UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

FÁBIO MÁRCIO ALKMIN

“MAPUCHE: (A)GENTE DA TERRA” Uma perspectiva espacial da situação indígena Mapuche, em “La Araucanía”, Chile.

SÃO PAULO Junho de 2011

FÁBIO MÁRCIO ALKMIN

“MAPUCHE: (A)GENTE DA TERRA” Uma perspectiva espacial da situação indígena Mapuche, em “La Araucanía”, Chile.

Trabalho de graduação individual (TGI) apresentado ao Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, sob orientação da Profª Drª Larissa Mies Bombardi.

SÃO PAULO Junho de 2011

AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço aos meus pais, Sebastião e Joana D’arc, migrantes do Sul de Minas Gerais, que por motivos da vida não puderam estudar para além do primário. Aos próprios Mapuche, aos quais me comprometi a “divulgar a luta”. Saibam que fiz meu melhor e que aprendi muito com vocês. Gratidão a todos que conheci em São Paulo: aos professores, aos cruspianos e especialmente à família geográfica. Um “haribol!” especial àqueles que acompanharam de perto esta caminhada: Fernando Corguinho, Gustavo Garibaldi, Rafa Zen, Cebola, Catatau e Chaves. Muitos carinhos às encantadoras mulheres que me ensinam tanto sobre o amor, os sentimentos e a arte de viver. “Saludos” ao pessoal da Argentina, da Bolívia, do Uruguai e do Chile, que me trataram tão bem e fizeram-me sentir tão vivo, ao ponto de perceber que os limites não eram geográficos, mas puramente mentais e ideológicos. Agradeço aos gigantes aos quais, audaciosamente, ousei tentar subir aos ombros: Cervantes, Walt Whitman, Henry David Thoreau, Herman Hesse, Rilke, Jack London, Jack Kerouac, Cortázar, Guimarães Rosa, Ernesto Che Guevara, Modigliani, Erik Satie e por aí vai. Aos colegas da fábrica, que me apoiaram a pedir demissão e adentrar ao mundo da Geografia. Aos que me chamaram de “louco” também.

. Il tuo dovere reale è di salvare il tuo sogno.“Il tuo dovere è di non consumarti mai nel sacrificio. 1904. Ogni ostacolo sormontato segna un accrescimento della nostra volontà. produce il rinnovamento necessario e progressivo della nostra aspirazione. La Bellezza ha anche dei doveri dolorosi: creano però i più belli sforzi dell’anima.” Amedeo Modigliani.

..........................Paisagem predominante da comuna de Lumaco..............................Gráfico do uso do Solo na Região da Araucanía.............56 ...Concepção horizontal do cosmos para a etnia Mapuche e representação do kultrun ................. em 1995 ....42 Ilustração 14 . em protesto pela cidade de Temuco ....................................50 Ilustração 17 ..................................Mapa dos novos movimentos indígenas latino-americanos...........................29 Ilustração 10 .............................................................Mapuches carregam o corpo de Alex Lemun...........Mapa dos monocultivos florestais em relação às reduções indígenas .......18 Ilustração 05 .. 30 Ilustração 11 ......................Jovem Mapuche diante do nillatúe ................... .Mapa Político da América do Sul.....................................................................................................LISTA DE ILUSTRAÇÕES Ilustração 01 .................................................27 Ilustração 08 .Mapa da territorialidade Mapuche/ Localização da Região de Araucanía ...........26 Ilustração 07 .............................................................16 Ilustração 03 ..................................Mapa da população indígena em relação à população total......................................17 Ilustração 04 ................ 36 Ilustração 12 ............ na América Latina................... XIX...Mapuches mortos em conflitos territoriais por ações repressivas do Estado chileno ..................................11 Ilustração 02 ........Mapa Político da América do Sul...............28 Ilustração 09 ...........19 Ilustração 06 ...........Lonko e mulher Mapuche (1890) ................................50 Ilustração 16 .......... na 1ª met..............Mapa das plantações florestais e das comunidades Mapuche na comuna de Lumaco.. em 1900 .............................Túnel de ferrovia construída na Araucanía (1900)...........................................Concepção vertical do cosmos para a etnia Mapuche ..............................Família Mapuche durante processo de radicação (final do século XIX).... Séc........................Mapa das “reduções” decorrentes do processo de radicação......55 Ilustração 18 ........................ 39 Ilustração 13 ..... 45 Ilustração 15 ................

......................................................................................... 09 1...............................................................................1 A territorialização do capital na Região da Araucanía .......2 O avanço por sobre as terras Mapuche . 58 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 12 1..................... território e a questão indígena: aportes teóricos..... 60 ANEXO A – CONVÊNIO OIT 169 ................ 64 ......................................................... 22 2... 41 4................................................ 48 4.......... 25 3.......... O ESTADO CHILENO: “por la razón o la fuerza” 2..................................................................................................... O CONFLITO: o direito de existir 4........................................................................................2 Mapu: o significado da terra para os Mapuche ......SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............... 06 1..................................................................................................................................................................1 Estado......... nação...... 18 2.......................................................................................................................................... 33 3........1 Breve história da etnia Mapuche .............. A TERRITORIALIZAÇÃO DO CAPITAL: a desestruturação territorial dos Mapuche 3.........1 A emergência indígena latino-americana: uma aproximação espacial...........3 Identidade Mapuche na modernidade: dificuldades e estratégias ..........................2 A emergência do movimento indígena Mapuche na contemporaneidade ..............................................3 A criminalização da demanda Mapuche contemporânea................................2 O processo de formação territorial chileno e suas conseqüências para com os Mapuche....... 53 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............... 36 4............................................................................. OS MAPUCHE: a gente da terra 1.....

E assim fomos. que. como dizia Kerouac. Quatro meses depois. sonhadoras. em setembro de 2009. Pelo contrário. que foram profundamente transformadores. confesso. pois sim. loucos para serem salvos. sua cosmovisão. muitos destes de carona (outros de trem. portanto desprovidos de importância. na Universidade Nacional. E que bom que ainda existam pessoas assim. mas queimam. encontro-me com dois grandes amigos da Universidade de São Paulo: Fernando Silva (Geografia) e Jamila Venturini (Jornalismo). para realizarmos um trabalho de campo e coletarmos material para um documentário.INTRODUÇÃO Este trabalho nasce de uma experiência empírica. queimando como fogos de artifício por quase três meses. de frio e indignação. “estão loucos para viver. próximo a Buenos Aires. agora. queimam. dizendo-me: “ajude-nos a divulgar nossa luta”. não é pela busca de uma hipócrita neutralidade metodológica. O assentimento foi silencioso. Após esta viagem. aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões. e vim a conhecer seus laços profundos com esta. atravessaram os meus. Ali resolvi arriscar e estender meu intercâmbio por mais seis meses. não creio que devamos encarar como meros casos anedóticos. desde já. apenas posso dizer. uma chilena. Logo na primeira leitura. pretendo que ela abra. viria saber que este etnônimo significava “gente da terra”. enquanto cientista social. Penso que. No mesmo sentido. profundamente humana. com a distância do tempo. iniciando uma viagem de mais de 5 mil quilômetros. tornando-se grande companheira de viagem. de ônibus. sua história. denunciado apenas pelos dentes que se travaram uns aos outros. Quanto mais estudava. mais sentia vontade de fazê-lo: interessava-me sua geografia. Creio que muitas vezes são justamente nestes “pontos cegos” da ciência em que encontramos ricas evidências dos fenômenos que nos dispomos a compreender. voltei para a cidade de La Plata. num inverno gélido. descobri nesse momento que a indignação é um sentimento apátrida. certas situações as quais vivenciamos em nosso trabalho de campo. Dos esforços. como que na materialização de uma utopia. Nasce de profundos olhos negros. Cito por exemplo. que entusiasmada largou sua vida de cantora em Santiago para se unir à nossa epopéia. que devemos relegar circunstâncias como as acima descritas. que na Patagônia argentina. um diálogo franco para quem porventura vir a ler as próximas páginas. que querem tudo ao mesmo tempo. começando uma pesquisa sobre os Mapuche. queimam como fabulosos fogos de artifício”. juntando-nos nesse meio tempo à Ana. o seguinte caso: 6 . de barco ou mesmo a pé) pelo Chile e Argentina. loucos para falar.

Ressaltamos que nesse caso. recebia-nos novamente. já do lado argentino. já não havia nada a fazer por Pascual. pretendo deixar claro que por mais que esta pesquisa se ampare em fontes supostamente neutras. Dias depois. uma Mapuche que conhecemos em Temuco e que nos abriu inúmeras portas. por ocultas trilhas encravadas nas montanhas. o uso do termo Região. nos referimos como o utilizam no Chile. Subimos na caçamba de uma caminhonete. Em poucos dias o jovem cruzaria a cordilheira andina a pé. Apenas deveríamos seguir nosso caminho. mediando contatos e transmitindo confiança para com nossos interlocutores.Final de janeiro. em nossa viagem tivemos muitas passagens como essa. sendo levados a uma choupana nas montanhas. Prometi ajudar com o que estivesse ao meu alcance. Não mais deveríamos ligar. pois não havíamos recebido um email com as orientações. por questões metodológicas delimitamos nosso trabalho somente ao Chile. “Como poderíamos fazê-lo?”. num restaurante. donde pretendíamos através de um “paso” cruzar a cordilheira. quando já estávamos na Argentina. comuna chilena localizada na fronteira com a Argentina. já de noite. Na grande maioria das vezes que o usamos. pois possivelmente haviam rastreado aquele telefone. Iria se dirigir para La Plata. Para aqueles que haviam adentrado o Chile há um mês. ligamos preocupados para Tâmara. havia sido preso em sua tentativa. algo semelhante ao “estado” 7 . terminávamos exitosamente esta parte de nosso trabalho de campo. dos latifundiários. nada tem a ver com o conceito geográfico. Em relação o trabalho. crepúsculo. lócus dos principais conflitos territoriais. como combinado: recebemos a notícia de que Pascual. ajudando-o com o que preciso fosse. Quando fechamos o comércio. nos aquecemos da fria madrugada. O pedido era para que o recebêssemos em Neuquén. Enfim. a fria chuva orográfica já varria o sopé cordilheirano. com contradições do Estado. Ali seguíamos rumo à leste. Tamara me chamou de canto. especificamente à “Novena Región: La Araucanía”. ou seja. dos próprios Mapuche e seguramente de mim mesmo. Permanecemos ali por mais dois ou três dias. apesar de a etnia Mapuche se encontrar localizada atualmente no Chile e na Argentina. e por isso. de 27 anos. fazendo menção à jurisdição administrativa. pedindo em sigilo um grande favor: ajudarmos a um perseguido político Mapuche a conseguir asilo na Argentina. São seculares interesses em jogo. inclusive com dados do próprio Estado chileno. usado amiúde em nosso trabalho. chegávamos em Curraueuhe. e pouco antes de partir. agora em seu trabalho de verão. onde já possuía contatos. Tamara. onde tomando mate ao pé de um fogão à lenha. foi logo o que pensei. o conflito está longe de sê-lo. sem conhecer nada nem ninguém.

aspectos históricos. quando nos referimos ao termo contemporâneo. num quarto capítulo. 8 . a apropriação do território Mapuche no século XIX. seja para proteger seus territórios e preservar direitos já conquistados. No primeiro capítulo falaremos especificamente dos Mapuche. da Organização Internacional do Trabalho. que apesar de desarticulados analiticamente. avançando por sobre as antigas terras Mapuche e tendendo. até os dias atuais. Finalmente. Ratificado por grande parte dos países latino-americanos. este tratado vem servindo como principal alavanca política das organizações indígenas. desde o início. Estado etc. tentaremos buscar uma síntese desta histórica relação entre os Mapuche. No terceiro capítulo veremos como o capital se territorializou neste território.no Brasil. Acrescemos como anexo. nomeado “O Conflito”. seja para pressionar mudanças que possam ampliá-los. Buscamos essencialmente traçar um panorama político que vai desde a independência chilena. qualquer falta ou equívoco neste trabalho é de minha única responsabilidade. sua localização. o famigerado “Convênio 169”. Tentaremos compreender este movimento não de maneira isolada. sua cosmovisão e sua identidade na modernidade. Traremos nossa análise para os últimos 30 anos. mas sim como particularidade de um processo de emergência indígena à nível continental.) e. Optamos por sistematizar o tema decompondo-o em três grandes eixos temáticos. Pensamos haver uma coerência interna para uma periodização deste tipo. basicamente criminalizando as demandas políticas Mapuche. visto questões de ordem constitucional e a fundação de movimentos organizados que persistem desde então. o Estado e o Capital. em 1818. a formação da propriedade privada etc. dando especial enfoque à estratégia estatal que abriu caminho ao avanço das relações capitalistas na região da Araucanía. Ressaltamos que por uma questão de periodização analítica. não devem ser entendidos por separado. Por fim. como o “Movimento Mapuche contemporâneo”. referimo-nos ao período que vai desde a queda de Pinochet. Veremos como o Estado chileno vem respondendo à questão. a se reproduzir de maneira concentrada. até os dias atuais. abarcando questões como a história desta etnia. em 1990. Buscaremos traçar um panorama econômico atual do território em questão. No segundo capítulo trataremos do Estado Chileno. abarcando num primeiro momento aspectos conceituais (Nação. como a formação territorial. dando especial enfoque às contradições que emergiram desta conflituosa relação. num segundo. Território. a título informativo.

variava de 800 mil (GALDAMES. 2008. 1954. cinco séculos antes de Cristo (BENGOA. 2. 363). Conferir o artigo: "Convenção para a Grafia dos Nomes Tribais" In: Revista de Antropologia. Com os sucessivos fracassos na tentativa de ocupação das terras ao sul do rio Bio-Bío 2 . São Paulo. na então expansão do império de Tawantsuyo. contendo-os nas margens do rio Bio-Bío. O S M APUCHE : A GENTE DA TERRA or las noches oímos los cantos cuentos y adivinanzas a orillas del fogón respirando el aroma del pan horneado por mi abuela. 2000. nº 2. p. p. de las manos. Figura na história que estes resistiram ao domínio Inca. Las grandezas de la vida cotidiana pero sobre todo sus detalles el destello del fuego. me parece. no momento da chegada dos espanhóis. pp. em novembro de 1953. possuindo “um regime de vida que os permitiu crescer enormemente em população. o Acerca da grafia do etnônimo “Mapuche”. compreendia o centro Sul do atual Chile. Conformavam uma sociedade caçadora. (Elicura Chihuailaf. 150-152. 2000. coletora e horticultora. utilizada por nós sem flexão de número e com a primeira letra maiúscula. vol. Tinha como fronteiras o Rio Maule (ao norte). Estima-se que a população.76) a um milhão de indivíduos (BENGOA. p. mientras mi padre y mi abuelo -Lonko de la comunidadobservaban con atención y respeto. aprendí lo que era la poesía. 2 A territorialidade Mapuche.. adotamos as normas estabelecidas na 1ª Reunião Brasileira de Antropologia. p. estabilizar-se num território determinado e chegar a constituir uma cultura pré-agrária de grande força e desenvolvimento” (Ibidem. de los ojos. pelo menos. realizada no Rio de Janeiro.21). Hablo de la memoria de mi niñez y no de una sociedad idílica. Sueño azul) P 1. Allí. 20).1 BREVE HISTÓRIA DA ETNIA MAPUCHE 1 A existência de vestígios de uma "cultura Mapuche" nos remete há.1. Há indícios de que já 1 9 . o Oceano Pacífico (a oeste) e a Cuesta de Loncoche (ao sul).. atual Chile. à época da chegada dos espanhóis. mi madre o la tía María.

permanecendo. firmaram o chamado Tratado de Quilín. A troca de mercadorias incentivou a existência de uma divisão social do trabalho. tornou-se um espaço de unidade lingüística e cultural. começou a se concentrar na mão dos chamados úlmenes 3 . 1994.7). que até então era descentralizada. grandemente adotada pelos indígenas. culto.que somou mais de cem anos de guerras e mortes de ambos os lados. tornava-se o fio condutor de um expansivo mercantilismo no interior da Araucanía. Os historiadores chamaram este processo de “araucanização das pampas”. 20-21. O contato com estes. Assim. próximos de sua vertente oriental (BENGOA. Mercadorias coloniais paulatinamente começaram a penetrar seu território.76). A organização social. pessoa de influência por sua posição e fortuna (MOESBACH. predominantemente caçadores-coletores. BOCCARA. Neuquén e Chubut (MORALES URRA. os espanhóis se viram obrigados a buscar um armistício. que sacrificou três quartos de sua população -pela fome. indígenas que começaram a acumular riquezas por meio do comércio com os espanhóis. Apesar de esta territorialidade não alcançar uma efetiva unificação política. 26). rico. tiveram forte influência da cultura Mapuche. p. Essas e outras mudanças na sociedade Mapuche começaram a impulsionar um fluxo migratório em direção ao planalto leste entre os séculos XVII e XIX. 2000. 2005. p. do mapundungun: Mapuche nobre. entretanto. ao mesmo tempo em que a criação extensiva de gado. que até então era praticamente intrafamiliar. Entre outras repercussões. mudou a estrutura social dos Mapuche. permeada inclusive por uma complexa rede econômica (Ibidem. Río Negro. no ano de 1641. 10 . 3 Ulmen. Vejamos a figura 01: nessa época cruzavam a cordilheira dos Andes. assim como a criação de excedentes produtivos provocou repercussões no sistema político. visto que o poder. as outras etnias que aí viviam. pois de certa maneira. desde o Oceano Pacífico até o Atlântico. principalmente para as atuais províncias argentinas de Las Pampas. dentre todos os outros grupos indígenas da atual da América Latina. p. 1987). declarando então as terras austrais ao rio Bio-Bío “território autônomo Mapuche". fez com que. essa “transculturação” favoreceu a formação de uma grande territorialidade Mapuche. os Mapuche fossem os únicos a conseguir autonomia territorial frente ao império espanhol (GALDAMES. sem classes e sem acumulação iniciou um forte processo de transformação. 2008. Cabe dizer que essa tenaz resistência. guerra e infecções exógenassomente no século XVI. contudo. p.27). p.

a territorialidade Mapuche de acordo com o conhecimento ancestral. entretanto. objeto de nossa pesquisa. atual territorialidade Mapuche.Figura 01: na esquerda. Inclusive existem fontes históricas que fazem menção há uma 11 . em verde. os vales centrais e a alta cordilheira não favoreciam a comunicação e a unidade. que a etnia que conhecemos como “Mapuche” se conformou exatamente no/pelo contato com os espanhóis. O caráter político descentralizado e a distribuição espacial fragmentada. num processo de etnogênese (BOCCARA. Em laranja. como estratégia de defesa./ No mapa da direita vemos a região administrativa de “La Araucanía”. necessários para a homogeneidade cultural que conformaria um só grupo étnico. os planaltos. apontada como “coração” do território Mapuche. tendo sido considerada toda parte à oeste da cordilheira dos Andes (atual Chile) “território autônomo Mapuche” pelos espanhóis. Alguns antropólogos e historiadores defendem. que incluíam o litoral. 1999).

espécie de divisão interna da etnia Mapuche. fazendo parte desde seu etnônimo (Mapuche significa “homens da terra”. deveriam estar amadurecendo. tal como as tribos africanas e asiáticas que se transformam. para a condição de povos emergentes. a conformar uma “nação”: Como vimos.2 MAPU: O SIGNIFICADO DA TERRA PARA OS M APUCHE Apesar das evidentes dificuldades epistemológicas de adentrarmos a um campo científico diferente do que o de nossa formação. possuindo um valor sagrado. acreditamos na importância desta tentativa para uma correta compreensão do valor simbólico da terra para os Mapuche. em nossos dias. em nossos dias. muitos dos Mapuche não se reconhecem como parte da nação chilena. ou seja. a “gente do mar”) e os pewenches (pewén: araucária existente na alta cordilheira. A terra para a maioria das etnias indígenas transcende o campo meramente físico e material. Entre outras coisas. em jovens nacionalidades. porque experimentaram uma subjugação mais feroz. p. che: “gente”. che: gente. por seu montante populacional e por seu grau de desenvolvimento cultural ao tempo da conquista. Fariam parte. 2. 2007. geralmente toponímias do lugar em que historicamente vivem (ou viviam) as diferentes linhagens de parentesco. 341). 12 . mas sim como pertencentes à “nação Mapuche”. a “gente da araucária”). os chamados Futalmapus. “gente da terra”) até a espécie de seus sobrenomes. a terra os caracteriza e dá sentido existencial. enxergava certas características nos Mapuche que os favoreceriam. mais continuada e mais eficaz do que aquela que se abateu sobre os africanos (RIBEIRO. ou seja. os lafkenches (lafke: “costa”. por exemplo. o qual abarca dimensões simbólicas que permeiam do cotidiano aos próprios mitos fundadores. sairmos do âmbito específico da ciência geográfica ou da geograficidade para buscarmos aportes também antropológicos e históricos. Faz-se interessante relatar que em seu atual discurso político. ou seja. Darcy Ribeiro. Isso não ocorreu porque foram trucidados quando amadureceram para esse alçamento e. em seu livro “As Américas e a civilização”. No caso dos Mapuche. sobretudo. mar. esta postura poderia nos ajudar a compreender os fatores que direta ou indiretamente contribuiriam para seu longo histórico de defesa por seu território. os araucanos. agora. pautada por identidades territoriais e adaptações culturais aos meios naturais.

mas enquanto instância simbólica e hiperestrutural. os Mapuche. O autor propõe que a terra significaria ao mesmo tempo um “espaço próprio” (I). mediante revisão bibliográfica histórica e depoimentos de comunidades isoladas. Quando ele começou era só um pelote de 4 O autor faz menção ao fato da existência de um forte sincretismo Mapuche-cristão. em estudo acerca da cosmovisão Mapuche. “um espaço de encontro intercultural” (II) e um “espaço de encontro com o sagrado” (III). podendo muitas vezes ser impossível desassociá-las. Em entrevista feita por Muñoz. Como salienta Muñoz. Não obstante o difícil trabalho de se resgatar a história mítica de uma sociedade sem escrita. o autor bosqueja uma recomposição do mito de criação do mundo Mapuche. p. 1992. -A partir desta Terra então formada. Chaochao.Um “espaço próprio”. no sentido de que esta terra sempre pertenceu aos Mapuche. também por meio de terra (solo). Chav Dios. Ngünechen. tradução nossa). Chaw Ngünechen. Ngünemapun). tanto de especialistas no tema como dos próprios Mapuche. não como espaço propriamente geográfico. o qual reúne de forma muito variada e heterogênea elementos de ambas as tradições. claro. além é claro. com resguardos na transmissão de conhecimentos tradicionais aos não Mapuche e com cada vez maior influência da cultura ocidental 4 . a partir de um punhado de terra (solo).Baseamo-nos nesta parte de nossa investigação em referências bibliográficas. o “criador” teria concebido. preenche e excede o espaço textual das manifestações artísticas e culturais dos Mapuche" (MUÑOZ.10. dos relatos coletados em nosso trabalho de campo. os primeiros seres humanos então existentes. Para embasar esta caracterização. Expliquemos os significados: I). um Mapuche relata: Os homens eram de terra. figurativamente invade. Por isso dizem os Mapuche serem os verdadeiros donos da terra. 13 . Munõz em seu trabalho chega ao seguinte ponto: -A Terra teria surgido de um “criador” (os nomes variam entre Dios. A princípio esta era fria e úmida. sendo obra deste mesmo ser superior as condições para o assentamento humano (Ibidem. "a terra. 16). passando a formar parte de sua identidade e cultura autônoma. p. dizem que só meu Deus fez todo estre trabalho para que existam Mapuche nesta terra.

Nós somos os primeiros. os Mapuche têm lutado com estranhos. (Ibidem. tudo. E depois produziu os Mapuche. e num segundo. O primeiro é o caráter animista desta cultura. tradução nossa). salteador. econômicas. ladrão. (PIUTRÍN. (Ibidem p. invasor e deriva do verbo winkün. segundo o idioma Mapuche. o “criador” haveria deixado muitos outros espíritos na Terra: o da água. as concepções jurídicas. “Como uma réplica em escala reduzida do universo. com a história de outras culturas. na qual se desenrola a maior parte de sua macrohistória mítica. têm realizado seus conselhos e parlamentos. nunca fora dela.Um “espaço de encontro intercultural”. Mais tarde se fez o campo. primeiro. Deus fez os Mapuche. Assim. 14 . Estes seres possuiriam a função de mediadores quando Deus se zangasse com os homens. na qual pauta-se a idéia do equilíbrio das relações. aberta e interligada 5 “O vocábulo winka significa etimologicamente. tradução nossa).143. uma planta medicinal possui em sua essência um determinado newén. 11. a terra. do ar.Um “espaço de encontro com o sagrado”. Em suas terras ao que parece. conscientes e possuem ânima (espécie de energia. O segundo aspecto importante é o da reciprocidade. incorporado por aquele que ingere a planta. Cabe-nos neste momento ressaltar dois pontos fundamentais da cosmovisão Mapuche. num primeiro momento com outros povos indígenas. têm estabelecido relações interétnicas com homens e mulheres vindos de outras terras. É nessa mesma terra que os Mapuche se encontram com os seres sobrenaturais de sua cosmovisão. o qual os Mapuche chamam de newén). sociais. têm enfrentado a tecnologia. introduzir-se sem autorização”. entre os europeus colonizadores e chilenos. III). o responsável pela cura do enfermo. através da mapu. p. II). dos vulcões. idéia fundamental no “Kimün Mapuche” (sabedoria Mapuche). Além dos Mapuche. Faz-se menção ao contato interétnico. que expressa roubar e invadir à força. ou seja. 1985. no sentido de que os Mapuche dialogaram e dialogam. 16-17.terra. por exemplo. p. por romperem as relações de reciprocidade (Ibidem. religiosas e culturais de outras sociedades e culturas alheias. fundamental a sua perpetuidade. sendo justamente este. tradução nossa). por exemplo.17). a idéia de que todos os elementos da natureza são vivos. onde se destacam os Incas. a história dos winkas 5 . p.

A primeira faz referência a uma série de plataformas que estariam superpostas no espaço. 2006. compreendida enquanto seus territórios tradicionais. tradução nossa). Como assinala Grebe et alli: Em resumo. 31. A idéia de mapu não faz “só uma referência ao tangível. espaço de intersecção. 48. Neste sentido. o anka wenu e minche mapu representam apenas mal (antítese) e na terra coexistem o bem e o mal em uma síntese que não implica a fusão. senão que possui uma dimensão espacial que permite situar todas as dimensões da vida no universo. p. mas a justaposição dinâmica. Ou seja. tradução nossa). O universo Mapuche possuiria duas dimensões: uma vertical e outra horizontal. 02). sendo as superiores relacionadas ao bem e as inferiores ao mal. possui também uma dimensão transcendente” (PAILLAL. ao material.31). estaria em um grau intermediário. torna-se fundamental compreendermos a noção de “mapu”. e a conjunção de duas forças opostas é uma condição necessária para alcançar o equilíbrio cósmico dualista (GREBE et alli. (Ibidem.diretamente com os espaços sobrenaturais é o cenário onde se resolve a grande aventura humana da vida e da morte em toda sua realidade e transcendência”. 2006. Os Mapuche usam esta para designar a Terra. p. O conceito de Mapu alude assim a um espaço tanto físico como metafísico. tradução nossa). contudo não somente no simples plano material 6 . A mapu. 1972. 6 No caso da “terra”. o mapundungun possui o conceito específico de “Pvji Mapu”. p. lugar onde o bem e o mal permeiam sincronicamente (Fig. 15 . possuindo certa hierarquia. (QUIDEL apud PAILLAL. a visão cósmica Mapuche é dualista e dialética: o wenu mapu contém apenas o bem (tese). A verdadeira polaridade tende à união. 12. p. onde as forças do bem e do mal se complementam e interagem. indicando a idéia de solo.

51) (Fig. está orientada segundo os quatro pontos cardiais. p. tomando como referência o leste. esta plataforma que é a mapu. p. 1972. matriz da presente concepção espacial (Ibidem. Geograficamente. estas plataformas seriam todas quadradas e de igual tamanho. direção sagrada e positiva de onde nasce o sol.Figura 02: concepção vertical do cosmos para a etnia Mapuche (Fonte: GREBE et alli. materializado pela cordilheira dos Andes.49) Em relação à dimensão horizontal. 03): 16 .

(Fonte: GREBE et alli. 1972. p. “O kultrun é o resumo do conjunto da criação que a machi 7 utiliza para seus serviços como símbolo e expressão do poder” (PIUTRÍN.] para servir e ajudar a seus semelhantes em suas enfermidades corporais”. (PIUTRÍN. 1985. tradução nossa). um monumento antropomórfico de madeira colocado em um campo aberto na comunidade Mapuche. sendo um espaço sagrado onde se celebram de tempo em tempo rituais de fertilidade (nillatún) (Fig.121). sendo os vértices os pontos cardeais é representada no kultrun. que as comunidades Mapuche localizam sua morada. p. o centro do universo. 17 . p. 1985. um dos instrumentos musicais mais importantes da cultura Mapuche.Figura 03: concepção horizontal do cosmos.51) A idéia do mundo quadrado. É justamente no centro deste quadrado.47.. Este ponto é demarcado fisicamente no terreno por meio do nillatúe. 04): 7 “Machi são as pessoas que se dedicam e se consagram ao serviço da saúde [. divisão da plataforma terrestre e representação do kultrun. utilizado tradicionalmente em rituais xamânicos..

p. para se compreender o valor contemporâneo que dão às suas terras ancestrais. como poderíamos definir os povos indígenas? Nesse sentido. Esse ponto de vista nos permite definir as “comunidades indígenas” como comunidades fundadas em relações de 18 . criado e destinado para eles por um poderoso Criador (GREBE et alli. Créditos: Luis Fuentes Ampuero Em síntese. que aponta que toda definição seria uma pseudo-definição – já que a “indianidade" é performativa e não demonstrativa. Porém.3 IDENTIDADE MAPUCHE NA MODERNIDADE: DIFICULDADES E ESTRATÉGIAS O estudo de temas relacionados à questão indígenas requer. 2. resulta um erro grosseiro pautar-se somente pela lógica econômica. totem sagrado que indica o centro da mapu.Figura 04: jovem Mapuche diante do nillatúe. uma abordagem acerca da cultura e da identidade. Como já levantamos.71). pensamos ser útil a contribuição de Viveiro de Castro. para entendermos a questão. 1972. na maioria das vezes. podemos nos aproximar mediante esta breve caracterização do cunho etnocêntrico da cosmovisão Mapuche e da posição central que a mapu ocupa nesta: ocupam o centro de um determinado território sagrado.

memoriachilena. estando inserida na modernidade e sofrendo por isso toda influência da mesma. Tais esclarecimentos se fazem importantes no sentido de compreendermos que a atual “cultura Mapuche” não é a mesma que a do período pré-hispanico. tradução nossa). Ambas fotos de 1890. não significa necessariamente a perda do caráter indígena. Não obstante. idêntica a si mesma desde sempre” (2005. p. Percebemos um caráter sincrético já no século XIX. adotamos a abordagem da cultura enquanto um processo de “permanente construção. que possuem “laços históricos ou culturais com organizações sociais précolombianas” (Viveiro de castro. 12. a existência de uma lógica cultural mestiça. 12). desconstrução e reconstrução” (Ibidem. Também nos parece útil a abordagem intitulada como “antropologia diacrônica”. “que reconhece que nenhuma cultura existe em estado puro. mulher Mapuche com jóias de prata. a cultura insere-se num complexo jogo de relações de força e de poder. como os ostentosos colares de prata. Créditos: Gustavo Milet Ramirez. entre distintos agentes. p. s/d). como atualmente é a dos Mapuche. com distintos interesses. 05) Figura 05: à esquerda. sofrendo por isso influências diversas.parentesco ou vizinhança. possivelmente por influência do contato com os espanhóis. Destarte. considerados atualmente tradicionais de sua cultura (Fig. que propõe Guillaume Bocarra. Fonte: Biblioteca Nacional Chilena (www. onde os Mapuche adotaram signos de riqueza e diferenciação social. cacique lonko. Em suma. compreendendo a cultura e seu sistema de sentidos/significados enquanto algo dinâmico. À direita.cl) 19 .

] mas se prestarmos atenção ao ritual de São Francisco. verificados a partir da desestruturação do território Mapuche no século XIX. no Chile e na Argentina. a língua nativa Mapuche está em vias de extinção. gerando um interessante amálgama.. 94 % se disseram cristãos. que dizem haver vários problemas metodológicos na pesquisa. que eles não retiram as folhas dos ramos. Contudo. 20 . estes números são altamente criticados pelas associações e agrupamentos Mapuche. daremos conta que as cruzes estão feitas exclusivamente de foye ou külon (árvores que entram na confecção do altar da machi). durante a celebração de São Francisco. Sendo as crianças forçadas pelo sistema público de ensino chileno a só se comunicar em espanhol. Como conseqüência de processos de migração interna. dando a aparência de uma “cruz não-domesticada”. Nesse mesmo sentido. que a oração se efetua em mapundungun. sendo que por volta de 604 mil se definiram como Mapuche. em espanhol ECPI) 2004–2005. que a cruz está molhada com mudai (típica bebida ritual fermentada que funciona como símbolo de autenticidade autóctone).Também poderíamos ilustrar tal compreensão a partir da questão da “religião”. Tais sistemas se fusionaram. 8 De acordo à Pesquisa Complementar dos Povos Indígenas (PCPI. 10. Dos Mapuche que responderam a questão acerca da religião no Censo chileno de 2002. que como vimos era politeísta e se baseava na noção da “mapu”. que foi finalizada pelo Estado argentino através do Instituto Nacional de Estatística e Censos. o fato da maioria deles já não falarem mapundungun não os fazem mais “chilenos” e menos “indígenas”. apesar desta contenção histórica. Em relação à demografia. De acordo com as mesmas. 9 Contudo. Contudo.. o censo chileno contabilizava uma população de pouco mais de 15 milhões de pessoas. tradução nossa). especificamente a grande influência que teve e tem o cristianismo no sistema simbólico Mapuche. não podemos dizer a priori que abandonaram seu sistema simbólico de antes do cristianismo. os Mapuche fincam cruzes no meio do roçado e oram para obter boas colheitas [. não seria menor que 1 milhão. esta população. o mapundungun (em português. 32% se professavam evangélicos. os números oficiais 8 eram de 105 mil indígenas Mapuche 9 . muitos indígenas foram viver na cidade. no ano de 2002. p. olhando-se para o oriente (ponto cardeal conotado como positivo) e que a oração se dirige a entidade celestial Mapuche Ngünechen (2005. representando assim 4% da população chilena. “som da terra”). poderíamos pensar a questão da língua nativa. sendo que destes. Como elucida Bocarra. Na Argentina.

A maioria desta população. uma de quatro pessoas que vivem nesta jurisdição seja Mapuche. Sem embargo. Atualmente os Mapuche vêm se apropriando de modernas ferramentas de comunicação. considerada o coração de seu território ancestral. estima-se que 62% dos Mapuche vivam em cidades. sendo que segundo pesquisa oficial 42% dos Mapuche da Araucanía se encontravam no nível da pobreza (ODPI. fazendo com que. como a internet e os recursos audiovisuais.Ainda de acordo com o censo de 2002. 21 . conservar sua língua original e acima de tudo tentando difundir os conflitos territoriais e a repressão pela qual vêm passando. sendo que só a região metropolitana de Santiago abrigaria mais de 180 mil indivíduos (30% de toda a população Mapuche). 2004). buscando registrar traços essenciais de sua cultura. encontra-se socialmente marginalizada. um terço da população Mapuche (por volta de 200 mil pessoas) ainda vive na região administrativa da Araucanía. entretanto.

2. O ESTADO CHILENO: “POR LA RAZÓN O LA FUERZA”

C

om a independência do Chile, de início, a situação só se altera para pior. Em nome de ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”, toda uma legislação igualitarista foi promulgada, visando destruir as bases da vida tribal, assentada na propriedade comunal da terra. Nominalmente, se igualara o araucano a todos os demais chilenos, mas, efetivamente, se liquidava com a condição fundamental de sobrevivência autônoma. Desencadeia-se, desse modo, um processo de competição entre os índios, de um lado e, do outro, os latifundiários, que tinham nas terras comunitárias vizinhas sua fronteira mais flexível, e todos os que queriam fazer-se proprietários. É a época das compras fantasiosas, das sucessões e cessões ‘livres’ de territórios tribais que permitiram arrebatar aos araucanos a quase totalidade de seus antigos territórios e a engajar mais índios despojados na camada mais miserável da população rural. (Darcy Ribeiro, 2007, p. 340).

3.1 ESTADO, NAÇÃO, TERRITÓRIO E A QUESTÃO INDÍGENA: APORTES TEÓRICOS

Para podermos compreender corretamente a relação entre o Estado chileno e a etnia Mapuche, devemos antes disso, compreender os processos históricos de colonização dos territórios sobre os quais este Estado atualmente se assenta. A análise deve necessariamente abordar os aspectos da formação territorial e nacional, ao mesmo tempo em que deve tentar compreender a dinâmica espacial desta formação. Antes de tudo, devemos ter presente que conceitos como “Território”, “Estado” e “Nação” não são atemporais, mas historicamente determinados, frutos do processo de modernização capitalista 10 e intrinsecamente atrelados a ele (HAESBAERT, 2006, p.134). Como ilustração das

10

Cf. MARTINS, André, 1992. Para o autor, o Tratado de Paz de Westfália (1648) marca o início da constituição de um sistema “moderno” de fronteiras na Europa, baseado na idéia de nação. Após este tratado firma-se a noção de que a fronteira marca o limite territorial onde o Estado-Nação exerce sua soberania.

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limitações espaço-temporais destes conceitos, poderíamos tomar a concepção clássica de “Nação” de Voltaire, em meados do século XVIII, onde diz que “a nação é um grupo de homens estabelecidos em um território definido, que forma uma comunidade política e se caracteriza pela consciência de sua unidade e sua vontade de viver em comum” (1980, p.33). Qual seria a validade da definição para o período contemporâneo, especialmente nos países que sofreram processos coloniais, onde a idéia de identidade nacional foi inserida predominantemente pela via ideológica estatal, motivado por claros interesses políticos integracionistas? Deste modo, muitas investigações vêm sendo desenvolvidas buscando compreender as particularidades da formação das sociedades coloniais, no que se convencionou chamar de “estudos pós-coloniais”. No que confere ao continente americano, a questão indígena seria um dos temas relevantes dentro destes estudos, visto sua importância para a compreensão das complexas sociedades mestiças aí desenvolvidas. A mobilização de mão-de-obra indígena, baseado em preceitos teológicos e raciais, teve como objetivo o incipiente processo de acumulação européia e como conseqüência, a uma massiva desterritorialização destas populações (BENGOA, 2007). Desconsiderou-se neste processo, por suposto, a territorialidade ancestral indígena e a particularidade identitária predominantemente daí derivada. Fazemos menção aos processos de “identidade territorial”, tão presentes nas sociedades tradicionais. Para estas, de maneira geral, a territorialidade “além de conter dimensões sócio-políticas, também contém uma ampla dimensão cosmológica, o que não ocorre na concepção de território do Estado” (FARIA, 1997, p. 16). Predomina-se nesta concepção, não o valor-de-troca, mas sim o valor simbólico do espaço, a fusão de recursos materiais, morais e espirituais. Haesbaert identifica estes territórios como culturalistas, ou seja, “produto da apropriação resultante do imaginário e/ou identidade social sobre o espaço” (HAESBAERT, 2006, p. 39-40). Em relação à ciência geográfica, o conceito de território nos remete à Friedrich Ratzel, que deu importantes aportes teóricos para a compreensão das relações entre o Estado, as fronteiras territoriais e a soberania, ainda no final de século XIX. Para o autor, o Estado seria um tipo de organismo espiritual e moral que articularia o “povo” e o “solo” (RATZEL, 1987). A partir deste aporte inicial, o conceito teve inúmeras outras interpretações, não obstante, sempre se atendo à dimensão política do espaço. Buscando uma essência comum a estas formulações, poderíamos dizer que o território sintetiza a “apropriação de um determinado espaço, onde se estabelecem relações de

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poder” (LOPES, 2005). Sem embargo, como nos adverte Raffestin, a geografia política quase sempre tomou estas relações de poder como derivadas unicamente do Estado, em detrimento de outras instâncias, um equívoco a seu ver (RAFFESTIN, 1993, p.17). Como a geografia política encararia então, a idéia de “território indígena”? A nosso ver, ao tratarmos dos Mapuche, o conceito de “territorialidade” faz sentido até o já mencionado Tratado de Quilín, em 1641, quando a Coroa Espanhola acordou a autonomia das terras ao Sul do rio Bío-Bio, definindo assim um “território Mapuche”. Entendemos territorialidade enquanto o conjunto de mediações espaciais e seus referenciais simbólicos nascidos na relação de apropriação de determinado espaço. Em outras palavras, a dinâmica espacial destes grupos, ou seja, a ação sobre um espaço, que por ser poroso, subjetivo, ainda não se consolida totalmente como um território. Tudo indica que até o contato com o outro –os “winka”, isto é, os espanhóis- e especificamente até o acordo político que acordou a autonomia, as relações de apropriações espaciais indígenas prescindiam de uma dimensão material delimitada. No mesmo sentido, o conceito de “território” nos parece o mais apropriado para se discutir as relações espaciais de poder que vão de 1641 até o período contemporâneo, visto a delimitação física de fronteiras e apropriação política das terras delimitadas. Este conceito, que enquanto discurso dos movimentos indígenas cada vez mais substitui a antiga demanda pela “terra”, acaba neste âmbito por resignificar o conceito geográfico, querendo comunicar que reclamam não só à superfície da terra, mas também tudo o que está abaixo e acima dela, seja do mundo material ou metafísico, como, por exemplo, a água, os minerais, a vegetação, os espíritos dos antepassados etc. O território para as populações indígenas conota tanto meio de reprodução material como possibilidade de perpetuação cultural A identidade territorial, fruto da relação dialética entre determinado espaço e cultura, parece ser o propulsor do atual atvismo em defesa dos “territórios ancestrais indígenas”. Evidenciase nestas reivindicações o caráter conflitivo da histórica sobreposição entre as territorialidades indígenas e os territórios do Estado-Nação, cada qual com uma lógica, embasados por distintos sensos de pertencimento e identidade 11 . Tal é o exemplo dos Mapuche, que foram divididos entre os territórios argentino e chileno, ou ainda de muitos outros grupos indígenas, como os Quéchua ou os Guarani.

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Sendo esta por nós entendida como um sistema de relações e representações (GIMÉNEZ, 2004).

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pelo lema “Por la razón o la fuerza” (pela razão ou pela força). como estampa de seu escudo pátrio. uma plena unificação territorial. 1825).2 O PROCESSO DE FORMAÇÃO TERRITORIAL CHILENO E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA COM OS M APUCHE Após a independência chilena do jugo espanhol.à época da independência (Fig. à virulência da força na falta de uma suposta razão para seus propósitos.2. Somava-se ainda a importância geopolítica da Patagônia e do Cabo de Hornos. e que recorreriam. iniciava-se um intensivo processo de formação nacional. de criação de símbolos e mitos que pudessem agregar o contingente de pessoas que ali viviam. no extremo sul do continente. Enquanto os “brasileiros” elegiam a “ordem e o progresso” como divisa nacional. em 1818. ainda que o Estado chileno formalmente ratificasse o “território autônomo Mapuche” (Tratado de Tapihue. os “chilenos” optavam 70 anos antes. 06): 25 . que requeria além da homogeneidade cultural. presente até hoje em dia. assim como ainda hoje recorrem. Nesse sentido. a existência deste se tornou um obstáculo para o projeto nacionalista. espaço ainda fora de sua jurisdição –e da jurisdição do Estado Argentino. em torno de um projeto comum. Nada mais verdadeiro para justificar o espírito daqueles que queriam conformar a nação chilena.

a expansão da fronteira austral para além do rio Bío-Bío e a definitiva incorporação do território Mapuche se tornaram um dos grandes objetivos da incipiente república. Certa parte da fração sobrevivente.net). (Fonte: www. a partir de 1857. O projeto foi efetivado pelo coronel Cornélio Saveedra. tendo ocasionado a morte de milhares de indígenas e a pilhagem de grande parte dos bens dos que sobreviveram. na intervenção militar que ficou conhecida eufemisticamente como a “Pacificação da Araucanía”. Esta durou 21 anos (1862-1883) e incorporou a totalidade do território Mapuche. foi transferida às chamadas “reduções”. que não considerava o território Mapuche como parte de seu território. propriedades cedidas pelo Estado por meio dos “títulos de merced”. Desde meados do século XIX. por volta de 77 mil Mapuches. no começo do século XIX.atlas-historique. que numa 26 .Figura 06: América do Sul independente. Atentar para a República de Chile.

2005. Assentada nas terras mais pobres 12 e desconsiderando todo o vínculo cosmogônico dos Mapuche com seus lugares de nascimentos. p.5 hectares por indivíduo. 355). de perdão” (BENGOA. Fonte: Biblioteca Nacional Chilena.cl) A esse respeito Bengoa defende que é “a partir da Pacificação [que] surge o tema da pobreza Mapuche. 2000. 12 27 . 2000. p. numa média de 6. não tem a tecnologia nem a cultura agrária necessária para aproveitar adequadamente sua pequena propriedade. tradução nossa). De um vasto espaço. sem cercas. p. As terras dos “títulos de merced” se dão nas terras de pior qualidade” (BENGOA. 355).52. este processo –que ficou conhecido como radicaçãosignificou a diminuição a 13% do território Mapuche delimitado em 1641. autor desconhecido (www. a rotação natural de terras se vê reduzida tendo como conseqüência a erosão e o desgaste dos solos.memoriachilena. p. A criação extensiva de gado vai se transladando a pequenos espaços onde se abriram pastos. no que concerne a região administrativa da Araucanía (CORREA et alli. 1983. no final do século XIX. (Figura 07 e 08): Figura 07: Família Mapuche fotografada durante processo de radicação. os Mapuche se reduziram a pequenas propriedades.131. BENGOA. o indígena é obrigado a se tornar camponês sem ter a preparação para isso.tradução ao português se aproximaria a um “título de misericórdia.

foram cedidos a colonos nacionais e europeus 13 ou ainda foram tornados privados por meio de leilões públicos. (Fonte: Sistema Nacional de Coordinación de Información Territorial [SNIT] CHILE) A parcela dos indígenas que não foram transferidos às reduções -mais de 30 mil. 28 . o desenvolvimento e o progresso. Seguindo seu próprio ideal constitucional.ficou simplesmente sem direito algum à terra. foram transpassados aos militares da campanha. sendo obrigados a se transladarem às já restritas propriedades daqueles que conseguiram o título de merced ou então migrarem às cidades. O discurso da época possuía um matiz eugenista. as reduções destinadas ao confinamento dos Mapuche após a intervenção militar da “Pacificação da Araucanía”.Figura 08: Em azul. Os 87% do território o qual o Estado chileno se apropriou tiveram diversos fins: tornaram-se terrenos públicos. que apregoava haver uma só nação no interior 13 A maioria dos colonos europeus era de procedência alemã. traria consigo a civilização. defendendo que o “branqueamento” da população por europeus. legalmente institucionalizados desde sua gênese. conformando os tradicionais latifúndios do centro sul do Chile.

de seu território. as fronteiras territoriais dos Estados sul-americanos já estavam praticamente definidas. 29 .cl). 09 e 10): Figura 09: Túnel de ferrovia construída na Araucanía. Fonte: Biblioteca Nacional Chilena. ou através da proibição do mapundungun enquanto idioma ou ainda por meio das cada vez mais freqüentes missões religiosas e catequeses. seja pela coação das crianças nas escolas.memoriachilena. o Estado chileno trabalhou ideologicamente de diversas maneiras tentando integrar e nacionalizar os antigos donos da terra. estendendo sua fronteira até o Cabo de Hornos (Fig. de maneira geral. 1900. que já não eram mais “índias” e sim “chilenas”. No ano de 1900. autor desconhecido (www. tendo o Chile levado a cabo seu projeto de dominação e posterior integração física da atual porção austral de seu território. após a tomada do território Mapuche.

desta vez por volta de um quarto (CORREA et alli. 62). p. assim como a região salitreira ao norte. p.atlas-historique.net).Figura 10: América do Sul em 1900. anexado pela Guerra do Pacífico.169) que permitia 30 . (Fonte: www. Não obstante. como assinala Bengoa. ao sul. num processo consentido de formação de latifúndios. 2000. pois até 1910 os colonos ocupavam somente 10% do antigo território Mapuche (BENGOA. vale assinalar que já nessa época se observava um fenômeno de concentração de terras. A condição agrária dos Mapuche se agravou nas primeiras décadas do século XX. 357). um novo processo de redução se deu por uma lei (Nº 4. 2005. que logrou a posse do estratégico Cabo de Hornos. já que por meio de falsificações diversas (as chamadas “corridas de cerco”) as reduções sofreram uma nova diminuição. Posteriormente. Atentar para a República de Chile.

1994. Não obstante as esperanças duraram até o dia 11 de Setembro de 1973: o golpe de Pinochet iniciou um processo de contra reforma-agrária. buscando incorporar não só os “camponeses sem terra”. 1994. sendo que 20% destas foram repassadas aos Mapuche e o resto a camponeses (CORREA et alli. e a natureza [que era] assumida integralmente foi fraturada em múltiplas zonas e nichos. em vigor por diferentes estratégias políticas de 1927 a 1972. as redes produtivas foram desarticuladas. 219). já não podiam exercer a antiga mobilidade que a mapu representava.” (MORALES URRA. 2005. de 1991 (apud 31 . já que o “território foi convertido de uma unidade entre dois grandes rios. 02. p. p.000 pedaços dispersos entre o mar e a cordilheira. 97). As conseqüências desse processo foram diversas. a maquinaria agrícola destinada aos Mapuche foi confiscada. As expropriações na região da Araucanía durante este processo chegaram à cifra de 739 mil hectares. ou ainda por tributos territoriais a que se viram obrigados a pagar ao Estado. passível de livre compra e venda e assim regulamentada pelas leis de mercado.97) A situação política teve alguma mudança na década de 1960 e inícios dos anos 1970. a mais de 3. Em suma. De acordo com dados da “Comissão Verdade e Reconciliação”. Assim como podemos constatar que o processo de formação dos latifúndios na região da Araucanía teve sua formação original legitimada e induzida pelo próprio Estado chileno. Os líderes das agrupações foram perseguidos. Eduardo Frei Montalva e de Salvador Allende abriram o debate da Reforma Agrária no Chile e por meio de mobilizações dos setores indígenas. por volta de 25% dos terrenos comunais Mapuche já tinham sido divididos em propriedades particulares e caído na mão de proprietários não indígenas. sendo a principal delas desestruturação de sua organização sócio-espacial.e incentivava a divisão das comunidades. 2002. 365). Até o ano de 1949. Os Mapuche que conseguiram permanecer nas reduções. estas tenderam a abrir a discussão da questão agrária. MORALES URRA. como também os “indíos usurpados”. p. p. p. Os governos de Jorge Alessandri. Em relação aos aspectos culturais. Esta significou a legalização jurídica da fragmentação das propriedades comunais em propriedades privadas. na tentativa de fazer produzir a terra. Igualmente inumeráveis famílias Mapuche perderam suas terras por dívidas contraídas em bancos e agiotas. foram fadados ao minifúndio e à produção de subsistência. pode-se constatar que na metade do século XX as “reduções” teriam significado a redução de 95% das terras Mapuche em relação ao “território autônomo Mapuche” do período colonial (PDI. após serem confinados nas reduções (Ibidem.

p. se produziu a perda de maquinário.62). os assentamentos. colheita. cooperativas. 299).MORALES URRA. infra-estrutura produtiva. o regime ditatorial devolveu 1/3 da terra apropriada aos antigos donos. 1994. As terras vendidas destinaram-se predominantemente às grandes corporações florestais estrangeiras. 32 . Soma-se o fato que em conjunto com a perda de terras. Como conseqüência do expressado. só na região da Araucanía. que eram fruto da capitalização acumulada durante todo o processo de reforma Agrária. valores e diversos tipos de bens (CORREA et alli. animais. p. 2005. estima-se que somente metade foi entregue a assentados de origem Mapuche. sendo o restante entregue a camponeses chilenos. que tiveram todo o apoio técnico e político para se instalarem nestas terras. durante a ditadura. Deste último terço. para propiciar o retorno de terras ao mercado. p. (Ibidem. centros de reforma agrária e centros de produção Mapuche sofreram a confiscação de seus bens móveis. vendeu outro 1/3 às corporações internacionais e repartiu o outro 1/3 em parcelas individuais. De maneira geral. 104). 113 Mapuche foram mortos pela repressão estatal.

el telón de otro mundo. -Una es para morir. obligando a los indios a la soledad. Pero estas tierras ya no son. Vale dizer que a constituição da propriedade seguiu exatamente esta seqüência. privada e reducional (indígena). callan juntos. culpables de ser incapaces de propiedad privada. me adormezco en el viaje. como si alguien hubiera descorrido.1 A TERRITORIALIZAÇÃO DO CAPITAL NA REGIÃO DA ARAUCANÍA Como dito. A TERRITORIALIZAÇÃO DO CAPITAL: A DESESTRUTURAÇÃO TERRITORIAL DOS MAPUCHE iniendo desde Temuco. El valle de Repocura aparece y resplandece ante mis ojos. Súbitamente. en juntar sus pobrezas. Libro de los abrazos) V 3. y todavía trabajan juntos. En Chile no hay indios: sólo hay chilenos – dicen los carteles del gobierno. como antes. médico. ni jamás tuvo. ni practicante. no más –dice una de las mujeres. me despiertan los fulgores del paisaje. (Eduardo Galeano. Un decreto de la dictadura de Pinochet ha roto las comunidades. repartiu o antigo território Mapuche em três diferentes classes de propriedade: pública. no existen. “Los indios/1”. na segunda metade do século XIX. Ellos insisten. sendo as terras Mapuche aquelas que por sua baixa fertilidade não possuíram interesse econômico por parte da iniciativa privada e 33 . Estamos reunidos en un centro médico que no tiene. de todos y de nadie. sin embargo. a investida militar e o conseguinte processo reducionista levado a cabo pelo Estado chileno. Nosotros llevamos cinco siglos. ni enfermero.3. Los indios. ni nada. Nos sentamos en círculo. de repente. dicen juntos: -Ustedes llevan quince años de dictadura – explican a mis amigos chilenos-.

ferramentas. Após o golpe militar. o posterior processo de contra-reforma agrária viria a confiscar todas as terras e bens adquiridos. contudo. isto é.] 34 . como por exemplo. com mão de obra familiar e destinada à subsistência. Obviamente tal regime era totalmente alheio à estrutura produtiva anterior. alterar o caráter dependente destas exportações. insumos etc. um significativo financiamento estatal de maquinaria agrícola. o vinho e o salmão (PDI. Em relação à balança comercial. num regime de produção intensiva de gêneros alimentícios. Destarte. diminuíram drasticamente as atribuições do Estado e guinaram uma rápida abertura do Chile ao mercado mundial. levaram adiante uma série de privatizações. historicamente predominante na economia chilena. não foram arrematadas nos leilões públicos. Através dessa disposição se pretendia não só despojá-los de suas terras ancestrais. mas sem. por serem provenientes da Universidade de Chicago. o governo de Pinochet adotou imediatamente um plano de ação neoliberal. Sobre as políticas fundiárias. 28-34). Este favoreceu.. regular e assegurar a existência de tais relações. desestruturando por completo a apropriação coletiva por dos mesmos. no caso optando por matérias-primas com pouco valor agregado ou gêneros alimentícios semi-processados. Seu plano econômico era antípoda ao da Unidade Popular.. senão também privar o povo Mapuche do direito de ser reconhecido como tal. As contradições deste processo se recrudesceriam por quase cem anos. preparado por um grupo de economistas que ficaria conhecido como “Chicago Boys”. desestruturando a incipiente organização produtiva que havia sido lograda. o governo buscou uma diversificação da exportação cuprina. radicou os Mapuche em pequenas propriedades. Ao mesmo tempo em que tal processo favoreceu uma estrutura agrária de tipo latifundista. encontrando condições políticas de distensão no processo de reforma agrária da década de 1960/1970. uma premissa para o avanço espacial das relações capitalistas é a formação da propriedade privada da terra. baseada numa criação extensiva de animais. Como sabemos. [. defendiam uma forte liberalização da economia como meio de “desenvolvimento social”.conseqüentemente. destinada à produção agropecuária e posteriormente ao plantio florestal.568 liquidaria a figura jurídica da propriedade comunitária da terra Mapuche. Tal medida foi definitivamente levada a cabo em 1978: o decreto-lei 2. 2002. regulamentada por um corpo jurídico que possa legitimar. p. em territórios maiores. além da desapropriação de terras a favor dos Mapuche e de sua organização em torno de cooperativas.

que atualmente lideram o mercado. no que concerne à concentração da terra na Região da Araucanía. Celulosa Constitución. 64 proprietários detinham 22% (306. Ainda sobre o decreto-lei. Estas empresas eram a Celulosa Arauco. p. sem precedentes em nossa história. onde como no Chile ovaciona-se o crescimento do PIB e cantam-se hinos de louvor ao “capitalismo que têm dado certo”. onde os 10% mais ricos da população possuem 47% da riqueza do país 14 (SADER & NOBILE. somente entre 1979 e 1986 dividiram-se um total de 1. 2005).2-3). p.568 foi o golpe derradeiro para a concentração de terras na região. 2007). através da Forestal Arauco e Celulosa Arauco e o grupo Matte. quando o Estado espacialmente abriu caminho ao capital. por meio da divisão das propriedades. 2003. No Brasil 10% da população detêm 75. 288).418 produtores detinham apenas 6. Masisa y La Compañía Manufacturera de Papeles y Cartones (CMPC). 7. que rapidamente territorializaram este capital por meio de extensivas plantações.56 % da superfície (127. 2003. restando 24. Ambos os grupos controlam mais de 60% da atividade florestal no Chile. p. p.268 ha. que controla a Forestal Mininco e a Celulosa CMPC. Inforsa. Surgiram assim.6% dos bens e dinheiro para ser dividido entre os 165 milhões de brasileiros restantes. devido às características geográficas e aos incentivos políticos.Sobre a base dessa legislação.680 ha. de trigo e a criação de bovinos) e as explorações florestais (Fig.) da superfície explorada com atividades agropecuárias.739 comunidades (59. o governo Pinochet já havia privatizado grandes empresas relacionadas à produção de madeira e celulose 15 .4% de toda a riqueza nacional. Em relação ao uso do solo na Região da Araucanía. já havia uma prévia capitalização das indústrias do ramo florestal. tendo inclusive investimentos na Argentina (CORNEJO. cujos donos são dois dos mais importantes grupos econômicos chilenos: O grupo Angelini que controla o maior investimento florestal no Chile. verificou-se desde então um processo divisório das comunidades indígenas. predomina-se o uso agropecuário (principalmente o plantio de aveia.) (GOBIERNO DE CHILE.6% do total existente) entre as províncias de Arauco e Osorno (COMISIÓN VERDAD HISTÓRICA Y NUEVO TRATO. a política neoliberal vem favorecendo uma acentuada concentração de renda no Chile. 02) 15 35 . Forestal Arauco. enquanto 27. 2003. 2006. percebe-se que este se alicerçava numa estratégia de modernização produtiva muito maior. uma vez que em 1978. tradução nossa) O decreto-lei 2. De acordo com o “VII Censo Nacional Agropecuario y Forestal” de 2007. Assim. Da mesma forma. (POCHMANN et alii. Assim. liderando as exportações no ramo da madeira e derivados. 11): 14 Nada diferente do Brasil. (CORNEJO. dos antigos latifúndios e terras do estado as grandes empresas florestais.

Ainda cumpriu a função de propiciar a infra-estrutura para estes capitais. Ao mesmo tempo. (Fonte: VII Censo Nacional Agropecuario y Forestal. 3.2 O AVANÇO POR SOBRE AS TERRAS M APUCHE 3. vêm possuindo prioridade política e orçamentária.2. cumpriu a função de abrir caminho aos investimentos capitalistas. O capital. por meio de grandes investimentos em energia e transportes. o do Ministério de Obras Públicas (MOP). As políticas públicas em “investimentos produtivos” e de infra-estrutura.Figura 11: Uso do Solo na Região de Araucanía. O Estado. propiciando estabilidade e segurança aos mesmos. como por exemplo. inclusive com respaldo constitucional para isso. aplicadas à Região administrativa da Araucanía. à custa do despojo e da miséria indígena. territorializou-se de maneira a tirar proveito das especificidades geográficas da região da Araucania. o capital e o Estado estiveram atrelados no processo histórico de desestruturação dos territórios Mapuche.1 Intervenções Estatais em nome do capital: o Estado como abre-alas aos setores menos rentáveis. por sua vez. buscando transformá-los em camponeses chilenos. 2006-2007) Em nossa interpretação. Fundamentalmente as intervenções territoriais neste sentido são as de caráter energético e de 36 . tentando desde sua gênese descaracterizar sua identidade indígena Mapuche.

37 . inundando mais de 3. Mercosul e União Européia) foram assinados.Setor de transporte O Ministério de Obras Públicas vem planificando e executando dois projetos de rodovias que cruzam a Região de Araucanía. a qual ainda mantém relações sociais pouco capitalizadas.transportes. 3. A primeira é a “Carretera de la Costa”. Esta é uma área de ocupação predominantemente Mapuche. produziu-se uma expansão do investimento estrangeiro no Chile. a hidroelétrica “Ralco”. facilitando o fluxo de mercadorias e a exploração de recursos naturais aí existentes. pesqueiros. a qual tivemos possibilidade de visitar. a contar da década de 1990. minerais e frutícolas foram os que mais se capitalizaram. Nafta.Empresas florestais 16 Como a remota região do Lago Budi. sendo que no caso da Região da Araucanía. b).desenvolve um projeto para a construção de seis centrais hidroelétricas na bacia hidrográfica do Alto Bío-Bio. a). os setores florestais. particularmente aqueles vinculados a exploração de bens primários e de recursos naturais pouco processados.Setor energético Desde a década de 1980 a Empresa Nacional de Energia (ENDESA) -hoje privatizada na mão do capital espanhol. projetada pela ditadura militar.2 Principais investimentos capitalistas na Região da Araucanía O Estado gerou uma série de instrumentos para transferir recursos ao setor privado. numa área densamente povoada por comunidades Mapuche-huenteche. foi inaugurada em 2004. O segundo projeto é uma variante da “carretera panamericana sur” e seu trajeto se localiza na altura da cidade de Temuco. A segunda desta série. Como conseqüência.500 has e desapropriando ao redor de 500 indígenas. Vejamos os principais projetos deste tipo atualmente levados a cabo: a). beneficiando grandemente o setor exportador. visando integrar economicamente áreas de difícil acesso 16 .2. por distintos governos. Diversos acordos de livre comércio (China. setores estratégicos à modernização capitalista e à integração comercial destas áreas.

dividida entre espécies nativas e exóticas. 2005. só perdendo para o Brasil. especialmente na depressão intermediária.03).. 07) (Fig 12): 38 . a silvicultura ocupa cerca de 650 mil has. as explorações florestais estão localizadas em toda a parte centro-oeste. Em relação à última. sendo a área da última estimada em 327 mil hectares (Pinus radiata e Eucalyptus globulus) (CORNEJO. A contradição se evidencia quando tomamos em conta que após a invasão militar do tradicional território Mapuche. sendo a produção de madeira e seus derivados um dos principais produtos nas exportações chilenas. p. 2003.Atualmente o Chile é o segundo maior produtor de celulose da América Latina. As plantações de pinus e eucaliptos se concentram em duas regiões administrativas (ambas pertencentes ao território ancestral Mapuche): Bío-Bío e Araucanía. somente cerca de 500 mil hectares foram a eles destinados por meio dos “títulos de merced” (AYLWIN. inclusive). p. De acordo com o censo de 2007. entre a Cordilheira dos Andes e a Cordilheira da Costa (e nesta última.

É fato que a produção florestal e a exportação da celulose daí derivada tem significado um incremento a balança comercial chilena: estima-se que no ano de 2011 as exportações chegarão a 5. 29-30. (PDI. CORNEJO. diminuição da quantidade de água no solo (podendo inclusive eliminá-la por completo). Fonte: Adaptado por nós de Sistema Nacional de Coordinación de Información Territorial [SNIT] CHILE. p. 2002. não há qualquer indício de melhoria nas condições de vida das populações rurais. 39 . na maioria Mapuche. 2003). Seguramente o número de terras Mapuche é sobreestimado no mapa. tampouco pensamos que exista. que vivem próximas das áreas de plantio do pinus e eucalipto. As conseqüências da substituição do bosque nativo pela monocultivo madeireiro são bem conhecidas: erosão e desestruturação do solo.Figura 12: Monocultivos florestais em relação às propriedades Mapuche outorgadas pelos “títulos de merced Não encontramos um mapeamento das propriedades Mapuche atualizado. visto a desregulamentação do “caráter indígena da terra” promovida pelo governo Pinochet. No entanto. perda da biodiversidade etc.600 milhões de dólares.

A expansão pesqueira tem provocado um grande lobby de investidores privados nas instâncias políticas. 2002. entretanto já se pode perceber a contaminação das águas nas áreas de maior densidade produtiva. No fundo. perdendo assim sua própria razão de ser. Em relação ao primeiro.No caso específico dos Mapuche. quase que exclusivamente destinada à exportação. p. La Araucanía registrou investimentos na ordem de 52 milhões de dólares. nas funções de “médicas” da comunidade. relacionados ao ecossistema de produção: o mar e as águas superficiais do interior. Em relação às criações de água doce.O setor pesqueiro O setor pesqueiro se divide em dois ramos de atividade. 40 . ao mel selvagem. só encontrados na vegetação nativa: as machis (xamãs). já não podiam realizar a coleta de suas plantas de poder. nesse caso o mais fundamental à reprodução humana: a água. Fazemos menção à cosmovisão. nas regiões administrativas VIII. Os impactos ambientais desta atividade ainda não foram rigorosamente estudados. ambos regulamentados pelo Estado. a noção de equilíbrio e reciprocidade. b). IX e X (PDI. no que se refere a produção de salmão. estamos diante da privatização de recursos naturais. isto é. No período 1999-2006. aos newéns da mata. a atividade que se destaca é a salmonicultura. 34). Inclusive em nosso trabalho de campo nos foi relatado a crescente dificuldade de acesso aos medicamentos tradicionais Mapuche. as plantações florestais geram ainda outras conseqüências. como as da ordem cultural. evidentemente pelo interesse do controle dos recursos hidrobiológicos e do direito à exploração da área costeira. de 930 mil toneladas a mais de oito milhões de toneladas por ano. o acesso à caça. entre 1975 e 1994 as capturas aumentaram quase 800%.

no Brasil. pode-se dizer com segurança que os povos originários. em maior ou menor 17 18 No período colonial os indígenas tiveram. 1833). que em outros países esses povos são inexistentes: Colômbia. algumas delas com nítidos projetos eugenistas 18 . em Chile o históriador Francisco Antonio Encina. na Bolívia. O C ONFLITO : O DIREITO DE EXISTIR o hay verdades universales y eternas. Fazemos referência aos específicos processos políticos que ocorreram na América Latina. em média. 1976) N 4. enquanto parte de um fenômeno mais abrangente: a contemporânea emergência indígena latino-americana. está el pecado mortal de América. Guatemala e Bolívia. já que a maioria da massa populacional indígena –atualmente em torno de 25 milhões– se concentra em apenas quatro países: Peru. Alcides Arguedas (Pueblo Enfermo. a parcela indígena tende a se diluir proporcionalmente. En haber creído en ellas. 1909). a nosso ver. como também são chamados. Devido a processos históricos coloniais 17 e da formação das repúblicas latino-americanas. por exemplo. existem em praticamente todo território latino-americano. (Adolfo Colombres. estimam que ultrapassem os 600 mil. Equador e Chile. para o debate argentino. devido à grande magnitude populacional de não-indígenas nestes países. 41 . é claro. processos estes que explicam a atual condição social em que se encontram as populações indígenas aí residentes. Euclides da Cunha (Os Sertões. Apesar desta concentração. sino con relación a un determinado tipo de hombres y a una época. Brasil. la causa de las distorsiones que durante tanto tiempo cerraron el camino a la plenitud.4. sua população reduzida na proporção de 25 para 1. No entanto. Tais processos explicam a espacialidade desta população no atual contexto continental. Vide como exemplo Domingo Faustino Sarmiento (Conflictos y armonías de las Razas en América. A emergência indígena Mapuche só pode ser compreendida. México. en mirarse con los ojos del conquistador. muitos povos originários sofreram a ação de uma verdadeira política etnocída.1 A questão indígena latino-americana: uma aproximação espacial A questão Mapuche contemporânea se constitui enquanto particularidade de um processo espacialmente mais amplo e historicamente mais extenso. 1902) e Monteiro Lobato. Isto não significa. Carlos Octávio Bunge e José Ingenieros.

a construção do conceito de “raça” e sua hegemonização. mediante a racialização da relação entre os colonizadores e os colonizados.número (Fig. em 1995. 2007a O termo “índio” nasce no período colonial. Fonte: LAROSA & MEJIA. Figura 13: Porcentagem da população indígena em relação à população total. p. Foi utilizado como ferramenta de submissão. 108). 13). colonizador. em clara oposição ao branco europeu. Como nos elucida Aníbal Quijano (2008. gerada para naturalizar as relações sociais de exploração 42 .

A solução para tal questão histórica implicava a subversão e desintegração completa do padrão de poder. ou melhor. a partir da indissociabilidade do Estado. a “des-indianização” do indígena começou a fazer parte do pensamento republicano. por exemplo) não fossem suficientes para integrar a população indígena à “sociedade nacional”. do território e da nação. que A eurocentragem (sic) do controle do novo padrão de poder fez com que a elaboração intelectual sistemática do modo de produção e do controle do conhecimento tivesse lugar precisamente na Europa Ocidental. com os objetivos de aproximar a nação. A expansão mundial do colonialismo europeu leva também à hegemonia mundial do eurocentrismo. vai se formando ao mesmo tempo e no mesmo movimento histórico. desta vez em torno da hegemonia não mais da raça. que traz conseqüências até os dias de hoje: a existência de Estados independentes articulados a sociedades coloniais. O estigma da “raça”. aliado ao “exclusivo metropolitano”. levados a cabo pelas classes –branca. a identidade e a democracia. 110). a questão indígena na América só faz sentido se discutidas em relação à colonialidade do “padrão de poder” vigente.produzidas pela conquista. Para o autor. 108. que foi o pacto colonial que dava o direito do monopólio comercial. A partir do final do século XIX e durante praticamente todo o século XX a “assimilação”. funcionou como pedra basal do novo sistema de dominação colonial. fez com que simples alterações nas relações de produção (como a eliminação das formas não salariais de divisão do trabalho. que por sua vez. tão naturalizado socialmente durante mais de três séculos. Ambos foram imprescindíveis à acumulação primitiva e a posterior Revolução Industrial. entre elas a escravidão. (QUIJANO. ou seja. línguas e classes sociais. A formação destas nações no contexto colonial exigiu a necessidade de conformação de uma multiplicidade de culturas. p. Devemos lembrar que este sistema funda-se como premissa histórica para a instauração do moderno sistema produtor de mercadorias 19 . culturalmente europeizadas– que protagonizavam os processos políticos de então (Ibid. A especificidade desta formação instalou na América um paradoxo histórico específico. etnias. p. em escala mundial. tradução nossa). Obviamente tal desintegração não aconteceu. mas do capital. pois feria os interesses sociais de perpetuação da dominação. Uma das principais conseqüências da experiência colonial foi então o “eurocentrismo”. todos com todas contradições internas. As posteriores repúblicas se formariam partindo do modelo iluminista moderno. 19 Visto o gigantesco fluxo de metais preciosos que se dirigia das colônias às metrópoles. 43 . 2008.

44 . cultura essa conhecida comumente pelo epíteto “nacional”. a pressão indígena por mudanças constitucionais na Colômbia etc. especialmente sua emergência nos últimos trinta anos. em suma. e predominantemente ainda consiste na assimilação dos índios à cultura dos que lograram sua dominação. na patagônia argentina. em 1995. as reivindicações também dos Mapuche contra a existência de latifúndios em posse de estrangeiros. os acordos de Paz e a revisão dos direitos indígenas. na Guatemala. ambas em 2003. A globalização é. no Peru. isto é. É a partir da década de 1980 que percebemos a ascensão dos movimentos indígenas enquanto sujeitos históricos. Soma-se a contra-ofensiva dos Cinta-Larga. Assim a globalização procura aproveitar a diversidade. podemos verificar os conflitos pela homologação da Área Indígena Raposa Serra do Sol em Roraima e as ocupações de 14 fazendas simultaneamente pelos Guarani-Kaiowá. (DIAZ-POLANCO. o renascimento do movimento katarista na Bolívia e toda a discussão constitucional levantada por Evo Morales. é claro. no Mato Grosso Sul. Especificamente no Brasil. os protestos Mapuche contra a construção de represas no Alto Bío-Bío (Chile). poderíamos citar os levantes zapatistas de 1994. Nesse complicado contexto histórico e espacial é que podemos compreender a particularidade do movimento Mapuche. isolar e eventualmente eliminar as identidades que não são domesticáveis ou digestíveis. 20 Como exemplo. a conformação da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) em 1986 e sua posterior insurgência em 1990 ("Levantamiento del Inti Raymi). A diversidade pode ser nutritiva para a globalização. Justamente na conjuntura dos processos neoliberais e de globalização. e a solução adotada pelos Estados para tal questão consistia. 14). o congresso continental de 1990 em Quito. quando ideólogos defendiam a ocorrência de uma homogeneização cultural e social. 01. que repeliu a ação predadora de milhares de garimpeiros na Área Indígena de Roosevelt. num processo de resgate étnico e de criticidade em relação aos fundamentos dos Estados republicanos 20 (Fig. livre de rugosidades.principalmente por meio do sistema institucionalizado da educação pública e secundariamente mediante o trabalho de instituições religiosas e militares. em Rondônia. no México. p. em que as identidades possam deslizar se articularem e circular em condições que sejam favoráveis ao capital globalizado. essencialmente etnófaga. 2006. Tal problemática e suas contradições receberam o nome de questão indígena. descontando algum tipo de identidade que lhe possa ser indigesta. resultando na morte de 29 invasores. ainda que no transe globalizador buscará. um notável renascimento étnico e identitário ao redor do mundo: A globalização funciona melhor como uma gigantesca máquina de "inclusão" universal que visa criar uma superfície lisa. tradução nossa). vemos a ocorrência do oposto.

seu acesso à terra. A questão da irrupção destes movimentos indígenas sugere a atualidade de suas históricas demandas. Destarte. estando os dois relacionados dialeticamente. para efeito analítico. Os primeiros fariam menção. tensionadas durante séculos. sua condição social e econômica. as condições de fazê-la produzir. por exemplo. ao peso demográfico da população indígena. sua 45 . Fonte: Adaptado por nós de LAROSA & MEJIA.Figura 14: Novos movimentos indígenas latino-americanos. 2007b Não poderíamos associar este fenômeno a uma única causa. poderíamos pensar em fatores estruturais e fatores conjunturais. tampouco estabelecer um esquema determinista de causa e efeito.

Alguns autores defendem que o fim da Guerra Fria enfraqueceu as concepções identitárias classistas. possuem maior homogeneidade. sob cada constituição. Por outro lado. BENGOA. poderíamos considerar situações/processos que favoreceriam ou desfavoreceriam a eclosão e efetivação dessas demandas. (TOLEDO.maior ou menor organização política. B. ou ainda populações urbanas que haviam migrado e que vivenciavam processos de aculturação puderam reverter este processo (TOLEDO. ao mesmo tempo em que fortaleceu as de caráter étnico. 2005. A do caso específico dos Mapuche será apresentada no próximo subcapítulo. instaurado pelos governos (na maioria militares) da América Latina. Em outras palavras. 2005. que muitas vezes se identificavam e/ou eram identificados meramente como “camponeses” BENGOA. em cada movimento organizado. fazendo parte de processos espacialmente mais abrangentes. Estaríamos assim diante de um processo de resignificação identitária indígena. Estes provocaram aumento de fluxos informacionais e conseqüentes mudanças no que concerne à identidade. principalmente naquelas que se encontravam tencionadas e/ou mal consolidadas.. trouxeram o tema indígena ao centro do debate nacional (TOLEDO. a valorização geopolítica e econômica dos territórios reivindicados por parte dos poderes hegemônicos etc. possuiria diferentes condições efetivas de avançar em suas demandas políticas e culturais. Essas últimas. cada etnia.Com maior acesso aos recursos tecnológicos. BENGOA. como a do caso indígena (QUIJANO. 114). regional ou local..O processo de neoliberalização econômica e ajustes estruturais. O posterior contexto de crise econômica e enfraquecimento dos Estados em seus projetos modernizadores. como fatores conjunturais. a partir da década de 1970. 2007). em nosso entendimento. em cada país. 2007). somado à posterior abertura democrática e reformas constitucionais. populações rurais que viviam praticamente isoladas puderam se organizar enquanto coletivo. Entre as hipóteses levantadas pelos autores consultados estão: A. Evidentemente estes fatores não possuem homogeneidade espacial (no caso. de maneira geral. 46 . ou ainda um desenvolvimento político das mesmas. 2008. p. 2005. da América Latina) ainda que possam historicamente conformar certa unidade.. C. 2007).

no que concerne à América Latina. as reivindicações e o avanço político logrado pelas organizações indígenas são distintos nos diversos países da região. 2004. p. mas provavelmente uma das maiores influências. deve-se dizer. existe a possibilidade que muitos movimentos evoluam para reivindicações de autonomia territorial. tal projeto. como o convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho. no sul do México. consentimento livre. na região Andina e em alguns países da América Central. foi o desenvolvimento da doutrina internacional de direitos indígenas e a criação/ratificação destes pelos Estados. Soma-se a este contexto jurídico a força do discurso ambientalista internacional. realizava-se em Santiago do Chile o seminário “Latinoamérica 2020: pensando en los escenarios de largo plazo”. 2006. controle e acesso às terras. Entre as normas internacionais básicas relativas aos direitos coletivos dos povos indígenas encontram-se os “direitos de propriedade.. Reivindicações territoriais impulsionadas por grupos irredentistas poderiam incluir o cenário de insurgência armada e violência política (National Intelligence Council. agência de informação dos Estados Unidos. ressaltamos que como síntese desses diversos fatores. Não obstante. amplia indiretamente a força dos discursos indigenistas preservacionistas. podemos sintetizar essa 47 . uso. O avanço no protagonismo dos movimentos indígenas chegou inclusive a gerar preocupações entre os dirigentes latino-americanos. territórios e recursos. de 1989 [vide ANEXO A] e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. no marco do projeto “Global Trends 2020”. foi financiado pelo National Intelligence Council (NIC). A conclusão do seminário foi exatamente a seguinte: A emergência de movimentos indígenas politicamente organizados também pode representar um risco para a segurança regional. prévio e informado” acerca de intervenções em seus territórios (CEPAL.Por último. como há décadas atrás aconteceu na costa atlântica da Nicarágua. tradução nossa) Finalmente. de 2007. endógenos e exógenos. 05. p.D. 150). Se nos próximos anos os movimentos de reivindicação indígena não lograrem a inclusão no sistema político nem determinados níveis de inclusão social. os direitos de integridade cultural e os direitos à participação política. Em junho de 2004. que apesar de não se ater especificamente às questões indígenas.

o movimento dos povos originários. a participação na condução e elaboração de políticas indígenas. p. todos correlacionados: o direito à livre determinação enquanto indígenas. a não assunção do caráter pluriétinico do povo chileno (ibid. até os dias atuais. que regularia as diretrizes das políticas indigenistas. Entre os pontos críticos.demanda em três eixos fundamentais. sendo capazes de questionar profundamente as questões de caráter étnico e identitário. as reformas na lei autorizaram a troca de terras indígenas por terras não indígenas (caso o Estado 21 Conforme explicitado na introdução deste trabalho. por contemporâneo entendemos o período que vai desde a queda de Pinochet. em 1990. a concessão de terras públicas ou a desapropriação de privadas para assentamentos de comunidades indígenas. está por exemplo. 4. especialmente o dos Mapuche. principal bandeira de luta até então. visto a conjuntura política. vêm se caracterizando como um forte movimento político. 03) Apesar disso. o país com maior nível de repressão e reacionarismo à causa indígena. diversas organizações Mapuche se mobilizaram. 2005. 48 . Ademais. em 1990. como o reconhecimento da diversidade étnica e cultural chilena. p 05). obstacularizando fortemente a participação dos indígenas na vida política do país e das próprias comunidades das quais faziam parte. a adoção da idéia de autonomia em relação aos Poderes Estatais. tanto no Chile quanto na Argentina.253. o congresso acatou somente parcialmente estas reivindicações. os Mapuche. na redação da Lei Indígena (19.2 A emergência do movimento indígena Mapuche na contemporaneidade 21 Após a abertura à democracia. que atualmente incorporam estas três pautas. de 1993). Especificamente no Chile. Soma-se o caráter apenas consultivo das deliberações indígenas acerca das decisões que os afestassem e a não permissão à articulação política em torno de federações de associações ou comunidades indígenas. Dentro deste contexto. a formação de Estados Plurinacionais que possam abrigar a diversidade étnica e cultural e por fim. lograram nos últimos anos o direito a livre determinação e abriram caminho à segunda. no sentido de reivindicarem o acesso e a perpetuidade à terra. a proteção legal de suas terras e recursos naturais e finalmente o apoio estatal ao desenvolvimento econômico e cultural das comunidades (AYLWIN. Em relação ao acesso à terra. estas organizações perceberam que era um momento propício para colocarem em pauta questões que até então haviam sido postergadas.

pois marca o início de uma investida mais radical de parte do movimento Mapuche contemporâneo e consequentemente de repressão por parte do Estado. visando o aumento da participação política. Estes monocultivos são responsáveis por grande parte dos conflitos com os Mapuche. no ano de 1997 comunidades Mapuche da Comuna de Lumaco são acusadas de incendiar três caminhões madereiros peretencentes a empresa florestal Bosques Arauco S.400 habitantes. Assim se formaram organizações como o “Consejo de Todas las Tierras” (Aukin Wall Mapu Ngulam) e a “Coordinadora de Comunidades en Conflicto Arauco Malleco” (CAM). como por exemplo a água. por motivos diversos: eram áreas tradicionais no período pré-reducional. Como enfatizamos no terceiro capítulo de nosso trabalho (A territorialização do capital). além da grande porcentagem de população Mapuche. “autonomía”. a saída desesperada encontrada por algumas organizações foi a do aumento da radicalidade.A. sendo que. Convém determos um momento neste caso.000 hectares e de acordo com o censo de 2002. Caracteriza-se pelos altos índices de pobreza e indigência. considerado simbólico.se localiza a noroeste da região de “La Araucanía”.. que iniciaram um profícuo processo de politização. incorporarando a seus discursos conceitos como “nação indígena”. faziam parte dos títulos de merced mas foram adquiridas por meio de grilagem ou ainda foram florestadas pelas próprias comunidades Mapuche na época da reforma Agrária de Allende. “autodeterminação” e “teritorialidade”. sendo que 64% vivem na zona rural. Tal postura por parte do Estado favoreceu o tencionamento das relações com estas organizações e até mesmo a formação de outras. ocupam 49 . a recuperação de terras e melhores condições de vida à população Mapuche. cerca de 11. há uma grande expansão territorial no plantio de espécies exóticas na região administrativa de “La Araucanía”. Nesse sentido. p. Em meados da década de 1990 iniciam-se uma série de protestos. mas desapropriadas com as mudas já plantadas após o golpe de Pinochet. a despeito de constituirem mais de 70% da população. Possuí uma superfície de cerca de 110. 87).quisesse apropriar-se destas terras) e não deram o direito aos indígenas sobre os recursos naturais existentes em seu territórios. Visto a perpetuação da condição marginalizada dos Mapuche e a omissão estatal para com elas. A comuna de Lumaco -local onde se inicía a onda de protestos Mapuche. com quem mantinham conflitos territoriais (SEGUEL. 2007.

Em 2007. 50 .cl/node/1922). estas plantações florestais já ocupavam mais de 60% da superfície da comuna (GOBIERNO DE CHILE. No ano de 1991 havíam 29 mil hectares de plantações florestais (25% da superfície total). das quais 96% eram pinus. Dados de 2003 (adaptado por nós de CORNEJO. de acordo com o “VII Censo Agropecuario y Forestal”. 2003) Figura 16: Paisagem predominante da comuna de Lumaco. (Fonte: Observatório Ciudadano. Vejamos as figuras 15 e 16: Figura 15: Em negro as plantações florestais.observatorio. 2007). que possui mais de 70% da superfície coberta com monocultivos florestais . em vermelho as comunidades Mapuche.apenas 15% da superfície da comuna. em http://www.

Nesse novo cenário. Por dois anos os Mapuche de Lumaco haviam recorrido ao organismo de assuntos indígenas do governo chileno (CONADI). buscando uma solução à demanda de terra. enquanto o governo da Coalizão pela segunda vez em um ano (já o havia feito no caso da construção da hidrelétrica Ralco) tomou partido do lado dos interesses dos empresários chilenos. da marginalidade social. geraram um novo cenário para o confronto pela restituição de terras espoliadas à nação Mapuche. grifo nosso). o desespero Mapuche acabou em violência. pela busca irrefreável do lucro. 51 . E meus pais. 1998. Não é difícil compreendermos o contexto em que nasce os protestos Mapuche mais radicalizados: da pobreza econômica. 87. das próprias forças armadas. nunca tiveram resposta. é por isso que penso que é necessário lutar e que essa é a única forma de dizer que somos autônomos e que nos respeitem de uma vez por todas. pela primeira vez desde o fim da ditadura. atualmente a 7ª comuna mais pobre do Chile. relacionando a demanda por terras à atividade de grupos guerrilheiros. É por isso 22 Publicada em 08 de Abril em <http://www. p. Não obstante. as chamas que consumiram os caminhões da florestal Bosques Arauco.cl/node/1922>. da degradação ambiental de territórios ancestrais. O episódio da queima dos caminhões gerou uma resposta dura do estado Chileno. também sofrem. Eu não quero sofrer como eles sofrem. estratégia ideológica que se perpetua até hoje. um dos líderes Mapuche de Lumaco. Juan Carlos Reinao. a área destas plantações neste momento (2011) já alcança 80 mil hectares. que entre outras coisas “especulou acerca da infiltração de movimentos subversivos de esquerda no movimento Mapuche. mais de 70% da superfície total da comuna de Lumaco! Ao mesmo tempo. pelo fato de viverem num terreno reduzido. depois de sua prisão e tortura pelas forças policias –com a cumplicidade das autoridades políticas chilenas—resumia os fatos ocorridos da seguinte maneira: Creio que nossos antepassados sofreram muito mais. 2007. organização não governamental de “La Araucanía”. pronunciando pela primeira vez a palavra terrorismo” (SEGUEL. especificamente das que estão em posse das empresas florestais. esta continua sendo conhecida por sua pobreza. A questão social se tornou então um caso de polícia. O fogo sobre o caminhão da empresa florestal Bosques Arauco pôs em momentânea suspensão uma situação de agitação e demanda Mapuche por restituição de terras espoliadas. tradução nossa). e como veremos. ou seja. Ao mesmo tempo. (MARIMÁN.observatorio.De acordo com informações do Observatório Ciudadano 22 .

assim como seu direito a participar na definição de seus próprios assuntos e a alguns graus de autogoverno dentro do interior dos Estados. perseguindo os líderes do movimento. encontrando para isso amparo na conservadora constituição chilena. assim como o direito de não serem transladados deles (art. Apesar da grande fragmentação. expulsando e destituindo as ocupações de terra na base da violência. este território permaneceu “autônomo” durante todo o período colonial). fazendo buscas e apreensões nos domicílios etc. o Estado cada vez mais agiu de maneira repressora. Tal ação possibilitou o reconhecimento jurídico da existência dos Mapuche e o rol de direitos que lhes é devido enquanto indígenas.1). é o único instrumento jurídico internacional obrigatório especificamente referido aos povos indígenas. tradução nossa). em 2008. administração e conservação destes recursos”. esta Algo como as ocupações de terras promovidas pelos movimentos sociais sem terra. o movimento também encontrou amparo legal em suas demandas. amparado inclusive internacionalmente: o Convênio 169. no Brasil. os que cobrem a totalidade do habitat das regiões que estes povos “ocupam ou utilizam de alguma maneira” (art. tradução nossa). Após ratificação pelo Chile do convênio 169 (ANEXO A) 24 . 14. 16.2). 1998. em um comunicado público publicado pela Coordinadora Arauco Malleco. sabotagens em equipamentos das empresas florestais e pequenos incêndios (Ibid. O movimento indígena reagiu à coerção estatal. 87). Junto com ele introduz o conceito de territórios indígenas. incluindo sua participação na “utilização. 2005. 23 52 . O mesmo Convênio reconhece a estes povos direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam (art. estabelecendo neles direitos de estes povos sobre os recursos naturais. a legitimidade da ocupação chilena em “La Araucanía” (não podemos esquecer de que. certos setores mais organizados vêm se tornando cada vez mais críticos à idéia de nação. por exemplo. de 1989.que vou seguir lutando (MARIMÁN. com protestos nas cidades. Em contrapartida. [que] reconheceu a estes povos seu caráter de tais. 24 Por conta do amparo às demandas indígenas. 09. em 2009.1) (AYLWIN. Desde então o movimento indígena tem se fortificado. Usam o termo “recuperação” pelo fato de que as terras originalmente já as pertenciam. “recuperações produtivas” 23 . seguido pela condição de miséria. 13. Visto a morte de jovens Mapuche nos anos anteriores. Podemos verificar tal afirmação. p. o Chile foi um dos últimos países sul-americanos a assinar o Convênio 169. o Estado tenta a legitimação legal destas ações. como já dissemos. Concomitantemente. falta de terras e ainda de cotidiana repressão estatal. p. no sentido de não haver uma completa homogeneidade de discursos e de acões.

nós da Coordinadora Arauco-Malleco tomamos uma decisão. reclamando secessão territorial: uma vez que não houve nenhum sinal do governo para acabar com as forças repressivas em nossas comunidades. (Coordinadora Arauco Malleco. Pela mesma razão damos a liberdade de ação aos organismos de resistência Mapuche para atuar contra os interesses capitalistas no território Mapuche. relator das Nações Unidas para os direitos indígenas. cumpre o papel de neutralizar o protesto. de maneira geral. A repressão.] Pelo qual damos por encerrado qualquer diálogo com a República do Chile e lhe declaramos guerra. e declaramos território da nação autônoma Mapuche do rio Bío Bío ao sul. a partir do reconhecimento explícito de que o Estado faz da sua existência no Tratado de Tapihue (1825) Art. desde hoje. o movimento indígena passou a reivindicar o reconhecimento da territorialidade indígena. 19).3 A criminalização da demanda Mapuche contemporânea Pretendemos neste capítulo discorrer acerca da criminalização 25 da atual demanda política e social dos Mapuche.. [. em seus próprios territórios. 25 Em relação aos protestos Mapuche.. Cumpre o papel secundário de manter a “coesão nacional” e obnubilar da pauta política as questões de ordem étnica. 2007. (SEGUEL. 53 . Por fim. 2009) Como percebemos. o termo criminalização foi cunhado por Rodolfo Stavenhagenm.organização negava sua nacionalidade chilena. 20 de outubro de 2009 em diante. Esta possui um objetivo claro: a consolidação da propriedade privada e da reprodução ampliada do capital nas terras ancestrais Mapuche. resultando na estabilidade necessária para os investimentos e os negócios. reafirmamos nossa convicção de continuar no caminho de nossos antepassados que com vigor se ofereceram à causa da justiça e da dignidade de nosso belo e heróico povo-nação Mapuche. em informe de missão ao Chile em 2003. E apelamos a todas aquelas comunidades a seguir o mesmo caminho para atingir a expulsão completa de todos aqueles objetivos que operam em nossa nação Mapuche. e enquanto “Nação Mapuche” declarava oficialmente guerra ao Chile. p. Manifestamos publicamente a nossa renúncia à nacionalidade chilena. corrente em todo o Chile mas intensificada na região da Araucanía. O Coordinadora está mais forte do que nunca em sua luta por território e autonomia. pautado por sua própria cultura. de uma reivindicação pelo direito ao acesso à terra e à participação política nos assuntos indígenas. 4. entendida enquanto a supressão do direito de contestação. 19. assim como o direito ao desenvolvimento autônomo.

da militarização de comunidades e nas constantes intervenções policiais em casas e comunidades Mapuche. inclusive dos advogados de defesa (ODPI.314. pela via do poder executivo. Em entrevista. poderíamos identificar dois grandes agentes do que chamamos de "processo de criminalização": o Estado (i) e os meios de comunicação (ii). enquanto detentor do monopólio da violência. cds e seu computador pessoal. A primeira consiste na repressão direta. 2005. 54 . publicamente conhecido. na violência física. Estudos indicam o uso sistemático dos recursos desta 26 Aos desavisados pode parecer exagero de nossa parte. A segunda estratégia de repressão estatal se dá pela via judicial. prisões preventivas por grandes períodos de tempo. O Estado.Baseando-nos no período chamado "democrático". na busca de indícios que possam incriminar quem ali resida. que possuiam telefones interceptados e as atividades vigiadas. que por meio de práticas como interceptações telefônicas (“grampos”) e mesmo agentes secretos infiltrados 26 . inclusive de funcionários públicos como o caso de antropólogos e pesquisadores da Universidad de la Frontera. o depoimento de pessoas envolvidas na questão. Os indígenas são acusados como terroristas por ações como ocupações de terra ou delitos de caráter reivindicatórios. ressaltamos seu aparelhamento no que se refere a interesses e estratégias. Tais ações são subsidiadas por um arraigado serviço de inteligência chileno. Apesar de os disassociarmos analiticamente. p. herdada em sua essência da última ditadura. obviamente por questões políticas. Foi comum. duas estratégias repressivas. como pequenos incêndios ou delitos contra a propriedade (geralmente contra as empresas florestais. Esta lei possui mecanismos que vulneram as garantías processuais dos acusados. Fazemos referência à Lei de segurança interior do Estado (Lei 18. ativista da causa Mapuche. em nosso trabalho de campo. principalmente à acusação de “associação ilícita terrorista”. de 1984). o poeta Mapuche Elicura Chihuailaf. disse-nos que teve a casa invadida por mais de uma vez. mapuches e não mapuches. visto o furto objetivo de papéis. por meio do corpo jurídico da constituição chilena. pendrives. 07). buscam informações a respeito das associações políticas Mapuche e das pessoas que delas fazem parte. contudo tal prática foi relatada por várias pessoas que entrevistamos em nosso trabalho de campo. como o caso da queima de caminhões em Lumaco) que jamais poderiam ser enquadradas como “terroristas”. possui por sua vez. Materializa-se por meio da perseguição. como investigações sigilosas que podem se estender por até seis meses. a utilização de testemunhas “não identificadas” como principal prova de acusação e mesmo as práticas acima citadas de interceptação de telefones.

estigmatizando assim o movimento e talvez o mais grave. A causa foi encerrada em 2004 e ninguém foi punido (Fig 17 e 18) Figura 17: alguns jovens Mapuche mortos em conflitos territoriais por ações repressivas do Estado chileno. como a morte de manifestantes por policiais. as causas judiciais requeridas pelos Mapuche geralmente são arquivadas. nos últimos dez anos 55 . debilitando as garantias processuais de um julgamento justo (Ibid. Tal é o caso da morte de Alex Lemun. 06).lei especificamente contra os Mapuche. p. inclusive aquelas consideradas muito graves. Não obstante. jovem Mapuche de 17 anos assassinado em 2002. pelo major Marcos Treur.

vemos em algumas manchetes da imprensa local: “Terrorismo en Araucanía” (Diário La segunda. o jornais abusam da associação entre o movimento indígena Mapuche e organizações “terroristas”. Visando inculcar o medo na população. o direito da propriedade privada e da necessidade da produção.Figura 18: Indígenas carregam o corpo de Alex Lemun em protesto pela cidade de Temuco. ressaltam questões como a "unidade nacional". Ao mesmo tempo. cumprem um papel ideológico. 11/06/2005). marginal. por sua vez. 30/08/2002). as FARC. quando tinha apenas 17 anos. Soma-se acusações de vinculação das comunidades com grupos como o ETA. que trabalham de maneira a formar uma opinião pública negativa em relação aos protestos Mapuche. 2007. 56 . São discursos enviesados. preguiçoso e bêbado. p. “Controvertida associación Mapuche zapatista” (Diáriol Austral. Colaboram na construção da imagem de um indígena esteriotipado. 22/04/2003). o Sendero Luminoso (Todos citados por SEGUEL. como por exemplo. representando os interesses privados. 190). durante ocupação de terra da empresa Florestal Mininco. Creo que son de la Coordinadora Arauco-Malleco” (Diário Austral. que já se tornara comum no Chile: desordeiro. 14/12/2001). “Cárcel para lonkos terroristas" (Diário El Mercurio. legitimando as ações repressivas estatais. O jovem Mapuche foi assassinado por um tiro de escopeta na cabeça. “Fueron terroristas profesionales. (Créditos: Jose Herrera) Os meios de comunicação.

documentarista presa em 2008 27 . E após nossa insistência.De maneira geral. uma carioca.azkintuwe. Além da morte de jovens mapuches. sendo muitas vezes o território da Araucanía relacionado a um território em guerra.org/en/library/info/AMR22/001/2008/en> Conferir em: <http://www. efetuamos uma breve pesquisa a respeito. Resolvemos partir para “La Araucanía” no dia seguinte. nega seu caráter mestiço em prol de uma suposta origem européia. Resolvemos buscar respaldo político na embaixada brasileira. o tema Mapuche se consolida como um verdadeiro “tabu” na sociedade chilena.. Pois sim. mas da violência repressiva do Estado. a um espaço do medo. Finalmente poderíamos nos perguntar como enfrentam essa condição de repressão e marginalidade. como há mais de 500 anos. E assim continuam. dois casos nos chamaram a atenção: o de Elena Varela. durante os 70 dias em que permaneceram soterrados os 33 mineiros de Copiacó. mas justamente por conta do Estado e de sua postura repressiva. Relato por exemplo o que nos aconteceu em Santiago do Chile: visto que constantemente éramos constrangidos pelas advertências acerca da violência nas terras Mapuche. Percebemos que deveríamos sim nos proteger da violência. aquela é uma área em conflito (. O que pderíamos dizer é que apesar de todas as dificuldades. o direito de expressão deveria se fazer presente num Estado que se diz democrático. em 2010. continuam tentando se articular politicamente. resistindo. Ao final nos negou qualquer tipo de ajuda: “o idealismo de vocês cutuca (sic) uma ferida aberta da sociedade chilena. e de dois jovens documentaristas franceses. pudemos presenciar em nosso trabalho de campo o clima tenso quando se toca na questão Mapuche. buscando reafirmar seus direitos políticos e territoriais.) por que não largamdessa loucura e vão à Viña del Mar. que durou mais de 82 dias.org/marz23_2. que foram presos e tiveram seus equipamentos apreendidos. 34 presos políticos Mapuche realizavam –sem qualquer tipo de difusão pela mídia. afinal.. que em seu estrato mais abastado.htm> ou ainda em <http://www. também em 2008 28 . conseguimos uma reunião com a consul..) o Brasil e o Chile possuem ótimas relações.org/english/html/news/n-124. onde realmente percebemos um clima hostil. ao menos de ver sua cara de perplexidade. pois se forem presos comunico a família no Brasil”. não posso colocar isso em risco por conta de vocês (. A cena foi engraçada. visistar a casa do Neruda?(. 27 28 Conferir em: < http://www.mapuche-nation...) Deixem o contato. mais ao sul. Enquanto o mundo todo voltava os olhos ao Chile.amnesty.htm> 57 .. o fim das torturas no interior dos presídios e o fim da criminalização do movimento social Mapuche. Pediam a revogação da Lei antiterrorista. quando fazia um filme sobre os Mapuches.uma greve de fome.

Em um plano pessoal. tratando de uma situação ou comunidade indígena singular. nega-se a refletir acerca de próprias problemáticas . do terror e do saqueio explícito. que se demonsra alheio para com a realidade latino-americana. enquanto uma ciência dinâmica que pretende compreender e acompanhar a dimensão espacial dos processos sociais. como a Sociologia. obviamente foram relegadas. enfim. posteriormente sendo transpassados à particulares. O Brasil.CONSIDERAÇÕES FINAIS Pudemos percorrer. esta pesquisa nos aproximou da realidade para além das fronteiras nacionais. ressaltando suas origens européias em detrimento de sua profunda raíz ameríndia. Este estudo pretendeu avançar nesta carencia. a maioria da produção científica geográfica acerca da questão indígena (ao menos a produzida em nosso departamento) parece possuir um caráter meramente idiográfico. mitos fundadores. O caso do Chile é paradigmático. Já no plano da Geografia Agrária e Política. que foram teorizadas ao longo do século XIX e parte do XX enquanto retrógradas e prestes à superação. possui um déficit explicativo para com estes novos fenômenos. num processo de colonialidade epistêmica. possuímos uma história colonial de opressão. renega assim sua própria história. pudemos verificar como os territórios indígenas foram paulatinamente incorporados pelo Estado por meio da violência. Se carecemos de uma cultura comum. um processo que foi e é permanente em praticamente todo o continente: o despojo territorial indígena e sua contínua opressão cultural. saqueio e violência muito semelhante. visto o caso de uma sociedade fundamentalmente mestiça –pesquisas mostram que numa proporção que ultrapassa os 90% da população. um eixo comum ao qual pudessem todos gravitar. já que questões pertinentes à espacialidade das populações indígenas vêm sendo discutido por ciências que possuem outro objeto de estudo que não o espaço. mediante suas próprias 58 . historicamente nega essa condição. que cumpriram a função da geração do lucro e das divisas a este próprio Estado. a Ciência Política e a Antropologia. Em um plano cultural. Funcionando como espelho intelectual da Europa. por meio do caso particular dos Mapuche.e que apesar disso. A Geografia. somos essencialmente muito parecidos. As idiossincrasias indígenas. cultura. a nível regional. fazendo-nos perceber que no fundo. a formação dos Estados nacionais americanos levou consigo a necessidade de criação das diferentes identidades nacionais: valores. fato que impossibilita uma discussão teórica mais profunda. Espistemológicamente.

Pensamos. arriscamos dizer que ainda não concluímos nada. Que pelo contrário. no contato com uma condição marginal. que parece tomar uma escala à nível continental. Não no sentido de explicar por completo a questão indígena Mapuche. caminhos ainda por serem percorridos. muito menos de dar conta do complexo fenômeno de efervecência política de grupos indígenas. que ela tenha tido êxito.concepções de mundo. no movimento e nas reflexões geradas. ainda assim. De maneira geral. cremos que a presente investigação cumpriu os objetivos a que se destinava. abrimos questões. Ao final. e mais que isso. no sentido do levantamento de questões. na transformação daquele que tentou levá-la à cabo. 59 .

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da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. 1957 (n.o 107) . a Ciência e a Cultura e da Organização Mundial da Saúde. Lembrando a particular contribuição dos povos indígenas e tribais à diversidade cultural. costumes e perspectivas têm sofrido erosão freqüentemente. da Organização das Nações Unidas para a Educação. e Após ter decidido que essas propostas deveriam tomar a forma de uma Convenção Internacional que revise a Convenção Sobre Populações Indígenas e Tribais. e que existe o propósito de continuar essa colaboração a fim de promover e assegurar a aplicação destas disposições. Reconhecendo as aspirações desses povos a assumir o controle de suas próprias instituições e formas de vida e seu desenvolvimento econômico. do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Após ter decidido adotar diversas propostas sobre a revisão parcial da Convenção sobre populações Indígenas e Tribais. Observando que as disposições a seguir foram estabelecidas com a colaboração das Nações Unidas. Considerando que a evolução do direito internacional desde 1957 e as mudanças sobrevindas na situação dos povos indígenas e tribais em todas as regiões do mundo fazem com que seja aconselhável adotar novas normas internacionais nesse assunto. em sua septuagésima sexta sessão. Sociais e Culturais. à harmonia social e ecológica da humanidade e à cooperação e compreensão internacionais. adota. nos níveis apropriados e nas suas respectivas esferas. que será denominada Convenção Sobre os Povos Indígenas e Tribais. neste vigésimo sétimo dia de junho de mil novecentos e oitenta e nove. Lembrando os termos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. e manter e fortalecer suas identidades. línguas e religiões. valores. 1957.ANEXO A: CONVÊNIO 169 DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO CONVENÇÃO No 169 DA OIT SOBRE POVOS INDÍGENAS E TRIBAIS A Conferência Geral da Organização Internacional do Trabalho. a seguinte Convenção. Observando que em diversas partes do mundo esses povos não podem gozar dos direitos humanos fundamentais no mesmo grau que o restante da população dos Estados onde moram e que suas leis. Convocada em Genebra pelo Conselho Administrativo da Repartição Internacional do Trabalho e tendo ali se reunido a 7 de junho de 1989. o assunto que constitui o quarto item da agenda da sessão. 1957. a fim de se eliminar a orientação para a assimilação das normas anteriores. bem como do Instituto Indigenista Interamericano. 1989: 64 . Observando as normas internacionais enunciadas na Convenção e na Recomendação sobre populações indígenas e tribais. do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e dos numerosos instrumentos internacionais sobre a prevenção da discriminação. dentro do âmbito dos Estados onde moram.

Artigo 2o 1. Essa ação deverá incluir medidas: a) que assegurem aos membros desses povos o gozo. as culturas e o meio ambiente dos povos interessados. seja qual for sua situação jurídica. Os governos deverão assumir a responsabilidade de desenvolver. Deverão ser adotadas as medidas especiais que sejam necessárias para salvaguardar as pessoas. inclusive os direitos contidos na presente Convenção. os bens. respeitando a sua identidade social e cultural. 65 . 2. As disposições desta Convenção serão aplicadas sem discriminação aos homens e mulheres desses povos. por seus próprios costumes ou tradições ou por legislação especial. 2. os seus costumes e tradições. c) que ajudem os membros dos povos interessados a eliminar as diferenças sócio . ou parte delas. conservam todas as suas próprias instituições sociais.PARTE 1 . culturais e econômicas os distingam de outros setores da coletividade nacional. 3. total ou parcialmente. Artigo 3o 1. Tais medidas especiais não deverão ser contrárias aos desejos expressos livremente pelos povos interessados. culturais e políticas. cujas condições sociais. A presente convenção aplica-se: a) aos povos tribais em países independentes.econômicas que possam existir entre os membros indígenas e os demais membros da comunidade nacional. Artigo 4o 1. considerados indígenas pelo fato de descenderem de populações que habitavam o país ou uma região geográfica pertencente ao país na época da conquista ou da colonização ou do estabelecimento das atuais fronteiras estatais e que. dos direitos e oportunidades que a legislação nacional outorga aos demais membros da população. Não deverá ser empregada nenhuma forma de força ou de coerção que viole os direitos humanos e as liberdades fundamentais dos povos interessados. sem obstáculos nem discriminação. Os povos indígenas e tribais deverão gozar plenamente dos direitos humanos e liberdades fundamentais. A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção. b) que promovam a plena efetividade dos direitos sociais.POLÍTICA GERAL Artigo 1o 1. 2. e as suas instituições. econômicas. as instituições. A utilização do termo "povos" na presente Convenção não deverá ser interpretada no sentido de ter implicação alguma no que se refere aos direitos que possam ser conferidos a esse termo no direito internacional. com a participação dos povos interessados. uma ação coordenada e sistemática com vistas a proteger os direitos desses povos e a garantir o respeito pela sua integridade. econômicos e culturais desses povos. em condições de igualdade. 2. b) aos povos em países independentes. de maneira compatível com suas aspirações e formas de vida. e que estejam regidos.

culturais religiosos e espirituais próprios dos povos mencionados e dever-se-á levar na devida consideração a natureza dos problemas que lhes sejam apresentados.3. social e cultural. sempre que for possíve1. Os projetos especiais de desenvolvimento para essas regiões também deverão ser elaborados de forma a promoverem essa melhoria. Os governos deverão zelar para que. mediante procedimentos apropriados e. Os governos deverão adotar medidas em cooperação com os povos interessados para proteger e preservar o meio 66 . 3. Os povos interessados deverão ter o direito de escolher suas. nos casos apropriados. 2. com a participação e cooperação dos povos interessados. fornecer os recursos necessários para esse fim. na adoção de decisões em instituições efetivas ou organismos administrativos e de outra natureza responsáveis pelas políticas e programas que lhes sejam concernentes. c) deverão ser adotadas. práticas e instituições desses povos. os governos deverão: a) consultar os povos interessados. cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente. previstas. esses povos deverão participar da formulação. 2. Artigo 5o Ao se aplicar as disposições da presente Convenção: a) deverão ser reconhecidos e protegidos os valores e práticas sociais. Artigo 7o 1. crenças. na medida do possível. com a sua participação e cooperação. Além disso. e de controlar. pelo menos na mesma medida que outros setores da população e em todos os níveis. particularmente. O gozo sem discriminação dos direitos gerais da cidadania não deverá sofrer nenhuma deterioração como conseqüência dessas medidas especiais. 4. medidas voltadas a aliviar as dificuldades que esses povos experimentam ao enfrentarem novas condições de vida e de trabalho. Os resultados desses estudos deverão ser considerados como critérios fundamentais para a execução das atividades mencionadas. sejam efetuados estudos junto aos povos interessados com o objetivo de se avaliar a incidência social. com o objetivo de se chegar a um acordo e conseguir o consentimento acerca das medidas propostas. b) estabelecer os meios através dos quais os povos interessados possam participar livremente. b) deverá ser respeitada a integridade dos valores. aplicação e avaliação dos planos e programas de desenvolvimento nacional e regional suscetíveis de afetá-los diretamente. c) estabelecer os meios para o pleno desenvolvimento das instituições e iniciativas dos povos e. o seu próprio desenvolvimento econômico. Artigo 6o 1. na medida em que ele afete as suas vidas. A melhoria das condições de vida e de trabalho e do nível de saúde e educação dos povos interessados. As consultas realizadas na aplicação desta Convenção deverão ser efetuadas com boa fé e de maneira apropriada às circunstâncias. deverá ser prioritária nos planos de desenvolvimento econômico global das regiões onde eles moram. espiritual e cultural e sobre o meio ambiente que as atividades de desenvolvimento. Ao aplicar as disposições da presente Convenção. próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento. instituições e bem-estar espiritual. possam ter sobre esses povos. bem como as terras que ocupam ou utilizam de alguma forma. através de suas instituições representativas. tanto coletiva como individualmente.

A aplicação dos parágrafos 1 e 2 deste Artigo não deverá impedir que os membros desses povos exerçam os direitos reconhecidos para todos os cidadãos do país e assumam as obrigações correspondentes. Esses povos deverão ter o direito de conservar seus costumes e instituições próprias. Artigo 10 1. seja mediante os seus organismos representativos. Sempre que for necessário. 2. seja pessoalmente. As autoridades e os tribunais solicitados para se pronunciarem sobre questões penais deverão levar em conta os costumes dos povos mencionados a respeito do assunto. os governos deverão respeitar a importância especial que para as culturas e valores espirituais dos povos interessados possui a sua relação com as terras ou territórios.TERRAS Artigo 13 1. para assegurar o respeito efetivo desses direitos. de serviços pessoais obrigatórios de qualquer natureza. sociais e culturais. deverão ser respeitados os métodos aos quais os povos interessados recorrem tradicionalmente para a repressão dos delitos cometidos pelos seus membros. Artigo 8o 1. exceto nos casos previstos pela lei para todos os cidadãos. Artigo 12 Os povos interessados deverão ter proteção contra a violação de seus direitos. Dever-se-á dar preferência a tipos de punição outros que o encarceramento. PARTE II . e poder iniciar procedimentos legais. Artigo 11 A lei deverá proibir a imposição. se for necessário.ambiente dos territórios que eles habitam. a membros dos povo interessados. deverão ser levadas em conta as suas características econômicas. Artigo 9o 1. Quando sanções penais sejam impostas pela legislação geral a membros dos povos mencionados. remunerados ou não. Ao aplicar a legislação nacional aos povos interessados deverão ser levados na devida consideração seus costumes ou seu direito consuetudinário. facilitando para eles. intérpretes ou outros meios eficazes. 2. desde que eles não sejam incompatíveis com os direitos fundamentais definidos pelo sistema jurídico nacional nem com os direitos humanos internacionalmente reconhecidos. deverão ser estabelecidos procedimentos para se solucionar os conflitos que possam surgir na aplicação deste principio. Deverão ser adotadas medidas para garantir que os membros desses povos possam compreender e se fazer compreender em procedimentos legais. 3. ou com 67 . Na medida em que isso for compatível com o sistema jurídico nacional e com os direitos humanos internacionalmente reconhecidos. Ao aplicarem as disposições desta parte da Convenção. 2.

5. que eles ocupam ou utilizam de alguma maneira e. e que lhes permitam cobrir suas necessidades e garantir seu desenvolvimento futuro. Artigo 14 1. o translado e o reassentamento desses povos sejam considerados necessários. 3. Os direitos dos povos interessados aos recursos naturais existentes nas suas terras deverão ser especialmente protegidos. A utilização do termo "terras" nos Artigos 15 e 16 deverá incluir o conceito de territórios. inclusive enquetes públicas. Artigo 16 1. Quando os povos interessados prefiram receber indenização em dinheiro ou em bens. só poderão ser efetuados com o consentimento dos mesmos. Deverão ser indenizadas plenamente as pessoas transladadas e reassentadas por qualquer perda ou dano que 68 . nas quais os povos interessados tenham a possibilidade de estar efetivamente representados. Esses direitos abrangem o direito desses povos a participarem da utilização. particularmente. Quando não for possível obter o seu consentimento. terras cuja qualidade e cujo estatuto jurídico sejam pelo menos iguais aqueles das terras que ocupavam anteriormente. os governos deverão estabelecer ou manter procedimentos com vistas a consultar os povos interessados.ambos. mediante procedimento adequado. 2. tradicionalmente. Artigo 15 1. o translado e o reassentamento só poderão ser realizados após a conclusão de procedimentos adequados estabelecidos pela legislação nacional. Além disso. Dever-se-á reconhecer aos povos interessados os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam. existentes na terras. o que abrange a totalidade do habitat das regiões que os povos interessados ocupam ou utilizam de alguma outra forma. os aspectos coletivos dessa relação. e receber indenização equitativa por qualquer dano que possam sofrer como resultado dessas atividades. Os povos interessados deverão participar sempre que for possível dos benefícios que essas atividades produzam. Os governos deverão adotar as medidas que sejam necessárias para determinar as terras que os povos interessados ocupam tradicionalmente e garantir a proteção efetiva dos seus direitos de propriedade e posse. 2. em todos os casos em que for possível. essa indenização deverá ser concedida com as garantias apropriadas. concedido livremente e com pleno conhecimento de causa. segundo os casos. antes de se empreender ou autorizar qualquer programa de prospecção ou exploração dos recursos existentes nas suas terras. mas às quais. conforme for determinado por acordo ou. excepcionalmente. administração e conservação dos recursos mencionados. Quando. na ausência de tais acordos. ou de ter direitos sobre outros recursos. quando for apropriado. esses povos deverão ter o direito de voltar a suas terras tradicionais assim que deixarem de existir as causas que motivaram seu translado e reassentamento. 2. os povos interessados não deverão ser transladados das terras que ocupam. Sempre que for possível. 4. Nesse particular. nos casos apropriados. a fim de se determinar se os interesses desses povos seriam prejudicados. esses povos deverão receber. Deverão ser instituídos procedimentos adequados no âmbito do sistema jurídico nacional para solucionar as reivindicações de terras formuladas pelos povos interessados. Quando o retorno não for possível. deverá ser dada especial atenção à situação dos povos nômades e dos agricultores itinerantes. 2. Em caso de pertencer ao Estado a propriedade dos minérios ou dos recursos do subsolo. e em que medida. tenham tido acesso para suas atividades tradicionais e de subsistência. Com reserva do disposto nos parágrafos a seguir do presente Artigo. deverão ser adotadas medidas para salvaguardar o direito dos povos interessados de utilizar terras que não estejam exclusivamente ocupadas por eles. 3.

2.CONTRATAÇÃO E CONDIÇÕES DE EMPREGO Artigo 20 1. no âmbito da legislação nacional e em cooperação com os povos interessados. 3. Os governos deverão adotar. segurança e higiene no trabalho. PARTE III . Artigo 17 1. Deverão ser respeitadas as modalidades de transmissão dos direitos sobre a terra entre os membros dos povos interessados estabelecidas por esses povos. bem como a habitação. e os governos deverão adotar medidas para impedirem tais infrações. Dever-se-á impedir que pessoas alheias a esses povos possam se aproveitar dos costumes dos mesmos ou do desconhecimento das leis por parte dos seus membros para se arrogarem a propriedade. inclusive aos empregos qualificados e às medidas de promoção e ascensão. medidas especiais para garantir aos trabalhadores pertencentes a esses povos uma proteção eficaz em matéria de contratação e condições de emprego. na medida em que não estejam protegidas eficazmente pela legislação aplicável aos trabalhadores em geral. Artigo 19 Os programas agrários nacionais deverão garantir aos povos interessados condições equivalentes às desfrutadas por outros setores da população. Os povos interessados deverão ser consultados sempre que for considerada sua capacidade para alienarem suas terras ou transmitirem de outra forma os seus direitos sobre essas terras para fora de sua comunidade. b) remuneração igual por trabalho de igual valor. 2. Artigo 18 A lei deverá prever sanções apropriadas contra toda intrusão não autorizada nas terras dos povos interessados ou contra todo uso não autorizado das mesmas por pessoas alheias a eles. Os governos deverão fazer o que estiver ao seu alcance para evitar qualquer discriminação entre os trabalhadores pertencentes ao povos interessados e os demais trabalhadores. especialmente quanto a: a) acesso ao emprego.tenham sofrido como conseqüência do seu deslocamento. todos os benefícios da seguridade social e demais benefícios derivados do emprego. b) a concessão dos meios necessários para o desenvolvimento das terras que esses povos já possuam. para fins de: a) a alocação de terras para esses povos quando as terras das que dispunham sejam insuficientes para lhes garantir os elementos de uma existência normal ou para enfrentarem o seu possível crescimento numérico. a posse ou o uso das terras a eles pertencentes. c) assistência médica e social. 69 .

b) os trabalhadores pertencentes a esses povos não estejam submetidos a condições de trabalho perigosas para sua saúde. Deverão ser adotadas medidas para promover a participação voluntária de membros dos povos interessados em programas de formação profissional de aplicação geral. gozem da proteção conferida pela legislação e a prática nacionais a outros trabalhadores dessas categorias nos mesmos setores. direito a se dedicar livremente a todas as atividades sindicais para fins lícitos. a pesca com armadilhas e a colheita. em particular como conseqüência de sua exposição a pesticidas ou a outras substâncias tóxicas. Com a participação desses povos. eventuais e migrantes empregados na agricultura ou em outras atividades. Esses programas especiais de formação deverão estar baseado no entorno econômico. particularmente. Artigo 22 1. e sejam plenamente informados dos seus direitos de acordo com a legislação trabalhista e dos recursos de que dispõem. 3. Artigo 23 1. c) os trabalhadores pertencentes a esses povos não sejam submetidos a sistemas de contratação coercitivos. As medidas adotadas deverão garantir. Dever-se-á dar especial atenção à criação de serviços adequados de inspeção do trabalho nas regiões donde trabalhadores pertencentes aos povos interessados exerçam atividades assalariadas. INDÚSTRIAS RURAIS Artigo 21 Os membros dos povos interessados deverão poder dispor de meios de formação profissional pelo menos iguais àqueles dos demais cidadãos. se assim decidirem. inclusive os trabalhadores sazonais. Quando os programas de formação profissional de aplicação geral existentes não atendam as necessidades especiais dos povos interessados. Quando for possível. com a participação desses povos. as indústrias rurais e comunitárias e as atividades tradicionais e relacionadas com a economia de subsistência dos povos interessados. 4. nas condições sociais e culturais e nas necessidades concretas dos povos interessados. esses povos deverão assumir progressivamente a responsabilidade pela organização e o funcionamento de tais programas especiais de formação.d) direito de associação. e direito a celebrar convênios coletivos com empregadores ou com organizações patronais. Todo levantamento neste particular deverá ser realizado em cooperação com esses povos. 2. bem como os empregados por empreiteiros de mão-de-obra. que sejam colocados à disposição dos mesmos programas e meios especiais de formação. e sempre que for adequado. deverão ser reconhecidas como fatores importantes da manutenção de sua cultura e da sua autosuficiência e desenvolvimento econômico. O artesanato. 3. incluindose todas as formas de servidão por dívidas. os governos deverão assegurar. os governos deverão zelar para que sejam fortalecidas e fomentadas 70 . os quais deverão ser consultados sobre a organização e o funcionamento de tais programas. a fim de garantir o cumprimento das disposições desta parte da presente Convenção. d) os trabalhadores pertencentes a esses povos gozem da igualdade de oportunidade e de tratamento para homens e mulheres no emprego e de proteção contra o acossamento sexual. que: a) os trabalhadores pertencentes aos povos interessados. tais como a caça.

assistência técnica e financeira apropriada que leve em conta as técnicas tradicionais e as características culturais desses povos e a importância do desenvolvimento sustentado e equitativo. Os programas e os serviços de educação destinados aos povos interessados deverão ser desenvolvidos e aplicados em cooperação com eles a fim de responder às suas necessidades particulares. 71 . A prestação desses serviços de saúde deverá ser coordenada com as demais medidas econômicas e culturais que sejam adotadas no país. Artigo 25 1.EDUCAÇÃO E MEIOS DE COMUNICAÇÃO Artigo 26 Deverão ser adotadas medidas para garantir aos membros dos povos interessados a possibilidade de adquirirem educação em todos o níveis.SEGURIDADE SOCIAL E SAÚDE Artigo 24 Os regimes de seguridade social deverão ser estendidos progressivamente aos povos interessados e aplicados aos mesmos sem discriminação alguma. 2. Deverão ser facilitados para eles recursos apropriados para essa finalidade. 2. deverá facilitar-se aos mesmos. 2. práticas curativas e medicamentos tradicionais. Esses serviços deverão ser planejados e administrados em cooperação com os povos interessados e levar em conta as suas condições econômicas. sociais e culturais. e deverão abranger a sua história. pelo menos em condições de igualdade com o restante da comunidade nacional. geográficas. em nível comunitário. A pedido dos povos interessados. PARTE V . quando for possível. seus conhecimentos e técnicas. desde que tais instituições satisfaçam as normas mínimas estabelecidas pela autoridade competente em consulta com esses povos. os governos deverão reconhecer o direito desses povos de criarem suas próprias instituições e meios de educação. a fim de que possam gozar do nível máximo possível de saúde física e mental. econômicas e culturais. na medida do possível. A autoridade competente deverá assegurar a formação de membros destes povos e a sua participação na formulação e execução de programas de educação. seus sistemas de valores e todas suas demais aspirações sociais. O sistema de assistência sanitária deverá dar preferência à formação e ao emprego de pessoal sanitário da comunidade local e se centrar no atendimento primário à saúde. Os governos deverão zelar para que sejam colocados à disposição dos povos interessados serviços de saúde adequados ou proporcionar a esses povos os meios que lhes permitam organizar e prestar tais serviços sob a sua própria responsabilidade e controle. mantendo ao mesmo tempo estreitos vínculos com os demais níveis de assistência sanitária. Os serviços de saúde deverão ser organizados. 3. com vistas a transferir progressivamente para esses povos a responsabilidade de realização desses programas. Além disso. PARTE VI . 3. 4.essas atividades. quando for adequado. bem como os seus métodos de prevenção. Artigo 27 1.

inclusive as atividades nas áreas econômica. a fim de lhes dar a conhecer seus direitos e obrigações especialmente no referente ao trabalho e às possibilidades econômicas. Artigo 31 Deverão ser adotadas medidas de caráter educativo em todos os setores da comunidade nacional. exata e instrutiva das sociedades e culturas dos povos interessados. inclusive mediante acordos internacionais. Os governos deverão adotar medidas de acordo com as tradições e culturas dos povos interessados. com o objetivo de se eliminar os preconceitos que poderiam ter com relação a esses povos. dever-se-á ensinar às crianças dos povos interessados a ler e escrever na sua própria língua indígena ou na língua mais comumente falada no grupo a que pertençam. Para esse fim. Para esse fim. 2. as autoridades competentes deverão efetuar consultas com esses povos com vistas a se adotar medidas que permitam atingir esse objetivo. a traduções escritas e à utilização dos meios de comunicação de massa nas línguas desses povos. Deverão ser adotadas medidas adequadas para assegurar que esses povos tenham a oportunidade de chegarem a dominar a língua nacional ou uma das línguas oficiais do país. aos serviços sociais e aos direitos derivados da presente Convenção. Sempre que for viável. 2.Artigo 28 1. Deverão ser adotadas disposições para se preservar as línguas indígenas dos povos interessados e promover o desenvolvimento e prática das mesmas. Artigo 29 Um objetivo da educação das crianças dos povos interessados deverá ser o de lhes ministrar conhecimentos gerais e aptidões que lhes permitam participar plenamente e em condições de igualdade na vida de sua própria comunidade e na da comunidade nacional. dever-se-á recorrer. Artigo 30 1. às questões de educação e saúde. PARTE VIII – ADMINISTRAÇÃO Artigo 33 1. A autoridade governamental responsável pelas questões que a presente Convenção abrange deverá se assegurar de 72 . se for necessário.CONTATOS E COOPERAÇÃO ATRAVÉS DAS FRONTEIRAS Artigo 32 Os governos deverão adotar medidas apropriadas. espiritual e do meio ambiente. cultural. e especialmente naqueles que estejam em contato mais direto com os povos interessados. para facilitar os contatos e a cooperação entre povos indígenas e tribais através das fronteiras. 3. deverão ser realizados esforços para assegurar que os livros de História e demais materiais didáticos ofereçam uma descrição equitativa. PARTE VII . Quando isso não for viável. social.

Artigo 35 A aplicação das disposições da presente Convenção não deverá prejudicar os direitos e as vantagens garantidos aos povos interessados em virtude de outras convenções e recomendações. 2. Artigo 38 1. execução e avaliação. levando em conta as condições próprias de cada país. Artigo 39 73 .DISPOSIÇÕES GERAIS Artigo 34 A natureza e o alcance das medidas que sejam adotadas para por em efeito a presente Convenção deverão ser determinadas com flexibilidade.DISPOSIÇÕES FINAIS Artigo 36 Esta Convenção revisa a Convenção Sobre Populações Indígenas e Tribais. das medidas previstas na presente Convenção. 3. Esta Convenção entrará em vigor doze meses após o registro das ratificações de dois Membros por parte do Diretor-Geral. esta Convenção entrará em vigor. Artigo 37 As ratificações formais da presente Convenção serão transmitidas ao Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho e por ele registradas. A presente Convenção somente vinculará os Membros da Organização Internacional do Trabalho cujas ratificações tenham sido registradas pelo Diretor-Geral. laudos. PARTE X . 1957.que existem instituições ou outros mecanismos apropriados para administrar os programas que afetam os povos interessados. 2. tratados. Tais programas deverão incluir: a) o planejamento. b) a proposta de medidas legislativas e de outra natureza às autoridades competentes e o controle da aplicação das medidas adotadas em cooperação com os povos interessados. Posteriormente. costumes ou acordos nacionais. coordenação. PARTE IX . para cada Membro. doze meses após o registro da sua ratificação. em cooperação com os povos interessados. instrumentos internacionais. ou leis. e de que tais instituições ou mecanismos dispõem dos meios necessários para o pleno desempenho de suas funções.

as informações completas referentes a quaisquer ratificações. desde que a nova Convenção revista tenha entrado em vigor. a presente Convenção deixará de estar aberta à ratificação dos Membros. supra. para fins de registro. conforme o Artigo 102 da Carta das Nações Unidas. para os Membros que a tiverem ratificado e que não ratificarem a Convenção revista. nas condições previstas no presente Artigo. o Conselho de Administração da Repartição Internacional do Trabalho deverá apresentar à Conferência Geral um relatório sobre a aplicação da presente Convenção e decidirá sobre a oportunidade de inscrever na agenda da Conferência a questão de sua revisão total ou parcial. a denúncia imediata da presente Convenção. poderá denunciar a presente Convenção ao expirar cada período de dez anos. Artigo 42 Sempre que julgar necessário. por um Membro. Artigo 44 As versões inglesa e francesa do texto da presente Convenção são igualmente autênticas. Se a Conferência adotar uma nova Convenção que revise total ou parcialmente a presente Convenção. 2. A presente Convenção continuará em vigor. o Diretor-Geral chamará atenção dos Membros da Organização para a data de entrada em vigor da presente Convenção. b) a partir da entrada em vigor da Convenção revista. 2. Artigo 40 1. não obstante o disposto pelo Artigo 39. da nova Convenção revista implicará de pleno direito. Todo Membro que tenha ratificado a presente Convenção poderá denunciá-la após a expiração de um período de dez anos contados da entrada em vigor mediante ato comunicado ao Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho e por ele registrado. 74 . declarações e denúncias que lhe sejam comunicadas pelos Membros da Organização. A denúncia só surtirá efeito um ano após o registro. declarações e atos de denúncia que tenha registrado de acordo com os Artigos anteriores. ficará obrigado por um novo período de dez anos e.1. O Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho notificará a todos os Membros da Organização Internacional do Trabalho o registro de todas as ratificações. Artigo 43 1. posteriormente. em qualquer caso em sua forma e teor atuais. Artigo 41 O Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho comunicará ao Secretário . 2. e a menos que a nova Convenção disponha contrariamente: a) a ratificação. Todo Membro que tenha ratificado a presente Convenção e não fizer uso da faculdade de denúncia prevista pelo parágrafo precedente dentro do prazo de um ano após a expiração do período de dez anos previsto pelo presente Artigo.Geral das Nações Unidas. Ao notificar aos Membros da Organização o registro da segundo ratificação que lhe tenha sido comunicada.

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