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Teixeira a Guerra Colonial...[1]

Teixeira a Guerra Colonial...[1]

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07/31/2013

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A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência
dolorosa. Passava largamente da meia-noite, há muito que acontecera a
rotação do “moinho”, quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito
“zangado”, agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da
sala. Facto curioso, com a entrada triunfal do inseparável séquito,
(inspector, chefe-de-brigada, e agentes) parecia ter-se clareado a luz
ambiente, ou seria apenas a mente mais desperta?
─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa, ligados
ao Partido Comunista. Há muito tempo que temos referências suas e
também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente, vamos
buscá-la para esclarecer.

Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido, o
coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis
na sala. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da

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vontade, os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico
iminente, aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família
há mais de um mês.

Que dia seria hoje, 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles
na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão,
pavor, medo! Dúvidas dilacerantes do preso, manhas experimentadas da
polícia.

─ Se os documentos não são seus, não teremos outro remédio senão
trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS.
─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. A
minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar!
─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente
estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho, se não vamos
mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!...
Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a
doce e carinhosa companheira, despedaça-se o coração! Estão a fazer
chantagem psicológica, a aprofundar a angústia dilacerante, mas como
sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar
que prendam a minha companheira, não posso!...”
─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher
não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e
psicologicamente, quase gritava num acesso de raiva e de desespero.
Raiva, pela impotência perante a situação, e desespero por se ter deixado
enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império.
Nascia um estranho sentimento novo, misto de revolta e de
desalento, subindo pelo peito até ao cérebro, quando acrescentou:
─ Não tenho mais nada a dizer!
─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história
toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do

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papel sujo, na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. O
inspector Tinoco retirara-se impante, a investigação ia no “bom
caminho”, a tortura do sono ia continuar.
Sem cadeira para se sentar, em pé horas e horas a fio, sob constantes
ameaças dos pides, os pés começaram a inchar: “Se se sentar, desfaço-o a
pontapé!”. O preso caminha encostado às paredes, agarrando-se por
momentos aos taipais de madeira da janela, o que proporciona um
precioso alívio:

─ Saia do pé da janela, já lhe disse! Se insiste, desfaço-o a murro!
Agora só fazem serviço os pides “maus”; o “vaidoso” e o
“atarracado”, desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em
ofensas.

─ Comigo, os comunistas de merda, como você, eram todos
fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”, eu logo lhes dizia!...
O detido já não liga às provocações, atingiu um estado de
insensibilidade auditiva àquelas baixezas, lançando um olhar de desprezo
tal que o pide não disse mais nada.
A respiração pela boca torna-se ofegante, uma tontura tremenda fá-
lo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado, entrado a meio da
tarde, lhe prega um violento empurrão:
─ Cabrão, não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-

-se”!

O torturado cambaleia, bate desamparado contra a parede, julgando-a
mais distante, há muito perdera a perspectiva tridimensional, tenta
agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a
consciência. Apetece-lhe vomitar, sai da dolorosa convulsão do estômago
um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida, vêm
abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar, desritmado. Pânico!
─ Preciso de um médico! Preciso de um médico!

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O pide agressor ajuda-o a levantar-se, parece ter ficado preocupado
com o aspecto do preso. Não há milagre, claro, é ainda um homem novo,
não tem o traquejo dos “duros”, ou simplesmente ficou assustado perante
a hipótese de um desenlace grave:
─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada.
Muito tempo depois, já meio recuperado, mas com os pés cada vez
mais inchados, recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro, com uma expressão
cínica aprendida com o superior hierárquico. Demorou-se a observar
atentamente o depauperado prisioneiro:
─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo

ao seu médico.

─ Sofro do coração, corro perigo de vida!
─ Também eu! Até tenho de ser operado!... O senhor inspector não

tarda aí!

Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. Sentia-se
verdadeiramente mal, entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em
cima da carcaça. Sim, conhecia as histórias de camaradas mortos nas
torturas, gente de excepcional coragem, hoje celebrados como heróis,
mas nem todos tinham essa fibra.
Estava sinceramente assustado, a confusão, o medo e o cansaço
geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo, quem vai
preocupar-se com o que me acontecer? Bom, a família!... Mas o que pode
fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a
companheira! Tenho de sair disto, arranjar uma forma de sair daqui sem
comprometer os camaradas. Talvez inventando uma história com
qualquer coisa de verdade à mistura... talvez...!”
Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros,
exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e
o completo isolamento. Ah! Se pudesse saber que a companheira, firme e

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determinada, embora verdadeiramente ameaçada, tinha obtido do “seu”
médico e amigo, o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno
problema cardíaco, um atestado-declaração em como a sua vida correria
real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira
dignidade profissional e deontológica, jamais olvidado, até porque na
altura outros apoios foram recusados.
Não tardou de facto, o “senhor inspector”, com o ar mais angelical
do mundo, nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás.
─ Então, queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!...
─ Sofro do coração, se me acontecer alguma coisa os senhores serão
responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes, por isso
o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se
surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque:
─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada, mas isso
depende fundamentalmente de si!
Certamente por imperceptível indicação do superior, o agente de
serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado.
─ Se dependesse de mim já me teria ido embora!
De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta
que os polícias esboçaram um sorriso. Devido ao cansaço, o cérebro
despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples,
poupando energias.

Na tarde do 6º dia, o inspector terminava a conversa com o mesmo

ar cândido inicial:

─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo!
─ Não tenho mais nada para contar!
Apetecia-lhe chamar cínico, hipócrita, canalha, chantagista,
criminoso, facínora, torcionário, carrasco, fascista , nazi, todos os nomes
que definiam aquele títere do regime, torturador requintado, ontem ao

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serviço de Salazar e agora de Caetano, “unha com carne” com o director
Silva Pais, que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da
PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. Todavia não se sentia com
forças para uma altercação acesa, nem com coragem para suportar a
provável violência punitiva. A matilha de macabéus e hienas, com
esgares de riso, estava atrás do chefe pronta para saltar, mas este fez-lhes
um sinal de aquietação.
─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar, a qualquer hora do dia
ou da noite, e se for preciso, trago um médico comigo!...
Já não conseguia levantar-se, com períodos de longa prostração e de
pensamentos sem nexo, como se se ausentasse de si próprio e o corpo não
lhe pertencesse. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia
voltar a calçar os sapatos, tirados para massajar depois de lhe terem
devolvido a cadeira. Até o agente de serviço já não implicava, não dizia
nada, já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava, mas
não estava”.

De repente, no terrível silêncio da 6ª noite de tortura, ouvem-se
gritos humanos lancinantes. O torturado levanta-se em grande
sobressalto, parecem-lhe gritos familiares, gritos de mulher!... :
“Prenderam a minha companheira!”.
Este pensamento produz uma angústia terrível, o peito sufoca, o
coração desritmiza-se. Descalço, caminha na hipotética direcção dos sons
que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. O pide
mantém-se mudo e quedo na sua cadeira, a olhar interessado, sem
interferir, o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e
apreensivo: “Serão alucinações auditivas?”
Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se,
pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com
veemência:

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─ Não está a ouvir? São gritos, alguém pede socorro!
─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça!
Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem
através da parede, produzindo um efeito devastador e tornando urgente
uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!”

*

Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972, frio, cinzento, sem sol
(ou ainda não terá nascido?), o 7º dia da tortura e da desconstrução de
um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude.
O pide de serviço, contra o que era habitual, abriu cedo os taipais
por onde entra uma luz coada, obrigando a manter a lâmpada acesa:
─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!?
─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção.
Estranhamente já não tinha manifestações truculentas, limitava-se a
observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do
depauperado prisioneiro.

Ganhara forma no cérebro, nas longas fases depressivas, uma
história de comunista já assumido, onde factos reais eram protagonizados
por figuras ficcionadas, e outros inventados com gente há muito
inequivocamente afastada do País.
Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico
de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades
sobre os humanos!...).

A PIDE aceitou a história. Muitos, muitos camaradas e amigos
puderam continuar a dormir descansados.

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8. DO CHILE À TRAFARIA
COM LÁGRIMAS

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