Bernardo Sanchez da Motta

O processo contra Galileu
Breve cronologia

Lisboa, Abril de 2008

O processo contra Galileu – Breve cronologia

Índice
ÍNDICE......................................................................................................................................................... 2 I. INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 3 II. COPÉRNICO E A SUA OBRA .................................................................................................................... 11 III. GALILEU GALILEI ............................................................................................................................... 13 III. DE GALILEU AOS DIAS DE HOJE .......................................................................................................... 47 V. CONCLUSÃO ......................................................................................................................................... 54 VI. CARTA DE GALILEU A BENEDETTO CASTELLI..................................................................................... 61 VII. CARTA DE GALILEU A CRISTINA DE LORENA..................................................................................... 61 VIII. INSTRUÇÃO DO PROCESSO (ABRIL DE 1633)...................................................................................... 63 IX. FONTES .............................................................................................................................................. 67 X. AGRADECIMENTOS............................................................................................................................... 68

Nota Este texto é apenas uma versão preliminar. Versões actualizadas irão aparecer ao longo do tempo na Internet, em http://espectadores.blogspot.com.

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O processo contra Galileu – Breve cronologia

I. Introdução
“Tenho duas fontes de perpétuo conforto: primeiro, que nos meus escritos não se pode encontrar a mais ténue sombra de irreverência em relação à Santa Igreja; e segundo, o testemunho da minha própria consciência, que apenas eu e Deus no Céu conhecemos. E Ele sabe que nesta causa pela qual eu sofro, apesar de que muitos podem ter falado dela com mais erudição, ninguém, nem mesmo os antigos Padres, falou com mais piedade ou como maior zelo pela Igreja do que eu” – Carta de Galileu a Nicolò Fabri di Peiresc, de 21 de Fevereiro de 16351.

Não se pretende com estas breves notas trazer qualquer novidade a esta temática, nem obviar à consulta do enorme acervo bibliográfico sobre ela existente. O objectivo é simples: fornecer informação elementar, sobretudo cronológica e biográfica, sobre Galileu e o célebre processo que lhe foi movido pelo Santo Ofício. Evitam-se juízos de valor ou de moral, preferindo-se a enumeração de factos e informação sólida. A distância histórica face a estes acontecimentos obriga a uma visão o mais possível desapaixonada e isenta de polémica. É quase unânime afirmar que o processo contra Galileu foi injusto, e esta afirmação não se contesta. Por outro lado, e como este caso costuma ser invocado como forma de montar um argumento de uma pretensa incompatibilidade entre Ciência e Religião, é fundamental a posse de noções básicas sobre o tema para que se possa refutar este falso argumento. Galileu nunca deixou de ser católico e de amar profundamente a Igreja (talvez mais do que aqueles que o condenaram). Nunca foi declarado herege nem excomungado. Mais do que um paradigma de um presumido confronto perpétuo entre Ciência e Religião, o caso Galileu constitui um bom exemplo de complexa intriga social, na qual as dificuldades inerentes a um pensamento científico em processo de amadurecimento constituem o pano de fundo, ao qual se juntam difamações à pessoa de Galileu, depoimentos anónimos repletos de falsidades, confusões inconscientes ou deliberadas, abusos de poder e manipulações a noções teológicas, guerras pessoais contra Galileu, motivadas por inimigos e adversários do sábio, tanto leigos como membros do clero, que lhe invejavam a qualidade da obra, a
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Carta escrita após a sentença de 1633. Opere di Galileo, Edizione Nazionale, vol. XVI, p. 215.

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o Papa Urbano VIII. O conflito não se limitou a uma motivação religiosa. ponto alto da Contra-Reforma. inaugurado por Lutero. liderado por Fernando II da dinastia dos Habsburgos (que também reinavam na Áustria. lutavam pelo objectivo de consolidar o seu poder na Europa: a Espanha. Entre 1545 e 1563 desenrola-se o Concílio de Trento. aliou-se à Áustria e à Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 4 . um conflito que se previa polarizado entre católicos e protestantes dá lugar a um cenário complexo: tanto a França como a Espanha (com Portugal). sob Filipe IV – Filipe III de Portugal). No entanto. contribuiu para a atitude de constante sobressalto do Santo Ofício durante os séculos XVI e XVII perante quaisquer questões doutrinárias que pudessem complicar mais ainda o já agitado contexto da fé cristã de então. O fenómeno do Protestantismo. rapidamente degenerou em conflito à escala europeia. um conflito entre o poder imperial dos Habsburgo e o poder dos principados protestantes. liderado pelo protestante Príncipe-Eleitor Frederico V. outras inventadas ou distorcidas. que poderão também estar marcadas pelo contexto político de então. que ajuda a compreender o complexo tecido político de alianças e guerras regionais que marcaram o pano de fundo da Europa do tempo de Galileu. em Espanha e em Portugal. É também de destacar a consideração que por ele teve. pois foi vincadamente político: no plano interno da própria Alemanha. talvez desgostado com certas atitudes e intenções de Galileu que lhe começaram a chegar aos ouvidos a partir de 1632. Pode-se conjecturar que este.O processo contra Galileu – Breve cronologia vastidão dos conhecimentos. no plano externo. pena essa que nunca seria levantada. contra o Palatinado da Renânia. acabaria por subvencionar o processo inquisitorial de 1633 que ditaria a injusta pena de prisão domiciliária até ao final da vida. No entanto. que opunha o católico Sacro Império Romano-Germânico. algumas reais. lutando necessariamente ao lado do Sacro Império do Habsburgo Fernando II. e certamente influenciado pela pressão dos seus adversários. é a grande Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). não é fácil ter certezas acerca das intenções que levaram o Papa Urbano VIII a condenar Galileu. que seria a reacção católica às revoluções doutrinárias de Lutero (1483-1546). pelo menos numa fase inicial. e sobretudo a sua elevada fama e estima por parte dos poderes espirituais e temporais da época. Tendo tido a sua origem num conflito interno da Alemanha. no panorama histórico. O contexto histórico que marca este período é crucial para a compreensão do caso Galileu. talvez mais relevante ainda. católicas.

inimigos de Espanha. Os exércitos do rei Gustavo Adolfo invadem o norte da Alemanha. derrota os boémios e Frederico V a 8 de Novembro de 1620. decide que chegara a vez da França os apoiar. entretanto. Entre 1625 e 1630. mas sem sucesso. é assinada a paz em Westfalia que põe termo à Guerra dos Trinta Anos. Numa primeira fase. obtendo entretanto o apoio da Saxónia. após quatro anos de negociação entre as várias partes. o Príncipe-Eleitor tentou recuperar os seus territórios. que se alinham à Inglaterra e à França para combater os Habsburgos e a Liga Católica. as campanhas não decorreriam sem prejuízo para os franceses. As campanhas em colaboração com os suecos alcançam alguns êxitos: a França chega a controlar a Alsácia e a Renânia. mas essa protecção viria a custar-lhe cara durante esta fase do papado de Urbano VIII: Fernando II fez-se aliado do Imperador. mas é derrotado em 1626 pelos exércitos de Fernando II. formando a Liga Católica. entra em cena a Suécia. Os exércitos imperiais. Galileu sempre fora protegido pelo patronato do Grão-Ducado da Toscânia. liderados pelo boémio Wallenstein. a guerra amplia-se com a entrada em cena dos Holandeses. declarando guerra a Espanha (1635) e ao Sacro Império (1636). Para mais.O processo contra Galileu – Breve cronologia Baviera. enquanto que os suecos se fortalecem no norte da Alemanha. e tomou o seu partido na guerra sucessória de Mântua. com Luís XIV ainda criança no trono. morre o rei Luís XIII. Fernando II. seriam deste modo afastados de posições influentes. que se viam invadidos tanto pelo sul como pelo oriente pelos exércitos espanhóis e imperiais. perto de Leipzig. e Gustavo Adolfo é morto em batalha. Alguns importantes amigos de Galileu. 3 Fase esta que ficaria ainda marcada negativamente pela crise da guerra sucessória de Mântua (1628-1631). para combater a Liga Católica2. conotados com essas simpatias. despendendo somas avultadas nos seus exércitos. afastando figuras contestatárias às suas opções políticas ou que demonstrassem simpatias pró-espanholas. A preferência de Urbano VIII por Richelieu e por Luís XIII iria marcar uma fase problemática do seu papado3: face à oposição de muitos dos seus cardeais. na qual a França se opôs ao Imperador Fernando II. e depois com o seu filho Fernando II de Médicis. e um ano mais tarde. Entre 1621 e 1624. Nestes tempos conturbados. como Monsenhor Giovanni Ciàmpoli (1589-1643). ajudado pelos espanhóis. seguindo rapidamente para o Sul. ajudados pelos espanhóis. Em 1642. só vinha piorar a situação do sábio. em Lützen (1632). No entanto. que praticamente chegaram às portas de Paris em 1636. O regente Cardeal Mazarin. que nesta guerra apoiava os franceses. 2 Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 5 . e com a ameaça de crises internas (que viriam a culminar na crise da Fronda em 1648-1653). contra a posição tomada pelo Papa. invadindo o norte da Alemanha. Boémia. morre Richelieu. vendo-se responsável pela coroa. e na qual o Papa tomou o lado dos franceses. decide apoiar os franceses. Dinamarca e Suécia. é fácil ver que o patronato dos Médicis a Galileu. França aliou-se às potências protestantes. Fernando II decide enviar de novo Wallenstein para combater os dinamarqueses. O Cardeal Richelieu. ou seja. que numa primeira fase apoiava naturalmente os Habsburgos e o Sacro Império. Urbano VIII procurou silenciar essa oposição. Os espanhóis. vendo que os suecos perdiam força. o conflito centra-se na Boémia. Holanda. O Papa Urbano VIII. que em tempos fora tão importante. Por outro lado. bem como de Veneza. primeiro com Cosme II de Médicis (até à sua morte em 1621). Em 24 de Outubro de 1648. ocupam uma parte substancial das posses de Frederico na Renânia. 1618-1621. a partir do momento em que a França entra no conflito declarando guerra à Espanha. Cristiano IV da Dinamarca lidera a causa. derrotam os suecos em Nördlingen (1634). Inglaterra. Entre 1630 e 1634. onde uma rebelião rejeitou o poder Habsburgo e prestou vassalagem a Frederico V do Palatinado. começa a fazer planos para a paz.

que diz respeito à interpretação correcta (ortodoxa) das Sagradas Escrituras. Agostinho defende a ideia de que as verdades científicas são para ser levadas a sério pelos cristãos.O processo contra Galileu – Breve cronologia Por outro lado. com grande cautela. a visão do mundo que o cristianismo propõe é uma visão que procura conciliar fé com ciência. e vice-versa. Talvez porque viveu no contexto da ameaça protestante. e não a um eventual “aterrar” do Sol sobre a Terra. Santo Agostinho. sendo necessário que não contivessem erros por serem divinamente inspiradas. à luz dos conhecimentos cosmológicos de hoje. mesmo sendo certo que tal fenómeno se deve ao movimento de rotação da terra sobre o seu eixo. O Cardeal Roberto Bellarmino4. Uma interpretação literal da expressão “pôr-do-sol”. em linguagem comum. nunca permitindo leituras literais quando se está perante figuras de estilo. A tradição cristã deixara bem sólida a noção de que as Sagradas Escrituras. Caso alguma novidade científica comprovada entre em contradição com uma determinada interpretação habitual das Sagradas Escrituras. e não há dificuldades em tomar a afirmação como verdadeira. insiste na noção de que há necessidade de as interpretar correctamente para evitar leituras erradas. Na sua obra. trata-se de uma figura de estilo. se preserva a inerrância das Escrituras. muito respeitado entre os seus pares. quando se diz. Por exemplo. era um homem sábio e sensato. os cristãos têm a obrigação de rever essa interpretação. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 6 . Assim se constata que a tradição cristã sempre estimou a ciência da hermenêutica. no plano religioso. que “o Sol se pôs”. No entanto. em qualquer contexto. no final do primeiro livro. de forma alguma. como vimos no exemplo. De Genesi ad litteram. Cristo é a própria Verdade: nenhuma verdade científica poderá invalidar uma verdade de fé. que tal expressão seja falsa. não interpretar uma dada expressão de forma literal não implica. Se há contradição. seria sempre absurda. sob pena de serem motivo de escárnio por parte dos sábios pagãos. sem nunca afirmar que há erro nas Escrituras. o Cardeal Bellarmino defendeu com grande tenacidade a 4 Foi beatificado (1923) e canonizado (1930) pelo Papa Pio XI. posto que diziam respeito à salvação humana e não às ciências naturais. então é a interpretação do texto que está errada e não o texto em si. para os cristãos. e a compatibilidade entre as verdades da doutrina cristã e as verdades científicas. uma vez que. não constituíam terreno adequado para dirimir questões científicas. É deste modo que. a boa hermenêutica. que lidou com o primeiro inquérito a Galileu em 1616.

no entanto. O que a doutrina cristã considera inaceitável é o erro nas Escrituras Sacras. pp. sobretudo na ausência de provas definitivas. que Galileu ainda não possuía em 1616. Bellarmino recomendava que não se tirassem conclusões precipitadas. no Salmo 104. e não se apressou a pôrse. Acima de tudo. 6 Figurativas. do mesmo modo que não estaria certo condenar quem perfilhasse as posições que eu lhe tinha descrito [a favor do heliocentrismo]”7 Uma atitude de prudência intelectual levava Bellarmino a considerar a possibilidade de o modelo heliocêntrico ser mais conforme com a realidade. Bellarmino receava o relativismo interpretativo da Bíblia precisamente porque grande parte do protestantismo emergente estava marcado por esse relativismo. 5 (“Fundaste a terra sobre bases sólidas. Há inúmeras provas da cautela de Bellarmino face aos dois sistemas planetários e às possíveis implicações de cada um destes para as Escrituras. até que o povo se vingou de seus inimigos. 7 Citação retirada da obra de José Maria Costa André. no entanto. 13 (“E o sol se deteve. O sol. escritas em italiano ao invés do latim 5 Por exemplo. Isto está escrito no livro de Justo. 8 E muitas outras figuras de autoridade dentro da Igreja. cap. vs. Bellarmino8 queria evitar a disseminação destas questões ainda em debate junto do público não especializado e não treinado nas lides hermenêuticas. pois. pelos seus escritos. ela mantém-se inabalável para sempre”). Bellarmino não tinha objecções à leitura de certas passagens da Bíblia como sendo figurativas 6 . mas verdadeiras. se deteve no meio do céu. fica claro que Bellarmino tinha enormes dúvidas face ao heliocentrismo e não estava disposto a abandonar a interpretação literal das passagens que pareciam defender o geocentrismo. sempre que nestas se falava da Terra ou dos astros5. quase um dia inteiro”). Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 7 . 10. Monsenhor Piero Dini escreveu o seguinte ao seu amigo Galileu. sem que fossem apresentadas provas conclusivas e irrefutáveis. e o Cardeal sentia a necessidade de repor o equilíbrio. e porque isso poderia gerar confusão na população não instruída. até que novos factos comprovados obrigassem a alterações. e no livro de Josué. mas o Cardeal disse-me que nestas questões não se devem tirar conclusões apressadas. As obras de Galileu. queria preservar tanto quanto possível a leitura literal do texto sacro. Galileu. Visto que o novo modelo iria colocar em questão a interpretação tradicional de certas passagens das Escrituras. 26-27.O processo contra Galileu – Breve cronologia inerrância das Sagradas Escrituras. e a lua parou. vs. relatando-lhe uma conversa que tivera com o Cardeal Bellarmino: “(…) Eu respondi-lhe [a Bellarmino] que podia acontecer que as Sagradas Escrituras empregassem aqui um modo corrente de falar.

pressionado e condenado a pena de prisão domiciliária por parte do Santo Ofício. No entanto. chegavam mais facilmente a audiências mais vastas. pp. e não corre o risco [de comprometer alguma verdade teológica]. dizendo eventualmente que não as entendemos. p. não haveria qualquer oposição”9 É o próprio Bellarmino quem escreve este texto. não é o mesmo que dizer que visualizando o Sol no centro e a Terra no céu se explica melhor a realidade e demonstrar que na verdade o Sol está no centro e a Terra no céu. adepto do copernicanismo e amigo de Galileu: “(…) Vossa Reverência e o Senhor Galileu actuariam prudentemente limitando-se a falar hipoteticamente e não de modo taxativo. o processo a Galileu. A razão apontada pelos condutores do processo que levou à condenação de 1633 era a da desobediência de Galileu à ordem que presumidamente lhe fora dada em 1616 para se abster 9 Ibidem. Mas não creio que exista demonstração até que eu o veja demonstrado. mas quanto à segunda tenho grandíssimas dúvidas (…)”10 Este é o cerne do problema científico e teológico. A primeira demonstração julgo que se pode fazer. quando o dominicano Niccolò Lorini fez a primeira denúncia de que há registo no Santo Ofício contra Galileu Galilei. que foi central no primeiro “embate” de 161611. se fosse verdadeira a demonstração de que o Sol está no centro do Universo e a Terra no terceiro céu. em vez de dizer que é falso aquilo que se demonstra. afirmar que se explica melhor aquilo que observamos supondo que a Terra se move e o Sol permanece fixo. mas a Terra em torno do Sol. o que também contribuiu para a dimensão social que este caso veio a ter. pois não se conhece neste ano nenhum documento inequívoco que prove uma condenação formal a Galileu. Pois está muito bem dito. Monsenhor Giovanni Ciàmpoli. Ibidem. quando Galileu é interrogado. numa carta enviada ao seu amigo Galileu. em 1633. sob a aprovação do Papa Urbano VIII. 27. cuja interpretação é assunto de teólogos qualificados. como aliás sempre fez Copérnico. então seria necessário ter muito cuidado ao explicar as Escrituras que parecem contrárias. que até então demonstrara consideração por Galileu.O processo contra Galileu – Breve cronologia corrente nos meios científicos. não se esgota em 1616. 27-28. reforça esta visão: “O Cardeal del Monte disse-nos que tinha discutido demoradamente a questão do copernicanismo com o Cardeal Bellarmino e que tinham concluído que se o sistema de Copérnico fosse demonstrado sem chamar ao caso as Escrituras. e que o Sol não gira em torno da Terra. 11 Este primeiro “embate” processual teve início em Fevereiro de 1615. 10 Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 8 . numa carta enviada ao frade carmelita Paolo Foscarini. do que imaginando círculos excêntricos e epiciclos (…) Digo que. Só mais tarde o processo atinge o auge. como veremos.

não é linear comparar os dois processos. como veremos. A obra recebe o imprimatur de Roma.O processo contra Galileu – Breve cronologia de defender e ensinar o copernicanismo. as questões científicas e teológicas ficarão para segundo plano. A acusação apontava como prova de maior peso a edição da sua obra Diálogo acerca dos dois máximos sistemas do Mundo – o Ptolemaico e o Copernicano. O processo girará em torno da presumida desobediência de Galileu. atritos e inimizades com o sábio. surgiu esta polémica em torno do Diálogo. essa figura cujas ideias eram refutadas e ridicularizadas no confronto com as outras duas personagens. e é impressa nessa cidade em Fevereiro de 1632. Apesar da terrível injustiça do seu processo e da pena de morte que lhe foi imposta. na qual Galileu promovia o modelo copernicano. Mas o processo só ganha corpo no Verão deste ano. que figurava no seu Diálogo. e porque razões. porque a documentação praticamente desapareceu na totalidade. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 9 . esta ideia deverá ser falsa. de nome Simplício. queimado por heresia em Roma no ano de 160012. argumenta-se que Galileu conduziu de forma irregular o processo de pedido de autorização da impressão do Diálogo. nem quanto às acusações nem quanto à pena. Faziam-se paralelos errados e injustos entre Galileu e Giordano Bruno (1548-1600). alguns dos quais arrastavam décadas de invejas. em Roma. Salviati (o defensor do heliocentrismo) e Sagredo (neutro ao início. É razoável 12 É costume supor-se que Giordano Bruno foi imolado por causa das suas ideias científicas. mas esta argumentação não é convincente: Galileu apresenta a sua obra pela primeira vez ao Santo Ofício. escrita em linguagem acessível. porque do ano 1616 não há documentação que ateste que Galileu foi intimado ou forçado formalmente a abjurar de ideia alguma. Em 1633. o que torna incompreensível o argumento dado no processo de que Galileu não teria agido correctamente na legalização da obra. alegava-se falsamente que o Diálogo continha referências crípticas a conceitos de magia e ocultismo. Pelo contrário. mas que acaba convencido do heliocentrismo). um documento assinado pelo Cardeal Bellarmino atesta precisamente o oposto. este parece ter sido conduzido por questões de fé e de doutrina cristã e não por questões filosóficas ou científicas. em 1630. Entre outras razões. no entanto. que. Não se sabe exactamente como. Há também que ter em conta o fermentar das diligências e denúncias feitas à Inquisição acerca de Galileu por parte dos seus adversários. uma obra de divulgação. não tinha fundamentação jurídica sólida. E. seria uma sátira ao próprio Papa. Do pouco que se sabe sobe o processo de Bruno. bem com uns tempos mais tarde o imprimatur do Inquisidor de Florença. talvez um motivo que terá trazido desgosto ao Papa Urbano VIII. as más línguas diziam que a personagem aristotélica fictícia. o de Bruno e o de Galileu. Nos documentos do processo.

deram-se a um trabalho sem descanso. Curiosamente. Trata-se de um caso movido contra a pessoa de Galileu. e não um choque frontal de ideias incompatíveis. das várias acusações movidas contra Galileu. por pessoas variadas e razões complexas. é útil analisar primeiro. cit. Para se compreender que o caso Galileu é. Giorgio Coresi. Christopher Scheiner. Cremonino. pelo que não parece possível tirar conclusões simples. de escrever livros (geralmente caluniosos). Vincenzio di Grazia.O processo contra Galileu – Breve cronologia presumir que Galileu não teve essa intenção. a cronologia dos momentoschave da vida de Copérnico. Martino Orchio. não a regra na relação entre a Igreja e a Ciência. entram em jogo diversos factores e motivações. 40-41. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 10 . no processo movido contra Galileu. Tommaso Palmerini. pretendiam activamente a condenação de Galileu. foi aumentando continuamente o número dos que. de multiplicar acusações contra Galileu. Ao longo dos anos. brevemente. apesar de a memória gloriosa de Copérnico ser um obstáculo de monta. a dificultar as manobras da acusação. Orazio Grassi. escreve José Maria André: “A animosidade de muitos contra Galileu pode ajudar a entender o Processo. 13 José Maria André. Francesco Sizii. como se prova facilmente pelo facto de não ter sido impugnado até Galileu ter aderido a ele. e praticamente ninguém discute que a pena de prisão domiciliária imposta a Galileu foi dura e injusta. Baltasar Capra. pp.”13 Como se vê. Sobre os adversários de Galileu e sobre o móbil do processo. mas sim uma má excepção. mas tudo isto pode ter contribuído para o ressentimento do Papa. Firenzuola… e muitos outros. O principal móbil é claramente a condenação de Galileu e não o sistema de Copérnico. só esta acabou por ter consequências directas.. op. pelas razões mais diversas. O que é seguro afirmar é que este caso não constitui prova de que a doutrina cristã é incompatível com verdades científicas ou que convive mal com a Ciência. Lodovico delle Colombe. de fomentar boatos. pai do modelo que Galileu viria a defender no século seguinte. A falta de solidez de todo o processo pode ser constatada.

Copérnico e a sua obra Figura 1.O processo contra Galileu – Breve cronologia II. 1491 – Nicolau é aluno da Universidade de Cracóvia.htm. André. 1497 – O Bispo de Cracóvia envia Nicolau e o seu irmão para estudar para Itália (Universidade de Bolonha). Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 11 . 1500 – Nicolau e o seu irmão estão em Roma para assistir aos festejos do Jubileu. Direito Canónico. Domingos. Nicolau Copérnico (1473-1543) 1473 – A 19 de Fevereiro nasce Nicolau Copérnico. entre outras coisas.org/cathen/09018b. na Polónia. Nicolau dá palestras sobre astronomia na Cidade Eterna. seguiram a carreira eclesiástica. A sua irmã mais velha seguiu a vocação monacal e tornou-se Abadessa de Culm.newadvent. em Toruń. Nicolau e o seu irmão mais velho. Nicolau estuda. 1506-1512 – Copérnico exerce medicina em Heilsberg. A família de Copérnico pertencia à Ordem Terceira de S. 1514 – Durante o quinto concílio de Latrão (1512-1517)14 convocado pelo Papa Leão X. este pede a Copérnico a sua opinião técnica relativamente a uma revisão do calendário litúrgico. 1501-1503 – Copérnico estuda Medicina e Jurisprudência em Pádua e Ferrara. o 14 Ver http://www.

na qual expõe o modelo que ganhou o seu nome. Segismundo. não há registo histórico da ordenação sacerdotal de Copérnico. como escrevera Copérnico. do lado católico. A obra foi publicada sob pedido insistente de duas figuras notórias da Igreja. a acontecer no final do século XVI. 1543 – É impressa em Nuremberga a sua principal obra De revolutionibus orbium coelestium. 1537 – O rei da Polónia. pelo que esta não deverá ter ocorrido. Idem – Copérnico morre a 24 de Maio. a obra foi dedicada ao Papa Paulo III. O sábio polaco gozou de grande prestígio até à crise do caso Galileu. o Cardeal Schömberg e Tiedemann Giese. Copérnico pedira ao Papa a permissão papal para a publicação da obra. Apesar da forte oposição ao heliocentrismo feita por teólogos e autoridades protestantes. nenhuma Congregação levantou qualquer questão à obra de Copérnico. no entanto. Final da década de 1520 – Nicolau torna-se administrador da diocese de Frauenburg. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 12 . a dada altura. na esperança de que esta ficasse mais protegida contra os ataques dos “matemáticos” (categoria que incluía certos filósofos que procuravam ridicularizar o novo modelo). em Frombork. coloca o nome de Copérnico na lista de possíveis sucessores para o então vago cargo episcopal em Ermlund. o Bispo de Culm. recebido as ordens maiores.O processo contra Galileu – Breve cronologia constante interesse de Copérnico pelo tema fez com que este contribuísse de forma substancial para a reforma do calendário gregoriano. o que faria presumir que Nicolau teria. nenhum problema durante largas décadas: nenhum Papa.

Bolonha. 1588 – Galileu candidata-se a docente em várias universidades: Pisa. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 13 . 1595 – Desenvolve a sua teoria sobre as marés.O processo contra Galileu – Breve cronologia III. Galileu Galilei Figura 2. Siena. filho de Vincenzo Galilei. que implicaria o movimento da Terra (este é um falso argumento científico. obtém o cargo de professor de Matemática em Pisa. 1587 – Primeira viagem a Roma. 1592 – Obtém a cátedra de Matemática em Pádua. e Florença. que manterá até 1610. onde ficará até 1592. Galileu candidata-se ao cargo de professor de Matemática na Universidade de Siena. Galileu Galilei (1564-1642) 15-2-1564 – Nasce em Pisa Galileu Galilei. deverá datar desta época o início da sua defesa do modelo de Copérnico. sem sucesso. uma vez que o fenómeno das marés se deve à atracção gravítica da Lua e não ao movimento da Terra). Mysterium Cosmographicum. Pádua. 1597 – O matemático e astrónomo alemão Johannes Kepler (1571-1630) publica a sua importante obra acerca das órbitas planetárias.

em http://asv. Junho – Galileu reproduz a invenção e cria o seu primeiro telescópio de 3x. a sua acusação terá apoiado o caso contra Bruno em denúncias de que este não aceitava ou distorcia certos artigos da fé católica. Kepler substitui-o como Matemático Imperial. 1601 – Tycho Brahe morre em Praga. com o patronato do Papa Clemente VIII. ou talvez ainda ao envolvimento de Bruno com ideias esotéricas e doutrinas herméticas. para servir como Matemático Imperial na corte do Imperador Rodolfo II. Contrariamente à opinião em voga. A instituição viria a ser dissolvida logo após a morte de Cesi.O processo contra Galileu – Breve cronologia 1599 – O matemático e astrónomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601). Brahe contratou Kepler. Maio – Galileu ouve falar pela primeira vez da invenção do telescópio na Holanda. em 1630. Para o ajudar nos cálculos das órbitas planetárias a partir das suas precisas observações. Ver Summary Of The Trial Against Giordano Bruno. que se mudou para Praga em 1600.htm Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 14 . muda-se para Praga. O que é verosímil é que o móbil do julgamento não se ateve a questões científicas. Não é fácil ter hoje um conhecimento detalhado do julgamento de Giordano Bruno. aquando da morte de Rodolfo II. 1603 – Federico Cesi funda a Accademia dei Lincei (“Academia dos Linces”). 15 Resta pouco mais do que um resumo do processo. escrito com base nos originais entretanto perdidos. cujas inovações no campo da instrumentação e da medida dos corpos celestes revolucionaram a astronomia. mas sim a problemas de doutrina. 1600 – A 17 de Fevereiro. 1609 – Kepler publica as suas primeiras duas leis sobre o movimento planetário. Giordano Bruno é queimado em Roma após ser condenado por heresia. Agosto – Galileu apresenta um novo telescópio de 6x ao Senado de Veneza.vatican.va/en/doc/1597. Tratava-se do mais importante cargo matemático da Europa. uma vez que a maioria dos documentos não chegaram aos nossos dias 15 . cargo que ocupará até 1612. é provável que Bruno não tenha sido condenado por nenhuma posição científica.

Dezembro – Galileu descobre as fases de Vénus. Scheiner vai estudar as manchas solares (alegando tratarem-se de satélites do Sol) e tentar contestar as teses de Galileu. publica uma obra contra o movimento da terra e contra as descobertas de Galileu. 1610/1611 – Lodovico delle Colombe. 1611 – Francesco Sizzi publica uma obra contra as descobertas de Galileu. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 15 . arqui-inimigo de Galileu. Março – Galileu chega a Roma a 29 desse mês. Setembro – Galileu muda-se para Florença. Março ou Abril de 1611 – O Jesuíta Christoph Scheiner (1573-1650) descobre as manchas solares. Até ao fim da vida.O processo contra Galileu – Breve cronologia Março de 1610 – Galileu dedica a sua obra Sidereus Nuncios (“Mensageiro das Estrelas”) ao Grão-duque da Toscânia. o que constitui um argumento forte contra o sistema ptolemaico e a favor do sistema copernicano. e não irá interferir com o caso Galileu. A sua obra principal de tentativa de refutação das teses de Galileu só foi publicada postumamente em 1650. Figura 3. Frontispício da obra Mensageiro das Estrelas Abril – Kepler escreve a Galileu a felicitá-lo pelas suas descobertas – a carta seria publicada com o título Dissertatio cum Nuncio Sidereo. Cosme II – a obra contém descobertas recentes sobre os satélites de Júpiter. Galileu vai a Pisa mostrar os satélites de Júpiter ao Grão-duque Cosme II de Médicis.

Março de 1613 – A Accademia dei Lincei publica as três cartas de Galileu acerca das manchas solares. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 16 . o Cardeal era um dos patronos de Galileu. ao saber disto. e mostra as manchas solares a alguns amigos (tanto leigos como membros do clero). que teve ampla divulgação na 16 A carta está transcrita no final deste trabalho. propriedade do Cardeal Bandim. Dezembro – Terceira carta de Galileu acerca das manchas solares. Outono – A Accademia dei Lincei decide publicar as cartas de Galileu acerca das manchas solares. este muda-se com a família para Linz. Galileu é introduzido na exclusiva Accademia dei Lincei. 1612 – Morre Barbara. através do seu telescópio. professor de Matemática da Universidade de Pisa. enquanto está em Roma. Maio de 1612 – Primeira carta de Galileu acerca das manchas solares. e aluno de Galileu. O Cardeal Maffeo Barberini (futuro Papa Urbano VIII) apoia-o. nesta altura. a primeira mulher de Kepler. Outubro – Num jantar de Estado oferecido a dois cardeais. Galileu repete os argumentos de Arquimedes acerca dos corpos imersos em água. defende o copernicanismo junto da Grã-duquesa de Lorena. Agosto – Segunda carta de Galileu acerca das manchas solares.O processo contra Galileu – Breve cronologia Abril de 1611 – Seguindo ordens do Cardeal Bellarmino. Será esta a carta. Galileu escreve uma longa carta a Castelli (com data de 21 de Dezembro) acerca da sua visão da relação entre ciência e as Escrituras16. Agosto – De volta a Florença. Maio – Os matemáticos do Collegio Romano honram Galileu com um banquete para celebrar as suas recentes descobertas. os matemáticos jesuítas do Collegio Romano (fundado por Santo Inácio de Loyola. Dezembro – Benedetto Castelli. actualmente recebe o nome de Pontifícia Universidade Gregoriana) atestam cientificamente as recentes descobertas celestiais de Galileu. no penúltimo capítulo. durante um banquete dado por Federico Cesi. Galileu monta o seu telescópio nos jardins do Palácio do Quirinal. Galileu vê-se envolvido numa disputa acerca da imersão de corpos em água: Galileu argumenta pelas teses de Arquimedes contra as teses de Aristóteles na matéria.

buscando o prestígio do nome de São Tomás. o menor de todos. 1181. um homem com ambições de poder: tentou o patronato do Cardeal Barberini (futuro Papa Urbano VIII). de quem se falará adiante. escreve em Florença ao Cardeal Paolo Camillo Sfondrati uma carta datada de 7 de Fevereiro contra o copernicanismo de Galileu. estão dentro muitas proposições que parecem ou suspeitas ou temerárias. o grupo de Lodovico delle Colombe. e em particular todos os teólogos e pregadores. Dezembro de 1614 – O frade dominicano Tommaso Caccini (1574-1648)17. resultado de uma primeira tentativa de compilação de material por parte do Santo Ofício. que. eu. que deu início à primeira inquirição do Santo Ofício a Galileu. Segundo o organizador Sergio Pagano. para além do que é obrigação comum de todo o bom cristão. Officii contra Galileum Galilei mathematicum”. que tinha previamente criticado Galileu em privado. date de 1633.O processo contra Galileu – Breve cronologia sociedade de então. ilustríssima. eis que por isto. Diz Lorini na sua carta: “Ilustríssimo e reverendíssimo Senhor Porque. nascido Cosimo Caccini.rice. segundo Caccini. seria um sistema herético. 63-77). seguindo as posições de Copérnico. adopta esse mesmo nome quando assume o hábito dominicano. como dizer que certos modos de falar da Santa Escritura são inconvenientes e que nas disputas dos efeitos 17 Detalhes sobre o dominicano Tommaso Caccini podem ser lidos no site do The Galileo Project. feita por estes que se afirmam Galileístas. a motivar a denúncia do dominicano Niccolò Lorini em 1615. Vol. para mais. escrita por Galileu a Castelli18. que aqui corre pelas mãos de todos.edu/chr/caccini. que afirmam que a terra se move e o céu está parado. Caccini. infinita é a obrigação que têm todos os frades de S. faz um sermão em Florença contra Galileu e os matemáticos adeptos do copernicanismo. desse grupo também constava o dominicano Niccolò Lorini. mas sem sucesso. no entanto.html 18 A carta de Lorini está documentada na colectânea feita por Sergio Pagano com a transcrição dos textos do processo contra Galileu (pp. arqui-inimigo de Galileu. Domingos (…). Niccolò Lorini. onde. tendo-me vindo parar às mãos um escrito. Marco. A narração do processo começa com o texto “Ex archivo S. anexando uma cópia da carta de 21 de Dezembro de 1613. Caccini era. Fevereiro – Um outro frade dominicano. Fazia parte da “Liga dos Pombos”. S. é provável que esta narração do processo. nesta página: http://galileo. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 17 . ocorrida em 1616. seguindo o juízo de todos estes nossos Padres deste religiosíssimo convento de S. e devotíssimo servo e particular de V. não deixou obra importante e era conhecido pelo seu feitio polémico e por gostar de disputas. Janeiro de 1615 – O superior de Caccini escreve uma carta a Galileu a pedir desculpas pela atitude do frade.

e que os seus expositores muitas vezes eram na sua exposição. Assim termino. op. tinham por Galileu. proposições estas que V. S. e não a cientistas como Galileu. tenha maior força o argumento filosófico ou astronómico do que o sacro e o divino. como estou certo de que o fará. 69-71. secreta. e outras figuras da Igreja.. notório adversário das ideias de Galileu. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 18 . do qual lhe mando cópia verdadeira (…).O processo contra Galileu – Breve cronologia naturais a mesma Escritura tenha o último lugar. que se afirmam galileístas. e suplico a V. e escudando-se certamente da fama e prestígio de Copérnico. (…) ”19 Esta carta de Lorini é muito informativa: revela-nos que a denúncia era velada. que este Lorini considerava serem posições “suspeitas” ou “temerárias”. e não seja tomada ao modo de depoimento judicial. na esfera pública com uma atitude de tranquilidade (veja-se a rápida divulgação pública da carta de Galileu a Castelli). S. expondo o livro de Josué e o capítulo X do dito livro. como também digo que neste serviço não me movo senão por zelo. 19 Pagano. há muito tempo. o tema era delicado: a opinião prevalente entre a hierarquia da Igreja era a de que a interpretação das Sagradas Escrituras era para ser deixada aos teólogos. por outro lado. Confesso que tenho todos estes. e que este achava que os “galileístas” eram bons cristãos. cit. O que é notório é que tanto Galileu com os seus apoiantes se moviam. pedindo-lhe a sua bênção sacra e beijando as suas vestes. mas só muitos anos mais tarde… A carta de Lorini foi arquivada. ficamos a saber que Lorini não queria que a denúncia fosse entendida com um depoimento com força legal (temeria ele um confronto judicial com Galileu?). como homens de bem e bons cristãos. Maria Novella por um Padre Mestre frei Tommaso Caccini. No entanto. era demasiado fácil distorcer as palavras de Galileu ou aproveitar uma sua observação pública pouco prudente. A inveja e a denúncia anónima fariam o resto. bem como da consideração que o Papa. e fazendo-lhe saber ainda mais que a ocasião deste escrito [a carta de Galileu] foi uma ou duas lições públicas. feitas na nossa igreja de S. mas o testemunho de Caccini não se revelou muito sólido. apenas “presunçosos” e “duros” nas suas posições. ilustríssima que esta minha carta (e não digo o escrito [a carta de Galileu]) seja por vós mantida. porque o seu autor queria permanecer anónimo. como entre servo e patrono singularíssimo. a depor como testemunha (ver adiante). mas só amoroso aviso entre mim e vós. ilustríssima verá sublinhadas por mim no escrito acima referido. pp. confiantes de que não seriam perturbados pela defesa do copernicanismo. mas um pouco presunçosos e duros nas suas opiniões. A documentação existente não traz vestígios de que os responsáveis do Santo Ofício teriam interrogado Galileu: a Inquisição chamou Caccini. aos adversários do sábio. por muito sábios e devotos cristãos que fossem.

. onde eu tenho por seguro que esteja agora a dita carta. por aquilo que se diz. uma certa opinião já de Nicolau Copérnico. em Roma: “(…) Digo então. (…) pedi-lhe a carta que lhe foi escrita [por Galileu] a 21 de Dezembro de 1613.. a assegurar-lhe que ele e o Arcebispo de Pisa estão a tomar diligências para tentar saber o que é que nesta cidade se tem dito acerca da carta de Galileu a Castelli. que o sol.. Idem – No dia 8. Aproveitada a ocasião de neste lugar (…) reprovar. que lendo eu no quarto Domingo do advento deste ano passado na igreja de S. o Arcebispo de Pisa escreve ao Cardeal Millini para lhe dar novidades sobre a carta de Galileu: “Ilustríssimo e reverendíssimo Senhor (…) Quando eu recebi a carta de V. o Inquisidor de Pisa escreve ao Cardeal Giovanni Garcia Millini 20 . onde por obediência estava eu destinado a ser o leitor da Sacra Escritura. op. ou seja de uma 20 21 Pagano. Pagano. não fiz outra coisa senão pedir-lhe que a faça vir quanto antes (…). (…)” 21 Idem – No dia 19 de Março. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 19 . isto é: Sol. Ele disse-me que não a tinha. S. Monsenhor Francesco Boncianci. quis dar conta disto a V. op. com aquela modéstia que convém ao ofício que tinha. ilustríssima. e de modo a que. Entretanto. 79. do senhor Galileu Galilei matemático. E beijando humildemente as mãos a V. amigo próximo de Galileu. cit. cit. a pedir que se averigúe o que naquela cidade se diz acerca da carta de Galileu a Castelli. publica em Nápoles uma obra em defesa da compatibilidade entre o copernicanismo e as Escrituras. desse qualquer outra ordem a Florença. 79. ne movearis contra Ghabaon etc. tida e ensinada. ilustríssima. fez Deus fazendo parar o sol. 22 Pagano. para que me possa ordenar se quer que eu faça outra diligência. mas que teria mandado obtê-la para ma dar. (…) a resposta foi tão súbita. se achasse [que vinha] a propósito. e logo me veio visitar. por consequência é imóvel de movimento local progressivo. sendo. e nestes tempos. que eu estou certo de que a coisa seja como ele me disse. Caccini é chamado a depor junto da Inquisição. mas chegou dois dias depois. p. (…) nesse mesmo o Domingo tocou-me ler aquela passagem do capítulo X daquele livro. o Padre Don Benedetto Castello estava em Florença. ilustríssima. Março – O frade carmelita Paolo Foscarini. o Papa dá ordem escrita para chamar Caccini a depor22. 77-78. op. cit. Idem – No dia 7.O processo contra Galileu – Breve cronologia Idem – No dia 27. segundo ele. onde o sacro escritor refere o grande milagre que. o Cardeal Giovanni Garcia Millini escreve ao Arcebispo de Pisa. Idem – No dia 20. centro do mundo. Maria Novella de Florença. p. S. por aquele cuja fama é publicíssima na cidade de Florença. às orações de Josué. p. S.

25 Este trecho deve ter parecido importante para o relator. Estas sim. Maria Novella25. por zelo da verdade. a qual me parece conter não boa doutrina em matéria de teologia (…). li-lhes a doutrina de Nicolò Serraio. para as passagens acima referidas da Escritura. Ver Pagano. e dividia as autoridades eclesiásticas de então. 24 Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 20 . por muito que agradasse grandemente a muitos gentis-homens literatos e devotos. tudo indica que se quis destacar. acrescentei que não sabia ver como tal doutrina não fosse quase herética23. foi-me mostrada pelo Padre Mestre frei Nicolò Lorini uma cópia de uma carta escrita pelo referido senhor Galileu Galilei ao Padre Don Benedetto Castello.) soam e significam o contrário. Esta minha caritativa admonição. monge beneditino e público matemático de Pisa. op. cit. ao fazê-lo. não são verdadeiros milagres26. se fosse necessário adaptar essa interpretação ao copernicanismo (como veio a ser feito mais tarde). porque nele existem sentidos divinos. Note-se o carácter vago da denúncia: “(…) que de alguns deles tinha ouvido…”: Caccini não tinha forma de provar estas denúncias. as quais em sentido literal. eram acusações doutrinais graves contra Galileu e os seus defensores. ironicamente. pois pronunciava-se sobre matérias fora da sua esfera de autoridade e competência. ao reagir às suspeitas de heresia lançadas pelos seus adversários. o qual. regente de S. de Isaías 38º. para que nesta matéria pregasse contra a doutrina que eu havia dado. avisando-o que era bom colocar freio a certos petulantes sábios. certamente caluniosas. Há que clarificar este aspecto: interpretar as Sagradas Escrituras era tarefa de hermeneutas profissionais. de outro modo desagradava a certos discípulos do referido Galilei. questão 14ª sobre o capítulo X de Josué. de todos os teólogos escolásticos e de todos os Santos Padres. a saber: Deus não é substância. p. discípulos do dito Galilei. Então deponho a este Santo Ofício.O processo contra Galileu – Breve cronologia ponta à outra. e disse como semelhante opinião era tida como dissonante da fé católica por gravíssimos escritores. Depois destes acontecimentos. Depois deste discurso adverti que não era lícito a ninguém interpretar a divina Escritura contra aquele sentido no qual todos os Santos Padres concorrem porque tal era vedado pelo Concílio Lateranense sob Leão X e pelo Concílio Tridentino24. Caccini sabia bem que estas suas denúncias eram bem mais graves do que as relativas ao copernicanismo. porque contradizia muitas passagens da divina Escritura. de teólogos imbuídos da tradição cristã.. 26 As “propositiones” acerca de Deus e dos milagres que são aqui transcritas em sublinhado aparecem em itálico no original. (. Esta marca também mostra que o relator deu mais importância a estas “propositiones” do que às referentes à defesa do copernicanismo por parte de Galileu. como a passagem do Salmo 18º do Eclesiastes primeiro capítulo. o que levou alguns deles a procurar o Padre pregador da catedral. Tendo ouvido tantos rumores. dei conta ao muito reverendo Padre Inquisidor de Florença de como me tinha parecido [bem] por razões de consciência tratar sobre a referida passagem de Josué. defesa essa cuja classificação como heresia era muito polémica e frágil. depois de ter dito que tal posição de Copérnico é contrária às comuns sentenças de quase todos os filósofos. Verdadeiramente que os milagres que se dizem ter sido feitos por Santos. que de alguns deles tinha ouvido estas três proposições. 82.. essa adaptação deveria ser feita por teólogos. como é pública fama que o referido Galilei tenha estas duas proposições: A terra move-se 23 Note-se a hesitação do “quase”: a fragilidade dogmática desta presunção de heresia torna-se aqui clara. expôs-se ainda mais aos ataques dos seus inimigos. as denúncias relativas a proposições doutrinais heréticas eventualmente defendidas por Galileu. Deus é sensitivo. visto que a palavra latina “propositiones” aparece na margem lateral esquerda precisamente nesta linha. do qual me foi dito pelo reverendo Padre frei Fernandino Cimenes. do depoimento de Caccini. tentou publicamente refutar essas suspeitas mostrando que era possível compatibilizar as Escrituras com o modelo que defendia. para além da citada passagem de Josué: e para que ficassem na audiência mais persuadidos de que tal meu ensinamento não procedia do meu capricho. mas acidente. Galileu.

e porque este quer interpretar a Escritura Sacra contra o senso comum dos S. Também li esta doutrina num livro impresso em Roma. etiam de movimento diurno. repugnam às divinas Escrituras expostas pelos Santos Padres e consequentemente repugnam à fé. como disse. com outros na Alemanha. bispo de Cortona. por volta do mês de Agosto. E por agora não me ocorre dizer mais [nada]. no tempo em que esteve lá. [o Interrogador. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 21 . seguidor do mesmo Galilei. nem sei onde seja a sua casa em Florença. por dissonar das Escrituras. isto é o dito Galileu. que Galileu tem as referidas posições como verdadeiras. acrescentando-me que tal lhe parecia muito estranho. de Deus ser sensitivo. O prior Cimenes não me disse nada da familiaridade que existe entre Mestre Paolo e o Galileo. saído sob o nome do dito Galileu. e dizem que também trocam presentemente cartas entre eles.O processo contra Galileu – Breve cronologia segundo si mesma. que ensina o dever de acreditar como verdadeiro aquilo que se contém na Escritura. e que tendo vindo uma vez a Roma. tão famoso em Veneza pela sua impiedade. por mim descrito como um daqueles que diziam as ditas proposições. mas somente que o Galileu é suspeito. e depois em Florença. segundo a minha consciência e inteligência. Padres. no convento de Santa Maria Novella. por quanto se vê no seu livro das manchas solares. que tem por título os Linces. que me foi emprestado pelo dito Padre Cimenes. preocupado sobretudo com as alegadas “propositiones” acerca de Deus ser acidente. de mais não me recordo. com ocasião de dizer que este era suspeito in fide (…). foi-lhe assinalado como o Santo Oficio procurava pôr-lhe as mãos em cima (…) [o Interrogador pergunta a Caccini o que disseram Lorini e Cimenes acerca das suspeitas sobre a fé de Galileu] Não me disseram mais nada. porque dizem que seja muito íntimo daquele frei Paolo servita. O sol é imóvel: proposições que. prior dos cavaleiros de S. e do questionar dos milagres dos santos. a saber o Padre Nicolò Lorini. que trata das manchas solares. por outros é tido como suspeito nas coisas da fé. (…) [o Interrogador pergunta a Caccini como é que Galileu ensinava e sustentava essas teses] Resposta: Para lá da fama pública. [o Interrogador pergunta a Caccini se se recorda de quem é que lhe deu esta informação] Eu entendi as acima referidas coisas do Padre Mestre fra Nicolò Lorini. Este [Galileu] e outros estão numa Academia. Stefano. que entre Galileu e Mestre Paolo passam cartas e grande familiaridade. também entendi de mons. no quarto do Padre frei Ferdinando Cimenes (…). e têm correspondência. que o referido Galilei interpretava as Escrituras de modo a que não repugnassem à sua opinião: e deste gentil-homem não me recordo do nome. do senhor prior Cimenes. Ademais também entendi de um certo gentil-homem florentino dos Attavanti. (…) [o Interrogador pergunta a Caccini se conhece Galileu] Nem sequer o conheço de vista. excepto que o tinham por suspeito por causa das proposições que ele tinha [acerca] da estabilidade do sol e do movimento da terra. [o Interrogador pergunta a Caccini qual é a opinião dos florentinos acerca de Galileu em matéria de fé] Por muitos é tido [por] bom católico. Filippo de Bardi. (…) e isto me disse neste verão passado. não sei se erigida por eles. e estes me disseram as acima referidas coisas. pergunta qual era a fonte de Cimenes] Parece-me recordar que me tivesse nomeado aquele dos Attavanti.

pelo florentino dos Attavanti ou por outros discípulos de Galileu] Eu não só não tenho inimizade com o dito Galilei. assim com o Attavante não tenho nem inimizade nem ódio. 27 28 Pagano. por aquilo que ouvi dizer. [o Interrogador pergunta se Galileu ensina publicamente em Florença e se os seus discípulos são numerosos] Eu não sei se o Galileu ensina publicamente nem se tem muitos discípulos: sei bem que em Florença [ele] tem muitos sequazes. e leccionou em Pádua. que se chamam galileístas. um seu contacto bem posicionado na Santa Sé.. a pedir-lhe que interrogue naquela cidade o Padre Fernando Ximenes. e no claustro de baixo e no dormitório de baixo e na sua cela. Castello não recuperou a carta. pois a carta de Galileu foi pedida ao Padre Castello em tom amigável e “por curiosidade”. 80-85. o Arcebispo de Pisa escreve de novo ao Cardeal Millini. a sua profissão é matemático. nem com outros discípulos de Galileu. Abril – O Cardeal Bellarmino escreve a Foscarini a aconselhá-lo a tratar a teoria copernicana como uma hipótese (ver trecho desta carta na Introdução). a diligência não teve sucesso. o Cardeal Millini escreve a Cornélio. e tem 60 anos de idade passados. a relatar-lhe que. O Arcebispo termina a pedir ao Cardeal Millini para lhe dar novas instruções. [o Interrogador pergunta a Caccini se tem inimizade por Galileu. cit. bem como outras testemunhas mencionadas pelo dito Caccini. Idem – No dia 4. e estes são aqueles que vão ampliando e louvando a sua doutrina e opiniões. e não com a defesa do modelo Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 22 . nem me recordo que mais alguém tenha estado presente. da Ordem dos Pregadores. como nem sequer o conheço. e isto depois de eu ter feito aquela lição. Inquisidor de Florença. a sua profissão e onde estudou] Ele diz-se florentino. tendo pedido ao Padre Castello que voltasse a requisitar a Galileu a carta que este lhe escrevera. de tal modo que rezo a Deus por eles. mas ouvi dizer que é pisano.” 27 Idem – No dia 28. op. pp. Idem – Galileu escreve uma longa carta em defesa das suas ideias a Monsenhor Piero Dini. [o Interrogador pergunta qual é a pátria de Galileu. estudou em Pisa.O processo contra Galileu – Breve cronologia [o Interrogador insiste em ter mais detalhes sobre as “propositiones”: onde e como foram proferidas] O Padre Ferdinando disse-me que teria ouvido as ditas proposições dos alunos de Galileu várias vezes. Note-se que a preocupação do Cardeal Millini é com as “propositiones” doutrinais que o dito Padre Ximenes teria alegadamente (segundo Caccini) ouvido dos discípulos de Galileu. O Arcebispo assegura que não há razões para duvidar da atitude de Castello. sugerindo que se peça a dita carta directamente a Galileu. aproveitando a ocasião para me dizer que me tinha defendido deles. que fora referido por Caccini no seu depoimento como testemunha das acusações apresentadas contra Galileu28.

Acusa recepção da carta de dia 4. Novembro – No dia 13. o Inquisidor diz que antes de começar a interrogar as pessoas referidas na denúncia de Caccini está à espera de “ver primeiro o depoimento do dito Padre Ximenes acerca das três proposições (…) dos discípulos de Galileu. (…) digo ser essa doutrina diametralmente oposta à verdadeira teologia e filosofia. e que depois retornará a Milão. Claramente. Fernando Ximenes é interrogado pela Inquisição em Florença: “(…) [o Inquisidor pergunta ao Padre Ximenes se conhece Galileu] Eu nunca o vi nos dois anos que tenho estado em Florença. o Inquisidor de Milão. estar lá quinze dias. Outubro – No dia 21. Idem – No dia 20 (ou 29). Trata-se de uma versão alargada da sua carta a Castelli datada de Dezembro de 1613. [o Inquisidor pede-lhe que se exprima de modo mais claro] copernicano. e não no copernicanismo de Galileu. que acaba por ter ampla circulação pública. Cornélio. juntamente com a carta de dia 20 (ou 29) de Maio. Verão – Galileu escreve a sua carta à Grã-duquesa Cristina. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Millini. Informa que ainda não conseguiu entrevistar Ximenes. o Inquisidor de Milão volta a escrever ao Cardeal Millini. que vinha acompanhada do depoimento de Caccini contra Galileu. que está fora de Florença. em Milão. e que só necessita de prova” (sublinhado meu). comunicou numa carta recente que tem que ir a Florença. escreve ao Cardeal Millini. Inquisidor de Florença.O processo contra Galileu – Breve cronologia Idem – No dia 13. conforme o que ouvi dizer acerca das opiniões do movimento da terra e da firmeza do céu. Maio – No dia 11. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 23 . Scaglia diz que então irá examiná-lo sobre os “depoimentos” (o de Caccini) que recebeu do Cardeal. e não se prevê que regresse cedo a Florença. porque este ainda está em Florença. o Cardeal Millini pede ao Inquisidor de Milão para procurar obter o depoimento de Ximenes naquela cidade. que é o fundamento principal do que se possa pretender contra o dito Galileu. Sem se mostrar preocupado com esta última questão. Millini quer “tirar a limpo” as graves alegações de Caccini em relação à fé católica de Galileu e às noções deste acerca de Deus e dos milagres. Junho – No dia 24. Desiderio Scaglia. a Inquisição está focada nas acusações doutrinais. escreve ao Cardeal Millini. Carta fundamental: Cornélio informa não ter conseguindo ainda o depoimento do Padre Ximenes. refere que ainda não entrevistou Ximenes: este acabou de defender tese de Teologia em Bolonha. mas digo bem que. Na carta.

op.” 31 Idem – No dia 14. e alguns nossos irmãos. várias vezes. dos quais não me recordo precisamente. estando presente nestes raciocínios o cavaleiro Ridolfi florentino. e (…) muito menos tenho (…) inimizade com o dito Atavante. porque a verdade é que a terra. ao tempo leitor da Sacra Escritura aqui na nossa igreja de Santa Maria Novella. composita ex vacuis30. e lia a história de Josué e entre outras. como referi acima. e que não se dá senão quantidade discreta. [o Inquisidor pergunta-lhe se tem inimizade com Galileu ou com o Atavante] Nunca vi o dito Galileu. quer de Galileu. 31 Pagano.. [o Inquisidor pergunta se mais alguém ouviu estas coisas ao mesmo tempo que ele] Ouvi as referidas coisas e discuti-as com (…) Gioanozzio Attavante florentino. e em que ocasião estes debates tiveram lugar] [Acerca] do lugar. mas não saberia dizer nem em que meses nem em que dias. e que a substância das coisas não é quantidade contínua. mas antes [tenho] amizade: desagrade-me a doutrina do dito Galileu. que chora (…). e que tudo [aquilo] teria [sido] dito disputationis gratia29. como diz o profeta. acrescentaram que Deus é acidente. que Deus é sensitivo (…). (…) creio que falasse segundo a opinião de Galileu do que de opinião própria: a ocasião foi a de que (…) entre nós vieram a discussão algumas lições que fez o Padre Mestre Caccini. composta de vácuo. o tempo foi no ano passado. que chora (…). que Deus é sensitivo. e que não se pode dizer de outro modo. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 24 . pp. é a vez de Giannozzo Attavanti ser interrogado: 29 30 Apenas por motivo de debate. ou pela opinião do seu mestre. presentes estavam o dito senhor cavaleiro algumas vezes. mas que cada coisa é quantidade discreta. e que Deus é substância e não acidente. [o Inquisidor pergunta onde. é imóvel e fundada sobre a sua estabilidade. e creio que não seja doutor. [o Inquisidor pergunta-lhe se repreendeu o Atavante em relação às suas más opiniões e se lhe respondeu] Eu repreendi-o instantaneamente e fiz-lhe ver que as coisas [por ele] ditas e disputadas eram falsas e heréticas. porque me parece que ele mesmo teria dito que se remetia à Igreja. mas não sei no entanto se eles falam de opinião própria. que ri. e tudo o que acima disse é verdade. cit. foi no meu quarto. quer dos seus discípulos. [o Inquisidor pergunta-lhe se tem algo mais a depor ao Santo Ofício] Não tenho mais nada que dizer. que os milagres dos santos não seriam verdadeiros milagres] Deste ponto particular não me recordo. e que o céu e o sol se movem. Composta do vácuo. 93-95. quando. cavaleiro de Santo Estêvão. toda ela. aquelas palavras Stetit sole (…). (…) Eu sei que ele não tem fundamentos nem de teologia nem de filosofia.O processo contra Galileu – Breve cronologia Ouvi alguns dos seus alunos dizer que a terra se move e que o céu é imóvel. [o Inquisidor pergunta-lhe se acha que o seu interlocutor acreditava verdadeiramente nessas coisas] Não acredito que o dito Attavanti assertivamente dissesse e acreditasse nas referidas coisas. no convento daqui de Santa Maria Novella. [o Inquisidor pergunta se ouviu dizer. porque não é conforme aos Padres ortodoxos da Santa Igreja. que ri. o referido Galileu. que são vanidades aquelas que ele dizia. e assim é contra a própria verdade.

raciocinando eu com o dito Padre Ximenes no seu quarto. (…) Eu referi o dito Padre Caccini (…) porque uma vez. como disse. no seu quarto em Santa Maria Novella. e que o sol igualmente se move dentro do seu centro. tratei com ele de letras. mas acidente. e particularmente tratei com ele de coisas filosóficas. porque seria corpo orgânico. Quanto aos milagres dos Santos. tendo o seu quarto vizinho ao quarto do dito Padre Ximenes. [esse tema] não foi tratado de modo algum. ouvi o dito senhor Galileu dizer. segundo a doutrina de são Tomás. ouvindo-nos raciocinar juntos de modo disputativo. e que matérias. o que é falso. [o Inquisidor pergunta se teve aulas com Galileu] Eu nunca estive sob a sua alçada como seu aluno. completada por volta de 1264. às quais me remeto em tudo. de movimento progressivo. mas acerca das coisas filosóficas ou matemáticas. é que o interrogado estudou em Florença] Frequentei letras nos anos passados. e que os milagres adscritos aos Santos não seriam verdadeiros milagres] Acerca destas coisas particulares. ambos da Ordem dos Pregradores. da Ordem dos Pregadores. não se move. se choraria. nem chora. saiba Vossa Paternidade que um dia. segundo a doutrina de Copérnico.O processo contra Galileu – Breve cronologia “[o Inquisidor pergunta com quem. actualmente pregador em Santa Maria Novella. saiu fora do 32 Trata-se da “Summa Contra Gentiles”. mas de fora não tenha movimento progressivo. etc. hoje mestre destes Príncipes. E assim se determinou. aqui em Florença. anteriormente. ensinaram-me o senhor Simone dalla Roca e o senhor Giovanni Batta. [o Inquisidor pergunta-lhe se alguma vez ouviu Galileu a discorrer acerca das Escrituras Saras ou de doutrinas filosóficas repugnantes e não consonantes com a fé] Nunca ouvi o senhor Galileu dizer coisas que repugnassem a Escritura Sacra nem a nossa santa fé católica. os meus mestres foram o Padre Vincenzo de Civitella e o Padre Vincenzo Populeschi. talvez tenha imaginado que eu referisse as sobreditas coisas como certas ou da opinião do dito senhor Galileo.. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 25 . que ria. e do que disputava são Tomás [na sua obra] Contra gentes32. como ordinariamente faço com aqueles que são letrados. e [sobre ele] não sei nada. [o Inquisidor pergunta-lhe se ouviu Galileu falar acerca da interpretação das Escrituras Sacras no que diz respeito às suas opiniões acerca do movimento da terra e do sol] Ouvi-o raciocinar acerca do texto de Josué (…) que miraculosamente o sol parou. segundo algumas cartas suas publicadas em Roma sob o título Das máscaras solares. e faz já um ano que o Padre Ximenes. [o Inquisidor pergunta-lhe se ouviu Galileu dizer que Deus não era substância. e não de outro modo. [o Inquisidor pergunta se teve outros preceptores] Enquanto eu frequentava gramática e humanidades. [quando] um Padre Caccini. que a terra no seu centro ou no seu globo se move. se Deus seria substância ou acidente. que Deus não é sensitivo. nem ri. se Deus seria sensitivo. que Deus era sensitivo. e escutando-nos o dito Padre Caccini. mas que fora do seu centro. me leu os casos de consciência. de modo disputativo. mas que é substância simplicíssima. se riria. raciocinando eu (…) acerca dos absolutos de são Tomás com o Padre Ferdinando Ximenes da Ordem dos Pregadores. da Ordem dos Pregadores. mas não é verdade. acerca do propósito do movimento do sol.

Censura: Omnes dixerunt dictam propositionem esse stutltam et absurdam in philosophia et formaliter haerecticam. Janeiro de 1616 – Galileu escreve mais uma obra sobre as marés.O processo contra Galileu – Breve cronologia seu quarto e veio ter connosco. Presente não era ninguém. No dia seguinte. uma vez que o Santo Ofício não tinha competência para censurar proposições filosóficas. 95-98. hanc propositionem recipere eandem censuram in philosophia. Esta declaração. e deste modo se chegou aos raciocínios atrás referidos. se alguma vez foi formalizada. pp. cit. 24 de Fevereiro. pp. e em que ocasião] Eu sei-o. [o Inquisidor pergunta-lhe se tem inimizade. sed secundum se totam movetur. datado de 23 de Fevereiro. op. e que queria ensiná-lo no púlpito (…). só o dito padre Ximenes e eu. Pagano. o Inquisidor de Florença envia ao Cardeal Millini os textos dos dois depoimentos atrás referidos. na obra já referida de Sergio Pagano. nem antes. Censura: Omnes dixerunt. Fevereiro – Segundo documentos encontrados nos arquivos. [o Inquisidor pergunta o que ouviu dizer de Galileu acerca da fé] Eu tenho-o por boníssimo católico. e disse que era uma proposição herética dizer que o sol estaria quieto e não se movesse fora do seu centro segundo a opinião de Copérnico. O lugar foi o quarto do Padre Ximenes. e não tenho nada a fazer com ele. 99: “Proposição censurada: Que o sol seja o centro do mundo. mas não me recordo precisamente o dia. nem depois. etiam de movimento diurno”. É importante notar 33 34 Pagano. etiam motu diurno. et omnino immobilis motu locali.. mas que se move segundo si mesma toda. [o Inquisidor pergunta-lhe se tem algo a acrescentar ao depoimento perante o Santo Ofício] Não tenho mais nada a dizer. e em latim. e não havia forma de provar que o copernicanismo era uma doutrina herética. um grupo de teólogos censores do Santo Ofício teriam declarado formalmente que a tese de que o Sol é o centro do Universo era filosoficamente absurda e herética34. constitui um abuso de autoridade. Ver documento do Santo Ofício. e por consequência imóvel de movimento local. (seguem-se as assinaturas das autoridades)”. 99-100. nem sei o seu nome. como disse acima. onde e quando teve lugar. O tempo foi o mês de Agosto ou de Julho do ano 1613. sai uma formulação mais completa. de certa ciência e de ouvido próprio. et spectando veritatem theologicam. das proposições censuradas: “Prima: Sol est centrum mundi. dedica a obra ao Cardeal Allessandro Orsini. e não de outro modo. [o Inquisidor pergunta-lhe como sabe o que relatou. por modo de disputa e de aprendizagem. op.” 33 Idem – No dia 15. quatenus contradicit expresse sententiis Sacrae Scripturae in multis locix secundum proprietatem verborum et secundum communem expositionem et sensum Sanctorum Patrum et theologorum doctorum. ad minus esse in fide erroneam. A ocasião foi a de que eu aprendia do dito Padre Ximenes os casos de consciência. cit. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 26 . 2..ª: Terra non est centrum mundi nec immobilis. malevolência ou ódio ao Padre Caccini] Eu nunca mais falei com ele. procurando argumentar que estas provam que a terra se move. se estas não atentassem contra a fé. nos dias 23 e 24. de outro modo não estaria com estes Sereníssimos Príncipes. e o que disse é a pura e mera verdade. p. Que a terra não é o centro do mundo nem imóvel.

doceat aut defendat. evitando assim um confronto directo entre o Santo Ofício e o sábio. que contém uma ordem escrita do Santo Oficio a instar que o Cardeal Bellarmino convoque Galileu e o faça aceitar a proibição de defender que o Sol seja verdadeiramente o centro do mundo e imóvel de movimento local. nem foi admoestado ou citado pelo Santo Ofício. op. mais adiante no texto. escrita em Maio desse ano (ver adiante). Idem – Nos arquivos do processo existe um documento datado do dia 2536. Parece ter vindo do próprio Papa Paulo V a decisão de ser o Cardeal Bellarmino a falar pessoalmente com Galileu. já na presença de todos. Segundo um documento não assinado e datado do dia 26. e que consta dos arquivos do processo37. O Cardeal ficou ofendido com esse abuso. sem assinaturas. Galileu teria sido proibido presencialmente pelo Cardeal Bellarmino de ter. preveniu Galileu do que se passava antes de se reunirem com os demais. apresentou-se. Bellarmino acompanhou Galileu até à porta. Talvez se trate de um esboço de uma decisão que nunca foi tomada. aproveitando o costume social de sair a receber os visitantes. pp. cit. 37 Pagano. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 27 . Galileu não reagiu a este ataque intempestivo. pp.. Ao ver o assunto resolvido tão simplesmente. Idem – No dia 26. 100-101. no original em latim. cit. É questionável que esta ordem tenha sido sancionada superiormente. A ordem refere que se Galileu não aquiescer. com um notário e outras testemunhas. mas o Comissário da Inquisição. Pagano. pedindo-lhe 35 36 Ver a nota relativa ao ano 1664. Este ponto é controverso. como se Galileu não tivesse aceitado o que lhe fora dito. podendo defendê-la como a melhor teoria. uma vez que não está assinada. deverá ser encarcerado. para assistirem à conversa. para estudar os movimentos planetários. 38 “quovis modo teneat.. 101-102. verbo aut scriptis”. assegura que Galileu não foi forçado a nenhuma confissão ou abjuração. pois não é uma proclamação papal ex cathedra35. defender ou ensinar38 a teoria. op. e que a terra se mova diariamente. em termos de facilidade de cálculo. fosse por via oral ou por via escrita. pois uma carta do Cardeal Bellarmino.O processo contra Galileu – Breve cronologia que esta declaração não cai sob a alçada do magistério infalível. Então. o Cardeal Bellarmino chama Galileu à sua residência e avisa-o de que não defenda a teoria copernicana como sendo a realidade. respondendo a um pedido do Papa Paulo V. o Comissário invocou o pretexto de que Galileu fora avisado por Bellarmino e formulou a Galileu uma admoestação formal. Depois. Eis o que diz José Maria André acerca do que se terá passado nesse dia crucial: “O Cardeal Bellarmino chamou Galileu à sua residência. sem ter sido convocado. o Cardeal comunicou a Galileu a mensagem que o tinham encarregado de transmitir. mas não lhes pôde negar a entrada. decisão essa que não era habitual.

De Revolutionibus orbium coelestium. nem tão pouco recebeu qualquer penitência para que se corrigisse. op. em seguida repreendeu o Comissário por ter exorbitado das instruções recebidas e recusou-se a assinar o documento preparado pelo notário. entre outras obras. existe um documento datado do dia 5. a obra de Copérnico. cit. 29-30. Note-se que Bellarmino não refere nenhuma proibição relativamente ao ensino do heliocentrismo. Lettera del R. nem mesmo em qualquer outro lugar de que tenhamos conhecimento. Galileu é recebido pelo Papa Paulo V. que contém argumentos retirados das Escrituras para tentar refutar o 39 40 José Maria André. cit. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 28 . apoio e aprovação eclesiástica. declaramos que o supra mencionado senhor Galileu não abjurou de alguma opinião sua ou doutrina da nossa mão nem na de qualquer autoridade romana. op..O processo contra Galileu – Breve cronologia que voltasse. cit. o documento de Ingoli. 41 Tradução de José Maria André. Dando testemunho destes factos escrevemos e assinámos por mão própria esta declaração. op. e ter sido objecto de um inquérito. a suspender40. cit. de que a Terra se mexe em volta do Sol e o Sol é o centro imutável do Universo. e ter recebido uma penitência para que se emendasse. bem como a carta de Foscarini que fora impressa em Nápoles em 1615. Maio – No dia 26. Galileu não é mencionado neste texto.. pp. 102-103.”41 Junho – Galileu entra numa disputa oral com Francesco Ingoli acerca da mobilidade da Terra e do sistema copernicano. da Congregação do Índex. Roberto Cardeal Bellarmino. Roberto Cardeal Bellarmino. pois esta gozara até então de ampla divulgação. apenas lhe foi comunicada a declaração de Nossa Senhoria vinda da Sagrada Congregação do Índice. o Cardeal Bellarmino. fica combinado que iriam debater a questão por escrito. que o tranquiliza em relação à sua situação perante a Inquisição. 28-29. referido acima. op. nem qualquer outra repreensão. a cópia feita por Galileu nas páginas 134 a 135 e o original na página 138. e il nuovo Pittagorico sistema del mondo. em Pagano. tendo ouvido rumores de que se dizia que Galileu fora condenado secretamente pelo Santo Ofício. Pagano.. a 26 de Maio de 1616 – O mesmo. na qual se contém que a doutrina atribuída a Copérnico. Padre Maestro Paolo António Foscarini Carmelitano. é contrária às Escrituras e não deve ser defendida e mantida. O texto pode ser consultado nos documentos do processo. sopra l’opinione de’ Pittagorici e del Copérnico della mobilità della terra e stabilità del sole. que atesta que o sábio não foi nem julgado nem condenado por qualquer instituição romana: “Nós. escreve uma carta assinada a Galileu.. pp. sobretudo no que diz respeito à obra de Copérnico. Esta decisão é insólita. para que o senhor Galileu não seja caluniado atribuindo-se-lhe o ter abjurado da nossa mão.”39 Março – Nos arquivos. pp.

Janeiro 1621 – Galileu é eleito Cônsul da Accademia Fiorentina. Galileu não responde a esta argumentação. aluno de Galileu. 1623 – Publicação da Defesa de Galileu. Junho – Guiducci publica uma carta de contestação à obra de Grassi (Lothario). a sua resposta à obra de Grassi. do Cardeal Roberto Bellarmino. à Accademia dei Lincei de Roma. Julho – Morte do Papa Gregório XV. de onze anos de idade. Outubro – Orazio Grassi. Agosto – O Cardeal Barberini (futuro Papa Urbano VIII) envia a Galileu um poema da sua autoria em honra do sábio. Outubro de 1622 – Galileu envia o manuscrito Il Saggiatore. uma cópia manuscrita da palestra é enviada a Galileu. faz uma palestra sobre estes cometas. em Frankfurt. 1618 – Durante este ano. Setembro – Morte.O processo contra Galileu – Breve cronologia sistema copernicano. Maria Madalena de Áustria. por prudência. escreve uma obra contra as ideias de Galileu e de Guiducci acerca dos cometas. no dia 17. que reinará sob a regência da sua avó Cristina de Lorena e da sua mãe. não chega a ser impresso. professor de matemática do Collegio Romano. faz uma palestra na Accademia Fiorentina sobre cometas na qual contesta algumas opiniões dos jesuítas do Collegio Romano. fazem a sua aparição três cometas diferentes. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 29 . A obra é dedicada ao Papa Gregório XV. Morte do Papa Paulo V. 1620 – A Congregação do Índex publica as correcções a fazer à obra de Copérnico antes que esta possa ser novamente divulgada. para evitar problemas com a Inquisição. Orazio Grassi. Junho de 1619 – Mario Guiducci. sucede-lhe o Papa Gregório XV. de Tommaso Campanella. Fevereiro – Os censores romanos autorizam a impressão da obra Il Saggiatore de Galileu. sob o pseudónimo de Lothario Sarsi. é sucedido por Fernando II. Fevereiro – Morte do Grão-duque Cosme II de Médicis.

que continha os resultados dos seus modelos matemáticos de órbitas planetárias elípticas. o que o ajudará na elaboração da sua obra futura acerca dos dois sistemas. a tipografia arde e com ela a parte da obra que já estava impressa. p. desde que a encare como uma hipótese matemática. 245-248.O processo contra Galileu – Breve cronologia Agosto – Eleição do Cardeal Barberini como Papa Urbano VIII. Com a rebelião. que tinham sido construídos com base nas excelentes observações de Brahe. Idem – Kepler tinha estado a imprimir em Linz a sua importante obra Tabulae Rudolphinae. 1626 – Orazio Grassi publica em Paris uma obra de reacção ao Il Saggiatore. refutando a sua argumentação. Galileu é ilibado das suspeitas de heresia que foram levantadas sobre a sua obra Il Saggiatore42. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 30 . a surgir apenas em 1632.. datado de 1616. com o título Ratio ponderum librae et simbellae. 42 Pagano. o Papa assegura-lhe que pode escrever acerca da teoria copernicana. Galileu mostra um microscópio à Accademia dei Lincei: uma abelha é vista com este aparelho (desenhos desta experiência serão publicados por Francesco Stelluti em 1630). Galileu começa a rever o seu trabalho sobre as marés. pelo qual o pão e o vinho são transformados em Corpo e Sangue de Cristo. Abril de 1624 – Galileu vai a Roma ter seis audiências com o Papa e com vários cardeais. 1624/1625 – Uma queixa anónima acerca da obra de Galileu Il Saggiatore é depositada na Inquisição. cit. que depois é entregue ao Cardeal Zollern para ser presenteado ao Duque da Baviera. Rebenta uma rebelião na região e a cidade de Linz é sitiada: Kepler e a sua família saem da cidade. A queixa alega falsamente que as ideias atomistas expostas por Galileu nessa obra não são compatíveis com a doutrina católica da transubstanciação no sacramento da Eucaristia. Após uma investigação por parte da Inquisição. Setembro – Galileu decide finalmente retorquir ao texto de Ingoli. Junho – Galileu regressa a Florença. esta carta a Ingoli não é impressa mas circula em manuscrito. op. 1627 – Kepler consegue imprimir as Tabulae Rudolphinae em Ulm.

que manter-se-á durante mais de um século a obra de referência acerca das manchas solares. e cujo nome teria sido inspirado noutro amigo de Galileu. Figura 4. Na obra.O processo contra Galileu – Breve cronologia Março – O papa Urbano VIII atribui uma pensão de 60 scudi por ano a Vincenzio Galilei. de Christoph Scheiner. Gravura da obra Rosa Ursina. Maio/Junho – Galileu vai a Roma para obter permissão dos censores para a sua obra e para conseguir que seja editada pela Accademia dei Lincei. 490-560 d. cujo nome evocaria o filósofo Simplício de Cilícia (c.C. Giovanfrancesco Sagredo (1571-1620). Simplício. comentador de Aristóteles. 1630 – O jesuíta Christoph Scheiner publica Rosa Ursina. e Sagredo. escrita sob a forma de diálogo. a figura inicialmente neutra que será convencida dos argumentos a favor do modelo de Copérnico. o adepto do modelo de Copérnico e cujo nome teria sido inspirado no amigo de Galileu Filippo Salviati (1582-1614). filho de Galileu. uma vez que é este o título que consta no relato existente nos Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 31 . o adepto do modelo de Ptolomeu. confrontavam-se três personagens: Salviati. Galileu apresentou a sua obra com o título De fluxu et refluxu maris. mostrando as manchas solares Fevereiro – Urbano VIII concede a Galileu uma pensão de 40 scudi por ano.). Abril – Galileu termina o seu Diálogo acerca dos dois máximos sistemas do Mundo – o Ptolemaico e o Copernicano.

a Academia cairá definitivamente fora do patronato papal. remetê-la-ia para o prelo. cit. e nunca é demais frisar que nos baseamos apenas em documentação escrita por um dos lados da questão. Segundo o Mestre do Sacro Palácio. este queria fazer uma última revisão ao texto com as correcções de Visconti. que só será reavivada no século XIX46. tanto científicas como eclesiásticas. quando esta fosse impressa em Roma. Galileu decide imprimir a obra nessa cidade (na casa Giovanni Batista Landini). É o primeiro fim desta academia. segundo os arquivos do processo. Trata-se. professor de Matemática. o Papa Pio XI funda a actual Pontifícia Academia das Ciências para que esta tome o lugar da antiga Pontifícia Accademia dei Nuovi Lincei. ou seja. Este exige a Galileu que lhe envie a obra. nada mais. Deste modo. Em 1936. O relato do Mestre do Sacro Palácio refere uma “versão original” da obra que teria recebido as correcções de Visconti.. do teólogo oficial do Santo Padre. op. que a recusa. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 32 . na íntegra. Cargo de grande importância no Palácio Apostólico. Galileu ficara de fazer uma revisão à obra para a colocar no exigido tom hipotético. mas tal desejo ter-se-ia revelado moroso e por razões práticas ter-se-ia optado por dar o imprimatur à obra. nada mais havia a obstar: tudo estava a postos para que a aprovação que lhe competia surgisse no prefácio da obra. e à medida que o Mestre do Sacro Palácio fosse lendo a obra. atribuído de forma vitalícia pelo Papa a um frade da Ordem dos Pregadores. Segundo os documentos do processo. op. fundador e patrono da Accademia dei Lincei. Pede autorização ao Mestre do Sacro Palácio. para que a impressão pudesse começar de imediato. 45 Ver Pagano. Esta descrição do Mestre do Sacro Palácio não parece credível: um imprimatur é uma autorização formal e completa para a impressão de uma obra. folha a folha. para que este fizesse a sua revisão. O Mestre do Sacro Palácio teria enviado a obra de Galileu a um colega seu. o Papa Pio IX reabre-a com o nome de Pontificia Accademia dei Nuovi Lincei – com a Questão de Roma. nada menos. 43 44 Ver Pagano. p. com as correcções que lhe foram impostas.O processo contra Galileu – Breve cronologia arquivos43. ponto 1. Outono – Tendo viajado para Florença. Da parte de Visconti. feitas as suas correcções. que a transforma na Accademia Nazionale Reale dei Lincei – a academia existe ainda hoje com o nome de Accademia Nazionale dei Lincei. As condições eram estas: Galileu deveria falar acerca do modelo copernicano como “pura hipótese matemática”: a Sagrada Congregação (do Índex) mostraria a sua boa vontade deixando que se argumentasse em defesa do sistema copernicano45. como estava previsto. o Padre Raffaele Visconti.. cit. 105 em diante. Agosto – Morte de Federico Cesi. p. 46 Em 1847. Galileu teria obtido do Mestre do Sacro Palácio44 uma permissão condicional: a obra deveria passar pela revisão de autoridades. a um dominicano. mas Galileu não poderia defender este sistema como tese verdadeira e demonstrada. ficando sob a regência de Quintino Sella. 106.

Clemente. e segundo o revisor. 110-112. pois a obra diz respeito ao debate entre os dois modelos astronómicos. op. Mestre do Sacro Palácio. pp. morre Johannes Kepler. Idem – No dia 31. e dizendo que a impressão da obra interessa muitíssimo ao Grão-duque. pp. O prefácio escrito por Riccardi é o indicado no bloco “C”. 50 Ver Pagano.O processo contra Galileu – Breve cronologia para uma última leitura antes de ser dada autorização total. em Regensburg. a escolha de um título associado às marés é uma má ideia47. se tudo isto se verificar. que o autor tem que tratar a questão de forma matemática e hipotética. Niccolò Riccardi envia ao Inquisidor de Florença um prefácio. o Inquisidor de Florença. o Grão-duque da Toscânia. cit. bloco “A”. O acordo era que a revisão ao corpo da obra seria feito pela Inquisição em Florença. que nisto mostra tão grande solicitude”48. que fez grande pressão para que a obra fosse impressa. 108-109. Novembro – No dia 15. O Inquisidor informa que deu a obra a rever ao Padre Stefani. por “perigo de contágio”. “Padre de muito valor e Consultor deste Santo Oficio”.. por via dos seus embaixadores em Roma. “o livro não terá impedimento algum aqui em Roma. nada disto apaga o facto de que Riccardi já tinha dado o imprimatur à obra. a delegar nele todo o poder de decisão acerca da impressão ou não da obra. Segundo as palavras de Riccardi. da Ordem dos Pregadores. responde à carta do Mestre do Sacro Palácio. e Vossa Paternidade muito reverenda poderá comprazer o autor e servir a Sereníssima Alteza. a incluir na obra de Galileu50. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 33 . Galileu consegue que a obra seja aprovada para impressão apenas com base no prefácio e na conclusão. Galileu alega que não o pode fazer.. que ficara de ser escrito por Riccardi49. Julho – No dia 19. cit. e que Galileu se mostra “prontíssimo e obedientíssimo a toda a correcção”. Frei Niccolò deixa bem claro na carta que quer agradar ao Grão-duque da Toscânia. Riccardi diz ao Inquisidor Clemente que Galileu tem 47 As autoridades eclesiásticas consideravam. 49 Ver Pagano. cit. da sua lavra. op. op. Frei Niccolò Riccardi. Maio – No dia 24. Informa ainda que aguarda o envio do prefácio da obra. prometendo que dará toda a atenção ao pedido. em virtude de uma epidemia que grassava na altura. bloco “B”. o que representa uma permissão total para a sua impressão. 109-110. No entanto.. 48 Ver Pagano. mas deixa os avisos bem claros: que o título da obra não é adequado. que o argumento das marés usado por Galileu para apoiar o copernicanismo era um mau argumento. Primavera de 1631 – Através do seu protector. correctamente. e que o autor não pode invocar de forma alguma as Sagradas Escrituras. pp. redige uma carta ao Inquisidor de Florença.

presumidamente. O Papa Urbano VIII proíbe a disseminação da obra. p. cit. 51 Ver Pagano. não acatou as suas recomendações e as que foram passadas ao Inquisidor de Florença.. mas observando a substância do conteúdo”.O processo contra Galileu – Breve cronologia liberdade para “mudá-lo e embelezá-lo quanto às palavras. bloco “D”. 113. Gravura e frontispício da obra Diálogo Verão – Os primeiros exemplares chegam ao conhecimento do Mestre do Sacro Palácio. Os “delitos” da obra são indicados deste modo nos arquivos do processo: “1. Através do Mestre do Sacro Palácio. Este mostra-se muito revoltado com o facto de que Galileu. o Papa manda recolher todos os exemplares e uma comissão é instaurada para a analisar. e sem participar a publicação com quem diz se ter subscrito. Fevereiro de 1632 – A impressão do Diálogo é concluída em Florença. op. Ter posto o imprimatur de Roma sem [ter recebido] ordem. Figura 5. Galileu deverá ainda escrever ou adaptar a sua conclusão da obra de acordo com o espírito do dito prefácio51. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 34 .

cit. e não vice-versa. Nesse parágrafo. ou qualificando os argumentos sobre os quais a funda como demonstrativos e necessários. Todas estas coisas se poderiam emendar. atesta-o. e como se se esperasse [pela decisão] e não se pressuponha a definição [do geocentrismo] 5. e mesmo a expressão oral ou escrita. entre o intelecto humano e divino. e o ter tornado inútil como [se fosse] alienado do corpo da obra. Fillipo Magalotti transmite-lhe o seguinte numa carta: “Na semana passada nem escrevi por não ter nada importante para contar. 8. e com acenar somente e não distinguir o bem que mostra dizer de má vontade. Galileu não parece ter recebido nenhum preceito formal do Santo Ofício em 1616 nem parece ter feito promessas formais. terá recebido apenas a recomendação informal do Cardeal Bellarmino para que tratasse o heliocentrismo apenas como uma hipótese matemática. em 1616.O processo contra Galileu – Breve cronologia 2.“52 A seguir a esta lista de “delitos”. Agosto – No dia 7. se se julgasse existir qualquer utilidade no livro (…). ou afirmando absolutamente a mobilidade da terra e a estabilidade do sol. afirma-se que em 1616 o Santo Ofício teria proibido formalmente a Galileu o ensino. 108. e ter posto a cautela do fim na boca de um tolo. não há documentação assinada que prove uma admoestação formal a Galileu. surge um parágrafo em latim cujo conteúdo já vimos ser duvidoso. Dar por argumento de verdade que os ptolemaicos passam a copernicanos. O mal tratar dos autores contrários e de quem mais se serve [a] Santa Igreja. no compreender as coisas geométricas. Ter resolvido mal o existente fluxo e refluxo do mar na estabilidade do sol e mobilidade da terra. antes de ter provas definitivas. 52 Pagano. Ter posto o prefácio com carácter distinto. da centralidade do sol e do movimento da terra. Afirmar-se e declarar-se mal qualquer igualdade. Ao que tudo indica. e em tal parte que nem sequer se encontra senão com dificuldade. antes pelo contrário: a nota manuscrita e assinada pelo Cardeal Bellarmino a 26 de Maio de 1616. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 35 . dando-lhe conta da recente (Fevereiro de 1616) proibição da Sagrada Congregação relativamente ao heliocentrismo. de que se estava a estudar o livro (…)”53. Ora. 6.. simplesmente os rumores que já tinha ouvido. ou tratando a parte negativa por impossível. como se viu atrás. 4. incontestavelmente genuína. Esquecer-se na obra muitas vezes e retirar-se da hipótese. não existente. um amigo de Galileu. op. Trata a coisa como não decidida. 7. 3. aprovada depois pelo outro interlocutor friamente. na mesma página. p. e que este teria aquiescido e parecido prometer acatar a proibição.

encaixava bem na ideia da corrente hermética. e o lema do emblema. Idem – Filippo Magalotti escreve a Galileu. cit. ele informou-me de que a gravura do frontispício constituía uma ofensa gravíssima (…). 38-39. a Inquisição autorizara a impressão da obra poucos meses antes. cit. na mitologia grega.O processo contra Galileu – Breve cronologia Setembro – Com base no relatório da comissão que investigou a publicação do Diálogo. Ora. sua Reverência [Riccardi] (…) veio ver-me (…). Declarei que. de Florença. Os três peixes foram interpretados como sendo golfinhos. Acrescentou. 38. O intermediário será o Inquisidor de Florença. “Grandior ut proles”. provavelmente. Deste modo. Magalotti conseguiu entregar a Riccardi uma obra anterior do editor Landini. Explicações retiradas da obra já citada de José Maria André. p. venerado no templo de Delfos. Após algum tempo e diligências. Sob reserva de segredo. não teria havido nenhuma medida contra o heliocentrismo”. o ex-libris do editor da obra de Galileu foi tomado como símbolo hermético. op. 55 José Maria André. a tranquilizá-lo: “parece-me que o negócio já amansou (…) Riccardi [o Mestre do Sacro Palácio] diz que se estivesse na Congregação [do Índex] na altura. na qual surgia o mesmo emblema57. cit. ficou muito aliviado e afirmou-me que se eu o conseguisse verificar (…) isso seria da maior vantagem para o autor”56. Apolo prestara auxílio aos trajanos. Riccardi mostra-se muito preocupado e assustado com a obra de Galileu. Pagano. Um documento com data de 23 de Setembro formaliza a ordem54. 46-47.. Riccardi e o seu círculo estavam a interpretar o emblema do editor como uma mensagem velada de Galileu para promover a política francesa sob a capa de símbolos herméticos.. Idem – Provavelmente nesta altura. o golfinho (“delphos”) é símbolo do deus Apolo. Riccardi assegura ainda que. o caso é passado pelo Papa à Inquisição. op. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 36 . p. 56 José Maria André. pp. “Galileu ficaria muito bem e só seria louvado”55. Ao ouvir isto. de cuja linhagem descendem os francos. 57 A polémica levantada em torno do ex-libris do editor é indicativa do ambiente de suspeição que então se vivia no que diz respeito a movimentos ocultistas que agitavam a sociedade e inquietavam as autoridades. p. Segundo a Ilíada de Homero. Note-se que em Florença. decide-se chamar Galileu a Roma para depor. Para aprofundar a teoria conspiratória. o emblema seria apenas o ex-libris do editor. desatei a rir (…) e disse que estava em condições de lhe garantir que o Senhor Galileu não era homem para disfarçar grandes mistérios com brincadeiras dessas e que tinha dito claramente aquilo que queria dizer. Filippo Magalotti descreve um encontro com Riccardi: “Na terça-feira de manhã (…). op. Ao ouvir isto. que remete os segredos transmitidos ocultamente ao longo dos séculos para uma linhagem iniciática que remonta a grandes nomes como Apolo. na sequência do exame da Congregação à sua obra.. Nesse ambiente social dado a teorias conspiratórias. então. Os fantasmas da comparação entre Galileu e Giordano Bruno surgiam 53 54 José Maria André. cit. 113. p. 45. os descendentes da coroa de França chamam-se sempre “Delfim” (“dauphin”). Numa sessão da Inquisição presidida pelo próprio Papa. op. um outro motivo (…) contra o livro dos Diálogos.. Pitágoras ou Hermes.

a manter-se até que fossem feitas correcções à obra para uma futura edição da mesma 59 . op. 59 58 Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 37 . p. o sábio teria respondido que tinha sido chamado para José Maria André. p. Idem – No dia 12. Não é credível que esta “doutrina perversa” fosse a de Copérnico. para responder perante o Padre Comissário do Santo Ofício. mas (…) são matérias aborrecidas e perigosas (…) e o assunto muito mais grave do que possa julgar Sua Alteza60”. Galileu é notificado pelo Inquisidor de Florença para comparecer em Roma no mês de Outubro. Idem – No dia 25. Michelangelo Buonarroti escreve ao Cardeal Francesco Barberini a interceder por Galileu. dizendo ao Embaixador Niccolini que “Galileu era seu amigo. op. e essa proibição seria mais como que uma suspensão. donec corrigantur”. Tratar-se-iam das suspeitas de que Galileu escondia na sua obra ideias políticas. mas das Escrituras. Francesco Niccolini. esotéricas e subversivas? Apesar da consideração que o Papa tinha por Galileu. Conta-lhe que encontrou Galileu na rua. Outubro – No dia 1. A proibição feita em 1616 à obra de Copérnico. 61 Uma nota nos arquivos do processo dá conta de que o livro não consta do processo – ou se extraviou na viagem. Perguntando-lhe a razão. que o Santo Ofício se está a ocupar do caso e que “(…) se trata de muitos perigos para a Fé. 116. e ao dar-lhe conta por escrito do andamento do processo em Roma. surgida após 73 anos de circulação livre. da Religião e da Fé”58. op. Idem – No dia 9. cit. La cena delle ceneri. também em diálogo e também defendendo o modelo copernicano. não de Matemática.. Embaixador de Florença e grande amigo de Galileu. 39. e que “se tratava do assunto mais grave que se poderia ter em mãos (…).. 62 Pagano. deixa transparecer a gravidade: o próprio Papa disssera a Niccolini que estava muito irritado porque era ofendido no livro de Galileu. o pontífice estava claramente indignado. Galileu assina um documento a concordar deslocar-se a Roma nesse mês62.. 60 O Grão-duque de Florença. com uma ordem papal para que se mande o livro original impresso de Galileu.O processo contra Galileu – Breve cronologia nalgumas mentes: Bruno escrevera também uma obra. de uma doutrina perversa ao mais alto grau”. 99. e que este lhe pareceu muito abatido. parece ter sido motivada por receios de que a obra estivesse a inspirar ideias heréticas relativas às Sagradas Escrituras. “suspendos esse. numa carta ao seu cunhado. Niccolini quer ajudar Galileu. p. ou nunca foi anexado ao processo. cit. que também intercederia por Galileu. É o que parece afirmar o texto da proibição: ver Pagano. cit. que nunca fora julgada desse modo pela Igreja. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) a relatar-lhe que recebeu uma carta do Mestre do Sacro Palácio. e que por isso lhe envia o livro61. Idem – Riccardi. visto que o Diálogo lhe fora dedicado.

Os médicos apontam a Galileu “pulsação intermitente”. Idem – No dia 30. “inflamação do peritoneu”. Os atestados estão datados de 17 de Dezembro e assinados pelos médicos Vettorio de Rossi. a razão dada por Galileu por via do Inquisidor de Florença é considerada um subterfúgio: Galileu deve comparecer em Roma. entre outras coisas. mas que não compreendia porque o faziam a um homem com setenta anos. O Inquisidor Clemente diz que Galileu lhe entregou atestados de três importantes médicos florentinos que atestam o seu estado de saúde. 66 Pagano. cit. Pagano. “vertigens frequentes”. “melancolia hipocondríaca”. p. “debilidade de estômago”. como sempre. Giovanni Ronconi e Pietro Cervieri. pp. cit. mas que “nestes tempos não lhe dá ânimo de modo algum”. suplicou que se tenha em conta a maturidade dos seus anos e as suas indisposições. nem que tenha que ser preso65. op. que estava pronto a obedecer. 119. em nova reunião da Inquisição presidida pelo Papa. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) a informar que mandou de novo chamar Galileu. op.. cit. e que os atestados acompanham a carta.. dizendo que nunca cessou de solicitar continuamente a ida de Galileu. “uma hérnia carnosa grave”. Idem – No dia 22. “que ele não quis fingir de modo algum”66. e que está entregue aos médicos. 117. e que “qualquer pequena causa externa poderá trazer-lhe perigo evidente para a vida”64. Dezembro – No dia 18. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Antonio Barberini (sénior): diz que fez pressão junto de Galileu para que este não tardasse a ir apresentar-se a Roma. Janeiro de 1633 – No dia 8. Galileu respondeu. o Inquisidor Clemente escreve de novo ao Cardeal Antonio Barberini (sénior). op. op. Idem – Galileu parte de Florença no dia 20 rumo a Roma. p. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 38 . 120-121. e que daria conhecimento aos médicos em Roma do seu estado de saúde. e que tal o intrigava e preocupava muito. e que este 63 64 Pagano.. e Galileu aceitou esse prazo63. “dores (…) no corpo”. Novembro – No dia 20. p. Galileu afirma estar “prontíssimo” para ir a Roma. 122.. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) informando que Galileu está acamado e que foi visto pelo Vigário. cit. O Inquisidor de Florença fixou a Galileu o prazo de um mês para se apresentar. 65 Pagano. mas que este diz que apesar de estar prontíssimo a ir a Roma.O processo contra Galileu – Breve cronologia comparecer perante o Santo Ofício em Roma.

no primeiro Domingo da Quaresma). e o assistente Domino Carolo Sincero. Galileu diz que. 123. para fazer ver a 67 68 Pagano. Reconhece ter tido conhecimento.. de que a Sagrada Congregação do Índex tinha determinado. na Alemanha ou em Veneza. cit. como fizera Copérnico. Perguntam a Galileu como é que esta notificação lhe foi comunicada. 1181.. para além do Cardeal Bellarmino. Permanece detido de 12 a 30 de Abril nos aposentos de um oficial no Palácio do Santo Ofício. optou por ir primeiro a Roma. Galileu pode permanecer na residência do embaixador da Toscânia. ele queria averiguar com as autoridades eclesiásticas qual era a correcta posição católica sobre o tema. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 39 . através do Cardeal Bellarmino. perante o Padre frei Vincentio Maculano de Florentiola. Comissário geral. Ver tradução no último capítulo. No depoimento.O processo contra Galileu – Breve cronologia finalmente se pôs a caminho no dia 20. Galileu apresenta uma cópia de um documento assinado por Bellarmino. de fazer imprimir a obra em França. Fevereiro – Galileu chega a Roma (segundo o seu depoimento. Galileu diz que veio a Roma em 1616 porque. e ele responde que supõe que seja por causa do Diálogo. Abril – Galileu é interrogado pela Inquisição. com essa notificação. bem como uma narração dos acontecimentos conforme vistos pelo Santo Oficio68. apesar de ter tido boas propostas. Depois. mas que não se recorda de ter sido intimado ou de ter recebido qualquer preceito senão o que consta na carta assinada pelo Cardeal. que constitui uma recolha de testemunhos e documentos. passa-se à questão da impressão do Diálogo: Galileu afirma que. perguntam a Galileu se este sabe porque razão foi convocado. 69 Pagano. com o início da escrita do Vol. com ganho para o autor. que o copernicanismo só podia ser admitido ex suppositione. Acrescenta ainda que não sabe que impedimentos ele terá a respeito da quarentena67. se estavam presentes outras pessoas. p. Procurador fiscal do Santo Ofício69. É-lhe proibido qualquer contacto social. pp. Mostram-lhe um exemplar dos que foram impressos em Florença. Deve datar desta época a abertura formal do processo contra Galileu. e Galileu reconhece-o como a sua obra. estavam outros padres dominicanos que ele não conhecia. op. Trata-se de uma reprodução do mesmo documento escrito pelo Cardeal Bellarmino para proteger a reputação de Galileu. A pedido do Grão-duque Fernando II de Médicis. Idem – Galileu depõe no dia 12. cit. 124-130. tendo ouvido dizer que o copernicanismo estava a ser questionado. datado de 26 de Maio de 1616. nesse ano. op.

Até ao depoimento seguinte. a questão foi apresentada de tal modo que seria possível. 72 Pagano. Galileu diz que depois a obra passou ao senhor Nicolò dell’Antella. Galileu permanece preso nos aposentos de um oficial da Inquisição. pp. fazer-se uma leitura diametralmente oposta às suas intenções. e não deverá estabelecer qualquer tipo de contacto social. permite-se a Galileu sair do palácio da Inquisição para ir habitar em Roma. aproveitou para reler a sua obra.. a passou ao Padre Giacinto Stefani. nos últimos dias. que teria cumprido as instruções do Inquisidor de Florença e do Mestre do Sacro Palácio. por volta desta altura. porque queria ver com os seus olhos. Perguntam a Galileu se avisou este último acerca do início dos trabalhos de impressão. Melchior Inchofer escreve o seu juízo. segundo Galileu. cit. Galileu termina o depoimento reconhecendo o seu erro. revisor do grão-ducado. e Galileu disse que não avisou porque achou necessário fazê-lo70. 148-153. Galileu depõe novamente73.72 Idem – No dia 30. e que as razões de Copérnico eram inválidas e não conclusivas. Galileu diz que combinou ir a Florença e regressar a Roma no Outono seguinte para dar início à impressão da obra. 70 71 A obra já tinha imprimatur de Roma! Pagano. e o caso passou ao Inquisidor daquela cidade. Galileu tentou pedir ao Mestre do Sacro Palácio autorização para imprimir a obra em Florença. pp. Zaccaria Pasqualigo escreve o seu juízo. pp. E confessa que. Idem – Em data incerta. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 40 . Idem – No dia 17. terminava o primeiro depoimento de Galileu. cit. op. infelizmente. que depois de ter recebido a obra das mãos de Galileu. 73 Pagano. Consultor do Santo Ofício. No entanto.. devido ao contágio. no dia 30. Nessa data. 130-132.O processo contra Galileu – Breve cronologia obra ao Mestre do Sacro Palácio. Afirma que. Agostino Oregio redige em Roma o seu juízo acerca do Diálogo. e que recebeu as suas instruções bem como a licença. e deste ao impressor Landini. e que se pudesse escreveria de forma totalmente diversa essas passagens para esclarecer melhor a posição que queria defender e impedir interpretações erradas. em morada fixa na casa do embaixador da Toscânia e em regime de detenção domiciliar.71 Idem – Em data incerta. op. se havia nela alguma coisa de censurável. uma vez que ele (Galileu) não tinha defendido no seu livro a opinião da mobilidade da Terra e da estabilidade do Sol. por volta desta altura. Com esta afirmação espantosa. cit.. em várias partes. a sua obra mostrava o contrário da opinião de Copérnico. op. volvidos três anos desde a data em que terminou a sua escrita. 139-148.

e decide que Galileu irá permanecer detido durante um período indefinido de tempo79.. mesmo com esta prova fortíssima. Galileu apresenta também nesta sessão um texto seu em defesa própria76. de que Galileu não fora nem intimado. nem do atestado do Cardeal Bellarmino78.. 135-137. e invoca o atestado de Bellarmino. Galileu termina pedindo ao Tribunal que se compadeça do seu estado de saúde e avançada idade e que o proteja da maledicência dos seus inimigos. Junho – No dia 16. Neste depoimento teria oportunidade para se defender. cuja elevada posição social e poderoso círculo de amigos influentes constituíam suficiente protecção. pp. 76 Pagano. 77 “vel quovis modo docere”. Galileu é colocado sob prisão domiciliária na casa do 74 75 Pagano. Galileu afirma. 78 Na verdade. 154. op. 79 Pagano. 80 É pouco provável que alguma vez o Santo Oficio tenha ponderado usar da tortura contra Galileu. e admite ter violando a promessa que fizera em 1616 de se ater ao modelo como apenas hipótese matemática e de não fazer a sua defesa pública como correspondendo à realidade. que ela não consta da ordem geral da Congregação. cit. 133-134. Não é de eliminar a hipótese de alguns quererem ter feito de Galileu um exemplo contra a soberba dos sábios que quisessem opinar sobre as Escrituras. Galileu parece ter razão e a acusação contra ele fica fragilizada. op. op. esta expressão consta do tal documento datado de 26 de Fevereiro de 1616 que não está assinado e cuja autenticidade é contestável. sai a sentença: o Papa proíbe formalmente o Diálogo. e Galileu apresenta um documento em sua defesa que terá surpreendido o Tribunal: o atestado original. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 41 .. A recomendação que recebeu do Cardeal dizia apenas respeito a uma ordem geral da Congregação.O processo contra Galileu – Breve cronologia Maio – No dia 10. nem forçado a abjurar ou a prometer coisa alguma75. cit. Galileu depõe novamente74. Apesar de já ter apresentado uma cópia feita por si no dia 16 de Abril. Pagano. afirmando que não se recorda dessa expressão. como já tinha feito a 30 de Abril. Galileu nunca chega a ser torturado80). op. p. e uma cópia feita por Galileu nas páginas 134 a 135. a apresentação do original teve outro peso completamente diferente. o original está na página 138. cit. não lhe era dirigida pessoalmente. assinado pelo Cardeal Bellarmino a 26 de Maio de 1616. Galileu contesta a afirmação da acusação de que ele teria recebido em 1616 a proibição de “não ensinar de modo algum”77 a doutrina de Copérnico. Sob ameaça formal de tortura (no entanto. ter-se “excedido em qualquer parte” dos seus actos. Galileu insiste no facto de que não foi intimado em 1616 para abjurar de ideia nenhuma nem foi condenado a qualquer tipo de penitência. ordena que a proibição seja comunicada a todos os inquisidores e a todos os núncios.. no entanto. no original em latim. Galileu afirma ter-se excedido na sua defesa do modelo copernicano. e por isso. Neste texto. pp. cit. Tudo indica que a ameaça de tortura foi um expediente de pressão psicológica: os seus adversários queriam marcar a sua posição e levar Galileu a submeter-se ao poder eclesiástico.

por veríssima e indubitável a opinião de Ptolomeu. ao que este responde: “Estou aqui para obedecer. como tenho agora.. Idem – No dia 6. onde permanece em casa do arcebispo. No mesmo dia. Julho – No dia 2. o Inquisidor de Florença dá conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da recepção da sentença do Tribunal e da abjuração de Galileu. o Núncio de Nápoles dá conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da recepção da sentença do Tribunal e da abjuração de Galileu. Nesse mesmo dia. bem como a todos os núncios apostólicos.O processo contra Galileu – Breve cronologia embaixador da Toscânia. de defender o modelo copernicano como real. Galileu afirma que não entende porque razão o acusam. 81 82 Pagano. Idem – No dia 9. Numa última tentativa. pp. onde aprouver a Sua Santidade. pp. Adicionalmente. uma vez que ele afirma só ter querido mostrar ambos os modelos. podendo qualquer um dos dois ser real. a partir da proibição de 1616. ele considerava os dois modelos em pé de igualdade. Afirma que. cit. Galileu é notificado da decisão papal. cópias da abjuração de Galileu. Idem – No dia 30. Mas que. como disse”. Idem – No dia 21. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 42 . 156-157. é dada a ordem papal de levar a todos os inquisidores. Galileu mantém que não defendeu nem defende o copernicanismo. Galileu depõe novamente81. e também porque espero a chegada de uma irmã minha da Alemanha com oito filhos (…)”. 154-155.. a estabilidade da Terra e a mobilidade do Sol”. antes de saber da proibição feita em 1616 pela Congregação relativamente à defesa do modelo de Copérnico como verdadeiro. Galileu é ameaçado de tortura se não disser a verdade. em Roma. e não defendi esta opinião desde a determinação feita [em 1616]. e tinha. op. na presença de um notário. Mesmo sob a insistência para que confesse. com base no Diálogo. o Papa ordena que Galileu se apresente em Siena. Pagano. com os seus argumentos. cit. e mais tarde é determinado que irá para a casa do arcebispo de Siena. e isto por razões de enfermidade. onde deverá permanecer sem poder sair sem permissão escrita do Santo Ofício82. Galileu redige uma súplica ao Papa Urbano VIII: “Galileu suplica humildemente a Sua Santidade que comute o lugar assinalado para cárcere em Roma para outro similar em Florença. na casa do Arcebispo daquela cidade. op. Galileu chega a Siena. não mais defendeu o copernicanismo como real: “(…) cessou em mim qualquer ambiguidade. deixando (segundo ele) claro que nenhum dos dois tinha provas conclusivas do seu lado. ou seja. Lá irá dedicar-se à organização da sua obra Discurso e demonstrações matemáticas sobre as duas novas ciências.

Casale. op. p. Janeiro de 1634 – É feita ao Santo Ofício uma denúncia anónima contra o Arcebispo de Siena. Viena. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 43 . Reggio Emilia. redige uma súplica ao Papa. o Inquisidor de Pádua dá conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da recepção da sentença do Tribunal e da abjuração de Galileu. Ao longo dos meses seguintes. p. os Inquisidores de Vicência e Veneza dão conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da recepção da sentença do Tribunal e da abjuração de Galileu. Espanha (Madrid). perto de Florença. o Inquisidor de Bolonha dá conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da recepção da sentença do Tribunal e da abjuração de Galileu. Suiça (Lausanne). Colónia. Idem – No dia 12 e 13 respectivamente. Na denúncia. e que [ele. cit. a agradecer o seu apoio e intercessão para que fosse concedida a permissão para o seu regresso a casa84. Como. Aquileia. Piacenza. Pavia. Udine. Dezembro – Galileu recebe permissão para voltar para sua casa em Arcetri. dá conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da chegada de Galileu a sua casa na véspera. Cremona. dizse que o Arcebispo considera que Galileu foi “injustamente agravado pela Sacra Congregação. Brescia. 85 Pagano. Milão. Mantova. Idem – Em data incerta. Idem – No dia 16. Tortona. Galileu escreve de Arcetri ao Cardeal Francesco Barberini. Ferrara. o Arcebispo de Siena. os Núncios de Florença e Veneza dão conta ao Cardeal Antonio Barberini (sénior) da recepção da sentença do Tribunal e da abjuração de Galileu.. 207. op. como Ceneda. Idem – No dia 15. Bruxelas. que acolhera Galileu em sua casa entre Julho e Dezembro de 1633. embaixador de Florença e amigo de Galileu. França (SaintNicolas). onde deverá permanecer em prisão domiciliária. op. cit. Idem – No dia 17. Novara. p. Polónia (Vilna). segundo ele com razões matemáticas invencíveis (…). a ordem chegará a outros locais de Itália e do resto da Europa cristã. Francesco Niccolini. 200. 83 84 Pagano. Perugia. 204. Gubbio.O processo contra Galileu – Breve cronologia Idem – No dia 10. Crema. e que [Galileu] é o primeiro homem do mundo. cit.. e viverá sempre nos seus escritos”85. Pisa.. Agosto – No dia 6. até Dezembro. Ascanio Piccolomini. o Arcebispo] não podia nem devia reprovar as opiniões filosóficas. Faenza. Pagano. para que este permita a Galileu regressar a casa83.

op. 208-209. Verão – O tratado de Galileu intitulado Mecânica (de 1602) é traduzido para francês e editado em França. 1636 – A Carta à Grã-duquesa Cristina é editada em italiano e latim. em Roma. decide-se aceitar que no dia 25 o sábio se mude de Arcetri para a sua casa em Florença.. Pagano. cit. O Inquisidor diz que Galileu está numa vila perto de Florença (Arcetri). fazendo este um pedido a Roma para que Galileu possa regressar à sua casa em Florença para estar mais perto dos médicos. e que pode facilmente chamar médicos ou obter remédios87. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 44 . 1635 – Uma edição em latim do Diálogo é publicada em Estrasburgo. pp. Fevereiro – Em reunião do Santo Ofício no palácio apostólico no dia 4. Abril – No dia 1. A permissão é-lhe negada e Galileu é ameaçado a não insistir nestes pedidos86. que atesta o estado de Galileu.. Agosto – Galileu envia uma proposta aos Estados Gerais da Holanda para a determinação da longitude no mar. cit. Julho – Numa carta a Elia Diodati. pp. Abril de 1637 – Os Estados Gerais da Holanda decidem ofertar uma corrente de ouro a Galileu no valor de 500 florins em agradecimento pelo seu trabalho no cálculo da longitude no mar. a dar-lhe conta de que transmitiu o aviso a Galileu.O processo contra Galileu – Breve cronologia Março – Galileu sofre de uma hérnia e usa da intercessão do embaixador da Toscânia. datada do dia 13. o método proposto por Galileu não era aplicável na prática. para estar mais perto dos seus médicos. 207-208. e que este não deverá voltar a importunar a Congregação. Galileu diz estar cego do seu olho direito. o pedido é negado. após a recepção da carta do Inquisidor de Florença. desde que se abstenha de sair de 86 87 Pagano. usando os eclipses dos satélites de Júpiter. no entanto. para ser libertado da sua pena de prisão domiciliária. op. No entanto. Janeiro de 1638 – Galileu está cego de ambos os olhos e pede ao Santo Ofício. Maio – O editor holandês Louis Elsevier visita Galileu em Arcetri e aceita publicar o Discurso em Leiden. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Antonio Barberini (sénior).

op. não discuta os temas que lhe foram proibidos91. Junho – No dia 26. Idem – No dia 25. e que se o tiver que fazer. o Santo Ofício responde ao Inquisidor de Florença para que este peça a Galileu para não receber pessoas hereges ou de cidades heréticas. 236. op. Galileu começa a preparar o seu testamento. através de mercadores alemães. p. cit. Castelli dá a garantia de que não tocará nos temas proibidos. acompanhada de “manufacturas de ouro e prata” (a dita corrente). O Inquisidor comunica também que aconselhou Galileu a não receber o holandês. obtém a permissão do Santo Ofício para o seu pedido. que trazem presentes valiosos (“regali di prezzo”) para Galileu. cit. o Inquisidor de Florença escreve ao Cardeal Francesco Barberini para lhe dar conta de que se espera em Florença a chegada de pessoas de elevada condição. que se tentou fazer chegar a Galileu uma carta com o selo holandês. 92 Pagano. op. Idem – No dia 13.... cit.O processo contra Galileu – Breve cronologia casa ou de manter conversas públicas ou privadas acerca dos temas proibidos com pessoas que o visitem88. 209-210. No dia 28. pede mais ampla licença para visitar Galileu e dele receber instruções acerca dos cálculos astronómicos da longitude em alto mar. 214. Agosto – No dia 5. a sua obra científica mais importante. p. Pagano. Março – No dia 20. No dia 29. o Santo Ofício autoriza Castelli a visitar Galileu e 88 89 Pagano. Mais informa que conseguiu saber.. há menção de que o Papa Urbano VIII louvou a recusa de Galileu e pediu à Sagrada Congregação para lhe agradecer. cit. op. o Inquisidor de Florença escreve de novo ao Cardeal Francesco Barberini. op. p. 234-235. ou se o receber. Na carta. a informar que o visitante que era para vir encontrar-se com Galileu não veio e provavelmente não virá. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 45 . e que Galileu recusou tanto a carta como o presente. cit.. pp. Julho – Em Leiden é editado finalmente o Discurso. 213. a não discutir com ele os temas proibidos90. 91 Pagano. desde que não fale com ninguém89. provenientes dos Países Baixos. o Inquisidor de Florença escreve para Roma para transmitir o pedido de Galileu para assistir à missa em dias festivos numa igreja perto de sua casa. pp. Outubro – No dia 23. 90 Pagano. Benedetto Castelli escreve de Florença ao Cardeal Francesco Barberini92.

É sepultado numa divisão menor da igreja da Santa Cruz. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 46 . como Miguel Ângelo. ipso facto. 1641 – Galileu concebe o uso de pêndulos em relógios. onde também repousam os restos mortais de outros grandes florentinos. em Florença. em Florença 93 Excomunhão automática. o que implicaria excomunhão latae sententiae93. Janeiro de 1642 – A 8 de Janeiro. desde que não discutam o movimento da Terra.O processo contra Galileu – Breve cronologia discutir com ele os temas matemáticos relativos à longitude. Figura 6. Galileu morre em Arcetri. Túmulo de Galileu (desde 1737) na Igreja da Santa Cruz.

Sem verificação ulterior. Este Concílio procurou definir melhor a expressão “ex cathedra”. pp. 1737 – Os restos mortais de Galileu são trasladados para o mausoléu definitivo. do Rev. 1718 – A proibição para reedições das obras de Galileu é levantada. e que reafirmaria o conteúdo do decreto de 1616 da Sagrada Congregação do Índex de condenação ao heliocentrismo. e no dia 16 foi dada a autorização oficial96. passados e futuros. Londres. em virtude da sua suprema autoridade Apostólica. não caem na definição do que é uma afirmação papal “ex cathedra”. De Galileu aos dias de hoje 1664 – Alguns autores e investigadores atribuem ao Papa Alexandre VII uma bula intitulada Speculatores Dominus Israel. que teria sido anexada à edição do Índex deste ano. e não em consequência do consentimento da Igreja. pelo que é difícil sustentar que esta bula do Papa Alexandre VII. ele possui. em consequência da ajuda Divina a ele prometida em São Pedro. declarado aquando do Concílio Vaticano I. que deve ser uma afirmação positiva de doutrina de fé e moral cristãs. visto que visa a natureza do cargo e não o valor pessoal e individual de cada Papa.newadvent. irreformáveis”. seja realmente uma decisão papal que caia sob a alçada do que se entende como magistério “ex cathedra”. não é possível dar aqui uma resposta definitiva sobre esta bula. aplica-se necessariamente a todos os pontífices. op. em Florença. excepto para o Diálogo. Paolo Antonio Ambrogi. e não uma proibição negativa de obras ou ideias. 94 Esta afirmação parece basear-se na obra The Pontifical Decrees Against the Doctrine of the Earth's Movement. 95 O dogma da infalibilidade papal. 240-241. a questão foi a votos. em http://www. Segundo alguns. O que é importante destacar é que as proibições de obras ou as condenações de ideias filosóficas. Ver o artigo sobre o Concílio Vaticano I na Catholic Encyclopedia. and the Ultramontane Defence of Them. decide que uma doutrina respeitante à fé ou à moral deve ser mantida pela Igreja inteira. quando ele. a existir. 215-216. esta decisão papal comprometeria a infalibilidade do Magistério95. no exercício do seu ofício como pastor e professor de todos os Cristãos. e tais definições do Pontífice Romano são elas mesmas. obrigando os fiéis a obedecer escrupulosamente às proibições contidas no Índex94. a infalibilidade com a qual o Divino Salvador quis dotar a Sua Igreja para a definição de doutrina relativa à fé ou à moral. 1734 – No dia 8 de Junho. 1885. cit. escreve ao Santo Oficio a perguntar se há objecções à erecção de um mausoléu em mármore para Galileu na nave central da Igreja da Santa Cruz.htm 96 Pagano.org/cathen/15303a.O processo contra Galileu – Breve cronologia III.. No dia 14. e pp. que delimita o âmbito da infalibilidade pontifícia: “(…) quando fala ex cathedra. Inquisidor de Florença. ou seja. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 47 . como as constantes nas inúmeras edições do Índex. William Roberts.

Anfossi insistia que o sistema de Copérnico tinha sido condenado e declarado formalmente herético. que reuniu uma grande quantidade de provas científicas a favor do heliocentrismo. No entanto. 1820 – Em Janeiro. o autor recebe finalmente do Santo Ofício o imprimatur para a sua obra Elementi di Ottica e di 97 98 Pagano. por ordem do Santo Oficio. 1819 – O Padre Giuseppe Settele. recebe neste ano o encargo de leccionar óptica e astronomia. na qual trata o heliocentrismo como coisa certa: “… pois que a Terra se move em torno do sol…”. não constavam. o editor da obra do Padre Settele informa-o de que o Mestre do Sacro Palácio. e que as injunções de 1616 permaneciam válidas98. Para deixar bem claro que o Santo Ofício não estava a voltar atrás com a condenação de Galileu. que inclui. nem a carta de Galileu a Benedetto Castelli. permanecem as proibições contra versões não censuradas do Diálogo de Galileu. cit. op. e ao esforço do próprio Padre Giuseppe Settele. arqueólogo e professor de matemática aplicada na Universidade Imperial de Roma (La Sapienza). É também neste ano que publica a sua obra Elementi di Ottica e di Astronomia. 1822 – Graças às diligências de Olivieri. uma versão retocada do Diálogo97. o dramaturgo Giuseppe Baretti faz uma reconstrução teatral algo fantasiosa do processo contra Galileu. Desta edição.. que Galileu nunca proferiu. Maurizio Olivieri. o dominicano Frei Filippo Anfossi. revogara o imprimatur da obra devido à frase atrás referida. inventando a célebre frase “Eppur si muove!”. p. Settele procurou e obteve o apoio do comissário do Santo Ofício. pela primeira vez desde o processo. que levou a matéria ao Papa Pio VII. o Papa Bento XIV autoriza a publicação das obras completas de Galileu. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 48 . do Epitome de Kepler e do De revolutionibus de Copérnico.O processo contra Galileu – Breve cronologia 1741 – No dia 9 de Outubro. Ver a página 795 do artigo de Juan Casanovas referido na bibliografia. 1757 – O Papa Bento XIV remove do Índex (publicado em 1758) as obras que defendiam o movimento da Terra ou o heliocentrismo. nem a sua carta a Cristina de Lorena. o Diálogo vinha acompanhado do texto da sentença de 1633 e da abjuração de Galileu. Neste ano. 241-242.

o texto do discurso (em português) em: http://www. num discurso perante a Pontifícia Academia das Ciências. e expressou-se deste modo acerca das vicissitudes pelas quais passou Galileu: “o primeiro [Galileu] muito teve que sofrer — não poderíamos escondê-lo — da parte de homens e organismos da Igreja”. quer em 1616 contra o heliocentrismo.. 1835 – Todas as obras relacionadas com o heliocentrismo e a polémica em torno de Galileu que ainda restavam interditas são definitivamente removidas do Índex.html Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 49 . 1890-1909 – Antonio Favaro (1847-1922) publica Le opere di Galileo Galilei. Esta é a data mais frequentemente reconhecida como a que marca o fim do caso Galileu. que nunca deu o seu acordo. sem que no entanto haja uma retratação oficial das decisões tomadas.O processo contra Galileu – Breve cronologia Astronomia. op. note-se que não há registo histórico de qualquer documento oficial a revogar positivamente o decreto de 1616. no futuro. em vinte volumes. discursou perante a Pontifícia Academia das Ciências100. aprofundem o exame do caso de Galileu e. o Papa João Paulo II. O investigador Juan Casanovas considera que esta decisão tem muito de pessoal. 1979 – A 10 de Novembro. A partir de 1835 constata-se uma situação de facto de fim do caso Galileu porque toda a menção ao heliocentrismo ou a obras em sua defesa é removida do Índex de livros proibidos pelo Santo Ofício. animados por espírito de sincera colaboração. por ocasião do centenário do nascimento de Albert Einstein. No entanto. façam desaparecer as 99 100Ver Casanovas.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1979/november/documents/hf_jp-ii_spe_19791110_einstein_po. sem ter que mudar a afirmação que tinha causado a polémica. cit. elogia Galileu como “um dos mais audazes heróis da pesquisa [científica]”. num reconhecimento leal dos erros de qualquer lado que tenham vindo. 1823 – É publicado um decreto do Santo Ofício que proíbe que. João Paulo II disse ainda: “desejo que teólogos. o Papa Pio XII. 802. qualquer Mestre do Sacro Palácio censure obras que defendam o movimento da Terra. sábios e historiadores. esta autorização é dada sem a assinatura de Anfossi.vatican. 1939 – A 3 de Dezembro. ao ritmo de um volume por ano. quer em 1633 contra Galileu. Todavia. aproximadamente. p. visando directamente Anfossi99.

dão mais outro passo adiante quando vêem uma «via directíssima» que conduz de Galileu à bomba atómica. entre a Igreja e o mundo. os dois naturalistas e filósofos. F. e tomou em consideração também as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. numa recente entrevista sobre o caso de Galileu. O seu processo contra Galileu era razoável e justo. o então Cardeal Joseph Ratzinger faz uma palestra em Parma. institui uma Comissão de estudo do caso Galileu. e como peritos convidados: Carlo Maria Martini para a parte exegética. através do Cardeal Secretário de Estado Agostino Casaroli. Do ponto de vista prático. ao passo que a sua actual revisão só se pode justificar com motivos de oportunidade política». mas deixando claro que este não é o caminho para construir uma interpretação sólida do caso: “(…) soa já muito mais provocadora a síntese do filósofo céptico-agnóstico P. Altner.O processo contra Galileu – Breve cronologia desconfianças que este assunto opõe ainda. em muitos espíritos. 1984 – É publicado na cidade do Vaticano o vigésimo primeiro volume da colecção Collectanea Archivi Vaticani. 1990 – A 15 de Março. 1981 – A 3 de Julho. subordinada ao tema Le vie della fede nell'attuale momento di svolta. e Monsenhor Michele Maccarrone e o Padre Edmond Lamalle para a parte histórica e jurídica. o Prof. Como assistente. von Weizaecker e G. Para grande surpresa minha. na qual evoca a interpretação de Paul Feyerabend relativamente ao caso Galileu. a uma concórdia frutuosa entre ciência e fé. Carlos Chagas e o Padre George Coyne para a parte científica e epistemológica. C. Esta reedição vem acompanhada de um importante estudo acerca das peripécias pelas quais passou esta documentação. com o título I documenti del processo di Galileo Galilei. Feyerabend: «No tempo de Galileu a Igreja manteve-se muito mais fiel à razão que o próprio Galileu. o Papa João Paulo II. sob a direcção do Cardeal Gabriel-Marie Garrone. Trata-se da mais recente reedição da documentação do processo. que nalguns casos levaram à perda irrecuperável de certos textos.”. mas exactamente o Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 50 . o Padre Enrico di Rovasenda (Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências entre 1974 e 1986). o então arcebispo Paul Poupard para a parte cultural. sob a coordenação de Sergio Pagano e com a colaboração de Antonio Luciani. não foi posta uma questão do tipo: «Como é que a Igreja se atreveu a levantar obstáculos ao conhecimento das ciências naturais?».

Seria ingénuo construir uma apologética improvisada. Uma dupla questão está no centro do debate sobre Galileu.» 102 Ver o texto do discurso (em italiano) em: http://www. mas a este ponto voltaremos mais adiante. A este propósito. de ordem filosófica. que aquela geralmente reclama. Adicionalmente. Galileu não faz distinção entre o que é a abordagem científica aos fenómenos naturais e a reflexão sobre a natureza. a representação geocêntrica do mundo era comummente aceite na cultura do tempo como plenamente concordante com o ensinamento da Bíblia. Esta era. Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático. na qual algumas expressões.O processo contra Galileu – Breve cronologia contrário: «Porque é que não tomou uma posição mais dura contra as desgraças que ficaram à solta quando Galileu abriu a caixa de Pandora?». com base nestas afirmações. pareciam constituir afirmações de geocentrismo. uma exigência do método experimental do qual ele foi o genial iniciador.vatican. 1992 – A 31 de Outubro. com base nas conclusões da Comissão de estudo liderada pelo Cardeal Poupard: “5. são de destacar dois pontos. tinham feito as suas exposições o Cardeal Paul Poupard e o Padre Jesuíta George Coyne. A primeira é de ordem epistemológica e diz respeito à hermenêutica bíblica. mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual. A revista reproduziu integralmente. o Papa João Paulo II discursa perante a Pontifícia Academia das Ciências102. Acima de tudo. a ciência e a técnica fazem de si mesmas. Foi por esta razão que ele rejeitou a sugestão que lhe fora dada de apresentar o sistema de Copérnico como uma hipótese. enquanto este não fosse confirmado por provas irrefutáveis. o Cardeal Secretário de Estado encarrega o Cardeal Paul Poupard da tarefa de coordenar a fase final dos trabalhos da Comissão de Estudo do caso Galileu. Antes da sua prelecção. tratava da crise do marxismo.html Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 51 . a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade. A primeira parte. páginas 80-85. com o título de L'omologazione religiosa (o sincretismo religioso). de 31 de Março de 1990. que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade. uma vez que nele o Papa exprime com detalhe a posição actual da Santa Sé acerca do caso Galileu. o papel da religião e a actuação dos Meios de Comunicação Social. tomadas à letra. 101 Excerto da tradução feita por José Maria André da segunda parte da conferência do então Cardeal Joseph Ratzinger. O problema que então se colocou aos teólogos da época foi o da compatibilidade entre o heliocentrismo e a Escritura.”101 Idem – A 4 de Maio. apenas esta segunda parte da conferência. para mais. O conteúdo deste discurso papal é muito importante. examinando três factores que conduziram ao colapso do comunismo soviético: a crise económica. como a maior parte dos seus adversários. que identifica deste modo a fonte do texto usado para a tradução: «Esta versão em português foi traduzida do texto italiano publicado na revista Il Sabato.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1992/october/documents/hf_jp-ii_spe_19921031_accademia-scienze_it. porque interessava particularmente aos países ocidentais. não publicada pela Il Sabato.

A maior parte não o soube fazer. a nova ciência. escreveu a Benedetto Castelli. como se fosse naquelas” (Epistola 143. Conhece-se também a sua carta a Cristina de Lorena (1615). o horizonte cultural da época de Galileu era unitário e trazia o cunho de uma formação filosófica particular. p. PL 33. não o que encontrou nas Escrituras. 172). A. (. o Papa Leão XIII fazia eco deste pensamento na Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 52 . 7. a Igreja tem o dever de estar atenta aos incidentes pastorais da sua palavra. que não conseguiu penetrar. reedição de 1968. a mesma sabedoria e o mesmo respeito pela Palavra divina tinham guiado Santo Agostinho a escrever “Se a uma razão evidentíssima e segura se procurasse contrapor a autoridade das Sagradas Escrituras. o que os conduziu a transpor indevidamente para o campo da doutrina da fé uma questão de facto pertencente à pesquisa científica. p. A crise que acabei de evocar não é o único factor a ter tido repercussões na interpretação da Bíblia. Este carácter unitário da cultura. (. Mas trata-se de saber como tomar em consideração um dado científico novo quando este parece contradizer a verdade da fé. se devesse “ter muito cuidado ao explicar as Escrituras que parecem contrárias” à mobilidade da Terra e “dizendo eventualmente que não as entendemos. Favaro.588). como recordou o Cardeal Poupard. perante eventuais provas científicas da órbita da Terra em torno do Sol. que é como um pequeno tratado de hermenêutica bíblica (Ibidem. Se a cultura contemporânea está marcada por uma tendência para o cientismo. vol. 12 de Abril de 1615. mostrou-se neste ponto mais perspicaz do que os seus adversários teólogos. podem pelo menos errar os seus intérpretes e expositores. Tocamos agora no segundo aspecto do problema. 282). vol. que tinha percebido a verdadeira questão em jogo do debate. que o pastor se deve mostrar pronto para uma autêntica audácia. op. “se bem que a Escritura não pode errar. n. Há um século. ou seja. Roberto Bellarmino. Antes dele. Digamos. evitando o duplo escolho da atitude incerta e do juízo apressado. que esta palavra deve corresponder à verdade. sincero crente. Em virtude da missão que lhe é própria. Que seja claro. o aspecto pastoral. in Edizione nazionale delle Opere di Galileo Galilei.) 7.. O juízo pastoral que requeria a teoria copernicana era difícil de exprimir na medida em que o geocentrismo parecia fazer parte do próprio ensinamento da Escritura. em vários modos” (Carta de 21 de Dezembro de 1613. sustentava por seu lado que. Foscarini. A maioria dos teólogos não percepcionava a distinção formal entre a Sagrada Escritura e a sua interpretação. V. de modo geral. cit. mas o próprio pensamento.O processo contra Galileu – Breve cronologia Assim... podendo tanto um como o outro fazer muito mal. obrigava os teólogos a interrogar-se sobre o seu critério de interpretação da Escritura. XII.) 9. Teria sido necessário vencer contemporaneamente hábitos de pensamento e inventar uma pedagogia capaz de iluminar o povo de Deus. cf. com os seus métodos e a liberdade de pesquisa que estes supõem. Na realidade. 307-348). foi uma das causas da condenação de Galileu. dir. sobretudo.. que era em si mesmo positivo e auspicioso ainda hoje. em vez de dizer que é falso aquilo que se demonstra” (Carta ao Padre A.. quem o faz não compreende e opõe à verdade não o sentido genuíno das Escrituras. Paradoxalmente. Galileu. mas o que encontrou em si mesmo.

Acta.. receberam sérias críticas do Padre George Coyne103.pdf Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 53 . Galilei e la Chiesa. Florença. Ver uma versão preliminar do texto em http://www.O processo contra Galileu – Breve cronologia sua encíclica Providentissimus Deus: “Uma vez que o verdadeiro não pode de modo algum contradizer o verdadeiro. é óbvio. para lá de duas visões parciais e contrastantes. era inconcebível representar um mundo que fosse desprovido de um ponto de referência absoluto. Copernico. Pontificia Accademia Scientiarum. Max. o sacerdote jesuíta lamenta sobretudo o facto de o Papa e a Comissão terem demonstrado “relutância em colocar a responsabilidade onde ela verdadeiramente pertence”. Do caso Galileu pode-se extrair um ensinamento que permanece actual em relação a situações análogas que se apresentam hoje e que se podem apresentar no futuro. ou seja. E assim como o cosmos então conhecido era. nenhum destes dois pontos de referência se reveste da importância que tinha então. 361).. Greipl. Esta observação. No tempo de Galileu. 1894. por assim dizer. Entre outras críticas. O Cardeal Poupard recordou igualmente que a sentença de 1633 não é irreformável e como o debate. depois de Einstein e na perspectiva da cosmologia contemporânea. XIII. não diz respeito à validade da posição de Galileu no debate. que não tinha cessado de evoluir. 2003. 1992). p. existe uma visão mais larga que as inclui a ambas e as supera. 103 Ver The Church’s most recent attempt to dispel the Galileo myth. contido no sistema solar. às altas autoridades que condenaram o heliocentrismo em 1616 e Galileu em 1633.edu/balick/rome1/coyne. Brandmüller e E.” Estas palavras do Papa João Paulo II. não se podia situar este ponto de referência senão sobre a Terra ou sobre o Sol. Fine della controversia (1820). sob a direcção de W. Hoje. quer antes indicar que frequentemente. Gli atti del Sant’Ufficio. pode-se estar certo de que um erro se insinuou ou nas interpretações das palavras sacras.washington.astro. ou num outro lugar da discussão” (Leonis XIII Pont. (. Olschki. vol. bem como algumas das conclusões da Comissão de estudo do caso Galileu. J. foi fechado em 1820 com o imprimatur concedido às obras do cónego Settele (cf.) 11.

O processo contra Galileu – Breve cronologia

V. Conclusão
O que se designa correntemente por “processo contra Galileu” é, na verdade, composto por dois momentos distintos, dos quais o primeiro é uma averiguação feita pelo Santo Ofício, entre 1615 e 1616, ao que tudo indica sem condenação, e só o segundo, entre 1632 e 1633, é que trouxe a condenação a Galileu:

Uma primeira investigação feita pelo Santo Ofício em 1616, com inquirição de testemunhas, desencadeada pela denúncia do dominicano Niccolò Lorini em Fevereiro de 1615, respeitante à carta de Galileu a Castelli (21-12-1613) que circulava livremente em Florença; a denúncia de Lorini apoiava-se também no sermão dado nessa mesma cidade em Dezembro de 1614 pelo dominicano Tommaso Caccini, no qual ele criticava as posições de Galileu e dos matemáticos que defendiam o copernicanismo; desta primeira investigação do Santo Ofício, não terá resultado qualquer condenação ou admoestação da Inquisição a Galileu, apesar de ter sido encontrado um documento nos arquivos que diz o contrário, mas que poderá não passar do rascunho de uma decisão que nunca foi tomada; a carta assinada pelo Cardeal Bellarmino certificando que Galileu não abjurou nem foi condenado pelo Santo Ofício, é uma prova abonatória disso mesmo;

O processo de 1632-33, desencadeado meio ano após a publicação do Diálogo, no qual Galileu é condenado a pena de prisão domiciliária por ter supostamente desobedecido à historicamente questionável ordem de 1616 para que não defendesse nem ensinasse o copernicanismo; é certo que Galileu fora informado em 1616, pelo Cardeal Bellarmino em pessoa, de que tais ideias estavam proibidas pela Congregação do Índex; no entanto, em rigor, Galileu não fora intimado formalmente pelo Santo Ofício em 1616, e portanto, o processo de 1632-33 apoiava-se num possivelmente falso pressuposto; para dar corpo ao processo, a acusação argumentou, de forma bastante frágil, que Galileu teria conduzido de forma irregular e ilícita as diligências para a impressão da obra; que Galileu teria usado o “imprimatur” de Roma sem autorização, e sem ter efectuado na obra as alterações que estes lhe tinham

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recomendado104; o que é um facto é que Galileu recebeu os dois imprimatur, o de Roma e o de Florença, e ambos autorizavam a impressão da obra. Fica-se com a sensação de que se terá tentado, no Santo Ofício, ao longo deste processo, esconder ou contornar uma série de erros processuais cometidos na concessão do imprimatur ao Diálogo de Galileu. Não faz muito sentido acusar Galileu de ter publicado uma obra que tinha recebido oficialmente os imprimatur necessários. Mas talvez a conclusão mais importante a retirar do estudo do processo contra Galileu, e de todos os acontecimentos que giram em torno desse processo, é a de que este tema não permite conclusões simples nem fechadas. Em primeiro lugar, falta documentação. Em segundo lugar, a documentação existente deve ser contextualizada para ser compreendida: não se pode assumir que todos os relatos da Inquisição, ou que toda a correspondência de Galileu, retrata fiel e imparcialmente os factos como eles se passaram. Em terceiro lugar, há documentos que passaram de mão e mão, ou que foram copiados, e que não chegaram na sua forma original aos arquivos do processo. Por isso, parece-me que a melhor atitude, perante estes factos, é a de encarar o caso Galileu como um daqueles novelos históricos demasiado complexos para permitirem leituras definitivas e contundentes. Há dois importantes aspectos a considerar: por um lado, o aspecto do conhecimento (científico ou teológico), e por outro lado, o aspecto humano. No que diz respeito ao aspecto do conhecimento, estes são os pontos que parecem seguros:

O caso Galileu não constitui um exemplo, e muito menos um exemplo paradigmático, de incompatibilidade entre Ciência e Religião; no processo contra Galileu, não foram seguidas as recomendações clássicas do cristianismo acerca da necessidade de uma boa interpretação das Sagradas Escrituras, compatível com as verdades científicas, conforme ensinaram Santo Agostinho de Hipona, São Tomás de

104

Não há certeza de que estas recomendações lhe tenham mesmo sido feitas.

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Aquino, e tantos outros; o Cardeal Bellarmino, e não foi o único, deixou para a posteridade um pensamento claro e correcto nesta matéria, ao afirmar que eventuais provas científicas do heliocentrismo obrigariam, necessariamente, a corrigir as interpretações tradicionais de algumas passagens da Bíblia 105 ; Bellarmino, fazendo viva voz dos ensinamentos cristãos de sempre, no que diz respeito ao salutar convívio entre Fé e Ciência, é uma prova de peso para a tese de que não há incompatibilidade entre os dois domínios, que buscam ambos a verdade, mas relativamente a aspectos diferentes: a Ciência, a verdade acerca da realidade natural, e a Fé, a verdade acerca da realidade sobrenatural e acerca da salvação;

O caso Galileu não permite que se conclua que a Igreja tenha sempre condenado o modelo de Copérnico desde o seu aparecimento; Copérnico foi um sábio louvado e apoiado pelas autoridades católicas de então, que conheciam a sua obra e o seu modelo; as proibições contra o copernicanismo surgem apenas com o processo contra Galileu, bem depois da morte de Copérnico em 1543;

As teses heliocêntricas defendidas por Galileu, não só eram contestadas pelas autoridades eclesiásticas mas também por muitos cientistas leigos e, de modo geral, pela mentalidade cultural de então; era a tradição do geocentrismo, para quem o heliocentrismo parecia ilógico (supondo-se então que uma Terra em movimento obrigaria a cataclismos imensos), que reagia negativamente ao novo modelo; a aprovação e o apoio científicos ao heliocentrismo vinham, sobretudo, de um número reduzido de matemáticos e astrónomos que estavam bem versados no trabalho de Copérnico, e nas obras dos seus precursores medievais como Buridan, Oresme e outros; no campo instrumental, mesmo com os extraordinários avanços devidos a Tycho Brahe, a reduzida precisão dos aparelhos explica porque razão muitos astrónomos não aceitavam ainda o movimento da Terra;

105 O ensinamento cristão duas vezes milenar é o de que a Bíblia não contém qualquer tipo de erro, seja ele científico ou doutrinal, as interpretações dos estudiosos é que podem estar erradas. É certo que a Bíblia é, antes de mais, um texto salvífico, e não científico: como atesta de forma tão eloquente a célebre frase atribuída ao Cardeal Cesare Baronio (1538-1607), “o Espírito Santo ensina a forma de ir para o Céu e não como vão os céus” (“Spiritui Sancto mentem fuisse nos docere quomodo ad coelum eatur, non quomodo coelum gradiatur”); no entanto, em termos de doutrina cristã, não é correcto afirmar que há erro na Bíblia. As proposições que parecem colidir com dados científicos são, muitas vezes, expressões de uso corrente ou alegórico, o que é perfeitamente natural e nada tem de falso ou enganador.

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o culpado destas inimizades. o pensamento de Aristóteles. e com gosto pela polémica.O processo contra Galileu – Breve cronologia • Para a cultura de então. a não ser numa fase avançada do processo. a ideia da eternidade do universo. pelo forte apoio que recebia do seu círculo de amizades poderosas. o sábio não é. invejas e ódios variados. mas está necessariamente implicado nelas. sobretudo a partir da obra de São Tomás. uma vez que rejeitou uma série de ideias de Aristóteles que não eram compatíveis com o cristianismo. que diz respeito tanto ao espaço como ao tempo). Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 57 . de responder às provocações dos seus adversários. inteligente. • A abordagem científica de Galileu ao copernicanismo tinha falhas. como por exemplo. e de os contestar e refutar. como na vertente intelectual. o que também explica que lhe tivessem sido dirigidas algumas críticas deste teor: Galileu não tinha provas definitivas para o que afirmava. levaram-no frequentemente a não se abster das polémicas. que implicava a ausência de um início temporal (o que contradiz a noção de Criação. é importante tomar em conta estes factos: • Galileu era um sábio brilhante. tanto na vertente social. No que diz respeito ao aspecto humano. pelo facto de que Galileu “esmagava” frequentemente os seus adversários menos dotados. tinha-se tornado tão importante para argumentar filosoficamente a teologia cristã que muitos receavam erradamente que criticar ideias aristotélicas pudesse fazer perigar a dita teologia. como o de que o fenómeno das marés constituía evidência abonatória para a tese do movimento da Terra. gostava de disputas científicas. certamente. Galileu viveu rodeado de inimizades. • A autoconfiança de Galileu. e chegou a propor argumentos errados. esse receio não tinha razão de ser: o próprio São Tomás não absorveu acriticamente todo o pensamento aristotélico.

nem da proposta deste modelo como sendo verdadeiro e não apenas uma hipótese matemática106. em certas mentes de então. ao contrário dos cientistas de então. escrevia sempre em italiano corrente. Cardeal Bellarmino. proporções culturais e sociais dramáticas.O processo contra Galileu – Breve cronologia • Galileu. aquando da fase 1632-1633. frequentemente. o que dava maior alcance e popularidade às suas obras e polémicas. quando surgiu não gerou polémica no mundo católico e só foi lida por especialistas. saltou para ribalta. apesar de Galileu nada ter em comum com eles. tarefa que estava reservada às autoridades doutrinais. essas movimentações eram. com insurreições e conflitos entre grupos de poder que se moviam nos bastidores da sociedade. escrita em latim. como a do milagre no livro de Josué. quando muito. a obra principal de Copérnico. com as de figuras como Giordano Bruno ou Tommaso Campanella (15681639) é disso exemplo. algumas de tipo ocultista ou esotérico e outras de tipo político. • A Igreja vivia um momento propício a receios de heresia e de distorções à doutrina cristã devido à Reforma protestante. tanto leigos como eclesiásticos. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 58 . graças a Galileu. o embate entre Galileu e a Igreja não nasceu necessariamente da proposta do modelo copernicano. mas sobretudo do facto de que o debate sobre a interpretação das Sagradas Escrituras. não pesou pouco o facto de Galileu ter respondido publicamente às provocações que lhe fizeram acerca da interpretação de certas passagens bíblicas. Cosme II de Médicis) ou tinham perdido a confiança do Papa Urbano VIII. isto explica o facto de uma questão científica como a do heliocentrismo ter ganho. • Na sociedade de então. um problema filosófico para a altura. • O desfecho do caso Galileu foi influenciado negativamente pelo facto de que os seus amigos e protectores. no qual o Sol teria parado. vivia-se um ambiente altamente tenso. ou já tinham morrido (Federico Cesi. assim. aos especialistas em hermenêutica sacra. que procurou afastar os bispos e cardeais pró-Habsburgo que contestavam as suas posições políticas na Guerra dos 106 Essa proposta seria. associadas a autores e obras subversivas. que usavam maioritariamente o latim como língua científica. o facto de as ideias de Galileu terem sido tantas vezes comparadas ou confundidas.

dado que a Igreja atribui necessariamente à revelação divina a máxima prioridade gnoseológica. teria acertado na interpretação correcta das Sagradas Escrituras. o que não jogou certamente a favor do sábio. demasiado simétrica. Não se deve prender alguém por causa das suas ideias. Opiniões contemporâneas. Por outro lado. to protect people from the machinations of specialists”. na guerra sucessória de Mântua. Ele deveria ter tido a possibilidade de fazer o seu trabalho científico sem ser impedido. usem da força para impedir a livre afirmação e expressão de ideias. 107 Feyerabend. como a do filósofo ateu Paul Karl Feyerabend (1924-1994). O processo contra Galileu foi. e isto é algo que hoje não se discute. protectores de Galileu. Parece-me que esta leitura. em nenhuma circunstância se justifica que os detentores da autoridade. Certas leituras do caso Galileu tendem a ver nele um paradoxo: Galileu. ou seja. No entanto. o Santo Ofício. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 59 . e venha a contestar. e em particular.O processo contra Galileu – Breve cronologia Trinta Anos. viz. não resistem a uma análise ponderada. os Médicis. muito injusto. em qualquer época histórica. atribuindo também culpas a Galileu que o sábio certamente não merece: Galileu tinha todo o direito de assumir “a priori” a tese da veracidade do heliocentrismo. toda e qualquer afirmação científica ou filosófica que pareça entrar em contradição com a sua doutrina. que afirmou que a Igreja fez bem em condenar Galileu. A privação da liberdade é uma pena muito dura e que foi aplicada injustamente num processo conduzido com muitas irregularidades. estavam do lado Habsburgo. o lado que o Papa contestava nesta disputa. não afirmando uma tese como certa sem provas definitivas. 133: “To sum up: the judgement of the Church experts was scientifically correct and had the right social intention. não sendo teólogo. de forma a proteger a sociedade das intempestividades dos sábios107. p. não é justa porque procura contrabalançar as culpas certas do Santo Ofício. não sendo composto por cientistas. e de procurar depois as provas necessárias para tal tese. Against Method. seguramente. é normal que esta tenha contestado. teria exigido a Galileu que respeitasse regras que hoje fazem parte do método científico. no qual o septuagenário Galileu chegou a ser ameaçado de tortura.

tem que recair no Papa Urbano VIII. para todas as figuras relevantes no processo. a tarefa principal do historiador honesto: procurar compreender verdadeiramente os acontecimentos do passado para melhor agir no presente e preparar convenientemente o futuro. outros são difamadores desconhecidos. e em última análise. uns são conhecidos inimigos de Galileu. para os erros que cometeram. esses são muitos. não há como desculpar os procedimentos das autoridades eclesiásticas de então. para o contexto social. para as suas motivações e desejos.O processo contra Galileu – Breve cronologia Para além do mais. cujas motivações são difíceis de conhecer. para o desenrolar dos acontecimentos. muito ou pouco. inerentes à falibilidade humana. em vez de se fazer hoje um julgamento sumário e injusto à Igreja Católica como um todo. dada em 1633. afinal. que a ratificou. Independentemente de se considerar que Galileu contribuiu. Todavia. Os culpados indirectos. Os culpados directos do caso Galileu são fáceis de identificar: tratam-se das figuras eclesiásticas que tinham então poder de decisão no Santo Ofício. a responsabilidade pela sentença de Galileu. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 60 . e fazer aquilo que é. Galileu foi várias vezes vexado e humilhado publicamente pelas autoridades eclesiásticas. com a sua verve polémica e orgulhosa. há que olhar serenamente para todos os dados. em vez de se procurar metamorfosear o caso Galileu numa suposta prova de incompatibilidade entre Religião e Ciência.

Carta de Galileu a Benedetto Castelli (a acrescentar numa versão posterior) Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 61 .O processo contra Galileu – Breve cronologia VI.

O processo contra Galileu – Breve cronologia VII. Carta de Galileu a Cristina de Lorena (a acrescentar numa versão posterior) Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 62 .

que a terra se mova e o céu esteja fixo108. Foi examinado o Padre Caccini. Mas logo a seguir. não se conseguiu obter o original desta carta. ao contrário Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 63 .. pelo menos errónea in fide. ne moviaris. às palavras Sol. continha muitas proposições suspeitas ou temerárias. que queriam difamá-lo para conduzir o processo na direcção de pretensos erros doutrinais e da pretensa heresia que queriam atribuir a Galileu. et omnino immobilis motu locali. o problema não estava no copernicanismo. terra non est centrum mundi. que parasse. o qual depôs. e considerava que a revolução diária da Terra sobre o seu eixo deveria causar efeitos devastadores para tudo o que existe à sua superfície. que ainda não estava instruído nas leis da inércia e da preservação da quantidade de movimento. 108 Note-se bem. que naquela cidade corria per manus. foram qualificadas como absurdas em filosofia. quando não se tenha o sistema Copérnico. avisando que tal texto fora feito na ocasião de contradizer certas lições feitas na igreja de Santa Maria Novella pelo Padre Mestre Caccini sobre o capítulo X de Josué. trouxe aqui um texto escrito do Galileu. etc. Feitas as diligências. as duas proposições: Sol est centrum mundi. matemático de Pisa. é uma afirmação muito arriscada e sem bases. como expressamente repugnante à Escritura e opinião dos Santos. impresso em Roma pelo mesmo Galileu. Visto depois no livro das manchas solares. para se acomodar à incapacidade [intelectual] do povo. para mais considerando que a ideia de uma Terra móvel era repugnante ao senso comum da época. É verdade que Copérnico tratou o seu sistema de modo matemático e hipotético.O processo contra Galileu – Breve cronologia VIII. Instrução do processo (Abril de 1633) “No mês de Fevereiro de 1615 o Padre Mestre frei Nicolò Lorini. para além das coisas referidas atrás. que os milagres que se dizem ter sido feitos pelos Santos não são verdadeiros milagres. mas apenas disputativas109. chore. [como] atesta a verdadeira teologia110. 109 Importante nota: o Santo Ofício não acredita que estas “propositiones” doutrinais tenham sido professadas por Galileu ou pelos seus alunos. Que a ordem dada por Josué ao sol. o relato diz que a primeira proposição é “formalmente herética” por ser “expressamente repugnante à Escritura”. Nomeou algumas testemunhas. Esta afirmação é compreensível num ambiente de filosofia cristã de forte influência aristotélica. dirigida ao Padre Dom Benedetto Castelli monge cassinense. de cujo exame se deduz que as ditas proposições não fossem assertivas de Galileu nem dos seus discípulos. não se absteve de perverter os seus principalíssimos dogmas. coisa que nunca foi. de ter ouvido dizer outras opiniões erróneas de Galileu: que Deus seja acidente. deve ser entendida [como] feita não ao sol. que realmente ria. et secundum se totam movetur etiam motu diurno. de outro modo. o que é afirmado de modo categórico sem ser demonstrado. E a primeira por formalmente herética. 110 O relato começa por classificar as duas proposições como “absurdas em filosofia” e não em teologia ou em doutrina sacra. Que nas disputas [sobre questões ou ciências] naturais a ela deve ser reservado o último lugar. atribuindo ao próprio Deus condições distantíssimas e contrárias à sua essência. mas sim nas “proposições suspeitas ou temerárias” acerca das Sagradas Escrituras e da sua interpretação. os inquisidores não se deixaram enganar pelos subterfúgios dos inimigos de Galileu. Quer que em certo modo prevaleça nas coisas naturais o argumento filosófico ao sacro. o próprio Copérnico teria sido investigado e julgado por heresia. o qual seguindo as posições de Copérnico. Que a Escritura. A escrita está na forma de letra. dominicano de Florença. a 2ª. sobretudo considerando que o modelo copernicano não fora considerado herético. e contém as seguintes proposições: Que na Escritura Sacra se encontram muitas proposições falsas quanto ao sentido nu das palavras. mas ao primeiro motor.

e avisou-o do que havia a observar na impressão. Disse que no ano 1616 veio a Roma para escutar o que convinha sustentar acerca da opinião do Copérnico acerca da mobilidade da Terra e estabilidade do Sol. e notação do que devia o autor dizer no fim da mesma obra. e que lhe foi notificada de Galileu. e também com o imprimatur de Roma. (…) foi por ordem dele revisto por um seu colega. no qual trata dos dois sistemas máximos. a saber. Têm-se cópias de uma carta escrita pelo Padre Mestre do Sacro Palácio ao Inquisidor de Florença e da resposta do Inquisidor. o qual avisou ter entregue a correcção do livro ao Padre Stefani. Consultor do Santo Ofício. Congregação do Índice. e publicado com o imprimatur daquele Inquisidor. quer por um senso comum refém de uma física ainda incipiente. e concluiu que o Galileu tinha transgredido as ordens e os preceitos que lhe foram feitos (…). concordou com o autor que no acto de o imprimir o fizesse ver folha a folha. do mesmo senhor Cardeal. (…) Em conformidade com isto. S. matéria que tratou várias vezes com o senhor Cardeal do Santo Ofício. absolutamente tomada. o Galileu trouxe a Roma ao Padre Mestre do Sacro Palácio. a não ser que viu o livro impresso em Florença. foi-lhe feito o dito preceito. como se confirma pelo atestado assinado por Bellarmino de que Galileu. de onde fez instância ao Padre Mestre do Sacro Palácio pela faculdade de o imprimir lá. não foi intimado a nada. e advogando o Padre Mestre do Sacro Palácio a si a causa. e constituído no Santo Ofício a 12 de Abril de 1633. e cópia do prefácio ou principio da obra. o Santo Ofício deveria ter reconhecido que o modelo ptolemaico em vigor também deveria ser visto como hipotético. Araceli. deixou-lhe o encargo de a conceder ou não. para maior segurança. e em particular com os senhores cardeais Bellarmino. em boa coerência. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 64 . a 25 de Fevereiro de 1616 ordenou Nosso Senhor ao senhor Cardeal Bellarmino que chamasse diante de si o Galileu e lhe fizesse preceito de abandonar e não tratar de modo algum a dita opinião da imobilidade do sol e da estabilidade da terra. Passou-se depois o negócio ao Inquisidor de Florença. na visita que fez ao Cardeal. e disse tê-lo composto há dez ou doze anos. Depois disto. com o qual se proibiu na generalidade todo o livro que trata da dita opinião do movimento da terra e estabilidade do sol. Sua Beatitude ordenou que se escrevesse ao Inquisidor de Florença [para] que fizesse preceito a Galileu de vir a Roma. o seu livro para que fosse impresso. quer pela filosofia da altura. lhe deu o imprimatur por Roma. do qual não aparece testemunho: assim. Foi depois o autor a Florença. e que a tradição interpretativa das Sagradas Escrituras estava fortemente influenciada.O processo contra Galileu – Breve cronologia Para tanto. acredita ter sido chamado a Roma por [causa de] um livro por ele composto em diálogo. o Padre Mestre do Sacro Palácio não soube mais nada. Considerou o livro. nem se podia sustentar ou defender senão ex suppositione. para abreviar o tempo. e que finalmente da Congregação do Índex foi declarado que a dita opinião do Copérnico. mas não continuamente. e por ordem de Nosso Senhor fez recolher os outros [exemplares]. saiu decreto da S. Bonzi e Ascoli. E tendo-se referido isto e outras faltas à Congregação do Santo Ofício a 23 de Setembro de 1632. da disposição dos céus e dos elementos. presentes o Padre Comissário do Santo Ofício. não abjurou de nada nem prometeu nada formalmente ao Santo Ofício. onde conseguiu fazer diligência. ver por si mesmo o livro. e assim pudesse ajustar-se com o impressor. notário e testemunhas. e que com ele se ocupou sete ou oito anos. A 26 do dito [mês]. no entanto. Em 1630. de onde. e foi-lhe negada. na mesma relação se vê que queria o Mestre do Sacro Palácio. impresso em Florença no ano 1632. o qual reconheceu. era contrária à Sagrada Escritura. Eusébio. 111 Afirmação falsa. Tendo vindo. ao qual prometeu obedecer111.

engenhosos e aparentes discursos de probabilidade. não há dúvida que eu os escreveria de maneira que estes não 112 “de modo algum ensinar”. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 65 . apresentou-o ao Padre Mestre do Sacro Palácio. e outro particulares pelos quais se pudesse formar de mim o conceito de transgressor das ordens da Santa Igreja. [Galileu] faz silêncio ao Padre Mestre do Sacro Palácio acerca do dito preceito. defender ou ensinar quovis modo a dita opinião. quando os queremos refutar. e abordando [o texto] pelo longo desuso quase como escritura nova e de outro autor. Para imprimir o seu livro veio a Roma. e não achincalhá-los em desvantagem do adversário. não conhecendo o meu íntimo. no seu livro sustentado ou defendido a opinião da estabilidade do Sol e da mobilidade da Terra. que a opinião de que a Terra se mova e o Sol esteja parado era contrária à Sagrada Escritura. para observar se contra a minha puríssima intenção. recorria àquela natural complacência que cada um tem da suas próprias subtilezas. no qual não constam as palavras quovis modo docere112. se devem aportar. fossem de tal modo pronunciados. reconheço que eu mesmo incorri num erro tão alheio da minha intenção. (…) pensava reler o meu livro. na mais estreita forma. mas que apenas lhe foi anunciada a dita declaração. licença para imprimi-lo em Florença. me tivesse por inadvertência saído da pena coisa pela qual se pudesse arguir mancha de desobediência. não tendo. Forçado a partir [para Florença]. e mais ainda escrevendo em diálogo. um tomado das manchas solares e outro do fluxo e refluxo do mar. digo. diz que destas não tem memória. pediu-lhe. do que fáceis de ser desembaraçados. E como desculpa da minha pessoa.O processo contra Galileu – Breve cronologia pelo senhor Cardeal Bellarmino tal declaração. consignou-o ao Inquisidor de Florença. mas tendo-lhe [o Padre Mestre] respondido que queria rever de novo o original. visto que nesta [obra] mostra o contrário e que as razões do Copérnico são inválidas. E tendo-o muitíssimo considerado. Com tudo isto. poderia ter motivo para formar conceito que os argumentos apresentados pela parte falsa. que o leitor. e por isso não se podia sustentar nem defender. não me contentando. o qual fez rever [a obra] ao Padre Stefani e depois lhe concedeu licença de impressão. se eu tivesse que escrever agora os mesmos raciocínios. surgem verdadeiramente com atributos de fortes e galhardas valorações aos ouvidos do leitor mais do que o que pareceria conveniente para alguém que os tivesse como inconclusivos e que os quisesse refutar. livremente confesso que ela se me apresentou em vários lugares exposta de tal forma. A 30 de Abril. observando-se as ordens dadas pelo dito Mestre do Sacro Palácio. o qual o fez ver e concedeu-lhe licença para ser impresso em Roma. e não se podendo pelo contágio mandá-lo sem perigo a Roma. [Galileu] pede para ser escutado e diz: «tendo feito reflexão acerca dos preceitos que lhe foram feitos de não sustentar. diz ele. e que eu tinha como intenção refutar. e dois em particular. No pedir desta licença. ainda que com Cícero avidior sim gloria quam satis sit. não me contentando inteiramente com o dizer que no recitar dos argumentos da parte adversária. estimando não ser necessário dirigir-lho. não revisto por mim há 3 anos a esta parte. através de carta. de tal desculpa. no qual se atesta que Galileu não abjurou. e de se mostrar mais arguto que o comum dos homens em encontrar também para as proposições falsas. que mais depressa pela sua eficácia fossem capazes de constranger. mas fundamentado no dito testemunho. [Galileu] Confessa o preceito. a saber. como surge no testemunho que apresentou da sua mão. como no entanto eu intimamente e verdadeiramente os estimava e estimo como não conclusivos e refutáveis.

estou pronto a fazer maior demonstração. depois de certo tempo. e refutá-los naquele modo mais eficaz que me será ministrado por Deus». se for concedido: e a ocasião é oportuníssima. acreditava que bastasse o decreto da Congregação do Índex. cit. não para se escusar do erro. Coloca humildemente em consideração a sua cadente idade de 70 anos. máximas que. onde. a dor de cabeça de dez meses [de duração]. nem tida por verdadeira a dita opinião da mobilidade da Terra e estabilidade do Sol. op. E para maior confirmação de não ter eu nem sustentada. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 66 . prometo repreender os argumentos já referidos a favor da dita opinião falsa e condenada. mas para que isto se lhe atribua. mas a vã ambição. e confesso-o. a saber. se não cumpriu os preceitos que lhe foram feitos. asseguro que no livro já publicado concordam entre si os interlocutores de se deverem. observou aquilo ao que obriga o dito decreto da Congregação. pp. acompanhada de comiserada indisposição. Pede para ser desculpado. porque não tendo memória das palavras quovis modo docere. separados da matéria tratada nas suas conversas. 63-68. encontrar juntos para discorrer sobre os diversos problemas naturais. para mostrar que nesse não se encontram aquelas palavras do preceito quovis modo docere. Para sua defesa. devendo eu acrescentar um ou dois outros dias. de uma vã ambição e de uma pura ignorância e inadvertência.O processo contra Galileu – Breve cronologia pudessem mostrar aparência daquela força da qual essencialmente e realmente sou privado. não a malícia e artifício. as calúnias dos seus inimigos. não tendo tido ocasião de fazer reflexão [sobre elas]. público e em tudo conforme às palavras que constam no atestado por ele apresentado.. apresenta o original do dito atestado do senhor Cardeal Bellarmino. os incómodos sofridos na viagem. que a dita opinião não se devia sustentar nem defender. O que [Galileu] aporta.“113 113 Pagano. [graças] às quais sucumbe a sua honra e reputação. Foi então o meu erro. e para que se lhe dê crédito de que no decurso de 14 ou 16 anos perdeu qualquer recordação [daquelas palavras]. no imprimir do seu livro.

Memorie della Società Astronomica Italiana. John. disponível em [http://www. Janeiro de 2006. em [http://www. 1989. Galileu. Fontes secundárias (estudos): ARTIGAS. G. A referência incontornável no que diz respeito às obras completas de Galileu continua a ser a de Antonio Favaro (1847-1922). em [http://www.org/cathen/06342b. º 4. SHEA.pdf] GERARD. Fontes primárias (documentação): PAGANO.edu]. I documenti del processo di Galileo Galilei. Galileo Galilei. mas apenas os pormenores do processo. Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 67 .htm]. A informação acerca de Copérnico foi retirada do artigo a ele respeitante na Catholic Encyclopedia. New light on the Galileo affair. Editora Rei dos Livros.vatican. Le opere di Galileo Galilei. Lisboa. 1984. n. Metanexus. como não era objectivo desta cronologia abordar detalhadamente a vida e obra de Galileu. Disponível na Internet em [http://asv. G. 1992. AA. em [http://galileo.newadvent.html] CASANOVAS. Sergio. publicada em vinte volumes.washington. The Church’s Most Recent Attempt to Dispel the Galileo Myth. Archivio Vaticano. Esta base foi completada com informação recolhida das restantes fontes referidas. José Maria. artigo para a Catholic Encyclopedia.org/cathen/04352b. artigo para a Catholic Encyclopedia. Nicolaus Copernicus. vol. a obra de Favaro não foi consultada.es/cryf/newlightongalileo. em grande medida.. Mariano.astro. editada em 1909 em Nova Iorque. Juan. Padre George. J. No entanto. Fontes Esta breve cronologia é puramente introdutória.. William.htm].htm]. Vaticano.html] ARTIGAS. The Galileo affair.O processo contra Galileu – Breve cronologia IX.va/es/stud/indici_pubblic/CAV_021. VV. entre 1890 e 1909. COYNE. disponível em [http://www.es/cryf/galileoaffair. Mariano. 60. a cronologia estabelecida no The Galileo Project. 2003 (versão preliminar).unav. em [http://www. HAGEN. 30 de Abril de 2002. Settele and the final annulment of the decree of 1616 against copernicanism.unav. ANDRÉ.newadvent.edu/balick/rome1/coyne.rice. editada em 1909 em Nova Iorque. A sua base é. The Galileo Project.

Bernardo Sanchez da Motta – Abril de 2008 68 . Agradecimentos Um obrigado especial ao Henrique Leitão e ao José Maria André pela paciência e amizade tão bem demonstradas pela leitura da primeira versão deste texto e sugestão de valiosas correcções.O processo contra Galileu – Breve cronologia X.

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