O Protagonismo Juvenil no Ensino Superior na perspectiva da formação de cidadãos responsáveis pelo planeta.

Geni Maria Hoss Janeiro de 2009

Introdução: Aprender é mais do que adquirir conhecimento científico e técnico, muitas vezes sem nexo com a realidade de um planeta em extinção. A abordagem teórica de Edgar Morin, teoria da complexidade e ética, e de Edmund O'Sullivan sobre a aprendizagem transformadora apontam para um novo tempo na arte de ler a educação. O Protagonismo Juvenil foi abordado de uma forma mais intensa – tanto na teoria como na prática – pelo Educador Antônio C. Gomes da Costa e aplicável a todas as dimensões da Educação, Não há transformação sem educação. Este é o desafio da Universidade do século XXI: educar para uma transformação eficaz a fim de contribuir para a sobrevivência dos humanos e toda forma de vida do planeta. Para isto a Universidade deve dar conta de uma educação integral abrangente baseada em valores éticos e humanitários. Os métodos e conteúdos devem abrir-se para novas realidades, despertar para a formação continuada em todas as dimensões para garantir as conseqüentes ações efetivas em prol do planeta.
Ser cidadão significa estar na vida e no mundo, sentindo-se parte integrante do gênero humano, peça singular do quebra-cabeça da história, participante ativo do esforço de mudança de sua realidade social, deixando por onde passa sua marca. É mais que sobreviver, é mais que viver com prazer, é gozar a existência.1

A aprendizagem preconizada no Ensino Superior precisa levar a consequências concretas e imediatas em prol de um bem maior, o bem de toda a humanidade, isto é, o bem que constitui o ninho da sobrevivência de cada ser humana e todo o ser com vida. O artigo 205 da Constituição Federal (1988) apresenta como meta da educação "o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". A melhor forma de exercer a cidadania é ser significativo para a sociedade e o mundo, é, além de ser pessoa com direitos e
1

GOMES DA COSTA, Antônio Carlos, Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação democrática, Salvador: Fundação Odebrecht, 2000, p. 146.

1

exercer a profissão como meio digno de sustento e desenvolvimento pessoal, ser agente ativo na construção de um mundo melhor. A profissionalização não é um processo isolado do todo, isto é, da experiência que o ser humano faz como pessoa e do sentido que ele confere à vida em todas as suas dimensões e correlações.. A educação é tanto mais significativa quanto mais puder tornar-se um processo relevante para o projeto de vida do educando, tanto na identificação como na construção do mesmo. A educação no século XXI, reconhecendo a complexidade do ser-no-mundo e das implicações e interações de cada ser humano em relação a toda forma de vida e do meio, amplia sua esfera de abrangência e sua responsabilidade pelo planeta através da formação de agentes atuantes capazes de garantir a sua sustentabilidade. A participação e ação do educando em prol de uma sociedade mais justa e solidária, seu empenho por um planeta sustentável é de suma importância numa época em que se buscam soluções para salvar o planeta das diversas formas de degradação do mesmo.
Estou defendendo aqui a tese de que a tarefa educacional fundamental de nosso tempo é optar entre um habitat planetário e global sustentável, de seres vivos interdependentes, e o mercado global competitivo. [...] Estamos em outro ponto crítico de vastas proporções e precisamos de uma história cosmológica que tenha condições de carregar o peso da consciência planetária para o lugar para o qual estamos indo agora2.

Os desafios hoje decorrem muitas vezes do poder político e, sobretudo, econômico, fonte de inúmeras ações irresponsáveis que põe em risco a vida no planeta tanto na questão da degeneração do ecossistema como um todo bem como a sobrevivência humana em suas necessidades e direitos básicos, afetados diretamente pela má distribuição de alimentos e recursos financeiros, acesso limitado ao sistema de saúde e de educação. Aos universitários e jovens profissionais é confiada mais do que uma tarefa social imediata e bem delimitada. Trata-se de um grande compromisso em prol do planeta: A construção de um mundo novo – segundo conclusões do Fórum Social de Porto Alegre, em 2004 – é possível. É, sobretudo, deles que depende a
2

O'Sullivan, E. Aprendizagem Transformadora: Uma visão educacional para o século XXI. São Paulo: Cortez; São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2004, p.82.

2

construção de uma verdadeira democracia e a solução de problemas básicos e complexos de magnitude local e mundial. Para dar conta de tal tarefa-missão é necessária uma transformação significativa na educação formal e informal. As visões de mundo e sociedade e os valores vividos e defendidos determinam significativamente os conteúdos e metodologias de ensino. Na América Latina, e muitos outros países pobres ou emergentes, ficaram as sequelas de regimes totalitários e da determinação de poderes econômicos internos e externos (FMI), que restringiram o acesso à educação formal e pouco acrescentaram à educação informal. A alfabetização realizada neste contexto é extremamente deficiente, incapaz de promover protagonismo no sentido de uma educação ampla e coerente, pois não desenvolve a dimensão crítica e participativa dos cidadãos. A humanidade carece de uma alfabetização cidadã formadora de opinião e consequentemente de participação ativa nos destinos comuns do planeta. A Educação pós-moderna precisa libertar-se do "determinismo" que se fecha sobre os ditames dos interesses das grandes potências econômicas e políticas e do avanço das Ciências, que muitas vezes coloca o argumento científico como verdade última a qual não se pode mais questionar. Também a história interpretada como processo de desenvolvimento linear e evolutivo acomoda a sociedade mediante o desenrolar dos acontecimentos que mais parecem anestesiar qualquer tipo de reação que desperte ações capazes de mudar os rumos a seguir no intuito da construção de um mundo sustentável. “A consciência de nossa humanidade nesta era planetária deveria conduzirnos à comiseração recíproca, de indivíduo para indivíduo, de todos para todos. A educação do futuro deverá ensinar a ética da compreensão planetária”.3 A pós-modernidade requer uma educação reflexiva/interativa, orgânica, biocêntrica, criativa, emergente; uma educação com consciência planetária, que suscita ações fundamentadas na ética planetária capaz de promover sustentabilidade da vida em todas as dimensões. O ser humano é, por isso mesmo, parte integrante e co-responsável de um grande cosmos, co-criador de um mundo novo possível de ser habitado.

3

MORIN, E., 2004, p. 78

3

Segundo Edmund O'Sullivan4,a cultura Ocidental tem devotado grande importância ao progresso, crescimento e desenvolvimento, globalização, competição, consumismo. Neste contexto, a Educação deve aguçar ainda mais seu sentido crítico e de ação perante privilégios e marginalidade; maioria e minoria; centro e periferia. Uma forma de educar para uma transformação eficaz e consistente é o desenvolvimento do Protagonismo Juvenil tanto na Educação formal como informal. Estas, consideradas como complementares e não antagônicas podem resultar numa educação ampla e continuada, inseridas nos diferentes segmentos da sociedade, tendo seu ponto de partida nos saberes adquiridos no Ensino Superior. Os projetos de Protagonismo Juvenil visam desenvolver e fomentar as competências necessárias para formar o jovem autônomo, solidário e competente: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a aprender. Com esta proposta da ONU no limiar do novo milênio, pretende-se levar a educação para o campo da experiência, transcender qualquer tipo de limite físico e de idade e promover uma educação continuada. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) vem promovendo e difundindo esta concepção da ONU desde 1990. Alguns pontos básicos devem ser considerados tais como: O desenvolvimento humano tem seu fundamento no direito universal à vida; o potencial humano necessita de condições para se desenvolver; é preciso uma ética que garanta desenvolvimento às futuras gerações. O Protagonismo Juvenil responde e corresponde a estes novos paradigmas da educação. Ele torna o jovem ator principal de projetos de transformação e como tal ele se envolve nas ações desde a identificação do problema até a execução e avaliação das mesmas. O projeto é a resposta do jovem na sua visão específica para um desafio por ele próprio levantado. Ele deflagra ao mesmo tempo, quando inteiramente abraçado pelo educando, um processo de aquisição de saberes integrados, ancorado em valores humanitários éticos globais “O objetivo é que os jovens possam ir construindo sua autonomia através da prática, da situação real, corpo-a-corpo com a realidade, a partir da participação ativa, crítica e democrática em seu entorno social.”5
4

O'Sullivan, E. Aprendizagem Transformadora: Uma visão educacional para o século XXI. São Paulo: Cortez; São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2004, p.80-83.

4

A sociedade do século XXI necessita de democracias construídas a partir de cidadãos conscientes de suas responsabilidades em relação ao micro e macrocosmo. Neste novo contexto, o educador precisa questionar sua própria posição: Qual é a sua função nesta nova concepção de educação? Qual é o seu papel a partir de um Programa de Aprendizagem específico para um leque mais amplo de aquisição de saberes e experiências humanitárias e solidárias de dimensão planetária? Ele passa a ocupar um espaço vital conquanto facilitador do processo de uma reflexão mais profunda por parte do educando, dialogar com ele, questionar conceitos, paradigmas e procedimentos a fim de que este busque soluções acertadas e viáveis para o público alvo em questão e seu contexto.
O desafio educacional é saber como atingir um nível de conscientização em relação a esses problemas e mantê-lo em primeiro plano em nossa percepção cultural. Esse é um empreendimento difícil, porque somos continuamente bombardeados por informações que não contribuem para uma consciência apaziguada. Também temos de reconhecer que não fomos educados para uma educação planetária (O'Sullivan, E. 1999, p.48)

Trata-se de um processo de construção de co-responsabilidade, o que exige do docente um empenho ainda maior, pois quem dita os rumos e o ritmo é o jovem, cheio de vitalidade e de criatividade.
O protagonismo juvenil é uma forma de atuação com os jovens, a partir do que eles sentem e percebem da sua realidade. Não se trata de uma atuação para os jovens, muito menos de uma atuação sobre os jovens. Portanto, trata-se de uma postura visceralmente contrária a qualquer tipo de paternalismo, assistencialismo ou manipulação.6

O saber técnico-científico, especialmente na esfera do Ensino Superior, também ganha novo sentido quando é colocado a serviço da promoção do ser humano integral. O Protagonismo Juvenil no mundo universitário é um processo de aprendizado multidisciplinar, transdisciplinar, simultaneamente personalizado e grupal, com visão planetária, capaz de responder não somente a situações pontuais diretamente relacionadas à sua formação profissional e, por vezes, dissociadas das
5

GOMES DA COSTA, Antônio Carlos, Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação democrática, Salvador: Fundação Odebrecht, 2000, p. 23. 6 GOMES DA COSTA, Antônio Carlos, Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação democrática, Salvador: Fundação Odebrecht, 2000, p. 23.

5

demais realidades do planeta Terra. Vencido o patriotismo ditatorial, é preciso desenvolver uma visão da Terra como a Pátria-Mãe, que permite ao ser humano viver e sobreviver com qualidade, se este tiver um sentido de responsabilidade para hoje e também em relação às gerações futuras.
Considerando todas as outras espécies dessa Terra, é essencial compreender que a comunidade humana desempenha, sem sombra de dúvida, um papel crucial tanto para a nossa própria sobrevivência quanto para a sobrevivência e integridade da comunidade terrestre como um todo. (O'Sullivan, E. 1999, p.49)

A educação do século XXI requer uma Universidade que forme cientistas e especialistas que sejam também protagonistas, agentes de transformação capazes de envolver-se em projetos e que efetivamente tomem posição frente a questões urgentes para salvaguardar a sustentabilidade de vida no e do planeta.

6

Referências bibliográficas consultadas DEMO, Pedro, Éticas Multiculturais, sobre convivência humana possível. Petrópolis: Vozes, 2005. GOMES DA COSTA, Antônio Carlos, Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação democrática, Salvador: Fundação Odebrecht, 2000. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APÇIACADA – IPEA: Relatório sobre desenvolvimento humano no Brasil, Reio de Janeiro; IPEA/Brasília: PNUD. 1996. MORIN, Edgar, Cabeça bem Feita: Repensar a Reforma, Reformar o pensamento, Bertrand do Brasil, ---------------- Educar na era planetária: O Pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana, São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2003. ---------------- Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2000. --------------- O método 6 – ética, Porto Alegre: Sulina, 2005. O'Sullivan, E. Aprendizagem Transformadora: Uma visão educacional para o século XXI. São Paulo: Cortez; São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2004. Referências bibliográficas a consultar, além das acima já citadas ARAÚJO, W. Nova ordem mundial : novos paradigmas : pela unidade da humanidade. Brasília: Planeta Paz, 1994. BOFF, L., Saber cuidar : ética do humano, compaixão pela terra. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2000. --------------- Ethos mundial : um consenso mínimo entre os humanos. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. BRANDÃO, Z. A crise dos paradigmas e a educação. São Paulo: Cortez, 1994-2000. GOMES DA COSTA, Antônio Carlos, C., Tempo de servir : o protagonismo juvenil passo a passo : um guia para o educador. Belo Horizonte: Ed. Universidade, 2001. DEMO, P., Complexidade e aprendizagem : a dinâmica não linear do conhecimento. São Paulo: Atlas, 2002. -------------- Conhecer & aprender : sabedoria dos limites e desafios. Porto Alegre: ArTmed, 2000. --------------- Conhecimento moderno: sobre ética e intervenção do conhecimento. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2001. Desafios modernos da educação. Petrópolis: Vozes, 1993. DEMO, P. ; Instituto Paulo Freire. Saber pensar. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001 7

DOMINGUES, I., Conhecimento e transdisciplinaridade. Universidade Federal de Minas Gerais, 2001,

Belo

Horizonte:

KÜNG, H., Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevidência humana. São Paulo: Paulinas, 1992. MARIA, J. P. Novos paradigmas pedagógicos para uma filosofia da educação. São Paulo: Paulus, 1996. MORIN, E.. As grandes questões do nosso tempo. 4 ed. Lisboa: Notícias, [19--]. --------------- O paradigma perdido : a natureza humana. 5 ed. Portugal: Europa América, 1973. ------------- Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. -------------- O Desafio do Século XXI: Religar os Conhecimentos, Lisboa: Instituto Piaget, 1999. ------------ O Método 6 – Ética, 2. ed., Porto Alegre: Sulina, 2005. SÁ-CHAVES, I. A construção de conhecimento pela análise reflexiva da praxis. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. SILVA, L.; POLENZ, T. Educação e contemporaneidade : mudança de paradigmas na ação formadora da universidade. Canoas, RS: Ed. da ULBRA, 2002.

8

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful