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Abordagens da Terapia Ocupacional

Psicodinâmica
2

ALEXANDRE BROCH
FÁBIO RICARDO RUSCH

ABORDAGENS DA
TERAPIA OCUPACIONAL PSICODINÂMICA

JOINVILLE
2007
ALEXANDRE BROCH
FÁBIO RICARDO RUSCH

ABORDAGENS DA
TERAPIA OCUPACIONAL PSICODINÂMICA

Trabalho de Conclusão de Curso na modalidade


de Monografia apresentado à banca examinadora
do curso de Terapia Ocupacional da Faculdade
de Ciências da Saúde de Joinville da Associação
Catarinense de Ensino como requisito parcial
para a obtenção do grau de Terapeuta
Ocupacional, sob orientação da Professora Ana
Lucia Alves Urbanski.

JOINVILLE
2007
2

ALEXANDRE BROCH
FÁBIO RICARDO RUSCH

ABORDAGENS DA
TERAPIA OCUPACIONAL PSICODINÂMICA

Trabalho de Conclusão de Curso na modalidade de Monografia apresentado à banca


examinadora do curso de Terapia Ocupacional da Faculdade de Ciências da Saúde de Joinville
da Associação Catarinense de Ensino como requisito parcial para a obtenção do
grau de Terapeuta Ocupacional, sob orientação da Professora Ana Lucia Alves Urbanski.

__________________________________________

Professora Especialista Ana Lúcia Alves Urbanski


Orientadora

__________________________________________

Professora MSc. Amélia de Oliveira Junkes


Examinador I

__________________________________________

Professora MSc. Alba Meri Pereira Machado


Examinador II

JOINVILLE
2007
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TÍTULO: ABORDAGENS DA TERAPIA OCUPACIONAL PSICODINÂMICA

AUTORES: Alexandre Broch


Fábio Ricardo Rusch

ORIENTADORA: Ana Lúcia Alves Urbanski

RESUMO

O objetivo deste trabalho é abordar de forma teórico-prática alguns aspectos da


Terapia Ocupacional Psicodinâmica; esta que concilia os fundamentos terapêuticos
ocupacionais abrangentes das potencialidades do relacional das atividades
expressivas com fundamentos da psicanálise e demais abordagens psicológicas.
Considera-se atividade uma interação ativa; um processo natural intrínseco do
desenvolvimento do organismo, do ambiente, da consciência e, nesses termos, a
mesma é em si fundamento ao equilíbrio. O Terapeuta Ocupacional é o especialista
que prescreve as atividades de acordo com as especificidades plásticas, simbólicas,
ansiogênicas, estruturantes, projetivas, representacionais, entre outras; de forma
geral, relacionais. O embasamento psicanalítico é a principal referência teórica,
considerando este possuir seus fundamentos nas manifestações de conteúdos
inconscientes da psique humana, e direcionando e expressando tais conteúdos à
concretização material por meio das atividades expressivas cujas representações
objetivam a dinâmica de conteúdos psíquicos pertinentes à homeostase do sujeito, e
que são possuidoras de potencialidades diagnósticas, de percepções de mudanças
e terapêuticas. Optou-se por uma pesquisa de abordagem qualitativa do tipo estudo
de caso considerando de forma crítica os aspectos fenomenológicos e os valores da
subjetividade humana de acordo com o enfoque empregado. Utilizou-se do Centro
de Atenção Psicossocial álcool e drogas (CAPSad) do município de Joinville, SC,
que favoreceu esse estudo que demandou um período de 2 anos, por meio de uma
demanda ativa de trezentos pacientes/mês, toxicômanos de faixa etária entre 14 e
65 anos, escolhendo-se, por fim, apenas um caso clínico representante da
abordagem. Sob tais métodos os resultados apresentados mostraram eficácia
terapêutica no sofrimento psíquico de uma determinada paciente que apresentara
características como depressão, comportamentos auto-sabotantes e drogadicção.

PALAVRAS-CHAVE: Terapia Ocupacional. Saúde Mental. Atividades Expressivas.


Psicodinâmica.
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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 01 A Menina............................................................................................119
FIGURA 02 A Face (Incompleta)............................................................................125
FIGURA 03 A Face (Completa)..............................................................................125
FIGURA 04 A Face (Conforme Visualização do Terapeuta)..................................127
FIGURA 05 A Face (Esquemático para Visualização)...........................................127
FIGURA 06 A Faca.................................................................................................134
FIGURA 07 A Chapa de Madeira...........................................................................135
FIGURA 08 A Chapa com as bolinha arremessadas.............................................136
FIGURA 09 Ostra Unindo “MLT” a “Dor”................................................................137
FIGURA 10 Ostra Unindo “MLT” a “Dor” (Ampliação) ...........................................137
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LISTA DE QUADROS

QUADRO 01 Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais


referentes às atividades terapêuticas realizadas – Grupo de Canto........................111
QUADRO 02 Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais
referentes às atividades terapêuticas realizadas – Evoluções do Grupo de Canto.115
QUADRO 03 Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais
referentes às atividades terapêuticas realizadas – Argila como recurso terapêutico -
livre criação..............................................................................................................122
QUADRO 04 Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais
referentes às atividades terapêuticas realizadas – Atividade de Pintura.................131
QUADRO 05 Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais
referentes às atividades terapêuticas realizadas – Argila – criação
dirigida......................................................................................................................143
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SUMÁRIO

RESUMO.................................................................................................................... 3

1 INTRODUÇÃO..................................................................................................... 9

2 REVISÃO DE LITERATURA ............................................................................. 16

2.1 ATIVIDADE – A INTERAÇÃO ATIVA ..............................................................16


2.1.1 O Desequilíbrio Homem X Meio Ambiente ...............................................17
2.1.1 O Equilíbrio Existencial Por Meio do Relacional .....................................17
2.1.2 A Instabilidade Relacional por meio da Consciência..............................18
2.1.3 O Trabalho – Suas influências na Instabilidade Relacional ...................22
2.1.4 Atividades: Terapêuticas “em si” .............................................................24

2.2 A REFERÊNCIA DE RUI CHAMONE JORGE NA TERAPIA OCUPACIONAL25


2.2.1 A Terapêutica das Atividades Livres e Expressivas por Chamone .......26
2.2.2 As Especificidades Terapêuticas das Atividades por Chamone............29
2.2.2.1 A Argila......................................................................................................31
2.2.2.2 A Pintura ...................................................................................................33
2.2.2.3 A Música ...................................................................................................34

2.3 AS INFLUÊNCIAS PSICANALÍTICAS NA TERAPIA OCUPACIONAL ............35

2.4 TEORIZAÇÕES PSICANALÍTICAS .................................................................39

2.4.1 Contribuições da Psicanálise Freudiana..................................................39


2.4.1.1 A Síndrome da Repressão – O Recalque .................................................41
2.4.1.2 A Catarse ..................................................................................................43
2.4.1.3 Níveis dos Processos Psíquicos ...............................................................46
2.4.1.3.1 O Consciente...........................................................................................46
2.4.1.3.2 O Pré-Consciente....................................................................................47
2.4.1.3.3 O Inconsciente.........................................................................................48

2.4.1.4 A Transferência e a Contra-transferência .................................................49


2.4.1.5 Modelo Estrutural do Aparelho Psíquico ...................................................52
2.4.1.5.1 O Id .........................................................................................................52
2.4.1.5.2 O Ego......................................................................................................52
2.4.1.5.3 O Superego.............................................................................................53
7

2.4.2 Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana ..........................................54


2.4.2.1 Os Mecanismos de Defesa .......................................................................54
2.4.2.2 As Relações Objetais ................................................................................55
2.4.2.2.1 A Teoria Pulsional ...................................................................................55
2.4.2.2.2 Pulsão e Relação ao Objeto ...................................................................56
2.4.2.2.3 Relações Objetais e a Constituição Interna ............................................58

2.4.2.3 Importantes Mecanismos relacionados às Relações Objetais ..................59


2.4.2.3.1 A Projeção ..............................................................................................59
2.4.2.3.2 Projeção e Paranóia ...............................................................................62

2.4.2.4 Fenômenos Transicionais – Objetos Transicionais ...................................63


2.4.2.4.1 Transicionalidade, Patologias e Drogadicção. ........................................67

2.4.3 Contribuições da Psicologia Analítica ou Complexa de Jung ...............70


2.4.3.1 O Consciente e o Ego ...............................................................................72
2.4.3.2 O Inconsciente ..........................................................................................73
2.4.3.2.1 O Inconsciente Pessoal ..........................................................................74
2.4.3.2.1.1 Os Complexos ...................................................................................75

2.4.3.2.2 O Inconsciente Coletivo ..........................................................................77


2.4.3.2.2.1 Os Arquétipos....................................................................................78
2.4.3.2.2.1.1 A Persona.........................................................................................80
2.4.3.2.2.1.2 A Sombra .........................................................................................81
2.4.3.2.2.1.3 Anima e Animus ...............................................................................82

2.4.3.2.2.2 O Self e o Processo de Individuação..............................................83


2.4.3.2.2.3 Os Símbolos......................................................................................88

2.4.4 Contribuições Pós-Junguianas de Nise da Silveira à Terapia


Ocupacional.............................................................................................................90

2.5 OUTRAS CONTRIBUIÇÕES NECESSÁRIAS AO ESTUDO DE CASO..........92


2.5.1 A Terapia Sistêmica ...................................................................................92
2.5.1.1 A Terapia Sistêmica Familiar ....................................................................93
2.5.1.1.1 O Paciente Identificado ...........................................................................95

3 METODOLOGIA ................................................................................................ 99

3.1 TIPO DE PESQUISA .......................................................................................99


3.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA...........................................................................100
3.3 VARIÁVEIS ....................................................................................................100
3.4 INSTRUMENTOS E MATERIAIS...................................................................102
3.5 PROCEDIMENTOS .......................................................................................103

4 ESTUDO DE CASO - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO .............................. 105

4.1 BREVE HISTÓRICO DO PACIENTE.............................................................105


8

4.1.1 Considerações A Respeito da Patologia “Dependência Química”


Segundo Contribuições Psicanalíticas ...............................................................106

4.2 30/08/2006: O GRUPO DE CANTO COMO RECURSO TERAPÊUTICO .....109


4.2.1 Nota Acerca do Atendimento Individual.................................................116

4.3 CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA ANÁLISE DOS RESULTADOS


OBTIDOS À APLICAÇÃO DA PROPOSTA TERAPÊUTICA INDIVIDUAL .............116

4.4 24/01/2007: ATIVIDADE DE ARGILA COMO RECURSO TERAPÊUTICO –


LIVRE CRIAÇÃO.....................................................................................................118
4.4.1 Considerações referentes à Terapêutica da Atividade Realizada – Argila
– Livre Criação.......................................................................................................120

4.5 17/01/2007: ATIVIDADE DE PINTURA COMO RECURSO TERAPÊUTICO 123


4.5.1 Considerações referentes à Terapêutica da Atividade Realizada –
Pintura. ...................................................................................................................128

4.6 30/01/2007 – ATIVIDADE DE ARGILA COMO RECURSO TERAPÊUTICO -


CRIAÇÃO DIRIGIDA ...............................................................................................132
4.6.1 Considerações referentes à Terapêutica da Atividade Realizada – Argila
– Criação Dirigida..................................................................................................138

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 145


REFERÊNCIAS...................................................................................................... 148
9

1 INTRODUÇÃO

Dentre todas, a espécie que mais evoluiu, que desenvolveu maior poder
sobre seu meio ambiente e sobre si está cada vez mais insatisfeita. A evolução do
homem, o desenvolvimento da cognição e consciência favoreceu o afastamento das
relações naturais funcionais, em níveis individuais, coletivos e ao meio ambiente.
Com o desenvolvimento da consciência de si, o homem passou a questionar-se
sobre si. Com o desenvolvimento da sociedade desenvolveram-se regras na
tentativa de criar equilíbrio e satisfação coletiva, porém, tais regras forçaram o
indivíduo a ir contra as vontades e necessidades instintivas de seu organismo
complexo, criando uma estabilidade social administrada pela razão sobre a emoção,
e gerando assim uma instabilidade homeostática. Tais padrões disfuncionais de
funcionalidade do sujeito foram passados de geração a geração através da cultura,
como conhecimento adquirido, atravessando diversas variações, evoluções e
mutações de acordo com a subjetividade do indivíduo que os recebia e os transmitia,
resultando hoje em complexas psicopatologias existentes em diferentes níveis
estruturais da subjetividade humana, onde é cada vez mais comum ouvirmos falar
de “Depressão”, “Síndrome do Pânico”, “Drogadicção”, diferentes tipos de “Fobias”,
“Psicopatias”, “Surtos Psicóticos” entre outras, evidenciando-nos o fato de que a
espécie está adoecendo.
A ciência descobriu meios de manipular os distúrbios neuroquímicos
existentes no Sistema Nervoso Central, porém, é visto que tal resposta serve
apenas para atenuar os sintomas finais, e nunca a causa em si, como mostra os
dados do IBGE e DINSAM a respeito das readmissões nos hospitais psiquiátricos,
onde, em 1950, quando iniciado os tratamentos quimioterápicos, o índice era de
30,6% de readmissão, sendo crescente até 1977 com 44,4%.
10

Faz-se importante considerar também que o uso freqüente desses


“equilibradores de mente” por vezes causa tolerância (exigindo contínuo aumento da
dosagem), dependência química e psíquica (emocional), além de proporcionar ao
indivíduo a possibilidade de “mascarar o problema”, tardando-o para um momento
seguinte, e por vezes, potencializado-o. É fato que o homem não encontra seu
equilíbrio (interno e com o externo) por meio de alterações químicas em seu cérebro.
Por vezes, tais problemas psíquicos não são resultantes de meros acasos
ocorrentes no organismo, mas sim, reações do organismo; indicativos da falha
homeostática, do desequilíbrio do indivíduo com ele mesmo, com sua natureza e
seu meio social.

Conhecemos duas espécie de coisas sobre o que chamamos nossa psique


(ou vida mental): em primeiro lugar, seu órgão corporal e cena de ação, o
cérebro (ou sistema nervoso), e, por outro lado, nossos atos de
consciência, que são dados imediatos e não podem ser mais explicados
por nenhum outro tipo de descrição. Tudo o que jaz entre eles é-nos
desconhecido, e os dados não incluem nenhuma relação direta entre estes
dois pontos terminais de nosso conhecimento. Se existisse, no máximo
permitir-nos-ia uma localização exata dos processos da consciência e não
nos forneceria auxílio no sentido de compreendê-los (FREUD, 1974, p.4).

Considera-se que a harmonia funcional da psique humana é muito complexa,


e sua estabilidade depende diretamente da estrutura filogenética, das informações
absorvidas (e impostas) do meio, e da capacidade de processar e trabalhar essas
informações perante as exigências da sua natureza orgânica e do meio. A vasta
complexidade da subjetividade humana, única para cada um, não pode ser tratada
somente sob as formas padronizadas, subjugantes e mecânicas da medicina
alopática, e tão pouco por classificações que submetem o indivíduo em teorias pré-
conceituadas que o determinam como “mais um” dentro de algum padrão
disfuncional já estabelecido, padrão este que tem como principal objetivo uma
“rotulação” subseqüente de uma sociedade capitalista e prática; e toda
individualidade, peculiaridade e singularidade do indivíduo, quando não justificadas
por um ou outro padrão, acabam ignoradas, muitas vezes, como características
irrelevantes, resíduos disfuncionais ou desprezíveis.
11

Contudo, considerando uma demanda de patologias diferentes, em níveis e


formas diferentes, em indivíduos diferentes, como se daria uma intervenção que
possibilitassem diagnósticos e tratamento de conteúdos internos disfuncionais e
reprimidos de acordo com as necessidades e a subjetividade do indivíduo?
Partindo dessa problemática, durante nosso período de formação acadêmica,
realizaram-se estágios em locais que proporcionassem a experiência da Terapia
Ocupacional em saúde mental. A fé na Terapia Ocupacional dava-se em acreditar
que, por meio de atividades (vivências específicas), a terapêutica deveria existir pelo
princípio do relacional, da homeostase, do homem em movimento com o seu meio;
externalizado e ativo. Porém, mesmo com o apoio de Terapeutas Ocupacionais de
referência atuantes na área, buscavam-se profissionais que trabalhassem com o
sofrimento das pessoas comuns, os ditos “neuróticos” (uma demanda diferenciada
dos “psicóticos”), o que na época, não se tinha acesso. Também nessa fase da
busca, foi notória a triste constatação de uma realidade (causadora de um forte
estigma para a profissão) ainda presente em alguns representantes da nossa classe:
Trabalhos realizados cuja única intenção fosse a “ocupação por ocupação”, essa
que, de alguma forma inexplicável, consideram-na terapêutica. Esse tipo de
referência teve que ser ignorada.
Na procura da terapêutica real, buscou-se o homem, o ser humano e seus
problemas; as referências de bons professores e de terapeutas ocupacionais de
destaque e suas contribuições; os principais pensadores e estudiosos da mente
humana no decorrer da história. Realizaram-se vivências de diversos procedimentos
terapêuticos, grupos, sessões, atividades variadas na busca daquilo que fosse, não
somente paliativamente funcional, mas que de fato focalizasse a causa da
problemática. Além dos terapeutas ocupacionais objetivou-se debates com mais
diversos profissionais da área, como psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais,
agentes de saúde, enfermeiros e outros também envolvidos na saúde mental. O
caminho foi realizado com toda a informação que se podia colher e conferir-la
funcional à terapêutica da relação.
12

Verificaram-se modelos e correntes variadas, antigas e atuais, referindo as


mais importantes, Nise da Silveira, Rui Chamone Jorge e Jô Benetton (principais
referências da Terapia Ocupacional em saúde mental no Brasil com sua influencias
psicanalíticas); Ázima, Wittkower e Fidler (que iniciaram o movimento psicanalítico
em Terapia Ocupacional nos EUA, nas décadas de 50 e 60); a importantíssima
Psicanálise Freudiana e suas evoluções (Jung e o mecanismo auto-regulador da
psique; Lacan e Melanie Klein e as teorias das relações objetais; Winnicott com as
teorias do brincar e as realidades vividas pelo sujeito, Reich e Lowen com a terapia
corporal, couraças musculares e embotamento afetivo); Moreno (com o
Psicodrama); a Terapia Sistêmica Familiar (patologias sistêmicas existentes nas
relações familiares/sociais, indispensável principalmente ao estudo de caso
abordado neste trabalho que aborda a dependência química), entre outras.
Em nossa pesquisa, a descoberta primordial deu-se nos fatos decorridos na
história da Psiquiatra Nise da Silveira, que em 1940, ao deparar-se com os
procedimentos terapêuticos utilizados em hospitais psiquiátricos (tais como
eletrochoque, insulinoterapia, lobotomia, confinamentos e outros) cria no Centro
Psiquiátrico Pedro II a Sessão de Terapia Ocupacional, com a intenção de dar aos
pacientes mais do que ocupação ou utilizá-los como mão de obra, como era de
costume na época, mas procurando beneficiar os indivíduos ali internados com
atividades que lhes possibilitasse um meio de expressão e de resgate de sua
individualidade. Tais benefícios logo foram obtidos, entretanto, a terapêutica foi
muito além.
Através das atividades abriu-se uma porta de acesso ao complexo mundo da
psique humana, e com inúmeras possibilidades, como a verificação e terapêutica de
conteúdos internos conflitantes graças a exteriorização e concretização de
informações psíquicas incompreensíveis (até então) à razão ou linguagem social,
contudo, representantes da realidade do ser, da “verdade do sujeito”, em diferentes
camadas, a partir das necessidades emergentes de sua natureza e esquivando-se
de qualquer mecanismo de defesa gerado pelo ego;
13

Após a exteriorização promovida por meio das atividades, como uma “via de
mão dupla” ocorre o input e output de informação; e a constatação mais importante:
Assim como nosso organismo possui diversos mecanismos homeostáticos, a mente
humana, representante do órgão mais nobre, não “foge a regra”, possuindo
propriedades auto-reguladoras da homeostase psíquica, e que, quando favorecida a
possibilidade de exteriorização desses conteúdos reguladores, torna-se re-
integradora dos componentes psíquicos.
Norteados pela referência de Nise da Silveira e demais informações que se
mostraram muito funcionais, estruturou-se e aplicou-se as atividades, e, com o
decorrer do tempo e de forma muito inesperada essas se apresentaram como o
argumento mais forte a resposta que se buscava. Foram necessários dois anos para
tal amadurecimento.
Por meio da abordagem qualitativa este trabalho está direcionado a
apresentar um estudo de caso clínico cuja contribuição terapêutica se deu através
de atividades expressivas de embasamento psicodinâmico. Foram relatados
diversos atendimentos e realizou-se uma custosa eleição para escolher apenas um
caso a ser apresentado neste (o trabalho de conclusão do curso de Terapia
Ocupacional), considerando que tal caso devesse representar o valor terapêutico
que deu-se no local das intervenções (Centro de Atenção Psicossocial álcool e
drogas (CAPSad ) do município de Joinville, SC) por meio da Terapia Ocupacional.
Escolhemos para este os atendimentos que sucederam com a paciente MLT,
considerando os seguintes motivos: Progressão terapêutica; contribuição e
potenciais das atividades; a importância da relação terapeuta-paciente; a riqueza de
informações existentes na patologia “dependência química” e na subjetividade da
paciente em questão; o potencial das atividades em abordar tais informações, entre
outras.
14

Para fazer as devidas elucidações na “Revisão de Literatura” sobre o


procedimento terapêutico utilizado, deu-se necessário uma abrangente reunião de
informações em torno da Terapia Ocupacional em saúde mental e suas influências
psicodinâmicas, e por seguinte, se fez necessário uma explanação dos aspectos
psicanalíticos abordados.
No primeiro item da revisão de literatura denominado “Atividade – A Interação
Ativa” busca uma problematização que diz respeito ao homem e sua atividade, esta
considerada um processo intrínseco na evolução e na conquista da consciência;
aborda-se também nesse item a consciência perante desequilíbrio homeostático
humano.
O item seguinte é realizado em torno da respeitável referência de Rui
Chamone Jorge considerado uma relevante apresentação de Terapia Ocupacional
em saúde mental e faz referência ao fundamento teórico-prático das prescrições de
atividades expressivas de acordo com suas especificidades terapêuticas, com
alusões que participam do estudo de caso apresentado.
O terceiro inicia a relação entre Terapia Ocupacional e Psicanálise,
apresentando um breve histórico dessa relação e considerando alguns dos autores
importantes que influenciaram este trabalho.
O item que se segue denominado “Teorizações Psicanalíticas”, agrega de
forma muito compacta os fundamentos psicanalíticos necessários ao estudo de
caso. Considera-se esse o mais profundo e abrangente que uni fundamentos
básicos e mais complexos da psicanálise, referindo como principais autores Freud,
Melanie Klein, D. W. Winnicott e Jung. Inicia-se com Freud referindo a repressão
como um fator importante nos distúrbios psíquicos; a catarse como um mecanismo
re-equilibrador da energia psíquica; e demais conceitos e admissões psicanalíticas.
Por meio de Klein, Winnicott e autores subseqüentes obtêm-se os estudos
sobre as relações objetais e o objeto transicional, esses fundamentais às práticas
terapêuticas ocupacionais, pois referem os processos psicológicos existentes entre o
homem e sua percepção de meio externo, aludindo o mecanismo de projeção
fundamental ao estudo de caso que será apresentado.
15

Na seqüência, faz-se a referência de Jung e suas evoluções sobre algumas


teorias freudianas e a descoberta do inconsciente coletivo e sua complexa estrutura
funcional, fazendo elucidações sobre o processo de auto-regulação da psique
humana, denominado “Individuação” e sobre os simbolismos do inconsciente.
Seguindo a psicologia analítica junguiana apresenta-se a importantíssima
contribuição de Nise da Silveira que traz o mecanismo auto-regulador da psique
humana possibilitado por meio das atividades expressivas.
A fim de evitar quaisquer distorções referentes ao complexo conteúdo
psicanalítico, determinou-se não realizar neste uma referência direta com a Terapia
Ocupacional, servindo apenas como base teórica psicanalítica, e dessa forma,
aberta para demais compreensões dentro ou fora deste estudo. A referência entre
tal conteúdo e a Terapia Ocupacional é realizada durante estudo de caso.
Considerando outras informações que não sejam psicanalíticas, mas fazem-
se importantes para o estudo de caso apresentado, segue o item final da revisão de
literatura (Outras Contribuições Necessárias ao Estudo de Caso) buscando uma
breve elucidação sobre as patologias do sistema familiar, em específico, aludindo o
“Paciente Identificado”, essa, uma denominação conhecida dessa abordagem.
O capítulo três é destinado a explanação da metodologia científica deste
trabalho, referindo o tipo de pesquisa utilizada para o estudo de caso abordado no
capítulo seguinte.
Este estudo está direcionado às intervenções da Terapia Ocupacional
Psicodinâmica em saúde mental, uma proposta promotora de saúde, e não
atenuadora de sintomas; que possui a proposta de conhecer e reconhecer a psique
humana e suas zonas conflitantes em sua complexidade; admitindo a subjetividade
de cada um; considerando o “eu” emocional, racional, sócio-histórico e filogenético;
e desconsiderando o absolutismo disfuncional do modelo médico cartesiano que
admite a mente como uma complexa máquina e, consequentemente, as doenças
resultantes de perturbações no funcionamento dos mecanismos que compõe essa
grande máquina, onde a razão, os pensamentos e sentimentos seriam apenas
fenômenos comuns resultantes.
16

2 REVISÃO DE LITERATURA

Mesmo esse não sendo um trabalho cujo enfoque principal é a revisão de


literatura, fez-se necessário um complexo e extenso estudo para o devido
embasamento científico ao estudo de caso que será apresentado, entretanto, o leitor
pode ter preferência em iniciar este a partir do capítulo 2, seguindo posteriormente
ao caso clínico, este que durante sua exposição faz referências à teorização aqui
presente.

2.1 ATIVIDADE – A INTERAÇÃO ATIVA

Atividade é o termo comum utilizado para denominar o principal meio de


intervenção da ciência e prática terapêutica denominada Terapia Ocupacional com
seu “objeto” de trabalho, o homem. A Terapia Ocupacional visa a terapêutica através
do existir, do relacional, do fazer, do realizar, do produzir e produzir-se, promovendo
a construção de si por meio da interação homem-mundo, onde nessa, o homem se
vê, se conhece, se constata e se confirma, e assim, potencializa-se para sua
necessidade mais básica e função mais complexa: O existir.
Contudo, o termo atividade, antes de ser um artifício de intervenção ou uma
prática humana relacionada a determinados objetos e funções, de acordo com
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira é “a qualidade ou estado de existir em ato, o
estado de ativo, a qualidade de ação e de ser o agente” (FERREIRA, 1999).
Considerando tal raciocínio, segue a elucidação de atividade humana segundo o
Terapeuta Ocupacional Rui Chamone Jorge:

A atividade humana promove mudanças no mundo e no próprio homem,


que, sendo dotado de consciência, situa-se em frente do que é ele mesmo,
e do que é faz um objeto (o mundo) para si. Escapando, dessa forma, à
natureza, que se contenta em ser simples e só uma vez. O homem, em não
sendo simples, desdobra-se em conceito e forma de si para si (1995, p.36).
17

Não se pode pretender chegar à compreensão da história tomando em


apreço uma única dimensão entre as muitas que tecem sua complexa contextura,
entretanto, para elucidarmos com a importância que merece esse item que visa
ilustrar a complexidade e importância das atividades humanas como método
terapêutico, faz-se necessário abordarmos alguns aspectos bio-psico-sócio-culturais.

2.1.1 O Desequilíbrio Homem X Meio Ambiente

Observando os movimentos sociais contemporâneos, Berenice Rosa


Francisco (2001, p.22) faz uma crítica ao tratamento degradante e alienador regido
pela classe dominante sobre a grande massa, referindo que “é mediante o
mascaramento da realidade social que a ideologia terapêutica procura cumprir, a
sua maneira, a função de dissimulação da realidade social”, e dessa maneira, traz-
nos a importância da relação homem X realidade, considerando a existência de um
movimento sócio-histórico falho para o desenvolvimento humano, que afastou o
homem dessa relação, e assim, de si mesmo (sua natureza). Podemos citar, por
exemplo, as falhas nas tentativas das relações humanas, como a necessidade de
obtenção de poder de uma classe dominante construindo formas alienadoras para o
controle de massas populacionais, constituindo vasto desrespeito do sistema
perante o ser humano, e criando diversificadas exigências impeditivas do
desenvolvimento natural que se torna, por fim, norma comportamental transferida às
gerações seguintes.

2.1.1 O Equilíbrio Existencial Por Meio do Relacional

Nosso complexo organismo, que nem sempre foi complexo, se desenvolveu


através de uma relação harmônica, superando as necessidades que eram exigidas
pelo meio ambiente e conforme as condições que o meio se encontrava.
18

As primeiras moléculas inorgânicas que se agruparam na formação do “caldo


primordial” (há 4 bilhões de anos) constituíram os primeiros aminoácidos, proteínas e
ácidos nucléicos por conta da ausência de oxigênio na atmosfera, pois assim as
moléculas neoformadas não foram destruídas por oxidação. “Na atmosfera atual da
Terra, a síntese do tipo prebiótico (realizada sem a participação de seres vivos) é
impossível” (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2000, p.10). As primeiras células
organizadas (procariontes) eram incapazes de sintetizar alimentos, e para sustentar
o processo evolutivo começou a surgir as primeiras células capazes de sintetizar
moléculas complexas a partir de substâncias muito simples e da energia solar
(fotossíntese).
Através da fotossíntese iniciou-se o processo de liberação de oxigênio e
formação da camada de ozônio, e com esses as células evoluíram para as formas
de vida hoje existentes. Verificam-se aí alguns exemplos da relação intrínseca
existente entre o organismo e o meio, fundamental para a existência e
desenvolvimento da vida na Terra.
A vida orgânica é originária do próprio meio ambiente, através da utilização
das mesmas matérias primas constituintes de toda a matéria, e sempre dependeu
do relacionamento com o meio ambiente para sua estabilidade e desenvolvimento. A
atividade entre os dois promoveu intensas alterações e evoluções.

2.1.2 A Instabilidade Relacional por meio da Consciência

Apoiamo-nos em estudos científico-filosóficos do comportamento humano ao


longo de sua história para abordar aqui o desenvolvimento da consciência e suas
problemáticas nesse processo.
Com a evolução, a espécie humana, assim como as outras espécies,
estabilizou o processo de manutenção de seu conjunto biológico com a segurança
referente às necessidades primarias, sempre através da formulação de complicados
sistemas auto-reguladores de seu ambiente interno diante do ambiente externo.
19

Entretanto, não parou por aí, seguidamente evoluindo em uma nova tentativa
natural de obtenção de desenvolvimento e poder sobre o meio, a Consciência
(arbitrariamente datado de quando se inventou a escrita, mais ou menos no ano
4000 a.C.), essa, considerada uma “aquisição muito recente da natureza e ainda [...]
experimental” como diz C. G. Jung (1964, p.24). O homem pré-histórico mostrava-
se limitado referente aos potenciais de criação, transformação e adaptação ao meio
em que ele se encontrava. Estudado por ele mesmo nas épocas atuais, o homem
observa e constata a existência da capacidade reflexiva em seu próprio processo de
desenvolvimento. Por que tal fato se deu apenas com a espécie humana? Dentre
todas as espécies biológicas e desenvolvidas da cadeia alimentar, a humana foi a
que mais evoluiu, não apenas em relação ao seu meio, mas também em relação a si
mesma. Refere Arruda et al., (1988, p.3):

[...] Os animais que se situam nos níveis mais baixos da escala zoológica
de desenvolvimento, tem a ação caracterizada pelos reflexos e instintos. A
ação instintiva é regida por leis biológicas, idênticas na espécie e
invariáveis de indivíduo para indivíduo [...].

É costume dizer que os instintos são “cegos”, ou seja, são atividades que
ignoram a consciência à finalidade da própria ação. Uma vespa “fabrica” uma célula
onde deposita um ovo; em seguida caça aranhas e coloca-as junto ao ovo para que
a larva, ao nascer, encontre alimento suficiente. Se retirarmos as aranhas e o ovo, o
inseto assim mesmo continuará todas as operações terminando pelo fechamento da
célula vazia. Diz-se que esse comportamento é “cego” porque é um conjunto de
atitudes automatizadas que fazem parte de uma finalidade específica, essa,
desconhecida para o ser que o realiza, porém fundamental para a sua existência e
perpetuação de sua espécie. Enquanto o executor do ato não leva em conta o
sentido principal de seu ato, a fabricação da célula, o instinto realiza uma tarefa que
transcende a sua própria experiência, e dessa maneira a natureza se fez, evoluiu e
se manteve equilibrada em si.
No contínuo processo de evolução surgiu a consciência, essa, que acabara
pondo em risco as regras da homeostase, do equilíbrio do ser com sigo e com seu
meio, como refere Gusdorf “[...] o homem não é o que ele é, mas é o que não é.”
(1988, p.6).
20

Para Gusdorf o homem nunca se definiu pelo meio que o cercara, através de
um modelo que o antecede, por uma essência que o caracteriza ou nem apenas o
que as circunstancias fizeram dele. Ele se definiu ao longo da história por lançar-se
no futuro antecipando-se por meio de projetos, ou seja, de um planejamento da sua
ação consciente sobre o mundo.
Evidentemente essa é uma condição que, de uma determinada maneira
torna-se frágil, pois, perde a característica segurança da vida animal, onde somente
viviam-se os instintos, esses, “programações” funcionais do ser e suficientes em
harmonia com a natureza.
Nada mais se apresenta como certo e inquestionável. Não há caminho feito,
mas a fazer, não há modelo de conduta, mas um processo continuo de
estabelecimento de valores. E ao mesmo tempo, isto que aparenta representar a
sua fragilidade é justamente a característica mais própria e a mais nobre: a
capacidade de planejar e produzir a sua história.

[...] o homem é um processo de seus atos. Esses atos não estão isolados,
não se dão espontaneamente. Estão relacionados pela ação dos próprios
homens, da natureza, da sociedade e da história. O trabalho é um meio e o
planejamento a sua história (GRAMSCI, 1999, p.16).

Tivemos, no decorrer de nossa história, épocas que foram importantes para a


aquisição e o crescimento de seu potencial racional de planejamento e manipulação
com meio que o cercara. Consideram-se os séculos XVII, XVIII, XIX e XX
importantes épocas que refletem em nossa atualidade; na consciência que o homem
encerra. O século XVII mostra-se como sendo a época da ilustração; o século XVIII,
a época da razão; o século XIX a época do progresso; e o século XX, traduziu-se
para o homem a época da angustia, essa última caracterizada pelo predomínio de
muitas das catástrofes que o homem desenvolveu e que o afligiu no decorrer da
história tornando-o cada vez mais consciente do papel de mantenedor dos fatores
importantes na relação com ele mesmo, seu meio social e seu planeta.
Em cada uma dessas épocas o homem desenvolveu certos conhecimentos e
potencialidades para atuar cada vez mais, construindo instrumentos que pudessem
ajudá-lo, melhorando-os e melhorando-se, bem como novas aquisições, conquistas
e descobertas científicas, proporcionando sucessivamente um maior censo de
confiança em relação a si mesmo.
21

Entretanto, enquanto dava-se a manipulação do suposto “controlável”,


diversos aspectos referentes ao meio (ambiente e social) e a si mesmo ficaram a
mercê de feedback´s imprevistos, por vezes, absolutamente desconhecidos para o
homem. Constata-se como uma importante mudança decorrida no homem a
necessidade de desenvolver-se como um ser em uma sociedade cética.
Considera-se assim o homem, animal que desenvolveu capacidade de
reconhecer-se e planejar, e assim, constituir seu meio relacional, esse meio, também
constituído por outros possuidores das mesmas capacidades cognitivas
transformou-se em modelo de “formato existencial” para os próximos (homens). O
homem, assim, afasta-se da natureza equilibrada em si, passando a interagir dentro
das transformações criadas por ele mesmo e os outros que o cercam com as
mesmas capacidades, dando-se a viver paralelamente a natureza.
Em um contínuo processo cíclico, o homem cria, planeja e produz, interferindo
na sociedade, e essa, em um movimento conjunto, o exige a desenvolver-se perante
novos parâmetros sociais já estabelecidos e a dar progresso a esse movimento. A
cultura supera a natureza, estando profunda, quase em simbiose com esse
espécime. “As relações entre os homens não são de contigüidade, mas de
engendramento, isto é, os homens não estão simplesmente uns ao lado dos outros,
mas são feitos uns pelos outros” (ARRUDA; MARTINS, 1988, p.321).
Verifica-se no desenrolar desse contexto, homem, o meio que o cerca e a
série de fatos decorrentes ao longo da história, um ser não só existencial perante ele
e seu meio, mas que desenvolveu demasiado potencial cognitivo relacional, e dessa
maneira desenvolveu também um forte potencial de planejamento e produção
perante os demais semelhantes com os mesmos potenciais.
Em um organismo que se distingue dos outros seres da cadeia animal,
considera-se ainda as mesmas pulsões instintivas, originadas de seu estado
primitivo como herdeiro de um conjunto de células mantenedoras de sua vida, e que
por meio da saciação dessas pulsões (instintos) conquistou equilíbrio para o seu
desenvolvimento; uma vida regida pela sua natureza primaria. Com a vinda
consciência, (agora desenvolvida e promotora de toda uma serie de convenções) o
homem necessita “abrir mão” da regência de suas pulsões naturais na tentativa de
dominá-las, tendo que prestar responsabilidades de suas atitudes em um meio
instituído pela sua própria consciência e os demais indivíduos portadores da mesma.
22

O homem começa a desenvolver problemáticas a respeito de como lidar com


suas pulsões instintivas reprimindo-as; reprimindo os mecanismos homeostáticos
naturais que lhe promoveram a existência, a evolução e a estabilidade perante o seu
meio.
Dá-se o inicio da problemática da repressão1 emocional geradora de
inúmeros conflitos psíquicos, como será abordado em outro capítulo.
Dessa maneira, para a manutenção de sua relação de sobrevivência com o
seu meio, o homem passa a necessitar de uma homeostase mais complexa,
abrangente das necessidades básicas de sobrevivência, dos impulsos instintivos, da
cognição, da herança cultural, e esses, de acordo com as exigências de “seu modelo
de mundo” (conforme sua percepção de realidade) e suas sucessivas projeções de
vida.

2.1.3 O Trabalho – Suas influências na Instabilidade Relacional

O Trabalho, por si só, foi entendido como sendo suficiente para inserir o
homem em sua realidade social. E sua falta, o suficiente para levá-lo a
estranheza e a psicose. [...] O trabalho é a atividade essencialmente
humana, criativa, reforçadora e gratificadora, por apertar os vínculos entre
as comunidades e os indivíduos e por oferecer descarga considerável aos
impulsos da libido, narcisistas, eróticos e agressivos (CHAMONE, 1995,
p.36).

O homem busca sua dignidade por seu trabalho, porém, só pode ser
alcançada à medida que obtenha satisfação e identificação com a função e o objeto
produzido. O adoecimento acontece por conta de uma sociedade que privilegia o
produto em detrimento do processo. “O trabalhador não se percebe agente de
mudanças, produz um objeto que não tem oportunidade de vê-lo concluído, e às
vezes nunca terá oportunidade de possuí-lo” (ARAÚJO, 1990, p.16).

A materialização como resultado, numa prática criadora, não se reduz a


uma simples duplicação do que já idealmente preexiste. Nesse processo, a
finalidade exercida pela consciência se apresenta como finalidade aberta,
fazendo que o processo prático se realize de forma aberta e ativa.
Sabemos que o resultado definitivo preexistia, contudo “o definitivo é
exatamente o real, e não o ideal (projeto ou finalidade original)” (VÀSQUEZ
s.d. apud ARAÚJO, 1990, p.16).

1
Para fins metodológicos, a explanação sobre repressão será elucidada posteriormente em
“Contribuições da Psicanálise Freudiana” p.41.
23

E refere Berenice Rosa Francisco:

[...] A práxis criadora é [...] aquela em que se verifica uma unidade entre
finalidade da consciência e seu resultado. [...] o único sentido existente
dessa contraposição ou separação entre teoria e prática é a oposição que
existe entre o trabalho intelectual e o trabalho manual em um regime
capitalista (FRANCISCO, 2001, p.48).

Essa concepção faz-se ofensiva às necessidades emocionais, não dando o


direito ao homem de liberdade em seu ato, de expressão, diminuindo a capacidade
de ação, transformação e criação, e, contudo, obriga-o a continuar a função por
arbitragem sócio-cultural e/ou por necessidade de sobrevivência, sua e de seus
dependentes, submetendo-se à auto-degradação. O fazer humano virou ato
mecânico, subjugador da razão e opressor da emoção.
A Terapeuta Ocupacional Berenice Rosa Francisco (2001, p.48) faz uma
importante referencia sobre a atividade humana voltada apenas para o trabalho
manual, excludente do intelectual conforme exige o regime capitalista, promovendo
um homem isento da verdadeira compreensão de sua atividade no mundo:

O Terapeuta Ocupacional lida com u mundo real, que apresenta conflitos


advindos de um mundo da primazia do trabalho, lugar este por excelência
onde se cristaliza a exploração humana. Nesse mundo, o homem é alijado
da verdadeira compreensão de suas atividades práticas, quaisquer que
sejam elas.

A Atividade deve oferecer ao homem uma relação completa deste com seu
mundo “[...] do homem como ser essencialmente social, através do entendimento da
relação homem natureza [...]” (FRANCISCO, 2001, p.49). Somente por meio da
interação ativa, da atividade completa do homem com seu meio, pode-se levar o
homem a lidar com sua realidade de vida, transformando-o e promovendo-o, e
assim, o meio social que está inserido.
24

2.1.4 Atividades: Terapêuticas “em si”

Rui Chamone Jorge refere que “Fazer é fim em si mesmo por oferecer à
consciência uma existência com o que externaliza a si mesmo, e dessa forma,
objetivando-a na externalidade, promove a reflexão e seu resgate como objeto
interno” (1990, p.26).
Como referido anteriormente, a vinda da consciência promoveu o aumento da
relação do homem com sua razão em detrimento a sua natureza. As teóricas leis da
sociedade contemporânea fogem totalmente das leis naturais da existência,
promovendo, por vezes, um atenuado relacionamento com uma “idéia de realidade”,
em detrimento da relação direta homem-ambiente, uma confrontação que faz a
estabilidade por ser o princípio da condição básica da existência da vida orgânica no
meio – o equilíbrio interno-externo ou homeostase. Considera-se assim, que a
interação ativa do homem com o mundo é essência para o equilíbrio existencial; a
atividade, a interação ativa, é terapêutica em si.
Faz-se importante mencionar a consideração de Rui Chamone Jorge perante
atividade e a evolução da cognição, onde, através do fazer o homem pode
simbolizar internamente (pensar), e somente por seguinte, falar.

Fazer, antes de ser simplesmente uma ação mecânica, foi a forma que o
homem encontrou de fazer sua premência de utilidades. Depois isso
evoluiu e a forma se transforma e ultrapassa a utilidade, muda de caráter,
novos materiais são usados, e então o homem começa a simbolizar, e
finalmente, a falar (CHAMONE, 1980, p.20).

De acordo com a citação mencionada, a realização material é considerada a


base do pensar; a atividade é inerente ao processo de desenvolvimento da cognição
e consciência, e através desta oportuniza-se uma relação saudável do indivíduo com
a realidade, pois, por meio da realidade externa organiza-se a realidade interna, e,
por uma “via de comunicação” que as defesas do “eu” não possuem conhecimento
para manipular.
Seguidamente abordaremos tal autor como um referencial terapêutico
ocupacional do uso da interação homem-meio ambiente como recurso terapêutico.
25

2.2 A REFERÊNCIA DE RUI CHAMONE JORGE NA TERAPIA OCUPACIONAL

Rui Chamone Jorge é marco e referência da profissão Terapia Ocupacional


em saúde mental no Brasil. Profundo pesquisador da “psique” e “práxis” humana em
prol da intervenção por meio das atividades terapêuticas, seus feitos
desencadearam toda uma metodologia-modelo que está em contínua extensão, na
promoção de habilitação e reabilitação de pacientes psiquiátricos ou com qualquer
desequilíbrio ou sofrimento psíquico.
Para Chamone, a Terapia Ocupacional foi entendida como um método que
usa as mãos para tratar, e essas, instrumentos suficientes para fazer a síntese entre
o utilitário e o espiritual (a subjetividade humana), sem o auxilio de qualquer outro
instrumento, são capazes de estabelecer o equilíbrio e materializar o imaterial.

[...] na Terapia Ocupacional, o homem cria objetos voltados para a


sensibilidade para, através de respostas motoras, expressar-se e para,
através de resposta mental, ambas simultâneas e concomitantes, formar-
se, conformando suas idéias na atualidade, posto que o pensamento
enquanto permanece em mim não passa de idealidade e, se realizado no
exterior, alcança a realidade (CHAMONE, 1990, p.19).

Em sua obra, Rui Chamone menciona que, a sua incompreensão dos


paradigmas relacionados ao homem dos modelos científico-universitários, esses
cujas aplicabilidades de características cartesiano-segmentadoras, levaram-no a
buscar um novo método que correspondesse à abrangência e peculiaridades da
subjetividade do sujeito:

Percebi que, quando o objeto do estudo é a manifestação do homem no


ato de construir o mundo humano, as regras estabelecidas pelas ciências
não alcançam a plena essência humana, já que partem sempre do homem
conceituado como o ser do corpo e da mente, aí permanecendo como
objeto do conhecimento (CHAMONE, 1995, p. 7).
26

Original em sua proposta, Rui Chamone é sustentado inicialmente no


pressuposto de que é possível a todos os homens transformar materiais, e nesse
processo modificar-se, no mínimo, por se tornar detentor de um novo saber. Rui
Chamone parte do modelo analítico junguiano para pensar o sentido particular da
produção existencial humana. Destaca-se ainda que, mesmo sustentado
inicialmente em uma proposta analítica, trilha um caminho próprio, sem deixar de
interagir com os modelos teóricos de seu tempo. Evidencia-se que, pelas
contingências da própria clínica, pelas grandes mudanças das duas ultimas
décadas, “são solicitadas cada vez mais flexibilidade e capacidade inventiva no
interior de um paradigma em construção” (CHAMONE, 1990, p.64). Para tal
embasamento procura aprofundar as pesquisas da antropologia filosófica em
autores como Vaz, Cassirer e Hegel, este último considerado a sistematização que
mais se aproxima de sua proposta.

2.2.1 A Terapêutica das Atividades Livres e Expressivas por Chamone

Rui Chamone Jorge contribui expressivamente, elucidando os diversos


componentes existentes no espaço transicional2 do processo de criação expressiva
como técnica terapêutica aos indivíduos portadores de transtornos psíquicos.

[...] as ocupações antes de serem entendidas como um trabalho qualquer,


precisam ser compreendidas como um modo ativo de o paciente intervir no
mundo a assim, ativamente, estar consigo mesmo e com os outros
(CHAMONE, 1990, p.13).

A princípio, as atividades valorizam o vínculo com a realidade e promovem a


atualização dos componentes psíquicos:

Não só devido a existência concreta do objeto, mas também em razão de


se dirigirem antes à sensibilidade que o pensamento, aí reside a
especificidade das atividades criativas. Se por espírito entende-se as
relações íntimas entre a sensibilidade e o pensamento, se, nestes termos,
o modo de ser da consciência, é ser em si para si, os objetos concretos
realizados na sessão terapêutica ocupacional não podem ser entendidos
como meros envelopes da atividade conceitual, mas como atualização das
imagens e do pensamento no mundo das coisas (CHAMONE, 1990 p.19).

2
Ver Espaço Transicional em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana” e “Fenômenos
Transicionais – Objetos Transicionais” p.63.
27

Segundo Chamone, a terapêutica ocupacional reside no fato de se


oferecerem ao paciente oportunidades de intervir na realidade externa segundo sua
intenção, vontade e liberdade, na totalidade de sua expressão:

O importante é que as atividades se destinam a despertar e expressar


sentimentos, paixões, tendências, e tem o poder de induzir o paciente a
evocar e experimentar todos os sentimentos possíveis. Assim como o
pensamento pode explicar a menor coisa e justificar as menores ações,
também as ocupações livres e criativas podem suscitar todo o tipo de
sentimento, não importando qual seja o assunto (CHAMONE, 1990, p.15).

O expressar, fazer e construir, mesmo quando de forma inconsciente, revelam


informações reais, de acordo com a realidade do sujeito, como cita Chamone:

[...] Não é possível mentir quando se fabrica. Os erros, os acertos, os


objetos são sempre obra intencional, ainda que não conscientes, pois,
embora seja a mente que busca, com mais freqüência é a mão que
encontra, e o ato de fazer traz em seu bojo, necessariamente, o pensar
(CHAMONE, 1990, p.14). Toda fabricação tem seu destino último na busca
do instrumento adequando ao discurso e do prazer, nunca se fabrica algo
por fabricar (CHAMONE, 1995, p.37).

Chamone refere que, “o homem adquire conhecimentos tanto pela


capacidade de fabricar quanto por combinar imagens mentais” (CHAMONE, 1995,
p.35), e dessa forma, explana dois momentos importantes do processo expressivo; a
expressão de sentimento (intenção) no executar da atividade e a expressão final do
objeto constituído como resposta à intenção original:

Apesar da similitude dos meios, o Terapeuta entende o objeto como


projeção concreta da percepção do paciente, e procura considerar as
relações de figura e fundo expressos nos dois momentos básicos da
relação terapêutica. No primeiro momento, quem faz verbaliza uma
intenção, um sentimento. No segundo, o objeto construído pode negar,
confirmar ou complementar a intenção ou sentimentos verbalizados. [...]
Temos, portanto, dois tipos de objetos com que trabalha o Terapeuta, a
saber: os imateriais, que são aqueles internalizados pelo paciente e que
não se confundem e nem devem evocar a noção de coisa inanimada,
passível de ser manipulada, pois são sua história de vida atual e passada;
e os concretos, que são os objetos plásticos manipuláveis, mensuráveis,
que são, à medida de seu uso pelo paciente, a representação dos
primeiros (CHAMONE, 1984, p.13).
28

Para Chamone, as atividades oferecem ao paciente a oportunidade de dirigir-


se aos sentimentos, sensações e a conteúdos internos da psique desconhecidos
para o indivíduo. Ao desfrutar-se dos objetos constituídos faz-se uma relação íntima
com a liberdade das formas que expressam a conciliação das abstrações
(subjetividade psíquica) com a realidade, pois, as atividades livres e criativas
atenuam a relação e o conceito com o real externo.

Assim originado, o objeto não pode ser percebido apenas como um dado
bruto da experiência, mas como resultado da introspecção psicológica dos
acontecimentos reais ou imaginários, que determinam categorias de
entendimento (CHAMONE, 1990, 29).

Apesar de se dirigirem antes à sensibilidade e afetividade, as atividades


possuem potencialidades profundamente racionais por oferecerem oportunidades da
relação interior-exterior, e expor à contemplação da consciência, visto que o
pensamento precisa conformar-se concretamente com a razão e a verdade
oferecidos pelo ato concreto. Dessa maneira, objetivando o indivíduo no processo de
produzir no exterior formas do mundo interior, as atividades proporcionam o
reconhecimento racional (consciente) perante a realidade interna expressada e
reproduzida.

Ultrapassando os limites físicos das atividades concretas, o homem, por


ser pensante e dotado de consciência, é capaz de criar a si e ao mundo
pelas vias mentais. Dotado de consciência, coloca-se frente ao que é de
maneira geral e, em particular, do que é faz um objeto para si e contempla-
se nessa representação de si mesmo (CHAMONE, 1990, p.18).

Daí a entender a construção de objetos voltados à sensibilidade como um dos


muitos mecanismos que se oferecem ao paciente à sua expressão, e assim,
formação.
Chamone refere também que, as atividades livres e criativas oportunizam
uma realidade mais alta e uma existência mais verídica e substancial porque não
permitem as deformações causadas pela arbitrariedade das situações e de padrões
cognitivos, possibilitando novas representações no pensamento. Nestes termos,
Chamone as considera expressivas, formativas e conceitualizadoras.
29

Assim, no ato de criar, o homem (em exclusividade) se projeta, se confere e


se faz:

A atividade humana promove mudanças concretas no mundo e no próprio


homem, que, sendo dotado de consciência, situa-se em frente do que é ele
mesmo, e do que é faz um objeto (o mundo) para si. Escapando dessa
forma, à natureza, que se contenta em ser simples e só uma vez. O
homem, em não sendo simples, desdobra-se em conceito de si para si
(CHAMONE, 1995, p.36).

O objeto resultado da exposição dos conteúdos internos (do paciente) por


meio das atividades, mesmo quando não óbvio intelectualmente, sempre pode ser
compreendido e elucidado:

[...] o paciente do que de si pensa, plasma um objeto concreto que expõe à


sua própria critica e a do terapeuta, que entende o objeto como problema a
ser resolvido e como espaço transicional terapêutico. Esse objeto, porque é
percebido pelos sentidos e inteligência e é produto de uma experimentação
possível e capaz de ser compreendido pelo entendimento, é o fenômeno
Ocupacional a ser elucidado (CHAMONE, 1990 p.14).

O processo terapêutico dá-se dentro da forma piramidal, cujo cinco elementos


constantes e obrigatórios são: o terapeuta, o paciente, o material, as ferramentas e
os objetos concretos.

2.2.2 As Especificidades Terapêuticas das Atividades por Chamone

De acordo com Rui Chamone, na abordagem psicodinâmica, deve-se


ponderar a tríade objeto-individuo-material responsáveis pela dinâmica dos
componentes psíquicos em questão. A atividade precisa ser empregada de acordo
com os conteúdos emocionais que essa desencadeará, considerando que toda
atividade tem sua tese e sua antítese. O Terapeuta deve ter um cuidado em planejar
o objeto-individuo-material, pois, o objeto da atividade, muitas vezes, pode acarretar
efeitos indesejáveis ao tratamento e ao paciente. “O importante é selecionar, no
imenso universo de possibilidades de ocupações e materiais, aqueles que, de fato,
mais rápido e positivamente alcancem o cliente nos níveis em que se pretende usar”
(CHAMONE, 1990, p.37).
30

Segundo Chamone, o Terapeuta Ocupacional deve estar estreitamente


afinizado com o quadro patológico e afetivo do indivíduo, sabendo que as atividades
e seus materiais que a envolvem darão a forma às suas estruturas psíquicas em
conflito bem como a expressão do conteúdo emocional ligado a esses conflitos,
sendo expressados extrinsecamente no processo de criação, como traços e cores
por exemplo. Os materiais são portadores de condições próprias para as mais
diversas manifestações, dos mais diversos conteúdos humanos. São originais e
capazes de, conforme a utilização, substituírem o som da palavra falada e dessa
forma, constituir vocabulário útil para o homem. Conforme o estado com que se
oferecem, podem ser naturais, manufaturados, bonitos, feios, duros, macios, etc.
Porém, sempre como sinônimo de “coisa interna”, a ponto de promoverem facilidade
ou dificuldades no encontro terapêutico. Sendo assim, é necessário saber lidar com
os materiais que impulsionem desejos e ou repulsas nas emoções do paciente,
fazendo com que este plasme (forme) o conflito tornando-o não mais inconsciente
ou consciente, mas físico, concreto, palpável.

Dessa forma os materiais possuem importante papel na relação terapêutica


ocupacional, quanto aos sentimentos que suas presenças evocam tanto no
paciente quanto no terapeuta, e pelas significações que recebem um do
outro são os mediadores iniciais da relação (CHAMONE, 1990, p.63).

Os materiais são escolhidos sob no mínimo dois critérios: o primeiro pelo


próprio profissional e o de que são úteis, em si, para expressão e formação do
paciente. No segundo, o processo terapêutico ocupacional se realiza na livre
escolha do indivíduo à mediação da relação com a realidade.

Nessa relação, paciente, material, terapeuta e no mecanismo: proprietário


do material é igual ao material de sua propriedade; material escolhido é
igual ao escolhedor, na extensibilidade de um no outro pela materialidade;
e na intimidade de um com o outro pela paixão e solidão, é que reside a
maior importância dos materiais para a Terapia Ocupacional (CHAMONE,
1990, p. 65).
31

As atividades foram vistas por Chamone, além dos aspectos da indicação pelo
terapeuta e escolha do paciente, com relação ao ritmo: lento, longo, prolongado,
curto, rápido e continuo. Nesse âmbito foram entendidas como instrumentos
suficientes de aproximação dos homens.
Abordaremos seguidamente algumas atividades de acordo com as
especificações de Rui Chamone Jorge, considerando que essas fazem parte do
estudo de caso pertencente a este trabalho.

2.2.2.1 A Argila

No trato com argila, o homem descobre, sem consciência de esforço, que


sua liberdade cresce à medida que ele aumenta sua capacidade de dar a
esse material pesado a leveza de seu pensamento. E isso é facilitado [...]
pela extrema plasticidade e naturalidade do material, que sempre sugere
novas formas [...] (CHAMONE, 1980, p.43).

Considerando o Self3, o agente psíquico planejador e executor do conteúdo


expresso na atividade, esse liga o indivíduo à realidade concreta e física. Assim os
materiais causando o impulso expressivo relacionam o criador através do processo
de auto-identificação que este causa sobre o indivíduo e vice e versa. Seguindo
essa linha de raciocínio, não há nada que assemelhe o homem em seu principio e
fim como o material de argila para a modelagem.
Sendo um material de objetivo construtivo, considera-se este um possuidor de
uma alta carga expressiva e emocional.

[...] a escultura adequadamente compreendida e praticada é uma aventura


total e empenha o corpo inteiro, direta e indiretamente, numa luta muscular,
numa coordenação de tensões que, em relação ao material, pedra ou
argila, são agressivas em relação ao resultado almejado são pacificas e
conciliadoras [...] (CHAMONE, 1990, p. 43).

3
Para fins metodológicos, a elucidação do termo Self encontra-se seguidamente em “Contribuições
da Psicologia Analítica ou Complexa de Jung” e “O Self e o Processo de Individuação” p.83.
32

Sobre a prescrição deste material dirigida a uma ocupação, deve-se ter o


cuidado de não ser prematuro em suas indicações, pois, a sua antecipação pode
causar, no mínimo, uma resistência maior por parte do indivíduo que o lida. A argila,
dentro do processo terapêutico possui uma natureza ansiogênica, ou seja, causa
ansiedades em seu processo de manipulação, como refere Chamone:

A atividade de argila está voltada para a expressão profunda do ego.a


resistência que esse material pode produzir é dada exatamente pelas suas
grandes vantagens: plasticidade e tridimensionalidade. Em modelagem, a
única forma de se conseguir alguma defesa é não pegar a argila, pois,
nesta técnica, ela fica reduzida a zero, e o sentimento de desnudamento
eleva-se a dez. frente a essa realidade, o ego avalia o perigo e
experimenta uma certa ansiedade (CHAMONE, 1980, p.45).

A argila, em sua natureza, proporciona ao indivíduo uma profunda relação


identificadora entre aquele que manipula e o seu material manipulado. E esta
profunda relação é a constatação de que, quando se modela, modela-se a si
mesmo, e por isso é extremamente ansiogenico para aquele que é reprimido. Essa
identificação traz a resistência.

[...] em razão de existirem outros materiais que promovem um


aprofundamento do paciente no seu ser total sem a mobilização de muita
ansiedade, e porque o paciente pode estar em uma situação de muita dor
ou muito defeituoso, acredito que a indicação da argila como instrumento
de Terapia não deva ser imposta a ele [...] (CHAMONE, 1980 p.45).

Cabe o reforço da advertência de que a argila é um material que necessita


cautela por parte do terapeuta por suas características em plasticidade e
tridimensionalidade, e por sua estrutura causar uma concretização dos conflitos
psíquicos do indivíduo, gerando um obrigatório confronto entre criador e obra; a
resolução material dos conflitos psíquicos.
33

2.2.2.2 A Pintura

Nas cores e contornos criados pela atividade de desenho e pintura obtêm-se


o contato expressivo dos sentimentos. A pintura promove um enriquecimento das
relações afetivas, estimulando, por meio do material que o cerca, o contato com sigo
e com o mundo.

Como cada cor sugere um sentimento, a simples aplicação da mesma


sobre o papel traz uma mensagem inteira da situação, interesse e
conhecimento da vida e das coisas que o paciente tem naquele instante
(CHAMONE, 1980, p. 52).

Sob a própria direção de suas criações, o paciente possui a oportunidade de


acumular conhecimentos possibilitando uma reforma gradativa de seus conceitos.
Tendo sua expressão ligada ao sentido, por meio dessa, o indivíduo experimenta um
contato afetivo na relação com suas coisas, sentimentos e lembranças, porque se
encontra em liberdade para explorar e experimentar.

[...] o paciente busca instintivamente um novo ritmo para a vida, uma nova
forma para as suas relações, porque já experimentou pelo desenho e
pintura um contato mais afetivo e eficaz na relação com suas coisas,
sentimentos e lembranças [...] (CHAMONE,1980 p.52).

As ferramentas em questão possuem importância simbólica4 muito favorável.


Os pincéis remetem inconscientemente a um símbolo fálico5, de capacidade e poder.
Sugere uma proteção (filtro) entre o “eu” e o externo, diminuindo a exteriorização
direta e assim, a ansiedade facilitando o procedimento. Pode ter representações
inconscientes como “varinha mágica” ou “faca”.

4
Ver símbolo em “Contribuições da Psicologia Analítica ou Complexa de Jung” e “Os Símbolos” p.88.
5
Falo - Representação do pênis, adorado pelos antigos como símbolo da fecundidade da natureza.
34

A cartolina, por ser branca possui inúmeros significados inconscientes


importantes tais como neutralidade, pureza, limpeza, castidade, liberdade,
criatividade; o branco também é a cor do vazio interior, da carência afetiva, da
solidão; oferece-se ao uso sugerindo a necessidade de conteúdos. Por seu tamanho
sugere uma quantidade de informações a serem expostas. Por seu tamanho e forma
pode simbolizar um espelho e aumentar o potencial representativo/projetivo. Por
seu tamanho em um plano vertical inferior (como uma mesa, por exemplo) remete a
uma relação de dois corpos que se sobrepõem; uma relação sexual. Esta se faz
importante por ser o momento em que o homem retorna a sua essência instintiva e
vive o prazer em sua plenitude ou projeta-se de formas variáveis.

2.2.2.3 A Música

De acordo com as considerações de Chamone, a atividade de música se faz


funcional para o inicio das relações entre terapeuta e paciente. Por ser de tendência
positiva, possibilita desmanchar tensões e sentimentos de resistência presentes no
indivíduo trazidos por ele na sessão terapêutica “e isto porque fazer ritmo
proporciona energia” (CHAMONE, 1980, p. 42).
Quando aplicadas a grupos de pacientes psicóticos, ela revela-se forte
ferramenta, pois, proporciona um vinculo de união, proporcionando sequentemente a
melhoria do comportamento na sociedade por meio da diminuição do sentimento de
abandono. O sentimento de pertencer a um grupo faz com que altere de modo
positivo a relação de si mesmo e a descoberta de outro com mais facilidade.
A música possui um potencial expressivo libertador de conteúdos reprimidos.
Apresenta a pessoa a seus conflitos e força-a (no mesmo processo) a superá-los
com uma ajuda energética de todo um grupo que está no mesmo processo e
momento. Não é incomum verificar sentimentos muito diferentes como euforia e
medo no mesmo grupo.
35

2.3 AS INFLUÊNCIAS PSICANALÍTICAS NA TERAPIA OCUPACIONAL

É inegável o impacto da psicanálise em nossa civilização. Atualmente, as


influências psicanalíticas são encontradas em todo e qualquer modelo que refere a
saúde mental, mesmo os distantes, cuja prática e entendimento base diferem muito
da psicanálise, onde, mesmo nesses é comum encontrar a utilização de termos
como “ego”, “neurótico” ou “transferência”. Ciências se desenvolveram e se
desenvolvem todos os dias sobre e com a psicanálise, reafirmando-a, ampliando-a
ou questionando-a, e, considerando a terapêutica da Terapia Ocupacional por meio
da abrangente relação do homem com seu meio (e assim, com sigo, com o mundo e
os outros; homem em movimento, existindo, se construindo [...]) seria
incompreensível essa não possuir influências de uma ciência “sobre o homem” tão
aprofundada e difundida.

As estratégias da Terapia Ocupacional não se constituíram dentro da


psicanálise, porém o propósito relacional, nuclear para qualquer ação
dessa profissão, obtém aqui uma importante contribuição. [...] Os
procedimentos interdisciplinares trazem recursos para a atenção de
populações com problemáticas físicas e contribuições importantes para a
compreensão dos modelos assistenciais à saúde mental, porém não
caracterizam nem traduzem a integridade necessária aos procedimentos
específicos da terapia ocupacional. Encontram-se assim, nos trabalhos de
autores influenciados pela psicodinâmica, contribuições significativas para
a discussão conceitual e procedimental da terapia ocupacional
contemporânea (CAVALCANTI et al., 2007, p.156-157).

Faz-se necessário referir alguns dos movimentos históricos a respeito das


influencias psicanalíticas (ou ditas psicodinâmicas) na Terapia Ocupacional, os quais
considerados importantes para a história dessa relação e para a abordagem que
será apresentada do estudo de caso que segue neste trabalho.
As primeiras publicações a respeito das contribuições psicanalíticas à Terapia
Ocupacional se deram nos EUA, nas décadas de 50 e 60, no trabalho Aspectos
dinâmicos e Terapia Ocupacional, de Azima e Wittkower, de 1956 e 1957. Em suas
considerações, os autores defendem o uso das atividades expressivas entendidas
como expressões da realidade psíquica interna, inconsciente, em detrimento do
modelo de Terapia Ocupacional educativa e ocupadora, de causa e efeito.
36

Diferentes conceitos psicanalíticos são propostos por esses autores,


principalmente a teoria freudiana do desenvolvimento psíquico, a teoria das pulsões,
a teria da estrutura mental e a teoria das relações objetais. Em continuidade,
referindo as contribuições da psicanálise às atividades expressiva:

Apresentam o processo terapêutico da Terapia Ocupacional como


estruturante do ego através da vivência e experiências de gratificação e
sublimação. [...] O processo de sublimação é apresentado como objetivo
principal da terapia ocupacional pelo fato de que fazer atividades na
situação terapêutica pode possibilitar a descarga de pulsões em objetos
socialmente valorizados e aceitos (CAVALCANTI et al., 2007, p.157).

Os autores propõem em suas publicações o conhecimento e a utilização de


conceitos sustentados na teoria freudiana do desenvolvimento psíquico, na teoria
das pulsões, na teoria da estrutura mental e na teoria das relações objetais. O
terapeuta ocupacional, segundo Ázima, deve estar ciente da necessidade em
trabalhar com a projeção e transferência no processo terapêutico “propondo uma
formulação dinâmica da terapia ocupacional apoiada nos conceitos psicanalíticos
como o sentido de encontrar o significado dinâmico do objeto proposto e criado”
(CAVALCANTI et al., 2007, p.157).
Azima e Wittkower referem também a necessidade do terapeuta ser
qualificado para interpretar aquilo que o paciente cria por meio da análise das
funções e efeitos das atividades. Referem que o processo terapêutico da Terapia
Ocupacional facilita a exposição de defesas, pulsões e relações de transferência;
“favorece o aparecimento dos mecanismos projetivos mais precoces e estimula o
aparecimento dos processos mentais inconscientes, favorecendo a descarga e a
reorganização de necessidades inconscientes” (TEDESCO et al., 2007, p.157).
Definiram três funções para a Terapia Ocupacional: 1 – Função diagnóstica
(por meio do uso de testes projetivos); 2 – Função de percepção de Mudanças
(avaliação através do processo); 3 – Função Terapêutica: Exploração, gratificação e
integração das necessidades emocionais básicas.
37

Seguidamente a Ázima e Wittkower, faz-se importante a referência dos


trabalhos de Gail Fidler (1963 a 1999), que reconhece a psicanálise como um
método de investigação dos processos mentais e propõe uma população-alvo para a
Terapia Ocupacional, população essa caracterizada pela problemática de não
reconhecer e construir relações com a realidade – o mundo e os outros.
Definem a Terapia Ocupacional como um processo de comunicação baseado
na tríade terapeuta-paciente-atividade. A respeito da tríade referida por Fidler,
Cavalcanti et al. (2007, p.158) refere:

Este processo de comunicação constituído a partir da relação triádica está


relacionado com o conceito de ação. Este conceito é usado para descrever
a dinâmica de comunicação de pensamentos e sentimentos e fala da
aplicação e interpretação do uso da comunicação não-verbal dos pacientes
pelo terapeuta ocupacional.

Segundo Fidler, a Terapia ocupacional é definida por três áreas: O processo


de ação, os objetos usados no processo de ação e o que resulta desse processo
considerando as relações inter-pessoais que influenciaram a ação e que por sua vez
são influenciados por ela. O processo de ação está ligado ao conceito de atividade e
traz uma especificidade diferente da proposta de Ázima, referindo que “a ação é um
processo implícito da relação terapeuta-paciente-atividade e é um grande catalisador
ou desencadeador de estímulos intrapsíquicos” (TEDESCO et al., 2007, p.158).
Fidler realiza seus estudos em torno da complexa teoria freudiana de “objeto”
(referente a teoria pulsional) que foi seguidamente explorada por Melanie Klein,
Winnicott e Lacan.
No Brasil, o impacto psicodinâmico apresenta características peculiares que
merecem ser destacadas. A contribuição dos artigos publicados no Brasil (assim
como na Europa, diferentemente dos EUA) traz mais discussões clínicas, com
ênfase na clínica das psicoses e utilização nas abordagens grupais.
38

Segundo Cavalcanti (2007, p.157), destaca-se três tendências principais na


literatura nacional:

1) Maior influência dos escritos de Lacan sobre as teorias psicanalíticas e


suas contribuições para o tratamento das psicoses;
2) A utilização dos conceitos de Winnicott para as terias do brincar e das
realidades vividas pelo sujeito (realidade interna, externa e
compartilhada) e a aplicação dessas teorias na construção do setting e
da relação terapêutica;
3) A tendência de aplicação das teorias clínicas e procedimentais para a
construção teórica, a teoria em ação.

Um importante movimento foi realizado por Nise da Silveira referindo os


estudos de Jung para a pratica da Terapia Ocupacional na clínica de psicóticos,
aludindo a capacidade de unificação de componentes psíquicos por meio de uma
capacidade intrínseca do indivíduo denominada individuação possibilitada pelas
atividades.
Além de buscar a psicanálise para leituras de procedimentos terapêuticos,
como referido, a teoria psicanalítica fez-se importante também para a compreensão
de alguns elementos do setting, principalmente a compreensão da problemática da
população-alvo e o conceito de subjetividade e sofrimento para o sujeito-alvo.
Referente a utilização da teoria psicanalítica para as compreensões da
problemática da população-alvo, encontra-se nas produções de Lacan, da década
de 80 e 90, uma compreensão do funcionamento psíquico do sujeito e conseqüente
composição do campo procedimental da Terapia Ocupacional. Segundo Tedesco
(2007, p.159), a aplicação das estratégias da clínica de Lacan “implicam uma
mudança do uso do setting ampliado, tanto na utilização do espaço como na
utilização de recursos terapêuticos”.
A relação terapêutica é corrente de muitas reflexões e produções de
terapeutas ocupacionais, e utilizam para tal estudo as teorias de D. W. Winnicott,
este que utilizou de base para seus desenvolvimentos as teorias freudianas de
pulsão e de objeto, e o complexo estudo das relações objetais de Melanie Klein. Os
estudos de Winnicott fizeram-se de grande importância para a terapia ocupacional
no aludir conceitos como ambiente e realidade externa.
39

De acordo com Bourdin (1988), a Terapia Ocupacional é definida como um


jogo relacional articulado a uma atividade criativa e lúdica; “o encontro relacional
proporciona uma reestruturação, uma revalorização narcísica e expressiva”
(CAVALCANTI et al., 2007, p.159).
Para Benetton (1991), a atividade é um instrumento utilizado como medidor
das realidades vividas (interna e externa) e também uma utilizada para mediação
com a realidade por meio de inserção e organização com a realidade externa.
Como referido, aqui foram citadas somente algumas das importantes
referências sobre as influencias psicanalíticas sobre a Terapia Ocupacional, pois, os
estudos, pesquisas e contribuições dessa relação são constantes e ilimitados,
tomando atualmente enormes proporções a nível mundial.

2.4 TEORIZAÇÕES PSICANALÍTICAS

Este importante item tem como objetivo apresentar as principais teorias


psicanalíticas que embasaram o estudo de caso apresentado neste trabalho.
Admitem-se tais teorias como complexas e de profundo conhecimento (objetivo e
subjetivo), dessa maneira, para não haver qualquer distorção das mesmas
determinou-se apresenta-las em si, sem fazer aqui qualquer referência direta aos
procedimentos da terapia ocupacional. As referências necessárias a essas teorias
são realizadas durante a apresentação do estudo de caso. Contudo, o leitor pode
sentir-se facilitado em realizar a leitura a partir do estudo de caso, pois, em seu
decorrer fazem-se as devidas referências a este item.

2.4.1 Contribuições da Psicanálise Freudiana

O objeto da luta empreendida por Freud durante toda a sua vida resume-se
em ajudar-nos a adquirir uma compreensão de nós próprios, de modo que
deixássemos de ser impelidos, por forças que nos eram desconhecidas
[...] (BETTELHEIM, 1999, p. 28).
40

Nascido em Viena, no ano de 1856, onde passou a maior parte de sua vida,
Freud especializou-se em um ramo da medicina chamado neurologia. No fim do XIX
até meados do século XX, trabalhou na elaboração de sua psicologia profunda ou
psicanálise.
Entende-se por psicanálise a descrição da mente, bem como também da
psique humana em geral, sendo um método de tratamento para distúrbios nervosos
psíquicos. É interessante conhecer alguns aspectos importantes da obra de Freud,
que serão apresentados no decorrer deste estudo, juntamente ao estudo de caso
apresentado.
Freud acreditava haver uma constante tensão entre o homem e seu meio,
um conflito entre o próprio homem e aquilo que o meio exigia dele. Não seria
exagerado dizer que Freud descobriu o universo dos impulsos que regem a vida do
homem, sendo que nem sempre é a nossa razão que governa nossas ações. Os
impulsos irracionais trazem à tona instintos e necessidades enraizadas dentro de
nós, acreditava que, tão básico quanto a necessidade de um bebe tem em mamar,
seria assim o impulso sexual do homem.
Freud mostrou que tais necessidades podem vir à tona disfarçadas, ao ponto
de não termos capacidade de reconhecer sua origem, e assim disfarçadas
acabariam por governar nossas ações, sem que tivéssemos consciência disso.
Freud também mostrou que as crianças também possuem uma espécie de
sexualidade, esta afirmação causou repulsa nos refinados cidadãos de Viena, o que
tornou Freud um homem impopular. Ele também constatou que muitas formas de
distúrbios psíquicos ocorrem devido aos conflitos na infância, e assim, aos poucos,
foi desenvolvendo um método de tratamento que podemos chamar de uma espécie
de “arqueologia da mente humana”.
41

2.4.1.1 A Síndrome da Repressão – O Recalque

Freud descobriu que grande parte dos problemas psíquicos de sua época se
davam a reminiscências, ou seja, lembranças profundas, por vezes esquecidas, e
possuidoras de potenciais na estrutura da personalidade consciente. A dissociação
era tida como a característica principal da patologia psíquica onde os indivíduos
seriam “incapazes de manter como um todo a multiplicidade dos processos mentais,
e daí a dissociação psíquica” (FREUD, 1970, p.15) gerando uma “forma de alteração
degenerativa do sistema nervoso, que se manifesta pela fraqueza congênita do
poder de síntese psíquica” (FREUD, 1970, p.14).
Durante sua fase de pesquisas práticas na constituição de sua ciência (a
Psicanálise), Freud experimentou, quando discípulo de Joseph Breuer, a hipnose,
essa aparentemente funcional para a obtenção de “conhecimento das ligações
patogênicas que em condições normais lhe escapavam” (FREUD, 1970, p.15)
Posteriormente abandonou tal técnica, visto que essa não se fazia satisfatória, pois,
tornou-se notório que sua eficácia se limitava a estados dissociados de consciência,
não abrangendo sua totalidade, assim, as informações dissociadas continuavam da
mesma forma.

Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo


místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não
conseguia hipnotizar senão parte de meus doentes, decidi abandoná-lo,
tornando o procedimento catártico independente dele” (FREUD, 1970,
p.15).

Como, através hipnose (por conta da dissociação) Freud constatou que não
podia modificar o estado psíquico dos doentes, procurou agir mantendo-os em
estado normal. Descobriu seguidamente que, por mais que houvesse resistência,
seus pacientes eram totalmente capazes de recordar os fatos traumáticos, mesmo
que esses fossem totalmente desconhecidos pela consciência.

Quando chegávamos a um ponto em que nos afirmavam nada mais saber,


assegurava-lhes que sabiam, que só precisavam dizer, e ia mesmo até
afirmar que a recordação exata seria a que lhes apontasse no momento em
que lhes pusesse a mão sobre a fronte. Dessa maneira pude, prescindindo
do hipnotismo, conseguir que os doentes revelassem tudo quanto fosse
preciso para estabelecer os liames existentes entre as cenas patogênicas
olvidadas e os seus resíduos - os sintomas (FREUD, 1970, p.15).
42

Constatou, seguidamente, que as recordações esquecidas não se haviam


perdidas, e sim “Jaziam em poder do doente e prontas a ressurgir em associação
com os fatos ainda sabidos, mas alguma força as detinha, obrigando-as a
permanecer inconscientes” (FREUD, 1970, p.16).

Freud conferiu a existência dessa força ao atingir um ponto crítico de


informação inconsciente, e essa respondia em oposição com maior intensidade
defensiva contra associação das informações fundamentais para a dissolução na
patogênese.

Constatou assim que, essa força, que reprime tais informações, é a mesma
que anteriormente havia expulsado-as da consciência considerando-as agressivas
para o consciente. Desenvolveu assim a formulação do processo nomeado de
repressão.

Nesta idéia de resistência alicercei então minha concepção acerca dos


processos psíquicos [...]. Para o restabelecimento do doente mostrou-se
indispensável suprimir estas resistências. Partindo do mecanismo da cura,
podia-se formar idéia muito precisa da gênese da doença. As mesmas
forças que hoje, como resistência, se opõem a que o esquecido volte à
consciência deveriam ser as que antes tinham agido, expulsando da
consciência os acidentes patogênicos correspondentes. A esse processo,
por mim formulado, dei o nome de `repressão‘ e julguei-o demonstrado
pela presença inegável da resistência” (FREUD, 1970, p.16).

Observou em seus pacientes a existência inconsciente de “um desejo


violento, mas em contraste com os demais desejos do indivíduo e incompatível com
as aspirações morais e estéticas da própria personalidade” (FREUD, 1970, p.16)
Para a rápida resolução do conflito interno, utilizava-se a repressão. As aspirações
individuais, éticas e outras, eram as forças repressivas dos impulsos prazerosos
inadequados à consciência, revelando-se desse modo uma tentativa de “proteção”
da personalidade psíquica, posteriormente, suscitando, não raro, graves distúrbios.
43

2.4.1.2 A Catarse

Catarse é um termo criado Aristóteles que refere a purificação das almas


através da descarga emocional provocada por um drama. Para suscitar a catarse
era preciso que o herói passasse da dita para a desdita, ou seja, da felicidade para a
infelicidade.
O “Procedimento Catártico” é um singular método psicoterápico muito
difundido pela Psicanálise Freudiana, descoberto por Joseph Breuer em 1893
durante suas práticas hipnóticas, onde, com a ajuda de Freud, curara uma paciente
histérica e obtivera, nesse processo, uma compreensão da patogênese desses
sintomas. Srta. Anna O., referida paciente curada por Breuer:

Uma psicose de natureza peculiar, com parafasia, estrabismo convergente,


graves perturbações da visão, paralisias (sob a forma de contraturas)
completa na extremidade superior direita e em ambas as extremidades
inferiores, e parcial na extremidade superior esquerda, e paresia dos
músculos do pescoço [...] (FREUD, 1936, p.30).

A Catarse é entendida como um efeito curativo provocado pela


conscientização de uma lembrança com forte potencial emocional e/ou
traumatizante, até então reprimida (recalque).

Assim, a principal característica do método catártico, em contraste com


todos os outros procedimentos da psicoterapia, reside em que, nele, a
eficácia terapêutica não se transfere para uma proibição médica veiculada
por sugestão. Espera-se, antes, que os sintomas desapareçam por si, tão
logo a intervenção, baseada em certas premissas sobre o mecanismo
psíquico, tenha êxito em fazer com que os processos anímicos passem
para um curso diferente do que até então desembocava na formação do
sintoma (FREUD, 1925, p.153).

Por meio de técnicas hipnóticas, Breuer conduzia a consciência do paciente


para um momento anterior as repressões emocionais “recalcadoras” das pulsões
primárias, fazendo com que tais pulsões pudessem (naquele momento) ser
exteriorizadas, realizando assim a descarga afetiva necessária e pela via natural,
isenta do controle repressivo da consciência atual.
44

O sintoma foi compreendido como uma alteração (por meio da repressão) do


fluxo natural das reações afetivas que o organismo necessitava vivenciar. Referente
ao procedimento catártico de Breuer:

O procedimento catártico pressupunha que o paciente fosse hipnotizável e


se baseava na ampliação da consciência que ocorre na hipnose. Tinha por
alvo a eliminação dos sintomas patológicos e chegava a isso levando o
paciente a retroceder ao estado psíquico em que o sintoma surgira pela
primeira vez. Feito isso, emergiam no doente hipnotizado lembranças,
pensamentos e impulsos até então excluídos de sua consciência; e mal ele
comunicava ao médico esses seus processos anímicos, em meio a
intensas expressões afetivas, o sintoma era superado e se impedia seu
retorno. [...] o sintoma toma o lugar de processos psíquicos suprimidos que
não chegam à consciência, ou seja, que ele representa uma transformação
(“conversão”) de tais processos. A eficácia terapêutica de seu
procedimento foi explicada em função da descarga do afeto, até ali como
que “estrangulado”, preso às ações anímicas suprimidas (FREUD, 1925,
p.152).

Por mais que Breuer tivesse descoberto o processo catártico como funcional
recurso re-equilibrador das pulsões afetivas, esse não resolvia o problema em si (a
repressão), somente atenuava os sintomas por um tempo, até que o nível de afeto
reprimido alcançasse um limiar (particular do indivíduo) e tais sintomas retornasses
igualmente, nas mesmas proporções.
Como recentemente referido no tópico anterior “A Síndrome da Repressão –
O Recalcamento”, Freud abandou o método hipnótico por suas limitações nas
dissociações, por não reconhecer e eliminar as resistências repressoras, obtendo
assim resultados passageiros. Entretanto, posteriormente, graças a uma sugestão
de Breuer, retomou os estudos sobre o procedimento catártico, adaptando-o as
práticas psicanalistas.
Freud necessitava de um método, que não só trabalhasse os indivíduos de
forma completa (não dissociada), mas que fosse praticável com todos os pacientes
possíveis, visto que, pela experiência, apenas uma pequena parte dos pacientes
trabalhados eram sugestionados a hipnose. Contudo, ao abrir mão do método
hipnótico, Freud perdeu a ampliação da consciência que proporcionava justamente o
material psíquico de lembranças e representações com a ajuda do qual se podia
encontrar conteúdos reprimidos e realizar a liberação dos afetos, e assim, a
atenuação dos sintomas.
45

Freud encontrou uma técnica substituta que correspondesse a essas


necessidades, “nas associações dos enfermos, ou seja, nos pensamentos
involuntários - quase sempre sentidos como perturbadores e por isso comumente
postos de lado - que costumam cruzar a trama da exposição intencional” (FREUD,
1925, p.154).

Para apoderar-se dessas idéias incidentes, ele exorta (aconselha, induz,


persuade) os pacientes a se deixarem levar em suas comunicações, “mais
ou menos como se faz numa conversa a esmo (ao acaso; à toa; sem
rumo), passando de um assunto a outro”. Antes de exortá-los a um relato
pormenorizado de sua história clínica, ele os instiga a dizerem tudo o que
lhes passar pela cabeça, mesmo o que julgarem sem importância, ou
irrelevante, ou disparatado. Ao contrário, pede com especial insistência que
não excluam de suas comunicações nenhum pensamento ou idéia pelo
fato de serem embaraçosos ou penosos. [...] Já no relato da história clínica
surgem lacunas na memória do doente, ou seja, esquecem-se
acontecimentos reais, confundem-se as relações de tempo ou se rompem
as conexões causais, daí resultando efeitos incompreensíveis. Não há
nenhuma história clínica de neurose sem algum tipo de amnésia. Quando o
paciente é instado a preencher essas lacunas de sua memória através de
um trabalho redobrado de atenção, verifica-se que as idéias que lhe
ocorrem a esse respeito são repelidas por ele com todos os recursos da
crítica, até que ele sente um franco mal-estar quando a lembrança
realmente se instala (FREUD, 1925, p.155).

Com base nisso, Freud desenvolveu uma forma de interpretação à qual


compete à tarefa, por assim dizer, de extrair da matéria bruta das associações
inintencionais o metal puro dos pensamentos recalcados. São objeto desse trabalho
interpretativo, não apenas as idéias que ocorrem ao doente, mas também seus
sonhos, que abrem a via de acesso mais direta para o conhecimento do
inconsciente, suas ações inintencionais e desprovidas de planos, e os erros que ele
cometera na vida cotidiana, e, através do encontro consciente com o material
reprimido, dava-se a técnica catártica, dessa vez, não só como um meio de
exposição afetiva, mas também como importante processo de vivência emocional à
integração de novas informações pertinentes a realidade do indivíduo.
A catarse é vista, então, como um procedimento decorrente da descarga de um
processo psíquico investido de afeto (instintivo, do Id), até então reprimido
(recalcado) pela consciência em detrimento do ser (da psique; do organismo).
“Assim, as informações de pensamento que foram retidas num estado de
inconsciência aspiram a uma expressão apropriada a seu valor afetivo, a uma
descarga [...]” (FREUD, 1925, p.99).
46

O sintoma até então apresentado pelo indivíduo (que pode ser psíquico ou
somático), é concebido de duas maneiras: como substituto do represamento do
afeto (informações recalcadas) e “produto da transformação de uma quantidade de
energia que de outra maneira teria sido empregada de alguma outra forma”
(FREUD, 1935, p.13).

Breuer referiu-se ao nosso método como catártico; explicou-se sua


finalidade terapêutica como sendo a de proporcionar que a cota de afeto
utilizada para manter o sintoma, que se desencaminhara e que, por assim
dizer, se tinha tornado estrangulada ali, fosse dirigida para a trilha normal
ao longo da qual pudesse obter descarga(ou ab-reação). Os resultados
práticos do processo catártico foram excelentes (FREUD, 1935, p.13).

2.4.1.3 Níveis dos Processos Psíquicos

Freud definiu a estrutura mental numa divisão de três regiões: Consciente,


Pré-consciente e Inconsciente. Deu-se como título “Níveis dos Processos Psíquicos”
a partir da publicação da “Interpretação dos Sonhos”, em 1900.

2.4.1.3.1 O Consciente

Por consciência entendemos geralmente a vida psicológica, o psiquismo do


homem. Também é usada a palavra consciência para designar a vida subjetiva, isto
é, a introspecção. Ainda se costuma chamar de consciência o aspecto ético de
nosso psiquismo, isto é, a consciência moral. Portanto, desses três sentidos que na
prática se costuma atribuir, vamos estudar a consciência entendida como a vida
psicológica do homem.
Na perspectiva psicanalítica, o termo consciente é atribuído à parte da mente
que traz para a consciência as percepções que vem do mundo externo, de dentro do
corpo ou da mente.
47

Embora o próprio termo tenha sido elaborado por Freud, o mesmo não deixou
nenhum artigo diretamente escrito sobre o tema. No entanto, no decorrer de sua
obra há diversas referencias, como em seu último texto referindo a consciência
como um fenômeno ordinário e ao mesmo tempo inexplicável: “[…] um facto sem
equivalente que nem se pode explicar nem se pode descrever […]. No entanto,
quando se fala de consciência, todos sabem imediatamente, por experiência, de que
se trata” (LAPLANCHE; PONTALIS, p.157, 1985).

2.4.1.3.2 O Pré-Consciente

Há momentos em que certos fatos da consciência desaparecem,


aparentemente, mas reaparecem pouco depois, enriquecidos de novos elementos.
Isso nos mostra, que na sua marcha subterrânea, a consciência continua a
trabalhar. Os fenômenos psicológicos se apresentam então, como que na sombra.
O Pré-consciente (ou subconsciente) compreende os eventos, processos e
conteúdos mentais capazes de serem trazidos à consciência quando focalizada a
atenção. Liga-se a regiões tanto do inconsciente quanto do consciente. Considera-
se a via de acesso do inconsciente até o consciente.
Portanto, fenômenos subconscientes são os que não estão presentes na
consciência, mas podem emergir tornando-se presentes. São experiências pessoais
ainda não amadurecidas para o consciente. São as lembranças apagadas, imagens
recalcadas, experiências que o consciente, de momento, não pode receber. “Através
de emergência dos fenômenos subconscientes se explicam as descobertas, as
improvisações, a criação de uma lei ou de uma obra de arte” (FERREIRA, 1977,
p.36).
A espécie de atividade mental associada com o pré-consciente é chamada de
pensamento do processo secundário, onde Freud refere:

[...] respeita as conexões lógicas e tem menor tolerância a inconsistências


do que o processo primário (inconsciente e Id), portanto, está estreitamente
aliado ao princípio da realidade, o principal norteador de suas atividades
(1974, p.16).
48

2.4.1.3.3 O Inconsciente

O estudo do inconsciente vem sendo aprofundado a partir de Sigmund Freud


e podemos dizer que, graças ao criador da Psicanálise, passou a ter muitíssima
importância. Freud admitia inconsciente como o repositório da experiência pessoal,
de toda a experiência reprimida e infantil; o lugar central da atividade psicológica que
difere da experiência pessoal e mais objetiva que ela, que se refere diretamente às
bases filogenéticas, instintivas, da raça humana. É o componente dinâmico. Existem
em nosso inconsciente fenômenos em estágio de inconsciência. E podemos definir
esses fenômenos inconscientes, como aqueles cuja existência (embora façam parte
de nossa vida mental e atuem sobre ela), nós ignoramos, ou não temos senão um
conhecimento indireto e nunca uma experiência imediata.

O inconsciente é o próprio psiquismo e a sua realidade essencial, pois a


psicanálise recusa-se a considerar o consciente como sendo a essência da
vida psíquica, vê nele uma simples qualidade que pode coexistir com
outras ou deixar de existir (FREUD s.d. apud FERREIRA, 1977, p.35).

Podemos fazer referência a quatro importantes considerações psicanalíticas a


respeito do inconsciente:
1. O inconsciente possui uma ligação estreita com as pulsões instintivas,
essas que, segundo a teoria Freudiana do desenvolvimento, eram concebidas de
pulsões sexuais e de auto-preservação.
2. Segundo Freud, o conteúdo do inconsciente limita-se aos desejos que
buscam gratificação. Esses desejos provocam o mecanismo dinâmico expressivo do
inconsciente, como sonhos, sintomáticas como neurose e psicose, entre outras.
3. O inconsciente se caracteriza por um sub-termo denominado pensamento
do processo primário (juntamente com o Id, que será explanado seguidamente), cujo
principal objetivo é a satisfação dos desejos e a descarga dos instintos. É baseado
pelo princípio de prazer, é atemporal, permite a coexistência de idéias contraditórias
e não assume negativas. Observam-se características em crianças muito jovens que
se dedicam a satisfação imediata.
4. O único modo de as informações inconscientes tornarem-se conscientes é
passando pelo pré-consciente.
49

Freud divide os aspectos psíquicos em três qualidades, como refere:

Atribuímos, assim, três qualidades aos processos psíquicos: eles são


conscientes, pré-conscientes ou inconscientes. A divisão entre as três
classes de material que possui estas qualidades não é absoluta nem
permanente. O que é pré-consciente se torna consciente, como vimos, sem
qualquer assistência de nossa parte; o que é inconsciente pode, através de
nossos esforços, vir a ser consciente, e, no processo, temos muitas vezes
a impressão de estar superando resistências muito fortes (FREUD, 1974,
p.13).

2.4.1.4 A Transferência e a Contra-transferência

Segundo Alessandra Cavalcanti et al., “A transferência é um processo pelo


qual os desejos inconscientes se atualizam” (2007, p.157).
Os fenômenos de Transferência e Contra-transferência foram descobertos e
conceitulizados muito antes da teoria das relações objetais. Foi em 1892, por
ocasião do tratamento do caso Anna O. que Freud constatou tais fenômenos,
passando a considerá-lo como estratégia fundamental para o tratamento das
neuroses, juntamente com o método das associações livres, abandonando, por
consequência, a o método hipnótico.
Segundo Freud, a transferência é um fenômeno em que o paciente, ao ser
analisado, revive os seus desejos inconscientes, provenientes da infância, tomando
o terapeuta como suporte numa “projeção objetal”.

Essa transferência logo demonstra ser um fator de importância


inimaginável, por um lado, instrumento de insubstituível valor e, por outro,
uma fonte de sérios perigos. A transferência é ambivalente: ela abrange
atitudes positivas (de afeição), bem como atitudes negativas (hostis) para
com o analista, que, via de regra, é colocado no lugar de um ou outro dos
pais do paciente, de seu pai ou de sua mãe (FREUD, 1974, p.23).

É necessário que, no decurso da terapia, se crie um clima de empatia para


que o paciente ofereça poucas resistências, a fim de terapeuta ser permitido verificar
o conteúdo inconsciente que está na origem dos sintomas.
50

Com relação ao valor positivo da transferência, Freud refere:

Enquanto é positiva, ela nos serve admiravelmente. Altera toda a situação


analítica; empurra para o lado o objetivo racional que tem o paciente para
ficar sadio e livre de seus achaques. Em lugar disso, surge o objetivo de
agradar o analista e de conquistar o seu aplauso e amor. Este passa a ser
a verdadeira força motivadora da colaboração do paciente; o seu ego fraco
torna-se forte; sob essa influência realiza coisas que, ordinariamente,
estariam além de suas forças; desiste dos sintomas e aparenta ter-se
restabelecido - simplesmente por amor ao analista. Este pode
modestamente admitir para si próprio que se dispôs a uma empresa difícil
sem suspeitar sequer dos extraordinários poderes que estariam sob seu
comando (FREUD, 1974, p.23).

A transferência pode oferecer outros recursos favoráveis como, se transferir


ao terapeuta a imagem de pai, e assim, possibilitar a reprogramação do superego
originador da repressão patológica.

Se o paciente coloca o analista no lugar do pai (ou mãe), está também lhe
concedendo o poder que o superego exerce sobre o ego, visto que os pais
foram, como sabemos, a origem de seu superego. O novo superego dispõe
agora de uma oportunidade para uma espécie de pós-educação do
neurótico; ele pode corrigir erros pelos quais os pais foram responsáveis ao
educá-lo (FREUD, 1974, p.24).

Um outro ganho do método é a enfase emocional dada pelo paciente ao re-


viver aspectos de sua vida, como refere Freud:

Outra vantagem ainda da transferência é que, nela, o paciente produz


perante nós, com clareza plástica, uma parte importante da história de sua
vida, da qual, de outra maneira, ter-nos-ia provavelmente fornecido apenas
um relato insuficiente. Ele a representa diante de nós, por assim dizer, em
vez de apenas nos contar (FREUD, 1974, p.24).

Por outro lado, advertiu para a necessidade de distinguir o conjunto de


sentimentos favoráveis do paciente em relação ao terapeuta (transferência positiva),
dos sentimentos de hostilidade relativamente a este (transferência negativa).

Uma vez que a transferência reproduz a relação do paciente com seus


pais, ela assume também a ambivalência dessa relação. Quase
inevitavelmente acontece que, um dia, sua atitude positiva para com o
analista se transforma em negativa, hostil. Também isso, via de regra, é
uma repetição do passado. Sua obediência ao pai (se se tratar do pai), sua
corte para obter as simpatias deste, tem raízes num desejo erótico para ele
voltado. Numa ocasião ou noutra, esta exigência pressionará seu caminho
no sentido da transferência e insistirá em ser satisfeita (FREUD, 1974,
p.24).
51

A tomada de consciência das atitudes amigáveis ou hostis, criadas na


infância e projetadas na situação terapêutica, permite ao paciente a compreensão
das suas condutas e réajustá-las em função destes novos elementos.

Um manejo cuidadoso da transferência, de acordo com essa orientação, é,


via de regra, extremamente compensador. Se conseguimos, como
geralmente acontece, esclarecer o paciente quanto à verdadeira natureza
dos fenômenos de transferência, teremos tirado uma arma poderosa da
mão de sua resistência e convertido perigos em lucros, pois um paciente
nunca se esquece novamente do que experimentou sob a forma de
transferência; ela tem uma força de convicção maior do que qualquer outra
coisa que possa adquirir por outros modos (FREUD, 1974, p.24).

Fora do contexto terapêutico, no dia-a-dia, o fenômeno de transferência é


constante, está presente na maioria das relações interpessoais como profissionais e
amorosas, entretanto, neste caso, os dois parceiros estão a realizar cada um a sua
própria transferência, sem que tenham consciência de tal fato.
Por esse motivo, o terapeuta deve, no decurso da terapia, evitar a
Contratransferência, ou seja, deve controlar os seus próprios sentimentos, a
transferência-resposta à primeira.
Freud considerou a contratransferência uma resistência inconsciente como
um obstáculo que o impedia de ajudar o paciente a enfrentar áreas de
psicopatologia que ele prórpio não conseguia enfrentar, e essa se decorrida, possui
a forte probabilidade de reafirmar os movimentos patológicos da história do paciente.
Referia analogicamente que, o terapeuta, tal qual um espelho, somente deve refletir
aquilo que o paciente lhe mostrar. Este cuidado leva o terapeuta a estar disponível e
com discernimento, condição indispensável para o processo terapêutico.
52

2.4.1.5 Modelo Estrutural do Aparelho Psíquico

Esse modelo refere-se a três divisões: Id, ego e superego.

2.4.1.5.1 O Id

O termo Id (isso) foi empregado por Freud para denominar um reservatório


das pulsões instintivas desorganizadas. Um centro de pulsões instintivas isento da
capacidade de adiar ou modificar suas pulsões, as quais nasce o bebê. É dominado
pelo princípio do prazer, e movido por uma energia sexual, chamada Libido. O Id
possui componentes inconscientes, entretanto, não é seu sinônimo, pois, como
veremos no decorrer das elucidações, o Ego e o Superego também possuem
componentes inconscientes.

Chegamos ao nosso conhecimento deste aparelho psíquico pelo estudo do


desenvolvimento individual dos seres humanos. À mais antiga destas
localidades ou áreas de ação psíquica damos o nome de id. Ele contém
tudo o que é herdado, que se acha presente no nascimento, que está
assente na constituição - acima de tudo, portanto, os instintos, que se
originam da organização somática e que aqui [no id] encontram uma
primeira expressão psíquica, sob formas que nos são desconhecidas
(FREUD, 1974, p.4).

2.4.1.5.2 O Ego

O Ego é admitido como o órgão executivo da psique, que controla o contato


com a realidade, a motilidade, percepção e, possuidor de mecanismos de defesa
que modulam a expressão dos impulsos. Freud considerava que, por meio das
pressões da realidade externa, o Ego apropria-se das energias do Id colocando-as a
seu serviço. Substitui o principio de prazer pelo principio de realidade à medida que
traz influencias do mundo externo para influenciar o Id. Dentro do modelo estrutural,
considera-se que o “conflito” inicia-se entre o id e o mundo externo e vai
transformando-se em conflito entre o id e ego.

Sob a influência do mundo externo que nos cerca, uma porção do id sofreu
um desenvolvimento especial. Do que era originalmente uma camada
cortical, equipada com órgãos para receber estímulos e com disposições
para agir como um escudo protetor contra estímulos surgiu uma
organização especial que, desde então, atua como intermediária entre o id
e o mundo externo. A esta região de nossa mente demos o nome de ego.
(FREUD, 1974, p.4)
53

E de forma a continuar a elucidação da relação entre Id e Ego:

Assim, em sua relação com o id, ele é como um cavaleiro que tem de
manter controlada a força superior do cavalo, com a diferença de que o
cavaleiro tenta fazê-lo com a sua própria força, enquanto que o ego utiliza
forças tomadas de empréstimo. A analogia pode ser levada um pouco
além. Com freqüência um cavaleiro, se não deseja ver-se separado do
cavalo, é obrigado a conduzi-lo onde este quer ir; da mesma maneira, o
ego tem o hábito de transformar em ação a vontade do id, como se fosse
sua própria (FREUD, 1923, p.25).

2.4.1.5.3 O Superego

O Termo Superego foi empregado por Freud para denominar o componente


responsável pela consciência moral do indivíduo, constituído a partir de um sistema
complexo de idéias e valores internalizados através pais. Segundo Freud, a criança
absorve valores e padrões parentais por volta dos cinco ou seis anos de idade,
esses que delimitarão o comportamento, sentimentos e idéias. Por meio de
atividades inconscientes, a criança faz comparações com parâmetros esperados de
comportamento e aprova ou desaprova.

O longo período da infância, durante o qual o ser humano em crescimento


vive na dependência dos pais, deixa atrás de si, como um precipitado, a
formação, no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influência
parental. Ele recebeu o nome de superego. Na medida em que este
superego se diferencia do ego ou se lhe opõe, constitui uma terceira força
que o ego tem de levar em conta (FREUD, 1974, p.5).

Freud refere que “Enquanto o ego é essencialmente o representante do


mundo externo, da realidade, o superego coloca-se, em contraste com ele, como
representante do mundo interno, do id” (1923, p. 38).
Com a formação do ideal de ego, o indivíduo incorporaria as leis e os tabus,
pois, através desses alcançaria a promessa de reaver o seu objeto de desejo. De
uma certa maneira, podemos admitir que o superego estaria cobrando e punindo o
ego, como uma voz que nunca para de dizer: " - Você deveria ser assim... (como o
seu pai) [...] " Você não pode ser assim (como seu pai)" (FREUD. 1923, p. 38).
54

2.4.2 Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana

Abordaremos contribuições de psicanalistas freudianos que continuaram as


pesquisas sobre determinadas áreas específicas referentes ao desenvolvimento da
estrutura da psique, as relações do indivíduo com o mundo e ao inconsciente; essas
consideradas importantes à intervenção terapêutica ocupacional.

2.4.2.1 Os Mecanismos de Defesa

O termo “defesa” é atribuído no sentido de exprimir uma série de operações


efetuadas pelo ego diante dos perigos que procedem do ID, do Superego e da
realidade externa. Para evitar a angústia provocada pelas situações de perigo e que
ameaçam a sua constância, o ego lança mão dos mecanismos de defesa. As
defesas são operações efetuadas visando reduzir ou suprimir estímulos externos ou
internos que invadem o ego causando-lhe desprazer.
Os mecanismos de defesa existem para defender o ego do perigo, às vezes
não real, mas apenas de um sentimento de angústia. Ter defesas não é patológico,
é comum e necessário. O patológico é verificado se não tê-las ou tê-las de forma
ineficientes ou usadas incorretamente.
As estruturas defensivas não são exclusivas da patologia, elas fazem parte,
normalmente, no ajustamento, adaptação e equilíbrio da personalidade. A patologia
está na quantidade de defesa utilizada, na sua rigidez etc. E, cada estrutura terá
tipos específicos de defesa.
Referente as diferentes classificações de mecanismos de defesa, considera-
se a sublimação, a negação, a projeção, a introjeção, a identificação, a formação
reativa, o isolamento, a anulação, o deslocamento, a idealização, a conversão, a
regressão, a racionalização, e a cisão.
55

2.4.2.2 As Relações Objetais

Considera-se a teoria das relações objetais um dos conteúdos de mais alta


relevância para este estudo, sendo fundamento para a compreensão dos
mecanismos projetivos utilizados na prática com atividades expressivas. Segundo
Melanie Klein, a Relações Objetais “São as bases primitivas da formação de
símbolos e das relações com o mundo externo e a realidade” (KLEIN, 1991, p.88).
As relações objetais fazem parte de uma importante contribuição que diz
respeito a relação do indivíduo e sua identificação de mundo/realidade. Seguindo
estudos de Freud, Melanie Klein e Winnicott, considera-se que a realidade percebida
do sujeito está submetida a percepção do mesmo, em uma relação entre ambiente
interno-externo que originou-se a partir de necessidades instintivas homeostáticas
nas fases iniciais do desenvolvimento, e que se deram por meio de projeções da
realidade interna (extensão do eu) sobre objetos externos, tornando assim o que se
percebe uma representação particular de quem percebe. Faz-se também importante
a consideração deste estudo na constituição da consciência do indivíduo por meio
das relações com o meio.
Para se tratar do tema psicanalítico das relações objetais é indispensável
tratar-se da teoria pulsional na obra de Freud.

2.4.2.2.1 A Teoria Pulsional

A pulsão designa um instinto, um mecanismo natural, um impulso que


simplesmente existe sendo a base do próprio querer, base comum que gera a
necessidade, a ânsia e o desejo. “Em Freud trata-se de força biológica dos seres
vivos: pulsão de mamar, de respirar, de reproduzir-se, processo energético
econômico, onde esta em jogo o acúmulo de energia, a circulação dela e a
descarga” (PEREIRA, 2007).

Se abordarmos a vida psíquica do ponto de vista biológico, a pulsão deve


ser entendida como conceito limite entre o psíquico e o somático, como
representante psíquico dos estímulos que provem do interior do corpo(dos
órgãos, das víceras) e alcançam a psique, como medida de exigência de
trabalho imposta ao psiquismo em conseqüência de sua relação com o
corpo (PEREIRA, 2007).
56

A pulsão é um processo dinâmico que implica uma pressão ou força (carga


energética, fator de movimento) que faz tender o organismo para um alvo, este
denominado objeto.

Em psicanálise, é o alvo, o objetivo para o qual se dirige um impulso ou


pulsão, seja sexual ou agressivo, com a finalidade de obter uma satisfação.
O objeto pode ser uma pessoa, parte de uma pessoa (objeto pareial), um
objeto real mesmo ou um objeto fantasiado. A capacidade de esclarecer
relações objetais e particularmente amor objetal com outra pessoa
evidencia um importante desenvolvimento da personalidade de um
indivíduo (VALENTE, 2007).

No instinto de mamar, tem-se que o seio que produz o leite é o objeto da


pulsão da criança, e é deste objeto que trata a psicanálise. No adulto, após o
desenvolvimento da consciência, a pulsão aparecerá como um fenômeno psíquico
representacional, como idéia, medo, vontade, sensação, dor, tendência e etc.
De acordo com Pereira, “Em toda sua vida o ser humano há de se haver com
o instinto ou as pulsões, na sua constante necessidade de descarga e alívio, sempre
na busca de prazer [...] (2007)”.

2.4.2.2.2 Pulsão e Relação ao Objeto

As pulsões atuam como uma força biológica instintiva natural que,


inicialmente, no bebê, encontram-se necessitadas de outro para que sejam
organizadas. Este outro é o objeto de pulsão representado pela mãe.

Esse mundo interior, que pode ser descrito em termos de relações e


acontecimentos internos, é o produto dos próprios impulsos, emoções
e fantasias da criança. [...] Mas, ao mesmo tempo, o mundo interior
influencia a sua percepção do mundo exterior de um modo que não é
menos decisivo para o seu desenvolvimento. A mãe, primeiro que
tudo o seu seio, é o objeto primordial para os processos introjetivos e
projetivos do bebê (KLEIN, 1969, p.7).
57

Melanie Klein refere a importância do mundo interior, e o primeiro objeto, o


seio materno é o objeto mais importante das relações iniciais do indivíduo com o
meio, considerando as relações afetivas que o bebê absorve e projeta o início do
vinculo com o meio externo.
Winnicott refere em seu trabalho “Natureza Humana” (1990) que na primeira
mamada o bebê está pronto para criar o mundo externo, o seio materno e a mãe
tornam possível o bebê ter a ilusão que ele, o seio e aquilo que representa, que
significa, foram criados pelo impulso originado na necessidade. A mãe terá que ser
permissível (“mãe boa” conforme a psicanálise) para que o bebê tenha essa ilusão,
havendo então a possibilidade que ele possa manter relacionamentos excitados com
objetos ou pessoas naquilo que nós, observadores chamamos o mundo real, ainda
não criado pelo bebê.

Quanto mais a mãe e o seu seio são catectados6 — e a extensão da


catexe depende de uma combinação de fatores internos e externos, entre
os quais a capacidade inata para o amor é da máxima importância — com
maior segurança o bom seio internalizado, que é o protótipo dos bons
objetos internos, se estabelecerá na mente infantil (KLEIN, 1969, p.7).

A respeito da teoria kleiniana, Bleichmar (1992) reafirma a teoria das relações


de objeto precoces como sendo uma marca fundamental na concepção do
psiquismo, e destaca que o essencial é o vínculo emocional. As pulsões têm sentido
enquanto estiverem dirigidas aos objetos, que constituem o elemento principal dessa
teorização. Segundo o autor “A teoria das relações de objeto afirma que sempre há
uma motivação em todo processo psicológico, como conseqüência para a realidade
psíquica” (p.120).
No que diz respeito a constituição de consciência “[...] podemos concluir que,
qualquer transtorno na relação do bebê com o seio materno, ou seja, na relação
objetal, dificultará o desenvolvimento saudável do psiquismo do infante” (PEREIRA,
2007).

6
Catexia: investimento psíquico — Faz alusão, em psicanálise, à união da energia psíquica com um
objeto externo ou interno, uma atividade, uma parte do corpo, uma idéia, etc., fazendo a
representação mental desse construtor psicológico ser dotada de maior ou menor valor psíquico e lhe
dando maior ou menor importância dinâmica. Descatexizar ou desinvestir é retirar desse objeto a
energia psíquica a ele ligada, que fica assim disponível para ser reinvestida em outro objeto.
58

2.4.2.2.3 Relações Objetais e a Constituição Interna

Melanie Klein (1969) refere que a qualidade afetiva da internalização do


objeto externo (inicialmente, o seio) é correspondente nas futuras projeções de
realidade:

[...] a internalização é de grande importância para os processos projetivos,


em particular que o bom seio internalizado atua como um ponto focal no
ego, a partir do qual os bons sentimentos podem ser projetados nos
objetos externos (KLEIN, 1969, p.11).

De acordo com Melanie Klein, a primeira ligação objetal é a base para todas
as relações de afeto, para o desenvolvimento das relações sociais do individuo com
parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, etc. Segundo a autora, a primeira
relação objetal “influencia tanto a força como a natureza das projeções; em
particular, determina se os sentimentos de amor ou os impulsos destrutivos serão
predominantes naquelas” (1969, p.7). Melanie Klein identifica os processos dessa
relação que determinam no individuo a capacidade de sentir-se feliz com sua
existência:

Fortalece o ego, compensa os processos de fragmentação e dispersão, e


incentiva a capacidade de integração e síntese. O bom objeto internalizado
é, assim, uma das condições prévias para um ego integrado e estável e
para as boas relações com o objeto (KLEIN, 1969, p.11).

Melanie Klein (1969) considera a integração uma tendência dominante da


vida mental desde os primeiros tempos da infância, e tal processo só pode ser
realizado por meio do bom relacionamento com os objetos internos e externos.

Um dos principais fatores subentendidos na necessidade de integração é o


sentimento do indivíduo de que a integração implica estar vivo, amar e ser
amado pelo bom objeto interno e externo; por outras palavras, existe um
estreito vínculo entre a integração e as relações com o objeto (KLEIN,
1969, p.11).
59

Em continuidade, refere que o relacionamento objetal saudável capacita o


ego a projetar-se, verificar-se e reintegrar-se com qualidade, e, continuamente,
capacitará na qualidade do próximo relacionamento e de todo o desenvolvimento do
indivíduo.

Sugiro que um bom objeto solidamente estabelecido, implicando o amor


solidamente estabelecido ao mesmo, dá ao ego um sentimento de riqueza
e abundância que permite um extravasamento de libido e a projeção de
boas partes do eu no mundo externo sem que surja uma sensação de
depleção ou esvaziamento. O ego poderá então sentir também que está
apto a reintrojetar o amor que doou, assim como a tomar as boas coisas de
outras fontes, sendo assim enriquecido pelo processo global. Por outras
palavras, em tais casos verifica-se um equilíbrio entre dar e receber, entre
projeção e introjeção (KLEIN, 1969, p.11).

Dessa maneira, as boas partes do Ego são projetadas ao mundo externo


capacitando o ser a reintrojetar mais informações, em um contínuo fluxo construtivo
(do indivíduo) de entrada e saída de informação, destacando assim a importância no
equilíbrio e desenvolvimento psíquico existente na relação entre projeção e
introjeção (relação interno/externo).

2.4.2.3 Importantes Mecanismos relacionados às Relações Objetais

Objetivamos neste item mecanismos psíquicos importantes às futuras


elucidações deste trabalho, mecanismos esses inerentes a estrutura funcional das
relações objetais.

2.4.2.3.1 A Projeção

Seguindo a linha de raciocínio das relações objetais, consideramos esse


importante mecanismo psíquico, comumente utilizado, herdado das fases iniciais do
desenvolvimento das relações entre os meios interno e externo. A projeção foi
determinante em tempos primitivos no modo como o nosso mundo objetivo foi se
constituindo a partir das necessidades vitais básicas regidas pelo princípio de auto-
conservação.
60

Fez-se necessária a projeção das nossas necessidades para garantir a


sobrevivência e o desenvolvimento da espécie, e assim, marcou profundamente o
modo como se constituiu a sociedade humana.
Por meio da projeção foi possível ao sujeito, ultrapassar o abismo que o
separa do mundo, dando a este, um significado, pois, a projeção é caracterizada
como o momento primário e espontâneo do processo cognitivo. Na projeção primária
não havia uma diferenciação entre a vida intelectual e a vida afetiva, sendo a
segunda um fator determinante, uma espécie de substrato para a primeira. A partir
da formação da sociedade humana e, sobretudo mais tarde, com a divisão do
trabalho nas sociedades capitalistas, houve uma necessidade de controle da
projeção. A instrumentalização da razão nos colocou diante da necessidade de
distinguir entre aquilo que é projetado por nós e aquilo que está fora de nós. Desse
jogo entre o que há em nós que é projetado no mundo e o que há no mundo e nos
afeta é que se constitui o mundo objetivo.
Como aludido, apresentou-se até então neste trabalho o termo projeção
segundo as evoluções kleiniana e demais autores que referem no indivíduo projetar-
se externamente (junto aos sentidos) partes do “eu” interno e conferi-lo no externo,
entretanto, este termo foi utilizado de diversas maneiras a partir de Freud e autores
subseqüentes, e mesmo considerando tais diferenças, abordaremos alguns dos
diferentes e importantes empregos que referem fenômenos ligados às relações de
objetos.

[...] a elasticidade do conceito de projeção é tal que não seria avisado, em


nossa opinião, amarrar uma definição de projeção “propriamente dita” à
defesa contra um derivado pulsional, parecendo mais apropriado
considera-lo como conceito relativamente amplo, cujo significado depende
do contexto é utilizado (SANDLER, 1989, p.15).

As primeiras considerações de projeção foram elucidadas por Freud, onde a


admitia como um mecanismo de defesa, que projetava na percepção externa partes
do “eu” inconsciente que o Ego não poderia admitir. Alessandra Cavalcanti et al.,
admite a projeção como “A uma operação pela qual o indivíduo expulsa de si e
coloca no outro – pessoa ou coisa – qualidades, sentimentos, desejos, que ele
desdenha ou rejeita em si” (2007, p.157).
61

Sandler (1989) referente a perspectiva freudiana, considera a projeção uma


“[...] tendência a buscar uma causa externa, antes que interna”. Nos primórdios das
idéias psicanalíticas, Freud referia: “Sempre que ocorre uma mudança interna,
podemos escolher entre atribuí-la a uma causa interna ou externa. Se algo nos
impede de aceitar a origem interna, naturalmente apossamo-nos da externa” (1895,
p.111).

[...] por meio de todo o mecanismo defensivo, uma projeção, para fora, do
perigo instintal foi alcançada. O ego se comporta como se o perigo de um
desenvolvimento da ansiedade o ameaçasse não desde a direção de um
impulso instintal, mas da direção de uma percepção (FREUD, 1915, p.184).

A projeção é essencial em um estado precoce do desenvolvimento do ego


onde tudo aquilo que é prazeroso se experimenta como pertencente ao ego (“uma
coisa a engolir”) ao passo que tudo que é penoso ou doloroso se experimenta como
sendo não ego (“uma coisa a cuspir-se”). A ameaça é tratada como se fosse uma
força externa. O indivíduo pode lidar com sentimentos reais, mas sem admitir ou
estar consciente do fato de que a idéia ou comportamento temido é dele mesmo. O
perigo é externalizado, considerando a externalização um meio de auto defesa
contra o provável desequilíbrio interno. Armando C. P. exemplifica o mecanismo de
projeção como defesa do ego:

Um menino foi ao zoológico com o seu pai. Ao passarem diante de jaula do


leão que estava muito inquieto, o menino diz: “papai, vamos embora daqui,
você está com medo”. O mecanismo da projeção se associa com a
repressão, o indivíduo reprime a percepção do que está nele e coloca no
outro (COELHO, 2007, p.5).

Outro exemplo, considerando um doente mental:

[...] o doente mental que projeta seus impulsos violentos e, em


conseqüência pensa estar em perigo de dano físico por parte do FBI, ou
dos comunistas que querem destruí-lo. O delírio de perseguição tem uma
psicodinâmica que se pode compreender através do mecanismo da
projeção (COELHO, 2007, p.5).
62

Na progressão de seus estudos, Freud utilizou o emprego do termo no


sentido mais geral de dirigir ou voltar “para fora”. Assim, por exemplo, em O
problema do Masoquismo (1924), encontramos a afirmação de que “[...] não
ficaremos surpresos em saber que, em certas circunstâncias, o sadismo, ou instinto
de destruição, foi dirigido para fora, projetado” (p.164), dando vazão ao impulso de
se auto-destruir, porém, aplicando no outro (externo).
Em Totem e Tabu (1912, p.64) Freud faz referência à projeção como
processos emocionais que podem se exteriorizar junto as funções sensórias, de
fator importante à identificação particular da realidade externa, aproximando-se
assim no referido das relações objetais:

[...] um mecanismo primitivo, ao qual [...] nossas percepções sensórias


estão sujeitas, e que, portanto, normalmente desempenha papel muito
grande na determinação de forma assumida por nosso mundo externo [...]
percepções internas de processos emocionais e de pensamentos podem
ser projetadas para fora da mesma maneira que as percepções sensórias;
são assim empregadas para construir o mundo externo [...] devido à
projeção para fora das percepções internas, os homens primitivos
chegaram a um retrato do mundo externo que nós, com nossa percepção
consciente intensificada, temos agora de traduzir de volta para a psicologia.

2.4.2.3.2 Projeção e Paranóia

No seu texto “As psiconeuroses de defesa”, (1894) Freud associa a projeção


à paranóia e a descreve como uma defesa primária, um mal uso de um mecanismo
normal que consiste em procurar no exterior a origem de um desprazer. O paranóico
é aquele que projeta no exterior as suas representações intoleráveis e que voltam a
ele sob a forma de repressão.
Dessa maneira, o paranóico toma o seu conteúdo projetado como algo de
absoluto, ou seja, ele relaciona-se com o mundo por meio de “um esquema privado,
que não é compartilhado por ninguém”.
63

Duarte considera que a diferença entre o conhecimento potencialmente


correto e a projeção patológica é apenas de grau: “em ambas há o momento de
reificação do objeto, que na projeção normal é flexibilizado pela reflexão e na
patológica é tornado absoluto” (DUARTE, 2003, p.453).

Poder-se-ia dizer, na linguagem da teoria da seleção e para maior clareza,


que, durante o período de formação do aparelho sensorial humano,
sobreviveram os indivíduos nos quais a força dos mecanismos de projeção
havia penetrado mais profundamente em suas capacidades lógicas
rudimentares, ou nos quais essa força havia sido minimamente diminuída
por um início precoce dos processos de reflexão. Assim como, hoje em dia,
os projetos científicos práticos e fecundos requerem uma capacidade
intacta de definição, a capacidade de imobilizar o pensamento num ponto
determinado pelas necessidades da sociedade, de delimitar um campo a
ser investigado em seus menores detalhes sem que o investigador o
transcenda, assim também o paranóico não consegue deixar de transgredir
um complexo de interesses determinados por seu destino psicológico. Seu
discernimento consome-se no círculo traçado pela idéia fixa, assim como o
engenho da humanidade se liquida a si mesmo na órbita da civilização
técnica. A paranóia é a sombra do conhecimento (DUARTE, 2003, p.182).

Considera-se então que, o perigo na projeção desenfreada e o que a


caracteriza como patológica, é o fato de ser usada indiscriminadamente como uma
arma contra os homens, tal como acontecia em nossa pré-história. O indivíduo
doente se comporta em relação aos outros motivado por sua paranóia, cujos
sintomas mais evidentes são a megalomania e a mania de perseguição.

2.4.2.4 Fenômenos Transicionais – Objetos Transicionais

Uma das mais difundidas concepções do psicanalista Donald Woods


Winnicott é o conceito de objetos e fenômenos transicionais, esses que dizem
respeito as progressões das relações objetais nos primeiros meses de vida, um
objeto de transição da relação “eu-interno e eu-externo” para “eu7 e mundo
externo”.

7
Do relacionamento entre objeto interno e objeto externo, encontra-se agora estruturado para relação
com mundo externo.
64

A concepção de Winnicott de objetos e fenômenos transicionais parte do que


ele considera a “hipótese original”:

É sabido que os bebês, assim que nascem, tendem a usar o punho, os


dedos e os polegares em estimulação da zona erógena oral, para a
satisfação dos instintos dessa zona... É igualmente sabido que, após
alguns meses, bebês de ambos os sexos passam a gostar de brincar de
bonecas e que a maioria das mães permite a seus bebês algum objeto
especial, esperando que eles se tornem, por assim dizer, apegados a tais
objetos. Existe um relacionamento entre esses dois conjuntos de
fenômenos que são separados por um intervalo de tempo, e um estudo do
desenvolvimento do primeiro para o último pode ser lucrativo e utilizar
importante material clínico que tem sido tanto negligenciado (WINNICOTT,
1971, p.13).

Observando bebês e suas mães, é notável que existe uma série de eventos
que, continua ele:

[...] começam com as primeiras atividades do punho na boca do bebê


recém nascido e que acabam por conduzir a uma ligação a um ursinho,
uma boneca ou um brinquedo macio ou, ainda, a um brinquedo duro
(WINNICOTT, 1971, p.14).

O uso destes objetos constitui, para Winnicott (1968), “a primeira possessão


que seja não-eu”, o que nos dá uma idéia da importância destes acontecimentos na
vida do bebê. “O que importa não é tanto o cobertor ou o ursinho que o bebê usa,
mas o uso que o bebê faz do objeto” (WINNICOTT, 1968, p14).
Winnicott fala de um objeto transicional. Ele é "metade" objeto, "metade"
fantasia (daí o seu nome – uma transição entre a pura projeção e a percepção do
mundo externo). Uma fase de transição ao redor do quarto ao sexto mês, e durante
o período que se estende até o oitavo ou décimo segundo mês, na qual o bebê
precisa do objeto externo (mas que não é reconhecido como tal) para criar um
“objeto transicional”, que representa um objeto interno do bebê, mas também não é
reconhecido como objeto externo. Fica numa área de transição, constitui uma posse.
O ursinho de pelúcia, por exemplo, que as crianças carregam como se fosse uma
parte delas, e que não pode ser substituído por nada, e que nunca deve ser
modificado (lavado, por exemplo) por uma outra pessoa que não elas mesmas.
65

Essa posse pode ser deslocada para outros objetos, com a mesma qualidade
transicional. Segundo ele, o fato do bebê conseguir, ou não, criar objetos
transicionais, traz conseqüências importantes para a relação com a mãe, e outras
relações posteriores.
Winnicott considera que é necessária uma mãe “suficientemente boa” para
que o bebê possa evoluir do Princípio do Prazer para o Princípio de Realidade.
Segundo ele, esta mãe:

[...] começa com uma adaptação quase completa às necessidades do bebê


e, à medida que o tempo passa, adapta-se cada vez menos
completamente, de modo gradativo, segundo a crescente capacidade do
bebê em lidar com o fracasso dela (WINNICOTT, 1971, p.12).

A “mãe suficientemente boa” propicia, desta forma, a ilusão de que o seio


dela faz parte do bebê e, principalmente, é criado por ele, “de que ela está, por
assim dizer, sob o controle mágico do bebê” (WINNICOTT, 1971, p.14). A
onipotência é uma experiência necessária ao bebê nesta “vivência de ilusão”, que é
criada de início pela mãe, a qual deverá, também, desiludir gradativamente seu
bebê.
Esta desilusão necessária só será possível se a mãe propiciou momentos
suficientes de “ilusão”.

[...] em outra linguagem, o seio é criado pelo bebê repetidas vezes, pela
capacidade que tem de amar ou (pode-se dizer) pela necessidade.
Desenvolve-se nele um fenômeno subjetivo que chamamos seio da mãe. A
mãe coloca o seio real exatamente onde o bebê está pronto para criá-lo, e
no momento exato. Desde o nascimento, portanto, o ser humano está
envolvido com o problema da relação entre aquilo que é objetivamente
percebido e aquilo que é subjetivamente concebido e, na solução desse
problema, não existe saúde para o ser humano que não tenha sido iniciado
suficientemente bem pela mãe. A área intermediária a que me refiro é a
área que é concedida ao bebê, entre a criatividade primária e a percepção
objetiva baseada no teste de realidade (WINNICOTT, 1971, p.14).
66

Em “O Brincar & a Realidade” (1971), Winnicott especifica e resume as


qualidades especiais de relacionamento do bebê com o objeto transicional:

1) O bebê assume direitos sobre o objeto e desenvolve uma experiência de


onipotência que deve ser aceita pela mãe;2) O objeto é afetuosamente
acariciado, bem como excitadamente amado e mutilado; 3) Ele nunca deve
mudar, a menos que seja mudado pelo bebê; 4) Deve sobreviver ao amor
pulsional, ao ódio e também à agressividade pura, se esta for uma
característica; 5) Contudo, deve parecer ao bebê que lhe dá calor, ou que
se move, ou que possui textura, ou que faz algo que pareça mostrar que
tem vitalidade ou realidade próprias; 6) Ele é oriundo de exterior, segundo
o nosso ponto de vista, mas não o é, segundo o ponto de vista do bebê.
Tampouco provém de dentro (não é alucinação); 7) Seu destino é permitir
que seja gradativamente “descatexizado”, de maneira que, com o passar
dos anos, se torne não tanto esquecido, mas “relegado ao limbo”. Com isso
quero dizer que, na saúde, o objeto transicional não vai para “dentro” e
tampouco o sentimento a seu respeito sofre repressão. Não é esquecido e
não é pranteado. Perde o significado e isso se deve ao fato de que os
fenômenos transicionais se tornam difusos, se espalham por todo o
território intermediário entre a “realidade psíquica interna e o mundo
externo”, tal como é percebido pelas pessoas comuns, isto é, por todo o
campo cultural (p.18).

Referindo a comunicação intrínseca existente da relação do objeto


transicional, Winnicott (1971) diz que quando um bebê olha para sua mãe podem
ocorrer duas coisas: ou é a ele mesmo que ele vê no olhar da mãe (objeto
subjetivo), pois há harmonia entre seu estado interior e o que ele vê na expressão
olhar da mãe, ou o bebê não vê a si mesmo no olhar da mãe, vê a mãe. A criança
(ou o paciente) torna-se, assim (habilmente), dependente da percepção do olhar da
mãe (ou do analista), não podendo construir seu “objeto subjetivo”, tornando-se
dependente do objeto “objetivamente percebido”.
André Green (1990, p.167) escreve:

Suponhamos que um bebê que gostaria de ser acolhido por sua mãe com
um sorriso, prazer e entusiasmo, depara-se com o olhar de uma mãe
deprimida. Nesse caso não há mais concordância entre seu estado interior
e o olhar da mãe, não havendo então construção de um verdadeiro self,
isto é, o bebê não pode expressar sua raiva esperando que a resposta
materna reconheça esta raiva e lhe restitua não a raiva, mas uma boa
imagem [...] se o bebê deixa-se levar por este conflito torna-se “louco”[...]
67

2.4.2.4.1 Transicionalidade, Patologias e Drogadicção8.

Em seu trabalho “Donald Winnicott, 20 anos depois” (1989), Júlio de Mello


Filho comenta como Winnicott referiu-se às patologias da transicionalidade aludindo
diversas situações como no mentir, no furtar, no fetichismo, na drogadição e no uso
do talismã nos rituais dos obsessivos. Paul Horton e vários colaboradores, no livro
chamado “The Solace Paradigm; A Ecletic Search for Psychological Immunity”
(1988) estuda os fenômenos transicionais sob vários ângulos (antropologia,
lingüística, educação, religião, filosofia, saúde mental e patologia), e quanto a
patologia Horton faz uma revisão de várias entidades como estados Borderline
(Modell), distúrbios de personalidade (Horton), esquizofrenia (Searles), doenças
psicosomáticas (Gaddini), homossexualidade (Maasterson), fetichismo (Sperling),
ideação obsessiva (Solomon) e retardo mental (Sherman e Hetzig).
Estabelecendo uma correlação entre a patologia da transicionalidade e o uso
de drogas, Eduardo Kalina escreveu o trabalho “A Incapacidade de Estar Só e o Uso
Abusivo de Drogas Psicotóxicas” (OUTEIRAL, 1989).
Para a elucidação dos eventos decorrentes no estudo de caso que será
abordado neste trabalho, faz-se importante um estudo da transicionalidade segundo
a patologia correspondente, a drogadicção.
Joyce McDougall utiliza o termo adição para substituir a palavra toxicomania,
empregada por muitos profissionais. Enquanto esta última expressão tem o
significado de “hábito mórbido de absorver doses crescentes de substâncias
tóxicas”, o conceito de adição, no entender dessa autora, tem um sentido mais
amplo e que nos permite entender melhor a importância e a necessidade condutas
aditivas em determinadas pessoas.

8
Drogadicção = Adicção a drogas. A etimologia do vocábulo “adicção” remete ao latim. “Adicto”
origina-se no particípio passado do verbo “addico”, que significa “adjudicar” ou “designar”. Este
particípio é “addictum” e quer dizer o “adjudicado” ou “designado” - o “oferecido” ou “oferendado”. Nos
tempos da República Romana, “addictum” designava o homem que, para pagar uma dívida, se
convertia em escravo por não dispor de outros recursos para cumprir o compromisso contraído. O
substantivo “adicção” designa, em nossa língua, a inclinação ou o apego de alguém por alguma coisa
(FERREIRA, 1999).
68

Definindo melhor seu conceito, ela escreve que se aplica a palavra adição
(apud OUTEIRAL, 1999):

[...] para os casos em que o objeto da adição é investido de qualidades


benéficas, até mesmo de amor. Este objeto é percebido como bom e
também como aquilo que dá sentido à vida. Ele oferece a ilusão de atenuar
as dificuldades da vida cotidiana [...]. As condutas aditivas visam a
descarga rápida de qualquer tensão psíquica em diversas circunstâncias
da vida cotidiana. Elas não se tornam patológicas senão quando se trata da
única solução de que dispõe o sujeito para fazer desaparecer a dor mental.
O ato toma a dianteira da elaboração mental, o que representa uma
regressão à economia psíquica da primeira infância.

Dessa maneira, a partir dos movimentos psicológicos que a adição remete o


indivíduo, observa-se um íntimo paralelo entre ela e objeto transicional. Em
continuação a esse raciocínio, a autora segue referindo características comuns da
dependência química, como relações simbióticas (principalmente com progenitor(a)),
os desvios sexuais e a busca incessante da resolução de algo interno
incompreendido:

Na adição ao outro, surge uma angústia intensa entre a necessidade de


fusão com o outro (mãe ou as outras formas de relação que se seguem) e,
ao mesmo, tempo, o receio de perder sua própria identidade. A
sexualidade como droga se refere ao uso dessa como forma de reparar
falhas no sentido de identidade, na erotização constante das experiências
e, evidentemente, por ser uma solução falsa, necessita ser repetida
compulsivamente (MCDOUGALL, s.d. apud OUTEIRAL, 1999, p,2).

Seguidamente a autora refere os processos psicológicos/afetivos existentes


na relação mãe e bebê que constituem o desenvolvimento patológico:

Uma mãe, em função de seus próprios desejos e medos inconscientes


(ansiedades, imaturidade, sentimentos de depressão e desamparo, etc.),
pode induzir no bebê uma relação aditiva à sua presença e aos seus
cuidados (por exemplo, quando experimenta ela própria sentimentos de
solidão), o bebê poderá ser tratado não como uma pessoa em
desenvolvimento, mas como um “ acompanhante “ ou “ objeto transicional “
que não a deixará – porque ela não permitirá -nunca sozinha
(MCDOUGALL, s.d. apud OUTEIRAL, 1999, p.2).
69

Como referido, o bebê como objeto transicional da mãe é utilizado como uma
fonte de prazer e tranqüilidade, oferecendo um sentimento de atenuação das dores
afetivas, e por vezes, é quilo que dá sentido a vida. O contra-ponto estabelecido no
bebê é a indução à relação aditiva à presença da mãe, e dessa maneira interrompe
o desenvolvimento natural dos fenômenos transicionais e, consequentemente, sem
a relação com o não-eu a criança não desenvolve recursos necessários para o
relacionamento equilibrado com o meio.

[...] este laço aditivo pode impedir a maturação do desenvolvimento dos


fenômenos transicionais (seguindo a concepção de Winnicott, ao referir-se
ao uso que a criança faz, por exemplo, da “ fraldinha “ [ chupar o dedo,
bico, cobertor, etc. ] possibilitam à criança enfrentar a progressiva
separação da mãe – condição necessária ao desenvolvimento- fazer a
primeira descoberta do não-eu e ingresso no mundo dos símbolos) Neste
caso, a criança não tem a possibilidade de criar seus próprios recursos
psíquicos para superar tensões superexcitantes ou perigosas (traumáticas),
o que coloca em perigo sua capacidade de estar só e a presença materna
será ativamente (e constantemente) solicitada. (MCDOUGALL, s.d. apud
OUTEIRAL, 1999, p.3)

Refere a importância das representações psíquicas de mãe e pai, por vezes


ausentes na estrutura do indivíduo:

No mundo psíquico dessas crianças, falta uma representação interna de


uma instância materna (imagem interna da mãe) com suas funções de
alívio face às experiências afetivas (proteção). O papel do pai é importante,
por seu papel real e simbólico para a mãe e por seu discurso quanto ao
sentido que deve ser dado à vida (MCDOUGALL, s.d. apud OUTEIRAL,
1999, p,3).
70

O objeto buscado posteriormente como tentativa de equilíbrio, (referido neste.


a droga) assumi papel importante como substituto dos conteúdos internos não
gerados na infância, e a presença deste objeto faz a manutenção da doença em si,
servindo como “escape” das tensões geradas pelo desequilíbrio, como refere
McDougall (s.d. apud OUTEIRAL, 1999, p.3):

Para tapar a falha do objeto materno que cuida , o sujeito vai procurar no
mundo externo um substituto (através das drogadições, por exemplo) dos
objetos faltantes em seu mundo interno (cuidados parentais
suficientemente bons). Graças ao objeto da adição, jamais sofrerá a
decepção pelo objeto que faltou na infância. Todo objeto ameaçador será
descarregado na atividade aditiva; ao mesmo tempo, trata-se de um acerto
de contas com os objetos internos, resultado daí um triplo desafio: desafio
ao objeto materno interno, desafio ao pai interno e desafio à morte.

2.4.3 Contribuições da Psicologia Analítica ou Complexa de Jung

Carl Gustav Jung nasceu a 26 de julho de 1875, na Suíça. Mudou-se com sua
família aos quatro anos de idade para a Basiléia (na época, importante centro
cultural europeu) onde realizou seus estudos, inclusive o curso de medicina.
Especializou-se em psiquiatria observando que tal área poderia unir conhecimentos
que sempre tivera afinidade como filosofia, ciências naturais e médicas, e assim
poderia encontrar um foco vivo de convergência. Concluiu o curso de medicina em
1900, e em 1907 teve seu primeiro contato com Freud, numa visita que prolongou-se
por 13 horas a fio.
Nise da Silveira refere que “Freud logo reconheceu o alto valor de Jung e viu
no suíço, no não judeu, o homem adequado para conduzir avante a psicanálise. Mas
sobretudo viu nele um filho mais velho, um sucessor e príncipe coroado” (1981, p.9).
Em 1910, por influencia de Freud, tornou-se presidente da Associação
Psicanalítica Internacional, mas, já em 1912, o livro de Jung, “Metamorfoses e
Símbolos da Libido” marcava divergências doutrinárias profundas que o separaram
de Freud.
71

Sua psicologia (iniciada como psicanálise, posteriormente denominada


psicologia analítica ou complexa) expandiu-se a partir dos limites da psicanálise
freudiana, aprofundando os estudos sobre o inconsciente, admitindo este como o
centro de toda vida psíquica, onde a consciência é uma manifestação dependente
deste, e os símbolos seriam a sua linguagem, diferente de Freud que admitia o
inconsciente como um depositório da experiência pessoal, reprimida e infantil, uma
espécie de “quarto de despejos” como diz John Freeman (apud JUNG, 1964, p.12).
Em 1913, quando já tinha conquistado enorme prestígio a nível mundial
iniciou um período de solidão. Os laços com os grupos psicanalíticos estavam
rompidos, abandonou o meio universitário e resolveu dedicar-se a intensas
experiências interiores na ativação do inconsciente, aceitando que as imagens
emergissem, e assim viveu sonhos impressionantes, e até mesmo visões.
Através da interpretação de seus sonhos e experiências internas, Jung
chegou à descoberta de um centro profundo no inconsciente, de manifestações afins
da estruturação do equilíbrio psíquico; um mecanismo auto-regulador da psique
humana.

Atento aos fenômenos que se desdobravam no intimo de si próprio,


apreendeu o fio e a significação do curso que tomavam, verificando que
outra coisa não acontecia senão a busca da realização da personalidade
total – processo de individuação (SILVEIRA, 1981, p.11).

Jung faleceu em 1961 aos 85 anos, deixando uma extensa e grandiosa obra
sobre a psique humana, cujo alcance ainda hoje é assunto debatido nos maiores
círculos científico-filosóficos e psicanalíticos. Nise da Silveira (1990, p.165) refere
que “ele está tão à frente de nosso tempo que apenas gradualmente vêm sendo
apreendidas suas descobertas nas diferentes áreas do saber humano”. Da mesma
forma, Stanislav Grof cita à compreensão de Jung perante a limitação da ciência
referindo que “Jung estava consciente de que suas descobertas eram incompatíveis
com os fundamentos filosóficos da ciência de sua época e exigiam paradigmas
inteiramente novos” (GROF, 1996, p.16).
72

Como diz F. Capra, cada vez mais, a psicologia junguiana vem assumindo
seu lugar na ciência contemporânea:

Por causa de suas idéias aparentemente esotéricas, sua ênfase na


espiritualidade e seu interesse no misticismo, Jung não foi levado muito a
sério nos círculos psicanalíticos. Com o reconhecimento de uma crescente
compatibilidade e coerência entre a psicologia junguiana e a ciência
moderna, essa atitude está condenada a mudar, podendo as idéias do
Jung acerca do inconsciente humano, da dinâmica dos fenômenos
psicológicos, da natureza da doença mental e do processo de psicoterapia
exercer forte influência a psicologia e psicoterapia no futuro (CAPRA, 1988,
p.355).

2.4.3.1 O Consciente e o Ego

A consciência está sempre referida ao ego e o inconsciente não o está. O ego


faz parte da consciência, o ego é o centro da nossa consciência. A consciência é
uma parte conhecida pela pessoa. O ego fornece um sentido de consistência e
direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que
possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que
sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos
levados a crer que o ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a
ignorar sua outra metade, o inconsciente. Fazendo uma analogia “Poder-se-á
representar a psique como um vasto oceano (inconsciente) no qual emerge pequena
ilha (consciente)” (SILVEIRA, 1981, p.61).
Segundo Jung, consciente é uma área onde ocorrem os relacionamentos
entre os conteúdos psíquicos e o Ego. Para que qualquer conteúdo psíquico torne-
se consciente terá necessariamente que se relacionar com o ego. Nise da Silveira
refere que “Os conteúdos, os processos psíquicos que não entretêm relações com o
ego constituem o domínio imenso do inconsciente” (SILVEIRA, 1981, p.61).
De acordo com a concepção junguiana de psique, a consciência individual é
uma superestrutura que te por base e origem o inconsciente:

A consciência não se cria a si mesma;amena das profundezas


desconhecidas. Desperta gradualmente na infância e durante toda a vida
desperta, a cada manhã, das profundezas do sono, surgindo de uma
condição inconsciente. É como uma criança que nasce diariamente do
ventre primordial inconsciente... não é apenas influenciada pelo
inconsciente, mas emerge dele continuamente, sob forma de inumeráveis
idéias espontâneas e de repentinos lampejos de pensamento (JUNG, 1989,
apud SHARP,1991, p.48).
73

Para Jung, o ego é um complexo de elementos numerosos, porém, uma


“unidade bastante coesa para transmitir impressão de continuidade e de identidade
consigo mesma.” (SILVEIRA, 1981, p.61). Por sua composição se dar a múltiplos
elementos, Jung frequentemente utiliza a expressão “complexo de Ego”.

O ego, sujeito da consciência, vem a tona como uma quantidade complexa,


que é constituída, parcialmente, como uma condição herdada (constituintes
do caráter) e, parcialmente, por impressões adquiridas inconscientemente,
bem como os fenômenos que as acompanham (JUNG, s.d. apud SHARP,
1991, p.57).

Como referido, a psique é o inconsciente. O ego emerge dele e reúne


numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente
e o consciente. Não há elementos inconscientes no ego, somente conteúdos
conscientes derivados da experiência pessoal.

2.4.3.2 O Inconsciente

John Freeman refere que “[...] segundo Jung, o inconsciente é o grande guia,
o amigo e conselheiro do consciente” (FREEMAN, 1964, apud JUNG, 1964, p.10).

No conceito de Jung o inconsciente é uma parte da natureza, é algo


objetivo, real, genuíno. Os produtos de sua atividade merecem o maior
crédito, pois são manifestações espontâneas de uma esfera psíquica não
controlada pelo consciente, livre em suas formas de expressão (SILVEIRA;
MELLO. 2006, p.158).

O inconsciente, na psicologia junguiana, compreende o inconsciente pessoal


e inconsciente coletivo.
74

2.4.3.2.1 O Inconsciente Pessoal

O inconsciente pessoal é a camada mais superficial do inconsciente, cujas


fronteiras com o consciente são bastante imprecisas. Segundo Jung, não haveria
consciência se não houvesse inconsciente.

É uma maldição do homem moderno esta divisão de personalidades. Não


é, de forma alguma, um sintoma patológico: é um fato normal, que pode ser
observado em qualquer época e em quaisquer lugares. [...] é uma herança
comum de toda humanidade. (JUNG, 1964, p.23).

E prossegue:

Esquecer [...] é normal e necessário para dar na nossa consciência a novas


idéias e impressões. Se tal não acontecesse, toda a nossa experiência
permaneceria acima do limiar de consciência e nossas mentes ficariam
insuportavelmente atravancadas (JUNG, 1964, p.37).

Através dos sentidos, captamos informações do ambiente interno e externo,


porém, nosso sentidos captam uma quantidade muito maior de informações que
aquelas percebidas e administradas pela consciência. Todas as demais assimiladas
são armazenadas no inconsciente. Há ainda certos acontecimentos que não
tomamos consciência, entretanto, o inconsciente percebe e registra, mesmo
informações subliminares ou ocorridas quando nossa atenção está focalizada
diferentemente.

Permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar de consciência.


Aconteceram mas foram absorvidos subliminarmente, sem nosso
conhecimento consciente. Só podemos percebê-los nalgum momento de
intuição ou por um processo de intensa reflexão que nos leve a
subseqüente realização de que devem ter acontecido. E apesar de termos
ignorado originalmente sua importância, emocional e vital, mais tarde
brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento
(JUNG, 1964, p.23).
75

Segundo Jung, inclusive nossa percepção de realidade possui aspectos


inconscientes. Nossos sentidos, que percebem a realidade, nos apresentam apenas
uma realidade parcial; aquilo que captam é real, porém, a forma que a psique
apresenta a informação ainda nos é desconhecida.

[...] mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais, as


sensações visuais e auditivas, tudo isto, de certo modo, é transportado da
esfera da realidade para a esfera da mente. Dentro da mente, estes
fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos cuja natureza extrema nos
é desconhecida (pois a psique não pode conhecer sua própria substância).
Assim, toda a experiência possui um número indefinido de fatores
desconhecidos, sem considerar o fato de que toda a realidade concreta
sempre tem alguns aspectos que ignoramos desde que não conhecemos a
natureza extrema da matéria em si (JUNG, 1964, p.23).

Jung refere que, no inconsciente pessoal existem informações com pouca


energia para se tornarem conscientes, ou combinações de informações fracas, que
ainda não estão prontas. Referente ao inconsciente pessoal, existe também:

Aí estão incluídas as percepções e impressões subliminares dotadas de


carga energética insuficiente para atingir o consciente; combinações de
idéias ainda demasiado fracas e indiferenciadas; traços de acontecimentos
ocorridos durante o curso da vida e perdidos pela memória consciente;
recordações penosas de serem relembradas; e, sobretudo, grupos de
representações carregados de forte potencial afetivo, incompatíveis com a
atitude consciente (complexos). Acrescente-se a soma das qualidades que
nos são inerentes porém, que nos desagradam e que ocultamos de nós
próprios, nosso lado negativo, escuro (JUNG s.d. apud SILVEIRA, 1981,
p.62).

Esses elementos, mesmo que não tenham uma conexão direta com Ego, não
deixam de exercer influencia aos processos conscientes, podendo provar distúrbios
tanto psíquicos como somáticos.

2.4.3.2.1.1 Os Complexos

De acordo com Calvin S. Hall (1973, p.29), Complexos é uma denominação


junguiana para uma peculiar e relevante característica do inconsciente pessoal, “a
possibilidade de reunião de conteúdos para formar um aglomerado ou constelação”.
76

Os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de


afetividade. Compõem-se primariamente de um núcleo possuidor de intensa carga
afetiva. Secundariamente estabelecem-se associações com outros elementos afins,
cuja coesão em torno do núcleo é mantida pelo afeto comum a seus elementos.
“Formam-se assim verdadeiras unidades vivas, capazes de existência autônoma”
(SILVEIRA, 1981, p.28).

Com efeito, o complexo interfere na vida consciente, leva-nos a cometer


lapsos e gafes, perturba a memória, envolve-nos em situações
contraditórias, arquiteta sonhos e sintomas neuróticos. O complexo obriga-
nos a perder a ilusão de que somos senhores absolutos em nossa própria
casa. (SILVEIRA, 1981, p.28).

Referindo o efeito negativo de um complexo, refere Daryl Sharp (1991, p.39):

O efeito negativo de um complexo é, comumente, sentido como uma


distorção eu uma ou outra das funções psicológicas (sentimento,
pensamento, intuição e sensação). E vez de um julgamento sadio [...]
reage-se de acordo com o que dita o complexo. Na medida que o indivíduo
não tem consciência dos complexos, ele está sujeito a ser arrastado por
eles.

Os complexos são os responsáveis pelo mal ou o bem estar da vida do


individuo. Jung os compara a infecções ou a tumores malignos que se desenvolvem
sem qualquer intervenção da consciência. Contudo, faz-se importante referir que na
psicologia jungueana os complexos não são, por essência, elementos patológicos,
como refere Nise da Silveira (1981, p.29):

Significam que existe algo conflitivo e inassimilado - talvez um obstáculo


mas também um estimulo para maiores esforços e assim podem vir a ser
uma abertura para novas possibilidades de realização. Portanto, ao lado de
seu papel negativo tão proclamado, os complexos poderão desempenhar
uma função positiva. Tornam-se patológicos quando sugam para si
quantidades excessivas de energia psíquica.
77

Para o benefício do conhecimento de si próprio bem como para o tratamento


das neuroses, faz-se necessário trazer à consciência os complexos inconscientes.
Contudo, tomar consciência do complexo apenas intelectualmente não se fará
suficiente para alterar sua influência nociva. “Há neuróticos que seriam até capazes
de escrever excelentes monografias sobre seus conflitos mas que continuam quase
tão doentes quanto antes” (SILVEIRA, 1981, p.29). Para a assimilação de um
complexo se faz importante a compreensão em termos intelectuais junto com a
exteriorização emocional (por meio de descargas) dos afetos condensados.

Os primitivos davam expressão a choques e traumas emocionais por meio


de danças e cantos repetidos inúmeras vezes até que se sentissem
purgados desses afetos. Nós pretendemos funcionar só com a cabeça. Por
isso discorremos inteligentemente sobre nossos complexos, mas eles
continuam bem encravados na textura inconsciente-corpo, produzindo
sintomas somáticos e psíquicos totalmente irracionais. (SILVEIRA, 1981,
p.30).

2.4.3.2.2 O Inconsciente Coletivo

Corresponde aos fundamentos estruturais da psique comuns a todos os


homens; às camas mais profundas do inconsciente. Nunca estiveram conscientes e
não foram adquiridos individualmente.

Do mesmo modo que o corpo humano apresenta uma anatomia comum,


sempre a mesma, apesar de todas as diferenças raciais, assim também a
psique possui um substrato comum. Chamei a este substrato inconsciente
coletivo (JUNG, 2000, p.57).

Jung difere de conteúdos que podem tornar-se conscientes, referindo como


“disposições latentes”; padrões da estruturação do desempenho psicológico que
difere de raça, conhecimentos culturais e conscientes.

Na qualidade de herança comum transcende todas as diferenças de cultura


e de atitudes conscientes, e não consiste meramente de conteúdos
capazes de tornarem-se conscientes, mas de disposições latentes para
reações idênticas. Assim o inconsciente coletivo é simplesmente a
expressão psíquica da identidade da estrutura cerebral independente de
todas as diferenças raciais. Deste modo pode ser explicada a analogia, que
vai mesmo até a identidade, entre vários temas míticos e símbolos, e a
possibilidade de compreensão entre os homens em geral. As múltiplas
linhas de desenvolvimento psíquico partem de um tronco comum cujas
raízes se perdem muito longe num passado remoto. (JUNG, 2000, p.57).
78

“Estamos aqui bastante longe do conceito de inconsciente segundo Freud: "um


caos ou uma caldeira cheia de pulsões em ebulição"” (SILVEIRA, 1981, p.63).
Jung revelou que a evolução e a hereditariedade dão as linhas de ação para a
psique, exatamente como fazem para o corpo.

A mente, por intermédio de seu correspondente físico, o cérebro, herda as


características que determinam de que maneira uma pessoa reagirá as
experiências da vida, chegando até a determinada que tipo de experiências
terá. A mente do homem é pré-figurada pela evolução. Desta maneira, o
indivíduo está preso ao passado, não somente ao passado de sua infância,
mas também, o que é ainda mais importante, ao passado da espécie, e
antes disso, à longa cadeia da evolução orgânica (HALL, 1973, p.30).

Enquanto o inconsciente pessoal é composto de conteúdos cuja existência


decorre de experiências individuais, os conteúdos que constituem o inconsciente
coletivo são impessoais, comuns a todos os homens e transmitem-se por
hereditariedade. Para Jung, o inconsciente coletivo é um segundo sistema psíquico
da pessoa. Diferentemente da natureza pessoal de nossa consciência, ele tem um
caráter coletivo e não pessoal. Jung o chama também de “substrato psíquico comum
de natureza supra pessoal” (JUNG s.d. apud SILVEIRA, 1981, p.62), que não é
adquirido, mas herdado. Consiste de formas preexistentes, arquétipos, que só se
tornam conscientes secundariamente.

2.4.3.2.2.1 Os Arquétipos

O inconsciente coletivo é constituído por conteúdos formados de maneira


coletiva; não são aquisições individuais, são essencialmente os mesmos em
qualquer lugar e não variam de homem para homem. Tais conteúdos são chamados
de arquétipos, condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral.

Arquétipos são sistemas de prontidão para a ação e, ao mesmo tempo,


imagens e emoções. São herdados junto com a estrutura cerebral –
constituem, de fato, seu aspecto psíquico. Representam, de uma lado, um
poderoso conservadorismo instintivo e são, por outro lado, os meios mais
eficazes que se pode imaginar de adaptação instintiva. São, pois,
essencialmente, a parte ctônica da psique [...] aquela pela qual a psique se
liga a natureza. Não [...] se trata de idéias herdadas, mas da possibilidade
herdada das idéias. Não são aquisições individuais, mas, em geral, são
comuns a todos os seres humanos, como se depreende de [sua]
ocorrência universal. (JUNG s.d. apud SHARP, 1991, p.28–29)
79

No inconsciente coletivo há "estruturas" psíquicas ou arquétipos. Estes


arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar
o material psicológico. Jung também denominou os arquétipos de imagens
primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que
reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes.

A noção de arquétipo, postulando a existência de uma base psíquica


comum a todos os humanos, permite compreender porque em lugares e
épocas distantes aparecem temas idênticos nos contos de fadas, nos
mitos, nos dogmas e ritos das religiões, nas artes, na filosofia, nas
produções do inconsciente de um modo geral seja nos sonhos de pessoas
normais, seja em delírios de loucos. Vejamos um exemplo: o tema mítico
do eterno retorno. Vamos encontrá-lo profundamente enraizado nas
convicções ingênuas de sociedades primitivas, seguras de que ocorrerá
uma volta aos tempos das origens, era de abundância e de felicidade.
Vestida em roupagens magníficas, a mesma idéia está incorporada à
cosmogonia hindu,com os seus quatro Yugas (períodos) que se desdobram
lenta e incessantemente em ciclos perenes, marcados nos seus
movimentos de expansão e de declínio por acontecimentos mitológicos
sempre idênticos (SILVEIRA, 1981, p.69).

De acordo com Jung, os arquétipos, são elementos estruturais formadores


que se fixam no inconsciente, originam tanto às fantasias individuais quanto às
mitologias de um povo. A história de Édipo é um bom exemplo de um arquétipo. É
uma situação tanto mitológica quanto psicológica, uma forma arquetípica que lida
com o relacionamento do filho com seus pais.

Entre muitos arquétipos por Jung estudados e descritos incluem-se os do


nascimento, do renascimento, da morte, do poder, da magia, do herói, da
criança, do embusteiro (mentiroso, impostor), de Deus, do demônio, do
velho sábio, da mãe terra, do gigante e de muitos objetos naturais, como
árvores, o sol, a lua, o vento, os rios, o fogo e os animais, além de muitos
objetos fabricados pelo homem como anéis e armas. (JUNG, s.d. apud
HALL, 1973).

O arquétipo é um conceito psicossomático, unindo corpo e psique, instinto e


imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia e
imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos.
80

Sua asserção de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que
elas merecem um lugar de igual importância.

Nunca poderemos nos desprender legitimamente de nossos fundamentos


arquetípicos, a não ser que estejamos dispostos a pagar o preço de uma
neurose, do mesmo modo que não podemos nos livrar de nosso corpo e de
seus órgãos, sem cometer suicídio. Se não podemos negar os arquétipos,
ou mesmo neutraliza-los, a cada novo estágio de diferenciação da
consciência que a civilização atinge confrontamo-nos com a tarefa de
encontrar uma nova interpretação apropriada a esse estágio, a fim de
conectar a vida do passado, que ainda existe em nós, com a vida do
presente, que ameaça dele se desvincular (JUNG, s.d. apud SHARP, 1991,
p.30).

Jung deu atenção especial a alguns arquétipos considerados importantes


para o equilíbrio psíquico, como refere:

Alguns arquétipos têm uma importância tão grande na formação de nossa


personalidade e de nosso comportamento que Jung dedicou-lhes uma
especial atenção. São os arquétipos de persona, anima e animus, sombra
e o eu (JUNG, s.d. apud HALL, 1973).

2.4.3.2.2.1.1 A Persona

A Persona é o arquétipo da forma como nos apresentamos ao mundo. É o


caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A
persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e
nosso estilo de expressão pessoal.

Originalmente, a palavra persona significa a máscara usada pelos atores


para indicar o papel que desempenham. Neste nível, é tanto uma capa que
protege, quanto uma vantagem no envolvimento com as outras pessoas.
As sociedades civilizadas dependem das interações entre as pessoas
feitas através da persona (SHARP, 1991, p.119).

As palavras pessoa e personalidade também estão relacionadas a este termo.


A persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Jung chamou também a
persona de "arquétipo da conformidade". Todavia, a persona não é totalmente
negativa. Ela serve para proteger o ego e a psique das diversas forças e atitudes
sociais que nos invadem.
81

A persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Ela pode


desempenhar, com freqüência, um papel importante em nosso desenvolvimento
positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar
um papel, nosso ego se altera gradualmente nessa direção.

2.4.3.2.2.1.2 A Sombra

A sombra é o centro do inconsciente pessoal, o núcleo do material que foi


reprimido da consciência. A sombra possui aquelas tendências, desejos, memórias e
experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a persona e
contrárias aos padrões e ideais sociais. Ela representa aquilo que consideramos
inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca
desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a sombra freqüentemente aparece
como um animal, um mendigo ou qualquer outra figura de categoria inferior.

Com efeito, ele encontrará infalivelmente aquilo que atravessa o seu


caminho e o cruza, isto é, em primeiro lugar aquilo que ele não queria ser
(a sombra), em segundo lugar, aquilo que não é ele, mas o outro (a
realidade individual do tu) e em terceiro lugar, aquilo que é seu Não-eu
psíquico, o inconsciente coletivo. (JUNG, 1990, p. 128).

Se o material da sombra for trazido à consciência, ele perde muito de sua


natureza amedrontadora e escura. A sombra é mais perigosa quando não é
reconhecida. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis
em outros ou a deixar-se dominar pela sombra sem o perceber. Quanto mais o
material da sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Uma pessoa
sem sombra não é um indivíduo completo, mas uma caricatura bidimensional que
rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós. Cada
porção reprimida da sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos
limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente.

As coisas que não aceitamos em nós, que nos repugnam, e por isso as
reprimimos, nós as projetamos sobre o outro, seja ele o nosso vizinho, o
nosso inimigo político, ou uma figura símbolo como o demônio. E assim
permanecemos inconscientes de que as abrigamos dentro de nós. Lançar
luz sobre os recantos escuros tem como resultado o alargamento da
consciência. Já não é o outro quem está sempre errado. Descobrimos que
freqüentemente “a trave" está em nosso próprio olho. Quanto mais a
sombra for reprimida mais se torna espessa e negra (SILVEIRA, 1981,
p.81).
82

À medida que a sombra se faz mais consciente, recuperamos partes de nós


mesmos anteriormente reprimidas. Além disso, a sombra não é apenas uma força
negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva,
espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade.
Assim como todos os arquétipos, a sombra origina-se no inconsciente coletivo
e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que
é rejeitado pelo ego e pela persona. A sombra inicialmente permanece escondida,
sem se manifestar. Quando a sombra é capturada por um acontecimento, a
consciência não identifica o fato, porque a sombra está no inconsciente. Mas isto
disponibiliza uma energia que incomoda e o inconsciente então, necessita canalizar
esta energia em algum lugar (pessoa ou um objeto). O processo que faz com que
esta energia psíquica seja colocada para fora, inconscientemente, sem a
participação do ego é conhecida como Projeção.

2.4.3.2.2.1.3 Anima e Animus

São estruturas inconsciente que representa a parte sexual oposta de cada


indivíduo. Jung denominou tal estrutura de anima no homem e animus na mulher.
Toda pessoa possui qualidades do sexo oposto, tanto no plano biológico como no
psicológico das atitudes e sentimentos. O homem desenvolve o seu arquétipo de
anima pelo relação estabelecida continuamente com as mulheres vividos em várias
gerações; e a mulher desenvolve seu arquétipo de animus pelas vivencias com os
homens. Por meio da convivência e interação um com os outros durante gerações
cada sexo adota características do sexo oposto que favorecem respostas
adequadas e o entendimento do outro sexo.
Todo homem leva dentro de si a imagem eterna da mulher, não a imagem
desta ou daquela mulher em particular, mas sim uma bem definida imagem feminina.

Vêm compor a anima também as experiências fundamentais que o homem


teve com a mulher através dos milênios, um aglomerado hereditário
inconsciente de origem muito longínqua, tipo de todas as experiências da
linha ancestral em relação ao ente feminino, resíduo de todas as
impressões fornecidas pela mulher (SILVEIRA, 1981, p.83).
83

Esta imagem é fundamentalmente inconsciente, um fator hereditário de


origem primordial gravado no sistema vivo e orgânico do homem, uma impressão ou
arquétipo de todas as experiências ancestrais da fêmea, um depósito, por assim
dizer, de todas as impressões deixadas pela mulher. Sendo inconscientes, tal
imagem é sempre projeta na pessoa amada, e constituem dos principais motivos da
atração ou da aversão. Neste sentido, Jung entende que o homem herda a sua
imagem da mulher inconscientemente e adota certos padrões que lhe influencia
tanto na rejeição ou aceitação de qualquer outra mulher. A primeira projeção de
anima é feita sempre na mãe, do mesmo modo, que a primeira projeção do animus é
feito no pai. O mesmo ocorre com à mulher e à projeção de seu animus.

O primeiro receptáculo da anima é a mãe, e isso faz que aos olhos do filho
ela pareça dotada de algo mágico. Depois a anima será transferida para a
estrela de cinema, a cantora de rádio e, sobretudo para a mulher com
quem o homem se relacione amorosamente, provocando os complicados
enredamentos do amor e as decepções causadas pela impossibilidade do
objeto real corresponder plenamente à imagem oriunda do inconsciente.
Aliás essa transferência nem sempre se processa de modo satisfatório. A
retirada da imagem da anima de seu primeiro receptáculo constitui uma
etapa muito importante na evolução psíquica do homem. Se não se realiza,
a anima é transposta, sob a forma da imagem da mãe, para a namorada, a
esposa ou a amante, O homem esperará que a mulher amada assuma o
papel protetor de mãe, o que o leva a modos de comportamento e a
exigências pueris gravemente perturbadoras das relações entre os dois
(SILVEIRA, 1981, p.84).

Estes arquétipos estão no limiar para o inconsciente assim como um portão


de passagem, ou seja, para o homem começar o caminho de descoberta do
inconsciente deve confrontar-se com a anima e o animus correspondente.

2.4.3.2.2.2 O Self e o Processo de Individuação

Todo ser tende a realizar o que existe nele em germe, a crescer, a


completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para o embrião do
animal. Assim é para o homem, quanto ao corpo e quanto à psique. Mas no
homem, embora o desenvolvimento de suas potencialidades seja
impulsionado por forças instintivas inconscientes, adquire caráter peculiar:
o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e de
influenciá-lo. Precisamente no confronto do inconsciente pelo consciente,
no conflito como na colaboração entre ambos é que os diversos
componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na
realização de um indivíduo especifico e inteiro (SILVEIRA, 1981, p.77).
84

O Self é um arquétipo do inconsciente coletivo e um centro regulador da


psique inerente a todo ser humano. É considerado como o principio unificador do
ser. Uma tendência instintiva individual que contém a possibilidade do casamento
interior, do consciente com o inconsciente. É admitido como o centro da autoridade
da vida psicológica e do destino do desenvolvimento do indivíduo:

Surge, gradualmente, uma personalidade mais ampla e amadurecida que,


aos poucos, torna-se mais efetiva e perceptível mesmo a outras pessoas.
[...] este crescimento psíquico não pode ser efetuado por esforço ou
vontade conscientes, e sim por um fenômeno involuntário e natural. [...] O
centro organizador de onde emana esta ação reguladora parece ser uma
espécie de "núcleo atômico" do nosso sistema psíquico. Poder-se-ia
denominá-lo também de inventor, organizador ou fonte das imagens
oníricas. Jung chamou a este centro o self e o descreveu como a totalidade
absoluta da psique, para diferenciá-lo do ego, que constitui apenas uma
pequena parte da psique (FRANZ s.d. apud JUNG, 1981, p.157).

O Self não é compreendido como somente o centro da psique, escreve Jung,


“mas também a circunferência total que abrange tanto o consciente como o
inconsciente; é o centro dessa totalidade, como Ego é centro da mente consciente”
(1990, p.356). Durante vida, o self exige ser reconhecido, integrado, realizado;
porém, não há esperança de incorporar mais que um fragmento de uma totalidade
tão vasta no limitado âmbito da consciência humana. Portanto, o relacionamento do
ego com o self é um processo incessante. Durante o início da vida, o ser humano
abandona a integridade psíquica para desenvolver o ego e a consciência, e assim,
relacionar-se com o mundo externo, como refere Jung:

[...] é do self (o si-mesmo) — a totalidade da psique — que emerge a


consciência individualizada do ego à medida que o indivíduo cresce.[...] E o
ego precisa voltar atrás, continuamente, para reestabelecer suas relações
com o self, de modo a conservar sua saúde psíquica. (JUNG, 1964, p.125)
A criança [...] possui um sentido de totalidade ou de integridade, mas
apenas antes do aparecimento do seu ego consciente. No caso do adulto
este sentido de integridade é alcançado através de uma união do
consciente com os conteúdos inconscientes da sua mente (HENDERSON
apud JUNG, 1964, p.145).
85

No processo de desenvolvimento, a dissociação ocorre pela necessidade de


organizar-se conforme as limitações do consciente de trabalhar com uma devida
quantidade de informações, e também, de acordo com os padrões lógicos culturais
de relacionamento do indivíduo com a sociedade, pois:

[...] para adaptar-se às exigências do meio onde vive, o homem assume


uma aparência que geralmente não corresponde ao seu modo de ser
autêntico. Apresenta-se mais como os outros esperam que ele seja ou ele
desejaria ser, do que realmente como é. A esta aparência artificial, Jung
chama persona [...] (SILVEIRA, 1981, p.80).

Os sentidos captam e armazenam (no inconsciente) uma quantidade de


informação muito maior que aquelas percebidas conscientemente. Nesse processo,
o consciente vai se tornando (analogicamente) uma fração diminuta no interior do
inconsciente, e consecutivamente, por meio do Self, a medida que as informações
inconscientes vão se organizando e tornando-se aptas para o consciente, ocorre a
reintegração dos conteúdos já prontos para serem unificados. Referente a esta
união, refere Handerson:

[...] surge o que Jung chamava “função transcendente da psique”, através


da qual o homem pode alcançar sua mais elevada finalidade: a plena
realização das potencialidades do seu self” (ou ser) (HENDERSON apud
JUNG, 1964, p.145).

A esse processo de unificação entre consciente e inconsciente, Jung


denominou Individuação, de cujo conceito “tendência instintiva a realizar plenamente
potencialidades inatas” (SILVEIRA, 1981, p.78).

Precisamente no confronto do inconsciente pelo consciente, no conflito


como na colaboração entre ambos é que os diversos componentes da
personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um
indivíduo específico e inteiro (SILVEIRA, 1981, p.77). [...] Mas, de fato, a
psique humana é tão complexa, são de tal modo intrincados os
componentes em jogo, tão variáveis as intervenções do ego consciente,
tantas as vicissitudes que podem ocorrer, que o processo de totalização da
personalidade não poderia jamais ser um caminho reto e curto de chão
bem batido. Ao contrário, será um percurso longo e difícil (SILVEIRA, 1981,
p.78).
86

Considera-se então, o processo de Individuação uma capacidade do ser para


realizar as potencialidades humanas de acordo com o processo de adaptação e
evolução perante as informações absorvidas. Contudo, esse processo se dá sempre
de forma diferente para cada indivíduo, singular e particular, pois, está intrínseco a
subjetividade humana.

O processo de individuação é, na verdade, mais que um simples acordo


entre a semente inata da totalidade e as circunstâncias externas que
constituem o seu destino. Sua experiência subjetiva sugere a intervenção
ativa e criadora de alguma força suprapessoal (FRANZ s.d. apud JUNG,
1964, p.158).

Segundo Jung, historicamente é observável que, os homens, através dos


tempos, sempre souberam intuitivamente deste centro organizador. Os gregos
chamavam-lhe de Daimon, o interior do homem. Os egípcios de alma-Ba. Os
romenos de falavam de um “gênio” inato em cada indivíduo. Em sociedades
primitivas acreditavam em um espírito protetor encarnado em um animal ou um
fetiche.
Este centro interior é concebido numa forma excepcionalmente pura pelos
índio s Naskapi , que ainda habitam as florestas da península do Labrador.
São caçadores simples que vivem em grupos familiares isolados, tão
separados uns dos outros que não conseguiram desenvolver costumes
tribais nem crenças e cerimônias religiosas coletivas. Ao longo da sua vida
solitária, o caçador Naskapi tem que contar, apenas, com as suas vozes
interiores e as revelações do seu inconsciente; não tem mestres religiosos
que lhe digam no que acreditar, nem rituais, festa s ou costumes que lhe
sirvam de apoio. No seu universo elementar sua alma é apenas um
"companheiro interior'', a que chama "meu amigo" ou Mista'peo,
significando "Grande Homem". Mista'peo habita o coração do homem e é
um ser imortal. No momento da morte, ou pouco antes, deixa o indivíduo
para, mais tarde, reencarnar-se em outro (FRANZ s.d. apud JUNG, 1981,
p.157).

Considera-se o Self, também, um símbolo do inconsciente coletivo, um


“substrato psíquico comum de natureza supra pessoal” (SILVEIRA, 1981, p.63)
próprio a todo ser humano. Simboliza a imagem psicológica de Deus na psique; a
totalidade perdida no Éden. É tida como uma representação do divino em nós.
87

Elucidando, refere Nise da Silveira (1981, p.139):

A energia que emana do self é tão forte que o encontro com esse arquétipo
constitui a experiência mais intensa e mais profunda que o homem pode
vivenciar. A essa experiência, carregada de qualidades a um tempo
terríveis e fascinantes, o homem chamou Deus. Os sentimentos que a
acompanham variam desde o terror às alegrias da bem-aventurança,
segundo o depoimento daqueles que a viveram [...]. A psicologia junguiana
põe em relevo a presença, no âmago da psique, do arquétipo de Deus
("indistinguível do arquétipo do self"), sem pretender jamais afirmar nem
negar a existência de Deus como ser em si mesmo.

Por fim, referindo de acordo com a conceituação junguiana, considera-se Self


o mecanismo psíquico coordenador, relativista e intermediador das tensões entre os
opostos (consciente e inconsciente) concernentes do Processo de Individuação,
esse, que tem como objetivo realizar plenamente as potencialidades inatas do ser
humano. Por meio dele faz-se posto em confronto com as polaridades de certo e
errado, bem e mal, humano e divino. A capacidade de uma pessoa de integrar tal
imagem sem mediação sacerdotal foi questionada pelo clero, e teólogos criticaram a
inclusão de elementos, tanto positivos como negativos, na imagem de Deus. Porém,
Jung defendia com firmeza sua posição apontando que a ênfase cristã só sobre “o
bem” havia deixado o homem ocidental alienado e dividido dentro de si próprio.

O reconhecimento da própria sombra, a dissolução de complexos,


liquidação de projeções, assimilação de aspectos parciais do psiquismo, a
descida ao fundo dos abismos, em suma o confronto entre consciente e
inconsciente, produz um alargamento do mundo interior do qual resulta que
o centro da nova personalidade, construída durante todo esse longo labor,
não mais coincida com o ego. O centro da personalidade estabelece-se
agora no self, e a força energética que este irradia englobará todo o
sistema psíquico. A conseqüência será a totalização do ser, sua
esferificação (abrundung). O indivíduo não estar mais fragmentado
interiormente. Não se reduzir a um pequeno ego crispado dentro de
estreitos limites. Seu mundo agora abraça valores mais vastos, absorvidos
do imenso patrimônio que a espécie penosamente acumulou nas suas
estruturas fundamentais. Prazeres e sofrimentos serão vivenciados num
nível mais alto de consciência. O homem torna-se ele mesmo, um ser
completo, composto de consciente e inconsciente incluindo aspecto claros
e escuros, masculinos e femininos, ordena dos segundo o plano de base
que lhe for peculiar (SILVEIRA, 1981, p.90).

E refere Jung:

O homem só se torna um ser integrado, tranqüilo, fértil e feliz quando (e só


então) o seu processo de individuação está realizado, quando o consciente
e o inconsciente aprendem a conviver em paz e completando-se um ao
outro (JUNG, 1964, p.14).
88

2.4.3.2.2.3 Os Símbolos

Os símbolos do inconsciente abrangeram a máxima atenção de C. G. Jung


dentre toda sua abrangente obra.

A palavra "SÍMBOLO" origina-se do grego symbolon, um sinal de


reconhecimento. Na Grécia antiga, quando dois amigos se separavam,
quebravam uma moeda, um pequeno prato de argila, um anel, ou ainda a
metade de uma concha de madrepérola. Quando o amigo ou alguém de
sua família voltava, tinha de apresentar sua metade. Caso ela combinasse
com a outra metade, esse alguém teria revelado sua identidade de amigo e
tinha, assim, direito à hospitalidade (KAST, 1997, p.19).

Os conteúdos do inconsciente são representados por símbolos e o meio de


comunicação com consciente é a sua expressão. Dessa maneira, “um estudo do
homem e dos seus símbolos é, efetivamente, um estudo da relação do homem com
o seu inconsciente. [...] segundo Jung, o inconsciente é o grande guia, o amigo e
conselheiro do consciente” (FREEMAN apud JUNG, 1964, p.10).
O símbolo é uma invenção inconsciente em resposta a uma problemática
psíquica, da relação com o consciente, referente ao processo de individuação. São
expressões pictóricas cativantes, retratos indistintos, metafóricos e enigmáticos da
realidade psíquica, cujos significados não são óbvios; em vez disso, é expresso em
termos únicos e individuais, e ao mesmo tempo participam de imagens universais
(arquétipos do inconsciente coletivo).

O símbolo é uma forma extremamente complexa. Nela se reúnem opostos


numa síntese que vai além das capacidades de compreensão disponíveis
no presente e que ainda não pode ser formulada dentro de conceitos.
Inconsciente e consciente aproximam-se. Assim, o símbolo não é racional
nem irracional, porém as duas coisas ao mesmo tempo. Se é de uma parte
acessível à razão, de outra parte lhe escapa para vir fazer vibrar cordas
ocultas no inconsciente (SILVEIRA, 1981, p.70).

E continua a elucidação:

Os símbolos têm vida. Atuam. Alcançam dimensões que o conhecimento


racional não pode atingir. Transmitem intuições altamente estimulantes
prenunciadoras de fenômenos ainda desconhecidos. Mas desde que seu
conteúdo misterioso venha a ser apreendido pelo pensamento lógico,
esvaziam-se e morrem (SILVEIRA, 1981, p.71).
89

Para Jung, símbolos são intuições, “[...] expressões de informações


significativas para as quais não há, no momento, formulação melhor” (SILVEIRA,
1981, p.71).
A expressão do símbolo se dá por analogias. O processo simbólico é uma
experiência de imagens e por imagens. Seu desenvolvimento dá prova da existência
de uma compensação em ação (isto é, de que a atitude da consciência está sendo
equilibrada por um movimento originado no inconsciente).

Da atividade do inconsciente emerge agora um novo conteúdo, constelado


por tese e antítese em igual medida e mantendo-se em relação
compensatória com ambos. Portanto, forma o espaço intermédio em que
os opostos podem ser unidos (JUNG, 1994, p.290).

Aquilo que une os opostos participa dos dois lados e pode facilmente ser
julgado se de um lado ou de outro. Porém, se assumimos uma ou outra posição,
simplesmente reafirmamos a oposição. Portanto, o símbolo nem é um ponto de vista
alternativo nem uma compensação em si.
Segundo Jung, o símbolo atrai nossa atenção para uma outra posição que, se
apropriadamente compreendida, amplia a personalidade existente, além de
solucionar o conflito.

Um símbolo não traz explicações; impulsiona para além de si mesmo na


direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente
pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de
maneira satisfatória (JUNG s.d. apud SILVEIRA, 1981, p.70).

Jung difere que, as figuras sintéticas utilizadas para representar coisas


conhecidas (como insígnias militares, asas estampadas no quepe dos aviadores)
não são símbolos – são sinais.
O rompimento de Jung com Freud, no que tange as divergências teóricas, foi,
em parte, sobre questões do que se deve compreender por “símbolo”; o conceito,
sua intenção ou propósito e conteúdo. “As representações disfarçadas de conteúdos
reprimidos no inconsciente são símbolos para os freudianos e apenas sinais para os
jungueanos” (SILVEIRA, 1981, p.71).
90

Para Freud, a símbolo surge como resultado de um conflito entre o agente


repressor e as pulsões reprimidas, enquanto Jung, em vez de ver o símbolo como
resultado de um conflito, vê uma ação mediadora, uma tentativa de encontro entre
opostos movida pela tendência inconsciente a totalização.

Uma vez obtida a diferenciação dos opostos Deus-Diabo, bem mal, instinto
espírito, que foi psicologicamente necessária ao afinamento da
sensibilidade do homem ocidental, parece que muito lentamente se está
preparando, nas profundezas da psique, uma nova reaproximação entre
opostos, reaproximação que se realizaria, porém, num nível mais alto que
aquele de sua primitiva coexistência. Nas produções do inconsciente vão
se acentuando os sinais anunciadores de que se delineia uma futura
coordenação de forças onde os instintos (o animal em nós) venham a ser
integrados aos valores espirituais de nossa cultura (SILVEIRA, 1981, p.75).

Através de seus estudos sobre o inconsciente coletivo, Jung descobriu um


centro ordenador de toda a psique, cuja força energética engloba a totalidade
psíquica e tem como objetivo principal a unificação do ser, do consciente com todo o
inconsciente, um desfragmentador e reorganizador das informações internas, para
assim, alcançar um nível mais alto de consciência conforme a capacidade humana
de obtê-las, armazena-las, organiza-las e, por fim, sê-las. A este centro foi
denominado de Self (si mesmo). Seu papel é importantíssimo na psicologia
jungueana, segundo veremos daqui por diante.

2.4.4 Contribuições Pós-Junguianas de Nise da Silveira à Terapia Ocupacional

Em 1940 a Psiquiatra Nise da Silveira depara-se com uma prática médica


insustentável do ponto de vista humanitário. Agressões cruéis eram realizadas
comumente como técnicas médicas funcionais, regidas por um modelo médico
cartesiano que entendia que, a causa do indivíduo doente, com algum aspecto
psíquico disfuncional, era alguma parte (literalmente parte) do cérebro deste que
estava com deficiência. Em resposta a tais “falhas mecânicas”, as principais técnicas
terapêuticas aplicadas eram eletrochoque, insulinoterapia, lobotomia, confinamento,
entre outras.
91

Como resposta, cria no Centro Psiquiátrico Pedro II a Sessão de Terapia


Ocupacional, com a intenção de dar aos pacientes mais do que ocupação ou utilizá-
los como mão de obra, como era de costume na época, mas procurando beneficiar
os indivíduos ali internados com atividades que lhes possibilitasse um meio de
expressão e de resgate de sua individualidade. As respostas de suas técnicas
deram-se rapidamente.

Através desse método, os resultados não demoraram a aparecer: as


melhorar clinicas se acentuavam e, dentre as atividades oferecidas, pintura
e modelagem se destacaram, gerando uma grande produção, que ela logo
percebeu ser um meio de acesso ao imaginário mundo interno do
esquizofrênico (MELLO s.d. apud SILVEIRA, 1990, p.5).

Surgiram intrigantes imagens, símbolos e temas incoerentes para as


condições deficitárias que se encontravam os pacientes, e reuniu essas obras
objetivando o desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre seus significados e a
psique humana, fundando em 1952 o Museu de Imagens do Inconsciente.

Observava que muitas dessas imagens configuravam formas circulares ou


próximas do círculo – símbolos de unidade e ordenação [...]. Como
pessoas que perderam a unidade do pensamento, instância máxima da
consciência, poderiam produzir em grande quantidade os símbolos da
unidade? E por quê? (SILVEIRA, 1990, p.6).

Reunindo diversas fotografias, Nise da Silveira resolve escrever uma carta


para C. G. Jung na tentativa de obter algum esclarecimento sobre tais fenômenos e
sua resposta não tardou. Jung explica que tais imagens correspondiam a um
potencial autocurativo da psique, em oposição a dissociação, uma manifestação
espontânea do inconsciente para compensar a situação caótica vivida por estes
indivíduos.

Aplicando à terapêutica Ocupacional as descobertas de Jung, abrem-se


novas perspectivas para esse método, tanto para neuróticos como para
psicóticos. O exercício da atividade poderá enriquecer de importante
significação psicológica. Compreender-se-á, por exemplo, o valor
terapêutico que virá adquirir a proposta ao doente mais regredido de
atividades vivenciadas e utilizadas pelo homem mais primitivo para exprimir
suas violentas emoções. Em vez dos impulsos arcaicos exteriorizarem-se
desabridamente, lhe fornecemos o declive que a espécie humana sulcou
para exprimi-los: dança, representações mímicas, pintura, modelagem,
música. Será o mais simples e o mais eficaz (SILVEIRA, 1990, p.7).
92

Confirmou-se aí, que as atividades expressivas, além de possuírem validade


terapêutica, eram também excelente meio para o conhecimento dos processos que
se desenrolam na obscuridade do inconsciente, destacando-se entre eles, um
sistema auto-regulador, um mecanismo homeostático da consciência gerado pelo
inconsciente, e que, quando favorecida a possibilidade de exteriorização de
conteúdos internos ordenados por esse sistema, ocorre a re-integração na psique.

2.5 OUTRAS CONTRIBUIÇÕES NECESSÁRIAS AO ESTUDO DE CASO

Apresenta-se aqui a elucidação de outras contribuições cujas origens diferem-


se da psicanálise, entretanto possuem valor científico necessário para os aspectos
que serão estudados no estudo de caso apresentado neste. Faz-se importante
referir que este item, assim como o anterior, também não faz referência direta aos
procedimentos da terapia ocupacional. Tais referências são realizadas durante o
estudo de caso.

2.5.1 A Terapia Sistêmica

Partindo do princípio que o meio social é parte inerente do processo de


constituição da subjetividade humana, e da mesma forma, agente ativo da
constituição dos processos disfuncionais na estrutura psíquica, a proposta deu-se da
necessidade de fundamentar técnicas de saúde mental neste complexo conceito do
desequilíbrio de um sistema constituído da inter-relação humana.
O advento da Terapia Sistêmica foi marcado pela interdiciplinariedade,
iniciando-se nos anos 40 e praticado pela primeira vez em uma família de
esquizofrênicos nos anos 50. O pensamento sistêmico proposto por Von Bertalanffy
(profundo estudioso da cibernética), iniciou-se em campos distantes da psicoterapia
e até mesmo da psicologia. Enquanto a teoria geral dos sistemas propunha-se a
estudar as correspondências ou isomorfismos entre os sistemas de todo o tipo, a
cibernética ocupava-se dos processos de comunicação e controle nestes sistemas.
93

A aplicação deste pensamento à prática psicoterápica teve como perspectiva


central o olhar do antropólogo Gregory Bateson, que transforma o conceito de
informação para as praticas relacionais e circulares ao dizer que o “observado tem a
marca de quem observa”, com a cooperação do psiquiatra Don Jackson (o primeiro
a utilizar o termo homeostasia familiar), e da assistente social Virginia Satir que
trabalhava com crianças e famílias.

[...] Esta equipe constituída por homens de diferentes formações


académicas (antropologia, engenharia, comunicação e psiquiatria)
desempenhou um papel determinante para a génese da abordagem
sistémica. [...] mudando assim fundamentalmente a perspectiva
terapêutica: a terapia deixou de estar centrada exclusivamente no indivíduo
e nos seus problemas intrapsíquicos para passar a englobar o sistema
familiar e a rede social (PARDAL, 2000, p.24).

As contribuições de uma epistemologia sistêmico-cibernética para a prática da


psicoterapia implicaram primeiro, na mudança paradigmática que enfatizou a
importância do contexto para a compreensão dos problemas do homem, que esta
em inter-relação com o outro; e segundo, na organização da prática em torno do
conceito de causalidade circular e não mais linear, de causa e efeito. Portanto
entende-se que os seres vivos organizam seus comportamentos dentro de uma
trama de relações.

2.5.1.1 A Terapia Sistêmica Familiar

[...] a família é encarada como um conjunto de pessoas entre as quais


existem de um modo repetitivo interacções circulares, ou seja, o
comportamento de um dos seus membros afecta todos os outros
elementos e estes funcionam em reciprocidade. Assim, a terapia está
orientada para uma mudança na estrutura familiar pois, quando a estrutura
familiar é transformada, as posições dos membros nesse grupo ficam
alteradas e, por consequência, as experiências de cada indivíduo mudam.
(PARDAL, 2000, p.24)
94

A terapia sistêmica da família organizou-se em torno de conceitos básicos


definidores de sistemas, como refere Adriana Carbone:

Globalidade - um todo coeso é como se comporta um sistema, o que


implica que a mudança de uma parte altera todas as outras partes e o
sistema como um todo; Não-somatividade - um sistema não pode ser
considerado como a soma de suas partes; Homeostase - processo de auto-
regulação que mantém a estabilidade do sistema; Morfogênese -
capacidade do sistema em absorver inputs do meio e mudar sua
organização (sistemas abertos); Circularidade - a relação entre quaisquer
dos elementos do sistema é bilateral, o que pressupõe uma interação que
manifesta-se como sequência circular; Retroalimentação - garante o
funcionamento circular pelo mecanismo de circulação da informação entre
os componentes do sistema por princípio de feedback (negativo funciona
para manutenção da homeostasia e o positivo que responde pela mudança
sistêmica); Equifinalidade – independentemente de qual for o ponto de
partida, um sistema aberto apresenta uma organização que garante os
resultados de seu funcionamento (CARBONE, 2007).

Em torno desses conceitos a Terapia Sistêmica Familiar foi estruturada


entendendo a família como um sistema aberto que se auto governa por meio de
regras e um padrão de comunicação, mantendo uma interdependência entre os
membros e com o meio no que diz respeito a troca de informações e usa de
recursos de retro-alimentação para manter o grau de equilíbrio em torno das
transações entre os membros.
A Terapia Sistêmica Familiar tem como principais indicações, os problemas
com várias pessoas da mesma família, problemas evidentes de relacionamentos
entre pais, violência, alcoolismo, drogadicção, distúrbio psíquico, luto patológico
entre outros. Carbone (2007) refere que “O aspecto fundamental é a de que o ser
“doente” ou a pessoa que apresenta problemas é apenas um representante
circunstancial de alguma disfunção no sistema familiar”.
O modelo sistêmico dá ênfase ao transtorno individual como expressão de
padrões inadequados de interações familiares, enquanto o modelo tradicional de
práticas psicoterapêuticas considera o tratamento do transtorno mental apenas na
intervenção das forças internas ou intra-psiquícas geradoras dos conflitos,
focalizando unicamente o indivíduo no processo terapêutico, mesmo que seus
transtornos sejam decorrentes do seu meio.
95

Curiosamente, um filho pode ser consultor ou co-terapeuta do terapeuta no


atendimento da família, sendo sua ajuda solicitada para que juntos, terapeuta e filho
possam ajudar o grupo. Tenta-se dissolver o foco da criança como problema, o
“Bode expiatório”, o que é muito comum.

2.5.1.1.1 O Paciente Identificado

A partir do casamento, o casal passa a vivenciar a relação a dois, procurando


seu ponto de equilíbrio. Nesta busca, chegam os filhos que, muitas vezes,
representam uma exigência indireta da sociedade, dos pais e até uma tentativa do
próprio casal de superar algumas dificuldades no relacionamento. Um filho pode
ocupar diferentes lugares na família.

O Paciente Identificado é alguém que exerce o sintoma de um sistema,


onde o sintoma serve a uma função homeostática ou a uma função
evolutiva – “isto é, se ele está a serviço de manter a família a mesma ou
encorajando-a a evoluir para um estágio diferente” (PAPP, 1992, p.24).

E uma segunda consideração respectiva ao Paciente Identificado:

Uma família cujo funcionamento é repleto de dificuldades é aquela que


responde as exigências internas e externas de mudança padronizando seu
funcionamento. Significa que relaciona-se sempre da mesma maneira, uma
forma rígida, que não permite possibilidades de alternativa, ocorrendo um
bloqueio no processo de comunicação familiar. Paradoxalmente, ainda que
este comportamento pareça doentio, ele tem que ser mantido, mesmo que
para isso um membro da família seja eleito para 'ser' ou 'ter' o problema.
Os sintomas do 'paciente identificado' constituem a expressão de uma
disfunção familiar e o tratamento deve ser feito considerando as inter-
relações que se estabelecem no grupo. As famílias que estão doentes
podem eleger um dos membros para 'representar' a doença da família [...]
(SAMPAIO, 2007).
96

O indivíduo portador do sintoma, na família, recebe o nome de paciente


identificado. Ele é o elemento que “porta o problema” do grupo, conhecido na terapia
sistêmica por "dar uma carona a todos".

O que habitualmente leva uma família à terapia são os sintomas de um


dos seus membros. Ele é o paciente identificado, a quem a família
classifica como “tendo problemas” ou “sendo o problema”. Mas, quando
uma família rotula um dos seus membros como “o paciente”, os sintomas o
paciente identificado podem ser pressupostos como sendo um recurso de
um sistema em manutenção ou de um sistema mantido. Os sintomas
podem constituir uma expressão de uma disfunção familiar. Ou podem ter
surgido no membro individual da família, devido a circunstâncias da sua
vida particular e, então, terem sido apoiados pelo sistema familiar. Em
qualquer caso, o consenso familiar de que um membro é o problema
indica que, em algum nível, o sintoma está a ser reforçado pelo sistema
(MINUCHIN, 1982, p.108).

O Paciente identificado é uma tentativa de equilíbrio de um sistema


disfuncional em si; o eleito, com a finalidade de servir aos demais, e isso com sua
vida, submetendo-se a essa exigência em um processo auto-destrutivo. Torna-se o
depositário dos problemas subjacentes do grupo.
O indivíduo torna-se “o” membro problemático por meio dos principais
controladores do grupo (comummente os pais), e, por decorrência da pressão
emocional incumbida, este se dá acreditado em ser realmente o único e grave
problema. Consequentemente assumi todas as responsabilidades sobre o ato
familiar.
Faz-se importante referir que, como os pais são os principais transmissores
de conhecimento (afetivo e intelectual) da estrutura psíquica do indivíduo, e, em
especial neste caso, os limites (o superego), os filhos tornam-se muito sucessíveis
as suas pressões e desejos.
A família vive uma ilusão supondo que, se resolver o problema deste
indivíduo, os demais problemas serão resolvidos. A família persegue o “bode
expiatório”, fantasiando que ao livrar-se dele, livra-se dos conteúdos indesejáveis
nele projetados.

A família tem geralmente identificado num membro a localização do


problema.[...] E espera que o terapeuta se concentre nesse indivíduo,
trabalhando para mudá-lo. Para o terapeuta de família, porém, o paciente
identificado é somente o portador do sintoma; a causa do problema são as
transações disfuncionais da família; e o processo de cura envolverá a
mudança destas transações disfuncionais (MINUCHIN; FISHMAN, 1990,
p.37).
97

Os conteúdos problemáticos dos principais elementos coordenadores do


grupo (dos pais) são projetados e introjetados nos filhos, não sendo mais preciso
que ele funcione como intermédio entre os pais e suas dificuldades emocionais. O
“Bode Espiatório” é elemento importantíssimo para o terapeuta quando o enfoque do
trabalho é o grupo, na medida em que é porta voz da problemática familiar e via de
acesso ao inconsciente familiar, pois expressa os conteúdos que na verdade são de
todos. Ex: o "menino capeta" consegue monopolizar as atenções para si, fazendo
com que a irmã se torne a menina mais perfeita e melhor filha possível para rivalizar
com o irmão. Competia com o irmão com a perfeição, uma vez que o mesmo usava-
se da agressividade. Ainda que este comportamento soe doentio, ele tem que ser
mantido, mesmo que para isso um membro da família seja eleito para “ser” ou “ter” o
problema. Os sintomas do paciente identificado constituem a expressão de uma
disfunção familiar e o tratamento deve ser feito considerando as inter-relações que
se estabelecem no grupo.

A única estrutura familiar imediatamente acessível a um terapeuta é a


estrutura disfuncional. Uma das tarefas que enfrenta é a de investigar essa
estrutura e de localizar áreas de possível flexibilidade e mudança. O seu
imput põe em relevo partes da estrutura familiar que estiveram submersas.
As alternativas estruturais que permaneceram inertes tornam-se activas.
Se o terapeuta, então, tem a flexibilidade de se desligar e observar o efeito
das suas investigações, estas esclarecerão o seu quadro diagnóstico da
família.” (MINUCHIN, 1982, p.92).

Pode-se falar em dois modelos básicos de desestruturação nas relações


familiares: as famílias “cindidas” e as famílias “simbióticas”. Nas primeiras, os
membros das famílias não conseguem se relacionar entre si. Encontram-se
divididos, dispersos. Funcionam e se relacionam como se, ao ficarem juntos, todos
corressem riscos do ponto de vista emocional. Assim, as pessoas não podem ter um
relacionamento afetivo, são frias entre si. A doença dessas famílias cindidas está na
dificuldade de convívio. Os membros percebem que ao conviverem entre si eles se
machucam e se afetam negativamente, uns aos outros. Já no extremo oposto,
temos as famílias simbióticas, aquelas em que os membros da família vivem num
estado de fusão. Não há diferenciação entre os papéis familiares, estes são
confusos e não divididos. As pessoas sentem dificuldades em viver independente
dos outros membros da família, estão num estado de constante 'grude'.
98

Em ambos os casos, está-se falando de doenças familiares do ponto de vista


do desenvolvimento afetivo, inter-relacional e de organização psíquica. Com relação
as famílias simbióticas, refere Minuchin (1982, p.111):

O uso de si mesmo, que o terapeuta faz para apoiar os membros da


família, é particularmente crucial no trabalho com famílias patologicamente
emaranhadas. Em todas as famílias emaranhadas, os processos de
diferenciação estão embaraçados. Na esfera patológica, a falta de
diferenciação da família torna qualquer separação da família um acto de
traição. [...] Entrando nesta situação, o terapeuta trabalha para demarcar
pistas psicológicas e interaccionais. Mas ao tentar retirar um membro do
sistema familiar, descobrirá que o sistema atrai mais fortemente do que ele
pode fazê-lo. É impossível desligar do sistema um membro, a menos que,
ao mesmo tempo, ele esteja ligado num nível diferente.

O estudo de caso que será apresentado neste trabalho aludirá o paciente


identificado toxicomaníaco (dependente químico) e suas relações sociais de
características simbióticas e cindidas no mesmo núcleo. Faz-se importante a
referencia do Dr. Eduardo Kalina a respeito do papel assumido pelo paciente
identificado e seu movimento de auto-extermínio, seguindo a dinâmica familiar de
destruir o suposto agente conflitante:

O filho de alguma maneira toma isto inconscientemente, dedica-se a


acalmar a família, então ele, a pessoa que entra nas drogas, sem tomar
consciência disso, assume um papel, é um grande ator nesse sentido, por
que cumpre perfeitamente o roteiro pré-estabelecido, ele pensa que é um
rebelde, que é original e tudo isto, mas não, ele está fazendo um papel de
“babaca”, por que cumpre rigorosamente esse papel e é uma pessoa
profundamente sacrificada, por oferecer sua liberdade e aceitar uma
escravidão. A toxicomania é uma escravidão. [...] O dependente assume
essa escravidão, a mãe joga esse papel e ele atua, representa com grande
dedicação e é profundamente abnegado ao serviço desses interesses
familiares. Quando tudo isso não pode se manter, de alguma forma a
família condiciona a eliminá-lo, a destruí-lo, condiciona ao que chamo de
pacto criminoso, induzem o dependente a uma morte.[...] Quando nós
estudamos quem escreveu o roteiro para que ele chegasse a esse ponto,
encontramos que ele cumpre um papel como em um roteiro em que há de
se eliminar para equilibrar o sistema (KALINA s.d. apud PROENÇA et al.,
2006).
99

3 METODOLOGIA

Seguem considerações a respeito do método de abordagem utilizado para


este trabalho, de acordo com suas especificidades e adequações.

3.1 TIPO DE PESQUISA

O estudo foi realizado a partir da abordagem qualitativa, por consideramos o


método mais adequado aos valores da subjetividade humana e sua expressões,
como referem Minayo et al. (1994, p.21-22):

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se


preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode
ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados,
motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um
espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que
não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

A abordagem qualitativa fornece subsídios para a execução de uma pesquisa


de campo com relatos de estudo de caso, que leva em consideração aspectos
fenomenológicos de referência em causa psicanalítica, considerando esta possuir
sua fundamentação nas manifestações do inconsciente direcionadas e expressadas
por um meio determinado à concretização material por meio da atividade.
A pesquisa é considerada um procedimento formal com método de
pensamento reflexivo que necessita de um tratamento especifico, e se constitui no
caminho para conhecer a realidade ou para descobrir verdades parciais, como
elucida Ander-Egg “é um processo reflexivo sistemático, controlado e critico, que
permite descobrir novos fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo de
conhecimento” (apud LAKATOS et al., 2000 , p. 44).
100

Para Ander, significa muito mais do que apenas procurar as verdades: é


encontrar respostas para as questões propostas, utilizando métodos científicos.
Toda a pesquisa implica o levantamento de dados de variadas fontes, quaisquer que
sejam os métodos ou técnicas empregadas.
Os dois processos pelos quais se podem obter dados são a documentação
direta e a indireta, sendo método da pesquisa a documentação direta que se
constitui, em geral, no levantamento de dados no próprio local onde os fenômenos
ocorrem.

Esses dados podem ser adquiridos através de pesquisa de campo, como


se admitiu usar nesta pesquisa por se utilizar de técnicas de observação
direta e intensiva (observação e entrevista) e de observação direta
extensiva (medidas de opinião) (LAKATOS et al., 2000, p.110).

3.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA

De trezentos pacientes usuários ativos do CAPS álcool e drogas, do


Município de Joinville, SC, toxicômanos de faixa etária entre 14 e 65 anos, atendeu-
se uma demanda aberta de 12 pacientes/mês por 2 anos, desses, foram
selecionados 15 atendimentos/usuários, e, por fim escolhido apenas 1 usuário, do
sexo feminino representante da pesquisa para aplicação da abordagem.

3.3 VARIÁVEIS

Pode-se imaginar, figurativamente, o contexto científico constituído de três


níveis: no primeiro, ocorrem as observações de fatos, fenômenos, comportamentos
e atividades reais; no segundo, encontramos os conceitos ou constructos em forma
de hipóteses; e no terceiro, surgem as teorias, hipóteses válidas e sustentáveis
pelos constructos e termos teóricos. O que nos interessa, na realidade, é a
passagem do segundo para o primeiro nível, o que ocorre mediante a definição
operacional, com a delimitação das variáveis. Portanto uma variável pode ser
considerada uma classificação ou medida; uma quantidade que varia; um conceito,
constructo ou conceito operacional que contem ou apresente valores; aspectos,
propriedade ou fator, discernível em um objeto de estudo e passível de mensuração.
101

Em referência, Korn considera que “variável é o aspecto discernível de um


objeto de estudo; são aspectos individuais que podem assumir valores distintos e
serem medidos para testar a relação enunciada por uma proposição” (apud
LAKATOS et al., 2000, p.175).
Sendo o indivíduo o nosso objeto de estudo presente nesta pesquisa,
possuidor de transtorno psíquico determinado pelo sistema de relação homem-
sociedade-meio ambiente, a proposição enunciada seria a de que as atividades de
características psicodinâmicas expressam em qualquer indivíduo conteúdos internos
e inconscientes específicos de sua necessidade homeostática; valores distintos de
acordo com a natureza e especificidade da atividade proposta perante o indivíduo,
ou seja, uma relação entre a natureza, os materiais selecionados e o inconsciente
humano.
Os valores que são adicionados ao conceito, constructo ou conceito
operacional, para transformá-lo em variável, podem ser quantidade, qualidades,
características, magnitudes, traços, etc; que se alteram em cada caso particular e
são totalmente abrangentes e mutuamente exclusivos. Por sua vez, o conceito
operacional pode ser um objeto, processo, agente, fenômeno, problema, etc.
Seguindo essas considerações, obtêm-se como variáveis constituintes desta
abordagem:

• Atividades expressivas possuidoras de funções diagnóstica e terapêuticas


de conteúdos intrapsíquicos;

• As atividades expressivas são prescritas de acordo com as especificações


relacionais com o indivíduo em questão, considerando primordialmente as
características plásticas, simbólicas, ansiogênicas, estruturantes,
projetivas, identificadoras da projeção, entre outras;

• A maleabilidade e plasticidade das atividades expressivas possibilitam


uma comunicação não verbal existente entre indivíduo e o meio através do
mecanismo de “Projeção”, uma capacidade intrínseca humana de
exteriorização dos conteúdos psíquicos, que permite a exposição de
conflitos internos;
102

• A concretização dos conteúdos intra-psíquicos no material maleável das


atividades proporciona a identificação dos conteúdos projetados,
promovendo insight consciente de conteúdos pertinentes à homeostase
psíquica do indivíduo em questão;

• A via de comunicação de informações intrapsíquica (favorecida por meio


das atividades expressivas de natureza plástica e maleável) faz-se
funcional perante os mecanismos de defesa (egóicos) do indivíduo que
apresentam-se incapazes de vetar tal exteriorização;

• Por meio da atividade, a ativação de conteúdos afetivos embotados


(recalques) promove maior vínculo com a realidade (interna e externa) do
indivíduo em questão, e de forma rápida e concisa; seqüencialmente
favorece aspectos relacionados a auto-imagem e auto-estima
(reestruturação do Ego);

• A projeção e identificação projetiva de conteúdos intrapsíquicos


expressados nas atividades de natureza plástica e maleável podem
possibilitar uma terapêutica desencadeadora de processo catártico;

• As atividades expressivas de natureza plástica e maleável possibilitam o


desencadeamento do mecanismo auto-regulador do processo de
individuação, conforme seu equilíbrio com o meio.

3.4 INSTRUMENTOS E MATERIAIS

Utilizaram-se como constituintes para a execução da pesquisa materiais


variados que se tornaram as atividades criadas pelos pacientes, sendo esses a
argila, tintas de cores variadas, folhas de papéis e cartolina. Quanto aos
instrumentos para as atividades, utilizaram-se pincéis de variados tamanhos; uma
faca para auxiliar em detalhes na argila; uma chapa de madeira como objeto auxiliar
na atividade de argila; e teclado musical para as atividades de canto.
103

Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se nos atendimentos


individuais e grupais a observação da participação dos usuários e seus depoimentos
verbais; registrou-se esses por meio de anotações em diário de campo e, referente
as atividades plásticas, utilizou-se câmera fotográfica.

3.5 PROCEDIMENTOS

O embasamento teórico encontrado e seus métodos de intervenções


subsidiaram potencialmente as atividades como recurso terapêutico, essas sendo
consideradas um meio eficaz para acesso aos conteúdos psíquicos conflitantes
(conscientes e inconscientes) do indivíduo; uma via à expressão destes em uma
realidade palpável e concreta. Dessa aquisição de informações obteve-se duas
partes principais dessa pesquisa, uma puramente psicanalítica sob embasamentos
dos pesquisadores do inconsciente humano, e a outra dos pesquisadores
(terapeutas ocupacionais) da expressão do inconsciente por meio de atividades
específicas.
Definindo a intervenção, buscou-se uma população que possuísse um estado
atual de predisposições para aplicação da pesquisa, sem levar em conta aspectos
como sexo, idade e demais variáveis físicas, mas sim, o quadro patológico que
subsidiaria a aplicação, essa, a abordagem psicodinâmica em Terapia Ocupacional.
Optou-se então pela demanda encontrada no CAPSad (Cento de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas) da região, considerando que este é constituinte de
pessoas com dependência química, um quadro patológico complexo, de estruturas
afetivas variadas e com diferentes manifestações psicopatológicas.
Deu-se início as aplicações optando-se pela utilização das atividades de
Canto, Pintura e Argila com os devidos relatos e coletas para a pesquisa, sendo esta
ultima atividade de duas formas diferentes, a criação livre e a criação dirigida.
104

Considerando o tema e os variados componentes para aplicação da


pesquisa, como população, instituição e os referenciais teóricos, obteve-se os
resultados abordados a seguir.

• 19/02/2004 – Data de entrada da paciente na Instituição.

• 30/08/2006 – Início do atendimento terapêutico ocupacional - grupo de


canto como recurso terapêutico.

• 20/09/2006 – Alteração do grupo terapêutico por sugestão da paciente.

• 06/10/2006 – Apresentação pública do Grupo de Canto

• 17/01/2007 – Início do atendimento terapêutico ocupacional individual -


atividade de pintura como recurso terapêutico.

• 24/01/2007 – Atividade de argila como recurso terapêutico – livre


criação.

• 30/01/2007 – Atividade de argila como recurso terapêutico - criação


dirigida.
105

4 ESTUDO DE CASO - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO

Este capítulo apresentará o estudo de caso cuja contribuição terapêutica se


deu por meio das técnicas de Terapia Ocupacional Psicodinâmica. O embasamento
teórico realizado até então neste trabalho é de importante relevância para a devida
compreensão deste.

4.1 BREVE HISTÓRICO DO PACIENTE

Paciente MLT, procurou o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas


(CAPSad) em 19/02/2004, com a queixa principal de Uso abusivo de Álcool e
Cocaína e Depressão. Possui um histórico de vida bastante agressivo, com rejeição
familiar desde a primeira infância, episódios de agressões físicas por parte da família
(principalmente do pai), acidente com queimaduras de 3o grau em cerca de 40% do
corpo quando tinha sete anos sem mencionar procedência, entre outras situações
traumáticas muito agressivas não permitidas pela paciente à exposição neste
estudo. Em investigação, relatou que sua infância foi um “inferno”, casou-se na
tentativa de resolver seus problemas e assim “criou-os mais ainda” pois, casou-se
com um indivíduo alcoolista, teve três filhos e reside perto da família original. Refere
não conseguir se divorciar porque o marido não permite, ou outrora, por causa dos
filhos. Afirma ser a “ovelha-negra” da família, e também, aquela que faz tudo para
todos.
Os procedimentos realizados desde a entrada no serviço até o início das
sessões terapêuticas ocupacionais (período de dois anos e meio) basearam-se em
diversos grupos terapêuticos específicos de dependência química e principalmente
atendimentos psicoterapêuticos individuais, apresentando considerável melhora
emocional, relacional e abstinência do uso das substâncias psicotrópicas,
apresentando poucos episódios de recaída.
106

As práticas psicoterapêuticas utilizadas em seu tratamento foram baseadas


na Terapia Sistêmica Familiar e a Terapia Cognitivo-Comportamental. A Terapia
Sistêmica Familiar classificou a paciente como o “Paciente Identificado”9 do grupo
patológico. A Terapia Coginitivo-Comportametal trabalhou suas questões relacionais
com esse grupo e todo o meio social, a dependência química, e um enfoque na
identificação das emoções reativas que favoreciam recaídas no uso de substâncias
e que reafirmavam o posicionamento agressor do grupo em seu detrimento.
Foi Iniciado o trabalho terapêutico ocupacional em 30/08/2006, encaminhada
pela psicóloga indicando a necessidade de trabalhar seu embotamento afetivo. A
atividade escolhida para o tratamento foi “O Grupo de Canto”. A paciente aceitou a
participação sob a condição de primeiramente conhecer, e posteriormente decidiria
sob a continuação.

4.1.1 Considerações A Respeito da Patologia “Dependência Química”


Segundo Contribuições Psicanalíticas

O Dependente Químico possui um padrão de necessitar “fugir da realidade”,


pois a mesma é incompatível e/ou agressiva para ele. Considera-se esse
comportamento um desequilíbrio relacional. Dessa relação podemos citar
características observáveis comuns como a “dependência de algo externo na
tentativa de equilíbrio” (a droga, pessoas), a “necessidade de alteração de
personalidade”, “imediatismo na auto-satisfação”, a “tendência ao auto-extermínio”, a
“necessidade de contestar autoridade”, entre muitas outras. A teorias das relações
objetais10 e objetos transicionais11 possuem profunda fertilização nesse contexto.

9
Ver Paciente Identificado em “Outras contribuições para o Estudo de Caso”, “A Terapia Sistêmica” e
“A Terapia Sistêmica Familiar” p.95.
10
Ver Relações Objetais em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana” e “Relações Objetais”
p.55.
11
Ver Objeto Transicional em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana” e “Fenômenos
Transicionais – Objetos Transicionais” p.63.
107

Fazendo um paralelo entre drogadicção e objetos transicionais, refere Joyce


McDougall12 ( s.d. apud OUTEIRAL, 1999, p.2-3):

Uma mãe, em função de seus próprios desejos e medos inconscientes


(ansiedades, imaturidade, sentimentos de depressão e desamparo, etc.),
pode induzir no bebê uma relação aditiva à sua presença e aos seus
cuidados (por exemplo, quando experimenta ela própria sentimentos de
solidão), o bebê poderá ser tratado não como uma pessoa em
desenvolvimento, mas como um “acompanhante“ [...] que não a deixará –
porque ela não permitirá. [...] Este laço aditivo pode impedir a maturação do
desenvolvimento dos fenômenos transicionais (seguindo a concepção de
Winnicott, ao referir-se ao uso que a criança faz, por exemplo, da
“fraldinha“ [ chupar o dedo, bico, cobertor, etc. ] possibilitam à criança
enfrentar a progressiva separação da mãe – condição necessária ao
desenvolvimento- fazer a primeira descoberta do não-eu e ingresso no
mundo dos símbolos) Neste caso, a criança não tem a possibilidade de
criar seus próprios recursos psíquicos para superar tensões
superexcitantes ou perigosas (traumáticas), o que coloca em perigo sua
capacidade de estar só e a presença materna será ativamente (e
constantemente) solicitada.

E referindo a drogadicção como substituição futura dessa solicitação:

Este objeto é percebido como bom e também como aquilo que dá sentido à
vida. Ele oferece a ilusão de atenuar as dificuldades da vida cotidiana [...].
As condutas aditivas visam a descarga rápida de qualquer tensão psíquica
em diversas circunstâncias da vida cotidiana. [...] Para tapar a falha do
objeto materno que cuida , o sujeito vai procurar no mundo externo um
substituto (através das drogadições, por exemplo) dos objetos faltantes em
seu mundo interno (cuidados parentais suficientemente bons). Graças ao
objeto da adição, jamais sofrerá a decepção pelo objeto que faltou na
infância. Todo objeto ameaçador será descarregado na atividade aditiva
(MCDOUGALL s.d. apud OUTEIRAL, 1999, p.2-3).

De acordo com essas teorias, o desequilíbrio com o meio (nessa caso, a


drogadicção e todos os aspectos comportamentais e afetivos do contexto) está
relacionado a uma alteração de percepção de realidade, onde aquilo se percebe
possui potencial afetivo de conteúdos internos projetados ao ambiente externo. Essa
problemática tem suas origens nas primeiras relações entre o indivíduo e o meio, na
relação do bebê com o seio materno.

12
Ver considerações de Joyce McDougall sobre drogadicção e objeto transicional em “Revisão de
Literatura”, “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana”, “Fenômenos Transicionais – Objetos
Transicionais” e “Transicionalidade, Patologia e Drogadicção” p.67.
108

Segundo consta, durante as primeiras mamadas o bebê não verifica o seio


como algo diferente dele, e sim que o objeto de satisfação é originado de sua
necessidade (projeção), e a mãe por sua vez deve favorecer afetivamente tal ilusão.
Até aqui, aquilo que o bebê identifica no seio é um elemento interno projetado no
meio externo. Com o passar do tempo (e favorecimento materno) esse primeiro
objeto externo passa por uma transição para o bebê que não o identifica mais como
sua extensão, mas sim verifica agora a realidade: um objeto externo que independe
dele e que ele pode usar em seu benefício. A partir dessa relação o indivíduo esta
pronto para “criar” para si o mundo externo; se constituindo internamente de acordo
com os afetos proeminentes da relação num inerente movimento de constituição
interna/externa.
Entretanto, caso a mãe não favoreça o suporte afetivo necessário para o
desenvolvimento do bebê ao meio, a “desmistificação” (transição) do objeto não
ocorre por completa. O indivíduo carregará a “dívida” de verificar seus conteúdos
internos no meio externo, e no meio externo buscará meios que substituam as
primeiras relações objetais, essas possuidoras de prazer e economia psíquica;
saciando a ansiedade resultada do próprio déficit.
Os indícios que levam a acreditar em déficits no desenvolvimento da paciente
em questão são reconhecidos pelas sintomáticas apresentadas, as quais podemos
relacionar: Drogadicção (resgate de um objeto (o seio) que fornece sentimentos
favoráveis); ansiedade ao meio externo13; necessidade de relacionamentos
simbióticos14 (não se sente suficientemente segura e capaz com sigo, necessita
satisfazer os outro pelo medo da perda da referencia, mesmo que essa referência
externa seja destrutiva a ela).

13
Informações adquiridas de acordo com o prontuário da paciente e equipe multidisciplinar.
14
Idem.
109

4.2 30/08/2006: O GRUPO DE CANTO COMO RECURSO TERAPÊUTICO

Considerando o embotamento afetivo a necessidade referida pela psicóloga


que prescreveu a Terapia Ocupacional, o “Grupo de Canto” faz-se uma ferramenta
extremamente funcional, pois a música15 remete ao indivíduo emoções e expressões
de conteúdos de sua natureza, muitas dessas que se encontram reprimidas16 pelo
formato social ou especificidades do indivíduo, onde as expressões cotidianas (falas
e gestos cotidianos) moldam-se nessas limitações em detrimento da saúde.
Durante exercícios antecedentes (respiração e relaxamento) a paciente
obteve muita dificuldade em manter os olhos fechados observando “a tudo e a
todos” de forma muito desconfiada e assustada, e referiu algumas vezes sua
dificuldade em concentrar-se na narrativa do terapeuta. “Não consigo prestar
atenção no exercício! Parece que minha cabeça não pára!” [SIC]. Já inicialmente se
fez notório o seu excessivo “apego” ao ambiente externo em detrimento ao ambiente
interno, característica essa que se manteve nos grupos de sucederam.
De certa forma, existia medo de exteriorizar (para ela e para os demais)
afetos proibidos ao Ego17, e dessa maneira “cuidava” de forma paranóica para que
ninguém a observasse (conferisse a projeção18 de seus conteúdos reprimidos) e, ao
mesmo tempo, mantinha uma excessiva intelectualização que é também uma defesa
egóica19, ou seja, ao se ocupar tanto com o ambiente externo desvia a energia que
deveria revelar o interno, suas dores, repressões e demais sentimentos.

A Projeção era vista por Freud como central também à construção das
fobias [...]. Na fobia, a ameaça instintual, que põe em perigo o ego desde
dentro, é “projetada” na realidade externa, onde pode ser mais facilmente
controlada pela evitação fóbica (SANDLER, 1989, p.14).

15
Ver Música em “A Referência de Rui Chamone Jorge na Terapia Ocupacional”, “As Especificidades
Terapêuticas das Atividades por Chamone” e “A Música” p.34.
16
Ver Conteúdos Reprimidos em “Teorizações Psicanalíticas”, “Contribuições da Psicanálise
Freudiana” e “A Síndrome da Repressão – O Recalque” p.41.
17
Ver Ego em duas fontes: primeira em “Contribuições da Psicanálise Freudiana”, “Modelo Estrutural
do Aparelho Psíquico” e “O Ego” p.52; a segunda em “Contribuições da Psicologia Analítica ou
Complexa de Jung” e “O Consciente e o Ego (de Jung)” p.72.
18
Ver Projeção em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana” e “Importantes mecanismos
referentes as Relações Objetais” p.59.
19
Ver Mecanismos de Defesa em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana” e “Mecanismos de
Defesa” p.54.
110

E a referida citação de Freud:

[...] por meio de todo mecanismo defensivo [...] uma projeção, para fora,
para fora do perigo instintal foi alcançada. O ego se comporta como se o
perigo de um desenvolvimento da ansiedade o ameaçasse não desde a
direção de um impulso instintal, mas da direção de uma percepção, ficando
assim capacitado a agir contra este perigo externo com as tentativas de
fuga representadas pelas evitações fóbicas (FREUD apud SANDLER,
1989, p.14).

Neste primeiro encontro, o seu envolvimento com o canto em si foi muito


superficial, já o relacionamento social com o grupo demonstrou-se bastante
tranqüilo. Como haviam pacientes mais inadequados socialmente e superficialmente
que MLT, a mesma apresentou-se, de certa forma, confortável, observando
criticamente os demais, esses que não representavam à ela qualquer perigo de
autoridade superior, e ao cantar, só “mexia a boca” apenas simulando que estava
cantando.
É comum verificar nos indivíduos que participam inicialmente do grupo de
canto (excepcionalmente com indivíduos dependentes químicos em fase de
recuperação, que apresentam baixa auto-estima) uma predominância de defesas
egóicas projetadas à atividade (por meio de voz baixa e tremula, por vezes não
cantando, apenas “mexendo a boca”; mãos unidas, uma esfregando a outra; braços
cruzados ou para trás; apoiar-se em apenas uma perna ou segurar um objeto
próximo; encostar-se na parede, e etc.), contudo, na mesma sessão, após muito
incentivo e trabalho grupal, os que mais apresentam tais defesas, ao “atravessa-las”
normalmente atravessam também uma nítida e tênue evolução, liberando-se de tais
características de repressão e apresentando euforia e satisfação pelo ato, e, no final
da sessão, normalmente referem bem estar, prazer, sentimentos de liberdade,
agradecem e prometem retorno. Rui Chamone (1980) refere que a música possui
um potencial expressivo libertador de conteúdos reprimidos. Apresenta a pessoa a
seus conflitos e força-a (no mesmo processo) a superá-los com uma ajuda
energética de todo um grupo que está no mesmo processo e momento. Não é
incomum verificar sentimentos muito diferentes como euforia e medo no mesmo
grupo.
111

Em momento algum MLT conseguiu se expor o suficiente para passar por tal
processo, finalizando a atividade da mesma maneira que quando iniciou, de forma
quieta, quando não, utilizava de piadas e ironia para representar-se socialmente
adequada, entretanto, ao terapeuta, fugia de quaisquer situações de contato,
deixando transparecer o medo de se expor.

QUADRO 01

Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais


referentes às atividades terapêuticas realizadas –
Grupo de Canto.

ATIVIDADE OBJETIVOS RESPOSTAS SUBJETIVAS EMBASAMENTO


ESPERADOS OBSERVADAS TEÓRICO -
PROPOSTA
(Prescrição CONSTATAÇÕES
Terapêutica)

Dia 30/08/2006 Expressão • Forte ansiedade, por vezes • Forte padrão de


Emocional - desespero; tensão e rigidez projeção da
Grupo de Canto
Trabalhar o corporal; realidade interna
Embotamento externamente
• Hipervigilância - aspectos
Afetivo
paranóico-persecutórios; • Incapacidade de
se desvencilhar
• Incapacidade de manter o foco
das defesas.
de atenção às orientações do
terapeuta;
• Notório embotamento afetivo
indicativo de história de vida com
fortes repressões/ recalques
• A especificidade do perfil do
grupo favorecia as defesas
egóicas de MLT, não
possibilitando a expressão
emocional terapêutica esperada.

RESPOSTAS

Devido ao grau de exposição muito alto, paciente não conseguiu participar efetivamente do
grupo, não cantando, não realizando qualquer expressão emocional – rígido embotamento
afetivo.
112

Após três sessões MLT fez a solicitação de mudar o dia do grupo (mudando
assim o grupo de pessoas envolvidas) para o mesmo dia de sua consulta
psicoterapêutica. Referiu que tal mudança facilitaria muito, já que se deslocava da
cidade vizinha para os atendimentos, contudo, estávamos cientes que MLT buscara
um grupo mais interessante. A paciente já havia observado da sala de recepção
outros pacientes que pertenciam ao referido grupo de canto que gostaria de
participar, e esses eram familiares de dependentes químicos, com aspecto muito
saudável, bom relacionamento social, formação educacional de nível superior, e por
vazes, já haviam conversado enquanto aguardavam na recepção. Em reunião com a
psicóloga foi resolvido aceitar a solicitação de mudança para o grupo que a paciente
havia escolhido, visto que, o atual grupo possuía características e condições muito
favoráveis à permanência das defesas egóicas, e dessa maneira, a estagnação do
processo terapêutico estava instalada.
O novo grupo de canto se fez funcional alicerçado pelas novas relações
sociais. Referente a música e meio social, refere Chamone:

[...] revela-se forte ferramenta, pois, proporciona um vinculo de união,


proporcionando sequentemente a melhoria do comportamento na
sociedade por meio da diminuição do sentimento de abandono. O
sentimento de pertencer a um grupo faz com que altere de modo positivo a
relação de si mesmo e a descoberta de outro com mais facilidade.
(CHAMONE, p.42, 1980)

Neste novo grupo, MLT posicionou de forma muito diferente, apresentando


um rápido êxito. Seu corpo falava por inteiro observando tenazmente a todos. Sua
expressão facial estava tensa, sempre apertando as mãos, flexionando e
estendendo os braços e os joelhos, e andando lateralmente de um lado ao outro.
Como neste grupo não possuía a segurança conquistada por subjugar os demais
membros, suas defesas não possuíam a força necessária para representá-la
socialmente, e, por possuir características paranóicas20 de projetar exteriormente
seus conflitos internos, conferia-se de forma mais real, agora assumindo seus
conteúdos recalcados em meio social.

20
Ver paranóia relacionada a projeção em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana” e
“Importantes mecanismos referentes as Relações Objetais” p.62.
113

Evidenciou-se a postura paranóica principalmente quando questionada em


qualquer aspecto, devolvendo rigidamente a pergunta com outra apresentando um
constante medo e sentimento de dívida para com o terapeuta. Uma observação
importante é que, as demais pacientes pertencentes desse grupo eram
extremamente afetivas, mães e muito acolhedoras, que davam facilmente espaço
para relacionamentos. Constatou-se que MLT realizou uma feliz transferência21,
talvez de cunho maternal ou, como sugerido pela psicóloga, tenha encontrado um
modelo ideal de mulher em sociedade. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que
estava vivenciando puramente um conflito entre suas emoções e defesas, sentia-se
acolhida pelos demais, obtendo assim espaço muito favorável à sua terapêutica.
As sessões foram acontecendo e o embotamento afetivo de MLT foi
diminuindo gradativamente dentro do grupo, até que conseguimos levar esse grupo
para uma apresentação em público na festa de aniversário do CAPSad ocorrido no
dia 06/10/2006 (menos de um mês e meio após MLT ter iniciado o grupo de canto).
Na data em questão, momentos antes da apresentação, MLT afirmou
diversas vezes sua desistência, porém, os demais componentes de seu grupo
conseguiram convence-la a apresentar-se, e assim aconteceu.
Ao observar MLT cantando em público fazia-se notório seu desespero; um
sentimento de “morte eminente” que estava vivenciando. Sua face e seu corpo
estavam rijos, sua pele esbranquiçada, seus olhos fixos arregalados encarando o
terapeuta (que ministrava o grupo de canto) de forma desesperada à obtenção de
segurança e pedido de ajuda. Para os terapeutas envolvidos com a paciente, se
tratando da mesma uma pessoa extremamente embotada possuidora de diversos
traumas e medos de cunho social, tal confrontação foi admitida como uma vitória.
Após esse episódio, continuou-se normalmente com os grupos de canto,
observando que MLT ao mesmo tempo em que se apresentava socialmente melhor,
com ênfase com os participantes do grupo, possuía um afeto inalterável para com o
canto, diferindo pouco em intensidade, mas de forma “cíclica” de uma sessão à
outra, tendo sempre como característica principal o medo de se mostrar, uma
dificuldade de exteriorizar, fluir emocionalmente, como se existisse internamente
algo terrível, vergonhoso e inaceitável.

21
Ver transferência em “Contribuições da Psicanálise Freudiana” e “A Transferência e Contra-
transferência” p.49.
114

Esses atendimentos iniciais com MTL evidenciaram aspectos importantes a


respeito de fontes patológicas originadas em sua história de vida. Por meio da
constante rigidez afetiva observou-se nítida transferência de MLT para com o
terapeuta, esse que, por ser homem e estar exercendo um papel de líder sobre ela e
todo um grupo, aparentemente correspondia ao “pai”, e por conseqüência da
particularidade do caso, MLT não dava qualquer abertura a seus conteúdos, pelo
contrário, o terapeuta era um forte símbolo de ameaça eminente.

Uma vez que a transferência reproduz a relação do paciente com seus


pais, ela assume também a ambivalência dessa relação. Quase
inevitavelmente acontece que, um dia, sua atitude positiva para com o
analista se transforma em negativa, hostil. Também isso, via de regra, é
uma repetição do passado (FREUD, 1974, p.24).

O limite colocado pela paciente fazia-se nítido. Verificavam-se as informações


perceptíveis dessa relação: o medo de se expor para um homem e um habitual e já
estruturado “jogo de cintura” para tais situações. Quando conversado com a
psicóloga a respeito da relação de MLT com seu pai, referiu não estar autorizado
pela paciente a revelar tais informações, revelando apenas que existia um forte
histórico de agressões físicas e um núcleo problemático nessa relação.

Para todas as áreas de conhecimento que estabelecem um diálogo com a


psicanálise, é importante compreender que essa relação traz um
compromisso, um disposição e uma proposta de ação relacional: Uma
proposta de se colocar de uma maneira muito específica perante o outro e
uma maneira de colocar o outro perante o terapeuta, configurando uma
importante fórmula psicanalítica: as defesas usadas por uma pessoa são
coerentes com o tipo de relação que ela estabelece (CAVALCANTI et al.,
2007, p.156).
115

QUADRO 02

Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais


referentes às atividades terapêuticas realizadas –
Evoluções do Grupo de Canto.

ATIVIDADE OBJETIVOS RESPOSTAS SUBJETIVAS EMBASAMENTO


ESPERADOS OBSERVADAS TEÓRICO -
PROPOSTA
(Prescrição CONSTATAÇÕES
Terapêutica)

Do dia Expectativa com o • Participou efetivamente cantando • Projeção/


20/09/2006 ao novo grupo de e expressando suas emoções de Identificação
dia 06/10/2006 possibilitar forma sutil; projetiva
ambiente
Grupo de • Alta Ansiedade e aumento da • Transferência
desfavorável as
Canto hipervigilância - a exposição afetiva
defesas de MLT,
(mudança no aumentou padrão paranóico-
possibilitando sua
grupo de persecutório;
expressão
pessoas a emocional. • Por meio da exposição efetiva
pedido da obteve-se confirmação do forte
paciente e padrão de projeção de realidade
apresentação) interna seu meio social;
• Favoreceu os aspectos do
terapêutica do embotamento afetivo
na vivencia dos afetos reprimidos.

RESPOSTAS

A especificidade do perfil do novo grupo favoreceu que a paciente se expusesse emocionalmente, e


assim:
• Diminuição da segurança pessoal excessiva (patológica) possibilitando maior exposição de si;
• Relacionou-se afetivamente com demais membros objetivando resposta promotora à sua auto-
imagem;
• Notória diminuição de ansiedade no final da sessão;
• Referiu satisfação e observou-se contentamento.
116

4.2.1 Nota Acerca do Atendimento Individual

Nos últimos dias de trabalho do ano, antes do recesso dos serviços públicos,
a psicóloga de MLT expôs que no iniciar do ano, no mês de Janeiro, não estaria
trabalhando com a paciente, pois entraria em férias por um mês, e sugeriu que a
Terapia Ocupacional assumisse também as sessões terapêuticas individuais com a
ela, e antecedeu que a mesma poderia apresentar certa resistência em realizar
sessões individuais com um terapeuta diferente, mesmo esse já sendo conhecido
pelo grupo de canto. A psicóloga explanou que tal comportamento seria muito
coerente com MLT, e que levou anos para conseguir um vínculo (mesmo sendo
mulher), e ainda que, MLT referia atualmente que “as coisas mais pesadas” não
foram referidas em terapia. A psicóloga estava correta da postura de MLT com
relação aos atendimentos individuais. Quando oferecida a proposta, a mesma não
aceitou, porém ficou de pensar melhor e responderia no próximo dia de atendimento.
Quando chegou este dia, foi questionada sobre a proposta e negou sua participação,
justificando educadamente que era muito difícil a ela “se abrir” em uma sessão
individual. Então, foi proposto que não se fazia necessário qualquer tipo de diálogo,
trabalhando apenas com atividades terapêuticas ocupacionais não-verbais. MLT
aceitou prontamente.

4.3 CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA ANÁLISE DOS RESULTADOS OBTIDOS


À APLICAÇÃO DA PROPOSTA TERAPÊUTICA INDIVIDUAL

Para a estruturação da intervenção terapêutica ocupacional individual,


consideraram-se os sintomas e comportamentos apresentados até então e demais
informações obtidas por meio do prontuário da paciente.
Como referido, MLT, paciente que deu entrada no serviço terapêutico como
drogadicta, apresentou um padrão comportamental paranóico-persecutório que se
caracterizou principalmente por uma “impressão” que possuíra de que “aquilo que é
desagradável em mim o outro pode ver ou está vendo”.
117

MLT faz uma notória projeção dos conteúdos reprimidos em meio externo, de
tal densidade (para a mesma) que mesmo um indivíduo com as capacidades
cognitivas totalmente preservadas, como é o caso, possui a impressão de que as
demais pessoas também podem ver tais conteúdos.
Drogadicção e paranóia são considerados dois sintomas de uma única
origem, das primeiras relações mãe-bebê, conforme o embasamento das teorias
psicanalíticas das Relações Objetais de Melanie Klein e Objeto Transicional de
Winnicott.
Como referido anteriormente, Joyce McDougall, fazendo considerações a
drogadicção, refere que uma mãe que não está preparada emocionalmente para dar
suporte afetivo necessário a uma criança em desenvolvimento pode vir a
estabelecer uma relação simbiótica, como um objeto inseparável, e essa relação
impede o desenvolvimento dos fenômenos transicionais (seguindo a concepção de
Winnicott, possibilitar à criança enfrentar a progressiva separação da mãe –
condição necessária ao desenvolvimento - fazer a primeira descoberta do não-eu e
ingresso no mundo dos símbolos) e por seguinte, impede a maturação de recursos
psíquicos necessários à sua individualidade, necessitando, no decorrer de sua vida,
de uma presença objetal (pessoa ou objeto) que substitua essa presença materna
constantemente solicitada.
O mesmo déficit causador da permanente necessidade de adicção é o
gerador dos distúrbios paranóicos. A falta do desenvolvimento do objeto transicional
(transição da “projeção do eu no externo” para “o externo em si”) não desvencilha a
verificação de conteúdos internos na percepção do mundo externo. Assim, a
paranóia é resultante de um alarmante sentimento que indica uma falsa situação, o
sentimento de que os seus conteúdos internos estão projetados externamente, num
meio em que todos os demais presentes podem conferi-los.
Dessa maneira, a compreensão desses sintomas, drogadicção e paranóia,
possibilita um esclarecimento necessário para utilização da projeção exacerbada de
MLT (sintoma do déficit de desenvolvimento transicional) para seu próprio benefício:
A exteriorização de conteúdos pertinentes ao processo terapêutico por meio de
atividades expressivas de capacidades plásticas e representativas.
118

Em outras palavras, a projeção pode servir como elo de ligação e via de


acesso aos conteúdos deficitários de sua estruturação psíquica e seus conteúdos
reprimidos oriundos de sua traumática história de vida; e a projeção será facilitada e
registrada pelas maleabilidade e plasticidade de atividades expressivas de
concretização externa.
Considera-se a atividade de argila22 uma técnica favorável para este caso,
pois possibilita a expressão emocional e a projeção dos conteúdos inconscientes23
de maneira que as defesas egóicas e o consciente24 não possam impedir tal
exteriorização. Dessa maneira, a intenção em utilizar a atividade expressiva de
argila foi favorecer condições adequadas para que MLT utilizasse de sua
“capacidade” projetiva própria de forma segura como um mecanismo terapêutico de
integração25.
Para a melhor exposição das informações pertinentes do estudo de caso,
optou-se por iniciar a apresentação dos atendimentos individuais pelo segundo dia,
posteriormente a esse apresentar o primeiro dia, e por seguinte retomar a ordem
natural.

4.4 24/01/2007: ATIVIDADE DE ARGILA COMO RECURSO TERAPÊUTICO –


LIVRE CRIAÇÃO

Rui Chamone Jorge (1990, p.15) refere que “as atividades livres e criativas
oferecem ao homem oportunidades de criarem uma realidade mais alta e uma
experiência mais verídica, porque não permitem as deformações causadas pela
arbitrariedade das situações”.

22
Ver Argila em “A Referencia de Rui Chamone Jorge na TO”, e “As Especificidades das Atividades
Terapêuticas por Chamone” p.31.
23
Ver inconsciente em duas fontes: 1ª fonte em “Contribuições da Psicanálise Freudiana” e “Níveis
dos Processos Psíquicos” p.46; a 2ª fonte em “Contribuições da Psicologia Analítica ou Complexa de
Jung” e “O Inconsciente” p.73.
24
Ver consciente em duas fontes: 1ª fonte em “Contribuições da Psicanálise Freudiana” e “Níveis dos
Processos Psíquicos” p.46; a 2ª fonte em “Contribuições da Psicologia Analítica ou Complexa de
Jung” e “O Consciente e o Ego” p.72.
25
Ver integração em “Contribuições da Psicanálise Pós-Freudiana”, “As Relações Objetais” e
“Relações Objetais e a Constituição interna” p.58.
119

Quando oferecida a atividade à MLT, a rejeição foi notória, referindo diversas


vezes: “Se tem alguma coisa que eu não gosto, é mexer com barro” [SIC].
Demonstrou resistência também ao tema proposto, “A Face Oculta”.
Pensou muito antes de começar, e quando foi executar, pediu ferramentas
para o manuseio, como garfo, palito, colher e faca, demonstrando novamente sua
resistência em manusear o material. Enquanto executara a atividade, repetiu por
vezes sua rejeição para com a mesma.

Figura 1 – A Menina
120

MLT finalizou a atividade muito rapidamente, e ao terminar, perguntou ao


terapeuta o que estava vendo (ver figura 1, p.111). O terapeuta entendeu a
modelagem como “uma menina interna”, o símbolo de algo sadio, bonito e puro, que
sobreviveu perante terríveis agressões do meio social, porém, o terapeuta resolveu
não influenciar, e se fosse verdade preferiu ouvir isso da paciente para que a mesma
atravessasse o conteúdo emocional, e respondeu perguntando: “É uma
bonequinha?”
Ficou em silêncio por alguns segundos com seus olhos trêmulos e úmidos
dirigidos para o terapeuta, com uma feição indignada esperando que ele desse
algum outro parecer, para que assim ela não precisasse falar.
Evidenciou-se que, para MLT era óbvia a intenção representada por aquela
modelagem. Quando falou, foi súbita e muito enérgica: “Você está vendo alguma
marca nela?? Você está vendo alguma queimadura nela?? Não né?” [SIC].
Retomou seu silêncio com os olhos apontados para baixo, como uma criança
pronta para chorar. Analisando que MLT tinha se projetado isenta das “marcas da
vida”26, e seguidamente, quando foi explicar a atividade, comparou-se em seu
detrimento, o terapeuta teve de dar suporte: “Ela é algo que você conseguiu manter
são, puro e bonito, e por mais que todos27 tenham tentado destruí-la, você a
preservou, mesmo que o custo foi muita dor e tangenciar a loucura. O mais
importante está intacto e as cicatrizes não existem à toa”. MLT com suas mãos
tremulas coloca um cigarro na boca, percebe que não pode fumar no local, pergunta
se está liberada e vai até o jardim do CAPSad fumar pensativamente.

4.4.1 Considerações referentes à Terapêutica da Atividade Realizada – Argila


– Livre Criação

A intenção com essa atividade estava em utilizar das capacidades projetivas


próprias de MLT para exteriorizar conflitos internos (conteúdos recalcados) de
maneira que as defesas egóicas e a consciência não pudessem vetar tal
exteriorização.

26
N.A.: Paciente possui marcas e queimaduras espalhadas em todo seu corpo.
27
N.A.: O sentido de “todos” é referente ao grupo hostil que MLT enfrentara a vida toda, de acordo
com a Análise Sistêmica Familiar.
121

A atividade em si não se fez explícita quanto a tais projeções inconscientes,


mas as projeções existiram, e o que nos afirma isso é o vínculo afetivo demonstrado
pelo comportamento de MLT perante a mesma.
No momento em que MLT pergunta ao terapeuta o que ele estava vendo em
sua modelagem e o mesmo demonstra-se sem opinião, a indignação que a paciente
apresenta diz respeito aos conteúdos que ela estava verificando ali, que para ela
eram óbvios, pois já estavam exteriorizados pelo mecanismo de projeção.
Consideramos essa importante no ponto de vista que a paciente conscientemente
buscou ajuda para seus conflitos, referindo sua auto-imagem, mas não se observou
qualquer projeção plástica inconsciente na atividade.
Verifica-se uma importância decorrente nessa atividade a “abertura” que a
paciente iniciou com o terapeuta. Por meio da atividade MLT escolheu de forma
consciente aceitar o terapeuta como seu amigo; alguém de confiança que não a
fizesse mal. Se tratando de uma paciente (como referido anteriormente) com muito
medo de se expor e dos outros, apresentando por vezes aspectos paranóico-
persecutórios, e que desde o início da relação terapeuta/paciente fez determinadas
transferências repudiando qualquer contato, obtém-se aqui um importante ganho. A
paciente referiu aspectos de sua auto-imagem/estima, e assim, seu “complexo de
inferioridade”28, por meio de um importante foco: “Olhe-me como sou! Não gosto...
Ajude-me!”

28
Complexo de Inferioridade - Esta denominação foi criada pelo discípulo de Freud, Adler (1912),
para designar o estado neurótico que tem por fundamento o sentimento de insuficiência ou
incapacidade para enfrentar a vida e seus problemas.
122

QUADRO 03

Resumo esquemático e objetivo dos componentes fundamentais


referentes às atividades terapêuticas realizadas –
Argila como recurso terapêutico – livre criação.

ATIVIDADE OBJETIVOS RESPOSTAS SUBJETIVAS EMBASAMENTO


ESPERADOS OBSERVADAS TEÓRICO -
PROPOSTA
(Prescrição CONSTATAÇÕES
Terapêutica)

Dia 24/01/2007 Expressão emocional • A atividade apresentou-se • Mecanismo de


e utilizar de ansiogênica para a paciente, e Projeção
Argila – Livre
capacidades para manusear a argila necessitou
Criação • Mecanismo de
projetivas (próprias) de ferramentas que intercedessem
Identificação
para exteriorizar o contato; conferiu capacidade
Projetiva à
(individual) conflitos representativa do material;
atividade
internos/conteúdos
• Identificou-se na atividade,
recalcados de
acreditando que para o terapeuta
maneira que as
era óbvio o significado de sua
defesas egóicas e a
modelagem e se sentiu angustiada
consciência não
em ter de verbalizar;
possam vetar tal
exteriorização. • referiu uma “menina” sem
marcas e bonita;
• O material foi representante de
um pedido de ajuda consciente de
MLT, referente a sua auto-imagem;
• Não conferiu-se no material
qualquer expressão de conteúdos
inconscientes pertinentes à
paciente; aparentemente todo
conteúdo exposto foi mediado pelo
consciente.

RESPOSTAS

• Paciente apresentou maior “abertura” na relação terapeuta-paciente;


• Paciente apresentou-se mais consciente perante seus conflitos trazidos à sessão.
123

4.5 17/01/2007: ATIVIDADE DE PINTURA29 COMO RECURSO TERAPÊUTICO

Esta atividade foi realizada no primeiro dia de aplicação da pesquisa em


atendimento individual, anterior a atividade recém descrita. MLT apresentava-se
apreensiva e angustiada. Inicialmente foi conversado somente o trivial, explicada a
atividade e o terapeuta permaneceu na sala ao lado interligada por uma porta
mantida aberta de forma que MLT pudesse vê-lo, e se necessário, chamá-lo. O
Terapeuta posicionou-se de lado para MLT, em uma distância de mais ou menos
sete metros, e realizara também uma atividade habitual qualquer que executava
automaticamente sem necessitar de atenção. Esta postura foi escolhida
intencionalmente a fim de criar um ambiente “à vontade”, inibindo qualquer fonte
externa que pudesse servir de “objeto para a paranóia” retirando sua concentração
da atividade em si. A atividade baseava-se em uma pintura (com tintas) em uma
cartolina comum com o tema “minhas emoções”.
Logo após as instruções, MLT tornou-se mais ansiosa. Mesmo a paciente não
sendo conhecedora de seus mecanismos projetivos e das potencialidades das
atividades, possuía a ciência (sentia) que aquilo era uma experiência altamente
expositora. Mesmo sendo uma atividade de livre expressão (dirigida somente pelo
tema proposto), perguntou diversas vezes “mas o que devo fazer?” [SIC], e em
resposta recebia “aquilo que você quiser fazer... fique à vontade”. Ocorreram várias
outras tentativas de utilizar de diálogos como mecanismo de fuga, porém, a postura
do terapeuta (ignora-la respondendo sem dar muita atenção) frustrou suas
tentativas. MLT se absteve por 15 minutos antes de começar a pintar, buscando
qualquer tipo de fuga à atividade e pensando torridamente naquilo que “deveria”
realizar. Seu medo e ansiedade estavam cada vez mais aumentados. Ao executar a
tarefa, pintou algo extremamente organizado, matemático, pensado e preparado
para não expressar nada além daquilo que foi “autorizado” pelo Ego - um gráfico
qualitativo e quantitativo de suas emoções. (ver figura 2, p.117).

29
Ver Pintura em “A Referencia de Rui Chamone Jorge na TO”, e “As Especificidades das Atividades
Terapêuticas por Chamone” p.33.
124

Enquanto executara a atividade sua tensão era nítida, e antes mesmo de


completar a tarefa interrompeu-se para dar explicações:

30
M: Olha aqui... É óbvio, né? (ver figura 2, p.117)

T: Não. (observou mais atentamente) Ah, sim! Penso que percebi!

M: Então, fiz aqui minha linha da vida emocional. O azul é quando está bom. O
marrom é quando estou muito deprimida, é muito ruim!

T: O preto é muito bom?

M: Não! O preto não é bom também, porque é euforia, não é equilibrado.

T: Ah, sim. Mas não é isso que vi em seu desenho. Entendi outra coisa...

M: Ah é? O que você viu?

T: Você já acabou?

M: Ainda não.

T: Então finalize primeiro, depois te falo. Caso contrário pode te influenciar.

Após uns 5 minutos, MLT finalizou a atividade, agora criando uma nova linha
(ver Figura 3, p.117), pontilhada e sobreposta, representando também seus
movimentos emocionais, com o diferencial em sua postura, nesta nova a
representação de “pensando antes de agir”, conforme o trabalhado em sessões
psicoterapêuticas. “Essa linha é melhor. Não é perfeita, mas é melhor” [SIC].

30
Legenda: M = MLT e T = Terapeuta.
125

Figura 2 – A Face (incompleta)

Figura 3 – A Face (completa)


126

A paciente referiu que suas “quedas” emocionais (representadas na pintura


referindo episódios depressivos) ocorriam após surtos emocionais agressivos, e
esses sempre perante sua família (pai, mãe, irmãos, marido e praticamente todas as
pessoas do vilarejo rural onde vive). Segundo relatos, esses episódios ocorreram
poucas vezes, após a paciente “suportar muito” [SIC], porém, quando ocorridos,
extravasara conteúdos emocionais há muito tempo guardados causando assim um
forte impacto para quem o observara. Referiu também que imediatamente após os
surtos vem de encontro um tortuoso sentimento de culpa e múltiplas agressões da
família, essa que por sua vez possui um conciso e necessário pensamento
degradado a seu respeito (conforme a sistêmica do Paciente Identificado). Referiu
também que em determinado episódio internaram-na forçosamente por algumas
semanas em ala psiquiátrica e mantiveram-na tão drogada que pouco recorda desse
período.
Após explanar rapidamente sua pintura, MLT vigorosamente perguntou o que o
terapeuta havia visto naquele momento anterior. Foi explicado que à primeira vista
não se havia entendido a pintura como um gráfico, e sim como uma “face”, porém,
isso antes do término da atividade, sem a linha pontilhada, e considerando também
que o terapeuta estava ao lado do desenho, observando verticalmente. (ver figura 4
e 5, p.119)
127

Esquemático para melhor visualização.

Figuras 4 e 5 – A Face (conforme visualização do terapeuta)

Nesse momento a paciente respondeu com um nítido processo catártico31.


Primeiramente sua face tornou-se esbranquiçada numa expressão de desespero,
envergonhada como se estivesse nua ou algo íntimo fosse exposto, e
posteriormente, muito impressionada. Seu corpo rijo tensionou-se mais ainda.
Começou a andar no mesmo lugar lateralmente com as pernas duras sem flexionar
os joelhos, como se precisasse gastar energia, e inseriu as mãos nos bolsos com os
braços bem esticados.
Quando questionada sobre aquilo que estava vendo, referiu “Estou me
vendo... Sorrindo.” [SIC]. Considerando que MLT é o Paciente Identificado do grupo
(caracterizado por padrões masoquistas32 para estabelecer relações sociais que não
gerem situações conflitantes, em detrimento da sua natureza fluente e espontânea),
o terapeuta questionou-a se é um padrão encarar a vida com um sorriso no rosto, e
a mesma respondeu: “É o jeito né... pra sobreviver” [SIC].

31
Ver catarse em “Contribuições da Psicanálise Freudiana” e “A Catarse” p.43.
32
Masoquismo – Prazer em experimentar a dor; perversão sexual em que a pessoa só tem prazer ao
ser maltratada física ou moralmente; algolagnia passiva (FERREIRA, 1999).
128

Com uma aparência muito nervosa e num movimento automático, MLT pegou
um cigarro com suas mãos tremulas e o acendeu dentro do setting terapêutico (um
lugar muito incomum para fumar). Seguidamente perguntou se estava liberada da
sessão e prosseguiu seu cigarro no jardim do CAPSad, permanecendo concentrada.
Se tratando de MLT, vê-la hiper-tenaz torna-se impactuante, pois a mesma possui
um forte padrão hiper-vigil/paranóide.

4.5.1 Considerações referentes à Terapêutica da Atividade Realizada –


Pintura.

Observou-se um processo catártico quando MLT conferiu sua auto-imagem


com um “sorriso”. As razões para isso tornaram-se claras, pois tal comportamento é
referente a seu relacionamento patológico com o meio. Aparentemente, por possuir
um perfil de relacionamentos simbióticos, a simples desaprovação de sua família
perante qualquer aspecto a seu respeito a submete a uma condição de culpa e
sofrimento, sentimentos esses que não podem ser demonstrados, pois cada
movimento questionador ou defensivo de MLT pode desencadear um feedback de
agressões. Na tentativa onipotente de “tolerar silenciosamente” as dores, constrói
um padrão de embotamento afetivo e resposta reativa (os surtos) pelo acúmulo de
emoções não exteriorizadas. Após um surto e seus feedbacks cria-se uma nova
estrutura de embotamento emocional (recalques) capaz de não sentir uma
quantidade maior de dor, por fim, resultando em um estado de “não sentir nada”,
dando lugar a depressão e a drogadicção, este último como representante do objeto
transicional. Utilizou-se do embasamento das teorias das relações objetais e objeto
transicional para a busca de condições de utilizar à terapêutica um mecanismo da
psique do paciente (o mecanismo de projeção) para a exteriorização de conteúdos
inconscientes conflituosos e/ou reprimidos, entretanto, houve uma considerável
variação na resposta desse processo. O mecanismo de projeção fez-se funcional
exteriorizando para a atividade informações importantes suficientes para gerar um
processo catártico, e se faz importante salientar que o surgimento desse processo
indica descarga de um conteúdo psíquico investido de afeto até então reprimido, e
resulta na integração de novas informações pertinentes à realidade do indivíduo,
contudo, o conteúdo exteriorizado não foi condizendo com conteúdos reprimidos
(recalcados) da história de vida da paciente.
129

A atividade apresentou uma resposta pronta, elaborada pelo inconsciente


referente a um padrão comportamental social disfuncional para o sujeito,
comportamento esse que, ao ser analisado acusa uma série de estruturas
disfuncionais reprimidas da personalidade psíquica do sujeito, mas em si, “enfrentar
o mundo de forma defensiva com um sorriso no rosto” é só um comportamento
social. Dessa maneira, a complexidade da resposta obtida torna-se curiosa, pois, o
inconsciente forneceu uma informação muito elaborada sobre a problemática.
Mas a consideração de maior importância é que para a ocorrência de um
processo catártico se faz necessário que a informação assimilada (desencadeadora
do processo) seja precisa com as necessidades do sujeito naquele momento, de
acordo com a sua própria organização e necessidades inconscientes sobre o
problema, e nesse aspecto a terapêutica se deu precisamente. Em outras palavras,
o mecanismo catártico faz-se por meio de um insight decorrente de informações do
inconsciente que se organizam e tornaram-se conscientes por meio de uma
informação obtida pela consciência, e dessa maneira admite-se que a informação
expressada através da atividade (pelo inconsciente) e posteriormente assimilada
(pelo consciente) foi precisamente o necessário para trazer à tona as informações
geradoras do processo.
Consideramos assim uma informação terapêutica expressada (projetada do
inconsciente) por meio da atividade de concretização externa, re-integrada através
do consciente, provocando uma descarga do inconsciente sobre o consciente, um
insight (a catarse).
Tal informação deu-se perfeita às necessidades da subjetividade do indivíduo,
visto que o formato que essa tomou (que é referente a sua qualidade no processo)
foi também desenvolvido pelo inconsciente de acordo com as circunstâncias
necessárias para desencadeamento do processo catártico. Observou-se também
que o inconsciente adaptou-se inclusive a resistência da paciente em realizar a
atividade, pois, admite-se os “gráficos” pintados conscientemente uma tentativa
egóica de controlar qualquer conteúdo “indevido” que pudesse surgir por meio de
expressões subjetivas. Então, estamos nos referindo em um nível mais alto de
processamento mental, de funcionamento independente à consciência e que se
dispõem ao equilíbrio psíquico.
130

A Psiquiatra Nise da Silveira33, trabalhando com pacientes psicóticos através


de atividades expressivas deparou-se com esse mesmo resultado, e foi por meio
das teorias junguianas que descobriu as respostas necessárias.
Jung denominou Self34 um centro regulador da psique inerente a todo ser
humano. Uma tendência instintiva individual que contém a possibilidade do
casamento interior, do consciente com o inconsciente. Uma “pulsão configuradora”.
A relação terapeuta-paciente acerca do atendimento decorrido possui também
considerações relevantes, visto que a percepção e atuação do terapeuta foram
fundamentais para o resultado obtido. Jô Benetton refere que a relação terapeuta-
paciente-atividade possui uma dinâmica de potencialidades e valores afetivos que
varia conforme as necessidades e projeções do paciente:

Na terapia ocupacional temos sido o objeto e veículo de um vínculo que


ocorre através do que está sendo produzido. A compreensão, informação e
interpretação da produção artística levam em conta, principalmente, o
acontecer de uma relação simbiótica. [...] Muitas vezes somos os objetos
que ficam entre o paciente e sua própria atividade; outras vezes usamos,
como Winnicott, a atividade como fenômeno transicional (BENETTON, p.
73. 1984).

33
Ver a história de Nise da Silveira referente a descoberta do mecanismo auto-regulador da psique
em “Contribuições Pós-Junguianas de Nise da Silveira à Terapia Ocupacional” p.90.
34
Ver Self em “Contribuições da Psicologia Analítica ou Complexa de Jung”, “O Inconsciente
Coletivo” e “O Self e o Processo de Individuação” p.83.
131

QUADRO 04

Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais


referentes às atividades terapêuticas realizadas –
Atividade de Pintura.

ATIVIDADE OBJETIVOS RESPOSTAS SUBJETIVAS EMBASAMENTO


ESPERADOS OBSERVADAS TEÓRICO -
PROPOSTA
(Prescrição CONSTATAÇÕES
Terapêutica)

Dia Utilizar de • As capacidades projetivas de • Padrão projetivo


17/01/2007 capacidades MLT superaram as expectativas. conduziu a paciente
projetivas Já inicialmente a mesma referiu inicialmente a uma
Pintura
(próprias) para resistência e ansiedade à resistência à
(individual) exteriorizar atividade, indícios de que, de certa atividade;
conflitos forma “sentiu” uma ameaça a
• Projeção de
internos/conteúd estrutura do ego.
conteúdos
os recalcados de
• Quando iniciada, desenhou um inconscientes
maneira que as
“gráfico” qualitativo e quantitativo referentes ao
defesas egóicas
na tentativa de controlar a processo de auto-
e a consciência
expressão de conteúdos internos. regulação da psique
não possam
– Individuação;
vetar tal • A interpretação do terapeuta
exteriorização. referiu outra imagem cuja paciente • Mecanismo de
rapidamente se identificou, Identificação projetiva
objetivando vivencia dos à atividade
conteúdos reprimidos.
• Processo Catártico.
• Com a decorrência do
mecanismo catártico, observou-se
brusca ansiedade onde a mesma
referiu impressão de
desnudamento e diversos
sintomas físicos ansiosos;
• Observou-se efetiva exposição
de conteúdos internos.

RESPOSTAS

• O mecanismo catártico indica a conscientização das informações pertinentes referentes à


sua homeostase psíquica;
• Modificou-se de hipervigil para hipertenaz; indícios de alteração da estrutura psíquica.
132

4.6 30/01/2007 – ATIVIDADE DE ARGILA COMO RECURSO TERAPÊUTICO -


CRIAÇÃO DIRIGIDA

Ao apresentar a argila à MLT, novamente a paciente referiu “Ai! Eu odeio


mexer no barro! Você tá me perseguindo!! Rsrs.” [SIC] apresentando de forma
notória a influência do material sobre a paciente. A atividade baseava-se em:

• Desenvolver 6 bolinhas
• Dar um significado objetal a cada bolinha (pessoa, sentimentos...)
• Separar em 2 grupos de 3 bolinhas, um grupo para sentimentos bons, o outro
para sentimentos ruins.
• Para identificação fazer uma representação em cada bolinha, que poderia ser
por letras sobre as mesmas.

Foi explicada à paciente que em momento algum se fazia necessária a


explanação das informações incumbidas nas bolinhas, pois, a relação dela com o
material se bastava e essa era a proposta estabelecida quando iniciado o tratamento
individual.
Após algum tempo caracterizado de muita resistência e ansiedade, a paciente
modelou 7 bolinhas. Quando terminou, foi pedido para que a mesma utilizasse de
outro pedaço de argila para “modelar-se” de acordo como estava se sentindo
naquele dia, naquele momento. Após mais alguns minutos de muita resistência, a
paciente pediu algo para cortar a argila. O terapeuta buscou uma faca de cozinha
que foi usada para dividir verticalmente ao meio uma esfera oval, para assim formar
as duas partes de uma “ostra”, e ao finalizar MLT apontou para sua escultura, referiu
que era assim que estava se sentindo. O Terapeuta percebeu e comentou com a
paciente que dentro da ostra não existia pérola alguma, e fez uma analogia: “Tanta
defensiva por nada?” Imediatamente MLT fez 3 (três) bolinhas bem pequenas e
colocou dentro da Ostra. O Terapeuta novamente fez um comentário: “Ah... Então a
única coisa valiosa que você possui, que vale a pena lutar, são seus filhos?” MLT fez
um sorriso muito sem jeito.
133

O Terapeuta pediu para que MLT utilizasse as bolinhas anteriormente


confeccionadas na 1ª etapa, e sobre cada uma delas citasse uma característica
afetiva. Novamente a paciente colocou-se muito resistente à proposta, referindo:
“Mas se eu fizer isso, você já vai saber de quem é que estou falando” [SIC] O
Terapeuta confortou-a dizendo que isso era apenas uma impressão de sua parte,
porque os objetos criados por ela tinham grande ênfase emocional unicamente para
ela, e não para o terapeuta que desconhecia as pessoas e os acontecimentos de
seu cotidiano. E uma letra (inseridas sobre as bolinhas) e um adjetivo citado (ruim,
bom, dor, tristeza e etc...) não eram suficientes para grandes revelações para uma
terceira pessoa que assistira. O terapeuta afirmou também que não era importante a
sua compreensão sobre esses aspectos, pois, o valor da terapêutica nesta fase da
atividade estava em seu relacionamento com a atividade35. Durante momento da
revelação sua ansiedade se elevou drasticamente.
As informações apresentadas abaixo estão de acordo com aquilo que a
paciente abriu durante a sessão, respeitando sua necessidade de não revelar certos
fatos:

ƒ Pai e Mãe - “Eles começaram e estão acabando!”36 [SIC],


ƒ Duas pessoas anônimas – “Depravação!!” [SIC],
ƒ Uma pessoa Anônima – “Traição e Loucura ! Alguém que é muito bom pra
você, e que, de repente te dá uma facada pelas costas! E depois, volta a
te tratar normalmente, como se não tivesse visto o que fez!” [SIC],
ƒ A Dor - “isso é comum; já é o normal!” [SIC],
ƒ O Amor - “Se eles tivessem um pouco disso por mim, mas só um pouco,
as coisas não seriam assim!” [SIC].

35
N.A.: Se tratando de MLT, fizeram-se necessárias explicações para confortá-la a continuar a
atividade, pois a mesma possui muita dificuldade em exteriorizar seus conteúdos emocionais, e em
caso de alguma situação que a torne insegura, pára e não prossegue. Esses momentos são muito
comuns na terapêutica de MLT.
36
N.A.: O terapeuta não compreendeu a informação referida, e perguntou novamente, e ela responde
da mesma forma: “eles começaram e estão acabando!” compreedeu-se posteriormente que referia-se
a “sua vida”.
134

É importante observar que a paciente, mesmo fazendo sete bolinhas e não


seis, como pedia a instrução inicial, não “deu conta” de dividir em dois grupos iguais
de sentimentos BONS e MAUS, utilizando apenas uma bolinha como sentimento
BOM, e mesmo esse (o amor) foi referido posteriormente como algo que faltara em
sua vida.
Essa etapa da atividade é caracterizada de muita ansiedade, cujo transtorno
de MLT teve de ser descarregado por meio de um objeto que estava próximo, uma
faca (anteriormente utilizada para cortar a argila) de modo a entortá-la, expondo
nítida agressividade. Quando percebeu que estava entortando-a, tentou devolve-la ,
contudo, o terapeuta confortou-a autorizando-a a continuar tal movimento”. (ver
figura 6, p.126) A força empregada na faca apresentou-se impressionante, força
essa nitidamente decorrente do sofrimento em atravessar tais conteúdos emocionais
trabalhados pela atividade”.

Figura 6 – A Faca
135

O Terapeuta pediu para que MLT utilizasse um outro pedaço de argila para
fazer uma superfície fina, como um disco ou um prato raso. Essa superfície seria sua
auto-representação. Com a intenção de criar uma caracterização interna em MLT de
auto-identificação com o objeto, o terapeuta pegou plataforma recém modelada e
falou: “essa é você, ok?”; colocou a “ostra” (modelada anteriormente) sobre a
plataforma e disse: “Assim é como você está hoje”. O terapeuta pegou uma chapa
de madeira, escorou-a em uma parede próxima e pediu que MLT escolhesse um
lugar na chapa para fixar a plataforma modelada sem a ostra (sua representação).
MLT fixou-a (fixou-se) no centro da chapa de madeira (ver figura 7, p.127).

Plataforma Modelada –
Representação de MLT

Figura 7 – A Chapa de Madeira

Posteriormente a fixação, o terapeuta pediu que MLT arremessasse as


bolinhas na plataforma, de uma distância de mais ou menos 4 metros. MLT se sentiu
desconfortável em arremessar as bolinhas, perguntando: “Mas é pra jogar ali?
Mesmo?”
136

A primeira bolinha foi arremessada de forma muito cuidadosa. Aparentemente


MLT não estava querendo acertar a plataforma modelada (sua representação) na
chapa de madeira. O terapeuta pediu então que ficasse à vontade para exercer
força, se fosse o caso, representando o equivalente ao seu sentimento de cada
bolinha. MLT assim, ferozmente arremessou com muita força fazendo com que fosse
produzido um grande barulho no impacto das bolinhas junto a chapa de madeira.
Todas as bolinhas arremessadas caíram bem longe de sua representação (a
plataforma modelada).
A penúltima bolinha a ser jogada (o amor), MLT parou, pensou e disse: “Essa
eu quero acertar em mim!” [SIC] Essa MLT acertou muito abaixo de sua
representação, no canto inferior esquerdo. (ver figura 8, p.128) A última bolinha (a
dor), MLT falou: “Essa tem que ser bem longe!” E foi a que mais se aproximou de
sua representação, fixando-se logo abaixo, mais ou menos “um dedo” de distância
(ver figura 8, p.128).

A Dor

O Amor

Figura 8 – A chapa com as bolinhas arremessadas.


137

Perante a nítida frustração de MLT, o terapeuta pediu que arremessasse


também a ostra (representação de suas defesas/embotamento) à chapa. A paciente
aparenta certa resistência com a idéia de realizar tal procedimento, mas o faz. A
“ostra” é a única em fixar-se sobre sua representação (a plataforma modelada)
projetando-se para fora, alcançando, logo abaixo, a bolinha representante da dor.
(ver figura 9 e 10, p.129) O terapeuta exclama: “Olha que interessante! As suas
defesas (a ostra) é o elemento-ponte que une você a sua dor!” Referindo
diretamente ao seu embotamento afetivo , e MLT responde com nítida catarse.

MLT

Ostra

A Dor

Figura 9 e 10 – Ostra unindo MLT a Dor


138

Os sintomas catárticos se repetem: Notório aumento da ansiedade; tremor


generalizado; olhar perdido com dificuldade de encarar o terapeuta; respira
ofegantemente; caminha de um lado a outro; tenta disfarçar com sorrisos, contudo,
seguidamente olha para o chão de forma pensativa; torce as mão, os dedos;
realizando um “olhar panorâmico” procura por sua bolsa (o cigarro) e não consegue
vê-la mesmo estando em um lugar notório e próximo a ela. Posteriormente, quando
achada a bolsa, acende o cigarro, dá as costas ao setting e diz: “Entendi o recado”.
Na sessão seguinte, antes de iniciar a atividade, MLT bruscamente se
antecipa pedindo para conversar. Refere que a última sessão deixou-a pensativa e
contou como sua família (várias famílias que moram próximas) a “usa”
habitualmente, como doméstica, motorista, cozinheira, para ordenhar vacas, limpar
galinheiro, limpar chiqueiro, para qualquer manutenção domestica necessária, e
sempre aos gritos e sem a menor gratificação, pelo contrário, como refere: “Eu, pra
eles, não valho nada!!” [SIC]. Referiu também que sempre realizou tudo aquilo que
lhes pediam, pois, dessa forma os problemas de relação eram menores, entretanto,
começara a observar depois da sessão que não possuía tanto medo assim de
confrontar seus parentes, começara a verificar que existia também um ”medo de
decepcionar”.

4.6.1 Considerações referentes à Terapêutica da Atividade Realizada – Argila


– Criação Dirigida

Referente à constituição da atividade, essa foi desenvolvida intencionalmente


a fazer com que a paciente trouxesse à sessão o grupo de pessoas que faziam parte
de sua patologia, e sucessivamente, faze-la interagir emocionalmente com essas
pessoas em um “espaço protegido”, supondo que esse grupo apresentava-se como
uma problemática fundamental em MLT. Caso seus problemas apresentados pela
paciente não fossem o grupo, a atividade acolheria da mesma forma.
139

As Intenções na elaboração da atividade estruturavam-se psicologicamente


em:
• Projetar as pessoas/problemas importantes para o material e caracteriza-los
como “menores” que ela e “iguais” em si (bolinhas) para “desmistificar” no setting
qualquer imagem afetiva exacerbada, e trabalhando com isso, retirar o valor afetivo
existente em meio social;
• Vivenciar e conscientizar de seus principais afetos para o grupo e para cada
indivíduo sugeridos importantes pela paciente;
• Liberar e expressar resposta afetiva reprimida perante essas
pessoas/problemas;
• Conscientizar-se da imagem que faz de si perante esse grupo (a ostra), e o
que essa imagem acarreta;
• Dar subsídios aos mecanismos de projeção da paciente, em especial o
mecanismo auto-regulador do processo de individuação, para qualquer ocorrência
necessária.

Todas essas intenções com a atividade foram alcançadas. Mesmo sendo a


proposta inicial a representação de “coisas variadas”, esperava-se que ao sugerir
um grupo de “bolinhas problemas”, a mesma relacionasse ao seu importante grupo
problemático.
A resposta final representada pela atividade à paciente novamente sugere as
projeções do processo de “individualção” do “Self”, de acordo com a psicologia
analítica junguiana. Mesmo considerando as variáveis que poderiam ocorrer em
“arremessar as bolinhas”, por fim obteve-se novamente um processo catártico
confirmando a terapêutica.
140

A “ostra” simbolizou seu embotamento afetivo, sua capacidade de tolerar a


dor, aquilo que MLT acreditava ser “sua força”, e essa se revelou na atividade como
a “ponte” entre ela e a dor. Entende-se que, a compreensão da paciente foi em torno
de sua postura perante o meio hostil, onde tal postura (tolerante e auto-punitiva) a
mantém doente e na patologia do grupo. Sugere-se que sua capacidade de suportar
a dor e o seu medo de confrontação são referências conscientes que a mesma
utiliza para confortar-se nessa postura, e assim, inconscientemente, continuar
realizando um papel na manutenção da patologia37 de todo o grupo. Não conseguir
realizar os limites necessários às pessoas a mantém nesse meio que, por serem sua
família e sempre a rejeitaram, tornam-se um objeto de desejo. Dessa maneira, ser
útil, fazer tudo aquilo que a pedem e com sorriso no rosto, traz a ela um prazer,
prazer de fazer parte e de ser necessária, com o único preço de ser o “bode
espiatório”, aquele que carrega os problemas subjacentes (projetados) de todo o
grupo.
Um outro momento que se tornou notória a manutenção da patologia por
MLT, foi quando, ao modelar a ostra a fizera vazia, sem nada dentro.
Fazendo uma interpretação da representação inconsciente podemos
compreender a intenção de MLT de fazer-se rígida e sofredora, porém, esquecendo-
se do porque de precisar ser tão resistente, de lutar, evidenciando que de certa
maneira não luta por si.
Quando pedido para que MLT arremessasse as bolinhas, a mesma hesitou e
perguntou se era isso mesmo que deveria fazer, apresentando uma forte defensiva
(defesas egóicas) perante o ato de manipular e alterar o estado dos problemas com
vigor e agressão. A resistência de MLT em promover tal alteração sugere
novamente sua dificuldade em alterar o sistema.

37
Faz-se importante a citação de Eduardo Kalina referente a Manutenção da Patologia em “Outras
contribuições Necessárias ao Estudo de Caso”, “A Terapia Sistêmica”, “A Terapia Sistêmica Familiar”
e “O Paciente Identificado” p.95.
141

MLT também se mostrou defensiva quando pedido para arremessar a ostra.


Como a ostra estava simbolizando as defesas de MLT, a intenção dessa atitude era
de fazer com que MLT vivenciasse a quebra (simbólica) dessas defesas e ao mesmo
tempo se identificasse junto aquele quadro afetivo que montara. Por esse
movimento ser anterior a catarse, pode-se considerar a possibilidade de a quebra
simbólica das defesas ter influenciado no processo catártico.
Faz-se necessário comentar outros aspectos simbólicos ocasionados durante
a atividade. Quando MLT realizara a confecção da ostra (como estava se sentindo)
pediu algum objeto para cortar ao meio a sua representação. Algumas literaturas
referem o embotamento afetivo como uma cisão entre a razão e a emoção, e dessa
forma, a representação se deu perfeita. A tão referida ostra, que também dispensa
maiores comentários, foi modelada posteriormente as bolinhas, e assim, esta
intimamente relacionada aos conteúdos projetados naquelas representações. A faca
é um símbolo de agressão, de poder, de robustez, e quando MLT degradava-a,
estava degradando algo forte, fálico38. Faz se importante referir que MLT entortou a
faca quando se referia afetivamente aos seus escolhidos representados nas
bolinhas, apresentando-se com muita dificuldade em expor-se em seus comentários.
Sugere-se que a faca estava simbolizando a degradação de uma força opressora
sobre MLT (provavelmente originada do núcleo familiar) ou a faca degradada era a
sua a própria agressividade perante aqueles citados; degrada sua agressão por
medo de sua exposição, rompante ou surto, pois, como já referido, foi muito
reprimida nesses aspectos.
Essa atividade tornou-se marco da terapêutica, pois, nas sessões que se
seguiram MLT chegara com seus conteúdos pessoais prontos para serem expostos
à terapia. Tal movimento evidenciou não só o valor do processo terapêutico à
paciente, mas também o vínculo terapêutico, considerando que, antes das
atividades expressivas de concretização plástica esse vínculo baseava-se em uma
repulsão por parte da paciente a uma figura masculina de autoridade, uma
transferência ao terapeuta, e considerando também que a paciente iniciou o
atendimento com toda uma estrutura psicopatológica de repressão e embotamento
afetivo, o que a impedia de fazer referencia a seus conteúdos emocionais devido a
agressão causada pelo forte teor afetivo existente.

38
Falo - Representação do pênis, adorado pelos antigos como símbolo da fecundidade da natureza.
(FEREIRA, 1999).
142

Posteriormente, MLT confirmou diversas vezes a análise aqui descrita,


referindo sobre como é usada pela família e suas dificuldades em colocar os limites,
e também que se conscientizou de seus desejos inconscientes de fazer parte do
grupo opressor.
Quando ocorrido o retorno de férias da psicóloga que havia prescrito o
atendimento terapêutico ocupacional, os resultados obtidos favoreceram que desse-
se continuidade ao atendimento juntamente com o retorno da psicoterapia individual,
mesclando as semanas, pois a paciente não dispunha de condições de viajar de sua
cidade a Joinville mais que uma vez por semana.
Infelizmente, após quatro meses de atendimento a partir da última atividade
aqui descrita, o estágio de Terapia Ocupacional que favorecia a aplicação
terapêutica chegara ao seu tempo limite contratual, contudo, segundo referências
dos demais profissionais que continuaram atendê-la, as melhoras obtidas
favoreceram promoções permanentes à sua estrutura emocional, favorecendo o
relacional e referente às conscientizações pertinentes aos movimentos patológicos
envolvidos em seu caso.
143

QUADRO 05

Resumo esquemático e objetivo de componentes fundamentais


referentes às atividades terapêuticas realizadas –
Argila – criação dirigida.

ATIVIDADE OBJETIVOS ESPERADOS RESPOSTAS SUBJETIVAS EMBASAMENTO


(Prescrição Terapêutica) OBSERVADAS TEÓRICO –
PROPOSTA
CONSTATAÇÕES

Dia A Atividade de Argila é • A resistência “paranóica“ • Diversificados


30/02/2007 intencional para expressão de durante todo o processo de mecanismos
conteúdos reprimidos, atividade revelando novamente projetivos;
Argila –
contudo, a direção da seu “padrão projetivo”;
criação • Identificação
dinâmica dessa atividade teve
dirigida. • Representou-se por meio de projetiva à
como principais objetivos:
uma Ostra, essa representante atividade
• Por meio do mecanismo de de sua capacidade de receber
• Projeção de
projeção trazer ao setting as agressões, seu embotamento
conteúdos
pessoas/problemas e seus afetivo anestesiada perante o
inconscientes
conteúdos afetivos; meio, sua “cisão” entre razão e
referentes ao
• Vivenciar e conscientizar de emoção, e revelou nesta
processo de
seus principais afetos para o modelagem (ostra sem pérola)
auto-regulação
que utiliza este comportamento
grupo e para cada indivíduo da psique –
sugeridos importantes; como “papel representativo” à
Individuação;
manutenção do grupo
• Liberar e expressar patológico; um meio • Processo
resposta afetiva reprimida inconsciente para permanecer Catártico
perante essas no sistema do grupo.
• Projeção de
pessoas/problemas;
• Muita dificuldade em conteúdos isenta
• Resgate dos Recalques à verbalizar (para o terapeuta) os de mecanimos
sessão por meio da valores representados nos egóicos de
identificação projetiva nos objetos – conteúdos recalcados; defesa.
objetos
• Resistência em arremessar
• Conscientizar-se da as bolinhas – dificuldade em
imagem que faz de si perante “alterar o estado dos
esse grupo, e o que essa problemas”;
imagem acarreta;
Na última etapa da atividade,
• Dar subsídios aos quando a paciente arremessou
mecanismos de projeção da a Ostra (representação de como
paciente, em especial o se vê perante o grupo), esta se
mecanismo auto-regulador do tornou ponte de unificação entre
processo de individuação, sua auto-representação e a
para qualquer ocorrência “dor”, evidenciando novamente
necessária. à paciente que a mesma possui
uma postura auto-sabotante
perante o grupo.
144

RESPOSTAS

• As sessões que sucederam a esta apresentaram vínculo terapeuta-paciene muito diferenciado. A


veracidade e eficácia proporcionadas pela atividade favoreceram a “quebra” da transferência inicial
possibilitando um relacionamento mais favorável, no aspecto terapêutico.
• Os diversos momentos em que as atividades revelaram a postura auto-sabotante de MLT fizeram-se
funcionais, pois, a paciente passou a trazer à terapia suas consideração a respeito desse desequilíbrio.
• Constatou-se que o processo emocional da vivência catártico favoreceu uma conscientização real de
MLT em si perante cada membro do grupo, reconhecendo seus movimentos patológicos e todo o sistema
em que está envolvida.
145

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A intenção com este estudo foi demonstrar na prática uma intervenção até
então pouco conhecida e por vezes de efeitos polêmicos em nossa sociedade;
intervenção essa que procura favorecer um meio de tratamento eficaz, e que ao
mesmo tempo forneça novas vias de soluções, satisfazendo as exigências do
paradigma que está em construção na saúde mental. Este estudo está direcionado
às intervenções da Terapia Ocupacional, em uma proposta promotora de saúde, e
não atenuadora de sintomas; que se aprofunda na psique humana reconhecendo
suas zonas conflitantes; concentrando-se na estrutura psicológica individual e em
suas psicopatologias, considerando o “eu” emocional, racional, sócio-histórico e
filogenético, na intenção de trazer novos subsídios e uma pratica que possa
complementar às deficiências de nosso atual modelo médico-cartesiano em favor à
realidade das demandas existentes.
A Terapia Ocupacional Psicodinâmica oferece uma proposta notável, que
aqui, colocada em exercício, mesmo não nos dando mensurações estatisticamente
precisas ou previsibilidade de respostas em suas práticas como pede a maior parte
dos modelos científico-contemporâneos, conferiu-se sua saliente eficácia.
Procurou-se através da base teórica dos mais renomados estudiosos do
campo mental e suas manifestações bem como de suas estruturas e
funcionamentos internos, aplicar uma abordagem que dentro especificidade, o
relacional, considerando esse fundamento ao equilíbrio existencial entre o
organismo e o meio. Para tal proposta, utilizou-se da particularidade de
determinadas atividades como técnicas relacionais terapêuticas, considerando
primordialmente as características plásticas, maleáveis, simbólicas, ansiogênicas,
estruturantes, projetivas, identificadoras da projeção, entre outras.
146

Por mais que suas práticas e estruturas teóricas não sejam novas, a Terapia
Ocupacional Psicodinâmica é ainda muito desconhecida e pouco acreditada, e por
isso muitas vezes polêmica. Infelizmente, o atual modelo médico-cartesiano ainda é
tido como a forma de cientificidade de maior referência, mesmo esse já tendo se
mostrado, em determinados casos (como na saúde mental) profundamente
disfuncional ou limitado. A psique humana não é simples resultante da
funcionalidade mecânica do cérebro. Sua complexidade é tão vasta que o homem
pouco sabe a seu respeito, e dessa maneira, as intervenções que se seguem não se
devem se bastar sobre o pouco que se conhece de seus mecanismos funcionais,
pois dessa maneira a terapêutica limita-se a seu alcance. Deve-se utilizar
conhecimentos que possibilitem condições para uma atuação segura daquilo que se
desconhece, visto que, como os fundamentos apresentados neste trabalho, possui-
se atualmente estudos e pesquisas de grande relevância referentes às
funcionalidades psíquicas e seus recursos auto-reguladores.
O fundamento psicanalítico fez-se formidável à proposta, tanto no contexto
teórico quanto no prático, referindo os estudos e denominações da psique e seus
mecanismos funcionais. Pôde-se constatar em tempo real, por meio do
desenvolvimento das atividades que grande parte dos distúrbios psíquicos de
origens afetivas são originados a partir de repressões (recalques) à natureza
instintiva e pulsional do indivíduo em episódio(s) na sua história, e tais bloqueios
permanecem no inconsciente desviando o percurso natural do fluxo de energia
psíquica; e por serem resultados de vivências traumáticas, são também
assegurados por mecanismos psíquicos, denominados “mecanismos de defesa”,
podendo estes serem identificados visivelmente pelo Terapeuta Ocupacional
favorecido por esta abordagem. Referencias teóricas como Relações Objetais de
Melanie Klein e Objeto Transicional de Winnicott foram fundamentos para a
compreensão dos aspectos apresentados pelo caso clínico e a terapêutica das
atividades expressivas.
147

A referencia teórica de projeção foi vista como um importante mecanismo,


explicando o foco terapêutico da maioria das atividades, essa mostrando a
capacidade de exteriorização dos conteúdos pertinentes às necessidades psíquicas
de cada indivíduo, de maneira muito particular à sua percepção e subjetividade,
utilizando-se dessa como uma “via de acesso”, para expressão e concretização
física dos conteúdos psíquicos conflitantes; de maneira que os mecanismos de
defesa não verificassem tal exteriorização.
Na prática, as atividades forneceram, não somente diagnósticos e a
terapêutica necessária, mas também por um novo meio relacional, pois, as formas
comuns de relacionamento não serviam mais à paciente, estando essas
comprometidas pelas agressões e deformações sociais que o meio a causara. Essa
nova comunicação favoreceu aquilo que nenhum terapeuta poderia abonar ou nem
mesmo a paciente por si poderia alcançar; informações precisas à sua estrutura
psicológica, impossíveis de serem previstas ou tendenciadas; originadas da
subjetividade humana e para a subjetividade humana; informações essas
desestruturantes de complexos patológicos em favorecimento à homeostase
psíquica.
Recomendamos, na condição de estudiosos da área e aplicadores desta
pesquisa a objetivação de estudos e projetos de ampliação e difusão de tais
práticas, essas que baseiam-se em técnicas relacionais (atividades) que possibilitam
a terapêutica do ser humano considerando toda sua complexa estrutura funcional,
suas questões individuais, seus sofrimentos psíquicos e emocionais.
A Terapia Ocupacional, uma ciência nova e em construção mostra-se
capacitada às necessidades do homem na vivência de seus dias atuais, com suas
demandas cada vez mais crescentes, e no contexto geral da medicina espera-se
sinceramente iniciativas que considerem a complexidade real da estrutura humana,
para alcançar assim a devida terapêutica dentro deste novo e necessário paradigma
em construção.
148

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