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  • 1. Direito e linguagem
  • 2. Papel da razão no Direito
  • 3. As formas da racionalidade jurídica
  • 4. Lógica apofântica e lógica normativa ou deôntica
  • 5. Lógica normativa e lógica jurídica
  • 6. Âmbito da lógica jurídica
  • 7. Estrutura lógica da norma jurídica
  • 8. Natureza do juízo jurídico-normativo
  • 9. Classificações dos juízos normativos
  • 10. Noção e especificidade dos conceitos jurídicos
  • 11. Classificações dos conceitos jurídicos
  • 12. Conceitos jurídicos fundamentais
  • 13. A hermenêutica como primeiro momento da racionalidade jurídica prática
  • 14. Conceito de hermenêutica
  • 15. Origem e percurso histórico da hermenêutica
  • 16.1. Friedrich Shleiermacher
  • 16.2. Wilhelm Dilthey
  • 16.3. Emilio Betti
  • 17.1. Martin Heidegger
  • 17.3. Paul Ricœur
  • 18.1. Karl–Otto Apel
  • 18.2. Jürgen Habermas
  • 19. Da hermenêutica geral à hermenêutica jurídica
  • 20.1. A Escola da Exegese
  • 20.3. A jurisrisprudência dos conceitos
  • 20.4. O positivismo jurídico
  • 21.1. O Movimento do Direito Livre
  • 21.2. A jurisprudência dos interesses
  • 22.1. A hermenêutica anaIítico-descritiva
  • 22.2. A interpretacão jurídica como análise da linguagem
  • 22.6. A hermenêutica jurídicas de Karl Larenz
  • 22.8. h) Aulis Aarnio: interpretação, justificação e aceitabilidade social
  • 23. Interpretação, aplicação e argumentação

António Braz Teixeira

A Razão Jurídica I
Apontamentos de Filosofia do Direito e Metodologia Jurídica II

Faculdade de Direito da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias 2010/2011

ÍNDICE
CAPÍTULO I – DIREITO, LINGUAGEM E RAZÃO 1. 2. 3. Direito e linguagem ............................................................................................ 1 Papel da razão no Direito .................................................................................. 2 As formas da racionalidade jurídica .................................................................. 3

CAPÍTULO II – A LÓGICA JURÍDICA §1º Conceito e âmbito da Lógica Jurídica: 4. 5. 6. 7. 8. 9. Lógica apofântica e lógica normativa ou deôntica ............................................. 6 Lógica normativa e lógica jurídica ..................................................................... 8 Âmbito da lógica jurídica .................................................................................... 8 Estrutura lógica da norma jurídica .................................................................... 9 Natureza do juízo jurídico-normativo .............................................................. 11 Classificações dos juízos normativos ............................................................. 13

§ 2º O juízo jurídico-normativo:

§ 3º Os conceitos jurídicos: 10. Noção e especificidade dos conceitos jurídicos .............................................. 15 11. Classificações dos conceitos jurídicos ............................................................ 17 12. Conceitos jurídicos fundamentais ................................................................... 19 CAPÍTULO III – A HERMENÊUTICA JURÍDICA § 1º A hermenêutica: 13. A hermenêutica como primeiro momento da racionalidade jurídica prática .... 29 14. Conceito de hermenêutica .............................................................................. 30 15. Origem e percurso histórico da hermenêutica ................................................ 33 16. A teoria hermenêutica: 16.1. Friedrich Shleiermacher ........................................................................... 35 16.2. Wilhelm Dilthey ......................................................................................... 38 16.3. Emilio Betti ................................................................................................ 43 17. A filosofia hermenêutica: 17.1. Martin Heidegger ...................................................................................... 46 17.2. Hans-Georg Gadamer .............................................................................. 51 17.3. Paul Ricœur .............................................................................................. 57 18. A hermenêutica crítica: 18.1. Karl–Otto Apel .......................................................................................... 62

18.2. Jürgen Habermas ...................................................................................... 65 § 2° A hermenêutica jurídica: 19. Da hermenêutica geral à hermenêutica jurídica .............................................. 69 20. A hermenêutica jurídica do séc. XIX: 20.1. A Escola da Exegese ............................................................................... 70 20.2. A Escola Histórica do Direito (von Savigny) ............................................. 72 20.3. A jurisrisprudência dos conceitos ............................................................. 78 20.4. O positivismo jurídico ............................................................................... 82 21. A reacção anti-conceptualista: 21.1. O Movimento do Direito Livre ................................................................... 84 21.2. A jurisprudência dos interesses ................................................................ 87 22. A hermenêutica jurídica contemporânea: 22.1. A hermenêutica anaIítico-descritiva (Alf Ross) ......................................... 90 22.2. A interpretacão jurídica como análise da linguagem (Norberto Bobbio) .... 94 22.3. A Iógica do razoável (Recaséns Siches) .................................................. 96 22.4. A hermenêutica jurídica estrutural (Miguel Reale) .................................. 100 22.5. A interpretação teleológica (Karl Engisch) .............................................. 103 22.6. A hermenêutica jurídica (Karl Larenz) .................................................... 105 22.7. A interpretação jurídica construtiva (Ronald Dworkin) ............................ 110 22.8. Aulis Aarnio: interpretação, justificação e aceitabilidade social .............. 113 23. Interpretação, aplicação e argumentação ..................................................... 116

Direito e linguagem Como objecto ou realidade cultural. Droit. António Ulisses Cortês. na primeira. se articula e desenvolve com base em termos e proposições que exprimem conceitos e princípios próprios. que constituem uma ordem normativa1. fundados e constituídos a partir de uma modalidade especifica de experiência histórica e social. 1958. Com efeito. desde a sua interpretação até à argumentação forense. distinguindo-se. Teoria della norma juridica. Turim. port. como na moral. 303-326.CAPÍTULO I Direito. e. pelas ideias. ou no seu tratamento dogmático pela ciência jurídica. Marcos Keel e Manuel Seca de Oliveira. trad. Lisboa. a linguagem é usada.163-172. pp.. pelo que se objectiva em normas. desde a sua formulação normativa até à sua concretização individualizadora na decisão judicial. Do Direito pode dizer-se. o Direito compartilha com a filosofia e com a literatura o exprimir-se em palavras. Introdução à Filosofia do Direito e à teoria do Direito Contemporânea. dinâmica e criadoramente. na segunda. A. pp. 3ªed.149-159. 1982. Lisboa. Filosofia do Direito. em todos os seus momentos. H. crenças e vivências de cada época e de cada comunidade humana2. . por isso. em A. trad. 1 2 Cfr. pois. a linguagem tem uma função expressiva. Linguagem E Razão 1. de uma e de outra pelo modo ou função com que. 2004. vivificada e actualizada. como criação espiritual do homem destinada a conferir efectividade a determinados valores. Cfr. 82-86 e A. visando comunicar emoções. Sentido e valor do Direito. 2006. de natureza prático-axiológica. 2002. Lisboa. port. discurso esse que se tece. para dar a conhecer a realidade ou dizer a verdade do ser. pp. Raison. o ter na linguagem o seu elemento constitutivo essencial. no Direito. Braz Teixeira. Norberto Bobbio. o seu uso tem uma função descritiva. Schwarz-Liebermann von Wahlendor. ser todo ele linguagem. destinada a ordenar a conduta do homem nas suas relações intersubjectivas.161-197 e Fritjof Haft. Hassemberger. pp. já que nada há nele que possa conceber-se fora da linguagem. enquanto. no acto administrativo ou no contrato. contudo. nele. Politigue. «Direito e linguagem». Arthur Kaufmann. pp. no mandamento religioso ou nos usos sociais. Paris. Kaufmann e W. o Direito consiste sempre e necessariamente num discurso linguístico distinto da linguagem corrente ou da linguagem social e intersubjectiva e dos seus respectivos códigos linguísticos. a função da linguagem é de carácter prescritivo.

com a sua implícita redução da ontologia do Direito aos quadros da lógica formal e a sua visão eminentemente imperativista. da nova retórica de Perelman. Como notou Norberto Bobbio3. Betti – ou nele quase imediatamente projectados (p. 1965. quase simultânea. fazer esquecer que. 1958) e de Stephen Toulmin (Os usos da argumentação. para um novo e diferente entendimento da realidade própria do Direito. através de Emilio Betti (Teoria geral da interpretação. da natureza da razão jurídica. um século depois daquele filósofo e teólogo alemão e a que M. por Theodor Viehweg (Tópica e Jurisprudência. e da retórica clássica. porém. Hans Georg Gadamer (Verdade e método. consideravelmente ampliada e revista. Heidegger deu renovador impulso em Ser e Tempo (1927). 1960) e prosseguido. 1978. relativamente à lógica apofântica. Teoria da interpretação. representou um novo folgo ou um momentâneo renascimento do positivismo jurídico. 1958). Turim. de Alf Ross (1958). se assistiu à redescoberta da tópica. Ao mesmo tempo. da Teoria Pura do Direito. para que Wilhelm Dilthey havia já concorrido. na mesma época. nos anos seguintes. a publicação. p. nascidos dentro ou a partir da reflexão sobre o Direito – como foi o caso da tópica jurídica de Viehweg. de Robert Alexy. da lógica deôntica ou normativa de G. movimento secundado pelo próprio Bobbio (Teoria da norma jurídica. 2 . de Herbert Hart (1961). pelo inesperado interesse suscitado pela obra e pelo pensamento de Bentham. contribuíram. Este facto indisputado não deve. da 2ª edição. e das 3 Il positivismo juridico. 1976 e Do texto à acção. de Sobre o Direito e a Justica. 1978). voluntarista e legalista do mundo jurídico. foi retomado o intento de Schleiermacher de construir uma hermenêutica geral ou uma teoria geral da hermenêutica.e.2. 1986). Estes três movimentos. 1955). praticamente simultâneos e em grande parte convergentes. Papel da razão no Direito I. a Teoria da argumentação jurídica. Perelman (Tratado da argumentação. de Hans Kelsen (1960) e de O conceito de Direito. por parte de Ch. 1969. 1953). Kalinowski ou da hermenêutica de E. O conflito das interpretações. da especificidade da lógica normativa ou deôntica. decisivamente.1. 1960) e Paul Ricœur (Da interpretação. 1958 e Teoria do ordenamento jurídico.

a decisão judicial dos litígios. actos todos eles de natureza fundamentalmente problemática. vieram chamar a atenção para que a vida do Direito é. a aplicação efectiva do Direito. de concretização singular e individualizada dos seus preceitos. enquanto se exprime através de uma proposição normativa e postula determinado dever-ser. Daqui decorre.e. Assim. que há lugar a distinguir. aporética ou casuística. i. deôntica e não já apofântica. pautando-se. entre. gerais ou universais. que cuida apenas de categorias e conceitos formais. 3. as estruturas lógico-formais do Direito – quer da norma jurídica. de base intuitivoemocional. por outro. antes de mais. porquanto só uma lógica do razoável ou um pensamento tópico ou tópico-retórico pode conduzir-nos na tarefa de vivificação do direito. vida e esta não decorre (nem se processa) segundo puros processos ou esquemas lógico-dedutivos mas de acordo com as exigências da própria vida e do concreto agir humano nas suas relações intersubjectivas. b) O da racionalidade prática. visando alcançar certos fins na ordenação da conduta e da convivência. que. que é o campo da lógica jurídica. então. quanto ao primeiro caso considerado. por um lado. há dois essenciais domínios distintos: a) O da racionalidade lógica. Em conjunto e em diversa medida.particularidades do raciocínio prático-argumentativo usado pelos juristas na vida quotidiana do Direito. pois se trata de juízos de dever-ser e não de juízos de ser. se. de realidade ou de verdade. de natureza formal. são válidos e adequados os processos e categorias da lógica formal. tais movimentos inovadores ou restauradores de verdades esquecidas. quer dos conceitos jurídicos formais. isso mesmo. como toda a lógica.. independentes de valores ou conteúdos valorativos. II. no que respeita ao papel da razão no Direito. engloba três momentos ou três instâncias diferentes mas complementares e indissociáveis: 3 . que devem reger-se ou ordenar-se por critérios de justiça. As formas da racionalidade jurídica I. a sua individualização no caso concreto. no que se refere ao segundo não vale este tipo de lógica nem são adequados os processos da razão dedutiva. independentes de conteúdos ou critérios valorativos – e. no campo da racionalidade jurídica. por valorações. por sua vez. O que acaba de referir-se revela que. constantemente. a aplicação administrativa da lei ou o seu acatamento espontâneo.

tendo em vista encontrar os fundamentos e os critérios das decisões. ou do Direito. cit. do devido ou do justo do caso concreto5.o teleológico-dialéctico. Assim. . inclui uma essencial dimensão criadora ou inovadora: a definição do direito. México. pelo que implica que interpretação e aplicação devam ser sempre consideradas como tarefas complementares e indissociáveis.o tópico-retórico. o processo de aplicação das normas contém sempre algo de novo. . pp. p. b) A hermenêutica jurídica envolve sempre uma mediação ou um momento valorativo que. implica mais um juízo estimativo do que um juízo cognitivo4. partindo do problema ou do caso. por um caso singular carecido de solução ou de decisão. com o seu carácter meramente especificante.. que não se encontra contido na norma geral. Castanheira Neves. pois tem um objectivo normativo e uma natureza constitutiva. Recaséns Siches. d) A aplicação das normas gerais e abstractas implica sempre e necessariamente um processo de individualização e concreção da norma. as quais seriam correctas na medida em que se traduzissem na inserção dos casos a decidir nesse mesmo sistema normativo. Deste modo. Nueva filosofia de la interpretación del Derecho. 1993. 185. 4 . Coimbra. Metodologia jurídica. ob. o momento ou a instância hermenêutica procura determinar o sentido actual e concreto da prescrição normativa respeitante ao caso decidendo. II. p. c) A decisão jurídica não se esgota no momento hermenêutico ou na concretização hermenêutica. Recaséns Siches. independente de situações concretas mas sim uma interpretação que visa a aplicação e parte sempre e é suscitada por um problema concreto. 1956. normativa e judicativa. Com efeito. 142 e A. pois: a) A hermenêutica jurídica visa uma decisão justa e não uma compreensão correcta. a hermenêutica jurídica não se reduz nem se identifica com um pensamento meramente interpretativo ou cognitivo das fontes de Direito consagradas ou admitidas pelo sistema normativo ou pela ordem jurídica vigente. 76-77. exige uma certa autonomia constitutiva do Direito.o hermenêutico.. não há uma interpretação genérica e abstracta da lei. 4 5 L.

1968) ao pensamento tópico de Theodor Viewheg. que dá efectividade ao Direito. então. há quarenta anos. na lógica aristotélica. enquanto unidade totalizante normativa. Arch. Daqui resulta. phil. projecção. em Fernando Gil (org. "La logique comme théorie de la controverse". b) A Hermenêutica Jurídica. Droit. do que. 1990. que o sistema jurídico. O segundo momento corresponde ao domínio da teoria da argumentação ou da razão argumentativa. A circunstância de a aplicação ou concretização material do Direito implicar sempre uma relação dialéctica entre o sistema jurídico e o caso concreto. já que um e outro mutuamente se reclamam e completam. sucessivamente. b) Pelas normas prescritas. Finalmente.). no domínio do Direito. que conferem positividade ao Direito. nos quais se funda a validade material e formal do Direito. compreende quatro estratos ou níveis distintos. positivos e supra-positivos. d) Pela doutrina ou dogmática jurídica. por outro lado. se chamou raciocínio dialéctico ou raciocínio prático e que compreende duas partes essenciais: a teoria da controvérsia e a teoria da prova6. embora entre si relacionados num todo que os integra. opôs o pensamento sistemático de Claus-Wilhelm Canaris (Pensamento sistemático e conceito de sistema na Ciência do Direito. c) A Retórica Jurídica ou Teoria da Argumentação Jurídica. aquela que visa persuadir mediante razões ou argumentos. constituídos: a) Pelos princípios normativo-jurídicos. V. no terceiro momento. constituindo uma unidade. IV. 1966 e "La logique de la controverse dans la procedure judiciaire". vol. 6 A. c) Pela jurisprudência. na dialéctica entre o sistema jurídico e o caso concreto. XI. retira grande parte do sentido ao debate que. necessariamente: a) A Lógica Jurídica. enquanto teoria (formal) do juízo lógico-normativo e enquanto tratado dos conceitos jurídico-formais. Giuliani. Controvérsias científicas e filosóficas. que são. efectua-se a concretização material do Direito. Lisboa. 5 . Note-se. que uma completa teoria da razão jurídica ou da racionalidade jurídica engloba.III.

deve distinguir-se a chamada lógica apofântica da lógica normativa ou lógica das normas.CAPÍTULO II A Lógica Jurídica §1º Conceito e âmbito da Lógica Jurídica 4. Deste modo. elas são válidas ou inválidas. Enquanto as proposições próprias da lógica apofântica têm como elemento relacionante o verbo ser e se pautam pelo valor ou princípio da verdade. quase exclusivamente. de que. por lógica deôntica. von Wright e por Georges Kalinowski. enquanto que. Com efeito. O primeiro considera que a analogia entre aqueles dois valores ou princípios carece de base. admitida pela generalidade dos autores. está ou não incluído na extensão desse outro conceito. as apofânticas e as normativas. na normativa. estatui uma relação entre dois ou mais conceitos. que trata das categorias ou formas fundamentais do pensamento e da sua expressão através da linguagem. a noção de validade 6 . ao passo que. A distinção entre as duas espécies fundamentais de proposições que a lógica formal compreende. foi contestada por G. com base na distinção entre verdade e validade como atributos essenciais de umas e de outras. na lógica deôntica. no plano das normas. o pensamento lógico até há meio século. Segundo Von Wright. A proposição. ao passo que a primeira. na lógica apofântica diznos que um conceito convém ou não a outro conceito. também designada. II. enquanto a verdade é absoluta. o equivalente da verdade. modernamente. se refere ao mundo do ser e é descritiva e predicativa. as proposições são verdadeiras ou falsas. as da lógica normativa têm como elemento relacionante o dever-ser e como valor ou princípio fundamental a validade. pois a validade não é. na lógica apofântica. se ocupou. No domínio da lógica formal.H. a segunda reporta-se ao plano de dever-ser e é relacional e prescritiva. que é sempre uma forma de síntese de dois ou mais conceitos. desde Aristóteles. Lógica apofântica e lógica normativa ou deôntica I.

maxime o da não contradição. também. Una investigación lógica. a priori. que as normas morais e jurídicas possam ser verdadeiras ou falsas. por isso. parece não dever esquecer-se que. Assim.. no plano da mera lógica deôntica. porém. 7 8 Norma y acción. à relação de conformidade de qualquer norma com a forma e o processo de formação estatuído numa norma hierarquicamente superior. mais pertinente do que a de von Wright. uma garantia ontológica de verdade. apesar de nela figurar o verbo dever. Deste modo. por isso. que esta objecção seja decisiva. 1970. sendo. legítimo atribuir-lhes sentido e lugar paralelo nos dois ramos fundamentais da lógica formal. o único critério de validade a que pode atender-se é de natureza formal e se refere.e. consistindo em enunciados cuja verdade é. Pedro Garcia Ferrero. porquanto a proposição apresentada no exemplo de Kalinoski. exclusivamente. III. igualmente. 1967 e La logique des normes. porquanto uma norma será valida quando o é em relação a outra norma superior que permite a sua promulgação ou a sua existência e não se refere. trata-se. Não se afigura. no domínio lógico. contrário. se as proposições normativas. é uma proposição apofântica e não normativa. à coerência lógica das proposições e ao seu respeito pelos princípios lógicos fundamentais. 1972. Le problème de la verité en morale et en droit. em seu entender. Se é certo que. de natureza formal e se refere. porém. a noção de verdade relevante é. como. também as apofânticas não têm. a proposição "Carlos deve pagar a sua dívida" só será verdadeira se. a validade desta. com expressa exclusão de qualquer critério axiológico-material de validade.é relativa. Por seu turno. se reportam apenas a um critério formal de validade. Carlos dever pagar uma dívida 8. tanto a verdade das proposições apofânticas como a validade das normas ou das proposições normativas terão igual ou equivalente valor ou significado no plano lógico. de facto. p. Esta objecção não se afigura. maxime a Constituição. tão só. segundo o lógico polaco. Assim. mas apenas a sua existência7. no estrito domínio lógico. sequer. pretensamente absoluta. sejam verdadeiras ou falsas. puramente lógico-formal. pelo. Lyon. 7 . efectivamente. Kalinowski pretende que a distinção entre dois tipos de proposições baseada na contraposição entre a verdade das apofânticas e a validade das normativas não pode ser acolhida porque. cast. Madrid. não só nada exclui. tudo aponta para que. Com efeito. no campo das proposições apofânticas. Paris. trad.

o elemento decisivo não é a verdade ou a falsidade desta proposição mas sempre e só a sua validade formal. A importância primordial que. Gardella. Kalinowski. a contrario. ocupa o raciocínio jurídico. O âmbito da lógica jurídica apresenta-se. já que nele se integra. assim. Kalinowski. Arch. mais vasto. II. 1966. não só porque esta abrange outros tipos de normas. J. na lógica jurídica. ao decisivo papel que os elementos valorativos. Ulrich Klug. em especial dos argumentos a que este mais frequentemente recorre como seus próprios (por analogia.. México. sua natureza e suas espécies. Lógica jurídica (1951). tópicos e retóricos desempenham no raciocínio jurídico9. Lógica del juicio jurídico. alem das jurídicas. id. do ponto de vista lógico. Lógica del concepto jurídico. Phil. levou a que se tenha pretendido que aquela mais não deva ser do que uma teoria das formas do raciocínio jurídico. XI. "De la spécificité de la logique juridique". Verifica-se. no entanto. C. Garcia Maynez. não a estrutura apontada no exemplo de Kalinowski. Droit. por absurdo) já que aqueles se circunscreve a teoria das regras lógicoformais que se empregam na aplicação do Direito em que consiste a lógica jurídica10. 8 . mas antes a seguinte: "Se Carlos assumiu o compromisso de pagar. 5. 1990. e. equivalente a esta outra: "Carlos é devedor". 1959 e Lógica del raciocinio jurídico. 9 10 11 Cf. 1965. 1955. Paris. Bogotá. como as morais e as religiosas. ainda. E. Âmbito da lógica jurídica I. bem como dos conceitos jurídicos11. como também porque apresenta elementos individualizadores no que respeita à estrutura das proposições normativas. id.. o estudo da estrutura lógica das normas ou das proposições normativas. vol. Lógica normativa e lógica jurídica A lógica jurídica não se identifica com a lógica normativa. trad. 6.claramente de uma proposição enunciativa e não prescritiva. de pleno direito. G. por maioria de razão.1964 e G. que. cast. aos tipos de conceitos que emprega ou a que recorre e ao grau de definição que deles dá. e principalmente. Quanto à teoria de argumentação como elemento fundamental do raciocínio jurídico. Uma verdadeira proposição normativa teria. deve pagar a sua dívida". dada a sua especificidade e a sua natureza eminentemente tópico-retórica. Introduction à la logique juridique.

a constituir uma única proposição. Jules Lachelier. 1907. melhor numa teoria da retórica jurídica do que no âmbito da lógica normativa formal12. deixando o tratamento da problemática referente ao raciocínio jurídico como raciocínio prático. Cfr. talvez. Paris. obrigatório e proibido. revestindo. Perelman. ou seja. ou a determinar a perda ou a aquisição de um direito ou a extinção de um dever (p. no entanto. resultantes da verificação de pressupostos fácticos. ou prescritiva. Diferentemente do que ocorre nas proposições próprias da lógica apofântica e predicativa. 39 e segts. 3ª ed.. através da qual se ligam duas proposições simples ou categóricas. Sendo uma proposição composta ou relacional13. vamos concentrar a nossa reflexão nas questões relativas à estrutura lógica da norma jurídica. limitando-se a formular definições. e à argumentação jurídica para quando nos ocuparmos da retórica jurídica. assim. diz que se ocorrer um facto que. Études sur Ie syllogisme. triparte-se por permitido. casos há. 355-358. estar obrigado a ou estar proibido. de natureza tópico-retórico. 12 13 14 Ch. 9 . a norma jurídica reveste a natureza de uma proposição relacional. trad. pp. Logique juridique.e.caberá. § 2º O juízo jurídico-normativo 7.. a cópula ou elemento relacionante não é aqui o verbo ser mas o verbo dever-ser. por isso então carácter dispositivo14. Nouvelle rhétorique. Do ponto de vista lógico. natureza meramente enunciativa. à natureza do juízo jurídiconormativo e às espécies que neste é possível surpreender e à teoria do conceito jurídico. o qual pode assumir três modalidades deônticas diferentes: ter a faculdade de. prescrição ou usucapião). Se esta é a estrutura geral das proposições jurídico-normativas. 1976. pp. Metodologia da ciência do Direito. um sujeito deve ter ou omitir tal ou qual conduta relativamente a outro sujeito. Paris. 1997. Assim. que passam. i. Karl Larenz.e. Lisboa. José Lamego. assumindo. em que elas não revestem uma estrutura imperativa. a norma jurídica estatui relação entre sujeitos (de direito) e relação entre tipos de acção ou de conduta. port. Estrutura lógica da norma jurídica I. por meio do pressuposto a ele referido. então.. no plano da lógica jurídica. entre no mundo jurídico.

se usar a expressão verbal dever-ser para referir a necessidade ou a possibilidade de um acontecer regido por leis naturais e não por leis normativas. se a relação que.e.. p.II. Lógica jurídica. apresentam. que descreve uma possível situação fáctica. permitida ou proibida. Refere-se a primeira ao facto de. Finalmente. constituído pelo verbo dever-ser. podendo as proposições simples que a compõem constar de artigos diferentes15. referido à conduta como obrigatória. 1976. respectivamente. frequentemente. denominados. natureza lógica diferente. É o que ocorre quando. se estabelece entre os dois membros da proposição normativa é meramente formal. São Paulo. a terceira diz respeito ao facto de nem sempre a proposição normativa se encontrar formulada ou contida integralmente num único artigo da lei. constituindo um juízo enunciativo. i.e. Cumpre notar que.. na proposição concreta do direito positivo reveste já a natureza de nexo axiologicamente instituído. Além do elemento relacional. o segundo membro daquela proposição (consequência) é prescritivo. Sendo os membros da proposição relacional e composta que é a proposição normativa duas proposições simples. ou do imperativo. 15 Lourival Vilanova. pressuposto ou antecedente e consequência. para afastar dúvidas ou interpretações deficientes. 94-95 e 133-114. III. frequentemente. quer presente quer futuro. seja um facto já integrado no universo jurídico. na línguagem quotidiana. seja um facto natural. prescreve que a relação se constitui entre sujeitos (de direito) com a verificação da descrição contida naquele primeiro membro. IV. A segunda observação destina-se a chamar a atenção para que. a proposição normativa é formada por dois outros elementos essenciais. pois todo o Direito é sempre tecido de valorações e constantemente as implica e pressupõe. Com efeito. 10 . as proposições normativas recorrem aos modos verbais do indicativo. pp. contudo. Três observações cumpre fazer a este respeito. se diz "amanhã deve chover". enquanto o primeiro membro da proposição normativa (pressuposto ou antecedente) é descritivo. no domínio da lógica jurídica.

166-169.212. que os seus membros possam ser ambos verdadeiros. 333 e segts. a lógica seja. cit. p. Fritz Schreier. pp. Kelsen. por Legaz y Lacambra19 e Irineu Strenger20. Natureza do juízo jurídico-normativo I. os juízos conjuntivos e os juízos condicionais. São Paulo.. como repetidas vezes se notou já. Cf. neste ponto. pp. mutuamente se excluem. importa apenas considerar três: os juízos disjuntivos. 11 . são condicionais os que estabelecem uma (antecedente) da qual depende um condicionado (consequente).Daí que. Sendo juízo hipotético. analiticamente. La teoria egológica del Derecho. 1999. ob. Garcia Maynez. 383 e segts. são disjuntivos os juízos cujos membros. Coimbra. pois estas inscrevem-se num domínio que ultrapassa o estritamente lógico. o juízo composto que estabelece uma relação de dependência entre duas ou mais proposições através de uma partícula conjuntiva. entre outros. 0 que acaba de ser dito sobre a estrutura e os elementos do juízo jurídiconormativo abre seguro caminho ao adequado esclarecimento da sua natureza lógica. como. enquanto Carlos Cossio18. pp. no entanto. 8. o dos conteúdos axiológico-materiais das normas. Assim. para o nosso intento. insuficiente e inadequada para a construção e a aplicação do Direito. Lourival Vilanova. pp. Filosofia del Derecho. 1940. Destas. parece inegável que o juízo jurídico-normativo ou a proposição normativa reveste a natureza de juízo hipotético. 17 condição II. Lógica Jurídica. Klug ou Garcia Maynez.. Logica del juicio juridico. seguido. que estão para além das puras formas lógicas que. Lógica. e A. não nos esclarece inteiramente sobre a sua natureza lógica. unidos pela conjunção ou. o haviam já visto Stammler. e. pp. contra as pretensões logicistas de algum positivismo jurídico. 223 e segts. só por si. considerava que o juízo normativo apresentava 16 17 18 19 20 Cf. Qualquer destas três naturezas tem sido atribuída ao juízo jurídiconormativo. Com efeito. Isto. uma vez que o juízo hipotético é um género que engloba diversas espécies. 117 e segts. nelas se podem surpreender ou isolar16. Miranda Barbosa. são conjuntivos os que negam a concorrência simultânea de dois predicados no mesmo sujeito. i.

Engisch22 considerava-o como juízo condicional. por isso. Jorge Millás21 entendia que ele revestia a natureza de juízo conjuntivo e K. em ambos os casos. B deve ser e se B não é. O absurdo a que. demasiado preocupada em salvar o que considerava positivo e inovador na visão de Cossio. Assim. port. nem a primeira nem a segunda destas qualificações lógicas atribuídas ao juízo normativo parece de aceitar. Entendia o professor chileno que a norma jurídica é um complexo proposicional de carácter conjuntivo. conduziria. dever-ser S». revela. inevitavelmente. O evidente artificialismo desta fórmula. Na verdade. coordenados conjuntivamente. ser ambos ao mesmo tempo. pelas razões que passam a indicarse. 12 . pois o deverser da norma primária e o dever-ser da norma secundária implicam-se mutuamente. no 21 22 El problema de las formas de la proposición juridica. ou seja. trad. Lisboa. uma das quais excluiria a outra. Santiago de Chile.natureza disjuntiva. à destruição da própria norma jurídica. necessariamente. involuntariamente. seríamos conduzidos parece comprovar não haver aqui qualquer juízo disjuntivo. Contudo. claramente dependente do esquema disjuntivo proposto pelo jurisfilósofo argentino. sem incorrer no erro daquela. esta espécie de juízos a exclusão de um dos membros componentes do juízo. pelo que. Também a tese que vê na norma jurídica um juízo conjuntivo. o juízo normativo obedeceria ao seguinte esquema: «Se A é. não podendo. implicando. deve lembrar-se que. No que respeita à tese sustentada pelo fundador da escola egológica de que a norma jurídica constituiria um juízo disjuntivo. ou a norma secundária excluiria a primária. João Baptista Machado. nenhum deles podendo ser sem o outro. ou a norma primária excluiria a secundária.1965. cuja natureza lógica pretende explicar. 1954. Introdução ao pensamento jurídico (1956). levando a que a conduta já não fosse devida. Deste modo. a compreensão do juízo normativo como complexo proposicional ou como proposição compôsta. se for devido o primeiro. e não haveria sanção para o incumprimento do dever. III. não o será o segundo. que o decisivo. se não afigura adequada. pois se traduz na coexistência de dois elementos na proposição normativa. a disjuntiva aqui seria de duas possibilidades de dever. IV.

Como adverte Garcia Maynez25. qualidade. os juízos enunciativos podem ser universais ou particulares. ob. 89. Assim. 25 Idem. as proposições normativas dividem-se em genéricas e individualizadas. Classificações dos juízos normativos I. Garcia Maynez. Dizem-se positivas as que permitem certa conduta. por seu turno. assunto de que acabamos de ocupar-nos no número precedente. cit. p.24 III. considerados do ponto de vista da qualidade. as 23 24 A. ob. cit. Com efeito. Cabem no primeiro grupo as que obrigam ou concedem faculdades a todos os sujeitos compreendidos na classe designada pelo conceito-sujeito. Daí concluirmos que. o que determina a qualidade de uma norma não é a circunstância de prescrever uma acção ou proibir uma acção. é o seu carácter condicional – bem denunciado nos dois condicionais (se) nela usados – e não a sua pretensa natureza conjuntiva.. a norma jurídica constitui um juízo hipotético condicional e não um juízo disjuntivo ou conjuntivo.juízo normativo. p. 107. do ponto de vista lógico. 99 e segts. Pertencem à primeira categoria aqueles em que o predicado se afirma ou nega relativamente a todos os objectos compreendidos na classe designada pelo conceito-sujeito. são negativas as que proíbem certo comportamento (acção ou omissão). cit. Os juízos podem classificar-se com base nas categorias de quantidade. Miranda Barbosa.. que tanto pode consistir numa acção como numa omissão. modalidade e relação. 9. 13 . integram-se no segundo as que obrigam ou concedem faculdades a certos membros individualmente determinados daquela classe. o juízo diz-se particular23. p. Do ponto de vista da qualidade. Quando consideradas do ponto de vista da quantidade. 214 e Garcia Maynez. Esta última categoria diz respeito à natureza do próprio juízo normativo.. as proposições normativas podem ser positivas ou negativas. ob. pp. II. nos casos em que o predicado não é referido à totalidade mas apenas a uma parte dos objectos designados pelo conceito-sujeito. Cf.

14 . respectivamente. Sintetizando o que antecede. as proporsições enunciativas podem consistir numa afirmação do ser. cit. porque sempre estabelecem condicionalmente um dever ou concedem. o juízo enunciativo será. obrigatória e lícita. então. são sempre juízos apodícticos. IV. ob. V. cit. 158 e segts. No que diz respeito ao modo ou à modalidade. A. pp. de uma possibilidade do ser ou da necessidade do ser. ob. pois a omissão dessa conduta é. que o objecto das normas positivas é uma conduta jurídicamente lícita e o das negativas é um proceder juridicamente ilícito. conforme afirme o ser ou um destes seus modos de ser. Deste modo. Miranda Barbosa. simultaneamente. das normas jurídicas é o facto de permitirem ou proibirem uma acção ou uma omissão e não o de prescreverem acções ou imporem omissões. Assim. uma vez que a permissão ou a obrigação é sempre de índole necessária26. o que condiciona a qualidade. pp. Daqui decorre. positiva ou negativa.que prescrevem a omissão da conduta juridicamente proibida são positivas. Já quanto aos juízos normativos. 205 e segts e Garcia Maynez. também condicionalmente. problemático ou apodíctico. assertório.. um direito. teremos então: genéricos Quanto à quantidade individualizados positivos Quanto à qualidade Juízos normativos negativos Quanto à modalidade – apodíctivos Quanto à relação – hipotéticos condicionais 26 Cf..

no objecto do conceito. ob. pelo que importa considerar agora a teoria do conceito jurídico naquilo que apresenta de específico e próprio. é uma apreensão do objecto pela consciência. que apreende. do mesmo modo que se distingue da representação mental do objecto e da sua definição. enquanto juízo ou proposição lógiconormativa. Referindo-se embora sempre a um objecto. no entanto. Itinerários filosóficos. é o pensamento do objecto. 11-13. Noção e especificidade dos conceitos jurídicos I. Miranda Barbosa. É ainda habitual distinguir. pp. enquanto intelectual. II.§ 3º. Todo o conceito se reporta a um objecto. Os conceitos jurídicos 10. ao passo que. envolve sempre uma relação entre conceitos. II. imutáveis nos seus arranjos. A. contudo. a qual constitui sempre um juízo e não um conceito. dele afirmar ou negar alguma coisa. o conceito é a apreensão simples. O Ser e os Seres. o conceito é um resultado da actividade pura do pensamento. vol. representativo de um objecto ou o objecto pensado. Quando considerado subjectivamente. é sempre conceito de um objecto. considerado objectivamente. sendo o primeiro o objecto na sua totalidade e integridade e o segundo a sua consideração tendo apenas em conta algum. é um modo de ser ideal. 15 . Sendo uma apreensão essencial de um objecto pela consciência. Acabamos de ver que a norma jurídica. sinteticamente. Do ponto de vista lógico.cit. pp. como é também distinto da palavra ou do termo que o diz. 69-82 e Manuel Barbosa da Costa Freitas. o conceito é um produto esquemático da abstracção. que não é mais do que a sua expressão convencional e simbólica.. com o qual. 27 Cf. que distinguem um determinado objecto e o individualizam relativamente a todos os outros. Lisboa. o conceito distingue-se ou opõe-se à percepção ou intuição e. certas notas singulares no seu conjunto. é distinto de toda a representação sensível. o objecto material e o objecto formal. Enquanto representação intelectual e abstracta de um objecto. o conceito não se confunde nem coincide com ele. sem. 2004. ou alguns dos seus elementos atributos ou notas27. se não identifica nem confunde.

Em qualquer conceito é possível encontrar dois atributos essenciais. Las ciencias de la cultura. o terem um fundamento normativo e o possuírem uma referência axiológica. Lógica del concepto jurídico. para vir a coincidir com o das ciências naturais. cujos conceitos são individualizadores ou ideográficos29. trad. pois aí não atendem à sua irredutível individualidade. válidos para todas as situações do mesmo tipo e não de consideração individualizada e única de um caso ou de uma situação singular. id. Como notou Garcia Maynez. os conceitos jurídicos são sempre conceitos de classe. os conceitos jurídicos têm ainda como atributos específicos.III. os conceitos jurídicos têm carácter genérico. Rickert. Também o precedente. 1951. mesmo quando fazem referência a um único objecto. características que partilham com as restantes ordens normativas. M. 1943 e E. que a diversa estrutura lógica das normas jurídicas condiciona e determina os conceitos.79-87. Assim. comuns a todos os conceitos. o seu fundamento normativo e a sua referencia axiológica30. e a conexão com outros conceitos. IV. diversamente do que acontece nas restantes ciências culturais. visto estarem sempre referidos a determinadas classes ou a objectos que delas fazem parte ou nelas se integram. Garcia Morente. tanto normativos como dogmáticos com que lida o Direito28. visto referirem-se sempre a todos os sujeitos de uma classe. pp. 28 29 30 Garcia Maynez. tem o sentido de uma aplicação de princípios gerais.e. México. a determinação do seu conteúdo. Wenceslao Roces. cumprindo não esquecer. resultantes de o Direito ser um objecto ou uma realidade cultural de natureza normativa. a cujo universo epistemológico pertence. no entanto. Para além destas características genéricas. Cabe ainda ter em conta que as definições dos conceitos jurídicos tanto podem ser explícitas ou directamente normativas como implícitas ou dogmáticas. ob. pp..cast. mas com uma dupla e significativa diferença. 48-59. H.. no Direito anglo-americano. Ciencia cultural y ciencia natural. i. Garcia Maynez. trad. cujos elementos se reportam ao seu objecto formal. cast.cit. Estas características próprias do Direito fazem que o seu método de conceptualização se distinga do das restantes ciências culturais. 16 . Cassirer. que decorre dos atributos específicos dos conceitos jurídicos.

e. Classificações dos conceitos jurídicos I. esta classificação não deve confundir-se com a que distingue os conceitos jurídicos próprios ou específicos do Direito dos conceitos juridicamente relevantes. também os conceitos jurídicos podem classificar-se com base nas categorias de qualidade. por isso. envolvendo.. pp. nessa medida. Embora dela próxima. 31 Idem. sindicato dos metalúrgicos). os conceitos jurídicos podem ser conceitos lógico-jurídicos ou conceitos jurídicos puros. a de pertença a uma classe determinada. nem genérico nem especifico.e. Considerados do ponto de vista da qualidade ou da sua natureza. Os primeiros são os conceitos jurídicos fundamentais. já que estes são conceitos referidos a classes. quantidade. III. têm uma essencial componente histórica. i. e conceitos jurídicos impuros ou empíricos. Por seu turno. 11. aqueles que o Direito recebe da linguagem comum ou corrente e a que atribui significados ou valor jurídico. plurais ou universais. os conceitos jurídicos podem ser singulares. Dizem-se singulares os conceitos jurídicos referidos a um unico objecto. 17 . o que os torna distintos dos conceitos genéricos e específicos. são universais os conceitos jurídicos que abrangem todos os membros de uma classe.quando o conteúdo dos conceitos é determinado de acordo ou a partir de um conjunto de axiomas que lhe são aplicáveis31. relação e extensão. Por sua vez atendendo à quantidade. Tal como os juízos normativos. são espácio-temporalmente determinados. Por último. sempre uma consideração qualitativa. consequentemente ser genéricos ou específicos. conceitos de certo modo a priori. II. são plurais os conceitos jurídicos que designam ou se referem a vários objectos quando a sua reunião é meramente de carácter numérico e independente de considerações qualitativas.. ainda que tal objecto seja colectivo (p. 86-87. comuns a toda e qualquer ordem jurídica e condição de toda a experiencia jurídica e. podendo. enquanto os segundos apresentam uma dimensão ou uma origem empírica.

embora. b) compatíveis ou incompatíveis. 88. os conceitos jurídicos são: a) dependentes ou independentes.e. Ob. pp. cit. cit. São exemplo de conceito independente o de "objecto do dever jurídico" e de conceito dependente o de "pagar a coisa ao vendedor". são correlativos os conceitos reciprocamente dependentes. como a que existe. ob. 18 . c) correlativos. p. 137. como salientou Engisch. Dizem-se indeterminados os conceitos jurídicos cuja extensão é. pp. ob. Por último. d) supra ordenados ou subordinados. são as seguintes as classificações dos conceitos jurídicos: lógico-jurídicos Quanto à qualidade empíricos ou impuros 32 33 Cf. em larga medida.IV. Sob o ponto de vista da relação em que podem encontrarse entre si.137. V. Miranda Barbosa. incerta. são relações de supra-ordenação e de subordinação as que existem entre conceitos referidos a classes e a membros das mesmas classes. De igual modo. p. sendo determinados os restantes.. como os de "credor" e "devedor" ou de "sujeito activo" e "sujeito passivo"... os conceitos jurídicos podem ser determinados ou indeterminados. Em síntese. 127-142 e Garcia Maynez. entre os conceitos genéricos e os conceitos específicos ou entre os conceitos de "contrato" e o de "contrato de compra e venda"32. VI. Tendo em conta a sua extensão. pois se refere a um dever que depende ou decorre de um contrato de compra e venda. cit. sejam muito raros em Direito conceitos absolutamente determinados33.

ou quais os conceitos jurídicos verdadeiramente fundamentais é problema que está longe de ter obtido respostas uniformes ou concordantes. chamou a atenção para a existência de determinados conceitos. ao lado de conceitos próprios de certos ramos de Direito ou de determinados institutos. nos seus diversos ramos. noções ou distinções que constituem elementos necessários de qualquer sistema de direito de uma comunidade civilizada. em meados do século XIX. há conceitos que se apresentam como fundamentais ou essenciais em qualquer ordem jurídica. Conceitos jurídicos fundamentais I. pois. Os conceitos não têm todos a mesma relevância e o mesmo significado no domínio jurídico. que assenta ou se constitui com base neles. O saber quais sejam os conceitos jurídicos deste segundo tipo. entendendo por direito positivo o 19 . por parte dos jurisfilósofos que se detiveram a reflectir sobre esta questão. II. desde que John Austin (1790-1859). Pensava o jurista inglês que a ciência jurídica (jurisprudence) tinha por objecto o direito positivo.singulares Quanto à quantidade plurais genéricos universais específicos dependentes ou independentes compatíveis ou incompatíveis Quanto à relação correlativos supraordenados ou subordinados determinados Quanto à extensão Indeterminados 12.

Com efeito. como foi já notado por diversos autores. 1861. se é certo que cada sistema jurídico ou cada ordem jurídica positiva apresenta particularidades e diferenças específicas. não poderia deixar de colocar à cabeça desta relação de noções ou conceitos jurídicos fundamentais os de soberania e de liberdade que constituem verdadeiros pressupostos essenciais de todo o direito positivo.estabelecido ou positum numa comunidade politica independente pela vontade expressa ou tácita do respectivo suberano ou governo supremo. como a divisão tripartida das fontes das obrigações (ex contractu. uma ordem valorativa de tais conceitos. direito. Para o jurisfilósofo britânico. b) Os direitos que. d) A distinção entre actos ilícitos civis e penais34. delito. c) A distinção entre obrigações que nascem de contratos. alguns dos conceitos indicados por Austin são meramente históricos. visto não obedecer a qualquer critério lógico interno. ressarcimento. necessários ou comuns aos diversos ordenamentos jurídicos figurariam os seguintes: a) As noções de dever. I. já que sem liberdade nenhum dever-ser é concebível e sem um poder soberano que crie o direito positivo não pode falar-se em ordenamento jurídico. as que resultam de actos ilícitos e as que derivam de actos que não revestem a natureza de contrato nem de acto ilícito (quasi ex contactu). noções ou distinções. de certo modo. como os decorrentes de contrato. que são comuns a todas elas. liberdade. cap. que ordene os conceitos ou as noções que enumera de acordo com o seu significado no mundo jurídico. pena. Este elenco de noções ou conceitos jurídicos fundamentais apresentado por John Austin revela ou denuncia a concepção positivista do Direito do seu autor. bem. 20 . soberania e sociedade política independente. Notava Austin que. entre tais conceitos ou noções fundamentais. assistemático. ao mesmo tempo que apresenta um carácter. que atendesse à sua maior ou menor relevância no âmbito do Direito. como a propriedade ou domínio. ex delictu e ex quasi contractu) ou a contraposição 34 On the uses of the study of jurisprudence. Por outro lado. não deixa de compartilhar com as demais um conjunto de princípios. como o de Direito. podem fazer-se valer contra todos e aqueles que só podem tornar-se efectivos contra determinadas pessoas.

cit. e de objecto de Direito. 35 Cf. Assim." Tais conceitos seriam formas puras das noções jurídicas cujo conhecimento permitiria conferir valor científico à ciência do Direito. entre os elementos formais e os elementos materiais dos conceitos jurídicos35. Por sua vez. De acordo com o pensamento do jurisfilósofo neokantiano. ao lado deles. como noção de uma vontade jurídica que contém em si o fim da sua própria determinação. entendido como noção de um ser concebido como fim em si segundo uma determinada ordem jurídica. pois. seria dos quatro elementos contidos no conceito de Direito – vontade. cabendo ainda ter em conta que o jurista inglês. entendido como o facto de aquelas vontades se acharem determinadas. para este autor. e o de relação jurídica. da autarquia proviriam os conceitos de soberania jurídica. Em terceiro lugar. autarquia e inviolabilidade – que decorreriam os conceitos jurídicos fundamentais. ob. em concreto. vista como conformação das vontades vinculadas a vontade jurídica que as vincula e de anti-juridicidade ou ilegalidade. 21 . concebido como noção de determinação de várias vontades como meios entre si. não distinguiu. da vontade ou do querer proviriam os conceitos de sujeito de Direito. como meio para determinado fim. III. cujo mérito pioneiro é inegável.. Advertia Stammler não serem. Finalmente. vinculação. autárquica e inviolável. e de sujeição jurídica ou articulação harmónica de varias vontades juridicamente vinculadas como meios ao serviço de uma vontade vinculativa. da vinculação decorreriam os conceitos de fundamento de Direito. Para Rudolf Stammler (1856-1938).entre propriedade e domínio. estes os únicos conceitos fundamentais existentes para ordenar o sistema jurídico. possibilitadas pelo conceito de Direito. o qual. contudo. considerado. os conceitos jurídicos fundamentais constituem condições de ordenação permanente das normas e instituições jurídicas. Garcia Maynez. para determinar e reduzir à unidade os problemas jurídicos. 152-153. deveria definir-se como "vontade vinculativa. compreendida como contradição entre aquelas vontades e esta. há outras formas conceituais. puras que servem. da inviolabilidade resultariam os conceitos de júridicidade ou legalidade. pp. igualmente. como convinha.

como os primários. Quanto à combinação do conceito de soberania jurídica com os de fundamento do direito e de relação jurídica. respectivamente. Por seu turno. Estes últimos conceitos. enquanto da sua combinação com o de objecto de direito decorre o conceito de exclusão jurídica. da combinação do conceito da relação jurídica com o de sujeito de direito resulta o de prestação jurídica. Finalmente. que resultam da combinação daqueles entre si. combinados com os de soberania jurídica e de sujeito de direito. se combinados com os de sujeito e de objecto de direito. susceptíveis de se decompor nos conceitos fundamentais primários. Assim. quando combinado com os de sujeito e objecto do direito origina. dão origem. dará lugar aos conceitos de originalidade jurídica e colectividade jurídica. de que são a síntese. Já o conceito de sujeição ao direito. Por sua vez. os conceitos de juridicidade e anti-juridicidade. provêm. existem conceitos jurídicos fundamentais derivados. De igual modo. constituem as primeiras modalidades do nosso pensar jurídicos. sintéticos. dela resultam. e da sua combinação com o de objecto do direito provém o de disposição jurídica. os de proclamação do direito e de comunidade jurídica. da combinação do conceito de fundamento do Direito com o de sujeito de direito decorre o de vínculo jurídico. quando combinado com o de sujeito de direito dá lugar ao de aplicação do direito e com o de objecto do direito origina o de participação jurídica. combinando o conceito de sujeição ao direito com aqueles outros dois teremos os conceitos de derivatividade jurídica e de singularidade jurídica. No que respeita à combinação dos conceitos de juridicidade e anti-juridicidade com os de fundamento do direito e de relação jurídica. além daqueles conceitos jurídicos fundamentais primários. os de preceito jurídico e de mandato jurídico e os de proibição jurídica e de rebeldia jurídica. o conceito de soberania jurídica. ao mesmo tempo que. e são simples formas metódicas de ordenação dos mais diversos problemas jurídicos. respectivamente.Deste modo. aos de faculdade e de dever jurídicos e aos de culpa e dano jurídicos. dos conceitos de juridicidade e anti-juridicidade. respectivamente. os conceitos de validade jurídica e negação do direito e os de aquisição e perda de direitos. 22 . respectivamente.

Enquanto o pensamento do jurisfilósofo inglês se desenvolveu no âmbito do positivismo utilitarista e o do pensador alemão representou a mais significativa 36 Tratado de filosofia del Derecho. Ora.. sem o qual tudo seria desordem e confusão. Rudolf Stammler que os conceitos jurídicos fundamentais. pp. cast. tanto pelo maior rigor lógico como pela mais ampla compreensão da natureza e formas deste tipo de conceitos jurídicos. seriam os seguintes pares de conceitos que desempenhavam o papel de elemento de conexão temporal em qualquer ordem jurídica:  começo jurídico – continuação jurídica  permanência jurídica – alteração jurídica  juridicamente definitivo – juridicamente transitório  dilação jurídica – resolução jurídica Por seu turno. os elementos de conexão lógica dos conceitos jurídicos seriam os seguintes quatro pares de conceitos jurídicos fundamentais:  simplicidade jurídica – síntese jurídica  estabilidade jurídica – condicionalidade jurídica  procedência jurídica – consequência jurídica  coincidência jurídica – divergência jurídica36 Para Stammler. conceitos primários. Assim. ao longo do tempo e se revela como algo constituído por uma multiplicidade de dados concretos. incessantemente. Wenceslao Roces. 289-297 e Economia y Derecho segun la concepción materialista de la História. 1929. que o Direito se desenvolve. exprimem-se formas conceptuais puras. o que provaria haver conceitos jurídicos fundamentais que servem de elementos de conexão nas duas direcções indicadas. temporal e lógica. tanto primários como derivados. IV. 460-466. no entanto. conceitos derivados e conceitos de conexão. pois. no tempo. 23 . cumprindo não esquecer. de qualquer ordem jurídica e a comparação de diferentes ordens jurídicas entre si verifica-se de um modo sempre idêntico.Pensava. trad. concepção que representa um notável avanço teórico relativamente a proposta pioneira de Austin. de acordo com o pensamento stammleriano. pp. os conceitos jurídicos fundamentais compreenderiam. a articulação. ainda. Madrid. que intervêm como princípios de ordenação unitária de toda a realidade jurídica. id. 1930. segundo o pensador germânico.

Entendia Reinach que os conceitos e as noções que. para Schreier. embora não deixe de criticar o seu predecessor por considerar que ele não soube distinguir. mas com assinaláveis diferenças entre si. cast. E. Conceptos y formas fundamentales del Derecho. transmitir e análogos funcionem como fontes últimas do poder. Por sua vez. é impossível que actos sociais como os de conceder. Considerava ainda o jurisfilósofo alemão ser necessário distinguir entre os conceitos jurídicos. a investigação das realidades dadas ao Direito e a do próprio Direito. o jurisfilósofo austríaco Fritz Schreier procurou construir uma teoria jurídica pura com base na fenomenologia. Assim. que os encontra e utiliza mas não os cria nem produz no seu desenvolvimento.expressão filosófico-jurídica da escola neokantiana de Marburgo. 118 e 140-141. se consideram especificamente jurídicos possuem um ser próprio e autónomo. Jose Luis A'lvares. visto que eles. os conceitos jurídicos fundamentais do direito civil (a que limitou a sua análise) seriam o de poder jurídico e o de pessoa. para o qual são decisivas as concepções de cada época e. segundo o malogrado professor da Universidade de Göttingen. 37 38 39 Los fundamentos aprioristicos del derecho civil (1913). independente do direito positivo. Barcelona. já que só eles permitem tomar inteligível a origem dos direitos absolutos e das obrigações absolutas e a sua transmissão de pessoa para pessoa. Na verdade. cit. de natureza a priori. as relações e as necessidades económicas. compartilhando com Reinach a ideia de que o sistema formal de Direito é algo de atemporal e inespacial. o acto referido intencionalmente ao Direito e no qual concebemos o Direito. 21-29. o acto jurídico. 1934. Esbozo de una teoria formal del Derecho y del Estado sobre base fenomenológica (1924).. pressupõem sempre um poder jurídico. em grau ainda mais significativo. em geral. é aquele em que o Direito se constitui. constituindo um seu poder jurídico fundamental39. Com efeito. na medida em que possuem um efeito jurídico imediato. trad. formais e a priori e os actos sociais com eficácia jurídica imediata. que nele nos é dado. 1942. Garcia Maynez. cuja raiz última se encontra na pessoa como tal. em constante mutação. V. trad. pois o primeiro buscou determinar o a priori material de alguns institutos de direito civil e o segundo teve em mente surpreender o a priori formal do Direito. 24 . foi a partir da fenomenologia que Adolf Reinach (1883-1917)37 e Fritz Schreier38 consideraram o problema dos conceitos jurídicos fundamentais. noção de que parte a sua teorização. cast. convenientemente. Ob. Buenos Aires. para ele. pp. como a promessa ou a transmissão de direitos ou de bens.

como as que separam os factos jurídicos independentes ou totais dos dependentes ou parciais. 145-254. por se destruírem reciprocamente. o jurisfilósofo austríaco que tanto a dependência como a incompatibilidade poderiam ser absolutas ou meramente relativas40. Daqui decorre. ou seja. tanto o dever jurídico e o direito subjectivo como a prestação e a sanção. p. notando. enquanto outros não têm essa possibilidade. a outro ou a outros. Assim. externa e coercível do comportamento humano»41. contudo. Eduardo Garcia Maynez (1908-1993) distingue duas categorias. de que são espécies. Assim sendo.De acordo com a teoria fenomenológica do Direito do mestre vienense. há factos jurídicos que são compatíveis entre si. o que impede que sejam dependentes ou venham a constituir parte de um todo. 25 .. Garcia Maynez que a primeira daquelas normas é a que concede. que os conceitos que compreendia seriam os que se encontravam contidos no próprio conceito de Direito.158. VI. conceitos lógico-jurídicos e conceitos ontológico-jurídicos. deveria definir-se com a «regulamentação bilateral. que determinados factos jurídicos podem fundir-se num todo superior que os compreenda. enquanto outros se apresentam como incompatíveis. seriam factos jurídicos dependentes aqueles que só podem existir como parte de uma totalidade e independentes ou totais os que existem por si. Relativamente ao primeiro grupo. pensava o jurisfilósofo mexicano. o conceito jurídico fundamental e decisivo é o de facto jurídico. segundo ele. que. cit. o que lhe permitia introduzir aqui algumas distinções. pp. a um ou mais sujeitos. de um dever de observar a conduta que possibilita o exercício e cabal 40 41 Ob. uma vez que a regulamentação jurídica se consubstancia na conexão necessária e recíproca de uma norma que obriga e outra que faculta. respectivamente. ou os factos jurídicos compatíveis dos incompatíveis. ainda. os primeiros conceitos lógico-jurídicos fundamentais não poderiam deixar de ser os de norma jurídica atributiva e de norma jurídica prescritiva. como Stammler. o facto jurídico deveria compreender-se como o pressuposto ou o aspecto condicionante do preceito jurídico ou como o facto juridicamente relevante. Lógica del concepto jurídico. Para Schreier. então. Na sua teoria dos conceitos jurídicos fundamentais. Esclarecia. que denomina. um direito cujo exercício está garantido pela imposição.

enquanto o da norma prescritiva é o referido ao sujeito passível do dever que o preceito impõe. enquanto os correlatos de 26 . tal como o correlato do pressuposto. porque toda a norma jurídica. De acordo com o pensamento de Garcia Maynez. o correlato objectivo do conceito-sujeito. é o elemento da disposição que determina o objecto do direito e a pessoa ou pessoas passíveis do correlativo dever. a uma ou mais pessoas. i. notava o jurisfilósofo mexicano que a atributiva seria o elemento da regulamentação bilateral cuja função é conferir um direito e a prescritiva é aquela cuja função é impor um dever jurídico. Por outro lado. ao passo que o da norma prescritiva é o elemento da disposição que determina o objecto do dever e indica o titular do direito correlativo. ou outros. no plano da conduta juridicamente regulada é o sujeito de direito. também estes revestem a natureza de conceitos lógico-jurídicos fundamentais. o dever de observar a conduta requerida para o exercício e cabal satisfação do direito que a correspondente norma atributiva concede a outro. o vínculo que as normas estabelecem entre o sujeito do direito e o sujeito do dever e que. o sujeito. Por outro lado. enquanto a segunda é a que impõe. a cópula e o predicado. no conceito de regulamentação bilateral estão implicados os conceitos de pressuposto jurídico. entendido como a hipótese de cuja realização depende o nascimento de consequências jurídicas (faculdades ou deveres) e de disposição. da parte da norma que indica que direitos ou deveres estão condicionados pela verificação do pressuposto. Quanto ao predicado relacional da norma atributiva. as normas são juízos relacionais de carácter normativo. é o facto jurídico e o da disposição. Deste modo. e tendo em conta que. o autor mexicano designa por relação jurídica directa ou relação jurídica conversa. o conceito sujeito da norma atributiva é o que indica o titular do direito atribuído pela norma. sujeitos. são relações jurídicas entre duas ou mais pessoas. tanto atributiva como prescritiva.e. consoante se referiam a disposição atributiva ou a prescritiva.satisfação das faculdades do pretensor. é composta por três elementos lógicos. no plano da conduta. os conceitos ontológicojurídicos fundamentais são o correlato objectivo dos lógico-jurídicos. Assim. do ponto de vista lógico. Relativamente à cópula. como titular do direito ou o passível de dever que a norma concede ou impõe. os correlatos de norma atributiva e de norma prescritiva são os conceitos de relação condicionante do direito e de relação condicionante do dever. Por sua vez.

igualmente. b) Os conceitos empíricos. 27 . id. dois grandes grupos: a) Os conceitos a priori. cit. pp. designadamente à luz da primeira e da terceira obras de Recasens Siches atrás citadas.. 9-11 e Introducción al estudio del Derecho. Mexico. caps.. 1970. Tratado general de Filosofa del Derecho. dever jurídico. Ver. contingentes.e. naturaleza de la cosa y lógica "razonable". 502. 1974. VII.. Segundo o pensador espanhol. i. respectivamente. nessa medida. com destino a essa mesma Ob. direito subjectivo e personalidade jurídica. La filosofia jurídica de Luis Recasens Siches. constantes e necessários. inclui. Mais recentemente. incluir-se-iam na primeira categoria de conceitos jurídicos. entre outros. os de ordem jurídica vigente e de Estado.cópula prescritiva e atributiva são. históricos. figuras jurídicas concretas. são condição de possibilidade de todo o conhecimento jurídico. México. diversamente daqueles. VIII. que constituem a trama de toda a realidade jurídica e. no conjunto dos conceitos jurídicos. aqueles que o legislador usa e vai buscar a linguagem comum ou corrente. imposto sobre o rendimento ou subsídio de desemprego43. segundo este autor. o objecto do direito e o objecto do dever. ainda. Salamanca. pp. 1959. Arthur Kaufmann (1923-2001) distinguiu entre o que denominava conceitos jurídicos impróprios ou conceitos juridicamente relevantes. mas são dados apriorística e necessariamente com o 42 43 circunstância social. não provêm da realidade empírica exterior. Benito de Castro Cid. respectivamente. essências intrinsecamente válidas de carácter formal. 1971. o que não se afigura correcto. os quais são sempre uma forma de conduta42.139151. 157-187. apresentando-se. como conceitos jurídicos fundamentais. letra de câmbio. e conceitos jurídicos fundamentais. p. conceitos de dever jurídico e de direito subjectivo e os correlatos do predicado das normas atributiva e prescritiva são. universais. conceitos de realidades jurídicas criadas pelos homens em determinado tempo e lugar. parte V. que. Experiencia juridica. pena de prisão. de instituições de direito positivo. O jurisfilósofo espanhol Luís Recaséns Siches (1903-1977) distinguia. entre os conceitos jurídicos fun-damentais. enfiteuse. os de norma jurídica. surgidas numa determinada circunstância. por isso. ao mesmo tempo que seriam exemplo da segunda os conceitos de hipoteca.

direito subjectivo. Esta diversidade de concepções sobre quais sejam os conceitos jurídicos fundamentais decorre. IX. exaustiva. desde os que reduzem aquela noção a um único conceito. por isso conceitos jurídicos próprios ou autênticos ou categorias jurídicas.. por necessariamente comuns a toda e qualquer ordem jurídica e por não constituírem modalidade ou espécie de qualquer outro conceito. relação jurídica. noção dotada de maior universalidade do que aquela. em primeira instancia. Do nosso ponto de vista e da noção de que partimos. responsabilidade. 28 . da própria noção de conceito jurídico fundamental. pp. como Stammler ou Garcia Maynez. sanção e propriedade. que só parcialmente vem a coincidir com a avançada por Recasens Siches. trad. acto jurídico. sujeito jurídico. o número dos conceitos jurídicos fundamentais. cit. 142-158. afigura-se-nos que revestem a natureza de verdadeiramente fundamentais. de igual diversidade de pontos de partida filosófico-jurídicos e. como parece resultar com suficiente clareza de tudo o que antecede. como Schreier. até aos que apresentam uma lista mais ou menos extensa ou complexa de conceitos jurídicos fundamentais.Direito. Assim. directamente dependente do conceito de pessoa. como Reinach. à qual há a censurar a referência a personalidade jurídica em vez de mencionar os sujeitos jurídicos. dever jurídico. depois. considerava apenas cinco conceitos jurídicos fundamentais: o de norma jurídica. ou a dois conceitos de certo modo complementares. propriamente. grandes diferenças se registam entre os autores que desta matéria se ocuparam e de que a exposição anterior se pretende mais exemplificativa do que. Assim. que está longe de se apresentar como unívoca. na sistematização que propunha. o de facto jurídico. do mesmo passo que reconhecia haver diferentes possibilidades para a sua sistematização. específico da tradição especulativa ocidental. Entendia o jurisfilósofo alemão ser grande. 44 Filosofia do Direito. proposição ou regra jurídica. de matriz judaico-cristã. o de relação jurídica e o de sujeitos jurídicos44. o de fontes do Direito. os seguintes: norma jurídica. constituindo. nenhumas das quais poderia pretender-se definitiva. embora não ilimitado.

enquanto ordem normativa. Deste modo. que cuida apenas de categorias e conceitos formais. De igual modo.Diversamente do que fazem alguns dos autores atrás considerados. acto ilícito ou crime. Assim. pp. pensamos não dever incluir aqui conceitos como os de personalidade jurídica. não esgota o domínio da racionalidade jurídica. independentemente de valores ou conteúdos valorativos. 45 Sentido e valor do Direito. nessa medida não serem conceitos verdadeiramente primeiros ou fundamentais. a racionalidade lógica. toda a norma jurídica. tem sempre um determinado conteúdo. tem uma essencial dimensão prática. nem constituir a lei a única fonte de Direito45. que corresponde ao momento ou aspecto formal da racionalidade jurídica. como seu primeiro momento. A hermenêutica como primeiro momento da racionalidade jurídica prática. com vista a permitir uma decisão justa. necessariamente. cit. para além da sua estrutura lógico-formal. de acordo com determinados valores que pretende tornar efectivos na vida humana intersubjectiva. ao lado da lógica jurídica. visto havermos recusado a noção de estadualidade do Direito defendida pelo positivismo jurídico e sustentado não ser o Estado o único produtor de normas jurídicas. destina-se a regular. conduta e valor. a qual implica. ed. ou os de contrato. dado constituírem conceitos derivados do conceito de acto jurídico e. demasiado vinculado à tradição jurídica ocidental. 29 . CAPÍTULO III A Hermenêutica Jurídica § 1º A hermenêutica 13. que é o que diz respeito à aplicação ou à concretização singular da normatividade jurídica. depara-se-nos o amplo domínio da racionalidade jurídica prática. ordenar ou rectificar a conduta social. a compreensão e determinação do sentido actual e concreto da prescrição normativa respeitante ao caso decidendo. uma instância hermenêutica. que envolve e implica. pois o Direito. 77 e 157-158. Como se notou acima. não se nos afigura revestir a natureza de fundamental o conceito de Estado..

Por outro lado, a natureza prática da normatividade jurídica e a sua constitutiva componente axiológica, assim como tornam a interpretação do Direito estreitamente dependente da sua aplicação, fazem, igualmente, que a tarefa da hermenêutica jurídica tenha uma necessária dimensão estimativa, envolvendo ou implicando sempre uma mediação ou um momento valorativo, pois a decisão jurídica tem um objectivo normativo e uma natureza concretizadora, constitutiva, normativamente criadora e não meramente cognitiva ou subsuntiva. A hermenêutica jurídica aparece-nos, assim, como irrecusável primeiro momento ou primeira instância do processo de racionalidade jurídica prática. Porque, porém, a tarefa ou a actividade hermenêutica é inerente a toda a realidade cultural, maxime àquela que se objectiva em palavras e em textos, necessário se torna, enquadrar a interpretação jurídica no campo mais vasto da teoria geral da hermenêutica. 14. Conceito de hermenêutica I. O termo hermenêutica provém do grego hermeneuin, que significa declarar, anunciar, interpretar, esclarecer, levar à compreensão. Admite-se, geralmente, que derive de Hermes46, visto na mitologia grega como mensageiro dos deuses e inventor da palavra. É assim que se lhe referem Homero e Hesíodo, quando, no hino a Hermes, o primeiro o designa como “enviado por Zeus para missões delicadas”, como “arauto dos deuses” ou “mensageiro de todos os imortais”47 ou na Teogonia, o segundo escreve que “de Zeus, Maia, filha de Atlas, gerou o ilustre Hermes, arauto de todos os imortais”48. Por sua vez, Platão, no diálogo Crátilo, afirma que o nome de Hermes parece relacionar-se com o discurso, pois “ ser intérprete, mensageiro (...) são actividades referentes ao poder do discurso” lembrando que o termo éirein significa “servir-se do discurso”, e Eiréneus, de que proveio o nome Hermes, designa “aquele que imaginou a palavra”49. Esta radicação da hermenêutica em Hermes enquanto mensageiro ou arauto dos deuses poderia explicar que aquela tivesse começado por significar a
46

47 48 49

Ver p. e., Gadamer, La philosophie herméneutique, trad, franc. Jean Goudin, Paris, PUF, 1996, p. 85, Emerich Coreth, Questões fundamentais de hermenêutica, trad. port. Carlos Lopes de Matos, São Paulo, 1973, p. 1, Richard E. Palmer, Hermenêutica, trad. port. Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Lisboa, Ed. 70, 1986, p. 23 e Georges Gusdorf, Les origines de l’herméneutique, Paris, Payot, 1988, pp. 19-21. Hino a Hermes, v. 480 e segts. Teogonia, v. 938-939. Crátilo, v. 408a. 30

compreensão e a exposição de uma sentença dos deuses ou de uma mensagem divina e a inicial dimensão sagrada conferida à hermenêutica, que, na tradição cultural ocidental, surge ligada às questões relacionadas com a interpretação do texto bíblico. Registe-se, a este propósito, que a hermenêutica bíblica tem certo parentesco ou semelhança com a hermenêutica jurídica, havendo mesmo beneficiado, em medida não despicienda, da tradição romana da interpretação do Direito. Esta aproximação ou afinidade entre estas duas formas de hermenêutica é facilmente compreensível se se atentar em que, em ambos os casos, se trata de interpretar textos que falam de uma forma normativa e autoritária, tendo os dois uma pretensão de validade e de obrigatoriedade e sendo, nesse sentido, apresentados ao intérprete para por ele serem compreendidos e expostos, em todos os seus pormenores, com esse duplo carácter de validade e obrigatoriedade50. II. Antes de prosseguir, cumpre notar que, no uso antigo de termo hermenêutica, é possível surpreender ou distinguir três sentidos ou três orientações diferentes. Assim, ao lado daquele que vimos considerando, que o toma como significando dizer, exprimir ou afirmar, há ainda outros dois: hermenêutica como explicar ou explicação, sentido este que atribui particular realce ao aspecto discursivo da compreensão, à dimensão explicativa do intérprete, mais do que à sua dimensão expressiva, e hermenêutica como tradução ou traduzir de uma língua para a outra, de um sistema simbólico para outro51. III. Do que se acaba de dizer ressalta com clareza que o problema fundamental da hermenêutica é o problema da compreensão, que é o próprio do mundo da cultura e das ciências ou dos saberes que lhe dizem respeito. Com efeito, enquanto as ciências da natureza explicam, procurando determinar as relações causais que ligam os fenómenos ou a regressão causal de um fenómeno particular a leis gerais, as ciências da cultura ou do espírito compreendem as realidades culturais, apreendendo o seu sentido.

50 51

Cfr. Emerich Coreth, ob. e trad. cits., p. 2. Ver p. e., Emerich Coreth, ob. e trad. cit, p. 1 e Richard Palmer, Hermenêutica, trad. cit., pp. 24-41. 31

Deste modo, compreender é apreender um sentido, sendo este aquilo que se apresenta à compreensão como conteúdo. Note-se que, apesar da anterior contraposição entre explicação e compreensão como o traço essencial que individualiza e distingue as ciências da natureza das ciências da cultura ou do espírito, toda a explicação não deixa de ser antecedida por uma compreensão de sentido, pois o investigador das ciências da natureza tem de começar por “compreender” o fenómeno individual, de o apreender na sua singularidade, no seu conteúdo e estrutura, ainda que de um modo provisório, antes de poder “explicá-lo”, o que significa que, prévia à oposição ou contraposição, de natureza metodológica, entre explicar e compreender, existe uma compreensão mais original e mais ampla. Deste modo, a compreensão apresenta-se-nos como uma apreensão mais alta de sentido, que ultrapassa e precede a explicação causal52. Mas porque consiste na apreensão de um sentido, a compreensão “não pertence à mediação do pensamento racional nem à imediatez da visão intelectual”, admitindo que o domínio da razão é a capacidade do pensamento discursivo, enquando o intelecto será a capacidade de percepção espiritual imediata, de intuir o que é imediatamente dado, o ser e as suas leis e os conteúdos da essência53, aquilo a que, num grau sumo, José Marinho designou por visão unívoca enquanto visão instantânea do ser e da verdade e da verdade do ser54. IV. A experiência hermenêutica e a compreensão que a constitui apresentam uma estrutura circular, aquilo a que, desde Heidegger, se vem chamando o “ círculo hermenêutico”. Quer-se com isto dizer que a compreensão do sentido ou do conteúdo singular é condicionada pela compreensão do todo em que se integra, sendo, por sua vez, a compreensão do todo mediada ou condicionada pelo conteúdo singular, isto é, que, quando referida a um texto, situação a que muitos autores têm circunscrito a hermenêutica, indicará que o significado das palavras que o compõem só se alcança a partir do contexto de sentido do próprio texto, o qual, por seu turno, apenas poderá ser compreendido a partir do significado das palavras que o constituem e da combinação dessas mesmas palavras.

52 53 54

Cfr. Emerich Coreth, ob. e trad. cit. p. 49. Coreth, idem, pp. 46-48. Teoria do ser e da verdade, Lisboa, 1961. 32

já que a demanda de sentido ou conteúdo significante da obra interpretanda é sempre feita a partir do concreto presente do intérprete e transcende a intenção do respectivo autor. que. em 1654. da espiral do que do círculo. 33 . diálogo esse sempre marcado pela temporalidade e pela historicidade. Mas se o conteúdo ou o sentido singular é sempre apreendido na totalidade de um contexto de sentido. C. pois nela o intérprete procura desvelar o sentido de uma criação espiritual objectivada num texto ou em qualquer outro suporte material ou natural. com o sentido de método expositivo das Sagradas Escrituras. Estudos filosóficos. de modo a tornar-se condição de abertura de sentido do conteúdo singular. já que o próprio das criações espirituais é objectivarem-se. se encontra aquilo a que a filosofia hermenêutica contemporânea designa por pré-compreensão. 488. Lisboa INCM.V. criadoramente. a hermenêutica surgiu com as questões suscitadas pela 55 56 “Percurso e natureza da hermenêutica”. 15. Origem e percurso histórico da hermenêutica I. com ela. passando a constituir um conjunto de virtualidades de sentido. do mundo de experiências e de compreensão do intérprete e define uma via de acesso à própria compreensão. isso significa que. Danhauer56. os que com elas entram em contacto. A actividade hermenêutica e a experiência da compreensão apresentam uma estrutura não só dialéctica entre a pré-compreensão e a compreensão mas também dialógica. directamente. pela primeira vez. simultaneamente vivencial. como escreveu Alexandre F. num processo em que cada um dos elementos medeia o outro mas é por ele pressuposto e determinado. mais próximo. a qual decorre. pré-compreensão essa que. constituindo um pressuposto de acesso à compreensão. ao longo do tempo. VI. 2004. que lhe vai conferindo nova vida espiritual ou novo ou renovado conteúdo significativo. intuitiva e cognitiva. na relação hermenêutica que com ela vão estabelecendo. se relaciona. dialecticamente. II. numa relação complexa. Morujão. Embora o termo hermenêutica haja aparecido. o qual é pré-compreendido e co-apreendido. por isso. no título de uma obra de J. fazendo que o processo de compreensão seja um processo ascendente. vão sendo descobertas. Hermenêutica sacra sive methodus exponendarum sacrarum litteraturum. p. Deste modo. subjacente a toda a compreensão. “a actividade hermenêutica consiste em transpor um contexto de sentido de um outro „mundo‟ para o seu próprio „mundo‟”55. vol.

e a escola de Alexandria.254). depois. na exegese dos Padres da Igreja. precisamente. nele entendida como ciência da compreensão linguística. linha que foi prosseguindo. em meados do século XX.interpretação correcta do Antigo Testamento. Emílio Betti. A reforma luterana. de carácter essencialmente metodológico. II. cuja estrutura e legalidades devem ser apreendidas. procuraram considerar estes dois modos de interpretar. que fora o fracassado intento de Shleiermacher. depois. Na linha metodológica da hermenêutica inscrever-se-ão. 57 De doctrina christiana (c. distinguindo o Bispo de Hipona diversos sentidos no texto Bíblico57. Será. ao excluir o carácter de revelação sobrenatural e de mistério de toda a interpretação do texto sagrado. como interpretação da primeira compreensão do homem em si e do ser. recorrendo. e Santo Agostinho (354-430). com Heidegger surgiu. por esta época que surgirá a primeira tentativa de construção de uma teoria geral da hermenêutica. que considerava. que logrou realizar uma teoria geral da interpretação. que procurava neles um “sentido espiritual”. 427). com vista ao uso prático de um texto falado ou escrito. para isso. na primeira metade do século XX. tendo-se desenvolvido depois do advento do cristianismo. que via nela a teoria da compreensão de formas objectivas históricas. que procura determinar as regras para a compreensão de qualquer texto e não já apenas das Sagradas Escrituras. o sentido literal dos Livros Sagrados. Orígenes (185-c. Ao lado desta corrente. primeiro. Wilhelm Dilthey. a partir dos séculos II e III da nossa era. a partir de uma vivência e. 34 . abrangendo agora todo o texto bíblico. uma corrente ontológica ou filosófica da hermenêutica. rompendo com o ensino tradicional da Igre-ja Católica. processo que o racionalismo iluminista reforçará. como hermenêutica da existência. à exposição simbólico-alegórica. devendo o seu sentido ser procurado por cada um como seu intérprete. depois. defendia o regresso à pura palavra da Escritura. exclusivamente. Coube a Friederich Shleiermacher a tarefa de lançar as bases desta nova ciência filosófica. de carácter filosófico. que deveria ser entendido como mera religião racional (Locke) ou num sentido exclusivamente moral (Kant). com o confronto entre a escola de Antioquia.

16. filólogo e filósofo alemão Friedrich Daniel Ernst Shleiermacher (1768-1834) consistiu em ter superado a fragmentação da hermenêutica. uma filologia dos textos clássicos. Hermenêutica Contemporânea. Cfr. e Rui Magalhães. e uma exegese do Antigo e do Novo Testamento. 1986. 35 . no âmbito da denominada Escola de Frankfurt. Morujão. Josef Bleicher. pelo influxo romântico que também lhe subjaz. tentar chegar a uma hermenêutica geral. para além da diversidade dos vários géneros de interpretação. ob cit. p. ver G. que a concebia como hermenêutica fenomenológica. e. 490. o mérito maior do teólogo. em cujo clima espiritual foi pensada. ob. agora de sentido crítico e dialéctico. a hermenêutica de Shleiermacher. A teoria hermenêutica 16. Friedrich Shleiermacher. os unifica e lhes é comum. Gusdorf. acabou por vir a preencher uma lacuna do próprio kantismo. assistiu-se ao aparecimento de uma nova corrente no pensamento hermenêutico. trad. cits. para. Maria Georgina Segurado.. limitado pela sua preocupação 58 de determinar as condições universais da objectividade do 59 60 Para maiores desenvolvimento. Ed. port. 2003.. Vamos considerar em seguida as posições essenciais destes diversos autores em matéria hermenêutica. Seuil/Esprit. para alcançar tal desiderato era necessário ultrapassar a particularidade dos textos e. e loc. Mais recentemente. II. Du texte à l’action.pelo seu discípulo Hans-Georg Gadamer e por Paul Ricœur. Embora tributária do criticismo kantiano. Coimbra. Introdução à her-menêutica. Essais d’hermenêutique. Como tem sido repetidas vezes sublinhado60. segundo as três grandes orientações que acabamos de referir: a teoria hermenêutica. p. 70. a filosofia hermenêutica. em especial gregos e latinos. 2002. também. 76 e Alexandre F. Paris. era preciso ascender da exegese e da filologia até uma “tecnologia” que não se limitasse a ser uma mera colecção de operações avulsas.. de vocação ontológica e a hermenêutica crítica59. Como percucientemente observou Paul Ricœur. na qual coexistiam uma hermenêutica jurídica. Angelus Novus. Lis-boa. I. Paul Ricœur. de raiz metodológica. a particularidade das regras pelas quais se dispersa a arte de compreender. através de Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas58. Ver p.1. centrando-se na investigação das condições de possibilidade da compreensão de qualquer texto. à determinação do que.

port. notas e fragmentos de Schleiermacher sobre her-menêutica datam de 1805. que a compreensão formal da totalidade deva preceder a compreensão material do pormenor. p. caberia ter em conta que discurso algum pode ser interpretado a partir de si mesmo. a compreensão do pormenor é determinada pela compreensão do todo. como notou ainda o mesmo filósofo francês. sustentando que ela assenta no facto da compreensão do discurso. Cerf. Desde os seus primeiros esboços de hermenêutica63. a compreensão orientar-se-ia tanto para a línguagem como para os pensamentos. 1829 e 1832-1833. com o título Hermenêutica. no seu intento de estabelecer as regras universalmente válidas da compreensão62. tal como. ou seja. que a totalidade deva ser.. o que significa envolver ela um certo carácter aporético. do que decorreria.conhecimento em física e em ética. assim como a compreensão do todo é condicionada pela do pormenor. o que não significaria que houvesse duas espécies de interpretação. Cumpriria. ter em conta que a hermenêutica parte de dois pontos de vista inteiramente diferentes. o programa hermenêutico do pensador alemão apresenta uma marca romântica.. operando nas individualidades geniais”61. o que o levava a uma concepção ou a um entendimento impessoal do espírito. porém. que a arte de interpretação é a arte de possuir ou dispor de todas as condições necessárias à compreensão. 79. II. o compreender na linguagem e o compreender naquele que fala. 1999. no apelo que faz a uma relação viva com o processo de criação cultural e. o filosofo germânico afirma a necessidade de uma hermenêutica geral. Petrópolis. Dos textos de 1809-1810. uma marca crítica. 1809-1810. Por sua vez. 1826-1827 e 1829 há trad. de Celso Reni Braida. p. Assim. o que 61 62 63 Obra cit. mas apenas num contexto mais amplo.. dotado das condições de possibilidade de juízos universais. 36 . 1819. compreendida como indivíduo de um género. igualmente. radicalmente diversa. ao mesmo tempo. Vozes. Ver Hermenêutique. A esta concepção contrapôs Shleiermacher uma outra. Christian Berne. Paris. pois qualquer delas deve considerar tanto a linguagem como os pensamentos. Por outro lado. Isto não impede. provisoriamente. Arte e técnica de interpretação. Os vários núcleos de aforismos. 1989. inversamente. 79. 1826. esboços. então. de clara proveniência romântica: a de que o espírito é o “inconsciente criador. franc. trad. Idem.

Cada uma delas deve ser conduzida o mais longe possível. a qual não se deixa apreender como um conceito mas unicamente como uma intuição. o sentido de cada palavra deve ser determinado a partir da sua inserção no respectivo contexto”. segundo o filósofo dos Discursos sobre a religião. enquanto o segundo impõe que “numa passagem dada. Já a interpretação técnica visa a compreensão como expressão do pensamento. não deixando. Daí que a tarefa da interpretação técnica seja descobrir a unidade de estilo de cada autor. na sua individualidade própria. a sua aplicação não é algo de mecânico. era encontrar para cada caso o verdadeiro uso que o autor tinha em mente. o que deve ser pressuposto e o que deve encontrar-se é a linguagem.faz dela uma arte. carece de ser determinado de forma mais precisa só o pode ser a partir da área linguística comum ao autor e ao seu público original”. aparecendo agora a linguagem apenas como órgão pelo qual o homem se manifesta. Àquela dupla compreensão vem a corresponder a interpretação gramatical e a interpretação técnica: na primeira como que se esquece o autor. pois. Desenvolvendo e precisando o seu pensamento. “o ponto máximo da interpretação gramatical está nos elementos através dos quais o objectivo central é designado. de mostrar os pontos de ligação natural que cada uma tem com a outra. num texto. precedendo sempre a interpretação gramatical a técnica. conforme o pressuposto conhecimento do significado. o ponto máximo da interpretação técnica encontra-se em grandes conexões e na sua comparação com as regras gerais de combinação”. no final de tudo. o primeiro dos quais determina que “tudo o que. evitando tanto o falso como o excessivo e o deficiente”. 37 . dado visar sempre casos particulares. sendo unicamente na aplicação que se dá a combinação das duas formas de interpretação. Deste modo. a partir da linguagem e com o auxílio da linguagem. contudo. porque não há regras para aplicação das regras que a hermenêutica enuncia. notava Shleiermacher que a interpretação gramatical era a “arte de encontrar o sentido de um discurso. III. para Shleiermacher. enquanto na segunda se esquece a linguagem. através de um método duplo que não só o compare com outros como o considere em si e por si. Na realidade. através do discurso. Para tal. deveria o intérprete respeitar dois cânones fundamentais.

Dilthey. bem como a sua natureza dialógica64. 38 . Interpretação e análise do homem nos sécs. La philosophie de Schleiermacher. vol. Sobre o estudo da história das ciências do homem. I. sobretudo. fora. Cerf. como o considerar a compreensão o seu problema essencial. buscar encontrar a originalidade da sua composição. vindo a traduzir-se em compreender as ideias repentinas (incluindo os pensamentos fundamentais que dão origem a séries inteiras de pensamentos) e os pensamentos concomitantes. o elemento psicológico desempenhava importante papel no conjunto da sua visão da hermenêutica. Na teoria hermenêutica de Shleiermacher vamos encontrar já alguns dos tópicos fundamentais do seu desenvolvimento futuro. ver Christian Berner. port. Ed. pois só neles possuímos a realidade tal como é. à génese do pensamento. a interpretação técnica vem a consistir em compreender a meditação e a composição da obra. um historiador da cultura e das ideias66. a necessidade de. que diz respeito. pp. Flávio Paulo Meurer. 16. Introdução às ciências do espírito. então. Vida de Schleiermacher (1867-1870). Leibniz e a sua época. em Shleiermacher. pp. Os principios do histoiricismo de Niehbur. o Grande e o iluminismo alemão. Ed. Gadamer. 2ª. nisto se distinguindo da interpretação psicológica. As três fases da estética moderna. a qual constitui a verdadeira realidade objectiva. Wilhelm Dilthey. Verdade e metodo. Paris. na de Wilhelm Dilthey (1833-1911) passará a ocupar um lugar central e decisivo. a quem dedicou uma biografia65 e cujo pensamento teve repetidas vezes em conta. 1998. XV XVI. a partir do elemento da vida considerada em conjunto. Deste modo. fundamentalmente. História do jovem Hegel. 1883. achar um fundamento filósofo próprio para as ciências do espírito. para. Se.A descoberta da originalidade da composição deve começar por procurar encontrar a unidade interna de uma obra. que tal fundamento não poderia encontrar-se já na metafísica.2. Petrópolis. XVII. da so-ciedade e do Estado. 47-81 e H-G. O século XVIII e o mundo histórico. como era próprio do seu tempo. Vozes. Frederico. 288-306. que até aos 50 anos. O sistema natural das ciências do es-pírito no séc. nos factos da consciência. em seguida. 1995. 64 65 66 67 Sobre este autor. cujo paradigma seria a ciência histórica67. além das obras já citadas nas notas anteriores. sentiu. o filósofo alemão entendia que o mesmo apenas poderia achar-se na experiência interna. I. trad. Pensando. a ideia da estrutura circular da actividade interpretativa. Grande admirador do teólogo e filólogo alemão. numa época dominada pelo positivismo e pelo modelo epistemológico explicativo das ciências naturais.. ou o seu tema.

como a unidade vital da pessoa. que. partindo da textura do todo. assim. tornando-nos. Sustentava. para o filósofo. cast. notícia de um mundo exterior em que estão presentes e coexistem outras unidades vitais70. a psicologia preceder a gnosiologia. o fundamento das ciências do espírito seria de natureza psicológica. a sua vida no tempo e as suas relações. que fosse a explicação das componentes e dos nexos que se apresentam. um sim a partir de uma psicologia descritiva e analítica. parecia dar-nos. compreendemos o mundo das criações espirituais graças à interacção de todas as forças anímicas na vivência. no entanto. o horizonte da experiência. apreensível o singular68. 39 . nos dá. Alianza Ed. 32. de cujo processo vital real o querer. os indivíduos fora de nós. pelo que a fundamentação psicológica das ciências do espírito não poderia fazer-se com base numa psicologia explicativa ou construtora. nos é dada pela própria vida. uma psicologia que fosse a descrição e a análise de uma conexão que. Porque a vida psíquica não é um composto de partes mas uma unidade englobante. que pretendesse “subordinar toda a vida psíquica a uma conexão causal mediante um número limitado de elementos univocamente determinados”. Deste modo. notícias dos nossos estados anímicos internos e que agora. os elementos fundamentais da nossa imagem e do nosso conhecimento do mundo. Julián Marías. Para Dilthey. entendida como percepção íntima da totalidade da vida anímica que nos é imediatamente dada.Deste modo. Assim se ampliaria. Dilthey que. em toda a vida psíquica humana desenvolvida. quanto a elas. por isso. trad. devendo. A essência da filosofia. que é simplesmente vivida e não interpolada ou inferida pelo pensamento. II. pelo que o método próprio das ciências do espírito viria a consistir na correlação das vivências e dos conceitos69. a base da psicologia descritiva e analítica não poderia deixar de ser a vivência. Madrid. de início. entrelaçados numa única textura. o mundo exterior. p. que se nos oferece de um modo vivo. compreendemos a vida anímica.. 1907. uniformemente. 1980. igualmente. o sentir e a representação são fases ou aspectos. 1894. enquanto explicamos os fenómenos naturais por meio de processos puramente intelectuais. 68 69 70 Ideias para uma psicologia descritiva e analítica. Introducción a las ciencias del espiritu. só poderiam compreender-se a partir da natureza humana. exclusivamente. se explicamos a natureza. de modo originário. com a nossa unidade vital.

em dois textos A origem da hermenêutica (1897) e Esboços para uma crítica da razão histórica. em que assentava toda a certeza histórica.72 Para o autor. o lugar atribuído à compreensão como categoria primeira das ciências do espírito que levou Dilthey a interessar-se. reúnem-se na vida num saber objectivo e universal. bilingue alemão e castelhano.. historicismo e psicologismo que caracterizavam a sua filosofia. 149-174. 40 . condições essas dadas no complexo vital em que encontram a sua unidade todos os factos condicionantes da vida71. o último dos quais inacabado. até então. não só a filosofia viria a alcançar o conhecimento do complexo vital do espírito humano em si mesmo e nas suas relações com a natureza. a fundar-se na reflexão sobre a vida de que nasce a experiência vital. No entender do filósofo germânico. Dos escritos sobre hermenéutica. Textos de herme-nêutica. Foi. i. a partir do vitalismo. a compreensão e a experiência interna. seria na vida vivida pelo homem e não já no mundo que o filósofo deveria buscar a coerência interna do seu conhecimento. Istmo. Rés. especulativamente. de Alberto Reis. ao encontrarem-se com o mundo circundante.e. entendida como técnica de interpretação das manifestações vitais fixadas por escrito. António Gómez Ramos. para Dilthey. a hermenêutica. Porto. por isso. ed. constituía a base essencial da fundamentação das ciências do espírito. no conhecimento das condições da consciência a que se encontra sujeita a elevação do mesmo espírito à sua autonomia. a vontade e o sentimento. plena. como se fundamentaria na autognose. Para Dilthey. 2000. passando. III. o que imporia a necessidade de relacionar o pensamento lógico com a vida. precisamente. A teoria hermenêutica esboçada por Dilthey. Ed. na medida em que seria ela que. no plano teórico. Do primeiro texto há trad. mediante um conhecimento de valor universal. na realidade inteira e completa constituída pelos actos vitais do homem.Deste modo. Sobre a teoria das visões do mundo (s/d) e A consciência histórica e as concepções do mundo (s/d). pois os acontecimentos individuais que provoca o feixe de impulsos e sentimentos em nós. estabeleceria a validade universal da interpretação. pelas questões hermenêuticas. a filosofia não se fundara na experiência total. pp. Madrid. trad. cujas dimensões são a inteligência ou a razão. numa síntese espiritual com pretensão de validade universal. baseava-se em duas noções 71 72 Os tipos de visão do mundo e seu desenvolvimento nos sistemas metafísicos (1911). 1984.

que essa genialidade é muito rara.fundamentais. dependente da habilidade pessoal do intérprete. porém. Por sua vez. Deste modo. na sua generalidade. a análise da experiência interna. a de compreensão e a de interpretação ou exegese. resultante de um estudo aturado e constante que daria em boa medida. seria a arte de compreender as manifestações da vida fixadas de modo duradouro. a sua compreensão não pode deixar de apresentar características comuns. Sustentava ainda Dilthey que. a hermenêutica viria a consistir na teoria das regras para compreender as manifestações da vida fixadas por escrito. 41 . em conjunto. potenciada pela familiaridade com o autor. Assim. forneceriam a prova de que as ciências 73 Embora admitisse ser possível uma hermenêutica que tenha por objecto esculturas ou qua-dros. segundo o historiador e filósofo germânico. proporcionada pela psicologia descritiva. de diverso âmbito. e a da compreensão. exaustiva e objectivamente compreensível. a hermenêutica encaminhar-se-ia para a resolução do problema do conhecimento científico dos indivíduos e até das grandes formas da existência humana singular. para que a arte ou técnica de interpretação possa ser exercida ou ensinada por espíritos menos bem dotados. Dado. a interpretação ou exegese. ao estabelecer a possibilidade de uma interpretação universalmente válida a partir da análise do compreender. seria necessário que essa arte ou técnica fosse fixada em regras deduzidas ou extraídas dos métodos seguidos ou criados pelas intérpretes ou exegetas geniais. Para o filósofo alemão. Assim. para Dilthey. sob forma escrita73. facultada pela hermenêutica. notando o pensador que a interioridade humana apenas na linguagem encontra a sua expressão completa. por mais diversas que sejam as manifestações escritas da vida psíquica. que decorrem das condições próprias deste modo de conhecimento. notava Dilthey que a respectiva interpretação teria sempre de apoiar-se em explicações expressas sobre forma literária. a qual. sendo a sua perfeição consequência da genialidade daquele. porque assente numa afinidade interna entre o intérprete e a obra. termos que tinha por sinónimos ou equivalentes. pelo que a arte de compreender se centra na interpretação dos vestígios da existência humana contidos na escrita. a compreensão era por ele entendida como o processo pelo qual as manifestações exteriores ou os signos captados ou percebidos pelos sentidos nos revelam uma interioridade ou a própria vida psíquica.

na medida em que este é possível neste domínio. no entanto. segundo Dilthey. Não deixava. Deste modo. a segunda aporia traduzia-se em saber como é possível extrair o todo do singular e. pelo que em nenhuma manifestação individual alheia pode aparecer algo que não esteja contido também na individualidade viva que a capta ou percebe. levando as coisas ao extremo. estas três questões mostrariam que o problema gnosiológico seria sempre o mesmo. depois.do espírito eram susceptíveis de proporcionar um conhecimento que. o que suscita o problema de saber como será possível que uma individualidade transforme em conhecimento objectivo. A primeira dessas aporias resultaria. Dilthey de ser consciente das aporias com que se defrontava a natureza do entendimento que propunha quanto à prática de uma ciência com validade universal. visto serem condicionadas pela forma como nos são dados. por sua vez. então. visto a totalidade de uma obra exigir que se chegue à individualidade do autor. resulta do singular. Para o autor da Introdução às ciências do espírito. dentro de certos limites. de valor universal. a terceira aporia decorreria do facto de cada estado anímico singular ser por nós compreendido a partir dos estímulos externos que provocou. Por sua vez. compreender cada obra singular e até cada frase mais profundamente do que se compreendia anteriormente. assim como. pelo que comunica a sua subjectividade a qualquer interpretação ou constatação das coisas. como é o mesmo o mundo externo que se reflecte nas suas representações. em definitivo. uma manifestação vital de outra individualidade que haja captado sensivelmente. para o autor de A essência da filosofia. se reveste de validade universal. Finalmente. o compreender não seria diferente do explicar. os factos psíquicos. o explicar teria como pressuposto um compreender perfeito. o que significaria. o de saber como é 42 . IV. o singular do todo. A esta dificuldade procurava o filósofo responder notando que não só encontramos as mesmas funções e a mesmos elementos constitutivos em todos os homens. dificuldade a que Dilthey respondia lembrando que apenas o processo comparativo permite. de cada um de nós se encontrar como que encerrado na sua consciência individual. originariamente. V. o que quer dizer que o meio é imprescindível para a compreensão. que a compreensão resulta do todo que. por sua vez.

Alexan-dre F. Ao lado do problema gnosiológico e lógico da compreensão e da hermenêutica. 16. se traduziria em saber qual a forma particular que a indução. Arménio 1947. Julián Marías. à trad. vinha a relacionar-se. resultantes da natureza da experiência nas ciências do espírito. ob. pref. trad. ao qual seria imanente.. Não renegando.possível um conhecimento universal obtido a partir da experiência. Kant. Coim-bra. no átrio da ciência do espírito encontrar-se-ia a análise da compreensão como problema gnosiológico fundamental. Mas porque seria impossível separar a apreensão e a valoração. 81-87. filológica e histórica. Gadamer. pref. segundo Dilthey. cits. contudo.. Deste modo. atendendo ao papel que aqui representa a linguagem e a gramática. na vida psíquica. o notável historiador do Direito italiano Emilio Betti (1890-1968). intimamente. Hegel. castelhana de La Teoria de las concepciones del mundo. de Leibniz e a sua época. Emilio Betti. cit. Dilthey.3. cit. Morujão. id. pp.. é o vital. 43 . 493-396. I. pp. 335-368. Ricoeur. Cfr. 1974. e vol. notando que os métodos hermenêuticos têm por fim uma conexão com a crítica literária. que aqui. surge-nos. o processo hermenêutico. P. Por sua vez. representa um 74 Origens da Hermenêutica. Ortega e Garet. a estrutura como conexão que. Madrid. vol. ob. depois. cit. a hermenêutica como metodologia geral das ciências do espírito. “Guilhermo Dilthey y la idea de la vida” (19339134). visando a sua solução. com os problemas da constituição e legitimidade das ciências do espírito. ob. que seriam. “Introducción a la filosofia de la vida”. que. I. A hermenêutica. port.. a análise. 1973. a construção e a comparação revestiriam no domínio das ciências do espírito. que Dilthey entendia compreender o da formação histórica do método e da sua especificação em vários domínios hermenêuticos. Joaquim de Carvalho. pois entre a interpretação e a explicação não haveria qualquer limite mas tão só diferença de grau. necessariamente. antes prosseguindo. 35-38. para Dilthey. ob.. se apresentava em condições particulares. constituindo. com base no qual o singular se determina. e Rui Magalhães. na medida em que partia deste problema gnosiológico. pp. como ele. cit. o da sua metodologia. conduzindo esta totalidade à explicação dos fenómenos singulares. considerando. pp. à trad. a crítica literária acompanharia. Revista de Occidente. a herança de W. a solução deste problema gnosiológico fundamental conduziria ao problema lógico da hermenêutica. condição preliminar da crítica filológica74. por isso. Dilthley.

apenas esboçado. Milão. Pensava o mestre italiano que a interpretação se destina a resolver o problema epistemológico da compreensão. na sua metodologia hermenêutica. pois. como mente activa e pensante e a mente objectivada em formas significativas. através da forma significativa. 1955. para Betti. E. realizou o seu projecto. Guiffré. criações espirituais do homem. tal como se efectiva através da linguagem. preso do psicologismo. com pressupostos diversos dos de Schleiermacher. e que só em face de formas significativas é possível a interpretação. por outro lado. do mesmo passo que o objectiva. tornando-o seu. entrando a dois primeiros em contacto. a compreensão como “o reconhecimento e a constituição de um sentido – e. no entanto. ainda. dando aqui ao termo forma o sentido lato de “estrutura homogénea em que um número de elementos detectáveis se relacionam entre si e servem para a preservação das características da mente que a criou ou que nela está representada”. com ele. aqui um conflito entre o elemento subjectivo (que não pode ser isolado da espontaneidade da compreensão) e a objectividade. e ficara. Betti que o processo de compreensão era um processo triplo. ideia que preside à sua Teoria Geral da interpretação (1955)75.. conferia à noção de vivência.considerável avanço relativamente ao filósofo germânico. em larga medida. Considerava. definitivamente. no processo hermenêutico. 44 . como processo que visa e resulta na compreensão. apenas mediata e indirectamente. i. pelo papel nuclear que. a via psicologista diltheyana como assenta toda a sua reflexão na ideia de que. 75 Teoria generalle della interpretazione. interpretar seria trazer algo à compreensão. Notava. obra que. enquanto alteridade do sentido que se visa alcançar. nas ciências do espírito. apresentando-se. pelo que. o intérprete reconstrói um pensamento alheio e recria-o a partir de si mesmo.e. limitado à sua atenção reflexiva às ciências históricas. apresenta formas diversas. para abrangermos a unidade do processo de interpretação. da mente que se conhece através das formas das suas objectivações – que se dirige a uma mente pensante que lhe é afim. que a interpretação incide sobre formas de objectivação da mente. em diferentes áreas. por isso. na base de uma humanidade partilhada”. havendo. que envolvia o intérprete. há um problema hermenêutico comum que. que havia. Assim. temos necessidade de referir o fenómeno elementar da compreensão. Deste modo. Betti não só abandona. de uma hermenêutica geral. de certo modo.

dentro da estrutura das respectivas experiências. c) O da actualidade da compreensão. o pensamento alheio. porque da essência da interpretação da lei faz parte a sua concretização. os cânones hermenêuticos. ainda. atributo que. relacionados. assim como cada um dos elementos individuais que o integram ou compõem deve ser entendido em refe-rência ao todo completo de que faz parte. seria exclusivo da hermenêutica jurídico-normativa e da teológica. adaptando-o e integrando-o no seu horizonte intelectual. uns. pois visa dar solução a situações concretas da vida social intersubjectiva. Segundo este autor. a fim de que “ambos se façam ouvir de forma harmoniosa”. segundo ele. a interpretação – cujo objectivo é a descoberta do sentido visado por uma manifestação do pensamento de alguém e a compreensão do pensamento e imaginação nele patente – obedeceria a determinados critérios e directrizes. ao objecto e os dois últimos ao sujeito da interpretação: a) O da autonomia hermenêutica do objecto. igualmente. Advertia. Assim. que se encontra estreitamente associado ao anterior. de novo. Betti que nem toda a interpretação é susceptível de uso aplicativo ou de aplicação. com o objecto da interpretação e outros com o respectivo sujeito. enquanto a interpretação que o teólogo faz das Escrituras tem. que impõe que as formas significativas sejam consideradas e compreendidas segundo a sua lógica própria de desenvolvimento e avaliadas de acordo com a intenção a que deveriam obedecer. d) O da correspondência hermenêutica do sentido. seriam os quatro segui-tes. uma função directiva.II. Da primeira. dado a comunidade dos 45 do pensamento subjacente e expresso na obra . segundo o qual o sentido do todo tem de provir dos seus elementos individuais. do ponto de vista do autor e do seu impulso formativo no processo de criação. E. b) O da coerência de sentido. os dois primeiros. referidos. e determina que o intérprete deve proporcionar à sua própria realidade viva “a mais estreita harmonia com o estímulo que recebe do objecto”. que estabelece que a tarefa do intérprete deve consistir em reconstruir o processo criativo e traduzir. com base no mesmo tipo de síntese que possibilitou o reconhecimento e a reconstrução interpretanda. que denominava cânones hermenêuticos.

no curso Prolegómenos para uma história do conceito de tempo78 e vindo a achar a sua formulação mais acabada na sua obra capital Ser e tempo. cast. trad. O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) abandona a via metodológica ou epistemológica da hermenêutica. pela primeira vez. Deste modo. uma possibilidade não só de chegar a entender-se como de ser esse mesmo entender. sendo inerente ao seu ser o estar. ob. 17. Ver. 1999. 46 . Madrid. iniciada por Schleiermacher e prosseguida por Dilthey. quanto ao seu objecto. igualmente. do interpretar que leva ao encontro. sendo. então. à visão e ao conceito de facticidade. Heidegger entendia a hermenêutica não no sentido de teoria da interpretação. A filosofia hermenêutica 17. José Gaos. que a facticidade tem um ser que está capacitado para a interpretação e dela carecido. Alianza Edi-torial. para o filósofo alemão.1. Fundo de Cultura Económica. em Josef Bleicher”. Alianza Editorial. Petrópolis. 77-131.e. Ser e tempo. comunicá-lo. i. Prolegómenos para una história del concepto de tiempo. tratando de aclarar essa alienação de si próprio de que o existir está afectado. port. esse 76 77 78 79 Teoria generalle della interpretazione e “A hermenêutica como metodologia geral dos Geistwissenschaften (1962). cast. a hermenêutica indicaria. trad. prosseguido. Ontologia (Hermenéutica de la facticidad). como tarefa tornar o existir próprio de cada momento acessível no seu carácter de ser ao existir. para o existir do homem. compreendida como o carácter de ser da nossa existência própria. Jaime Aupiunza. 1989.. publicada. Márcia de Sá Cavalcante. pp.. 2006. de algum modo. já interpretado. Jaime Aupiunza. regido pelo mestre germânico na universidade de Friburgo em 1923. 1951. agora em Marburgo.crentes exigir que essa interpretação goze de “utilidade aplicativa para as questões morais”76. cast. El ser y el tiempo. No primeiro daqueles cursos. em 192779. dando-lhe agora uma dimensão ontológica. Assim. trad. cits. Martin Heidegger I. e trad.. então. na hermenêutica configurar-se-ia. A hermenêutica teria. México. ao situá-la no domínio que dominava ontologia fundamental. trad. mas no que considerava ser o seu sentido originário de determinada unidade na realização do comunicar. dois anos depois. O ponto de partida desta nova concepção sobre a hermenêutica encontra-se no curso de ontologia intitulada Hermenêutica da facticidade77.

o tema da investigação hermenêutica. se apresente como algo provisório e prévio à filosofia. Na verdade. em cada ocasião. como analítica da existência. então.e. que o filósofo denominava “falatório” e que seria.entender que se origina na interpretação o estar des-perto do existir para consigo mesmo. o próprio existir. Mas porque a existência e o existir não são nunca um objecto mas um ser. 47 . pp 33-52. que o existir teria à sua disposição80. concluída na Floresta Negra em 1926 e publicado. a filosofia seria uma ontologia fundamental e universal que parte da hermenêutica do existir do homem (Dasein) e que. Tornando aí explícito o seu pensamento de que toda a ontologia ocidental se caracterizaria pelo “esquecimento do ser”. sustentava então o filósofo germânico que só a partir de uma analítica existencial seria possível constituir uma ontologia fundamental. que a hermenêutica viria a consistir na interpretação que o ser do existente faz de si próprio. o que tornaria o falatório numa interpretação já feita de si mesmo. o modo normal e público como o existente se toma e se conserva a si mesmo. questionado. em larga medida. a partir da qual foi pensada. pela primeira vez. Notava já aí. por ser hermenêutico. como mais de uma vez o afirmou na sua obra capital. heterodoxo. ata 80 Ontologia. visando configurar uma atenção bem arreigada a si mesmo. segundo ele. dedicada ao criador da fenomenologia.. sendo. trad. ainda que de modo claramente independente e. a hermenêutica não visa a posse de conhecimento nem no seu entender há qualquer generalidade. pois. no ano seguinte. Daqui resultaria. assim como que o mesmo existir se move no tempo de um modo determinado de falar de si mesmo. precisamente. O que ela procura é um conhecer existencial. Daí que fale sempre a partir do já interpretado e. II. cit. para Heidegger. i. um ser. o futuro autor de Kant e o problema da metafísica (1929) que o fenómeno fundamental do existir era a temporalidade. modo esse em que residiria uma determinada pré-compreensão que o existente tem de si próprio. sobre o seu carácter de ser. As ideias esboçadas nos cursos de 1923 e 1925 vão encontrar o seu mais acabado e sistemático desenvolvimento na primeira (e única) parte de Ser e tempo. nessa medida.

p. 81 82 83 84 Ser e tempo. não só a essência do ser do homem está na sua existência como aquele se determina. pelo que o esclarecimento próprio deste ente vem a tornar-se sempre e necessariamente uma interpretação referida a factos históricos. essencialmente. Assim. assim como que a questão sobre o sentido do ser teria as suas raízes no fenómeno do tempo. II. como ente. com os outros. a partir da possibilidade que ele é. não só no sentido originário da palavra como “tarefa de interpretar” como no sentido de elaboração das condições de possibilidade de toda a investigação ontológica.o fio condutor de todo o questionamento àquilo de que surge e a que regressa81. § 7. determinado pela linguagem82. sustentando o filósofo que a questão do ser mais não seria do que a radicalização da tendência para a compreensão pré-ontológica do mesmo ser. Idem. ainda com mais vigor. vol. Como o ser do homem enquanto existir possui primado ontológico perante quaisquer outros entes. se determinar e constituir pela historicidade. do ponto de vista filosófico. marcando. cabendo não esquecer. §§ 5 e 6. Deste modo. Ob. cit. de uma analítica da existencialidade da existência83.. visto a existência do homem ter o seu sentido na temporalidade e. p. deste modo. 69 e vol. §§ 9 e 12. trad. Para o Heidegger de Ser e tempo. cit. que a existência do homem é histórica. Idem. 250. Para Heidegger. a natureza e a função ontológica e já não epistemológica da hermenêutica. a fenomenologia do ser do homem seria hermenêutica. seria na analítica existencial da existência como modo de ser do homem que deveria procurar-se a ontologia fundamental. de que todas as outras deveriam vir a originar-se. respectivamente. lembrando ainda que o ser do homem se caracteriza por ser o ser vivo cujo modo de ser é. que ser no mundo. a hermenêutica desse mesmo ser do homem como interpretação ontológica de si mesmo viria a adquirir o sentido primário. cumprindo não esquecer. no entanto. no fundamento do seu ser. §§7 e 83. igualmente. seria na existência ou no existir do homem que se poderia encontrar o horizonte para a compreensão e possível interpretação do ser.. I. 48 . é constituição fundamental do existir humano84.

a compreensão possua a estrutura existencial de projecto. 85 86 Idem. não é um “círculo vicioso” nem uma imperfeição inevitável. o que é compreendido não é o sentido mas o ente ou o ser. afastando-se aqui. Ora. entendendo por sentido aquilo que sustenta a compreensibilidade de alguma coisa. no seu sentido existencial. Advertia aqui o filósofo da Floresta Negra que a interpretação de algo como algo se funda. vindo a interpretação a ser o tomar conhecimento do que se compreendeu. essencialmente. necessariamente. que a interpretação se funda. isento de pressuposições. Reafirmando a ideia schleiermacheriana de pré-compreensão. então. pelo que todo o ente não dotado do modo de ser da existência se encontra. o compreender como o ser existencial desse poder ser. para Heidegger. Por outro lado. Daí que em si mesma. a compreensão constituiria um existencial fundamental. § 32. o que significava. pois a compreensão. para Heidegger. por isso. desprovido de todo e qualquer sentido86. numa posição prévia.III. compreendido no projecto e não concebido ontologicamente85. é o poder ser do próprio existente. Com efeito. da tradição hermenêutica ocidental. existencialmente. vindo a interpretação a consistir nessa elaboração. O facto de a compreensão projectar o ser nas suas possibilidades tem a possibilidade de se elaborar em formas. na compreensão e não o contrário (como pensava toda a tradição hermenêutica anterior). § 31. só o seu próprio ser e o ente que se lhe abre podem ser apropriados na compreensão ou recusados na incompreensão. Heidegger salientava que o chamado círculo da compreensão. ao notar que toda a interpretação que se coloca no movimento de compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar. de novo. o qual é. neste projectar das possibilidades antecipou-se já uma compreensão do ser. nela subsistindo o modo de ser da existência do homem enquanto possibilidade de ser e apresentando-se. Idem. Assim. Neste contexto. elaborando as possibilidades projectadas na compreensão. então. numa visão prévia e numa concepção prévia. dado que nunca é a apreensão de um dado preliminar. 49 . na interpretação. a compreensão apropria-se do que compreendeu e torna-se ela própria e não outra coisa. só o existente ou o existir pode ser com sentido ou sem sentido. vindo aquela a consistir no modo de ser do existente em que este é as suas possibilidades enquanto possibilidades.

que é originário à compreensão. Discípulo de Heidegger. pois. ao 87 Idem. de interpretação. esta funda-se sempre na compreensão. houve uma hermenêutica jurídica e uma hermenêutica bíblica. 17. o círculo da compreensão ou círculo hermenêutico é algo que pertence à estrutura do sentido. pp. cujo fenómeno radica na constituição existencial do existente enquanto compreensão que interpreta. Começando por notar que o fenómeno da compreensão e da correcta interpretação do compreendido não é um problema específico da metodologia das ciências do espírito. como vimos. pp. pois o conceito de hermenêutica transcende em muito as fronteiras do conceito de metodo da ciência moderna. recuperar o projecto de Schleiermacher de uma hermenêutica geral. 39-45. por um lado. que respeitam mais ao modo de comportamento do juiz ou do sacerdote do que à teoria das respectivas ciências e que compreender e interpretar textos não é unicamente uma instância científica. lembra que. ontologicamente. isto é. o discurso é a articulação em significado da compreensibilidade inserida na disposição de ser-no-mundo do existente.. mas algo que pertence à experiência humana do mundo. como ente em que está em jogo o seu próprio ser com ser-no-mundo. o problema hermenêutico não é um problema metodológico. como ser-no-mundo. Hans-Georg Gadamer (1900-2003). Para Heidegger. que o filósofo entendia como articulação da compreensibilidade. §§ 32-34. por outro lado. desde a antiguidade. a hermenêutica não visa um método de compreensão que permita sujeitar os textos. procurou.Deste modo. Ver Ricœur. ob. constitutivo da compreensão. na sua origem. cit. porém caracterizar. O homem. partindo da ontologia do mestre. agora de base ontológica e não já epistemológica e.2. retomar o debate sobre as ciências do espírito aberto por Dilthey. o fundamento ontológicoexistencial deste não pode deixar de ser o discurso. cit. ob. como qualquer outro objecto de experiência.. Se o ser do homem é determinado pela linguagem. I. 88-95 e Rui Magalhães. o existente através de tal círculo. se achasse na base de toda a interpretação. não se devendo. o que explicaria que o discurso. toda a compreensão guarda em si a possibilidade de uma apropriação do que compreende. Sendo. o existente ser pronunciou como ser-num-discurso87. Para o filósofo alemão. 50 . Hans-Georg Gadamer. pois. o que evidencia que. o que queria dizer que. possui uma estrutura de círculo ontológico.

à alteridade do mesmo texto. entregar-se ao acaso das suas próprias opiniões prévias e ignorar. citada. contudo. 88 Verdade e método. pelo contrário. Se é inegável que quem pretenda compreender um texto não pode. serem a realidade histórica dos indivíduos. a autoridade e a tradição. Admitia Gadamer. esquecer ou ignorar que aquela receptividade inclui uma matizada incorporação das próprias opiniões prévias e preconceitos. na qual procurou estabelecer os fundamentos de uma hermenêutica filosófica88. como carácter ôntico da vida humana. mais do que os juízos. Para o filósofo. não significarem aqui falsos juízos. que considerava como primeira condição da compreensão. a opinião do texto. importando. desde início. desde o princípio. Gadamer que os preconceitos. por isso. no entanto. só o reconhecimento do carácter preconceituoso de toda a compreensão permitiria conferir a sua verdadeira dimensão ao problema hermenêutico. por. II. Verdade e método (1960). se bem que também trate de ciência e de verdade. de acordo com o ideal metódico da ciência. basicamente. para o mestre de Heidelberg. mas deve. tem na temporalidade o seu modo de ser próprio. 31 a 45. de constituir um conhecimento seguro. a fim de que o texto possa apresentar-se na sua alteridade e tenha a possibilidade de confrontar a sua verdade com as opiniões prévias daquele que o compreende. vol. pelo que a compreensão. preconceito deveria entender-se com o sentido do juízo formulado antes de serem examinados ou considerados todos os elementos ou aspectos que definem ou constituem uma situação. trad. a pré-compreensão seria determinada ou quedaria dependente de três elementos ou condições fundamentais: o preconceito. o que significaria que o objecto da compreensão se apresenta como algo que pertence a outro tempo. do mesmo modo que não se ocupa. que o ser do homem enquanto existente é essencialmente histórico.conhecimento científico. visto estar no seu conceito o poder ser valorizado positiva ou negativamente. como Heidegger. 51 . Assim. I. Saber que tipo de conhecimento é esse e qual a sua verdade é o objectivo da sua mais significativa e ambiciosa obra especulativa. que se encontra a uma certa distância temporal daquele que compreende e lhe é transmitido pela tradição. não se pode. que aquele que quer compreender se dê conta dessas suas antecipações. pp. Advertia. estar receptivo. Assim. obstinadamente.

cumprindo ter em conta que essas condições não se reduzem a processos ou métodos e que os preconceitos e opiniões prévias que ocupam a consciência do intérprete são algo dado. à maneira heideggeriana. mas descreve a compreensão como interpenetração de dois movimentos. exerce poder sobre a nossa acção e sobre o nosso comportamento.Também a noção de autoridade teria de ser entendida como assente no reconhecimento e. como movimento estrutural ontológico da compreensão: a compreensão do texto encontra-se continuamente determinada pelo movimento antecipatório da pré-compreensão. pp. seria ainda necessário não esquecer que o sentido de um texto supera o seu autor e está sempre determinado pela situação histórica do intérprete e. consciente dos seus limites. Deste modo. o da tradição e o de intérprete. por isso. os preconceitos que tornam a compreensão possível daqueles que a impedem e geram os mal entendidos. Só a distância no tempo permite distinguir entre estes dois tipos de preconceitos. então. que faz que o círculo do todo e das partes se não anule na compreensão total mas alcance nela a sua autêntica realização. distinção essa que constitui a verdadeira questão crítica da hermenêutica89. que não se encontra à sua disposição. mesmo do que não se aceita razoavelmente. consequentemente. o que faz com que a 89 Idem. pelo que aquele não está nunca em condições de poder distinguir. aqui que se insere a questão do círculo hermenêutico ou da estrutura circular da compreensão. entendido não já como círculo metodológico mas. consequentemente. que ver com reconhecimento e não com obediência. 407-443. É. o que está consagrado pela tradição e pelo passado goza de uma autoridade que se tornou anónima e o nosso ser histórico e finito está determinado pelo facto de que a autoridade do que foi transmitido. tendo. Deste modo. numa acção da razão que. pelo todo do processo histórico. Daqui decorreria. Ora. precisamente. não é subjectivo nem objectivo. o círculo não se reveste de natureza formal. a compreensão deveria pensar-se menos como uma acção de uma subjectividade de que com uma deslocação para um acontecer da tradição em que o passado e o presente se encontram em contínua mediação. Por outro lado. atribui ao outro uma perspectiva mais acertada. 52 . que a tarefa da hermenêutica não seria a de desenvolver um processo de compreensão mas a de iluminar as condições em que se compreende. por si mesmo.

na compreensão tem sempre lugar algo como uma aplicação à situação actual do intérprete do texto que se quer compreender. realiza. em Gadamer. à margem do passado”. IV. como qualquer coisa em que penetramos progressivamente e se desloca connosco. consistindo a tarefa hermenêutica em não ignorar ou ocultar esta tensão mas em desenvolvê-la conscientemente. pelo que “compreender é sempre o processo de fusão desses dois horizontes pretensamente dados por si mesmos”. III. A situação hermenêutica ou a situação do intérprete implica sempre dois horizontes: o do intérprete e o próprio de cada época a que ele se desloca. Assim. constantemente. 457-458. como âmbito da visão que abarca e encerra tudo o que pode ser visto de um determinado ponto. a sua superação. pois na realização da compreensão se verifica uma verdadeira fusão horizôntica que. 53 . Parte dessa prova é o encontro com o passado e a compreensão da tradição de que precedemos. cabendo.compreensão não seja nunca um comportamento meramente reprodutivo mas seja sempre também criadora ou produtiva. a interpretação e a aplicação. pois. o conceito de horizonte hermenêutico. Estreitamente associado à noção de situação aparece. Por outro lado. o que significa que a interpretação mais não é do que a forma específica da compreensão. à situação hermenêutica obter o horizonte correcto para as questões que se deparam ao intérprete face à tradição. precisamente. a interpretação não é um acto complementar e posterior à compreensão. simultaneamente. Notava o autor de Verdade e método que “o horizonte do presente está num processo de permanente formação. O horizonte do presente não se forma. pp. este último momento do processo hermenêutico tão essencial como os outros dois. Com efeito. com o projecto de horizonte histórico. 90 Idem. na sua tarefa hermenêutica. tal como a linguagem e os conceitos constituem um momento estrutural interno da compreensão. pois compreender é sempre interpretar. apresentando-se. que engloba a compreensão. deste modo. Assim. o processo hermenêutico é um processo unitário. nisto vindo a consistir o problema de aplicação contido em toda a compreensão90. na medida em que estamos obrigados a pôr à prova. não existe um horizonte do presente por si mesmo nem existem horizontes históricos a serem conquistados. todos os nossos preconceitos.

o sentido do texto e a sua aplicação a um caso concreto não são dois actos separados mas um processo unitário. embora a componente histórica seja para ele apenas um meio. dado que a tarefa da interpretação jurídica consiste na concretização da lei. na mediação jurídica que a interpretação judicial do Direito realiza. a função cognitiva da função normativa é cindir. pp. A lei não exige ser entendida historicamente. na relação entre passado e presente. de uma maneira nova e distinta. 483-486. i. claramente. deve ser compreendida. nela. pp. adequadamente. é constitutiva a tensão existente entre o texto da lei e o sentido que alcança a sua aplicação no momento concreto da interpretação judicial.. precisamente. embora o jurista não fique sujeito à intenção dos que elaboraram a lei. o que o jurista tenta realizar é a pervivência do Direito como um continuum e salvaguardar a tradição da ideia jurídica92. o estreito parentesco que ligava a hermenêutica filosófica à jurídica e à teológica assentava. é uno91. Deste modo. definitivamente. Entendia Gadamer que o processo hermenêutico-jurídico não apresentava só evidentes afinidades com a hermenêutica filosófica e religiosa.e. O jurista toma o sentido da lei a partir e em virtude de um determinado caso concreto. na sua aplicação. pois recordaria por si mesma o autêntico procedimento das ciências do espírito. Na verdade. pois também com a 91 92 Idem. Gadamer ia mesmo mais longe.e. o que. de pensar também em termos históricos. mas sim que a interpretação a concretize na sua validade jurídica. lembrava o filósofo que. na sua origem. i.A este propósito. no reconhecimento da aplicação como momento integrante de toda a compreensão. Daí que.. na interpretação jurídica. tendo. porquanto. para Gadamer. o sentido de uma lei é também necessário conhecer o seu sentido originário. 461-464. consequentemente. a função normativa da lei terá que se ir determinando de novo. sustentando que a hermenêutica jurídica revestia um significado paradigmático de toda a interpretação. para adaptar. o decisivo seja o significado jurídico da lei e não o seu significado histórico. 54 . podendo admitir que as circunstâncias mudaram e que. pois. como o historiador. nos seus trabalhos prático-normativos. na hermenêutica jurídica. Idem. pelo que separar. deve ser entendida de acordo com as pretensões que ela própria mantém. em cada momento e em cada situação concreta.

a dialéctica da pergunta e resposta. Deste modo. tal como lhe cabe realizar uma certa aplicação. na medida em que supera. Gadamer que a experiência não é um simples acontecer que possa conhecer-se e dominar-se pela experiência. pelo que a compreensão da tradição entende o texto transmitido como um conteúdo de sentido livre de toda a dependência dos que opinam e não como manifestação vital de alguém. não significa aplicação ulterior. já que no centro daquela está o diálogo com o texto. esta actividade interpretativa mantêm-se presa ao texto. como essa mediação. experiência da historicidade. Na estrutura da experiência hermenêutica. por se haver restringido à ciência. pp. superando. de uma dada generalidade. implicado que a tradição que nos chega fala sempre no presente e carece de ser compreendido na mediação entre o passado e o presente. dado que também em toda a compreensão histórica está. mais ainda. Neste sentido. compreendida primeiro em si mesma. pois é ela que tem que aceder à experiência. mas sim a primeira verdadeira compreensão da generalidade que cada texto vem a ser para nós. a um caso concreto. pois também ela serve à validade de um sentido. a hermenêutica jurídica seria o caminho que possibilitaria reconstituir a velha unidade do problema hermenêutico. mas é linguagem. 55 . 403-414 e 464. que aparece em todas as formas de compreensão. para o filósofo alemão. nessa medida. expressa e conscientemente. contudo. 93 Idem. a qual radicaria naquilo que seria verdadeiramente comum a todas as suas formas. Daí que a experiência hermenêutica tivesse que ver com a tradição.hermenêutica histórica vinha a coincidir no essencial. igualmente. razão pela qual o fenómeno hermenêutico encerra em si o carácter original da conversa. encontrava-se. ao mesmo tempo. que o sentido que se trata de compreender só se concretiza e se completa na interpretação mas. assim. a compreensão é uma forma de efeito e reconhece-se a si mesmo como efectiva93.488. V. Notava. a distância temporal que separa o intérprete do texto. pois a aplicação. para o filósofo. ou seja. o conceito de experiência havia desatendido a historicidade interna da experiência e ignorado que a experiência é experiência da finitude humana e. Pensava o filósofo que. a alienação de sentido que o texto experimentou.

Ver Alexandre F. o ser que pode ser compreendido é linguagem. e vol. franc. 1982. é ela que percebe a essência finita do homem.. 559-709. Paris. VI. 1995 e La Phillosophie hermenéutique. franc. Paris. que o processo hermenêutico é um processo linguístico e que a linguisticidade determina não só o objecto hermenêutico como a realização hermenêutica. Paris. trad. em que ambos surgem na sua unidade originária. tanto para a linguagem dos textos da tradição como para a experiência da arte e da história. pelo que a constituição ôntico-especulativa subjacente à hermenêutica teria a mesma amplitude que a razão e a linguagem. Isabelle Julien Deygout. pois. pp. para uma estrutura universal ontológica. pois a linguagem é o meio universal em que a compreensão se realiza. Cfr. Marianna Simon. pelo que da relação entre linguagem e mundo depende o horizonte adequado à linguisticidade da experiência da hermenêutica. ob. em derradeira instância. Jean Groudin.Daqui resultaria. 1991. a qual pretende deixar falar o objecto. vol. 1996. franc. Morujão. Este conjunto de tomadas de posição no domínio hermenêutico. Deste modo. Gallimard. designadamente a ideia da natureza linguística de toda a compreensão e interpretação. Jean Grodin e Jacques Schouwey. para a constituição de tudo aquilo para que a compreensão pode voltar-se. igualmente. tal como esta unicamente tem a sua verdadeira existência no facto de nela se representar o mundo. Language et vérité. 56 . no pensamento de Gadamer. Para Gadamer. então. a linguisticidade originária do estar-no-mundo do homem. pois. trad. assim como a interpretação vem a constituir um círculo fechado na dialéctica do perguntar e responder. PUF. ao mesmo tempo. Jean Claude Gens. Esta inflexão do acesso do sentido à linguagem apontaria. vol. abria caminho. que a humanidade original da linguagem significa. sendo. Esta conclusão valeria. assim. Pierre Fruchon. sendo a interpretação a forma de realização da compreensão. como o centro em que se reúnem o eu e o mundo. franc. Aubier. Gadamer. Philippe Forget. a linguagem aparecia. o ser seria linguagem94. H–G. Toda a interpretação se desenvolve por meio da linguagem. ou seja. II. trad. a linguagem do próprio intérprete. L’art de comprendre. 94 Idem. o fenómeno hermenêutico apresenta-se como um caso especial da relação entre pensar e falar. Ora. I. à sua concepção da linguagem como fio condutor da inflexão ontológica da hermenêutica e como horizonte de uma ontologia hermenêutica e cuja tese central era a de que o mundo só é mundo enquanto acede à linguagem.. segundo o pensador germânico. igualmente. trad. id. bem como a peculiar objectividade do mundo.

aquela que Ricœur prossegue. 57 95 . embora tenha. id. Paris.. dividido entre uma hermenêutica concebida como a manifestação e a restauração de um sentido que nos é dirigido como uma mensagem. 499-509. 1969. pp. da psicanálise e do existencialismo.. da fenomenologia para realizar o seu projecto de constituição de uma hermenêutica fenomenológica. ob. De l’interprétation. por um lado. ob.17. pp. uma proclamação ou um anúncio (Kerigma) e uma hermenêutica entendida como desmitificação ou como redução de ilusões95.. respectivamente. percorrendo os caminhos sucessivos da semântica e da reflexão e defrontando-se com a interrogação seguinte: o que acontece a uma epistemologia da interpretação quando é tocada.. como a primeira. na necessidade de achar uma resposta às interrogações originárias da hermenêutica – as que versam sobre como dar um organon à exegese enquanto inteligência dos textos. 96-100 e Josef Bleicher. à filosofia da linguagem e ao pensamento ético-jurídico de Rawls e Dworkin e não ignorando o conflito das interpretações que caracteriza o nosso tempo. sustentava o filósofo haver duas maneiras de fundamentar a hermenêutica na fenomenologia. 1965 e Le conflit des interprétations Essais d’hermeneutique. animada ou absorvida por uma ontologia da compreensão? A justificação para esta sua opção pela via mais longa e complexa de acesso ao plano ontológico encontrava-a Ricœur. ob.3. pp. para aí encontrar o compreender como um modo de ser e não já como um modo de conhecimento. fá-lo gradualmente. A primeira seria a de uma ontologia da compreensão (à maneira de Heidegger e Gadamer). cit. como tentativa de resposta à pergunta: o que é um ente cujo ser consiste em compreender? A segunda. Paul Ricœur. como Heidegger e Gadamer. Ricœur. cit. a ambição de levar a reflexão até ao plano de ontologia. 45-52. P.. na necessidade de procurar na cits. Rui Magalhães. Seuil. como fundamentar a ciência histórica face às ciências da natureza ou como dirimir o conflito das interpretações rivais – e. 153-179. por outro. Procurando justificar o seu intento de realizar uma hermenêutica fenomenológica. cit. via curta e via longa. em diálogo com as mais destacadas correntes de pensamento suas contemporâneas. Também o filósofo francês Paul Ricœur (1913-2005) partiu. ao estruturalismo. pp. que denominava. I. que se aplica imediatamente no plano de uma ontologica do ser finito. Essai sur Freud.

daqui resultando. Deste seu modo de entender os dois conceitos básicos que operariam no domínio semântico da hermenêutica decorreria um conjunto de tarefas a realizar pelo intérprete. de algum modo. metáfora. no plural. etc). mas teorias separadas e opostas sobre as regras da interpretação. por acréscimo. o filósofo francês queria vincar não haver uma hermenêutica geral ou um cânone geral para a exegese. analogia. um outro sentido indirecto. O primeiro era por ele entendido como “toda a estrutura de significação em que o sentido directo. II. como o pensador não deixou de sublinhar. havia feito) a indicação de que a compreensão é um modo de ser. figurado. Na sua abordagem. e consciente da verdade da afirmação tradicional de que um texto possui diversos sentidos. que apenas através do primeiro pode ser apreendido”. que. Convergindo com Gadamer. Ao falar em disciplinas hermenêuticas. convicto que estava de que a problemática da existência só poderia ser elaborada com base na elucidação semântica do conceito de interpretação comum a todas as disciplinas hermenêuticas. 58 . primário. que há interpretação onde há sentido múltiplo. que revelam pressupostos e exigências. o de símbolo e o de interpretação. parte o filósofo de dois conceitos fundamentais. alegoria. e daí o “conflito das interpretações” a que alude o título de um dos seus livros. imbricados uns nos outros. que deveria procurar-se o eixo de referência para a análise da linguagem e para o conjunto do campo hermenêutico. secundário. para Ricœur. se apresentava como “o trabalho do pensamento que consiste em decifrar o sentido oculto no sentido aparente. pensava o autor de A metáfora viva (1975) que toda a leitura ou interpretação de um texto se faz sempre no âmbito de uma comunidade. que designa por simbólica. Reconhecendo que é primeiro e sempre na linguagem que se exprime toda a compreensão ôntica ou ontológica. de uma tradição ou de uma corrente de pensamento vivo. em desdobrar os níveis de significação implicados na significação literal”. sendo nela que essa pluralidade de sentidos se manifesta. designa. literal. e socorrendo-se dos modos de compreensão disponíveis ou vigentes numa época (mito. Ricœur pensava que seria na semântica das expressões múltivocas.linguagem (como Gadamer. Correlato deste seria o conceito de interpretação.

ao sentido e à reflexão se proceder a uma exegese contínua de todas as significações que surgem nos monumentos culturais em que a vida está objectivada. efectuar uma enumeração. passar ao plano da reflexão. no plano ontológico. que toda a hermenêutica vinha a ser. precisamente. fixar a constituição semântica das formas aparentadas ou afins. explícita ou implicitamente. por uma comparação dos estilos hermenêuticos e por uma crítica dos sistemas de interpretação. é mostrar que a existência só se oferece à palavra. prossegue. segundo o autor de Tempo e narrativa (1983-1985). a análise linguística implica. Começando por uma investigação em extensão das formas simbólicas e por uma análise em compreensão das estruturas simbólicas. de acordo com o heideggeriano círculo hermenêutico. entendida como o que une a compreensão dos signos à compreensão de si. depois. o mais ampla e completa possível. em suas pretensões totalitárias e excludentes. depois. a que se estabelece no plano das condições de possibilidade. a hermenêutica na fenomenologia. por outro lado. a existência de que uma filosofia 59 . deste modo. notando o filósofo francês que a tarefa da hermenêutica.Quanto às expressões simbólicas. É. a qual permanece implicada na interpretação. das formas simbólicas e. por um lado. como a metáfora. III. não já das condições da objectividade de uma natureza. Do nível semântico seria necessário. Deste modo. esta lógica de duplo sentido que permitirá que a hermenêutica ascenda a uma ontologia de compreensão. a alegoria ou a semelhança e estudar os processos de interpretação do sistema hermenêutico em causa. “compreensão de si mesmo através do desvio da compreensão do outro”. relacionando a diversidade dos processos hermenêuticos com a estrutura das correspondentes teorias. para culminar na sua função mais elevada. Por outro lado. já que toda a interpretação procura vencer a distância existente entre a época cultural do texto interpretando e o intérprete. advertindo que ao integrar. o que significaria. a de dirimir o conflito ou a oposição entre cada uma das interpretações. mas das condições de apropriação do nosso desejo de ser. articulando as significações multívocas (símbolos) no conhecimento de si. notava Ricœur que o pensamento reflexivo aplicado à hermenêutica envolvia o recurso a uma lógica transcendental ou de duplo sentido. se introduzia profunda modificação na problemática do cogito.

1983-1985. 61. dado. Um texto.. Aubier. A hermenêutica francesa. para Ricœur. Le conflit des interpretations. o que 96 97 98 99 100 101 “Existence et herméneutique”. por uma hermenêutica do texto99 e. p. cit. se compreende de outra maneira ou até começa. é qualquer discurso fixado pela escrita. se compreende melhor. duas decisivas consequências: por um lado. Paris. verdadeiramente. sendo na interpretação que descobre as diversas modalidades da dependência de si. Ver também Paul Ricœur Réflexion faite. a compreender-se. Para Ricœur. quando consideramos a sua teoria da justiça101. do espírito e do sagrado96. vinha estabelecer uma estreita complementariedade e reciprocidade entre as noções de explicação e interpretação. La métaphore vive. é agora a segunda que particularmente nos interessa. ed. todo o Direito ser substantivamente linguagem. cit. em que o sujeito ou o autor do discurso diz alguma coisa sobre alguma coisa. 306-308. Porto Alegre. 1960. num segundo momento.hermenêutica poderá falar será sempre uma existência interpretada. a distinção entre a explicação e a compreensão teria de ser entendida em novos termos. consistir sempre num discurso verbal que se exprime num texto. Ed. De l’interpretations. já que o seu nexo primeiro passaria a ser com a linguagem e. a interpretação de um texto conclui-se na interpretação de si próprio por um sujeito que. IV. Du texte à l’action. por fim. como de início se notou. Esta hermenêutica do símbolo. Essai sur Freud. La symbolique du mal. 60 . indissociável da sua reflexão ética e política. 1995. id. Paris. Paul Ricœur. Constança Marcondes César. deste modo. Cfr. a partir da consideração hermenêutica do sagrado97 e da psicanálise98. 2002. por uma hermenêutica da acção100. Este modo de entender o texto como objecto da hermenêutica teria. uma vez que esta última deixaria de ter na visão psicologizante da compreensão de outrem (acolhida por Schleiermacher e Dilthey) a norma da sua inteligibilidade. Sentido e valor do direito. por outro. Autobiographie intellectuelle. que constitui o primeiro estádio da meditação de Ricœur. “A ontologia hermenêutica de Paul Ricœur”. Se a última foi já parcialmente objecto da nossa atenção. e Temps et récit. Paris. Esprit. vai ser completada. sendo pela leitura que é conhecido e interpretado. pois a primeira daquelas noções deixaria de apresentar-se como específica das ciências da natureza. pp. para o autor de História e verdade (1955). Seuil.

no plano jurídico e a polaridade compreender/explicar. nem a da situação histórica comum ao autor e aos seus leitores originais. Ver Sérgio de Gouveia Franco. não é a da intenção do autor. notava Ricœur. seria possível colocar a explicação e a interpretação sob o que designava por um único arco hermenêutico e de integrar as atitudes opostas de explicação e compreensão numa concepção global da leitura como actualização do texto. 101117 e 137-182. sendo no íntimo desta que. Ed. “contemporâneo”. quer como distância hermenêutica. que pela interpretação se realiza.. que o sentido da lei deve procurar102 Teoria da Interpretação (1976). Joaquim de Sousa Teixeira. que se encontra supostamente oculta por detrás do texto. Lisboa. que uma das finalidades de qualquer hermenêutica é lutar contra a distância cultural. tornando “próximo”. INCM. Ao usar aqui o termo apropriação. que a interpretação tem um carácter actual. dinamicamente. Madrid. port. 1995. Reportando-se directa e expressamente à hermenêutica jurídica. 1987 e Du texte à l’action. 2004. mas sim do sentido do próprio texto. Coerente com os seus pressupostos. Segundo Ricœur. tão pouco. era estranho. José Manuel Morgado Heleno. por considerar que. entendida esta quer como distância temporal entre o texto e o seu intérprete. Loyola. “semelhante”. a apropriação. para Ricœur. argumentación y justicia en Paul Ricœur. explicação e interpretação se opõem e conciliam102. cuja estrutura seria igualmente dialéctica. 70. Ed. Paul Ricœur cit. que denominava de apropriação. entendido. que constitui a referência do mesmo texto. 2001. “próprio”. Uma leitura da obra de Paul Ricœur. o que. Deste modo. A hermenêutica francesa. Hermenêutica e psicanálise na obra de Paul Ricœur. à partida. Instituto Piaget. acompanhando aqui a crítica anti-positivista de autores como Dworkin. pp. visa actualizar o sentido do texto para o leitor presente. trad. depois. São Paulo. Dykinson. V. Teresa Picouto Novales. no sentido de que a interpretação visa superar a distância relativa ao sentido. Lisboa. a da auto-compreensão que de si tinham como fenómenos históricos e culturais. como desvelamento de um mundo. Artur Mourão. 61 . nem. Lisboa. sustentava o filósofo francês que o seu adequado entendimento pressupõe uma concepção dialéctica da relação entre interpretação e argumentação. Hermenêutica e ontologia em Paul Ricœur. mediante este processo. o filósofo francês pretendia vincar dois pontos essenciais: em primeiro lugar.). 2005 e Constança Marcondes César (org.significaria que. na reflexão hermenêutica a constituição de si e a do texto seriam contemporâneas. no plano epistemológico. Ipseidade e alteridade. havia uma analogia entre a polaridade interpretar/argumentar. Hermenéutica. indefinidamente.

se no texto e nas suas conexões intertextuais e não no comando ou na vontade do legislador, assim como pensava que o discurso jurídico constitui uma espécie particular do género discurso prático geral, não podendo o silogismo jurídico reduzirse à via directa da subsunção dum caso numa regra, visto exigir o prévio reconhecimento do carácter adequado da aplicação daquela norma àquele caso. Com efeito, a aplicação de uma regra é aqui uma operação assaz complexa, em que a interpretação dos factos e a interpretação da norma se condicionam mutuamente, antes de se poder chegar à qualificação por meio da qual se dirá que certo comportamento é abrangido pela norma que se admite haja sido violada. É precisamente, o carácter problemático de toda a subsunção que singulariza o raciocínio jurídico no campo mais vasto do raciocínio prático, ao mesmo tempo que faz que a interpretação não só não seja exterior à argumentação, mas constitua o seu organon, vindo a justificação das premissas de qualquer inferência jurídica a ser sempre o resultado do entrecruzamento da argumentação e da interpretação, sendo da dialéctica entre ambas que decorreria a unidade complexa que caracterizaria o que Ricœur denominava a epistemologia do debate judicial103.

18. A hermenêutica crítica 18.1. Karl–Otto Apel. I. A terceira linha do pensamento hermenêutico contemporâneo surgiu e desenvolveu-se no âmbito da denominada Escola de Frankfurt, como hermenêutica crítica, visando, principalmente, as po-sições assumidas por H-G. Gadamer, a cuja orientação, alegadamente tradicionalista, contrapunha uma concepção dialéctica e critica. Desenvolvendo o seu pensamento em diálogo crítico com a obra de C. S. Pierce (1839–1914), L. Wittgenstein (1889–1951) e H-G. Gadamer, Karl-Otto Apel (1922), principalmente no conjunto de ensaios reunidos nos dois volumes de Transformação da filosofia (1973)104, apresentou os traços gerais do que designou por hermenêutica transcendental, em que começa por reconhecer relevantes méritos à fenomenologia hermenêutica de Heidegger e Gadamer, como a formulação da noção de “círculo hermenêutico”, a superação da oposição anterior entre
103 104

Le juste, Paris, Editions Esprit, 1995, pp. 163-184. Transformação da Filosofia, trad. port. Paulo Astor Soethe, São Paulo, Ed Loyola, 2000. 62

compreender e explicar ou o reconhecimento de que, ao contrário do que acontece na explicação dos fenómenos naturais, a compreensão das acções humanas deve implicar uma reivindicação normativa de justificação105. Atribuindo primado filosófico e antropológico à linguagem, tal como os autores de Ser e Tempo e Verdade e método, a cujo pensamento dedicou demorada atenção reflexiva e crítica, Apel fundamenta nela a ideia matriz da sua filosofia, a de que não é possível chegar a uma consciência cognitiva quanto a algo como algo ou quanto a si mesmo como pessoa passível de ser identificado por meio de referência ao eu sem que se haja tomado parte num processo de acordo mútuo linguístico e interpessoal. O considerar a linguagem como instância mediadora do conhecimento retiraria o problema cognitivo da relação tradicional sujeito-objecto e tornaria sujeito da interpretação a comunidade interpretativa de uma comunidade interactiva ilimitada. De igual modo, uma evidência só poderia valer como verdade no âmbito do consenso interpessoal sobre o sentido linguístico106. II. Para o pensador alemão, o compreender pressuporia uma pré-estrutura transcendental – hermenêutica como primeiro estádio no caminho de uma critica transcendental do sentido, pré-estrutura essa que partiria, não da hipostaviação do sujeito ou de uma consciência em geral como garantia metafisica da validação intersubjectiva do conhecimento mas, antes, da pressuposição de que estamos condenados, a priori, a um acordo intersubjectivo, a um consenso sobre o sentido linguístico, mesmo que, depois, cada um, isoladamente, se veja forçado a entenderse no mundo e a chegar, por via desse pré-entendimento, a determinados conhecimentos válidos sobre as coisas e sobre a sociedade107. Para Apel, este a priori de uma comunidade real de comunicação ou do acordo mútuo argumentativo numa comunidade real e ilimitada, que, para ele, seria praticamente idêntica à espécie humana e à sociedade, fundado no interesse transcendental em nos apropriarmos das condições de possibilidade e de validade da compreensão, apresentar-se-ia como o fundamento último da filosofia, ao mesmo tempo que assumia uma posição essencial no âmbito da pré-estrutura

105 106

Ob. e trad. cits., vol. I, pp. 29-38. Para o pensador alemão, a reflexão transcendental hermenêutica sobre as condições de possibi-lidade de acordo mútuo linguístico numa comunidade ilimitada de comunicação conduzia à unidade entre a razão teórica e a razão prática. Ob e trad. cits., vol II, p 405. 107 Ob e trad. cits., vol. I, pp. 68-79 e vol II, pp. 145, 226-242 e 247. Ver Josef Bleicher, ob. e trad. cits. pp. 205-213. 63

transcendental-hermenêutica

da

compreensão,

porquanto

todos

os

demais

pressupostos de acordo mútuo real deviam, em princípio, subordinar-se ao a priori da comunidade de comunicação, exclusivamente com base no qual podem ser reconhecidos ou discutidos. Este a priori apresentaria estrutura dialéctica, sendo com base nela que seria possível fundamentar a necessidade de mediação crítico-ideológica do acordo mútuo entre os homens. Porque a comunidade de comunicação é o pressuposto transcendental das ciências sociais, sendo a sociedade o sujeito-objecto de tais ciências, seria pela reconstituição dialéctica da história social que se poderia dar conta da contradição fundamental entre a comunidade real e a comunidade ideal de comunicação, por meio da mediação dialéctica da compreensão hermenêutica das acções e instituições humanas. A este propósito, notava Apel que o método da crítica da ideologia – que considerava compreensível num decisivo aspecto da sua estrutura como extrapolação da psicanálise, através da analogia entre a alienação do paciente neurótico e a alienação social do género humano – se apresentava aqui como condição de possibilidade de um programa filosoficamente relevante no acordo mútuo humano. Com efeito, seria possível conceber a mediação metódica da hermenêutica pela própria crítica da ideologia como postulado da hermenêutica transcendental, posição cujo fundamento filosófico resultaria, para o pensador alemão, do desdobramento sistemático dos interesses cognitivos “internos” desde o início implícitos na pré-estrutura da compreensão. Assim, a crítica ideológica, concebida, como psicanálise da história socialhumana e psicoterapia das crises actuais do agir humano, viria a constituir o elemento mediador dialéctico entre compreender e explicar e o único fundamento lógico e a única justificação moral sensata para as ciências objectivas-explicativas que se ocupam do ser humano. Notava Apel que esta mediação do acordo mútuo pela crítica da ideologia poderia traduzir-se num progresso no sentido da hermenêutica transcendental, mesmo que se trate de um acordo mútuo hermeneuticamente ampliado e melhorado, sustentando ser de presumir que é possível esperar da história em geral um progresso no acordo mútuo entre os homens e no seu auto-entendimento. Por
64

companheiro de K. de Gadamer” (1971). Dialéctica e hermenêutica. a hermenêutica tem razão. pp. sem mais. cits. Jürgen Habermas. PUF. Álvaro L. o autor de Verdade e método transformaria a intelecção da estrutura pre-conceitual da compreensão numa reabilitação do preconceito como tal. a legitimidade dos preconceitos. O. La Logique des sciences sociales et autres essais (1967). o que revelaria. no entanto. como alvo principal da sua crítica a hermenêutica filosófica de Gadamer. Porto Alegre. que 108 109 110 “Hermenêutica filosófica: leituras tradicionais e leituras críticas” (1981). Para a crítica da hermenêutica de Gadamer. não deixou de se confrontar com o pensamento do autor de Verdade e método.outro lado.. admitindo. Valles. Apel na Escola de Frankfurt. 65 . de que dependem todas as instituições sociais. ao afirmar que uma compreensão. ed. só por si. 86-97. quer questionando o que designa por “pretensão de universalidade da hermenêutica”110. L &PM. Rainer Rochlitz. Tomando. esquece que da pertença estrutural do compreender às tradições. pois a acção social se constitui unicamente na comunicação de linguagem corrente. que prolonga o mesmo compreender através da apropriação. 13-72. pp. Acresceria ainda que se é correcto conceber a linguagem como uma espécie de meta-intituição. ainda segundo o filósofo de Frankfurt. franc. “Sobre verdade e método. não se pode esquecer que a linguagem é também meio de dominação e de poder social. Por outro lado. 13-85. I. M. Dialéctica e hermenêutica. advertia que o sentido normativo-hermenêutico do princípio regulador de uma comunidade ilimitada de interpretação. “A pretensão da universali-dade da hermenêutica” (1971) e “Hans-Georg Gadamer: urbanização da província heideggeriana”. com base numa mediação filosófica entre a empiria hermenêutica e a praxis interactiva108. pp. 1987. pp. 184-215. Jürgen Habermas (1929). Dialéctica e hermenêutica. por mais controlada que seja. superar os vínculos do intérprete com a tradição. que se realiza a si mesmo ao longo do tempo. quer criticando directamente a obra capital do mestre de Heidelberg. que Gadamer avaliaria mal ou desatenderia a força da reflexão que se desenvolve no compreender. ao longo de mais de uma década. 1987. port. a cuja leitura tradicionalista opõe uma leitura crítica109. trad. fazia que o objectivo da interpretação viesse a ser transposto para um futuro indefinido. Paris. não logra. trad. 18. não decorre que a tradição se não haja transformado pela reflexão científica. Se reconhece que. e trad.2. segundo Habermas. igualmente.

igualmente. ainda que mediado sempre simbolicamente. as situações em que não só a comunicação como a linguagem se encontram perturbadas. c) O destruir a auto-compreensão objectivista tradicional das ciências do espírito. por um lado. perder a sua competência nas esferas em que as proposições excedem o campo daquela linguagem. observa Habermas deparar ela com alguns limites de decisivo relevo. como acontece quanto aos sistemas linguísticos organizados monologicamente construídos pela ciência moderna e. pelo trabalho e pela dominação. II. segundo ele. como ideológica. que se move no domínio da comunicação da linguagem ordinária. se constitui por coacções da realidade. Daí que. e com a crítica das ideologias. para o autor de Conhecimento e interesse (1968). que o pensador de Frankfurt recuse a hermenêutica ou não reconheça as suas realizações positivas. quer de natureza interior. o facto de o compreender hermenêutico. Deste modo. Caberia não ignorar também que a transformação dos modos de produção e as modificações institucionais resultantes do progresso científico-técnico provocam uma reestruturação da imagem linguística do mundo. no domínio colectivo. pela linguagem. a infra-estrutura linguística da sociedade seria momento de um contexto que. segundo o pensador alemão. no domínio individual. d) O mostrar às ciências sociais que o seu domínio objectivo está préestruturado pela tradição e que têm o seu lugar histórico determinado. que se introduzem nos processos de disposição técnica. de que destaca. Quanto ao que designa por pretensão de universalidade da hermenêutica. por outro. o contexto objectivo a partir do qual podem ser compreendidas as acções sociais se constitua. que se exprimem nas repressões das relações sociais de força. 66 . entre as quais se inscreveriam. Esta recusa habermasiana da universalidade da hermenêutica sustentada por Gadamer não significa. b) O estar necessariamente referida à praxis.serve para legitimar as relações de violência organizada. sobretudo. porém. quer da natureza exterior. as seguintes: a) A capacidade para descrever a estrutura da reconstituição da comunicação perturbada. como ocorre com a psicanálise. pelo que se apresenta.

na visão de Habermas. através da comunicação da linguagem corrente. cumpriria não esquecer. por poder ser livremente ampliada. Assim. à arte de compreender e tornar inteligível deve a hermenêutica filosófica a experiência de que os meios da línguagem natural bastam para esclarecer o sentido de quaisquer textos simbólicos. a reflexão sobre o modo correcto de compreender e tornar inteligível e de convencer e persuadir deveria estar ao serviço de uma meditação sobre as estruturas da comunicação na linguagem corrente. Para Habermas. simetricamente. III. f) O papel que lhe pode caber hoje na tradução para a linguagem do mundo da vida social de informações cientificas ricas de consequências111. a capacidade natural de compreender e que se relaciona. no domínio hermenêutico. para o filósofo germânico. Apesar desta distinção fundamental entre a arte ou a técnica e a reflexão. pp. por 111 Idem.e) O revelar às ciências naturais a sua auto-compreensão cientificista. Entendia o futuro autor da Teoria da acção comunicativa (1981) que a hermenêutica filosófica não constituía uma técnica ou uma arte que discipline e cultive. 67 . o seu companheiro Apel delineava em alguns dos textos depois reunidos em Transformação da filosofia. pois era uma reflexão que pode partir da nossa experiência da línguagem comunicativa. a experiência hermenêutica caracterizarse-ia pela intersubjectividade do acordo na línguagem corrente. contudo. são trocadas comunicações e são formadas e modificadas atitudes orientadoras da acção. intersubjectividade que é ilimitada. nalguns aspectos próxima ou convergente com a hermenêutica transcendental que. não obstante as críticas que fazia a alguns aspectos essenciais da concepção gadameriana. É a partir deste reconhecimento dos méritos do pensamento hermenêutico. pela mesma época. e susceptível de ser rompida. mas apresentava natureza crítica. com a arte de conhecer e persuadir em situações em que são trazidas para a decisão questões práticas. enquanto à arte de convencer e persuadir deve a experiência de que. como para Apel. 34-36. que Habermas formula o que designa por hermenêutica crítica. por mais estranhos e inacessíveis que se apresentem. o que a hermenêutica filosófica delas aproveita. IV. Com efeito. metodicamente.

uma hermenêutica criticamente esclarecida sobre si mesma teria de assumir em si o saber meta-hermenêutico sobre as condições de possibilidade da comunicação sistematicamente distorcida ou perturbada. por mais opacas que se apresentem inicialmente. ter em conta que a reflexão hermenêutica vincula a compreensão ao princípio do discurso racional. Deste modo. De acordo com o pensamento habermasiano.. a ser o resultado de uma auto-reflexão. primariamente. Cumpriria. Daí que a interpretação devesse supor uma racionalidade imanente em todas as manifestações e declarações. pois só quando o intérprete descobre as razões que fazem aparecer como racionais as declarações de qualquer autor pode compreender o que ele poderia ter querido dizer. e só secundariamente compreender a opinião do outro enquanto opinião. no entanto. a criatividade e a integração de linguagem e praxis vital. segundo o pensador. segundo o qual a verdade só poderia ser garantida pelo consenso obtido sub condições idealizadas de comunicação ilimitada e livre de dominação e que pudesse afirmar-se de modo duradouro. igualmente.e.nunca poder ser integralmente produzida. Este saber reflexivo concentra-se na consciência hermenêutica. a qual vem. Por outro lado. as quais. é também o lugar da inverdade fáctica e da violência duradoura. o filósofo que tal consciência será incompleta enquanto não assumir em si a reflexão sobre os limites da compreensão hermenêutica. em que o sujeito que fala percebe as suas próprias liberdades e dependências relativamente à linguagem. no entanto. enquanto lugar da verdade possível e do estar-de-acordo fáctico. por neuroticamente distorcidas. como sejam os que se referem às manifestações vitais especificamente incompreensíveis. a objectividade. Isto não deve fazer esquecer. desde que se possam atribuir a um sujeito cuja imputabilidade e responsabilidade não suscitem dúvidas. 68 . que a compreensão significa. Adverte. i. a précompreensão. deveria reconhecer que o contexto da tradição. entender-se na própria coisa. assim. tendo tal experiência a capacidade de elevar à consciência a posição do sujeito que fala relativamente à linguagem. a hermenêutica filosófica desenvolve as noções da estrutura das linguagens naturais que podem ser adquiridas a partir do uso reflectido da capacidade comunicativa. seriam a reflexividade.

que tem a sua origem na dominação de homens sobre homens. como reflexão ou teorização a partir da específica realidade normativo-imperativa do Direito e da sua natureza intrinsecamente prática. 215-231 e Rui Magalhães. pp. no entanto. PUF. cit. influenciada pelo pensamento jurídico. Origem e significado da Escola de Frankfurt. ob. L’École de Frankfurt. a crítica das ideologias encontraria na comunicação livre de dominação a sua ideia regulativa.. o contexto em que a actividade social pode ser compreendida é constituído não só pela linguagem mas também pelo trabalho e pelo poder. § 2° A hermenêutica jurídica 19. cits. “Dialética e hermenêutica: uma controvérsia sobre o método em filosofia”. disciplinar ou rectificar a conduta social do homem e a convivência intersubjectiva. Sobre a escola de Frankfurt ver Phil Slater. a hermenêutica viria a coincidir com a crítica das ideologias112.. Recorda. que uma vez alcançada ou conseguida uma comunicação plenamente livre. revestindo. Embora se haja apresentado. uma dimensão dominantemente metodológica ou instrumental quanto àquilo que aqui acima de tudo importa a realização da justiça nas relações humanas na hermenêutica jurídica dos 112 Idem. e como Apel também sustentara. 69 . algumas vezes. a crítica das ideologias é necessária para tornar patente o contexto da vida social em todos os seus momentos. o que significaria. então. acima de tudo. dado que a comunicação sistematicamente perturbada ou distorcida é um aspecto da sociedade em que os homens vivem na alienação. de forma directa ou indirecta. e trad. trad. bem como que a linguagem se reveste de carácter ideológico. não foram mecânicas transposições para a realidade normativa jurídica do que fora pensado no domínio da hermenêutica geral. o pensador que. pp. situação de que são claros exemplos Schleiermacher ou Betti. por isso. de se repercutir no mundo do Direito ou de nele encontrar correspondências ou equivalências. Da hermenêutica geral à hermenêutica jurídica 1. 27-91. pp.V.. 53-56. Deste modo. Paris. ob. 1978 e Paul-Laurent Assoun. este amplo e diversificado movimento intelectual e o debate especulativo sobre as condições gerais da compreensão do sentido dos textos e outras manifestações espirituais significativas e sobre as regras a seguir na sua interpretação não deixou. Como seria natural. Rio de Janeiro. como inicialmente advertira. ela própria. Por outro lado. Ver Enildo Stein. que. Zahar Ed. Josef Bleicher. port. apêndice a Dialética e hermenêutica cit.. 1987. porque dirigida a orientar. Alberto Oliva. porém.

elementos que condicionam. e ao mesmo tempo. de que Thibaut se fez eco. que em cada uma delas desempenha o conceito de Direito. no código napoleónico de 1804 e no código austríaco de 1811 e. assim como algumas figuras cimeiras da hermenêutica fenomenológica. paradoxal.últimos dois séculos não deixaram de se reflectir alguns rumos da filosofia hermenêutica ou da hermenêutica crítica. na América Latina. a qual. cujos pressupostos vinham a convergir. Quatro ideias centrais presidiam à Escola da Exegese: a da identificação do Direito com a lei e desta com o código. Antes de iniciar a consideração das mais representativas teorias hermenêutico-jurídicas das duas últimas centúrias. com o directo é necessário monopólio estadual da criação do Direito e com a redução das fontes de Direito à lei. no amplo movimento de codificação. será conveniente chamar a atenção para o papel. bem como a teoria das fontes de Direito que acolhe. igualmente. ocorreu uma profunda alteração no pensamento jurídico e na prática hermenêutica dos juristas. desde a Escola da Exegese e da Escola Histórica às mais significativas orientações contemporâneas. que deu origem ao que se convencionou designar por Escola da Exegese. se atentarmos na matriz jusnaturalista do movimento codificador. de que parte. que atravessou toda a Europa no séc. além disso. XIX. das duas correntes reflexivas que propugnavam a codificação do Direito positivo. como Gadamer ou Ricœur. o positivismo utilitarista inglês de Jeremy Bentham (1748-1832) e John Austin (1790-1859) e o jusracionalismo iluminista. de modo significativo.1. depois. Sobretudo em França. apenas nela podendo procurar-se os 70 . de reflectir sobre a hermenêutica jurídica. constituía o único critério jurídico. com a entrada em vigor do Código Civil promulgado por Napoleão. de modo muito relevante. Como é sabido. igualmente. A hermenêutica jurídica no século XIX 20. não deixando de se projectar. não deixaram. expresso ou implícito. 20. primeiro na compilação prussiana de 1794. com os do legalismo positivista. foi esta última a que logrou triunfar. a forma de entender a actividade interpretativa do Direito como mediadora necessária na sua concreta aplicação às situações da vida que visa regular ou disciplinar. em regra decisivo. II. A Escola da Exegese 1.

as quais viriam a ser ordenadas ou articuladas de modo a constituir um sistema. 71 . dado que.e. a da suficiência da lei. 40. Destes postulados ou destas ideias-base da Escola decorria uma doutrina hermenêutica de natureza subjectivo – histórica. uma teoria hermenêutica que apontava no sentido de uma interpretação. Por outro lado. acima de tudo. fundamentalmente. era entendida como vontade racional. poderia ser punido por denegação de justiça. então. pois o sistema jurídico constituía um todo completo e fechado que continha sempre solução para todos os casos possíveis. ao determinar este que o juiz que se recusasse a julgar. do Código civil. por recurso aos trabalhos preparatórios da lei. devendo as dúvidas que ela suscitasse ser esclarecidas ou dissipadas pelo recurso à vontade do legislador histórico. de carácter lógico-formal ou lógicodogmático. do Código. vontade que. se admitisse também a interpretação lógica. Paris. vol. que além da interpretação gramatical. que atribuía ao intérprete o dever de se cingir ao elemento gramatical da lei ou à letra da lei. Tal como resultava. a partir da analogia ou do recurso aos princípios 113 Méthode d'interprétation et sources en droit privé positif. com a paralela exclusão de lacunas no direito codificado. tornar explícitos os princípios gerais da lei ou do Código. p. do mesmo passo. I. Daqui resultava. II. dados os pressupostos da Escola. um dos seus mais destacados expoentes. visto vir a traduzir-se em tornar explícitas as proposições normativas contidas no texto legal. i. de que seria necessário que todo o Direito derivasse da lei escrita e positiva113. a reconstituir ou a apurar. para solucionar todos os casos.critérios normativo-jurídicos..4°. o postulado da intrínseca racionalidade da lei e do carácter completo e fechado do sistema jurídico conduzia a Escola da Exegese a entender que a solução para os casos omissos ou para as chamadas lacunas só poderia encontrar-se numa auto-integração. as regras gerais e abstractas da lei bastariam para satisfazer as diversas necessidades e exigências da vida social.. ideia bem expressa na afirmação de François Gény. pelo que a sua determinação e o seu desenvolvimento deveriam fazer-se por intermédio de argumentos lógico-analíticos e jurídicodedutivos. ideia que encontrava apoio na art°. “com o pretexto da obscuridade ou insuficiência da lei”. pois seria ela que permitiria apurar a vontade racional do legislador e. pela sua essencial racionalidade. ainda.

vol. A Escola Histórica do Direito I. unidos todos. Savigny foi o criador e o mais destacado representante da Escola Histórica do Direito. I. em obras tão marcantes e influentes como os Princípios de uma ciência nova em torno da natureza comum das nações (1725). Digesta. pp. sem prejuízo da 114 Cfr. tal como o teólogo e filósofo dos Discursos sobre a religião. como referência quase obrigatória. 1995. Coimbra Editora. 1974. ficando excluídos do sistema jurídico-legal. Profundamente marcado. O jurista alemão Friedrich Karl von Savigny (1779-1861) ocupa. Coimbra. devendo concluir-se que os casos que por nenhuma destas vias pudessem ser decididos pertenceriam ao “espaço livre do Direito”. nomeadamente quanto aos elementos da interpretação das leis. Chaïm Pelerman. a premissa menor aos factos jurídicoconceitualmente qualificados e a conclusão à sentença114. ainda hoje. vindo a sua função a consistir num trabalho quase mecânico. Nouvelles études sur la pensée juridique. pelo ambiente romântico. que. Burke (1729-1797) e Herder (1744-1803). Logique juridique. pp. Paris. devendo-se-lhe a formulação de algumas teses. Montesquieu (1689-1755). em que a premissa maior corresponderia à lei. pp. XVIII e contra a qual se haviam manifestado filósofos e pensadores tão diversos como Vico (1668-1744). 2ª ed. a posição que sustentava quanto à aplicação judicial do Direito. Dalloz.. Castanheira Neves. 23-47 .gerais dedutivamente determinados. Nouvelle rhéthorique. igualmente. Reflexões sobre a revolução em França (1790) e Ideias para uma filosofia da humanidade (1784). e A. que se consubstanciava no que se denominou silogismo judiciário. 20.2. O espírito das leis (1748). de natureza também ela lógico-dedutiva. e a qual via na actividade do juiz o ser ele a mera expressão da lei ou da vontade do legislador (“la bouche de la loi”). León Husson. no entanto. 72 . com matizes embora diversos. 181-191 e bibliografia aí citada.. no domínio da teoria hermenêutica do Direito. 1979. 173-196 . um lugar de certo modo equivalente ao de Schleiermacher no da teoria hermenêutica geral. por uma decisiva consideração da concreta e essencial historicidade do mundo humano e da realidade jurídica e da sua múltipla diversidade espácio-temporal. Dos pressupostos da Escola decorreria. permanecem. que se traduziu numa reacção e numa ruptura relativamente à anterior tradição jusracionalista que dominara o pensamento jurídico até ao final do séc.

com a do Estado e com a dos povos. influenciado pelo abstracto jusracionalismo já declinante de Setecentos. Assim. deveria o intérprete ter em conta as circunstâncias históricas do seu aparecimento. à elaboração histórica caberia considerar o sistema no seu conjunto e pensá-lo como história da Jurisprudência no seu conjunto. que faz que a história do Direito se conjugue. os respectivos ditames”. reconhecendo. na medida em que. a partir dela. A fim de alcançar tal objectivo. devendo ainda procurar conhecer as particularidades e o significado de cada texto legal para o conjunto. o qual só em sistema poderia ser apreendido. por esse artifício. houvesse achado expressão como conteúdo da respectiva determinação. estreitamente. tal pensamento fosse cognoscível. lógico e sistemático. Para isso deveria o intérprete “colocar-se na posição do legislador e deixar que se formem. No curso que regeu na universidade de Marburgo no ano lectivo de 18021803. os quais serviriam. assim como uma interpretação teleológica. ter em conta o desenvolvimento de conceitos e a exposição de regras jurídicas. segundo o seu sentido gramatical. o que significaria que a interpretação do Direito não poderia deixar de ter em conta o elemento histórico e o elemento sistemático relativamente a cada norma. igualmente. de acordo com o seu nexo interno. visto a legislação unicamente se exprimir no plano de um todo. enquanto à elaboração sistemática competiria considerar o múltiplo na sua articulação. sustentando que não cabia ao juiz aperfeiçoar a lei – tarefa que estaria reservada ao legislador – mas apenas aplicá-la. O estrito legalismo que o moço Savigny então perfilhava levava-o a recusar qualquer interpretação extensiva ou restritiva.existência ou do reconhecimento de alguns traços comuns ou análogos no percurso histórico dos vários povos e culturas. Desta concepção sobre a natureza do Direito derivava uma teoria da interpretação que lhe atribuía como tarefa principal a reconstrução do pensamento expresso na lei. à elaboração da ciência jurídica. atendendo tão só ao que. a substantiva dimensão histórica do Direito. o jovem Savigny. deveria considerar na interpretação três elementos. Sustentava então o futuro fundador da Escola Histórica que. identificava ainda o direito positivo com a lei ou o direito legislado. com vista a alcançar o pensamento da lei. gramatical e histórico. nas palavras da lei. II. no entanto. 73 . que denominava lógico.

são forças e manifestações desse mesmo povo. os costumes e a constituição política. Os defensores da codificação entendiam que os novos códigos. “a legislação que a si próprio se complementa”. no opúsculo – manifesto Sobre a vocação do nosso tempo para a legislação e para a ciência jurídica (1814). de modo que o magistrado. apresentam características peculiares. de actos emanados do poder supremo do Estado. como a língua. não tendo existência independente. ficando reservado ao direito consuetudinário. quando haja um caso não especialmente regulado. A esta concepção contrapunha a nascente Escola Histórica a ideia de que. descobrir na lei uma regra especial que preveja e regule um caso semelhante e reduzir essa mesma regra a uma “regra superior” com base na qual decidiria o caso não regulado. para ele. para. passar a ser visto como produto espontâneo de “espírito do povo” (Volksgeist). Um decénio mais tarde. o papel de mero auxiliar na interpretação das lacunas do Direito. individualmente ligadas entre si. novo ponto de vista que o levará a considerar de maneira muito crítica os códigos napoleónico (1804). por isso. o Direito não seria mais do que o resultado da lei. por entender que ela nada acrescenta à mesma lei. pois são manifestações espontâneas do “espírito do povo” que. pela “universal 74 . Deste modo. possível que o direito de hoje diferisse totalmente do de ontem. Savigny admitia a analogia. deveria limitar-se a uma aplicação literal da lei. impreciso e fragmentário. à maneira do nacionalismo romântico. prussiano (1794) e austríaco (1811) e a oporse com vigor à proposta de codificação do direito alemão apresentada por Thibaut (l772-1840). em cada Povo. codificação que só virá a realizar-se um século mais tarde. sendo. deste modo. III. por mais perfeitos do que o múltiplo e disperso direito então vigente. vai deixar de ser o produto ou expressão de um legislador racional. garantiriam uma mecânica exactidão na administração da justiça. visto consistir em. que. o Direito.Não obstante rejeitar qualquer interpretação extensiva ou ampliadora da letra da lei. ao mesmo tempo que pensavam deverem os novos códigos estar inteiramente livres de toda a influência histórica e adaptar-se a todos os povos e a todos os tempos. sendo. na obra Da necessidade de um direito civil comum para a Alemanha (1814). o pensamento de Savigny registará uma radical alteração no seu modo de entender o Direito. dispensado de todo o juízo próprio.

o que. a sua elaboração rigorosa e a sua aplicação concreta seria função própria dos juristas. uma ciência dogmática. embora. IV. pelo sentimento de necessidade íntima. Ed. Posada. equivalia a 115 De la vocación de nuestro siglo para la legislación y la ciência del Derecho. como a linguagem. então. que excluem toda a ideia de uma sua origem meramente acidental e arbitrária”. por um lado.crença do povo. bem expresso no título da sua obra capital. como já tem sido notado. Cast. Adolfo G. a atribuir ao costume e não já à lei o lugar de primeira e mais importante fonte do Direito. Buenos Aires. cabendo à lei a função secundária de fixar os costumes115. para a qual considerava não estar ainda preparada a ciência jurídica alemã. i. com a paralela recusa de uma sua concepção volitivo-racionalista. pelos costumes e crenças populares e. sempre ”por virtude de uma força interior e tacitamente activa e nunca pelo arbítrio de nenhum legislador”. Deste modo. Arengreen. por outro. a ciência jurídica para além de ser história do Direito. Daqui resultaria. igualmente. de certo modo. aperfeiçoa-se com ele e perece quando o povo perde o seu carácter. o Direito encontra-se em estreita dependência do costume e do carácter do povo e. pela jurisprudência. no Sistema do direito romano actual (1840). conserva-se com o progresso do tempo. que veio a constituir a mais acabada expressão da Escola Histórica do Direito e da doutrina hermenêutico-jurídiea do seu fundador. cuja cientificidade resultava do seu carácter sistemático. depois. como Savigny pensava..e. Mas se. trad. como manifestação directa e espontânea do espírito do povo. de cujo espírito é manifestação. o que levava. Podemos considerar como aspecto fundamental da Escola Histórica o seu conceito espiritual-cultural e histórico e não já politico do Direito. Esta concepção seria desenvolvida um quarto de século mais tarde. na medida em que era nele que o “espírito do povo” espontaneamente se manifestava e. a criticar e repudiar a codificação. que o Direito se cria primeiro. Assim. fosse algo intrinsecamente histórico. 1945. para Savigny. era. o Direito continua a viver na consciência comum do povo. cabendo à jurisprudência o duplo papel de interpretar os costumes para determinar os sentidos normativos que hão-de reger a vida colectiva e de formalizar em conceitos os dados assim recolhidos. a primeira e essencial fonte do Direito seria o costume. pelo que. progride com o povo e com a sua vida social. 75 . dado o seu reconhecido atraso.

a patria potestas. na intuição do instituto jurídico que as regras têm o seu verdadeiro fundamento. não pode nunca ser exposto inteiramente pelas regras que lhe dizem respeito mas de que aqueles não são produto. e vol. o que fazia que o pensamento jurídico tivesse sempre de conciliar intuição e conceito: a primeira representa-lhe o todo. “Savigny não consegue mostrar-nos como se efectua o trânsito da „intuição‟ do instituto para a „forma abstracta da regra‟ jurídica e 116 Cfr. existentes por si. no seu pensamento jurídico. Na verdade.recuperar aquele racionalismo normativo que definia o jusnaturalismo racionalista a que a Escola Histórica decididamente se opunha. 203-214. o elemento histórico e o elemento sistemático a constituir uma dualidade não integrada. para o fundador da Escola. A este respeito notava o grande jurista alemão. elemento metodológico essencial da actividade dos juristas e de que era aspecto decisivo a sua teoria dos quatro elementos da interpretação: gramatical. Era. pelo contrário. daqui que provinha o modo como Savigny compreendia a hermenêutica jurídica. o sistema seria uma unidade racional de natureza formal-estrutural. a propriedade ou a compra e venda). que o instituto jurídico. que se transforma no tempo. V. Assim. como teoria da interpretação jurídica das leis. seria sempre necessário partir da intuição do instituto jurídico. era agora completada com a adição do elemento sistemático. histórico. No entanto. na interpretação dessas regras. sendo um todo de relações humanas típicas carregado de sentido. como notou Larenz. por isso. cujo elemento base seriam os institutos jurídicos (como o matrimónio. carecendo. em que este acabou por prevalecer sobre aquele. o qual era entendido como referindo-se “ao nexo interno que liga numa grande unidade todos os institutos e regras jurídicas”. deste modo. que esboçada já no juvenil curso de 1802. precisamente. vindo a Escola a sacrificar a dimensão histórica à dimensão dogmática. 76 . lógico e sistemático. ob. sendo. enquanto o segundo e a regra por seu intermédio constituída só logra abranger um aspecto parcial. Castanheira Neves. passando a atender mais às fontes históricas da ciência jurídica do que às fontes vivas do Direito e à sua primeira origem consuetudinária116. pp. cits. independentes de qualquer elemento teleológico. vindo. o conceito de ser constantemente alargado e rectificado através da intuição. A.

está a referir-se. de modo que tome vivamente presente em si a actividade espiritual que deu origem à expressão de pensamento contida na lei. 3ª ed. Continuava. faça apelo a uma “razão geral”. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa. cits. para a intuição originária”. a actividade dele. José Lamego. nota. na medida em que o mesmo possa ser comprovado e. bem como do fim especial da lei. i. viesse a revestir “o carácter de um aperfeiçoamento do Direito distinto da interpretação”. 14. a actividade do legislador pela qual a lei surgiu. visando antes um pensamento jurídico objectivo que no instituto jurídico se realiza 118. contudo. o Savigny da maturidade era levado a aceitar tanto a interpretação extensiva como a restritiva. no caso em que se apresente indeterminada a expressão que se usa na lei. 77 . Ob. de igual modo. assim como entender ao já aludido nexo interno e à especial razão de ser da lei. Quanto a este ponto. trad. p. 16. acima de tudo a uma actividade espiritual própria que. deve notar-se. historicamente. ter suficientemente presente a intuição do todo histórico-dógmático.. Entendia o autor do Sistema que o objecto da interpretação jurídica era “a reconstituição do espírito ínsito na lei”. 117 118 Metodologia da ciência do Direito. não o podendo ser. devendo. port. e trad. leva para além daquilo que o legislador histórico concretamente terá pensado. artificialmente. baseada tão só numa mera “razão jurídica geral”. pelo que caberia ao intérprete colocar-se em espírito na posição do legislador. como lembra Larenz. procurando “conhecer a lei na sua verdade”. a excluir ou a rejeitar qualquer rectificação da lei que. p. no seu espírito. repetindo em si. quando ele exige que o intérprete repita. Aspecto igualmente relevante da teoria hermenêutico-jurídica da maturidade do jurista alemão é o admitir ele agora que. radicando aqui a limitada eficácia da sua metodologia jurídica117. a um pensamento jurídico geral. Diversamente também do que sustentara na juventude. não poder integrarse a posição de Savigny na chamada teoria subjectivista da interpretação jurídica. mas sempre de modo a impedir que esta venha a ser aplicada em contradição com o seu respectivo fim.e.desta. pois. fundamentalmente. quais os pensamentos que o legislador ligou à expressão carecida de correcção por via hermenêutica. pois só ela pode permitir a apreensão imediata das relações desse todo no texto interpretando. entendendo agora que se devia procurar conhecer. se socorra o intérprete do que designava por “nexo interno da legislação”.

1997. Anuario de Derechos Humanos.. ob. 20. Panorama histórico da cultura jurídica europeia. ainda. da nova atitude epistemológica decorrente do criticismo kantiano. na medida em que se adequa a uma justa compreensão dos fins especiais dessas mesmas proposições. A jurisrisprudência dos conceitos 1. nenhum instituto jurídico. mais do que uma mera consequência lógica.3. Fruto. Franz Wieacker. A. A dualidade em que se debatia o pensamento da maturidade de Savigny entre o elemento histórico e o elemento sistemático vai ser resolvido pelo seu discípulo Georg Friederich Puchta (1798-1846). port. uma consequência orgânica. de certo modo. Nueva Época. Abeledo-Perrot. Retomando o processo lógico-dedutivo de construção de conceitos. Botelho Hespa-nha. pp 9-19. Derecho Provado. ao lado do costume e da legislação. Considerava. e trad. a jurisprudência dos conceitos vinha. 1980. António M. Diversamente. La metodologia jurídica en el siglo XIX.. ao mesmo tempo que atribuirá à doutrina a natureza de verdadeira fonte de Direito. no caso de se tratar de uma relação jurídica nova. Hespanha. pp. a nova orientação doutrinária passa a ver o Direito como um sistema de conceitos e não já de institutos. próprio do racionalismo wolfiano. pp. pp. pp. e Martín Laclau. Wilhelm. Vol. como arquétipo. surge uma nova questão jurídica. para a qual não exista. ob e vol cits. como Savigny pensara. Buenos Aires. 11. La historicidad del Derecho. em larga medida. é. tomando por base o parentesco ou a afinidade com institutos já conhecidos. Castanheira Neves. A.Também quanto à analogia se regista significativa divergência relativamente às posições iniciais do autor. História do Direito Privado Moderno. 1980. cast. Rolf Bethmann. acima de tudo. Edit. Savigny que a analogia se baseia sempre na pressuposta coerência interna do Direito. EuropaAmérica. 78 . 203-214. 181-185. trad. a solução há-de procurar-se atendendo ao segundo parentesco íntimo das proposições jurídicas pertencentes a esse instituto. torna-se necessário criar um instituto jurídico arquétipo. Fundação Calouste Gulbenkian. 225-252. quando. 1994. 397-475. Madrid. a qual. pp. M. 107-118 e “Interpretación del derecho e intuición en el pensamiento de Savigny”. Lisboa. porquanto entende ele agora dever aquela fundar-se na intuição global do instituto jurídico correspondente. cits. trad. encaminhando a Escola Histórica no sentido do que veio a designar-se por jurisprudência dos conceitos. Assim. Larenz. num instituto jurídico já conhecido. pp. que resulta da intuição global da natureza prática das relações jurídicas e dos respectivos arquétipos119. 2010. Lisboa. dando decisiva prevalência ao elemento sistemático e conceitual. 7-62. 119 Cfr.

cujo reconhecido atraso. 1928-1837 e Curso das Instituições. Para Puchta. a origem de cada um dos conceitos. A primeira fundamentava a sua ideia de que a ciência jurídica consiste em seguir. o jurista converte-se em representante e intérprete qualificado do “espírito do povo”. na genealogia de cada uma delas. e. por procederem do espírito do povo. até. era uma das principais razões da sua oposição à proposta. que seria ela própria Direito. de criar normas novas. depois. de codificação do direito civil alemão. porque é revelado pela obra dos juristas. sendo o “Direito que daquela nasce o Direito da ciência. até aos princípios e descer. ao lado do costume e da lei. o Direito dos juristas”120. Nisto consistiria a ciência do Direito. Duas eram as ideias fundamentais em que se apoiava a construção do jurista alemão: a de genealogia dos conceitos e de jurisprudência produtiva. i. de que Thibault era o principal arauto. em sentido ascendente e descendente. para Puchta. sobretudo. actividade essa que revela e torna conhecidas proposições jurídicas ocultas no espírito do direito nacional e não reveladas na convicção imediata dos membros da comunidade nem nos actos ou manifestações do legislador. sendo. ou melhor.e. II. de 120 O direito consuetudinário. o “Direito findado na autoridade externa da convicção popular imediata e do poder legislativo”. para ele prematura. Assim. “as particulares proposições jurídicas que constituem o Direito de um povo estão unidas entre si numa conexão orgânica que se explica. no contexto europeu.corresponder ao apelo de Savigny no sentido do aperfeiçoamento e aprofundamento da ciência jurídica alemã. não como produção originária do Direito mas como forma de expressão do Direito já criado pela consciência popular ou pelo “espírito do povo”. como reciprocamente condicionadas e derivando umas das outras. a quem é conferida a possibilidade de modificar as normas existentes ou reconhecidas como tais. se a lei deveria ser entendida. através do processo lógico (e não já histórico) que preside à sua formação. por dedução dos princípios imanentes ao sistema jurídico. Deste modo. 79 . por isso. “a função da ciência jurídica reconhecer as proposições jurídicas na sua conexão sistemática. dos princípios até às suas mais extremas ramificações”. para o sucessor de Savigny na cátedra de Berlim. é retrotraído aos seus princípios pela actividade científica dos juristas e compreendido como um sistema. para ascender. pois a unidade desta fonte comunica-se a tudo o que dela deriva”. 1844.

directamente. agora. 80 . que conferia coerência sistemática ao Direito.. O primeiro destes postulados decorre.) de deduzir a norma e a decisão jurídica a partir do conceito. introduzido o processo (. 1854. desta maneira de conceber a ciência jurídica. de que todos os outros se deduzem. Assim. A ideia de jurisprudência produtiva deriva. deste modo. da futura visão kelseniana. na sua verdade lógica e na sua racionalidade: a própria criação do Direito torna-se num ‟desenvolvimento a partir de conceitos‟. cits. por via da racionalidade do Direito como Direito. da ideia do sistema jurídico como “pirâmide de conceitos”. III. claramente. “a legitimidade da norma jurídica baseia-se. o mais geral de todos. depois. o que atribuía à doutrina a qualidade de verdadeira fonte criadora de Direito. do “espírito do povo” que naquele directa e espontaneamente se manifestava. 457. em completa harmonia lógica. como escreveu Wieacker. por admitir um conteúdo suprapositivo para o conceito supremo em que assenta ou de que decorre todo o sistema jurídico. Neste esquema ou neste processo lógico. produzir o sistema e os conceitos através da indução a partir das normas jurídicas. pelo contrário. como esta. Três eram os postulados essenciais em que vinha a assentar a nova orientação doutrinária assim inaugurado por Puchta. “o que decorre por necessidade íntima das máximas jurídicas existentes. das decisões jurisprudenciais e das valorações sociais”121. cujos estratos superiores são ocupados pelos conceitos cada vez menos gerais e cujo vértice é o conceito supremo. poderia produzir direito válido. os conceitos menos gerais subsumem-se aos mais gerais. em pé de igualdade com o costume e a lei e intérprete autorizada. o mais destacado representante: a teoria da subsunção. pois. de algum modo. nisto se distinguindo. Lições de Direito romano actual. em vez de. deve valer. na sua correcção sistemática. a qual. e trad. de que Bernard Windscheid (1817-1892) viria a ser. codetermina todos os outros através do seu conteúdo. 121 122 Ob. É. como vontade da nação 122”. p.uma “pirâmide de conceitos” em que o conceito supremo. cuja base é constituída pelos conceitos menos gerais.. a da plenitude lógica do ordenamento jurídico e a doutrina objectivista da interpretação. exclusivamente.. pela sua racionalidade lógico-dedutiva. que Puchta fazia coincidir com o conceito kantiano de liberdade.

Da natureza lógico-conceitual do sistema jurídico provinha. quase. Deste 81 . não é aquilo que pensara ou quisera o autor da lei. embora o conjunto das normas legais não preveja nem regule. o que resultasse da sua referência ao sistema normativo de que fazia parte. aqueles três autores que o que deve ser relevante e decisivo. decorrendo a decisão de um processo puramente lógico. por dedução e combinação de conceitos. o postulado ou o dogma da plenitude lógica do ordenamento jurídico e a consequente inexistência de lacunas nele. a aplicação judicial do Direito. necessariamente. no plano jurídico. construído a partir do direito legislado. em que a premissa maior seria constituída por um princípio jurídico e a premissa menor pela situação de facto a decidir. na década de 80 do séc. todas as situações carecidas de tratamento jurídico. da ideia fundamental da jurisprudência dos conceitos que qualquer ordenamento jurídico era um sistema coerente de conceitos. criar novos conceitos ou alargar o âmbito dos já existentes. o sistema normativo. A jurisprudência dos conceitos vinha. decorria uma doutrina hermenêutica segundo a qual o sentido relevante de cada norma era o seu sentido sistemático. permite achar sempre solução para qualquer caso imaginável. segundo um processo lógico de tipo silogístico. Com efeito. i. simultaneamente. mas o significado objectivo da lei. nestes casos. processar-se-á pela subsunção dos “factos” ao “direito”. por forma a que o mesmo ordenamento conserve sempre a sua integridade e coerência como sistema de conceitos jurídicos. Wach e Kohler que. Será. a chamada vontade do legislador. com Binding. principalmente. a partir dos conceitos contidos na lei. o juiz não só não poderá recusar-se a decidir invocando a inexistência de direito aplicável como deverá limitar-se. a teoria objectivista da interpretação encontrará a sua mais acabada formulação. a estrutura lógica do sistema jurídico e a possibilidade de. convertida em conceito jurídico. o mesmo é dizer dos sentidos objectivos do respectivo contexto. integrando cada uma das normas do ordenamento jurídico no seu contexto sistemático. Sustentaram.Por outro lado. de um legislador que vai. como conclusão desse mesmo silogismo. através de uma actividade de qualificação. a recorrer à ideia de um legislador “razoável”. segundo a mesma teoria da subsunção. Deste modo. igualmente. a realização da justiça no caso concreto. Por outro lado. XIX. a ela imanente. permanentemente. para encontrar a solução para o caso decidendo. como entendia a Escola da exegese e algum positivismo jurídico. assim.e. a estender ou alargar.

2010. que obedeceria sempre ao modelo do chamado “silogismo judiciário”124. além do sentido literal da norma a interpretar. 5556. 20. Sentido e valor do Direito. cits. 123 124 Cfr. com o que eram as grandes teses do positivismo jurídico. e trad. António M. de matriz inglesa. 62-79. Santos Justo. 491-524. Cfr. 2005. de Hobbes. Larenz. Coimbra Editora. e trad. Braz Teixeira. subjectivista e lógico-declarativa da interpretação jurídica e da actividade judicial. a redução das fontes do Direito à lei. O positivismo jurídico 1. Os caminhos da Escola da exegese e da jurisprudência dos conceitos vieram a confluir ou a coincidir. Introdução à filosofia jurídica. uma concepção meramente formal da validade jurídica (formalismo) e a consequente total separação entre o Direito e a Moral. 21-44. 59-62. a Teoria pura do Direito. trad. e ed.modo. 99 185-192. ficando a validade e a relevância das restantes dependentes do seu reconhecimento ou aceitação pela lei e nos estritos termos nela definidos (legalismo).4. ob. INCM. o que a hermenêutica jurídica deve procurar é tomar patente o sentido racional da lei. Cits. pois o direito positivo constitui uma ordem ou um sistema racional. a concepção da norma jurídica como comando e a definição do Direito em função da coacção (coactividade do Direito). ob. que se apresentava como uma teoria do direito positivo ou do positivismo jurídico. Daí que. cit. pelo que a única forma de integração de lacunas seria a autointegração: uma visão exclusivamente cognitiva. pp. a concepção do ordenamento jurídico como algo dotado de coerência e plenitude. 4ª ed. a lei a “vontade racional” da comunidade jurídica e não a expressão da vontade empírica do legislador histórico. ob. uma concepção monista e voluntarista do Direito. II. “o momento da coerência com outras proposições jurídicas” e o “momento do fim racional da lei”123. 82 . Nótulas de História do Pensamento Jurídico. de Hans Kelsen. entre os quais avultavam. A.. e A. pp.. Lisboa. pp. em larga medida. Hespanha. nomeadamente no que dizia respeito à hermenêutica jurídica e ao carácter não só cognitivo mas também volitivo que atribuía à interpretação e aplicação do Direito. cits. pp. os meios da interpretação. como noutra oportunidade se notou.. Wieacker. Coimbra. sendo por isso.. Bentham e Austin.. F. para Binding. Deste modelo teórico afastava-se. em alguns pontos essenciais. pp. Walter Wilhelm. que o identificava como o direito positivo e o levava a ver a vontade criadora do Direito na vontade do Estado (estadualidade do Direito). ob. fossem.

mas envolvia também um acto de vontade. muitas vezes. que pudesse condizer sempre. já que o primeiro regula o processo de produção da norma pelo segundo e. o de escolha entre as diferentes possibilidades de sentido contidas na norma. muitas vezes. a constituir um quadro ou moldura a preencher pelo acto de produção normativa ou de execução que a aplica. resulta quer de o sentido verbal da norma não ser unívoco. quando é querida pelo órgão que estabeleceu a norma a aplicar. visto que a norma de escalão superior ter sempre de deixar uma margem de livre apreciação. a uma única solução. que. por isso.Para o mestre vienense. total ou parcial. como não intencional quando. igualmente. total ou parcial. quer da possibilidade de se admitir que existe uma divergência. admitindo diversas significações possíveis. entre a expressão verbal da norma e a intenção da autoridade de que a mesma provém. nestes diversos casos de indeterminação não intencional. quer da contradição. Esta relativa indeterminação tanto pode ser intencional. o que significaria que se a actividade hermenêutica tivesse uma função exclusivamente cognitiva. a interpretação seria “uma operação mental que acompanha o processo da aplicação do Direito no seu progredir de um escalão superior para um escalão inferior”. Acontecia. é uma actividade relativamente livre de criação do 83 . se enquadrassem também na moldura legal em causa. também o respectivo conteúdo. não conduziria. como ela. Daqui resultaria. ao intérprete se depararia uma multiplicidade de possibilidades normativas. isto é. é uma relação de determinação. entre duas ou mais normas aplicáveis. Se é verdade que a relação entre um escalão superior e um escalão inferior da ordem jurídica. então. só por si. vindo. de acordo com a estrutura piramidal que Kelsen via nessa mesma ordem jurídica. pelo que não é possível definir nenhum critério que permita dizer qual daquelas possibilidades possa ou deva ser preferida. pelo que a “correcção” da sua interpretação e aplicação mais não poderia significar do que enquadrar-se ela na moldura normativa. correctas sendo. que o acto de interpretação nunca era um mero acto intelectual de clarificação e compreensão. apurar o preciso sentido da norma aplicada. segundo Kelsen pensava. outras interpretações diferentes dela mas que. a actividade judicial ou administrativa. Deste modo. a um resultado unívoco. não tendo sido querida por aquele mesmo órgão. porém. tal como a actividade legislativa ou regulamentar. cabe não esquecer que tal determinação nunca é completa.

longamente dominantes durante as últimas décadas do séc. a interpretação feita por um órgão aplicador do Direito é sempre criadora. ficção de que se servia a jurisprudência tradicional para consolidar o ideal da segurança jurídica. a interpretação cognitiva do Direito a aplicar se combina com um acto de vontade em que o órgão aplicador do Direito efectua uma escolha entre as possibilidades reveladas através daquela mesma interpretação cognitiva” e “com este acto é produzida uma norma de escalão inferior ou é executado um acto de coerção estatuído na norma aplicanda”. a dos membros do Movimento do Direito Livre e a dos representantes da chamada jurisprudência dos interesses. pp.1. XX. 463-473. III. A reacção anti-conceptualista: 21. O mesmo acontece. de acordo com o pensamento hermenêutico do fundador da Escola de Viena. então. que é de natureza exclusivamente cognitiva. 1976. que seria a interpretação „correcta‟. o qual só seria realizável aproximadamente”125. no caso de preenchimento de uma lacuna do Direito. sempre e em todos os casos. que “na aplicação do Direito por um órgão jurídico. longe de convergir. 125 Teoria pura do Direito (1960). uma única interpretação. 21. pelo contrário. a qual. como entendia a doutrina tradicional do positivismo jurídico. não deixando. o que significaria. como acontece com a actividade jurisdicional. XIX e boa parte da 1ª metade do séc. O Movimento do Direito Livre O frio e neutro formalismo logicista da jurisprudência dos conceitos e do positivismo jurídico. Diferentemente se passam as coisas quanto à interpretação do Direito levada a cabo pela ciência jurídica. port. com o máximo cuidado. Livraria Arménio Amado. que estiveram. de acordo com o pensamento kelsiano. duas fortes reacções doutrinárias. por maioria de razão. ainda que. trad. no entanto. no inicio deste. Coimbra.Direito e não de mera e mecânica aplicação. 84 . suscitou. João Baptista Machado. em que a função do intérprete é também uma função criadora e não lógico-dedutiva. a segunda de criticar a primeira com alguma veemência. Assim. a ficção de que uma norma jurídica apenas permite. apenas crie uma norma individual no litígio que decide ou julga. teria “de evitar.

o que decorre das decisões judiciais e o elaborado pela ciência jurídica. como a de que o momento essencial da manifestação do Direito e da vida jurídica era. como a intuição. Deste modo de entender o Direito e a realidade jurídica decorriam algumas ideias fundamentais. um novo ambiente cultural do final de Oitocentos e do início séc. sendo no interesse da vida e das exigências sociais que tais problemas careciam de ser solucionados. o que se traduzia em conferir à decisão judicial o papel 126 127 A luta pela ciência pura do Direito. perfilhado por ambas aquelas concepções doutrinárias. o sentimento e a imaginação. às concepções do Direito acolhidas por aquelas duas doutrinas jurídicas contrapunha o Movimento do Direito Livre a ideia de que. directamente. criticamente. não a abstracta formulação da lei mas a sua efectiva realização histórico-social. com a vida e com as exigências da realidade social. implicando sempre a concreta aplicação do Direito uma valoração prática e não apenas abstractas deduções lógicas. de certo modo. atento a outras formas gnósicas. por ser aí que surgiam os problemas jurídicos. ao panlogicismo positivista. daria razão a um “Direito livre”127. Assim. eram também Direito o direito consuetudinário ou comunitariamente espontâneo. precisamente. com as consequentes teorias de subsunção e do “silogismo judiciário”. para além da lei ou do direito legal. mesmo nos domínios por ela expressa e formalmente regulados. o da plenitude lógica do ordenamento jurídico e o do Direito como sistemas logicamente determinável e lógico-dedutivamente aplicável. o jurista alemão Hermann Kantorowicz (1877-1940)126. à concepção exclusivamente logicista e conceitual do Direito. opunham a sequazes da nova orientação que o Direito e o pensamento jurídico pertenciam ao domínio axiológico-normativo e prático-emocional. Kantorowicz chegou a afirmar que na lei “há tantas lacunas como palavras”. 1906. XX. do apelo ao homem concreto e a um novo e mais amplo conceito de razão. vinha opor-se. Finalmente. do que resultaria serem quatro e não apenas uma (a lei) as fontes do Direito. tendo que ver. 85 . através da sua principal figura. com o emergir das filosofias vitalistas. Por outro lado. o que. contrapunham os defensores do Direito Livre o carácter radicalmente lacunoso da lei. repercutindo. ao dogmas da plenitude do ordenamento jurídico. e aos três dogmas fundamentais em que assentavam: o da identificação do Direito com a lei. ao conceitualismo abstracto e axiologicamente neutro da jurisprudência conceitual.O chamado Movimento do Direito Livre.

em razão das suas próprias funções. 128 A. devia ser tido em conta pelo pensamento jurídico. 199. 86 . “tanto a lei como a racionalidade normativa que era possível construir a partir das suas normas funcionariam apenas como expedientes complementares. Sustentavam. de modo a garantir uma possível objectividade das decisões. a decidir de acordo com o texto unívoco da lei. A essencial exigência axiológico-normativa que andava associada à ideia de Direito perfilhada pelas sequazes do Movimento do Direito Livre conduzia-os a defender a legitimidade de. então.de elemento fundamental na formação do Direito e aquele que. devendo. movida por uma intuição axiológica de raiz emocional. Deste modo. p.. tal como poderia. e vol. e a ela estreitamente associada. deveria decidir de acordo com o Direito livre. igualmente. no entanto. Assim. um juiz que pudesse ser considerado como constituindo o “tipo empírico” de juiz da comunidade jurídica em causa. bem como naqueles que só quantitativamente se apresentassem como duvidosos. Daqui resultava. segundo Kantorowicz. decidir contra legem. com o acordo das partes. Neste caso. de maior justiça e mais equitativo”. o juiz pudesse afastar-se das normas legais. presumivelmente. aparecia o entendimento de que o elemento decisivo na criação do Direito não era a razão mas a vontade. em certas circunstâncias. caso não fosse possível determinar qual seria esse sentido. Castanheira Neves. ob. por isso. naquele caso. poderia dela afastar-se se não proporcionasse uma solução indubitável e concluísse que o legislador existente no tempo em que lhe cumpria decidir muito provavelmente não teria acolhido a solução contida na lei. como vista a alcançar o “resultado praticamente mais razoável. ainda. pela intuição concreta do justo. embora o juiz se encontrasse obrigado. como elementos de justificação ou de controlo normativo-jurídico a posteriori”128. o legislador actual adoptaria e. fazê-lo nos casos muito complexos. alguns sequazes do Movimento do Direito Livre ser admissível que. caso em que o cumprimento estrito da lei constituiria maior perigo para a autoridade do Direito e da própria lei que a sua inobservância. deveria o juiz decidir no sentido que. em matéria processual civil. quando o cumprimento da lei levasse a uma lesão especialmente grave do sentimento do Direito. cits. o juiz decidir como decidiria. A esta primeira ideia. que era a vontade de obter uma decisão justa e razoável que determinava a escolha dos textos legais em que essa mesma decisão se pretendesse fundamentar.

que toma a “vontade do legislador” não num sentido psicológico ou empírico mas como um conceito normativo. converge com o positivismo legalista em admitir que a lei é a única fonte do Direito e que o juiz deve obediência à lei e na adopção de uma posição subjectiva em matéria de interpretação. no período compreendido entre 1900 e 1940. e A. entendida esta. ob. Livraria Arménio Amado. e trad. pp. pp. num caso. pelo que a forma de hermenêutica jurídica que melhor satisfaria os interesses práticos seria a investigação histórica dos interesses. Assim. Philip Heck. Pela mesma época em que surgiu o movimento do Direito livre. contra o formalismo logiscista da jurisprudência dos conceitos e as suas concepções da interpretação. ob. para os representantes deste movimento. Tendo tido uma vigência paralela a este último movimento. Larenz. Coimbra. materiais e ideais existentes na sociedade. que o Direito deve ser entendido como “tutela de interesses”.. segundo o seu principal teórico. arvorados. ed. 13. Santos Justo. ajurisprudência dos interesses sustentava. porém. p. também de criticar os testes de Kantorwicz e dos outros defensores do Direito livre. opondo-se. igualmente. num sentido não inteira ou exclusivamente 129 130 Cfr. 21. que teve vigência e algum eco nos três primeiros decénios do século findo. José Osório. interpretar extensiva ou analogicamente e noutro cingir-se aos termos literais da lei ou optar por uma interpretação restritiva não seria a lei nem a lógica mas o Direito livre e a vontade. a jurisprudência dos interesses caracterizar-se-ia. A jurisprudência dos interesses I. cits. Castanheira Neves. a interpretação jurídica deveria procurar determinar a vontade histórica real do legislador.2. cits. uma outra linha doutrinária denominada jurisprudência dos interesses que.Deste modo. 1947... 68-71. Por outro lado. ob. à jurisprudência dos conceitos. e vol. cit. desenvolveuse. não deixava. e compartilhando com ele a mesma preocupação com o concreto da vida do Direito e com a sua dimensão axiológica-finalista. A. 87 . “pela preocupação de não perder de vista a satisfação daqueles interesses”130. Considerando como interesses os desejos e aspirações. trad. pp. assim. 193-201. mas uma interpretação históricoteleológica. port. o que deveria levar o jurista a.. 77-83. em supremo e decisivo critério hermenêutico129. tal como ele. Interpretação das leis e jurisprudência dos interesses (1914).

. seria de atribuir. cits. esta investigação teleológica deve referir-se não ao passado mas ao presente. no entanto.subjectivo. tendo em conta que aqueles que 131 132 Ob. o verdadeiro método de interpretação da lei seria constituído pela investigação histórica da lei e dos interesses. a lógica que preside à actividade judicial não é a do pensamento discursivo mas a do pensamento emocional. segundo Heck. porque esse conteúdo resulta de um acto de vontade. contra os erros de expressão e a apreciação subjectiva do juiz. relevante papel aos trabalhos preparatórios da lei. Deste modo. e trad. Para esta doutrina. assim. o legislador é aqui uma designação que engloba todos os interesses sociais. pp. acompanhada de um complemento emocional131. Idem. Esclareciam os teóricos desta orientação doutrinária tratar-se aqui de uma interpretação histórico-teleológica. Porque o primeiro momento da actividade hermenêutico-jurídica. transformando-se. supondo. a compreensão de qualquer norma jurídica impõe que ela seja considerada como resultante de uma composição de interesses. os pensamentos exteriores ou revelados através do acto legislativo e levar a sua acção retrospectiva até aos interesses determinantes da lei. devendo procurar. sendo seu ideal não a verdade mas o valor dos resultados do pensamento para os interesses e para a vida. a determinação dos motivos transforma-se em determinação do fim e o apuramento das circunstâncias assume a natureza de investigação dos interesses. de acordo com a jurisprudência dos interesses. pp. 13 e 65. a vontade normativa de vontade histórica em vontade presente132. para apurar qual o fim por ela prosseguido. De igual modo. era determinar a vontade normativa histórica do legislador. não exclui a criação judicial do Direito nem o seu campo de elaboração judicial. um conceito de interesse. 88 . na qual a vontade do legislador não era um conceito psicológico mas sim normativo. visto serem os interesses actuais que é necessário garantir e acautelar. então. do que resultaria. pelo contrário. preferentemente. os seus interesses causais. II. o seu contínuo desenvolvimento jurisprudencial. De igual modo. Com efeito. que sendo uma doutrina hermenêutica que defende os interesses causais e a intenção do legislador. nesta tarefa. pelo que a sua interpretação se deve orientar no sentido de determinar não só o seu conteúdo como os respectivos motivos e as suas causas. 56 e 60. Por outro lado.

para preencher ou integrar lacunas. porquanto nem toda a semelhança é aqui relevante. Isto não significava. seria legítimo recorrer a todos os documentos que. pelo que unicamente quando tais juízos não fossem suficientes poderia efectuar quaisquer valorações pessoais. Assim. os relatórios e preâmbulos e os relatos ou os actos da sua discussão no parlamento ou nas comissões permitissem determinar. pelo que poderiam sempre ser completadas ou até contrariadas por outros elementos. com o maior rigor e precisão. De igual modo. no seu trabalho. as exposições de motivos. Por outro lado. de modo a não impedir que a determinação judicial dos interesses se fizesse sempre segundo o princípio da livre investigação. se bem que não devesse esquecer-se que as regras gramaticais têm nela um valor indiciário mas não normativo. que a sua actividade se encontrava limitada à subsunção. Sustentava. III. pois era insuficiente e poderia induzir em erro sustentar que ela tem lugar quando haja hipóteses semelhantes. maior liberdade e ser-lhe atribuído até o poder de formular valoradoramente novos comandos. Quando a analogia. só o sendo quando consista na igualdade da posição dos interesses. no que respeita à actividade do juiz. nesta tarefa. 201-202. No que respeita aos elementos da interpretação. para a jurisprudência dos interesses. devendo reconhecer-se-lhe. teria de entender-se que a lei não tem valor apenas quando 133 Idem. dando origem à mesma valoração por parte da sociedade133. o juiz se acha sujeito não só aos preceitos da lei mas também aos juízos de valor legislativo que possam ser determinados. pensava que. contudo.elaboram a lei mais não são do que representantes dos interesses da sociedade. 89 . como as explicações ou justificações apresentadas na literatura jurídica e na imprensa. o juiz estava vinculado aos juízos de valor contidos na lei relativamente aos interesses. o elemento gramatical desempenharia aqui um papel relevante. pp. em muitos casos. entendia Heck que a determinação da norma jurídica a aplicar compreendia dois momentos. logicamente distintos: o conhecimento histórico dos preceitos legais existentes e dos interesses legislativos e a elaboração desse conhecimento com vista à formação dos preceitos necessários para a decisão. a jurisprudência dos interesses que. no entanto. quais os interesses tidos em consideração na lei interpretanda. Efectivamente. só seria admitida como analogia teleológica.

o jurisfilósofo dinamarquês pensava que a tarefa do juiz é resolver um problema prático. pois.. o que envolve um processo cognitivo e uma decisão. e utilizando. forma um preceito que anteriormente não existia como realidade empírica. a obediência à lei. A hermenêutica jurídica contemporânea: 22.. cits. Assim. tendo simultaneamente em conta não só o conteúdo histórico da lei como os seus conhecimentos da vida e o senso jurídico. efectuando um acto de criação de Direito. como uma teoria analítico-descritiva.1. A hermenêutica anaIítico-descritiva 1. por outro. aquilo que movia a acção do juiz era. criando novos comandos. ao integrar lacunas.. que as suas 134 Idem. tem de agir segundo a mesma ordem de ideias que orientou o legislador. devendo. efectuar a correspondente investigação histórica dos interesses. efectivamente. cits. visando descobrir os princípios e as regras seguidas na passagem da regra geral para a decisão particular e não dar directivas sobre como deve ser interpretado o Direito. 90 . a qual se apresenta. pois orienta também a actividade judicial nos casos em que o juiz tem de ir para além dela. Assim. por um lado. Cfr. o juiz. Tal como seu mestre Kelsen. ob. Aqui radicava o ponto de partida da crítica que movia ao que designava por concepção positivista mecanicista (de que Kelsen se excluía). ob. e vol. ao integrar eventuais lacunas. A mais significativa teoria hermenêutica-jurídica surgida no âmbito do realismo jurídico escandinavo foi a proposta e desenvolvimento por Alf Ross (18991979).directamente aplicável por simples subsunção. e vol. um acto de vontade. 166-168. ou devia ser. pois uma atitude normativa face à interpretação se lhe afigurava desprovida de valor para compreender o direito positivo e para prever decisões futuras. pp. muitas vezes.e. também as suas próprias ideias de valor. que procura descrever como se passam. a qual entendia. ed. expressamente. 215-246. i. e Larenz. pp. II. pp 63-77. 22. ainda que historicamente condicionado134. as coisas na prática da interpretação e da aplicação judicial do Direito. concebida como expressão da vontade do legislador e. Castanheira Neves. 238 e 257..

que a interpretação. a interpretar e aplicar a lei à luz de ideias que podem. o desejo de cumprir a lei. mas um ser humano. muitas vezes. a de compreender o significado da lei e de comparar a descrição dos factos que ela faz com os factos que tem de decidir. o que implica um acto de natureza construtiva. estar em oposição directa com as intenções do legislador. padrões ou valorações que denominamos “tradição cultural” de um povo. a fim de caracterizar as variedades de estilos e métodos 91 . Era por entender assim a natureza da actividade do juiz que Alf Ross pensava que a interpretação e a aplicação do Direito deveriam partir da análise da prática dos tribunais. a descrição positivista da actividade do juiz era de todo insustentável. Acontece.concepções operativas consistiam num conhecimento do verdadeiro significado da lei e dos factos provados. a lei não constitui uma fórmula mágica mas sim uma expressão ou manifestação dos ideais. Ora. chegando. III. não conduz a nenhum resultado certo. frequentemente. Acresceria ainda. que tem particularmente em conta a sua tarefa social e toma decisões que considera “correctas”. regras e factos em decisões. o que não dispensa o juiz de ter de decidir. fundamentalmente. pelo que o seu respeito pela lei não é absoluto. devendo a teoria da interpretação jurídica procurar mostrar os factores gerais que operam em toda a administração da justiça e esboçar uma tipologia geral. nalguns casos. pelo que a sua interpretação construtiva pode levar a uma decisão que corrija os resultados a que conduziria uma interpretação que visasse. porém. que para o positivismo jurídico é compreendida. para o juiz. e não apenas um acto puramente cognitivo cujo motivo seja. segundo o mestre dinamarquês. unicamente. que transforme. Com efeito. inclusivamente. “justa” ou “socialmente desejável”. como uma actividade teorético-empírica. mecanicamente. como notava Alf Ross. o significado da lei nem sempre é claro. de ser descoberto ou determinado por via interpretativa. de um ponto de vista psicológico. de acordo com o espírito da tradição jurídica e cultural. pelo que tem. cujos postulados político-jurídico-morais lhe indicam qual a decisão “correcta”. Daí que a sua decisão seja o resultado do efeito combinado da interpretação cognoscitiva da lei e da actividade valorativa da consciência jurídica material. já que ele não é um autómato. que exige que possa proceder a valorações e determinar a sua atitude perante a possibilidade de interpretações diferentes. apurar o que a lei significa. atitudes. que. exclusivamente.

para além dos linguísticos. na forma de “sentido comumjo lado destas considerações de “sentido 135 Haverá inconsistência entre normas. e os terceiros se reportam ao significado das palavras ou das frases. a qual constitui um sistema de símbolos elaborado pelo homem. enquanto os segundos dizem respeito às relações de uma expressão com outras expressões dentro de um contexto. por uma fórmula linguística. poden-do essa incompatibilidade ser absoluta ou total. Por sua vez. apreciado em relação com outras valorações fundamentais presupostas. 92 . verificam-se entre uma regra geral e outra parti-cular ou resultar de sobreposição de regras. sempre. para o qual são auxiliares fundamentais o respectivo contexto e a sua situação. na mesma circunstância de facto. revestindo especial importância aqui a inconsistência. Sendo o significado de uma palavra função da conexão em que ela surge. Os factores pragmáticos que.hermenêuticos existentes. variedade essa que impossibilitaria que houvesse qualquer método universal de interpretação. quer dentro da mesma lei quer entre uma lei anterior e outra posterior quando. Os primeiros são os que se referem à ordem das palavras na estrutura da frase e à conexão entre elas. notando Alf Ross que a interpretação do Direito visando a sua aplicação judicial não tem um ponto de partida linguístico independente. IV. lógicos e semânticos. a interpretação será a actividade que visa expor o significado de uma expressão. A interpretação do direito legislado começa. o intérprete ou o juiz defronta-se com três espécies de problemas. Nessa tarefa. pelo que a decisão concreta terá sempre de apoiar-se em dados ou elementos alheios ao texto legal. desde o princípio determinada por considerações pragmáticas. a hermenêutica jurídica tinha um fundamento semântico e devia atender a factores linguísticos e pragmáticos. sintáticos. encontrando-se. se imputam efeitos jurídicos incompatíveis. por um texto. Por último. nenhuma destas três espécies de problemas podendo ser resolvidos por um processo mecânico nem existindo regras gerais para lhes dar solução. às mesmas condições de facto. as pressuposições falsas ou incorrectas contidas na lei podem dizer respeito tanto ao direito vigente como a situações jurídicas específicas. dado aquele ser expresso pela linguagem. Para o último grande expoente do realismo escandinavo. desempenham também relevante papel na hermenêutica jurídica. haverá redundância sempre que uma norma estabeleça um efeito jurídico que. a redundância e as pressuposições135. se encontra já estabelecida por outra norma. são considerações baseadas na avaliação da racionalidade prática do resultado.

Na verdade. não pode ser apurado sem ambiguidade. constitui o único grau de determinada acção ou realidade. enquanto o fim (telos) apenas indica uma única consideração dentro de uma multiplicidade de valorações. apesar de o caso em si mesmo se encontrar compreendido no propósito da provisão. que atende aos factores pragmáticos. todas possíveis e razoáveis dentro do “significado linguístico natural” do texto. que o jurisfilósofo denominava interpretação restritiva quando ao propósito e interpretação restritiva de excepção. seria aplicável. o qual. a interpretação pragmática é a integração dessa multiplicidade de valorações. que Alf Ross indentifica com a Analogia. A primeira usar-se-ia quando a aplicação da regra se apresenta supérflua para conseguir o propósito da lei. ainda quando esta se encontra estabelecida de forma inequívoca. A interpretação restritiva é a que se realiza quando as considerações pragmáticas excluem a aplicação de uma regra que.comum” há factores pragmáticos “superiores”. restritiva ou extensiva. comparada o “sentido linguístico”. V. enquanto a segunda está motivada por considerações contrárias. podendo incidir tanto nos efeitos sociais previsíveis como na finura técnica da interpretação e sua concordância com o sistema jurídico e as ideias culturais em que ele assenta. consideradas e mutuamente ponderadas à luz dos valores fundamentais. De acordo com o pensamento hermenêutico-jurídico de Alf Ross. assim como nem sempre é possível atribuir qualquer finalidade ou intenção a urna lei ou. admitindo duas categorias. Se as considerações pragmáticas contrárias encontrarem expressão noutras regras jurídicas sobrepostas. segundo o “sentido linguístico natural”. A primeira tem lugar quando as considerações pragmáticas são decisivas para a opção entre diversas interpretações. é mais amplo do que a interpretação teleológica ou da que procura determinar o propósito da lei. esta interpretação confunde-se com a que ocorre no caso de sobreposição de regras. é a que se realiza quando as considerações pragmáticas conduzem à aplicação de uma regra a 93 . A interpretação extensiva. que aparecem ou se manifestam como deliberações sobre a consequência que advirão de uma certa interpretação. Esclarecia o jurisfilósofo que este tipo de interpretação. muitas vezes. a interpretação pragmática pode ser especificadora.

cast. habilita o julgador a alcançar a conclusão que reputa desejável nas circunstâncias concretas do caso e.2.situações que. Assim. notando. a doutrina positivista das fontes de Direito. à luz do “sentido linguístico natural”. exclusivamente por processos lógicos e sem fazer referência a propósitos e valorações alheios ao texto legal. ocultando ou ignorando a actividade político-jurídica do juiz. VI. para quem o objecto da 136 Sobre el Derecho y la Justicia (1958). Já o Movimento do Direito Livre se lhe afigurava encontrar-se mais próxima da verdade do que a doutrina do positivismo jurídico. Genaro R. contudo. que as máximas de interpretação não constituem regras efectivas. salvaguarda a ficção de que mais não está a fazer do que a obedecer à lei e aos princípios objectivos de interpretação. Carrió. é movida ou motivada por exigências sociais e por considerações de índole sociológico-jurídica. mas instrumentos de uma técnica que. VII. relativamente aos valores nelas pressupostos136. Buenos Aires. como advertia Alf Ross. pois se encontra nele uma correcta compreensão do facto de que a administração da justiça se não reduz a uma mera derivação ou conclusão lógica a partir de normas positivas. 22. pp. Sustentava Alf Ross que a função dos métodos de interpretação é a de estabelecer limites à liberdade do juiz na administração da justiça. fora do seu campo de referência. a “razão jurídica” imanente ou a própria regra de direito não pode ser separada do propósito prático que se encontra fora dela. afirmação que ilustrava com o positivismo jurídico e com o Movimento do Direito Livre. se encontra claramente. segundo ele. Com efeito. tem o seu paralelo numa doutrina do método que sustenta que a interpretação se traduz em estabelecer. A interpretacão jurídica como análise da linguagem I. simultaneamente. 94 . a verdadeira vontade do legislador imanente em suas sanções. 106-150. 1963. trad. Notava ainda o jurisfilósofo dinamarquês haver uma estreita relação entre a doutrina das fontes de Direito e a teoria do método. assim como as “consequências formais” não podem ser separadas de uma adequação valorativa das regras. que faz derivar a validade de todo o Direito de uma vontade soberana. Esta outra corrente hermenêutica-jurídica é expressivamente representada pelo pensamento de Norberto Bobbio (1909-2004). dentro de certos limites.

um acto psíquico não comunicado não se inserem em nenhum sistema cognitivo. espírito. pois uma palavra não significada. por outro lado. tal como a interpretação sistemática o que faz é estudar a conexão das proposições 95 . contudo. a segunda fase destina-se a tomá-la a mais completa possível. tradicionalmente. a jurisprudência. ordenada. cuja verdade é ideal (visto referirem-se ao futuro) e não empírica. quando se inicia a sua vida no campo da comunicação intersubjectiva. integração e ordenação. singularizando-se. nada há para além das proporsições normativas. Porque. consiste na análise das proposições normativas em que o legislador se exprime. completa. tal como acontece com as restantes ciências empíricas ou formais.jurisprudência é um conjunto de proposições normativas. Dado que. pensamento ou intenção do legislador só é consistente quando se exprime em palavras ou em signos. necessariamente. que a linguagem científica consta de um conjunto de operações mentais conformes com essas mesmas regras. interpretá-las mais não é de que analisar a respectiva linguagem. porém. a terceira fase visa ordená-la sistematicamente. aditando que a linguagem científica se caracteriza por nela toda as palavras estarem definidas e por o uso das palavras definidas não contrariar as regras que serviriam para a sua definição. Notava o pensador italiano que a ciência jurídica. tal linguagem não é. de modo a torná-la mais rigorosa. vem assim. visando transformar o discurso legislativo num discurso rigoroso. a chamada interpretação histórica vem a consistir na análise das proposições normativas vigentes em épocas passadas. para o mesturinense. a linguagem da legislação não se encontra. Não sendo uma ciência formal. Como. por tal sistematização ter em vista fins práticos e não a apreensão de verdades. reduzindo-a a sistema. é sistematização rigorosa de conceitos. a traduzir-se na análise da línguagem jurídica ou legal através de um conjunto de operações que Bobbio divide em três fases. que designa por purificação. ou seja. para o jurisfilósofo itálico. necessariamente. um pensamento não expresso. se chama a interpretação da lei. como toda a ciência. Assim. no mundo do Direito. Este ponto de partida do pensamento hermenêutico de Bobbio levava-o a sustentar que aquilo a que os juristas chamam vontade. A hermenêutica jurídica ou o que. a primeira consiste no trabalho de depuramento da linguagem jurídica. II. Assim.

é uma das operações com que se efectua a análise linguística do Direito137. nº 2. 96 . destinado a tomar a linguagem jurídica o mais completa possível. o qual teria por 137 “Scienza del Diritto e analisi del linguaggio”. pode apresentar lacunas. reconduz uma determinada proposição ao sistema normativo com base nas regras de transformação que o sistema admite. a normatividade e a sociabilidade seriam as duas categorias fundamentais do Direito. a linguagem de um determinado ordenamento jurídico constitui um todo fechado. por constituir um deverser. por isso. Deste modo. Rivista trimestrale di diritto e procedura civile. que apresenta uma tripla dimensão. por outro. dado ser uma obra humana social. delas podem deduzir-se em conformidade com as regras de transformação admitidas pelo próprio legislador. Recaséns Siches concebia o Direito como vida humana objectivada. Discípulo de Ortega y Gasset. através de meios linguísticos. Deste modo. porque é sustentada por uma regra do discurso jurídico.3. pois só são proposições jurídicas as postas ou formuladas pelo legislador de acordo com determinadas formalidades concretas e aquelas outras que nelas se encontram implícitas e que. o trabalho de integração do jurista ou do intérprete. 22. se fixam as regras de uso das palavras adoptadas. mas. 1950. individualizando-se aí pelo seu carácter normativo. compreendidas uma e outras numa mesma categoria geral. com forma normativa. como uma realidade que se situa na zona ôntica da vida humana. dirige-se em dois sentidos: por um lado. pp. A Iógica do razoável I. III. exclui do sistema as proposições que ele não admite. entendendo Bobbio que a analogia. vol. através da extensão analógica das proposições normativas. não é um acto criador mas sim uma operação lógica em sentido estrito. que visa a realização de valores. porque pode ser completado. 342-367.normativas relativas a uma instituição como outras referentes a instituições dela afins. que não excede o âmbito da ciência jurídica como análise da linguagem. de acordo com aquela regra de que o ordenamento jurídico constitui um todo fechado. Segundo o pensamento bobbiano. e a interpretação lógica é uma interpretação gramatical em que. essas lacunas podem ser preenchidas. Dado que o sistema normativo não é perfeito nem completo. VI.

fundada no que designava por “lógica humana” ou do “razoável”139. Não sendo. 1971. e Experiencia jurídica. os valores realizam-se na vida humana. México. e Tratado General de Filosofia del Derecho. na vida do direito positivo. legitimar e limitar o poder político. se inscreveriam a dignidade moral do homem. que deveriam inspirar sempre o Direito. La raisonnable et le déraisonnable en Droit. XIX. México. 1939. fora vítimas de quatro grandes e graves equívocos: a) O de admitir ou pressupor que as normas jurídicas são meros enunciados lógicos que contêm em si a possibilidade de solucionar todos os problemas surgidos no mundo jurídico. seria acolhido por Chaïm Perelman na sua última e já póstuma obra140. 97 . a ciência jurídica da segunda metade do séc. II. cuja objectividade é imanente à vida humana. a realização daqueles igualmente o seria. 138 139 140 Vida humana. o que significaria que.funções essenciais na vida social garantir a certeza e a segurança. para Recaséns Siches. como todos os valores. Ed. e entre os quais. houvesse valores jurídicos universais. decidir os conflitos de interesses e organizar. 1984. pensava o jurisfilósofo espanhol que. para além dos valores jurídicos particulares. México. naturaleza de la cosa y lógica “razonable”. Nueva filosofia de la interpretación del Derecho. criação do homem. pois. Foi com base nestes pressupostos onto-axiológicos que o jurisfilósofo espanhol desenvolveu o que apresentou como uma “nova filosofia da interpretação do Direito”. b) O de considerar que. que. duas décadas depois. o decisivo era a lógica. No que respeita aos valores jurídicos. termo que. Caps. 1956. II e XX. Fondo de Cultura Económica – Universidad Nacional Autónoma de México. sendo a ordem jurídica a expressão da vontade normativa do Estado. o reconhecimento de que cada homem tem um fim próprio a cumprir. Para Recaséns Siches. de clara e dominante inspiração positivista. ser um factor de mudança progressiva da sociedade. são realidades objectivas. sendo esta histórica. sociedad y Derecho. Porrúa. o respeito da liberdade como esfera da autonomia individual e a igualdade ou paridade fundamental perante o Direito138. Porrúa. 1959. O carácter histórico da realização dos valores não impediria. Ed. Ed. contudo. Paris.

que acolhe ou inclui em si os ensinamentos da experiência própria e da experiência acumulada ao longo da História. tradicional. de critérios de avaliação. como o de toda a vida humana e das instituições criadas pelo homem. por ser o único que é conforme à realidade humana que é o Direito. sendo as sentenças judiciais e as decisões administrativas simples aplicação daquelas. categorias ou essências a priori. a congruência entre meios e fins. pelas normas gerais. refere-se ao conteúdo jurídico. é o da acção e não o do conhecimento. à matéria jurídica. necessários e universais que se encontram em todas as normas e situações jurídicas. expressa na teoria da sentença como silogismo. de pautas axiológicas. enquanto a lógica tradicional é meramente enunciativa do ser e do não ser e desprovida de pontos de vista valorativos ou estimativos sobre a correcção dos fins. b) O logos ou a lógica do razoável não constitui um outro método de interpretação jurídica. exclusivamente. a lógica do razoável. isto é. pois o domínio da vida humana. rege-se por uma outra lógica. dado ser uma lógica material e não já formal. mas é o único válido. III. a lógica do racional. é uma lógica de uma razão impregnada de pontos de vista estimativos. a que o Direito pertence. e a eficácia dos meios relativamente a determinados fins. matemática. que designava por lógica do razoável. porque é uma lógica do humano. pois o mundo jurídico. Com efeito. Assim. d) O de acolher uma concepção mecânica da actividade jurisdicional. ao lado dos até aí acolhidos ou seguidos. A lógica razoável. seriam características fundamentais da lógica do razoável: 98 . surgida numa circunstância histórica concreta e tendo em vista certos fins particulares e não àqueles conceitos. a uma realidade empírica.c) O de supor que o Direito era constituído. A esta visão do Direito e da vida jurídica contrapunha o mestre espanhol duas ideias ou duas teses fundamentais: a) A de que os conteúdos das normas de direito positivo não podem nem devem ser tratados de acordo com a lógica pura.

a) O achar-se ela sempre limitada ou circunscrita pela realidade concreta do mundo em que opera, que, no caso vertente, é o do direito positivo e das normas jurídicas; b) O estar impregnada de valorações concretas, referidas a determinadas situações, com as possibilidades e as limitações próprias de cada uma delas; c) O ser regida por razões de congruência ou de adequação entre a realidade social e os valores, entre estes e os fins, entre os mesmos fins e a realidade social concreta e entre os fins e os meios quanto à conveniência destes relativamente àqueles, quanto à correlação ética dos meios e à sua eficácia; d) O ser orientado pelas lições da experiência vital e histórica, individual e social. IV. Duas consequências particularmente relevantes deduzia Recaséns Siches desta sua concepção sobre a hermenêutica jurídica e a lógica que a ela deve presidir: a de que a actividade jurisdicional é sempre e necessariamente criadora e a revalorização da doutrina aristotélica sobre a equidade. Quanto ao primeiro tópico, notava o antigo professor das universidades de Madrid e do México, que qualquer análise da actividade dos juízes concluiria que a função judicial inclui valorações e que as sentenças são juízos axiológicos. Lembrava, contudo, Recaséns Siches que tais valorações não são projecção do pessoal critério axiológico do juiz mas o resultado da aplicação, por ele, das pautas axiológicas consagradas na ordem jurídica positiva, que trata de interpretar, relacionando-as com as concretas situações de facto que se lhe deparam, não deixando, igualmente, de notar que o problema de decidir qual a norma positiva aplicável ao caso sub judice não é um problema de conhecimento de realidade mas um problema de valoração. Por outro lado, cumpriria não esquecer que a qualificação jurídica dos factos envolve também operações valorativas e juízos estimativos, assim como a apreciação da prova é, igualmente, uma operação valorativa. Tendo em conta as contribuições do realismo jurídico norte-americano, sustentava ainda o mestre hispânico que, em regra, a mente do juiz começa por acolher ou antecipar a decisão que tem por pertinente e justa (dentro da ordem jurídica positiva vigente) e só depois procura a norma que possa servir de base para tal solução, assim como atribui ao facto a qualificação adequada para chegar àquela conclusão.
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Assim, segundo Recaséns Siches, o juiz decidiria, em regra, mais por meio de uma espécie de intuição de que através de uma inferência ou um silogismo, decidiria mais com base na convicção de que no raciocínio, o qual vem a articular unicamente depois, para formular os fundamentos da decisão, a que o conduziu o seu sentido intuitivo do justo e do injusto. Deste modo, para o jurisfilósofo espanhol, a sentença, em vez de constituir um silogismo que se decompõe em três juízos (as duas premissas e a conclusão), é uma estrutura dotada de total unidade, composta por um conjunto integrado de valorações. V. Estas ideias eram reforçadas, no pensamento recasiano, pela

reconsideração da doutrina aristotélica sobre a equidade, entendida como correcção da lei positiva, quando a respectiva formulação se revela defeituosa, devido à sua universalidade. Para o pensador espanhol, a consideração da equidade serviria para: a) Iluminar, em termos gerais, a função do juiz e evidenciar que essa função implica sempre uma actividade estimativa e, como tal, a realização, implícita ou explícita, de uma série de valorações; b) Descobrir a índole da situação em que se encontra o juiz, quando a norma positiva em aparência aplicável ao caso concreto levaria a uma solução injusta e para indicar o que deverá o juiz fazer nesse caso; c) Orientar o juiz quando tenha de preencher lacunas141. 22.4. A hermenêutica jurídica estrutural I. A partir dos pressupostos contidos na teoria tridimensional do Direito e no historicismo culturalista e axiológico em que a mesma se funda, propôs Miguel Reale (1910-2006), na década de 70 do século passado, o que denominou hermenêutica jurídica estrutural, estreitamente associada à teoria dos modelos jurídicos cujas

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Cfr. obs. cits. nas notas anterirores; Benito de Castro Cid, La Filosofia jurídica de Luís Recaséns Siches, Salamanca,. 1974; e A. Braz Teixeira, Conceito e formas de Democracia em Portugal e outros estudos de história das ideias, Lisboa, Sílabo, 2008, pp. 159-184. 100

bases formulara alguns anos antes, ideias a que daria forma sistemática e mais acabada em meados dos anos 90142. Entendia o mestre paulista que, no domínio da experiência jurídica143, as estruturas sociais se nos apresentam como estruturas normativas ou sistemas de modela, em que cada modelo é dotado de uma estrutura própria, de natureza tridimensional. Assim, todo o modelo jurídico seria uma “estrutura normativa que ordena factos segundo valores, numa qualificação tipológica de comportamentos futuros, a que se ligam determinadas consequências, em função de valores imanentes ao próprio processo social”. Advertia Miguel Reale ser necessário distinguir entre os modelos jurídicos, que surgem na experiência jurídica, como estruturação volitiva do sentido normativo dos factos sociais, e modelos dogmáticos que constituem estruturas teoréticas, referidas àqueles, e cujo valor procuram captar e actualizar na sua plenitude, tendo ambos, como elemento comum, a sua natureza operacional, resultante de serem, uns e outros, instrumentos da vida e da convivência humana. Não sendo, pois meros esquemas ideais nem lógicos, pela sua íntima relação com o real de que promanam e em função do qual adquirem sentido, os modelos jurídicos, no pensamento realeano, acham-se estreitamente associados à teoria das fontes de Direito, que o filósofo entendia como “toda a forma ou processo de revelação de estruturas normativas válidas e obrigatórias, como expressão de um poder exercido no âmbito da competência que lhe é própria”, vindo a abranger, por isso, a lei a jurisdição, o costume e o acto negocial. Constituindo uma estrutura social, criada de acordo com uma ordem prévia de competência, cada fonte de Direito permitiria a formulação ou especificação de outras estruturas, que seriam os modelos legais, os modelos jurisdicionais, os modelos consuetudinários e os modelos negociais144. II. Desta teoria dos modelos e das fontes do Direito e da estreita conexão entre ambos resultava que o acto normativo e o acto interpretativo são elementos que se
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“Para uma teoria dos modelos jurídicos” (1968) e “Para uma hermenêutica jurídica estrutural” (1974), ambos em Estudos de filosofia e ciência do Direito, São Paulo, Saraiva, 1978; e Fontes e modelos do Direito. Para um novo paradigma hermenêutico, Saraiva, 1994. Cfr. Miguel Reale, O Direito como experiência, São Paulo, Saraiva, 1968; e A, Braz Teixeira, Conceito e Formas de Democracia em Portugal e outros estudos de história das ideias, pp. 121-129. “Para uma teoria dos modelos jurídicos” cit.; e Fontes e modelos do Direito, cit, caps. I-VII. 101

no pensamento de Miguel Reale. a apreciação dos factos e dos valores que. constituíram esse mesmo valor. integrada. considerava o pensador brasileiro dever procurar o jurista atender às mudanças da vida social. da natureza axiológica. que se fundaria nas ideias da unidade do processo hermenêutico. o qual devia ser interpretado no conjunto do ordenamento jurídico. seguintes directrizes interpretativas: a) A interpretação das normas jurídicas tem sempre carácter unitário. cuja unidade dinâmica é garantida pela pessoa humana como valor fonte de todos os valores. ideias. Deste modo. contudo. nunca eficácia às estruturas normativas objectivadas no processo concreto da história. histórico-concreta processo e racional do acto que interpretativo. não já como uma mera estrutura lógico-formal mas sim em termos retrospectivos de fontes e prospectivos de modelos. não recusando. explicitava nas bem como nas de problematicismo. utilizando a substantiva elasticidade própria de todo o modelo jurídico. toda a norma jurídica devia ser compreendida como um modelo operacional de um tipo de organização ou de uma classe de comportamentos possíveis. b) A interpretação jurídica pressupõe a valoração objectivada nas proposições normativas. pôr em risco os valores essenciais de segurança e certeza do Direito. 102 .co-implicam e se integram. devendo as suas várias formas ser vistas como momento necessário de uma unidade de compreensão. sem. para a sua adequada actualização. necessariamente. bem como dos factores e valores supervenientes. Por esta via. natureza económica. originariamente. III. pelo que apenas por exigências analíticas podem ser separados por via abstractiva. deste modo. Era com base nestes pressupostos teóricos que o autor de Fundamentos do Direito formulava a sua doutrina hermenêutica estrutural do Direito. c) A interpretação jurídica dá-se em função da estrutura global do ordenamento jurídico. ao mesmo tempo que a experiência normativa deveria ser entendida. destinação ética e globalidade de sentido do hermenêutico. implicando essa interpretação.

Para tal. desde Savigny. mesmo que na sua génese possam encontrar-se factores alógicos. cap. 103 . devendo atender não só à intencionalidade originária do legislador como também às exigências fácticas e axiológicas posteriores.d) A interpretação jurídica não pode nunca extrapolar da estrutura objectiva resultante da significação unitária e congruente dos modelos jurídicos positivos. X. tornando-se. interpretação teleológica. O jurista alemão Karl Engisch (1899-1990) entendia que a tarefa da hermenêutica jurídica era a de fornecer ao jurista o conteúdo e a extensão dos conceitos jurídicos. deve optar-se pela que melhor corresponda aos valores éticos da pessoa e da convivência social. e Fontes e modelos. A interpretação teleológica I. j) A interpretação jurídica deve ser compreendida como elemento constitutivo da visão global do mundo e da vida. f) A interpretação jurídica tem como pressuposto a recepção dos modelos jurídicos como válidos de acordo com exigências racionais. numa compreensão global. i) Entre as várias interpretações possíveis. através da apreensão do sentido dos preceitos jurídicos.. simultaneamente retrospectiva e prospectiva. cit. e) A interpretação jurídica é condicionada pelas mudanças históricas do sistema jurídico. devia o intérprete recorrer aos métodos ou pontos de vista interpretativos que. lógico. enquanto razão problemática e não obedecer a puros critérios de lógica formal nem reduzir-se a uma mera análise linguística. assim. h) A existência do modelo jurídico deve preservar-se sempre que for possível conciliá-lo com as normas superiores do ordenamento jurídico.5. na compreensão do fim visado pela lei e sendo. constituem património comum da hermenêutica jurídico-gramatical. 22. g) A interpretação dos modelos jurídicos deve desenvolver-se segundo exigências da razão histórica. cit. nessa medida. histórico e sistemático se bem que o falecido professor da 145 “Para uma hermenêutica jurídica estrutural”. em cujas coordenadas se situa o quadro normativo interpretando145.

por função preencher determinados fins em combinação com outras normas. quanto à interpretação gramatical. se apresente como um método pluridimensional. é o “sentido técnico-jurídico”. Assim. ela é já em boa medida. na hermenêutica jurídica. Por outro lado. se bem que a linguagem jurídica nem sempre seja tão rigorosa quanto se pensa e o devera ser. completando-as finalisticamente. Daí que a interpretação teleológica. com a sua multiplicidade de referências demais partes que constituem o sistema jurídico na sua globalidade. em decisiva parte. enquanto sistemática. 104 . Por outro lado. também interpretação teleológica. antes e acima de tudo. a conexão ou a coerência lógico-sistemática. o qual tem contornos mais rigorosos e precisos do que o conceito da linguagem corrente. a correcta compreensão do sentido das normas não pode deixar de procurar descobrir ou tomar patentes “os planos de fundo históricoculturais e o significado da tradição”. não devia ser entendida como referida unicamente ao significado dos conceitos jurídicos em cada contexto de ideias concreto nem como reportada apenas à colocação ou situação extrínseca de uma regra jurídica no contexto geral da lei. teleológica. pois cumpre não esquecer que há interpretação sistemática que não é teleológica. se bem que não exclusivamente. dado que as regras jurídicas têm. tal como o inverso pode igualmente verificar-se. vem a ser. é o que acontece sempre que os fins que a norma prossegue se situam fora do ordenamento jurídico. pois pensava referir-se aquela. pois o que importa. porquanto. Daqui que seja muito difícil separar ou distinguir a interpretação sistemática da interpretação teleológica. como tal. por os fins prosseguidos pelas normas tanto poderem situar-se dentro como fora dessas mesmas normas. Também a interpretação teleológica e a interpretação histórica se entrelaçam frequentemente. Mas sendo tal referencialidade a do sentido de cada regra jurídica ao sistema jurídico na sua globalidade.universidade de Munique lhes atribuísse um sentido não inteiramente coincidente com os que lhes dera o fundador da Escola Histórica do Direito. em larga medida. pensava não existir uma pura interpretação verbal ou terminológica distinta de uma interpretação de sentido. para Engisch. em especial quando esta vem a revelar o fim que o legislador teve em mente. à plenitude do pensamento jurídico contido na regra jurídica individual.

105 . Perante a querela subjectivismo-objectivismo.6. 22. um sentido razoável. por vezes. não quatro espécies de interpretação mas quatro actividades que deveriam intervir em conjunto para que se pudesse chegar a uma interpretação bem sucedida. pp. podem levar a resultados contraditórios. 103-151. Karl Larenz entendia a hermenêutica jurídica como tendo uma estrutura constitutivamente dialéctica e uma dimensão substantivamente axiológica. de o sentido verbal se encaminhar numa certa direcção e a coerência sistemática ou a génese histórica do preceito se orientar noutra dela diversa ou a ela contraposta. necessariamente. em certo sentido. p. II. A hermenêutica jurídicas de Karl Larenz I. quando afirmava que os elementos gramatical. estes diferentes processos hermenêuticos. uma “hierarquização segura” dos vários critérios interpretativos. na tese objectivista. Juan José Gil. contrariamente ao que Savigny pretendera. devem subordinar-se à vontade do legislador e às suas directivas.Notava ainda Engisch que. Ed. por vezes. e que seria importante o intérprete ser fiel à situação presente. preencher o texto da lei com um sentido ajustado ao momento actual. não deixava de notar que se lhe afigurava que. ajustado aos fins do Direito”146. não sendo possível conciliá-las nem harmonizá-las e não havendo. Engisch. La idea de concreción en el derecho y en la ciencia jurídica actual (1953). port. nem podendo haver. reconhecendo embora que a segunda orientação era largamente dominante. Fundação Calouste Gulbenkian. na democracia e se confere excessiva autonomia a outros poderes de Estado que. trad. lógico. Comares. com a possibilidade.. cast. quedando. político-decisório que a legislação também tem. 146 Introdução ao pensamento jurídico (1956). fontes da coesão do todo estatual”. João Baptista Machado. 1965. Lisboa. se menospreza em demasia o “significado voluntarista. trad.e. interpretando as normas de acordo com a época em que é chamado a aplicar o Direito. constituído um Direito consuetudinário que confere ao juiz legitimidade para. porventura. Cfr. a decisão dependente da avaliação e da ponderação dos casos e das situações em sua múltipla diversidade. 2004. interrogando-se ainda sobre “se não se terá. histórico e sistemático constituíam. desprendendo-se da vontade do legislador histórico. Partindo das categorias fundamentais do pensamento gadjmeriano. com carácter de generalidade.

II. “aos contextos sociais”. às situações de interesses e às estruturas das relações da vida a que se reportam as normas do Direito. as decisões judiciais e os argumentos jurídicos mais correntes. a qual segue um processo que a moderna filosofia hermenêutica designa por “círculo hermenêutico” e segundo o qual o processo de compreender tem o seu curso em passos alternados. pré-compreensão que é o resultado de um demorado processo de aprendizagem e envolve ou inclui os conhecimentos adquiridos pelo intérprete ao longo da vida e vem a constituir a base sobre que ele se forma uma “conjectura de sentido”. tendo em conta o contexto textual. Ora. pela qual o intérprete “compreende o sentido de um texto. nos contratos. Larenz que. a actividade própria da jurisprudência consistia. nas decisões judiciais.Para o falecido professor das universidades de Kiel e de Munique. visando a compreensão do seu sentido. 106 . neste ponto. histórico ou outro) reporta-se ao sentido de cada uma das palavras que o compõem. na compreensão de expressões linguísticas e do seu correspondente sentido normativo. fundamentalmente. o intérprete. uma vez que é de expressões linguísticas que se trata nas leis. consistindo este último numa actividade de mediação. Em tal actividade mediadora. Advertia. à linguagem em que dela se fala e à cadeia de tradição em que se integram os textos jurídicos. de modo irreflexivo. literário. a situação que originou o texto e outras circunstâncias “hermenêuticas relevantes” para apurar o significado que se busca. Por outro lado. pelo acesso imediato ao sentido daquela. que se lhe tinha deparado como problemático”. nos actos administrativos e. igualmente. bem como ao da sequência de palavras e frases que exprimem um nexo de ideias contínuo. a précompreensão se refere não só à “coisa” Direito. pois a interpretação de qualquer texto (jurídico. como. cujo objectivo é o esclarecimento recíproco de um através do outro. no caso da hermenêutica jurídica. ou pode ocorrer. no início do processo do compreender encontra-se uma “pré-compreensão” referida àquilo de que o texto interpretando trata e à linguagem em que nele se fala. a compreensão destas expressões tanto ocorre. como também sustenta a corrente hermenêutica que teve em Heidegger e Gadamer os seus máximos representantes. perante os diferentes significados possíveis de um termo ou de uma sequência de palavras. procura determinar qual se afigura o significado “correcto”. em regra.

um processo de estrutura dialéctica. sem prejuízo de. mesmo na tradição jurídica europeia continental. 3ª ed. em regra. requerendo. trad. 261-347. o que explica o relevante alcance do “precedente”. na grande generalidade das situações. os tribunais seguem a interpretação fixada pelos tribunais superiores. princípio este particularmente verdadeiro quando referido ao mundo do Direito. IV. bem como a construção. cumprindo não esquecer que toda a concretização de um critério normativo vem a estabelecer uma medida para a decisão judicial de outros casos semelhantes. que concretizam. de outro modo. em vez de acolherem a interpretação anterior da norma. as normas jurídicas. precisamente. em que. segundo os pontos de vista valorativos. pois. III. para si próprio. o “compreender” uma norma jurídica. perante situações novas. na esteira de Gadamer. em que os juízos de valor carecem de uma fundamentação racional147.Seria. 107 . Recordava Larenz que. 147 Metodologia do Direito.. se apresente como um pensamento “orientado para valores”. lhe conferirem novas interpretações. alemã de José Lamego. port. em regra. Fundação Calouste Gulbenkian. o descobrir ou tornar presente a valoração nela imposta e o seu alcance. 1997. a qual só alcança definitiva determinação de conteúdo no processo de “aplicação”e o caso a decidir. O processo em que tal concretização se realiza é. da 6ª ed. Lisboa. pp. o respectivo conteúdo. de uma “convicção de certeza” que condicionaria o modo como interpreta a lei em que se fundamentará a sua decisão. a sua aplicação várias vezes se esgota num processo lógico de “subsunção”. embora a tal se não encontrem legalmente obrigados. porque o Direito é constituído por normas. que decorre entre a norma como bitola com que tem se ser mensurado o “caso”. requerendo a sua aplicação o valorar o caso decidendo em conformidade com a valoração acolhida na norma. a “pré-compreensão” que permitiria ao juiz formular uma determinada conjectura de sentido perante a compreensão da norma e o entendimento da solução a encontrar. Recordava o jurisfilósofo germânico. segundo Larenz. são interpretadas para serem “aplicadas” através de um processo de “concretização”. Daí que a jurisprudência. que aplicação é “um elemento tão integrante do processo hermenêutico como o compreender ou o interpretar”. no domínio teorético da dogmática como no plano prático da aplicação ou concretização normativa.

sem prejuízo de. Assim. que. ainda um papel muito relevante na sua interpretação. para não falsear a intenção do legislador. deve ser considerado. a primeira tarefa do intérprete é esclarecer o uso linguístico preciso que a lei interpretanda faz. visto ser o resultado de um processo de pensamento em que hão-de ser englobados tantos os elementos “subjectivos” como os “objectivos”. contrariamente ao que acontece noutros domínios do saber. em regra. o contexto significativo da lei determina a compreensão de cada uma das frases e palavras. cabendo notar que importa averiguar o sentido literal dos termos no tempo do aparecimento da lei e não na data em que a mesma é interpretada. segundo Larenz. o intérprete deverá considerar tanto o seu contexto significativo (como a intenção reguladora e os fins e ideais normativos do legislador histórico) e determinados critérios teleológicoobjectivos. O contexto significativo da lei. permitindo que se admitisse haver uma concordância objectiva e material entre as diversas disposições legais. Daí. o sentido cuja compreensão a hermenêutica jurídica visa alcançar é o sentido normativo do que é juridicamente determinante.Por outro lado. Lembrava o filósofo germânico que. tal como esta é codeterminada pelo contexto. muitas 148 Idem. a linguagem jurídica não é uma linguagem simbolizada mas um caso especial da linguagem geral. de acordo com determinados critérios de interpretação que devem servir de guia ao intérprete148. V. 108 . cumpre atender. porque se dirige ao cidadão e pretende ser por ele entendida. com o maior rigor possível. utilizar uma linguagem técnico-jurídica especial. pp. ao contexto em que ele é usado. como vimos. Larenz considerava decisivo em sede hermenêutico-jurídica. Para determinar qual dos múltiplos significados que podem corresponder a um termo. pois o legislador serve-se da linguagem corrente. como decorre do “círculo hermenêutico”. elemento que. também que o sentido de cada norma ou proposição jurídica se logre inferir-se quando a mesma é considerada como parte da regulação em que se integra. partindo do sentido literal das palavras da lei. o qual terá de ser estabelecido “atendendo às intervenções de regulação e às ideias normativas concretas do legislador histórico”. desempenhava. Deste modo. pois. 445-450. de acordo com o uso da linguagem. muitas vezes. VI.

bem como o entendimento linguístico da época. VIII. não pode reportar-se à “vontade do legislador”. Não se esquecia de notar o jurosfilósofo que o intérprete. Notava. Para a determinação desses fins. hoje. Este entendimento conduziu este autor a sustentar que. no entanto. só se tornam compreensíveis quando se têm também em conta os fins prosseguidos pela regulação a que respeitam ou de que fazem parte. efectivamente. do seu preâmbulo. a totalidade dos cidadãos eleitores. nos Estados modernos. a partir da própria lei. ao tentar orientar para tais fins as disposições legais partículares. que procuraria determinar através dos meios acabados de referir. estatuições de valores e opções fundamentais determinadas na intenção reguladora ou que deles decorrem” sobre que. as actas das comissões de assessores ou de redacção. indo para além da vontade do legislador enquanto facto histórico e das concretas ideias normativas dos autores materiais da mesma lei. a doutrina e a jurisprudência de então. deveria ter também em consideração as consequências da lei interpretanda. deverão ter-se em conta os vários projectos. ainda. bem como a sistemática conceitual que lhe subjaz.vezes. dado não ser ele uma pessoa singular ou individual mas. deverá o intérprete. há que atender ao chamado elemento “histórico” da interpretação que. Quando os diversos critérios até aqui referidos se revelarem ineficientes. em primeira linha. devendo a interpretação. acabaria por entender a lei na sua racionalidade própria. VII. partindo dos fins estabelecidos pelo legislador histórico. as exposições de motivos e as actas das comissões parlamentares. a conexão de linguística da lei. pois só deste modo se garantiria o papel decisivo dos órgãos legislativos no processo global de criação e concretização do Direito. pelo que. por “vontade do legislador” apenas pode. de acordo com a teoria hermenêutico-juridica desenvolvida por 109 . quando não forem evidentes a intenção reguladora e os fins do legislador assim entendidos. entender-se “os fins. uma assembleia (composta por uma ou duas câmaras) ou. das disposições introdutórias e das decisões valorativas que daí resultem. este autor que. Assim. segundo Larenz. tê-los em conta. um órgão colegial (Governo). tomaram posição os participantes no acto legislativo. em regra. até. se revela na própria sistemática externa da lei. e os dados reais de que o legislador quis dar conta.

o intérprete visa explicar o objecto interpretando a uma determinada audiência. na interpretação explicativa. no âmbito do ordenamento jurídico. como o da tutela da confiança e o de responder pela insuficiência do círculo negocial próprio149. embora não haja participado na sua criação. igualmente. Para Dworkin.. em especial na versão que lhe deram Austin e Hart. o jurisfilósofo norte-americano Ronald Dworkin (1931) formulou a doutrina da interpretação jurídica construtiva150. em que se incluiria a interpretação jurídica. p. Entendia este autor que o postulado de justiça de que aquilo que se deve valorar identicamente deve ser tratado de igual modo exige que. em que se engloba a História e a Sociologia. 450-489.7. 110 . Para este autor não é possível uma teoria geral e uniforme de interpretação. que designa por colaborante. não deixando. recorrer aos critérios teleológicos-objectivos. se evitem contradições de valoração. A interpretação jurídica construtiva 1. assenta no pressuposto de que o objecto da interpretação possui um autor ou um criador. Uma questão de princípio (1985). Martins Fontes. de criticar o pragmatismo social. trad.Karl Larenz. bem como a literária e artística e a conversacional. e o Império do Direito. Jefferson Luiz Camargo. trad. 2000. as estruturas materiais do âmbito da norma e. em directa oposição ao positivismo. designadamente a ideia de Justiça e o princípio de igualdade de tratamento do que é igual. haveria três espécies diferentes de interpretação. em que se integra. A primeira. Luís Carlos Borges. 1999. id. boa parte da Filosofia Moral e Política. explicativa e conceptual. Na década de 80 do século passado. por um lado. Por sua vez. pois todas elas visam apurar a verdade. port. até onde tal seja possível. port. os princípios jurídicos inerentes ao ordenamento jurídico. a missão do intérprete é 149 150 Idem. 22. segundo Dworkin. que deu início a um projecto que o intérprete irá procurar prosseguir. São Paulo. no que designa por interpretação conceptual. que seriam. para o que poderiam oferecer muito útil contribuição os principio ético-jurídicos. embora haja certos atributos que são comuns às diversas espécies de interpretação. por outro. Por último.

natureza substantiva. II. os propósitos que se encontram aqui em jogo. construtiva. Segundo Dworkin. como se notou. 27-29. o produto de juízos interpretativos153. 75 e 79. Almedina. não o de algum autor mas o do próprio intérprete. também.. neste sentido. Uma questão. 62-67. Sandra Martinho Rodrigues. para ele. dado constituir uma prática social que visa interpretar uma realidade criada por alguém. o carácter hermenêutico teria. porém. no 151 152 153 154 Cfr. a interpretação jurídica uma interpretação criadora e construtiva. 253. Esta também a razão pela qual Dworkin entende que são inaplicáveis ao Direito e às demais práticas sociais as técnicas do que denomina interpretação conversacional (que integra. A interpretação jurídica no pensamento de Ronal Dworkin (Uma abordagem). não haveria verdadeira distinção entre interpretação e criação. De acordo com o pensamento hermenêutico do professor nova-iorquino. a fim de tomá-lo o melhor exemplo possível da forma ou do género a que pertença. Deste modo. notando. pp. 219 e 239. Daí que a interpretação construtiva se lhe apresente como uma questão de impor um propósito a um objecto ou prática. sendo qualquer texto. preocupada com propósitos e não com as causas. no âmbito da interpretação colaborante). a qual visa tornar este o melhor possível. pois aqui a prática a ser interpretada determina as condições da interpretação154. 111 . sendo.encontrar o significado de um conceito que não foi criado ou recriado por um autor individual. Coimbra. a interpretação jurídica percorreria três estádios ou três fases diferentes.. o que faz desta espécie de interpretação um caso de interacção entre propósito e objecto. o processo então iniciado. por via hermenêutica. a interpretação criadora é sempre. mas que se objectiva e separa do seu criador. Para o pensador norte-americano. maxime um texto jurídico. na qual o intérprete procura descobrir os motivos ou as intenções de outra pessoa. mas pela comunidade a que respeita151. p. pp. um “conceito interpretativo”152. como a jurídica. pp. no Direito. cabendo ao intérprete dar-lhe vida e prosseguir. O Império. cit. Idem. pertencendo a interpretação jurídica. pois o Direito é. 2005. cit. ao primeiro tipo de interpretação que distingue. sendo.

para Dworkin. III. 112 . cuja complexidade. A. que compreende a doutrina e a jurisdição. Por último. 239. em que o intérprete ajuste a sua ideia àquilo que o Direito exige para melhor servir à justificação que acolher na fase propriamente interpretativa. p. as proposições jurídicas não serão meras descrições da 155 156 Idem. serem necessários. resolver conflitos sociais e individuais. 81-82. Da natureza do Direito como “conceito interpretativo” resulta. que denomina consistência e coerência. “Dworkin e a interpretação jurídica – ou a interpreta-ção jurídica. ao mesmo tempo que se requereria que aque-la justificação invocasse como seus fundamentos decisórios uma intencional coerência com o todo do sentido normativo da prática jurídica e com os valores ético-jurídicos acolhidos ou expressos nos “direitos” e nos “princípios”155. pp.. no qual o intérprete se concentra numa justificação geral para os principais elementos da prática social identificada no estádio anterior. a hermenêutica e a narratividade”. Num segundo momento. deve haver uma fase pós-interpretativa ou reformuladora. diversos graus de consenso em cada um deles. No entender de Dworkin. dever ser ele concebido como integridade. para o jurisfilósofo norte-americano. de prática jurídica ser de natureza argumentativa e não explicativa e de o direito ser um empreendimento político. Esta teoria hermenêutica anda associada a uma determinada concepção sobre o próprio Direito como fenómeno social e como a mais bem estruturada das instituições sociais. Cfr.e. pp. O primeiro desses estádios é pré-interpretativo. De igual modo. Coimbra. cit. Uma questão. 263-345. i. para que esta prática interpretativa e as decisões concretas tomadas com base nela sejam justificadas é necessário que se cumpram duas exigências fundamentais. 2001. função e consequências resultam. numa comunidade. que tem por finalidade geral “coordenar o esforço social e individual. Estudos em homenagem ao Professor Doutor Rogé-rio Soares.entanto. o Direito. assegurar a justiça entre os cidadãos ou entre eles e o governo ou alguma combinação desse termos”156. devendo nele ser identificados as regras e os padrões que se considera fornecerem o conteúdo da prática social em causa. Assim. deve haver um estádio de interpretação. exigir-se-ia que o sentido normativo das decisões fosse compatível com o desenvolvimento consistente da prática ou constituísse um momento integrável numa consistência prática. Castanheira Neves.

o qual.. a teoria da Justiça. longe de ser uma questão técnica. 11-73. Por sua vez. justificação e aceitabilidade social 1. numa nova doutrina hermenêutico-jurídica que tivesse uma dimensão simultaneamente ontológica. ob cit. este fundamento do exercício de uma determinada forma de poder se apresenta ambíguo. nem simplesmente valorativas. O ponto de partida do pensamento ontológico-hermenêutico do pensador finlandês é a ideia de que. 17. o jurisfilósofo finlandês Aulis Aarnio procurava associar ou combinar elementos da nova retórica de Chaïm Perelman. p. lacunoso ou impreciso. quem interpreta o Direito não busca nele o conhecimento de nenhuma verdade teórica. 113 . repetidas vezes. Também os juízes. 15. que combina elementos descritivos e valorativos. que. o que torna o jogo da interpretação semelhante a um “círculo”. epistemológica e metodológica. 219. com a descrição nem com a valoração157.. pp. porque as normas jurídicas não constituem proposições sobre a realidade. h) Aulis Aarnio: interpretação. VII. 22. ocupam um lugar central. Pela mesma época em que Ronald Dworkin delineava a sua teoria construtiva da interpretação do Direito. O império. cit. porém. Acontece. por entender que o problema da interpretação do Direito. o raciocínio jurídico deve ser compreendido como um “exercício de interpretação construtiva”. pp. em que o Direito condiciona 157 158 159 Idem. ob. Castanheira Neves. sobretudo.489. mas sim proposições interpretativas dessa mesma história. da filosofia linguística de Wittgenstein e da teoria da razão comunicativa de Habermas. é a “narrativa” que faz de tais práticas as melhores possíveis158. em algum sentido divorciadas da história jurídica. apresenta natureza filosófica e na sua consideração a teoria dos valores e. e loc. tal como a melhor justificação das práticas jurídicas é constituída pelo próprio Direito.história do Direito. ao decidir o que é o Direito. pelo que as teorias gerais do Direito mais não serão do que interpretações gerais da prática judicial159. e Sandra Martinho Rodrigues. 217 e 448.. Cfr. mas uma referência para as decisões tomadas no processo de exercício de certa forma de autoridade. 109. A.8. cits. não se confundindo. o que fazem é interpretar o modo usual como os outros juízes decidiram o que seja o mesmo Direito. contudo. para Dworkin.

numa situação ideal. o que envolve. apresentar razões sobre a verdade dos primeiros. Aarnio a concepção de Habermas sobre a racionalidade comunicativa. a racionalidade comunicativa é o meio através do qual os membros de uma determinada sociedade podem alcançar uma compreensão mútua. clarificar o conteúdo do Direito obriga a optar entre diferentes interpretações possíveis. a normas ou valores. visando. sendo possível que. deve limitar-se ao direito válido. às quais não é possível responder satisfatoriamente por via normativa. quer o objecto da interpretação. 114 . logrem chegar a uma compreensão mútua perfeita. mediante a argumentação e a persuasão. a teoria hermenêutica delineada por Aarnio apresenta-se. Segundo o pensador alemão. Assim delineado. etc. respectivamente. acolhe aqui. tal “círculo” suscita um complexo de interrogações acerca da noção de validade. o problema da interpretação jurídica. o que faz da interpretação um facto linguístico. Deste modo. assenta na ideia fundamental de que o desejo da segurança jurídica socialmente dominante exige que os casos e as situações sejam decididos de um modo justo e racional. verdadeiramente. definindo um conjunto de regras ou cânones técnicos ou de preceitos lógico-formais. Esta via metodológica não resolve. como uma teoria da justificação no Direito. no entanto. no essencial.o intérprete mas nem todas as interpretações se conformam com o Direito. se respeitarem integralmente as regras próprias do discurso racional. quer os argumentos usados para justificá-la se exprimem em linguagem corrente. Quanto à primeira. estreitamente ligada a uma ideia de Justiça. diversa e contraposta à racionalidade técnico-instrumental. do conceito de norma jurídica e de lei e da própria interpretação. O ponto de partida do pensamento do autor nórdico é o reconhecimento de que. II. a legitimidade das segundas ou a realidade dos últimos. aquilo que Wittgenstein designou por “um jogo de linguagem”. necessariamente. acima de tudo. que. opção que. uma determinada ideia de racionalidade e de aceitabilidade social do conteúdo da interpretação. A argumentação que é a base da concepção habermasiana pode incidir ou respeitar a proposições ou enunciados empírieos. por sua vez. o qual envolve também uma exigência prática de justificação das opiniões daqueles que são chamados a julgar ou a aplicar o Direito. no caso do Direito.

na esteira de Habermas. Geneviève Warland. meios para alcançar determinados fins.m éme os. L. segundo o professor da Universidade de Helsínquia. Deste modo. meramente formal. igualmente.III. em regra. o sistema de valores acolhido pela maioria dos membros da sociedade. porém.D. do que resulta. Com efeito. bem como a das suas interpretações e decisões jurídicas. como. (1987). A ordem jurídica. que.G. cada vez mais. não constitui a única base de legitimidade das normas jurídicas. n 118-119. previamente definidos e cuja validade é. por outro. que a lei tende a apresentar-se como base suficiente para legitimar qualquer decisão. Aarnio sublinha. o que significaria que o seu fundamento de legitimidade transcende a norma para se radicar no “mundo da vida”. para Aarnio. pois as normas que a compõem são. a validade formal. sob pena de pôr em causa a confiança no sistema judicial. inscreve-se no domínio da racionalidade instrumental. nas sociedades modernas. pp.J. depende da comunicação linguística e da compreensão mútua que dela resulta. 160 Le rationnel comme raisonnable. Abr-Set 1985. típica da atitude jurídico-positivista. 269-283. 1992 . a segurança jurídica está fortemente associada ao sistema de valores da sociedade. 3 série. à letra da lei. Paris. o que explica por que a aceitabilidade das interpretações jurídicas se encontra dependente não só da sua racionalidade como também da sua razoabilidade160. Fran. Revue de Synthèse. pelo que a sua interpretação e aplicação não pode limitar-se. o Direito encontra-se a cavaleiro entre dois mundos: por um lado. a qual constituirá o critério que define quando e como pode conseguir-se a aceitabilidade racional daquela. cegamente. a fonte de legitimidade da interpretação e de aplicação do Direito encontrar-se-ia na sociedade ou no “mundo da vida”. trad. e «On justification on legal interpretation». La justification en droit. então. para Aarnio. pois só uma interpretação que corresponda às expectativas da maioria da sociedade é aceitável por essa mesma sociedade e só ela garante a segurança jurídica. a sua legitimidade. é um instrumento formal que serve para organizar a vida social de um determinado modo. devendo considerar. pela sua natureza de sistema de poder. Assim. 115 . as quais se baseiam também nos valores racionalmente aceites na sociedade. Acontece.

toma-se independente daquele que a formulou ou emitiu. enquanto o homem os vive. a Filosofia. A nossa reflexão conduziu-nos a sustentar que o Direito. ed. ao lado de outras criações espirituais. tal como a obra de arte ou a proposição filosófica. ao conhecimento. Interpretação. Se. pp. 161 Sentido e valor do Direito. estimativa e criadora. entre as quais avultam como mais significativas e individualizadoras. como de início se afirmou e a exposição das diversas doutrinas hermenêutico-juridicas parece haver confirmado com suficiente clareza. adquire uma vida própria e autónoma. a temporalidade e historicidade. aberto. Queria isto dizer que. Por essa razão. plenamente. nessa relação. à interpretação e à aplicação vivificadoras daqueles que com ela se defrontam. no mundo da Cultura. sente e pensa. uma vez formulada. pois é portadora de um sentido próprio. os valores que nelas se exprimem ou contêm. contêm ou envolvem. dinâmicamente. cit. a objectividade. a Religião ou a Técnica. admitem uma diversidade maior ou menor de interpretações. valores a que procura dar efectividade nas relações humanas intersubjectivas. uma variedade de modos de compreender o sentido axiológico que nelas reside. participa. se integra. recordar a visão ontológicojuridica anteriormente exposta e de desenvolver o que aí então se adiantou sobre a dimensão intrinsecamente hermenêutica de todas as criações culturais humanas161. enquanto criação humana destinada a ordenar a vida social do homem.23. de pleno. 149-159. aplicação e argumentação I. então. que plenamente se cumpre a sua função prático-normativa e adquire a sua plenitude funcional de ser e de sentido. sendo. as concepções sobre a interpretação do Direito se encontram estreitamente associadas tanto ao modo de entender a realidade jurídica como à teoria das fontes do Direito que.. que o sentido de que as normas jurídicas são portadoras. como a Arte. a norma jurídica. de acordo com determinados valores. a Ciência. Daqui decorreria. simultânea e unitariamente cognitiva. 116 . a posição a tomar agora sobre este tema não poderá deixar de. directamente das características comuns às demais realidades culturais. porque só existem. dado serem diferentes as situações ou os casos em que são chamadas à vida e diversas as pessoas que têm de interpretá-las e aplicá-las. de que o primeiro e mais relevante é a Justiça. directa ou indirectamente. preliminarmente.

princípios. ideias ou ideais a que procura dar efectividade na ordenação da vida de relação intersubjectiva dos homens é sempre necessária e insuperavelmente imperfeita e incompleta. em concreto. foi oportunamente assinalado: por um lado.Deste modo. concretiza e adquire vida. o que significa não só que a visão dos valores. o Direito tem entre os seus atributos fundamentais a temporalidade e a historicidade. sendo no momento da sua aplicação que o Direito. por isso. significará que o sentido do texto 117 . em função tanto das diversas circunstâncias e situações que são chamados a regular ou decidir. do qual decorre. Deste modo de compreender a realidade jurídica duas consequências parece resultarem. como então igualmente se notou. frontalmente. cumpre. o que Emilio Betti designou por autonomia hermenêutica do objecto. inequivocamente. II. como. dado ser expressão de uma situação histórico-cultural concreta e de uma perspectiva parcelar. vai revelando sentidos diversos ao longo do período da sua vigência. com um entendimento de ordem normativa jurídica como realidade de natureza cultural. como realidade cultural humana. uma essencial dimensão hermenêutica. em que o Direito se inclui. que. directamente ligado à intenção do legislador histórico. qualquer destas concepções choca-se. a sua essencial função de ordenar a conduta social humana. com lógica necessidade. como também das diferentes concepções axiológicoculturais dominantes nos vários momentos em que são interpretados e aplicados. efectivamente. a interpretação ou a compreensão do sentido das realidades culturais ou normativas apresenta-se como impostergável elemento constitutivo dos objectos culturais. as quais têm. Com efeito. visto esta constituir tão só uma virtualidade normativa. mas a uma pretensa ou hipotética vontade racional do mesmo legislador. aliás. Por outro lado. ainda que concebido aquele/num sentido não já psicológico. como. a inadmissibilidade hermenêutica de toda e qualquer solução doutrinária que vincule o objecto da interpretação jurídica à determinação do querer normativo do autor do comando legislativo. por outro lado. que cada norma ou complexo normativo. além da objectividade. no domínio jurídico. enquanto expressão objectivada do Direito. que. não é possível continuar a ver na abstracção e na sua generalidade da lei o seu momento ou aspecto decisivo e característico. que apenas no momento da sua aplicação se actualiza. ainda.

Cabe ter. Por outro lado ainda. necessariamente. III. não por uma mera preocupação teorética ou cognitiva. uma inquirição sobre os valores jurídicos em causa. Gadamer não se cansou de insistir. como tem sido insistente e fundadamente afirmado pelas diversas doutrinas hermenêuticas. Diz respeito a primeira ao carácter dialéctico que ela sempre reveste. quando a norma se revela susceptível de mais de uma interpretação ou de ser compreendida em mais de um sentido. devendo. sobre o modo como as situações da vida a que a norma ou complexo normativo se referem são por elas valoradas ou axiologicamente hierarquizadas. como toda a interpretação de um texto. no caso do Direito. a interpretação jurídica. por outro.é independente do seu autor e está sempre determinado ou condicionado pela situação histórico-cultural do intérprete e pelas características do caso decidendo. que se. optar por aquele dos sentidos que se lhe afigure como o mais adequado para realizar o pensamento axiológico-normativo em causa. que reciprocamente se influenciam e determinam. 118 . entre dois pólos. enquanto. Por um lado. atenta a sua natureza de ordem prático-normativa. o da generalidade abstracta da norma ou do complexo normativo objecto directo da interpretação e o da concreta singularidade do caso a decidir ou da situação a regular. que engloba interpretação. o sentido que toda a interpretação jurídica busca inclui. que é suscitado. Este aspecto particular da hermenêutica jurídica aponta para outras características individualizadoras da interpretação do Direito. o momento da aplicação é a razão determinante de todo o processo hermenêutico. que se refere a ordenação da conduta social. apresenta sempre um carácter actualizador e objectivante do respectivo sentido normativo. todo o processo hermenêutico é um todo unitário. consequência hermenêutica da temporalidade e da historicidade do homem e das suas criações culturais. tensionalmente. dando razões dessa decisão. como. compreensão e aplicação. pois decorre. não pode o intérprete quedar-se numa situação de paralisante indecisão ou satisfazer-se com um pensamento alternativo. Outra importante consequência lógica da concepção do Direito como realidade cultural e normativa é a intrínseca dimensão axiológica de toda a hermenêutica jurídica. mas por uma questão prática que é necessário decidir. igualmententa. antes. por um duplo e complementar conjunto de razões.

como vem a consubstanciar-se na criação normativa da solução do caso. também no jurídico não podem ignorar-se as noções de pré-compreensão e de círculo hermenéutico. 119 . um preceito ou texto legal. no domínio jurídico. da justiça ou da adequação da solução hermenêutico-prática encontrada. o que revela a complementaridade que. o qual não deixará de envolver. existe entre a hermenêutica e a tópico-retórica como momentos de racionalidade prática do Direito. com vista a compreender o seu sentido axiológico-normativo. bem como a noção gadameriana de duplo horizonte hermenêutico. ao mesmo tempo que a compreensão desse todo normativo é. condicionada ou mediada pelo conteúdo do preceito singular. de modo nem sempre consciente ou deliberado. também na actividade interpretativa levada a cabo pelos juristas a compreensão do sentido do preceito singular é condicionada ou determinada pela do todo normativo em que se integra. Com efeito. ao abordar. não só envolve elementos intuitivos e volitivos.Refere-se a segunda. ou defendida. adoptada. do seu conhecimento da ordem jurídica e do ramo de Direito em causa. aquele processo circular que já Schleiermacher havia surpreendido e que. porventura. património comum do pensamento hermenêutico contemporâneo. como qualquer intérprete qualificado. A terceira consequência do relevo que o momento da aplicação apresenta na hermenêutica jurídica é a estreita relação que ne-la se dá entre interpretação e argumentação. por sua vez. que desta primeira directamente decorre. concretizadora e não reprodutiva. Como nos demais processos hermenêuticos. ainda que. longe de revestir um carácter meramente cognitivo e obedecer ao esquema rigidamente lógico e quase mecânico e impessoal da subsunção. também o jurista. se denomina círculo hermenêutico. fá-lo a partir da pré-compreensão que decorre da sua experiência jurídica e humana. a opção entre sentidos valorativos diversos. já que tal aplicação carece de ser justificada ou fundamentada com argumentos ou razões que logrem persuadir da bondade. ao carácter necessária e substantivamente criador de toda a interpretação jurídica. desde Heidegger. Com efeito. é sempre e necessariamente uma interpretação produtiva. pois o momento da aplicação que o processo hermenêutico aqui envolve. IV. É desse conhecimento e dessa pré-compreensão que não pode deixar de partir o eu acesso hermenêutico ao texto. hermeneuticamente.

definindo a particular situação em que. por uma dupla razão. vêm tornando cada vez mais difícil a tarefa do intérprete. no plano teórico-conceitual. muitas vezes o exacto significado de um termo. a mesma que permite fundar a opção por um dos vários sentidos axiológico-normativos que a actividade hermenêutica venha a revelar ao intérprete. dos textos jurídicos e de muitas decisões judicias. mantém a sua validade e relevância. a interpretação jurídica. constituindo preocupante factor de insegurança jurídica. o intérprete se encontra. a realidade viva do Direito e. na medida em que chama a atenção para os dois momentos temporais e para as duas situações culturais presentes em todo o processo hermenêutico. contrarie. nessa medida. quanto maior for o lapso de tempo que medeie entre o intérprete e o texto legal a ser por ele interpretado. a qual é tanto mais nítida e significativa. por sua vez. pomposamente apelidadas de “reformas”. numa mesma norma ou complexo normativo. não possa ser aceite. no entanto. Também a noção de duplo horizonte hermenêutico. Por um lado. ao mesmo tempo que a forma apressada e pouco ponderada com que são. a ideia gadameriana. hoje. com desrespeito por regras gramaticais elementares. 120 . se bem que a cada vez maior mutabilidade das leis e o cada vez menor período da respectiva vigência lhe tenham vindo a retirar parte da sua relevância.Note-se que esta realidade é particularmente significativa na interpretação jurídica. V. embora o dogma positivista da coerência do ordenamento jurídico. associadas a uma crescente degradação da qualidade técnico-jurídica e a uma muito deficiente redacção. deve visar uma coerência de sentido da ordem jurídica. nele. desenvolvida pelo filósofo de Verdade e método. Por outro. Não obstante. no seu seco e abstracto logicismo. feitas as alterações legislativas. deve ser tida devidamente em conta no domínio hermenêutico-jurídico. que advém do quadro de valores que a ela presidem e da respectiva hierarquia axiológica. cujo sentido. abertamente. só pode ser plena e adequadamente compreendido tendo em conta o significado com que nele são usados os termos e as expressões que o compõem. como toda a interpretação. cabe não esquecer que. de uma expressão ou de um conceito normativo só logra alcançar-se a partir da consideração ou da análise do contexto global do próprio texto interpretando.

conduzir a resultados divergentes. em cada caso. tal como são compreendidos e vivenciados no momento sócio-cultural em que haja de concretizar. Por outro lado. que. histórico e sistemático) nem sempre confluem num mesmo resultado ou numa mesma conclusão interpretativa. 121 . por via da aplicação. não terá aqui outro papel a desempenhar que não seja o que está pressuposto na noção de duplo horizonte hermenêutico. então. estreitamente associados. mas adoptando. no mundo do Direito. dada a autonomia hermenêutica do texto. na senda de Engisch. cabendo. o comando normativo em causa. antagónicos ou contraditórios. embora o Direito seja. designadamente no seu momento de aplicação. desde Savigny. apresenta um sentido axiológico e é inseparável da ideia de coerência de sentido que deve presidir a toda a compreensão hermenêutica. têm sido considerados os elementos da interpretação jurídica importa ainda ter em conta. a solução que se lhe afigure melhor corresponder ao pensamento legislativo objectivado na norma ou no complexo normativo em causa e melhor se adequar à situação concreta decidenda. decorrente da objectividade inerente a toda a criação cultural e do carácter actualizador e concretizador de todo o processo hermenêutico. não através do recurso a qualquer hierarquia ou ordenação valorativa genérica e abstracta destes vários processos. pelo que. deverá socorrer-se do quadro de valores que enformam aquele instituto ou aquele ramo de Direito. pelo contrário. Dois problemas. nele. para além de um significado lógico. e que aqui. ou a ordem jurídica no seu conjunto.VI. Assim. do círculo hermenêutico. e se socorra. podendo. Para isso. da linguagem corrente. a chamada interpretação gramatical é sempre interpretação do sentido normativo e técnico-jurídico que as palavras e as expressões nele têm. lógico. Por outro lado. Relativamente à chamada interpretação histórica. quanto ao que habitualmente se designa por interpretação geramatical importa notar. substantivamente. ao intérprete superar tal situação. linguagem. será necessário não esquecer que. os quatro processos hermenêuticos tradicionalmente aceites (gramatical. relacionados com o que. a chamada interpretação sistemática mais não será do que a expressão. constitui um complexo conceptual próprio. como lembrou o mesmo Engisch. muitas vezes.

162 Cfr. Hermenêutica e jurisprudência. Ed. 1990. Vol. I. 2003. A.fundamentando. 122 . Fragmen-tos. a solução que assim venha a adoptar162. Lisboa. e José Lamego.. Coimbra Ed. com os argumentos que tenha por pertinentes. O actual problema metodológico da interpretação jurídica. Coimbra. Castanheira Neves.

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