Coleção ESTUDOS LATINO-AMERICANOS Vol.

4

STANLEY J. STEIN BARBARA H. STEIN

Ficha catalográfica (Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ) Stein, Stanley J. A Herança Colonial da América Latina: ensaios de dependência econômica por I Stanley J. Stein é Barbara 1-1. Stein; tradução de José Fernandes Dias.3.aEd.Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977. 158 p. 21 cm (Estudos Latino-Americanos, v. 4) Do original em inglês: The colonial heritage of Latin America: essays on economic dependence in perspective. Bibliografia 1. América Latina - Condições econômicas. 2. América Latina - Condições sociais. 3. América Latina História - Período colonial. I. Stein, Barbara 1-1. II. Título 111. Série. CDD - 330.9801 309.11801 908.01 CDU - 338(8=6)"15/18" 308(8=6)"15/18" 9(8=6)"15/18"

A HERANÇA COLONIAL DA AMÉRICA LATINA
Ensaios de Dependência Econômica

S833h

Tradução de
José Fernandes Dias

ADQUIRIDO COM RECURSOS 1

FACEPE
PROJETO APQ-0081-7 C5/07 Prof. George F Cabral de Souza i

Departamento de Histeria UFPE

c

77-0478

E E
EDITORA PAZ E TERRA
Conselho Editorial

Antonio Candido Fernando Gasparian Fernando Henrique Cardoso

PAZ E TERRA

capítulo IV O século XVIII A Espanha. via restauração. 1723 Ao iniciar-se o século XVIII.. as riquezas que extraem do seio da terra.'' "Ordenanzas nuevas. obtendo.. A resolução portuguesa (da crise) consistiu no reconhecimento de seu papel de dependência face à Inglaterra.". encontra .se. 1708 "O comércio mundial floresce às custas dos povos da América e de seu imenso trabalho. embora se ache tão bem situada que possa abrir uni comércio opulento para seus cidadãos. Essa vinculação. A crise generalizada enfrentada pela Espanha à época da morte de Carlos II e os 13 anos de guerra interna e externa que se seguiram a 69 . Memória encaminhada ao vice-rei do México.. as colônias americanas e suas metrópoles ibéricas achavam-se intimamente vinculadas através de uma relação que servia muito mais aos interesses metropolitanos do que às dependências coloniais. em troca. não obstante. do controle e crescimento econômico nas colônias. em tal estado de deterioração que. se possui o título de propriedade.. contudo. a segurança do império. não se beneficia do que é produzido. recusou-se a aceitar esse tipo de solução. A Espanha. entretanto. os cidadãos espanhóis de maior influência acreditavam que o império americano ainda apresentava possibilidades que permitissem a recuperação. encontrava-se enfraquecida pela quebra sofrida pelos controles administrativos e pela economia imperial. não permanecem em seu poder. para el comercio y trafico de Ias Indias. contudo.

agentes de interesses estrangeiros na maioria dos casos. por parte dos entrepostos da Andaluzia. por interesses comuns. Visando.. 1780 (apr. à Espanha . sua dependência à exploração colonial. suas exportações de matérias-primas e. até então negligenciada (por exemplo.esse fato levaram a uma aparência de estabilidade . necessária à atividade comercial e. Por fim.. freqüentemente obscurecida pela procrastinação.despojada de suas dependências européias vestigiais e da posse de Gibraltar . sério risco de entrar em conflito com a complexa teia de interesses criados sob o domínio dos I-I absburgo. A sua implementação exigia. a sabedoria de uma nação não consiste tanto na preservação da paz mas. outros objetivos.1740 Toda a energia da junta tem sido dirigida para a remoção de obstáculos.. contudo. de "modernização defensiva" ou "revisão defensiva". de seu consulado ou guilda. sobre todos os fluxos comerciais coloniais. mercadorias e seguro) em comerciantes independentes. o governo espanhol passou a dar mais atenção à economia colonial. "História de la real y general junta de comercio. correndo. constituía o bastião do status 71 . as atividades concentradas em torno de Buenos Aires.assegurava-se a posse do império americano. término do asiento.. Cadiz e as colônias. o principal setor de atividades do país. recuos e transigência. um dos grupos econômicos mais influentes a partir de 1700. pela posição social ou pela ideologia. de início. tomada em conjunto com seus métodos de implementação. Essa política. os comerciantes de Cadiz comandavam. os oligopolistas comerciais de Cadiz. A interação dos interesses internos e externos não permitiria. Esses comerciantes achavam-se vinculados. "nacionalizando-se" os empresários através da remoção dos obstáculos-interpostos à transformação dos espanhóis de Cadiz de fatores e agentes de empresas estrangeiras (fornecedores de capital. O reconhecimento. de molde a permitir que os espanhóis possam novamente tornar-se verdadeiros comerciantes. à estabilidade da exaustão -. ampliadas) pelo tratado de Utrecht. A implementação desse nacionalismo proto-econômico visava gradualmente a revigorar as estruturas então existentes do Estado. na escolha da ocasião oportuna para desfrutar a guerra. E. de forma a satisfazer as pressões européias em termos de demanda da prata. burocráticos. mercantis. 70 ajusta-se à designação geral de "restauração" (então atribuída) ou. em termos práticos. economia e sociedade. da aristocracia. isto é. no caso inglês. considerando-se uma nação subdesenvolvida cuja elite não questionava a sanidade e a viabilidade da tradição monárquica. o comércio colonial. todos centralizados em Cadiz após o eclipse de Sevilha. moneda y minas. essa política levava em consideração o fomento à agricultura e à manufatura metropolitanas.. Levandose em consideração a compartimentalização da Espanha. Ademais. do privilégio. acima de tudo. Devemos destacar. Larruga. desenvolvendo a autonomia econômica via maximização do pacto colonial. por vezes. à ação política dos senhores da Andaluzia. A manipulação dos interesses coloniais.. De acordo com as disposições desse tratado. do controle colonial foi o estabelecimento de privilégios econômicos a favor da Inglaterra. enfrentar as exigências de importação (internas e coloniais). além disso. sim. escolhendo os canais pelos quais os estrangeiros adquiriram o despótico controle do comércio e navegação que oprime e nos arruinará por fim se não for bloqueado. isto é. aos centros comerciais coloniais de Veracruz e cidade do México. em primeiro lugar.. o fornecimento de escravos (asiento) e a venda direta de um determinado volume de mercadorias. em realidade. Em seu conjunto. Lançaram-se assim as bases da política colonial espanhola no século XVIII. de Lima e Manila e.) A política francesa dos Bourbon objetivava tornar a Espanha e suas colônias aliadas no processo de desenvolvimento da economia do pais e em seu conflito com a Inglaterra. através da assinatura do tratado de Utrecht. sua economia agrária. Esse processo implicaria o afastamento completo das influentes firmas comerciais francesas e inglesas estabelecidas em Cadiz.poder-se-ia afirmar.". assim sendo. Qualquer que seja a denominação escolhida. por interesses ou laços familiares. À França foi concedido direito de acesso à economia colonial pela tolerância tácita à presença de comerciantes franceses em solo espanhol e à possibilidade de cooperação econômica e política contra a Inglaterra.não se trata de uma "revolução burguesa" na Espanha. introdução direta de mercadorias e a eliminação dos canais de contrabando em Gibraltar. gêneros alimentícios e matérias-primas extraídas das colônias e utilizadas na indústria. é necessário tornar claro que. como expressaríamos em terminologia de nossos dias. confirmadas (e. 2 "A guerra torna-se. Caracas e Havana). a "retomada" de controle.'' A Supplement to Britain's Mistakes in the Commencement and Conduct of the Present War. fiscais e eclesiásticos. de forma semelhante ao que fizeram seus ancestrais. essa politica caracterizava-se por uma "nacionalização" da economia interna e colonial. a recuperação das concessões comerciais feitas às nações européias ao longo da segunda metade do século XVII.

para a Espanha. Poder-se-ia estabelecer a hipótese de que a essência da política espanhola sob os Bourbon constituía-se no abandono do comércio "passivo". toda uma rede capilar de contrabando levando às fronteiras de Castela e Aragão. Das considerações acima percebemos claramente que os administradores e economistas políticos da Espanha dos Bourbon estavam 73 . de manufaturas produzidas em fábricas subsidiadas pelo governo (segundo a inspiração francesa) e direcionadas para a produção de lãs e sedas de boa qualidade. assegurando-se destarte o seu sucesso empresarial. ou seja. Esse conjunto de medidas políticas afetando o mundo colonial espanhol consumia. isto é. aparecia a eliminação dos privilégios comerciais concedidos pela Espanha à Inglaterra. sob Felipe V) desejava alterar.receberam concessões voltadas para setores especiais do mercado colonial. Tal política seria reformista e renovadora. medidas que privilegiavam a fonte do contrabando em escala incontrolável. Havana. A posição tradicional da Espanha dos Bourbon seria dar ênfase à vaga de "reformas" na metrópole. os novos encarregados das decisões políticas reconheceram que dever-se-ia ampliar o fluxo de mercadorias de Cadiz para as colônias até então mantidas em condições artificiais de suboferta de bens de consumo. A sombria literatura relacionada ao atraso económico espanhol produziu um espírito de indagação e experimentação. mas . de Viloa a Ward. da maior parte dos benefícios decorrenteS da exploração das colônias americanas. A eliminação dessas barreiras poderia facilitar o fluxo. Fora de dúvida. isto é. estimulando a produção para a exportação. ao aproximar-se o fim do século XVII.seria preservada. igualmente. Em terceiro lugar. em busca de análise e de implementação da mudança direcionada para os estratos superiores da sociedade. diremos que os estímulos ligados ao comércio eram mais fortes. porcelana e tapeçaria.e isto era o fundamental . especialmente na formação da Junta de Comércio. O crescimento econômico da Espanha do século XVIII dependia das possibilidades. despojada de diversos direitos regionais. a divisão interna das elites regionais espanholas à época da morte de Carlos II refletia dois grandes grupos ou facções (hesitaríamos em chamá-los partidos): um deles buscava preservar as 72 estruturas que vinculavam a metrópole às colônias em uma teia de atraso. voltados para a política exterior ou para a politica econômica. conforme insistiam os economistas políticos (proyectistas) de Ustariz e Campillo. Decidiu-se que os Bourbon e seus administradores (treinados sob Colbert) poderiam levar a cabo reformas na economia interna da Espanha e no comércio colonial . preocupavam-se com o destino das colônias na América. e Aragão foram assim incorporados. para as colônias americanas. contudo. se tivermos que assinalar a prioridade no processo. os novos administradores (armados de amplos poderes fiscais e militares) introduziram a racionalização na arrecadação de impostos e na redução das barreiras impostas ao comércio inter-regional. sendo que à primeira foi concedido o direito de comerciar com a América através do porto de Cadiz. em realidade. Cartagena e Buenos Aires. Por fim. Para a elite espanhola. da economia colonial. um número anual de escravos africanos e uma determinada quantidade de manufaturas. pedágios e impostos locais que isolavam Cadiz e não permitiam a entrada de mercadorias produzidas na Espanha e exportadas para as colônias. o direito de introduzir. Sabemos que os impulsos voltados para a mudança ou o ajustamento interligavam-se. porque os privilégios bascos abrigavam uma intricada teia de instituições e práticas que incluíam não apenas as principais casas comerciais de Bilbao (dis postas a aceitar a incorporação somente se.corporações regionais como as de Barcelona. o primeiro passo dizia respeito à criação de um novo corpo de administradores. No período anterior à guerra de sucessão espanhola. os lideres políticos madrilenhos. para os portos periféricos espanhóis. que questionava a viabilidade e utilidade de algumas práticas tradicionais. à luz do tratado de Utrecht e que permitiram à segunda acesso ao império. Este segundo grupo voltava-se para a iniciativa francesa e dos seus representantes na Espanha sob Felipe.quo que o serviço público francês (e sua contrapartida espanhola. os novos burocratas simbolizavam a mudança dentro das estruturas do passado. a curto e longo prazos. via protecionismo. em troca. A aristocracia passaria a desempenhar um papel secundário. apenas parte do espectro de mudança visualizado pelos administradores empregados pelo governo de Felipe V. substituindo-o pelo que hoje denominamos nacionalismo econômico via substituição de importações. a criação de companhias privilegiadas por cartas patentes completava esse programa. nos termos concedidos a Cadiz) mas. o outro acreditava no fortalecimento desses laços e na transferência. Para a remoção dos enclaves regionais. A Catalunha. Em ordem de prioridade. Tanto os membros das elites conservadoras como das realistas concordavam em um ponto: as distinções aristocráticas deveriam ser mantidas.política e econômica. via Cadiz.questões acerca das quais a elite espanhola permaneceu dividida ao longo do século XVIII. em Veracruz. Em segundo lugar. melhor treinados e doutrinados segundo a concepção de servir ao Estado e nào à localidade ou à região e cuja atuação (na metrópole e nas colônias) poderia melhorar a qualidade da liderança utilizada. recebessem o direito ao acesso direto ao império. já que somente nesses mercados coloniais "protegidos" as manufaturas espanholas poderiam lograr a distribuição com lucros. As modificações visualizadas ou levadas a cabo para a Espanha metropolitana sugerem um objetivo de unificação . As áreas periféricas deveriam ser vinculadas à Espanha central. Zaragoza e G uipuzcoa . Essa tentativa de incorporar as províncias bascas não se concretizou. Essas companhias .

como um todo. discutiam. da França. criando uma rede de estradas e canais nacionais e. enfatizavam a tradição.longe de desempenhar um rapei inovador. a legislação de Carlos V e Felipe II. a circunspecção. pressionavam. se as autoridades de Madri decidissem aplicá-las às colônias. forçando os administradores reais. Nuevo Sistema. voltavam-se para o passado longínquo em busca de marcos indicadores para o presente. por outro lado. facilitando o movimento de manufaturas. os interesses na maximização do lucro por parte de algumas dezenas de importadores. igualmente. na medida em que manipulavam as mercadorias de toda a Europa. Os interesses dessa guilda transatlântica. sempre objetivando preservar seus sagrados privilégios. Não desejamos. ao menos por muitas décadas. em contrapartida. Podemos citar. herança de quase dois séculos de conquista e exploração das colônias americanas. ou da abertura de todos os portos espanhóis ao comércio direto com as Américas. os portos hanseáticos. ampliando a produtividade agrícola via incentivos (concedidos aos proprietários fundiários ou ao campesinato semifeudal). ofereciam. come exemplo ilustrativo. prontamente ofereciam empréstimos a um governo sempre carente de fundos (de forma semelhante ao procedimento adotado pelos monopolistas de Sevilha ao longo dos dois séculos anteriores). não fornecesse estímulos para a península. Servindo com fidelidade a seus próprios interesses. por certo. o fato de que o trabalho de Campillo. que o suborno oferecido aos altos funcionários governamentais poderia evitar a discussão de reajustes necessários em assuntos administrativos e econômicos e bloquear a execução de medidas tendentes a gerar mudanças. Em resumo: até a ascensão de Carlos III (1759) quase nada havia ocorrido na Espanha em termos de efetiva 75 . e sim criticasse a sua mentalidade de lojistas (economia de hodegón). Holanda. senão para sempre. Essa estrutura. A partir da segunda década do século XVIII. e mesmo os espanhóis. em todas as regiões e em todos os níveis. em seu consulado. Qual a razão — poder-se-ia argüir — do hiato existente entre o pensamento mágico e o medo a qualquer inovação? O que originou a impressão de efêmeros propósitos (e não sólidas realizações). os comerciantes de Cadiz e seus associados asseguravam estar servindo com fidelidade aos interesses da coroa. igualmente bem. Sabia-se. teve sua publicação retardada por diversas décadas. composta pela administração civil. Se o governo de Madri ocasionalmente criasse obstáculos às práticas comerciais geradoras de lucros para os comerciantes e fornecedores de Cadiz e. De início. de classe e de empresa. de insistência em torno de visitas mais constantes dos curas às paróquias. em verdade. marca característica da atuação espanhola até 1763? A esquizofrenia política resultou do confronto entre a necessidade de reajustes e o receio de ir contra interesses poderosos. Esses comerciantes eram. tenazmente. os comerciantes das guildas de Lima e cidade do México) nunca foram deixados de lado e se consubstanciaram no controle de todas as mercadorias veiculadas pelo comércio transatlântico. reduzindo privilégios regionais. se necessário. não era monopólio exclusivo de tais grupos. representantes dos interesses comerciais de Cadiz e México. "Sagrados privilégios" na medida em que esses comerciantes. Inglaterra. os agentes de Madri. estendendo o fluxo de produtos espanhóis até o território colonial. A complexa estrutura controlada no século XVIII por Cadiz estendia-se de Madri aos núcleos comerciais e administrativos na América. A teia de interesses nas colônias. sempre mencionadas em seus memoriais. internacionalistas. suborno a burocratas empobrecidos. a nobreza fundiária. quer sob a forma de criação de padrões mais elevados para os corregidores. de exigência de viagens mais freqüentes de navios de abastecimento para as colônias. a cautela. tendia a absorver quaisquer pressões voltadas para a mudança. existiriam sempre fórmulas de evitar a publicação dos textos. estabelecendo unidades têxteis. Os conflitos de interesses eram convenientemente disfarçados sob a pragmática retórica dos pronunciamentos reais. finalmente. Ao contrário. alguns funcionários bem-intencionados preparassem estudos críticos quanto aos efeitos nacionais dos privilégios concedidos a Cadiz. os comerciantes desta última — quase sempre secundados por seus colegas da cidade do México e de Lima — intentaram manter inalterada uma espécie de morgadio (mayorazgo) comercial. até o nível da atuação do corregimiento e da alcaldia mayor. Se. sempre que os preços e as demais condições oferecessem atrativos suficientes. o estabelecimento eclesiástico. Os grupos de interesses da Andaluzia eram certamente os mais significativos em termos de extensão e profundidade de envolvimento. na segunda década do século XVIII. as "sagradas leis das índias" e sua Recopilación. embora altamente insegura) dos Bourbon. depreciar o interesse de uma minoria que huscava integrar um território em uma nação. de feição levemente critica. as corporações privilegiadas (por exemplo. subornavam e. quer na metrópole quer nas áreas coloniais. ameaçavam. expor74 tadores e magnatas da indústria naval de Cadiz e de um número ligeiramente menor (embora provavelmente de maior influência. as Cinco Grandes Guildas de Madri) ou a aliança entre os dois grupos de pressão mais influentes — os proprietários fundiários da Andaluzia e os comerciantes de Cadiz — que. O que nos chama em verdade a atenção é a preservação do pensamento mágico invariavelmente interligado ao medo a qualquer inovação. a retrocederem em sua tentativa de fazer retornar o Consulado e a Casa de Contratación para Sevilha. os comerciantes de Cadiz conspiraram contra a administração (renovadora. quando a administração de Felipe V sancionou a transferência final do monopólio comercial de Sevilha para Cadiz. Igreja e comerciantes. contudo. dificultando assim as operações de contrabando.

sobre los medios. Havana . 3 tação às exportações. sobre o México. entre eles Esquilache 77 [ Referindo-se à possível inovação.. "Observaciones. face a essa inovação. Nessa escuridão passamos quase três séculos. gerou pressões bastante fortes. gêneros alimentícios. periférica e dependente da Europa ocidental. contudo. inquietando-se com as mudanças a serem efetuadas em um sistema comercial e administrativo obviamente defasado das necessidades reais. durante os II meses de controle inglês. abertura de comunicações e facili76 . A perda de Manila e Havana para os ingleses (agosto de 1762) e o controle inglês sobre esta última até julho de 1763 chocaram os espanhóis da metrópole e os súditos coloniais. a partir desta. de molde a transformar os sistemas administrativo e comercial coloniais. 1808 Francisco Arango Y Parrefio. imbuído de propósitos de um nacionalismo proto-econômico. uma área atrasada. desorganizando os sistemas de frotas e mercados e ameaçando (após 1740) ignorar por completo o entreposto de Cadiz. A ação espanhola na América decorria do estímulo externo: a ameaça de cessação do comércio transatlântico.. dispostos a interferir nos privilégios e tradições e amargurados pela intervenção direta inglesa que buscava manter Nápoles subserviente aos seus interesses mercantis. em determinadas ocasiões permitidas. houvessem exercido qualquer tipo de pressão sobre o governo de Madri..passou a constituir unia área a partir de onde poderiam ser desfechados ataques sobre Veracruz e. por essas razões é preferível que a Espanha. em nosso caso. que o governo espanhol poderia excluir os demais países de seu comércio e navegação. oferecendo (abaixo de seus preços reais) as manufaturas espanholas.. longe das pressões que aparentemente tornaram monarcas como Felipe II incapazes de tomadas independentes de decisões. por outro lado. para sacar la agricultura y comércio de esta ysla del apuro en que se hailan. de armas na mão. Ao chegar a Madri. madeira. a estreita porta controlada pelos comerciantes e por estes mensurada em suas operações. al Marques de Sonora.após a conquista inglesa de Havana e Maniliu (simultaneamente em 1762) e a ameaça sobre Veracruz . com a proteção às indústrias de linho e lã. Trouxe consigo administradores napolitanos de comprovada competência e dedicação. permanecendo satisfeita. a ausência da indústria e a imensa transformação produzida pelo tempo na situação mundial. levaram somente três anos . satisfeitas com o desenvolvimento de seu comércio e a remessa de mercadorias para esses reinos. fomente seu comércio..há muito considerada essencial à manutenção do controle espanhol sobre a América .1. ao menos por ora. Considerada fortaleza inexpugnável na preservação da rota das frotas encarregadas do transporte de prata. desenvolver a indústria e os recursos de capital As nações européias que preservam um certo equilíbrio entre si e se interessam em que nenhum país se expanda além de seus próprios limites ou tente conquistar qualquer das possessões espanholas.". talvez intentando conquistar algumas ou incitar as outras à rebelião. o que nós impediu de perceber o atraso da metrópole. as autoridades de Madri começaram a reconhecer as evidências de agravamento do problema colonial: se necessitaram de quase 50 anos (após Utrecht). de sua liderança e atuação. Assinale-se que a ascensão de Carlos 111 deu origem a profundas alterações no quadro vigente na Espanha. e escravos. ao passo que. o que forçaria a Espanha a sustentar uma pesada guerra sem aliados. essas nações alterariam seus sistemas e passariam a buscar o comércio ilegal com as possessões espanholas na América. E. Ao contrário de seus predecessores. tão grande foi a ênfase depositada por nosso sistema a política comercial espanhola .transformação das estruturas e práticas vigentes. 1778 Virtualmente toda a teoria desta modesta ciência ( a economia política I concentra-se.. navegação e agricultura. Como rei de Nápoles. na eliminação de obstáculos. Inexistem razões que possam levar à pressuposição de que as condições da Espanha.. que somente uma vez por ano e. posteriormente.. animais e utensílios de ferro das colônias norte-americanas. na metrópole e nas colônias. constatando-se então que até 1762 apenas 15 navios tocavam anualmente o porto de Havana. Cerca de 1750.. política e científica.. Carlos reunira um corpo de administradores capazes. esse sistema foi aberto para as demais nações. em termos de desenvolvimento isolado e de portas fechadas. Carlos trazia a intenção de proceder a uma revisão das instituições espanholas.para deslanchar uma série de mudanças há muito tempo visualizadas e retardadas peta tenaz ação de grupos entrincheirados nas elites espanholas. A perda temporária chamou os espanhóis à razão. achava-se." ( Expediente. A rapidez com que algumas mudanças foram implementadas (e outras visualizadas) na metrópole e nas colônias leva-nos à conclusão de que a queda de Havana. a presença de comerciantes ingleses operando a partir da Jamaica e inundando os mercados coloniais. o novo rei amadurecera fora da corte madrilenha. após débil resistência. mais de 700 navios mercantes despejaram manufaturas metropolitanas.

Por volta de 1789. mas sem quaisquer exageros. inicialmente na área do Caribe (1765). França e Inglaterra após a chegada. o México produzia 66% de toda a oferta de prata mundial.todos estes fatores atraíram as atenções da Inglaterra e da França e obrigaram os espanhóis à revisão das políticas coloniais caso desejassem evitar a perda do comércio colonial (e. aos quais se denominou política do "livre comércio". e elevando a percentagem de manufaturas espanholas no comércio com as colônias. e monopólios de tabaco e mercúrio. que havia ascendido dos postos inferiores no exército ou que havia freqüentado as pequenas universidades em busca de carreira dentro do direito. mas de forma lenta e hesitante. com a abertura de diversos portos espanhóis ao contato direto com os portos caribeanos sem parada obrigatória em Cadiz. As transformações no quadro colonial poderiam ser levadas a cabo com maior intensidade. Pode-se encarar o reinado de Carlos III como o apogeu dos três séculos de colonialismo espanhol na América. obtidas a partir de Impostos alfandegários e sobre vendas. igualmente.um aviso para que não se procedesse a reajustes radicais. nas remessas feitas pelas colônias em termos de lucros e excedentes e no que muitos consideravam um importante crescimento percentual no volume de produtos espanhóis saídos das lojas. Prússia e. O objetivo dessas mudanças era a melhoria de contato entre a metrópole e as colônias. E os homens de talento. administradores com79 . restrito unicamente a produtos coloniais. Não devemos tomá-los por imitadores acríticos. O notório caráter "popular" do levante de Madri e de outras cidades espanholas de 1766. pois. O crescimento demográfico. representavam em verdade apenas uma liberalização do comércio dentro dos quadros imperiais! Permitia-se um limitado comércio intercolonial e. posteriormente. tabaco e couro cru. em verdade. As tentativas de reduzir. de molde a leválos à promoção das transformações administrativas desejadas. um corpo de colaboradores entre a baixa nobreza. Ao primeiro banco nacional espanhol. monarca absoluto. os ajustamentos propostos nas sociedades tradicionais e então em voga na Rússia. Destarte. por fim incluídos em 1789. em termos das necessidades espanholas.lãs.Na Espanha. o desenvolvimento de áreas há muito negligenciadas. a ascensão fora do sistema de patronato. ostensivamente causado pelos novos regulamentos que prescreviam o corte das capas e baniam os chapéus de abas largas (supostamente preferidos pelos espanhóis). O sistema de frotas escoltadas por comboios foi gradualmente posto de lado e finalmente eliminado (1798). mesmo assim. em contrapartida. uma vez ocupando posições de poder. Carlos encontrou. No início de 1755. a ex78 traordinária expansão da produção anual das minas de prata do México . constituiu . naturalniente. reconheciam os mecanismos ilegais (mas tolerados na prática) através dos quais apreciável volume de renda colonial "escoava" -para os contrabandistas ingleses. não pelos nomes de família. vinhos e conhaques. dos metais em espécie e lingotes.como Carlos e Esquilache logo perceberam . exceção de Veracruz e La Guayra (Venezuela). predispuseram-se a assimilar e adaptar. os burocratas madrilenhos sob Carlos III. pelo talento. papel.os administradores espanhóis constataram um aumento significativo no valor e volume do comércio colonial.todo esse elenco de medidas objetivando um nacionalismo proto-econômico que permitisse a execução de políticas consideradas hostis pelos interesses ingleses na Península Ibérica e no império colonial. foi concedido o monopólio das transferências de prata e ouro para a Europa ocidental. a primeira geração de administradores espanhóis que. lado a lado com os poderosos. das próprias colônias) para seus competidores da Europa ocidental. visando reduzir o contrabando pela ampliação da oferta. abandonou Madri. a seguir. satélites das economias européias ocidentais mais avançadas. na Espanha ou em qualquer outro país europeu. Constituíam. não se admitindo a reexportação de importações européias. Ao iniciar-se o século XIX. pareciam dispostas a reerguer-se através de suas possessões americanas. As nações ibéricas. não pertencentes à nobreza e por esta chamados ao poder. a ampliação das receitas governamentais. O testemunho (espontâneo) de cidadãos e os relatórios de oficiais enviados à metrópole para a revisão das condições coloniais. Esses reduzidos ajustes. de certa forma. fábricas e destilarias do país . utensílios de ferro. Carlos. Pombal (em Portugal) dera início ao estabelecimento de companhias comerciais e reformas administrativas para o Brasil. tais ajustes foram levados a efeito na metrópole. passou-se à reforma da estrutura do comércio colonial. apoiara a empresa industrial na metrópole direcionando-a para o mercado colonial . o papel dos interesses ingleses na metrópole e no império colonial não foram isoladas. Essa ampliação no fluxo de mercadorias e metais gerou. Cautelo samente. sua posição era intensamente nacionalista e estavam longe de adotar uma perspectiva irreal no tocante às pressões a serem exercidas sobre os estratos da sociedade espanhola que detinham o poder e a riqueza. aos portos espanhóis. Mais importante ainda: o volume da prata produzida na América e extraída principalmente do centro mineiro mexicano de Guanajuato elevou-se auspiciosamente. França. esses indivíduos não foram alçados ao poder com o fito de demolir os privilégios. para a Holanda. sabiam que poderiam persuadir os grupos de interesses a aceitar apenas os reajustes necessários. especialmente. agora voltadas para a produção de açúcar. os homens de talento que cercavam Carlos possuíam excelentes vínculos. o Banco de San Carlos. Sendo impossível à época. sob Carlos. Distinguia-se. permitiu-se que 13 portos espanhóis comerciassem diretamente com os maiores portos coloniais (1778). franceses e holandeses. cacau. o conjunto das colônias espanholas na América contribuía com 90% da produção mundial. Afirmava-se que as estruturas da administração colonial necessitavam de descentralização e.

no momento mesmo em que os grupos de elite colonial cresciam. Em pleno século XVIII a Espanha continuava tão dependente como antes das economias dominantes da Europa ocidental. tabaco. No reinado de Carlos III os membros da nobreza designavam-se tarefas e responsabilidades condizentes com as possibilidades de efetivo desempenho. optaram por lidar com seus fornecedores tradicionais na Inglaterra e na França. Na Espanha. o rigor no treinamento e na disciplina. a partir do nacionalismo proto-económico posto em prática pelos países ibéricos na segunda metade do século XVIII. As duas metrópoles e suas colônias afiguravamse aos olhos dos realistas como fechadas em um esquema de dependência econômica já bastante antigo e alguns analistas sentiam-se atraídos pelas teorias da fisiocracia. Imaginaram-se. Mais importante que tudo isso. de outras áreas no império americano. por seu turno. nela buscando assistência. bens de capital e . que séculos de colonialismo haviam carreado imensas rendas para as elites metropolitanas mas não haviam gerado recursos internos produtivos. bloquearam a expansão da construção náutica colonial. associados a estes) no Brasil central haviam quase originado a rebelião. via possessões no Caribe. administradores (geralmente retirados dos corpos do funcionalismo público) para os postos-chave nos vice-reinos. ao mesmo tempo . para a França. dependia te ainda depende) de uma economia nacional capaz . assim. Em resumo. na América do Sul. Respondendo unicamente quando e onde as circunstâncias obrigassem a formulação de transformações. caracterizada por uma indústria náutica mais eficiente. Não obstante. açúcar. via Rio de Janeiro e sul do Brasil até o Rio da Prata 80 A independência. café. de prata e matérias-primas para a indústria e de consumidores para seus produtos. Em Portugal e Espanha. Reconheciam. resistindo às tentativas dos funcionários madrilenhos voltadas para o fomento da economia das áreas periféricas do país. em lugar de produtores espanhóis não competitivos. A própria estrutura do oligopólio em Cadiz e nas colônias. indicando-se. O receio da agressão inglesa contra os portos coloniais constituiu motivo relevante na indicação de militares competentes. de produzir. Concluímos. entretanto. das colônias e da metrópole. tendendo assim a racionalizar o papel da península e dos impérios ultramarinos americanos como produtores para os mercados europeus . as políticas anteriormente deslanchadas por Pombal haviam mudado de rumo através da atuação de seus sucessores. Voltaram-se. comerciantes e financiadores ao império espanhol. abrindo-lhes o acesso aos mercados coloniais americanos.petentes. tentando renovar através da multiplicação de concessões e privilégios para um diminuto grupo (em lugar de ampliar e oferecer 81 . Reconheciam. Para os franceses essa cooperação era valiosa. adotando como novas instituições já obsoletas em outras nações (por exemplo. serviram de estimulo ao contrabando. já que a monarquia. aristocracia e burguesia francesas compartilhavam a mesma perspectiva em termos de sociedade e Estado. raros administradores acreditavam ser possível igualar a atuação econômica inglesa. acreditavam que a assistência porventura prestada à Espanha afastaria a Inglaterra e permitiria a obtenção. armazenagem e comunicações continuavam superiores às oferecidas por qualquer outro porto espanhol. não obstante. onde as facilidades relativas a embarque. a cooperação franco-espanhola constituía unicamente um estímulo à atuação ao contrabando agressivo. fábricas reais). À época em que se inicia a Revolução Francesa. que a utilização integral dos recursos humanos e naturais existentes nas colônias ensejaria a perpetuação das estruturas tradicionais de privilégio e poder. e. por volta de 1780. cacau. os padrões de honra e a presença militar assegurariam a execução dos planos coloniais da metrópole e a redução da cumplicidade administrativa no contrabando. os interesses vinculados á mineração (e outros. por seu lado. igualmente. de privilégio herdado e porque a cooperação franco-espanhola poderia sustar a tomada. ou ainda na Silésia. Esperavam. madeira tintorial e algodão. destarte. em quantidade suficiente. seguro. Os oligopolistas de Cadiz e seus associados ultramarinos opuseram-se ao intercâmbio internacional. Os reduzidos frutos desse tipo de política de ajustamento eram talvez inevitáveis. Cifra superior a 85% do intercâmbio colonial era canalizada através do porto de Cadiz.no caso dos poderes coloniais do século XVIII sustentar as comunicações marítimas em todas as ocasiões. em suas colônias tropicais e subtropicais. que os encarregados do processo decisório pretendiam obter o controle integral sobre a economia colonial de molde a efetuar uma política de neutralidade entre ingleses e franceses. manter a Espanha subdesenvolvida mas satisfeita. taxas de seguro mais baratas. os franceses. era a crença de que a dedicação ao serviço do Estado. Lima e Manila. especialmente. Uma política gradual para o mundo colonial não enfraquecera o papel dominante desempenhado por Cadiz e seus aliados face aos oligopólios da cidade do México. em sua política colonial.de prata e ouro. de qualificar aqueles nascidos na América para a execução dessa mesma política colonial. os realistas alimentavam poucas ilusões acerca das potencialidades de ajustes. Os espanhóis aspiravam a uma cooperação que gerasse o florescimento de uma Espanha independente e respeitada. companhias comerciais privilegiadas. preferiram monopolizar o fluxo de mercadorias européias ocidentais através de Cadiz. ou estendendo o raio de ação das antigas instituições já em funcionamento na metrópole (as guildas mercantis na Espanha e nas colônias). Madri não apresentava indícios. além disso. Para os ingleses. e a política de restrições à oferta e aos preços. peles. novas e mais flexíveis divisões territoriais. e artigos de algodão de preços mais reduzidos e que estimulavam uma demanda insaciável junto aos mercados espanhol e português e. pelos ingleses. eficientes e honestos. pois permitiria o acesso de seus fabricantes. apesar da euforia oficial.

. sua 83 . O colapso dessa política de ajustamento. O mesmo não ocorreria. contudo. face à Inglaterra. Nesse ano. já que os metais preciosos obviamente não deteriorariam armazenados. sob a proteção inglesa. Lima e cidade do México) encontravam-se freqüentemente divididas entre os interesses agropecuários e os representantes da aliança com Cadiz. o enfraquecimento do interesse pek. três anos mais tarde. a elite colonial mostrou sinais de impaciência em torno do controle político efetivo. do reconhecimento tardio das possibilidades da atividade agropecuária exportadora.como o México e o Peru . a aliança com a França.. Em síntese. Em áreas como Havana.. a evaporação de um espírito de inovação (embora restrita) foram acelerados pela Revolução Francesa. Era inevitável que a Espanha e Portugal pusessem de lado a política de ajustamentos cautelosos após a Revolução Francesa.. a aliança estabelecida com aquele país e unir-se. A defesa dessas estruturas tradicionais à luz do regicídio. os governantes ibéricos simplesmente permitiram a proliferação de estruturas tradicionais na sociedade e na economia. para a nomeação e direção de seus administradores e outros pontos indispensáveis à manutenção de sua dependência?. Para estes produtos a questão da armazenagem para embarque. A anarquia na França era interpretada pelos cautelosos gradualistas espanhóis como sinal inequívoco de que mesmo as mudanças orientadas eram perigosas. e esse ponto diz respeito à conservação de nossas Américas. as guildas comerciais (ao contrário das de Veracruz. entretanto. com a invasão das forças francesas. tabaco. em 1808. Por último não se deve subestimar o sentimento de independência existente entre a elite criolla após a bem-sucedida rebelião contra a dominação inglesa na América do Norte e as possibilidades de controle político criollo inerente à ideologia da Revolução Francesa. Pelo menos assim se pensava entre 1808 e 1810. Não lhes interessava de fato qualquer revitalização da marinha espanhola e foi exatamente a compreensão dessas atitudes que levou a Espanha a renovar. preferiram. para os produtos fornecidos pelas regiões cujas plantações e estâncias haviam-se expandido ao longo do século XVIII em resposta aos estímulos da demanda da Europa ocidental. Aos ingleses não interessava a renovação espanhola. com o auxílio de precárias escoras. cada colônia estabelecerá seu governo independente. objetivando esmagar a revolução na França. Os espanhóis haviam encorajado (mas com relutância) apenas uma quantidade mínima de intercâmbio comercial inter-regional. por um breve lapso de tempo. para aumentar os padrões de dependência face à Europa ocidental e. Uma política de concessões graduais às pressões coloniais e ao contrabando inglês não poderia. e especialmente sabendo-se que muitos empresários coloniais participavam avidamente do comércio ilegal com a Inglaterra. As concessões gradualmente feitas em resposta às pressões econômicas coloniais serviram. que uma política de tardios ajustamentos constituía um processo irreversível. a política de compartimentalização das colônias.a partir da abdicação dos Bourbon -. a monarquia. após 1800. Tornava-se difícil à administração colonial espanhola forçá-los a aceitar uma política de autocontenção comercial a partir do momento em que os ingleses cortaram as comunicações com a Europa. Caracas e Buenos Aires. Ao longo do século XVIII a França representara uma monarquia católica capacitada a crescer sem os levantes e motins que a Inglaterra protestante conhecera durante o século anterior. acabaria por romper todas as barreiras. dentro ou fora de uma estrutura imperial. cacau e peles deterioravam-se rapidamente e os escravos que os produziam necessitavam ser alimentados com artigos importados dos Estados Unidos (peixe e carne salgada. na melhor forma de prepará-lo para enfrentar as grandes crises. mas sim negar assistência à França. entre Amiens e a invasão francesa..poderiam sobreviver à guerra e à eliminação da marinha espanhola das águas atlânticas. da excessiva atenção concedida à mineração acabaram por exacerbar as pressões das colônias entre 1802 e 1808. às forças conservadoras e antirepublicanas inglesas. permanecendo comprimida entre as duas forças em luta até a chegada do colapso. Essa elite percebia. ser revertida tão prontamente.. As colônias de mineração . embora o movimento voltado para a mudança continuasse até cerca de 1790. por fim. cessada a guerra. farinha) e substituídos por novos 82 escravos trazidos por navios ingleses e norte-americanos. era extremamente difícil: o açúcar. o "edifício gótico" que não se constituía. E. Entrando em colapso a autoridade da monarquia espanhola . assim. 4 Mas existe um ponto que exige toda a nossa atenção. em realidade. inevitavelmente. enfraquecer a Espanha. A que autoridade devem obedecer? Que província deve enviar as ordens necessárias ao seu governo. Sob Napoleão. A elite colonial espanhola aprendera rapidamente a partir da fuga da família real portuguesa para o Brasil e da imediata abertura dos portos brasileiros aos navios das nações amigas e aliadas. a anarquia e movimentação das massas na França levaram a Espanha a romper. a realeza portuguesa abandonara o continente e buscara a segurança junto à colônia brasileira. mudança orientada. a escravidão e o tráfico negreiro. o final do século assistiu a um renascimento na defesa das tradições espanholas.. a França parecia conseguir reconciliar a soberania popular. Sustentaram. Poderia ser condenado ou mesmo posto de lado por algum tempo mas. em realidade.oportunidades àqueles de talento). em 1793. abrindo o caminho à penetração nas colônias espanholas.

encarregados de lidar com a crise. contudo. Em 1797. induzido Napolêao a ordenar a ocupação de Portugal. necessitava. hl: os americanos . porém. respondiam aos estímulos (e. cidade do México e Havana. a fonte dos direitos que deveria ter sempre desfrutado e que não lhe poderiam ter sido negados sem injustiça. É destino dos territórios ou estados coloniais.. Junta de Valência. o confisco das 85 Junta de Caracas à Regência. Não é verdade que dentro da própria metrópole algumas províncias gozem de liberdade e muitas outras não?. igualmente. 7 de junho de 1811 O período de 22 meses que começa em novembro de 1807 e se estende até setembro de 1810 constituiu. as elites coloniais . os portugueses estavam conscientes do fato de que a aceitação da ocupação francesa originaria a intervenção inglesa no Brasil. Pior que tudo isso. passavam a ser também essenciais aos dois grandes blocos econômicos em competição pela hegemonia da Europa ocidental. com suas economias dependentes ou orientadas para o exterior.inclinação natural para a independência pode muito bem resultar nisso. Por volta de novembro de 1807. urgentes. 3 de maio de 1810 A igualdade de direitos concedida aos americanos não siginifica que passarão a desfrutar todos aqueles desfrutados pelos espanhóis da península.. Não era mais possível ocorrer qualquer mudança dinástica de maior envergadura (com todas as necessárias implicações em torno dos grupos de pressão) sem que a mesma desencadeasse repercussões no mundo colonial. nas metrópoles. A população e os recursos da América ibérica que. As tensões que caracterizavam os repetidos confrontos entre ingleses e franceses haviam. nem poderia perceber. em 1807 espalharam rumores de que uma força anfíbia aprestava-se na Irlanda para desencadear operações contra o México. muitos dos que viviam em Paris e Londres. Essa consideração basta para demonstrar que o estabelecimento de uma autoridade suprema e de uma representação nacional não são somente indispensáveis mas. Essas pressões acabaram por reduzir a frangalhos o modus vivendi anteriormente estabelecido com a França e forçaram a aliança com a Inglaterra. Caracas. talvez. em 1807. a América não percebeu. as tropas inglesas ocuparam Trinidad. o liderado pela Inglaterra e o capitaneado pela França. Uma proposta desse género_ acabaria com o que sobrou do comércio da Espanha metropolitana. Os ingleses já haviam proporcionado aos espanhóis um antegosto do que poderia ser sua política agressiva se a Espanha insistisse em permanecer aliada da França. em 1806-7. o estímulo decisivo provém do exterior. afetadas pelo fluxo de informações entre a França. Os líderes políticos lisboetas e madrilenhos passaram a levar em consideração os interesses dos exportadores de produtos coloniais agropecuários. poderosas. por fim. a partir de tal declaração. que enquanto as pressões internas freqüentemente aproximam-se de um ponto de ruptura.mostravam-se cada vez mais dispostas a considerar possíveis alternativas. Lembremos. Passados 100 anos da assinatura do tratado de Utrecht. somente servia para aumentar a impaciência inglesa com a política colonial luso-espanhola de exclusão dos estrangeiros de qualquer modalidade de participação direta. os pontos focais da América ibérica não se achavam mais limitados às áreas de exportação de prata (México e Peru). e. a fase mais decisiva na história da América ibérica desde a conquista. entre aqueles dispostos e não dispostos a fazer concessões aos interesses americanos e às colônias. por seu turno. por seu próprio turno. fabricantes e financiadores franceses. tentaram por duas vezes ocupar Buenos Aires. A esfera de coprosperidade francesa. de peles e algodão para sua produção industrial e desejava o acesso direto às centenas de milhares de consumidores no império ibérico na América.. estimulavam) do crescimento econômico europeu ao longo do século XVIII não eram mais essenciais apenas às economias metropolitanas (subdesenvolvidas) de Portugal e Espanha. isto é.conjuntamente com os encarregados do processo decisório.. Contemporâneos dos fatos ocorridos a essa época.j consideraram-na como uma solene confissão do depotismo pelo qual haviam sido até então tiranizados.ricas.. igualmente. Consulado de Cadiz às Cortes. imposta à Europa como o sistema colonial. em vez disso.. O efetivo bloqueio inglês sobre a península e o avanço das tropas francesas em direção a Portugal e Andaluzia ameaçavam cortar irreparavelmente os vínculos que uniam a península à América. A Inglaterra necessitava desesperadamente do acesso à 84 . prata mexicana. a igualdade estabelecida não é absoluta. igualmente. Os comerciantes. esperavam que Napoleão assegurasse esse acesso ao império ibero-americano. 16 de julho de 1808 A junta central _I declarou considerar os domínios americanos como partes integrais e essenciais da monarquia espanhola. na metrópole.. que as dúvidas acerca da resposta das elites coloniais às decisões políticas oriundas de Lisboa e Madri constituíam um pesadelo para aqueles.. . Lisboa e Madri. Rio de Janeiro e Buenos Aires reconheceram esse fato imediatamente. O equilíbrio. Inglaterra e Estados Unidos .

O acesso direto dos ingleses ao comércio do Brasil levaria. em todos os pontos da América espanhola. os múltiplos vínculos. de emprego no serviço governamental e da Igreja. a rebelião. Os criollos foram lentamente percebendo que as desejadas mudanças na vida colonial lhes seriam negadas pelas novas autoridades espanholas. constituiu-se. o sistema imperial significava mais do que simples exploração: permitia-lhes compartilhar com os espanhóis nas colônias o controle sobre a força de trabalho. no México. ficou a um triz da deposição. A decisão de separar as colônias da metrópole. minas e propriedades agrícolas. de dependência às pensões pagas pelo tesouro colonial — tudo isto agora estava ameaçado de ruir. Essa providência permitiria. destarte. acima de tudo. em grande escala. acabou deposto por um grupo de conspiradores recrutados a partir da comunidade comercial espanhola na cidade do México. de fato. finalmente. Para as elites criollas situadas nos diversos pontos de pressão chegara finalmente o momento da verdade. para gratificar os grupos de pressão criollos e para tentar consertar algumas partes sem alterar os elementos estruturais fundamentais que permitiam a manutenção do privilégio e da exploração. Conforme nos sugere a recente história do colonialismo. capitão-geral de Cuba. núcleo florescente da atividade de contrabando. Sevilha enviou para Havana. Prefeririam. deinvestimento e participação no comércio. em realidade. aguardar que a metrópole se dispusesse a efetuar os necessários reajustes no sistema. a realeza portuguesa rompeu com o sistema colonial. entre março e maio de 1808 os Bourbon desapareceram do vértice do governo. a exploração inglesa direta sobre o comércio do Brasil. materiais e psicológicos. fugiram para o Rio de Janeiro. grupos mais perceptivos e áreas 87 . Ampliou-se. sugerida por tais inibições. judiciários e de nomeação para a América. Sevilha representava os interesses agrícolas e comerciais da Andaluzia interessados na preservação do império colonial na América. Para as autoridades coloniais espanholas. executivos. Para muitos criollos. cidade do México e Caracas (verão de 1808) diversos agentes com instruções de efetuar a prisão dos líderes coloniais que tencionavam oferecer às elites criollas a formação pacífica de juntas. Não obstante. Os tradicionalistas espanhóis — na metrópole e nas colônias — voltavam-se para a Junta de Sevilha e seus vínculos com Cadiz em busca da manutenção do status quo. a Junta de . as notícias relativas ao exílio da realeza portuguesa e a primazia econômica concedida aos ingleses eram assustadoras. a prisão de um vasto número de comerciantes portugueses no espaçoso porto de Lisboa. de fato. o produto dos sucessivos fatos ocorridos na Espanha e na América.Sevilha (maiosetembro de 1808). que o vínculo fundamental era o direito de conquista e o direito de dispor dos recursos coloniais. sob a forma de força bruta. Em janeiro de 1808. contingência há muito encarada como catastrófica para a Espanha. ao estabelecimento e tomada de decisões econômicas desastrosas para a economia metropolitana. o prestígio e o poder. inescapavelmente. abrindo todos os portos brasileiros ao acesso direto às nações amigas ou neutras. a renda. não se concretizou imediatamente. Séculos de contatos com as colônias. embora já se possam encontrar bastante atenuados. Someruelos. em face à ausência de qualquer administração central. baseado no monopólio peninsular e no contrabando. logo revelou sua compreensão da realidade colonial apossando-se. Visando dissuadir os criollos de qualquer modalidade de ação direta. unilateralmente. via formação de juntas locais ou congressos. de dependência entre colônia e poder imperial não são destruídos com facilidade. A realeza portuguesa e sua corte correram para os navios ancorados no porto e. foi instrutiva e disciplinadora. a riqueza. Em Caracas os principais criollos que advogavam a formação de uma junta foram presos em novembro de 1808. porque significava a remoção de todos os poderes legislativos. burocratas e comerciantes espanhóis — fiava-se nos traços tão freqüentemente enfatizados de parentesco.propriedades inglesas e. linguagem e religião (que vinculavam os espanhóis metropolitanos e os da colônia) para conseguir deter o movimento de separação das colônias da metrópole européia. igualmente. Mais assustadora ainda era a possibilidade de que o estabelecimento de juntas autoconstituídas nas colônias poderia levar. 86 Esses indivíduos acreditavam. sendo enviado para a prisão em Cadiz sob acusação de traição. Qual seria o impacto decorrente da abertura do Brasil ao comércio direto? A remoção da sede da dinastia para a América era de fundamental importância para as lideranças políticas e para os interesses comerciais. a pressão para que se eliminasse um sistema de intercâmbio colonial irracional. Para muitos criollos. eclesiásticos. não apenas porque pressagiaria a superação do entreposto comercial peninsular mas. do controle sobre as colônias e mantendo inalterado o sistema de intercâmbio comercial com aquelas. O primeiro grupo político a reivindicar a liderança na metrópole. Então. a dispersão das Espanhas em regiões competitivas entre si e. em um processo de lento desdobramento. Preocupavam-se com o fato de que a mais suave forma de liberdade comercial ampliaria a divisão de interesses comerciais divergentes. A presença dos tradicionalistas na vida colonial — militares. essa demonstração de autoridade. um juiz honorário da audiência foi embarcado para a Espanha para julgamento. Iturrigaray. escoltados pelos navios de guerra ingleses. à infiltração da Inglaterra na bacia do Rio da Prata. a possibilidade de que as áreas coloniais americanas seguissem o mesmo caminho das Espanhas em direção à administração local. concretizando-se o que os burocratas espanhóis sempre haviam temido: o colapso da autoridade central.

agora. agora intoleráveis. Na América colonial. quer contra os indígenas. 1832 "Ninguém ousa distingui-las 1 castas J. embora reconhecessem a exploração sofrida dentro dos quadros do sistema colonial. sua união. que representava uma forma de interesse nacional sobre o regional e (para os criollos/ parecia mais disposta a se curvar à lei da necessidade colonial. maio). a força principal e a parte mais respeitável dos colonos espanhóis.menos privilegiadas da península voltaram-se para a Junta Central (que tomou o lugar da Junta de Sevilha em setembro de 1808). freqüentemente com conotações de guerra civil. Por volta da metade de 1809. O apoio das castas fortaleceu a posição da elite e assegurou auxílio no controle sobre as massas indígenas. economia e Estado coloniais. a modificar o sistema de comércio colonial. quer no rural) e que racionalizavam a repressão e exploração de que eram vitimas através do mito de sua inferioridade. descobriríamos nas boas famílias manchas negras apagadas pelo tempo. decorreu do não-aparecimento de qualquer sistema alternativo viável. santificada pela injunção religiosa. As perversas e ambiciosas idéias de homens obscuros e desprezíveis f na América J que. Com o apoio dessas 89 ." Padrón de Texcoco.. abril de 1809.. Por necessitarem manter alguns intere. 5 . No momento em que parte para o rompimento dos controles metropolitanos.os grupos sociais (ocupando posições superiores e inferiores) vinculados às metrópoles . Começava a se desenvolver a longa e sangrenta luta que perduraria por mais de uma década. incapazes de obter. as massas. após um período de vacilação inicial. por. especificamente. por sua posição. 1810 A revolução na América ocorreu em 1810 porque a elite criolla finalmente proporcionou a liderança que as castas e os estratos ainda mais inferiores e mais oprimidos da sociedade colonial há muito esperavam. número e propriedades. As massas indígenas foram cautelosamente manobradas. a Junta Centrai parecia pronta a considerar uma política geral de abertura dos portos coloniais com limitado contato direto com nações amigas e neutras em embarcações espanholas. à sua dissolução. Muitos americanos haviam percebido que um sistema injusto somente poderia ser transformado com o recurso à derrubada violenta das estruturas existentes e que. fugindo para Cadiz (a última área não ocupada da Espanha). A fidelidade à Espanha.vses e aliviarem algumas injustiças. optem por uma forma de ação conjunta. se inteligentemente mobilizadas. mulatos e castas em geral. resultando daí a ocorrência de infindáveis casos escandalosos em nossas cortes. esperavam melhorar sua condição as expensas do solo infeliz que mancharam com seus crimes. já que satisfazia aos interesses e aspirações de uma elite que. ao mesmo tempo em que uma insurreição de massas irrompia no interior do México. O princípio da hierarquia . ocorrendo dissensões civis. em seguida à sua recusa em manter as prerrogativas coloniais da Junta de Sevilha. Memoria sobre las operaciones de la Comisión de Reemplazos. Comerciantes de Cadiz. Aqueles que analisam o processo de desenvolvimento econômico e mudança social em um contexto histórico percebem com clareza que os sistemas sociais aparentam possuir extraordinários poderes de coesão. Os ansiosos criollos americanos ficaram chocados por esse colapso final e pela substituição da junta por uma regência. Essa disposição da Junta Central em aceitar a possibilidade de revisão do sistema de intercâmbio.. que. flexibilidade e adaptação. ao longo de três séculos. nunca haviam podido encontrar expressão efetiva para sua amargura e revolta. quer contra os europeus. a elite colonial encontra aliados naturais nos mestiços. logo passou a ser dominada pela junta da cidade. possuía o monopólio da força para assegurar a sua preservação. Buenos Aires. é provável que. Essa informa88 ção seria odiosa e. junto ao centro minerador de Guanajuato (setembro). por fim. as virtudes de que carecem. ser controladas e utilizadas como fator adicional na eliminação dos punhados de burocratas e comerciantes espanhóis. representante dos interesses dos membros das guildas comerciais. serviu de argamassa à estrutura da sociedade. A manutenção da coesão nas estruturas sociais coloniais da América Latina. por outro lado. É fora de dúvida que alguns setores da elite colonial acreditavam que as massas indígenas poderiam permanecer inertes em caso de rebelião ou. efetivamente. e o crescente antagonismo com a Junta de Cadiz a respeito de questões financeiras e comerciais constituíram fatores de importância e que levaram. que freqüentemente irrompiam com violência (quer no meio urbano. a modernização defensiva apenas contribuía para a preservação de uma sociedade e economia tradicionais. Edinburgh Review.foi aceito. a paciência e 'as expectativas dos criollos chegaram ao fim e se constituíram juntas revolucionárias em nome do processo de autonomia (Caracas. Os líderes criollos temiam. se a executássemos com rigor. 1753 "Os criollos e os mestiços formam..

podemos afirmar que o número e diversidade das castas tendia a criar uma nova base para a hierarquia. que pressupostos fundamentam a afirmação (freqüentemente expressa) de que espanhóis e portugueses dispunham de uma política para os negros e indígenas mais humana e mais tolerante do que a posta em prática pelos europeus ocidentais não-católicos no continente americano ? É claro que encontramos eclesiásticos sensíveis. Se esse processo adquiria contornos evidentes antes das guerras da independência. o governo colonial não se movia em direção à mudança. As castas pareciam haver crescido proporcionalmente mais depressa que os demais grupos sociais. posterior. de dois contemporâneos de Las Casas . quer Podemos encontrar na América Latina desse século a transformação das bases mais antigas da hierarquia. O legado social preeminente foi. pois. em particular. o rígido controle sobre o acesso às posições sociais e ocupacionais elevadas permitia a absorção de alguns recém-chegados. passaram a fazer parte. recordar que outros clérigos. dos registros paroquiais. por outro lado. teve. em determinadas funções. ocupando as funções (em processo de expansão) exigidas por uma economia diversificada. política e religiosa dos povos americanos conquistados. a riqueza. A limitada integração social e tolerância racial constituíam subprodutos gerados por fatores especiais. de molde a tornar a ordem colonial duradoura. tornaram-se. tapeceiros. Nas áreas coloniais caracterizadas pela intensa importação de escravos. que aceitar os povos resultantes da miscigenação. de buscar os escalões inferiores da burocracia. da Igreja e não deixaram. ao findar-se o período colonial. reclamavam da dificuldade do registro de indivíduos na categoria de castas para fins de arrecadação de tributos. à integração mas. o que ajuda a esclarecer a razão do número de mestiços e mulatos aceitos em determinados níveis sociais. em todos os pontos da América Latina. o acesso aos postos militares e políticos. a sociedade colonial foi compelida a fornecer os braços necessários. adotando com freqüência a prática do suborno aos padres . cujo papel fora ampliado pela expansão e diversificação da economia colonial do século XVIII e pelo crescimento demográfico resses. indígena ou negra. destarte. Esses indivíduos ressentiam o estigma social imposto por um regime colonial à base de suas origens sociais "inferiores".para que registrassem seus filhos como espanhóis. o mestiço. aliás.) 91 . exploradores mais impiedosos de seus inferiores do que a própria elite branca. Aceitavase a presença das castas naquelas milícias coloniais onde predominassem oficiais criollos. dispondo de lojas próprias para a venda de seus produtos. o amplo e crescente grupo intermediário de mestiços e mulatos espalhava-se sobre as fazendas e as comunidades indígenas. tolerando um certo grau de alforria. Em realidade. e os indivíduos de pele mais clara. objetivos. quer na sociedade colonial. O ladino *. o número de negros e mulatos livres crescia proporcionalmente. ao findar-se o século XVIII. sequer. A essas mesmas castas não podia ser negado o acesso às guildas de artesãos ou. se distinguissem durante as lutas pela independência não constitui argumento de realce em termos de integração racial. Em certa medida. propriedade fundiária e corporações coloniais em algo que se aproximava das estruturas de classes econômicas baseadas na riqueza e na renda. ademais. e não como mulatos ou mestiços (ainda que de pele clara). lojistas e comerciantes nômades. a Igreja). (N. ocasionalmente. tornara-se muito difícil a manutenção do status tomando-se por base unicamente a cor da pele e a ascendência. Tornaram-se. Havendo poucos europeus para o preenchimento dessas posições. Se a principal herança da sociedade colonial foi a degradação e o conflito social. destarte. ascendiam ao grupo que agora denominamos espanhóis americanos. alguns setores da elite provavelmente visualizaram a possibilidade de uma transição pacífica para a independência. em muitos casos. alguns membros dos grupos mistos fossem incorporados à elite dirigente ao longo do período colonial ou. a "ascensão" tornou-se mais fácil e mais ampliada. tornou-se ainda mais claro após esse período. sequer. sim. tinha noções da reli gião cristã e sabia desempenhar funções domésticas e trabalhos no campo. Nesse processo de aliança com as castas.Landa e Sahagun. contudo. Deve-se. Em síntese. que legaram à posteridade relatos etnográficos detalhados concernentes à história social. O fato de que. a prática da atividade artesanal fora das corporações.) Os funcionários europeus. o negro livre tornaram-se. capazes de perceber os aspectos destruidores da cultura. inteligentes e obstinados na vida colonial. brutalizantes e de exploração do contato cultural e do imperialismo ao longo do século XVI: um desses homens foi Las Casas. a carência de mão-de-obra livre para as ocupações intersticiais. a degradação da força de trabalho. à separação (bastando examinar-se os sistemas tributários. estudaram as principais instituições e valores dos povos ameríndios. membros dessas castas. Ainda assim. significado duradouro da escravidão por dívidas e de escravos negros considerados como bens móveis.T. O colonialismo ibérico não logrou exterminar os povos dominados. Por seu turno. cooptaram um grupo social reduzido mas influente. e. Não se pode concluir daí que o preconceito racial declinara: simplesmente. em grande número. Aqueles que rompessem o estatuto da escravidão ou que abandonassem as comunidades ou enclaves indígenas (ou de ameríndios) passavam a constituir um setor médio habilitado a sobreviver unicamente na busca impiedosa dos próprios inte90 " Indígena (ou escravo) que já falava o espanhol (ou português).possivelmente mais bloqueadas pelas imposições estabelecidas pela hierarquia social espanhola em suas restrições à "ascensão" e à atividade econômica -. (Uma prática alternativa consistia na alteração.

lutas e reivindicações enraizadas profundamente no passado colonial. que o rigor das barreiras impostas à mobilidade social . Uma sociedade estratificada e hierarquizada significava que apenas um reduzido grupo. concomitantemente. e o cerne dessa matriz era constituído pelo privilégio em termos de acesso à propriedade e ocupação.eram estigmatizados como seres inferiores. dóceis.na diversificação da economia colonial. explodiram nas lutas pela independência e acabaram sendo suprimidos pela elite após 1824. o trabalho no campo ou o papel de proletariado urbano. preservando dessa forma a essência da estratificação social. Racionalização semelhante era empregada na manutenção da escravidão negra: a cristandade salvara-os do barbarismo e das guerras tribais. não obstante. afastando-se.assim raciocinava a elite. acabaram por' perder contato com seus grupos de origem. cor e privação econômica. Expressar esse tipo de convicção equivale a colocar a atividade sexual fortuita ao nível da paternidade planejada e considerar o crescimento da população mestiça ou mulata como índice digno de confiança na análise da integração e igualdade raciais. das posições de liderança na batalha pela melhoria das condições de vida de vastas camadas de indivíduos empobrecidos e analfabetos. 93 . trolava a riqueza e a renda. A racionalização servia de esteio à inferioridade. provar que as racionalizações formuladas pelo status quo são inteiramente inadequadas. esboçados no século XVIII. O fracasso . ao contrário. carentes de inteligência e iniciativa. A herança colonial de degradacão social e preconceito racial veio à tona no século XIX sob a forma de agudo pessimismo racial. Se os indígenas eram ignorantes. supersticiosos. interligado pelos laços de casamento e parentesco. Aqueles que ocupavam-se dos serviços mais degradados . Às massas restava. Assistimos hoje ao retorno das longas lutas em torno de reivindicações sociais. Começamos agora a perceber que grande parte da intranqüilidade social latino-americana ao longo do século passado nada mais foi que a continuação dos conflitos em torno do acesso à propriedade e ocupação 92 que.barreiras de nascimento. indicava as limitações impostas às oportunidades econômicas. sendo inúteis quaisquer esforços de educar indivíduos congenitamente atrasados. con.na pós-colonial. sob a crença de que apenas a imigração de brancos e europeus via colonização poderia fornecer a mão-de-obra capaz de transformar efetivamente a América Latina. como única possibilidade. do comércio e da burocracia.permitiu à elite absorver uma percentagem bastante reduzida de grupos mistos agressivos. é importante frisar que os aspectos sociais do colonialismo não podem ser separados de sua matriz econômica. das grandes fazendas. das estâncias de criação de gado. da propriedade das minas. na América Latina colonial e pós-colonial . Podemos argüir. Em verdade.os negros escravos e os escravizados por dívidas . A realidade social costuma. por seu turno. isso se devia ao fato de serem indígenas e não se tratava de qualquer decorrência ou produto social . Essa modalidade de absorção significava que os novos membros aceitavam os valores e aspirações sociais do grupo: em sua luta por atingir posições mais elevadas.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful