criação literária e especialmente à noção de performance do autor, mecanismo que, segundo Diana Irene Klinger no texto “A escrita de si – o retorno do autor” consiste na “ficção que o autor cria de si próprio”. Assim, onde se espera a veracidade do eu tem-se uma autoficção, de maneira que o teor de verdade creditado às epístolas se reverte em recurso ficcional. Vê-se claramente que o uso de cartas em romances ou sua produção como parte da obra literária do escritor atribui credibilidade ao texto, projetando uma atmosfera espontânea, onde se confunde factual e ficcional. Nesse âmbito, Ana Cristina Cesar, também “exímia missivista”, rendeu ao gênero uma saliente produção, a ponto de tal engenhosidade redimensionar seu processo de elaboração literária: cartas sem precedentes e emissão sem destino “tele – sem telos”, como afirma Derrida, uma “pulsão sem representação”. Constata-se, portanto, que emissor e destinatário são performances de um autor e de igual semelhante a própria idéia de leitor é corrompida. Considerando, que a recepção é retirada de seu lugar parcial para ser questionada sobre “quem escreve e para quem escreve?”. Em correspondências como “Uma carta que não vai seguir” e “Carta de despedida”, aqui propostas como exemplos aos argumentos supracitados, serão destrinchados artifícios que as situam entre o mero discurso sobre si e as malhas ficcionais, apontando como tal processo incorpora as discussões sobre a noção de sujeito da filosofia do século XX e a crítica foucaultiana acerca da noção de autor, concepções que retornam à cena literária, redirecionando sensações estéticas e apreciações críticas. Palavras-chave: escrita epistolar, autoficção, Ana Cristina Cesar. Juan Filipe Stacul (Mestrando-UFV) EROS EM TRÂNSITO: RELAÇÕES INTERTEXTUAIS ENTRE TENNESSEE WILLIAMS E CAIO FERNANDO ABREU O sujeito contemporâneo emerge em meio ao caos da indefinição, constantemente em busca de uma completude utópica, mas confortadora. Não nos seria mais possível conceber o caráter estático outrora atribuído à identidade humana, tampouco estabelecer padrões regulares que objetivem abarcar com totalidade o panorama atual, procurando uma realidade objetiva e imutável – conforme pretendiam os realistas. Vivemos na era do estilhaçado, do fragmentado e do inconstante. A literatura, enquanto fenômeno artístico e cultural, evidencia de forma bastante notável essas características que constituem as sociedades contemporâneas. Nas últimas décadas, a não-linearidade dos enredos e a forte presença de um narrador em primeira pessoa que se vê perdido ou em crise, assim como a ambientação, as discussões temáticas e a ruptura ou reconstrução dos aspectos formais constituem uma criação literária em dinamicidade e movimento. As obras que escolhemos para a presente leitura apresentam tais características com clareza e podem ser vistas como retratos que captam uma realidade conflituosa, que transita constantemente de uma subjetividade em crise a um mundo urbano em processo de autoconstrução. Um bonde chamado desejo é uma premiada peça teatral de 1947, escrita pelo dramaturgo norte-americano Tennessee Williams. O enredo da obra de Williams se centra na história de Blanche DuBois, uma professora de beleza decadente e passado sombrio que, ao longo de toda a narrativa vivencia a incapacidade de encontrar na realidade concreta a completude de sua fragmentária identidade. Já Onde andará Dulce Veiga? É um romance do escritor brasileiro XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Caio Fernando Abreu, cuja primeira edição data de 1990. Um personagem inominado, jornalista, protagoniza uma narrativa quase cinematográfica, ágil, algumas vezes rompida pela retomada memorialística e que foca, essencialmente, a eterna busca humana por uma identidade totalizadora, metaforizada na busca do protagonista pela cantora Dulce Veiga, desaparecida há décadas. Objetivamos, no presente trabalho, observar as relações dialógicas entre essas duas obras. A proximidade se dá, sobretudo, por alguns elementos como a temática, a construção das personagens, o enredo interrompido pela subjetividade e pelo intimismo, a crise identitária das protagonistas e a forte presença do erotismo nas narrativas. O presente estudo se centra na leitura de três características de ambientação e delineação das personagens: A crise do sujeito, enquanto elemento presente na constituição identitária na cena contemporânea; o erotismo, que nesse caso é construído por meio da metáfora da transição; as masculinidades, que nas obras apresentam-se em (re)configurações distintas nas personagens. Como referencial teórico, pretende-se utilizar as teorizações acerca de identidade cultural pósmoderna (Hall, Debord), men’s studies (Nolasco, Badinter, Sedgwick) e erotismo (França, Chauí). Palavras-chave: intertextualidade; erotismo; identidade cultural. Profa. Dra. Júlia Almeida (Ufes) POR QUE O PÓS-COLONIAL? Este trabalho pretende investigar as motivações e os procedimentos da crítica pós-colonial, discutir suas vertentes principais e pensar sua inserção no espaço da língua portuguesa e no Brasil atual. Contra uma apreensão superficial do pós-colonialismo como mais uma vanguarda retórica do presente, pretende-se examinar seu potencial de deslocar as prerrogativas do saber nas condições subalternas de enunciação e suas potencialidades de reverberação de uma crítica coletiva, a partir de distintos lugares do mundo, aos sistemas dominantes de produção e circulação dos conhecimentos. Inicialmente faremos um apanhado de como operam autores pós-coloniais em textos fundadores de língua inglesa – escolhas teóricas, conceitos, corpus, motivação: Edward Said (Orientalismo), Homi Bhabha (O local da cultura), Gaiatri Spivak (Pode o subalterno falar?), Kwame Appiah (Na casa de meu pai) e Stuart Hall (The West and the rest). Investigaremos, a seguir, o escopo da definição de Boaventura Santos para o pós-colonialismo – como um conjunto de práticas e discursos que desconstroem a narrativa colonial escrita pelo colonizador em prol de narrativas escritas do ponto de vista do colonizado – para então examinar os desdobramentos e a recepção desses discursos na França, na América-Latina hispânica e no espaço da língua portuguesa, dentro da perspectiva de que existem vertentes hegemônicas e subalternas da crítica pós-colonial. Finalmente, mapearemos as repercussões e análises do pós-colonial no Brasil, sobretudo nos estudos literários, discursivos e sociais, indagando seu potencial de problematizar o que fomos e o que não cessamos de nos tornar, um país cuja herança colonial se reinscreve (e se naturaliza) nas cenas mais imperceptíveis do nosso cotidiano, da nossa literatura, das nossas pesquisas. O pós-colonial é antes de mais nada descolonizador, na medida em que corta nosso presente não como uma novidade radical, mas como uma oportunidade de rearticular projetos e pesquisas em novos circuitos dialógicos por onde corre o pensar situado e deslocado da diferença. Palavras-chave: crítica pós-colonial; diferença; descolonização. Laércio Rios Guimarães (Mestrando-Universidade Presbiteriana Mackenzie) XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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O ETHOS DISCURSIVO NO DIÁRIO DE SIMONTON: UM OLHAR SOBRE OS REGISTROS NA MISSÃO NO BRASIL O objetivo deste trabalho é apresentar o ethos discursivo do enunciador tendo como corpus o texto de O Diário de Simonton, missionário presbiteriano que chegou ao país em 1859 e fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil. Concentra-se no período de registro após sua chegada ao Brasil. A análise é feita a partir de recortes que (1) tratam do seu contato com o campo missionário, mostrando suas impressões pessoais de um povo e cultura diferentes; (2) mostram sua visão abolicionista em um país ainda marcado pela escravidão e (3) apresentam o conflito constante entre o ser e o dever, presente em seu papel como missionário que deixam transparecer seu conflitos internos, frustrações e alegrias. Relata, brevemente, as raízes históricas do presbiterianismo, desde a Reforma Protestante na Europa até a chegada no EUA, bem como da vida de Simonton e sua vocação missionária, que contribuem para a formação do ethos discursivo e, posteriormente, para a sua análise. Propõe a análise do ethos a partir do caráter (os traços psicológicos do enunciador), comportamento (maneira de se mover em um determinado espaço social), e corporalidade (os traços físicos e indumentários) presentes no discurso - referenciais teóricos de MAINGUENEAU nas obras Novas Tendências em Análise do Discurso (1997); Termos Chave da Análise do Discurso (2000); Imagens de Si Mesmo no Discurso: A Construção do Ethos (2008); e Ethos Discursivo (2008) apresentado o surgimento da idéia do ethos em ARISTÓTELES; e outras sobre o tema, encontradas em CHARAUDEAU em sua obra o Discurso Político (2006). Apresenta breve relato sobre o diário como gênero discursivo, tendo como referencial LEJEUNE em O Pacto Autobiográfico (2008) e de que maneira isso pode ser importante na construção do ethos do enunciador, já que torna-se desafiador destacá-lo em um diário quando, originalmente, o sujeito que se apresenta não se preocupava com a figura de um fiador, pois a primeira idéia de alguém que faz estes registros não é a de possuir outro que se aproprie de sua imagem. Paradoxalmente, apresenta-se a idéia de que o gênero diário é a afirmação do sujeito que resiste em perder a sua identidade, que necessita de auto-afirmação e que faz parte da história. Conclui mostrando que é possível delinear-se um ethos do enunciador - mesmo sendo o corpus um gênero diário -, e, pelo discurso, há a legitimação perante o enunciatário que confirma o ethos prévio, aquilo que se espera de um missionário cristão com suas aspirações e valores. - enfim, no gênero diário revela-se a legitimação de maneira ainda mais profunda, pois ali, sem ressalvas ou temores, o enunciador transparece quem é. Palavras-chave: diário; ethos; discurso. Lairane Menezes (Mestranda-Ufes) LITERATURA E TESTEMUNHO NO ROMANCE EM CÂMARA LENTA, DE RENATO TAPAJÓS Durante o século XX, a História tradicional, aquela que pretendia remontar o passado tal qual como fora, vive um período de crise e parece despertar para novos paradigmas, novas fontes e novas reflexões. Nesse intervalo, o relato mnemônico tem sua ascensão e irrompe como uma possibilidade histórica cada vez mais forte e recorrente durante o nosso século. Márcio Seligmann-Silva, em História, memória e literatura: o testemunho na era das catástrofes, diz que no período contemporâneo, pleno de eventos-limite como genocídios, holocausto e ditaduras, o crescimento de relatos memorialísticos, autobiografias, diários e tantos mais foi modelado pelo corte histórico nas formas de “representação” provocado pela Segunda Guerra Mundial. Assim como a História ajustou e ainda ajusta seu trabalho às novas formas narrativas, a Literatura também se abre a novas escritas e, assim como a História, precisa se “remodelar”, revendo seus pressupostos teóricos e paradigmas para alcançar esse novo tipo de produção. Faz-se necessário, então, nos questionarmos quem são esses novos autores e, sobretudo, de que lugares partem seus escritos. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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A exemplo das narrativas surgidas após as Grandes Guerras, que têm em Primo Levi, na prosa, e Paul Celan, na poesia, exemplos incontornáveis, a ditadura brasileira, “eventolimite” brasileiro, também produziu relatos que partiram da experiência traumática da dor. Em câmara lenta, de Renato Tapajós, é um expoente dessa produção. Lançado em 1977, o romance, forma literária escolhida por Tapajós, foi a principal causa da prisão de seu autor, que fora acusado de incitar a subversão. O romance narra a não bem - sucedida tentativa de implantação da guerrilha em solo brasileiro, tendo seu ponto máximo na descrição da cena de tortura da personagem “ela”, companheira do narrador-personagem. É nítido nas narrativas autobiográficas e testemunhais o deslocamento da relação entre literatura e realidade, literatura e sociedade. Também é claro que essas novas relações não são pacificamente discutidas entre teóricos e estudiosos do assunto. Muito menos consensual ainda é a classificação desse novo tipo de produção como literatura. Tendo como referências os estudos de Márcio Seligmann-Silva acerca do testemunho, de Jaime Ginzburg em “Imagens da tortura: ficção e autoritarismo em Renato Tapajós”, de Jayme Alberto da Costa Pinto Jr. (“O narrador de Em câmara lenta, de Renato Tapajós”), de Carlos Augusto Costa (“O foco narrativo do romance Em câmara lenta: o problema da alternância e suas relações com a violência histórica”) e de Mário Augusto Medeiros da Silva em Os escritores da guerrilha urbana acerca do romance, pretende-se analisar o romance como produção literária na qual testemunho, dor e história se mesclam e se completam no anseio de narrar, contar e denunciar. Palavras-chave: Em câmara lenta; literatura; testemunho. Leandra Postay Cordeiro (Graduanda-Ufes) PROIBIDO PARA MENORES DE CINCO CRUZEIROS: PORNOGRAFIA MIMEOGRAFADA DE NICOLAS BEHR O poeta Nicolas Behr, nascido em Cuiabá, mas morador de Brasília desde os 15 anos, integra o grupo dos escritores que, durante a década de 1970, sob o autoritarismo do regime militar, passaram a produzir, à margem do sistema editorial, uma literatura que primava pela simplicidade e pela espontaneidade, marcada pela resistência e pela denúncia. Tal geração, denominada “marginal”, criava livrinhos artesanais, mimeografados, que eram vendidos de mão em mão, método pelo qual 8.000 exemplares do Iogurte com farinha, de Behr, foram comercializados. A escrita do poeta é caracterizada pela recorrência do humor como recurso de relato da dor, num tom mais descontraído do que melancólico. A proximidade ao centro administrativo do país concede a Behr, ainda, uma visão mais clara das contradições políticas de que o Brasil foi (e continua sendo) palco. Assim, nos versos do autor, Brasília se transforma na “capital da desesperança”. Ao dizer em Caroço de goiaba que “estou pedindo socorro / de segunda à sexta / aos sábados e domingos / dia e noite / será que não tem ninguém / pra atender esse telefone?”, Nicolas Behr fala não apenas por si, mas confere voz a todo aquele grupo atingido pela supressão de liberdades individuais que imperava no país. Sua criação é um registro do conflito que a sociedade de então presenciava, o que concede ao seu relato um caráter testemunhal. No ano de 1978, o poeta teve centenas de seus livros apreendidos pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), sendo conduzido à prisão e, mais tarde, a julgamento, por “posse de material pornográfico”. A obra Restos Vitais, de 2005, reúne cinco dos livrinhos mimeografados por Nicolas Behr. Quatro dos títulos incluídos na edição (Iogurte com farinha; Grande circular; Caroço de goiaba; Chá com porrada) estavam entre os retidos pelo órgão do XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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governo. O mesmo volume contém, também, um documento inédito: parte do processo (que Behr prefere chamar de “prosexo”) movido pelo DOPS contra o autor. O presente artigo analisa alguns dos poemas censurados, contidos em Restos Vitais, apontando os motivos que levaram o poeta à prisão e a poesia ao confisco, além de localizálos como literatura de testemunho, por meio do diálogo com textos como O local da diferença, de Márcio Seligmann-Silva, e Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva, de Beatriz Sarlo. A irreverência e a descrença (na política, na mudança, no futuro) são traços sempre presentes na produção de Behr, que afirma que “*...+ eu é que não vou / cair nessa conversa / de que todos são iguais perante a lei”, construindo, com esses e outros versos, a imagem da própria nação naquele instante de insegurança. Palavras-chave: Nicolas Behr; Literatura de testemunho; Poesia marginal Lenice Garcia de Freitas (Mestranda-Ufes) EM DIÁLOGO ENTRE O PÓS-COLONIALISMO E A LITERATURA CONTEMPORÂNEA É POSSÍVEL IDENTIFICAR MARCAS DE SUBJETIVIDADE DO AUTOR ATRAVÉS DAS VOZES DAS PERSONAGENS? Esta pesquisa se propõe o estudo das relações entre Literatura e História, com o objetivo de mostrar o diálogo que pode existir entre ambas a partir do pós (de) colonialismo e contemporâneo. Possibilitando a identificação de possíveis diálogos e torná-los realidade na vida do leitor e quais autores possibilitam esses diálogos. Nessa direção, propomos algumas reflexões em torno das representações de vários personagens e variados gêneros textuais históricos que façam conexões entre Literatura, História considerando a Literatura não apenas como fonte para a História - reveladora dos nexos políticos, econômicos, sociais, culturais e ideológicos de conjunturas específicas, mas, principalmente, como fonte da história. É dentro desses parâmetros que a distinção entre narrativa histórica e narrativa ficcional pode ser analisada. Alguns teóricos contribuirão por esta busca tecendo diálogos que nos mostrarão os elos existentes nas entrelinhas analisadas. O estudioso Walter Mignolo ressalta que a modernidade e colonialidade são inseparáveis, as histórias literárias (caso sejam possíveis ou necessárias) têm de se tornar histórias do fazer (discursos coloniais) e desfazer (descolonizando discursos) da diferença colonial no amplo domínio da escrita, para além do modelo eurocêntrico da literatura, história, filosofia. As culturas literárias na história têm sido cruzadas pelas diferenças (discursos) coloniais e este cruzamento pode tornar-se domínio de diferentes diálogos. Nas narrativas atuais como saliente Derrida, quanto aos discursos presentes nas narrativas pós-colonial e contemporânea, cujo projeto pode ser orientado para desconstruir o pensamento colonizador (Ocidental) e reconstruir pensamentos para além das fronteiras (Oriental). Kristeva declara também que as fronteiras das nações se deparam com uma temporalidade dupla: o processo de identidade constituído pela sedimentação histórica e a perda da identidade no processo de significação da identidade cultural. Para ela tempo e espaço da construção da finitude da nação são análogos. “ Bhabha no livro O Local da cultura ressalta que as estratégias de identificação cultural e de interpelação discursiva que funcionam em nome do “povo” ou” nação” e os tornam sujeitos imanentes e objetos de uma series de narrativas sociais e literárias . O futuro pede assim uma multiplicação das histórias locais e a descolonização da história literária quando esta se destina somente a dialogar de forma repressiva pelo que superar a diferença colonial implica também pensar em coisas diferentes da história e da literatura fazendo com que as diferenças construam as identidades de cada ser. Em suas várias vertentes, a crítica pós-colonial aponta para a colonialidade do ser, do poder e do saber que fizeram da diferença em relação ao suposto padrão universal (por ela revelado como ocidental) algo inferior, destituído de legitimidade e de voz. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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A diáspora que emerge do colonizado e a alteridade do colonizador influi várias discussões do lugar do colonizado como um que precisa ser ouvido e por outro lado o colonizador como representação do intelectual. Sobre intelectualidade Gramsci faz a seguinte diferença e muito apropriada “todos os homens são intelectuais, embora se possa dizer: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”. ’Ele divide em dois tipos os intelectuais, os tradicionais, como professores clérigos e administradores e,segundo ,os intelectuais orgânicos, que Gramsci considerava diretamente ligados a classes ou empresas, que os usavam para organizar interesses, conquistar mais poder obter mais poder. Bhabha expõe que a crítica pós-colonial é testemunha das forças desiguais e irregulares de representação cultural envolvidas na competição pela autoridade política e social dentro da ordem do mundo moderno. Em se falando de forças desiguais das representações culturais nos remetemos a fala de Spivak quando ela usa o termo “subalterno “ descrevendo a camada mais baixas da sociedade constituída pelos modos específicos de exclusão do mercados, da representação políticas e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante. Um colonialismo subalterno (numa curiosa translação do subalterno de Spivack e de Gramsci), próprio de um império colonial débil e periférico face ao sistema capitalista moderno. Segundo Spivak a tarefa do intelectual pós-colonial deve ser criar espaços por meios das quais o sujeito subalterno possa falar e ser ouvido. Palavras-chave: literatura; história; pós-colonial. Leonardo de Barros Sasaki (Mestrando - USP/FAPESP) A “CICATRIZ DE TINTA”: SUJEITO, ESCRITA E EXPERIÊNCIA EM AL BERTO Para Sylvia Plath, morrer era uma arte – “like everything else”. O poeta português Al Berto (1948-1997), por sua vez, tentou ensinar “ao corpo / a paciência o amor o abandono das palavras / o silêncio / e a difícil arte da melancolia”. Esta poética centrada no sujeito e em seus afetos é parte de uma tendência da produção contemporânea portuguesa, sobretudo a partir da década de 70, caracterizada, quase que programaticamente, pela intenção de “retornar ao real”, como sugeriu o também poeta Joaquim Manuel Magalhães. Isto se traduziu no investimento maior em um “lirismo figurativo” – em oposição ao pendor modernista para o abstrato, o impessoal e o formalmente vanguardista da geração anterior. Dentro deste contexto e a partir dos versos citados, este artigo tem por objetivo: a) discutir esta “pedagogia do corpo-texto”, isto é, o processo de constituição do sujeito poético – mormente em seus descentramentos e embates internos – por meio da interação entre a poesia lírica e as práticas textuais do chamado “espaço biográfico” (Leonor Arfuch), o que significa inserir a obra de Al Berto no paradoxo contemporâneo entre o desejo de inscrever-se no texto e a consciência da impossibilidade disto, qual detectou Diana Klinger; e b) ler de que maneira esta “difícil arte” pode funcionar, na sugestão de João Barrento, como afirmativa de uma subjetividade e como mecanismo de resistência à “pobreza da experiência” (Walter Benjamin), ao exibir excessivamente uma visão taciturna e decadente da existência em uma sociedade e em um tempo nos quais o sujeito está submetido a uma “ética analgésica” (Elisabeth Badinter). As duas questões aqui postas encontram um ponto de convergência interessante no balanço que Hal Foster faz da arte contemporânea em The return of the real – nomeadamente em dois aspectos a seguir parafraseados: o primeiro diz respeito à inflexão – especialmente cabível em Al Berto – para o trauma e o abjeto, para o corpo morto ou doente, cujo fundo revela uma insatisfação não somente com o modelo textualista da cultura como também com a visão XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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convencional do real; o segundo, à urgência de uma experiência artística plena dos afetos e, ao mesmo tempo, esvaída deles, naquele “abandono das palavras, o silêncio” dos versos iniciais. Pretende-se assim, pela recapitulação, reavaliar o estatuo negativo da noção de narcisismo poético, relativizá-la no que concerne ao estabelecimento de uma identidade absoluta e, por fim, articulá-la não apenas com questões estéticas (o lugar da lírica na poesia contemporânea e sua relação – problemática, em certa medida – com as escritas íntimas), mas também com temas sociopolíticos da contemporaneidade (tais como a cultura narcisista, empobrecimento da experiência e a fratura nas relações sociais). Palavras-chave: poesia contemporânea portuguesa; espaço biográfico; experiência. Leonardo Mendes Neves (Mestrando-Ufes) CONCEPÇÕES DE LÍNGUA E LITERATURA EM RAYUELA “pero, ¿quién está dispuesto a desplazarse, a desaforarse, a descentrarse, a descobrirse?” Essas são palavras de Morelli, este curioso personagem que ocupa lugar central no romance aqui em análise: Rayuela, de Júlio Cortázar. Aliás, centro é palavra bastante cara à obra cortazariana, pois por muitos ângulos é evidente sua tentativa de descentrar – como bem se pode observar no excerto acima. A figura do autor, em consequência, não escaparia a tais investidas.Tratando-se especificamente de Rayuela, alguns apontamentos fazem-se necessários para pensar as controvérsias autorais. Algum olhar pode, muito facilmente, parear o personagem Morelli ao autor Cortázar, isso porque vária é a via por onde escoam pensamentos comuns atribuídos às duas bocas. Para tanto, basta comparar citações de Morelli a trechos de entrevistas ou ensaios críticos de Cortázar. Estaria, portanto, insinuando-se uma ligação direta entre autor textual e autor empírico? Seria Morelli porta-voz das ideias de Cortázar? Ora, seria estranha a resposta afirmativa a tais perguntas se se tem em evidência um romance que traz dentro de si a seguinte afirmação: “Nuestra verdad possible tiene que ser invención, es decir escritura, literatura, pintura, escultura, agricultura, psicultura, todas las turas de este mundo”.Se se pretende pensar a unidade do romance, ou, de maneira mais geral, a unidade de uma obra cuja autoria é assumida por Júlio Cortázar, naturalmente, há de se percorrer simultaneamente o caminho inverso, há de se executar uma dobra, qual seja: da obra para o autor, da ficção para a (suposta) vida empírica, por fim, de Morelli para Cortázar. Parece, no entanto, que ainda não se chegou perto das questões mais originárias de Rayuela. Isso porque outra dobra parece desabar diante do olhar do leitor: o que é idelizado por Morelli, parece mesmo ser realizado no próprio romance onde ele habita. Basta atentar para o fato de o leitor ser descentrado, ou seja, ser obrigado a sair de seu lugar confortável de consumidor pacífico, passando, desta maneira, a participar da própria composição do romance, quando é convocado a escolher a ordem dos capítulos do texto que tem diante de si. Tendo em vista as questões levantadas acima, o presente trabalho pretende estudar a compreensão de língua erigida por Morelli, assim como sua reverberação nos demais personagens, sobretudo os pertencentes ao Clube da Serpente. Dessa maneira, debruçaremonos sobre o entendimento de literatura engendrado por essa compreensão de língua junto à prática romanesca auto-reflexiva executada no texto estudado. Para tanto, recorreremos sobretudo à concepção de arte defendida por Heidegger em A origem da obra de arte, na qual esta não é encarada como artefato estético, mas como o “pôr-se em obra da verdade do sendo”. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Palavras-chave: ficção; língua; Júlio Cortázar Profa. Me. Lidia da Cruz Cordeiro Moreira (IFSEMG / Doutoranda-UFMG) TRANSCULTURAÇÃO E HIBRIDISMO NA FICÇÃO DE HELENA MARÍA VIRAMONTES Ao pensarmos a América Latina, dificilmente nos lembramos de incluir aí os Estados Unidos, país localizado na América do Norte e, mais importante, falante da língua inglesa. Entretanto, se considerarmos que aproximadamente 16% da população dos EUA são de origem latinoamericana e, em algumas áreas, essa percentagem chega a 37%, como no estado da Califórnia, podemos ver o quão latino-americanos são os Estados Unidos. Dentre os latino-americanos nos EUA, a maioria é de origem mexicana, devido à proximidade geográfica e, principalmente, à história de invasões e anexações sofridas pelo México. A perda de grande parte do território mexicano para os EUA no século XIX transformou milhares de mexicanos em estrangeiros em sua própria terra, da noite para o dia, e determinou a subsequente imigração de tantos outros para os EUA não apenas em busca de uma vida melhor, mas também como um retorno para a terra natal perdida, o atual sudoeste norte-americano. A história de conquista, colonização, anexação e migração faz com que chicanos – norte-americanos de origem mexicana com uma consciência política sobre sua situação – tenham que negociar constantemente entre duas culturas e esse dilema é refletido na rica produção cultural chicana contemporânea, que questiona tanto os valores da cultura dominante norte-americana quanto os da cultura tradicional mexicana. Dessa produção cultural, faz parte a ficção de autoras chicanas contemporâneas, tais como a de Helena María Viramontes, que será objeto desta comunicação. Viramontes, filha de pais mexicanos trabalhadores rurais itinerantes, nasceu e foi criada na Califórnia e sua ficção retrata personagens chicanos que, assim como a autora, vivem entre duas culturas. Fazendo uso de estratégias como o code-switching (as idas e vindas entre a língua inglesa e a espanhola), a polifonia e a fragmentação narrativa, a ficção de Viramontes espelha a fragmentação real vivida pelos chicanos. Embora escrita em língua inglesa, sua obra é atravessada por questões e conceitos discutidos por estudiosos latinoamericanos, como a transculturação, conceito tratado por Ángel Rama em Literatura e cultura na América Latina (2001), e o hibridismo, abordado por Nestor García Canclini em Culturas Híbridas (2008). Viramontes atua como uma transculturadora ao resgatar elementos da cultura tradicional mexicana, através da releitura e reescritura de mitos e personagens históricos, mas sempre questionando tanto os valores dessa herança quanto os da cultura norte-americana dominante. Este trabalho pretende, portanto, analisar a ficção de Viramontes com base nos autores acima, situando-a em um contexto latino-americano de transculturação e hibridismo, sem deixar de lado as peculiaridades que autores norte-americanos de origem latino-americana enfrentam. Palavras-chave: transculturação; hibridismo; Helena María Viramontes. Lucas dos Passos (Mestrando-Ufes) HISTÓRIA, TRAUMA E AUTOFICÇÃO: EM CÂMARA LENTA, DE RENATO TAPAJÓS Depois da crítica do sujeito e da descentralização da figura autoral operadas nos anos sessenta por nomes como Michel Foucault e Roland Barthes, a narrativa contemporânea, em especial a brasileira, tem apresentado uma tendência geral que vem sendo chamada de “escrita de si”. No entanto, como demonstra Diana Klinger em Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica, antes de se caracterizar na atualidade como autoficção – em que o autor aparece para provocar questionamentos acerca da verdade e do sujeito –, tal característica encontra precedentes também na escrita memorialística de forte fundo histórico que se instaurou no período democrático subsequente às ditaduras latino-americanas. Embora os estudos sobre esse “retorno do autor” geralmente procurem, entre outras coisas, apontar XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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sua relação com a atualíssima cultura midiática do elemento vivencial, é relevante trazer à baila textos diretamente ligados ao trauma promovido por governos opressores para observar se as noções de verdade e sujeito por eles veiculadas não são, de fato, postas em xeque – como se costuma pensar. Seria um equívoco considerar, em muitos casos, a escrita do testemunho como uma simples busca por uma completude utópica ou uma verdade histórica essencial: na verdade, a consciência desses impasses só aumenta seu desafio. Nesse sentido, são instigantes as considerações de Beatriz Sarlo em Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva, onde a autora procura articular criticamente pressupostos da escrita de si e aspectos do testemunho, revelando que a prática testemunhal precisa se entender como uma interpretação (histórica) e uma construção (retórica) em que não se exclui a ficção. Adensando essas questões, há os autores que preferiram, em vez de relatos, escrever ficção ou poesia, como é o caso de Renato Tapajós – autor da obra em pauta, Em câmara lenta (1977). Nesse romance, apresenta-se um narrador cindido que se aproxima da figura do autor (militante torturado nos nossos anos de chumbo), mas também se afasta – seja por meio da mudança da pessoa gramatical ou do apelo à ficção –, em sua rememoração fragmentária da “queda” traumática da companheira, que já se inicia, sintomaticamente, com um estribilho: “É muito tarde.” Segundo Jaime Ginzburg em “Imagens da tortura: ficção e autoritarismo em Renato Tapajós”, para a leitura de textos escritos sob o signo do trauma as ferramentas de crítica literária convencionais se mostram insuficientes. Em vista disso, procurarei estabelecer contato entre o romance do ex-guerrilheiro paraense e estudos sobre escritura e trauma tendo como princípio fundamental o teor de testemunho por ele apresentado. Sendo assim, para apoio teórico, serão trazidas a lume as noções de choque e trauma discutidas na obra de Walter Benjamin e suas leituras nalguns capítulos de Lembrar escrever esquecer, de Jeanne Marie Gagnebin – além do importante ensaio “Literatura e trauma: um novo paradigma”, de Márcio SeligmannSilva. Com a aproximação entre a apreciação crítica da obra de Tapajós e as discussões teóricas por ela suscitadas, pretendo, portanto, inserir a literatura de teor testemunhal na teoria do “espaço biográfico” proposta por Leonor Arfuch, contribuindo, assim, para complexificar sua elaboração. Palavras-chave: Em câmara lenta; escritas de si; testemunho. Profa. Me. Luciana Fernandes Ucelli Ramos (Doutoranda-Ufes/Fapes) ENSAIO SOBRE UMA POSSÍVEL CRÍTICA DA CANÇÃO COMO CANÇÃO Quem acompanha a produção crítica sobre a canção popular brasileira deverá provavelmente concordar que, do ponto de vista da fundamentação teórica das propriedades estruturais da canção, a mais decisiva contribuição vem sendo, já há pelo menos uma década, a de Luiz Tatit. Do ponto de vista do esclarecimento das especificidades culturais da canção popular no Brasil, o trabalho de maior destaque vem sendo feito por José Miguel Wisnik, desde os anos de 1970. No tocante às particularidades musicais (instrumental, vocal, arranjos, produção, etc.) muitos são os nomes e trabalhos que se dedicam sobretudo a desmembrar a obra-canção em seus componentes musicais, ora explorando ora descrevendo elementos de sua criação. Entre esses nomes, cabe reconhecimento a Almir Chediak. Mas quanto à crítica de canção, são poucas as contribuições que se podem listar. Em se tratando especificamente da crítica de canção que se faz no âmbito das Letras, pouco se avança para além duma espécie de crítica literária. Sempre (ou quase sempre) que elegem a canção como objeto de estudo, os estudiosos de Letras incidem no vilipêndio de falar apenas do que lhes diz respeito: as letras. Para tanto, desmembram uma arte, e extraem dela o que pode acudir à sua necessidade de material para XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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a escrita. Investigam os possíveis sentidos da letra enquanto poesia, despregando-a de seu caráter de música, de coisa cantada, coisa feita para ser incorporada à execução musical. Não chega a ser, pois, análise de canção, e sim análise de letra de música – levada à força ao posto de poesia – o que se extrai da tal suposta crítica. Resumindo o quadro que se tem, vemos então que existem estudos sobre propriedades estruturais, investigações sobre as especificidades culturais e análises voltadas para as particularidades musicais da canção. Mas no tocante à produção crítica enquanto organismo complexo, múltiplo e híbrido que é são raros os estudos em desenvolvimento. Assim como se faz a crítica literária, a partir da fruição e dos pressupostos oferecidos pela teoria da literatura, talvez se possa fazer crítica de canção a partir da recepção e da teoria musical. Seria lamentável, porém, desprezar a riqueza de todo o estudo que se realiza sobre suas propriedades estruturais e de suas especificidades culturais. Então, assim como se faz na crítica cinematográfica, consideramos possível agregar aspectos de criação, estrutura e cultura a uma leitura crítica da música popular. Este ensaio pretende, por meio dos caminhos apontados pelas críticas cinematográfica e literária, debater práticas atuais e buscar princípios para uma futura crítica da canção brasileira. Perseguimos, então, uma leitura de canção que seja crítica do objeto estético que resulta do fazer (este, analisado por músicos e semioticistas) pensando tanto os componentes culturais quanto os efeitos obtidos a partir dessa recepção, desse olhar auditivo. Não se está a ambicionar, com isso, auferir a patente pela invenção da roda, e sim alcançar uma crítica de canção que, se não se pode arvorar plena, pode e deve se querer mais ampla. Palavras-chave: crítica de canção; música popular; letras. Luciana Marquesini Mongim (Mestranda-Ufes) ENTRE BECOS E VIELAS, AS VOZES DA QUEBRADA: UMA LEITURA DE CAPÃO PECADO, DE FERRÉZ Ferréz traz para a cena cultural contemporânea uma escrita literária apoiada em uma identificação inquietante: literatura marginal. O termo marginal associado à literatura já adquiriu diferentes usos e sentidos ao longo da história da produção literária brasileira. Em contraste com os poetas “marginais” da década de 1970 que receberam essa classificação por estudiosos e pela imprensa da época, o termo relacionado aos escritores que surgem a partir da década de 1990 não é uma classificação externa, mas apresenta-se como uma autoatribuição por parte de alguns escritores que vivem nas periferias urbanas. A apropriação da expressão “literatura marginal” por esses escritos relaciona-se com a situação de marginalidade social, editorial ou jurídica vivenciada por eles e com as características internas de seus textos. Não é uma marginalidade por opção, como uma alternativa de repúdio às formas de enunciação consagradas, mas que faz parte de quem são, do lugar de onde falam e daqueles por eles representados. O termo marginal, hoje, indica lugares de enunciação e vozes narrativas que sempre estiveram à margem da literatura. Refere-se à literatura daqueles que foram excluídos socialmente e que passam a ocupar o lugar da fala dentro das narrativas de ficção. A proposta de trabalho centra-se no estudo do romance Capão Pecado, do escritor Ferréz, com o objetivo de percorremos esse lugar de enunciação que não mais silencia a alteridade XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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representada, mas evidencia a possibilidade de voz e de outra representação dessa mesma alteridade. São vozes que invadem o campo discursivo transpondo os muros sociais de segregação aos quais estão submetidos e que demarcam o lugar de enunciação relacionado ao desejo de além de dizer também de dizer-se, provocando um deslocamento significativo no âmbito das produções culturais no Brasil. Esse movimento que se traduz no lugar da fala, isto é, de quem fala e em nome de quem apresentado por Ferréz em sua obra, nos remete ao questionamento da autoridade de quem fala pelo outro e da problemática do acesso à voz e da representação. A literatura marginal de Ferréz, portanto, parece apropriar-se da escrita literária colocado-a em diálogo com o que ela própria silenciou. E somente na marcação desse território, desse espaço social e geográfico segregado ocupado pelo sujeito marginal, elaborada a partir da oposição ao outro que não é marginal, o autor pode ocupar esse lugar de enunciação para significar-se na marginalidade e não ser significado por ela ou pelo outro. Nesse movimento que se constitui em constante tensão e conflito com o centro, como o “asfalto”, perguntamos: O que dizem essas vozes? Ou melhor, quais são as construções e estratégias que o autor utiliza para falar e fazer com que sejam ouvidas essas vozes em seu gesto literário? Para desenvolver nossos argumentos, nos apoiaremos nos pressupostos teóricos de autores que desenvolveram questionamentos sobre a representação da alteridade tanto dentro do campo literário quanto no plano social, a política do lugar e as relações do sujeito com o espaço, tais como Michael Foucault, Regina Dalcastagnè, Heloisa Buarque de Hollanda e Milton Santos. Palavras-chave: representação contemporânea. da alteridade; acesso à voz; literatura brasileira

Luiz Eduardo Neves da Silveira (Ufes) TRANSNAÇÃO HIP-HOP: A VIAGEM DO DISCURSO SEM FRONTEIRAS O hip-hop é um movimento cultural que surgiu na Jamaica, por volta dos anos 60. Divertido e reflexivo, versava sobre as carências da população local. Com o acesso aos meios de transportes, em meados de 1970, iniciou-se uma onda de migrações das populações do terceiro mundo para os Estados Unidos, onde o então novo movimento cultural desenvolveu as suas próprias tecnologias de atuação e produção. Com o retorno dos filhos do terceiro mundo para as suas terras natais, o hip-hop entrou em contato com outros guetos, com os mesmos problemas de Kingston e do Bronx. Palavras-chave: Hip-hop; nação; transnacional. Marcela Ribeiro Pacheco Paiva (Mestranda-Ufes) MORTE DO PAI E UNIVERSO DA CULPA A proposta deste trabalho é abordar o romance “Os Irmãos Karamázovi” e comentar a análise feita por Freud sobre o autor a partir das interseções entre Dostoiévski e seus personagens. Neste último romance do escritor russo, Freud encontra uma variante tardia do tema do complexo de Édipo na qual a rivalidade do filho com o pai pelo amor da mulher é abertamente apresentada, e onde o pai aparece como uma figura degradada e repulsiva. Como todos os filhos, com exceção de Aliócha (segundo Dostoiévski, o herói da estória) sofrem a repercussão do assassinato do pai, a questão que se evidencia é a de uma culpa transindividual que, como tal, não recai apenas sobre aquele que realizou o ato, o filho XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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ilegítimo parricida, mas sobre todos os filhos por abrigarem o mesmo o desejo de morte. O próprio título do romance é sugestivo, pois coloca o foco nos irmãos (quando na verdade apenas um deles cometeu o crime) cujo sobrenome Karamázov é um composto, provavelmente, do substantivo Kara: castigo, punição e do verbo mázat: sujar, pintar, não acertar. Assim, Karamazov é todo aquele que, com seu comportamento desacertado, provoca a própria punição. Freud vê neste romance uma rica ilustração da situação encontrada dos casos clínicos que atendia, nos quais a incidência da culpa inconsciente oriunda do complexo de Édipo era fator determinante na produção de sintomas. Ele esclarece a dinâmica dos sintomas mostrando sua raiz em conflitos análogos, tanto em Dostoiévski quanto nos personagens, produzindo efeitos à revelia dos sujeitos que os abrigam sem saber. Nesta via, a epilepsia, interpretada como um sintoma histérico, é uma representação da morte, e a compulsão pelo jogo, funciona como uma forma de punição, conduzindo o sujeito a situações de humilhação e pobreza. Considerando cada um dos filhos, encontram-se disseminados diferentes indícios de uma mesma postura passiva no Édipo. Smerdiakov com suas crises histero-epilépticas fornece disso a versão mais psicopatológica, mas, além dos sintomas psicopatológicos propriamente ditos, essa posição se revela de forma mais sutil em esferas em que a relação paterna constitui o fator decisivo, ou seja, em Dimitri e sua estranha relação com os rivais no amor; na atitude independente de Ivan perante a autoridade do Estado e a crença em Deus que culmina, entretanto, na sua loucura e, finalmente, em Aliocha, o caçula, no seu apego surpreendente a Deus e a Pátria. Assim, um certo viés de leitura da ficção, cujas diretrizes destacamos neste trabalho, deu a Freud acesso à vida psíquica do autor, através da análise de personagens que, como ele, denotam brilhantismo, inteligência e aprisionamento. Mas, em se tratando de uma obra prima, a análise freudiana vai além do interesse pelo aspecto clínico do autor e dos personagens. Diremos mesmo que as considerações mais destacadas na leitura freudiana deste romance dizem respeito às dimensões específicas à obra literária que não estão presentes necessariamente nos sintomas encontrados na clínica, pois são características das obras de arte e condicionam a sua recepção. Pois este grande romance, muito além da biografia particular do autor, toca em aspectos universais da condição humana, razão pela qual tem sido capaz de captar o interesse dos mais diversos e variados leitores, pertencentes a diferentes épocas e culturas. Palavras-chave: Dostoiévski; Freud; parricídio. Prof. Me. Marcelo Antonio Milaré Veronese (Doutorando-Unicamp) A INTERTEXTUALIDADE NA PRIMEIRA POESIA DE ROBERTO PIVA Este projeto pretende desenvolver um estudo da poesia de Roberto Piva (1937-2010), particularmente de sua fase inicial (primeira metade da década de 60), propondo uma análise intertextual pelas referências literárias presentes em sua obra, e na maneira como funcionam de matriz poética para a constituição de sua própria poesia. O corpus de poemas a serem analisados nesse estudo é: o longo poema intitulado “Ode a Fernando Pessoa”; os pequenos manifestos em prosa-poética conhecidos como “Os que viram a carcaça”; e os livros "Paranoia" e "Piazzas". Destacam-se para o presente estudo, dentro do caráter dialógico da poesia de Piva com a literatura, bem como de sua análise, a referência (citação ou alusão) em seus poemas dos autores Mário de Andrade e Allen Ginsberg. O estudo da intertextualidade literária na poesia de Piva como procedimento particular de composição de seu texto autoral XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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compreendendo as interpretações através de sua dicção própria - então, proporciona uma melhor e mais ampla visão da obra deste autor.” Este projeto propõe o estudo do conceito da intertextualidade com base na poesia de Roberto Piva (1937-2010), poeta paulistano que integrou a chamada Geração 60 em São Paulo e que estreou em 1963 com o livro Paranoia (reeditado diversas vezes), tendo suas obras reunidas recentemente publicadas em três volumes por uma grande editora, abrangendo um total de onze livros lançados anteriormente, além de um livro inédito em 2008, chamado Estranhos Sinais de Saturno. O diálogo intertextual entre autores se mostra importante prática literária de leitura e criação poética na atualidade. Aqui, parte-se do referencial intertextual entre Roberto Piva e os dois seguintes poetas: 1) Mário de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, considerando dois de seus livros de poesia, a saber: Paulicea Desvairada (1922) e Lira Paulistana (1940); 2) Allen Ginsberg (EUA), um dos grandes poetas norte-americanos da segunda metade do século XX, integrante da Geração Beat, conhecido principalmente pelo seu primeiro livro Howl and other poems (1954). Ao examinar com detalhe a poética de Piva e suas características mais particulares, a impressão que permanece é a de tomar contato com uma criação sem lugar definido na tradição literária brasileira. Nesse processo, parece haver mesmo, por parte de Piva, desejo de distanciamento de qualquer grupo ou tendência literária, embora, por outro lado, a sua obra revisite e se construa justamente pelo viés da tradição de linhas e autores de tempos diversos da literatura universal, muitas vezes exemplares em relação ao cânone literário mais aceito usualmente. A contradição que, de início, se instala, corrobora então para uma análise mais específica dos procedimentos poéticos adotados por Piva, posto que a manutenção dessa oposição (entre tradição e originalidade, ou influência e novidade, por exemplo), e não sua dissolução, possibilita uma melhor aproximação do que seria a dicção poética mais pessoal desse autor. Nesse sentido, o presente estudo concentra-se na pesquisa da intertextualidade, no exame do tipo de troca de conceitos, temas, ideias, realizada com estes dois autores, e conduzida sempre pelo fazer-poético de Piva. Através da identificação de versos, passagens e expressões dos textos do poeta que remetem a outros textos destes dois autores, busca-se construir um mapeamento, tão completo quanto possível, de ocorrências intertextuais de sua obra. Dessa forma, toma-se a identificação dos diálogos poéticos na poesia de Piva como condição para a efetuação do projeto, procurando salientar as características singulares geradas por eles em sua obra. Tenta-se também produzir o delineamento teórico mais ajustado ao tipo de análise crítica intertextual a conduzir o trabalho. Palavras-chave: poesia brasileira; Roberto Piva; intertextualidade. Prof. Me. Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi LIMIARES DA FICCIONALIDADE NA ESCRITA DE VALÊNCIO XAVIER (em co-autoria com Mayra Helena Alves Olalquiaga e Fernanda Valim Côrtes Miguel) A partir de uma leitura do conto “Rremembranças da menina de rua morta nua”, que dá título à coletânea em que foi publicado, este artigo propõe uma discussão do informe e do sombrio na escrita de Valêncio Xavier. A partir da noção de rastro de Jacques Derrida, o artigo explora XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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a construção da narrativa-fragmento de Xavier e seus rastros iconográficos, que recuperam memórias da dor, da feiúra e da morte, e apontam para os limites entre realidade e ficção, erotismo e violência, sensacionalismo e barbárie. O projeto literário de Xavier se constitui na tensão estabelecida entre o fazer literário e discursos formadores de práticas sociais, como o discurso jornalístico, em que o espaço ficcional aparece como espaço de instabilidade e de experiências vazias, de sentido, de redenção, de racionalidade, de explicação. Trazendo para o campo literário o texto e a imagem jornalísticos para narrar o assassinato de uma menina de rua em um parque de diversões de São Paulo, a escrita de Xavier rompe o limite seguro e aceitável da literatura tradicional, dissolvendo-o em um estreitamento tênue e obscuro com o caráter real do cotidiano da sociedade brasileira. Por meio dos rastros (e dos rastros dos rastros) que se entrecruzam na escrita de Xavier, pode-se afirmar que o limiar entre o ficcional e o real atravessa as fronteiras literárias para a configuração dos elementos constituintes da performance art. Para Hans Lehmann os conceitos performáticos têm como um dos eixos norteadores a busca da ação real, em contraposição às ações simuladas. O conto de Xavier possui em seu enredo um processo gradativo de transformação, em que o caráter do real é dado a todo instante, diluindo a barreira entre ilusão e realidade. A narrativa da morte da menina, atravessada por elementos constituintes da performance, denuncia o processo de consumo e de esquecimento que marca a vida nas grandes cidades, o consumo de vidas, da miséria alheia, da morte e da tragédia alheia. A escrita de Valêncio Xavier se apresenta como escrita do desvio e do informe, em que o sentido produzido não é dissociável do estranhamento e do horror causados pelo fato recuperado. Residiria justamente aí, nesses jogos de cena, jogos de linguagem e processos metonímicos, uma força expressiva e intensa. Não se trata do próprio sujeito narrador de sua história de trauma, mas da própria narrativa que reflete, como num jogo espectral, a questão da ficcionalidade e da construção estética da ficção. Palavras-chave: Valêncio Xavier; ficcionalidade; limiares. Prof. Me. Marcelo Lins de Magalhães (Doutorando-Uerj) PRESSÁGIOS, MARCAS E TERRITÓRIOS: EMERSON, THOREAU, WALTERCIO CALDAS E RICHARD SERRA (em co-autoria com Marcus Alexandre Motta) Objeto de pesquisa e elementos examinados Esta proposta parte da seguinte pergunta: Como uma obra plástica é capaz de modificar o nome da literatura? Tal indagação ganha relevo na qualidade pressagiadora das escritas literárias americanas de Ralph Waldo Emerson e David Henry Thoreau, como herança cultural no campo das artes, que por sua vez encontra nas esculturas Omkring de Waltercio Caldas e Schunnemunk Fork de Richard Serra o seu acolhimento. Este lugar de acolhimento em uma obra, que constitui a preservação daquilo que é herdado, por sua vez está assegurado na própria indeterminação do acontecimento da arte que tais esculturas sustentam. Em uma perspectiva comparada, substancia-se assim todo um percurso de correspondências, capaz de fazer conversar acontecimentos aparentemente tão distintos como palavra e imagem. O que aqui se coloca é o reconhecimento de que arte é uma forma de saber, identificada no ambiente de um plano narrativo. Se assim puder ser, reconhecemos então a conversão do processo de escrita literária de Emerson e Thoreau, no encaminhamento de uma espécie de mensagem ou resposta que parece ter como destinatário tais esculturas. Orientação teórica Se ao seu modo essas esculturas são herdeiras de Emerson e Thoreau, contudo, tal herança tem no ordinário uma espécie de inquietação, como um pacto necessário na XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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contemporaneidade. Por sua vez isto que herdado é também a marca de uma tensão entre literatura e filosofia, uma tensão acerca da continuidade ou descontinuidade da existência destas categorias. Este quadro é entendido por Stanley Cavell como romantismo, palco de aproximações ou acusações reiteradas entre filosofia e literatura. Por sua vez, o ceticismo como desejo humano de negar a condição de existência humana circunscreve esta luta sobre o que se diz quando se fala de literatura ou filosofia. A obra de arte, como gesto indagador de canones filosóficos, oferece-se assim como a contrapartida necessária para uma resposta. Em Omkring de Waltercio e Schunnemunk Fork de Serra, tal ceticismo é da ordem de um gesto que aponta para as coisas comuns e as perde em seguida, o que conduz ao (re)conhecimento das mesmas. Assim, na paisagem americana de Thoreau e Emerson, um território poético é delineado pela potência com que tais esculturas produzem indiferença com a natureza; uma pende na beira de um penhasco, outra atravessa a terra... E se assim puder ser, o grau de incerteza que acarreta o desejo humano de negar a condição de existência humana converte a marca destas escrituras, a noção de autor, em ninguém. Palavras-chave: presságio; marca; território. Marcos Pasche (Doutorando-UFRJ) FERRÉZ: DE SOLA NO SOCIAL Este trabalho pretende analisar a obra de Ferréz enfocando os aspectos que a caracterizam como um projeto de efetiva atuação social, além do âmbito da produção literária. A publicação dos livros do autor paulistano não se configura “apenas” como empreitada artística individual: ela recoloca questões referentes ao papel do intelectual diante das desarmonias coletivas e o papel da própria literatura como instrumento direto de resistência, especialmente nos espaços periféricos dos grandes centros urbanos. Procuraremos destacar que a obra de Ferréz não se limita ao registro do protesto: ela se pretende um trabalho cotidiano de afirmação de identidades específicas e de luta pela democratização das benesses sociais. Tentaremos observar, a partir de nossos questionamentos, como se dá, dentro de tal contexto, opiniões referentes ao suposto fim das ideologias e da inutilidade da literatura. Em nosso estudo, buscaremos apoio especialmente nos estudos de Alfredo Bosi (“A escrita e os excluídos”), Antonio Candido (Literatura e sociedade) e Joel Rufino dos Santos (Épuras do social: como podem os intelectuais trabalhar para os pobres). Palavras-chave: Ferréz; Literatura; sociologia Marcos Ramos (Graduando-Ufes) A POESIA COMO CONVOCAÇÃO (SOBRE CASÉ LONTRA MARQUES) Na obra de Casé Lontra Marques a profusão de linhas mestras evita um delineamento muito pontual, uma definição que se encerre em um núcleo temático. O estilhaço existencial que se dilui na língua impede a fixação de um único pilar que sustente a potência dessa poesia. Supomos, entretanto, que a escrita de Casé Lontra Marques tenha como movimento maior o de intensificar uma desorientação (ou uma "reorientação dos atos de distração"); o passo que rompe o silêncio do sujeito (ora expressão minimalista da contenção da fala ora uma repetição imoderada e tautológica) e conduz ao desconforto da proposição de novas estruturas de fala (uma possibilidade de alargamento da intensidade, a imposição dos ilimitados mares inacabados ou de um campo de ampliação). Encontramos, na obra do poeta, uma contundente proposição de fala; o poeta persegue “tanto ritmos quanto cores” e compõe, em movimento de procura (por sintaxes, repetições, XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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ressignificações), uma ácida e sofisticada crítica política da subjetividade: a poesia, “área de sobrevivência”, sem recusar a urgência do corpo depositado sobre o asfalto, propõe uma extensão da experiência, a possibilidade de “conhecer com mais braços para criar”, como afirma em A densidade do céu sobre a demolição; e o leitor é com-vocado (convidado a tomar a palavra e romper a fala ausente). Nos livros de Casé Lontra Marques, chama atenção uma subjetividade que, longe de toda assepsia impessoal, encena e é encenada, como garante Maria Esther Maciel, "ora através de um 'nós' cauteloso, ora através de um jogo de aparecimento/desaparecimento", a consciência de uma "outridade" que se revela a) no edifício temático (violência, cidade, corpo, desconforto, apatia), b) na ressignificação e no diálogo com a tradição literária (há densos diálogos e discussões, principalmente, com a poesia de Fiama Hasse Brandão, Herberto Helder, Camões, João Cabral de Melo Neto, Orides Fontela); e c) numa arqueologia do sujeito – o "eu", na poesia de Casé Lontra Marques, suscita demasiado interesse, pois se revela e se oculta com exatidão, ao mesmo tempo que se configura ciente da crise de uma subjetividade privatizada, não nega um sujeito, ao contrário, assume, pontualmente, uma subjetividade demarcada, como podemos observar nos versos de seu primeiro livro: "Aluguei um quarto, falta/ agora a solidão. Serei// todo paredes// para o incêndio// prestes// a respirar". Ou ainda, "Agora// que encontrei para onde/ voltar, pretendo/ apenas ter passos de prosseguir". E em diversos outros momentos. Supomos ainda que haja nessa poesia uma provocação na (e pela) linguagem (a incessante obsessão pela sintaxe, pelo ritmo, pela imagem) que quer exceder a elaboração do sujeito. A partir destas premissas pretendemos a) averiguar um possível deslocamento (para os estudos literários) do conceito clínico freudolacaniano de Trauma e b) pensar uma aproximação entre a noção de Trauma, oriunda da psicanálise, e de Poesia como atividade do Espírito, elaborado por Martin Heidegger. Palavras-chave: Casé Lontra Marques; poesia (Heidegger); trauma (Freud/Lacan). Prof. Dr. Marcus Alexandre Motta (Uerj) PRESSÁGIOS, MARCAS E TERRITÓRIOS: EMERSON, THOREAU, WALTERCIO CALDAS E RICHARD SERRA (em co-autoria com Marcelo Lins de Magalhães) Objeto de pesquisa e elementos examinados Esta proposta parte da seguinte pergunta: Como uma obra plástica é capaz de modificar o nome da literatura? Tal indagação ganha relevo na qualidade pressagiadora das escritas literárias americanas de Ralph Waldo Emerson e David Henry Thoreau, como herança cultural no campo das artes, que por sua vez encontra nas esculturas Omkring de Waltercio Caldas e Schunnemunk Fork de Richard Serra o seu acolhimento. Este lugar de acolhimento em uma obra, que constitui a preservação daquilo que é herdado, por sua vez está assegurado na própria indeterminação do acontecimento da arte que tais esculturas sustentam. Em uma perspectiva comparada, substancia-se assim todo um percurso de correspondências, capaz de fazer conversar acontecimentos aparentemente tão distintos como palavra e imagem. O que aqui se coloca é o reconhecimento de que arte é uma forma de saber, identificada no ambiente de um plano narrativo. Se assim puder ser, reconhecemos então a conversão do processo de escrita literária de Emerson e Thoreau, no encaminhamento de uma espécie de mensagem ou resposta que parece ter como destinatário tais esculturas. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Orientação teórica Se ao seu modo essas esculturas são herdeiras de Emerson e Thoreau, contudo, tal herança tem no ordinário uma espécie de inquietação, como um pacto necessário na contemporaneidade. Por sua vez isto que herdado é também a marca de uma tensão entre literatura e filosofia, uma tensão acerca da continuidade ou descontinuidade da existência destas categorias. Este quadro é entendido por Stanley Cavell como romantismo, palco de aproximações ou acusações reiteradas entre filosofia e literatura. Por sua vez, o ceticismo como desejo humano de negar a condição de existência humana circunscreve esta luta sobre o que se diz quando se fala de literatura ou filosofia. A obra de arte, como gesto indagador de canones filosóficos, oferece-se assim como a contrapartida necessária para uma resposta. Em Omkring de Waltercio e Schunnemunk Fork de Serra, tal ceticismo é da ordem de um gesto que aponta para as coisas comuns e as perde em seguida, o que conduz ao (re)conhecimento das mesmas. Assim, na paisagem americana de Thoreau e Emerson, um território poético é delineado pela potência com que tais esculturas produzem indiferença com a natureza; uma pende na beira de um penhasco, outra atravessa a terra... E se assim puder ser, o grau de incerteza que acarreta o desejo humano de negar a condição de existência humana converte a marca destas escrituras, a noção de autor, em ninguém. Palavras-chave: presságio; marca; território. Prof. Me. Marcus Vinicius Marvila das Neves (Ufes) ENTRE SINS E NÃOS: ESCUTANDO “TODOS OS SONS”, DE AUGUSTO DE CAMPOS O poema em questão, “Todos os sons” (1979), é da safra dos Expoemas – criados entre 1979 a 1985, impresso também na antologia Despoesia (1985) – e configura-se como uma homenagem do poeta Augusto de Campos (1931-) ao artista estadunidense John Cage (19121992), conforme o próprio poeta confirmara em entrevista a J. Jota de Moraes, em Música de invenção (CAMPOS, 1998). Na verdade, “Todos os sons” é o terceiro poema a homenagear o músico, já que antes dele vieram à baila “Hom’cage to Webern” (1972) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977), reforçando a aproximação e empatia do escritor com a poética cageana. O jogo tipográfico e espacial, logo as diversas possibilidades de leitura, a convivência de palavras antagônicas no mesmo espaço, assim como a ideia de acaso somam forças para a construção do poema e serão discutidos nesta comunicação, tendo como reflexão subjacente esses pontos (in)comuns entre os dois artistas até a data de concepção do poema: o ano de 1979. Não nos passarão despercebidas também as citações a outros dois músicos de grande importância para o cenário brasileiro, João Gilberto (1931-), e mundial, Anton Webern (18831945) que, a nosso ver, apontam marcas de grande valia para entender o direcionamento da escuta de Augusto de Campos já no final da década de 1970 em torno do conceito de invenção. A saber, estes dois compositores já haviam se encontrado pelas mãos do poeta nas páginas de Balanço da bossa e outras bossas (1974, 2. ed.), no texto-coisa “João Gilberto / Anton Webern”. Diante deste panorama que se forma em torno de “Todos os sons”, e os pontos tangentes entre música e poesia que dele sobressaltam, utilizaremos como fortuna crítica para dialogar com o poema os discursos de Aguilar (2005), Pound (1977), Cage (1985), Terra (2000), Sterzi (2004), Guimarães (2004), Jackson (2004), Napolitano (2006), Dick (2010), além, é claro, de outros escritos e das antologias Viva Vaia (1979; 2001), Despoesia (1994) e Não (2003) do próprio poeta estudado. Palavras-chave: Augusto de Campos; acaso; escuta. Profa. Dra. Maria Amélia Dalvi (Ufes) O LIVRO DIDÁTICO DE LITERATURA TEM UM AUTOR: QUE AUTOR É ELE? XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que empreende uma sistematização da discussão teórica contemporânea atinente à questão da autoria de/em impressos escolares, como é o caso dos livros didáticos de literatura produzidos para a educação básica, que são aqui o foco principal. Parte-se de uma perspectiva histórico-cultural, conforme a entende Roger Chartier, em A História Cultural: entre práticas e representações (1990); concebem-se, pois, as práticas e representações sobre a produção de materiais didáticos como relacionadas a apropriações específicas dos discursos acadêmico-científicos, educacionais e editoriais, no seio de cambiantes comunidades de interpretação. Na apresentação dos resultados expõem-se, em consonância com Alain Choppin, em “História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte” (2004), dificuldades inerentes às pesquisas na/da área: a definição do objeto; a raridade de obras de síntese; a recente inflação de publicações que se interessam pelos livros didáticos; e a dificuldade de acessar pesquisas divulgadas em línguas estrangeiras. Mostra-se também que o dinamismo das investigações na área resulta de fatores conjunturais, tais como o crescente interesse manifestado pelos que trabalham com História em relação às questões da Educação; o interesse de inúmeras populações em discutir sua identidade cultural e suas instituições (as escolares, por exemplo); os avanços ocorridos na história do livro desde o início dos anos de 1980; o progresso nas técnicas de armazenamento, tratamento e difusão da informação; a constituição de equipes ou centros de pesquisa que se dedicam às questões específicas do livro e das edições didáticas; e as incertezas em relação ao futuro do livro impresso e em relação ao papel que os livros didáticos desempenharão frente às novas tecnologias educacionais. Discute-se brevemente a diversidade de abordagens, explicando-a pela complexidade do objeto, pela multiplicidade de suas funções, pela coexistência de outros suportes educativos e pela diversidade de agentes que envolve. Na sequência, assinala-se que o influxo de pesquisas brasileiras sobre o livro didático acompanha o desenvolvimento de nossa produção editorial, conforme assinala Décio Gatti Jr., em “Estado e editoras privadas no Brasil: o papel e o perfil dos editores de livros didáticos” (2005). Isso porque, dos anos 1950 ao final da década de 1970, de acordo com André Pirola, em O livro didático no Espírito Santo e o Espírito Santo no livro didático (2008), o Brasil começava uma reflexão sistemática sobre manuais escolares e, nesse primeiro momento, a pesquisa acadêmica tendia para o processo de crítica cultural, investigando o conteúdo ideológico dos manuais; já no segundo momento (ou seja, a partir dos anos 1980), acumularam-se questionamentos sobre o ensino e a finalidade dos manuais escolares, sobretudo tendo como foco a análise das políticas públicas sobre o livro didático. Na atualidade, que identificaríamos como um terceiro momento da produção acadêmica brasileira sobre os livros didáticos, a discussão sobre a autoria e a sua relação com projetos editoriais e programas oficiais é um dos temas candentes. A produção teórica pertinente a esse debate é o que, privilegiadamente, se discute e exemplifica, por meio de livros didáticos de literatura, neste trabalho. Palavras-chave: livro didático; ensino de literatura; autoria. Profa. Me. Maria Inês de Moraes Marreco (Doutoranda-Puc-MG) A LITERATURA DO “EU” NA OBRA MEMORIALÍSTICA DE MARIA HELENA CARDOSO No passado o gênero memorialista era visto em função do conhecimento que o leitor podia auferir a respeito da vida particular de um determinado indivíduo. Contudo, nas últimas décadas, o projeto autobiográfico vem absorvendo grande variedade de interesses, demonstrando que a leitura de uma autobiografia, associada ao escrutínio crítico do contexto em que foi produzida, pode fornecer uma visão ampla não somente do autobiógrafo, mas também das condições sociais, culturais, políticas e psicológicas que gravitam em torno de quem escreve a seu respeito. Por outro lado, uma leitura histórica, literária e social da autobiografia pode proporcionar o resgate de escrituras em alguns casos obscuras ou mal interpretadas, tanto para representar, compreender vidas individuais e particulares, como XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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testemunhar eventos históricos marcantes, estabelecendo uma corrente de interesses comuns capaz de promover mudanças educativas, políticas e sociais, ou contribuir para a própria teoria do memorialismo como gênero. O interesse que a autobiografia feminina vem despertando nos meios acadêmicos pode revitalizar literaturas consideradas marginais ou periféricas, num sistema literário diferenciado, oportuno quando se discute o cânone e se tenta resgatar a literatura periférica (dita marginal). Particularmente, a literatura pós-colonial, que ao constituir os alicerces sobre os quais problematizar a questão do gênero, pode ser passível de uma ampla abordagem: literária e feminista, social e política, com o intuito de aprofundar esses dualismos, buscando a interpretação do fato autobiográfico muito além da questão do gênero. Buscaremos, pois, através do relato memorialístico das experiências de Maria Helena Cardoso, entender, dentre outros aspectos, a dinâmica das cidades do interior da Minas Gerais de seu tempo, com suas modificações no cenário econômico e social, na rotina das cidades, no comportamento da juventude, das famílias e das instituições culturais, religiosas e políticas. Ao propor uma releitura da escrita de Maria Helena Cardoso, no intuito de resgatar uma obra esquecida, pretendo salientar a importância da autora na recuperação de dados importantes para a memória de uma época. Partiremos do princípio que o memorialismo tem como característica relatos autobiográficos, que se manifestam em diversos gêneros literários (autobiografia, diário, correspondência, literatura de viagens, poesia lírica, etc), e cujas marcas principais são a subjetividade e o confessionalismo real ou fictício. Considerando que a escritura memorialística pode abarcar múltiplas dimensões e funções, neste trabalho, procuraremos investigar os vários percursos pelos quais o gênero autobiográfico enveredou ao longo da história ocidental do século XX. Para demonstrar que o memorialismo, além de fruto da criação de alguns escritores no intuito de revelar vieses literários e ficcionais, pode também trazer aspectos cognitivos, psicológicos e sociológicos, faremos uso do suporte teórico de: Alba Olmi, Ruth Klüger, Hans J. Markowitsch, Jeanne-Marie Gagnebin, Susanna Busato, Sigmund Freud, Henri Bergson e Umberto Eco, Gilles Deleuze, Walter Benjamin, Jacques Le Goff, Ecléa Bosi, Lúcia Castello Branco, Cesar Guimarães, dentre outros. Palavras-chave: memorialismo; autobiografia; Maria Helena Cardoso. Profa. Me. Maria Lúcia Kopernick (Doutoranda-Ufes) A ESCRITA AUTORAL COMO ETIQUETA DE SI. BREVE PASSEIO PELO TERRITÓRIO POÉTICO DE VIVIANE MOSÉ A proposta deste passeio é visitar a poética de Viviane Mosé, cujos textos contêm uma clara e intensa relação com a sua própria imagem, evidenciando tendências contemporâneas que abordam a questão da escrita de autoria. Nesta perspectiva, pretendemos examinar algumas de suas reflexões contidas em dois livros: Desato (2006) e Pensamento chão. Poemas em prosa e verso (2007), reflexões que apontam marcas de sua biografia, assim nos levando a crer numa manifesta escrita autoral. Como ponto de apoio teórico para o exame do assunto que pensamos desenvolver, tomamos as leituras de Diana Irene Klinger, em sua proposta de redefinir o conceito de autoficção, dando conta do paradoxo narcisismo midiático versus crítica do sujeito, e de Maria Lúcia de Barros Camargo, em sua análise da cena poética recente no Brasil, a partir da publicação de revistas impressas e eletrônicas. Outros teóricos e/ou filósofos ainda poderão se apresentar diante da necessidade do texto. Palavras-chave: poesia; autoria; autoficção Marihá Barbosa e Castro (Graduanda-Ufes) A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE COLETIVA NA POESIA DE LEILA MÍCCOLIS

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Leila Míccolis é uma autora carioca que vivenciou os duros anos da Ditadura Militar brasileira e iniciou sua trajetória literária dentro do contexto dos anos 70. Muitas vezes, sua poesia está afinada com a de seus contemporâneos, que receberam as alcunhas “poetas marginais” e “geração mimeógrafo”. Dessa forma, a crítica à censura e à repressão exercida pelo governo militar são temas recorrentes em sua obra. Entretanto, seus poemas trazem diversos outros temas, transformando-se em vozes para as minorias socialmente excluídas e discriminadas: não raro, seus versos denunciam a submissão socialmente construída da mulher ao homem, a redução do sexo feminino a um objeto de prazer, a repressão sexual sofrida pelas mulheres – sempre expostas a julgamentos e a condenações por não se comportarem conforme o padrão esperado – e as muitas outras formas de exclusão que estão cristalizadas, como a homofobia, o racismo e o preconceito social. A linguagem de Leila Míccolis, despojada e prosaica, está carregada de humor, ironia e sarcasmo. A ironia foi a arma eleita pela autora para atacar as instituições sociais que delimitam espaços para homens e mulheres e que fomentam preconceitos raciais e sociais. Através da análise da coletânea O bom filho a casa torra, que reúne poemas publicados entre 1965 e 1991, este artigo pretende verificar de que maneira a obra de Leila Míccolis se aproxima do conceito de Testemunho e, mais especificamente, da acepção “Literatura de Testemunho”, que faz referência a autores como Primo Levi e Luiz Alberto Mendes, que narram experiências traumáticas em que a proximidade da morte e da dor se potencializa. Esses escritores dão testemunho de catástrofes e colocam a linguagem a serviço da coletividade, da memória e da ética. Dessa forma, uma reflexão sobre os valores estéticos e seus fundamentos vem à tona, fragilizando a tradição canônica e trazendo dificuldades para a teoria literária tradicional. Essa nova maneira de criar literatura se solidariza com as vítimas de violência e de exclusão social ao mesmo tempo em que produz uma linguagem que indica a impossibilidade de representação da catástrofe. Levando em consideração a representação da experiência e da dor coletiva, é possível pensar sobre o teor testemunhal dos poemas de Leila Míccolis, que representam as vozes de grupos marginalizados pela sociedade acomodada. Para desenvolver essa discussão, textos como “Linguagem e trauma na escrita do testemunho”, de Jaime Ginzburg, “Políticas do silêncio e interditos da memória na transição do consenso”, de Edson Teles e “As ciladas do trauma: considerações sobre história e poesia nos anos 1970”, de Beatriz de Moraes Vieira, serão fundamentais. Palavras-chave: Leila Míccolis; Literatura de testemunho; coletividade Profa. Me. Mayra Helena Alves Olalquiaga (Doutoranda-UFMG) LIMIARES DA FICCIONALIDADE NA ESCRITA DE VALÊNCIO XAVIER (em co-autoria com Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi e Fernanda Valim Côrtes Miguel) A partir de uma leitura do conto “Rremembranças da menina de rua morta nua”, que dá título à coletânea em que foi publicado, este artigo propõe uma discussão do informe e do sombrio na escrita de Valêncio Xavier. A partir da noção de rastro de Jacques Derrida, o artigo explora a construção da narrativa-fragmento de Xavier e seus rastros iconográficos, que recuperam memórias da dor, da feiúra e da morte, e apontam para os limites entre realidade e ficção, erotismo e violência, sensacionalismo e barbárie. O projeto literário de Xavier se constitui na tensão estabelecida entre o fazer literário e discursos formadores de práticas sociais, como o discurso jornalístico, em que o espaço ficcional aparece como espaço de instabilidade e de experiências vazias, de sentido, de redenção, de racionalidade, de explicação. Trazendo para o campo literário o texto e a imagem jornalísticos para narrar o assassinato de uma menina de rua em um parque de diversões de São Paulo, a escrita de Xavier rompe o limite seguro e aceitável da literatura tradicional, dissolvendo-o em um estreitamento tênue e obscuro com o XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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caráter real do cotidiano da sociedade brasileira. Por meio dos rastros (e dos rastros dos rastros) que se entrecruzam na escrita de Xavier, pode-se afirmar que o limiar entre o ficcional e o real atravessa as fronteiras literárias para a configuração dos elementos constituintes da performance art. Para Hans Lehmann os conceitos performáticos têm como um dos eixos norteadores a busca da ação real, em contraposição às ações simuladas. O conto de Xavier possui em seu enredo um processo gradativo de transformação, em que o caráter do real é dado a todo instante, diluindo a barreira entre ilusão e realidade. A narrativa da morte da menina, atravessada por elementos constituintes da performance, denuncia o processo de consumo e de esquecimento que marca a vida nas grandes cidades, o consumo de vidas, da miséria alheia, da morte e da tragédia alheia. A escrita de Valêncio Xavier se apresenta como escrita do desvio e do informe, em que o sentido produzido não é dissociável do estranhamento e do horror causados pelo fato recuperado. Residiria justamente aí, nesses jogos de cena, jogos de linguagem e processos metonímicos, uma força expressiva e intensa. Não se trata do próprio sujeito narrador de sua história de trauma, mas da própria narrativa que reflete, como num jogo espectral, a questão da ficcionalidade e da construção estética da ficção. Palavras-chave: Valêncio Xavier; ficcionalidade; limiares. Michel Mingote (UFMG) ERRÂNCIAS: VAGABUNDEIO, DERIVAS E DESTERRITORIALIZAÇÃO EM CRÔNICA DE UM VAGABUNDO, DE SAMUEL RAWET O presente trabalho abordará o conto Crônica de um vagabundo, do escritor Samuel Rawet, considerando os aspectos descentralizadores do texto, sejam eles a errância, o exílio, a fragmentação e a desterritorialização. Alguns estudiosos da obra do autor já apontaram essa possibilidade de abordagem, como Nelson Oliveira e Stefania Chiarelli, ou seja, a necessidade de se pensar a escrita de Samuel Rawet não se atendo apenas a uma representação de figuras históricas judaicas em sua obra, por exemplo. O teórico Gilles Deleuze ancorará tal leitura, além de outros pensadores como Marshall Berman, Michel Maffesoli e Walter benjamim. Esses aspectos serão abordados em relação à configuração do espaço urbano em sua narrativa, que se torna um espaço labiríntico. Nesse sentido, será apresentada uma diferenciação em relação à figura clássica do flâneur, e, através das figuras do labirinto e do nomadismo, será analisada a narrativa do conto, que apresenta um personagem que perambula por esse espaço citadino, sem ponto de partida e nem de chegada. Essa forma de ocupar o espaço urbano, de vagar sem destino, de vagabundear na cidade, configura a possibilidade de se pensar uma escrita marginal, que rompe com o sistema de significação dominante, ao apresentar a figura do vagabundo, de um homem sem profissão, sem qualidades. O pensamento do filósofo Gilles Deleuze também contribuirá para se pensar a escrita como um processo de devir, sempre inacabado. Assim, antes de se pensar no estado representativo da linguagem, por exemplo, quando se analisa a representação do estrangeiro nos textos literários, é através da própria escrita que o escritor torna-se um imigrante, um estrangeiro, um marginal. Segundo o filósofo, escrever é traçar linhas de fuga na escrita, cartografar. O texto de Samuel Rawet, ao aceitar o jogo do labirinto descentralizado, é encaminhado por fluxos, zonas de delírio em que não se sabe se o protagonista sonha, delira, vivencia ou narra o acontecido. A narrativa se imbrica, discurso direto, indireto livre, se potencializa, e alguns personagens fantasmas afloram no texto, despejam seu discurso singular e desaparecem na narrativa que já encadeia outro fluxo, outra linha de fuga. Outra questão refletida na dissertação foi o embate apontado por Renato Cordeiro Gomes, no seu livro Todas as Cidades, a cidade, um estudo sobre literatura e cidade. O autor problematiza a questão cara à modernidade urbana: a tentativa de um projeto racional-geométrico para ordenar as cidades. Tal projeto considera a conformação dos prédios, casas e ruas atendendo a um XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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processo extremamente racionalizante e funcional, cujo destino último seria a eficácia da disposição humana no território e a orientação efetiva para uma „mobilidade‟ dinâmica do sujeito de um ponto a outro traçado pelas diversas obrigações. Entretanto, essa racionalidade geométrica entra em tensão com uma porção de afetos, perceptos, fluxos, intensidades, singularidades do emaranhado das existências humanas que percorrem as trajetórias “estriadas”, delineadas da megalópole. Essa tensão, esse embate é flagrado nos deslocamentos do personagem de Samuel Rawet, como se ele cavasse, redesenhasse, remapeasse na racionalidade geométrica espaços “outros”. A que se considerar também o fato de o personagem caminhar pelos subúrbios, por vezes à noite, onde ele trava contato com outros personagens à margem da cidade. Palavras-chave: Samuel Rawet; literatura e errância Michele Freire Schiffler (Doutoranda-Ufes) (em co-autoria com o Prof. Dr. Jorge Nascimento e Andressa Nathanalidis) Qual a importância de certo tipo de produção artística contemporânea no que tange às possibilidades de construção de processos reflexivos que levem à atuação social? Partindo da percepção de Heloisa Buarque de Hollanda de que “vamos ter que repensar, com radicalidade, nosso papel como intelectuais tanto no campo social, como no acadêmico e artístico”, o nosso Simpósio pretende aglutinar trabalhos que se baseiem na reflexão acerca da nova produção artística brasileira que se insira no eixo temático da(s) “marginalidade(s)”. Dessa forma, quer seja do campo literário ou audiovisual, abordaremos obras – tanto de escritores e/ou artistas das periferias, como de outros – que tratem de temas como exclusão social, violência urbana, marginalização, guetização, patrimônio cultural, ancestralidade, hibridismo etc. Palavras-chave: Produção cultural contemporânea; hibridismo; guetização Prof. Dr. Miguel Rettenmaier (UPF) RISCOS E MANUSCRITOS SOB OS RISCOS DO REGIME: A ESCRITA DE JOSUÉ GUIMARÃES O trabalho é resultado de pesquisas realizadas no ALJOG (Acervo Literário de Josué Guimarães) em especial nos datiloscritos e originais manuscritos do escritor e jornalista Josué Guimarães, classificados e organizados nesse acervo, sob a guarda da Universidade de Passo Fundo (RS) desde 2007. Josué Guimarães é um dos mais queridos autores do Rio Grande do Sul. Nascido em 1921, optou desde cedo pela carreira jornalística, na qual ingressa em 1939 sendo, a partir daí, ilustrador, diagramador, colunista, cronista, correspondente internacional, redator-chefe e diretor na imprensa do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, do Paraná e de Santa Catarina. Sua marca e seu estilo de trabalho estavam, sobretudo, associados à abordagem política. Essa opção tornou Josué Guimarães uma figura pública gaúcha de importância, o que permitiu sua eleição a vereador em Porto Alegre, como o mais votado, em 1951. Suas posições políticas, contudo, e a posição de Diretor da Agência Nacional do governo deposto de João Goulart lhe valeram, entre o ano do golpe de 64 e o fim dos anos sessenta, a condição de clandestino em seu próprio País. A partir dos anos 70, dedica-se também à literatura. Frequente vítima de atos de repressão e de censura, principalmente durante a ditadura militar, Josué Guimarães desenvolveu, na escrita jornalística e literária, artifícios de maior ou menor ordem para escapar da censura do Estado burocrático-autoritário. Da mesma forma, talvez tenha cultivado, por força do quadro de perigos da época, uma espécie de autocensura no desenvolvimento de seu processo criativo, diluindo a linguagem metafórica, em determinados momentos e em determinadas obras, mesmo a um prudente XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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silêncio. No percurso criativo do autor, ao qual, em seu histórico, não faltou a censura a seu primeiro livro, de conteúdo jornalismo, em 1952, As muralhas de Jericó (publicado somente mais de década após sua morte), parecia existir a frequente tutela de um cuidado interior quanto à própria produção literária. Este trabalho pretende apresentar os resultados da investigação no processo de escrita de Josué Guimarães em um contexto estabelecido sob os riscos do regime militar, em específico na obra Um corpo estranho entre nós dois, único texto dramático publicado pelo autor. A análise e a intepretação são realizadas nos prototextos de planejamento do autor, nos esquemas e nos desenhos, que projetavam tanto o roteiro da peça quanto a forma como seria constituído o palco de uma eventual apresentação cênica. Nesse processo, a escrita ganha a amplitude de uma abordagem intersemiótica, na qual os enunciados escritos e os enunciados visuais são observados como fontes de criação dotadas de uma natureza hipertextual, como “um conjunto de documentos ligados dinamicamente, entre os quais caminhos podem ser criados e seguidos” (LEBRAVE, Jean Louis; 2004.) Nesse sentido, os “riscos” de Josué Guimarães – em seus manuscritos e demais prototextos – são trabalhados, levando-se em conta os “riscos” de se escrever em um momento da história brasileira e latino-americana no qual foram sufocadas as liberdades políticas e os abafados os debates ideológicos. Palavras-chave: acervo literário; Josué Guimarães; crítica genética. Miqueline Ferreira de Freitas (Graduanda-Ufes) MEMÓRIA: UM RESGATE HISTÓRICO DO ATOR POLÍTICO “LINDOLFO COLLOR” O objeto de pesquisa para comunicação neste simpósio temático refere-se ao ator político Lindolfo Collor. A proposta consiste em apresentar uma análise das representações das narrativas de sua produção literária, jornalística e política como representante importante no Rio Grande do Sul, com trajetória ascendente ao espaço de poder na esfera federal. Nascido em 04 de fevereiro de 1890 na cidade de São Leopoldo, no Estado do Rio Grande do Sul, atuou como literato, jornalista, deputado estadual, deputado federal e primeiro titular da Pasta do Ministério do Trabalho criado pela entourage em torno do Presidente Getúlio Vargas em 1930. Participou da Aliança Liberal, da Revolução de 30 e foi acusado de envolvimento no Movimento Integralista. Esteve exilado em duas ocasiões, na Argentina nos anos de 1932 a 1933 e na Europa (Alemanha, França e Lisboa) no período de 1938 a 1942. Vindo a falecer no Brasil em 21 de setembro de 1942. Em toda sua vida identificamos grandes obras publicadas. No começo de sua carreira podemos considerar as publicações de obras literárias e livros poéticos, como por exemplo, Bosque Heleno e Poema dos Matizes. No decorrer de sua carreira jornalística observamos a publicação de obras ou coletânea de artigos, tendo abrangências nacionais ou internacionais, como por exemplo, A Reforma do Conselho Municipal e o Projeto Afrânio de Mello Franco (artigos publicados no jornal “A Tribuna” do Rio de Janeiro no ano de 1916) e Europa 1939 (artigos relacionados à política européia publicados no “O Jornal” do Rio de Janeiro no ano de 1939). Não nos esquecendo de suas reflexões sobre a história política brasileira, podemos citar como exemplo, o discurso realizado por Lindolfo Collor na Câmara dos Deputados por ocasião da morte do então Presidente da Paraíba, João Pessoa. São apenas algumas referências da produção ensaísta deste ator político, comumente esquecido no ambiente acadêmico, mas de grande importância para análise do período historiográfico dos anos de 1930 e 1940 do processo republicano brasileiro. Poucos são os intelectuais que deixam à sociedade contribuições literárias como o ator político Lindolfo Collor, aqui apresentado. A orientação teórica proposta para essa análise abordará os autores relacionados à história política, análise de discurso e a história biográfica como, René Rémond e sua obra Por uma história política; Maurice Halbwachs no ensaio A memória coletiva; Jacques Le Goff e sua obra História e Memória; Roger Chartier, A história ou a leitura do XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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tempo; Peter Burke, A Escrita da História: novas perspectivas e Ciro Flamarion Santana Cardoso, Narrativa, Sentido, historia. Palavras-chave: história; representações; biografia. Moisés Nascimento (Mestrando-Ufes) SOB A PENA DO MESTRE: LEITURAS DA CRÍTICA DE ANTONIO CANDIDO AS MEMÓRIAS DE PEDRO NAVA Se a abordagem teórico-histórica que Antonio Candido emprega na Formação da literatura brasileira – momentos decisivos, publicada em 1959, foi bastante questionada e posta à prova, o mesmo parece não acontecer com a crítica literária feita pelo escritor nos seus mais de 50 anos de produção intelectual – dos anos de 1940 até os de 1990. Atento aos pilares que sustentam a arte, o crítico mostra desde os seus primeiros textos uma escrita conhecedora da tradição literária, que nela fundamenta suas análises; e, não obstante, apresenta também uma visão aguda, que percebe as mudanças que o mundo sofre e aponta os rumos, as tendências da literatura do seu tempo. A prova disso é que Candido construiu uma significativa fortuna crítica nos estudos literários sobre autores brasileiros e estrangeiros, sendo, inclusive, o responsável pelos primeiros escritos sobre Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, até então não enxergados pela crítica da época. Os caminhos da ficção contemporânea brasileira neste primeiro decênio do século XXI (onde se percebe na escrita literária a presença de elementos [auto] biográficos, tornando cada vez mais evidente a ficcionalidade do eu), embora pareçam surgir como uma novidade estética, já haviam sido sinalizados por Antonio Candido nos anos de 1970. Em dois artigos – “Poesia e Ficção na autobiografia”, de 1976/77, e “A nova narrativa”, de 1979/81 – o crítico, a partir da análise das memórias de Pedro Nava, presta atenção à presença da autobiografia na literatura e aponta este fato como um dos principais rumos da literatura contemporânea. Com foco, portanto, nesses estudos elaborados pelo crítico, o intuito aqui é apresentar de forma sucinta os caminhos que o levam a colocar a obra memorialista de Nava como um atino dos novos caminhos da narrativa literária. Por sabermos que os primeiros fundamentos da “escrita de si” provêm do mesmo período histórico que a crítica elaborada por Candido – o pacto autobiográfico de Philippe Lejeune foi cunhado em 1975, e o termo autoficção, de Doubrovsky, em 1977 –, nosso objetivo neste trabalho é ler Baú de Ossos, primeiro volume das memórias de Pedro Nava, com o objetivo de tentar enxergar até que ponto a análise do crítico sobre a obra do memorialista pode ser enquadrada nas pesquisas recentes que envolvem a figura do autor. Como auxílio à compreensão do pensamento de Candido, visitaremos também a sua noção de “sistema literário”, por entendermos que as diretrizes críticas do autor são norteadas pela tese desenvolvida, principalmente no que tange ao paradigma “universal-particular”. Palavras-chave: Antonio Candido; Pedro Nava; autobiografia. Nelson Martinelli Filho (Mestrando-Ufes) CONFISSÃO E AUTOFICÇÃO EM SUELI: ROMANCE CONFESSO, DE REINALDO SANTOS NEVES Depois de dominar o sentido final dos próprios textos por um longo tempo e ter a sua morte sentenciada por pensadores como Roland Barthes e Michel Foucault há algumas décadas, a figura do autor permaneceu por certo período numa espécie de limbo da escrita, de onde aparentava não mais sair com facilidade – não sem uma revisão de sua função na literatura. De XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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modo paulatino, observamos um reposicionamento e um redimensionamento do autor diante de sua obra em consonância com a descentralização do sujeito pleno e cartesiano, que tem como ponto de partida o pensamento de Nietzsche: ele não é concebido mais como o Autor onipotente, mas atua como uma das possíveis vias interpretativas de seu texto. Alia-se a esse fato o fenômeno contemporâneo da midiatização do particular e do crescente fetiche em torno da imagem e da biografia do autor, facilmente notável em eventos literários, aumentando o interesse e a curiosidade sobre como se imbricam vida e obra, não sendo, contudo, aquela a resposta desta, mas sem dúvida um jogo de encobrir e descobrir que cria novas possibilidades dentro do campo da literatura. Dos muitos autores contemporâneos que participam desse tipo de produção alcunhada autoficção, escrita de si, retorno do autor etc., daremos destaque a Reinaldo Santos Neves, autor de, entre outras obras, oito romances, dos quais será focalizado Sueli: romance confesso, lançado em 1989. Nesse sentido, nossa proposta é investigar a constituição de uma obra literária que, para muito além de uma simples coincidência entre o nome do autor, do narrador e do personagem (mas nem tanto) e a semelhança entre personagens ficcionais e pessoas empíricas, engendra, a partir de um refinado tratamento da linguagem, um elaborado jogo que obnubila as fronteiras entre verdade e ficção, pondo em suspensão as certezas que poderíamos ter em relatos de amor convencionais. Para levar a cabo tal proposta, serão basilares [a] os estudos de Leonor Arfuch e Diana Irene Klinger sobre a escrita de si na ficção contemporânea, tomando como ponto de partida [b] os textos inauguradores dos estudos sobre autobiografia de Philippe Lejeune e [c] as análises de Roland Barthes, Michel Foucault e Giorgio Agamben sobre a posição do autor diante da sua própria produção literária, bem como [d] o panorama de Silviano Santiago sobre o narrador pós-moderno; obviamente, também será considerada [e] a fortuna crítica do autor em pauta como forma de confrontar as leituras produzidas até então sobre Sueli: romance confesso. Desse modo, esperamos como resultado uma visão esmiuçada de como Reinaldo Santos Neves se insere nessa forma de escrita e, reciprocamente, como esta se insere em sua obra. Palavras-chave: Reinaldo Santos Neves; Sueli: romance confesso; autoficção. Prof. Me. Paulo Muniz da Silva (Doutorando-Ufes) MEMÓRIAS E ESTÓRIAS-COBERTURAS NAS TRAMAS DUM FALSO MENTIROSO Estudo do romance O falso mentiroso, de Silviano Santiago, pelo viés da autoficção, a fim de se ler o abalo das noções de original, cópia, verdade e sujeito, associado às ideias de autor, personagem e narrador na literatura contemporânea. Um caminho para se chegar a isso é a vinculação do título desse livro ao conceito de estória-cobertura (mentira útil), circunscrito aos paradoxos das linguagens veiculadas pelo crime e pelos aparelhos de segurança estatal, em cujas estruturas a autoficção engendrada pelos espias constitui uma estratégia vital para o sucesso de seus empreendimentos. Outro caminho é aproximar esse romance de pensadores como Lejeune, Agamben, Foucault, Barthes, Klinger, Miranda, Figueiredo, Studart e do próprio Santiago, para subvencionar a leitura duma escrita de si que associa autor e personagem como um gesto, sem igualar um e outro ao narrador que se enuncia na obra. Os resultados vislumbrados aqui indicam que as estratégias de dissimulação e ficcionalização das estóriascoberturas são aplicadas nas técnicas de produção de informação e contrainformação, pelas agências de segurança estatal, e se acham recorrentes noutras narrativas e personagens de Silviano Santiago, como se lê nas performances dos agentes da esquerda e da direita do romance Stella Manhattan e noutras obras, fornecendo uma visão dos paradoxos sobre a construção da própria literatura e da produção de discursos que pretendem circular como verdades ora explícitas, ora tácitas. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Palavras-chave: narrativa contemporânea; estória-cobertura; autoficção. Prof. Me. Pedro Antônio Freire (Doutorando-Ufes) O SIGNO DE SI: AUTORIA E ALTERIDADES Este trabalho se faz a partir do confronto de duas obras já consideradas lapidares, inclusive naquilo que diz respeito à temática das “escritas de si”: Confissões (2008), de Jean-Jacques Rousseau, e Memórias do subsolo (2000), de Fiódor Dostoiévski. A primeira consagrou o que se conhece ainda hoje como autobiografia e a segunda antecipou o que se veio a chamar recentemente de autoficção. Entretanto, seja pelo viés da autorreflexão descritiva, de um, ou pela inflexão inventiva, de outro, aqui se pautará por pistas e despistadas que possibilitem um futuro estudo sobre autoria e alteridades. No quesito alteridades, mais que recorrente em nosso meio é a idéia de incompetência como qualidade inerente àqueles postos às margens da sociedade por critérios de gênero, etnia, credo, classe social, faixa etária, proficiência física e mental etc. Daí, mesmo que já tenhamos registradas na História inúmeras lutas empreendidas para se reverter tal concepção, as mudanças são ainda vistas, de maneira capciosa, pela responsabilidade da metafísica PERSEVERANÇA. Assim, com um amplo destaque para a “capacidade” do indivíduo em detrimento aos processos históricos que permeiam os acontecimentos. Com essa “queixa” que se inicia um diálogo com a obra do filósofo francês, pois já se compreende que, apesar dos seus traços logocêntricos, de caráter iluminista, a linearidade e a “exatidão” da sua narrativa estão a serviço das interdições morais da sua época. No seu livro, por exemplo, pobreza e castidade são consideradas as verdadeiras virtudes do ser, embora ele se sinta constantemente culpado de não conseguir se ausentar de todo da primeira e não se manter na segunda. Assim, conclui-se que, no que diz respeito aos contextos, resguardando proporções e direções, o processo expiatório que subjaz ao dele permanece semelhante no nosso, potencializando a exclusão das diferenças bioculturais pela tarja da má-vontade e do pecado. A partir de então, passa-se ao estudo da construção da subjetividade ocidental pela ótica foucaultiana presente em O governo de si e dos outros (2010). Nesse, o pensador mostra que, quando “um homem se ergue diante de um tirano e lhe diz a verdade” (p. 49), ocorre a “parresía”, opinião pessoal acompanhada da pena capital. Diante disso, situar-se-á como o aprimoramento das sanções e o valor das interdições, ou vice-versa, afeta um texto de caráter biográfico, para se adentrar ao escritor russo, onde o sujeito já nasce assumidamente fracassado na metáfora: “Sou um homem doente” (p. 11). Sua narrativa se desenvolve nas mais paradoxais admoestações propiciadas pelo alcance do eurocentrismo em contraponto às culturas consideradas periféricas e inferiores, por isso, ainda constará na lida as contemporâneas Profanações (2007) de Giorgio Agamben, com ênfase para o tópico sobre o capitalismo ser a atual religião do mundo; o trabalho, seu culto permanente; a culpa, moedacorrente. Dessa maneira, pretende-se justificar aqui a autoficção como performance do “eu”, por fuga à tirania do signo esclarecidamente autobiográfico (vide Phillipe Lejeune) e à face ignominiosa do mundo atual. Palavras-chave: autoficção, religião, alteridades. Prof. Dr. Pedro Granados (UNILA) PACTO POÉTICO E INTERNET: EL CASO DE CRISTÓBAL “TOBI” KANASHIRO

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Pacto poético alude, obviamente, al concepto de “pacto autobiográfico” acuñado por Philippe Lejeune. Internet, al medio por el cual se ha difundido esta experiencia poético-autobiográfica centrada en poemas y entrevistas concedidos por un tal Cristóbal “Tobi” Kanashiro. Y, por último, propiamente el caso de este sujeto o agente inventado, entre alumnos y profesor, en el marco de un curso denominado “Literatura”, para la Facultad de Arte de la PUC del Perú (semestre académico I, marzo-julio, 2010). El presente ensayo, más que ahondar o debatir los problemas teóricos inherentes a la autobiografía --al que este tipo de experiencia invita, sobre todo, en cuanto aquello de la identidad real del autor--, trata más bien de establecer o poner en paralelo los requisitos del pacto autobiográfico con --y esta es la hipótesis que intentaremos demostrar-- las exigencias propias, asimismo, a una recepción productiva o eficaz en el campo de la poesía. Relación entre productor y lector, esta última, a la que vamos denominando “pacto poético”. Productores de Kanashiro que dialécticamente fuimos, además, lectores de primera mano. El presente trabajo, por lo tanto, utilizará como fuente fundamental de análisis los testimonios de los alumnos involucrados en dicha experiencia. Palavras-chave: sujeto poético fictício y virtual; pacto poético e Internet; institución literaria em el Perú. Rafael Barcellos de Moraes (Graduando-UFV/Funarbic) A MÚSICA DE CENA EM NOITE DE REIS, DE SHAKESPEARE (em co-autoria com Sirlei Santos Dudalski) O período entre 1600 e 1615 corresponde ao ápice da cultura contemporânea elisabetana e jacobina na poesia e no drama, além de representar um importante período na produção musical européia (MELLERS, 1956). Um dos maiores representantes da dramaturgia elisabetana, William Shakespeare, provavelmente utilizava cantigas e canções populares em suas peças, demonstrando familiaridade com a música de sua época (MOORE & BRENNECKE JR., 1939; MELLERS, 1956). Apesar da aparente simplicidade de tal escolha, segundo (MELLERS, 1956), da mesma maneira em que a dramaturgia no período elisabetano celebra a vida e o homem, a música daquele período apresenta características mais harmônica e emocionalmente mais introspectiva. Associada ao drama, a então música de cena serve como contracanto às experiências humanas, podendo servir como plano de fundo aos eventos (HALIO, 1988), além de marcar a entrada e saída de personagens (NOBLE, 1967; HALIO, 1988) e a criação de desejada atmosfera (WILSON, 1922). Quanto ao método de composição das músicas utilizadas por Shakespeare, não se sabe se as melodias o inspiravam a escrever as letras ou se as escrevia para serem posteriormente musicalizadas por um compositor (MOORE & BRENNECKE JR., 1939). Ainda assim, povoadas pelo lirismo musical e poesia shakespeariana, suas peças são ricas fontes para o estudo sobre o papel da música na história humana através da dramaturgia. Desta forma, em nossa pesquisa, ainda em desenvolvimento, temos por objetivo analisar de que forma (a) a música está presente e (b) quais as suas funções na peça Noite de Reis, de Shakespeare, na tentativa de contribuir para as discussões acerca da utilização da música na dramaturgia elisabetana. Para tal, fazemos um parâmetro da essência musical em Noite de Reis com o ensaio sobre o uso humano do som, de Wisnik (2006). Na peça, através do contracanto harmonioso e melódico (WISNIK, 2006), a música suscita um movimento cadencial, ao mesmo tempo retomando o enredo e produzindo um movimento progressivo dos eventos. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Além disso, em Noite de Reis, não apenas como instrumento para o desenvolvimento da cadência, a música constitui elemento essencial, sobre a qual leitores ou ouvintes são constantemente lembrados através do cantar ou do tocar de instrumentos e pelas metáforas e eufemismos presentes nas falas das personagens. Embora Bloom (2001) defenda que os primeiros oito versos de Noite de Reis tenham mais relação com a música do que com o amor, pois a personagem a clama em excesso para si, tanto a música quanto o amor ocupam um espaço de subsistência recíproca, ambas norteando o enredo da peça. A música é colocada metaforicamente como alimento do amor não correspondido e melancólico do Duque Orsino – que mais tarde se apaixona por Viola, cujo nome sugestivo também pode indicar a relevância da música na peça. O excesso de música alimenta esta comédia shakespeariana, engendra as figuras de linguagem e serve como contracanto aos conflitos, à melancolia e ao amor cultivado pelas personagens para que, no fim, “a ordem e harmonia possam ser integralmente alcançadas” (HELIODORA, 2005, p.12). Palavras-chave: música de cena; Noite de Reis; Shakespeare. Rafael Azevedo Nespoli (Graduando-Ufes) ROQUE SANTEIRO: PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS NA SOCIEDADE BRASILEIRA O projeto pretende apresentar uma reflexão da sociedade brasileira no período de transição entre o regime militar e a retomada democrática no Brasil a partir de 1985, valendo-se das representações simbólicas e caricaturais das personagens da novela Roque Santeiro, exibida pela Rede Globo, no mesmo ano, após ter sido censurada dez anos antes. Ainda, pretende aferir em que medida tal representação artística caracterizou tipos ideais do que é considerado, pela contemporaneidade, como parte da identidade do brasileiro. Esse projeto está inserido em um projeto maior intitulado História e documento: memória, silêncio, ressentimento e representações do processo histórico republicano brasileiro (1930-2000) coordenado pelo Prof. Dr. Carlos Vinícius Costa de Mendonça, no sentido de contribuir para uma representação comprometida com o diálogo entre a História Cultural e História Política a fim de resgatar as sensibilidades passadas. A compreensão da formação do imaginário de um determinado grupo sobre os eventos de sua própria história, bem como os elementos pretensamente caracterizadores de uma sociedade, são essenciais e possuem contornos de relevância social e política nos tempos presentes. Inúmeros comportamentos e discursos são, hoje, pautados em figuras representadas no imaginário individual e coletivo, criadas pelos meios de comunicação de massa, entre eles, com maior destaque, a televisão. Entender esse processo e suas conseqüências é extremamente relevante para uma interpretação produtiva no que se refere as novas abordagens, objetos e fontes da historiografia neste fin du siècle, como alude Pierre Nora, que procurou refletir sobre o fenômeno da aceleração da história, do seu fim e da questão do sentimento do eterno presente. Assim, a memória e a história de um determinado grupo é essencial para o pensar, o sentir e o agir da sociedade como um todo, principalmente, quando este grupo representa interesses e desejos do coletivo social. Indicar as ambigüidades e contradições das imagens, textos, símbolos e signos veiculados ou representados contribuem para o entendimento das mudanças e permanências que sugerem preconceitos, ideologias, posturas e comportamentos aceitos e recusados pelo social. Uma imagem pode construir, destruir ou modificar uma realidade e, com isso, possui o poder de alterar as perspectivas sobre ela, mobilizando, no pensar e no sentir da sociedade representações, por vezes distorcidas. Desse modo, não se pode perder de vista que inúmeras obras contribuíram não só como objeto histórico, mas retrataram uma determinada época, apresentando costumes, pensamentos, modismos, comportamentos, temas de importância, XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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entre outros, como também foram utilizados para operar uma narrativa sobre problemas e problemáticas de uma comunidade, de uma cidade ou de uma região. E é esse aspecto que permite perceber as interfaces entre a realidade e a ficcionalidade. Saber identificar tais processos é fundamental para que não se encare o mundo contemporâneo e as manifestações da produção midiática como retrato fiel do real. Palavras-chave: ficcionalidades; representações televisivas; real. Profa. Me. Rafaela Scardino (Doutoranda-Ufes) O HORIZONTE FLUTUANTE DO AUTOR Em Cidade de vidro, primeiro texto de A trilogia de Nova York, o escritor norte-americano Paul Auster empresta seu nome a dois personagens: a princípio, Paul Auster é apenas um nome, assumido pelo protagonista Daniel Quinn ao aceitar trabalhar como detetive. Mais tarde, Quinn vai à casa do verdadeiro Auster, cujo endereço havia encontrado na lista telefônica, e descobre tratar-se de um escritor, “um sujeito alto e moreno de uns trinta e poucos anos”, casado com uma mulher chamada Siri e pai de um menino chamado Daniel, “de cinco ou seis anos de idade” (CV, p. 114). As coincidências com a biografia de Paul Auster, o autor real do texto, deixam perplexo o leitor, que passa a questionar até mesmo a existência física do homem cujo nome está na capa do livro. Em seu célebre ensaio “A morte do autor”, Barthes afirma que a figura do autor encerra a crença em um “passado” do texto — uma existência que o antecede e fundamenta —, mas compreendido como algo que o extrapola, que é sua origem, estabelecendo, com o texto, “a mesma relação de antecedência que um pai mantém com seu filho”. Nesse sentido, é bastante significativo que o protagonista do texto em questão tenha o mesmo nome do filho de Auster, Daniel, mas que posteriormente, assuma a identidade de seu “pai”. A presença do personagem Paul Auster, com quem Quinn se encontra, é também uma forma de questionar esse “patriarcado”, devolvendo o autor à ficção, mas um autor que é mais um dos elementos da fábula, destituído de sua autoridade sobre a obra. Outro importante pensador a se debruçar sobre a questão autor é Michel Foucault. Para ele, a função conferida à figura do autor seria a de estabelecer limites à multiplicidade discursiva do texto, atuando como unidade que regularia os muitos significados possíveis, uma espécie de guia que regulasse a compreensão da obra. Entendida como um conjunto de escritos que possuem certas características em comum, o que permite situá-los e estabelecer uma unidade, a obra liga-se, muitas vezes, à regulação proveniente do nome do autor, que atua, também, como elemento classificatório, qualificando um determinado discurso, não remetendo a um indivíduo real, mas a um lugar de enunciação. Ao dar seu nome a personagens de Cidade de vidro, Paul Auster dessacraliza essa “instituição” e propõe que se repense o status conferido ao texto que o leitor tem em mãos; questionando, como dito acima, a autoridade atribuída ao autor do texto, como aquele que limita sua multiplicidade semântica ao atuar como fim último para o qual convergem todas as possíveis leituras, explicando-as. Quando perguntado, em entrevista, sobre o personagem Paul Auster, o ficcionista responde que, ao colocar seu nome dentro da história, “queria abrir o processo, derrubar paredes, expor o encanamento”. Face ao exposto, buscamos analisar a questão da autoria em Cidade de vidro, guiando-nos, dentre outros, pelos estudos de Barthes e Foucault. Palavras-chave: autoria; Roland Barthes; Michel Foucault. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Profa. Me. Renata O. Bomfim (Doutoranda-Ufes) O PRINCÍPIO REVOLUCIONÁRIO DA POESIA HISPANO-AMERICANA NA POÉTICA DE RUBÉN DARÍO Propomos analisar questões relacionadas à poética e a política a partir da obra de Rubén Darío (1867- 1915), poeta nicaraguense que abriu um novo espaço canônico para a poesia hispanoamericana. Rubén Darío é considerado o criador do Modernismo hispano-americano que irrompeu com a “geração de 98”, tempo marcado por variadas revoluções na América Latina. Sob o signo da modernidade, Darío escreveu textos que responderam, literariamente, às questões sócio-políticas de sua época. Ele escreveu sobre a intervenção dos Estados Unidos no Panamá, em 1903, por meio daquele que é considerado o primeiro grande poema político da literatura latino-americana, o poema A Roosevelt. Nessa obra antológica ressoam muitos “nãos” e o poeta faz a pergunta: “¿Seremos entregados a los bárbaros fieros?/ ¿Tantos miliones de hombres hablaremos inglês?/ ¿Ya no hai nobre hidalgos ni bravos caballeros ?/ ¿Callaremos ahora para llorar despues?.” A temática revolucionária replicou-se em outros poemas darianos reunidos na obra Cantos de Vida y Esperança, de 1905. O Chileno Francisco Contreras tomou como ponto de partida este livro para descrever a irrupção dos problemas nacionais na literatura da América Latina e apontou Darío como o poeta fundador da lírica hispano-americana, como o fez também o poeta e critico literário Octávio Paz. Para falar das questões relacionadas à poética como forma de resistência aos discursos totalizantes e hegemônicos, bem como, de uma Modernidade inscrita sob o signo da revolução, utilizaremos como arcabouços teóricos os pensadores Jacques Rancière, para quem “a escrita é coisa política”; Deleuze e Gattari, que apontam estar interpenetrados à língua, no âmago da máquina abstrata da linguagem, o campo social e os problemas políticos; e Frantz Fanon, para quem o militante político é o combatente, e fazer guerra e fazer política é uma coisa só”. Importa destacar também que, Rubén Darío influenciou fortemente, tanto pela afirmação, quanto pela negação, a geração de escritores que lhe sucedeu. Poetas como Vallejo, Arguedas, Gullén, Carpentier, Rulfo, Cesaire, Pablo Neruda, Jorge Amado, Florbela Espanca, foram marcados por suas visões de países longínquos ou impossíveis. A errância, outro tema amplamente cantado pelo poeta cosmopolita/errante, ressoou em escritores como José Maria Egurem, Vicente Huidobro, Haroldo de Campos e Jorge Luiz Borges que afirmaria, em 1955, “nossa pátria é a humanidade”. A poesia de Rubén Darío sobreviveu às mudanças e rupturas das vanguardas e segue sendo lida com grande interesse até hoje. Os estudos pós-coloniais nessa análise, especialmente pelo fato de não se fecharem em teorias totalizantes e colocarem em xeque a histórica contada pelo prisma do colonizador europeu, será um de nossos norteadores. Dessa forma, propomos pensar as questões referentes à política e a poética dando visibilidade aos elementos que conferem caráter revolucionário a poesia. Palavras- chave: Rubén Darío; pós-colonialismo; modernismo hispano-americano. Prof. Me. Renato Prelorentzou (Doutorando – CNPq/USP) O PASSADO - LEITURAS E ESCRITURAS DA HISTÓRIA E DA FICÇÃO, DA AUTOFICÇÃO E DA AUTOBIOGRAFIA Esta pesquisa propõe uma leitura comparada de quatro formas de narrar o passado: na ficção, Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum; na autoficção, The Enigma of Arrival, V.S. Naipaul; na autobiografia, Varia Imaginación, Sylvia Molloy; na historiografia, Il formaggio e i vermi, Carlo Ginzburg. A hipótese central é que, em seu retorno, autores de histórias compartilham aspectos formais e temáticos, fazendo atuar em ambos o círculo de leituras e escrituras, tanto históricas quanto literárias. Na forma, o narrador falho e presente, o desvelar da busca e da XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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escrita e a assunção do engano são traços de escritura – lidos por historiadores e ficcionistas em obras de história e de ficção – que hoje se cristalizam e dão resposta às crises do narrador e do historiador, vividas ao longo do século XX. Nos conteúdos, as interpenetrações entre real e fictício, a mediação da memória e da linguagem e a parecência entre vidas fictícias (inventadas inspiradas na vida) e vidas ficcionais (as vividas inspiradas nas inventadas) são propostas de leituras que agora, na diluição de fronteiras entre gêneros narrativos, indicam uma nova tendência para descrever e problematizar o real. A tentativa é atualizar o debate teórico sobre a crise do romance realista e a crise epistêmica da história ao longo do século XX e sobre a crítica da autoficção à autobiografia. Nesse percurso entre escritas, desde a ficção, pela autoficção e autobiografia até história, há, em princípio, um crescente compromisso com a verdade do narrado, com um tempo que, de fato, esteve, mas já não está. Ao percorrê-lo em sentido oposto, nota-se que, embora o senso ético precise bloquear o fictício na historiografia e no testemunho [Le Goff: 1996; Sarlo: 2007], os procedimentos de exposição e provação atravessam as fronteiras. Essa abordagem do passado – de um lado, procura/investigação, dadas na leitura, de outro, dúvida/engano, expressas na escritura – faz parte de uma contenda, de um diálogo, entre ficção e história. Depois da crise e do banimento, retorna o autor, mas não a autoridade: ele descortina a busca, assume o equívoco e propõe outra forma de leitura, cooperativa, pois parece conseguir oferecer alguma prova do que diz somente quando expõe sua dúvida e seu trajeto. Retorna, portanto, um autor crítico: já não se pode dizer que está ausente ou que nada sabe de seu próprio texto; fantasmático, está investido de um saber sobre a escritura. Se Foucault e Barthes postulavam o afastamento do autor em favor do leitor, a resposta contemporânea talvez esteja nessa narração do vacilo e do engano, nesse esmero com que se constrói, conjuntamente, o sentido do texto – pelo menos daquele que se refere ao passado [Barthes: 2004; Foucault: 2006]. O narrador, fantasmagórico e fraturado, já não pode deixar de falar em primeira pessoa, de saber que as histórias que leu fazem parte do relato do mundo e da história que conta: seu passado é mais um entre todos. Nas quatro obras selecionadas vê-se essa deriva dos sentidos, característica do contato entre sujeito e mundo, simulação da experiência contemporânea como um todo. Palavras-chave: ficção; história; narradores. Ricardo Ibrhaim Matos Domingos (Mestrando-UFJF) O CORPO NA/DA ESCRITA: ESTRATÉGIAS ESTÉTICO-TEMÁTICAS NO LIVRO VÃO, DE ALLAN DA ROSA O presente trabalho tem por objetivo levantar pistas de marcadores específicos no livro de poesias Vão, de Allan da Rosa, na tentativa de ressaltar como tais marcadores textuais internos e externos ao texto poético, em si, foram propositadamente manipulados com a intenção de trazer à leitura da obra o locus enunciativo do escritor em questão. Allan da Rosa, escritor da chamada Literatura Marginal, desenvolve um trabalho literárioeducativo em bairros periféricos da cidade de São Paulo, além disso é palestrante em várias intituições educacionais de ensino superior, tendo como foco a atividade social que desempenha junto a movimentos negros e periféricos da capital paulista. Precisamente por seu lugar desprivilegiado e sua militância literária, o autor confecciona o livro analisado visando sempre a articulação de lugares sociais e discursivos que rompem a idéia de escrita X oralidade e a idéia da hegemonia literária brasileira, em sua maioria advinda da classe média. Em A Ordem do Discurso Foucault diz: “*...+sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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falar de qualquer coisa.” (FOUCAULT, 2009, p.9), e em outro parte: “*...+-o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.” (FOUCAULT, 2009, p. 10). Associada a idéia de performance autoral, a luta do autor se revela dentro do campo do poder discursivo. Ao se apoderar de um tipo de discurso por muito tempo apropriado pelas classes mais elevadas economicamente, Allan da Rosa não só desconfigura o corpo da voz que emite som, como também na própria feitura do livro, organizado manualmente, desequilibra a maneira de se realizar o produto editorial. Além de todas essas manobras estéticas, podemos atentar-nos também a uma temática marginalizada, ou seja, a utilização de gírias, fatos e pontos de vista que se revelam sempre como originados da periferia. Temas como o asfalto e o morro, símbolos da separação periferia-centro, meninos armados e a ginga da capoeira entram em cena para formar o canto/corpo da comunidade menos favorecida economicamente, na busca por alternativas para esta mesma comunidade que reclama seu reconhecimento na população brasileira e inserção no quadro geral da nação como detentora de direitos legítimos. Este ‘corpo’ que desde o começo do século XX vinha se reclamando na obra de Lima Barreto ou João do Rio, e que foi objeto exótico no modernismo brasileiro, sobretudo no modernismo da geração de 22, o corpo do pobre, do favelado, daquele que não fala e só pode dizer por outras vozes. O corpus teórico utilizado na análise contará com O rumor da língua, de Roland Barthes, Os desafios da escrita, de Roger Chartier, Performance, recepção, leitura, de Paul Zumthor, O que é um autor? e A ordem do discurso, de Michel Foucault e Estética da criação verbal, de Mikhail Bakhtin. Palavras-chave: Escrita; corpo; periferia Roberto Muniz Dias (Mestrando-UnB) A VOZ DO SEREIO - A AUTORIA HOMOTEXTUALIZADA Neste trabalho, pretendo discutir a empreendida desestabilização do cânone pela crítica literária feminista e as possibilidades abertas, dessa maneira, para os estudos gays e lésbicos. No entanto, a teoria e crítica feminista se constituíram ao redor de seu objeto de estudos, a escrita de mulheres. As mulheres foram discriminadas e excluídas da vida intelectual, radicadas no corpo e no imanente, e como outras tantas vozes foram distanciadas dos meios de produção de produtos culturais valorizado. No entanto, apesar de sua importância, quando se trata de abordar a escrita de autores gays e autoras lésbicas, os estudos de gênero, embora constituam um ponto de partida, não são suficientes como aporte teórico. A Teoria Queer provê um referencial teórico mais adequado para esse fim, pois permite sondar uma voz identitária outra, encontrável num conjunto de textos que se agrupam em sua linguagem, e por uma temática sexual peculiar, configurando o que podemos denominar de homotextualidade. A voz gay se destaca da multidão Queer, reforçando as cores do arco-íris com o tom necessário de sua genuína matiz. A escritura de autoria gay se destaca, como verdadeiro repositório dessa homotextualidade. O texto constitui um viés político de expressar e perceber o discurso dessas novas vozes. Temas, situações, sentimentos, percepções comuns são identificadas nestes homotextos. Um desses textos tratados é a escrita de Caio Fernando Abreu, por meio de seus contos, corpus deste trabalho. Como ele, o autor contemporâneo tem rosto, tem voz e tem um olhar gendrado. A par com extensas modificações da vida contemporânea, causadas pela revolução digital e pela crescente urbanização da sociedade, a literatura também abriu espaços antes fechados, aos negros, aos judeus, aos favelados, às XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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minorias em geral. Após as teorias pós-feministas, pós-colonialistas, pós-modernas, a Literatura promoveu a visualização de vozes anteriormente ignoradas. Não à toa essas vozes vieram à tona para proclamar seu discurso altivo com identidades afirmativas e inclusivas. A Literatura tornou-se então o viés utilizado por essas vozes marginais para declararem sua autoria, sua sentimentalidade e sua sexualidade. O cânone ocidental-heterocêntrico-freudiano cede lugar a uma desestruturação normativa deste paradigma, surgindo assim uma literatura de vários matizes e cores. Neste diapasão, o presente trabalho visa identificar esta voz gay vertida no texto; ou a homotextualização dessas vozes. Caio Fernando Abreu é um locutor dessa voz, entre muitos outros, a fazer reverberar um conjunto de vozes reconhecidamente gay-orientadas. Numa perspectiva crítica que contempla a Teoria Queer e a teoria feminista, pretende-se fazer uma análise das marcas da Literatura homoafetiva. A Voz do sereio é nada mais do que uma literatura elocucional de um perfil político, social e de consciência identitárias próprias da homoafetividade. Palavras-chave: homotextualidade; literatura gay; literatura e gênero. Prof. Me. Robson Leitão BUG JARGAL: O HAITI NÃO É AQUI! É possível compreender, como sendo nacionalista, no Brasil do século XIX, uma ópera cujo libreto foi escrito em italiano, baseado em um romance francês, com música composta por um brasileiro e que tinha por tema uma personagem de origem africana, que participou ativamente da luta pela libertação de seu povo, escravizado por franceses em Santo Domingo (Haiti)? A partir deste questionamento, pretendemos demonstrar como a ópera Bug Jargal, do paraense José Cândido da Gama Malcher (1853-1921), baseada na novela homônima de Victor Hugo e estreada em setembro de 1890 em Belém do Pará, tinha ideologias nacionalistas que fomentaram seu processo de criação no final do império brasileiro. Paralelamente, analisaremos os motivos que a levaram a ser preterida em relação a Lo schiavo, última ópera de Carlos Gomes, composta na Itália e oferecida por este compositor à princesa Isabel, responsável pela assinatura da Lei Áurea. Utilizando como suporte teórico estudos baseados em Jean-Jacques Rousseau, Ernest Renan, Fernando Ortiz e Ángel Rama, discutiremos os possíveis aspectos nacionalistas e transculturados, encontrados na ópera de Gama Malcher, que pretendia ser um libelo em favor da abolição da escravatura. Em nosso estudo, comparamos elementos da novela de Victor Hugo (1802-1885) com o libreto da ópera em questão, escrito pelo italiano Vincenzo Valle (1857-1890), buscando entender o que pretensamente nortearia aquele espetáculo em direção à problemática social brasileira referente à escravatura. Quando observamos as fontes escolhidas pelos dois compositores e a forma final dos textos dos libretos dessas duas óperas, ficamos sem saber, com certeza, o que fez o público do Rio de Janeiro e de São Paulo louvar Lo schiavo e tratar com certo desdém Bug Jargal. Musicalmente, as duas óperas foram trabalhadas sob escolhas semelhantes. São ambas melodramas em quatro atos, cantadas em italiano, bem ao gosto da época. As duas apresentam um quarteto de personagens centrais e seus heróis são um tipo bem definido de bom-selvagem rousseauniano. Mas há uma estranheza diferencial entre os dois heróis dessas óperas e entre as formas como são pretendidas as abordagens do abolicionismo. Em Lo schiavo, o herói é caracterizado como um índio, Iberê (inspirado livremente no cacique Aimberê, do poema-épico A Confederação dos Tamoios de Gonçalves de Magalhães), e a XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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proximidade do enredo com o movimento nacional abolicionista se dá pela inclusão, na ópera, da cena de alforria de um grupo de índios escravizados, em uma fazenda de Niterói (RJ), dirigida pela fictícia Condessa de Boissy. Já em Bug Jargal, o herói é um negro escravizado, como descrito na novela francesa. A personagem desenvolvida por Hugo é uma livre recriação do histórico Toussaint Louverture (c.1743-1803), alforriado em Santo Domingo (hoje, Haiti) que promoveu a emancipação de seus irmãos étnicos, retirando-os do jugo francês, abrindo caminho para a independência da ilha caribenha. Será que a ópera de Gama Malcher, tanto quanto a de Carlos Gomes, contribuiu objetivamente para o movimento abolicionista, e, portanto, nacionalista, em evidência no Brasil do século XIX? Palavras-chave: Bug Jargal; libreto de ópera; estudos literários. Rodrigo Moreira de Almeida (Graduando-Ufes) A GUERRA DE CANUDOS EM JOÃO ABADE Publicado em 1958, o romance João Abade, de João Felício dos Santos, embora pouco comentado, constitui-se numa interessante leitura alternativa, no contexto da literatura brasileira, da Guerra de Canudos, frente à versão considerada definitiva do conflito: Os sertões, de Euclides da Cunha. Tendo como foco principal as peripécias dos jagunços dentro do arraial, João Felício dos Santos mostra uma multiplicidade de vozes entre os canudenses, incluindo algumas que questionam a própria autoridade de Antonio Conselheiro. Além disso, o estilo fragmentário do livro e o uso da enunciação do próprio sertanejo na narração indicam uma forte contraposição ao estilo corrente e grandíloquo de Euclides da Cunha. Com efeito, se a obra de Euclides é um texto bifronte, já que oscila entre duas posições, sem decidir-se definitivamente por nenhuma delas, consegue, porém, certa unidade ao utilizar o que Luiz Costa Lima denomina “mito da essência nacional”. O jagunço, ao mesmo tempo em que é tido como “a rocha viva da nossa raça”, encontra-se, pelo seu isolamento, alheio às conquistas da civilização e sujeito (ainda) a arroubos de barbárie, por não ter superado as “degenerescências” próprias da miscigenação. A partir dessa perspectiva, o narrador euclidiano consegue aliar a crítica ao fanatismo primitivo dos jagunços, na qual não falta uma perspectiva influenciada pelo positivismo e pelo evolucionismo, à sua admiração pela criatividade e resistência dos lutadores em meio ao cerco. No romance de João Felício, no entanto, inexiste essa imagem “heróica” do jagunço: utilizando-se de uma das características definidoras do gênero “romance histórico”, de acordo com Frederic Jameson, a união entre o plano existencial-individual e o plano histórico-transindividual, o texto narra o dia-a-dia dos líderes e jagunços no arraial, com suas apreensões, seus conflitos amorosos, suas disputas de poder etc., o que contribui para desmitificar o ideal da “rocha viva” euclidiana. Além disso, a guerra não é tomada, como acontece em Os sertões, enquanto sintoma para diagnosticar um mal do Brasil (a saber, a separação entre o interior atrasado e o litoral civilizado), e daí, para incitar a escrita de um texto que seja também uma advertência. Inexiste entre os jagunços de João Abade qualquer motivação religiosa para a luta e, portanto, qualquer traço de fanatismo. Representando a guerra como paranóia, na qual não faltam vozes entre os próprios jagunços que questionem a legitimidade do conflito, João Felício não pretende dar alerta algum, mas mostrar-nos o que se poderia denominar uma visão pessimista da história, na qual “enquanto houver homem em riba da terra, mesmo que seja só dois, um tem de matar, outro tem de morrer...” (p. 304). Por todas essas características desestabilizadoras da visão tradicional sobre o conflito de Canudos (merecendo atenção particular a última, que aproxima João Abade de formas “não-clássicas” do romance histórico), o romance de João Felício dos Santos torna-se um lugar privilegiado para observar as relações entre literatura e história, que pretendemos XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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investigar a partir de uma análise comparativa entre o romance e a obra euclidiana, observando em ambas os modos de ficcionalização do conflito de Canudos. Palavras-chave: João Abade; Guerra de Canudos; Os sertões. Profa. Me. Sandra Mara Moraes Lima (Doutoranda-Puc-SP) RESPOSTA E AUTORIA EM DESENREDO O trabalho faz uma análise do conto Desenredo de Guimarães Rosa, apresentando uma reflexão sobre a linguagem no que diz respeito ao processo de constituição/posicionamento do sujeito e do processo de representação/criação do mundo. O objetivo central é demonstrar como o conto de Rosa aponta para questões fundamentais do desenvolvimento da linguagem humana no que diz respeito ao processo dialógico, ou seja, a linguagem concebida como lugar de interação onde participam sujeitos socialmente organizados e, ainda, como o conto, em sua tessitura, revela a dimensão da linguagem enquanto dimensão que propicia a concretização de um sujeito no ato discursivo em que inexoravelmente assume um tom, uma posição, evidenciando uma autoria. Para proceder a esse estudo a perspectiva adotada é da análise dialógica do discurso, embasada nos fundamentos teóricos do Círculo bakhtiniano, que, a princípio, toma como referência o texto em sua concretude e materialidade para assim penetrar em seu tecido e construir sentidos a partir do que essa tessitura propõe. Nessa direção teórica, demonstramos na análise do conto de Rosa que o processo de dar sentido e organizar a realidade se dá no ato discursivo, na resposta dada ao mundo através da linguagem que promove uma visão de mundo sempre a partir de uma atitude participativa, interessada, estabelecendo as ideologias, as relações socialmente organizadas, que por sua vez serão determinantes na constituição do sujeito que se colocará, pensará o mundo, não de maneira fortuita, mas vinculado ao fator social. Sendo assim, a construção de todo sentido e “verdade” é sempre forjada a partir de interesses e intenções, sejam eles individuais ou coletivos. Dessa maneira, o ato discursivo é sempre uma resposta que comporta uma responsabilidade, uma tomada de posição, expressa no tom apreciativo e valorativo que revela incondicionalmente uma atitude interessada, participativa denunciando uma autoria, uma assinatura, uma responsabilidade. Assim, a consciência funda o sentido no ato discursivo, na ação de se colocar no mundo através da linguagem, ancorando em si, de forma irrevogavelmente vinculada, o conteúdo sentido numa atitude responsiva/responsável. A verdade e a autoria, desse modo, se instauram no ato/ação. São abordados, na concepção bakhtiniana, conceitos tais como discurso, dialogismo, sujeito, ato discursivo, autoria, entre outros, efetuando uma análise do conto no intuito de apresentar uma reflexão acerca da dimensão da linguagem no processo de constituição/posicionamento do sujeito e de construção/criação de mundo, o que caracteriza necessariamente uma resposta responsiva, responsável, sem álibi, evidenciando uma autoria. Palavras-chave: linguagem; sujeito; autoria. Profa. Me. Sarah Maria Forte Diogo (Doutoranda-UFMG) QUANDO EU QUERO EU MUDO: O JOGO DAS IDENTIDADES EM “MEU TIO O IAUARETÊ” Este trabalho analisa a narrativa “Meu tio O Iauaretê”, longo monólogo dialogado entre um excaçador de onças e seu interlocutor, constante em Estas estórias (1969), volume de contos do escritor mineiro João Guimarães Rosa. Examinaremos a relação do personagem mestiço com o trauma que parece atravessá-lo – eliminar os próprios parentes – e o relato que enuncia como forma de confessar seus crimes – matar onças – e justificar-se perante o outro – assassinou os parentes, mas agora extermina os humanos. Para tanto, utilizaremos como orientação teórica a noção de trauma para Freud e as considerações sobre literatura e trauma conforme XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Seligmann-Silva em diversos escritos. Como metodologia, adotamos a leitura do conto e a pesquisa bibliográfica em artigos que discutem a narrativa escolhida, procurando dialogar com estes quando julgamos necessário. O discurso de Tonho Tigreiro pode ser lido como uma tentativa de elaboração de experiências traumáticas, a exemplo do processo de espoliação de sua identidade mestiça e a depreciação de sua etnia. Tentativa essa que obtém um sucesso aparente, pois, ao passo que narra, o personagem enreda-se nas próprias lembranças, fortalecendo uma animalização do ser e promovendo uma cosmovisão arredia a qualquer forma pacífica de compreensão entre as diferenças. O trauma que parece acometer o narrador ocorre pela ruptura com a tradição de respeitar o próprio povo: ele é onça e mata onças, extermina seus parentes. Por imperícia em outros trabalhos, o zagaieiro é mandado para a solidão, para a caça, quando descobre, depois de sujar-se com o sangue parental, que faz parte do grupo exterminado. O retorno ao passado a fim de consertar a situação é impossível. Como ajuste de contas, o tigreiro decide inverter as operações e, insuflado pela raiva, elabora seu projeto de limpeza étnica: elimina homens e, de preferência, negros. A experiência histórica que parece estar no bojo desta narrativa é a gradativa destruição de identidade sofrida pelos grupos autóctones do Brasil que, despidos de território, vagam pelo espaço nacional, prendendo-se a traços culturais de resistência, réstias de identificação. Tonho Tigreiro, ao assumirmos essa chave de leitura, pode encenar o drama de uma coletividade alijada dos centros de poder, habitante de margens invisíveis, sem poder decisório e cuja situação, em geral, nunca é de autoria de um discurso, mas sim de objeto sobre o qual se fala algo. Este mestiço-índio-objeto em “Meu tio O Iauretê” assume uma voz, caracterizada pela agressividade, intimidação e artifícios de cordialidade. A narrativa das violências cometidas é duplicada com o desfecho também violento: possivelmente assassinado, o sobrinho Iauaretê perde o domínio da fala até então construída, é silenciado a tiros, sugerindo que o acordo e o diálogo entre ordens culturais distintas somente é possível no seio da ameaça e da morte. Palavras-chave: ficção; João Guimarães Rosa; conflito. Selomar Claudio Borges (Mestrando-UFSC) FISSURAS DE UM AUTOR NA FICÇÃO: ESCRITURA E EU EM EL ESCRITOR Y EL OTRO DE CARLOS LISCANO A nossa apresentação aborda alguns aspectos da relação escritor-escrita e do roce entre factualidade e ficção, questões discutidas e ficcionalizadas em El escritor y el otro do escritor uruguaio Carlos Liscano, que traz à discussão noções como a de autoria e de gênero. A produção literária de Carlos Liscano propõe uma reflexão sobre os limites entre o homem “de carne e osso”, ou o escritor empírico, e sua posta em escrita, bem como sobre as vicissitudes da criação ficcional, com narradores e personagens discutindo o seu próprio papel, de escritores ficcionalizados, de autores que reavaliam e põem em cheque seus poderes demiurgos, contrapondo a ambiguização do texto ao abuso na crença em uma verdade irrefutável, que aposta em um binarismo radical e que outorga ao escritor um papel centralizador, homogeneizador e logocêntrico. Pelo contrário, na sua ceno-grafia desnuda-se o autor sem assertivas, dúbio, dividido. Além disso, aos poucos Carlos Liscano parece desinteressar-se por inventar um nome para o eu que conta, o que contribui para a ambiguização da voz que discursa no texto, ainda mais para aqueles que apostam em ver num texto ficcional marcas que induzam ao relato de uma almejante verdade referencial do escritor. Em El escritor y el otro não só uma voz, senão diversas delas, optarão pelo uso do nome próprio “Carlos Liscano”, numa performação autoral. Todas as vozes narrativas falam de si, de sua experiência, de suas lembranças, de seus medos e anseios, todas almejarão o indivíduo. Revela-se a diversidade do eu, do eu que se cria como ficção, ficção fragmentada e fragmentaria pelas próprias incisões do sujeito figurado. O texto de Liscano ao apelar, no trato do contar, diversas vezes à auto-referencialidade, a dados reconhecidos como da história pessoal do homem público, e também do Uruguai, suscita como que um entrecruzamento de XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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escritas, caminhos que se contaminam mutuamente, jogo ambíguo, por gerar fronteiras pouco claras entre o relato de vida e o fingimento total na criação, problematização apropriada no debate contemporâneo acerca do gênero e do discurso. Para tecer nossas argumentações sobre a autoria e o labor do escritor nos apoiaremos nos postulados de Barthes, Foucault, Derrida e Blanchot. Ainda, para contrapor-nos à noção clássica de autobiografia de, por exemplo, Philippe Lejeune, dialogaremos com Paul de Man, Serge Doubrovsky, Manuel Alberca e Pozuelo Yvancos. Palavras-chave: autor; escritor; autoficcionalização. Prof. Dr. Sérgio da Fonseca Amaral (Ufes) UM REACIONÁRIO SOB SUSPEITA: CRÔNICAS DE NELSON RODRIGUES Este trabalho tem por objeto crônicas de Nelson Rodrigues, publicadas em livros como O reacionário, Cabra vadia e O óbvio ululante, para observar a escrita jornalística guiada pela ficcionalidade, produzida pelo autor, ao remedar, escrita, a oralidade ululante. Essa “típica conversa ao pé do ouvido” será o foco do trabalho para se analisar, sob a montagem da opinião reacionária da personagem autoral, a atitude escritural em alta voltagem e em rota de colisão com o status quo: tanto a política (esquerda/direita), quanto a moral e o senso comum vigorante. Palavras-chave: Nelson Rodrigues; crônica; ficcionalidade. Profa. Dra. Sirlei Santos Dudalski (UFV) A MÚSICA DE CENA EM NOITE DE REIS, DE SHAKESPEARE (em co-autoria com Rafael Barcellos de Moraes) O período entre 1600 e 1615 corresponde ao ápice da cultura contemporânea elisabetana e jacobina na poesia e no drama, além de representar um importante período na produção musical européia (MELLERS, 1956). Um dos maiores representantes da dramaturgia elisabetana, William Shakespeare, provavelmente utilizava cantigas e canções populares em suas peças, demonstrando familiaridade com a música de sua época (MOORE & BRENNECKE JR., 1939; MELLERS, 1956). Apesar da aparente simplicidade de tal escolha, segundo (MELLERS, 1956), da mesma maneira em que a dramaturgia no período elisabetano celebra a vida e o homem, a música daquele período apresenta características mais harmônica e emocionalmente mais introspectiva. Associada ao drama, a então música de cena serve como contracanto às experiências humanas, podendo servir como plano de fundo aos eventos (HALIO, 1988), além de marcar a entrada e saída de personagens (NOBLE, 1967; HALIO, 1988) e a criação de desejada atmosfera (WILSON, 1922). Quanto ao método de composição das músicas utilizadas por Shakespeare, não se sabe se as melodias o inspiravam a escrever as letras ou se as escrevia para serem posteriormente musicalizadas por um compositor (MOORE & BRENNECKE JR., 1939). Ainda assim, povoadas pelo lirismo musical e poesia shakespeariana, suas peças são ricas fontes para o estudo sobre o papel da música na história humana através da dramaturgia. Desta forma, em nossa pesquisa, ainda em desenvolvimento, temos por objetivo analisar de que forma (a) a música está presente e (b) quais as suas funções na peça Noite de Reis, de Shakespeare, na tentativa de contribuir para as discussões acerca da utilização da música na XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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dramaturgia elisabetana. Para tal, fazemos um parâmetro da essência musical em Noite de Reis com o ensaio sobre o uso humano do som, de Wisnik (2006). Na peça, através do contracanto harmonioso e melódico (WISNIK, 2006), a música suscita um movimento cadencial, ao mesmo tempo retomando o enredo e produzindo um movimento progressivo dos eventos. Além disso, em Noite de Reis, não apenas como instrumento para o desenvolvimento da cadência, a música constitui elemento essencial, sobre a qual leitores ou ouvintes são constantemente lembrados através do cantar ou do tocar de instrumentos e pelas metáforas e eufemismos presentes nas falas das personagens. Embora Bloom (2001) defenda que os primeiros oito versos de Noite de Reis tenham mais relação com a música do que com o amor, pois a personagem a clama em excesso para si, tanto a música quanto o amor ocupam um espaço de subsistência recíproca, ambas norteando o enredo da peça. A música é colocada metaforicamente como alimento do amor não correspondido e melancólico do Duque Orsino – que mais tarde se apaixona por Viola, cujo nome sugestivo também pode indicar a relevância da música na peça. O excesso de música alimenta esta comédia shakespeariana, engendra as figuras de linguagem e serve como contracanto aos conflitos, à melancolia e ao amor cultivado pelas personagens para que, no fim, “a ordem e harmonia possam ser integralmente alcançadas” (HELIODORA, 2005, p.12). Palavras-chave: música de cena; Noite de Reis; Shakespeare. Stéphanie Soares Girão (Mestranda-Ufam) (em co-autoria com Prof. Dr. Esteban Reyes Celedón - Ufam) DO MITO DO LUGAR E DO LUGAR DO MITO NA OBRA ÓRFÃOS DO ELDORADO DE MILTON HATOUM Este artigo propõe uma análise mitológica e conceitual da novela Órfãos do Eldorado do escritor amazonense Milton Hatoum através do espaço imaginado pelas personagens a cerca da Cidade Encantada. No relato em primeira pessoa, o protagonista Arminto Cordovil (filho de Armando e neto de Edílio, homens que fizeram fortuna a ferro e fogo no meio da floresta amazônica) teima em não ser um verdadeiro herdeiro das ambições sem medidas e frieza econômica dos patriarcas, preferindo nutrir a paixão juvenil por uma órfã das carmelitas de Vila Bela, Dinaura, moça que parece filha do mato. Após o inexplicável sumiço da jovem, o inconformado namorado passa a vida, por um lado, consumindo e destruindo a herança paterna e, por outro, à procura da amada que, segundo informações duvidosas (ecos, boatos, versões, lembranças, mitos e lendas), teria partido rumo à Cidade Encantada. Na lembrança da infância do protagonista e da cultura amazonense, ecoam relatos, traduzidos da língua geral, onde ganham vida crenças num lugar encantado situado (ou não situado) no fundo do imenso e quase infinito rio Amazonas. Num movimento de procura e fuga, Arminto gasta sua vida. Foge da lembrança (pesadelo) do seu pai, do seu passado, da sua herança, da sua cultura capitalista ocidental: “Amando não estava em lugar nenhum, mas parecia seguir meus passos” (p.80); “Passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas, mas que pareciam tão vivas que me davam medo, então falava sozinho para esquecer o pesadelo” (p.96). Procura um sonho, uma amada, uma lenda, uma cultura amazonense, uma infância perdida, uma língua materna, uma mãe, um lugar inventado, um não-lugar. Procura o rio, sua imensidão, sua infinitude, seu eterno movimento, seu sempre ir, fluir, fugir: “Passa a vida procurando o corpo” (p.13); “A outra feriu meu coração e a minha alma, me deixou sozinho na beira desse rio, sofrendo, à XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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espera de um milagre” (p.13); “Arminto Cordovil é doido. Só porque passo a tarde de frente para o rio. Quando olho o Amazonas, a memória dispara” (p.14); “Quando decidi viver com minha amada no palácio, ela sumiu deste mundo. Diziam que morava numa cidade encantada, eu não acreditava” (p.14). Arminto não quer acreditar nos boatos, mas não pode ignorar os mitos e lendas que emergem do fundo do grande rio. As personagens acreditam que eles existam, pois fazem parte da criação dessas personagens. Gaston Bachelard em A poética do espaço trata da imensidão íntima, da dialética do exterior e do interior das personagens, é através deste prisma que a análise do não-lugar será realizada. Mas também, à procura de um entendimento mais antropológico do ponto de vista dos ameríndios amazonenses, se usará a leitura do ensaio A inconstância da alma selvagem, do antropólogo carioca Eduardo Viveiros de Castro, junto com outros artigos pertinentes. Palavras-chave: literatura amazonense; mitos amazonenses; Milton Hatoum.

Suely Bispo (Mestranda-Ufes) SOLANO TRINDADE - PARA ALÉM DA LIBERDADE ESTÉTICA Para começar a analisar a obra de Solano Trindade, uma frase dita por ele é fundamental: “Pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte”. Rodrigo Dutra a chama de “máxima solanista”, uma espécie de guia artístico do poeta. Ao assumir sua posição de forma incontestável, carrega consigo todas as consequências que esta atitude pode acarretar, inclusive, o acirramento do preconceito, da discriminação e, por conseguinte, da sua marginalização na literatura brasileira, ocupando uma posição periférica nesse panorama da estratificação social que se reproduz também dentro da instituição da literatura. Para Solano Trindade, contava ainda romper as amarras impostas desde o período escravagista e, através da sua escrita, encontrar o sentido da verdadeira liberdade que não veio com a Lei Áurea. Sendo assim, Trindade buscou na figura de Zumbi dos Palmares – a maior referência de luta pela liberdade negra no Brasil – a inspiração para mais alguns versos. Este ideal de liberdade estava sempre presente em sua obra em poemas como “Sou negro”, “Zumbi”, e “Canto dos Palmares”. Este último, considerado um épico quilombola onde o autor rompe com os padrões estéticos dos épicos tradicionais através do deslocamento do herói branco e tudo que ele representa para a civilização ocidental, desde a Antiguidade Clássica na Grécia e em Roma até Portugal no período renascentista: as conquistas e invasões bárbaras, a dominação e escravização de povos como feitos positivos e civilizatórios para a humanidade. Pelo contrário, no épico quilombola, ocorre uma inversão de valores ao romper com os moldes tradicionais de celebrar feitos vitoriosos dos heróis clássicos das epopéia grega, romana ou portuguesa. No lugar de reis e rainhas, Trindade coloca a figura de Zumbi dos Palmares, um ex-escravo, proscrito, mas, transformado no poema em herói. “O eu-lírico ao dar voz a Zumbi, re-apresenta o ex-escravo, o proscrito, como o responsável pela ação heróica, fazendo emergir uma nova versão dos fatos, a versão não oficial”. (BERND, 2010, p. 29) Vemos que a literatura produzida por Solano Trindade se insere nesta perspectiva de um descentramento do olhar etnográfico. O filósofo francês Jacques Derrida é exemplar ao afirmar que: “o olhar etnográfico foi resultado de um descentramento ocorrido no interior da visão de mundo ocidental, após a era clássica, "no momento em que a cultura européia foi deslocada, expulsa do seu lugar, deixando então de ser considerada como a cultura de referência". O movimento dos povos relegados às posições periféricas, ao reivindicar e afirmar suas identidades, pensamentos e direito à fala, foi fundamental neste processo de revisão. XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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Palavras-chave: Solano Trindade; liberdade; deslocamento Tamilis Loredo de Oliveira (Graduanda-Uesc) ERA UMA VEZ... OS GÊNEROS: TRANSFORMAÇÕES DA NARRATIVA EM SÉRGIO SANT’ANNA (em co-autoria com Cristiano Augusto da Silva Jutgla) A presente comunicação pretende analisar as reconfigurações de gêneros tradicionais empreendidas por Sérgio Sant’Anna em sua obra O monstro (1994). Tal “desmonte” e reconstrução destes gêneros aparecem, por exemplo, na terceira narrativa do livro, na qual o leitor tem a impressão de estar diante de uma novela, no entanto, no desenrolar da trama, depara-se com um gênero jornalístico ou até mesmo com o gênero epistolar. Semelhante processo de reapropriação de um gênero textual aparece nas duas outras histórias do livro, também voltadas para temáticas amorosas. Nesse sentido, as três narrativas apresentam discursos marcados por uma profunda revisão crítica de certos gêneros tradicionais da prosa. Soma-se a isso a presença de personagens que, embora de alta instrução formal, surpreendem os leitores não por serem “cultos” ou éticos, mas por se constituírem por traços de uma profunda desumanidade somada a intensa fragmentação psíquica. Como exemplo, no primeiro conto, “Uma carta”, há um processo similar ao conto “O monstro” no que toca à reapropriação de um gênero textual, pois, ao narrar sua história na carta, a personagem põe em cheque determinados modos tradicionais de organização do discurso literário, ao mesmo tempo em que apresenta várias expressões sentimentais e coloca em xeque se aquele texto de fato era uma carta. Dessa forma, o segundo conto, “O monstro”, é construído semelhante a uma entrevista jornalística, com extensos questionamentos que fazem do narrador, do personagem e do leitor indivíduos questionadores de uma realidade contribuinte de uma ficção. Sendo assim, o conto apresenta esse universo ora como visibilidade do real, representado por elementos discursivos da entrevista jornalística, ora por meios de ficção, pois se trata de uma narrativa. Assim, se tudo está em constante mudança, a narrativa abrange essa transformação constante como forma de caracterizar seus personagens, pois em “O monstro” há nitidamente a presença de uma identidade confusa no protagonista, acusado de cometer um crime bárbaro, juntamente com sua amante, ao qual se soma sua personalidade fria e ambígua. Na última narrativa, “As cartas não mentem jamais”, a história é tratada sob a perspectiva da memória. É importante ressaltar o modo dos personagens que possuem personalidade fria e destemida e como esse leque faz ligação com a própria realidade. Nesse sentido, um dos pontos centrais da pesquisa é compreender como na obra de Sérgio Sant´Anna os gêneros tradicionais vão, sutilmente, se modificando de acordo com a leitura das três narrativas. Para a discussão proposta nos valeremos principalmente dos trabalhos de Andreas Huyssen (1990), Jacques Le Goff (1996), Jane Quintiliano G. Silva (1999), Liane Bonato (2003), Stuart Hall (2005) e Walter Benjamin (1994). Palavras-chave: Sérgio Sant´Anna; O monstro; gêneros literários. Prof. Me. Vitor Cei (Doutorando-UFMG) HEIDEGGER E A ANGÚSTIA DO AUTOR Sócrates, ao romper com os pensadores originários gregos – posteriormente denominados pré-socráticos – lançou os fundamentos da metafísica ocidental. Enquanto os primeiros filósofos procuravam investigar o que é a natureza ou a realidade última do cosmos, o mestre de Platão procurou saber o que é a natureza ou realidade última do homem. Qual é a essência do ser humano? A resposta socrática é a seguinte: o homem é a sua alma (psyché), pois é a alma que o distingue especificamente de qualquer outro ente. A alma, segundo Sócrates, é o XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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lugar da verdade, sede de nossa atividade pensante e eticamente operante. Em contrapartida, o corpo é o lugar das doenças, temores e paixões. Sendo assim, o filósofo ateniense concluiu que a alma deve ser senhora do corpo e dos seus instintos. Nesse sentido, a mais significativa manifestação da excelência da psyché seria o autodomínio, isto é, o controle de si mesmo no urgir das paixões e dos instintos, como por exemplo, nos estados de prazer, dor e cansaço. O homem autenticamente livre seria aquele que resiste aos seus instintos, enquanto aquele que se submete aos mesmos torna-se escravo. A alma, enquanto presa ao corpo, estaria encarcerada numa tumba. Nosso morrer (com o corpo) seria viver, porque, morrendo o corpo, a alma se libertaria do cárcere. Se a essência do homem é a alma, cuidar de si mesmo exigiria um cuidado maior com a alma do que com o corpo, mero receptáculo. Ensinar os homens a cuidarem da própria alma é a tarefa que Sócrates considerou ter recebido de um Deus. Essa concepção negativa do corpo, que influenciou fortemente o cristianismo, sofre certas atenuações nas últimas obras de Platão, embora nunca desapareça definitivamente. Com tal doutrina, o mestre de Platão inaugurou a tradição intelectual e moral do Ocidente, fundando a filosofia, influenciando a teologia cristã e a ciência moderna. Desde então os filósofos tem buscado um remédio contra a agitação das paixões, a fim de que o homem torne-se senhor de si mesmo. Ao longo da história da filosofia predominou a perspectiva condenatória das emoções e paixões, relegadas ao papel de ameaças à liberdade de escolha racional e moral. Em contrapartida a esta tradição, Martin Heidegger defende que toda compreensão é emotiva, afirmando a importância do sentimento como característica essencial da existência humana no mundo. Se a tradição metafísica vê nas paixões um desvio da razão e da verdade, segundo o pensador alemão o que faz o homem alcançar uma compreensão decisiva de sua existência é uma disposição de humor fundamental a angústia (Angst), pathos dos poetas e pensadores. O propósito desta pesquisa é investigar “o que é isto angústia?”, a fim de alcançar uma compreensão do sentido do ser, mostrando que o ato autoral da escrita não é um processo puramente racional, mas ocorre em tensão com a disposição fundamental da angústia. Palavras-chave: angústia; autoria; metafísica. Waleska de Paula Carvalho Rocha (Mestranda-Uenf) BLOG: UM “ESPAÇO BIOGRÁFICO” CONTEMPORÂNEO (em co-autoria com Daniela Aguiar Barbosa) No cenário cultural contemporâneo é possível perceber o fascínio e a procura do grande público por produtos que exibem a intimidade. Autobiografias, vídeos no youtube, orkut, facebook, twitter, realityshows, talkshows, fotologs, diários íntimos na internet transformam vida e vivido em material de entretenimento e consumo. Surge a espetacularização do “eu”, alguém que quer ser visto e comentado. A busca contínua desse “eu” que quer ser conhecido por todos, deixa, no momento atual, os limites entre público e privado cada vez mais “escorregadios”. O que antes era íntimo e velado, hoje, é compartilhado para quem quiser “espiar”. Com a interferência cada vez maior dos recursos tecnológicos, que favorecem o voyeurismo, essa fronteira torna-se mais tênue e imprecisa. Considerando essa proliferação de discursos em primeira pessoa, o presente trabalho pretende utilizar como viés de análise a ferramenta do blog, que por sua vez, surgiu como diário íntimo na internet e, que com o passar do tempo, foi adquirindo desdobramentos, entre eles os blogs literários. Ambos, por sua vez, adquirem fronteiras bem porosas, levando o leitor a agir como “cão de caça” diante desse “eu” que surge na web, - vasculhando a trajetória de vida do blogueiro, ora pensando estar diante de um diário íntimo - validando assim o pacto autobiográfico teorizado por Lejeune - ora acreditando num fingimento do escritor, que XIII Congresso de Estudos literários: Que autor sou eu? Deslocamentos, experiências, fronteiras

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mesmo sendo ao mesmo tempo autor, narrador e personagem não deixa de ser uma ficção, principalmente, pelo fato de se construir na linguagem. Longe da relação face a face, o diarista cria a imagem do “eu” em permanente diálogo com o outro, contribuindo para a figura do sujeito que se narra. Todavia, essa troca e essa cooperação entre quem escreve e quem lê supõem, em alguns momentos, a utilização de máscaras por parte do escritor, que pode encenar sua vida e obra, retratando uma aparição mentirosa e fingida, é o que Ana Cláudia Viegas chama de “invenção biográfica” e “autoficções”. Por facilmente deslizar entre o plano literário e íntimo, o blog traz consigo algumas problemáticas: Como saber se o que está sendo narrado representa, realmente, a vida e obra o escritor blogueiro? Qual é o limite entre o real e o ficcional nesse escrito? Para responder tais questionamentos utilizarei como estratégia de análise, a leitura crítica de blogs de escritores já consagrados pela crítica literária, que possuem livros impressos, entre eles Henrique Rodrigues, Paloma Vidal e Fabrício Carpinejar. Tendo por base todas as especificidades da escrita no blog e, numa tentativa de abarcar as reconfigurações das subjetividades contemporâneas, o presente trabalho pretende pensar esta ferramenta de produção da cultura como um “espaço biográfico” pautando-se na teoria de Leonor Arfuch. Palavras-chave: Blog; espaço biográfico; autoficções. Prof. Me. Wellington Rogério da Silva (Doutorando-UFJF) MAUX DITS: A POESIA MIGRANTE DE ANISSA MOHAMMEDI Sofrendo de exílio interior em seu país natal, Anissa Mohammedi, poetisa argelina de expressão bilíngue francês/kabile, encontra no deslocamento para a França o espaço onde escreve e inscreve a sua poesia, pela qual se sente “possuída” e sem a qual não poderia viver. Sua escrita passa pelo total processo de diasporização, conceito desenvolvido por Hafid Gafaïti. Sua trajetória poética, que se inicia com Soupirs (1996), passa por La voix du silence (2001) e evolui a uma performance, Au Nom de ma parole (2003) para finalmente entregar-se à vida feita De terre et de chair (2009). O conjunto de poemas que analiso, Au nom de ma parole, apresenta a reivindicação da palavra como parte do mundo invisível que a poetisa explora. Amarga e errante, a Parole evoca ao mesmo tempo a expressão do “eu” e do “outro” e o paradoxo de uma “overdose do silêncio”. Na errância, o “gozo cerebral” que conduz o texto não abandona a “Terra imortal”, ao mesmo tempo a sua terra e Todo-o-Mundo, a partir da visão glissantiana de uma poética da relação. Palavras-chave: exílio; migração; diasporização.

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