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HannaH arendt: o mal banal e o julgar*
HannaH arendt: banal evil and tHe judgment
Sônia maria Schio*

Resumo – Hannah Arendt escreveu que o “mal banal” origina-se da incapacidade do indivíduo para pensar. Porém, pode-se perguntar se o mal não pode se originar da falta de julgamento. ou seja, o indivíduo comete atos maus porque não averigua os dados, não os avalia. em tal hipótese, o “mal banal” ocorre devido à ausência do “juízo reflexionante” (ou reflexivo) e da “mentalidade alargada” kantianos, resolvendo muitas das lacunas que o mal derivado do pensamento possui, como a que exige distinguir o raciocínio do pensamento.
PAlAvRAs-cHAve: Kant. Arendt. mal. Pensamento. Julgamento.

AbstRAct – Hannah Arendt wrote that the “banal evil” stems from the inability of the individual to think. However, we may wonder whether evil can not originate from the lack of judgment, when the individual commits evil acts because he neither verify the data nor evaluate them. In that case, the “banal evil” is due to the absence of “reflective judgment” (or reflective) and of the “enlarged mentality” theorized by Kant. the judgment may solve many of the gaps that lead to evil when it is derived from the thought, as, for instance, the necessity to distinguish the reasoning from the thought.
KeywoRds – Kant. Arendt. evil. thought. Judgment.

A questão da “banalidade do mal” tornou Arendt (1906-1975), a partir da década de 60 do séc. XX, não apenas uma pensadora conhecida, mas também contestada. e isso não ocorreu porque ela deixou de chamar de “mal radical”, seguindo Kant, aos atos praticados no totalitarismo Nazista, passando a denominá-los de “mal banal”. ela foi questionada
** A primeira versão desse trabalho foi exposta no XIv encontro Nacional da ANPoF, ocorrido em Águas de lindóia, sP de 04 a 08 de outubro de 2010. , ** docente da uFPel. e-mail: <soniaschio@hotmail.com>. Veritas Porto Alegre v. 56 n. 1 jan./abr. 2011 p. 127-135

fazendo-o tornar-se um criminoso. isto é. 6). . em alcançando uma outra dimensão que não o horizonte de cada dia. em outros termos. Nós resistimos ao mal em não sendo levados pela superfície das coisas. por isso Arendt entendeu que ele possuía uma “simples” ausência de pensamento (cf. foi enforcado. que não tem profundidade. em especial porque ela definiu esse mal como “político”. ou seja. que ela denominou de “mal banal”. sequer qualquer distúrbio de caráter. pois apesar dele afirmar que apenas “cumprira ordens”. a atitude do burocrata nazista não era “radical” no sentido kantiano. que ela buscou compreender o que levara o funcionário eichmann a agir de maneira que os seus atos levavam pessoas humanas para os campos. em parando e começando a pensar. 1. v. p. 56. o réu eichmann nada tinha de defeitos morais. revelando-se assim a possibilidade de uma figuração do humano aquém do bem e do mal. então. passou a gerar novas reflexões. para o qual o pensamento e o juízo são atividades perfeitamente estranhas. ou eram prontamente exterminadas. 134). por esses terem fornecido aos funcionários nazistas as listas com os nomes e os demais dados dos judeus. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar por apontar para a participação dos conselhos Judaicos no genocídio. e eichmann. visto que a razão. o mal é um fenômeno superficial. o que permitia que suas ações fossem más.M. onde ou eram privadas dos atributos de humanidade e de cidadania. segundo ela (1993. 1 Adolf Karl eichmann foi o funcionário nazista encarregado do transporte dos prisioneiros para os campos de concentração e de extermínio. Veritas. era um exemplo perfeito. Nesse sentido. p. não tem estatuto ontológico. o que aqui [no caso “caso eichmann”] se revela é a superficialidade impenetrável de um homem [eichmann1]. uma indicação de tal superficialidade é o uso de clichês. e em vez de radical. após. 70): eu quero dizer que o mal não é radical. que suas ações demonstravam um novo tipo de “mal”. 1991./abr. porque aquém da sociabilidade. 2011.. da comunicação e da intersubjetividade”. mais provável será que ele ceda ao mal. é meramente extremo. pela afirmação de Arendt. p. indo até as raízes (radix). ele foi julgado em Jerusalém e.S. 127-136 128 . e que por esta mesma razão é tão terrivelmente difícil pensarmos sobre ele. ele não possuía qualquer patologia mental. pois.. rancores raciais ou problemas de inteligência. n. o mal não se enraíza numa região mais profunda do ser. Apesar disso. por definição. Pode-se perceber. ela conclui. 2006. p. quanto mais superficial alguém for. que ela levantou. em outras palavras. pois não revela uma motivação diabólica – a vontade de querer o mal pelo mal. a questão sobre o mal. Arendt. jan. inclinações ideológicas. quer alcançar as raízes. que acabaram sendo levados para os campos de concentração e de extermínio. Arendt escreveu (apud schio.

essas atividades espirituais. pois ele é sem profundidade. pois busca atingir as “raízes”. cabe. nesse sentido. normalmente o que ocorre é um juízo determinante: inclui-se um particular a um geral conhecido anteriormente.S. comum de agir. e pode ser cometido por qualquer pessoa. 1. atividades e funções diferentes do julgamento. o qual indica o modo “normal”. por Arendt. A forma de agir “normal” do ser humano ocorre por meio do juízo determinante. que são inocentes. dúvida ou necessidade. para a subsunção de um particular. jan. do que ocorrera: a ausência de pensar. 56./abr. lei ou hábito. os acontecimentos. para conhecer. ela não apenas explicou o que ocorreu. averiguar se Arendt entende que o mal é causado pela ausência do “conjunto” pensar/julgar. então. que vão além das causas. ou seja. n. o qual não traz problemas ou conflitos na maioria das 2 o juízo determinante é aquele que atua dedutivamente: havendo um particular. tomo I. que ele apenas utilizou o juízo determinante2 no sentido kantiano. e sem qualquer motivo. ele ocorre quando o ser se retira do “mundo das aparências”. do espaço externo e passa a atuar internamente. Veritas. o pensamento obedece ao princípio de não contradição. utilizava seu intelecto para organizar os dados. p. não são sinônimas e intercambiáveis. mas porta a capacidade de tratar os objetos dessensorializados aptos para serem pensados. o pensamento é uma atividade do espírito que atualiza os dados oriundos do mundo externo. quando esse não existe. mas atinge e prejudica as pessoas. para a busca do significado deles. não refletindo. sem que ela decida. regra. ele é subsumido a um geral. abdicou de pensar. um problema. pois são passíveis de ocorrer em qualquer tempo e lugar. distantes e profundas. como ela as chamou. em seu sentido kantiano de busca de um geral. por exemplo. ele apenas raciocinava. como se pode perceber nas afirmações arendtianas. pretenda ou tenha más intenções. v. seja interno seja externo. o pensamento possui estatuto. jamais para o pensar.M. Porém. A reflexão. Pode-se afirmar. 127-136 129 . junto à memória e à imaginação. buscar outras possibilidades em busca do que eles “querem dizer”. 2011. portam. por seu turno é entendida. a falta de pensar e de julgar. eichmann. o pensar prepara os assuntos do mundo. desprotegidas. Isto é. então. pois também buscou as origens. épocas ou causas. Arendt percebeu que tais práticas do mal não carecem de situações. daquele “ensinamento” positivo ou negativo que os fatos. o Pensar. por isso é livre para organizar e desorganizar os dados. ou se ela se refere ao pensar em um sentido mais amplo do que aquele teorizado na obra A vida do espírito. Além disso. em sua conclusão. ou irreflexão. e que podem auxiliar na atuação do julgar. norma. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar o mal banal não tem “raízes”. por exemplo. isto é. ele não objetiva deixar algo de concreto no mundo.

Porém. 56. Iv. o pensamento precisa ter atuado previamente. o mundo interno novamente com o externo. o princípio possui sua origem no próprio juízo reflexivo. ele não se questionou sobre o que fazia. não existe sem o pensar. Nos termos de vallée (1999. eichmann não utilizou a reflexão em nenhum dos dois sentidos. A capacidade do espírito humano que Arendt denomina de julgar. para atuar. de valores. 55). e o aplicou a todas as situações..). e outros. é o legado do passado imprescindível ao presente.. 23). pois o princípio do juízo não pode ser empírico. o julgar. a premissa maior para a dedução. é aquele que prepara os dados pensados para serem decididos. o de questionar5. prepara para julgar em particular (. É nesse sentido que Arendt entende que o julgar conjuga o particular e o geral6. pervertidos pelo sistema vigente. os quais não demandam qualquer pensamento ou questionamento. buscando “iluminação” para guiá-las no momento de agir. de hábitos. e até vital. também. p. p. o julgamento. de leis. os subsídios do pensar com a situação particular em questão. qual seja. valores. em que a tradição3 já não possuía força para fornecer o “geral”. tornou-se necessário. superior a este. ou por que agia daquela maneira e não de outra. ou melhor. chamado reflexivo ou reflexionante. ao tratar deste juízo. porque ele seleciona.M. 2011. em Arendt. da tradição. a filosofia. apenas um automatismo que prescinde de qualquer esforço racional. em alguma circunstância cotidiana. não conseguiu perceber que o conjunto de regras. A conquista do pensamento é a incapacidade do conformismo e a capacidade de juízo pessoal. assim como a cultura. um exemplo disso é o uso de clichês. Porém. Introdução. haviam sido alterados. ou em momentos como os vividos no Nazismo. utilizar o juízo reflexionante. organiza os (novos) dados para a escolha e para o impulso da vontade de torná-los ação no mundo externo. assim. Há. para receber o impulso da vontade e adentrarem no mundo externo por meio da ação. p.” Veritas. necessita da presença dos outros. o julgar atua ligando. v. de regras. desta forma. seja de 3 4 5 6 A tradição é entendida por Arendt como o conjunto de conhecimentos. ensinando-as a amar e a preservar o mundo para as gerações futuras. de frases feitas. a religião. Por exemplo. 1. seja de forma real. 37): “o pensamento. deve elevar-se e buscar o universal. o princípio é possível pela conformidade a fins da natureza em sua multiplicidade.S. por isso. ele apenas se adaptou ao novo conjunto (premissa maior). jan. Por exemplo. expõe que este. o julgar se torna uma capacidade política. por ser a herança que uma geração deixa às seguintes para que elas possam conhecer o passado. o pensar tem a tendência a generalizar os elementos pensados. Para que haja conteúdos para o julgar. hábitos. se o “pensamento crítico puder libertar a capacidade de julgar e [ele] assim nos protegerá contra as derivas totalitárias”. ou seja. como explica vallée (1999. que raciocina sempre em geral. porém. na Crítica da faculdade do juízo (1993. e. Kant. n. ou reflexivo4./abr. sendo o fim o fundamento da efetividade do objeto. do particular em questão. também. comparando. interagir com ele no presente. 127-136 130 . Nas páginas seguintes (24-25). em situações com uma “certa” normalidade. então. o uso mais conhecido da reflexão. p. por partir de particulares. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar vezes.

na busca do significado. por sua capacidade humana de iniciar. desponta. de posse de elementos “aperfeiçoados” pela “mentalidade alargada”. pois precisa estar apto a buscar a premissa maior quando essa inexistir. a importância das atividades do espírito humano funcionarem de forma conjunta. jan./abr. p. não restringindo a atuação da razão ao inteligir. oriunda de uma comunicabilidade possível entre os seres humanos. 134). e ampliar a própria maneira de pensar. o pensar. da comunicação e da intersubjetividade” (Arendt. pode escolher. dito de outra forma. é uma espécie de publicidade. isto é. porque ele realizou uma “figuração do humano aquém do bem e do mal. 56. por meio de sua fala. iniciando com a atividade do pensar. 7 como Kant escreveu no § 40 da Crítica da faculdade de julgar. A imaginação porta a potencialidade de tornar o ausente presente. dessa forma. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar forma representativa. mostrando sua espontaneidade com a possibilidade de fazer surgir algo novo no mundo humano. o que ocorre por intermédio da imaginação. 1993. seus argumentos a favor ou contra. esse. considerados iguais e aptos para a vida em comum. seja por sua representação. seja de fato. Veritas. inicia a atividade do espírito que é imprescindível ao julgar. são levados em conta. 127-136 131 . enfim. o espírito humano pode imaginar suas opiniões. o juízo. p. e denominada de “mentalidade alargada”. o qual busca o conhecimento e a verdade. e esse é o autêntico momento do exercício de julgar. n. sua presença é importante. o espírito humano não fica “fechado” em si mesmo. os outros seres humanos podem ser presentificados imaginativamente: mesmo sem a sua presença empírica. em condição política. porque aquém da sociabilidade. para julgar. pode-se retornar à questão do “mal banal” e às afirmações de Arendt: a primeira citação deste texto finaliza com Arendt afirmando que o “mal banal” foi cometido por eichmann. apreciar. segundo o entender de Arendt. reiterando a capacidade humana de gerar a novidade. essa maneira de “pensar alargada”7. de sua presença. há a necessidade da intersubjetividade e da comunicabilidade: os outros seres humanos.S. expondo suas opiniões. 1. passa a possuir dados mais amplos e. porém. mas se abre à alteridade. associados àqueles oriundos da possibilidade de comunicar os pareceres aos outros buscando sua anuência. exercer a sua função de maneira original. com uma gama maior de possibilidades. na terminologia kantiana.M. 2011. Ao considerar as possíveis opiniões dos outros. assim. não pode se reduzir a mera função de subsumir o particular ao geral existente (juízo determinante). assim. essa representatividade é um artifício mental que permite pensar no lugar dos que não se fazem presentes. v. desse fragmento podem-se extrair diversas questões. duas em especial.

A segunda. segundo a acepção arendtiana. que atinge o íntimo do ser e da própria humanidade nele contida. A “sociabilidade. os quais se referem. fechamento ao mundo e à realidade. Porém. Arendt pretende que a fixidez da moral. Apesar dessas diversas possibilidades. e não ao pensamento que é solitário. com seus ordenamentos imperativos. o mal pode atingir a pessoa no nível privado. do querer e do julgar permitindo a ocorrência do mal político. que supõe a pluralidade humana. e até morto. aflige o indivíduo. ruim. 132 Veritas. falta de questionamento. p. discutido e evitado por meio da política. é ultrajado. n. ou ao errado. singular. em que todos os cidadãos se fazem presentes e atuantes. pois ocorre na intimidade do “eu”. que não há uma única forma de entender o “mal banal”. 1. despresença da consciência. irrepetível e com igualdade perante os outros porque humano. permitida pela “mentalidade alargada”). jan. como irreflexão. e ainda. exemplo basilar no pensamento arendtiano./abr. elas convergem quanto à inatividade do espírito humano. com a ausência do mundo exterior e com uma espécie de “abandono” momentâneo desse em prol da vida interna do espírito. se pode afirmar ainda. momento em que ele vai apreciar esse conteúdo sob o enfoque do agrado ou não.S. dessa forma.M. v. gigantesco em suas proporções e resultados. e essa é tarefa do julgamento. segundo Arendt. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar e que interessam na investigação em pauta: como distinguir o bem do mal. que pode ser repetível. falta de imaginação e da incapacidade de colocar-se no lugar do outro e pensar. ou seja. esse mal não tem a proporção do mal político. o “mal político” é aquele que atinge a pessoa enquanto pessoa. inexistência de intersubjetividade. ou seja. sendo que estas pertencem ao juízo (possíveis pela intersubjetividade. respectivamente. e ocorre quando esse tem a posse da matéria pensada e ampliada pela consideração dos outros pelo pensar na perspectiva de qualquer outro (como visto acima). e pela comunicabilidade. da comunicação e da intersubjetividade”. o juízo vai voltar-se sobre os dados apreciados e sentir “prazer” ou “desprazer”. por exemplo. como foi o Nazismo. segundo Arendt. e não da moral. mau. tenha seus conteúdos flexibilizados pelo julgamento. 127-136 . ao certo. bom e agradável. indignifica. 2011. ou o certo e o errado. quando o ser humano. Isto é. demissão de julgar. a não atuação do pensar. nem que seja imaginativamente. que se refere mais especificamente à falta de figuração da “sociabilidade. no espaço público. do lar ou do trabalho. imersão na vida privada com a inexistência do espaço público. 56. carência de espontaneidade. o mal político é aquele que precisa ser pensado. Nesse sentido. em que ele prejudica. como ausência de pensamento. desagradável. a comunicação e a intersubjetividade” demandam a presença dos outros. mas diversas maneiras de expor e buscar explicar sua possibilidade de ocorrência. desrespeitado.

em outros termos. mesmo que errôneos ou distorcidos. torturas ou desaparecimentos? É necessário que ele seja evitado. 56./abr. é entendido como aquele que. possui um corpo (sensibilidade). v. busca encontrar o universal. n. com seus acontecimentos. afirmando. 377). também. porque não se sentia mais “senhor” dos próprios atos. política. visa a ordenação das relações privadas. ou ao menos. querer e julgar. por meio do estado. sequer por uma falta de racionalidade. está permanentemente exigindo a atenção humana. 1991b. pois o intelecto (ou entendimento) poderá estar atuando na busca de conhecimentos. objetivando deduzir uma conclusão. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar Isso não quer dizer que a autora não se preocupe com o mal que ocorre. mas isso é insuficiente para uma vida humana plena. com suas demandas. o Nazismo. o cidadão. em especial. que ele mesmo modificou esse imperativo quando iniciou a “solução Final”. mas o stalinismo ou as ditaduras também são exemplos de que as leis podem ser alteradas. A perda do humano autêntico ocorre. no nível privado. Arendt. gerando legalidade. esses acontecimentos precisam ser levados ao mundo público e político. fornecendo dados. e nem sempre as leis conseguem proteger a pessoa. e o exemplo pode ser. e essa “perda do humano” foi demonstrada quando eichmann “perverteu” o “imperativo Veritas. em contrapartida. de verdades. mais uma vez. a cultura. ainda se pode perguntar. 1992. p. o mal político normalmente não é punível. parece apontar para o juízo em seu uso reflexionante. segundo Arendt. “esta operação de reflexão [que] é a real atividade de julgar algo” (Arendt. como punir um governante por milhares de mortes. com a natureza. jan. tendo em vista que esse não está disponível. 127-136 133 . a partir de um particular. 2011.M. mais uma vez. o que reforça o argumento da necessidade do julgar foi o fato de que eichmann citou Kant e o imperativo categórico (cf. 1. imaginação e memória. isto é. pois ele é racional. 222-223) durante o julgamento. em contrapartida. “forçando” o corpo e a mente humana a interagir com ele. o “como” agir. eliminá-lo. como prover o pensamento de conteúdos quando ele foi “programado” para não mais pensar antes de atuar. deverão surgir possíveis soluções para coibi-lo. embora seja conferida pelo mundo público. Ao contrário. diminuí-lo. o mundo externo. p. pois estes sempre existirão. mas não legitimidade. segundo Arendt. justiça ou respeito à pessoa e ao cidadão. e agora em nível ético. e a resposta. A punição que. segundo ela. após sua exposição e debate. todo o ser humano possui as capacidades para pensar. o juízo reflexionante. A elaboração de uma lei é um exemplo de como se pode buscar resolver o problema do mal no mundo privado. não pela falta de alguma regra ou mandamento que oriente os homens no “como agir”. e o que significa. na ética.S. ou pode ocorrer. sem a qual não há o retorno ao mundo externo. e. p.

pela categoria da “pluralidade”8. implicação que assumirá o lugar da premissa maior. A partir do não consentimento prévio a regras comumente aceitas. n. segundo Arendt. Isto é. Além disso. le beau et le laid ou. em especial quando se tratam de questões políticas. na eticidade se fará necessária a capacidade de ter presente e de considerar os outros no momento de julgar.S. dito de outro modo. em convívio com os seus semelhantes. “a chaque instant l’imagination créatice produit les conditions d’une aptitude à distinguer le bien et le mal. mesmo assim. supondo um cidadão participante. pode-se retomar a importância da imaginação9. mesmo assim. ao circundar o ser humano. Nesse sentido. até então ausente. pour le dire autrement. l’horizon de sens sans lequel le monde. obrigando-os a continuamente repensar em que “companhia desejam estar”. 61). A testemunha interior é pois o representante da pluralidade. que a moralidade não é suficiente para que o “mal banal” seja evitado. avaliando suas opiniões. cesserait d’être l’habitat de l’existence humaine”. jan. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar categórico kantiano” para adequar-se à “nova” situação. afinal todos os humanos habitam o mesmo planeta. livré à la désolation. p. 1. pensar. e ainda segundo ela. Veritas. eichmann demonstrou. não em suas pretensões. Para tanto. e punir. a qual recebe a imprescindível tarefa de tornar o ausente. vivos ou mortos. isto é. É necessário manter o pensamento e o julgamento sempre ativos. eles desejam conviver enquanto estão consigo mesmos. 2011. p. que era a da solução Final. 56. p. de pessoas ou eventos. há a carência da possibilidade de colocar-se no lugar do outro ou de leválo em consideração. segundo d’Allones (1994. evitando o egoísmo ou o solipcismo. pois não há como responsabilizar. quais exemplos.M. governos ou grupos: a responsabilidade é pessoal. pois basta alterar as regras (premissa maior). o juízo e o pensamento precisam estar ativos e atuantes. com suas atitudes e palavras. entende vallée (1999. ou seja. ou qual tipo de pessoa. para que assim não sejam cometidos atos que são maus. v. é imposto ao humano pela presença do outro no mundo. os outros cidadãos. mesmo que apenas em pensamento. 32) que “deve-se estar diante de si como diante dos outros. necessidades ou condições./abr. em atitudes de pessoas como eichmann. Pode-se afirmar ainda que. com quem. o “chama” constantemente a uma espécie de “resposta” ao que ocorre. o julgar “determinante” pode funcionar de forma automática. A ética exige uma 8 9 Por exemplo. o mundo externo. mas em seus resultados. 127-136 134 . e o “reflexivo” estar inoperante ou atrofiado. os acontecimentos particulares passam a afrontar cotidianamente os cidadãos. eles podem utilizar para se orientar no mundo. quando estão sem a presença de outros humanos. presentes ao pensamento e ao juízo. valorizar o outro. julgar e agir são sempre individuais. Ao pensamento cabe fornecer ao juízo o resultado de sua atividade. Nesse momento. e o diálogo na solidão interioriza o ponto de vista dos outros”.

uFRGs.] é uma necessidade política” (idem. In: Esprit. p. essa virtude foi desvalorizada pela sociedade atual (de massa) que supervaloriza a vida biológica. 56. ou então são anulados e suprimidos. sônia maria. desolado.S. de André duarte de macedo. rev. o querer. schio. _____. Schio – Hannah Arendt: o mal banal e o julgar maneira pessoal de pensar e de agir. As faculdades mentais. Crítica da faculdade do juízo. 1993. o pensar e o julgar ou receberam a tarefa de suprir a falta dos ensinamentos do passado. 1991b. lisboa: Inst. Veritas. Piaget. scHIo. típicos na “sociedade de massa” (cf. ed. exercendo uma experimentação livre. 1991. Rio de Janeiro: Relume-dumará. 2008. Porém./abr. Paris: Gallimard. (les Équivoques de la Responsabilité). 2011. a obediências às regras e às leis não satisfazem às necessidades do cidadão singular. 1. revisam. “vers une politique de la responsabilité: une lecture de Hannah Arendt”. 27). Hannah. Rio de Janeiro: Relume. em “emergências. 1991. e responsabilizar-se por eles. repassam. então.M. trad. Isso ocorre porque é preciso também “imaginar” as consequências do ato. o agente precisa pensar se vai ou não praticar um ato que foge do habitual: é indispensável desligar-se dos automatismos. p. mesmo a obediência a elas deve ser pensada e julgada quando acontecimentos inauditos se apresentarem. Por isso. 206 (nov. jan. p. 1991a. apesar da capacidade de pensar estar em todos os seres humanos. em determinados momentos.dumará/uFRJ.. o julgar. para tal. Hannah Arendt: a estética e a política (do juízo estético ao juízo político). 5. são Paulo: Nova Perspectiva. _____. nem sempre a atenção é dirigida para a atividade mesma. Para tal é preciso ter coragem. apto a cometer o “mal banal”. Entre o passado e o futuro. constantemente os conteúdos e exige a presença ou a consideração dos outros. Eichmann à Jerusalém: rapport sur la banalité du mal. de valério Rohden e António marques. 2006. _____. Rio de Janeiro: Forense universitária. e o ser humano torna-se solitário. Immanuel. Hannah Arendt: história e liberdade (da ação à reflexão). vAllÉe. d’AlloNes. catherine. Referências AReNdt. KANt. trad. 2008. 1999. pois a moralidade não é suficiente. 10 segundo Arendt (1991. p. myriam Revault. 153). devendo oportunizar que o pensamento atue10. permitindo que haja a adesão aos comportamentos e às regras pré-definidos. Rio de Janeiro: Forense universitária. n. A vida do espírito: o pensar.. 1992. caxias do sul: educs. 127-136 135 . 1993. resulta que o componente depurador do pensamento [. A condição humana. v. _____. Lições sobre a filosofia política de Kant. Hannah Arendt: sócrates e a questão do totalitarismo. em seu exercício. 153). 1994). _____. e orientar a ação no presente. tese de doutorado.

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