APOLÔNIO DE TÍANA

O Filósofo, Explorador e Reformador Social do Primeiro Século depois de Cristo
G.R.S.Mead Edição de 1901

CONTEÚDO I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII Introdução As Associações e Comunidades Religiosas do Primeiro Século Índia e Grécia O Apolônio das Primeiras Descrições Textos, Traduções e Literatura O Biógrafo de Apolônio Primeiros Anos As Viagens de Apolônio Nos Santuários dos Templos e Retiros Religiosos Os Gimnosofistas do Alto Egito Apolônio e os Governantes do Império Apolônio, o Profeta e Taumaturgo Seu Estilo de Vida Ele e Seu Círculo De Seus Ditos e Sermões De Suas Cartas Os Escritos de Apolônio I. INTRODUÇÃO Para o estudioso das origens do Cristianismo naturalmente não há período na história ocidental de maior interesse e importância do que o primeiro século de nossa era; e mesmo assim quão comparativamente pouco é conhecido sobre ele de natureza realmente definida e confiável. Se já é tão lamentável que nenhum escritor não-Cristão do primeiro século tenha tido intuição suficiente do futuro para registrar sequer uma só linha de informação referente ao nascimento e crescimento do que viria a ser a religião do mundo ocidental, igualmente desapontador é encontrar tão pouca informação definida sobre as condições sociais e religiosas gerais da época. Os governantes e as guerras do

Império parecem ter constituído o interesse principal dos historiógrafos do século seguinte, e mesmo neste departamento de história política, ainda que os atos públicos dos Imperadores possam ser bastante bem conhecidos, pois os podemos averiguar por registros e inscrições, quando passamos aos seus atos e motivos privados já não nos encontramos mais no terreno da história, mas geralmente na atmosfera do preconceito, escândalo e especulação. Os atos políticos dos Imperadores e seus oficiais, entretanto, podem no máximo lançar só uma tênue luz sobre as condições sociais gerais da época, mas já não iluminam nada das condições religiosas, exceto até onde de algum modo estas contatem o âmbito da política. Também poderíamos tentar reconstruir uma imagem da vida religiosa da época a partir dos atos e editos Imperiais tanto quanto poderíamos formar alguma idéia da religião privada deste país a partir de um estudo dos estatutos e anais das sessões do Congresso. As chamadas Histórias Romanas, com as quais estamos bem familiarizados, não podem nos ajudar na reconstrução de uma imagem do ambiente onde, de um lado, Paulo conduziu a nova fé na Ásia Menor, Grécia e Roma; e onde, de outro lado, já a encontramos estabelecida nos distritos margeando o sudeste do Mediterrâneo. É somente reunindo laboriosamente migalhas isoladas de informação e fragmentos de inscrições que nos tornamos cônscios da existência da vida de um mundo de associações religiosas e cultos privados que existiam neste período. Não que mesmo assim tenhamos qualquer informação muito direta do que ocorria nestas associações, guildas e irmandades; mas temos evidências suficientes para fazer-nos lamentar agudamente a ausência de um conhecimento adicional. Mesmo que este seja um campo difícil de lavrar, é extraordinariamente fértil em interesse, e é de lastimarmos que comparativamente tão pouco trabalho tenha sido feito nele até agora; e que, como ocorre tão amiúde, em sua maior parte seja inacessível ao leitor em português. O trabalho que já foi feito sobre este assunto em especial pode ser conferido através da nota bibliográfica anexa a este ensaio, na qual é dada uma lista de livros e artigos tratando das associações religiosas entre os gregos e entre os romanos. Mas se procurarmos obter uma visão geral da situação dos assuntos religiosos no primeiro século, nos encontramos desprovidos de um guia confiável; pois tratando deste assunto particular há só poucos livros, e neles aprendemos pouco, que não interessa diretamente, ou imagina-se que interesse, ao Cristianismo; enquanto que, no nosso caso, é justamente sobre o estado do mundo religioso não-Cristão que desejamos ser informados. Se, por exemplo, o leitor dirigir-se a trabalhos de história geral como o de Merivale, History os the Romans under the Empire (História dos Romanos sob o Império – Londres, 1865), ele encontrará, de fato, no capítulo iv, uma descrição do estado da religião até a morte de Nero, mas aprenderá pouco de seu estudo. Se ele recorrer à Geschichte der römischen Kaiserreichs unter der Regierung des Nero (História do Império Romano sob o Reinado de Nero – Berlin, 1872), de Hermann Schiller, ele encontrará muitas razões para abandonar as opiniões vulgares sobre os monstruosos crimes imputados a Nero, como de fato poderia fazer pela leitura do artigo de G.H.Lewes Was Nero a Monster? (Nero foi um Monstro? – Cornhill Magazine, julho de 1863) – e ele

também encontrará no livro IV, capítulo III, uma visão geral da religião e da filosofia da época que é muito mais inteligente que a de Merivale; mas tudo ainda é muito vago e insatisfatório, e nos sentimos fora da vida íntima dos filósofos e religiosos do primeiro século. Se, ainda, ele acorrer aos últimos escritores da história da Igreja que abordaram esta questão específica, verá que eles estão inteiramente ocupados com os contatos entre a Igreja Cristã e o Império Romano, e só incidentalmente nos dão alguma informação sobre a natureza do que buscamos. Neste terreno específico, C.J.Neumann é interessante em seu cuidadoso estudo Der römische Staat und die allgemeine Kirche bis auf Dioclecian (O Estado Romano e a Igreja Geral até Diocleciano – Leipzig, 1890); enquanto que o Prof. W.M.Ramsay, em seu The Church in the Roman Empire before AD 170 (A Igreja no Império Romano antes de 170 d.C. – Londres, 1893) é extraordinário, pois ele tenta interpretar a história romana através dos documentos do Novo Testamento, cujas datas em sua maioria são tão calorosamente disputadas. Mas, você pode dizer, o que tudo isso tem a ver com Apolônio de Tíana? A resposta é simples: Apolônio viveu no primeiro século; seu trabalho foi realizado precisamente entre estas associações religiosas, colégios e guildas. Um conhecimento deles e de sua natureza nos daria uma ambientação natural para grande parte de sua vida; e informação sobre suas condições no primeiro século talvez nos ajudasse a entender melhor alguns dos motivos da tarefa que ele empreendeu. Entretanto, se apenas a vida e trabalhos de Apolônio fossem iluminados por este conhecimento, poderíamos entender por quê tão pouco esforço tem sido feito nesta direção; pois o caráter do Tianeu, como veremos, desde o século IV tem sido encarado pouco favoravelmente, mesmo por poucos, enquanto que a maioria olha para nosso filósofo não só como um charlatão, mas mesmo como um anticristo. Mas quando exatamente este conhecimento sobre estas associações e ordens religiosas é o que lançaria uma torrente de luz sobre a evolução inicial do Cristianismo, não só a respeito das comunidades Paulinas, mas também a respeito daquelas escolas que posteriormente foram condenadas como heréticas, é espantoso que não tenhamos trabalhos mais satisfatórios feitos sobre o assunto. Entretanto, pode ser dito que esta informação não está disponível simplesmente porque não é encontrável. De modo geral isto é verdade; não obstante, muito mais do que já foi feito até agora poderia ser tentado, e os resultados da pesquisa em direções específicas e nos desvãos da história poderiam ser combinados, de modo que o leigo pudesse obter alguma idéia geral das condições religiosas da época, e fosse assim menos inclinado a se juntar à agora estereotipada condenação de todo o esforço moral e religioso não-Judeu ou não-Cristão no Império Romano do primeiro século. Mas o leitor pode redargüir: As coisas sociais e religiosas naqueles tempos devem ter estado em uma condição muito deplorável, pois, como este ensaio demonstra, o próprio Apolônio passou a maior parte de sua vida tentando reformar as instituições e cultos do Império. A isto respondemos: Sem dúvida

e isto os tornou passíveis da condenação de serem não só agitadores políticos. e onde encontramos perseguições. ouvimos sobre filósofos sendo banidos de Roma ou sendo lançados na prisão. mas nitidamente maldoso. mas porque o ideal de alguns deles era a restauração da República. mas ao mesmo tempo muitos encontravam nisto a devida satisfação para sua emoção religiosa. isso deve ser atribuído a razões políticas antes que teológicas. Nossa opinião não é que não havia nada a reformar. pois na medida em que os cultos oficiais e instituições ancestrais já não satisfaziam às suas necessidades religiosas. longe disto. e este especialmente foi o caso dos discípulos das escolas religioso-filosóficas. Sem dúvida em toda essa fermentação houve muitos excessos. onde tudo era agora perfunctório. como nos reinados de Nero e Domiciano. Mais ainda. Assim. a liberdade religiosa era garantida. devemos lembrar que a sua vasta maioria não se envolvia na política. uma consumação política como aquela jamais poderia ter sido conseguida e mantida. Apolônio. e quando dizemos que alguns deles quiseram restaurar a República. ou mesmo desclassificá-los sob o peso de nossas próprias supostas virtudes e conhecimentos. havia muito bom material pronto para ser desenvolvido de muitas maneiras. foi sempre um ardoroso defensor da regra monárquica. e se não fosse assim. AS ASSOCIAÇÕES E COMUNIDADES RELIGIOSAS DO PRIMEIRO SÉCULO No campo da religião é bem verdade que os cultos estatais e instituições nacionais do Império estavam quase sem exceção num estado lamentável. II. em última análise. mas também de tramarem ativamente contra a majestas do Imperador. se excetuarmos aqueles cultos que eram nitidamente viciosos. e. então. quando encontramos os filósofos presos ou banidos de Roma durante aqueles dois reinados. do que. mas longe isto de não haver uma vida religiosa na região. de acordo como nossa atual concepção de decoro religioso. e quando não há? Mas para nós seria não apenas mesquinho. são fenômenos similares aos entusiasmos que em nossos dias podemos encontrar . Pondo de lado a disputada questão da perseguição dos Cristãos sob Domiciano. não foi porque fossem filósofos. julgarmos nossos companheiros daqueles dias somente pelo alto padrão de uma moralidade ideal. a força havia há muito se esvaído das instituições religiosas gerais do estado. em círculos populares. De fato. e avidamente se fazia batizar em todo aquele afluxo de entusiasmo religioso que derivava cada vez com maior força do oriente.havia muito a ser reformado. Ao contrário. e deve ser notado que Apolônio devotou muito tempo e trabalho para os reviver e purificar. mas que todas as acusações de depravação levantadas contra a época não suportariam uma investigação imparcial. como poderia ter havido entre outras coisas alguma Cristandade? O Império Romano estava no auge de seu poder. e como jamais no mundo antigo. e se não tivesse tido muitos administradores notáveis e homens dignos na casta governante. e mesmo abusos penosos. devemos lembrar que isto não era uma perseguição total da filosofia por todo o Império. temos em grande medida diante de nós o espetáculo. Quando. a perseguição de Nero foi dirigida contra aqueles que o poder Imperial considerava como revolucionários políticos Judeus. mais diligentemente o povo se devotava aos cultos privados. entretanto. também.

e seus preceitos de pureza e sobriedade de vida – NT]. e nas assembléias de revivescência religiosa das pessoas simples. De Apuleio Isiacorum Mysterirorum Teste (Sobre o Teste de Apuleio nos Mistérios de Ísis – Leyden. isto é. e orgeônes – de todos os tipos e condições. mas também com toda a probabilidade havia muitas formas em cada linha de tradição. caracterizadas por sua pregação veemente. os protótipos de nossos atuais Maçons. Báquicos.H. Oddfellows. então. Entre elas devem ser enumeradas não somente as formas inferiores dos cultos de mistérios de vários tipos. boas. Os famosos Mistérios de Elêusis. enquanto que no trabalho mais recente sobre o assunto. e companhias onde havia refeições grupais. seus cultos onde havia grande agitação místico-física. e aplauso irrestrito foi dado a uma ou outra de suas formas pelos maiores pensadores e escritores da Grécia e Roma. Por exemplo. más e indiferentes. 1900).freqüentemente em seitas como os Shakers e Ranters [seitas inglesas surgidas no século XIX. Aqui. longe disto. Havia irmandades. e talvez esta seja a razão principal para que delas tenhamos registros tão falhos. eram muito mais perfunctórios. e eram tolerados pelos . mas ainda que fossem tão famosos. sabemos que era considerado obrigatório para todo cidadão respeitável de Atenas ser iniciado nos Eleusinia. estavam sob a égide do Estado.E. Não havia somente vários degraus e graus dentro deles. e etc. que os cultos privados e os atos das associações religiosas fossem todos desta natureza ou confinados a esta classe. Havia também sociedades de benefício mútuo. Estas associações religiosas não eram só privadas no sentido de que não eram mantidas pelo Estado. o Dr. temos um vasto terreno intermediário para o exercício religioso entre as formas mais populares e indisciplinadas de culto e as formas mais altas. Os cultos oficiais eram notoriamente incapazes de lhes dar esta satisfação. entretanto. como os Mistérios Frígios. mas também as maiores. ele devia ser psiquicamente impressionável antes que fosse aceito. e por isso os testes não poderiam ser muito exigentes. que poderiam ser abordadas somente através da disciplina e treinamento da vida filosófica. que estavam espalhados por todo o Império. Não se deve pensar. mas também para aqueles que já haviam subido tão alto aos píncaros da razão que poderiam captar um vislumbre do outro lado. Além disso. Isíacos e Mitraicos. grêmios para funerais. mas também em sua maior parte eram privadas no sentido de que o que faziam permanecia secreto. erani. de modo que não podemos senão pensar que aqui o instruído encontrava aquela satisfação para suas necessidades religiosas que era necessária não só para os que não poderiam se elevar ao ar rarefeito da razão pura. De Jong demonstra que numa forma dos Mistérios de Ísis o candidato era convidado à iniciação através de um sonho. comunidades e clubes religiosos – thiasi. contudo. não deve ser pensado que os grandes tipos de cultos de mistérios acima mencionados fossem uniformes mesmo entre eles mesmos. como cultos estatais. O lado superior destas instituições de mistérios despertou o entusiasmo de todos os melhores na antigüidade. K.

contudo. Ao contrário. eles parecem ter recuperado o lado puro do culto Báquico com a reinstituição ou reimportação dos Mistérios Báquicos. alguém poderia dizer. tanto homens quanto mulheres. pois se havia tantos devotados à vida religiosa em seu tempo. como eles chamam. qualquer bem que tenha havido em tais escolas e comunidades. nos fala que em seus dias numerosos grupos de homens. No Egito há multidões deles em cada província. Sabemos igualmente que os Órficos. Mas. pois eu criei com alimento aquela alma sempre habitada” (de um fragmento de Os Cretenses. escrevendo em torno de 25 d. Esta é uma declaração importantíssima. e especialmente em torno de Alexandria”. os Pitagóricos parecem ter gradualmente se misturados às comunidades Órficas e a “vida Órfica” era o termo reservado para uma vida de pureza e auto-negação. Após a morte de seu fundador. ou mesmo na reformulação completa. que haviam abandonado suas propriedades. a menos que fossem todos Terapeutas ou Essênios. que estas comunidades fossem todas de natureza exatamente similar. de modo que vemos Eurípides colocando as seguintes palavras na boca do coro dos iniciados Báquicos: “Envolto em vestes brancas eu fujo da raça dos mortais. Fragments of a Faith Forgotten (Fragmentos de uma Fé Esquecida). como esbocei em meu último trabalho. tanto grego como não-grego. segue-se que a época não era de pura depravação. estavam ativamente engajados na reforma. se retirado do mundo e devotado-se completamente à procura da sabedoria e ao cultivo da virtude. ou de uma e mesma origem. para nos persuadirmos que no primeiro século a procura pela vida religiosa e filosófica era largamente disseminada e multiforme.ilustrados apenas como um auxílio para o povo e um meio de preservar a vida tradicional da cidade ou estado. ele escreve: “Esta classe natural de homens é encontrada em muitas partes do mundo habitado. e jamais me aproximarei do vaso da morte novamente. Em seu tratado Sobre a Vida Contemplativa. Tais palavras poderiam bem ser colocadas na boca de um asceta Brâmane ou Budista..C. ou nomo. e portanto os Pitagóricos. Não se deve pensar. . comungando no bem perfeito. de Lobeck. Era pensamento geral que as pessoas mais virtuosas da Grécia fossem membros das escolas Pitagóricas. tinha terminado há muito. dos ritos Baco-Eleusinos. Filo. Vide Aglaophamus. 622). e então voltarmo-nos aos belos tratados das escolas Herméticas. a evidência é toda contra esta objeção. Temos só que lembrar das várias linhas de descendência das doutrinas mantidas por inumeráveis escolas classificadas em bloco como Gnósticas. p. Eurípides e os Pitagóricos e os Órficos não constituem evidência para o primeiro século. estavam largamente espalhados por todo o mundo. e é muito evidente que tais ascetas e profundos pensadores não poderiam ter-se contentado com uma forma inferior de culto. Sua influência também se espalhou amplamente nos círculos Báquicos em geral. que em todos os aspectos levava esta vida de religião. ávido por escapar dos laços de Samsâra [a roda dos eternos nascimentos e mortes – NT]. e tais homens não poderiam com justiça ser classificados indiscriminadamente junto com álacres dissolutos – a concepção comum de uma companhia Báquica.

mas mesmo um clarão ocasional é precioso onde tudo está em tamanha obscuridade. ÍNDIA E GRÉCIA Há contudo uma outra razão pela qual Apolônio é importante para nós. cidade que ele teve de deixar por causa do edito de banimento contra os filósofos. deve ter palestrado até mesmo com alguns dos “discípulos do Senhor”! Mas nenhuma palavra é dita sobre isso. Mas quando lembramos da existência de todas estas comunidades tão amplamente disseminadas no primeiro século. em 66. Portanto é aparente que não há evidência realmente inquestionável a respeito do assunto. tiveram o Bramanismo e o Budismo sobre o pensamento ocidental naqueles primeiros anos? Alguns asseveram enfaticamente que houve grande influência. mas nenhum sentimento para a vida religiosa. foi destruído ou se perdeu. Ele era um admirador entusiástico da sabedoria da Índia. nem obtemos sequer um simples fragmento de informação sobre estes pontos do que foi registrado sobre ele. Que influências. deva ser derivada da influência Órfica ou Pitagórica. mas quão pouco seu biógrafo parece ter-se apercebido do fato! Filóstrato tem uma apreciação retórica de uma vida filosófica palaciana. Para a maior parte temos então que nos fiar em indicações gerais de caráter muito superficial. Arábia e Síria. entre aqueles que acreditam que a origem das comunidades dos Terapeutas de Filo. . como agora é descrita. se alguma houve. Mas este registro imperfeito não é escusa para negarmos ou ignoramos sua existência e a intensidade de suas práticas. Nossa grande dificuldade é que estas comunidades. Apolônio circulou neste ambiente. porém. e dos Essênios de Filo e Josefo. ou se deixaram algum. e com raras exceções não deixaram registros de suas práticas e crenças íntimas. Aqui também se abre um tópico de grande interesse. pode jogar alguma luz sobre estas interessantíssimas comunidades. e não somos daqueles que amplificam um elemento da massa até que se torne uma fonte universal. A questão da origem precisa ainda está além do poder da pesquisa histórica. É só indiretamente que A Vida de Apolônio. irmandades e associações se mantiveram à parte. se não em outro lugar. no mesmo ano em que segundo alguns Paulo foi decapitado! III. quão inestimável página da história poderia ser recuperada! Ele não só percorreu todos os países onde a nova fé estava assentando raízes. não podemos senão sentir que havia o fermento de uma forte vida religiosa agindo em muitas partes do Império. pelo menos em Roma. e estava intimamente relacionado com diversas comunidades místicas do Egito. e uma história que se propõe a formar uma imagem da época é inteiramente insuficiente na medida em que omitir de sua perspectiva este assunto tão vital. Certamente ele deve ter-se encontrado com Paulo. Fosse possível apenas entrar na memória viva de Apolônio e ver com seus olhos as coisas que viu quando viveu dezenove séculos atrás. Certamente ele deve ter visitado também algumas das primeiras comunidades Cristãs.Não estamos. mas viveu durante anos na maioria deles. do mesmo modo enfático outros negam que tenha havido alguma. quando estudamos os registros imperfeitos mas importantes das mui numerosas escolas e irmandades de natureza semelhante que passaram a contatar intimamente com o Cristianismo em suas origens.

Exatamente como alguns atribuiriam a influência Pitagórica sobre a constituição das comunidades Essênias e Terapêuticas, outros atribuiriam suas origens à propaganda Budista; e não somente eles detectariam esta influência nos preceitos e práticas Essênias, mas relacionariam até o ensino geral de Cristo a uma fonte Budista sob uma feição monoteísta Judia. E não só, mas alguns diriam que dois séculos antes, através do contato direto e comum da Grécia com a Índia, produzido pelas conquistas de Alexandre, a Índia, via Pitágoras, teria influenciado forte e duradouramente todo o pensamento grego posterior. A questão certamente não pode ser resolvida com uma negativa ou afirmação apressadas; requer não apenas um amplo conhecimento de história geral e um estudo detalhado das indicações esparsas e imperfeitas sobre o pensamento e a prática, mas também uma fina apreciação do valor correto da evidência indireta, pois não temos nenhum testemunho direto de natureza realmente decisiva. Não pretendemos possuir estas altas qualificações, e nossa maior ambição é simplesmente dar umas indicações muito breves e gerais sobre a natureza do assunto. É claramente asseverado pelos antigos gregos que Pitágoras foi à Índia, mas como a declaração foi feita por escritores Neo-Pitagóricos e Neo-Platônicos, posteriores ao tempo de Apolônio, é objetado que as viagens do Tianeu sugeriram não só este item na biografia do grande Samiano mas diversos outros, ou mesmo que o próprio Apolônio, em sua Vida de Pitágoras, foi o autor do boato. A estreita semelhança, entretanto, entre muitas das características da disciplina e doutrina Pitagóricas e o pensamento e prática Indo-Arianas nos fazem hesitar ante rejeitar inteiramente a possibilidade de Pitágoras ter visitado a antiga Âryâvarta. E mesmo que não possamos ir tão longe a ponto de acalentar a possibilidade de um contato direto pessoal, devemos levar em conta o fato de que Ferécides, o mestre de Pitágoras, possa ter conhecido algumas das idéias principais da sabedoria Védica. Ferécides ensinou em Éfeso, mas ele mesmo era muito provavelmente persa, e é muito verossímil que um asiático instruído, ensinando uma filosofia mística e baseando sua doutrina sobre a idéia do renascimento, possa ter tido algum conhecimento direto ou indireto do pensamento IndoAriano. A Pérsia deve ter estado naquele tempo em contato estreito com a Índia, pois perto da morte de Pitágoras, no reinado de Dario, filho de Histaspes, e no fim do sexto e início do sétimo século antes de nossa era, ouvimos sobre a expedição do general Persa Scilax sobre o Indo, e aprendemos de Heródoto que neste reino da Índia (isto é, o Punjab), ele constituiu a vigésima satrápia da monarquia Persa. Mais ainda, havia tropas indianas entre as hostes de Xerxes; elas invadiram a Tessália e lutaram em Platéia. Do tempo de Alexandre em diante houve um contato constante e direto entre Âryâvarta e os reinos dos sucessores do conquistador do mundo, e muitos gregos escreveram sobre esta terra de mistérios; mas em tudo o que nos

chegou procuramos em vão por algo além de vagas indicações do que os “filósofos” da Índia pensavam sistematicamente. Que os Brâmanes tivessem nesta altura permitido que seus livros sagrados fossem lidos pelos yavanas (os jônios, o nome genérico para os gregos nos registros indianos) é contrário a tudo o que conhecemos de sua história. Os yavanas eram mlechchhas [estrangeiros – NT], estranhos à sociedade dos árias, e tudo o que poderiam obter da ciosamente guardada Brahma-vidyâ ou teosofia deve ter dependido somente de observação externa. Mas a atividade religiosa dominante na Índia de então era o Budismo, e é neste protesto contra as rígidas distinções de casta e raça feitas pelo orgulho Bramânico, e na extraordinária novidade de uma propaganda religiosa entusiástica entre todas as classes e raças da Índia, é que devemos procurar pelo contato mais direto de pensamento entre a Índia e a Grécia. Por exemplo, em meados do século III a.C., sabemos, pelo XIII Edito de Asoka, que este imperador Budista da Índia, o Constantino do oriente, enviou missionários a Antíoco II da Síria, Ptolomeu II do Egito, Antígono Gônatas da Macedônia, Magas de Cirene, e Alexandre II do Épiro. Quando, em um terreno de registros tão imperfeitos, a evidência do lado da Índia é tão clara e indubitável, quão mais extraordinário é que não tenhamos nenhum testemunho direto de nosso lado sobre uma atividade missionária tão grande. Mesmo que, então, meramente por causa de uma ausência de toda informação direta a partir de fontes gregas, seja muito temerário generalizarmos, não obstante por nosso conhecimento da época não é ilegítimo concluirmos que nenhum grande impacto público poderia ter sido feito por estes pioneiros do Dharma no ocidente. Com toda probabilidade estes Bhikshus [sábios ascetas – NT] Budistas não produziram nenhum efeito sobre os governantes ou sobre o povo. Mas foi sua missão inteiramente improfícua; e a iniciativa missionária Budista para o ocidente termina com eles? A resposta para esta pergunta, segundo nos parece, está oculta na obscuridade das comunidades religiosas. Não podemos, contudo, ir tão longe a ponto de concordar com os que cortariam o nó górdio assegurando dogmaticamente que as comunidades ascéticas na Síria e no Egito foram fundadas por estes propagandistas Budistas. Mesmo na Grécia já havia não só comunidades Pitagóricas, mas mesmo antes destas, comunidades Órficas, pois mesmo aqui acreditamos que Pitágoras antes desenvolveu o que encontrou já existindo, do que estabeleceu algo inteiramente novo. E se eram encontradas na Grécia, é muito mais que razoável supor que estas comunidades já existissem na Síria, Arábia e Egito, cujas populações eram muito mais dadas a exercícios religiosos do que os Gregos, céticos e amantes do riso. Contudo, é crível que em tais comunidades, se em alguma delas, a propaganda Budista tenha encontrado uma audiência receptiva e atenta; mas mesmo assim é notável que elas não tenham deixado traços diretos nítidos de sua influência. De todo modo, seja por mar, seja pela grande rota de caravanas, sempre houve uma linha de comunicação aberta entre a Índia e o Império dos sucessores de Alexandre; e é mesmo permissível especular que

se fosse possível recuperar um catálogo da grande biblioteca de Alexandria, por exemplo, talvez por acaso descobríssemos que havia manuscritos indianos entre outros rolos e pergaminhos das escrituras dos povos. De fato, há frases nos tratados mais antigos da literatura Hermética Trismegística que podem ser emparelhados tão próximo com frases dos Upanishads e do Bhagavad Gitâ que quase se é tentado a acreditar que os escritores tinham algum conhecimento do conteúdo geral destas escrituras Brâmanes. A literatura Trismegística tem sua gênese no Egito, e seu primeiro depósito deve ser datado pelo menos no primeiro século d.C., se a data não puder ser levada ainda mais para trás. Ainda mais extraordinária é a similitude entre a elevada metafísica mística do doutor Gnóstico, Basílides, que viveu entre o fim do primeiro e o início do segundo século d.C., e as idéias Vedantinas. Mais ainda, tanto as escolas Herméticas quanto as Basilidinas e suas predecessoras imediatas eram devotadas à férrea auto-disciplina e ao profundo estudo filosófico, o que as poderia tornar ávidas por acolher quaisquer filósofos ou místicos que pudessem chegar do longínquo oriente. Mas mesmo assim, não somos daqueles que por suas limitações de possibilidades auto-impostas estão condenados a considerar algum contato físico direto como uma explicação para a similaridade de idéias ou mesmo de frases. Considerando, por exemplo, que há muita semelhança entre os ensinamentos do Dharma de Buda e o Evangelho de Cristo, e que o mesmo espírito de amor e gentileza pervade a ambos, ainda não há necessidade, por virtude desta semelhança, de procurar por uma transmissão puramente física. Do mesmo modo quanto a outras escolas e instrutores; condições semelhantes produzem fenômenos similares; esforços e aspirações similares produzem experiências e idéias parecidas, e respostas também semelhantes. E este acreditamos ser o caso não de uma maneira genérica, mas que tudo é muito definidamente ordenado a partir de dentro pelos servos dos verdadeiros guardiães das coisas religiosas neste mundo. Não somos, pois, compelidos a enfatizar demais a questão da transmissão física, ou a procurar mesmo encontrar prova de cópia. A mente humana em seus vários graus é basicamente a mesma em todos os climas e idades, e sua experiência interna tem um chão comum no qual a semente pode ser lançada, assim como é cultivada e livrada de ervas daninhas. As boas sementes provêm todas do mesmo granel, e os que as semeiam não prestam atenção alguma às distinções externas de raça e credo feitas pelo homem. Portanto, por mais difícil que seja provar, a partir de registros inquestionavelmente históricos, qualquer influência direta do pensamento indiano sobre as concepções e práticas de algumas destas comunidades religiosas e escolas filosóficas do Império Greco-Romano, e mesmo que em qualquer caso particular a similaridade de idéias não precise necessariamente ser assinalada pela transmissão física direta, de qualquer maneira, a maior probabilidade, se não a maior certeza, continua sendo a de que mesmo antes dos dias de Apolônio havia na Grécia algum conhecimento privado das idéias gerais do Vedânta e do Dharma; enquanto que no caso do próprio Apolônio, mesmo se descontarmos nove décimos do que é dito sobre ele, sua única idéia

ele teve de voltar. mas a receberão com alegria como se fosse o anúncio do nascimento de um verdadeiro sol de retidão. para aceitar o pensamento de que. Não só isso. e em sua obra quase universal. para os preconceitos teológicos. tão enamorado pelo que ele ouvira em Alexandria sobre a sabedoria da Índia. e mesmo. ele simplesmente tentava purgar e explicar melhor aquilo que eles já acreditavam e praticavam. mas a memória de sua influência pode ter perdurado por muito tempo em tais círculos. Mas ainda não nasceu o dia em que será possível para a mente comum no ocidente abordar a questão livre de preconceitos. temos sempre que levar em conta não só a alta probabilidade de Apolônio ter visitado tais escolas. Porém. Por fortuna. e é uma questão do mais profundo interesse. para sempre desapontado em sua esperança. é nesta atmosfera de caridade e tolerância que pediríamos ao leitor abordar a consideração de Apolônio e seus feitos. entre associações místicas tais como as escolas Herméticas e Gnósticas. o corifeu do Neo-Platonismo. descobrimos no final do primeiro e no início do segundo séculos.parece ter sido disseminar largamente entre as irmandades e instituições religiosas do Império alguma porção da sabedoria que ele trouxe consigo da Índia. e que mesmo que na superfície das coisas suas tarefas possam parecer tão diferentes em muitos aspectos. inteiramente antagônicas. não devemos pensar que Apolônio tenha-se disposto a fazer uma propaganda da filosofia hindu do mesmo modo que os missionários aprontamse para pregar sua concepção do Evangelho. Que algum grande poder o susteve em sua atividade incessante. vistos de dentro. mas também a possibilidade de ele ter nelas palestrado amplamente sobre a sabedoria indiana. do modo mais adequado para cada um deles. que em 242 ele partiu com a malfadada expedição Górdia ao oriente na esperança de atingir aquela terra da filosofia? Com o fracasso da expedição e o assassínio do Imperador. Apolônio parece ter tentado ajudar seus ouvintes. Ele não começava lhes falando que aquilo no que acreditavam era completamente falso e mortal para a alma. idéias que nos lembram fortemente a teosofia dos Upanishads ou a ética esclarecida dos Suttas. contudo. especular o modo como não só um Paulo mas também um Apolônio foi ajudado e dirigido em sua obra a partir de dentro. De modo algum. e que seu bem-estar eterno dependia de sua adoção instantânea de seu esquema especial de salvação. não só Paulo mas também Apolônio bem podem ter sido “discípulos do Senhor” no verdadeiro sentido da palavra. pois não encontramos Plotino. que fará mais para iluminar as multifárias vias da religião de nossa humanidade comum do que toda a auto-retidão de qualquer corpo particular de religiosos exclusivistas. Então. como é chamado. não é tão difícil de acreditar. então. contudo. Quando. quaisquer que pudessem ser. já hoje existe um número crescente de pessoas pensantes que não ficarão chocadas com esta crença. e não só a vida e atos de um . para aqueles que tentam enxergar através das névoas da aparência.

mas antes que tratemos da Vida de Apolônio. e perde-se para o mundo por anos inteiros. devemos dar uma breve notícia das referências sobre Apolônio entre os escritores clássicos e os Padres da Igreja. Muitas e variadas e freqüentemente contraditórias são as opiniões que têm sido sustentadas sobre Apolônio. um daqueles que estavam familiarizados com “toda a tragédia” (Alexander sive Pseudomantis – Alexandre. ou o Pseudo-mago -. como nós vemos. Primeiramente. eles acalmam a fúria das ondas e o poder dos ventos e impedem o . E Apuleio. mas também de todos aqueles que têm tentado ajudar seus semelhantes em todo o mundo. um contemporâneo de Luciano. 614). vi. Luciano. xc. talismã”. vide o Lexicon de Liddell e Scott. O APOLÔNIO DAS PRIMEIRAS DESCRIÇÕES Apolônio de Tíana (pronuncia-se com o acento na primeira sílaba e o primeiro a curto) foi o mais famoso filósofo do mundo greco-romano do primeiro século.Apolônio. classifica Apolônio junto com Moisés e Zoroastro. teve uma vida à parte. as referências em autores clássicos e patrísticos. pois o relato de sua vida que chegou a nós é do feitio de uma história romântica antes que do de uma história objetiva. ed. então. além de seu ensino público. Hildebrand. em uma obra intitulada Quaestiones et Responsiones ad Orthodoxos (Perguntas e Respostas aos Ortodoxos).) de Apollonius têm poder nas (várias) ordens desta criação? Pois. e devotou a maior parte de sua longa vida à purificação dos muitos cultos do Império e à instrução dos ministros e sacerdotes de suas religiões. e outros Magos famosos da antigüidade (De Magia – Sobre a Magia -. ou serve somente como uma oportunidade para tecerem alguma história fantástica aqueles que não compreendem. Telesma era “um objeto consagrado. antigamente atribuída a Justino. e das várias oscilações da guerra de opinião a respeito de sua vida ao longo dos últimos quatro séculos. e o que ele diz ou faz lá permanece um mistério. transformado pelos árabes em telsam. ii. 1842. Ele viaja até as terras mais distantes. Cerca da mesma época. escrita por Flávio Filóstrato no começo do século III. o espirituoso escritor da primeira metade do século II. toma como tema de uma de suas sátiras o aluno de um discípulo de Apolônio. sub voc. O estudo a seguir é simplesmente uma tentativa de colocar para o leitor um breve esboço do problema que os registros e tradições sobre a vida do famoso Tianeu representa. o Mártir. uma vida na qual mesmo seu discípulo favorito não entra. que floresceu no segundo quarto do século II. e um curto resumo da literatura de tempos mais recentes sobre o assunto. ele entra nos santuários dos templos mais sagrados e nos círculos internos das comunidades mais fechadas. Com a exceção de Cristo.) de sua vida. como os objetos consagrados (τελεσματα. pois Apolônio. nenhum personagem mais interessante apareceu na cena da história ocidental nestes primeiros anos. IV. encontramos a seguinte interessante declaração: “Pergunta 24: Se Deus é o autor e mestre da criação. E isto em certa medida talvez deva ser esperado.

Leipzig. escrevendo na última década do século III. Vopisco. de quem ele tivera uma visão quando assediava Tíana. xxv. ed. 18). chegou a nós. ambos mencionam Apolônio como uma de suas autoridades. vide especialmente a nota de Kiessling. Leipzig. ii. p. que Porfírio e Jâmblico compuseram seus tratados sobre Pitágoras e sua escola. Kiessling. trabalhando sobre as obras de Nicômaco (Sidonius Apollinaris. viii. quem mais divinal que ele? Ele foi quem deu vida aos mortos. p. contudo. escreveria uma breve história de sua vida em latim. 1816.Cartas -. não cumpriu sua promessa. 285.. Otto. 1849. Lamprídio.. e um verdadeiro amigo dos Deuses”. que floresceu em meados do século III.C. I. informa-nos ainda que Alexandre Severo (Imperador entre 222 e 235) colocou a estátua de Apolônio em seu lararium [espécie de capela onde os romanos colocavam as imagens de seus deuses protetores do lar – NT] junto com as de Cristo. Vie d’Apollonius de Tyane – A Vida de Apolônio de Tíana -. e mais. quem mais venerável. pois até então os únicos relatos estavam em grego (“Quae qui velit nosse. e logo depois Tácio Vitoriano. 2ª edição. Ele foi quem operou e disse tantas coisas além do poder dos homens”. entretanto. os últimos anos do século III e os primeiros do IV. e é com este documento principalmente que temos de lidar a seguir. como uma manifestação da deidade. mas sabemos que perto desta data tanto Sotérico (um poeta épico Egípcio. e é provável que as primeiras 30 estâncias de Jâmblico sejam tomadas de Apolônio (Porphyryus. também compôs uma Vida. seção ii. a saber. Estes relatos provavelmente foram os livros de Máximo. Vopisco. nos conta que Aureliano (Imperador entre 270 e 275) dedicou um templo a Apolônio. diz que Caracala (Imperador entre 211 e 216) honrou a memória de Apolônio com uma capela ou monumento (heroum). Abraão e Orfeu (Life of Alexander Severus – A Vida de Alexandre Severo -. Frag. quem mais digno de reverência. que prometeu que se vivesse. em sua história (Lib. “Pois quem dentre os homens”. Kiessling. Foi bem nesta época (216) que Filóstrato compôs sua Vida de Apolônio. que escreveu entre 211 e 212 d. xxiv). Tão entusiástico é Vopisco sobre Apolônio. Jena. a mãe de Caracala. Vide também Legrand d’Aussy. Epistolae . . 32) Dion Cássio. Nenhuma destas Vidas. De Vita Pythagorica – Sobre a Vida Pitagórica -. 3. ed. para que seus feitos e palavras pudessem estar na língua de todos. Vide também Porphyryus. ed. ed. 1807. um antigo filósofo. a pedido de Domna Julia. xlvii). II sqq. xxvii. ‡ (Justin Martyr. Iamblichus. “foi mais santo. 1913. pp. Também foi exatamente neste período. cap.ataque dos vermes e das bestas selvagens”. Vopisco fala do Tianeu como “um sábio da mais larga fama e autoridade. De Vita Pythagorae – A Vida de Pitágoras -. que escreveu diversas histórias poéticas em grego. Opera – Obras -. xxix). groecos legat libros qui de ejus vita conscripti sunt – Que quem quiser saiba que os gregos deixaram livros sobre sua vida”. Merágenes e Filóstrato). De Styge – Sobre o Estige -. exclama o historiador. (Life of Aurelian – A Vida de Aureliano. floresceu na última década do terceiro século) quanto Nicômaco escreveram Vidas sobre nosso filósofo. Paris. Holst).

A vida de Apolônio seria um plágio Pagão da vida de Jesus. 1877). a natureza dos prodígios relatados na Vida de Apolônio ainda era uma dificuldade tão grande que deu origem a uma nova hipótese. todas reunidas à Vita. da qual foi o primeiro historiógrafo. em vez da tradução contemporânea demônio. 1584. a justiça se tornava estranha à sua mente.Agora chegamos a um incidente que arremessa o caráter de Apolônio na arena da polêmica Cristã. e assim permanece até hoje. 12°. e mesmo se ocorreram. ele escrutiniza severamente as declarações de Filóstrato. Bispo de Cesaréia. como Hiérocles assinalou. onde tem sido debatido até os dias de hoje. Eusébio admite que Apolônio era um homem sábio e virtuoso. também existe em várias edições de Filóstrato. e ele teria considerado blasfemo usar sua faculdade crítica sobre documentos que relatassem os “milagres” de Jesus. e um filósofo. quando qualquer coisa tocante ao Cristianismo era chamada à cena. A esta pertinente crítica de Hiérocles. como tantos outros apologistas. Hiérocles usa a Vida de Apolônio. intitulado Contra Hieroclem (Contra Hiérocles – O melhor texto é o de Gaynsford. 135 pp. Paris. a de plágio. e uma em francês. e fascinante como é para muitos . e significando seres mais espirituais que o homem. foram obra de “daimons” [preferimos manter a palavra daimon.). Hiérocles. uma em italiano. chamada Um Apelo Verdadeiro aos Cristãos. Paris. da Bitínia e de Alexandria. evidenciando sua fonte grega (δαιμσν). a respeito dos Milagres atribuídos pelos Pagãos a Apolônio de Tíana -. Nesta parte de seu tratado. Mas Eusébio e os Padres que o seguiram não suspeitavam disto. de Filóstrato. de vários graus de sublimidade. sucessivamente governador de Palmira. Mas Eusébio. só conseguia ver um lado da questão. uma em dinamarquês. em dois livros. Há duas traduções em latim. cujas associações são completamente diversas em relação às originais – NT] e não de Deus. O tratado de Eusébio é interessante. ou mais concisamente O Amante da Verdade. 1852: Eusebii Pamphili contra Hieroclem – Eusébio Pânfilo contra Hiérocles. a posteridade lhe teria um débito eterno de gratidão. Ele parece ter-se baseado em grande parte no trabalho anterior de Celso e Porfírio (vide Duchesne sobre as obras recentemente descobertas de Macário Magno. Depois a controvérsia reencarnou no século XVI. mas nega que haja provas suficientes de que as maravilhas atribuídas a ele tenham mesmo ocorrido. impressa à parte: Discours d’Eusèbe Evêque de Cesarée touchant les Miracles attribuez par les Payens à Apollonius de Tyane – Discursos de Eusébio. Oxford. de Cousin. Mesmo assim o problema dos “milagres” era o mesmo. Não há uma só palavra em Filóstrato que demonstre ter ele algum conhecimento da vida de Jesus. mantida também pelo autor (daemon). Tivesse ele apenas usado esta faculdade nos documentos da Igreja. de Filóstrato. mas introduziu um novo tema de controvérsia ao contrapor as obras maravilhosas de Apolônio à reivindicação dos Cristãos de direito exclusivo sobre “milagres” como prova da divindade de seu Mestre. eles viveram numa época em que tal asserção poderia ter sido facilmente refutada. Eusébio de Cesaréia imediatamente replicou em um tratado ainda existente. e mostra-se possuído de uma faculdade crítica de primeira linha. e quando a hipótese de ser o “Diabo” a causa primeira de todos os “milagres” exceto os da Igreja perdeu sua força com o progresso do pensamento científico. cerca do ano 305 escreveu uma crítica sobre as reivindicações Cristãs. tr.

omite Moisés da lista de Magos). 53. mas porque todas as coisas encontradas nele foram as que os profetas anunciaram (Lactantius. 236). p. entretanto. diz Lactâncio. contudo. ix). pois o Padre da Igreja diz que ele enumera tantos de seus ensinamentos Cristãos internos (intima) que algumas vezes ele parece ter seguido ao mesmo tempo o mesmo treinamento (disciplina). Mas. i. após ler Filóstrato. 631. o professor de Lactâncio. Mas mesmo depois da controvérsia ainda existe uma larga diferença de opinião entre os Padres. Divinae Institutiones – As Instituições Divinas -. Arnóbio. na mesmíssima data. escreve que Apolônio encontrou em toda parte algo que aprender e algo por onde se tornar um homem melhor (Hieronymus. negando asperamente que houvesse qualquer verdade na reivindicação feita por “alguns”. v. ed. ed. texto a partir de Kayser. um homem com a missão de ensinar. 86. pois já no fim do século IV João Crisóstomo. 52.a teoria de “escrita tendenciosa” de Baur. pois. com aquele exclusivismo peculiar à visão Judeu-Cristã. podemos somente dizer que como plagiador da história do Evangelho. revestida das maravilhosas histórias preservadas na memória e embelezadas pela imaginação de uma posteridade indulgente. Adversus Nationes – Contra as Seitas -. com grande mordacidade. enquanto ridiculariza qualquer tentativa de comparar-se Apolônio com Jesus. pois os Cristãos não crêem que Cristo é Deus porque operou prodígios. escrevendo no fim do século III. 233. op. ao contrário. 3. Halle. Billius.. O escritor de Perguntas e Respostas aos . 294). que parece ter apresentado algumas críticas muito pertinentes. chama Apolônio de enganador e fazedor de más obras. ed. pp. que ele não diz quem são. mas não o drama da Deidade encarnada como o cumprimento da profecia mundial. assume uma posição quase favorável. E tomando este rumo Lactâncio viu muito mais claramente que Eusébio a fragilidade da “prova milagrosa”. J. cit. Adversus Judaeos – Contra os Judeus -. 138. Monfauc). Paris. é em vão que Hiérocles tenta demonstrar que Apolônio executou feitos similares ou mesmo maiores que Jesus. De Laudibus Sancti Pauli Apost. Lactâncio. morto em 450. Filóstrato é um óbvio fracasso. Filóstrato escreve a história de um homem bom e sábio. p. 1585). ao se referir a Apolônio ele simplesmente o classifica entre os Magos. cxxxviii. iv. Homil. como Zoroastro e os outros mencionados na passagem de Apuleio a que já nos referimos (Arnobius. e declara que todos os incidentes de sua vida são ficção desqualificada (Johannes Chrysostomus. Jerônimo. antes da controvérsia. Ep. 1842. p. v 2. escrevendo em torno de 315. É instrutivo comparar a negativa de Isidoro com a passagem que já citamos do Pseudo-Justino. 1844. Fritsche. – Sobre as Honoráveis Homilias de São Paulo Apóstolo -. O Padre da Igreja. 493 d. Por volta da mesma data também encontramos Isidoro de Pelúsio. p. No começo do século V também Agostinho. Texto citado por Legrand d’Aussy. Ad Paulinum – Epístola aos Paulinos -. também atacou o tratado de Hiérocles. Leipzig. pref. ed. p. de que Apolônio de Tíana “consagrou muitos locais em muitas partes do mundo para a segurança de seus habitantes” (Isidorus Pelusiota. diz que o caráter do Tianeu era “muito superior” àquele atribuído a Júpiter. Epp. 3. no que se tratava de virtude (Augustinus. Epistolae – Cartas -. – Cartas -. Hildebrand.

Harles. Epistolae . viii. refere-se ao Tianeu como “aquele celebérrimo filósofo” (amplissimus ille philosophus. xxiii.Ortodoxos no segundo século não poderia descartar a pergunta através de uma simples negação. escrevendo nos derradeiros anos do século IV. religião à parte. Proêmio. Mas a palavra “daimon”. era “um meio-termo. mas “exemplificou plenamente o seu lado mais divino e prático”. enquanto que uns poucos anos depois Eunápio. conselheiro do Rei Eurico. por assim dizer.Cartas -. Filóstrato deveria ter chamado sua biografia de “A Estada de um Deus entre os Homens” (Eunapius. Bibliotheca Graeca – Biblioteca Grega -. enquanto que Cristãos ignorantes poderiam realizar curas milagrosas através de uma simples palavra (vide Arnóbio. um homem frugal em meio a festins. Pois Amiano Marcelino. “o último súdito de Roma que compôs uma história profana na língua latina”. ed. 14. poucos anos depois. se assemelha à vossa em muitos pontos. Amsterdam. Esta apreciação aparentemente por demais exagerada talvez encontre uma explicação no fato de que Eunápio pertenceu a uma escola que conhecia a natureza das realizações atribuídas a Apolônio. xxiii.). Compare com Platão. a agência do Diabo. De fato. ele teve de admití-la e discutir o caso em outras bases. 7. fala de Apolônio em termos os mais altos. pode ser aceito como válido pelo crítico imparcial. 3). de que Apolônio usava magia para produzir seus resultados. um homem procurado pelos ricos. pp. que amava a sabedoria e desprezava o ouro. 1822. Sidônio traduziu a Vida de Apolônio para o latim para Leão.. 19). A obra de Sidônio sobre Apolônio infelizmente foi perdida. mas ainda não igual aos deuses. e a idéia original agora encontra tradução na linguagem comum através do termo “anjo”. vi. e amigo de Juliano. há muito degradou-se de seu antigo patamar elevado. o Imperador filósofo. devido à aspereza sectarista.. discípulo de Crisâncio. pois não há evidências para sustentar a pretensão de que Apolônio haja empregado tais métodos para suas obras maravilhosas. e escrevendo para seu amigo. 3. xxiii. austero no meio da luxúria. Enfim. loc. enquanto que entre os próprios filósofos o louvor de Apolônio era ardente. diz: “Lêde a vida de um homem que. Vide também xxi. Bispo de Claremont. talvez nenhum historiador encontrará nos tempos antigos um filósofo cuja vida fosse igual à de Apolônio” (Sidonius Apollinaris. Também Fabricius.) Assim vemos que mesmo entre os Padres da Igreja as opiniões se dividiam. entre os deuses e os homens” (τι θεων τε κατ ανΦρωπου μεσο. Por outro lado. 549. quais sejam. vestido de linho no meio dos purpurados. Esta era a ordem “daimôníca” dos gregos. 565. ainda que jamais tenha procurado riquezas. ao contrário. παν τα δαιμσνιονμεταεν εστι θεου τε και ϑνητου – “tudo o que é daimônico está entre Deus e o homem”. Nem o argumento dos Padres. Symposium – O Banquete. um dos professores de Juliano. Não só Apolônio era um adepto da filosofia Pitagórica. significando com isso presumivelmente alguém que tenha atingido o grau de ser superior ao homem. diz que Apolônio era mais que um filósofo. tanto o próprio Apolônio quanto seu biógrafo Filóstrato reiteradamente repudiam a acusação de magia levantada contra ele. Sidônio Apolinário. cit. ed. falando claramente. Boissonade. p. . Vitae Philosophorum – Vidas dos Filósofos -.

com a exceção do preconceito teológico. Do mesmo modo entre os autores bizantinos. Cedreno. 60). no século IX. cit. escrita antes de 519). (Legrand d’Aussy. antigamente consagradas por Apolônio. se podemos acreditar em Nicetas. 313). cit. Desde o início a antiga controvérsia Hiérocles-Eusébio foi ressuscitada. Bekker. Apolônio voltou à memória do mundo. vide sua Chronicon – Crônica -. que tiveram que ser postas abaixo porque se haviam tornado objeto de superstição mesmo entre os próprios Cristãos. encontramos um Volusiano. quase adorando Apolônio de Tíana como um ser sobrenatural” (Réville. do francês. A palavra que traduzi como “adepto” – stoicheiomaticos . op. 1866. traduções e literatura geral sobre o assunto em tempos mais recentes. no século VIII. e não apenas despido de toda a crítica adversa. Muito pouco. i. E mesmo que o monge Xiphilinus. para que. p. 286). 56. chame Apolônio de astuto ilusionista e mágico. p. e finalmente só o fez em 1501.significa “o que tem poder sobre os elementos”) e relata diversos exemplos da eficácia de seus poderes em Bizâncio. op. de fato. p. ed. Tzetzes também. Tivesse a obra de Filóstrato desaparecido junto com as outras Vidas. tr. “tão tarde quanto no século V. mas declarando que ele foi a primeira e mais notável de todas eminências que surgiram no Império. o sufrágio da antigüidade estava todo do lado de nosso filósofo. refere-se diversas vezes ao nosso filósofo. op. TRADUÇÕES E LITERATURA Agora passamos aos textos. Durante muito tempo Aldus hesitou em publicar o texto de Filóstrato. Compendium Historiarium – Compêndio de História -. o monge George Syncellus. como ele piamente diz. não fui capaz de descobrir com que autoridade esta declaração é feita). chama Apolônio de “todo-sábio e ante-conhecedor de todas as coisas” (Chiliades. dá a Apolônio o título não indigno de “adepto filósofo Pitagórico” (φιλοσοφος ΙΙυφαγσρειος στοιχειωματικσς. não obstante Cedreno. um procônsul da África. Cit. Apollonius of Tyana. TEXTOS. o que apresentei acima seria tudo o que conheceríamos sobre Apolônio (se excetuarmos as suas controversas Cartas e umas poucas citações de um dos escritos perdidos de Apolônio).. 346. o crítico e gramático. § (Citado por Legrand d’Aussy. “o antídoto possa acompanhar o veneno”. falando de Apolônio como o “renomado filósofo” (“Insignis philosophus”. Junto apareceu uma tradução latina do . Londres. Vide Legrand d’Aussy.Na verdade. descendente de uma antiga família romana e ainda fortemente ligado à religião de seus ancestrais. relativo a uma figura tão distinguida. que passou os últimos anos de sua longa vida em um mosteiro.. mas o bastante para mostrar que. De fato. V. em uma nota para sua versão abreviada da história de Dion Cássio. 308). e todo o assunto foi de uma vez retirado da calma região da filosofia e história e arremessado mais uma vez na tumultuosa arena do amargor e preconceito religiosos. Mesmo depois do declínio da filosofia encontramos Cassiodoro. † (Chronographia. p. com o texto de Eusébio como apêndice. no mesmo século. ii. Contudo. depois do esquecimento na idade das trevas. no século XIII ainda havia em Bizâncio certas portas de bronze. sob maus auspícios.

313-327). Cerca de um século e meio após o texto de Olearius foi superado novamente pelo de Kayser (o primeiro texto crítico). o manuscrito estava na Biblioteca Imperial. Toda a informação que diz respeito aos manuscritos. Olearius. em torno de 1560. Paris.L. Philostratorum et Callistrati Opera – Obras de Filóstrato e Calístrato. 1599. Paris. 1611). Philostrate de la Vie d’Apollonius – A Vida de Apolônio. Mas Kayser trouxe à luz uma nova edição em 1853 (?). e não tiver gosto pela controvérsia. com notas bombásticas nas quais ataca ferozmente a taumaturgia de Apolônio. que por sua vez um século depois foi superada pela de Olearius (G.). pp.. 625. 1549. a tradução de Rinucci foi retificada por Beroaldus e impressa em Lion [1504?]. é encontrada nos Prefácios Latinos de Kayser. Agora tentaremos dar alguma idéia da literatura geral sobre o assunto. 1870). 1844. na Scriptorum Graecorum Bibliotheca – Biblioteca de Escritores Gregos. por Filóstrato. mas nunca foi publicada. Grega e Latina. cujo trabalho em sua última edição contém todo o moderno aparato crítico (C. 1849. antes que pudesse aventurar uma opinião própria com clara consciência. por Filóstrato de Lemnos. P. Veneza. Philostrati Lemnii Opera – Obras de Filóstrato Lêmnio. Grega e Latina. cit. fol. de Vignère. tr. com informações adicionais no Prefácio. Morellus. e novamente uma terceira. em escritores que mencionam Apolônio incidentalmente. Westermann também editou um texto. 4°). Journal des Savants. A editio princeps de Aldus foi superada um século depois pela edição de Morel (F. que foi compelido a repassar as obras do último século e a dúzia dos séculos precedentes. 1849. 1596. Leipzig. op. os trabalhos do Abade Dupin (L’Histoire d’Apollone de Tyane convaincue de Fausseté et d’Imposture – A História de Apolônio de Tíana. 1501-04. citado por Chassang. 8°) e uma francesa (B. Vide Miller.florentino Rinucci (Philostratus de Vita Apollonii Tyanei . na Bibliotheca Teubneriana (Leipzig. ele poderá facilmente omitir sua consulta. Flavii Philostrati quae supersunt. Sieur d’Embry... Zurique. por Rinucci. p. 1705) e de Tillemont (An Account of the Life of Apollonius Tyaneus – Um . Paris. enquanto que se for um amante do caminho místico. A tradução de Blaise de Vignère subseqüentemente foi corrigida por Frédéric Morel e mais tarde por Thomas Artus. Baldelli. por Acciolo. vide Legrand d’Aussy. e novamente em Colônia [1534]). Em acréscimo à tradução latina o século XVI produziu também uma italiana (F. iv). e Eusebius contra Hieroclem – Eusébio contra Hiérocles. poderá ao menos simpatizar com o escritor.Kayser. Um preconceito sectarista contra Apolônio caracteriza quase toda a opinião antes do século XIX (para um sumário geral da opinião antes de 1807. op. Em 1849 A. Se o leitor comum for impaciente e ávido de chegar a algo de maior interesse. tr. para que o leitor possa ser capaz de perceber algumas das várias oscilações da guerra de opiniões nas indicações bibliográficas. por Filóstrato. etc. cheia de Falsidade e Impostura. Uma tradução francesa também foi feita por Th. 1608). Florença. 8°). Philostratorum quae supersunt Omnia – As Obras Completas Remanescentes de Filóstrato. Dos livros especialmente dedicados a Apolônio. Paris. Sibilet. infr. cit. 1709). Filostrato Lemnio della Vita di Apollonio Tianeo – A Vida de Apolônio de Tíana.Sobre a Vida de Apolônio de Tíana.

De Miraculis quæ Pythagoræ. cit. Francisco de Assis. Um escritor sob pseudônimo. Christian Herzog..Algumas Observações sobre Apolônio.. with some Observations on the Platonists of the Latter School – Dissertação sobre a Vida de Apolônio Tianeu. contudo.Lüderwald. ainda que nas mesmas linhas. op. com uma irônica dedicatória ao Papa Clemente XIV. que tenta dar um esboço da vida filosófica e religiosa de Apolônio (Philosophiam Practicam Apollonii Tyanae in Sciagraphia – Memento sobre a Filosofia Prática de Apolônio de Tíana. 1709. este trabalho. 1779. e sobrevivem poucas cópias. pena. sob o título Vie d’Apollonius de Tyane par Philostrate avec les Commentaires donnés en Anglois par Charles Blount sur les deux Premiers Livres de Cette Ouvrage – A Vida de Apolônio de Tíana. As notas de Blount. com algumas Observações sobre os Platônicos da Última Escola. onde são dados os textos) e mesmo um século antes de Voltaire. S°. Bacon e Voltaire falam de Apolônio nos mais altos termos (Vide Legrand d’Aussy. suscitaram tamanha grita que o livro foi condenado em 1693. 213-254) e de Lüderwald (Anti-Hierocles oder Jesus Christus und Apollonius von Tyana in ihren grossen Ungleichheit – Contra Hiérocles. Domingos e Inácio de Loyola. 1793) são menos violentos. tr. Em meio a esta guerra sobre milagres no século XVIII é agradável assinalar o curto tratado de Herzog. 1680. uma preleção acadêmica de 20 pp. do francês. enquanto que os do Abade Houtteville (A Critical and Historical Discourse upon the Method of the Principal Authors who wrote for and against Christianity from its Biginning – Um Discurso Crítico e Histórico sobre os métodos dos Principais Autores que escreveram pró e contra o Cristianismo desde seus Primórdios. 1739. foi rapidamente suprimido. o Deísta inglês Charles Blount (The Two First Books of Philostratus concerning the Life of Apollonius Tyanaeus – Os Dois Primeiros Livros de Filóstrato a respeito da Vida de Apolônio de Tíana.B. editada por J. p. Apolônio de Tíana. Não obstante. Halle. A visão de Tillemont é que Apolônio foi enviado pelo Diabo para destruir a obra do Salvador) são ácidos ataques ao Filósofo de Tíana em defesa do monopólio Cristão dos milagres. et Ignatio Lojolæ tribuuntur Libellus – Libelo contra os Milagres atribuídos a Pitágoras. Paris. Londres. ii da Histoire des Empereurs – História dos Imperadores. Londres. 4 vols. e anexas a uma versão da Vita. Dominico. não houve seguidores de exemplo tão liberal neste século de contendas. ao emparelhar os milagres dos Jesuítas e de outras Ordens Monásticas aos de Apolônio.) mas. Francisco Asisio. 1702. geralmente atribuídas a Lord Herbert. 2ª ed. entretanto. Leipzig. de Lenain de Tillemont. apresentado por M. por Filóstrato. 314. Amsterdam. Apolloni Tyanensi. tr. com os Comentários feitos em Inglês por Charles Blount sobre os Primeiros Livros desta Obra. . Draci. assinada “Philaletes”) ergueu sua voz contra o opróbrio universal lançado contra o caráter do Tianeu. ou Jesus Cristo e Apolônio de Tíana em sua grande Desigualdade. 1720: à qual são acrescentadas Some Observations upon Apollonius . nos dias do Enciclopedismo. considerando-os todos espúrios e sustentando a autenticidade só dos de Jesus (Phileleutherius Helvetius. foram traduzidas para o francês um século mais tarde.Jo. do francês do Abade Houtteville. Londres. 1734). pp. As notas de Blount. do vol. segue uma linha algo distinta. entretanto. fol. ao qual é acrescentada uma Dessertation on the Life of Apollonius Tyanaeus.Relato da Vida de Apolônio de Tíana. no século XVIII.

enquanto proclama a falsidade do elemento milagroso na Vida. que só usa Apolônio como pretexto para uma dissertação sobre os milagres ortodoxos. v. em seu Prefácio. A visão de Baur foi largamente adotada por Zeller em sua Philosophie der Griechen (A Filosofia dos Gregos. Falando francamente. uma italiana (Lancetti). representando os destinos variáveis das escolas e partidos e não as verdadeiras histórias dos indivíduos. Nenhum mal sobrevirá à religião Cristã pela sua leitura. Baur. e foi acirrado pelo surgimento do Enciclopedismo e do racionalismo do período Revolucionário. e por Réville. mas em sua maior parte nos dá uma paráfrase antes que uma tradução e amiúde se engana no sentido. o autor. enquanto que Möckeberg. Noack também acompanha Baur. e o sol de um julgamento tranqüilo pode ser visto irrompendo por entre as névoas. A tradução do Rev. o problema não podia ser considerado calmamente neste período. e duas alemãs (Jacob e Baltzer) (Filóstrato é um autor difícil de traduzir. especialmente os compiladores de artigos enciclopédicos. que foi apenas um incidente (pois a taumaturgia é comum a todos os grandes instrutores e não exclusiva de Apolônio ou Jesus). 140). A Vida de Apolônio seria um destes escritos tendenciosos. A fim de tornar o resto de nosso sumário mais claro anexamos no fim deste ensaio os títulos das obras que apareceram desde o início do século XIX. Não que a controvérsia sobre os milagres cessasse mesmo no século passado. ainda que tente ser justo com Apolônio. Esta teoria Crística (levada por alguns extremistas ao ponto de negarem que Apolônio jamais tenha existido) esteve em grande voga entre escritores deste tema. que diz haver em alguns dos primeiros documentos da era Cristã (notavelmente os Atos canônicos) escritos tendenciosos de apenas escasso conteúdo histórico. termina sua prolixa dissertação com uma erupção de louvores ortodoxos a Jesus. pastor de S. de qualquer modo esta é uma posição mais tolerante do que a tradicional rinha milagreira. assim. Um relance nesta listagem mostrará que o último século produziu uma inglesa (Berwick). e os milagres são baseados naqueles atribuídos a Pitágoras. Berwick é a única versão inglesa. uma francesa (Chassang). Chassang e Baltzer o conseguiram muito bem. na Holanda. reviveu sob a grande autoridade de Baur. divorcia todo o assunto de seu ponto de vista histórico e atribui a Filóstrato um elaborado esquema do qual era inteiramente inocente. nada é digno de leitura. pois não há alusão à vida de Cristo nele. diz que o restante da obra merece atenção cuidadosa. Certamente este é um ponto de vista mais salutar do que o da controvérsia religiosa tradicional. e em alguma medida Pettersch.O mesmo quanto à literatura anterior sobre a matéria. Chassang e Baltzer são de longe as melhores traduções). não obstante. louvores . a qual. ainda que trabalhe o tema no terreno da filosofia. seu objetivo teria sido apresentar uma visão oposta ao Cristianismo e a favor da filosofia. Parte-se do falso terreno da controvérsia Hiérocles-Eusébio. em ordem cronológica. que novamente foi ressuscitada em toda sua antiga estreiteza por Newman. não obscureceu mais o horizonte todo. contudo. E. aos quais devota dezoito das vinte e cinco páginas de seu tratado. infelizmente. Berwick também vale a pena. Nicolai em Hamburgo.

e é bom podermos recorrer a obras que resgatam o assunto daquele obscurantismo teológico e o devolvem ao campo aberto da pesquisa histórica e crítica. A evolução da controvérsia taumatúrgica de Apolônio-Jesus para a batalha Jesus-contra-Apolônio e mesmo Cristo-contra-Anticristo. e são uma tentativa de imparcialidade histórica digna de louvor. Quanto ao algo pretensioso volume de Tredwell. não sobre milagres. Müller. e ainda olham. que apareceram bem no início do século passado. Os dois volumes do pensador independente Legrand d’Aussy. para a época. mas que parecem ser novos e surpreendentes para o autor. para toda essa acidez e disputa inútil sobre suas santas pessoas. mas no cumprimento da profecia (isto pelo menos devolveria Apolônio ao seu ambiente natural. que combate por um forte elemento de história como pano de fundo. é acessível ao grande público.NT). Baseamos nossos argumentos. decide que o relato de Filóstrato é puramente uma “fabularis narratio” (narração fabulosa . De todos os estudos anteriores. pela minha ignorância do dinamarquês. e é dado um mapa . com abundância de referências). que. que nega desde o começo a possibilidade do “milagre” em qualquer acepção desta palavra. quatro séculos atrás o problema de Apolônio teria sido considerado em seu ambiente histórico natural.que de modo nenhum criticamos. é largamente reacionário. Tivesse esta postura mais sensível sido retomada em vez da de Eusébio. Mas de longe a melhor análise das fontes é a de Jessen (Sou incapaz de oferecer qualquer opinião sobre o livro de Nielsen. entretanto. e é usado como uma fachada para uma crítica adversa das origens do Cristianismo de um ponto de vista Secularista. contou com a participação de ardentes campeões de um lado contra na melhor das hipóteses fracos protestos de outro. O estudo de Priaulx trata somente do episódio indiano e não tem valor crítico nenhum para a avaliação das fontes. são. diz Lactâncio. e muita tinta e papel teriam sido poupados. que são inteiramente irrelevantes. a opinião finalmente em parte recobrou seu equilíbrio. os trabalhos de Chassang e Baltzer são os mais inteligentes no geral. notavelmente livres de preconceito. mas que estão totalmente deslocados neste assunto. contudo. Com o progresso do método crítico. Por que a posteridade deveria colocar suas memórias uma contra a outra? Opuseram-se eles durante suas vidas? O fizeram seus biógrafos depois de suas mortes? Por que então a controvérsia não cessou com Eusébio? Pois Lactâncio admite francamente o ponto levantado por Hiérocles (para exemplificar que Hiérocles somente se referiu a Apolônio como um exemplo entre muitos) – que “milagres” não provam divindade. Quão tristemente Jesus e Apolônio devem ter olhado. mas a crítica ainda era jovem naquele período. mas encontra oposição consistente em I. É introduzida uma massa de dados numismáticos e outros bem conhecidos. ainda que não mergulhe completamente na matéria. sendo em inglês. mas mas ele tem todo o aspecto de um tratado cuidadoso e erudito. é um espetáculo penoso de contemplar. pois ambos escritores conhecem as possibilidades da ciência psíquica. e confinaria a questão da divindade de Jesus ao seu terreno Judeu-Cristão próprio). Kayser. ainda que em sua maior parte do ponto de vista precário dos fenômenos espíritas.

pretendendo indicar o itinerário de Apolônio.C. 1870. Domna não sendo uma abreviação de Domina. que é quase inencontrável. e tentaremos se possível descobrir alguns traços do homem histórico. na Síria.). e perfeitamente conhecedor da ciência da astrologia judiciária. mas que tem pouca relação com o texto de Filóstrato. em parte alguma Tredwell demonstra que está trabalhando sobre o próprio texto. não possuímos nada de valor em inglês para o leitor comum (O Pagan Christ – Cristo Pagão – de Réville é uma completa deformação do assunto. exceto o breve esboço de Sinnett. tinha um horóscopo régio [os itálicos são de Gibbon . raramente concedida ao seu sexo. que é descritivo antes que crítico ou explanatório. e a natureza de sua vida e obra.NA]. de Smith. Procurando uma segunda. então. Na verdade. os encantos da beleza. 327 b.NA]. ele solicitou e obteve sua mão. Ele era um no círculo de escritores famosos e pensadores que se formou em torno da Imperatriz filósofa (η θιλοιφος. Londres. mesmo em idade avançada [morreu em 217 d. nas suas mãos. era um distinguido homem de letras que viveu no último quartel do século II e na primeira metade do século III (c. escreve: “Como a maioria dos africanos. (sendo este seu nome). iii. Julia Domna [mais corretamente Domna Julia. em seu esboço de Severo e sua famosa consorte. Severo era apaixonadamente dedicado aos vãos estudos da magia e divinação. desejou ligar-se somente a alguma favorita da fortuna. Tudo isso é lamentável. e o assunto. manteve seu domínio sobre a mente do homem. no Dicionário de Biografias Gregas e Latinas.antes da página de título. mas no reinado de seu filho. e tão logo descobriu que uma jovem dama de Emesa. vide o artigo Filóstrato. VI. é somente uma desculpa para uma divagante dissertação sobre o século I sob o seu próprio ponto de vista. 175 – 245 d.) Julia Domna. que foi o espírito dirigente do Império durante os reinados de seu marido Septímio Severo e seu filho Caracala. O BIÓGRAFO DE APOLÔNIO Flávio Filóstrato. eram uma paixão. a respeito da história da opinião sobre Apolônio. unidos a uma imaginação brilhante. Ele perdeu sua primeira esposa enquanto era governador da Gália Lionesa. Assim o cético Gibbon. Todos os três membros da família imperial eram estudantes da ciência oculta. Suas cativantes qualidades nunca fizeram qualquer impressão profunda na sombria e ciumenta têmpera do marido [outros historiadores sustentam o contrário . que em quase todas as eras exceto a presente. Ela possuía. É o que temos. e o tratamento de Newman sobre a matéria transforma seu tratado em um anacronismo para o século XX). boas ou más. o escritor da única Vida de Apolônio que chegou até nós (consistindo de oito livros escritos em grego sob o título geral Τα ες τον Τυανεα Απολλωνιον).C.NA]. e era eminentemente uma época em que as artes ocultas. mereceu tudo o que os astros poderiam lhe prometer. agora passaremos ao Apolônio de Filóstrato. mas sim o nome sírio da Imperatriz . pois com a exceção da tradução de Berwick. ela administrou os principais negócios do Império com uma prudência que avalizava a autoridade dele. profundamente versado na interpretação dos sonhos e augúrios.NA]. e com uma moderação que às vezes corrigia as . .

Isto prova a grande fama que Apolônio desfrutava logo depois de seu desaparecimento da história.C. 20). e mesmo sendo um entusiástico admirador de Pitágoras e sua escola. e com a mais esplêndida reputação. Vemos assim.. Julia dedicou-se às letras e à filosofia com algum sucesso. Tornou-se um discípulo de Apolônio e registrou suas viagens. mas ele era um sofista antes que um filósofo.). mesmo a partir da apreciação algo mordaz de Gibbon.NA] contendo estas memórias. e um iniciado nos Mistérios de Elêusis – NA]. vi). Que Filóstrato era o melhor homem a ser encarregado de tão importante tarefa. que até então não eram conhecidas. Damis foi um homem de alguma educação que antes costumava viver na antiga cidade de Ninus [Nínive – NA]. antes que uma exposição da coisa em si desde dentro. e também as concepções. Informações mais detalhadas eu procurei do seguinte modo. Decline and Fall. que era uma amante e patrona de todas as produções literárias. Deve ser notado que Adriano era um governante esclarecido. tabuletas de escrever. portanto. era uma ardorosa colecionadora de livros de todas as partes do mundo.. – Declínio e Queda do Império Romano. ainda que Filóstrato mais adiante assegure sua natureza detalhada (i. nas quais ele diz que também tomou parte.. não há dúvida. É verdade que ele era um habilidoso estilista e versado homem de letras. Isto sugere que o relato de Damis não poderia ser muito volumoso. Como eu era um do círculo da princesa. e foi ela quem o proveu da base de certos manuscritos que estavam em sua posse. pois a bela filha de Bassiano. e em parte de suas próprias cartas [uma coleção destas cartas – mas não de todas – esteve em posse do Imperador Adriano (117 – 138 d. um grande viajante. sacerdote do Sol em Emesa. Abaixo damos uma listagem das fontes de onde derivaram suas informações a respeito de Apolônio (uso inteiramente as edições do texto de Kayser de 1846 e 1870): “Coletei meu material em parte das cidades que o amaram. cujos atos externos dão evidência de um propósito interior. I. considerando-os mais através de uma adorável e maravilhosa atmosfera de curiosidade e dos embelezamentos de uma imaginação vivaz do que de um conhecimento pessoal de sua disciplina. ela me ordenou que reescrevesse . e foi depositada em seu palácio de Âncio (viii. ou de um conhecimento prático das forças ocultas da alma com que lidavam seus adeptos. ditos e predições de seu mestre. o era à distância.selvagens extravagâncias dele. como podemos ver por seus outros livros. especialmente de manuscritos de filósofos e de memorandos e notas biográficas relacionadas aos estudantes famosos da natureza interna das coisas. um amante da religião. em parte dos templos cujos ritos e regras ele restaurou de seu antigo estado de negligência. e a amiga de todos os homens de gênio” (Gibbon. Foi a seu pedido que Filóstrato escreveu a Vida de Apolônio. e enquanto sua memória ainda era viva. um crítico de arte e aficcionado antiqüário. Ela era a patrona de todas as artes. Um membro da família de Damis trouxe à Imperatriz Julia seu livro de notas [τας δελτους. que Domna Julia era uma mulher de caráter notável. 19) . e cuja vida privada não foi descrita. que esperar um esboço da aparência de uma coisa desde fora. Temos.

Naquela época e por muito tempo depois a Índia era considerada “o fim do mundo”. é casualmente mencionada por Orígenes. 31). 41. e uma infinidade das mais estranhas “histórias de viajantes” e fábulas mitológicas estavam em circulação a seu respeito. fontes que infelizmente já não existem. temos de estar constantemente em guarda para distinguir as fontes originais das glosas do escritor (raramente temos uma indicação tão clara como. O termo υποφεαζων ocorre só nesta passagem. Bombaim. 1846. Londres. vi. Bonn. 1877. ele nos conta que ele próprio viajou para muitas partes do “mundo” e em toda parte deparou-se com os “ditos inspirados” (λογοις δαιμονιος) de Apolônio. Megasthenis Indica – A índia.Schwanbeck. sobre a Babilônia. 373 – NA] sobre Apolônio. exceto talvez umas poucas cartas. 1841. Só temos que ler os relatos dos escritores sobre a Índia (vide E. pois é transparentemente óbvio que Filóstrato “embelezou” consideravelmente a narrativa com numerosas notas e acréscimos próprios e com a composição de diálogos. Tampouco Filóstrato poupou quaisquer esforços para reunir mais informações sobre o assunto. 25: “O que segue é o que eu fui capaz de saber. e tutor de Apolônio . famoso por sua eloqüência. A estas fontes é que Filóstrato deve sua informação. de Merágenes. e J. Ancient India as described by Ktesias – A Ìndia descrita por Ktésias. pois em suas palavras finais (viii. Ancient India as described by Megásthenes e Arrian – A Índia descrita por Megástenes e Arriano. Também tive acesso a um livro de Máximo de Egue [um dos secretários imperiais da época..NA]. por exemplo. Lommatzsch. Mas mesmo então a tarefa do historiador seria incompleta. 1882. pois o ninivita expressou-se claramente. pois ele não sabe nada sobre a maioria dos fatos de sua vida” (i. deve levar em conta todos estes fatores.3). que continha todos os feitos de Apolônio em Egue [uma cidade não longe de Tarso – NA]. e que ele conhecia especialmente bem o templo dedicado à memória de nosso filósofo de Tíana e fundado às expensas imperiais (“pois os imperadores não o julgaram indigno de honras semelhantes às devidas a eles mesmos”). 1885. e The Invasion of India by Alexander the Great – A Invasão da . 1879. presume-se.W.A. tinham reunido toda informação que podiam a respeito de Apolônio. ed. Uma análise inteiramente crítica do esforço de Filóstrato. 2. ou destacavam-nas de um modo nítido. cujos sacerdotes. Já que os antigos escritores não separavam suas notas do texto. Calcutá. mas seu estilo estava longe de ser correto. Também há um testamento escrito por Apolônio. e não estou bem seguro de seu significado – NA]. Berlin. Quanto aos quatro livros de Merágenes [esta Vida. e tentar assignar todas as declarações às suas fontes originais.”). Especialmente este é o caso na descrição das viagens de Apolônio à Índia.. De fato Filóstrato está sempre tirando partido da menção de um nome ou tema para demonstrar seu próprio conhecimento. The Commerce and Navigation of the Erythraean Sea – O Comércio e Navegação do Mar Eritreu.estes esboços e melhorasse sua forma de expressão. Ancient India as described by Ptolemy – A Ìndia descrita por Ptolomeu. ii. o qual é freqüentemente de uma natureza altamente legendária e fantástica.McCrindle. Contra Celsum. em i. portanto. Londres. por Megástenes. onde podemos conhecer como ele quase desdenha a filosofia ως υποφεαζων την φσλοσφιαν εγενετο. não merecem atenção.

da maneira de caçá-las que é descrita por Damis”). Londres. Só poucos pontos são dados doravante. mas ele livremente acrescenta a informação de que ninguém poderia dizer de que material elas eram feitas! Uma consulta a Megástenes.Índia por Alexandre o Grande. e iluminados com o melhor pensamento da época. ainda que o escritor tenha preparado notas sobre todos estes pontos. como repulsivo. e tudo na antigüidade que trata da religião de um modo diverso do Judeu ou do Cristão. deveríamos estar em guarda da mesma maneira contra o julgamento de tudo a partir do ponto de vista dos preconceitos modernos. 41 – iii. falando sobre a Índia ou qualquer outro país pouco conhecido. era moda inserir diálogos e colocá-los na boca de personagens bem conhecidos em ocasiões históricas. E assim foi. e este foi o caso especialmente em um esforço retórico como o de Filóstrato. vide. 1896) do tempo de Alexandre em diante para descobrirmos a fonte dos mais estranhos incidentes que Filóstrato registra como experiências de Apolônio. um escritor de então tinha de nutrir-se de todas estas lendas associadas ou teria pouca chance de se fazer ouvir. são relatados com reverência. Mas ainda que devamos estar agudamente atentos para a importância de uma atitude inteiramente crítica onde fatos históricos definidos estão envolvidos. se Apolônio cruzou o Cáucaso. Tivesse um julgamento benevolente sido concedido em toda a volta. e dos Apóstolos. é sentido como estranho. e é a Judeu-Cristã. Tinha de dar à sua narrativa uma “cor local”. como todas as crianças têm aprendido durante séculos. Não só isso. Poro (talvez um título. de Juba. Mas nos alongaríamos demais se entrássemos em uma investigação detalhada do assunto. contar o que eu tenho a dizer sobre o assunto das serpentes. pois isso daria um volume inteiro e não um esboço. 1893. Os ditos e feitos dos profetas Judeus. era o legendário rei da Índia. A julgar por estes escritores. ii. um nome genérico para o grande sistema de montanhas que guardam o limite norte de Âryâvarta. pois página após página é pura invenção. na qual não é feita nenhuma tentativa de entender seus pontos de vista. retirada das numerosas histórias indianas às quais nosso ilustrado escritor tinha acesso (um outro bom exemplo é encontrado na discussão sobre os elefantes que Filóstrato toma da História da Líbia. 58) para um âmbito bem mais estreito. Portanto. se obscuro ou extraordinário. Filóstrato faz isso repetidamente. Além disso. deve ter visto aquelas correntes. ou de Jesus. enquanto que os ditos e feitos de outros profetas e instrutores têm sido em sua maior parte sujeitos à crítica mais antipática. onde ele diz: “Deixe-me. o mundo hoje seria muito mais rico em . Prometeu foi acorrentado ao Cáucaso. 17. Há somente uma literatura da antigüidade que foi tratada sempre com real simpatia no ocidente. Para tomarmos apenas um exemplo dentre centenas. conforme nos assegura Filóstrato (ii.3). De fato. só nela as pessoas foram treinadas para se sentirem à vontade. contudo. para alertar o estudante para que esteja sempre atento e separe Filóstrato de suas fontes (não que Filóstrato de algum modo dissimule seus embelezamentos. embelezados com as maiores formosuras de fraseado. o rajá vencido por Alexandre. logo reduz a longa narrativa de Filóstrato sobre as viagens indianas de Apolônio (i. ou o Rei de Purus). ii. e. Apolônio tinha de cruzar o Cáucaso. 13 e 16). e bons exemplos disto podem ser vistos em Tucídides e no Ato dos Apóstolos. por exemplo. porém.

e enfim. recuperar o perfil da primeira vida exterior e das viagens de Apolônio. de modo que eventualmente enfim ela possa ver o todo. mas a mudança de nome e de ponto de vista entre os homens afeta muito pouco os fatos imutáveis. Numa idade precoce deu sinais de memória prodigiosa e disposição estudiosa. preciosos. VII. Mas até que consigamos nos colocar compreensivamente no lugar de outros. ele estava em casa em todas as terras. e não com os de um Judeu ou um Protestante. e era notável por sua beleza. e então tentemos considerar a natureza de sua missão. livre dos embelezamentos de Filóstrato. em compreensão da natureza. 4). Sentir os fatos da religião universal debaixo dos nomes sempre em mudança que os homens lhes atribuem. possa unificarse a Deus. ao lermos a Vida de Apolônio. O Múltiplo em sua própria esfera deve ser para nós uma manifestação tão autêntica do Divino como o Um ou o Todo. uma cidade no sul da Capadócia. ou figurar um sonho alado de beleza quando pronunciar a palavra “anjo”. olhando para a vida de todos os ângulos possíveis.entendimento. primeiramente. Portanto. em experiência da alma. e então penetrar plenamente simpáticos e compreensivos nas esperanças e temores de cada fase da mentalidade religiosa – ler. em resumo. Tais homens são raros. jamais veremos mais que um lado da Infinita Vida de Deus. não deve imaginar um sátiro quando lê a palavra “daimon”. e tendo visto o todo. e têm a mesma natureza de todas as lendas de nascimento de grandes personagens). ou horrorizar-se quando encontra o “dualismo”. ele não deve se intimidar quando depara-se com o “politeísmo”. PRIMEIROS ANOS Apolônio nasceu em Tíana (lendas das maravilhas que ocorreram no seu nascimento estavam em circulação. se possível. Seus pais eram de antiga linhagem e considerável fortuna (i. em algum momento dos primeiros anos da era Cristã. Para Apolônio a mera forma da fé de um homem não era o essencial. da humanidade e de Deus. e não requerem nenhum embelezamento retórico. pois de fato os “Deuses” existem a despeito da lei e do credo. entre todos os cultos. Um estudante de religião comparada não deve temer os nomes. Para ele a heresia e a ortodoxia não devem existir. Os Santos e Mártires e Anjos aparentemente têm tomado o lugar dos Heróis e Daimons e Deuses. e um conhecimento íntimo do caminho particular de cada um. em liberalidade de mente. ele vê apenas sua própria alma lentamente elaborando sua própria experiência. o modo de sua vida interior. talvez. os registros de tais homens. é uma tarefa das mais difíceis. Tentemos então. as vidas passadas de nossas próprias almas. um afamado centro de . ou sentir uma satisfação maior quando chega no “monoteísmo”. lembremos que devemos encará-la com os olhos de um Grego. ele não deve assombrar-se quando pronuncia o nome de Javé e desprezar o nome de Zeus. a feição da filosofia que ele tanto amava e que para ele era sua religião. o que lhe possibilitava devolvê-los à saúde. Tinha uma palavra de auxílio para todos. Com a idade de 14 anos foi enviado a Tarso.

. que Apolônio dividiria com seu irmão mais velho. e reverberava de um extremo a outro ao som dos elevados discursos filosóficos. pois então distribuiu o restante de seu patrimônio entre alguns parentes. Peripatética e Epicurista. dizia. precisava de pouco. fosse apenas um repetidor das doutrinas e não um praticante da disciplina. Lá encontrou um ambiente mais adequado às suas necessidades. ou seu “daimon”). mesmo que seu professor. a “memória” dentro dele. seu tutor então. deixou seu cabelo crescer livremente. e jamais casaria (i. para completar sua instrução. Daí em diante ele recusou tocar qualquer coisa que tivesse tido vida animal. levantado por algum Grande” (Sci. Tornou-se íntimo de sacerdotes do templo de Esculápio. presumivelmente ele foi encorajado em seus esforços por aqueles auxiliares invisíveis do templo através de quem as curas eram indicadas através de sonhos. voltou a Tíana para tentar salvar seu irmão de sua vida viciosa. De fato parece ter devotado este tempo para colocar em ordem os assuntos da família. isto é. levaram-no adiante. e ele logo passou a Egue. Quando Euxeno perguntou-lhe como ele iniciaria seu novo modo de vida ele respondeu: “Como o doutor purga seus pacientes”. Euxeno.. pois mesmo sendo feito de frutas. Seu irmão aparentemente já havia dissipado sua parte da herança. Não obstante ele reteve sua afeição pelo homem que lhe mostrara o caminho. deixando considerável fortuna. e com dezesseis anos “ele elevou-se à vida Pitagórica. e desfrutou da sociedade e instrução de discípulos e instrutores das escolas de filosofia Platônica. foram as lições da escola Pitagórica que ele absorveu com uma extrordinária profundeza de compreensão (αρρητω τινι σοφια ενελαβε). Mas tal repetição não era o suficiente para o espírito ávido de Apolônio. um jovem selvagem e dissoluto de 23 anos. e recompensou-o generosamente (i. e mergulhou com ardor no estudo da filosofia. e através de seus conselhos gentis devolveu-o à humanidade. 8). 13). e vestia-se somente com tecidos de linho. onde curas ainda eram realizadas. Apolônio continuou a morar em Egue. que infundiu vida nas secas lições de seu tutor. e ajuda era dada de modo psíquico e mesmérico) e rapidamente se tornou tão famoso por seu ascetismo e vida pia. mas mesmo tendo estudado estes sistemas de pensamento com atenção. andava descalço. sua “memória” extraordinária. uma cidade no litoral a leste de Tarso. que uma frase dos cilícios sobre ele (“Para onde estão correndo? Apressam-se para ver o jovem?”) se tornou um provérbio (i. Mais ainda. e “destruía a compostura da mente”. para a admiração dos sacerdotes e com a aprovação expressa de Esculápio (isto é. Chegando à maioridade. “tornava o éter túrbido [presumivelmente a substância mental – NA] na alma”. 7). Também se abstinha do vinho. Mas mera retórica e estilo e a vida das “escolas” eram pouco afins ao seu espírito sério. Com a idade de vinte anos seu pai morreu (sua mãe havia morrido alguns anos antes). Ele considerava que a única forma de alimentação pura era a produzida pela terra: frutas e vegetais.estudos daquele tempo. e Apolônio imediatamente deu metade de sua própria parte para ele. mantendo para si apenas uma mínima parte. Sendo ainda menor. Agora vivia no templo. considerando que isso densifica a mente e a torna impura. Estóica. onde o templo de Esculápio havia se tornado um movimentado centro de estudos.

encontramos Apolônio em Antióquia. e toda a proteção que tinha contra suas insolências e mal-entendidos era a dignidade de seu semblante e o olhar de seus olhos que agora podiam ver o passado e o futuro. Muitas vezes esteve a ponto de imprecar contra algum excepcional insulto ou falatório mentiroso. cuja natureza ele só transmitia a quem passasse a disciplina dos “quatro anos” (cinco anos?) de silêncio. Mesmo esta férrea repressão da fala comum não o impedia de fazer o bem. sempre observava uma divisão regular do dia. Depois dos cinco anos de silêncio. que nesta época acolhia numerosas comunidades místicas. e é provável que Filóstrato saliente Antióquia meramente porque o pouco que sabia sobre este período da vida de Apolônio havia conseguido nesta movimentada cidade. e não povo” (φησας ουκ ανφρπν εαυτω δειν αλλ ανδρων). que franqueava-lhe as portas de sua hospitalidade. pois o tema de sua conversação. até que começam as notas de Damis. 14). requeria “homens. e tudo o que Filóstrato pôde produzir foram dois breves capítulos de vagas generalidades (i. e não as populosas e agitadas cidades. 38) que Apolônio havia passado algum tempo entre os Árabes. fica quieta” (compare com a Odisséia. em Aspendo. na Panfília. de onde podemos concluir que havia entre eles algo semelhante a um tipo de maçonaria comum. e havia sido instruído por eles. 18) (i. 20. mas isto parece ter sido apenas um incidente em uma longa série de viagens e trabalho. língua. ou talvez só até a época em que Apolônio deixou Egue. sê paciente. pois determinou-se que não escreveria sobre filosofia antes de ter passado por toda sua disciplina. dizia. conforme estava em um templo grego ou não-grego com ritos . e o populacho amante do chiste fez o silencioso filósofo o alvo de sua verve inescrupulosa. da natureza de uma iniciação. Então palestrava com os sacerdotes do templo ou os líderes das comunidades. que Apolônio ainda era um homem jovem quando iniciou sua viagem à Índia. Sua estranha aparência chamava a atenção de todos. Mesmo do próprio Filóstrato sabemos incidentalmente mais adiante (i. mas manteve-se em movimento nas proximidades e viajava de cidade em cidade. santuários e comunidades. xx. E por Arábia entendemos o sul da Palestina. Ao nascer do sol praticava certos exercícios religiosos sozinho. não emparedou-se numa comunidade ou mosteiro.Então fez um voto de silêncio por cinco anos. 15). aparentemente. Com olhos e mãos e movimentos da cabeça. e tu. e em uma ocasião. Mas as dificuldades da maior parte da cronologia são insuperáveis). iv. Filóstrato depende do relato de Máximo de Egue. e ainda que passasse muito tempo em estudo. As tentações de quebrar seu voto auto-imposto foram enormes. 17) sobre cerca de 15 ou 20 anos (sou inclinado a pensar. Agora há uma lacuna considerável na narrativa. em vez de ter já 46 anos. evitou um grave furto de grãos silenciando a turba com seus gestos imperiosos e então escrevendo o que queria dizer sobre uma tabuleta (i. Já nesta idade juvenil ele havia começado a corrigir abusos. Estes cinco anos foram passados na Panfília e na Cilícia. onde reinava o espírito da solitude. Os locais que visitou eram fora das rotas. Ele passou o tempo viajando de um a outro destes templos. Mas onde quer que fosse. como alguns supõem. contudo. Até aqui. fazia-se entender. mas sempre se conteve com as palavras: “Coração. 16.

a manhã era devotada por Apolônio à ciência divina. 70. VIII. como alguns têm afirmado. ou em uma comunidade com uma disciplina peculiar à parte do culto público (ιδιοτοπα). pois os que viviam a vida interior (τους ουτω φιλοσοφουντας). Pois eu mesmo devo ir onde quer que a sabedoria e meu eu interior me levarem. os Brâmanes e Budistas. e descobrir até que ponto ele foi admitido na verdadeira confiança de Apolônio. sarman é a corruptela grega do sânscrito shramana e do páli samano. presumivelmente. p. diz o peregrino solitário. Depois do trabalho do dia ele se banhava em água fria. “Já que sois fracos de coração”. relíquia da uma vez grande Nina ou Nínive. que Apolônio jamais viajou meramente por amor da viagem. era seu costume invariável ensiná-lo. O que induziu nosso filósofo a fazer tão longa e perigosa jornada não é esclarecido por Filóstrato. 18). Apolônio determinou-se a visitar os Brachmanes e Sarmanes (isto é.C.). passar algum tempo em meditação silenciosa). Então tentava trazer os cultos públicos de volta à pureza de suas tradições antigas. “tu seguindo Deus e eu a ti!” (i. data as viagens indianas em 41-54 d. O que ele faz. Tredwell. à instrução em ética e na vida prática. que se torna seu companheiro constante e fiel discípulo. A ignorância dos copistas mudou sarmanes primeiro para germanes e depois para hircanianos!). “Depois destas coisas”. e que já olhavam Apolônio como um instrutor do caminho oculto. e não entre 40 e 50.públicos. E seus guias nesta ocasião. como assevera a seus discípulos que tentavam dissuadí-lo de seu projeto e recusaram acompanhá-lo. estando sempre pronto para responder suas perguntas e dar conselhos e instrução. “Vamos juntos”. deveriam ao raiar do dia entrar na presença dos Deuses (isto é. A parte mais importante de seu trabalho era com aqueles que estavam seguindo a vida interna. 19) Deste ponto em diante Filóstrato declara basear-se em grande medida na narrativa de Damis. notavelmente os Essênios e os Terapeutas (i. foram a sabedoria e seu orientador interno (daimon). é necessário tentarmos formar uma imagem do caráter de Damis. É mais que evidente. Os Deuses são meus conselheiros e não posso fiar-me senão em suas direções” (i. o termo técnico para um asceta ou monge Budista. A estes camaradas (εταιρους) e discípulos (ομιλητας). contudo. AS VIAGENS DE APOLÔNIO E assim Apolônio parte de Antióquia e viaja para Ninus. 16). diz Damis em palavras que nos lembram algo das de Rute. ele dizia. diz Filóstrato. e a tarde. Não que nisso negligenciasse o povo. e então passar o tempo até o meio-dia dando e recebendo instrução nas coisas santas. Lá encontra com Damis. . Isto é. como faziam tantos místicos da época naquelas terras. e só depois devotar-se aos afazeres humanos. “dou-vos meu adeus. faz com um propósito específico. que diz simplesmente que Apolônio imaginou ser uma boa coisa para um jovem viajar (isto mostra que Apolônio ainda era jovem. tão vagamente como o escritor de uma narrativa evangélica. e sugerir melhoramentos nas práticas das irmandades privadas. e antes de prosseguirmos. devotava muita atenção.

13. a Ìndia foi atingida provavelmente através do Passo Khaibar (ii. ele precisa ver com seus próprios olhos a remoção sobrenatural das correntes que prendiam Apolônio para convencer-se de que ele era uma vítima voluntária. 15. mas que jamais pôde entender. ou Meru. 19). agarra um detalhe irrelevante e o amplifica. Apolônio foi um dos maiores viajantes conhecidos da antigüidade. ainda restaria um esqueleto de fatos que representariam Apolônio e nos dariam uma idéia de sua estatura. se alguma confirmação é necessária. 19) Apolônio passa para Babilônia (i. v. onde estava o grande monte Meros. o discípulo favorito de Buda e seu companheiro constante. realmente ele adquire um tom mais sóbrio. De Ninus (i. 10. se a chance aparece. 6) (aqui de qualquer forma eles vislumbram as gigantescas montanhas do Imaus. possuidor de poderes maravilhosos que continuamente o assombravam. 28). À medida que a história avança. O nome do Olimpo hindu. a capital da Média (i. 39). enquanto que ele freqüentemente professa sua ignorância dos planos e propósitos de seu mestre (vide especialmente iii. De qualquer maneira. mas o que Damis omite. não só isso. pois não podemos supor que as notas de Damis sejam algo semelhante a um registro completo dos numerosos itinerários. Ele via em seu mestre um ser quase divino. ou Himavat. enquanto que pode falar das coisas realmente importantes só o que ele fantasia ter ocorrido a partir de poucas sugestões de Apolônio. 41. mas somos tentados a crer que todas as viagens em que Damis não tomou parte estão omitidas). confirmará isso. Dentre os países e lugares que visitou os que se seguem são os principais que foram registrados por Filóstrato (a lista está repleta de lacunas. desde o tempo . 223). mesmo que tivéssemos o escalpelo da crítica para cortar fora cada pedaço de carne deste corpo de tradição e lenda. 15. ou Cordilheira do Himalaia. onde permanece um ano e oito meses (i. e que ele sem dúvida geralmente compreendia mal e revestia com suas próprias fantasias. 40). e mesmo perto do fim. Damis ama e se maravilha. Um outro fato que sobressai na narrativa é sua natureza tímida (vide especialmente vii. Ele teme constantemente por si e por seu mestre. Mas de fato é claramente manifesto em toda parte que Damis estava fora do círculo da iniciação. 21). 14. 10. 13. O fato adicional que ele inscreve em suas notas como as “migalhas” (εκφατνισματα) das “festas dos Deuses” (i. quando Apolônio é preso por Domiciano. de Babilônia até a fronteira da Índia nenhum nome é mencionado.Damis era um entusiasta que amava Apolônio com um afeto apaixonado. Damis avançou só lentamente na compreensão da real natureza da ciência espiritual. vii. e visita as cidades vizinhas de Ecbatana. mudado para Meros em grego. aqueles festejos que ele na maior parte das vezes podia conhecer só de segunda mão pelo pouco que Apolônio julgava conveniente lhe contar. ele tinha sempre de ficar nos recintos externos dos templos e comunidades a cujos santuários e círculos internos Apolônio tinha pleno acesso. viii. 5. e isso explica tanto seu amor pelas maravilhas quanto sua superficialidade geral. Filóstrato está sempre pronto para suprir com seu próprio estoque de prodígios. Como Ânanda.

da expedição de Alexandre. e então a Jônia (iii. 1). 18).C. Chipre. pois eles vivem em um τυρσις. 34) e depois em Roma no tempo de Nero (iv. 50). e antes dele as maravilhosas transformações que o próprio Damis fez nos nomes indianos. especialmente em Éfeso (iv. Nero emitiu um decreto proibindo qualquer filósofo de permanecer em Roma. 20). e desembarcou em Gades. é presumivelmente demonstrado por esta palavra. induziram Damis a imaginar que só eles fossem os “Gimnosofistas”. Apolônio foi à Índia com um propósito e voltou de lá com uma missão diferente (referindo-se aos seus instrutores ele diz: “Sempre me lembro de meus mestres e viajo por todo o mundo ensinando o que aprendi deles”. e assim seguem caminho através dos tributários do Indo (ii. Mas voltemos ao nosso itinerário. 13). Este mosteiro provavelmente se localizava no Nepal. 36-46). A seguir o encontramos em Creta (iv. 25). 5). 9). a . impressionou tanto a imaginação de Filóstrato (e provavelmente a de Damis antes dele) que ele a descreveu como sendo a única em seu gênero na Índia. 10). e talvez suas incessantes indagações a respeito daqueles “sábios” que ele procurava. vi. que ignorantemente atribuía a todos os ascetas hindus as mais extraordinárias peculiaridades que na verdade pertenciam só a um reduzido grupo. e assim novamente voltamos à Babilônia e à geografia familiar seguindo este itinerário: Babilônia. 52-58) com as lendas de viajantes e nomes de ilhas e cidades que ele apanhou nos livros de histórias da Índia que lhe eram acessíveis. 5). perde-se ele “nos confins da Terra”. o nome genérico do vale do Ganges onde os árias dominantes se estabeleceram. é tudo o que Damis pôde fazer com Bharata. onde Apolônio passa quatro meses (iii. e subseqüentemente embarca para Atenas. Tenho poucas dúvidas que Filóstrato não poderia conceber nada da geografia da Índia a partir dos nomes no diário de Damis. e finalmente chegam ao “mosteiro dos sábios” (iii. deu margem ao mito de que Baco nascera da coxa – meros . Antióquia. 43) até o vale do Ganges (iii. o que era seu objetivo específico. 11. Pérgamo (iv. é nas montanhas. Também é provável que estes sábios fossem Budistas. Filóstrato embeleza o relato da viagem do Indo até a foz do Eufrates (iii. um lugar que a Damis parecia um forte ou fortaleza. de modo que tão logo esgota os poucos nomes gregos conhecidos por ele a partir dos relatos da expedição de Alexandre. 58). Daí Apolônio cruza para Lesbos (iv. visitando os templos da Hélade. todos lhe são desconhecidos. pois a primeira cidade que é mencionada é Taxila (Attock) (ii. talvez. Em 66 d. reformando seus ritos e instruindo os sacerdotes (iv. Esmirna (iv. O fato saliente de que Apolônio estava estabelecendo uma certa comunidade. Ninus. os “filósofos nus” (se formos tomar a palavra ao pé da letra) da popular lenda grega. e a “cidade” mais próxima é Paraca.de Zeus – presumivelmente um dos fatos que levaram o Prof. e Tróia (iv. 17-33). e Apolônio mudou-se para a Espanha. onde ele passa um tempo na Ásia Menor. Paraca. Selêucia. e nada pode fazer até que encontre novamente nossos viajantes já a caminho de volta na embocadura do Indo. onde passa alguns anos na Grécia (iv. O caos que Filóstrato fez da história de Damis. Max Müller a estigmatizar toda a mitologia como uma “doença da linguagem”).

ou temos um registro muito imperfeito de seus feitos na Ásia Menor. depois para Rodes e então para Alexandria (v. e também à Itália (vi. que Filóstrato só pode preencher com umas poucas histórias vagas e generalidades. 21). e outros mesmo com 100 anos. e assim como Apolônio se opôs às loucuras de Nero. de 79 a 81. . mas alguns. novamente Apolônio voltou à Grécia (viii. mas em vez de permanecer longe de Roma. Em seu retorno a Alexandria (vi.. visitando Esmirna e Èfeso e outros de seus lugares favoritos. daí cruzou para a África. Grécia. e tem vários encontros com o futuro Imperador Vespasiano (v. Com isso naturalmente ele se tornou objeto de suspeita para o Imperador. 10). ele empreendeu uma outra viagem até o lugar amado acima de todos. digamos em torno dos 30 anos. e daí para Roma (vii. cilícios. e um dos últimos atos registrados de Apolônio é sua visão deste evento no momento de sua ocorrência. Mas se ainda era jovem. e temos um intervalo de 12 anos desde sua entrevista com Tito em 81. alguns com 90. Mas Vespasiano foi imperador de 69 a 79. Então sob algum pretexto ele envia Damis para Roma (viii. 15). navegou pelo caminho da Sicília até Puteoli. 24). Em 81 Domiciano tornou-se Imperador. tendo transcorrido quatro anos desde sua chegada em Atenas a partir de Lesbos (v. e então até a boca do Tibre. 35). 28) e – desaparece. e então empreende uma longa viagem Nilo acima até a Etiópia. 19) (de acordo com alguns. se podemos especular.moderna Cádiz. Embarcando de Puteoli. 27-41). e Tito. Em Alexandria ele passa algum tempo. igualmente criticou os atos de Domiciano. ele foi convidado por Tito. acrescenta. recém coroado Imperador. 24). 28). 1-27). 47). jônios. Apolônio estaria então com 68 anos de idade. ele então deve ter passado um longo período naquele país. 10-16). e por mar de novo à Sicília. Ali Apolônio foi preso e liberado (vii 17-viii. Então uma vez mais passou para a Jônia na época da morte de Domiciano (viii. 11-14). Sobre sua idade na época de seu misterioso desaparecimento das páginas da história. Itália e Espanha. além das cataratas. isto é. parece ter ficado na Espanha só um curto período (iv. dizem que ele estava com 80. e que portanto a narração de Damis é das mais imperfeitas. depois de seu regresso). para encontrá-lo em Tarso. Mas Domiciano foi morto em 96 d. onde passou dois anos (viii. aqueus. Fillóstrato diz que Damis não fala nada. é razoável concluir que um número de anos foi gasto por nosso filósofo nesta viagem à Etiópia. 25). Depois deste encontro ele parece ter retornado ao Egito. quando partiu para a Índia. a “terra dos sábios”. 18).C. Portanto o julgamento de Apolônio em Roma teve lugar em torno de 93. Como a entrevista com Vespasiano ocorreu logo antes do início do reinado daquele imperador. Então Apolônio voltou à Grécia (v. Do Pireu nosso filósofo embarca para Quios (v. Cruzando do Egito para a Grécia e tomando um barco em Corinto. e sobre visitas aos fenícios. ele determinou-se enfrentar o tirano face a face. onde visitou as principais cidades e templos (v. onde ele visita uma interessante comunidade de ascetas chamados vagamente de Gimnosofistas (vi. pois Filóstrato fala vagamente de ele ter passado algum tempo no Baixo Egito.

pois naqueles dias era o costume invariável traçar uma nítida linha de demarcação entre o interno e o externo. de . Somos logo apresentados a uma atmosfera carregada de influências psíquicas. e instrução na ciência interna. não obstante.A estimativa de 80 anos parece concordar melhor com o resto das indicações cronológicas. de qualquer modo. IX. mas não há certeza no assunto com os materiais de que dispomos hoje. onde Apolônio passou os anos mais impressionáveis de sua vida. da vida de Apolônio. onde toda a medicina é dita depender do diagnóstico psíquico e da presciência (μαντεια). o perfil geográfico. Os muitos casos registrados em nossos dias de pacientes em transe ou em outras condições psíquicas receitando para si mesmos. sem dúvida. Este é. então passavam a noite no santuário e em seu sono eram-lhes dadas instruções para a sua cura. 44). era-lhes necessário passar por certas purificações preliminares e seguir certas regras prescritas pelos sacerdotes. onde a arte curativa era praticada em linhas totalmente diferentes dos nossos métodos de hoje. Agora voltaremos nossa atenção a um ou dois pontos de interesse ligados aos templos e comunidades que ele visitou. ele deve ter encontrado lá satisfação para suas necessidades espirituais. por assim dizer. ainda que sem dúvida seus próprios poderes inatos logo o levassem para além de seus instrutores e o assinalassem como um “favorito do Deus”. Também é evidente que como Apolônio amava passar seu tempo no templo. Mais tarde o chefe dos sábios indianos faz um discurso sobre Esculápio e sua arte curativa (iii. só era empregado quando a habilidade do sacerdote era insuficiente. e mesmo o mais displicente leitor deste esqueleto descarnado das jornadas registradas por Filóstrato deve ficar impressionado com a indômita energia do homem. e seu poder de perseverança. não devemos esperar que possamos saber do relato de Damis e Filóstrato qualquer coisa exceto meras exterioridades. a um centro onde durante séculos os pacientes acorreram para “consultar o Deus”. o iniciado e o profano. era um dos inúmeros hospitais da Grécia. os sacerdotes deviam ser profundamente versados na interpretação daqueles sonhos e em sua causa básica. NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS E RETIROS RELIGIOSOS Percebendo que a natureza dos negócios de Apolônio com os sacerdotes dos templos e os devotos da vida mística era necessariamente do caráter mais íntimo e secreto. precisamente como ainda hoje é feito em países Católicos Romanos (para o mais recente estudo sobre Esculápio em inglês vide The Cult of Asclepios. pois. mesmo estas indicações externas são interessantes. A fim de fazê-lo. Este método. Finalmente pode ser percebido que era costume invariável dos pacientes recordar o fato de sua recuperação com uma tabuleta de ex-voto no templo. ajudarão o estudante a entender as inumeráveis possibilidades de cura que na Grécia coroavam-se na personificação de Esculápio. O templo de Esculápio em Egue.

e portanto são independentes do relato de Damis neste particular) e pronunciou . Os “Deuses” que ensinaram nossa humanidade infante [eram] mais elevados que os que hoje evoluem em nossa Terra. que os Magos chamavam de “Línguas dos Deuses”. têm pouco a ver com o verdadeiro mosteiro de seus ascéticos habitantes. Ele costumava visitá-los ao meio-dia e à meia-noite. a que Apolônio tinha acesso. II). Seus protótipos são descritos imperfeitamente na Visão de Ezequiel. nem mesmo para Damis. Em sua viagem à Índia Apolônio viu muitos Magos na Babilônia. Os videntes captaram obscuros vislumbres do que eles ensinaram e como o fizeram. 15 e vi. quando os filhos da Terra se tornaram crescidos o suficiente para andarem com seus próprios pés. Damis parece ter misturado memórias e fragmentos de rumores sem qualquer esforço para distinguir uma comunidade ou seita de outra. O assunto é do mais vivo interesse. e em ambas Filóstrato acrescenta que Apolônio as escreveu (isto demonstra que Filóstrato deparouse com elas em algum escrito ou carta de Apolônio. mas desesperadamente impossível de ser trabalhado em nossa presente era de ceticismo e profunda ignorância do passado. e possuindo nada exceto o que todos possuem”. que eram o objetivo da longa jornada de Apolônio. O telhado era em forma de cúpula. e as assim chamadas strophali ou spherulae Hecatinas usadas em práticas mágicas podem ter sido descendentes degeneradas destas “rodas vivas” ou esferas dos elementos vitais. e. neste céu azul havia modelos dos corpos celestes (“aqueles que eles consideram Deuses”). A descrição de certo edifício. mas o que transpirava disto Damis não sabia. parece ser uma versão deturpada do interior do templo. seguindo seu invariável costume em tais circunstâncias. em Cornell Studies in Classical Philology – Estudos da Universidade de Cornell sobre Filologia Clássica. Eram anéis ou esferas aladas relacionadas à idéia de Adrasteia (ou Destino). Além disso do teto estavam suspensos quatro “lygges” de ouro. Eles deram o impulso. não contou para ninguém.Alice Walton. entretanto. mas não em todas as coisas” (i. e mesmo assim sem defesa alguma.D. exceto o que poderia derivar da enigmática sentença: “Vi homens morando na Terra e ainda assim sem estar nela. revestidos de ouro. contudo. Do que Apolônio ouviu e viu lá. defesos de todos os lados. Ph. como se se movessem no éter. e a tradição dos Mistérios preservou alguma coisa disso em seus símbolos e instrumentos ou maquinismos. e ao responder à sua pergunta direta diria somente: “Eles são sábios. eles se retiraram. 1894). As confusas memórias de Damis (ele evidentemente compilou as notas das viagens indianas muito tempo depois de elas terem acontecido). Estas palavras ocorrem em duas passagens (iii. e o forro do teto era coberto de “safiras”. Mas a memória de seus feitos e uma forma corrompida e degenerada dos mistérios que estabeleceram permaneceu sempre na lembrança do mito e da lenda. pois Apolônio não teria permitido acompanhá-lo. 26). NY. A respeito dos sábios indianos é impossível tecer qualquer história consistente a partir da fantástica confusão do romance de Damis-Filóstrato. Ithaca. produzindo assim uma pintura borrada que Filóstrato nos passa como uma imagem do “monte” e uma descrição dos “sábios”. As lygges dos Magos diz-se que eram uma relíquia desta memória. n° III.

os cabelos longamente crescidos. ou antes às lendas de viajantes. contudo. como a marca de casta na testa do mensageiro (iii. não. algo como os raios que Zeus segura. se eu não tiver bebido da taça de Tântalo em vão”. Isto também apontaria para uma comunidade Budista. e então ele recorre a todas as memórias de Damis. pois suas mentes estavam estabelecidas nas coisas do alto. antes. Mas esta explicação não é suficientemente simples para Filóstrato. arχa(t)s. o uso de bastões (de bambu) (danda). além de Filóstrato e Damis. A violência feita sobre todos os nomes estrangeiros pelos gregos é notória. e se isto é um fato autêntico. e o uso de turbantes (iii. O líder da comunidade é chamado de Iarchas. que o “mar” e a “taça de Tântalo” são idênticos à “sabedoria” que foi concedida a Apolônio – a sabedoria que ele uma vez mais traria de volta à memória dos gregos. II). Ele assim assume claramente que voltava da Índia com uma missão específica e com os meios de levá-la a cabo. Eles estavam na Terra. Mas na verdade toda a narrativa é confusa demais para permitir alguma esperança de extrairmos detalhes históricos. podem revelar o passado e o futuro. um nome totalmente não indiano. Eles sabem o que se passa à distância. o símbolo presentemente degenerado do “bastão de poder”. e ler as vidas passadas dos homens. 17). mas não pertenciam a ela. dos quais temos tantos exemplos na literatura indiana. pois não apenas ele de seus lábios tinha bebido do oceano da sabedoria no qual aprendeu a Brahma-vidyâ. Sobre a natureza da visita de Apolônio. era a . É evidente. ainda que devamos confessar que outras indicações apontam de modo igualmente forte para costumes Brâmanes. Estas coisas eu trarei de volta à mente dos gregos. O mensageiro enviado para encontrar Apolônio carregava o que Damis chama de uma âncora dourada (iii. podemos julgar a partir da misteriosa carta a seus hospedeiros: “Eu vim a vós por terra e vós me destes o mar. mas também aprendeu como conversar com eles estando seu corpo da Grécia e o deles na Índia. sobre levitação. Eram protegidos pelos seus poderes espirituais inatos.enigmaticamente. por estas sentenças crípticas. Mas um significado assim tão óbvio – óbvio pelo menos para todo estudante da natureza oculta – estava além do entendimento de Damis ou da compreensão de Filóstrato. E também sem dúvida é a menção à “taça de Tãntalo” (Tântalo é descrito na fábula como tendo roubado a taça do néctar dos deuses. O sentido desta frase não é difícil de adivinhar. sugeriria um predecessor do dorje tibetano. 7. Eu sugeriria que o nome talvez seja uma corruptela de Arhat (I-Âryas. e aqui temos que levar em conta um exército de copistas ignorantes. 13). e ainda não possuíam nada exceto o que todos os homens possuiriam. A ênfase principal da narrativa de Damis recai no conhecimento psíquico e espiritual dos sábios. arhat). dividindo comigo vossa sabedoria vós me concedestes o poder de viajar pelos céus. e conversarei convosco como se estivésseis presentes. se apenas desenvolvessem o lado espiritual de seus seres. ilusões mágicas e etc.

Apolônio passou algum tempo ali e instruiu os sacerdotes integralmente a respeito de seus ritos sagrados. entretanto. nos contam. e sua conexão com as fontes místicas de Baco. O que tudo isso significa é difícil de dizer com um Damis e um Filóstrato como intérpretes entre nós e o silente e enigmático Apolônio. 3). qual seja. A maior peculiaridade exterior do culto pafiano da Venus era a representação da deusa por um misterioso símbolo de pedra. Apolônio restaurou a estátua de acordo. 32. aquela de eles “não possuírem nada exceto o que todos possuem” – que. Damis usa isso para “explicar” a última frase de Apolônio sobre os sábios. em tempos de remota antigüidade. Ao retornar à Grécia. certamente não podem ser mudadas para μηδεν κεκτημενος τα παντων εχειν. Mas isto seria um tópico de escasso interesse. Mas como. contudo. Palámedes foi um dos heróis perante Tróia. p. de onde depois constituiu-se a Cilícia. 58). foram trazidos do continente. Seus mistérios eram muito antigos. 13). a vida pudesse fluir mais saudavelmente no corpo da nação. Em Tróia. 13).amrita dos indianos. para que. Não transpira o motivo de ele ter feito isso. II). o oceano da imortalidade e sabedoria) nesta carta o que sugere o eternamente adorável episódio da taça em iii. sem praticar uma violência contra seu significado). antigamente um dos locais popularmente mais sagrados da Grécia (iv. em Chipre (iii. sendo os canais tradicionais liberados. e Filóstrato nos diz que a viu com seus próprios olhos no local (iv. somente é claro com a superfície polida. aparece em outro ponto de outra forma. Aparentemente Pafos era o mais antigo santuário dedicado a Venus na Grécia. eles têm as posses de todos os homens” (iii. e deu instruções no método correto a adotar a fim de procurar-se resultados confiáveis através dos sonhos prescritivos. Parece ter tido o tamanho de uma pessoa. podemos supor que isso formou parte de seu grande esforço para restaurar e purificar a antiga instituição da Hélade. curou muitos doentes lá. ii. Life of Apollonius. mas com a forma de uma pinha. se não houvesse mais menção a Palámedes em outro lugar da narrativa de Filóstrato. e que a lenda diz ter sido o inventor das letras. 15) (as palavras ουδεν κεκτημενος ν τα παντων. que Filóstrato cita duas vezes assim. Historia. Na Ásia Menor ele apreciava especialmente o templo de Esculápio em Pérgamo. ou quem completou o alfabeto de Cadmo (Berwick. Apolônio logo depois visitou a Tessália expressamente para incitar os tessálios a renovar os antigos ritos tradicionais ao herói (iv. mas não autóctones.) . O culto ou consulta à Deusa se fazia através de preces e da “pura labareda do fogo” e o templo era um grande centro divinatório (vide Tácito. pois a fantástica conversa com a sombra do herói contada por Filóstrato parece desprovida de todo elemento de verossimilhança. Também há o rumor de que Aquiles teria dito a Apolônio onde encontrar a estátua do herói Palámedes na costa da Eólia. um dos primeiros santuários que Apolônio visitou foi o de Afrodite de Pafos. como “não possuindo nada. Apolônio passou uma noite sozinho junto ao túmulo de Aquiles. 200 n.

de duas sentenças obscuras (iv. e que este jovem tinha sido ninguém senão Palámedes em uma de suas vidas pregressas. parece ter havido uma razão mais direta. se apresentasse ele mesmo à iniciação. de acordo com a ciência do mundo invisível na qual Apolônio havia sido iniciado. e a despeito dos festivais e ritos não só o povo mas também os candidatos acorreram para ele. Mas de acordo com este princípio. Aqui também lhe foi concedido o privilégio de entrar no santuário interno ou adytum (iv. 13. pelo menos o leitor Católico Romano pode ser induzido a suspender seu julgamento trocando “herói” por “santo”. que Iarchas havia um dia indicado um jovem asceta que podia “escrever sem nunca ter aprendido as letras”. e não um desconhecido asceta hindu. os Eleusinia constituíam uma das organizações intermediárias entre os cultos populares e os genuínos círculos internos de instrução. De qualquer modo. Eles preservavam uma das tradições do caminho interior. originalmente sobre as relíquias do Buda. era . Apolônio restaurou os ritos a Aquiles. pareceria. portanto. 14). Apolônio censurou-os. para Apolônio ficar tão ansioso por restaurar sua estátua? Nada disso. naturalmente. ainda que Homero quase não o mencione. O Tianeu chegou em Atenas na temporada dos Mistérios Eleusinos.Agora. 23). ou para usá-los para seus fins originais. mesmo se seus oficiais naquela época houvessem esquecido o que seus predecessores conheciam. percebemos que nosso filósofo via Palámedes como o herói-filósofo do período Troiano. negligenciando suas obrigações religiosas. Foi esta a razão. Para restaurar estes antigos ritos à sua pureza. que em dias antigos havia sido um grande centro de profecia e divinação. de acordo com a superstição popular. esperaríamos descobrir que foi o próprio Apolônio. e ele mesmo cumpriu os ritos preliminares necessários e apresentou-se para a iniciação. ainda guardavam uma relação com a Grécia. que já havia sido iniciado em privilégios maiores do que Elêusis poderia proporcionar. Sem dúvida o cético dirá: “Claro! Pitágoras era uma reencarnação do herói Eufórbio que lutou em Tróia. pois. e à preservação subseqüente de relíquias de arhats e grandes instrutores? Em Lesbos Apolônio visitou o antigo templo dos mistérios Órficos. que ele estava no mosteiro. quem uma vez foi Palámedes. para sermos consistentes. Mas as razões não precisam ser procuradas longe. então. 33). E se o cético Protestante não pode viver com isto. Os heróis do período Troiano. Pode ser possível que a atenção que Apolônio deu às tumbas e monumentos funerários dos poderosos mortos da Grécia pode ter sido inspirada pelo círculo de idéias que conduziram à ereção de inumeráveis dâgobas e stûpas nas terras Budistas. Talvez possa surpreender o leitor ouvir que Apolônio. Damis pensou que Apolônio encontrara Palámedes na Índia. e ergueu uma capela na qual colocou a estátua desprezada de Palámedes (ele também construiu um recinto em torno do túmulo de Leônidas em Termópilas (iv. o jovem indiano era a reencarnação do herói Palámedes! Uma lenda simplesmente engendra a outra”.

ele louvou especialmente a instituição dos Jogos Olímpicos. baseado na alegação de que ele era um feiticeiro (γσης). replicou. Quando entrava nos adyta destes templos com o intuito de “restaurar” os ritos. que presidia quando Apolônio foi iniciado quatro anos mais tarde (iv. foi instruir. 18. não podemos pensar senão que parte de sua obra era a reconsagração. atemorizado diante da indignação do povo excitado pelo insulto feito ao seu ilustre convidado. e. e com isso a purificação psíquica. 29). a seus exercícios atléticos. e assombrado pela presença de um conhecimento que ele já não podia negar. . 21. e certos discípulos imediatos (γνωριμοι). “Eu serei iniciado mais tarde”.necessário entrar nos recintos da instituição. Esta acusação era verdadeira. e à disciplina da antiga tradição dórica (iv. eu vim aqui simulando desejar a iniciação de homens de maior sabedoria que eu”. 27. não que ele tivesse algo a ganhar pessoalmente. e Apolônio desejava apoiar a instituição dando o exemplo público de procurar a iniciação ali. sua vida frugal. ele recusou admitir nosso filósofo. têm todos a peculiaridade de serem muito antigos. Delfi. A esta acusação Apolônio respondeu com velada ironia: “Vós omitistes a mais séria acusação que poderia ser lançada contra mim: isto é. ou fosse ciumento da grande influência de Apolônio. 31-34). Diz-se que se referia ao próximo hierofante. vide ii. v. de muitos destes centros antigos. enquanto que reconvocou o antigo Conselho Anfictiônico ao seu dever (iv. “taças de suas palavras foram colocadas em todas as partes para o sedento delas beber” (iv. era acompanhado somente pelos sacerdotes. como Filóstrato retoricamente parafraseia. 24). Mas não somente nosso filósofo restaurou os ritos antigos da religião. Seu principal trabalho externo. e quando lemos em outras partes sobre os muitos locais consagrados por Apolônio. mencionados por Filóstrato. Dodona. na Fócida. Enquanto em Atenas. que Apolônio visitou na Grécia. Mas fosse o hierofante da época simplesmente ignorante. as “grutas” de Anfiarau (um grande centro de divinação através de sonhos. Os templos. 23). 5). 22). Mas Apolônio recusou. nada poderia ser feito de fora. o hierofante implorou para nosso filósofo aceitar a iniciação. também prestou muita atenção às antigas constituições e instruções. acima de tudo. e o templo das Musas no Helicão. contudo. A coisa em si era boa. 37) e Trofônio. e corrigiu os abusos da assembléia Pan-jônica (iv. Estarrecido por estas palavras. por exemplo. ele havia sido dissimulado. Assim o encontramos instando os espartanos a retornarem ao seu antigo modo de vida. 19). “ele me iniciará”. Apolônio falou asperamente contra a afeminação das Bacanálias e as barbaridades dos combates de gladiadores (iv. e que ninguém que estivesse poluído pelo intercurso com entidades malignas (δαιμσνια) poderia ser iniciado. o antigo santuário de Apolo de Abe. que embora eu de fato conheça mais dos ritos místicos do que seu hierofante. cujo elevado padrão ainda era mantido (iv. Isto sugere uma ampliação do significado do termo “restauração” ou “reforma”.

e em todo lugar havia um intercâmbio de conselhos e instrução nas coisas sagradas (v. “para reformar a religião dos egípcios?” – somente para deparar-se com a resposta confiante de Apolônio: “Qualquer sábio que venha da parte dos indianos”..Na primavera de 66 d. 26). Tentou reformar muitos abusos nos modos dos alexandritas. Apolônio parece ter passado a maior parte dos vinte anos restantes de sua vida no Egito. a caminho de Rodes. cujas ruínas haviam sido recém descobertas para uma geração cética.C. mas por Filóstrato não podemos saber nada do que ele fez nos secretos santuários daquela terra de mistério. Mas sua permanência na cidade imperial foi bruscamente interrompida. OS GIMNOSOFISTAS DO ALTO EGITO Agora chegamos à visita de Apolônio aos “Gimnosofistas” na “Etiópia”. e tanto Telesino (vii. Sua presença no templo (de Serápis?) inspirou respeito universal. fazendo seu quartel-general no templo de Hércules em Cádiz. que freqüentemente acabava com efusão de sangue (v. Em Roma Apolônio continuou seu trabalho de reformar os templos. toda Creta visita Lêbene”). O sumo-sacerdote do templo considerou com orgulhoso desdém: “Quem é sábio o suficiente”. um dos cônsules para o ano de 66 d. pois em outubro Nero coroou sua perseguição dos filósofos publicando contra eles um decreto de banimento de Roma. 43) X.C. Retornando à Grécia via África e Sicília (onde passou algum tempo e visitou Etna). Apolônio opôs-se ao sacrifício sangrento. 25). pela oferenda de incenso modelado na forma da vítima (v.?) em Elêusis. mas sobre nenhum deles foi mais severo do que sobre sua selvática excitação com as corridas de cavalos. a qual. vivendo no templo. onde passou algum tempo. II) quanto Apolônio tiveram de deixar a Itália. como em toda parte. mais provavelmente porque (é lícito especular) uma vez foi centro de sacrifícios humanos. e na primavera do ano seguinte embarcou para Alexandria. e assim pertencia a um dos antigos cultos da mão esquerda. A seguir o encontramos na Espanha. onde parece ter passado a maior parte de seu tempo nos santuários do Monte Ida e no templo de Esculápio em Lêbene (“pois como toda a Ásia visita Pérgamo. ele deixou a Grécia indo a Creta. e com a aprovação do Pontífice Máximo Telesino. e tentou substituí-lo. como o fizera noutros lugares. ele passou o inverno (de 67 d. A cidade da filosofia e do ecletismo por excelência recebeu-o de braços abertos como a um velho amigo. Aqui. tudo sobre ele e cada palavra que pronunciava parecia emanar uma atmosfera de sabedoria e de “algo divino”.. Mas reformar os cultos públicos do Egito foi um trabalho muito mais difícil do que qualquer outro que ele tentou antes. exceto que na prolongada jornada até a Etiópia Nilo acima nenhuma cidade ou templo ou comunidade deixou de ser visitado.C. que também era um filósofo e um profundo estudioso da religião (iv. 40). mesmo com o sucesso artístico e literário consumado na descrição de . mas mui curiosamente recusou-se a visitar o famoso Labirinto em Cnossos. perguntou irônico.

quando um homem é dito estar trabalhando “nu”. É verdade que Filo tenta fazer que a mais pia e mais importante de todas as comunidades fosse a sua comunidade particular na margem sul do Lago Meris. Todos eram separados uns dos outros. 6). usualmente significa vestido levemente. Mas disso ele não diz uma palavra. A peculiaridade e maior interesse de nossa comunidade. santuários ou celas (pois eles não possuíam nem cabanas nem casas. 16) (A palavra γυμνος. Havia pouco . que estas comunidades fossem todas da mesma natureza. ou “mercado de pensamentos”. e nu eu procurei os Nus” (iv. isto significa que está só com uma roupa. teria angariado a gratidão ilimitada dos estudantes das suas origens. Quem eram. presumivelmente cavernas. no sentido de um lugar para meditação. e de onde veio este nome? Damis os chama simplesmente de “Nus” (γυμχοι). Uma frase casual que sai dos lábios de um destes ascetas. Tivesse Filóstrato dedicado um capítulo ou dois à natureza das práticas. e dispostos engenhosamente. porém. as quais ele declara serem muito numerosas em todas as províncias do Egito e disseminadas por todas as regiões. A comunidade é chamada φροντιστηριον.Filóstrato da viagem de Apolônio ao Egito. e para Filo qualquer comunidade com uma atmosfera Judia deveria naturalmente ser a melhor. e isto é evidente pela comparação feita entre o costume dos Gimnosofistas e o do povo de Atenas na estação quente (vi. era a de que ela tinha alguma ligação remota com a Índia. estes misteriosos “Gimnosofistas”. disciplina e doutrinas das inumeráveis comunidades ascéticas e místicas que abundavam no Egito e adjacências naqueles dias. por exemplo. pois. Mas em tudo é muito aparente que Damis foi mais só um companheiro de viagem do que um discípulo iniciado. porém. estava situado em uma colina ou ponto elevado não longe do Nilo. como. “Com a idade de 14 anos”. mas mesmo assim ele quer-nos fazer crer que as reminiscências de Damis eram uma série ordenada de notas do que realmente ocorreu. de fato. mas viviam ao ar livre). Não vamos supor. ele diz a Apolônio. que em As Nuves chama a escola de Sócrates de phrontistêrion. que era fortemente Semítica senão ortodoxamente Judia. como são usualmente chamados. um termo usado por escritores eclesiásticos para significar um monastério. espalhados pela colina. dá-nos uma pista para o sentido verdadeiro do termo. mas é melhor conhecido dos estudantes clássicos pelo uso humorístico feito por Aristófanes. “eu doei meu patrimônio àqueles que desejam estas coisas. é somente um incidente na história verdadeira da vida não registrada de nosso misterioso filósofo naquela antiga região. e é muito claro que o termo não deve ser entendido meramente como desnudos fisicamente. nem aos indianos nem a estes ascetas do Alto Egito podemos aplicar com propriedade este termo em seu significado puramente físico. nus. O conjunto de monasteria (ιερα). ao narrar a história de sua vida. como transparece das descrições de Damis e Filóstrato. que estava na outra extremidade da Terra acima das cataratas. Este é o mesmo sentido que Filo emprega a respeito das comunidades Terapêuticas.

uma agulha de verdade talvez possa ser descoberta. além de indicações gerais de uma existência de grande dureza e penúria física. o que parecia ter sido esquecido. O último incidente que Filóstrato registra sobre Apolônio entre os santuários e templos é uma visita ao famoso e antiqüíssimo oráculo de Trofônio. Foi seu pai quem lhe contou que estes “etíopes” vieram da Índia. 16). e algumas delas podem ter sido antigamente Budistas. sob cuja sombra eles faziam suas reuniões gerais (vi. Este livro. É difícil tirar dos diálogos. Toda a inclinação dos argumentos de Apolônio. pois um dos membros mais jovens da nossa comunidade que a abandonou para seguir Apolônio diz que juntou-se a ela por causa da entusiástica narração sobre a sabedoria dos indianos feita por seu pai. exceto que ao meio-dia os Nus se retiravam para seus monasteria (vi. Tais especulações são permissíveis. e se é assim devem ter pertencido à única forma de religião indiana que empregava a propaganda. 19. 14). perto de Lebadéia. que presumivelmente foram supridas por gerações de egípcios. 18-22). postos nas bocas do líder da comunidade e de Apolônio (vi. A “gruta” parece ter sido um antigo templo ou santuário. que eles consideravam o único meio de obter sabedoria. 6). e retornou com um livro cheio de perguntas e respostas sobre o tema “filosofia” (viii. 10-13. a saber. No palheiro de falatório lendário solenemente transcrito por Filóstrato a respeito da gruta de Trofônio. As comunidades deste tipo particular no sul do Egito e norte da Etiópia remontavam presumivelmente a alguns séculos. se tinham algum. com a exceção de um único grupo de palmeiras. 29). e assim no decurso do tempo esqueceram sua origem. as comunidades. contudo. talvez mesmo uma relíquia daquela Grécia de milhares de anos antes de Cristo. Se há alguma verdade nesta história segue-se que os fundadores deste modo de vida foram ascetas indianos. 19).mais que uma árvore no local. qualquer detalhe preciso sobre o modo de vida destes ascetas. O que era a natureza de seus cultos. Diz-se que Apolônio passou sete dias sozinho nesta misteriosa “caverna”. provavelmente foram deixadas inteiramente por sua própria conta. e muitas pessoas costumavam visitar Âncio com o propósito específico de vê-lo (viii. devido à repetida afirmação de uma conexão original entre estes Gimnosofistas e a Índia. é lembrar a comunidade de sua origem oriental e sua ligação primeira com a Índia. na Beócia. cortado no coração de uma colina. ainda estava no palácio de Adriano em Âncio. Toda a ênfase da história é que eles eram indianos que esqueceram sua origem e afastaram-se da sabedoria. e talvez até mesmo sua regra original. Provavelmente em tempos antigos tinha sido um dos mais sagrados centros do culto arcaico da Hélade. e assim ele juntou-se a eles em vez de fazer a longa e perigosa jornada até o próprio Indo (vi. no tempo de Filóstrato. ao qual uma quantidade de passagens subterrâneas de considerável extensão conduziam. árabes e etíopes. o Budismo. não nos é dito. Após dado o impulso. que tinha como certo a existência de um comércio marítimo com o oriente. juntamente com um grupo de cartas de Apolônio. cuja única .

Receber dinheiro para dar instrução na ciência sagrada ou para desempenhar ritos sagrados era o mais detestável dos crimes para todos os verdadeiros filósofos. Pode talvez nos surpreender que Apolônio. pois a parte mais importante e mais interessante da obra de Apolônio era de natureza tão íntima. No caso das viagens de Apolônio. e que em toda parte lhe era livremente oferecida a hospitalidade do templo ou comunidade do local onde calhava de ele estar. foi obtida por Sólon dos sacerdotes de Saís. Filóstrato é um cicerone dos mais frustrantes. e foi o honrado hóspede do Rajá Indiano “Fraotes”). Do mesmo modo que Apolônio em suas viagens conversou sobre filosofia. nos dizem. mas também tomou uma parte decisiva. é só quando Apolônio se adianta para executar algum ato público que podemos obter algum traço histórico preciso dele. pudesse empreender viagens tão longas e caras. que só em torno de 1901 foi trazida à luz pelo trabalho infatigável de Messrs. como Platão nos fala. Rei da Babilônia. na influência dos destinos do Império através das pessoas de seus governantes supremos. e em seu pânico haviam depositado grandes somas de dinheiro nas mãos destes aventureiros (que “negociavam sobre o infortúnio alheio”). viii.reminiscência. Esta influência. era invariavelmente de natureza moral e não política. também . em todos os outros casos ele passa para dentro do santuário de um templo ou penetra na privacidade de uma comunidade e é perdido de vista. a fim de que executassem ritos propiciatórios (vi. mas parece que ele ocasionalmente era provido dos fundos necessários pelos tesouros dos templos (cf. executada como foi entre associações cujo caráter secreto era tão ciosamente guardado. e discursou sobre a vida de um homem sábio e sobre os deveres de um governante sábio com reis (ele passou. Portanto. contudo. Mas talvez ele não deva ser censurado por isto. Estas cidades haviam sofrido severamente com terremotos. governantes e magistrados. depois de sacrificar sua fortuna pessoal. Era levada a cabo através de conversas e instrução filosóficas. pela palavra falada ou escrita. Ou pode ter sido um santuário subterrâneo da mesma natureza da afamada gruta Dictéia de Creta. não menos de um ano e oito meses com Vardan. 17). que ninguém fora de seus membros poderia saber nada dela. APOLÔNIO E OS GOVERNANTES DO IMPÉRIO Mas não só Apolônio vivificou e reconsagrou os antigos centros religiosos por algum motivo inescrutável. e fez o que pôde para ajudar a vida religiosa do seu tempo em suas múltiplas formas. embora indireta. podemos mencionar o bom serviço feito por Apolônio afastando certos charlatães caldeus e egípcios que estavam capitalizando os temores das cidades da margem esquerda do Helesponto. e aqueles que vinham a saber pela iniciação não diriam nada. como no caso das comunidades e templos que ele visitou. Evans e Hogarth. Concluindo a presente parte de nosso assunto. XI. 41).

Nerva era um bom homem. ele escreveu. disse ao Imperador. e não um traidor. Daí em diante. que parecia ser nada menos que a ab-rogação da liberdade de consciência por uma tirania irresponsável. e lembre-se de Vindex” (v. ele acreditava que o governo por um monarca era o melhor para o Império. 41). Na verdade. e tinha restringido sua atenção inteiramente à reforma da religião e à restauração das antigas instituições das nações. um filósofo de perfil muito diverso. Tito e Nerva eram todos. o Governador da Gália.C. antes de sua elevação à púrpura. Ele conjetura isso a partir de três dias de entrevistas secretas de Apolônio com o Governador da Província da Bética. mas toda a vida e caráter de Apolônio são opostos a qualquer idéia de intriga política. “Vós reduzistes um povo livre à escravidão” (v. ainda que confesse sua inteira ignorância do propósito da viagem de Apolônio à Espanha depois de sua expulsão de Roma. Damis.. amigos e admiradores de Apolônio. que teria posto um fim na monarquia e restaurado a república (v. Durante a breve estada de Apolônio em Roma. ele não pôde ser indiciado por nada de natureza política. mas desejava acima de tudo ver “o rebanho da humanidade” conduzido por “um pastor sábio e fiel” (v. abriu completamente seus olhos para um mal mais imediato. em sua última carta a seu filho Tito.tentou aconselhar para seu bem aqueles imperadores que se dispunham a ouví-lo. 35). Aparentemente até esta época Apolônio estava trabalhando para o futuro. presume que tenha sido para apoiar a iminente revolta contra Nero. 10). imediatamente censurou-o pessoalmente quando ele privou as cidades gregas de seus privilégios. em 66 d. De igual modo ele viajou a Roma para encontrar Domiciano face a face. Não que Domiciano tivesse realmente alguma . “Vós escravizastes a Grécia”. portanto. o infame favorito de Nero. De qualquer maneira. Vespasiano. confessou que eles eram o que eram exclusivamente por virtude do bom conselho de Apolônio (v. enquanto que Nero e Domiciano olhavam o filósofo com temor. ao contrário. mesmo que nem uma só palavra lhe houvesse escapado que pudesse ser transformada em um pronunciamento traidor pelos numerosos informantes. que veio a Cádiz especialmente para vê-lo. não obstante ele foi trazido perante Tigelino. e declara que as últimas palavras do visitante de Apolônio foram: “Adeus. Ele se opunha à idéia de Eufrates. encontramo-lo vivamente interessado nas pessoas dos imperadores seguintes. a despeito de sua censura. 30). ele bravamente contestou a tirania e a injustiça face a face. mas a tirânica conduta de Nero. De modo que embora Apolônio tenha apoiado Vespasiano enquanto ele tentou realizar dignamente seu ideal. Vespasiano. e mesmo que tenha sido posto em julgamento e todos os esforços tenham sido feitos para prová-lo culpado de complot traidor com Nerva. que não deu paz nem mesmo ao mais inatacável dos filósofos. É verdade que quase imediatamente depois irrompeu a revolta de Vindex. e submetido a um cerrado interrogatório cruzado. 33).

A religião. “Mas eu entendo-os todos. que assim podia falar como alguém que tinha autoridade. no templo de Egue. Ainda jovem. Para ele o espetáculo das coisas eram aparências sempre mutantes. de visão à distância e visão do passado. ele foi também um filósofo no sentido Pitagórico original do termo – um conhecedor dos segredos da Natureza. ainda que obscuramente. – o credo dos Miraculistas. religiões e crenças. 12). e é um vestígio de superstição hoje. mas previu. para ele a senda da filosofia era uma vida por onde o próprio homem se tornava um instrumento do conhecimento. Apolônio deu sinais da posse dos rudimentos desta percepção psíquica. tais estreitas limitações não eram para nosso filósofo. Ao encontrar Damis. Ele conhecia o lado oculto das coisas da Natureza por experiência e não por ouvir dizer. não era somente uma fé. e que ele imaginava que tinham consultado Apolônio sobre suas chances de sucesso. Os negócios de Apolônio não eram com a política. O PROFETA E TAUMATURGO Agora voltaremos nossa atenção por um breve momento àquele lado da vida de Apolônio que o tornou objeto de invencível preconceito. ele o colocou na prisão somente na esperança de que poderia induzir o filósofo a revelar as confidências de Nerva e outros homens eminentes que lhe eram objetos de suspeita. Pois ainda que muitos acreditem que seja possível para a alma efetuar uma multidão de coisas além das possibilidades de uma ciência que está confinada inteiramente à investigação das forças físicas. 43). no sentido de ser um especulador teórico ou de ser o seguidor de um modo de vida organizado escolado na disciplina da renúncia. para Apolônio. considerando o espírito correto que jazia por trás deles. era um termo desconhecido da antigüidade. A maioria dos registros de taumaturgia de Apolônio são casos de profecias ou previsão. APOLÔNIO. Acima de todos os outros ele deve ter rido ante a palavra “milagre” aplicada aos seu feitos. não só sentiu corretamente a natureza do passado sombrio de um rico mas indigno suplicante que desejava a restauração de sua visão. mesmo que jamais tenha- . o de ver ou ouvir durante uma visão. seu futuro fiel criado ofereceu seus serviços para a longa jornada à Índia considerando que conhecia as línguas dos diversos países por onde teriam que passar. “Milagre”. de curar os casos de obsessão ou possessão. em seu sentido teológico Cristão. O Tianeu não via diferenças de raça ou credo. mas com “os príncipes que lhe pediam conselho sobre a virtude” (vi.suspeita de que Apolônio estivesse pessoalmente intrigando contra ele. ninguém além daquele que não pensa acredita que pode haver alguma interferência na operação das leis que a Deidade imprimiu na Natureza. XII. era uma ciência. Apolônio não foi somente um filósofo. cultos e ritos. o mau fim de um que havia atentado contra sua inocência (i. para ele eram todos um só.

As mais numerosas das maravilhas atribuídas a Apolônio são exemplos precisamente de tal presciência ou profecia (vide i. ele tem (de acordo com a filosofia mística mais elevada da antiga Grécia). Com estas artes ele não tinha nenhuma relação. pois eu conheço até o que eles não nunca dizem” (i. Mas Damis e Filóstrato não podiam entender um fato tão simples da experiência psíquica. não só porque sabia o que tinha de ser feito. Mas para os estudantes das escolas Pitagórica e Platônica o “daimon” de um homem era aquilo que podia ser chamado o Eu Superior. vii. 19). e quando sua consciência física é unificada com o “morador do céu”. v. e acrescentou: “Não vos admireis que eu saiba as línguas dos homens. 34. 32. e o homem vivente se torna um Deus na Terra. mas este é o caso usual neste tipo de profecia. Em sua conversa com o monarca babilônio Vardan. para ele a sabedoria era um tipo de divinização ou de tornar divina toda a natureza. se alguma vez ele disse algo que parecia presciência. eles devem ter pensado que ele sabia não apenas as línguas de todos os homens. o lado espiritual da alma distinto do puramente humano. Às . E com isso ele queria dizer simplesmente que podia ler os pensamentos das pessoas. vi.20). a disciplina adequada ensinada nas escolas Pitagórica e similares.lhes aprendido a língua”. 43. 6. 24. mas também as dos pássaros e feras (i. 22 [cf. Apolônio claramente reivindica presciência. 32). mas devido “àquela sabedoria que Deus revela ao sábio” (iv. E assim sabemos que Apolônio era informado de todas as coisas desta natureza pela energia de sua natureza daimônica (δαιμονιως) (vii. em sua maneira enigmática usual. De fato. 18 [cf. era não por adivinhação no sentido vulgar da palavra. 19]. enquanto ainda na Terra. v. os poderes daqueles seres incorpóreos intermediários entre os Deuses e os homens chamados “daimones”. Daí que encontramos Apolônio rejeitando indignadamente a acusação de magia ignorantemente levantada contra ele. não que ele pudesse falar todas as línguas. 13. uma arte que atinge seus resultados por meio do pacto com aquelas entidades inferiores que enxameiam nos domínios exteriores da Natureza interna. 44). 11. É a melhor parte do homem. ou ouvidos em sentenças igualmente enigmáticas. mas também porque ele antevia a natureza do rei (i. e num estágio ainda mais excelso ele se torna uno com o Bem e então se torna Deus. 30. cujo significado não fica claro até ocorrer o evento. uma espécie de estado de perpétua inspiração (φειασμσς) (i. iv. 40]. 42). 7. foi um dos principais tópicos discutidos por nosso filósofo e seus hóspedes indianos. Devemos confessar que as frases registradas são freqüentemente obscuras e enigmáticas. Nosso filósofo repudiava igualmente a idéia de ser um profeta ou adivinho. 10). como Apolônio fala ao seu amigo filosófico e estudioso o Cônsul romano Telesino. De fato nos dizem que o assunto da presciência (προγνωσεως). (iii. pois os eventos futuros são vistos mais freqüentemente em representações simbólicas. isto é. um estado ainda mais elevado. 26). 37. respondeu Apolônio. 40). 4. de cuja ciência (σοφια) Apolônio era um profundo estudioso. Ele diz que é um médico da alma e pode livrar o rei das doenças da mente.

não como um homem que vê uma imagem num espelho. entretanto. gritando: ‘Matem o tirano. Os exemplos de visão de eventos presentes à distância. mas quanto a mim. que Apolônio viu quando estava em Alexandria – são claros o bastante. olhando fixamente para o chão. contudo. 5). se dermos crédito à narrativa Evangélica e estivermos acostumados com a história geral dos tempos em que tais curas de possessão e obsessão eram um lugar comum. para citarmos o vívido relato de Filóstrato. igualmente é evidente que Damis e Filóstrato tinham pouco entendimento nesta matéria. A posse de tais poderes pode perturbar só levemente a crença de uma geração como a nossa. deu três ou quatro passos para diante. baseado somente em seu conhecimento interior. teriam pelo menos ouvido falar como ele viu em Éfeso o assassinato de Domiciano em Roma no exato momento de sua ocorrência. ele parece ter conhecido o passado secreto de muitos daqueles com quem entrava em contato (vi. se lemos não só sobre uma quantidade de sonhos simbólicos. que estava a ponto de ser executado junto com um grupo de criminosos (v. mas sua interpretação correta. agradecerei aos Deuses pelo que eu mesmo vi” (viii. como um homem que tem outra coisa em sua mente além daquela sobre que está falando. 3. e com muito menos força do que antes. Mas o filósofo gentilmente respondeu: “Vós. Então. e que em sua maior parte estão além do âmbito da ciência oficial por sua ignorância dos verdadeiros fatores em operação. ele lhes disse o que vira. matem!’ E isto. mas como um que tem a própria cena diante de seus olhos. 23 e iv. contudo – como o incêndio de um templo em Roma. mas vacilante. Mas ainda que eles esperassem que fosse verdade. 24). Isto. 26). foi útil obtendo a libertação de um homem inocente em Alexandria. contudo. Se for crível que Apolônio teve sucesso ao tratar de obscuros casos mentais – casos de obsessão e possessão – de que nossos asilos e hospitais estão cheios hoje em dia. Também não nos surpreendemos de ouvir que Apolônio. continuou sua exposição. De fato. 18). Era meio-dia. finalmente ele cessou de todo de falar como se não pudesse encontrar as palavras. ou mesmo os assim chamados “exorcismos de maus espíritos”. 34). ocupado em dar uma preleção sobre algum absorvente tópico filosófico. se as pessoas não soubessem mais nada do Tianeu. ser um dos ramos mais importantes da disciplina esotérica da escola (vide especialmente i. de vossa parte. não nos obriga a endossar as descrições fantásticas de tais sucessos às quais Filóstrato se permite. assim. “Primeiro ele baixou sua voz como se fosse tomado de alguma apreensão. Nem devem nos espantar os casos de cura por processos mesméricos. e deram rédea . como a recusa de Apolônio de embarcar em um navio que veio a naufragar na viagem (v. e Apolônio estava num dos pequenos parques ou jardins dos subúrbios. Voltando-se para sua atônita audiência. De fato. temos exemplos de previsão muito acurados. Pouco admira.vezes. estais certos em adiar vosso regozijo até que as notícias sejam trazidas a vós do modo usual. recusaram-se a acreditá-lo. como se ele mesmo estivesse tomando parte nela”. para quem tais fatos da ciência psíquica estão se tornando a cada dia mais familiares. como se Apolônio estivesse fora de si.

cujo melhor exemplo é a cura da praga em Éfeso que o Tianeu havia previsto em tantas ocasiões. supor que Apolônio desprezasse ou negligenciasse os estudos dos fenômenos físicos em sua devoção à ciência interna das coisas. De fato uma ilha distante havia explodido por causa de uma perturbação submarina. Esta expressão. 25. ou removendo as cadeias de sua perna para mostrar a Damis que ele realmente não era um prisioneiro. XIII. mesmo que estivesse acorrentado nas masmorras de Domiciano (vii. 2). 10)! Por outro lado. do qual algo já foi exposto em “Primeiros Anos”. e depois de fazer alguns passes sobre a donzela. Mas. pois em viii. como mais tarde foi averiguado (iv. o registro de Apolônio “restituindo à vida” uma jovem de berço nobre em Roma. 27. Quando Apolônio ordenou que as pedras fossem removidas. então ele subitamente aproximou-se do leito. 44). e seu “desaparecimento” (ηφανσςη) do tribunal (viii. 42. Talvez. De uma natureza nitidamente mais fenomênica são as histórias de Apolônio causando o desaparecimento do que estava escrito nas tabuletas de um de seus acusadores perante Tigelino (iv. Tais. são suas explicações da atividade vulcânica do Etna (v. A explicação dos maremotos em Cádiz também pode ser incluída na mesma categoria (v. 20.larga à imaginação em suas narrativas (vide ii. Nosso filósofo parece ter encontrado o féretro por acaso. A lenda popular diz que a origem da praga estava ligada a um velho mendigo. diz Damis. Nosso filósofo era um seguidor entusiasta da disciplina Pitagórica. e de um maremoto em Creta. só deve ser tomada retoricamente. e dizer algumas palavras inaudíveis. 43). temos diversos exemplos de sua rejeição da mitologia em favor de uma explicação física dos fenômenos naturais. As formas externas desta disciplina como exemplificadas em Pitágoras são deste modo resumidas pelo autor: . pois. 2). 8. o que seus amigos deixaram de perceber – segundo consta estava chovendo levemente e se via um tênue vapor em seu rosto – ou se ele fez a vida nela aquecer-se novamente e assim restaurando-a”. Filóstrato quer-nos fazer acreditar que ele fez mais esforços sobre-humanos para alcançar a sabedoria do que mesmo o grande Samiano (i. 17). 38). 14. é contado com grande moderação. Filóstrato em alguns casos esteja só repetindo a lenda popular. “se Apolônio notou que a centelha da alma ainda vivia. iv. por exemplo. “despertou-a de sua morte aparente”. Ao contrário. SEU MODO DE VIDA Agora apresentaremos ao leitor algumas indicações gerais do modo de vida de Apolônio. 4. nem ele nem ninguém presente poderia dizer (iv. 34). acompanhado de indicações corretas sobre a causa imediata da ocorrência. Não devemos. 45). e da maneira de seu ensino. melhor. porém. o incidente é contado nas palavras simples “quando ele deixou (απηλθε) o tribunal”. 5). viu-se que o que havia sido um homem tinha se tornado agora um cão enlouquecido espumando pela boca (iv. contudo. vi. que fora soterrado sob uma pilha de pedras pela multidão enfurecida. v.

Daí que seus discípulos considerassem Pitágoras como um professor inspirado. e recebessem suas regras como leis. Foi a sabedoria imemorial. que mesmo em suas línguas ponho um ferrolho. para resgatálos e corrigí-los. mas só bolos de mel e incenso. em verdade. subiriam deste homem para os Deuses. nem nada feito de animais. se não tivessem antes aprendido que era justamente este silêncio que lhes falava” (i. chegava-se a alma [self. lhe havia falado em sua juventude. eliminar pelo medo os tiranos antes que ser um temeroso escravo da tirania. II). continua. Abrace qualquer um meu modo de vida. jovem senhor. Se és puro. nem tocaria num bocado de comida que anteriormente tivesse tido vida. e nela eles podem dormir. Nem a lã irá aquecê-lo. logo lhes trago aquela justiça que segue os passos da sabedoria. eine Untersuchung über Herkunft und Abstammung der pythagorischen Lehren – Pitágoras e os Indianos. e mantinha opiniões sobre os Deuses que provavam ser falsas todas as outras. diz Apolônio em sua preleção aos Gimnosofistas. assim como se aproximavam. se perseverares. e jamais sentir que o quinhão de outrem é melhor que o próprio. que não tenho encantos. Pitágoras não foi o inventor disso. mas junto a ele. mantinha conversas com os Deuses e aprendia deles o que lhes agradava dos homens e o que lhes desagradava. consultava o divino. Atena e as Musas. ter tuas pobres ofertas mais abençoadas pelos Deuses do que aqueles que lhes apresentam o sangue dos touros. os heróis.von Schroeder. e assim não mais poluir a taça da sabedoria – a taça que realmente consiste de almas não manchadas pelo vinho. e provar e dominar as formas sombrias que assumem a forma de homens” (vi. Esta era a declaração geral da natureza da disciplina Pitagórica pelos seus discípulos. sem disfarce (isto é. Mas. nem a ofereceria em sacrifício. deve perder a lembrança do vinho. 1884). Um senso inato de prontidão e de correção. Dou a meus servos sapatos de fibra. “Em particular eles mantinham a regra do silêncio a respeito da ciência divina. . e deve resolver-se a banir de sua mesa todo alimento que uma vez teve vida. não sob alguma “forma”. Para o restante. I). e outros Deuses cujas formas e nomes a humanidade ainda não conhecia. mas em sua própria natureza). Pois ele. em verdade. e por isso possuía sua natureza sábia. e encherei tanto teus olhos de luz que poderás reconhecer os Deuses. no original – NT] de Apolo. Agora ouve de mim quais coisas ganharás. ainda que ocultamente. nem mancharia de sangue os altares. Pois eles ouviam entre eles muitas coisas divinas e inenarráveis sobre as quais teria sido difícil manter silêncio. E se os encontro entretidos nos deleites amorosos. sou tão rigorosa com aqueles que escolhem meu caminho. e o serviço de sua canção. pois ele bem sabia que eles aceitariam tais presentes muito mais que as centenas de bois imolados com a faca. Esta sabedoria. declaradamente. minha taça está até a borda cheia de fadigas. dizia.“Ele não usaria nada que proviesse de um animal morto. ela disse: “Pois sabei. conceder-te-ei como saber as coisas que virão. Pythagoras und die Inder. Leipzig. e Pitágoras a havia aprendido dos indianos (vide em conexão L. uma Dissertação sobre as Origens e Descendência do Ensino Pitagórico.

Vimos no breve esboço devotado aos seus “Primeiros Anos” como ele dividia o dia e repartia seu tempo entre as diferentes classes de seus ouvintes e inquiridores. “Sire”. o Senhor de nosso mundo e seus mundos irmãos. Assim ele diz a Damis que não deseja proibí-lo de comer carne e beber vinho. de fazê-lo. mas que eles não só não foram condenados e perseguidos como heréticos por causa disso. e as repetidas declarações de que ele jamais se juntaria aos sacrifícios sangrentos dos cultos populares (vide especialmente i. isto é. e todo o resto quando seus espíritos forem quebrados e forem constrangidos contra sua natureza” (i. e suas palavras carregavam . Isto parece ter sido seu costume invariável. 70). 11. tinha uma sanção adicional no amor positivo para com os reinos inferiores e o horror de infligir sofrimento a qualquer criatura viva. não estava baseada simplesmente em idéias de pureza. 31. Assim Apolônio asperamente recusou-se a tomar parte de uma caçada. no meio-dia (vii. 10. com palavras como “Eu sei”. ou “paraísos”. E não só isso. que desejava seguir sua observância estrita. 38) (Isto se refere à manutenção de parques de caça. 13). “esquecestes que mesmo quando sacrificardes não estarei presente? Muito menos então farei estas feras morrerem. mas Apolônio mesmo dissuade o Rajá Fraotes. A restrição contra a carne de animais. mostram não só que a escola Pitagórica tinha sempre dado o exemplo do modo mais elevado de sacrificar puramente.Toda a vida de Apolônio demonstra que ele tentou seguir consistentemente esta regra de vida. ele apenas reserva-se o direito de abster-se e de defender sua conduta se chamado a fazê-lo (ii. seu primeiro hospedeiro na Índia. 18. não importa onde ele estivesse. entretanto. é claro. mas foram antes considerados como sendo de especial santidade. nenhuma busca de efeito. 37). “Sabei”. 10). v. 24. no alvorecer (vi. não o fariam de livre vontade). ele replicou. 31). e este último fato explica o porquê de um seguidor tão fiel da pessoa de Apolônio ainda estivesse não obstante tanto na escuridão. pelos monarcas babilônicos). Mas ele falava “como se de uma trípode” [a trípode era um banco de três pés onde sentavam-se as Pitonisas ao proferir seus oráculos – NT]. iv. nenhuma afetação. 25). cujo símbolo encantador é o orbe do dia. e como seguindo uma vida superior do que os mortais comuns. porque isso o afastaria muito de seus súditos (ii. vii. Seu estilo de ensino e prédica era o oposto do orador retórico ou profissional. quando convidado a fazê-lo por seu real hospedeiro na Babilônia. Três vezes por dia Apolônio orava e meditava. mas os condenava abertamente. O objeto de seu culto é sempre dito ter sido o “Sol”. Esta é uma indicação adicional de que Damis não era um membro do círculo interno da disciplina. ele não desejava impor seu modo de vida sobre os outros. Mas embora Apolônio fosse um irredutível mestre de si mesmo. e no ocaso (viii. mesmo sobre seus amigos e companheiros pessoais (se. parece ter devotado pelo menos uns poucos momentos para meditação silenciosa nestes momentos. “Parece-me”. Suas frases eram curtas e compactas. “Por que vós”. Não havia arte alguma em suas sentenças.

Isto foram algumas poucas indicações de como nosso filósofo vivia. pareces ter perdido teu entendimento diante da morte. Ele não empregava a dialética da escola Socrática. e outro a réplica de uma contorniate. 1808. E diante das repetidas solicitações de seu velho amigo para que preparasse sua defesa. traduzido por C. Indicazione delle Sculture – Catálogo de Esculturas. com barba e longa cabeleira descendo sobre seus ombros. Nápoles. E. eu encontrei na p. 3. 17).J. para que possam escolher a melhor e não encontrar a morte todos despreparados. Pois como os guerreiros no campo de batalha necessitam não só de boa coragem mas também daquele generalato que os avisa quando lutar. 76 e 77. 621]. Quando foi a julgamento.. 1) (Rathgeberger [G] em seu Grossgriechenland und Pythagoras – A Magna Grécia e Pitágoras. não fez preparação alguma para sua defesa. no atlas de sua Iconographic Grecque. 68.convicção com elas e adequavam-se aos fatos. vi. ou medalha com uma borda circular. n° 75. 3. Nápoles. 30). Um no Campidoglio Museum of the Vatican. XIV. Não consegui encontrar sua primeira referência. n° 363. p. Agora faremos menção a alguns de seus traços mais pessoais. assim devem os que amam a sabedoria fazer um cuidadoso estudo das boas épocas de morrer. 152 que o n° 363 é um busto de Apolônio. de Visconti. nada temendo exceto a deslealdade a seu alto ideal. se há alguém que deseje matarme – eu provei a outros amigos quando estavas perto. 2). refere-se a três supostos retratos de Apolônio [p. 1831. 38). Contudo.J. p. cujo um dos lados tem uma cabeça de Apolônio e a legenda APOLLONIVS TEANEVS. com uma cabeça semelhante a um Zeus. Sua obra. Ele tinha vivido sua vida como ela se apresentava cotidianamente. e a alguns dos nomes de seus seguidores. 79. mas ensinar o que sabia (i. mas em um Guia do Museu Real Bourbon. 1866. dizia. descrito por Michel B. outro no Museu Real Boubon. 1837. Esta . Que eu escolhi e agarrei o momento que segundo a sabedoria era o melhor para a contenda mortal – isto é. Roma. mas fazia seus ouvintes afastar-se de tudo o mais e dar ouvidos somente à voz interior da filosofia (iv. tampouco cessei de ensinar-te isto em privado” (vii. cuidadosamente executado. Visconti. uma obra de maravilhosa indústria bibliográfica. iv. 31). ainda que tenhas estado tanto tempo comigo e eu tenha amado a filosofia desde mesmo minha juventude (leia-se θιλοσοφω por θιλοσοφων). ELE E SEU CÍRCULO Diz-se que Apolônio tinha formosissima aparência (i. Paris. Acima de tudo agora era sua escolha deliberada desafiar a morte pela causa das filosofia. 7. não pude obter uma reprodução dele. cerca de 90 cm de altura..Q. dá a reprodução de uma contorniate. e assim continuaria (viii. 12. presos por uma larga faixa. preparado para a morte. Ele tirava suas ilustrações de qualquer incidente casual ou acontecimento doméstico (iv. imaginei que estarias tu mesmo preparado para a morte e igualmente conhecias bem meu generalato nisto. Gotha. não era procurar e questionar como havia feito em sua juventude. replicou: “Damis. e usava tudo para o melhoramento de seus ouvintes. 1840. O busto parece ser antigo.

de um lado. e o retrato não é agradável de modo algum. basado em De Tillemont) mas além disto não temos nenhuma indicação muito precisa de sua pessoa. aplaudia a coragem dos poucos que permaneceram com ele em Roma. durante o que seus olhos ficavam fixos no chão (i. 34). tamanha que mesmo quando havia atingido a avançada idade de 80 anos. como o representavam as estátuas no templo de Tíana no tempo de Filóstrato. Ainda que. aprumado e perfeitamente formado. 38). Uma de suas poucas peculiaridades era gostar de ser chamado de “Tianeu” (vii. ou se eram simplesmente estudiosos independentes atraídos à personalidade dominante da época no campo da filosofia. e quando não estava falando mergulhava longamente em profundos pensamentos. a cabeça é coroada. ele era sempre ativo em atos positivos de compaixão (cf. se. De fato. diz seu retórico biógrafo. mas não é dito o porquê disto. é de artesania muito inferior. se jamais houve algum. 31. de outro recusou acusar de covardia os muitos que haviam fugido (iv. Seus modos eram sempre doces e gentis (i. e mesmo que sua face estivesse coberta de rugas. Tampouco sua gentileza era demonstrada simplesmente pela abstenção de acusar. pois ele passou sua vida entre os homens. fosse ferrenhamente inflexível consigo mesmo. como o chama. em cuja linguagem a terra natal não influenciava. nosso filósofo parece ter tido a presença mais encantadora e a disposição mais amável. diz Damis. 39). Apolônio era um cidadão do mundo.). Em resumo. tanto que às vezes poderíamos chamá-lo de patriota entusiástico. A despeito de sua vida extremamente ascética. seu amor pelos outros países era igualmente pronunciado.também representa nosso filósofo com barba e cabelos compridos. como vimos. 30). ele ainda era rijo e saudável em cada membro e órgão. tampouco sua absoluta devoção à filosofia teve a natureza do ideal eremítico. é certo que muitos deles usavam a mesma roupagem que ele e seguiam o seu modo de vida (iv. A medalha. pois mesmo que fosse um grande amante da Grécia. e a parte superior do corpo coberta com uma túnica e o manto do filósofo. 38). e um sacerdote da religião universal em cujo vocabulário a palavra seita não existia. 21). 29). 39). Seu temperamento era freqüentemente pensativo (i. ele era um homem de forte compleição. mas ocasionalmente ele impreca indignado contra alguma barbaridade especial (iv. Visconti em seu folheto devota um raivoso e ofensivo parágrafo a Apolônio. Porém. 36. Não admira então que tenha atraído a si tantos seguidores e discípulos! Teria sido interessante se Filóstrato nos tivesse dito mais sobre estes “Apolônicos”. 36). Também é . estava sempre pronto para desculpar os outros. ii. Havia ainda um certo charme indefinível em torno dele que o fazia mais agradável de ver do que mesmo o frescor da juventude. os relatos decantam mais o charme de Apolônio em sua idade provecta do que a beleza de Alcebíades em sua juventude (viii. 15). ele parecia mais um indiano do que um grego (iii. vi. como eram chamados (viii. e nisto. Dificilmente pode ter sido porque Apolônio fosse particularmente orgulhoso de seu local de nascimento. 10 et al. ou se se reuniam em comunidades segundo o modelo Pitagórico. viii. 22) e modestos (iv. “ce trop célèbre imposteur”. dizem. porém. e se constituíam uma escola distinta.

Os mais notáveis destes seguidores foram Musônio. e Demétrio. De fato. 31. Suas últimas palavras foram só para Damis. O método era comum na antigüidade. que nos faz pensar que estava sempre com ele desde a época de seu encontro em Ninus. viii. 19. e não fundou nenhuma escola para ser continuada por sucessores. 43). viii. são abertamente declaradas como tal. ele fez uso das já existentes. 44. 28). que devido à má saúde foi deixado para trás na longa viagem à Etiópia (iv. e não reivindicam inspiração. mas não deixou nenhuma tradição de linha definida. me verás” (viii. a qual Damis jamais entendeu. 47. Fédimo (iv. Mesmo para seu sempre fiel companheiro. Em segundo lugar. mas a nenhum deles permitia ensinarem até que houvessem cumprido o voto de silêncio (v. Damis. e temos diante de nossos olhos a imagem de uma fermentação . ele não teve nenhuma palavra a dizer sobre a obra a que devotara sua vida. Agora voltaremos nossa atenção a uma consideração de alguns dos ditos atribuídos a Apolônio e das falas postas em sua boca por Filóstrato. v. 28). 16). 19. ele veio e se foi. Os ditos breves com toda probabilidade são autenticamente tradicionais. ajudando e iluminando. mas jamais o conhecera. a quem livrara de uma obsessão (iv. Foi uma promessa de vir a ele se precisasse de ajuda. 10). 25. v. por duas razões. vi. e seus discípulos foram aqueles que foram atraídos para ele pessoalmente por uma invencível afeição que somente poderia ser satisfeita estando continuamente perto dele.feita repetida menção aos acompanhantes de Apolônio em suas viagens (iv. Parece certo que ele não treinou ninguém para continuar sua missão. 24). de qualquer modo estamos cônscios de estar em contato imediato com a atmosfera interna do melhor pensamento religioso da mente grega. 19. 10 sqq. 25. e que foi a vítima especial da tirania de Nero (iv. para o homem que o amara. “Damis. v. 10. mesmo que não devamos supor que estamos lendo as palavras reais de Apolônio. 38. 43). ao dar-lhe adeus para o que ele sabia ser a última vez para Damis na Terra. v. vii. mas as falas em sua maioria são a elaboração artística das toscas notas de Damis. No geral imaginamos que Apolônio não estabeleceu nenhuma organização nova. 43). mas não obstante são interessantes por si. Em primeiro lugar. 11. que era considerado o maior filósofo da época depois do Tianeu. às vezes até dez de uma vez. outros nomes já desconhecidos são os do egípcio Dioscórides. sempre que pensares em coisas elevadas em meditação solitária. que o seguiu deixando os Gimnosofistas (v. e. 11) e Nilo. 38. e os antigos compiladores de outras séries de documentos famosos teriam se espantado se pudessem ver como a posteridade divinizaria seus esforços e os consideraria como imediatamente inspirados pela fonte de toda a sabedoria. Estes nomes são bem conhecidos da história. v. vii. é claro. 21. 42. “que amava Apolônio” (iv. Menipo. são confessadamente documentos humanos que tentam dar uma roupagem literária ao corpo tradicional de pensamento e pesquisa que a vida de nosso filósofo construiu nas mentes dos seus ouvintes. 21. elas honestamente denunciam sua natureza.

na Babilônia: “Deus do Sol. são todas parecidas”. segundo Damis. Só sabia de uma coisa: que os Deuses eram os ministros do direito e os rígidos administradores do justo merecimento. envia-me sobre a Terra até onde for bom para Ti e para mim. minhas mãos. Uma de suas preces mais comuns era. foram devolvidos. que os Deuses pudessem se tornar partidários de nossas esperanças e temores egoístas. disse Apolônio. Assim encontramos Apolônio jovem conversando com um dos sacerdotes de Esculápio nos seguintes termos: “Já que os Deuses conhecem todas as coisas. II) E assim também ele rezou. para que as leis permaneçam intactas. é exemplificada em sua réplica ao oficial que demandava como ele pretendia entrar nos domínios da Babilônia sem permissão. Quando o Rei Vardan. 34). imagino que alguém que entre no templo com uma consciência correta em si rezaria assim: ‘Dai-me. voltarei a vós melhor do que sou agora” (i. para que o sábio seja pobre e os outros. mas quão diferentemente da vulgar! Para ele a idéia de que os Deuses pudessem ser desviados da senda da estrita justiça pelas súplicas dos homens era uma blasfêmia. não seriam Deuses. 31). oh Deuses. assim: “Concedei. que podiam ser influenciados e obrigados. ricos. para nosso filósofo era algo impensável. e não só isso. A crença comum. que eu tenha pouco e não precise de nada” (i. nosso filósofo replicou: “Um presente que vos agradará. 41). mas honestamente” (iv 40). Seres com quem pactos podiam ser feitos. ainda que muitas. e jamais conhecer o mal ou ser conhecido por ele” (i. e me é dado que eu a percorra” (i. . o que me cabe!’ “ (i. Pois se minha estada lá me tornar mais sábio. “Toda a Terra”. 21). perguntou para nosso filósofo o Pontífice Máximo Telesino. E quando o rei perguntou a Apolônio qual presente ele traria para ele da Índia. Há muitos exemplos de somas de dinheiro sendo oferecidas a Apolônio por seus serviços. Sire. e nisto disse Apolônio: “Vêde. pelo que rezais?”. mas seus seguidores também recusavam todos os presentes. mas ele invariavelmente as recusava. “para que a retidão possa imperar. mas menos que homens. disse Apolônio. XV. que persiste até em nossos dias. em sua longa jornada à Índia. oh Deuses. e que eu possa conhecer o bem. de que Deus pode ser desviado de Seu propósito. ofereceu-lhe presentes. A fé de nosso filósofo no grande ideal de nada ter e ainda assim possuir todas as coisas. “Eu rezo”. com verdadeira generosidade oriental.mística e espiritual que influenciou todos os níveis da sociedade no primeiro século de nossa era. “é minha. de que pactos poderiam ser feitos com Ele ou Seus ministros. “Quando entrais nos templos. DE SEUS DITOS E SERMÕES Apolônio acreditava na oração. era inteiramente desprezível para Apolônio.

o qual é a virtude. nem o Olimpo. Apolônio exclamou: “E eu acho que este é o ponto mais alto. “Então isto é o que tu queres dizer por ‘embaixo’ e ‘em cima’ “. A supersticiosa audiência de Apolônio ficou muito impressionada pelo comportamento dos pardais. Mas o filósofo continuou seu sermão. e como Ele tem vero prazer em seu serviço. “se penso claramente. seus seguidores estavam disputando sobre qual seria o local mais alto da Grécia. estando então o Monte Eta em vista. 23). “eu pensei mesmo que desceria mais sábio. disse ele. as estrelas maiores. pois quando a alma. e o sol a nascer da noite. “Mas é claro!”. alto nas montanhas. ascender a estas altitudes. que necessidade temos de tais questões inúteis?”. “Pensas que os que observam o céu das alturas montanhosas estão algo mais perto do entendimento das coisas?”. pura e sem mistura. e voaram todos atrás do recém-chegado. Um garoto escorregou em um campo próximo e esparramou-se algum grão que ele carregava em uma bolsa. replicou Damis impaciente. convidou seus amigos para um banquete. O pardal. “Tampouco os outros homens saberão”. Subitamente um outro pardal chegou voando e começou a chilrear. A questão dizia respeito a “embaixo” e “em cima”. a não ser que a alma o perceba. como se quisesse dizer aos outros qualquer coisa. muito mais alto do que este Cáucaso altaneiro” (ii. juro-te. pois estive numa montanha mais alto do que qualquer outro homem. diz Damis. .Quando estavam cruzando as grandes montanhas em direção à Índia. diz-se que teve lugar uma conversa entre Apolônio e Damis. Um outro exemplo de como Apolônio transformava acontecimentos casuais em boas ilustrações é o seguinte: Certa vez em Éfeso. O pequeno pardal. em uma das estradas pavimentadas perto da cidade. “Para falar a verdade”. Subindo ao cume. Novamente. 6). e viu nisso um augúrio de alguma coisa importante. Imediatamente todo o bando começou a pipilar também. mas temo não saber mais do que antes de subir nela”. pois aqueles que aqui tombaram por amor à liberdade fizeram-no tão alto como o Eta. e como deveríamos naturalmente ajudar uns aos outros. replicou Apolônio. “Ontem”. ele recolheu a maior parte e foi-se embora. ele estava falando sobre dividirmos nossos bens com os outros. Acontecia de eles estarem bem ao pé da colina onde os espartanos foram derrotados crivados de flechas. que suscita a admiração do poeta. e o elevaram muito acima de mil Olimpos” (iv. Ocorria que um grupo de pardais estava pousado numa árvore próxima em perfeito silêncio. “tais observações os fazem ver o céu mais azul. um tanto desconcertado. ela voará muito. eis que nem [o monte] Athos o revelará àqueles que escalam seu cume. não muito distantes do céu”. quando em Termópilas. hoje estamos em cima. disse Damis. mas como Deus realmente se interessa pelo gênero humano. disse Apolônio gentilmente. “E adquiriste um conhecimento maior da natureza divina estando mais perto do céu sobre o topo das montanhas?”. a retidão e o senso-comum. calhando de encontrar os grãos que sobraram. imediatamente voou para convidar seus amigos para o festim. “estávamos embaixo no vale. continuou seu mestre. coisas sabidas por aqueles que conduzem as ovelhas e cabras. a qual nos fornece um bom exemplo de como nosso filósofo sempre usava os incidentes do dia para inculcar as mais elevadas lições de vida.

“Penso melhor dele do que vós”. Mas se um único homem falhar em desempenhar uma só de suas tarefas. sua navegação será ruim. Um bom exemplo é a resposta à delicada pergunta de Tigelino: “O que pensais de Nero?”. disse Apolônio. Ele copiava Hércules. e de fato. a despeito de seu temperamento usualmente grave. “Olhai a marujada!”. alguns dispuseram as velas para aproveitar o vento. “pois ele era Hércules. rei da Lídia. Apolônio. 21). 9). redargüiu Apolônio. Também sua resposta a um jovem Creso [Creso. extravagante. e quão felizes ficam em compartilhar seus bens. como outros ainda verificaram a proa e a pôpa. Damis perguntou-lhe se ele conhecia algo maior que o famoso Colosso. 22). e eu penso que ele deveria manter-se em silêncio” (iv. ficou famoso por sua enorme riqueza – NT] da época é tão irônica quanto sábia. e quando voltaram todos gritando e gesticulando maravilhados. “o homem que anda nos honestos sendeiros da sabedoria que nos dá a saúde” (v. que virtude tendes. e de outros nomes. em Esmirna. “penso que não sois vós que possuís vossa casa. usou a ocasião para ensinar às pessoas a lição da cooperação. tal barco terá céus favoráveis. 30). vendo um navio ser carregado. Mas se rivalizarem entre si. ele não infreqüentemente zombava de seus ouvintes. replicou Apolônio. em outra ocasião. Novamente. “Sim”. Do mesmo estilo também é a resposta a um glutão que jactava-se de sua gulodice. O que nos resta então senão encerrarmo-nos em casa como aves de engorda. antes. mas que vossa casa vos possui” (v. o filósofo continuou: “Vêde que cuidado os pardais têm uns para com os outros. Em outra ocasião. e empanturrarmos nossos estômagos na escuridão até que rebentemos de gordura?” (iv. em Rodes. e acusamos os homens que recebem a partilha de serem aduladores e parasitas. Também há um número de exemplos de respostas satíricas ou sarcásticas dadas por nosso filósofo. chamamo-lo de esbanjador. . ele disse. “Vêde como alguns aprontaram os botes. oh montanha de gordura? A única coisa que chama a atenção em vós é a possibilidade de explodirdes” (iv. 3). ou negligenciar suas atribuições. que era famoso tanto pela comida que comia quanto por seus trabalhos. Mas vós. 23). alguns subiram as âncoras e as prenderam. dizia. Mesmo em tempos de grande perigo esta característica se mostrava. “pois vós acreditais que ele deveria cantar. “Sim”. e às vezes. se podemos dizer assim.Então a maior parte da audiência correu para ver se era verdade. “Jovem senhor”. Mas nós homens não o aprovamos. e terão a tempestade no meio deles. e um bom tempo e boa viagem sucederão” (iv. 44). tentando equiparar-se cada um a seus companheiros. ironizava sua estultice (vide especialmente iv. disse ele. se vemos um homem dividindo seus bens com outros homens.

concebendo-o em relação à coisa que realmente existe”. o abade da comunidade Gimosofista. grandes são as dádivas que recebestes deles. Apolônio diz-se que respondeu algo nestes termos: “Vós me pedis o que não pode ser ensinado. 36).Mas voltemos a momentos mais sérios. Em resposta à ardente súplica de Vespasiano. diz Apolônio. E assim sempre do mesmo modo. Era uma idealização das formas e feições. e não é ensinada. para uma crítica desta declaração) – mas antes separai sua animosidade como o joio dentre o grão. A imaginação. disse Apolônio. “algo prenhe de sabedoria”. disse Tespésion. e intimidai os agitadores em disputa não dizendo ‘Eu vos puno’. agi como rei. pois a imitação somente apresenta o que foi visto. p. Geralmente se supõe que a escultura grega era meramente uma glorificação da beleza física. “ensina-me o que deveria fazer um bom rei”. se atenderdes às necessidades dos desfavorecidos e garantirdes a riqueza dos que possuem muito. se fizésseis. no que tange a vós mesmos. e Apolônio. . pois nos habilita a chegar mais perto das realidades. faríeis bem. 458. op. pois fareis leis mais sábias se vós mesmos não desprezardes a lei. “O que foi? Certamente não podeis dizer que foi algo além de mera imitação!” “A imaginação os conduziu – um trabalho mais sábio que a imitação. é uma das mais poderosas faculdades. E se vamos supor que se trata de mero exercício retórico de Filóstrato e não é baseado na substância do que Apolônio disse. dando bom conselho e demonstrando um profundo conhecimento dos assuntos humanos. “que os Fídias e os Praxíteles foram ao céu e tiveram impressões das formas dos Deuses. ou foi outra coisa que os fez esculpí-los?” “Sim. mas ‘Irei fazê-lo’. então devemos ter uma opinião melhor do retórico do que o resto de seus escritos afiança. e assim fizeram simulacros deles. Existe um diálogo Socrático extremamente interessante entre Tespésion. Não apareis as espigas que sobressaem dentre as outras – pois Aristóteles não é justo neste ponto (vide Chassang. Segue-se algo como assim: “Mas! Vamos imaginar”. e orai por grandes coisas (Isto foi antes de Vespasiano tornar-se Imperador). cit. Submetei-vos à lei. oh Príncipe. enquanto que a imaginação apresenta o que jamais foi contemplado. Temei o poder de fazer o que vos aprouver. Sê mais reverente do que nunca aos Deuses.. agi como um homem comum” (v. Não considereis a riqueza que é acumulada – em que ela é superior à areia reunida casualmente? Nem aquela que provém de pesadas taxações que oprimem os homens – pois o ouro que vem das lágrimas é vil e negro. No que tange ao estado. Pois a realeza é a maior coisa ao alcance do mortal. Mas vos direi o que. e bastante desespiritual em si mesma. foi outra coisa”. sobre os méritos relativos dos modos grego e egípcio de representar os Deuses. assim o usareis com maior prudência. Empregareis melhor do que qualquer rei a riqueza.

responde Apolônio. seu daimon. mas fareis os Deuses perder dignidade”. diz Apolônio. “Certamente”. Apolônio. Esta idealização da forma era um modo digno de representar os Deuses. Ele queria dizer isto literalmente. Ele queria dizer que entre a imperfeição terrena e o mais excelso arquétipo divino de todas as coisas existiam graus de crescente perfeição. dos modelos. Esta é uma encantadora passagem de sagacidade. “ele não era tolo. das perfeições. replicou Apolônio. Queria dizer que dentro de cada homem existe uma forma da perfeição. como se “de uma trípode”. o mundo celeste. Ele jurava por eles não como sendo Deuses. que ensinava “como tendo autoridade”. e a faculdade que usaram foi a imaginação. para representar Apolo ou Atena ou Hermes. e não vaga e fantasticamente. era mais sábio que seu biógrafo. poderia ter apontado o lado bom e o lado ruim tanto da arte religiosa grega quanto da egípcia. mas todos estes diálogos podem ser considerados como sendo os exercícios retóricos de Filóstrato antes do que de Apolônio. A isto Tespésion replicou que os egípcios não pretendiam dar nenhuma forma específica aos Deuses. . Pois a mente do adorador pode formar e adequar para si uma imagem do objeto de sua adoração melhor do que qualquer arte”. do egípcio contra o grego. o sacerdote da religião universal. Mas Apolônio declarou que ela traz-nos para mais perto do real. como Pitágoras e Platão disseram antes dele. Filóstrato era um campeão da Grécia contra todas as outras terras. “mas”. “Sim”. mas para evitar de jurar pelos Deuses” (iv. Os Deuses também pertencem ao mundo dos arquétipos. cremos. podeis dignificar os animais. embora é claro que ainda não absolutamente perfeita.membros e músculos. que jurava pelos cães e gansos como se fossem Deuses”. e como todos os sábios ensinaram. No diálogo acima há um nítido preconceito contra o Egito e uma glorificação da Grécia. e certamente ensinou o caminho mais elevado do culto desprovido de símbolos. “mas o perigo é que as pessoas comuns adorem estes símbolos e concebam idéias deformadas sobre os Deuses. o resumo de todos os mais finos traços que apresentou em suas muitas vidas na Terra. que o anjo no homem. uma glorificação vazia do físico com nada é claro correspondendo a ela realmente na natureza das coisas. mas ele não defenderia um culto popular contra um outro. O melhor seria não ter representação alguma. “Sim”. e isto ocorre de modo marcante em diversos outros diálogos. mas Apolônio. era de uma beleza divinal. 19). Ele declarou que os protótipos e idéias das coisas são as únicas realidades. e então acrescentou maliciosamente: “Havia um velho ateniense por aí – não tolo – chamado Sócrates. eles lhes atribuíam meramente símbolos aos quais era associado um significado oculto. “se entronizardes um falcão ou uma coruja ou um cão em vossos templos. Os escultores gregos conseguiram entrar em contato com este mundo. contrafez Tespésion.

A despeito da roupagem literária que é posta sobre os discursos mais longos de Apolônio. não sobrepujarão sua resolução ou o obrigarão à menor falsidade. algumas coisas são para o bom. os comandantes no exterior tinham uma vara de igual espessura.Liddeell e Scott. mas ele guardará os segredos das vidas alheias e tudo o que lhe for confiado à honra tão religiosamente como os segredos da iniciação. temos a plena percepção do que é consciência. pois sei que de tudo o que sei. disse Apolônio. ele deve morrer por seus princípios e a verdade que defende mais cara que a vida. “Uma tira de couro era enrolada obliquamente em torno. também. Nisto temos o verdadeiro desdém filosófico diante da morte. e a natureza ordena que morramos por nossos pais. outras para o sábio. “Além disso. que era caracteristicamente lacônico em sua brevidade). mas nada para os tiranos. e que nenhuma tortura poderia jamais extrair de seus lábios. nossos amigos. ainda que não tenha sido de modo algum um “correspondente prolixo”. onde os despachos eram escritos ao comprido. e foram compostas. de fato. que estava tentando dissuadí-lo de enfrentar Domiciano em Roma. da impossibilidade de ocultar o menor traço de mal no mundo interior. Mas um dever superior é imposto sobre o sábio. ou nossos filhos. usado como cifra para despachos escritos. eles contêm muitos nobres pensamentos. não é a natureza. nem condescenderá em fazer o que a maioria dos homens faz sem a menor vergonha” (vii. . não temerá o que o vulgo teme. “A lei”. Lexicon. para lutar à sua destra. “nos obriga a morrer pela liberdade. Daí que scytale veio a significar geralmente um despacho espartano. XVI. e também o calmo conhecimento do iniciado. em torno da qual enrolavam seus documentos. e ainda o fulgurante brilho de uma ética superior que faz a conduta habitual das massas parecer surpreendente – “o que eles fazem. outras para mim mesmo. penso que o homem sábio que conhece a si mesmo e traz seu espírito em constante camaradagem. E se o ditado famoso ‘conhece-te a ti mesmo’ é de Apolo ou de algum sábio que aprendeu a conhecer-se e proclamou-o como um bem para todos. pois ele mesmo é sua testemunha. outras para os Deuses. Não é a lei que lhe impõe a escolha. Todos os homens estão ligados por estes deveres. Mesmo que o fogo e a espada lhe aflijam. “ao modo da scytale dos lacedemônios” (scytale era uma vara. DE SUAS CARTAS Apolônio parece ter escrito muitas cartas a imperadores. de modo que quando desenroladas eram ilegíveis. e sem vergonha alguma”. Aqui. filósofos. sub voc. penso que um homem sábio não faz nada sozinho ou por si mesmo. é a força e coragem de sua própria alma. do confortador e do conselheiro de outros. comunidades e estados. E eu sei mais que os outros homens. 15). o estilo de suas notas curtas é extraordinariamente conciso. segundo Filóstrato. e assim se tornavam capazes de ler os despachos” . e nenhum pensamento seu é secreto. ou bastão. reis. a quem os segredos de suas vidas foi confessado. como podemos ver pelas seguintes citações das conversas de nosso filósofo com seu amigo Demétrio.

iv. 22. escrevei o que precisais. saudações! “É possível para os homens não cometer erros. 27. Farei o mesmo. 40. Eis uma aos magistrados de Esparta: “Apolônio aos Éforos. há um interessante intercâmbio de notas entre os dois maiores filósofos da época. o Cínico). iii. e não há razão para duvidarmos de sua autenticidade. 33. Adeus!” Contudo. 41. 10. Se ainda credes que Hércules uma vez resgatou Teseu do Hades. 5. saudação! “Quero ir a vós. Adeus. e ser-vos de alguma utilidade. vi. saudação! “Boa recompensa se reserva para vós por vossos bons pensamentos. 7. Eis uma nota ao Cínico Demétrio.” “Apolônio a Musônio. Aqui. o Cão (isto é. De onde ele as obteve. 51. compartilhar conversa e teto convosco. 31. 7. 15. 18. 32. 39. 29. Adeus” “Musônio a Apolônio. pois são tão curtas que não merecem o nome de epístolas. a menos que fossem a coleção feita por Adriano em Âncio (viii. 46. 24. também. o Estóico. um dos mais devotados amigos de nosso filósofo: “Apolônio. 2. o filósofo. 20). 27. Musônio. mas requer-se homens nobres para reconhecer que os cometeram” Tudo o que Apolônio coloca é um punhado de palavras em grego. o que está reservado para mim é um que espera seu julgamento e prova sua inocência. saudação! Sócrates foi condenado à morte porque não preparou sua defesa. o filósofo. v.È evidente que Filóstrato teve acesso a cartas atribuídas a Apolônio. não nos diz. o filósofo. 20. 27. Para que o leitor possa ser capaz de apreciar o estilo de Apolônio anexamos um ou dois espécimens destas cartas. a Demétrio. 28). “Apolônio a Musônio. saudação! “Sócrates recusou ser livre da prisão por seus amigos e compareceu perante os juizes. pois ele cita um número delas (vide i. ambos tendo sofrido prisão e estando em constante risco de morte. ou antes notas. viii. saudação! . Adeus!” “Musônio a Apolônio. foi condenado à servidão penal por Nero. o filósofo. 26. Foi condenado à morte.

ou um que tem por natureza a faculdade divina. isto é. que não mata nada vivo. em sua maior parte notas breves. op. 1873. provavelmente P. cônsul em 70 d. Escrevendo aos sacerdotes de Delfi contra a prática de sacrifícios sangrentos. ódio. em uma carta endereçada a Críton. E se a arte da cura é a mais divina. Aqui damos uma amostra de uma ou duas destas cartas. não come carne. expiar a culpa de sangue com sacrifício sangrento). cita-a como sendo genuíno exemplo da filosofia de Apolônio): . “Se alguém disser que é meu discípulo. Um Mago. mas mesmo ele (isto é. cujo texto é oferecido na maioria das edições (Chassang. então que acrescente que se mantém à parte das termas. e com ele sêde tudo. um filósofo de 600 anos antes) jamais aconselhou as pessoas de Éfeso a limparem a sujeira com sujeira” (isto é. menos irado. 395 sqq. Escrevendo para Eufrates. é ateu)”. Entre estas cartas é encontrada uma de alguma extensão endereçada a Valério. ele diz: 17. pois nenhuma criatura pode estar bem enquanto a parte superior em si está doente”. Adeus!” Em acréscimo às notas citadas no texto de Filóstrato. É uma sábia carta de consolação filosófica para possibilitar que Valério suporte a perda de seu filho.. cit. em seu Pythagore et la Philosophie pythagoricienne. 1874. deve ocupar-se tanto da alma como do corpo. “Pitágoras disse que a arte mais divina era a da cura.Chaignet. mas Jowett (artigo “Apollonius”. Paris.. é livre de inveja. para ensiná-lo o caminho da realeza. então. malícia. 2ª ed. mas tem seu nome inscrito entre a raça dos que alcançaram sua liberdade”. e segue assim (A. e vós em troca destes-me poder falar-lhe com verdade. diz: 27. lemos: 23. os que “se consideravam sábios”. é um que é um ministro dos Deuses. Quase todos os críticos são de opinião de que não são genuínas. o imperador.. mas rejeitais os Deuses (isto é. há uma coleção de noventa e cinco cartas. pp. Dictionary of Classical Biographies. “Heráclito era um sábio. de Smith) e outros pensam que algumas delas podem muito bem ser autênticas. calúnia e sentimentos hostis.E. dá uma tradução Francesa delas). Ainda. Novamente. àqueles que diziam ser seus seguidores.C. escreve em reprovação: 43. seu grande inimigo.“Eu vos dei a Tito. “Os persas chamam de Magos aqueles que possuem faculdades divinas (ou são divinos). Vós não sois nenhum Mago. Valério Asiático. o campeão da pura ética racionalista contra a ciência das coisas sagradas.

“Não existe a morte de ninguém. mesmo que a matéria ainda as circunde e flua através delas naquela imensidão de espaço que existe nelas mas que não conhece nascimento ou morte. Pois o ser tem esta peculiaridade necessária: sua mudança não é produzida por nada externo a si. e há uma lei. a não ser aparente. assim como uma coisa produzida através da Terra não é produzida dela. assim secareis vossas lágrimas. ora no mesmo. ora no diferente? – poderia ser respondido: é o modo de todas as coisas aqui no mundo inferior. e o melhor governante é aquele que primeiro governa a si mesmo. Eia! curai-vos. A mudança que sobrevém ao indivíduo não é nada que seja causado pelo seu ambiente visível. E vêde também que consolações ainda tendes! A nação se entristece convosco por vosso filho. A maior coisa é uma regra firme. O fato é que longe de lamentar a morte deveríeis honrá-la e reverenciá-la. e jamais alguém perece. “E que outro nome pode ser dado a isso exceto o de ser primevo? A única coisa que age e sofre se tornando tudo por tudo através de tudo. o homem justo não terá desejo de tentar mudar as coisas boas. mas é antes uma mudança na única coisa que existe em cada um. mas antes colocai vossos deveres públicos antes de vosso pesar pessoal. privada e afastada de seu próprio ser [self. o último pela sutileza do ser – um ser que é o mesmo sempre. A mudança do ser para o tornar-se parece ser o nascimento. Dai algum retorno àqueles que o choram convosco. O modo melhor e mais adequado para honrardes a morte é agora liberar o que foi para Deus. dai justiça aos oprimidos e consolai-os. o primeiro pela densidade da matéria. e é Deus quem a dispôs. e contra a lei. e não pelos pais. devido à resistência de sua densidade. mas na verdade ninguém jamais nasce. e isto fareis mais rápido se cessardes de chorar do que se persistirdes.” Mas por que esta falsa noção (de nascimento e morte) permaneceu tanto tempo sem refutação? Alguns pensam que o que lhes sucede foi produzido por eles mesmos. Simplesmente um ser é visível. e a mudança do tornar-se para o ser parece ser a morte. eterna deidade. e dispor-vos para encaminhar do modo costumeiro os que ficaram sob vossa responsabilidade. Pois ‘aquele que é’ não cessa jamais – . no original – NT] por nomes e formas. que quando estão cheias de matéria são visíveis. Mas isso é menos sério do que um homem lamentar-se quando passa de homem a Deus pela mudança de estado e não pela destruição de sua natureza. sua única modificação sendo o movimento e o repouso. e não existe nenhum nascimento. invisível. São ignorantes de que o indivíduo é trazido ao nascimento através dos pais. e então. mas ele pensará que todas as coisas que sucedem são boas. E como seria permissível alterar o que sucedeu pela vontade de Deus? Se há uma lei nas coisas. Não deveis colocar vosso pesar pessoal acima de vossos deveres públicos. quando se livram da matéria. pois tal desejo é egoísta. exceto na aparência. mas o todo se torna partes e as partes se tornam o todo na unidade de tudo. Não possuís amigos? Como! ainda tendes outro filho! Não tendes mais o que partiu? Mas o tendes! – responderá qualquer um que realmente pensa. pois o tempo faz com que até mesmo as pessoas comuns deixem de lamentar. mas são invisíveis devido à sua sutileza. E se for perguntado: O que é isto que às vezes é visto e às vezes é invisível. Seria uma desgraça para um homem como vós deixar que o tempo e não a razão se encarregue da cura.

e as oferendas. nenhum sacrifício deveria jamais subir. Teve larga circulação. pior. 1867. Filóstrato (iii. 127). para Deus. ed. Não sabeis o que é a morte? Então matai-me e enviai-me para a companhia da morte. ed. 5) nos conta que os eruditos estão convencidos da autenticidade deste fragmento. ou Sobre a Divinação. 4 livros. nem acender um fogo. que significa tanto razão como palavra) que sai de sua boca. ibid. as horas propícias para rezar.. 1781. falhais em piedade também para comigo. ii. o poderoso Um. e nas bibliotecas dos filósofos. como vimos. tereis me tornado nitidamente melhor do que vós mesmos” (o texto da última frase é muito obscuro).). e não a palavra (Um jogo com os significados de λσγος. “Nós homens deveríamos procurar o melhor dos seres através da melhor coisa em nós. i. I.melhor: é justamente pelo mesmo fato de que o será para sempre. muito menos dos homens pequeninos – nada que a Terra produza. nem mesmo dos Deuses. Diversos fragmentos foram preservados (vide Zeller. pois o que é bom – age através da mente. 41) parece pensar que o título integral era Divinação dos Astros. sua idéia da morte). dos quais o mais importante é encontrado em Eusébio (Praeparat. Estes tratados são: a. contudo. Veneza. mas o tipo de divinação sobre que Apolônio escreveu não era a astrologia comum. XVII. 176. Dindorf. estava em larga circulação e era tido na mais alta conta. Os Oráculos. Verdade. e se não alterais o vestido que colocastes nisto (isto é. 41. iv. Philosophie der Griechen – A Filosofia dos Gregos.” Noack (Psyche. b. Jônia. apenas um ou dois fragmentos foram preservados. falhais na justiça para com vosso menino. v. mas algo que Filóstrato considerava . e diz que era baseado no que Apolônio havia aprendido na Índia. Leipzig. 19). p. ou então ‘não é’. 57). que está acima de tudo. mas como o poderia ser quando o que ‘é’ jamais cessa de ser? “Mas será dito que falhais na piedade para com Deus e sois injusto. Villoison. ou mesmo qualquer coisa que o ar límpido contenha. Assim. 177) e tem este conteúdo: “É melhor não fazer sacrifício algum a Deus. 12-13. pois a mente não necessita de coisas materiais para fazer sua oração. e diz-se que suas regras foram gravadas em pilares de bronze em Bizâncio (Noack. falhais em piedade para com Deus. dos quais. nem chamá-lo por nenhum nome que os homens dão às coisas sensíveis. Evangel. Este livro. e Filóstrato encontrou cópias dele em muitos templos e cidades. que nos diz que dispunha sobre o método apropriado de sacrificar a cada Deus. Este tratado é mencionado por Filóstrato (iii. OS ESCRITOS DE APOLÔNIO Mas além destas cartas Apolônio também escreveu alguns tratados. Pois ele não precisa de nada. nem vida alguma que ela sustente. O único sacrifício adequado a Deus é a melhor razão do homem. Os Ritos Místicos ou Sobre os Sacrifícios (O título completo é dado por Eudócia. iv.

Section General Secretary.sociedadeteosofica. a que já se fez referência. nunca soube de alguém que possuísse uma cópia desta obra rara.br http://www. O Testamento de Apolônio. um embusteiro. um dos maiores da Terra? Isto cada um deve decidir por si mesmo.org. Índia) 902 . Porfírio se refere a este livro. um fanático. 1707. de onde quer que esteja. e alegremente aprenderia com ele.No.org.theosophical. De minha parte eu bendigo sua memória. cc. c. . 3).ca BRAZIL-1920 .superior à arte humana comum nesta área. 254-264) d. Aqui indicamos para o leitor toda a informação que existe a respeito de nosso filósofo. porém. Vit. Apolônio. um verdadeiro iniciado. 8 (vide Noack. Um Hino à Memória também é atribuído a ele. Section General Secretary Sociedade Teosofica no Brazil.. um charlatão.Licio Correia. um reformador. p. e Eudócia fala de muitos outros (και αλλαπολλα) trabalhos. ao tratarmos das fontes de Filóstrato (i..ca website: http://www. Pythag. de acordo com seu conhecimento ou sua ignorância. Ele. Canada L6S 5Y3 e-mail: info@theosophical. SGAS Quadra 603.br/ PORTUGAL-1921 [Member of the European Federation of National Societies] Mr. Foi escrito no dialeto jônico. Brampton.[ Member of the Inter-American Theosophical Federation ] Mr Ricardo Lindemann.20 CEP 70200-630 Brasilia (DF). On. Envie uma correspondência para: contato_em_portugues@theosophical. 15) e Jâmblico cita uma longa passagem dele (Ed. Amstelod. e contém um sumário de sua doutrina. Brazil Magazine: Theosophia e-mail: tsbrazil@sociedaddeteosofica. um entusiasta mal-orientado. ou um filósofo. um trabalhador consciente. Porph. foi um pilantra. então.10 Laurelcrest Street . A Vida de Pitágoras.ws Este livro é uma publicação da Canadian Theosophical Association (uma associação regional da Sociedade Teosófica em Adyar.

Rue Passos Manoel No.. 20 cave.sociedadeteosoficadeportugal. Portugal Magazine: Osiris e-mail: shakti@sapo.pt/ De volta ao início [Back to top] De volta ao índice de documentos [Back to documents page] De volta à página principal [Back to main page] Links para outros sites [Links to other web sites] . 1150-260 Lisboa.pt http://www.Sociedade Teosofica de Portugal.

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