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Teixeira a Guerra Colonial...[1]

Teixeira a Guerra Colonial...[1]

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07/31/2013

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Depois de Outubro de 1973, o Movimento Democrático ficara
particularmente activo, enfrentando o regime caduco e despótico que
recrudescia na acção repressiva. Mantendo as estruturas criadas para as
frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional, a CDE (Comissão
Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas, por não haver
condições democráticas. Esta força política abrangia cada vez mais
sectores sociais; dos trabalhadores, dos estudantes, da intelectualidade
progressista, e desmultiplicava-se em acções de rua, recebidas com
grande apoio popular. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros
meses de 1974, concitando maiores apoios e socavando as bases do
regime. Coordenando a luta legal e semi-legal, a CDE arrostava o ódio
das forças repressivas, cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura.
No dia 6 de Abril de 1974, a Polícia de Segurança Pública invadiu as
instalações de um prédio em construção na zona de Benfica, onde
decorria uma participada assembleia de democratas, preparando a luta
próxima que em Maio se deveria intensificar. Foram detidos mais de seis
dezenas de participantes, enclausurados no Governo Civil de Lisboa e
posteriormente entregues à PIDE/DGS.
Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo
Civil, preocupadas com o futuro imediato:
– É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com

experiência no assunto.
–Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de
olhos castanhos, vinda do Sul para estudar, depressa se envolvera na luta
pela democracia. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria
desfazer – cartas do companheiro na guerra.

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– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar.
Custava-lhe separar-se daquelas palavras tão apaixonadas, tão
magoadas...:

“...cada dia que passa vai-se acumulando a saudade, o desejo,
cresce o amor, sublime e autêntico, esta amarra indestrutível que
nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade, que toda a
arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. Amo-te
querida esposa.”

Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso,
sentimentos e emoções de uma vivência difícil. A morena de olhos
escuros dos genes árabes, estava decidida a não desfazer-se
delas e continuou a leitura-saudade:
(...) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho

imaterial

Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de

despedida

Lutaremos meu amor
Na aparência sozinhos, multidão na verdade
Lutaremos meu amor”.
Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos, não sei qual a
sua fonte de inspiração, mas se soubesse fazer poesia, gostava de
escrever um poema assim. Faremos dele a nossa canção de luta,
onde quer que obriguem o sacrifício humilhante, onde quer que viva
onde quer que morra, tê-lo-ei sempre comigo, dependurado à
cabeceira, escrito na pedra ou no vento, será o grito de revolta, será
a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(...)”

Não teve tempo de completar a leitura, molhada em lágrimas de
saudade e de angústia pela separação prolongada, doendo no corpo e na
alma.

– Minhas senhoras, preparem-se para sair! – anunciava uma voz
autoritária com requebros de satisfação, à porta da cela onde

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normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. Era outro,
porém, o estrato humano em presença, surpreendendo o graduado:
– Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com

firmeza.

– Isso não sabemos, apenas recebemos ordens para as transferir.
Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o sub-
comissário, mudando o tom, fazia agora o papel cínico do saber de manha
feito. Eram ordens...!

– Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE,
não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara
ruborizada do polícia, a morena de cabelos em franja, como era uso,
entretanto regressada dos lavabos.
Não tivera tempo para mais hesitações, doía-lhe o coração separar-se
das palavras do companheiro, decidiu arriscar escondendo
cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. Decisão temerária e
esforço inglório, pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao
reduto norte de Caxias, a ala dos interrogatórios e das torturas, foi o
supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. A carcereira às
ordens da PIDE, intimou com acinte discricionário na voz:
– Dispa-se, completamente, por favor!
– Também tenho de tirar a roupa interior?
– Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas!
– É uma humilhação!...
– É o regulamento, minha senhora, igual para todas que cá

entram!

– Não pedi para vir para cá!
– Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?...
Muito interessante; “Poemas de amor e revolução”?!...
– São cartas do meu marido que está na guerra.

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Depois logo explica isso ao senhor inspector.

*

A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico:
– Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase
gritou na solidão da caserna. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão.
Lágrimas reprimidas mas teimosas, sem conseguirem desatar o nó na
garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado, onde se
precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora?
Que posso eu fazer?”

Sentado na beira do beliche, na caserna pobre e alheia às
vicissitudes, João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão,
prostrado, por minutos ou por horas, nem sabia bem. Depois ressuscitou!
É verdade, o ser humano tem a capacidade de ressuscitar, não sendo tal
apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem,
produto da fé dogmática.
Era preciso arrumar as ideias, analisar a situação, desabafar:
– Recebi um telegrama de Portugal, com data de há dois dias. A minha
companheira foi presa!

– Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e

amigo.

– Foi detida no princípio do mês, numa reunião da CDE, em Lisboa.

– E agora, que vais fazer? – questionava o Pedro, no habitual
convívio de fim de tarde atarantado com a notícia.

– Se pudesse ia para lá já hoje!... Aqui neste fim do mundo, sinto-me

atado de pés e mãos.

– Vais ver, não vão detê-la por muito tempo, com a miúda pequena!...

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Que idade tem a tua filha?

– Faz dois anos em Junho, mal a conheço!... Via-a ao colo nas visitas
à prisão em Caxias, com o parlatório de permeio.

– É da idade do meu. Aquilo lá está complicado, a Manuela conta-me
de uma grande agitação social, greves nas fábricas!... – Pedro referia-se à
esposa, de quem tinha um filho também pequenito.
– É tempo de derrubar o fascismo. Estou farto desta guerra! – a raiva
e a esperança seguiam-se à angústia inicial, o que significava um
progresso assinalável no estado de espírito de João.
Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos
depois do levantamento das Caldas. Algo paira no ar!...

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