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A EDUCAGAO COMO DESAFIO NA ORDEM JURIDICA CARLOS ROBERTO JAMIL CURY termo direito deriva dover- bo latino dirigere e signifi- ca cirigir, ordenar. Essa expressao foi assumida pela area jurfdica, passando a recobrir varios senticdos. Um deles ade norma, rota que dirige ou ordena uma acao individual ow social. No ambito das sociedades, o direito é um conjunto de normas existentes dentro de uma dada ordem juridica. Essasre~ gras podem significar a existéncia de um poder pelo qual as pessoas ou 0 grupos fazem ou deixam de fazer algo em vista de um determinado fim. (Quando essa normasse transforma em. lei, 0 diretto implica, ao mesmo tem- po, 0 reconhiecimento de uma prerro- sativa ¢ de um limite cuja transgressao implica uma pena. O direltose viuen- riquecido com outras significagbes dentre as quaisa de um acessoa uma protecao contra uma ameaga ou a de um usufruto de uma prerrogativa indispensavel para um indivicuo ou uma coletividade, Mas a histéria mostra, também, a existéncia de mtil- tiplas ordens juridicas, entre as quais aquela que é assumida pelos Estados Nagdes como forma de ordenar as relagies sociais e as prerrogativas das pessoas. Trata-se da ordem juri- dica estatal, O diroito deve ser declarado e entre os modos de se declarar um di- reito mais disseminado é pela via da escrita. Mas ha também aquela ‘maneira ligada ao costume. Em toda caso, 6 necessario uma expressao de- clarativa para que todos possam to- mar conhecimento do direito:a forma mais elaborada dessa declaracao é a constituigo proclamada de um pais, anorma fundamental de todas as outra leis, Sob ela, podem viger ou- tras orclens juridicas particulares © @ ela subordinadas, Declarar direitos é um recurso politico-pedagdgico que expressa um modo de conceber as relagoes sociais dentrode um pais. f também um ins- trumento voltado & mem@ria indi dual ou coletiva a fim de lembrar ou relembrar quem esqueceu de tomar citncia dos direitos. Dedlaraghes concementes aos di- reitos dos seres humanos tém algumas referencias hist6ricas. E © caso da De- claragao do Estaclo de Massachussets 500 anos de educagto no Brasil de 1870 nos Estados Unidos. & também 0 caso da Deciaragio dos Direitos dos Homem e do Cidadao de 1789 da Revolugio Francesa ea Declaragao dos Direitos Humanos de 1948 da ‘Organizagao das Nagées Unidas (ONU). ‘Uma analise que evoca a trajet6ria progressiva e a clas- sificagao do direito é aquela oferecida por um célebre texto de ‘T. Marshall: Trata-se de um texto fundador no qual ele anali- sa as experiéncias da Inglaterra em face dos direitos periodi- zando-ps. Segundo 0 autor, 0s direitos civis lése estabeleceram no século XVIII, os politicos no século XIX ¢ 03 sociais no sé- culo XX. Muito instigante também sao as reflexses de Bob- bio? que, de corta maneira, retoma 2 andlise histérica dos direitos na busca de uma perspectiva histérica de longo al- cance e jf assinala a existéncia de direitos espectticas voltacios para as diferengas étnicas, étarias e de género, entre outras. (Outro texto importante que ajuda a histéria da produ- ‘do de muitos direites 6 0 de Adam Przeworski,? que aponta as formas pelas quais a classe operiria européia desobstrui © caminho dos direitos civis e politicos para o encontro com 08 direitos seciais, No caso dos trés textos mencionados, a educagio esco- lar entra como referéncia e como um dircito de cidadania. Certamente, cada pais, dentro de sua situacao histé- rica, conheceré peculiaridades préprias que nie o reduzem a0 caminho de um outro. Mas, de todo modo, a divisao pro- posta por Marshall as reflexdes de Bobbio e a reconstrucao histérica de Przeworski sio muito iiteis para conceituar campo dos direitos, diferenciando-os e classificando-os, além de se oferecerem como referéncias de estudo e admi- nistragdo de uma realidade. ‘O reconhecimento da importincia do direito e da legis- lagio que © expressa tem o sett ponto alto quando se funda- ‘menta na soberania popular. Fla possui, como fonte do direito, aquela capacidade de expressar 08 direitos de uma comunida- de. Nesse sentido, a soberania popular, tomando-se ela mesma a origem do poder, impde-se a si prépria uma autoridade na ‘qual ce reconhece 20 mesmo tempo como sujeito e objeto. Su- jeito por ser sta fonte e objeto porque curva-se aos seus dita- mes. A defesa das “regtas do jogo” perde seu aspecto substantivo, mantendo apenas sua face formal, quando se des- cola de suas origens mais fundas, no caso, a soberania popu- lar. & essa capacidade da pessoa se inserir com condicbes 568 A educagio como desafo ns orden jurklica Carle Robert Jail Cary eqiiitatives minimas na ordem juri- dica de um pafs ¢ de poder partici- par igualmente nos destinos de sua comunidade que a define no espaco da cidadania. direito & educagao como um direito expresso e declarado em lei é receniee remonta ao inal do século XIX ¢ inicio do século XX. A Franga conso- lida sua legislagio escolar basica no fi- nal do século XIX. A Alemanha, da Repiiblica de Weimar, vai declarar so- lenemenie a educagio como direito de sua constituigio. Ele é um produto dos processos sociais levados adiante pe- los segmentos de trabalhadores que vviramneleum meio de participacio na vida econémica, social e politica, Seja por razées politicas, seja por razdes li- ‘gadasao individuo, a educagao era vis- ta como tum canal de acesso acs bens sociais ¢ & luta politica ¢ como tal um ‘caminho também de emancipagao do individuo frente ignorancia. Mas tam- bém setores liberaise democraticos ndo se auseniaram de propor esse direito ‘como caminho de mobilidade social ¢ de integragéo na ordem social. © DIREITO A EDUCAGAO NO BRASIL (© Brasil é ainda um pais end vidado com sua populagio. Nossa cidadania educacional est longe de ser um exemplo. Convivemos com milhées de criangas fora da escola ou presentes na escola mas fora da ida- de apropriada. Avangamos muito nese campo, mas enquanto houver uma crianga sem escola ou fora da idade adequada, o direito de todos ¢ 0 dever do Estado nao terdo se con substanciado. Temos milhdes de jo- vens ¢ adultos que nao tiveram a oportunidade de entrar na escola ou dela tiveram que se evadir mais cedo, por condigées de sobrevivéncia ou por repeiéncia. A educagio infantil e 0 en- sino médio ainda sio privilégio. Essa situagao tem uma hist6ria passada de desleixo e abandono, cu- jas conseqiiéncias sao extremamente visiveis e sempre catalogadas nos in- dicadores estatisticos dos érgaos do governo ou de organizagées interna- cionais. Basta consultar os dados ge- raisatualizadosdo Instituto Brasileiro de Goografia Estatistica (IBGE), 0s es- ppecificos do Instituto Nacional de Es- tudos e Pesquisas Pedagdgicas (INEP) ou os dados da UNESCO. Mas nao faltaram esforcos, propostas, projetos ¢ lutas tendentes a realizar a cidada- nia ediucacional em nosso pafs. Um dos campos de luta foi o terreno de elaboracao de leis. © Brasil tem uma trajtéria es- pecifica quanto a correlagao educacio e lei. Um pouco desse itinerario pode ser visto no livro organizado por Fave- ro, que versa sobre esse direito & luz das constituintes e constituicdes brasi- leiras. Nota-se, 56 pelos estudos ai pro- postos, um caminho dificil, sinucso, permeado de contradigées de direitos. NNesse tiltimo caso, nao ha como igno- rar 0s avangos possibilitados pelas ‘Constituigoes de 1934 e de 1968. Em um pais federativo como 0 Brasil, cumpre assinalar a existéncia de constituigdes estaduais, as leis or- ginicas dos municipios, auténomas nas suias competéncias. Elas podem 569