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PROSLOGION seu Alloquium de Dei existentia

Santo Anselmo

Tradutor: José Rosa
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F ICHA T ÉCNICA TÍtulo: Proslogion seu Alloquium de Dei existentia Autor: Santo Anselmo Tradutor: José Rosa Colecção: Textos Clássicos de Filosofia Direcção: José Rosa & Artur Morão Design da Capa: António Rodrigues Tomé Paginação: José Rosa Universidade da Beira Interior Covilhã, 2008

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A. sem dúvida. Ayer. fi3 i i i i . depois de Santo Anselmo. Mackie. A 592-602) e apoda-o de “argumento ontológico” precisamente porque pretende deduzir da existência de Deus in mente a existência de Deus in re.L. Alguns. II.J. et alii). mas sempre o suposto de toda a predicação (KrV. no estrito respeito dos princípios l ógicos (v. IX. com algum exagero mas não sem uma ponta de razão. Kant rejeita-o porque a existência não é um predicado demonstrável. o escrito mais famoso de Santo Anselmo (n. Nele. oscila entre um ímpeto religioso e místico todo fogo (vide capítulos I.g. 1033. C. a partir de uma noção de Deus presente ao intelecto – “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado” (id quo maius cogitari non possit) – formula o autor um férreo argumento lógico a favor da existência de Deus na realidade (in re) e não apenas na mente (in mente). curta. em Aosta. São Tomás de Aquino nega a sua validade. alguns dos maiores pensadores: Boaventura (1221-1274) aceita-o como válido. Findlay. Cantuária) e um dos textos filosóficos mais revisitados do pensamento ocidental. cortante. Plantiga. Hartshorne. lapidado como um diamante. chegam a dizer que. XXVI) e a formulação lógica clara. Proslogion. a história da filosofia se divide entre aqueles que aceitam a validade do argumento e aqueles que lha negam – e a verdade é que ele divide. Leibniz e Hegel aceitam-no. E continua a ser ainda hoje um dos argumentos mais revisitados e debatidos em sede da Filosofia Analítica da religião (cf. A. Nele. XIV. Anselmo supera o conflito Fé – Razão que. 1109. J. de facto. Piemonte – m. IV). J. concisa. capítulos II.i i i i Apresentação O Proslogion é. XVIII. Descartes.. Escrito num latim sintético. XV.

“se não acreditardes não compreendereis” (Is 7. Começa..i i i i losófica e teologicamente. Com efeito. O acto de dar crédito desloqueia certas faculdades de compreensão que a atitude suspicaz atrofia e nunca permite que desabrochem. Anselmo de Besate. 4 i i i i . Berengário de Tours.g. pois. se não acreditar. separa muitos dos espíritos do séc. i. defendem que todas as fórmulas de fé devem ser ou reconduzidas à razão silogística ou rejeitadas. exclusivamente amparados na razão argumentativa. onde seguira a concatenação de vários argumentos. A Filosofia é apenas uma “Serva da Teologia” (philosophia serva theologiae) e como tal deve ser tratada. como a disponibilidade cordial para acreditar. Magénold de Lautenbach e sobretudo Pedro Damião) rejeitam qualquer intromissão da razão na explicitação dos conteúdos da fé (fides quae). ou seja. XI: por um lado. acontece a Anselmo começar a pensar na possibilidade de encontrar um único argumento para demonstrar a existência de Deus (método contrário àquele que seguira na sua anterior obra Monologion.). i. 9)..e. forja a fórmula maior que sintetiza todo o seu pensamento: fides quaerens intellectum. . antecipando o que São Tomás apurará nas célebres Quinquae Viae). A crença é também um órgão de conhecimento. “a fé à procura da inteligência”... uma atitude que ora interrogando e que interroga orando. intellige ut credas).. mormente a dita via cosmológica. por tentar dilucidar a primeira das afirmações do Credo. Anselmo faz tudo por fomentar uma atitude inter-rogante.). Contra o racionalismo estéril dos dialécticos e o fideísmo irracional dos anti-dialéctico.e. não compreenderá. Assim. Anselmo. Anselmo está seguro de que. no pólo oposto. Arrimado na Escritura. e em Agostinho de Hipona (crede ut intelligas. os anti-dialéticos (Otloh de Sankt-Emmeram. por outro. a existência de Deus (Credo in Deum. e acolhendo os instantes pedidos dos irmãos monges que lhe pedem ajuda para encontrar razões da fé que não precisem dos argumentos da Autoridade ou da Escritura. fecundado assim o trabalho da inteligência com a fides qua. os dialéctios (v.. atitudes diametralmente contrárias mas que se reforçam mutuamente no cavar e aprofundar a mesma cisão. leitor atento e assíduo de Santo Agostinho. chegar Deus através dos efeitos na criação.

É por isso que. p. pese embora a um certo Kant et alii. muito pelo contrário. Gilson (La Philosophie au Moyen Âge. É neste clima orante e filosofante que. de uma “intuição intelectual” (porque. que “esta demonstração da existência de Deus é o triunfo da dialéctica pura operando sobre uma definição”. e ao contrário do que afirma E. consideramos a noção de Deus presente no intelecto (id quo maius cogitari non possit). e não apenas no âmbito da fé. sed ad rem. vale o princípio de que o acto do espírito non terminatur ad enuntiabilem. aquilo que tanto o afadigava se lhe ofereceu (se obtulit) ao espírito sedento de luz e de compreensão: ‘Deus é aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”. menos o resultado de um esforço definitório. Payot. Paris. Rosa 5 i i i i . que a expressão de uma “doação originária”. há ‘intuição intelectual”!). ao meditar no coro.i i i i Mas isto não o exime. de ter de passar pelo “duro trabalho do conceito” e de se inscrever sob o signo da argumentação lógica e racional. 246). um dia. parece-nos. Pois também aqui. José M. 1947. S.

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que ele é o Sumo Bem. tudo o que nós acreditamos da substância divina. receando que ele ocupasse futilmente a minha mente. sem nada de outra coisa precisar. e que bastasse por si mesmo para garantir que Deus existe verdadeiramente. um opúsculo <Monologion> como exemplo de uma meditação sobre a razão da fé. eis que ele 7 i i i i . e bem existir. E o que procurava. ardorosamente. comecei a perguntar a mim próprio se. por acaso.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia Santo Anselmo PREÂMBULO Depois de ter publicado. em suma. sob instantes rogos de alguns irmãos. quis desistir como se <se tratasse> de investigar algo impossível de alcançar. Inúmeras vezes. em nome daquele que raciocina em silêncio consigo próprio e investiga o que desconhece: considerando que esse <opúsculo> era composto pela concatenação de múltiplos argumentos. do qual todas as coisas têm necessidade para existir. enfim. outras vezes fugia completamente ao olhar da mente. poderia encontrar-se um único argumento que não necessitasse de nenhum outro para se demonstrar. parecia-me poder ser já captado. às vezes. Desesperando. voltei o meu pensamento para isto. Mas então que eu queria absolutamente excluir de mim este pensamento. impedindo-me de outras ocupações onde pudesse progredir.

net i i i i . de algum modo. repelia. que abracei com ardor o pensamento que antes. isto é. e este Proslogion. perturbado. um e outro. convidasse à sua leitura aqueles a cujas mãos fossem ter. por outro lado. solilóquio. Reserva um pouco de tempo para Deus e repousa n’ele por instantes. Todavia. enquanto me cansava em resistir com veemência à sua importunidade. que nem este opúsculo nem o outro que supra recordei <Monologion> são dignos do nome de livro. E certo dia. pensando que eles não deviam ser difundidos sem qualquer título que. com alguma importunidade. mau grado a minha rejeição e interdição. Hugo. em nome daquela pessoa que se esforça por elevar o seu espírito à contemplação de Deus e procura compreender o que crê.i i i i 8 Santo Anselmo começou. escrevi o presente opúsculo sobre este mesmo assunto e alguns outros. aquilo de que eu desesperara ofereceu-se-me <se obtulit> de tal forma no próprio conflito dos meus pensamentos. Capítulo I Despertar do espírito para a contemplação de Deus E agora. Atira fora agora os teus pesados cuidados e deixa para depois os teus laboriosos trabalhos. Julguei. se fosse escrito. Ao primeiro: Exemplum meditandi de ratione fidei <Exemplo de meditação sobre a razão da fé>.lusosofia. nomeei aquele Monologion. www. nem <tão-pouco> de serem precedidos do nome do autor. alóquio. e ao seguinte: Fides quaerens intellectum <A fé em busca de inteligência>. Para que isto fosse feito convenientemente. escondete um pouco dos teus pensamentos tumultuosos. ó homenzinho. várias delas – sobretudo o reverendo Arcebispo de Lyon. legado apostólico na Gália. foge um momento às tuas ocupações. Considerando então que aquilo que com gáudio encontrara poderia. isto é. Mas tendo sido. agradar a algum leitor. que mo ordenou em virtude da sua autoridade apostólica – obrigaram-me a escrever neles o meu nome. a impor-se-me mais e mais. já transcritos por muitas pessoas. dei a cada um seu título.

mas inacessível é a tua habitação. mas a tua face está demasiadamente afastada dele. Deseja muito alcançarte.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 9 “Entra na cela” da tua alma. enfim. “ó meu coração” todo. Deseja vivamente encontrar-te.lusosofia. “o homem comia o pão dos anjos” de que agora tem fome5 . onde te buscarei. e todos os meus bens me dispensaste e ainda não te conheço! Numa palavra: fui feito para te ver e ainda não fiz aquilo para que fui feito. diz agora a Deus: “Busco o teu rosto. é apenas desprezível. por si. Ó Senhor. 25 www. Ó mísera sorte a do homem desde que perdeu aquilo para que foi feito! Ó dura queda e funesta aquela! Ai! o que perdeu e o que encontrou <o homem>? O que lhe fugiu e o que lhe restou? Perdeu a felicidade para a qual foi feito e encontrou a miséria para que não foi feito. que fará este teu longínquo exilado? Que fará o teu servidor. Senhor altíssimo. come “o pão das dores” que então des1 2 3 4 5 Mt 6. 16 Sl 50. procura-o!1 Diz agora. não conheço a tua face. ausente? E se tu estás em toda a parte. por que forma. Senhor meu Deus. tu és o meu Senhor. e nunca te vi! Tu me criaste e recriaste. 6 Sl 26. expulsa tudo.net i i i i . te buscarei? Nunca te vi. 13 Sl 77. se tu não estás aqui. “fechada a porta”. mas não sabe o teu lugar. Dispõe-se a procurar-te. excepto Deus e o que te ajuda a procurá-lo. Senhor. ensina o meu coração onde e como te procurar. Senhor. onde e como te encontrar. mas ignora o teu rosto.”2 E agora. Fugiu-lhe aquilo sem o qual é de todo infeliz e ficou aquilo que. ansioso do teu amor e atirado para longe “da tua face”?4 Deseja muito ver-te. porque não te vejo eu presente? Mas certamente tu habitas “a luz inacessível”3 . tu Senhor meu Deus. pois. O teu rosto. para que nela te veja? Por que sinais. eu procuro. Que fará. agora. E onde está a tal luz inacessível? Ou de que modo acederei a essa luz inacessível? Ou quem me conduzirá e introduzirá nela. tu és o meu Deus. Então. 8 1 Tm 6.

miseravelmente. mostra-te tu próprio a nós! Oferece-te a nós outra vez para que bem estejamos. 19 Sl 6. Senhor. quão vazios permanecemos.lusosofia. ai!. por que nos furtou a vida e infligiu a morte? Acabrunhados de penas. infeliz de mim!. Ele vivia na abundância e nós mendigamos. 114. 6 7 8 9 10 Sl 126. tu nos esquecerás? Até quando afastarás de nós a tua face?”9 Quando nos olharás e nos ouvirás? Quando iluminarás os nossos olhos e nos mostrarás “a tua face?” Quando te oferecerás a nós?10 Olha-nos. abandonou. Esperava a alegria e eis que os suspiros se tornam mais densos. nós. Senhor. aquilo de que nos encontramos tão gravemente carentes? Por que nos ocultou assim a luz e nos lançou nas trevas? Sim. 4. quando o podia facilmente. grave tudo! Mas. de onde fomos expulsos e para onde fomos atirados! De onde fomos precipitados e onde estamos atascados! Da terra natal para o exílio. desejamos. Queria rir com a alegria da minha mente e sou forçado a rugir “pelo gemido do meu coração”.8 www. miseravelmente. ai!.net i i i i . sem ti. nós que. 3. Ele tinha em plena felicidade e. Ai! luto comum dos homens. e. 1 Sl 79.i i i i 10 Santo Anselmo conhecia6 . Procurava o repouso no meu retiro e “encontrei a tribulação e a dor” no meu íntimo. 9.8 E “tu. Da jucundidade da imortalidade para a amargura e o horror da morte. um entre os outros exilados filhos de Eva afastados de Deus. Ó desgraçada mudança! De tão grande bem para tão grande mal! Grave dano. grave dor. Jr 14. 9 Sl 37. tão mal estamos. Por que não guardou <Adão>. para nós. que empreendi e que consegui acabar? Para onde tendia e aonde cheguei? A que aspirava e em que situação suspiro? “Procurei os bens e eis a perturbação!”7 Tendia para Deus e caí sobre mim mesmo. Senhor. da visão de Deus para a nossa cegueira. pranto universal dos filhos de Adão! Ele arrotava de saciedade e nós suspiramos de fome. infelizmente. até quando? Até quando. Tem piedade dos nossos trabalhos e dos nossos esforços para te alcançar. ilumina-nos. 12. 2 Sl 121. 4. escutanos. carecemos e.

Suplico-te. de modo nenhum. 5 Sl 68. 16 Gn 1. não compreenderei”15 . Que eu não desespere suspirando. aproximei-me: que eu não me vá embora insaciado.net i i i i . Ensina-me a procurar-te e mostra-te àquele que te procura. porque não lhe comparo. não posso senão olhar para baixo. nem encontrar-te se não te mostras. Na verdade. tão ofuscada pelo fumo dos pecados. de ti lembrada14 . “As minhas iniquidades subiram mais alto que a minha cabeça”. ao misericordioso: que eu não volte sem nada e desprezado. envolvem-me e sobrecarregam-me “como pesado fardo”12 . concede ao menos que eu coma depois dos suspiros. Suplico-te. pelo menos de longe.lusosofia. Senhor: adoça-o com a tua consolação. Liberta-me. que o meu coração crê e ama. Na minha fome comecei a procurar-te. curvado. 24 Sl 37. descarrega-me. a minha inteligência. Senhor. miserável. Senhor. O meu coração tornou-se amargo pela sua desolação. Que te encontre amando e te ame encontrando. e te dou graças porque criastes em mim esta tua “imagem” para que. vim ao rico. Faminto. porque não te posso procurar se tu não me ensinas. E “se suspiro antes de comer”11 . mas creio para compreender. “ajudanos”. Seja-me permitido levantar os olhos para a tua luz. Confesso. Senhor: que eu não acabe em jejum de ti.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 11 nós que nada somos capazes sem ti. não procuro antes compreender para crer. Não me atrevo. pelo menos das profundezas <do abismo>. “para que o sorvedouro delas não aperte a sua boca sobre mim”13 . mas que respire esperando. Que te busque desejando e te deseje buscando. Mas desejo reconhecer um pouco a tua Verdade. que não pode fazer aquilo para que foi feita se tu a não renovas e reformas. pense em ti e te ame. 11 12 13 14 15 Jó 3. 26 Is 7. a penetrar na tua altura <profundidade>. Ó Senhor. Pois também creio nisto: “se não acreditar. Senhor. <Já que> nos convidas. Pobre. suplico-te. levanta-me para que possa tender para o alto. Mas está tão corrompida pela acção dos vícios. 9 www.

pois. <como é evidente>. uma vez que o “insensato disse no seu coração: ‘Deus não existe’ ”?16 Mas certamente este mesmo insensato. outra é compreender que tal realidade existe. Se pois “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado” existe apenas no intelecto. “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado” tanto no intelecto como na realidade. mesmo se ele não compreende que isso existe <na realidade>. existe pelo menos no intelecto. 10-12 www. quando ouve isto que eu digo – ‘alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado’ –. com efeito. Pelo contrário. quando já o pintou. e o que ele compreende existe na sua inteligência. 52.net i i i i . Será que não existe uma tal natureza. e tudo o que é compreendido existe no intelecto. mas de modo nenhum compreende que exista o que ainda não fez. sem dúvida. pois. pode pensar-se que exista também na realidade.lusosofia. 1. Mesmo o insensato está. Rm 3. o que é ser maior. compreende o que ouve. Mas. é claramente impossível. “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado” não pode existir unicamente no intelecto. pois. Nós acreditamos. tem na inteligência o que já fez e compreende que isso existe <na realidade>. então “aquilo mesmo maior do que o qual nada pode ser pensado” é “algo maior do que o qual algo pode ser pensado”. quando um pintor pensa antes o que vai fazer. tu que dás a inteligência da fé. na verdade. convicto de que “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado” existe pelo menos no intelecto: porque ele compreende-o quando o ouve. Mas isto. tem na inteligência o que ainda não fez. De facto. que eu compreenda que tu existes como nós <o> acreditamos e que tu és o que nós acreditamos. Existe. tanto quanto aches bem. Porque uma coisa é que certa realidade esteja no intelecto. Senhor. 16 Sl 13. Se. dá-me.i i i i 12 Santo Anselmo Capítulo II Que Deus existe verdadeiramente Assim. que tu és “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado”. sem a menor dúvida. 1.

que nem se pode pensar que tu não existes. senão porque é estulto e insensato? 17 Sl 13.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 13 Capítulo III É impossível pensar que Deus não exista Isto <que “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado” existe tanto no intelecto como na realidade>. 1 www. a criatura elevar-se-ia acima do Criador. Assim. o que não pode convir. só tu tens veríssima e maximamente o ser : porque tudo o que é outro <que não tu> não é tão verdadeiramente e tem. pois. de entre todas as coisas. o que é completamente absurdo. em todo o caso.lusosofia.net i i i i . Senhor. julgaria do Criador. Senhor Deus meu. E de tudo o que é qualquer outra coisa. E este ser és tu. Vejo pois que. excepto tu. <então> aquilo mesmo “maior do que o qual nada pode ser pensado” não é “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”. como tal. menos ser. tu tens maximamente o ser? Porquê. quando é tão evidente para uma mente racional que. “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado” existe tão verdadeiramente que não se pode pensar que não existe. Pois tão verdadeiramente existes. Então por que é que “o insensato disse no seu coração: ‘Deus não existe’ ”17 . é tão verdadeiro que nem se pode pensar que não exista. pode pensar-se que não existe. Daí que. Porque pode-se pensar que existe alguma coisa que não se pode pensar que não existe. Se qualquer mente pudesse pensar alguma coisa melhor do que tu. entre todas as coisas. E justamente. o que é ser maior do que aquela que se pode pensar que não existe. se se pode pensar que “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado” não existe. nosso Deus.

compreende que Deus assim existe. Com efeito. não existir. www. mesmo se não quisesse acreditar que tu existes. Deus é “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”. bom Senhor. compreende que isto mesmo existe de tal maneira que não pode.lusosofia. não o pensou – não é apenas de uma única maneira que se diz algo no coração ou se pensa alguma coisa. Quem. compreendendo o que Deus é. porque o que primeiro acreditei pelo teu dom. ou como não pôde pensar aquilo que disse no seu coração. de outro modo diferente quando é compreendido aquilo mesmo que a coisa é. de tal maneira que. Ninguém pode. mesmo para o pensamento. não pode pensar que ele não existe. seguramente. de uma maneira diferente é pensada uma coisa quando se diz a palavra que a significa.net i i i i . pensar que ele não existe. não poderia deixar de o compreender. pois. Com efeito. e não o tendo dito no seu coração.i i i i 14 Santo Anselmo Capítulo IV Como o insensato disse no seu coração aquilo que não pode ser pensado Mas como disse no seu coração aquilo que não pôde pensar. o compreendo agora pela tua iluminação. tendo-o dito no seu coração. ainda que possa dizer estas palavras no coração sem nenhuma significação ou com qualquer estranha significação. quando é a mesma coisa dizer no coração e pensar? Verdadeiramente – e tanto mais verdadeiramente porque o pensou. E quem compreende isto convenientemente. Graças te dou. mas da segunda de modo nenhum <se pode pensar que Deus não existe>. Da primeira pode pensar-se que Deus não existe. em qualquer caso. graças te dou.

fez todas as coisas do nada Que és portanto. ainda que não seja corpo Mas uma vez que é melhor ser sensível. mas sumo espírito. se bem que não sejas corpo. Senhor.net i i i i . existindo unicamente por si mesma. Mas isto não se pode pensar de ti. existindo por si só. de que modo és tu senciente <es sensibilis>. conhece segundo a propriedade dos sentidos.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 15 Capítulo V Deus é o que é melhor ser que não-ser. www. verídico. com efeito. Capítulo VI Como é sensível <senciente>. Senhor Deus. contudo. quando não és corpo. a cor pela vista. feliz que não-feliz. os sabores pelo gosto – diz-se sem inconveniente que <quem sente>. <tal> que nada de maior possa ser pensado? Mas quem és tu. aquilo que não é assim é algo menor do que pode ser pensado. se só as coisas corporais são sensíveis. misericordioso. fez todas as outras coisas do nada? Na verdade. ou omnipotente se não podes todas as coisas?. vera e sumamente senciente <sensibilis>. Pois que bem falta ao sumo bem. ou misericordioso e simultaneamente impassível? De facto. reportando-se os sentidos ao corpo e estando no corpo. se sentir não é senão conhecer ou <apenas estar em ordem> ao conhecimento – quem sente. feliz e tudo aquilo que é melhor ser do que não-ser. do que não o ser. senão a suma realidade sobre todas as coisas e. Porque é melhor ser justo que não-justo. de que modo és sensível se não és um corpo?. e não da maneira como também o animal conhece pelo sentido corpóreo. sente de algum modo tudo o que conhece <também> de algum modo. do modo mesmo como conheces sumamente todas as coisas. impassível. como por exemplo. o qual é melhor que o corpo? Mas. pelo qual existe tudo o que é bom? Assim tu és justo.lusosofia. Assim. omnipotente. és.

Por exemplo. Verdadeiramente. ou: “este descansa tal como o faz aquele”. como dizes ser”.i i i i 16 Santo Anselmo Capítulo VII Como Deus é omnipotente se bem que não possa fazer muitas coisas Mas como és tu omnipotente se não podes todas as coisas? Ou então: se não podes ser corrompido. e tanto mais é ele impotente contra elas. Assim. Quando pareceria ser mais apropriado dizer: “não é. www. tanto mais a adversidade e a perversidade são potentes sobre ele. ou então é qualquer outro género de falar. mais a adversidade e a perversidade têm poder sobre ele. dizemos: “este aqui está sentado tal como o está aquele”. nem fazer com que o verdadeiro seja falso. pois. Senhor Deus. mas por impotência. quanto não podes nada por impotência e nada pode contra ti. Assim. quem pode deste modo. e descansar <é uma certa forma> de “nada fazer”. ou de “nada fazer”. Pois que. tanto mais és verdadeiramente omnipotente. tal que <por exemplo> o que foi feito não tenha sido feito.lusosofia. De igual modo. Assim. nem mentir. Porque muitas vezes dizemos àquele que nega que certa coisa exista: “é.net i i i i . de facto. quanto mais tem tal potência. mas impotência? Quem as pode. pode aquilo que não deve e que não é bom para si. do mesmo modo que são ditas impropriamente muitas coisas. quando o estar sentado é uma certa forma de “não fazer”. mas porque a sua impotência faz com que outra coisa possa sobre ele. não pode por potência. e muitas outras coisas semelhantes. de facto. ou o que não é bom para si. como dizes não ser”. com efeito. quando se diz de alguém: ele tem a potência de fazer ou de sofrer o que não deve. nós colocamos “ser” em lugar de “não ser” e “fazer” em lugar de “não fazer”. Quanto mais ele as pode <fazer>. não se diz que ele pode porque possa por si mesmo. como podes tu todas as coisas? Será que poder estas coisas não é potência. por <essa> potência entendemos: impotência. e menos pode ele próprio contra elas.

o que significa ser misericordioso. 44-45 18 www. mas não o és segundo o teu. perdoas aos maus se és inteiramente e sumamente justo? Como o inteiramente e sumamente justo faz alguma coisa que não é justa? Ou que justiça é esta de dar a vida eterna a quem merece a morte eterna? De onde vem. <mas> tu não sentes a afecção. Capítulo IX Como o inteiramente e sumamente justo perdoa os maus Mas como.net i i i i . estará isto escondido na Nota-se nestas expressões a presença do método teológico de Dionísio. em verdade. Teologia Superlativa ou Mística 19 Mt 5. Teologia Negativa ou Apofática. sentimos o efeito da tua misericórdia. pois. nós que somos infelizes. Quando olhas para nós. donde vem ao infeliz tal consolação? De que modo. de onde vem que salves os maus se isso não é justo e se tu nada fazes que não seja justo? Porque a tua bondade é incompreensível. Seguramente tu és misericordioso segundo o nosso sentir. pois. Não és misericordioso porque não és afectado por nenhuma compaixão para com o infeliz. és e não és misericordioso. Senhor. És pois misericordioso porque salvas os infelizes e perdoas aos teus pecadores.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 17 Capítulo VIII Como Deus é misericordioso e impassível Mas de que modo és tu misericordioso e impassível simultaneamente? Porque se és impassível não te compadeces.lusosofia. E se não és misericordioso. Se não te compadeces. o teu coração não sofre de compaixão para com o infeliz. bom Deus. o Pseudo-Areopagita: Teologia Afirmativa ou Catafática. bom para os bons e maus19 . senão porque és misericordioso segundo nós <secundum nos> e não o és segundo ti <secundum te>?18 .

És. é o que parece postular a razão da justiça. aqueles reconhecendo os bens que lhes deste. misericordioso. Ora quando concedes bens aos maus. Pois ainda que sejas inteiramente e sumamente justo. quem é bom para com os bons e os maus é melhor do que aquele que é somente bom para com os bons. Que altíssima a tua bondade. 20 1 Tm 6. Vislumbramos de onde jorra o rio. pois. sabemos que o sumamente Bom o quis fazer. Com efeito. mas não se vê claramente a fonte de onde ele nasce. porque és todo e sumamente bom. ó Deus! Vemos de onde brota a tua misericórdia. mas a razão pela qual és clemente está escondida na profundidade da tua bondade. 16 www. tu que és inteiramente justo e não necessitas de nada. és. mas admirável é porque é que o sumamente Justo pôde querê-lo. contudo. mas aí não penetramos. estes ao arrepio dos seus deméritos. a justiça condena. Porque pertence à plenitude da tua bondade que sejas clemente para com os pecadores. no altíssimo e secretíssimo da tua bondade está escondida a fonte donde mana o rio da tua misericórdia.net i i i i .lusosofia. libertas aqueles que. Que na tua bondade retribuas com bens os bons e com males os maus. ao invés. Serias menos bom se não fosses benevolente para com nenhum mau. Aqueles com a ajuda dos seus méritos. Ó misericórdia! De que opulenta doçura e de que doce opulência jorras para nós! Ó imensidão da bondade de Deus. e isto porque és inteiramente e sumamente bom. Mas se se vê talvez por que razão retribuis aos bons com bens e aos maus com males.i i i i 18 Santo Anselmo luz inacessível que tu habitas?20 Verdadeiramente. E quem é bom punindo e perdoando os maus é melhor do que aquele que o é apenas punindo. com que afecto deves ser amado pelos pecadores! Salvas os justos que a justiça acompanha. devemos certa e profundamente admirar por que razão concedes bens aos teus réus e maus. benevolente mesmo para com os maus.

tem como adversário a tua justiça. és verdadeiramente misericordioso pela mesma razão que és sumamente justo. pois. Não será porque é justo que tu sejas tão bom que não te possamos compreender <ainda> melhor. a qual não existe sem a justiça. injustamente fazes misericórdia aos maus.lusosofia. e que operes tão portentosamente que não te possamos pensar <ainda> mais poderoso? Verdadeiramente. Se és misericordioso é porque és sumamente bom. Ó imensa bondade que excedes assim toda a inteligência. mesmo se é difícil reconhecer como a tua misericórdia não está ausente da tua justiça. O que de nenhum modo se faz justamente não se deve fazer. É assim justo que perdoes os maus e faças os bons a partir dos maus. Não nasce a tua misericórdia da tua justiça? Não perdoas tu aos maus por justiça? Se é assim. www.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 19 estes ignorando os males que detestas. Ajuda-me. é todavia necessário acreditar que nunca o que transborda da tua bondade. e o que não se deve fazer faz-se injustamente. a fim de não ser castigado pela justiça. Por demência perdoa-me. Se tu. ó Senhor. não deves fazer misericórdia. cuja luz procuro. que venha sobre mim esta misericórdia que com tanta opulência procede de ti! Que em mim se derrame o que de ti dimana. ajuda-me a reconhecer o que digo: és verdadeiramente misericordioso porque és justo. isto não aconteceria se tu fosses bom retribuindo apenas e não perdoando. Porque. mas antes verdadeiramente coincide com ela. e se és sumamente bom sendo sumamente justo. que há de mais justo? Seguramente. e se fizesses os bons a partir unicamente dos não-bons e não a partir dos maus também.net i i i i . E se não deves fazer misericórdia. ó Deus justo e misericordioso. se assim é ensina-me como.

quando. que é pio crer que justamente és misericordioso para com os maus. Assim como. é sem contradição que justamente os punes e justamente os perdoas. que punas os maus? Seguramente.lusosofia.net i i i i . Capítulo XI Como todas as vias do Senhor são misericórdia e verdade e como o Senhor é justo em todos os seus caminhos Mas não é justo também segundo ti <próprio>. a nós que justamente condenarias. E não o serias nunca se apenas retribuísses bens aos www. é justo porque é digno não dos seus méritos mas da tua bondade.i i i i 20 Santo Anselmo és misericordioso injustamente. Deste modo. os perdoas. mas porque nós sentimos afecto. Senhor. assim és justo não porque nos retribuas algo devido. és justo segundo ti <próprio> <secundum te> e não segundo nós <secundum nos>. Porque. salvando-nos. és misericordioso. Que há de mais justo: que os bons recebam os bens e os maus os males? Como é então justo que punas os maus e justo que os perdoes? Será que de um certo modo punes justamente os maus e de outro justamente os perdoas? Quando punes os maus. tu que és sumamente bom. O que é tão ímpio de dizer. Capítulo X Como Deus justamente pune e justamente perdoa os maus Mas é também justo que punas os maus. mas porque fazes o que é digno de ti. tal como és misericordioso segundo nós e não segundo ti <próprio>. é justo que sejas tão justo que não te possamos pensar mais justo. é justo porque está de acordo com os seus méritos. não porque fiques afectado. ao invés. perdoando os maus.

bom. sapiente. a própria vida pela qual vives. eterno e tudo aquilo que é melhor ser do que não ser. e não-justo o que tu não queres. pois. e deste mesmo modo [em atributos] semelhantes Mas certamente tudo o que és. justo segundo ti <próprio>. mais justo do que aquele que retribui apenas os méritos dos bons.lusosofia. Quem retribui os méritos dos bons e dos maus é. “o Senhor é justo em todos os seus caminhos”21 . misericordioso e impassível. e de igual modo nas coisas semelhantes. pela qual vive. todavia. E de modo nenhum há contradição: aqueles que queres punir não é justo que sejam salvos. assim. não há certamente nenhuma razão que possa fazer compreender porquê. Mas se de algum modo é possível captar a razão de quereres salvar os maus. porque é justo que sejas tão bom. que punas e que perdoes. E é talvez por causa disto que o sumamente justo pode querer os bens para os maus. efectivamente.net i i i i . “todas os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade” e. a sabedoria pela qual és sapiente. e aqueles que queres perdoar não é justo que sejam condenados. és verdadeiramente senciente <sensibilis>. ó Deus justo e benevolente. pela tua suma bondade salves uns em vez de outros. omnipotente. 45 www. Assim a misericórdia nasce da tua justiça. 21 22 Sl 24. verdadeiramente. pois. feliz. que não por ti mesmo. entre maus semelhantes. 10. Sim.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 21 bons. É. Capítulo XII Que Deus é a própria vida. Assim. 144. a própria bondade pela qual és bom para os bons e os maus22 . Justo é unicamente o que tu queres. sem <retribuíres> males aos maus. do mesmo modo que és vivente. És. nem porquê condenes pela tua suma justiça estes em vez daqueles. não o és por outra coisa. que o sejas também perdoando. 17 Mt 5.

lusosofia. Se. <mesmo> quando os outros espíritos são incircunscritos e eternos Mas tudo o que está enclausurado pelo lugar ou pelo tempo é menor do que aquilo que nenhuma lei de lugar ou de tempo constrange. então. mas não em toda a parte. os outros espíritos também são incircunscritos e eternos. O que é claramente reconhecido apenas nas coisas corporais. nenhum lugar ou tempo te limita. E porque apenas de ti o podemos dizer. mas existes sempre e em toda a parte. a alma não estivesse toda ela em cada parte do seu corpo. É incircunscrito. é o espírito criado circunscrito em relação a ti e incircunscrito em relação ao corpo? É totalmente circunscrito aquilo que. É. tu só és incircunscrito e eterno. porém. simultaneamente. e. www. Mas como és tu o único incircunscrito? Porventura. és incircunscrito e eterno duma maneira singularíssima. <então> não sentiria toda ela em cada parte. que também outros espíritos são incircunscritos e eternos? Em verdade.net i i i i . pois.i i i i 22 Santo Anselmo Capítulo XIII Como só Deus é incircunscrito e eterno. Senhor. aquilo que. Desde logo. Tu. o que se encontra todo ao mesmo tempo em toda a parte. quando está todo em algum lugar. circunscrito e incircunscrito. pode estar todo ao mesmo tempo noutro lugar. Como pode ser dito. porque único entre todos os seres. também não deixas de ser. só tu és eterno. não pode simultaneamente estar noutro lugar. e assim como não começas a ser. O que só se compreende de ti. ao invés. O que é reconhecido nos espíritos criados. com efeito. contudo. quando está todo num lugar qualquer. uma vez que nada é maior do que tu.

mas não te “viu tal como tu és”?23 23 1 Jo 3.lusosofia. te ter ainda visto. viu-te a ti. senão vendo a luz e a verdade? Ou pôde ela reconhecer inteiramente alguma coisa de ti de outro modo sem ser pela tua luz e verdade? Pois se viu a luz e a verdade. a eterna beatitude e a bem-aventurada eternidade. a luz. que é que há para que não sintas o que encontraste? Porque não te sente a minha alma. de que modo é ele isso que encontraste e reconheceste sobre ele com verdade tão certa e tão verdadeira certeza? Se. a bondade. ó meu Deus.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 23 Capítulo XIV Como e porquê Deus é visto e não visto por aqueles que o buscam Encontraste. Pois se não encontraste o teu Deus.net i i i i . <Ou> será que o que viu é luz e verdade sem. ó minha alma. todavia. <encontraste> que essa realidade é a vida mesma. se te encontrou? Por acaso não encontrou ela aquele que achou ser a luz e a verdade? De que modo compreendeu tal. ao invés. a sabedoria. encontraste. 2 www. o que buscavas? Buscavas Deus e encontraste que ele é a suma realidade entre todas as coisas. Se não te viu a ti. melhor do que a qual nada pode ser pensado. não viu a luz nem a verdade. <encontraste> que ela existe sempre e em toda a parte. porque te viu de algum modo.

net i i i i . Senhor. não vê as trevas.lusosofia. efectivamente. ao invés. num único olhar. a fim de que veja puramente o que deseja. na qual está tudo o que de verdadeiro existe e fora dela apenas o falso e o nada! Quão imensa é <essa verdade> que. mediante quem e de que modo foram elas feitas do nada! Que pureza. esta luz donde jorra toda a verdade que alumia a mente racional! Quão ampla é esta verdade. Quão grande é. para lá daquilo que viu. porque em ti não há quaisquer trevas24 .i i i i 24 Santo Anselmo Senhor. porquê isto? O seu olho está cheio de trevas pela sua enfermidade ou cego pelo teu fulgor? Certamente está cheio de trevas por si e cego por ti. De qualquer modo. meu Deus. mas vê que não pode ver mais. 24 1 Jo 1. 5 www. que simplicidade. é obscurecido pela sua brevidade e esmagado pela tua imensidão. nada vê a não ser trevas: ou. por causa das suas próprias trevas. meu formador e meu reformador. por quem. Tensa está ela para ver mais e. vê todas as coisas que foram feitas. É verdadeiramente apertado pela sua estreiteza e vencido pela tua amplitude. para lá do que ela viu. que certeza e que esplendor aí existe! Certamente <muito> mais do que a criatura é capaz de compreender. Porquê isto. diz à minha alma desejosa o que mais és.

Em verdade. não pode ver. é possível pensar algo maior que tu – o que não se pode fazer. no próprio sol. não só és aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado. porque ela é demasiado forte para mim.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 25 Capítulo XV Que Deus é maior do que aquilo que pode ser pensado Por conseguinte. vencido pela grandeza. é possível pensar que existe qualquer coisa deste género: e se tu não és isto mesmo. confundido pela capacidade. mas és algo maior do que aquilo que pode ser pensado. sufocado pela imensidão. Senhor. nem suporta estar muito tempo fixo nela. Capítulo XVI Que tal é a luz inacessível em que Deus habita Tal é. Brilha intensamente e o olho da minha alma não a capta. tudo o que vejo é por ela que o vejo. para aí te ver plenamente. porém. O meu intelecto não tem capacidade para ela. 25 1 Tm 6. Porque. verdadeiramente. com efeito. nenhuma outra coisa que a penetre.net i i i i . quão longe está de mim. E. Ó suprema e inacessível luz. verdadeiramente. Fica cego pelo fulgor. l6 www.lusosofia. ó total e bem-aventurada verdade. não a vejo. a luz inacessível na qual habitas25 . que. Não existe. Senhor. tal como olho doente vê o que vê pela luz do sol.

a qual é ele próprio E de novo eis a perturbação. o sabor.lusosofia. envolves-me todo e não te sinto. do modo inefável que é o seu. Escuta e não ouve a tua harmonia. na tua luz e beatitude. o perfume. Senhor Deus. vive ela ainda nas suas trevas e miséria. Saboreia e não conhece o teu sabor. De todos os lados ela olha e não vê a tua beleza. Capítulo XVIII Que não há partes em Deus nem na sua eternidade. existe em Deus a harmonia. Capítulo XVII Que. tens estas coisas em ti segundo o teu modo inefável. Estás dentro de mim. Em ti me movo e em ti existo26 e não consigo aproximar-me de ti.net i i i i . Tacteia e não sente a tua suavidade. tu que as dás às criaturas segundo o modo sensível. Mas empedernidos e insensíveis e tapados pela vetusta enfermidade do pecado ficaram os sentidos da minha alma. a suavidade e a beleza Ainda te escondes à minha alma. Aspira e não cheira o teu perfume. <eu> que tão presente estou ao teu olhar! Estás toda presente em toda a parte e não te vejo.i i i i 26 Santo Anselmo <eu> que tão próximo estou de ti! Quão longínqua estás do meu olhar. e por esta razão. Na verdade. 28 www. Senhor. eis de novo a aflição e o luto que vêm ao encontro de quem procura o regozijo e a alegria! Minha alma esperava já a saciedade e ei-la de novo afogada pela indigência! Ambicionava já 26 At 17.

e todo o bem verdadeiro tu o és. reeleva-me para ti. nem a sabedoria. Procurei o teu rosto. que és tu <para> que o meu coração o reconheça em ti? Verdadeiramente. se vire de novo para ti.lusosofia. “ilumina”30 o olho da minha mente para que te veja. a sabedoria. Senhor. Mais ainda. Caí <mesmo> “antes que minha mãe me concebesse”27 . e não és muitas coisas. não desvies de mim a tua face”29 . 121 Sl 24. Senhor. e um acto ou uma inteligência podem dissolvêlo. 7 Rm 5. de algum modo. a bondade. “pela tua bondade. 7. a verdade. Nele – que facilmente tinha e deploravelmente perdeu. Que a minha alma junte as suas forças e. és a vida. num único olhar. De mim. a eternidade.-12 www. “nelas fui concebido e nelas envolto nasci. que és aquilo> melhor do que o qual nada pode ser pensado. que em nada és dissemelhante de ti próprio. quando encontramos. eu procuro. Senhor. cura. Certamente. Purifica. o mesmo que ti próprio. Senhor. <tu. partes nenhumas. Que és tu. Senhor. Certamente.11. em ti. muitas coisas. mas todos são um só e cada um é tudo o que tu és e é tudo o que são todos os 27 28 29 30 Sl 50.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 27 alimentar-se e eis que começo por ter ainda mais fome! Esforçava-me por alcançar a luz de Deus e recaí nas minhas trevas. 4. és todos estes bens? São eles partes de ti ou antes cada um deles é tudo o que tu és? Porque tudo o que é formado de partes não é totalmente uno. 8. mas ainda por elas me sinto envolto. o teu rosto Senhor. mas de tal modo algo uno. De que modo. Numerosos são estes <bens> e a minha estreita inteligência não é capaz de os ver em conjunto.9 SI 12. Ou antes. Ajuda-me.net i i i i . Assim. Não há. nem a vida. Coisas que te são alheias. todos caímos outrora naquele em que todos pecámos”28 . 26. nem os outros bens são partes de ti. e aquilo que. pois. e diverso de si mesmo. mas. <aquilo> que não encontramos quando o procuramos. perdemos tudo: <aquilo> que não conhecemos <agora> quando o queremos procurar. não é o que procuramos. para ele e para nós –. para se deleitar em todos ao mesmo tempo. a felicidade. com toda a sua inteligência. não somente caí nelas. aguça. tu és a própria unidade que nenhuma inteligência pode dividir.

net i i i i . Ou antes.lusosofia. Capítulo XIX Que Deus não está em lugar ou tempo. mesmo às eternas Tu. ontem nem existirás amanhã. se pela tua eternidade foste e és e serás. mas todas as coisas existem em ti. Com efeito. enches e abranges todas as coisas. nunca e em nenhum lugar há partes em ti. mas que todas as coisas estão n’ele Mas. Pois ontem. hoje e amanhã não existem em nenhum lugar senão no tempo. portanto. uma vez que não tens partes. Mas como existes depois de todas as coisas? De que maneira existes tu depois daquelas que não terão nenhum fim? Será que elas de modo nenhum podem existir sem 31 Sl 89. mas simplesmente existes. Por conseguinte. da tua eternidade não terá passado nada de modo que não exista mais. Nada te contém. se bem que nada exista sem ti. mas existes ontem. e se ter-sido não é de modo nenhum vir-a-ser. e nenhuma parte tem a eternidade que tu és. porém. não estás em lugar ou tempo. mas estás todo em toda parte e a tua eternidade existe sempre toda. existes antes e depois de todas as coisas. de que modo a tua eternidade existe sempre toda? Porventura. nem nada será futuro de forma que ainda não exista? Não exististe. pois. Capítulo XX Que Deus é anterior e posterior a todas as coisas. nem amanhã. fora de todo o tempo. Tu. mas tu conténs todas as coisas. hoje e amanhã. nem <de modo nenhum> ser é ter-sido ou vira-ser. existes antes de todas as coisas. 2 www. pois que antes que elas fossem feitas tu existes31 .i i i i 28 Santo Anselmo outros. nem na tua eternidade. nem hoje. não existes nem ontem.

finito. de uma certa maneira. existes sem o menor espaço. assim como já não têm o que passou? Deste modo. Senhor. Capítulo XXI Que isto seja “o século do século” ou “os séculos dos séculos” É isto o “século do século” <saeculum saeculi> ou os “séculos dos séculos” <saecula saeculorum>? Do mesmo modo que o século dos tempos contém todas as coisas temporais. Em verdade é ela o século <saeculum> em virtude da sua indivisível unidade. existes sempre depois delas. Ou será. Será que é ainda possível pensar que elas terão fim. mas tu de modo nenhum. enquanto tu de nenhum modo és menor. enquanto de ti nunca <tal se pode pensar>? Deste modo têm elas. em virtude da sua interminável imensidade. tu existes deste modo depois delas. enquanto elas ainda não têm da sua eternidade o que há-de vir. pois aí existes sempre presente. de certo modo. aquilo que de modo nenhum tem fim existe depois daquilo que é. certamente. www. é sempre presente para ti aquilo a que elas ainda não chegaram. mesmo as eternas. nem metade.lusosofia. E.net i i i i . <de tal modo> que todas as coisas estejam cheias de ti e em ti. nem parte. ou seja. ao invés. enfim.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 29 ti. todavia. E. assim a tua eternidade contém até os próprios séculos dos tempos. que tu vais além de todas as coisas. ainda que tão grande sejas. verdadeiramente. porque <tanto> a tua eternidade como a delas te são inteiramente presentes. mesmo se elas retornarem ao nada? De certa maneira. e os séculos <saecula>. tu. um fim. de sorte que em ti não existe nem meio.

no Monte Sinai e quase intraduzível. uma outra nas partes. és pois aquilo que és. e <tem> um vir-a-ser o que ainda não é: isso. e na qual alguma coisa é mutável. 14: “Ego sum qui sum”. tu que te bastas plenamente a ti mesmo. Pois aquilo que é uma coisa no todo. “Eu sou aquele que sou” – Nome da Imutabilidade (nomen immutabilitatis) revelado a Moisés. Tu. pelo contrário. e que retoma ao não-ser se não subsiste através de outra coisa. pois sugere uma repetitio aeternitatis ia aeternitate que Santo Anselmo reconhece na confissão trinitária. Senhor.i i i i 30 Santo Anselmo Capítulo XXII Que só Deus é aquilo que é e Aquele que é Tu só. E. e nem se pode pensar que às vezes não sejas. não és senão o bem único e supremo. de nada indigente. Ex 3. do qual todas as coisas têm necessidade para existirem e bem-existirem. E tu és aquele que és. própria e absolutamente <falando>. Tu és a vida e a luz e a sabedoria e a felicidade e a eternidade e muitos bens desta índole. própria e simplesmente <falando>. não é.lusosofia. e que podemos pensar que não é. 32 www. e tu só és Aquele que é’32 . <essa coisa> não é absolutamente o que é. E aquilo que começou do não-ser. porque não tens ter-sido nem haver-de-ser. isso tu o és todo e sempre. e aquilo que tem tersido o que já não é. és o que és porque tudo aquilo que em certas ocasiões e de certas maneiras és.net i i i i . mas és unicamente presente. todavia.

nada de outro do que tu és pode aí haver. que este é o único bem necessário. aquela não pode ser multiplicada nem ser outra e outra coisa. Filho e Espírito Santo. ele ama-te e ama-se a si mesmo.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 31 Capítulo XXIII Que este bem são-no igualmente Pai. pois cada um singularmente não é outra coisa senão a unidade sumamente simples e a simplicidade sumamente una. isto é. é ele o bem total e uno e completo e único. é-o simultaneamente toda a Trindade – Pai.lusosofia. E este resto é aquele único necesário em que reside todo o bem. o teu Filho. pois que tu amas-te e ama-lo. pelo qual tu próprio te dizes. Deus Pai. no Verbo. nem nada de maior ou menor que tu.net i i i i . Aquilo que cada um é singularmente. ou antes. porque o teu Verbo é verdadeiro como tu és veraz. e não outra diferente de ti. Porque o próprio Amor não é desigual nem a ti nem ao teu Filho. ele <o Espírito Santo> não é outra coisa diferente de ti ou d’ele <Verbo>. o Espírito Santo que procede de ambos. como tu. 33 Lc 10. total e único Este bem. é a mesma Verdade. e tu és tão simples que de ti não pode nascer outra coisa diferente do que tu és. comum a ti e ao teu Filho. Com efeito. <De resto> Uma só coisa é necessária33 . completo. 42 www. Filho e Espírito Santo. é-o o teu Verbo. na medida em que tu és e ele é. tu o és. Este mesmo <bem> é o Amor único. isto é. por consequência. ele que não é dissemelhante de ti ou d’ele: e da suprema simplicidade não pode proceder algo de diferente daquilo que é aquilo de que procede.

minha carne? Que desejas tu. tanto quanto possas. quem fruirá este bem! O que haverá e não haverá para ele? Certamente terá tudo o que quiser. pensa atentamente quão deleitável é aquele que contém o deleite de todos os bens. nem o coração do homem” pensou. e não terá o que não quiser. 9 www. cada um dos bens de per si é deleitável. a vida criada é boa. buscando os bens da tua alma e do teu corpo? Ama o único bem no qual estão todos os bens: isto basta! Deseja o bem simples. quanto <mais> o é a vida criadora! Se a salvação que <nos> foi feita é agradável.i i i i 32 Santo Anselmo Capítulo XXIV Conjectura: qual é este bem e qual a sua grandeza Agora.34 . Se. pensa. mas aquele que difere <tanto delas> quanto o Criador da criatura. minha alma? Nele existe tudo o que amais e desejais!. ó homenzinho. ó minha alma. quão <mais> amável é a sabedoria que do nada criou todas as coisas! Enfim. Então porquê vagabundeias tu por tantos caminhos. se tão numerosos e tão grandes são os deleites nas coisas deleitáveis. quanto <mais> o é a salvação que opera toda a salvação! Se a sapiência no conhecimento das coisas que foram fundadas é amável. os quais “nem olho viu nem ouvido ouviu. Bem seguros estarão aí os bens do corpo e da alma.lusosofia. que é todo o bem: é o bastante. Se. qual e quão grande é o deleite que existe naquele que fez as próprias coisas deleitáveis! Capítulo XXV Quais e quão grandes bens pertencem àqueles que dele fruem Oh. qual é este bem e qual é a sua grandeza. nele existe! 34 1 Cor 2. Pois que amas tu. não aquele de que temos experiência nas coisas criadas. desperta e eleva toda a tua inteligência.net i i i i . na verdade. na verdade.

seguramente. Pois tal como Deus poderá aquilo que quiser por si próprio. Se é a velocidade ou a fortaleza ou a liberdade do corpo.net i i i i .lusosofia. 9 SI 35. e Deus amá-los-á mais do que eles a si próprios. Se é alguma volúpia. terão a omnipotência da sua vontade. e ele amar-se-á e amálos-á por si mesmo. Se é a honra e as riquezas. a que nada pode obstar. 16 Sl 36. Se é uma vida longa e sadia. “serão chamados 35 36 37 38 39 40 41 42 Mt 13. Se é o poder. Se é a embriaguez.23 www. “serão semelhantes aos anjos de Deus”. porque amá-lo-ão e amar-se-ão a si mesmos e uns aos outros por ele. 9 Mt 25. amarão Deus mais do que a si mesmos e amar-se-ão uns aos outros como se amam a si mesmos. Deus “os dessedentará na corrente das suas delícias”41 . aí os coros dos anjos cantam sem fim a Deus. Se é a concórdia. <assim> como Deus <a tem> da sua. não imunda mas pura. porque “semeia-se um corpo animal e ressuscitará um corpo espiritual”36 pelo poder <de Deus>. 15 SI 35. porque nenhuma outra terão senão a vontade única de Deus. 39 Sl 16. 21. Se é a amizade. não pela natureza. 44 Sb 5. assim <também> ele quererá tudo o que eles quiserem. “serão inebriados pela abundância da casa de Deus”40 . Porque assim <como> não quererão outra coisa diferente do que ele quiser. E o que ele quiser não poderá não existir.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 33 Se a beleza <vos> deleita. serão saciados “quando aparecer a glória” de Deus39 . 43 1 Cor 15. Se a sabedoria <vos deleita>. assim através dele poderão o que quiserem. Deus estabelecerá os seus servos bons e fiéis sobre muitas coisas42 . Se é a melodia. nele existem a eternidade salutar e a eterna sanidade. Se é a saciedade. “os justos resplandecerão como o sol”35 . porque “os justos viverão para sempre”37 e “a salvação dos justos vem do Senhor”38 . <e> acima de tudo. para eles haverá uma só vontade. a própria sabedoria de Deus a si mesma se lhes mostrará.

este bem. três ou muitos fruíssem a mesma coisa. Assim como certos estarão de que não o perderão por sua vontade. Mas qual e que imensa não é tal alegria. Assim. que os ama. verdadeiramente nunca!. contra a sua vontade.lusosofia. E se dois.i i i i 34 Santo Anselmo filhos de Deus”43 e deuses serão’44 . se o coração do homem com tanta dificuldade capta a alegria de um tão grande bem que é o seu. 45 Jo 17. E onde estiver o seu Filho. aí onde se encontra um tal e tão grande bem! Coração humano. Mas certamente. Por conseguinte. naquela perfeita caridade dos bem-aventurados e inumeráveis anjos e homens. <a ver> se és capaz de apreender a sua alegria <em virtude> de tanta felicidade própria. coração indigente. tivesse a mesma felicidade. naquela perfeita felicidade. rejubilarias tanto por cada um como por ti próprio. a Deus e a eles. lhe faltarem estes bens. também verdadeiramente certos estarão de nunca. – ou mais ainda: opresso por tormentos –. e de que Deus. presente também na Sagrada Escritura. nem algo mais poderoso que Deus os separará. Se é a verdadeira segurança. como será capaz de tantas e tão grandes alegrias? Certamente. ninguém se alegrará de modo diferente pelos outros do que por si próprio. não lho retirará contra seu grado. porque não te alegrarias menos por ele do que por ti próprio. quanto <não> rejubilarias se abundasses em todos esses <bens>!? Interroga o teu íntimo. 24 46 Rm 8. passa para a teologia cristã com um sentido diferente da filosofia plotiniana. a quem absolutamente amasses como a ti próprio. <uma vez que> quanto mais um <ser> ama outro. assim. tanto mais fica alegre pelo seu bem. também eles aí estarão45 “herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo”46 . e a todos os outros consigo e. alegrar-se-á incomparavelmente mais pela Mt 5. onde ninguém amará menos o outro do que a si próprio. uma vez que não há confusão de naturezas. ou antes. 9 Note-se a ideia de deificação (theôsis / deificatio) que. 171 44 43 www. duplicada seria a tua alegria.net i i i i . como tal. cada um amará Deus incomparavelmente mais do que a si próprio. se algum outro. coração experimentado por tormentos. se amasses cada um como a ti próprio.

. repleto o coração. ela ainda irá além de <todos estes> modos. Não é. na verdade. Pois encontrei certa alegria. todo o seu coração. pois.net i i i i . 37 Jo 16. Senhor. repleta a mente. Estando. com toda a sua mente e com toda a sua alma.”. mas qualitativo: o homem todo entrará nessa alegria. toda a sua mente e toda a sua alma de modo nenhum bastam para a dignidade do amor. Mas se amam a Deus com todo o seu coração. repleta a alma. 24 49 “Entrarão todos. diz à minha alma se esta é a alegria acerca da qual nos dizes pelo teu Filho: “pedi e recebereis para que a vossa alegria seja plena”48 . minha esperança e a alegria do meu coração. toda esta alegria que entrará naqueles que se alegram. diz ao teu servo.49 Diz. certamente. com toda a sua mente e com toda a sua alma47 . assim.. Mt 22. O “todos” não é quantitativo. toda a sua mente e toda a sua alma não bastam para a plenitude da sua alegria. plena e mais que plena. de tal forma que todo o seu coração.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 35 felicidade de Deus que pela sua e pela de todos os outros consigo. Dt 6. se tal é a alegria na qual entrarão os teus servos. repleto todo o homem desta alegria. no sentido que cada um entrará totalmente. de tal forma que. 5. no íntimo do seu coração. 21 48 47 www. eles que “entrarão na alegria do seu Senhor”50 .lusosofia. 50 Mt 25. Capítulo XXVI É a “alegria plena” que o Senhor prometeu? Meu Deus e meu Senhor. mas aqueles que se alegram entrarão todos na alegria’. contudo. os perfeitos alegrar-se-ão com todo o seu coração.

ó Deus. seja grande a minha alegria. “nem olho viu. para que aqui. pelo menos. que eu receba o que <nos> prometes pela tua verdade. Até que ponto te conhecerão então. e “para que a minha alegria seja completa”. pelo Teu Filho mandas-nos.9119 Jo 16. nem ao coração do homem ascendeu”51 . até que ponto se alegrarão esses teus bem-aventurados. amarão tanto quanto conhecerem. nem “olho viu. que nos aconselhes pelo nosso admirável Conselheiro. Deus verdadeiro. a pedir e prometes <que> receberemos. ou melhor. E se não o posso plenamente nesta vida que. 51 52 1 Cor 2. Senhor. nem ouvido escutou. Peço<-te>. Peço<-te>. até que ponto te conhecerão e te amarão. “para que a nossa alegria seja plena”52 . Alegrar-se-ão tanto quanto amarem. nem ao coração do homem ascendeu” nesta vida. esta alegria em que se alegrarão os teus eleitos. nem ouvido ouviu. aconselhas-nos. Senhor. Que aqui progrida em mim o teu conhecimento e que lá ele seja pleno. Que por enquanto a minha mente medite. 24 www. peço<-te> para receber. “para que a minha alegria seja plena”. e plena em realidade aí.net i i i i . Também ainda não disse ou pensei. progrida cada dia até que tudo alcance a plenitude. em esperança. Senhor. que te conheça e te ame para me alegrar em ti.lusosofia. Que cresça aqui o teu amor e que aí ele seja completo. até que ponto te amarão? Certamente. Senhor. certamente.i i i i 36 Santo Anselmo Mas. nessa vida.

lusosofia. 25 www.net i i i i . Ámen”54 . desde logo se desate a minha língua! Que o meu coração a ame e a minha boca a proclame! Esteja faminta a minha alma. 53 54 Mt 25. até que entre “na alegria do meu Senhor53 .i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 37 e esperando-a. desejosa toda a minha substância. “bendito pelos séculos. que é” Deus Trino e Uno. 21 Rm 1. sequiosa a minha carne.

Que tal é a luz inacessível em que Deus habita XVII.i i i i 38 Santo Anselmo Conteúdo Preâmbulo I. Que Deus é anterior e posterior. Como o insensato disse no seu coração... Como e porquê Deus é visto e não visto. Como todas as vias do Senhor são misericórdia. É impossível pensar que Deus não exista IV. V. II. XVIII.. Como Deus justamente pune. XII. Que isto seja “o século do século”.. XXVI. Que Deus existe verdadeiramente III. XIV.. Despertar do espírito. Como o inteiramente e sumamente justo.. Que existe em Deus a harmonia. Como Deus é misericordioso e impassível IX.. Quais e quão grandes bens.. Que Deus não está em lugar ou tempo.. Que só Deus é aquilo que é e Aquele que é XXIII. XXII. Como só Deus é incircunscrito e eterno... Que este bem são-no Pai. XV. Que Deus é a própria vida. Que Deus é maior do que aquilo que pode ser pensado XVI.. ainda que não seja corpo VII. Filho e Espírito Santo XXIV. Como é sensível... XI. Como Deus é omnipotente VIII.. XX. XXI. Conjectura: qual é este bem e qual a sua grandeza XXV.. XIX.. Deus é o que é melhor ser que não-ser VI..... XIII..net i i i i . X.lusosofia.... É a “alegria plena” que o Senhor prometeu? 7 8 12 13 14 15 15 16 17 17 20 20 21 22 23 25 25 26 26 28 28 29 30 31 32 32 35 www... Que não há partes em Deus..

foi agora revista. por exemplo.lusosofia. O texto latino pode encontar-se.net i i i i . feita pela primeira vez em 1994.i i i i Proslogion seu Alloquium de Dei existentia 39 [Nota do Tradutor] Esta tradução portuguesa do Proslogion. corrigida e aperfeiçoada para a LusoSofia – Biblioteca On-Line de Filosofia. nos seguintes electrosítios: • THE LATIN LIBRARY • Facultatea de Istorie si Filosofie – TEXTE SI TRADUCERI din Filosofia Anticã si Medievalã www.

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