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O Orfao, Von Kleist

O Orfao, Von Kleist

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Bernd Heinrich Wilhelm von Kleist O Órfão (tradução de José Maria Vieira Mendes

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Antonio Piachi, negociante abastado de Roma, via-se por vezes obrigado a fazer longas viagens de negócios. Quando assim era, costumava deixar ficar Elvira, a sua jovem esposa, à guarda de parentes dela. Numa destas viagens, Piachi levou consigo Paolo, rapaz de onze anos, filho da sua primeira mulher, até Ragusa. A cidade e os arredores foram porém assolados por uma peste que espalhou o pânico na região. Piachi, que apenas tomou conhecimento do que se passava a meio da viagem, deteve-se numa localidade nas imediações da cidade para se informar melhor sobre a natureza das notícias. Mas quando lhe disseram que a epidemia se tornava mais grave de dia para dia e que se falava em fechar as portas da cidade, a apreensão pela saúde do filho sobrepôs-se a todos os interesses comerciais e Piachi decidiu regressar a Roma. Em campo aberto, reparou num rapaz que, junto à carruagem, lhe estendia as mãos em jeito de súplica e parecia bastante perturbado. Piachi mandou parar e perguntou ao rapaz o que queria, ao que este respondeu, em toda a sua inocência, que fora contagiado; os esbirros perseguiam-no para o levarem para o hospital onde o pai e a mãe já tinham morrido; e ele pedia por todos os santos que o levassem dali e não o deixassem morrer na cidade. Ao dizê-lo, agarrou a mão do velho, apertou-a e beijou-a, cobrindo-a de lágrimas. Piachi, num primeiro impulso, horrorizado, tentou repelir o rapaz, só que este, precisamente nesse momento, empalideceu e caiu desmaiado, despertando assim a piedade do velho que se apeou com o filho, pegou no rapaz, pô-lo na carruagem e seguiu viagem sem saber ao certo o que fazer com ele. Na primeira estação, quando negociava com os donos da hospedaria a maneira de se desembaraçar do rapaz, a polícia, que disto tomou conhecimento, deteve-os e transportou-os, a ele, ao seu filho e a Nicolo, assim se chamava o enfermo, sob escolta de volta a Ragusa. De nada serviram os protestos de Piachi contra a crueldade desta medida; chegados a Ragusa, foram os três levados por um esbirro ao hospital, onde Nicolo, o rapaz, se curou da doença e ele, Piachi, se manteve são. O filho porém, o pequeno Paolo de onze anos, foi infectado e ao terceiro dia morreu. As portas voltaram a abrir-se e Piachi, depois de enterrar o filho, obteve autorização da polícia para partir. Entrou na carruagem mergulhado numa grande dor e, olhando para o lugar vazio a seu lado, pegou no lenço para deixar correr as lágrimas. Foi então que Nicolo, com o chapéu na mão, se aproximou da carruagem para lhe desejar boa viagem. Piachi assomou à janela e perguntou-lhe, soluçando convulsivamente, se não queria acompanhá-lo. Assim que o jovem compreendeu o que o velho lhe dizia, assentiu e disse: "Oh, sim! gostava muito"; e como os responsáveis do hospital, quando o negociante lhes perguntou se podia levar consigo o rapaz, lhe assegurassem sorrindo que aquele era filho de Deus e que ninguém iria dar pela falta dele, Piachi puxou-o muito comovido para dentro da carruagem e levou-o, em lugar do seu filho, para Roma. Na estrada, à porta da cidade de Ragusa, o negociante olhou pela primeira vez com atenção para o rapaz. Era de uma beleza particular, um tanto rígida; os cabelos pretos caíam-lhe em finas
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madeixas sobre a testa e cobriam umas feições sérias e inteligentes que nunca mudavam de expressão. O velho fez-lhe várias perguntas, às quais ele apenas dava respostas curtas. Sentado a um canto, taciturno e ensimesmado, as mãos enfiadas nos bolsos das calças, Nicolo observava com um olhar desconfiado e pensativo a paisagem que atravessavam. De vez em quando, tirava da bolsa, silenciosa e discretamente, um punhado de nozes que trazia consigo e, enquanto Piachi limpava as lágrimas, ele punha as nozes entre os dentes e partia-as. Em Roma, e após uma curta explicação do sucedido, Piachi apresentou Nicolo a Elvira, a sua jovem e amada esposa, que foi incapaz de conter lágrimas sentidas ao pensar em Paolo, o pequeno enteado que ela tanto amara; mas estreitou ao mesmo tempo Nicolo contra o peito, apesar da distância e da rigidez que ele demonstrava, e indicou-lhe a cama onde Paolo dormira e ofereceulhe as roupas que ele vestira. Piachi mandou-o para a escola, onde Nicolo aprendeu a escrever, ler e contar e, como será fácil de entender, tendo em conta o alto valor que por ele pagara, afeiçoou-se bastante ao rapaz; passadas poucas semanas adoptou-o, com o consentimento da boa Elvira, que já não podia esperar ter filhos do velho. Mais tarde despediu um caixeiro cujo desempenho por diversas razões não o satisfazia e felicitou-se com o facto de, entregando a Nicolo o lugar no escritório, este gerir com eficiência e sucesso os muitos negócios em que se viu envolvido. Como único defeito Piachi, inimigo declarado de toda a beatice, apontava-lhe o convívio com os frades do convento dos carmelitas que, sabendo da considerável fortuna que o jovem herdaria do pai, se lhe mostravam particularmente dedicados; Elvira, por seu lado, apenas se queixava de uma inclinação segundo ela precoce pelo sexo feminino, que agitava o peito do rapaz. Porque já no seu décimo quinto aniversário, por ocasião de uma das visitas ao convento, Nicolo sucumbira à sedução de uma tal Xaviera Tartini, concubina do bispo, e apesar de, por exigência rigorosa do pai, se ver obrigado a romper esta relação, Elvira tinha razões para acreditar que o rapaz não era um paradigma de abstinência neste campo tão perigoso. No entanto, quando Nicolo, no seu vigésimo aniversário, contraiu matrimónio com Contanza Parquet, uma genovesa jovem e delicada, sobrinha de Elvira e que fora educada em Roma sob o seu cuidado, parecia que pelo menos o segundo destes males fora curado na fonte; os pais uniram-se na sua satisfação pelo filho e para o provar atribuíram-lhe um dote esplêndido, entregando-lhe uma boa parte do belo solar onde moravam. E pouco depois, quando atingiu os sessenta anos, Piachi fez por Nicolo o que de mais generoso e último poderia fazer: deixou-lhe por via legal toda a fortuna em que assentavam os seus negócios, guardando para si apenas um pequeno capital, e aposentou-se com a boa e fiel Elvira que poucos desejos tinha neste mundo. Havia no espírito de Elvira um traço triste que ficara de um acontecimento comovente da história da sua infância. Filippo Parquet, seu pai, um tintureiro abastado de Génova, habitava uma casa cujas traseiras, resguardadas por pedras lavradas, davam directamente para o mar, tal como exigia o seu ofício; do frontão da casa partiam grandes traves que se estendiam por vários côvados mar adentro e onde se penduravam os panos tingidos. Numa noite desditosa, a casa foi atingida por um fogo que se espalhou ao mesmo tempo por todos os quartos como se as pedras fossem palha; Elvira, na altura com treze anos, foi fugindo de andar em andar, acabando perdida em cima de uma das traves. A pobre criança deu por si a vacilar entre o céu e a terra sem saber como se salvar; atrás de si o frontão que ardia e cujas brasas fustigadas pelo vento já devoravam a trave, e por baixo o mar extenso, desolador e terrível. Pensava em encomendar-se a todos os santos, escolher o
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menor de dois males e mergulhar na corrente, quando um jovem genovês de família patrícia apareceu à entrada, lançou a capa sobre as traves, pegou em Elvira e, com tanta coragem quanto destreza, agarrando-se a um dos panos húmidos ali estendidos, levou-a para o mar onde foram posteriormente socorridos por gôndolas que estavam no porto e os transportaram até à margem para júbilo do povo. Acontece porém que o jovem herói, ao entrar na casa, fora atingido por uma pedra que se soltara do entablamento e lhe provocara uma ferida profunda na cabeça, fazendo com que, já a salvo, perdesse os sentidos e caísse inconsciente. O marquês seu pai, para cuja propriedade o filho foi levado, notando demora no restabelecimento, mandou vir médicos de todas as regiões de Itália que lhe trepanaram várias vezes o crânio e lhe retiraram diversos ossos; mas por um misterioso desígnio da Providência toda a ciência foi em vão. O jovem apenas se erguia de quando em vez apoiado na mão de Elvira, a quem a mãe pedira que viesse tratar do filho, e após três anos de dolorosa enfermidade, durante os quais a rapariga não saiu do seu lado, estendeu-lhe mais uma vez a mão e expirou. Piachi, que tinha negócios com esta casa, e que aí conhecera Elvira quando ela cuidava do enfermo e com ela casara dois anos depois, evitava mencionar o nome do falecido à sua frente ou lembrá-lo de alguma forma, pois sabia que iria perturbar o seu espírito belo e sensível. A mais pequena circunstância, que mesmo remotamente lhe lembrasse o tempo em que o jovem por ela sofreu e morreu, comovia-a até às lágrimas e não havia então consolo ou sossego para ela; estivesse onde estivesse, retirava-se e ninguém a seguia pois sabiam que a única solução era deixála chorar sozinha a sua dor. Piachi era o único a conhecer a causa destes abalos estranhos e frequentes, dado que durante a sua vida nunca lhe saiu dos lábios uma palavra que fosse sobre o acontecido. Tais recaídas eram justificadas com uma debilidade do sistema nervoso, causada por uma febre forte que a atingira pouco depois do casamento, e assim se punha ponto final nas conjecturas sobre os motivos dos achaques. Nicolo que, apesar da proibição do pai, nunca chegou a cortar por completo relações com Xaviera Tartini, acompanhou-a um dia secretamente a uma festa de Carnaval, escondendo-o da sua esposa a pretexto de um convite para visitar um amigo, e regressou já tarde a casa, quando todos dormiam, vestindo por acaso a máscara de um cavaleiro genovês. Aconteceu que o velho se sentiu mal nessa noite e Elvira, para o ajudar e visto que as criadas não estavam por perto, levantou-se e foi até à sala de jantar para lhe ir buscar uma garrafa com vinagre. Quando a procurava entre copos e jarros, num armário de canto, empoleirada em cima de uma cadeira, Nicolo abriu cuidadosamente a porta e, com uma vela que acendera no corredor, chapéu de pluma, capa e espada, entrou na sala. Sem reparar em Elvira, aproximou-se insuspeito da porta que levava ao seu próprio quarto, notando, desconcertado que esta se encontrava fechada à chave. Foi então que Elvira, por detrás dele, com garrafas e copos na mão, o viu, e como que atingida por um raio invisível, desequilibrou-se e caiu desmaiada no chão. Nicolo, pálido de susto, voltou-se para auxiliar a infeliz; mas como o barulho da queda por certo atrairia o velho, sobrepôs-se a qualquer consideração o receio da admoestação que poderia vir a receber: arrancou-lhe então, ansioso e perturbado, o molho de chaves que ela trazia à cintura e, depois de encontrar a chave que servia, lançou de volta o molho para a sala e desapareceu. Piachi, apesar da indisposição, levantou-se da cama; ergueu Elvira, chamou criados e serviçais, que apareceram com lanternas, e nessa altura também Nicolo resolveu mostrar-se, de camisa e roupão, e perguntou o que se passara; só que
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Elvira, com a língua paralisada pelo susto, não era capaz de falar e como, tirando ela, apenas ele próprio poderia responder àquela pergunta, nunca se chegou a saber o que de facto acontecera. Elvira, toda ela tremendo, foi levada para a cama onde permaneceu vários dias com uma febre alta; mas acabou por ultrapassar o sucedido graças à força natural da sua saúde, e recuperou quase completamente, fora uma estranha melancolia que disto lhe ficou. Passou entretanto um ano e Constanza, a esposa de Nicolo, deu à luz e pouco tempo depois morreu juntamente com a criança. Se a perda de uma pessoa virtuosa e educada como era Constanza é um acontecimento por si só digno de compaixão, foi-o neste caso duplamente pois abriu caminho para o regresso dos dois vícios de Nicolo: a beatice e a inclinação pelas mulheres. Voltou a passar dias inteiros nas celas dos frades carmelitas a pretexto de junto deles procurar consolo, apesar de se saber que, enquanto a esposa fora viva, Nicolo sempre lhe mostrara pouco amor e fidelidade. Aliás, ainda nem Constanza tinha ido a enterrar, quando Elvira, entrando no quarto de Nicolo para tratar de assuntos relacionados com o enterro, encontrou com ele uma rapariga que, pela cara pintada e atavios, logo reconheceu como a criada de Xaviera Tartini. Ao vê-la, Elvira baixou os olhos, voltou-se sem dizer uma palavra e abandonou o quarto; nem Piachi nem ninguém chegaram alguma vez a saber do sucedido. Elvira limitou-se a ajoelhar, com o coração destroçado, diante do corpo de Constanza que tanto amara Nicolo, e chorou. Mas Piachi, regressando da cidade, cruzou-se com a rapariga à entrada de casa e, apercebendo-se do que ela ali tinha vindo fazer, agarrou-a com força e induziu-a, com astúcia mas também com violência, a darlhe a carta que trazia. Foi para o quarto lê-la e encontrou aquilo que esperava: Nicolo pedia a Xaviera que indicasse um local e uma hora para um encontro. Piachi sentou-se e dissimulando a caligrafia respondeu em nome de Xaviera: "Agora, antes que seja noite, na Igreja da Madalena" selou a carta com um brasão alheio e mandou-a entregar no quarto de Nicolo, como se viesse daquela mulher. O engodo funcionou na perfeição; Nicolo pegou imediatamente na capa e saiu de casa, esquecendo por completo Constanza que jazia no féretro. Perante isto, Piachi, profundamente indignado, cancelou as exéquias agendadas para o dia seguinte e chamou alguns homens para carregarem o cadáver tal como ele estava, acompanhado no cortejo por Elvira, ele próprio e alguns parentes, em silêncio, até ao jazigo preparado para Constanza na Igreja da Madalena. Nicolo, que aguardava por baixo do pórtico da igreja protegido pela capa, e viu, para espanto seu, aproximar- -se um cortejo fúnebre que lhe era familiar, perguntou ao pai, que seguia atrás do caixão, o que significava aquilo e quem transportavam. Mas este, com o livro de orações na mão e sem levantar a cabeça, limitou-se a responder: "Xaviera Tartini." Então, ignorando por completo a presença de Nicolo, os presentes destaparam mais uma vez o corpo, benzeram-no e depois colocaram-no no jazigo para aí ser encerrado. Este acontecimento deveras humilhante fez nascer no peito do infeliz um ódio inflamado contra Elvira, pois acreditava que a ela se devia a reprimenda que sofrera por parte do velho diante de toda a gente. Durante vários dias Piachi não falou com o filho; e como este necessitava, por causa do património de Constanza, da amabilidade e boa vontade do pai, obrigou-se uma noite a segurar a mão do pai e, fingindo arrependimento, prometer solenemente que nunca mais voltaria a encontrar-se com Xaviera. Não era porém promessa que tivesse grandes intenções de cumprir; a resistência que encontrava aguçava ainda mais a sua obstinação e espicaçava-o no aperfeiçoamento da arte de escapar à vigilância do velho honesto. Por outro lado, Elvira nunca lhe
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parecera tão bonita como no momento indecoroso em que o surpreendera com a criada, abrindo e fechando logo a porta do quarto. A indignação que lhe corara suavemente as maçãs do rosto iluminou com um encanto infinito as feições suaves e tão raramente afectadas por emoções; parecia-lhe impossível que ela, com tantas razões para o fazer, não se sentisse por vezes tentada a seguir o caminho cujas flores Nicolo colhera, e que lhe valera o castigo ultrajante infligido por ela. Ardia no desejo de, em surgindo a oportunidade, poder retribuir o favor e servir de informador do velho, e por isso procurava ansiosamente a ocasião que lhe permitisse cumprir esse propósito. Um dia, com Piachi fora de casa, Nicolo passava à porta do quarto de Elvira quando, para espanto seu, ouviu falar lá dentro. Excitado por uma esperança pérfida, encostou de imediato olhos e ouvidos à fechadura e - céus! o que viu? Elvira, numa atitude arrebatada, prostrada aos pés de alguém; e apesar de não ser capaz de reconhecer a pessoa, ouviu claramente, se bem que sussurrado com a pronúncia do amor, um nome: Colino. De coração alvoroçado, encostou-se à janela do corredor de onde podia observar a porta do quarto sem se denunciar; e quando julgava ter finalmente chegado o momento precioso em que a falsa santa seria desmascarada, ouviu abrirse com cuidado o ferrolho e deparou-se não com o desconhecido que augurava mas com a própria Elvira, sozinha, que à distância o olhou com calma e indiferença. Trazia debaixo do braço um pano de linho que ela própria tecera; e depois de fechar o quarto com uma chave presa à cintura, desceu calmamente as escadas apoiada ao corrimão. Esta dissimulação, esta aparente indiferença pareceu-lhe o cúmulo do descaramento e astúcia, e assim que ela se afastou, Nicolo foi de imediato buscar uma chave-mestra e após olhar com atenção à sua volta abriu furtivamente a porta do quarto. O espanto que não foi encontrá-lo vazio e, inspeccionados os quatro cantos, não descobrir nada que se parecesse com um homem, excepto o quadro de um jovem cavaleiro em tamanho real, num nicho da parede, por detrás de um reposteiro de seda vermelha e iluminado por uma lamparina. Nicolo assustou-se sem saber bem porquê; e ao olhar para os grandes olhos da figura que o observava imóvel, foi assaltado por um tumul- to de pensamentos que lhe atravessaram o peito. Mas antes que pudesse juntar e arrumar estas ideias tomou-o o receio de ser descoberto por Elvira e de vir a ser punido; fechou a porta ainda perturbado e afastou-se. Quanto mais pensava nisso, mais importante se tornava o quadro que encontrara, e mais se impunha a curiosidade ardente e perturbada de saber quem representava. Porque ele vira perfeitamente Elvira ajoelhar-se, e era mais que certo que fora diante da figura do cavaleiro da tela. Levado pela agitação que o tomou, resolveu contar a Xaviera Tartini o fantástico acontecimento que acabara de viver. Esta, que partilhava com ele o desejo de desgraçar Elvira por acreditar que dela provinha toda a oposição à relação deles, exprimiu a vontade de ver o quadro do cavaleiro. Xaviera podia gabar-se de conhecer bem a nobreza italiana, e se a figura do quadro tivesse alguma vez passado por Roma e fosse de alguma relevância, havia a possibilidade de ela a reconhecer. Pouco depois, num domingo, o casal Piachi foi visitar um parente na província e, assim que Nicolo soube que o terreno estaria livre, foi a correr buscar Xaviera e introduziu-a no quarto de Elvira, com a filha pequena que tivera do cardeal, fazendo-a passar por uma senhora que queria ver as pinturas e os bordados. E qual não foi a perplexidade de Nicolo quando a pequena Clara (assim se chamava a filha), mal ele afastou o cortinado, exclamou: "Meu Deus! Signor Nicolo, mas é o senhor!" Xaviera ficou calada. Na realidade, o quadro, quanto mais ela olhava para ele, mais aparentava uma enorme semelhança com Nicolo, sobretudo quando Xaviera se
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lembrou do dia em que ele vestira a máscara de cavaleiro genovês para a acompanhar clandestinamente ao baile de Carnaval. Nicolo tentou disfarçar o rubor que de súbito lhe tomara o rosto; beijou a criança e disse: "É verdade, querida Clara, o quadro parece-se tanto comigo como tu com aquele que se julga teu pai." Só que Xaviera, em cujo peito se animava o gosto amargo do ciúme, lançou sobre ele um olhar e, depois de se ver ao espelho, concluiu que era indiferente a identidade daquela pessoa; despediu-se friamente e abandonou o quarto. Assim que Xaviera se afastou, Nicolo sentiu a mais intensa excitação por causa desta cena. Lembrava-se com deleite da perturbação misteriosa e intensa que naquela noite provocara em Elvira com a sua aparição assustadora. A ideia de que tinha sido ele a avivar uma paixão nesta mulher exemplarmente virtuosa lisonjeava-o quase tanto quanto o desejo de se vingar dela; e visto que se abria a perspectiva de num só golpe satisfazer ambas as pretensões, aguardou impacientemente o regresso de Elvira e a hora em que, ao olhá-la nos olhos, visse coroadas de certeza as suas precárias esperanças. Nada o perturbava neste delírio que o tomara, excepto a recordação nítida do dia em que espreitara pela fechadura e escutara Elvira chamar à figura no quadro, diante da qual se ajoelhara, Colino; e, no entanto, havia qualquer coisa de tão pouco usual neste nome em Itália, que, sem que ele soubesse bem como, lhe embalava o coração em doces devaneios; e podendo desconfiar de um dos seus dois sentidos, dos olhos ou dos ouvidos, inclinou-se naturalmente para aquele que mais lhe lisonjeava a ambição. Entretanto passaram-se alguns dias e Elvira regressou da província, onde visitara um primo; desta casa trouxe uma jovem parenta que queria conhecer Roma e ao chegar, ocupada em atenções para com a rapariga, Elvira lançou apenas um olhar distraído e insignificante a Nicolo quando ele a ajudava com toda a cortesia a descer da carruagem. Durante as várias semanas dedicadas por inteiro à amiga visitante, a casa mergulhou num sossego pouco habitual; faziam-se visitas dentro e fora da cidade, a tudo o que poderia ter interesse para uma rapariga jovem e alegre como ela; e Nicolo que, por culpa dos seus negócios no escritório, não era convidado para esses passeios, voltou a ter por Elvira os piores sentimentos. Com um espírito azedo e atormentado pensou no desconhecido que ela secretamente idolatrava; e este sentimento atingiu o ponto mais alto no seu coração depravado na tão ansiada noite em que a jovem parenta partiu, pois Elvira, em lugar de finalmente conversar com ele, sentou-se à mesa de jantar, calada, ocupando-se durante uma hora num pequeno trabalho de costura. Acontece que, poucos dias antes, Piachi perguntara por uma caixa com pequenas letras de marfim, pelas quais Nicolo aprendera a ler e que o velho, visto não ver nelas mais utilidade, pensara oferecer a uma criança da vizinhança. A criada, que ficara encarregue de encontrar a caixa entre muitos outros objectos antigos, foi capaz de achar apenas seis das letras, aquelas que formavam o nome Nicolo; provavelmente por as outras, de menor relevância para a criança, não terem sido alvo de tanta atenção e assim, numa ocasião qualquer, se terem perdido. Estas letras estavam há já vários dias pousadas em cima da mesa, quando Nicolo, o braço apoiado no tampo, lhes pegou, mergulhado em pensamentos, e se pôs a brincar com elas; foi então que reparou - por puro acaso, pois nunca na sua vida ficara tão espantado - na ligação do seu nome com o de Colino. Nicolo, que até então não se apercebera desta característica anagramática do seu nome, lançou, com uma esperança renascida, um olhar tímido e incerto a Elvira que estava sentada a seu lado. A concordância entre as duas palavras parecia-lhe mais do que fortuita, e contendo a alegria avaliou as implicações desta descoberta extraordinária e esperou, tirando as
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mãos da mesa, com o coração a palpitar, pelo momento em que Elvira, levantando o olhar, reparasse no nome que ali estava sobre o tampo. As suas expectativas não saíram frustradas: assim que Elvira, pousando o trabalho, reparou na dispo- sição das letras e, dado que sofria de ligeira miopia, se debruçou inocente e irreflectidamente sobre elas para conseguir lê-las, logo levantou uns olhos estranhos e angustiados para Nicolo, que continuava a olhar com aparente indiferença para as letras; regressou em seguida ao trabalho com uma tristeza inefável, e, julgando que ninguém a observava, foi deixando cair no regaço lágrima atrás de lágrima sobre o rubor brando das faces. Nicolo que, sem o demonstrar, observara toda essa comoção interior, já não duvidava de que era o seu nome que ela escondia por detrás daquelas letras. Viu-a desfazer suavemente a disposição das letras, e as suas loucas esperanças atingiram o cúmulo da certeza quando Elvira se levantou, abandonando o que fazia, e se fechou no quarto. Preparava-se para se levantar e segui-la quando Piachi entrou e, ao perguntar a uma criada onde se encontrava Elvira, ficou a saber que ela não se sentia bem e que se fora deitar. Piachi, sem mostrar grande preocupação, voltou-se e foi ver o que se passava; regressou passado um quarto de hora, anunciou que ela não viria para a mesa, e não pronunciou nem mais uma palavra sobre o assunto. Nicolo acreditou ter encontrado a explicação para todas as cenas misteriosas a que assistira, parecidas com esta. Na manhã seguinte, quando estava ocupado a pensar, com uma satisfação pérfida, no modo de tirar o melhor partido desta descoberta, recebeu um bilhete de Xaviera em que lhe pedia que viesse visitá-la pois tinha novidades interessantes sobre Elvira. Xaviera tinha uma relação muito estreita com os frades carmelitas por intermédio do bispo que a sustentava; e como a mãe frequentava este mosteiro para se confessar, Nicolo pensou de imediato que Xaviera teria conseguido obter informações que confirmariam as suas esperanças obscenas sobre a história secreta dos sentimentos da mãe. Mas foi como se o arrancassem do conforto de um berço, pois após uma recepção estranhamente trocista da parte de Xaviera, ela puxou-o para o divã onde estava sentada e contou-lhe que o objecto do amor de Elvira era um morto que há mais de doze anos repousava debaixo da terra. O modelo do quadro, que ele descobrira por detrás do reposteiro de seda vermelha no nicho do quarto de Elvira, era Aloísio, marquês de Montferrat, a quem um tio, que o levara para Paris para aí receber educação, acrescentara o nome Collin, que mais tarde em Itália ganhara a alcunha jocosa de Colino; um jovem cavaleiro genovês, que a salvara na infância corajosamente de um incêndio e que, em consequência desse acto, sofrera um ferimento de que viria a morrer. Pediu-lhe depois que não fizesse uso deste segredo, pois lhe fora confiado sob o máximo sigilo por uma pessoa do convento dos carmelitas, que por sua vez não tinha qualquer direito a ele. Nicolo, alternando entre a palidez e o rubor, garantiu-lhe que ela nada teria a temer; e incapaz de esconder do olhar escarnecedor de Xaviera a perturbação que esta revelação lhe causara, alegou um negócio que o chamava, pegou no chapéu e, com um trejeito desagradável do lábio superior, despediu-se e saiu. Vergonha, volúpia e vingança misturavam-se agora para congeminar o acto mais ignominioso alguma vez praticado. Sabia que a alma pura de Elvira apenas poderia ser posta em causa por meio de um embuste; e assim que Piachi lhe deixou caminho livre partindo por uns dias para a província, Nicolo começou a tomar providências para pôr em marcha o plano satânico que imaginara. Encomendou de novo o fato com o qual sur- preendera Elvira poucos meses antes ao regressar tarde e em segredo da festa de Carnaval; e, trajado de capa, casaca e chapéu de pluma ao
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estilo genovês, tal e qual como a figura do quadro, entrou à socapa no quarto de Elvira pouco antes da hora de dormir, tapou a tela com um pano preto e ficou à espera, com um bastão na mão, reproduzindo com precisão a pose do jovem patrício que Elvira idolatrava. Instigadas por uma paixão vergonhosa, as previsões de Nicolo não falharam; pois assim que Elvira entrou no quarto e, depois de se despir calma e silenciosamente, abriu, como habitualmente abria, o reposteiro de seda que protegia o nicho e o encontrou, gritou: "Colino! Meu amor!", e caiu inconsciente no chão. Nicolo saiu do nicho; ficou por um momento imerso na contemplação daquela beleza e observou a figura ali deitada que empalidecera diante do beijo da morte; mas como não havia tempo a perder, pegou-lhe ao colo, arrancou o pano preto do quadro e levou-a até à cama num dos cantos do quarto. Depois, foi até à porta para a trancar, encontrando-a, no entanto, já fechada; e, seguro de que mesmo após a recuperação dos sentidos, ela não ofereceria resistência à aparição fantástica e sobrenatural pela qual o tomaria, voltou à cama disposto a acordá-la com beijos no peito e nos lábios. Mas a Nemésis, que sempre morde os calcanhares do crime, quis que Piachi, que o miserável julgava ausente por vários dias, regressasse de forma inesperada e precisamente nesta altura a casa; supondo que Elvira já dormia, percorreu com cautela o corredor e como trazia a chave sempre consigo pôde abrir a porta em silêncio e entrar no quarto sem denunciar a sua presença. Nicolo foi como que atingido por um trovão; e percebendo que não havia modo de encobrir a infâmia, lançou-se aos pés do velho e pediu-lhe perdão, prometendo nunca mais lhe cobiçar a mulher. E, na verdade, o velho até estava disposto a lidar discretamente com o caso; depois de escutar as poucas palavras que Elvira pronunciou, quando a tomou nos braços e recobrou os sentidos, olhando horrorizada para o miserável, Piachi fechou em silêncio a cortina da cama onde ela jazia, tirou o chicote da parede, abriu a porta e indicou a Nicolo o caminho que deveria seguir. Só que este, num acto digno de Tartufo, apercebendo-se de que nada ganhava com tal comportamento, ergueu-se de imediato e declarou que era o velho quem teria de abandonar a casa, pois o proprietário, como o provavam os documentos legais, era ele e estava disposto a defender esse direito contra quem quer que fosse! Piachi não queria acreditar nos seus sentidos; como que desarmado por esta insolência inconcebível, largou o chicote, pegou no chapéu e na bengala, foi a casa do seu velho amigo jurista, o doutor Valerio, tocou a campainha até uma criada lhe abrir a porta e, assim que se viu no quarto do amigo, desfaleceu aos pés da cama, antes mesmo de conseguir pronunciar palavra. O advogado albergou-o em sua casa e mais tarde também Elvira e tentou logo de manhã providenciar a prisão do criminoso diabólico que possuía vários argumentos legais a seu favor; e enquanto Piachi punha em marcha medidas que se revelaram incapazes de lhe retirar a posse das propriedades antes concedidas, Nicolo refugiara-se junto dos frades carmelitas seus amigos, com o documento da doação que comprovava tudo o que lhe pertencia, e pediu-lhes que o protegessem contra o velho louco que pretendia desapossá-lo dos seus direitos. E como se dispôs a casar com Xaviera, de quem o bispo queria ver-se livre, venceu neste caso a perfídia, e este membro do clero convenceu as autoridades a fazerem sair um decreto no qual se confirmava o direito de Nicolo à propriedade e se obrigava Piachi a não mais o incomodar. Piachi enterrara no dia anterior a infeliz Elvira que morrera na sequência de uma febre alta provocada pelo acontecimento. Impelido pelo duplo sofrimento, Piachi dirigiu-se a casa com o decreto na mão e, com a força de que a raiva o investia, atirou Nicolo, de constituição mais frágil, ao chão e esmagou-lhe o crânio contra a parede. Quem estava em casa não reparou nele senão
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depois de consumado o acto; encontraram-no já com Nicolo apertado entre os joelhos, enfiandolhe o decreto pela boca abaixo. Feito isto, levantou-se e entregou as armas todas; foi levado para a prisão, julgado e condenado à morte por enforcamento. No Estado do Vaticano vigora a lei de que nenhum criminoso pode ser executado sem antes receber a absolvição. Assim que Piachi soube da sua sentença, recusou obstinadamente a absolvição. Depois de terem recorrido a todos os meios de que a religião dispõe para mostrar a Piachi a ignomínia do acto que praticara, levaram-no para a forca na esperança de que, quando colocado diante da morte que o aguardava, o condenado finalmente se arrependesse. Um padre descreve-lhe com os pulmões da última trombeta todos os horrores do inferno onde a sua alma pecadora se preparava para mergulhar; um outro, com o corpo de Deus, o sagrado sacramento, na mão, glorificou a morada da paz eterna. "Queres tu fruir do benefício da redenção?", perguntaramlhe ambos. "Queres receber a comunhão?" "Não", respondeu Piachi. "Porque não?" "Não quero ser salvo. Quero descer às vísceras mais profundas do Inferno. Quero voltar a encontrar Nicolo, porque ele não estará no Céu, e concluir aí a vingança que aqui apenas pude começar!" E assim subiu a escada e exigiu ao verdugo que fizesse o seu trabalho. A execução teve de ser interrompida e o infeliz, a quem a lei protegia, foi levado de volta para o cárcere. Fizeram-se mais três tentativas como esta nos três dias que se seguiram e todas com igual resultado. Quando ao terceiro dia o obrigaram mais uma vez a descer as escadas do patíbulo, Piachi ergueu as mãos exasperado e amaldiçoou a lei desumana que lhe vedava a passagem para o inferno. Apelou a toda a legião de demónios para que o viessem buscar, jurou que o seu único desejo era ser condenado e amaldiçoado e garantiu que se atiraria ao pescoço do primeiro padre que lhe aparecesse à frente para poder deitar a mão a Nicolo! Quando informado disto, o papa ordenou que Piachi fosse condenado sem absolvição; nenhum padre o acompanhou, e enforcaram-no, em silêncio, na praça del Popolo.

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