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Livro.A Inquisição em seu mundo - João Bernardino Gonzaga

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Joao Bernardino Gonzaga

,

NOSSA SENHORA DA

Luz DOS PINHAIS

João Bernardino Gonzaga

Tendo-se iniciado no século XIII e vigorado até o século XIX, a Inquisição continua sendo um dos temas móis polêmicos da História da Humanidade. Definida como semeadora do terror e embrutecedora dos espíritos, seus procedimentos processuais e penais são atualmente considerados violentos, reprováveis, intolerantes, prepotentes e cruéis. Se, porém, lembrarmos que um dos princípios básicos da historiografia é que a análise de qualquer fato histórico deve ser feita dentro do contexto em que se desenvolveu, observaremos haver incongruência nas censuras apresentadas contra a Inquisição: seus críticos insistem em transportá-la em bloco para . o nosso tempo como um acontecimento isolado e, desse modo, a julgam dentro de padrões contemporâneos, radicalmente diferentes do universo em que ela atuou. Ora, o San-

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1993 Fla gArlaA I VA l .Joao Bernardino Gonzaga r Jruluisie d o lent Seu Mundo edição -.

93-2169 indices para catálogo sistemático: 1. Titulo. Inquisição : Perseguições religiosas CDD-272. Bibliografia. minha filha. — 4. João Bernardino Garcia Gonzaga Todos os direitos reservados Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Camara Brasileira do Livro. dádivas muito queridas. Brasil) Gonzaga. ISBN 85-02-01267-3 1. 1697 — CEP 01139-904 — Berra Funda — Tel. minha esposa. João Bernardino Garcia A Inquisição em seu mundo / João Bernardino Garcia Gonzaga. ed.I. — São Paulo : Saraiva. Inquisição . SP. e d Maria Elisa. 1993.: PABX (0111 828-8422 Caixa Postal 2382 — Telex 1126789 — FAX (011) 826-0606 — FAX Vendas: (011)825-3144 — Sio Paulo-SP Distribuidores Reg ionais Aracaju: (079) 211-4092 Baum:(0142) 34-5643 Belem: (0911 222-9034 / 224-4817 Belo Horizonte: (031(461-9962 / 461-9995 Blumenau: (0473) 22-4558 Brasilia: 10611 226-3722 / 223-0783 Campo Grande: (0671 382-3682 Cuiabi: 1085) 321-6073 Curitiba: (0411 234:2622 1225-4484 2622 Floriantopolis: 10482) 22-9425 Fortaleza: 1085) 231-3820 / 231. Marquis de Sio Vicente.ISBN 85-02-01267-3 Copyright © 1993.7881 Goiania: (062) 225-2882 / 212-2806 Joinv ille : (04741 22-8777 londrina: 10432) 39-1555 Mauió: (082) 221-9559 Manaus: 1092) 234-4864 Maringá: (0442) 24-4485 / 22-6911 Natal: 10841 222-5521 Porto Ale gra: 10511 343-1487 Porto V•Nto: (069) 221-6063 Recife: 1081) 421-4246 / 421-2474 Róelio Pieto:10161834-0546 / 836-9677 Rio Branco: 1088) 224-3432 Rio de Janeiro: (021) 201-7149 Salvador: 1071) 233-5854 / 255-0959 Sao Joint do Rio Preto: 10172) 27-3819 no Luis: 10981 222-5863 / 222-5836 Teresina: 10881 223-0474 Ubedfadla: 10341 238-4107 Vile Volta: (0271 2294835 Vittoria: 1027) 227-6933 / 222-1044 editora . QN SARAIVA Av.2 272.2 À Maura Helena. dedico este trabalho.

61. 34. 53. 27. EXPLICAÇÕES PARA O RIGOR JUDICIAL 1. 35. 47 III. Princípio da personalidade da responsabilidade criminal. 2. 55. 31. Penas privativas de direitos. 4. 25.ÍNDICE APRESENTAÇÃO INTRODUÇÃO 11 17 21 I. Justiça Eclesiástica. 56. 36. 6. 40. 40. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 1. 5. 5. As cidades e as moradias. 12. 13. 6. 64. Sistema das provas legais. peste. Princípio da proporcionalidade entre o crime e a pena. Penas patrimoniais. 4. 24. 37. 45. Penas corporais. 29. guerra. . 22. 37 II. Princípio da legalidade dos delitos e das penas. 48. Absolutismo do poder real. 8. Finalidades das penas. Inexistência do princípio de igualdade. 21. Penas restritivas da liberdade. 3. 7. CONDIÇÕES DE VIDA DO POVO 1. 47. 51. Necessidade aqui do seu exame. Geral aceitação do rigor. 48. 11. 3. Justiça feudal. 52. 9. Os ciganos. MEDIDAS PUNITIVAS DO DIREITO COMUM 1. Penas privativas da liberdade. A PRESENÇA E O PROBLEMA DA RELIGIÃO 59 1. Religiosidade popular. Prisão processual. A proliferação de crimes. As navegações marítimas. 49. 26. Reaparecimento do Direito romano e sistema processual inquisitório. A Medicina. Presença da morte. 10. 2. Insensibilidade. Fome. V. 56. 2. 3. 2. 4. 3. 6. 4. 38. Cerceamento da defesa. Lutas religiosas. Dificuldades para a sua apuração. 3. 5. 26. 51 IV. 40. Reforma humanizadora. 28. 2. Tortura. 59.

EPÍLOGO OBRAS CONSULTADAS 238 240 85 VIII. 119. 6. 116. 4. Idade Moderna. Itália. Idem. Magia e bruxaria. Cerceamento à defesa. 3. Inquisição medieval. 71. 176. 185. 2. 202. Outros países. 136. 4. Pena de morte. Alemanha. 142. 109. 0 processo dos templários. 3. 2. XVII. 122. 7. 75. 97. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL 119 1. 68. 131. Presença da religião na Reconquista. 80. 5. 4. 5. 171. Pena apaziguadora da ira divina. 129. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA. MAGIA E BRUXARIA 159 1. 152. Reações da Igreja. 147. Nascimento da moderna Inquisição espanhola. Correntes liberais. 136. 141. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO 1. 90. Cerceamento à liberdade religiosa. DIREITO PENAL E RELIGIÃO 1. 4. Heresias no império romano. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 222 1. 2. Regras processuais e medidas repressivas. 5. 0 pensamento de Santo Agostinho. Princípio da unidade religiosa. 3. Classificações dos hereges. 3. 189. 4. 5. 85. 77. 11. XI. Período medieval. 85. A INQUISIÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES. Torquemada. 106. As cruzadas. Nascimento da Inquisição. Oscilações no relacionamento com o Estado. 4. 161. 6. 71. Interesse que o tema desperta. XIII. 148. 233. 100. Estabelecimento da Inquisição. A INQUISIÇÃO NA ITALIA E NA FRANÇA 142 1. Direito Penal Canônico. Fatores econômicos. 237. 3. 8. 9. 186. 161. Interrogatório dos acusados e tortura. 227. 69. 4. 112. 2. Formação do Direito Canônico. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 1. A Reconquista. 3. 116. Freqüentes mitigações. 124. Fatores sociais. 80. 159.E 5. 87. 212. 5. 183. 230. Fundamentos religiosos. Restrições impostas. Judeus italianos. 208. 236. XVI. O mutável campo do Direito Penal. Modelos do Direito laico. 87. 172. Regras processuais de Direito comum e de Direito Canônico. Confluéncia de jurisdições. Início da atividade inquisitorial. Os trabalhos inquisitoriais. 81. 5. 7. 170. . 79. 95. DIREITO PENAL CANÔNICO 1. A Reforma protestante. NOVOS PROBLEMAS 207 1. 74. na Idade Média. Magia e bruxaria. os judeus. 212. Anseios de liberdade. Mouros e mouriscos. 8. Regras processuais. 5. Fé da Igreja em sua missão. 66. 4. 5. 92 IX. 92. 173. 3 Misticismo. XVII. Unificação nacional. 180. 156. 2. "0 inferno da Idade Média". 3. 65. 0 problema dos infiéis. Organização do tribunal e atos processuais. Princípio político nacionalista. 3. 6. XIV. 131 XII. 82. 209. ANTECEDENTES E NASCIMENTO DA INQUISIÇÃO 1. 4. Observações complementares. 79 VII. • 100 X. 6. 120. 207. 2. 4. 204. 223. Joana D'Arc. 133. Erasmo de Rotterdam. 4. O MISTÉRIO JUDEU 1. 107. 2. 2. 3. França. 0 "povo eleito" e a diáspora. 221. 7. Período Pombalino. Judeus e marranos. Sistema teocrático puro. 7. 10. Estreitos vínculos com a religião. 5. Crescimento da censura. 222. Adoção da tortura. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA. 155. 80. Finalidades das penas seculares e canônicas. 8. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 170 1. 197. 128. 70. 2. Perspectiva jurídico-penal do problema. Invasão muçulmana. 2. Crimes religiosos. 93. 174. 6. 5. Caminho do ocaso.JOÃO BERNARDINO GONZAGA INDICE 9 65 VI. Medid as patrimonais. Acusações à Inquisição. Sanções impostas pela Igreja. Generalizada malquerença popular. Ainda e sempre. 219. XV. 2. 3. 103. Triunfo do liberalismo e extinção do Santo Ofício. 6. 6. 3. 215. 77. 6. 2. As crenças heréticas. Difícil posição da Igreja. 2. 3. 7. 4. Responsabilidade coletiva. 7. A crise franciscana. 6. PRIMEIROS MOVIMENTOS 183 1. Perseguições em Roma.

O Prof. cada ser humano é filho do seu tempo e. No livro agora entregue ao público. para estes. típicas da Idade Média. porém. que bem distingue a mentalidade moderna da medieval. Dr. deparou com o fenômeno "Inquisição". Gonzaga realizou a sua tarefa com especial conhecimento de causa. João Bernardino Gonzaga. profundamente marcado pela cultura do seu século. Em seus estudos. mas que não impressionavam os homens de outrora. famigerada como é. pois. Os medievais eram mais dados ao rigor da Lógica e às verdades metafísicas do que d ternura dos sentimentos. o raciocínio abstrato e rígido neles prevalecia sobre o senso psicológico (ainda não conheciam a moderna psicologia das profundidades!)'. ele dedicou não menos do que os oito primeiros capítulos d recomposição das condições de vida do povo na Idade Média e d descrição das medidas punitivas da época.APRESENTAÇÃO Eis mais um livro sobre o candente tema da Inquisição. pois estudou os procedimentos penais da justiça medieval e pós-medieval. sio construções arquitetônicas movidas pelo raciocínio e seus silogismos rigorosamente concatenados. atravessou o período do Renascimento e prolongou-se pela Idade Moderna. o rigor judiciário era um elemento de sua cultura. comentado geralmente com anátemas e censuras passionais? A fim de compreender os acontecimentos. Prof. que talvez surpreendam o leitor contemporâneo. é advogado famoso e docente de Direito Penal há muitos anos. por isto. desde o século XII até o século XIX. O autor. João B. que é obra um tanto diferente das congêneres. na Idade Média Ascendente. . Ele o fez com minúcias muito vivas e coloridas. Pode-se dizer. começou. Como entender tal fenômeno. mereceu-lhe especial atenção. Em nossos dias verifica-se quase o contrário: muito (1) Tenham-se em vista as grandes Sumas. Certo é que se estendeu por centúrias. esta. ou seja. o autor quis recorrer a um autêntico princípio de historiografia: não se podem compreender os antepassados e seus feitos com objetividade e justiça se não se reconstituem as grandes linhas de pensamento da respectiva época. E por quê? Como? Aqui se acha algo de importante.

A 14/05 a mesma concessão era feita a Armand . mas que lhe foi prorrogada até o dia 27. com a condição de que voltasse oito dias após obter a cura. tido como um dos mais severos inquisidores: "O inquisidor deve ser diligente e fervoroso no seu zelo pela verdade religiosa. Raimundo Volguier de Villar-en-Vai obteve uma licença que expirava no dia 20/05/1251. Deve ser insensível aos rogos e às propostas daqueles que o querem aliciar. durante sete semanas. nunca cederá à cólera nem à indignação. a bom direito. por vezes com detrimento de princípios perenes. Douis 232s). também não rejeite obstinadamente a opinião contrária. não dê fácil crédito ao que parece provável. a fim de que suas decisões jamais possam parecer ditadas pela cupidez e a crueldade" (Prática VI. recebeu em troca outra pena: pagaria 50 soldos de multa. Às vezes os problemas de família levavam os Inquisidores a comutar a pena de prisão por outra que permitisse atendimento à família.. A 13/03/1253 Bernard Borrei foi posto em liberdade propter infirmitatem. Até mesmo os mais severos praticavam tal gesto. é de notar que muitos dos réus sentenciados podiam gozar de indulto. todavia não precipite as situações por causa da audácia irrefletida. os falsificadores de moedas e outros malfeitores são. e a 15/08 a Arnaud Miraud de Caunes. encarcerada. o Bispo deu a uma mulher chamada Alazais Sicrela permissão para sair do cárcere e ir aonde quisesse até a festa de Todos os Santos (1° de novembro). P. que. ou seja. Isto não quer dizer que os medievais. sabe-se. Brice de Montreal obteve a troca da prisão por uma peregrinação à Terra Santa. e às vezes no mesmo dia. em Carcassonne (França). de Conques. Se. e muitas vezes não é verdade. o filho poderia ficar junto do pai enquanto este vivesse. mas também em toda justiça ser condenados à morte ' (Suma Teológica II-Il. Podiam também usufruir de licença para sair do cárcere e ir tirar férias em casa. Outro caso é o de Pagane. seja circunspecto. Licença semelhante foi dada por cinco semanas a um certo Guilherme Sabatier. São conheci- . pois. Os prisioneiros tinham o direito de se afastar do cárcere para tratamento de saúde por quanto tempo fosse necessário. Tão grande era o amor à fé (esteio da vida espiritual) que se considerava a deturpação da fé pela heresia como um dos maiores crimes que o homem pudesse cometer 2 . que é o meio de prover à vida temporal. foi autorizada a permanecer fora do cárcere quousque convaluerit de aegritudine sua (até que ficasse boa da sua doença). fossem insensíveis ou bárbaros. que devem residir no coração de um juiz. Bernard Raymond. do que falsificar a moeda. mas de uma rotina bem definida. 11. chamado Bernard Sabatier. pois não podia viajar propter senectutem (por causa da idade anciã). freqüentemente acaba por ser comprovado como verdade. com muito mais razão os hereges. na ocasião de Pentecostes (9/05/1251).12 JOÃO BERNARDINO GONZAGA APRESENTAÇÃO 13 se apela para a psicologia e o sentimento. Dentro da sua fidelidade à verdade e das suas categorias culturais. Aos 09/08 seguintes. filha de Adalbert de Couffoulens. São numerosos os casos de que se tem notícia: assim. brilhem nos seus olhos. na própria sentença condenatória. pois o que parece improvável. aos 16/04/1250. devendo voltar ao cárcere quinze dias após a cura. por exemplo. A repetição de tais casos a intervalos breves. Também havia autorização aos presos para ir cuidar de seus familiares em casa. Um dos textos mais típicos a propósito é o retrato do Inquisidor traçado por Bernardo de Gui (século XIV). mostra que não se tratava de exceções.. O amor da verdade e a piedade. ' 13 de setembro de 1250. Aos 27/06/1256 um réu que devia peregrinar d Terra Santa. a mesma permissão era dada a Bernard Mourgues de Villarzel-en-Razès. De modo especial. A 17/08 seguintes. o pai do réu sendo um bom católico. Nos casos duvidosos. Acontece também que as penas infligidas aos réus eram abrandadas ou mesmo supressas: a 3/09/1252. Raine. procuravam cultivar a justiça e a benevolência. Em meio às dificuldades permanecerá calmo. Além disto. obteve a autorização para deixar a sua cela propter infirmitatem. ancião e doente.runet de Couffoulens. podem não somente ser excomungados. aos (2) E esta concepção que explica o seguinte texto de São Tomás de Aquino: "E muito mais grave corromper a fé. a fim de lhe dispensar tratamento. desde que sejam comprovados tais. por exemplo. obteve licença para férias de 15/06 a 15/08 de 1251. essa fé era tão viva e espontânea que dificilmente se admitia viesse alguém a negar com boas intenções um só dos a rt igos do Credo. viúva de Pons Arnaud de Preixan. 3c). estes cedem não raro a critérios subjetivos e relativistas. de Capendu. enfrentar o perigo até a morte. que é a vida da alma. Deve ser intrépido. que o rigoroso juiz Bernard de Caux em 1246 condenou à prisão perpétua um herege relapso. o senso metafísico dos medievais se revelava na valorização da alma e dos bens espirituais.. condenados à morte pelos príncipes seculares. pela salvação das almas e pela extirpação das heresias.. observava que. mas também não deve endurecer o seu coração a ponto de recusar adiamentos e abrandamentos das penas conforme as circunstâncias. que os dispensava total ou parcialmente da sua pena.

na Antiguidade e na Idade Média. Em 1298 o mesmo Papa mandou restituir aos filhos de um herege os bens confiscados pela Inquisição. a revolta da opinião pública: os habitantes de Carcassonne. Intimou também aos Inquisidor da província de Roma. aos 29/03/1295. de tal modo que não podiam tolerar outra instância judiciária autônoma (a eclesiástica) ao lado da instância judiciária civil. O Prof. já não se dizia Inquisição Eclesiástica. seja citado üm exemplo entre vários outros: Em 1305 o Inquisidor de Carcassonne provocou. observar que os Papas e os Bispos. abrindo janelas para a penetração de luz e ar. designaram outros guardas. mas sim Inquisição Régia. O mesmo Bernardo de Gui reabilitou um condenado para que pudesse exercer funções públicas. tido como um Papa austero. que mais de uma vez se recusou a reconhecer o procedimento da Inquisição na peninsula ibérica. Aliás. a repressão das heresias (especialmente dos cátaros. quanto mais a história avançava. estes foram logo substituídos por outros mais humanitários. sempre teve a participação (e participação de vulto crescente) do poder régio. aos 13/02/1297 anulou a condenação. a um filho de condenado que cumprira pena. três meses após assumir o pontificado. pelo seu zelo cristão e patriótico. Quanto mais o tempo passava. esta deveria mais e mais valer-se dos tribunais eclesiásticos para implantar os interesses dos monarcas. desejoso de possuir os bens da Ordem dos Templários. que aos 13/03/1306 nomeou os Cardeais Pierre Taillefer de la Chapelle e Béranger Frédol para fazer um inquérito do que ocorria na região. a jovem guerreira que incomodava a Coroa da Inglaterra . por seus rigores. provocando sérios conflitos com a Santa Sé. judeus e muçulmanos.14 JOÃO BERNARDINO GONZAGA APRESENTAÇÃO 15 dos também os casos de indulto total: o Inquisidor Bernardo de Gui. composta de cristãos. os guardas receberam a ordem de entregar aos prisioneiros tudo o que fosse enviado pelo rei ou por seus amigos para a sua manutenção. assuntos de interesse do Estado. que muitas vezes abusou da sua autoridade. de Rainero Gatti de Viterbo e seus dois filhos. Dois casos significativos a tal propósito foram: 1) em 1312 a condenação dos Templários. Os dois Cardeais visitaram outrossim os cárceres de Albi aos 4/05/1306. em seu Manual. na Toscana. porém. A estes fatos outros se poderiam acrescentar. servindo-se da religião para fins politicos. sempre que informados. mandou rever vários processos de condenação de hereges. Deve-se. mediante homens por eles nomeados. reconheceu o direito de ocupar o consulado e exercer funções públicas. aliás. Sabe-se também que o Papa Hon6rio IV (1285-87) aboliu. registraram-se também abusos de autoridade por parte de Inquisidores. levou os reis daqueles dois países a pedir e obter do Papa a instalação da Inquisição em seus territórios. mandaram retirar as correntes que prendiam os encarcerados. enquanto este se processava e as prisões eram inspecionadas. As suas queixas foram acolhidas pelo Papa Clemente V. Bonifácio VIII. João Bernardino deu provas de sincero amor à verdade procurando retratar imparcialmente os traços característicos da . tanto mais absolutistas se tornavam os reis do Ocidente europeu. encontraram ai quarenta prisioneiros que se queixavam dos carcereiros. mandou revisar o processo do franciscano Paganus de Pietrasanta. apresenta a fórmula que se aplicava para agraciar plenamente o réu. por heresia. Um juizo justo sobre o passado exige que se apontem também os elementos atenuantes e as justificativas daqueles que foram responsáveis pelos processos da Inquisição.a começou com Felipe IV o Belo da França e atingiu o seu auge na Espanha e em Portugal a partir do século XVI: o desejo de unificar a população da peninsula ibérica. pois os assuntos religiosos eram. estava suspensa toda perquisição de hereges. que pilhavam e saqueavam as fazendas) era praticada também pelo braço secular. Assim. no final da vigência desta instituição. Albi e Cordes (França) dirigiram-se à Santa Sé. A prepotênc. as terríveis Constituições que o Imperador Frederico II havia editado contra as heresias. 2) em 1431 a condenação de Joana d'Arc. os soberanos acionavam a Inquisição segundo os seus propósitos. Os dois prelados iniciaram a visita aos cárceres de Carcassonne nos últimos dias de abril. quando condenada e abolida. com efeito. mandaram melhorar as condições sanitárias das prisões. mais o poder régio se ingeria no tribunal da Inquisição. aos detidos foram assinaladas celas recém-reformadas e foi permitido passear per carrerias muri largi ou em espaço mais amplo. que deixasse de perseguir um cidadão de Orvieto já absolvido por dois Inquisiddres. infligiram censuras aos oficiais imoderados. Não há dúvida. Adão de Coma. contra os quais o rei Felipe IV o Belo da França (1285-1314) moveu a Inquisição. porque fora proferida na base de um testemunho manchado por perjúrio. Este fato nos leva a considerar outro aspecto do fenômeno `Inquisição ": A Inquisição nunca foi um tribunal meramente eclesiástico.

devassou o íntimo das pessoas e transformou em crime. era um clero depravado. Nascida oficialmente no começo do século XIII e durando até o século XIX. de modo implacável. impediu o livre debate e o livre arbítrio. as mesmas críticas. o Santo Ofício via tudo. e. para impor aos povos uma ordem. Estas são verossímeis. qual perpétuo ritornello a girar com as mesmas frases. Rememoremos o quadro estereotipado que os opositores descrevem.16 JOÃO BERNARDINO GONZAGA INTRODUÇÃO Inquisição. a semear o terror e a embrutecer os espíritos. ignorante e corrupto. Ao mesmo tempo. Abolido ficou o sadio direito. à força de repetidas. Estêvão Tavares Bettencourt O. manteve perfeito controle social. ela aparece sempre. a sua ordem. em busca apenas do poder político e da riqueza material. porque fundadas em fatos históricos objetivos. dessa maneira montando densa rede de informantes ocultos. a Igreja submeteu os povos sob seu domínio a verdadeira camisa de força. adquirem aparência de incontestável verdade. nos bastidores. As censuras.a pedagogia do medo. Quis oferecer ao grande público os elementos indispensáveis para uma avaliação justa e objetiva dos fatos históricos. exigiu modelos de comportamentos. Possam os leitores desta obra beneficiar-se das coordenadas que o autor lhes apresenta na base de muita leitura e pesquisa! E possa o próprio mestre regozijar-se por ter elaborado uma obra valiosa e original sobre tema tão complexo! Pe. Graças a isso.S. Servindo-se da Inquisição. nem sequer hesitações. que cada ser humano deve possuir. Adotando como método de tra balho. sempre montando quadros muito co- . que não admitia divergências. a Inquisição dedicou-se. Inútil tentar alguém escapar-lhe. Nos ataques dirigidos à Igreja Católica. Prosseguem os adversários. exerceu a censura e assim eis a absurda conclusão que nos impingem — a Igreja teria conseguido entravar por longo tempo o desenvolvimento cultural da humanidade. sufocou dissidências. se infiltrava por toda parte. as mesmas imagens. são de duas ordens: policiamento ideológico e crueidade. até no recesso dos lares. dizem eles.B. o simples ato de pensar em desacordo com ela. pretende-se que o que havia por detrás dela. oferecidas com requintes de exagero. onde as paredes tinham ouvidos. reinou. colhidos na vida real. Dotado de natureza tentacular. de fazer suas opções. A Inquisição é tema que não morre. Obrigava os fiéis a se tornarem espiões e ' delatores. passível de fogueira.

está-se confun- . exigiam-lhe se confessasse culpado e admitisse que. Ai precisamente. que a presenciaram com naturalidade. tanta gente boa enfim. Desse modo. e Gli Orrori della Inquisizione. a fim de julgá-la dentro da atmosfera. foram violentos. Tudo isso se passava à sombra. Para extorquir-lhe o reconhecimento do seu crime (o crime de ter pensamentos próprios!). Decidimo-nos por fim a enfrentar o desafio quando deparamos com esta contundente observação de André Frossard. Como a explicaremos pois? Parece-nos muito intrigante o seguinte: os tribunais de fé. Tão cerrada e tenaz campanha montada sobre esse espectro de violências acaba in fluenciando até mesmo estudiosos católicos do mais alto tomo. nos porões das masmorras inquisitoriais. escreve ele. que a defenderam. tantos doutores. sem protestar? O grande São Domingos de Gusmão é considerado um dos seus inspiradores. residem a m alícia dos seus atacantes e o interesse que mostram pelo assunto. o réu devia permanecer totalmente sozinho. no recôndito da sua alma. com a virtude da caridade. hoje. a despeito do acima dito. não obstante. bastava mera denúncia secreta. em massa. ou. pelo menos. eles alertam para o perigo de deixá-la tomar de novo as rédeas do Poder. ou de raiva ao ver o que se fazia em nome de Cristo" (op. muito tempo depois. 8). de Antonino Bertolotti. a torturar ferozmente algum infeliz. radicalmente tais diferentes do universo em que ela viveu. ignorava o conteúdo das acusações. trucidados. Os judeus foram atingidos duramente. onde desaparecia para dele nunca mais se ter notícia. com suplícios e fogueiras. e dos "frades menores".18 JOÃO BERNARDINO GONZAGA INTRODUÇÃO 19 loridos: a arma utilizada para submeter as pessoas era o terror. alguns escritores avançam ousadamente até "milhões" de pessoas sacrificadas pela intolerância. os dominicanos. das necessidades e das categorias men modernas. isso aconteceu. mas. quando acaso ressurgia à luz do sol. concluímos. Fala-se em centenas de milhares. que a apoiaram. era um herege. Como então conciliar.. os humildes seguidores do poverello de Assis. "não se vislumbra qualquer traço de cristianismo". É riquíssima a bibliografia que se compraz nessas evocações. em sua excelente coletânea Dieu en Questions: na Inquisição. na praça pública. tantos piedosos sacerdotes e leigos. que deve ser o farol máximo a iluminar o caminho da Igreja? Prosseguindo: como entender o fato de que com a Inquisição. feito sob a égide do segredo e da dor: desconhecia a identidade de quem o delatara e das testemunhas que contra ele depunham. Tantos aparentes paradoxos. constituiu uma manifestação da Justiça Criminal do seu tempo. no fluir dos séculos conviveram tantos papas. a Igreja haja abandonado Cristo? Os trabalhos inquisitoriais ficaram sobretudo a cargo. Partindo da correta idéia de que a Igreja se proclama "imutável". e. é inegável. têm como causa inicial de incompreensão este grave erro: transporta-se em bloco a Inquisição pata a atualidade. que a dirigiram. com o que voltariam as perseguições inquisitoriais. convertido pelos detratores em protótipo de crueldade fanática. Briffault e M. alegria e compreensão. levaram efetivamente a padecimentos e à morte multidões de pessoas. Dessa forma. Todos os bens que ele e sua família possuíam eram confiscados. em meio a festivo auto-de-fé. como seus principais responsáveis e artífices. submetiam-no afinal à tortura. chorou de emoção diante da grandeza de um mártir. Impossível é imaginar a cena de um frade franciscano. escondiam-lhe as provas colhidas. Citemos dois deles: Martini del Libero Pensiero e Vittime delta Santa Inquisizione. cit. torna-se impossível aceitá-la e forçosamente ela horroriza. tanta prepotência e tanta maldade com a suave figura de Jesus de Nazaré. de Cuendias. expulsos dos seus lares e reduzidos à miséria. ou. supostamente pleno de amor. O pobre infeliz que fosse apanhado ingressava em escuro labirinto. O que haverá. aliás. de verdadeiro nisso tudo e de que modo deveremos interpretar aquilo que é verdade? Lecionando Direito Penal desde há muitos anos e interessados no estudo da História desse ramo jurídico. pág. Tudo isso nos causa a nós. Na Espanha. O historiador francês Jean-Pierre Dedieu declara que. afinal de contas. E. usaram métodos processuais e penais que consideramos reprováveis. eis a questão. a sinistra figura de Torquemada. sempre nos sentimos atraídos pe- lo enigmático problema da Inquisição. durante tão largo tempo. sem embargo. A partir daí. de Di Féréal. Teriam todos o coração cheio de fel e estaria toda essa gente embrutecida pela má fé? Será crível -que. que dela participaram. ou não haverá. com livros cujos títulos freqüentemente já predispõem o espírito de quem os vai ler. à mercê dos algozes. forte repulsa. que. somente porque elas ousavam ter suas convicções. Com freqüência os submeteram ao tremendo dilema de escolher entre o batismo forçado ou a morte. era para ser conduzido à fogueira. como ave de mau agouro. Negavam-lhe a assistência de um advogado. o acusado se via submetido a alucinante processo. que tanto admiramos. a Inquisição atingiu o clímax do seu desenvolvimento e nela paira. dos "frades brancos" pregadores. "ao ler a descrição de certos casos. tantos santos. Para que alguém fosse preso.

submetido à força dos costumes e de toda uma formação cultural e mental. Por isso entendemos indispensável suprir grave lacuna: antes de examinar a Inquisição. A Bíblia Sagrada de que nos servimos é a tradução feita pelo Pe. sociais. que criavam toda uma peculiar formação cultural. Logo. cingimo-nos a examinar a Inquisição européia. Essa extensão de pesquisa pareceu aqui dispensável. 8. quisemos proceder metodicamente na nossa investigação. tanto a comum como a eclesiástica. aprovada e defendida pelos mais sábios juristas de então. torna-se preciso saber de que modo se comportava essa Justiça. é preciso conhecer de perto o mundo que a envolveu. Princípio da legalidade dos delitos e das penas. enquanto instituição humana. ou referem muito de leve. Ao homem de hoje. Por isso. As censuras apresentadas contra a Inquisição giram. tão diferente do nosso. Princípio da proporcionalidade entre o crime e a pena. políticas. que daquela foram simples apêndices. com elenco de fatos. Em seguida. Cerceamento da defesa. torna-se incompreensível que a religião. haja assumido o papel de poderoso e efetivo ordenador da vida social. edição Barsa. o ambiente em que ela viveu. Com o presente estudo. nasceu e permaneceu imersa no mundo que a envolvia. 5. 9.que lhe foi contemporânea e que lhe serviu de modelo. António Pereira de Figueiredo. Tortura. . Inexistência do princípio de igualdade. Sobretudo. 1965. Impõe-se igualmente lembrar a envolvente religiosidade da época. não nos olvidemos de que o Santo Ofício equivaleu a uma Justiça Criminal. de nomes. Sucede porém que esse fenômeno foi produto da sua época. inserido num clima religioso e em certas condições de vida. deixando de lado suas manifestações nas Américas. Justiça eclesiástica. ou laica. conforme as circunstâncias de cada momento histórico. Sistema das provas legais. não poderemos julgá-la. a fim de aligeirar nosso trabalho. 4. Princípio da personalidade da responsabilidade criminal. que . Justiça feudal. Isso procuramos evitar o quanta possível. forjado por intenso processo de secularização que se iniciou com a Idade Moderna na civilização ocidental. sem conhecer esse mundo. que se apresenta com freqüência na linha de frente dos que ixosos contra o Santo Ofício. 12. 10. 6. 7. se torna incompreensível e repulsiva para o expectador de hoje. Neste e no seguinte capítulo. tentamos desvendar essa trama. econômicas. verifica-se que a inteira Justiça. sua obra que citamos é a indicada na bibliografia final. crueldade. 2. Esta era uma Justiça assinalada por profundo atraso. esteve sob a influência de um complexo de fatores. 11. científicas. Como o Santo Ofício integrou a Justiça Criminal da sua época. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM dindo o essencial com o acidental. que fazem por dever de ofício. Tal sendo nosso objetivo. Também merece ser exposta a sina do povo judeu. Prisão processual. de sorte que não é possível entendermos o seu procedimento sem preliminarmente saber como ati{ava a Justiça Criminal comum. No curso do relato. ao mencionarmos algum escritor. em torno das idéias de intolerância. que moldavam certo estilo de vida. Reaparecimento do Direito romano e sistema processual inquisitório. 3. os críticos abstraem. invariável e incansavelmente. 1 Necessidade aqui do seu exame. A Inquisição. 'Forçam por tratá-la quase como um acontecimento isolado e. prepotência.20 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I. que pode perfeitamente variar. ao assim descrevê-la. datas e episódios. medida pelos padrões da atualidade. com métodos toscos e violentos. outrora. mas. fatores que forçosamente tiveram de moldar o seu comportamento. muito diferente do nosso. Os historiadores que examinam a Inquisição se tornam muitas vezes enfadonhos devido à excessiva menção. 1. Mais do que um relato exaustivo. mas por todos encarada com naturalidade. que a explica e que a modelou. traçaremos pois um quadro. o que buscamos foi entender o fenômeno histórico. 13. religiosas. Eram condições culturais. É óbvio que a imutabilidade do dogma católico nada tem a ver com a disciplina eclesiástica. Absolutismo do poder real.

Se o acusado insistisse na sua inocência. para depois examinar detidamente a longa fase do Direito comum que se estendeu desde o século XIII até fins do século XVIII. através de rígidas fórmulas tradicionais. Se o imputado fosse nobre de muito al to nível.. por determinada distância. Não deixava de haver aí alguma perspicácia: esperava-se que o mentiroso. preferisse desde logo confessar a própria responsabilidade. para praticamente desaparecer no século XIV. As regras processuais adotadas eram costumeiras e basicamente as mesmas. de verbo ad verbum. Sem a presença de uma vítima. para que apontasse o culpado e não permitisse a condenação de um inocente. Enfaixavam depois as feridas e deixavam transcorrer certo número de dias. Na hipótese de os juramentos não serem aceitos e de inexistirem testemunhas suficientes. oral e formalista. Firmou-se assim um sistema processual conhecido como "acusatório". o que importava era apenas o número de testemunhas concordes. não era possível instaurar o pleito. A defesa tinha de consistir em negações exatamente ajustadas aos termos da acusação. sob a presidência do senhor feud al ou de um seu representante. diante das pa rtes e da assembléia. O procedimento era público. mas em regra consistiram na "prova do fogo" ou na "prova da água". 2. Os métodos variaram muito. As regr as indicavam quantos depoimentos b as tavam para que se desse como provado ce rt o fato. no regime feudal o juiz se reduzia a mero árbitro. O autor apresentava sua queixa de viva voz. sempre que possível acompanhados de pessoas de bem. No regime feudal a jurisdição pertencia ao senhor da terra e se exercia sobre todas as pessoas que nesta viviam. Finalmente. c as o existisse. nobres ou homens livres. batiam-se acusador e acusado. faremos primeiro uma síntese muito apertada da Justiça feudal e da primitiva Justiça eclesiástica. sem cometer nenhuma falha que permitisse ao adversário proclamar nula a demanda. competia ao acusado responder de imediato. isso demonstrava a sua culpa. Não se formara a noção do interesse público em punir os c ri -mes. Equivalentemente ocorria na "prova da água". um príncipe. Reconhecida a culpa do réu. Recuando a momento histórico anterior. O julgamento era imediato. reduzindo-se o julgamento a um confronto. mais facilmente sendo derrotado. li mitando-se a verificar a presença ou não de prov as formais concludentes. um conde. se as queimaduras houvessem desaparecido. Por exemplo. se se apresentassem infeccionadas.22 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I. Findo o prazo. oriundos do antigo Direito germânico: o duelo e os "Juízos de Deus" ou ordálios. reconhecendo-se razão àquele que vencesse. as pa rt es compareciam pessoalmente perante a assembléia formada pelos seus pares. Ambos se baseavam na mesma crença. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 23 merece ser minucioso. ou. de um Deus sempre presente no mundo. uma vez que o silêncio equivalia a uma confissão. or al e dele não cabia recurso. se esta houvesse morrido. Graças todavia à firme oposição da Igreja. em termos de rigorosa igualdade. a utilização dos ordálios foi declinando. No duelo. era ele (e às vezes também suas testemunhas) submetido a al guma prova que ensejasse a Deus a revelação da verdade. era-lhe permitido indicar algum subordinado seu para part icipar dessas provas. da situação judiciária secular. que a História do Direito Penal designa como "período da vingança pública". porque se caracterizou marcantemente pelo desprezo às garantias individuais e por extrema brutalidade.dreoacusçãmntperiaà pessoa lesada. Vigorava o chamado "sistema acusatório". a interferir nos negócios humanos. Em suma. uma barra de ferro incandescente. restavam dois outros expedientes. o réu devia transportar com as mãos nuas. se por qualquer motivo não conviesse o duelo. entre dois particulares. que endoss as sem su as posições. as sanções aplicad as eram normalmente de natureza pat ri monial. São cerca de seis centúrias. A prova testemunhal. limitando-se a pronunciar certas fórmulas indicativas de que a razão estava com este ou aquele contendor. acreditando no ordálio e por temor a suas conseqüências. sabedor da própria culpa. considerava-se inocente o acusado. dotado d as seguintes características: necessidade de iniciativa . era igualmente formalista: as testemunh as depunham or al mente. durante o tempo fixado. Mais do que o conteúdo d as su as declarações. No dia fixado. Provocava-se pois a intervenção divina. em que o réu devia por exemplo submergir. tanto nos assuntos civis como nas questões de natureza criminal. recorria-se aos ordálios. A expectativa dos julgadores era de que o culpado. lut as se com menor ardor. Em seguida.Conguit. queixando-se. refutando-a palavra por palavra. Os litigantes deviam também prestar o juramento de que diziam a verdade. que Deus também conhecia. dispensando o doloroso teste. Eram os conjuratores. à sua linhagem. seu braço numa caldeira cheia de água fervente.

visto constituir indício de arrependimento. em que avulta o interesse em obter a confissão do réu. foram os juizes reais que passaram a conhecer das causas. Concomitantemente. isto é. começou a caber apelo para o rei. endereçado somente a satisfazer o interesse individual lesado. processo. com regras próprias e outras formas de julgamento. firmou-se o método da inquisitio. E o que se veio a chamar "renascimento do Direito romano". no século XII. defesa inexistente ou fortemente cerceada. que rapidamente suscitou enorme entusiasmo e se expandiu por vários países. é natural que adotasse regras com eles condizentes. enquanto o seu Direito Penal permaneceu de qualidade marcantemente inferior. A confissão do réu passou a ter importância capital. por fim. até o século XVIII. e com o quarto Concilio de Latrão. completo e coeso de normas sábias. em 1216. O crescimento das cidades levou cada vez mais ao desenvolvimento de jurisdições municipais. Várias forças concorreram para extingui-la. é certo. largo emprego da tortura. será marcada pelo denodo na idéia da confissão do acusado extorquida pela dor. Compreende-se: enquanto os costumes feudais eram rudimentares. Tratava-se mais propriamente de uma Justiça disciplinar do que judiciária. o Direito Canônico preferiu o procedimento de ofício. que havia caído no olvido. Para ter início o processo. porém. Nesse ínterim. mas com estes acréscimos: processo secreto e escrito. permitia-se ao juiz. Mais adiante. Doravante. a tranqüilização da comunidade. por sua iniciativa. com instrução contraditória e pública. o Direito imperial consolidado no Corpus Juris Civilis. para evitar escândalo público. totalmente distinto das jurisdições feudais. inaceitável. encetar uma ação penal. à vista dos seus objetivos. Como bem se compreende. igualdade de direitos entre as partes. Os membros das classes servis estavam inteiramente submetidos à vontade dos seus senhores. no passar do tempo. Os objetivos a alcançar eram. acrescentemos que o empirismo da Justiça feudal. . procedimento secreto. Acresce que o Direito imperial romano estava montado sobre a idéia de centralismo político. Na Igreja nasce. no século XIII. tal como existia na Igreja. a foi tornando. Ambos foram todavia tomados em bloco pelos juristas medievais. com seu sistema acusatório. e não o interesse público de repressão aos crimes. se foi estruturando a Justiça da Igreja. a recuperação do faltoso e. pois. A alma transviada precisava ser reconduzida ao rebanho. somente se aplicava ao clero. ou seja. O religioso que cometesse alguma falta devia purgá-la. De começo. Com o papa Inocêncio III.'‘Dentro dele. o que muito convinha a uma Europa que nessa altura tendia ao predomínio do poder real. sujeitando-se a medidas punitivas discricionárias. a apuração dos fatos devia ser discreta. tudo quanto acima está exposto unicamente se aplicava aos nobres. o que desde logo obrigou à adoção de processos escritos. os juristas medievais encontraram no Corpus Juris um conjunto prático. em que se mesclaram influências do Direito Canônico e do Direito romano. abrir um processo e nele livremente colher as provas conducentes ao julgamento. quiçá. mesmo sem acusador. O ingresso desse Direito representou. acarretando enorme progresso. a Universidade de Bolonha ressuscitou o Direito romano. não merecedores de confiança. Voltando ao Direito comum. Firmou-se dessa maneira nova orientação na Justiça Criminal secular. liberdade do juiz para colher as provas que entenda necessárias. toda a instrução criminal. Tudo enfim se passava em outro plano. ab initio. Logo. calcado num sistema inquisitório. Teve inicio então o tenebroso período depois designado como "da vingança pública". para reformularem os seus princípios e os métodos judiciários. em que a autoridade eclesiástica desencadeava as investigações tão logo percebesse a possibilidade de alguma irregularidade. e. o que se veio a chamar de "sistema processual inquisitório". sem o que o processo não se instaura. admitiu-se a denuntiatio de qualquer fiel. porém. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 25 da vítima. havia um fruto venenoso. aos cavaleiros. Foi-se também fortalecendo o Poder central. desse modo. No procedimento per inquisitionem. que começaram a se impor inclusive na administração da Justiça. suscitando esperança da almejada regeneração. formalismo. dotada de espírito por inteiro diverso.24 JOAO BERNARDINO GONZAGA I. conquista magnífica. dos reis. caracterizado então por estas notas: a autoridade dispõe de poderes para. 3. que acabou sendo também colhido: a tortura. 4. Os romanos erigiram obra monumental sobretudo no campo do Direito Civil. O meio inicial para dominar as cortes senhoriais consistiu na criação de recursos: das decisões proferid as nos feudos. aos homens livres. para o bem do acusado e. secreta.

já de per si teria de acarretar maior rigor na punição dos crimes. hoje constitucional. Outrora. consistia na decapitação. De imediato. a defesa era cuidadosamente entravada. mas também lhe permite agir com mais equilíbrio e imparcialidade. para 7. Aos nobres. Em regra. No Direito Penal encontra-se a indicação dos fatos considerados criminosos e as respectivas penas.26 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I. transportou-se o mesmo sistema para a Justiça comum. : . Cominavam-se. eventualmente ordena outr as provas e. no processo e nos métodos punitivos. Todos os comportamentos que atingissem. quando isso veio mais tarde a ocorrer. de regiões mais ou menos extensas. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 27 Passaram outrossim a coexistir três jurisdições penais: a central. Começando pelo plano constitucional. e que em fama de casada stiver. ou o adultero Cavalleiro. com a publicidade dos processos. eram castigados com requintado rigor. Por exemplo. ou de membros da sua C asa. Eloqüente exemplo disso é o Livro V. após ouvir os debates. 5. o defensor e o juiz. não farão as Justiças nelle execução. que reputamos básicos. a oralidade dos debates e com a instituição do Júri. o que era compreensível diante do objetivo visado. porque permaneceu imune ao Direito romano. nada disso existia. sobre o crime de adultério. ou Scudeiro. Ressalvemos que a Inglaterra constituiu uma exceção na Europa ocidental. por influência de Montesquieu: o Estado repartido entre Poderes Legislativo. uma ação penal se deve compor necessariamente com três personagens: o acusador. profere sua decisão. e o princípio da plenitude da defesa. lembremos que a tripartição política dos Poderes do Estado somente veio a ingressar no mundo civilizado em fins do século XVIII. A Justiça comum do longo período em exame (séculos XIII a XVIII) desconheceu quase todas as garantias individuais que permeiam as ordens jurídicas da atualidade. ao rei cabia também julgar. de cidades ou. Isso. encarados como intoleráveis ofensas às ordens do soberano. ainda que longinquamente. No Direito moderno. Antes. isto é. enquanto o plebeu era levado à forca. ele as aplicava depois. que o homem. Por manifesto sofisma. administrando. ou seja. damos. se o tal adultero fosse Fidalgo. da igualdade de todos perante . Faltava o princípio. di ficilmente se aplicava a tortura. também. as violações daquelas leis. a de morte. Porém ' se o adultero for de maior condição. os interesses do monarca. O réu devia defender-se sozinho. ou Scudeiro. por fim. que preside a colheita das provas por elas indicadas. vigoram atualmente o princípio da publicidade do processo. As Ordenações frances as de . o rei enfeixava em suas mãos todas as funções: dele emanavam as leis. de Direito Processual e de Direito Penal. e. as pessoas eram tratad as diversamente. qu ase invariavelmente recebendo a pena capital . em que o réu é julgado por seus pares. o puro e simples castigo do criminoso.As penas eram também executadas diferentemente. de promover o bem da pessoa que se transviara e perante quem o juiz atuava mais propriamente como um guia espiritual. O juiz dispensava a presença de um acusador e de um defensor. pessoalmente ou por seus delegados. Ademais. de acordo com a classe social a que pertencessem. Executivo e Judiciário. e o marido peão. esse país não empregou a tortura. também ele tratava diretamente com o suspeito. exercida pelos juizes do rei. restrita às questões que importavam à Igreja. até nol-o fazerem saber. a eclesiástica. que dormir com mulher casada. que de nenhum modo pode ser cerceada. sem dúvida. Eram também ignorados princípios. morra por ello. a local. assi como. das Ordenações Filipinas. Título XXV. Bem se entende que essa posição sobranceira do magistrado lhe facilita julgar com inteira imparci alidade. que o marido della. os nobres. e o marido Cavalleiro. Não se admitia pois a presença de um advogado. Manteve-se ali o sistema acusatório. conforme o país. conforme a categoria do acusado. .a lei e a Justiça. Por expressas disposições legais. o absolutismo re al levou a espantoso alargamento do crime de lesa-majestade. indicavam-se na lei sanções distintas. No Direito Processual Pen al estão as regras que devem pautar a apuração do crime e sua autoria. quase sempre representado pelo Ministério Público. Tamanha concentração de poderes. que as julgava. ou. em que a meta a alcançar era muito diferente. no sentido de que as partes têm total direito de acesso a todos os atos nele produzidos. que Felipe III de Espanha outorgou a Portugal em 1603: "Man- 6. cada qual soberano e independente na sua área de competências. propicia não só a liberdade da Justiça. e verem sobre isso nosso mandado". eqüidistante das partes. No Direito da Igreja.

Anotemos também que as pesso as ficavam entregues aos caprichos das autoridades. em princípio todo acusado devia permanecer detido durante o processo. ledit procès se fera le plus diligemment et secrètement que faire se pourra. inclusive somente a permitindo em casos graves. Verifica-se mesmo que após as Ordenações de 1498 a pressão se tornou mais forte. Um escritor da época defendia também o sigilo para evitar a fuga do réu e a impunidade dos crimes: quando o culpado "sauroit que le crime est prouvé contre luy. o réu se deve defender solto. Em regra. dando a cada uma o peso que melhor lhe aprouver. induzimento. Como conclui Esmein (op. de tal sorte que o réu não só ignorava a origem e o conteúdo da acusação que lhe faziam. as provas não possuem 8.. seguindo os usos do Direito Canônico. sob pena de nulidade. Como exceção. instigação ou auxílio a suicídio. tal segundo método é adotado somente nos julgamentos. infanticídio e abortamento). 110. Antigamente. Esta última não é pena. de conseguinte. en manière que aucun n'en soil averti. se limitam a responder secamente a quesitos. com apenas um "sim" ou um "não". e deixar impune um amigo a despeito de haver indícios mais fo rt es de culpa". ou juizes de fato. conserva-se também o antigo "sistema da íntima convicção". não era as sim. evitar que ele fuja ante a perspectiva de próxima condenação. consistente em dar total arbítrio aos magistrados "de aprisionar um cidadão. Vigora presentemente o sistema chamado "da livre convicção": o juiz possui inteira autonomia para avaliar as provas. que as leis atuais costumam cercar de muitas cautelas. que persistia. pelo Júri.). Como diziam as Ordenações francesas de 1498 no art. Ao contrário do que sucede hoje. que será depois absolvida. Ainda em 1764. . Como apreciá-las na fase do julgamento? Eis outro ponto em que o Direito antigo se encontrava em profundo atraso. quando os jurados leigos. dos crimes dolosos contra a vida (homicídio. o segredo se impôs. ele ficava preso em terrível engrenagem. Nos primórdios do sistema inquisitivo. Em qualquer dos dois sistemas acima. extrema prudência e parcimônia na sua decretação. cit. as Ordenações de 1539 consagram novos rigores". conhecendo as prov as . mas também no sentido de que nenhuma comunicação das peças era feita ao acusado. porque o julgador fica dispensado de explicar seu veredicto. justificava-se a ocultação com a necessidade de impedir que o réu. mas em seguida tem essa liberdade cerceada. m as desconhecia igualmente as prov as produzidas. as Ordenações francesas de 1254. No Brasil. as acta inquisitionis eram transmitidas ao acusado. A prisão processual pode portanto atingir pessoa inocente. Submetido a interrogatórios hábeis e freqüentemente pérfidos. 162 que "en matières criminelles ne seront les parties aucunement ouyes par le conseil ne ministère d'aucune personne. Isso determinavam. de justi fi car na sentença suas preferências e a conclusão firmada. que se segue a uma condenação. etc. O processo freqüentemente tinha origem em acusações secretas. pág. ocultando-se a identidade dos delatores. colhem-se várias provas. porque faltavam meios processuais expeditos para cortar os abusos. em que a liberdade é plena. il s'en pourroit fouyr et ainsi demourroient les delicts impunis". as viesse a adulterar. Todos os atos subseqüentes eram mantidos também em segredo. havia indiscriminado emprego dessa medida. Depois. A este se foi sucessivamente retirando a assistência de conselheiros e a livre faculdade de arrolar testemunhas de defesa. 9. porque lhe é imposto o dever. "todas as garanti as da defesa desapareciam pouco a pouco. 153). "quant aux prisonniers et autres accusez de crime. Beccaria clamava contra o abuso. como medida adequada ao crime. e a processual (ou preventiva). O processo se tornara absolutamente secreto. mas tem objetivos exclusivamente processuais (garantir a presença do réu na Justiça. e todo o material acusatório passou a ser escondido. No curso de um processo crimin al . Conhecemos duas espécies de prisão: a penal. Queria esse autor que as leis estabelecessem com precisão quais as hipóteses em que o acusado poderia ser preso preventivamente. Portanto. como o atual habeas corpus. bastando quaisquer pequenos indícios para que fosse imposta. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 29 1539 advertiam expressamente no art. pour éviter les subornations et forgements qui se pourroient faire en telles matières". ausquels faudra faire procès crimine!. não somente no sentido de que tudo se passava longe dos olhos do público. e ressaltava a gravidade do problema lembrando que os cárceres do seu tempo continuavam sendo "a horrível mansão do desespero e da fome". ameaçado de tortura. Não havia qualquer providência legal.28 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I. por exemplo. porque. Exigem-se. de tirar a liberdade a um inimigo por frívolos pretextos. mais répondront par leur bouche des cas dont ils sont accusez". apta a fazer cessar prontamente os constrangimentos ilegítimos. impedir que ameace ou corrompa testemunh as .

Vigorou por acréscimo este princípio. e até mesmo pelo altruístico propósito de inocentar o verdadeiro culpado. visto que a sua presença bastava para condenar. para salvar-se. ou prova conjectural. e imperfeitas ou semi-plenas.. 10. nos crimes atrozes. ou plenas. etc. Era impossível ao legislador prever a infinita variedade de situações da vida real. a priori. notadamente as mulheres e os criminosos. geralmente os mais difíceis de apurar devido aos cuidados que tomam seus autores. Presentes tais ou quais provas na instrução da causa. era prefixado o número de depoimentos concordes. mas devem ser avaliadas caso a caso. também chamada "questão". o antigo Direito classificava as provas em testemunhos e confissão. Tal sistema gerou também. sua má fisionomia. distinguiam-se as provas perfeitas. optavam pela saída mais fácil e segura da tortura. que não passam de eco mal fundado. levando à confissão. Muyart de Vouglans ainda apresentava longa lista de testemunhas inaceitáveis. Separavam-se ainda as provas e os indícios em gerais. em abstrato. A inovação nasceu portanto com bons intuitos. tudo simplificava. em . surgiu outro sistema oposto. Quanto à sua natureza. terminando com "os pobres e os mendigos". resistindo aos tormentos. No século XVIII. no final da escala. Foi contra ela. que ele deseja proteger. distinguindo-se várias categorias de testemunhas. não bastava: testis unus. inconstância das explicações do acusado. "Quaestio est veritatis indagatio per tormentum". escritos e objetos. Idem os menores e os pobres de espírito. se podem tornar uma prova completa". como conseqüência inexorável. inclusive as pessoas ligadas ao réu ou à vítima pelos laços do casamento. ou prova instrumental. testis nullus. A seguir. era obrigado a condená-lo. do parentesco. Nem mesmo à confissão do réu é hoje atribuída eficácia absoluta. chamadas de indícios manifestos. de sorte que oito rumores. Transformava-se o réu em juiz da sua própria causa.. válidos para qualquer crime. muito rígido. a cada depoimento. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 31 pesos predeterminados pela lei. a seu turno. a credibilidade que merecer.). para evitá-lo. "admitem-se quartos e oitavos de provas. perdidos diante da complexidade das regras sobre o material probatório. um só depoimento. ou a eles cedendo. A prova testemunhal foi cuidadosamente regulamentada. A tortura de que agora falamos não possuía a natureza de pena. tremor na voz. um outro ouvir dizer mais vago como um oitavo.. e podia condenar com base em elementos precários. em que nada importava a opinião do juiz. Quanto a cada espécie. podiam ser próximos ou remotos e. e as vencíveis. e especiais. Qualquer pessoa pode depor em Juízo. Está claro: se a confissão se tornara fruto tão cobiçado. para perder-se. que Beccaria. mas produziu péssimos resultados. etc. principalmente. o juiz ficava liberto das regras legais sobre as provas necessárias. os juizes provincianos. que hoje causa imenso espanto e que se enunciava em latim: "In atrocissimis leviores conjecturae sufficiunt. um ouvir dizer como um quart o. Em geral. geral e tranqüilo emprego da tortura. O juiz atribuirá depois. que. et licet judici jura transgredi". no moderno Direito Processual Penal. por exemplo. considerada a rainha das provas. vinham as regras disciplinadoras das incontáveis combinações possíveis entre os vários tipos de provas. Vale dizer. indicavam o exato valor de cada prova. Mesmo que este se achasse convencido da inocência do réu. A antiga Justiça Criminal começou adot ando o princípio "da íntima convicção".30 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I. porque se sabe que ela pode ser falsa: o réu admite o crime por erro. porque. presunções. ou prova vocal. a probatio probatissima. Conforme anotam os historiadores. Chegamos desse modo a absoluto e iníquo automatismo na apreciação das provas. Generalizou-se então o arbítrio e. mas era um meio processual de apuração da verdade. o interesse em conseguir a confissão do réu. com absoluta liberdade dos julgadores. Inúmeras pessoas não eram admitidas a depor. por melhor que fosse. figuravam os adminicules. por coação. Pode-se encarar. ainda existente no seu tempo. Para alcançá-la. porque somente eficazes quanto a certos crimes. Como ironizou Voltaire. conhecido como "das provas legais": o legislador e os jurisconsultos. tornava-se difícil resistir à tentação de sacudir a árvore a fim de obtê-la. em virtude de desequilíbrio mental. Inexistem. da amizade ou inimizade. Para aceitar como demonstrado certo crime. dai surgindo complicadissima trama de hipóteses. A nota judiciária mais característica dos séculos que estamos estudando foi no entanto o indiscriminado. desde que saibam expressar seus pensamentos. Os indícios.g. indícios que só valiam como apoio a outras provas (v. restrições à prova testemunhal. o juiz devia chegar a tais ou quais conclusões. se estivessem presentes as provas teoricamente reputadas para isso suficientes. Havia as presunções invencíveis. recorria-se à tortura.

s'il volt que le cas le requière. transcreve. et puis au troisiesme. tranqüilizava seus súditos explicando no Código das Sete Partidas que a tortura se justificava porque fora adotada pelos sábios antigos (ou seja. porém. De Los Tormentos: "Porende tenieron por bien los sabios antiguos que fizieron tormentar a los ornes. levavam-no para outro lugar. para verificar se mais malfeitorias existiam. Parece que. pois. em Portugal. com repulsa do Direito e da opinião pública. da Rússia comunista. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 33 1764. ocorriam excessos. Na Alemanha. Afonso X. promulgada em 1532 por Carlos V. Se esta não fosse ratificada. por que pudiessen saber la verdad ende dellos". em linhas gerais. que costumava ser de quatro sessões. enquanto os suspeitos eram golpeados com bastões nos pés e nas mãos". as Ordenações de 1254 e todas as subseqüentes adotaram oficialmente a questão. voltava-se à tortura. 153. et puis au quatriesme. lhe apresentavam os instrumentos que seriam utilizados. o paciente confessasse o que lhe era exigido. Os escopos visados eram obter a confissão do suposto delinqüente. et il y ait si grande présomplion et le prisonnier soil de fort courage". continuam utilizando tal recurso. Dir-se-á que a tortura talvez constitua eterna fatalidade do gênero humano e que prossegue hoje existindo. "industriosa crueldade". repetidamente qualificando-a de "fria atrocidade". Em França. que lhe é posta. Os franceses supliciaram prisioneiros na guerra de libe rt ação da Argélia. na França. em sua obra sobre o Direito Penal espanhol da monarquia absoluta. Sucede todavia que hoje a tortura só se pratica clandestinamente. Nos séculos passados. da Itália fascista. Em alguns sistemas legais. basta lembrar o que ocorreu nos regimes totalitários da Alemanha nazista. No Direito germânico. Na Espanha. com explicações sobre o seu funcionamento. ao contrário. tit. na Itália. é exato. mas não especificavam no que ela poderia consistir. pelos juristas romanos). explicava-se que se o suspeito "par question de gesne ne veut riens dire ni confesser d la première fois le juge le peut bien mettre au second jour. expressamente se advertia que deviam ser empregados tormentos no processo. mesmo que se tratasse de fato manifesto. Tomás y Valiente. ou que fossem inventados por executores imaginosos. e regulamentados pelo legislador. Algumas leis dispunham que o réu somente deveria ser supliciado várias horas após haver ingerido alimentos. a descoberta de cúmplices e a verificação da eventual existência de outros crimes que o réu pudesse ter acaso praticado. o "Third degree" da Polícia norte-americana. e célebre ficou. o juramento de que diria a verdade. em maior ou menor grau. por toda parte torturavam-se normalmente os acusados e. por serem tão cruéis e extraordinários. VII. em meados do século XIII. acusando-os de criarem "novos gêneros de tormentos refinados. Se. No século. quando já se ach as se portanto enfraquecido. O texto mais velho que dela nos dá notícia acha-se em fragmento egípcio relativo a um caso de profanadores de túmulos. Assim. primeiro. "inútil prodigalidade de suplícios". Uma típica sessão de interrogatório transcorria. mesmo quando este confessava os fatos do processo. As leis se limitavam a ordenar ou permitir a tortura. XV. a questão podia ser repetida indefinidamente. ou no seu desenrolar. seus únicos limites estando na obstinação do juiz e na força de resistência do paciente.32 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I. fixando algumas regr as gerais para o seu uso. como recurso normal da Justiça. às vezes. e em todo negar a culpa. como na hipótese de um ladrão preso em flagrante delito e com o objeto furtado ainda em seu poder. essa violência foi utilizada por todos os povos da Antigüidade. os suplícios foram pacificamente aceitos. no qual aparece consignado que "se procedeu às correspondentes averiguações. em que os Procuradores das Cortes c as telhanas se que ix aram ao rei contra a crueldade dos juízes. mesmo em países civilizados. para evitar o tormento. Part. também as testemunhas não merecedoras de fé. seguro e confortável. 30. era estabelecido um número máximo. Geralmente. deste modo. na Espanha. que vigoraram em Portugal desde 1603: "Quando o accusado for mettido a tormento. o juiz ainda o podia continuar supliciando. A forma e os meios a serem empregados para produzir a dor seriam aqueles que os costumes indicassem. ela se faz oficiosamente. longo relatório datado de 1598. nunca jamais os imaginou a lei". Em seguida. reservou os mais candentes ataques à Justiça. As leis modernas a qualificam como crime. o Sábio. Os agentes policiais. Equivalentemente dispunham as Ordenações Filipinas. às ocultas. Exigiam-lhe então. e tem a sua existência negada. ser-lhe-a re- . em dias subseqüentes. ao tempo da célebre Constitutio Criminalis Carolina. onde ele deveria ratificar a confissão. Facilmente. ameaçando com severíssimas pen as seus autores. que. à pág. o u interrogatório com tormentos. como por exemplo no espanhol das Sete Pa rt idas. Mesmo quando adotada por governos autoritários. Sim. nesse sentido.

não era assim. se inscrevem três princípios cardeais de garantia individu al : o princípio da leg al idade dos delitos e das penas. receando a repetição. Enfim. a qual ainda nelle dura. a pretexto de interpretar os textos. assi cível. se elle mesmo lhe dissesse aquellas palavras. e a pena a aplicar será também aquela contida em lei anterior à conduta delituosa. haja a mesma pena. não deixa o Julgador de crer. não pode ser surpreendido pela Justiça Criminal. ela não pode ser retroativa. da tarefa repressiva. M as . e depois quando foi requerido para ratificar a confissão em Juizo. 186-7): "Na maioria dos casos. O nome do crime é "Dos Mexeriqueiros": "Por se evitarem os inconvenientes. Antes. o qual se fará fora da casa. por fim. latino que lhe deu Feuerbach: "Nullum crimen. mandamos. mas não se queria que o acusado expirasse antes de haver expiado inteiramente sua f al ta". Passando da área processu al para a do Direito Pen al . como amostra. ela já estivesse as sim qualificada pela lei. no século p as sado.. nulla poena sine praevia lege". enquanto nos esforçamos para abreviar a duração das operações cirúrgicas e diminuir as dores que elas ocasionam. LXXXV). onde lhe foi dado o tormento. se depois que uma vez foi mettido a tormento. havia contra elle muitos e grandes indicios. procurava-se somente não levar à morte ou a desfalecimentos. eventu al mente. A JUSTIÇA CRIMINAL COMUM 35 CXXXIII). o terceiro caso é. e está banido. Somente a título de curiosidade. aindaque elle no tormento negue o maleficio. petido em três casos: o primeiro..°0 servamos que neste. em caso de co-autoria) pelo . se. ob. conforme assin ala Cesare Cantu. negou o que no termo tinha confessado. muitas vezes por páginas e páginas. um cirurgião ou um barbeiro assistia a aplicação da tortura para apreciar o grau de sofrimento do paciente e julgar se ele se achava em estado de supo rt ar mais. como crime. O indivíduo. veja-se. 44). esta passagem das Ordenações Filipinas. que com dor e medo do tormento. o legislador dos nossos dias apresenta-se claro e sucinto. que mereceria. e serlhe-ha feita a repetição assi e como ao Julgador parecer justo. coisa alheia móvel". que elle o fez.34 JOÃO BERNARDINO GONZAGA 1. Inexistia qu al quer segurança para os acusados. de tal modo que. que diz. que houve. que nunca condene algum. Fiel a essas idéias. se confessou no tormento o maleficio. cit. em suma. Uma conduta só pode ser considerada como crime. fazia-se o contrário ao infligir a tortura. tít. com o sangue-frio do cirurgião que classifica e divide as operações praticadas nos enfermos. o da person al idade da responsabilidade crimin al e o da proporcionalidade entre c ri me e pena. Não constituía isso uma ação humanitária. Pelo princípio da personalidade. prolixas e obscuras. tít. era autorizado o recurso à analogia e. Consoante o princípio da legalidade. As leis penais se apresentavam confusas. aos costumes. como corolários: a lei penal deve ser rigorosamente precisa na delimitação do campo da ilicitude. Confirma-o G. Para completar supostas lacun as da lei pen al . não há pena sem prévia cominação legal. sem que ratifique sua confissão em Juizo. não se sabia mais no que efetivamente consistia aquele crime. Com economia de palavras. E ainda se deve fazer a ratificação depois do tormento per alguns dias. E em cada um destes casos póde e deve ser repetido o tormento ao accusado. 11. procura oferecer exata compreensão de cada figura delituosa. rior que o defina. ao tempo em que foi exercida. mas ia além. pela Justiça. certo comportamento. que outrem disse mal delle. se quando primeiramente foi posto a tormento. desde o século XIX. Aubry (op. para si ou para outrem. Daí se seguem. que se alguma pessoa disser a outra. facilmente podia considerar como punível. ou não. sobrevieram contra elle outros novos indicios. ratificará a confissão. que pelo menos tem o excepcional mérito de ser sintética. foi facilitada por este enunciado A imprecisão conceitual e a obscuridade das leis muito favoreciam o arbítrio dos julgadores. o recurso à analogia. em tanto que. ainda que verdadeira não seja" (Livro V. cit.L. A sua rápida difusão. 12. postoque queira provar que o outro o disse" (Livro V. que o outro terceiro delle disse. o qual será avisado. O legislador não se limitava a definir o crime. não há c ri me sem lei ante. págs. o segundo caso é. de maneira que já o accusado não tenha dor do tormento. como verificamos por exemplo nesta lapidar fórmula com que o presente Código Penal brasileiro define o furto: "Subtrair. os jurisconsultos determinavam para a tortura "diferentes modos. admoestando o leitor. oferecendo conselhos e explicações. que dos mexericos nascem. unicamente deve pagar por um fato ilícito a pessoa (ou pesso as . pág. que impediriam atingir o resultado perseguido" (op. exemplificando. visto que o juiz. porque de outra maneira presume-se per Direito. que tenha confessado no tormento.

mesmo que nada tivessem a ver com o ocorrido. O' Poder Público sequer se sentia no dever de alimentar os seus prisioneiros ou de lhes dispensar cuidados n as doenças. ou preventiva. para acudir os réus pobres. Penas corporais. Conforme o bem do condenado que atingem e a intensidade com que o fazem. parentes colaterais. A primeira foi em Amsterdão em 1595. apresentam um intróito explicativo. m as também todos os que dele dependessem economicamente. que não tinham ninguém por si. Até há pouco tempo. No afã de castigar com severidade. VI). afasta-se o criminoso do ambiente social. No passado não havia tais exigências. comunicando-se a terceiros inocentes. m as foram raras. de outra natureza. Notadamente. II. que regeram o Direito Penal e o Processual Penal. Penas privativas de direitos. porque assi como esta enfermidade enche todo o corpo. podiam ser punidos. polo que he apartado da communicação da gente: assi o erro da traição condena o que a commette. sendo freqüente a pena tornar-se transpessoal. Isso devia ser providenciado pelos familiares e. para homens. 2. 3. Resta agora verificar quais as medidas punitivas que eram utilizadas.36 JOÃO BERNARDINO GONZAGA mesmo efetivamente responsável. Penas restritivas da liberdade. 13. sem nunca mais se poder curar. aos nossos olhos absurdos. da culpabilidade. como pena. até.por fim dos castigos aplicados pela Justiça comum. nas nações mais civilizadas do mundo. Penas privativas da liberdade. 1. mas se aproveitavam estabelecimentos comuns. Inexistiam prédios especialmente construídos para servirem à prisão processual. Ambas reduziam à miséria não só o condenado. 4. Com as penas privativas da liberdade. mediante a sua segregação em local para isso destinado. ou seu Real Stado. Aí estão os princípios. que alcançava até mesmo delitos que hoje consideraríamos de escassa importância. Tais presídios se transformavam em verdadeiros depósitos humanos. de que já falamos. 6. que he tão grave e abominável crime. a revolução francesa. Por taxativas disposições legais. e empece e infama os que de sua linha descendem. desde o final do século XVI. que se tornavam fatalmente transpessoais: a confiscação de bens e a chamada "morte civil". ela quase só existia como medida processual. onde não penetrava nenhuma preocupação de tratamento humanitário. antes de descrever longamente o crime de lesa-majestade. o legislador não se preocupava em estabelecer o indispensável equilíbrio. que lhe seria imposto no julgamento. em busca de alimentos e remédios. d) corporais. Havia duas penas muito cruéis. seu cônjuge. constitui algo muito recente na História do Direito Penal. os descendentes do criminoso também seriam alcançados. que o comparavam à lepra. digamos. Algumas instituições melhores e especiais para esse objetivo começaram a surgir. c) patrimoniais. 5. ascendentes e descendentes. tít. Era a "prisão processual". As sobreditas Ordenações Filipinas. b) privativas ou restritivas de direitos outros. Penas patrimoniais. junto com o efetivo criminoso. isto é. entre o mal do crime e o mal da pena. Havia também a odiosa prisão por dívida. A fama dessas casas se difun- . as penas se classificam em: a) privativas ou restritivas da liberdade de locomoção. para mulheres. a sanção mais comumente infligida era a capital. mantendo-se custodiado o réu à espera do castigo. que deve existir. a que se seguiu logo após outra. havia religiosos e religiosas que saíam esmolando pel as ruas . e que os antigos Sabedores tanto estranharam. Ao contrário do que se possa imaginar. e empece ainda aos descendentes de quem a tem e aos que com elle conversam. que pertencia porém aos domínios do Direito Civil. Falemos . somente quem estiver ligado ao resultado danoso por duplo vínculo: da causalidade física e o psicológico. Portanto. a prisão. que oferecessem segurança e aos quais era atribuída múltipla finalidade. postoque não tenham culpa" (Livro V. Reforma humanizadora. com este raciocínio à evidência sofístico: "Lesa Majestade quer dizer traição commettida contra a pessoa do Rei. MEDIDAS PUNITIVAS DO DIREITO COMUM 1.

enfermos mentais. aliás. relegação. visitando os presídios existentes no continente europeu. cit. Instituições como essas foram todavia muito excepcionais. embarcações. particularmente severas nos primeiros tempos das conquistas de regiões longínquas. Os países colonizadores utilizaram amplamente essas penas. acorrentados. (1) Cuello Calón (op. morra por isso. mendigos. Instituiu-se tal pena por ordem de Carlos I. que furtar um marco de prata. o que havia eram locais em que se aglomeravam não só criminosos à espera de julgamento. não fosse a circunstância delas serem em regra aplicadas não a crimes graves. em total promiscuidade. Elas outrora gozaram de muito prestígio e se cumpriam de modo extremamente duro. vitimado por uma febre carcerária que contraíra na Rússia.. desterro. veio a falecer em 1790. em vários países. que os considerava "bons para as galeras". págs. Aubry. Aubry (op. Recolhidas as informações. A verdadeira reforma prision al somente se iniciou ao findar o século XVIII. ou entrar em casa com animo de furtar. al guns já criminosos empedernidos. quando o filantropo inglês John Howard percorreu os cárceres do seu país e viajou depois. Isso acabou influenciando o legislador laico. como o dito marco. A partir de então. seja açoutado publicamente com baraço e pregão. foi de largo uso a pena de trabalhos forçados. Essa pena foi comuníssima. foi erigido em 1735 pelo papa Clemente XII. dizimando os reclusos. morra por isso morte natural. etc. mas também m as sa heterogênea de pessoas que. de 1775 até 1790.. as febres grassavam livremente. "devido a numerosos empreendimentos militares e marítimos e á crescente necessidade de braços para remar nas galeras reais. ou outra cousa alhea. . Nessa categoria existiram penas de exílio. pelo resto da vida. acrescenta G. recolhendo-se o condenado a uma cela para expiação da fal ta cometida. Ao contrário do Direito comum. Devido à absoluta falta de higiene. Com as pen as restritivas da liberdade não se aprisiona o condenado. que possuíam aquele traço comum. etc Medida restritiva da liberdade foi também o envio dos condenados a territórios distantes. estimada em sua verdadeira valia. mas mesmo a infrações de escassa importância: Um banal furto ou até mesmo uma simples tentativa de furto b astavam para que se impusesse ao seu autor. embora alguns. Com elas. houvessem amputado uma das mãos. o da Igreja logo adotou a privação da liberdade como pena. marcavam-se os condenados na espádua com o infamante monograma "GAL". de tal sorte que. prossegue. Aceitaríamos de bom grado a sua utilização naqueles tempos. per a porta. ou per qualquer outra maneira. O próprio Howard.. conviviam crianças. a partir do século XIX e até hoje. e degradado para sempre para o Brasil". inclusive durante o reinado de Luís XVI. e que furtou meio marco de prata. e neles as cel as reproduzem as celas monásticas que os mosteiros destinavam às penitências. pág. em minas. diz G. que a dita prata valer ao tempo do furto. Também na França. que furtou cousa alguma de dita casa. (2) Mostram-no as Ordenações Filipinas: "Mandamos. Num mesmo ambiente se amontoavam homens e mulheres. E postoque se lhe não prove. o que se queria era obter mão-de-obra escrava ou garantir a posse d as colônias. 153) conta que na Espanha existiu a pena consistente em remar nas galeras. As condições por toda parte encontradas eram sempre horríveis. que valer tanto. ou dahi para cima. para mulheres. E se for provado que alguma pessoa abrio alguma porta. sem soldo". que stava fechada. MEDIDAS PUNITIVAS DO DIREITO COMUM 39 diu. telhado. tornando-se esta assim seu cárcere. um cárcere flutuante. ele escreveu o livro State of Prisons. tal pena foi comuníssima. No geral. para escapar. se destinavam pelo resto da vida a serviços particularmente penosos. onde descreve o que viu. "que se pode considerar como uma pena de prisão. apareceram várias disposições emanadas do mesmo monarca. Em seguida. cit. para contribuírem na sua colonização. Tratava-se ger al mente de penas perpétuas e de al ta desumanidade. todavia. 192-3). onde os condenados ficavam entregues à própria sorte. destinado à correção de delinqüentes jovens e a servir de abrigo para menores órfãos e anciãos inválidos. ou sua valia. de além-mar. queremos que somente polo abrir da porta. prostitut as e. mas que se distinguiam entre si por al gumas peculiaridades. pois os condenados ficavam presos em argolas na galera. em que os cri- minosos. Em 1704. e acorrentava-se cada um ao seu banco. mas unicamente ele tem limitada a liberdade de locomoção. o papa Clemente XI fundou em Roma o asilo de São Miguel. nossos presídios conservam o nome de "penitenciárias". para meditação e estudo. em 31 de janeiro de 1530". degredo. pessoas sujeitas apenas a prisão civil por dívida. de Felipe II. Como lembrança da sua origem.38 JOÃO BERNARDINO GONZAGA [ II. no século XVIII. o trab al ho escravo ou o envio às colônias 2 . Os condenados passavam por um simulacro de exame médico. Junto com réus de processos criminais. que comutavam as penas corporais pelo trabalho nessas embarcações". de modo que aos poucos outras análogas começaram a aparecer. 2. A ela se recorria sempre que a marinha real francesa necessitava de mão-de-obra. inclusive. As sentenças consignavam que o réu era condenado a "servir a remo. janella. Estabelecimento semelhante. A meio caminho entre as restritivas e as privativas de liberdade. aplicando-se a crimes de mediana gravidade. as penas privativas da liberdade se acabaram convertendo no eixo central dos modernos sistemas repressivos. deviam permanecer segregadas. transportação. que qualquer pessoa. ou entrou em alguma casa. Felipe IIl e Felipe IV. por qualquer motivo.

acautelatória. para melhor compreendermos o espírito da época. mas também a adolescentes. As duas medidas somente foram nesse país abolidas respectivamente em 1780 e em 1788. Para a flagelação pública o paciente.. Essa bárbara ficção desatava os laços de família. (4) Cuello Calón refere essas mutilações como tendo existido na Espanha. a questão. tampouco podia adquirir a título gratuito. MEDIDAS PUNITIVAS DO DIREITO COMUM 41 3. todavia. os açoites' e as mutilações. Por fim. pág. como sanção única ou como providência punitiva acessória. nem por testamento. Esta pena foi suprimida em toda parte. que não o de locomoção. por toda parte. por doação entre vivos. Depois. superiores e inferiores 4 . como supressiva de direitos. cit. cit. 4. Suplício humilhante. acrescentando esta curiosidade: o paciente era desnudado. Nestes termos a descreve Cuello Calón: "Nenhuma pena privativa de direitos chegou à monstruosidade da que as antigas legislações instituíram com o nome de «morte civil». eram homens de sensibilidade e de costumes enormemente diferentes dos de hoje. cortavam-se pés ou pernas. e assim sofria toda so rt e de abusos por parte da populaça que ali se aglomerava. esteve em vigor até a lei de 5 de maio de 1854. Quem a sofria era considerado mo rt o para a sociedade. que constituíram a principal arma do arsenal repressivo da Justiça. portando um ca rt az que revelava o seu mau comportamento. sempre. digamos. Com ela. desde o velhíssimo Fuero Juzgo. Os carrascos eram profissionais que almejavam adquirir faina de habilidosos executores de uma arte. Somos naturalmente levados a imaginar nossos antepassados como pessoas dotadas da mesma sensibilidade que possuímos. ficavam reduzidos à miséria não só o delinquente. Por derradeiro. amarrado à rabeira da carroça. convertia-se o condenado num mo rt o-vivo. ou interrogatório com tormentos. Não obst ante sua inconcebível injustiça. nem podia dispor dos bens que adquirisse com seu trabalho. o condenado deixava de ser cidadão e até perdia seus direitos patrimoniais. Examinar os castigos físicos que conceberam e que impuseram a seres humanos é percorrer espantosa galeria de horrores. produzindo-lhe dor. Muito se utilizaram. com o recurso processual da tortura. "na sex- . sobretudo quando são chicoteadas prostitutas de esquinas. nu da cintura para cima. de sofrimento. 23). as Sete Partidas m an tiveram as mesmas penas. Será útil conhecê-las. por exemplo. págs. cegavam-no com ferro incandescente. Pena cruel. Primeiro. Na França. untavam o seu corpo de mel e o deixavam sob o sol. não só por ser imoral. muito utilizada foi a pena de "infâmia". mas. porque. O escopo requintadamente procurado foi. preliminar à pena de morte. ou seja. 5. muito apreciada pelo público. do nariz. chegou até quase a metade do século XIX. desapareciam a autoridade marital e o pátrio poder. da língua ou dos lábios. 93-4). mãos ou braços. abria-se sua sucessão a favor dos herdeiros naturais. Arrancavam-se os dentes ou os olhos do condenado. cit. 257). Os castigos fisicos foram variadíssimos. mas também todos aqueles que dele dependiam economicamente. Realmente brutal. dependendo da imaginação dos que os aplicavam. mas também por lesar os direitos de pessoas inocentes. sem dúvida muito aviltante. que já referimos. o suplício que antecedia a execução capital era a "question préalable". As penas corporais se aplicavam não só a adultos. para todos os efeitos jurídicos. ele era tido como morto. com ela. que a aboliu" (op.. inscreviam-se a pena de multa e a temida confiscação de bens. havia o castigo corporal propriamente dito. Depois.. obter o máximo possível de medo. aquelas que recaem sobre o corpo do condenado. e que se repetiram nos inúmeros estatutos regionais. Para pequen as infrações. lesando-lhe a integridade física ou p ri vando-o da vida. esmagavam-se membros. a arte de fazer sofrer. o réu era oficialmente proclamado "pessoa infame". Ou então a pena podia consistir na amputação das orelhas. diz Lecherbonnier. pág. em que todos os haveres do sentenciado passavam para o Tesouro real. (3) Bernard Lecherbonnier assim descreve a aplicação de açoites: "Entre as punições menores. falemos das penas corporais. que se pratica com um chicote de correias ou de varas. violando assim o princípio tão firmemente proclamado da personalidade das penas. chamava-se "question préparatoire". existiram medidas corporais com finalidade. em França. foi entretanto a pena de "morte civil". exposto às moscas (op. Muito ao contrário. onde recebe das mãos do executor o número de chicotadas determinado pela sentença" (op. Por expressa disposição da sentença condenatória. O malfeitor nele permanecia exposto ao público.40 JO ÃO BERNARDINO GONZAGA II. Na França. destinada à apuração dá verdade. A Justiça atuava sobre o corpo de alguém por quatro razões. sua participação na vida política e civil cessava por completo. Dentre as medid as que atingem direitos outros. atado pelos pés e mãos. Na categoria d as sanções patrimoniais. Foram medid as tremendas. é arrastado pelas praças públicas até o pelourinho. a flagelação. Poupava-se-lhe a vida biológica. havia o pelourinho. destituída de honra. de dor.

observa Calamandrei (op. cortava-se a mão com que cometera o crime. etc. foi a pena capital. Daí a instituição de todo um cortejo de suplícios que antecediam o desenlace fatal. ele não se podia limitar sempre à mera supressão da vida. Nas Ordenações Filipinas de Portugal. Na França. mais de uma centena de crimes eram ameaçados com a sanção máxima (op.. "a morte. Muito utilizado foi o "atenazamento". se vangloriava de. forca e decapitação. descreve inúmeras formas de matar que existiram por toda a Europa. Em conseqüência. até falecer. O desoreihamento — amputação da orelha —. Von Hentig. que hoje receberiam pequenina reprimenda. cit. etc.. o falso testemunho. produzia então a morte. com uma barra de ferro. pág. em que o sentenciado era exposto a animais bravios. mas também as pessoas podiam se acautelar contra o delinqüente. sem nenhuma economia. Carpzov. em vez de se apresentar como o castigo mais terrível. por estrangulamento. feiticeiros. ainda no século XVIII. pela extrema crueldade. fogo. Isso explicou uma Ordenação de Francisco I. Na Espanha. com os mártires dos primeiros tempos da Igreja. de que larguissimamente se serviram nossos antepassados. cit. Ou então eram gravadas marcas indeléveis no corpo ou no rosto do paciente. se convertia no almejado fim de outros tormentos muito mais cruéis. caracterizadas. Aos homicidas. nos circos romanos. tradicionalmente. Há notícia também de casos. chegou-se a criar uma forma de execução que durava o número simbólico de quarenta dias. para fazê-lo sofrer mais". O que se buscava. o carrasco passava curto bastão de madeira. ja crueldade aumentava. com os quais se procurava manter com vida o condenado e lhe prolongar a agonia. de modo a que somente no quadragésimo dia ele afinal expirasse. As queimaduras a ferro podiam ser feitas também para consignar o local de origem do malfeitor. de menor ou maior severidade. aqueles que feriam por dinheiro ou que praticavam adultério com mulheres casadas (e essas mulheres. na qual. era o sofrimento do condenado. haver enviado à morte mais de vinte mil pessoas. Era proclamado ao público o crime cometido e. As execuções se faziam em praça pública. alcançando. Depois. ali permanecia o condenado. pág. Exatamente porque esse castigo extremo abarcava longa lista de infrações. em 5 de fevereiro de 1534: "Les bras seront brisés et rom- . cortava-se um pedaço do corpo do paciente. ou a queimavam em fogo de enxofre. lhe golpeava a região dos rins e lhe rompia os braços e as pernas em dois lugares. Ela era fartamente cominada. Para lá transportava-se o sentenciado em carroça. girando-o assim pelas cost as . cit. Na Itália. e cu_ta reincidência os blasfemadores têm o lábio superior cortado. etc. e. em sua excelente obra sobre as penas. Raymond Charles consigna que na França. roda. Certas amputações indicavam o tipo de infração pela qual o seu portador já havia sido condenado. MEDIDAS PUNITIVAS DO DIREITO COMUM 43 Como escrevemos acima. pág. O suplício da roda (que lembrava a crucificação dos antigos romanos) foi dos mais temidos: amarrado o paciente a uma roda de carro. arrancavam porções do corpo do condenado. pesso as que falassem mal do rei. passava-se à longa imposição de tormentos. tudo meticulosamente estudado. 98). em que os carrascos. em uso desde os primeiros tempos de nossa história. o que era útil à Justiça saber na hipótese de reincidência. vitimando mulheres alegres. Perseveram? Corta-se-lhes a lingua. mas também para infrações secundárias. piche ou cera ferventes. onde era conhecido seu passado reprovável.42 - JOÃO BERNARDINO GONZAGA II. aos olhos do povo. tal como havia sido feito. especificavam as Ordenações. ora as iniciais do crime. Idem os crimes de furto.. aplicavam-se outrossim medidas corporais com sentido preventivo. não só as autoridades. teve largo emprego o garrote: enrolava-se no pescoço do condenado uma corda. podiam ser casadas "de feito" ou "de direito"). mais do que a perda da vida. no alto e em baixo. desertores e moços culpados do rapto de alguma jovem" (op. com o rosto voltado para o céu. 83). e logo cobriam as feridas com chumbo derretido. pelos quais se levava o réu à mo rte. de violação de domicílio para furtar. o algoz. a seguir. em diferentes países. de muito variável importância. o uso de pesos ou medidas falsos. perpetua-se da mesma forma que a amputaçâo do nariz. com tenazes. na sétima o lábio inferior. com ferro em brasa: ora um sinal que simbolizava o crime cometido. na sua carreira de magistrado. para que o trucidassem ou o devorassem. A gravidade maior ou menor do crime devia traduzir-se nos caminhos. a fim de evitar excesso de sangramento que apressasse a morte. o que constituía. sinal de ignomínia. a pena capital era imposta de cinco maneiras: esquartejamento. Desse modo. Dia após dia. A punição por excelência no entanto. por exemplo. o grande jurisconsulto alemão do século XVII... por detrás. contamos perto de oitenta modalidades delituosas merecedoras da morte. 23). na medida em que os crimes eram de maior monta. alcoviteiros. sempre. não só para os delitos mais graves. castigo tradicional dado ao servo que descontentava o senhor.

Joana d'Arc foi queimada viva pelos ingleses. constituiu grande avanço no sentido humanitário. enquanto a espada. para expor suas partes em diferentes locais públicos. 6. conforme a descreve Cesare Cantu (op. pág. a mão direita portando a arma do crime. com freqüência. autorizavam o executor a apressar a morte. em Versalhes. praticou. pág. numa síntese que abrange quase sete séculos. por muitas horas ou mais de dia. sendo oblíqua. foi de uso muito difundido despedaçar o corpo do condenado. Veja-se esta ocorrência que se passou em Nápoles. lambes et cuisses. Desejava-se que a agonia na roda se prolongasse o mais possível. substituído no patíbulo por uma figura que o representava.. a fogo lento. sob pena de morte se voltassem. que ficou apenas levemente ferido. quando o crime possuía conotações políticas. le visage contre le ciel. Se o condenado conseguia fugir. o sujeitaram às mais requintadas torturas. e. Afinal. num momento dado. enforcaram-no em praça pública. onde lhe queimaram. avec les reins. esmagavam as pernas do paciente. a brutalidade ultrapassava os limites do imaginável. As bruxas e os feiticeiros eram implacavelmente conduzidos "à fogueira. o que transformava a execução em brutal carnificina. Observa Bernard Lecherbonnier (op. Cesare Cantu. colocando sobre as feridas resina. a conselho dos médicos que consideravam ser este o meio mais doloroso. no ano de 1585. pela rapidez e eficiência com que funcionava. porque o carrasco. Aliás. Para arrancar-lhe a delação de inexistentes cúmplices. ou se se suicidava para escapar dos tormentos que o aguardavam. água ou azeite ferventes. tant haut que bas. a quatro cavalos. Bernard Lecherbonnier. costumava durar pelo menos duas horas de esforços dos executores e era ademais antecedido por toda uma série de suplícios. op. trezentas foram condenadas ao degredo. com as providências que exigia. pus en deux endroits. MEDIDAS PUNITIVAS DO DIREITO COMUM 45 do ao público tocar. comunicante. Das doze mil pessoas que por isso fugiram. impossibilitado de andar. dividiram o seu corpo em quatro porções. que. et mis sur une roue haute plantée et élevée. 70) que esse tipo de execução. lentamente apertadas. o carrasco podia romper as articulações com uma barra de ferro. op. consistentes em duas pranchas de madeira. para que nele vegetação nenhuma brotasse. ou. secciona com facilidade o pescoço do paciente. A pena de esquartejamento era igualmente brutal: prendia-se o condenado. Damiens foi carregado ao patíbulo. facilmente errava os golpes. de lâmina reta. A decapitação por espada ou machado. cit.. 14): assassinada uma autoridade eleita.condenado. óleo. que começou a ser empregada na França em 1792. os juizes emitiam a cláusula de retentum. a algumas deceparam as mãos. pelas pernas e braços. como medida acessória. cera e chumbo liquefeitos. o corta por esmagamento. estrangulando o condenado. A execução se fazia no seu cadáver. Durante qu ase uma hora tentaram esquartejá-lo preso a quatro cavalos tocados em direções opostas. pág. cit. Isso fizeram com nosso herói nacional Joaquim José da Silva Xavier. por fim. ou era ele amarrado a quatro fortes galhos de árvores. Sua casa foi arrasada e salgado o terreno. pág. oú ils demeureront vivants". cit. o panorama da Justiça repressiva nos países cristãos da Europa oci- . Para obter que os membros mais facilmente se desprendessem do tronco. se isso não fosse possível. "quinhentas pessoas foram presas. se soltavam. quatorze foram também atenazadas. após muitos suplícios. e fortes prêmios foram prometidos a quem as matasse". receberam a pena de degredo perpétuo seu pai. onde a colocaram sobre um mastro na praça principal. socorrer ou de qualquer forma ajudar o supliciado. o seu corpo foi queimado.. Quase dois séculos após. que se mantinham abaixados com cordas e que. cit. sua mulher e seu filho. atenazaram-no por todo o corpo. embora pareça um meio comparativamente mais suave de tirar a vida. se tornava coletiva. Em casos merecedores de especial complacência. que permaneceram pregadas em postes. isto é. Era expressamente proibi- Consumada a morte. o Tiradentes: condenado por traição ao rei de Portugal. sob acusação de bruxaria. o submeteram às "botinas".. Foi também costume imergir a pessoa em chumbo fundido. setenta e uma enviadas às galeras. A responsabilidade. no entanto. 1757. os irmãos foram obrigados a mudar de nome. que se lançavam ao mesmo tempo em diferentes direções. homem místico e visivelmente desequilibrado. o sentenciado era executado em efígie. A sua lâmina. e a cabeça foi levada para Ouro Preto. 70 e segs. Morto afinal o . em 1431. A guilhotina. duas foram chicoteadas. destruiu-se a casa onde o criminoso nascera (cfr. atingindo diferentes partes do corpo. nem por isso ficava cancelado o espetáculo. A sanção capital se seguia geralmente. Ademais disso. um tal Roberto F rancisco Damiens. 16. Apresentamos.44 JOÃO BERNARDINO GONZAGA II.). em. naturalmente enervado e submetido à pressão do público. das quais se enforcaram e depois esquartejaram trinta e seis. a confiscação de bens. apresentava freqüentes problem as. absurda tentativa contra a vida de Luís XV.

marquês de Beccaria. 4. 3. no sentido da humanização. Finalidades das penas. A legitimidade da tortura. 1. Madame de Sevigné. As vozes timidamente advers as . Geral aceitação do rigor. foram raríssimas. chegou quase até os nossos dias. Os velhos métodos repressivos desapareceram e não mais podem ser aceitos. como revolucionário. que não é possível julgarmos com os olhos da atualidade. por Angelus de Aretio. refere tranqüilamente os suplícios da questão. Mas aquela bárbara Justiça. somente começaram a surgir na segunda metade do século XVIII. o sistema das provas legais. mesmo porque. O grande Farinacius a apoiou como medida indispensável. de respeito. homens respeitados pelo saber e prudência. diante da pergunta sobre se seria possível ver sofrer um infeliz. De igual modo Molière. em seu prol. 1. os suplícios se justificavam porque provinham dos jurisconsultos romanos. de todas as classes sociais. no ano de 1764. Como dizia Afonso X. de sensibilidade. ao invés. que se temia fossem enfraquecer a proteção soci al . que só modernamente passou a existir. não suscitava nenhuma dúvida. a tortura. Farinacius. Nenhum motivo autoriza supor haja sido menos severa a situação nos demais Estados europeus ou nos povos dos outros continentes. As mudanças. A pena de morte não teve igu al mente reais opositores. por Hippolytus de Marsiliis. com suas denúncias anônimas. às garantias individuais. Será bom pensar nisso quando ouvirmos falar dos "rigores da Inquisição". no século XVI. o Sábio. Inclusive. aceitava pacificamente os rigores do sistema repressivo. porém. No campo do Direito Pen al . havia este ensinamento de São Tomás de Aquino: assim como ao médico é lícito amputar o membro infeccionado para salvar o corpo humano ameaçado. quanto a alguns as pectos da inquisitio. a ruptura com o passado foi quase tot al . Racine. no século XV. os mesmos princípios de outrora ainda continuam vigorando. 2. foram radicais. por exerhplo. no século XIV. em Les Plaideurs. seus processos secretos. estruturaram e defenderam a inquisitio. deve ser permitido ao príncipe eliminar o elemento nocivo ao organismo soci al . fal ava-se da tortura como algo que integrava a vida comum. elogiando os juízes que "inveniunt novas tormentorúm species". A proliferação de crimes. Beccaria preferiu publicar o livro anonimamente. editado em Milão. que acabamos de descrever. As mudanças. por Cesare Bonesana. houve forte reação contra as novas idéias. Os historiadores estão de inteiro acordo sobre o fato de que o povo em ger al . O exame que fizemos descortina um mundo totalmente diferente do nosso. cuja severidade é tão exageradamente criticada. em L'Avare (ato IV. Menochius. de lá para cá. cena 7). Com esse trabalho nasceu o moderno Direito Pen al . e delas se tornou símbolo o livro Dos Delitos e das Penas. e em outra oportunidade reclama dos cam- . encarando-os com absoluta naturalidade.46 JOÃO BERNARDINO GONZAGA III. para não ser perseguido pelas autoridades. na Itália. EXPLICAÇÕES PARA O RIGOR JUDICIAL dent al . Os grandes jurist as da época. No Direito Civil. Dificuldades para a sua apuração. a tanta atrocidade. Tudo isso foi aprovado pelos Mestres Bartolo e Baldo. Ainda nessa altura. como algo normal e necessário. de Espanha. Convém agora averiguar quais foram as causas. Carpzov e Schwarzenberg na Alemanha. apresenta certo diálogo em que um dos personagens convida outro para assistir a uma sessão de tortura. É o que faremos nos dois capítulos seguintes. e. internas e externas à antiga Justiça. o passado se conserva. com o que também muito avançará a compreensão do quadro dentro do qual viveu a Inquisição. devido à imensa mudança de costumes. responde com bonomia: "Bien! cela fait toujours passer une heure ou deux". Julius Clarus. No teatro. em 1676. que a levaram a tanta violência.

de assassinos. Conseguintemente. as ruas possuem nomes. A proliferação de crimes constituía verdadeira calamidade. organizada. As freqüentes guerras produziam populações errantes. ou Dictionnaire Raisonné des Sciences. portanto. contra aquele que violara as ordens do rei e que era depois julgado pelos seus juizes. graças à pre- . porém. mendigos. que as identificam. Anatomie. que facilmente imaginamos. Sucede porém que todas as mencionadas ciências e técnicas que auxiliam no combate à criminalidade são recentissimas. Aquele que praticasse um crime contava com forte possibilidade de não ser descoberto.48 JOÃO BERNARDINO GONZAGA III. a punição devia ser exemplar. conservando-se no anonimato e a salvo` de represálias. Coube então à Justiça Penal a tarefa de suprir essa falha. põe à disposição das autoridades variadas ciências e técnicas adequadas à apuração de um crime e à descoberta do seu autor. Diante de tantas dificuldades para uma eficaz proteção social. Para tanto. temos a Medicina Legal. começaram a surgir há pouco mais de um século. como razão primeira há de estar a rudeza da vida de então e dos costumes vigentes. dois remédios foram adotados. as autoridades ficavam diante de imensa dificuldade para descobrir e prender os autores dos crimes. não tendo o que fazer. Antes. nas Faculdades de Medicina. podem ser adequadas com justiça à gravidade de cada infração. inexistia qualquer política social eficaz. Concomitantemente. para infligir a tortura a um acusado. explica-se com naturalidade. somente em 1667 nasceu. as casas têm números. Todos os pai- ses possuem uma Polícia formada por profissionais especializados no combate à criminalidade. Outrora. A moderna Criminologia desvenda as forças criminógenas e indica os meios de enfrentá-las. daqueles tempos confusos. a Justiça incentivava ao máximo as delações secretas. podemos discernir a existência de fatores internos à Justiça e fatores a ela externos. Tudo se achava infestado por legiões de assaltantes. Como terá sido possível tanta brutalidade ser tão tranqüilamente aceita? Inegavelmente. "de qualquer modo que consideremos a morte de um malvado. isto é. pelo menos teoricamente. des Arts et des Métiers. mediante a tortura. nas estradas. se entregava a assaltos e a pilhagens. Nenhum empecilho de consciência havia. melhor seria a pena. tomo I. Sequer existia uma Polícia . exceto no Direito da Igreja. nas cidades. Dispõe hoje o Estado de fartos recursos que o ajudam no trabalho de proteção social contra a delinqüência. ela será tão útil à sociedade no meio de um anfiteatro quanto sobre um patíbulo" (Encyclopédie. para proveito dos estudantes. quando portanto já seguia alto o século XV II I. pertencentes ao ambiente social. a Antropologia. muitas vezes organizados em bandos. depois. escarmentando o povo. Não se cogitava de penas com função reeducativa. 4. Escusa enfim desdobrar todo o triste panorama. enquanto não houver sentença condenatória. As tarefas investigatórias competiam aos funcionários administrativos comuns. trapaceiros. Os castigos da Justiça comum tinham mais propriamente o sentido de vingança. Não havia nenhuma segurança nos campos. 2. se não houvesse prisão em flagrante. As pessoas portam obrigatórios documentos. As cidades são bem organizadas. prostitut as . a Datiloscopia. Com mais método. etc. a soldadesca de mercenários. A Criminalística. com fotografia. a Documentologia. podemos dizer que. a Psicologia e a Psiquiatria criminais. espera-se hoje que a possibilidade mais fácil de serem descobertos e punidos contenha muitos delinqüentes potenciais. em Paris. Integram-na a Sociologia. Paris. nos intervalos entre os combates. Tudo isso presente. a Toxicologia. o que ela fez através do terror. de modo que qualquer pessoa do povo podia acusar outrem. um embrião de organização policial. a Química. a Administração Pública atual dispõe de meios para descobrir e apanhar todos os malfeitores. a fim de convencê-lo a respeitar as leis. 3. porque. _ A par disso. contendo os insatisfeitos e ordenando a sociedade. No moderno Direito vigora o princípio de que o réu deve ser presumido inocente. a Física. no verbete "Anatomia" está empenhadamente recomendada a vivissecção de criminosos. de sorte que as penas podem ser mais brandas. EXPLICAÇÕES PARA O RIGOR JUDICIAL 49 poneses. o juiz buscava extorquir a confissão do suspeito. quanto mais severa. de ladrões. etc. Na Enciclopédia iluminista de 1751. vigia o princípio inverso: a mera circunstância de se achar alguém submetido a processo criminal induzia a presumir sua culpa. 1751). Com esses objetivos. que "não se cansam de se fazerem enforcar" (Nos paysans ne se lassent pas de se faire pendre). As c ri ses periódicas por que passava a agricultura despejavam nas cidades multidões de desempregados e de miseráveis. a seu turno. com agentes especializados. Na França.

geralmente sem divisões internas. Daí a grande preocupação em conferir a maior publicidade possível à execução dos castigos. gatos. durante este. as enfermidades endêmicas e epidêmicas tinham livre curso. o lixo. porcos e ratos que infestavam a cidade. "Como as muralhas fixavam limites ao crescimento • exterior da cidade. ela era sempre rodeada de muralhas. pág. diante da multidão que para lá acorria. as sobras da cozinha.. E como as casas normalmente se erguiam à altura de quatro ou cinco andares. já sabemos. para escarmentar os delinqüentes" (op. cit. as sanções. Com o progressivo desenvolvimento urbano. 1. revolvida pelo cães. Havia estudada teatralidade. no seu dia-a-dia. ele amava os suplicios como as festas públicas. varrendo famílias inteiras: No campo. mas sempre com extremo desconforto e rusticidade. para mais eficazmente impressionar os presentes e fazê-los temer a Justiça. seja como vingança. O cortejo seguia pelas ruas com grande aparato e arruído. levavam vida extremamente dura. para melhor impressionar os que dela tomassem conhecimento. 1. Leven que "os costumes do povo eram tão bárbaros quanto as leis. o princípio da proporcionalidade entre o crime e a pena. em si. isto redundava em que o sol escas samente chegava a alcançar o leito do logradouro" (op. CONDIÇÕES DE VIDA DO POVO cariedade dos meios investigatórios. concitando-se a população a assisti-los. 6. 2. observa Max Savelle que. Fome. . seja como advertência à sociedade. A Medicina. com os esgotos correndo a céu aberto. notadamente os corporais. esta devia ser muito vistosa. cit. 4.50 JOÃO BERNARDINO GONZAGA IV. guerra. Era desconhecido. Por ser difícil o espaço. os edifícios no seu interior se amontoavam uns sobre os outros. peste. Estudando a típica cidade européia ao término da era feud al . não estavam ligadas a nenhuma idéia de justiça. e a imposição da pena se fazia em praça pública. Isso estava longe de ser uma medida generosa. "tanto na cidade quanto no campo. para sua defesa. Insensibilidade. Presença da morte.. fazendo com que os andares superiores de suas casas se projetassem sobre a rua.. daí por diante. 3. mas os construtores se empoleiravam mesmo sobre essa estreita dimensão. houvesse torturas todos os dias. pág. morando as pessoas amontoadas em habitações exíguas. pág. As navegações marítimas. Como as sinala Mumford. formando-se uma massa de podridão. demoradamente. e se procurava que. cit. "os suplicios eram dados no tempo do carnaval. Ao contrário. e os sofrimentos do paciente sob a roda ou na fogueira dive rtiam a massa tanto quanto as caretas de um bufão na feira" (op. S. 19). as condições se foram tornando crescentemente piores. Portanto. as condições se mostravam diferentes. o condenado à frente. Nelas os moradores dás casas jogavam seus dejetos. 207). A descrita selvageria dos métodos judiciais repressivos somente pôde ter existido e ser absorvida pela sociedade porque as pessoas. as ruas eram estreitas. As cidades e as moradias. Ruas sombri as e imundas. Muitas vezes a lei determinava que uma rua devia ser bastante larga para permitir que uma pessoa andasse a cavalo no seu centro levando uma lança atravessada na extensão da largura. Segundo Cantu. II). O mau cheiro se espalhava por toda parte. mas ai dele se fosse apanhado: as conseqüências se riam terríveis. Acrescenta N.

diminui a quantidade de alimentos per capita e aumenta a mortalidade" (op. com regiões e épocas de intenso calor e outras de intenso frio. O número de habitantes conserva-se em nível pouco elevado. Mesmo os que se nutriam melhor. A escravização de seres humanos era tida como algo normal. Duby. aos poucos. Pessoas se vangloriavam de que somente duas vezes deviam tomar banho: ao nascer e ao morrer. panos ou papel oleoso. A mortalidade infantil era enorme inclusive nas classes superiores. ele próprio precursor da morte. Os sobreviventes morriam amiúde entre os 30 e os 40 anos. Ali eles ficam acamados. não existia nenhuma dess as comodidades para a multidão de pessoas que lá vivia. camponesas de 30 anos parecem anciãs enrugadas e encurvadas. destacando-se os empiricos métodos de cultivo. narrativas de novelas. 310). pela brutalidade freqüente dos cuidados. vol. 2. A Europa conheceu freqüentes períodos de fome brutal. Portanto. experiências multiplicadas pela amplidão das famílias. vivia assombrado por superstições as mais grosseir as . as más condições de armazenagem. copos e talheres individuais. Os comensais se serviam diretamente da travessa comum. a preca ri edade dos transportes. Foram as grandes fomes que impressionaram vivamente os historiadores: na França. não fosse o forte índice de mortalidade. Vários fatores concorriam para o fenômeno. grandes burgueses. escreve Roland Mousnier. Mesmo a privada seca só foi introduzida na França no século XVIII. 268-9). Entretanto. quando sobe. A História registra incontáveis filhos de nobres e até mesmo de reis que faleceram ao nascer ou muito jovens. cit. pág. Por momentos. de saúde medíocre e vida curta. um homem é um velho caduco. de 1709-1710. A extrema grosseria se revelava inclusive no comportamento à mesa. nas janelas. 2. e facilmente chegavam a ter mais de vinte filhos. Mas não passa um ano sem que haja fome nalguma província. As casas.52 JOÃO BERNARDINO GONZAGA IV. as de 1619-1630. cit. pág. e até então o que havia eram aberturas mal vedadas por folhas de madeira. que dizimou populações. sofrem. Aries e G. Nas regiões pobres. a peste. analfabeto e ignorante. essa população não é jovem. tudo ilustra em primeiro lugar a presença obstinada da doença nos lares" (Ph. morrer e ver morrer permanecem experiências privadas. 1° vol. de 1648-1651. págs. com seus fantásticos requintes de luxo. que não suscitava o menor problema de consciência. O povo em geral. diários privados. a guerra. de 1693-1694. Consoante Roland Mousnier. No Palácio de Versalhes. somente começou a expandir-se no século XVI. mas não ` se conhecia o garfo. desde o rei até o último serviçal. desapareciam comumente entre 48 e 56 anos. E é muito difícil remediá-la" (op.. cit. op. grãos-senhores. agonizam. "em sua maioria os habitantes apresentavam-se mal alimentados. calcula-se que as populações dobrariam a cada vinte e cinco anos. "o poderoso. que muito dificultava a remessa de víveres às regiões carentes. morrem. o implacável foco no qual se purificam e se afinam as sensibilidades é certamente o sofrimento físico. em média. Para aquilatarmos a importância disso tudo. o uso de pratos. nem sequer latrin as . Nesse mundo em que o hospital é antes de tudo destinado aos pobres. A metade das crianças morria antes de completar um ano. Não só.. com as camadas inferiores da população imersas em total e insolúvel miséria. pois as cria- turas envelhecem depressa. Com muita freqüência as mulheres morriam durante o parto. O uso de vidraças. Sofrer e ver sofrer. Não havia água corrente nas casas. Viviam 20 a 25 anos. observa-se também. contabilidades. apenas no século XVII começou a difundir-se. 3. As desigualdades sociais e econômicas eram imens as . A calefação era insatisfatória e freqüentemente o fogo destinado ao preparo de alimentos representava a única fonte de calor. facas e colheres. CONDIÇÕES DE VIDA DO POVO 53 ( r { a própria falta de espaço nascia da pura pobreza" (op. Outro cataclismo cíclico foram as epidemias que assolaram o continente e cuja força muito aumentou devido ao enfraquecimento . 176). "a penúria estende-se a Estados inteiros ou a imensas áreas da Europa. Correspondências. eram precarissimamente iluminad as e aquecidas.. basta lembrar os rigores do clima europeu. pois. os doentes abastados permanecem em casa. mas.. às vezes. Acrescentemos a constância de três flagelos: a fome. pág. cit. mas se tornava preciso ir buscá-la n as fontes e chafarizes públicos. de 1660-1661.. As famílias eram muito numerosas. tanto urbanas como rurais. Em França. A idéia da morte estava sempre presente. As casas não tinham banheiros. 175). pela precariedade da saúde. Daí a falta dos hábitos de higiene. utilizando as mãos ou. Depois dos 40 anos. reis.. 1° vol.

estupros. De fato. Foi preciso ce rt o tempo até que se elabor asse uma sinistra contabilidade. haviam adquirido aptidão para re al izar alguns atos cirúrgicos: amputação de membros. operava-se "a frio". mas uma espécie de foco endêmico que desperta em dat as diversas conforme os lugares. sem anestesia.. a cada oito.. permanecem cativos para fim de res- vira sua filha. Abaixo deles situavam-se os "cirurgiões-barbeiros". quando dispõem de recursos. vagando caprichosamente de uma rua ou de um bairro a outro. Sucede entretanto que esse juiz. mas as armas de fogo. as armas mais utilizadas continuaram sendo a espada. 1521-1522. despedaçar-se. 1483. por longo tempo. que haviam para isso freqüentado cursos regulares. que somente vieram a ser descobe rt os cinco séculos mais tarde. quase como algo irreal. Ou. durante um. perdendo até 20. Daí a análise de Jean Noël Biraben: "Se acompanharmos a história da peste numa cidade nessa época E. O atacante via. desarticulação. saques. pois. todavia. 1389". Outra mão completou: "Sexta peste.. Por que. 1494-1497. Temos por fim o terceiro grande flagelo. com a prática. violênci as de toda espécie.a extração de um dente molar infeccionado. redução de fraturas. etc. As guerras. por violentos impulsos em que toda a cidade era atingida. dois e até cinco ou seis anos seguidos. a maça. que forjavam homens duros. Países lutam contra países. 1363. na véspera daquele dia . Eram guerras. chamados "físicos". homens que. interrompendo-se depois durante alguns anos. atingindo indiscriminadamente toda a população. periodicamente. se iria compadecer diante de um criminoso que presumivelmente merecia a tortura? A arte de curar cabia aos médicos. Com muita freqüência a luta se fazia corpo-a-corpo. Antes. muito tardaram a dominar. . escreve Philippe Wolff. dez ou quinze anos. pág. 30 e . vinda do Oriente. homem supostamente culto e sensível. e destaca-se um golpe por decênio: 1455-1457. 1516-1517. mesmo 40% da população. o caso de Châlons-sur-Marne: as dat as de epidemia na cidade parecem obedecer a um ritmo. até exaurir-se em 1351. gate. o chuço. torturas. porque se fazia face a face. O pacien- 4. regiões contra regiões. a frio. CONDIÇÕES DE VIDA DO POVO 55 orgânico de povos mal alimentados. desde então a peste instala-se como em sua casa. cidades contra cidades. Fora desses paroxismos.54 JOÃO BERNARDINO GONZAGA IV. diante das suas mãos. sem que o atacante sequer veja aqueles que atinge. roubos. por Louis Pasteur. A Medicina não dispunha de meios eficazes para enfrentar o mal e descobrir-lhe as causas. Seguem-se pilhagens. mais cruel. mas isso ocorre à distância. 1466-1467. prossegue Wolff. ordenando e presenciando a tortura do acusado que se acha a sua mercê. que matam à distância. foram grandes fornecedoras de trab alho para esses profissionais.. Um cronista de Orvieto assin al ou: "A primeira peste geral aconteceu em 1348 e foi a mais forte". o mosquete. ele próprio tivera de sofrer. A soldadesca desenfreada espalha o terror nas cidades e nos campos. À "Peste Negra" se seguiram outras freqüentes epidemias. al astrando-se por toda parte com espantosa rapidez.] constataremos que ela passava. Não há mais epidemia universal. Os prisioneiros são m assacrados ou. também a promiscuidade muito colaborava para a disseminação da doença. Ficamos perplexos ao imaginar hoje a cena de um magistrado daquelas épocas. o arco e flecha. 1479. que exigem a aproximação dos contendores. A pólvora foi introduzida na Europa ocident al em meados do século XIII. sendo muito eventuais e precários os recursos anestésicos. Voltemos a falar da Medicina. Terceira peste. aptos inclusive a destruir cidades inteiras. lancetamento de abcessos e tumores. 1410". a alabarda. sutura de órgãos internos rompidos. À época. as freqüentíssimas guerras .. abrangendo regiões mais ou menos amplas. A mais célebre de todas foi a chamada "Peste Negra" que. inclusive. em determinado sentido. então. a faca. A anestesia e as regras de assepsia somente vieram a difundir-se na segunda metade do século XIX. Depois acrescentou: "Segunda peste. cit. 1503. A par da desnutrição. O combate de outrora era. o machado. incêndios. morrer. ela persistia em estado semi-endêmico. gerando legiões de estropiados. louvando-se em autores que menciona (op. às vezes. aportou na Europa em 1348. Os estragos provocados foram terríveis. pelo cirurgião-barbeiro. o arcabuz. Reaparecia então sob essa forma «atenuada» que muitas vezes precedia a forma «explosiva»". . a pistola. 17). Havia o canhão. 1383. menina ainda e inocente. era tot al mente desconhecida a existência de micróbios. ressecção. a vítima sofrer. a lança. As mortes eram tantas e tão rápidas que as autoridades não conseguiam enterrar os cadáveres e estes permaneciam insepultos pelas ruas. mais prosaicamente. ter uma perna esmagada e por isso amputada. Quart a peste.. A guerra dos nossos dias é infinitamente mais brutal apenas devido à alta capacidade mal fazeja dos armamentos utilizados. por hipótese. E também. etc. 1374. Quinta peste.

se adapta às condições de vida. 56-7). Houve a galera. a literatura. mas era preferentemente impulsionada a remos.. que se sepultavam então no mar. a música.de embarcações mais fracas. cada um. total. Não pensemos que. Os remadores viviam sempre ao ar livre e vestiam apenas uma camisa e calções. que saiu da França rumo ao Brasil em novembro de 1556. não se enternecendo com o sofrimento alheio. como de fato fizemos. quando os navegantes viam desaparecer suas reservas de alimentos e água doce. Esquadrinharam todos os recantos do mundo. a seu turno. a pintura. de sede. brotou. explica Roland Mousnier (op. As viagens duravam muitos meses ou alguns anos. da freqüência com que se impunha a condenação "à galera". o teatro. As expectativas do homem do povo eram modestas. sobrevinha quase invariavelmente. 1° vol. vivendo de modo tão áspero. Quando a viagem se prolongava. o homem fechou seu coração. Por isso. variados. ao espetáculo desses desgraçados. Por exemplo. carracas.56 JOÃO BERNARDINO GONZAGA I IV. Permaneciam acorrentados aos seus bancos dia e noite. inclusive água e víveres. Ficamos imaginando como é que podiam presenciar e se mostrar insensíveis.. Mesmo quando se descobriu o meio de evitar essa doença. Jean de Léry. de pequenas dimensões. sempre imersas em perigos. e a tudo se habitua. cresciam e se multiplicavam. galeões. As expedições oceânicas. ainda que árduas. A dureza de alma e a intrepidez são eloqüentemente demonstradas pelo que se passava n as navegaçãos marítimas. págs. e. havia alegria. e desprezo pela vida fez com que em geral nenhuma providência fosse tomada. Esta possuía poucas velas. Havia distrações. assim. algumas poucas dezenas de metros de comprimento. e as mortes continuaram ocorrendo. de febres ou de escorbuto. . por cinco homens. Por toda parte floresceram as artes. para saquear o que nelas existisse. a escultura. Inúmeros cronistas da época relatam as experiências de tais viagens. feiras com espetáculos. com ela convivendo. quando os atacantes "descarregam tudo o que lhes parece bom e proveitoso. cantos. e navios outros. criminosos condenados a trabalhos forçados pela Justiça. fé religiosa. etc. os passageiros e os tripulantes livres da embarcação. Surgiu o movimento da Renascença. Descreve os horrores por que passou. O desconforto. sem meias nem calçados. A despeito de tantos infortúnios. Nenhum cuidado de higiene era tomado: o operador atuava vestido com suas roupas normais e sequer lavava as mãos e os instrumentos utilizados. a porcentagem de óbitos era muito elevada. tremendas. as pessoas não seriam entretanto necessariamente infelizes. estas pouco contavam com a própria vida. nos oceanos. CONDIÇÕES DE VIDA DO POVO 57 te era amarrado e contido pelos auxiliares do cirurgião e este devia possuir rija têmpera e coração duro para intervir ao som de lancinantes gritos de dor. cit. Já falamos. os fortes se tornavam mais destemidos. pág. o indivíduo da rua que assistia ao espetáculo de um criminoso supliciado na "roda" permanecia indiferente ou até mesmo se comprazia. todavia. Ou então os navios ficavam presos em longas calmarias. Piratas e corsários rondavam por toda parte. para deter a hemorragia e evitar a infecção. a arquitetura. que singravam os oceanos: caravelas . mediam cerca de doze metros e eram movidos. O espírito humano. tanto no oceano Atlântico como nos mares do Oriente. a qual. cit. e se espalhou pelo continente. Findo o ato. respondem com o estribilho comum aos nossos soldados: que isso é de guerra e de praxe e anda bem quem assim pratica" (op. por assim saquearem indiferentemente amigos e inimigos. 5. Ao lado da Justiça que cometia suas violências. treinados para tra. Um mundo tão hostil teria porém de acarretar conseqüências: temperava as pessoas. reinasse o espírito de solidariedade. as doenças se encarregavam de eliminar os mais fracos. 6. alimentados apenas para "consumir os humores supérfluos". Os mesmos. e confirma o hábito da pilhagem. deixando seus ocupantes à míngua. representam uma das maiores provas de arrojo que o ser humano pôde dar. no Capitulo II. a ferida era coberta com óleo fervente. danças. restrita aos percursos no mar Mediterrâneo. porque os homens eram duros demais para isso. Não passavam de casquinhas de noz perdidas na solidão de oceanos sem fim. acima de tudo. As naus eram pequenas. Freqüentissimamente não. ou escravos. permanentemente molhadas pelas ondas. balharem ao som de apitos e excitados por urna saraivada de pancadas. retornando depois ao seu pais em janeiro de 1558. a encantadora leveza da pintura e da escultura pré-renascentistas. na ida e na volta. na Itália. E se porventura alguém os adverte. mediante fácil regime alimentar adequado. 151). Muitos tripulantes e p assageiros pereciam de fome.. Os vermes. Suas roupas nunca secavam. Em conseqüência. as tempestades. havia poesia. e não existia qualquer dispositivo para evacuar as imundícies. Foram comuns os casos de abordagem . urcas. com a sua plasticidade.

a Igreja oferecia uma morada comum. construiu al i novas embarcações. "abandonando-os sem deixar a essa pobre gente um só pedaço de biscoito nem víveres de qualquer espécie. "Numa cultura assinal ada por espantosas diversidades de dialeto. e foi enfrentar o impérico inca. na mesma ordem. Antes. cunhagem.. A Igreja Universal dava a todas as comunidades. Da menor das aldeias. a preocupação econômica tende a tudo dominar. a simplicidade da vida. o que entretanto não exclui o soberbo heroismo da sua aventura. as pessoas vivem ocupadas demais. O mundo terreno possui demasiados atrativos. a única instituição poderosa e universal era a Igreja.' ao inverso. 1. 290-1).58 JOÃO BERNARDINO GONZAGA Em outra passagem. E verdade que Pizarro venceu afinal pela astúcia. Nunca a rigorosa uniformidade romana serviu melhor à humanidade que durante esse período. da Espanha à América Central. Fernão Cort ez marchou sobre o México com apenas quatrocentos infantes. a morte se protrai escondida n as brumas de um futuro longínquo. Religiosidade popular. pois ficando assim à mercê das ondas é certo que devem ter por fim submergido ou morrido de fome. por isso. 2. de um a outro extremo da Europa. à maior das cidades. após a queda do Império Romano. cit. antepondo-se à imagem do sobrenatural. como algo irreal que não o preocupa e que. uns doze milhões de habitantes. com sua igreja paroquial. V. 3. se não impossível para o homem de hoje sentir em seu coração o que se p as sava naqueles tempos. pág. repetimos. um propósito comum" (Lewis Mumford. op. as mesmas missas. Francisco Pizarro: cruzou o Atlântico. na verdade um abrigo universal: o mesmo credo. na época. com manobras políticas. Torna-se difícil. Duguay-Trouin. rasgando-lhes as velas e retirando-lhes o escaler sem o qu al não lhes era possível aproximar-se de terra ou desembarcar. não tinha por que se apiedar de criminosos. cujos habitan tes se vangloriam de que seus inúmeros corsários apresaram um total de 3. cit. Quando por fim os naveg antes desembarcavam em terras desconhecidas. Acreditamos todavia que o melhor modelo de valentia e tenacidade foi a proeza de outro espanhol. até o século XVI. com sua catedral. e o que é pior. pesos e medid as .. assim chegando à costa do oceano Pacífico. Para ele. para o mesmo fim. a Igreja estava visivelmente presente em todas as comunidades: suas torres eram o primeiro objeto que o viajante divisava no horizonte e sua cruz era o último símbolo levantado diante dos olhos do agonizante. onde desembarcou. Ser desligado de sua comunhão era castigo tamanho que. da morte. que se calcula possuísse. Léry narra que certa feita os marinheiros do seu navio colocaram espanhóis e portugueses numa caravela em alto-mar. a vida se al onga. A França até hoje cultua a memória do seu maior corsário. os próprios reis tremiam diante da ameaça de excomunhão. Ser membro dessa associação era teoricamente voluntário e praticamente obrigatório. "Na Europa ocident al . culinária. para atravessar a pé a floresta. os mesmos ofícios. de céu e de .800 navios mercantes. suas numerosas igrej as. Os ciganos. de quem se diz que entre 1689 e 1709 capturou mais de trezentas embarcações. 61). direito. não lhe pauta o comportamento. com as quais desceu até o Peru. forjada por uma vida extremamente hostil. Essa gente. até a menor das aldeias achava-se no plano de uma metrópole. se nenhum barco os veio salvar" (op. seus mosteiros e santuários. Coragem porém não lhes faltava. outros variados pe rigos os aguardavam. a tenaz pregação catequista feita pela Igreja. re alizadas com os mesmos gestos. quinze cav aleiros e sete canhões. Era originário de Saint-Mato. Nos ofícios mais importantes da vida. A PRESENÇA E O PROBLEMA DA RELIGIÃO 1. A intensa propaganda consumista leva à ânsia de prazeres e de bens materiais. as idéias de Deus. levando uma centena de homens mais cerca de sessenta cav alos. Melhor fora afundá-los do que deixá-los em tal estado. Lutas religiosas. pequenas e grandes. págs.

cit. freiras. "o século e meio que se seguiram à publicação das Noventa e Cinco Teses de Lutero foram um período de quase constante guerra religiosa.. teve entre as preocupações primeiras mandar rezar uma missa. 23 e segs. a Igreja dava segurança ao seu rebanho. como detentora única de uma verdade e de uma fé essenciais à salvação humana. ocupando-se das escolas. pág. de outros credos. J. o da perseguiçâo por éditos especiais emanados do próprio governo e aplicáveis a todo o conjunto do Império. o componente religioso. com seus costumes. mais ou menós retardada ou acelerada pelos poderes imperiais. Kannengiesser. frades. Isso só se tornou realmente viável há muito pouco tempo. A Igreja se revelava por toda parte. Vasco da Gama. a sua vocação universal. a perseguiçâo "será mais ou menos espontânea. mas. portanto. cada grupo com sua crença. tal como o viam espanhóis e portugueses. monges. a dissidência religiosa significava rebelião traiçoeira contra o Poder estabelecido. em maior ou menor medida. Os resultados do segundo método serio incontestavelmente bem mais sangrentos que os do primeiro" (L'Eglise des Apttres. em outros continentes. O is(1) Desde o ano de 64 até 192. Hadas-Lebel. com procissões. e. in C. a partir do século XV. . na época. Sintamos agora este problema. Era incomum.. seus templos e seus cultos. todos convivendo harmonicamente em clima de liberdade e mútuo respeito. A PRESENÇA E O PROBLEMA DA RELIGIÃO 61 inferno sempre presentes. de lutas. escreve Daniel-Rops. Os estabelecimentos religiosos em ger al constituíam o repositório da cultura e das artes. tudo isso envolvia o indivíduo numa atmosfera de forte religiosidade. mas também poderosa força de união ou de separação entre os homens. cada dia com o seu santo. Isto era verdade tanto nas terras protestantes quanto nas católicas" (op. escultura. tais como interesses econômicos. estavam sempre carregadas de ardor religioso. na História da humanidade. pág. Le Prosélytisme Juif. protestantes e católicos não se respeitaram. desde o amanhecer até à hora da Ave-Maria. mas nesses movimentos encontramos também. e se mantém indiferentes aos que estão fora. passou a noite orando na capela de Nossa Senhora de Belém. bem visível nas velas. 2. dos asilos. quando seus seguidores dominam pela força outros povos. pelos ritos religiosos. A razão disso era clara e simples: a religião identificava-se com o Poder. dos quais nove padres seculares. qu ase inconcebível. penitências. com sua pompa. e morreu na cruz para nos salvar. a própria fé. na península ibérica. peregrinações. pintura. pág. M. cit.). ansiando por espalhar a "Boa Nova": Cristo. Ao mesmo tempo. perigos e tão grande fervor religioso. morticínios e perseguições religiosas. mouros e judeus que permaneciam fechados em si mesmos. No momento em que. tão logo chegou ao Brasil. hostis ao ideal cristão. O fator religioso era não só uma vertente do humano que ligava o indivíduo a Deus. Outros credos se encerram em fronteiras nacionais. cit. Como observa Max Savelle. E certo que.. música. imensurável soma de propriedades se destruiu. No curso dessa guerra. As expedições marítimas que. outros fatores concorreram para isso. A partir do século III. das universidades. pág. Junto ao povo estavam bispos.. realmente. festas. a cruz de Cristo. 398). até mesmo zombavam da Igreja. quase invariavelmente. dos hospitais. O cristianismo almeja convencer. de estranhos costumes. levando missionários para evangelizar os infiéis. e que ademais. estabelecer-se-á um novo regime. 188). pelo só fato de serem cristãos'. espoliou e massacrou incontável número de cristãos. Quando a Reforma penetrou na França e na Alemanha. Pedro Alvares Cabr al já trouxe em sua esquadra dezessete missionários. escarneciam das coisas sagradas e profanavam objetos do culto. ou se limitam a grupos humanos restritos. não os buscando para entrarem. incalculável dor se infligiu em nome de Jesus de Nazaré e para fins de salvação humana. uma sociedade religiosamente pluralista. a História apresenta triste rosário de intolerâncias. com seus solenes ritos litúrgicos. veio à Terra para ensinar o caminho da verdade a todos os povos. pelos sinos que repicavam. Ou então. m as se entredevoraram.. incontáveis vidas se perderam. políticos. op. etc.. etc. na véspera do seu embarque. saíam da Europa em busca de descobrimentos. converter e salvar. com tantos sacrifícios. mais oito franciscanos. op. segundo se propalavra. apenas lhes impõem. Lortz. houves- se grupos de diferentes raças. forçosamente lhes parecia intolerável que em sua própria casa. 540. Comecemos pela Roma pagã..60 JOÃO BERNARDINO GONZAGA V. Critica-se a Inquisição. I. Daí o seu fervor missionário. pequenos curas de aldeia. conforme professassem ou não o mesmo credo. cit. As caravelas portuguesas e espanholas ostentavam. que to rturou. A inteira existência dos homens era ritmada pelo calendário cristão. mas sempre esporádica e sem apresentar nunca um aspecto sistemático. A vocação missionária é característica do cristianismo (assim também como foi outrora muito forte no antigo judaísmo: cfr. etc. eles se lançavam à evangelização de povos longínquos. às margens do Tejo. padres. Filho de Deus. raciais. arquitetura.

Os católicos o rt odoxos da Europa oriental. c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruiçao física.de que é desrespeitoso para com Maomé. de advertência.] "Padres abençoaram os piores fuzilamentos. Marx e Lenine. inclusive. as violências dos vermelhos foram terríveis "porque desordenadas. Na Espanha e em Portugal. como fenômeno ainda não solucionado. As medidas que empregou para impor a nova fé encheram o reino ' de crimes e de sangue: os puritanos emigraram. os católicos sofreram tais perseguições.000 almas" (Mattoso. de nacionalidade indiana e radicado na Inglaterra. um grupo nacional. em 24 de agosto de 1572. e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo". porque obedecendo a ordens e feit as em ordem". na sua maioria. com a sua comunidade crista. pág. cit. A figura do genocídio. de difícil aplicação prática. no Irã. para efeito de propaganda externa. [. nos séculos XVI e XVII lutas ferozes foram travadas na Alemanha. (2) Consoante o texto aprovado em 1948 pela ONU.. Na Inglaterra. após cruenta luta. Tornou-se crime a prática de qualquer efetiva religião. de conteúdo quase religioso. a "Ku Klux Klan". Multidões perseguiram os religiosos até seus túmulos" (op. Nestes dias. onde os calvinistas eram chamados de "huguenotes" e sucessivas guerr as ocorreram. 328). quando Isabel morreu (1603). com componentes religiosos. perseguindo e punindo pessoas suspeitas de tendências políticas esquerdistas. Com as expansões árabe e turca. aliás. . do Norte da Africa e de algumas regiões da Europa. persiste. que hoje se passam na India e no Paquistão. possui ao menos um valor ético. uma Convenção destinada a prevenir e reprimir o chamado crime de genocídio. Para tentar por cobro a desatinos como os acima descritos. onde se instalou. A rainha Isabel I "perseguiu igu al mente católicos e calvinistas radicais ou «puritanos». a partir do cisma de Henrique VIII. de sorte que o catolicismo ali foi pouco pe rt urbado. Étnico. cujas p al avras foram convertidas em dogmas indiscutíveis. religiosos. O mesmo panorama agressivo. no qual foram incluídas as agressões a um povo por motivo religioso. A PRESENÇA E O PROBLEMA DA RELIGIÃO 63 lamismo.. não representavam mais de 120. a rebelião dos católicos foi sempre afogada pela violência. Como diz Pierre Vilar.. ao contrário. há muito tempo radicada no país. e terríveis as dos brancos. e os "vermelhos". Até mesmo os Estados Unidos permitem a existência de um bando de fanáticos. constitui genocídio "qualquer dos seguintes atos. em Israel. que cometeu tremendos excessos de patrulhamento ideológico. uma religião às avessas. d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo. Na década de 1950 vicejou também nesse país o movimento do "Macartismo".62 JOÃO BERNARDINO GONZAGA V. mas com seus "santos". sempre considerou da sua essência submeter todo o mundo a ferro e fogo. foi de brut al atrocidade. No curso dos séculos. com a imensa carnificina que vitimou os protestantes na chamada "noite de São Bartolomeu". 108). no todo ou em parte. na Iugoslávia. Na segunda década do século XX. enfim. Na Escócia. cit. Com a Reforma. racial ou religioso. um obscuro escritor de nome Salman Rushdie. a Reforma não fez progressos. Na Rússia. sob a liderança do calvinista João Knox.. criado pelo senador Joseph McCarthy. mais tarde. na Irlanda do No rt e. publicou o livro Versos Satânicos. no Líbano. Foi verdadeira cruzada. b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo. os turcos muçulmanos dizimaram e dispersaram a comunidade cristã armênia. para a Holanda. a ser cumprida pelo primeiro muçulmano que o encontrar. que passaria despercebido não fosse a acusação . chegando aos nossos dias. total ou parcial. Tanto bastou para que facções islâmicas lhe impusessem a pena de morte. pág. que se espera seja educativo 2 . indefinidamente. A tremenda guerra civil espanhola (1936-39). entre os "brancos". vagas muçulmanas varreram o cristianismo da Asia Menor. op. a Organização das Nações Unidas patrocinou. como tal: a) matar membros do grupo. O México durante quarenta anos (1900-1940) perseguiu a Igreja católica. em 1948. um governo de fanáticos religiosos. s al vo quanto a pequeninas exceções toleradas e manipuladas pelo regime. os missionários cristãos vêm sendo massacrados em todo o redor do mundo. origem saxã e religião protestante. o quase inteiro mundo muçulmano. toda vez que assumiram o Poder. as violências contra os católicos também foram imensas. Lembremos outrossim os insolúveis conflitos. e afirma-se que se perderam perto de um milhão e meio de membros desse povo. na China e em outros países comunistas se instaurou oficialmente e de forma obrigatória a "religião" do ateísmo. ateus. cometidos com a intençao de destruir. excluíram os católicos romanos. que. que desde 1865 vem agredindo as pessoas que não apresentem estas três qu al idades: cor branca. conflitos que vêm sacudindo. Idem na França.

e fez de Jesus Cristo um judeu. op.. o cigano manteve permanente conduta anti e associal. Os tribunais inquisitoriais não se interessaram pelos ciganos. Como há. desmembrou-se por completo o Estado judeu. dedicado a furtos. para fixar um rumo à humanidade. Responsabilidade coletiva. Fundamentos religiosos. lançando-o em direção ao Oeste. Generalizada malquerença popular. sua música. 2. Restrições impostas. se unem neste ponto comum: foram sempre implacavelmente perseguidos em quase toda parte onde estiveram. Os judeus. Suprimido o reino. 0 "povo eleito" e a diáspora. Segue o curso da História. porém. uma judia. absorveu infinidade de vítimas: ao. "0 inferno da Idade Media". o rei Carlos lI ordenou que. Fatores sociais. Os mais vigorosos e belos permaneceram para lutar com as feras nos circos romanos e para acompanhar Tito em sua solene entrada em Roma" (Simon Dubnow. Aqueles que com ciganos andarem. 1.redor de um milhão de judeus pereceram na guerra com os romanos (66-70) e uns cem mil foram feitos prisioneiros. nele "entrando. Na península ibérica. m as eles se espalharam mesmo pelo continente no século XV. Gente de religião pura como a água que jorra de fonte cristalina. As cruzadas. 1. acrescentou. luta de um Estado minúsculo contra o Império mais poderoso do mundo. improdutivo.): a gente de Israel se dispersa e vai buscar refúgio em todos os recantos da Europa. do Antigo Testamento. Em conseqüência. Fascinante é a história dos judeus. merece um capítulo separado. por ser muito especial e importante. consta que ingressaram em 1443. incorram na pena de morte". outros enviados a trabalhos forçados ou vendidos como escravos nos mercados da Asia e Africa. das Ordenações Filipinas. os gitanos. A par disso. determinou sua expulsão do reino. S. deveriam ser condenados a morrer na roda":-Na Espanha. na Asia. a fim de que testemunhassem a sua ressurreição e difundissem o Evangelho pelo inteiro mundo. 291-2). com o número de três ou mais. cit. Idade Moderna. que pouco de útil e construtivo parece ter feito.64 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VI.. que se mantinham fechados em suas crenças sem nenhuma preocupação de proselitismo. . por inteiro diferentes. Fatores econômicos. Desses cativos. suas danças. O rejeitaram. será útil conhecer-lhes a singularíssima história. a de Abraão e Moisés. sejam presos e açoutados com baraço e pregdo". págs. Livro V. Cristo ensinou a verdade ao seu povo. "sem nenhuma formalidade de processo. e neste escolheu doze apóstolos. mas dele se ocupou apenas a Justiça Criminal comum 3 A sina do povo judeu.. de sua parte. sérios e muito concorreram para a cultura e o progresso. Tem início então um calvário - . o "povo eleito". 3. e . Há notícias da presença de ciganos na Europa desde o século XII. "Com a ruína de Jerusalém. "se forem apreendidos juntos em quad ri lha alguns dos que se dizem ciganos. 202-3) descrevem as severíssimas sanções cominadas aos ciganos na Alemanha: se desobedecessem à ordem de expulsão. Enquanto os primeiros eram reconhecidamente operosos. 9. m as tão-só pela sua «vida viciosa». 4. cit. o Titulo LXIX. dos reis Davi e Salomão. Jamais se f ixou em qualquer trabalho honesto e produtivo. com seus trajes coloridos. O MISTÉRIO JUDEU 3. De vida errante e religião misteriosa.1. 10. ' (3) Radbruch e Gwinner (op.C. sobrevém a destruição de Jerusalém. todavia. à leitura da sorte. teriam seus bens confiscados e os que fossem capturados. muitas queixas contra a Igreja e a Inquisição.. do Oriente. os judeus e os ciganos. ainda que não se lhes prove outro delito. constituíram um povo de vocação nômade. temido por todos e reconhecido como parasita incor rigível. 11. perscrutou todas as nações e escolheu uma. dos profetas. dos salmistas. visando à sua expulsão ou ao seu extermínio. 7. Certo dia. Essa luta tão singular na história. serão "além das sobreditas penas degradados dons anos para Africa". 8. as mais severas punições lhe foram reservadas. ao inverso. 6. essa gente se cercou de uma aura de romantismo. com arm as de fogo curtas ou largas 1. Em Portugal. Perseguições em Roma. Alguma catástrofe histórica o fez perder sua terra. alguns foram mortos. Javé querendo enviar seu Filho à Terra. a constantes trapaças e fraudes. págs. Javé decidiu pois. Sua origem é obscura. Dois povos. do norte da Africa. nascido de Maria. ocorre a diáspora (70 d. pequenina e pobre.

destruídas. mortos. prossegue com Constâncio. Sem embargo. escravizados. mas logo se reiniciou um caminho cheio de desgraças.): no Egito. que chamava "o povo endemoninhado". e vós ficareis poucos entre as nações. tudo começou com o Imperador Tibério (14 a 37 d. Desaparecidos o império romano do Ocidente e. assim. Reacendem-se as perseguições nos impérios do Oriente e do Ocidente. torna-se livre o cristianismo no Estado romano. A crônica dos judeus radicados no estrangeiro constitui um rosário de dores e de lamentações. onde repete as tradicionais críticas a eles feitas. e vos espalhará por todos os povos. maltratados.. de grande prestígio. bons artesãos. 2. Eram pacíficos. "com ele sobe ao poder um déspota sob cujo governo a intolerância obterá verdadeiros triunfos. Sob Juliano. novas perseguições ferozes prosseguem. cria-se logo um abismo entre árabes e judeus. os judeus renovaram suas esperanças de paz. após sua morte. No ano de 626. dissipou-se o último raio de esperança para uma vida tranqüila e sem lutas. foram massacrados com a maior crueldade. mãe do imperador. firmou sua aversão com uma Carta contra os Hebreus. dado que Martinho Lutero voltava à fonte do Antigo Testamento. 143). cit. nas artes e na cultura. com Constantino. como modelos que se proje- l• { .C. os árabes. Honório (395-425). o Apóstata. quando convocados. inteligentes. Quando os judeus se revoltaram. coisa a que todavia ninguém se havia atrevido" (Werner Keller. Sempre. 27). pág. religiosos. Chegamos por fim a Justiniano. publicou o livro Dos Judeus e suas Mentiras. pelos séculos além. laboriosos. Seus médicos. ou não abjuraram sua fé. da península `arábica. acabando afinal expulsos.361). os gregos. o Profeta vence ante as portas de Meca. Aconselha a sua destruição e. alastram-se para adiante. houve algum desafogo. inveja e desprezo. fez uma peregrinação à cidade santa de Jerusalém. etc. Teodósio II. dirigida a desapossar gradualmente os judeus de todos seus direitos. mas. sedentários. na visão israelita. com a Reforma na Alemanha. implacável adversário. Os hebreus haviam deixado de ter um lar próprio. que subiu ao trono em 361. humilhações e opressões. Bem mais tarde. em 1542. à medida em que se iam fixando em algum lugar. Quase mil anos mais tarde.. para convencê-los. Assim. entre as muitas ocorridas no Ocidente: os judeus foram expulsos de Roma e os que não abandonaram a cidade no prazo fixado. o Grande (306-337). "colaboraram para tornar o protestantismo [.. Quando Helena. Sua religião foi declarada "culto sacrílego'. as leis sobre o tratamento dos judeus foram preservadas: no Codex Theodosianus (439) e no Codex Justinianus (554) se eternizam as restrições a eles impostas. op. pág. Seus éditos imperiais atacam a fundo sua vida religiosa. do Oriente (408-450). foram convertidos em escravos e condenados a trabalhos forçados. foram objeto de desconfiança.. transformando o islamismo em seu feroz inimigo. as turbulências começavam. Maomé tentou deles aproximar-se. vendo frustrados seus esforços. mas. excelentes soldados. etc. Diante disso. desencadeia-se a primeira perseguição. estavam doravante à mercê de múltiplos hospedeiros. os egípcios. tanto como dez séculos antes Maomé. O azedume foi crescendo em seus sermões até que. Sempre sobressaíram. 615). envenena contra esse povo. Na Europa. com ódio. imperador do Oriente (337. produziram inumeráveis sábios. sempre. rancor. mais tarde. esta passou a ser considerada cristã. O MISTÉRIO JUDEU 67 sem fim. o campo protestante. Tais manifestações. o notável imperador de Bizâncio (527-565). em Roma e no Egito. a que o Senhor vos levará (Deut 4. inclusive de assassínio ritua l. o do Oriente. houve tolerância para com os israelit as .] mais anti-semita que o catolicismo oficial" (op. O mesmo quadro permanece imutável com os imperadores Teodósio I (379-395). com a posição hebraica piorando gradativamente. nela ficando proibida a entrada de judeus. profundamente e por dilatado tempo. contendo gravíssimas acusações. estavam sendo feitas amargas e violentas críticas contra os judeus. desde a Síria até à Africa. No início. massacrados. Em 1538. a todos davam auxilio. místicos. mas terminou por rechaçá-los. Seu culto foi abafado. mas. espoliados.. ofendidos. cumprindo-se a profecia bíblica: O Senhor vos destruirá. Lutero quis então atraí-los. Durant. e os judeus são os primeiros a sofrer as conseqüências. Sob o imperador bizantino a perseguição dos judeus e sua degradação se conve rt em em lei e em norma e os decretos promulgados por sua ordem agravam ainda a atitude iniciada por seus antecessores. cit. diz W. O panorama hostil. Tanto os oprimiram a Roma pagã como a Roma cristã. Libelos escandalosos foram enviados a Roma. E por todos louvado. Foram acossados como nenhuma outra raça. para sempre.66 JOÃO BERNARDINO GONZAGA E VI. dos quais se tornara inimiga sobretudo a numerosa colônia grega lá existente. a Igreja do Ocidente e a do Oriente. torturados. para ajudar a humanidade. deles se tornou. Com Caligula (37-41). suas sinagogas.

Organiza-se então a primeira cruzada. da Síria. em 1320.. os expulsou. A matança foi tremenda. ocorre porém a idéia de que. Dispersados afinal por ordem do papa João XXII. nos vários países. pelas mãos de Cromwell. sobretudo na Alemanha e no norte da França. Apenas durante o século VI. que se põem a caminho. Calcula-se que. Filipe IV determinou que os judeus fossem embora. Nesses maus termos nos aproximamos do que o povo eleito chama de "inferno da Idade Média". O conseqüente êxodo foi de vários milhares de pessoas. com o avanço da Igreja. e que deixou entre seus membros e em seu ambiente marcas tão profundas que influíram mais além da obscura Idade Média. Os que desobedecessem à ordem seriam enforcados. que assassinaram aos milhares. os filhos de Israel começaram convivendo pacificamente com as rarefeitas populações primitivas que lá habitavam. chegam à Europa notícias de que os muçulmanos haviam profanado lugares santos de Jerusalém. Em 1315. onde continuaram suas desordens. Verdadeiro delírio se apodera de povos inteiros. As coisas se passaram assim: em fins do século XI. Na Inglaterra. em 1290. Enquanto isso. haviam aderido ao cristianismo. com altos e baixos. em que se entremearam períodos de tolerância e outros de combate aberto. mas. incêndios. De novo. permaneceu a Inglaterra por muito tempo sem a presença dos judeus. com perseguições intermitentes em muitos países. o rei Eduardo I baixou um Estatuto contendo restrições para os judeus. com as cruzadas. para a vingança e a libertação daquela cidade. em 1275. a partir de 1657. pelo menos externamente. Em conseqüência. Filipe V preparava nova cruzada à Terra Santa. a infinidade de idênticas agressões. maiores ou menores. 3. que o povo de Israel veio sofrendo. os perseguidores atravessaram a fronteira da Esp anha. cit. que lá somente puderam retornar. Situação. ameaçavam Jerusalém. 243).. p assou à Ale- manha. e tanto bastou para que mais uma vez bandos desenfreados percorressem o território francês em busca dos "infiéis". os verdadeiros cruzados continuaram avançando e chegaram a Jerusalém em 1099. Já na primeira delas se desencadearam "para os judeus da Europa longos anos de terror e perseguições. 4. os arianos e. e nada a marcou mais do que a paixão pela fé. ecoou o brado de que era preferível apanhar os infiéis "de dentro" do que os "de fora". sete concílios se ocuparam do problema. a desgraça se abateu principalmente sobre os judeus residentes na Inglaterra. aumentou a violência. pág. onde massacraram todos os muçulmanos e judeus que lá viviam.68 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VI. Não é aqui possível nem preciso descrever. Os povos cristãos acabaram se tornando absolutamente hostis ao judaísmo. A Idade Média foi uma era impregnada de paixão. no ano de 1320. infiltrados nas suas terras. teve início uma longa e dura política contra os pagãos. Rapidamente cresceram os ataques: restringiu-se o número de profissões que os judeus podiam exercer e lhes impuseram o batismo. o rei Luís X autorizou o regresso dos exilados. contra os seguidores da religião judaica. pautando toda a legislação medieval e produzindo frutos ainda através do Direito posterior. equivalente existiu na França: em 1306. milhares de soldados com o sinal da cruz estampado em suas vestes e obcecados pelo ideal de combater os "infiéis". A segunda cruzada principiou em 1146. em vez de ir tão longe em busca dos inimigos de Cristo. todavia. Bastam mais uns poucos elucidativos exemplos. chegou até Praga e somente se foi diluir no território húngaro. Começou um caminho de dor que conduzia à sua degradação social e à sua humilhação como homens. Durante muito tempo essas hordas de "cruzados" irregulares submeteram as populações judaicas a imenso banho de sangue. para saquear e exterminar os judeus. restando na França apenas uns poucos que. Mais tarde. massacres. e outra vez sucessivos morticínios ocorreram. aumentou a pressão sobre os hebreus. batismos forçados. Na Gália e na Ibéria. Começou na França. em todo o longo correr da Idade Média.. para atacar os muçulmanos que. assim recuperando a cidade para o cristianismo. e mais tarde. O MISTÉRIO JUDEU 69 tam para o futuro. que tiveram de deixar às pressas o país. bandos armados se alas tram pelo continente. no reino dos francos. foram destruídas cen- . onde lavrou longa e duramente. até a época moderna" (Werner Keller. Por fim. A emigração se fez em massa. mais amargos do que nunca. sob pena de serem expulsos ou escravizados. Na medida em que a Igreja avançou e se foi estendendo na Europa. melhor seria ocupar-se daqueles que na Europa viviam. com muitos milhares de mortos. cuja felicidade durou todavia pouco: apenas cinco anos após. A margem desse movimento. que também sofreram saques. deixando seus bens para a Coroa. também. perseguidas pela populaça que as maltratava. na terceira cruzada (1189-1193). Assim. repetitivamente. op.

na Idade Média. certo tipo de chapéu. Alemanha. "a animosidade para com os judeus se nutre nos próprios massacres que ela suscitou: matamo-los primeiro e os detestamos em seguida [. proibição de casar com cristãos. iguais em toda parte. Em Portugal. que se alegrava ao vê-los morrer na fogueira. igual panorama se apresenta. Passando o Reno. A partir do quarto concílio de Latrão (1215). dizimando suas populações. impedindo violências. imensa-matança dos "culpados". social e econômica. de ter escravos ou empregados cristãos (para que estes não fossem ameaçados em sua fé). para que. Em 1343. desde logo. A cada passo os judeus se defrontavam com o dilema de escolher entre o batismo ou a morte. A verdade é que o povo em geral se mostrava contrário aos judeus. então nós todos somos bons cristãos»". preferiu a nacionalidade judaica. Perante esse constante e sombrio panorama. e. quase mil e quinhentos anos se escoaram desde que. dizimando milhões de pessoas. No ano seguinte. Conforme observa L. civis e religiosas. vendo-as. págs. muitas vezes. o exílio. Põe-se então em marcha nova vingança coletiva. se recordem de todos os mandamentos do Senhor. os judeus são desapossados dos seus haveres. e nllo sigam os seus pensamentos. Estamos falando de tempos em que a vida do povo em geral não era trepidante como a de hoje. por dois chifres. As razões disso serão de três ordens: religiosa. em circunstâncias torpes.70 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VI. o crime de lesa-majestade divina. As restrições impostas à gente de Israel foram sempre as mesmas. também. muito pregou contra eles. hordas agressivas varrem o país. mais adiante em Portugal. ficamos perplexos: quais terão sido os motivos para tão obstinada aversão? A crônica da diáspora revela. os guetos. ponderava-se. de formas grotescas: ora mero emblema de pano costurado à roupa. seu portador poderia ser identificado bem de longe Generalizou-se também o costume de. mas torna-se visível. A partir da segunda metade do século XIV. Houve mesmo inúmeros casos em que soberanos. mas antes mais lembrados dos preceitos do Senhor. para destruir os cristãos. Quando Deus se fez homem. Nesta altura. papas e bispos deram a mão aos perseguidos.]. sem que a situação dos judeus. Quando a "Peste Negra" devastou a Europa (1348-1351). a espontânea malquerença que lhes devotava o povo. o homem comum. ora.. se foi alastrando pela Europa a ordem para que os judeus se distinguissem do resto da população mediante o uso de sinais de cores vivas e. Em Viena. (1) 0 capcioso fundamento para tio aviltantes medid as foi tirado do Antigo Testamento: Disse também o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel. e lhes dirás que se façam umas guarnições nos remates das suas capas. nas cidades em que houvesse apreciável número de judeus. os ódios antijudeus atingem tal acuidade que podemos ousadamente datar dessa época a cristalização do anti-semitismo em sua forma clássica. Na França. ademais. etc. 5. tributos especiais. que era um chapéu alto. Populações inteiras se deixaram arrastar por cego delírio. Poliakov (op. pois. adotou-se o "cornutius pileus". mas o po- 15. em forma de torre e encimado.. outra vez.. ao defender a fé na divindade de Cristo. até chegarmos ao ocaso da Idade Média. 302-3). '. muitas comunidades hebraicas foram exterminadas. cit. Desse modo. correu no sul da França a notícia de que os israelitas haviam envenenado algumas fontes. O MISTÉRIO JUDEU 71 to e vinte comunidades judias na França e no norte da Espanha. mas fluía lentamente e pouco se alterava no curso dos séculos. Suíça.. sofresse mudanças importantes. Dizia-se que estes haviam envenenado as fontes de água. os cumpram (Num 6. etc. ora um modelo especial de vestuário. chamavam-se "judiarias". prontamente surgiu a notícia de que ela fora obra de judeus. Espanha. partiram à caça dos supostos responsáveis pela tragédia e desencadearam. proibição de exercer cargos públicos e determinadas profissões. incansavelmente. sob Luís da Baviera. . queimando-se mais outros milhares de membros desse povo. em todos os países atingidos.. praticara. teve início o anti-semitismo na Europa. tudo recomeça. Enfim. que tinha rancor pelos judeus. É inegável que a Igreja. que zombava d as suas desditas. nem os seus olhos se prostituam a vários objetos. a gente de Israel era deicida. que a má sorte dos judeus não dependeu unicamente das autoridades. após a diáspora. em todo tempo e lugar: confiscação de bens. 37-40). Era o homem da rua. e as mesmíssimas cenas de violência se repetem. aquela que conduziria mais tarde um Erasmo a consignar: «Se é próprio de um bom cristão detestar os judeus. Quase um milênio e meio transcorreram. século após século. 7. Na raiz de tudo encontra-se o fator religioso. pondo nelas fitas de cor de jacinto. Aos olhos dos cristãos. que os maltratava.. muito comumente. se instala a Inquisição na Espanha. a escravização. confiná-los em ruas ou em bairros próprios.

guarda em teu nome aqueles que me deste: Para que eles sejam um. a Cristo preferiu Barrabás. mas. a palavra "intolerância". ao passo que na sinagoga os judeus se fechavam. Multidões de pagãos aderiam e confraternizavam à sombra da cruz. encheu-se de júbilo e se tornou São Paulo. ele (ou um seu discípulo) escreveu uma Epístola aos Hebreus. renegaram-nO. As portas da Igreja católica permaneciam alegremente abertas para todos os homens. precisamente o "povo eleito". torturaram-nO. sabiam que sua crença vinha de Israel. também. chegou a obrigá-los a ouvir pregações que lhes eram especialmente preparadas. Não empreguemos. mulher. o enfermo mental. mas também de molestá-los em suas festas religiosas. atualmente tão encharcada de fel. Um grupo. e creia o mundo que tu me enviaste para a salvação de todos (Jo 17. em seu lugar havia absorvente preocupação religiosa. o ancião. 21). com ofensas e pedradas. se escondiam em ritos misteriosos. sobre suas cabeças. que daquele era o desfecho e a explicação. cenas do Antigo Testamento. espontaneamente ou coagido. a criança. a que se acrescentou. não podemos julgá-lo com os olhos do presente. mas a resposta era desconcertante. tão terríveis palavras de autocondenação. O cristão da Idade Média. verificava-se com Treqüência depois que havia guardado no coração a crença dos seus ancestrais e. Em 1199. a quem se ama e de quem se espera apoio. se achava imbuído da sua missão apostólica. por volta do século XII. Constituíam mau exemplo para a cristandade e para os pagãos que esta buscava atrair. A Igreja tentava de todos os modos convencê-los. por mais inculto que fosse. Depois. na inteira História dos povos. apostatava. O cristianismo. duas acusações muito graves. contra esses antigos cristãos. que atingiam os cristãos eram atribuídos aos judeus. muito intensa. O sentimento era. mas te tornaste filho de Deus" 2 . entretanto. por "todo o povo". estavam feitos à imagem e semelhança de Deus. Todos os males. disse: O seu sangue caia sobre nós. angústia. encenavam-se peças teatrais de escárnio aos judeus. 25). o miserável. A paixão política. 11). o aleijado. Nunca houvera coisa equivalente. quando acaso um judeu se convertia. O cristão estava ansioso por transmitir uma verdade que o encantava. O MISTÉRIO JUDEU 73 vo escolhido fez ouvidos moucos e escarneceu da Mensagem que Deus lhe transmitia. Adquirira. Proferidas. conservava bem presentes essas imagens. eles renegavam o Novo. decepção. mas (Gal 4. já a encontramos no Egito. ao construir a civilização ocidental. mas não obteve resposta. afinal. A fé religiosa popular era. o judeu se apresentava como um irmão mais velho. todos. As Igrejas ostentavam sempre. de assassínio ritual e de profanação da hóstia.72 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VI. permanecendo fechado em si. A separação e o rancor foram inevitáveis. século após século. pintadas nas paredes. formando um grupo fechado. 7). Apegados ao Antigo Testamento. com cruel ruptura. Os judeus permaneciam tenazmente apartados. dignidade: o homem. e sobre nossos filhos (Mt 27. nos primeiros tempos da era cristã. crucificaram-n0 entre dois ladrões. desde o mais pequenino. puro. A primeira é velhíssima. Os cristãos viam a maravilhosa obra que sua Igreja estava realizando. Tendo de escolher. medo e desconfiança. repetiram-na os escritores Tácito. sem exceção. o interesse pelos assuntos econômicos. transmitindo esperança e alegria. a cristandade permanecia unida numa fé comum em Cristo e submissa à Igreja. Apesar da variedade étnica e política que a dividia. para que dela se tornasse guardião. na primeira oportunidade. O ser humano se libertara: "Tu não mais és escravo. çómo estranha doutrina místico-teológica. repelia a Cristo. profundo abismo entre os dois grupos. isolados do mundo. que hoje tanto ocupam as massas. e veio depois rolando pela Idade Média: di- . os judeus repeliram desdenhosamente toda idéia de arrependimento e de conversão. Nos mercados. em sua origem. porque Este pedira: Pai santo. a filho (2) 0 arrebatador ensinamento é de São Paulo: E assim já não 0 servo. Sobretudo. quase inexistentes. Para o cristão. assim como nós somos um (Jo 17. As palavras do Messias penetravam em todos os recantos. os cristãos da Idade Média não podiam compreender nem perdoar. e deve ser por nós apreciado com extrema serenidade. Plutarco e Juvenal. pleno de perplexidade. tomaram de assalto a Europa. O pior ódio é aquele que provém do amor. cuspiram em Cristo. avançaram pelo Oriente e pela Africa. Os cristãos lhe tinham apego. Isso tudo. a "cabala". Querendo partilhar tanta felicidade. Isso tudo teria forçosamente de criar. Conservavam estranho idioma. eram. foi preciso que o papa Inocêncio III proibisse aos cristãos não só de matar os judeus. então. por múltiplas razões. ademais. como criou. Todos os povos da Terra deviam ser unidos sob o signo do Salvador. E respondendo todo o povo. Saulo. ao conhecer a Mensagem. Tudo isso produzia espanto. Pairaram sempre.

o problema econômico também muito contribuiu para separar profundamente judeus e cristãos. seja como banqueiros. Eles preferiam morar nas cidades e. com todos os seus bens apreendidos. 9. dizia-se. assistido por seus vereadores. o povo se queixou da dissolução em que se encontravam os judeus. os quais. vemos os homens dessa raça pacificamente entregues a atividades agrícolas. à mercê de povos estranhos e geralmente hostis. Um milênio é muito tempo. um milênio e (3) Em Portugal. em vão. sendo incumbidos da cobrança dos rendimentos da coroa. De natureza sedentária. para nele de novo enriquecerem. dificilmente os admitiriam como membros as corporações de ofícios. pág. montam cavalos e mulas "com lobas e capuzes finos. mas a este depois retornando. tornavam-se capitalistas. Eles. Somando-se ao fator religioso. outras vezes constituiu fenômeno espontâneo. devendo recolher-se às judiarias (Marcello Caetano. 507). embora espalhados por vários países. com os judeus preferindo manter apartada a intimidade da sua vida. sem quaisquer sinais distintivos e. Mas também não será inteiramente exato o argumento. Em sua defesa. Muitas vezes este foi imposto pelas autoridades ou pelo povo. regidos por um magistrado eleito. cit. mas eram minoria. em 1290. que não se misturava com as pessoas de outras raças. os israelitas se fe- meio!) em seus países. no que parecem ter alguma razão: à margem da sociedade. com eles não se irmanavam. vivendo há tantos séculos (um milênio. Diante disso. . o arrabi. Quantas e quantas vezes a História mostra os judeus sendo espoliados. João 11 (1481-1482). 8. Entre os motivos alegados por Eduardo I para expulsá-los da Inglaterra. Os israelitas foram abominados. João li determinou que os judeus andassem vestidos sobriamente e com "o sinal da estrela costumado acima da boca do estômago". Impedidos de exercer cargos públicos. se aproximavam todavia das autoridades. emprestadores de dinheiro e. acima de tudo. e tiveram de pagar muito caro por tanta firmeza.. em tal sentido. Os atos oficiais tinham lugar na sinagoga. os judeus se tornavam. em vários países e em várias épocas. casos e contendas que nelas surgissem. a contar e era instruído na Torá. Sua habilidade financeira e negocial os tornava indispensáveis aos governantes. se haviam transformado em eternos fugitivos. seja como conselheiros. a instituição do gueto. a seu turno. Não mais possuíam pátria. Enquanto as populações cristãs eram em regra analfabetas. também não queriam com eles manter vida em comum 3 . assim. a sua grande vocação. As comunidades hebraicas possuíam Justiça própria. o gueto demonstra. com eloqüência. alega-se que a isso chegaram porque não os deixavam exercer as profissões normais. mediante talento ou pela corrupção. industriais. Seja como for. pág. os judeus encontraram. conquistavam o Poder. extrativas. foram fiéis à sua história. Em decorrência da sua obstinada atitude. para resolver os feitos. suscitando amargo ódio destes por aqueles. porque. A despeito de tudo. unidos numa universitas judaeorum e sempre atentos aos negócios lucrativos. aos seus costumes e religião. inigualáveis. espadas douradas. O patrimônio próprio da comuna era zelado pelo procurador e pelo tesoureiro. abarca pelo menos quarenta sucessivas gerações. porque facilmente escamoteáveis e transportáveis. levados à fogueira para se submeterem ao simbolismo do "fogo purificador". Torna-se enfim compreensível o repúdio dos hospedeiros contra aqueles que. cit. Se virmos o problema sob o prisma dos judeus. o isolamento social dos judeus: eles queriam permanecer separados dos cristãos. esteve o fato de haver tentado. Mas a verdade é que. op. se mantinham solidários entre si. tatuo no convívio como nos trajos e conversas. se conservaram unidos. encontravam-se esparsos. ao tempo de D. devendo haver letrado para o ensino e capelãos para o culto (Marcello Caeta no. Não queriam porém limitar-se a isso. com religião e hábitos estranhos. op. forçoso será reconhecer que estes foram admiráveis na sua coragem e tenacidade. "que sdo cousa feia. mantiveram a própria identidade. expulsos de certo país. Milhares de judeus pagaram com suas vidas por essas duas acusações. citavam-se "casos comprovados". os judeus imolavam um cristão. jaezes e garnimentos". desonesta e abommésel". orgulhosamente rejeitavam a idéia de absor ção. Certamente as condições em que esse povo viveu concorreram para que se dedicasse a trab alhar com dinheiro. em certos rituais secretos. que. atormentam os cristãos. Surge como altamente elucidativa. Inclusive a insegurança de uma existência instável o fazia preferir bens móveis.74 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VI. o pequeno israelita desde cedo aprendia a ler.Facilmente dominavam o mercado financeiro. nos negócios financeiros. D. Extremamente astutos e capacitados. banqueiros. Surgiu assim a figura do judeu palaciano. cortesão. que envolviam com manobras. errando daqui para ali.. charam num círculo social distinto. 506). porque se dedicavam à prática da usura. com juboes de seda. que queriam segregar os judeus. O MISTÉRIO JUDEU 75 zia-se que.. loucas rebuçadas. constranger os judeus ricos ao comércio comum e os pobres ao artesanato. por essa via.

O grande temor contra o empréstimo remunerado teve origem na experiência: no passado. e esta sempre gera. a justo título se consideram virtualmente produtivos. ademais de massacrado e expulso. Apresentam os característicos da vingança. e não usurários. o que tornava impensável qualquer real mudança.76 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VI. vigorou ainda por longo tempo a proibição de cobrar juros. apenas por ser cristã. também alcançou qualquer pessoa. formaram-se dois clãs. Estes foram indiscriminadamente oprimidos. geradores da miséria e atentatórios ao dever de caridade. formado por uma mistura de espanhol clássico com palavras hebraicas. a usura. de outro os judeus. como acolhedores portos de refúgio. à sua vez. Aos poucos. tanto no sentido ativo como no passivo. que. por quase toda a Europa. não mercadoria equivalente aos bens reais. nobres em geral. pelo só fato de serem representantes de um "mal". Os judeus. tinha seus bens confiscados. sempre que puderam. evitando excessivas opressões. a Holanda. que. Na península ibérica. que foi crescendo e debaixo do qual havia muita inveja escondida. No momento porém em que a isso se superpôs a exploração econômica. simples instrumento de troca. em suma. Aos poucos. por estes desenvolvida. A par disso. até hoje existe uma comunidade de judeus. Ele não passa de "metal morto". E com a Inquisição que entramos na via judiciária. Explicam-se também as sucessivas e freqüentes perseguições sangrentas contra o povo de Israel. a Inquisição seguia seu curso. Muitos dos seus membros encontraram. Só bem mais tarde e aos poucos a Igreja passou a aceitar a diferença entre lucro justo e usura. depois. a idéia de identidade individual. No caso. com firme condenação dos doutores. conduzia os negócios públicos e ensinava aos soberanos as melhores maneiras de extrair mais recursos dos contribuintes. com judeus formalmente acusados de alguma falta perante um tribunal. de sorte que a represália se deve exercer por qualquer um do seu grupo. para apenas esta proibir. ou naturais. em busca de auxílio econômico. estes sim. contra qualquer empréstimo a juros. sendo de esperar-se que o problema fosse então revisto. As violências contra o povo hebreu. Reis. mas graças a ela venciam. Na Turquia. 10. sem se indagar se cada um deles era inocente ou culpado. bispos e até mesmo papas tiveram de recorrer aos judeus. para que os credores pudessem recuperar os valores emprestados. verificava-se que esse usurário somente explorava os cristãos. Seria longo descrevê-las. a Polônia e o império otomano. Por isso a Igreja preferiu cortar o mal pela raiz. Enquanto houve apenas motivos religiosos de separação. fatalmente. em que se dilui. com abusos intoleráveis. Assim. ocorreram em geral anarquicamente. ostentando poder e riqueza. (4) A posição da Igreja era de que dinheiro jamais deve gerar dinheiro. a atitude da Igreja em relação a eles passou a ser condenatória. atua a solidariedade grupal. serão todos os membros do grupo a que pertence o ofensor. que se queria combater. ou não se forma. Mais odiosamente ainda. que conservam como idioma o "ladino". sua atividade creditícia era vista como pecaminosa e desprezível. foram extremamente duros com os cristãos. O MISTÉRIO JUDEU 77 na sombra. o que ademais ultrapassaria os limites deste estudo. 11. pequenos negociantes. sempre que se adotara essa prática. e responsável. se mostraram gananciosos e. Enquanto os cristãos estavam proibidos pela Igreja de receberem juros. sem forma nem figura de Justiça. Essa posição do cristianismo deixou o campo livre aos judeus. Durante a inteira Idade Moderna prosseguiu vivo o anti-semitismo violento. durante a Idade Média. modestos. de um lado os cristãos. entretanto. E a exploraçãó econômica. as autoridades eclesiásticas tendiam a proteger os judeus. as perseguições foram ressurgindo. A ofensa dirigida a uma pessoa alcança a inteira comunidade a que ela pertence. Os tomadores desses empréstimos eram homens comuns. daí . ceifando vidas e provocando a fuga das populações judaicas lá radicadas. que se viam assim freqüentemente conduzidos à miséria. com taxas escorchantes. que em conseqüência se tornaram os grandes emprestadores de dinheiro na sociedade medieval. da vendetta. a responsabilidade coletiva. o desenvolvimento do capital e do comércio foram tornando a economia monetária cada vez mais complexa. Muitas vezes. E evidente que milhões de judeus eram pobres ou remediados. lhes era dado o direito de cobrarem tributos do povo. Para se ter uma noção do que sucedeu. e fá cil será imaginar a revolta que contra eles isso produzia. Na vendetta. enquanto o usurário enriquecia. insinuara-se logo a ganância. Dal o generalizado rancor contra eles. inclusive sob ameaça de excomunhão. os judeus permaneciam livres para fazê-lo. Resta entretanto verificar em que medida esse formalismo não terá passado de mera aparência. dos primeiros papas e vários concílios. Expulsar ou matar os judeus era um meio de os cristãos se livrarem das dívidas com eles contraídas. mas não o fazia com as pessoas da sua raça°. Mas a tradição se tornara muito forte e demais fraca a compreensão da nova realidade econômica. mas todos podiam ser punidos.

liberdade. proibida nos países de formação cristã. "Contra-Reforma e novos sofrimentos". Estreitos vínculos com a religião. 1. Na antiga Roma. "Setecentas comunidades destruídas". negação dos direitos prometidos". etc. 6. etc. Consignemos outrossim que a proteção penal se exerce não somente sobre bens materiais (vida.. assim como a qualidade censurável de tais ou quais condutas muitas vezes se alteram no tempo e no espaço. na dependência de mudanças dos costumes e da filosofia social. mas também sobre bens imateriais. Eis alguns títulos: "Os escritos anti-judaicos de Pfefferkorn". expor e vender como escravos seus filhos. "Os pogroms na Rússia". "O caminho da dor". etc. intelectual e moral dos filhos incapazes. "Tumultos anti-judaicos em cidades alemãs". etc. até chegar ao que provavelmente representa a maior maldade que já surgiu sobre a face da Terra: a "solução final" engendrada pelo nacional-socialismo germânico (1933-1945). fé pública. Sistema teocrático puro. "Triunfo da reação na Prússia: o rei não mantém sua palavra. Daí se segue então que o conteúdo do Direito sancionador também se torna mutável: fatos considerados delituosos em certa época ou lugar perdem essa qualidade em outros tempos. E assim avançou aos tropeções esse povo. das telecomunicações. "A Prússia restringe os direitos dos judeus". "Expulsão de Praga". etc. 2. reprime certos comportamentos. 3. "Acusações de assassínio ritual em Damasco". DIREITO PENAL E RELIGIÃO por diante. Crimes religiosos.. a consideração do que sejam valores fundamentais para a coletividade. . ou vice-versa'. "O édito de expulsão de Leopoldo I da Austria". Evoluiu-se depois no sentido de limitar o pátrio-poder. etc. tanto coletivos (paz pública. novos ilícitos penais vêm modernamente aparecendo em matéria de abuso do poder econômico. Dentro da ordem jurídica de um país.). "O que sucedeu após 1871: anti-semitismo na Alemanha e na Austria". "Banho de sangue em Nemirov". o ius exponendi. direito ao culto religioso. de fatores religiosos. Ao contrário. "Anos de terror do judaísmo polonês". De igual modo. "Presságios da catástrofe". "As cidades de Lübeck e Bremen os expulsam". da evolução científica. "Sombras da Inquisição sobre a Itália". "A ira de Lutero contra os judeus". que se convertem em bens jurídicos. (I) Por exemplo. como individuais (intimidade. "Dificuldades em Hamburgo". 4.78 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VII. Ora. Etc. conseguintemente. o Direito Penal tem por missão a tutela de valores considerados fundamentais. basta passar os olhos pelo índice do minucioso livro de Werner Keller sobre a História do Povo Judeu. em outros lugares. qualificados como reprováveis. "A Itália de novo instituiu os guetos". o paterfamilias possuía o "ius vitae ac necis. é lícita nos de cultura islâmica.). o avanço da cultura levou a abolir os antigos crimes de magia e de feitiçaria. e. Pena apaziguadora da ira divina. os direitos de matar. que lesam esses bens. nas áreas do mercado de capitais. e surgiram as figuras criminosas dos abandonos material. a bigamia. patrimônio). "Sofrimento e opressão na Áustria". Princípio político nacionalista. das organizações política e econômica. pudor público. honra. "Matanças na Ucrânia e na Polônia". 0 mutável campo do Direito Penal. S. incolumidade física. isto é. "Perseguições no Estado Pontifício". 1. "Vinte e cinco anos de serviço militar para os judeus". o ius vendendi". "O processo Dreyfus na França". que lentamente passou a ser visto mais como um pátrio-dever.

na Judéia. Justificou a seguir tanta severidade porque "noire Créateur justement irrite ait permis advenir en noire Royaume plusieurs et grandes tribulations. Isto é. em cujo nome se exerce o ministério sancionador. desde os tempos mais primitivos e até muito recentemente. nos preceitos do Corão. verbi gratia. seca. com o cisma de Henrique VIII: o catolicismo. mediante o sacrifício dos culpados. terremoto. ora ligação decorrente de preocupações que chamaremos de políticas. permanecendo impune a falta praticada. Dessa forma. enquanto os pecados veniais teriam castigos mais brandos (apud Tissot. inclusive com a arma do Direito Penal. Resvalamos agora para um objetivo utilitarista. tornando-a mais potente e distinguindo-a de outros países. há o texto bíblico: Fez o Senhor. O mesmo propósito apaziguador se fez presente na Inquisição: extirpando os hereges e os blasfemos. com os Livros dos Profetas. a religião se converte em instrumento político a serviço da identidade nacional. Teme-se que. o corte do lábio superior do condenado e. inclusive determinando. Ainda de natureza teocrática existe outra concepção. pois. o aplicador da pena atua como uma espécie de gestor de negócios de Deus.). que. Busca-se. na Índia bramânica. DIREITO PENAL E RELIGIÃO 81 2. I. e os costumes indicam quais são os atos que O ofendem. O faltoso merece sofrer porque ofendeu a divindade. e todo o país em roda. depois. era ex- . onde o Direito Penal é extraído de escritos atribuídos à inspiração divina. que nem sempre se excluem. todos os habitantes foram compelidos a aderir à nova Igreja nacional. e tudo o que tinha alguma verdura sobre a terra (Gen 19. inundação. que submeteu vários povos à bandeira de Maomé. Por exemplo. O inteiro conteúdo do Direito Penal passa assim a ser formado pela religião. em maior ou menor medida. sempre manteve estreitos vínculos com a religião. contava-se atrair as bênçãos do céu. evitando a sua ira vindicativa contra o povo a que 'pertence o culpado.rc 80 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VII. Essa é a idéia que está presente entre os povos selvagens. unificar o povo e fortalecer-lhe o patriotismo. ao tempo das conquistas. promulgado em 1539. que igualmente fundou a sua Justiça Criminal nas páginas bíblicas. admitido que a tolerância ante tais pecados poderia acarretar padecimentos para o povo. de sorte que todo pecado deve ser punido pela Justiça terrena. O Ato dos Seis Artigos. No sistema teocrático puro. através de uma fé comum. fome. que o Senhor fez descer do céu. inclusive com tabus de cunho sobrenatural. todos os que o habitavam. guerres et afflictions". montou um esquema repressivo em moldes totalmente religiosos: todos os pecados que a Igreja qualifica como mortais se sujeitariam à pena capital. dentro de regimes teocráticos. partindo embora de falsa base. 0 Direito Penal. São colocações diversas do problema. cit. E ele destruiu estas cidades. sob ameaça de brutais castigos. que até então dojninava. desencadeando-lhe algum flagelo (peste. a fim de cimentar a nação num todo coeso e uniforme. A justificar o temor pela severidade divina contra os maus comportamentos sociais. mas que freqüentemente coexistem dentro de um mesmo povo. Nesses textos estão elencados os comportamentos merecedores de reprovação. 5. 3. foi perseguido e. a crença oficial é imposta à comunidade. que dá à pena o escopo de apaziguar a divindade ultrajada pelo crime. Outro tanto se passou na Inglaterra. de índole nacionalista. nos países islâmicos. ^t. Ora vínculos de subordinação. cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo. Passando ao princípio político que leva a unir o Direito Penal à religião. A titulo de curiosidade. cabia à autoridade pública o dever de evitá-los.. cuja violação deve desencadear fatalmente o correspondente castigo compensador. consignemos que André Hornes. op. com as Leis de Manu. etc. o Direito Penal se fundamenta. págs. na sua Ordenação de 1460. E o que ocorreu. 376-7). Carlos VII da França cominou violentas punições para os blasfemos. Na primeira delas. verificamos haver também aqui mais de uma colocação. Desse modo. jurista francês do século XIII. em casos de reincidência. . Deus faça recair a sua vingança sobre a comunidade complacente. fez entrar no campo sancionador a idéia de proteção social. também do inferior. no antigo Egito. Concepção equivalente também se apresenta em antigas civilizações. geralmente por sacerdotes. E o que vemos no islamismo. Tal pensamento teve longa vida e exerceu pertinaz influência no Direito Penal. 4. 24-25). a noção de crime se confunde com a de pecado. Ainda hoje.

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presso ao cominar a pena de morte aos renitentes. Idem, equivalente ideal animou a Espanha quando, servindo-se da Inquisição, buscou unir o país. 6. Por fim, outro motivo de política criminal que induziu o antigo Direito a sancionar desvios em matéria de fé acha-se na idéia de que a religião é educativa, constitui poderoso instrumento de paz social e de freio às más paixões, compelindo os homens à moralidade e à boa conduta. Sendo assim, justifica-se que o Poder Público a proteja e incentive os sentimentos piedosos dos seus súditos. De fato, pondera-se, se a religião convence que a sorte das pessoas, após a morte, será determinada conforme o uso que fizeram da vida terrena, ela representa sem dúvida excelente garantia para os bons costumes e para a ordem no ambiente social. Por via dessas considerações, que também justificaram a Inquisição, dentro de uma categoria de pensamento muito própria da época, os povos da cristandade (do mesmo modo que outros povos, de diferentes credos) passaram a incluir em suas legislações um capítulo de "crimes contra a religião". O regime de coerção penal para impor uma fé só pôde medrar porque cada Estado possuía a sua crença oficial, que todos os habitantes tinham de professar. Como ponderou o grande penalista espanhol Pacheco em 1839, espelhando uma mentalidade que ainda persistia em sua época, "em rigor de Direito, onde há uma religião do Estado, garantida pelas leis como a única que se consente no país, devem qualificar-se como delituosos os ataques diretos que se façam e levem a cabo contra seu dogma, pela imprensa, pela predicação, pela sedução. Agir de outro modo é deixar sem sanção a intolerância; é ser tolerante de fato com os vários sistemas religiosos que se possam apresentar reclamando a crença pública; é contradizer-se com o que se adota como princípio, e se consigna solenemente nas constituições do Estado" (op. cit., pág. 162). Não se punha em dúvida que isso devesse ser assim, mas todos, as inteiras populações, achavam natural e justo que o Governo punisse cert as faltas religiosas. Era inconcebível a liberdade de consciência em matéria de fé. Se a religião do Estado estava com a verdade, a este cumpria proteger os cidadãos, evitando que caíssem no erro, perdessem suas almas e se expusessem aos castigos eternos. Cabia à Justiça Penal coibir os atos dirigidos contra Deus, contra a religião do país, contra a Igreja e contra os sentimentos religiosos da população. Montesquieu, por exemplo, admitiu a pu-

nição da heresia (op. cit., Livro XII, cap. V). No século XIX, juristas do porte de Carmignani e Carrara, na Itália; de Pacheco, na Espanha; de Tissot, na França, e muitos outros, ainda se deram ao trabalho de discutir extensamente sobre a conveniência, ou não, do Direito punitivo secular se imiscuir em assuntos de fé, e indicaram, na hipótese afirmativa, quais os delitos que deveriam ser considerados. Tal orientação se manteve, na cristandade, até chegarmos às portas do século XX, só desaparecendo quando a religião perdeu seu caráter oficial, separando-se a Igreja e o Estado, e quando, em conseqüência, se implantaram a tolerância e o livre proselitismo. Com os crimes religiosos, não se tratava de punir o mero pensamento, o pecado interior, com ofensa ao velho princípio "cogitatonis poenam nemo patitur". A Justiça humana jamais deve alcançar aquilo que se exaure no foro íntimo do indivíduo, sem revelar-se no mundo exterior. O pensamento maldoso somente pode constituir pecado, não ilícito penal. O que o Estado deve coibir, isto sim, é o mau pensamento que se projeta para fora, pautando uma conduta, ativa ou omissiva, que repercuta sobre a comunidade. A religião aparece assim como um valor juridicamente amparado, e os sentimentos populares a ela ligados como um bem imaterial e coletivo, que pode ser atingido por atos de público menosprezo. Mutatis mutandis, o mesmo sucede, ainda hoje, com vários outros bens da mesma natureza, ideal e coletiva, que o moderno Direito Criminal tutela. Verbi gratia, o sentimento de pudor existente em certo ambiente social continua sendo garantido mediante a punição da prática de atos obscenos que representem ultraje público a tal sentimento. De igual modo, o Direito moderno reprime determinados atos atentatórios ao sentimento de patriotismo, tais como os de pública ofensa a certos símbolos da nacionalidade. Não é de espantar, portanto, que outrora, quando se vivia em clima de intensa fé, também fossem castigados os comportamentos anti-religiosos que causassem escândalo público. Tissot arrola extensamente as variadas faltas religiosas que vieram sendo proibidas pelos Estados no curso dos tempos, muitas vezes com a pena máxima (op. cit., II, págs. 349 usque 415). Dentro da cristandade, o campo do ilícito penal foi muito amplo e variado, porque dele se ocuparam, durante vários séculos, incontáveis legislações, nacionais e regionais. Exemplificativamente, houve estatutos locais que chegaram ao extremo de castigar inclusive o trabalho exercido por alguém nos dias santos e a violação dos deveres de jejum e abstinência.

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Os principais crimes religiosos, entretanto, que invariavelmente figuraram no antigo Direito Penal laico foram os de heresia, cisma, proselitismo contra a religião do Estado, sacrilégio, blasfêmia, profanação de coisas sagradas, ultraje ao culto, perjúrio, simonia, violação de sepultura, violação de clausura, simulação de sacerdócio, feitiçaria, bruxaria, magia, sortilégio'.

1. Formação do Direito Canônico. 2. Direito Penal Canônico. 3. Regras processuais. 4. Adoção da tortura. S. Confluência de jurisdições.

1. Tendo iniciado sua trajetória terrena com pouco mais nas mãos do que os Evangelhos e as Epístolas, a Igreja nascente, como toda sociedade humana, logo passou a sentir a necessidade de um Direito próprio, isto é, de um conjunto harmônico de normas que lhe regessem a vida. Houve tentativas incipientes de São Paulo nesse sentido, mas de fato foi no século II que começou a formação do que se veio a designar Direito Canônico (a palavra grega kanon significa regra). As fontes se encontravam nas decretais pontifícias, nos cânones oriundos de concílios, nos mais variados estatutos promulgados por bispos e nas inúmeras regras monásticas, com seus livros penitenciais. Com o passar do tempo, foi-se constituindo abundante massa de textos, que acabou por tornar-se caótica, de difícil consulta e, às vezes, até contraditória. Assim, por volta de 1140 ocorreu a sua primeira consolidação, por decreto de Graciano; e esta, mais os acréscimos posteriores, veio a formar, no final do século XV, o chamado Corpus Iuris Canonici'.
(2) No atual Código de Direito Canónico, de 1983, encontramos alguns conceitos. "Cân. 751 — Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos". Em notas a esse Código, o Pe. Jesus Hortal, S.J., oferece outros conceitos: "Perjúrio é a emissão de um juramento, a ciência e consciência, falso"; "blasfêmia é qualquer palavra (falada ou escrita), gesto ou ato que expresse desprezo ou injúria de Deus, quer imediatamente, quer mediatamente, na pessoa da Santíssima Virgem ou dos Santos". Simonia (palavra alusiva a Simão Mago, que tentou comprar os dons do Espirito Santo, At 8, 18) é "a intenção deliberada de comprar, vender ou permutar por bens economicamente estimáveis, uma coisa intrinsecamente espiritual".

2. Dentro desse complexo normativo, sobre variados assuntos, encontravam-se preceitos de natureza repressiva, que compuseram o Direito Penal Canônico, a ser aplicado pelos tribunais eclesiásticos. Seu objetivo p ri meiro foi o de incentivar a perfeição espiritual da sociedade cristã, estabelecendo sanções de sentido expiatório aos faltosos, propicias a obter o seu arrependimento e, através deste, a emenda. Depois, as necessidades da vida foram levando a Igreja,
(1) Somente em 1917 a Igreja latina promulgou seu primeiro Código de Direito Canônico, substituído por outro em 1983.

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através da sua Justiça Criminal, a tutelar também os próprios interesses, ou seja, punir atos que atentassem contra a sua integridade e a doutrina por ela professada. Os ilícitos penais se distribuíam em várias categorias. A primeira era a dos delitos contra a fé: heresia, cisma, apostasia, blasfêmia, perjúrio, simonia, sacrilégio, magia, etc. A segunda, a dos delitos carnais (adultério, bigamia, estupro, sodomia, rapto, lenocínio, etc.). Seguia-se extenso rol de crimes comuns (homicídio, furto, calúnia, incêndio, etc.), contra múltiplos bens jurídicos: vida, incolumidade física, liberdade pessoal, honra, propriedade, etc. Depois, os delitos contra a hierarquia religiosa e contra a Igreja (usurpação de funções e de direitos eclesiásticos, violação do direito de asilo, ofensas à liberdade e a imunidades eclesiásticas, etc.). Por último, figurava o capítulo das violações, por clérigos, de deveres inerentes ao seu estado. Quanto às penas imponíveis, verifica-se que elas variaram muito no tempo e na dependência do poder, maior ou menor, da Igreja perante o Estado. Acresce que os tribunais eclesiásticos, do mesmo modo que sucedia com a Justiça comum, não adotavam o principio "nullum crimen, nulla poena sine lege", de sorte que os juízes dispunham de poder discricional bastante amplo, sendo-lhes inclusive facultado optar por sanções diversas das legalmente previstas. Dividiam-se as penas canônicas em espirituais e temporais. Entre as primeiras, encontramos a excomunhão e variadas penitências, públicas ou secretas; a interdição de sepultura cristã, a perda de direitos eclesiásticos, etc. Na classe das penas temporais, existiam as pecuniárias, de multa e de confiscação de bens, o exílio, penas infamantes, etc. Para os eclesiásticos, a deposição, a degradação, a suspensão, a perda de benefícios, etc. A prisão, não só como medida processual, mas também como pena, aplicável a clérigos e a leigos, foi muito adotada, visando esta última a propiciar a reflexão expiatória e salvadora. Até o século XIII, cumpria-se em mosteiros ou conventos. Depois, passou a ser executada preferencialmente em estabelecimentos especiais, sob a autoridade dos bispos. Em Portugal, o presídio destinado aos religiosos chamava-se aljube; na França, chartre. Quanto às penas de morte e de castigos corporais, a Justiça canônica manteve uma posição ambígua, vinculada como se achava ao princípio "Ecclesia abhorret sanguine", à Igreja repugna verter sangue. Sobre a legitimidade da punição capital, foram divergentes as opiniões dos papas, dos doutores, das autoridades religiosas. So-

bretudo nos primeiros séculos, essa pena era rejeitada, como contrária ao espírito cristão. Aos poucos, todavia, razões de ordem prática, ou de proteção social, acabaram convencendo da necessidade de apoiá-la, desde que aplicada pelo Estado. Defenderam-na, nesses termos, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Assim, chegou a Igreja a uma solução conciliatória: ela não pronunciava a pena máxima; limitava-se a afirmar a existência do crime que a merecia e a inutilidade dos seus esforços para obter o arrependimento do culpado. Isso feito, entregava o réu à Justiça comum, ou seja, ao braço secular, que iria executá-lo. 3. Em matéria de regras processuais, o Direito Canônico evoluiu paralelamente à Justiça comum, que examinamos no capítulo I, ambos se influenciando mutuamente. Os tribunais eram presididos por um bispo ou por um se tt delegado. Houve, de início, o sistema acusatório, em que a instauração da causa dependia da presença de alguém que a reclamasse. No século XIII, todavia, Inocêncio III acrescentou dois outros modos de se abrir um processo: o inquérito e a denúncia. Esta última consistia na delação do delinquente ao juiz, feita por qualquer pessoa, que se conservava no anonimato. Como assinala João Mendes de Almeida Jr. (op. cit., pág. 77), "a denúncia foi o refúgio dos fracos contra a prepotência dos senhores feudais", porque aqueles podiam reclamar contra os abusos destes, sem temer vinganças e opressões. Para pôr um paradeiro aos desmandos do clero, que muito haviam aumentado, surgiu também o procedimento por inquérito, ou per inquisitionem. Dava-se a abertura do processo pelo próprio juiz, de ofício, após investigações que haviam levado à descoberta de um crime, ou quando este se revelava como notório, ou era apontado pelo clamor público. Começou tal sistema restrito aos abusos do clero, aplicou-se depois ao crime de heresia e, por fim, se tornou a regra no foro eclesiástico. Tinha como características o processo escrito e secreto, a importância da confissão do acusado e a plena liberdade do juiz para iniciar e conduzir a acusação. 4. Conforme atestam inúmeros documentos, a antiga Igreja sempre foi radicalmente hostil à utilização de violências nas investigações criminais. Muito citada é a carta que o papa Nicolau I escreveu, no ano. 866, a Bóris, príncipe da Bulgária: "Eu sei que, após haver capturado um ladrão, vós o exasperais com torturas, até que ele confesse, mas nenhuma lei divina ou humana poderia

22-25. do que as vigorantes na Justiça secular. tal medida se aplica aos ladrões e aos assassinos. que cumpria combater com rigor . em 1259. Autorizou-a o papa Inocêncio IV. Os juízes. como legítima. arriscar-se a perder incontáveis cristãos. minando a autoridade eclesial e dissolvendo a unidade religiosa do povo. o Direito Canônico acolheu pois a tortura. Difícil se torna para nós hoje decidir retroativamente. Cabe porém dizer que o cristianismo estabeleceu princípios que fatalmente eliminariam a escravidao. o problema com que se defrontava a Igreja tornou-se muito sério: por mandato divino. sem forma nem figura de Juízo. para que continuasse a disseminar o mal. DIREITO PENAL CANÔNICO 89 permiti-lo. se isso não fosse possível. a tortura passou a ser encarada com absoluta naturalidade. a Igreja se deixou influenciar. a fim de tentar corrigi-lo. as classes cultas. observou-se. Ninguém a impugnava. o Direito laico desconheceu os suplícios como instituição oficial. Diante desse panorama e preocupada com o alastramento de heresias. Como advertira São Tomás de Aquino. Afinal. eram. ingressou a tortura nos domínios da Justiça religiosa. quase em nossos dias. com essa omissão. por parte de juizes zelosos demais. em meio ao calor da luta contra heresias fortemente daninhas. já sabemos que os tormentos entraram plenamente nas lides judiciárias seculares. que se reputava indispensável. o inteiro povo a aceitava pacificamente. Dentro desse antigo Direito. e ela era ademais compatível com a severidade das penas e com as rudes condições de vida então existentes. através da bula Ad extirpanda. seus membros estão imersos no mundo em que vivem e forçosamente seus sentimentos e seus hábitos. A confissão deve ser espontânea. porém. em que avultava a importância da confissão do réu. que não passam de ladrões e assassinos da alma. jamais reiterada. a confissão por meio dela obtida apenas valeria se depois livremente confirmada. muito atraentes. naquilo que não contrariem as verdades essenciais da doutrina cristã 2. Se. seria injustificável conceder tratamento privilegiado aos hereges. De Sao Paulo. e. como algo indispensável à boa ministração da Justiça e à tutela do bem comum. . banal. A par disso. a Igreja a tolerou. Imperioso era pois a Justiça obter a confissão. desde os mais remotos tempos. 6-9. A partir do século XII. cfr. no entanto. de sorte que. por vezes. ponderou o papa. porque escondido no íntimo da pessoa. em 1265. (2) É o que sucedeu também com a escravatura. previsto e disciplinado nas leis. sobre quem recairá o pecado?" No século XIII.88 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VIII. mas seguramente terá havido excessos. Animava-a absoluta fé nessa missão. e advertiu: "Se o paciente se confessa culpado sem o ser. III. diente normal. Os apóstolos mais se importaram com a servidão espiritual ou moral do que com a fisica. só vindo a desaparecer recentemente. tosco e empírico. o mesmo deverá ocorrer com os hereges. Daí por diante. Ef 6. somente podia ser aplicada uma vez. Ninguém negará que as práticas punitivas dos povos chamados "bárbaros" fossem violentas. mas algumas cautelas foram prescritas: ela não deveria pôr em perigo a vida e a integridade fisica do paciente. Conforme expusemos no Capítulo I. um médico devia estar presente. não revela o seu desvio. dentro da formação mental daquela época. Col 3. por exemplo. os hereges são como os delinquentes que passam moeda falsa. mas os métodos repressivos eram brutais. e de Clemente IV. e este se torna geralmente difícil de descobrir. ou extorquir-lhe pela força o reconhecimento do seu crime. O sofrimento assim produzido devia ser facilmente suportável por pessoas normais. defendendo-o contra erros que. excetuadas as castas superiores. Igual permissão foi dada por outros atos pontifícios posteriores. o homem comum ficava inteiramente entregue aos caprichos do seu senhor. O herege procura ser sempre astuto. os mais prestigiosos jurisconsultos a defendiam e a recomendavam. notadamente de Alexandre IV. como caberia ao dever de caridade resolver este dilema: deixar o herege impune. O fato da aceitação da tortura é inegavelmente desconcertante. eles se tornaram um expe. Flm. Esse recurso já se tornara usual no Direito comum. não arrancada". Sendo uma instituiçao tradicional. Condições muito mais suaves. eliminá-lo para o bem do povo. após a queda do Império Romano. quando os Estados se foram organizando melhor e adotaram o sistema processual inquisitivo. comum. ela fica sujeita aos costumes vigentes. em 1252. o que não significa contudo sinal de brandura. Não nos olvidemos outrossim de que no Direito Processual comum da época vigorava o princípio da presunção de culpa (Cap. Heresias tenazes entretanto se infiltravam sorrateiramente. portanto. Durante muitos séculos. cabia-lhe o dever de lutar pela salvação eterna do seu rebanho. apenas inexistia a tortura institucionalizada. vedada era a efusão de sangue. Por influência do Direito romano. que existiu sempre. apesar de perniciosos. embora seja forçoso reconhecer que a atitude da Igreja possui fortes circunstâncias atenuantes. e. e outro tanto terá ocorrido no regime feudal onde. Enquanto sociedade de homens.

Afirmada então por ela a existência do crime. Disso decorreram inúmeros problemas de conflitos de competência. no Direito Penal comum. que as cumpram. para perseguirem os autores de tais crimes. Os tribunais eclesiásticos. muito mais severa. o ambiente jurídico em que nasceu e atuou a Inquisição: religião ofici al . usura. era tido como culpado. o julgamento do caso lhe havia forçosamente de caber. pois. competência concorrente. DIREITO PENAL CANÔNICO 91 n° 3): o réu. de maior brandura. possui competência para dizer se determinada doutrina é ou não herética. para receber os castigos previstos na legislação estatal. as Ordenações Filipinas foram explícitas nesse sentido. 5. portanto. apoiada pelo Estado. Em Portugal. De conseguinte. Aqui está. a Justiça canônica pretendeu também que fossem deixados a seu cargo vários crimes praticados por leigos. nas hipóteses em que o crime merecia a pena de morte. por isso. a Justiça eclesiástica lhe impunha a degradação. constituíam grave pecado: delitos carnais em geral. Vários delitos de natureza religiosa exigiam. A Igreja reivindicou sempre a sua autoridade exclusiva para conhecer de acusações envolvendo clérigos. seguindo a mesma regra. conseqüentemente. praticamente. cujas soluções variaram. pelo só fato de ser réu. por serem de sangue. A leitura deste capítulo e do que o precede mostra que tanto a Justiça secular como a eclesiástica se ocupavam dos mesmos assuntos. o culpado passava ao tribunal comum. Referem os historiadores que muitos bandidos. dos tribunais seculares e dos eclesiásticos. que a interessavam maiormente. visando a confissão. por exemplo. métodos processuais e penais rigorosíssimos. ao lidarem com algum acusado de heresia partiam do pressuposto de ser verdadeira essa imputação. podia-se recorrer a fácil artifício: primeiro. Com freqüência.90 JOÃO BERNARDINO GONZAGA VIII. mormente na dependência da maior ou menor submissão do Estado ao poder da Igreja. essa conjugação de trabalhos entre as duas Justiças. . princip al mente aqueles que atingiam a Igreja ou a fé e alguns de natureza mista. de crimes consistentes em ofensas à religião ou à Igreja. dizendo no Livro V. Título I: "O conhecimento do crime de heresia pertence principalmente aos Juizes Ecclesiasticos. fazendo-o retornar à condição de leigo. a fim de escaparem da Justiça laica. ficava mais fácil admitir que esse homem podia ser levado à tortura. impondo ao réu uma sanção espiritu al . Sempre que pôde. como per Direito devem". tanto nos crimes religiosos como nos comuns. ademais de ilícitos. Tal sucedia. Somente a Igreja. punindo os herejes condenados. certos atos que. e o transferia a seguir à Justiça do Estado. o conflito de jurisdições : se resolvia pela regra da prevenção: o tribunal que primeiro instaurasse um processo se tornava responsável pelo caso. e passarem à alçada da religiosa. a de morte na fogueira. etc. os devem remetter a Nós com as sentenças que contra elles derem. Eloqüente exemplo é o da heresia. Logo. com o que se via livre para o encaminhar depois às autoridades civis. comuns e religiosos. as próprias penas. E porque elles não podem fazer as execuções nos condenados no dito crime. quando condenarem alguns herejes. em acréscimo. para que esta aplicasse. ambas prevendo iguais crimes. se faziam tonsurar. ou seja. enquanto não sobreviesse uma eventual decisão absolutória. Muito encontradiça foi também esta solução: o tribunal eclesiástico fazia o processo e proferia a condenação. aos quaes mandamos. Sendo o réu um clérigo. para os nossos Desembargadores as verem. jamais o juiz leigo. inexistente no arsenal repressivo da Igreja. mesmo porque o sofrimento assim in fl igido era insignificante diante da brutal pena que seria depois imposta pelas autoridades civis. existência.

Contra ele.. a verdade é que foram numerosos. motivo por que são por esta excomungados e. vindo assim a influenciar o Direito dos séculos posteriores. Dirigem-se então a Roma. etc. muito numerosos. o livre debate. Nos primeiros tempos do cristianismo. para buscar o seu reconhecimento. Nesse ínterim. "por mais longe que remontemos na história do cristianismo. De múltiplas maneiras. movimentos heterodoxos entretanto a perturbam. nos séculos XI e XII. para fixar. no século IV. equiparando-se ao de lesa-majestade contra o Poder civil. Daí por diante. Os fanáticos que mantinham essas divergências rondavam sempre o rebanho. a que se seguiu a corrente chamada montanista. que pregam a pobreza absoluta e usurpam aos clérigos o direito de pregar. grandes vultos se destacaram nessa luta. Os erros eram examinados e resolvidos por concílios e sínodos. Quer se tratasse de interpretações errôneas dos dogmas e dos dados da Revelação. alguns dos quais deixaram cruéis cicatrizes no corpo da Esposa de Cristo". na Idade Média. a gerar focos de infecção. Doutores. Algumas. suspeitando-se que aí se entreguem a toda sorte de deboches. levados à fogueira. . no início do século II. não se sujeitam à Igreja. pág. Para isso. criavam-se assim turbulências no cristianismo. sucessivos imperadores se ocupam então do assunto. homens e mulheres. Outro grupo. Seus adeptos. exóticas e grosseiras umas. São os valdenses. o imperador Henrique III enforca muitos hereges. destroçou-o depois. muito necessita estudar. nele buscando ingresso para arrebatar adeptos. alguns restritos. se alarma diante da profusão de erros que tomam de assalto o país. Um concílio em Reims. Sem embargo. vem a ser enfrentado com crescente severidade. Idem. espalhando-se rapidamente por vários países. Santo Agostinho. ela utilizou a palavra. cit. o priscilianismo e o arianismo. reúnem-se nos bosques à noite. O Direito romano cria a figura do crime de lesa-majestade divina. o clero é espancado. sempre com o propósito de contestar os ensinamentos e as estruturas da Igreja. sob a chefia de Arnaldo de Brescia. de exílio e a confiscação de bens. acredita na eternidade da matéria e na inutilidade das boas obras. as pen as mais utilizadas pela legislação secular foram as de morte. o trabalho pastoral. 523). Ao mesmo tempo que ela busca construir. Reações da Igreja. a orientação certeira. de permeio. passando a punir com extremo rigor o paganismo. Fazem logo enorme sucesso. prosseguem vicejando pela Idade Média. com a veemência da sua palavra e o fulgor da sua inteligência. no século III. 4. queimam-se altares e cruzes. 2. optar entre possibilidades. o cristianismo se torna tolerado em Roma e. em 380. o que eles continuam entretanto a fazer.. Igrejas são profanadas. 2. Já em Roma surgiram desvios. mas nocivas todas. o maniqueísmo e o donatismo. que põe em dúvida a eficácia dos 1. também os judeus. Esses textos acabaram sendo afinal incluídos no Código Teodosiano e no Código Justiniano. Presos afinal. nova corrente herética surge em Anvers. Variadas doutrinas perigosas são importadas do Oriente e procuram firmar-se na Europa. 3. no ano 1049. No Saxe. Heresias no Império Romano. Como assinala Daniel-Rops' (L'Église des Apôtres. Em fins do século XII. surge na França uma seita importada da Itália. por fim. nega à Igreja o direito de possuir bens. quer de tendências morais aberrantes ou ainda de cisões provocadas por personalidades fortes mas perdidas no seu orgulho. buscam total despojamento. que. Dentre os principais. as heresias e. o gnosticismo. a Igreja se viu a braços com a tremenda tarefa de formar sua doutrina. com maior vigor. importante dissidência brota em Lião. a persuasão. debater. sob a liderança de um tal Pietro Valdo (ou Pierre de Vaux). etc. o pelagianismo no século V. mais refinadas outras. graças à conversão de Constantino (313). galga o posto de religião oficial.IX. com rejeição de todos os sinais exteriores da fé: sacramentos. outros amplos e duradouros. pelo rei. No século seguinte. negando-lhes o direito de divulgar suas idéias. m as o papa Alexandre III os admoesta. ANTECEDENTES E NASCIMENTO DA INQUISIÇÃO IX. ANTECEDENTES E NASCIMENTO DA INQUISIÇÃO 93 1. e a Igreja se tinha de manter vigilante. encontraremos sempre heresias e cismas. destacam-se. liturgia. heresias. refletir. em meio à complexa realidade da vida. que chegara a aderir ao maniqueísmo. Nascimento da Inquisição. hierarquia. que impugna os dogmas fundamentais. esses despedaçamentos. em 1052. No ano 1025. Contra os ataques.

houve uma infinidade. sendo por isso severamente perseguidos. pregadas com denodo nos campos. começou a retornar à Europa. a mulher grávida possui o demônio no corpo. escandalizados. As novas crenças passaram assim a minar a Igreja e o Estado. os governantes começam a sentir a sua impotência para resolvê-lo. trazendo seu "papa" de Constantinopla. mas místico. mas. Pedro de Bruys. No continente europeu. ou seja. enquanto as autoridades leigas se mostravam crescentemente inquietas. Sumariamente afastou-se pois o problema. nesse país. enviado a Colônia e à França meridional para atrair os revoltosos. procurou manter-se à margem das violências. pobreza. Em Soissons na França. que representou sério e duradouro desafio para a Igreja. A Igreja. mau. de t al sorte que. Lombardia. sendo evidentemente difícil a perseverança na perfeição. para um povo analfabeto e profunda/ ignorante. que lhes envia um anjo sob aparência humana. mormente a do catarismo. Alemanha. Ao mesmo tempo. pôs carne numa fogueira que armara com cruzes de madeira. populares arrombaram a prisão. preveniam-se as defecções por meio de freqüentes assassínios. que ensina aos espíritos os meios de libertação: jejum. 3. Um célebre herege francês. Os fiéis. Em Roma. até que. ANTECEDENTES E NASCIMENTO DA INQUISIÇÃO 95 sacramentos. para opor um di- . conseguiam alcançar enorme sucesso. e recomendava compaixão para com os culpados. para reforçar a comunidade dos fiéis. principalmente. fora justamente o seu uso. a chamada "endura". diante do agravamento do mal. que no século XII já ocupam extensas regiões dos Países Baixos. As heresias em geral. porque seus divulgadores repetiam os mesmos ensinamentos cristãos. o que mais ainda aumentava a confusão. mas sua doutrina permaneceu germinando no Oriente. confusão. Casos como os aqui descritos. no século X. se revoltavam contra os inovadores. largas parcelas do povo. transmitidas de aldeia em aldeia. ao inverso. porque somente as mortificações podem conduzir à morte libertadora. e assim enfrenta as autoridades civis e eclesiásticas.94 JOÃO BERNARDINO GONZAGA IX. criador dos corpos. Desorientavam as pessoas. São Bernardo. Sério inconveniente dessa seita é que levava à decomposição da sociedade. organiza-se militarmente. Com freqüência. Há quem calcule que essa prática haja vitimado mais cátaros do que toda a repressão inquisitorial contra eles exercida. a questão continuou insolúvel. para defender a integridade da doutrina em que se achava formado. Os espíritos cativos recorrem todavia ao deus bom. criador dos espíritos. Pode-se dizer que por instinto. do deus mau. com dois princípios ou dois deuses: um. foi ele assado no braseiro. dando origem a desordens e lutas cruentas. apenas lhes dando conotações diferentes. em milícias. se alastram pelo sul da França. não houve meias medidas: quando um grupo de cátaros lá desembarcou em 1160. A propagação do gênero humano constitui obra diabólica. a abstenção da convivência entre os sexos. matando os hereges. fiéis à orto- doxia. querendo insultar os católicos na Sexta-feira Santa de 1124. Em 1167 (ou 1170). Não passou de um desdobramento do velho maniqueísmo. Pregava-se. criam dioceses e designam bispos para dirigi-las. restringindo-se aos meios suasórios. sob a forma de um neomaniqueísmo. inexistiram tribunais de Inquisição durante toda a Idade Média. Por todo canto e cada vez mais. Os cátaros evoluem na arrogância. realizam um concílio na França. Em Colônia. o agarraram e. Os cátaros impugnavam o casamento. São os "cátaros" (o que significa "puros"). abstinência total de consumir carne. no paraíso terrestre. que muito se expandia. em lugar da carne. e a Igreja se convence da necessidade de providências mais sérias. Começa a humanidade quando o deus mau encerra uma parte dos espíritos em corpos. o povo reagiu sempre com maior rapidez e violência do que as de início hesitantes autoridades eclesiásticas. retiraram os cátaros que lá aguardavam julgamento e os massacraram. o que significa o pecado original. também sem êxito. marcados a ferro incandescente e expulsos da ilha. pululam desvios religiosos. Defendiam uma doutrina dualística. na Alemanha. enfim. e. Aos poucos. castidade. os maniqueus já haviam sido considerados muito perigosos. vendo que o bispo demorava para justiçar alguns hereges. é repelido e suas missões fracassam. bom. para levá-los de imediato à fogueira. durante bastante tempo e fiel à sua tradição. Padres e nobres aderiam. desassossego e alarma na cristandade. em 1120. onde passam a ser chamados de albigenses. A mais nefasta heresia porém foi a do catarismo. Sínodos e concílios se reúnem para debelar o mal. em conseqüência. para as pessoas chegarem ao estado de perfeita pureza. que geram perplexidade. de catequese. E Jesus Cristo. e para eles o fruto proibido. uma multidão impaciente os arrancou das suas mãos. que existira no Império Romano. Na Inglaterra. foram todos logo presos. investindo contra os Poderes civil e religioso. outro. populares se antecipavam às autoridades e faziam justiça pelas próprias mãos.

Em Aragão. a insolência cresce. atitudes rigorosas passam a ser recomendadas pela Igreja e. valdenses. pois é mais grave ofender a majestade eterna do que a majestade temporal". no entanto. A recusa ao juramento significa heresia. Como se vê. que procura convencê-los à emenda. o papa Lúcio III e o imperador Frederico I deliberam unificar a repressão na península italiana. de renúncia a tudo o que se oponha à fé da Igreja romana. suas estruturas se delinearam num concílio realizado em Tolosa. convidando a população a denunciar as pessoas suspeitas de heresia. em 1199. dai nesta causa toda a liberdade ao Arcebispo (de Reims). o quarto Concílio de Latrão procura garantir os resultados assim obtidos e determina aos bispos franceses uma série de medidas coercitivas. os bispos a tudo fecham os olhos. Inocêncio III dirige aos católicos de Viterbo a célebre decretal Vergentis in Senium. dever imposto aos fiéis de denunciar hereges. para que estas acrescentassem as penas de Direito comum. Se Vós agirdes de outro modo. Ressalva porém a demência com que devem ser tratados os que se arrependem. aquele pontífice. ponderando: "Consoante as sanções legais. neste país. em 1162 escreve ao papa Alexandre III pedindo apoio: "V. jovens sem preparo são ordenados e recebem dignidades eclesiásticas. Os que não renunciam espontaneamente devem ser mantidos presos incomunicáveis e alimentados nos termos que se encontram em Isaias 30. findo o qual qualquer pessoa poderá castigá-los. Pouco após. começa a delinear as bases ideológicas e jurídicas que se firmaram depois na Inquisição: colaboração entre a Igreja e o Poder laico. eles deveriam instalar seus tribunais nas localidades mais atingidas.Inocêncio I II lhe entregou a presidência de um tribunal. cristãos guerreiam cristãos. os clérigos são insultados sem pudor. Recebem visitas apenas do cônjuge e de um membro do Tribunal. Os cátaros-albigenses promovem incêndios e saques. Sabedoria preste atenção toda particular a esta peste (albigenses em Flandres) e a suprima antes que se possa agravar. No terceiro Concílio de Latrão (1179). onde alimenta a idéia de rigor. o mesmo papa se preocupa com o Sul da França. Como instituição oficial e permanente para toda a Igreja. na Espanha. foi nascendo o que se passou depois a designar pela palavra "Inquisição". 4. em 1209. a Santa Sé ainda titubeava em usar de energia. No ano seguinte. em 1229. aplicação a estes da confiscação de bens e perda de direitos civis. ANTECEDENTES E NASCIMENTO DA INQUISIÇÃO 97 que à maré montante. Começou o Tribunal do Santo Ofício na França e passou depois a outros países europeus.) e concitam-se os bispos a prosseguirem com medidas punitivas. cada dois anos.96 JOÃO BERNARDINO GONZAGA IX. onde. ele destruirá aqueles que assim se levantam contra Deus. Outras reações se seguem porém. aos poucos. Em 1184. esta somente se consolidou em 1231. Luís VII. os murmúrios não se aquietarão e desencadeareis contra a Igreja Romana as veementes censuras da opinião". Com mais forte razão. lembrando a parábola evangélica do banquete e a famosa divisa compelle intrare. com apoio de alguns nobres. Assim é que. Periodicamente. Variados hereges são excomungados (cátaros. Inocêncio III volta a dele se ocupar e. grande ofensiva é lançada principalmente contra os valdenses. Os hereges que desejam abandonar espontaneamente seu erro devem trazer duas cruzes de pano colorido costuradas nas vestes e sofrem incapacidades até chegarem à completa reconciliação. a imoralidade campeia. devem ser excomungados e desti- tuidos dos seus bens. rejeitando sua fé. Por isso. os culpados do crime de lesa-majestade são punidos com a pena capital. um decreto imperial . a qual deu entretanto mui fracos resultados. queimando inúmeros hereges e confiscando os bens dos culpados. Na Alemanha. Eu vos suplico pela honra da Fé cristã. ofendem Jesus Cristo. A par disso. Dispõe-se que todos os fiéis devem prestar juramento. por bula do papa Gregário IX. 20: 0 Senhor vos dará um pão apertado. arnaldistas. graças aos esforços do papa Celestino III e dos reis Afonso II e Pedro II. diz ele. Diante das insuficiências do clero secular para o combate. exceto com mutilações e morte. São Domingos de Gusmão veio a ser incumbido de algumas missões e por volta de 1216 . impondo aos culpados que apanhassem a excomunhão e os transmitindo depois às autoridades civis. aqueles que. cujos domínios abrangiam também a Catalunha e parte da França. Aos irredutíveis. Filho de Deus. seus bens são confiscados e só por misericórdia a vida é deixada aos seus filhos. etc. Alguns anos depois. etc. em virtude disso. num concílio de Verona. o braço laico imporá a pena capital. sua severidade justa será louvada por todos os que. Obrigam-nos a deixar o reino dentro de certo prazo. estão animados de genuína piedade. começou-se a recorrer aos frades. da França. em 1215. organiza nova cruzada contra os albigenses. a fim de que a Justiça delas cuidasse. e água pouca. Antes disso. que obtém relativo êxito. O problema nessa região continuou todavia aceso. se organiza uma expedição repressiva ao Sul da França.

com supremacia da primeira. Com isso não houve. disciplina do clero. decidisse recursos e resolvesse dúvidas. as tarefas que se tornaram específicas da Inquisição passaram a ser subtrairias à Justiça Canônica tradicional e confiadas ao clero regular: primeiro.. adquiriu novo alento. também. a ordem e a moralidade públicas. à Boêmia. Ora. em verdade. passou a atuar a Inquisição medieval. somando esforços no sentido de manter a fé. espiritual e temporal. com regras mais severas. confiando suas atribuições à Inquisição romana. qualquer mudança substancial. ( . Assim. aos frades pregadores. portanto. quando Paulo III o aboliu. etc. funções administrativas. mas somente ficou reforçada uma realidade preexistente. entendeu-se preciso reforçar suas defesas contra as investidas que vinha sofrendo.98 JOÃO BERNARDINO GONZAGA IX. em estreita união com a Justiça do Estado. que se encerrou no século XV. depois. a dos bispos e a dos delegados papais. Há alguns séculos já os tribunais da Igreja vinham aplicando seu Direito Penal Canônico a variados crimes. o papa Urbano IV nomeou João Caetano Ursino para as funções de Inquisidor Geral. muito mais ágil e eficiente. Tanto a Justiça comum como a canônica devem trabalhar conjugadamente. Durante algum tempo ainda coexistiram as duas jurisdições sobre ag mesmas matérias. chegou à Itália. e. entrou na península ibérica. delegadas ambas por Deus para o exercício da autoridade nas duas esferas. que os chefiavam. comuns e religiosos. viviam sobrecarregados com múltiplos afazeres. cujo Direito Penal também punia equivalentes infrações. ao contrário. tanto civis como penais. O mesmo sistema prosseguiu vigendo na Inquisição. unem-se mais fortemente os dois Poderes e reafirma-se a doutrina política baseada na idéia das "duas espadas": a da Igreja e a do rei. a bruxaria. trabalho pastoral. os tribunais diocesanos que até então existiam se mostravam impotentes. que centralizasse os trabalhos. num momento tão grave para a vida da Igreja. em 1263. exceto na península ibérica. Através da Inquisição. ANTECEDENTES E NASCIMENTO DA INQUISIÇÃO 99 de 1232 o estendeu a todo o Império. também à Ordem de São Francisco. onde tramitavam variadas questões. à Hungria. Entre os assuntos principais que ficaram a seu cargo estavam a heresia. a apostasia. Diante do fortalecimento de heresias cismáticas. se tornou exclusiva nos assuntos que lhe competiam. Os bispos. A partir daí a instituição foi declinando na generalidade dos países. cabia-lhes ainda se ocupar da Justiça canônica. Logo sentiu-se porém a necessidade de um órgão superior. o cisma. No começo. o sacrilégio. os dominicanos. etc. mas aos poucos esta última. Por isso. Nos primeiros decénios do século XIII. onde. cada tribunal seu funcionava de modo autônomo nas regiões em que se instalava. com a qual a Igreja apenas buscou obter maior eficiência da sua Justiça. Em sobrecarga. O cargo continuou até 1542.

quando esse país se converteu na maior potência mundial. mesmo porque é fácil despertar nas pessoas a simpatia pelos perseguidos de qualquer espécie. com Voltaire à frente. 0 pensamento de Santo Agostinho. reduzida afinal à pobreza. esses novos críticos não alcançam a dimensão sobrenatural dos problemas e ignoram o fato da divindade de Cristo. os agnósticos. dedicado à caridade e à doçura. Tratava-se. logo que ambicionaram o domínio do mundo. Cerceamento à liberdade religiosa. os ateus. Esse clima. converteram a Inquisição na sua principal arma de combate à Igreja. que ansiava por assenhorear-se do tráfico internacional. Interesse que o tema desperta. ou oculta. com infatigável in- sistência pelas correntes liberais do século XIX e chegaram até nossos dias. 3. crueldade. cujos sofrimentos são exaltados. os protestantes inundaram a Europa de livros e pan fl etos. tendo à frente a Holanda. Tentou-se já o levantamento das obras por toda parte sobre ela publicadas. Tomados de feroz anticlericalismo.. A ofensiva principiou no século XVI. da crença nos demônios. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 101 1. os enciclopedistas franceses. por isso atrasada. todos logo pensam nesta. Cumpre não esquecer também a relevante contribuição moderna de certos psicanalistas que se servem da Inquisição. que se consideram grandes vítimas da Inquisição. Nas investidas se congregam 'os protestantes. etc.e de narrativas escabrosas. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO X. é um monge. Para a campanha. de modo indissolúvel. Basta sabermos que há alguns milhares de trabalhos dedicados ao seu estudo e que. do combate às bruxas. pág. para lê-los todos. se deixa envolver. os materialistas. 6. idênticos chavões continuaram sendo utilizados. 773). 4. econômicos e religiosos. os comunistas. porque se opõem a qualquer religião institucionalizada. 8. 775). Reproduzem-nos todos os adversários da Igreja: os que se intitulam "homens arejados". quando Espanha e Portugal dominaram o comércio marítimo. A Inquisição constitui assunto de eterno interesse. 7. da tenaz campanha acusatória de que foi sempre objeto talvez nunca seja por inteiro desvendada. O público. recebeu mais adiante o reforço do movimento iluminista do século XVIII. O combate foi engrossado pelos anglo-saxões. de instrumento de opressão contra as liberdades individuais. A Inquisição se tornou assim um arquétipo. As mesmas idéias. as mesmas palavras. pág. . não seria suficiente a inteira vida de um homem. para investirem contra a Igreja. fundaram imensos impérios coloniais : e buscaram o monopólio das riquezas. e completam: "Por acréscimo é um padre. à Espanha: quando se fala naquela. Tal hegemonia despertou a cobiça dos protestantes. que faz aplicar a homens.. manejado por um clero fanático e corrupto. Fé da Igreja em sua missão. obscurantista e. A técnica utilizada para atacar o catolicismo foi sempre a mesma: o leitmotiv era a figura de uma Espanha dirigida pelo clero.. porque adeptos da liberdade de pensamento e inimigos de qualquer censura. um símbolo universalmente aceito de intolerância. o certo é que a preocupação de atacá-la traz. cuidadosamente preparado. diziam. orquestrando todos formidável montagem propagandística. em conseqüência. torturas as mais cruéis" (ib. 2. mas a pesquisa é difícil e precários os números apresentados. Princípio da unidade religiosa.X. o "século das luzes". variáveis mas fortíssimos interesses políticos. como num cantochão. As crenças heréticas. 'da tortura. Aludem a "esse terrível tribunal que julga os pensamentos dos homens" (Encyclopédie cit. e a ela ficou sobretudo ligada. que até hoje continua despertando apaixonados debates. da Igreja e dos católicos ibéricos. em vastos e profundos calabouços. todos insistindo em denegrir a imagem dos papas. prepotência. Perspectiva jurídico penal do problema. A propaganda desmoralizadora foi uma das grandes armas utilizadas: valendo-se da imprensa recém-inventada. os judeus e correntes de pensamento que chamaremos de "liberais". Sobranceiros em sua linguagem empolada e quase impenetrável. 1. que atravessa os séculos. A história autêntica. com muito empenho sempre contribuíram também os judeus. 5. Acusações à Inquisição. do papel da mulher. subjacentes. com múltiplos matizes. ávido de mistérios. como re fl exo condicionado. desejoso de manter o povo na ignorância e que se impôs pela tortura. tomo VIII.

de sorte que o estudo da Inquisição deveria ter perdido quase todo o interesse. não nos olvidemos. quando isto melhor conviesse.j. devemos procurar orientar-nos e encontrar equilíbrio. o que todavia pouco ou nada adianta. e nisso possuem inteira razão seus acusadores. acusam-na de "dogmatismo". mente" (Marguerite Youcenar. Para suscitar revolta e angústia nos leitores. com julgamentos arbitrários e sem recurso. tudo está mudado. pág. julgar. EXAME CRITICO DA INQUISIÇÃO 103 Hoje. Em trabalhos recentes. os debates seguem contundentes. Comecemos lembrando que constitui erro crasso. montou-se a farsa da "raça superior". São todavia especialmente delicadas as situações em que uma posição doutrinária se assenta em bases corretas. 7). religião e aparelhos do Estado" (Jean-Pierre Guicciardi.. sob a liderança de um desequilibrado mental. Na medida em que sentem o catolicismo indestrutível. ela permanece viva. já reconheceram humildemente os erros e os excessos praticados pela Inquisição. Esse tipo de apologética não é especial dos defensores dos crimes papistas aqui e «parpaillots» I acolá: os fanáticos e os aproveitadores de ideologias em nossos dias não sentem diferente(1) Antiga designação injuriosa dada aos protestantes franceses. violenta. que se auto-atribuía o direito de escravizar ou. há os que chegam até mesmo à desonestidade intelectual de equiparar a Inquisição católica às façanhas do nacional-socialismo germânico das décadas 1930-1940. pág.. op. de outra em assegurar que os suplicios eram necessários à boa ordem. Estudiosos católicos já reiteradamente colocaram os acontecimentos históricos em suas corretas dimensões. Verifica-se enfim que. mas. cit. 2. problemas novos surgiram. Na Alemanha nazista.. A palavra vem de papillon. encarniçados em destruir vidas humanas para castigar pretensos crimes. fingindo não perceber a óbvia e abismal diferença que os separa. Masmorras. Gallimard. mas depois se desgarra. menos numerosos aliás do que se diz. O cristianismo. pelos quais nutria o maior desprezo. subjetiv as e objetivas. o mundo é outro. Apresenta-se induvidoso o fato de que a Inquisição foi opressora. à luz das circunstâncias atuais. muito tempo já passou desde aqueles recuados séculos em que a Igreja detinha poder de vida e de morte sobre as pessoas. como se jamais tivessem sido respondidas. 53-54). de uma parte. de "patruíhamento ideológico". a Inquisição fascina e perturba — não tanto pelo que ela foi «realmente» (e que durante muito tempo foi mal conhecido). os adversários procuram. lemos que a Inquisição reduziu todo o povo a uma "escravidão moral e intelectual". porque todos criados à imagem e semelhança de Deus.102 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. borboleta. suplícios. curiosamente. o efeito se tornou depois inverso. A comprovar o nível baixíssimo atingido por alguns detratores. inclusive durante a Inquisição. baseados em depoimentos de testemunhas sem rosto. quase sempre de essência religiosa. um elemento de repressão ideológica a serviço de todos os totalitarismos.. Ed. Archives du Nord. e dos quais cabia freqüentemente ao acusado adivinhar e definir ele próprio a natureza" (Frédéric Max. porque o que os detratores objetivam é justamente o escândalo. . o seu "calcanhar de Aquiles" e se unem para não deixarem o assunto perecer. totalmente diferentes. a produção bibliográfica que lhe é dedicada mantém-se abundante. um episódio histórico que viveu sob o domínio de outras circunstâncias. e conformes ao espírito dos tempos [. editam-se obras novas e reeditam-se as antigas. cumprindo então verificar em que ponto do caminho ela deixou de estar com a verdade. a Igreja pretendeu defender a própria integridade. "desde seu estabelecimento. págs. e nesse tom segue todo um palavreado que faz sentido hoje. há interesse em manter vivo o arquétipo. a técnica muito simples consiste sempre em denegrir as vítimas. Assim. Com o Tribunal do Santo Ofício. utilizam-se expressões muito fortes. apaixonados.. mas pelo que o inconsciente coletivo quis ver unicamente nela: uma instância de tortura e de morte. secretos. se não má fé. cit. na Inquisição. 1977. e o fato de ter existido esse tribunal se acabou convertendo na mais possante máquina de guerra contra ela dirigida. e milhões de seres humanos foram estupidamente as sassinados. 11). mas que deve ser utilizado com muito comedimento e sob outros enfoques nas antigas épocas em estudo. Paradoxalmente. no entanto. sempre viu os homens como essencialmente iguais entre si e merecedores de total respeito. fogueiras. de se arrogar a posição de "única detentora da verdade". argumentos ad terrorem. exterminar os "povos inferiores". op. e as mesmíssimas críticas são reiteradas à exaustão. de "manipuladora de consciências". com extrema agressividade. insolúveis.. Em meio a tão confuso cipoal de idéias. Ou então se opta pelo artifício da manhosa ironia: "Em presença de excessos cometidos outrora pelo partido ao qual aderimos. Um escritor atual resume a Inquisição nestes termos: "Tribunais . já tudo explicaram.

enviou assistentes à Europa. durante alguns séculos e em vários países. para ser transportado. etc. desobedecendo-as. "havia grande número deles que. Na Espanha e em Portugal. nela trabalharam séries incalculáveis de papas. tão diferentes. sentimos porém que alguma coisa aí soa falso. sádicas. atemorizam.( 104 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X.-C. que até hoje ostenta o seu nome. fiscalizaram-na. Padres ou monges. que a Igreja haja feito o que fez. Rico editor em Filadélfia. que lhe presenciavam o comportamento. bispos. autos-de-fé. se davam perfeitamente conta da gravidade e das pesadas responsabilidades do seu ministério. Antes de enfrentá-lo. Esse quadro de crueldades. equilíbrio. agindo pela glória de Deus e pela defesa da verdade. como se faz. extraído do mundo em que existiu. colore-se um quadro brutal. dor. supliciou. às consciências atuais. Ao mesmo tempo é igualmente certo ter havido multidões de juizes e servidores inquisitoriais que se comportaram com o maior escrúpulo. 0 personagem assim irreverentemente tratado. Veja-se esta absurda imagem.. com base no qual ele escreveu alentadas obras de feroz combate à Igreja. através das violências. o que em verdade buscava. vinha alegremente tomar lugar ao pé da fogueira crepitante" 2 . na exata medida do seu exagero. do mesmo modo que é verdade ter havido autoridades eclesiásticas fracas. "luxúria". durante séculos. Apenas se concede. destacarmos a Inquisição (2) H. em seu temporsantos. plena de malícia. clérigos em geral. que apresenta certo historiador norte-americano protestante: "Quando um herege não se deixava persuadir. se a divorciarmos dos costumes então vigentes e dos esquemas mentais que a inspiraram. Por acréscimo. outras que agiram movidas por maus interesses políticos ou econômicos. coagiu. eram o poder político e a riqueza. a fim de colherem material de estudo. precisamos evitar o erro tão freqüente de tratar conjuntamente a Inquisição que atuou na península ibérica e a de outros países. Lea. Juízes houve que se deixaram arrastar por pressões locais. mas logo produzem desconfiança. 340. "corrupção". de conseguinte. há de forçosamente causar funda repulsa. foi um santo. muitas vezes incontrolável. Havia sempre o perigo. será bom deixar acertados alguns pontos preliminares. prendeu. para julgá-la apenas com os critérios e o espírito da atualidade —. que tudo isso somente pôde ocorrer porque "os tempos eram severos". não pode estar certa. benevolamente. cujo único "crime" consistiu em dela divergirem e desejarem respirar num sadio clima de liberdade de opções. a Igreja extorquia dinheiro dos infelizes que lhe caíam sob as garras. a Inquisição atuou. a inevitável conclusão só pode ser esta: toda a multidão que manteve e apoiou o Santo Ofício. na busca de compreensão. pondo as pessoas em fuga. imensa e. foi o fundador da respeitável Ordem dos frades pregadores. guiadas por novos padrões. se. em meio às paixões que o envolveram. do seu ambiente. Henri-Charles Lea (1825-1909) é uma figura curiosa. do seu ódio à heresia transformar-se em ódio ao herege. As descrições inflamadas que os inimigos da Igreja costumam apresentar. espantam. servidores leigos. cardeais. totalmente despiciendo. doutores da Igreja. o que aconselha o seu estudo em separado. Tenhamos presentes as judiciosas palavras de Jean Guiraud: ao lado de juizes violentos e cruéis. teria necessariamente de ser formada por pessoas desonestas. que mais aparecem nas críticas. e colocado no mundo que lhe foi próprio. O tema. pág. a lembrar masmorras. homens sábios. dirigiram-na. Consoante proclamam em acréscimo seus adversários. houve componentes muito especiais. 1. massacrou muitos milhares de inocentes. continuam. O grande problema da igreja foi ter posto em ação uma máquinas repressiva que acabou por tornar-se poderosa. Domingos. para os nossos dias. ela. Primeiro. como todos os outros missionários zelosos dessa época. são "venalidade". frades. re fl etimos. com maior ou menor vigor. que "se alegrava" com o sofrimento alheio. deve ser apreciado com serenidade. já bastava para causar imenso terror. Afinal. ` . procedimentos secretos. Choca. da cultura em que esteve imersa. isoladamente e em bloco. algumas que se deixaram influenciar por governantes inescrupulosos. habentes Deum prae oculis como diziam certas sentenças. queimou. retirados os contornos. a precariedade dos meios de comunicação muito dificultava a fiscalização do que se passava nas inúmeras cortes inquisitoriais. tão fascinante. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 105 Concomitantemente. homens puros. quiçá psicopatas. por parte de inquisidores mais exaltados. Histoire de ! Inquisition au Moyen-Age. de imensa impiedade da Igreja para com os "perseguidos". tendo sempre Deus diante dos olhos. Convém outrossim arredar o debate. É inegável que excepcionalmente sim. Explica-se que o simples nome "Inquisição". Ora. que consiste em saber se o Santo Ofício resvalou ou não para excessos. em que ele esteve no seu tempo inserido. ou a moldura. apoiaram-na. rescendendo a intriga. As palavras dirigidas ao clero. A História menciona vários casos em que bispos e inquisidores se rebelaram contra as exigências pontifícias de moderação. Chegados a esse ponto. Para alcançar seus torpes objetivos. geradores de maior exacerbação dos ânimos.

Reconduzir à ortodoxia um herege era para eles grande alegria e. acusá-la de "dogmatismo". Já no capítulo V falamos da intensa religiosidade popular daqueles tempos. A quem faltar a compreensão dessa fé absoluta. os povos cristãos instintivamente sentem o horror vacui. pois. E eu te darei as chaves do reino dos céus (Mt 16. estampada em obras de arte. não querem ver. Em meio aos escombros que restaram após a queda do Império Romano. porque Deus gravou a lei natural no coração de cada homem. Conseguintemente. Essa a visão da Igreja. todas as coisas atrairei a mim mesmo (Jo 12. somente restará pensar. e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. mas estavam plenos de misericórdia pelos acusados. designou o primeiro pontífice e determinou aos apóstolos que divulgassem a Boa-Nova por todos os povos. pode explicar por exemplo que multidões de jovens. e os procedimentos utilizados. a retidão e mesmo a caridade de vários dentre eles" (op. na bula Unam Sanctan a todo ser humano é absolutamente necessário. Não será possível entendermos a Inquisição sem partir da idéia de que a Igreja se acreditava investida de uma missão divina. o desamparo. percorrer hoje o continente europeu para testemunharmos. preparando um pequeno punhado de pessoas para a abertura universal. ao mesmo tempo. Aqueles porém que. Jesus Cristo. a qual examinaremos a seguir. reconhece a Igreja. Daí a vocação missionária da Igreja. o princípio da unidade religiosa domina a inteira Idade Média. Ensinando-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado. o que é pior. veio ao mundo para revelar a verdade e o caminho. Basta. moços e moças. até à consumação do século (Mt 28. políticas e econômicas. que tudo sabe. a única fonte de cultura. só pronunciavam sentença de condenação quando a culpabilidade não deixava em seus espíritos qualquer dúvida. ordenou se buscas- sem essas ovelhas desgarradas. mas. 18-19). e constitui atitude superficial. que permitiam ao culpado corrigir-se. e do Filho. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 107 movidos por razões de ordem sobrenatural. Lembrou-o Cristo: Tenho também outras ovelhas. a inexistência de pautas que os guiem. 866-7). hajam abandonado os prazeres da vida a -e . nem imputar-lhe "intolerância" para com os que se recusavam a ouvi-la. ganharão a vida eterna. movida por mesquinhas preocupações terrenas. quando se preocupava em transmitir a palavra de Deus. ajudados pela graça divina. sólidas e grandiosas. que a compele a buscar as nações pagãs para anunciar-lhes o Evangelho e exortar as pessoas à fé. e elas ouvirão a minha voz. 4. arriscam-se a perder suas almas. Cabe-lhe assim não só traçar regras religiosas e morais. Condenar um inocente lhes parecia uma monstruosidade e. Curiosamente. em vez de o livrar ao braço secular e a uma morte que suprimia toda esperança de conversão. 4) e ficar no erro. Somente esse espírito de profundo apego à fé.106 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. Gravíssimo dever havia portanto de transmitir a todos os homens a mensagem de Cristo. sem culpa. durante os poucos anos de vida pública. a consciência. Esses sentimentos são com freqüência expressos nos manuais dos inquisidores e nos possibilitam apreciar a boa fé.. dessa dimensão sobrenatural do problema. Com advertiu em 1302 o papa Bonifácio VIII. Fundou a Igreja. O exame metódico das críticas à Inquisição se deve bipartir em dois aspectos: a posição ideológica que a animou. estiverem fora da Igreja. Opor-se à Igreja é opor-se a Cristo (At 9. Assim. arrebatavam outras ovelhas do redil. os que. cit. 16). a Igreja Católica se torna a única instituição sólida. mas também organizar e orientar a vida comum das pessoas. entretanto. isso. obediente ao mandato divino e carregada de boa vontade. intransigente. cols. mas obedecerem à lei natural. numa Igreja soberba. 32). Jesus Cristo. para a união completa da humanidade sob a bandeira cristã: E importa que eu as traga. Tu és Pedro. para a salvação estar sujeito ao pontífice romano. limitou-se a exercer o ministério no restrito território do seu minúsculo país. Sem a tutela da Igreja. e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. para as porem também em perigo. Não só renegavam a Cristo. Por isso os hereges e os apóstatas causavam profunda aflição à Igreja. Os críticos de um olho só. o único refúgio para populações desorientadas e indefesas. e haverá um aprisco e um pastor (Jo 10. e do Espírito Santo. tendo conhecido a mensagem. como lhes recomendavam os papas. mas. que não são deste aprisco. 19-20). Ide pois e ensinai todas as gentes: batizando-as em nome do Pai. preferiam aplicar penitências canônicas e penalidades temporárias. Não tem sentido. feroz. o que foi a imensa presença da Igreja. Nem todos os pagãos. e estai certos de que eu estou convosco todos os dias. de modo rasteiro. para que se pudessem salvar. se perderão. Deus Filho. a rejeitarem. Esta ficou condicionada ao mistério da sua morte e ressurreição: E eu quando for levantado da terra. detestavam a heresia. em toda parte. o que será objeto dos dois próximos capítulos. 3. em edificações belíssimas. aliás.

o eixo da vida humana". que atraíam massas de pessoas ingénuas. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 109 fim de se isolarem em mosteiros. muitas vezes em perpétuo silêncio. a partir do momento em que os homens estão de acordo sobre isso. apenas para não dizer que abdicavam da sua posição religiosa? No século XX. Hoje. E a bom direito: se se coloca o problema religioso no centro da existência. levantando turbilhões de forças centrifugas. . de interesse religioso foi dada pelos hereges. Quantas pessoas. Conforme assinala H. e sairam pelos caminhos a pregar. pág. haviam sopesado todas as possibilidades de opção e firmado a linha a seguir. Quando se iniciou a Inquisição. deixando livre curso a todas as heterodoxias. quando largou a âncora romana e se viu repartido em inumeráveis seitas. que era afinal a crença do seu Estado e do povo a que pertenciam. como poderá ele se acomodar ainda entre aqueles com os quais. é exato. o número destas se multiplicaria num crescendo. de modo breve. de casos individuais de apostasia. de aderirem ao cristianismo. se estiolou esse sentimento. pontífices. enquanto o primeiro se submeteu ao papa. como monges e monjas. São Francisco de Assis (1182-1226) abrira as portas da cristandade para a alegria. a comunidade está soldada. ao contrário. 5. e não lhes era possível aceitar que na retaguarda. mas. a simplicidade. O que passou a haver. na atualidade. simples. a morte e o sofrimento físico. mas torna-se inegável que. aceitando a submissão. ou manterem a fé que possuíam. há já doze séculos vinha trabalhando em sua doutrina. ao delas participarem. cit. Ora. sobre o essencial. ficassem impunes agressores da fé pela qual se estavam batendo. em nome de uma "liberdade de pensamento" tal qual a concebemos hoje. Ou. 51). — optaram. melhor dizendo. no momento em que. que constituíram fenômeno discutível. em nome do cristianismo. op. não só. São Tomás de Aquino (1225-74) assentava sólidas bases filosóficas. que proliferam incessantemente).. uma fusão. 36). naqueles rudes tempos. Diante da alternativa. para todo o sempre. em seus países. inconcebível era que fosse condescender com dissidências rebeldes dentro do próprio coração da cristandade. o amor à natureza 3 . que lhes era apresentada.. inclusive da própria vida. exatamente porque o que eles não conseguiam aceitar era o ato de expressa renúncia ao credo que professavam. entretanto. foram movimentos cismáticos. como a forma normal de comunidade entre os homens: dai resulta uma compenetração íntima. mas. não se pensa no inferno e o que os homens efetivamente temem é o fiscal do imposto de renda. Essa foi a atmosfera em que viveu a Inquisição. ele recusa a comunhão?" (in Jacques Le Goff. e acabou herege. com o selo divino e após tão sério trabalho. e a isso preferiam a morte. e se salvarem de graves castigos. que fundou a seita dos valdenses: ambos desprezaram a fortuna. sobre o essencial. nesse momento histórico. optando pela pobreza evangélica. pág. grandes doutores haviam pensado e repensado os assuntos. Fácil até lhes seria adotar uma fórmula de compromisso. O acontecido demonstra três coisas: o mundo de então era muitíssimo diferente do nosso. o segundo preferiu o orgulho da auto-sabedoria. a razão de ser. A fé constituía uma força viva que realmente se imiscuía nas atividades diárias. com sombras e luzes. se disporiam a aceitar a fogueira. proclamando-se inspirada por Deus. e que buscavam destruir a própria Igreja e sua fé. da recusa à obediência. as pessoas almejavam o céu e se amedrontavam de verdade ante a perspectiva de irem para o inferno. e por esse motivo serem levados à fogueira. Se se tratasse apenas de erros isolados. o imenso valor que os homens comuns do povo davam à religião. Pensemos também nas cruzadas. os tribunais diocesanos poderiam dar conta do assunto. Eloqüente prova aliás. ou digamos. Esta "possuía a mesma importância vital que para o homerv de hoje tem a ideologia política. uma confusão entre a comunidade religiosa e a comunidade nacional ou social. Henningsen. pela segunda solução. a pureza. Marrou. a Igreja fixara a ortodoxia. op. à hierarquia religiosa e morreu santo. naquela época "o problema das relações do homem com a divindade aparece como a preocupação central.108 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. aos milhares. a Igreja. cit. legiões de pessoas se dispuseram a fazer toda sorte de sacrifícios. essa entrega total a Deus era por toda gente aprovada e recebida com naturalidade.-I. a escassa importância que possuíam. se o herege recusa a ortodoxia. religião e política eram então du as faces da mesma medalha" (G. entre a Igreja e a Nação ou o Estado. torna-se incompreensível que no passado a inteira sociedade haja visto a religião com tanta seriedade. Examinando o ambiente da Inquisição com os olhos da atuali(3) Muito se assemelharam as posições de Francisco de Assis e de Pedro Valdo. A convivên- cia cristã se apresenta "como a forma mais alta. Se Roma cedesse. e a cristandade se teria estilhaçado de modo incontrolável (como sucedeu mais tarde com o protestantismo. Concílios. dedicados ao trabalho e à oração. o que é mais significativo ainda. mas se mantendo depois religiosamente indiferentes: Assim não procederam.

pela absorção de vidro moído ou de venenos ou pela abertura das veias no banho. até o dia em que. "nos textos da Idade Média. Mais adiante: "E preciso que as perseguições sofridas pelos hereges não os tornem interessantes a ponto de perturbarem nosso julgamento" (La Cathédrale et la Croisade. diz outro participante do colóquio. A tortura no fim da vida os liberava dos tormentos do outro mundo e a morte voluntária. O tempo. pág. A seu turno. tais crenças não podiam em nada se equiparar à sólida. se possível. procurando aliciar novos adeptos. e explica H. op. 0 fanatismo era a marca que os caracterizava. um travesseiro ou uma toalha (chamada Untertuch pelos cátaros alemães) eram colocados sobre sua boca enquanto se recitavam certas orações. indagavam do neófito se desejava ser um confessor ou um mártir. do que consentir na apostasia" (pág. pôs-se a pregar em desacordo com a Igreja. improvisadas sem qualquer base cultural séria. desse modo causando enorme confusão entre o povo. como compara G. Sem embargo. algumas imorais. ou quiçá ao perecimento da sociedade. 121). talvez tratemos com imerecida cerimônia os hereges medievais. fanaticamente contestadores. sua vitória foi a do bom senso e da razão". em total promiscuidade. o herege é freqüentemente indicado como um louco. pela violência. Por isso. passim). volteando em torno da Igreja. 397 e segs. pelas heresias. pretensiosos. se diziam católicos e cumpriam seus deveres religiosos com exemplar zelo. quase visceral. aliás. 52-53). que nenhuma fatiga.-C. Paul Sabatier. Outras heterodoxias inúmeras surgiam. es- . no sentido que esse termo possui no campo da Medicina: "Para os homens desse tempo. homens e mulheres. se preciso. cit. na religião dos cátaros. por mais piedade que devamos sentir por aqueles que morreram vitimas de suas convicções. que não podemos desvendar o real conteúdo das doutrinas heterodoxas. a fonte do seu entusiasmo e do seu zelo pelo martírio. era um homem analfabeto que certo dia.. tornava-se um Perfeito. Aliás. retrata esses dissidentes como indivíduos agitados. 1. permanecia durante três dias sem alimento. 108-9): 1. não era absolutamente fato raro.. com templos. porque rejeitavam a procriação humana. se ele sobrevivia. sendo freqüente a morte voluntária entre os cátaros. quando um ho- mem estava moribundo. não deixando vestígios. os cátaros levariam ao enfraquecimento. de quem acima falamos. ou pelo menos igual ao catolicismo. da heresia. A Europa era percorrida por seus missionários. se encarregou de confirmá-lo: todas as doutrinas heréticas daquela época desapareceram. cit. Essa «endura» era às vezes empregada como um modo de suicídio. cit. 26). equilibrada. Na prática do que chamavam "endura" (que significa "privação"). 117). sacerdotes e bispos. quando ele abateu os cátaros. Daniel-Rops transcreve palavras de outro escritor protestante. A excelente obra Hérésies et Sociétés. E conclui o neste ponto insuspeito historiador protestante: "Essa era a crença cuja rápida difusão através o midi da Europa encheu a Igreja de um terror plenamente justificado. se assemelhavam a uma hidra: sempre decapitadas. mas sempre renascendo para se multiplicarem ao infinito. Pedro Valdo. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 111 dade. procurar eliminá-la pela persuasão.Duby (in Le Goff. em resposta. g . nas circunstâncias..7 Se ele escolhia tornar-se mártir. pág. sem de nenhum modo enriquecerem nossa cultura. porque só as conhecemos através das descrições dos seus adversários.. Se desejava ser confessor.. Num e noutro caso. Se o catarismo se houvesse tornado dominante. até ao pé das fogueiras onde eles viam atados seus irmãos. e chegaram a formar uma Igreja completa. Não passando de elucubrações arbitrárias de homens "iluminados". 119). se tais doutrinas possuíssem acaso algum valor. esses hereges se apropriavam de dogmas. que iam a toda parte levar sua palavra de salvação. reconhecemos sem hesitar que. o povo manifestava. que transcreve trabalhos apresentados por vários estudiosos em colóquio realizado sob a direção de Jacques Le Goff (op. Por mais horror que nos possam inspirar os meios empregados para combatê-la. Seus numerosos seguidores. cit. de intolerância. anota Le Goff (pág. Ora. seus parentes acreditavam cumprir um dever de caridade acelerando seu fim" 4 . podiam tentar convertê-los em segredo" (pág.110 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. etc. a heresia é uma insânia". do mesmo tom: "O papado nem sempre esteve do lado da reação e do obscurantismo. de cerimônias. tendo ganhado a confiança dos vizinhos. é manifesto que. dizendo-se presa de súbita inspiração. "Dificilmente poderemos fazer uma idéia do que constituía propriamente. por privação de alimentos. reuniam-se em bandos. Lea (Histoire de ' Inquisition au Moyen-Age. Não se pode senão recusar-lhe o direito à existência. como o organismo procura eliminar um germe nocivo" (op. Conseqüentemente. que investiam contra os valores espirituais em que estavam assentados os bons costumes e a ordem pública do mundo em que viviam. Exteriormente. mas é certo que nenhuma outra crença pode mostrar mais longa série de adeptos que procuraram a morte sob a mais horrível forma. um fenômeno de intolerância. enquanto a Igreja aí está. Tratava-se de crenças exóticas. não recebendo senão um pouco\ de água como bebida.). e. de costumes católicos. a existência no seio do corpo social de uma minoria dissidente. não há dúvida de que sua influência teria sido desastrosa" (pág. fantasiosas. 666). nenhum perigo podiam deter. a causa da ortodoxia era a da civilização e do progresso. outras anárquicas. por exemplo. violentas e perigosas para o bom e equilibrado desenvolvimento social. com sua doutrina perpetuamente imutável 5 . provoca uma reação profunda. págs. págs. (4) Prossegue o mesmo autor: "O que mais se temia era seu espírito de proselitismo. (5) Observa-se. serena e culta formação do catolicismo.

e se impõem penas aos que contra essas garantias atentarem. Seja como for. era inconcebível. Antes. através de Maimonides. Bernard. "Sem dúvida imputaram-se a um tribunal. "tanto o Estado como a Igreja se viam em face de um perigo crescente e ameaçador. op. assim como perseguiu os membros de outras correntes evangélicas. à liberdade de consciência. sempre foi assim. pela espada. que continuava expansionista e ameaçador. levantando um dique para conter as ondas cismáticas. é suficiente conhecer-lhe o espírito' (Encyclopédie cit. a ordem civil e religiosa. cit. e isso é inadmissível. os rabinos franceses foram à procura dos inquisidores. depois a Roma cristã dizimou os pagãos. Mais ainda.. toda a civilização e cultura do Ocidente. encontrando dificuldades para afirmar-se. a moral. que germinava dentro do judaísmo.112 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. mas é incorreto se levantar contra a Inquisição por fatos duvidosos e.. mas. cada Estado possuía a sua religião. pedindo-lhes que também extirpassem aquela "heresia". Não era concebível. Aliás. falar-se em liberdade religiosa. a 1 berdade religiosa. 1765. quando o soberano mudava de crença. A Inglaterra arrastou à fé anglicana o seu inteiro povo. e queimassem . a religião. o Código hebraico era absolutamente intolerante contra outr as religiões. VIII. de tal modo que um viajante que lá esteve chegou a clamar: "Deus da bondade! De que modo vive este povo! Aqui os papistas são enforcados e os antipapistas queimados". lembra Thonissem (op. II . Adicionemos o fato de que a cristandade vivia naqueles momentos uma situação muito delicada. as Igrejas cismáticas da Eu ro pa oriental exigiram submissão de toda a gente que Iá vivia. em séculos passados. 775). mas explica-se que todo o seu mal consistiu no desprezo pelas liberdades individuais. 263) refere o temor da Inquisição nascente contra o racionalismo aristotélico. pág. inclusive com a pena capital. No norte da Europa. procurar na mentira o meio de torná-la odiosa. em que se unem Igreja e Estado. por debaixo das criticas a elas dirigidas. E a posição dos iluministas franceses: em sua Enciclopédia. pág. o protestantismo se tornou compulsório. pensamentos divergentes foram sufocados pela violência. no ambiente em que se passaram essas coisas. o princípio "cujus regio. pois. ao direito de op ção. Ela se encontrou. a forças que pretendiam destruí-la. oficial. 9). 6. para o islamismo. seus livros. hujus religio". EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 113 Diante dessas rebeldias. fechando os olhos. Os judeus se queixam de perseguições. Religião e nacionalidade eram idéias que se confundiam. cit. Como. em troca de outra. apoiada a Igreja pelo Estado e pelo povo. Legiões de missionários católicos pagaram com a vida a tentativa de levar Cristo a países infiéis. afirma-se a existência de muito exagero nas acusações de crueldade feitas à Inquisição. Léon Poliakov (op.. pretender que a Inquisição devesse respeitar heterodoxias dissolventes? Anotemos esta importante diferença: a Igreja católica . pág. os costumes e a ordem pública se .. Em conclusão. Palavras modernas. a livre propaganda. Num sistema político formado nos descritos moldes. O príncipe impunha a própria fé a todos os súditos e era inimaginável que pudesse haver discordâncias. liquidando os católicos renitentes. para ceder passagem. mais ainda. na necessidade de reagir. pág. às nações invadidas. e prossegue: como Aristóteles havia também in fl uenciado alguns setores hebraicos. nos países civilizados o que a ordem jurídica assegura é a lite seria percebido. populações já solidamente catequizadas. cit. indiscutido. que lhes era compulsoriamente determinada. a união e paz estavam ameaçados de dissolução" (J. que apenas muito recentemente ingressa ram no vocabulário da humanidade. excessos de horrores que ele nem sempre cometeu. un Roi". se pronunciadas ninguém as entenderia e causariam mesmo profundo espanto. mas para obrigar as pessoas a abandonarem a antiga fé em que haviam sido formadas. Essa foi portanto a atmosfera que gerou a Inquisição. ultimamente vêm sendo descobertos alguns documentos originais dos hereges. Ao inverso. tão justamente detestado. que por longos séculos permaneceram ocultos. todos deviam acompanhá-lo. diante disso. dir-se-á. Hoje.usou_ a força contra rebeldes que procuravam minar uma religião já solidamente estabelecida entre o povo. em inúmeras regiões por ele dominadas. A Roma pagã massacrou os cristãos. Portanto.. 113). Perdera já a Asia Menor e o norte da Africa. o progresso. assim. pelos hereges. Toda a sociedade humana. une Loi. Esses eram os hábitos e a formação mental dos povos. mas por toda parte se exigia da inteira populacão uma crença única. ao passo que o protestantismo outro tanto fez. sim. Vigorava. as conquistas cristãs ainda estavam muito tênues. será no mínimo ingênuo pretender que ela se devesse despir da convicção de detentora única da mensagem divina. que na França se traduzia na divisa "une Foi. A Europa oriental abandonara Roma e se conservava apartada.. que a Igreja se fosse arriscar a ver dela arrebatadas. O islamismo se impôs. a crítica à Igreja centra-se agora na idéia de opressão/ à liberdade religiosa. construída com imensos esforços.

Seguem-se outras figuras delituosas. de sorte que atacar a religião significa atentar contra a ordem pública e a paz social. a Igreja se conservou extremamente tolerante para com as dissidências. a opinião pública a aceitou como medida correta e necessária. apoiou sua existência. cap. Muito se fala sobretudo da "abominável e crudelissima Inquisi- ção espanhola". conjunturas em que as liberdades são sufocadas. por representarem a parte fraca. talvez. se eles porventura assumissem o Poder. na medida em que esse problema estava destinado a existir. e mais violências não se praticaram. 824 e segs. de 1927. Sim. também os hereges não acatariam o princípio da liberdade religiosa 6 . o que dela pensavam os espanhóis da época? E responde: "Não cabe dúvida de que o povo. acusado de ter blasfemado contra a Santa Virgem.114 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. de ensino obrigatório nas escolas. desde que. Em razão disso. A par disso. Por exemplo. o Código Penal da República Socialista Federativa Soviética Russa. levando-os à fogueira. não foi algo artificial. enquanto nós proclamamos as virtudes do respeito às liberdades individuais. Somente muito mais tarde. foram consideradas revolucionárias. esse autor indaga: "Como explicar que o Poder civil haja mostrado pela repressão da heresia. 126: "A celebração de atos de culto . Provavelmente. Montesquieu descreve esta cena. 123 — A execução de atos fraudulentos tendentes a despertar superstições entre as massas. foi condenado a ser degolado. um zelo que ultrapassava e excitava incessantemente aquele da Igreja?" Após examinar as possíveis respostas a tal indagação.. IV).. criam-se figuras criminais. e por bons motivos. através de autêntica `lavagem cerebral". era alvo de freqüentes hostilidades e ressentimentos. mas produto de uma necessidade natur que todos sentiam.] Em nenhum momento o povo atacou a Inquisição durante o antigo regime da Espanha" (op. passassem a dominar -e adquirissem força para tanto. Assim sendo. o povo pareceu aceitar a instituição. Suprime-se a liberdade religiosa e. pág. presentes outras concepções e outros costumes. dispôs o seguinte: "Art. impõe-se ao povo o ateísmo. Kamen. no momento em que se sentiu a ameaça de influências políticas esquerdizantes.. Foi criado para tratar do problema da heresia e. deve ser destruído. Apoiaram-na. de onde expulsaram o executor. portanto. 122 — O ensino religioso ministrado às crianças e menores de idade em escolas ou estabelecimentos de instrução pública ou privados e a infração das disposições relativas a tal ensino serão sancionados com trabalhos correcionais obrigatórios até um ano. muitas vezes. A Inquisição. com o fim de obter qualquer gênero de vantagem. os populares se antecipavam às autoridades e se encarregavam de puni-los. para vingarem eles próprios a honra da Santa Virgem" (op. aos católicos.) mostra que. e o seu severo modo de atuar foi condiz com o estilo da época. Nos países comunistas. mas. 377). que viam. do art. inclusive esta. as pessoas a ela submetiam seus dissabores e a utilizavam para dirimir pleitos pessoais. o temor ao comunismo fez desencadear feroz campanha persecutória. Tudo somado. rebeldes perigosos e perturbadores. indaga H. cit. no século XII. a Inquisição não foi nem mais amada nem mais temida do que atu al mente o é a polícia. durante muitos séculos. Guiraud estuda muito bem esses aspectos do problema no Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 115 amalgamam em bloco monolítico. faca à mão. seguramente dariam. a religião é considerada um desvalor. campeões da democracia. Mais adiante (col. será sancionado com trabalhos correcionais obrigatórios até um ano e confiscação parcial de bens ou multa até quinhentos rublos". A História mostra que. Primeiro (col. não coloquem em perigo as condições existenciais da sociedade ou do regime político adotado. nos hereges. merecendo ser por isso extirpada. Severas medidas administrativas são tomadas contra as pessoas que insistem em manter a sua fé. e foi a suas instâncias que a Igreja acabou ingressando afinal na via da repressão. um dissidente religioso é tratado como um revolucionário. aos olhos de Israel. cingindo-se ao trabalho catequético. subiram ao cadafal so. [. cit. estas hoje existem. como sucede até hoje. 834 e segs. numa sociedade em que não havia outro corpo policial geral. porém.). enfim os homens mais eminentes. Somos naturalmente levados a apiedar-nos dos hereges. na década de 1950. o tribunal não foi um corpo imposto tiranicamente. (6) Acusa-se a Igreja medieval de ter sido opressora. por temor à opinião pública mundial. Sucede porém que. que a Igreja tenha impingido ao povo. Mas os inquisidores estiveram sempre convencidos de que o povo estava com eles. Ao tempo em que nasceu e atuou. governantes. o mesmo tratamento que lhes estava sendo por estes dispensado. Art. Guiraud mostra que o que a isso convenceu os governantes foi precisamente o caráter anti-social das heresias. antes da Igreja. J. No caso da Inquisição. em completa harmonia. quem a exigiu e impôs. é que ela veio a ser criticada como atentatória As liberdades individuais. ocorrida na França: "Um judeu. foram os governantes e o povo. Nos Estados Unidos. Cav al eiros mascarados. Em outras p al avras. cit. que estava sendo maltratada.. sábios e santos. mas a expressão lógica dos preconceitos sociais que prevaleciam no seio da sociedade. As heresias abalam as inteiras estruturas do país. em geral. como proteção social contra dissidentes que eram encarados como malfeitores. tanto seculares como eclesiásticos. Cristo morreu na cruz porque suas pregações. Livro XII. e todo revolucionário. a gente comum. enquanto o Poder civil as enfrentava com crescente rigor.

como bem imaterial. e as violências que esta exerceu ou permitiu fossem. ou apóstata. contudo. se tornava motivo de escândalo. Nessas condições. a que se obriga a Igreja. severamente punidos. Quem se apresentasse como herege. aniquilando-o. Idem. que deverá ser porém moderada e não levar à morte. o bispo de Hipona expõe os motivos que o levam a considerar ilegítimo perseguir os hereges. o simples fato de alguém divergir da crença oficial representava um malefício. Isso fez o bispo de Hipona re fletir sobre se a intervenção repressiva do Poder secular não seria desejada por Deus para manter a paz no cristianismo. A seu ver. é penalmente tutelado contra atividades ofensivas a símbolos representativos da nacionalidade. Contra os hereges. "é crime imperdoável matar um herege". Como o movimento donatista havia degenerado em graves distúrbios sociais e políticos na capital do império. no pudor. Ele vinha tentando atrair os adversários a debaterem suas divergências em clima sereno. o seu real interesse é perseverar à frente do movimento rebelde e fazê-lo crescer. Como conciliar a virtude da caridade. todavia. O seu emprego é benéfico. Apreciando a questão sob o prisma jurídico-penal. assim como a colocação de imagens religiosas de qualquer espécie em tais instituições ou empresas. sempre definiram como crime o ultraje público ao pudor. e. a intromissão penal nessa área parecia aconselhável. Passa assim a defender a necessidade de uma justa coação contra os heterodoxos. mas da compreensão e do livre arbítrio. do devido respeito àqueles que já se foram. Agostinho observa que a reação dos imperadores romanos se mostrava mais eficaz. a atitude da hierarquia católica foi de benignidade para com os dissidentes. Muito mais graves do que as medidas penais. Ao mesmo tempo que percebe a ineficácia dos meios suasórios. porque afasta o pecador do mal e o conduz ao bem.116 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X. também o Direito comum apresentava extenso rol de crimes religiosos. pensa ele. esta evolução ajuda-nos a responder à questão. protegidos tanto pela Igreja como pelo Estado. Se uma pessoa mantivesse posturas contrárias à religião do Estado. merecendo. Porque então a Igreja mudou de posição em meados do século XII? Podemos compreendê-lo se tivermos em conta a evolução ocorrida no pensamento de Santo Agostinho (354-430). Ili¢ I11Y Como. as leis penais sempre contemplaram também como delituosos certos comportamentos de desrespeito aos mortos. de perturbação e de insegurança na coletividade. a experiência o leva a meditar. mas percebe que está sendo ingênuo. Pois bem. exercidas contra os hereges? religioso nas instituições e empresas do Estado. condenar um homem por causa das suas convicções íntimas. Foi numa epístola escrita em 417 que Agostinho afinal aderiu . Já sabemos que. ocorrida sete séculos mais tarde. castigo. que é igualmente um bem jurídico ideal. e o fazem exatamente porque tais atos agridem um sentimento coletivo de pudor. a vontade dos homens não pode ser de nenhum modo constrangida e a adesão à fé deve ser produto não da força. na honesta procura da verdade. Um último exemplo: o sentimento de patriotismo. diremos que naqueles tempos religião e fé eram valores que se convertiam em bens jurídicos imateriais. Em seus primeiros escritos. EXAME CRÍTICO DA INQUISIÇÃO 117 7. são as providências administrativas adotadas contra os religiosos. Conforme advertia São João Crisóstomo. inclusive os modernos. de política social e de política religiosa. Mais tarde. mutatis mutandis. 10). que todos precisamos ter. quando se teve de defrontar com os maniqueus e os donatistas. ao lado do Direito Penal Canônico. enquanto no norte da Africa a heresia continuava flamante. pelo Estado. isso causava um mal-estar coletivo e ofendia este bem jurídico: sentimento religioso do povo. escapa ao diálogo franco e aberto. Descabe falar em direito à livre obscenidade. Todos os códigos penais. A solução portanto era apenas exclui-lo da comunidade dos fiéis. que não podia ser tolerado. 8. porquanto os mesmos ferem o sentimento. só por isso. serão sancionadas com trabalhos correcionais obrigatórios até três meses ou multa até trezentos rublos". os remédios a adotar são unicamente a persuasão e a oração. conclui. porque Donato se mostra impermeável aos argumentos. em vez disso. sem afronta aos velhos princípios "de internis non judicat praetor" e "cogitationis poenam nemo patitur"? Durante prolongado tempo. Para melhor compreender o acima dito. Por acréscimo. voltemos a exemplos que já demos e pensemos. sem ser causa determinante dessa mudança. que chegam até à internação em manicômios. Roma o enfrentou pela força. por motivos de política criminal. exatamente da mesma maneira ocorria antigamente no campo religioso. reprimindo a prática de atos obscenos em lugares abertos. do mesmo modo que outrora era inconcebível um direito à liberdade religiosa. ademais. Parecia preferível seguir o conselho dado por São Paulo a Timóteo: Foge do homem herege (Tg 3. buscando a pacificação.

E arremata lembrando que a urgência da salvação eterna e o temor à morte eterna podem impor a exigência de violação às liberdades humanas. disse ao servo: Sai por esses caminhos e cercados: e força-os a entrar. aparece um conceito ampliativo de caridade. Eram métodos processuais que mereciam total beneplácito dos mais renomados juristas e que estavam de acordo com os costumes. porque a punição imposta ao culpado repercute no ambiente social. Nesse sentido escreveu a Donato: "Quiseste jogar-te à água para morrer. que somente nesta (existisse. desse modo. os censores do Santo Ofício e cingem a relatar as violências deste. Logo. Cerceamento à defesa. Então. que ele entendeu autorizada pela parábola do banquete: certo homem preparou uma grande ceia. a pena não tem caráter vindicativo. ainda que contra a sua vontade. e. Ao mesmo tempo. Com total alheamento ao que se passava na Justiça Criminal comum e às-rudes condições de vida de então. intimidando os propensos ao erro e fortalecendo-lhes a fé.118 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XI. é o dos métodos repressivos. como se constituíssem alg anômalo naquele tempo. As cenas descritas são fortemente coloridas e procuram causar. Modelos do Direito laico. Em todo o desenvolvimento da humanidade. caridade medicinal para com o próprio pecador. e. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL plenamente à idéia do compelle intrare. para a qual convidou muitos. Os homens que compunham a Igreja eram homens daquele tempo e não podiam deixar de submeter-se às suas influências. processuais e penais. Por fim. mas os escolhidos começaram a escusar-se com variados pretextos. mas o sentido da pena é a busca da salvação deste e. para que fique cheia a minha casa (Lc 14. a que também se dirigem acres e exageradas censuras. nós contrariamos tua vontade. 4. a Inquisição equiparou-se a uma Justiça Penal. as práticas repressivas sempre foram severíssimas. Organização do tribunal e atos processuais. (. Ele passou assim a defender a necessidade da coerção penal. Sucede no entanto que as críticas assim formuladas são simplistas. como o pastor evangélico que persegue a ovelha perdida. Age a Igreja. mas nós te arrancamos da água à tua revelia para te impedir de morrer. salvando-se. que. mas medicinal: longe de ser um fim em si própria. é conduzido ao bom caminho. os cegos e coxos que fossem achados. porque de novo abstraem o mundo em que tais coisas aconteceram. nos quatro primeiros capítulos deste trabalho. se tornou depois conhecido como "da vingança pública". de sorte que naturalmente adotou os modelos que vigiam nos tribunais laicos. 5. Nele. Nos seus escritos. alarmado espanto e funda revolta. por ela utilizados. Classificações dos hereges. no leitor moderno. 15 e segs. nesse caso. mas para tua salvação". 1. 1. 2. fá-la voltar ao redil. Ora. ela passa a ser entendida como expressão de caridade e se sublima num ato de amor. não se trata de simplesmente punir uma atitude interior do herege. 12-14). Agiste conformemente à tua vontade. os aleijados. 6. por seu extremado rigor. peculiar à Igreja. até muito recentemente. Interrogatório dos acusados e tortura. Segundo aspecto da Inquisição. a salva (Mt 18. também de terceiros. do longo período que. embora à sua revelia. o irado pai de família mandou que seus servos trouxessem os pobres. Cristo . O pensamento agostiniano se torna desse modo grande esteio para a futura Inquisição. estender-nos tão longamente sobre as condições de vida das populações da época e sobre as regras por que se norteavam o Direito Processual e o Direito Penal comuns. caridade profilática para com o rebanho de fiéis. a punição do culpado evita que ele continue a disseminar o mal. Regras processuais de Direito comum e de Direito Canónico. 3. concomitantemente.). como ainda sobrassem lugares. apta a fazer o culpado cair em si. mas para tua perda. Primeiro. Por isso entendemos indispensável.

Quando ele se instalava em certa cidade. O tribunal caracterizava-se por extrema sobriedade. investidos de uma missão sobrenatural e soci al a cumprir. os abusos e não os usos. de um conselheiro espiritual. Compunha-se do inquisidor. conduzidos por esta. sem a presença e a concordância do bispo local. sob juramento. o primeiro ato consistia em apregoar a sua presença e reunir os fiéis. Cabia-lhes. Para o julgamento. inaceitável. inclusive realizando as penitências por esta prescritas. Ao penalista não passa despercebido o fato de que dois homens.\ podia ser utilizada a tortura e submetiam-no a prisão processual. que a tudo assistiam sob promessa de manter segredo. mas. duas pessoas de confiança e imparciais. representou um abrandamento perante o que se passava nos seus congêneres do Estado. apenas por serem ladrões. Se o interrogándo protestava inocência. Submetiam-no depois a minucioso interrogatório. mas em ambas as hipóteses se instaurava por determinação da autoridade e os trabalhos se desenvolviam. A se crer nesses detratores da Inquisição. A recusa a prestar esse juramento significava implícita admissão de culpa. cit. com zelo. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL 121 i morreu entre dois ladrões. Proferidas decisões em vários casos. por seus assistentes ou por católicos de prestígio da região. equilíbrio e honestidade. de obedecer à Igreja. caiu logo porém em desuso. Concluída finalmente a instrução. procurar seus confessores a fim de receberem a absolvição dos pecados. em que os culpados dispunham da possibilidade de se purificarem. se comprometerem a indicar os hereges e as pessoas suspeitas que conhecessem. Conso an te 13. para a mentalidade atual. que tentavam persuadi-lo a se arrepender e confessar o crime. quando alguém do povo delatava outrem e se dispunha a provar o alegado. a seguir. realizava-se um ato público { . sofreria ele a pena cabível para o crime que pretendera ter existido. Assim se chamou porque adotava o sistema processual inquisitivo. só descrevem as exceções e não as regras. como meio de impedir as injustiças e de dar ao processo uma aparência de imparcialidade". Em tal eventualidade. Não podemos julgar o que eles fizeram sem focalizá-los como órgãos condizentes com certo teor de vida. As regras seguidas tiveram algumas variações. guardas e um escrivão. Este último sistema. ou decorrer de inquérito aberto ex-officio. Ao ato deviam estar presentes. o mesmo era citado para se apresentar pessoalmente no tribunal. em regra. mas passou a ser designado simplificadamente por esta última palavra. o juiz devia advertir esse acusador de que ficava sujeito à lei do talião: se fosse falso o que dizia. conforme a gravidade do caso. absolutória ou condenatória. se não provasse a culpa do réu. seus assistentes. págs. não ostentando nenhuma pompa. encerrava-se o processo com sentença. assumindo no processo o papel de parte acusadora. O procedimento dos tribunais inquisitoriais é. e de apontar os hereges que fossem do seu conhecimento. o juiz devia ser assistido por assessores. e ao inquisidor deviam fornecer garantias de sinceridade.120 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XI. cuja raiz está no verbo latino inquirere ("inquirir"). a totalidade dos seus bens e identificar os hereges de que tivessem noticia. geralmente com quinze a trinta dias de duração. que era tomado por termo pelo escrivão. todo o bem com os seus réus.-C. Exigia-se-lhe então o juramento de dizer a verdade. "a freqüente repetição dessa regra por sucessivos papas e o fato de que ela foi incorporada ao Direito Canônico atestam a importância que lhe atribuíam. 427-8). pelos seus inconvenientes. Era também possível optar pelo sistema acusatório. Passava-se depois ao "Tempo de Graça". exortan- do-os a. o inquisidor não podia decretar penas graves. todo o mal estaria com os seus juizes. no afã de denegrir a Igreja Católica. como garantia de seriedade. procuram criar escândalo. enquanto se faziam mais investigações. que se tornara dominante no Direito Canônico e no Direito secular. A ação pen al podia ter origem numa denúncia de qualquer pessoa. 0 nome completo era "Tribunal do Santo Ofício da Inquisição". I. em geral selecionados entre jurisconsultos que bem conhecessem o Direito Canônico e o Direito comum. dar à Igreja uma parte ou. foram as seguintes. Ademais disso. o papa Bonifácio VIII (1294-1303) exigiu o concurso do bispo em todas as sentenças condenatórias. Mister se faz acautelar-nos contra aqueles que. Mais tarde. que o orientavam.. apesar disso. sofreram o tremendo castigo da crucifixão. tudo sendo reduzido a escrito e de modo sigiloso. mas havia fortes provas em contrário. Escoado esse período sem o comparecimento espontâneo do suspeito. do qual deriva o substantivo inquisitio ("inquisição"). um dos quais aliás na última hora mostrou ter boa índole. Lea (op. 2. em linhas gerais. consistentes em cumprir penitências. o réu era visitado na cela pelo inquisidor. para tanto. do qual falamos no Capítulo I. como a prisão perpétua ou a entrega do réu ao braço secular. mas. Nesse entretempo. que se ocupavam de crimes a seus olhos gravíssimos e que terão agido.

o que relatamos no Capítulo I sobre os usos processuais do Direito laico vale também para o da Igreja.. o sistema das provas legais. O crime que ele perseguia era um crime espiritual e os atos.-P. etc. e o mesmo fez a Inquisição'. (1) Originariamente. etc. Na hipótese de absolvição em que subsistissem porém dúvidas sobre a efetiva inocência do imputado. providências acautelatórias podiam ser tomadas: ele devia prestar um juramento. O acusado podia assistir regularmente à missa. com as denúncias anônimas. ele podia professar uma submissão sem limites às decisões da Santa Sé. "o processo devia ser feito simpliciter et de plano. dispondo de um ano para demonstrar o descabimento da medida. Nelas. Levado perante o tribunal. minuciosamente trabalhado pelos antigos juristas. quando desapareceu. para o juiz consciencioso. deturpada pelas heresias. ante o temor de represálias. O Estado. mas como fautores de heresia e adversár bs da Inquisição. para o inquisidor. de onde passaram ao Direito comum. Dedieu (op. intimidar hereges ocultos e fortalecer cristãos vacilantes. cit.. e. O feiticeiro somente podia ser julgado pela Inquisição quando suas práticas demonstravam que ele preferia se fiar no poder dos demônios do que no de Deus. afinal. inúmeros casos houve em que denunciantes. cit. o suspeito era excomungado. pág. isso aconteceu com os métodos inquisitórios. juntamente com conjuratores escolhidos entre católicos de confiança. podia ser liberal nas suas contribuições. a despeito disso. incentivava as acusações secretas. somente então passava a ser considerado herege. Algumas das regras processuais adotadas pelo Santo Ofício haviam vigorado no primitivo sistema da Igreja. confessar-se e comungar pontualmente. Tal prática da delação anônima durou longo tempo nos costumes judiciais seculares e somente veio a ser realmente combatida no século XVIII. designação que logo se estendeu a outros países. mas penetrar nos pensamentos os mais secretos e nas opiniões íntimas do seu p ri sioneiro. o cerceamento à defesa. um cátaro ou um valdense. como fenômeno de torna-viagem. verbi grafia. o processo escrito. concebida como "a rainha das provas". Os atos exteriores e os protestos verbais nada contavam. Tais solenidades se chamavam em Portugal "autos-de-fé". Em verdade. penetrou no Direito da Igreja. recebendo a punição a que fazia jus. o segredo de Justiça. chamado "purgação canônica".. Se isso não fosse obtido. se tal não acontecesse. "O dever do inquisidor se distinguia daquele do juiz ordinário porque ele não tinha somente de desvendar fatos. Em maior ou menor medida. e. para aceitar como demonstrado certo fato. os réus arrependidos proclamavam sua abjuração e os impenitentes recebiam as penas canônicas ou eram entregues (eram "relaxados". pág. explica Daniel-Rops. por influência do Direito comum voltaram ao Direito Canônico. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL 123 e solene em que elas eram proclamadas diante da multidão para esse fim reunida. reduzindo as formalidades à mais simples expressão: a eficácia primava sobre tudo". e todavia ser.. o desejo de subscrever sem discussão tudo quanto lhe era exigido. ardendo por destruir as raposas que devastavam as vinhas do Senhor. por mais criminosos que fossem. Também o método das "provas legais". receberam cuidadoso tratamento dos juristas. ou que professava idéias errôneas sobre os sacramentos[. O usurário não era da competência desse tri nal enquanto não afirmasse ou desse testemunho por seus atos que ele não considerava a usura como um crime. 683). Assim. De modo geral. como se dizia) ao braço secular. poucos eram os hereges com a coragem de confessar sua fé diante do tribunal e. os fatos não eram senão indícios. que ele podia aceitar ou negligenciar à sua vontade. A própria dúvida era uma forma de heresia e uma das tarefas do inquisidor consistia em se assegurar de que a fé dos fiéis não era incerta e vacilante. ná calada da noite. Em verdade. todavia. indo ao fato. neste. 18). ser herege no coração. Como os hereges eram muito unidos e trabalhavam na sombra. que a respeito houvesse depoimentos concordantes do número de testemunhas que as leis indicavam. As sentenças absolutórias se davam no próprio recinto do tribunal. excediam sua jurisdição. os assassinos de São Pedro Mártir foram perseguidos não como assassinos. em segredo. Como diz J. a tarefa de explorar o segre- (: . A Inquisição. O grande embaraço com que se defrontavam os inquisidores é que deviam devassar o íntimo do réu. digno de ser enviado à fogueira. diante das dificuldades em que se via para a descoberta dos crimes e dos seus autores. a importância atribuída à confissão do réu. mas a experiência levou a Igreja a adotá-lo. Tinham por objetivo restaurar no povo a pureza da fé. 3. e. sem formas inúteis. tão forte na época.. recebiam um punhal nas costas ou eram atirados em algum precipício (L'Église de la Carhédrale. não havia esse sigilo. a ortodoxia a mais rigorosa. que afiançavam a sua ortodoxia. a presunção de culpa.122 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XI.]. exigindo-se. se procurou desvencilhar o quanto possível do ranço formalístico. garantindo sigilo sobre a identidade do denunciante.

feito após pelo menos vinte e quatro horas de interv al o. com a bula Ad Extirpanda. não possui advogado. através disso. habilidade e malícia... os cronistas relatam casos em que os inquisidores. de Inocêncio IV. se lhe descobrirem crime. No momento em que a Igreja. Por exemplo. não: todos os que do assunto se ocupam são unânimes em ressaltar a fria astúcia dos hereges. e o mesmo fez depois a Inquisição. o papa Clemente V determinou ainda que a tortura somente podia ser aplicada após acordo entre o inquisidor e o bispo. Suas condições foram sem dúvida muito mais brandas do que as imperantes no Direito secular. pela salvaguarda de outros fiéis. supliciam-no afinal. onde lhe é desvendado o orrorizante panorama dos instrumentos de tortura. O ato do interrogatório se convertia num espetáculo de esgrima. Um homem é chamado a apresentar-se à Inquisição. Antes. o assunto merece ainda algumas outras observações. Lea. "Acrescentai a astúcia à astúcia. imparcial.. Em 1311. Em vez. para aí permanecer isolado. unicamente mandam que dê sua versão sobre os fatos do processo. adotou o sistema "das provas legais". assim como o Direito laico. aludimos ao ingresso dos suplícios no Direito Penal Canônico.-C. Rios de tinta já foram gastos para atacar a Igreja. Ele sabe que. os advogados sabem que tal ato é profundamente intranqüilizador: naquele recinto solene da Justiça. pág. As confissões no seu curso prestadas deviam ser confirmadas em subseqüente interrogatório. mas de "continuação" do interrogatório anterior. em que vencia o mais hábil. acovarda-se. abusos ou mal-entendidos. Esse o quadro exposto. Quando porém esse expediente foi abandonado. A perspectiva do réu. quando se tornaram experientes. I. No Capítulo VIII. inseguro e pronto a fazer o que dele quisessem. quiçá com sursis. tudo se simplificava. ameaças e advertências: Outros interrogatórios se seguem. Alguns deles. Atualmente. O Direito comum recorreu então à tortura. em seu desfavor. que abusos terão existido. 452-3). Como também isso não convence o acusado. Impõem-lhe solene juramento. sem excessos e uma única vez. que prossegue irredutível. em posição de igualdade. 163). porque as dúvidas eram postas nas mãos de Deus. escreveram instruções para orientar nesse trabalho os juizes novatos. o juiz e o réu. Além do que dissemos naquele Capítulo VIII. mas este negaceando sempre e se mostrando senhor de si. perde a calma. a exigir muita habilidade dos juízes que os interrogavam. As descrições feitas mostram sempre os dois personagens. de novo recebendo conselhos. confunde-se. apesar de tudo. Todos quantos possuem hoje experiência na área das lides criminais forenses bem conhecem o angustiante problema do interrogatório dos acusados. o inquisidor exercia o papel de pastor. como a tortura só cabia uma vez. e lhe explica (seguramente com malicioso exagero) o funcionamento dos mesmos. escusavam-se dizendo não se tratar de "reiteração". todavia. porque supersticioso.. da água. este facilmente se perturba. se for afinal condenado. Nessas circunstâncias. perdido num mundo hostil. para o réu estranho. às vezes até mesmo reconhece. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL 125 do dos corações estava longe de ser fácil" (H. com suas provas do fogo. cit. para não se deixarem enganar. Retrocedamos agora alguns séculos. dados não verdadeiros. atemoriza-se diante do juiz. criou-se um vácuo para o juiz que devia abrir o íntimo dos acusados renitentes. advertindo-o sobre as conseqüências com que arcará se faltar à verdade. cit. será tão-só de receber uma pena de prisão por poucos anos. quando no Direito leigo havia os ordálios. Ninguém exige que ele diga a verdade. conduzem-no a sombrios porões. Baixam-no depois a um cárcere. nenhum juramento lhe é imposto. págs. por ter adotado esse mau expediente. etc. Esse homem está sozinho. Fa- . o acolhimento da tortura se tornou praticamente forçoso. ninguém para acudi-lo. esse ato é re al izado por um juiz ponderado. pronto a arredar quaisquer eventuais coações. "Que isso se faça sem crueldade! Nós não somos carrascos". o castigo poderá ser a fogueira. op. E evidente. Por isso era exigida dos inquisidores muita paciência. muito à vontade.124 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XI. cuja fama todos bem conhecem. em ambiente arejado e claro. aquele procurando surpreender o interrogando. para voltarem depois a inquiri-lo. o defensor es- tá presente. Diante dele. 4. Pois bem.. mais do que o de juiz. desamparado. e t al prática era então vista como um expediente norm al da Justiça. Como ele não de. em iguais termos. Interrogam-no meticulosamente. ao lado do seu constituinte. esquece circunstâncias importantes ou revela coisas inconvenientes. lutando pela salvação de uma alma e. em que avultava a necessidade da confissão para esteiar uma sentença condenatória. querendo aplicá-la de novo. é o clamor que encontramos no Manual dos Inquisidores de Eymerich-Pena (op. logo imaginamos que o pobre réu se devia sentir apavorado. A ordem dos Pontífices era para que o seu emprego se desse com prudência. por todos os historiadores.

pág. Por acréscimo. cruel. Aragão. a sexta. etc. em 1357. aparentavam presença de espírito. numa época de vida muito grosseira. diz Eymerich.. Abria-se portanto larga porta aos acusados.. 11): Eu juro por minha vida. seguramente há muito exagero nos ataques feitos à Igreja inquisitorial. que muitos escritores fazem. torturador. a situação apresentava-se totalmente outra. aliás. é de que.. Devemos atentar ainda para outro ponto importantíssimo. em que cirurgiões-barbeiros faziam amputações e intervenções cirúrgicas sem anestesia.. de nada valendo eventual arrependimento do criminoso. a sétima. a quinta.ar um inocente" (H. para extorquir do réu a confissão de culpa. Desvanece-se a imagem estereotipada do inquisidor feroz. a Igreja procura essencialmente convencer e provocar uma abjuração tão vistosa quanto possível. o uso de tormentos. Valência e Maiorca. em que a morte e o sofrimento físico se banalizavam. quando o juiz mostra a hóstia e indaga se acredita ser o corpo de Cristo. mas também nas escolas o açoite. muito menos lhe valia um herege recalcitrante. com penas requintadamente atrozes. o juiz conseguisse vencer as resistências e surpreender algum deslize do adversário. só desaparecendo muito recentemente. mostrai-vos cheios de mansidão diante daqueles que manifestam a intenção de fazê-lo. na Justiça Canônica. 779). imputaram-se . "em uma autojustificação". op. sim. e dar provas de efetivo arrependimento. Conta-se que até mesmo Santo Inácio de Loyola. — será razoável admitir que a tortura inquisitorial era em ger al módica e perfeitamente suportável. Não procedei a nenhuma condenação sem provas claramentéestabelecidas. ou tão-só a alguma pena relativamente moderada. ela pode então receber de novo em seu seio o dissidente arrependido. minuciosas. A impressão que fica. dos relatos feitos. Confessar o desvio. como dá testemunho a acima referida enciclopédia iluminista francesa de 1765: "Sem dúvida. porquanto ele adere à fé católica" (Jacques Paul. destinadas a fazê-lo sofre r muito e a escarmentar o povo. imagem em que acreditamos à força de vê-la incansavelmente repetida.. levava à absolvição. ingressou na Ordem Dominicana e se tornou. C { .sentido. ticipava da rotina diária das pessoas. pelo canonista espanhol Francisco Pena. Magnânima. sempre sobranceiros. receberia uma condenação vindicativa e expiatória. "em aparentar surpresa". "em tergiversar as palavras da pergunta". uma instrução dada em 1246 aos inquisidores continha estas recomendações: "Esforçai-vos por levar os hereges a se converterem. repetidas. mostrando as enormes dificuldades que os acusados opunham aos seus julgadores. mas este resistia tenazmente. "Confrontada pela heresia. diz o Senhor Deus: que eu nao quero a morte do ímpio. como péssimo exemplo para o povo. Impressiona. a palmatória. a vara. Maisonneuve. Mais adiante.. op. mas converter e salvar. Nunca será demais. que preferia a fogueira à conversão. pág. consiste "em responder pela adição de uma condição". mas. Não só nas prisões e tribunais. etc. Impressionam. Melhor é deixar um crime impune do que conde . Os interrogandos. do que outro arrependido. supliciava-se com meticulosa crueldade e repetidas vezes. as transcrições de interrogatórios. sempre ardilosos. Seja como for. Nesse sentido. Nos tribunais do Santo Ofício. Em seguida. cit.126 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XI. A um advogado de hoje isso tudo causa muita estranheza. repetir o quanto a violência física par(2) Obra cit. aconselhava o Manual de Eymerich-Pena. Nicolau Eymerich nasceu em 1320. "em reverter a questão". Na Justiça secular. 125 e segs. voltada a recuperar uma alma transviada. a mais atroz. nesse . Seu lema era extraído do profeta Ezequiel (33. a décima. porventura. o Manual arrola também "as dez astúcias do inquisidor para contornar as dos hereges" 2 . etc. 49). em regra. ele responde afirmativamente. Escreveu um Manual dos Inquisidores. na Justiça comum. mostrando aos juizes iniciantes como deveriam enfrentar todas as armadilhas postas pelos réus. "em fingir súbita fraqueza corpor al ". pouco a temiam os pacientes. a oitava. mas sim que o ímpio se converta do seu caminho. as inquirições tinham de ser longas. O que o juiz almejava não era punir. que disso dava público testemunho. Inquisidor Geral para a Catalunha. pág. até que. se reconhecesse o crime. e o Manual explica e exemplifica longamente cada um desses itens. "em mudança evidente das palavras". reforçando a fé no mundo cristão. "em se dar ares de santidade". Explica que "os hereges sofismam as questões — e as eludem — de dez maneiras": a primeira "consiste em responder equivocamente" (por exemplo. mas olhando o próprio corpo: "Este corpo pertence a Cristo"). implicava condenação certa. esse livro arrola "as dez astúcias dos hereges para responderem sem confessar". Assim. "em simular estupidez ou loucura". e viva. diante de um réu acuado e cheio de pavor. a terceira. em 1578. por pouco deixou de sofrer esse tipo de punição. cit. que foi revisto e comentado. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL 127 „MY i -iai zei prova de sagacidade". a quarta. quando estudava Filosofia em Paris. Em razão disso. A segunda astúcia. a nona. toa a atuação da Igreja era de cunho medicinal. porque sabia que. foram de emprego habitual. Aqui está pois a imensa diferença: admitir o crime.

Tanto na jurisdição secular como na canônica. sobre os liames. contudo. a figura do advogado era vista com profundas suspeita e antipatia. Esta segunda hipótese ocorre. no sentido de atrair o réu para o bom caminho e lutar pela salvação do seu corpo e da sua alma. obstinar-se no erro. no Direito Processual. mas. mas o núcleo das investigações repousa no diálogo entremo suspeito e o juiz religioso. no campo religioso. o processo se tornava em grande parte uma obra de catequese. o mesmo deveria ser homem de sólida formação religiosa. Se não aceita. o bom andamento da Justiça. em seu íntimo. de um defensor para os acusados: "Tratando-se de grande criminoso. quando fosse admitido um advogado no processo. os defensores não eram aceitos pelos tribunais seculares. com personagens distintos: o acusador. as Ordenações de 1670 proibiam a intervenção de advogados nos feitos criminais. quando se pretendeu abolir essa proibição. ou não. se não se emenda. não suspeito. mas o juiz atuava sozinho no processo e. deve ser convencido do seu erro e emendar-se. há testemunhas a ele favoráveis e pede para ser defendido. Na Justiça do Estado. era mal recebida e cerceada a intervenção de defensores. A propósito. Nestes. Mais tarde. Portanto. Trata-se de confessar ou negar esse fato. entretanto. porque se cuidava ali tão-só de apurar este dado atual: saber se o acusado é ou não um herege. Para responder sobre algo tão simples. representava terrível lacuna para a boa ministração da Justiça. o acusador oficial. . Na esfera canônica. se tornava muito mais grave na primeira. a um colaborador do juiz. à pág: 143. que lhe procura devassar os pensamentos e que é a autoridade competente para avaliar a ortodoxia. Outro filão muito explorado é o que concerne ao cerceamento oposto à defesa dos acusados. quando o réu confessa o crime e o que diz está conforme às delações. os ensinamentos da Igreja. mais ainda. deixar de adotar a mesma praxe. cometido um crime. Na heresia há recusa (ou pelo menos dúvida) a uma verdade que a Igreja ensina. que se interessava pelo "ser". no Direito comum. com suas agitações. às vezes supérflua. mas é incorreto se levantar contra a Inquisição por fatos duvidosos e. No fundo. os costumes dos tribunais leigos. A atuação do advogado. dizia-se. Os advogados. cuidava-se de investigar se o réu havia. para ser classificada como herege. do que na segunda. e muito crente". 32). acaba por tornar-se simples: ao inquisidor cabe apurar se o réu aceita. eram homens que só serviam para perturbar. submetendo-se às penitências que lhe forem ordenadas. Também inexistia. A preparação indica mais o desejo de trair a verdade do que a vontade de lhe prestar homenagem" (G. apesar de ter sido esclarecida. em conjunturas tais. a pessoa deve. apesar disso. (3) Na França. enfim. É manifesto que um advogado aí teria muito a fazer. afinal de contas. m as . o que. 5. isto é. A sua ausência no processo. Não sabe o acusado o que ele fez ou não fez aquilo que a testemunha sabe e que ela viu ou ouviu? Num processo criminal não há freqüentemente senão um fato principal. O dilema. que utilidade poderá ter um advogado? A experiência nos ensina que. o Direito Canônico seguiu. mas conserva rebeldia. por exemplo. objetivos e subjetivos. O Procurador Geral Séguier recusou nestes termos a assistência de um "conselho". cumpre reconhecer. por uma ficção jurídica. velando tanto pelos interesses da acusação como pelos da defesa. Muito tardou e apenas aos poucos se foi firmando. quase como se fosse um cúmplice do réu. também ali. procurar na mentira o meio de torná-la odiosa". Paulatinamente. colaborando na colheita de provas sobre todo o material fático e apresentando argumentos destinados a orientar o juiz. houve fortes reações no mundo jurídico. op. cit. que tal presença é às vezes necessária. excessos de horrores que ele nem sempre cometeu. haveremos de convir em que o problema se colocava freqüentemente de modo por inteiro diverso. ou não aceita. o conselho é inútil. Se. Difícil seria. pág. pari passu. inclusive pagando-os para os réus pobres. se se permite um conselho. o defensor e o juiz. ao contrário. porque ele se reduziria. se lê no Manual de Eymerich e Pena. Aubry. tão justamente detestado. imparcial e eqüidistante das partes 3. o tribunal lhe deverá designar "um advogado probo. bem como sobre a medida da sua responsabilidade. O advogado agora pouco ou nada tem a fazer. Também aqui. com todas as suas circunstâncias juridicamente relevantes. a Igreja p as sou a admitir com crescente largueza a presença de defensores. 6. entre o acusado e tal fato. terá de sofrer as penas cabíveis. perito em Direito Civil e em Direito Canônico. Compreende-se assim a exigência de que. que lidava com o "haver". de provar que o crime foi cometido por outrem ou que o acusado não o p8de cometer. pelo menos nos casos em que a acusação era de heresia. explica-se. a exigência da tripartição de atribuições. a prova se evapora em meio ás formalidades prescritas para preparar o julgamento. ele nega o crime. admitia-se que ele cuidava das duas faces da questão. foi recebida com muitas reservas. tudo girava em torno das pesquisas sobre a pretérita existência de certo fato concreto. O PROCEDIMENTO INQUISITORIAL 129 a um tribunal.128 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XI. se mantém ou não a pureza de conceitos cristãos.. Não poderá ser admitido "um advogado herético ou suspeito de heresia ou difamado". acompanhando a evolução dos tribunais laicos.

"Chamam-se hereges relapsos aqueles que. Por acréscimo. no momento em que a pena é concebida tão-só como vingança ou se endereça à obtenção de alguma utilidade. 5. Todavia. ela deixa de ser orientada pelo ideal de justiça. o envio de delinquentes às colônias garantia a posse destas e contribuía para o seu desenvolvimento. mas . retrocedem. Outros benefícios ocasionais ainda podiam ser visados: a condenação a trabalhos forçados nas minas.. fornecia ao Estado mão-de-obra escrava. e utilitário. a Inquisição encontrou. a noção de pena regeneradora. Estes. solicitados pelos juízes. abjurando seus erros e suas atuações anteriores. Medidas patrimoniais. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO Distinguem-se a propósito algumas categorias. as medidas patrimonais. destinada ao aperfeiçoamento moral do condenado. nas galeras. suportam as penas que lhes são infligidas pelo bispo ou pelo inquisidor. a fim de incutir pavor e convencer os cidadãos a bem se comportarem. (. sem necessidade de novo julgamento. 1. não querem submeter-se e preferem manter teimosamente seus erros. 2. recaem na heresia. "crente". havendo aderido intelectualmente e de coração à heresia. "Chamam-se hereges penitentes aqueles que. A mais saliente e constante utilidade procurada. ouvem a voz da prudência e. havendo abjurado a heresia e se tendo assim tornado penitentes. com vistas à manutenção da ordem pública: a punição imposta ao criminoso devia ser exemplar. Ora bem. quem aos hereges presta auxílio. todo um panorama de impiedosa ferocidade. encontrava-se na idéia de escarmento. Esta última não se apresenta como sofrimento "merecido". intimados a confessar e a abjurar. todavia. etc. no Direito comum. com valor de vingança. ou expiatório. cit. Quanto aos métodos repressivos. quem mostra simpatia pelos ensinamentos heréticos. a pena não se mede pela gravidade maior ou menor do crime. Freqüentes mitigações. para o que convinha fosse a pena rigorosa e executada com grande publicidade. mesmo sem abraçar a sua doutrina. isto é. pág. 3. Rememorando o que expusemos sobre as penas da Justiça comum.130 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XII. mormente a confiscação de bens. ademais. 4. quem adere a essa doutrina. estas possuíam dois sentidos. "penitentes" e "relapsos". Os hereges. "Heresiarca" é aquele que formula a doutrina heterodoxa e a difunde. no Direito secular a ela contemporâneo. Antes de tudo. se eles se arrependem e confessam a fé católica. Explica o Manual de Eymerich-Pena: "Chamam-se hereges tenazes e impenitentes aqueles que. erecia castigo.. constituíam fonte de receitas para os cofres públicos. praticamente gratuita. alguma dentre várias possíveis utilidades. têm piedade de si próprios. são livrados ao braço secular para serem executados. Sanções impostas pela Igreja. convencidos do erro contra a fé. "faltoso". Finalidades das penas seculares e canônicas. quando sua recaída é plena e claramente estabelecida. Inexistia. Estes devem ser entregues ao braço secular para serem executados. 62). "suspeito". através da ena. que se entrelaçayam: vindicativo. se classificam como "impenitentes". irradiando-se pela coletividade. A sanção capital era esde logo útil porque eliminava uma pessoa malfazeja. buscava-se. Pena de morte. aquele que violara a lei po ta pela vontade do soberano. que postula o princípio de proporcionalidade entre o crime e a correspondente sanção. a Igreja lhes concede os sacramentos da penitência e da Eucaristia" (op. 1.

mas em outras situações. e somente quando isso não surtia efeitos é que passava à função repressiva. ela se via impotente e os entregava ao Poder civil. devendo sofrer medidas mais cuidadosamente acautelatórias. que com ela se quer obter. convém que ele seja vistoso e o mais severo possível. o tribunal inquisitorial. mas sempre ajustado à gravidade da falta e predisposto a manter o pecador no bom caminho. às vésperas e aos sermões. é preciso que haja muitas pessoas a isso condenadas. Se o castigo é imposto para escarmentar os que o presenciam. Neste sentido dispôs o concílio de Narbona de 1243: "Os hereges. ou menos severo. ao contrário. e este será livremente escolhido pelo confessor. compreende-se que mesmo infrações de mediana importância justificassem a imposição de sanções as mais terríveis. à missa. submeter-se à Igreja e aceitar as merecidas penitências. também com efeitos profiláticos na comunidade cristã. O que falta com freqüência aos historiadores é fazer o cotejo entre os métodos penais inquisitorial e secular. Se. do que o da Justiça comum. uma vara à mão. o acusado merecia menor confiança. Eles o farão ainda em todas as procissões solenes. mostrando arrependimento. a penitência podia ser cumprida em segredo. o juiz. a salvação da sua alma. na hipótese de o réu se mostrar intransigente. daí por diante. voltamos à situação anterior. a Justiça inquisitorial lavava as mãos. o culpado devia revelar seus pecados. externo ao condenado. Em razão disso. causa esp an to verificar como o seu arsenal repressivo era incomparavelmente mais brando. o inquisidor se despia da qualidade de juiz para assumir a de confessor. convém seja por isso publicamente castigado. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO 133 ll^r passa a depender unicamente do benefício. ' entre a epístola e o evangelho. durante ó processo o réu insistia em protestar inocência. após a procissão ou a missa. com sincero arrependimento. . O divisor de águas estava na distinção entre réus penitentes e impenitentes. o que deveria ser julgamento criminal condenatório. que obstinadamente recusavam a retratação dos seus erros. Esse o objetivo central a alcançar. a fim de conseguir o perdão. À força de ouvirmos falar sobre os "rigores" punitivos da Inquisição. de maior seriedade. catequética. Somente. Em casos mais leves. Quanto aos segundos. seus parceiros e seus fautores que se submeterem voluntariamente. por completo. A crueldade da Justiça Criminal não se explica somente pela aspereza da vida de então. o que se quer obter é o bem do faltoso. obterão dispensa da prisão. se apresentar todos os domingos. e farão peregrinações". Faltava no Direito Penal. As medidas sancionatórias adotadas pela Igreja eram unicamente as penitências impostas aos faltosos arrependidos. com uma vara diante do padre e receber a disciplina. para edificação dos fiéis. Dos primeiros. para assim reforçar a religiosidade popular. totalmente diferente: através do processo e da pena. desempenhava missão docente. em háb to de penitência. qualquer preocupação com o respeito devido ao criminoso enquanto ser humano. se o suspeito confessava sua heresia e dava mostras de regeneração. de maneira análoga ao sacramento da penitência: ouvido pelo sacerdote. Secundariamente. . assim como eram ignoradas as garantias individuais. podia convir que ela se executasse publicamente. se ele se mostra intransigente e promete continuar difundindo o mal. mais do que órgão repressivo. para preservar a comunidade de um elemento nocivo. ou. Portanto. o inquisidor devia instar pelo arrependimento e aceitação de sacrifícios. existe também um escopo propagandístico: é bom que o faltoso reconheça a própria culpa e a merecida penitência. dava-se a completa reconciliação entre o faltoso e a Igreja. 2. Satisfeita a mesma. Com o Direito da Igreja surge entretanto outra concepção. As'sistirão. E manifesto todavia que. se transforma numa confissão que compõe o sacramento da penitência. salvadora de almas desgarradas. dando pública demonstração de arrependimento. com aplicação de pena. dizendo sobre si e sobre terceiros a verdade inteira. em que tudo se resolvia através do sacramento da penitência. No primeiro domingo de cada mês.132 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XII. ficando apurada a sua culpa. todos'os domingo . encaminhando-o ao Poder civil. para trabalhos que nenhum homem livre aceita exercer. Faltando a ligação entre o grau do crime e a medida da pena. Muito se decepcionará quem espera encontrar grandiosas maldades no sistema penal dos tribunais inquisitoriais. Assim. a Igreja se ocupava. em tal eventualidade. Eles deverão portar cruzes (cosidas sobre suas vestes). nessas circunstâncias. as casas da cidade e do burg que os conheceram como hereges. para que este o punisse conforme suas leis. Tudo transcorria. por fim. O confitente deve anuir ao sacrifício que lhe é exigido. perseverando no erro e recusando a reconciliação. Tal ocorrendo. visitarão. colhiam-se provas e. Se o Estado carece de mão-de-obra escrava. Para isso. no curso do processo.

durante todo o curso do processo. onde lhe era fornecido um atestado da sua passagem. pelos patrões aos aprendizes. mas a levá-lo ao isolamento propício à reflexão salvadora. se se comportasse bem. como rezar as orações prescritas. e submetido ao "regime de pão e água". Reservava-se aos casos especialmente graves de heresia. em que se fustigava o culpado com varas. para se purificarem. até santuários próximos. a a sados que se diziam arrependidos. recomendava-se. a prisão penal não se destinava a castigar o condenado. A flagelação. embora às vezes tenha sido aplicada por tempo certo. tecidos vermelhos em forma de língua eram reservados aos que haviam falsamente acusado al. na Espanha. A medida caiu porém em desuso porque na realidade expunha o condenado ao desprezo e a maus-tratos de populares. o condenado devia permae necer em sua cela. A flagelação. após se terem mostrado. Como todas as sanções c ônicas. mas afinal as necessidades práticas prevaleceram. Estas últimas. impunha-se àqueles que. Para os 'casos comuns de heresia. bem como a ajudar os presos necessitados. a multa e a prisão. etc. Os símbolos que os condenados deviam exibir em suas roupas reputam-se hoje de finalidade infamante. ou a prisioneiros que já haviam tentado a fuga. que é tipicamente uma medida regeneradora: o regime . Numa bula de 1245. Ele caminhava a pé. o peregrino devia dirigir-se até Santiago de Compostela. pelo penitente. Por derradeiro. Era a mais severa dentre as cominadas pela Igreja e só nesta existia. nas confissões. Dois martelos de feltro amarelo indicavam os acusados em liberdade provisória. o penitente devia sofrer medidas de maior rigor.134 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XII. as peregrinações. já sabemos. na maioria dos casos. consistia em cruzes de pano cosidas na frente e no dorso das vestes. submeter-se a jejuns. onde permanecia acorrentado. pelos abusos e pela má impressão que isso poderia causar. Vários atos pontifícios e vários concílios se ocuparam da prisão. não seria bem assim. Neste último.rs guém de heresia. o preso não podia deixar a cela. De acordo com o pensamento da Igreja. arrepender-se e conseguir o perdão. tendendo ao rigor: o condenado devia permanecer isolado. Na época. Havia dois regimes: o estrito (murus strictus. destinando-se ' construção e manutenção das prisões. cumprindo-se em locais que. a Igreja hesitou em adotar a pena de multa. no dizer de Cesare Beccaria. mas. possuía amplos poderes discricionários. em geral hospedando-se em igrejas ou mosteiros. somente recuavam quando se viam ameaçados com a pena de morte. evitando-se comunicação com terceiros. que chegavam inclusive a amputações. ou preventiva. As mais freqüentes foram a obrigação de portar sinais estampados nas vestes. de que havia pecado e dava público testemunho de arrependimento. mas medida processual. escolhidas pelo inquisidor e pelo bispo. Notadamente.. as outras a locais distantes: por exemplo. Nos cas os leves. devia ter. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO 135 transformando-se em orientador espiritual. a prisão não era uma pena. No Direito comum. por toda parte constituíam "o horroroso recolhitnento do desespero e da fome". irredutíveis na heresia. aliás. do norte da França ou da Itália. Essa pena. parece que ela era o que o moderno Direito Penal chama de "pena indeterminada". para posterior exibição ao tribunal. Depois. freqüentar a igreja em tais ou quais oportunidades. As peregrinações podiam ser "maiores" ou "menores". passou-se também a aproveitar seu produto para cobrir as despesas da Justiça inquisitorial e as custas do processo. por exemplo. distintivos representando hóstias destinavam-se àqueles que haviam profanado o sacramento da Eucaristia. havia a pena privativa da liberdade. mas mais propriamente a ostentação. do mesmo modo que sucede. e os açoites eram rotineiramente impostos pelos pais aos filhos. Ele não se podia absolutamente comparar com as crudelíssimas penas corporais impostas pelos juizes leigos. partindo da Alemanha. Durante muito tempo. para compensar seus crimes. ou. sempre que possível. etc. Observa-se que tal pena devia ser perpétua. durus ou arctus) o largo (murus largus). assim entrando em contato com outras pessoas. podia locomover-se pelo interior do presídio em cert as horas. tratava-se de medida destinada a penitentes. devia ser imposta com muita parcimônia e substituida. por outro tipo de penitência. No murus strictus. Outras vezes. pelos professores aos discípulos. mero valor simbólico e representou o único castigo físico adotado pela Inquisição. Mais propriamente. etc. Inocêncio IV determinou que as multas deviam ser pagas a duas pessoas. somente recuavam ao se defrontarem com a fogueira. impunham-se práticas piedosas. isto é. pior ainda. a flagelação. bem como servia para impedir que ele continuasse a exercer más in uências no rebanho cristão. sequer possuía naqueles tempos o sentido degradante que adquiriu hoje. mas era medida corriqueira: os religiosos adotavam freqüentemente os cilícios. mas cuja sinceridade suscitava Jates dúvidas. consistente no aprisionamento do condenado.

e cessar no momento em que este se mostra totalmente recuperado. págs. aplicando-se aos hereges em geral. todas as advertências e ameaças feitas. As sanções até aqui mencionadas foram as únicas a cargo da Inquisição. foi perdoado. Os documentos dessa época de misé ri as desapareceram em grande parte e não mais é possível hoje levantar estatísticas. aos "suspeitos". cit. ou estes as ofereciam àqueles. se elas existissem. Provada a heterodoxia. aos "crentes". de todas as épocas. A despeito da extensão teórica da pena de morte. por exemplo. todos os recursos de persuasão empregados. acarretando infindáveis debates. Mostra-o muito bem. que os cárceres religiosos eram mal cuidados e que neles grassava a corrupção: carcereiros e guardas extorquiam vantagens de presos. sempre crivei quando condescende com o catolicismo. velho e doente. a morte a ceder.-C. sinceramente arrependido. cit. que. Jean Ghiraud. mas lhe era estranha e. fiel ao princípio de que lhe repugna verter sangue ("Ecclesia abhorret sanguine"). creio que ficaríamos surpresos ao encontrar tão poucas execuções pelo fogo. 622-3). costumava ser com freqüência mitigado.. Lea refere o caso de um dos assassinos de São Pedro Mártir. em certas situações. em meio a tantas outras penas mais ou menos cruéis. como Bernardo de Caux. o que. a proferir o veredicto de que o réu possuía esta dupla qualidade: "herege impenitente". Quando cabia essa solução extrema? Em primeiro lugar. etc. no curso do processo inquisitorial as autoridades religiosas tudo haviam tentado para obter a reconciliação. mas o acusado se mostrava irredutível. em tal matéria. Ela não se continha no Direito Canônico. mas. "eu estou convencido de que o número de vítimas que pereceram na fogueira é bem men do que normalmente se imagina. por isso nunca a impôs a Igreja. por exemplo a prisão era substituida por uma multa.. H. para obterem regalias. sendo o pai do culpado bom católico. preferindo. seguiram tal orientação. Isso terá sido menos freqüente do que se assoalha. é de uma atrocidade tão dramática e de um horror tão ungente que terminamos por aí ver o traço essencial da atividade da Inquisição. para lhe prestar cuidados. na prática. Limitava-se o tribunal inquisitorial. Cessada a competência eclesial para se ocupar de quem se lhe tornara estranho. Diante disso. E preciso. acabou preso. uma criatura humana. em tom de reprovação. na ótica das autoridades civis. vale dizer. obtinham permissão para se irem tratar fora da prisão ou junto às suas famílias. 522-3). o caso passava à alçada do Estado. de eliminação. após várias peripécias. delibera amente. ou uma peregrinação. tão-só porque ela crê diferentemen de nós. cit. Quando os detentos caíam doentes. para que deste recebesse a sanção máxima. págs. I. "relaxavam-no ao braço secular". aos bons costumes. encerrando seu processo. mesmo quando as regras penais da Igreja tendiam para o rigor. a fogueira foi relativamente o menos usado. seu filho podia permanecer junto a ele. col. Um aspecto a destacar é que. op. enquanto vivo fosse. este. de criminoso nocivo à ordem pública. Essa pena flexível decorria forcosamente do caráter medicinal que lhe atribuía a Igreja.-C. 878 e segs. ela se destinava aos hereges impenitentes. I. excluído da comunhão dos fiéis. Declarava o réu "excomungado". Mesmo os mais severos inquisidores. Menciona-se. As penas da Inquisição eram freqüentemente atenuadas ou até apagadas. esse juiz condenou à prisão perpétua um herege relapso. entre os modos de repressão empregados por força das suas sentenças. As leis pe- . inimiga. suspendendo-lhe a proteção. Isso é inevitável em todos os presídios. ou seja. comprovadamente. 3. E o parecer de H. A questão da pena capital constitui um dos "cabos das tormentas" do nosso tema. mais adiante. O fato de queimar viva. Torna-s e pois necessário observar que. em conseqüência. a conclusão do caso era tecnicamente perfeita: essa pessoa deixara de pertencer ao corpo da cristandade. mas na própria sentença acrescentou que. pior. até o fim. os inquisidores abdicavam de cuidar do caso e transmitiam o réu às autoridades civis. que todo herege que figura nos Registros como condenado ao "muro perpétuo" haja permanecido na prisão o resto dos seus di as . a Igreja por ela se desinteressava. Freqüentemente também os inquisidores concediam atenuações e comutações de pena. Lea. saber acautelar-nos contra exageros que são familiares à' maioria dos escritores" (op. escreve ele.136 JOÃO BERNARDINO GONZAGA ' XII. desde que se revelassem penitentes. aos "faltosos". e merecedor. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO 137 carcerário pode ir-se abrandando na medida da evolução do condenado. o reduzia à condição de revolucionário. 4. admitido na Ordem dos Dominicanos e morreu pacificamente com a reputação de "beato" (op. Não se deve crer. Nem seria possível as autoridades religiosas fiscalizarem tudo quanto ocorria em suas prisões. portanto. Ern 1246. O que sucedia é que. não integrava o seu rebanho..

que ambicionava o martírio como "solução libertadora". que cumpria destruir.. Presente esse quadro. Para eles. soluções que somente hoje se tornaram possíveis. procuravam minorar-lhe o sofrimento: mediante a cláusula de retentum. com esta. Com muita freqüência. Assim sendo. não se podia imaginar outro remédio que não fosse o eliminatório. ante a renitência de um fanático herege. sob o queixo do paciente. se infiltravam por toda parte. aplicando-se a grande número de infrações. em regra consistente no envio à fogueira.. Como toda a ordem e unidade sociais. sob a égide do soberano. ao ser atingida pelas chamas. atentasse contra o soberano ou suas prerrogativas. ao enfraquecimento da civilização cristã. Dentro da formação cultural. dentro do sistema repressivo em vigor. Do contrário. Utilizando linguagem jurídica moderna. o insubmisso se revelava afinal arrependido. Para compreendermos que não podia deixar de ser assim. No momento enfim em que a heresia passava da jurisdição canônica para a secular. dirigido contra o próprio Deus. a seita mais difundida. do Direito romano. focalizemos. a sanção capital. não havia por que deixar a Igreja de aderir à indicada solução. continuaria a difundir seus erros. uma confissão de fraqueza nas convicções por ela apregoadas. da sensibilidade e dos padrões de comportamento então vigentes. uma bolsa com pólvora. até o último momento. o mais grave crime. igualmente da Igreja era impossível exigir outra atitude. para que não fizessem propaganda ao povo ali reunido. cuja pena tinha de ser a capital. seria profundamente desconcertante. o herege impenitente era visto como um inimigo da sociedade. uma justificativa teórica. Na perspectiva das autoridades civis e religiosas. que então se concebia. o Estado e o réu — todos imersos na cultura. se tratava de indivíduo portador de periculosidade em grau máximo. lhe despedaçava a cabeça. que. O Estado e a opinião pública exigiam fosse ele destruído. Poderia acaso a Igreja se opor a isso e. a jurisdição eclesiástica recuperava sua força. a moral e os bons costumes estavam fundados em bases religiosas. A situação equivalia à de uma guerra: os hereges se disseminavam. voltando a dar-lhe amparo. Se fosse deixado solto ou onde quer que o enviassem. e a pena secular de morte era comutada pela pena canônica de prisão. Nada é mais temível do que alguém que. ou. para apressar a morte. que desdobramos no Capítulo II. e a pena de morte constituía medida corriqueira. se tornava merecedor de tratamento pelo menos equivalente ao de lesa-majestade na ordem temporal. Nas circunstâncias dadas. Começando pelo réu. direta ou indiretamen- te. por parte da Igreja. fiel à sua missão de salvar almas: se. desmoronariam todas as estruturas em que estavam organizadas a paz e a vida social. exigir que o Estado se mostrasse complacente? Veja-se como tal atitude. Pensemos nos cátaros. encarniçados no objetivo de subverter a ordem estabelecida. era o de lesa-majestade. Assim se fazia naqueles tempos. prefere enfrentar a morte. a Igreja permanecia atenta. que desprezavam a vida terrena e que com tanta facilidade recorriam ao suicídio e aos sacrifícios humanos. Pois bem. aliás. que se considerava porém um "mártir". Também do mesmo modo como se fazia com os demais criminosos. adotou-se também o expediente de atar. àqueles tempos. O cer- . ameaçando as instituições civis e religiosas. precisavam impedi-los de falar. por vezes as autoridades se compadeciam do herege condenado e. absolutamente aferrado às próprias convicções. a posição de cada um dos três personagens envolvidos: a Igreja. punindo-se com especialíssimo rigor todo ato que. recusava a paz e somente prometia mais luta. inclusive de escassa gravidade. preferia a morte. Muitas vezes as autoridades. que. mesmo na iminência de ser executado. para tanto. o que nele encontramos é um homem irredutível. em que haviam sido formados. A legislação penal laica previa crimes religiosos. ser queimado em nome da crença que professavam aparecia como um fim apetecível. para os padrões da época. pietatis causa. recuperaram. Tão imensa tenacidade convencia ser por inteiro inútil qualquer esperança de entendimento. A execução seguia o esmos ritos aplicáveis à delinqüência em geral.. Não cedamos à tentação de querer aplicar. basta percorrer o rol de sanções do Direito Penal da época. o problema se lhe apresentava de fácil deslinde. por causa de um ideal. a ponto de aceitar o tremendo suplício da fogueira. Quanto ao Estado. Representaria. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO 139 nais cominavam. o conceito de crime de "lesa-majestade divina". o carrasco ficava autorizado a estrangulá-lo.138 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XII. Nem faltou. Como sabemos. para explicar a devida severidade contra os hereges. ao encaminhá-los à fogueira. mais tarde. Assaz elucidativo entretanto é que. para a hipótese. diremos que. era procedida em praça pública e com grande alarde destinado a escarmentar o povo. era um "fanático". o que levaria fatalmente à sua derrocada e. nos costumes. etc. nas condições de vida.. os juristas medievais. que a tanto custo avançava. para as autoridades. para tratá-los com rigor. O herege fechara obstinadamente todos os caminhos de encontro. dentro dele. e repelindo todas as propostas apaziguadoras. a idéia de morte ia ao encontro dos desejos do herege. gerador de glória. transformava-se em crime. produzindo mortes e violências de toda espécie.

.. objetivava alertar o povo contra o mal do crime e mostrar-lhe a implacabilidade da Justiça. é certo que a Igreja exigia das autoridades civis a sanção capital prevista nas leis. cit. medida que sempre teve igualmente largo emprego no Direito comum (haja vista o ocorrido com o nosso Tiradentes). os inquisidores tendiam à demência" (op. para os criminosos comuns. col. Consumada . nos casos que lhe diziam respeito. não foi inventada pela Igreja. Também no Direito Penal secular foram comuns a condenação e a execução post mortem. Isso.Guiraud: "A pena da fogueira.a morte. em 1226. o governo pontifício e a Inquisição. declarado como tal por um julgamento da autoridade religiosa. dado que. em sua constituição de 1224. Durante muito tempo. que deviam ser destruídas as casas onde os hereges haviam trabalhado ou encontrado asilo. já morto. ao transmitir o réu ao Poder secular. Essa pena logo entrou porém em declínio. Como assinala H. as regras variaram muito. Nem é possível negar que a execução capital. Desenterrado então o cadáver. "é consolador poder dizer que. A medida. Mesmo nas prisões os relapsos exerciam sua influência dissolvente. todos os restos do condenado. se não impossível. costumavam anteceder a execução capital. Havia por fim duas medidas patrimoniais acessórias que podiam acompanhar as penas de prisão e de morte: a confiscação de bens e a destruição da casa do condenado. A confiscação existia já no Direito romano. ameaçando-as até mesmo com a excomunhão se se mostrassem negligentes no cumprimento do dever. proclamado pela Igreja que o réu era culpado de heresia. devia ser queimado em nome da autoridade civil" (op. ela conhecia perfeitamente a sorte que o aguardava. Aquele que reincidira no crime não mais merecia confiança. deviam ser recolhidos e fazia-se com que desaparecessem. para o Estado. mas também porque a execução em praça pública possuía forte eficácia exemplar para os fiéis. coibi-los. 878). todavia. Outra ressalva é apresentada por J. devendo ser suprimido. já tendo sido convencidos do seu erro. como pena de muito freqüente utilização. e. continuavam a° cultivá-la sub-repticiamente. A primeira é que a Igreja. notadamente com os presídios que ela mantinha e com o sustento dos condenados pobres. sendo difícil. cit. a experiência foi aconselhando maior rigor. na grande maioria dos casos. 5. a este retornavam depois. mas prática usual entre os romanos e em todo o Direito subseqüente. não era privativo da Inquisição. agora. Na França. O SISTEMA PENAL DA INQUISIÇÃO 141 to é que numa época em que até o autor de mero furto se sujeitava às mais atrozes punições será absurdo pretender que mereceria melhor sorte um herege. Afigura-se totalmente inútil o debate consistente em indagar se a Igreja era ou não responsável por essas penas de morte. Prevaleceu diante disso a solução da entrega ao braço secular. Se se suspeitava que alguém. realizava-se macabro cortejo pelas ruas. Cabe observar ainda que o fato de já haver falecido não poupava um herege à merecida punição. Inocênciò III decretou. Mais do que disso. preponderou o sistema de partilhar os bens confiscados entre as autoridades civis. o qual a seu turno devia depois custear as despesas da Inquisição. abria-se o processo inquisitorial. infiltradas entre os fiéis. . de nada vieventual nova demonstracão de remorso. suplantada pela confiscação de bens. Verificou-se que muitas pessoas. que eram muito vultosas. a Igreja os tratou com benevolência. Aos poucos. fora herege. onde ele podia ser condenado às sanções cabíveis.-C Lea. O arrependimento do relapso não o eximia da morte. No campo do Direito Canônico. inclusive à pena máxima. impondo tão-só a pena de prisão ou mesmo outras medidas mais suaves. que se reputava de alto poder educativo. proibia os tormentos preliminares que. Quanto ao destino a ser dado ao patrimônio apreendido. Duas ressalvas entretanto cabe fazer. que revolta nossa sensibilidade. de onde passou para as legislações penais dos vários povos. seu produto passava ao Fisco. daí podia seguir-se. O imperador Frederico II. ou o que deste restasse. nas condições descritas. A entrega ao braço secular costumava aliás ser feita com a fórmula "debita animadversione puniendum". até o patíbulo. mas pelo Poder civil. Outra categoria que suscitou enormes embaraços para a Igreja foi a dos hereges relapsos: aqueles que. 617). onde era procedida à incineração.140 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XII. o direito ou até mesmo o dever de se assenhorear dos seus bens. foi o primeiro a editar que o herege. "a fim de que ele seja punido como merece". conviesse à Igreja. A evidência sim. que causa hoje profunda repulsa. após haverem solenemente abjurado a heresia. não só porque erradicava um elemento perigoso ao seu rebanho. inclusive suas cinzas. que abrangia também a casa do condenado. mas justificava tão-só a absolvição sacramental e a comunhão eucarística. in casu. por temor de que os seguidores da heresia os transformassem em relíquias. Na Itália. pág. I. O tratamento a eles dispensado foi oscilante.

os quais se agrupavam promiscuamente no Piemonte.. convencendo por fim a Igreja da necessidade de uma reação mais ágil. mercê de inúmeros interesses conflitantes separando ricos e pobres. Desde os Alpes e até o Patrimônio de São Pedro. criados em 1260 por um tal Guerardo Segarelli de Parma. vivendo de esmolas e de rapinas. Na Lombardia e na Toscana.-C. pregadores. Desde então. que em toda parte introduziam falsos profetas. recusando porém a autoridade do papa e da Igreja. o que estes fizeram através de um trabalho coordenado e pleno de entusiasmo. Joana d'Arc. e os arnaldistas. que caminhavam em procissões pel cidades e se açoitavam mutuamente em pública penitência. camponeses. os flage- lantes. 2. oriundos da França. nobres e grandes negociantes. "a extrema divisão do país tornava quase impossível medidas gerais de repressão. a heresia florescia imediatamente em outra. e até mesmo em Roma. recordamos. unificar o combate. disseminando seus tribunais por toda a Itália. 133). o norte da península começou a ser também invadido pelos valdenses. Por todos os rincões se espalhavam seus missionários. o grande artífice da Inquisição. quando Vítor Emanuel foi proclamado "rei de todos os italianos". Esse papa aumentou muito o número de inquisidores e convocou os franciscanos para cuidarem da Itália central e meridional. O mais notável personagem dos primeiros tempos da Inquisição . proliferavam ademais os speronistas. com seus privilégios. A Itália da Idade Média se apresentava como verdadeira colcha de retalhos. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA I. Com a célebre decretal Ad Extirpanda (1252). 6. os cátaros mantinham escolas. até na Calábria" (op. política e economicamente. que se espalhavam subterraneamente. Franca.. enquanto aos dominicanos se reservava a região norte. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 143 1. O problema começou a ser realmente enfrentado com eficiência quando Gregário IX (1227-41) convocou os dominicanos para a bat al ha. Diante de tão grande mal que se alastrava e que muitas autoridades seculares protegiam. que tinham Milão como quartel general e de onde se propagavam rumo ao sul. No final do século XII. 4. o papa Lúcio III ordenou providências rigorosas e o mesmo fez Inocêncio III com a decretal Vergentis in Senium. seguidores de Hugo Speroni. os fraticelli. O estado de luta era permanente. etc. sob a direta supervisão pontifícia. toda a Itália viu formar-se crescente rede de crenças extravagantes e anárquicas. Itália. somente veio a ocorrer muitos séculos mais tarde. 3. S. chegando a ameaçar até mesmo o próprio Estado pontifício. pronta a fornecer.XIII. entre as várias categorias sociais. Judeus italianos. pois. pág. I. A crise franciscana. que rejeitavam todos os sinais exteriores da fé. formava caldo de cultura propício ao surgimento das mais variadas dissidências religiosas. O vale do rio Pó achava-se infestado de cátaros (ali designados patari). A unificação política da península. adeptos do ex-padre Arnaldo de Bréscia. que podiam ser encontrados mesmo no sul. toda a parte setentrional da península estava semeada de ninhos de hereges. havia múltiplas correntes menores: os apostólicos. etc. Por acréscimo. Lá. dirigida em 1199 aos católicos de Viterbo mas válida para todo o país. Começou assim o paulatino trabalho de esmagamento dos rebeldes. passada a tempestade. repelindo toda forma de organização e hierarquia. Inocêncio IV disciplinou os métodos investigatórios e colocou o Poder civil às ordens da Igreja. e eram erigidos templos. XIII. porque os olhos dos inquisidores tudo viam. que não se submetiam a nenhum Poder central. Lea. onde ensinavam abertamente suas doutrinas. dividida em inúmeras repúblicas municipais autônomas. tanto entre cidades. dentro de cada uma delas. os tribunais diocesanos se mostravam impotentes. Aos poucos. cit. enérgica e eficaz. Suprimida numa cidade. novos missionários e novos mártires. Esse ambiente tão conturbado. etc. com os sucessivos pontífices. a heresia não mais teve trégua nem encontrou refúgio seguro. O mesmo ardor foi mantido por Inocêncio IV (1245-54). adversárias na concorrência mercantil. que se opunham à posse de propriedades pela Igreja. que pretendiam imitar a vida simples dos apóstolos.. Tornava-se imperioso. pequenos artesãos agrupados em corporações. 0 processo dos templários. Esses e outros atos não produziram todavia efetivos resultados práticos. como. cada qual se apresentando como a mais fiel seguidora dos Evangelhos e unidas todas na insubmissão à autoridade eclesiástica. No concílio de Verona (1184). Diz-se que em Milão havia dezessete diferentes seitas heterodoxas. Como anota H. em 1861. que buscavam o ascetismo.

certo dia. de formação militarizada. hereges em grande número se converteram e pouco tempo após. os hereges decidiram eliminar tão implacável perseguidor e. tomado de súbita inspiração. Mais adiante. Acresce que o catarismo. "A civilização avançava. o catarismo começou a minguar. Em 1266. que apoiavam o imperador. de parte a parte. devotou-se à missão de pregar contra os desvios religiosos. irmão do rei São Luís de França. com eles organizando uma guarda: a Società de Capitani di Santa Maria. com extremo calor e infatigável zelo. o seu grande êxito irritou os hereges que na cidade viviam. as dissidências foram sendo vencidas. se pôs a lançar-lhe pedras e imundícies. artesanal. formando-se. Logo se destacou por imensas piedade. dispunham de poder. mesmo os que não partilhavam d as idéias heterodoxas. pregando em praça pública. e se punham às ordens da Igreja. pág. Havia ainda interesses políticos de permeio. porque. Para H. de tal modo que já no início do século XIV havia desaparecido na parte meridional do país e caminhava para a extinção no norte. Idem em Florença. tomado de divina cólera. matando-o a golpes de foice. no entanto. quando atribuía ao Principe do Mal o domínio absoluto do universo visível. prontamente adquirindo fama de notável orador.. onde as heterodoxias vinham resistindo a todos os esforços para debelá-las. não encontrava nenhum obstáculo nessa religião. Estes últimos. o Santo Ofício. o pregador. Em desespero de causa. cit. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 145 italiana foi Pietro da Verona. para defendê-la ainda que com o risco da própria vida. se converteu ao catolicismo e. o patrono do Santo Ofício. cujos membros portavam gibão branco ornado com uma cruz vermelha. humildade. paciência. admoestando as autoridades negligentes e arregimentando-as para a luta. a Igreja o canonizou como São Pedro Mártir. comercial e bancária. Concomitantemente. longa e feroz. aos 7 de abril de 1252. Entre os séculos XII e XIV. proferiu terrível maldição contra os turbulentos e de imediato a casa desmoronou. obstando-lhes à penetração. polemista e. Ao seu lado. com germes internos que lhe minavam a vitalidade. prosseguia seu fervoroso trabalho de catequese. em 1221. mas ademais porque. dois partidos: o dos guelfos. combatiam os hereges. que prontamente assumiu a liderança da ofensiva. trucidando muitos inquisidores. sabedoria. o papa convocou o auxílio de Carlos D'Anjou. Ao invés. davam cobertura política e econômica aos hereges. que invadiu a península. de taumaturgo. ao serem os dominicanos designados para organizar o Santo Oficio. foi dura. sobretudo os cátaros. "Os cátaros não tinham inscrito em seu credo o ideal de pobreza apostólica e jamais a comunidade de bens foi proposta como objetivo do seu movimento". Conta-se que um dia. a Igreja. ao longo dos séculos XII e XIII. Outro motivo terá contribuído para esse apoio advindo de pessoas poderosas. em 1253. quando esse inquisidor lá apareceu a situação mudou como que por encanto. mantinha uma repressão atenta contra os adversários. também. e. ingressou na Ordem de São Domingos. sendo os cátaros afinal devastados. Pietro da Verona convocou nobres católicos para protegê-los. Como os inquisidores corriam muitos perigos e vários estavam sendo agredidos. conforme a vocação da sua Ordem. a noite cerrada das épocas de trevas começava a dissipar-se diante da aurora das . o desenvolvimento da economia citadina. favoráveis ao pontífice romano e que. já perfeitamente organizado. um número incontável de hereges foi sendo exterminado. Violante (in Le Goff. exemplo de vida e persuasão. por fim. postado no alto de uma casa. mas eles não se deixavam imolar passivamente. Oriundo de família cátara. Em Milão. alimentando a contenda. esmagando os que nela se achavam.144 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. na Itália. nessas condições. Vários deles haviam galgado postos de relevo na Administração pé- blica e contavam também com a proteção de muitos nobres e de famílias ab as tadas. e os gibelinos. perdurou um estado de guerra entre o papado e o império germânico. Com essa morte e impressionados pelos milagres que se seguiram. conseguintemente. o apanharam numa emboscada. Vendo inúteis todos os pedidos para que o tumulto cessasse. Assinala-o C. a explicação desse fenômeno deve ser buscada no pessimismo desencorajante da sua doutrina. presente em todas as camadas do povo. passou a mostrar sinais de exaustão. destroçando o partido gibelino e ocupando o reinado de Nápoles. A luta. 185). que se tornava assim atraente porque liberava os mercadores do tradicional escrúpulo católico relativo aos ganhos obtidos no comércio e no crédito. para explicar que. op. de sorte que um grupo destes. pela conjugação de alguns fatores. que na primeira metade do século XIII parecia tão forte que o tornava apto a disputar a Roma a posse de toda a Itália. Em conseqüência. Lea. reagiram também com violência. Nas cidades em que predominavam os gibelinos a reação contra os inquisidores mostrou-se muito intensa. Lentamente.-C. um dos primeiros escolhidos foi Pietro. o que deu forte alento aos guelfos na sua cruzada contra as heresias. onde ele extirpou os inimigos a ferro e fogo. Pôs-se a percorrer várias cidades. não s6 porque os hereges se haviam tornado bastante numerosos.

estava condenado a perecer" (op. O certo é que. Em conseqüência. cit. Impressionado todavia pelo intenso fervor que emanava do solicitante. pátria da hierarquia e do Direito Canônico.. Francisco. em 1210. 503). que se inclinava. mas uma mãe e fonte de toda ciência. em nenhum país da Europa os judeus viveram mais felizes do que na Itália. apostólicos. e multidões de hereges o fizeram'. pág.146 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. etc. a basílica de São João de Latrão. Certa feita. cujos membros se apresentavam com um rigor de vida e uma severidade de comportamento religioso sem dúvida impressionantes. para sustentar-se. De pronto. ela levava facilmente a produzir a adesão ou no mínimo a simpatia pelas crenças heréticas. que o levou a tudo abandonar: vestido apenas com surrado burel preso à cintura por uma corda. A idéia afinal não foi avante. o papa Paulo III tentou ainda reorganizar a Inquisição italiana. que foi entretanto mal aceita em várias cidades: Milão a recusou.. de modo que os tribunais do Santo Ofício acabaram por se tornar desnecessários e perderam quase toda a sua antiga importância. pregava o evangelho de Cristo ao povo e. a simplicidade. fazia trabalhos manuais. e dos franciscanos. da fácil confrontação entre os costumes do clero e a verdadeira vida cristã. tudo se reduziu a "uma breve chama protestante. os frades menores. cit. esses tribunais se reduziram quase só a assuntos menores e a funções burocráticas. viu em seus sonhos a igreja catedral de Roma. isto é. A influência dos frades que a compunham logo se tornou imensa. págs. com a presença das duas novas Ordens. Nessa figura Inocêncio III reconheceu o pequenino Francisco e. Inglaterra ou Espanha. impedindo-o de cair. quando o grupo já se compunha de doze membros. Francisco dirigiu-se a Roma para pedir a Inocêncio III a aprovação da sua obra. não enquanto inquisidores. à falta das grandes questões que lhes haviam dado outrora tanto poder. Os cátaros. assim como outros disseminadores de heresias. porque na Itália. os frades pregadores. saiu pelos campos tomado de intensa alegria... diante da ameaça protestante. a pobreza e. As almas se fechavam à sombria filosofia do pessimismo e já se percebia o futuro em que o homem devia ver na natureza não mais uma inimiga. O catarismo. sentiu-se tocado pela mão divina. Entre todos os soberanos italianos não houve ninguém mais afeiçoado aos judeus do que os papas do Renascimento. 16 de abril de 1210. Manselli (op. se autoproclamavam os "frades menores". não podendo evoluir. Vendo o mendigo esfarrapado à sua frente. assinala I-1. Os escassos hereges que ainda restaram não ofereciam real perigo e eram facilmente assimiláveis pelo corpo social. ameaçando tombar. na sua humildade. ofereciam um caminho reto para chegar a Cristo. II. todos unidos pelo ideal de se submeterem à "amiga pobreza". apareceu um homem andrajoso a correr pela praça e foi sustentar o edifício periclitante. Reconhece-o Werner Keller: "Durante a Idade Média. nasceu em 1182 na pequena cidade de Assis. Tal sucesso passou então a esvaziar as fileiras das seitas heréticas (valdenses. No século XVI. teve a intuição do importante papel que ele estava destinado a exercer como sustentáculo da fé. na Umbria. também amavam a natureza. aprovou-lhe as regras. suasoriamente ou pela força. reparava igrejas em ruínas. Com o ingresso da Idade Moderna. . dando começo ao que se veio depois a chamar a Ordem de São Francisco. para praticamente desaparecerem no século XV. etc. 2. a teoria maniquéia pouco a pouco perdia seu atrativo. Veneza cedeu com muitas restrições e mesmo em Roma houve revoltas contra esse restabelecimento. se aproveitavam. no dizer de Daniel-Rops. pouco a pouco as grandes correntes rebeldes da Itália se foram estiolando no curso do século XIV. mais calvinista do que luterana. pág. Aqueles novos religiosos que. A origem dessa Ordem é conhecida: seu fundador. sobretudo os papas da casa Medici. para se insinuar junto aos Géis. o papa resolveu meditar com mais cuidado. Preferível pois era segui-los do que enfrentar a Igre- ja através de outras tortuosas doutrinas. 309-10). no dia seguinte. supondo tratar-se de outro daqueles exaltados seguidores de um anárquico "cristianismo puro". ( (. companheiros se lhe foram juntando. mas pela sua capacidade de realizar no interior da sociedade em que estavam inseridos uma profunda transformação espiritual. que não constituiu grande risco para o catolicismo" (Renaissance et Reforme. A noite. cit. ao acordar. decisiva foi a influência conjunta dos dominicanos. Em seguida. Maisonneuve reportando-se a R. filho de rico comerciante. divulgando o Evangelho dentro da mais perfeita ortodoxia. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 147 idéias modernas e a humanidade deixava de rastejar no desespero. Aos poucos. dentro desse espirito. Passou a cuidar dos leprosos. Isso porém terminou ou pelo menos se tornou muito mais dificil. Os judeus não foram molestados pela Inquisição peninsular. Mais uma força a ser destacada está na influência dos franciscanos. esmolava. Leão X (1513-21) e Cle(1) Ou mais amplamente. Após uma juventude folgazã.) que buscavam o despojamento e se insurgiam contra a pompa da Igreja. O povo nunca havia sofrido perseguições e morticínios como na Alemanha. os cardeais prontamente o repeliram. 57). que infestavam o país. Como essa confrontação se mostrava normalmente em detrimento do clero.

cits. os companheiros de Francisco haviam vivido ao léu. a seguir. que era o do Evangelho de Cristo. haviam desertado para abraçar doutrinas que. as quais se vinham gener al izando em vários países. As marcas mais salientes que Francisco (1182-1226). A ruptura foi crescendo. chamado o pove- mildade e pobreza. os ideais do poverello foram sendo suplantados pelas necessidades práticas. Então. Não só eles. 359). passando os judeus a serem vítimas de várias restrições e perseguições. integravam a categoria dos "infiéis" e não tentavam conquistar os cristãos para a sua fé. tivessem usado a mesma moderação como a Inquisição romana. ela unicamente investia contra as pessoas que. Depois. Como característica essencial sua. considerando a sabedoria judaica como base importantíssima da vida intelectual que praticavam ativamente. havendo renegado ao catolicismo para retornar à fé judaica. cit. nada mais do que a roupa do corpo. Esmolando. sendo de origem católica. além de falsas... em meados do século XIII. imprimiu à sua obra consistiram nos ideais de hu- . ou. que. Os que o seguiam deviam estar imbuídos do mais absoluto desprendimento pelos bens materiais. as necessidades começaram a ser outras. aproximou-se do santo e lhe pediu auxílio. careciam de amparo econômico. sem interferência do Santo Ofício. na segunda metade do século XVI. como é fácil compreender. O fato é importantíssimo para revelar qual o efetivo espaço ocupado pela Inquisição. para que a Ordem se mantivesse coesa. mas todo o conjunto se teve de submeter a uma estrutura administrativa. Clemente VII permitiu inclusive a instalação de uma imprensa hebraica em Roma" (op. dormindo ao relento. ao partirem para terras estranhas. 3. se voltavam como inimigas contra a Igreja. Será pois de concluirmos com J. 30-31). a Porciúncula. choupanas improvisadas ou em igrejas. dedicando-se ao estudo. procuravam atrair outros membros do rebanho cristão.. que desejavam recuperar a pureza original. sua presença e sua palavra haviam bastado para iluminar os companheiros e mantê-los unidos na fé. pregando livremente a palavra divina. por acréscimo. mas somente um mínimo de comida. tornou-se preciso os frades adquirirem cultura. este lhe entregou a única coisa de que dispunha: o seu exemplar da Bíblia. o que houve foram medidas de reação contra os judeus. Não os preocupavam os hereges que guardavam para si suas crenças. O supra-referido Werner Keller. de mo- rello de Assis. Aprovada em 1210 com tão-só doze membros. uma mulher miserável. depósitos em que se armazenassem vestuários e alimentos. Nos primórdios. Profundamente lamentável foi o drama que sobreveio aos franciscanos. desesperada porque nada tinha para dar de comer aos filhos. dos estertores finais de uma Inquisição em vias de desaparecimento. foram queimados cristãos-novos fugidos de Portugal. Tratar-se-á. e. dispensários com provisão de remédios. passando por um noviciado de aprendizagem e. o qu al recebeu em audiência a um Reubeni e a um Molcho. foi nascendo a complexidade da organização. pessoas 'que resistiam a todas as tentativas de reconciliação. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 149 mente VII (1523-33). tanto leigos como eclesiásticos.. casas e conventos. inúmeros horrores teriam sido poupados ao Ocidente. Eram mais instruídos e mais tolerantes do que seus contemporâneos. da Itália eles se espalharam pelo mundo e com tão grande desenvolvimento. Doravante. se classificavam como "relapsos". etc. em 1219. antes. vedado lhes era aceitar dinheiro. Consternado porque nada mais trazia consigo. págs. fiscalizada e organizada. tornava-se indispensável haver pousos estáveis. poucos anos após. moderados. Se. que abrigassem os religiosos e as pessoas por eles assistidas. cit. etc. quando o santo conservava o vigor. prossegue sua exposição (obra e loc. Escusa demonstrar enfim que isso tudo passou a exigir consideráveis meios financeiros. confrontando-os com o papado e a Inquisição. sem pouso fixo. pág. as coisas mudaram em Roma. Rapidamente. que deu à pedinte para que o vendesse e pudesse comprar algum al imento. como recrudescimento da ofensiva. o suficiente para uso imediato. O sucesso da obra foi logo imenso. o T al mud ingressou no Index dos livros proibidos. em outros casos. todavia. alguns milhares de frades menores. Certa oportunidade. Por isso os tribunais da fé se ocupavam dessa gente. não podiam possuir nenhum patrimônio. aliadas ao dever de obediência. com bibliotecas à sua disposição. Obrigaram-nos a portar distintivos e a viver em guetos. e que. Em razão do exposto. quiçá. e a dos "conventuais". e a muitos dos seus membros pareceu que a irmandade deixara de seguir o modelo do seu fundador. mas sim aqueles que se dedicavam a uma atividade dogmatizante. se reuniram no seu local de origem. em cavernas. Os missionários. Nem assim o tribunal romano deixa de ser hostilizado. duas orientações passaram a firmar-se: a corrente rigorosa dos "espiritualistas".) queixando-se de que. Os adeptos de Lutero e Calvino nunca perdoaram à Inquisição o ter preservado a Itália — como também a Espanha e Portugal da infiltração protestante" (op. Bernard: "Se todos os tribunais do mundo. Os judeus eram diferentes.148 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. que aceitavam as inovações.

etc. exceto quatro deles. em sucessivas bulas buscou enfrentá-la em sua essência. é por este excomungado. individualmente considerado. que permanecem irredutíveis. quando possuía não mais do que um punhado de adeptos. torturados e alguns sofrem a execução capital. bem se percebe. Nesses termos. que reacende a luta. com a condição porém de se sujeitarem à mais estrita obediência à Santa Sé. e a Igreja teve de intervir. Diante desse firme combate. e terás um tesouro no céu. em rígida disciplina. e importava em desacredi- . recebe um apoio inesperado. unindo-se à seita dos fraticelli. descontrolada. mas também na Catalunha. na Alemanha. Revoltado. a questão estava sendo deslocada dos seus reais moldes. Em 1350. mas permitir que a sua Ordem dispusesse de um patrimônio. diante da sua recusa. eleito imperador contra a vontade do papa. João XXII retoma o seu posto. de onde. mas. p as sara a depender da posse de bens materiais. tornava-se imprescindível submeter seus integrantes a uma organização que deles cuidasse e os mantivesse na ortodoxia. a posição dos revoltosos levava a obstar a qualquer progresso material e cultural da obra. Nicolau III. Cristo dissera: Se queres ser perfeito. Valioso outrossim o argumento de que o que se pretendia não era impedir o despojamento de cada frade. em 1327. sem todavia resolvê-lo. se vão refugiar na Calábria. Na França. declararam propriedade da Santa Sé os bens temporais dos franciscanos. que por toda parte pululavam. Essas comunidades. Ao mesmo tempo. mas também em outros países. mas agora as circunstâncias se haviam tornado por inteiro diversas. sob o pontificado de Clemente VI. por ficção jurídica. que assume o poder com o nome de Nicolau V. em seu tempo. até que João XXII decide intervir com mais energia. . expulsos pelo povo. Entra então em cena a Inquisição. Com base em escritos de Pedro João Qlivi (ou Olieu) e de Joaquim de Fiore. Mais um grupo. sempre com ameaça de cisma. Quando porém o imperador volta à Alemanha. todos presos ao seu carisma. não só na Itália e França. O que pretendiam os "espiritualistas" era levar uma vida solta. dispersos pelas nações. sendo por isso relaxados ao braço secular e queimados. Cristo e os apóstolos. bem como seus trabalhos. Em Nápoles. no exato momento em que se dava a sua propagação universal. para atingir níveis intoleráveis. em 1245. mas mitigada. 21). contam com o apoio de São Bernardino de Siena e se multiplicam rapidamente não só na Itália. que os exporia a erros e ao risco de se deixarem influenciar pelas variadas seitas heréticas mendicantes. e. chamadas "de observância estrita". e quando a eficiência dos seus trabalhos. para salvá-la. que estava sendo desobedecido. se o fizesse. que essa fórmula contornava o problema central. em 1231. os "espiritualistas" são autorizados a se reunirem em conventos próprios. no sul da Itália. Saltava aos olhos. A insubordinação se foi assim avolumando. quando a Ordem contava crescente número de milhares de membros. mas seus membros fogem para a Sicília. que eles acusavam de acumular riquezas. para o despedaçamento. vai. estes podiam permanecer fiéis à regra da pobreza.r tar o restante clero e a Igreja. conseguintemente. Urgia por fim prestigiar a autoridade do romano pontífice. perseguindo os "espiritualistas" por toda parte. Luís da Baviera. a revolta vai aos poucos cedendo passo. os rebeldes insistiam em que Jesus Cristo e os seus apóstolos nada haviam possuído e que o mesmo deveria ocorrer com aqueles que pretendiam imitá-los. é perseguido pelo inquisidor de Florença. sua reputação. e o papa João XXII. em cuja presença a maioria dos acusados acaba cedendo. bem como no exemplo de São Francisco. demonstrando que a pobreza do Salvador e dos apóstolos não fora absoluta. para arredá-lo de vez. Pedro a ele se submete e seus partidários que não cedem são perseguidos e levados à morte pela Inquisição. um frade franciscano espiritualista. se tornaria herético e. A Ordem de São Francisco ameaçava assim resvalar para . e. de sorte que a disputa prosseguiu. e segue-me (Mt 19. em seu lugar. coloca Pedro de Corbaria. em larga escala. Como entretanto o partido contrário se recusa a obedecer. ele depõe João XXII e. em 7 de maio de 1318. Gregório IX. chega-se a uma solução de compromisso. No início do século XIV. não deveria ser obedecido.150 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. até que. podiam ter mantido certo estilo de vida. quarenta e dois rebeldes são instados a se submeterem e. em 1279. Inocêncio IV. seus representantes são levados ao inquisidor de Marselha.. o Santo Ofício alarga sua interferência. tentaram-se meios suasórios. com o que. e dá-o aos pobres. Ademais disso. Verifica-se pois que o problema permanece latente. outros são flagelados e depois expulsos. em precário estado de equilíbrio. no entanto. na Toscana. a partir de 1317. as duas facções permanecem unidas. Idem São Francisco. depois vem. No início. vende o que tens. impondo o ponto de vista conventual. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 151 do a pôr em perigo a unidade da Ordem. Fácil era realizar o programa de pobreza total em pequena escala. Passaram a sustentar que o papa não dispunha de autoridade para contrariar os Evangelhos.o caos.

diante de abusos neste apurados. A Igreja. às dezenas. Sucessivos concílios também se debruçaram diante do problema. Com isso. inclusive disso se servindo para usurpar bens eclesiásticos. e se vão queixar ao papa. com seus frades brancos. La Cathédrale et la Croisade. ali chamados albigenses devido à forte influência que exerciam na cidade de Albi. a vida dos padres fazia escândalo com demasiada freqüência" (Daniel-Rops. durante o século XIII. pág. os padres sem honra. apesar de tudo.. um órgão permanente e com independência perante as autoridades locais.152 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. Gregório IX. o povo os recebia com naturalidade e muitos mandavam os filhos estudar em suas escolas.-P. Domingos. Aos poucos. Um desses enviados. Desse modo começou a obter êxito e as conversões passaram a surgir. Retoma assim fôlego a Inquisição e leva avante seus trabalhos com energia. os poderosos incentivavam os dissidentes e a Igreja. alarmando-se. pretextando excessos. apenas com seus tribunais diocesanos. nomeando-o Inquisidor Geral para a França. cincoenta hereges são mortos. Inocêncio III decidiu cuidar com mais eficiência da questão. No início de 1239. examinando o caso. inaugura a verdadeira repressão e em 1233 queima inúmeros hereges. tudo em autêntico clima de guerra. com rica equipagem.. os cátaros "perfeitos". Estavam infiltrados na maioria das famílias poderosas e mesmo no clero. Verdadeiro deixar-seguir atuava em matéria religiosa. Durante meio século a Igreja manteve admirável paciência. massacres. a situação religiosa se vinha tornando catastrófica.. Gregório IX volta atrás e dá mão forte a Le Bougre. não dispunha de uma organização realmente forte para debelar o mal. "Em todo o Midi. 22). As cidades eram demais ricas. Medidas mais fortes eram na verdade indispensáveis. ao verem assim diminuídos seus poderes. pág. mas a autonomia das igrejas locais" (op. descalço. a situação política (2) Consoante J. a alegação de abusos não passou de pretexto. Isso contrastava chocantemente com a simplicidade dos seus oponentes. Os cátaros. uma tolerância feita sobretudo de indiferença. Na região sul da França. atacando sobretudo as comunidades cátaras estabelecidas na Champagne. Até então. da pregação e da dissuasão pública. horrorizando-se com o que viu. 667). em maio do mesmo ano outros 147 vão para a fogueira. retomando poderes a Justiça diocesana 2 . antigo cátaro que viera a ingressar na Ordem de São Domingos. a pa rt ir de 1231. mas subordinado diretamente à Santa Sé. No sul. aquele inquisidor é suspenso das suas atribuições. mas afinal ele teve a boa idéia de recorrer a Domingos de Gusmão. porque a heresia estava profundamente disseminada. os resultados foram relativamente medíocres. não há mais do que cristãos sem Cristo". Dedieu. que compareciam aos debates humildemente. mendigando o que comer. etc. Continua firme no entanto a oposição dos bispos. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA . freqüentemente em altas funções públicas. com o que o papa ordena um inquérito e. seguindo pelas estradas a pé. todavia. Seguem-se altos e baixos. se achava em plena decadência. Exige-lhe todavia prudência. mas os resultados foram praticamente nulos. irradiando simplicidade. todavia. A partir de 1198. isto é. simonia estava em todo lugar. os papas passaram a organizar cruzadas e a enviar representantes seus para enfrentar os rebeldes. Por fim.153 4. novas cruzadas vindas do norte do país. Seus primeiros delegados nada conseguiram. Dando início aos trabalhos. com o que. Vários nobres aberta ou encobertamente os apoiavam. começou por fazer uma observação que parecia verdadeiro "ovo de Colombo". encontraram assim terreno extremamente fértil para progredir. exclamou: "As basílicas estão sem fiéis. mas. cit. Roberto Le Bougre é definitivamente destituído e condenado à prisão perpétua. São Bernardo. os representantes papais vinham cumprindo su as missões com grande pompa. acompanhados de vistosos séquitos. a. cessa a Inquisição monástica no norte do país. Os judeus eram em toda parte admitidos. ordenando medidas que não surtiram efeitos apreciáveis. Já no ano seguinte. devendo sempre agir de comum acordo com os bispos. "Os mesmos bispos que protestavam contra a dureza das sentenças inquisitoriais não se privavam de enviar hereges à fogueira. Os bispos locais não se conformam todavia. dada a amplidão que havia atingido o problema. em tal clima. nem uma abstrata concepção de justiça. com o que de pronto despertavam a simpatia do povo. ocupavam altos cargos públicos. os fiéis sem padres. Em lugar nenhum os vícios se expunham tão abertamente. inverteu a situação. Eles não defendiam nem os cátaros. . o Cristianismo estava longe de ter conservado a intensidade de vida que ele possuía no norte. o inquisidor Roberto Le Bougre. a existência era demais fácil. optou por criar a Inquisição. no Languedoc e na Provença. o clero achava-se minado. cit. excetuadas as regiões do Languedoc e Provença. diante de ambiente tão conturbado e vendo a ineficácia dos bispos. em 1234. Estava-se mais preocupado com as cortes de amor e de poesia galante do que com certezas metafísicas. Este. enfrentando a heresia tão-só com as armas da caridade. isto é. «refinado e fútil».

propícia a inflamar as imaginações. os valdenses e outras seitas menores. este último e alguns companheiros foram vitimas de uma emboscada e massacrados. tratando-se de uma organização fechada. 25). em derradeiras operações de limpeza. vieram assediar Montségur. diz E. A severidade é grande. . em Tolosa. sendo por isso reunidos e queimados ao pé da muralha da cidade. agindo ponderadamente. 5. renegam a Cristo. "Nós o sabemos agora. "foi o processo mais franca e exclusivamente político de que participou a Inquisição" (op. necessita desesperadoramente de recursos financeiros e obtém da Inquisição que instaure um processo contra os templários. A queda desse poderoso templo do catarismo representou a mais terrível perda para a heresia. A partir de 1234. cruzados vindos do norte submetem a região e é assim num pais ocupado que avança a intervenção inquisitorial. a cargo dos dominicanos. logo a cerca uma aura de mistério. alega-se. com reuniões secretas. Carcassonne e Provença. como forças vivas. praticamente desapareceu das cidades. continuava a medrar a heresia. por vezes. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 155 se tornara extremamente confusa. A Ordem dos Cavaleiros Templários. Nessa altura. exigindo mais moderação. se imporá a pena de confiscação de bens. ao contrário dos cátaros. no qual. cit. a prisão perpétua. sobrevindo a condenação. mercê do tenaz trabalho da Ordem de São Domingos e. muito rica e soberba. dos frades franciscanos. Filipe o Belo. Trezentos e dez "perfeitos" no entanto recusaram a conversão. e. que ela era temida pelos hereges porque se mostrava capaz de suplantar as proteções locais de que eles gozavam e que haviam freqüentemente bloqueado a ação de outros tribunais: ela constituía para eles uma ameaça permanente e os fazia viver.-P. Por fim. como sua presença na Palestina se tornara dispensável. com interesses conflitantes que opunham o condado de Tolosa ao rei da França e aos barões feudais. rei da França. centenas de hereges são levados à fogueira e se desenterram os cadáveres de outros.' são queimados. Pouco a pouco. um dos raros chefes cátaros ainda em liberdade. sublevou-se. no que não foi atendido. Burman. o conde Raimundo VII. informa também J. como vimos. o inquisidor Guilherme Arnaud excomunga Raimundo VII. Dedieu. obtém do papa que torne sem efeito a sentença de excomunhão e exija dos dominicanos maior moderação em seus procedimentos. Este último. Restaram então. pág. Logo após. cento e trinta e oito deles são interrogados sob tortura. a heresia cátara foi recuando. Aos poucos. sempre pelo estudo dos seus arquivos. por volta de 1300. praticam ritos sacrílegos e imorais. mas igualmente devido a intens as campanhas de catequese e pelo bom exemplo de vida simples oferecido pelos religiosos dominicanos e franciscanos. os templários retornam à Europa.154 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. pág. convoca-se então a intervenção de São Luís. fundamente arraigada no povo. foi fundada na Palestina em 1119. três tribunais se instalam. Em meio a esse complexo jogo e dele se servindo. que. uma das derradeiras praças fortes em que se abrigavam os cátaros. Estabelecido esse regime de terror.. que ingressou então em franca decadência. No início do século XIV. cit. reacende-se a controvérsia entre Raimundo VII e Guilherme Arnaud.. a Inquisição de Tolosa apenas pronunciou um por cento de condenações à morte no conjunto das sentenças. A conseqüência imediata do escandaloso fato foi a chegada das tropas reais que. m as atuavam empiricamente. alguns destes são assassinados e vários dos seus prisioneiros libertados. por sua só existência. Morto porém Gregório IX. ao tempo das cruzadas. com aprovação do legado pontifício 3 . na França. Todos esses grupos também foram sendo paulatinamente debelados através não só de uma perseguição intermitente contra eles movida pelos tribunais diocesanos e inquisitoriais. pena que implicava na confiscação de bens e na reclusão ao «muro». e. e os restantes confessam os crimes que lhes são imputa- (3) Os trabalhos inquisitoriais acusados de excessiva severidade. em virtude da qual trinta e seis morrem. ele expulsa os dominicanos. em maio de 1242. expostos em cortejos pelas ruas. outra vitória importante consistiu na captura de Pedro Autier. se desenvolviam entretanto com moderação. após exame de seus arquivos: na segunda metade do século XIII. a qual se rendeu em 1244. com ainda algumas execuções capitais ocorridas entre 1319 e 1321. são idólatras. Presos em fins de outubro de 1307. de natureza militar e religiosa. na insegurança" (op. Dois casos houve. ela se foi envolvendo em negócios e acabou dona de considerável fortuna. essa Ordem recupera seu poder e volta a investir com acentuado vigor. As acusações são fáceis e confluem para a de heresia: os réus. rei da França. etc. que. e pouco mais de 15% de reconciliações. 103). Sabe-se outrossim. cospem sobre a cruz. de Tolosa. Diante disso. Nessa época. Os espíritos se esquentam. passou à clandestinidade e. que. com o objetivo de proteger os peregrinos que se dirigiam à Terra Santa. recus ando submissão à Igreja. não se alicerçavam em doutrinas elaboradas. Para solucionar a contenda. Apoiado então pelo povo. em que o Poder político se serviu da Inquisição com baixos propósitos: o processo dos templários e o de Joana d'Arc. em 1243. . foram sendo neutralizados os últimos redutos da heresia em várias localidades.

na catedral de Reims. grande parte do seu território. embora ferida não desanima. Se a Donzela não fosse também julgada e queimada como bruxa. até os últimos. em Reims é coroado o rei Carlos VII. "Algumas observações se impõem. 115). De tal modo impressiona. sua confiança são fascinantes. seus aliados franceses. pretendente à coroa da França. para lhe surpreender alguma frase comprometedora. se as suas vitórias não fossem atribuídas ao demônio. acaba cedendo às suas pressões e lhe aprova os atos. Nas idéi as do tempo não havia meio-termo. Joana é aprisionada pelo inimigo e transportada para a cidade de Ruão. viera da longínqua Lorena. ficariam na opinião do povo como milagres. resvalando para a heresia. em 1428. A situação se vai tornando assim imensamente perigosa e. haviam sido bem e lealmente vencidos. Enfim e sobretudo. A ré se mantém firme. vestida de armadura branca e portando um estandarte. a tenacidade do rei e a fraqueza do papa dão a medida do poder do Estado sobre a Igreja com um objetivo que nada tem a ver com a ortodoxia das vítimas. mas. Filha de modestos camponeses. persegue depois os ingleses. para tornar despercebida sua condição de mulher. entra a causa na fase decisória. indaga H. mas pouco depois. op. faz-lhes desaparecer o medo e consegue. exasperados por ódio e humilhação. submisso ademais ao rei. ao ver São Miguel. no entanto. sob a presidência do bispo Pedro Cauchon e do dominicano João Le Maitre. que se proclama enviada pelos céus para livrar Orléans e sagrar o delfim Carlos como rei. No mês de maio. libertar a cidade. a condenação das vítimas. diante de delegados pontifícios. Quando lhe indagam se. para o Cardeal que tudo dirigia" (J. sentem-se em xeque e se vêem na necessidade resguardar o próprio brio. Arremessa-se ela com incrível intrepidez no meio das espadas adversárias. Diante do escândalo que o fato provoca. A frente das tropas. provocando um sínodo para julgar o processo. Logo nesse mesmo dia cincoenta e quatro templários já são queimados e aos poucos os outros seguem a mesma sorte.. tudo porém em vão. Graças a isso. as sistidos por abundante corpo de assessores. protestando inocência. infiltram um espião no presídio onde ela se acha detida. Grande é portanto o alvoroço dos ingleses e dos borguinhões. o que a coloca sob a jurisdição não só da Justiça eclesiástica regular. Seguem-se inúmeros interrogatórios exaustivos. ela responde: "Acaso pensais que Deus não dispunha do que vesti-lo?" Muito impressionam as vestes mas culinas que ela havia portado e o fato de trazer curtos os cabelos. aos 8 de maio de 1429.Maisonneuve. cit. sendo homem de saúde delicada e caráter fraco. págs. Como essas confissões não foram desmentidas. mas o papa está praticamente sob as ordens do rei. pág. quando surge na corte de Carlos de Valois. por fim. a cidade de Orléans é sitiada pelos ingleses. as vozes celestes que ouviu. Aos 12 de maio de 1310 lavra-se a sentença. Descreve as visões que teve.. cit. apresenta-se em trajos masculinos e com os cabelos cortados rentes. executados em Paris. Se a fraqueza de Clemente V é manifesta. Apavorados. a responsabilidade de Filipe o Belo nesse trágico acontecimento é inteira" (op. pois que a sua causa era a do diabo. m as sobretudo as alegadas visões e aparições de anjos e santos. que são decisivamente vencidos na batalha de Patay. os templários se retratam. Esta conclusão. voltam a confessar. como obras de Deus. A INQUISIÇÃO NA ITÁLIA E NA FRANÇA 157 dos. aos 18 de março de 1314. As acusações dirigidas contra os templários não parecem fundadas. Michelet. "Que pensar desse processo?". com Joana à frente. a despeito das confissões obtidas por meio da tortura. Seu entusiasmo. A tortura é . Filipe o Belo força então os acontecimentos e precipita o seu desenlace. Em janeiro de 1431 tem início o processo. tendo esta última. era-o ainda muito mais para um governo de bispos como o da Inglaterra. de todo o seu ser emana forte odor de santidade. Os ingleses. elas podiam ser tomadas juridicamente em consideração e justificar. intolerável para o orgulho inglês. e porque pretende participar de batalhas. o que a exporia a maiores riscos. em que se digladiam Inglaterra e França. Acusam-na de feitiçaria. andara por caminhos infestados de salteadores e de soldados. "Era tal a raiva deles contra a Donzela que uma mulher foi queimada viva por haver dito bem dela. mas também da Inquisição. Logo após. 6. Então Deus seria contra os ingleses. este se achava nu. o papa Clemente V protesta. Acha-se em curso a chamada "guerra dos cem anos" (1337-1453). 89-90). por temor a uma continuação da tortura. Paris inclusive. consoante o Direito inquisitorial. que qualifica os acusados como hereges relapsos e os condena à fogueira. concitando-a a salvar a pátria. seus habitantes se dispõem a fugir. Aos juizes interessam não só o p as sado religioso da acusada. transforma todas as pessoas em soldados. após pesadas derrotas. Os inquisidores estão às ordens do papa. uma jovem de nome Joana d'Arc (1412-31). conforme predissera aquela que se tornou daí por diante conhecida como a "donzela de Orléans". ocupado pelo inimigo. Seguem-se estranhos avanços e recuos: de novo interrogados. que o inteiro povo logo se dispõe a segui-la e se lança à guerra.156 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIII. Realizam-se pesquisas na terra natal de Joana.

profundamente dissolventes. por se considerarem suficientes as provas já colhidas. mas a esse religioso foram dados poderes que o faziam depender diretamente da Santa Sé. A data é 30 de maio de 1431. Os Irmãos do Livre Espírito defendiam uma tese panteísta. "violando o preceito divino de amor ao próximo". Denunciado logo o fato. algo misterioso ocorre: parece que a prisioneira foi violentada. notável pela sua firmeza e pelo extraordinário zelo. Concluindo. sobrepondo-se à autoridade dos bispos locais. Magia e bruxaria. nos seres humanos. As cinzas que restam são dispersadas nas águas do rio Sena. e ter rejeitado o hábito feminino". presunçosa e fortemente suspeita de heresia. o ódio aos borguinhões. é preciso que morra sob o labéu de bruxaria. a necessidade de verter sangue. Tudo d'Ele provém. Conrado de Marbourg. As aparições de anjos e santos são qualificadas como ilusórias. Apóstata. nada tem a fazer a Igreja. que a seu ver fora injustamente banido do céu e que um dia triunfaria. Joana d'Arc conta apenas dezenove anos de idade. Como bem se percebe. desconforme e desonesto contra a natural decência. 3. que fizera voto de pobreza. . A INQUISIÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES. nos animais. nelas insistindo. Por esse tempo. sem outra alternativa. assim desmoralizando-se. Reúne-se então o tribunal. Logo mais. que a consome lentamente. caso contrário. orador inflamado. assina com uma cruz a declaração de arrependimento que lhe haviam preparado.15 8 JOÃO . apavorada ante a perspectiva de ser queimada. MAGIA E BRUXARIA 1. c ( . no caso. Assim quando. em 1227. XIV. contra toda a honestidade de mulher". é conduzida portando na cabeça uma coroa de papel onde estão escritas as palavras "Herética. impõem-lhe. o que automaticamente a sujeita ao braço secular. não sabendo escrever. inúteis são as boas obras e o culto exterior. a ré se tornara temerária. suas roupas desaparecem. mendigando o pão de cada dia. mas se apresentavam também prenhes de conseqüências morais e sociais. e convida a prisioneira a abjurar suas faltas. todos os anos. Os ingleses agora se apressam. arma-se este dilema: se a pseudovidente se retratar. Outros países. sugeridas pelo demônio. com grande pompa. que se espalhavam pelo país em grande número. ela aceita e. em todas as criaturas. de tal sorte que esta. Alemanha. vale dizer Satanás. Os cátaros eram ali raros. BERNARDINO GONZAGA dispensada. diante do povo ali reunido. Joana. as conclusões brotam naturalmente: Joana renegou a anterior abjuração e se tornou relapsa. blasfematória. a pena de morte. Conrado pareceu desde logo a pessoa indicada para dirigir os trabalhos. será entregue ao braço secular. tais crenças possuíam não só um valor religioso negativo. e a Ele fatalmente retornará após a morte. inexistia ainda uma Inquisição juridicamente organizada. mantinham o hábito de fingir que comungavam. como se fosse um Inquisidor Geral. ( 1. Nessa altura. Grande destaque é dado ao fato de Joana "haver cortado os cabelos. Nesta se lê inclusive que ela lastima "ter portado hábito dissoluto. Mesmo presa. no regime do "muro estreito". que Deus dá como um véu à mulher. suplantando Deus. Os primeiros honravam Lúcifer. enfraquecida pelos maus-tratos recebidos. havia na Alemanha um religioso do mais alto prestigio. a prisão por toda a vida. Na Páscoa. Gregário IX se dispôs a enfrentar com pulso firme as heresias. Preparam imensa fogueira na praça central de Ruão e. 2. Exausta. Assim sendo. negando-se qualquer importância aos seus sacramentos. para o devido castigo. tanto ela como o rei Carlos. inexistem o purgatório e o inferno. após se ter confessado e recebido a comunhão. sofrerá tão-só a prisão perpétua. Documentos fragmentários do século XIII revelam a existência de vários casos de infecção nas províncias germânicas. se vê obrigada a recorrer às antigas vestes masculinas. Isso feito. Duas destas merecem particular destaque: a dos luciferanos e a dos Irmãos do Livre Espírito. como penitência. a autoridade inglesa. Aos ingleses não satisfaz porém tal solução. consoante a qual Deus se acha em toda parte. A isso se somara a avidez de guerrear. Joana continua a exercer grande fascínio. que incentiva seu povo à luta. Logo. que é. e cabelos aparados à maneira de homem. além de variadas outras seitas menores. Amarram-na ao poste e acendem o fogo. Relapsa. de sorte que. ao inverso dos valdenses. Idólatra". isto é. para conservar a hóstia na boca a fim de cuspi-la depois nos esgotos. à noite. que os tribunais episcopais procuravam debelar.

As autoridades diocesanas continuam no entanto a reagir p assivamente. Seguro então da sua força. ocorreram. diante de uma realidade em que governantes e largas porções do povo aderem em massa à causa protestante. bem como concorreu também a doutrina cátara. Nesse entretempo. 464 e segs. que ele acusa de desvios religiosos. Equivalentes sucessos. morto Luís da Baviera. a exigência constante de milagres. Na região do Reno. para o que muito contribuíram as cruzadas. nos Países-Baixos. vale dizer. e de igual modo agem os bispos de várias outras localidades. por Inocêncio IV. Em 1325. Ao contrário. Acima de tudo. e Conrado. Somente um século mais tarde a Inquisição dominicana reaparece. o novo imperador. alternando-se o predomínio dos inquisidores e o da hierarquia regular. op. Dessa maneira prossegue um trabalho intermitente e irregular. concedendo-lhe todo o apoio do braço secular. contra os quais se desencadeia severo combate. e Gregório XI. fortes influências do Oriente. v. na Silésia. dentro da qual se desenvolveu entretanto o mau fruto da superstição. ciosos das próprias prerrogativas e magoados pela intrusão em seus domínios. no momento em que a vaga protestante se precipita. dominaram portanto as autoridades religiosas locais. desiludido. outros. fortificou-se a convicção de que Deus. como instituição organizada. .. Polônia. Em 1229. conde de Sayn. mutatis mutandis. Somam-se conflitos religiosos com graves problemas políticos. Reagem todavia os heresiarcas. 2. etc. aos poucos. Os papas . os santos e. sociais. o demônio estão sempre presentes neste mun. cit. quando Conrado recebe ordens para redobrar a energia. Gregório IX quer organizar uma cruzada para restabelecer a ordem e punir os culpados. até que. Martinho Lutero apresenta as suas proposições na Igreja de Wittenberg e as defende publicamente. Carlos IV. 3. Novo apoio lhes é dado pelo concílio de Constança (1414-18). em 31 de outubro de 1517. as investidas se tornam demais violentas. com as mesmas dificuldades do papado perante as hierarquias nacionais. Na verdade.160 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIV. o acentuado apego a relíquias. é absolvido por um tribunal improvisado. todavia. devido à resistência que sempre mantiveram os bispos e arcebispos. que é restabelecido por Clemente VI. cabe dizer que já se acha montado todo um sistema repressivo eficaz e bem coordenado. quase sempre de duvidoso ou nenhum valor. Horrorizado pelo ocorrido. senhores poderosos. em 1349. é descoberta poderosa rede de valdenses em Estrasburgo. Em 1231. quando vem a ser assassinado. A questão todavia se complica. mas a idéia não se concretiza.). se submetem a diversas penitências. quando trouxeram de volta. em suas bagagens. não dispõe de força para bloqueá-la. à frente de uma Igreja muito forte. ao terror desencadeado por Conrado de Marbourg sucede alguma tranqüilidade. procu- ra moderar o ardor dos seus delegados e convoca o auxílio dos bispos para que intervenham. a crença na Astrologia. arrependidos. almejam reavivar o Santo Ofício. Hungria. No final do século XII surgiu notável eclosão de espiritualidade popular (cfr. J. o que provoca reações. e por Urbano V em 1367. Em razão disso. A INQUI S IÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES 161 Convocados para o combate os irmãos de São Domingos e de São Francisco. a Igreja nada mais pode fazer. disso informado. Lortz. com altos e baixos. também. alguns deles são queimados. Inúmeros hereges são por eles exterminados na Alemanha central. I. já no século XIII a atuação inquisitorial entra em ponto morto. econômicos e. alia-se ao bispado. que com tanta força se infiltrava entre o povo. mais adiante. o principal acusado. que determina a extirpação das heresias através de um controle permanente. almejando suplantar a Igreja. a importância emprestada a amuletos. em 1352. de maneira que os trabalhos ficaram a cargo dos tribunais ordinários. Nesta última se mesclavam o sobrenatural e o terreno. pág. em várias outras regiões da Europa: Boêmia. enquanto os novos inquisidores se lançam à sua missão com vigor. com o que retomam estes sua força. Em 1261. pretende retirar-se para sua cidade natal. torna-se já impossível qualquer eficaz reação católica. Quando. do qual são incumbidos os bispos e os príncipes. Flandres e os Países-Baixos vieram a ter tribunais inquisitoriais próprios desde 1240. para reatar a luta contra as heterodoxias. o arcebispo de Colônia liqüida algumas dezenas de hereges. omitindo-se todavia a presença dos dominicanos. em concílio realizado na cidade de Maiença ela é reavivada.g. pela surda oposição que lhe fazem tanto os nobres como o bispado. a Inquisição jamais se implantou na Grã-Bretanha e na Escandinávia. Em 1347. Conrado passa a hostilizar alguns nobres. a Inquisição encontrou enormes dificuldades para se estabelecer em solo germânico. A Inquisição jamais dispôs de grande força na Alemanha e agora está condenada a ali desaparecer. se vai avolumando a crise que levará à Reforma. fogueiras começam a iluminar-se. Alguns dos produtos mais salientes do fenômeno foram o milagrismo.

Henningsen adverte porém ser preciso cuidado ao recorrer ao diagnóstico psiquiátrico para explicar a bruxaria. o mago e toda a cultura em que ambos se acham imersos. mas apenas tese comum. e era voz corrente que também se procedia ao sacrifício ritual de crianças. a perspectiva de que essas uniões pudessem gerar frutos. está mais interessada em filtros. adivinhações.Is (e a interpretação dada pela tradução grega dos LXX).a 162 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIV. de que estão imbuidos ele. se achava desprevenida. pela justiça e pelo bem que animava os Inquisidores de modo geral" (Estêvão Bettencourt O. Na Tradição cristã. morais e sociais. cit. reunia bruxos e bruxas. As vezes isso ocorreria quando a vítima. provocar tempestades. A magia. famoso foi o "sabá". apenas sugestionadas pelo ambiente em que viviam (op. novembro de 1991. Ha- (2) "Evidentemente em nossos dias nenhum teólogo afirma que o demônio tem corpo e pode efetuar cópula sexual. para estelionatos. Seguiam-se comidas e bebidas fartas. as modernas Psicologia. muito comumente. G. imiscuindo-se materialmente nos negócios humanos. impotência ou esterilidade sexuais. poções. prejudicar animais ou plantações. não levam em conta os textos que exprimem o ardente amor pela verdade.. desequilibrados mentais. e. Gn 6. que se comprovava. o sujeito pretende ter domínio sobre as forças da natureza. em que o bruxo e o mago tiravam proveito econômico dos seus "clientes". em decorrência da sincera persuasão sobre o valor da magia. para produzir fenômenos contrários às leis naturais. porque a maioria dos que a esta se dedicavam eram pessoas perfeitamente normais. que já conhecemos. Os historiadores que hoje consideram esse passado. inundações. incêndios. Os estóicos imaginavam o pneuma divino como algo de corpóreo a penetrar o mundo material. Bem ilustra a idéia dessa intervenção divina o recurso processual. montadas sobre vassouras ou sobre animais (estes nada mais sendo do que o diabo). assembléia que. .. cf. cegueira. em regra através de envenenamento. Os judeus iam mais longe: admitiam que os anjos tivessem pecado sexualmente com mulheres. Os antigos. em Pergunte e Responderemos. para fraudes. com auxílio de forças ocultas provindas do além. Tais aberrações. elixires. exigindo dos antigos o que eles não sabiam nem podiam dar. A INQUISIÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES 163 do. Havia firme convicção de que os demônios podiam manter relações carnais com seres humanos. reagisse energicamente contra tão grande mal. O que apenas cabe dizer é que a bruxaria costuma ser mais aparatosa e com maior freqüência supõe a imediata intervenção demoníaca. Começava a festança quando todos deviam beijar o traseiro desse animal. Os efeitos objetivados através dos feitiços eram os mais variados: afetar pessoas. isento de corporeidade (ainda que etérea ou sutil). fatalmente. sob a presidência do diabo com a forma de um bode. Muita angústia deveria causar. (1) Modernamente não se duvida da possível eficácia dessas atividades supersticiosas. Tal eficácia real em vários casos.. Rio. como se vê. constituíam riquíssimo caldo de cultura para desordens religiosas. pág. para homicídios. "Compreende-se que quem abraçasse tal pressuposto e admitisse a existência de íncubos e súcubos. para desvios de fé. independente de qualquer constituição somática. violências e orgias sexuais. 496-7). quando a vítima nela acredita. hoje. chegando até mesmo a morrer '. em meio a imensas orgias e depravações sexuais. produzindo-lhes amor ou desamor. inclusive com os demônios presentes.. É espirito. nunca foi dogma de fé. doença. num crescendo que atingiu o seu ápice durante os séculos XIV e XV. a estereotipada imagem de bruxas voando pelos ares. Pode ser magia "branca" ou "negra". etc. na meia-noite dos sábados. ao invés.B. a diferença essencial que se queira estabelecer entre magia (ou feitiçaria) e bruxaria. muito concorreria para reforçar na alma popular a crença na magia. dormindo. acarretando toda sorte de malefícios. etc. dando ocasião ao dilúvio narrado em Gn 6-9. Os medievais faziam de boa fé. conforme se proponha a atrair uma pessoa para algo bom. págs. É muito sutil. tanto demônios masculinos (íncubos) com mulheres. como demônios femininos (súcubos) com homens. se não artificiosa. as ciências naturais estavam absolutamente despreparadas para explicar muitos dos fenômenos. que se apresentavam.. na crédula alma popular. dentro das categorias de pensamento que lhes eram familiares e de cuja validade não duvidavam.S. Muitos feiticeiros e bruxas se reduziam a mulheres histéricas. com a imagem de satã sobre o altar. meio humanos. verbi gratia. ou a lhe causar algum dano. ou desconformes às suas causas. morte. infanticídios. Psiquiatria e Parapsicologia. tal concepção esteve presente até o fim da Idade Média. que se avolumavam. loucos de todo gênero. rezas de suposto efeito milagroso. 2 Naquelas épocas. Além da missa negra que se relizava nos dias santos. em que o desfecho letal realmente sobrevém por efeito de certos mecanismos psico-fisiológicos que sofre o paciente. 233). tendem a julgá-lo através das categorias de pensamento modernas. porém. Desvendam-nos. etc. Em ambas. E inclusive sabido que a magia pode efetivamente surtir efeito. pessoas sensitivas ou demais sugestionáveis. encantamentos. tiveram dificuldade de conceber um espírito puro. envenenar cursos d'água ou fontes. Foi no bojo dessa cultura que se desenvolveu enormemente a prática da magia e da bruxaria. meio satânicos. reais ou ilusórios. impregnando com grande intensidade as mentes medievais. Descambavam. dos Juízos de Deus ou ordálios.

esta última deveria conhecer apenas dos casos em que se vislumbrassem conotações heréticas. nem faça cousa. cujo Livro V cuida. ou parte de cada huma destas cousas. para fazer com ella alguma feitiçaria morra morte natural. crystal. como ensina a doutrina católica fundamentada nos Evangelhos. de qualquer qualidade e condição que seja. ou der a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa para querer bem. ou fazenda. a História ainda registra alguns casos em que os tribunais seculares sancionaram a magia e a bruxaria. ou para fazer dano a alguma pessoa. que em circulo ou fora delle. Paulatinamente. O papa Alexandre IV. e equivalente foi o pensamento calvinista. transformando-a em instrumento para a prática do mal. de modo geral. nem traga consigo dente. para deixá-lo somente a cargo da Justiça comum. considerando que tudo não passava de simples práticas supersticiosas." E por aí segue impávido o legislador lusitano. sem permissão divina. que toda pessoa. em 1258. exceto nas conjunturas em que se apresentasse alguma perigosa heresia. de outras variadas hipóteses. a jurisdição secular e a eclesiástica.. ou em encruzilhada invocar spiritos diabolicos. oscilou muito." ( 164 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIV. baixou várias bulas ordenando que o Santo Ofício cuidasse das causas versando sobre encantamentos. Em princípio. produzida pela exploração de superstições. spelho. De modo geral. até mesmo com a pena capital. spada. que de Lugar Sagrado. para reforçá-los. no Título III. Sobrevindo a Reforma protestante. convenceu. Tamanha desordem. delineou essa competência inquisitorial e João XXII. deixaram de ser consideradas delituosas. ou de qualquer alienaria. ou não Sagrado tomar pedra de Ara ou Corporaes.]. $ totalmente impossível saber quantos bruxos. nem faça com cada huma das ditas cousas. E isso mesmo. no seu entender. nem varas para achar thesouro. quantos magos e feiticeiros foram submetidos à forca ou à fogueira. Casos terão existido ainda (por que não?) de verdadeira possessão diabólica. as autoridades civis de todos os países a intervirem com extrema energia. mas. Os tribunais eclesiásticos vieram assim a se ocupar do assunto e. a partir de 1320. nem com outra (postoque aqui não seja nomeada) specie alguma de feitiçaria ou para adivinhar. nem trabalhe de adivinhar em cabeça de homem morto. esta às vezes com seus tribunais regulares. As soluções. nem veja em agoa. deviam ser lapidados antes de enviados à fogueira. ou em outra qualquer cousa luzente nem em spadoa de carneiro.. nem faça para adivinhar figuras. nesse campo. Dele nos limitamos a extrair os seguinte excertos: "Stabelecemos.. primeiro. que. ela foi sentindo a necessidade de enrijecer sua reação. Depois. O binômio Deus-demônio interferindo no mundo sensível. nas regiões por ela dominadas reacendeu-se o rigor: Lutero proclamava ódio aos "possuídos pelo demônio". A tendência mais freqüente era considerar que os réus não passavam de indivíduos alucinados. também para puni-las com rigor. às vezes com o Santo Oficio. Menos ainda será possível calcularmos quantos terão sofrido esse suplício por imposição da Igreja ou por responsabilidade exclusiva . ou mal a outrem. nem membro de homem morto. cabe dizer que a Igreja continuou indulgente. em si. como obsessiva oposição entre o bem e o mal. No final do século XVI e durante o século XVII. que maliciosamente exploravam a ingenuidade das vítimas. cujas atividades daninhas deviam ser da alçada da Justiça leiga. A INQUISIÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES 165 ( veria por certo também inúmeros espertalhões. limitou-se a combatê-las pela palavra e a impor as penitências normais. cogitando. via de regra executada na fogueira. per que huma pessoa queira bem. mas com o passar do tempo a atitude da Igreja. A magia e a bruxaria se apresentavam carregadas de perigos morais e abalavam a pureza da fé cristã. ou mal a outra nem para legar homem nem mulher que não poderem haver ajunctamento carnal. recorreu-se depois à Inquisição. ou qualquer outra cousa Sagrada. foi no sentido de se ir alheando ao assunto. o texto é demais prolixo e obscuro. Outros posteriores atos pontifícios também disciplinaram a interferência do Santo Ofício na matéria. podemos consignar que confluíram. ou imagens algumas de metal. tais práticas. no entanto. a sua vez. qualquer pessoa. Sirvam de exemplo as Ordenações Filipinas (1603) de Portugal. O que a Igreja nega peremptoriamente é a possibilidade de intervenção diabólica ou de contacto com as almas dos mortos ao arbítrio de um ser humano. ou outrem a elle. repetimos. em resumo.. Tal possessão pode realmente ocorrer. Dos feiticeiros. A Igreja. nos vários países e durante os séculos em que durou sua perseguição penal. Conforme as leis de antanho. punindo-se tão-só as infrações penais comuns que costumavam acompanhá-las. nem baraço de enforcado. Outrosi não seja alguma pessoa ousada que para adivinhar lance sorte. quando satanás toma posse de uma pessoa. morra por isso morte natural 1. passou a desaguar na heresia catara. No começo. muito variaram no tempo e conforme o país. nem de qualquer outra cousa. pactos diabólicos e profanações de sacramentos. qualificando tais práticas como criminosas e castigando-as com severidade.

na segunda parte. como é. que resistem a forças físicas muito mais fortes do que as suas. que. ou possesso. o que. bruxos e bruxas. com o título Malleus Maleficarum ("O Martelo das Feiticeiras"). merecendo. teve enorme difusão. Muito investem contra as mulheres. admite que. Partia-se destes dados certos. quando este se apodera de alguém. Imensa e geral era a preocupação com as intervenções diabólicas. inúmeras das suas afirmações. não decorre nem da iniciativa do paciente. retomando a causa. não só religiosos mas também morais e sociais. aos olhos da época pareciam confirmar o fenômeno: pessoas que se põem a falar algum idioma estrangeiro. revelando com freqüência intenso fanatismo dos seus autores. isto sim. como dão conta em sua obra. fazia justiça pelas próprias mãos. com os conhecimentos de que dispunham. na Europa. entretanto. que a Parapsicologia hoje explica. danificam plantas e animais. A preferência dos escritores que querem. mais ousados. mas o Estado. para elas totalmente desconhecido. no que se vê forte preconceito contra o sexo feminino. número que até hoje continua sendo repetido. a maioria das obras atribuídas ao demônio são ilusórias. como condições. embora totalmente arbitrário. Elucidativa é a verificação de que muitas vezes a Justiça eclesiástica absolvia ou só impunha leves penitências a acusados de bruxaria. nem do poder de satã. Cumpre porém bem compreendê-lo. As preocupações que disso advinham são eloqüentemente reveladas na bula através da qual Inocêncio VIII. considerado. apenas com o olhar. a cristandade se deixou arrastar para enormes exageros. Outros. assim como o livro ora referido foi aprovado pela Faculdade de Teologia da Universidade de Colônia. Henningsen. e isso forçosamente tinha de acarretar brutal proliferação de indivíduos que se qualificavam como magos. não tinham explicação natural. atingir a Igreja é indicar quantidades elevadas. na terceira. extenso e de árdua leitura. afetam objetos distantes. durante alguns séculos mais. Já Voltaire falava em cem mil bruxas queimadas vivas. a ele se devota e com ele pretende ter feito algum pacto. avançam até milhões. São fenômenos. que antevêem o futuro. mas algumas das explicações que fornecem são plausíveis. quem busca o demônio. mas de uma permissão divina. explicam "os métodos pelos quais se in fl igem os malefícios e de que modo podem ser curados". examinam o fenômeno da bruxaria. Presas de forte misticismo. Trata-se de trabalho que. ou então o povo. en- i . porque. mas sobretudo. dizem. a bruxa e a permissão de Deus. tratam "das medidas judiciais no Tribunal Eclesiástico e no Civil a serem tomadas contra as bruxas e também contra os hereges". casos de transmissão de pensamento. consoante a Igreja. dentro do intenso sentimento de religiosidade que a envolvia. prova do "atraso" em que vivia o catolicismo. O mais importante livro a respeito foi publicado na Alemanha em 1486 por dois inquisidores dominicanos. A INQUISIÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES 167 da Justiça estatal. ressalva-se. O livro é minucioso. como atestam as várias obras então escritas sobre Demonologia. Essas e outras proposições equivalentes foram por exemplo aprovadas em 1398 pela Faculdade de Teologia da Universidade de Paris. inclusive no Brasil. por isso. sem nenhuma base séria. 21). em 9 de dezembro de 1484. tradicionalmente aceitos pela Igreja: pode existir a infestação do demônio. Heinrich Kramer e James Sprenger. traduzido em vários países. por esse caminho. as inteiras populações viviam na constante persuasão da presença demoníaca.. para o qual. todos. são necessários. a seu tempo. para a realização de malefícios. criaturas que se elevam nos ares. gerava gravíssimas conseqüências para a ordem pública. de sorte que. Dividiram-na em três partes: na primeira. colocando-o dentro do clima. Dando pois como certa a realidade da bruxaria. G. com serenidade. o diabo. infestada de magos e bruxos. da cultura em que foi redigido. Muitos fatos. chegando até á produção de enfermidades e à morte. cit. Certo é. Nessa conformidade agiram pois os inquisidores Kramer e Sprenger. etc. ao passo que outras são reais. Em todos os recantos da Europa a bruxaria se disseminou. aplicava a pena capital. para os juizes seculares. punição. devem ter sido queimadas umas vinte mil pessoas (op. se torna herege. mas a sua maior expansão se deu na Alemanha. escusa demonstrá-lo. Estavam-se amiudando males muito grandes.. trucidando os suspeitos. que levavam os demonólogos medievais a meditar. nessa conjuntura. nos processos de bruxaria. pág. o que. que. Por fim. referindo alguns historiadores. Teólogos modernos não endossariam hoje. porque serviu de guia não só para o Santo Ofício. e das necessidades que o motivaram. os papas e os defensores da boa ética em geral se viam no dever de enfrentar o problema com energia. o grande problema dos juizes antigos consistia em identificá-la nas situações concretas. etc. adiantando-se às providências oficiais. que adivinham fatos ocultos da vida passada de outrem. o que leva a acreditar na efetiva existência da bruxaria.166 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIV. Sobre esse livro se faz grande atoarda. nomeou os dois sobreditos inquisidores para atuarem nesse país e combaterem as monstruosidades que lá vinham ocorrendo.

os juizes se enredavam em quase insuperáveis dificuldades probatórias. qualquer porteiro de cadeia sabe que as visitantes do sexo feminino têm o hábito de esconder. Por exemplo. quanto às bruxas. influenciados pelas manchetes dos jornais. as mais inverossímeis coisas: dinheiro. a bruxaria é contagiosa. cit. picando com uma agulha o corpo da acusada. assinalam F. obstando à descoberta da verdade. que fazia sua protegida derramar lágrimas. tirado da vida real. Era preciso. Notadamente. com algumas peculiaridades. explicam. dizia-se. e confessavam que coabitavam com o espírito mau. era sinal de proteção diabólica. drogas. Na terceira parte. Eventualmente. "até mesmo nas partes mais secretas do corpo. serras. Motivos haverá para o fato. "para conservarem o poder do silêncio. do mesmo modo que a incapacidade de chorar podia ser dissimulada pelo demônio. Sucede porém que elas podiam fingir que sentiam dor. gazuas. 105). etc.168 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XIV. Há quem queira ver aí a perversão da mixoscopia (voyeurismo). ou são disso acusadas. Essas mulheres com graves perturbações emocionais eram particularmente suscetíveis à sugestão de que abrigavam demônios e diabos.. cujo nome não nos atrevemos a mencionar". até hoje. ou era a elas que o povo geralmente atribuía essa qualidade. as mulheres. sobretudo para a alma feminina: quanto mais mulheres se proclamam bruxas. Com o mesmo objetivo. da mesma forma como hoje em dia indivíduos perturbados. que não vertia sangue. Alexander e S. é que as bruxas. porque. que buscavam entender: eram. supostamente. ao mesmo tempo. os juizes deviam procurá-la com cuidado. cujo nome não nos atrevemos a mencionar". acautelar-se contra as artimanhas diabólicas. Uma feiticeira aliviava sua culpa confessando suas fantasias sexuais em tribunal público. médicos ou cirurgiões-barbeiros. suportam. A razão. grosso modo. pág. assim. não os homens. A resistência ao sofrimento físico tinha sua fonte numa marca de insensibilidade. que era preciso descobrir. A INQUISIÇÃO NA ALEMANHA E EM OUTROS PAÍSES 169 quanto outras manifestamente absurdas. os mesmos procedimentos vigorantes na época. Como a apuração disso representava uma prova importantíssima. Seja como for. armas. em grande regra. Recomendam então Kramer e Sprenger que eles comecem seus trabalhos designando peritos. o livro expõe as regras processuais a serem seguidas. obtinha certa satisfação erótica demorando-se em todos os pormenores diante de seus acusadores do sexo masculino. . Nos casos de bruxaria. sem dor. Selesnick. Em razão disso. partiam de um dado concreto. que se apresentavam como bruxas. quiçá. até mesmo nas partes mais secretas do corpo. Daí se seguia então o seguinte paradoxo: nos processos em geral. As bruxas não deviam agir diferentemente. podia haver ainda outras marcas e amuletos que as bruxas dissimulavam em suas vestes ou em alguma parte do corpo. o punctum diabo/icum. mas em todos os tempos. torturas que. ao invés. satanás dava assistência às acusadas. deve-se reconhecer "que as feiticeiras acusadas muitas vezes favoreciam os planos de seus perseguidores. são intoleráveis. mais cresce o número das que as imitam. para as pessoas comuns. as bruxas possuem o dom da insensibilidade física e a incapacidade de chorar. São. para despirem a ré e lhe rasparem todos os cabelos e pelos do inteiro corpo. têm o hábito de esconder objetos supersticiosos nas roupas e nos cabelos. se imaginam assassinos procurados pela polícia" (op. de que estariam tomados os inquisidores. Por acréscimo. digamos assim. a resistência à tortura era considerada uma prova da inocência do réu. sim.

cujo número todavia jamais despertou demasiada preocupação. o emirado de Córdoba se tornou praticamente separado da nação árabe. 4. A Reconquista. Concomitantemente. O cristianismo estava fundamente enraizado e fraca era a presença de heresias. o rei Jaime I contra eles tomou várias medidas de 1220 em diante. Isso lhe acarreta natural isolamento. com soberanos próprios que se designavam califas. que alimentava o patriotismo. ter os bens confiscados e. isso aconteceu. constituía ainda obra da In- 1. etc. No ano de 711. no norte. Difícil posição da Igreja. visigodos. 5. vândalos. compelidos a se converterem. enquanto nos outros reinos. de fato. pelo Oceano Atlântico. que ordenou a captura de todos os hereges presen• tes no reino. Entende-se também que as autoridades civis se empenhassem com ardor na tarefa saneadora porque. o condado de Barcelona (depois chamado de Catalunha) e Navarra. uma das forças que mais o cimentava era o fator religioso. O principal perigo provinha dos judeus e mouros lá radicados que. suscitavam depois suspeitas de apostasia. o novo governo foi exercido por emires nomeados por Damasco. 2. Um exame a vôo de pássaro desses reinos cristãos da Espanha medieval. Houve razões que contribuíram para o predomínio das autoridades locais. cercada. com a conseqüente necessidade de união interna dos que nela viviam. montanhoso. o das Astúrias (que em 760 passou a chamar-se Oviedo e. atingidos por certas incapacidades. em instável equilíbrio. pela formidável barreira dos Pireneus. mas todo o rico sul dominado e no norte. Nos primeiros decênios. maior era o número de refugiados que se vinham ocultar em solo aragonês. principalmente na Andaluzia. ou seja.XV. em pouco tempo. o Estado árabe da Espanha. os trabalhos de repressão a desvios religiosos ficaram a cargo do Poder secular e dos tribunais episcopais. Invasão muçulmana. mostra que. Por todo o sul. a partir de 914. Fernando III in fl igia aos hereges a marca de ferro em brasa no rosto. tomou o nome de reino de Leão). em Castela. por ser vizinho da França. ocasionalmente. se achou mais exposto à infiltração de hereges e. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 1. Estratificou-se assim a situação. Em regra. 6. como crescia o número desses refugiados. que muito se acentuava nos tempos antigos. o estandarte verde do Profeta Maomé tremulava no quase inteiro território espanhol. Depois. na medida em que a Inquisição gaulesa se foi tornando rigorosa. pelo Mar Mediterrâneo e separada da restante Europa. era indispensável manter a coesão do povo nos territórios livres e. sem dúvida. para serem excluídos dos cargos públicos. com exércitos compostos na sua maior parte por berberes (ou mouros).) e aos poucos se entrosando. até que. e toda heterodoxia que a pusesse em risco devia ser exterminada. por fim. Unificação nacional. tendo a cidade de Toledo como capital. tribos da Africa setentrional que se haviam submetido aos árabes. A mesma reação prosseguiu com seu filho Afonso X. rude e pobre. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 171 do aos poucos independentes: primeiro. no transcurso dos séculos. o Sábio. inclusive chegando a solicitar ao papa o envio de inquisidores. 7. Inquisição medieval. então uma das províncias mais ricas e mais povoadas da Europa. Nascimento da moderna Inquisição espanhola. Presença da religião na Reconquista. Tornava-se pois incandescente a paixão pela pureza da fé. a nordeste. A primeira perseguição contra eles movida que deixou traços foi determinada pelo arcebispo da Tarragona. o país se unificou sob a hegemonia visigótica. sofrer a pena de morte. suevos. mas. deu-se a invasão muçulmana através do estreito de Gibraltar. voltamos a assinalar. a partir de 755. às vezes. alguns Estados cristãos que se foram tornan- . o Santo Ofício teve neles muito limitada atuação. Para a Espanha. ao qual se seguiram Castela. A península ibérica se encontra em posição geográfica muito singular. isto é. Os cátaros foram raros. á exceção apenas de pequena porção das Astúrias. entretanto. de férteis terras. 2. durante os séculos XIII a XV. se instalou solidamente o Islã. Nada disso. em quase toda a extensão das suas fronteiras. exilava-os e lhes confiscava os bens. XV. com algumas exceções. jamais chegou a instalar-se a Inquisição papal. 3. achando-se grande parte da nação ocupada. com lutas esporádicas. O progresso dos invasores foi rápido e. Aragão. Em Castela. mais se fizeram notar os valdenses e alguns fraticelli. Aragão. vários povos foram afluindo (alanos.

Resta ainda uma organização político-administrativa moura a desmantelar. graças ao que as vitórias crescem: o rei São Fernando. São os "reis católicos". Infiltrados nas velhas estruturas. e revoltas se sucedem nas zonas ocupadas. Nomeado. A tarefa repressiva continua entretanto com um pano de fundo de natureza política. aliam-se os Estados cristãos. a luta se reacende e caminha para o clímax. Valência e Maiorca. descendo pelo mapa do país. enquanto Isabel. casa-se Fernando com Isabel e. ocupam todo o espaço. No terceiro quartel do século XV. com poderosos reforços chegados da Africa. O Santo Ofício aparece realmente em Aragão no ano de 1242. À medida que novas terras vão sendo libertadas. Navarra. Fernando e Isabel encontram pela frente obra gigantesca a realizar. a Inquisição medieval espanhola se mostrou quase sempre fraca. Paulatinamente. mais tarde. os "moçárabes". sem nunca cessarem por completo. a coexistência foi sempre intranqüila. até Gibraltar. que dão vivo alento à Reconquista. mas os progressos inquisitoriais foram extremamente lentos. porém. freqüentemente em altos postos. pouco depois. cad a vez mais violentas. É dessa época a quase lendária figura do herói Cid Campeador. aumenta a pressão dos cristãos vindos do norte. As revoltas camponesas. Logo. substituindo-a por outra. tangidas pela miséria. erguem aldeias. 3. eles se preparam para a arremetida final e. de imediato os espanhóis lhes impõem intensa colonização. dos quais apenas um foi impresso e alcançou notável prestígio. se amiúdam. Jaime. tomam Granada. passo a passo. toma as ilhas Baleares (1229-35). de Castela. mas também espanhóis que aderiram ao islamismo. Seguem-se. carecendo de ser resolvidas com energia.172 JOÃO BERNARDINO GONZAGA X V . sofrendo tão-só esparsas arremetidas cristãs. Em poder estrangeiro permanece ainda Granada. a Reconquista estaciona. terminam por rechaçá-los. fazendo cessar para sempre o domínio mouro na península. ao qual aderem Valência. e ficou muito longe da importância assumida por suas congêneres da Itália. medidas equivalentes se tomaram. e os concitou a organizarem uma diligente ofensiva. com lutas que passavam por alternados períodos de recrudescência e de declínio. um manual de orientação para os inquisidores. como uma mancha de óleo que vai. restam em poder do inimigo apenas o Estado de Granada e algumas outras poucas áreas. No começo. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 173 quisição. a quem já aludimos. chega até Múrcia. queixando-se do avanço das heresias por todo o reino. o Directorium Inquisitorium. Em Navarra. que. em 1357. após trinta anos de serviço caiu em desgraça e acabou exilado. Graças à força resultante da ampla e sólida união assim obtida. com toda a costa andaluza. conduzidos sobretudo pelo reino de Aragão. Inquisidor Geral para a Catalunha. em 1212. atinge Córdoba em 1236. Catalunha e. Em resumo. Depois. mas os árabes. No curso do século XI. Aragão. a cultura árabe florescera e fascinara inúmeros cristãos que nela vi. dela se ocupando as autoridades leigas em defesa da almejada unidade nacional. às vezes sequer falando castelhano e que continuam fiéis aos seus irmãos da véspera. França e Alemanha. 4. e é preciso agir rapidamente. Os espanhóis jamais aceitaram a presença dos maometanos em seu solo. mas trabalho dos Poderes públicos e das autoridades eclesiásticas do país. por lógo tempo a situação se estabiliza. embora com assaz escassa atividade. Valência (1238). agrega sob seu cetro o reino de Leão e mais alguns principados e ducados. chegam a ultrapassar a serra Central e tomam Toledo. escreveu vários trabalhos. o primeiro se torna rei de Aragão. os árabes conseguiram ainda manter com alguma tranqüilidade seu domínio sobre o território usurpado. sendo anexada à aragonesa. O papa Gregório IX chegou então a escrever aos priores dominicano e franciscano. espalha-se assim o sucesso da retomada. em 1492. numerosos hereges são entregues ao braço secular. Trata-se de problema gravíssimo. Sevilha em 1248. de Aragão. Em 1469. passando a rainha de Castela. Então. todos percebem que a exploração imposta pelos novos senhores estrangeiros é muito mais dura. no século XII. porque. Dotado de sólida erudição. no fluir dos séculos. No início do século XIV o vigor da perseguição aumenta um pouco. organizam as administrações seculares e eclesiásticas. acham-se não só muitos judeus. comba- tes esporádicos. ocasional. até que a Inquisição local perdeu sua autonomia. Tendo subido ao trono em 1474 (com respectivamente apenas 22 e 23 anos de idade) e completado a retomada da península em 1492. Seu mais notável personagem foi o dominicano Nicolau Eymerich. . Até princípios do século XI. A presença do Islã em solo hispânico se estendera pelo imenso tempo de quase oitocentos anos. organizado por São Raimundo de Penaforte. ao findar o século XIII. realizam-se autos-de-fé. nos quais via um meio de se libertar do terrível jugo feudal a que até então estivera submetida. em 1080. de tal sorte que. a população nativa recebeu até mesmo com alguma esperança os invasores.

juristas e homens letrados. A par de empreendimento libertador e de recolonização. fundavam-se mosteiros. nobres poderosos. patriotismo e religião representavam duas idéias que se fundiam. ela contou sempre com a participação central da Igreja. Na Espanha visigótica. em contrapartida. Ao longo da Reconquista. Foi exatamente esse o espírito que marcou a Reconquista. senhores feudais. "À força de se ocupar de negócios políticos. Tal foi a marca característica. 0 país buscava pois sua identidade. nenhum motivo há para estranhar que. sendo o fator religioso para tudo isso essencial. com ela. a Espanha se veio a tornar a maior potência mundial. tão logo tomaram as rédeas do Poder e se sentiram fortes. ou milícias de inspiração religiosa. 414). caiu Granada. buscavam o poder e queriam conservar autonomia. a religião de início dominante foi o arianismo (heresia cristã iniciada em Alexandria por Ario. A formação multi-racial dos espanhóis Variadas forças desagregadoras constituíam ademais obstáculos representava fator natural de divisão. ir ao encontro do seu destino. sob a bandeira de Cristo. a política dos governantes devia estar sempre orientada para o escopo de se adequar à fé católica. em nome dos "reis de Espanha".174 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XV. tomou posse do "Novo Mundo". A contar daí. Suprimem vá rios privilégios da nobreza e de cidades.. Enquanto Itália e Alemanha se conservam ainda fraccionadas. do feudalismo. Mostrando descortino. se formaram. Cristóvão Colombo. e esta. de sorte que. pág. nomeiam corregedores investidos de muita força. foi por esta apoiada. para substituírem os fidalgos que tradicionalmente exerciam essas funções. de imediato florescia neles a Igreja. desde o reino visigótico. o rei Recaredo se tornou católico e impôs a nova crença aos seus súditos. separando bascos. temperados pela luta e ciosos das próprias prerrogativas. convocam. na Espanha. Urge portanto aproveitar-se desse impulso. na medida em que as tropas avançavam pelos territórios antes ocupados. que formam Estados soberanos integrados. à plena unificação do país. que se queria poderosa. apresentam-se os exemplos da França e da Inglaterra. formando um todo indissolúvel. 5. Como fruto de tal formação. para melhor adaptá-los àquela finalidade. Para os governantes e para o povo. Em conseqüência. com o conceito de "nação" e a centralização de poderes. queria crescer. afastam nobres da direção de ordens militares. mas à qual assinalavam também sua surpresa quando um papa se permitia interferir nos negócios do glorioso reino católico de Toledo" (Daniel-Rops. o cristianismo impregnou fundamente a alma espanhola e assumiu uma posição muito peculiar: dentro do espírito de intensa religiosidade popular. essa Igreja da Espanha tinha a tendência de julgar politicamente os assuntos religiosos. a fé era reavivada. Nova concepção política se vem firmando no panorama europeu. galegos. Reis. como demonstra com alta eloqüência o fato de que poucos anos após. andaluzes. atraindo-os e os fazendo perder contato com suas raízes. Estamos no ocaso da Idade Média e. a mesma assumiu as vestes de verdadeira guerra santa. i Logo. se estabeleceu estreita ligação entre a Igreja e o Estado. Ser espanhol era ser católico. forjando o sentimento de "pátria". e isso foi conseguido. estava-se criando uma nação. Extraindo-a das cinzas de uma ocupação que durara quase oito séculos. no ano de 587. como conselheiros. Se esta prosseguia . ressentimentos e lutas fratricidas. Os chefes se consideravam quase tanto altos dignitários temporais quanto pastores do rebanho. se imiscuía nos assuntos do governo temporal. criando uma consciência "nacional" e fortalecendo o Poder soberano. Tradicionalmente. A isso se somavam renitentes disputas dinásticas que vinham há muito gerando ódios. abstêm-se de reunir as Cortes. cit. um dos primeiros atos de Fernando e Isabel foi restabele ce r a Inquisição. no século IV). Em 1492. a fé e o povo cristão. Inúmeras ordens militares. à qual dirigiam periodicamente enfáticos testemunhos de respeito e fidelidade. assim servindo à causa da Igreja. já no século seguinte. Nesse mesmo ano. catalães. A unidade de fé constituía para ele o mais forte vínculo comunitário. consolidá-la. encorajada. castigam rigorosamente todos os que se rebelam contra suas determinações. para proteger os lugares de culto. que facilmente aceitava o emprego da força em defesa da fé e da Igreja. para vigiarem os centros de maior turbulência. os espanhóis foram tomando consciência da própria identidade e do comum destino. se restabeleciam bispados. abençoada. etc. e é esse modelo que a Espanha deve seguir. L'Église des Temps Barbares. até que. Eles acabavam pensando espanhol antes de pensar católico. ostentando a cruz em suas vestes. o que se observava em sua atitude para com Roma. os "reis católicos" agem com energia e buscam enfeixar em suas mãos o domínio absoluto. O cristianismo se tornou assim a alma viva da Reconquista. o clero espanhol sempre se apresentou como um corpo aguerrido. afirmar- -se. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 175 viam imersos.

Quando Granada se rendeu em 1492. Alexandria é devastada. desenvolvem o poderoso império oto- . a poligamia. a partir do século VII. afinal derrotados. a justificar o temor de que outra vez poderia submergir a Espanha. 6. entre irmãos. Censura-se a Igreja de Roma por ter dado excessiva autonomia à Inquisição espanhola e porque não impediu muitos desmandos. até hoje na Espanha. belicoso. quase ultrapassa as raias do inacreditável. Em seguida. com maioria de razões devia atuar também numa Espanha em vias de construir o seu destino. Tal situação. até mesmo a Terra Santa é por ele arrebatada. Os mouros adotavam. Pretender que os intrusos. Um dos entretenimentos de maior prestígio popular. que perdurou até o século XVIII e cujos extremados rigores já conhecemos. à tarefa de evangelizar os mouros que lá viviam. Três séculos apenas se haviam escoado desde que Cristo ordenara aos seus discípulos a evangelização de todos os povos da Terra. a primeira providência tomada foi o povo. com o orgulho e o pundonor feridos pela própria impotência diante do inimigo que o aviltava. Mesmo entre os povos pagãos. inflamado. Expressiva demonstração de tais características encontramos na guerra civil de 1936-39. forma grandes centros de irradiação na Armênia. morto o Profeta Maomé (632). que vivera antes na clandestinidade. O crescente muçulmano invade por fim a península ibérica (711) e lhe ocupa o quase inteiro território. seu idioma e seu sistema jurídico. que não concebia o pluralismo religioso dentro de um Estado e quando ainda vigia com toda sua força o princípio "cujus regio. a Síria. com pontas de lança que penetram na Índia e no Cáucaso. Para mais ainda complicar as coisas. em procissão. no passar dos séculos. Quanto à tão decantada brutalidade. sua riquissima biblioteca queimada. a dos mouros e a dos judeus. que não podia deix ar de ser católica e cujo mais sólido alicerce estava na religião. A Espanha achava-se repartida em três comunidades. Será bom lembrarmos também que a Inquisição espanhola se desenvolveu exatamente na época em que a Justiça Criminal comum européia vivia em pleno auge do "período da vingança pública". a cruz resplandece no continente europeu. A Igreja. até às Gálias e a Hispania. ocupar o Alhambra e nele substituir o "crescente" pelo estandarte com a cruz. nesse exato momento nova onda islâmica vinha rolando e crescendo ameaçadoramente pela Europa central. Igualmente nos demais países o Santo Ofício esteve muito longe da brandura. mas atuou na conformidade dos severos costumes do tempo. Também a inteira África setentrional agora integra o império árabe. será útil fazermos ligeiro retrospecto histórico de algumas fases do cristianismo. A medida era perfeitamente normal para a cultura da época. e o progresso alcançado estava sendo colossal. seguramente haverá forte exagero nas increpações. Aprendeu a língua árabe e na mesma fez imprimir manuais de catequese. Bizâncio se torna a "Roma do Oriente". domina agora o extenso Império Romano e. no entanto. seus seguidores iniciam fanática guerra religiosa. na Pérsia. por onde passa. suas tradições. com os árabes. I Depois. se afigurava intolerável e era inconcebível que se perpetuasse. propenso a excessos: arrogante. é a bárbara tourada: Cumpre ponderar ainda que o problema da Inquisição espanhola colocou a Igreja em posição extremamente delicada. ele facilmente se torna cruel e sanguinário. Súbita e surpreendentemente. Alexandria e Cartago aparecem como dois grandes centros de cultura religiosa. na Etiópia. Começamos com um período de euforia. buscando submeter o mundo pela violência e pela conquista. hujus religio". O povo espanhol. no momento da vitória final. A isso se terão somado certas notas marcantes do homem espanhol. quando. a cidade do Cairo se torna a capital do Egito arabizado. que viera sendo conduzido à testa das tropas. de temperamento tão impaciente. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 177 existindo em outros países. Por todo o norte da África cresce a fé em Cristo. O método era todavia lento demais e as autoridades civis não estavam dispostas a contemporizações: deixando-o de lado. com abnegação e paciência. devessem ter suas crenças respeitadas será divagar no reino da fantasia. aos poucos vai cobrindo a Ásia Menor. sufoca e arreda o cristianismo. é impossível duvidar de que a vitória final será completa. cuja ferocidade. alcança a Arábia. o sucesso obtido pelo Islã é espantosamente rápido e. Seu avanço assemelha-se a poderosa maré montante que empolga uma civilização inteira. para isso. o novo arcebispo nomeado para a cidade se dedicou. igualmente convertidos ao islamismo. com isso. que. impuseram aos muçulmanos a imediata escolha entre a conversão e o exílio. E importante compreendê-lo e. inclusive. surgem os turcos. Tratava-se agora de forjar uma pátria. Primeiro. durante séculos. O movimento se espalha por todo o Oriente próximo. a dos cristãos.176 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XV. esse progresso territorial é contido e vem a sofrer forte recuo. cada qual com seus costumes. sofrera muito. Alastra-se para fora dos limites romanos. sua religião.

na Asia e. Roma negasse o apoio requerido. combatendo seus inimigos. em 1481. O clima espanhol era de apaixonado entusiasmo. após o oceano Atlântico. a Espanha ia readquirindo plena liberdade. Eles se apoderam de quase todas as conquistas árabes e as ampliam. era demais importante para Roma. surge uma pausa. Pouco depois. Primeiro. atingindo o apogeu do seu prestígio com Solimão. Assenhoreiam-se dos Bálcãs. dali tão próxima. bem como pela notável vocação missionária. atingindo as portas da Itália. os turcos levaram avante inúmeras conquistas na Africa. seus governantes. quando. para apoiá -los e vingá-los. reforçadas agora pelo poderio otomano já instalado na Europa. pelo fervor religioso e pelo rigor moral. seja na Asia. / Assim teve início a moderna 'nquisição espanhola. A situação se afigura tão preocupante. Espanha e. atingem os portos albaneses. a Espanha dá um golpe muito importante no prestígio do Islã.178 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XV. a fim de restabelecer-se a ocupação com renovado vigor. os "reis católicos" pediram ao papa Sixto IV o reavivamento da Inquisição. Esse país. boa porção da Europa Oriental. a Espanha certamente dela se separaria — como ameaçou várias vezes —.se pauta pelos seus ditames. . em 1444. mas irremediavelmente separada de Roma. a Igreja impõe a uniformidade de fé entre os povos. nesse momento. se vai tornando um lago muçulmano. sintamos a dramática visão panorâmica que se oferece à Igreja. prosseguia atuando e triunfara. se conserva cristã. grande defensor da fé. com os muçulmanos ainda instalados no Sul da se que o que resta do Ocidente cristão será por eles dominado. tornassem a vir forças muçulmanas da Africa. na Asia Menor. todo o mundo que se sabia existir a oeste. Poucos anos depois. sua vocação expansionista se acha bloqueada por intransponíveis barreiras maometanas assentadas ao sul. no século XV. o Magnífico (1520-66). com feliz reviravolta. pelo tratado de Tordesilhas (1494). reatemos o assunto da Reconquista. seu povo se caracterizaram sempre pela indômita ortodoxia. na Africa. onde. obedecendo ao mandato de Cristo. todavia. novos fatos gravíssimos surgiram. Se. e irrompem pela Europa adentro. instalam-se na Hungria. para continuar tornando imperioso o apoio da Santa Sé: com a Reforma protestante do século XVI. Logo. cidade situada no calcanhar da bota italiana. ultrapassam Belgrado. investem sobre o sul da Itália e ousam passear pela laguna de Veneza. seu povo estava com o orgulho profundamente ferido e desejava ardentemente promover a glória da fé cristã. ele recuperou suas forças. os turcos se põem a avançar com forças irresistíveis pela Europa. A medida que ela se completava. não havia por que deixar de atendê-los. inclusive Grécia e Rússia. Em seu território viviam densas comunidades de mouros e muito plausível era o medo de que. dá-se a grande catástrofe: os turcos se apoderam de Constantinopla. os reis a ela se submetem. Uma expedição dos invasores consegue desembarcar em Otranto. tão essencial para a subsistência da Europa. em 1478. A religião se afigurava essencial para a buscada unidade espanhola. exatamente nesse momento. o pontífice romano lhes reservou e dividiu. Nada entretanto é ainda seguro. passado aquele instante de dificuldades. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 179 mano. com o grande cisma do século XI (1054). em 1492. Durante os séculos XVI e XVII. onde as embarcações otomanas navegam com tranqüilidade. Após intenso trabalho e muito sacrifício. Sua Igreja. poderoso. na Europa. transformam suas magníficas igrejas em mesquitas e riscam do mapa o império bizantino. de outro lado. o mar Mediterrâneo. com a queda de Granada. da Hungria e da Valáquia tentam uma tardia defesa. ou lhe pusesse limitações. como prova o fato de que. são rechaçados com facilidade. provocando um cisma de conseqüências imprevisíveis. a leste. a Igreja não podia correr risco de tamanha seriedade. para efeitos de descobrimentos e colonização. seja na Africa. continua segura. ela firmara sólido monopólio religioso e conseguira já suprimir pelo menos as manifestações públicas das heresias mais importantes. morrendo Maomé II. inconcebível seria a idéia de perdê-lo. co. Voltando a postar-nos agora no século XV. Presente o quadro acima esboçado. Aos poucos. seus filhos se en- Por volta de 1480. Idem Portugal. quase tudo perdeu. Fora do Ocidente europeu. Quando. resta-lhe quase só o Ocidente europeu. Em 1453. de onde têm vistas para a Itália. Nessa parte do mundo. também. Nas circunstâncias tão difíceis por que estava passando. sua derrota é total. Toda a civilização ali existente . O grande líder turco Maomé II anuncia com escárnio que muito em breve irá dar de comer aveia ao seu cavalo sobre o altar de São Pedro. parece que a quase inteira civilização católi- volvem em disputas. acreditamas. Não bastasse isso. Finalmente. Tão grande era o papel representado por esses dois países na difusão do cristianismo que. formando intransigentes Igrejas autônomas. os príncipes cristãos da Polônia. o que paralisa a invasão. que. de um lado. Em várias outras nações o Santo Ofício já realizara trabalho profícuo. mas a situação se apresentava ainda extremamente incerta. aguerrido. porque o império otomano continua firme.romana vai soçobrar.

Vigia àquele tempo em alguns países. uma íntima fusão. Na Espanha. A Espanha resistiu. quase sempre prescindiu da intervenção pontifícia. Inglaterra. ou confusão. de nomearem os sacerdotes e bispos para os cargos que se vagassem nos territórios sob sua jurisdição.180 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XV. porque a Inquisição espanhola escapou ao seu domínio e fiscalização. cônscia da sua força e da sua ortodoxia. que. a moderna Inquisição espanhola se distingue das suas congéneres estrangeiras por algumas peculiaridades muito importantes. o secular e o eclesiástico. o erro) de uma posição de fraqueza em que se veio a encontrar subseqüentemente a Santa Sé. não podia deixar de continuar a prestigiá-la a Santa Sé. e se manteve longamente. existira na Inquisição medieval desse país. A ESPECIAL SITUAÇÃO DA ESPANHA 181 a Igreja sofreu tremendos golpes. ao qual foi atribuído o direito de designar seus dirigentes e seus juizes. como praticou. mais . nos demais países. Por isso. Escandinávia. inclusive renunciando Roma à possibilidade de opor vetos às escolhas que fossem feitas. ao revés. por derradeiro. de alta consciência e de vida exemplar. que se uniam para cuidar tanto das questões religiosas como das do Governo civil. a esses homens. se considerava apta a resolver os próprios assuntos de fé. muitos e grandes abusos. compreendemos que. em cada cidade ou diocese dos ditos reinos. em que o encargo de lutar contra as heresias cabia aos tribunais eclesiásticos regulares locais. tinha necessariamente de suscitar esperança na sua eficácia. embora com teórica aprovação pontifícia. A orgulhosa gente espanhola. a "delegada". em Portugal). se se preferir. [. que foi a verdadeira Inquisição religiosa... de modo a lhe barrar a penetração em seu território. 0 ato pontifício que instituiu essa nova Inquisição foi a bula Exigit sincerae devotionis affectus. quando se tratou do restabelecimento da Inquisição espanhola.. Os juizes e demais autoridades são designados pelo rei. bem como no de Portugal. formou inexpugnável barreira contra o protestantismo. Outros posteriores atos pontifícios reiteraram a mesma prerrogativa. em sua multissecular evolução histórica nos vários países.]. a firme ligação entre autoridades civis e eclesiásticas. empenhadas todas no saneamento religioso da pátria comum. que se deferia aos governantes civis. Em razão do exposto. entre as duas esferas de Poder. Suíça. com o risco de possível ruptura com Roma. o que ocasionava forçoso e natural distanciamento de Roma. como referimos no n° 2 supra. na qual Sixto IV autorizou os reis de Aragão e Castela "a designarem três ou ao menos dois bispos ou homens experientes. com a idade de pelo menos quarenta anos. nas circunstâncias especialíssimas em que isso ocorreu. com respeito a todos os acusados de crime contra a fé e a todos os que os ajudam e os favorecem.. Dai seguiu. Se as Casas reinantes espanholas já tradicionalmente possuíam o direito de escolher bispos para as dioceses vagas. Nós concedemos. desde a época visigótica. Inaugura-se de tal modo a moderna Inquisição espanhola. que sejam padres seculares. O motivo principal que levara. A França era alvo de fortes investidas. Na Espanha foi sempre assim. Dentro dessa tradição. a instituir uma Inquisição a cargo de enviados do papa foi exatamente a reconhecida incapacidade em que se encontravam os tribunais episcopais de realizarem eficiente combate às heresias. o sistema chamado "do padroado". de 1° de novembro de 1478. mas se torna incentivador e co-participante dos trabalhos inquisitoriais. solidamente assentada. Entendamos esse grande privilégio de que desfrutaram somente as duas nações ibéricas. Manteve viva a fé católica. Melhor do que sufocar tal anseio. a Santa Sé se tenha visto na contingência de lhe conceder um voto de confiança. Em conjunturas tais. seria estender a essa nova organização inquisitorial tratamento equivalente ao do antigo sistema do padroado. Aí esteve a origem (ou. 7. aliás. mantendo-se livre para praticar. existiu sempre estreita aliança entre o trono e o altar. os direitos particulares e jurisdições tais que a lei e o costume atribuem aos Ordinários e aos Inquisidores de heresia". perdendo largas porções da Alemanha.] que vós julgareis dignos de serem nomeados neste momento. que ficou nas mãos do Poder civil. praticamente. executada por representantes ou delegados do papa. segundo as necessidades [. nesse país. a Inquisição "estatal". marcando com especial força a Igreja espanhola. sob a direta supervisão deste. na Espanha (e. de natureza político-religiosa. Países-Baixos. quase total independência perante Roma. confiada ao Governo laico e com. cabendo aos reis prover bispados e interferir nos concílios que lá se realizavam. O Estado deixa de ser mero executor das sentenças eclesiásticas. religiosos de ordem mendicante ou não mendicante. consistente no direito. Escócia. Os trabalhos inquisitoriais. que lhe estava por detrás. mais adiante. passaram por três sucessivas fases: a fase "episcopal". esses juizes passam a ser escolhidos preferencialmente entre o clero secular (muitas vezes são bispos). por que o mesmo não poderia ocorrer quanto à designação das autoridades inquisitoriais? Situação semelhante. como "braço secular". Tradicionalmente.

ao mesmo tempo que desempenhavam missão apostólica. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA . Cidades e regiões viam com desagrado a intromissão de autoridades. 7. Os trabalhos foram bifronco tes. assim como combater as heresias em geral. os interessados cedem. indo acoitar-se nos domínios de alguns senhores. 5. com o que os cárceres inquisitoriais se enchem rapidamente de prisioneiros e vários destes são levados à fogueira. Apresenta-se enfim essa Inquisição como uma Justiça que pertence tanto ao Estado como à Igreja do país. 6. Cuidava-se de fundir a nação num todo coeso. não se acha em Roma. XVI. Regras processuais e medidas repressivas. O passo inicial foi dado em Sevilha. sob a presidência de um deles. 1. Mouros e mouriscos. Fermentavam ainda surdas oposições ao domínio de um Poder unificador. cidade ou coletividade de pessoas. Início da atividade inquisitorial. abreviadamente conhecido como a "Suprema" e integrado por seis membros. 3. vindas de fora. e sim na própria Espanha: é o Conselho da Suprema e Geral Inquisição. Judeus e marranos. se necessário. Torquemada. 0 problema dos infiéis. e não entre os membros das Ordens Dominicana e Franciscana. aqueles que se queriam manter dissidentes tinham de ser convencidos ou.182 JOÃO BERNARDINO GONZAGA ligados à Coroa. pois. 4. bem como os forais portugueses. tornavam-se também instrumento político para a subjugação de poderosas forcas dispersivas. alimentavam a discórdia. tornam-se presas de pânico. com sua própria identidade. em 1480. não querendo abdicar das suas prerrogativas. acreditava-se imprescindível a uniformidade religiosa. Muitos nobres turbulentos. Seus objetivos centrais são integrar na comunidade cristã os mouros e os judeus. mais dependentes de Roma. expelidos. Logo. Dando-se então conta da seriedade da situação. coordena a atuação das jurisdições regionais e atua em segunda instância. firmando um pacto de direitos e obrigações. centro de intensa atividade judaizante. desde que entendamos a política como ciência e arte de bem conduzir os negócios de um povo. sob pena daqueles que os protegem serem excomungados e perderem os direitos de vassalagem. Os "conversos". os inquisidores emitem proclamas ordenando a entrega dos fugitivos e o seqüestro dos seus bens. Aliaram-se a Coroa e a Igreja de Espanha para. O órgão superior que supervisiona. . enfrentar os adversários. Diante disso.Primeiros movimentos 1. 2. com a promessa de respeito a costumes. dentro do cristianismo. privilégios e autonomia locais. que é o Grande Inquisidor. eram antigos documentos outorgados por algum rei ou entidade senhorial a certa região. o primeiro tribunal. em esforconjugado. (I) Os fueros. em 2 de janeiro de 1481. Alega-se que ela teve natureza política. quando dois frades dominicanos ali instalam. dispostas a violar tradicionais privilégios inscritos em seus fueros'. Para isso e para o bem geral. Observações complementares. que resistiam à uniformização e à consolidação do país. o que é verdade. que até então não haviam tomado a sério as ameaças de perseguição e mantêm às ocultas suas velhas crenças. na Espanha.

muito culto. O momento (quando se prepara o ataque final a Granada) não é para contemplações: doze insurrectos. onde veio a morrer. passava a cristandade. Ao receberem essas ordens. Era um frade dominicano que levava modesta existência como prior do convento de Santa Cruz. tornou-se confessor de Fernando e. Graças a isso. aquele pontífice lhes envia nova bula. nelas se manifestam as preocupações de moderação e de justiça. em 1498. para amainar os ânimos. sabedor dos acontecimentos ocorridos em Sevilha. a fazem abortar. mas sofrendo sempre a oposição dos interesses locais. seis homens e seis mulheres. o papa Sixto IV protesta. denegrindo-lhe a imagem com muito exagero. põe-se em movimento com firmeza. novos tribunais se vão organizando em outras cidades: Saragoça. esmagando as resistências. lutando sempre para livrar-se de toda fiscalização papal. Em 1485 e 1486. os judeus "conversos" promovem o assassínio de um inquisidor no recinto da própria catedral. Sixto IV recua e volta a conceder independência à Inquisição espanhola. depois. como vimos. dizem-se caluniados por detratores e chegam a ameaçar a convocação de um concílio cismático. que por largo tempo permaneceram ocultas e só tardiamente foram descobertas. por designação de ambos. Roma se inquieta e. já octogenário. praticamente confundidos. exige que os nomes das testemunhas e suas declarações sejam transmitidos aos acusados. o último reduto mouro. ameaçando cassar aos "reis católicos" o direito de nomearem inquisidores. faz da Inquisição o instrumento ao mesmo tempo do absolutismo religioso e do absolutismo real. em Segóvia. Suprime inclusive o direito de recursos a Roma. isto é. e nesse mesmo ano impõe-se aos judeus uma solução definitiva. parece válida a conclusão de que a sua má fama se deve menos a efetiva crueldade do que ao fato de ter sido ele quem modelou a nascente Inquisição espanhola e à eficiência com que o fez. são queimados vivos e a ofensiva recrudesce. Pari passu. Em abril de 1482. fisionomia fechada. ele se interessa pela literatura e pelas belas-artes. mas ressalva Maisonneuve: "Entre a inclinação da Santa Sé à indulgência e a inclinação dos reis católicos à severidade. os soberanos reagem com ardor. As Instruções que Torquemada redigiu. chamava-se frei Tomás. inspira temor e favorece a má fama. É nessa fase inicial que atua a mais famosa figura da inteira Inquisição: Torquemada. enérgico e duro para consigo próprio como para com os outros. Dele H. revelam espírito enérgico. Recomenda todavia em suas cartas a justiça e a misericórdia. livre de peias. os acontecimentos se precipitam: em 1492. são claras e precisas. Em 1483.. Receando uma ruptura definitiva. foi nomeado primeiro Inquisidor Geral para a Espanha. o homem erigido em odiado símbolo de feroz fanatismo. págs. com o ultimato de escolherem entre o batismo e o exílio. Tudo somado. debalde reclama ainda contra excessos de severidade. até 1496.184 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. teólogo. asceta muito austero. sancionada por Sixto IV.. para orientar a atuação inquisitorial. doravante esta vai tomar as rédeas dos seus trabalhos. contrariados por essa intromissão "estrangeira" em seus domínios. 2. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 185 O povo sevilhano todavia. surpreendido por tamanha violência. Várias cidades invocam as antigas autonomias de que gozam. advertidas a tempo. Logo após. mas caritativo. Fernando e Isabel não se impressionam contudo. Córdoba. em janeiro de 1482. ele não hesitava" (op. alto e seco. Ve- . Maisonneuve traça o seguinte quadro: "Torquemada é o símbolo de todos os terrores inquisitoriais. Em Saragoça. Suas numerosas cartas. Inocêncio VIII. Os críticos necessitavam de um modelo de prepotência e nesse frade o encontraram. 128-9). e ampliam o combate. cai Granada. Muito inteligente. Toledo. etc. nomeando oito inquisidores seus para Castela. naquele momento tão conturbado pelo qual. de acordo com os costumes do tempo adicionou-se-lhe ao nome a indicação dessa proveniência: frei Tomás. Até mesmo o seu nome soa rebarbativo. olhos negros e penetrantes. Os judeus preparam mesmo uma conspiração. Valência. não sendo porém atendido. também de Isabel. função que exerceu durante cerca de treze anos. o novo pontífice. canonista. por ter nascido na pequenina cidade de Torquemada. com tal força que o Conselho Superior. Diante da onda de protestos que lhe chegam aos ouvidos. de Torquemada. Devido ao prestígio que adquirira. mas parece desprovido de todo calor humano. Determina também que os tribunais ajam sempre de comum acordo com os bispos das dioceses em que estejam localizados. Barcelona. O que devemos disso pensar? Torquemada. se revolta. proíbe se criem embaraços para a interposição de recursos à Santa Sé contra sentenças condenatórias. etc. em Avila. entretanto. cit. quando se retirou para o convento de São Tomás de Aquino. mas as autoridades. mesmo a piedade". A engrenagem inquisitorial. que inclui entre seus planos assassinar os dois inquisidores. apaixonado pelo triunfo da religião e pela grandeza da Espanha. destitui um dos inquisidores. Em verdade. a "Suprema" resolve intervir e.

A Igreja não possuía (2) Aí se abriga outra difícil questão. a qual em que o liame esteja constituído pela adesão de cada um dos participantes à inteira fé comum. tão-só no sentido de que o encargo. de modo geral. etc. Graças outrossim aos seus cuidados. o não-cristão. pelo mero fato de serem infiéis. por motivos de conveniência política. O herege quer permanecer cristão. 3. pode ser no entanto atraiçoado através da apostasia ou da heresia. todos aqueles que especulavam com a credulidade popular. irreversível. imersos no paganismo. como órgão disciplinador interna corporis. exaustivamente examinada pelos doutrinadores. os infiéis em geral. à Igreja ou aos membros desta. deve ser recebida cum grano sacis no ci so da Espanha. sob o titulo Curto Tratado sobre a Jurisdição dos Inquisidores contra os Infiéis que se Opõem à Fé Cristã. Louis Sala-Moulins. Essa colocação doutrinária. insere um trabalho de Nicolau Eymerich (escrito entre 1370 e 1387). Portanto. O compromisso de conservar a fé. de concerto com a Igreja. Ampliou a competência dos seus tribunais. algum ponto essencial do Magistério. em principio. alargou a perseguição aos infiéis. através da palavra e do bom exemplo. o que suscitava graves problemas jurídicos e religiosos. para receberem castigo. que jamais desaparecerá. os infiéis.' A ortodoxia necessita de uma comunidade r doutores. mas a conquista há de fazer-se pela persuasão. O Santo Ofício. podem receber as sanções canônicas. A adesão todavia não se impõe. não admite recuo. porque o problema ali se punha dentro de um contexto em que estavam unidos Igreja e Estado em defesa da pátria e da religião. o autor mostra que os judeus. proclamavam-se mesmo "bons cristãos". Destes últimos cabia exigir respeito à Igreja e à fé por ela pregada. apenas e no instante em que recebe o sacramento do batismo. de ser membro da Igreja e da cristandade até à morte. As dificuldades concernem aos não-cristãos. isto é. mas. Habitualmente. para se ocuparem não só das heresias. mas também de outros variados fatos graves: por exemplo. reprimindo os abusos. ele fica marcado com um "selo indelével". Convinha fossem tais pessoas alcançadas.-C. permanecem sujeitos à disciplina eclesial. porém. ( . A infração que o herege comete decorre precisamente do fato de que o católico não possui "direito à escolha". ipso facto. mas diferente se apresentava o caso dos infiéis que habitavam pais cristão. na sua qualidade de "infiéis". cabível. pelo batismo. Será correto dizer que a Igreja possui "jurisdição" sobre todos os homens da Terra. ao se tornarem faltosos.( 186 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. a abraçar a fé cristã. à heresia. De igual correto modo procederam as autoridades espanholas. padres que se amancebavam. não podem ser por isso punidos. Bem se admite que a Igreja disponha de poderes disciplinadores contra os integrantes do seu rebanho. para referir uma pessoa sem fé cristã. de sorte que. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 187 lou sempre pela honesta execução das atividades inquisitoriais. mas serão unicamente objeto de busca. século XVI): não os constrangeram à religião. Quanto àqueles que viviam em suas próprias terras. eventualidade em que até mesmo a inquisição podia alcançá-los. quando procuram apagar a fé de pessoas cristãs e atraí-las para os seus erros. enquanto guardam as próprias crenças no íntimo das suas vidas. nenhuma medida punitiva era. desde a era medieval. exatamente no tempo ora em exame (fins do século XV. por força do batismo. civis e religiosas. pela força. o membro que "escolhe" incide numa ruptura perante o grupo a que pertence e. nada tinha a fazer com eles. não estão adstritos a nenhum dever. "Pagão" e "infiel" são figuras que se confundem. defensores ou protetores dos hereges. Note-se que os hereges medievais reivindicavam sempre a sua condição de cristãos. foi o de transmitir a Boa-Nova à inteira humanidade. com os nativos pagãos das colônias de além-mar. os presídios eclesiásticos receberam grandes melhoramentos humanizadores. utilizamos o primeiro termo para designar o não-batizado. justifica a reação. ressalvemos. Lea. Com este. O homem é admitido na comunidade dos fiéis. O apóstata abdica da inteira fé. se obrigara a aceitar. os sarracenos. Poderão sê-lo. repudia a Igreja. ao mesmo tempo que se ocupava dos hereges e dos apóstatas. que. quando exteriorizam atitudes ofensivas à fé católica. Essa nascente Inquisição espanhola moderna teve como alvos principais os judeus e os muçulmanos. Com amparo em abundante citação de textos pontifícios e de é sempre uma escolha. cabendo atraí-los suasoriamente. ou. mas rejeita. mas aliciaram-nos por via da catequese'. obstinadamente. falsos santos e falsos místicos. o segundo. Agiu pois corretamente a Inquisição medieval dos vários países quando deixou de lado os não-crentes. Ambos. justificando-se então responsabilizá-los por atos hostis. vale dizer: passa a pertencer à Igreja. A opção pelo batismo é definitiva. Na vida real. na sua Introdução à História da Inquisição Medieval de H. É a doutrina da destinação de todos os homens à Igreja. quando os infiéis se tornam benfeitores. que seduziam mulheres e as incitavam a não confessar seus pecados. Como proceder com os numerosíssimos infiéis que viviam na metrópole e não se queriam converter? Esse foi o grande embaraço com que se defrontou o Santo Ofício ibérico. por ela recebido de Cristo. Por exemplo. retira-se do corpo de crentes. as distinções teóricas com freqüência se diluíam e o Poder civil. explica Eymerich. nem podiam ser submetidas aos juizes inquisitoriais. fabricantes de filtros de amor. e assim irá ingressar na eternidade. mas que indicam dois aspectos de uma mesma situação. elas não podiam ser compelidas. vinculados a uma obrigação de obediência. Os pagãos. agora sim. ao inverso. carcereiros que violentavam as prisioneiras.

mas fingia-se que não era. Os mouros e os judeus. permitindo que continuasse em seu solo a formar imensos quistos estranhos. que deveria ser destruído ou ir-se embora. depois novas vagas surgiram através do estreito de Gibraltar. que começou a sua efetiva chegada em crescentes quantidades. Granada e Tarragona tornaram-se conhecidas como "cidades judias". porque o batismo. Bem o demonstra um decreto resultante de concílio convocado pelo bispo de Córdoba. O dilema foi duro. Esse povo não perdoa e parece que jamais esquecerá o que com seus antepassados fizeram aquele país. inclusive religiosa. Para lhes atalhar as malfeitorias. por atitudes ou palavras. O mal-estar entre eles e os cristãos logo se tornou inevitável. Essa a doutrina. mas somente como autêntica operação de guerra. bastava a Justiça comum. presa aos costumes da época. Como fazê-lo. porém. sem irmanar-se com o povo e repudiando a religião nacional? Grave dificuldade todavia se apresentava. no contexto nacional. aquela Inquisição. mas era imperioso e urgente obter a uniformização religiosa no país. forte. a Igreja por ela responde. Quem quisesse integrar a pátria comum tinha de a ela aderir plenamente. eis tema bastante delicado. Ainda há pouco. ingressavam. na alçada inquisitorial. ao contrário. e sim o desenlace de um estado de forte tensão que veio fermentando durante longo tempo. repetimos. Para aferir a solução adotada. A violência cometida é inegável e só pode ser compreendida. com hábitos próprios.. Assim. com vistas à tão acalentada reconstrução nacional. e. ponderava-se. na posse das suas faculdades mentais. A Espanha queria ser unida. pelo batismo. Tratando-se de uma criança. O que se passou nesse final do século XV não constitui entretanto fenômeno isolado. revelava-se um inimigo indesejado. produto de livre-arbítrio. qual prolongamento do caloroso espírito de luta da Reconquista. Para a formação do povo espanhol concorreram várias etnias. portanto. no ano 306 (bem antes portanto do cristianismo se tornar religião . maliciosamente contornada pelas autoridades espanholas. aceitável quando há consentimento dos pais.. Afinal. e a indispensável prova de que o fazia era tornar-se cristão. convencendo inúmeros infiéis a submeter-se. a Espanha devesse respeitar o adversário. o que se torna ainda mais . fugindo de perseguições sofridas no norte da Africa. através de grosseiro "faz-de-conta": apresentada ao infiel a alternativa "conversão ou exílio'. Já no caso de um adulto. ao optar pelo batismo. nada melhor do que figurar a hipótese contrária. No momento entretanto em que se deixavam batizar. e o modo como os expulsaram em 1492. mas nele permaneceu obstinadamente arredia a numerosa colônia hebraica. daí por diante. A presença de judeus na península ibérica é muito antiga. caíam em poderosa armadilha porque. Não se pode impô-lo a quem o recusa. é ato de fé. poderiam ser punidos como hereges ou apóstatas. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 189 jurisdição sobre eles. se apresentava insignificante. a coação moral era evidente. fundada na convicção da manifesta conveniência do sacramento . eles apareceram na esteira das tropas e dos colonizadores romanos. sem embargo. mas é óbvio que muitos o fizeram através de simulada conversão. de uma ocupação multissecular e de lutas sangrentas. formavam fortes comunidades. desavenças e opressões começaram a surgir. esses imigrantes se instalaram nas férteis terras da Andaluzia e avançaram rumo ao interior da península.188 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. que se foram aos poucos amalgamando ao encontro de uma uniformidade. por motivo do quinto centenário de tal medida. mas é preciso lembrar que falamos de uma Espanha dos séculos XV e XVI. a Inquisição não os molestou. de jure. por definição. o interessado podia escolher entre as duas soluções e. em que se arredam formalismos à vista da importância do bem objetivado. que. diante da sua tenaz recalcitrância? O nó górdio foi cortado por uma medida de força. porque sua importância. alguém se deixa batizar sem oposição. Essa maneira de proceder hoje repugna. nas circunstâncias dadas. torna-se imprescindível a efetiva anuência ao ato. tornando-se cristãos. inútil será alegar depois que o fez com reservas mentais. diversamente. Se. deviam ser submetidos. inflamadas manifestações hostis contra ela se levantaram ao redor de todo o mundo. dentro de um clima de guerra. pouco a pouco. do século I. e aqueles que a isso se opunham se tornavam os inimigos que cumpria vencer. de relevante importância social e econômica. ou exigível. adotavam misteriosa religião própria e. Por isso. O que então se passou não poderá ser entendido dentro da pureza da doutrina cristã. porque isso não obsta a que continue sendo considerado válido o sacramento. Foi todavia como efeito da diáspora. aparentando concordância. por inteiro católica. Primeiro. Seria acaso admissível. profundamente apaixonada e humilhada. exercia um ato voluntário. Caso contrário. Observe-se que também os ciganos não eram cristãos. desde que essa negativa seja claramente manifestada. que estava saindo. se quisessem retroceder. Os judeus e a Inquisição espanhola. parece ter existido já antes da era cristã. 4.

ciências em geral. sinagogas e escolas lhes foram confiscadas. Ervígio (680) e Egica (687). para deter o avanço da Reconquista. poesia. abandonando seus lares. Em Granada. os mouros convocaram reforços da Africa. 373-4). castigos severos aos adultos que se fingiam convertidos mas que mantinham às ocultas sua antiga fé. em seus domínios. op. Excitados pelo clero católico. Os judeus a encorajaram e chegaram mesmo a fornecer contingentes para as tropas invasoras. estes acabaram assumindo o controle de extensas regiões. Perseguiram sobretudo os judeus que no princípio haviam abraçado o cristianismo. é certo. A maioria dos reis visigodos de Espanha reuniam em si a barbárie e o fanatismo religioso. a adesão ao Islã. A conspiração foi porém descoberta e todos os judeus espanhóis receberam horrível castigo" (Simon Dubnow. Na antiga Espanha cristã não foi diferente. Assim. aspiravam extirpar os judeus ou então transformá-los em cristãos. a gente hebraica conserva satisfatória liberdade e atinge. por isso acabavam repudiados. Graças á sua força. sob ameaça de morte. com extraordinárias mostras de desenvolvimento intelectual. o sul muçulmano se tornou um cemitério hebreu. mostram-se tolerantes. os homens dessa raça não podem ter como cônjuge. as interdições são facilmente contornadas. Quem os acudiu foram os almorávidas. A Espanha dessa antiga fase.. não fazendo causa comum nem se diluindo no povo hospedeiro. os quais desta sorte podem então agir com desenvoltura. Concertaram um acordo com seus irmãos da Africa do Norte. e com sua ajuda quiseram levar a cabo a insurreição. a convivência passa a ser tranqüila. mas não poucos se viram obrigados a converter-se. Alguns dos soberanos posteriores anularam ou atenuaram as cruéis humilhações. cit. matou-o e pendurou o cadáver na porta da cidade. nesse dia. Muitos emigraram para outros Estados. dos costumes ancestrais. que antes viviam como bons vizinhos. mas constituíram minoria. Pior ainda aconteceu quando. os membros desse povo que ali restaram não ousavam professar sua fé. 0 objetivo dessas medidas consistia em suprimir todo contato entre judeus e cristãos. Inúmeros judeus amealham grandes fortunas. quando a península ibérica cai em mãos muçulmanas. desde o século X. por largo tempo. (3) Revoltas contra os israelitas no entanto ocorreram nos domínios árabes. embora no fundo continuassem sendo hebreus. obrigados pela necessidade. Os dominadores. Málaga e outras cidades. de modo que a convivência se acomoda'. onde foram acolhidos nos reinos cristãos. tão pronto o reino visigótico oficializa o catolicismo (587). a luta se reacende. e extensas colunas de apavorados fugitivos se puseram a caminhar rumo ao norte. cit. etc. anota Werner Keller. e passaram a pressionar os judeus que nelas viviam. quando tem início a ocupação árabe. "Distinguiram-se especialmente. pág. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 191 oficial). Nem mesmo à mesa de refeições podiam sentar-se juntos. A despeito de se acharem há várias gerações radicados em algum país. um judeu foi guindado ao alto cargo de vizir. Vários deles ocupam postos de relevo na Administração moura. envolvia os judeus. batismo forçado. os novos senhores vêem neles seus aliados. ocupados com a própria vida. desgostoso com o seu comportamento. Temia-se que os primeiros desviassem os segundos da Igreja. afeiçoados ao comércio e aos negócios. crianças arrebatadas da família a fim de serem educadas na religião nacional. "para os judeus de Espanha se inicia uma nova era" (op. No tempo de Egica esses judeus se sentiram tão desesperados que resolveram organizar uma conjuração e derrubar a dinastia visigoda. "O rei Recaredo I preomulgou éditos muito duros contra os judeus (589). 157). págs. Assim seguem as corsas até o ano 711. ordenando várias medidas de segregação dos judeus e proibindo todo e qualquer relacionamento com os cristãos. via de regra não forçam o proselitismo religioso. Engenhosos. todavia. impondo-lhes. etc. Após a ruína do Império Romano. em 1147 ocuparam Sevilha. os judeus estão em toda parte. mas.. sobretudo a Medicina. tanto nas terras mouras como nas cristãs. compelindo milhares de judeus a abandoná-lo. por sua crueldade. De fato. que viviam felizes sob o domínio dos árabes. sendo minoria no país. os reis Rescevinto (652). eles se recusavam a abdicar da sua nacionalidade. Os maometanos. mais de mil e quinhentas famílias deles foram massacradas. o que se considera sua "Idade de Ouro". revelando latente aversão popular. nem procurar atrair alguém para o judaísmo. etc. não constituiu exceção ao clima de forte hostilidade que. quando os visigodos aderem à heresia ariana. tomou de assalto seu palácio. mas. o povo muçulmano montou uma conspiração. notadamente nos campos da filosofia. Muitos judeus fingiram aceitar a exigência. que formavam uma seita muçulmana extremada. . conforme expusemos no capítulo VI.190 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. a multidão se pôs a perseguir os judeus da cidade. Na prática. Estimulada então por esse fato. por quase toda parte. mas a maioria preferiu escapar. e se diz que. Em razão desse apoio. para que todos o vissem. O rei visigodo Sisebuto apresentou aos judeus a alternativa de abraçar o cristianismo ou abandonar o país (612). e que logo voltaram à sua antiga fé. de sorte que ali as mesmas desditas se repetiram: conversão ou exílio. subordinado ou escravo um muçulmano. A perseguição se estendeu a seguir por todo o reino.. como estamos vendo. Com isso. da sua religião. principalmente aqueles ligados às finanças e à diplomacia. depois Córdoba. lhes impõem regras restritivas: proibido é aumentar ou reformar as sinagogas.

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Também nos domínios cristãos a atitude para com os judeus, pelo menos por parte dos governantes, tendeu à complacência, muitas vezes sendo-lhes confiados importantes cargos públicos. Afonso VI, de Castela (1063-1109), chegou até a incluí-los como soldados em suas tropas. Durante muito tempo, nesses territórios, os judeus se puderam dedicar tranqüilamente a atividades agrícolas e industriais. As obras dos seus sábios foram recebidas com grande interesse e influenciaram a cultura cristã. Fernando III, quando ocupou Córdoba (1236) e Sevilha (1248), perseguiu os hereges, mas deixou liberdade religiosa aos mouros e aos hebreus, respeitando o princípio de que, tratando-se de infiéis, não podiam ser penalmente responsabilizados por manterem suas crenças. Com o avanço da Reconquista crescem entretanto os sentimentos de hostilidade. A medida que vão ocupando cidades, os reis espanhóis outorgam fueros em que se contêm especificações concernentes aos mouros e aos judeus, a fim de melhor fiscalizá-los. Os mouros optam de preferência por viver nos campos. A maioria dos judeus, ao invés, permanece nas cidades, designando-se-lhes então áreas em que se devem manter segregados (as judearías), ou essas áreas se formam espontaneamente em torno das sinagogas, das escolas talmúdicas ou de outros estabelecimentos públicos hebraicos. Sob a superfície das coisas, lavra sempre contudo o rancor popular, que se avoluma durante os séculos XIV e XV. Dois concílios, realizados em Zamora (1313) e em Valladolid (1322), investem contra os judeus (e também contra os mouros). Começa assim a aumentar o fosso que separa os cristãos dos membros dessas duas comunidades, cresce o sentimento anti-semítico, sucedem-se morticínios e pilhagens. Ganham vigor as velhíssimas acusações de assassínios rituais, de sacrilégio, de profanação da hóstia. Quando, em meados do século XIV, a devastadora "peste negra" chega à Espanha, de pronto a atribuem aos judeus, que, segundo se acredita, haviam envenenado as fontes de água para destruir os cristãos. Depois, a tensão acumulada explode com ferocidade em Sevilha, no ano de 1391, quando uma multidão superexcitada se lança contra os judeus, matando cerca de 4.000 deles. O movimento agressivo se comunica a outras cidades (Valência, Toledo, Barcelona, etc.). Muitos judeus, diante disso, para escapar à fúria popular, aderem em massa ao cristianismo. São os "cristãos-novos", chamados de "conversos" ou, pejorativamente, de "marranos" 4 . Algumas dessas
( peninsula ibérica. Parece ter sido usada somente para designar os falsos, mas não

conversões eram autênticas, _vários dos que as fizeram chegaram mesmo a se tornar grandes dignitá,fios da Igreja, mas está claro que a grande maioria dos conversos agia insinceramente. Toma então vulto o problema dos falsos convertidos ou judeus clandestinos. Enquanto muitos judeus conservam aberta e corajosamente a própria fé, outros inúmeros descobrem as vantagens da fraude; isto é, percebem que, apresentando-se exteriormente como cristãos, ganham a paz e se lhes tornam acessíveis posições atraentes na vida pública e privilégios no mundo negocial. Aceitando o batismo, certas po rtas, até então cerradas, se lhes abrem, notadamente a dos matrimônios mistos. Desse modo, através de casamentos com cristãs, muitos judeus se infiltram na nobreza, em tradicionais famílias espanholas e têm mais fácil acesso ao poder e à fortuna. Isso tudo gera profundo mal-estar, o povo se revolta e é portanto contra os marranos (não contra os judeus ostensivos) que, no século XV, recai de preferência a ira geral. Reclama-se sejam eles destituídos dos cargos que ocupam, expulsam-nos das corporações profissionais e novos pogroms se seguem. Em Toledo, no ano de 1449, ocorreu o mais importante destes, dirigido contra os marranos que lá residiam. Constitui simplista reducionismo do problema pretender, como fazem alguns historiadores, que tamanho rancor popular foi artificialmente provocado por um clero fanático. Sem dúvida houve tal contribuição, mas as raízes do fenômeno são muito mais complexas. Nem aliás conseguiria a Igreja desencadear artificialmente tanta inimizade, sem que para ela estivesse predisposto o povo. Fontes de variada natureza alimentavam o azedume. A Espanha passava por um período difícil da sua História e todos os males que a afligiam eram atribuídos aos judeus: pestes, fomes, miséria, dissensões políticas, guerras fratricidas, etc., etc. Para explicar o anti-semitismo ao longo da História universal, observa-se que os judeus foram sempre colocados como "bodes expiatórios" ante todos os infortúnios. Sim, mas resta saber por que tal aconteceu. No capítulo VI examinamos o assunto, mostrando a constante e geral animosidade contra eles, nos mais variados países. Na Espanha não foi diferente, somando-se os mesmos fatores religiosos, sociais e econômicos, geradores de repulsa popular, de inveja, e propiciadores da vendetta. Muitos hebreus enriqueciam com
os autênticos convertidos. Predomina o entendimento de que a palavra deriva de porco, cuja carne os judeus não comiam, mas tinham de faze-10 ao se fingirem cristãos.

(4) São duvidosos o sentido e a origem dessa expressão, que se adotou na

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facilidade, ao passo que o povo passava por dificuldades econômicas; através da usura e dos negócios em geral, exploravam os cristãos; ostentavam depois sua fortuna, apresentando-se pelas ruas, para repetir palavras de Dom João II de Portugal, "com lobas e capuzes finos, com jubões de seda, espadas douradas, toucas rebuçadas, jaezes e garnimentos", assim humilhando as pessoas. Assenhoreavam-se de altas e rendosas posições oficiais; com freqüência, se tornavam conselheiros dos governantes, orientando-os no sentido de extorquir sempre mais tributos; ou pior ainda, desempenhavam a função de coletores de impostos, privilégio que lhes era outorgado geralmente para desse modo se ressarcirem de empréstimos usurários que haviam feito ao erário público. Não aderiam à fé comum, mas exteriorizavam desprezo pelo cristianismo, preferindo seus misteriosos e estranhos cultos. Por acréscimo, os espanhóis tinham presente o fato de que os judeus se haviam aliado aos invasores mouros, não nutriam o sentimento de patriotismo e deviam ser sempre encarados como inimigos potenciais. A proliferação de falsos convertidos, usufruindo benesses, criava forte clima de insegurança, que levava o povo a desconfiar de todo os cristãos-novos s. Consideremos também que nesses tempos começava a engatinhar na Europa a revolução comercial, em que a medida de riqueza deixava de ser a terra, como no feudalismo, para tornar-se a do dinheiro, que tudo podia comprar. Também entre os espanhóis formava-se uma classe média que queria participar dessa nova economia; mas encontrava à sua frente os judeus, que se haviam adiantado, ocupando todos os espaços. Como fatalmente tinha de acontecer, enfim, o anti-semitismo crescia; e, dentro dele, a posição da Igreja se tornava assaz difícil. Durante mui prolongado tempo ela exercera sua atividade evangelizadora, tentando atrair os judeus. Falhando os métodos suasórios, recorreu aos debates públicos entre representantes das duas crenças, e aos sermões obrigatórios, a que os judeus deviam comparecer. E impressionante o denodo com que a Igreja os procurou atrair, mas sempre em vão. Quando um catecúmeno dava mostras de conversão e se deixava batizar, com freqüência verificava-se ao depois,
(5) Tal estado de espírito é bem ilustrado por Cervantes, neste desabafo de Sancho Pança: "Y Guando ocra cosa no tuviese sino el creer, como siempre creo, firme y verdaderamente, en Dios y en todo aquello que tiene y cree la santa Iglesia
Católica Romana, y el ser enemigo mortal, como lo soy, de los judios, debian los historiadores tener misericordia de mi y tratarme bien en sus escritos" (Don Quijote, Parte II, cap. VIII).

desoladoramente, que tudo era fingido, que à sorrelfa ele mantinha intacta sua antiga fé. Recorreu-se à violência dos batismos compulsórios, a pretexto desta melancólica esperança: "Embora os batizados à força não cheguem a ser bons cristãos, talvez venham a sê-lo seus filhos". Os resultados obtidos foram sempre magérrimos, os judeus estavam presos a uma cultura multimilenar profundamente arraigada em suas almas e integravam uma comunidade fortemente coesa, que os coagia à fidelidade, e, quando algum deles se tornava cristão, lidava por convencê-lo a apostatar. Desde o começo do seu reinado (1474), Fernando e Isabel mostraram intensa preocupação pelo problema. Tomaram contra os israelitas várias medidas discriminatórias e os baniram de algumas regiões. Instalada a nova Inquisição espanhola (1478), ocupou-se ela dos marranos, que, por haverem recebido o batismo, passavam a poder ser tratados como hereges; e perseguiu também os judeus que queriam constranger os autênticos cristãos-novos à apostasia. Nesse mister, as autoridades se viram porém a braços com dificuldades quase insolúveis. Torna-se curioso verificar que, de modo geral, os mouros foram enfrentados com mais paciência, embora tivessem sido eles os invasores e os ocupantes do país. Isso mostra que, realmente, a comunidade hebraica representava, na vida espanhola, o embaraço mais agudo. Numa população que se estima em cerca de seis milhões de almas, nela permanecia infiltrada importante massa de algumas centenas de milhares de judeus, que não se deixavam absorver. Assim, em 1492, tão logo ocuparam Granada e se sentiram mais fortes, os "reis católicos" decidiram dar um "basta" no impasse que se eternizava e que constituía grave empecilho à paz e à unificação nacional. Os judeus foram intimados a, no prazo de quatro meses, resolver, em definitivo e com autenticidade, se aderiam ou não, se se convertiam ou não. Na hipótese negativa, tornavam-se indesejados, devendo deixar o país. Saindo, podiam levar seus bens, exceto ouro, prata e outros objetos preciosos, cuja retirada do território espanhol estava proibida. Os cálculos, como sempre no que concerne àqueles tempos, são extremamente precários e variáveis, mas acredita-se que uns 200 a 250.000 judeus aceitaram o batismo, enquanto uns 150 a 200.000 optaram pelo exílio. Mais um prazo foi dado para que os retirantes ultimassem seus negócios e, afinal, em 2 de agosto de 1492, consumou-se a expulsão. Muitos partiqm para a Itália, Turquia e norte da África, boa parte se dirigiu a Portugal. H. Maisonneuve (op. cit., pág. 134) reproduz escrito de um cro-

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nista da época, que assim descreve o êxodo: "Eles seguiam pelos caminhos e campos com muitos sofrimentos, caindo, se levantando, morrendo ou nascendo nas estradas, contraindo todas as doenças. Inexiste um cristão que, à sua vista, não se haja apiedado nem lhes tenha suplicado que pedissem o batismo. Alguns, por exaustão, se convertiam e permaneciam, mas muito poucos dentre eles. Os rabinos procuravam encorajar seus grupos, faziam as mulheres e os jovens cantar e brandir insígnias de agrupamento, para lhes dar alegria. Foi assim que saíram de Castela". Essa página da História ibérica transformou-se numa das mais poderosas e freqüentes armas utilizadas no combate à Igreja católica. Racismo, intolerância, ganância, crueldade... Inegavelmente, para a formação mental hodierna o acontecido horroriza e se afigura indesculpável; m as , no contexto da época, os fatos perdem muito do colorido que agora lhes emprestamos. As perseguições, os massacres dirigidos contra os judeus foram práticas podemos dizer corriqueiras na Europa, durante vários séculos. Por toda parte, inúmeras vezes, eles foram espoliados e escorraçados. Importantes e dramáticas expulsões em m as sa já haviam ocorrido na Inglaterra, na França, na Alemanha, e o mesmo fez depois a Espanha. A diferença está apenas em que, tão-só neste último país, a violência teve a direta colaboração da Igreja (local, não a de Roma), o que se torna excelente argumento para os seus adversários. Os judeus desterrados tiveram muitos dos seus bens apreendidos pelo Governo e se viram assim reduzidos à miséria. Quanto a isso, cumpre lembrar que, tio Direito comum de então, a confiscação de bens era medida larguissimamente utilizada. A Justiça Criminal e os Estados dela se serviam com freqüência, como meio de prover de recursos os cofres públicos, e a impunham não só contra os delinqüentes mas também contra os adversários políticos. Em todos os países, a expulsão de judeus foi invariavelmente acomp anhada dessa providência. Quanto a eles, de resto, sempre se acrescentava a consideração de que suas riquezas tinham origem reprovável, porque oriundas da usura e da exploração dos cristãos. Logo, nenhum problema de consciência poderia ter, na época, o Governo espanhol, por haver feito o que fez; nem a Igreja, por apoiá-lo 6
.

5. A situação dos mouros na Espanha apresentava características distintas da dos judeus. Estes, cabe dizer, mantinham postura mais agressiva, no sentido de que queriam participar amplamente do mundo cristão, nele interferir, dele tirar proveito, sem contudo se deixarem assimilar. Os mouros, ao invés, formavam comunidade muito mais numerosa, que, vencida afinal na guerra, pretendia apenas levar vida própria, apartada da população cristã. Enquanto os primeiros possuíam vocação citadina, estes, os mouros, se localizavam de preferência na área rural ou se aglomeravam na periferia das cidades, extramuros. Tiveram, de começo, a ilusão de que lhes seria permitido preservar seus costumes e sua fé; o que, todavia, dentro da perspectiva da Espanha católica daqueles tempos, era algo inadmissível. Numa Espanha embevecida pela posse da verdade divina, que rompia os mares plena de ardor missionário, para catequizar povos distantes; que buscava sua unidade e sua força, tornava-se à evidência inaceitável que o inimigo derrotado mantivesse o país dividido em duas nações estanques. E verdade que, em seguida à queda de Granada, o tratamento a eles dado foi benevolente: o Governo lhes garantiu as propriedades que possuíam, bem como a conservação do seu modo de vida, inclusive idioma, sistema jurídico e religião. O primeiro arcebispo designado para atuar na região foi Fe rn ando de Talavera, que procurou atrair os mouros pela br an dura, dedicou-se a aprender o árabe, estimulou as conversões através da persuasão e da caridade. O processo mostrava-se todavia lento demais e, por influência do cardeal Cisneros, os "reis católicos" se impacientaram, optando por uma política mais dura, e compeliram os muçulmanos (ou "mudéjares", como eram chamados) a conversões em massa. Revoltas passaram então a suceder-se e a mais séria delas, em princípios de 1500, durou três meses, sendo afinal dominada com dificuldade. Diante
morar as inúmeras barbaridades cometidas contra populações indefesas, neste nosso século, sempre a pretexto de defender valores. Basta pensar nas violências que amiúde se cometem na Europa, para obter a chamada "limpeza étnica"; na profunda animosidade existente em alguns países (Alemanha, Suíça, França, Grã-Bretanha, etc.) contra modestos imigrantes cuja entrada foi permitida para realizarem trabalhos servis que os nacionais não aceitam, mas que se tornam depois indesejados. Mais não os acossam e os expulsam porque a imprensa e a opinião pública mundiais se mantêm vigilantes. Eis a ameaça de um Prefeito (socialista) de cidade francesa, recentemente publicada pela imprensa do seu pals: os muçulmanos lá radicados, disse"le, têm de aceitar as regras de vida francesas, isto é, "devem integrar-se ou partir" doivent s'intégrer ou s'en alter").
("

(6) A Espanha do século XV, pretende-se, deveria ter permitido que os judeus lá permanecessem tranqüilos, respeitando-os e lhes garantindo o direito it .. própria identidade. Estará acaso o mundo de hoje, após tanto progresso da civilização, em condições de fazer tal censura sem resvalar para a hipocrisia? Não é preciso reme-

resolveu que se haviam tornado sem eficácia as concessões feitas quando da queda de Granada e que os muçulmanos que ali viviam tinham de aceitar o batismo ou sofrer o exílio. presas do ingênuo triunfalismo que se seguiu à Reconquista. mas bem perceberam as autoridades que a submissão ao cristianismo devia ser acompanhada de várias mudanças de hábitos que representavam obstáculos à plena integração dos mouros na comunidade nacional. Verbi gratia. do alto do minarete. para eles muito estranho. tendo deixado de ser "infiéis" podiam agora cair sob o domínio do poder inquisitorial. faltou empatia. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 199 disso. deixara de haver mudéjares. Igual rigor se foi aos poucos estendendo a outras regiões: Castela. Tão radicais mudanças foram exigidas de pessoas que. mas.. um mourisco de Toledo foi preso pe- la Inquisição. não podiam tocar suas músicas e cantar seus velhos hinos. notadamente no capítulo do Direito de Família. de nada valia rotular os mouros de cristãos. O certo é que as autoridades espanholas. assim como certos costumes tradicionais deviam ser abandonados. fundamente gravada na formação daqueles homens. dentro da sua comunidade. a realidade era bem outra. administrado por seus irmãos de sangue. imersos num ambiente muçulmano. Aragão. inclusive devendo servir-se da língua árabe. cit. A presença moura variava bastante conforme as regiões. o que.198 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. extirpar a crença religiosa em que se haviam formado e mudar de imediato hábitos profundamente arraigados. língua (a "algaravia") e religião. pág. em 1525.. continuavam vivendo em meio ao seu povo de origem. Na prática. em 1526. voltados para Meca. não compreenderam o quanto era ao adversário difícil ceder. porque não era possível. Ao Estado e ao povo repugnava a idéia de uma sociedade pluralista. para aderir à Igreja. porém. Fora-lhes. já tão próximo da Espanha. levava os mouros a dolorosa perda da sua identidade. está claro. Por uma ficção. Os mouros dos territórios recém-libertados haviam sido até pouco antes os senhores da terra. não dispunha de recursos para tanto. dançar a zambra (tradicional dança moura) e de comer cuscuz" (op. mas que mantinham os seus seguidores como grupo diferenciado. Escasso era o número de sacerdotes em condições de levar avante tão grandiosa tarefa. no entanto. imposto o batismo. consigna H. O Corão e a tradição muçulmana contêm muitas regras que não possuem natureza propriamente religiosa. deviam mudar seus regimes alimentares. em cujo interior mantinha tenazmente a própria cultura. 148). Não só. jamais em cadeiras. No ano de 1538. convenhamos em que era quase impossível um cristão-novo deixar de enternecer-se e arrepender-se quando. proibido se lhes tornou o uso das características vestimentas e dos adereços árabes. de higiene corporal e. Há considerar por acréscimo que esse povo acalentava a plausível esperança de que logo seria socorrido pelo império otomano. A Igreja. como num golpe de mágica. porque todos se haviam tornado mouriscos. enquanto os cristãos o faziam com banha ou manteiga. vedada lhes passou a ser a circuncisão. chegando. em 1502. o que bem se compreende à vista da mentalidade da época e das peculiares condições por que passava o país. Bem se compreende portanto que (do mesmo modo que sucedera com os judeus) as conversões dos mouros eram em regra fingidas. significava romper com o inteiro universo a que eles pe rt enciam. sim. sempre no solo. Era gente que se fechava em agrupamentos coesos e solidários. Suprimiu-se o emprego do idioma árabe. por ser o dos seus antepassados e porque nele fora redigido o Coroo. Acresce que não . Cisneros concluiu que devia cessar toda e qualquer complacência. A partir de 1526. que se reduzem a meros estilos de vida. a religião muçulmana não mais existia oficialmente no país. Consoante ponderavam seus líderes. e subitamente se lhes exigia total capitulação. O emprego da força contra isso mostrava-se inviável. ouvia o muezim. acusado de "tocar música à noite.Kamen. não mais podiam fazer o jejum do Ramado. no reino de Granada. idem quanto aos ritos que acompanhavam o sacrifício de animais destinados ao consumo. que as atraía e compelia a se manterem submissas aos próprios mores. entretanto. Entendeu-se pois que as mesmas. entretanto. Encarava-se como muito suspeito o fato de alguém não beber vinho nem comer carne de porco. aos quais se dava o nome de "mouriscos" e que. para se tornarem verdadeiros cristãos. que era a única conhecida pela maior parte dos mouriscos. Repudiá-lo. Em circunstâncias tais. que lhes era tão caro. conclamar os muçulmanos à oração.. Era mal vista até mesmo a maneira que tinham de sentar-se. quando então ele voltaria a dominar e o islamismo de novo se imporia na península ibérica. o povo espanhol muito antipatizava também com os mouros porque cozinhavam seus alimentos em azeite. em algumas delas era muito densa. Tiveram de submeter-se ao sistema jurídico cristão. subestimaram as tremendas dificuldades do empreendimento em que se haviam lançado. demais reinos. O islamismo constituía força muito poderosa. cumpria agora instruí-los na nova fé e lhes dar meios para praticá-la. Às autoridades espanholas. a mais de cincoenta por cento da população total. Cresceu enormemente assim o número de conversos. tanto civis como religiosas.

porque representava a ponta de lança o(en( . cit. com ênfase no programa educativo em vez do repressi o. Dedieu e B. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 201 havia. as tensões passaram a aumentar aceleradamente. Ela investia de mo( do reto sobre os alicerces. a Inquisição pouco teve a fazer. "Por onde ela passa a comunidade explode. nenhuma boa vontade no aprendizado religioso e a população moura mantinha postura hostil. todavia. s( cos manteve-se escassa.iva e atingia o próprio coração do adversário. os impostos especiais que os sufocavam. ao se apresentar diante de uma comunidade. págs. que se viram às voltas com autêntica convulsão social. somente começando a aumentar por volta da metade desse século: primeiro em Castela.-P.a. Cardaillac. de resistência ( passiva (às vezes até resistência armada) a uma intromissão que considerava odiosa. porque Castela. 50. a sua vez. porque os mouros que trabalhavam em suas terras constitufam mão-de-obra assaz abundante e barata. 23). será meu irmão que vendeu meu pai para salvar sua pele?" (J. isto é.. etc. o mau abastecimento. pelo clero comum e também pelos cristãos-vethos em geral. Por acréscimo. os cristãos-novos de raça judaica. na arte da dissimulação. obrigando seus membros a se delatarem mutuamente. a Igreja acabou optando por ( se dedicar de preferência à educação das crianças e. Apesar disso. mediante um processo apropriado de conversões. O povo espanhol mostrava profunda hostilidade contra os mouros. pág. a atmosfera definitivamente envenenada: quem denunciou quem? Será meu vizinho. as autoridades aumentaram as medidas repressivas e . in L. porém. Sobre a Inquisição se cristalizou todo o ran( cor contra as opressões sofridas. mas apenas se transferiu o problema. "Em uma semana. Gravíssima revolta moura por fim se desencadeia em Granada no dia 24 de dezembro de 1568. Bandos armados de mouros percorriam os campos. que contava apenas uns vinte mil mouros. esses jovens de novo se integra( vam no ambiente maometano e seus pais os industriavam na tagiy( va. revoltada. gente miserável. dando vazão às pressões acumuladas. talvez. Muito preocupante foi o fato de que esse levante contou com a ajuda de uma expedição otomana. numa luta en( carniçada do povo islâmico contra a assimilação e insistindo em manter as suas tradições. Várias escolas foram organi( zadas com esse objetivo. com atrocidades de lado a lado. que tudo havia perdido. Na segunda metade do século XVI.000 pessoas foram reunidas e dirigidas para Sevilha. muitos cristãos-novos o faziam com ostensiva indiferen( . as elites são arruinadas. Córdoba. Travou-se então uma luta selvagem. a Inquisição destroçava os sentimentos de solidariedade e de confiança que a uniam. a pé. etc. Os tribunais do Santo Ofício perseguiram muito menos mouriscos do que as Justiças reais e senhoriais. Diante de tão sérias dificuldades. que ocupou todo o ano de 1569. a If . Desse modo avançou penosamente o século XVI. os dizimaram: um em cinco. Tamanho desastre apavorou os habitantes de Castela. Valência. ao mesmo tem( po que lhes transmitia o catecismo. Os historiadores assinalam que a obra de maior envergadura contra aquele povo foi realizada pelos ( :eis.. que não entendia o castelhano e que. ( seguir em Aragão. matando os espanhóis. Albacete e Toledo. aproveitava para lhes moldar novos hábitos e ensinar o castelhano. Mostraram-se ( . Les Morisques. Les Morisques. o tifo. de sorte que esse recrudescimento da força repressiva foi recebido ( zom ódio e revolta.. depois Granada. etc. ou até mesmo zombavam do que ali se passava. morreu no caminho" (L. chamada a socorrer seus irmãos de fé. Amiudavam-se as incursões turcas pelas costas meridionais da península. 200 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. Verificava-se desoladoramente. embora tendo recebido o batismo. pilhando. que. assaltando. Sua atuação contra os mouri.. quando retornavam às suas casas. vivendo à margem da sociedade espanho( Aa. pela nobreza.( (. Quando compelidos a participar dos serviços ( religiosos. viu esse número crescer subitamente para cerca de cem mil pessoas de língua árabe e cultura muçulmana. A neve. Desde o momento em que a Igreja optara pela política de ata( car as bases do problema. o esgotamento de numerosos deportados. não convindo assim que evoluíssem social e culturalmente. 81-2). Dessa forma. ou ( seja.ambém menos rigorosos contra eles do que contra os marranos.. Também muitos senhores cristãos embaraçavam o progresso da ( Igreja. as coisas estavam mais ou menos acomodadas. Outras deportações se seguiram. O confronto entre as civilizações cristã e islâmica evoluía rapidamente para o seu climax. em longas colunas sob escolta militar. Em represália. se conservava completamente alheia à fé cristã. ( Para os mouros. o fundamento da consciência mourisca. se queixavam contra o ambiente opressivo em que viviam. não se solucionou. e estes. visando a subtrair os catecúmenos à in( fluência familiar. cit. ( buscando extirpar pela força o amor à fé muçulmana que cada homem ocultava no recesso do seu coração. as freqüentes confiscações de bens que os afligiam. a Inquisição se tornou um símbolo. muito jovens ou muito velhos para suportar essa prova. Vincent. de modo geral. Cardaillac. na qual milhares de mouros pereceram e mais de oitenta mil foram expulsos para Castela.

a honra e o orgulho herdados da Reconquista. Kamen. de cristãos rebeldes que pretendessem provocar indevidas mudanças dentro do cristianismo. a expulsão veio a ser decretada. sentia-se derrotada diante do pauperismo dos resultados colhidos. O apego aos ideais cavalheirescos. em Sevilha no ano de 1580. por acréscimo. as dificuldades foram sendo aplainadas. Muitos nobres também se opunham a uma medida que os privaria de poderosa força de trabalho. não cabe nos estreitos limites deste livro. a pobreza e a decadência da Espanha. Por fim. de boa origem. Diminuído assim o número de cristãos-novos de origem hebraica. acarretava exacerbação de ânimos e gerava em seus membros especial fidelidade aos respectivos credos. houve até mesmo quem sugerisse fossem castrados os homens dessa raça. ou seja. o campo se circunscreveu e a Inquisição pôde exercer sobre eles mais estreita vigilância. com suas ressalvas ao lu- . que se infiltravam em todas as camadas sociais e. existem preconceitos e medidas discriminatórias contra minorias religiosas e raciais. Através de tortuoso raciocínio. enquanto outros povos. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 203 a Inquisição se foi tornando cada vez mais ativa. O assunto se arrastou lentamente. a Espanha liquidou duas das três grandes culturas que lá conviviam. aos 4 de abril de 1609. A Igreja era penoso ver assim perdido todo o seu esforço de catequese. Convencidos ficaram de que estavam lidando com multidão de pessoas não assimiladas e não assimiláveis. que representavam seríssimo perigo para a paz e a unidade nacionais. cada qual apegada à sua fé. pág. à evidência. inclusive crianças. pela morte. pela fuga. muito medo e decepcionado azedume. Verificou-se outrossim que os mouriscos aragoneses estavam mantendo entendimentos secretos com os líderes protestantes da França e. Muito cresceu então o antigo conceito de "limpieza de sangre". pouco conheceu a figura de autênticos "hereges". apresenta múltiplos aspectos e. O fenômeno não foi religioso. etc.. ou pelo menos dificultava-se o seu ingresso nas Universidades. o despeito por se verem suplantados em vários domínios. durante longo tempo. preferindo regressar (o que só foi possível até 1499. após tanto trabalho. Alemanha e Itália. por acréscimo. nos cristãos. procurava-se impedi-los de aceder a altos postos administrativos. a Igreja não a impediu e desse modo. tanto que. sequer chegando a existir em Castela. imputa-se assim à Inquisição um grande mal. jurando absoluta submissão à Igreja. Verifica-se que a Espanha. quando essa volta se tornou proibida). viam com maus olhos esses adventícios. "A Inquisição não tomou parte ativa na decisão de expulsão. 156). a longo prazo. em vários países. A evidência era impossível a sonhada uniformização. para se perderem nas nações islâmicas. em Valência no ano de 1602. outros. com o envio de mouriscos batizados.202 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. A Igreja. A integração não se fez todavia sem dificuldades. buscavam dominar as atividades mercantis e financeiras. Obstava-se. Quando da expulsão dos judeus. porque os cristãos tradicionais. que os acolheram. Basta-nos frisar que a doutrina católica. cit. porque retornavam às suas crenças de origem e passavam por isso a ser qualificados como apóstatas. mas social. a Inquisição medieval teve ali escassa atuação. Calcula-se que sofreram a medida uns trezentos mil mouriscos. e os seus descendentes acabaram absorvidos na população nacional. graças a isso se tornaram ricos e poderosos. 6.. Fenômeno semelhante ocorreu depois com os mouros que restaram na Espanha no século XVII. concretizando-se paulatinamente até 1614. em 1492. nas Ordens militares e religiosas. Verificava-se também que o número dos prolíficos mouros aumentava assustadoramente. com ele pouco teve a ver a Igreja e não parece merecer a importância que alguns lhe querem atribuir. Até hoje. pelos casamentos mistos. em pouco mais de um século. destinadas a trazer forças combatentes do norte da Africa. como vimos. oscilando entre prós e contras. op. temendo-se que em muitas regiões acabasse logo suplantando o dos cristãos. o que acarretou gravíssimos prejuízos para a economia espanhola. O assunto é extremamente complexo. Isso se explica em boa parte pelo fato de que a coexistência de três fortes culturas em permanente estado de conflito. Compreende-se pois que no seio da cristandade escasso tenha sido o surgimento de heterodoxias a exigirem a interferência inquisitorial. que foi acertada exclusivamente por um pequeno grupo de políticos de Madri" (H. Para evitá-lo. Paulatinamente. muitos deles preferiram permanecer no território espanhol. a quantidade de judeus e mouros passou a diminuir. levavam os cristãos-velhos a discriminar os cristãos-novos. Tudo isso produziu. Seja como for. A mais grave preocupação estava representada pelos neoconversos acusados de hipocrisia. tendo partido para o exílio. ao contrário do que sucedia em outros países tais como França. não suportaram os maus-tratos recebidos lá fora. foram descobertas conspirações. Começou a crescer então a idéia de expulsá-los do inteiro território nacional. com queda da produção agrícola e do recolhimento de impostos. Alega-se que a expulsão dos judeus gerou.

privativ as da liberdade e não havendo presídios em número su- . favorecendo a ganância.. Em seus aditamentos ao Directorium de Eymerich. em que a medida da riqueza era a terra. . após 1492. mas se aplicou com largueza o sambenito. 230 e segs. inclusive pagando-os para os réus pobres. [. Kamen.Kamen. como medida terapêutica e a fim de proverem ao próprio sustento. Os protestantes.ião se deve torturar. Reconhecendo que a demora nos processos era injusta para com os acusados. págs. e acrescenta que. Abolidas foram as cruzes infamantes cosidas na roupa. o que não impediu a alegada "decadência". em seus pontos mais importantes. em grande parte.. cit.] e os g as tos dos pobres eram pagos pelo próprio tribunal" (op. que insignificante foi o número de réus efetivamente tor' turados pelo Santo Oficio esp an hol (op. ( etc. Dava-se de comer regularmente e de modo adequado aos presos. recomendava Torquemada que os cárceres tivessem celas amplas. pág. na hipótese de merecer a pena de morte. às expensas destes. 208-10). com o apetite ( de lucro. cit.). as da Inquisição eram menos indignas do que as de outras jurisdições" (Historia de la Inquisición Espanola. 310 e segs. geralmente de cor amarela.). como anota H.. o empobreci( mento da Esp an ha. em que não se presumia o perigo de ser descoberta pelo povo. A confiscação de bens foi amplamente utilizada. constituíram podero( so fator de enriquecimento das nações por eles dominadas. Ordenou-se fossem tratados com benignidade aqueles que. transcritas no livro de Villanueva e Bonet. Havia também multas. Suprimiu-se o "muro estreito" medieval. 407). Para a boa regularidade dos trabalhos e honesta aplicação do Direito. O réu devia tomar conhecimento do teor das acusações. Agora. só estavam sujeitos a ligeir as penitências. cit.. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 205 cro. Os jovens. começando com r o "Tempo de Graça" até. Lea. págs. As penas deviam ser ajustadas à gravidade dos crimes. pois a tortura não serve para remediar a falta ( de provas". Conforme lembra H. ao contrário. às sucessivas "Instruções" baixadas pelo Inquisidor Geral Torquemada (as quais se acham. mais tarde. até vinte anos completos. As prisões receberam notáveis melhorias. Quando se multiplicaram as medida'. Nega aos juizes o direito de criar nov as formas de suplícios e adverte que o inquisidor precisa ter "sempre presente em . mesmo após o "Tempo de Graça". em que o preso era encerrado em sinistra e minúscula cela escura. sobretudo em seu ramo calvinista. "se se pode apurar o fato de outro modo que não pela tortura. pág. As regras de atuação da moderna Inquisição espanhola foram em linhas gerais as mesmas da Inquisição medieval. com dados estatísticos ias mãos. a absolvição podia ser concedida pelo confessor. ( É com o protestantismo. no final. etc. o apoio ao comércio e aos negócios em geral. ( I ( 7. flagelação. pág. desde os mais poderosos até os mais pobres e pequeninos. mantendo aversão pela usura e pela cobrança de juros. que considera os homens ( essencialmente iguais. mas é bom lembrar que. Incentivou-se a presença de advogados defensores. "em comparação. revelassem suas faltas... ( muit as vezes de mãos dadas com os judeus. aconselhava-se que a "Suprema" exercesse atenta fiscalização sobre os vários tribunais. determinaram-se medidas para obter maior celeridade. com ( os conceitos de fraternidade e de caridade. 228-9). que nasceu a gr ande mola propulsora do capitalismo. I. inclusive a de que. op. Alega-se que a expulsão dos judeus acarretou. Fran( cisco Pena faz a respeito várias recomendações. incapacidades. com figuras diabólicas desenhadas.-C. Em caso de heresia oculta. com o pensamento de que a melhor maneira de ser agradável a Deus é acumulando bens materiais. e a Espanha católica não estava prepara( da para enfrentá-la. "bem arejadas e com número suficiente de janelas para que o sol nelas possa penetrar". "é inegável que seus calabouços não eram antros de horror.. cercando-se entretanto de maiores zautelas. ainda ali ( restou um número muito grande de judeus. ou negra para os condenados à morte.. II. Precisa( mente no século XVI o mundo começou a ingressar na chamada "revolução comercial". Seus grandiosos ( empreendimentos colonizadores (bem como os portugueses) se fa( ziam centralmente ad majorem Dei gloriam e com a idéia de que o prestígio e a força econômica derivariam naturalmente da maior extensão territorial possuída. Ou. Mostra H. A tortura continuou admitida. peregrinações. devemos ter em conta os horrores das prisões seculares da mesma época. mas antes de oferecida denúncia. porque todos feitos à imagem e semelhança de Deus. no sacramento da Penitência. o envio às galeras na marinha real.eu espírito esta sentença do legislador: o acusado será torturado de maneira que permaneça são para a liberação ou para a execução" (op. que a seu turno subvencionava os gastos inquisitoriais. cit.( 204 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVI. Incentivava-se o trabalho dos detentos. consistente num hábito sem mangas. Nela perdurava ainda muito do pensamento feudal. Houve muitos aperfeiçoamentos humanitários que se deveram. o "auto-de-fé" e a entrega do réu ao braço secular. em favor da Coroa. — realmente constituiu sempre um embaraço ao florescimento das atividades negociais e à acumulação de riquezas.

8. do México e do Peru fluem. Intercalam-se. Após tanto esplendor. na Europa. a Inquisição espanhola manteve uma Justiça superior e mais eficiente do que a estatal. nesse sentido. a Espanha atinge a culminância da sua riqueza e do seu poder. se torna imperador da Alemanha e dizem. Sardenha. cujas condenações definitivas não atingem senão os reincidentes (op. fortissimo era o seu preconceito contra a da Espanha. Por largo tempo continua ainda a perseguição aos clássicos delitos de judaísmo e de maometanismo. 3. A Reforma protestante. Examinando de perto porém o seu comportamento. 2. S. como substitutivos. revelado- . Vista em seu conjunto. atraídos por novas fortunas. para a metrópole. ao contrário do que faziam as Justiças civis. Curiosa. de sorte que a Igreja vê diluir-se o seu monopólio da cultura. cit. Esses substitutivos acabaram prevalecendo e facilmente se convertiam em liberdade plena. "Passados os primeiros anos da fundação. após um quarto de século de atroz rigor. o seu cumprimento na casa do condenado (a prisão domiciliar que se apresenta hoje como notável progresso) ou a liberdade vigiada. Dentro de um regime político absolutista e de profunda religiosidade dos seus reis. cit. que efetua um exame muito cuidadoso dos depoimentos. o Franco-Condado. sentiu inesperado alivio. págs. A despeito de tudo. Magia e bruxaria. A despeito de tudo. Em 1580. Sicilia. XVII. que o sol nunca se põe em seus domínios. que exigiam imparcialidade e justiça" (op. Erasmo de Roterdam. Anseios de liberdade. semeou o terror. o chamado "século de ouro". com a sua rede de informantes anônimos e obrigando as pessoas à delação. Paulatinamente vai aumentando o número das pessoas que anseiam por maior liberdade e não mais aceitam pacificamente a tutela clerical. os Países-Baixos. Misticismo. possessões na Itália do Sul. que aceita sem mesquinhez as recusas dos acusados a testemunhas suspeitas. períodos de forte turbulência. 38-9). adotou-se. No século XVI. Carlos I. a péssima fama da Inquisição espanhola muito decorre da formidável campanha propagandística contra ela desenvolvida desde o século XVI até o presente. com justa razão. ela forma colossal império.206 JOÃO BERNARDINO GONZAGA ficiente. que engloba. com suas colônias. 1. que a manipulam. págs. é também absorvido. explicar ao acusado por que ele errou. De permeio. 4. mas forçoso será reconhecer que. uma Justiça que tortura muito pouco e respeita as normas legais. 6. qu as e mais não condena à pena capital e distribui com prudência o terrível castigo das galeras. a observação de J. avançam pelas rotas do Oriente. ela prossegue na implacável luta contra os adversários. Portugal.. com Felipe III (1598-1621). com fundas mudanças sócio-econômicas. e que. mais exata. Extensas são as colônias nas Américas e na Africa. A imprensa se desenvolve. Os navios espanhóis singram todos os oceanos. sob o título de Carlos V. (7) Conforme assinalamos no Capítulo X. Preocupou-se também o legislador com os dependentes dos condenados à morte ou à prisão. que deviam receber assistência. o tribunal procedia segundo estatutos rigorosos. muitos homens começam a olhar menos para o céu e mais para o mundo tangível. por toda essa fase. pelos seus responsáveis. e nova mentalidade vai sendo construída. Sob os reinados de Carlos I (1516-56) e de seu filho Felipe II (1556-98). A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA Novos Problemas 1. Como toda Inquisição. Bernard: quando resolveu estudar a fundo a História da Inquisição.. 0 longo caminho do ocaso. a Inquisição se mantém viva e reage. 377-8). a secularização avança. não nos iludamos. Crescimento da censura. com livros e panfletos difundindo novas idéias. tanto mal sobre ela lhe fora transmitido. com a Renascença. Correntes liberais. Uma Justiça preocupada em educar. 7. conclui Bartolomé Bennassar (considerado uma das maiores autoridades atuais no assunto). Excessos houve e inegavelmente (para os padrões atuais) ela foi duríssima. riquezas de estonteante valor. que repreende e aconselha. mais escrupulosa. principia. se infiltrou forte dose de honesta boa vontade'. a decadência.

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res de não assimilação das minorias na sociedade dominante. Pou( o a pouco, todavia, declinam essas preocupações e a mira do Santo Ofício se transfere para outro alvo: os cristãos tradicionais, de velha cepa. É entre eles que passam agora a aumentar os focos ( '.e infecção. Surgem desejos de viver à margem da Igreja, seja com lima religião livre de peias, seja através de frio racionalismo que põe a fé em xeque. A Reforma protestante ronda, atenta ao me( or sin al de fraqueza. Há que fiscalizar o rebanho, impedindo atitudes de irreligiosidade, de mau comportamento mor al , que o mo..ternismo favorece. Brotam e se desenvolvem novas concepções de ( ida, que examinam criticamente a doutrina cristã, teorias de início circunscritas a pessoas de uma casta intelectu al izada, mas que amea,am vazar para as camadas culturalmente inferiores. São heterodo( ias mais cultas, mais refinadas, que muito se distanciam das geralmente toscas heresias medievais. Devagarinho, se foi então exaurino Poder inquisitori al , em combate insolúvel contra um mundo ue lhe queria escapar das mãos; mas, apoiado pela Igreja e pelo Estado espanhóis, esse Poder custou a morrer.
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as instituições eclesiais. Para Erasmo, todas as cerimônias religiosas apenas servem para as crianças, o perfeito é o invisível, a religião do coração, o homem espiritual não mais necessita do exterior. Mais ainda, verifica-se, na prática, que como maus frutos desse movimento aumenta o número de visionários, expande-se o fenômeno do falso misticismo; e o Santo Ofício, diante de tantos perigos, resolve arregaçar as mangas. 3. A História da Igreja desfila ante nossos olhos extenso rol de místicos, mencionados com muito orgulho, vários dos quais galgaram o grau de santidade. A península ibérica foi nesse campo particularmente rica: S. Pedro de Alcântara, Frei Luís de Leão, Sta. Teresa de Avila, S. João da Cruz e muitos outros. Seres privilegiados que alcançam a contemplação infusa, entram em perfeita comunhão com Deus, gozam de revelações do universo invisível, entregam-se a ardentes sentimentos de amor. Todo místico corre, porém — se não for realmente santo e humilde —, um risco porque, deslumbrado pela experiência espiritual, pode cair na tentação de se sentir libertado da vida terrena, dos preceitos eclesiásticos e até mesmo de exigências morais, passando a prescindir da Igreja. Na Espanha, o fenômeno dos (chamemos assim) maus místicos, tanto leigos como eclesiásticos, entrou a crescer assustadoramente, com toda sorte de excessos, convencendo as autoridades a enfrentá-los. Pululavam os "iluminados" (alumbrados), que se diziam ofuscados por uma luz interior, que os eximia de qualquer dever de obediência, e os "quietistas" (dejados), que se perdiam estáticos na contemplação divina, desprezando as obras exteriores, em completa inatividade da inteligência e da vontade. Eram pessoas que pretendiam pairar num mundo superior, imunes ao mal, não mais precisando preocupar-se com atos de virtude, de resistência às tentações e aos pecados. Na esteira desse movimento, surgiram também as "beatas", mulheres que viviam de esmolas, proclamando-se possuidoras de dons espirituais e poderes proféticos. Tais indivíduos faziam escola, arregimentavam seguidores, alimentavam superstições e afastavam fiéis da Igreja, considerando inúteis suas prescrições, o sacramento da Confissão, as indulgências, as obras de caridade. Alguns adquiriam fama de santidade e à clientela, que os venerava, ofereciam conselhos não só sobre assuntos espirituais, mas também temporais. A impostura foi aumentando, num clima de desordem que precisava ser coibida. Inúmeros desses maus místicos não passavam de pessoas desequilibradas, de mulheres histéricas; outros resvalavam para o terreno da fraude, exploran-

2. Desde logo, graves preocupações teve a Inquisição com certas correntes de pensamento que se desenvolveram junto ao huma_ismo renascentista, entre as quais o "erasmismo", o "intimismo" ( o "luteranismo", todos os três as sinal ados por este traço comum: a valorização da interioridade, da imediata união da al ma com Deus. Na época carolíngia, o pensador humanista Erasmo de Roter('am (1469-1536) desfrutou de imenso prestígio na Espanha. Carlos 1, aliás, quando jovem o tivera como conselheiro pessoal. Suas te•s receberam acolhida semi-oficial na Corte, penetraram nas escol' s e nos mosteiros, a elas aderiram al tos dignitários da Igreja, inauisidores inclusive. Encantavam os ideais humanísticos que Eras( io pregava, de renovação intelectu al , cosmopolitismo, paz entre s cristãos, purificação religiosa e teologia extraída diretamente das Escrituras, com retorno à simplicidade evangélica original. Todas ( ., pessoas cultas se vangloriavam de ter lido o Enchiridion e de bsorver seus ensinamentos. Aos poucos, todavia, insinua-se a dúvida sobre a ortodoxia desobra, que desemboca no intimismo. Conforme nela está escrito, ("a filosofia celeste de Cristo não se deve man char com obras de homens". O conselho de entregar o texto sagrado às mãos do povo varia à insegurança, quiçá à anarquia religiosa. O recurso apeis às Escritur as como fonte de fé significa rejeitar a Igreja como intermediária entre o homem e Deus, torna dispensáveis os ritos e
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do o povo simples; surgiram também os abusos sexuais'. São Tomás de Aquino aliás já advertira que os transes podem vir de Deus, sendo então benéficos, ou do demônio ou de afecções do corpo. Foi com o aparecimento do protestantismo na península que a Inquisição melhor sentiu o perigo representado por essa gente, que facilmente poderia ser atraída, com seus seguidores, para engrossar as hostes reformadoras, sob o comum denominador de rejeição à hierarquia eclesiástica. Em 1578, publicou-se longa lista de erros iluministas, concitando os fiéis a denunciarem pessoas que, por exemplo, afirmavam ser suficiente a oração interna e supérfluas as boas obras e o culto público. As penas mais aplicadas foram a de flagelação e de aprisionamento. Os religiosos eram suspensos de ordens e obrigados a cumprir penitências num convento. Entre os jesuítas inclusive o m al chegou a penetrar, descobrindo-se na Extremadura numerosos alumbrados que um membro dessa Ordem dirigia, sendo todos submetidos a um auto-de-fé no ano de 1579. Na cidade de Sevilha, em 1623, apanhou-se numeroso grupo de seguidores de certo sacerdote iluminado, Fernando Mendez, que adquirira extraordinária fama e cujos acompanhantes se entregavam a toda espécie de deboches. Quando a Inquisição interveio neste caso, centenas de penitentes se apresentaram voluntariamente para confessar as próprias faltas, muitos deles ligados à alta sociedade. Diante da crescente gravidade da situação, as autoridades inquisitoriais optaram por maior rigor e em 1630, ainda em Sevilha, entregaram vários acusados ao Poder secular, dos quais oito foram conduzidos à fogueira e seis queimados em efígie. Entre 1640 e 1643, também o Tribunal de Toledo tomou medida semelhante contra um grupo dirigido por Eugênia de la Torre, uma beata acusada de promover orgias libidinosas. Durante todo o século XVII prosseguiu a luta do Santo Ofício, mas sua atitude acabou tendendo, nos casos corriqueiros, mais para a brandura, sob a consideração de que os pretendidos poderes espirituais acima do normal eram com freqüência simples desvios mentais e não autênticas heresias. O problema continuou todavia existindo, e a História registra inúmeros iluminados de grande pres tígio, que se tornaram célebres. Ainda no século XVIII encontramos duas famosas beatas, Isabel Maria Herraiz e outra de nome Dolo(I) Curioso é o caso de um simplório monge contemplativo que pretendia ter recebido de Deus a missão de gerar um filho, que se tornaria profeta e reformaria o mundo. Em sua ingenuidade, escreveu a prestigiosa freira, convidando-a a com ele realizar o plano divino.

res. A primeira, dizendo-se transformada no corpo e no sangue de Cristo, se fazia acompanhar por populares em procissão pelas ruas, carregada sobre um andor, com círios acesos e nuvens de incenso. Apanhada pelos inquisidores de Toledo, foi condenada à prisão, onde acabou falecendo. Dolores, de Sevilha, alegava que se casara com Jesus Cristo, na presença de S. José e de St°. Agostinho, mas, a despeito disso, levava vida dissoluta. Relaxada ao braço secular, este lhe impôs a pena de morte na fogueira, em 1781. No último momento, a acusada se mostrou arrependida, recebeu o sacramento da Confissão e, por benignidade, o carrasco foi autorizado a estrangulá-la, somente se queimando então seu cadáver. Estamos focalizando situações extremas, portanto fáceis de discernir. Inúmeras vezes, no entanto, as autoridades religiosas hesitavam perplexas, sem saber se se achavam, ou não, diante de efetiva santidade. Nem sempre era fácil separar as boas das más ovelhas. Muitos místicos estavam possuídos de sincera piedade, eram puros de coração, fiéis submissos à Igreja, a ninguém faziam mal, apenas suas visões se estimavam ilusórias, quiçá provocadas pelo demônio, concluindo-se que mais precisavam de assistência espiritual do que de punição. Até mesmo dois grandes santos, Inácio de Loyola (1491-1556) e Teresa de Avila (1515-82), se viram ameaçados pela Inquisição, sob a suspeita de desvios iluministas. Em 1526, aos 34 anos de idade, o futuro fundador da Companhia de Jesus instalou-se em Alcalá, para continuar seu aprendizado na Universidade local. A cidade constituía importante centro de erasmismo, que atraía muitos religiosos. Verificando que Inácio possuía um circulo de companheiros e dava orientação espiritual sem ter autoridade para fazê-lo, os inquisidores se preocuparam, conduzindo-o diante do arcebispo de Toledo. Instaurado um inquérito, o suspeito foi encerrado na prisão eRiscopal, onde entretanto lhe concederam muitas regalias, inclusive para prosseguir comentando seus Exercícios Espirituais. Novos inquéritos se seguiram, em Toledo e depois em Salamanca, mas, apurado sempre que nada havia a reprovar na doutrina e na atividade de Inácio, este terminou liberado. Unicamente foram feitas restrições quanto ao modo de trajar do grupo, a fim de deixar claro que não formava nenhuma comunidade no sentido canônico, e aos seus membros foi proibido pregar antes de terminarem os estudos. Diferente é o sucedido com Teresa, a reformadora do Carmelo, a "santa do êxtase". Prestigiando as monjas de orientação tradicional, chamadas "carmelitas descalças", ela caiu numa rede de in-

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trigas, que acabou por conduzi-la perante o tribunal da Inquisição. ( kfinal, em 1580, após muitas investigações, o Inquisidor Geral Gas( nar de Quiroga lhe transmite a conclusão absolutória: "Vosso livro foi apresentado à Inquisição. Sua doutrina foi examinada com gran( le rigor. Eu o li por inteiro e sustento que essa doutrina é muito ( segura, muito verdadeira, muito aproveitável". 4. Misticismo, de um lado, magia e bruxaria de outro, são prá( ticas que não se confundem, mas que apresentam algumas pontas de contato. Já deste tema nos ocupamos no capítulo XIV, bastan( lo apenas aqui acrescentar que o fenômeno não teve, na Espanha, a mesma importância apresentada em outros países, destacadamen^e a Alemanha. A feitiçaria mais se expandiu no País Basco e em ( Navarra, regiões pobres e mais sujeitas a superstições. 5. A Reforma jamais conseguiu se expandir na Espanha. Sem ( stabelecer distinções entre as várias correntes que o formavam, o ( movimento era ali apenas designado por "luteranismo" e sua atraYão entre os espanhóis praticamente se restringiu a pequena elite . ntelectualizada. "Na Corte, nas universidades, em certos mosteiros, mesmo entre artesãos, homens e mulheres, intelectuais brilhantes uu semiletrados, mas todos relativamente educados, ficam à escu, , ( a das novidades vindas do norte. Lutero, como Erasmo, suscita curiosidade" (J.-P. Dedieu, in B. Bennassar, op. cit., pág. 264). { J povo em geral, a grande massa, se mantém alheio às inovações, ( 'om elas até mesmo se apavora, considerando-as como "invenção r do demônio", e hostiliza seus fautores. Esse afastamento popular do protestantismo foi habilmente con( 2guido, com ajuda da Inquisição, pela inteira Igreja espanhola, através de intensa propaganda, acompanhada de medidas intimidar .ivas e, nos casos de rebeldia, exemplar punição. O cisma, que di( idia fundamente a alma da cristandade, dilacerando-a, constituiu forte sinal de hierarquia espanhola a ( ,ar em amplo alerta, convencendo a que alcançou o própriose Ianprograma educativo, clero. «ião se tratou, como pretendem alguns, de mero combate contra moinhos de vento, isto é, contra ameaça ilusória. Ao contrário, ( _fetivo perigo rondava as fronteiras do país, de modo profunda( lente inquietante. Impressiona verificar, nos mapas europeus dos séculos XVI/XVII, o rápido e amplo triunfo das novas concepções, .m detrimento da Igreja católica: a Alemanha, os Países-Baixos, a 'uíça, em grande parte dominados; a Inglaterra, a Escócia, os Estados nórdicos, inteiramente perdidos; a França, duramente ameaça(

da, com as guerras de religião que, de 1562 a 1598, assolaram seu território. Algumas poucas nações católicas se s alvaram; e, dentre estas, se destacam da península ibérica, que se conseguiram manter imunes ao "contágio herético". Será bom ademais ter presente que tais sucessos transcorreram em período histórico muito conturbado, política e economicamente; quando a Inglaterra anglicana e a Holanda luterana disputavam a hegemonia com a Espanha, querendo arrebatar-lhe o domínio mundial. Lidavam por minar sua força, começando pela via religiosa, e, derrotados os protestantes nessa empreitada, eles montaram, como já assin al amos antes, tremenda ofensiva propagandística destinada a desmoralizar o adversário. O conflito, em tais condições, mais do que dogmático, logo se transformou numa luta de nacionalismos, de modo que a coesão religiosa, para a Espanha, se converteu em instrumento conservador da sua unidade e do seu poder. Grande esforço para conseguir o domínio protestante realizou-se através de livros e panfletos impressos em castelhano no exterior e que chegavam clandestinamente por terra e pelo mar. Em 1535, a Inquisição desmantelou amplíssima rede distribuidora dessas obras, que se armazenavam em Barcelona e de lá eram espalhadas por todo o território nacional. Também eram encarados com muita suspeita os mercadores estrangeiros e os marinheiros ingleses e holandeses que desembarcavam no país. Entre eles havia agentes encapuçados do inimigo, com material de propaganda nas algibeiras; ou, pelo menos, tratava-se de homens que ostentavam posturas desrespeitosas para com as coisas da religião católica, escandalizando o povo. Isso deu origem a complexo problema diplomático, porque, para a Inquisição, toda pessoa que pertencesse à fé reformada era um herege e, como tal, merecia castigo. Para pôr termo às dificuldades, firmou-se em Londres um tratado, em 1604, segundo o qual os súditos do rei da Inglaterra não poderiam ser molestados por motivo de consciência, nos domínios espanhóis, desde que não provocassem escândalo público; m as as dificuldades prosseguiram existindo, por ser difícil interpretar essa última ressalva. Por exemplo, indagava-se, estaria ou não compreendida na idéia de "escândalo público" o fato de um marinheiro deixar de fazer a genuflexão quando via passar pelas ruas o Santíssimo? Outros tratados semelhantes foram depois firmados com a Dinamarca (1641) e com a Holanda (1648). Em verdade, até meados do século XVI não se deu grande importância ao problema protestante, contra ele existindo tão-só espo-

Uma delas é Valladolid. apesar do zelo proselitista. nada mais restava do movimento. destitui o Grande Inquisidor e ameaça Felipe II. Encerrado então num mosteiro romano. foi extraditado para a Espanha e. a crescente secu- (3) Observa-se que Genebra. Pio V. Assim procedeu sempre a Igreja católica. Graças à pronta reação das autoridades. a Santa Sé muito exortou o Governo espanhol para que se acautelasse. homem de imenso prestigio. Inúmeros casos houve de populares que denunciaram a presença de suspeitos e mesmo os trucidaram quando detidos. em resposta. já nos primeiros anos do século XVII. mas. se impuseram trinta condenações. o rei inclusive. diremos que a Reforma. a questão se arrasta por muitos anos. Francisco de San Román. com a só condição de se manterem discretos. Carranza ali vem a morrer. com apoio do Poder civil. compareceu pessoalmente o imperador Felipe II. realmente não alcançou nenhum sucesso em terras ibéricas. etc. buscando acomodar-se com a Corte espanhola. metade das quais à fogueira. aos 26 de maio de 1559. Toda religião organizada desempenha. e. que antes tinham de viver sua religião clandestinamente. a Santa Sé afirmava sua suprema autoridade. o povo não se aproximou da nova fé. Afinal. e logo após o mesmo sucedeu em Toledo. ensinando às pessoas quais os indícios reveladores da heresia. passaram a ser tolerados. Aquele de outubro de 1559. uma atividade censória. onde. mas. impõe a Carranza uma pena simbólica: faz com que ele repudie as doutrinas heréticas e cumpra algumas suaves penitências.000 exemplares de livros por ano. . ler. estimada em cerca de duzentas mil pessoas. acreditar. mencionaram os judeus marranos. até o último. o problema começou a assumir extraordinário vulto. Restringiu-se quase exclusivamente a alguns poucos intelectuais e a estrangeiros ali radicados. exilados. O mais escandaloso e estranho dentre eles foi o de Frei Bartolomeu de Carranza y Miranda. para lhe pôr termo. ao inverso. não buscando atrair adeptos. 1563 e 1565. os mouriscos. as autoridades puderam então mostrar-se cordatas: os estrangeiros. Para tornar mais eficaz seu trabalho. Falecendo entretanto esse pontífice. Preso. Inicia-se então o esforço para erradicar o mal. mas nenhuma referência fazem aos luteranos. Desse modo. 1561. Temerosa todavia devido ao rápido desenvolvimento da Reforma em vários países. com vários protestantes entregues ao braço secular para a execução capital. os inquisidores de Toledo. o que atraiu grande massa humana. panfletos. os inquisidores quiseram impressionar o povo. que disseminavam novas idéias por número cada vez maior de pessoas'. gerando grande massa de livros. . os blasfemadores e os místicos. Demonstra-o o fato de que. mas Felipe II dá mão forte aos seus juízes e. o quanto se tornara (2) Assim mesmo. nesse impasse. publicaram um Edicto de Delaciones. traçando-lhes pautas indicativas do que podem ou não podem fazer. contra ela. etc. de tal sorte que. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 215 rádicas reações 2 .. à luz de princípios de fé e de moral.214 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVII. inevitavelmente. foram encontradas certas proposições suscetíveis de interpretação luterana. Como seus adversários. Gregório XIII. quando foram descobertos importantes ninhos de hereges em algumas cidades. logo a rejeitou. revela também como. 6. chegando o século XVI. a necessidade de enfrentar o assédio da Reforma. a ponto de perseguir um personagem colocado no topo da hierarquia eclesiástica nacional e enfrentando depois o sumo pontífice. com alta eloqüência. Contemporaneamente. Como esse prelado possuía inúmeros desafetos. Daí por diante. que o sucede. nos anos de 1560. Destacadamente. devido à conjugação de alguns poderosos fatores que se entrelaçavam. de outro lado. enviado á fogueira. para onde ele é conduzido em 1567. em 1553. Os ânimos se in fl amam. tão logo sentiram a ameaça protestante. ensinar. em 1576. naquele ano. Bem se conscientizando agora do perigo. aprisionados. O sucedido mostra. em outubro. já em 1540 surge a primeira vitima nacional da perseguição. escrever. com mais vinte e oito aplicações da mesma pena. às medidas policialescas tomadas. Em conclusão. mas. Os raros bolsões luteranos que se formaram tiveram seus membros destruídos fisicamente. à feroz repressão e ao eficiente programa educativo desenvolvido. a chama reformadora foi sufocada em seu nascedouro. ao exporem as linhas mestras das suas preocupações. montando grandiosos autos-de-fé. os inquisidores. já no século XVI publicava cerca de 300. grande centro de irradiação do calvinismo. o enorme e rápido desenvolvimento da imprensa. que aderira á Reforma ao visitar a Alemanha e os Pales-Baixos. Muitos casos houve de sacerdotes atraídos para a fé reformada. que a leva a cercear a liberdade dos seus adeptos.. primaz de Espanha e pregador do rei. outros desses espetáculos se realizaram em Sevilha. Num dos seus escritos. opta-se pela transferência do acusado a Roma. tanto bastou para que o fizessem aprisionar pela Inquisição. a Santa Sé intercede. arcebispo de Toledo. poderosa a Inquisição espanhola. continuam a atacá-lo.

criticado pelo quadro La Maja Desnuda. ainda muito incompleto. Outros. Inquisidores exaltados atuaram com extremos de rigor. Savonarola. acabou sendo preso e. que era entretanto ainda mais lascivo do que o anterior. por exemplo. vingou-se pintando outro. através de cerrada e am( -*la censura. como forçosamente tinha de acontecer. Qualquer originalidade. O inicial. com grande destaa ue e após longa preparação." . sob ameaça de excomunhão. desencadeava forte reação. para mostrar o auge do absurdo. figuraram Erasmo. Para alcancá-lo. ou podia ser parcial. Na Espanha. a fim de nele impedir o ingresso de obras perniciosas.a promulgou em 1558.. guardiã da ('erdade divina. A fiscalização. É assaz conhecido o pitoresco fato ocorrido com Francisco Goya que. tiveram tão-só amputadas algumas passagens das suas obras. a Igreja via escapar-lhe das mãos o domínio altural que antes mantivera. mais adiante. professor na Universidade de Salamanca que. ou. nos postos fronteiriços. A tal mister se dedicou. La Maja Vestida. os (^ue fossem moralmente reprováveis. era prévia. que repudiaram as tutelas culturais e ideológicas. Frei Luís de León. Idem quanto a ilustrações pornográficas de livros. as tampas desenhadas das caixinhas de rapé) passaram a ser severamente censuradas. E natural pois que se exasperasse a sua reação. o primeiro . em nome de Felipe II. ( ( ( ( ( Havia dois tipos de censura: uma. exercida pela Inquisição. como Dante e Cervantes. Montou-se autêntico cordão sanitário à volta do país. A Santa Sé publi_^u vários de tais índices. foi desenvolvida com extremo denodo pelos inquisidores. Igualmente as pinturas. século após século. Rigorosíssimo policiamento envolveu os escritos religiosos. As impressoras. mas. tanto públicas como particulares. Era o Index Auctorum Librorum Prohibitorum. com o sábio. e a ela. em detrimento das divinas. em 1564. a cargo do Estado e dos bispos. apareceu em 1559. como não podia deixar de ser. os comissários inquisitoriais procediam a minuciosa busca. a inteira Igreja. o veto se fazia in totum. invejas. a primeira firme manifestac ão nesse sentido foi a "Sanção Pragmática". que levava os homens a olhar mais para as coisas terre( as. atingindo tanto as produções nacionais como as estrangeiras.. que chegaram a ser proibidos os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. por toda a Espanha. Isso tudo. nublicaram-se sucessivas listas de livros e de autores condenáveis. Todas as pessoas que tomassem conhecimento de algum livro contendo "doutrinas falsas. em assuntos religiosos. (`utros foram depois surgindo. incidindo sobre um livro determinado. vieram à tona malquerenças. visando a impedir a presença de trabalhos nocivos. ou recaía sobre a inteira pro. muita aflição tinha de causar esse progressivo afasiamento de Cristo. Maquiavel. ( iscando opor um fr eio à "desordem". com isso. filosóficos. levou a muitos excessos. científicos. aos cuidados da Inquisição. quando as autori(' ides se contentavam em exigir o expurgo de alguma passagem inconveniente. os ideais libertários. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 217 iarização. Imposto o dever de denúncia. ou se revelassem ofensivos à Igreja. Boccacio. regiões e até cidades vieram também a possuir ( Atros catálogos próprios. Dentre os autores proibidos. o segundo a dos livros expurgados (1584). a luta foi ( ais fo rt e na Espanha.aja difusão e leitura se tornavam vedadas. dois grossos volumes publicados sob supervisão do Inquisidor Geral Gaspar de Quiroga. literários. Vinha ali minucio( 'mente explicado o procedimento a ser seguido para a censura. aue se devia exercer antes e depois da impressão de algum texto. Muitos países. acusado de adotar posições heréticas. aptas a enfraque( 'r os sentimentos religiosos e os bons costumes. os carregamentos dos mercadores. apondo-se o Imprimatur nos escritos autorizados. com denodo. e. Com isso tudo. as bibliotecas. retomou suas antigas idéias assim iniciando a primeira aula: "Como dizíamos ontem. Rabelais.. más ou suspeitas" ficavam obrigadas a apontá-lo. Mãe e Mestra. entre os quais. vinganças. etc. muitos pensadores foram injustamente perseguidos. eram periodicamente vistoriadas. para expurgar as que se mostrassem obscenas. esculturas e outras manifestações artísticas (por exemplo. examinando as bagagens dos viajantes. com o que ficaria liberada a obra. ao ser reabilitado e reassumir a cátedra. para arredar os que destoassem ( r ortodoxia. O objetivo era imunizar o poyo contra obras reputadas de caráter subversivo. ^ m todos os países. outra... era repressiva e se fazia a posteriori.ução de certo escritor. (¡ intendo a lista de livros proibidos (1583). os enciclopedistas franceses. Tomás Moro e.. que a infanta Joa. o mais importante dos quais emanou ('-) concílio de Trento. Nos portos. as livrarias. após quase cinco anos de cárcere (1572-1576).( ( 16 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVII. gerando acusações descabidas. bastando dizer. inúmeis Index. . Gil Vicente. válido para todas as nações católicas. s livrarias ficavam obrigadas a expor a relação das obras proibi( 'as. Foi o que sucedeu. ainda. e a venda ou a posse destas poderia importar até mesmo na pena capital. nos navios que chegavam.. Por vezes. A tal decreto se seguiram.

em maior ou menor grau. A bigamia se rotulava como ato herético. objeta-se que o apogeu literário castelhano. o controle ainda podia ter alguma eficácia. a punição abrandou-se para cem a duzentas chibatadas e o envio às galeras. mas aos comuns tribunais de penitência. Também o clero passou a ser severamente disciplinado. Conforme adverte H. Prosseguindo. na música.. a censura inquisitorial espanhola não impediu. os livreiros e os leitores. Tirso de Molina (1583-1648). A evidência.) constituíam "pecados abomináveis" e. com o que o inteiro povo se viu sob sua mira. ela é. ao contrário. Para comprová-lo. empregaremos aqui o termo "liberalismo" apenas para agrupar um conjunto de orientações filosófico-políticas. tomassem atitudes impróprias. Victoria (1548-1611). realizada através da coação e da violência. isto é. Tudo isso é verdade. Cervantes (1547-1616). de obras oriundas do exterior. excetuado pequeno punhado de intelectuais rebeldes que se sentiam sufocados. atingindo o maior florescimento. quanto aos escritos menores. contorna-se o ponto central da questão. nem podia fazê-lo. destinados a rápida leitura. pois a censura sobre material impresso existia em todos os países europeus e havia sido sempre aceita na Espanha" (op. entre muitos outros. mas. mas é inegakel que houve também conseqüências negativas.218 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVII. a filosofia e a ciência prosperaram. ou. mas. para os padrões atuais repugna. etc. inaceitável. Contra a sodomia. o homossexualismo. eram severamente reprimidos. nos termos em que se realizou. Os desvio sexuais em geral (bestialidade. se abrigava o anseio de libertação do jugo dogmático das religiões institucionalizadas. Livros foram então publicados num ritmo que ultrapassou o da generalidade dos países. Zurbaran (1598-1664). concitando-se os fiéis a denunciarem os sacerdotes que. Isso gerava profunda intranqüilidade entre os impressores. por tal via. a atitude da Igreja foi recebida como algo normal. necrofilia. ela devia tranqüilizar e dar segurança à população. Melhor ainda. Em resposta. em média ocorria uns cinco anos após a publicação de certo livro. enfileiram-se poetas. honesto e indispensável. naqueles tempos. O contrabando em grandes proporções. durante a confissão. Depois. dir-se-á que graças a ela a Espanha ficou preservada para o catolicismo. 124). sua "era áurea". Foi a hora também dos grandes místicos Santa Teresa (1515-82) e São João da Cruz (1542-91). 7. unidos Estado e Igreja. que também em outras nações (católicas e protestantes) atuava com semelhante rigor. por ele sempre exercida a posteriori. o castelhano se tornou idioma universal. "seria errôneo pensar que os espanhóis se sentissem oprimidos por esses sistemas. Tão cerrada censura. De fato. A fiscalização de livros nocivos atingia tão-só pequena camada social. apenas porque pareciam contrários à ortodoxia. Lope de Vega (1580-1635). contribuindo para a sua estagnação e posterior decadência. porque. alega-se. Para admiti-lo. . na pintura. poderá pretender que censura tão rígida. O debate a seu respeito prossegue todavia sempre acalorado e. de variados conteúdos e matizes. Velasquez (1599-1660). Calderón de la Barca (1600-81). o progresso cultural. ensaístas. Em se tratando de escritos de lenta difusão. O que caia sob sua competência era o fato de alguém defender essas práticas ou considerá-las pecados de escassa importância. Gôngora (1561-1627). amalgamavam-se religião e moral católicas. correspondeu precisamente ao período crucial da Inquisição. ante os moldes a que estamos hoje habituados. tenha servido para incentivar a investigação científica. As grandes Universidades de Salamanca e Alcalá de Henares se destacaram como prestigiosos centros de cultura e de pesquisa. tanto a Justiça comum como a inquisitorial do século XVI impunham a fogueira. por isso. pior ainda. Kamen. nem que haja imprimido salutar dinamismo à doutrina católica. A censura. toda e qualquer manifestação de talento. Inviável se tornava. basta lembrar. quando principiou a desenvolver-se o jornalismo cotidiano. que ficavam sem saber se o material possuído era ou não aceitável. Quevedo (1580-1645). o esplendor de El Greco (1541-1614). na segunda metade do século XVIII. como a que lá existiu. por três a cinco anos. basta raciocinar às avessas: ninguém. O grave problema está em que ela impossibilitou aberturas fora de estreitos limites e proibiu pensamentos originais. sufocou o desenvolvimento intelectual do país. para formarem indispensável sustentáculo da ordem e da paz públicas. em sã consciência. que se vieram desenvolvendo no continente europeu e nas quais. Daí passou a Inquisição a se ocupar também dos comportamentos imorais. A censura. insolúvel. pág. costumava ser demais demorada. As simples relações carnais fora do casamento e mesmo a mancebia não pertenciam à alçada inquisitorial. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 219 '` Nada tinha porém de fácil a tarefa assumida pelo Santo Ofício. mostrava-se invencivel. Como fruto bom. Murillo (1618-82). sobretudo os ligados à sexualidade. De fato. romancistas do melhor quilate. cit. historiadores. porque significava desprezo pelo sacramento do Matrimônio. ao que parece. tanto em número de estudantes quanto em vitalidade criadora. as pessoas mais cultas.

( - P 8. Na verdade. Tanto o povo em geral como as classes cultas. os liberais. ( Acresce que. ( Essas e outras correntes. na tradição. Por longos anos. desencadeia-se verdadeira e olução cultural em proveito de um racionalismo supercrítico. As ciências em geral não devem depender de postulados iorísticos nem de imposições religiosas. f(Jnarquia. luta-se por colocar à çr—'rgem da teologia o chamado "sistema natural das ciências do espírito'. Sucede entretanto que. f ( . asseguradores das garantias individuais. em subseqüentes pensadores. em fins do século XVIII. o apoiavam e a idéia de suprimi-lo soava como uma afronta à identidade nacional. Quando da invasão francesa. sem dúvida. galga o posto de autênti( ciência jurídica. mas necessitam firmar-se hre as bases da observação empírica e do cálculo matemático. O último condenado a quem ela impôs a pena capital foi o mestre-escola Caet an o Ripoll. em seu desenvolvimento e trabalhadas ptios seus continuadores. com repúdio à intolerância e a toda violência exter--r na no terreno da fé. Apesar do acima exposto. Orientações todas ademais. defesa da liberdade de pensamento e de crença. nenhum veneno herético ameaçava seriamente a unidade religiosa do país. graças ao trabalho de uma série de juristas que formaram a depois rotulada "Escola Clássica". em 1808. A Espanha tenta m an ter-se a salvo. de sorte que as jurisdições eclesiásticas ordinárias seriam suficientes. artindo de René Descartes (1596-1650). enforcado em 26 de julho de 1826 sob acusação de ser herege contumaz. modera's e justos. religiosa. a Inquisição se manteve viva e só foi efetivamente desaparecer aos 15 de julho de 1834. essas inovações culturais pairam no ar e são taiigidas para toda parte pelos ventos. desde meados do século XVIII pouco trabalho lhe restava. O Direi( Penal ingressa numa era de intensa humanização e. Avança o . se arrastaram os debates entre conservadores e as forças liberais. a revogou formalmente. bem se vê. com marcante obje_ t^ político destinado a arredar excessivos privilégios usufruídos 1v-' alguns grupos sociais. toma vulto a atitude da incredulidade. mediante o acolhimento do princípio constitucional da tolerância religiosa. Tudo inútil. m as impossível é impedir que surjam e alarguem frinchas em suas muralhas. enrijece a censura. decidiram que ela era incompatível com a Constituição de 1812. Por mais que se queira igrrá-las e sufocá-las. acabou também aninhando em seu bojo a defesa do devido respeito a opiniões divergentes e a rejeição c( tudo quanto se possa rotular de autoritarismo intelectual. se expandem o mundo. Belos ideais. desaguaram tf almente na defesa da liberdade de consciência mesmo em mat e . ( Com Rabelais (1483 ou 1494-1553). o Santo Ofício por muito tempo ainda prossegue ali atuante. desaparecimento que se tornou irreversível em 1869. abalaram a fé no sobrenatural. o Santo Ofício se tornara um símbolo da sua fidelidade à Igreja católica.nteiras. apoiadas pela Revolução Francesa. incompatíveis com a exis( cia de uma Inquisição. mas fracassaram todas as tentativas abolicionistas. em pessoa. encerra-se na Justiça Lnminal comum a longa fase de empirismo e crueldades. ainda que de forma espasmódica. O princípio da igualdade. para a orgulhosa gente hispânica. já em dezembro desse ano Napoleão Bonaparte.cesso de secularização do pensamento. que. fecha-se em suas Ç . a partir do ^ulo XIX.JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVII. durante a primeira metade do século XIX. Outra arremetida ocorreu com a revolução de 1820. com uma trama de princípios lúcidos. a agonia da Inquisição espanhola foi lenta. a do ceticismo. conseguindo maioria nas Cortes. nos milagres e serviram de alicer. nos doge' s. no seu tratado sobre a apresentam-se candentes reivindicações em favor da liif dade individual e da igualdade entre todos os homens. ela muito tardou a morrer. Em 1813. alcançando o Estado espanhol. na Revelação. em sua maioria. Tais novas tendências vão depois encont^^r formidável caixa de ressonância no "iluminismo" anticlerical do século XVIII e. O século XIX entregou-se triunfo do liberalismo. A MODERNA INQUISIÇÃO ESPANHOLA 221 Já com Dante Alighieri (1265-1321). com Montaigne (1533-92). A Inquisição continuou sempre atuando.

dispensados ficaram de trazer sinais distintivos nas roupas. Na realidade. Triunfo do liberalismo e extincão do Santo Ofício. alguns tributos especiais. protegido atrás da Espanha. entre o povo. as distinções que assinalavam a inferioridade deles como sectários de uma religião. Oscilações no relacionamento com o Estado. sem autorização régia. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL XVIII. Enfim. Afonso Henriques outorgou aos mouros forros uma Carta de fidelidade (vale dizer. em todos os feitos. havia o "arrabi-mor de Portugal". 1. controlando as finanças públicas. com maior ou menor rigor. ao contrário do que determinara o IV Concílio de Latrão (1215).. quer nos atos administrativos. 4. pagando à Coroa. durante séculos. em parte nenhuma da Europa. Isso tudp foi calando na alma popular. os judeus. à medida que os libertadores lusitanos desciam rumo a terras mais densamente povoadas por gente dessa crença. Período Pombalino. manifestado quer nas leis. supervisionando todas essas comunidades. como assinala Alexandre Herculano. Nessa lei constava a proibição imposta a todo judeu de sair do Reino portando mais de quinhentas libras. levavam vida apartada nas "mourarias". Por muito tempo. Quanto aos judeus. os mesmos surgidos em outros países: os judeus eram acusados de explorar os cristãos . Para os casos isolados dos crimes de natureza religiosa que lá surgiam. 3. mas. sofreriam e que a nenhum cristão seria reconhecido o direito de os maltratar. instituído por lei de D. repetitivamente. Portugal permanecia imune a reais movimentos heréticos. I. Em Lisboa ficaram fora da jurisdição dá cidade. Afonso IV em 1352. que não podia ver com bons olhos tal situação. pelo apoio econômico que deles procurava obter e pelos seus conhecimentos em vários setores técnicos e científicos. favoreceu tanto a raça hebréa como em Portugal. Ao contrário da sua congênere espanhola. 109). era garantido que nenhum dano . sob a proteção de um alcaide por eles escolhido (o "alcaide dos mouros" ou "alcaide do arrabalde"). Período medieval. o poder público. 6. Tinham também o direito de organizar comunidades. Mantendo-se assim à margem da estrutura municipal. 2. mesmo porque. costumes e religião. bastavam os tribunais episcopais e os da Justiça comum. pelos capitais que possuíam. Estavam entretanto submetidos a regime fiscal mais oneroso do que o dos nacionais. Desse modo. eles manipularam os interesses do país. fermentava e crescia o rancor. até o século XII. Nessa e em algumas outras cidades maiores. Nos primeiros tempos da Reconquista. Isolavam-se em seus bairros (as "judiarias"). o tratamento oficial foi similar ao dos mouros livres. Ainda engatinham as tentativas de colocar em ordem e analisar a massa dos seus documentos guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. os muçulmanos capturados foram sendo reduzidos à servidão. convinha ao Governo a presença dos judeus. posto que verdadeira. como protegidos e tributários do rei. em toda a primeira parte da sua clássica História dos Judeus em Portugal. em troca. Os motivos da revolta eram. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 223 1. Nela se lhes assegurava a liberdade. sob pena de confisco dos bens e de ficar à mercê do rei. construir sinagogas e exercer livremente a religião. com o que sempre obtiveram e ostentaram imensos privilégios. de amizade) e segurança. Ainda e sempre. 7. embora nessas leis e nesses atos se mantivessem sempre. os muçulmanos puderam conservar seu idioma. dos seus reis e dos poderosos em geral. Do mesmo modo que em Castela. Também o rabino Meyer Kayserling. tal sistema se revelou inconveniente e as autoridades passaram a adotar política protecionista. Já em 1170 D. e algum dia teria forçosamente de explodir em atos agressivos. e. Cada comuna possuía seus "arrabis". 2. os tributos. Os trabalhos inquisitoriais. Estabelecimento da Inquisição. cit. mas. mostra extensamente como. "talvez. regiam-se pelos seus "direitos e usos. levando as autoridades a um tratamento oscilante do problema. monopolizando o comércio. inclusive com Justiça própria. a Inquisição portuguesa se acha deficientemente estudada. durante a idade média. pág.XVIII. em especial os direta ou indiretamente ligados à navegação marítima. com competência para julgar as causas civis e criminais com base no Direito talmúdico. casos e contendas". inexistiu nesse país uma Inquisição medieval. seus trajos e adereços. abolida pelo cristianismo" (op. onde desfrutavam de autonomia jurídica e administrativa. 5.

a Espanha expulsou os seus judeus (1492). cit. almejando assim unir depois em sua cabeça as duas co- . Título 94. Muitos dos fugitivos espanhóis. "nem receber função por cujo exercício possa vexar cristãos". e os acontecimentos tumultuários se aproximaram de limites insuportáveis. e. rumo a outras paragens. mais ainda. procurava-se evitar os maus-tratos contra os judeus. in cultos. João II em 1495. eram trucidados pelo povo. massacraram vários dos que lá moravam. as autoridades não forneceram. em 1361. após longa preparação. foram promulgadas por D. Somando os judeus que já antes lá viviam aos que foram chegando da Espanha. dominando as atividades lucrativas. Nas Cortes de Elvas. Morto D. nessa época. Esse ambicioso monarca concebeu o plano de casar-se com a princesa Isabel. passou a refletir-se em atos oficiais. sofridos. além de indesejados. os quais. que se avolumava. e. e nas Cortes de 1481-82.. Em resposta. inclusive. o que prova aliás que esses maus-tratos existiam. em número suficiente. constrangendo-os ao batismo. protegiam os cristãos contra abusos dos judeus. desprezavam os cristãos. de tal modo que todos os caminhos que conduziam a Po rt ugal se viram subitamente escurecidos por intermináveis colunas de refugiados. ele se estava lançando em gigantesco empreendimento: a conquista e consolidação de um império colonial. filha primogênita dos "reis católicos". Em 1449. As agitações prosseguiram e. perturbando-lhes as festas com armas. populares exaltados tomaram de assalto a principal judiaria de Lisboa e. Dispuseram esses antigos textos. pág. "pois nos reinados seguintes encontram-se judeus no exercício de cargos relacionados com o tesouro ou com a cobrança de impostos" (Marcello Caetano. não podia suportar tamanha sobrecarga. assenhoreando-se dos seus postos diretivos. eles se aproximassem de uma décima parte da população total (op. paus ou pedras. que de nenhum modo se podiam ombrear com os judeus.. cit. Afonso V em 1446) contiveram várias dessas medidas protetoras. Muitos destes adotaram a solução mais simples. Pedro I reforçou a ordem para que os membros dessas duas raças permanecessem confinados em suas comunidades. O pequenino Portugal. que ora o procuravam coibir. mas teimavam em conservar sua identidade. refletindo a exacerbação de ânimos. outrossim. Será bom termos presente que a população lusa. O Governo muito hesitou quanto à solução a adotar. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 225 e de exercer a usura. ou cavar neles ou desenterrar os corpos. que já se estendia desde Angola até à Indonésia. coletor de impostos. João II optou por uma atitude conciliatória. hábeis em atrair riquezas. dedicados principalmente às lides agrícolas. D. O problema se foi todavia arrastando. era formada por homens simples. ao inverso. op. os navios de transporte que haviam prometido. Por acréscimo. prata ou dinheiro". 195). Igual determinação se reiterou em 1400. Outras leis. em 1497. No seu Livro II. eram ainda acusados de terem trazido a peste que. proibia-se "danificar ou usurpar terra dos cemitérios judeus. o rei D. pesavam as considerações religiosas e o ódio popular. As Ordenações Afonsinas (que consolidaram o Direito preexistente e que. começaram a surgir judeus foragidos da Inquisição espanhola.. etc. Manuel I. Nessa precisa época.224 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVIII. pavoneavam depois ofensiva opulência. acha-se transcrita uma lei de 1392 que cominava pena de excomunhão para o cristão que praticasse determinados atos contra os judeus: verbi gratia. manipulavam o Tesouro público. aos brados de "matallos e rouballos". não foi cumprido. António José Saraiva calcula que. experientes. em sua grande maioria. formularam-se queixas de que em certos lugares os hebreus (e também os mouros) viviam misturados com o povo. ora o amparavam. rumando para oeste. a estes proibindo notadamente de "seer ovençal". no reinado de D. O mal-estar. desempenhavam as odiosas funções de perceptores de impostos. pág. Concomitantemente. grassava em Portugal. Diante disso tudo. que o judeu ou mouro convertido ao cristianismo não po- 4 deria voltar à antiga crença. e os judeus espanhóis acabaram permanecendo. 216). que se desgarravam nos campos. João I. caso depois de admoestado não se emendar". e para isso muito necessitava do auxílio judaico. "sob pena de ser decapitado. m as dando-lhes o prazo de oito meses para deixarem o território nacional. Em contrapartida. subiu ao trono D. todavia. a pretexto de procurar ouro. atilados. zombavam das coisas sagradas. quando se achavam já em muito maus termos. isto é. arrematavam a cobrança de tributos e com isso exploravam os contribuintes. 'autorizando o ingresso dos refugiados. a Assembléia de representantes das cidades e vilas apresentou um rol de amargas recriminações contra aquela comunidade. quando o desenlace começou a precipitar-se. A revolta contra a minoria hebraica continuou a crescer. De acordo com o sistema da época. não se convertiam à religião nacional. cuja população andava por volta de um milhão de almas. Para envenenar ainda mais o ambiente. o que. Em 1490. não se deixavam absorver. fazendo algumas cousas desordenadas de que os cristãos recebem escândalo e nojo.

supervisionando todas essas comunidades. 6. Nos primeiros tempos da Reconquista. regiam-se pelos seus "direitos e usos. costumes e religião. de amizade) e segurança. inexistiu nesse país uma Inquisição medieval. durante séculos. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL XVIII. Isso tudo foi calando na alma popular. até o século XII. alguns tributos especiais. a Inquisição portuguesa se acha deficientemente estudada. inclusive com Justiça própria. o poder público. Por muito tempo. que não podia ver com bons olhos tal situação. como protegidos e tributários do rei. Cada comuna possuía seus "arrabis". embora nessas leis e nesses atos se mantivessem sempre. tal sistema se revelou inconveniente e as autoridades passaram a adotar política protecionista. Ainda engatinham as tentativas de colocar em ordem e analisar a massa dos seus documentos guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Afonso IV em 1352. Portugal permanecia imune a reais movimentos heréticos. manifestado quer nas leis. Oscilações no relacionamento com o Estado. com competência para julgar as causas civis e criminais com base no Direito talmúdico. 2. os judeus. dispensados ficaram de trazer sinais distintivos nas roupas. os muçulmanos capturados foram sendo reduzidos à servidão. favoreceu tanto a raça hebréa como em Portug al . quer nos atos administrativos. convinha ao Governo a presença dos judeus. mostra extensamente como. e algum dia teria forçosamente de explodir em atos agressivos. com maior ou menor rigor. fermentava e crescia o rancor. Nela se lhes assegurava a liberdade. com o que sempre obtiveram e ostentaram imensos privilégios. sem autorização régia. Estabelecimento da Inquisição. seus trajos e adereços.. Isolavam-se em seus bairros (as "judiarias"). 2. sob pena de confisco dos bens e de ficar à mercê do rei. instituído por lei de D. Em Lisboa ficaram fora da jurisdição da cidade. eles manipularam os interesses do país. Triunfo do liberalismo e extinção do Santo Ofício. pagando à Coroa. protegido atrás da Espanha. sob a proteção de um alcaide por eles escolhido (o "alcaide dos mouros" ou "alcaide do arrabalde"). pág. "talvez. cit. os mesmos surgidos em outros países: os judeus eram acusados de explorar os cristãos . Nessa e em algumas outras cidades maiores. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 223 1. Nessa lei constava a proibição imposta a todo judeu de sair do Reino portando mais de quinhentas libras. casos e contendas". Os motivos da revolta eram. Desse modo. Período Pombalino. o tratamento oficial foi similar ao dos mouros livres. dos seus reis e dos poderosos em geral. 3. pelos capitais que possuíam. I. jevando as autoridades a um tratamento oscilante do problema. Na realidade. entre o povo. ao contrário do que determinara o IV Concílio de Latrão (1215). Do mesmo modo que em Castela. mas. em troca. Os trabalhos inquisitoriais. os muçulmanos puderam conservar seu idioma. à medida que os libertadores lusitanos desciam rumo a terras mais densamente povoadas por gente dessa crença. monopolizando o comércio. controlando as finanças públicas. Enfim. as distinções que assinalavam a inferioridade deles como sectários de uma religião. Mantendo-se assim à margem da estrutura municipal. mesmo porque. onde desfrutavam de autonomia jurídica e administrativa. e. repetitivamente. em toda a primeira parte da sua clássica História dos Judeus em Portugal. Quanto aos judeus. em parte nenhuma da Europa. Período medieval. durante a idade média. mas. pelo apoio econômico que deles procurava obter e pelos seus conhecimentos em vários setores técnicos e científicos. construir sinagogas e exercer livremente a religião. 4. posto que verdadeira. 5. 1. 109). Ainda e sempre. como assin al a Alexandre Herculano. em especial os direta ou indiretamente ligados à navegação marítima. era garantido que nenhum dano sofreriam e que a nenhum cristão seria reconhecido o direito de os maltratar. Ao contrário da sua congênere espanhola. abolida pelo cristianismo" (op. Já em 1170 D.( XVIII. Estavam entretanto submetidos a regime fisc al mais oneroso do que o dos nacionais. bastavam os tribunais episcopais e os da Justiça comum. em todos os feitos. havia o "arrabi-mor de Portugal". Para os casos isolados dos crimes de natureza religiosa que lá surgiam. os tributos. levavam vida apartada nas "mourarias". 7. Também o rabino Meyer Kayserling. Afonso Henriques outorgou aos mouros forros uma Carta de fidelidade (vale dizer. Tinham também o direito de organizar comunidades.

as autoridades não forneceram. subiu ao trono D. e os judeus espanhóis acabaram permanecendo. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 225 e de exercer a usura. eram trucidados pelo povo. a pretexto de procurar ouro.224 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVIII. populares exaltados tomaram de assalto a principal judiaria de Lisboa e. o rei D. perturbando-lhes as festas com armas. ao inverso. zombavam das coisas sagradas. formularam-se queixas de que em certos lugares os hebreus (e também os mouros) viviam misturados com o povo. não foi cumprido. constrangendo-os ao batismo. não se convertiam à religião nacional. hábeis em atrair riquezas. a estes proibindo notadamente de "seer ovençal". começaram a surgir judeus foragidos da Inquisição espanhola. dominando as atividades lucrativas. em 1497. João I. e. desprezavam os cristãos. e. mais ainda. m as dando-lhes o prazo de oito meses para deixarem o território nacional. almejando assim unir depois em sua cabeça as duas co- . os navios de transporte que haviam prometido. Concomitantemente.. em sua grande maioria. As Ordenações Afonsinas (que consolidaram o Direito preexistente e que. rumando para oeste. caso depois de admoestado não se emendar". Morto D.. não podia suportar tamanha sobrecarga. e para isso muito necessitava do auxílio judaico. pág. filha primogênita dos "reis 'católicos". Somando os judeus que já antes lá viviam aos que foram chegando da Espanha. os quais. Para envenenar ainda mais o ambiente. quando se achavam já em muito maus termos. Em 1449. proibia-se "danificar ou usurpar terra dos cemitérios judeus. no reinado de D. e os acontecimentos tumultuários se aproximaram de limites insuportáveis. As agitações prosseguiram e. prata ou dinheiro". Pedro I reforçou a ordem para que os membros dessas duas raças permanecessem confinados em suas comunidades. João II em 1495. que se avolumava. O problema se foi todavia arrastando. Esse ambicioso monarca concebeu o plano de casar-se com a princesa Isabel. refletindo a exacerbação de ânimos. isto é. ou cavar neles ou desenterrar os corpos. assenhoreando-se dos seus postos diretivos. Em 1490. coletor de impostos. rumo a outras paragens. que o judeu ou mouro convertido ao cristianismo não po- deria voltar à antiga crença. e nas Cortes de 1481-82. O mal-estar. manipulavam o Tesouro público. op. Manuel I. autorizando o ingresso dos refugiados.. O pequenino Portugal. Afonso V em 1446) contiveram várias dessas medidas protetoras. além de indesejados. fazendo algumas cousas desordenadas de que os cristãos recebem escândalo e nojo. cit. dedicados principalmente às lides agrícolas. ora o amparavam. mas teimavam em conservar sua identidade. eles se aproximassem de uma décima parte da população total (op. eram ainda acusados de terem trazido a peste que. João II optou por uma atitude conciliatória. Muitos destes adotaram a solução mais simples. Em resposta. Diante disso tudo. Dispuseram esses antigos textos. A revolta contra a minoria hebraica continuou a crescer. outrossim. aos brados de "matallos e rouballos". Nessa precisa época. 195). a Assembléia de representantes das cidades e vilas apresentou um rol de amargas recriminações contra aquela comunidade. o "que. pesavam as considerações religiosas e o ódio popular. massacraram vários dos que lá moravam. pág. "nem receber função por cujo exercício possa vexar cristãos". Por acréscimo. No seu Livro II. em 1361. que se desgarravam nos campos. incultos. cuja população andava por volta de um milhão de almas. "sob pena de ser decapitado. Outras leis. etc. passou a refletir-se em atos oficiais. após longa preparação. experientes. inclusive. em número suficiente. paus ou pedras. arrematavam a cobrança de tributos e com isso exploravam os contribuintes. acha-se transcrita uma lei de 1392 que cominava pena de excomunhão para o cristão que praticasse determinados atos contra os judeus: verbi gratia. que já se estendia desde Angola até à Indonésia. O Governo muito hesitou quanto à solução a adotar. era formada por homens simples. cit. o que prova aliás que esses maus-tratos existiam. que de nenhum modo se podiam ombrear com os judeus. Nas Cortes de Elvas. quando o desenlace começou a precipitar-se. Em contrapartida. D. António José Saraiva calcula que. foram promulgadas por D. pavoneavam depois ofensiva opulência. a Espanha expulsou os seus judeus (1492). nessa época. atilados. sofridos. procurava-se evitar os maus-tratos contra os judeus. Muitos dos fugitivos espanhóis. De acordo com o sistema da época. grassava em Portugal. Será bom termos presente que a população lusa. de tal modo que todos os caminhos que conduziam a Portugal se viram subitamente escurecidos por intermináveis colunas de refugiados. ele se estava lançando em gigantesco empreendimento: a conquista e consolidação de um império colonial. Título 94. Igual determinação se reiterou em 1400. que ora o procuravam coibir. todavia. "pois nos reinados seguintes encontram-se judeus no exercício de cargos relacionados com o tesouro ou com a cobrança de impostos" (Marcello Caetano. desempenhavam as odiosas funções de perceptores de impostos. 216). não se deixavam absorver. protegiam os cristãos contra abusos dos judeus.

Perdendo então a paciência. Amora. e o povo. fácil é perceber. em grande maioria. realizou-se imenso massacre. tendo sido muito bem recebidos. Mais propriamente. fosse fiscalizado o comportamento religioso dos cristãos-novos. acrescentemos este esclarecedor episódio narrado por Werner Keller. surgiram dificuldades práticas. em 1506. mais adiante. mais do que a expulsão. outra vez na cidade de Lisboa. começava a ser preparado o caminho para uma futura Inquisição. com apreciáveis vantagens para a Hansa. na brasileira. O resultado mostrou-se no entanto decepcionante. a partir de 1498 não mais havia em Portugal nenhum judeu que abertamente se declarasse adepto da lei mosaica ' Oficialmente. o que. grande defensor da causa hebraica (op. até que.). o que convenceu o Governo. súplicas. era apaziguar e atrair a comunidade hebraica. em termos pungentes. as autoridades foram adotando medidas restritivas cada vez mais fortes contra os judeus. de modo que os abusos continuaram a ocorrer. dedicaram-se a manobras econômicas e foram ocupando cargos públicos ligados ao Erário. adotaram os apelidos dos seus padrinhos cristãos. Pressionado ao mesmo tempo pela Espanha. Desde fins da Idade Média. que eram valiosos sobretudo pelo grande desenvolvimento que vinham imprimindo ás atividades bancárias e ás transações internacionais. muitos judeus recalcitraram e. D. diga-se de passagem. provocando avanços e recuos. ao receberem o batismo. unidos em suas tradicionais características. mesmo porque tais sobrenomes sempre existiram em Portugal. eram apóstatas. os habitantes de Évora arrasaram sua sinagoga. ocorreram levantamentos sangrentos em Lisboa contra eles. A despeito porém daquele (1) Corre a lenda de que os cristãos-novos portugueses. Seguiu-se longo impasse. tratando-se de uma Liga cuja razão de ser era o livre exercício do comércio. Pinheiro. logo deram enorme impulso aos negócios. de sorte que as pessoas que hoje os portam teriam ascendência hebraica. A idéia é considerada falsa.226 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVIII. isso se revelou quase impossível. 3. proibira que. O claro propósito de D. resistências.. igual medida aplicou também a todos os judeus adultos que tinham permanecido em solo lusitano. que se supuseram católicos e que. começaram a fugir para o exterior. Resolvido o assunto teoricamente. promulgou o édito de expulsão. Manuel. acredita-se que inúmeros marranos. os que judaizassem seriam submetidos a processo. dedicada ao livre exercício do comércio. Manuel. integrada por várias cidades. Os judeus prosseguiram na ostensiva exploração econômica. no fundo do coração. mas judeus escapados da Inquisição portuguesa.. A certa altura. Pereira. Sobrevindo a Reforma. e. pelo prazo de vinte anos. indignando-se. temerosos do que lhes pudesse acontecer mais tarde. porque ao Senado local parecia conveniente a permanência daqueles estrangeiros. Assim. . apenas passaram a existir os chamados "cristãos-novos". levando-os a mais facilmente diluir-se na população portuguesa e. Acrescente-se que. pág. D. com (2) Os representantes dessa raça repetem sempre até hoje. Nogueira. até vinte anos de idade. mas também os que de longa data já viviam no país). cit. lá apareceu um grupo de mercadores portando nomes portugueses. de todos os judeus não convertidos (alcançando pois não só os recém-chegados. o luteranismo. por fim. tornar-se cristãos. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 227 roas da península. No acintoso depoimento de Meyer Kayserling. Houve muitos debates quanto à conveniência e amplitude da medida. como religião dominante. o soberano determinou fossem batizados pela força os menores. formou-se no norte da Alemanha a Liga Hanseática. restava todavia conseguir a efetiva diluição da minoria judaica na maioria católica. levando clandestinamente suas fortunas. Muito hábeis. desesperando-se. condenados pela Inquisição espanhola. dentro do prazo de dez meses. em 1497. Além do que já observamos no capítulo VI. em fins do século XVII. mas no contrato nupcial figurou a cláusula que obrigava a expulsar todos os membros da raça hebraica que. Desse modo. e por elas responsabilizam a Igreja católica. Em 1504. "os judeus batizados que permaneceram em Portugal eram cristãos apenas na aparência. a proibir esse êxodo. e os cristãos-velhos não os aceitavam nem neles confiavam. Pouco antes. ainda que fingidamente. 404 e segs. preferiu trasladar-se para Amsterdão. e. passou a exigir fossem de imediato expulsos. na esperança de que estes se acostumassem à nova fé. Na prática. em 1499. Manuel. suas almas não estavam manchadas pelo batismo. porque os cristãos-novos persistiam fechando-se num mundo apartado. em Portugal haviam encontrado asilo. facilitou mais tarde fosse ignorada a sua origem judaica. prevalecendo afinal a opção mais rigorosa. Pois bem. com Hamburgo á testa. Em 1505. Escoado tal prazo. e. também. mantinham às ocultas sua antiga crença. gesto conciliador. firmou-se ali. A proposta foi aceita. etc. eles rapidamente progrediram e exibiam com grande alarde sua opulência. que se proclamavam convertidos mas que. E. a maioria deles. para se distinguirem. em 25 de dezembro de 1496. a descrição das desditas por que passaram na península ibérica. porque raros foram os que aceitaram. descobriu-se que não eram católicos. criaram sobrenomes extraídos de plantas: Figueiredo. calculando-se que o povo desaçaimado haja trucidado entre dois e quatro mil judeusz. num gesto de boa vontade. pelo clero e pela opinião pública portuguesa. ab imo pectore. autorizando a permanência de todos os judeus que se deixassem batizar. tornava-se uma contradição perseguir justamente pessoas que para isso contribuíam tão eficazmente. pouco antes de 1600. alimentando a ira popular. A própria dureza da decisão tornou difícil o seu cumprimento. o rei condescendeu. Pressionadas entretanto pela opinião pública. O prejuízo para a economia nacional foi-se tornando grande.

O obsessivo desejo de D.228 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVIII. com todo o peso da sua influência. atento ao fato de que os cristãos-novos haviam sido batizados pela força. 50). Carlos V mais uma vez interferiu. com o que as ameaças se tornaram mais veementes. mais uma vez D. João III deu logo um passo que pode ser interpretado como o início da ruptura. recordamos (Capítulo XV. O núncio papal rebelou-se e Paulo III repeliu a nomeação. a Santa Sé enfrentava dificuldades muito sérias. «pois não era cá necessário às consciências dos fiéis». O papa não retirou o núncio' (J.. pleno de peripécias. a luta prosseguiu. Surpreendido pela medida. mas. continuaram fiéis ao Judaísmo e suas leis. em 1547. o quarto. apoiavam e pressionavam o soberano. em 1515. corrompido pelos judeus. fundando uma Inquisição. O primeiro pedido em tal sentido partiu de D. anulou as condenações proferidas e. com pressões políticas. com três inquisidores designados pelo papa e apenas um outro. Manuel. O papa exigiu esclarecimentos. mas esta não cedeu. acusações de corrupção. 6).. como a Inglaterra. pedindo ao papa retirasse o núncio de Lisboa. devido à tenaz resistência de Roma. e a Espanha a este deu mão forte. que desse apoio à sua vizinha espanhola. desencadeando longa e apaixonada luta.-P. Subindo ao trono em 1534 um novo chefe da Igreja (Paulo III). pág. cit. concluímos com espanto que era real o perigo de que Portugal e com ele o Brasil fossem arrancados à Igréja católica. pouco tempo após. 120). outorgou amplissima anistia a várias categorias de cristãos-novos. como valioso instrumento de poder. João III era criar uma Inquisição dócil à sua vontade. João III negou as acusações. Aproveitando-se desse embaraço. as pressões do monarca português e de Carlos V da Espanha se reacenderam com redobrada força. nomeando em dezembro de 1531 um Inquisidor-mor para Portugal. o rei passou a alegar que o pontífice fora peitado pelos judeus e ameaçou separar-se de Roma. D. Pior ainda. para usar expressão de J. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 229 uma tenacidade que os dignificava. portanto. em 1542. a Igreja e a Casa reinante portugueses não podiam todavia aceitar tão afrontoso fingimento. mostrando a necessidade de que em Portugal fosse formada uma Inquisição muito severa. O alvo central eram os judeus. incidentes "rocambolescos". em 1539. voltou à carga com firmeza. apresentado sem muita convicção. autorizou-se fosse instalado um tribunal do Santo Ofício em Lisboa. não chegou a ser considerado. o núncio foi expulso do país e. com membros por ele livremente escolhidos e controlados. op. Sentindo-se então obrigada a transigir. em aberta desobediência às recomendações de prudência e moderação. pois. Armou-se assim aberto confronto entre Lisboa e Roma. da ameaça de ruptura já pronunciada e do cará- ter voluntarioso e indomável de Dom João III. Dedieu. melhor do que Henrique VIII da Inglaterra. manobras diplomáticas. temerosa dos excessos que pudessem vir a ocorrer. ameaçando de novo suspender o tribunal. Não era solução que satisfizesse e. n°. que a seu turno procuravam por todos os meios obstar ao plano. ameaças de cisma. da escolha do rei. Em vez de acomodar-se porém. Diante disso. Logo começaram a chegar a Roma notícias de que os excessos continuavam. Tratava-se de duas grandes potências mundiais. investiu seu irmão. fortemente anti-semitas. a Santa Sé aceitou o infante D. a todos concedeu perdão. Ofendido... Um conselheiro de Corte instou para que se rompesse com o papa. o que Roma não queria aceitar. [. Henrique. o infante D. no posto de Inquisidor-mor. não podendo desgostar a Espanha nem arriscar-se a perder Portugal e suas colônias. João III impediu a entrada em Portugal do novo núncio designado por Paulo III. Precisamente nessa época. O assunto se arrastou lentamente. Bernard. de sorte que começou a nascer a idéia de seguir o exemplo espanhol. esse rei. cit. mais bem informado sobre os abusos cometidos. entranhadamente católicas. Obtiveram uma bula que suspendia até nova ordem a execução das sentenças inquisitoriais. de maneira a lhes ensejar tranqüila con- .] Em consideração desta sugestão de rebelião. Antes. Como resposta. 0 povo. de outros conselhos apaixonados dados ao rei. que. Henrique. D. como cristãos aparentes ou novos (marranos)" (op. e insistiu na idéia de uma Inquisição composta unicamente por pessoas que ele nomeasse. cristãos-novos. o papa cedeu e. Os judeus continuavam porém alertas. D. O povo e o clero lusitanos. As advertências de cisma foram reiteradas e. D. intrigas. el-rei podia desobedecer. em 1533. tornando-se cismáticos. pressionando Roma e criando. se este "deixava de fazer o que devia. urgindo tomar medidas enérgicas. autorizou em definitivo fosse constulda a Inquisição portuguesa. o papa Clemente VII condescendeu. João III ameaçou romper com a Igreja. obtendo por fim esta magra concessão: em 1536. João III. Morto esse rei em 1521. Por fim. o embaixador português junto à Santa Sé afrontou grosseiramente o papa. sob promessas de comedimento. sucedeu-lhe seu filho D. em clara provocação. alegando que haviam sido forjadas pelo núncio em Portugal. mas. em 1531. João inventou que seu reino fora invadido pela heresia luterana. com as conquistas muçulmanas e o progresso da Reforma. nas negociações que se seguiram. pág. atritos.

De fato. Consoante seu Regimento de 1640. avançava sobre novas terras. sendo que o primeiro estendia sua jurisdição ao Brasil e Angola. porém. e. "com o batismo em massa. foram longos e tormentosos os trâmites que precederam o estabelecimento da Inquisição portuguesa. A "limpeza de sangue" passou a ser exigida para a obtenção de postos de relevo na Administração Pública. a vaga anti-semita que vinha crescendo desde a segunda metade do século XV e aumentara com a chegada dos judeus castelhanos não se estancou. trarão sinal. de outro. pelo contrário. ou "homens de negócios". os Judeus carapuça. de sorte que a muitas autoridades religiosas parecia inaceitável a abertura de nova frente inquisitorial. No século XVI. cobre quase mil páginas. além da privança com a Corte. que talvez nunca venha a ser efetivamente desvendada: a dos fortes interesses politicos e económicos em jogo. civil e militar. e os Mouros huma lua de panno vermelho de quatro dedos. Título XCIV: "Os Mouros e Judeus. ela ressurgiu com vigor e veio a figurar nas Ordenações Filipinas (1603). os judeus logo quiseram dai tirar todas as vantagens possíveis: freqüentavam a Corte.. Os protestantes em geral. instando pela uniformização de mentalidades e de costumes. Havia enorme conveniência em minar a vitalidade das duas nações ibéricas. que o problema se haja arrastado. a concessão de privilégios à minoria. considerados sempre um povo à parte. Joao III. feitor. Portugal. Tantos avanços geraram no povo a sensação de medo. ou chapeu amarello. que tinham a peninsula ibérica em mira. os maus (cristãos-novos) (Judaísmo e Inquisição. e provavelmente o mesmo iria acontecer com a que se criasse em Portugal. per que sejam conhecidos. ou . através de medidas discriminatórias. eram tradicionalmente designados em Portugal como "gente da nação" (hebréa). via com profundo desagrado os conversos enveredarem pelo novo regime do capitalismo comercial. decorrente das condenações impostas pelo Santo Ofício. mutatis mutandis. Com base nas ainda incipientes pesquisas feitas. fizeram cindir a sociedade cristã em dois blocos". Três tribunais se instalaram. Há uma face oculta do mesmo. De um lado.230 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVIII. Uma sociedade assentada na economia agrária. 4. transpessoal. obtinham os cargos públicos mais rendosos. com tantas paixões. notário. De outro lado. que em nossos Reinos andarem com nossa licença. Durante muito tempo tal exigência permanecera letra morta. mens bons e merecedores de confiança (cristãos-velhos). dominava os mares. a Inglaterra e a Holanda em particular. em Portugal. como captivos. boticário. embora na prática nem sempre fossem obedecidas. mas do demônio. que obtinha seu sustento através de labor duro e honesto. convem a saber. Assim. criou-se também em Lisboa um Conselho Gera1 3 . com a autonomia pretendida por D. Conforme assinala Maria José P. por mais de trinta anos. Instituída porém a Inquisição. meirinho. Várias disposições da legislação civil assim dispunham. A Santa Sé encontrou -se assim envolvida em poderosa trama diplomática e corruptora. A proibição apresentou-se também como pena acessória. Seus sucessivos Regimentos (de 1552. 96). embora a impusessem documentos oficiais. A Inquisição espanhola já vinha causando intensas preocupações em Roma. nas famílias tradicionais. A reação não tardou a produzir-se. a insegurança. o exercício de cargos e ofícios.. na capa e no pelote. em Lisboa. pág. etc. questões domésticas relacionadas com a aversão da Corte. o filho e o neto de um condenado pela Inquisição ficavam impedidos de serem juiz. pelo casamento. assi livres. reivindicavam títulos de nobreza. aumentou de volume. Para o impasse muito concorreram de um lado. a detenção da riqueza monetária e a ocupação mercantil-bancária. ou a indivíduos dela. Como órgão fiscalizador e tribunal de segunda instância. cosida no hombro direito. o maquinismo inquisitorial se dirigiu principalmente contra os cristãos-novos de origem hebraica. penetra yam. na globalidade. cit. sem dúvida. do clero e do povo lusitanos contra a comunidade hebraica. obra não de Deus. médico. Para descrevê-los in extenso. que se viram na contingência de defender-se. na edição do seu livro sobre o assunto de que nos servimos. estavam sendo favorecidos com o fornecimento clandestino de armas e outras mercadorias defesas. bem como no mundo universitário e no âmbito eclesiástico. ao sul. na Africa. os ho(3) Como deixa entrever o apertadíssimo resumo acima. Os judeus. 1613 e 1640) tomaram como modelos os de Espanha. Eram imensas as perspectivas de riquezas e de comércio. e por fim desapareceu dos textos legislativos. não iriam medir esforços para tirarem proveito (como afinal tiraram) dessas conquistas. tanto para os lados do Ocidente como do Oriente. Tendo-se tornado oficialmente "cristãos". etc. Há também suspeitas de que o império otomano e o Islão. procurador. Evora e Coimbra. Tavares. acredita-se que três quartas partes das medidas repressivas recaíram sobre suas cabeças. Alexandre Herculano. almoxarife. e os judeus se alvoroçavam. que produzia melhores frutos. pior ainda. assim como a Espanha. agudizando a instabilidade social de quinhentos. Isso tudo não explica nem justifica. A mudança parecia reprovável. inclusive pela via inquisitorial. F. E o que o não trouxer. que buscava na Inquisição a força compulsiva destinada a enquadrar aquela minoria perigosa nos moldes da maioria tradicional. escrivão. na Santa Sé penetrara já o espírito humanista. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 231 vivência com a cristandade. Posto afinal em marcha. Outra medida discriminatória foram os sinais apostos nas vestes para identificar os membros das minorias religiosas. os mesmos fenômenos que vinham ocorrendo na Espanha se repetiram.

que continuavam a cultuar sua crença e que. 0 desenvolvimento da Inquisição em Portugal foi muito variável. menos firmes na antiga religião. mas desde 1499 dominou com muito rigor a proibição dos judeus emigrarem. a garantir a identidade e a unidade da pátria. op. Saraiva fala em "fábrica de judeus".232 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVII I. Esta era. por adesão a crenças heréticas. Acusa-se a Inquisição portuguesa de ter sido muito severa. Eles precisavam ser facilmente identificados e fiscalizados. ao passo que grande porcentagem dos que lá permaneceram. porque. ela haja ultrapassado as de outros países. cabe observar que a Justiça criminal comum lusitana se mostrava extremamente dura. Tão estreita dependência perante o Poder secular ficou nítida com o fato de que o cargo de Inquisidor Geral foi desempenhado. foi relaxado ao braço secular em 11 de março de 1571. cit. desde antes de ser esta criada. págs. transitavam pelo reino em busca de negócios. durante muito tempo. escreve Basileu Garcia. 127 e segs. Procurava-se subtraí-la o mais possível à interferência da Santa Sé. seriam judeus mais dóceis. durante perto de um século. vindos do exterior. espécie de hábitos com que sairiam os condenados. E pola terceira. após o advento de tais leis. a tempo de construir o cadafalso e o anfiteatro. de sorte que muitos dentre os mais fortes e apegados à própria fé preferiram partir. mas o anúncio público fazia-se quinze dias antes. 5. os métodos de trabalho. por feitiçaria. Em Portugal não houve igual alternativa. que constituíam maioria.) o curioso fenômeno de que. "Os preparativos iniciavam-se com várias semanas de antecedência. seguindo-se. Também ali os julgamentos se concluíam com portentosos autos-de-fé. vigorou ali o figurino espanhol. Cumpre também consignar que essa população judaica era possuidora de um nível cultural médio bastante elevado e. profundamente fiéis à lei de Moisés. Também a partir de meados do século XVI começaram a ser instaurados processos contra os protestantes. geralmente estrangeiros oriundos da França. Henrique. No auto-de-fé de 18 de novembro de 1646. a reforçar o poder real. 103-4). ou seja. ora livre". que o prender. Em 1570. caso desejassem conservar-se muçulmanos. em Portugal minguados foram os esforços no sentido de instruir os cristãos-novos na doutrina católica. a fim de lhes confiscar os bens. atraindo-os de volta à antiga religião. ora seja captivo. que.. grosso modo. sob esse aspecto. fazendo-se ouvidos moucos aos seus apelos de moderação. Somando-se aos judeus. e pague pola primeira vez mil reis da cadea: E pola segunda dous mil reis para o Meirinho. "com tanta facilidade elas cominavam a pena de morte. Se for certo que havia maior atividade judaizante às voltas com a Inquisição em Portugal do que no país vizinho. para aquele. na Espanha. A medida parecia mais necessária devido à freqüência cada vez maior com que mercadores hebreus e mouros. o pintor chamado à sede da Inquisição devia observar os réus sem ser visto por eles. Consigna António José Saraiva (op. como se as autoridades religiosas portuguesas forjassem acusações contra réus daquela qualidade. cit. etc. pág. por depravação de costumes. gastaram-se 165 côvados de pano vermelho e amarelo. pág. Alemanha ou Inglaterra. que figuraria no sambenito com meio corpo metido nas chamas" (António José Saraiva. outra vez ao contrário do que sucedeu na Espanha. Diante disso. alguém havia escapado com vida" (op. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 233 o trouxer coberto. O procedimento. ironicamente. as medidas repressivas da Inquisição portuguesa foram. querendo saber se. notadamente para impedir que se comunicassem com os cristãos-novos radicados no país.. No que respeita aos condenados à morte. se viu apanhada e obrigada a ficar grande massa de hebreus firmes. pelo cardeal D. em Lisboa. cerca de 87 metros para 86 penitentes e relaxados. a presença do cristianismo. que se conta haver Luís XIV interpelado. . para lhes tirar o retrato a óleo. Tão grande era o rigor das Ordenações Filipinas de 1603. seja confiscado. Inicialmente. mas não se pode afirmar que. mantendo-se Estado e Inquisição solidamente unidos. existirá para o fato a seguinte explicação mais plausível. Manuel Travassos. uma conversão em bloco. cit. plenos de teatralidade. o embaixador português em Paris. por acréscimo. um instrumento destinado a manter a ordem. surgiu o primeiro português acusado de luteranismo. outras várias categorias de pessoas caíram nas malhas inquisitoriais. para todos (aí incluídos pois aqueles mais tenazes refugiados da Espanha).. os mesmos adotados na Espanha. seja preso. eles tiveram o direito de emigrar. 116). mesmo com uma falsa conversão. exerciam forte influência sobre os membros mais vacilantes da comunidade. de confeccionar os sambenitos. Na Espanha. Os mouros deram reduzido trabalho à Inquisição. Sobre o pano deviam ir pintadas as insignias correspondentes às penas. foi dada aos judeus a escolha entre o batismo e o exílio. A par disso. após longo processo. foi com o passar dos anos sensivelmente diminuindo o número de judeus apanhados pela Inquisição. enquanto em Portugal esse número crescia e se compunha principalmente de pessoas abonadas. Desse modo. A tese é demais ousada e carece de um mínimo de comprovação.

o mesmo idioma. que ele muito atacava em seus sermões. Bem perceberam estes então que chegara a hora da desforra. desditas principiaram a encadear-se. João III. com o tesouro exaurido. e a Inquisição. temendo sempre ser espoliados. Portugal necessitou desesperadamente de auxílio financeiro. Portugal se liberta do domínio castelhano. creditícias. Primeiro. onde encontraram sua forte vocação e rapidamente souberam concentrar em suas mãos a riqueza móvel. As perseguições e discriminações impostas aos judeus na península ibérica. a Inquisição o excomunga post mortem. em 1578. Até mesmo boa parte do comércio oriundo do Brasil passou ao domínio dos cristãos-novos. e daí queriam tirar a própria força. que se segue. evapora-se em grande parte o "sonho africano". pág. o mesmo ambiente a que ele estava habituado. em 1° de dezembro de 1640.. ensejando-lhe recompor seus negócios. ao fugirem da peninsula ibérica. muitas famílias israelitas tiveram seus membros dispersados por diferentes países e se radicaram em pontos vitais do comércio mundial. em prejuízo dos portugueses. No doloroso depoimento de João Ameal. em detrimento das casas senhoriais castelhanas e portuguesas. foi aos "homens da nação' que teve de recorrer. entranhadamente anti-semitas. contra a qual torna-se imperioso ficar preparado. porém. irmão de Felipe II. pilhando as colônias. Dá-se. 350). veio a ser aclamado rei. Com a catastrófica derrota perante os mouros em Alcácer-Quibir. do tráfico de valores.. O papa chega a avocar os processos a cargo do Santo Ofício e. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 235 irmão de D. desaparece o rei D. Assenhorearam-se das atividades bancárias. empobrecido. até que. nelas tentando estabelecer-se. mas o avanço protestante em vários países. então. por fim. longe de os enfraquecerem. Perante tamanha crise. leva o país a cair sob o jugo espanhol.. por ser evidente que a grande maioria da comunidade hebraica se há de ter mantido entregue às lides comuns e aos pequenos negócios. Submetido Portugal à Espanha. Dinheiro potável. a liberdade para os seus irmãos judeus portugueses. tornados muito característicos dessa página da História hebraica. Os protestantes da Inglaterra. acarretam forte hemorragia nas finanças lusitanas. portanto. mas dele sai com as forças esgotadas. apresam-nos" (op. como se dizia então. Afinal. O Poder inquisitorial não estava entretanto disposto a ceder. como prova de força. com longa duração. quando o cargo de Inquisidor Geral passou a ser ocupado pelo cardeal-arquiduque Alberto de Austria. a agricultura em declínio. a qualquer país que um judeu fosse. holandeses e franceses. interceptando o transporte de riquezas. como condição. Costuma-se alegar que a isso foram tangidos pela segregação que sofriam. o que os impossibilitava de exercer várias ocupações. os inimigos desta também dele se tornam adversários. arregimentando em seu favor grande porção do clero e da nobreza. que se colocara contra a Inquisição. Continua assim evoluindo um clima de muita tensão. muito contribuíram para o seu progresso econômico. Sebastião. nele encontrava acolhedora comunidade de gente da sua raça. terão conseguido triunfar no grande mundo mercantil. O mesmo sistema prosseguiu depois vigorando pelo tempo que Portugal esteve sob o domínio espanhol (1580-1640). a marinha incapaz de assegurar e proteger o comércio — os nossos domínios tornam-se campo aberto a todas as cobiças e usurpações. dá voltas. Investiram sobre o Oriente. Apenas alguns. D. Henrique. O curto. Não bastasse isso. e os portugueses passam a enfrentar dificuldades tremendas. João IV e. Sebastião. A ação dos corsários (os famosos sea dogs) ingleses. tornada agora protetora dos judeus. destroça-se muito do que de melhor havia entre as forças vivas de Portugal. a saída será buscar recursos junto ao capitalismo internacional. eles se lançaram nas atividades negociais e financeiras. O mundo. Henrique somente deixou esse posto quando. Conseguintemente.234 JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVII I. quase nenhum havia. porque lhe desagradavam os exageros do Santo Ofício lusitano e o que a preocupava então não eram os judeus. submetidos à conveniência e ao egoísmo alheios. António Vieira. no momento em que. saqueiam-nos. . que a todo custo queria conservar-se livre e poderosa. "desde então. Estado e Santo Ofício se mantiveram solidários no combate aos judeus. Mantendo-se como seres estranhos dentro do corpo social. ao mesmo tempo que mobilizava os sentimentos populares. muito se teme nova ofensiva da Espanha. hesitante e fraco reinado do cardeal D. após a morte do seu sobrinho-neto D. Segundo. Holanda e França não dão tréguas às duas nações católicas da península ibérica. No curso de toda uma longa primeira fase. nelas exerceu papel destacado o Pe. os mais atilados. cit. que lhe proporcionava as mesmas condições básicas de vida. Roma muito oscilou entre os contendores. desaparece o jovem rei D. curiosa mudança de posições. A história não parece bem contada. o que muito facilitou montassem depois densa e poderosa rede internacional. Em 1656. A isso se acrescentaram dois fenômenos. A partir de 1578. Onde quer que se encontrem navios portugueses tomam-nos. Tumultos violentos contra os judeus ocorreram em várias cidades. As manobras diplomáticas se amiudaram. e impuseram. O confronto foi apaixonado. Iniciou-se assim encarniçada luta entre a Coroa. a situação passa a acomodar-se.

e. e a Revolução Francesa lhes serve de poderosa ca ixa de ressonância. de equivalente modo que já vimos ter sucedido na Espanha. por derradeiro. revigora-se a Inquisição. o indiferentismo religioso. com todavia largas exceções. Incentivam-na não só seus intelectuais. destinado a minorar-lhe o rigor. A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL 237 em 1681. Austria. A Inquisição ainda se mantém. Colocou seu irmão. os litigantes se põem de acordo e os tribunais da fé recuperam sua força. de um lado. logo revelou-se firme adversário da Igreja católica e dos poderes mantidos pelo clero. que se tornou depois o famoso e controvertido Marquês de Pombal. morrendo D. destruíram-se as listas de tributos e donativos a que haviam sido outrora obrigados os descendentes dos conversos. com implacável severidade e reiterados autos-de-fé. O mercantilismo vai-se espalhando pelo continente europeu. e. em sessão de 31 de março de 1821. em meio a muitos problemas sociais e econômicos. Aboliram-se os tormentos e a pena de morte. João V. A imprensa acossa a Igreja. Inglaterra. germinam orientações liberais. 6. José I foi nomear ministro Sebastião José de Carvalho e Melo. José I em 1777. Desapareceram por exemplo os autos-de-fé públicos. Para alcançá-lo. porque as mesmas serviam para desvendar a origem hebraica destes. e. com a figura do "déspota esclarecido". . a tempestade se torna incontrolável e Po rtugal. em 1774. tornando impossível resistir às "idéias novas". carregados de anticlericalismo. E dentro desse clima que se desencadeia e triunfa a revolução liberal de 1820. para a esta servir sem interferência do papa e de Roma. in- centivaram-se os casamentos mistos. entrou em vigor seu novo (e último) Regimento. realiza processos. o Santo Ofício lusitano. sob o império de múltiplas forças. Por sua ordem. Dentro dela. mas como braço da Coroa. como Inquisidor Geral e. A borrasca se adensa no horizonte. Pombal levou de roldão tudo quanto pudesse fazer sombra à onipotência da Coroa. largamente difundida na Europa daquele século. Iniciado o século XIX. desapareceram os atestados de "limpeza de sangue". em torno dela lento processo corrosivo principia a formar-se. A influência deste nos assuntos do Governo foi aumentando. etc. teve como desiderato central firmar o absolutismo régio. cresce a burguesia formada nesse espírito. pregando o nacionalismo. Cessa com isso o regime despótico. tão-só quando a este último convier. Outro objetivo perseguido com denodo pelo ministro foi abolir gradualmente a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. em que os mesmos ficavam autorizados. centenas de presos políticos são libertados e Portugal prepara-se para encetar a inevitável caminhada em direção a outro estilo de vida. preocupado com o progresso do país. mas se vai tornando um ente fantasmagórico. sob o reinado de D. Ao mesmo tempo. Ingressamos nesses termos no século XVIII e. continuaram a realizar-se autos-de-fé e. Da. portanto. Falecendo D. mas sementes estavam sendo plantadas no espírito de muitos diplomatas e intelectuais portugueses que conviviam com a nova cultura em expansão na França. Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa. de outro lado. De permeio. declarou-a tribunal régio. Holanda. não mais há espaço para os tribunais inquisitoriais. Mantida porém a Inquisição. convertido em dependência do Estado secular. Isso tudo só a longo prazo produziu reais frutos. se fortalecem os judeus. Os ideais iluministas triunfam. um dos atos iniciais do seu sucessor D. Como poderoso foco irradiante atua outrossim a franco-maçonaria. prontamente destituiu o até então ditatorial ministro. os aliados ingleses. manteve-a e lhe deu forças. Paulo de Carvalho. e. quiçá o ateísmo. Ele não se mostrou todavia refratário à Inquisição. aumenta a compreensão da importância dos negócios. até tornar-se dominante. dotado de vida quase só vegetativa. mas também. que insistem constituir um anacronismo castigar alguém por motivo de crença religiosa. João V. é logo decretada pelas Cortes Gerais. A Justiça comum se deixa absorver pela tendência humanizadora. Doravante.236 - JOÃO BERNARDINO GONZAGA XVIII. os ocupantes franceses trazidos pela invasão napoleônica e. continuará a reprimir crimes religiosos. Maria. na esteira do movimento. cujas lojas rapidamente se espalham pelo país. Ao inverso. mas se manteve a "relaxação" dos réus à Justiça secular. lembrando-lhe a reputação de barbárie e obscurantismo que a presença do Santo Ofício acarreta para Portugal. desterrando-o de Lisboa. em 1773 foi promulgada uma lei que extinguia perpetuamente a separação entre as duas categorias de cristãos. se vê tangido para a mudança de mentalidade. 7. Em 1750. O progresso nesse sentido poderia contudo ter sido maior do que foi. cuja extinção. por alvará de 30 de maio de 1769. Conde de Oleiras. criado sob influência protestante. a rainha sucessora. declarando todos igualmente aptos a receber honrarias e a desempenhar quaisquer cargos e atividades.

quem dirige essa Congregação é o cardeal alemão Joseph Ratzinger. superstição.EPÍLOGO - EPÍLOGO 239 Abolida em Portug al (1821) e pouco depois também na Espanha (1834). Por derradeiro. Cumpria-lhe outrossim manter uma lista de livros cuja leitura ficava vedada aos católicos. bem como zelar para que não se publicassem escritos sobre a fé e a moral sem prévio exame e permissão por parte das autoridades eclesiásticas competentes. O órgão passou agora a chamar-se "Congregação para a Doutrina da Fé". desaparecem dos Códigos Penais os antigos crimes religiosos. com jurisdição sobre o conjunto universal da cristandade e cujas decisões só produzem efeitos interna corporis. Em 1908. Era o tempo do domínio do papa sobre os príncipes. entre outros. Desapareceu o Index dos livros proibidos. Os clérigos e religiosos estavam também submetidos a essa censura mesmo quanto a publicações sobre temas profanos. que lhe deu tratamento mais brando. Prosseguiu assim existindo a Inquisição. Cabe-lhe explicitar a doutrina católica. subordinando o Poder temporal ao Poder espiritu al . a generalidade dos países católicos passa a inscrever em suas legislações os princípios da liberdade religiosa. desenvolvê-la e impedir as propostas de mudanças que lhe pareçam equivocadas. pela mão do cavaleiro. pertencem à Igreja. e. etc. As faltas religiosas devem ser julgadas segundo o procedimento canônico normal. Em conseqüência. explicava São Bernardo no século XII. Ambas essas espadas. com órgãos que sancionem atos de rebeldia dos seus membros. e o segredo é mitigado. centralizada em Roma. a mesma foi reorganizada sob o nome de "Sagrada Congregação do Santo Ofício". Enquanto comunidade humana que reúne fiéis. a Igreja se viu em campo aberto. Atualmente. . Estamos agora porém no século XIX com suas radicais mudanças. de examinar amplamente todas as manifestações que pudessem ameaçar a pureza da fé. não com base em algum Direito de exceção. confiante no amparo divino mas devendo impor-se aos não católicos pela sua capacidade de persuasão. pela mão do padre. Aos poucos. para ela. feitiçaria. desaparece a Inquisição com as características que viera mantendo durante cerca de seis centúrias. deixa de ter predomínio jurídico sobre o Poder tempor al . o assunto foi revisto pelo concílio Vaticano II (1962 65). a pedido do padre. com o encargo. a outra. ela precisa conservar uma disciplina. O pilar mestre em que se assentara e do qual obtinha a sua força estava na "teoria das duas espadas". não mais existe crença oficial. por toda parte. mas uma deve ser tirada por ela. tais como os casos de heresia. com isso. perde o braço secular para fazer cumprir suas decisões. quando a Igreja. no entanto. da separação entre Igreja e Estado.

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7 to Ofício. sociais. enquanto instituição humana.2/G642/3. inserindo-o em pesquisa cuidadosa sobre as condições gerais de vida então existentes e sobre o modo como atuava a Justiça Criminal comum.Este livro deve ser devolvido na última data carimbada Gonzaga. políticas. e qualquer exame. tratando-a como um fato histórico condizente com o seu tempo e oferecendo os elementos indispensáveis para uma avaliação equilibrada sobre um assunto tão complexo. em texto precioso e muito claro. religiosas e científicas da sua época. Assim. ele faz uma análise ímpar do fenômeno. João Bernardino A Inquisição em seu mundo Tombo: 00446238/2008 Chamada: 272. João Bernardino Gonzaga é Professor Titular de Direito Penal nas Faculdades de Direito da Universidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em A Inquisição em seu mundo. é produto de sua época. justo e objetivo. o autor procura entender a Inquisição.ed/ex. econômicas. impõe o conhecimento profundo das condições culturais. Capa de Christof Gunkel .

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