ARGÜIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL 153 DISTRITO FEDERAL RELATOR ARGTE.(S) ADV.(A/S) ADV.(A/S) ARGDO.(A/S) ADV.(A/S) ARGDO.

(A/S) INTDO.(A/S) ADV.(A/S) INTDO.(A/S) ADV.(A/S) INTDO.(A/S) ADV.(A/S) INTDO.(A/S) ADV.(A/S) : MIN. EROS GRAU : CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL - OAB : FÁBIO KONDER COMPARATO : RAFAEL BARBOSA DE CASTILHO : PRESIDENTE DA REPÚBLICA : ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO : CONGRESSO NACIONAL : ASSOCIAÇÃO JUÍZES PARA A DEMOCRACIA : PIERPAOLO CRUZ BOTTINI E OUTRO(A/S) : CENTRO PELA JUSTIÇA E O DIREITO INTERNACIONAL - CEJIL : HELENA DE SOUZA ROCHA E OUTRO(A/S) : ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANISTIADOS POLÍTICOS - ABAP BUSSINGER CARVALHO E : ADERSON OUTRO(A/S) : ASSOCIAÇÃO DEMOCRÁTICA E NACIONALISTA DE MILITARES : EGON BOCKMANN MOREIRA E OUTRO(A/S)

RELATÓRIO

O SENHOR MINISTRO EROS GRAU: O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB propõe argüição de descumprimento de preceito fundamental objetivando a declaração de não-recebimento, pela Constituição do Brasil de 1988, do disposto no § 1º do artigo 1º da Lei n. 6.683, de 19 de dezembro de 1979. A concessão da anistia a todos que, em determinado período, cometeram crimes políticos estender-se-ia, segundo esse preceito, aos crimes conexos --crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política.

2.

Eis os textos a considerarmos:

2

“Lei n. 6.683, de 19 de dezembro de 1979 Art. 1º - É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram, crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares. § 1º - Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política.”

3.

O arguente alega ser notória a controvérsia constitucional

a propósito do âmbito de aplicação da “Lei de Anistia”. Sustenta que “se trata de saber se houve outros ou não crimes, anistia dos agentes públicos pela prática de homicídio,

responsáveis,

entre

desaparecimento forçado, abuso de autoridade, lesões corporais, estupro e atentado violento ao pudor contra opositores políticos ao regime militar” [fl. 04].

4. federal está

Afirma ainda que a controvérsia constitucional sobre a lei consubstanciada na divergência de entendimentos,

notadamente do Ministério da Justiça e do Ministério da Defesa, no que toca à aplicação da lei de que se cuida. Caberia ao Poder Judiciário pôr fim ao debate.

5.

Daí o cabimento da ADPF, instrumento hábil a definir,

com eficácia geral, se a lei federal guarda conformidade com a ordem constitucional vigente.

3 6. Acrescenta não ser possível, consoante o texto da

Constituição do Brasil, considerar válida a interpretação segundo a qual a Lei n. 6.683 anistiaria vários agentes públicos responsáveis, entre outras violências, pela prática de homicídios, desaparecimentos forçados, abuso de autoridade, lesões corporais, estupro e atentado violento ao pudor. Sustenta que essa interpretação violaria frontalmente diversos preceitos fundamentais.

7.

A eventual declaração, por esta Corte, do recebimento do §

1º do artigo 1º da Lei 6.683 implicaria, segundo o arguente, desrespeito [i] ao dever, do Poder Público, de não ocultar a verdade; [ii] aos princípios democrático e republicano; [iii] ao princípio da dignidade da pessoa humana.

8.

Por fim, alega que os atos de violação da dignidade

humana não se legitimam com a reparação pecuniária [Leis ns. 9.140 e 10.559] concedida às vítimas ou aos seus familiares, vez que os responsáveis por atos violentos, ou aqueles que comandaram esses atos, restariam “imunes a toda punição e até mesmo encobertos pelo anonimato”.

9.

Requer que esta Corte, dando interpretação conforme à

Constituição, declare que a anistia concedida pela Lei n. 6.683/79 aos crimes políticos ou conexos não se estende aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão, contra opositores políticos, durante o regime militar.

10.

Solicitei informações, em 30 de outubro de 2008, e

determinei fossem os autos, posteriormente, encaminhados ao Ministério Público Federal, nos termos do disposto no artigo 7º, parágrafo único, da Lei n. 9.882/99.

Afirma o cabimento da presente ADPF. 53/60. 13. há trinta anos. 149]. a inexistência de conexividade entre delitos praticados pelos agentes repressores do regime militar e os crimes políticos praticados no período. e que as eventuais situações concretas que ensejem a aplicação destes dispositivos sejam apuradas singularmente pelos Juízos competentes para a instrução penal” [fl. e na legislação material e processual em vigor. Sustentou ainda a impossibilidade jurídica do pedido e a ausência do interesse de agir do arguente. na doutrina. 12. A Associação Juízes para a Democracia requereu ingresso no feito na qualidade de amicus curiae. o pedido tendo sido deferido às fl. de forma a afastar a incidência do § 1º do artigo 1º da Lei 6. A Advocacia Geral da União encaminhou manifestação da qual constam informações prestadas pela Secretaria Especial de Direitos Humanos – SEDH.683/79. Postula. 130/176. inépcia da inicial. 160]. 14. vez que a Lei da Anistia teria exaurido seus efeitos “no mesmo instante em que entrou no mundo jurídico. O Senado Federal alegou. 778. pela Subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil . 6. 70/81]. A Câmara dos Deputados prestou informações às fls. Informou apenas que a Lei n. conforme andamento a elas acostado. Sustenta ainda que a interpretação extensiva da Lei de Anistia caracterizaria expansão da extinção de punibilidade aos agentes do regime militar e legitimaria a auto-anistia [fl.683/79 foi aprovada na forma de projeto de lei do Congresso Nacional.4 11. às fls. na vigência da ordem constitucional anterior” [fls. em suas informações. que esta Corte reconheça “com base em seus próprios precedentes.

pelo Ministério das Relações Exteriores. afirma que deveria ser declarada “inconstitucional a interpretação que estende a anistia aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão contra opositores políticos. a Secretaria-Geral de Contencioso da Advocacia-Geral da União. . até então. 472]. 15. decorre.segundo o qual a anistia seria uma benesse ampla e irrestrita --. inexoravelmente. 192/193]. à Lei n. A Secretaria-Geral de Contencioso da Advocacia-Geral da União conclui todavia pelo nãoconhecimento da presente arguição e. entre opositores e aqueles vinculados ao regime militar. 17. para concessão do benefício da anistia.683/79. Dessa forma. pela improcedência do pedido [fl. pelo Ministério da Justiça. desde a promulgação do diploma legal prevalece a interpretação de que a anistia concedida pela Lei n. do contexto em que fora promulgada. 6.5 da Presidência da República – SAJ-CC. sendo certo que não estabeleceu esse diploma legal qualquer discriminação. 206]. geral e irrestrita” [fls. Sustenta preliminarmente. A Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça. a ausência de comprovação da controvérsia judicial e a falta de impugnação de todo o complexo normativo. o que contrariaria a intenção do legislador. a Secretaria-Geral de Contencioso afirma que a pretensão contida nesta ADPF é de mudança de interpretação do texto normativo --. 16. que “a abrangência conferida.e que essa limitação consubstanciaria modificação da própria hipótese de incidência do preceito. Rechaçando as alegações do arguente. no mérito. pelo Ministério da Defesa e pela Consultoria–Geral da União. No mérito. durante o regime militar” [fl.683/79 é ampla. 6. em manifestação de 11 de novembro de 2008.

no princípio da segurança jurídica.683/79 teria sido ratificada pela Emenda Constitucional n. 26/85.6 18. pela improcedência do pedido. em 29 de janeiro passado. contemplado no artigo 5º. no parecer de fls. A anistia conferida pela Lei n. 6. Destarte. Conclui no sentido de que a pretensão. quer em razão de oposição. ou seja.. 197/198]. sustenta que “preliminarmente. alguns . é certo que a anistia.. 575/614.de inegável consistência. do argüente. 6.].” [fls. quer por atos de repressão.683 viger por trinta anos e vinte anos a Constituição de 1988 para manifestar irresignação em relação a ela. consolidando a situação jurídica de todos aqueles que se viram envolvidos com o regime militar.683/79 e a promulgação da nova ordem constitucional transcorreram praticamente dez anos. [. No tocante às preliminares suscitadas pela Advocacia-Geral da União. pelo conhecimento da ADPF e. de forma inegavelmente ampla.683/79 é vedada pela Constituição do Brasil em razão do postulado do Estado Democrático de Direito e do princípio da segurança jurídica. parece à Procuradoria Geral da República que a . O Procurador Geral da República opina. de restringir o alcance de aplicação do preceito contido no § 1º do artigo 1º da Lei n. ínsito ao Estado Democrático de Direito e garantido pela própria Carta de 1988. o desfazimento da situação jurídica existente quando da inauguração da nova ordem constitucional esbarra. 20. por certo. da Constituição do Brasil. Prossegue. produziu todos os seus efeitos (fato consumado). no mérito. inciso XL. 6.pelo menos em princípio . “considerando-se que entre a edição da Lei n. Diz que a alteração superveniente da abrangência da anistia colidiria com o princípio da irretroatividade da lei penal. 6. são apontados vícios formais que impediriam o conhecimento da presente arguição. A despeito dos respeitáveis argumentos desenvolvidos. tal como concedida pelo diploma legal. Aponta ainda o fato de o arguente ter aguardado a Lei n. 19.

7 extrema relevância do tema proposto recomenda afastar-se na espécie visão reducionista do instituto que inviabilize a apreciação pelo Supremo Tribunal Federal de questão de tamanha importância” [fls. requereu a realização de audiência pública sob o . no Brasil. O arguente. O Centro pela Justiça e o Direito Internacional – CEJIL. não visando a beneficiar alguém especificamente. excluindo a punição dos que o cometeram. a fim de viabilizar a transição entre o regime autoritário militar e o regime democrático atual. A sociedade civil brasileira. capaz de evitar maiores conflitos” [fls. 598/599]. por consequência. 21. 24. entretanto. não comporta exame dissociado do contexto histórico em que editada a norma objeto da arguição. a Associação Brasileira de Anistiados Políticos – ABAP e a Associação Democrática e Nacionalista de Militares . Afirma que a análise da questão posta nestes autos demanda o exame do contexto histórico em que produzida a lei da anistia. aliás. 23. 22. A anistia tem índole objetiva. absolutamente decisivo para a sua adequada interpretação e para o juízo definitivo acerca das alegações deduzidas pela Ordem. A anistia.ADNAM ingressaram neste feito como amici curiae [decisões de fls. com a participação de diversos setores da sociedade civil. 807 e 854]. para além de uma singela participação neste processo. já destacado em outros pronunciamentos trazidos aos autos. como. 806. retirando-lhe o caráter delituoso e. mas dirigindo-se ao crime. articulou-se e marcou na história do país uma luta pela democracia e pela transição pacífica e harmônica. todos sabemos. 577/578]. resultou de um longo debate nacional. Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – CFOAB. Prossegue dizendo que “[a] relevantíssima questão submetida ao Supremo Tribunal Federal.

a propositura de ação direta ou de ação declaratória. A decisão de indeferimento de audiência pública transitou em julgado no dia 20 de abril. se e quando controversa tal compatibilidade. Refiro neste passo.8 fundamento da relevância da matéria discutida nesta arguição. Indeferi o pedido. Relator o Ministro Gilmar Mendes. No dia 16 de abril passado a Associação Juízes para a Democracia. vez que a ação foi proposta em outubro de 2008 e só em 2010 foi afirmada sua necessidade. por tudo. A este tribunal incumbe. É o relatório. Determinei que a documentação fosse a eles juntada por linha. na arguição de descumprimento de preceito fundamental. permitindo o perfeito entendimento da questão debatida e que o pedido suscitado longo tempo após sua propositura redundaria em inútil demora no julgamento do feito [fl. 25.149 assinaturas contra a anistia dos militares”. 26. Diz que os documentos evidenciam a comoção social contra a anistia dos militares e seria imprescindível a sua juntada aos autos. o acórdão lavrado na ADPF/MC n. estarem os autos instruídos de modo bastante. que figura nos autos como amicus curiae. necessidade de audiência pública. 858. consoante certidão de fl. ademais. V O T O As preliminares 01. Afirmei. a fim de que se a questione. 805]. requereu fosse a eles acostado “manifesto de juristas e de abaixo-assinado contendo 16. . aferir a compatibilidade entre textos normativos pré-constitucionais ou atos normativos municipais e a Constituição. desde que não seja possível. 33.

estadual ou municipal. da Lei n. Há. Quanto à primeira delas.é desnecessária a comprovação da existência de controvérsia . do Poder Público. incluídos os anteriores à Consti tuição. prevê o cabimento da ADPF quando f or relevante o f undamento da controvérsia consti tucional sobre lei ou ato normativo f ederal.882/99.já que não se pretende discutir. de não promover investigações e ações penais por indevida aplicação da lei).9 No que concerne à matéria atinente às preliminares. ampliação da regra do caput do artigo 1º. a norma veiculada pelo inciso I. paralelamente a qualquer outro processo judicial. Esta ADPF amolda-se tanto à hipótese do caput do artigo 1º da Lei n.882/99 (lesão a preceito fundamental por ato material. de sorte a admitir-se a ADPF autônoma para questionar lei ou ato normativo de qualquer ente federativo em face de preceito fundamental constitucional. suscitada pela Advocacia Geral da União --ausência de comprovação de controvérsia constitucional ou judicial quanto ao ato questionado ---. para ser breve. do parágrafo único. matéria relativa à validade de ato normativo --. do quanto observou Sua Excelência o Procurador Geral da República em seu parecer de fls. aí. inciso I (lesão por produção de ato normativo federal que teria conferido indevidamente anistia a autores de crimes não passíveis de receberem o benefício). do artigo 1º. vou me valer. em linhas gerais. como também à do seu parágrafo único. 9. Aqui não se tratando de ADPF incidental --. 9. 02.

683/79. Isso é suficiente para que resulte demonstrada a controvérsia instaurada. Rejeito-a pois. 519 e 526 do STF]. Basta a demonstração de controvérsia jurídica (em qualquer sede) sobre a validade da norma questionada (ou da sua interpretação). . Confiram-se os votos prolatados na Extradição n. tendo sido aportadas aos autos notas técnicas que a comprovam. 974 [Informativos ns. será a seu tempo examinada. ela mesma diagnosticou a presença de controvérsia sobre a interpretação a ser conferida à anistia penal da Lei n. A divergência em relação à abrangência da anistia penal de que se cogita é notória mesmo no seio do Poder Executivo federal. 6. Está satisfatoriamente demonstrada a existência de polêmica quanto à validade a anistia constitucional aos agentes da interpretação que que reconheça públicos praticaram delitos por conta da repressão à dissidência política durante a ditadura militar. 03. Rejeito a preliminar. 26. Esta Corte. A Advocacia Geral da União e o Senado Federal invocam também a preliminar de ausência de impugnação de todo o complexo normativo relacionado ao tema.10 judicial atinente à aplicação do preceito constitucional. de 1985. Ocorre que essa preliminar confunde-se com o mérito. A inicial haveria de ter questionado o § 1º do artigo 4º da Emenda Constitucional n.

a fixação da interpretação pretendida pela Arguente. aplicam e podem vir a aplicar a Lei n. sendo genéricos os efeitos do pronunciamento judicial em relação ao descumprimento de preceito fundamental. (. juízes. se vier a ser fixada. também neste na ponto. ainda neste ponto. que essa exigência de identificação é relativizada em relação à pretensa ADPF autônoma: nessa modalidade. relativa à falta de indicação das autoridades responsáveis pelos atos concretos de descumprimento de preceitos fundamentais. abrangerá todos os agentes públicos de uma ou outra forma relacionados à persecução penal.. a ADPF seria incabível por estar voltada contra lei cujos efeitos se esgotaram na data da sua edição. No que tange a preliminar do Ministério da Defesa. membros do Ministério Público e agentes da Polícia Judiciária que aplicaram. Adoto.683 em sentido incompatível com a Constituição em ações judiciais e investigações sob sua competência. correta: “[a] das ausência de e qualquer órgãos dificuldade identificação autoridades responsáveis pela prática dos atos ques tionados não impede que se advirta.. Preliminar rejeitada. todavia. Mais. tribunais. A observação no parecer do Procurador Geral da República é. 05. Nada porém impede que leis temporárias sejam questionadas mediante ADPF. realiza-se um controle objetivo da conformidade constitucional do ato normativo. razões expostas no parecer do Procurador Geral da República. 6.11 04.) Vale aqui o quanto se reconhece às .

a inutilidade de eventual decisão de procedência. Isso por que os crimes --. . ao julgar procedente a alegação aceitou de os descumprimento efeitos genéricos de preceitos ao fundamentais. julgamento em 30/04/2009). combatiam-se os ef eitos das decisões judiciais que autorizaram a importação de pneus usados. Na ADPF nº 101/DF (Relatora Ministra Cármen Lúcia. pedia-se a declaração da revogação total da Lei de I mprensa (Lei 5. Esta preliminar também é rejeitada.12 ações diretas de (in)constitucionalidade: que não há réus ou legitimados passivos. dela não resultaria nenhum efeito prático. proposta pelo Partido Democrático Trabalhista – PDT. 06. Sucede que a matéria da prescrição não prejudica a apreciação do mérito da ADPF. proposta pelo Presidente da República. A preliminar é. pois é a validade constitucional de normas o que se discute.250/1969). Em precedentes. visto que somente se ultrapassada a controvérsia sobre a previsão abstrata da anistia abrir-se-á a oportunidade de apuração da prescrição. Caso viesse a ser julgada procedente. o STF. O STF satisfez-se dificuldade com as tal formulação e e soube reconhecer sem das autoridades órgãos destinatários providências cabíveis”. julgamento em 24/06/2009). contra o cabiment o da ADPF.ainda que não anistiados --estariam prescritos. O Ministério da Defesa afirma por fim. naturais controle objetivo de constitucionalidade. Na ADPF nº 130/DF (Relator Ministro Carlos Britto.

[sic] durante o regime militar (1964/1985)”. dela tomo conhecimento. Ora. De modo que o pedido resulta parcialmente impossível: esta Corte não teria como declarar por ele não alcançado período de tempo ao qual o artigo 1º da Lei n. alínea b --. não alcançou crimes praticados após 15 de agosto de 1979 [= praticados entre essa data e 1985].13 destarte. como a anistia foi concedida a todos que cometeram determinados crimes “no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979” 1.menciona “os crimes comuns praticados pelos agentes da repressão contra opositores políticos. porque Passo a ela porém nada ao foi largo oposto dessa e o circunstância. contudo.683 não até refere. o pedido. rejeitada. Registre-se. apenas parcialmente. que o pedido constante da inicial --item 5. . de modo a declarar-se que a anistia concedida pela lei aos crimes políticos ou conexos não se estende aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão contra 1 A r t ig o 1º da L ei n. 6 . 07. prejudicaria. Afastadas todas elas e tendo como presentes os requisitos da ação. A inicial: primeiras considerações 08. 68 3/ 79. 6. A inicial compreende duas linhas de argumentação: [i] de uma banda visa à contemplação de interpretação conforme à Constituição.

à luz dos seus preceitos fundamentais. digo eu] seria obscura e tecnicamente inepta [fls. segundo a inicial. o não recebimento da Lei n. Por isso o pedido é de “interpretação conforme à Constituição. a interpretação a ele conferida “no sentido de que a anistia estende-se aos crimes comuns. 09. que neles se trata de delinear o conceito de crimes políticos e crimes conexos com estes.14 opositores políticos. praticados por agentes públicos contra opositores políticos. A redação do texto seria. A Associação Juízes para a Democracia [AJpD] afirma. [ii] d’outra. 13 inicial]. que a anistia concedida pela citada lei aos crimes políticos ou conexos não se estende aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão contra opositores políticos. propositadamente obscura (a inicial menciona a redação da norma). 6. durante o regime militar. para que seja determinada a sua extensão.683/79 pela Constituição de 1988. em razões aportadas aos autos. durante o regime militar (1964/1985)”. previstos na Lei n. E assim seria porque “se procurou” [sic] estender a anistia criminal de natureza política aos agentes do Estado encarregados da repressão.683/79. Daí porque a norma [o texto. 6. Afirma inicialmente que determinada interpretação do preceito veiculado pelo § 1º do seu artigo 1º seria com ela incompatível. durante o regime mili tar”. de modo a declarar. Vê-se .

incisivamente. uma breve digressão. O que “se procurou”.não meramente declaratório. criminal segundo de a inicial. a dimensão textual e a dimensão normativa do fenômeno jurídico. 10. Neste sentido. ainda: a sua inserção na vida. todo e qualquer texto normativo é obscuro até o momento da interpretação. Hoje temos como assentado o pensamento que distingue texto normativo e norma jurídica. senhores Ministros. a obscuridade da norma (do texto) pretenderia esconder o que “se procurou”. do transcendente ao contingente. realiza a mediação entre o caráter geral do texto normativo e sua aplicação particular. de normas jurídicas a serem aplicadas à solução de determinado caso. política foi a extensão agentes da do anistia Estado natureza aos encarregados da repressão. A interpretação do direito tem caráter constitutivo --. nos termos da inicial. neste passo. opera a inserção das leis [= do . Permitam-me. a partir de textos normativos e da realidade. eis que voltarei a ela na parte final deste voto. em outros termos. que não será vã. solução operada mediante a definição de uma norma de decisão. a interpretação/aplicação do direito opera a sua inserção na realidade. O intérprete produz a norma a partir dos textos e da realidade. pelo intérprete. Interpretar/aplicar é dar concreção [= concretizar] ao direito.e consiste na produção. pois --.15 bem que. A interpretação/aplicação vai do universal ao particular. Permito-me. deixar bem vincados dois pontos. o primeiro dizendo com o fato de que todo.

em outro contexto. conferindo a carga de contingencialidade que faltava para tornar plenamente contingencial o singular 2. Daí não caber a afirmação de que o texto de que nesta ação se cuida seria. na medida em que apenas se pode afirmar que a lei é clara após ter sido ela interpretada” 4. 86. até a sua transformação em norma. que se impõe “observarmos que a clareza de uma lei não é uma premissa. 5ª e di çã o. 20 09.16 direito] no mundo do ser [= mundo da vida]. quanto a este primeiro ponto. aspecto ao qual adiante retornarei.todo texto será obscuro até a sua interpretação. tecnicamente inepto.e assim de fato é --. mas o resultado da interpretação. não dizem nada: elas dizem o que os intérpretes dizem que elas dizem 3. Se for assim --. É que --. v i de m eu E n sa i o e d iscu r s o s obr e a d o dir eit o. Interpretar o direito é caminhar de um ponto a outro. . Sã o s obr e a i n ter pr e t aç ã o/ a pl ic a çã o do dir eit o. por obscuridade. 74 . As normas resultam da interpretação e podemos dizer que elas. 3 M eu E ns ai o e di scu r so pá g .como a interpretação do direito So br e a i nt er pr et a ç ã o i nt er pr et aç ã o/ a pl ic a çã o Pa u l o. M a l heir os E dit or e s. Como ela se dá no quadro de uma situação determinada. c it . c it . 2 do d ir eit o. não no contexto da redação do texto. enunciados. 4 M eu E ns ai o e di scu r so pp. Observo apenas. . s obr e a i n ter pr e t aç ã o/ a pl ic a çã o do dir eit o. através do particular. Por isso mesmo afirmei. do universal ao singular. isto é. disposições. enquanto textos.75. 11. . expõe o enunciado semântico do texto no contexto histórico presente.

pelo Poder Legislativo. isto é. Também a ele adiante voltarei. qual o momento da realidade a ser tomado pelo intérprete da Lei n. A Arguente afirma ser inválida a conexão criminal que aproveitaria aos agentes políticos que praticaram crimes . de modo a declarar-se que a anistia concedida pela citada lei aos crimes políticos ou conexos não se estende aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão militar. a partir de textos normativos e da realidade. Permito-me examinar as duas linhas de argumentação compreendidas atinente ao na inicial na seguinte da Lei ordem: n. a que pretende uma interpretação conforme a Constituição.683/79 pela Constituição de 1988.683/79.a revisão desse desígnio haveria de ser procedida por quem procurou estende-la aos agentes do Estado encarregados da repressão. 6.cumpre definirmos qual a realidade.17 consiste na produção. O segundo ponto a ser considerado está em que --. segundo a inicial. 12. contra opositores políticos. de normas jurídicas --. após. foi a extensão da anistia criminal de natureza política aos agentes do Estado encarregados da repressão --.se o que “se procurou”. durante o regime 14. Afronta a preceitos fundamentais 13. Não pelo Poder Judiciário. desde já a não recebimento 6. pelo intérprete.

que “estende a anistia a classes absolutamente indefinidas de crimes” e.diz a inicial ---. teremos a Arguente não investe. Sucede que a Arguente inicialmente não contesta exclusivamente uma determinada interpretação do preceito veiculado pelo § 1º do artigo 1º da Lei n. além de mencionar crimes “praticados por motivação política”. de 1979” --. usa do adjetivo “relacionados”.na medida em que nem todos são iguais perante a lei em matéria de anistia criminal. mas o próprio texto da lei. que fundamentaria a interpretação objeto da ADPF. contra uma determinada norma resultante da interpretação do texto do § 1º do artigo 1º da Lei n. também. 6.683/79. O primeiro deles seria o da isonomia em matéria de segurança. segundo ela. 6.18 comuns contra opositores políticos. cuja classif icação e reconhecimento não .683/79.683.é verdade que neste ponto a inicial menciona a “interpretação questionada da Lei n. A isonomia estaria sendo afrontada --. I sso porque uns “praticaram crimes políticos. delineada a distinção entre texto e norma. 6. despropositadamente --. Ora. durante o regime militar. afrontaria a isonomia seria o próprio texto. necessariamente def inidos em lei. não seria válida porque ofende vários preceitos fundamentais inscritos na Constituição. Essa conexão criminal. da Constituição do Brasil. Mas há. caput. presos ou não. cujo significado não esclarece e a doutrina ignora. 15. destacado do artigo 5º. e f oram processados e condenados. nesse passo. O que. os que cometeram delitos.

pelos que haviam empalmado o poder”. Diz ela que a lei.) impediu que as vítimas de torturas. isso é reafirmado na alusão ao § 2º do seu artigo 1º. 6. sem afronta à isonomia os --que consiste --também em ou tratar não. 6. sim. desigualmente desigualmente. ocultas sob a expressão indefinida ‘crimes conexos com crimes políticos’. durante dois decênios. Que a Arguente investe neste passo contra o texto da lei. desiguais anistiá-los. (. conf orme a orientação polí tica de cada magistrado”.683/79 estaria contido no inciso XXXIII do artigo 5º da Constituição. É certo.. que assegura a todos o direito de receber dos órgãos públicos inf ormações de seu interesse particular. que o argumento da Arguente não prospera.683/79. mesmo porque há desigualdade entre a prática de crimes políticos e crimes conexos com eles.. e sim deixados à discrição do Poder Judiciário. 16. A lei poderia. A Lei n. impediu que as vítimas dos agentes da repressão e o povo brasileiro tomassem conhecimento da “identidade dos responsáveis pelos horrores perpetrados. ou de interesse coletivo ou geral. pois. que não é objeto da ADPF.19 f oram f eitos pelo legislador. “[a]o conceder anistia a pessoas indeterminadas. segunda a Arguente. praticadas nas masmorras policiais ou . O segundo preceito fundamental malferido pela interpretação questionada do § 1º do artigo 1º da Lei n.

de outra parte. Permito-me neste passo reproduzir trecho do parecer do Procurador Geral da República: “É evidente que reconhecer a legitimidade da Lei da Anistia não significa apagar o passado. o que importa em que esteja referida a um ou mais delitos. 105. Não vejo. Ocorre que o quê caracteriza a anistia é a sua objetividade. além da discussão acerca sobre a da punibilidade. A anistia é mesmo para ser concedida a pessoas indeterminadas. para Nesse sentido. o estado democrático de direito. fundamental verdade Com a precisão habitual. 17. não a determinadas pessoas. 6. ou os familiares de pessoas assassinadas por agentes das forças policiais e militares. operavam nas prisões sob codinomes”. afirmação à e precisa posicionar-se do direito concretização histórica. P ar a .20 militares. em entrevista antes referida.683/79 impede o acesso a informações atinentes à atuação dos agentes da repressão no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. como se possa afirmar que a Lei n. 106. os quais. em regra. afirmou que vi abil iz ar a reconstitu iç ão histór ica d aquel es tempo s é um imper ativo da dign id ade nac ion al . Liga-se a fatos. pudessem identificar os algozes. o Ministro Sepúlveda Pertence. não estando direcionada a pessoas determinadas.

descobrir e esc an car ar se ja quem os f or ar qu ivo s. Romper com a boa-fé dos atores sociais e os anseios das diversas classes e instituições políticas do final dos anos 70.21 propic iá-l a às ger ações de hoje e de amanh ã. 107. é o desembaraço dos mecanismos existentes que ainda dificultam o conhecimento do ocorrido naquelas décadas. 108. atento às lições do passado. Se esse Supremo Tribunal Federal reconhecer a legitimidade da Lei da Anistia e.111/05. proposta pelo anterior Procurador-Geral da República. Nesta toada. significaria também prejudicar o acesso à verdade histórica. O que se propõe. . prosseguir na construção madura do futuro democrático”. 109. O julgamento da ADI nº 4077 é sensível para resolver a controvérsia político-jurídica sobre o acesso a documentos do regime anterior. é necessár io estejam detenh a. que os ond e estiverem. que questiona a constitucionalidade das Leis 8. no mesmo compasso. está pendente de julgamento a ADI nº 4077. que em conjunto pugnaram – como já demonstrado – por uma Lei de Anistia ampla. geral e irrestrita. afirmar a possibilidade de acesso aos documentos históricos como forma de exercício do direito fundamental à verdade. ao invés. o Brasil certamente estará em condições de.159/91 e 11.

dinheiro do povo”. “o mencionado diploma legal. Mais. a lei. exerciam funções públicas e eram. diz a inicial que a lei foi votada pelo Congresso Nacional “na época em que os seus membros eram eleitos sob o placet dos comandantes militares” --aí a alusão a senadores escolhidos por via de eleição indireta (os chamados “Senadores Biônicos”) --. Daí é retirada a seguinte conclusão: “Nestas condições.683/79 estaria contido nos princípios democrático e republicano.683 representa clara e direta ofensa ao que princípio embasam democrático toda a e ao princípio republicano. Em consequência. “foi sancionada por um Chefe de Estado que era General do Exército e fora guindado a essa posição. [sic] não pelo povo. após a entrada . isto é.22 O argumento de que se cuida. A inicial diz que “os que cometeram crimes comuns contra opositores políticos. para produzir o efeito de anistia de agentes públicos que cometeram crimes contra o povo. 6. remunerados com recursos também públicos. não prospera. 18. O terceiro preceito fundamental afrontado pela interpretação questionada do § 1º do artigo 1º da Lei n. deveria ser legitimado. durante o regime militar.e ela. nossa organização política” (negritos no original). a interpretação questionada da Lei n o 6. por conseguinte. ancorado no inciso XXXIII do artigo 5º da Constituição. mas por seus companheiros de farda” (negritos no original).

Não vejo realmente menos como possam. ou então diretamente pelo povo soberano. quer eles próprios. “num regime autenticamente republicano e não autocrático os governantes não têm poder para anistiar criminalmente. este verdadeiramente um fenômeno. não apenas o fenômeno do recebimento --. a anistia concedida aos acusados de crimes políticos. art. porém exclusivamente por força dela. que agiram contra a ordem política vigente no País no período compreendido entre 02 de setembro de . Em segundo lugar. mas também outro. justificar esses a argumentos. mediante referendo. Um autêntico fenômeno. mediante referendo (Constituição Federal. O que não ocorreu” (negritos no original). ainda Descumprimento de Preceito Fundamental. pelo órgão legislativo oriundo de eleições livres. Argüição de sustentar-se. teria ocorrido: toda a legislação anterior à Constituição de 1988 seria. aqueles de que trata o artigo 1º da lei. quer os funcionários que. Pois é certo que. executaram suas ordens”. ao delinqüirem.a recepção --. formalmente inconstitucional.do direito anterior à Constituição de 1988 seria afastado.23 em vigor da atual Constituição. 14). Os argumentos adotados na inicial vão ao ponto de negar mesmo a anistia concedida aos crimes políticos. a exigir legitimação de toda essa legislação pelo órgão legislativo oriundo de eleições livres ou então diretamente pelo povo soberano. 19. a dar-se crédito a eles.

O outro argumento --“num regime autenticamente republicano e não autocrático os governantes não têm poder para anistiar criminalmente. . que diria com os princípios democrático e republicano. ao delinqüirem. O quarto preceito fundamental afrontado pela interpretação questionada do § 1º do artigo 1º da Lei n. ao final deste voto. como se vê. a encoberta inclusão na Lei n o 6. A Arguente diz que “o derradeiro argumento dos que justificam. um acordo para permitir a transição do regime militar ao Estado de Direito”. quanto compelidos restituir cofres receberam até hoje a título de indenização. quer os funcionários que. 6.24 1961 e 15 de agosto de 1979. A contradição é. 20. inarredável. quer eles próprios. no caso. Também este argumento. O que se pretende é extremamente contraditório: a ab-rogação da anistia em toda sua amplitude. A procedência da ação levaria a este funesto resultado. executaram suas ordens” --será considerado mais adiante.683/79 seria o da dignidade da pessoa humana e do povo brasileiro. a todo custo. conduzindo inclusive a tormentosas e insuportáveis conseqüências financeiras para os anistiados a que receberam aos indenizações públicos do tudo Estado. não prospera. que não pode ser negociada.683 dos crimes cometidos por funcionários do Estado contra presos políticos é o de que houve.

Trata-se.. A Arguente desqualifica fatos históricos que antecederam a aprovação. jamais revelado à opinião pública. por conta de todo o povo brasileiro” e que a dignidade das pessoas e do povo foi usada como “moeda de troca em um acordo político”. 21. A inicial ignora o momento talvez mais importante da luta pela redemocratização do país. o da batalha da anistia. Diz mesmo que “no suposto acordo político. . argumentação que entra em testilhas com a História e com o tempo. em seu artigo 1º. anteriormente a sua vigência.25 Afirma-o para inicialmente questionar a existência desse acordo --..“quem foram as partes nesse acordo”? indaga --. pelo Congresso Nacional. também neste ponto. 1 º.. da Lei n. que agiam em nome do Estado.e em seguida afirmar que.. de argumentação exclusivamente política. Pois a dignidade da pessoa humana precede a Constituição de 1988 e esta não poderia ter sido contrariada. III)” (negritos no original). contrariamente ao texto expresso da nova Constituição Federal: ‘A República Federativa do Brasil [. “força é reconhecer que o Estado instituído com a liquidação do regime militar nasceu em condições de grave desrespeito à pessoa humana.683/79. (art. tendo ele existido. 6. a anistia aos responsáveis por delitos de opinião serviu de biombo para encobrir a concessão de impunidade aos criminosos oficiais. ou seja. não jurídica.] constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [.] a dignidade da pessoa humana. III.

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autêntica batalha. Toda a gente que conhece nossa História sabe que esse acordo político existiu, resultando no texto da Lei n. 6.683/79. A procura dos sujeitos da História conduz à incompreensão da História. É expressiva de uma visão

abstrata, uma visão intimista da História, que não se reduz a uma estática coleção de fatos desligados uns dos outros. Os homens não podem fazê-la senão nos limites materiais da realidade. Para que a possam fazer, a História, hão de estar em condições de fazê-la. Está lá, n’O 18 Brumário de Luís Bonaparte 5: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. A inflexão do regime [= a ruptura da aliança entre os militares e a burguesia] deu-se com a crise do petróleo de 1974, mas a formidável luta pela anistia --- luta que, com o respaldo da

opinião pública internacional, uniu os "culpados de sempre" a todos os que eram capazes de sentir e pensar as liberdades e a democracia e revelou figuras notáveis como a do bravo senador Teotonio Vilela; luta encetada inicialmente por oito mulheres reunidas em torno de Terezinha Zerbini, do que resultou o CBD (Comitê Brasileiro pela Anistia); pelos autênticos do MDB, pela própria OAB, pela ABI (à frente Barbosa Lima Sobrinho), pelo IAB, pelos sindicatos e confederações de

trabalhadores e até por alguns dos que apoiaram o movimento
5 Ka rl M ar x, s/ i ndic a çã o de t ra du t or , E dit or ia l V i t ór i a, Ri o de J a neir o, 19 56, pá g. 1 7.

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militar, como o general Peri Bevilácqua, ex-ministro do STM [e foram tantos os que --assinaram a manifestos luta em pela favor anistia do é

movimento

militar!]

formidável

expressiva da página mais vibrante de resistência e atividade democrática da nossa História. Nos estertores do regime viamse de um lado os exilados, que criaram comitês pró-anistia em quase todos os países que lhes deram refúgio, a Igreja (à frente a CNBB) e presos políticos em greve de fome que a votação da anistia [desqualificada pela inicial] salvou da morte certa --- pois não recuariam da greve e já muitos estavam debilitados, como os jornais da época fartamente documentam --de outro os que, em com represália a ao acordo que da os lei,

democratas

esboçavam

ditadura,

em torno

responderam com atos terroristas contra a própria OAB, com o sacrifício de dona Lydia; na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, com a mutilação do secretário do combativo vereador Antonio Carlos; com duas bombas na casa do então deputado do chamado grupo autên tico do MDB Marcello Cerqueira, um dos negociadores dos termos da anistia; com atentados contra bancas de jornal, contra O Pasquim, contra a Tribuna de Imprensa e tantos mais. Reduzir a nada essa luta, inclusive nas ruas, as passeatas reprimidas duramente pelas Polícias Militares, os comícios e atos públicos, reduzir a nada essa luta é tripudiar sobre os que, com desassombro e coragem, com desassombro e coragem lutaram pela anistia, marco do fim do regime de exceção. Sem ela, não teria sido aberta a porta do Colégio Eleitoral para a eleição do “Dr. Tancredo”, como

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diziam os que pisavam o chão da História. Essas jornadas, inesquecíveis, foram heróicas. Não se as pode desprezar. A mim causaria espanto se a brava OAB sob a direção de Raimundo Faoro e de Eduardo Seabra Fagundes,

denodadamente empenhada nessa luta, agora a desprezasse, em autêntico venire contra f actum proprium.

22. Leio trechos de depoimento de Dalmo de Abreu Dallari 6, que sofreu --- ele mesmo relata --- prisão e sequestro pela ousadia de não transigir e não calar, empenhado em localizar desaparecidos, salvar torturados, libertar patriotas vítimas de prisão arbitrária, pregando sempre a restauração democrática. Assim, diz ele, chegou-se à Lei da Anistia: “Nós sabíamos que seria inevitável aceitar limitações e admitir que criminosos participantes do governo ou protegidos mereciam por por ele escapassem mas da punição que

justiça,

considerávamos

conveniente aceitar essa distorção, pelo benefício que resultaria aos perseguidos e às suas famílias e pela perspectiva de que teríamos ao nosso lado

companheiros de indiscutível vocação democrática e amadurecidos pela experiência. (...) A idéia inicial de anistia era muito genérica e resultou no lema ‘anistia ampla, geral e irrestrita’, mas logo se percebeu que seria necessária uma confrontação de propostas, pois
6 D e poi m en t o pr est a do à F u n da çã o ht t p: // w ww 2. f p a. or g . br/ co nt eú do/ d al m o - da ll ar i

P er seu

A br a m o,

àqueles devendo-se que. movidos o por patrióticos defender Brasil comunista.29 os que ainda mantinham o comando político logo admitiram que seria impossível ignorar a proposta dos democratas. dizendo-se que não deveriam ser anistiados os que tivessem cometido sintetizado ‘crimes numa de sangue’. Em sentido oposto. de Isso foi. compreendendo. O homicídio seria apenas conexo . segundo a lei da anistia (Lei n. 6683. prendendo e torturando os inimigos do regime. que não enumeração crimes seriam anistiados. tinham combatido a subversão.] (F)oram abrangidos os que tivessem cometido crimes políticos ou ‘conexos’ com esses. aquele que matou alguém porque numa seu sessão principal de tortura estaria era anistiado um objetivo combater adversário político. beneficiando os que abusando de uma função pública tivessem cometido crimes [. Assim. De início. mas perceberam que uma superioridade de força lhes dava um poder de negociação e cuidaram de usar a idéia generosa de anistia para dizer que não seria justo beneficiar somente dar presos de políticos e exilados. Nasceu assim a proposta de ‘anistia recíproca’. procurou-se limitar a anistia aos perseguidos políticos. e segundo para garantia impunidade objetivos do perigo eles. assalto. sequestro e atentado pessoal’. afinal. de 28 de agosto de 1979). os que tivessem sido condenados ‘pela prática de crimes de terrorismo.

23. porém de quem o proclame conforme o seu critério particular. do ponto de vista material. Assim se chegou à Lei da Anistia”. edi çã o. a u ch s ol ch er . 19 49. pá g. u n d zw a r a u f K ost en a nd er er W er t e. de todos quantos pertencem à humanidade. submissos à tirania dos valores. o valor do humano assume forma na substância e medida de quem o afirme e o pretende impor na qualidade e quantidade em que o mensure. si ch z u m all ei nig e n Ty r a nne n de s g a nz e n me ns c hli c he n Et hos a u f z uw erf e n.30 de outro crime. 7 E t hi k. Estamos. em perigo quando alguém se arroga o direito de tomar o que pertence à dignidade da pessoa humana como um seu valor [valor de quem se arrogue a tanto]. 3. . ao custo de outros valores. di e i h m n i cht ma t eri a l e nt g eg en ge set z t si n d”). . É que. A dignidade não tem preço. 57 6 (“J e der W er t ha t – w e nn er ei n m a l M a c ht g ew o nn en h at ü ber ei ne Per so n – di e Te nd enz. então. todavia. as pessoas têm dignidade. que seria o principal. Então. a ação arbitrária por motivos políticos. Então o valor da dignidade da pessoa humana já não será mais valor do humano. diametralmente opostos. Estamos então em perigo. B er l i n. vale para todos quantos participam do humano. Wa lt er de G r u y ter & C o. inclusive dos que não lhe sejam. Tem razão a Arguente ao afirmar que a dignidade não tem preço. como diz Hartmann 7. As coisas têm preço. quando um determinado valor apodera-se de uma pessoa tende a erigir-se em tirano único de todo o ethos humano.

durante o regime militar. Daí o pedido de “interpretação conforme a Constituição. presos ou não. No que concerne na à segunda linha de que argumentação determinada enunciada inicial. De resto. sustenta-se interpretação do preceito veiculado pelo § 1º do artigo 1º da Lei n.683/79 e cujas partes a Arguente indaga quais teriam sido. esse argumento não prospera.683/79 é incompatível com a Constituição. à luz dos seus preceitos fundamentais. 6. A interpretação conforme a Constituição e os crimes conexos 25. durante o regime mili tar. retornarei linhas adiante.31 24. ao acordo político que resultou no texto da Lei n. O argumento descolado da dignidade da pessoa humana para afirmar a invalidade da conexão criminal que aproveitaria aos agentes políticos que praticaram crimes comuns contra opositores políticos. Sem de qualquer modo negar o que diz a Arguente ao proclamar que a dignidade não tem preço [o que subscrevo]. tenho que a indignidade que o cometimento de qualquer crime expressa não pode ser retribuída com a proclamação de que o instituto da anistia viola a dignidade humana. que a anistia concedida pela citada lei aos crimes políticos ou conexos não se estende aos crimes comuns praticados pelos . Essa interpretação. praticados por agentes públicos contra oposi tores políticos. 6. seria a de que a anis tia estende-se aos crimes comuns. incompatível com a Constituição. de modo a declarar.

diz a inicial --. sem que houvesse comunhão de propósitos e objetivos entre agentes criminosos de um e de outro lado. E também há conexão criminal quando os agentes criminosos atuaram uns contra os outros. co-autoria (Código Penal. 6.não agiram contra os que os torturaram e mataram. tendo e vista a comunhão de propósitos ou objetivos.32 agentes da repressão contra opositores políticos. destarte.620/78]. De outra banda. Não eram crimes contra a segurança nacional e a ordem política e social [decreto-lei 314/67.683/79 “tem . se os agentes forem vários há. dentro e fora das prisões do regime militar. embora aqui se trate de regra de unificação de competência. de modo a evitar julgamentos contraditórios. artigo 29). Por isso os crimes praticados por agentes públicos contra opositores políticos durante o regime militar seriam crimes comuns. norma de direito material. A seguinte conclusão parcial é. 6. não há. durante o regime militar (1964/1985)”. “os acusados de crimes políticos --. Se o agente é um só. além de a regra de conexão ser unicamente processual no último caso. decreto-lei 898/69 e Lei n. artigos 69 e 70). A repressão a esses crimes era implementada mediante a prática de crimes comuns. a lei reconhece a ocorrência de concurso material ou formal de crimes (Código Penal. A conexão criminal implicaria uma identidade ou comunhão de propósitos ou objetivos nos vários crimes praticados. mas contra a ordem política vigente no País naquele período”. então. extraída da inicial: a norma veiculada pelo § 1º do artigo 1º da Lei n.

683/79. os crimes comuns. parenteticamente. cometidos pelos mesmos autores dos crimes políticos. que não é exatamente isso o que ocorre. Dizendo-o outro modo: objeto.882/99. mas é certo que a def inição juridica explicita o . presos ou não.683/79 def ine crimes conexos aos crimes políticos: “[c]onsideram-se conexos. os crimes comuns. § 1º da Lei 9. nos termos do [artigo] 6º. cometidos pelos mesmos autores dos crimes políticos. fls. os crimes de qualquer natureza relacionados com os crimes políticos ou praticados por motivação política”. 26. A Associação Juízes para a Democracia apresentou razões “pelas quais postula a procedência do pedido formulado. Diz que se trata de delinear o concei to de crimes políticos e crimes conexos com estes.33 por objeto. previstos na Lei n. 6. 16. Ela não abrange os agentes políticos que praticaram. visto que o § 1º do artigo 1º da Lei n. exclusivamente. Não me estenderei aqui em debate acadêmico a respeito da distinção entre conceitos e def inições. para efeitos deste artigo. não abrange os crimes comuns praticados contra opositores políticos. exclusivamente. [sic] e no artigo 131. crimes comuns contra opositores políticos. Observo neste passo. para que seja determinada a sua extensão. § 3º do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal”. presos ou não” [redação de da inicial. por agentes políticos durante o regime militar. 6. tem negritos por no original]. durante o regime militar.

cit .102.2 38. que V ide m eu E ns ai o e di s cu rs o s o br e a i nt er pr et a çã o/ a p li ca ç ã o do d ir ei t o. . decreto que concedeu anistia às pessoas envolvidas em fatos políticos e conexos ocorridos no Estado do Espírito Santo em virtude da sucessão presidencial estadual. pá g s.395. do Presidente do Senado Federal). O § 1º do artigo 1º da Lei n. São crimes conexos aos crimes polí ticos “os crimes de qualquer natureza relacionados com os crimes políticos ou praticados por motivação polí tica”. 6. São crimes outros que não polí ticos. direta ou indiretamente. em janeiro de 1916. de 27 de setembro de 1916. isso deterei quadro infraconstitucionalidade senão para lembrar que a alusão a crimes conexos a crimes políticos aparece já na anistia concedida. Posteriormente isso se repete [i] no decreto 3.683/79 define crimes conexos aos crimes políticos “para os efeitos” desse artigo 1º. 27. de 6 de novembro de 1930. se envolveram em movimentos revolucionários no Estado do Ceará (decreto 3. não de me ser examinada no à luz da da Constituição. A matéria Por há. de 13 de janeiro de 1916. de Wenceslau Braz. mas [i] hão de terem estado relacionados com os crimes políticos ou [ii] hão de terem sido praticados por motivação política. 2 37. porém. Ministro da Justiça Carlos Maximilano. a civis e militares que.163. . [ii] 8 no decreto 19. são crimes comuns. porém [i] relacionados com os crimes políticos ou [ii] praticados por motivação política.34 termo de um determinado concei to jurídico 8. logo. Podem ser de “qualquer natureza”.

vale dizer. para os efeitos desse mesmo preceito. Sempre há de ter sido assim. da chamada conexão criminal. própria ao momento histórico da transição para a democracia. segundo a inicial. na doutrina. direta ou indiretamente. Refere o que “se procurou”. a expressão anistia ampla e irrestrita terá surgido no artigo 1º do decreto-legislativo 22. “os crimes comuns praticados com fins políticos e que tenham sido julgados pelo Tribunal de Segurança Nacional”. 28.474. [iii] no decreto 24. conota sentido a ser sindicado no momento histórico da sanção da lei. se envolveram nos movimentos revolucionários ocorridos no País a partir de 10 de novembro de 1955 até 1º de março de 1956. que concedeu anistia a todos quantos tenham cometido crimes políticos desde 16 de julho de 1934 até a data de sua publicação. estender a .35 concedeu anistia a todos os civis e militares envolvidos nos movimentos revolucionários ocorridos no país. de 18 de abril de 1945. 6. o sentido ou os sentidos correntes. Essa expressão. crimes conexos a crimes políticos. no contexto da Lei n. que concedeu anistia aos participantes do movimento revolucionário de 1932. A chamada Lei de anistia diz com uma conexão sui generis. que a concedeu a todos os civis e militares que. Tenho que a expressão ignora. cujo § 2º do artigo 1º considera conexos. de 23 de maio de 1956. Outrossim.683/79. de 28 de maio de 1934. [iv] no decreto-lei 7.297.

assalto. ampla e geral. é assinalado no voto do Ministro Decio Miranda no RHC n. 29. que me foi trazido por um . A Arguente tem razão: o legislador procurou estender a conexão aos crimes praticados pelos agentes do Estado contra os que lutavam contra o Estado de exceção. em que o legislador considerou existente esta figura processual. de conexão sui generis. Lembre-se bem o texto do preceito do § 1º do artigo 1º: “Consideram-se conexos. Daí o caráter bilateral da anistia. os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política”.e com sentença transitada em julgado. o que afirmou o Ministro Julio de Sá Bierrenbach quando do julgamento pelo Superior Tribunal Militar. ao tomar conhecimento do projeto da Lei da Anistia. veremos logo adiante --. desde que se pudesse relacionar uma infração a outra”. relator o Ministro Jacy Guimarães Pinheiro: “Em 28 de junho próximo passado. para efeito deste artigo. neste passo. Esse significado. mas de um conceito mais amplo. em sessão do dia 6 de fevereiro de 1980. seqüestro e atentado pessoal. Anistia que somente não foi irrestrita porque não abrangia os já condenados --.36 anistia criminal de natureza política aos agentes do Estado encarregados da repressão. do Recurso Criminal n. qual o Supremo assentou. Parenteticamente transcrevo. 5. 59.834: “não estamos diante do conceito rigoroso de conexão.367.pela prática de crimes de terrorismo.

critiquei o § 2º do artigo 1º daquele projeto tal como estava redigido. nem ao menos bacharel em direito. era contra os réus. Como todos sabemos. Se o Governo desejava excetuar dos benefícios da anistia os indivíduos que praticaram crimes de terrorismo. pois beneficiaria os revéis. abrangendo todos os processados por aqueles crimes que se constituiriam na exceção da Lei da Anistia.37 jornalista. acentuando que o projeto ainda não havia passado no Congresso e que eu me . seqüestro. assalto. seriam contemplados com a anistia! O projeto era injusto. Da forma em que estava no projeto. porém. Os condenados não seriam anistiados enquanto aqueles. ao passo em que os acusados pelos mesmos crimes. seqüestro e atentado pessoal. quando não mais cabe recurso à decisão judicial. atentado pessoal e terrorismo não seriam anistiados. receberiam o benefício da anistia. segundo o projeto. já condenados. mas com processos em curso. enquanto poderia manter no cárcere indivíduos menos responsáveis pelo mesmo delito. condenados são aqueles cuja condenação transitou em julgado. não deveria utilizar a expressão "os que foram condenados pela prática” de tais crimes: melhor teria sido utilizar a palavra denunciados. cujos processos arrastavam-se na Justiça Militar. A celeridade da Justiça. isto é. Sem ser jurista. tão desejada por todos nós. os condenados definitivamente por crimes de assalto. fiz esta e outras críticas construtivas ao projeto da lei na data em que o mesmo foi publicado.

Três ou quatro dias depois. 5. mas seguramente foi bilateral. um dos líderes do Governo no Congresso afirmava à imprensa que as injustiças seriam corrigidas com indulto presidencial. evitar iniqüidades. isso em afirmando que o cumprimento da pena acarreta a cessação da punibilidade.459. 5. em 28. dos condenados pela prática de crimes de terrorismo.79. 5.338. já cumprira inteiramente a pena que lhe fora imposta. no dia 21 de novembro de 1979. a exclusão. 37.666 e 5. Minhas declarações. No mesmo sentido. Não foi ampla plenamente. A propósito. no julgamento do Recurso Criminal n. pois a mesma só foi sancionada dois meses depois. as decisões tomadas nos Recursos Criminais n.38 curvaria diante da decisão que fosse sancionada.. exclusivamente a ela dizendo respeito.8. relator o Ministro Faber Cintra. 6. lembre-se ainda que o STM. assalto. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal .751 e na Apelação n.683/79 somente não foi totalmente ampla por conta do que o § 2º do seu artigo 1º definiu.. com um único propósito construtivo. a ela. e já admitia injustiças . ao passo que a anistia diz com o fato perdoado. O projeto ainda não era lei. A verdade é que a anistia da Lei n. aliás. foram publicadas nos jornais de 1º de julho de 1979.808. condenado por delito dela excluído pelo seu § 2º. concedeu a anistia do artigo 1º da Lei n. 6.” (negritos e grifos no original). sequestro e atentado pessoal.683/79 a quem.341. 5.

por haver se recusado a praticar atos de terrorismo (assassinato de políticos e outros cidadãos --.. contrariando ordens recebidas desse brigadeiro. a caça a estes últimos). Relator para o acórdão o Ministro Marco Aurélio. nestes autos. no posto que ocupava. para a prática de atos terroristas na cidade do Rio de Janeiro. sobrevindo a reforma de caráter punitivo. atos que seriam atribuídos aos comunistas. por duplicidade de punição. de uma forma ou de outra. Desta Corte coleciono algumas decisões que. o tribunal reconheceu a duplicidade punitiva. como consectário.39 30. em 1992. reconhecendo a existência do “vício grave”. conhecida como PARASAR. o Capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho impediu-o. em relação ao caráter amplo das anistias concedidas entre nós. foi reformado. explosão do gasômetro do Rio de Janeiro e destruição de instalações de força e luz. I mporta em especial considerarmos. mencionado no artigo 9º do ADCT da Constituição de 1988. a considerar.transcrevo voto do Ministro Marco Aurélio --. . inicialmente os atinentes ao caráter amplo das anistias. Faço-o sem esquecer o histórico aresto lavrado na Ação Originária Especial n. 13. importam ao quanto estamos. bem assim que a segunda punição deveu-se a simples vindita. como fora já punido com prisão de vinte e cinco dias. seguindo-se. os julgados que passo a rememorar. 31. no entanto. na qual se cuidava do seguinte: um Brigadeiro da Aeronáutica que a memória nacional há de esquecer tentou usar uma unidade da FAB.

de 23 maio do mesmo ano. estendeu a ato ocorrido após 1º de março de 1956. excluído o homicídio doloso”. 27. interpretou-a de modo a aplicá-la a crimes de morte praticados em 12 de outubro de 1896. de 20 de junho de 1956. afirmou o caráter amplo do Decreto Legislativo n. 34. 31. 1.2 No Habeas Corpus n. 31.866.3 No Recurso Criminal n. diz o acórdão: “É conseqüência do caráter geral da anistia que ela se estenda aos delitos acessórios que se prendem ao crime político”. a anistia nele concedida --diz a emenda mas --“não protege os crimes apenas com a ela participação em greve.386. em relação a delitos de imprensa. os efeitos do Decreto Legislativo n. 22. 1. 27. Relator o Ministro Piza e Almeida.40 31. em 4 de julho de 1900. também conexos. ao considerar a anistia concedida pelo Decreto n. o Habeas Corpus n. relator o Ministro Ary Franco.019. relator o Ministro Luiz Galloti. que. em 1958 afirmou-se o caráter amplo da anistia concedida aos jornalistas. em 1957.1 Para começar. mas antes de sua publicação. isso porque o artigo 2º do decreto legislativo expressamente os excluía do benefício. 310. de 21 de outubro de 1895. em 1957. que anistiou de modo amplo e irrestrito todos aqueles que houvessem praticado atos entre 10 de novembro de 1955 e 1º de março de 1956.4 No Recurso Criminal n. 31. pelo Decreto Legislativo n. .025. relacionados com o movi mento ocorrido a 10 de novembro de 1955. entre os acórdãos mais antigos desta Corte. 1. relator o Ministro Hahnemann Guimarães.

438. já em setembro de 1979. exemplarmente.5 A ementa do Recurso de Habeas Corpus n. Relator o Ministro Cordeiro Guerra. 32. destaco voto. em 1982. diz: “ANISTI A. 1º da Lei n. 6. por força do § 1º do art. e o Recurso Criminal 1. ainda em 1979. E.1979”. 1º e seu § 1º da Lei n.396 e 1. Relatores. Crime de deserção praticado contemporânea ou antecedentemente aos crimes políticos anistiados.683/79. 6. nos quais unanimemente atribuiu-se à expressão “condenados”. no RE 165. Que o Supremo Tribunal Federal interpreta essa matéria de modo benéfico.400.8.683. respectivamente. a interpretação tem de ser ampla e generosa.41 31. 6. os acórdãos lavrados nos Recursos Criminais 1. em o significado No de condenado sentença passada julgado. . [sic] considera-se conexo ou relacionado com os crimes políticos para o reconhecimento da extinção da punibilidade. Interpretação do art. no § 2º do artigo por 1º da Lei n.683. que tudo resume. do Ministro Cezar Peluso: “em tema de anistia. de 28 de agosto de 1.979. Relator o Ministro Carlos Velloso. os Ministros Xavier de Albuquerque e Leitão de Abreu. sob pena de frustrar seus propósitos político-jurídicos”. Relator para o acórdão o Ministro Cordeiro Guerra. de 28.410. Relator o Ministro Decio Miranda.834. disso dão conta. em 2004. mesmo sentido o Recurso Criminal 1. linhas acima referido. 59.401.

Valdemar de Paula Lima e dois dos seus demais com companheiros requintes foram então brutalmente assassinados. alcançar aos que se envolveram direta ou indiretamente. sendo inútil desmontar as peças de textos de largo alcance social para apurar se o mesmo fato . Três policiais foram denunciados por esses homicídios em janeiro de 1931. no voto do relator. 19. com um grupo de revolucionários. 28. Outro ponto a considerarmos --. sangrados a punhal.encontra-se no Recurso em Habeas Corpus n. Após longa tramitação dos autos foi negada a aplicação da anistia do decreto n. o seguinte trecho: “A medida devia. seguiram os demais. Tratava-se de fatos ocorridos em 1926. [sic] em movimentos revolucionários. pretendendo incorporar-se à Coluna Prestes. Colho. caíram em uma emboscada. Cleto Campelo. Relator o Ministro Philadelpho de Azevedo.42 33. até que. o Ministro Philadelpho de Azevedo.294. Em Gravatá morto em combate Cleto Campelo. tanto de um lado. assim.e isso diz imediatamente com estes autos --. de crueldade.395 aos acusados. perseguidos a partir de Limoeiro por uma força irregular integrada por policiais da Força Pública do Estado de Pernambuco. tenente revoltoso. Esta Corte o fez. partiu de Jaboatão.395 de 1930 em relação aos crimes políticos e militares e aos conexos com estes os delitos atribuídos a policiais de um Estado cometidos na perseguição de grupos sediciosos que se movimentavam no sertão”. cuja ementa é a seguinte: “Estão incluídos na anistia ampla outorgada pelo decreto n. como de outro. de 1942. sob o comando de Valdemar de Paula Lima. 19.

de normas jurídicas a serem aplicadas à solução de determinado caso. Torno a ela. A interpretação do direito não é mera dedução . se desnude na sucessão das frequentes anistias concedidas entre nós. A interpretação do direito e as leis-medida 34. como diria nosso José Paulo Sepúlveda Pertence. o presente é vida --. a sua beleza. Há momentos históricos em que o caráter de um povo se manifesta com plena nitidez. donde a sua força. pois --.e consiste na produção. Não pretendo promover aqui. ou ainda conexo com qualquer deles”.o que venho reiteradamente afirmando --.43 constituiria crime político ou crime militar. mas não me olhem assim. cordial. Interpretamos sempre os textos e a realidade. No início deste meu voto detive-me em digressão a respeito da interpretação do direito. Desejo a somente relembrar do quanto tem anteriormente caráter observei: --- interpretação direito constitutivo não meramente declaratório. histórica e culturalmente. Talvez o nosso. pelo intérprete. É do presente. E a realidade social é o presente.que o direito é um dinamismo. o significado válido dos textos é variável no tempo e no espaço.e vida é movimento. na vida real. a partir de textos normativos e da realidade. Assim. o seu fascínio. o um seminário jurídico. que se tomam as forças que lhe conferem vida. Concedeu-se o habeas corpus por unanimidade. Daí --.

12 V . 11 V . m eu vot o na A D I 82 0.o e m m eu E n sa i o e di s cu r so s o br e a i n t er pr et aç ã o/ a pl i ca çã o do di r eit o. autônoma. pág . cit . à interpretação das leis dotadas de generalidade e abstração. . Essa afirmação aplica-se exclusivamente. 2 54 -2 55. Não àquelas que chamamos de leis-medida. fazendo-o na pura execução de certas medidas. mostrandose imediatas e concretas. A D I 3. contudo.44 dele. 7ª edi ç ã o. Explico-me. Um comando concreto é então emitido. 5 9. mas sim processo de contínua adaptação de seus textos normativos à realidade e seus conflitos 9. não o sendo. As leis-medida (Massnahmegesetze) disciplinam diretamente determinados interesses. . Ma l he ir os E dit or es. então. v. Consubstanciam. ao qual se dirigem. 35. 5 73. . de lei não-norma 12. Detive-me sobre o tema em texto acadêmico 10. 10 O dir eit o p ost o e o dir eit o pr es su po st o. O Poder Legislativo não veicula comandos abstratos e gerais quando as edita. Sã o P au l o. em si mesmas. g. . . Daí por que são leis apenas em sentido f ormal. g . contudo. mas trazendo em si mesmas o resultado específico pretendido. É precisamente a 9 D is se. As leismedida configuram ato administrativo completável por agente da Administração. revestindo a forma de norma geral. pá g s. leis que constituem preceito primário. em sentido material. inúmeras vezes tendo a elas feito alusão em votos que proferi nesta Corte 11. no sentido de que se impõem por força própria. 2 00 8. um ato administrativo especial. Cuida-se.

contra a segurança externa do país 13. de delitos contra a 13 N o v ot o do R el a t or sã o a i n da r ef er i da s d eci s õe s t o ma da s no s ha be as c or pu s 2 9. na aplicação da lei. A ordem foi negada porque o caso demandava exame de provas em torno da seguinte questão: os delitos teriam sido praticados. Sobrevindo o decreto 7. Recordo o que se deu no julgamento. contudo.474. ou não. XIX e XX. contra a segurança nacional. não a realidade atual. Pois o que se impõe deixarmos bem vincado é a inarredável necessidade de. sem se deixar agrilhoar demasiadamente à sua literalidade”. setembro Eduard Arnold condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional pela prática do delito de espionagem. interpretar-se. em conjunto com o seu texto. de 18 de abril de 1945. em tempo de guerra. 0 34 e 2 9.151. 36. de Relator 1945. observando que naquele momento não se cogitava do “perdão de crimes contra a segurança externa do país. . a mens legis atendendo ao momento histórico em que ela surgiu. ponderações do Ministro Orosimbo Nonato no sentido de que “[c]abe ao intérprete. O que importa neste momento assinalar são.45 edição delas que a Constituição de 1988 prevê no seu art. 37. o Ministro Laudo de fora Camargo. 11 1. Em seguida. por esta Corte. no caso de lei-medida. verificar-lhe a finalidade. pediu fosse extinta a pena em virtude da concessão de anistia. do Habeas Corpus em n. a realidade no e do momento histórico no qual ela foi editada. 29. e ao escopo a que visa.

n. (movimentos Decreto n. Registro a existência. Lei n. 37. refletida na imprensa e em comícios. que Orosimbo Nonato falava das jornadas de 1979. Decreto n. revolucionários 2280/1910 (ampliação Sergipe da à Mato (Revolta da Chibata). Decreto n. 1599/1906 Grosso). a lei de anistia resultou de um longo clamor de consciência pública. quanto aos demais delitos anotou: “Ora. 1373/1905 (Revolta da Vacina). no período republicano. 533/1898 (amplia a anistia concedida pelo Decreto n. veiculados pelos seguintes decretos ou leis-medidas: Decreto n. 83/1892 (movimentos revolucionários em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul). Era o ciclo que se abria. 305/1895 (acontecimentos políticos em Alagoas e Goiás). Decreto 406/1896 (movi mento 04. de Decreto e n.09. n. Senhores Ministros. como lembrou o Sr. Ministro Filadelfo de Azevedo.1896 em Sergipe). Decreto n. de mais de trinta atos de anistia. 310/1895). 8/1891 (oposição ao Governo do Marechal Deodoro no Pará).46 integridade do Brasil”. (movimentos de 02. Decreto n. anistia Chibata). Decreto n. às manifestações contra o regime vigente”.1893 no (movimento ocorrido em 176/1893 Catalão-GO). no caso dos autos.03. da redemocratização do Brasil e todos pediam que se lançasse perpétuo olvido aos delitos de opinião pública. Revolta Decreto da 2687/1912 Decreto n. Decreto n. avançando sobre o meu argumento de agora. 174/1893 (acontecimentos políticos em SC e PE). 175/1893 Maranhão). 310/1895 (movimentos de revolucionários). no Brasil. Decreto n. . Até parece.

Decreto n. (crimes imprensa). Decreto Legislativo n. entre 1961 6683/1979 Lei n. 20249/1931 (movimentos sediciosos 20265/1931 Pernambuco). 20. 19395/1930 (Revolução de 1930). greve. 3102/1916 (revolução no Ceará e crimes políticos no país). 3492/1916 (eventos no Amazonas e Guerra do Contestado no Paraná e em Santa Catarina). Lei n. 27/1956 (crimes de greve. Decreto Decreto de Legislativo Legislativo 1955 a n. Decreto Legislativo n. 18/1951 (crime de greve). Decreto n. de 28. 16/1956 22/1956 Decreto (crimes de (movimentos Legislativo n. 1346/1951 (crimes eleitorais de leis revogadas). 7943/1945 (crimes de injúria ao Poder Público e crimes políticos). revolucionários 1956). 63/1951 (crime de injúria ao Poder Público). Decreto Legislativo n.47 2740/1913 (revoltas no Acre e em Mato Grosso). em sediciosos n.1931 24297/1934 Decreto-Lei n. Decreto n. 3163/1916 (crimes políticos no Espírito Santo em virtude da sucessão das presidencial). 18/1961 Lei e n. Decreto-Lei n. políticos Decreto militares e Legislativo e n.1931 (movimentos Decreto de em São Paulo). 70/1955 (conflito no jornal Tribuna Popular-RJ). 7769/1945 (integrantes da Força Expedicionária Brasileira). de Decreto n. (ampliação anistias 1898). (Intentona Comunista de 1935). de 1895 Decreto e n. n. (crimes políticos. conexos 1979).04. Decreto n. 3178/1916 Decreto n. de imprensa e insubmissão nas Forças Armadas). Decreto-Lei n. .05. (Revolução 7474/1945 Constitucionalista 1932). imprensa).

abrangendo --. nos dias de hoje. Como poderemos apurar o significado da expressão “qualquer .nos termos do § 1º do seu artigo 1º --. Como deveríamos hoje interpretar esses textos? Tomando-se a realidade político-social do nosso tempo. 19. Senhores Ministros. anistiou? Eram crimes conexos “ainda que não tenham tido ligação especial e imediata com os movimentos revolucionários” do Estado do Ceará. no tempo decorrido entre 1º de janeiro de 1913 e 7 de setembro de 1915. Qual a abrangência da expressão crimes conexos na anistia que o Decreto n. se envolveram nos movimentos revolucionários. 3. de 27 de setembro de 1916.395 a “todos os civis e militares que. [sic] ocorridos no país”. direta ou indiretamente.163.102. concedeu aos envolvidos em fatos políticos e conexos nesse mesmo ano ocorridos no Estado do Espírito Santo? E a anistia de 8 de novembro de 1930.“todos os crimes políticos e militares. de 13 de janeiro de 1916.48 7417/1985 (mães de família condenadas a até cinco anos de prisão). [sic] ou conexos com esses”? ou terá Alcançou beneficiado exclusivamente ainda os que os os revolucionários reprimiram? Vou além nestas minhas indagações. 3. concedida pelo Decreto n. Quais os crimes conexos que o § 1º do artigo 1º do Decreto n. ou aquelas no bojo das quais cada qual dessas anistias foi concedida? 38.

os reprimiram? 39. que crimes conexos com os políticos. a realidade daquele momento histórico ou ousaríamos permitirnos fazê-lo imersos na realidade do presente? A resposta é evidente. E chego a 1945. não poderia ser compreendido por quantos ignorassem o que ocorreu neste país na primeira metade dos anos 30. mentes? Para fazê-lo força do ao momento referir é da apreendermos anistia de histórico-social Ela alcançou. que anistiou os crimes conexos com os políticos cometidos desde 16 de julho de 1934 até essa data. exclusivamente os que tentaram contra o governo ou beneficiou ainda os que. 7. Como resolver essa questão com as lentes que a visão da realidade do presente instala a em nossas realidade se trata. como nas demais anistias a que venho aludindo. praticando crimes comuns. É a realidade histórico- . que tenham sido julgados pelo Tribunal de Segurança Nacional.297. Note-se que aqui se poderia suscitar largo debate. ao decreto-lei n. 18 de abril. 24. diante de lei-medida. de 28 de maio de 1934. praticados com fins políticos. de 18 de abril. Pois assim há de ser também com a anistia de que ora cogitamos. visto que o § 2º do artigo 1º do decreto-lei teria como conexos somente os crimes comuns. Aqui estamos.474. O preceito não teria mesmo nenhum sentido. para tanto.49 outro crime político e os que lhe forem conexos” no parágrafo único do artigo 2º do Decreto n. que concedeu anistia aos participantes do movimento revolucionário de 1932? Deveremos considerar.

É da anistia de então que estamos a cogitar. passado quase um mês da revelação da proposta. não da anistia tal e qual uns e outros hoje a concebem. como se não houvesse sido. 40. à falta de contestação válida dos intérpretes do Poder.683 é como se não fosse. 6. da transição conciliada de 1979 que há de ser ponderada para que possamos discernir o significado da expressão crimes conexos na Lei n. Exatamente aquela na qual.50 social da migração da ditadura para a democracia política. já se conscientizou a opinião pública da . A Lei n. 6. Leio o que escreveu o então Conselheiro da OAB. em parecer pela mesma OAB encaminhado ao Presidente do Senado Federal em agosto de 1979: “02.683 é uma lei-medida. De resto. senão qual foi na época conquistada. para quem é assim a Lei n. não uma regra para o futuro. não conhece a História. dotada de abstração e generalidade. José Paulo Sepúlveda Pertence. Há de ser interpretada a partir da realidade no momento em que foi conquistada. Para quem não viveu as jornadas que a antecederam ou.o momento da transição conciliada de 1979 --assumida.683. A chamada Lei da anistia veicula uma decisão política naquele momento --. “se procurou” [sic] estender a anistia criminal de natureza política aos agentes do Estado encarregados da repressão. como afirma inicial. 6. não é temerário afirmar que. não as tendo vivido.

Esta distorção básica está subjacente aos pontos mais criticáveis do projeto: da odiosa e arbitrária aos discriminação já dirigida por exclusivamente condenados determinados crimes políticos (art. como se lê. que. com o nome de anistia. § 4º). Mais que a forma de lei (que decorre de sua essência. Isso sabidamente significa. ’a . 03. § 2º). tem antes o espírito de um indulto coletivo que o de uma verdadeira anistia. ou seja o seu caráter objetivo. ao condicionamento do retorno ou reversão dos servidores públicos à existência de vaga e ao interesse da Administração (art. em Anibal Bruno (Direito Penal. mas com ela não se confunde). o que caracteriza a anistia é a sua objetividade. e à exclusão desse benefício ’quando o afastamento tiver sido motivado por improbidade do servidor’ (art. por exemplo. O exame global do projeto desvela de imediato o seu pecado substancial: com um é dado a sua frontal do incompatibilidade elementar próprio conceito de anistia. 1º. 04. 3º).51 procedência das objeções suscitadas pela vanguarda da sociedade civil contra as restrições que o Governo pretende impor à conquista da anistia. 3º. III/201). Em outras palavras: o que o Governo está propondo.

o que ela faz é apagar o crime e. por definição. ao delito. ficam excluídos de punição os que o cometeram’. 2/441). Aconteceu mesmo indo-se onde está. em consequência. quando se mostrava que. A idéia já estava presente no célebre arrazoado de Rui Barbosa (in Comentários à Constituição. p. poderem ou com a consequência efeitos de o atribuir direito ato. acontece juridicamente desaparecer. a observação de Pontes de Miranda (Comentários à Const. deixar de ser. na generalidade objetiva da . e acrescenta: com ela. ao passado. processual. ele material agora. pela anistia. ’olvida-se de se o lhe ato não criminal. a enfatizar que a anistia ’é como a lei nova que deixou de considerar o fato como crime’. de que ’a finalidade da anistia é a mesma da lei criminal com sinais trocados’.52 anistia não se destina propriamente a beneficiar alguém. não ser’. A recordação dessa verdade elementar basta para ver como não se pode sustentar a sério a legitimidade jurídica ou moral de pretender engalanar-se com a grandeza da anistia – que está. I/343344). de 1946. Por isso.). 05. Raimundo Macedo (Extinção da Punibilidade. Na mesma linha. o ‘remontando-se criminoso. se lhe a elimina caráter suprimindo-se própria infração’.

leio ainda em Pertence: “17. em particular. Nem a repulsa que nos merece a tortura . em especial a que resultou contemplada no § 2º do artigo 1º da lei. a Constituição não anistia parcial. No que tange no entanto à concessão de anistia aos agentes do Estado. a recusa à deposição e outras de armas no prazo estabelecido tantas circunstâncias objetivas. que se estenderão àqueles. onde. São exemplos frequentes a reincidência. Não se desconhece que a tradição histórica – fonte necessária de identificação conceitual do instituto. como ocorre entre nós. para que tais exclusões sejam legítimas. para excluir estes dos benefícios da anistia. às quais – porque imputáveis ao agente – se tem considerado que o legislador pode atribuir a força negativa de impedir que sobre sua conduta criminosa. se estenda a eficácia da anistia”. O que então se debatia eram essas discriminações. Mas. o define que exclua – tem legitimado a da sua incidência de discriminante determinadas categorias partícipes do fato anistiado.53 determinação do seu alcance – um projeto que discrimina autores já entre autores não condenados mesmos e condenados pelos crimes políticos. 06. devem elas basear-se em fatos atribuíveis às pessoas excluídas da anistia.

civil do não elidindo a responsabilidade decorrentes”. que a extensão da anistia aos abusos da repressão terá efeitos meramente penais. Permito-me unicamente reproduzir. períodos. Senhores Ministros. como membro do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e como professor da Universidade de Brasília. de seu turno. ainda mais: 14 C a r t a M ai or (ww w . Mais não será necessário dizer. c ar t a m a i or . neste passo. c om . duplamente cassado pela ditadura militar. escalões do Poder – que uma eventual persecução penal dos seus executores materiais poderá vir a ganhar certo colorido de farisaísmo. entrevista na qual afirma nada ter a alterar no parecer que a venho aludindo e diz. 18 d e j a neir o de 20 10. Estado.54 impede reconhecer que toda a amplitude que for emprestada ao esquecimento penal desse período negro de nossa História poderá contribuir para o desarmamento geral. br ) . 19. trecho de entrevista de José Paulo 14. . desejável como passo adiante no caminho da democracia. grande Ministro desta Corte. 18. De outro lado. de tal modo a violência da repressão política em foi certos tolerada – quando pelos não altos estimulada. deles 41. Não é preciso acentuar.

. sob o manto da imunidade de fato do regime de arbítrio.55 “No projeto. nem uma voz se tenha levantado para por em dúvida a interpretação de que o art. os delitos de qualquer natureza cometidos nos ’porões do regime’. (. como então se dizia. O que houve foram propostas .. pelos agentes civis e militares da repressão. como foi. que. aos o que se considerariam tinha o conexos crimes políticos. no curso de todo o processo legislativo – que constituiu um marco incomum de intenso debate parlamentar sobre um projeto dos governos militares –. implicava a anistia da tortura praticada e dos assassínios perpetrados por servidores públicos. no alcance da anistia. havia um ponto inegociável pelo Governo: o § 1º do art. sentido indisfarçável de fazer compreender. 1 o . 1 o . concentrava a impugnação ao projeto governamental no § 2º do art. 1 o . Meu parecer reconheceu abertamente que esse era o significado inequívoco do dispositivo. § 1º. se aprovado. E sem alimentar esperanças vãs de que pudesse ele ser eliminado pelo Congresso. que excluía da anistia os já condenados por atos de violência contra o regime autoritário. com amplitude crimes heterodoxa. definindo.) É expressivo recordar que.

também certamente. 42.e a Lei n. de 7 de abril de 1997. A Constituição não recebe. a texto de Nilo Batista. em primeiro lugar.455. E. Dimitri Dimoulis. 8. instrumentos normativos constitucionais só adquirem força vinculante após o 15 Ju st iç a de t r a nsi çã o no B ra si l.. S ã o P au l o. leis em sentido material. que define o crime de tortura. mais. por impossibilidade lógica. o fato de o preceito veiculado pelo artigo 5º. parenteticamente. E d it or a S ar ai va . pá g s. . vigorando desde 26 de junho de 1987 --. na Nota introdutória a obra recentemente publicada 15. de Antonio Martins. Lauro Joppert Swensson Junior e Ulfrid Neumann: “.adotada pela Assembléia Geral em 10 de dezembro de 1984.683 preceder a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. porque de antemão condenadas à derrota sumária – para excluir da anistia os torturados e os assassinos da repressão desenfreada”.56 de emenda – não muitas. Anoto a esta altura. anistias anteriormente a sua vigência consumadas. abstratas e gerais. Refiro-me ainda.9. a circunstância de a Lei n. 6. 20 10.. S ar a iv a . XLIII da Constituição --. neste passo. leis-medida que a tenham precedido. 9. Desumanos ou Degradantes --.preceito que declara insuscetíveis de graça e anistia a prática da tortura. mas não afeta. certamente. entre outros crimes --não alcançar.

suave em razão de certos compromissos. nem mesmo viver). e o Brasil não subscreveu a Convenção sobre Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes contra a Humanidade de 1968 nem qualquer outro documento que contivesse cláusula similar. conjurando o fantasma da condenação pela Corte Interamericana. Há quem se oponha ao fato de a migração da ditadura para a democracia política ter sido uma transição conciliada. a autoridade de seus arestos foi por nós reconhecida plenamente em 2002 (Dec. n. de 8 de novembro de 2002) porém apenas ‘para fatos posteriores a 10 de dezembro de 1998’ ”. A transição para a democracia 43. ’o costume internacional não pode ser fonte de direito penal’ sem violação de uma função básica do princípio da legalidade. a anistia. à custa dessa amplitude. de modo que nestes autos encontramos a . uns absolvendo-se a si mesmos. Quando se deseja negar o acordo político os que que se efetivamente manifestaram existiu resultam em fustigados nome dos politicamente subversivos.463. Isso porque foram todos absolvidos. e.57 processo constitucional de internalização. a exemplo do precedente Arellano x Chile. 4. Ocorre que os subversivos a obtiveram. Era ceder e sobreviver ou não ceder e continuar a viver em angústia (em alguns casos. em terceiro lugar. Inclusive a OAB. em segundo lugar.

todos. de modo ilegítimo. Disso dou exemplo. um dia. Relator o Ministro Celso de Mello. Para como que menosprezá-la. em uma tentativa. em nome dos subversivos? O que se deseja agora.58 OAB de hoje contra a OAB de ontem. 125. Interpretação e revisão da Lei da anistia 44. para tanto. estávamos fartos de violência. posteriormente ao momento daquele acordo. dos praças expulsos dos quadros militares por motivação política apenas porque. patente. diz-se que o acordo que resultou na anistia foi encetado pela elite política. Refiro-me a reiterados votos do Ministro Sepúlveda Pertence a propósito da não abrangência. Menciono. No Estado democrático de direito o Poder Judiciário não está autorizado a alterar. mais do que de reescrever. com violência? Todos desejavam que fosse sem violência. a dar outra redação. Como se tivessem sido cúmplices dos outros. por todos. Mas nem mesmo o Supremo Tribunal Federal está autorizado a rescrever leis de anistia. votos de Pertence no RE n. Pode. com sangue e lágrimas. jamais foi corrigida. a texto normativo. produzir distintas normas. a legislação disciplinar. diversa da nele contemplada. A iniquidade. não sendo titulares de estabilidade. a punição não precisava fundar-se em atos de exceção. É inadmissível desprezarmos os que lutaram pela anistia como se o tivessem feito. a partir dele. bastava. pela anistia. em 1991.641. e na . Mas quem haveria de compor esse acordo. de reconstruir a História? Que a transição tivesse sido feita.

cujo veredictum. enquadra-se na competência exclusiva do Congresso cujo veredictum. determinando o alcance da providência quanto aos fatos a que se aplica e às pessoas a que 16 V ej a -s e ai n da a em e nt a l a vra da no R ec u r s o E xt ra or d i ná ri o C r im i na l n. R el a t or o M i ni st r o B a r r o s B a r r et o. v. Bras. II. O assunto. 99 8. citando Cobat. sua extensão e alcance quanto aos fatos e às pessoas. em 1992. de natureza essencialmente política. neste passo. 7. Cabe bem lembrar. p. nada lhe cumpre fazer. Relator para o acórdão o Ministro Marco Aurélio. de natureza essencialmente política. e com razão maior no Brasil. Não se discutem os motivos. 1948. sobre o caso. forçoso é distinguir. sobre o caso. depois de feita esta. escreve Carlos Maximiliano. . 94 3.177. enquadra-se na competência exclusiva do Congresso. 357. Transcrevo o texto de Carlos Maximiliano: “Quem interpreta e faz cumprir a lei da anistia? Quanto ao primeiro caso. 10. de 7 d e j u nho d e 1 94 8. a ti nent e à a n i sti a c on ce di d a pel o D e cr et o-l ei n. não sofre revisão do Judiciário (Com.59 Ação Originária n. Cabe a este em França. d e 1 94 5. nem a justiça ou a oportunidade da concessão. à Const. verificando e traduzindo o sentido do texto. n. trecho do voto do Ministro Orosimbo Nonato no Recurso Extraordinário Criminal n. O assunto. Nem mesmo para reparar flagrantes iniquidades o Supremo pode avançar sobre a competência constitucional do Poder Legislativo. 10. julgado em 11 de maio de 1948: “Ao Poder Judiciário cabe apenas o encargo de interpretar a lei que traduz a anistia. No que tange ao mais. não sofre revisão do Judiciário. interpretar o decreto da anistia. 154)” 16. 13..

v olu m e I I . em casos tais. devem agir. Não há porém dúvida alguma quanto a tanto. qu i nt a e di çã o. diz que esse acordo. Tarso Genro 18: “Houve. na inicial. Dado que esse acordo resultou em um texto de lei. Digo-o no pórtico desta seção. A Arguente questiona. como outros. Te ori a da de m o cr a ci a e ju st i ça na t r a nsi ç ã o. “[Q]uem foram as partes nesse acordo?” --. senão apurar. Li vr a ri a Fr e it a s B a st o s. deste meu voto. E mais diz ele. a 17 C o me nt á r i os à C o nst it u iç ã o B r as il ei ra. não impõe cláusulas pétreas 19. na qual passo a dar atenção ao tema da interpretação e da revisão da chamada Lei de anistia. 34. um acordo político feito pela classe política”. a existência de um acordo para permitir a transição do regime militar ao Estado de Direito. Que o seja. 19 54. pp. A execução da lei compete às autoridades administrativas em primeiro lugar. Ao Supremo Tribunal Federal não incumbe alterar textos normativos concessivos de anistias. sim.60 aproveita. B el o H or i z on t e. A ele não incumbe legislar ao apreciar ADPFs.indaga. 19 I dem . i b i de m . mas é certo que ao Poder Judiciário não incumbe revê-lo. pá g . as judiciárias para suspender os processos e restituir a liberdade até aos condenados” 17. 163 . . quem poderia revê-lo seria exclusivamente o Poder Legislativo. 2 00 9. E dit or a UFM G . Leio entre aspas o que diz o ex-Ministro da Justiça. R i o d e J a n eir o. Tar so G enr o. 45.164. 18 C f . também.

61 compatibilidade entre textos normativos pré-constitucionais e a Constituição. como parricídio.191. incesto. Resultaram todavia beneficiadas pela anistia todas as pessoas condenadas . Argentina e do Uruguai. na qualidade de autores. não pelo Poder Judiciário. 2. Começo com o exemplo do Chile. exemplo. vale dizer. que o Brasil por tem uma do concepção Chile. O Decreto-Lei n. cujas leis de anistia acompanharam as mudanças do tempo e da sociedade. subtração ou corrupção de menores. compreendida entre 11 de setembro de 1973 e 10 de março de 1978. Foram também excluídos da anistia delitos mais graves. de 18 de abril de 1978. etc.ou não --. Revisão de lei de anistia. deverá contudo ser feito pela lei. pelo Poder Legislativo. desde que não se encontrassem submetidas a processo ou condenadas. 46. se implicar necessária revisão da lei de anistia. 47. Insisto em que ao Supremo Tribunal Federal não incumbe legislar sobre a matéria. estupro. concedeu-a a todas as pessoas que. se mudanças do tempo e da sociedade a impuserem. Há quem de sustente lei.de ser feita pelo Poder Legislativo. infanticídio. conhecido como “Ley de Amnistía”. haverá --. Esse acompanhamento das mudanças do tempo e da sociedade. da particular diferente. tenham incorrido em delitos durante a vigência da situação de Estado de Sítio. cúmplices ou partícipes.

93 do Código Penal e excluía da concessão de anistia. 22. contrariando esse entendimento. graça ou indulto os autores de crimes de lesa-humanidade. sob o argumento de que se tratava de crimes de lesa-humanidade. os deputados I sabel Allende e Marcelo Díaz apresentaram ao Legislativo um projeto de lei visando à revogação do Decreto-Lei n. 48. 2.62 por Tribunais Militares em período posterior a 11 de setembro de 1973.191/78. Na Argentina.924 --. Daí que. finalidade terrorista ou subversiva desde 25 de maio de 1973 até 17 de junho de 1982.chamada “Ley de Pacif icación” --. Tida . no entanto. Em novembro seguinte. fazendo-o com esteio em normas de Direito Internacional. em 10 de junho de 2008. No Chile. estando ainda no exercício do poder os militares. será feita pelo Poder Legislativo. se mudanças do tempo e da sociedade a impuserem. Posteriormente. declarou prescritos os crimes cometidos pelo Coronel de Exército Claudio Lecaros Carrasco. a Lei n. a revisão de lei de anistia. em 23 de março de 1983 concedeu anistia aos delitos cometidos com motivação. objetivando anular os seus efeitos. o Senado chileno rechaçou projeto de lei que reinterpretava o art. como se vê. Em janeiro de 2007 a Corte Suprema chilena por maioria considerou não suscetíveis de anistia e imprescritíveis os crimes cometidos contra o desaparecido político José Matías Ñanco. em 12 de janeiro passado.

abrindo caminho para a declaração de inconstitucionalidade de indultos similares. Em 24 de dezembro de 1986 foi promulgada a Lei n. a Câmara de Cassação Penal argentina declarou a inconstitucionalidade do indulto concedido pelo então Presidente Carlos Menem ao ex-general Santiago Riveros. de 13 de dezembro de 1983). No dia 21 de agosto de 2003 sobreveio a Lei n. Ao final de 1983 passaram a ser promovidas persecuções penais contra guerrilheiros e juntas militares (decretos 157 e 158.492 --. 23. em junho de 2006.521. conhecida como “Ley de Punto Final”.23. por terem atuado em virtude cumprindo ordens superiores. conhecida como “Ley de Obediencia Debida”. a Lei n. 23. derrogou-a. Mas na Argentina . que declarou nulas as Leis do Ponto Final --. que isentou de culpa oficiais chefes.521.492. de 22 de dezembro do mesmo ano.040. bem assim policiais e agentes penitenciários que reprimiram o terrorismo entre 24 de março de 1976 e 26 de setembro de 1983. 25. 23.e da Obediência Devida --. nas ações penais promovidas contra pessoas envolvidas nos conflitos políticos conhecidos como “Guerra Sucia”.23. pena de extinção dessas mesmas ações penais.779. decisão confirmada em junho de 2007 pela Corte Suprema. que estabeleceu um prazo de sessenta dias para a citação. No dia 8 de junho de 1987 foi sancionada a Lei n. declarando-a nula. É certo que. sub-oficiais e pessoal de tropa das forças armadas.63 posteriormente como lei de “auto-anistia”. oficiais subalternos.

15. No dia 22 de dezembro seguinte. a chamada de “Ley de La Caducidad de la Pretensión Punitiva de Estado”.848/86. Posteriormente. em referendo então realizado. No dia 8 de março de 1985 foi promulgada a Lei n. de suas bem assim em os praticados ordenadas no pelo cumprimento funções.a revisão das leis de anistia foi procedida pelo Poder Legislativo.64 --- dir-se-á que em razão de mudanças do tempo e da sociedade --. limitou-se a aplicar os preceitos aportados ao ordenamento jurídico por essa revisão. pela sua não revogação.737. de nova campanha de recolhimento de assinaturas visando à submeter a plebiscito a anulação dos artigos 1º a 4º dessa mesma lei. A Corte Suprema não as reviu. no dia 16. após o lançamento. ações regime que comandou o país durante o período de fato. Em abril de 1989. 49. a Lei n. em 14 de junho de 2009 a Corte Eleitoral do Uruguai declarou ter sido alcançado o número de assinaturas necessárias à sua realização. em setembro de 2007. a maioria dos eleitores uruguaios votou. em 25 de outubro seguinte. Também no Uruguai aconteceu assim. que concedeu indulto a presos políticos. que deveria ocorrer quando das eleições nacionais. anistiou os delitos cometidos até 1º de março de 1985 por funcionários policiais e militares. 15. bem assim aos que haviam cometido “crimes de sangue” conexos com crimes políticos. por motivação política ou assemelhada. .

não por nós. vale dizer. deverá ser feito pela lei. pelo Poder Legislativo. afirmou a inconstitucionalidade dessa mesma “Ley de La Caducidad de la Pretensión Punitiva de Estado”.65 É verdade que no dia 19 de outubro. Permito-me repetir o quanto afirmei linhas acima. a despeito da iminência do plebiscito. Não obstante. Antes. Chego quase ao final deste voto. de 27 de novembro de 1985 51. § 1º da EC 26/85: . pela preservação da sua vigência. 26.não incumbe legislar. seis dias após. O acompanhamento das mudanças do tempo e da sociedade. 50.repito-o --. A Emenda Constitucional n. Como ocorreu e deve ocorrer nos Estados de direito. contudo. data da eleição presidencial. cumpre considerarmos preceito veiculado pelo artigo 4º. em plebiscito. se implicar necessária revisão da lei de anistia. 25 de outubro. Ao Supremo Tribunal Federal --. a Suprema Corte de Justiça. apreciando denúncia referente à morte de uma militante comunista detida em uma unidade militar em junho de 1974. a maioria dos eleitores manifestou-se. Isso porque ela violaria o princípio da separação dos poderes na medida em que excluíra da órbita do Poder Judiciário o julgamento de condutas com aparência delitiva e afetara seriamente garantias que o ordenamento constitucional depositou em suas mãos.

anistia aos autores de crime s políticos ou conexos. O período alcançado por esta anistia. mas leio a lei e a Emenda Constitucional: [i] Lei n. anistia aos autores de crimes políticos ou conexos. 6.. igualmente.. art. igualmente.. igualmente. no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. perdoem-me. Perdoe-me. bem como aos servidores civis ou empregados que hajam sido demitidos ou dispensados por motivação exclusivamente política. art..”. § 1º É concedida.e completo: no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. 26/85.. [ii] Emenda Constitucional n. Repito: “É concedida. cometeram crimes políticos ou conexo com estes. § 1º: “É concedida. institucionais ou complementares. 4º. . anistia aos autores de crimes políticos ou conexos. punidos por atos de exceção.66 “Art. da EC 26/85.. Senhor Presidente. 1º: “É concedida anistia a todos quantos.683/79.”. com base em outros diplomas legais”. e aos dirigentes e representantes de organizações sindicais e estudantis. Senhores Ministros. 4º É concedida anistia a todos os servidores públicos civis da Administração direta e indireta e militares.” --. é definido pelo § 2º desse mesmo artigo 4º: atos praticados no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979.

”. restrição integrara aos a deixando chamados lei no degrau de assim de baixo a ‘crimes e sangue’.por certo não precisava legislar anistia em causa própria. ou então diretamente pelo povo soberano. pode Congresso com certas ser olhado reservas. Isso fulmina o argumento. pelo órgão legislativo oriundo de eleições livres.já após eleições diretas para os governos estaduais. do Arguente. o de 1985 --. deveria ser legitimado. Retorno ao texto de Nilo Batista 20. mediante referendo (Constituição Federal. já com o país governado por um presidente civil. . entre outros indicadores importantes --. a anistia ascendia à hierarquia constitucional. ci t . O que não ocorreu”. hoje se sabe até que houve resistência Mas se à o lei do ex- presidente Nacional General de 1979 Geisel.. pá g. tornando-se penalmente irrestrita. de que “o mencionado diploma legal. art. . de que “num regime autenticamente republicano e 20 O b. que ordinária. 14). e na mesma emenda na qual era convocada a Assembléia Nacional Constituinte que resultaria na Constituição de 1988.. para produzir o efeito de anistia de agentes públicos que cometeram crimes contra o povo. e. após a entrada em vigor da atual Constituição. em seguida.67 52. em trecho em que diz da impropriedade de entrever-se autoanistia na lei: “Sempre se soube da grande negociação política. 1 1.

21 . cujo artigo 1º conferiu aos membros da Câmara dos Deputados e ao Senado o poder de se reunirem unicameralmente em Assembléia Nacional Constituinte. 2ª e diç ã o.. Isto é. Essa nova norma tem caráter constitutivo. Daí que ela é dotada de caráter constitutivo. mas uma outra. Instala um novo sistema normativo. 23 O b. livre e soberana. uma norma-origem”. quer os funcionários que. pá g. c it a do s. e l oc. já não é a norma que autoriza os procedimentos de emenda que está sendo acionada. Diz o Professor Tércio 22 que. na sede do Congresso Nacional. não é a norma dos artigos 47 e 48 que está I nt r o du ç ã o a o estu do d o di re it o. 1 94. Sã o Pau l o. 19 96. E conclui 23: “. executaram suas ordens”. O que importa ainda é seguirmos a exposição de Tércio Sampaio Ferraz Júnior 21 a respeito da EC 26/85. quando o Congresso Nacional promulga uma emenda (n o 26) conforme os artigos 47 e 48 da Constituição 67/69. É uma norma nova. com o mesmo relato.. constitui ela própria o comportamento que ela mesma prevê. 22 O b. “ao promulgar emenda alterando o relato da norma que autoriza os procedimentos para emendar. 1 93. . ao delinqüirem. 53. o receptor (poder constituído) se põe como emissor (poder constituinte). emenda que altera os próprios artigos. E dit or a A t la s.68 não autocrático os governantes não têm poder para anistiar criminalmente. pá g. quer eles próprios. ci t . mas com outro emissor e outro receptor. no dia 1º de fevereiro de 1987.

no texto da EC 26/85. 54. porém a do artigo 4º.o mesmo texto -. a anistia. 26/85 inaugura a nova ordem constitucional.69 sendo utilizada. Consubstancia. Eis o que se deu: a anistia da lei de 1979 foi reafirmada. Por isso não tem sentido questionar se a anistia. que abrange inclusive os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo. Pois a nova Constituição a [re]instaurou em seu ato originário. já que a inicial o ignora --. A norma prevalece. A Emenda Constitucional n. nesse sentido. E de modo tal que --estivesse o § 1º desse artigo 4º sendo questionado nesta ADPF. tal como definida pela lei. O texto da lei ordinária de 1979 resultou substituído pelo texto da emenda constitucional. foi ou não recebida pela Constituição de 1988. a revolução branca que a esta confere legitimidade. pelo Poder Constituinte da Constituição de 1988. 55. Mas estão todos como que [re]anistiados pela emenda. Não que a anistia que aproveita a todos já não seja mais a da lei de 1979. o que não ocorre. mas o texto --. mas uma outra. assalto.somente se a nova Constituição a tivesse afastado expressamente poderíamos tê-la como incompatível com o que a Assembléia Nacional Constituinte convocada por essa emenda constitucional produziu. § 1º da EC 26/85. a Constituição de 1988. constitucional Consubstancia que decairá a ruptura no da ordem da plenamente advento Constituição de 5 de outubro de 1988.foi substituído por outro. sequestro e atentado pessoal. A emenda constitucional produzida pelo Poder Constituinte originário constitucionaliza-a. pois o poder constituído já assumiu o papel de constituinte”. .

é lei apenas em sentido f ormal. exauridos --. A nova ordem compreende não apenas o texto da Constituição nova. .70 Daí que a reafirmação da anistia da lei de 1979 já não pertence à ordem decaída. A duas por que o texto de hierarquia constitucional prevalece sobre o infraconstitucional quando ambos coexistam. Está integrada na nova ordem.totalidade que o novo sistema normativo é --. No bojo dessa totalidade --. se não tivermos o preceito da lei de 1979 como ab-rogado pela nova ordem constitucional. existirá a par dele [dicção do § 2º do artigo 2º da Lei de Introdução ao Código Civil]. dotada de efeitos concretos. todavia. Afirmada a integração da anistia de 1979 na nova ordem constitucional. anistia aos autores de crimes políticos ou conexos” praticados no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. é lei não-norma.tem-se que “[é] concedida. De todo modo. foi mera lei-medida. despiciendo. como vimos. O debate a esse respeito seria. ao qual se dirige. teremos que sua adequação à Constituição de 1988 resulta inquestionável. Compõe-se na origem da nova norma fundamental. igualmente. 56. o que observei linhas acima: a lei-medida consubstancia um comando concreto revestindo a forma de norma geral. mas também a normaorigem. em sentido material. não o sendo. A uma por que. mas traz em si mesma o resultado específico pretendido. contudo. estará a coexistir com o § 1º do artigo 4º da EC 26/85.repito. parenteticamente.

Dir-se-á. . E dit ori al C o m u nic a çã o. o desembaraço dos mecanismos que ainda dificultam o conhecimento do quanto ocorreu entre nós durante as décadas sombrias que conheci. com afinco. não é assim. a estabilidade social impondo seja repetido. agora. como diz o poeta português José Carlos Ary dos Santos 24. Em primeiro lugar por que. Pronto deslinde. destarte.71 Por isso não se pode divisar antinomia de qualquer grandeza entre o preceito veiculado pelo § 1º do artigo 4º da EC 26/85 e a Constituição de 1988. sem demora. 26/85. L i sb oa . 57. Retorno ao parecer do eminente Procurador Geral da República. a nos ocupar. tudo quanto foi dito a respeito da lei ordinária terá sido despiciendo. 19 75. Recebi estes autos com parecer da Procuradoria Geral da República em 29 de janeiro deste ano de 2010. Que se o faça 24 A s p or t a s q u e A br il a br iu. sim. Não obstante. de uma vez por todas. 58. Observações finais 59. Impõe-se. mas rapidamente. I sso na medida em que --. “não há coisa mais pura do que dizer a verdade”.e por certo não me excedo ao observá-lo --a estabilidade social reclama pronto deslinde da questão de que aqui estamos. Se o texto da lei ordinária fora retirado do ordenamento pela emenda constitucional ou existe a par dela. que terá sido rebarbativo este meu voto. depois por que tudo quanto afirmei a propósito da lei ordinária se amolda ao preceito da Emenda Constitucional n. Em dois meses. preparei este meu voto.

afirmar a possibilidade de acesso aos documentos históricos como forma de exercício do direito fundamental à verdade. É necessário dizer. . 8. “y acordarse de vos --prossegue ---/de tu cari ta/lo ayudaba a callar/una cosa es morirse de dolor/y otra cosa morirse de vergüenza”. Hombre preso que mira su hijo. policiais ou delinquentes. vigorosa e reiteradamente. Há coisas que não podem ser esquecidas.e se espera que isso logo ocorra --. prosseguir na construção madura do futuro democrático”.1 15. 2 00 0. E d it or i a l pá g s.quando do julgamento da ADI n. que de quando em quando ressoa em minha memória: “llora nomás botija/son macanas/que los hombres no lloran/aquí lloramos todos/gritamos berreamos moqueamos chillamos maldecimos/porque es mejor llorar que 25 i n A nto l og i a po é ti c a.72 -. que a decisão pela improcedência da presente ação não exclui o repúdio a todas as modalidades de tortura. Em um poema.111/05. 60. Su da m er ic a n a. que subscrevo: “Se esse Supremo Tribunal Federal reconhecer a legitimidade da Lei da Anistia e. 1 13. na qual é questionada a constitucionalidade das Leis ns. Transcrevo trecho desse parecer. de ontem e de hoje.159/91 e 11. atento às lições do passado. civis e militares. B u e no s A ir es. o Brasil certamente estará em condições de. E assim termina este lindo poema. Mario Benedetti 25 diz ao filho que “es bueno que conozcas/que tu viejo calló/o puteó como un loco/que es una linda f orma de callar”. por fim. 4077. no mesmo compasso.

É necessário não esquecermos.73 traicionar/porque es mejor llorar que traicionarse/llora/pero no olvides”. para que nunca mais as coisas voltem a ser como foram no passado. Julgo improcedente a ação. .