Na Pele de um Dalit A História Real de um Jornalista que Viveu entre os Intocáveis, os Homens mais Discriminados da Índia Marc Boulet

7 de fevereiro de 1992 Acabo de assinar o contrato. Para um escritor, convencer um editor e receber um adiantamento dos direitos autorais é o mesmo que um desempregado encontrar trabalho. E mais ainda. Terei o que fazer durante um ano e dinheiro suficiente para viver. Além disso, escreverei um livro que será publicado e que talvez me proporcione riqueza e celebridade. Posso sonhar. Eu me dispus a me metamorfosear em indiano intocável. Uma velha idéia que não me sai da cabeça há dois ou três anos. O que aconteceria se um francês bem alimentado, criado no conforto da sociedade ocidental, se

transformasse repentinamente em um dos seres mais indigentes do planeta: indiano e intocável? Como suportaria esse novo tipo de vida? Como veria o mundo? Experimentaria as mesmas alegrias, dores e sensações de antes? Descobriria a Índia, país fabuloso, com seus marajás, caçadas aos tigres em selvas impressionantes, habitadas por papagaios e elefantes, templos barrocos e sábios meditando sobre tábuas com pregos, vacas sagradas, os horríveis leprosos e o mendigo mirrado que morre diante do turista, sobre uma calçada em Calcutá. Tantas imagens de Épinal, visões exóticas que a metamorfose em intocável indiano sem dúvida destruiria. Em primeiro lugar devo explicar brevemente quem são os intocáveis. Oitenta e três por cento dos indianos são hindus, divididos em duas a três mil castas - grupos hereditários, segregativos e endógamos, muitas vezes ligados a uma profissão, e hierarquizados segundo o grau de pureza higiênica e religiosa. Ao mesmo tempo, as castas se reúnem no sistema global dos quatro varna, ou ordens tradicionais: no alto, os brâmanes, depois os kshatriya, os vaishya e, ao pé da pirâmide, a massa dos shudra. Respectivamente: os sacerdotes, os guerreiros, os comerciantes e os servos, nascidos da boca, dos braços, das coxas e dos pés de Brahma, deus criador do universo. As três primeiras ordens eram constituídas, em sua origem, pelos arianos, termo que significa "nobres", em sânscrito. Oriundo das estepes da Ásia Central, esse povo colonizou o Norte da Índia há três ou quatro mil anos. Impôs sua religião, que estabeleceu os fundamentos do hinduísmo. Essas três classes superiores são consideradas nascidas duas vezes, pois os meninos se submetem a uma iniciação ritual que simboliza um segundo nascimento, uma espécie de batismo hindu, no fim do qual a criança usa um janeu. Esse cordão de algodão penderá a tiracolo sobre o ombro esquerdo até sua morte. Em contraste, os shudra, trabalhadores manuais, de origem supostamente pré-ariana, não podem usar esse cordão sagrado. Saídos dos pés do Criador, são inferiores. Abrangem os leiteiros, barbeiros, pescadores, ferreiros etc. Homens inferiores a serviço das três ordens superiores. Tradicionalmente, se

um shudra escutasse os textos sagrados hindus, seria preciso verter chumbo em seus ouvidos; se os recitasse, sua língua deveria ser cortada; se os recordasse, deveria ser desmembrado. Existem castas ainda "mais inferiores", tão abjetas que não foram geradas pelo Criador. Situam-se fora do sistema dos quatro varna e constituem o lado indiano inútil. São os intocáveis, os chandal, os descendentes dos bastardos míticos gerados na união sexual de um shudra com uma brâmane. O pior dos híbridos, segundo a ideologia hindu, classificado no nível do cachorro e do porco. Na realidade, os intocáveis seriam shudra sujos. Isto é, aborígines convertidos pelos arianos ao hinduísmo, mas cujos costumes e profissões, extremamente degradantes aos olhos dos brâmanes, excluem suas castas do sistema dos varna. Os garis, as lavadeiras, os que transportam os mortos até a sepultura, os sapateiros, os que extraem o sumo das palmeiras são intocáveis. São imundos. O sapateiro esfola os animais mortos, a lavadeira lava a roupa suja, o transportador de defuntos mexe com cadáveres... Suas atividades deixam nódoas impuras permanentes, que sujam aquele que os toca. Vivem em bairros específicos, separados dos outros. Até mesmo sua sombra pode poluir. Antigamente, era-lhes proibido entrar na cidade de Puna antes das nove horas da manhã e depois das três horas da tarde, pois as sombras de seus corpos, muito longas sob o sol rasante, podiam cair sobre um membro de uma casta superior e sujá-lo. Em Maharashtra, um intocável não podia cuspir na rua porque arriscava poluir aquele que pisasse em seu cuspe, e devia carregar um pote de terra preso ao pescoço para escarrar dentro dele. Se um brâmane cruzasse seu caminho, devia se deitar no chão, para não criar sombra. No Punjab, quando um gari saía à rua, supostamente deveria levar uma vassoura sob o braço para indicar sua casta, e deveria gritar para advertir a população de sua presença poluente. Na costa de Malabar, os que extraíam o sumo das palmeiras eram tão indignos que não podiam usar nem guarda-chuva, nem sapatos, nem joias de ouro. Isso foi antigamente. Após a independência da Índia, em 1947, a intocabilidade e a discriminação de casta foram abolidas pela Constituição.

pequenos funcionários. Os intocáveis somam aproximadamente 130 milhões. estradas lhes são acessíveis sem restrições e o Estado lhes reserva cadeiras no Parlamento e empregos na administração para elevar sua condição. por causa de seus costumes tribais. Um homem não pode mudar de casta durante sua existência presente. e os mendigos provêm de todas as castas. que recompensa o mérito na vida atual . para estudá-la. Todos sabem que os corvos são pretos e o mundo é injusto. Grosso modo. De acordo com o Ministério de Assuntos Sociais da Índia. em função de suas ações passadas. A intangibilidade parece uma discriminação tão monstruosa quanto o racismo e. devo me tornar um intocável. lojas. isso não muda em nada sua intangibilidade. conhecer a verdade. a eles se acrescentam 65 milhões de aborígines autênticos que vivem na selva e que são igualmente considerados intocáveis. Pertencem à casta indigna de seus ancestrais e continuam a ocupar o patamar mais baixo da escala social. o que representa uma em 28 pessoas no mundo. Isso é discutível. é indelével. A maior parte dos intocáveis não mendiga. Além disso. São camponeses. Se eu fosse razoável. todos os templos. eu poderia me inserir no RMI. fundamentada em uma impureza imaginária. comerciantes. operários. impedindo qualquer ascensão social. restaurantes. essa discriminação. Só a reencarnação lhe permite renascer em uma condição melhor ou pior. e conseqüentemente primitivos e impuros.aprisiona o indivíduo. que os intocáveis consideram condescendente. escolas. os intocáveis são chamados pudicamente de "castas repertoriadas" ou "filhos de Deus" . poços. um em quatro indianos é intocável. não teria assinado o contrato com a editora. Esse papel duplo me permitiria tocar o . Além disso. No papel.ao contrário do sistema de classes. mas o sistema de castas . assim como a cor da pele.termo gandhiano. mas. 15% da população indiana. o país possui um milhão e meio de mendigos. ou seja. muitos deixaram de exercer sua atividade tradicional.Atualmente. quero desempenhar o papel duplo de intocável e de mendigo. boas ou más. na realidade. Sem trabalho nem qualificação. alfaiates. Com a modernização da sociedade.

no sul.652 línguas arroladas na Índia. mas. isto é. em Benares. aprenderei o hindi.000 de indivíduos. Permanecerei seis meses na França. Refleti bastante sobre o método. cético. Essa província de 140 milhões de habitantes. existir a cem por hora. tribo aborígine de 1. Como para Na pele de um chinês me metamorfosearei em membro de uma etnia rara. Isso deverá bastar. Primeiro. Minha mulher. bastante minoritária. principalmente no leste. Já conheço seis. sou diplomado pela Escola de Línguas Orientais. mortos e crianças esqueléticas nas calçadas de Calcutá os confundem. dos rios gigantescos. Serei um membro dos Munda. mais três meses de prática na Índia. entre as quais o albanês.fundo da miséria humana. quero saborear uma nova aventura. Habitam as selvas do Bihar. Serei indiano na planície do Ganges. e meus pais dizem que sou louco de planejar essa experiência. no Estado de Uttar Pradesh. fico girando em círculos como um peixinho em seu pequeno jarro redondo. a Meca dos hindus. em Paris. e que eu nunca conseguiria parecer com um . o chinês e o coreano. para dominar a linguagem coloquial e a gíria. A população fala o hindi e. Sem dúvida em Benares. corresponde à terra do bramanismo. É evidente que em tão pouco tempo meu hindi nunca será tão perfeito quanto o de um indiano nato. das cidades distantes e das selvas exuberantes. seu sistema de castas ainda é rigoroso. O estudo de línguas me atrai. Assim. que possui sua própria língua. percentagem superior à média nacional. a mais populosa da União indiana. um Munda que talvez me desmascarasse. Depois de viver Na pele de um chinês. a mais falada das 1. Eis o meu plano. a centenas de quilômetros de Benares. Como contradizê-los? Claro que tenho medo de me deparar com essa miséria. argumenta que os aborígines indianos possuem traços mongolóides ou negróides. 80% convertidos ao hinduísmo. Gloire. eu me tornarei intocável e reduzirei o risco de encontrar outro membro de minha casta. As imagens de favelas. Meu editor. com 21% de intocáveis. leprosos. que posso perder a vida. Que cada minuto dessa metamorfose fique gravado em minha memória até minha morte. Preciso do sol dos trópicos. Isso justificará minha falta de fluência no hindi.000. nos anos 80.

uma frase. Aprendo a gramática. que pode ser polinésio. mas ser aceito como tal pelos indianos de Benares. Isso ocorre em todas as línguas sem alfabeto romano. É composto de 11 vogais.deles. Com certeza nunca viram um Munda verdadeiro. 40 consoantes simples e mais de 200 consoantes compostas. Não deve ser difícil. Aliás. trabalho o método quatro horas diárias. sua escrita se assemelha ao excremento de moscas ou à caligrafia. branco ou chinês. ignorando que dobra os "r". a maioria dos franceses não reconheceria um verdadeiro taitiano. e o hindi nos faz pensar em linhas de pequenas aletrias que se enroscam e se combinam em arabescos. e não é da natureza humana duvidar a priori da palavra de um desconhecido que reivindica uma identidade modesta. Vi aborígines do Deccan em uma reportagem sobre soldados aventureiros na televisão. sem falta. A regularidade é necessária para a . o hindi e outras línguas indo-arianas). Levei uma semana recopiando esse alfabeto quatro horas por dia. Não vemos mais as relações geométricas. Atualmente. sua existência é plausível. Isso me faz lembrar de quando aprendia chinês e coreano. o vocabulário e também a pronúncia. à pintura. E passamos a construir uma palavra. 12 de março de 1992 Aprendo hindi há um mês. Sigo o método inglês autodidata Teach Yourself Hindi (Aprenda o hindi sozinho). aos hieróglifos. É bonita. Quatro horas por dia. Está enganado. Depois. Para o leigo. Não sabem com que se parece. Primeiro memorizei os caracteres devanágari (escrita usada para o sânscrito. escutando a fita que o acompanha. mas ouviram falar dele. nem a arquitetura dos caracteres. Convenci meu editor. Não informaram o nome de sua tribo. não pretendo parecer exatamente um aborígine. Da mesma maneira. mas seus rostos pareciam arianos e devem existir tinturas para escurecer a cor da minha pele e do meu cabelo. repentinamente. uma idéia. e achava a escrita muito bonita. sabemos decifrar a sujidade de moscas e a escrita perde o mistério. mas somente o som e o sentido.

deverei fuçar as latas de lixo. "um dia além" . Sem dúvida. aqueles de quem me tornarei amigo. mas as grandes idéias sobre a vida cotidiana coincidem. Os pobres são realmente pobres. miséria. e. onde lavar a cabeça com um pouco de xampu é um luxo.. farei novos amigos.para trás ou para a frente. nem são beneficiados com o RMI. Nessa aventura. há particularidades divertidas. legumes e frutas todos os dias. geladeira e televisão.assimilação eficaz de uma língua. descobrirei prazeres desconhecidos. sem dúvida. isto é. Para enchê-lo. No entanto. Revela a indolência legendária dos indianos? Gosto desse tipo de indagação. deverão estar procurando um canto onde passar a noite. Em hindi. Isso não significa que os indianos pobres vivam sem sentir nenhuma felicidade. Só possuem o corpo. é uma tolice . onde o óleo comestível é vendido por centilitro.é que os indianos. ontem e amanhã se traduzem pela mesma palavra. De uma viagem turística de cinco meses na Índia. Quero me convencer disso. Essa metamorfose . Tenho medo. guardo a lembrança de uma sociedade de indigência extrema. mesmo com palavras diferentes. Não ganham salário mínimo. irmão. no mesmo instante. kal.. Onde vou dormir? Em que calçada? O que vou comer? Nunca fiquei com o estômago vazio. eletricidade. que permite comprar carne. Doenças. O que mais me surpreende no estudo . esquecer as favelas e a imundície. Assim espero. o açúcar por hectograma e cigarros por unidade. em Benares. Devo domar meu medo. fome. 40% da população vivem abaixo do limiar da pobreza. Os sons são diferentes. em 1990-1991. com a diferença do fuso horário. 18 de maio Parto em dois meses. pensam como nós. os despejos de sujeiras que decoram as encruzilhadas das cidades indianas? Quem serão meus amigos? Esta noite jantarei confortavelmente na França.e. Na Índia. pagar um aluguel com água corrente.

Está partindo para a China ou chegando de lá? . com lâmpadas ultravioleta. sei que não propalará meu projeto. Sem dúvida. O outro deve interrogá-lo sobre minha enfermidade. que esse paciente é um caso especial. mas ele não mudou. Na clínica. Não o vejo há três anos. Estarei sendo ingênuo acreditando na virtude transformadora de uma aventura? 2 de junho Bernard Levy-Klotz é um amigo dermatologista. deve estar querendo algo reversível. . Prescrevo metoxipsoraleno. Não inicia a consulta discutindo minha saúde ou a meteorologia. Trocam nomes de substâncias e. Ele me aperta a mão e me introduz no consultório. o pigmento marrom que cobre a pele. desta vez. Conhece algum método para escurecê-la? Existem medicamentos? Ele reflete e consulta suas fichas. lançando-me um sorriso. poderemos tatuá-lo. examinam o problema. Ele diz: . . Não existem muitas soluções. Mas minha pele é muito clara. De 35 a 40 anos.Não. pois ele responde. Serei sucinto. antes de se expor ao sol. em dois minutos.Bem. É uma substância que aumenta a quantidade de melanina. vou para a Índia. Depois. cabelos castanhos e sempre com um sorriso no canto dos lábios. que não pode explicar. Posso lhe perguntar como escurecer a cor de minha pele. Eu me fortalecerei. baixinho. Tomará um a três comprimidos por dia. Eu lhe explico que tenho a intenção de me transformar em indiano. É um médico aberto e competente. nós o utilizamos para tratar de pessoas com vitiligo.Bronzeia. mas o resultado será definitivo.É eficaz? .enriquecerá meu conhecimento sobre os outros e sobre mim mesmo. . liga para um colega e pergunta que método utilizaria para escurecer a pele.

. Mas para se tornar um indiano.Não sei.A epiderme se renova a cada três semanas. Durará esse tempo. . poderá ser útil. bronzeará sua pele. para obter o tom chocolate da pele dos indianos. em cada sessão de exposição.Quantos dias precisarei para me parecer com um indiano? . Tranquilizador! Ele é mais preciso: . Comece por um comprimido.É cancerígeno depois de muito tempo.É perigoso para a pele? . Mas você só o tomará durante algumas semanas.É cancerígeno.. Sob a ação da luz. Como sentirá o sol. E não quero me tornar um indiano e arriscar minha vida para realizar uma façanha. Suspeitava que o metoxipsoraleno era destinado aos aventureiros com minha índole.. o bronzeado seria um dourado à moda européia. . Não há riscos. . Você devia se testar. eu acho. É como um filme para foto. e se a queimadura for mais grave.E a cor durará quantos dias? . passará um creme de cortisona. Deverá usar óculos escuros durante a exposição ao sol. É a primeira vez que me confronto com uma experiência assim. Eu temia essa pergunta. prescreverei a pomada Biafine.O vitiligo é uma doença que provoca a despigmentação da pele e deixa grandes placas brancas no rosto e no corpo. talvez seja preciso se untar com uma solução de nitrato de prata. Deixamos de utilizála para tratar de manchas causadas por despigmentação porque os sais de prata provocam um matiz muito escuro e fosco. Ele . Só com o metoxipsoraleno. Balbucio qualquer coisa. Divulgá-lo daria a imagem de um jornalista superficial que busca o sensacionalismo. em seguida três. . depois dois. Deveria também tentar uma emulsão autobronzeadora como complemento. não lhe conto que me disfarçarei de intocável e mendigo. irá se bronzear como se tivesse passado um fim de semana na neve.Se tomar um ou dois comprimidos e se expuser à luz do dia.. para proteger os olhos. ele repete a pergunta e confesso a verdade. Além disso. Deliberadamente. Ele me pergunta que tipo de indiano pretendo imitar. uma proeza. Essa aventura é um assunto entre mim e os pobres.

fiz a tolice de passar o nitrato sem luvas. Se é que existem.. É verdade que os pássaros com a mesma plumagem voam juntos. pela Grande Muralha. me persegue desde meu livro Dans la peau d'un Chinois. passei duas vezes a solução de nitrato de prata no braço esquerdo e o expus à luz durante meia hora. isso eu admito. não é para chocar os leitores.Eu já suspeitava! Eu também imaginava que ele replicaria assim. com uma venda sobre os olhos. Hoje. mas não busco o sensacionalismo. como os de um cara que fumasse 10 maços de cigarros por dia e limpasse motores em uma oficina. testei. aos 32. visitei os bordéis chineses. Isso funciona. Isso fez minha mão direita ficar nojenta: a palma marrom e os dedos e unhas de um amarelo baço. durante três dias. Uma mentira. 14 de junho Na semana passada. quero me tornar intocável e mendigo.responde: . porém com mais cor de ferrugem. Na China. À tarde. Cada camada de nitrato de prata tornou a pele da cor do tabaco. Em compensação. É tudo. Ao retornar a Paris. experimentei o metoxipsoraleno.. pela caligrafia. Tomei um comprimido e passei a manhã em uma cadeira ao sol. era o amor que me fascinava. Nunca li uma única revista de Tintin e. Aos 27 anos. A imagem do repórter Tintin. Há quem se interesse pela poesia da dinastia Tang. Acrescento que a investigação não pretende se limitar à miserabilidade. Ontem e hoje. pois me bronzeei bem. pela acupuntura. O resultado salta aos olhos. como uma película fina de fuligem. pelo taijiquan (o boxe chinês). que corre atrás do sensacional fácil. Nenhuma diferença de pigmentação entre os dois braços. e resistente à água e ao sabonete. . se nesse livro eu falo de drogas. O doutor Levy-Klotz me ouve atentamente. contei minhas experiências. prostitutas e meninos de rua. a emulsão autobronzeadora em meu braço esquerdo. Quero apenas conhecer o mundo. e freqüentei os meninos de rua pelo prazer de sua companhia. Espero não sofrer muito e até mesmo apreciar os prazeres desconhecidos dos intocáveis.

passando pelo chocolate com leite. nem na linguagem coloquial dos diálogos. será preciso contornar seu interior e as unhas." “É uma mulher ou um urso?" “É um gorila! Um gorila!" Na página 24. li revistas populares e um romance policial: Les Mains de la mort (As mãos da morte). com nuanças que vão do chocolate branco ao chocolate preto. têm as palmas e as unhas claras. O domínio do hindi também me ajudará. Com o metoxipsoraleno e o nitrato de prata. na página 13. mas literatura de metrô. Ali. nem de Conan Doyle. Há os muito pálidos. pois os indianos. Depois.Na Índia. Quando os raspa. mas não tropeço mais nas dificuldades gramaticais. Quando chegar à Índia. belas e ricas sobre um gigolô: “E como anda Gautam?" . a discussão entre duas mulheres jovens. de pele morena. Ainda utilizo um dicionário. Conheço todas as estruturas gramaticais e cerca de 2.000 palavras do vocabulário. Acho que vou conseguir. Todas as manhãs passo quatro horas traduzindo Les Mains de La mort. daqui a um mês. Eu me deparei com trechos surpreendentes. o que devo aprofundar. Seu corpo é coberto de pelos espessos. para minha metamorfose. adquirir fluência e velocidade. assim como os negros. Por exemplo. Os indianos têm a pele cor de chocolate. segundo o método inglês. só terei de praticar a língua. e não é indispensável ter a pele escura para passar por um deles. me untarei com luvas e. mais uma tinta preta no cabelo. Terminei o estudo. eu me incorporarei à massa. principalmente no Norte. desabrocham como ganchos e me tiram a pele ao me roçar nela. um jornal de grande público. Não é nem de Peter Cheney. Mas a maior parte é de cor baça. um homem explica à amante por que ele odeia a esposa: “Ela me causa repugnância. no começo de abril. sem dicionário. quando for pintar as mãos. É rico em diálogos e expressões correntes. quero ser capaz de ler.

Sentia calor. Gloire.“É o tipo de cachorro que está sempre pronto a lamber as cadelas. me acompanha. minha mulher. 1º. Saber o que não se quer já ajuda. Na rua. isso me tranqüiliza. em uma cama com lençóis limpos. De fato. Em Benares. Sofria de úlcera no estômago e de tifo. Vôo 178 da Air France. Era penoso. os mesmos vícios. Isso me deu coragem de tomar o avião. de julho Esta noite tive um pesadelo. e crostas amareladas de impetigo cobriam meu rosto. Amanhece. publicada em livro de bolso e destinada ao grande público local. molhado de suor. Isso me acontece raramente. pegajoso. Eu era intocável. Foi horrível e acordei repentinamente. Não tinha remédios e ia morrer. A mesma linguagem. na França. os pardais cantam e fico feliz por estar vivo. Eu morava na Índia. Ninguém prestava atenção em mim. 18 de julho Finalmente parti. Eu sabia que não queria ficar na França. Usava sobre o corpo um pano sujo de terra e rasgado. destino: . Gostaria de cancelar o projeto. uma atrás da outra. ainda as duas garotas: “Tara tomou Suman em seus braços e fez amor com ela. Devo partir em 17 dias. muito pior do que tinha imaginado. desfazer o contrato com o editor." “Por que ele age assim?" Na página seguinte. Ela me fotografará e filmará durante a metamorfose. estava sujo. mostra os indianos como pessoas de carne e osso." Essa literatura. como faria com um homem. Dormia na rua e comia o que encontrava em um monte de lixo. Nossos semelhantes.

que sugere bom êxito social.Sim. não retornava à Índia havia 17 anos. Conversamos em hindi. mas prefiro o Veuve Clicquot. Está muito agitado e o compreendo. Foi meu primeiro contato em hindi com a Índia.Nova Délhi. porque me deixa tenso. tem apenas uma ligeira barriga. Sem rum. mas a cada 20 minutos pede que eu veja as horas no de minha mulher .Tenho uma casa de doces e salgados perto de Londres – ele diz. É a primeira vez que pratico o idioma. Ele se chama Basi. mas é de graça. Agrada e rende bem. untado de muito óleo. bigode e cabelo pretos. Tenho medo. Depois me pede para calcular quanto tempo falta para tornar a pisar o solo indiano. Também não é ruim. Meu vizinho da direita. cor de azeviche. Pergunto se é feliz na nova pátria. . Não bebe álcool e ganha dinheiro. É bom. em pleno céu. não me atormento com o porquê da minha existência ou desta viagem. Neste momento. . Nosso Boeing 747 aterrissará amanhã. no começo da tarde. Foram 17 anos! Ele é cordial. As aeromoças oferecem bebidas aos passageiros e eu bebo Veuve Clicquot. Ele não. bisnagas francesas. o álcool é uma bebida impura.E ganho muito dinheiro.. Um hindu da classe tradicional superior dos guerreiros que se tornou padeiro e doceiro em Londres. . . é possível ganhar muito dinheiro. Não é alto nem gordo. mas meu interlocutor me compreende. Naturalizado britânico.eu não uso. um indiano de uns 40 anos. Ele se chama Basi. pertence à nata da hierarquia hindu das castas. não dissimulada. não é melhor que em terra. É um kshatriya do Punjab. Para os indianos religiosos. Fico feliz. É bom. cometendo muitos erros de conjugações e declinações. Na Inglaterra. É isso. isto é. fica na Coca. se gosta da Inglaterra.000 metros de altitude. Falo devagar. Faço croissants. A 10.A Inglaterra'? . Ele usa um relógio..

O comércio nas arcadas em torno da praça está deserto neste domingo e papéis engordurados. caras pretas escolhiam trapos em sacos plásticos e caixas de papelão. cascas de amendoim e de banana cobrem as calçadas. nas províncias indianas. um ônibus do aeroporto também me deixara aqui. procurando um hotel. Prestava atenção para não chutar ninguém. Era meu primeiro dia na Índia e ignorava tudo a respeito do país. com centenas de desabrigados maltrapilhos vivendo como animais. Só que às quatro horas da manhã. Chegando de Paris. fachadas cobertas de velhos cartazes e bandeiras oscilantes. Eu saltava por cima dos corpos. passamos pela alfândega e subimos em um ônibus completamente desconjuntado.000. Em setembro de 1990. Medo de levar uma chifrada ou de ser assaltado. Em um cruzamento.Na Índia 19 de julho Délhi! Délhi! Foi assim. entre as vacas. Porém inquietante. Depois riram em uma língua incompreensível. considerado. É Connaught Place. Sem contar o milhão de vacas com os rabos sujos de merda que se arrastam pelo meio das ruas. Um sol perverso castiga e o ar úmido que cola na pele parece muito respirado. Depois dos bairros verdejantes do governo e das embaixadas da nova Délhi. As ruas não estavam iluminadas e uma chusma de homens vestidos de trapos sujos de terra dormia na calçada. Prédios tão rachados e tão sem reboco que é difícil saber sua idade. estação ferroviária. Não é uma maneira de dizer: mais de 9. Foi um choque. Direção: centro da cidade. um dos lugares mais modernos do mundo. Aí está Délhi! E é a capital da Índia. Desembarcamos. Desço na estação e torno a subir na direção de Paharganj. Sentia medo. caímos no coração da metrópole. Assobiaram para mim.000 de indivíduos vivem aqui. Délhi parecia uma fazenda. Cheiravam a esterco e pisei várias vezes neles. Época da monção. Connaught Place parece uma cidade em ruínas. Passei a mochila para a .

Causava pena. Nesta tarde. O homem usava uma camiseta e uma calça ou pareô rasgados. Ele tentava durante dois ou três minutos. Não estou exagerando. Não é nenhum palácio. onde lhes dá vontade.frente. geralmente. tudo isso fermenta. e. A luz do dia nunca penetra na maior parte. Julho de 1992. Os quartos do hotel Anoop. sem janelas. Em 1991. Mas estou bem na índia. o que lhe facilita o sono para se adaptar à mudança de fuso horário. Sem a menor cerimônia. mas eu não queria ser detido e me recusava a subir em seu carrinho. Voltarei a falar nisso.. envelheceram no mínimo 20 anos. apertei-a contra o peito e segui meu caminho. uma sombra com um jinriquixá surgia não sei de onde e insistia em propor seus serviços. e então surgia um outro. Com o calor. perto de uma parede. Somente a metade dos quartos estava pronta e as máquinas silenciavam à meia-noite para nos despertar antes do alvorecer. Os homens urinam em volta da estação. agachados ou em pé. sem se ocultarem. que possui apenas janelas pequenas que se abrem para corredores. Alugo um quarto no hotel Anoop. mas. Os quartos mediam uns 15 metros quadrados. o sol queima Délhi e a chusma de homens que dormem na rua ainda não ocupa a calçada. considerando a tarifa. O mármore continua lá. A iluminação provém de lâmpadas . Esta gira sempre em torno de seis dólares por 24 horas em um quarto duplo. com as paredes revestidas de mármore nos dois terços inferiores. o que é muito tempo. em compensação. Enxames de moscas me seguem e a atmosfera fede como latrinas. com roupa de cama nova e um grande banheiro com acessórios niquelados. Às vezes. a água era cortada para consertarem o encanamento e alcançávamos nossos quartos por uma escada coberta de entulhos. oferecia quartos limpos e espaçosos.. tornam a vestir a calça e bye-bye! As fezes ficam ali e enriquecem o perfume de urina. Ao terminarem. Alguns aproveitam para evacuar bastante. A cada cinco minutos. esse pequeno prédio de três andares estava em obras. Esses buracos de ratos dão a ilusão de noite eterna ao viajante estrangeiro. quando lá estive. em fevereiro de 1991.

Morrer é mudar de pele. as lendas.fluorescentes. para lavarem suas faltas. A água transpira ao longo das paredes. "o que nasceu deve morrer. é personificado em uma deusa. é a divindade tutelar.600 quilômetros. e parecia duas vezes mais velha que as três reunidas". a céu aberto. Há de tudo flutuando no Ganges: lixo. contemporânea da Babilônia. A alma. a água jorrando direto pelo cano em seus pés e o colchão que balança. a ferrugem corroeu os acessórios do banheiro.000 templos e milhares de peregrinos chegam diariamente para se banhar nas águas purificadoras do Ganges. resíduos da destilação de petróleo. descascada. É preciso mencionar as torneiras que não abrem. sem interrupção. mas tornou-se um esgoto.000 anos. 2. como se os quartos tivessem sido pintados antes da Independência. Leva para o oceano todos os resíduos domésticos e industriais de sua bacia superpovoada. Benares é. independente de seus méritos. as tradições. de 2. 22 de julho Cheguei ontem em Benares. então. Também disse. Confia a todos que são incinerados a fórmula mágica que os liberta do ciclo das reencarnações. Fundada há 3." O rio sagrado. o terceiro da trindade hindu. em 1947. em existências sucessivas. Com essa umidade. Somente a interrupção desse mecanismo de nascimentos e mortes infinitos libera a dor de viver na Terra. a propósito do Ganges em Benares: "Acho que nenhum micróbio que se preze viveria em uma água dessas. e a pintura creme do terço superior e do teto está totalmente mofada. Segundo o Bhagavad-Gita. Mark Twain escreveu que "ela era mais velha que a história. dilatada. como se muda de roupa. e depois abandonados. Shiva. se funde com a do universo: a visão hindu do paraíso. o deus destruidor. na mitologia hindu.000 habitantes. entre as ainda existentes. o que morreu deve renascer". peixes . Uma cremação em Benares garante o acesso a ele. As pás do enorme ventilador de teto agitam o ar abafado e úmido proveniente do banheiro. a cidade mais antiga do mundo. o sifão sumido na pia. É a mais sagrada das cidades hindus. e não há nenhuma ventilação. Possui 800. que representa um quarto da superfície da Índia. Também vêm para morrer.

Um canteiro central de cimento a divide em duas vias calçadas de pedras. É a índia de depois da Independência. e casas de muros espessos. há vielas poeirentas. Parecem datar dos anos 50. como com tentáculos. das quais algumas. sem ornamentos. sem tradição arquitetônica. Eu e minha mulher moramos na Ravindrapuri Colony. Aí. caminhões. . Há pouco ou nenhum acabamento e. quadrados. há a cidade moderna. Atualmente. idênticos.mortos. A faixa de 500 metros de largura que margeia o rio lembra a Europa medieval. se eleva na margem oeste do rio. de latas de lixo e de suor. Na Ravindrapuri. Sente-se o cheiro de fritura. A outra margem é maldita e deserta. Na Índia. Aqui. Ravindrapuri Colony é a avenida chique de Benares. as paredes e os tetos. íntima. cadáveres de vacas. alugamos o apartamento por um mês. que provocam solavancos e cujos sulcos formados pelas rodas dos veículos estão sempre cheios de uma água escura. as casas novas parecem gastas. há 20 anos a selva e as palmeiras são abundantes. No verão. quando me tornar indiano. bicicletas. repletas de lixo. é possível ser mais novo que o novo. não são máquinas antigas. Preciso de uma pousada calma. vi tais tipos de veículos na França. Estende-se. as largas escadas de pedra que dão no rio e formam suas ribanceiras. Hoje de manhã. a obra é considerada concluída. pendem perigosamente. Neste país. Nos documentários sobre essa época. muito gastas e rachadas. sem cor. sem originalidade. com a poeira ambiente. No alto dos ghat. Fervilha de gente. de coleção. por onde possa sair discretamente. motos. de leite. coladas umas às outras. a casta intocável dos pasi sangra as inflorescências dessas árvores grandes para extrair um vinho espumante. jinriquixás. onde se atropelam carros. mas máquinas novas. Minha metamorfose seria difícil em um hotel. às vezes asfaltadas. Benares. Mede um quilômetro de comprimento por 20 metros de largura. com uma entrada particular. uma vez construídos os alicerces. Prédios de dois ou três andares.. existem na avenida centenas de mansões espaçosas e mais novas. dão a impressão de datarem de meados do século. Varanasi em hindi.. Em seguida. por onde as vacas vagueiam. ao longo de dezenas de quilômetros de ruas deterioradas.

Ravindrapuri. de raízes aéreas. e. Tenho espaço. Seteiras que varam a parte de cima permitem a renovação do ar. O primeiro andar foi acrescentado ao térreo no ano passado. os cortes de água e eletricidade. Em compensação. Como descrevê-lo? Há duas maneiras de ver o mundo: a positiva e a negativa. As paredes pintadas de qualquer jeito. de vários tons de branco. Da varanda ensolarada estende-se a vista sobre a avenida Ravindrapuri. mas caiadas. uma grande cozinha. excrementos de ratos na escada. . na via calçada de pedras e deteriorada . Maldita varanda! Dentro de casa. disponho de um apartamento de quarto e sala. uma entrada privada e um banheiro com ducha. Tenho um quarto grande. A varanda é gradeada para impedir que os macacos ali defequem e pilhem nossa roupa branca. e. Menos sólido. cozinha e banheiro. mais adiante. Eu me sinto em uma jaula. de arquitetura quadrada e de teto chato. E pago um aluguel de 1. Mesmo não sendo muito lógico. respira luz e limpeza. eu me instalei no primeiro andar de uma bela casa amarela. pelas aberturas da ventilação. em uns 50 metros quadrados. Uns 50 macacos de traseiros vermelhos aninham-se e brincam nos galhos. uma grande sala de jantar. destinado às famílias de baixa renda). Menos de 60 dólares. Depois. a monção faz chover dentro de casa. A vista mergulha em um terreno coberto de lixo. às vezes revestidas com mármore e sem rachaduras. pintado de branco.400 rupias por mês. Também há teias de aranhas nos tetos. e as paredes internas já começam a rachar. Seu flanco direito recebe a sombra de uma enorme árvore verde. parece um pequeno HLM (Habitation à loyer moderé: sistema habitacional promovido pelo Poder Público. De acordo com a primeira. os freqüentadores habituais tiram as calças em suas calçadas. posso resmungar e dizer que a casa.as fachadas também são manchadas. e o apartamento. Todas as manhãs. é preciso tirar a água. de centenas de metros quadrados. Esta é minha casa. dão aos cômodos um aspecto grosseiro. Retorno ao meu apartamento. elas são mais novas.

a mulher. Possuem varas de porcos que sulcam a avenida em busca do lixo que os moradores jogam ao lado da porta de suas casas. coberta de telhas vermelhas. diante desse quarteirão isolado por um muro. Aí habitam os garis. e. só os intocáveis comem sua carne. É a ordem superior dos guerreiros. queimam pequenos montes de lixo que exalam mau cheiro. Índia. a maioria dos habitantes da Ravindrapuri é de castas superiores. Ao lado de nossa casa. Maurya. há centenas de casebres. pronuncia o z em vez do j ou do g e possui uma loja de medicamentos tradicionais por atacado. como o nome indica. Tem cerca de 30 anos. inscreve-se na ordem dos kshatriya. Também comem os excrementos que cobrem as calçadas. A sociedade indiana é dividida horizontal . N.em classes econômicas . Observe um porco comer vorazmente! Escute o barulho da mastigação! Dá a impressão de acharem tudo delicioso. mesmo na cidade. Uma verruga na face dessa Champs Élysées. uns colados aos outros. Segundo ele. um filho e uma filha. mas elas coincidem. o que me servirá para sair incógnito. A 200 metros. rolam nos sulcos lamacentos e fazem uma algazarra com a matilha de cães vira-latas. a bela mansão de estilo californiano. O porco é um animal impuro e. a dos nascidos duas vezes. entre os hindus.O proprietário mora no mesmo andar. a mãe. pertence a um rico farmacêutico brâmane. Esses porcos são ossudos. no lado esquerdo da avenida. 26 de julho Com que se parece um intocável? Os varredores da Ravindrapuri não são mais trigueiros que os indianos . Chama-se S. que se situa logo abaixo dos brâmanes.e verticalmente .em castas religiosas -. E os intocáveis? Existem na Ravindrapuri. terra dos contrastes. pertence à casta dos Maurya. Seu apartamento tem cinco cômodos e ele vive com o pai. com telhas de plástico seguras por pedras. O lugar se chama "bairro dos garis". na Índia. De fato. Mas cada um de nós tem uma escada particular. Ao longo da estrada.

Isso . se penteiam e acariciam seus filhos. mas não percebo nenhum claro. às vezes. Estudar seus costumes para preparar minha metamorfose em intocável. assim como limpar as unhas. Ele se enrola sobre uma anágua e sobe até a cabeça por cima de um corpete bem curto e justo. Essa favela deve abrigar criminosos. ou então com uma sunga ou pano sujo de terra. roncam. Esta parece ser uma das ocupações mais importantes das mulheres do bairro. calças. Mas como fazer amizade com eles? Tenho medo. Todas as roupas são rasgadas e manchadas de gordura. Lá deve-se vender de tudo. fazendo-o subir à cabeça diretamente pelas costas. ou. que molda o peito e deixa a cintura à mostra. da irmã. O sari. Em seguida. os papéis são trocados. como a maioria das cidadãs. As varredoras usam o sari sem elegância. Anciãos mirrados. formando belas pregas. Ainda mais sujos. Queria experimentar sua bebida e a carne de porco que preparam. possuem remelas nos olhos e o cabelo desgrenhado. Fazem isso em público. Melhor dizendo. Diariamente vejo-as catar piolhos na cabeça da filha. tão numerosos e têm cara de broncos. elas catam os piolhos. Os filhos dos varredores andam nus pelas ruas. Camas de corda são alinhadas diante das choupanas dos varredores. como uma saia masculina -. Andam descalços ou usam sandálias de dedo. Disseram que eu não devo ir lá. É natural. Têm o rosto sujo. A cabeça apóia-se sobre os joelhos ou contra o peito da pessoa que cata os piolhos. mas acho-os repelentes. tradicional vestimenta feminina hindu. Os homens usam camisa ou camiseta e um lungi . São tão sujos. o nariz escorre. Vestem-se como todos os hindus pobres da cidade. Cultivar piolhos não é nenhuma vergonha. Basta saber aonde ir e quem procurar. Eu cato seus piolhos. As mulheres se envolvem em um sari de algodão gasto e cinza de sujeira. faz parte da vida comum. de pele escura como a de um búfalo. mulheres discutem e tagarelam. em vez de enrolá-lo em torno do busto. Gostaria de visitar o bairro dos varredores. é uma faixa de tecido de cinco metros de comprimento que cobre o corpo dos tornozelos à cabeça. O proprietário e os vizinhos me alertaram quando perguntei sobre a vida nesse bairro. Eles têm a reputação de beberem muito. Incomoda-me dizer isso. você cata os meus. da mãe.pano de algodão em torno da cintura.comuns.

mais bem alimentadas e das quais mais de 80% não exercem nenhuma atividade profissional. rejeitado e isolado nesse quarteirão. O que me interessa não é seu currículo. seus cabelos estão untados de óleo e penteados e está barbeado. Sem outra opção. eu as acho belas. Se eu cruzasse com ele no centro. onde a lama cobre o chão dos pardieiros. Sua elegância é agradável. Eu a comprei na sexta-feira. Os indianos são incapazes de fabricar um objeto perfeito. É domingo de tarde. não há água corrente e a única mobília consiste em camas de corda. Explicarei melhor. É formidável. que ali não tem nada para se ver ou que meu lugar não é entre os intocáveis? Eles não me responderam e mudaram de assunto. Veste uma calça preta e uma camisa amarela larga e na moda. os traços são finos. as chamas correram pelo fio da tomada. Seu coquetismo é um hino à felicidade de viver. eu me contento em passear nas imediações. ia esquecendo: a geladeira queimou. sem dúvida por varrerem tanto as ruas e empresas em Benares. de madrugada. fumam e mascam tabaco e bétele. Daí as bacias de . O compressor aqueceu demais e. Considerado um intocável pela sociedade. Ah. alto e musculoso. Aconteceu à noite. não o distinguiria de um brâmane chique. Não me surpreendo. continua querendo mostrar-se belo. durou dois dias. Têm um certo charme. Uma dezena de jovens conversa ao longo da Ravindrapuri. Usa mocassins engraxados. Esta foi minha primeira manhã em Benares. corno se os varredores não lhes interessassem. tem certa distinção. depois de uma semana na Índia. mas sua anatomia.significa que é perigoso. Elas discutem sem parar. onde os homens e os porcos vivem juntos no meio das imundícies que os trabalhadores encarregados da limpeza da lama acumulam diante de suas casas antes de fazer a triagem. são altas e esbeltas. são até mesmo atraentes. Observei as varredoras. Um deles. que são mais ricas. Por enquanto. o que escurece seus dentes. Sob a camada de sujeira. arianos. Consegue ser chique habitando nessa favela. diante de uma das cabanas que servem de pocilga. Seu corpo esguio contrasta com o corpo redondo das mulheres de castas superiores.

é magro. É a seguinte: "Esta garantia não se aplica aos defeitos devidos ao fogo. o irmão mais novo de minha proprietária. o tripé para fotos cambeta. tem o nariz chato e cabelo ondulado. Não conto a ninguém meu projeto. Ele tem a pele escura. à tarde e à noite. o tecido novo sempre desfiado. Em três meses preciso assimilar os conhecimentos fundamentais sobre a Índia que o intocável comum não pode ignorar. Eu lhes disse que vim à Índia para aperfeiçoar meu hindi. Parece dinâmico. a Pepsi-Cola mal fechada e sem gás. e Ram Singh. Ainda é solteiro e dirige a escola de estenodatilografia que ele mesmo fundou. como se avaliassem as necessidades humanas em um nível inferior ao estimado pelos ocidentais. 27 de julho Todas as manhãs pratico o hindi na rua e. levarei a geladeira para consertar e espero que a garantia funcione. passará das 18 às 20 horas. Não posso julgar. as solas dos sapatos que descolam depois de um dia de caminhada. Também tenho de compreender como as castas funcionam na vida cotidiana. professor de economia agrícola na Universidade Hindu de Benares. Seus pais terem esquecido é. mas esta lhes parece normal. Pago nossa conversação. usa um bigode fino.plástico que vazam desde a compra. Pergunto se pode tomar o chá oferecido por ." São os estragos de Deus. hoje. o despertador que não toca etc. Contratei dois indianos. Eu o interrogo sobre o sistema de castas. Além disso. Deus é uma entidade concreta e jurídica. as canetas que não escrevem. tenho o direito de escolher os temas. Primeira aula. começo um curso intensivo de conversação. É válida por sete anos. Sanjay. Sanjay tem mais ou menos 25 anos. muito freqüente na Índia. Digo mais ou menos porque ele não sabe o ano exato de seu nascimento. Comprei tudo isso. Os indianos sabem da mediocridade de seus produtos. as tomadas elétricas que têm de ser forçadas para combinar. às inundações e outros atos de Deus. os biscoitos mal empacotados e úmidos. li uma cláusula impressionante no contrato de venda. virá à minha casa das 14 às 17 horas. os cadeados que emperram depois de uma semana de uso. Na Índia. segundo ele. Amanhã.

de longe os mais numerosos-. os dom seriam os intocáveis mais impuros. os mehtar (outra casta de varredores). Minto: . Caso contrário. Eu lhe disse que queria estudar os costumes hindus.. Você come carne de porco? Será que ele conhece os costumes ocidentais? Não quero que me despreze.Claro que não! Pergunto como reconheço um intocável.É verdade . Por que ele é impuro? Por que. você conhece todo mundo.Não está escrito em seu rosto "Sapateiro" ou "Tintureiro". Prossegue: . Esse animal se alimenta de sujeira e excrementos. Ok. Ele sorri.. . Ele me explica que não devo dizer "intocável". A pergunta o incomoda. mas em um país onde o vegetarianismo é o regime puro e civilizado por excelência essa não poderia ser uma profissão intocável.Ele se mantém calado. balançando a cabeça da esquerda para a direita.Mas os sonkar adoram carne de porco. . Segundo Sanjay.responde Sanjay. ao tocar no alimento. os dhobi (tintureiros) e os sonkar (mercadores de legumes). leiteiro. o intocável pode se sentir ofendido. Sua própria atitude só me interessa na medida em que é característica de um membro das castas superiores. Ele também. São os chamar (sapateiros) . não posso aceitar nenhum alimento preparado por um filho de Deus. Mas se for à cidade não poderá adivinhar a casta de um desconhecido por seu rosto ou vestuário. Ele hesita e responde: . Só são consumidos pelas castas repertoriadas.um intocável. . Eu pergunto o nome das "castas repertoriadas" em Benares. Digo que conto com sua franqueza. como surpreso com a minha pergunta. mas "filho de Deus" ou "casta repertoriada". .Em seu bairro. .Por quê? . Sabe quem é brâmane. barbeiro. ele o sujou? Ele assente à maneira indiana.Sou um Maurya. Eu me deleito com sua observação. os musahar (primitivos coletores de folhas). Por que os sonkar pertencem às castas repertoriadas? Vender legumes não é uma glória. os dom (coveiros e varredores). os pasi (extratores do suco fermentado das palmeiras). varredor. seguidos pelos chamar e pelos dhobi.

Isso o incomodou? . há uma aluna que é varredora. e não correrei o risco de ser detido pela polícia. Ram Singh. Em geral. na Índia. Bastará minha palavra para provar que sou indiano.Sim. utilizam nomes neutros. Eu pergunto: . Murat.Tentou cortejá-la? . Mas esse tipo de situação quase não acontece. Não é uma Maurya. ele ofereceu chá a todo mundo e tive de molhar os lábios no copo.Mas os filhos de Deus são mais escuros e malvestidos. o nome da casta constitui o patronímico de um indivíduo. o poder. e muitos hindus mudam seu patronímico para Singh. Em minha escola. Este último também é o patronímico dos siques e da elevada e célebre casta kshatriya dos rajaputros. Isso não acarreta nenhum problema legal. Não precisarei de documentos falsificados. . pois.E na casa de seu amigo sapateiro. Prasad (alimento oferecido aos deuses). Certa vez. Nós nos chamamos como queremos. Ram (deus) ou Singh (leão).Por que não? . E mais pobres. Sanjay explica que os intocáveis.Sim. Isso evita sofrerem uma recusa humilhante. Para viajar ou se registrar em um hotel. . Eles não são idiotas.. meu segundo professor. Os filhos de Deus sabem que não gostamos de consumir o que tocaram. não existem documentos de identidade. Se for verdade. Na Índia. Há brâmanes negros e tenho um amigo rico que é sapateiro. Assim são Kumar. Ele possui uma locadora de vídeo. O leão simboliza a força. É muito bonita e se veste bem. freqüentemente. um carro e um imóvel grande perto da ponte de Assi. mas nem sempre. mais a pele é apreciada. aceitaria um chá? Refletiu: . Bachan. éramos muitos amigos reunidos. será prático para minha metamorfose. . se puder evitar. confirma que na Índia as pessoas não possuem carteira de identidade. e não nos convidam a fazê-lo. como quando vivi na pele de um chinês. . É mais clara que você. quanto mais clara.Não. Deve-se evoluir...Você gosta dela? .Claro que não.

Ram Singh pertence à classe média. Em suas orelhas. lábios carnudos. é feio. Com o salário de professor universitário. Não é nem rico nem pobre.declinam sua identidade sem fornecer provas. Sua mulher é nepalesa e rajaputra. de peixe e. Ele é alto. como alguém que já viajou muito e sabe o que diz. segundo ele. cabelo preto bastante untado. de caça. É repugnante. uma das mais prestigiadas do país. de frango. Os dois comem carne: de carneiro. claro. comer carne equivale a comer cadáver. É rajaputro e tem orgulho disso. forte e de cor negra como o ébano. Um dia. o que é raro na Índia. apresentam o movimento da caderneta de poupança e assinam. da ordem superior dos kshatriya. os escrutinadores da zona eleitoral conhecem todos os habitantes do bairro e ninguém consegue. Para retirar dinheiro do banco. Ram Singh chegou às 18 horas. Porém me explica que os kshatriya. Tem mais ou menos 45 anos. que ressalta o branco dos olhos esbugalhados. Penso em meu proprietário. Ele só come carne fora de . Eu me pergunto se sua auto-satisfação lhe proporciona mais prazer que uma mulher que acaricia os seios. às vezes. Ram Singh admite sem constrangimento. é reputada por suas atitudes guerreiras e pela força física dos membros que levam o nome Singh (leão). mas não usa bigode. ele me afirmará que os seres abjetos são os vermes que parasitam o intestino das crianças. A endogamia é um dos pilares do sistema de castas. Segundo a ideologia hindu. Parece achar que nunca encontrou um aluno tão inteligente quanto ele mesmo. Esta foi a primeira impressão que me deu e que se revelará falsa ao longo de alguns meses. Ele tem certeza disso. se fazer passar por outro. crescem tufos de pelo. Para votar. mas em um tom calmo. Fala com a voz rouca e engolindo as sílabas. É um defeito típico do indiano bancar o sabe-tudo. Um costume das castas inferiores dos shudra e dos intocáveis. se outorgaram o privilégio de consumir essa delícia impura sem perder sua posição no alto da hierarquia hindu. Não nos esqueçamos de que é professor de agricultura na Universidade Hindu de Benares. Maurya é kshatriya. e Ram Singh me conta freqüentemente fatos escandalosos. Esta casta. casta dos guerreiros e dos reis. um grande nariz redondo.

Recordo a amizade entre Georges e Lennie. Faço a Ram Singh a pergunta do chá preparado por um intocável. Medo de passar anos preso. longe dela. sonhei com o tempo em que conheci minha mulher. Na época. Ram Singh sorri. .O nome da dinastia se escreve sem a no final.Os Maurya não são kshatriya. .. ." . temos um futuro e não estamos sós. Por isso são freqüentemente vegetarianos. Penso no que me espera daqui a três meses. Revi os primeiros dias que passamos juntos. o romance de Steinbeck: "Na vida. Nesta manhã eu me dou conta. A hierarquia das castas intermediárias parece confusa. Ela é formidável. em Ratos e homens. alguns decênios de felicidade que nos restam juntos. Tenho medo..casa e sua mulher é vegetariana. eu jamais imaginaria que.Eles dizem o contrário. Dizem mesmo que descendem da família imperial Maurya. Ele responde sem hesitar que não o beberia. apenas para satisfazer minhas ambições. Eu a amo mais que tudo.Não! Quem quer tocar uma coisa suja? 1º. Ela nunca me abandonou e é minha melhor amiga. Maravilhoso quer dizer melhor que tudo que existe. São shudra ou vaishya. Sem ela. seis anos depois. em 1986. ela me acompanharia a Benares para ajudar a me transformar em um intocável. Medo de morrer. Porque eu tenho você para cuidar de mim e você tem a mim para cuidar de você. não tem nada a ver com os Maurya. para imitar os brâmanes e adquirir prestígio. . se os tiras me descobrirem. Inteligente e corajosa.. Temo deixar de existir perto dela e receio arriscar. que são uma casta de fazendeiros. jamais teria conseguido me metamorfosear em chinês. Mas tentam fazer com que sua casta seja admitida em uma ordem superior..E pode tocar em um filho de Deus? . de agosto Na noite passada. Foi maravilhoso.

o espectador mais idiota sabe.000 filmes por ano. Isso não faz a menor diferença. contanto que a canção principal seja exibida. que depois de várias peripécias recupera sua honra. portanto. entre as castas nascidas duas vezes e. finalmente. Também pode ser um indivíduo desonrado.6 de agosto Meu vizinho de baixo. Não é um cinema experimental. . depois. sem pé nem cabeça. antecipadamente. respeitáveis. e as cores. Os temas são o amor e a injustiça. como a continuidade das imagens. Aliás. com uns 1. os planos se encadearão. de dois irmãos que se perdem de vista. como a trama se desenvolverá. por exemplo. A história e os atores eram formidáveis. O filme hindi é uma diarréia de imagens e de sons. Está na faixa dos 40 anos. a unidade de tempo e de lugar. articulados segundo o esquema "perdido-encontrado". se sucedem e a cada 20 minutos. levam vidas opostas e. uma canção ou um balé. Durante duas horas e meia. sem respeitar as regras cinematográficas mais elementares. apimentadas com cenas de tumultos. isto é. assim. As seqüências irreais de romance e de reparação de uma injustiça. seus bens. é o melhor filme hindi do ano. Não é nenhum estúpido. possui o doutorado em física nuclear e ensina na Universidade Hindu de Benares. se reencontram. e todos saem. me recomendou o filme Beta (O Filho). confio em seu gosto e esta noite verei Beta. "Perdido-encontrado" é o caso. Para ele. e é tudo. O filme pode durar o dobro ou a metade. Vi cerca de uma dezena de filmes hindi. Uma obra-prima. classificados entre os vaishya. mais ou menos bemsucedidos. roubado. O doutor Agrava pertence à casta dos Agraval. uma casta importante de comerciantes. do mesmo molde. Etcetera. realizados em hindi e em umas 20 línguas regionais. o doutor Agraval. A película é freqüentemente super ou subexposta. ter mais ou menos canções. excessivamente carregadas de azul ou de vermelho. Ele assistiu três vezes. os operadores suprimem um ou dois rolos quando a sessão começa com atraso. Esse esquema arquisimples sempre define o roteiro de um filme hindi e. é malfeito ou negligente. A Índia é o primeiro produtor mundial de longas-metragens.

enlouquecendo o pai. um rosto redondo de boneca.O filme Beta foge desse esquema. e seios generosos. evidentemente. e o pai recupera a saúde mental. Tem cerca de 25 anos. a tez clara. Kapur interpreta papéis de tipos honrados. Madhuri é única. a mãe se arrepende. um papel sob medida! Mais uma vez. é gordo e peludo como um gorila no peito e nas costas. Possui seu próprio estilo de dança. e a madrasta prepara um veneno para se livrar da nora. é Madhuri Dikshit. Ao . O filme agrada ao doutor Agraval e aos milhões de seus compatriotas. pois não há uma coreografia à altura de seu talento. Um verdadeiro beta. Ingênuo. considerado belo e sensual. qualificativo dado na Índia a seus artistas famosos. encontra uma verdadeira mãe naquela que foi a madrasta. dinâmico e rápido. interpreta sem exagerar e é a atriz mais popular e a melhor dançarina do cinema hindi. que desempenha o papel de sua esposa. e a intriga. O menino. 15 de agosto Esta manhã descobri que existem lojas de drogas do Estado em Benares. ingênuos. Ela é bonita. o que coloca sua bilheteria em primeiro lugar. Todo mundo conhece sua maneira de dançar erguendo os quadris e balançando os seios para o céu. É um Alain Delon local. ao se tornar adulto. o filho ressuscita. mas não consegue salvar esse Beta fraco. É um super-herói. A comparação com Delon para aí. com um bigode espesso e um corte de cabelo que lhe dá a aparência do cunhado ideal: um pouco tolo e limitado. É a história de um órfão de mãe. E a interpretação dos atores. casa-se e sua mulher descobre toda a trama. Mas é o filho que o toma e se dá conta da verdade ao morrer. Finalmente. Na verdade. é representado por Anil Kapur. Sua dança sempre provocou assovios entusiasmados dos espectadores. do Beta. Embora tenha as feições mais finas e seja mais claro que a média dos indianos. O círculo é fechado. cuja madrasta pérfida tenta se apossar da fortuna da família. tão elogiada por Agraval? O papel do filho. ele se recusa a acreditar. a super-heroína. destacada por uma montagem tão grosseira que todos os retardados de cinco a 80 anos podem assimilá-la. não muito perspicazes.

no governo de Chandra Shekhar. segundo a tradição. Comemoram os 12 anos do filho do caçula. compram sua dose e vão embora. sem reboco e manchadas. R. o que lhe permitiu correr o mundo. À noite. e na frente. e dono de uma grande loja de motos. e nesta cidade santa são muito consumidos. As paredes estão descoloradas. na calçada. mas também alto e forte. há quatro anos.o comissariado central . O alpendre fica na beira da estrada. São pessoas muito ricas e não representam o indiano médio. sem interrupção. . como o vinho à eucaristia católica. Essa festa foi organizada pelos dois cunhados do doutor Agraval. Agraval. espécie de haxixe que se come. alguns anos mais novo. para ficar alegre. alto e forte. Agraval. em uma festa a que fui convidado pelo doutor Agraval. Não é um vício. U. com os pais. na faixa dos 40 anos. outra vende maconha. Doze gramas. foi deputado pelo BJP (partido extremista hindu) na Assembléia Legislativa. Agraval. 15 de agosto. Perdeu a cadeira nas últimas eleições e fala com amargura da política e da corrupção na Índia. Em cima da loja. Seu aniversário coincide com o Dia da Independência. suas esposas e filhos na casa da família.e na Luxa Road. dos bem-vestidos aos esfarrapados. é como beber vinho na França. possui uma loja de material elétrico e uma oficina de fabricação de tubos plásticos. lê-se "Loja governamental de bhang". Essa construção que. É também secretário da ala regional do Lions Club. Os dois irmãos moram. fico sabendo que há outras lojas de drogas do Estado no bairro de Kotwali . S. atrás da qual um sujeito vende umas bolinhas marrons de bhang. sempre às claras. com uma vitrina engradada.dar uma volta. o mais velho. Os clientes se sucedem. segundo R. O segundo cunhado. S. e conselheiro do ministro do Turismo. Nos cantos do grande pátio central onde ocorre a festa estão dispersas caixas de papelão e pedaços de madeira. S. 35 rupias. do vermelho dos escarros dos mascadores de bétele. O bhang e a maconha estão associados à religião hindu. me deparei por acaso com a de Sonarpura. Ninguém presta atenção neles. Meia rupia cada uma. embaixo. contém 200 cômodos está em mau estado de conservação.

rodelas de pepino. Agraval se diz "estupefato" por eu falar hindi. Comemos em pé. como sobremesa.É uma obra-prima! Fascinante! Tudo os fascina. água da bica. chutneys e. É isso! O mesmo que tenho em minha casa em Benares. mas esperava que uma refeição na casa de indianos ricos. Constrangido. todos se servem de um bufê. A cada resposta.Quem viu Beta? . do tipo ocidental. como se fosse uma idéia revolucionária. no ano passado. estudou física nuclear.É diferente. Devia ter comido antes de vir. Deixo pra lá e alguns convidados abordam um tema cultural: . eles são avarentos . de bom corte. Estaria me gozando? Acharia que sou um imbecil? Imaginem uma noite toda no Lions Club de Benares trocando palavras vazias sem parar de se maravilhar! Depois do bolo. em vez de sandálias de dedo como a maioria das pessoas. Ele não me compreende e repete: . um prato na mão. Isso é racismo. Sim. iogurte doce. O doutor Agraval quer chocar a audiência e fala de sua viagem a Israel. do bom tempo.Não gosto dos judeus. Os convidados se divertem com seus exemplos. os judeus são realmente avarentos. bolinhas de farinha maceradas em um xarope de açúcar. . mesmo vegetarianos. exclama que sou genial. Falo do racismo sofrido pelos indianos na Inglaterra. O cardápio: purê de espinafre com queijo. S. é a verdade. onde são considerados sujos e barulhentos. girando no pátio. com 12 velas. Falam da chuva. e R. Adoro esses pratos.Muitos franceses pensam como você. Um menino as assopra e cada um de nós recebe um pedaço. Sim. como se estivéssemos em cena. Diverte-se fazendo-me perguntas idiotas e óbvias às quais respondo. curry de abóbora. Para beber.Não. eu digo: . durante cinco meses.Somos uns 40 convidados agrupados em volta de um bolo de creme. para os judeus. e comparo a seu anti-semitismo. risoto com castanha-decaju.confessa. Lá. os bengaleses vivem em Bengala etc. Os convidados usam roupas adequadas. fosse repleta de cumes e bolinhos fritos de . . só que em menor quantidade e sem uma bebida digna. o Estado de Uttar Pradesh é um Estado. e sapatos. bolinhos de trigo fritos.

Isso não foi nada extraordinário. Isso é útil. Agraval pergunta em tom gozador.legumes.respondeu satisfeito. . posso oferecer Pepsi a meus amigos sem me arruinar. sabendo que esses não entenderão. com a mesma entonação utilizada antes para falar de seu cãozinho. na falta de álcool bebida impura. a sete rupias meio litro. já compreendo até o dialeto de Benares e posso discutir os problemas da vida cotidiana e da política. camisas e sapatos limpos. Possuir homens.E ele? É bonito? . O que responder ao desprezo que sente pelos outros sem melindrá-lo? . Aprendi tudo que os indianos dizem em hindi aos europeus. sem sequer olhar para o menino.Claro que é belo! . 5 de setembro Progredi no hindi. escuro como carvão. Sanjay me explicou que a Pepsi. que não dizia nada. me cumprimentaram diante do templo Tulsi Manas. Esta noite.R. Durante o dia. Eles possuem um palácio e uma dezena de criados.000 dólares de salário? Não. Seu cachorro é belo. Sou mais rico que os Agraval com meus 1. . S. acompanhados de soda e sucos de frutas. usando calças. Isso dá náusea. Acaba de me perguntar se acho minha mulher bela. é cara até mesmo para as pessoas como os Agraval. Agraval me dá uma pequena demonstração do poder que ela confere. Tenho vergonha de ser um convidado dos Agraval. e eu respondo que sim. Os jovens me dizem sorrindo: "Olá. eu que sou pobre e não pago imposto na França. como um intocável. pois as pessoas desta cidade costumam pontuar sua linguagem com obscenidades. recolhia os copos sujos. seu intocável também. esta é a verdadeira riqueza. R. Sanjay também me ensinou os palavrões usados em Benares. Depois da refeição. no momento exato em que um menino de 10 anos.Por que não? . S. cinco jovens. Em compensação. os indianos interpelam os estrangeiros na rua.

eles são cinco. Significa "nascido de uma vagina". Assim acontece também em um artigo no jornal diário Patrika. os alemães etc. Quase sempre são erros muito graves. os franceses. enquanto espero me tornar um indiano. os japoneses. em cada frase. Espalham o refrão demagógico referente aos imigrantes. o cadáver de um . Não quero brigar. saiam da Índia!". O bárbaro é o estrangeiro. comem carne de vaca. que alimenta a crença. eu sou um só. Por que me insultam? Minha cara de branco não lhes agrada? É inútil pedir explicações. cada povo se considera sempre o mais civilizado e rebaixa os outros. como se disséssemos "em todda Fransa. o que resulta em algo um pouco ridículo. mas não sabem escrever o nome de seu país.. Por 50 dias. Os chineses. de produtos estrangeiros!" Nada de assombroso. sem reagir. ou "Não precisamos.. a diferença está em que seu racismo não é rancoroso.bosharivala!" Pensam que não sei hindi. o "repugnante" no hindi atual. Dizem em hindi: "A nós o que é nacional!" ou "Sociedades estrangeiras. as palavras "toda" e "Índia" estão mal escritas. devo deixar que me insultem. a não ser que. os árabes. e não são originais. No caso dos indianos.. aqui como na França. Bosharivala é a pior das ofensas. No último slogan. Por exemplo. Na semana passada. pois correria o risco de criar problemas com a polícia e comprometer minha aventura. o mleccha sânscrito que se tornou mliccha. Grotesco. mesmo levando-se em conta que a Índia é um país em que 48% da população são analfabetos. não é civilizado e vive de acordo com costumes mais impuros ainda que os dos intocáveis. em que um professor universitário culpa o Ocidente pela introdução do uso da droga na índia. noto um ou dois erros ortográficos. mas ninguém parece surpreso. de que os estrangeiros pilham a pátria. Ele não pratica o hinduísmo.". notei slogans xenófobos nos muros da avenida principal da Universidade Hindu de Benares. Os indianos que passavam perto entenderam o que eles disseram. Sigo meu caminho. Sentem apenas desprezo pelo bárbaro. isto é. em toda a Índia. Os militantes que borram os muros da universidade são nacionalistas. Os indianos se acham superiores. Não nos esqueçamos de que a maconha e o bhang são produtos indígenas extraídos do cânhamo INDIANO.

As pessoas se surpreendem quando digo que na França não falamos inglês. e a Inglaterra. quando sentem vontade. Há oito dias. em hindi "país dos hindus". na rua. . Faz o mesmo com os excrementos. Na Índia. Peço que prossiga. Hesitou em me contar. a noção de higiene pública é estranha. Conservar matérias impuras no interior do corpo seria uma loucura. só existem dois mundos: a Índia. Daí que o uísque. Para me tornar um indiano. Uso a técnica indiana. em geral. e projetam o muco a um metro e meio. sei que a água limpa mais que o papel. Isso é realmente nojento. Os remédios do tipo ocidental são batizados com nomes ingleses. Não quer ter o trabalho de envolver o muco em um lenço. Usam o nariz como uma arma automática. Ficam sujos. ou Hindustan. mesmo que o fabricante seja francês ou alemão. Concordo com Sanjay quanto à história do uso da privada. Sanjay faz uma careta sincera de nojo. Fazem isso em público. O mesmo ocorre em relação ao lixo. Para um indiano.Além do mais. . quando defecam. todos os estrangeiros. até a próxima utilização. Quando sai e tem vontade de urinar ou defecar. se limpam com papel. e expulsam o muco do nariz. a diferença entre as culturas indiana e ocidental começa no banheiro: "Os ingleses. não se lavam com água. Os indianos não usam lenço. esta nacionalidade designa. Neste país. o vermute e o rum são bebidas inglesas.animal sagrado." Sanjay não se refere apenas aos ingleses. uma depois da outra. mas insisti. todo o resto. mas francês. pois usar um lenço trairia minha identidade. tenho de me livrar dessa idéia. um repugnante. Apertam as narinas. Em seguida. isto é. Mas o indiano ou ignora esse fato ou não se importa com ele. Como se os ingleses controlassem nosso planeta e tivessem inventado tudo que é estrangeiro. os ingleses assoam o nariz em um pano que tornam a guardar no bolso. E assim baixa a calça na rua. com o polegar e o indicador. Preciso aprender a assoar o nariz com os dedos. no chão. Só devo pensar em minha limpeza pessoal. Sanjay me citou mais duas razões para que o povo de Benares considere o estrangeiro um mliccha. Para ele também. Ele o joga na calçada ou diante da porta do vizinho. não se controla. os micróbios se propagam na atmosfera e contaminam os que passam.

me tornei mais escuro que a minha mulher. Ainda falta o mais importante: escurecer a pele. Essa história de nuanças de rosa me aborrece. desde meados de agosto. Não existem nem vacinas eficazes nem tratamentos. Eu a tranqüilizo. A população afetada é a das favelas e dos desabrigados. A mãe lava a sujeira do filho e garante sua saúde. O que fazer? As pílulas para bronzear serão eficazes? Para verificar seu poder. que é chinesa e bastante morena. Não está evidente. Exceto que há alguns dias os jornais falam de epidemias de cólera e encefalites fulminantes no Estado de Uttar Pradesh. corro o risco de ser contaminado. Mas ainda é rosado. Com a tinta de nitrato de prata devo ficar da cor de chocolate. a estação das chuvas terá passado e as epidemias desaparecerão. e minha mulher se preocupa com a minha saúde. Em uma manhã. Até lá. Foi também por isso que decidi aguardar até o fim de outubro para me metamorfosear. e me bronzeio. senão o sol do zênite me queimará. 17 de setembro Gandhi dizia a respeito dos intocáveis: “O varredor faz pela sociedade o que uma mãe faz por seu bebê. Quero estar bem preparado para o dia D. a luz é mais forte e tomo cuidado para não me expor depois das 11 horas. Todas as manhãs. Vou aproveitar para adquirir mais fluência no hindi. É o que espero. o que gerou o apelido de "macacos vermelhos". dado pelos indianos aos estrangeiros. engoli uma ontem e outra hoje. tentarei encontrar intocáveis. de sete às nove horas. houve mortos. na varanda. Quero conhecer seus costumes para não cometer inconveniências. Ali. eu me estendo ao sol.15 de setembro Eu me tornarei um indiano no final de outubro. Tudo se desenvolve como previsto. vou andar pela margem do Ganges. Até o momento. Depois. descascarei e terei de recomeçar do zero. Na pele de um intocável mendigo. não exagerei e obtive um belo bronzeado. . Em duas ou três semanas.

um espesso bigode negro. Sua tez é morena. Ele se chama Raja Ram. o que talvez explique seu gesto. Raja Ram estava lá. Aguardava no hotel.Vamos bebê-lo .eu disse. com uma vida despreocupada.Onde? . O cabelo é bem aparado e no todo parece um sujeito honrado. Faço faxina. Usa um lungi xadrez e uma camisa branca bordada e limpa. onde se evita o contato físico para não se sujar. ele é robusto e mede cerca de 1. “Boa Lábia”. O ar se torna respirável. Tem o rosto comprido. nariz redondo e olhos saltados. Tiro do bolso da calça um saquinho plástico contendo 20 centilitros do álcool sintético que os indianos pobres consomem. Eu o levei porque sei que os intocáveis gostam de beber. o que é excepcional na Índia. Ele havia ido à cidade para desentupir uma canalização. Ele aceita sem perguntar maiores detalhes. meio salário médio .Do mesmo modo. faces encovadas. O tempo está agradável. Procurei-o à tarde. da higiene do corpo social. Esse homenzinho de meia-idade me aperta a mão. e o varredor. conhecido como “Gappi”. com sobrancelhas cerradas.Vamos à minha casa. como se meu pedido fosse comum. a noite é a melhor hora do dia.55m. .” Sanjay me deu o nome de um varredor que ele conhece e que mora no bairro dos varredores da Ravindrapuri. Digo-lhe que estudo a civilização indiana e que gostaria de ouvir sobre os costumes dos varredores.Trabalho meio expediente no hotel Manas e em um escritório ao lado. ou seja. E lá estamos caminhando na direção do bairro dos varredores da Ravindrapuri. Faz a faxina no Hotel Manas. Raja Ram é um intocável. Isso me dá 750 rupias por mês (30 dólares. . quase fresco. O dever do brâmane (o sacerdote) consiste em cuidar da higiene da alma. Raja Ram parece feliz com nosso encontro e me conta sua vida com prazer: . o varredor protege a saúde de toda a comunidade conservando a higiene pública. perto do templo da deusa Durga. a 500 metros daqui. Ele sorriu. Nesta estação de calor úmido. Contratou-o muitas vezes para limpar suas latrinas. Ele confirma que é quem chamam de "Boa Lábia". Deixei um recado e retornei por volta das 20 horas.

Caminhamos ao longo do bairro dos varredores. afastado do muro que o cerca. Surpreendo-me um pouco com sua auto-definição de artesão em hindi. daí o apelido de "Boa Lábia". Mas consciencioso e honesto. está instalado na orla oeste da favela. e as meninas são suas filhas: . Os pés ficam curvos.aproximadamente). Tem 37 anos. À noite. sobre um solo lodoso e escorregadio. um termo respeitável -. é verdade. diz a quem quiser ouvir que ganha muitíssimo bem. parecem cães e porcos. Nas bordas adivinho os casebres de terra com o telhado de plástico que brilha ao luar. Consigo distinguir às minhas costas um monte de lixo empilhado contra um dos lados do casebre. Sigo meu amigo. Mas não deixo transparecer. De primeira classe. Sou um artesão muito bom. Segundo Sanjay. Uma mulher e duas meninas estão sentadas em uma delas. Raja Ram me manda andar atrás dele. o colchão mole é desconfortável e me sinto incomodado por me sentar nessa cama em que varredores se deitaram. Há sombras cinzentas de quadrúpedes que se erguem à nossa passagem. Também faço trabalhos por fora. o que é raro entre os varredores. Não é grande. pois Sanjay sempre me falou dele como de um limpalatrinas desprezível. sem janelas. pois está cheio de excrementos. em um canto cercado. isto é conversa fiada. que lhe paga 10 rupias para limpar uma latrina. à maneira do Buda. Latem ou rosnam. Sua superfície é desigual e cheia de sulcos. Deslizamos para dentro da favela por uma abertura de três metros e mergulhamos em um universo no qual não existe nenhuma iluminação. um só cômodo de cerca de dois por três metros. por uns 50 metros. Sempre há quem precise que limpe privadas ou desentupa encanamentos e eles me procuram. A propósito de suas tarifas. às vezes 1. Pergunto sua idade. A mulher é sua "senhora". não consigo ver direito como é. no escuro. o último daquela viela. às cegas. Raja Ram me convida a sentar como ele. na outra cama. Meus olhos se habituam à escuridão. O pardieiro de Raja Ram. Mais ou menos como eu. 100 ou 200 rupias. como ele diz. Freqüentou a escola por dois anos e sabe ler caracteres impressos em hindi. Diante da porta de madeira há duas camas de corda trançada. mas não coberto. Pagam o que quiserem.000 rupias.

cansado. A escuridão acentua o cinza encardido do sari gasto que a envolve. e Mira. Foi assim que nos conhecemos e nos casamos. deve dar à luz em algumas semanas. Ela fala friamente." Lakshmi é a deusa hindu da riqueza. Radha usa um vestido azul rasgado. que morreu de disenteria 15 dias depois de nascido. Ela se chamava Lakshmi e guardei seu nome para a segunda esposa. Evitei fazer qualquer comentário. apesar da gravidez avançada. Mais tarde. e um menino. Hoje. sem dar detalhes.Um momento. no tempo de seu pai. Sir. e Mira. de sete anos. Sua voz é rouca.Antes desta mulher.A senhora era muçulmana. chamado "Boa Lábia". que morreu pouco depois de nosso casamento. sem demonstrar arrependimento. Sua beleza é perfeita. Mantém perto da porta da frente uma tenda que vende biri e bombons. Lakshmi é uma muçulmana que se tornou uma intocável hindu. Seu rosto comprido e enrugado em volta dos olhos e sua boca com dentes escuros cariados fazem pensar que deva ter uns 40 anos. e Raja Ram. de quatro. Seu pai enrolava biri. Ela me conta sem constrangimento e com um sorriso: . Raja Ham. . . no bairro dos varredores. Nasceu da espuma do oceano agitado pelos deuses e demônios. como se resmungasse. Ao me casar. tornei-me Lakshmi. a família não a consumia. vou explicar.Ele diz isso com tal ênfase que soou como se fosse revelar a origem do mundo. Lembra-se da vida no bairro muçulmano? Responde que sim. Tirei o saquinho de álcool do bolso. Não entendi nada. ao contrário.Radha. que morreu de tétano aos sete meses.Kesar (açafrão) era meu nome muçulmano. tive outra. Pergunto qual era . Sua mãe vendeu a casa e se instalou com os filhos aqui. . Era muito pobre e já morreu. calcinha e uma camisa suja desabotoada. . Pergunto se ela pertence à sua casta. com um sotaque vulgar. Sua família vivia no bairro muçulmano atrás de Chowk (parte central da cidade). Casaram-se em 1979. masculina. Era o nome da primeira mulher de Raja Ram. Tiveram mais dois filhos: uma menina. Como ela se chama? Ele responde: "Lakshmi. Lakshmi não é um nome muçulmano. Sua mulher espera outro bebê. Ela é alta e muito magra. usa uma linguagem cortês e me chama de Sir. ficarei sabendo que só tem 29 anos. ela come carne de porco. se levantou para buscar os copos.

Ela não sabe contar. . Pergunto de outra maneira: . ela tem o direito. abriga cerca de 110 . Raja Ram voltou com dois copos. era pequena. Ao dizer isso. mas eu tinha visto varredoras fumando na rua. Como eu. . Brindamos. Não para degustar. Os dom são famosos por exercerem a função de coveiros e são classificados como os mais impuros dos intocáveis. rasgou com os dedos um canto do saquinho de álcool. Ela não se lembra.000 m2. O bairro dos varredores mede uns 4. e tradicionalmente a subcasta de Raja Ram trança cestos. Escuta impassível.É mesmo? Em todo caso.Há quanto tempo seu pai morreu? Ela reflete e diz: . as das castas "decentes". Os dom que moram nessa favela em Ravindrapuri são varredores. Formam um grupo endógamo distinto dos coveiros que incineram os cadáveres às margens do Ganges. Também se ocupam de varrer o lixo. Eu dou um gole. Raja Ram pertence à casta dos dom. mas me contenho.sua idade quando seu pai morreu. faz muito tempo que morreu. confecciona leques de bambu e fabrica colchões de penas.Cem anos! É impossível.Ela está grávida. Raja Ram diz que você tem 29 anos! . Tenho vontade de rir. Tenho a impressão de engolir água com um aroma repelente de álcool queimado.Em épocas normais. Segundo Raja Ram. Por quê? Na Índia. Elas são mais livres que as das castas "tocáveis" e gozam de uma posição mais elevada no interior de sua comunidade. no último escalão da hierarquia social. Não freqüentou escola. e ele esvazia seu copo com um só trago e uma ligeira careta. Aperta em cima e verte em cada copo uma boa dose.Faz 100 anos que ele morreu. . E era um bom pai! Raja Ram acrescenta: . as mulheres "normais". Ele me diz que é o mesmo para todas as mulheres de sua casta. mas porque esta bebida incolor de 25 graus é repugnante.explicou Raja Ram. não consomem nem tabaco nem álcool. Pego um biri para refrescar o céu da boca e ofereço outros a Raja Ram e a Lakshmi. Ele impede que ela aceite. então não a deixo beber nem fumar .

Isso acabou.casebres.Se vou beber um chá em uma taberna e quem atende sabe que sou um filho de Deus. Mas as outras castas continuam a nos considerar intocáveis. existem tabus. . coisas indignas e impuras.animal sagrado . Hoje entramos em todos os templos. Pergunto a Raja Ram sobre sua dieta alimentar. É impossível comê-la! Raja Ram pertence aos dom. ele come porco. e ainda assim. cabra. outra casta intocável de varredores. e 40 aos mehtar. Só um varredor. o que significa um total de 800 pessoas. Pergunto se a condição de intocável ainda subsiste. pode aceitar viver entre os varredores. dedicados à oração. . mas hoje ela lhes pertence e podem vender o sítio que ocupam. a casta mais abjeta. comer e se casar entre os seus. mas na Índia o sistema de castas prescreve viver. . Não é caro. cinco metros quadrados por habitante.durante vários dias. Setenta pertencem aos dom. para ele. Pois um recipiente no qual eu bebo não pode ser lavado.Meu Deus! Não fale assim! A vaca é como se fosse nossa mãe. Antigamente. ou seja. tem de ser jogado fora. Come carne de vaca? Minha pergunta o choca. Não compraram a terra. Os sábados e terças são dias sem carne. se ele pode entrar em todos os templos. me serve em um vaso de barro descartável e não em um copo. onde construiu quatro paredes com um teto. um brâmane que bebesse água no copo de um intocável devia se purificar absorvendo apenas urina de vaca . Um vizinho de Raja Ram acaba de pagar 1. e alguém em desgraça. É a norma. ali construíram seus casebres. e às quartas-feiras.000 rupias (40 dólares) por cerca de 10 metros quadrados. A favela se desenvolveu sobre o local de um lago aterrado pela prefeitura há 15 anos. Os pobres.É a mesma coisa quando compro um pan. Todos os domingos. Embrulha com uma folha de papel e o joga no ... dom e mehtar. O vendedor que conhece minha casta não me dá na mão. Nenhuma mudança significativa. Raja Ram prossegue: . Peço mais detalhes. como a mãe de Lakshmi.

onde estão sentadas. Eu o coloco diante dele e ele faz o mesmo ao dar o troco. que representam a metade de sua freguesia. quem cometeu erros graves reencarna como intocável. Para pagar. volta ao balcão e enche o frasco. vejo duas ou três varredoras esperarem à sua porta. situada logo acima dos intocáveis. mas não prestava atenção. mas sempre recuadas do balcão. de como praticam o sistema de castas. Às vezes. Ele está convencido de que a reencarnação existe. Tira um pouco com um recipiente medidor de dosagem. ele o apanha com as pontas dos dedos. as atende por último. Enquanto Raja Ram me contava isso. sem tocar nela. o balanço de suas boas e más ações. na palma da mão dela.balcão. sem encostar nele. Depois. Não nos lembramos de nossas vidas anteriores. A loja de grãos é a mais procurada pelos varredores. cenas me vinham à memória. eu as via se repetirem. Para encher o recipiente de óleo que está sujo. Eu não . Na hora de pegar o dinheiro. Manda que ela o faça. uma casta baixa. O mais surpreendente é que os mercadores de grãos pertencem à casta dos pastores. evitando assim qualquer contato físico. em pé ou sentadas. não devo estender o dinheiro.e acredita na reencarnação de um indivíduo nesta ou naquela casta em função de seu carma. não o leva para o fundo da loja. mas ele não o limpa. Não têm o direito de se demorarem ali. . Todos os dias. como para os outros fregueses.Não sei. Quem reencarna como brâmane teve uma conduta exemplar nas existências anteriores. Esta foi sua resposta.o que não é nada excepcional . Raja Ram é um hindu religioso . Fala-me detalhadamente dos comerciantes da Ravindrapuri. Já que elas tocaram nele. ele o joga no balcão ou no chão. o óleo escorre por fora do gargalo. e me servem como a todo mundo. Porco! Claro que fora deste bairro ninguém me conhece. Não lhes dá o embrulho de farinha. perto do tonel com óleo de mostarda a granel. se há muita gente. Assim não toca em mim. Em compensação. Pergunto que faltas ele teria cometido para ter nascido varredor. coloca o troco no balcão ou o deixa cair. Diariamente. de arroz ou de condimentos. a uns cinco centímetros. O vendedor as trata por "você" e. se a intocável não o colocar sobre o balcão.

. pétalas de flores. Ele. por sua vez. da qual os indianos utilizam os ramos para escovar os dentes.Ele aponta para uma construção branca e quadrada do tamanho de um homem. depois de apertar minha mão. dali a cinco minutos.Há dois. Todas as noites. Como sacerdote. É meu vizinho. presa sobre essa árvore. há um lingam. Serve café e cigarros aos oficiais. o falo de Shiva.Celebro o culto de Shiva duas vezes por dia. água do Ganges.Não. Ele se queixa da injustiça do sistema de castas e. na faixa dos 40.Raja Ram lhe grita. aquele que está bebendo na frente do templo. E eu gosto de beber. trabalha há 18 anos fazendo serviços gerais na base militar de Benares. fornece um pouco de luz. Digo-lhe que é contraditório. Teve nove filhos. 10 metros à nossa frente. não entende. O nosso é aquele ali. Isso não incomoda a Deus. bhang. isto é. Existe um templo hindu no bairro dos varredores? . . Ele ganha 2.compreendo. Ao nascer e ao pôr do sol. É preciso escutar a consciência. uma espécie de mastro de pedra sobre a qual os devotos vertem as oferendas de leite. sob uma amargoseira. Um para os dom e outro para os mehtar.Esta noite bebo rum. Os dom têm mania de me tocar. um sistema justo. manteiga clarificada. considera a desigualdade de nascimentos como um sistema de recompensa e de punição. Venha ver uma coisa! . Deixo pra lá. No interior. Alto e musculoso. . é um ato impuro. como em todos os templos de Shiva. Quem cuida do templo? O sacerdote é um brâmane? . É indispensável. Sei que os intocáveis que exercem funções administrativas são geralmente designados às tarefas inferiores.. Mudamos de assunto. Ele o construiu este ano e é ele que celebra o culto.000 rupias por mês salário superior à média. não se incomoda em beber álcool? Para um hindu. . é isso que conta para Deus.. dos quais sete estão vivos. Ele se chama Vijay Kumar. Uma lâmpada elétrica. Seu argumento não me convence. O vizinho traz uma rede de dormir e se instala com seu copo. é um dom. e faz a faxina. Todos os dois devotados ao deus Shiva.

É quarta-feira de tarde. .Não quero roubar.Os aborígines são como nós. como era de noite. com especiarias moídas na hora. Elas a roubam. Conversamos por mais de duas horas.O templo e a casa de Vijay Kumar têm luz elétrica. dos intocáveis. em 17 de setembro. isto é.Raja Ram interrompe. visitei Raja Ram duas vezes. O bairro dos varredores da Ravindrapuri é uma rede de caminhos lamacentos que serpenteiam entre uns 100 casebres de tijolos. É assim que deve ser. Por que Raja Ham não? . como um "boa lábia" que sabe tudo. filhos de Deus. . com Gloire.Todas as famílias do bairro que têm eletricidade não a pagam. . Uma questão a respeito dos intocáveis continua a me atormentar.Um momento. sem argamassa. Cheguei por volta das 14 horas. Enquanto esperamos.Cada um vive a seu modo .Vou explicar. por vezes apenas empilhados.suspira Vijay Kumar. mas. beberemos e conversaremos. Lakshmi o preparará ao curry. Raja Ram não trabalha e anteontem decidimos organizar um banquete. Vijay concorda com a cabeça. No meio dos caminhos. Levo uma garrafa de uísque indiano e um frango. esvaziamos meu saco de álcool e outro que Raja Ram ofereceu. Já descrevi a favela de Raja Ram. Raja Ram e o sacerdote respondem sem hesitar: . Quero ser correto. de dia. dia de carne. como ele diz. um rego de .Por que você não faz o mesmo? . Efetuam "gatos" nos postes elétricos e puxam os cabos até suas casas. vejo os detalhes. Sir . . Peço mais detalhes. 23 de setembro Desde nosso primeiro encontro. Agora. não foi uma descrição exata. Ficamos amigos. Daqui a 10 semanas vou me metamorfosear em aborígine e quero saber se os dom classificam as populações tribais no grupo dos "filhos de Deus". de "primeira classe".

Talvez 40 graus. É um único cômodo de seis metros quadrados. Faz muito calor. sob um abrigo de cimento. Já os vi esperando pacientemente atrás de um homem que tirava a calça. O odor agride os que passam. onde porcos rosados. Mas continuam a rir ao nos ver andar desajeitadamente na lama e afastar os cães e porcos que atravessam nosso caminho. tudo é rapidamente limpo pelos cães e porcos que erram pela favela em busca de comida. se exibem. Cada um em seu canto. De dia. eles se endireitam. O conjunto é dividido em duas partes distintas: os dois terços ao norte. pelos mehtar. Quando nós passamos. Sabem que sou amigo de Raja Ram e não perguntam mais aonde vou. pura a alegria dos porcos que ali vivem 24 horas por dia. não oferece nenhum tipo de isolamento. O governo instalou uma bica em cada uma das três principais entradas do bairro. As crianças. o casebre de Raja Ram parece ainda mais miserável. O telhado consiste em um toldo preto fixado com pedras grandes. Um quadrado guarnecido de três ruas e um parque. sobre as quais o telhado de plástico em patchwork é mantido fixo por pedras. habitados pelos dom. no solo. constituída de vigas e ramagens. de todos os tamanhos. Nesta estação. Seu perímetro está repleto de cagalhões. Esses esgotos se juntam nas entradas da favela e formam mares de matérias fecais. água corrente. A família de Raja Ram e de vários varredores prefere se aliviar atrás da casa. nos seguem e puxam nossas roupas para pedir uma rupia ou um bombom. Não existem canos de esgoto. A cobertura dos casebres. mas devem ser imundas. que só noto agora. e os varredores ali se lavam e buscam água com baldes. A construção não possui janelas. imundas. A favela é uma entidade geográfica bem delimitada. nos tratando de "você".água suja brilha sob o sol. Na fronteira com o setor dos mehtar também há uma fileira de latrinas públicas. os varredores sufocam sob seus telhados e passam dia e noite fora. nem latrinas nas casas. e o terço sul. A fachada apresenta duas seteiras minúsculas. Nunca as usei. chegando até a Ravindrapuri. nas camas de corda instaladas à sombra da casa. . com um muro que traça o limite ao norte e a oeste.

Raja Ram não estava em casa. A penumbra domina. de viés. É isso. Cada um por si. . Seus vizinhos são diferentes. irmão. Trocam palavras ríspidas. E roubos. ela levou uma surra do vizinho. .. encontrou-a no chão gemendo. Atrás do móvel. Na extremidade da cama. me esqueci de mencionar o vigamento da fachada da casa. distingo uma despensa empoeirada e. No primeiro instante. Quando se tornam muito inconvenientes. Sua barriga intumescida indica que logo dará à luz. Ah. e. Os varredores discutem sem parar e conversam usando gíria. sempre há tumultos. impregnado de urina. um colchão de espuma. à noite. Raja Ram me chama de irmão.É assim. estão empilhadas vasilhas enferrujadas. não é malintencionado e sempre é correto comigo. no chão de terra batida. diante da porta. Um sinal de afeto em hindi. em seguida ele oferece a sua. Sentam-se diante de sua casa para me filar biri e se convidam para brindar com nossa bebida. como as crianças do bairro.Vamos. Há trapos espalhados por toda parte e. o que nem sempre é o caso quando alguém de uma casta elevada se dirige a mim. Batera no cachorro dele porque rondava sua casa. Ontem mesmo roubaram um corpete de minha senhora que secava na frente da casa. mas Raja Ram insiste: .. Proíbe as filhas de me pedirem dinheiro. utensílios de cozinha enegrecidos pela fuligem.Entro. Ninguém havia tentado protegê-la. em cima desse bricabraque. um grande pôster amarelecido de Ganesh. O outro lado da peça é ocupado por uma cama submersa em um monte de colchões de penas sujos e. o deus com cabeça de elefante que afasta os obstáculos situados no caminho da existência. rápido! Cozinhe o mais rápido possível! Rápido! No sábado. Sacos plásticos rasgados e roupa branca encardida ficam ali pendurados. Embora goste de contar vantagens e mude a versão dos fatos a cada dois dias. Lakshmi prepara o frango. quando chegou. Gosto dos dom. tratam-me de "senhor". se levo uma bebida. Por aqui. Raja Ram ou Lakshmi os manda embora. Em compensação. Uma mixórdia de farrapos e pedaços de papelão está sobre esse mezanino. tábuas fixadas sob a metade do telhado.

não bebemos a água dos mehtar. pudesse ser poluído pelo limpador de lama. A intocabilidade entre intocáveis existe como se as impurezas de origem diferente fossem distintas. Preciso perguntar aos dom sobre isso. O parto de Lakshmi será assim. Que história maluca! Os intocáveis sofrem com o sistema de castas e se discriminam entre si. os dom. é típica da . fazendo uma cara de nojo. usando um sari sujo de terra. com a bainha desfiada..E os dom bebem sua água? .Mas vocês não bebem a deles? . para saber o que pensam da hierarquia das castas de varredores. Observei como trabalham.Exato. como toda noite. Ontem. Eles são muito sujos explicou um senhor idoso. Fiz essa pergunta aos mehtar: . . Atualmente. também são intocáveis. A resposta foi não.. inclusive da sua. Nessa tarde. Na verdade. que tradicionalmente esfola cadáveres de vacas sagradas. A pergunta "X aceita a água servida por Y?" funciona como teste para medir a hierarquia entre as castas. Mas tocam os fregueses de outras castas. Na faixa dos 50 anos. falei com Raja Ham e ele me disse sem hesitar: . nas favelas. a parteira passa para examiná-la. Elas alugam o serviço dessas parteiras-sapateiras. A resposta mostra sem ambigüidades se X considera Y impuro. Eles são muito sujos. se o freguês é um varredor. como se o sapateiro. Em alguns dias. que servem Raja Ram sem tocá-lo. as castas se excluem e interagem em um sistema complexo.Descobri que os comerciantes de pan da Ravindrapuri. à imagem de seus opressores.Sim. Nossa saúde não suportaria. as mães continuam a parir em casa. pois o hospital é muito caro. Pertencem à casta dos sapateiros. perguntei se ele bebe a água oferecida pelos coveiros.Nós. conversei com os varredores mehtar e eles me disseram que não podiam beber a água oferecida pelos vizinhos dom. O ofício de parteira é tradicionalmente exercido pelas mulheres da casta dos sapateiros. Então. gorducha. O sol acaba de se pôr e. Raja Ram disse a verdade: eles jogam o tabaco e o troco no balcão.

vai fazer seu parto com as próprias mãos.Como pode senti-lo? . . Quero mais detalhes e digo: . . depois do parto. Entra no casebre com Lakshmi. no entanto.Estou acostumada .E se for menina? . Penso na ultrassonografia. É um paradoxo. Na Índia. Se for menina. . Esse costume é comum a todas as castas. .ele responde. séria. Os indianos são muito puritanos e não quero ser indelicado falando da anatomia feminina.Desejo que seja um menino. serena.Obrigado. minha senhora será esterilizada. para apalpar seu ventre. É verdade que Raja Ram está em apuros com duas filhas para casar.Quando eu morrer. Ela nós cumprimenta.A parteira prediz o sexo dos bebês. – Ele pega um biri. o que . organizarei uma grande festa. Falo com Raja Ram.Sim . . assim como a endogamia. para não ter que encostar nela. existe um exame que permite conhecer o sexo do bebê antes do nascimento? Não digo que tipo de exame.ela afirma. seu filho. Vou contar uma coisa que não disse a ninguém: Se for um menino. Ela me explica. Os indianos a quem pedi um esclarecimento não me deram nenhuma explicação racional.casta dos sapateiros.Então. um filho deve acender minha pira. mas não sei como dizer em hindi. seu primo jogam o tabaco para Lakshmi. ficarei decepcionado e não farei nada. Isso significa dois dotes. não se operará. Em alguns dias. e meu irmão Raja Ram se aproxima. ficarei sabendo se a parteira se aproveita ou não da credulidade das pessoas. que sente o sexo do bebê apalpando o ventre da mãe.Por quê? . .Depois desse filho. Não me peçam para explicar essa noção de intocabilidade que varia segundo as circunstâncias. Resposta engraçada. Minha senhora está esperando um menino. . A parteira sai do casebre e ouviu nossa conversa. Calo-me. Seu marido.

. mas ela só irá viver na casa do marido e se deitar com ele quando completar 18 anos. Se Raja Ram tivesse dois filhos. Então. na Índia. que vai até a cintura. Mesmo os dom devem oferecer 10. Nessa tarde. a aposentadoria e o auxílio social não existem para a maioria dos indianos. Além disso. É uma bonita menina de 12 anos. É a grande família tradicional. Ela compra a esposa. para o pai da menina. 27 anos. Primeiro. ao encontrarem um cônjuge para os filhos. enquanto Raja Ram ajudava Lakshmi a acender o fogo para cozinhar nosso jantar. Sangita. os dois pais. Na Índia. um vizinho dom que é varredor na Universidade Hindu de Benares. qual é o interesse de firmar a união de duas crianças com antecedência? O interesse é duplo. o que se traduz na população pela relação de nove mulheres para 10 homens. Isso representa quase o salário anual de Muktar. reembolsa seus pais pelo que gastaram para educá-la. Muktar. na China. senão nunca conseguirei economizar o suficiente. Todavia. Preciso acertar o casamento de Sangita o mais cedo possível. se livram do dever paternal que deve ser cumprido por todo hindu antes de morrer. os dotes que receberiam ao se casarem compensariam os que seriam desembolsados para Radha e Mira. com uma longa trança. o montante pago hoje é menor que daqui a quatro anos.000 para a festa do casamento. O dote. devido à inflação galopante. Segundo. me fala do casamento de sua filha. Muktar negociará seu casamento em dois anos. Sua taxa de mortalidade é mais elevada. Estudos sociológicos revelam que os pais prestam menos atenção à alimentação e à saúde dos filhos do sexo feminino. as meninas passam a morar na casa dos pais do marido.000 rupias mais 5. sem dúvida. é a família do marido que paga o dote. uma garota custa caro. idade legal para uma menina se casar. casar uma menina talvez custe 50. Na China. o pai do menino recebe o dote mais cedo e.Em 10 anos. O casal sem filho homem envelhece só. é sempre muito elevado e endivida a família.torna geral o casamento de conveniência na sociedade hindu. Ela não tem seios e. . é a mesma coisa: as meninas deixam a casa dos pais ao se casarem. que varia em função da casta e do meio social. não é púbere.000 rupias.

Alguns são meus amigos. bombons e sabonetes aos devotos que vão se banhar no rio sagrado. No entanto. se diverte e aproveita a vida. Quero apresentá-lo aos mehtar. fui seguido por ele. funcionários.. cigarros. manchas de despigmentação no rosto encaroçado.Este é Sita Ram. com um só olho. Diz ser vegetariano e não beber álcool. Chama-se Jagdish e aluga uma tenda feita com uma chapa enferrujada. Ele também é um varredor. Fico surpreso por um brâmane entrar nesse bairro. Não me esqueço de Sita Ram. Acredito. Sita Ram. Ele cora e balbucia algo incompreensível. faz as oferendas e abluções necessárias ao culto. e seu caso mostra que existem brâmanes pobres. Sita Ram. Hoje de manhã. Talvez eu tenha exagerado. ao visitar meus amigos mehtar no bairro dos varredores. ele lhe joga a mercadoria e o troco. ao amanhecer e na hora do crepúsculo.e afirma ser um brâmane que conduz jinriquixás e vive nesse bairro por falta de opção. que pelo menos gasta um quarto de seu rendimento com bebida e carne. Não consome carne nem bebida alcoólica. em Assi. à margem do Ganges. É muito religioso. na faixa dos 30 anos. tem uma aparência que nos faz rir. minúsculo e zarolho. Se um intocável lhe compra alguma coisa. Tenho outro amigo brâmane que é miserável.. gozando sua nobre identidade de brâmane: . Digo. . a voz nasalada e do tamanho do Pequeno Polegar. usa um janeu . A maioria não exerce mais essa profissão. é um deles. lê textos sagrados durante várias horas por dia e.o cordão sagrado reservado às castas superiores . Zombo dele sempre que nos cruzamos na Ravindrapuri e ele responde com uma descortesia. Que vida! Prefiro a de Raja Ram.25 de setembro O grupo de casinhas situado entre o bairro dos varredores e a mansão californiana do vizinho brâmane é habitado por intocáveis sapateiros. se banqueteia. Hoje são alfaiates. Vende tabaco. para preservar sua pureza. condutores de liteiras puxadas por bicicletas. o nome significa apenas sua casta e o ofício de seus antepassados. comerciantes.

ele usa o cordão sagrado! Os mehtar presentes caem na risada: . é um sapateiro! Sita Ram não protesta. digo: . Para agradar. Vejam.São varredores! Dizem qualquer coisa! Ele mente. e eu não insisto. . À pergunta "A que casta pertence?".Sou brâmane.os intocáveis comerciantes de legumes -. ninguém o conhece. Diz que é brâmane e as pessoas o tratam com o respeito reservado a um Pandit. Esse título honorífico é destinado aos brâmanes. Sita Ram me chama à parte.tratando-o como intocável. Reparei que os sapateiros. Sita Ram é um brâmane. Todos os meus amigos sapateiros que vivem no bairro e os comerciantes da Ravindrapuri me confirmarão que Sita Ram é um impostor. O cordão que pendura sobre o ombro esquerdo indica que pertence a uma casta elevada. Os mehtar me confirmam que ele é um filho de Deus e que seu cordão sagrado é um blefe. foge.Os varredores dizem que você é sapateiro. ao sair do bairro dos varredores. o que estudou os textos sagrados". Não me incomodo. na rua. Ele me olha orgulhoso. No centro. Usa o cordão sagrado para enganar os otários como eu e poder sair pela cidade.Por que disse que eu era varredor? . têm vergonha de confessar sua casta. pois significa "trabalhador de couros". Uso o cordão sagrado. Tanto melhor para ele. . Significa "o sábio. .Estava brincando. ao contrário dos varredores e dos sonhar . Nunca dizem francamente "Sou sapateiro". Uma hora depois.Ele não é um brâmane. Ele o mostra por baixo da camisa de gola encardida e mangas rasgadas. Em hindi. . Parece sentir prazer nisso. Não há mais dúvidas. o nome dessa casta soa mal. respondem ou "Sou hindu" ou "Sou como fulano". continuarei a chamá-lo de Pandit.Foi uma brincadeira! Qual é sua casta verdadeira? . Para reparar o erro. Mostra-me mais uma vez. com o rosto escarlate. e designa a casta intocável mais numerosa. o erudito.

pois somente as castas brâmanes. para se fazer passar por um estudante rajaputro e se beneficiar da proteção do poderoso grupo.Hoje à tarde. podem ser "iniciadas ou "batizadas". Como os indianos sempre dizem pertencer a uma casta superior à que pertencem. Por que alguém de casta superior reivindicaria . Eu o conheci. onde o sistema de castas é forte entre os brâmanes e os rajaputros. essa história de trapaceiros vem a calhar. mas também porque acredita que todos os hindus religiosos merecem esse direito. No entanto. Freqüentemente há tumultos entre os estudantes. ninguém pensará que estou mentindo. Não tem nenhum ponto em comum com Raja Ram nem com Sita Ram. para os hindus ortodoxos. Vestia uma calça e uma camisa passadas. Rajendr Kumar. todas misturadas. kshatriya e vaishya. o rico proprietário da serraria e da loja à beira da estrada. que lançam bombas uns contra os outros. dos leiteiros etc. dos sikhs. como em 31 de agosto e 10 de setembro de 1992. disputam o controle do campus. os trapaceiros não são raros e. é um sapateiro e sua casa é uma das mais bonitas. De fato. Indelével. as casas dos sapateiros se agrupam em um quarteirão que não faz uma fronteira visível com as residências dos Maurya. em cada setor. Vou me transformar em indiano e fingir ser intocável. isso é um sacrilégio. dizem pertencer a um grupo superior ao deles. a não ser sua intocabilidade. revoltante. Atualmente. evidentemente. onde mora Sanjay. Sanjay estudou na Universidade Hindu de Benares. Um amigo de Sanjay acrescentou o patronímico Singh a seu nome. A grande maioria dos indianos não dissimula o nome de sua casta. que ocupam o topo da hierarquia hindu. dos brâmanes. Nada os distingue. sua casa e seu endereço não significam que pertence a esta ou àquela casta. É difícil desmascarar um indivíduo que mente sobre sua casta. Contudo. Uma mancha de breu sobre o pano branco da existência. Esses dois grupos. Não só para ser considerado um brâmane. durante minha aula de hindi. Sanjay contou que conhece um sapateiro na vizinhança que também usa um cordão sagrado. Em Nariya. Há grandes e pequenas. e não falava gíria. Eu fui ver. escreveu Swami Ramdas.

Não será meu caso. Um cenário de western. inclusive os Munda . Seus aborígines . mais conhecido pelo nome histórico de Jharkhand.. como se veste. civilizados e adoradores das vacas. onde mora. Isso tudo só vale para as cidades e deverei me isolar.todas as tribos juntas.reivindicam a separação do Estado de Bihar. Ram Singh e Raja Ram assim me afirmaram. para não me trair. ao contrário. A farmácia na entrada da grande avenida foi a primeira loja. os sapateiros com os sapateiros.a posição de intocável? Talvez apenas para disputar um emprego ou uma missão reservada a um intocável. Chakradharpur. Os leiteiros com os leiteiros. vivem aqui. se alinham sobre um eixo perpendicular à via férrea. os brâmanes com os brâmanes etc. construída no coração da selva tropical. de tijolos e madeira. após 18 horas de trem.. minha suposta família. com a mistura da população por causa do êxodo rural. pomadas. com sua grande rua e suas lojas de bebidas. Todo mundo se conhece e as aldeias ainda são divididas geograficamente por castas. . na direção de Calcutá.. Mil casas de um andar. é impossível enganar. Não haveria lugar para um recém-chegado. Vim para ver como é um Munda. Sanjay. e os colonos arianos. para evitar a mistura e a poluição. Talvez cruze com pessoas que já estiveram em Jharkhand e. cidade ao sul de Bihar. para conseguir minha metamorfose tenho de inventar um passado e contá-lo. Criar imagens plausíveis sobre a região. Lá se vendem todos os tipos de medicamentos: antibióticos.. poderei me confundir com a massa. Cheguei ontem. o dos caubóis. É uma cidade de crescimento demográfico acelerado. que língua fala. Os Munda. Os aborígines desempenham o papel dos peles-vermelhas. tribo à qual vou pertencer. Mesmo que eu não pretenda parecer exatamente com um Munda. segundo a tradição. No campo. vou dar uma volta e tentar ser capaz de lembrar um mínimo da cor local. nas florestas do planalto de Chota Nagpur. a casa. Na cidade. 11 de outubro Chakradharpur.

Um negócio de família. Sua sombra oferece um frescor delicioso. Os Munda verdadeiros vivem nas montanhas e na selva ao redor. primos afastados dos aborígines australianos. sem lixo. os Munda que encontro em Vulugutu Beka apresentam aos meus olhos profanos os finos traços arianos. Sua fachada em arcadas. os móveis e o balcão de madeira acima de uma balaustrada datam dessa época. As habitações são separadas umas das outras por bosquetes de bambu. onde o tráfego é intenso. a construiu em 1886. Sua língua. e poderei passar facilmente por um. O rosto da bela Madhuri Dikshit. Talvez o mais freqüente seja a tez morena. Mas de um modo menos pronunciado que nos negróides. o cabelo crespo. pintado com um halo de luz difusa. incompreensível para um indoeuropeu. Um lago marca a entrada da aldeia ao pé de uma montanha coberta de árvores gigantescas. e também uísque. o nariz grosso. a oito quilômetros. Em Chakradharpur. Essa aldeia é habitada por hindus Munda que cultivam arroz e criam gado. pertence à família das línguas mon-khmer. mesmo em Jharkhand. Na época. pois tenho cabelo crespo e um nariz tão grosso que parece um focinho de porco. o das estrelas. e os aborígines que aí vivem são todos parecidos. eles teriam vindo da península malaia na idade neolítica. o que é raro na índia. Contrato um condutor de jinriquixá que é da tribo dos Ho e conhece o hindi e a língua Munda. Um bengalês corajoso. E isso me convém. mangueiras. no lado direito da passagem de nível.árvore sagrada hindu. a maioria dos habitantes é ariana. os lábios carnudos. exalta os méritos do sabonete Lux. Os Munda são australóides. . A maior parte não conhece nem o hindi nem o inglês. Um caminho lodoso serpenteia entre casas de barro cercadas de pátios limpos. Segundo o célebre sociólogo indiano Govinda Sadashiv Ghurye.antidiarréicos. De fato. pipal . rum e cerveja. destaca-se um grande painel publicitário. Para além deste monumento histórico. bisavô do proprietário atual. era cercada por uma densa floresta habitada por aborígines. Será meu intérprete e me conduzirá a Vulugutu Beka. figueiras. Conclusão: é impossível reconhecer um Munda em uma multidão de indianos arianos.

Sonkar etc. sobem-no pelo busto. o álcool é barato e não é uma infâmia bebê-lo. Veneram Shiva. Infelizmente. em vez de cinco. as mulheres sem corpete com que cruzo depois de alguns partos têm os seios flácidos. São carnívoros e bebem muito. matou a sede com uma espécie de cerveja de arroz e. Em Jharkhand. Krishna. Os Munda correspondem a uma casta endógama. As mulheres usam saris. O cordão indica que sou religioso. Encontro dois homens que usam o cordão sagrado. Vi uma jovem aborígine de torso nu em plena Chakradharpur. exatamente como os Maurya. e os devotos se drogam com a maconha. Durga etc. se recompôs com aguardente. evitam a carne de vaca. só que os seus têm dois ou três metros de comprimento. Freqüentemente usam como patronímico o nome Munda precedido de um prenome indígena ou hindu. sou Munda. e o segundo responde: "Não. Seu hinduísmo ainda carrega vestígios das .Os homens se vestem como os arianos pobres: lungi e camisa ou camiseta. Seu cabelo formava uma massa compacta com o acúmulo de sujeira e os braços e rosto estavam cobertos por crostas pretas. Eu o acho simpático e me sinto próximo desses aborígines. não dissimula os seios. Os Munda comem cobra. Tinha os seios firmes e lisos. e o sari curto. o álcool é uma bebida impura e cara. Na estrada de Chakradharpur. Agraval. na birosca seguinte. Meu guia visitou todos. Em Benares. Uma vez. Como hindus. como toda a população. Parecido com a França. cidade santa. E sem problemas. O primeiro não entende o que digo. a cada quilômetro há uma espécie de botequim. peixe. sem o enrolarem." Isso me confirma o que li sobre os aborígines do Jharkhand. búfalo. sempre muito cheio de gente. Ele entorna bem. como se esvaziados de sua polpa. porco. ao contrário. mal colocado. Pergunto se são brâmanes. e deixam o resto do tecido cair nas costas. Muitas não usam corpete. Entramos nos pátios e conversamos com os habitantes. mas era uma mendiga. Enrolam pano em volta da cintura. Ao lhe perguntarmos a que casta pertencem. Rama. E foi assim até chegarmos a Vulugutu Beka. Assim como todos os aborígines neste planalto. respondem com o nome da tribo e admitem ser do grupo dos “filhos de Deus".

” O choque me desperta. Eu também. mas a certeza absoluta de deixar minha mulher. Ela treme na cama. Quero aproveitar ao máximo sua presença. “bom-dia”. no fundo de sua sepultura. um dia. Tenho 32 anos e nunca tive salário regular. Conforto mínimo. será útil conhecer algumas palavras Munda. De repente. a água corrente e os banheiros ficam fora. Seu corpo se curva e depois se acalma. Acabou. Sem rendimentos fixos. Sou a escória do jornalismo. ao lado de Gloire. Em Benares. . não consegue mais falar. correr o risco de me afastar de Gloire? Algumas lágrimas umedecem meus olhos e me enrosco nela. 12 de outubro Esta noite.. de Chakradharpur. as pessoas ignoram a verdadeira aparência de um Munda.. O projeto de metamorfose em intocável pode adiantar essa data. antes de me tornar um indiano. leva as mãos aos olhos para dizer que não enxerga mais. Minha avó está fria. outro sonho mórbido. Sem dúvida.religiões primitivas que os influenciaram de início. mas valerá a pena arriscar a vida. Não é o fim da vida em si que me angustia. os Munda praticam um hinduísmo diferente em alguns detalhes. E depois seremos separados. em um futuro mais ou menos distante. As paredes do quarto estão mofadas. Sinto medo. o melhor num raio de 25 quilômetros. mas isso não importa para minha metamorfose. preço mínimo: dois dólares a diária. Estou deitado em uma cama quebrada. claro. no final da varanda. Eu o resumo: "Visito minha avó no hospital. Ela dormita e seu hálito quente acaricia minha face. Um desespero imenso me invade. Minha avó morreu há 10 meses e eu a amava como se fosse minha mãe. Fim do pesadelo. Eu não aprofundo. A aventura me excita. Talvez Gloire me veja dar o último suspiro sobre uma cama. realizei todos os tipos de reportagens para sobreviver. Isso acontecerá com certeza. Estou hospedado no hotel Diamant. ficarei frio. Para reforçar a credibilidade. está morta. e aprendo a dizer “obrigado”. Medo de desaparecer. incluindo o enxame de mosquitos que me devoram do crepúsculo ao amanhecer.

consigo um tom caramelo. Percorri todos os continentes. que clareiam ao sol. acordo antes da aurora e tomo dois comprimidos de metoxipsoraleno. Não lamento nada. Apesar disso. Fiquei com uma faixa preta de cinco por 10 centímetros em cada pulso. Duas horas depois. principalmente. Minha pele preta. Em parte. sou preto. um pouco alaranjado. Devo raspá-los e escurecê-los como fiz com o cabelo. Os pelos dos indianos escuros ou claros são sempre pretos. unto o corpo com óleo de coco e me exponho ao sol. Que isso fique bem claro. Quem sou eu? Um homem bicolor? Esta tintura é reversível? Começo a gargalhar e minha . Não posso ficar com essa penugem dourada sobre o corpo. Aborrecem-me. O resultado me tira o ar. Uso uma sunga e ponho uma faixa preta sobre os olhos. Deixo a tintura por 20 minutos e enxáguo. não consigo prever qual será a minha cor final. Esta foi a minha vida. na varanda. Após dois dias de tratamento. 16 de outubro Retomei a Benares no dia 14. mas conto com o nitrato de prata para escurecê-lo no último momento. De manhã. Toco e me certifico de que é minha pele mesmo. Incompetência do metoxipsoraleno! Deve atacar minhas íris. Enfim. É fantástico. quarta-feira. Essa membrana ocular é rica em pigmentos e sensível aos raios ultravioleta. Sou feliz. os pelos dos braços e pernas.um aventureiro. Pintar o corpo todo? Com uma tintura capilar? É possível? Resolvo fazer um teste e unto meus antebraços com uma tintura preta de marca diferente. Meus pelos se tornaram pretos e a epiderme também. Ela me dá as mesmas sensações que a minha pele branca vizinha. A penugem loura é particularmente espessa nesta parte de meu corpo. Não acredito no que vejo. Tenho 10 dias para ficar moreno. Espero que não seja nada grave. depois de cada sessão. sinto fisgadas nos olhos até a noite. ri e amei em todas as longitudes. durante três ou quatro horas. e retomei ontem as sessões de bronzeamento. me bronzeio. Eu me lavo com sabão e a tintura não sai.

angústia se acalma. Não posso sair com essas placas no braço. Tenho de apagá-las. Eu me lavo com sabão e água quente. A tintura não sai. E agora? Decido me esfregar com uma bucha embebida em água sanitária até ficar em carne viva para conseguir apagar a mancha. Meus pelos continuam pretos. As tinturas capilares indianas tingem a pele ao mesmo tempo que o cabelo. Felizmente, para escurecer meu cabelo, tive a idéia de trazer uma caixa da tintura francesa que conheço bem. Os produtos indianos me coloririam o crânio, deixando vestígios no contorno do couro cabeludo. Em compensação, talvez possa usá-los para escurecer a pele. Recomeçarei o teste em uma parte do corpo que fique escondida pelas roupas. Assim, não precisarei apagar as placas para poder sair sem chamar atenção. Verei por quanto tempo essas tinturas resistem. Depois, no dia da metamorfose, pincelarei o corpo bronzeado com a marca mais resistente e, por cima, passarei uma camada de nitrato de prata. Isso me dará a cor chocolate, perfeita. Não percamos tempo. Agora, pinto a parte de cima das coxas. Passo uma tintura diferente em cada uma e deixo fazer efeito. Enxáguo e vejo dois retângulos de pele preta no alto das coxas. Só falta observar quantos dias vão durar. Vi nas revistas outros dois ou três tipos de tintura para cabelo. Marrons e pretas. Vou comprá-las e amanhã experimentarei nas coxas. Quero saber qual a que mais dura e dá à pele a cor mais escura e, ao mesmo tempo, natural. Mas ainda há coisas que me preocupam. Primeiro, esses produtos são destinados ao cabelo, e a cor obtida talvez seja permanente. Para voltar a ser branco, não poderei me lavar inteiro com água sanitária. Seria perigoso, principalmente para o rosto. Devo usar um descolorante apropriado. Será que existe? Também não sei se esses produtos são nocivos para a pele. Se passo no corpo todo, fecharão meus poros? O que acontecerá? Além do mais, podem provocar uma alergia, eczema, câncer? Quantas perguntas sem respostas. Não posso me aconselhar com um dermatologista local, explicar-

lhe meu projeto; ele poderia contar à polícia que quero usurpar a identidade de um indiano. Só tenho Gloire ao meu lado e ela é tão leiga quanto eu em medicina. Estou só. As duas partes que pintei começam a coçar. A da marca Helena Curtis mais que a Godrej, que não leva água oxigenada. Estou inquieto, mas fazer o quê? Ontem, consegui as roupas e os acessórios necessários à minha metamorfose. Limitei-me às coisas que um mendigo médio possui. Para que minha experiência tenha valor, devo viver como ele, nas mesmas condições. Sem pensar em meu conforto, escolhi para cada artigo o modelo mais barato e mais comum. Dormirei na rua. Comprei um pano de algodão cru sobre o qual me deitar e uma manta de lã áspera. Desde o começo do mês, as noites têm sido frescas e os que dormem ao ar livre recorrem a cobertas e até mesmo a um pequeno travesseiro de trapos. Também comprei um prato de alumínio para pedir esmolas e um saco de cânhamo grosso e marrom para guardar minhas coisas, como fazem os outros mendigos. Como vestimenta, usarei sandálias de dedo, um lungi xadrez azul e marrom, uma camisa de material sintético com listras marrons, uma camiseta branca e um fular vermelho. A roupa comum do hindu pobre. Os lungi em xadrez miúdo geralmente são usados pelos muçulmanos. Aqueles com estampa xadrez maior, de uma só cor ou não, são preferidos pelos hindus. Existem também várias maneiras de enrolar esse pano, de dois metros de comprimento, em torno da bacia. Elas indicam a casta, a profissão, a classe social. Decidi usá-lo como os leiteiros, isto é, cruzando as duas extremidades superiores na frente, sem formar pregas. Depois, giro-as sobre os quadris e as prendo na orla do pano. É simples, fica bem preso, pode-se agachar-se para ordenhar uma vaca ou correr sem prender as pernas no pano. As pessoas que se mexem muito, os trabalhadores manuais, os pobres etc., freqüentemente adotam essa maneira de usar o lungi. Outros métodos franzem o tecido antes de fixá-lo. É mais sofisticado e atrapalha o movimento das pernas, como uma saia apertada. Meu fular também é xadrez. Em estampa pequena.

Mas isso pouco importa. O que conta é possuir um fular, em geral de estamenha barata, como o meu, que mede 1,50m de comprimento. Para se proteger do sol, da poeira, do frio, os pobres cobrem a cabeça, dia e noite, com esse lenço, como se temessem constantemente ficar doentes. Não usam uma técnica particular. Simplesmente os colocam sobre a cabeça e deixam as pontas caírem sobre os ombros. Às vezes, envolvem o pescoço com uma das pontas e a deixam cair nas costas. Outras vezes o enrolam no alto da cabeça como um cordame. Também o usam para enxugar o suor. O xadrez e as listras da camisa não têm nenhum significado. Comprei a minha no mercado de coisas usadas de Nai Sarak. É perfeita. Bem ao gosto indiano. É semelhante às que vejo aos milhares pelas ruas: em tecido sintético desagradável e escorregadio ao ser tocado, cor de coco de ganso, listrada, corte reto, sem forma. Como um brinde, está manchada de marrom na frente. Isso não me incomoda. Pelo contrário, continua muito limpa para pertencer a um mendigo. As roupas dos indianos, assim como seu país, são sujas de terra, de lama, gordurosas, viscosas, gastas, rasgadas. E não me refiro às dos mendigos, que ainda são mais sujas, mais gastas, mais esburacadas. Em todo caso, meu traje de pobre, novinho, não condirá com o cenário local. Desde ontem, sujo o lungi, a camisa, a camiseta e o fular. Não é fácil obter uma sujeira uniforme, natural. Evito fazer manchas grandes que tornem as roupas parecidas com uma palheta de pintor. Começo mexendo nas cores e fibras, imergindo-as em água sanitária por várias horas. Depois, esfrego o chão sujo de terra da varanda e a escada cheia de excremento de ratos. Continuam parecendo muito limpas. Deixo-as secar ao sol para fixar a sujeira que já foi retida pelas fibras, depois as molho e torno a esfregar o chão. E assim sucessivamente. Repito essa operação três vezes. Na última vez, derramo um pouco de óleo no chão antes de esfregá-lo. Perfeito, as fibras retêm melhor a gordura. O resultado me satisfaz. Minhas roupas se parecem com as vestidas pelos varredores intocáveis. Estão amareladas e com manchas marrons, como as de sebo e de molhos ao curry. Meu traje está pronto, só falta sujar a camiseta, o pano de dormir e a manta.

Esqueci de falar do bigode, sinal de virilidade na Índia. Como a imensa maioria dos indianos, devo usar bigode, e há uma semana o deixo crescer. É o único elemento dessa metamorfose que não me preocupa. Ele cresce bem, sei que conseguirei. Por quê? Várias vezes deixei-o crescer para realizar reportagens. Para me tornar chinês, para bancar um muçulmano na França e no Marrocos durante o ramadã de 1991. Também para parecer mais velho e fingir ser um milionário francês em Cantão, em setembro de 1991. 17 de outubro Lakshmi, a mulher de Raja Ram, o “Boa Lábia", deu à luz no dia 5 de outubro. Hoje, ela vai apresentar o bebê à família e aos amigos. É um acontecimento. Segundo a religião hindu, o parto, assim como a menstruação, suja a mulher e a torna temporariamente impura. No caso do parto, a impureza dura 12 dias. Durante esse período, ela é intocável para sua própria comunidade e fica isolada. Não tem o direito de cozinhar, nem de tocar no alimento do outro, deve dormir sozinha. Esse costume não é especial da família de Raja Ram, mas é seguido por todos os hindus, por todas as castas, exceto alguns intelectuais ocidentalizados. Os hindus estão profundamente convencidos da fundamentação dessa intocabilidade. Assim, Sanjay, o jovem professor que estudou na universidade, me explicou: - Uma mulher que menstrua ou acaba de dar à luz está suja. A prova é que se ela toca em uma vasilha com legumes mergulhados em salmoura, ela mofará embaixo. Hoje, Lakshmi deixou de ser impura. Pela primeira vez desde o parto, ela sai de casa. Ela mostra seu bebê - amamenta e não o larga. Raja Ram oferece um grande banquete para a família, amigos e vizinhos. Fui convidado. Estou contente por Raja Ram ter pensado em mim. Verei como é uma festa de intocáveis. Chego por volta das 17 horas na casa de Raja Ram.

Lakshmi está sentada na soleira e apresenta o bebê aos aproximadamente 30 convidados já acocorados no pátio. Cada um lhe dá um pequeno presente uma roupa ou umas 10 rupias. Sou um estrangeiro e acho que devo oferecer um pouco mais. Ponho na mão do bebê uma nota de 50 rupias e outra de uma rupia. Na Índia, as cifras não-redondas trazem felicidade. Lakshmi e Raja Ram sorriem para mim. Está na hora de revelar o sexo do bebê. Devem estar lembrados de que Raja Ram queria um menino, e que a parteira lhe garantiu que o teria. Pois bem, ela se enganou. Nasceu uma menina. Chama-se Madhu, que significa "mel". Raja Ram me conta que convidou 250 pessoas para comer e que isso lhe custará 2.600 rupias, ou seja, dois meses de trabalho. Não lhe lembro que me havia confidenciado, há três semanas, que não celebraria se o bebê fosse menina. Seria indelicado. Ele comprou um porco e um leitão para o banquete. Seu cunhado matou o porco no começo da tarde, e agora, diante dos convidados, Raja Ram vai sacrificar o leitão. Trata-se de uma oferenda ritual. Ele o tira de um saco de juta e o coloca no chão de terra. Rasga com os dentes um saquinho de álcool branco sintético e molha o focinho do bacorinho, que berra desesperado e se debate com suas patinhas de bebê. É horrível. O cunhado imobiliza a cabeça do animal, Raja Ram pega um facão e, com um gesto rápido e potente, corta-a. A cabeça se separa do corpo, que treme, e um filete de sangue escorre, formando uma poça vermelha. Não acabou. Já vi na China degolarem porcos, mas hoje assisto a uma das cenas mais marcantes da minha existência; outra foi quando surpreendi um velho chinês enrabando um cachorro em uma favela de Hong Kong. Raja Ram endireita a cabeça do leitão, invoca a floresta dos deuses hindus, salpica de álcool o pescoço sanguinolento e grita: - Fale! Fale! Torna a salpicar de álcool a ferida aberta e a cabeça do leitão abre a boca como se falasse. Mas não emite som. O espetáculo é impressionante. Raja Ram está radiante e me diz: - Ele faloul Foi Deus que o fez falar!

não vai me matar. Cada pedaço tem um preparo apropriado.Na verdade é o efeito do álcool sobre os nervos seccionados que fez a boca do leitão se abrir. ele sempre será o homem que sabe fazer os cadáveres falarem. na época em que os homens imploravam a Deus com sacrifícios de seres vivos. os músculos. escaravelhos etc. Mas porco cru me dá frio na espinha e recuso. o fígado. Homens e mulheres. a irmã de Raja Ram e outros dois adultos preparam a comida. o coração e o estômago são fritos. Recuso. cachorro. Eles a abrem bem para o amigo que pressiona o saquinho. Sir. Os intocáveis. Uma dose de álcool é vertida.Está enganado. Um minuto é muito e. Para mim. Cada família trouxe um saco de álcool sintético e o bebemos. a cabeça e o toucinho são cozidos ao curry. O grande dado esbranquiçado incha suas bochechas como se ela tivesse a boca cheia de alteia. a intervalos regulares. A carne. esse oráculo divino significa que Deus protegerá sua filha. Raja Ram me estende um cubo de toucinho cru. Também há o porco cru. Sempre achei que só os imbecis recusam experimentar o que não conhecem. parece delicioso. E hop! Mais uma criança que come toucinho cru. As crianças adoram. na boca dos cozinheiros. assim como os franceses. O cunhado. Essa noite sou um deles. Começam a ficar impacientes. eu me sinto em plena Antiguidade. tartaruga. Neste bairro de varredores. não desperdiçam nada do porco. não quero pegar solitária. São 20 horas e a refeição ainda não está pronta. Já há uns 50 convidados. Para Raja Ram. como oferecemos amêndoas em um batizado na França. Essa técnica evita . sou um fracasso. Para alguém que se diz aventureiro. O leitão cru é bom para a saúde. Tem muitas vitaminas e é delicioso. Os varredores sentados perto de nós concordam. Ele diz: . pelo sorriso encantado do garoto. gato. comi macaco. Devia provar toucinho cru. o intestino grosso é grelhado e o sangue é cozido com o intestino delgado cortado em rodelas. E isso não é nada. Na China. O cunhado corta a carne fresca em cubos e de vez em quando dá um pedaço às crianças que giram à sua volta. Mastiga durante um minuto. que estão com as mãos sujas. serpente. bicho-da-seda.

e não 250.o contato dos lábios com o saquinho que é dividido entre muitas pessoas. satisfeito. eu mesmo cato dois cubos de carne ao curry. A comida fica pronta por volta das 22 horas. Para um hindu. usando uma linguagem que não é . Como não quero que me sirva com as unhas pretas de sujeira. Não tem mais problema. na concha com a mão esquerda. atordoado.Eu os peguei.acocorados no chão. Como minha mão direita estava cheia de molho e arroz.Pare! O que está fazendo? Recolocou a concha que o inglês tocou na panela! Está maluco? O cunhado pega imediatamente alguns pedaços de porco na superfície da panela e os joga em um balde que estava ao lado. Esta noite não bebi. não gosto desse álcool sintético. O cunhado. poluiu toda a panela ao despejar nela o que restava na concha em que eu havia metido meus dedos impuros. um convidado se levanta e grita: . sem querer. Somos cerca de 100 convidados . mexi. A mão esquerda serve para lavar o ânus. Cometi um erro grave. Digo a Raja Ram que estou com dor de barriga e que não beberei. diante de seu casebre e dos casebres dos vizinhos. Além disso. se aproxima. no qual o cunhado serve uma colher de curry de porco e arroz branco. mesmo intocável. Quando terminei o cuny. despeja o resto da concha na panela. Não me atrai. come-se sem talher. Explicam-lhe a situação e ele. . com os dedos da mão direita. Na Índia. começa a acusar o cunhado. como dito por Raja Ram . Mas Raja Ram insiste. Outros convidados discutem. é importante preservar a pureza. De repente. É o costume e eu obedeço. Não tenho mais fome. Aos nossos pés um prato de folhas secas. O cunhado. com toda essa carne fresca e sangue na minha frente. Beber no gargalo seria porcaria. o cunhado se dirige a mim com uma concha cheia. por sua vez. que estava sentado atrás. Está bem! Está bem! Aceito alguns pedaços de porco. Grita-se muito e o sacerdote Vijay Kumar. O curry não pôde mais ser comido.

Não sou hindu. depois o sacerdote torna a se sentar e a refeição é retomada. Este é o verdadeiro problema. esses varredores intocáveis. Quero insultá-los. e isso se dá na minha pele de francês que se acha mais limpo que esses miseráveis varredores. mostra o fundo do balde em que jogou a parte do curry que supostamente sujei. Estaria preparado para ser uma vítima do sistema de castas. Queria ir embora e nunca mais ver essa gente que me considera um homem inferior. Sei que a impureza não se restringe a uma noção de higiene. ouvindo essa discussão.Não sejam ridículos! Não tem problema! Acalmem-se! . Sou inferior a eles. Eles são repelentes.depois. Ao mesmo tempo. Arrependo-me do que fiz. me consideram um intocável. Eles me dão nojo. Um sentimento de vergonha me domina. Por minha culpa. Minha intocabilidade é autêntica. . Vi os que cozinhavam manipulando a comida com as duas mãos. Chego a pensar se os convidados não vão jogar a panela de curry em Raja Ram. por amizade a Raja Ram. sem dúvida aceitaria melhor. sou sujo e não podem consumir o que toco. o que chamam de inglês. Mal acredito. gritar que são uns coitados e canalhas por infligirem aos outros o tratamento discriminatório que se queixam de sofrer. e os indianos se servem da mão esquerda para ajudar a comer. Raja Ram. murmura à parte: .apropriada a um religioso. Algumas palavras ríspidas ainda são trocadas. mas também se refere à limpeza religiosa. a cólera cresce em mim. De fato.Beberam demais. constrangido. humilhado. Sinto medo e fico mudo. os intocáveis mais inferiores. Ele tenta acalmar os espíritos. Que humilhação ser acusado em público de homem sujo! Se isso acontecesse depois de minha metamorfose em intocável. não se trata da mão esquerda ou da direita. por isso vivo conforme costumes impuros. fico amargo. Sou estrangeiro. O cunhado. eu já esperaria por isso e me consolaria pensando em minha verdadeira identidade de francês. Como podem me desprezar dessa maneira? Acham-se tão puros? É a primeira vez que experimento a intocabilidade. O banquete estaria terminado. cobertos de piolhos. Mas esta noite é impossível. Mas permaneço ali. analfabetos e moram em favelas cheias de cagalhões. diz: . não conseguem se controlar.

Os convidados discutem o tempo todo. Estou menos escuro do que esperava. ouço um vizinho ou outro discutindo. por isso vou escurecer mais a pele com uma tintura para cabelo e. Todos berram. porque o garoto de um vizinho furta um cubo de toucinho cru etc." Significa que se deve desconfiar das pessoas que fogem da norma. nitrato . Esta noite foi sem parar e ele tem de bancar o juiz o tempo todo. depois. e suas vítimas não são responsáveis pelos vícios que lhes são atribuídos. o papel sujo no banquete. Daqui a três dias vou me metamorfosear. Esse é o privilégio dos homens impuros! Possuir o direito de mergulhar nos prazeres terrenos.Bebem muito. Isso vira a cabeça deles. porque um homem se recusa a ceder seu lugar em um sofá rasgado a uma mulher doente. Um provérbio hindi diz: "Nunca suba em um barco com um brâmane preto e um sapateiro branco. 24 de outubro Está decidido. eles são raríssimos. de determinadas castas marginalizaram seus membros. O bronzeamento com o metoxipsoraleno me deu uma bela cor moreno-clara. o consumo bárbaro de vinho e carne. Sempre que visito Raja Ram. É a questão do ovo e da galinha. tornar-me um intocável qualquer. Quem existiu primeiro? Pouco importa. Por quê? Porque a comida não ficou pronta logo. Durante a preparação dos pratos e durante a refeição. Quero me confundir com a massa. Representam uma minoria e. de lado a lado. Cansado. Essas discussões são normais no bairro dos varredores. A questão é que tenho medo de chamar a atenção como intocável claro. A intocabilidade permanece sendo uma injustiça escandalosa. Há outra análise da intocabilidade. entre os intocáveis. igual ao racismo. até brancos como leite. Há dois ou três mil anos. É indelével. mas acho que será o suficiente para passar por indiano. Não são escusáveis? Esquecem sua intocabilidade. primitivos. Existem indianos mais claros que eu. os costumes hedonistas. me diz: . forçando-os a exercerem ofícios impuros para sobreviver. fundamentada na intolerância. sem moderação.

mas. A Godrej e a True-Tone. Não pretendo ser como Rama. Experimentei cinco tinturas diferentes. Também elimina o risco de encontrar em Benares alguém que tenha vivido . voltarei a casa e tornarei a passar uma camada. A Bigen A não causou nenhuma irritação e decido usá-la para me escurecer na segunda e na terçafeira. ou seja. a justiça. Rama é um deus cuja existência mitológica simboliza a vitória da luz sobre as trevas. Não quero me pintar por inteiro.de prata. talvez no fim de 10 dias. não precisarei disso. para aproveitar a duração máxima da tintura. é um lugar desconhecido e pouco povoado. figura nos mapas geográficos. nocivo e seria um trabalho cansativo. a honestidade. e depois de sete dias ainda subsiste em minha coxa. da Helena Curtis. os braços. Quando estiver bem tênue. É. Três pretas e duas marrons. existe o risco de ser despido à força por uma razão qualquer. denso e natural. provoca uma comichão. o nitrato de prata só resistirá o tempo que minha epiderme leva para se renovar. Evidentemente. mas tenho vontade de usar seu nome. Munda é o patronímico mais simples dos membros da tribo Munda. as pernas e os pés. Isto é. apesar disso. à base de água oxigenada. Escolhi meu nome indiano. o pescoço. Pelo menos as partes visíveis de meu corpo. É um vilarejo onde parei ao deixar Chakradharpur. Um risco mínimo. e os hindus o consideram a personificação do homem ideal. Ela se apaga aos poucos. e Ram é um prenome muito comum. Encarna a coragem. a partir do quinto dia. da aldeia de Bandgav. o que lhe confere uma realidade que pode ser confirmada. também resistem bem. acho. A Bigen A deu à minha pele um tom sépia. Eu me chamarei Ram Munda. em cima da hora. principalmente os órgãos genitais. que significa "Aldeia Fechada". A roupa esconderá o tronco. Será preciso repassá-lo regularmente. não poderei me despir em público. Situado ao longo de uma grande estrada. Direi que esse Ram Munda é originário de Jharkhand. sem dúvida. De qualquer maneira. Ficando bicolor. mas a primeira é muito azulada e a segunda. Isto é. Eu o aceito. mas acho que na pele de um mendigo. que passa despercebido e indica claramente que sou hindu. o rosto. neste começo de inverno. duas a três semanas.

mas nunca as ouvi da boca de indianos de nenhuma casta. assim como muitos indianos pobres que ignoram a data de nascimento. mas percebe a própria falta de civilidade.lá. Essa deusa. criadora e destruidora do mundo. o que poderia acontecer se eu escolhesse uma comunidade maior. recriei na mente o estado de espírito rústico no qual vivia como chinês. Elas existem em hindi. A paisagem de Bandgav é fácil de descrever. estudei o comportamento dos indianos. As casas de tijolos. com árvores gigantescas e cipós. ao mesmo tempo cruel e generosa. Em inglês. dedicado a Durga. mas direi "20 a 25". Observei que não pronunciam três expressões: "Desculpe". A existência desses dois templos me permitirá engendrar histórias plausíveis. sem detritos. Hoje. A uns 10 quilômetros. há uma cachoeira fantástica de cerca de 100 metros. Entre esses agrupamentos há campos de arroz e prados onde pastam vacas. não serei preciso. antes que o outro entenda o que acabo de dizer. cerca a aldeia. Aliás. Ela também protege os aborígines que vivem da caça. "Obrigado" e "Por favor". pareço um marciano e devo repetir uma ou duas vezes. tenho do que me orgulhar em minha região natal. pois os indianos ignoram mais a cortesia. pois os indianos parecem mais velhos que os ocidentais. A propósito de minha idade. e o segundo perto da delegacia. dedicado a Shiva. como Chakradharpur. acho que é mais importante na Índia do que na China. Tenho 32 anos. O chinês não é muito polido. esposa de Shiva. Ao passar por chinês. sem compreender o sentido verdadeiro. O vilarejo se estende por vários quilômetros quadrados. há dois templos hindus: o primeiro na entrada do lugarejo. em Benares. e seu culto exige sacrifícios sangrentos. Para minha metamorfose ser bem-sucedida. Ele cora se lhe aviso que deveria ter dito "Desculpe" antes de me . e isso me ajuda a renunciar às cortesias ocidentais mecânicas. como Ram Munda e os seus fazem as oferendas rituais. Se digo "Krpaya" ("Por favor"). Além disso. Abandonar essas cortesias que decoram a linguagem ocidental não é fácil. só consegui deixar de dizê-las depois de várias semanas. com pátios e caminhos próprios. Uma floresta impenetrável. eles as usam automaticamente. cabras e carneiros. é considerada a mãe divina. Assim. são agrupadas em quatro ou cinco. cobertas de telhas redondas.

depois sacudo no vazio ou o esfrego na parede. não é muito fácil. sem nos cansarmos. ao contrário do cristianismo. isto é. muito rudes. quando nos habituamos. Ao contrário. e não de cima para baixo. Aliás. na Índia. só que sempre fica um pouco de muco grudado nas narinas. conseguimos ficar nessa posição por uma hora. O indiano não é pouco cortês. Os dois povos se acocoram a todo instante em público e da mesma maneira: com a planta dos pés no chão e não com os dedos. como fazem os europeus. alternadamente. Ao me tornar Ram Munda. ele não compreende por que deveria se desculpar. o indiano não se melindra como o chinês. torna os homens egoístas. como na França. Eu a aprendi ao passar por chinês e será útil agora. usar o nariz como uma arma automática é mais limpo. Os indianos andam como patos. Além disso. e para dizer "sim" balançam a cabeça da esquerda para a direita. Como meus futuros compatriotas. Tente. cada narina. com o polegar e o indicador.abordar ou me interrogar na rua. com os pés abertos. insiste nos deveres do indivíduo em relação a si mesmo. mas. O hinduísmo. Assoei e não carrego no bolso um lenço pegajoso. quero assinalar outro comportamento sino-indiano. Está feito. e projeto o muco no chão. isso não tem a menor importância para ele. para me livrar dessa substância viscosa. Aperto. estou treinando baixar a cueca vestindo um lungi. eu o tiro com as pontas dos dedos. ele é descortês. Para si mesmo. graças a uma violenta expiração nasal. 48% da população são analfabetos. Os indianos têm razão. Devo comer com a mão direita e não me esquecer de só usar a esquerda quando for ao banheiro. Funciona. uma fórmula de cortesia pareceria falsa em minha boca e trairia minhas origens ocidentais. A propósito. Adotei esses dois hábitos locais e pratiquei assoar o nariz entre os dedos. Ele não se pergunta se está me incomodando. Eles simplificam minha aprendizagem do código de conduta indiana: os . Baixar a cueca até os joelhos e deixar o traseiro e as coxas expostos é uma técnica ocidental. Reparei mais três pontos em comum entre os chineses e os indianos. Esta saia comprida pende sobre os tornozelos e não é fácil me acocorar para urinar ou defecar sem levantá-la. do islamismo ou do comunismo.

isso me dará mais um toque de cor local. observo os indianos na Ravindrapuri. da falta de sentido cívico e de consideração pelo outro. em uma loja. e também . e a transpiração gruda os órgãos genitais. Os hindus estão felizes. os maus modos dos indianos provêm do egoísmo exacerbado de seus compatriotas. agirei assim. Depois do crepúsculo. Isso me aterroriza. mas essa falta de constrangimento para se pôr à vontade em público também revela o desejo e o prazer de afirmar. Também precisarei coçar os testículos publicamente. escarram. Claro que há o calor. lançam-nas e bang! Riem e recomeçam. Rang! Um clarão intenso. de perder meu rosto.camponeses dos dois povos arrotam. Celebra o retorno do deus Rama à Índia. nessa sociedade falocêntrica. nas janelas e telhados das casas hindus. Daqui a 48 horas. Acendem o pavio das bombas. sem o menor constrangimento. milhares de lampiões são acesos de Caxemira ao cabo Comorim. É noite de festa. Tenho medo de não me reconhecer mais. e até mesmo na frente das mulheres. minha aparência física. a festa das luzes. os indianos. Os fogos estalam. Um inferno sonoro. Viverei como eles. urinam. Segundo ele. De minha varanda. Durante 24 horas. analisa por que seus compatriotas coçam os órgãos genitais. Em seu livro Nós. uma espécie de Ano-novo. terei a pele escura. Khushwant Singh. defecam e jogam o lixo na rua. Os comerciantes abrem novos livros contábeis. compartilharei de seus prazeres. Na rua. o que é específico da Índia. 25 de outubro Esta noite é Divali. serei um deles. que se é macho e que se tem o órgão. detonam sem parar. As pessoas se preparam lavando suas casas e usando roupa nova. para indicar a Rama o caminho de seu reino. São 22 horas. escritor contemporâneo. É uma das festas hindus mais importantes. Os indianos de todas as castas coçam o saco e o ajeitam na calça o tempo todo. depois uma nuvem de fumaça branca se eleva na noite. as crianças e os adultos soltam bombas e fogos de artifício. depois da vitória no Ceilão (Sri Lanka) sobre o demônio Ravana. escarram e limpam o nariz em público. Na pele de Ram Munda.

Pintei o cabelo. Vivi um ano com o cabelo de cada cor e sei como fico com as duas. Não era mais Marc Boulet. apenas deixei crescer o bigode e vesti roupas chinesas. o caminho de volta a seu reino. Para o rosto. meus gostos. Não achem que sou corajoso. Vou me parecer com um desses homens escuros e sujos que sentem prazer em lançar bombas e acendem lampiões para assinalar. o de um estrangeiro para mim mesmo. me depreciarei. Mas não se engole de novo o que se escarra. O resultado me satisfez. Posso aceitar isso? Em 1985. quando me disfarcei pela primeira vez como chinês. meu corpo preto será o de um desconhecido total? Mergulharei na sociedade sob esse aspecto. depois de milênios. pois é preciso aplicar a tintura de modo uniforme e não deixar riscos na pele. Estou bem bronzeado e nesta manhã vou escurecer e tornar mais espessa minha tez com uma solução de nitrato de prata. nas pernas e no rosto. O que me tornarei depois de amanhã? Quais serão os desejos desse novo homem? Ele será mais belo ou mais feio? Na Índia. mas podia me reconhecer no espelho. Mas isso não me surpreende. diz um provérbio indiano. a nuca e as orelhas. Foi mais complicado do que imaginara. Gloire me ajudou. as sobrancelhas e o bigode. Esta tarde comecei minha metamorfose. ficarei mais feio. em Kashgar. Sozinho não teria conseguido pintar as pálpebras. Sou tímido e medroso.minha personalidade. Como vou reagir? Tenho medo. a brancura da pele é a primeira regra de beleza. Levei a manhã e a tarde fazendo isso. E que se danem as conseqüências. Acabo . Não tenho outra escolha. Escurecendo a pele. concentrada o dobro do que prescrevera meu amigo dermatologista. Depois de amanhã me tornarei um intocável. a um pretenso deus Rama. É uma questão de honra e não de coragem. Todos os pelos ficaram negros e brilhantes. 27 de outubro Ontem passei tintura capilar nos braços. Desta vez. É aterrador. pois há uns 12 anos eu me divertia pintando o cabelo de louro e preto.

Depois me exponho ao sol. e. unto cuidadosamente o cabelo e ponho as roupas de mendigo. Não o reconheço.de prepará-la com sais que trouxe da França. Nada resta de Marc Boulet. É a minha. se conservarei meu cheiro. passo o nitrato de prata. com um fular cheirando a urina em torno do pescoço e cabelo cor de ébano me encara. Um indiano de pele cor de chocolate preto. decido relaxar. . para controlar minha metamorfose. Gloire afirma que estou preto. Não sei o que dizer. antes que a reação fotoquímica seja desencadeada. uma vez dissolvido na água. Eu me pergunto se vou transpirar da mesma maneira em um corpo indiano. Então. engastado em um branco brilhante. Sinto os dedos acariciá-lo. É difícil não borrar as unhas. se continuarei a gostar das mesmas músicas e dos mesmos filmes. Fecho as venezianas da sala de jantar e. Assim como os indianos. este Ram Munda. pois. É fascinante. Não sorri. Isso me deixa tempo para me untar minuciosamente. parece triste e cansado. durante os quais meus membros adquirem a cor chocolate. Fico boquiaberto e. Quem sou eu? Esse indiano preto me encara com olhos imóveis. Não ouso olhar. vestido com um lungi e uma camisa suja. Esta metamorfose se realiza na minha frente e dura cerca de meia hora. vejo meus braços e pernas começarem a escurecer. Como acreditar que sou eu? Toco em meu rosto. decido não me olhar no espelho antes de estar vestido como indiano. na penumbra. Não parece cordial e não o acho feio nem bonito. Minha mulher me ajuda no rosto e nos dedos. o produto não resiste à luz e dura pouco. parece sempre ter sido indiano. É esquisito e não experimento nenhuma afinidade com ele. Estou confuso. Trinta minutos de estupor. dentro de cinco minutos. É tão sombrio. Estou pronto e me dirijo ao grande espelho que fixei na parede da sala de jantar. encontrar Ram Munda. se meu paladar vai mudar. mas no espelho os vejo deslizarem sobre uma pele morena. Este indivíduo que me olha no espelho. para preservar o suspense. Espero que esteja dizendo a verdade. na varanda. tremo. Olho. pois é preciso que a metamorfose seja perfeita.

comer. Eles não me reconheceriam na pele de Ram Munda. depois voltarei para dormir em casa. Sem dúvida precisarei de muitos dias para organizar uma vida. Antes de entrar totalmente na pele de um intocável mendigo. na pele de Ram Munda? As perguntas me dão um nó no estômago. Fumo um último cigarro. A espera do crepúsculo é penosa demais e tomo um sonífero. e suas orelhas estão cheias de pelos pretos. amarro o lungi. com uma educação europeia. escaparei para fora de casa sem que os vizinhos percebam. Devo ir aos lugares que freqüentei na pele de Marc Boulet. Aos 32 anos acabo de renascer como um ser virtual. Aproveitando a escuridão. Como se suas ações. a não ser na lembrança de sua família e de seus amigos. amores não vivessem mais. durante algumas horas. jogo . como um branco. Tenho medo de chamar atenção ou de ser reconhecido por amigos ou comerciantes. quero verificar se minha nova aparência é digna de crédito. Realmente estou apavorado. Sinto um gosto execrável na boca. Eu não existo mais. pelos lugares a que já fui várias vezes. Não exagero. Quem era Marc Boulet? De repente. fumando um cigarro atrás do outro. Como penetrar na sociedade? Decidi arriscar uma primeira saída esta noite. O disfarce está perfeito? Estou irreconhecível? Como vou dormir. A metamorfose é muito perfeita e uma grande tristeza me invade. sofrimentos.sujo. Desperto por volta das 18:30. visto a camiseta e a camisa de mendigo. A tintura revelou a penugem invisível que cobria meu corpo. É impossível me acalmar. volto à minha angústia. Tenho de me descontrair e tomo uma dose grande de uísque indiano com gelo. Não posso voltar atrás. É tão feio. Darei uma volta. Está de noite. dou alguns goles. Na cama. Ninguém acreditará se eu contar que fui criado em Paris. Tentei dormir esperando o crepúsculo e então arriscar tudo. uma personalidade que me propiciarão a percepção de uma identidade real. Não consegui. uma memória. talvez seja do medo que me domina. Fiquei nervoso durante a tarde toda. como se Marc Boulet estivesse morto. tenho a sensação de ter perdido meu passado. pelo centro.

na grande "rua da Bacia de Durga". Se um vizinho passar e perceber minha mulher com um indiano preto com um lungi. Mergulhar. Temos de nos separar. Gloire me acompanhou.o fular em torno do pescoço. não levo o passaporte. seria muito comprometedor se alguém me revistasse. isso chamaria a atenção. Noite e silêncio. Estou pronto. é provável que se aproxime para ver melhor. para o caso de ocorrer um problema grave. Tampouco eles me olham. Mas distinguem-se as silhuetas e os rostos na obscuridade. Mesmo à noite. Mantenho o fular sobre o cabelo para dissimular um pouco minha cabeça e não tomo o caminho habitual ao subir a Ravindrapuri. Esta noite. Não posso beijá-la. Quando eu passava. Perfeito. três mulheres preparam o jantar sobre um braseiro de barro. São 19 horas. Viro à direita. E se alguém me reconhecer? E daí? Não posso fazer mais nada. oculto 1. Fede a fritura rançosa e pimentão queimando. Na entrada. Sita Ram ou outros amigos. Não há nenhuma iluminação.000 rupias em um bolso secreto que Gloire costurou em minha cueca. aceno com a mão e parto. passo correndo pelo apartamento dos Agraval e empurro o portão de nossa casa. com o rosto oculto pelo fular. Não quero correr o risco de cruzar com Raja Ram. Nenhum lampadário funciona. Com o coração apertado. Estou na Ravindrapuri. Desço a escada e. . Passo e as mulheres nem me notam. cruzo com um grupo de homens que discutem. e saio perto do templo Tulsi Manas. Quero sair à rua o mais rápido possível. onde queimam esterco seco. Ninguém me viu. Não quero mais refletir sobre a metamorfose nem recalcular os riscos. Mais adiante. Em compensação. Esta noite não preciso levar o saco nem o material para dormir. Nem pública nem privada. Penetro no labirinto. em uma rede de vielas e de casebres que margeiam um cemitério muçulmano. A avenida parece deserta. Ponho no bolso da camisa umas 30 rupias (meio salário diário médio) e. diante de seus casebres. não posso andar por aqui. Sou invisível? A partir do final de julho atravessei esse bairro várias vezes por semana e seus habitantes sempre me encaravam. as cabeças se voltavam e as conversas se interrompiam por alguns segundos.

de carros. É evidente que. como um contorcionista. Cabe a mim parar e aguardar. pela primeira vez na Índia. Quero deixar esse setor o mais rápido possível. Os outros indianos vão e vêm à minha volta.Seis rupias e pronto! . os condutores dos jinriquixás correm atrás de mim. os veículos se lançam sobre mim. Faço cara feia e ele diz: . Subo na carroça.nada. pareço indiano e pobre. quando passei por aqui. Esta noite. ninguém me olha. vestido de short e camiseta. como ocidental. até a altura do queixo. não mando que conserte mais rápido. Deixome levar pela corrente para o centro da cidade.somente os ocidentais o usam em público servia de sinal vermelho. Isso leva dois a três minutos e me parece demorado. Um condutor estacionado diante do templo de Durga se estende. mas hoje sou eu que devo procurá-los. sou anônimo. . vestido assim. um outro está apoiado sobre o guidom. A tarifa normal é de cinco a seis rupias. Centenas de pedestres de um lado para outro. Nada em minhas roupas e em minha tez me diferencia do formigueiro humano que fervilha nesta rua. não pergunto se quer ajuda. Tem uns 20 anos e usa um lungi tão sujo quanto o meu. Ergo um pouco o fular. Ele para e a recoloca. pois estou à espreita de qualquer olhar que se dirija a mim. Eu achava que só roubavam os estrangeiros. Ele pedala rápido. Aceita me conduzir por oito rupias. Sou um homem sem rosto. Meu coração bate 50 pulsações por minuto. Minhas mãos estão úmidas. sobre seu carrinho. para me ocultar mais. Recusa-se a me conduzir ao centro da cidade. Quando atravesso a rua. Dez metros adiante. Desemboco na rua da Bacia de Durga. pois Raja Ram e outros amigos trabalham perto. diminuíam a marcha ao me verem. e ele dá a partida. Meu short . Normalmente. Ignoro o que um indiano diria nessa situação e prefiro ficar calado. Confundo-me com o cenário. Não reclamo. mas a corrente da roda traseira solta três vezes. de lambretas e bicicletas. Os indianos fazem isso para se proteger do frio.Está bem. Mergulho em muita luz e em um tráfego incessante de jinriquixás puxados por bicicletas. No mínimo. Anteontem. Isso me tranqüiliza e o nó no estômago relaxa.

O estrangeiro não pode . Os ghats são as grandiosas escadarias de pedra que mergulham no rio e formam suas margens. rachados pela rua Dashashvamedh. tenho a sensação de pertencer à comunidade hindu. Os muçulmanos. pois ninguém me olha. Eu pago e. É tão estranho. Ele não espera o resto e parte. ela se precipita em uma viela iluminada sob um caramanchão de lâmpadas fluorescentes. podem aproveitar a interrupção da circulação para agredir os viajantes hindus presos na estrada. Estou vestido de hindu. xingando-o de bicha. serei considerado hindu. O carrinho me deixa no centro. Atravessamos um bairro muçulmano depois da encruzilhada de Bhelupur. e com eles a fauna mais viscosa do Norte da Índia. Eu escruto os outros e eles não me vêem. Depois. Decido descer até o Ganges.Na verdade. em maior número aqui. Quero esquecer essa cena revoltante. e me acalma um pouco saber que ela conta com 700 milhões de indivíduos. Cuidado com minha pele! Pela primeira vez. um policial lhe golpeia os rins com o cassetete. Se houver tumulto. precedida de tambores. mas não me sinto à vontade nesse bairro. Muito comércio. aqui está Godhaulia e a cidade antiga! Um labirinto de vielas e becos sem saída. estou inquieto sem razão. Uma procissão de umas 50 pessoas. Este eixo de 15 metros de largura por 500 de comprimento conduz ao ghat mais sagrado do Ganges. centenas de hotéis a preço e conforto mínimos e dezenas de templos atraem os turistas. Regularmente há conflitos entre hindus e muçulmanos nessa zona de Benares. É inútil verificar se o homem é circuncidado para saber se ele acredita em Maomé ou em Shiva. Godhaulia! Preferia não mencionar esse lugar. Então. Nos bairros pobres. É um campo de guerra religiosa. no cruzamento com Godhaulia. é tolice. Todos os dias. Será um casamento? Hindu ou muçulmano? Sem dúvida. bloqueia a estrada por alguns instantes. milhares de peregrinos e devotos convergem para o ghat Dashashvamedh a fim de tomar o banho purificador. várias vezes por ano sob toque de recolher. um muçulmano e um hindu se distinguem freqüentemente pelo lungi e pela barba. como o condutor demora a estacionar na calçada. O percurso dura 20 minutos.

patchuli. com um sorriso largo. É o zoo. como eu seria acolhido? Na entrada da rua Dashashvamedh. seda. como Ram Munda. Não somos todos irmãos? Oferecem: quarto de hotel. Têm rosto de . Quer incenso. um vendedor ambulante. um louco. os sacerdotes hindus se oferecem até para benzê-lo... um verdadeiro pintor. a um preço de amigo. têm um outro irmão que fabrica estátuas em mármore. um bajulador de mulheres. ler sua sina. como se estivessem propondo sua amizade. massageá-lo. Não está interessado? Então. "Não é obrigado a comprar!" Mais distante. Se estou exagerando.passear sem ser parado a cada 50 metros por um mendigo. E as mulheres nesse circo? Aqui. Isso dá a impressão de uma cidade de homens. Uma loura e outra morena. cabelo ondulado e vestindo uma calça marrom de acrílico. Eu o repeli três vezes em hindi e ele se lembra do rosto de Marc Boulet. E calculam o dólar no câmbio negro. italiano. Você é abordado em inglês. A maior parte das mulheres fica fechada em casa. droga. um sábio hindu. cítaras etc. Esta noite. na loja do irmão. pegajoso e suscetível. francês. Hoje ele provoca duas turistas ocidentais na faixa dos 20 anos. É impossível ficar sozinho nesse bairro. jóias ou schmilblick? Podem levá-lo à usina de um primo. as ruas são invadidas pelos homens. um fedelho. Poliglotas e simpáticos. É um sanguessuga particularmente tenaz. Ele se vira em inglês e anda todos os dias pela zona. especial para você. reconheço o indiano de cerca de 40 anos. Um pântano infestado de sanguessugas. tapetes. um cachorro ou uma vaca. próximo ao Ganges. ossuda e pálida. pois chegamos a trocar palavras que não ouso traduzir aqui. que me arranquem a língua e os testículos. barbeá-lo. outros homens querem levá-lo a um passeio de barco. Eles o amam e vendem tudo. Nas margens. como em Benares. Só falei dos homens chatos. Todos esses agiotas me importunaram todas as vezes que Marc Boulet passou por Godhaulia. oferecendo aos estrangeiros seus serviços de corretor de qualquer coisa. Ele tem uma cara que dá medo. Não tenho medo. O zoo urbano. com o focinho de fuinha fixado sob os olhos cintilantes. um traficante.

seios generosos. Ele me tocou! Estarei ainda muito . Esta noite comprarei um saquinho de caroços de areca perfumados. Devo realmente ser como todo mundo.boneca.. as moças se queixam a três policiais que tagarelam na frente de uma farmácia. de como era Benares e seus habitantes. já teriam me importunado umas 20 vezes. Não tenho mais medo. não voltarei mais. Se ele alicia os turistas. Eu me sinto bem. Antigamente. Um indiano qualquer. mas soltam o ventre e o espírito. ele não me reconhece. Eu me sinto indiano. Ajustamos o passo. se os outros indianos me encararão.. nada desagradáveis de se imaginar por baixo da camiseta. Não precisamos de você. Ainda vou tentar a verossimilhança de meu disfarce em uma birosca onde costumava comprar cigarros. Uma multidão de indianos cerca os três protagonistas. e esses estrangeiros são ricos. Um elemento de Godhaulia que os turistas fotografam para se lembrarem. Sinto-me mais próximo do sanguessuga. Sou invisível. É inacreditável.. É surdo?. Não me fala em hindi padrão e não tenta discutir como das outras vezes. Deixe-nos em paz! Não me toque!. Falo com ele em dialeto e ele me responde igual." Et cetera. Digo isso não apenas porque os outros me vêem assim. Eu me aproximo. Eu também me afasto e continuo a descida ao Ganges. intrigado pelo estrangeiro que falava sua língua. mas também porque a sorte dessas estrangeiras me diverte. se os importuna e os rouba.. Ele me dá a mercadoria e o troco na mão. Não sinto mais o nó no estômago. São mais amargos que a fuligem e a bílis misturadas. eu o compreendo. Mais uma vez. Fico na frente do sanguessuga. É seu ganha-pão. et cetera. e percebo seu sotaque britânico ao responderem ao sanguessuga. O medo do uniforme é grande. pois a multidão se dispersa sem demora. Reflexo de curioso. Ninguém se acerca. Em desespero. Como lamentá-los se se deixam roubar algumas rupias? A jovem morena grita: "É minha primeira viagem à Índia. Nada acontece. não é para se divertir. não sou reconhecido. Gosto de mascá-los. ao retornarem a seu país. Ninguém me nota... As jovens se livram da multidão e o sanguessuga as segue. E além disso quero saber se o sanguessuga me reconhecerá.

sozinho. em sua cabeça. Um indiano chique. Silêncio. sacerdotes brâmanes abençoam os banhistas em troca de algumas rupias. um pouco folgada.. e não sou eu que vou alegrá-los. os barqueiros. com camisa pólo. algumas vacas e cachorros também percorrem o ghat. comida condimentada. a maior parte dos estrados está livre. justamente para quebrar minha solidão. Os quatro indianos sentados ao meu lado observam como eu o vaivém de uns 50 pedestres. uma bonita estrangeira me lança um . Os leprosos. um casal de jovens alemães discute o hinduísmo com um indiano do tipo burguês.limpo? Como ele adivinharia minha identidade de intocável? Como indicála? O escuro de minha pele não é o suficiente. e tênis de couro. diarréia. Desço o ghat Dashashvamedh. nenhuma comunicação.. Sinto-me muito só.. quartos imundos. o superherói do cinema hindi. Somos iguais. Estipulei como regra não iniciar uma conversação e imitar o comportamento dos indianos que encontrar. fixos nesses estrados de quatro metros quadrados. nem suscitar reações ou amizades. e os tolos repousam naqueles que os religiosos não estão ocupando. Se meus vizinhos não são de falar é porque isso faz parte de seu temperamento. Cada qual passa a noite em seu canto. A esta hora da noite. Pego um pouco de areca e masco. mosquitos. calor. Sei bem o que este lugar obriga a suportar. Que impressão estranha. Atrás de nós. Eu também sofro. Esta noite me ignoram e percorro sozinho essa margem do Ganges. O objetivo da metamorfose é ser um indiano comum e não me sobressair. os estrangeiros trocam sorrisos ao se cruzarem nas ruas. irmão! É um prazer vê-lo. Na Índia. os barbeiros interpelam todos os estrangeiros." Muitas vezes. ao lado de quatro indianos. os mendigos. Os indianos me deixam tranqüilo e os estrangeiros já não me olham.. Roubo. Como se dissessem: "Olá. Dezenas de estrados de madeira com guarda-sóis de ramos de palmeiras trançados se alinham à margem do rio. no estilo Anil Kapur. sobre outro estrado. somos diferentes desses indianos miseráveis. De dia. viemos de fora. Entre nós cinco. calça limpa. mas eu me sento.

olhar. A multidão. Não interesso a ninguém. É um sujeito tenaz. Ela imagina mil perigos e sente ciúme. Depois. Pardo indiano. Eu também as olho. ele se lembrava de que eu já tinha uma flauta e. Não que deseje sexualmente todas essas criaturas. Ela me espera em casa e se preocupa com seu homem escuro que erra por Benares. replicou com um olhar de desprezo que substituiu o tom habitual de súplica: . tentando lhes vender suas flautas de bambu. É como se não me vissem ou evitassem meu olhar de autóctone machista e inconveniente. ela dizia: "O que estava fazendo? Vi você olhar para aquela garota. Estou só. o vendedor de flautas. Invisível. toda vez que cruzava com ele. Não gosto nada disso!" Que fique tranqüila esta noite. Com a cara de gárgula achatada e as costas tortas. eu disse: . Para os indianos c para os estrangeiros. amendoim torrado. mas porque o sorriso de uma garota bonita sempre é agradável. Sinto falta de seus olhares. Mas ele também me olha sem me ver. as indianas estão enclausuradas e as estrangeiras não vêem Ram Munda. Não me sorri. Minha nova identidade me priva desses raios de sol. a julgar pela maneira como os indígenas curiosos fazem piruetas à sua frente. Sinto medo. toda vez que eu trocava um olhar com outra mulher. eu me livrei dele definitivamente.Eu também tenho uma entre as coxas. me deparo com um amigo. Em vão. compro biri. . não me reconhece. Essas belas de pele leitosa nunca cruzam meu olhar. Ninguém inicia uma conversa comigo. Sento-me em outros estrados. Vou ver se as pessoas em outro lugar são mais comunicativas. Depois. ou então as duas coisas. Como sempre. e eu fiquei contente. Penso em Gloire. Isso lhe cortou a respiração. Eu me lembro de que. Em seguida ele foi embora. No começo do mês. está importunando os estrangeiros. eu acho. Eu respondo e isso nos dá prazer. Sou pardo. Sua música me basta. Após 10 recusas polidas.Não preciso de suas flautas. capaz de nos seguir por 500 metros. Já tenho uma entre as coxas. Esta noite há muitas européias no ghat. sua presença exasperava Marc Boulet. Em certo momento. e seu balé parece ser uma atração apreciada. A massa.

O "restaurante" é um estabelecimento mais sofisticado. Não lhe respondi que minha flauta era mais grossa ou mais jovem que a dele. e decido voltar a pé . Também ali ninguém presta atenção em mim. um filete de baba escorre de sua boca e seus grandes olhos imóveis choram. o animal rejeita tudo. Eu pergunto: . No começo da rua Dashashvamedh. balançam as pernas no vazio e nada no mundo os faria virar a cabeça na minha direção. Dois indianos lhe dão água com a mão em concha e colocam em sua boca pedaços de pão. E vão embora. Peço a refeição comum de 10 rupias. a palavra "hotel".Vamos rezar por ela. mas não sou cruel e não gosto de humilhar os outros. Com o flanco estendido na margem de pedra. está doente . Faço uma última tentativa de não ficar só e me sento na rua. Sempre olhando sem ver.000 anos-luz nos separam. Permanecem mudos. Sem dúvida. Estou no meio e tento encontrar o olhar de meus vizinhos. Embora próximos uns dos outros. no balcão de uma tenda já fechada. eles se levantam. Inclui curry de batatas e de berinjelas. Passa um barqueiro. Parecem aborrecidos. Nada adianta. também designa taberna. sou vulgar e gozador. e um deles suspira: . O que fazer? Não sou veterinário.Veja! Esta vaca está doente.responde.envergonhado. Para um instante. Sobre essa tábua de 1.Sim. O que fazer? .50m de comprimento. Na Índia.prato indispensável do indiano pobre. Finalmente. arroz.Ela está doente. dá uma olhada e vai embora.O que há? . uma vaca agoniza. somos três homens e ali ficaremos. eles só têm olhos para o movimento da rua Dashashvamedh. Também me retiro e decido comer alguma coisa. pão e purê de lentilhas . Ela não se mexe. durante 45 minutos. Eu o chamo: . Deixo o ghat Dashashvamedh por volta das 22 horas e caminho um pouco pela margem do Ganges. o hotel Kumar está aberto. pronunciada "hoteul". sem nos falarmos. de classe social mais elevada. 15. Seria me gabar em hora errada. me lançava apenas um sorriso.

Cinco rupias! Paciência. não há problema. pelo menos. Ao cair da tarde. reparo que meu rosto está menos moreno. Não é grave. desempenho meu papel de pobre. aceito. Poderia ter ficado nesse balcão a noite toda que ninguém falaria comigo. 28 de outubro Esta noite. mais claro. Também me fotografará e me filmará para guardar a lembrança de minha metamorfose. Estará querendo me prevenir de que será muito caro para mim? Será por isso que não parou para falar comigo. para me importunar. Esta noite. como se não nos conhecêssemos. continuo sépia e.para casa. Combinamos alguns lugares em que estarei quando ela filmar. Isso me trairia. O primeiro recusa me conduzir e me olha com desprezo. Não demonstro. Nem. em público. Seria perigoso dormir fora. as lojas. convencido de que não o tomaria? Ele se engana. que vai na direção de Gpdhaulia. irei andar de novo em Godhaulia e depois voltarei para casa. Tenho de chegar logo em Godhaulial . Em compensação. O rosto transpira mais que os braços e as pernas e a tintura fica menos firme. se a tintura se suavizar ainda mais em meu rosto durante a noite. a multidão. para sair à noite. Trabalhará como uma turista que filma a rua. É a primeira vez que me dizem a tarifa diretamente sem que eu pergunte nada. Saio de casa por volta das 18 horas e procuro um carrinho diante do templo de Durga. dormi bem. Chamo outro. Diminui a marcha e me diz que custará cinco rupias. Cinco rupias (20 centavos de dólar) é um preço justo e que convém aos critérios europeus segundo os quais raciocino. Gloire me seguirá de longe. Observará minha aparência em comparação com os outros indianos. corro atrás dele e digo: . eu me pergunto se a cor resistirá durante uma semana. acordarei amanhã. Ao despertar. como previsto.

O lungi que uso hoje compõe mais que um short curtinho. Não sinto nenhuma ligação. Uns 10 indianos os observam. Vemos estrangeiros com olhos azuis. Esta noite não me incomodo que chamem os franceses de bichas. Estou invisível. à margem do Ganges. como já comentei. Além disso. cabelos amarelos.Ali estou eu! Nada mudou em comparação a ontem. Ela filma a rua e o ghat Dashashvamedh quando eu passo. sinto-me limpo como estou. Essa gente. significa "bicha".. Em uma tenda onde compro pan. olhos verdes. os indianos. O vendedor passa manteiga no pan e põe em minha mão. Como crianças. que remontaria a uma existência anterior. usam apenas um short e uma camiseta. Eu estava errado. Não me pergunto se os trajes dos estrangeiros com quem cruzo são menos manchados ou menos esfarrapados. Envolve o corpo e me sinto à vontade nele. . em um mundo já desaparecido.. Gloire fotografa a mim. para designá-los. Além disso. e me situo na média dos indianos. Gloire filma. os tornavam repelentes. nenhuma semelhança com eles. A propósito da higiene. Eles comentam: "Esses bichas fazem isso. Isso é secundário. Gloire me fotografa. uma cara que fascinaria um antropólogo. como uma mosca em uma tigela de leite. seis franceses que negociam o preço de um passeio de barco. utilizam a palavra bhosharivala. Dois rapazes. eu também passeava usando short. trapos sujos e furados.. coloque o pan na boca!" Obedeço. que. para não chamar a atenção sobre mim. ao meu lado. Eu sou um deles. nos divertimos porque uma estrangeira tirou fotos de um de nós mascando. insignificante. dizem aquilo. falam dos franceses e. suas camisas. Gloire me segue. me diz em dialeto: "Vá.. é que esses bárbaros usam roupas internas. a loja e uma dezena de fregueses. como um erro cometido na juventude. Não têm respeito por si mesmos? Há apenas três dias. Essa roupa me parece distante. alguns têm a cara esquisita. Um pouco mais tarde. Parecem semi-despidos e têm o desplante de saírem assim. Lembro-me de que achava os indianos ridículos em suas saias-lungi. para saírem à rua. O que salta aos olhos. e nós. que reparou que Gloire queria uma foto de um indiano mascando. sub-roupas. Ninguém me nota. homens e mulheres. Um amigo do vendedor.

Vou ser franco. dado aos europeus pelos indianos. Esse . Um detalhe divertido: o conceito europeu de olhos puxados e pele amarela em relação aos asiáticos mongólicos não existe na Índia. despedem-se delas e as imergem no Ganges. e Gloire. outra representação de Durga. às vezes quase vermelho-clara e salpicada de sardas. Esses são os mais feios e merecem o apelido de "macacos vermelhos". De fato. em Dashashvamedh. que os relacionam aos antigos colonos ingleses. Em grande algazarra. mas sei que não tenho vontade de voltar a ser Marc Boulet. representando a deusa negra Kali. me contou que jogava fora. Vocês tornam impuro aquilo que tocam. Ram Singh. Deixo o ghat por volta das 20 horas. minha mulher. Esta noite. dançam atrás de um carrinho que transporta uma estátua.cabelos vermelhos. o ghat central. ou separava. do tamanho de um homem. chinesa. Ignoro quem sou neste momento. Torno a subir a rua Dashashvamedh e me deparo com uma procissão de umas 100 pessoas. não me sinto hindu e me distancio de novo dos indianos. Por ocasião da festa de Divali. a pele rosa leitosa. Entendo por que esquadrões de policiais e milicianos civis armados de cassetetes ocupam o cruzamento de Godhaulia com a rua Mandapur. seus hábitos alimentares e higiênicos causam repugnância aos indianos. esposa de Shiva e Mãe Divina. Vocês são muito engraçados e. Li no jornal. além do mais. meu professor de hindi. também é tratada por "macaco vermelho" nas ruas de Benares. Ao ver esse frenesi religioso. O racismo e o "castismo" são inadmissíveis. em uma orgia de música e luz. Mas hoje percebo a feiura dos europeus e me desagrada pensar que pertenço a esse grupo bárbaro. a louça que servia ao receber um estrangeiro para jantar. associações religiosas fabricam estátuas de Kali ou de Lakshmi e durante vários dias fazem-lhes súplicas e as celebram com oferendas. não devemos nos ressentir dos indianos por insultarem os estrangeiros. Não justifico Ram Singh. A procissão desce na direção do Ganges para lançar a estátua no rio sagrado e invocar Kali. em geral ruivos.

por volta da meia-noite. as calçadas ocupadas por policiais com coletes à prova de balas e os prédios sem vida. uma bombinha lançada por um fanático ou um provocador na comunidade adversária é o suficiente para gerar um tumulto violento. Terão medo? As procissões religiosas são ocasiões em que os hindus e os muçulmanos se enfrentam. suas barbas de bode e seus lungi de xadrez pequeno estavam sentados em bancos. A 300 metros. mergulhados na penumbra. Metade dos policiais carrega fuzis. Vestido como estou. pela rua Mandapur. Em 1991. As venezianas das lojas e das casas estão fechadas. Uns 50 muçulmanos. todos os hindus da . É o caminho mais curto e quero ver a atmosfera que reina no bairro muçulmano. e a entrada das vielas que partem da Mandapur está bloqueada por um cordão de policiais. como ontem. com seus barretes brancos. Sinto-me novamente hindu. Ontem. Milhares de pessoas esperam a procissão. penetro no setor muçulmano. Uma pedra. e de onde pode partir um disparo anônimo. e uma multidão compacta de pedestres invadiu esse quilômetro de macadame. um elemento dessa comunidade. o passeio de milhares de hindus no meio da calçada contrasta com a desolação do cenário. uns contra os outros. Esta sensação de risco fatal me torna solidário aos outros passantes. a polícia proibiu a circulação de veículos na rua Mandapur. e a procissão da estátua de Kali da associação Nava Sangh deve passar por ele para chegar ao Dashashvamedh. servirei de alvo fácil para um extremista muçulmano. à beira da calçada. Esta noite. Por trás das venezianas não se vê nem sinal de luz. o lugar estava muito animado. Decido voltar para casa a pé.caminho atravessa um bairro muçulmano. usa colete à prova de bala e se dispõe em grupos bem cerrados. Sei que. Esta noite. a procissão da associação Nava Sangh transformou-se em carnificina e 20 pessoas morreram em confrontos hindus-muçulmanos nos dias 7 e 14 de novembro. Bairro fantasma. É impressionante. Bebiam chá ou saboreavam omeletes preparadas por dois taberneiros ambulantes. Ver uma estátua de Kali traz a bênção da deusa. se um muçulmano me atacar.

Decido lavá-lo com sabão para tornar a tez uniforme. Em compensação. Amanhã. Não tenho mais riscos pretos e vermelhos nas bochechas. cor de caramelo. Besunto-as de gordura. Esta noite. a Ravindrapuri está deserta e ele me roça ao passar. Gosto de seu humor e sempre o via. meu melhor amigo em Benares. Sob a luz. Ram Munda me encara. depois as mancho de placas de nitrato de . Disso não há dúvida. Ela tinha de me procurar para me reconhecer. No meio da rua. aparecem em meu rosto. Torna-se inútil. Na Ravindrapuri. É um intocável da casta dos sapateiros. É este o problema! Ensabôo o rosto com uma luva. Gloire me espera em casa e fico contente quando ela me diz que pareço exatamente como um indiano. quando era francês. 29 de outubro Passo a manhã sujando minhas roupas. Subsiste uma tez morena. estragarei mais minhas roupas e mergulharei definitivamente em minha nova vida. Esta noite. Quem sou eu? Certamente. Ela é muito frágil com este calor. Sim. na testa e no nariz. Mas uma coisa não está direito. Olho-me no espelho. estavam muito sujos e vestiam farrapos. estou muito limpo para encarnar um mendigo intocável. E paciência se tirar toda a tinta. é claro. estou em meu lugar. enegrecidos pela tintura. de rímel. cruzo com Ranjit Kumar. Respiro aliviado. Ser hindu não é uma questão de fé. tinham a pele clara.rua reagirão. indistinguível na multidão de Godhaulia. Isso me entusiasma. Ele trabalha em uma das duas oficinas de alfaiates no cruzamento com a Ravindrapuri. mendigos no ghat de Dashashvamedh e um adolescente intocável. De fato. preto e de lungi xadrez grande. Ele me vê. mas não me identifica e prossegue seu caminho. que juntava papéis velhos e plásticos na rua. não Marc Boulet. mas antes de tudo uma questão de aceitação por um grupo social. vestígios de gordura e de suor.

À primeira vista. Será que um dia o comerei de novo? À tarde.prata para que pareçam manchas mais densas de sebo e molhos. na tranqüilidade da noite. deitado ao lado de minha mulher. pois. Deve ser um lugar incrível para se pedir esmola. em alguns meses minha metamorfose estará terminada e nos encontraremos em Paris. Faço buracos em ambos com a ponta de um cigarro aceso e desfaço a costura da camisa na altura do ombro c dos punhos. juntamente com o ghat de Dashashvamedh. Tento me lembrar se tive uma sensação idêntica antes de minha primeira metamorfose em chinês. em terra batida. Eu adoro esse prato. no fundo de Xinjiang. talvez uma centena em cada lugar. e um gosto ácido me vem à boca. disfarçado de chinês branco muçulmano. era . há sete anos. mas insistiu em me preparar um banquete: um enorme frango marengo (no óleo. E se der errado? Tomo um sonífero para dormir e me esquecer de tudo até a noite.. corto e desfio a parte interna e o colarinho. Esta prova é a mais difícil de minha vida? E dizer que viajo há 12 anos pelo mundo. Vinte horas e tenho muito medo. Será meu último dia com Gloire? Ela não diz nada. são dezenas. com champignons) com pasta de basilic (planta de folhas aromáticas. Com a tesoura faço dois rasgões na frente.. O medo é como a dor: difícil recordar sua intensidade quando acaba. e tentarei a chance na estação. Naquela manhã de outubro de 1985. Sairei de casa por volta das 22 horas. A angústia me corta o ventre. Preparo o lungi e a camisa. abriga a concentração mais forte de mendigos em Benares. tento fazer a sesta. Agora se parecem com panos nos quais um mecânico teria limpado as mãos durante um mês. Está perfeito! Verdadeiros farrapos. Faria uma enquete sobre drogas em uma região proibida aos estrangeiros. Se tudo correr bem. usada como condimento). Lembro-me de que o trajeto de 200 quilômetros. Espero a hora da partida. Sem retorno? Conto as horas que me restam para passar nesta cama. peguei a jardineira de Kashgar a Makitt.

Estava preso. relacionava os pratos servidos. isso atrairia menos atenção e. ao amanhecer. colonos de olhos puxados. mantida por chineses hans. e esse restaurante certamente a servia. Era impossível dormir tão cedo. Que idiota! Passado o arrebatamento. e o chofer anunciou que tornaríamos a partir no dia seguinte. como não queria ficar na companhia de outros viajantes. a uns 60 quilômetros de Makitt. Que azar. toucinho com pedaços de carne magra. pendurado na parede. Certamente teria matéria para uma reportagem. a jardineira parou de repente em Shache. incapaz de compreender os outros ideogramas rabiscados com uma grafia descuidada. Uma hora depois. Arrisquei muito com a polícia comunista chinesa. Às claras. meus companheiros de quarto me chamavam para conversar. Eu me lembro. Esperava chegar logo em Makitt. Isso me aliviou: não tinha vindo por nada. eu me lembrei de que os hans comem principalmente carne de porco. Sim. além do mais. Logo me meti na cama e ocultei os pés sob um edredom que fedia como se todo o cantão o tivesse utilizado antes de mim. Jantei rapidamente. Com a boca fechada. Cada parada multiplicava os riscos de eu ser desmascarado. fiz o pedido apontando as palavras "arroz branco" e "carne". Mas. o surdo-mudo. fingia ser surdo-mudo. para perguntar as horas. Descobri atrás da estação uma plantação de maconha. estava com muita fome. para matar o tempo etc. com gestos. comprei o bilhete para uma cama no dormitório da estação e. Sem abrir a boca. jantei no único restaurante do lugar. Além disso. que importância tinha isso? Minha cabeça ficou a mil. que perdi a fome ou passar por um muçulmano que come carne de porco? Resolvi comer. eu devia estar com o maior medo. Eu.percorrido em dois dias através do deserto. Meu avô materno dizia que “a vida é um prato de merda e que a comemos . não podia demonstrar que os escutava me chamar. O sol se punha. Uma taberna de terra batida. o nariz na tigela de arroz. meus vizinhos deixaram de me importunar e pude sossegar. E eu que bancava o muçulmano! O que fazer? Recusar o prato dizendo. sem falar a língua turca local. muito menos mandá-los me deixar em paz. Depois. Um menu sujo. e retomei ao dormitório. por volta das 16 horas. afinal. fui dar uma volta até a hora do crepúsculo. No primeiro dia.

de oásis em oásis. Clandestino. No mapa. Quinze anos depois.e tive a sorte incrível de encontrar Mehmet. um camponês turco que me hospedou durante 15 dias e me mostrou a produção do haxixe. alto-falantes instalados em postes transmitiam os programas da Rádio do Povo. aos solavancos. Nos cruzamentos. mas já viajávamos há cinco horas e nem sinal de Makiu. sem possibilidade de alugar um quarto. De fato.. e uma angústia incontrolável me petrificou. Os outros passageiros. Nessa manhã. Os problemas sempre se resolvem aprendi isso em minhas viagens . entre campos de algodão e de milho. Estava na jardineira certa? Para onde estava indo? A estrada produzia solavancos e serpenteava. me olhavam com dureza. sem nenhum contato local e tendo como objetivo primordial passar despercebido. Ela me impelia a sair da cidade. Para onde esse carro me conduzia? Finalmente. Talvez por causa do sol no zênite que a bombardeava. cidade de cor castanho-clara. alinhadas em um quadrilátero de ruas. depois de 30 horas de viagem..todos os dias". O sol nos assava como em um forno seco. eu continuava na mesma. sem alma.Makitt era de 60 quilômetros. fosca. E se um deles descobrisse minha impostura? Eu me imaginava pronto para o gulag chinês. Quando a tarde caiu. não ser detido por policiais. A história continua em meu livro Na pele de um chinês. os homens se trancavam em casa. Minha única dúvida é se a metamorfose em indiano é mais perigosa. passei minha primeira tarde em Makitt passeando pelos campos. Uma espécie de acampamento com casas baixas. e a jardineira prosseguia. sem rosto. Lavagem cerebral. Não era uma pessoa alegre. A propaganda ressoava nas ruas vazias e intensificava a sensação de perseguição da população. quase ao meio-dia. levantando nuvens de areia que nos faziam tossir. . Makitt. Onde dormir? O frio mordaz das noites do deserto dispersava sem transição a canícula. entramos em Makitt. e acho que não devia ter falado assim com um garoto travesso como eu. Decidi voltar à cidade. na estrada de Makitt. a comida foi abundante. pois isso me afastava dele. o percurso Shache . esta era a impressão que me davam seus olhares cansados. A cidade estava deserta. recordei sua filosofia. Então aconteceu um milagre.

ele saltará sobre mim. Nas encruzilhadas. Agraval entra em casa com seu cachorro. Espio pela varanda. lápis e papel para anotar as informações essenciais. Depois do velho bairro de Bhelupur com suas casas baixas. Passo por Bhelupur. Queria partir com o estômago cheio. atravesso Sigra. Benares lhes pertence. pois não sabia como acharia o que comer mendigando na estação. Espero mais cinco minutos. e as duas lojas inglesas de bebidas já estão fechadas. depois beijo minha mulher pela última vez. O doutor Agraval. Avanço às apalpadelas. vacas magras cavam o lixo com o focinho. Ando: o esporte dos pobres. uma lâmina de barbear. Ruminam papéis velhos e sacos plásticos rasgados. o popular Kerala Coffee House baixa a porta de ferro. se piso em um cachorro. Gostaria de estar lá fora. se um homem me atacar com uma faca. Eu os incomodo. o material para dormir. rachadas.Vinte e duas horas. nenhuma iluminação pública e a rua está mergulhada em uma obscuridade total. Sinto um nó no estômago. agindo. Só encontro matilhas de cães sarnentos que latem quando eu passo. Tenho de viver como um mendigo. É um absurdo: quem vai querer atacar um maltrapilho como eu? A fisionomia de Benares muda a cada quilômetro. meu vizinho.. Apenas algumas tendas que servem de cabines telefônicas permanecem abertas. A rua deixa de ser sinuosa. depois do território muçulmano. Azar o meu! Só bebi meio litro de chocolate frio. À noite. em forma de hangares cúbicos. desço a escada e me dirijo à Ravindrapuri escura e vazia. o prato para pedir esmola. esta noite. Isso dura 10 minutos. Uma cidade . ficar tranqüilo até amanhã à noite. A estação se localiza a cinco quilômetros. não consegui engolir nada sólido. Vesti as roupas sujas de mendigo. uma igreja cristã e grandes lojas de motos. Passo por um posto de gasolina. O animal urina e pula. Estou pronto e sairei quando a Ravindrapuri estiver deserta.. Demora. Um suor frio me causa calafrios. mas não se trata mais de pegar um dos raros carrinhos que passam a esta hora. Por ali. Em meu saco. As ruas estão desertas. não o enxergarei e não poderei me esquivar antes de ele enfiar a lâmina em meu ventre. um espelho pequeno. Esta espera me tortura. passeia com seu cão diante da casa. Ela se alarga e se torna uma estrada de quatro vias. e dois transeuntes discutem em frente ao nosso pórtico.

e me dou conta de que meu lugar não é entre eles. Caminho ao longo do mercado de legumes por atacado de Chandua Shatti. Essa construção comprida. eu os via com suas tigelas de alumínio amassadas. Sob o vestíbulo da estação. Estou farto. A estação ferroviária de Benares é o centro do mundo. de cor creme. sua comida. mãos e pés me causam repugnância e evito esse . A poeira cola sob as tiras das sandálias de dedo. flanqueada por duas torres cônicas. os restos de legumes atraem dezenas de vacas. A iluminação forte sobre eles deve perturbar o sono. sobre o asfalto do átrio de vários hectares. Ninguém. Hare Krishna! Krishna. o rei dos macacos. o amplo templo da Mãe Índia se delineia na penumbra. ao lado de um pequeno santuário dedicado a Hanuman. logo à frente. umas 50 pessoas escutam três músicos que tocam odes a Krishna. muito menos mendigos. Estão sentados no chão. Todas as vezes que vim à estação. De início algumas bodegas nas ruas ao redor que servem chá ou omeletes. todo um bricabraque empilhado no asfalto. que lembram o domo do famoso templo dourado atrás de Godhaulia. Saio da estação e me dirijo à hoste de miseráveis que acampam permanentemente no lado direito do átrio. No centro do átrio. Ela me esfola a pele dos pés e eu manco. Muitos estão mais bem-vestidos que eu. Na verdade essas pessoas com valises e trouxas parecem ser viajantes aguardando seus trens. A vida humana reaparece. depois as luzes da estação e uma turba de pobres deitados lado a lado. Não se trata de uma figura de retórica. estão deitados cerca de 200 seres humanos. Pelo menos para os hindus. defronte desse monte de lixo vegetal. papelões e madeira. é nossa salvação. Só chegarei à estação por volta da meia-noite. sob um toldo estendido sobre estacas de bambu. deus dos leiteiros. é o posto alfandegário para o paraíso de todos os peregrinos que desembarcam de trem em Benares.moderna. As placas de sujeira que cobrem seus rostos. A horda sagrada limpa essa esplanada e. Mas os talos. Ninguém presta atenção em mim e vagueio incógnito. Escuto um pouco os cânticos e então decido procurar um local tranqüilo onde dormir. Não são verdadeiros desabrigados.

os corpos se enroscam uns nos outros e é um lugar elevado. mas. Um trabalho maluco em plena noite. na penumbra. O primeiro. que gosto muito desses animais. por causa da fome no Estado de Bihar. com seus colchões de penas. Atrás do campus da Universidade Hindu de Benares. não ousei me aproximar. caixas e até mesmo alguns toldos que servem de tenda. de outubro. O nome significa "caçador de ratos". uma casta muito desprezada de intocáveis de linhagem aborígine. Ao me aproximar. porém simpáticos para mim. As famílias as selecionam. isto é. são utilizadas como pratos descartáveis ou para embalar pan ou outros canapés. tenta fazer os ratos saírem dos buracos com fumaça. Eu a visitei em agosto. para capturá-los e consumi-los assados. Dois lampadários de sódio iluminam tenuamente o estacionamento. as juntam em maços de 15 centímetros de espessura e amarram com uma palha. ao perceber a miséria extrema de tais habitações. ocupa sem nenhuma proteção o vasto estacionamento que começa ao pé da calçada. descubro que esse segundo grupo não está dormindo. exclusivo. são musahar. É constituído de famílias de quatro ou cinco membros. explicava como essa comunidade miserável. o que os torna repugnantes c intocáveis para os outros hindus. Cada monte mede um metro cúbico e deve conter milhares de folhas. Sobre a calçada. Estas folhas verdes. a aldeia de Chittupur abriga um quarteirão musahar de cerca de 20 choupanas de um metro de altura e cobertas de palha. os musahar têm a reputação de comer rãs e moluscos. Tenho medo de ser empurrado se tentar me acomodar aí. de 100 ou 200 pessoas. Eles se agitam em torno de montes de folhas de mahua. São colhedores de folhas de mahua. .setor do átrio. e fico surpreso de encontrá-los em um átrio de estação. Os musahar vivem na selva e se alimentam de tudo que encontram. como se eles sofressem de uma doença contagiosa. O segundo. Escolho me alojar neste último: há mais espaço. Passa da meia-noite. brilhantes e mais largas que uma mão. O trabalho revela sem ambigüidades a origem dessa gente. composto de cerca de 50 indivíduos juntos em uma extensão da calçada. Um artigo publicado na revista India Today. Esta noite distingo dois grupos nesta hoste. delimitado. Em Benares.

e ao lado se espalham as panelas vazias de alumínio enegrecidas de fuligem. Eu também devo me habituar aos cascalhos. Preocupação inútil! Eu me introduzo no grupo dos musahar e ninguém me nota. No entanto. Há também restos de comida. Os homens se vestem como eu: um lungi e uma camisa suja e esfarrapada. Paro de pensar e me deito. percebo um espaço livre e tiro meu oleado.. Um aborígine. ninguém me perguntou nada. e. Continuo invisível. Estou deitado de costas e é desconfortável. desde a idade de três ou quatro anos. o que sempre choca na índia e indica serem intocáveis ou pertencerem à elite ocidentalizada.e que vivo de esmola.. que. Ninguém me olhou. pouco me importa. se me perguntarem o que vim fazer neste estacionamento. Azar o meu! Não posso ter frescuras e limpar um lugar para mim. Esta posição faz parte de minha nova existência. Eu gosto de dormir de bruços. Cada família conta com. as aranhas. Um irmão. Não estou à vontade e os cascalhos me arranham as costas. contarei que faço uma peregrinação em Benares . a sarna. Atrás do monte de folhas. minha manta e meu mini-travesseiro. Gostaria de dormir perto de vocês. Sinto-me próximo deles. e ignoro se comeram ratos ou rãs. O que realmente me inquieta são as doenças. responderei: "Sou Ram Munda. porque os costumes de minha casta são semelhantes aos seus. dois adultos e duas crianças seminuas. O asfalto está coberto de cascalhos. aos 32 anos. já começam a selecionar as folhas. um pouco de farinha e cinzas. os escorpiões. Certamente há muito disso tudo . Quero descansar e fazer amigos. Elas fumam como os homens. no mínimo. mas não é prudente: ficamos sem defesa contra um agressor eventual e. Raramente de bruços. Na rua. Isso chamaria atenção. os parasitas. as chamas da fogueira se extinguem. a manta por cima e o travesseiro sob a cabeça. No meio do estacionamento. os musahar suportam bem e não são faquires.. as pulgas.Esta noite não senti nem medo nem vergonha de penetrar em território musahar. os indianos dormem assim ou com os joelhos dobrados. De fato. tenho de aprender a dormir de costas. Não estou com disposição de gracejar. O oleado embaixo." Em seguida.o que é anódino . As mulheres usam sáris também esfarrapados e pardacentos. O jantar terminou.

torna-se. e um barbudo imenso vestindo uma camisa e uma calça branca. fique em pé! Tem algo para beber?. sob um edredom rasgado que deixa à mostra a crina cinza de algodão cru. e na minha cabeça. Milhares de estrelas cintilam no céu. Que sede! (Sacode um dos que dormem. no silêncio. três famílias estão selecionando três montes de folhas.. Bando de imbecis! Acordem! Estou com sede. as famílias se deitaram. À minha esquerda.) Ei. queria pegar no sono. um casal ronca..) Você eu não conheço. Ele acorda outro sujeito. Circulam entre os que dormem. Ouviu?. claro. Como os varredores.50 m. Gritam. (Nenhuma resposta. discutem alto e o tumulto de seu falatório se mistura à música dos devotos de Krishna e às buzinas dos carros e caminhões que penetram no átrio a partir da estrada Délhi . Não é uma trégua. a música de Krishna e o trânsito na estrada finalmente cessaram. pois a conversa de alguns musahar. Mergulho o olhar na noite. mas todos esses pontos luminosos que testemunham a imensidão do universo me confortam o coração. medindo 1. um por um. um rapaz pequeno e escuro de uns 20 anos. você. Eu os invejo. Preciso disso. Hare Krishna! Bi-bi! Vrum! Vrum! É impossível fechar os olhos. que continuam acordados. à minha direita. Nenhuma preocupação com a massa que procura dormir. abraçado. discutem por causa de 10 rupias (40 centavos de dólar). Não em voz baixa. Fala com uma voz arrastada: "Há um sujeito entre vocês que tomou meus remédios. Observo as famílias aos meus pés e à direita.. As mulheres e as meninas selecionam as folhas.Calcutá. Mas de novo o azar é meu! Aos meus pés. Vou . Você vai me dar dinheiro para comprar um saquinho (de álcool) e depois o beberemos juntos. São apenas três: um sujeito de uns 30 anos. O baixinho e o barbudo andam atrás do de cara pálida. Cada uma tem cerca de 10 membros.por aqui. Ela está magnífica. Parece lugar-comum. mais estridente. O relógio da estação marca uma e meia.. com um lungi azul desbotado e uma camisa creme abotoada de modo errado. os homens observam e conversam. Nunca tinha pensado em como o barulho pode ser enervante. que agora acorda os homens das famílias.

chamam um carrinho . De repente. Meu sono foi breve. Eles jogam a enorme trouxa de vários metros cúbicos no assento e três ou . Os musahar recomeçam a organizar as folhas. Afasto a manta e me deparo com um leitão rosa que funga em meu ombro esquerdo.sempre há alguns no átrio da estação. Na entrada do estacionamento. o chefe aqui sou eu. passando entre os que dormiam: "Quatro horas! Levantem! Levantem!" Está escuro. o chefe e seus dois esbirros continuavam pedindo bebida. De todo esse pedaço. Fiz bem. meus vizinhos se mexem sob o edredom. Vai me dar um maço de folhas e. então.em um pedaço de pano.uns 50 por família . você não tem nada para beber? (O cara diz não e o “chefe" recomeça a brigar com o estacionamento inteiro. ninguém tem uma bebida. o chefe berrou de repente.) É incrível. Às três e meia. Um porco me cheirava! Só interesso a um porco! 30 de outubro O grande relógio da estação marcava três horas quando o olhei pela última vez. Permaneço deitado. e um homem suspira: "Mais um caso de álcool!" O chefe e seus dois acólitos se aproximam de meu setor e continuam acordando os homens.. Os que acabaram embrulham os maços . se tiver algum problema. sem dúvida para não criar caso. pega um maço sob o toldo e o entrega. Sinto medo e escondo o rosto sob a manta. Depois. Ao sentir a manta se mexer. às quatro horas. Imbecis!" À esquerda. e. ouço um grunhido abafado perto de minha cabeça. além disso. Não estou habituado. ouço os caminhões zunirem e buzinarem novamente. Certo?. o frio me despertou. pois me esquecem e se afastam. consegui adormecer. solta um grito e foge. Depois. é melhor para vigiar o movimento no estacionamento. na estrada DélhiCalcutá. não tenho vontade de passear pela cidade às quatro da manhã.logo avisando. eu o protegerei.) Bem. (O sujeito se endireita. Ei. Mas três quartos dos musahar se levantam e. me chame. Entendeu? Você tem de me obedecer.

Mas como me apresentar a uma família? Então. Suas famílias se juntam ao redor e aquecem as mãos. Começa um novo dia e parecem achar tudo delicioso. brilhante e rosado ilumina o céu. na direção do Ganges. Com seus maços de folhas. No momento ainda não ganhei nada. O frio cortante que anuncia o alvorecer me gela as costelas. Eu me . A maior parte dos musahar já foi embora. Gostaria de me juntar a uma dessas fogueiras. a três quilômetros.quatro pessoas trepam por cima. pedale! Na direção de Nai Sarak. Eu congelo. papelão e plásticos e acendem o fogo com o que acham. Em um instante. À leste do átrio. um luar metálico. Algumas mulheres ficaram e continuam a selecionar as folhas ou sovam a massa de pão. acelere a bicicleta! Só falta o chicote. Preciso que o sol nasça logo. olho de longe. O plástico que arde na fogueira empesta a atmosfera. parte. de me aquecer. Os adultos fumam hiri ou mascam uma pitada de tabaco. Comerciantes de chá percorrem o estacionamento com suas chaleiras fumegantes e suas xícaras descartáveis. mas devo obedecer a essa norma se quero descobrir o que sente um mendigo indiano. Meus vizinhos foram recolher madeira. panelas e mantas.000 rupias (40 dólares) que escondi na cueca e as 30 rupias no bolso da camisa para o caso de uma emergência. Não sou masoquista. Quem? Eu! Droga! "Realmente estou com vontade de fumar e de beber um pouco de chá! Isso aqueceria meu corpo e ocuparia meu espírito durante cinco minutos. O carrinho. Isso se dará um pouco antes das seis horas. Miserável. Exceto a mim. carregado como um burro. o potente sol tropical explodirá com todo seu calor. Alguns musahar compram chá. Pela conversa dos musahar fico sabendo que é ali que vendem suas folhas. Vamos. mas isso não parece incomodar. os mercados situados antes de Godhaulia. Mas não trouxe hiri e seria razoável começar meu primeiro dia de mendigo intocável comprando chá? Um mendigo de verdade pode se dar a este luxo? Quero guardar as 1. Eles me dão vontade de fumar. Vá. Tentarei viver com a esmola que receber. portanto não tenho direito a nada. mas não tenho hiri. Só aproveito o cheiro e não o calor. Ainda uma hora e meia para suportar a noite fria e depois vou embora. Quinze para as seis.

Dez centímetros de altura de urina amarelodourada estagnada. quando eu vinha à estação . e o jato de urina no solo imundo enlameia meus pés descalços. Isso me dá náuseas. da parte externa. É repugnante. para defecar tem-se de pagar uma rupia ao encarregado. Não podia estar mais parecido com eles e não gosto deste rosto. fora das calçadas. vou até lá. Além disso. Nos dois vestíbulos da entrada. Passo de uma para outra. Não defeco nesses mictórios. ociosa e fatigada. Não há saída! A não ser deixar como está. Será muito cedo? Antes. pois não conseguiria usar essas privadas. onde se vendem os tíquetes. Será que existem. A mesma coisa. Estou com muita vontade. mictório é "casa da urina" em hindi. com a poeira que aderiu à pele quando eu dormia no chão. Arrumo a manta e o oleado no saco. banheiros públicos menos sujos para os desabrigados como eu? Nunca mais aliviar as necessidades em um local decente e privado fará parte de minha nova existência? Passo para a estação. Não há trem e não vejo nenhum mendigo nem nas plataformas nem nas passarelas. Inquietação. Urino como todo mundo. Passo pela plataforma. Ao lado do estacionamento. São simples. o rosto adquiriu o tom pardo do átrio. esta expressão lúgubre. os que dormiam na véspera se retiraram. Tudo isso me corta a vontade e eu deixo pra lá. Enegrecidos pela poeira e agora molhados de urina. Está um pouco apagada. e os musahar que deixaram sua grande contribuição aqui devem estar pouco se importando. Seria preciso usar botas para entrar ali. há mictórios públicos. Nunca tive uma aparência tão triste. Se os lavo. oculto um pouco o rosto com o fular e me olho no pequeno espelho que trouxe para me barbear e verificar minha cor. O que não significa "casa do coco". Uma água lodosa inunda os mictórios e compartimentos individuais adjacentes à sala de espera. A iluminação difusa do sol rasante envolve as quatro plataformas da estação. mas. característica dos indianos em geral. Olho para meus pés. três paredes finas sem teto e completamente abertos para a calçada.levanto. O lugar é imundo. Além do mais. O chão está coberto de coco e esta matéria também entope a fossa. ficarei muito limpo e a tintura pode ser um pouco apagada. Duas passarelas metálicas fazem a ligação entre elas.

velhos esfarrapados. Na pele de Marc Boulet ou de Ram Munda. investiguem seus nomes! O poder central sempre pertence às altas castas. mas uma nova vida me aguarda. um intocável. A atmosfera da estação cheira bem.durante o dia. Finalmente! A Índia nunca teve um presidente. um vice-presidente ou um primeiro-ministro intocável. sempre via garotos. Alguns viajantes percorrem as plataformas diante das malas. como indiano intocável. sem talento. continuo sendo um homem comum. E a sorte talvez me sorria sob essa nova identidade. conversei com Jean-Claude Guillebaud. por exemplo) que na de um . há quase meio século. Não somente para escrever um livro. sem idéias para obter êxito na sociedade humana. Consultem a lista de altos funcionários. Isso não tem nada a ver com a minha nacionalidade. para o posto de vice-presidente da Índia. Não acredito mais nas virtudes transformadoras desta viagem. um ou dois leprosos e um perneta mendigando. apesar de um em quatro indianos pertencer a esta casta. Narayanan não significa que o sistema de castas esteja morto. de chefes dos partidos políticos. além do mais. Vou recomeçar do zero. Ele me perguntou se estava com medo de partir e eu respondi: "Sim. "senhor". maçãs e jornais os interpelam. dois dias antes de eu deixar Paris. os intocáveis que encontrei até agora permanecem mais indigentes que a média da população. membro de uma casta meridional de colhedores de cocos. das trouxas. apesar da abolição constitucional da intocabilidade. literalmente. Sei que teria muito mais chances de brilhar na pele de um brâmane (de um Dikshit ou de um Sharma. Uma aristocracia. uma nova existência em que todas as esperanças são permitidas. como Jagjivan Ram?" Disse isso brincando. E. É apenas um disfarce. mas também sonhava e me convencia de que nada é impossível. o Parlamento elegeu Kocheril Raman Narayanan. meu editor. Mas a nomeação de K. Suplicam aos viajantes repetindo: "Babu! Babu!" Babu quer dizer. Nesse 19 de agosto. Quem sabe não me torno ministro. Os vendedores ambulantes de cigarros. R. A temperatura está amena e um odor agradável de húmus se mistura à fumaça das locomotivas a vapor que esquentam na garagem. Deliro! No dia 16 de julho. Partida.

Devem ter achado que sou um habitante da estação.Não sei. o que possibilita que os mendigos estendam a mão para o interior de cada compartimento. os vidros em geral ficam abertos e as plataformas são elevadas. O sol me acaricia. Não sei se os indianos trocam este tipo de informação entre si. Dois jovens me tiram do estado de angústia. O que sinto de repente? Meu coração dispara. Eu pergunto: "Aonde vão?" Eles respondem Sultanpur . Mas é a primeira vez. .cidade da qual ignoro tudo. Vou para lá. minha pulsação dilacera minhas têmporas. Respondo: .Não mora aqui? . um pouco como o metrô parisiense. Estou sozinho. retardo o momento em que começarei a mendigar sobre uma plataforma ou uma passarela. Nossa conversa não é empolgante e eles me tratam de "você". . me lembro das 30 rupias que estufam o bolso de minha camisa e as coloco no saco. Eu me calo. entre os musahar. desde que me tornei um indiano. Eu me sento em um banco no final da plataforma número três e me deleito com a calma. não tentam continuar conversando. De repente. Vou mendigar dessa maneira ao longo do trem. Mas sou louco. Na Índia. recuaria.E não sabe nada? Tive vontade de responder que poderiam urinar no final da plataforma. que me dirigem a palavra. Sinto vergonha e o medo me comprime a garganta. Sinto medo. de vagão em vagão. Isso não é bom. pois me perguntam onde fica o banheiro. Um comboio de uns 10 vagões se forma na plataforma número um. pois tinha visto viajantes fazerem isso agora mesmo. Se refletisse.Munda que nasceu em um átrio de estação. Gostaria de beijar esses meus irmãos. Ninguém deve saber que tenho algum dinheiro. Por que esperar? A ação se encadeia muito rápido. as janelas dos trens têm grades de ferro.Sim. sem cerimônia. Estendo a mão direita diante de uma janela na . e é melhor assim. E isso não tem importância. Falam comigo.

me dá dinheiro!" Ouvi os mendigos esmolarem assim. vivem de esmolas. Continuo a pedir esmola. obrigado.O quê? .Você é jovem. Ele não sorri. peço na janela seguinte. Há um milhão e meio de mendigos na Índia. Apresento-me diante da janela ao lado. e que parece à vontade. Murmuro com os olhos parados. Todos já viram um peixe morto. Nem bem estendo a mão. O sujeito responde: .Dinheiro. Estou com fome. Nenhum sucesso. Um deles acrescenta: "Afaste-se para longe!" Sei. um sujeito grande de uns 40 anos mexe . .metade do comboio. e me movo automaticamente ou eles me fazem sinal com a mão ou a cabeça para que eu vá esmolar em outro lugar.Coloco a mão esquerda sobre o estômago. Estou farto e continuo a dizer em voz baixa: "Tenho fome.Para quê? . Estou decepcionado. Trabalhe! Não sei o que responder e. indicando com desprezo para eu me afastar. sem esperança. Surpresa." Mentiroso! O passageiro da janela do lado me diz: . (Eu já lhe havia pedido. asseado. Fico parado diante de sua janela. . Sem olhar para mim." O que suscita a resposta: "Vá pedir em outro lugar. repetindo em um tom cansado: "Babu!" Que comédia! O passageiro me encara com olhos de peixe morto. Não tenho nada para você. a mão estendida. imóveis. senão teriam mudado de profissão. Os viajantes que incomodei achariam estranho se eu parasse.) . Resolvo insistir diante de um homem de 45 anos. passo para outro vagão. Já não despertam piedade.Dinheiro. Ainda assim.Para comer. usando camisa pólo preta e óculos finos. mas não surpreso com o fato de ninguém me dar nada. a um viajante de uns 50 anos: "Babu. o homem balança a cabeça.O que quer? . Será que não peço direito? Não reflito muito sobre essa pergunta. A cena dura um minuto. E das cinco seguintes. Os viajantes me ignoram. quase úmido. o olhar suplicante.

não tenho forças. Vou correndo comprar um hiri em outra plataforma. Na estação. Tira uma moeda de 20 centavos e a põe em minha mão. Não quero que aqueles que me deram esmolas me vejam esbanjar suas doações. acho. A estação continua deserta. Tanto melhor. e depois um homem. na sombra. mas me proporciona uma sensação de bem-aventurança comparável à plenitude do prazer durante um orgasmo. Ganhei 40 centavos por meio trem. Já vi mendigos velhos trabalharem assim nesta passarela. descubro que posso viver na pele de Ram Munda. sorrisos zombeteiros. Essa primeira moeda equivale a apenas quatro centavos do franco francês. como se fosse uma doação divina. só se vende o maço! Uma rupia e meia. Os dois de quem me aproximei me responderam com o mesmo tom de desprezo: "Aqui. Depois. está. Mendigar funciona. ia a Calcutá.no bolso. O primeiro. Levo o dinheiro à testa em sinal de respeito. os ambulantes se recusam a me vender hiri por unidade. Não tenho sorte. Faltam dois vagões. Percorri dois trens. subo para a passarela norte e me sento no chão. Eu ficaria constrangido. Não estou exagerando. Isso significa oito hiri ou meia xícara de chá. Sofro recusas. Lá por volta das 8:30 já tenho o suficiente para comprar os hiri. com vagões desconjuntados. De repente. Estou sonhando! Está procurando dinheiro para me dar? Sim. de camisa e calça. Acendo um cigarro e dou uma tragada." Não tenho o dinheiro. Continuo a pedir esmola até o final do trem. Estou tão feliz que nem podem imaginar. Nada mau. Eles interpelavam cada pessoa que passava. Tirei o prato da sacola e o pus a meus pés com duas moedas de 10 centavos dentro. metade vazio. e compro o maço de hiri e uma caixa de fósforos. O segundo. Vou esperar e atacar os trens seguintes. A fumaça da folha de eucalipto que queima é agradável. desde de manhã. e me rendeu uma rupia em três esmolas. quero respirar um pouco. encostado contra o parapeito. Apenas . Alimentei a esperança de que os transeuntes aí jogassem moedas. também de uns 40 anos. Meu ganho total foi de duas rupias. Depois da noite em claro entre os musahar. vestido como um cidadão de classe média. me dá duas moedas de 10 centavos. me rendeu 60 centavos também em três esmolas. muito comprido.

Eles estendem a mão ou um prato onde eu estive antes. quando baixam o olhar sobre mim. Nas partes dos trens em que já pediram esmolas.profissão exercida pela casta dos sapateiros . Toda vez sinto medo. A estação de Benares é controlada por uma gangue? Não sei. Minha presença os incomoda? Descanso cerca de uma hora na passarela. usando um sári duro de sujeira e em farrapos. como se eu não existisse.percorre as plataformas. nem fazem caretas. Vão me proibir de mendigar aqui? Talvez seja seu território. e eu faço o mesmo na direção de onde vieram. Não dizem nada. Eles passam por mim apenas prestando atenção para não mendigar onde eu estou. chegando perto de mim. trabalho com meu prato e esmolo ao longo de cinco trens. Uma dezena de intocáveis engraxates . Respiro um pouco e me mostro publicamente. Finalmente. eu recebo mais esmolas. Os viajantes me ignoram e. Em seguida. Dessa vez. e . derrama dois baldes de água no chão e torna a varrer. equilibradas sobre a cabeça. Transportam as malas empilhadas. Ninguém me joga moedas. uma mulher de uns 30 anos. A estação despertou. um cego de meia-idade com o rosto bexigoso. A partir de agora. depois um varredor da estação me desaloja. mas tem razão. diz: "Sai daí!" Ele bem que podia ser menos rude. Ele levanta poeira com sua vassoura e me lança o pó em plena cara ao passar por mim. o que mede meio quilômetro. não sorriem. Sou novato e li artigos sobre a máfia de mendigos na Índia. É isso. Esses três mendigos me ignoram. me fuzilam com olhos frios. É isso que acontece. Um número de circo. depois dou uma pausa.alguns passageiros vão e vêm seguidos de cules vestidos de grená. Penso que talvez tenha sorte ali onde eles não tiveram e também onde tiveram. duros. cruzo com outros mendigos: um velho mais bem-vestido que eu. Mendigar é demorado e cansativo. Um comboio completo é composto de cerca de 15 vagões. Obedeço sem falar nada e desço para pedir esmolas ao longo dos trens. oferecendo seus serviços às raras pessoas calçadas com sapatos de couro. Por quê? Não lhes estendo o prato. Eu atrapalho.

para descansar. quase uma rupia. Ninguém joga uma moeda. Enfim. em plataformas diferentes. sem dúvida isso me ajudaria. com os cabelos pretos longos. O que beber? Tenho de imitar os indianos: em sua maioria consomem água da torneira como essa.a diarréia é comum em toda a Ásia continental .fará parte de minha nova existência. Só faltam passar por . na índia. apoiado na balaustrada. E não são de mulheres jovens de minissaia. despenteados. no mínimo. e isso acalmará minha fome. bem à vista. que bebo água da torneira. um atrás do outro. na pele de um mendigo. Nem ódio nem bondade nesses olhos imóveis. Cerca de 30 anos. Quase meio-dia. Vou fumar um biri. Ou seja. de frente para outro mendigo. sento-me no chão. mas ele acaba de virar a cabeça e olha os transeuntes que vão e vêm. a água é tão agradável. Nada mau. Gosto dessa ducha. É a primeira vez. Não me importo. Ele é alto. não me queixo. Não pede esmolas. Não estendo o prato. um litro com a mão. Há várias fontes em cada plataforma e paro diante de uma para beber. barba irregular e a roupa branca manchada que serve de pareô e uma camisa ocre esfarrapada. e muitas outras. Bebo. Ele me olha. hepatite ou tifo. Estou no chão e milhares de pernas me roçam como se eu não existisse. são endêmicas. Só me lançam os olhares duros de sempre. conhecê-lo. volto à passarela norte. Parece um Jesus Cristo. E se sentir uma cólica violenta . não posso comprar água mineral a 10 rupias o litro. quatro centavos de dólares. Gostaria de trocar um sorriso. com os traços finos e a tez clara. isto é. Aqui essas doenças. Coloquei meu prato diante de mim. Ganhei quatro rupias. Sinto um pouco de fome e muita sede. Talvez para fazer amizade. mas seria exaustivo. Eu o olho. A torneira da fonte escapa e me borrifa um pouco com a pressão. Em seguida. À vontade. a essa hora há muita gente na passarela. A água da torneira está repleta de germes. no botequim da estação. por trem.os trens se sucedem. sem ser fervida nem desinfetada. mas. Tenho medo de pegar amebas.

Combinamos nos encontrar na passarela por volta das 13. e minha mulher não me distingue. o que deve me render cinco ou seis rupias. querida. apoiado no parapeito direito. Acendo o cigarro. sem se aproximar. Não posso chamá-la nem falar com ela. farei mais um ou dois trens. Pronto. como que para ver quando chego. estou aqui! A 30 metros de você. como anteontem em Godhaulia. Tenho vontade de chorar. Jesus Cristo. ela quer se certificar de que está tudo correndo bem e aproveitará para me filmar na estação. Mais 10 minutos e ela torna a passar por mim sem me reconhecer. Ela continua a andar e se reclina no final da passarela. Gloire chega por volta das 13 horas. Preocupada. Jesus Cristo foi embora. mas me permitiu respirar. ela me identificou. Sei que sim. Depois. tão insignificante a ponto de seu olhar varar o espaço e não se deter sobre mim? Quando ela me verá? Eu me odeio. ao me ver fumar. o suficiente para o almoço. Isso me exaspera. riscando o fósforo para fora e não em minha direção. Eu sufoco e fumo um hiri. Dessa vez. em uma estação indiana. Isso manterá ocupada minha cabeça. ela percorre novamente a passarela. Estou dentro da norma. Jesus Cristo também possui uma caixa de fósforos. Talvez isso surpreenda. "Gloire. que está vazia como um coco rançoso. Ela me vigiará de longe. tira um hiri do bolso. Mas. 14 horas. É importante. O que me tornei? Sou tão anônimo. Espero Gloire. volte! Olhe para mim! Mostre que eu existo! Pelo menos para você!" Quinze minutos depois.cima de mim. sentado no chão. mas por causa da solidão em que me mergulha a identidade de mendigo. Isso atrairia a atenção para mim. Sou um mendigo indiano. Sozinho e em evidência. pois isso significa: os verdadeiros desabrigados indianos compram o próprio hiri. Ela não me faz nenhum sinal. ela olha fixamente cada indiano. A idéia de uma refeição me anima. Vou mijar na "casa da urina" no final da plataforma número um e depois volto ao meu lugar na passarela. Além do mais. como fazia na França. Passa na minha frente sem me ver. Não por causa da cor da pele ou da sujeira. e dou uma longa tragada. mas tira a câmera e filma em minha .

Um verdadeiro prazer para a boca e os dedos. assa pão sobre uma chapa. Um bairro calmo e verde. No Norte da Índia. Eu me sento sozinho em uma das cinco mesas da segunda taberna. e o chão úmido. repleto de detritos e grãos de arroz. aos pratos com nomes elegantes. Como fazê-lo? Habituado às refeições indianas ricas. . de purê de lentilhas e de arroz branco estão dispostas em uma das mesas na entrada do estabelecimento. de camisa e calça brancas. com um pano engordurado servindo para ocultar as partes íntimas. ganho uma rupia e setenta. a estação dá para o antigo acampamento das tropas britânicas. se aproxima para anotar meu pedido. e o menu cotidiano é composto de purê de lentilhas. evidente para um indiano. no prédio principal do centro distribuidor de tíquetes e no átrio dos musahar. Um cara sem camisa e suando. Parece delicioso. se alinham tabernas. Imagino que não tenham um menu e não posso perguntar o que servem. Peço esmolas ao longo dos trens. Então. acompanhado de arroz ou pão. ao lado do forno de barro. chupam os dedos e recomeçam. para indicar uma refeição correta. Do lado oposto ao Ganges. abaixam a cabeça. Mas o pão e os condimentos que cozinham a fogo brando exalam um odor agradável. depois bebo um pouco de água na plataforma número seis e saio para almoçar. não sei como os indianos pobres escolhem nas tabernas que só oferecem um ou dois guisados. Sei que. algumas mesas e bancos de tábuas de madeira instalados sob um toldo rasgado. Três bacias enormes de alumínio e cheias de ensopado de legumes. Minha pergunta pareceria esquisita. A comida parece fresca e isso me atrai. três sujeitos comem vorazmente. Nas outras mesas. legumes e carne são um luxo. Um jovem dinâmico. com suas mansões coloniais isoladas no meio de parques imensos. E zupt! Engolem o pão escorrendo molho amarelo. Próximo ao final da última via férrea.direção. A superfície de minha mesa está coberta de pó. preparadas para os ocidentais. Eles os molham em um pires de curry vegetariano e amassam demoradamente o molho e os legumes com um pedaço de pão. São miseráveis: um forno de barro. sem dúvida. seus hotéis de luxo e suas igrejas cristãs. É limitado e.

Afinal. Muito fluido. mergulhar o ser em uma doce beatitude. Esta é uma. Serve duas fatias grandes de pão quente e. pois talvez não possa pagar um jantar à noite. O pão serve de esponja para absorvê-lo. sem dificuldade. Três pães são três rupias. Hoje é o contrário: muito pão e pouco molho. isso não tem muita importância. a tarde cai. Não estou dizendo que o mereci. com um copo de água. Nem o tipo de curry. Um trabalhador braçal ou um condutor de carrinhos a . Eu me delicio e peço mais pão. Digo ao garçom: "Traga legumes e pão. onde o pão é o acompanhamento e não o prato principal. na plataforma número um. Tenho de aproveitar bem. eu sempre pedia dois ou três pratos consistentes com apenas um pouco de pão e recusava o molho suplementar. O inverso dos restaurantes franceses. quando temos fome e não sabemos quando poderemos voltar a sentar a uma mesa. Lavo os dedos atrás da taberna. Dezessete e trinta. em um pires. Para mim." Ele concorda com um movimento da cabeça. Desde a manhã. duas batatas e três favas boiando no molho amarelo e picante do curry padrão. como se isso não importasse. O que é uma boa refeição? É aquela que satisfaz o estômago e a cabeça. Nada mau." Ou então: "Legumes e pão. Retorno à estação e esmolo até a hora do crepúsculo. E estou satisfeito. Ele é servido com mais curry. E para conseguir esse almoço eu mendiguei." Não detalham o nome dos legumes. até que se consegue estar com ela. essa refeição é exatamente como uma garota bonita que se leva um mês paquerando. Antes. fui humilhado. nas tabernas para turistas. e pago. o alimento mais simples pode fazer um homem feliz. eu me exercitei e me alimento. Insisto: eu me delicio. Cheira bem.apenas dizem: "Hoje comi legumes e arroz. Como com os dedos da mão direita. E é delicioso. desprezado. Descubro que. Eu tinha muita vontade disso. cortando o pão em pedaços que utilizo como colheres para pegar o ensopado. com a mão direita. em julho. o ensopado é gratuito. Eu me permito um gole de água e uma pausa para o biri. em Godhaulia. ganhei 10 rupias e 60 centavos. Desde que cheguei na Índia.

me faz sinal para que eu jogue a caixa de fósforos. De onde você é? . mas posso resistir à fome. Ele põe fogo no bico de uma câmara de ar velha e a desliza para baixo de um monte de galhos.Sim. contente por ter sido notado. indiferente. e panelas fumegam sobre um braseiro de lenha. O arroz é feito papa. Na minha frente. . . Somos umas 30 famílias musahar. com um bebê de um ano e pouco que aprende a andar. Depois me lembro da história que tinha forjado: . Retomo o lugar da véspera. Durga e Rama. Exausto por causa da noite em claro e o dia mendigando. Enrolam com a mão direita.bicicleta ganha cerca de 30 rupias por dia.Eles são muçulmanos. acreditamos em Shiva. Prefiro economizar como precaução .Sim.ele pergunta. e acendeu um biri antes de me devolver os fósforos. há um casal de uns 20 anos.e compro duas bananas por uma rupia. mas o fogo pega. Não são dos nossos. os Munda. no centro do estacionamento. Meninas catam lentilhas ou sovam a massa de pão. mas não são os mesmos da noite passada. fazem uma bola do tamanho de um ovo de galinha e a colocam na boca. Ainda me restam seis rupias mais ou menos e tenho como jantar. Um pouco recuados. nós. vou dar uma volta pelo átrio. Ainda é cedo e talvez hoje faça amigos. Fede.disse. certamente cenouras.Sim. Isso me sustentará até o meio-dia de amanhã. O homem. Um Munda.. Sou aborígine. Mastigam lentamente com um largo sorriso.Ah? Nós também somos aborígines . Aqueço um pouco as mãos e digo: . resolvo me sentar para observá-los e depois dormir. Você é hindu? Hesito antes de responder.. Eu a levo. Os musahar retornaram.Bihar. As famílias ao redor organizam montes de folhas. . Acendo um biri.Neste estacionamento todos são musahar? .Faz frio! .E os outros na calçada? . . . um homem e uma mulher que amamenta um bebê comem arroz branco salpicado de rodelas vermelhas. enquanto fazem outra bola. Em seguida.o dia seguinte talvez não seja tão generoso . com a tez cor de ébano. à minha direita.

Como se chama? . todos os meses.. Se não vão. Percorrem. e vivem com uma renda de menos de 1." Não sabem contar os meses e os anos. Pergunto há quanto tempo está casado. . como se estivesse calculando: "Já faz muitos dias!" (sic). não quero forçar Sukhu a fazer novos cálculos -. e o jovem casal só vai para casa de vez em quando. Como ele.Nós também." O expresso de Délhi leva seis horas e meia para chegar a Rae Baroli. Conto que não sou casado.a estimativa é minha. milhares de quilômetros para ganhar essa ração . Incrível! O bebê tem mais de um ano. logo são casados há pelo menos dois anos. Cataremos as folhas nesta noite e amanhã as venderemos em Nai Sarak. Ou seja. ou 40 dólares. "Chegamos hoje de Rae Baroli. já que o contexto indiano proíbe relações sexuais pré-maritais. Mudamos de assunto. Sukhu recolhe. Depois partiremos às 14 horas pelo expresso de Délhi. subúrbio de Benares onde vivem seus pais. Explico que vim em peregrinação a Benares. e Sukhu me confidencia que os filhos proporcionam aos pais as grandes alegrias da vida. ou entre Benares e outro distrito de selva. a mais de 200 quilômetros. quantidade para uns 50 maços de folhas.Seu bebê é bonito. os outros musahar do estacionamento fazem o percurso de trem entre Benares e Rae Baroli a cada três dias. Ele possui uma choupana em Lohta. que confirma: "Sim. Então é uma menina. o que na Índia implica dizer que não tem filhos. Ele se vira para a mulher. Ele reflete e depois responde enrugando os olhos.000 rupias por mês . dormem ao ar livre o ano inteiro. faz muitos dias. em vagões abarrotados e bancos duros. Peço-lhe que dê mais detalhes. Em seguida colheremos folhas e dois dias depois voltaremos a Benares. Sua mulher e sua filha o acompanham. e Sukhu me diz que colhe as folhas na selva de Rae Baroli. O rapaz se chama Sukhu. a cada viagem. metade de um salário mensal médio. consegue o total de 125 rupias (aproximadamente cinco dólares). que vende a duas rupias e meia a unidade.Sushila.

olhando o sol se erguer à minha frente. não durmo. e o barulho no átrio continua infernal. Algo para beber! Sempre a mesma coisa.. nada a assinalar. Sinto que o dia de hoje será longo e desinteressante. A cidade está deserta. Uma rampa de ferro acompanha a escada de pedra em direção ao rio e uns 20 mendigos ali se alinham. Talvez na Índia não seja tão excepcional viajar sem passagem. 31 de outubro O frio.. Lembro que sou um deles e também me sento na rampa. . Sempre vi mendigos nesse lugar. O chefe dos musahar berra. Decido descer a pé até o Ganges. os caminhões. é assim que funciona! Não insisto. O preço do transporte até Rae Baroli deve consumir grande parte. o barulho. Sempre o mesmo refrão. isso não adiantaria muito. Sukhu não me retém para jantar ou consolidar uma verdadeira amizade.diária. A caridade é um dever hindu e os devotos gostam de cumpri-lo . as discussões dos musahar. A multidão ainda não ocupou o ghat. A música de Krishna. Certamente.Não compramos passagens! . É a natureza deles. Os peregrinos que chegam para se banhar os atraem.Sim. Ao amanhecer. E ninguém para calar seu bico. a noite. em uma plataforma livre.Não. Eu o escuto um pouco. . e nunca mais o verei. chego ao ghat da Dashashvamedh. Pergunto a Sukhu quanto custa a passagem. Não passou de alguém a quem emprestei os fósforos. na margem desabitada do Ganges. Quatro horas da manhã. Estou tão sozinho. Como em um buraco.Dá certo agir assim? . Isso me arejará as idéias. Conversamos mais um pouco e então volto ao meu lugar e me deito. Sento-me no alto da escadaria e fumo meu primeiro biri. Não se pode impedir os asnos de zurrar ou os corvos de grasnar.E não há problemas com o funcionário que verifica os bilhetes? . O cansaço me faz cair no sono.

Eu me levanto. Quando a tempestade se anuncia. realizam um ato generoso que aperfeiçoará seu carma e. É o paraíso sobre a Terra. Tentam se conformar à ordem universal em que o rico dá aos pobres. em frente à entrada da viela que conduz ao Templo Dourado. Restam-me cinco rupias do que mendiguei ontem e é o suficiente para o almoço. e nada resta. o do doutor Rajendr Prasad. De repente. Baba é um termo honorífico para os santos passar por Codhaulia. Eu me lembro de que já ouvi falar que na rua Dashashvamedh existe um pequeno templo de Baba Khichari. é preciso saber ficar tranqüilo e matar o tempo. conseqüentemente. por trás das grades Ela representa Baba Khichari. sinto fome. Não penso em nada. uma estátua de pedra branca. É largo e tem duas mães-d'água. calmo e livre. Há momentos na vida. sua próxima reencarnação. sua divindade tutelar. porque quero viver. Annapurna. Contaram-me que era o deus do khichari. e anciãos. De camisa e calça sem estarem rasgadas. como esse. De manhã ali se distribuiria alimentação gratuita aos pobres.nesse ghat sagrado. uma lenda conta que ninguém sofre de fome em Benares. está muito bem-vestido para ser um mendigo. E se não conseguir mendigar na estação? Bah! Encontrarei outra solução e o que comer. Não crio caso. Eu me levanto e vou ver se hoje conseguirei comida. ao templo. Fico inquieto. como um legume. em que simplesmente nos deixamos ser. no interior desse vermelhas. Porque é necessário. Estou confiante e. para proteger seus habitantes. nove horas.. Um velho interrompe minhas reflexões grandiosas sobre a metempsicose e a bondade do homem. De onde saiu? Pretende me impedir de esmolar aqui porque os outros mendigos reservaram esse lugar e os outros degraus desocupados ao longo da rampa. Eles vão chegar.. para aqui enviou sua mulher. Sua existência me surpreende. para me deleitar com o sol no alto do ghat vizinho. Vou embora. Shiva. Fumo um segundo biri e espero até as oito. Eu já havia visto. . Atenção! A piedade não os motiva. Outro dia tentarei de novo mendigar aqui. a deusa da alimentação abundante. além do mais.

Do lado de fora. na beira da calçada atravancada de carrinhos e vacas. Por isso é servida aos pobres. Um homenzinho musculoso. Como seu nome indica. Seu desdém me é indiferente: estou contente. O khichari tem tudo e é deificado por Baba Khichari. Ele faz esforço para misturar a pasta viscosa e transpira muito. a palavra khichari significa "mistura". Quando o cozinheiro toca o sino avisando que está pronto. Não como nada desde ontem e estou ansioso para que o khichari seja servido. É saboroso e muito popular. Cansados demais para confraternizar. muito doce. Usa uma camiseta amarela manchada de fuligem e suor e um lungi verde arregaçado como uma minissaia. Também designa uma papa de lentilhas e arroz. e acendo um hiri. É cozinhada com açafrãoda-Índia e sal. como me contou o professor Sanjay. Pode-se acrescentar espinafre. É uma refeição completa. Eu me sento por trás.. o Baba Culla e o Baba Detra são os deuses da maconha. com as roupas sujas de terra. mexe a papa amarela com uma espátula de ferro de um metro de comprimento. a falta de dormir que tiram a vontade de nos comunicarmos. Com um movimento de cabeça desdenhoso. Uma dezena de homens de 20 a 30 anos. couve-flor. aguardam ao meu lado. Como se nós. nós nos precipitamos e nos . A papa amarela é extremamente apetitosa e a idéia de que em menos de uma hora vou poder me regalar me parece doce. com seus cereais e legumes. A comida não está pronta. os pobres.mas como reconhecê-lo entre todos os deuses hindus? No subúrbio sul de Benares. Nós não nos falamos. o tédio. daqui a pouco ele me dará o que comer. tomates. Isso evita que tenham de preparar menus complicados. Em hindi. mas não é servido em restaurantes nem a convidados.. com seus sáris sujos e a vassoura sob o braço. abóbora.. de uns 40 anos. Chego ao templo de Baba Khichari. não tivéssemos nada a expressar. Ele é repugnante. É a fome. um enorme caldeirão cheio de khichari fumega sobre um fogão de barro. É apenas uma ilusão. consiste em uma mistura e é o prato tradicional aos sábados em Benares. pois é muito barato. manda que eu me afaste. duas crianças seminuas e algumas mulheres intocáveis. na calçada.. Mas não para discutir. Vou explicar melhor. não trocamos olhares.

uma folha diante de cada conviva. há no mínimo uns 50 quilos.A folha é minha.É minha! . esfriamos a porção espalhando-a com a mão direita. E hop! ao seguinte. Portanto. faz schplaf! Uma panela constitui uma dose individual. que é intensa nessa encruzilhada. para comer rápido. Está tão quente que queima as pontas de meus dedos. que a pega. ficará mais estanque e sua comida menos em contato com a calçada. um jovem e o outro velho. disputando um prato de folha. no chão de terra.empurramos diante do caldeirão.Devolve a folha! . Nós nos acocoramos sem pensar no perigo de sermos esmagados ou chifrados e o ajudante jovem nos joga pratos de folhas de mahua. alimento divino. limpa e a coloca à frente dos pés. Replico: . O ajudante despeja a porção de papa. ele apresentou uma gamela de papa à estátua de Baba Khichari. . Não quero brigar. Outra porção na folha de meu vizinho. Logo chega minha vez. Ele me devolve a folha. Repito: ele os joga.Não! . mais do que o suficiente para todos. depois verteu o conteúdo no caldeirão. O ajudante jovem chega com um balde de lata cheio de papa e serve cada conviva usando uma panela como concha. Antes de tudo.Não! Imaginem a cena: dois esfarrapados acocorados na poeira de uma rua movimentada. mandam que nos sentemos em fila na calçada. e nós nos empurramos para recebê-lo. Canalha! Tem razão. Esse rito abençoou o khichari. Schplaf! Ao seguinte! Está muito quente e. No entanto. pois nossas roupas indicam que a maioria pertence às castas baixas. evita nos tocar. Ao cair. Os dois ajudantes do cozinheiro. Eu a limpo e a ponho diante de meus pés. . Assim. Incrível! Meu vizinho surrupia minha folha e a coloca sob a sua. mas tenho de comer e grito com meu vizinho.Peça outra! . de costas para a circulação de automóveis e de vacas.

Ainda assim o acho saboroso. Mas vejo os outros comerem e pego um pouco de papa. o cara deve ter deixado queimar o fundo do caldeirão. É insípido. O de hoje de manhã só contém um pouco de abóbora. sem carne nem legumes. e isso dói. no caso do khichari. Seu khichari me enchia. Estranho. isso fica ruim. a partir daí. Então penso que devo esperar que esfrie. Paro na metade do caminho. Tenho de comer toda a porção. pois os outros convivas continuam se regalando. onde. Alguns limparam o prato e pedem mais ao cozinheiro. esse khichari é um brioche. forçado. Antes. alguma coisa na boca. e como Ram Munda está faminto. Minha mulher o preparava com espinafre e despejava por cima algumas colheres de manteiga derretida antes de servi-lo. É agradável. Certamente seria inconveniente desperdiçar a comida que Deus oferece aos pobres. uso talheres e experimento a temperatura dos alimentos e sua textura com a língua. desceria naturalmente. são os dedos e não a boca que queimam na precipitação. Estamos com muita fome: como resistir e não começar logo a comer? Então me queimo mais ainda ao levar um pouco da papa à boca. Sem dúvida é uma questão de hábito. pois ninguém se levanta antes de acabar. E observo meu vizinho comer vorazmente . Na França. Mas. excessivamente pastoso e deixa um gosto de queimado na boca. Torno a queimar os dedos. como o creme caramelado. Não é como na França. pedem esse gostinho de queimado. Durante o cozimento. mas não uma papa de arroz e lentilhas.Com os outros acontece o mesmo. me sentia pesado. Pelo menos no começo. Está muito salgado. Aguardo. sinto o alimento com os dedos. eu gostava muito de khichari. Como tudo. Engulo quase meio quilo. Para eles. Delicioso? Esse khichari não é tão bom quanto sua cor de açafrão prometia. Eu estava com muita fome. Alguns pratos franceses. não consigo mais. Finalmente. Meu estômago não está cheio e não tenho mais fome. Minha porção deve pesar um quilo. quando satisfazia o apetite. Parece uma montanha de arroz e lentilhas em minha folha. e eles os sacodem como para aliviar a sensação de picada. Se fosse pão ou purê. antes de senti-lo com a boca. Quinze segundos. Na Índia.

o que me ajuda a acabar o prato. Um templo dedicado a Ravidas.E em outro lugar? . Caminhar. 24 horas. Quando a moção não transforma as ruas em torrentes de lama. no meio de intocáveis. na orla do campus da Universidade Hindu de Benares. Principalmente porque a papa é logo absorvida. seu santo padroeiro. Na pele de Ram Munda ou de Marc Boulet. no mínimo. absorve a matéria cerebral dos homens.Não.À noite também servirão comida aos pobres? . como se fizesse reservas para o inverno. Pergunto: . No subúrbio de Sir. Deve-se engolir o bastante para fazer o motor girar durante. Sinto-me tão sozinho e. Andar. Tenho vontade de visitá-lo. Detesto andar nesta cidade. "Queima a terra. Andar. ao ghat Raj. perto da grande ponte de ferro que passa por cima do Ganges. Se não termino minha parte. uma poeira espessa me queima a garganta e os olhos. Raja Ram me contou que ali existe um templo imenso para os intocáveis.também a porção suplementar. Não se trata do sol gentil da Europa. O daqui curte a pele e provoca transpiração excessiva. bebo um pouco de água na fonte ao lado e volto a Godhaulia. Nasceu há cerca de cinco séculos em uma família de sapateiros. Dirijo-me ao nordeste. Compreendo. é penoso. Quando se encontra o que comer. mas um carrinho custa muito caro. e o sol inclemente dos trópicos esquenta. sei que fui. Isso é mais verdadeiro em Benares do que em qualquer outro lugar por onde andei. é preciso aproveitar. Repito isso para mim mesmo. Ravidas é um santo intocável e originário de Benares.Não. . Ser pobre é assim: é preciso ter um estômago de boi. Em seguida. escreveu Albert Londres em Terre d'ébene. caminhar sempre. impede os cachorros de latir". que bronzeia e desperta a vontade de passear. vou sentir muita fome à noite. de me sentir em casa. sou e serei até morrer um intocável. sinceramente. foi edificado um templo no .

O templo está aos pés da grande ponte metálica.local de seu nascimento. vacas esqueléticas que defecam no caminho e cachorros pelados que latem ao passarmos. Surge no meio das orlas arborizadas desse subúrbio tranqüilo. Não vou me arriscar me aproximando de membros das castas superiores. à margem do Ganges. não existe casta ruim!" É a primeira vez que vou aos bairros do nordeste de Benares. Ele se opunha à intocabilidade e declarava. Camponeses esfarrapados. Não sou maluco. me informo sobre o caminho. Não tenho vergonha disso. Ficaria constrangido de lhes dizer que procuro o templo de Ravidas. tornou-se o guru de milhares de homens e mulheres. Esse é o monumento que celebra o nascimento do deus de um quarto da população indiana! Não vi nem peregrinos. É um edifício de tijolos sem personalidade e uma de suas duas torres permanece inacabada. O local destila a miséria e o tédio de uma aldeia indiana comum. mas mesmo . as tradições e as injustiças sociais perpetradas em nome da religião hindu. Ao lado. No século 15. salta aos olhos. fundamentada na fraternidade e no direito de todos os indivíduos de serem respeitados. Apesar de intocável. Basta seguir reto. casebres de barro. Sua mensagem igualitária. O templo mede uns 10 metros de altura. nem turistas. combateu as superstições. cresce um descendente do tamarindeiro que teria dado sombra à choupana da família dos Ravidas. fica a três quilômetros. Ravidas é um personagem interessante. Por que correr o risco de ser tratado mal? O caminho é simples. a propósito do sistema de castas: "Não pergunte a que casta pertence alguém! Quer seja a casta de Deus ou a de Ravidas. Visitei-o em setembro. o que indica que sou intocável. mas não quero ficar propalando minha condição para pessoas que me desprezam. fez com que fosse considerado um revolucionário por seus seguidores. entre os quais a célebre princesa e poeta Mira Bai. Só interrogo transeuntes tão mal-vestidos quanto eu. nem lojas de lembranças nos arredores.

Estou constrangido. Trata-me de senhor. se aproxima. se estivesse concluído e se os andaimes não o desfigurassem. . . mais alta e mais larga. um campanário sikh. É cavar sua própria sepultura. a cal fresca. Observei muitas vezes os hindus rezarem nos templos. pequeno e usando uma camisa branca e calça preta bem passadas. Com um gesto de mão.Rezar. ao longo dos séculos. em uma espécie de gabinete branco hexagonal. É curiosamente ornado por diferentes tipos de torres: um campanário Cristão. uma stupa budista em cada ângulo do telhado e. Mede cerca de 30 metros de altura e sua fachada de mármore branco domina as águas do rio sagrado. Percebo que ninguém passeia diante desse grandioso palácio de Ravidas. um minarete muçulmano. ao cristianismo ou ao budismo. Essa disposição me incomoda e me parece deslocada. O local cheira a canteiro de obras. Um jovem. no centro. Ela está deserta e mobiliada apenas com uma mesa no centro e quatro cadeiras. para escapar do sistema de escravidão hindu. E pior ainda. o jovem diz para eu entrar. O santuário está instalado no fundo. É a primeira vez desde minha metamorfose que me tratam com cerimônia e respeito. Atravessamos uma sala imensa.assim nada li a seu respeito nos guias turísticos. mas a imponência e a localização no centro da torre hindu também significa a superioridade do hinduísmo. Parece deserto.O que o senhor deseja? . se prostrarem e fazerem oferendas diante do santuário. seria magnífico. Está aberto? . a torre hindu. Isso me deixa triste.Entre! Tiro as sandálias de borracha e sigo o jovem. Empurro o portão e subo os degraus que conduzem à entrada do templo. Por quê? É gigantesco. Ravidas pregava a igualdade de todos os homens e todas as religiões. talvez esteja fechado. Também me faz lembrar que inúmeros grupos de intocáveis se converteram. Afirmar a supremacia do hinduísmo quando se é intocável e expô-la no alto de seu santo padroeiro é o mesmo que aceitar o sistema de castas e a intocabilidade. pedindo para ser enterrado vivo. O edifício. juntando as mãos. Foi sensato fixar no alto do templo o símbolo das principais religiões. ao islamismo.

Seu nome? Seu endereço? . Não creio em nenhum deus e sei que a minha prece não adianta nada. Vim rezar. Posso agir de outra maneira? Não. em Bandgav. Eu a faço para ocupar minha cabeça.. Sinto vergonha de simular a fé dos intocáveis. isso pareceria muito estranho. as duas mãos juntas. pende um colar de cravos-da-Índia. Bandgav se escreve como "cidade fechada".mas nunca fiz isso. em sinal de respeito. É bom. um pôster representa Ravidas idoso. pois meu guia me vigia. Sou aborígine. devo fazêlo.Munda se escreve com este d. Na penumbra. Eu me aprumo. além do mais. Acima. mostrar convicção em minha comédia. uma maleta de metal serve de mealheiro e espera as esmolas em dinheiro.Meu nome é Ram Munda. Esta idéia me tira a culpa. Rezo para que minha existência na pele de um intocável não me faça sofrer muito. e ele comete um erro ortográfico como se ignorasse tudo a respeito de minha casta. Então me ajoelho. . Tiro de minha reserva de dinheiro uma nota de 10 rupias e a introduzo no mealheiro. Penso no impostor que sou. As pétalas das flores e as bolinhas de açúcar habituais que os devotos oferecem aos deuses hindus estão dispersas na frente. Saio do santuário e o jovem zelador me convida a sentar a uma mesa perdida no meio desse templo imenso. Eu queria dar alguma coisa. E. trapaceio para me tornar irmão deles. É simplesmente o cheiro das oferendas que estão mofando. Esse pôs ter constitui a imagem do templo. Usa barba e o longo cabelo branco dos sábios. Moro em Bihar. Acho que gosto do que faz meu coração bater mais forte. E não um inimigo. e entro. Abre o livro de registro dos visitantes. e as varetas de incenso queimando tornam ainda mais forte o mau cheiro de lata de lixo. Eu o corrijo: . Ajoelho-me diante do pôs ter e rezo. Sempre me meto em situações extravagantes. sobre uma mesa coberta por uma toalha vermelha. meditando sob uma árvore.Existem dois tipos de d em hindi. O que não é específico deste santuário. Mas não posso recuar. Há uma grande desordem. apoio a testa no umbral do santuário. sou um filho de . À esquerda da mesa.. Tenho medo de fazer um gesto incorreto que me trairia. .

Conto-lhes do almoço gratuito em Godhaulia e do prato que o ajudante do cozinheiro me jogou. .000 crimes por ano cometidos contra os filhos de Deus em nosso país. Sua roupa está manchada de gesso e parece também trabalhar ali.Deus. eu tinha ouvido falar do guru Ravidas e queria conhecer seu templo.Eu também sou um filho de Deus. .diz o encarregado. Lá o sistema de castas é muito forte. É abominável! Sei que ele não exagera. encarregado do templo. ninguém se conhece. E esse número aumenta a cada ano. na cidade é assim . Finalmente um sapateiro que diz francamente sua casta. sem dúvida. Sou um sapateiro.. .. evitando me tocar. . seja queimado ou violado. Ele prossegue: .E nas aldeias é como em sua região. . Pergunto: . Entra outro jovem. Junta-se a nós sem se sentar.O que faz em Benares? . Cheguei anteontem em Benares. Os jornais publicam constantemente que os brâmanes e os rajaputros queimam as casas dos filhos de Deus e violam suas mulheres. O senhor é bem-vindo. . com cautela: . Meu primeiro interlocutor. É preciso abrir bem os olhos para percebê-la. e a segregação entre as castas permanece sutil. .Ah! Então fique com os olhos bem abertos! Em Benares.Sim. Na pele de Ram Munda inspiro mais confiança aos outros intocáveis..Pertenço à casta dos Munda.O que podemos fazer? .Ouvi-lo dizer "sua" região me soou engraçado.Sou da casta dos Ravidas.. mais bem-vestido e.As castas vivem cada uma em um bairro e não se passa uma semana sem que um filho de Deus apanhe.É pior que aqui? O que responder? Digo. em Bihar.Vem de Bihar?. E. E o senhor? . . . além disso. pergunta: . na cidade.Temos de nos defender.Vim em peregrinação. Li que há mais de 20. Eu também li tais informações.Não sei.

a construção deste imenso templo. Aqui. . pois me pareceu que ele recitava uma lição e não falava com o coração. cidade natal do guru Ravidas. em 1979. Nos dilaceramos entre nós mesmos. É preciso criar uma sociedade justa em que cada indivíduo tenha direito ao respeito e às mesmas oportunidades de obter êxito. Está escrito ali.Sem a participação de todas as forças sociais. Sem dúvida ele tem razão. deve nos orientar. os sapateiros. Na França. veja! Ele me mostra uma brochura em que o pensamento do santo é comparado à estrela polar. como antes na Índia. a edificação de uma Índia moderna é impossível. minha família. as pessoas me tratam assim para demonstrar desprezo. mas hoje. O que realmente me interessa saber é se ele beberia de meu copo e o que pensa da predominância. da torre hindu. Mas não insisto na conversa. em Benares. Nunca pensei que daria tanta importância ao fato de ser tratado de "senhor". A visita ao templo dos intocáveis me revigorou. Para perpetuar os ensinamentos do guru Ravidas. no entanto. consideramos todos os homens iguais. Não ouso lhe fazer estas duas perguntas.Defender? Como? As castas intocáveis não são unidas. meus amigos e estranhos às vezes me tratam de "você" por familiaridade. os coveiros.Sei. os varredores. todos os sistemas de segregação e de escravidão.Nós. estou vestido com os mesmos trapos sujos. os tintureiros. o bem-amado Jagjivan Ram iniciou. e digo a mim mesmo que tenho . A mensagem do guru Ravidas continua atual. não me olharam de lado. no final da ponte de ferro. na pele de Ram Munda. Não me trataram de "você" no templo de Ravidas. no alto da construção. Ele prossegue: . Sinto-me bem. há uma pequena estação ferroviária. um homem digno de respeito. Não suporto isso. Sinto-me novamente uma pessoa. Atravesso o cais e bebo bastante água de uma fonte. É preciso suprimir todas as distinções de casta. se consideram intocáveis entre eles. Aprovo delicadamente seu discurso e saio do templo. e. Atrás do ghat Raj. Mas ouvi falar que os outros filhos de Deus. Queria comentar a intocabilidade inadmissível entre os intocáveis e falei dos Munda: . os aborígines. não faz sentido. soariam estranhas na boca de um hindu.

depois molhar os lábios na espuma de uma cerveja gelada e descansar na cama com minha mulher. lavei os pés em uma fonte. Venha pegá-lo! Fico pasmo. pago e vou embora.Está pronto. colocando o chá na beira do fogão: . sozinho. sou tratado como um irmão pelos fiéis de Ravidas. que acabam de se sentar. . Também acenderei um hiri. Peço um chá e me sento sozinho sobre um banco de madeira. não me traz o chá e me trata de você. Estou farto. caminhei no mínimo 10 quilômetros. Além disso. Ao retomar à estação. Até mesmo a cerveja. enquanto serve aos outros em copos. A taberna está instalada sob um toldo e um menino de uns 10 anos atiça o grande fogão de barro. Sentia vontade de um banho quente. Minha garganta estava tão seca que sentia dor nos ouvidos ao tentar salivar. até a hora do crepúsculo. Não estou mais sozinho. Detesto esse garoto. esmolei ao longo dos trens. Estava cheio de barro e crostas pretas de poeira e suor misturados cobriam meus pés e rosto. Em Benares. em uma plataforma. Tinha muita vontade de fazer isso. Em seguida. Isso multiplica minha felicidade. e depois me diz. Impossível. Considerou-me um intocável.direito a um lugar na sociedade. sem fumar um hiri. onde fumega uma chaleira manchada do leite que derramou. Anteontem de manhã. decido tomar um chá na taberna em frente. O menino serve primeiro dois homens mais bem-vestidos que eu. Bebo rápido. 2 de novembro A estação de Benares. trabalhei a tarde toda. o que equivale a três ou quatro dias de esmolas. Voltei depois da visita ao templo de Ravidas e não saí mais. bebi grandes goles de água morna e fiquei deitado. Será perfeito. uma garrafa custa 30 rupias. durante 24 horas. durante uma hora. Tão jovem e tão malvado. Sinto-me quase como se estivesse em casa. domingo. e ontem. Gosto de me permitir um prazer quando estou feliz. Ele colocou o chá em um recipiente de barro descartável. Saindo da estação.

Não há contato entre nós. de qualquer maneira. os outros mendigos me ignoram. tenho vontade de chorar. À noite. saio da estação. Na penumbra dos compartimentos. Também resolvi não mais mendigar na passarela. com o rosto e membros encarquilhados. Mergulho na solidão e.Não fiz nenhuma amizade. Reparei que um leproso. Em seguida. Isso já não me constrange. A estação nunca fecha. Esta manhã de segunda-feira começo meu quarto dia como mendigo. Vou contar a única coisa boa desta aventura. Eu me contenho. além do mais. eu me habituarei. Não passo fome. seria desperdiçar energia. e. já passou. depois recomeço a esmolar. No entanto. Não tenho mais prazer em nada. os passageiros pareciam adormecidos e ninguém me deu esmola. continuo dormindo entre os musahar. estou bem. A curiosidade. a atração exercida por esta nova existência. Há quase 100. Não mendigo depois do cair da tarde. o cego de . não conseguiria percorrer todos os trens. não tenho outra saída. Por isso esmolo por períodos de duas horas. Estou exausto. limpos e privados.Calcutá. Até mesmo me acostumei a não fazer minhas necessidades em locais decentes. que param diariamente na estação de Benares durante 24 horas. me acocoro e esvazio o intestino. Revejo sempre as mesmas pessoas: o velho muito asseado. É o meu ritmo e. Conheço cada canto da estação e aprendi as manhas do ofício. faço uma pausa para o biri e uma sesta de mais duas horas. Em relação ao dinheiro. pois ninguém me olha. tentei o trem que vinha do Punjab. estou esgotado. Para minha surpresa. penso que amanhã ou depois de amanhã minha nova existência se organizará. consegue se virar bem à tarde. muitas vezes. o barulho de sempre não me deixa pegar no sono. A impressão é de já estar aqui há um mês. subviver. Quando sinto vontade. Ou melhor. No átrio. Ontem à noite. certamente porque meu corpo é normal. Ganhei umas 10 rupias e almocei ontem em uma taberna na estrada Délhi . Só resta estagnar na rotina e sobreviver. mas para mim não dão nada.

e cada um vive sua própria vida. não excessivamente. isto é. Peço esmolas com o prato de alumínio já com uma ou duas moedas. 60 centavos de lucro. Assim nunca deixo mais de 50 centavos à mostra. cabelo amarelo de poeira e viscoso. Estas atraem o olhar das pessoas a quem o estendo e significam que alguém. Os mendigos vão e vêm. . mas tiram o troco do pratinho. forma-se uma multidão na plataforma e os carregadores de malas e os condutores dos carrinhos se precipitam em todos os sentidos. como eu. o que me rende 30. um homem forte e jovem. porque freqüentemente consigo uma rupia por trem usando este artifício. Não é o paraíso. Um trem permanece de 15 a 30 minutos na estação. os homens-elefantes que esmolam no universo dos trens. 40. Desejam me dar algo. mas com quatro ou cinco trens posso almoçar e aprendi como fazer render meu ganho. Quando chega um comboio. de tez sépia. Sirvo de escritório de câmbio. Para eles. se não os vejo. vestido apenas com uma tanga rude de cânhamo. Os ferroviários também não me perturbam. antes delas. leprosos e monstros humanos com membros disformes. Há passageiros que me dão uma moeda de valor alto ou uma nota de uma rupia. Isso acontece geralmente quando estão comprando jornal ou cigarro de um vendedor ambulante que não tem troco. e durante este tempo somos dois ou três a pedir esmolas. E cruzo com outras: uma leprosa sem mãos. pedindo que me afaste. a mulher esfarrapada. dão um tapinha em minhas costas. Compreendo que o desfile de pedintes irrite os passageiros e não fico com raiva. Gritam "Saia da frente!". Lembro-me de que antes também sentia essa exasperação. Nenhuma animosidade em sua atitude. já deu qualquer coisa. É válido. Acho que algumas sentem culpa. Esmolo ao longo de uns 12 trens por dia e cada um me rende de 50 centavos a uma rupia. A manobra dos mendigos se repete ao longo das paradas dos trens. e.cara bexiguenta. outro mais jovem. o que leva os passageiros a contemplar com indiferença os piores esfarrapados. Talvez queiram ter moedas suficientes para outros mendigos. mas não demais. Também existem pessoas que calculam. avisando sua presença. Enfim. tenho o direito de trabalhar na plataforma.

como se lá estivesse cheio de gente de dinheiro e generosa. ocorrem quatro situações antes de o passageiro. Tertio.uma em 10 vezes aproximadamente . desconcertado e muito pão-duro.Para comer. me manda mendigar mais adiante. Trabalhe! Encontrei a resposta ideal a esse conselho. e nesse momento eu apenas repito: "Babu! Me dá dinheiro! Babu!" É claro que nunca digo "por favor". os passageiros apertam os olhos. Primo. . me afastar com um movimento da mão ou da cabeça. ou o passageiro me manda pastar ou . Não fico envergonhado e chego a me emocionar. e desistem de dar lição de moral. Para persuadi-lo.É difícil comover. três em quatro passageiros não me olham ou fingem ignorar minha presença. .me dá alguma coisa. como se me abençoasse. 10 ou 20% dos avarentos me pregam uma lição de moral. Secundo. Sua eficácia surpreende até a mim mesmo. O ruído seco. Ao me aproximar da janela. Então.Por que quer dinheiro? .Mas sou aborígine. quarto. faz com que virem os olhos na minha direção. No primeiro caso. Todos recitam a mesma ladainha: . Agora sei como tirar leite de pedra. me examinam da cabeça aos pés. Em seguida.Não tenho dinheiro. uma em cada duas vezes. pois não é usado. em um tom hipócrita ou agressivo. Babu! Então o sujeito replica: .Se trabalhar. Estou com fome. Todos os indianos sabem que as populações tribais constituem a classe social mais miserável e mais desprezada da Índia. começo insistindo: . leva a mão direita à testa. Começo batendo o prato duas ou três vezes no parapeito. com um sorriso . Não encontro trabalho. como se eu fosse um animal raro. Ao ouvir que sou aborígine. o passageiro dá com os ombros e pede. farto de minha presença. Por conseguinte. bater o prato evita ter de repetir demais as súplicas para obter sua atenção. terá dinheiro. metálico.Você é jovem. Finalmente. Ou. ele me olha impassível e fica mudo. me dão uma moeda.

ocultam-se em compartimentos refrigerados. com janelas de vidro fumê fechadas. Está sentado como Buda sobre o banco de madeira e come um bolo pouco apetitoso em forma de uma bola ocre e que se desfaz facilmente. Os passageiros que dão esmolas são homens bem-vestidos. a ínfima minoria dos milionários. Cerca de 40 anos. O comportamento humano é universal. Calo minha vergonha e desgosto.meloso. Na época. É humilhante porque as pessoas que dizem isso nos consideram idiotas. os jovens. que se trabalhasse teria dinheiro. Coloco o bolo em minha sacola e mendigo na janela seguinte. Há pessoas que nos dão esse tipo de esmola. os que viajam de lungi ou calça gasta.Por que lhe daria dinheiro? Por quê? .Tenho fome. Vi outros mendigos jogarem restos fora. As mulheres. Além dos cães. Fala comigo em tom de gozação. os velhos e os pobres. Ele me toma por uma lata de lixo. Quando o trem parte. Não posso lhes estender o prato. Claro que nós. de 30 a 50 anos. que vá mendigar mais adiante. Um riso amarelo. sem desembolsar nenhum tostão. jogo aquele resto de bolo nos trilhos. ratos e vacas que erram pela plataforma. . Eles se . a estação abriga homens ainda mais pobres que nós. Quanto aos ricos. não quero me queixar e desencadear uma discussão. . os mendigos. nos separar da sociedade. não me dão nada. Lembro-me de um. ao longo do dia. retardados. sabemos disso. Paris e Benares. As lições só conseguem nos irritar. Nossa miséria não é a pior.Tem fome? Então aqui está! Se manda! E hop! Joga no prato o resto do bolo que comia. e o inspetor do trem impede que as pessoas indesejadas subam em seus vagões. ontem de manhã. Essas lições de moral me lembram as que são ditas aos mendigos no metrô parisiense. Livram-se de nossa presença e ficam com a consciência tranqüila. eu não percebia como é humilhante para um mendigo ouvir. de kurta gasto e com traços fortes e enérgicos de um camponês. Alguns viajantes me dão comida.

Não me dêem nada. tão escura que não se distinguia o pênis entre as coxas. É verdade que parecem um pouco loucos. Percorrem as plataformas em busca de restos de comida e dormem no chão. Ela era mirrada e o pano esfarrapado que a envolvia deixava entrever os pelos pubianos e os seios flácidos. como um cão faminto que aceita apanhar com um osso. São os mais hipócritas. Não sei por que esses mendigos não esmolam ao longo dos trens. inquietante. viscosos e hirsutos. pois em comparação a elas sinto-me rico e mimado pela vida. são os que me abençoam com a mão e me aconselham a esmolar adiante. mas não me venham . nunca reajo. sociedade igualitária. Não gosto de olhar essas pessoas. Sinto-me um mendigo indiano comum. Sua pele era da cor do antracito. A miséria não tem fundo. Nada possuem. Muito sujo e desprezado. Estou quebrado. seus cabelos são embaraçados. nem coberta. usava apenas uma camisa suja de terra e rasgada. de perder uma parte de nossa carne. corremos o risco de ficar aleijados. Várias vezes por dia sou enxotado como um ser nocivo.alimentam de restos e não é raro vê-los enxotar com o pé um animal. Estava sentado ao pé da passarela e lambia cascas de banana. Na França. De todos os passageiros que me mandam passear. mais ainda que os que dão lição de moral. três rapazes e uma mulher de uns 40 anos. Reparei em quatro desses selvagens. Se pegam uma guimba ainda acesa. me deixam pouco à vontade. Chafurdam na sujeira. pois continuam a ser cidadãos. nem prato para esmola. a não ser um pano cobrindo o sexo e um trapo sobre as costas. os que mais abomino. seminus no meio das plataformas ou na passarela. E. como que ressecados por uma existência muito dura. Na estação de Benares nada se perde. solitários. sem oleado. Esses homens são cobertos de placas pretas de sujeira. fumam com um sorriso de prazer. A possibilidade de cair ainda mais me aterroriza. para poderem fuçar um monte de lixo. Um dos homens não cobria nem o baixo-ventre. os mendigos ousam se defender. cegos ou sem pernas. Além de tudo. Seu sorriso meloso me inspira total aversão. Nada. Odeio a sociedade. Falam sozinhos e seu olhar é parado. Nem sacola.

maltratar um pobre-diabo como eu. Antes era como eles. Gostaria de cuspir na cara deles. e os aborreço. e covarde.com bênçãos nem falem mais do País das Maravilhas que fica na parte da frente de cada trem. estômago e a cabeça que fala a sua língua. isto é. Mas continuo a ser um homem. Parem de inventar coisas! Sou muito miserável e vocês são as piores coisas que a terra gerou. por isso não há como não serem francos comigo. duas pernas. certamente um jovem preguiçoso. Sou sujo e pobre. Fazê-los engolir o desprezo que me dispensam. Marc Boulet gostava de gozar os mendigos. A miséria não comovia sua carteira. 30 rupias. os miseráveis. os mortos de fome. Com dois braços. Em grupos de três ou quatro. exasperavam. Também achava que os mendigos eram muito numerosos para que pudesse satisfazer a todos. Como hoje posso ter raiva dos que me rejeitam? É mais forte que eu. Besteira! Não dava a nenhum. São menos caros que os mais rápidos e cheios de camponeses de feições cansadas. se insistissem estar com fome. Marc Boulet poderia ter dado esmolas a muitos mendigos e nem por isso se arruinaria. pois não passo de um mendigo sem defesa e sem direitos. Também encontro viajantes agressivos. Percebo que se tratava de avareza misturada à falta de piedade. levantam a mão e me ameaçam. Mesmo na Índia. Essas pessoas o importunavam. É fácil. Também ele se divertia abençoando-os ou oferecendolhes um biscoito. Pareciam merecer o desprezo com que os tratava. eu os odeio. Seu semelhante. Principalmente nos trens que param em todas as estações. Lamento essa atitude e juro que se sair ileso desta aventura darei uma moeda a todo aquele que estender a mão diante de mim. fazendo chacota como hienas: ''Vai cair fora ou terei de bater em você?" Não insisto e vou embora. Nunca lhes dava esmolas. É um direito deles recusarem me dar alguma coisa e podem expressá-lo sem precisar me olhar agressivamente e dizer palavras . Mas eu não devia estar com tanta raiva. com cinco ou seis francos por dia.

minha mãe deve estar inquieta com minha saúde e segurança. e peço esmolas porque se tornou um hábito e uma obrigação para que eu possa comprar comida e cigarro." Não sentirão o principal: meu sofrimento moral. Placas escuras como breu os cobrem e entre os dedos cresce uma crosta mole. que eu representava uma farsa na pele de Ram Munda. Um acessório de decoração da estação. Isso não mudará meu dia a dia. regredindo no tempo. em meu pai. Pensarão: "Marc se disfarçou de intocável e pediu esmolas em uma estação indiana. Tenho medo de descobrir minha cara imunda. não consigo acreditar que tenha chegado a este ponto. Quando eu contar esta experiência. em minha irmã. semelhante a um melado de transpiração. E quando examino meus pés e mãos. Sinto náusea. e talvez passe noites . Não tenho vontade de lavá-los. não tenho vontade de nada. Não lavo mais os pés. sujo e sem nenhuma enfermidade particular. Como é doloroso ser sujo. não me reconhecerão. Penso em minha mãe. É interessante. se tornar um objeto de desprezo. pois as pessoas não prestam nenhuma atenção em mim. esqueço que existo. Continua convincente? Não me preocupo. Exceto comer pão. Estou pouco ligando. Por que ficar limpo? Todos os dias mendigo da aurora ao crepúsculo e. à noite. se rebaixar a mendigar. Neste momento. Seria extremamente cansativo. se sentir intocável. Se me virem mendigar diante de trens indianos. Sou um mendigo jovem. Sinto-me inútil e sujo. Suas imagens são doces e lágrimas umedecem meus olhos. Não quero principalmente me lavar nem procurar um trabalho melhor. Até mesmo o cheiro de meu suor me causa repugnância. limpo ou sujo. um produto normal da sociedade indiana. imaginarão. em meus amigos. as únicas partes do corpo visíveis para mim. Pouco importa que me achem belo ou feio. é estranho. mesmo que isso fosse possível. beber água. que eu participava de um baile de máscaras. Tenho nojo de mim mesmo. Esta é a minha vida! Não é grandiosa. é divertido. não ousei sequer me olhar no espelho. De manhã. fumar biri e dormir o máximo possível. Principalmente meus pés. Aliás. adormeço no átrio de uma estação. É perigoso deixar de verificar se a tintura resiste. porque assim perco a consciência.desagradáveis.

Na Índia. não pode estar concluída. me chamou do interior de seu compartimento. um mendigo pode se revoltar se o ameaçarmos ou zombarmos dele.em claro na angústia de perder o filho. depois mexeu no bolso e me lançou uma moeda de meia rupia. Voltar a ser Marc Boulet. o indivíduo que pede ao outro lhe é inferior. Eu me calo em todas as circunstâncias. Ele me fez sinal para esperar diante da janela. sem mostrar desprezo e sem permitir que eu me humilhasse pedindo. passava rápido por um vagão quando um homem vestido de modo elegante. Aliás. Formidável. minha solidão. Esse homem realmente se interessava pela minha sorte deplorável. com uma camisa pólo amarela. No Ocidente. Além disso. Não tenho direitos nem poder. pois foi ele mesmo que me chamou. dócil. Poderia interromper esta aventura. Eu esmolava ao longo de meu primeiro trem. Minha metamorfose data de apenas poucos dias. Devo insistir na experiência e ver como reajo. Sua generosidade me proporcionou um imenso prazer. O mendigo deve aceitar tudo. na sociedade hierarquizada das castas. Conto como foi. Como para cada esmola que recebo. Atrapalhado por carregadores de malas. Finalmente tive a impressão de ser considerado por alguém. Estou perdido. submisso. Um passageiro de 35 anos me deu esmola sem eu pedir. minha vergonha. 3 de novembro Esta manhã a vida se anuncia menos difícil. Então ele me disse para ir embora. sociedade igualitária fundamentada nos direitos humanos. Vou resistir a esta tentação. . Voltar à Ravindrapuri. as pessoas têm medo de sua reação. levei a moeda à testa em sinal de respeito e agradecimento. Mas não pode imaginar minha aflição.

A França cristã e gaulesa. Um deles carrega uma bandeira representando uma flor de lótus em um fundo laranja. o deus e o príncipe perfeito. Todas as tabernas. com mais de 20% de deputados no Parlamento federal. todas as lojas estão fechadas e a circulação na auto-estrada Délhi-Calcutá está paralisada. O BJP sugere que as cidades com nomes muçulmanos sejam rebatizadas com nomes hindus.Hoje me sinto melhor. o segundo partido indiano. Na Índia isso seduz. assim como nos quatro cantos do mundo. a Índia hindu e ariana. Como esta. Exige que a "invasão" dos trabalhadores de . entre os quais o de Uttar Pradesh. Na metade da manhã já ganhei sete rupias e saio para comprar um chá na frente da estação. Exige a demolição das mesquitas construídas em locais de templos hindus durante o reinado dos imperadores muçulmanos (o que remonta a vários séculos antes da colonização britânica!) e a reconstrução dos santuários originais. O partido me lembra a Frente Nacional da França. estão sentados em bancos colocados de um lado a outro da calçada. Impossível. não oferece nenhum programa revolucionário. ao passado distante. É o emblema do BJP. símbolo do governo ideal. onde está Benares e que conta com 140 milhões de habitantes. A diferença é que o BJP já dirige os governos de quatro Estados da Índia. investe fundo na demagogia para conquistar eleitores que não estão ajustados à sociedade. o governo federal do segundo país mais povoado do mundo pode se tornar fascista. Como se antigamente o mundo fosse perfeito! Marcha a ré com força total! O BJP une a política à religião com uma camada insignificante de socialismo estatal. partido hindu de extrema direita. Esse grupelho tornou-se. Viva Rama!" Rama. pátria e justiça. Uns 20 homens bem-vestidos. com uma faixa verde à esquerda. com o ressurgimento dos nacionalismos neste final de século. em cerca de 10 anos. Só propõe a velha fórmula do chauvinismo e do integrismo religioso. No entanto. Com as próximas eleições legislativas. de camisa e calça. O BJP está às portas do poder central. apresentado em um novo recipiente. A legenda anuncia: "Deus. "Retomemos à idade de ouro de seu reino!" Isto é.

são enganados. Recomeça tudo outra vez. foi por causa dos muçulmanos e dos ingleses que nos colonizaram. narrando que os arianos são originários da índia e não invasores que se espalharam pelas estepes da Ásia Central. Mantê-lo seria um insulto ao orgulho nacional em um país de maioria hindu. se for aceita sem reflexão. Allahabad é a . Propõe suprimir o ensino de inglês nas escolas primárias. uma nação pura. Essa propaganda insiste em que somos os homens mais civilizados do mundo. assim como o Partido Comunista Chinês. No Sul do subcontinente indiano.a dos habitantes do Norte . mais civilizado do planeta. Na realidade. Vocês. Essa conversa chauvinista do BJP não me convence. afirma que a diferença entre esta raça e a ariana . O BJP quer rebatizar a famosa cidade de Allahabad. Que absurdo! O BJP. Quer instituir uma teocracia hindu. Mas a propaganda do BJP também pode aparecer atraente a um hindu como eu. Ser um dos países mais miseráveis do mundo e afirmar a superioridade de sua civilização não é uma contradição. os europeus. deus dos muçulmanos. Isso me causa um arrepio na espinha. nos consideram um povo de mendigos. Se nos tornamos pobres. mais inteligente. minha posição social regredirá ainda mais na "nação hindu" sonhada pelo BJP. e é agradável pensar assim. aborígine e não-ariano. Reivindica a superioridade étnica da raça ariana e pretende reescrever os compêndios de História. fala o que for para lavar cérebros.Bangladesh seja impedida e que os clandestinos sejam expulsos. para promover o hindi. Etc. Até mesmo intelectuais. habitado por dravidianos. também pertenci ao povo mais antigo.. na pele de Ram Munda. de mortos de fome. Intocável. principalmente como RAM Munda. Serei franco. Quando fui chinês. etc. como meus vizinhos Agraval da Ravindrapuri. Darei alguns exemplos. Serei oficialmente um "sub-homem". Diz que o nome é em homenagem a Alá. O RJP prega com força este velho refrão nacionalista e propõe uma espécie de socialismo protecionista como programa econômico. Estão enganados. Atualmente isso continua com as multinacionais estrangeiras que nos exploram.é um mito propagado pelos colonizadores britânicos para dividir o país. onde o álcool e a carne de vaca sejam proibidos.

o preço do adubo também dispara. A imprensa comentou. Deve se demitir. Em Uttar Pradesh. Os policiais apóiam os ativistas do BJP. do leite. do butano aumentaram 20% nos últimos três meses. O primeiro-ministro Narasimha Rao oferece o controle de nossa economia ao capital estrangeiro.explica o líder dos 20 membros do BJP que paralisam a estrada Délhi . Somos uns 20 curiosos no passeio.. para protestar contra a inflação galopante .. Ele tem 35 anos. terra natal do hinduísmo. Usa a roupa branca tradicional. Os bancos estrangeiros estão se apossando de milhares de rupias. é proibido comer carne de vaca. e só deixam passar pedestres." Tantas informações deturpadas ou falsificadas. É um escândalo. mas Om Prakash Singh. quer a reintegração de Bangladesh e do Paquistão à mãe pátria indiana. ministro do governo do BJP neste Estado. Não há multidão para escutálas. Não se pode suportar isso. Por outro lado. protegia os chefões do lucrativo tráfico de vacas destinadas aos açougues do Oriente Médio. Então? Ou ainda. do hinduísmo? Esta manhã. Como o BJP pode se proclamar protetor das vacas e. conseqüentemente. Mas o governo do Congresso se recusa a pagar decentemente o que produzem. Significa um custo mensal de aproximadamente mais 300 rupias para cada família.versão inglesa do hindi Hahabad.. Vende parte de nossas empresas públicas às multinacionais. Prefere importar três milhões de toneladas de trigo pelo dobro do preço pago aos camponeses.. Ele fica em pé no meio da calçada e pronuncia um discurso: "Os preços do pão. que não disfarça sua barriga. Para os camponeses. da gasolina. sinal de respeitabilidade. o que não me surpreende. Qual a relação com Alá? Outra manipulação. O BJP quer expulsar os nativos de Bangladesh porque são estrangeiros e roubam o trabalho dos indianos. mais uns 15 policiais que desviam os carrinhos e os caminhões da barreira. Na . em vez de nossos próprios pequenos fazendeiros. não representa os interesses do povo indiano. político de Benares. o BJP organiza uma greve geral na Índia. A política do Congresso subvenciona os agricultores estrangeiros. que todos usamos e que provém de Ila. antigo rei da região vizinha a Benares.Calcutá.

Os militantes do partido que promove a greve destroem os bens e as mercadorias dos que ousam trabalhar.É por isso.Constituição indiana. todo movimento político utiliza essa arma. suspira: . É como uma espécie de toque de recolher.Ah! . mas esta manhã parece deserta. . .ele diz. mas são eles que pioram nossa vida ao nos obrigarem a fechar. . Até mesmo aqui na estação. . As greves dos outros partidos se desenvolvem da mesma maneira e tornam os pobres ainda mais pobres. Venho da selva. As greves gerais se tornaram rotina. Ele tem razão. Venho de Bihar. os taberneiros de alimentar seus clientes miseráveis. decretada por uma organização qualquer.Trabalha em quê? . os vendedores ambulantes de vender. O comércio todo está fechado. Esta é a Índia. A inflação não é novidade. a manutenção da ordem pública cabe ao governo de cada Estado. há quase uma por mês. constrangido. Os políticos indianos insistem que nos . A população está cansada. Em geral.É estranho. Todas as atividades econômicas cessam em sinal de protesto. . como se compreendesse. Estão pouco ligando para nós. você não tem sotaque. Hoje em dia. E você? . Isso me choca. e os comerciantes e os que operam os transportes param por medo da represália. em Uttar Pradesh.Sou aborígine .respondo. Essas greves gerais se inscrevem na tradição do movimento gandhiano da desobediência civil e da não-violência. Só os cachorros conservam o direito de latir.Estou em peregrinação. .Vendo frutas. a parte da estrada diante da estação é repleta de gente. Esta greve impede os condutores de pedalar. O BJP poderia escolher outros tipos de ações para combater o governo do Congresso. Ao meu lado. Não se pode trabalhar. Reclamam a subida dos preços. também de lungi.Essas greves nos aborrecem. um espectador de minha idade. Em Benares.Políticos safados! Com a greve é um dia perdido. E o líder continua a destilar seu veneno. Assim.pergunto. Tudo isso não passa de cena para dar destaque ao BJP. o BJP comanda a polícia e seus agentes protegem a greve dirigida contra o poder central. .

A tintura talvez esteja um pouco clara. Minha vida é tão monótona. mas chegam. esmolo e durmo a sesta até o crepúsculo. Exceto pela barba. Menosprezam o direito de comer daqueles que ganham seu pão no dia a dia. não vejo muita diferença. Canalhas! Descubro que tanto na pele de Ram Munda como na de Marc Boulet continuo com a mesma raiva da demagogia. tenho como jantar. comer uma refeição preparada por minha esposa ou por minha mãe. Ali as tabernas ousaram abrir. ao sair do restaurante. Está decidido: a partir de agora não me privarei de alimentação e farei duas refeições enquanto minhas finanças permitirem. vestem-se bem e devem possuir um lar. Não é grande coisa. São ricos e membros das castas superiores. Eu me isolo em um canto do átrio. Espero que o tráfego ferroviário não seja afetado e que eu possa mendigar também à tarde. Minha aversão a político não mudou. Eles ocupam uma calçada e os policiais os protegem. De fato. Tenho vontade de um purê de lentilhas fumegante e pão. À noite. e o intocável que encarno sente ciúmes desses jovens militantes do BJP. a greve não atrapalhou esmolar. Nada de novo. Eles ostentam uma certa posição social. Os trens se atrasam. um espetáculo! O tempo passa mais rápido. Isso me causa inveja. Sinto falta de estar limpo. Almoço de novo ao lado do antigo acampamento. Meu rosto continua perfeito. de safados. essa agitação do BJP me diverte. pois são empregos de trapaceiros. Isso me custará duas rupias. E talvez isso seja o mais importante para mim: matar o tempo. Passo diante de uma taberna e o cheiro de pão fresco me abre o apetite. decido aproveitar o bom humor e me olhar no espelho. Ganhar minha vida.protegem. De fato. nossos problemas só lhes interessam para arrecadar votos. mas me recusaria a ocupá-la. uma morada. nem que seja uma vez só. Merda! Posso pagar. Saboreio o purê de lentilhas e. os miseráveis. passeio diante da estação. dormir em uma cama. nós. invejo a posição deles. . com a poeira e a sujeira. Gasto três para almoçar. mas me impressiona. mas. e talvez não passem de fanáticos. Não acredito nesse seu discurso. Pelo menos. Pessoalmente. O comércio reabriu. e eu digo que são todos uns canalhas. Tudo bem. Ganho cerca de 10 rupias por dia. Depois.

Em meu universo. há trens. palpável. Bangcoc. repouso na passarela. adormecer. a dezenas ou milhares de quilômetros. Não imagino que homens se agitam em outros ambientes. Acho que perdi muito peso e me sinto exausto. mesmo nas menores.Ela data de oito dias. Nunca me deixam entediado. mas gosto de todas e nelas passei horas flanando. Fiz isso em Varsóvia. encostado à balaustrada. durmo mal. O mundo real sou eu. Não uso água. Isso conservará meu rosto de indiano. Sempre se passa alguma coisa nas estações. Meus dias se estendem com uma lentidão exasperante. para não modificar a tez. claro. Só penso em mim. Não tenho o que fazer. É isso! Não suporto mais este mundo. nem sabão. Não sou mais um espectador do zoo humano que constitui a estação. como outros visitam museus. Minha vida está revirada e já não erro mais nesta estação por prazer. Pequim. Eu me barbearei assim. musahar. Belgrado. cinzento e cansado. matar o tempo é minha ocupação principal. sapateiros e alguns outros mendigos. Sempre que o sol se levanta no horizonte. Não passam de seres virtuais. raspo-a grosseiramente. Pedir esmolas. Todas são diferentes. tabernas. seus trens e seus usuários são diferentes. plataformas. Conheço centenas. 4 de novembro Sim. Freqüentemente me instalo em estações para estudar a multidão. é a estação de Benares. Preferia estar em outro lugar. Odeio a aurora. Ao meio-dia. ferroviários. sem interesse. ligeiramente. Esta estação se tornou minha prisão e tenho a impressão de que a vida material. uma vez por semana. com uma lâmina descartável que eu trouxe. Sou desprezado como um cão. ser humilhado. está um tanto comprida. Hoje é diferente. México etc. não existe lá fora. Sou um de seus animais. talvez milhares de estações. policiais. muitos passageiros. mas não tenho escolha. me alimentar. a não ser mendigar e esperar. Que vida! Nenhum . o programa recomeça. As estações fronteiriças são as mais interessantes. Este também é o mundo normal e não gosto dele. como pouco.

50 m e usa um sári vermelho. Então observo os que passam. A família é composta pelos pais. Acho que não desejo mulher nenhuma. Por quê? Porque não posso ficar dormindo a sesta sempre que não mendigo. Giro em círculos. De que adianta viver assim? Queria tomar um trem e partir. nenhuma esperança de melhorar. sem me aborrecer. contra o parapeito.sonho. na França. mas não a desejo. nem rio. Os passageiros acampam nos quatro cantos da estação. Mas a espera na estação de Benares não é como pescar. é elegante com sua camisa cor de limão e sua calça preta. Eles me olham sem me ver. Ela não me sorri e tampouco evita meu olhar. nenhum objetivo além de matar o tempo. A mulher parece mais jovem. É bonita. Ela mede 1. Estendem um pano no chão e se sentam em cima. tenho certeza de que ainda . Tem minha idade e a tez sépia. nem peixe. de uns 40 anos. Antes eu não gostava de mulheres peludas. Adoro pescar e. Não existe nenhuma esperança. Ela é pequena e tem as feições de bebê. sem dúvida. à nossa frente. Esta é atraente. O homem está sentado ao meu lado. Tédio. O marido. às vezes imagino um caniço diante de mim e que espero a mordida de um peixe enorme. Para ajudar a passar o tempo. com os joelhos dobrados. eu os acho normais em uma mulher. Pertencem. dois filhos e a avó. Isso não tem importância. E não é por causa da penugem preta que cobre seus braços. na posição do Buda. É desesperador. Para onde? Para mendigar em outra estação? Qual o interesse? Estou condenado a morrer de "tédio. pois ela não parece me desejar. a uma casta superior. mas seus pelos não me incomodam. mas não a desejo. nem nenúfares. passava horas imóvel diante de um caniço. apenas para manter uma distância de 50 centímetros entre nós. Vou contar um fato bizarro. drapeado com esmero. na Índia. sou paciente. e é menos cansativo ficar com os olhos abertos. No entanto. e a mulher. Espero que o caniço vergue. Uma família se instala à minha direita. Sou-lhe indiferente. Isso funciona por cinco minutos e depois percebo que aqui não há nem água. à espera do trem que freqüentemente está atrasado.

não viu meu rosto. É assim com todas as mulheres desde que sou indiano. Seu desprezo me torna assexuado, e estou pouco ligando. Não tenho vontade de fazer amor, sinto-me sujo e muito repugnante. Pensando bem, notei imediatamente a tez chocolate-escura desta mulher. Adquiri o hábito indiano de definir as pessoas segundo a cor da pele. Isso se tornou um elemento fundamental para mim e admito que uma indiana branca como a neve me atrai mais que uma de pele escura como um búfalo. Agora, a tez, o tamanho e o sexo do indivíduo é o que vejo em primeiro lugar. Em seguida, tento adivinhar sua casta ou sua religião em função de suas roupas. Escuto o que conversam. Vieram em peregrinação a Benares e voltam para casa, em Délhi. Esperam o expresso 4057, que une diariamente a capital à cidade santa. Uma viagem de 800 quilômetros, cuja duração é de 16 a 17 horas, no mínimo. O homem está inquieto, não reservou leitos. É normal; na Índia, os trens estão sempre cheios. Foi esse trem que me trouxe a Benares, para me tornar um mendigo. Há três meses eu era um europeu e, na época, fui beneficiado por cotas de leitos reservadas aos estrangeiros. Chegam estrangeiros para pegar o expresso Benares-Délhi. Passam por mim sem me ver e não lhes estendo o prato de esmolas. Fui um deles, sei o que pensam: a miséria da Índia é normal. Eu não passo de um indiano pobre em uma estação indiana. É muito banal para comovê-los. Viram indianos nus em Bombaim e esqueletos semimortos nas calçadas de Calcutá. Em Agra, monstros atacados de elefantíase se aproximaram deles, e meninos cegos, surdos e mudos - tudo ao mesmo tempo - prostraram-se diante deles nos trens. Conheci tudo isso em minha primeira viagem à Índia. Causava-me náusea e me blindava diante da miséria comum, ou o que eu concebia como tal, pois a miséria nunca é comum. Hoje eu sei disso. É por demais dolorosa, desumana e escandalosa. Também sei que o europeu dá esmolas apenas por piedade, e não como o hindu, para cumprir um dever religioso ou moral. Seria um esforço em vão pedir esmolas aos raros estrangeiros que transitam

na estação; não tenho chance com eles, não posso comovê-los. Se os estrangeiros comparam a Índia e os indianos a um mosaico incompreensível, os estrangeiros me parecem, como indiano, ainda mais contrastados. Todo tipo de estrangeiro desfila em minha passarela. Brancos, amarelos, pretos, cabelos e olhos de todas as cores do arco-íris. É claro! Mas isso não é tudo. Os estrangeiros carregam eles mesmos as malas e valises. Alguns estão arriados como um burro de carga, com um enorme saco nas costas e outro preso à frente. Não estou brincando, são verdadeiros asnos. Se estivesse na situação deles, se fosse rico como eles, alugaria um transportador. Um momento! Neste instante, dois europeus altos usando túnicas marrons de monge budista passam na minha frente. Está escrito em suas costas: "Libertem o Tibete!" Para bancar o garoto-propaganda da causa tibetana com a veste budista, quando se é europeu, é preciso ser iluminado. Agrada-me saber que não sou o único imbecil desta estação. Volto aos asnos. Contratar um carregador só custaria duas rupias. Que aborrecimento! Vejam esse casal de franceses. Eles cambaleiam sob o peso da bagagem. Suponho que sejam franceses, pois a garota segura o Guide du routard (Guia do viajante a pé ou de carona). Com a outra mão, segura uma garrafa de água mineral. Carrega nas costas 30 quilos de bagagem. O rapaz também carrega água mineral e 30 quilos nas costas. Juro que transportam a casa deles. Em todo caso, transpiram muito e, repito, são asnos. Economizam algumas rupias e gastam dezenas bebendo água mineral. Para nós, indianos, a água não se compra, é gratuita, e os carregadores, como o nome indica, são feitos para carregar, os viajantes para viajar, os mendigos para mendigar, os cães para latir etc. O ponto de vista desses franceses é diferente. Antes eu pensava como eles. Não é a avareza que os faz economizar o serviço de um carregador, mas sim o escrúpulo de contratar um escravo e correr o risco de serem enganados. Quanto à água da bica, temem contrair doenças ao bebê-la. Sendo assim, carregam seus bagulhos nas costas e garrafas de água nos braços. Suas férias na Índia transcorrem na pele de um estivador. Benfeito! São pessimistas. Não respeitam a ordem do mundo. Escutem! Há seis dias durmo na rua, bebo água da bica e não tenho febre

nem dor de barriga. Os estrangeiros imaginam a Índia mais suja do que é realmente. No domingo de manhã, eu mesmo vi em uma plataforma duas japonesas que escovavam os dentes usando água mineral. Essas perderam o senso de realidade, deveriam visitar o país com uma máscara de gás, luvas e botas de borracha. Meia garrafa de água para lavar os dentes representa o preço de dois almoços para mim. Isso me revolta. A miséria não é banal, é injusta. Por que também não posso lavar os dentes com água mineral? Deixei de ser um homem? Muitas vezes me questiono. Não possuo nenhum amigo, nenhuma família. Sou um animal e só conto comigo mesmo. 5 de novembro Há 10 dias sou indiano e a novidade dessa existência acabou. Totalmente. Nem mesmo reparo a dureza do macadame quando me deito. Nem os cagalhões nas "casas da urina", nem as crostas de sujeira sob meus pés. Minha existência segue um ritmo monótono, exaustivo. Todas as noites, deito no átrio da estação sem encontrar o sono, e todos os dias me levanto um pouco mais cansado. Todos os dias mendigo e sou humilhado. Todos os dias como purê de lentilhas ou curry de batatas. Todos os dias, bebo água e fumo uma dúzia de hiri. Todos os dias sinto-me emagrecer e perder as forças. Minha rotina não deixa nada a dever à das vacas e cachorros que erram pela estação. A diferença é que eles têm as pulgas para lhes fazer companhia. O problema é deles. Continuo preferindo ficar só. Esta manhã, não tenho vontade de nada. A não ser fumar e beber água. A comida não me atrai. Tenho de reagir, senão vou definhar. Mendigo por duas a três horas e decido arejar a cabeça. Saio na direção do antigo acampamento. Subo uma estrada fresca, margeada de árvores, depois desço para a cidade, para a avenida poeirenta de Raja Bazar. As lojas ainda estão fechadas. Sob uma arcada, um ser humano está estendido no chão. Um pano sujo o cobre, e não consigo adivinhar sua idade, sua tez, nem seu sexo. Eu me vejo nele e minha existência miserável

se impõe imediatamente à minha consciência. Na estação, aqui ou em outro lugar, é sempre igual. Como escapar ao destino? Como ser feliz? Deito-me um pouco mais adiante, sob uma arcada. É o melhor remédio para meu desespero: tentar dormir para não pensar. A luz me incomoda, oculto o rosto sob o fular. Percebo que imito o outro mendigo. Mas não consigo dormir. Impossível esvaziar a mente. Ouço os transeuntes na calçada. Conversam, riem, se interrogam. A vida parece leve, interessante para eles. Alguns me roçam e, através de meu fular, vigio suas silhuetas, que se viram na minha direção por um instante. Não consigo distinguir a natureza de seu olhar, e é melhor assim. Deitado, em pleno dia, sobre a calçada de uma rua importante de Benares, a cabeça mergulhada na noite de meu fular, prefiro não mais contemplar a aversão que inspiro aos outros. Por que me impus esta experiência? Queria uma aventura. Descobrir uma sociedade exótica, ganhar dinheiro, escrever um livro, e sonhava com a fama. Achava que jogando uma grande partida tinha a chance de me tornar rico e conhecido. Pouco importa saber se estava ou não enganado. Isso não tem mais propósito. Só existo no presente, lutando pela minha subvida cotidiana, e lamento esta metamorfose. A curiosidade, a esperança, a cobiça, a ambição são vínculos que me prenderam a esta louca aventura. Em Paris, possuo um pequeno apartamento de dois cômodos, perto de Strasbourg-Saint-Denis. É confortável, equipado de geladeira, cama, quatro cadeiras, uma mesa, uma banheira, uma privada, e é limpo. Até tenho um forno de micro-ondas. Uma verdadeira fortuna para Ram Munda. Pequei por cobiça e por curiosidade. Não soube desfrutar a vida como era. Melhor seria ter ficado em casa, na França, e achar um trabalho tranqüilo. Por quê? Porque eu seria feliz. Acreditava que nossa única passagem pela Terra teria de ser usada para empreender coisas extraordinárias. Para sobreviver à morte por atos meritórios. Eu me enganava. O que conta é viver feliz. O resto é vento. Quando penso em minha fortuna na França, é doloroso. Tenho a impressão

de ter perdido tudo. Toda essa riqueza me parece fictícia e certamente não é propriedade de Ram Munda. Perdi tudo. E morro aos poucos em Benares. Repentinamente, uma idéia terrível me atravessa a mente. Se eu morresse de verdade, agora, sobre esta calçada, o que aconteceria? Esqueçamos os outros, eles não me interessam. O que acontecerá depois de minha morte? Será assim: estarei livre de meus sofrimentos e das humilhações. Eu me livrarei do fardo da existência. É o fim da cobiça, das ambições e da curiosidade sempre insatisfeitas. Não desejo morrer e nada farei para precipitar o fim; mas se a morte ocorrer agora para mim, tanto faz. A vida não serve para nada. Neste mundo só tenho deveres, compromissos e sofrimento. Penso em minha mulher, que adoro e que me adora. A vida é formidável em sua companhia. Eu a esqueci e devo ter ficado louco ao pensar que minha existência não vale mais a pena ser vivida. Tenho vontade de chorar, mas me controlo. Não devo cair em pranto. Tenho de me dominar. Quero viver e aproveitar os anos que me restam. Economizei 10 rupias. Então me levanto e decido assistir a um filme na cidade. Isso me arejará as idéias e, além disso, o cinema é uma distração popular na Índia. Miseráveis como eu podem ir, minha presença não chocará. Ando na direção de Godhaulia, onde há vários cinemas. Tenho sorte, o cinema Sarasvati passa Sangit (Música). É o novo filme de Madhuri Dikshit, minha atriz indiana favorita. Pago nove rupias e cinqüenta por um lugar no térreo, para a sessão de meiodia, e entro. Antes sempre comprava balcão, porém custa mais três rupias. A sala está repleta embaixo. Uma fossa. Reina um calor abafado e úmido; fede a suor, todos os assentos estão rasgados e a mola arranha nosso traseiro.

Eu me perguntava se na cabeça dos indianos não havia nada além de piolhos para verem e reverem um filme tão . Quando dança a canção Eu sou sua!. causa mais efeito que Cinderela e Branca de Neve juntas. segundo o eterno esquema "perdido-achado" do cinema hindi. a dançarina se casará com Jackie Shroof e sua virtude e posição social serão recuperadas. Sinto-me como um menino vendo um desenho animado de Walt Disney." Madhuri liga multidões de indianos. o herói de Erskine Caldwell em seu romance Le Petit Arpent du bon Dieu: "Quando um homem vê uma bela mulher. Jackie Shroof. Não sou o único a imaginar que Madhuri é minha. salta. graças ao menestrel. Há três meses zombei de Reta. Até mesmo muito melhor. É um filme de superstars. Madhuri interpreta uma jovem cega. Descubro que ainda sei reconhecer uma coisa boa quando a vejo. Em Sangit. sua mãe. depois de vários imprevistos. pois Madhuri Dikshit ocupa toda a tela. a tela se ilumina e me esqueço de tudo o mais. Isso me proporciona uma sensação deliciosa de vertigem na cabeça e no baixo-ventre. os espectadores assoviam e gritam de prazer: "Madhuri! Madhuri!" Esta bestialidade me lembra o refrão de Ty Ty. milhões de homens. vocês consideram essa história fraca. Madhuri. E digo imediatamente: este filme é mágico. um cantor pobre de bom coração. De tudo que faz parte da existência de Ram Munda. Jackie Shroof. sente vontade de se abaixar e lamber-lhe alguma coisa. que é milionária e também interpretada por Madhuri Dikshit caracterizada. com um pequeno corpete e uma saia vaporosa. outro filme de Madhuri. seus fãs se deliciam. tira-a desse trabalho humilhante e acolhe-a no depósito em que vive como mendigo. Eles se apaixonam e. isto é. Eu pensaria o mesmo há 10 dias. e só teria gostado das seqüências de dança.De repente. Sem dúvida. No final. dança. como se diz em hindi. Não é pouco. Na sala. dançarina em um show para voyeurs. gira o traseiro e mexe os seios enormes. é seu parceiro. Ela desempenha dois papéis e o superherói. a bela cega reencontra.

Não há montes de lixo nas ruas. 6-7 de novembro Chega o inverno. na pele de Ram Munda. O cinema hindi me comove. Vemos um corpo humano com as etiquetas dos preços dos diversos órgãos negociáveis: um olho. conhecidos de todos. os problemas se sublimam a algo positivo. como sempre.000 rupias. Ele mostra a um médico uma matéria na revista Índia Today. sobre o comércio dos implantes. a solidão. vivo no mundo de Madhuri e de Jackie Shroof. a falta de dormir. pois o roteiro aborda problemas sociais verdadeiros. Deixei de reparar nas deficiências técnicas. a sujeira. Cada coisa em seu lugar. Mergulho na intriga e sonho. nem poluição sonora. asseada. Freqüentam as pessoas ricas que moram em mansões dignas de Beverly HilIs. o barulho.ruim. Hoje sou indiano e não me acho menos inteligente.000. um pedaço de pele. um rim. Era exatamente o que eu precisava para escapar de minha existência miserável. os mendigos são civilizados e se vestem de modo asseado. o macadame. Esqueço os 10 dias na pele de Ram Munda: todas as humilhações. Sei que na Índia os pobres vendem a pele. No universo maravilhoso de Sangit. e os casebres. Profundamente. A cada noite a temperatura é mais baixa. Lamento minha maldade. . Neste momento deve estar próxima dos 10 graus. A idéia de automutilação por motivo econômico me confunde. a água da bica. as lições de moral. na última parte do filme. 80. o purê de lentilhas. Jackie Shroof quer implantar novos olhos em Madhuri. a mendicância. que servirá de enxerto para doentes ricos. escritórios e lojas são organizados. de beleza e de justiça. hospitais. E. Por exemplo. Claro que ela não permitirá. Uma Índia feérica. na inverossimilhança e na ingenuidade do roteiro. Um mundo de amor. nem vacas famintas. no cinema hindi. limpa.000. 27. Jackie Shroof propõe se suicidar e lhe legar os olhos.. o desprezo. mas. Durante três horas. Por amor a Madhuri. eu a confundo com o mundo real. 1..

isto é. Compro meus bilhetes em um dos comerciantes diante da estação. mas estão tranqüilos e o estrépito dos trens que passam não me incomoda. É um investimento razoável e o primeiro prêmio é de 100 mil rupias. É claro que. solitários e na força da idade. Uma multidão de pobres tenta a sorte para sair da miséria e eu também quero tentar essa solução. A estação se revela menos ruidosa que o átrio. Estendo-me sobre a plataforma. A loteria Raj Shree emite quatro milhões de bilhetes . Todo dia. e alguns trabalham 24 horas por dia. o curso de minha metamorfose seria alterado. à noite. podem-se comprar bilhetes de loterias privadas e do Estado. nem que seja algumas centenas de rupias. São cobertas por telheiros e os quiosques e armazéns me abrigam do frescor noturno. Faz frio e. me deito na estação. Faz exatamente uma semana que esmolo na estação. quatro mil dólares. investiria meu dinheiro. nos quatro cantos da Índia. escolho dois da loteria Raj Shree. E nada de novo. Principalmente. Se chegar a ganhar. Dezenas de outros pobres se instalam nas plataformas. tendas e vendedores ambulantes os vendem.Não é uma suposição vã da meteorologia. Ao contrário dos habitantes do átrio. depois. Seria bom. Tudo isso é um sonho. não precisarei esmolar durante um mês. estendido sobre o macadame. de uma a 500 rupias. Em cada cruzamento. muitos não estão com a família. alugaria um apartamento e. São homens como eu. É momentâneo e logo volto a dormir. Não estou só. ninguém fala comigo. duas rupias cada um. Eles ignoram uns aos outros e não parecem pertencer a uma casta particular. veria como tratam um intocável bem-sucedido. Isso representa cerca de 80 sorteios diários e existem bilhetes de todos os preços. ninguém me expulsa. Poderia viver na pele de um intocável rico. Sempre têm clientes. Mais uma vez. ninguém me olha. Exceto que começo a jogar na loteria. Centenas de passageiros esperam com suas malas e trouxas. Digo a mim mesmo que terei sorte nessa aventura. E continuo. Em Benares. se ganhasse. Deixaria de mendigar. Estou bem aqui e não aprenderei nada de novo ficando ao ar livre entre os musahar que me ignoram.

Se manda! . compraria dois bilhetes de dois e mais dois outros de sete. Se há duas semanas o sete e o dois não saem.É óbvio. escolho os bilhetes.. . sobre a bancada. Metade. eu os ouço dizer que aproveito alguma informação eventual e. para repetir isso todos os dias. . o sujeito alto e magro de calça e camisa.E se daria mal. Evidentemente. O que não quer dizer que vivam disso. falam de receber somas menores. Como se a loteria obedecesse a regras científicas! Enquanto esperam obter o primeiro prêmio.responde um outro. Oferece 16 rupias por um bilhete de duas rupias. Acontece a mesma coisa em todas as loterias. mais baixo e de lungi sujo. Os números saem . A Raj Shree é particular. Quando compro meus bilhetes. Por exemplo.por sorteio e tenho poucas chances de escolher o número vencedor.Há duas semanas o sete e o dois não saem. Ele estuda uma lista comprida de resultados e os bilhetes da loteria Raj Shree expostos. você. pare de falar bobagens! Você está mal da cabeça. Se tivesse dinheiro. sujos e vestidos de lungi. Pobres. Somente homens. E diz: . O vício do jogo os reúne. . logo perdemos o que temos.. vão sair . Metade. 14 rupias de lucro. é preciso fazer bons cálculos. Diante de cada vencedor da loteria.Sim. com uma chance em 10 de encontrar o último algarismo e o ganho de oito contra um. Comentam os resultados da véspera e discutem as probabilidades deste ou daquele número oferecer-lhes um futuro promissor.diz o vendedor. um jovem elegante de cerca de 20 anos. . outros de calça e camisa. pode-se obter uma renda na loteria. Calculam o último algarismo do próximo número vencedor. Atrevo-me a sonhar. Nada mau se compramos vários bilhetes com o último algarismo certo: na falta de fazer fortuna. isto é. Temos de jogar nas loterias do governo. é impossível que não tenha havido fraude. lado a lado. Senão. um ajuntamento de dezenas de jogadores se forma permanentemente. mas que simplesmente tentam obter o máximo de renda com seu investimento. É claro que não há fraude. Mas nunca se sabe. a partir daí.Ei. como eu. evidentemente. Os jogadores que calculam são como que "profissionais" da loteria. pertencentes às classes médias.

em tabelas.periodicamente.E qual é? .Então. ora essa! É o meu vício.Não. . como se fossem pães. seria fácil demais. que se chama Lakshmi. e o que conta vantagens acrescenta: . todos riem. não ganho nada. os resultados das últimas semanas para poder estabelecer os prognósticos. jogo qualquer coisa. além das chances do dia seguinte para cada sorteio.Gosto de jogar. é publicado todas as noites em Benares para aconselhar os jogadores de loteria. É só uma peça pregada nos pobres. Não acho nada engraçado.Já disse para cair fora! Sua cabeça não pensa direito. se só critica a loteria? . O dois e o sete continuaram sem sair. perdi oito. Por que vem aqui. . Na primeira página publica a foto de uma atriz e notícias gerais picantes. Depois. Também recapitulam. Mas o que me interessa é uma soma grande. ou seja. e sei que vou ganhá-la um dia. Tem-se de jogar por muito tempo para se ganhar. mas assim é pior. Como fui idiota arriscando meu dinheiro na loteria! Não há esperança. Tenho um segredo. Pensava em pelo menos ter a chance de acertar o último algarismo e receber 16 rupias. Não vou jogar mais. Além disso.. Caso contrário. uma diária de esmolas.Sim. nos endividamos para recuperá-lo. paro de jogar e recupero todo o meu dinheiro! Fico sabendo que um jornal cotidiano especializado. Ficamos arruinados e alguns até mesmo se suicidam. Evidentemente. As outras três páginas dão os resultados do dia.Por quê? Já ganhou muito? .. .pergunta o magro alto. A essa altura. . Eu o compro. . É um panfleto de quatro páginas e garotos os vendem na rua. a deusa da fortuna. . Em dois dias. gastamos todo nosso dinheiro. os prognósticos do jornaleco eram ruins. Os dos jogadores profissionais também. Eu me enganei.Não posso dizer.

e formam barreiras para impedir os riquixás de trabalharem. De tanto repetir que morrerei um dia. saboreio a cidade e. lado a lado. constatar que os táxis triciclos estão em greve. só me resta com que pagar uma refeição por dia. Caminho. de verdade. Ver os caminhões passarem. Quero me estender sobre este assunto. Volto a ter vontade de viver. Como quando era garoto e alguma coisa me exasperava. Quando? Um dia. Consegui mendigar de manhã. acima da armadilha da fortuna. Não sei. Comia ao meio-dia e à noite. que me atingem direto o coração. de três salsicharias. . Por quê? Porque sinto os aromas de comida. Digo a mim mesmo que passo tempo demais na estação e saio para andar pela estrada nacional Délhi-Calcutá. protestando contra a criação de um serviço de mini-ônibus na cidade. tão cansado. quando descubro a presença. nem de lamentar minha sorte. eu vivia bem. a pouca energia que me resta se exaure. Ao querer ganhar um monte de dinheiro. Minha morte. Será a morte. Mas. minha aventura se torna muito penosa. Tinha razão. de bater a cabeça contra a parede. mas me sinto tão fraco.Com oito ou 10 rupias. E ninguém para me consolar. de temperos e de carne misturados. respirar o gás que lhes escapa. 8 de novembro Nunca gostei de contar vantagens. Talvez isso também seja devido à carência de vitaminas na minha alimentação. Sinto-me mal! Tenho vontade de chorar. não tenho com quem lamentar. Que cretino! É como nos molharmos com a chuva. Só penso nisso desde ontem. de dormir para sempre. Vontade de esquecer. percebo que o curso do meu dia mudará. no momento. tudo isso me areja a cabeça.

Ali verão adolescentes com um bebê no colo convidar passantes.Quando um homem está realmente reduzido ao desespero. A cada 200 metros. o álcool e. em uma viela lamacenta. sei onde encontrar uma mulher indiana. Algumas têm as feições arianas. rígida como uma tábua. Hindus e muçulmanas. e não quero tampouco parecer moralista. sob ele. ela o incita a concluir. Tanto quanto as margens do Ganges. estudava a sociedade indiana. preparava a minha metamorfose. tão jovens que o bico dos seios só ergue ligeiramente a seda sintética do corpete. a droga são vendidos livremente em lojas do Estado . Ainda assim. Não conto lorotas. para onde atraem os clientes. Impetuosas ou não. com um sári como o das adultas e maquiadas exageradamente. Uma puta que trabalha com o filho nos braços não me excita. Em Maruadi.o que já comentei -. Atenção. Brancas e negras. dois dólares. só resta a comida. a embriaguez ou o sexo para reconciliá-lo com a vida. Parecem os bordéis de Taipei ou Seul. Queria dar uma olhada. Um breve encontro pago pode proporcionar prazer. uma centena de garotas de tudo que é tipo se alinha diante de barracos de quatro metros quadrados. até mesmo. fui até lá em agosto e falei com algumas. pois essa viela vale ser vista pelo turista que está em Benares. meu propósito não é denegrir os que pagam para fazer amor em cinco minutos. Se eu quiser. em um barraco. Uma jovem e bela. pois. isto é. E não porque estes dois prazeres sejam difíceis de se obter. mas não me seduzem. que chegam dos confins da Índia. Há em Maruadi. Em Benares. Muitas. Os fregueses se fecham com a mulher durante cinco a dez minutos. Perto da grande usina de locomotivas. Elimino imediatamente a embriaguez e o sexo. outras sino-tibetanas. Descrevo Maruadi para que saibam como é e que ali posso encontrar uma mulher que me agrade. Verão outras ainda mais jovens. o tempo mínimo para se despir e se satisfazer. . que sabe excitar e por apenas cinqüenta rupias. Gloire me acompanhou. há realmente muitas escolhas. Quanto ao sexo. Eu sei disso. Aliás. Impúberes e na menopausa.

sarnentos. Mas me sinto sujo e cansado demais para fazer amor. Essa é a riqueza de Maruadi. mas a idéia de enganar Gloire me repugna. Retorno às salsicharias. e cheira bem. também há uma panela cheia de curry de porco. Mabinis e Patpong do mundo. com a tez de trigo maduro e um peito firme e farto. Eles os cortam em cubos para cada cliente com um facão em forma de croissant. os comerciantes de carne de porco se contam nos dedos. Apenas um telhado. Além do mais. Uma diversidade à imagem da Índia. Não vi nenhum na estrada de Ram Nagar. Para mim. Exceto com Gloire. Isto é. uma crença indiana diz que a relação com uma jovem virgem aumenta a potência sexual e cura as doenças venéreas. sem porta. de peitilho de camisa e lungi quadriculado. não sinto vontade de trepar. Mais que em todos os Pigalles. Uns dois açougueiros. Há para todos os gostos. e uma plataforma de cimento de cinco a seis metros quadrados. pois sou bicolor. Além disso. sem balcão.000 habitantes. Em Benares. Esqueço o sexo. Estão instaladas sob abrigos de tijolos. que se aventuram a permanecer perto do estrado. sujos de gordura. meu traseiro e meu sexo são brancos. têm menos sorte e levam pontapés no traseiro. da Ravindrapuri. Ao lado. ficaria constrangido de baixar as calças. nos bairros afastados do centro da cidade. entre a usina de locos e as garotas. Só me resta a comida para me reconciliar com a vida. trazendo a carne para perto. cidade de 800. Sohos. Não irei a Maruadi. e meus amigos varredores. O porco é . duas paredes. e principalmente. para cortá-la na lâmina. que seguram entre o polegar e o indicador do pé direito. A exposição de mercadorias não se parece com a de Fauchon. Estou certo de encontrar uma jovem graciosa.deve atrair outros homens. Sou do tipo fiel. várias lingüiças cozidas estão enroladas. A propósito de meninas prostituídas. Toda essa carne atrai as moscas. mas ninguém as espanta. disseram que havia em Maruadi. uma de cada lado. já que se oferecem dessa maneira. essas salsicharias são preciosas. A sensação de trair nosso amor destrói meu apetite sexual. Falo de outras mulheres. Sobre o estrado. minha mulher. sem vitrina. estão sentados no meio de dezenas de pedaços de porco fresco. Os cachorros vadios.

Soube que também se chamava khattik e que a palavra significava "açougueiro" em sânscrito. Eu acho. uma dezena.. Ignoro por que ele me diz essa frase gentil. . E servidas em um pequeno prato de folhas.Sim. cata rodela por rodela.disse sorrindo. .Sabe. a pura. . mais desprezado que o das outras carnes.Ah? Qual é a sua casta? . É melhor que tudo que comi até agora. Saboreia com calma e peço a mesma coisa. somos todos iguais. Melhor que o salsichão da montanha e o presunto de todos os países.Não é daqui? . O açougueiro. a maioria de lungi sujo. Em frente ao estrado em que os dois açougueiros trabalham encontra-se uma mesa baixa onde se senta. .É claro. um jovem ossudo.Ah! Achei que era do Rajastão. É requintado. Sabe. Diga-me.Sou de Bihar. somos todos aborígines. Sim. e seu comércio é ainda mais raro. . mas que não é necessário sê-lo para vender porco.Come porco na selva? . É sublime. onde há mais fregueses. que segura com a mão esquerda. .destinado aos intocáveis. Lá um velho come uma porção de lingüiças cortadas em rodelas. Com a outra mão. Não tem o sotaque do Bihar. . Parece mais apetitoso que o curry na panela. O rapaz me explica que todos os salsicheiros do lugar são sonkar. da selva. Melhor que a lingüiça de Guémené e outras. nós também somos aborígines. E degusto. depois me sento à mesa. lhe dou quatro rupias. mas me comovo. e os cristãos e os estrangeiros. de pele escura.. só os filhos de Deus compram carne de porco em Benares? .. Ele me estende a porção de 100 gramas de lingüiça quente.pergunto isso para ver se um salsicheiro o confirmaria. já discreto nesta cidade hindu santa..Certo . Passo diante das três salsicharias.. .. depois volto atrás e entro na última.É porque sou do Jharkhand. conversa ao me servir: . Sou um aborígine. É a casta intocável dos comerciantes de legumes.Sou sonkar.

que combina tão bem com as carnes. Raja Ram. enfarinhados. que sobem do meu estômago saciado. de vez em quando. com um gorro na cabeça. não sinto vergonha. há um sujeito sentado no chão. Mesmo sem beber. Assim foram os . a lingüiça que fazia proporcionava a quem a consumisse um gosto antecipado do nirvana. Contudo apimentada. bolos pastosos. mas bebericando álcool. havia me falado dessa lingüiça. laticínios. e meus sogros. Reencontro os sabores de minha existência anterior e isso me lembra o prazer de viver. Agora me lembro. em Ram Munda. Eu já convivi com pessoas da minha casta. pimentões verdes e folhas de coentro. a preparam também em casa. Não é nada surpreendente que compartilhem o mesmo gosto pela comida que as populações menos civilizadas da Índia. se levanta para mexer as lingüiças que cozinham na água.É uma lingüiça especial. depois cozido. Ao lado da mesa. Em francês. e meus amigos. Lamentável! Na casa dos intocáveis. uma espécie de orgasmo gustativo. com sabor adocicado de morcela e o aroma anisado do coentro. Sempre fui intocável e. Os intocáveis. em Benares. Sempre gostei das coisas impuras: o vinho e o porco. e meus pais. Observem as castas elevadas. sobre um fogão de barro. suas guloseimas são os doces. Como na França. Ele recheia as tripas e. e ele tinha acrescentado que quente ou fria. Também me obriga a reconhecer que sempre pertenci ao povo dos intocáveis. em chinês. viscosos. Tudo picado e enfiado nas tripas. Aí está o que é necessário para organizar uma festa segundo a ideologia dos brâmanes. Ele se manterá até o final da tarde. O clássico recheio das tripas é adicionado de sangue coagulado. pela primeira vez desde o começo dessa metamorfose. Todos estrangeiros. Sinto-me bem. Essa iguaria tem gosto de chouriço. repugnantes. confirmo essa sensação de prazer total na boca. com agradáveis arrotos de carne de porco. Isso me deixa um gosto novo e picante na boca. o prazer vem antes da pureza religiosa. meu irmão dom. E minha mulher é intocável. Viva a carne! Viva o vinho! Existem autênticas especialidades culinárias intocáveis. bárbaros.

rodando pelo subúrbio de Benares. secretário do Lions Club desta cidade. Ou então: a lingüiça é gostosa e isso me basta. ele me pareceu mais humano. Dizem isso porque não conhecem mais nada. seu sabor é ruim? Evidentemente. O que lhe responder? Eu não sei. afinal. quando nasceu sua filha. Dirigia com o copo em uma mão e a outra no volante. caro e bom. cunhado do meu vizinho. Como podem afirmar. um em dois se revela um trapaceiro quando o conheço melhor. pois estes dois legumes são considerados impuros. S. pelo irracional. mas consomem drogas à base de cannabis. o que fazem na cama etc. sem nunca ter experimentado. o açúcar e os laticínios constituem os alimentos mais saborosos. Preferem o leite ao vinho. mas nunca beberam álcool. Em 7 de outubro. Idem para os doces. Também com o rico R. chinês ou indiano intocável. Entendo sua visão. Assim é a lingüiça. a consistência dos seios.pratos do banquete na casa de Raja Ram. Para eles. Seguem uma dieta vegetariana e sem álcool. S. Não são uma minoria. Que delícia! Mas é possível imaginar um prato mais impuro? Como podemos comer a carne que continha os excrementos de um porco? É preciso ser tão sujo quanto esse animal para se rebaixar a comer isso. quando penso em R. eu acho. uísque indiano. Agraval. Os mais ortodoxos não comem sequer cebola ou alho. pois. Agraval. passamos a noite em seu carro. não falo da multidão de hipócritas abençoados que comem carne de cabra ou de frango e se embriagam às escondidas. esvaziando meia garrafa de Bigpiper Gold. revejo o homem que despreza e maltrata seus empregados de casta baixa. assim como toda conduta orientada por religiões. ser francês. que a carne não lhes faz falta. Na época. Entre todos os indianos de casta superior que conheci desde julho. Hoje. Por exemplo. Assim foi com meu professor Maurya. Sua busca da pureza é incoerente. Comparávamos as formas e medidas das mulheres indianas e ocidentais. Eles me fazem rir. Detesto os que pisam . e contávamos o tipo de besteiras que dois caras de porre gostam. É repugnante para um hindu da casta alta. Os hindus de casta elevada são anormais.

amorosa. Ele parece estar esperando um ônibus ou um triciclo coletivo.nos outros. Não tenho mais vergonha de minha intocabilidade. Odeio o sol. não tenho mais desejo. Senti medo que me reconhecesse. assumem uma aparência honesta. Um pouco de felicidade esperando as primeiras luzes que clarearão o horizonte a leste. A sociedade dos brâmanes. incita as pessoas de casta alta a desempenhar um papel duplo. nós. Mas. Significa minha libertação. social. de minha barbárie. que não presta a menor atenção em mim. Não são mais puros. A cidade vai se deitar. não mendigarei. No Ocidente. Depois. o tempo transcorrerá por si mesmo. Eu não me entediarei. uma vida noturna. A única coisa que os difere de nós é a hipocrisia. . É magnífica. o escurecer anuncia o repouso dos homens. não precisarei me alimentar. fechada e intolerante. Depois será o grande fogo da aurora e o momento de retomar minha existência de cachorro. 9 de novembro Exceto o alimento. Uma recompensa. os intocáveis. Escapei de boa. até o amanhecer. Desenvolvi um gosto especial por essa hora do dia. passo por ele. para comprar outra porção de lingüiça. ao meio-dia. Volto à estação e esmolo até o crepúsculo. Sono e esquecimento. Saindo da salsicharia. É a mais agradável. e volto. Na Índia. É ignóbil. familiar. me deparo com meu amigo Harilal. não serei desprezado. Mais um dia na pele de Ram Munda se passou. Por puro prazer. Apenas para obter vantagem de conforto. o pôr do sol indicava o início da segunda parte de meus dias. não. Logo irei dormir. Continua esplêndida. Eu a espero desde a manhã. civilizada e nos difamam. Descobri a que lado pertenço e não me sinto inferior. palpitante. Vendem gato por lebre. o barbeiro do ghat Assi.

Eu era ingênuo. Mas ele não ousa reagir. O sol acaba de se pôr e erro pela plataforma número um. aceitava esses clichês: correspondiam à minha visão da Índia. Cada . o maior recomeça a bater nele. No outro extremo. A noite. Para saciar meus prejulgamentos sobre o país de Gandhi. O de compleição mais forte dá murros no peito e na cabeça do outro. nem o egoísmo hindu. Os poderosos tratam os pobres como escravos. Ai de mim! Minhas leituras me enganavam. O jovem está com a cara arrebentada. Por quê? Não analisarei nem a violência dos textos sagrados. gritando: . usando camisa e calça limpas empurra um rapaz magricela e mais jovem. Mentiam. o empurra com as duas mãos e o derruba. Ele tem a. Um sujeito alto. li que os indianos eram tolerantes e não violentos. Não estamos em um ringue de catch. Contarei o que vejo. Muitas vezes. Tem sangue nas mãos. que continua sem se defender e que está em péssimo estado. Não é encenação. Coloca os braços sobre o rosto para amortecer os golpes e o grandalhão o puxa pelo pescoço. A tolerância indiana de que os ocidentais falam não passa de uma profunda indiferença pela sorte do outro. a camisa rasgou-se nas costas. a pior miséria e a submissão dos indivíduos explodem repentinamente em violência total. e esta sociedade é. Não é nada agradável olhálo. na faixa dos 30 anos. irracional. O maior bate com toda força. pele mais escura e sua camisa e calça estão muito sujas. sem dúvida.10 de novembro Na França. nem a intolerância do sistema de castas. a mais violenta do mundo. É impressionante e somos uns 20 espectadores à volta deles.Onde está a polícia? Dois sujeitos saem do grupo dos espectadores e começam também a surrar o pequeno. O menor torna a se levantar. em torno da boca e dos olhos.

são tidos como preguiçosos. uns 50 espectadores. Mas ele implora. . Liberar-se. Há tumulto. Suspense. não se insurge contra os murros que recebe. O maior vocifera sem parar de bater: . só vêem que há vítimas. frustrada e ávida de sensações. Pouco confiantes na justiça oficial. É melhor que no cinema. não se conhece o epílogo da cena. Além disso. Apanhará de sua vítima e talvez seja linchado pela multidão. acomodados. danifica outro veículo ou atropela um pedestre.vez que cai no chão. não foge. os dois chutam sua cara. deveria reagir. nunca estando onde se precisa deles.Eu não queria. Sabe que essa sova é apenas o antegozo da festa que o espera com os cães de cáqui. no mínimo. ignorando totalmente a lei de trânsito. Cáqui porque esta é a cor de seu uniforme. Em nenhum país as pessoas gostam dos policiais. Não tenta revidar os golpes. Os dois espectadores saídos do grupo revezam com o grandalhão quando ele perde o ritmo para corrigir o infeliz ladrão. servis e corruptos. mas em três dimensões e com sangue de verdade. Na França. espera que o grandalhão pare de surrá-lo e o deixe ir embora. senti uma mão puxando minha carteira da calça. querem representá-la imediatamente e surrar o suposto mau motorista. está acabado.Safado! Queria roubar! Safado! As pessoas de Benares gostam desse insulto. de repente. Todos os indianos sabem: o ladrão que é pego em flagrante é um desgraçado. É a mesma coisa para o motorista que provoca um acidente. Na China. Tenha ou não razão. . Cães porque são brutais. Os passantes. É muito interessante e o público vem assistir. Se fosse inocente. com as mãos juntas: . Entre um golpe e outro. A partir daí. Eu também estava comprando uma passagem. É assim que chamamos os policiais em Benares.É um ladrão! Eu estava comprando a passagem na sala de guichês e. o jovem ladrão choraminga. somos. Era a mão desse safado! Safado! E desfere um murro que lança mais uma vez o safado no macadame.

quem lhe bate com o cassetete se dirige mal sua bicicleta. . são temidos e percebidos como uma polícia política que se ocupa da vida particular das pessoas. símbolo da justiça na Índia. . as castas superiores e privilegiadas dos sacerdotes e guerreiros.interrompe o policial. além do mais. A rotina.também são chamados de cachorros. O cão de cáqui é quem lhe extorque dinheiro para registrar uma queixa. . Eu apenas estava atrás dele na fila para comprar passagem. A imprensa também denuncia o descaso da polícia que protege criminosos em troca de gratificações. quem extorque o comerciante. bandidos e políticos ocupam empregos intercambiáveis. .Por que são geralmente representados no cinema como personagens negativos. alcoólatras e violentos? . mas não sei. Não apenas não protegem como não respeitam a lei e lhe fazem mal.Este safado me roubava. Tarde demais. quem lhe surra se você é detido. a culpa . E. é pior. Gostaria de revelar que diz a verdade. Aí está. inspetor.Não. repetindo que não é ladrão. que estupra sua irmã se ela for pedir ajuda..responde o grandalhão.O que está acontecendo? . Na Índia.. cobiçosos. o jovem ladrão sabe que esses golpes são carícias perto do repertório que o espera se for parar no comissariado da estação. Nenhuma proteção a esperar. os jornais relatam histórias de estupro e torturas nas delegacias. Implora perdão de joelhos. e os três são recrutados freqüentemente entre os brâmanes e os kshatriya. não é verdade. Piadas circulam sobre os cães de cáqui.Este safado tentou roubar minha carteira . Não estou exagerando. policiais. Um policial atravessa o grupo de pessoas com seu inseparável cassetete. safado! . Na Índia. Exemplo: . batendo em seu traseiro com o cassetete.Cala a boca. Diante de nós. Todas impunes. .Não.Porque não se pode fazê-los desempenhar sempre papéis ruins! Não há nada de bom em um policial. Todos os dias. Ele tem realmente medo e sinto pena dele.

Também há os gritos e sangue do jovem ladrão. Rebolava ao andar. Saboreava um chá à beira da estrada Délhi-Calcutá quando um eunuco passou. Não me sinto mais em segurança na Índia. O público sobressalta-se. Ninguém detém os policiais. E pior. Esta noite tenho medo. mulheres verdadeiras e falsas. Vou contar a cena. então. Erguem alto os cassetetes para baterem mais forte e. na faixa dos 30 anos. Era ridículo. Outro policial se junta ao primeiro e os dois compadres pegam o jovem ladrão e lhe desferem golpes de cassetete nas costas e braços para que avance na direção do comissariado. Todo mundo riu e. a cada golpe. ela não usava cueca. quem é o quê. Amanhã.ou não do jovem bastaria para justificar toda essa violência? O tumulto recomeça. Espetáculo atroz. eu diria um sexo imberbe de menina. cruzo freqüentemente com eunucos na rua e. cabelos compridos. musculoso. talvez seja a minha vez de ser a vítima de sua justiça sumária. Sim. exageradamente maquiado e usando um sári vermelho. Querem saber com que se parece o sexo de um eunuco? Muito bem. o eunuco parou à nossa frente.Vejam se não sou uma mulher! Ele. Sinto a sua dor. Imagino o cassetete caindo sobre meus músculos. hoje de manhã. Como reconhecê-los? Há. 11 de novembro Na minha vida. Alto. Eu também. Em Benares. um deles me mostra seu sexo. Atrás de mim. pela segunda vez. é difícil saber quem é quem. um sujeito assoviou e lhe perguntou se tinha um bur. ou melhor. Ninguém interfere. levantou o sári e o saiote e nos disse: . Com um movimento decidido. até mesmo. Tentarão quebrar minhas costas de intocável com golpes de cassetete e ninguém os deterá. na plataforma número dois. Imediatamente nossos olhos se . gíria que quer dizer vagina. o ladrão se curva e avança meio metro. Com vaginas verdadeiras e falsas.

os astrólogos. Porque a Deusa Mãe o criou assim. de três a quatro centímetros de comprimento. Só Deus tem este poder. Todos ficamos boquiabertos. Ouçam-no: . que diferença faz? Ouçam-no: . Por quê?. Eu os deixo livres para acreditar ou não nesses poderes sobrenaturais. Esmolarei um pouco mais tarde. pois não tenho nada melhor a fazer. meu professor de hindi. com um bigode que cai em pontas e sotaque ríspido e autoritário. somente ele pode parar a chuva. um filósofo ou um santo.Vejam este mangusto. Uma bacia de homem. ele não os imuniza contra o veneno da serpente.. um a menos. os curandeiros. graças a este amuleto.. à beira da estrada. Sim. Evidentemente. exatamente um pouco depois do eunuco. Visitei mais de 30 países e esta é a única cidade do mundo em que posso encontrar. Sua tagarelice cativa os tolos. mas.. Quando chove. reta e chata. como tudo o mais. E conta lorotas e mais lorotas. juntei-me a uma centena de tolos que assistem ao espetáculo de um mago. Pode pegar as cobras sem perigo. Hoje de manhã. por exemplo. Sem pênis. Sanjay. Existem também os adivinhos. sem testículos. Mas é menos fácil detectá-lo que falsas mulheres. pois uso este amuleto que me concede a proteção de Durga. Decido ficar. com calça e camisa esfarrapadas. Não riam!. Na faixa dos 40. a cada cruzamento. como que costurados sobre sua bacia. Há realmente todo tipo de tolo em Benares. e o castrado pode seguir seu caminho em paz. soldados um sobre o outro. havia me explicado que os eunucos andam sem cueca para poder exibir seu sexo quando as pessoas os aborrecem. pelo menos um guru. Dois tubos finos de aço niquelado. não temerão mais nada. Trabalhava com cobras e um mangusto.. Mas . Um trem a mais.Uma única mordida de cobra é suficiente para matar um homem. de um e dois centímetros de comprimento.depararam com dois lábios finos e vermelhos. Talvez porque a maioria dos sábios é uma fraude. ao contrário das mulheres. sem pelos. Ele exibe o pendentif em volta do pescoço. Isso acalma os outros. Eu também não temo a cobra. Um verdadeiro ou um impostor.

Dez centavos não é nada. nossa mãe divina. Então. E vou prová-lo... Você! Um rapaz de 18 a 20 anos. Sorri. devolvo o dinheiro. aperte o amuleto na mão. . devolverei o dinheiro. como se controlasse o medo. é beneficiá-los com este amuleto. Pois bem. Fico pasmo e os outros espectadores estão igualmente surpresos. Depois. . . Acredita em seu poder? .Agora acreditam no poder deste amuleto? .o público responde em coro. toque na cobra. Impressionante. para isso. O que me interessa. meus amigos.Agradeço a todos as moedas. é apenas para fazer a oferenda a Durga. isso basta. perturbada. Dêem-me 10 ou 20 centavos. as cobras não os atacarão mais.. Agora observem. Mas. escolho o mais jovem de vocês.. . . Não parece um cúmplice. colocando-os sob a proteção de Durga. Agora mesmo.Aqueles que estiverem interessados no meu amuleto formem um círculo à minha volta. E o devolve. Não. Nunca tinha visto um saltibanco devolver o dinheiro. os defende contra o mau-olhado. Sua vida é a mais preciosa. Com este pendentif. pouco à vontade. Não pensem que o dinheiro de vocês me interessa. Quem é voluntário para tocar a cobra?.Tome.Quatorze sujeitos se aproximam. bem-vestido.Farei uma demonstração com um de vocês. é preciso fazer uma oferenda a Durga para atrair sua boa vontade. levanta-se e ataca a mão do encantador. e abro esta cesta que contém uma cobra. meu amuleto funciona como um guarda-chuva. Eu também contribuiria para me divertir. Ouçam-no: . A serpente. mas sem mordê-la. .Realmente? . um pouco recuado.Sim. imploro a Durga. .Aí está! Como prometi. Ninguém?. de jeans e camisa pólo. Talvez esse seja honesto...vocês podem se abrigar sob um guarda-chuva. Ele parece sincero e uns 10 sujeitos dão as moedas. mas tenho medo de passar por uma situação desagradável e fico passivo.Sim .Então o prove. .Sim! . Ponho a mão dentro.

Além do mais. que significa "trepar" na gíria.Agora todos acreditam no poder deste amuleto? . Quando ficam doentes. o médico. Está bom. Parece um preço justo e alguns espectadores de fora do círculo também pagam uma rupia. Só uma rupia.) Este pendentif desenvolverá sua potência sexual. pois não é para vocês. tenho de explicar que possuem mais duas qualidades além de proteger contra serpentes. O que diz é cativante. que observavam na primeira fila. são afastados. Eu lhes agradeço. além de esvaziar a carteira de vocês. . Os garotos se afastem. . consegue curá-los para sempre? Risadas aprovadoras no público. Lamento não ter comprado um amuleto. .O jovem não se atreve e o mago pega sua mão e a coloca sobre a cabeça da serpente.Sim.. (Três garotos maltrapilhos. Afastam o mau-olhado e nunca mais ficarão doentes. sem dúvida de castas inferiores. Mas respondam: acham que com 26 rupias poderei comer durante um mês? .É claro que não.Juntei 26 rupias. É valioso. As mulheres de vocês vão gostar. Usando-o. uma rupia é pouco para tanta coisa.Sim.Não custa caro.. que acredita que um mal rebelde ou incurável é devido a uma causa sobrenatural. O . . há entre vocês quem acredite tanto no amuleto que possa comprá-lo por 10 rupias e me ajude a viver? Cinco homens levantam a mão sucessivamente. e faz o público sorrir. eu disse que o amuleto custava uma rupia e não mudarei de idéia. .Antes de distribuí-los. Então. É espantoso. poderão trepar durante o tempo que quiserem.A terceira utilidade do amuleto é suja. . . se quiserem. se for verdade.Todos gracejam. Mas fiquem tranqüilos.Querem um? . podem dar mais. O animal não se mexe. Mas. Emprega o verbo pelna. Tira alguns amuletos de uma caixa de papelão. Não há um sistema generalizado de seguro social na Índia e os tratamentos custam caro para a maioria das pessoas. Só me resta observar. Vocês cinco realmente têm fé.

Bom. . A preocupação em não perder o prestígio diante do público vem de muito tempo. Recusa a nota de 100. Demorou a dar as 10 rupias. Na sociedade hindu. confessar que não tinham sido sinceros. dadas as vantagens que lhe oferece. . Bravo! Joga com a credulidade dos indianos nas forças sobrenaturais. sem dúvida versículos em sânscrito. mas que não acredita realmente no poder do amuleto.Pagaria 100 rupias? Não é nada. Tem certeza que acredita? . ... uns 20 homens que pagaram uma rupia desembolsam 10 rupias. Suspense..Sim. Quem é o impostor? O mago exige que todos aqueles que acreditam no poder do amuleto o provem oferecendo 10 rupias para obtê-lo. Bravo! Em meia hora. Há alguém que deu uma rupia. não precisamos dele! Ninguém se mexe. Desse modo. Não há lugar para uma honra padrão. Alguns fazem cara feia. acredito em você. Só existem deveres de casta e relações hierárquicas entre os indivíduos. Torna a implorar a Durga. conseguiu mais de 200 rupias. só o estava testando.. Quando o preço de um amuleto se elevou. Guarde a nota. Stop! Ele se interrompe. os indianos mentem e contam vantagens sem timidez. Por fim. Sinto más vibrações na platéia. mas não ousam ir embora. depois distribui os amuletos e dispersa a audiência. mas não devolve as 20 notas de l0 que recebeu. Está bem . Pois bem.Acho que é você o impostor. que ele se vá. Em seguida.mago começa a implorar à deusa Durga em uma língua incompreensível. aprendi a ignorar meu amor-próprio.Algo está errado. isto é. dois dias de salário médio. Uma trapaça que começou com centavos e se concluiu com centenas de rupias. Um atrás do outro. ninguém se atreveu a desistir. Eu sei. age rapidamente.Está bem. Hein? Dê 100 rupias! .murmura o homem tirando uma nota de 100. mas não . o mago diz: . pois ninguém queria se arriscar a atrair a fúria de Durga.

12 de novembro Tanto na pele da Ram Munda quanto na de Marc Boulet não acredito em Deus. que deve conter algumas roupas. Uma dezena de moscas grandes e azuladas cobrem seu rosto de traços finos. a não ser uma vaca.na entrada da estação há um cadáver humano e ninguém lhe presta atenção. Eu o observo atentamente. enquanto dormia. Tem a tez cinzenta. de 30 a 50 anos. sob um toldo de plástico e centenas de moscas. A primeira vez foi também nesta estação. às vezes sou obrigado a fazê-lo para que acreditem em mim. do tipo usado para batatas. Se juram.gostam de jurar. ao sair para comprar . de uns dois ou três dias. Um pano rosa desbotado cobre seu tronco e membros. Há quanto tempo está aí. em 26 de agosto do ano passado. É repugnante. na indiferença geral. cabelos pretos. têm de dizer a verdade e cumprir a palavra.e se estou mentindo que eu reencarne como cachorro . O chá é muito caro na estação e no meio da manhã. Um pouco abaixo. com medo de desagradar a Deus. Ela funga em seus pés. Fazia dois dias que o morto apodrecia ali. está dobrada sobre seu estômago. apodrecendo sob o sol? Seu corpo imóvel parece rígido e ainda não exala mau cheiro. Um velho saco de juta esburacado. como é freqüente na Índia. de plástico trançado. Uma sacola vazia e rasgada. com os olhos fechados. magro. Deve ter morrido esta noite. O que é pior que todas as infâmias. Ainda assim. Tampouco gosto de jurar. Juro que . que parecem ossudos sob o tecido gasto. sem idade definida. Foi assim nesta quinta-feira de manhã. na plataforma número seis. Está estendido de costas. esconde seus pés. está sob seu quadril e uma tigela de alumínio se assenta sobre as pernas. uma trouxa de pano rosa. É bobagem. É um homem pequeno. É a segunda vez que vejo um cadáver na rua. um pequeno bigode e uma barba grisalha. mas tenho medo que isso me traga azar.

Sou um miserável e não posso escapar da minha condição. sem avisar minha mulher ou meus pais. Por cobiça e por curiosidade. nem mesmo conseguirão saber que sou francês. ela fala sozinha em voz alta e canta besteiras e . Eu a reconheço. por onde o público passa. Nenhuma esperança. Viver exige um esforço excessivo. Não passo de um indiano comum. Dia e noite. além disso. Nada me consola. não tenho a coragem suficiente para me matar e não quero afogar minha aflição nos prazeres da comida. ninguém se ocupará de meus restos. Impossível não vê-lo. ninguém se detém para olhá-lo. Minha existência é inútil. de que adianta? De qualquer modo. Durante o sono. Nunca saberão o que aconteceu comigo. sem direitos. Minha carne fermentará sob o sol durante horas. a miséria de meu universo não me abandona. É a velha louca. Quando a polícia vai retirá-lo dali? Hoje? Amanhã? O que esperam todos aqueles policiais da estação para pedir a autópsia. devo morrer. Infelizmente. Ainda assim. Exceto morrer. deixar de existir. Não carrego nenhum documento de identidade. na plataforma em que durmo. Quando os policiais me pegarem. na estação. E. Quero permanecer consciente. para prazer das moscas. No meio do caminho. Há alguns dias sentia-me melhor. O dia todo repito isso. um homem bate em uma mulher e seus gritos estridentes me despertam. Sem valor. como era este cadáver. do sexo ou da droga. Se me acontece um acidente fatal na pele de Ram Munda. Eu me detesto e mereço isso. do nariz como bico de águia. investigar a causa da morte e cremá-lo? Um arrepio de angústia atravessa minha espinha. Melhor ser fulminado logo. Sua morte não interessa. Nem mesmo após o pôr do sol. se morro à noite. Não sou nada. Então pensarão que sou um hindu e queimarão meu corpo no anonimato. imediatamente reparei naquele cadáver. A entrega. rompi com a doce existência ocidental. Por volta da meia-noite. Estou condenado.um. Está deitado aos pés da escada que leva aos guichês. Ela mora nesta plataforma. Tudo confirma isso. mas a ideia da morte voltou a me dominar.

A louca está dobrada no chão. aplica um golpe na cabeça da velha. Quando me deitei. pelo visto seu cunhado. Sua mulher o encoraja. Sua pequena estatura acentua o porte impecável. Ela se alimenta dos restos que cata e veste apenas uma musselina suja e transparente sobre a corcunda e as nádegas magras. o homem lança a sola dos pés em suas omoplatas. Perdeu sua energia de maluca. Um sári vermelho-sangue. Mas não ouso e observo. Quer dizer. . Sem dúvida. mas um passageiro a está esmurrando.Não precisa bater nela.Ela nos insultou. Isso parece doer muito e se passam três ou quatro minutos até que vários curiosos intervêm: . Ela volta a berrar. sentado à minha esquerda sobre um oleado. Ela é gorducha e usa óculos. e a velha para de gritar. Não é agressiva. Uma barba curta. um golpe nas costas e nas nádegas ossudas. aparada. apenas maluca.. vlan!.O que houve? . Reconheço esses gritos agudos. se parecem com os de um porco no abatedouro. a envolve e cai com pregas regulares. Esse cara tem uns 30 anos e a tez pálida. Pare! O carateca não escuta e. prostrada no chão.. sapatos de couro polidos. Mas não se deve julgar um homem por seu tamanho. passivo.obscenidades. um bebê e um jovem de 20 anos. . Os corpos pequenos podem ocultar grandes almas. Ela é louca. Depois. Como um golpe de caratê. Não estou exagerando. O homem a chuta com toda força. bordado de fios dourados. Sinal de que pertence a uma casta superior e abastada. calça preta e uma suéter suntuosa de lã verde. em posição fetal. há algumas horas. com instrução superior. e o homem confunde suas costas e cabeça com uma bola de futebol. Ele não sabe a diferença entre uma bola para treinar boxe e uma louca. a alguns metros de onde estão. Não sabe o que diz. Não é o caso desse casal. Arrasta-se sobre os braços e choraminga. professora. uma mulher educada. reparei nele. com sua mulher. uma intelectual. por causa dos traços semelhantes aos de sua esposa. que trabalha com a cabeça: funcionária de um escritório. A cena me revolta e tenho vontade de lhe sugerir que descarregue sua raiva num ringue de verdade. Chique e baixinho. graciosas. Um casal harmonioso.

. Muitas lágrimas e soluços. Os indianos acham que os ocidentais não têm respeito pelas mulheres ao . Essa velha maluca aborrece todo mundo. não podia insultá-los. . como um bebê. "Quero bater em você!". idosa ou louca: como se felicitar por isso? Mesmo que os tenha insultado.Era preciso castigá-la.. esta louca nos insultou.diz a mulher do carateca -. onde cai em prantos. Então os curiosos conseguem intervir. Ainda devo sentir como francês. acabou . Então desejo que um dia ela o irrite e ele a surre com os punhos e os pés. Moer de pancadas uma mulher. É preciso dar uma surra nela.Ouça bem: se ela descer. beatice. Rio para tentar esquecer o quanto essa cena é lamentável. mesmo depois de mais de 15 dias na pele de Ram Munda. ela percebe o policial e grita que o carateca quebrou sua coluna.Sim . desprezo. Pior para ela! Nesse momento. Agiu muito bem.. Ela nos insultou. Mais dois golpes. e com meu cassetete. Ela lhe dá os parabéns. ela talvez ache que é uma porca que vai ser degolada. sou eu que vou lhe dar uma lição.É verdade. Na Índia.suspira um curioso. Os curiosos discutem com o carateca: . hierarquia. o respeito e a piedade pelo mais fraco não existem. A ordem indiana do mundo me revolta. os indianos estão sempre a repetir.Agiu bem. já que aprova seus métodos. se explica e o policial sorri. . convencido de suas boas razões.Não precisava bater nela! Não sabe o que diz. Egoísmo. enquanto o casal volta para o seu lugar. Na índia. Ele ajusta a gola da camisa e acende um cigarro. O policial e os curiosos vão embora.Quem sabe? Com a cabeça fora dos eixos. se arrastando até a escada da passarela.Está bem.) .. um cão de cáqui apareceu. esmagados. O carateca. e a velha escapa. . São oprimidos. . mas eu continuo a escutar a velha chorar. brutalidade. pois aquele casal me causa repugnância.. Tantas qualificações para a Índia e ainda não consigo aceitá-las. . intolerância. parece que a violência é a resposta para tudo.(No meio da escada. Mereceu apanhar.

. eles aí se sentam e as mulheres ficam no chão. Se uma mulher comete uma falta . ele bate nela.olharem direto em seus olhos e se sentarem perto delas. As célebres Leis de Manu. de 1956. Os hindus não se sentam ao lado de suas mulheres.. A mulher é comparada ao jogo e ao álcool.. Do nascimento até a morte. que datam de aproximadamente 2. após a morte deste. dizem. mesmo que sejam membros da família. É preciso estrangular esse vício." Para um indiano. bater na mulher é mais moral. esmagadas! Tradicionalmente. cujas mulheres gozam de uma posição mais elevada. Nem ela nem seus pais podem se queixar. Besteira! Só o excesso de pudor motiva sua moral. se só há uma cadeira. sádico ou violento. mas. Ela proíbe qualquer sinal que desperte a sensualidade e limita ao estritamente necessário as relações sociais entre pessoas de sexos diferentes. estipulam: "Deus atribuiu à mulher a cólera. É esse o respeito hindu pelo "sexo frágil"! São oprimidas. Ele tem o direito de dispor dela como quiser e não pode ser criticado. que proclama a igualdade entre filhos e filhas. foram os bárbaros britânicos que aboliram esse costume civilizado no início do século passado. mesmo bêbado. Comem antes delas e as trancam em casa . Por respeito. pois ela pertence ao marido. leproso. como se fosse uma casa ou uma bicicleta. Não tem o direito de possuir bens. Eles não olham diretamente para elas nem se sentam ao seu lado. as viúvas deviam se sacrificar na pira funerária do marido.menos entre os intocáveis.000 anos e governam a sociedade hindu." Atualmente. depois de seu marido e.. submissas. estas nem sempre têm direito à herança e. a mulher é apenas vício concentrado sob o umbigo e um instrumento do diabo para tentar os homens honestos. a desonestidade. a malícia e a imoralidade. apesar da lei da sucessão hindu. ela depende de um homem: primeiro de seu pai. mais respeitoso que olhar . deve ser venerado como um deus. raramente reclamam na justiça. casando-a na puberdade. de seu filho. Segundo a tradição hindu. As Leis de Manu são claras: "Um marido.ou o que o marido considera como tal. podem sair e até mesmo fumar e beber.

tanto como certamente devem detestar usar minissaia neste calor tropical.diretamente nos olhos a mulher de outro. ou avós. Nunca a vi fazer compras..E a confiança? . A pressão social é muito forte. seu marido traz o que é preciso." . Não ousei responder "Para ir ao cinema ou tomar chá". .Você proíbe sua mulher de sair? . e nas lojas quase só vi homens e crianças. há muitos carros na rua. Apenas disse: "Para fazer compras. Mesmo em uma grande cidade como Benares. . igualitária. Não se incomoda que sua mulher vá ao mercado? . Choca-se com toda a educação ocidental. minha filha vai à loja de bicicleta.Pode voltar três horas depois. Por que deixa sua mulher beber e fumar? . Mas na Índia as mulheres não gostam nem de beber nem de fumar.. Eu nunca conseguiria aceitar essa visão indiana das mulheres.respondeu.Como proibir o que faço? .Não. Vive trancada em seu apartamento.Por quê? .Nunca se sabe. perguntei a seu irmão Sanjay. Certo dia. De manhã. que recebi. ao voltar do trabalho. se expõe aos ladrões. Ele também me perguntou por que sua mulher ia querer sair. Dá vontade de vomitar. a maior parte das mulheres "não intocáveis" não trabalha e é prisioneira de seu marido. à noite. Isso é considerado normal. É melhor que eu faça as compras. Ele se esquecia dos 23% de intocáveis. Para quê? Tem de tudo em casa. Penso em Ram Singh. As outras indianas não gostam de fumar. Nunca experimentaram.Além disso.Certo. faz a lista das compras e. É asqueroso. com essas jóias. Penso na mulher do proprietário de onde moro. meu outro professor. É melhor. é perigoso e. na Ravindrapuri. Se há urgência e eu não estou.Ela é muito fraca para carregá-las . . Pode ir ao cinema ou encontrar outros homens. meu professor: .Ela não sente vontade de sair? .

Repito isto e não me envergonho. O título seria: "Misérias e esplendores da Idade Média. se a vida indiana não é uma tragicomédia. publicado na revista India Today. seres que constituíram originalmente a classe dos intocáveis. Aí está a civilização contra a barbárie. Mas com trens. isto é. uma selva. Na escada da passarela.Claro que não! Confio totalmente nela. "No Ocidente. Em seguida. se não quero passar a noite em claro. Caso contrário. as pessoas se unem porque se amam. acasalam-se os seres humanos como os animais domésticos no Ocidente: segundo o pedigree. porque não precisa. Assim. A alusão ao cachorro vem a calhar. porque gostam uma da outra. liga o marido à mulher. para impedir que degenerasse. ele disse. bestialidade. É como na selva". Hoje. em 15 de agosto. Penso em uma porção de coisas desagradáveis. . ela sai pouco. As uniões são arranjadas e endógamas. uma brâmane não se une a um ferreiro. possessiva. pois o próprio Ram Singh me respondeu que a endogamia preconizada pelo hinduísmo servia para melhorar a espécie humana. No entanto. Já tem muito o que fazer em casa. os indianos transam como os cães no Ocidente. Fazer amor como um cãozinho com pedigree ou como um coiote. Assim como não se cruza uma vira-lata com um buldogue. Na Índia. nasce um bastardo. no dia seguinte às núpcias. Como entre um cachorro e seu dono. a velha maluca continua a chorar. na pele de Ram Munda. somente uma relação hierárquica. Para o marido.. Nunca vou me esquecer de duas imagens: a índia. um canil." Eu me vejo em plena Idade Média. Sem comentários. e não é hora disso. o amor. O amor não os motiva e. intolerância. o chandal. Eu me pergunto se a estação de Benares não é um teatro. a amizade podem nascer. sua mulher é uma cozinheira e a mãe de seus filhos. Não uma amante. O casamento hindu não passa de uma cantina e um local para fazer filhos. Lembro do artigo sobre o racismo antiindiano na Inglaterra. a paixão. as duas imagens de uma humanidade bestial parecem ainda mais desagradáveis. Obscurantismo. a casta. como o patrão ao escravo. Penso na concepção hindu do mundo. e o Ocidente.

Na última vez em que foi preso. tinha ocultado um gravador em sua roupa e registrou o comportamento racista dos policiais ingleses. Tem razão. e a análise do jornalista Subramanian não me satisfaz. Detido cinco vezes e sempre inocentado. É o que devíamos fazer. disserta sobre o racismo dos bobbies ingleses.Por que está me batendo? . Apesar dessa gravação. Escutem: .Eles não fazem isso . Razão. os policiais franceses não adoram os árabes e os policiais americanos não têm afeição pelos negros. Mas não foi por isso que o artigo me marcou. . Nirupama Subramanian. Está bem. Sei muito bem que os policiais ingleses não gostam dos indianos. Ele protesta.. mas declarado inocente em todas. e o correspondente da India Today. Cinco vezes é muito para que não se dê atenção. Razão. Na Inglaterra. . . por ter batido em sua mulher. Mas não há fumaça sem fogo.Porque gosto.Natt disse. mas efetivamente talvez fosse melhor Natt voltar para a Índia. . Foi intimado cinco vezes pela polícia.um policial pergunta. ou seja lá de onde venha. O artigo me chocou pelo fato de Natt ter sido detido cinco vezes por bater em sua mulher.responde Natt. Para a Índia ou o Paquistão. Não sou nem policial nem racista. Este é o nó da questão.Você não tem o direito de me mandar voltar para o meu país . Quem sabe sua mulher retirava a queixa diante do juiz? Não sei.Ele me marcou. Conta a história de Malkanjitt Natt. imigrante em Londres há 12 anos.. Assim deixará de ser maltratado pelos bobbies. Não é com ardis que se integrará na sociedade britânica. a moral não permite mais que se espanque a mulher. Fico surpreso que não questione a conduta de Natt. . se quer continuar a dar surras em sua mulher.Por que não volta para seu país?. os carrascos de Natt foram punidos apenas com a suspensão de um dia de pagamento. Eles (os cães de cáqui) os levam para fora e atiram. agora sou um indiano.Sabe o que acontece em seu país? .

Eu entro. é a primeira vez que bebo para suportar minha metamorfose. Parece um galpão de fazenda com a calçada lamacenta. isso é inadmissível. O álcool ao estilo ocidental . A humanidade é tão suja. Se Natt quer usufruir as vantagens oferecidas pela sociedade inglesa. sintético. e todos os dias a imprensa local publica o assassinato de uma jovem esposa pela família do marido. o . Ela incentiva o assassinato. um honesto pai de família." Isto é.é muito caro para mim. Seria bom que o jornalista Subramanian não se esquecesse do principal. o homem que bate em sua mulher continua a ser respeitado? Compreendo. sem decoração externa. Estou melhor e sinto sede. Denunciar nosso racismo em relação aos estrangeiros e a condição miserável de nossas mulheres. na sociedade ocidental. ou então arrumar sua trouxa. é borrifada com gasolina e queimada viva. perto da estação. É isso.É evidente que a missão dos bobbies não é violentar os estrangeiros. o rum. que um policial. Tem de escolher. e vou até lá por volta das 20 horas. Estou farto de tudo isso.o uísque. Um desejo súbito de me embriagar. mas sei de uma lojinha que vende álcool sintético. O bar se oculta no fundo de uma viela que dá para a avenida Raja Bazar. mas. Um cartaz indica: "Loja do Estado de álcool nacional. Como posso dormir? 13 de novembro Mendiguei pela manhã e fiz a sesta a tarde toda. Fede a vinho ruim. a cerveja . os indianos. porque não levou um dote satisfatório. É uma decisão importante. Em geral. Fazer já uma faxina entre nós. suas riquezas. Estava exausto. Se a intenção não é se embebedar. sem com isso justificá-lo. sinta vontade de corrigir um canalha como Natt e lhe sugerir retornar a seu país. É uma construção retangular. A adega e a vinagre. Raramente a polícia prende os assassinos. O divórcio é uma infâmia e só a morte da esposa dá uma liberdade honrosa ao marido. tem de aceitar as regras e parar de bater em sua mulher. Mas ao lado um sujeito aperta um saquinho plástico de álcool sobre sua boca bem aberta.

Tem a tez clara. curto e para trás. Não é um mendigo. Uma dezena deles. raro na Índia. dos clientes que discutiram com ele. À esquerda. loja do Estado. duras de sujeira. Na outra extremidade de meu banco. de um metro e meio por meio metro e bancos onde uns caras bebem. 25 graus. usa o mesmo penteado. Além disso. um pouco eriçado. Não vim aqui para lamber a mesa e o chão. que conheço desde a escola primária. rosto oval e cabelo castanho. depois abre a boca e derrama de uma vez só os 20 centilitros de aguardente. o que me custa uma rupia a mais. na praça d'Anvers. a um metro do solo. O local mede cerca de 50 metros quadrados. Estou pouco ligando. cheio em 1992-93. O próprio malandro parisiense. Lavo o copo na torneira do barril e a água borrifa meus pés. dois sujeitos de lungi bebem bastante. Nós o chamamos de "o colorido" por causa de sua cor âmbar. Suspende a respiração. As paredes lascadas estão pintadas de verde-claro. O preço de sempre. maltrapilhos como eu. fala com os amigos sobre o trabalho de condutor de carrinhos. atrás de uma grade. há um barril de água e. à direita. Nenhum enfeite. feições européias. É verdade. Mergulha livre na . ao comprido. Há sete mesas. Ele me lembra meu amigo Roger. Usa uma camiseta e uma calça branca suja de urina. comum. O preço está rabiscado em um papel preso na grade. Estão sozinhos ou em grupos de dois ou três. e 15 rupias o de álcool perfumado. O de sempre. o chão cimentado está deteriorado e deixa entrever um piso mais antigo de cerâmica vermelha." É isso que importa. Ela é pegajosa e gruda nos dedos. de uns 30 anos. Compro um saquinho do comum e peço um copo. Sobre o saquinho de álcool está impresso em hindi: "Álcool nacional comum. A superfície do banco também.melhor é ir embora. Aí deixa de se parecer com Roger. É mais jovem. tem conversa. Depois me sento à mesa. usando lungi ou calças esburacadas. um sujeito de uns 40 anos vende os saquinhos de álcool. Rasga o saquinho com os dentes incisivos. Exceto quando bebe. como se tivessem sido engomadas. Treze rupias o saquinho de 20 centilitros de álcool branco. Um terceiro homem se junta a eles. e reparo que o chão está coberto de cascas de amendoim e de papel gorduroso. aos pés de Montmartre. Simpático.

Em muitas famílias. Tem o mesmo cheiro. Na avenida Raja Bazar. De qualquer modo. Que delícia! Minha cabeça gira. Tenho de tratar de mim mesmo. Raja Ram me disse que os cristais no fundo do saquinho eram detergentes. no inverno. Nesta noite. Vou dormir como um anjo. Em Benares. experimente o líquido de lavar vidraça. encontrar alguém simpático que possa se tornar meu irmão. Não é álcool queimando. vários sujeitos se deliciam. Meu amigo bebe. Eu também. Estou feliz. Em casa. conseguirei fazer algum amigo. Mas ignorava para que servia esse sedimento. Esse cara não é Roger. O cheiro do álcool queimando persiste. as mulheres são vegetarianas e os produtos animais são proibidos em casa. como intocável. É possível. O ovo frito cheira bem e. É apenas para se embriagarem. 14 de novembro . Agora eu sei. na estação. Rasgo o saquinho e encho o copo. Bebe saboreando. a noite é fresca.embriaguez. Como se acabasse de engolir uma poção infecta. e alguns fecham os olhos e tampam o nariz para beber. Depois joga o saquinho vazio no chão e expira aliviado. Não sai. Eu me pergunto se. Bebo em três vezes. "Uau!". Inclusive o uísque e o rum. mas esta bebida de 25 graus tem gosto de cortiça. Termino meu saquinho e saio. Os indianos estão sempre me surpreendendo ao beberem de um trago só. esse odor repugnante que lembra o de benzina. No paraíso. É como o líquido que utilizamos na França para lavar os vidros dos carros. Água. tendas ambulantes preparam omeletes. O anticongelante começa a me aquecer as orelhas e me sinto bem. faço a festa e compro uma omelete. Eles não gostam do sabor do álcool. sacudindo a cabeça e estalando a língua. Leve. um pouco de álcool e detergente. Isso abre o apetite e os homens gostam de sair para comer ovos. se quer saber o que estou bebendo. A vida tem lados agradáveis. Sim. mas nunca sem degustar. diante de cada uma delas.

De Ranchi. senão me levarão à delegacia para me interrogar: . Um gordo. E por que veio mendigar em Benares? . Sempre achei que essa lei não era aplicada. o privilégio de castas.. me lembro que a mendicância é proibida em 15 Estados indianos.Veio em peregrinação? .O que está fazendo? -. Um problema grave. maluco. late o gordo.Eu.O quê? (O medo me paralisa e fico mudo. Tenho de fugir.Pare. Como as contra os dotes. . . Muitos mendigos andam livremente por Benares. Tenho certeza. Esmolei ao longo de um trem na plataforma número três e dois cães de cáqui me detiveram. Parecem mesmo sangue seco.O que está fazendo? Paro de respirar e tenho a impressão de que a estação vai desabar na minha cabeça.suspira o cão magro.De Ranchi. Além disso. . O medo me deixa mudo. .De onde? E seu nome? . Eu me chamo Ram Munda. Logo o policial gordo barra meu caminho com o cassetete. . inclusive em Uttar Pradesh. É o seu? Ele se refere às manchas de nitrato de prata que fiz para envelhecer o pano. .) Fale! .. Até agora isso não tinha me preocupado.Vim em peregrinação e mendigo para comer. . Também brigou? Estas manchas na sua roupa são de sangue. . e ando. . . com um cassetete.. Ele vai pedir minha identidade. você tem língua? .Gordura? De onde você é? .Está bem. além disso. a corrupção e muitas outras.É um louco .insiste o gordo.Não é sangue! É gordura. – Então mendiga. e um alto e magro com um fuzil a tiracolo.diz o gordo com um ligeiro sorriso. Não sei como se diz "nitrato de prata" em hindi e. peço esmolas. O que faz aqui? . Sou aborígine.Nove horas da manhã.Ei. E se descobrir que sou um impostor?. Preciso inventar logo alguma coisa. Eu me viro. não posso contar a verdade. como se não tivesse entendido nada..

Ainda tremo de medo. como a água do Ganges. Cheio. Se. Almoço. Sou levado contra a vontade. seis quilômetros ao norte. Faço a sesta. uma centena de moscas gira em torno de mim. É inútil me debater. além de tudo. em uma democracia. Finalmente. e sua corrente desce e sobe. Nasci em uma geleira e meu destino me leva irresistivelmente ao oceano. Lembro-me que em 28 de outubro. Há demais no meu mundo. onde serei libertado. Vivo na estação há mais de duas semanas e estou cheio. ao longo da via férrea que passa diante de mim. quando pregava em Sarnath. Eu me pergunto se Buda também atraía moscas há mais de 2. véspera de minha partida para a estação. ainda me arrisco a ser preso como ladrão. Espero. Cheio. Vá! Obedeço e esmolo ao longo de um vagão. li no jornal Patrika que o governo central decretara nova lei contra a mendicância. Como.. Faço a sesta. onde me fundirei ao universo. E depois? Verei. Qual é o risco de mendigar? Não sei. Minha existência me faz pensar na de uma gota de água no rio. encarcerar um milhão e meio de mendigos? Sinto um arrepio e medo de que a prisão seja para mim.000 anos.Está certo. Cheio. Por enquanto. mas não as afasto. Economizei umas 15 rupias. Não tenho coragem de estender meu prato. Deitado na plataforma da estação. As moscas da estação são carnívoras. não me resta mais nada além de esperar a morte por inanição. se só houver uma chance em mil de cair sobre um mendigo. Ela prevê de seis meses a dois anos de prisão. O rio e a sociedade. Há séculos desisti de fazê-lo. Sugam meu suor e minha carne. mesmo que seja mais uma lei sem aplicação. Não me preocupava com isso. Depois subo a passarela para avaliar a situação. Dá para agüentar dois ou três dias. Fumo biri e deixo o tempo passar. . Nada a detém. Pode esmolar. acelera nas passagens estreitas e se torna mais lenta nas curvas. com um programa de reintegração na sociedade para aqueles que mendigam. pertinho. pois os policiais nunca reparavam em mim. Sinto um calafrio.

para ser libertado do ciclo de reencarnações. A santidade da cidade os atrai aos milhares. Nós dois somos de Bihar. Viver é um esforço inútil. O que faz com que esse santo e eu. Ele me pergunta com um pouco de desdém: . duas maçãs. um asceta. tenhamos algo em comum. Podia pelo menos me oferecer um chá ou um . Sentado ao meu lado. Depois ele comprou um chá e. um santo. à sua família. à sua casta. Esses homens renunciaram à vida na sociedade. As cinzas. mas eles são recrutados quase sempre entre os brâmanes. Se continuar assim. Não acredito nisso. .Muito bem. Ignoro se elas existem realmente. veneram que deuses? . aos prazeres da carne e da comida. Penso assim. Como o camembert. Teoricamente. um intocável. ao cosmos. os aborígines. Mais para quebrar o ritmo que por vontade de fumar. às ambições e aos bens materiais. um velho monge hindu.Shiva e Durga. Esse tipo de preocupação em um monge me surpreende. Veste-se com um pano cor de açafrão e abriga um ninho de piolhos no cabelo grisalho. mais alto que em Bihar. pois detesto a religião. se unir a Deus. Há muitos em Benares. vai acabar com meus fósforos. Passei na prova de catecismo e ele começa a falar sobre o custo de vida em Benares.Vocês. despenteado e grudado de sujeira que emoldura seu rosto coberto de cinzas. Tem dinheiro e fuma um biri atrás do outro. e meu vizinho não carrega tal engenho com ele. o ninho e a cor de açafrão constituem o uniforme desse monge. Alguns chegam a praticar penitências. Como as moscas sobre um monte de lixo. Temos um templo para cada um em nossa aldeia. todo hindu pode se tornar um sadhu.Enxotá-las é um esforço inútil. Deixo as moscas me saquearem e de vez em quando acendo um biri. Além do mais. em Bihar. Conversamos. a existência tem objetivo? Meu vizinho sadhu pede um fósforo para acender seu biri. Ele do Norte e eu do Sul. como ficar sobre tábuas de pregos. Ele veio em peregrinação a Benares e espera um trem para retornar a seu mosteiro. Nunca vi nenhuma. A ascese propiciaria a descoberta do objetivo da existência. meia hora mais tarde. Nem na metempsicose nem em Deus. um sábio. É um sadhu.

Cretino! Avarento! Egoísta! O hinduísmo torna a pessoa egoísta. Decide arranjar outro para ficar de reserva. Não posso evitar.. Eu era ingênuo. sua educação ocidental. Ao contrário dos santos cristãos. só levando um único pedaço de pano para se vestir. Rama é nossa salvação!" Sei de tudo isso. vive confortavelmente. discriminadora e egocêntrica. A partir de então. Preconiza o desapego na ação e exacerba o individualismo. enquanto o cristianismo.. Santo pai! Em janeiro passado. mas sem um esforço especial. os sadhu não têm a missão de servir ao outro. um pregador contou a história de um sadhu. voltados para si mesmos. Define os deveres de cada um diante de Deus. exceto que os ratos roem o pano que não está vestindo. e procuram salvar somente sua própria existência. adquirida graças à ascese. com ele sou obrigado a papear sem me sensibilizar. mas logo descobre o desconforto de ficar nu esperando que o pano seque depois que o lavou. Cada um por si e Deus por todos. Vivem fora do mundo. contanto que eu cumpra meu dever. Ainda sou. e não importa o resultado de meus atos. religião revelada por um messias e mais moderna. O tempo passou e um dia o guru cruza com Ramesh descendo a montanha. estabelece uma espécie de contrato pessoal de casta com uma pretensa ordem universal que ignora as relações com o próximo. O hinduísmo é uma fé centrada no ego. Faço o melhor possível. Pensava em Gandhi. Meu sadhu fala do custo de vida e compra frutas e chá. É uma religião cruel. no interior de comunidades monásticas.. de fraternidade. Ele reflete e encontra uma solução. O que tiver de acontecer acontecerá. Fica a sabedoria. Não. O guru pergunta: . Nunca me esqueci: "Ramesh quer se tornar asceta e alcançar a redenção.. Ramesh obedece. "Nada de agradar aos outros. A comiseração de Gandhi talvez traísse seu lado cristão. em uma transmissão religiosa da BBC International. Esperava encontrar nele um pouco de sabedoria. Seu guru lhe diz que se retire para o Himalaia. é voltada para o próximo. mas esse primeiro encontro com um sadhu continua a me surpreender. para o homem na sociedade.biri.

Depois. O guru tinha razão. pois a vida de Ramesh não tem nada a ver com a de um asceta. o que talvez explique minha fraqueza física e moral.Aonde vai? . É duro. Sei que devo renunciar a todas as ambições e desejos. no ghat Dashashvamedh." Esta história me confunde. sairei de novo. e sei que não quero viver na pele de um mendigo.Sim. muito menos com um pano apenas.E tem um gato! . Espero a noite e. esperar. devo ter emagrecido vários quilos. mas eu também sou Ramesh. Tenho uma mulher. anotarei tudo que vivi. Este pano é porque. sinto as costelas. Devo alimentá-la. com todos os outros mendigos. por volta das 22 .Para pegar os ratos que roem meu pano de reserva. O que fazer? Por enquanto.Tenho uma vaca para dar leite para o gato..Também tem uma vaca! Afinal. Voltarei a ter minha cor. Ando o dia todo em torno da estação. . Tenho problemas com minha vida de sadhu.. se não quero mais sofrer..Trabalhar.diz. Ramesh devia se satisfazer com um só pano para conseguir se libertar dos vínculos com a terra. A chuva ou o sol. Meu vizinho sadhu é Ramesh. De repente. .Como? Você trabalha? . intrigado. Apalpando meu abdome. Para ordenhar minha vaca. Como um legume.. Ramesh compreende seu erro. o guru.. .Sim. 15 de novembro Não ouso mais mendigar na estação.Está com uma mulher! . O dia e a noite. descansarei por uns dois dias e me recomporei com umas boas refeições preparadas por minha mulher. . Tentarei esmolar à beira do Ganges. que vida você leva? . Acabou. Decidi voltar para casa. .

ao chegar em casa. pois são tão magros. que temos a impressão de que estão mortos de fome. Sou um sub-homem? 18 de novembro Ainda não tomei a sair. Eu me pergunto se há muitas coisas similares que redescobrirei quando deixar de ser um mendigo intocável.horas. tão fraquinhos. Enquanto isso ela me prepara um jantar. depois tomo um banho. E é genial. Sim. Cansei de bancar o intocável e adio minha partida. Prometo. relaciona o . Preeti Singh. Estou farto. me deparei com um artigo espantoso. nem devorar metade de um frango indiano. cheio de bolhas. Não devo pensar nisso. seu autor. Falo mais da Pepsi que dos beijos de Gloire. Esqueci que existia algo tão refrescante. estas primeiras semanas de Ram Munda e folheei os jornais. Eu a abraço e beijo durante cinco minutos. Tal fausto me causa estupefação e a Pepsi parece ser Dom Pérignon. Que estalam na minha boca e excitam as papilas de minha língua. sentia-me tão cansado que dormi a manhã toda. Mas esta noite me obrigarei a partir. No Patrika de 29 de outubro. Que luxo! É formidável. Eu me levantei para comer a metade do frango que Gloire tinha preparado e voltei a me deitar com ela. No final da tarde. como se tocassem uma sinfonia gustativa. Bolhas. volto a pé para casa. desde que encarno Ram Munda. Não quero que nenhum vizinho me veja. pois esta bebida me deixa pasmo. Basta. Esta volta é provisória e me lembro de que a sociedade me considera um sub-homem há 20 dias. Minha mulher fica muito feliz em me ver. Quero deixar claro que não é nenhuma façanha se demorar na cama com a mulher depois de 18 dias de separação. por escrito. Um líquido fresco. Anteontem. doce e ácido. comecei a recapitular. Eu me sirvo de Pepsi gelada.

é mais fácil humilhar uma mulher.. Primeiro. branco igual a casta superior. Terceiro.. ontem e hoje acordei ao amanhecer para tingir minha pele. e tenho a impressão de voltar ao século passado.. Em compensação. Bem. Preciso do anonimato propiciado pelas cidades grandes para realizar minha metamorfose. os exércitos privados dos proprietários responderam às sublevações dos intocáveis e dos sem-terra estuprando suas mulheres. São ainda mais infames que nas cidades. Além disso. O artigo: “As vítimas de estupro pertencem geralmente às classes intocáveis ou aos sem-terra. Em uma aldeia. Um oficial da polícia assinalou negligentemente que nenhuma mulher morre de estupro e que este fenômeno existe desde que o homem e a mulher vivem na Terra.estupro ao sistema de castas. Infelizmente é impossível. Tudo bem.. e os estupradores são homens ricos ou proprietários de terra. pois são mais tradicionais. o estupro serve de ferramenta para governar a zona rural. a sociologia do estupro se fundamenta no sistema secular das castas. foi assim que passei a segunda-feira. não conseguiria me misturar à massa. Segundo. 45 anos depois da partida dos britânicos. Não usei a tintura de cabelo na pele. Em Bihar. logo reparariam em mim. na varanda. Este crime não é somente uma afirmação do poder feudal decadente (das castas superiores). pois não preciso escurecer demais para ser intocável. No campo. " Repugnante! Não é a primeira vez que leio essas informações sobre as condições de vida dos intocáveis no campo. Não atacaram os homens. Para testemunhar isso é preciso ir para o campo. atingem os intocáveis onde machuca mais. Tomei dois metoxipsoralenos e me bronzeei durante a manhã toda. Negro igual a intocável.. estou caramelo. Esta indiferença representa a opinião de vários compatriotas que acham o estupro um ato indesejável. mas inevitável. ser um indiano comum... no Sul dos Estados Unidos. quando fico muito preto. mas também uma chamada (aos oprimidos) avisando que a revolta é proibida.. Também untei o corpo com duas camadas de nitrato de prata. A sociedade indiana se preocupa com este problema?. estuprando as mulheres. .

Blablablá. Sentem-se prejudicados por causa de seu "nascimento superior" e consideram o sistema de percentagem antinacional. nem queimar ônibus. Recomeça a "guerra das castas". levando à contratação do pessoal menos qualificado e atrasando o desenvolvimento da índia. Manifestações públicas. Em compensação. Grosso modo. lojas destruídas.. Barulho e fúria. como no outono de 1990. não param de alegar a ausência de candidatos ... Mais uma vez. que se fixará melhor e será substituída pela poeira das ruas. Isso corresponde aos postos que lhes estão reservados. ônibus incendiados. Digo isso porque os estudantes brâmanes não precisam se preocupar. Como sempre. bombas. A metade das colocações do funcionalismo público será bloqueada para elevar a condição das classes desfavorecidas. e os agentes recrutadores. mas na segunda-feira a Corte Suprema aprovou sua constitucionalidade. e os estudantes das castas altas tornaram a ir para as ruas. minha cor logo desbota. prefiro sair com uma tez menos densa. que pertencem à máfia das castas altas. É mais seguro. um candidato intocável medíocre encontraria um emprego mais facilmente que um brâmane brilhante. Ninguém notará se minha pele clarear. Os estudantes das castas superiores estão furiosos. Os estudantes das castas mais altas protestavam então contra um decreto que reservava 27% dos empregos na administração central para as "classes atrasadas".como nos primeiros dias de minha metamorfose.. A justiça tinha suspendido a aplicação desse decreto. ônibus incendiados. Suas cotas nos empregos interessantes muitas vezes não lhes são atribuídas por múltiplas razões. depois de mais de 40 anos de exercício das cotas. Os 27% se somam nos 22. constituem 85% dos garis e 28% dos agentes técnicos. houve um excesso de violência. À tarde. mas. sua representação na administração pública não passa dos 10%. nem se sacrificar. bombas e até mesmo o horror do sacrifício pelo fogo de vários estudantes. continuei escrevendo minha aventura e li os jornais.5% já reservados aos intocáveis. nas manifestações na índia. O país está em chamas desde ontem. Os intocáveis representam cerca de 23% da população indiana.

o zoo hindu com os homens puros e os sub-homens impuros. Mesmo que a função pública só se aplique a uma minoria. São impotentes frente ao curso progressista da História e agem como homens desesperados. a fúria dos estudantes das castas altas não é motivada pelo medo de ficar sem trabalho. mas de que seu poder tradicional se desfaça. todos os hindus. como os barbeiros. Percebo que não são mais os brâmanes que conduzem a dança. seria preciso definir agora o que são "classes atrasadas". esta semana é importante. Para aplicá-lo. como os brancos extremistas na África do Sul que recusam o fim do apartheid. os leiteiros? Também inclui as castas dos comerciantes vaishya. É preciso privilegiar as camadas desfavorecidas. Este termo define somente os shudra. perpetuem essa estrutura e criem privilégios e desvantagens de nascença. Pobres. As bolsas de estudo não bastarão para introduzi-los na sociedade dos homens livres e iguais. isto é. Mesmo que uma verdadeira reforma agrária seja mais útil para nivelar a sociedade indiana e romper com o sistema de castas. se se queimam vivos para se manifestarem contra nós. confesso que não jogarei nem um balde de água sobre eles. em vez de nos agredir. mas igualmente humilhados. paradoxalmente fundadas nas castas para mais tarde aboli-Ias. Mesmo que os empregos reservados não sejam concedidos. A Corte Suprema compreendeu isso. Mesmo que as cotas. os pescadores. perpetuar a sociedade escravagista. Garanto que os brâmanes e os rajaputros podem dormir tranqüilos. será um alívio! Querem manter nossa cabeça dentro d'água. Muito bem. Que morram. Na realidade. como os Agraval. Esse novo decreto destinado a privilegiar as "classes atrasadas" não será sentido antes de muitos anos. castas de criados que se situam acima dos intocáveis. menos os brâmanes e os rajaputros? Inclui os muçulmanos e os cristãos? O que significa "atrasada"? Econômica ou socialmente? Levará anos para que todos os indianos entrem em um acordo. . já que tudo em que toco é impuro.capacitados. A decisão da Corte Suprema está na direção certa.

no meio de suas tralhas. Para trepar. Caixas. Droga de cachorros. é uma ilusão. Estendidos pelos degraus. Até mesmo à noite. aqui. no alto do ghat. Sempre dignos de pena. Elas se aquecem. quando se é muito pobre e só. dessa longa escada de pedra que mergulha no Ganges. Também é preciso reaprender a não se melindrar com os cachorros. quase um luxo. em Benares. incógnito. Eu a alimentava lendo os jornais. Latem e correm uns atrás dos outros. os mendigos permanecem fiéis ao posto. Aí estão as casas desses homens-tronco. com minhas roupas de Ram Munda. Atravessando a cidade. Embaixo. Diante dos banheiros públicos. São uns 15. uns 20 leprosos estão deitados na beira da calçada. Na Dashashvamedh. e me pergunto se todos os homens do bairro não se reúnem depois do crepúsculo para borrifar o pedestal de dois reservatórios de água suspensos na margem. e sei que as invejarei daqui a pouco. outros mendigos dormem ao longo da balaustrada que acompanha o ghat. . papelão. à margem do rio sagrado. Sob cobertas. O mundo evolui. três velhas abraçadas umas às outras. um programa de televisão muito popular que apresenta os novos filmes hindi. os vizinhos estão fechados em casa para assistir Chitrahar. Leprosos e saudáveis. Aproveito para reaparecer. Homens e mulheres.Por volta das 20 horas. plásticos. cabras e vacas que saltitam no cenário e cheiram os que dormem e os que passam. encerrado em meu apartamento na Ravindrapuri. De início o fedor choca. Os outros mendigos estão isolados e não parecem viver em tribo. Os indianos confundem seu membro com uma mangueira. de rostos e membros corroídos pela doença. o calor humano parece um conforto. Está fresco e. só pensam nisso. trapos. A propósito. De fato. E são tão feios. fede mais ainda a urina. mas eu me acostumo em alguns minutos a este cheiro tão indiano e acho que voltarei a me habituar a fazer minhas necessidades ao ar livre. sob toldos. Saio para a Dashashvamedh e sinto o coração leve. Mais perto do rio. sinto que nada mudou desde o domingo. ao contrário dos leprosos que acampam perto dos banheiros. Jovens e velhos.

Você é estranho. mordem e se perseguem uns aos outros.. O sacerdote está sentado feito Buda e brinca com um passante. Ele prossegue. pardos ou pretos.disse. há um estrado onde um brâmane abençoa os peregrinos e espero que minha proximidade não o incomode. poeirentos. entre os mendigos solitários.Bem. Sinto medo de importuná-los e sujá-los com minha presença.. autoritário: .. . sob a luz de um grande lampadário. Está sem camisa e seu cordão sagrado pende sobre o ventre imponente de quarentão bem instalado na sociedade. vá se deitar em um dos estrados mais embaixo.Não pode dormir aí. três ou quatro machos vão atrás. sim. no ghat. Não se queixe. Nesta primeira noite à margem do Ganges é mais prudente que na penumbra.gaguejo. Ficarei melhor nas tábuas limpas do altar de um brâmane do que sobre a pedra dura e suja de terra dos ghat.Vai dormir aí? . mas o sentido geral.Bem. me referindo aos outros mendigos que estavam um pouco mais acima. Vivo na selva. destinado aos brâmanes. Ao lado. adivinho.Não sei. Estendo meu oleado sobre um degrau livre. Ele aponta os estrados vazios onde os brâmanes professam durante o dia. .magros. Ele tem razão...De onde você é? . Não ouso ir até lá.. Eu me afastarei dos outros . Lá ficará mais à vontade. Grunhem. diz: . Quando chega uma fêmea.Posso dormir com eles? .Do Jharkhand. . Senhor Pandit . . é que não posso dormir perto de onde abençoa. Que ambiente! Mas compreendo que meu lugar é aqui.Por quê? Resmunga alguma coisa que não entendo direito. sarnentos. . Ao me perceber. quase sempre cobertos de cascas úmidas ou de feridas manchadas de sangue. Vá dormir em um dos estrados embaixo. utilizando este título respeitoso. pelos curtos.

qual é sua casta? . concentrado. Mendigo para viver. . A noite. como sou prudente. Elas me mordem. Nunca criar caso é o meu princípio.mendigos. Isso tem dado certo há três semanas e. mas obedeço sem pedir explicações. os sinos do templo dedicado à Mãe Ganges param de soar por volta das 23 horas e não à uma e meia. -Azar o seu! Vá se deitar lá embaixo. Devem ser deixadas pelos cachorros que se deitam nesses estrados. É mais calmo que a estação. Úmido.ele zomba. Além disso. Dormir. Posso recusar sua sugestão sem provocar suspeitas? . discussões de musahar. é menos iluminado. As cabras e as vacas também desfilam.Está bem. excessivamente aspirado pela multidão.Embaixo é perigoso. Dormir. Estendo meu oleado sobre um estrado. Ao chegar. nem o ruído dos passageiros. Não respondo. Tampouco se ouve o barulho de trens. como as odes a Krishna na estação. buzinas de caminhões. Ignoro o que ele quer dizer com "azar o seu". Mas não vim até aqui para acampar como um marajá ou um sacerdote.. sou aborígine. À esquerda.. Também há pulgas sobre a tábua de madeira. De repente deixo de aproveitar o frescor do Ganges. uma brisa fresca sopra do rio.. . Seria perfeito se as margens lamacentas não atraíssem tantos mosquitos.Por que veio a Benares? . Eles devoram meu rosto e me cubro com meu fular. Como cair no sono? Penso no garoto de 10 anos que estudava sob a luz de um lampião no mercado de legumes.. no alto da escada.Eh! Na selva você tem medo do escuro? .pergunta. Amanhã poderá mendigar na escada. Ele me pôs em meu devido lugar.Sou Munda. . E eles vêm me cheirar a cabeça e os dedos dos pés. . o ar é sufocante. Na estação. Depois irei a Allahabad e a Ayodhya. o ghat é deserto. Quero voltar a ser um mendigo e intocável. me deito e me cubro. dei uma . A propósito. não mudarei de método.Para fazer uma peregrinação. Cães imundos.

quatro minaretes e lagos resplandecentes. A noite foi feita para dormir. Há ." Obedeço. Parecido com o Taj Mahal. em voz alta. magro. de pé. Pequeno. e os sinos nas proximidades soam. com um grande domo. sob a forma do terceiro olho. mas consigo cochilar durante duas horas. é a mesma coisa. Não reajo. É incrível. O sacerdote me enche o saco. como se fossem os donos do lugar. Sou despertado por vibrações sobre meu estrado. Os sacerdotes conversam entre si. Vai recomeçar. Um cordão sagrado. caminhando no parque. os lagos se transformam em piscinas e garotas de biquíni se banham. Incenso. Um clarão róseo ilumina o horizonte. a partir daí. O sol brilha e Raja Ram me diz como é bom Coca com rum. fazemos amor com todas. o do conhecimento. sobre os outros estrados. O escuro. Elas se parecem a Madhuri Dikshit.volta por ali e percebi que a maioria dos vendedores pertence à casta intocável dos sonhar. O frio que precede a alvorada me gela. Moro com Raja Ram em um palácio de mármore branco. não me lembro direito. pedaços de coco. Ela me faz perder a consciência e sonho. Mergulho na piscina. Meu espírito se confunde. Um brâmane. Depois. sobre a margem oposta do Ganges. você. Ele me diz: "Ei. Então. e uma bandeja de couro com um pó vermelho para aplicar sobre o rosto dos devotos. Sou muito rico. os sacerdotes também ali se instalam. A imagem desse menino mergulhado nos cadernos é doce e dá esperança na elevação da condição dos intocáveis. desfalcados opúsculos. 19 de novembro Três e meia da manhã. uns 40 anos. como sempre. em sânscrito. mas. pois desembrulha uns troços de sacerdote. Bebemos Coca com rum. sob a camisa desse homem. Ele dormia aos meus pés quando um sujeito o chutou. A penumbra. algumas flores de cravo-da-Índia. Em seguida. um grito de cachorro. potes de óleo. Como os cachorros. acho. Os seios comprimidos nos sutiãs apontam para o alto e dão a impressão de servirem de bóias para nadar. Subo alguns degraus e me deito. Mas.

Um pouco mais acima não deve ser tão ruim e vou para lá. Este local é reservado.O que faz aqui? .Onde posso mendigar? . jovens. Li que os mendigos de Bombaim ou de Calcutá se agruparam em gangues.Quem é você? . Tampouco parece ser um local ruim. Os mendigos despertam. com a barba grisalha. Outro sujeito logo vem me desalojar: . no meio da escada. e nem bem coloco a coberta sobre os ombros os primeiros raios de sol despontam.três semanas assisto a auroras e já não me sensibilizo com o espetáculo. Insisto que meu lugar não parece ser com eles e esmolarei na escada. mas não pedirei esmolas na entrada do ghat. com os mendigos que parecem solitários.Quem é você? Saia daí! O lugar está tomado. . já que trabalha aqui. Ele somente me anuncia que o sol vai explodir dentro de meia hora e que uma onda de peregrinos e de turistas afluirá. Um velho bem-vestido.Bem. Aqui. para na minha frente. Esta manhã vou conseguir esmolar aqui. Mas não quero me atrasar nem ficar em um lugar ruim. alinhados no lado direito. . Tudo em vão.Não pode ficar aí. Devem estar lembrados de que já tentei trabalhar nessa escada e fui rejeitado. leprosos. . Apóio-me no corrimão. Já estão ali uns 20. Os mendigos vão chegar em . mendigo. morenos. e fico achando que ele deve saber o que diz.Cheguei ontem à noite.. Passarei despercebido. doentes.Vá embora! Depois disso voltou para seus recipientes de água santa.pergunta. sadios. Vá! . Abre uma tenda de cantis de plástico. Cai fora! . mulheres. Em Benares. brancos.Lá? . junto com os leprosos. sobre um degrau livre. Homens. não sei a que horas começa a jornada de um mendigo. evitando criar problemas. Não posso perder tempo. Velhos.. garotos.Mais em cima. . E me levanto. ainda não tomei conhecimento de tais organizações. .Aponto o alto da escada. O mendigo vai chegar. Os peregrinos os utilizam para levar um pouco de água santa do Ganges.

cinco minutos. Vão expulsar você. - Onde posso mendigar? - Onde quiser, menos aqui. De onde você é? - De Bihar. Do Jharkhand. Dá de ombros e desce para o Ganges. Eu me afasto e me sento no lado da escada, diante de um pequeno templo a Rama.- Acendo um biri e estudo a situação. O dia nasce e a cidade desperta. Os devotos começam a descer na direção do rio, mas ninguém me lança sequer uma moeda. Em compensação, do interior do templo um balde de água voa sobre minha cabeça, depois um jato de cuspe vermelho de tabaco cai a dois metros de meus pés. Parece uma mancha de sangue sobre a pedra cinza; é a primeira vez que cospem em mim. Não é nada agradável, podem ter certeza. Mas fico calado, como sempre. Um mendigo jovem se instala contra o corrimão, no patamar que eu ocupava antes. Tem a minha idade, a pele cor de carvão de pedra, com placas de sujeira, como se tivesse sido lambuzado de graxa. O branco brilhante de seus olhos, fixados em seu rosto escuro, faz com que tenha uma expressão inquietante. Não demora e o velho que me expulsou o aconselha a ir embora. Meu colega permanece no lugar, e o velho vai embora. Talvez eu tenha obedecido muito rápido. Devia ter ficado. Não tive coragem, mas essa parece ser a técnica para se impor ao longo da escada, quando se é novato. Resta um metro e meio de corrimão livre ao lado do jovem mendigo. Vou até lá. Um mendigo velho, instalado três degraus mais abaixo, me manda embora. Digo que não. Ele acrescenta: - Vão chegar cinco mendigos. Vão bater em você. - Não se preocupe - respondo calmamente. - Vou mendigar aqui e, quando os outros chegarem, a gente se aperta. Está bem? - Não, não está. - Paciência! O velho não se mexe e eu fico. Tenho razão, pois, cinco minutos depois,

chega apenas uma mendiga. Exige meu lugar, dando a entender que é dela. Eu me afasto um pouco e ela se senta resmungando. Não dou importância. Percebi que se me deixo expulsar, nunca me integrarei. A mendiga tem uns 60 anos e a tez caramelo. É elegante para uma mendiga. Veste um sari de algodão barato, mas limpo e sem estar rasgado, e usa pulseiras de metal que parecem de prata. Ela se acalmou e me pergunta quem sou. Respondo que de Bihar. - Estranho, não fala como a gente de Bihar. Tem o sotaque da Caxemira. - É porque vivo na selva. Temos nossa própria língua. Sou aborígine. Sou Munda. - Munda... É muçulmano? - diz com desdém. - Não, sou hindu. Não há Munda muçulmanos. - Ah, bem! - É verdade - diz o velho mendigo, no degrau de cima. – Os Munda não são muçulmanos, é uma casta hindu de varredores. Isso significa casta de intocáveis, e não o contradigo. É perfeito. Só quero ser tomado por um mendigo intocável. O resto não me importa. O velho que me toma por um varredor enrola uma faixa no pé esquerdo. O pé parece em perfeito estado, mas ele quer bancar o doente. Nada bobo. Estende, à vista dos passantes, o pé estropiado. A bola vermelha do sol está a uns quatro metros acima do Ganges. Seus primeiros raios são agradáveis e tiro a coberta dos ombros para aproveitálos. Somos cerca de 30 mendigos. O prato, à nossos pés. Alinhados do lado direito da escada. Não sei por que e não ouso perguntar a meus vizinhos. Desde o nascer do dia, as pessoas descem para fazer suas abluções no Ganges, e alguns de nós ganham esmolas. Talvez um em 100. Imito os outros mendigos. Em geral, não estendemos o prato, esperamos que dêem espontaneamente. Mas um velho, no alto da escada, esmola com uma gamela, perto de cada pessoa bem arrumada que passa, à direita ou à esquerda. Esse lugar é muito bom e ele recebe mais esmolas que a média. Dashashvamedh é a margem mais turística de Benares e dezenas de

estrangeiros transitam diante de nós. Brancos e japoneses, andarilhos sujos e grupos ricos em trajes coloniais. Pouco importa. Não dão esmolas. Ou então muito raramente, a um único de nós, uma moeda de 50 centavos ou uma rupia. Um estrangeiro jamais me dará uma esmola. São ricos, podiam dar uma nota de 10 a cada um de nós. O total seria de 300 rupias, ou seja, 12 dólares. Não ficariam sem dinheiro por causa disso. E isso não é tudo. Quantos milhares de francos foram gastos para vir a Benares? Uma dezena; e, se não vissem mendigos neste cenário, ficariam decepcionados. Seria menos romântico. Então nos observam, fotografam em plano geral ou em um canto da paisagem. Depois vão embora, sem nos pagar. Ladrões de imagens! Para eles pertencemos a todos, como os templos, o Ganges, e podem nos contemplar de graça. Pulhas! Como na estação, são os indianos que dão esmolas. Homens e mulheres de 40 a 60 anos. E quando fazem caridade dividem o que vão dar entre todos os mendigos. Não há ciúmes. Sobem ou descem a escada e jogam a esmola em cada prato. Uma moeda de 10 ou 20 centavos, ou um pouco de arroz, ou alguns amendoins, ou bolas de melaço. O próximo! O melaço só interessa às vacas e aos cachorros, e a mendiga chique o joga para eles, assim que a pessoa que o deu desaparece. Eu a compreendo. Está ali para ganhar um dinheiro com que viver, para sair da miséria. Além disso, experimentei as tais bolas. São pastosas, pouco doces e infectas. À noite, eu as jogarei no Ganges, junto com o arroz. Não ouso fazê-lo à luz do dia. Mendigo assim até a metade da manhã e ganho pouco mais de duas rupias, isto é, um centavo de dólar. O justo para fazer uma refeição. A partir das nove horas, a multidão diminui no ghat. As esmolas se tornam ainda mais raras e os mendigos arrumam suas coisas. Tenho fome e decido ver se hoje o templo de Baba Khichari distribui comida, como há três semanas, antes de visitar o templo dos intocáveis. Não tive sorte. Nesta manhã a panela não fumega e o cozinheiro e outro cara jogam cartas. Este bairro é turístico; se entrar em um restaurante, só poderei comprar dois

pães secos, pois o purê de lentilhas não é gratuito. Custa de duas a três rupias. Resolvo me dirigir ao mercado das pulgas de Nai Sarak. Acho que ali há tabernas que não são caras. Tenho de interromper a narrativa de meu almoço no cruzamento com a Godhaulia, porque me deparo com um espetáculo inacreditável. Na quinta passada, de manhã, vi um cadáver na estação em que ninguém prestava atenção. Exceto uma vaca. Nesta quinta, 19, uma semana depois, na mesma hora encontro outro cadáver. Isso se torna um hábito na quintafeira e digo a mim mesmo que muitos mortos se arrastam pela via pública, já que os vejo com regularidade. Hoje é mais interessante ainda. O cadáver está estendido na beira da calçada, as pernas e os braços abertos, dois colares de flores em volta do pescoço, e passantes jogam moedas e notas sobre ele. Ah, ia me esquecendo, é o cadáver de um macaco. Um macaco! Um dos milhares dos macacos pardos de traseiro vermelho que moram nos telhados dos prédios de Benares. Esta é a Índia. Se morro na rua, ninguém sequer me olhará, mas quando um espertinho exibe o cadáver de um macaco, as pessoas param, fazem uma oferenda e uma oração, pois o macaco é o símbolo do deus Hanuman. O rei dos macacos é aliado de Rama. Filho do deus dos ventos, sua astúcia e força são invencíveis, voa pelos ares, é sábio, cura as doenças e é uma das divindades mais populares da Índia. Sobre o macaco, cerca de 15 rupias. Neste país, exibir um macaco morto é um bom trabalho. Causa-me nojo, mas digo a mim mesmo que não devo ficar aflito. Devo conservar o bom humor. Não levar nada a sério. Prometi isso a mim mesmo, anteontem, antes de partir. Senão vou querer morrer, como na estação. É preciso rir! Mesmo que faça mal. Lautréamont escrevia que Maldoror, aflito com a vilania dos homens, abriu a comissura dos lábios com um canivete, para esculpir um sorriso... Rir para se consolar. Descobri uma taberna barata em Nai Sarak, a 300 metros do cruzamento

com a grande igreja protestante. Sou eu que a chama assim, pois esse estabelecimento não tem nome e, se passar por lá, encontrará à esquerda, na fachada, sob o forno de barro, ladrilhos brancos decorados com efígies dos deuses Hanuman, Shiva, Ganesh, Lakshmi, Durga e companhia. Em seu interior, um cômodo único, de quatro por quatro metros, abriga três mesas de fórmica amarela com três cadeiras em volta de cada uma. A mobília é velha, mas limpa. Ao tocá-la, sente-se que não está engordurada. Eflúvios de uma comida apetitosa emanam de uma panela sobre o fogão. As paredes, azuladas, estão mofadas, mas isso é normal e, além do mais, estou pouco ligando para o estado delas. Acho que aqui vou comer bem. Sou o único cliente, além de um sujeito, nos fundos, que chupa os dedos após mergulhá-los em um purê de lentilhas. O dono tem uns 50 anos. Usa um lungi sujo, tem barba grisalha à Gainsburg e uma tonsura branca de velho pardal depenado. Sua voz rouca, quase muda, como se tivesse operado a garganta, lhe empresta uma aparência frágil. Quando pergunto o preço dos pãezinhos e do purê de lentilhas, quase não escuto a resposta. São 50 centavos por pão e a lentilha é gratuita. Ótimo. Peço quatro pãezinhos. O dono cozinha e serve ao mesmo tempo. Enrola os pãezinhos, assa sobre a brasa do forno e os serve bem quentes, com a porção de purê de lentilhas. Está excelente. É verdade que sinto muita fome, mas, assim mesmo, está delicioso. Como se tivesse trufa para perfumar o purê. Mas não tem. Não faz mal! O gosto natural das lentilhas me dá tanto prazer! Tenho direito a mais uma colherada de purê para acabar os pãezinhos. Depois, pago duas rupias e volto a mendigar e a errar pelo ghat. Nada a assinalar. Depois do crepúsculo, compro duas bananas para o jantar e me deito sobre um estrado, como ontem. À tarde a mendicância rende pouco; hoje só ganhei três rupias e 20 centavos. Menos da metade de uma jornada de trabalho na estação. Não conseguirei viver mendigando aqui. 20 de novembro

Pelo contrário. Nós. E desprezando nossos desejos. acho que reencarnam realmente melhores. Esmolo como ontem. Não nos colocam no nosso devido lugar. os passantes não demonstram que nós os incomodamos.nos dá esmolas em alimentos. pois já estamos nele. Descobri que as pessoas que oferecem alimentos vêm regularmente fazer caridade. Por isso as pessoas distribuem as oferendas entre todos os mendigos. Hoje de manhã acabei cochilando um pouco e fui despertado pelo ruído metálico de uma moeda de 10 centavos que um devoto lançou. Nem dão lições de moral. isto é. multiplicar suas boas ações e. Há rampas para os carros descerem às garagens. há corrimãos nas escadas para ajudar a subir. Mesmo os colegas que possuem com o que cozinhar abrem um sorriso maior quando recebem o dinheiro para o arroz. Dashashvamedh não é a estação. do que quando recebem o arroz. Eles nos ignoram sem agressividade e uma em 100 vezes nos dão esmola.Na vida. Há rampas para lançamento de foguetes.em geral. Eu preferiria receber em espécie. não faz diferença. uns 30 centavos por mendigo. Isso representa cerca de 10 rupias. Para dar o maior número possível de esmolas. Evidentemente. também há a rampa dos mendigos. Dão esmolas para beneficiar sua própria existência e não por piedade sincera. Permite ao devoto exercer a caridade e aperfeiçoar seu carma. Se estender meu prato ou deixá-lo a meus pés. por usarem todos os dias a nossa presença. tenho certeza. os mendigos. Pois elas nos usam. Mas metade dos devotos . Quer dizer. Várias burguesas mais velhas e sem ter o que fazer distribuem entre nós dois a três quilos de arroz diariamente. encostado no corrimão. mulheres . conseqüentemente. Aqui somos valiosos. Eu acho. fazendo caridade na escada . por generosidade. Há rampas para brilhar sob as luzes do palco.. Mas essas mulheres não ligam para isso. Um punhado de arroz ou amendoins. a chance de reencarnar melhor. gostamos de receber moedas e notas de dinheiro. e constato que as pessoas não nos lançam olhares de desprezo.. Em Dashashvamedh.

Mas só ganho duas ou três rupias por dia." Em Dashashvamedh. A mendicância é normal em Dashashvamedh. A papa de arroz e lentilhas me acalmou o estômago durante o dia todo. 21 de novembro Sim. É uma bênção. Barulho dos sinos.. Os velhos comerciantes. a música da cítara. Aqui representamos um papel. Mas não sou tão louco por Rama como certos mendigos que repetem mecanicamente ''Viva Rama!". amanhã. Também dizemos "Viva Rama!" quando os passantes afluem ao alto da escada. mendigar em Dashashvamedh não é humilhante. Incita a nos darem esmolas e não me incomodo de repeti-lo. uma atividade reconhecida. Trocam uma rupia por 90 centavos em moedinhas. Este slogan chama a atenção para nossa função religiosa. e isso não é o suficiente para comer e comprar biri. vozes humanas cantando odes a Rama e à sua esposa. quase de utilidade pública. grito "Viva Rama!" quando recebo uma esmola. embaixo do ghat. Não queria se esquecer de mim. .. As tendas de suvenires vendem até moedas para que os devotos cumpram seu dever e dêem esmolas ao máximo de mendigos. o que dá para comer. e. da percussão. Economizei três rupias. dêem aos pobres!. Sita. e as orações nos templos vizinhos. pois da manhã à noite com os dois alto-falantes instalados sobre um mastro. como os colegas. Cinco minutos é muito tempo e a repetição do nome de Rama parece embriagá-los. Graças a Deus. no pequeno restaurante de Nai Sarak. mendigar não é humilhante. uma cacofonia religiosa me embruteceu. dos búzios. durante cinco minutos. O rosto do devoto sempre se ilumina ao ouvir o nome de Rama falado por 30 mendigos. não param de interpelar os passantes: "Troquem o dinheiro. no alto da escada. Almocei lá. uma fórmula que valida o ato. Sua histeria já não me choca. ontem e hoje o templo de Baba Khichari preparou a refeição gratuita. um atrás do outro.dos mendigos.

. Minha situação se resume da seguinte maneira: na estação. Soube. de Hanuman. No começo. se não quero me preocupar.Não tenho vontade de fazer isso.Você é jovem. Noite. Esperava esse descanso desde o despontar do amanhecer. os sacerdotes de um templo vizinho.. esmolo sem me mexer e me aborreço ainda mais que na estação. Mas. por um outro mendigo. Mas a competição entre os mendigos é penosa e a atmosfera. execrável. Não confio no futuro e. Esperar. Como se um mendigo a mais ou a menos afetasse seus ganhos. Ontem à noite me deitei cedo. Mendigar em Dashashvamedh não é humilhante. no ghat. Noite. sou respeitado e jejuo. é melhor economizar. pensava que tinha chegado em um mau momento. Os velhos ao meu lado não param de repetir que eu não devo mendigar. Ainda hoje a velha elegante me repete: . As risadas dos que passavam me embalavam e os sinos do templo da Mãe Ganges soavam com toda força. Esperar. Também ele me disse que amanhã. Podem ter certeza. oferecem arroz e legumes aos mendigos de Dashashvamedh. posso trabalhar enquanto cochilo. Isso me ajuda a aguardar o crepúsculo. 23 de novembro Quinto dia na escada. domingo. Quando não se tem o que fazer. nunca é cedo demais para mergulhar no sono. nada mesmo. os velhos.Você é preguiçoso. O inverno chegou e a noite me liberta de meu calvário a partir das 17 horas. sou um subhomem e como o suficiente. por que não conduz um carrinho? Deixa o lugar para nós. . É cansativo.se o khichari gratuito não for servido. Trabalhe em vez de mendigar. Esperar. Mas não. Dia. Além disso. Todos os dias eles se espancam por causa de lugar. Felizmente. . que devia trabalhar. Dia. . Pouco importam todas essas energias. que esse templo não recebe esmolas suficientes para alimentar os pobres todos os dias.

Seu dever não é dar esmolas. Lembro-me das discussões permanentes nas favelas dos varredores da Ravindrapuri.Aqui. ele me importuna e ainda não respondi. A fraternidade e a piedade se tornam um luxo que já não se usa. não é problema deles. Não sei onde busquei essa idéia. A verdadeira miséria torna os homens animais. gostaria de acrescentar para a velha: "Você também pode trabalhar. Sua tarefa. em vez de ficar aconselhando os outros. Eu os acho repugnantes. Isso lhes interessa. O Ocidente talvez seja uma selva bárbara. na semana passada. tão pobres. O Bhagavad-Gita." Depois. sentado embaixo da velha. Pode abrir uma tenda. Sempre achei que a miséria aproximava os homens. Vivemos da caridade. Melhor é o fundamento em seu próprio dever. o que seria uma generosidade. Não peça a um mendigo de Dashashvamedh para fazer caridade a alguém mais pobre que ele. Mas é. É o cúmulo. seu papel sagrado. seja ele excepcional. Nem mesmo tolerar a presença dos concorrentes. Não é da conta deles se sou preguiçoso. mas somos incapazes de ajudar. E patati. Desenvolve o instinto da sobrevivência. é preferível ao dever do outro. Agora. pois a moeda e o arroz que recebo não serão divididos entre eles. o dever do outro é fonte de perigo. mesmo que imperfeito. jurei que depois que terminasse esta aventura daria esmolas a . "Tire a atadura falsa e vá embora! Pedale puxando um carrinho. explicita bem a conduta a seguir: "Seu dever." Não consigo aceitar essa divisão da sociedade. patatá! Desde que cheguei. e em lugar de nos unirmos como irmãos. que me dá uma lição de moral. o evangelho hindu. Eu lhes tiro o pão da boca. desejamos a morte do outro para ficar com a parte dele. não é o público que me dá lições de moral. E se os devotos me dão esmolas. mas meus colegas. é o falso doente. Por que não faz isso?" Na estação. mas a civilização indiana transforma os homens em robôs. de amar o próximo. religioso. Somos tão miseráveis. Em criados roídos por um egoísmo exacerbado. consiste em aceitar as esmolas.

Desde ontem. Aproveitei para fumar biri e admirar a paisagem. e vendem a quem passa. uma onda de frio assola Benares. Sofro com a fome. Durante uma ou duas horas é o bastante. com a hostilidade de meus colegas e com o frio. É o único assunto de que falam. e choveu hoje de manhã. as ameaças: “Vá embora! Trabalhe! Preguiçoso!" Isso há cinco dias. Gostaria de ser duro. Aqui a morte não me preocupa. Pois bem. Dezenas de tibetanos percorrem a rua Dashashvamedh com uma pilha de suéteres sobre os ombros. Repetem os conselhos. Talvez porque eu viva na defensiva. Eu me sinto emagrecer e muito cansado. Lufadas de vento varrem o ghat e eu gelo. Era mais confortável e ninguém me censurava. Contemplei o Ganges sob a chuva. Bem que queria uma para me aquecer. pois ninguém virá dar esmolas em um tempo como este. torno a engolir parte do que cuspi. Os velhos me enojam. que acha que lhe tiro o alimento da boca. Estava melhor na estação. São malucos. Que ambiente! Além do mais. Até mesmo coisas insignificantes. um verdadeiro aventureiro.todos os mendigos que encontrasse. como as pessoas comuns. Não tenho cara de quem vai comprar. Só darei esmolas aos mendigos jovens. que flutua ao vento. o sol mal consegue atravessar a massa de nuvens. Não consigo. uma sobre o braço e outra presa por um cordão nos quadris. Paciência. Por que ela me aborrece? Sou um pobre coitado. Enfim. com o tédio. Lá eu ficava refletindo c queria morrer. Não posso nem mesmo responder. Não me interpelam. me preocupam. perderam o senso da realidade. Mas a velha chique. Está aquecida. sensível aos menores contratempos da existência. Uns 10 colegas continuaram no mesmo lugar e se protegeram sob toldos de plástico. as censuras. e não ter de me enrolar em uma coberta. Guardei minhas coisas e me abriguei sob um pórtico. e eu me senti frágil. Não existe um refúgio para Ram Munda? . A superfície do rio ondulava como um tecido de seda verde. pois evito discutir. como uma suéter. usa uma bonita suéter rosa. não sei.

vai direto ao assunto: "Que manchas são essas na sua roupa? Sangue?" Porcaria de nitrato de prata! Parece tanto assim com sangue? Eu não sei. Isso me aborrece.Tem a passagem? . Ali. De onde você é?" Digo a mesma coisa de sempre. porque o alto de minhas coxas é branco. . um aborígine do Jharkhand. Tenta enfiar a mão no saco. Manda que eu o acompanhe até a guarita. Quando? Bem.prossegue. mas tenho medo. estava um cão de cáqui que me chama com um gesto indolente. Em vão. Respondo: . Este policial vai fazer um interrogatório se descobrir que sou bicolor. Ele suspira: "Tudo bem.Short. . Eu me sujei.Não.Mostre! Levanto o lungi e aparece meu short marrom. Sem dizer boa-noite nem nada. Espero que não peça para baixá-lo. Que sou de Bihar. Ele acrescenta: . não tem sangue. Ele repara: "Está com medo? O que usa sob o lungi? Pijama. quase feliz. pois. e pronto!.. voltei tranqüilo para Dashashvamedh. . A coberta ocupa muito espaço nele e tem muita gente em volta para que eu possa esvaziá-lo. o estômago acalmado por dois pãezinhos e uma porção de purê de lentilhas. no meio da calçada.É gordura. . quando saí da estação. Jantei em Nai Sarak. escondi o dinheiro francês. hoje.24 de novembro Meio da noite. Um short comum. Falo sem gaguejar. Como? De trem. dentro. Atravessei o cruzamento de Godhaulia. Acabo de ser detido por um policial.Mostre.E o que tem no saco? .. na esquina do cruzamento. O fiscal ficou com ela. Obedeço. O que seria? Eu me aproximo. . vindo em peregrinação a Benares. nesses últimos dias de metamorfose. pois sou daltônico e as cores não são o meu forte. short ou cueca?" Ele não parece um pederasta e me pergunto aonde quer chegar. Estamos sozinhos dentro da guarita e eu tremo.

Ele me afasta e apalpa o saco. Hoje vai haver uma batida policial. O ambiente à minha volta continua abominável. Não mesmo.. 25 de novembro O sol voltou desde ontem. à meia-noite. A inspeção no meu saco o satisfaz: não encontrou nada suspeito e me deixa ir embora. Fico sem saber. . . O que procura? Uma faca? Um revólver? Uma bomba? Passagens?. E não gosto nada disso. anulada. De vez em quando há batidas e conhecemos os policiais há muito tempo. Não faço a menor idéia.. Em 10 minutos. .Nós sabemos. Impossível esquecê-lo ao dormir. mas isso não muda nada. mas esse encontro me inquietou.Não vale a pena arriscar.Claro. Mas eles prendem todos os novatos.. Depois de 15 dias na estação. Não temos medo.Não. "Cheguei às sete horas da manhã pelo expresso de Dhanbad. ou amanhã. talvez um policial me pegue e descubra que sou um impostor. .. Vão prender você por um ano.. pequenininhos assim. se quer. Mas. Está dizendo isso para que eu vá embora. Nem a chuva nem o bom tempo refarão a humanidade. Se manda! .Como sabe? . Medo de ser expulso.Veio em que trem? Nisso ele não vai me pegar. Quem sabe? Tenho medo da prisão. Pareço um indiano transportando o quê? Gostaria de saber. E só darão dois pãezinhos por dia para você comer. "Vá fazer suas abluções no Ganges!" Consegui escapar. além disso. pode ficar. sei de cor os horários dos trens.Mostra com um gesto da mão. Ele nos aquece bem ao longo da escada. Medo de que toda essa aventura seja revelada. Hoje. destruída. . falam dos policiais. Não acredito. Bela manhã à vista e um velho desdentado canta em coro com a velha chique o refrão dos mendigos: "Vá embora! Vá trabalhar!" Várias vezes..Não deve mendigar aqui.. . Medo dos golpes de cassetete. Não damos a mínima.

Depois passeio à margem do Ganges. . Em busca de um lugar para comer de graça. dos milhares de banhistas que fazem suas abluções murmurando palavras mágicas. Porcos! Tenho sorte. a evidência se impõe.O que não é justo? . É mais seguro e não vou ao templo do ghat Meer. o templo Vishwanath do ghat Meer serve. como se cantar Receba! Receba um beijo! exaltasse o divino.Não é justo. dos homens que evacuam em um canto. Almoço. de repente. Parece um cartão-postal. não aprendo nada de novo sobre a condição de mendigo intocável. Devo falar um pouco desse local. Tenho certeza. É bonito. Trabalhe! . . sempre ao meio-dia. Nesta manhã o templo de Baba Khichari serve a refeição. Devo partir.Você é jovem. Há dias não preparam nada. Penso no policial de ontem à noite.Tenho fome. Estagnei. Todas as manhãs o templo de Baba Khichari oferece alimentação. . das dezenas de meninos que fazem subir ao céu azul as pipas vermelhas ou verdes. Falar do Ganges que mede centenas de metros de largura e que.Não consigo deixar de dizer.Que vocês possam mendigar. Não se preocupe. . não sou corajoso o suficiente para me arriscar a ser preso e me aborreço nesta escada.Mentira. Eu me levanto e vou embora. dos macacos que saltam de árvore em árvore e a . dos alto-falantes que matraqueiam confusamente cânticos religiosos e músicas de filmes hindi. que pendem sobre ele.. dos templos barrocos e dos palácios dos marajás. Vá embora. . sob o sol inclemente. não vai morrer de fome em Benares. cintila como um colar de esmeraldas. Estou furioso. de pedra vermelha. pois os mendigos conseguiram me expulsar dali.Bem. Repito tudo e. Talvez seja verdade essa história de batida policial. .Não precisa mendigar para comer. dos cachorros que copulam e das cabras que se escornam nas escadas. dos búfalos negros que se pavoneiam ao longo do rio nas águas lamacentas que batem à margem. um pouco mais distante. comida aos pobres.

quem é preciso evitar olhar diretamente nos olhos. o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel ao mesmo tempo. o nariz adunco e cabelos untados de óleo. dos golfinhos que saltam à vontade no rio. Tem jeito de quem diz "merda" e "obrigado" ao mesmo . Estou farto de me privar e a partir de agora acho que vou me isolar no papel de um peregrino intocável. e se preparam para atacar. o serve em um pote de barro. como se dominassem. dos lavadores de roupas. e o dono. acima de tudo isso. Que está mais bem-vestido que eu. talvez um pouco mais velho. Não quero insistir em saber por que ele não me serviu em um copo. tornou-se meu universo. Sem dúvida. do branco. Usa camisa e calça limpas. como fez com o outro cliente. Para mim deixou de ser um álbum de cartões-postais. Tem minha idade. do amarelo. Uso o que poupei. quase colados. Eu me instalo em um botequim na orla do Ganges. um homem pequeno. Peço um chá. um pouco de bruma e pastel ao meu relato. Benares substitui Paris. E também do vermelho. nem exótico: na minha cabeça. controlassem esta cidade santa. mas não ligo. É magnífico. compondo uma tapeçaria multicolorida. Faço uma sesta de duas ou três horas na margem protegida do sol e decido comprar um chá. dos cadáveres de vacas e de búfalos que ali flutuam. mas eu não reparava. de todas as outras cores. dos abutres que giram bem alto no céu. Adoro essa especiaria. Chega de mendigar. o rosto bexigoso. franzindo as sobrancelhas. nem feio. Uma das janelas se abria sobre o Sacre-Coeur. a tez clara. olho o Ganges sem vê-lo e me recuso a trapacear. A paisagem não me fascina. a fomentar sonhos baratos. Hoje. Não me estenderei mais sobre isso. A chaleira em ebulição exala um aroma suave de cardamomo. pois nos mostram as presas. Cresci ao pé de Montmartre. Também é preciso falar do odor dos excrementos. acrescentando a cor local. que as lavam neste esgoto a céu aberto e depois as estendem nas margens. meus irmãos intocáveis. Nem belo. na faixa dos 50. do verde. dos pombos e dos papagaios de plumagem verde que se aninham nas seteiras dos palácios.

Tem filhos? . . Ele se aproxima. Na nossa aldeia não é assim. Ele se vira para mim e sorri. A minha me agrada.Olha. ..Não sei. . Ele se diz interessado nos costumes aborígines. . repentinamente. É verdade que trocam as mulheres uns com os outros? Que trepam livremente? Um pouco como os animais? Ouvi dizer que só pensam nisso. uma cara de rato com diarréia e não me inspira nenhuma simpatia. não sou mais um mendigo e ele me trata com intimidade.Sim. . um intocável. pergunta. Respondi mantendo a calma e sorrio ao pensar que ele realmente ignora tudo a respeito dos costumes animais.Sim. . De onde venho? Quem sou eu? Ele dirige uma farmácia perto de Godhaulia e pertence à casta dos comerciantes.Você tem muitas mulheres? . .Não. Queria perguntar uma coisa. Em trepar e beber.Mesmo? . é uma sorte conhecer um aborígine. a criação de porcos é exercida pelos intocáveis. .Vocês vivem como selvagens. Respondo "sim" porque me parece mais simples. Depois enceta uma conversa. e eu.tempo. Não somos camaradas e não criamos porcos juntos.Por que não?. como os Agraval. pergunta com os olhos cintilando: "Trepa com sua mulher?" O que responder? Não quero criar caso e esboço um gesto evasivo com a mão para que entenda que a conversa me incomoda. Mas ele não dá importância.. Mas talvez eu esteja enganado. Na verdade. Ele insiste: . Desconfio de seu ar mexeriqueiro. Exatamente! "É casado?". Ele toma um gole do chá e. Além do mais. Quer que eu fale a respeito. Ele é um Agraval. mesmo sendo farmacêutico.Então há mulheres aborígines bonitas? .Não.Sua mulher é bonita? .

excluindo os intocáveis. onde as meninas custam caro. aproxima-se mais de uma sociedade moderna. Por seus aspectos igualitários e humanos. por causa do dote. Como nas castas intocáveis não-aborígines.. Nos países desenvolvidos. Estes números confirmam a idéia de que os bebês do sexo feminino sofrem uma discriminação.Eu?. comem raízes e rãs. no sentido do século 20.. As estatísticas provam que a sociedade tribal indiana é mais igualitária. Exatamente assim. mais harmoniosa... se a lei permitisse.. Falei sem refletir. pois provocaria uma discussão e ele se perguntaria como um intocável miserável como eu poderia saber dessas coisas. civilizada.Vou embora. .. . Não ouso lhe falar essas verdades. como animais. mas Agraval faz cara feia. em que as mulheres freqüentemente exercem uma atividade profissional. como expressamos uma evidência. 93.Está chateado porque critiquei os aborígines? Mas é verdade o que eu . Penso como o senhor. a sociedade intocável. A mortalidade infantil indica uma relação entre os sexos menos desfavorável.Gostaria de ter? Diga a verdade! . Darei as cifras: a relação dos sexos se eleva a 98 mulheres para 100 homens nos aborígines. Vi fotos.5 em outras castas intocáveis e 92. que o resto da sociedade hindu. Nós. e a participação delas na vida econômica é maior.. São sujos como os porcos. Vocês têm menos respeito pelas mulheres que nós. os Munda. somos homens iguais ao senhor. as mulheres são mais numerosas que os homens. .. Vivem na selva. E o senhor? . são menos alimentados e não tão bem cuidados nas castas superiores.Não necessariamente. as mulheres desfrutam uma posição mais elevada." Ele se torna agressivo e tenho vontade de calar sua boca de rato. Vocês não são civilizados. e suas mulheres não cobrem o torso.Tem razão. E se fosse rico o bastante para mantêlas. Termino o chá.5 na população geral . Gostaria. "Espere um pouco.

..Fique mais um pouco.Não fique com raiva de mim. Ele fica boquiaberto. vindo de um farmacêutico. brutalidade nas relações. Ele não se dá conta.. um porco aos seus olhos de Agraval. seu pênis começa a doer..Ouça. Só repeti o que dizem. mas não respeita nem a si mesmo. Certo? Está bem? .Não quero irritá-lo. Escolhi responder à primeira pergunta dizendo pelo menos alguma coisa verossímil. de certa forma um comerciante intelectual. não é? Não é? . Isso não me deixa feliz. Impotência. como Ram Munda. nunca fiz amor para ganhar uma competição contra ele e percebo que esse rato imundo deve sofrer de ejaculação precoce. . me levanto e pago o chá. O sujeito se comporta como se não tivesse o menor respeito por mim.disse. Digo: .. age como um animal. frigidez. .Quarenta minutos. mas não nos conhecemos e esse interrogatório me surpreende. . não tenho desejos sexuais. e me levanto. Revelando em público a obscenidade de sua natureza. Na verdade.Fico 40 minutos. . Já tinha saído do botequim quando ele gritou com a cara preocupada: "Quarenta minutos é impossível! Não é anatômico! Está mentindo!" Deixo-o choramingar.. . ausência de intimidade.Quarenta minutos? Impossível! Se passar de cinco minutos. Já vou. Claro que é melhor viver assim. pois talvez depois queira saber se meu pênis tem a forma de uma palito de dentes etc.Sim. quanto tempo consegue levar? E sua mulher? Ela o chupa? O quê? Sei que os indianos adoram falar de sexo. quando trepa. Assim. casamentos de conveniência. nunca me livrarei dele.Volto a me sentar. como se estivesse pouco se importando em expressar suas curiosidades íntimas na minha frente.. . sem senso de moral. Lembro-me dos artigos que li sobre a sexualidade miserável dos indianos. Quero satisfazê-lo e encerrar a discussão sem confusão.Talvez. . Reflito e ignoro sua segunda pergunta.

O gosto é bom e o fumo andando na direção de Godhaulia. Os estudantes das castas altas. Fico sabendo disso ao comprar bétele em uma barraca com as janelas entreabertas. O pan é um excelente mata-fome para os pobres. Não tomo sedativo. Exatamente. na época dos faraós. com os barcos compridos que os remadores profissionais fazem deslizar. Sento-me acima de Dashashvamedh. Arejar as idéias. sobre as águas sagradas. com medo de represálias. Faz salivar e entorpece o estômago. Não dá certo. para saborear meu pan. Todos os dias. A escada desce de um imenso palácio de pedra vermelha até o rio esmeralda. no ghat de Raj. "purê de lentilhas e pão" ou "arroz e lentilhas". a falta de dormir e a alimentação deficiente. É impossível esquecer o onipresente sistema de castas. na margem do Nilo. Eu me pergunto qual o motivo de meu estado atual. e me importunava entre as coxas. Esquecer a sociedade humana. decretaram a greve para hoje. pelo menos uma vez por dia. de modo cadenciado. Talvez mais. Talvez seja o cansaço. e vários comerciantes. Sem dúvida isso sufoca minha libido. tranqüilo e oferece uma vista panorâmica de Benares. O sol começa a descer. O local é majestoso. com palácios e templos a perder de vista. Passear. que se opõem às cotas de empregos na administração para as classes atrasadas. por meia rupia. A Índia nos torna misantropos. Tenho a impressão de estar em um filme de Hollywood.Não preciso satisfazer a onda de calor que descia de minha cabeça. O crepúsculo expulsa o dia e ao pé da escada sacerdotes preparam suas oferendas da noite à Mãe Ganges. Apalpando meu ventre. Este será meu jantar. não sinto mais a inchação de gordura na altura do umbigo e me dou conta que devo ter emagrecido mais um ou dois quilos. mas a multidão habitual da noite não ocupa Godhaulia e metade das lojas está fechada. O espetáculo me transporta . nenhuma vitamina. fecharam seus estabelecimentos a partir do meio-dia. Uma paisagem em technicolor. Não me agrada constatar a força desses estudantes segregacionistas e volto para a orla do Ganges. Abandono as considerações sobre minha vida sexual e acendo um biri.

Um cara que espera junto comigo. não me informei e segui meu caminho para o templo de Baba Khichari. mas não o faz direito e só consegue extrair um som a cada duas tentativas. acende um candelabro cônico. Isso leva cerca de 10 minutos. Não compreendi nada e não me interessa compreender. pois ela dura uma hora. com as palavras mágicas e os gestos sagrados. os garotos colocam os pires acesos na água e o Ganges os leva. São ridículos. realmente houve uma batida. Onde estão? Como eu não conhecia ninguém. os acende. na faixa dos 30 anos. e que não é fonte de colesterol. me confirmou. Ritos primitivos. Sua outra mão agita uma sineta. no ghat Meer. É muito bonito. Não me peçam para explicar. de tez clara e vestindo um pijama amarelo. É isso. 10 anos mais velho e vestido de branco. tão complicados quanto inúteis. constituído de uma centena de castiçais pequeninos de cobre. diante do templo Vishvanath. As luzes ondulam sobre o líquido escuro.para a Antiguidade. Ouço o sacerdote de branco explicar aos estrangeiros que essa cerimônia é dedicada ao Ganges. e perto dele um velho sopra uma concha. É enfadonho.substância purificadora. Resumo a cena. uma eternidade em se tratando de uma valsa de candelabro. 26 de novembro Ontem. É ajudado por dois garotos. outro brâmane. Mas hoje não serviam . Os castiçais também estão cheios de manteiga derretida e ao queimarem exalam o aroma suave da cozinha normanda. Cinco fileiras de 20 pires de barro se alinham na orla. Esse sacerdote segura o candelabro com a mão direita e descreve círculos luminosos na noite. Estão cheios de manteiga derretida . ao me afastar do Ganges. O candelabro dança no ar até que a manteiga seja totalmente consumida e a luz se apague.e um pavio é mergulhado nela. reparei que havia muito menos mendigos do que habitualmente e não vi os que trabalhavam perto de mim. Um sacerdote. oriunda da vaca. Em seguida. Dura uma hora. Ao lado. Nem mesmo a velha chique e o velho que esmola no alto da escada estavam lá. Hoje de manhã.

50 m de largura e desce na direção do Ganges. Qual é o risco de mendigar? Um ano de prisão ou alguns dias no abrigo? Talvez dependa do caso. E eles voltam a mendigar. . "Em Benares. a árvore é sagrada para os hindus . depois os soltam. ou nos ghats de Assi. sempre se encontra um lugar que dá refeição aos pobres. Eu também. não serve para nada". É um vagabundo. . "Além disso. Juntei-me a eles. Não deve perder a confiança no futuro. Fica na viela do mesmo nome. Hoje de manhã parece que saiu nos jornais. fazia uma peregrinação e não tinha recursos. na minha situação. em xadrez grande. três minutos a pé. Perguntou quem eu era e respondi que Ram Munda. Ele disse: . O sujeito a meu lado vem do centro de Uttar Pradesh.mais uma coisa sagrada! Só precisei perguntar uma vez o caminho. de Dashashvamedh e outros. Usa camisa e lungi verdes. e então procurei o templo do ghat Meer. inclinado de um lado a outro. e. pois ontem a polícia levou uma porção de mendigos que ficavam em vários locais turísticos.Prendem por um ou dois dias em um abrigo para mendigos.Fez bem." Eu o acho simpático e sinto vontade de fumar um biri com ele. Reconheci logo o templo por causa dos maltrapilhos sentados diante de sua fachada branca e reta. Essa ruela mede 1. já que tinha parado de mendigar.Tem certeza? .O que os policiais fazem com esses mendigos? . Não mendiga. passando por um enorme pipal. É cansativo demais. no coração do labirinto da cidade antiga. E humilhante. Ofereço-lhe um. O cara que me informa sobre a batida tem a minha idade. diz. mas vagueia por esta cidade há 10 anos e parece conhecê-la na palma das mãos. rasgados.Sim. Conta que a comida é servida por volta . Não precisa se preocupar. Ele fica contente. sem ornamentos.refeição gratuita. foi uma excelente idéia parar de pedir esmolas. Deus nos protege. Aqui ou em Godhaulia. a um dos inúmeros comerciantes de iogurte de leite de búfala do bairro. o rosto empoeirado e uma barba rala no queixo. ou no albergue marvari de Assi.

Está com fome? .Não percebeu? Sou como você. Você usa o fular. jogando no prato. Têm o direito de entrar.Nunca tentou comer lá dentro. no fular. sem falta. como os animais. na . Ele serve. . um homem vestindo camisa e calça sai do templo com um balde de lata. Não quero apanhar.Eles são brâmanes.Sou um filho de Deus.Já era hora! .digo a meu camarada. nem talher.Não.Claro que não. . Dá a cada um uma porção.ele confirma com a voz triste e abafada. pois os rostos de meus companheiros são animados por sorrisos e suspiros. me alimentarei sem usar prato.Não. é a hora dos brâmanes. como eu. os indigentes. . – Somos impuros demais para sermos tratados igualmente. na viela. que penetram naturalmente no templo. . Sou sapateiro. Não nos dão folhas? .do meio-dia. na hora da distribuição da ração.Por que nós esperamos do lado de fora? .meu camarada explica.Qual é sua casta? . cheio de papa. E. apesar da lei. ainda por cima. . Khichari. Nós.Verdade? Continuo sem acreditar. arroz e lentilhas. nos precipitamos em volta dele e me sinto como uma ave no galinheiro. organizações beneficentes! . Esta segregação significa que ainda hoje. . dão o que sobra. com os brâmanes? .Eles também vêm comer . Todos os dias. O sujeito distribui a papa e grita para que cheguemos mais perto. Tem onde comer? Um prato? .Não se anime muito. Temos cerca de uma hora para esperar e noto um desfile de sujeitos sujos como nós. Quinze minutos depois. Só para os brâmanes. .Sim . Para nós. nas cidades grandes. São cerca de 50 e são servidos na frente. para os mais miseráveis. No templo. Sim. ressoa um sino e adivinho que a música anuncia que a comida está pronta. É exatamente igual. . as organizações praticam abertamente o "castismo".Não é aborígine. em um velho saco plástico ou. .

Conheço uma fonte de água fresca. Não falamos sobre isso. o líquido escorre pelo pano. tão doce que parece com açúcar. fomos tirados do tédio por gritos vindos da delegacia. e. por que não? Eu o chamo de camarada porque não sei seu nome. A papa é infecta. e o cachorro. Nós nos juntamos a eles sem pressa. O ladrão é um jovem bem-vestido. O espetáculo parece interessante. Ele o chama de ladrão e de bosharivale. Matar o tempo. É justamente do que preciso para me acalmar. no alto do ghat Dashashvamedh. já que se propõe a me acompanhar. isto é. Vários curiosos se debruçam na balaustrada que se situa ao lado do posto. Meu camarada diz: "Venha! Vamos comer em um local tranqüilo. Duas colheradas de papa é pouco. como sempre. que fica sob um alpendre. apita como que chamando um cachorro. apenas fazemos companhia um ao outro. no final da tarde. Resolvo voltar à Dashashvamedh. "Tudo bem". fumando vez ou outra um biri. pois se empurram para ver melhor.camisa. Cozida demais e sem tempero. que sai correndo pelo ghat. Na nossa frente. E está queimando. bicha. Nós nos instalamos à beira do Ganges e almoçamos. Depois de um mês na pele de um indiano. Como um néctar. continuo com fome. aprova meu camarada." Eu o sigo. mas. um policial esmurra um sujeito. não desce para ir atrás dele. com a camisa e a calça limpas. Não contava com sua presença. curvado. De repente o policial percebe seu cúmplice. neste mundo hostil. Além disso. a porção foi mínima. Não parece nem um vadio nem um indigente. Seguro de seu poder. Fazemos uma boa sesta. O policial manda que mostre sua "cara de bicha". Uma surra. Encherei o estômago por gulodice e farei a sesta em um canto do ghat. O mais delicado. sobe a escada e se junta a . que esticam para a frente. Na sombra. Pego minha parte e me afasto da confusão. mas o policial o surra e diz os insultos habituais. A água se tornou o líquido mais agradável em minha boca privada dos prazeres. saboreio as diversas águas da cidade. Ser menos só. É verdade que não muda nada que se chame Gopal ou Ravi. conversamos pouco. Aliás.

É normal.No Estado de Hariana. O cão de cáqui repara na presença do público. Pergunto ao meu camarada o que acha da cena. a violência. E nem somos criminosos.O que se pode fazer? . Na Índia. Sua mensagem não está viva. os espectadores cabotinos. Sabemos que o policial está louco para nos espancar. São filhos de Deus. Em todos os países que visitei.. Meu camarada diz: . gritando: "Bando de veados! Dispersem! Senão apanham!" Todos se mandam sem pedir explicação. latem: "Babacas! Babacas! Vão apanhar!" Eu me pergunto o que resta de Gandhi.Conheço os caras que apanharam da polícia. e nós. Vem? Vamos para Assi? . Pega o cassetete e investe contra nós. já que acontece uma porção de coisas emocionantes. a polícia dispersa a multidão. são movidos pela curiosidade e pelo prazer doentio de ver o sofrimento. Absolutamente nada . Canalha! . mas ele não tem tempo para responder. . não há nada para ver!" O que evidentemente não é verdade. Como nós. Os dois ladrões estão ajoelhados diante do malvado cão de cáqui que os espanca. É melhor não pensar nisso. Prefiro ficar por aqui.. para receber os bofetões e ser batizado com nomes divertidos. os curiosos se agrupam sempre que a polícia arma barulho ou sempre que há um acidente. Gandhi tenha pregado a não-violência como sistema de vida e de luta.Não. nos comissariados e nos templos.responde. um policial castrou um filho de Deus. Identificar Gandhi com a Índia gera uma imagem do avesso deste país. senão se perde a força para viver. Se fossem brâmanes ou rajaputros. Sem dúvida. Em geral. observamos. . fora os nomes de ruas e retratos empoeirados nas escolas. os policiais não se atrapalham com essas mentiras educadas. Talvez porque os indianos são tão violentos.ele. ele não ousaria. Que sacana!. dizendo: "Circulem. Vou resumir. Menos para ele. .Nada.Como quiser. Os indianos não aceitaram esse ideal nem o desaparecimento da intocabilidade.

torturas. Principalmente em relação aos intocáveis.um tronco rola sobre suas pernas e as esmaga. com raiva lhe deu um chute nos testículos e ele desmaiou. antes de levá-lo ao hospital. Depois. Assassinatos. não tinha vontade de nada. foi internado no hospital da capital. Tinha sido acusado de roubo de cobre. tentaram dissimular o erro. Maghan Singh. fazendo uma incisão em seus testículos para simular uma tentativa de suicídio.E desaparece. usando uma lâmina. Como sua família se recusou a pagar 20. Assim. sem insistir. Explicaram que uma auto-incisão do escroto tão comprida seria impossível.5 centímetro de profundidade. os policiais. foi castrado há um mês e meio. 23 anos. Três dias depois. Sento-me em um degrau à beira do rio e penso no caso da castração. Bishambar. não queria andar dois quilômetros até Assi. Acabou nossa amizade.000 rupias de gratificação para sua libertação e exigiu que ele fosse levado ao juiz. Bishambar foi chicoteado na delegacia com uma câmara de ar. no dia 7 de outubro. Pouco a pouco. Li vários artigos sobre o caso. Rewari. torturaram-no rolando um tronco sobre suas pernas. É como na Antiguidade . a não ser quando a imprensa e os políticos da casta inferior dos leiteiros tomaram conta do caso. sodomia. o subinspetor responsável por Bishambar. e um intocável de Bhatsana. Primeiro. Depois o carrasco o chicoteia e dá um corte sem o menor cuidado. São de arrepiar. mas todo mundo sabe que esse exemplo não conterá sua violência. por solidariedade a Bishambar. Certamente alguns policiais serão punidos. estupros. das balas perdidas. Estamos longe dos erros cometidos pela polícia ocidental. Ele não poderia ter filhos com sua jovem esposa de 19 anos. Em seguida. pois provocaria o estado de choque imediato. com uma incisão de 17. entre os testículos. Os médicos refutaram imediatamente a tese da auto-castração. O mal já se generalizou.5 centímetros de comprimento por 1. na delegacia local. . aldeia a uns 60 quilômetros de Délhi. Ainda assim o governo não reconheceu a responsabilidade da polícia. Fiquei só. Tentem imaginar. tomados pelo pânico. e ficado sob vigilância. entre suas coxas.

e os humanistas ocidentais devem condenar o hinduísmo e não este ou aquele abuso policial. Os ocidentais só vêem o espetáculo. está distante. Ela quer investigar a tortura na Índia e as mortes ocorridas nas prisões. a expressão "direitos humanos" não tem sentido. com deveres e direitos diferentes. A violência indiana tem relação com a discriminação das castas ou das religiões . Na Índia. Sem esperança de ascensão social. na compartimentalização intolerante da sociedade . Tudo pode ser justificado.Pela primeira vez em 14 anos. e acho que a indulgência também é fruto da admiração pela civilização dos brâmanes e da aversão que lhes inspiram os varredores e outros intocáveis. A ausência dos direitos humanos nasceu do sistema de castas. como o Taj Mahal. Essa desculpa cultural para o "castismo" me arrepia. Um sistema social de homens e sub-homens que envenena a Índia. O "castismo" é um sistema segregacionista. Como o pigmento. Não será um pouco mais de democracia nem uma ética policial melhor que irá resolvê-lo. mas o problema dos direitos humanos não reside aí. se poderia justificar o antissemitismo como parte do patrimônio europeu. Bravo! Aplaudo. Tão ignóbil e condenável quanto ele. mas são indulgentes em relação ao sistema de castas. uma delegação da Anistia Internacional viajou para a Índia. Basta! Não tenho mais medo das palavras. O varredor e o leiteiro na Índia correspondem ao negro e ao mestiço na África do Sul. a quem só dedicam uma caridade desdenhosa. Insisto: a casta é indelével.o que dá no mesmo. assim como o apartheid na África do Sul. de Deus. Isso vai mudar alguma coisa? O governo indiano aceitou retomar o diálogo com a organização da defesa dos direitos humanos. Cada um em seu gueto. considerando-o um patrimônio cultural indiano. É um conceito . É preciso voltar à fonte. Esquecem que os próprios estrangeiros são intocáveis e que não têm nada em comum com os brâmanes ou com os rajaputros que os fascinam tanto. sob a capa da religião. confundidos com os mendigos e leprosos. Desse modo. A marca é de nascença e fica colada na pele até a morte. Não se escandalizam com ele. do hinduísmo. logo. Combatem o racismo e o antissemitismo no mundo.

Mas o indiano comum a considera aceitável. Pensando bem. Ao contrário. Não posso mais mendigar e não tenho mais nada a fazer. Sinto a intocabilidade na pele. tomar banho quente. acho que não consegui me sentir 100% indiano. Farei isso. é normal que um indiano não se veja como um membro da União indiana. Esta vida continua a ser um sofrimento insuportável para mim. Verei minha mulher. na medida em que for um estrangeiro. Podia ter isso todos os dias. ou a uma região. nem como os indianos consideram os seres impuros. Eu me entedio na beira do Ganges e meu desespero é extremo. sim. Esta existência não me satisfaz. voltarei com novas idéias. retocarei a tintura da pele e. E mesmo que volte a ser Marc Boulet. Acho que devo ir pra casa. Pertencem ou a uma casta ou a uma religião. sei que permanecerei um intocável. o varredor dom. Mas a orla do Ganges se tornou minha casa. Na Índia. Ainda não percebi isso. Na China. Não me sinto um cidadão da Índia e não sei se os próprios indianos se definem em termos de cidadania. ter um carro. de nacionalidade. beber vinho. amanhã à noite. A não ser contar as ondas na superfície do rio e observar os policiais surrarem um intocável. . Minha vida de intocável é muito penosa. impossível de inserir na sociedade hierárquica hindu. Experimento as mesmas frustrações e humilhações de Raja Ram. Não poderei esquecer esta metamorfose. Podia estar instalado confortavelmente na França. a papa de arroz e lentilhas. e uma boa idéia.moral fundado no respeito mútuo entre os cidadãos. Eu me sinto um intocável. talvez isso seja a "indianidade". Não sei se indiano. minha dieta. eu me considerava um cidadão da República Popular da China. O círculo parece que se fechou. um conceito igualitário. eu me pergunto se vale a pena viver uma vida assim. comer carne e frutas. e sou tratado como um cachorro. Mas intocável. Sim. Viver em um apartamento. refletirei melhor sobre esta experiência.

Ayodhya é uma povoação em Uttar Pradesh.. Os muçulmanos se opõem violentamente ao sacrilégio e constituíram um comitê de proteção da mesquita Babri. Sob os britânicos. corresponde aos 300 m2 ocupados pela sala de oração dessa pequena mesquita. no local de seu nascimento. Bronzeamento. em 1986. talvez. Em 1990. depois da Independência. manchetes sobre Ayodhya. Se não tivesse abalado tanto a Índia no outono de 1990. Segundo o alto clero hindu. Ela fascina a Índia toda. que teve um nascimento mítico. as imagens de Rama e de seus apóstolos ali apareceram "milagrosamente". Talvez. Desde então os hindus só pensam em demolila para instalar as estatuetas de seus ídolos em um templo gigantesco de Rama. supostamente ocorrido 3. Todos os dias. A Terra tem 510 milhões de quilômetros quadrados. na noite de 22 para 23 de dezembro de 1949. pois os ídolos não podem ser deslocados nem um milímetro de onde Rama tomou sua forma humana. no território atual de Ayodhya. esse delírio de brâmnnes me faria rir. Ela foi fechada imediatamente para evitar conflitos entre os muçulmanos e os hindus. é um caso muito confuso. Já vou avisando. os invasores muçulmanos teriam construído uma mesquita depois de destruírem um templo hindu.. tintura de nitrato de prata e leitura dos jornais que saíram durante minha ausência. Mas o futuro da mesquita Babri se tornou uma . a mesquita Babri já tinha sido reivindicada pelos hindus. foi a causa de sublevações violentas e da queda do primeiro-ministro. a 200 quilômetros de Benares. mas o local de nascimento de Rama. para que os hindus pudessem venerar seus ídolos. pois Rama é um personagem mítico. Em 1528. mas. por uma inoportuna coincidência. Este é o ponto de partida do caso da mesquita Babri. Onde o deus Ram nasceu.27 de novembro Em casa.000 anos antes de nossa era e. um juiz ordenou sua reabertura. digno de seu local de nascimento. a construção do templo de Rama ao lado da mesquita é inconcebível.

repetem os líderes. daqui a uma semana. Em uma primeira fase.questão nacional mais importante que a edificação econômica do país. Eu tenho seu nome e de repente penso que seria bom conhecer o local de seu nascimento em Ayodhya. Seu progresso nas últimas eleições gerais.000 policiais federais. Eu poderia me misturar com os milhares de fanáticos que acorrem dos quatro cantos da Índia. "Nenhuma força humana poderá nos deter". desse canteiro de obras sagrado. o alho e a cebola. quando ia visitar sua tia. tão controlada pelos brâmanes como há 30 ou 40 anos." A situação política está muito tensa. todos os dias. em 1991. cuja estrutura gigantesca ultrapassará o local da mesquita. Há o risco de uma grave crise constitucional e sublevações sangrentas ocorrerem neste fim de semana. O BJP. O poder federal em Délhi . como intocável. a polícia. Várias vezes começaram as obras.nas mãos do moderado Partido do Congresso ameaça destituí-lo se não respeitar a lei e a Constituição em Ayodhya. em 6 de dezembro. e não o contrário. inclui em seu programa político a construção do templo de Rama. por causa de Rama. prontos para intervir. demonstra até onde vai o interesse dos indianos. a carne e o álcool eram proibidos na cidade. "A justiça dos homens deve obedecer à vontade de Deus. Deve jurar à Corte Suprema que proibirá as obras de construção se os simpatizantes não renunciarem por livre e espontânea vontade. se o governo local não cumprir seu dever. Ram Singh. do tipo CRS (Companhia Republicana de Segurança). logo. para edificar o templo de Rama. de sentir o sistema de castas nessa cidade santa. contou que. mas a justiça sempre as interrompeu. para proteger a mesquita e acalmar o antagonismo hindu-muçulmano. com o envio de 10. Cinqüenta mil voluntários diferentes participarão. partido hinduísta de extrema direita. Meu professor de hindi. os extremistas hindus decidiram nivelar o terreno em volta da mesquita e lançar os alicerces externos do futuro templo de Rama. que dirige o governo local de Uttar Pradesh. segundo a . Os jornais de ontem e de hoje falam de uma situação de guerra civil em Ayodhya. e desta vez as organizações hindus prometem ir até o fim. pois essas organizações são mantidas pelo BJP. A próxima investida está prevista para 6 de dezembro.

o templo de Baba Khichari prepara a tradicional papa de arroz e lentilhas do sábado. É muito bonito e 200 curiosos escutam os oito músicos que nunca param para afinar seus instrumentos. Sim. Quando cheguei na Índia. Nada de especial. O expresso Calcutá-Jammu Tawi (na Caxemira) passa por Ayodhya durante seu trajeto de 2. Enroladas em duas pequenas bolas. Eu as vestirei se houver muito tumulto. Eles se conduzem como os . comprei uma calça e uma camisa amarelo-esverdeada. e também roupas decentes de reserva. Amanhã me informarei sobre os trens para Ayodhya e partirei.000 quilômetros. ela teme por mim e. sem parar. para o caso de estourarem sublevações durante minha estada em Ayodhya. Está decidido. Mas é estranho. confesso. Chego na estação por volta da meia-noite e meia e compro a passagem para Ayodhya. Ando à toa e durmo na orla do Ganges até às 23 horas. não ocuparão muito espaço no saco. Exceto que à noite uma orquestra de música popular instala seu palanque no meio da rua Dashashvamedh. Como e depois vou para a estação. Isso me toma uma meia hora. a fila de umas 10 pessoas. Volto à Dashashvamedh. Por causa das notícias nos jornais. Minha mulher sugere que eu leve um frasco opaco de nitrato de prata para corrigir a tintura.previsão dos organizadores. se for necessário. Tenho mais chances de me salvar se estiver bemvestido. pois não gosto de desembarcar à noite em cidades que não conheço e prefiro esperar tranquilamente o trem em Benares. Para em Benares às duas horas da manhã e chega por volta das cinco horas em Ayodhya. ao gosto indiano. pois uns caras bem-vestidos duplicam. Voltarei a pé a Dashashvamedh e dormirei sobre um estrado. Um pavilhão de tubos fluorescentes e lâmpadas verdes. eu não me preocupo tanto. A idéia de me mexer me excita. Pelo menos é o que Gloire pensa. ela tem razão. será um canteiro sagrado. 28 de novembro Hoje de manhã. Sairei de casa no meio da noite. Para mim é perfeito.

além do Himalaia. poderia desencadear uma discussão. na França e na China. Eu me deito e espero o trem. Neste momento devem estar passando o fim de semana no campo. Não os esqueci e meu amor não diminuiu. e não fazem fila. e se um cão de cáqui aparece. que nos diz. vou para a plataforma número três. como se estivéssemos exagerando: "Não se preocupem. Os alto-falantes da estação anunciam que meu trem está com uma hora de atraso. que levou chutes no rosto há duas semanas. vivem na Europa. Tento pensar em minha família. São estrangeiros. fazer uma imagem precisa de minha mãe e de meu pai e não consigo. estou comprando só uma passagem. Na minha frente. e em minha memória não passam de seres virtuais. Sinto-me em meu lugar e não me imagino no dos estrangeiros. que é reservada aos pobres. Caso contrário. Tento me convencer disso. mas seus personagens não se encaixam no cenário indiano. abaixo a cabeça e com a passagem no bolso. um barrete branco na cabeça e cavanhaque ousa protestar. Faz mais de um mês que me transformei em indiano.ricaços. Em vão. Sem dúvida esses fura-filas se acham superiores demais para esperar conosco. Diz coisas incompreensíveis e usa os mesmos trapos. eu acho. como se nada mais me surpreendesse. A velha louca. que encontrará uma desculpa para sua própria atitude. É assustador. apoiará o ricaço. totalmente separado. Levam uma vida de ricos e são meus pais. Tento recordar. um pouco como os heróis romanos. Nós. como se tivessem se tornado extraterrestres. como membros das castas altas. os pobres. está agachada aos pés da escada da passarela. Não mudou nada. como se ele constituísse meu universo. O bilheteiro atende o ricaço. eu sei. Nós não teremos razão. talvez um tumulto. eterno. Adormeço com essa verdade em mente e desperto às duas horas. pois bem que gostaria de fazê-los engolir esses anéis de ouro que exibem em seus dedos gordos. um muçulmano com um pijama sujo de gordura. conhecemos nossos direitos: ficar na fila em silêncio. depois será a vez de vocês!" O muçulmano não insiste. . mas parece um ano e a presença da velha me dá a impressão de que este mundo é imutável. É melhor deixar pra lá. Sinto-me a anos-luz deles. Mas.

não me queixo. . e a partida é o momento de que mais gosto. em tom de desprezo. Militares.. Um civil. A viagem sempre sugere uma nova vida esperando em outro lugar. E todos se empurram. Logo perco as ilusões. se empurram. A maioria é militar.Vou a Ayodhya. Desça! . e em sentido contrário. Os bancos estão todos ocupados além de sua capacidade. e vejo que os passageiros deste compartimento ou vestem uniformes ou camisas e calças limpas.. isso me excita. sem espaço onde apoiar o esquerdo. Sou uma delas. descem do vagão à minha frente.Zut! O atraso é comum e não tenho nenhum encontro marcado em Ayodhya. de pé na minha frente. Vários passageiros continuam tentando. quando começam os empurrões. Isso me enerva. por volta das três horas. e não ser esmagado sob essa massa humana. O expresso está abarrotado e ninguém quer ser deixado para trás. Sou o único de lungi. no tumulto. Finalmente. Na China aprendi que. hesitante: . fui empurrado para dentro do vagão. Quando meu trem entra na estação. ser levado pelo ar. Eu me preocupo. Deve-se utilizar a multidão para voar. com seus baús. Consigo me equilibrar sobre o pé direito. Este vagão é reservado aos militares. Já é alguma coisa. alto e forte.E o que tenho a ver com isso? Você não é militar. me diz com um olhar hostil: "Quem é você? O que faz aqui? VOCÊ!" Insiste no "você". Há pessoas empoleiradas nos bagageiros suspensos e cada metro quadrado do chão está ocupado por bagagens e outras pessoas. mas a demora significa que o começo de minha aventura será adiado. várias pessoas avançam para entrar. não se deve hesitar em reagir. Já foi uma sorte ter-conseguido entrar no trem. Não sei como vou agüentar as três horas do trajeto sobre um pé. por cima. Uma explosão brusca de energia em plena noite. O grandalhão repete a pergunta e respondo. pois preciso pegar esse trem de qualquer maneira. centenas de passageiros embarcam aos empurrões.

Este vagão também cheira menos a homem. Com as mãos sobre o cano. Imagino o sofrimento dos animais nos vagões de carga e digo a mim mesmo que só tenho de suportar três horas e que é melhor descontrair. faz um apoio para a cabeça e ronca como seus colegas. Sentome no corredor. Ninguém ousa incomodá-los e não vou ser eu quem lhes explicará que um lugar não é um leito. Percebo por que esse compartimento fica mais vazio. Dois deles estão deitados sobre dois bancos. As pessoas viajam em pé. a pés. Não tem mais lugar para uma valise. como se fosse descarrilar. ao máximo de 60 por hora. afobado como se estivesse com cólica. nem no bagageiro nem no chão. Esta sensação talvez seja reforçada por eu estar no chão. Tem muita gente. a suor. saltando por cima das cabeças e valises. Os vagões indianos de segunda classe são divididos em compartimentos não isolados do corredor por uma porta e oferecem uma visão do conjunto quando neles penetramos. Acendo um biri e observo os outros passageiros. casais e homens sozinhos. Dois outros cães espojam-se nos bagageiros. Não posso me deslocar nem mexer as pernas e o tronco. espaço supostamente destinado a três passageiros e em que se apertam cinco ou seis nos outros compartimentos. A quina de um banco machuca minhas omoplatas a cada solavanco do trem. e outro coloca o tronco e os pés sobre os dois banquinhos no corredor. no chão imundo. Sou o 22° ocupante. Ufa! A porta do vagão seguinte está aberta e pulo para dentro. Serve de "casa" a cinco cães de cáqui. Não quero levar uma coronhada e me instalo no compartimento anterior. Receio que o trem dê a partida. O trem dança sobre os trilhos. Corro sem pensar em mais nada. de camisa e calça . com um fuzil entre as pernas. Nenhuma privacidade durante milhares de quilômetros. empoleiradas nos bagageiros ou sentadas no chão. De sandálias de dedo e lungi não é nada fácil. mas menos que no vagão dos militares. tem de ser dividido. Não é o TGV. Parece ter menos gente nos fundos e me dirijo para lá. e o esforço de minhas costas me faz pensar em um exercício de faquir.Os outros passageiros me fuzilam com o olhar e saio sem fazer perguntas. Consegui. mas posso me apoiar nos dois pés e circular pelo corredor.

um compromisso. . acocorado atrás de mim. Não fala como a gente de Bihar... Vivo no coração do Jharkhand.Não sei. Respondo. Vão a Lucknow. mas de modo fraternal. outros. Alguns acreditam que se trata de um artifício para ganhar tempo.Isso é problema dos políticos.. Um rapaz de cerca de 25 anos. querem se separar de Bihar e fazer do Jharkhand um Estado. cujos buracos denunciam sua pobreza. os aborígines . o que ganharão formando um Estado? Acha que serão mais felizes? . esperando convencê-lo: "Sou um Munda.Diga a verdade. com um sorriso -. Resolvo sondar o terreno antes do amanhecer. Na semana passada. na selva." Dhanbad é uma cidade de Bihar. e sinto medo que ele descubra minha impostura. Ontem o governo desse estado afirmou à Corte Suprema que as obras de construção dos extremistas hindus seriam apenas simbólicas e que a lei e a Constituição seriam respeitadas. Prefiro calar minha opinião sobre a independência do Jharkhand. No entanto. Temos nossa própria língua. Sei porque acabamos de vir de Dhanbad. Viaja com um amigo.pergunta o amigo. alguns muito limpos e outros muito sujos. suja. mesmo quando vivem perto deles. na fronteira com o Jharkhand. os movimentos separatistas organizaram . e não demonstram desprezo pelo aborígine que sou. parece convencido e me espanta como os indianos arianos ignoram tudo a respeito dos aborígines. fala comigo.Vocês. não é? . A política não me interessa. . Os viajantes se perguntam qual o sentido da expressão "construção simbólica". Tem vontade de ser independente?." Ele balança a cabeça da direita para a esquerda. uma reconstituição microscópica da Índia. quem sabe até mesmo uma traição dos fiéis de Ram. não quero provocá-lo.e com traje indiano. você não a compreenderia. Nós nos tratamos por "você".. para manter o BJP no poder. o jovem comenta: "Você parece ser do Rajastão. Julgarei por mim mesmo. Os homens discutem sobre Ayodhya e fico sabendo que o governo de Uttar Pradesh ainda não foi destituído. Tem a tez pálida e usa uma túnica creme. em Bandgav. que está sentado no banco à minha frente. um pouco mais velho e com a túnica menos esburacada.

sou um peregrino. e. minha impressão foi de uma cidade decrépita.acrescento sem refletir. Talvez tenha razão em relação aos fiscais. E é muito bonito. Mas. Estes são abandonados em sua miséria. .. e depois de Ayodhya vou visitar Allahabad.Não sei. . sem saber o que responder. vou ter de voltar. Vai se divertir. .mais uma vez 48 horas de greve geral no Jharkhand. pois." Ele dá uma gargalhada e depois sussurra: . por que não? . passará só dois ou três dias na prisão e depois será solto.É mesmo? .Aonde vai? . E a Délhi. É preciso ver Délhi. quando cheguei da França.disse. Tem prédios altos. o vagão não tinha sido verificado.E depois? .Sim.. há templos que oferecem comida aos pobres. Lembro que os . às 6:10. Mas tenho dúvidas se o Jharkhand independente nas mãos de políticos suspeitos bastasse para modificar a condição econômica dos aborígines.pergunta o jovem. Os dois amigos insistem em que o separatismo não nos levará a nada e concordo indiferente. sem compensação para os locais. Pelo menos foi o que li nos jornais. Em Ayodhya. ao chegar em Ayodhya. ao lado das minas. como eles. Não insisto. . e no trem pode viajar sem passagem. Grande coisa! .Precisa ir a Mathura. .Não precisa se preocupar com o dinheiro. se puder participar.A Ayodhya. Se um fiscal pegar você e o detiver.Passei uma semana em Benares. .Não. nem que seja uma vez na vida. Precisa só ver! Lembro que há quatro meses.É voluntário para a construção do templo? . volto para casa . esperando que entendam que o assunto me parece maçante. acho que os aborígines são explorados e não desfrutam as extraordinárias riquezas geradas pelas minas de sua terra. Elas beneficiam os arianos. equilibram as finanças de Bihar e da Índia. Respondo: "Não tenho dinheiro suficiente para ir até Délhi.

entre as palmeiras. Ocorre-me a idéia de. Depois de caminhar por uma hora. Em geral. com o nome de Rama bordado. Muitos usam um fular açafrão. pois as pessoas respondiam de má vontade. Um formigueiro cáqui. dizendo. Por volta das sete horas. deixando à mostra a pedra e o tijolo das paredes. pode ser perigoso. eles estão bem arrumados.como se responde a alguém asqueroso de quem se quer ver livre. com manchas escuras de mofo. Não quero ficar andando por Ayodhya à noite. Aí está o monumento que faz a índia vibrar! Para completar o quadro. vestidos de camisa e calça. Tive de perguntar três vezes qual era o caminho. à mesquita Babri. coroada por três domos. É esplêndido. na volta. Foram colocados em julho passado. Não me sinto à vontade. Centenas de policiais acampam ao longo da via férrea e sua presença indica que a cidade está tensa. não comprar a passagem. Alguns caminham diante do outeiro e param sobre uma plataforma. mas não vim me deliciar com a paisagem. Mas . com veneração. de tamanho modesto e em mau estado. O sol ainda não se ergueu no horizonte e resolvo fumar alguns biri. milhares de voluntários para a construção do templo vão e vêm sob os dois grandes toldos de pano.musahar da estação de Benares viajavam de graça. Domos de templos e palácios surgem a perder de vista. instalados à esquerda. A presença da polícia se intensifica na medida em que me aproximo da mesquita Babri. Sem os cachorros. Lembra o Muro de Berlim há 10 anos. Entre os voluntários há poucas mulheres. uma luz suave atravessa a bruma azulada e saio da estação. O local não é bonito. que esses são os alicerces da parte anterior do templo de Rama. O reboco. cai em placas. Interessam-me os policiais que tomaram as ruas. e se cumprimentam dizendo "Viva Rama!". uma larga avenida de chão batido me conduz. com grosseria . O local de nascimento de Rama. Centenas e centenas de policiais montam guarda e uma sebe desagradável de tubos metálicos e arame cerca o outeiro sobre o qual se ergue a mesquita. no átrio da estação. Sem minarete. Uma construção retangular. atravessando terras desocupadas.

Molho meus lábios e depois jogo um pouco no alto da cabeça. ele o joga na segunda vitrina e verte. Para penetrar na mesquita. além dos calçados. com um camelô. Como fazem os outros fiéis. e decido fazer uma oferenda à imagem de Rama.não prestam atenção em mim. E vou embora. Dou o colar de cravos-da-Índia a um sacerdote. Queria dar mais uma olhada. Sem dúvida. junto com uns 50 hindus. um pouco de água turva na concha de minha mão direita. Um parapeito forma uma cerca em volta do santuário. Por medida de segurança. na outra vitrina. só vejo toalhas bordadas com fios prateados e colares de cravos-da-índia. Deixo meu saco e as sandálias de dedo do lado de fora. Não me importa. estou sujo demais e sou muito pobre. e me levanto nas pontas dos pés. No interior. com um longo e sinuoso trajeto de barreiras metálicas entre esses postos de controle duplos. Ultrapasso a barreira e lá estou sob o domo central da mesquita. e em troca compro um colar de cravos-da-índia para oferecer a Rama. mas. Quero saber com que se parece. fazer a oferenda e sair. A sala é minúscula e nos empurramos para ver a imagem de Rama. onde dois sacerdotes cantam diante de duas vitrinas com um dossel. Bem. Nenhuma estátua. Dois em dois. Tenho mais o que fazer para ficar sondando o que pensam. A mesquita acaba de abrir suas portas aos devotos. as bagagens. Não adianta. um policial vigia cada devoto durante todo o percurso assinalado por setas. sou revistado quatro vezes. com um utensílio de cobre. as facas são proibidos no interior da construção. A polícia realmente teme um atentado que possa desencadear massacres. os fósforos. há diversos pôsteres de Rama. mas muitos se queixam de não ver nada. fui abençoado por Rama em seu local de nascimento. mas a multidão me pressiona e tenho de avançar. como em todos os locais de culto hindu. Consigo me aproximar do parapeito. Os devotos dizem que a estatueta de Rama está na primeira. Eu também. mas isso não me afetou . como os que assolaram o país em 1990. Ao lado. por mãos e por um detector de metais. na primeira vitrina. Sim. Entro.

para libertar a alma do ciclo das reencarnações. como seus colegas homens. na beira da ruela.O encarregado do templo disse para eu me sentar aqui. esfarrapados. que usam roupa cor de açafrão desbotada e rasgada. de costas para a rua ou para o templo. As mulheres são idosas. mas estão limpas e não parecem nem mendigas nem vadias. Fumo um biri atrás do outro e então me lembro de que a última vez que comi foi ontem de manhã em Godhaulia. vestindo uma calça preta e uma camisa verde xadrez. acompanhando magníficos palácios barrocos. Um espaço de um metro entre dois caras. ou então jovens de 20 a 30 anos. Rama me ouviu. Será que existe? Ou a olhei e não vi? Fico confuso. mas os lugares já estão todos ocupados. Um anão todo engomadinho. Pego uma viela que parte da mesquita e desce até o centro da cidade. de frente para o templo. Resolvo procurar um templo que sirva comida gratuita. várias pessoas com roupas esfarrapadas estão sentadas sobre uma plataforma que margeia um templo de Rama.em nada. Seus trajes são de algodão e estão gastos. organiza uma fila. subo à varanda e pergunto: "Aqui vocês distribuem refeição aos pobres?" Não responde. continuo sem saber com que se parece a estatueta que agita o segundo país mais povoado do mundo. Além do mais. me acocorando no espaço livre. cuja fachada de pedra branca é esculpida com ornamentos em tons de azul. Parece um chefe. e exibem o rosto sereno das anciãs. Ando em volta da mesquita e tento pensar em outra coisa. Imediatamente. uns seis sadhu gritam em coro que eu saia. entre 40 e 60 anos. Exceto um. pois a metade carrega uma tigela de alumínio. Fico descalço como todo mundo. hindus sábios. Parecem mais freiras. Cem metros mais abaixo. apenas diz. à vida na sociedade. à direita. ascetas mulheres que renunciaram. Percebo que as pessoas aguardam o almoço. Eu me abaixo. fazendo um gesto: "Vá se sentar lá embaixo!" Eu vou. A fome faz meu estômago doer. Ela mede 20 metros por três e está um metro acima do plano da viela. . Os homens são velhos sadhu. se consagrando a Deus. Respondo: . que o lugar está reservado. Os homens sentam-se nesse lado e as mulheres. O terraço é coberto por uma feia chapa de ferro corrugado.

Digo: "Vão servir comida?" Ele balança a cabeça ao modo indiano. de caráter forte. de pele escura e cabelo desgrenhado. ele diz que eu espere com um gesto. um rapaz entre 15 e 20 anos. plantado como grama. Se não fossem elas. Duas anciãs vêm em meu socorro e o repreendem: "Deixe que se sente. confirmando. sem desejos nem ambições. . com tudo isso. Sem dúvida é um vagabundo. Imaginava esses sábios desligados da materialidade mesquinha e ilusória deste mundo. Vejo neles o mesmo egoísmo que nos mendigos de Benares." Depois.. Felizmente as velhas calaram a boca desses sadhu que. Aqui é realmente uma cantina? À minha direita. símbolo da sabedoria. dirigindo-se a mim: "Coloque seu saco naquele canto e se sente.Onde posso me sentar? . "E a que horas?" Ele agita a mão esquerda. . criam brigas em refeições populares.Não. mas as mãos não parecem com as de quem exerce uma profissão que não exige um trabalho manual intenso. de cima para baixo.diz o sadhu que está ao lado do espaço vago. Ele tem o direito de comer." Obedeço e o sadhu à minha esquerda resmunga entre dentes. Não sinto cheiro de comida e resolvo pedir informações a esse jovem. Estou decepcionado.Não sei . eu teria dito adeus à comida. Usa uma tanga suja de cor creme e uma camisa em farrapos. usam a roupa cor de açafrão. No entanto. Suas mãos são grossas e calosas e os dedos também são muito grossos. Seu rosto é redondo como o de um bebê bochechudo e o acho bem mais simpático que o velho sábio rabugento à minha esquerda. me fazendo sinal para esperar. Sinto-me deslocado nessa região agreste e nesse terraço. Mas tenho fome e decido esperar. gurus generosos. "Servem comida todos os dias? De manhã e à noite?" De novo. da direita para a esquerda. Saia. Esquisito? Por que esse mutismo? Minha preocupação o irrita? Sou curioso demais? Não entendo o mundo de Ayodhya.

sai do templo. Elas dizem: "Guarde seu tíquete. na faixa dos 50 anos. Não estou entendendo nada. O jovem ao meu lado me faz sinal para eu guardar o meu e me mostra dois dedos. Fico calado. Se devo receber duas rupias. muito pálido. Tem o rosto comprido e magro e parece que comeu bananas com casca. Deve ser um sacerdote. isto é.Um gigante de 25 anos. Duas rupias? Vou receber ou terei de pagar duas rupias pelo que comer? Duas rupias não é muito e as duas hipóteses são possíveis. Isso me inquieta. Uma reunião de ascetas e vagabundos no terraço e nada os distingue em termos de comportamento. mandando que nos apertemos mais. Olhamos uns para os outros. pele clara. pois gosto de entender as coisas. Todo mundo parece bem informado e eu não posso pedir uma explicação. que comeu alguma coisa que ficou presa em sua garganta e imobiliza sua boca. O rapaz não diz nada. Passam-se 10 minutos. seria estranho achar que pagaria uma refeição gratuita. impecáveis. vão se queixar ao gigante que distribui os cartões e este grita conosco. e o recém-chegado se acocora. Nós nos espiamos sem sorrir. No cartão amarelo está escrito duas rupias e o nome da associação desse templo de Rama. nos distribui cartões amarelos. Os sadhu e as anciãs obedecem resmungando. Reflito. e um cordão sagrado aparece em seu peito. Outros sadhu e outras anciãs continuam a chegar e são sempre rejeitados pela assembléia presente. sem se esquecer de pedir seu cartão amarelo. o preço de uma refeição mesmo que medíocre . Ambiente porco. e eu faço um sinal com a cabeça interrogando as duas anciãs na minha frente. um sacerdote desse templo de Rama. Se fosse preciso pagar duas rupias. apenas brande o indicador e o dedo médio. as pessoas não disputariam lugar no terraço. Um homem franzino. Lotado! Agora. mas todo mundo exibe um sorriso e guarda o cartão no bolso. Mais um mistério.em uma taberna. nem falar. Usa um kurta e um dhoti brancos de algodão. São duas rupias!" Certo. mas para dar ou para receber? Posso perguntar? Guardo o cartão no bolso da camisa. pois também usa o cordão sagrado e distribui . Deve ser um brâmane.

Perfeito. nós cantamos. Ele diz: "Vamos. Levantamos a cabeça. fazendo um barulho infernal. A comida. parecido com o do metrô parisiense. Felizmente.. Pelo menos de início. para conseguirem um lugar. ou ensopado de legumes. divertidos. acaba de atrapalhar meus . na faixa dos 30 anos. Nada. jogo o jogo. Continuamos a cantar por cinco minutos. E ele canta: "Sita Rama! Sita Rama!. E batam palmas. É quase divertido. E tive de repetir umas mil vezes a fórmula "Sita Rama". batemos palmas. Recém-chegados tentam se sentar entre nós. Percebi que ele era perverso e egoísta quando se recusou a me ceder um lugar. Os velhos sábios que possuem os címbalos dão o ritmo e começam a cantar. 15." Por que não? Sita é a esposa de Rama.. fidelidade e serenidade.." Eu o imito. Eu me pergunto se será khichari ou arroz com purê de lentilhas. Eu não ouso. Eu me entrego totalmente. mas precisam pedir ajuda a um sacerdote." Não é difícil. batendo palmas. basta seguir a cadência dos címbalos. E eu canto e bato palmas: "Sita Ram! Sita Ram! Sita Ram! Viva Sita Ram!" Depois recomeça tudo outra vez: "Sita Ram! Sita Ram. Mas um terceiro sacerdote. o aroma de arroz cozido escapa pelas janelas do templo e volto a ter esperança de que a refeição logo será servida. Nós os imitamos. mas agora vejo que é o mais animado da banda. baixinho e com um bigode como o de Hitler. por meia hora.címbalos ao sadhu que esta à minha esquerda e a dois outros. Qualquer coisa me agrada. A metade de meus irmãos e irmãs parou de cantar e de bater palmas. cantamos. o casal consagra-se a um amor total e simboliza uma humanidade ideal de justiça. nada de chegar.. A litania só é interrompida para expulsar os intrusos ou quando os macacos correm sobre a chapa de ferro que serve de telhado. Estou cheio e não sou o único. pois à minha esquerda o sadhu que marca o ritmo com o címbalo não esmorece. cantem Sita Ram.

o que distribuiu os cartões. mexe os lábios sem emitir nenhum som. muito espertos. que cantam na frente deles. controlando se estamos cantando e batendo palmas. mas depois. Repetimos "Sita Ram" há uma hora. Pede o cartão amarelo do jovem ao lado. Qual? Ele me mostra de novo o indicador e o dedo médio. e assim que viram as costas se calam. Ele se aproxima.sonhos. inclina-se sobre ela e grita: "OH! OH!" Ela se sobressalta. Uma boa quantidade. Apagam no momento em que o queixo cai no peito. pois os sacerdotes circulam pelo terraço.. e na frente uma anciã me diz. Os sacerdotes só pegam os sadhu e as anciãs que estão mortos de cansaço.Estava dormindo? . mas não conseguem surpreender os três sadhu. depois o meu e vai embora. franze as sobrancelhas. Estou farto. Espero que não seja cardíaca. o que eu e o rapaz temos em comum que justifica o tratamento particular? Estou tão malvestido e sujo como ele? Quem sou eu? Ele volta a bater palmas. é o mais esperto para surpreender os preguiçosos. Ele acaba de notar a velha adormecida na minha frente. sem abrir a boca. O fundo do terraço não é visível da porta. Não paro de bater as mãos e me esforço para não esmorecer. dormem. Com convicção. O sacerdote gigante. e também conta com a ajuda dos sábios. Coragem. Farto. Cerca de 2. principalmente porque o sábio ao meu lado me lança olhares furiosos porque me calei. E recomeço a cantar. Talvez cantemos certo. no fundo do terraço. observando bem a expressão perplexa do rapaz.. .Não! Não! . Trapaceiros. compreendo que sem o cartão teremos problema. Na hora não percebo. que lhe apontam os irmãos que dormem.000 vezes. com a cara de quem come casca de banana. As anciãs também fazem sinais para que eu bata palmas com mais força. aflita: "Duas rupias!" O que significa isso? Duas rupias para quem? Por quê? Além disso.Levante-se! Vá embora! . Os sacerdotes se plantam na porta do templo para nos observarem.

Cinco minutos depois.Ela toca em seus pés. Levante-se! Saia!" O sábio logo apalpa seus pés. O gigante pode despertá-la a toda hora e ela pode até massagear os pés dele que não vai adiantar.Tem de cantar. Cinco ou seis metros à minha esquerda. implorando perdão. Viva Sita Ram!". sim. Isso me deixa maluco. exaustos. Eles as encostam uma na outra. Readormece. que nosso sofrimento não serve para nada e que esses sacerdotes nos torturam. pois não são barras de anfetaminas. Já disse que os sacerdotes controlam se estamos cantando com convicção. Calcule o que não dá um batimento de mão a cada segundo e meio! Bata palmas durante uma hora.. O gigante se afasta. O cansaço a derruba logo depois. Todo mundo está de saco cheio e os sadhu. se Rama existe. Inquisidores. O terraço é a cantina de um campo de reeducação ou de uma escola maternal? Brâmanes canalhas. entendeu? . Acho que nem que ela chupasse os dedos puros dos pés do brâmane mudaria alguma coisa. Fascistas. o sacerdote que se parece com Hitler berra com um velho sábio: "Não está cantando alto o bastante. repetindo "Sita Ram!. Realmente meus braços e mãos estão doloridos. De que serve rezar mecanicamente. colocaram o braço sobre os joelhos e já não batem as mãos. Que bela caridade a hindu! A voz já está rouca e as palmas das mãos doem. sem desejo? Talvez isso enlouqueça e estimule a fé.600 segundos. Está bem. Tenho a impressão de que nos obrigam a louvar Sita e Rama para pagar a refeição que nos oferecem. Repugnante.. É verdade. Tenho vontade de me levantar e gritar que Sita e Rama não existem. Escute. Também faço o mesmo. Também imagino que. São 60 minutos.Sim. Uma hora é muito tempo. mas a fome me devora. são 3. . canta a plenos pulmões e bate palmas com toda força. E canta. Também os antebraços estão doloridos de tanto agitá-los. . sua cabeça volta a tombar. não quero ir embora. Sacerdotes porcos! A doação da comida não é desinteressada. deve partir seu coração ver um gigante martirizar uma anciã. é melhor. como uma carícia.

atingir o nirvana. depois olho para o sábio hippie que me denunciou. e ele quer me mandar embora. com uma barba longa e cabelo preto comprido que bate nas costas. Saia! Tenho vontade de chorar. Isso me dá nojo. que possui um recipiente. Sim. Não tem tíquete. Ele também me observa. do tipo baba-cool. mas não tenho escolha.Um sacerdote pegou. esta sentado na soleira da porta do templo e não para de me olhar. Isso o satisfaz e ele se afasta. sem sentir vergonha. Bravo! Dá até vontade de fazer parte da confraria. intolerantes e delatores. saber dominar a fome. A metade do coro. Mas não fui o único. cantei por mais de uma hora. Sim.Deixe de histórias.O quê? Não tem tíquete! Então levante-se. Lixo santo. Procuro sua ajuda com os olhos. o deus que faz a luz triunfar sobre as trevas. mas o sacerdote o pegou. Saia! É muito injusto. cantar o nome de Rama. os textos sagrados. Não gosto nada disso. "Por favor. mas continuam a cantar imperturbáveis. eu não sei por quê. Ele me aponta para um velho sacerdote e este se aproxima.Um outro sacerdote pegou meu tíquete . Por favor!" Nenhum sadhu me ajuda.repito. Aprender ioga. Ele berra: "Levante-se!" Junto as mãos para lhe suplicar e roço seus pés calosos de velho brâmane. trapaceiros. de uns 40 anos. Ele diz: . Bati palmas. Eu só me ausentei um instante para beber na fonte perto do templo. Respiro aliviado.Um sadhu alto. Não parece lamentar sua atitude. se livrar das ambições e dos desejos. Estou com fome e cantei por nada. sem enfraquecer. "Viva Sita Ram!" Rama. se preparando para a refeição. eu tinha o tíquete.Tem o tíquete? . como dizemos no Ocidente. Egoístas. Duas anciãs confirmam ao sacerdote que eu realmente tinha um tíquete e que um de seus colegas o pegou. os sentimentos. . Que porco esse santo! Nesse terraço me deparo com o grupo mais virtuoso de sábios hindus. relaxado. Sim! . meditação. . desceu para enchê-lo de água. .

Talvez as duas coisas. Para não se aproximar de nós. Aproximadamente três libras de arroz branco em papa. sua atitude demonstra a pouca estima em relação a nós. Ele trata da mesma maneira os homens e as mulheres. Servem uma grande porção a cada um.. como os empregados do templo de Baba Khichari em Godhaulia. E assim sucessivamente. Alguns tiram do bolso pimentões ou um rabanete. todos que usam sotaina. os velhos e os jovens. Ele se satisfaz em apontar e virar a caçarola em cima do centro da folha. Quando o balde esvazia. Visão divina. esse brâmane puro. para evitar qualquer contato. Os velhos sacerdotes aparecem com um balde de lata do qual tiram o arroz fumegante com uma caçarola. seja branca. marrom. os sujos e os limpos. vejo o resultado e odeio ainda mais as coisas bentas. ou simplesmente para não se curvar. se cansar. Joga a folha da altura de seu peito e ela cai no chão ou na cabeça da gente. Um duplo alívio. Mas boa porção de arroz em queda livre se espatifa quando . Viva Sita Ram!" Mais meia hora e então. todos somos intocáveis para ele. Continuamos a bater palmas e a repetir: "Sita Ram! Sita Ram!.. Esses santos teoricamente perderam a impureza de sua casta de origem. Nada de especial. Não se inclina. Sem discriminação. ele torna a enchê-lo no templo e continua a servir. Em Ayodhya é diferente em relação ao sadhu comum? Esticamos a folha diante de nossos pés e os comensais se lavam com a água que coletaram em seus recipientes.. para enfeitar a refeição. igual a Cristo se aproximando para dividir os peixes c os pães. O sacerdote dá uma folha para cada um. Fico admirado que ele não toque nos sadhu. A não ser que a ração é jogada de uma altura de meio metro da folha.Nesta manhã. A felicidade.. preta. cantamos a plenos pulmões. empregado de um templo situado a um passo do local de nascimento do deus Rama. os apóstolos. o gigante comedor de casca de banana sai do terraço com uma pilha de folhas-pratos. os santos e os padres. açafrão. A comida será servida e não precisamos mais repetir "Sita Ram". Em um último esforço. De qualquer maneira. É bastante. Significa que nosso almoço é iminente.

iogurte. Schplaf! E se espalha no chão e nos seus pés. Eu me admiraria se essa manteiga tivesse sido oferecida para tornar o prato mais suculento. assim como os outros quatro produtos tradicionais da vaca (leite.chega. urina e bosta). e sim quanto à fé. Segundo a ideologia hindu. Esse templo não é um restaurante popular cinco estrelas quanto ao sabor. Aliás. Literalmente. e depois o gigante joga para cada um. mas já fomos todos servidos. . essa substância possui uma virtude purificadora. para que não escorra para o chão. Suspiro satisfeito. Misturo-o bem com o arroz a partir do centro da cratera. mas a merda bovina é comestível! Ninguém ainda começou a comer. como os beatos cristãos fazem com Jesus antes de almoçar. meia colher de manteiga clarificada. Depois é preciso juntar tudo e se limpar. É para limpar a comida. torno minha ração menos espessa e a moldo como um pequeno vulcão com uma espécie de funil em cima. É líquido. e entendo por quê. Este gigante não se preocupa com a reputação gastronômica de sua cantina. Ninguém come e manipulo o arroz que queima entre meus dedos. os hindus religiosos absorvem um coquetel purificador. faço uma massa homogênea. É muito humilhante ser alimentado como os camponeses enchem as gamelas de seus animais. Sempre segundo a mesma técnica: não se abaixa. Não é grande coisa. composto dos cinco elementos. como a usamos na França. e então atacamos a comida. amasso. O purê parece mais um caldo. Eu tive sorte. O sacerdote calculou bem a trajetória e somente alguns grãos de arroz se colaram em meus pés. mas cheira bem e estou contente por tê-lo para comer. esse tratamento faz com que eu me sinta mal. O que fazer? Tenho fome e deixo pra lá. O sacerdote gigante chega com um balde de purê de lentilhas e nos lança três conchas dentro dessa cratera. O velho sacerdote agora distribui uma colher de abóbora cozida. Como os outros convivas. Ainda assim. Que idiotice! Consideram-me intocável. Damos graças a Rama. Despedaço os grumos. A manteiga é simbólica. Atacamos com a mão direita nosso montinho de arroz.

o estômago sobe até a língua e aspira tudo que lhe envio. Resmunga: "Presta atenção. mas não em seu prato. Fico amassando o arroz para ganhar tempo e só levo bolinhas minúsculas à boca.Fazemos umas bolas. respondo. mas não aceito. Ele ergue a mão. lambendo a mão. É impossível levar corretamente as bolinhas à boca e grãos de arroz caem no chão. Estou acostumado e morto de fome. diz: "Você está tomando muito lugar! Deixe mais espaço para ele! Ele também tem o direito de comer.Precisa terminar. Uma anciã nota meu embaraço. Outra anciã lhe diz: "O rapaz está comendo direito. Senão não sairá daqui . Eu me pergunto como os outros conseguem engolir esse arroz e ainda pedir mais. pela qual o caldo escorre. Se esse santo tão velho me bater. Cada um de nós tinha um espaço de 50 centímetros onde se sentar. Estamos muito juntos e fica difícil levantar o cotovelo sem tocar no vizinho." Está certo. Mas o sadhu briga comigo outra vez. e hop! na boca. Uma atrás da outra. deixo cair. não ousarei reagir e acho mais sensato abaixar a cabeça em silêncio. mas a sensação de plenitude. Estou na metade da minha ração e paro. O sadhu à minha direita me empurra um pouco. Ele separa os cotovelos e aí consegue comer direito. Deixe-o em paz!" O sadhu para de reclamar e comemos em silêncio. Não reajo. como com mais dificuldade ainda e ele me fuzila com os olhos. Tento comer mais devagar. Tem de terminar . Como ele me apertou. O sacerdote gigante serve o resto de arroz e lentilhas. Ele me empurrou e ganhou 10 centímetros. .Coma com calma.ela diz. Além do mais. eu comeria melhor". É delicioso. "Se não me apertasse. A comida queima meus dedos. Ela aponta o velho sacerdote na porta do templo. O que dizer? Dou de ombros. Afaste-se!" O sadhu resmunga com a boca cheia e deve ter se afastado um pouco. é insípido. Não faz mal. que o escuta se lamentar. Não o gosto. Na nossa precipitação. deixando cair menos arroz. em um gesto ameaçador.acrescenta uma outra. está deixando o arroz cair para tudo que é lado. . Uma anciã à nossa frente. pois sinto mais uns cinco centímetros livres à minha esquerda. . Isso não é tudo. incomodamos uns aos outros. Estou cheio até o esôfago. A massa não desce mais.

aliviado. Obedeço. de calça e camisa.Não .diz o velho sadhu à minha esquerda. me sufoca. Não tem o direito de desperdiçar alimento. Desisto e. no terraço. quando o sacerdote passa diante do rapaz à minha direita e de mim. Só restam 200 ou 300 gramas para engolir. . Parece satisfeito. Meu coração dispara. batimentos martelam minhas têmporas e placas de suor cobrem minhas costas. só me preocupo com a massa a meus pés. Vou ter um ataque. Corro o risco. E está na miséria. Para pagar? Estou pouco ligando. semelhantes aos de uma carpa que vem à tona comer na superfície do lago. Tenho medo de vomitar aqui. Abre sua boca doente e emite ganidos surdos. recolhendo os cartões amarelos. dobra sua folha e dá um grande arroto. Mas ele é um homem e o espetáculo é de dar pena. de ter chegado ao limite de elasticidade de meu estômago e de que a pressão em meu tubo digestivo faça eu lançar tudo para fora se colocar mais alguma coisa na boca. Um cara desconhecido. Um pesadelo. o sacerdote gigante anda a passos largos pelo terraço." Meu vizinho se joga aos pés do gigante e agora entendo a origem de seu mutismo perpétuo. Moldo uma bolinha. Mastigo. O velho sadhu à minha esquerda acabou. As anciãs dizem para eu dobrar rápido minha folha de um modo que não notem que não comi tudo e esperar as duas rupias.. Não lhes dê dinheiro. Sei disso e faço um esforço. Percebo em que mundo sujo eu vivo. nesse momento. tem de comer mais. Eu também.Coma! . Piedade! Os outros convivas também dobram suas folhas vazias e pegam o tíquete amarelo. Uma bolinha. Já não posso lutar.Rápido.corrige sua vizinha -. me faz mal. vou explodir se continuar a comer. Sinto que perco a cor. É um inferno. mas logo sou despertado. É repugnante. O resto acontece rapidamente. Vou desmaiar. duas bolinhas. Ele é mudo. e diz a seu tesoureiro: "Estes dois não têm tíquetes. ninguém está vendo. reparto e a levo à boca. dobre a folha. semiconsciente. o segue e distribui uma nota de duas rupias a cada pessoa. pois devo acabar o prato. É uma overdose de arroz papa. força meu abdome. Tenho medo de forçar demais. E volto a me esforçar. O . feliz. É impossível engoli-la. Uma anciã me diz com a voz baixa: .

percebo por que não recebi as duas rupias. Eu me levanto abatido. punido. ao procurar saber a causa de meu castigo. desprezado. me ajoelho diante do gigante e acaricio seus pés. Preciso delas. Eu errei. Esqueço minha própria miséria. Cantei milhares de "Sita Ram". a injustiça e a humilhação de ser punido sem saber por que não me importam mais.. cada santo e cada sadhu recebem uma rupia. Meu vizinho fica arrasado. o ventre dilatado. os olhos úmidos. Avaliar a situação." Hoje. vejo como ele precisava dessas duas rupias. Observando seus trapos. No entanto. Acabou tudo. Pego meu saco e vou embora. De repente. corro para a lata de lixo instalada na viela." Hesito e decido. Sou diferente. deram dinheiro a vários outros jovens vagabundos que ali estavam e que não tinham o aspecto de sadhu. mas uma anciã me sussurra: "Jogue logo a folha no lixo e venha suplicar ao sacerdote.sacerdote afasta os pés e continua sua turnê. me dê as duas rupias. nem que seja para dar ao rapaz mudo. Como descrevê-la? . Lamento ter vindo. Reflito por um instante e concluo que a punição foi um elogio. "Por favor. nauseado.. foram duas rupias. como se o mundo devesse ser justo. Rama seja louvado! Essa conclusão me conforta o coração e dou uma volta por Ayodhya. mas quero tirar duas rupias desse porco. Sofri duas horas e meia nesse terraço. Pode ser que para você. Na viela. Sinto pena dele. Nunca me rebaixei tanto na vida. noto que o sol está quase no zênite. para fazer a digestão. Eu não me parecia com aquela gente detestável do terraço. agora que a sentença foi decretada. Nunca me esquecerei dessa experiência. É uma cidade magnífica e ao mesmo tempo uma aldeiazinha remota e imunda. O que fiz? Por que me tiraram o tíquete?" Ele responde somente: "Vá embora!" Errei ao dar ouvidos à anciã. No parapeito do terraço há um cartaz em que está escrito em letras vermelhas: "Depois da refeição. Lanço-lhe um último olhar. Humilhado. eu me sinto como um animal. volto ao terraço. Vôo. e os sacerdotes não nos consideraram sadhu.

Há várias maneiras de descrever um lugar. Ayodhya é a cidade dos macacos ou dos templos e fica difícil escolher entre as duas designações. Mas não quero mais me divertir assim. Desisti todas as vezes. de contar uma história. já que inexata. Neste burgo. Os macacos e os templos. oriundo da passagem dos peregrinos. sempre procurando algo para furtar. As confeitarias são em menor número que os templos.000 templos. caramelo de Ayodhya. Somente duas coisas saltam aos olhos do viajante. Ao diabo Rama e a mitologia. Os templos também são inúmeros. e tentei contá-los em uma ruazinha ao acaso. a grande quantidade de doces e tortas não deve surpreender. Milhares de macacos invadem esta velha cidade. o pão de Ayodhya. colados uns aos outros. Ayodhya possui 7. além da presença dos policiais e dos extremistas.. mas assim mesmo deve haver umas 100. Não! Não! Não! Esta definição liminar é insatisfatória. uma mulher. É o comércio mais frequente junto com o de suvenires e de objetos religiosos. e em mais outra. nesta Belém indiana. Interroguei três e. grandes e pequenos. Exatamente. como os pombos em Veneza ou em Paris. depois em outra. Ayodhya é a cidade dos macacos ou dos templos? Na verdade. todos misturados. E estava.. Sou forçado a aceitá-la e entendo por que me confundia ao tentar contá-los. um tipo de doce. Estou cansado. depois. como bolinho de Ayodhya. Já falei de Délhi e da Ravindrapuri. Todos repetiram a mesma cifra. Eles procuram um refúgio calmo. Começarei dizendo que Ayodhya é a cidade natal do deus Rama. As oferendas dos hindus consistem quase sempre de flores e alimento. Não! . um policial. Eles correm livremente pelas ruas. Então. travessos.000 ou 8. Achava que essa gente estaria à par das informações turísticas. de tão inacreditáveis que são. os templos atraem os macacos. Eu me perdia na conta e resolvi perguntar aos comerciantes de suvenires. voam de casa em casa. com muito alimento. para comparar os dados. Não pensem que isso queira dizer que haja uma especialidade local. sem importância em uma cidade santa.

Os doceiros de Ayodhya exibem nas prateleiras pirâmides de laddu (farinha frita e açúcar em forma de bolinhas) e khurchan pera (discos endurecidos de leite concentrado e açúcar). Aliás. Só vendem os doces comuns. e a abundância de doces e tortas só se justifica por permitir aos peregrinos ofertá-los aos deuses. Como os brâmanes sabem que seus deuses gostam de açúcar? Porque têm os mesmos gostos? Os deuses lhes disseram? Isso me assombraria. Esses doces são oferendas de qualidade. Doces divinos. mas nem por isso os sacerdotes hindus estão menos certos de estar dizendo a Verdade. Precisavam de muita gordura. uma espécie de aleluia hindu. mas que encantam os palácios dos indianos. Exibem montanhas dessas bolinhas brancas de açúcar. já que são vegetarianos e não tocam no álcool. Permite que cumpram seu dever de devoto. Ela atribui aos deuses o amor pelo açúcar. acima de tudo. pois com a liberdade e a .confessável – da boca. principalmente dos brâmanes e dos membros das castas mais altas. o açúcar e o leite. A santidade de Ayodhya não é gastronômica. A gordura é tão escura que deve datar da colonização britânica. se baseia no khurchan pera. como se um pneu estivesse sendo frito. com "V" maiúsculo.Olhei as vitrinas dessas lojas e senti náusea. O aroma de caramelo e de fritura que toma as vielas de Ayodhya me alerta para minha intocabilidade e me causa náusea. Servia para lubrificar os caminhões ingleses. mas religiosa. em teoria. Depois da Independência. Guloseimas indigestas. As confeitarias aqui correspondem à escada de mendigos de Dashashvamedh. como as velas em uma igreja católica. É difícil acreditar que milhares de homens aceitem esse embuste. doces demais. A propósito. os caminhões foram depenados e jogaram o óleo nas marmitas das tabernas e das confeitarias. que são muito encontradas nos santuários hindus. Os deuses adoram. a sílaba divina "Om". Os brâmanes sonharam com isso? Não. insípidas e geralmente rançosas. Por isso esse mistério me interessa. das quais constitui o único prazer . Cheira a gordura rançosa queimando. uma questão me intriga há muito tempo. pastosas. decreta que os alimentos fritos são os mais puros e classifica o intocável no nível do cachorro. Ayodhya. Sim. engorduradas. A origem do conhecimento do gosto dos deuses permanece um mistério. cidade dos doces.

Estou brincando. quando pergunto onde fica este ou aquele templo famoso. alimentos fritos. Talvez a fritura purifique a alma. Isto é. ou então o rio Saryu. animar meu estado de espírito. Ao longo da rua central. sapatos velhos e uma bigorna. quero conversar com alguém da minha condição. Tenho certeza de que é um filho de Deus. Com os pratos mais puros.modernização do país. mas com certeza engordura as artérias. repugnante. o mundo material é só uma ilusão. Martelos. cola. tenazes. dignos deste lugar santo. palmilhas. e quase obsequioso. Uma a cada duas vezes me ignoram ou mostram desprezo. escovas. Também quero saber se a carne e o álcool continuam proibidos.. ar jovial. Só posso perguntar isso a outro intocável. a vida atual não passa de uma existência entre muitas outras no ciclo infinito de nascimentos e mortes ao qual cada um se sujeita. Um cara com a cabeleira hirsuta. Era preciso alimentar todos os fiéis e possibilitar que fizessem suas oferendas piedosas. trinchetes.. os devotos dirão: "Pouco importam as artérias e o corpo. uns 40 anos. Daí os laddu." Visito a cidade a pé e desde que cheguei. a guloseima dos sadhu. as pessoas me tratam sem o menor respeito. com um desprezo flagrante. reconheço um irmão intocável. Uma a cada duas vezes me lançam um olhar de desdém e viram as costas. que leva à ponte do rio Saryu. rosto e pés pretos e imundos. a roupa em farrapos. Um miserável de casta baixa. É baixo. no meio de suas ferramentas. Está sentado de lungi na beira empoeirada da calçada. O melhor possível. com quem se deve evitar o contato. os peregrinos afluíram a Ayodhya. sob o governo dos Nehru-Gandhi. gordo. Além disso. Aqui não tenho a impressão de ser um sub-homem. o que é raro em hindi. cera. pois exerce a profissão de sapateiro. sem a discrição e a atitude conveniente mantida em Benares. Imagino como devem me ver. Começo as perguntas com "Por favor". essas bolas gordurosas e açucaradas. Teria . Isso quando respondem. mas de ser um animal. sovelas. em silêncio. que banha alguma parte dessa região e que gostaria de conhecer. Ayodhya é o inferno e sinto falta de Benares. Que sociedade obscurantista! Já sei. Mas isso não muda nada. Estou esgotado.

na França. para que me sinta mais próximo dele e fale sem constrangimento. Durante meu passeio. . Mas em Faizabad há todo tipo. o respeito de que são privados. que o sapateiro fique desocupado.. Em relação ao alho e à cebola. a menos de 10 quilômetros). é como.Sim. Tenho um probleminha. mas o senhor e eu sabemos que é gostosa demais. frango.. Do outro lado da rua." Ele responde que tudo bem e eu me agacho e conto que sou um aborígine de Bihar. Ele aprova.Que tipo de carne? .O senhor sabe se posso comprar carne aqui? . .respondeu.vergonha de falar de carne e de álcool com o primeiro que encontrasse. .Tudo. deve ser clandestino.. se pedisse informações sobre as putas. Se esse tipo de comércio existe.Aqui só a de cabra.O senhor. Aí eu pergunto direto: . . acentuando o "senhor". " Prossigo: .pergunto constrangido e querendo saber os costumes dos sapateiros da região. Queria saber onde acontece. estou de passagem por Ayodhya.De porco também? . . a cidade mudou desde a infância de meu professor Ram Singh. não? . Um trago cairia muito bem para lavar o espírito. Mas pode encontrá-la todos os dias em Faizabad (capital do cantão. notei que as quitandas vendem esses bulbos impuros.Em Ayodhya se vende carne somente às terças e sábados. Em compensação.Eu também. como se fosse algo íntimo: "Bom dia.Vou dar a informação ao senhor . É boa. Então. peixe. come carne de porco? . búfalo. um ao outro. Porco. com um sorriso que significa: "Essa prática é suja e vergonhosa. talvez possa me dar uma informação. me aproximo e falo em voz baixa. não vi nenhum açougue nem casa de bebidas alcoólicas. lacônico. cabra. .Sim.. como dois escravos demonstrando. o que me indica que nós dois damos importância a esse tratamento.

me informando sobre tudo isso . Como se eu tivesse a peste. Ele diz: "Nós também. Os clientes trazem sapatos para consertar ou para engraxar. Conto que antes de Ayodhya estive em Benares. Exceto algumas pessoas que. normal e muito agradável. as pessoas me olham de modo mais estranho ainda. dos filhos de Deus. nosso santo. O sistema de castas aqui parece muito forte. Que ali visitei um templo dedicado a Ravidas. Gosto de sua presença. se queixam que trabalha devagar ou que é muito caro. temos um templo de Ravidas. Ao seu lado. . É a primeira pessoa que fala comigo sem demonstrar desprezo. Então fumo um sozinho e ele masca tabaco. Dirigem-se a ele com desdém e o tratam de "você". É pequeno. . não apenas porque ele me trata de "senhor". mas me perco e. Passo meia hora com ele. Ele sorri. É um bairro calmo e fresco. assim só precisa pagar um dote e. pelo contrário. Ele me ensina o caminho e o deixo. Dou os parabéns.Aqui os brâmanes são muitos e poderosos. . O passeio é agradável. Devia conhecêlo. O templo é magnífico e fica acima do Ganges. O templo de Ravidas não fica distante da estação. mas muito bonito. Mas o cliente é quem manda e meu irmão os trata com cerimônia e nunca os repele.digo. recebe dois ao casar os garotos. Digo que teve sorte de ter apenas uma filha. .diz suspirando.Está bem. mas também porque fala de uma maneira comum." É uma idéia excelente. eu me sinto um ser humano. se situa no meio de casinhas de barro e hortas. . .. Tem de ir a Faizabad e trazer para cá.E beber às escondidas? . em compensação.O senhor é gentil.Sim . e também sacolas. mas ele não fuma. em Ayodhya. Ele masca. com muito verde. Ofereço um biri. Falamos pouco.Não. mas ele chega a me contar que tem dois filhos e uma filha.Posso ficar um pouco com o senhor? .Posso comprar bebida alcoólica em Ayodhya? .Sim. quando pergunto a direção do templo dos intocáveis.

volta dos rins. Suas estátuas tornou-se um personagem histórico -. como aconteceu há 10 dias em Ghazipur. está sentado na escadaria exterior do templo. a tez baça e a pele do ventre enrugada como um figo seco.e o sistema de reencarnação em uma casta mais ou menos elevada. como recompensa pelas . O templo de Ravidas mede aproximadamente 10 metros por 10. uma estátua de Ravidas. Ambedkar pregava a igualdade de todos os cidadãos e a erradicação do sistema de castas. contra o sistema de castas e o hinduísmo. um santo leigo. Fico descalço e lhe digo que vim rezar. É uma construção cúbica. por trás de uma grade. Isto é. em mármore branco. Tem uma barba grisalha.sorriem ao ouvir o nome de Ravidas. O que faz Ambedkar em um templo hindu? Ambedkar. de certa forma.e não de um dever universal . o líder intocável da metade do século 20. Os intocáveis o consideram. O sistema de castas é tão necessário ao hinduísmo quanto a água ao peixe e o álcool ao bêbado. pendurado à direita do santuário. Uma peça única e escura. em 1956. Imagino que seja um sacerdote. um herói. cantão vizinho a Benares. Ele faz sinal para que eu entre. O cumprimento do dever pessoal de casta . como sacadas. e a fachada branca só é ornamentada por duas varandas pequenas. o budismo. de um metro de altura. sem mobília. Suscitou a conversão em massa de milhões de intocáveis ao budismo e se tornou. com o torso nu e uma tanga branca em. religião igualitária que não admite as castas. adotou. do hinduísmo. com tapetes e no fundo um pequeno santuário que abriga. Um velho. Hindu de nascença. Meus olhos se acostumaram à escuridão e reparo em um retrato do doutor Ambedkar. Imagino que esses autóctones com roupas pobres de camponeses devem ser intocáveis. O interior do templo não desperta mais interesse que seu exterior. lanço através da grade uma nota de duas rupias e me viro para sair do templo. antes de morrer. o inimigo do hinduísmo. compacta. Jurista eminente e ministro da Justiça depois da Independência. como as sinagogas na França. acima de tudo. foi um dos pais da Constituição da índia moderna e secular que abole a intocabilidade. lutou durante toda a vida pela justiça social. são destruídas por extremistas hindus das castas altas. o defensor de seus direitos. Eu me ajoelho diante dela. instaladas na via pública ou nas escolas.

boas ou más ações, constituem os dois pilares fundamentais dessa religião, até a libertação final e o paraíso. Sem o desejo de renascer como brâmane, e sem a ameaça de se tornar um intocável, o sistema moral hindu não funcionaria. Ambedkar compreendeu a impossibilidade de uma reforma do hinduísmo eliminar a intocabilidade e escolheu a via legal e a do crescimento econômico para tornar os homens iguais. Na mesma época, Gandhi também militava contra a intocabilidade, mas defendia o sistema de castas, que julgava uma excelente divisão de trabalho pelo nascimento. Sonhava em purificar o hinduísmo. Para reabilitar os intocáveis, pedia que seguissem costumes mais higiênicos, e aos membros das castas altas solicitava que fizessem penitência e dessem provas de humildade. O paralelo entre Gandhi e Ambedkar me fascina. Esses dois contemporâneos eram oriundos do Oeste da Índia, eram juristas e haviam estudado no Ocidente, fato raro na época. Mas esses dois combatentes ocidentalizados da intocabilidade eram adversários. Gandhi, o reformista, e Ambedkar o revolucionário, embora detestasse os comunistas. O evangelista e o leigo. Gandhi, pudicamente, batizou os intocáveis de "filhos de Deus", e Ambedkar fez a administração denominá-los, secularmente, "castas repertoriadas". Gandhi pedia aos hindus das castas altas que aceitassem os intocáveis, enquanto Ambedkar mobilizava os intocáveis para que libertassem a si mesmos. Gandhi idealizava a aldeia tradicional, seu artesanato e seu sistema social fundado na interdependência das castas; Ambedkar afirmava que as aldeias indianas não passavam de covis segregacionistas e obscurantistas, e que era preciso promover a indústria para desenvolver a economia e realizar a igualdade entre todos os homens. Em 1932, Ambedkar obteve dos colonos ingleses direitos eleitorais particulares para os intocáveis, mas Gandhi empreendeu uma greve de fome para protestar contra esse favor que, segundo ele, afastava os intocáveis do hinduísmo. Gandhi, no âmbito do Partido do Congresso, temia a emergência de um movimento intocável independente que enfraquecesse os dirigentes do partido, e não acreditava na capacidade intelectual dos intocáveis, nem

para a defesa de seus próprios interesses. Em 1931, depois de seu primeiro encontro com Ambedkar, Gandhi se admirou de que ele fosse um filho de Deus e não um brâmane sensibilizado pela intocabilidade. Como se os intocáveis fossem incapazes de gerar um líder. Em 1936, Ambedkar flertou com o siquismo, aconselhando os intocáveis a se converterem a essa religião igualitária. Gandhi, preocupado com o fato de que o hinduísmo pudesse perder 20% de seus fiéis, teve dúvidas quanto a se os intocáveis eram mais capazes de distinguir os méritos entre as diferentes religiões "que uma vaca" (sic). O combate desses dois defensores dos intocáveis é tão cativante que, no crepúsculo de suas vidas, seus papéis se misturaram. O santo Gandhi acabou se dando conta da necessidade de leis que protegessem os intocáveis e de que era preciso destruir o sistema de castas - mesmo que quisesse conservar o hinduísmo. O leigo Ambedkar se tomou religioso, se convertendo ao budismo. Vejo Ambedkar nesse templo hindu de Ravidas e rio. Interiormente. Digo ao velho sacerdote dois slogans famosos de Ambedkar: "Considerem-nos iguais... Se seu espírito está curado, a água nessa tigela será igual à água do Ganges." O sacerdote sorri e vou embora. Dirijo-me ao rio Saryu, uma caminhada de cinco quilômetros. Quando chego, o sol começa a descer. O rio Saryu é largo, mas parece pouco profundo. Para lá da grande ponte que o transpõe estendem-se bancos de areia a perder de vista, do lado de Ayodhya, e que dominam metade de sua superfície, nesta estação seca. A outra margem parece deserta, como a margem maldita do Ganges, de frente para Benares. A margem do lado de Ayodhya é constituída por escadas de pedra e uma escarpa de areia. Centenas de peregrinos para ali afluem. Os sacerdotes os abençoam em um banho purificador e lêem a sina de alguns ao mandarem que toquem o rabo de uma vaca. Acho isso ridículo e não consigo deixar de sorrir.

A água do rio é verde e límpida, mas, além dos devotos, toda espécie de lixo, óleo e plásticos flutuam nele. Não me banharia nele nem que a tintura de meu corpo fosse indelével, e me pergunto como um esgoto desses pode purificar o corpo. Isso me faz lembrar que o Buda zombava do rito hindu da ablução: "Se basta mergulhar no Ganges para lavar seus pecados, quantos peixes e rãs já não estão salvos?" Ele se referia ao Ganges, mas sua observação é válida para todos os rios. Todos possuem, em grau menor, virtudes purificadoras. Quando se imagina um rio, pensa-se primeiro na água, depois em peixes que saltam na superfície, depois em pescadores com caniços ou redes, os quais vemos trabalhar, e isso faz passar o tempo. Aqui não há pescadores, só banhistas, e não tenho vontade de vê-los flutuar no esgoto. Eu me aborreço contemplando essas margens arenosas e áridas e imagino que nesta cidade santa, entregue à ditadura dos brâmanes vegetarianos, a pesca deve ser proibida. Eu me levanto e vou para o reservatório de água atrás da margem e para seu terrapleno, uma espécie de dique. Este lago cimentado margeia as primeiras construções de Ayodhya. Parecia magnífico quando o vi, ao chegar do centro da cidade. E é. O local me lembra Veneza. Porém barroca. Os domos orientais coroam os imensos palácios de cor creme e os templos de pedra vermelha que se debruçam sobre o rio a perder de vista, se refletindo na água cor de esmeralda. Escadas largas, com degraus de cerâmica rosa, descem em sua direção e alguns homens as lavam. O detergente faz muita espuma; peixes mortos flutuam com a barriga para cima, no meio do lixo, das manchas de óleo e dos velhos sacos de plástico. A água está repleta de poluentes e lixo. Há até mesmo o cadáver de um cachorro, com a barriga inchada, que bóia como um balão. Se este é o reservatório de decantação dos esgotos de Ayodhya, é a estação de depuração mais bonita que já vi. Mas acho que é apenas um reservatório comum. A água é suja, mas clara. Cardumes de alevinos nadam na superfície e de vez em quando peixes grandes sobem à tona para comê-los. Pequenas

tartarugas mergulham assim que vêem eu me aproximar. Mas não vejo nenhum pescador. Ayodhya! Proibido pescar. É um ato sanguinário, cruel, bárbaro, que vai contra a moral vegetariana hindu. Em compensação, pode-se poluir a água em que os peixes vivem. Pode-se lavar roupa e esvaziar latas de lixo à vontade. Para os brâmanes, tudo bem. Essa é a natureza de seu amor pelos animais, de seu respeito por todas as formas de vida - que talvez sejam a reencarnação de seus avós. Um exemplo de sua alta civilização humana e de sua não-violência: a agonia lenta e inútil dos peixes por envenenamento e não a morte imediata nas mãos de um pescador, a fim de alimentar os homens. Brâmanes cretinos! Quanto mais dura minha metamorfose, mais os detesto. Nunca pensei que viesse a sentir tanta raiva por outros homens, e compreendo como os negros se tornam racistas radicais. Reflito sobre tudo isso até o crepúsculo, sentado em um degrau à beira da água, e depois subo para o passeio que rodeia o reservatório. A noite caiu. De repente, sou dominado por um grande cansaço. Não durmo desde ontem. No meio do passeio, noto a soleira de cimento de uma casa que parece desabitada. Estendo o oleado e a coberta, e me deito. Penso nesse primeiro dia em Ayodhya, no almoço humilhante, nas litanias absurdas de Rama, nos doces para satisfazer o gosto dos deuses, na mesquita Babri, em seus ídolos invisíveis, que fazem a Índia vibrar, nas vaquinhas do Saryu, no sistema de castas radical dos habitantes locais, no retrato de Ambedkar no templo de Ravidas... Ambedkar, o profeta dos intocáveis, me lembra seu contemporâneo Periyar, outro revolucionário de sua têmpera, adversário de Gandhi e o "Sócrates" dos tâmeis, povo dravídico e não ariano que habita o Sul do subcontinente indiano. E. V. Ramaswami Naicker, chamado de Periyar, isto é, o Sábio, combateu com veemência o hinduísmo, o sistema de castas e, de maneira geral, toda a civilização dos brâmanes e do sânscrito. Inclusive os casamentos endogâmicos e a expansão do hindi (língua originada do sânscrito) como língua nacional da Federação indiana. O escritor V. S. Naipaul conta como Periyar, usando uma camisa preta - em contraste com a

tez e as roupas brancas dos brâmanes, símbolos da pureza -, iniciou seu discurso com: "Deus não existe. Quem inventou Deus é um louco. Quem propaga a existência de Deus é um crápula. Quem acredita em Deus é um bárbaro..." Periyar comparava a miséria da sociedade indiana, nas mãos das altas castas, ao desenvolvimento da Europa graças à ciência. Seu espírito racionalista escarnecia do hinduísmo e explicava que os brâmanes tinham copiado seus deuses dos deuses do Egito e da Grécia antigos. Previa os avanços ilimitados que a ciência propiciaria à humanidade, destruindo as especulações obscurantistas sobre a existência de Deus. Quando o mundo fosse transformado em um paraíso com a ajuda da ciência, não haveria mais necessidade de um no céu. Quando não houvesse mais miséria, não haveria mais necessidade de Deus. Ao contrário de Gandhi, o santo campeão do jejum - como o herói do romance de Kafka -, Periyar era um glutão e comia carne de vaca propositalmente, para mostrar que não era nada de especial, nem doentio. Efetivamente, viveu 94 anos, um prodígio em um país onde a esperança de vida só passou de 32 para 59 anos, a partir da Independência. Periyar e Ambedkar travavam um combate complementar e em 1943 chegaram a discutir a divisão da Índia com Jinnah, futuro fundador do Paquistão. Para escapar à dominação dos brâmanes, os muçulmanos queriam fundar o Paquistão, ou "país dos puros"; os intocáveis, um Dalistão, "país dos oprimidos"; os sulistas, um Dravistão, "país dos dravídicos", e os hindus se encontrariam em um Hindustão - Índia em hindi, ou "país dos hindus" - amputado, que tanto horror causava a Gandhi e que lhe custou a vida. Tudo isso é História. Nesta noite, o que me interessa em Periyar é sua comparação entre os deuses hindus e os deuses egípcios e gregos, e sua visão do hinduísmo como religião primitiva. Ele tem razão. Uma viagem à Índia não leva os ocidentais à Idade Média, como se costuma dizer, mas às trevas cruéis das primeiras civilizações. A sociedade indiana é um vestígio da Antiguidade, está próxima das sociedades gregas, romanas ou celtas, por seus costumes religiosos e segregacionistas em função do nascimento, que derivam, principalmente, do fundo comum indo-europeu.

Hoje as sociedades indo-européias hierárquicas. No caso de ter confusão em . Ghurye. Resolvo continuar a ser um indiano. uma característica típica do hinduísmo. com seus santos padroeiros . pagãs. S. de minha sujeira. mas não um intocável ou um mendigo. como os varna (a ordem genérica das castas) na Índia: os patrícios. obscurantistas e escravagistas já não existem. Essa metamorfose é possível.Os brâmanes podem ser comparados aos druidas. mas sinto que não aguento mais e tenho vontade de desistir de tudo. Muito ligado às suas origens remotas. 30 de novembro O frio me despertou várias vezes durante a noite e me sinto exausto. não apenas pela maneira como cultuam as divindades pagãs e por sua concepção de pureza. ou comesse em sua companhia. mas cada classe possuía direitos muito discordantes. a sociedade classificava os homens segundo o nascimento em três graus imutáveis. uma certa endogamia e uma hostilidade aos movimentos individuais entre os grupos. Em Roma. Platão declarava que aquele que tocasse em uma pessoa expatriada. A idéia de Gloire de eu trazer roupas limpas e tintura foi perfeita. Não sei como descrever. Não distingo a escada nem a água do reservatório. este país se tornou um mundo fóssil. Porcaria de cidade! Estou de saco cheio do desprezo dos outros. Estou esgotado. vou acabar morrendo ou enlouquecendo. como também por seu poder judiciário e político. De tanto procurar situações cada vez mais duras. Impede a visão a 10 metros de distância. Pelo menos em parte.como muitas castas hindus -. A economia se desenvolveu e elas se subdividiram em várias guildas profissionais hereditárias. do frio e do cansaço. Mesmo a intocabilidade. a plebe e os escravos. pode ser encontrada na Grécia dos antigos filósofos. Não darei uma aula de etnologia romana. Exceto na Índia. Será a falta de sono que me confunde? Estou pifando. não poderia mais entrar em um templo ou na cidade sem ser purificado. O ar está muito úmido e uma neblina espessa escurece o amanhecer. segundo o célebre antropólogo indiano G.

não notam o que estou fazendo. Acham que sou um deles. Para construir o templo de Rama. com toda essa neblina. Procuro um saco novo em uma loja na entrada da cidade. de tez clara e brilhante. às nove horas. Ele tem a mão no guidom e nos faz andar. Meto minhas coisas dentro do saco e vejo que é muito sujo para minha nova identidade. Deve achar que não tem nada a temer para tirar um fino dos pedestres e outros veículos daquela forma. e paro em uma taberna. tiro a camisa e o lungi esfarrapados e visto a calça e a camisa limpas. com minhas roupas novas. Eu me olho no pequeno espelho e descubro um terceiro homem. e . sem se preocupar. e agora são milhares em Ayodhya. Quero parecer um hindu de casta alta e ver como as pessoas me tratarão. deus dos macacos. mas é Rama que nos conduz. Não pareço mais um intocável. A neblina se desfaz com o calor do sol. Desembarcaram durante a noite. Tem pouca gente e. Vai ser interessante e espero que seja mais fácil de viver. Fico esperando ao longo do rio a abertura do comércio. Eu me barbeio e esfrego bem o rosto. há um grande número de voluntários que se espalham pelas ruas em um fluxo contínuo. Eu me limpo e lavo vigorosamente em uma fonte no final do passeio em torno do reservatório. Quero visitá-la. depois desço para a beira da água. quando caminhava por essa rua atravancada. sigo a pé para a mesquita Babri. Hoje não sou pobre e pago seis rupias por uma refeição completa.. Desço perto do grande templo de Hanuman. inesgotável. refazer o percurso de ontem. Preciso comprar outro antes de mergulhar na cidade. Viva Rama! Saboreio o prazer de ser transportado e me sinto mais seguro que ontem. subo em um desses triciclos a motor que servem de táxi ao longo da rua principal.Ayodhya. Nem Marc Boulet nem Ram Munda. Com a boca e o estômago satisfeitos. O motorista é um louco e tem três “Viva Rama!" pintados no veículo. mas um indiano bem-vestido. ligeiramente café-com-leite. como um indiano nãointocável. Para romper com minha antiga existência de andarilho miserável. como nuvens de gafanhotos. os braços e os pés. Dizem “Viva Rama!" bem alto uns para os outros e não se esquecem de mim..

um nome da casta dos brâmanes . o camelô que ontem guardou minhas sandálias e meu saco também muda de atitude comigo.eu respondo: “Viva Rama!" Acho agradável cumprimentar desconhecidos. Dessa vez lá estão. ninguém me toma por um estrangeiro.Eu tinha certeza . parece-se com a paisagem lunar tibetana. Estou contente por saber que existem. o que é fácil de notar pelo tipo de olhar curioso que lhe lançam.e que venho de Lelh. Eu os vi. mas não me trataram como em Benares. pois são martirizados pelos muçulmanos. Nunca pus os pés na Caxemira e não falo uma palavra de sua língua. mas se me pedirem detalhes. É a terceira vez que me perguntam se sou um deles. Parecem escuras e vagamente brilhantes. e o . mas não tenho certeza. mas me dirige um largo sorriso e pergunta se não sou um brâmane da Caxemira. pois são muito pequenas. Saio da mesquita e caminho nas proximidades. Policiais e milhares de voluntários tornam a esplanada sombria. Queriam saber se eu era um brâmane da Caxemira. em meia hora de passeio. Tive medo. e eis que sou impulsionado ao cume das hierarquias das castas. Consegui. Não me reconhece.respondo. De imediato não percebo o sentido do que diz. não pensei na identidade que adotaria.Sim . Ontem ninguém prestava atenção em mim. . mas hoje. Quero ver os famosos ídolos. os policiais me interpelaram duas vezes. Sorriram e me trataram de "senhor". Diante da mesquita. . Os brâmanes da Caxemira são muito respeitados e atraem a simpatia geral dos hindus. Além do mais. Não os contradisse. Mas só suas cabeças minúsculas emergem das toalhas bordadas com fio prateado. Na minha precipitação. estou preocupado com minha visita à mesquita. capital do Ladakh. Não sei como se parece um brâmane da Caxemira. Só queria deixar de ser intocável. Eu me admiraria se encontrasse alguém que tenha visitado esse local distante da Caxemira. Vi fotos dessa parte do Himalaia. direi que me chamo Ram Pandey . Quatro estatuetas deitadas na primeira vitrina com dossel. mas deve ter minha cara pálida e vestir o tipo de roupa indiana que estou usando.ele diz.

como em um estábulo. é uma festa. Afinal. ficaria mais apetitoso e bonito. ao pé do outeiro em que Rama nasceu. tem o rosto redondo. eu os acompanho. Tive dificuldade em me livrar de um sadhu que me abordou e queria que eu visitasse seu monastério perto do templo de Hanuman. Eles me contam isso sem subterfúgios. e se me pedirem uma demonstração. ou o brâmane. O solo é coberto de palha. de irmãos hindus.Tibete eu conheço. um baixote gordo. Seu chefe. em geral. um dialeto tibetano. Com folhas de salsa nas narinas. No outono de 1990 eles participaram do tumulto da mesquita Babri. Direi que só falo o hindi e o ladakhi. pois li que os voluntários do templo de Rama pertenciam. Convida-me a sentar em seu edredom. reprimido violentamente pela polícia. ser comparado a um bovino é um elogio para um brâmane e não sinto vergonha de imaginá-lo assim. há um estrado e três sacerdotes jovens lêem um texto sagrado diante de microfones que amplificam seu blablablá em altofalantes. sem amigos. Eles me felicitam e me convidam para me juntar a eles. Usam camisa e calça ou o tradicional kurta-dhoti e têm de 30 a 40 anos. e as pessoas falam comigo e se mostram até mesmo solícitas. às castas das três ordens hindus superiores: os brâmanes. vim sozinho para contribuir para a construção do templo de Rama. à maneira dos ex-combatentes. Agora um grupo de voluntários se aproxima. de trem. orgulhosos de suas proezas. parecido com a cabeça de um vitelo exposto em um açougue. tira de uma valise de . e centenas de voluntários aí descansam. Não devo ficar só. com o focinho achatado. pois essa reunião de milhares de voluntários. Quero estudar de perto esses fanáticos. o que não me surpreende. Acampam no primeiro portal. O hábito realmente faz o monge. falarei em chinês. Sim. Vêm de Bihar e são brâmanes. Segundo eles. Confirmo mais uma vez que sou um brâmane da Caxemira. Tudo bem. No fundo. Eu o atravessei de carona há cinco anos e poderia inventar uma descrição plausível do Ladakh a partir de minhas lembranças tibetanas. Acho que dará certo. Meus novos irmãos chegaram na noite anterior. sentados ou deitados. os kshatriya (os guerreiros) e os vaishya (os comerciantes). Ele é sociável.

. A Índia é o país dos hindus e nem podemos construir um templo no .Como sabe.Sim . e ele serve um pouco de água em um copo comum do grupo. Depois. Ele fica satisfeito e diz que me acha simpático.Coma! É bom. Esse ambiente fraternal quase faz esquecer que Ayodhya é um antro de pessoas que se detestam e querem prejudicar umas às outras. o governo BJP de Uttar Pradesh prometeu à Corte Suprema que a construção de 6 de dezembro seria apenas simbólica. Bebi no copo de um brâmane e nos deitamos juntos. Pergunto: . me oferecem uma cama de palha.Parabéns. nó tratamento desumano que me infligiram durante as cinco últimas semanas. É um doce superaçucarado que parece de gesso e tem cheiro de manteiga rançosa. esfreguei a pele até apagar a tintura e me tornei um personagem venerável.Não. Nada nos impedirá.. Tem gosto de manteiga . segundo as boas maneiras hindus. não? .Sim. Devo ficar feliz ou chorar? O chefe gorducho me conta que é um homem de negócios. Não se preocupe. Obrigado. . como se a presença do sabor lácteo. É manteiga pura. .Tome! Recuso com polidez. A construção será de verdade.respondo lacônico. Eles me tratam de "senhor". me alimentam. E eu? Respondo que eu também. Cola nos dentes. É delicioso.alumínio um saco plástico cheio de bolas brancas e me oferece uma. É mais simples.diz sem hesitar.o Vishva Hindu Parishad desta vez decidiu que construiremos realmente o templo de Rama. E pronto! Esta manhã mudei de roupa. Fico admirado. bastasse para torná-lo delicioso. a reunião mais repugnante de fanáticos religiosos de tendência fascista..Então o BJP mentiu para a Corte Suprema? . sabor sagrado. Ele diz: . Estamos fartos. Fecho os olhos e penso no absurdo do sistema de castas. . . As pessoas são tão gentis e me acham tão puro. Viemos até aqui para nada? . O cheiro é gostoso.Foi minha mulher que fez. Bebo entornando o líquido sem tocá-lo nos lábios. ele diz para eu me deitar e fazer a sesta.

. mas ainda assim estou inquieto. 30. .Como em 1990? . não tenho dúvidas de que o 6 de dezembro vai explodir. O BJP confunde a Corte Suprema.Não tem medo que a polícia atire em nós. Basta.000 policiais nos vigiavam. Como conseguirão controlá-los se as obras de construção se confirmarem simbólicas? Alguns percorreram milhares de quilômetros para servir Rama. não é preciso ser adivinho para . dravídico. Todos os que se opuserem à flecha de Rama terão a morte de Ravana. Ele faz alusão ao demônio Ravana. O que podem os fuzis dos policiais contra o poder de Deus? Fingimento. Não precisamos ter medo. não param de desembarcar grupos de centenas de voluntários dos quatro cantos da Índia. eu me pergunto por que o VHP continuaria a chamá-los e acolhê-los. ou se deixam a situação se agravar de propósito. ao concentrarem um exército de fanáticos. Eu digo: . Rama libertou sua mulher matando o invencível Ravana com uma flecha mágica. Se não é para participar de algum trabalho no dia 6 de dezembro.local de nascimento de Rama. Essa promessa de construção simbólica não passa de uma cortina de fumaça. Um cara leu no jornal que mais de 10. Acredito nele.Não. ao ouvi-lo. em volta da mesquita Babri. Eu me pergunto se o BJP está enganando a Corte Suprema ou os voluntários. É uma estratégia política. Estamos aqui a serviço de Rama. entende? Para ganhar tempo e evitar que a polícia intervenha. e também para os governos de Uttar Pradesh e Délhi. . Mas uma coisa é certa: durante o dia todo. observando a quantidade de voluntários em Ayodhya. Eu não tenho medo. Eu me pergunto se o BJP e o VHP são capazes de controlar o que estão desencadeando.Não se preocupe. O chefe me diz que o apelo do VHP é um sucesso. Talvez os dois ao mesmo tempo. que raptou Sita e a levou ao Ceilão. se começarmos as obras de construção? . inconsciência? Ele parece sincero e. a maior parte do distante Sul. talvez para os dois ao mesmo tempo.Sei. Para os voluntários ou para a mesquita. tentando não tomar partido.000 voluntários já chegaram a Ayodhya. loucura. Só isso.pergunto.

Depois me diz à parte: "Vai nos acompanhar. Já é noite e acho que seria interessante jantar e ver como é uma cantina de voluntários. onde seremos acolhidos até 6 de dezembro. Ele não insiste e explica que o VHP serve. É uma boa idéia. Ele explica que devemos ir para um campo de voluntários. Quando desperto. para não chamar a atenção: "Construiremos o templo aqui mesmo! Viva Rama!" "Hindus! Hindus! Urra! Urra!" . Diz que eu devo comer lá e me abraça antes de partir. a cada cinco minutos. Eu me conto à parte. pois. Esperamos que a comida fique pronta e os "Viva Rama!" que se ouvem de tudo que é lado expressam a alegria dos voluntários de estarem em Ayodhya. São gentis. Recuso sua sugestão. não?" Penso rápido. Digo que prefiro ficar perto do local de nascimento de Rama. refeição gratuita para os voluntários. Estou extenuado e essas reflexões me adormecem. Nosso chefe diz Ok e manda que nos preparemos. segundo a região de origem. mas só compreendo a de dois agitadores profissionais que. para campos mais afastados. Eu também. um sujeito com uma faixa cor de açafrão em torno da cabeça. trepados no muro que cerca a cantina. diante de uma mesa comprida. Em seguida são distribuídos.compreender que não se satisfarão em recitar algumas litanias. a 500 metros dali. embora minha aparência seja semelhante à deles. Eu também. me sinto diferente desses integristas. mas o acampamento é muito longe do centro da ação. provocam as pessoas. se apresenta ao grupo como um oficial do VHP. um pouco antes do crepúsculo. esperam do lado de fora. divididos em filas. Milhares de voluntários. A multidão repete os slogans agressivos. A cozinha do VHP fica sob um hangar de ferro. Percebo que os dois portais ao pé da mesquita Babri não passam de locais de trânsito para os recém-chegados. Escuto todas as línguas faladas na Índia. na avenida de terra que conduz à estação. com o slogan "Viva Rama!" impresso. a quatro quilômetros dali. em hindi.

esse partido proíbe os hindus de serem os patrões em seu país. kshatriya. shudra. conhecimento. glória. cuidar dos rebanhos. mas sei algumas palavras-chave e acho que reconheci a seguinte passagem do Bhagavad-Gita: "Brâmanes. Fala da ordem do mundo. dois punhados de arroz branco e uma concha de ensopado de batatas. de venerarem livremente seus deuses. grandeza. Eu me delicio. Eu me surpreendo. Dois pãezinhos fritos. Ele lê um texto sagrado mecanicamente. repete. Deito-me sobre a palha e me cubro com um dos edredons deixados pelo VHP. e do dever de cada casta. Trezentas pessoas escutam um sacerdote. discriminação. Os pãezinhos fritos são um prato refinado na Índia e fico com a impressão de que o VHP quer agradar aos voluntários. Um exaltado de meia-idade toma a palavra e começa a insultar o Paquistão e seu apoio aos separatistas muçulmanos na Caxemira. recebo uma folha-prato cheia de comida e vou me acocorar na beira da estrada para comer como todo mundo. Em compensação. " Isso me faz lembrar da vida miserável que levava como intocável. Olho em volta. suas ações obedecem à sua natureza intrínseca. domínio. destreza e coragem no combate. é delicioso. autoridade são o que marca um kshatriya. Serenidade. vaishya. na Índia. firmeza. Arar. magnanimidade. esforço. fazer comércio são o que marca os vaishya. retidão. Bravura. Na minha vez. Inimigos de Rama são inimigos da nação."Os inimigos de Rama são inimigos da nação!" "Viva Rama! Viva Rama!" Uma hora mais tarde. confiança no ser são o que marca um brâmane. paciência. que aceitou a criação desse Paquistão onde os hindus são maltratados. segundo Krishna. edificando um templo no local de nascimento de Rama. Mundo nojento. o jantar é servido à fila indiana diante da mesa. Não entendo sânscrito. enquanto a natureza dos shudra os leva a servir. Denuncia a destruição de mais de 50 templos hindus na Caxemira e prossegue falando da pseudolaicidade do governo do Partido do Congresso. Prossegue com a superioridade da raça ariana e a necessidade de fundar uma . depois bebo água em uma fonte e retorno ao portal.

como sardinhas em lata. Escondo a cabeça no edredom e tento dormir. retrógrado e nacionalista . Confesso que isso está além da minha compreensão.me dá arrepios. Deseja conformá-lo aos princípios bramânicos. O desejo de promover a pureza da raça e da cultura parece a propaganda nazista. Posso reclamar? Acho que não. uma imensa tristeza me invade. quer purificar o país e tornar a mergulhá-lo em suas raízes.. um cara a meu lado põe as pernas sobre as minhas e outro usa meus pés como travesseiro. Impossível dormir com essa balbúrdia. em lugar de destruir a tirania do sistema de castas para construir uma sociedade moderna fundamentada na ciência.000 em 6 de dezembro . É muita gente. Eu me levanto. Para resolver a crise econômica e social. Chega! Basta! Este delírio puramente fascista . ficando costas contra costas. A razão não tem razão em Ayodhya e o público o aplaude e grita "Viva Rama!". Reparo em um ancião que dorme murmurando "Viva Rama! Viva Rama. de dezembro Logo vai amanhecer.. Para piorar. pés de encontro à cabeça do outro. Se pelo menos o ardor desses milhares . Só dispomos de um metro quadrado para cada um. desço até a cidade e sigo de jinriquixá na direção do rio Saryu. segregacionista. pela primeira vez desde que sou indiano. quando acordo pela segunda vez. Desperto duas vezes durante a noite. uma onda de voluntários que acaba de desembarcar de um trem noturno invade nosso abrigo e se estende na palha.teocracia hindu.totalitário. Nós nos apertamos. quatro sacerdotes. prosseguem a leitura monótona dos textos religiosos. São muitos. sobre o estrado. Refleti observando o velho que repetia dormindo "Viva Rama!" Não vim à Índia .serão 200. e conto 12 filas de 50 e 70 dorminhocos sobre a palha.de voluntários vindos a Ayodhya para a construção de um templo fosse mobilizado para construir as moradias ou as estradas de que a Índia tanto precisa! 1º.". mas. Bem aquecido. São muitos os que dormem.

Um filete de água corre próximo o bastante para que eu possa me lavar e o mato me oculta dos raros camponeses que vêm mondar seus pepinos.000". A bruma não envolve a manhã de hoje em Ayodhya. braços e pés. a tempo de pegá-lo. tenho de pincelar mais rápido cada zona da epiderme. Não sou masoquista e o destino da mesquita Babri não é a meta de minha aventura. pois a coloração fotossensível começa a aparecer depois de cinco minutos. Ele atravessa o Norte da Índia. Que loucura coletiva! Estou contente de partir. Quando desembarcam. Enterro na areia os restos de meu saco de brâmane. Tenho sorte. o que me toma toda a manhã. para evitar as listras. diz um policial na plataforma. Procuro um lugar isolado para me metamorfosear. as ferragens nos espaços entre os vagões e até o telhado. Legiões de voluntários do templo de Rama descem. Vim para ser intocável e voltarei a sê-lo. O rio depositou aluvião nessa terra depois da cheia provocada pela monção e eles semearam campos inteiros desse legume. É difícil fazer isso sem a ajuda de minha mulher. Depois me lavo e me barbeio. "São 3. Consigo me virar e o resultado me satisfaz. Rasgo o saco novo e uso as tiras de pano para passar nitrato de prata no rosto. Tiro a roupa e ponho a camisa esburacada e o lungi imundo. Passo duas camadas. . O espelho reflete de novo a cara morena de Ram Munda. e em plena luz do dia. do pé do Himalaia ao golfo de Bengala. Estou farto de Ayodhya e não pretendo sofrer aqui como intocável até 6 de dezembro. Caminho um quilômetro sobre os bancos de areia do Saryu. O Doon Express atrasou e chego na estação por volta das 13 horas. Vou voltar para Benares. e liga Dehradun a Calcutá. Encontro um local perfeito. Nem para bancar um brâmane.para investigar os integristas hindus. Ocupavam os degraus. eu embarco. Viajaram dessa maneira centenas de quilômetros. principalmente tingir os dedos e as pálpebras. via Benares. penetra a planície do Ganges. coloco minhas coisas no antigo saco e sigo a pé para a estação.

Deve-se destruir a mesquita ou construir o templo de Rama ao lado? O BJP fomenta o antagonismo hindumuçulmano para ganhar as próximas eleições? Essa discussão repetitiva sobre o integrismo hindu me aborrece.Como tinha decidido. Não deve achar que o ar de suas tripas pode me poluir. um aborígine miserável. que mesmo sem os voluntários continua apinhado de gente.legume impuro -. ele compra um punhado para reforçar a munição. e percebo que é um hindu religioso e com certeza membro de uma casta alta. mas um pai de família robusto e bem-vestido me desperta. ergue o traseiro na minha direção e emite uma nota. Nenhum fiscal se divertiria circulando no meio dessa confusão. apesar de tudo. me convenço de ter agido certo. não comprei a passagem. Hoje à noite comerei carne. A cidade está calma. Ali vendem-se nas ruas brochetes de cabra grelhadas. Mas sem cebola . Convivendo em Ayodhya com todos esses hindus extremistas e vegetarianos. . Jantarei no bairro muçulmano da Mandapur. não sei bem porquê. Exceto meu vizinho. Sem se constranger. junto de mais cinco pessoas. e peida na minha direção. Mas este pai confunde seu cu com uma trombeta. Sei que será bom. Dentro do trem. Prometem construir pontes onde não há rios. Consigo. E isso me basta. vendendo ervilha cozida. De 15 em 15 minutos. Chegamos em Benares depois do pôr do sol e saio logo da estação. palavra de honra. que não para de abanar as mãos quando eu fumo biri. patatá. O líder comunista teria dito: "Os políticos são os mesmos em todo lugar. Não ouço mais os gritos dos fanáticos de Rama e as luzes de centenas de lojas iluminam meu caminho. esplêndida. nada a assinalar. Os passageiros falam de Ayodhya e dos voluntários. E patati. Seus intestinos estão podres. Vou me sentir um bárbaro. citando Kruschev. e quando um vendedor ambulante passa pelo nosso vagão." Interessante! Fora isso. mas senti uma vontade doida de comer o presunto defumado que meus pais trazem de Savoie todo inverno. Eu o incomodo. me sentar em um banco. Estou morrendo de fome e ando rápido para satisfazer um desejo que tenho desde a noite passada.

Nada para fazer. se lavam completamente vestidas. de dia. Agora prefiro as mulheres de pele mais alva. Para mim. mas os sáris molhados colam na pele e expõem os menores relevos de sua anatomia. Nada. a não ser observar o cortejo de voluntários a caminho de Ayodhya. Tornam-se transparentes. aliás. mas Benares não mudou nem um pouquinho. À noite. Alguns fascistas. Adoro esse espetáculo. É mais excitante que um miserável striptease. percebo que minha metamorfose é tão profunda que minha sexualidade e meus gostos mais íntimos mudaram. Eu acrescento: Inimigos dos babacas. 4 de dezembro Não esconderei nada de minha aventura: gosto de olhar as hindus se banharem no Ganges. vagueio pela orla do rio sagrado e como no templo de Vishvanath do ghat Meer. comparando os espécimes femininos no rio sagrado. Inimigos da nação. Eu me entedio. Do lado de fora. com os outros sub-homens. Milhões de metros cúbicos de água correram no Ganges durante minha ausência. e esta manhã. mulheres que oferecem . gritando "Viva Rama!". e o bico marrom de seus seios brota sob o tecido vaporoso. O ramerrão da miséria e do tédio se repete. pintaram suas opiniões nas pedras do ghat Dashashvamedh: Inimigos de Rama. Eles param em Benares e vêm ver o rio sagrado. como uma musselina. durmo no ghat Dashashvamedh. Isto é.2 e 3 de dezembro Dois dias sem interesse. Pudicas.

e. com o rio esmeralda ao fundo e o sol que o torna sedutor. apreciei a beleza selvagem das intocáveis altas. do rosto bochechudo. mas acendo um biri e continuo a observá-las. Uma obra-prima. mas gastas. descoradas e tristes. Deixava cair seu sári. Agora as acho ressequidas. Ficava de costas para mim. mas nunca tive coragem de sugerir e ela nunca tentou. trocam a roupa molhada em público. Observo com prazer. Gosto da pele leitosa. jogava no corpo bacias de água gelada. de saiote. magras e morenas. diante de minha varanda. apertado no minicolete tradicional. As maiores que já vi. gigantescas. Com o calor. que estava na terceira idade. Espero que saiam da água. para a direita e até para as costas. Parecem camponesas. Elas tiram o corpete sem se cobrirem. seus seios perfeitamente roliços e firmes me fazem pensar em grapefruit. sem dúvida. Baby já estava na faixa dos 40. por causa de suas roupas limpas. quando elas saem da água. Elas saem. na minha primeira viagem. de braços da grossura de minhas coxas e de um peito volumoso e firme.algo mais que ossos para serem apalpados e que. e observo um grupo de anciãs se banhando. Ainda mais refrescantes. que deixa à mostra um magnífico ventre rechonchudo. Duas mulheres na faixa dos 20 anos as acompanham. Mulheres puras. Pronto. Tocaria neles com prazer. conseguiria tocar o traseiro com elas. onde as pessoas envelhecem cedo. Sentei-me na orla do rio. Hummmmmm! É muito agradável. Quando parada. Pensando bem. Não é excitante. Quando cheguei em Benures. Ela morava do lado e se lavava no poço. do traseiro gordinho e empinado. pertencem às castas altas. pelo contrário. em 1990. Gostaria de tê-la visto fazer isso. e estou convencido de que. o que significa. vi uma quantidade enorme de seios na Índia. Os maiores foram os de Baby. Ainda . mas às vezes eu percebia suas tetas balançarem para a esquerda. se ela tentasse. essas formas roliças revelam uma vida confortável e me parecem voluptuosas. acima do ghat Dashashvamedh. Pelo menos na minha frente. Baby era a proprietária da casa em Trivandrum. batiam no saiote. se secam e me sinto no céu. na Índia. Acham esta descrição pouco atraente? Para mim. depois o corpete e. Eram enormes. Fiz bem em ficar. vejo seus seios murchos e traseiros ossudos.

Ele a deixa brincar com esses desconhecidos. Eu poderia poluí-la. pertence ao grupo que gosta das magras. veste uma bonita saia rodada. Um intocável. Extremo Oriente . E depois de amanhã mais outro. por exemplo. América do Norte. minha hipótese se confirma. Esta divisão. não classifica as nações como países desenvolvidos e países do Terceiro Mundo. Está com raiva e me lança um olhar hostil.assim. Desespero. Desespero. Seu pai. sinto câimbras no ventre e senti muito frio. a América Latina.Europa. seu peito era uma escultura de Rodin e nunca a esquecerei. não tenho pulgas e não cheiro a urina. a chama. . uma garotinha de três anos interrompe essas reflexões idiotas e me introduz de novo no mundo repugnante das castas hindus. Minha aparência é a de um indiano pobre. com um quinto dos pobres da humanidade. Mais um dia para resistir. Desespero. os países árabes. Viver. Morrer. 5 de dezembro É de manhã. um sujeito comum neste cenário. a África A outra metade .gosta das magras. Cinco minutos depois. mas porque sou muito miserável. Mas neste momento não estou mendigando. que usam calça e camisa e estão limpos como seu pai. De repente. não estou bêbado. um escravo na Índia. Além do mais. Ela se aproxima de mim. na verdade. Eu me imagino na França e digo a mim mesmo que se tivesse uma filha de três anos não gostaria que ela tocasse em mendigos. no ghat. Durar. Gostaria de encontrar um denominador comum aos povos que gostam das gordas. É rica. O equivalente a um operário na França. não para não me incomodar. A China. A garotinha corre para dois caras sentados na minha frente. É verdade. à noite. Faço os cálculos e acho engraçado: metade da população mundial gosta das gordas. A Índia. mais um! Um! E amanhã outro. Compreendo que não quer que ela se aproxime de mim. de casta baixa. sentado mais distante.

Os indianos também têm esse tipo de superstições. Por prudência. portanto. Ao chegar na Índia. O templo de Kala Bhairav se situa do outro lado da cidade velha. por que não tentar? Sem dúvida é bobagem. Uma espécie de . a primeira pessoa que atravessar o lugar em que um asno tropeçou será vítima de mauolhado e se sentirá muito cansada durante muitos dias. mas não mais que a má sorte lançada naquele que passa por baixo de uma escada na França. se não me engano. A maior parte dos indianos acha que os acasos da vida são devidos ao mauolhado. como meus proprietários na Ravindrapuri. a céu aberto. Estou na miséria absoluta e não quero correr nenhum risco inútil. O exorcismo é. uma das representações do deus Shiva. Será que a causa dessa minha depressão é algum mau-olhado? Se há a possibilidade de o exorcismo me confortar. não consigo aceitar a vida miserável. em uma viela atrás de Kotwali. Eu não gosto de passar por baixo de escadas. Por exemplo. até que o exorcismo a liberte. em Benares. problemas profissionais. Por isso vou me submeter ao exorcismo. Como por volta das 10 horas no templo de Baba Khichari. Mas estou exausto e penso que não há mal nerhum em me deixar exorcizar se porventura me lançaram esse tal de mau-olhado. Ao contrário dos indianos. uma pane elétrica em sua casa etc. uma terapia comum para doenças. Mesmo os ricos ou os intelectuais. recorrem ao exorcismo sempre que têm um problema. o comissariado central.É como se toda a miséria do mundo pesasse sobre mim. nem no diabo. nem perder a menor chance que seja de melhorar minha situação. depois vou ao famoso templo de Kala Bhairav. cujo interior é ladrilhado de preto e branco. ou Sanjay. Hoje continuo sem acreditar. mas sei que evitarei andar no lugar em que um asno tropeçou. simbolizando o Tempo que devora tudo. esta história me aborrecia. Ouvi dizer que aí há um comércio de exorcistas. meu professor de hindi. Não creio em Deus. Isso não me sai da cabeça e acabo dchando que é uma boa ideia. nem em poder sobrenatural. É uma construção modesta.

cinco vezes.digo cético. cordõezinhos pretos que os indianos carregam como amuleto. Depois a jogue fora.. Não me fez bem nem mal e a extração do demônio se revela mais agradável que a extração de um dente. Um santuário se eleva no centro e arcadas pintadas na cor laranja se sustentam ao longo do muro que o cerca. se está dizendo a verdade. pega uma vassoura de cordinhas pretas que parece um chicote e açoita o ar à minha volta. a vassoura bater em minhas costas para expulsar o mau-olhado que aí se esconde.) e tenho dor na barriga. mas. Acho que me lançaram mau-olhado. mágoa.Mas já disse. E estará curado. não importa. Ele amarra um ganda em torno de meu pescoço e prescreve uma receita: . Sou um brinquedo em suas mãos. depressão. Cinco vezes uma fruta em torno da cabeça e estará curado. Pergunto quanto devo. . então. Cinco. para completar uma cifra de bom augúrio e não deixar a conta redonda. Compre a que quiser e a gire em torno da cabeça.Mas sinto muita dor na barriga .Cinco vezes? . A comparação entre o exorcista e um médico continua. Ele diz: "Incline-se!" Depois. Estou louco para ver o resultado. Ele fica contente. .Sim. ele é genial. que significa angústia. acabou. força minha espinha até que eu me dobre em dois e recomeça a dizer as palavras mágicas. e ele responde que quanto eu achar que devo. .pátio de uns 100 metros quadrados. Seu rosto não demonstra a menor emoção. Pode me livrar dele?" A rotina. acrescentando uma moeda de 25 centavos. Pago duas rupias. Realiza o ato mágico como um médico ausculta seu décimo paciente do dia. recitando rapidamente fórmulas incompreensíveis de exorcismo. Sinto. Não se preocupe! Seus problemas estão resolvidos. Precisa apenas girar uma fruta em torno de sua cabeça.imita o sentido dos ponteiros de um relógio. Sua frieza me intimida. Uma banana. Assim . Pronto. Não acredito. uma maçã. Ele se levanta em silêncio.. cólera. .Agora tudo vai se ajeitar. alguns homens idosos vendem ganda. Sob essas galerias. Pergunto um pouco constrangido a um deles: "Sinto-me perturbado (palavra comum em hindi.

de tudo quanto é tipo. Como sempre. cachorros. um ninho de abelhas que zunem do amanhecer até a meia-noite. ninguém me observou. onde é preciso usar botas de cano longo e se abrigar sob um bom guarda-chuva para caminhar à vontade. Não dói nem é agradável. E bum! O choque é violento. só faz me incomodar. A reconstituição de uma cidade da Antiguidade. ele a venera como um . chutar cachorros e se afastar cautelosamente dos macacos. vacas. tomando o chão escorregadio. Sorrio. E bum! Duas vacas enormes disputam o saco de lixo que uma mulher acaba de jogar de sua varanda. O sol não desce nessa cloaca superpovoada. As pessoas esvaziam as latas nas janelas. sem avisar. para circular por ali e avançar entre odores de excremento. Sou invisível. É um labirinto de vielas de dois metros de largura. Essa viagem à Antiguidade não me interessa. de fritura e a cacofonia dos alto-falantes públicos que competem com as litanias hindus e as canções de filmes hindi. Meu pudor é inútil. Sujo e miserável demais para interessar a alguém. Cinco vezes. onde não cabem automóveis. e sei que seus movimentos são perigosos. Eu me instalo recuado da rua e giro a banana em volta da cabeça. Uma Disneylândia sem Mickey.Saio do templo e compro uma banana no primeiro vendedor de frutas que encontro. A cidade velha se agarra à colina que sobe do Ganges. no século 20. Pois é um paraíso para quem gosta de patinar em bosta de vaca e receber lixo na cabeça. É uma colméia separada do resto de Benares. Esse mundo fervilha permanentemente e é preciso enxotar homens e vacas. aguardando os resultados do exorcismo. Jogo a banana fora e decido flanar pela cidade velha. O hindu considera a vaca sua mãe. É uma Cafarnaum na orla do Ganges. Em Benares é comum as vacas brigarem. ratos aí vivem em liberdade e em comunidade. de temperos. Eu me afasto. pois tenho vergonha. se alinham como um rosário de hemorróidas ao pé de prédios de dois ou três andares e fachadas corroídas pela umidade. de leite. Homens. onde milhares de tendas imundas. Só espero que não me vejam. macacos. e as centenas de vacas que fuçam as vielas em busca dessas dádivas de Deus defecam e urinam em todo lugar.

O respeito hindu pela vida é de uma sofisticação extraordinária. desinteressados e inocentes. elas voltam para serem ordenhadas no estábulo. exploram e a alimentam com lixo. Reflito sobre tudo isso e percebo que o exorcismo não surtiu efeito sobre meu mau humor e que continuo com câimbra na barriga." Esta frase do santo Swami Ramdas ficou gravada em minha memória e me diverte quando vejo as duas vacas brigando. Não matam a vaca. As famílias dos mortos somente os homens . Não pescam. "A vaca representa a mãe do universo e é um ideal para todos aqueles que são doces. Dois cadáveres estão sendo queimados diante do rio sagrado. em sinal de reverência. Os mais religiosos tocam em cada uma com que cruzam. puros. Não matam os animais e não os comem. Esta é a concepção hindu do amor pelos animais. Matar é um ato bárbaro. Mas esvaziam as latas de lixo nos rios. me contou que deixavam búfalos bebês morrerem de fome. Esperam a combustão do defunto . evitando um sofrimento inútil. Secundo: alimentar as vacas com lixo é uma dieta muito esquisita para se oferecer à mãe ou a um deus. Esses bovinos errantes não são selvagens. cujos pais possuem uma pequena fazenda. O ar cheira a carne queimada e a sândalo. Os criadores poderiam suprimir os búfalos novos excedentes assim que nascessem. Mas os subalimentam. Não mesmo.ser divino. Paro no ghat de Harishchandra. mas batem nela. Seus proprietários acham que a rua é um pasto. faço a sesta e no final da tarde torno a andar ao longo do Ganges. Tiram a vida aos poucos. uma das duas margens de Benares onde os mortos são incinerados. e as búfalas continuam a ter leite depois que os bebês morrem. O que fazer? O que fazer de minha vida? Chego à Dashashvamedh. Impossível. Tenho vergonha de ser indiano.sentam-se no ghat. Eles as soltam de propósito. se era isso que queriam realmente. Sanjay. à noite. Primo: os hindus deviam ter escolhido o coelho para simbolizar a doçura e a fecundidade. na esperança de furtar um pedaço de carne humana assada. sem nunca matar direto. meu professor de hindi. e cachorros erram em volta. pois mamam demais. para que se alimentem por si mesmas dos restos da cidade secreta.

Pergunto. São as outras castas que nos desprezam. Nada de extraordinário. Veio ver seu tio queimar. minha mulher chinesa. que o libertará do ciclo de reencarnações. Ela me espera e deve estar preocupada. o homem de camisa e calça ao meu lado me pede fósforos. no entanto. E. Não espero mais nada e não admito mais lutar nem sofrer. Não estará na hora de voltar a ser Marc Boulet? Morrer como indiano para renascer europeu? Acho que me tornei muito agressivo e parcial para continuar o estudo da sociedade indiana. Quero morrer. Param para olhar. são graciosas e me lembram Gloire. A imagem de Gloire desperta meu desejo de viver. isso me distrai. Falamos da reencarnação. Seu corpo. Seis semanas apenas.para jogar os resíduos no Ganges.Por que não? Somos filhos de Deus. Não quero ficar só. mas somos homens. como intocável. Mas não quero. seu amor sincero. Uma cremação dura duas horas e fico olhando o corpo que é devorado pelas chamas para desta forma obter a fórmula mágica de Shiva. mesmo sabendo a resposta: . Um em quatro indianos é intocável. Deus não quis que nossa posição fosse tão baixa. filhos de Deus? . Já estou deprimido demais. Conto minha história de sempre e ele me diz que também é um filho de Deus. Estou pronto para morrer. Eu me agacho ao lado de uma família e fumo biri. Neste ponto de minha reflexão. seus beijos. Tem uns 30 anos e usa um bigode espesso. Eu a amo mais que tudo. que lhe dá um ar bonachão. Há seis semanas sou indiano. acredita que a alma de seu tio está subindo ao paraíso agora. Toda.É válida também para nós. tenho a impressão de ter vivido anos. Podia contar esse espetáculo detalhadamente e causar arrepios de terror em vocês. sua dedicação absoluta. Depois enceta uma conversa e eu aceito. Duas turistas japonesas passam diante da fogueira. diante de nós. que nos tratam como cachorros e nos exploram. porque a cremação acontece em Benares. porque me sinto um velho. . até mesmo toda uma vida. ser libertado do fardo da existência de Ram Munda.

Quais são? .pergunto.. Um dia histórico.Claro. Mas é verdade que praticamos costumes sujos." Termino o biri em silêncio. em Ayodhya. E precisamos abandoná-los para ocupar um lugar decente.Bem.. Eu faço uma cara meio indefinida e penso: "Irmão. a decisão se impõe por si mesma. os raros passantes só falam disso. como se nunca tivesse dormido antes. você tem tantas chances de reencarnar como brâmane quanto eu de me tornar rei da França.E então? . curiosamente vazios. "Abaixe a cabeça hoje e será rico e puro em outra vida!" Que estupidez! Não entendo como se pode cair nesse tipo de conversa. Além do mais. 6 de dezembro Hesito em deixar a pele de Ram Munda. Estão contentes. sua beatice me desesperam. durmo a sono solto. Nos ghat. despeço-me dele e volto a Dashashvamedh. Meu retorno será definitivo e quero estar certo de ter cumprido minha missão antes de me decidir. Sei que se o fizer nunca mais voltarei a ser indiano. não bebo álcool e rezo de manhã e à noite no templo. pois os hindus acabam de destruir a mesquita Babri. Não terei forças. Eu me calo. foi decretado o toque de recolher em Benares. Almoço no templo de Baba Khichari. Quando acordo. . Ele faz o jogo infame dos brâmanes. no fim da tarde. não virei como um filho de Deus. Sua ingenuidade. . Exausto. segundo eles. . intrigado. por exemplo. e tenho certeza de que ele nem se dá conta. Passo o dia todo pensando nisso. deixei de comer carne. a rejeição de sua identidade de intocável é a pior das colaborações com o inimigo escravagista. depois ando na orla do Ganges e faço a sesta em uma margem tranqüila. por tempo indeterminado.Eu. Durante o sono. que mostra aos muçulmanos .. assim. acima de Dashashvamedh. quando reencarnar.Acha? .

Além disso. chegou a me escrever durante minha ausência. Hoje ela não passa de um monte de cascalhos. Um bando de cães de cáqui monta guarda na via pública e expulsa os civis que por ali se aventuram. querido! Só temos uma vida e você a arrisca por um livro. percorro a margem escura do Ganges. dizem que a polícia não defendeu o edifício e que os extremistas hindus conseguiram demoli-lo em poucas horas. se o toque de recolher durar um mês. Espero que a noite envolva Benares.quem manda na Índia. para evitar as patrulhas de policiais. Ela me olha como se eu fosse um fantasma. Uma atmosfera de guerra civil domina o país. Que felicidade apertá-la em meus braços depois de tanta provação! Digo-lhe que terminou tudo. Mesmo as tendas de cigarros. e corro para um recanto na orla do Ganges. Acabou. Percebo que minha aventura terminou. Perco a cabeça de tanta preocupação e não durmo. Louca de inquietação. como disseram? Além do mais. e volto para a Ravindrapuri. imaginando que falava comigo. A cidade está deserta e todas as lojas estão fechadas. pelo menos por ela. Inacreditável. Para casa. O toque de recolher foi decretado para evitar as represálias dos muçulmanos. Ela suspira aliviada e me abraça de novo. Tenho medo e sei que minha mulher deve estar muito preocupada com minha segurança nesta cidade em estado de guerra civil. É um inferno viver sem sua . Ao abrir a porta. se é proibido sair de casa. Onde vou comer. como os vagabundos como eu vão viver? A situação me parece perigosa. ao luar. Ela me mostra a carta e eu leio: “Meu querido! Onde está? Está me ouvindo? Volte. Encerrar esta metamorfose que a atormenta e lhe tira o sono há seis semanas. no começo da rua Dashashvamedh. Não vale a pena. Gloire me abraça e chora. Depois. Há exatamente uma semana visitei a mesquita Babri. Um deles me ameaça com um cassetete. Vou para Godhaulia para saber mais. Estou em casa. Devo voltar para casa.

me leva a Paris. Sem você não consigo dormir. Você é minha única razão de viver. dos quais 20 em Benares. Quanto a mim. Não quero mais esse tipo de aventura. raspo todo o nitrato de prata da pele. E se você desaparecer. Ela me ama tanto. Voltar a ser Marc Boulet. Durante a semana seguinte à demolição da mesquita de Ayodhya. Fico com os olhos úmidos. me extorquiram. Tenho tanto medo. inspira náusea. A febre do sucesso é assim: nunca temos o bastante e. se mostraram de um servilismo exagerado. Foram mais de 1. tomo um banho e me esfrego com uma luva de crina. Nosso amor nos basta para sermos felizes. 6 de janeiro de 1993 Passou um mês desde o fim de minha metamorfose.companhia. Depois me barbeio. Tiro a roupa e Gloire corta meu cabelo. além disso. só quero ficar perto de você. ficaram atrás de mim para vender suas bugigangas. Não me arrependo de nada. Rico ou pobre. Eu sou sua! Eu o amo! Eu o amo! Eu o amo!" Essas linhas me confundem. Limpo a tintura. famoso ou desconhecido. Renascer como um homem.000 mortos. me chamaram de tudo que é nome. Isso me machuca. ela é cada vez mais intensa. Tenho a impressão de estar lavando todas as humilhações das seis últimas semanas... . Representa muito sofrimento. os conflitos hindu-muçulmanos foram os mais violentos desde a divisão da Índia. da Air France. pois nunca estaremos satisfeitos. mas uma doce beatitude me invade aos poucos. em 1947. Não devemos mais cair na armadilha. e nesta manhã um Boeing 747. de novo branco e estrangeiro. Estou ficando maluca. mas esta noite recuso-me a pensar em minha aventura no mundo desumano das castas. fui tratado como tal. Quero apagar o mais rápido possível todos os vestígios da metamorfose em intocável. Nossas ambições vão nos perder. Na rua me disseram umas mil vezes “Olá!".

Estranho. Retorno ao apartamento de Strasbourg-Saint-Denis. Eles me olham inquietos. antes desta aventura. não os enxoto. deprimido. retorno a casa. acho que os teria mandado embora. 6 de janeiro de 1993. uma surpresa. e entro em casa. Peço a eles licença para passar com as malas. e de repente o filme de minha metamorfose desfila na minha cabeça. nem resmungo. há um ano. ao atravessar a passarela da estação de Benares. É a primeira vez que vagabundos acampam à minha porta. Vejo em meu patamar dois vagabundos que se refugiaram sob uma coberta. Percebo que Ram Munda ainda está vivo em mim. oito horas. os olhos suplicantes.. estão aquecidos.Na realidade. Revejo os sofrimentos e as humilhações que suportei. . Mas. com que eu sonhava.. Moramos no quarto andar e subo os degraus de quatro em quatro. Amanhece e o frio me gela o sangue. nada de especial.

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