História científica, história contemporânea e história cotidiana

Norberto Luiz Guarinello
Depto. de História/USP

RESUMO
Este artigo discute alguns dos impasses da História contemporânea, identificando alguns de seus limites como disciplina científica e ressaltando sua especificidade frente às demais ciências humanas. A partir da perspectiva do tempo cotidiano, discute conceitos como tempo histórico, estrutura e ação. Palavras-Chave: História; Historiografia; Cotidiano; Estrutura; Ação.

ABSTRACT
This paper discusses several of deadlocks confronted by contemporary historiography. It tries to assert both its limitations as a science and its special contribution to the Social Sciences in general. From an everyday life point of view it discusses historical time, structure and action. Keywords: History; Historiography; Everyday Life; Structure; Action.

INTRODUÇÃO
O objetivo deste artigo é fazer um breve e esquemático balanço dos desafios colocados pela história contemporânea à ciência da História1 e propor alguns caminhos de reflexão. Caminhos que, como se verá, limitam-se a buscar alternativas possíveis, mais que a propor soluções ou respostas positivas a questões específicas. A História, como gênero específico dentro da tradição literária européia, ou enquanto disciplina científica, possui uma longa história que seria impossível, e mesmo inútil, tentar sintetizar neste espaço. Em termos bem gerais, no entanto, pode-se considerar que, como forma de memória pública, sempre exerceu certo efeito tranqüilizador para a eternamente instável relação das sociedades humanas com o tempo, mesmo quando assumiu o papel de crítica do presente. A História, como trabalho de rememoração ou de explicação do passado, permitia prever tempos futuros, seja pela repetição ou emulação do ocorrido, seja pela projeção causal de um desenvolvimento desejado e possível. Em outras palavras, um certo desejo de segurança em relação ao futuro (como repetição, ou como desenvolvimento espeRevista Brasileira de História. São Paulo, v. 24, nº 48, p.13-38 - 2004

Norberto Luiz Guarinello

rado, o progresso) sempre foi um dos móveis e, ao mesmo tempo, um dos resultados da pesquisa histórica. As incertezas sobre o futuro, que se tornaram progressivamente mais agudas, em nível planetário, desde o último quartel do século XX, não poderiam assim deixar de projetar suas sombras sobre as maneiras como a História construía passados, com suas estruturas, suas leis, suas determinações, para projetar futuros já sabidos ou, no mínimo, intensamente almejados e tidos como possíveis.2 Aqueles passados tornaram-se anacrônicos e, muitas vezes, a pesquisa contemporânea parece correr o risco de enveredar pela nostalgia e pela angustiante defesa de um lugar no futuro para um passado (o que produz) que perdeu sua eficácia social como fator de compreensão e mudança. Ou talvez não! Apenas não encontrou um novo lugar para a História num mundo que se revela muito amplo e complexo para seus antigos quadros de referência. As maneiras pelas quais a História considera a história como seu objeto de estudo devem passar por mudanças drásticas. Vamos analisá-las em diferentes níveis: na definição mesma de história como objeto de estudo, nos recortes mais amplos que os historiadores produzem, suas grandes “unidades de sentido”, nos conteúdos/narrativas com que preenchem esses recortes e, finalmente, nas relações entre tempo, estrutura e ação.

A HISTÓRIA SEM RECORTES
Faz parte dos pressupostos da disciplina que a história, em seu sentido mais geral, existe e pode ser objeto de conhecimento: ela é total e única, é “a” história da humanidade, noção que corresponde àquela, iluminista, da unidade do gênero humano. Um fóssil de homo sapiens sapiens de 150 mil anos é, por exemplo, parte dessa história, a única história, que é a história do homem. No entanto, e até nossos dias, as Histórias Universais produzidas pela historiografia foram, de modo geral, Histórias particulares de certos ramos privilegiados da história, reproduzindo uma perspectiva cuja origem remonta à própria formação da disciplina a partir dos clássicos latinos e gregos. A historiografia européia, numa época em que só havia História científica na Europa, escreveu, desde meados do século XIX e em boa parte do século XX, a História do homem como história da civilização cristã ocidental e, embora menos abertamente, do processo de formação dos principais estados-nações europeus. Escreveu, assim, uma espécie de História Universal da Europa: daí a seqüência, que domina muitos currículos escolares, mesmo em países não
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Revista Brasileira de História, vol. 24, nº 48

OS GRANDES RECORTES DA HISTÓRIA A História. que europeizavam o restante do globo (colocando suas histórias numa mesma seqüência de modos de produção) e definiam seu futuro comum (o socialismo) pelas transformações de um presente que era essencialmente europeu. de onde partiam os impulsos para uma integração global. Uma História Universal nunca foi tão possível e necessária. apenas nocionalmente européia. história contemporânea e história cotidiana europeus. Mas hoje esse eurocentrismo é anacrônico e claramente insuficiente. Não precisamos rejeitá-lo com desprezo: afinal. nunca se debruçou sobre a história humana como um todo. no processo de tornar-se uma só. Como construí-la? Como falar do todo e também das partes? E quais partes? Quais novos critérios valorativos seriam apropriados para a escrita contemporânea da História? Não há. mas a consciência do problema é. correspondendo a “idades” essencialmente européias. histórias de ALGO. uma História Medieval. Sempre estudou histórias específicas inseridas dentro de unidades de sentido (os ALGOS) Dezembro de 2004 15 . um bom lugar para se principiar a pensar. obviamente. cumpriu um papel importante. pois não corresponde nem mesmo à história de qualquer parte específica do que se possa entender por Europa. enquanto o presente e o futuro desta pareciam centrados na Europa. mas de uma seqüência simbólica. uma resposta. uma Moderna e assim por diante. da História do Homem. Afinal. Esse viés eurocêntrico perpassou praticamente todas as interpretações mais globais da história incluindo aquelas de derivação marxista. qual a relação entre a História e a história? É possível narrar uma única história ou devemos seguir apenas certos fios? Por que privilegiar o fio europeu? Quais outros podemos ou devemos integrar na narrativa? Tais questões são parte do desafio contemporâneo à História. obviamente. uma visão arbitrária e ideológica. Essa consciência despertada de que a História que estudávamos era apenas uma possibilidade entre muitas coloca desafios bem tangíveis à História contemporânea. Hoje é possível ver o desenrolar de histórias paralelas somando-se cada vez mais como parte de uma história só. com a chamada globalização. Deu um primeiro sentido à história mundial. que vai de uma História Antiga (dividida entre Oriente Próximo. em certos termos. toda interpretação da história é arbitrária e a História Universal européia. portanto. Grécia e Roma). ou melhor. O eurocentrismo da historiografia contemporânea é um claro viés. mas sobre histórias particulares. Não se trata.História científica. sem dúvida.

os historiadores ainda produzem suas Histórias dentro dessas unidades: fazem História da França. a configuração de seu “povo”? Que se deve privilegiar: a história do Estado. por vezes. reparte-se o globo em “civilizações” distintas. Ora. descrição. “raça” e “etnia” é hoje evidente. um estado-nacional. respostas fáceis. Ainda hoje. isso é inevitável e necessário. com histórias diferentes. suas fronteiras. geralmente como termos coincidentes. uma nação. ou seja. os objetos particulares da História. estado-nacional e civilização. a adquirir existência própria. dentro dos quais se recortam temas específicos (a economia. Mesmo Histórias mais remotas deixam-se contaminar por esses recortes. ou cuja coincidência seria “desejável”. sua história. A História se repartiu. História do Brasil ou História da Cultura Ocidental. 16 Revista Brasileira de História. a de um segmento de sua população. como se fossem partes da “natureza” da história. nº 48 . por exemplo. uma civilização e. sobretudo. assim. a naturalizar-se. produz ou consome seus relatos. por objetos que não são uniformes. como meios de conferir-lhe sentido. no espaço e culturalmente. a política. são instrumentos de identidade. A despeito das grandes mudanças pelas quais passou a disciplina nos últimos dois séculos. Não importa quão científicas sejam. apropriando-se dele como sua memória.Norberto Luiz Guarinello que conferiam coerência a um corpo de documentos e a uma narrativa. a do território contemporâneo? Não há. explicação ou interpretação. Entender o modo como se definiram essas unidades. Essas unidades recortam o passado no tempo. e que mudam de abrangência ou de sentido de acordo com os interesses de quem financia. Mas esse procedimento nunca é inocente ou inócuo. São estas as grandes unidades de sentido. sem que se saiba ao certo o que é uma civilização. Como escrever a história de um estado-nacional sem projetar no passado sua definição contemporânea. essas interpretações da História são sempre produtoras de memória. sua tradição. de lembrança ou esquecimento. grandes contextos. nos quais temas específicos podem adquirir sua razão de ser. a sociedade e assim por diante) e que se projetam no passado. os objetos por excelência da História. mas a mesma artificialidade afeta unidades como nação. construindo-se uma História da “Grécia” antiga ou de “Roma”. é crucial para compreender os impasses contemporâneos da disciplina. Essas unidades de base tendem. 24. tornam-se pressupostos que não se discutem. O processo de fabricação de entidades como “povo”. além disso. nem equivalentes. Desde o século XIX algumas unidades maiores têm predominado como os grandes contextos da História: um povo. Mas não é tarefa fácil! Tais unidades foram construídas como grandes objetos virtuais. como se fossem nações da Antiguidade. de legitimidade e de poder. vol. novamente.

Raramente se pensa sobre essas formas. locais. ou apenas aqueles mais “elevados”. essas formas aparecem aos estudiosos como algo dado. mas um termo visivelmente ideológico e propositalmente vago. de criar ou escrever outros passados. ou aquela que domina nossos currículos escolares. pois as formas européias tendem claramente a prevalecer: a idéia de nação é projetada no passado e estendida geograficamente. Se tentarmos pensar a história sem elas. através de uma noção jamais explicitada de civilização incutem-se valores e identidades culturais. sub-repticiamente. não apenas para compreendermos os limites das reconstruções ou interpretações que propomos. como unidades quase naturais. abrem ou fecham campos de visibilidade. da chamada “civilização ocidental”? O que a define? O cristianismo católico ou protestante? A industrialização? O capitalismo? A sociedade civil de indivíduos iguais? O mercado? O termo é tão ambíguo e tão carregado de valorações contraditórias como as demais grandes unidades de que se vale o historiador. sem perceber como essas formas pré-teóricas conformam nosso modo de ver o passado. constroem. Se não é possível passar sem as formas. insisto. ainda é uma História marcadamente eurocentrista. teremos apenas uma sucessão de fatos desconexos. Esta visão é ideológica e anacrôniDezembro de 2004 17 . e assim por diante. são parte necessária do trabalho de qualquer historiador. mas também para termos a possibilidade de produzir visões alternativas.História científica. E isso é necessário hoje. do modo como foram criadas e de como afetam nossas visões da História humana. ao primitivo? Engloba todos os hábitos. mas é necessário ter plena consciência de sua arbitrariedade. por exemplo. particulares. porque vivemos numa época de grandes transformações que exigem que reconstruamos nosso passado para torná-lo útil para o presente. crenças e costumes de uma sociedade. Tais formas. que é uma civilização? Opõese à barbárie. termo tão em voga em certos debates políticos contemporâneos? Civilização não é um conceito. A História que produzimos em nossas universidades. o fio de uma história geral que nunca é abordada. Afinal. história contemporânea e história cotidiana E o que dizer de civilização. O próprio presente nos impele a mudar a forma de ver o passado. por exemplo. como a cultura literária e artística? Sociedades específicas correspondem a civilizações determinadas? Quais os limites. mas é por meio delas que os historiadores reconstituem fatos e realidades e sobre as quais empregam suas eventuais teorias da história ou da sociedade. dentro das quais escrevem suas Histórias específicas. Unidades de sentido como civilização ou mesmo nação são “formas” e não objetos concretos Normalmente.

mas assumem as formas como naturais. dentro da própria formação do historiador. para compreendermos. a diversidade do mundo de hoje. que afetam as antigas relações entre espaço e tempo que regiam as sociedades humanas. Alterar essas formas possibilitaria à História libertar-se de muitos de seus vícios de origem. E as formas acabam determinando suas interpretações de modo quase inconsciente. dos processos e mudanças a serem descritos e explicados. centrando-se numa visão evolutiva da história que mantém ainda a Europa como o centro dos acontecimentos relevantes da história mundial. que dificulta uma reformulação mais radical das formas com as quais damos sentido à história humana. contaminando. seus conflitos e suas perspectivas para o futuro. só passasse a ter história após o advento dos europeus. em particular os currículos escolares. mas mesmo no trabalho de formiga dos especialistas. Ora. em momentos distintos. foi sobre essas entidades quase naturais. sobretudo nas interpretações de longo fôlego. com suas diferentes formas de descrição e explicação e os diversos tipos de estrutura narrativa da História: dos fatos memoráveis. que atenderam. vol. OS CONTEÚDOS DA HISTÓRIA: ESTRUTURAS E TRANSFORMAÇÕES Os impasses da História contemporânea não se limitam. com as demais formas presentes no universo cultural da nossa sociedade. essas imensas unidades invisíveis a que denominei “formas”. Desde o século 18 Revista Brasileira de História. também são produtos particulares. É propriamente dito “um impasse”. que tende a unificar as histórias locais numa única. de como pensá-la como movimento ou repetição. as transformações por que passa o mundo contemporâneo. por exemplo. no entanto. ou seja. Como se o resto do globo. nas unidades de sentido dentro das quais estudam e organizam sua documentação. Ora. Os historiadores raramente ousam mexer nas formas. dos grandes personagens. Mas não é tarefa fácil. O fato. contudo. a visões alternativas do que ver na história. no interior das formas. Inventam outras teorias. 24. buscam novos fatos. que os historiadores projetaram seus objetos de estudo específicos.Norberto Luiz Guarinello ca. e deixando-se contaminar. por exemplo. notadamente a chamada globalização. sob a égide do capital internacional e da expansão dos meios de comunicação. apenas a esses grandes contextos. quase eternas. nº 48 . Esses conteúdos específicos. uma espécie de força inercial. exige que tenhamos a capacidade de produzir uma visão mais global da história. e nós incluídos. é que há.

que é motor de seus destinos e realizações. história contemporânea e história cotidiana XIX. com suas leis de transformação. mas mesmo antes. transnacionais. as grandes estruturas sociais e econômicas. dos conteúdos específicos que. crescendo e morrendo. Seguindo uma direta influência dos historiadores greco-romanos e de alguns continuadores renascentistas. os ramos centrais da historiografia. nascendo. atuando em tempos mais precisos. Civilizações podem mover-se por um lento tempo “biológico”. Mas movimento de quê? É verdade que algumas dessas grandes entidades/formas assumem por vezes um caráter quase permanente. estados. nunca foram predominantes. isto é. Povos. por vezes conscientes.História científica. ou organismo) e um tipo ou vetor de ação. A partir de meados do século XX fortaleceu-se uma tendência. o espaço da ação humana tornou-se cada vez mais restrito. A capacidade de projetar um futuro e de conceber o passado como sua origem e sua causa. Daí passaram a predominar. dominou as narrativas da História por longas décadas. como forma de superar as limitações da velha história política e abrir-se para as contribuições da Sociologia. O tempo e a forma da ação tornaram-se distintos: passaram às grandes ações coletivas. que passaram para o primeiro plano da narrativa e tornaram-se os grandes agentes da história. menos eficaz. no entanto. Desde cedo. seu caráter próprio. Explicações que envolviam sempre o confronto entre uma dada estrutura (ou sistema. e que era bem adaptado a Histórias de estados-nacionais. ao menos os mais influentes. quase impessoais. como categorias imutáveis. de modo evidente. com seu próprio dinamismo e suas próprias determinações. nações. antropológicas: povos e etnias têm seu gênio. logo caíram em desuso ou. voltada para o passado tornara-se progressivamente inviável. já bem adentrado o século XX (e ainda não desapareceu). à crise dessas grandes estruturas. Tais perspectivas. na escrita dos historiadores. que pouco a pouco predominaria (ao menos em certos países). cederam um pouco o lugar no palco da História para agentes mais amplos. a própria idéia de uma história imóvel. o tempo rápido da política e da guerra. a despersonalizar a ação transformadora e a cadenciar mais lentamente os ritmos de mudança. Era preciso explicar o movimento. procuraram explicações mais concretas e eficazes de mudança nas grandes formas. Um terceiro impasse da historiografia contemporânea liga-se. Da política à sociedade e desta à economia. nos últimos duzentos anos aplicaram-se às formas e davam sentido à sua mudança. movido pela ação de grandes líderes e generais ou por elites poderosas. reiterativa. como a Dezembro de 2004 19 . se permaneceram. da Antropologia e da Economia e para a influência do marxismo. mas quase sempre determinadas pelas próprias estruturas.

A partir desse princípio.4 a História cultural contemporânea parece. imigrantes. a História da Cultura parece retornar aos tempos longos. até chegar a esse universo amplo. vago. mulheres. Huizinga. derivar. a duração temporal dos objetos da história tornou-se cada vez mais longa: da ação individual e pontual de grandes homens às explosões coletivas. mas pelo recurso cada vez mais intenso ao estudo de caso. De modo geral. compreendido sob o termo “mentalidades”. é verdade. das grandes estruturas da história. da segunda metade do século XX. 24. conseqüentemente. de uma maior consciência da imensa variedade e amplitude das sociedades humanas sobre a terra. homossexuais). de efeito indeterminado das estruturas econômicas. nº 48 . não apenas pela introdução de novos atores sociais. e reconhecê-las como tais não nega a coexistência de diferentes concepções e modos de fazer História hoje. com as reflexões de J. Em segundo lugar. em todo caso. cujas histórias se tornaram relevantes (trabalhadores. pode estender-se da cultura popular ao mundo dos livros. Algumas conseqüências dessa crise das grandes narrativas são: em primeiro lugar. Burckhardt ou J. à ação impessoal. cíclica. nos quais a agência humana é. quando parece tornar-se a tendência predominante. no entanto.Norberto Luiz Guarinello explicação prévia de um projeto a se concretizar. De qualquer modo. certamente. vol. ao detalhe. depois significativamente desenvolvidas no final do século XIX e inícios do século XX por autores como J. G. mas de uma maior aproximação da História com a Antropologia e com a Lingüística e. nos últimos trinta anos. não apenas do enfraquecimento dos antigos modelos interpretativos. uma especialização recente: quer a consideremos originária do século XVIII. São apenas tendências. esvaeceu-se nas últimas décadas.5 do carnaval à cultura erudita. ao tempo quase eterno e imutável das indefiníveis mentalidades. A CULTURA COMO CONTEÚDO DA HISTÓRIA A História cultural não é. não apenas despersonali20 Revista Brasileira de História. mal definido. à micro-história que se esquiva dos grandes contextos sem conseguir negá-los inteiramente. Herder sobre a Kulturgeschichte. os objetos da História se multiplicaram. essas tendências parecem desembocar. não é fácil definir História da Cultura como uma perspectiva única: a não ser por uma acentuada ênfase no caráter simbólico das relações humanas.3 quer a consideremos como uma especialização mais recente. quase naturais. Mesmo hoje. aos tempos imóveis. numa ênfase cada vez maior nos chamados estudos de história cultural.

como foco de atenção. Para além das intermináveis discussões sobre a pertinência do conceito para sociedades não européias. os estudos sobre cotidiano tendem a valorizar. aqueles dedicados à chamada História da Vida Privada ou História do Cotidiano7 apresentam uma característica particularmente relevante para avaliarmos os impasses da historiografia contemporânea. Pela sua própria condição de limite. é inegável que o crescente interesse pela História do cotidiano reflete um novo olhar sobre o indivíduo.6 CULTURA E COTIDIANO Dentre a grande diversidade dos estudos que podem ser classificados como de História cultural. pretende por vezes dar conta de todas as dimensões da história. inconscientes. o cotidiano aparece quase como o perfeito oposto da história. como o campo das estruturas permanentes. dominado por estruturas que. econômicas e. de nada seriam a causa eficiente. mais intimista.História científica. as ações individuais frente às circunstâncias da vida. corriqueiras e sem efeito transformador. Irving Goffmann enfatiza o cotidiano como espaço de interações humanas concretas. Em termos bem gerais. por sua vez. quase naturais. mas reproduz. Trata-se de um limite. sua ação e sua posição na história. Curiosamente. Para alguns. como instância própria e separada da vida (debates que afetam mais certos círculos sociológicos que propriamente históricos). por sua vez. O gênero não é novo. A visão que apresentamos de cotidiano é derivada do senso comum. mas quase esvaziada de eficácia transformadora. sociais. a partir de estratégias individuais de adoção e negociação de papéis soDezembro de 2004 21 . em grande medida. sobretudo no plano da intersubjetividade. na insignificância banal do homem corriqueiro. culturais. ao contrário daquelas políticas. mais atenta para o indivíduo e sua vida privada. de uma história sem história. de nada seriam dominantes. mesmo. as reflexões a seu respeito nas ciências humanas. A História que narra torna-se. alienantes. sem dúvida. história contemporânea e história cotidiana zada. sobre as quais as ações humanas são apenas banais. O cotidiano surge assim como refúgio da história. remontando talvez à velha antiquística erudita que ainda competia com a História oficial em meados do século XIX 8 (e reproduzia a antiga oposição entre Heródoto e Tucídides). uma história longe da história e que. pode nos ajudar a pensar sobre o estatuto da história hoje. ou mesmo sobre a existência de “cotidiano”. importam menos as “estruturas do cotidiano” que os tipos de ação observados em seu interior. mais detalhada. contudo.

criativas. mais que por estruturas específicas. Se é verdade que. predeterminados por uma instância estrutural que assume. chama a atenção para as estruturas do cotidiano. reivindicação do espaço e do valor da particularidade e da individualidade numa sociedade cada vez mais massificada. dos hospitais. trabalhando sobre as coisas e os demais indivíduos por atos de comunicação que podem ser automáticos ou performáticos. na maior parte das vezes. Já H. do economismo. Essa perspectiva aproxima-se da de Claude Javeau e de sua tentativa de incluir. de imposição brutal das estruturas da vida sobre indivíduos inconscientes e incapazes de reagir e alterar seu mundo. na medida em que visem uma situação projetada. vol. mas apenas perceptível na perspectiva de cada indivíduo. pelo contrário. consciente ou não. 24. a “cotidianeidade”. dos manicômios.Norberto Luiz Guarinello ciais. essas objetivações possuem um caráter conservador e que o senso comum se reproduz de modo consuetudinário. através da repetição. para ela. inovadoras. do cotidiano também podem surgir ações não cotidianas. o sistema de hábitos e o uso dos objetos e que representam o espaço de socialização dos homens.11 como para seus seguidores. da imitação e da hiper-generalização. um mundo de atores nunca solitários cuja ação coletiva. a macro e a micro-história. Alfred Schutz vê o cotidiano como “mundo de vida”. como Michel de Certeau12 ou Michel Maffesolli13 (mesmo que a partir de premissas absolutamente diversas) a ação cotidiana é. produz e reproduz as instâncias da vida. Levebvre encara o cotidiano como um produto do capitalismo. que se serve de um reservatório de ‘conhecimento disponível” (de senso comum) que lhe permite agir sem duvidar.10 Em ambos os casos. o caráter de uma organização: os pequenos mundos do trabalho.15 22 Revista Brasileira de História. Para Levebvre. num único sistema de pensamento. o que considera “o mundo das objetivações”. dentro do qual se dão as ações cotidianas: a linguagem. representa a derrota da ação humana eficaz sobre a história. parece esvanecer-se. mais do que o cotidiano. Nesse âmbito. reação contra a unidimensionalidade do mundo. sobretudo no campo das artes e das ações que quebram a rotina da vida. trata-se sempre de pequenos mundos. dominados por tipos específicos de pequenas ações rotineiras. sobre o qual se acumula a cultura humana. essencialmente intersubjetivo. do pragmatismo. de modo espontâneo. de repetição. como o outro da história. como um espaço de alienação. como instância à parte da vida. Mais produtiva é a visão de Agnes Heller14 que.9 Numa perspectiva fenomenológica. por sua vez. Para outros. nº 48 . o próprio sentido de cotidiano.

O ponto de partida pode ser a famosa e sempre citada coleção da Editora Hachette.História científica. Uma História do não histórico. do dia-a-dia. A História do cotidiano se apresentava. da guerra. como já se notou. sociedade ou lugar e fundada numa espécie de naturalização da sociedade e do homem. menos extensos que as determinações geográficas. as esferas da vida privada eram organizadas numa espécie de tipologia da vida social que podia ser usada para qualquer sociedade. cuja “História antiquária” opunha-se em suas origens à grande História. de instantâneos agrupados numa tipologia da vida social que parecia como um figurino adaptável a qualquer época.16 tinha limites evidentes: seus procedimentos típicos da velha antiquária: a busca do anedótico. das grandes estruturas. seu resíduo quase biológico: o dormir. de dados dispersos. Representou uma reformulação radical do ângulo de visão do historiador comum (e da História comum) pela valorização da realidade “banal”. da realidade rotineira na qual agimos de modo quase inconsciente e alienado. dos grandes feitos. época ou lugar. privado. Sob esta visão. Um pedaço da vida em que nada aconteceria. o médio das estruturas econômicas e o curto dos acontecimentos. dos três tempos da história: o longo da geografia. o comer. Essa recompartimentação da História. Tempos quase naturais dentro da economia das existências humanas. o luxo. como a História do banal. seguindo um caminho sugerido por Marc Bloch. história contemporânea e história cotidiana COTIDIANO E HISTÓRIA Os historiadores têm dedicado poucas reflexões ao tema do cotidiano e de seu lugar na História. quando foi empreendida. a despeito de sua busca do exótico e de seu viés escapista. o divertir-se. da história de todos e de cada um.17 Tempos longos. da economia. não deixou de ser interessante. os alimentos essenciais. do corriqueiro. ali. da luta de classes. Uma História de verbos substantivados. em suma da História das causas eficientes da história. o amar. estruturais. dominaria nossas vidas no que teriam de mais íntimo. mais conhecido. a não ser o absolutamente previsível. História dos hábitos e costumes de diferentes povos: o morar. e assim por diante. Não tanto aquele. Mas. Daí que tendia a ser uma História de viés antropológico. mas o Braudel historiador das “estruturas do cotidiano”: a demografia. àquela celebrativa. porém mais estáveis que o universo das trocas. o descansar. Braudel. A visão de Braudel reforça a ligação entre cotidiano Dezembro de 2004 23 . a técnica. individual. por oposição à grande História celebrativa dos grandes homens e dos grandes feitos. o dormir. Uma das raras tentativas de se abordar o cotidiano do ponto de vista da História é a de F. no entanto. no qual nada mudaria e que. as unidades sociais. da política. o trabalhar.

em outros termos. Que é tempo cotidiano? Os historiadores têm. como eterna permanência do que no entanto sabemos. e vida comum. parece ser um conceito limite. como não acontecimento. encontra-se no ensaio de F. como repetição. Vincula-se ao tempo19 e parece negá-lo. realizado o exercício. em segundo lugar. ou como um tipo de ação. que muda. como uma dimensão propriamente temporal. mas servirá como exercício para. Em todo caso. como vimos. mas talvez seja possível abordá-la de outras maneiras. o cotidiano aparece. mesmo nas poucas incursões historiográficas. o que é certamente arbitrário. Em primeiro lugar. a História. sem dúvida. banal. para investigarmos alguns dos impasses da historiografia contemporânea. prenhe de significado. entre estruturas supra-dominantes e atores humanos que se dobram a injunções que não podem controlar. de percepção fenomenológica de si e do outro. possamos entender melhor nosso objeto. Uma releitura da visão braudeliana. a definição de Braudel mantém a separação clássica entre tempo do cotidiano (e da vida) e tempo do acontecimento (e da história) reproduzindo. repetitiva e estéril. mas tendo em vista que é preciso explicar duas realidades contrapostas e complementares: a permanência e a mudança ou. Entre tempo das mudanças e tempo da reiteração. Talvez seja possível superar a falsa dicotomia entre cotidiano e história se pen24 Revista Brasileira de História. Novais. Para o historiador. indagar o cotidiano como tempo qualitativo. a história e as possibilidades de nossa ciência. a tendência a aproximar cotidiano e longa duração. Talvez seja útil pensarmos esse limite. 24. riquíssima de sugestões. no fundo. Talvez. a tradicional distinção entre acontecimento histórico. a relação entre estrutura e ação. nº 48 . Na Sociologia. buscando naquelas estruturas mais gerais as condições concretas de sociabilidade. investigando o que compõe esse tempo. como o tempo do não acontecimento. por mais rica que seja de sugestões. COTIDIANO E TEMPO HISTÓRICO Tentemos pensar o cotidiano do ponto de vista de um historiador. como instância temporal. assim. como pura duração sem qualificações. ou seja. levá-lo às suas últimas conseqüências. ou como um espaço informe de interação. na Filosofia. Podemos conceber cotidiano a partir de dois ângulos. quase intuitivamente. vol. repetitivo e inconsciente.Norberto Luiz Guarinello e tempo histórico. de ação social individual e coletiva.18 que se apóia na concepção braudeliana. de que é a duração.

portanto num tempo potencialmente longo. O cotidiano. seguidas. podem alterar em maior ou menor profundidade aspectos de nossa vida. mas convivem. no mesmo tempo comum da existência”. um dia e todos os dias. em que todos vivemos. assim. como o tempo da vida. concreta. história contemporânea e história cotidiana sarmos cotidiano não como tipos específicos de ação ou como uma dimensão particular. não surge do nada. o presente. o incisivo e transformador e o repetitivo. eficaz. constelações de acontecimentos. na seqüência de dias. porém imóvel e inconsciente. o imprevisto. que muda pouco ou não muda. mas ativa. e outra metafísica.História científica. as grandes causas senão no dia. Daí que proponho ver o cotidiano não como uma esfera da vida. miúdas. O cotidiano não é uma esfera particular da vida ou da história. concretizam-se. um presente que. a cada dia. visto assim sem qualidades. congrega uma sucessão de presentes no fluxo contínuo da vida. dito de outro modo. mas é um produto do cotidiano. num dado dia? Não são eles também cotidianos? Não se produz a própria mudança no dia-a-dia. que se somam até tomar a forma de “acontecimentos”? “Pequenas” e “grandes” ações. como veremos. talvez seja útil pensá-los conjuntamente. pode ser pensado como o espaço concreto de realização da história em todas as suas dimensões. a inércia e a transformação não existem em planos separados da existência.20 Engloba. por meio de ações concretas. individualizada. o banal e o excepcional. É o que acontece em um dado dia. num tempo brevíssimo. as forças da mudança. de ações. a repetitiva e a transformadora.21 Associar cotidiano a presente tem conseqüências importantes para o modo como encaDezembro de 2004 25 . Eles se dão no tempo e no espaço do dia. ou antes. ou uma espécie de massa inerte. e o que acontece todos os dias. visto em perspectiva. a pública e a privada. como um momento. mas como tempo plenamente histórico. É verdade que acontecimentos singulares. a repetição e o único. das interações humanas. mas é no próprio tempo do cotidiano que são gerados. de onde proviriam as ações que mudam. uma efeméride. que é o cotidiano ou. O acontecimento não é assim o inesperado. quot dies é. será essa dicotomia insuperável? Como se manifestam os grandes eventos. Cotidiano tem portanto dois sentidos temporais complementares. Não há por que pensar a história como duas instâncias separadas: uma física. tanto o instantâneo como o duradouro. ao mesmo tempo. Que é cotidiano? Na origem latina. mas como um tempo. no sentido de ser tanto o tempo do “acontecimento” (no sentido tradicional) quanto do “não-acontecimento”. a banal e a importante. Não há por que separar os dois planos ou. pois não teria em si os agentes de sua mudança: uma massa sobre a qual os acontecimentos existiriam e atuariam de modo independente. Ora.

Na verdade. Ao contrário. dito por outro ângulo. o cotidiano não tem duração. Invertendo as proposições de H. Levebvre. o que equivale a dizer. mas porque dia é tempo presente e os historiadores não costumam pensar essa dimensão do tempo — o presente. Estudar o passado abrindo-se para as possibilidades em jogo a cada momento. mesmo em nossos dias. o presente só é vivenciável porque é previsível. mas não de modo desordenado e caótico. Mais que um fluxo contínuo de eventos. aliás. como uma só unidade. mas um campo de restrições e possibilidades em aberto para projetos alternativos de futuro. Não porque o dia seja desinteressante e fugaz. É preciso inverter a perspectiva para pensar a eficácia das ações sociais individuais e coletivas. como sonho. Não devemos considerar essa ênfase no presente apenas como um resultado negativo da recente opacidade com que o futuro se nos velou. pode revivificar nossa visão do passado e fazer pensar sobre nossas possibilidades de projetar futuros no presente. o próprio ato de reproduzir essa ordem (ou de não fazê-lo). O presente. O presente que não é mera repetição do passado. mas do desejo e da angústia. No cotidiano se defrontam ordem e movimento. 24. É uma perspectiva em aberto. isento de acontecimentos (historiadores são. com passado e futuro. da esperança e do medo. o curso da história. Visto por esse ângulo. é como o vértice de uma tríade temporal que forma. é o tempo. sem que um presente fosse o ponto necessário de ligação entre ambos. nº 48 . em termos socio26 Revista Brasileira de História. vol. De modo geral. a História dos historiadores é ainda marcadamente teleológica. sem valorizar unicamente o resultado indesejado de diferentes projetos. zelosos em datar acontecimentos num dia!). sem privilegiar o vencedor. Ignorando essa dimensão da história vivida. interpretam o passado por meio de futuros. ou antes. avaliando os projetos alternativos e em conflito. empregando seu conhecimento do que aconteceu para explicar o que lhe sucedeu. E um ponto no qual o futuro aparece ainda em toda a sua indeterminação e incerteza. como se cada passado visasse a um futuro. não um destino manifesto. a não ser aquela que o historiador estabelece (voltaremos a este ponto). o cotidiano é uma ponte que liga passado e futuro. o cotidiano. Os historiadores tendem a esquecer o dia como unidade temporal da história. os historiadores ignoram em suas reconstruções ou explicações do passado o fato de lidarem com presentes. como curtíssima e como longa duração. não da alienação. porque é a reprodução de uma certa ordem ou. um resultado previsível e previsto. como projeto ou como angústia. entendido como o dia de hoje. seu método pode ser classificado como uma teleologia retrospectiva.Norberto Luiz Guarinello ramos a história.

a própria sociedade. para que se mantenha ou se transforme? Como dissemos. O passado se apresenta no presente concretamente. como trabalho morto com o qual cada um e todos nós precisamos nos defrontar. A semelhança com o conceito de trabalho morto. estrutura e ação. define suas possibilidades. que acumulou e recebeu o trabalho de dias anteriores. que são as duas faces da permanência e da modificação. mas só existe no presente. o tempo é trabalho. modos de fazer. como uma “armação da vida”. circuitos de troca. É passado. é transmissão do acumulado. O paralelismo com o trabalho morto do capital não é absurdo. mas também em conhecimentos. É assim que o passado parece dominar o presente. mas só existe se for acolhido. mas que dele necessitam para ter existência concreta. no tempo presente. é intervenção humana na sociedade e na natureza. do passado e do futuro. não é simples coincidência.História científica. Na história humana. mas é ativo. metafísica. na verdade em diferentes espessuras de passado. o trabalho morto acumulado na história que cada um e todos precisam atualizar. COTIDIANO E TRABALHO MORTO: AS ESTRUTURAS DA VIDA Esses pares de termos são equivalentes. reproduzir ou eventualmente modificar a cada dia segundo um determinado projeto de futuro. ou quase. Algo produzido no ontem. ou mesmo. porque domina as ações atuais. no passado. Mas o que se reproduz. atual. o trabalho morto que o passado transmite não é uma massa caótica. No processo produtivo. como massa potencialmente inerte e inercial. para serem vivificados pelo trabalho vivo. que simultaneamente permanece e muda. é acúmulo. trabalho acumulado e transmitido pelo dia de ontem. de anos. e talvez na biológica e mesmo na física. assim. e que o mundo social é produzido pelos homens e não imposto a eles por uma instância externa. Se aceitarmos a premissa de que toda ação é trabalho. O passado aparece no presente. de amanhã. mas que só existe aqui e agora. gerações. O passado é. sempre na forma de trabalho morto. décadas. o trabalho morto se corporifica em máquinas. na história. Que tipo de Dezembro de 2004 27 . domina nossas vidas. história contemporânea e história cotidiana lógicos. direciona-as. mas uma ordem. que é morto porque passado. que os reproduz e transforma. técnicas. é apenas a extensão de uma lógica que lhe é subjacente. que antecedem o processo de trabalho. concreto. influencia. então a sociedade é o resultado desse trabalho. como Marx o via na composição do capital. aceito. reproduzido e transmitido para o futuro.

como totalidade sobre a qual se pode agir com previsibilidade. Significa apenas que o trabalho morto que corporifica e atualiza o passado apresenta-se organizado. a partir de quatro ângulos incomuns. que não são complementares. o político. a meu ver. Optamos. e é difícil libertarmo-nos deles. a de Agnes Heller. as inter-relações sociais e o mundo material. é com fins analíticos. Há várias respostas possíveis. É o próprio cimento da 28 Revista Brasileira de História. Não temos pretensão a responder. mas apresentá-las como peças de um debate. nem classificar a existência social em dimensões estanques e quase autônomas: o econômico. 24. o social e o ideal. São elas. São. Tendo consciência de que representam um recorte insólito da realidade social. nem estão no mesmo plano ontológico.Norberto Luiz Guarinello ordem? O que dá ordem à vida e à história. em ordem decrescente de abstração: a memória. aqui. não como tempo que unifica estrutura e ação. proponho-as como peças para debate.22 Memória é a estrutura mais ampla e abrangente. Mas Heller pensa. sobretudo. São aproximações ao trabalho morto. por exemplo. A melhor tentativa de pensar essas estruturas é. mas este só é conhecido porque se atua nele. os fundamentos da ação social sobre o capital acumulado apresentado a cada dia pelo passado. Não vou aqui descrevê-las ou discuti-las em detalhe. A idéia de que o cotidiano é estruturado se impõe pela própria previsibilidade do presente. no cotidiano como espaço de ações específicas. Proponho vê-las de modo diverso. São circunscrições arbitrárias que procuram englobar o conjunto da vida social independentemente das teorias que procuram explicar o que seja sociedade. que citamos anteriormente. Se o fazemos. vol. alguns dos quais remontam aos gregos. concretizado e reproduzido ou alterado a cada dia segundo projetos mais ou menos incisivos de futuro. Aqui. ao passado realizado. nem se apresentam separadamente. por nos afastar de alguns pressupostos muito arraigados e arriscar um novo ângulo de visão. Não há por que separar estrutura e ação. Entenda-se que o termo estrutura é empregado aqui em sentido propositalmente fraco e vago. Estrutura e cognoscibilidade estão intimamente ligadas. no meu modo de entender. a totalidade da vida social. à sua maneira. ou talvez não haja respostas. mas que pretendem abarcar. ou matéria e pensamento. nem dão conta da totalidade do objeto. nº 48 . Pensar ordem sem separar corpo e alma. São vícios de pensamento. que permitam entender de que se trata em cada caso. como meios para organizar o pensamento e pensar eventuais respostas. As ações sociais que incidem sobre o trabalho morto têm resultados previsíveis porque o presente é cognoscível. propomos apenas alguns modos de ver. os juízos compartilhados. conscientemente. Forneço apenas traços essenciais.

conferindo sentido à ação e identidade aos agentes. que permite somar os dias de modo significativo. É. em diferentes sociedades. É uma poderosa estrutura. tanto individual como social. sentidos da vida que podem inibir ou estimular ações. corresponde à inação quase absoluta. Formam um quadro comum para se interpretar e agir Dezembro de 2004 29 . um instrumento para o agir social e. uma habilidade natural e uma construção social. individual ou coletiva. ao mesmo tempo. a amnésia. Podem ser formalizados. os mitos. uma fonte de poder. material ou ideal. que estabelecem o espaço da normalidade. do esperável. O exemplo mais geral de um juízo compartilhado talvez sejam as línguas naturais. atuante. A escrita e o processo educacional são formas de memória. onde se criam e destroem identidades. um imenso produto cultural. do aceitável nas interações sociais. Juízos compartilhados designam as convenções sociais que tornam a vida pensável para determinados grupos. como as leis. como os costumes. Compõem um conjunto complexo. São espaços de comunicação e de negociação de sentidos. ou ainda os valores incutidos pelo processo educacional. não é um repositório passivo. livresca. que podemos considerar uma convenção coletiva que permite a comunicação entre as pessoas. com todas as suas circunscrições e imposições. são eles que dão sentido às ações recíprocas. Outros exemplos abrangentes são as religiões. entre passado e presente que permite manter as identidades a despeito do fluxo do tempo.História científica. os heróis comuns e assim por diante. Memórias são produto de trabalho. Mas são também acúmulos de trabalho morto que condicionam o presente ou permitem agir sobre este de modo decisivo. com toda sua complexidade. independentemente de suas dimensões: grandes. São mais do que regras impostas ou normas internalizadas. É essencial tanto para indivíduos como para a sociedade ou para grupos dentro dela. a ciência. não necessariamente coerente. ou informais. Mas memória não é apenas um recurso que possibilita a ação. ou os relatos orais e as estórias que circulam entre grupos. assim como a tradição erudita. A memória. São várias as formas da memória social. O campo é muito vasto para o explorarmos em detalhe. mínimos. sendo fonte de poder. Memória é o vínculo. crenças. É ela que dá sentido ao presente. mas ativo. médios. uma atividade. De qualquer modo. podem ser consensuais. é também. tradições. Seu contrário. negociáveis ou pólos de tensão e conflito. um campo de batalha onde se defrontam interpretações do passado e do presente pelo passado. um trabalho que dá sentido ao trabalho morto que compõe o palco da vida. símbolos. são fabricadas. inevitavelmente. individuais ou coletivas. portanto. história contemporânea e história cotidiana vida cotidiana. A memória. Não existe ação que não seja calcada na memória.

Mudam de sociedade para sociedade. mais ou menos difundidos que permitem proferir juízos e julgar. São ações cristalizadas em expectativas de reprodução. no círculo profissional ou de amigos. na medida em que toda relação pode ser concebida como troca entre indivíduos ou grupos. nem consensuais. prevê-las ou evitá-las. portanto. são grupos dentro de uma sociedade. produzem. dentro de uma determinada totalidade social. em termos grosseiramente genéricos. seja para todos. os espaços e meios delas) dando-lhe estabilidade. materializado como trabalho morto. Talvez se possa pensá-las conjuntamente como relações de troca.Norberto Luiz Guarinello no mundo. serviços. são coletividades num mundo de sociedades contrastantes. Também são campo de negociação e conflito. quanto a parcela da natureza apropriada e transformada pelo homem. Não é um meio simplesmente passivo. aprovar ou condenar ações. que conforma nossa vida. mas culturais e que. relações que se interpenetram de maneiras diferentes em sociedades diferentes. das obrigações que vinculam indivíduos ou grupos específicos uns aos outros. Definem. época para época e grupo para grupo. seja para segmentos da sociedade. mas uma realidade instituída e construída. Já o mundo material engloba tanto a natureza como meio. são trabalho morto cuja reprodução e/ou transformação corresponde à da própria organização social. o desejável e o possível (e seus opostos). 30 Revista Brasileira de História. definindo o que é normal e correto. se auxiliam. e para cada grupo dentro dela. na rede de vizinhança. o que é. são indivíduos sedes de redes. As redes de relações programam e definem as ações cotidianas de indivíduos e grupos. As interações sociais compõem uma dimensão extremamente complexa e estratificada que engloba a maior parte daquilo que os sociólogos costumam denominar de organização social. uma família apropriada: envolve casais de sexos distintos ou independe do sexo? Envolve filhos? Envolve mesmo casais? O que é sexo permitido e permissível? O que é amizade? O que é poder legítimo? Propriedade legítima? Ação legítima? Deus? Liberdade? Amor? O rol é infinito e multifacetado. de exercício do poder e mesmo de repressão violenta. que dá forma ao mundo. São sistemas de crenças e costumes mais ou menos arraigados. na qual trocam bens. ou seja. se unem e diferenciam. nº 48 . vol. O importante é ter em mente que não são definições naturais. exercem poder ou obedecem. É a dimensão na qual as pessoas se organizam para e por entrarem em contato. não são eternas. na produção. define nossa percepção do entorno e fornece a estrutura física da vida cotidiana (propicia atividades sociais. conforma o palco da vida. para cada sociedade. Invadem nossas vidas em todas as suas dimensões. na família. representando trabalho humano concretizado. idéias. por exemplo. se exploram. 24.

sobre as quais se exerce a ação presente. São. um recorte da realidade propositalmente mediano para dar conta tanto das totalidades sociais quanto do mundo miúdo das vivências particulares. o mundo material. de ações particulares. Essas estruturas do cotidiano são produtos coletivos. ao passado. sobretudo. “fato social”. o trabalho morto. mas também como campo de possibilidades. São antes modos de ver. que devem ser produzidos e podem ser trocados. são instrumentos significativos e simbólicos. O passado é não apenas organizado. que unem e diferenciam: sexo. idade. usados. são uma abstração. concretizando. que denominamos “organização social”. de analisar essa realidade cuja estrutura é unitária. meio de luta e de dominação. São. as demais estruturas cotidianas. O passado. como dissemos. Mais que isso. Nesse sentido. É a ele. a cada dia. encobrindo uma imensa gama de subdivisões: de memórias distintas. Indeterminação do futuro não equivale à desorganização do presente que se torna passado. de juízos grupais. tal como já as definimos brevemente. domina a ação individual. “realidade social”. TRABALHO MORTO E AÇÃO: PERMANÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO As estruturas do cotidiano. morto. tanto sobre a natureza quanto sobre homens. tal como apresentadas. que se apresenta a cada dia como limitante à ação. poder. honra. grupo ou classe. Os objetos. estanques ou conflitantes. como espaço de negociação. a cada ciclo. Como mundo transformado. acumulados. ações condensadas. um produto do pensamento. são divisões arbitrárias de um todo que engloba estrutura e ação. Não existem separadamente na vida real. mas não são caóticos. mas não é senão soma de ações individuais). talvez aleatório. assim. representa um capital acumulado que dá forma ao mundo e espacializa. Como as demais estruturas. prestígio social. mas previsível.História científica. dignidade e preferências como consumidor. na forma de estruturas e objetos. são unidades pretensamente homogêneas e extensivas. é organizado. também é um instrumento de poder. que beira o paradoxo (a ação coletiva passada. por exemplo. história contemporânea e história cotidiana identidade e previsibilidade. setoriais ou mesmo excêntricos. ações passadas. o mundo material é trabalho acumulado. São o produto. que condensam o trabalho passado realizando-o a cada instante. das múltiplas leituras possíveis do mundo material. passado. da tensão graduada entre coletivo(s) e indivíduo(s). e as Dezembro de 2004 31 . que é una. soma de inumeráveis atos individuais. Além disso.

apenas. nem o movimento lento. parece dominar a vida. pode ter momentos. embora de forma unilateral. A história e a vida voltam a ser ação humana sobre a realidade e ressurge a possibilidade de “mudar o rumo” da vida. Não é um espaço fixo. São. mas também do possível. social ou econômica. alteradas no espaço de cada dia. O ato de reproduzir o trabalho acumulado. precisamente. vol. Essas estruturas não existem em si. esse trabalho morto. domínio da natureza. que não são a “duração” do cotidiano. por exemplo. passado a se tornar futuro pela ação presente. pressionadas. Há. pela soma mais ou menos aleatória de atos e vontades individuais. capacidade produtiva e intelectual. que é precisamente o que denominamos cotidiano. Se a reprodução sempre se concretiza no dia-a-dia. como realidade preexistente com a qual temos que lidar. isto é.Norberto Luiz Guarinello estruturas propostas visam precisamente pensar essa organização e previsibilidade. diferenciados: pode ser semanal. negociadas. O ciclo básico e mínimo talvez seja. ao mesmo tempo. vários ciclos de reprodução e 32 Revista Brasileira de História. indutores e inibidores da ação social. a cada dia. trabalho morto. com o qual nos defrontamos a cada dia. é comumente cadenciado por ciclos. círculo de relações que animam nossa vida. Desta forma. acumulado. 24. a cada dia. A tendência. É necessário que o aceitemos para podermos continuar a viver. como sugere a palavra. Nem a ação individual de grandes homens. tanto naturais como humanos. é positivo: representa um capital acumulado por gerações (conhecimento. que vimos ser generalizada. determiná-la. como sabemos. ele precisa ser reproduzido. a realidade social aparece sob nova luz. o espaço de um dia: o dia solar. representa um universo de previsibilidade que torna a vida possível de ser vivida. e o futuro como projeto de reprodução e/ou transformação. cego e inexorável de estruturas anônimas e impessoais. campo do necessário. semestral. natural. O passado aparece como dado. ou ciclo de dias. sazonal. por exemplo). Um dia podem ser seis meses. de “fazer história”. de associar cotidiano a um tipo de ação repetitiva e banal reflete. nem a força de acontecimentos únicos que irrompem inesperados na história. mas variável no tempo e no espaço. Pensemos mais detidamente sobre a relação entre estrutura e ação no tempo da história. mas seus ritmos. 180 outros dias. assim. cultural. O que denominamos passado no presente. Por um lado. para que a vida continue a fazer sentido e seja “vivível”. Vista desse modo. O passado existe apenas como trabalho morto que precisa ser reproduzido a cada dia. a necessidade de reproduzir o passado para viver o presente: seja a reprodução imediata. ou que. nº 48 . seja a cíclica. a cada dia. ou ciclos. ainda que inconscientemente. anual. mas apenas na medida em que são reiteradas.

mas também dos conflitos internos a essa vida. as ações humanas como que flutuam. em suma. Os homens reproduzem suas vidas no dia-a-dia. eles fazem parte do cotidiano e de seu universo de expectativas. como estruturado indeDezembro de 2004 33 . E sua ordem. história contemporânea e história cotidiana reiteração da vida social. Porém. na dominação de classes e na violência).História científica. Isso é verdade em termos individuais (em casa. dor. a ação que se exerce sobre a massa inerte do passado. nenhuma ação reprodutiva é plenamente eficaz. de desarranjos. o passado não é só limitação. de imperfeições. na rotina massacrante. mais rico. exploração. Nossa capacidade de mudar a realidade é variável. da consciente à intuitiva. aparece-nos como dado. Pequenas decisões podem mudar o curso de vidas individuais. também. da desejada à involuntária. mas nem tudo precisa ou deve permanecer como está. reprodutiva. o trabalho acumulado muda de forma. luminoso. por exemplo) e coletivos (na exploração. sobre o trabalho morto. no trabalho. as relações se alteram. em suma. da organizada à aleatória. Nem tudo pode ser mudado. para que este se altere. mas nunca da mesma maneira. na humilhação e na miséria. violência. da individual à coletiva. O passado não determina o presente de modo absoluto. Tem seu lado claro. de realização. automáticos ou involuntários ou mesmo organizados e associados a projetos de futuro. O ato reiterativo é antes um desejo ou uma necessidade de manutenção da ordem que a cristalização eficaz do presente num eterno passado sem futuro. de crises. O passado/trabalho morto é também fonte de insatisfações. coordenadas ou não. É possibilidade de vida social. cada vez mais amplo. Em primeiro lugar porque toda reprodução é. transformação. não é apenas ação reiterativa. sem que a possibilidade da vida social desapareça. O presente. não representa necessariamente (muito pelo contrário) aceitação da herança como fardo e como destino. se é condição de existência. A vida é uma soma de atos reprodutivos do passado e de atos transformadores. Reproduzimos o que queremos ou o que somos obrigados a reproduzir e transformamos o que queremos ou o que temos forças para transformar. mas não esconde sua face mais escura. e projetam mudanças no cotidiano e para o cotidiano. é campo de possibilidades. coletivas. que são o somatório de ações individuais. Grandes transformações dependem de ações públicas. de miséria. O cotidiano é um bom ângulo para pensarmos a eficácia da ação humana e suas modalidades. O trabalho se acumula. no racismo. individualmente ou em conjunto. Mas a ação cotidiana. Sobre a massa do trabalho morto que o passado apresenta. com uma liberdade contida.

ou testar idéias. estrutura e ação aparecem. Porque podemos ver. é um processo. na medida em que condiciona a ação. Um processo que só se estuda como um ALGO. como ALGO passível de estudo. negociam-na. seja recortando espaços dentro desse ALGO: grupos de bairro ou conjuntos de crentes. alteram-na. com efeito. 24. de revelar realidades empíricas já desaparecidas. porque os indivíduos e/ou grupos permanentemente confrontam-se com ela. pois eles não mais dão conta da realidade. como trabalho morto. vol. Apenas do ponto de vista da história. reproduzir ou não. Um objeto que a História precisa. a base de qualquer ação. mas de cuja dinâmica. tende a reproduzir-se e a impedir a mudança. podendo ser consensuais ou apenas hegemônicos. de poder aplicar. que é a de trabalhar sobre um objeto em movimento. ou mesmo claramente conflituosos. de cujas transformações não pode fugir: ao contrário. na verdade. 34 Revista Brasileira de História.Norberto Luiz Guarinello pendentemente de nossa vontade. estrutura e ação aparecem como uma unidade. As estruturas do cotidiano são também espaços/palcos de conflitos. no âmbito das Ciências Humanas. portanto. que só se dá no tempo e pelo tempo. é sua relação particular com o tempo. Recortes são arbitrários. através de recortes. mais que para outras disciplinas. mas também aquela. esse trabalho morto que é prévio a toda ação. nº 48 . hoje. talvez mais importante. Parece-nos. nos quais o ALGO quase se congela como objeto. limita-a. ou a cada ciclo de dias. determina todas as ações. ao mesmo tempo. Para a História. A grande virtude da História. de reiteração ou transformação de ações humanas num fluxo que parece contínuo.23 nem por aquele. seja determinando períodos. toda particular. os meios materiais e mentais concretos para realizá-la e uma constrição. artificialmente congelar. Essa estrutura. sociedades pequenas e grandes. deve considerá-las o foco de sua atenção. para pô-las em confronto e relacioná-las com o presente. que devemos aceitar ou não. não como dois termos distintos e contrapostos. Mas não é uma camisa de força. a cada dia. talvez. possível e necessário redefinir o modo como a historiografia contemporânea encara três elementos centrais em suas narrativas: sua perspectiva temporal e a relação entre estrutura e ação. modos de ver produzidos pelas outras Ciências Humanas. mas necessários. uma possibilidade. E esse é talvez o maior dos desafios da História contemporânea: refazer seus recortes tradicionais. É. economias nacionais e assim por diante. mas como um processo. teorias. ao mesmo tempo. A continuidade desse fluxo será nosso último problema e. Não apenas no sentido mais óbvio. o mais crucial de todos. unidades políticas. como sua pretensa “naturalidade” era artificial. como duas maneiras de se descrever o que.

nem mesmo no mundo cada vez mais unificado em que vivemos. uma sociedade civil. Apenas à guisa de exemplo: um mesmo espaço lingüístico não precisa coincidir com um conjunto de tradições literárias ou artísticas. em suma. com efeito. um mundo industrial. uma História européia. nem em termos das “forças” que estruturam ou põem em movimento as mesmas unidades. Não existe uma sociedade capitalista. Não. mesmo quando se pretendia universal. atentando para a possibilidade de trabalhar com novos recortes. ou conformando-se com a inação. obviamente. pelo próprio processo de sua reprodução e transformação. de modo indicativo. não corresponde necessariamente a uma dada rede de interações sociais. unidades em si. De que modo uma História. A historiografia contemporânea vem. nem em termos das unidades de estudo. O que se Dezembro de 2004 35 . uma memória grupal. que pudessem ser assumidas como tais pela História. na vida concreta das sociedades. as “estruturas” que. Os objetos “naturais” que produziu e estudou estão se esvaindo com o tempo. estabelecendo ou contestando relações de produção e de propriedade. pouco a pouco. as estruturas que propusemos. Não formam. que façam sentido em diferentes círculos de reprodução e transformação da vida. assistimos. Por sua vez. mas ao fim da possibilidade de se escrever História como se fazia até então. O que não pode mais fazer é tratá-los como objetos naturais. tais recortes são construídos. o historiador não escapará jamais da necessidade de impor seus próprios recortes ao passado. história contemporânea e história cotidiana Começamos este artigo. nem mesmo a sociedade de um país. impusemos à história para explicar sua ordem e suas mudanças não correspondem aos recortes tradicionais com os quais trabalha o historiador. tampouco são complementares ou hierarquizadas. ao fim da História. criticando as velhas subdivisões da história e alertando para seu caráter eurocêntrico e anacrônico. como identidades são fabricadas ou desfeitas. compartilhando ou contestando valores cruciais. organizando-se e dispersando-se. agrupando-se para agir. necessitamos identificar ou propor diferentes cotidianos. ao término da história das sociedades humanas. uma estrutura de poder não equivale a um circuito de produção. Não há um único cotidiano definido pelas quatro estruturas. vista pelo ângulo do cotidiano. pode contribuir para renovar aquelas velhas formas? A resposta não é simples. Num certo sentido. Mas é verdade que para pensar o mundo precisamos ainda de recortes. Como vimos. troca e acumulação de bens. nas últimas décadas. como grupos humanos se aproximam ou se afastam construindo memórias comuns ou distintas.História científica. recusando-se a aceitar as unidades “naturais” transmitidas pela tradição da disciplina e procurando ver como. De qualquer modo. ou nacional. delineada por interesses localizados. tentativamente.

11-20. p.. CASTRO. 1996. & CASPITEGUI. F. L. em novas escalas. F.29. pois estão largamente superadas. vivida. 3 Um “cultural turn” correspondendo ao famoso “linguistic turn”. por isso. p. F. 1996. As discussões sobre a cientificidade da História. J.. London/New York: Routledge. F. p. Barcelona: Grijalbo.27.Norberto Luiz Guarinello denominava. KELLEY. 1996. NOTAS Para efeito de maior clareza. Só uma História mundial. The Postmodern history reader. op. passim e particularmente p. La Historia hoy en dia. & MALERBA. e.) Domínios da His6 36 Revista Brasileira de História.) Representações: contribuição a um debate transdisciplinar. Uma boa introdução às discussões contemporâneas encontra-se na coletânea editada por JENKINS. História (com H maiúsculo) representará. 4 CHARTIER. há algumas décadas. cit. La “nueva” historia cultural: la influencia del posestructuralismo y el auge de la interdisciplinariedad. não é necessariamente negativa. 5 CHARTIER. 1 2 Entre inúmeros outros veja-se FONTANA. F. op. in: CARDOSO. como a fragmentação da História. de novos recortes possíveis.148. J.. retomando Benjamin na sua idéia de “atualização” da História. vejase FONTANA.. in: OLABARRI.. Rio de Janeiro: Papirus. C. R. A nova história cultural. História e Escrita da História: a Ordem do Tempo. El giro cultural en la investigación histórica. insuficiente. era uma falsa crise.264ss. para uma apreciação crítica da “virada” como tal CARDOSO. no entanto. 24. É preciso recortar novos objetos. pode dar conta da imensa variedade e diversidade das histórias da história humana. Introdução: uma opinião sobre as representações sociais. 1998.. C. & VAINFAS. ciente da unidade da história. In: CARDOSO. White. J. J. nº 48 . História Social. dudas. I. K. criticado por CARDOSO. não nos interessarão aqui. Mas ainda era uma fragmentação européia e.9-34. Bauru/SP: Edusc. Revista de História. In: OLABARRI. H. Tempo. F. op.143.37ss. C. & CASPITEGUI. História: análise do passado e projeto social. desafios. I. 1992. Cf. 1997. e isso só uma História mundializada pode fazer. p. enquanto história (com h minúsculo) será empregado no sentido da história real. veja-se HUNT. R. (Org. R. p. de novos problemas. La Historia después del fin de la Historia. C. n. vol. cit. F. 1992. cit. D. 2000. propuestas. p. (Org. era sim uma mudança interna e salutar. Madrid: Ed. A valorização do presente. Representava a multiplicação dos centros de estudos pelo globo. Interessante a idéia de que ingressamos num novo “regime de historicidade” inaugurado a partir de 1989 em HARTOG. a identificação de novos estoques documentais. ao longo deste artigo. R.. São Paulo: Martins Fontes. Complutense. J. a disciplina científica. 2003. na esteira de um H.

LE GOFF. Paris: L Arché. La presentacion de la persona en la vida cotidiana. 1997.4. 7 Embora não representem exatamente o mesmo objeto. Ch. C. Impossível concordar plenamente com REIS.. In: MELLO E SOUZA (Org. escalas. op. G. I. paradigmas. A. H. Fundamental é BRAUDEL. p. Buenos Aires: Amorrurtu.10. n. Ver os comentários pertinentes de PENALVES. para quem a antiga história social desembocou. 1992. op. n. 1989. La société au jour le jour. 13 14 15 JAVEAU. R. 1997. 1980. História da vida privada: dilemas. Paris: Belles Lettres. p. C. Anais do Museu Paulista. os termos têm sido considerados como quase equivalentes pela historiografia. Paris: Collins. Lisboa: Teorema. Rio de Janeiro: FGV. em especial o v. p. A Conquista do presente. In: CARDOSO. A História do cotidiano. História e Ciências Sociais: a longa duração. DUBY. cit. 259-74. A. mas não muito consistente. p. História do cotidiano e da vida privada. p. inevitavelmente. LEVEBVRE. 1994. Prefácio. P. A História do cotidiano. 1997. Cl. Tempo histórico e civilização material.) História da vida privada no Brasil.49-58. J. M. Civilisation matérielle. A. M. Sociologia de la vida cotidiana. p. F. In: LOPES. em particular p.17. Barcelona: Ed. 2003. Particularmente interessante sua noção de estratégia e de resistência. In: VEYNE.. 1978. Bruxelles: De BoeckWesmael. Apontamentos sobre vida cotidiana e História. IV: Sur les realités multiples. F. DEL PRIORE.82ss. LE GOFF. Paris: Gallimard.21-34. 1992. do autor ver MARTINS. VAINFAS. Fernand Braudel. Paris: Méridien Klincksieck.4.103-29. M. & VAINFAS. M. 1987. J. In: História e Nova História. A. In: _______. 1977 (1970). Écrits sur la vie cotidienne. Bloch e Braudel. 1996. Para uma defesa enfática. Cotidiano e vida privada na América portuguesa. XV-XVIII. Rio de Janeiro: Rocco. Rio de Janeiro: Campus. Contra essas posições cf. Introduction. 1959. 1991.História científica.. Origines des recherches sur l’antiquité. 1984. J.79. 8 9 GOFFMANN. In: Les Fondations du Savoir historique. arts de faire. p. économie et capitalisme. Le Chercheur et le quotidien. J.1.73-82. MAFFESOLI. Anais do Museu Paulista. Cf. R. cit.14-6. São Paulo: Perspectiva. (Org. 11 12 CERTEAU. Ensaios sobre a História. A. Condições da Privacidade na Colônia. F. p.ed. p. 10 SCHUTZ. 1996..) História da vida privada: do Império Romano ao ano mil. A. MOMIGLIANO. cit. 17 Dezembro de 2004 37 . numa história cultural das relações sociais e do poder. E. HELLER. São Paulo: Companhia das Letras. 16 Para as primeiras concepções de Braudel sobre a longa duração.. 1967. MARTINS. Critique de la vie quotidienne.61-91. p. J. 2. F. São Paulo: Companhia das Letras. 1. ver BRAUDEL. L’invention du cotidien. Nouvelle histoire e tempo histórico: a contribuição de Febvre. de S. NOVAIS. 1958. São Paulo: Ática. op. de S. história contemporânea e história cotidiana tória.50-4. 62. p.

Condições da privacidade na Colônia.. G. escalas. Aprovado em 09/2004 38 Revista Brasileira de História. cit. Artigo recebido em 03/2004. a força vital de curta duração. 19 VAINFAS.. op. Para os gregos. “Aos homens.19: “cotidiano é conceito que diz respeito ao tempo. SISSA. op. obviamente. São Paulo: Companhia das Letras. bibliografia sobre essas estruturas como aqui apresentadas. J.. 20 21 FONTANA. p.13. segundo os autores: “a humanidade é marcada. de tempo breve. Não há. & DETIENNE. vol. a cotidianidade. toca. estigmatizada mesmo pela noção de dia. cit.81. 1990. p. p. p.17.14-39. cit.. M. J. enquanto os deuses guardam para si o ‘sempre’”. p. portanto.Norberto Luiz Guarinello 18 NOVAIS. sobretudo ao tempo longo”. La Historia después del fin de la Historia.. de tempo instantâneo”. aos mortais. cit. R. op. paradigmas. 22 23 Sobre as relações entre História e Ciências Humanas vejam-se as interessantes observações de FONTANA. op.. nº 48 . História da vida privada: dilemas. Os deuses gregos. 24. La Historia después del fin de la Historia. F.