Dostoievski

Contos

“Os Mais Brilhantes Contos de Dostoiewski”

Tradução de Ruth Guimarães.

Edições de Ouro
1970

O Subsolo∗
I EU SOU um homem doente... Sou um homem malvado. Sou um homem desagradável. Creio que tenho uma doença do fígado. Aliás, não compreendo absolutamente nada da minha moléstia e não sei mesmo exatamente onde está o mal. Não me cuido, nunca me cuidei, se bem que estime os médicos e a medicina. Demais, sou extremamente supersticioso, o bastante, em todo o caso, para respeitar a medicina (sou bastante instruído: poderia então não ser supersticioso, mas sou). Não! Se não me trato, é pura maldade de minha parte. Não sabereis certamente compreender. Pois bem! Eu compreendo. Não poderei evidentemente explicar-vos em que errei, agindo tão malvadamente: sei muito bem que não são os médicos que eu incomodo, recusando-me a tratar-me. Não engano senão a mim mesmo; reconheço-o melhor que ninguém. Entretanto, é mesmo por malvadez que não me trato. Sofro do fígado! Tanto melhor! E tanto melhor ainda se o mal piora. Há muito tempo já que eu vivo assim: uns vinte anos, pouco mais ou menos. Fui funcionário, pedi demissão. Fui um funcionário muito ruim. Era grosseiro e tinha prazer em sê-lo. Podia bem me compensar desta maneira, pois que eu não aceitava gorjetas (esta brincadeira não tem graça; mas não a suprimirei. Escrevi-a crendo que teria espírito; não a apagarei, entretanto, expressamente; porque vejo que queria me dar ares de importância). Quando os solicitantes em busca de informações se aproximavam da mesa diante da qual eu estava sentado, eu rangia os dentes; sentia uma volúpia indizível, quando conseguia causar-lhes algum aborrecimento. Conseguia-o quase sempre. Eram geralmente pessoas tímidas, acanhadas. Solicitantes, pois quê! Mas havia às vezes presumidos entre eles, petulantes, e eu detestava particularmente certo oficial. Ele não entendia de submissão e arrastava o grande sabre, de um modo detestável. Durante um ano e meio movi-lhe guerra, por causa desse sabre, e finalmente saí vencedor: ele parou de teimar. Isto, aliás, se passava no tempo da minha mocidade. Ora, sabeis, senhores, o que excitava, sobretudo minha raiva, o que a tornava particularmente vil e estúpida? É que eu me inteirava vergonhosamente, mesmo quando a minha bílis se esparramava mais violentamente, que eu não era mau homem, no fundo, não era nem mesmo um homem azedo, e que tomava gosto, muito simplesmente, em assustar os pardais. Tenho espuma na boca; mas, trazei-me uma boneca, oferecei-me uma chávena de chá bem doce, e é provável que eu me acalme; sentir-me-ei mesmo muito comovido. É verdade que, mais tarde, morderei os punhos de raiva, e de vergonha perderei o sono durante alguns meses. Sim, eu sou assim. Menti antes, quando disse que tinha sido um mau funcionário. Foi por despeito que menti. Tentava muito simplesmente distrair-me com os solicitantes e esse oficial, e nunca pude conseguir tornar-me realmente mau. Com efeito, verificava sempre em mim a presença de um grande número de elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia-os fervilharem em mim, por assim
O autor do diário e o diário mesmo são, evidentemente, imaginários. No entanto, é claro que tais pessoas como o escrito destas notas não apenas podem, mas positivamente, devem, existir em nossa sociedade, quando nós consideramos as circunstâncias em meio às quais nossa sociedade é constituídas. Tentei expor ao público em geral, de uma forma mais enfática do que comumente se usa, um dos tipos do passado recente. Ele é um dos representantes de uma geração que ainda vive. Neste fragmento, intitulado “O Subsolo”, esta pessoa apresenta-se e a visão dele, e, como ele sempre foi, tentando explicar as causas próprias pela quais ele fez sua aparição e foi levado a realizar sua aparição em nosso meio. No segundo fragmento, há outra anotações adicionais às notas atuais desta pessoa relacionadas a certos acontecimento de sua vida. – NOTAS DO AUTOR.

Dizem-me que o clima de Petersburgo me é prejudicial. sei bem melhor que todos esses sábios conselheiros. meus senhores. . Minha criada é uma velha camponesa que a burrice tornou malvada. sinto já). Pois bem! Vou então falar de mim mesmo! II Quero agora contar-vos. nem mau. se agastados por tida essa tagarelice (estais irritados. senhores. responderei: sou um assistente de colégio. nem herói. como sobre o resto. de todos os respeitáveis velhos. e que só o imbecil triunfa. termino a existência no meu cantinho. Ora. Quem vive depois dos quarenta anos? Respondei sinceramente. aliás. senhores. quer o desejeis ou não.. até às convulsões. Declaro-vos solenemente: um grande número de vezes já tentei tornar-me um inseto.. e que a vida custa caro demais para os recursos ínfimos de que disponho. O homem que possui caráter. é toda a vida. Eu o proclamarei à face de todos os velhos. o homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter. quarenta anos. e quando no ano passado um dos meus parentes afastados me legou por testamento seis mil rublos.. os patifes.. vós me perguntais o que sou. Atormentavam-me até à vergonha. nem canalha. não consegui ser belo. cheira mal. Mas fico em Petersburgo. É inconveniente. é um ser essencialmente medíocre. mas instalei-me agora definitivamente. aliás. mas não fui julgado digno disso. O quarto que ocupo nos confins da cidade é feio. certamente. é vil viver além dos quarenta. não lhes permitia evadirem-se. . aliás. está moralmente obrigado a isso. o proclamarei à face do universo inteiro. honestamente! Vou dizer-vos. esses vivem mais de quarenta anos. Mas. digo-vos que. senhores.dizer. do que um homem honesto pode falar com mais prazer? Resposta: de si mesmo. afinal de contas. nem mesmo me tomar malvado. mas eu não os deixava. Tenho quarenta anos atualmente. isso me é indiferente. quer vós o imagineis ou não. eu: os imbecis. eu viverei até os sessenta anos! Até os setenta anos! Até os oitenta anos! Mas esperai! Deixai-me tomar fôlego! Imaginais. nem mesmo um inseto. Mas. Tenho o direito de falar assim. é imoral. e desmantelado. de todos os velhos de cabelos cor de prata e perfumados! Eu. que me proponho vos fazer rir? Enganais-vos a esse respeito. Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência. além disso. Jamais consegui nada. .. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a manifestar-se do lado de fora. o homem de ação. Não deixarei Petersburgo porque. sim.. Não sou de modo algum tio divertido como vos parece. ou quanto vos pode parecer. porque eu. que importa!. é a profunda velhice. onde tento piedosamente me consolar. dizendo-me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa.. meus senhores. pedi depressa minha demissão e me enterrei no meu canto. Oh! Como eu estava fatigado! Como estava saturado! Mas não vos parece. De resto. E agora. por que eu não consegui nem mesmo me tornar um inseto. não. Entrei na administração para poder comer (mas unicamente para isso). Sim. ali morava já há muito tempo. que ides imaginar isso. sem sucesso. Que eu parta ou não. que eu me arrependo e que vos peço perdão de não sei que crime? Estou certo. Sei disso.

Quem pensaria então. aposto. Explicar-vos-ei: a volúpia. Uma consciência ordinária nos basta mais que amplamente em nossa vida cotidiana. isto é. que todos levam a cabo talvez bem. maldita. amplamente o suficiente dessa porção de consciência que possuem os homens ditos sinceros. que escrevo tudo isto por atitude. e que era impossível reaparecer lá em cima.estou firmemente convencido . por exemplo.e isto é o fim dos fins .Uma consciência clarividente demais. mesmo que tivesses o tempo e a fé necessários. uma volúpia! Uma volúpia! Insisto nisso. uma porção igual à metade. e repetindo-me que tinha ainda cometido uma vilania. dependendo das circunstâncias. Mas deixemos isto por agora. vil. mais eu me sentia capaz de me enterrar definitivamente.a consciência. mas que eu praticava justamente quando tinha perfeita consciência de que era preciso me abster? Quanto mais o bem e todas as coisas "belas e sublimes" se tomavam claras à minha consciência. neste caso. Respondei-me alisto: como era possível que sempre. nesse dia. Dir-se-ia que era meu estado normal e de modo nenhum uma doença ou um vício. corno se dizia entre nós há pouco tempo. asseguro-vos. assim como os homens de ação. quantos sofrimentos suportei pacientemente nessa luta! Não acreditava que outros pudessem estar no mesmo caso. uma doença muito real. no meu buraco. fartava-me tanto.. a mais premeditada das cidades que existem sobre a terra (pois há cidades premeditadas e outras que não o são). Eu me atormentava. perdi todo o desejo de lutar. mas parecia vir por si e se produzir muito naturalmente. embora seja completamente impossível . que finalmente sentia uma espécie de fraqueza vergonhosa. Imaginais. mas seria uma atitude de muito mau gosto. é uma doença. dizei-me. espontâneos. mas não pode ser outra. anormal. não te resta nenhuma salda. toda consciência é uma enfermidade. habita Petersburgo. provinha de que eu me inteirava demais da minha humilhação. senhores. Eu o sustento. para me dar importância. mas fazer coisas tio incongruentes que. bebia longamente a minha amargura. senhores. antes. ações. para zombar dos homens de ação. em se glorificar com suas doenças e fazer delas motivo de orgulho? Mas que digo eu! Todo o mundo age assim. para concluir. nunca poderás mudar. É precisamente de suas moléstias que cada um tira glória e eu. Sim. como se fosse de propósito . ainda mais que os outros. por uma dessas noites petersburguesas sujas e feias. a tal ponto que. Porém o que era particularmente notável. porque. finalmente. como esse arrastador de sabre de que falava há pouco. Comecei a falar disto. admito quase (talvez o admita completamente) que tal era com efeito o estado normal do meu espírito. para sua desgraça. a mais abstrata. Entretanto . a um quarto da consciência outorgada ao homem culto do nosso século XIX e que. Mas.sim. Enfim. ela unia-se à sensação de ter atingido um último limite: tua situação é abominável. E inquietava-me então interiormente. e. Não discutamos! Minha objeção é estúpida. e durante toda a minha vida escondi esta particularidade como um segredo. para ser breve. onde gozava uma volúpia real.é que tudo se cumpre conforme as leis fundamentais e normais da consciência requintada e dela flui diretamente. mudar em quê? -Não há talvez nada além disso! Mas o essencial . precisamente porque eu quero saber com justeza se os outros conhecem tais volúpias. Ter-se-ia. é que esse desacordo não parecia uma coisa fortuita. do sublime. Isto ia tio longe que me acontecia gozar uma espécie de prazer secreto. mais profundamente eu me afundava na minha lama. despedaçava-me. provavelmente. serias incapaz: com efeito. no começo.precisamente no instante em que eu era o mais capaz de apreciar todas as nuanças do belo. ainda que quisesses mudar. tu mesmo não quererias tomar-te um homem diferente.. no instante mesmo . aliás. me acontecesse não somente pensar. Eu tinha vergonha (pode ser que tenha vergonha ainda hoje). ao entrar em casa.

esquecer. isto é. mas o fato de eu poder verificar a minha própria canalhice. se apagam e cedem com toda a sinceridade. Para eles esse muro não é de maneira alguma o que é para nós outros. Sou culpado. e não se detêm na carreira senão quando se encontram diante de um muro. mesmo que tivesse esse direito. O muro tem para eles algo de tranqüilizante. eles nada perdem com toda esta sinceridade. mas do muro. por exemplo: "sim. Quantas palavras. reagir. é o desespero que encobre as volúpias mais ardentes. final – talvez mesmo misterioso. por quê? É a esse respeito que eu queria dizer-vos algumas palavras. não o nego: ele é estúpido. os que pensamos. de se defenderem? Quando o desejo de vingança se apodera de seu espírito. sou tão desconfiado e suscetível como um corcunda. tens razão. não me consola de jeito nenhum de ser um canalha.imaginai! . por mais natural que seja. Enfim. não poderia fazê-lo. além disso. moralmente calmante. meu Deus. e acontece-me até . tu és um canalha". e. no caso da bofetada. não há lugar neles senão para esse desejo. III Como as coisas se passam entre aqueles que são capazes de se vingarem e. por conseqüência. um pretexto cômodo para arrepiar caminho. o prazer do desespero. verdadeiramente. porque me era impossível decidir-me a agir. ou um anão. evidentemente. pretexto no qual nós outros não acreditamos. eu teria sido muito feliz. Foi para isto que tornei a pena. no qual pensava nossa terna mãe Natureza quando nos fazia amavelmente nascer sobre a terra. Mas que explicaste? De onde provém essa volúpia? Procuro explicar-me entretanto. vingar-me do ofensor. pois o insulto.. as quais não fazem caso do nosso perdão. quanto aniquilamento esta sensação de ter sido esmagado assim! Mas o principal é que sempre acontece que sou eu o culpado. mesmo que eu renunciasse a ser generoso e quisesse. e nunca pude encará-las bem de frente). A consciência requintada nos diz. os homens de ação. as pessoas simples e espontâneas. de qualquer lado que se examinem as coisas. (A propósito. não agimos. culpado sem afinal o ser. porque mesmo que eu tivesse tido um sentimento qualquer de generosidade.. E essa suposição me parece tanto mais justificada quanto. a consciência de sua inutilidade não teria servido senão para me atormentar ainda mais. não é de modo algum. Mas. Sou culpado. a seus olhos. uma escusa. cornos abaixados. tenho um amor-próprio terrível.. aí. houve minutos da minha existência em que. esses senhores.sentir-me confuso com a minha superioridade. Eu não teria podido certamente tirar nada daí: não teria podido perdoar. de tal modo que durante a minha vida tenho olhado as pessoas de esguelha. por outro lado. é precisamente esse homem simples e espontâneo que considero como o homem normal por excelência. Mas. Assim. por assim dizer. mas em geral. de um modo qualquer. quer dizer. por exemplo. diante de um muro.. talvez.. que sabeis a esse respeito? É possível que o homem normal deva ser burro. em geral. É possível mesmo que isso seja muito belo. Não. o que é mais. se tomarmos a antítese do homem . Irei até o fim.. como uma regra. Invejo esse homem. e. como touros furiosos. mas impossível. pois o ofensor teria me atacado conforme as leis da natureza. Falo seriamente: teria podido certamente encontrar aí algum prazer. sobretudo quando a situação parece realmente sem saída. Ora. nem por isso permanece menos. E afinal. ao contrário.) Pois bem. Mas isto chega!. se me tivessem dado uma bofetada.não somente mudar. em primeiro lugar porque sou mais inteligente do que todos aqueles que me rodeiam (julguei-me sempre mais inteligente do que aqueles que me cercam. ou dito por outra forma: de conformidade com as leis da natureza. Precipitam-se para a frente sem se desviarem.

o julgam. criou em torno de si um atoleiro fatal.. na qual sua consciência vive submersa. senhores. a menos que você nunca tenha recebido um tapa no rosto”. nosso ratinho insultado. em sua rudeza natural. Talvez. por mais que faça. o desgraçado ratinho conseguiu acumular em torno de si. de sua agitação. de suas suspeitas. Possivelmente. Mas. etc. talvez ainda mais violentamente do que domina o homem da natureza e da verdade. que pessoas que são um pouco limitadas. Mas. tão difícil de analisar. mas evocará todas as minúcias. batido e escarnecido lentamente mergulha na sua raiva fria. Eu aceito que você pense assim. neste inferno de desejos insatisfeitos tornados íntimos. mas nem por isso é menos um rato. um lodaçal fedorento. Durante quarenta anos ele se lembrará do insulto sofrido.. simulando desprezo. por exemplo (ele se sente quase continuamente ofendido).. de sua própria posição. formado de suas hesitações. eu mesmo admita. em conseqüência. O desejo desprezível e mesquinho de pagar ao seu ofensor o mal com o mal o domina. que abandonar tudo. sob a forma de dúvidas e hesitações. vejamos uma outra palavra sobre este assunto do tão extrema importância para você. E lá. envenenada e. que. inventará mesmo outras. inicie a sua própria vingança. no entanto. Mas.. É possível que acumule em si mais raiva ainda do que o homem da natureza e da verdade. um charco de lama. você ira acrescentar. mas estou inclinado também a essa suspeita). Ele próprio terá vergonha. num sujo e lamacento subterrâneo. Em acréscimo à vilania inicial. em todos os seus pormenores mais vergonhosos ainda. Em seu leito de morte ainda se lembrará de tudo novamente. Vejamos então um pouco esse ratinho em ação. Será talvez um rato extremamente clarividente. o aconselham e dele riem a bandeiras despregadas. evidentemente. completamente insolúveis. metade crença. sabendo que por todos os esforços para se vingar irá sofrer um centena de vezes mais nele próprio. mas de um alambique (é quase misticismo. vê-se que esse homem alambicado se apaga por vezes a tal ponto diante da sua antítese e lhe cede que.. de todos os escarros que fazem chover sobre ele os homens de ação que o cercam. malgrado todo o refinamento de sua consciência. Mas eis-no enfim chegados ao ato mesmo da vingança.. para mim mesmo que eu tenho dado tão poucos tapas na face durante minha vida. no qual atualmente reconhece-se e ainda espera. com interesse acumulado sobre todos os anos e. passará em revista uma a uma todas as circunstâncias. pacífica. e deste modo você polidamente insinua que eu. e não um homem. “Possivelmente”. ou mesmo simplesmente pessoas de nervos fortes. é neste frio. abominável. sofra um único arranhão. atiçando-lhe a imaginação. à primeira indagação ajuntou tantas outras. enquanto o ratinho não lhe pode admitir a justiça. e desaparecer vergonhosamente em seu buraco. E isto é muito importante. porque este. etc.. e por isto eu questione como uma pessoa que conhece. e não perdoará nada. e pretende se vingar. um pouco em dúvida. também. o homem com a consciência refinada. eu não recebi um tapa no rosto. . inesgotável. enquanto que o outro é bem um homem. em sua própria consideração. “pessoas não o compreenderão. com um sorriso amplo e forçado. embora seja absolutamente indiferente para mim que você pense assim. Ele também foi ofendido. o homem saído não do seio da natureza. ou no sucesso desta vingança. não compreenderão uma única partícula disto. incógnito. tenha tido a experiência de um tapa no roso em minha vida. sob o pretexto de que teriam podido acontecer. mas. Mas o pior é que ele se considera a si mesmo como um ratinho. através de tentativas. sem mesmo acreditar no seu direito de vingança. às escondidas. excitando-se malvadamente. isto é. posso estar exagerando. Isto é tão inesperado. Não lhe resta então mais nada a fazer. exige dele essa confissão. com efeito. considera sua vingança como uma ação perfeitamente justa. em desgosto neste submundo por quarenta anos. também. por causa de sua consciência mais clarividente. sobretudo. permita-me expor o restante de meus pensamentos. metade desprezo. no qual febres de oscilações. que aquele de quem quis se vingar. acontece-lhe não mais se considerar senão tão pequeno quanto um rato. talvez. senhores. de resoluções determinadas para sempre e declinada novamente um minuto mais tarde – que o saber deste estranho contentamento do qual eu tenho falado reside. tantas outras vilanias.normal. ele mesmo! Ninguém.. como sempre.

rindo. que um centena de anos deste seu caráter amigável. em silêncio. pior você sofre. como já disse. estarem diante do impossível que surge de uma vez. sobre a qual escarrais. “Dou-lhe minha palavra. há neles certa malignidade. Oh. não tente protestar: é um caso de duas vezes dois ser igual a quatro! A Natureza não pede a sua permissão.que . ela não tem que fazer o que você quer. se eu realmente não tenho a força suficiente para derrubá-lo. eu não posso quebrar o muro batendo minha cabeça nele. não saber o que e não saber quando. que você é descendente de um maçado. este muro de pedras realmente foi um consolo. Mas a esses gemidos falta franqueza. da matemática. e tudo está ali. medita sobre os fatos e que não há um único motivo para você sentir-se vingado. É um exemplo excelente. não considere isto por uma questão acadêmica. você chegará a descobrir uma certa volúpia até na dor de dentes!". Esses gemidos exprimem. e quanto mais você não sabe. Esses gemidos exprimem a volúpia daquele que sofre. Tentemos refutar isto. há uma volúpia na dor de dentes: tive dor de dentes um mês inteiro. não haverá saída. rangendo seus dentes. precisamente. por meio das combinações mais lógicas e inevitáveis para atingir as mais revoltantes conclusões sobre este tema. se a doença não lhe trouxesse um certo prazer. e quando. e talvez nunca irá ter. mas por um fato. senhores. e que esta conclusão é a solução final de toda assim chamada virtude e dever e todos tais preconceitos e fantasias. ainda que. simplesmente porque é uma verdade que duas vezes é igual a quatro. mas eu não vou simplesmente me conciliar com isto porque é uma parede de pedras e eu não tenho força. Embora em certas circunstâncias estes senhores baixem seus cornos como touros. das deduções das ciências naturais. Não se sofre em silêncio. seja claro como o dia que você não tem culpa nenhuma. que mesmo para o muro de pedras você se sente culpado. das deduções. que é uma prestidigitação. evidentemente. por alguma razão. e vou desenvolvê-lo. se é para compreender tudo. mas que vos faz sofrer. e consequentemente todas as suas conclusões. por exemplo. a despeito de todas estas incertezas e malabarismos. a consciência tão humilhante da perfeita inutilidade de vosso sofrimento. portanto. Quando eles provam a você que na realidade uma gota da sua própria gordura dever ser mais querida por você. No entanto. evidentemente. permanecendo perfeitamente impassível. e realmente contém algumas palavras de conciliação. que você não tem. absurdo dos absurdos! Tudo bem. Assim.Mas. não se concilie com estas impossibilidades e muros de pedras. . mas. um curinga de trapaceiro. um naco de malabarismo. eles gritam para você. neste caso. você vê. ainda há um sofrimento em você. e. então você terá que aceita-lo. ainda. para reconhecer tudo. eles provam a você. devemos supor que eles acreditam piamente. geme-se. impotente para afundar dentro da suntuosa inércia. e assim por diante. que é simplesmente uma trapaça.” Céus Bondosos! Mas o que fazer se considero as leis da natureza e da aritmética. eu desgosto destas leis e do fato de que duas vezes dois seja quatro? Evidentemente. sim. IV "Ah! Ah! Ah! Se é assim. toda a impossibilidade do muro de pedras. sua legalidade do ponto de vista da natureza.Continuarei considerando calmamente pessoas com forte nervos que não compreendem um certo refinamento da alegria. das leis da natureza. ainda assim. O impossível significa o muro de pedras! Por que muro de pedra? Por causa. sei o que digo. novamente. e quer você goste ou não dela. Um muro. ele cessaria de se 'queixar. exclamais vós. primeiramente. você está limitado a aceita-la como ela é. um objeto para seu rancor. responderei. Significam também . como duas vezes dois é uma lei matemática. se te desagrada reconciliar com isto. é um muro… e assim por diante.

não unicamente porque tem uma dor. infame . como se diz hoje em dia. . impeço de dormir toda a casa! Pois bem! Tanto melhor! Não durmais então! Convencei-vos de que tenho dor de dentes! Não sou mais para vós esse herói que pretendia ser. confessava-me. sem todos esses trinados. Melhor que ninguém. Com efeito. não experimentam mais que desgosto com suas queixas. raivosos e não cessam mais. Eu vos suplico. não passo de um pobre poltrão. naquele momento era muito penoso também. . por pouco que seja? V É possível verdadeiramente sentir ainda algum respeito por si mesmo. que não lhe são de nenhuma utilidade. embora essas leis me tivessem feito sofrer numerosos vexames no curso da minha existência. Continuais a não compreender. sem todas essas atitudes. Ele próprio sente muito bem. diante da qual se debate. que se permite não se sabe quem. senhores? . Tudo isto provém de que eu não me respeito: mas aquele que se conhece pode se estimar. mas talvez muito ao contrário. é preciso que vossa consciência atinja uma grande profundidade. mesmo que me tenhais adivinhado enfim! Meus miseráveis gemidos vos são penosos de ouvir? Tanto pior! Eu vos lançarei numa roda-viva mais bela ainda!. para poder apanhar todas as nuanças dessa volúpia sensual. "Ah! Eu vos desoriento.. Pois bem! São precisamente essas ofensas sangrentas. porque sou capaz demais! E como um fato expresso. Seus gemidos se fazem maus. certamente. mais simplesmente. E. essas chalaças. quando ele se põe a gemer de modo diferente do primeiro dia. aquele que se dedicou a descobrir uma certa volúpia na consciência da sua própria humilhação? Isto que digo não é de modo algum ditado por insípido remorso. E com isto eu me enternecia. e compreendem que poderia gemer de outra maneira. são elas que suscitam esta sensação de prazer. Rides? Sou muito feliz. vossos dentes cessarão de doer. não como um grosseiro camponês. são embrulhadas e soam falso. são de muito mau gosto. e se tortura a si mesmo. e convenço-me raivosamente de que tudo isto não é senão mentira. sabe que irrita os que o rodeiam e os tortura. Sabe que o público e a família. E em geral. enganava-me a mim mesmo. de resto. detesto dizer: . e. papai. entretanto: era meu coração quem me pregava estas partidas de mau gosto. naturalmente. como um homem "desligado do solo natal e dos princípios nacionais". mas que a dor está lá. senhores. não dissimulando. mas como um ser instruído que se pôs em contato com a civilização européia. isto é. com todos os vossos Wagenheim. senhores. por fim.vós compreendeis que o inimigo não existe. sem proveito nenhum. não o farei nunca mais!" Não porque seja incapaz de pronunciar estas palavras. Pois bem! Aí está! É justamente nessa humilhação claramente vista que jaz a volúpia. a qual atinge por vezes a suprema volúpia. Minhas brincadeiras. chorava e. dilacero-vos o coração. eles vos farão ainda sofrer durante três meses.. nem de dia nem de noite. entretanto. sois o escravo de vossos dentes: quando calhar. É penoso recordar tudo isto. Neste caso nem sequer nos podíamos queixar das leis da natureza. mentira ignóbil. prestai atenção uma vez aos gemidos de um homem culto do século XIX que sofre dos dentes há dois ou três dias. eu me precipitava para a frente precisamente quando não estava absolutamente para nada no negócio. não vos resta outro meio de vos consolardes senão o de vos esbofeteardes e de quebrardes os punhos contra a parede. um minuto mais. não mais acreditam nelas. e que. se vós recusais a vos submeter e protestais apesar de tudo.“Perdoe-me. de um patife! Tanto melhor! Estou feliz. mesmo assim. Era o que havia de mais repugnante. e que ele exagera por malícia e por malvadez.Sim. mas se foi decidido de outra maneira.

Não se acredita nesse sofrimento. ora. o responsável desapareceu. imaginam ter encontrado razões sólidas. se. o insulto não é mais insulto. meus senhores. ri-se dele. mas não permaneças de braços cruzados. bem mais rapidamente que os outros.) Minha raiva é submetida a uma espécie de decomposição química. Mas que fazer. Então eles se tranqüilizam. garanto. asseguro. Era assim. eis aí porque me entreguei a essas contorções. estes juramentos de vida nova! Vós me perguntareis porque me torturava. e. Diz-se: o homem se vinga porque considera que isso é justo. tu mesmo... cheguei a me ofender. E não me resta mais então outro consolo que quebrar meus punhos contra a parede. porque me deslocava assim? Resposta: porque me aborrecia demais permanecer de braços cruzados. Mas como alcançar essa tranqüilidade de espírito? Onde poderia eu encontrar os princípios fundamentais sobre os quais possa construir? Onde está minha base? Onde iria procurá-la? Excito-me pensando. são ativos justamente porque são obtusos e medíocres. sem reflexão alguma. este enternecimento. fica-se com ciúme. é o tédio. Ah! Se a gente tentasse abandonar-se a seu sentimento. de propósito: sabes bem. toda a causa em mim arrasta imediatamente uma outra após ela. a inércia nos esmaga.esta contrição. fora de si . senhores. A raiva poderia evidentemente vencer todas as hesitações e seria então capaz de desempenhar com sucesso o papel dessa razão fundamental. estando persuadido que cumpre uma ação justa e honesta. quis me forçar a me apaixonar. pelas causas primeiras. e que te excitas a frio. Resultado final: bolha de sabão. com efeito. o fruto natural da consciência é com efeito a inércia: cruzam-se os braços com conhecimento de causa. para sua atividade. eu não vejo nisso nada de justo nem de bom. Tanto e tão bem que finalmente perdi todo poder sobre mim mesmo. Digo e repito com insistência: todos os homens simples e sinceros. Eu imaginava aventuras e criava para mim uma existência fantástica para viver de um modo ou de outro. afastando para bem longe de si toda a consciência. Uma vez. imediatas. e verificareis então que as coisas se passam precisamente assim. . no fundo da alma. lembrai-vos! Falei-vos antes em vingança (certamente não penetrastes muito bem a coisa).tu te desprezarás de ter conscientemente te enganado a ti mesmo. sem procurar nenhuma razão.último adiamento . Sofri mesmo. tento me vingar. Encontramo-nos então diante das leis da natureza. de toda a consciência. Quantas vezes. Por outras palavras. senhores. Já falei disso. Tive sempre o gosto por estas histórias. alguma coisa como uma dor de dentes. E a causa de tudo isto. cegamente. nem que fosse por algum tempo! Seria então uma coisa muito diferente! Maldize ou adora. que não há por que se zangar. se não sou suficientemente malvado? (Indiquei-o desde o começo. por motivos absurdos. mais fundamental. Como explicar isto? Eis aqui: por causa de sua estreiteza de espírito. precisamente porque ela não pode ser considerada como tal. Sente-se então completamente apaziguado e vinga-se com toda a tranqüilidade e com pleno sucesso. todos os homens ativos. mas sofre-se verdadeiramente. isto é o principal. A partir do depois de amanhã . de que ninguém é culpado. Encontra então o princípio fundamental que procurava: é a justiça. Ora. eles tomam as causas secundárias. fundamentais. quase. é preciso previamente atingir uma perfeita tranqüilidade e não mais conservar nenhuma dúvida. mas te aqueces a tal ponto que chegas finalmente a te encolerizar sinceramente. inércia. O fruto legítimo. Para poder agir. ainda mais profunda. por exemplo. e assim em seguida. renuncio então à minha vingança com um desdém afetado. até o infinito.comédia . em virtude justamente dessas mesmas malditas leis da consciência. os motivos se dissipam. de maneira muito real. Observai bem. é pura malvadez da minha parte. Mal distingui o objeto do meu ódio. mas um golpe do destino. Tal é a essência de todo o pensamento. por conseguinte. Na impossibilidade de encontrar as causas primeiras. e bem mais facilmente. quanto a mim. duas vezes mesmo. ei-lo que se desvanece. E o resultado? É sempre o mesmo.

Mas que fazer. teria derramado prantos tão abundantes. sobre seus interesses normais. teria ornado meu rosto com um queixo tão vasto. morro solenemente. meus senhores! Não riais disto. deixado cair uma lágrima na minha taça. mas é bem agradável ouvir dizer tais coisas a seu respeito em nosso século. mas um gozador. Que pensais? Há muito tempo sonho isso. exigirei esse respeito.. Não passo pois de um tagarela. é uma carreira. Um poeta escreveu COMO AGRADAR A CADA UM. e eu bebo depressa à saúde de cada um. VII Mas não são senão sonhos de ouro! Oh! Dizei-me qual foi aquele que primeiro declarou.porque amo "o belo e o sublime". por exemplo. é assim. . pois. se o destino de todo homem inteligente é tagarelar. Desde que tenho quarenta anos! Mas antes? Teria sido muito diferente! Teria logo encontrado uma forma de atividade adaptada ao meu caráter: por exemplo. e teve razão. senhores. teria descoberto "o belo e o sublime". há alguma coisa então a dizer da tua pessoa. de um tagarela inofensivo. derramar água numa peneira! VI Oh! Se eu não tivesse passado de um preguiçoso! Como eu me teria respeitado a mim mesmo! Ter-me-ia respeitado precisamente porque me teria visto capaz ao menos de preguiça.É um título. compôs um quadro digno de Gay. membro do primeiro clube do universo e teria passado todo o meu tempo a me respeitar. teria erguido para o alto um nariz tão gorduroso. logo eu bebo à saúde desse pintor. é uma função. da qual estaria certo. Pergunta: Quem és? Resposta: um preguiçoso! Teria sido verdadeiramente muito agradável ouvir chamar-se assim. um ser positivo!" Como quiserdes. encontraria no bem sua própria vantagem? Como está entendido que ninguém pode agir conscientemente contra seu próprio . mas triunfante mesmo. Conheci um sujeito cujo orgulho era ser entendido em Laffitte. tão essencialmente negativo. Um pintor. se lhe abrissem os olhos sobre seus verdadeiros interesses.Ah! Senhores! É possível que eu me considere extremamente inteligente pela única razão de que. "O belo e o sublime" pesam como chumbo sobre a minha nuca desde que fiz quarenta anos. "Um preguiçoso!" . Eu teria nesse caso escolhido uma carreira: teria sido um preguiçoso e um glutão. nunca pude começar nem acabar fosse o que fosse. Considerava essa qualidade como uma virtude muito preciosa e não duvidou jamais dele. que todos ao me verem teriam exclamado: "Eis aí um ser bem real. em toda a minha vida. não um guloso vulgar. . como aqueles que deixa escapar uma esponja. cessaria imediatamente de cometer vilanias. até nas torpezas mais incontestáveis. Isto me valerá o respeito geral. e que se fosse esclarecido. Vivo pacificamente. Não é admirável? Não é esquisito? Teria deixado crescer um ventre tão opulento. Teria agarrado cada ocasião de beber à glória "do belo e do sublime". interessando-se por "tudo que é belo e sublime". isto é. Tu estás então definido de maneira positiva. e se tornaria no mesmo instante bom e honesto. Eu teria então tornado todas as coisas "belas e sublimes". Morreu com a consciência não somente tranqüila. porque amo tudo que é "belo e sublime". porque teria possuído então ao menos uma qualidade definida. de um impertinente como nós todos. beber à saúde de todas as coisas "belas e sublimes". que proclamou primeiro que o homem não comete vilanias senão porque não se apercebe de seus próprios interesses. perseguirei com a minha cólera aquele que mo recusar. por direito. assim. previamente. esclarecido pela ciência e compreendendo seus verdadeiros interesses. Teria sido. depois de ter.

contra a razão. que meu amigo é uma personalidade coletiva e que é difícil. contra a razão. ele fará uma coisa ridícula.. A coisa não seria difícil.. segundo vós. aliás. todas as coisas belas e vantajosas. e assim por diante. interesses reais e normais da Humanidade. Que pensais disto? Tal caso pode se apresentar? Vós rides! Ride. senhores! Não há uma coisa. o relegam a segundo plano e enveredam por um caminho totalmente diferente. Eis um exemplo: eu tenho um amigo. não agiu senão segundo o seu interesse? Que faremos então desses milhões de fatos que atestam que os homens. É precisamente a isto que quero chegar. mal reconhecível. que constitui a seus olhos seu interesse supremo? . se esse caso se pode apresentar. absurda. sua paz.. entretanto. aquele de que acabamos de falar) mais interessante que todos os outros interesses. obscura. O interesse! Que é o interesse? Vós vos empenhais em me definir com toda a exatidão em que consiste o interesse do homem? Que direis vós se um belo dia se vem a descobrir que o interesse humano em certos casos pode ou mesmo deve consistir em desejar. no curso desses milhares de anos. o homem que repelisse consciente e ostensivamente o vosso registro. mas respondei! Os interesses humanos estão enumerados com exatidão? Será que não existem alguns que não entram em nenhuma das vossas classificações e não podem aí encontrar lugar? Com efeito. É pouco dizer: ele discutirá com paixão. a agir contra todas as regras. com belas e grandes frases.. sacrificando-lhe sua honra. Ê que essa liberdade possui a seus olhos mais atrativos que seus próprios interesses . não uma vantagem. mas um mal? Se é assim. Mas. um louco? Não é assim? Mas eis o que é bem estranho: como é possível que todos esses estatísticos. cheio de riscos e de acasos? Não são. e agirá então contra todos os preceitos que tinha citado. de maneira que. Mas a dificuldade provém de que esse elemento tão particular não pode encontrar lugar em nenhuma classificação e não pode se inscrever em nenhuma lista. pois. tanto quanto sei. e pelo qual o homem está pronto.. de resto. uma tolice qualquer. caprichosamente. o homem seria então por assim dizer colocado na necessidade de fazer o bem. senhores. também na minha.. mais precioso que todos eles. tendo embora perfeita consciência do seu interesse. um quarto de hora depois. sua felicidade. uma outra. como lhe é preciso agir para se conformar à razão e à verdade. deixem constantemente de lado um certo elemento. com entusiasmo. nos seus cálculos de interesses humanos? Eles não querem mesmo levá-los em conta nas suas fórmulas. esses sábios. Quando se prepara para agir. ele é o amigo de todo o mundo. condená-lo sozinho. então tudo desmorona. Oh! Criança! Criança pura e ingênua! Mas dar-se-á que o homem.interesse. a riqueza. a tranqüilidade. Mas fico pensando nisso! Vós o conheceis também. Previno-vos. e. na vossa opinião. a liberdade. se for preciso. senhores. isto é. entretanto. como um obscurantista. por conseqüência. sem razão nenhuma. em uma palavra. para traçar livremente. esses filantropos. nada senão para atingir uma coisa única que lhe é mais cara que todas as outras. organizastes vosso registro dos interesses humanos de acordo com as cifras médias das estatísticas e das fórmulas econômico-científicas. nem o verdadeiro valor da virtude.. forçados a isso. deveria ser considerado. contra tudo. com efeito. escarnecerá cegamente dos tolos que não compreendem nem seus verdadeiros interesses. Os interesses humanos são. que nos seja a todos mais cara que os nossos interesses mais preciosos? Por outras palavras (para não violar a lógica): não existe para nós um interesse (aquele que se deixa de lado.. contra os seus interesses. por que não completar a lista e introduzir-lhe o elemento em questão ?. sob um impulso interior mais poderoso que todas as considerações do interesse. nem mais cedo nem mais tarde. esse senhor começa por explicar-vos muito claramente. cujos resultados assim falseiam. cheia de dificuldades. mas parece que querem precisamente evitar a estrada que se lhes indicava.

. o grande. em suma. Hoje. que o homem. Tomo este exemplo porque é convincente. nada mais. de acordo com essas leis. Isto vale mais? Decidi vós mesmos. Basta pois descobrir essas leis. a fim de que ela se torne logo virtuosa e nobre no seu esforço para atingir os ditos interesses. embora considerando a efusão de sangue uma ação condenável. nem por isso deixamos de matar. Mas o homem nutre tal paixão pelos sistemas. menos guerreiro. a admitir com Buckle que a civilização suaviza o homem. que está pronto a desfigurar conscientemente a verdade. que todas essas teorias que pretendem explicar à Humanidade em que consistem seus interesses normais. Vêde nosso século XIX.Permiti! Vamos nos explicar. e o de hoje! Vede a América do Norte e sua união. é um embaraço. como champanha. naqueles recuados tempos. Se esses senhores se fazem notar menos. isto já é um luxo supérfluo) que ele nunca teve vontade. no meu modo de pensar. o que realiza. Mas estais certos. e a tiverem orientado para um caminho normal. pois continuam a espetar agulhas na carne. se bem que tenha adquirido uma compreensão mais clara das coisas que. a ciência ensinará ao homem (mas. Mas antes de vos apontar essa coisa. e quando o senso comum e a ciência tiverem completamente reeducado a natureza humana. pronto a fechar os olhos a tapar os ouvidos diante da verdade. que nosso século é bárbaro também. mais covardemente sanguinário. e mais freqüentemente ainda do que antes. não é com jogos de palavras que se pode esclarecer a questão..direis. que se torna cada vez menos sanguinário. equivale. Então em que é que a civilização nos adoça? A civilização não faz mais que desenvolver em nós a diversidade das sensações. por conseguinte. nem caprichos.. Mas se a civilização não tornou o homem mais sanguinário. realiza-o. estabelecida para a eternidade! Vede enfim esse caricatural Schleswig-Holstein. e serão inscritas nas . pelas deduções abstratas. de uma tecla de piano. Diz-se que Cleópatra (desculpai este exemplo tirado da História Romana) divertia-se em espetar agulhas no seio das escravas e experimentava grande prazer com seus gritos e contorções. Mas há mais ainda: então. declaro que tudo isso não passa de logística. e que não passa. de um pedal de órgão. tudo para justificar sua lógica. na minha opinião. é que ele destrói todas as nossas classificações e altera todos os sistemas edificados pelos amigos do gênero humano para a felicidade do homem. creio.. Sim. no qual viveu Buckle! Vede Napoleão.. um obstáculo. mas conforme às leis da natureza. não obstante. todos esses Stenka Razine fariam uma figura bem mesquinha. Notastes já que os sanguinários mais refinados foram sempre senhores muito civilizados. Olhai pois em torno de vós! O sangue corre em borbotões. Isto aliás já aconteceu. é que se encontram mais freqüentemente e estamos habituados com isso. que ele se habituará quando se desfizer completamente de certas tendências ruins.Sim. dizeis. é muito possível que o homem acabe por descobrir uma certa volúpia no sangue. não pôde ainda se habituar à seguir as normas da razão e da ciência. pura logística! Crer que a renovação do gênero humano possa realizar-se fazendo-lhe conhecer seus verdadeiros interesses. desse interesse. e afirmo então com altivez que todos esses belos sistemas. Buckle chegou a esse resultado muito logicamente. tornou-o sem dúvida mais sordidamente. Antigamente. . junto dos quais todos esses Átila. Em uma palavra. Dir-me-eis que isso se passava numa época relativamente bárbara.. Estais certos de quê então o homem deixará de se enganar deliberadamente e se verá por assim dizer na impossibilidade de querer opor sua vontade aos seus interesses normais. não segundo sua vontade. alegremente mesmo. e era com a consciência bem tranqüila que destruía o que bem lhe parecia. quero me comprometer pessoalmente. o outro. e a vida se lhe tornará extremamente fácil. e o homem então não poderá mais ser considerado responsável por suas ações. Todas as ações humanas poderão ser evidentemente calculadas matematicamente. o homem considerava que tinha o direito de derramar sangue. E graças ao desenvolvimento dessa diversidade. até o centésimo milésimo. .mas é ainda de interesse que se trata. O que faz a singularidade dessa coisa. como se faz para os logaritmos.

isto é. não é tão bruto quanto ingrato. ver-se-á estabelecerem-se novas relações econômicas. se tudo está calculado e fixado de antemão?). que não haverá mais aventuras. com efeito. se se conseguir descobrir a fórmula de todos os nossos desejos. de um só pontapé. uma transmissão?! Que pensais disto? Examinemos pois as probabilidades: tal ou tal coisa poderá se produzir ou não? . de acordo com que leis se desenvolvem.efemérides. que serão. terrivelmente bruto. é certo. e é difícil encontrar quem seja mais ingrato que ele. nada mais que para mandar os logaritmos ao diabo e poder recomeçar a viver segundo a nossa tola fantasia?" Isso não seria ainda nada.. de vontade. parece: tudo isso porque todo e qualquer homem aspira. isso é coisa que não existe!" . meu capricho. que o homem deixe logo de querer. fixadas com precisão matemática. O homem é feito assim. minha fantasia sobreexcitada até a demência. etc.. e sois vós quem continua a falar. que todas as dúvidas desaparecerão logo. qualquer que seja o preço e sejam quais forem os resultados. Que prazer haverá em não querer senão em conformidade com tábuas de cálculos? Mas isto é dizer pouco ainda: o homem cairá imediatamente na categoria de uma simples peça. E tudo isso por causa de uma coisa ínfima que se poderia desprezar completamente. ou far-se-ão livros estimáveis no gênero dos nossos dicionários enciclopédicos. sempre e em todas às situações. confesso-vos: ia gritar que a vontade depende. Não se pode certamente garantir (sou eu que falo agora) que não será terrivelmente fastidioso (que fazer. por vezes (esta idéia me pertence.. como propriedade particular). Mas só o diabo sabe o que essa vontade vale." Permiti. como se reproduzem. todas as teorias.. toda essa felicidade tranqüila.vós me interrompeis rindo. sabemos que a vontade e o que se chama de livre arbítrio não passam de. o interesse mais precioso que não pode encontrar lugar em nenhuma de vossas classificações.. senhores! Eu próprio me preparava para começar assim. eis precisamente a coisa que se põe de lado. sabe o diabo de quê. senhores! Se jogássemos por terra. Onde. senão uma peça. O que é mais grave (sou eu quem continua a falar) é que talvez nos acharemos então muito felizes de ter à mão agulhas de ouro: o homem é bruto. e que quebra em mil pedaços todos os sistemas. em compensação. meu arbítrio. Então. ou melhor dizendo. pondo as mãos na cintura: "Pois bem. Mas isto não é nada ainda.. e que talvez se trate de algo muito bom. onde tudo ficará tão bem calculado e previsto. Então veremos o Pássaro de Fogo. Evidentemente o tédio pode ser mau conselheiro: é o tédio que nos faz enterrar agulhas de ouro na carne. Eu não ficaria pois admirado se. nem mesmo mais ações. Com efeito... por estapafúrdio que seja. no meio dessa felicidade. pois. ora. VIII "Ah! ah! ah! mas a vontade. a partir de agora. de todos os nossos caprichos. vossa vontade pode e deve mesmo. então. aprenderam os nossos sábios que o homem tem necessidade de não sei que vontade normal e virtuosa? Por que imaginaram eles que o homem tem aspirações após uma certa vontade racional e útil? O homem não aspira senão depois de uma vontade independente. com o rosto "retrógrado" e escarninho. serão todos muito sábios. nem sequer é provável. Então se edificará um vasto palácio de cristal. e que nos dissesse. se levantasse de súbito um cavalheiro despojado de elegância. pela simples razão de que se terão descoberto todas as soluções. a agir segundo sua vontade e não de acordo com as prescrições da razão e do interesse.. por sua vez. Minha vontade livre. para que fins tendem em tais ou tais casos. se opor aos vossos interesses. é provável. Na verdade que é um homem despojado de desejo. de onde provêm. então. mas o mais terrível é que esse personagem encontraria certamente discípulos. Tive mesmo medo. mas lembrei-me da ciência e mordi a língua: foi então que me interrompestes. ."A ciência já conseguiu tão bem dissecar o homem que.

Vede. mas é aqui justamente que me aparece a dificuldade. que me considerais com um certo desdém: vós me repetis que é impossível a um homem esclarecido e culto. senhores. senão a vigésima parte das forças que estão em mim. com a ajuda da nossa estupidez. A vontade pode querer por vezes se . ao homem do futuro. isto é. e embora isso não seja uma consolação. esse capricho. inepto. Numa palavra. acontece-lhe cometer disparates. poderemos raciocinar e não querer. porque é impossível a um ser racional desejar inépcias. isto é. em geral. e não a extração da raiz quadrada. a fim de satisfazer minha faculdade de existência em sua totalidade e não para satisfazer unicamente a minha faculdade de raciocínio. pois é ridículo. o digno. Porque essa inépcia. porque estarão descobertas as leis do nosso suposto livre arbítrio. Alguns afirmam que isso é precisamente o que temos de mais precioso. é preciso aceitar o alambique. inclusive a razão e seus escrúpulos. cremos nos aproximarmos assim do que consideramos como particularmente interessante. É possível mesmo que essa vantagem seja superior a todas as outras. se revista freqüentemente de um aspecto muito velhaco. e. meus senhores. naturalmente. com tudo que ela contém em si. não o devemos dissimular). Permiti-me soltar as rédeas à minha fantasia. Mas repito-vos pela centésima vez: existe um caso. isto é incontestável. Que sabe a razão? A razão não sabe senão o que aprendeu (ela não saberá nunca outra coisa. e que se aspiramos realmente às fórmulas. Assim comigo. e não como a enfeita a nossa fantasia. o que há de mais vantajoso para nós sobre a terra. com o único fim de se subtrair à obrigação de escolher o aproveitável. que lhe é impossível querer deliberadamente o que for contrário aos seus interesses. a natureza não se preocupa conosco de maneira nenhuma. o que nos é mais caro. mas a razão é a razão e não satisfaz senão a faculdade de raciocínio do homem. Mas. rebuscar o que lhe é desfavorável. se isto se realizar. a razão é uma coisa excelente. enquanto que o desejo é a expressão da totalidade da vida. talvez seja. o que lhe parece estúpido. provavelmente. senhores. um único. é matematicamente exato.. Estou inteiramente de acordo: sim. por assim dizer. se bem que nossa vida. sobretudo em certos casos. e ter vontade. em que o homem pode deliberadamente. o principal. por exemplo: eu quero viver. Suspeito. tal como se exprime assim. então. Acontece-nos querermos coisas ineptas porque. aos alambiques. em suma. Conserva-nos. expressamente. em uma palavra. senão ele passará perfeitamente sem a nossa aprovação. E urna vez que todos os desejos e todos os raciocínios poderão ser calculados antecipadamente. às efemérides. não haverá mais lugar para o que se chama de desejos. contradizer conscientemente a razão e procurar prejudicar-se.Nossos desejos se enganam muito freqüentemente. Sim. Mas quando tudo estiver explicado. Não o esqueçais: tenho quarenta anos de subsolo. que não representa. efetivamente. não teremos mais nada a fazer senão compreender. Se nossa vontade entra então em conflito com a nossa razão. de que liberdade disponho eu ainda. nossa personalidade. tornar-se-á possível.. não há nada a fazer. perdoai-me por me ter posto assim a filosofar. E. mesmo quando nos é manifestamente prejudicial e contradiz as conclusões mais justas do nosso raciocínio. consciente e inconscientemente. reportando-nos a ela. evidentemente. um dia. e que é preciso aceitá-la como é. quando tudo for posto em ordem e fixado de antemão (o que é muito possível. enquanto que a natureza humana age com todo o seu peso. porque nos enganamos na avaliação dos nossos interesses. Admitamos que me seja provado um dia que se eu mostrei o punho fechado a alguém. é claro como as matemáticas. da vida humana inteira. nem por isso é menos vida.Hum! . mas vive. devemos repetir-nos sem descanso que nesse instante e precisamente nessa circunstância. com efeito. (eu não gracejo) organizar uma espécie de lista. ..dizeis. é que não podia agir de outra forma. pois é estúpido crer que certas leis da natureza permanecerão indecifráveis). sobretudo se sou eu próprio instruído e se possuo um diploma? Posso então calcular minha existência com trinta anos de antecedência. e que devia fechar o punho precisamente assim.

E não é em vão que M.Sim. cometerá. é verdade. que tocam de resto com tal brio que muito em breve não será possível querer seja o que for sem se referir aos calendários. perder-nos-emos completamente. equivocar-vos-eis desde a primeira sílaba. Mas sabeis que isto também é extremamente útil e digno de aprovação? Admitamos. no caso em que os outros meios lhe faltassem. pernicioso. apenas para marcar bem sua ingratidão e perseverar no seu capricho. Lançará sua maldição sobre o mundo. confessai! Numa palavra. lançai um olhar pela História da Humanidade! Que vedes? É grandioso. Pois bem! Eu vos pergunto: o que se pode então esperar do homem. Anajevski nos lembra que. lutou-se ontem. só para misturar a essa sabedoria tão positiva um elemento fantástico.. sobretudo se não se abusa desse acordo e se dele se aproveita moderadamente. as leis da natureza. por trair suas idéias e se comprometem em escandalosas histórias. que o homem não é um bruto. bem pode ser. há nisso uma certa variedade: para disso nos convencermos. unicamente para provar a si mesmo (como se isso fosse verdadeiramente tão necessário) que os homens são homens e não teclas de piano. que ele pretenderá conservar. comer pães de mel. tão profundamente. dizeis? . conduta insensata. Luta-se hoje. direis? . no caos. Mas não é tudo ainda: esse não é ainda o seu principal defeito. Correrá até o risco de perder os seus pães de mel e procurará as inépcias mais perigosas. por necessidade de se emporcalhar. muito freqüentemente. uma vilania qualquer. e como só ao homem é dado amaldiçoar (isto é bem um privilégio . Seu principal defeito é o mau caráter. desse ser dotado de qualidades tão estranhas? Tentai derramar sobre ele todos os bens da terra. E depois. ele se afundaria na destruição. porque se sabe há muito tempo. cujo fim é levar uma existência racional e honesta. e então. mas não faria finalmente senão o que lhe desse na cabeça. nenhum historiador resistirá a isso.É possível. Mas. o mais freqüente mesmo. sobre as quais se dignam tocar. desencadearia não sei que males. por pura ingratidão. segundo uns. Mas é impossível dizer que ela é racional. Tentai. filantropos. sensatos e de bons costumes. à guisa de agradecimento. Mau caráter. Estareis chocados pela variedade? Sim.. e. é no mínimo monstruosamente ingrato. os absurdos menos proveitosos. Monótono. mais cedo ou mais tarde. é a vontade recusar-se obstinadamente a concordar com a razão. mesmo que se achasse que o homem não passa realmente de uma tecla de piano. Isto pode ser útil e digno de aprovação. ao passo que outros afirmavam que era o produto das forças naturais. extraordinariamente ingrato. pode-se dizer tudo da História Universal. mergulhai-o na felicidade. que ele o seja. Não se faz senão guerrear. Não se dizer. E. basta lançarmos uma olhadela pelos grandes uniformes civis e militares.. e se lhes ajuntarmos as pequenas fardas. é a sua asnice mais vulgar. mesmo nesse caso.pôr de acordo com a razão. ele não tomaria juízo e cometeria alguma incongruência. então. o colosso era uma obra humana. em conseqüência. ademais. Mas que acontece. tudo que se apresentar à imaginação mais desregrada. Creio mesmo que é a melhor definição que se possa dar do homem: um ser com dois pés e ingrato. lutar-se-á amanhã mesmo um pouco monótono demais. se se chegasse a lho demonstrar matematicamente. desde o dilúvio universal até o período schleswig-holsteiniano de nossa História. que ele conservou inalterável. que não se distingam mais na superfície senão algumas bolhas de ar: satisfazei suas necessidades econômicas tão completamente que ele não tenha mais nada a fazer senão dormir. quem poderia então reivindicar a inteligência? Mas se não é um bruto. e pensar nos meios de fazer durar a História Universal . senhores. então? Sabe-se que grande número desses amantes da sabedoria acabam. que esta decorre daquele. só o colosso de Rodes já representa alguma coisa. a fim de agirem pelo exemplo sobre seus semelhantes e de provar-lhes que é possível viver sabiamente. porque se o fosse. eis ainda o que se passa constantemente: homens aparecem. com efeito. E.pois bem! mesmo nesse caso o homem. com efeito. São precisamente os seus sonhos mais fantásticos..

eu vo-lo garanto. quando tudo estiver nas tábuas de calcular e quando não houver mais que "duas vezes dois quatro"? Duas vezes dois serão quatro sem que minha vontade se incomode com isso. Com isso arriscava a pele. Mas eu mesmo gostaria de vos dizer algumas palavras a esse respeito. ele adivinha por vezes que toda estrada leva sempre a alguma parte. mas o próprio fato de que ela o conduz para um lugar qualquer. é um engenheiro. A vontade quer saber de coisa bem diferente! IX Senhores. senão uma suposição vossa. É indiscutível que o homem gosta muito de construir e traçar caminhos. pois parece claro que desde todos os tempos a grande preocupação do homem foi provir sem cessar a si mesmo. a mãe de todos os vícios. senhores! Que restará da minha vontade. convencer-se de que é um homem e não uma peça. que ele era um homem e não uma engrenagem. Admitamos mesmo que tal seja com efeito a lei lógica. Mas como sabeis que o homem pode e deve ser corrigido? De onde concluístes que a vontade do homem deve necessariamente ser educada? Em uma palavra: por que pensais que essa educação lhe é realmente útil? E para dizer tudo: por que estais tão firmemente persuadidos que é sempre vantajoso para o homem não contradizer seus interesses normais. senhores? Permiti-me que me explique. mas será verdadeiramente a lei humana? Pensais. com as leis naturais. talvez. que a gente só se agita para arrumar as coisas de tal maneira. reais. há problemas que me atormentam: ajudai-me a resolvê-los. que o distingue muito particularmente dos outros animais) alcançará assim os seus fins. Senhores. por estúpido que seja o homem de ação. precisamente porque está condenado a traçar um caminho e também porque. mas provava-o: vivia como um troglodita. Se me disserdes que o caos. se bem que a só possibilidade desse cálculo irá paralisar o impulso do homem e que a razão triunfará. mas. as trevas. minha vontade possa pôr-se de acordo COM os meus interesses normais. a fim de que o menino sabido não se lembre de desprezar seu ofício de engenheiro e não se abandone à preguiça. quereis libertar o homem de seus antigos hábitos e corrigir-lhe a vontade segundo os dados da ciência e conforme ao senso comum. depois de tudo isto. as maldições. Ora vamos. com a aritmética. uma vez mais. como não nos felicitarmos por não estarmos ainda nessa situação e por a nossa vontade depender ainda não se sabe de quê? Vós exclamais (se me fazeis ainda a honra de gritar) que ninguém pensa em me privar de minha vontade. talvez. que por si mesma. em suma. mas provava-o. que é perder a razão e tornar-se completamente louco. Mas é talvez por causa disso. Isto é óbvio para mim. Assim. e que não é a sua direção que importa. que tudo isso pode também ser calculado de antemão. não se trata unicamente de gracejos. . que sou louco. aliás. como se sabe. obrigado a se dirigir conscientemente para um fim qualquer. mas como acontece então que ele ame tão apaixonadamente a destruição e o caos? Dizei-me. isto é. então eu vos confessarei que o homem só terá um meio de fazer o que lhe apraz. E como. Deve. não importa em que direções. garantidos pelo raciocínio e pela aritmética? Isto não é. gracejo evidentemente e eu próprio sei que meus gracejos não são muito bons. por sua própria iniciativa. não pecar. pois. Admito: o homem é um animal essencialmente construtor. É rangendo os dentes. constantemente traçar caminhos novos. que gracejo. a qual é.seu. precisamente que tem por vezes desejo de escapar pela tangente. assim.

à destruição e ao caos.Não será que ama tanto a destruição e o caos (Se os ama às vezes. e tudo isto faz o efeito de um calemburgo. o homem sempre teve medo desse "duas vezes dois quatro" e eu também tenho. eu vos direi que "duas vezes dois cinco" é também às vezes uma coisinha muito encantadora. ou por outra: a vida não teria fim exterior. isto é. construído para os séculos. às formigas. mas o que seria então de um palácio de cristal do qual se pudesse duvidar? Ora. por pouco que seja. é um dos maiores males do homem. Indagai vós mesmos se unicamente sois homens. o que faz honra à sua constância e ao seu senso prático. e insisto para que ele me seja garantido. respira impudência. é indiscutível) porque tem instintivamente medo de atingir o fim e terminar o edifício que constrói? O que sabeis disso? Ele não ama talvez esse edifício. é infinitamente . à semelhança do jogador de xadrez. nada mais tem a fazer. "Duas vezes dois quatro". A consciência. é verdade. construi-lo. etc. têm então a sua conta ao menos por uma semana. tão solenemente convictos de que só é necessário o normal. sim. Não há necessidade de consultar a esse propósito a História Universal. para acabarem a noite na cadeia. Mas o homem é um ser versátil. duas vezes dois quatro é um princípio de morte e não um princípio de vida. têm outros gostos. pois ele se dá conta que. arrisca a vida em sua perseguição. por exemplo. o positivo. De mãos nos quadris. dir-vos-ei que é mesmo inconveniente só amar o bem-estar. se for preciso. na minha opinião. não está mais satisfeito. em uma palavra? A razão não se engana em seus juízos? É possível que o homem não ame senão o bem-estar? Não é possível que ele ame na mesma medida o sofrimento? Não é possível que o sofrimento lhe seja tão vantajoso quanto o bem-estar? O homem se põe por vezes a amar apaixonadamente o sofrimento. Ora. senhores. na minha opinião. por exemplo. possuem nesse gênero um edifício verdadeiramente extraordinário. senão de longe. Mas seja como for. mas sei que o homem a ama e não a trocará por nenhuma satisfação. As formigas. O sofrimento! Mas é a causa única da consciência! Eu vos declarei. Foi por um formigueiro que começaram as honradas formigas e é provável que tal seja também o termo da sua carreira. Está bem? Está mal? Isso eu não sei. talvez. e não de perto. uma vez encontrados. o qual não pode evidentemente ser senão aquele "duas vezes dois quatro". "Duas vezes dois quatro" nos desfigura insolentemente. e se tendes vivido. o formigueiro. É verdade que o homem não se ocupa senão da procura desses "duas vezes dois quatro". aos carneiros. isto é. E por que pois estais tão inabalavelmente. Tenta aproximar-se do fim. Apraz-lhe. há negação no sofrimento. Não é precisamente o sofrimento que defendo aqui. eu sei. E quem sabe? (não se pode garantir) é possível que o único fim para o qual tende a Humanidade não consista senão nesse esforço. tampouco podemos admiti-los num palácio de cristal: há dúvida. no início. observa-se constantemente nele certo constrangimento. Admito que "duas vezes dois quatro" seja uma coisa excelente. mas tão logo o atinge. ele se nos atravessa no caminho e nos cospe na cara. que se tornará ele? Em todo o caso. uma fórmula. que a consciência. Em uma palavra: o homem é construído de uma maneira muito cômica. e está pronto talvez a abandoná-lo aos animais domésticos. seja qual for. estou certo de que o homem não renunciará jamais ao verdadeiro sofrimento. o bem-estar. No que toca à minha opinião pessoal. ou o bem-estar: é meu capricho.juro-vos que tem medo. mas se é preciso louvar tudo. e é possível que. Depois de terminarem o trabalho e de terem recebido. quanto a apanhá-los realmente . atravessa oceanos. não se admitem os sofrimentos. Nas comédias. "duas vezes dois quatro" é uma coisa bem insuportável. e isto é verdadeiramente bem cômico. não ame senão a ação mesma e não o fim a atingir. isso é um fato. Enquanto que o homem. mas às vezes é agradável quebrar alguma coisa. mas quanto a encontrá-los. sempre que atinge um fim. mas não morar nele. os operários vão ao botequim. Em todo o caso. nessa ação.

não resta evidentemente mais nada. enquanto desejo. e é isto precisamente que me irrita. de todos os vossos edifícios não há um ao qual não se possa mostrar a língua. Mas que fazer. Com a consciência chega-se. Rides. responderei. Mas que me importa que ele seja inadmissível! Que me importa. eu faria cortar minha língua. Mas. que as leis da natureza não o admitam e que eu o tenha inventado por tolice. Ao contrário. apresentai-me um fim melhor e eu vos seguirei. é num palácio que é preciso se instalar? Isto é minha vontade. Depois de "duas vezes dois". pois que ele existe nos meus desejos. pelo único motivo de não lhe poder mostrar a língua. então. Sim. é tapar nossos cinco sentidos e mergulharmos na contemplação. apresentai-me um outro fim. oferecei-me um outro ideal! Mas. talvez. se se vive. Pois bem! Eu. mesmo às escondidas. para a eternidade. recuso-me a tomar um galinheiro por um palácio de cristal. ou. e se não vos dignardes me conceder vossa atenção. Vós não conseguireis me arrancar esta vontade. . Vede: se em lugar de um palácio de cristal eu só disponho de um galinheiro.superior a "duas vezes dois quatro". mas mesmo a conhecer. É muito reacionário. a um resultado idêntico. quando chove. que não vale a pena ocupardes-vos de mim. É possível que o palácio de cristal não seja senão um mito. X Credes no palácio de cristal. mas sempre vale mais do que nada. com um zero se renovando indefinidamente. isto é meu desejo. Não admitirei que o coroamento dos meus desejos possa ser uma casa de tijolos. mas neste caso posso vos responder do mesmo modo. se se me meteu na cabeça que não se vive somente para isso e que. Eu tenho meu subsolo. ao qual não se poderá mostrar a língua. à inação. não somente a fazer. apesar de tudo. Nós discutimos seriamente. para dizer melhor. quando ainda tenho fome. enquanto existo. eu me insinuarei talvez no galinheiro. Destruí meus desejos.Não o admito. se desconfio do palácio de cristal. pelo menos dar-lhe uma chicotada. é talvez justamente porque é de cristal e indestrutível e porque não se poderá lhe mostrar a língua. dizeis-me que em semelhante caso palácio e galinheiro se equivalem. enquanto espero. o que vivifica um pouco o espírito. que minhas mãos sequem se levo um tijolinho que seja a essa casa! Não me digais que eu mesmo renunciei cedo ao palácio de cristal. não tomarei meu galinheiro por um palácio. arrendados por mil anos e ostentando a tabuleta do dentista Wagenheim. se se vivesse apenas para não estar molhado. A única coisa que nos resta. isto é. senão para poder verificar que essa constituição não é senão uma brincadeira de mau gosto? É esse verdadeiramente o único fim? . Que me importa que as coisas não possam se arranjar assim e que seja preciso contentarmo-nos com alojamentos a preços módicos! Por que tenho eu tais desejos? Não sou feito assim. se se arranjassem as coisas de tal maneira que eu não tivesse mais desejo de a mostrar. Se falei assim. com alojamentos a preço módico. para fugir à chuva. mas poder-se-á. Dir-me-eis. então. senão quando tiverdes modificado meus desejos. pois que existe tanto quanto existem meus desejos? Continuais a rir. mas ficando-lhe embora muito agradecido por ter me preservado. pois bem! Não vou chorar por isso. de vez em quando. Acontece porém que. derrubai meu ideal. não me contentarei com um compromisso. não é que eu goste tanto de mostrar a língua. indestrutível. Pois bem! Modificai-os. nem mostrar os punhos às escondidas. pela única razão de que está conforme as leis da natureza e existe realmente. Ride tanto quanto vos agrade! Aceitarei todas as zombarias. impelido por certos hábitos irracionais da nossa geração. é verdade. por gratidão. penso. mas recusar-me-ei a me declarar saciado.

quando o vejo tal qual é. devemos ser mantidos na trela. que minto descaradamente.. renuncio ao ser normal (não cessando todavia de ter inveja dele). viva o subsolo! Se bem. que não é o subsolo que vale mais. mas sente-se feliz com elas. Sob a ação da vaidade mais mesquinha. Diz insolências. ele desabafa. porque embora sua inteligência trabalhe. a sua! Mentira tudo isso! Mentira! Mentira!" Todas estas palavras fui eu quem as disse. seu coração está emporcalhado pela libertinagem. mas parece muito satisfeito com a sua literatura. Para o diabo o subsolo! Se eu pudesse crer ao menos numa só palavra do que escrevo aqui! Juro-vos. mas sinto no mesmo momento. foi-me fácil decorá-los e imprimir-lhes. Você diz inépcias. pois é insolente. se o coração não é puro. não sei por que.. fala. E que obstinação! Que imprudência com isso! Mas tem medo. mas não audaz. mas algo muito diferente a que aspiro.Mas. se sai do seu buraco. não é humilhante!" . expõe-na no mercado. evidentemente. apesar de tudo. uma forma literária. XI O fim dos fins. Há certa verdade em suas palavras. e se.. O homem do subsolo é capaz de permanecer silencioso no seu subsolo durante quarenta anos. em uma única e miserável palavrinha! Ou melhor. talvez. eu fosse visitar-vos no vosso subsolo para verificar no que vos tínheis tornado? Bem que eu gostaria de vos ver lá! Pode-se deixar durante quarenta anos um homem só e sem ocupação? "Mas não é vergonhoso. o subsolo vale mais. senhores. mas graceja ao mesmo tempo. mas busca as nossas boas graças. Sabe que as suas sentenças não valem nada. dizendo: creio. que não creio em uma só palavra. Ah! Cá que minto de novo! Minto. Mas. com desprezo. mas tem medo e se desculpa. a consciência não pode ser clarividente. prestei atenção por uma pequena fenda a esses discursos.De resto. Assim pois. E como você é importuno. . mas não é capaz senão de hesitação. por que escreveu tudo isto? . sem fazer nada. decorrido esse tempo. mas o temor faz-lhe escamotear a última palavra. Por isso. Lá ao menos se pode. para alvo de chacota. para nos fazer rir. Eu próprio os compus. suspeito. nem completa. mas falta-lhes pudor. senhores. mas quer resolver as questões vitais por meio de mal-entendidos lógicos.me direis talvez. A inércia contemplativa é preferível seja ao que for. meneando a cabeça. Você tem alguma coisa a dizer. mas. pois não tinha outra coisa a fazer.. nesse caso. ora. Durante quarenta anos. sabeis o que vou dizer-vos? Estou persuadido de que nós outros. elas também provêm do subsolo. Que teríeis dito se eu vos tivesse encerrado durante quarenta anos. . . e então fala. fala. como é molesto! Que palhaçada. absolutamente nada. É possível que você tenha sofrido. é não fazer nada. porque sei."Você tem sede de vida. mas que não posso descobrir. você traz a sua verdade para a praça pública. homens do subsolo. Você nos assegura que range os dentes. Gaba a sua consciência. que eu tenha dito antes que invejava o homem normal até a derradeira gota da minha bílis. Declara que não receia ninguém.perguntareis certamente. tão claramente quanto duas vezes dois são quatro. mas não tem nenhum respeito pelo seu sofrimento. Não! Não! Apesar de tudo.

É possível que eu seja muito simplesmente um covarde. ao menos cara a cara consigo mesmo. não vejo a necessidade disso.. Assim. não faz muito tempo que me decidi a me lembrar de certas antigas aventuras minhas.? Por que se explica? Por que essas desculpas? Pois bem! Eis aí! É assim! Há. quando fala de si mesmo.. nenhum sistema. como um desses motivos musicais que não pretendem vos largar. com seu ponto de vista. todo homem honesto acumulou dessas lembranças suficientemente. quanto o homem é mais honesto. que eu ia imprimir tudo isto e vo-lo dar para ler? E eis ainda o que não compreendo: por que me dirijo a vós. e quero realizá-la custe o que custar. não posso evocar minhas lembranças sem as lançar ao papel? Com efeito. Eu. não se dão a ler a ninguém as confidências que eu me preparo para fazer aqui. Mas é possível também que imagine diante de mim um público. e. de resto. é simplesmente um processo de que me sirvo para maior facilidade. Tenho centenas de recordações desse gênero. ora.e no papel . chamando-vos de "senhores". por que então combina consigo mesmo . verdadeiramente. veio-me alma fantasia. que não repetiremos senão a nós mesmos. Rousseau. Demais. e não sem um tanto de inquietação. Ora. de resto. nenhum sistema. por vaidade. em toda o caso. e que o homem mente sempre. e quanto aos leitores. mas quando estiverem fixadas no papel. uma forma vazia. julgar-me-ei melhor e meu estilo ganhará. pudestes crer. desde então. Há outras ainda que não confessaremos nem mesmo aos nossos amigos. Mas.. Isto me constrangerá. Ora. não os terei jamais. não sou suficientemente forte para agir assim. evitei-as.que não observará nenhuma ordem. é possível que isto me traga certo consolo. a fim de não perder o sentido das conveniências. em suma. Estou certo de que Heine tem razão: compreendo muito bem que nos possamos sobrecarregar de crimes abomináveis. Direi mesmo que seu número é tanto mais importante. que registrará o que lhe passar pela cabeça. se pareço dirigir-me ao leitor. adquirirão um aspecto mais solene. Não observarei nenhuma ordem. agora. surgiu em mim muito nitidamente há alguns dias.ainda! . Não quero ser incomodado em nada na redação das minhas notas. e aliás. há algumas que não contamos senão aos nonos amigos. aí. um caso psicológico interessante. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas. EU. É possível ter milhares desses motivos. até aqui. agora tenho a prova: é possível ser franco e sincero.. hoje. Mas vós poderíeis me pegar na palavra desde o começo e me perguntar: se é verdade que não pensa em seus leitores. certamente nos enganou nas suas Confissões e mesmo deliberadamente. me persegue sem tréguas. eu não escrevo senão para mim sozinho e declaro de uma vez por todas que. etc. pus-me a escrever? Se não é para o público. é preciso absolutamente que eu me desembarace dela. mas uma delas às vezes desperta .Mas. apenas por vaidade. estou particularmente oprimido por uma lembrança longínqua. sob o signo do segredo. em todo o caso. e poder-se-á dizer toda a verdade? Observarei a este propósito que Heine assegura que não podem existir autobiografias exatas. Não é senão uma forma. No curso de sua existência. e compreendo também o que pode ser esse sentimento. vede. já o declarei. Eis do que se trata: Entre as lembranças que cada um de nós possui. Mas há ainda outra coisa: por que. quando as evoco e quero mesmo anotá-las. como se fósseis leitores meus? Não se publicam. e. Escreverei simplesmente o que me lembrar. Mas existem enfim coisas que o homem não consente nem em confessar a si mesmo.

. . não sei mesmo por quê. eu me aborreço e nunca faço nada.. ficarei livre. Por que não tentaria? E depois. Eu imagino. É então uma oportunidade que se me oferece. que se a registrar. Escrever as lembranças é um trabalho.de súbito e me agarra pela garganta. Diz-se que o trabalho torna o homem bom e honesto. enfim.

e conseguiram quebrar a metade dos brinquedos antes mesmo de saber a quem eram destinados.. decerto. muito sério. o qual ocupava quase a metade de toda a peça. para um baile infantil. Entretanto. se ocuparem de seus interesses materiais com ar inocente e surpreendido. com respeito. mais que todos. e lhe apresentavam. . ninguém lhe oferecia um charuto nem com ele entabulava conversação. vestido muito decentemente. e fui sentar-me sob o florido caramanchão da dona da casa. retirei-me a um pequeno salão. a um cantinho. que tomava parte na felicidade do dono da casa. sentia-se inclinada a pensar que primeiro vieram ao inundo as suíças e só depois o homem. Eis como o caso se passou. cessava de sorrir e franzia as sobrancelhas espessas e negras. o meu cavalheiro via-se obrigado. não se há de estranhar que o baile infantil servisse apenas de pretexto para os pais se reunirem e. Havia mais um cavalheiro que. e. Parecia que os amiguinhos a tinham ofendido. e alguém observou. mas que resolvera manter até o fim o papel do homem que se diverte e é feliz. por cortesia. deste modo. Eram as crianças incrivelmente gentis.porém ele as acariciava com tanto zelo que a gente. mas não. como eu. Os convidados apontavam. mal se retirava a um cantinho. e. totalmente vazio. vários convidados. Estava para o dono da casa como este para o cavalheiro que afagava as suíças. Além desse personagem. na véspera de Natal. não tinha. Eram. Há cerca de cinco anos fui convidado. Como houvesse chegado ali por acaso e não tivesse nenhum assunto comum com os outros. o dono e a dona da casa falavam-lhe com amabilidade extraordinária. recomendando-os. me lembrei da árvore. e o convidara. para ter que fazer das mãos. cismativa. assim. e. ao passo que a ele não o apresentavam a ninguém. porém. Era um homem alto. não con amore. Soube depois que era um provinciano vindo à capital a algum negócio importante e complicado. Nem sei como. no meio da multidão. a alisar a noite inteira as suas suíças. umas suíças realmente belas . menina de onze anos. e não queriam. não conhecia vivalma em todo o baile. Percebia-se à primeira vista que era ele o convidado de honra. do modo que acabo de relatar.Uma árvore de Natal e um casamento Um dia destes. e participava casualmente da felicidade familiar. amimavam-no. com grandes olhos sonhadores à flor do rosto. aliás. Trouxera carta de recomendação para o nosso hospedeiro.. enchiam-lhe o copo. pois veio ao salão onde eu estava sentado e. Não jogavam cartas com o provinciano. Ele deu-me na vista antes de todos. prefiro falar-vos de uma árvore de Natal. inserido entre elas. conhecidos no grupo. pálida. pai de cinco garotos bem nutridos. cheio de relações e maquinações. um amor de criança. ao fitá-lo. mas a árvore de Natal me agradou mais. outro conviva caíra no meu agrado. A pessoa que me convidou era um conhecido homem de negócios. passei a noite de maneira muito independente. magro. pai da menina. Achei o casamento bem bonito. Mas este era de aspecto completamente diverso. vi um casamento. Achei particularmente engraçado um menino de olhos pretos e cabelos frisados que à viva força me queria matar com a sua espingarda de pau. Via-se que ele se entediava horrivelmente. pôs-se a brincar com as suas bonecas. apesar de todas as exortações das mamães e das governantas. Num piscar de olho desmontaram toda a árvore de Natal. Afora o dono da casa. para o baile infantil. parecer-se com as pessoas grandes. talvez porque reconhecessem de longe o pássaro pela plumagem. Comecei a sentir-me acabrunhadíssimo em presença de semelhante figura. olhando para o casamento. atraía-me a atenção sua irmã. Era um personagem a quem os outros chamavam Julião Mastakovitch. para cofiá-las. Notei até uma lágrima nos olhos do hospedeiro quando Julião Mastakovitch observou que raras vezes passara o tempo de maneira tão agradável como naquela noite. um rico negociante. Notava-se que a felicidade da família não lhe comunicava a menor alegria. meiga. cortejavam-no. depois de haver admirado as crianças. que o protegia.

Acabou a meditação.. até dezesseis. o excedente gasta-se no enxoval. Mas naturalmente o malandro não os terá colocado a quatro por cento! Talvez receba oito ou até dez por cento. baixinho. e parecia calcular alguma coisa nas pontas dos dedos. .. Notara eu. Suponhamos que sejam quinhentos. quando de repente vi entrar no salão Julião Mastakovitch. súbito avistou a menina e estacou. e quase adormecera ao zunzum da conversa entre o ruivinho e a menina dos trezentos mil rublos de dote. sardento e ruivo. que o menino ruivo se deixava seduzir pelos brinquedos dos outros.. e as duas crianças entraram a enfeitar a suntuosa boneca. no mínimo.Trezentos. mas não se atrevia. e. só para que não o afastassem do teatro. que se entretinham a respeito da boneca.. . a cortejá-los. hum. magrinho.. pois. Pegou a sorrir para os outros. . de mãos cruzadas atrás das costas e inclinando a cabeça para um lado. na certa. já sabia e compreendia a sua situação.. .. poucos minutos após um rapazinho arrogante deu-lhe uma boa surra... sim. ganhou apenas um livrinho de contos sobre as maravilhas da natureza. O menino retirou-se para o salão onde estava a menina bonita. indo a sair do salão. que ele mantinha animada palestra com o pai da futura noiva rica. sessenta.. seja como for. Seria o cálculo que operava esse efeito sobre ele. quinhentos mil. Pouco depois. Filho da governanta dos meninos da casa. etc. Está certo. doze. Afinal. são doze. Fazia já meia hora que eu estava sentado no caramanchão de hera. Aproveitando a distração dos presentes com uma briga surgida entre as crianças... treze. que ela já tinha trezentos mil rublos reservados como dote. Voltei-me para ver quem se interessava por esses pormenores. estes sessenta. . o certo é que esfregava as mãos e não conseguia permanecer no mesmo lugar. deu a sua maçã a um pequeno gordo que já tinha o lenço cheio de presentes. de acordo com a diminuição da importância dos pais daquelas crianças felizes. Tive a impressão de que o homem se achava muito excitado. cinco vezes doze. metido num pobre paletozinho de nanquim. No entanto. Recebido o seu livrinho. . o ruivinho nem teve coragem de chorar. poucos minutos antes. Façamos de conta que sejam quatro por cento... Esta o deixou aproximar-se. uma pobre viúva. andou muito tempo à volta dos brinquedos dos outros. a governanta. ao cabo de cinco anos serão quatrocentos. Logo apareceu sua mãe..Onze. Desde então os presentes foram diminuindo de valor. Gosto muito de observar crianças. e até se ofereceu para carregar outro. São sobremodo curiosas as suas primeiras manifestações independentes na vida. Tinha uma vontade imensa de brincar com as outras crianças. parecia acompanhar com particular atenção o mexerico de alguns senhores. sem estampas e até sem vinhetas. Como eu estivesse assentado atrás dos vasos de flores. em que ele se empenhava para representar um papel qualquer. são cinco anos. tomado de hesitação. calculados por alto. Notei. a quem mal acabara de conhecer. não pude furtar-me a admirar a sabedoria dos anfitriões na distribuição dos brindes às crianças. assoou-se. claro.murmurava. saíra do salão principal sem fazer barulho..cochichando. A menina que já tinha seus trezentos mil rublos de dote ganhou uma boneca suntuosíssima.. Das lágrimas da sensibilidade. e o meu olhar caiu sobre Julião Mastakovitch o qual. explicando-lhe as vantagens de qualquer emprego público sobre os demais. bem. sobretudo pelo teatro. Parou à porta. e ordenou-lhe não se intrometesse nos brinquedos alheios. não me pôde ver. era um pequeno muitíssimo encolhido e tímido. ou outro motivo qualquer? Não sei. a última' um menino de dez anos. a ponto de aviltar-se. trezentos . .

deverias ir para o salão brincar com os teus camaradas.De trapos. abaixando ainda mais a cabeça. compadecido. Julião Mastakovitch quis beijar a pequena mais uma vez. Julião Mastalovitch olhou de novo em redor e aproximou-se outra vez da pequena: .respondeu a criança de cara fechada. .Porque você é uma criança boa e se comportou bem a semana toda. parou um instante e lançou um segundo olhar.Diga-me. mas o menino. gentil menina: você gostará de mim se eu fizer uma visita a seus pais? Havendo proferido tais palavras. não esperando a agressão. começou.. por que não vais para o salão? O menino fitava-o sem falar.Escuta.. de que é feita a bonequinha? . inclinou-se para ela e beijou-a na testa. puxou-a pela mão e.Com ele? . meu amigo. olhando em torno de si.disse Julião Mastakovitch encarando o menino com severidade.Não. As duas crianças franziram a testa e agarraram-se pela mão.disse Julião Mastakovitch fitando o menino de esguelha.Uma bonequinha. minha alma.Não sei. .Uma bonequinha .perguntou Julião Mastakovitch baixando cada vez mais a voz. Dessa vez Julião Mastakovitch aborreceu-se deveras. E logo acrescentou: . Mas tu. Com um sorrisinho nos lábios. Perturbado a mais não poder. a choramingar.. bela menina?. Não queriam separar-se.. ele próprio. formulada em tom impaciente e embargada pela emoção.. cabisbaixa. . saiu quase imperceptível: . muito resoluto.Que é que você tem aí bela menina? Uma bonequinha?. Julião Mastakovitch lançou mais uma vez um olhar em roda. Quis aproximar-se dela.Estamos brincando.Quando a sua agitação chegou ao cúmulo. .Sabe você por que lhe deram essa bonequinha? . meu filho. . Depois. . de olhos arregalados. . Mas você sabe.cochichou a pequena. .. como quem tem sentimentos criminosos. à futura noiva.. mas primeiro olhou em redor. vendo-a prestes a romper no choro.perguntou ele em voz baixa. e baixou a voz de modo que a sua pergunta. A menina. . E.Que é que você está fazendo aqui. . gentil menina. aproximou-se da criança nas pontas dos pés. deu-lhe uma palmadinha no rosto. gritou assustada.. .

Então o seu perseguidor. no mínimo.disse ao menino . seguro por uma das extremidades. já não sabia para onde correr: . de ciúme. Julião Mastakovitch ergueu no mesmo instante o corpo majestoso. recuando cada vez mais. como homem que conhece a vida e a considera pelo lado sério. O menino ruivo. . mirando-se ao espelho. Julião Mastakovitch virou-se e. Estava exasperado por um sentimento de indignação e. se for possível. assustou-se ainda mais do que ele. apareceu o dono da casa. o qual.em uma palavra.Você é que deve ir-se embora. Para não despertar suspeitas. perplexo. Este se encolhia caladinho. . Estava vermelho feito uma lagosta e. Nesse instante. na porta oposta.É este o menino . O dono da casa fitava-nos aos três. .prosseguiu o dono da casa em tom de solicitação -. brandindo-o. puxou do bolso o grande lenço de batista e. procurou enxotar o menino do seu esconderijo. levou ao nariz o lenço que tinha na mão. . Teria sido o cálculo feito na ponta dos dedos que o arrebatara a ponto de inspirar-lhe. porém. talvez arrependido da sua sofreguidão. parecia até envergonhado de si mesmo.disse quase soluçando.disse indicando o ruivinho . uma senhora pobre. devagarinho. Julião Mastakovitch. Não pude conter uma gargalhada. viúva de um funcionário honesto.Vai-te embora .respondeu Julião Mastakovitch. Julião Mastakovitch. que ainda não voltara inteiramente a si. a despeito de toda a sua importância. com um gesto rápido. enrubescia.. deixe-o . . mas. barrigudo. não . Cumpre observar que Julião Mastakovitch era um tanto gordo: rapaz bem nutrido. . . Acompanhei o respeitável cavalheiro a sala de jantar. redondo e forte como uma noz. . quem sabe. procura os teus camaradas! Espantado. sem se mexer.É? . Alguém fez barulho à porta. o pequeno recorreu a um expediente extremo: foi esconder-se debaixo da mesa. ficou mortalmente acanhado. no auge da excitação. corado. caminhou do salão à sala de jantar.. velhaco? Vieste roubar frutas. de pernas robustas.Sai daqui! Que diabo vens fazer aqui. Suava.. arfava terrivelmente. portanto. Deixe-o aqui. O ruivinho saiu logo do esconderijo e pôs-se a limpar os joelhos e os cotovelos. Rubro de raiva e despeito. e ali testemunhei um espetáculo curioso.protestou a menina. Julião Mastakovitch perseguia o menino ruivo.É filho da governanta de meus filhos .Não vá. patife! Vai. largou a mão da menina e. resolveu aproveitar a circunstância de encontrar-se quase a sós com o seu hóspede. .que tive a honra de lhe recomendar. um procedimento de criança? Aproximava-se de chofre do seu objetivo. como se costuma dizer. Julião Mastakovitch também passou à sala de jantar. apesar de toda a sua seriedade e gravidade. embora este não viesse a tornar-se um objetivo real antes de cinco anos. Assustado..Vai para a sala brincar com os teus camaradas. fedelho.. hem? Vieste? Fora daqui. roçando a parede.

. e ele aceitou o convite com entusiasmo. entrei na igreja abrindo caminho através da multidão. levantou-se um murmúrio de vozes anunciando a chegada da noiva.Não . que corria para todos os lados. Rodeado de mamães. gordo. . ouvi os demais convidados. bem nutrido. Filipe Alexeievitch. muito enfeitado. Por minha vez. cada um mais qualificado que este. Que é que tu queres aí? Vai brincar com os teus camaradas.Mas não é.É casado esse cavalheiro? . é um grandíssimo vadio. abanava a cabeça. Agora ele estava-se derramando em extáticos elogios à beleza.estourou Julião Mastakovitch. quando um grande ajuntamento me despertou a atenção.exclamou sem demora Julião Mastakovitch.Sai daí. o dono da casa alegrava-se com essas alegres efusões. e voltei ao salão. enfim. ouvindo as explicações de seu hospedeiro. se agitava sem parar.. comovida até o fundo da alma pedir a Julião Mastakovitch. e. . Era um rapaz baixo. Manifestamente engodava a mamãezinha. Saíram os dois da sala cochichando. e em voz bem alta perguntou ao dono da casa quem era aquele rapaz esquisito.. com expressões escolhidas. que o escutava quase com lágrimas de enlevo. olhou para mim de soslaio.É pena . começava a chuviscar. Logo avistei o noivo. Esta segurava pela mão a menina com quem. . modesto . meio desconfiado. Mas estava pálida e parecia triste a linda noiva. em louvores comovidos ao rico negociante. como o exigiam as conveniências. em frente à igreja de ***. com uma careta histérica. . . . Ele desviou de mim os olhos. O dia estava nublado. expandirem-se. há pouco tempo. profundamente penalizado com a leviandade que eu de propósito cometera. Os lábios do pai sorriam.. Vi que Julião Mastakovitch. Olhava distraída e tinha os olhos . . Pedi informações. de ventre ponderável. que lhe desse a subida honra de distinguir-lhe a casa com sua preciosa visita.Perdoe-me. dava ordens. Não conseguindo mais conter-se. o grande homem explicava alguma coisa com muito calor a uma senhora a quem acabavam de apresentá-lo. para quem a primavera apenas começava. Fendi a turba de curiosos e vi uma jovem de admirável beleza. Em redor falava-se de um casamento. Era uma atmosfera quase religiosa. já se tem dez candidatos. ouvi a mãe da interessante pequena. .. dez minutos antes. .perguntei em voz quase alta a um conhecido que estava mais perto dele. é totalmente impossível.. aos talentos. não pude deixar de lhe rir deliberadamente nas barbas.disse-me o meu conhecido. ainda que houvesse..É um menino bonzinho. disse ainda. Os próprios convidados tomavam parte no júbilo.. muitíssimo.Sinto muito. a sua mulher e a sua filha. de papais e dos donos da casa. .disse o dono da casa. Ri a bom rir com os meus botões. Logo depois. Passava eu. no momento da de despedida. menino. à graça e à boa educação da gentil menina. voltando-se para o ruivinho. Julião Mastakovitch representara a sua cena no pequeno salão. até os brinquedos das crianças foram suspensos para não se perturbar a conversa. Julião Mastakovitch enviou-me um olhar indagador e feroz.Pelo que vejo. No momento não há vaga. Enfim. e principalmente a Julião Mastakovitch.

. juvenil e ainda não formado.Então o cálculo era justo.vermelhos. A severidade clássica de suas feições emprestava-lhe à beleza uma expressão algo solene.. .. daquela gravidade. . de toda aquela tristeza. que parecia. Meu Deus! Fendi a multidão outra vez para sair da igreja o mais breve possível. Olhei para ela. transpareciam os traços de uma criança inocente. Ouvi observar que ela mal acabava de completar dezesseis anos. sem palavras.. que tinha quinhentos mil rublos de dote. implorar piedade.. Examinando atento o noivo. o que me deu impressão de lágrimas recentes. Ainda ouvi um espectador dizer que a noiva era rica. nele reconheci Julião Mastakovitch.E saí para a rua. Através daquela severidade. e não sei mais quanto para o enxoval. que eu não via desde cinco anos. disse comigo. algo de incrivelmente ingênuo.

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