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J} Poder, politica e educacao . Paul Singer Faculdade de Economia € Adminislrasio, Universidade de Sie Paulo Conteréncia de aberiura da XVII! Reuniéo Anual da ANPEd, Caxambu, outubro de 1995. grande debate educacional hoje Mais do que nunca, a educagio esté hoje em debate, no Brasil em todo do mundo. O universe dos educadores, educandos, administradores de aparelhos educacionais, politicos e gestores pil cos estd dividido e polarizado em duas visdes opos- tas dos fins da educagio € de come atingi-los. Os Aidis lads sio entusiisticos defensores da educacio, que consideram importantissima. Mas, além disso, quase nada cém em comum. A sua caracterizacao. 4 seguit, deliberadamente acentua as diferengas, mesmo sabendo que devem existir muitos que se posicionam de forma menos extcemada. E que as diferengas permitem compceender melhor 0 teor do debate ¢ ajudam a dele pasticipar. Vamos chamara primeira posiczo de civil de- mocritica, porqueela encaca a educagioem geral ¢ 2 escolar em particular como processo de formacio cidad, tencloem vista o exercicio de direitos eobri- gages tipicesda democtacia. Essa visfonda educagio centra-se no edu lo e em particular no educan- do das classes desprivilegiadas ou nfo-proprietarias, Revista rasleacde Edveagae (O grande propésita da educagao seria proporcionar 20 filo das classes trabalhadoras a consciéncia, por- tanto a motivacio (além de inscrumentos intelec~ ‘uis), que the permita o engajamento em movitmen t03 coletivos visando tornae a sociedade mais live ¢ igualitaria, E Sbvio que a educagao escolar tam- bém deveria cumpris muitos outros propésitos, que poderiam ser resumidos na habilitagio do individuo a se inserir de forma adequada na vida adulta: peo- fissional, familiar, esportiva, artistica, etc. [A visio civil Cemoccdtica da educagdo no vé contradigao entre a formacao do cidadao € a for- ‘magio do profissional, da furura mie ou pai de fa- milia, do esportista, do artista ¢ assim por diame. O lago que une os procederes educativos € 0 respeito 4 preocupagio pela autonomia do educando, por- tanto, pela autoformagio desua consciéncia ¢ pela sua gradativa capacitacao para se libertar da tute la do educador e poder prosseguir, sozinko ou em companhia de seus pares, sia auto-educagio. A én- fase, nessa visio, € num tipo de relagao entre edu cadar ¢ educando em que 9 primeiro conduz 0 se- gundo por vias que vio sende determinadas cada TT A vez mais pelo iltimo, Hi muita discussdo, eviden- temente, sobre como se deve constituir essa relagio, ‘mas 0 que une todos os que compartilham essa vi- sio é a idéia de que toda crianga descja “natural- mente” aprender ¢ que esse desejo deve ser respei tado e alimentado. O limite desse respeito pela in- dividualidade do educando é dado pelas necessida- des e interesses dos demais — educandos, educado- res, pais € familiares etc. —, 0 que exige disciplina, ‘outco t6pico controverso. (© que se contrapse a essa visto € a que deno- minacei produtivista, Esta concebe a educacio so- bretudo escolar como preparagao dos individuos pa- +12 0 ingresso, da melhor forma possivel, na divisio social do teabalho. Nao custa repetir quetambéma visio produtivista nao despreza outros propésitos do processo educacional, mas enfatiza 0 que é cha mado pelos economistas de acumulagao de capital Iuonaio. Cada individuo é encarado como tendo capacidade produtiva potenci mento exige esforco tanto do préprio como de seus |, cujo desenvolvi- insteurores e familisees. Esse esforso se teaduz num custo, que pode ser formulado em termos pecunia- ios e representa 0 valor do capital humano de que ispée cada individuo. Esse capital humano provém nko apenasda educagio escolar mas também de cui- dades coma satide ¢ outros quecontribuem parade. seuvolver a capacidade produtiva do individuo. Educar sevia primordialmente isto: instruir € esenvolver faculdades que habilitem 0 educando a iimegra o mercado de trabalho 0 mais vantajo- samente possivel. Cumpre atentar para 0 pressupos: to crucial dessa visio: 0 de que a vantagem indivi- dual, que se traduz em ganho elevado e outras con- digdes favoraveis de usufruto material, € simulta- neamente social. O bem-estar de todos éo resultante da soma dos gankos individuais, que, em um mer- cado de trabalho livre # concorrencial, sie propor- ciomis a0 capital humano acumulado em cada um dos individuos. Em outeas palavras, a educagio pro- move o aumento da produrividade, que seria 0 fa tor mais importante para elevar 0 produto social ¢ dessx maneira eliminar a pobreza. Paul Singer As duas visées valorizam a educagio como meio de methorar a sociedade, acentuando deter minados eftitos daquela. Mas as concepgdes de co mo a sociedade e a economia funcionam, que sub- jazem a cada visio, sio muito diversas ese integra cem legados ideoldgicos opostos. Cumpre observar que hd ourras visGes de educagio além das duas aqui esquemarizadas, mas que porém so atualmence ofuscadas pelo grande debate em andamento. Para comprecncer esse debate, cumpre rerornar as ori- gens das vises em confronto. A exigéncia democratica da eduucagao universal A visio civil democritica da educagio decor- redo grande movimento pela igualdade dos dois liltimos séculos, que culminou na batalha pelo su- frdgio universal, da qual resultou a democracia mo- derma. Convém diferenciar aqui. ideologia demo- exitica da liberal. Esta confinava a igualdade entre 0s cidadaos 20s resultados da competiggo no mer endo. Os homens (mas iguais em direitos juridicos, parx poderem compe: tir nos mercados, porém nada deveria reduzic a de sigualdade “natural” entre ganhadores e perdedo res. Sendo justas as regeas do jogo do mercado, que constituiriam a liberdade perfeita de Adam Smith, qualquer interferéncia aos resultados ceduziria 0 sagrado dircito & liberdade. A premissa era a de que os ganhadores obtém a preferéncia dos comprado- res por servi-los melhor € utilizam com mais parci- monia ¢ sabedoria 0 excedente de renda a que fa- zem jus. Transferic dos ganhadores aos perdedores parte desse excedente, além de injusto, piora a uti- lizacao do excedente com prejuizo para toda a so- ciedade. Pior ainda, desincentiva os ganhadores, 20 priva-los de sew prémio, ¢ também os perdedores, 30 anular suas perdas. as mulheres) deviam ser Aid diferentes. Coloca igualdadee liberdade no mesmo pé e nega a legitimidade dos resultados do jogo do mercado pelo fato de a sociedade capitalista estar ogia demoeritiea parte de premissas haevFeviadAr 1906 NP Pacer, politics €educsg30 dividida em classes, cue agrupam de um lade os proprietsrios de capital e do outro os que sao obri- gados a ganher a vida com seu trabalho, De acor- do com essa ideologia, os detentores do capital en- team no mercado com vantagens decisivas em ce- lagao aos trabalhadores, que dependem dos primei- ros para poder participar da producao social. Per dedores ¢ ganhadores, portanto, jd estao predeter minados e, s¢ nada for feito para atenuar as dife rencas entre eles, estas terdem a se aprofundar. Dat as eeivindicagbes democratieas de universalizacto 80 apenas dos diteitos politicos de vatare ser vo- ado mas também do acesso a educagao e 20 se ro social de sade, de vethice, de morte, de aciden- tes de trabalho e de desemprego. A demanda de acesso universal a educagio es colar tinha como propésicos principais capacitar as eriangas, sobretudo das camadas mais desprivile- giadas, 9 exezcer plenamiente os direitos politicos quea conquista do sufragio universal thes propor- cionava, bem como dar acesso estas camadas 2 oportunidades culturais ¢ profissionais que exigem escolatizagio, Convém lembear que, nosalbores da democracia,o ensino universititio era explicitamen- eel eta e era exigido para o exercicio das chama- das profissées liberais, que gozavam de nivel rela- tivamente clevado de ganko e grande prestigio so- cial, Foram as feministas que lideraram boa parte das grandes lutas tanto pelo sufrigio universal como pela educecio universal, que naturalmente sinha de ser gratuita e, portanto, piblica. O liveralismo em face da democracia Existe hoje uma tendéncia a mivimizar as di- ferencas entre liheralismo ¢ democracia, cunhiando- se a expressio liberal-democracia ou democrac liberal. Essa tendéncia correspondeu a uma realida~ de historica, que durou de certo modo da década de 30a década de 60 deste século. Nesse periodo, a resisténcia liberal 4 democracia cedeu e grande parte das corcentes mais conservadoras, que tinham o liberalismo clissico como bandeira, acabou acei~ Revie Beteirs de Educars0 ando as principais conquistas democriticas. Pelo que sabemos, nenhurn pais em que o sufrigio uni- versal foi implantado veltou ates ¢ restaurou 0 sutigio censitério. (Regimes democréticos foram ruitas vezes derrubados e substicuidos por ditada- ras, em que no se vorava ow as eleigGes eran far sas, mas isso no significava um recorno ao libera lismo pré-democritico,) Era correto entio cacacier zat a direita antifascista como liberal demverdtica Foi clurance esse perfodo que, ao menos nos paises capitalistas adiancados, parte imporcante da plataforma democrética se tornou cealidade, prin cipalmente sob a forma do Estado de bemrestat so cial E foi no émbito deste que a universalizagao ds educacao escolar, sob a forma de ensino paibiico, foi implantada num importante ntimero de patses A geracao atval de adultos, nos paises do Primeiro ‘Mundo, foi possivelmente a primeira que teve real: mente acesso universal ao ensino basico. Governos conservadiores (liberal-democratas) contribu, aa lado de governes social-demacratasou trabalhis- tas, para que isso fosse logrado. Na realidade, a Fuso do liberatismo com a de- que em meados deste século parecia um fato consumado ¢ iereversivel, foi revertida pelo res- surgimento de forte onda liberal anti-democratica, quue tomou o nome de seoliberalismo, Essa rever- sio foi, é bor dizer desde logo. parcial. A adesio 20 sufcdgio universal foi mantida. mas 0 apoio as utes: -onquistas democratieas, no campo da se~ guridade social e da educagio universal, foi retira- do. Porranto, as referencias & liberal-democra dover ser hoje fortemente qualifieadas. As princi- pais cortentes de dircita ndo-autoriti meados da década de 70, deram uma volta de 180” € se tornaram neoliberais, recornando sob muitos aspectos 4 postura ideolégics que tinham tido no a, @ partic de século passado, A ctltica neoliberal aos servicos sociais do Estado A visio produrivista da educagio se origina da ccitica neoliberal aos servigos sociais do Estado. Os,