2011.

2
UFPB/ Departamento de Geociências/ Curso de Geografia PROFESSORA: Araci Farias Silva

[PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL]
O material está dividido em cinco unidades. A primeira Unidade levanta o histórico do urbanismo, com uma breve introdução, seguido do cenário do Urbanismo no período Industrial e suas problemáticas. A segunda Unidade se pauta no Urbanismo brasileiro, onde suas cidades e tendências são os eixos norteadores. Mostrando o seu passado e seu presente. Na terceira Unidade, abordagem feita da cidade é na perspectiva da sociologia, por meio do conceito de vizinhança. Já na quarta Unidade a abordagem se dá por meio do Planejamento Urbano, seus objetivos, seus Instrumentos de Planejamento e a área de atuação do Planejamento Urbano. No quinto bloco e último se trabalha a Unidade de vizinhança, como uma nova forma de ordenar o espaço, uma unidade secundária, como se Originou, se Introduziu e se Desenvolveu no Brasil.

SUMÁRIO
1. HISTÓRIA DO URBANISMO............................................................................................... 1.1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL............................................................................ 1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XX ................................................................. 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno............................................................................... 1.2.3 A Corrente Progressista .............................................................................................. 1.2.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade. ........................................................ 1.2.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade .......................................... 1.3 UM PROBLEMA SEM SOLUÇÃO : O GIGANTISMO URBANO........................................ 1.4 CONCLUSÃO..................................................................................................................... 2. O URBANISMO NO BRASIL – CIDADES E TENDÊNCIAS............................................... 2.1 O passado das cidades brasileiras .................................................................................. 2.2 O presente das cidades brasileiras .................................................................................. 2.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro.................................................................... 3. A VIZINHANÇA: A SOCIOLOGIA DESENHA A CIDADE................................................... 3.1 Difusão da idéia................................................................................................................ 3.2 Críticas ............................................................................................................................. 4. PLANEJAMENTO URBANO ............................................................................................... 4.1 OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO URBANO ................................................................ 4.2 INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO......................................................... 4.2.1 Plano Diretor................................................................................................................ 4.2.1.1 Objetivos ................................................................................................................ 4.2.1.2 Área de Atuação..................................................................................................... 4.2.2 Lei de Zoneamento e Uso do Solo............................................................................... 4.2.2.1 Definição ................................................................................................................ 4.2.2.2 Objetivos ................................................................................................................ 4.2.2.3 Área de Atuação..................................................................................................... 4.2.3 Lei de Parcelamento do Solo ...................................................................................... 4.3 ÁREA DE ATUAÇÃO DO PLANEJAMENTO URBANO .................................................. 4.4 CONCLUSÃO................................................................................................................... 5. UNIDADE DE VIZINHANÇA: NOTAS SOBRE SUA ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E INTRODUÇÃO NO BRASIL..................................................................................................... 5.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 5.2 A IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA E SUAS ORIGENS.......................................... 5.3 APLICAÇÕES DA IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA .............................................. 5.4 A INTRODUÇÃO DAS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA NO BRASIL................. 5.5 A CONCEPÇÃO DE UV DE BRASÍLIA: PRECEDENTES E AFINIDADES..................... 5.6 LÚCIO COSTA E AS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA........................................ 3 3 4 4 4 5 6 7 8 10 10 11 13 15 16 17 18 19 23 23 24 24 25 26 26 26 26 27 27 28

28 28 30 34 37 40 40

2

1. HISTÓRIA DO URBANISMO

HAROUEL, Jean-Louis. SÍNTESE DA HISTÓRIA DO URBANISMO. Campinas - SP : Papirus, 1990

1.1 INTRODUÇÃO O termo “urbanismo” é um neologismo inventado há mais de um século. Este significado designa uma realidade específica: o surgimento no final do séc. XIX de uma nova disciplina que se apresenta como uma ciência e uma teoria da cidade “ distinguindo-se das artes urbanas anteriores pelo seu caráter reflexivo e crítico e pela sua pretensão científica ”. O termo “urbanismo“ passou a englobar uma grande parte do que diz respeito a cidade, obras públicas, morfologia urbana, planos urbanos, práticas sociais e pensamento urbano, legislação e direito relativo a cidade. O pensamento urbanístico moderno é uma criação específica do espírito ocidental. É portanto essencial reconstituir a evolução do urbanismo ocidental, no final do qual nascerá o urbanismo moderno. Há duas fontes intelectuais do urbanismo moderno, ambas da Renascença. A primeira é a De re Aedificatoria, de Alberti, que procura conceituar de maneira definitiva as regras racionais que propiciam uma criação harmoniosa, tanto de uma casa quanto de uma cidade. A segunda é A Utopia, de More, primeiro modelo espacial e ideológico completo de uma realidade futura. Antes da afirmação de um discurso teórico autônomo que pretende fundar sob seu único domínio a realidade urbana, desenvolve-se no Ocidente uma longa fase preparatória. É só de maneira progressiva que uma parte da humanidade se distancia de uma visão do espaço urbano condicionada pela religião, pelo sagrado, por práticas e representações sociais que por sua vez está em conformidade com uma determinada concepção de mundo. A antigüidade greco-romana contribui para amenizar os laços de dependência que ligam a religião à organização do espaço constituído. Na Idade Média, embora toda a sociedade esteja imersa num ambiente profundamente religioso, são as autoridades leigas que procuram estabelecer um domínio no espaço urbano. A partir da Renascença, os fundamentos urbanísticos autônomos se encontram colocados, mas a ruptura com o passado não está de fato consumada. Se a razão se impõe cada vez mais, a utopia está presente ainda nas portas das cidades. É a Revolução Industrial que engendra o urbanismo moderno, provocando uma rejeição efetiva das concepções tradicionais da cidade e utilizando como recursos a utopia.

3

1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL 1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XX Se a população mundial aumenta prodigiosamente nos últimos dois séculos, o crescimento da população vivendo nas cidades é mais rápido ainda. Enquanto a população mundial quadruplica após 1850, a população urbana se multiplica por dez. Este grande inchaço é conseqüência dos progressos técnicos e científicos realizados a partir da metade do séc. XVIII. É a Europa ocidental que desencadeia o processo, logo seguida e posteriormente ultrapassada pelos Estados Unidos Nos países onde ocorre o progresso técnico, o aumento da produtividade do trabalho acarreta um aumento da produção global, o que possibilita o crescimento demográfico e a elevação do nível de vida. Paralelamente, a estrutura da população ativa se transforma. Enquanto no início do séc. XIX todas as nações ocupam 80% de sua população no setor primário (agricultura), 8% no secundário (indústria) e 12% no terciário (serviços), assiste-se nos países industrializados a uma verdadeira fundição do primário em benefício do secundário e do terciário. Posteriormente, em função de um novo progresso da produtividade na indústria, o secundário diminui por sua vez em benefício do terciário, que é o grande beneficiário do desenvolvimento econômico. Assim, nos países desenvolvidos, um número restrito de agricultores (5 a 10%) é suficiente para alimentar o conjunto de habitantes. Ora, eles são 80% dois séculos antes. Isso significa que todos os excedentes, que exploram as terras menos rentáveis, são obrigados a partir. O êxodo rural transforma-os, mesmo a contragosto, em citadinos. O despovoamento do campo acarreta o aumento da população nas cidades. 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno A Revolução Industrial, que nasce na Inglaterra, lança toda uma população operária nas cidades, que não estão preparadas para acolhê-las. Resulta uma proliferação de cortiços. As famílias operárias amontoam-se em locais estreitos e sem conforto em Lille, Liverpool e Manchester. Aos olhos dos contemporâneos, é toda a cidade que está doente. Balsac classifica Paris de “cancro“. Médicos, filantropos, sociólogos, economistas, romancistas, diante das epidemias e da delinqüência, vêem aí os frutos envenenados dos cortiços, as infecções de uma cidade má, acusada de corromper a raça humana, de destilar o vício e o crime. Uma série de pensadores repudia a noção tradicional de cidade e elabora modelos que permitem reencontrar uma ordem perturbada pelo maquinismo. É desta pesquisa que nasce a principal corrente do urbanismo moderno, a corrente progressista.

4

contrária aos imperativos de luminosidade e higiene. Paris e Moscou. Encomendados pelos presidentes Neru e Juscelino. constituem grandiosas manifestações do urbanismo e da estética progressistas. portanto permitir a definição exata de um modelo urbano perfeito que convenha a todo grupo humano.1. O esquema urbano é concebido para o homem-padrão. a partir de 1928 um movimento internacional (CIAM . Edifícios públicos gigantescos que dominam imensos espaços vazios constituem uma escultura urbana de inspiração cubista. à base de volumes geométricos simples. independente em relação às edificações. A Carta de Atenas exige que os imóveis sejam implantados longe dos fluxos de circulação. com planos de Niemeyer. que se concretiza nas exigências de sol e verde. Em 1933 os arquitetos do CIAM elaboram um manifesto doutrinal : “A Carta de Atenas“. A circulação é concebida como uma função distinta. Em qualquer lugar do mundo.2.3 A Corrente Progressista Baseia-se numa concepção abstrata do homem. A cidade do séc. respectivamente. afirmar a contemporaneidade de tudo aquilo que se traduz como o avanço da técnica: a indústria. Verdadeiro catecismo do urbanismo progressista. A ciência deve. denunciada como anacrônica. o automóvel. Os “arquitetos racionalistas“ constituem. este documento teve muitas idéias de Le Corbousier. com diferenciação de vias segundo velocidades. 5 . XX devia ser de seu tempo. isoladas no verde e na luz. Em Brasília os bairros habitacionais não diferem muito dos conjuntos habitacionais de Singapura.Congresso Internacional de Arquitetura Moderna). Desde 1901 o arquiteto Tony Garnier elabora um plano da cidade industrial. onde se encontra quase tudo o que está na base do urbanismo atual. Qualquer que seja o regime político ou o nível de desenvolvimento econômico. lazer. indivíduo mutável no tempo e no espaço. afastadas umas das outras. O urbanismo progressista é obcecado pela modernidade. Deste volume de realizações surgem Chandigarh. a partir dos planos de Le Corbousier e Brasília. o avião. O modelo progressista fundamenta-se na análise das funções urbanas acompanhadas de zoneamento: habitação. perigosa. Há uma preocupação desvairada pela higiene. Um outro teorema do urbanismo progressista é a abolição da rua. trabalho. A Carta de Atenas exige construções altas. barulhenta. Tanto para as grandes como para as pequenas cidades.

No mais. e ninguém pode fazer nada. Nós somos uma triste civilização de empilhadores de tijolos furados. Para subsistir nas sociedades industriais.2. Mas poder-se-ia ter adotado fórmulas de habitat mais humanas. na Europa. é objeto de uma reabilitação que felizmente não é sempre póstuma. Volta-se para uma produção maciça de habitações sociais. a atividade da construção exige uma produtividade o mais alta possível. Ë um grande resultado. Esse urbanismo. Um urbanismo desumano. o metal e o concreto armado permitem alturas e cargas impossíveis para a pedra e a madeira. lento para separar. contra a qual foram dirigidas as ironias e as ofensas do urbanismo progressista. como o número de horas de trabalho necessárias para um dado edifício teria permanecido bastante elevado. Esse imperativo proíbe praticamente em nossos dias o emprego de material tradicional. a construção seria bem mais cara: viveríamos cinco em cada cômodo. do crescimento demográfico e do êxodo rural que acompanhava o crescimento econômico e o progresso social. a cidade saída do passado.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade. Cada vez mais nossa sociedade recusa as caixas de habitação e o concreto que invade e que agride a cidade antiga e desnatura os espaços rurais. ao menos assegura à grande massa da população o benefício das principais conquistas da técnica moderna tanto no sanitário quanto no econômico. Tudo isso está unido de maneira indissociável. trabalhar e colocar no devido lugar. Os grandes conjuntos habitacionais proliferam-se. em nome do qual nos regozijamos ou não. desuniforme. Contudo. A civilização dos cortadores de pedra e dos montadores de belos telhados está praticamente morta. pois o trabalho humano é caro nas sociedades industriais. E. isto de certa forma é inevitável. Ë forçoso constatar essa recusa pelo usuário das cidades modernas e do sistema de valores que lhes é subjacente. da nossa vida materialmente fácil e da nossa habitação decente. O modelo urbanístico dominante é hoje amplamente contestado. de concreto de estruturas metálicas. Esta é a principal crítica endereçada atualmente ao modelo dominante. Jamais se construirá como no passado. mesmo quando é pouco produtivo. devido a evolução econômica e demográfica. O emprego do concreto e de outros materiais modernos é inevitável. embora sob certo ponto de vista insatisfatório. não mais os urbanistas e os arquitetos que o comum dos mortais. é necessário construir abundantemente em função das destruições.1. Não é o emprego do concreto que 6 . No pós guerra. Paralelamente. não se pagaria aos operários como se paga atualmente. Tal é o prêmio técnico. Os materiais e as técnicas modernas permitem um grande aumento da produtividade: a construção necessita de bem menos horas de trabalho humano que outrora. Se a produtividade na construção não tivesse aumentado nos últimos cem anos. Esse aumento da produtividade é algo excelente.

portanto. J. com seus grandes conjuntos habitacionais e seus espaços livres pode. Jacobs observa que nos bairros sem atração para o público. 7 . O modelo urbano progressista.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade A cidade volta a ser moda. contato. Sociólogos e psiquiatras constatam que um bairro considerado deteriorado e insalubre pode revelasse muito mais sadio socialmente do que um bairro renovado pelos urbanistas. sua arquitetura e seu espaço desestruturado podem ser fonte de angústia. como o lugar da felicidade perdida.se deve censurar no urbanista progressista. a cidade verdadeira. A abolição da rua e sua substituição por grandes espaços vazios se traduzem por uma certa desintegração mental dos habitantes. revelar-se favorável ao desenvolvimento da imoralidade. escondendo uma certa insalubridade psíquica. Ela acrescenta que a estrita aplicação do princípio do zoneamento esvazia durante o dia os bairros habitacionais: reina então um sentimento de tédio que reforça a padronização da arquitetura. para homens-máquina. julgam normal e desejável a realização de grandes conjuntos. ao alcoolismo e à delinqüência. que ela deseja vivas. a insegurança e o vazio“. pois eliminam a vigilância dos adultos. é o que testemunham as estatísticas relativas aos distúrbios mentais. enquanto que uma forte estruturação do tecido urbano é. Suas idéias inspiram parcialmente a reordenação do centro de grandes cidades como Boston e Filadélfia. arquitetos e urbanistas. Se os bairros recentes respondem aos imperativos da higiene e da salubridade física. animadas. ao contrário.2. Para ela. impregnados da ideologia progressista. o essencial é refazer as ruas. formação das crianças. Desde 1961. lojas. De modo que quando chega a hora de construir bastante e depressa. oficinas. comerciais. mas o fato de ter erigido como dogma a superioridade estética intrínseca do concreto. Quanto aos espaços verdes e terrenos circunvizinhos destinados a jogos nos conjuntos habitacionais. a socióloga americana Jane Jacobs. eles favorecem a delinqüência de grupos adolescentes: lá eles encontram um espaço mais favorável que a rua para seus delitos. 1. acompanhada de uma forte estruturação psíquica dos habitantes. com seus imóveis coletivos gigantes. à base de espaços desestruturados e de gigantescas “máquinas de habitar”. O grande pecado do urbanismo progressista é ter imposto o ideal não confesso de um universo kafkiano. Sobretudo a grande culpabilidade do urbanismo progressista é de apresentar a cidade futurista. mostra que o abandono da rua acarreta o desaparecimento das principais vantagens da vida urbana: segurança. analisando os prejuízos do urbanismo e da renovação urbana nos Estados Unidos. com ruas de pedestres. diversidade das relações. locais de sociabilidade e de segurança. os parques não fazem mais que acentuar “o tédio. formigueiros extremamente confortáveis com inúmeras células habitacionais.

poluição. muitos deles possuindo apenas um banheiro e uma cozinha para várias famílias. “A cidade readquiriu coragem e passou a lutar. elas são. elaborado por Sir Patrick Abercrombie. Enquanto cidades como Nova Iorque. Ë nos países do Terceiro Mundo que o gigantismo urbano se revela mais assustador. um quarto da população vivia em apartamentos exíguos. Nas últimas décadas do séc. as grandes aglomerações urbanas gigantes do século XX não possuem mais nada daquilo que no passado chamava-se cidade. esgotamento nervoso dos habitantes. 1. invadindo imensos territórios. estabelece um cinturão verde ao redor da aglomeração existente e prevê a criação de oito cidades novas a aproximadamente 40 km da capital. Mas no período entre as duas guerras mundiais as duas capitais conhecem uma explosão espacial sem precedentes: em Londres assiste-se à triplicação do espaço urbanizado. XX há um prenúncio de crescimento desenfreado das metrópoles. por outro lado.3 UM PROBLEMA SEM SOLUÇÃO : O GIGANTISMO URBANO Poucos temas tem tanta repercussão em nossa época como o dos aspectos negativos da megalópoles. ou da costa leste dos Estados Unidos. as autoridades britânicas tomam plena consciência dos inconvenientes que representa a concentração num espaço limitado de uma grande parte da população e da infra-estrutura industrial do país. grandes cidades como Londres e Paris ocupam ainda um espaço relativamente limitado. Na Moscou comunista. etc. Sua característica 8 . Todavia. O “Plano da Grande Londres“.A idéia de refazer as ruas ganha terreno a cada dia. caráter inviável da grande cidade. no início do século. problemas de circulação e de abastecimento. realizam-se somente ruas mortas de cidadesdormitórios. como a do Ruhr na Alemanha. se as metrópoles da Europa Ocidental e da América do Norte apresentam ora inconvenientes inerentes à sua enormidade. No entanto. o local de um alto nível de vida. Fala-se da vida citadina“. tanto na região de Londres quanto em outras partes da Inglaterra. Londres ou Paris expandem-se na escala de uma região. Segundo as conclusões do relatório Barlow (1940) é adotada. Senão. Os seis milhões de habitantes da aglomeração londrina ocupam uma área num raio de 20 km ao redor do centro: os quatro milhões de habitantes de Paris e de seus subúrbios concentram-se num círculo de 20 km de diâmetro. Fala-se novamente das ruas. De fato. que dissociam a função da habitação das demais funções urbanas. E antes mesmo de dar vida às ruas a tarefa mais urgente consiste em interromper a destruição das ruas existentes. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Mas isso supõe tornar bastante flexível as regras do zoneamento. Mas não ocorre o mesmo nas grandes cidades da maioria de outros países. uma política de descentralização industrial que se apóia na criação de cidades novas. outros agregados de zonas urbanas justapostas formam enormes conurbações. Elas constituem um capital urbano que nos coloca na incapacidade de substituir por qualquer coisa da mesma qualidade. logo após a 1ª guerra.

suscitar a sobrevivência do excedente populacional. de uma situação bastante pior que aquela das grandes cidades ocidentais do séc. Caracas quintuplica sua população depois da Segunda Guerra mundial. “a posteriori“. Apesar de sua miséria dramática. as cidades do Terceiro Mundo não conseguem acolher as massas humanas que para elas fluem. no Zaire ou no Brasil deixa-se a pequena cidade para se amontoar nas favelas. apesar de uma evolução da imagem urbana. onde talvez se tenha a chance de obter um emprego produtivo e. rompendo o equilíbrio existente entre fecundidade e mortalidade “naturais”. XIX. um salário. a cidade gigante do terceiro mundo é o local de esperança. portanto. Menos ainda que as cidades européias do séc. o crescimento demográfico precede o progresso econômico. Em Argel e Teerã a população triplicou e quadruplicou. essa visão tradicional é superada. Mesmo Brasília possui suas favelas. O aumento populacional segue uma progressão geométrica pois há o crescimento do número de nascimento e a queda da taxa de mortalidade. 1.4 CONCLUSÃO Até a Revolução Industrial. no final das contas. condições de habitação da população operária e. XIX. multiplicando-se os problemas com os quais uma cidade se depara: crescimento demográfico. sobretudo. nos últimos 20 anos do séc. respectivamente. Tratase. conta aproximadamente com 10 milhões. O Cairo. 9 . Foi necessário. Os detritos acumulam-se na periferia em verdadeiras colinas sobre as quais vive um povo miserável de mendigos e das quais retiram sua subsistência. ao invés de acompanhá-lo.particularmente desumana resulta do imenso crescimento demográfico do país onde a ciência e as técnicas médicas do Ocidente foram introduzidas artificialmente. Contrariamente ao que se passou no Ocidente. A explosão urbana no terceiro mundo cresce assustadoramente. Se na Índia. E os problemas se agravam ainda mais por alguns países não poderem ou não desejarem interromper seu absurdo crescimento demográfico. concebido para três ou quatro milhões de habitantes. é porque existe diferença de nível entre as grandes cidades e o campo. portanto. Com a chegada do progresso técnico e da civilização industrial. São rodeadas de imensos subúrbios feitos de favelas. totalmente incapaz de possibilitar a sobrevivência ao enorme excedente populacional. permanece válida a definição da cidade dada pela Enciclopédia: “Um conjunto de edifícios dispostos em ruas e cercados por um muro comum”. Lima e na Cidade do México ela triplicou. XX. 1/3 da população vive em favelas. Em Lima. Em algumas destas cidades gigantes não existe nem mesmo eliminação de esgoto e coleta de lixo. Em São Paulo.

que se pretende uma ciência. que em uma geração o descaracteriza com construções de rara mediocridade. 2008 No Brasil.PDMs. A participação popular também foi reivindicação da própria sociedade. Modelo de Sistema Municipal de Planejamento. Graças a esses meios. a alojar decentemente os homens. Recomenda ainda o MC que tais planos diretores se utilizem da metodologia do planejamento estratégico. Por tais solicitações. mas às possibilidades geradas pelos meios técnicos que a civilização industrial coloca à disposição dos arquitetos. de objetos materiais cada vez mais numerosos e complexos e de uma quantidade crescente de prestações de serviços. decorre em grande medida de modelos utópicos como os de Fourier. Solange Irene Smolarek. o urbanismo progressista prossegue ao menos no Ocidente. A salvação do que resta ainda das paisagens e dos sítios constitui uma das tarefas prioritárias do urbanismo atual e futuro. que solicitaram das administrações municipais o atendimento das necessidades básicas de seus munícipes. o Ministério das Cidades. no princípio de participação popular tanto na sua elaboração. Quanto ao espaço rural. 2. que confunde a distinção tradicional entre espaço urbano e espaço rural. dos engenheiros e dos urbanistas. Florianópolis: PPGEP. órgão gestor do Governo Federal brasileiro. pressupõem-se e determina-se que a gestão pública municipal possua a participação popular. especialmente dos segmentos mais politizados e esclarecidos. Mas ele não prova que as vias utilizadas são as únicas nem as melhores. atualmente. Em particular o urbanismo progressista. quanto na sua implantação. ele é simplesmente abandonado no percurso natural de uma urbanização difusa. Elas constituem em todo o caso uma negação e mesmo assassinato da cidade. mas que é na realidade alimentado de utopias com caráter totalitário mais ou menos confesso. em nome de uma ideologia anti-rural. mas de uma amplitude arrasadora: isto se deve não a uma suposta qualidade enquanto ciência. que se traduz pelo fato de que cada um se beneficia com um espaço mínimo cada vez mais significativo. veiculando uma ideologia anti-urbana. 10 . Tal determinação decorre tanto dos preceitos legais contidos na Constituição Federal brasileira. O URBANISMO NO BRASIL – CIDADES E TENDÊNCIAS DIAS. quanto da Lei Federal denominada Estatuto da Cidade. orienta e regulamenta a elaboração de Planos Diretores Municipais . De modo que o urbanismo progressista resulta paradoxalmente no que mesmo Marx preconiza. a abolição da diferença entre cidade e campo e uma urbanização generalizada deste último. Os resultados obtidos pelo urbanismo moderno são de um valor discutível. Qualificação de doutorado. Desses novos problemas nasce o urbanismo moderno. necessidades e determinações. cuja influência é predominante.enriquecimento global da sociedade.

As negociações para o tratado basearam-se no chamado Mapa das Cortes.Por que planejamento estratégico? No mundo percebe-se que. há cidades que dão certo. ligada à Inglaterra. é o envolvimento de todos os atores sociais na melhoria contínua. antes de propor metodologia e soluções para a atual cidade brasileira. o Brasil é descoberto pelos portugueses. privilegiando a utilização de rios e montanhas para demarcação dos limites. e gera o Tratado de Madrid. Então. em 1793. e outras que não dão. um dos fatores de sucesso das que dão certo. É o Tratado de Tordesilhas. um tratado que define a partilha do chamado Novo Mundo. tão abundante na América Espanhola. entre outros. No entanto. deve possuir de direito.Para tanto. Verifica-se que. Em 1789. oficialmente. busca aliados. ocorre a Queda da Bastilha na França. para Isabel. Em 1799 Napoleão Bonaparte assume o governo francês e em 1801 reinicia luta contra a Inglaterra. na época. Após essa data. O documento consagrou o princípio do direito privado romano de que quem possui de fato. na época.1 O passado das cidades brasileiras Percorramos rapidamente a história. Como a Revolução Francesa ameaça todas as monarquias européias. em 1500. Portugal descobre as ilhas de Açores e Cabo Verde. Em 1427 e em 1445. Já no panorama internacional. promovidas pelos bandeirantes. ocupava-se com a exploração do ouro e das pedras preciosas. que já tinha conhecimento da existência da América. estão ocorrendo mudanças: Em 1776 os Estados Unidos tornam-se independentes da Inglaterra. cidades no interior do Brasil são criadas. Convence a Espanha a 11 . na povoação castelhana de Tordesilhas. o Rei de Portugal alia-se à Espanha no combate a tal Revolução. em 1650. e é significativa a diferença de ocupações espanholas e portuguesas na América do Sul. entre ambas as Coroas. Em 1492 Cristóvão Colombo descobre a América e reclama-a. Esse avanço dos bandeirantes portugueses atinge o território espanhol definido pelo Tratado de Tordesilhas. Com as entradas e bandeiras. A economia portuguesa era. Pelas descobertas e desentendimentos entre ambas as Coroas. e de uma maneira geral. em 1750. atualmente. O meridiano passa a cem léguas a oeste dos Açores e de Cabo Verde. Após o Tratado de Tordesilhas. No interior há agrupamentos de bandeirantes. Tal linha descontenta Portugal. são portos atlânticos de escoamento da madeira e de recebimento de escravos. As cidades brasileiras. Castela deu início à exploração do continente americano. O Brasil. e denomina-se Inter Caetera. sobretudo a prata. implantada no processo de planejamento estratégico Municipal. O Brasil pouco muda em 250 anos de colonização portuguesa. 2. na época. firmado na capital espanhola entre Portugal e Espanha. em 1493 é emitida uma bula papal que estabelece um meridiano que separara as terras de Portugal e de Castela. em 1494 é assinado entre Portugal e Castela. que a partir do século XVI penetraram nos sertões brasileiros em busca de riquezas minerais. faz-se necessário conhecer e entender sua história. delineando os contornos aproximados do Brasil atual.

João VI. trabalho. João VI. ócio. Tal situação. foi composta a Missão Francesa Brasileira. como modelo. pela influencia estética criada com a missão francesa. em 1960. Para tanto. não tendo condições de enfrentar a Espanha. A missão. o modelo urbanístico da cidade foi revisto: a cidade necessitava de saneamento físico e político. o cenário urbano foi enfrentado com instrumentos legislativos e normativos. Por volta de 1850 em Paris. sem grandes alterações. O Brasil era. se cumprisse a promessa. faz com que os artistas neoclássicos franceses percam o principal pilar que os sustentava. Brasília foi criada com o objetivo estratégico de retirar a capital brasileira do litoral. é amplamente difundido pelo Governo Federal brasileiro. Em 1853 assume a sua prefeitura Haussmann. 12 . Essa difusão é decorrente (apesar da ideologia política distinta entre a ditadura e a democracia que a antecedia). Tal modelo perdura. então. promove o desenvolvimento industrial e o ensino superior na cidade. O Plano Diretor – PD passou a ser o principal instrumento de controle urbano. na época. um país extrativista. O Rio de Janeiro. instalado com sua corte no Rio de Janeiro. no Brasil. com a missão de promover o desenvolvimento integrado e o equilíbrio entre as funções urbanas. idealizaria e organizaria a criação de uma Academia de Belas Artes: neoclássica. para não estar em solo português quando da chegada da França. prometendo fechar seus portos à parceira comercial. copiam a nova forma da cidade. rei de Portugal. progressista. como era o estilo da época. nos dias de revolta”. materialmente construído em Brasília. Em 1815 Napoleão Bonaparte é derrotado. Em 1964 o Brasil inicia a ditadura militar e o modelo do urbanismo modernista.atacar Portugal. Inglaterra. e interligá-las por vias de circulação. entre outros objetivos. nos modelos de separar as áreas de habitação. pede a paz. é a representação viva no Brasil da Carta de Atenas.que re-define a cidade com amplas avenidas “que simplifiquem a defesa. Estando D. corria o risco de ver seus portos bloqueados pela poderosa armada inglesa. é o de transferir a corte para o Brasil. Em 1808 chega à cidade de Salvador. A partir dos anos 1970. até a construção de Brasília. e apesar de não terem tido os problemas políticos de Paris. necessita de artistas e intelectuais. A decisão de Dom João VI. no modelo parisiense de Haussmann. São cerca de 100 anos em que o imaginário urbano burguês brasileiro sonhou com grandes avenidas e divisão de classes sociais. e dentro da metodologia de trabalho militarista. Construída de 1956 a 1960. e suas cidades pontos de apoio ao extrativismo. e depois outras cidades brasileiras. entre outras. pela doutrinação e fascinação dos urbanistas brasileiros para com o modelo urbano modernista. financeira e ideologicamente: Necessitaram então migrar para outras terras. e agora com Napoleão III. Em 1806 Napoleão I fez-lhe um ultimato: ou fechava os portos à Inglaterra ou a França invadiria Portugal. D. No entanto. Assim.

o destino da cidade era negociado com interesses econômicos.. somente nas prateleiras dos prefeitos. A corrente do pós-modernismo critica o modelo anterior. o PDDI era realizado de forma centralizada e tecnocrática. em 2003. que a diferenciasse das demais. a ausência de bem-estar está associada à insuficiência de renda. 2008). pela ausência de elementos necessários que permitam às pessoas levarem uma vida digna em uma sociedade.] a tendência de concentração de maior incidência da pobreza em municípios de menor porte. o faz no intuito mercantilista. situado numa zona entre o legal e o ilegal. No entanto. Sistemas Viários. iconoclasta. e constatou: [. Com respeito ao conceito de pobreza. A partir dos anos 1980. na maioria das vezes. e outras não. o IBGE (2008) cita que: Nos anos recentes. Sob este aspecto. Nessa linha de pensamento. e apesar dos planos. modelos e diretrizes de uma cidade racionalmente produzida.6% dos municípios brasileiros tinham mais de 50% de sua população vivendo na pobreza absoluta. 2008). tamanho mínimo de lotes). num contexto em que dominava a economia de mercado e o capitalismo financeiro. As cidades brasileiras foram se caracterizando pelo contraste entre um espaço contido no interior de uma moldura da legislação urbanística e outro. e a partir daí. A questão é que o pós-modernismo urbano aos criar ícones locais. para obterem recursos financeiros do Governo Federal. a separação do planejamento urbano da esfera da gestão provocou uma espécie de discurso desconexo: de um lado os planos reiteravam os padrões. constata-se que. 13 . O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE cruzou os dados de Índice de pobreza com os de desigualdades (medidas pelo índice de Gini).2 O presente das cidades brasileiras Em documento lançado em dezembro de 2008 (IBGE. Códigos de Obras e de Posturas proliferaram em leis urbanísticas de cidades brasileiras. locais e corporativos. elaboram Planos Diretores que ficam. denominado de Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado – PDDI. Zoneamentos. acompanhando a tendência mundial. Nessa concepção. Muitos desses documentos eram puras cópias dos de outras cidades. Já a desigualdade é maior nos municípios mais populosos.A concepção de então se baseava num modelo espacial de cidade ideal (a ser alcançado através de índices de taxas de ocupação. Nesse processo houve cidades que deram certo. uma identidade urbana sígnica. diversos estudiosos do tema tendem a concordar com uma definição abrangente considerando a pobreza como privação do bemestar. mas a desigualdade acima de 40% abrangia todo o grupo. 32. cada cidade deveria ter uma “Imagem”. transformando a cidade em capital-dinheiro. (IBGE. de outro. à nutrição.. As cidades. coeficientes de aproveitamento. é evidente o fracasso do modelo modernista urbano brasileiro. E como está o panorama atual? 2. No caso extremo estavam os 13 municípios brasileiros com mais de um milhão de habitantes: não havia município com mais de 50% de pobres.

O Brasil segue a tendência mundial de possuir parcela de população urbana quatro vezes maior que a rural. não esquecendo. que não é o institucional. A perspectiva que se abre é de considerar a cidade enquanto prática social. não possuem planejamento para tal. A partir de 1988. na obrigatoriedade. possuía em 2006. a posição é explicada pelo fato de a cidade possuir a maior hidrelétrica do Estado e a riqueza produzida pela empresa ser distribuída entre poucos habitantes. No final do século XX e início do XXI a crise da cidade é mundial. com a nova Constituição Federal. no entanto que a criação de quaisquer estratégias não pode deixar de considerar o espaço.000 habitantes. na Bahia. Em 2001 a Lei Federal do Estatuto da Cidade reafirma essa diretriz. aos bens de consumo e aos direitos de participação na vida social e política da comunidade em que vivem (IBGE. estabelecendo o PDM como instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana (artigos 39 e 40). pelas estratégias do poder e pelo crescimento econômico que cria uma ordem planificada e programada. municípios situados em regiões metropolitanas ou aglomerações 14 . De acordo com o IBGE.à saúde. o que leva à desordem. priorizar as relações sociais. Na terceira posição ficou Triunfo. o ser humano e o ambiente sofrem as conseqüências. o menor PIB per capita do Brasil: R$ 1. em geral. à moradia. à educação. apenas uma grande empresa. em dezembro de 2008 e relativos à 2006 entre os 10 municípios de maior Produto Interno Bruto – PIB per capita do Brasil estão os com um número pequeno de habitantes e casas e. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). como é método para chegar ao indicador. pois as cidades. em 2006. então. Em segundo lugar aparece São Francisco do Conde. Na desordem. no crescimento acelerado. Qual a solução? Mais uma vez. houve a definição da obrigatoriedade do Plano Diretor Municipal – PDM para cidades com população acima de 20. e é produto da racionalidade imposta pelo planejamento funcionalista. em Minas Gerais. determinações legais.368. Inclui. O que parece soar como modernidade e melhoria de vida não ocorrem. com R$ 261 mil. O município com maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil em 2006 foi Arapurã. Os dados foram divulgados nesta terça-feira pelo IBGE. Vale lembrar que isto não significa que cada habitante ganhou este valor no ano. De acordo com dados divulgados pelo mesmo IBGE. com PIB per capita de R$ 217 mil. posto que as relações sociais se realizam num espaço concreto. 2008) Na outra ponta estão as cidades que lideram o ranking de riqueza por habitante no Brasil. O município de Guaribas. As estratégias urbanas atuais devem. a cidade possuía 52% de sua economia dependente da administração pública. mas que o total de riqueza produzida por eles em relação ao número de pessoas que moram no município é o maior do País. no Piauí. no Rio Grande do Sul. com R$ 180 mil.

no Brasil. Em meados dos anos 1960 promoveu-se. Tudo se passava como se os problemas locais. a partir de um pacto comum. a visão da polis. Tudo se passava como se o planejamento fosse externo à administração. deve corresponder aos interesses da maioria.) a responsabilidade pela implementação desse plano não é apenas do governo ou do poder público. quando. Entre a cidade legal e a real. A atividade de planejamento é complexa. o processo de planejamento é muito mais importante que seu resultado final que. portanto. como se as causas destes problemas fossem sempre as mesmas. indicados por um competente estudo preliminar. 15 . determinam por meio de ações coordenadas a cidade que todos querem. copiando modelos franceses e desconsiderando a cultura local. pois há a cidade legal e a real. intensamente.urbanas. independentemente da composição do poder local. que indagações envolvem questionamentos sobre o que fazer. existem de maneiras paralelas. há distinções. As cidades brasileiras. do Estatuto da Cidade.. normalmente. materializa-se num plano. por quem e onde. a seguir desenvolvia um plano de ação imediata ou. ou em áreas sob influências de empreendimentos de grande impacto ambiental. desde então. no princípio de que um salutar modo de pensar envolve indagações. Segundo Rolnik. como. Por esta imensa presença e participação. Seu equívoco e fracasso foram desconhecer as categorias presentes e atuantes no meio comunitário. quanto. para quem. Com ação urbana incipiente. interdependente e mutável.daí sua denominação de planos integrados. em áreas de interesse turísticos.. inicia sua urbanização somente em meados de 1850. É. Atualmente. como se fosse possível decidir sobre objetivos a alcançar ou sobre soluções dos problemas. após a Constituição Federal de 1988. Eram os Planos Diretores elaborados em concepção que exaltava a racionalidade. Estes planos tinham por campo de intervenção os aspectos sociais. representadas por todos os atores sociais. ela é também de todos os cidadãos que vão estabelecer entre si regras básicas de convivência naquele lugar”. “a grande diferença é olhar pro conjunto (. pressupõe um processo contínuo de pensamento sobre o futuro.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro O Brasil é descoberto por Portugal em 1500. em todo o Brasil. físicos e institucionais . a partir de um processo decisório permanente. o que. um plano de desenvolvimento local integrado. independentes do observador e de sua perspectiva. Seu método era o de aproximações sucessivas: começava por um estudo preliminar. e da ação do Ministério das Cidades. nas situações mais complexas. a elaboração de Planos Diretores. 2. o processo de planejar envolve um modo de pensar participativo e compromissado. acionado dentro de um contexto ambiental. O novo enfoque brasileiro parte do entendimento de que a cidade possui vários agentes atuantes que. econômicos. fossem sempre os mesmos.

preservando a vida comunitária e dando segurança às crianças. a escola primária era o equipamento básico de uma unidade de vizinhança. Se for superado o entrave da sensação. Por isso. Stein define a unidade de vizinhança como uma área residencial delimitada (mas não cortada) por vias de trânsito de passagem e que seriam projetadas para uma população que necessitasse de uma escola elementar. com duração definida. A idéia então foi usar o planejamento urbano como forma de recriar essas relações. mas direcionado para objetivos limitados. Ela foi idealizada como uma resposta ao crescimento dos grupos secundários (característicos das grandes áreas urbanas) de forma que os grupos primários seriam reforçados. já que os caminhos eram seguros e a distância era ideal para não cansá-las. Planejamento municipal integrado. de Ildefonso Cerda. esse instrumento voltou a despertar atenção da sociedade. São Paulo: Pioneira. 7. 3 A VIZINHANÇA: A SOCIOLOGIA DESENHA A CIDADE FERRARI. estudiosos constataram o desaparecimento das relações sociais entre vizinhos com o crescimento das metrópoles. Esses grupos primários seriam importantes para uma vida saudável e a falta de convivência nesses grupos poderia até provocar desordens mentais. Enquanto Perry desenvolvia seus estudos. Com a aprovação do Estatuto da Cidade em 2001. de que o proposto não é duradouro.Muito se tem discutido atualmente no Brasil sobre os Planos Diretores Municipais. consigam êxito. Para ele. Clarence Artur Perry estabeleceu a escola primária como equipamento central e o delimitador espacial de uma unidade de vizinhança: ela se estenderia de forma que sua população não ultrapassasse a capacidade de uma escola primária. inspirado em Ebenezer Howard. A unidade de vizinhança é um escalão urbano que se assemelha ao bairro e é resultado da reunião de várias unidades residenciais. é possível que os atuais PDMs. É possível notar no Plano de Barcelona. nas pessoas. Em 1923. depois de anos de descrédito. preocupações na distribuição dos equipamentos urbanos e suas relações com os habitantes. Celson. ed. concebidos na metodologia do planejamento estratégico. Estas poderiam ir à escola sozinhas. através de uma configuração urbana que propiciasse a convivência e os contatos sociais. pela primeira vez mostra o conceito de unidade de vizinhança. Henry Wright e Clarence Stein aplicaram conceitos parecidos nos conjuntos habitacionais próximos a Nova Yorque. de certa forma antecipando conceito de unidade de vizinhança. 1991. No início do século XX. os equipamentos urbanos deveriam estar próximos às habitações e estas não deveriam ser interrompidas por vias de trânsito de passagem. mas apenas tangenciadas. Clarence Perry. Queen Carpenter confirma a função da unidade 16 .

de equipamentos e serviços lá introduzidos. As causas de tal fracasso seriam a própria tendência de a população urbana de se isolar (diretamente proporcional ao tamanho da cidade). A primeira. em Porto Rico. A segunda corrente foi influenciada pelo racionalismo europeu e por Le Corbusier. Estados Unidos da América. França. e das novas cidades inglesas (da primeira e segunda gerações). de Patrick Abercombie. como medidas de planejamento compatíveis com o desenho urbano. as relações sociais da comunidade. Nela são explorados os edifícios habitacionais. É o caso do Plano da Grande Londres (a partir de 1944).de vizinhança em recriar os laços de contatos primários. anglo-saxônica. por exemplo. tanto no setor terciário quanto no secundário. União Soviética e Áustria. Suas diretrizes de distribuição de equipamentos e serviços na área urbana também estão presentes hoje. Apesar disso.. baseiase nas cidades jardins e em baixas densidades demográficas. que contrasta com a dos bairros existentes nas cidades tradicionais. A partir daí a unidade de vizinhança foi amplamente usada. Seu uso intenso e o tempo levariam à reflexão e às primeiras reações contra a unidade de vizinhança. Essas unidades deveriam possibilitar através de um número estabelecido de habitantes. Brasil. graças às relações sociais mais alargadas permitidas pelos meios de transportes e comunicação e à impossibilidade de evolução da forma urbana concebida. os debates sobre a organização habitacional foram bastante influenciados pela unidade de vizinhança e modelos funcionais e organizacionais foram considerados muito importantes. Seus conceitos foram usados. uma das funções da unidade de vizinhança foi alcançada: dar proteção à criança. Após anos de experimentação. São os casos das superquadras de Brasília e da Unité d‟ Habitacion.2 Críticas Por cerca de 40 anos a unidade de vizinhança foi idéia corrente no urbanismo. no tocante a oferecer postos de trabalho. Esse conceito pode ser dividido em duas correntes. Após a Segunda Guerra Mundial.] para desenvolver actividades sociais primárias e contatos sociais espontâneos ou organizados". 3. Inglaterra. onde "os residentes se conhecem pessoalmente e têm o hábito de se visitar" e onde "os membros se encontram em terreno conhecido [. chegou-se à conclusão de que as unidades de vizinhança não atenderam às expectativas em torno da recriação dos grupos primários. 3... A Unidade de Vizinhança é uma idéia simples. constituindo uma "fórmula mágica de constituir comunidades de habitantes".1 Difusão da idéia O conceito de unidade de vizinhança se difundiu após os anos 1920. 17 .

Para ele. Para os teóricos o conceito de unidade de vizinhança interessava mais no sentido de entender os aspectos sociais (dimensões. deveria atender à população que necessitasse de uma escola elementar. Nela a Unidade de Vizinhança constitui-se num “bairro” habitacional separado das vias por áreas verdes e com equipamentos no interior. e que a circulação de veículos não deveria cortar os acessos aos serviços nem perturbar a vida da comunidade. Os urbanistas de todos os países experimentaram os conceitos de unidade de vizinhança e utilizaram-no de forma indiscriminada. No Plano da Grande Londres (1944-45) e de algumas cidades inglesas. Nela os habitantes teriam o hábito de se visitar e trocar objetos ou serviços. Nela se formaria um grupo territorial em que os membros estariam em território conhecido. a unidade de vizinhança era um conceito sociológico. os principais equipamentos deveriam estar próximos às habitações. a vida social desenvolvia-se a partir da utilização dos serviços comuns. Deveria existir também uma área com pequenos parques e locais para recreação. Estas teorias influenciaram a organização de áreas habitacionais a partir dos anos vinte. a unidade de vizinhança apareceu como elemento base de toda a organização urbana. A corrente origem anglo-saxônica. etc) do que o traçado e a forma urbana decorrentes deles. Para Queen Carpenter e Ruth Glass. Deveria também ser delimitada por vias suficientemente largas. Clarence Stein defendia que a unidade de vizinhança além de área residencial. a partir da unidade de vizinhança. Na cidade moderna. especialmente a partir do pós-guerra que exigiu um maior debate sobre a reconstrução das cidades e. a melhor forma de suprir o déficit habitacional. quantitativos.O americano Clarence Perry estudou nos anos 20 as relações entre os habitantes das comunidades e os equipamentos existentes nelas. procurando um modelo de edificação que permitisse uma unidade habitacional que se integrasse aos equipamentos. baseada essencialmente em pesquisas do modelo sociológico de comunidade habitacional. esta forma inseriu-se na organização urbana. estabelecer relação entre os grupos. Entre os anos 50 e 60. a unidade de vizinhança tornou-se a principal forma de organização e de definição do desenho da área habitacional. Desde Cerdà em seu projeto para o Plano de Barcelona. A corrente mais ligada ao Racionalismo Europeu de Le Corbusier concretizou-se a partir das tipologias arquitetônicas. A partir destes estudos identificou que. 18 . 2. da sua estruturação e organização que atendem a determinada comunidade. observa-se a tentativa de. duas correntes de utilização dos conceitos de unidade de vizinhança: 1. permitindo que o trânsito passasse pela unidade sem atravessá-la. Neste período surgiram também. Este modelo estava diretamente ligado às baixas densidades e a idéia de cidade-jardim.

4. Este fracasso resultou de dois aspectos. Marisa Aparecida Rohde. ou seja. cada edifício constituía uma Unidade de Vizinhança. Gerir o espaço físico. tentando integrar o maior número de serviços dentro da Unidade. principalmente nas grandes cidades. civil – UNIOESTE 1999 Historicamente a apropriação do espaço físico foi marcada por lutas e guerras. estas críticas levaram ao abandono das idéias de Unidade de Vizinhança. políticas e sociais. o desafio de manter ou conquistar um pedaço de chão permanece. promovendo alterações urbanísticas.A segunda corrente incluiu as idéias do racionalismo europeu. Após alguns anos de experimentações destes conceitos. desencadeou um processo de urbanização acelerado nas cidades brasileiras. apresentando-se na forma das unidades habitacionais de Le Corbusier e das Superquadras de Brasília. surgiram as primeiras críticas ao observarse que a idéia de convivência em que se baseia a teoria. apresentando-se como modelo simplista de organizar à expansão urbana e permitindo a incorporação de unidades autônomas. „autônoma‟. Relatório Final de Estágio Curricular – Eng. que segundo alguns estudiosos. como as relações equipamentos-população. Durante quatro décadas o modelo de Unidade de Vizinhança dominou o urbanismo. porém alguns métodos decorrentes destas idéias permaneceram e são adotados em planejamento de cidades até hoje. As conseqüências dessa ocupação desordenada do espaço físico são o reflexo da falta de planejamento. através de análise das relações sócio-econômicas. o primeiro de que é impossível impor a formação de grupos sociais através de um plano urbanístico. Nos anos 70. quando as disputas por terras ocorriam entre tribos rivais até os dias atuais. econômica e físicoadministrativas. e constituem-se em problemas de ordem social. Desde a Idade Antiga. onde presenciamos o conflito entre fazendeiros e sem-terras. foram inadequadas. em menos de 30 anos o Planeta Terra terá 10 bilhões de habitantes (atualmente possui 6 bilhões). por meio de ações da administração pública e 19 . havia fracassado. Os modelos de Le Corbusier inspiraram-se nos modelos utópicos dos „falanstérios‟. colocando em segundo plano o desenho urbano e a morfologia da cidade e priorizando o funcionalismo da mesma. onde foi utilizada a possibilidade de construção de edifícios em altura. A busca por melhores condições financeiras nas últimas décadas. dos quais cerca de 90% viverão nas cidades. Se as estatísticas se confirmarem. O segundo está relacionado às formas urbanas adotadas. as quais não se encontravam preparadas para comportar tal demanda. PLANEJAMENTO URBANO ROHDE.

dando origem às “urbs” e tornando mais complexas as relações humanas. no espaço geográfico que precede o espaço econômico. portanto. Segundo RODRIGUEZ (1994). por outro. 3. É função do Planejamento Urbano gerir o espaço físico. Na Idade Média. “O primeiro componente. sendo que sua concepção metodológica é um elemento básico. que possui um caráter normativo e instrumental. A progressão histórica acima reflete objetivamente a relação homem/espaço. 20 . por um lado. 2. As primeiras aglomerações humanas com localização fixa assumiam espontaneamente a configuração e a estrutura mais apropriadas ao fim a que se destinavam: defender a coletividade do ataque das feras ou tribos inimigas. do mecanismo ou do fenômeno que denominamos desenvolvimento é o espaço”. 5. embora este é que comanda a expansão e desenvolvimento urbanos. visando criar melhor condição de ambiente urbano e promover o desenvolvimento da cidade. os proprietários fundiários e imobiliários. principalmente de transportes.pela apropriação de benefícios em termos de geração de rendas e obtenção de ganhos de origem produtiva ou comercial. os empreiteiros de obras públicas. surge uma nova atividade – o comércio . O homem concebe-se. os incorporadores e a construção civil. Nesta luta pelo espaço pode-se identificar os seguintes agentes: 1. Pode-se caracterizar o espaço urbano como uma arena onde se defrontam interesses diferenciados em luta: 1. as camadas médias que buscam manter ou melhorar as condições de seu habitat. a proteção oferecida pelos senhores feudais fazia surgir uma nova forma de organização humana: os feudos (vilas auto-suficientes). os concessionários de serviços. acarretando muitas vezes na ocupação inadequada do espaço geográfico. 4. Com o advento da navegação marítima.iniciativa privada. 2. o planejamento é um procedimento técnicoadministrativo. propondo uma política de desenvolvimento para a cidade que contemple os interesses da comunidade local e regulamente as atividades dos diversos setores que compõem a estrutura urbana. de forma a reproduzir e ampliar a distância social em relação às camadas populares. através da análise das relações socioeconômicas. à prióri. constitui o processo de planejamento urbano. que marca sua posição na estratificação da sociedade. 1978). ( LINDGREN.e em termos de melhores condições materiais e simbólicas de vida.

os problemas que afetam uma sociedade situada em determinado espaço. (OLIVEIRA. 21 . deve conciliar as duas tendências acima citadas. 2. o acompanhamento da execução dessas ações. políticas. 1989). por iniciativa do governo. Política porque é. Considerando que o objetivo principal do planejamento é promover alterações sócioeconômicas. executores e beneficiários de forma a se chegar mais rapidamente às soluções mais criativas e decisões mais racionais e exeqüíveis. planejamento é um método de aplicação. necessidades e interesses divergentes e administrar conflitos entre os vários segmentos da sociedade que disputam os benefícios da ação governamental. são alguns dos obstáculos e contradições normalmente encontrados no fluir do processo de planejamento. Planejamento pode ser definido como processo de decisão que objetiva causar uma combinação ótima de atividades em uma área específica e pelo qual a utilização dos instrumentos de política seja coordenada. 1989).. tão propalado atualmente. que venha a ocorrer apenas em determinado período de uma gestão. O planejamento democrático. A permanente escassez de recursos em face de novas etapas a serem programadas. sistematizadas e agregadas no nível adequado às necessidades e. O processo de planejamento se inicia com o levantamento. conceitua que em um sentido amplo. dos problemas e situações que afetam a população. através de uma previsão ordenada capaz de antecipar suas últimas conseqüências. etc. urbanísticas. a tomada de medidas corretivas e o esforço para melhorar constantemente o próprio sistema de planejamento. considerados os objetivos do sistema e as limitações impostas pelos recursos disponíveis (HILHORST. contínuo e permanente. em determinada época. O planejamento governamental não deve constituir uma atividade esporádica. os a freqüente falta de complementaridade e integração das ações das várias esferas do governo e a comum falta de organização dos próprios segmentos sociais carentes da atenção governamental. Prossegue com a análise das informações sobre esses problemas. 1. Na Carta dos Andes BIRKHOLZ (1980). pois as diretrizes estabelecidas podem ser contrárias aos interesses de alguns segmentos. racionalmente. um processo de negociação que busca conciliar valores. o apoio dos conhecimentos especializados de profissionais de diferentes áreas. técnicos. a definição de objetivos a alcançar. Técnica porque implica o domínio de uma metodologia de trabalho própria. para que participem do processo de planejamento autoridades. 1975). freqüentemente. tudo isso visando à melhoria crescente das condições de vida da população. destinado a resolver. o acesso a informações atualizadas. a programação das ações adequadas. antes de tudo.O planejamento público tem uma dimensão técnica e uma dimensão política. (OLIVEIRA. o processo nem sempre é pacífico.

ao passo que a expansão da cidade e crescimento da população provocam uma pressão constante que determina a tendência à deficiência dos sistemas. No Brasil. e sem tampouco restrição à ocupação de área de risco (inundáveis e sujeitas a deslizamentos) e de proteção ambiental (faixas de drenagem e preservação permanente). verificado principalmente após o fenômeno da Revolução Industrial que foi o principal responsável pela migração campo / cidade. armazenamento e transporte de substâncias tóxicas. são crescentes as dificuldades de deslocamento pelo aumento progressivo da intensidade de fluxos. A forma de ocupação do espaço. o acréscimo constante de efluentes líquidos orgânicos pressionando o esgotamento sanitário. onde a expansão urbana parece ter atingido o nível máximo. No sistema de circulação (sistema viário e de transportes). houve um grande aumento da população urbana. a concentração de pessoas e atividades no ambiente urbano promove a otimização da infraestrutura e serviços urbanos. que tornava-se o pólo industrial do país. Dois fatores geram situações contraditórias e constantemente principalmente nas cidades do considerado terceiro mundo: observadas. A forma como se produz a ocupação sem qualquer regra ou limite. e o grande interesse político econômico em abrir o mercado brasileiro para a indústria internacional. FÓRUM DE ONGs BRASILEIRAS apud ORSI (1997). acarretando os mais diversos problemas de ocupação e organização do espaço urbano.A distribuição e ocupação inadequadas do espaço físico territorial não é assunto de análise e discussão apenas das grandes cidades. com a impermeabilização excessiva do solo. foram os principais agentes responsáveis pelo êxodo rural e conseqüente crescimento da população urbana. ou à proximidade de fontes poluidoras. 1985). 2. tudo isso acrescido de precário sistema de controle e fiscalização das unidades produtivas. principalmente na região sudeste. o comprometimento de mananciais provocando reflexos imediatos no abastecimento d‟água. na busca de uma melhor condição financeira. gera o atual quadro de degradação do ambiente urbano verificado na maioria das grandes cidades dos países em desenvolvimento. erosão e inundações prejudicando a drenagem urbana. a partir das décadas de 60 e 70. Precedida por um estilo de desenvolvimento que impôs alto grau de centralização e concentração urbana. A falta de uma política de desenvolvimento nacional voltada para a economia local. a agricultura. sem previsão de áreas para equipamentos públicos nem infra-estrutura. No saneamento são várias as insuficiências. a dinâmica de modificar o espaço que se verifica nas cidades tem modificado o traçado urbano e suas formas de expansão. em particular nas grandes cidades. citada acima. O rápido crescimento urbano é uma característica dominante do desenvolvimento das economias mais avançadas. 1. e a 22 . (SINGER.

o Poder Público Municipal utiliza-se de certos instrumentos legais. Estes instrumentos têm a função de regulamentar as atividades dos diversos setores que compõem a estrutura urbana e a ocupação e uso do espaço urbano. a Lei de Zoneamento e Uso do Solo. A reunião das propostas para desenvolvimento em todos os setores constitui o instrumento maior que norteará o planejamento da cidade como um todo: o Plano Diretor de Desenvolvimento da cidade. os gestores urbanos têm criado mecanismos de planejamento no intuito de minimizar os efeitos causados por este crescimento. 4. (HARDT. Leis de proteção ambiental e legislação específica necessária.2 INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO A fim de que as diversas atividades e setores que formam a estrutura da cidade possam coexistir harmonicamente. Estes mecanismos constituem os instrumentos do planejamento urbano e expressam a política de desenvolvimento proposta pelo Poder Público. 23 . tratamento e disposição final de resíduos sólidos. as propostas e ações que caracterizam a dinâmica da cidade: como por exemplo a instalação de uma nova indústria. Desta forma. Quanto mais complexa se torna a estrutura urbana. além da falta de adequada compatibilização às características locais urbanísticas. especialmente pela baixa capacidade de gestão urbana de seus responsáveis diretos. 4. a Lei de Parcelamento do Solo. através de planos e leis. Lei de Parcelamento do Solo. através dos instrumentos legais de que dispõe. Além disso. o Código de Obras e as leis de proteção ambiental. ocorrem muitas vezes conflitos entre normas e legislações específicas. Esses instrumentos têm a função de regulamentar. Constituem instrumentos indispensáveis à execução das diretrizes estabelecidas na etapa do planejamento os seguintes mecanismos legais: Plano Diretor. notadamente no que tange aos países de terceiro mundo. presenciam-se problemas variados de administração e finanças públicas.quantidade crescente de lixo saturando as condições de coleta. 1994). etc. Lei de Zoneamento e Uso do Solo. São instrumentos do planejamento urbano o Plano Diretor de Desenvolvimento. a elaboração de um programa social como a criação de um plano habitacional.1 OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO URBANO Propor diretrizes para o crescimento e desenvolvimento da cidade de modo a elevar a qualidade de vida de seus habitantes. ROLIM apud ORSI (1997).

182. as propostas do Plano Diretor devem conformar uma visão de conjunto e integrada de todos os aspectos do desenvolvimento municipal.2.1. 4.1 Objetivos Os objetivos do Plano Diretor devem expressar o consenso entre os anseios da população e da equipe técnica. em seu art. traduzindo-se em programas e ações com o intuito de procurar o desenvolvimento sustentável do município.. sem esgotamento dos recursos ambientais. coibir as atividades econômicas. é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana”. social. 1º O Plano Diretor. aprovado pela Câmara Municipal. diretrizes e estratégias de desenvolvimento com o intuito de orientar o poder público municipal no planejamento da cidade. obrigatório para cidades com mais de vinte mil habitantes. subdivisão da terra e revitalização da cidade. sob os aspectos físico. Segundo GASPARINI.2.. Segundo RABI. que devem necessariamente ser inseridos no processo de planejamento do município e não lhe podem ser alheios. nas decisões sobre zoneamento. econômico e administrativo. no qual constam as propostas. a integração e a articulação do Poder Público são pressupostos básicos na elaboração de um Plano Diretor. 182 dispõe sobre a legislação básica da política de desenvolvimento e expansão urbana: “Art. físico-territoriais e urbanísticos do município e sua região. desejado pela comunidade local. O Plano Diretor deve indicar estratégias para explorar o potencial de desenvolvimento do Município. Indicar os caminhos para direcionar o desenvolvimento para o bem-estar da população. A mobilização. contudo. RABI – IBAM (1999).1 Plano Diretor A Constituição Federal.4. facilitando o acesso ao solo urbano a todos os habitantes. Deve ordenar a ocupação no território sem. O termo “desenvolvimento sustentável” significa satisfazer as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das futuras gerações na satisfação de suas próprias necessidades. pesquisa e análise dos dados socioeconômicos. O Plano Diretor é um documento elaborado a partir do estudo. o plano diretor é o complexo de normas legais e diretrizes técnicas para o desenvolvimento global e constante do Município. fortalecer as tendências desejáveis e reverter as situações ou tendências não favoráveis. 24 . facilitando a provisão eqüitativa de serviços públicos.

( RABI.2.2 Área de Atuação Se a área de interesse do planejamento. A fim de alocar adequadamente as diversas atividades no espaço urbano. etc. de forma irreversível. O Zoneamento é a distribuição das atividades urbanas em áreas específicas e apropriadamente escolhidas e delimitadas. no que diz respeito ao aspecto físico. são definidos os limites das zonas que devem ser claramente identificáveis e descritos na própria lei. 1999). alguns planos se limitam a tratar da política urbana e de transportes. A análise e interpretação dos dados característicos da cidade e região é o fator determinante para uma proposta de zoneamento que contemple a vocação da cidade. ou seja. 25 . é o município. Os parâmetros para ocupação do solo nessas áreas são regulamentados por lei: a Lei de Zoneamento e Uso do Solo. por outro. serviços públicos. 4. Segundo RABI. o Plano Diretor contemplará as diretrizes para o desenvolvimento na esfera municipal. o meio ambiente. atendendo às diretrizes do Plano Diretor. a cidade propriamente dita.2 Lei de Zoneamento e Uso do Solo Algumas conseqüências do crescimento das cidades.1.2. criando o que se chama de Zoneamento. mudar. Com relação ao aspecto administrativo. tais como áreas densamente construídas e com alta concentração populacional.4. Desta forma estará se planejando o desenvolvimento do espaço urbano e não apenas o seu crescimento. considerando todos os aspectos inerentes a existência das cidades. grandes áreas cobertas com pavimentação asfáltica e a produção de poluentes originada pelo tráfego ou pelas indústrias são responsáveis por modificações nas condições climáticas dos ambientes urbanos e acarretam prejuízos para a qualidade de vida e o meio ambiente. fisiográficas e urbanas. incluindo tanto a zona urbana. Se por um lado a Lei de Zoneamento e Uso do Solo coíbe práticas especulativas que prejudicam a qualidade de vida e comprometem. divide-se a cidade em diferentes zonas de acordo com as características ambientais. por exemplo. incentivar ou propor para cada área. O Planejamento integrado requer uma visão global da cidade. a partir da caracterização do uso e da ocupação e dos aspectos que se pretende preservar. desenvolvimento econômico. outros aprofundam mais as políticas de meio ambiente e setorial: habitação. quanto a zona rural. quando não se consegue compreender a vocação econômica da cidade corre-se o risco de implantar um conjunto de normas rígidas que prejudicará a dinâmica do desenvolvimento urbano.

Em cada zona serão normatizados os usos permitidos. proibidos. 4.2.766/79. etc. modificada pela Lei nº 9785/99” (RABI. industrial.1 Definição Lei de Zoneamento e Uso do Solo é a lei que define os parâmetros para a ocupação do solo urbano nas diversas áreas que compõem o zoneamento da cidade.3 Área de Atuação Estão sujeitas à aplicação da Lei de Zoneamento e Uso do Solo as áreas delimitadas pelo perímetro urbano. sem a abertura de novas vias.2. as expectativas da população e definir as normas que irão reger cada zona e que estarão contidas na Lei de Zoneamento e Uso do Solo. 1999). residencial. 4. 26 .2 Objetivos Normatizar os usos e atividades de acordo com os parâmetros de utilização do solo estabelecidos para as diferentes áreas.2.2. a fim de facilitar o trabalho de elaboração do zoneamento e a aplicação da lei. Como perímetro urbano entende-se a linha que contorna as áreas urbanas e de expansão urbana.. 4. 4.. permissíveis e os tolerados. de logradouros públicos ou o prolongamento. agrupando-os por afinidades como comercial.2. e através do desmembramento – quando na subdivisão da gleba ocorre o aproveitamento do sistema viário existente.. (RABI.Esta linha (perímetro) é definida por lei. 1999).2.o parcelamento do solo para fins urbanos determina as formas de ocupação da cidade e é regido pela Lei Federal nº 6.3 Lei de Parcelamento do Solo “.2.Caberá à equipe técnica da Prefeitura interpretar as condições de cada área. nem o prolongamento. Assim por exemplo em áreas destinadas ao uso residencial não será permitido a instalação de indústrias poluidoras ou qualquer atividades que não seja compatível com o uso principal definido para a zona. ampliação ou modificação das vias existentes. modificação ou ampliação das vias existentes. O parcelamento do solo significa a subdivisão da gleba em lotes destinados à edificação e pode ocorrer de duas formas: através do loteamento – quando na subdivisão da gleba há abertura de novas vias de circulação.

 Soluções para o esgotamento sanitário e para energia elétrica domiciliar. no mínimo:  Vias de circulação.3 ÁREA DE ATUAÇÃO DO PLANEJAMENTO URBANO Segundo BIRKHOLZ (1979). a rede urbana como um conjunto e cada cidade. alterada em alguns aspectos pela Lei 9785/99. até mesmo da própria terra”. não se limitando apenas à área urbana das cidades. A legislação municipal. de onde emanou a proposição de objetivos e em que se baseou a escolha daqueles instrumentos é sempre um sistema sócio-econômico e políticoadministrativo. O Art.  Sistema de escoamento das águas pluviais. “O objeto do planejamento. dispõe sobre a infra-estrutura básica dos parcelamentos situados nas zonas habitacionais. continentes e. suas regiões.  Rede para o abastecimento de água potável. do ponto de vista particular. isto é. as áreas rurais. estabelece as diretrizes e parâmetros específicos necessários a cada forma de parcelamento do solo urbano. 4. os quais deverão conter. O planejamento urbano tem. não podendo dispor contrariamente à lei federal. aquilo sobre o qual incide o uso dos instrumentos.A Lei 6766/79. 27 . Essa ampliação de escalões de planejamento. um campo de atuação que pode ser bastante amplo no que diz respeito ao aspecto físico. 1978). num último e final escalão. uma região ou parte da mesma. o campo de planejamento urbano teve uma significativa ampliação a partir da Carta de Le Tourrette onde o conceito passa “a abarcar o território como um todo. levou os autores da Carta a se preocuparem com o planejamento de países. e também toda uma região”(LINDGREN. De acordo com a política de desenvolvimento estabelecida no Plano Diretor. segundo vários autores. se estabelecem as áreas que poderão ser loteadas além do atendimento às demais exigências legais pertinentes. Este sistema pode ser uma cidade ou um bairro da cidade. nas duas formas em que o mesmo pode ocorrer: loteamento e desmembramento. dispõe sobre o parcelamento do solo urbano. 2º da Lei Federal 6766/79. bem como sobre os requisitos urbanísticos básicos à aprovação dos projetos de parcelamento do solo.

criando melhor condição de ambiente urbano e melhorando a qualidade de vida da população. Propor diretrizes para o desenvolvimento da cidade requer estudos sólidos sobre as características que ela apresenta. poderá contemplar ou não as tendências que a cidade apresenta. professor e pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. SQS 104 Bloco G Apto. não as torna melhores ou piores entre si.br 5. físico-administrativos e culturais. UNIDADE DE VIZINHANÇA: NOTAS SOBRE DESENVOLVIMENTO E INTRODUÇÃO NO BRASIL SUA ORIGEM.4. tecnológico e industrial. sua “vocação”. distante da realidade apresentada. Tendência não é destino. Arquiteto e Urbanista.4 CONCLUSÃO Planejar uma cidade significa muito mais do que simplesmente atender à legislação urbanística. A complexidade do processo de planejamento urbano. cujo objetivo é promover o desenvolvimento integrado. Paisagista. que contemplem as características e necessidades locais. Enquanto a primeira é eminentemente voltada para o turismo. BARCELLOS. Mestre. Salvador e São Paulo são cidades cujas tendências de desenvolvimento são completamente opostas uma da outra. As tendências ou a “vocação” das cidades é o que as caracterizam ou diferenciam umas das outras. 5. se pauta em estudos com relação aos aspectos sócio-econômicos.Dela dependerá a qualidade do ambiente urbano que se reflete no nível de qualidade de vida da população. requer uma equipe multidisciplinar. End.1 INTRODUÇÃO Unidade de Vizinhança é segundo a formulação original do início do século 20 uma área residencial que dispõe de relativa autonomia com relação às necessidades 28 . Desta forma o planejamento urbano não corre o risco de tornar-se estritamente técnico. a segunda se caracteriza por apresentar-se como um centro de desenvolvimento científico. devido à influência dos aspectos acima citados. Brasília/DF – E-maill: gbarcellos@tba. Doutor.com. Vicente Quintella.343-070. urbanísticos. A política de desenvolvimento proposta. As alterações propostas pelos técnicos do planejamento urbano. político ou ainda. implica em conhecer suas tendências. 504. O fato de apresentarem linhas ou políticas de desenvolvimento diferentes. CEP: 70. A política está diretamente vinculada ao planejamento urbano.

refere-se ao anseio de recuperação de valores de uma vida social a nível local (relações de vizinhança).quotidianas de consumo de bens e serviços urbanos. Para os agentes de planejamento e autoridades preocupadas com o equacionamento da questão habitação / equipamentos. A distribuição e localização dos equipamentos de consumo coletivo é uma questão recorrente e central nas diversas concepções de Unidade de Vizinhança. considerados enfraquecidos ou mesmo perdidos com as transformações por que passou a vida urbana em decorrência dos processos espaciais e sócio-econômicos ocasionados pela Revolução Industrial. a mais expressiva aplicação entre nós ocorre durante a construção de Brasília. de modo a resultar. contribuindo para que as idéias de Unidade de Vizinhança fossem difundidas e aplicadas em diferentes contextos sociais e econômicos ao redor do mundo. no início da década de 50. de modo a traçar um breve quadro que evidencie as peculiaridades e inflexões que essas idéias sofreram ao serem introduzidas entre nós. que para muitos tornou-se obsoleta. Mas desde sua formulação inicial essas retenções têm sido muito criticadas. pode-se considerar que esses anseios ainda permanecem nos debates dos urbanistas. subjacente no que se tem chamado de ideologia do lugar. uma unidade espacial mais ou menos fechada e autônoma. apenas ganharam certa autonomia com relação às idéias de Unidade de Vizinhança. A segunda preocupação. a escola é o parâmetro que dimensiona a área habitacional. a introdução e difusão das idéias de Unidade de Vizinhança se dão a partir do eixo Rio – São Paulo. A primeira. inclusive por ser um dos motivos geradores da concepção. que em extensão coincidiria com sua área de atendimento. Mas de modo algum esses anseios foram abandonados pelos urbanistas. com a distribuição dos equipamentos de consumo na escala da cidade – e aí a escola aparece como foco das atenções. E com o passar do tempo. São também recorrentes no desenvolvimento da idéia de Unidade de Vizinhança os anseios de recuperação da vida social local. Mas. No âmbito do presente trabalho. seja pelas proporções dessa aplicação seja pelo arrefecimento das idéias de Unidade de Vizinhança. No Brasil. consideramos a aplicação em Brasília como limite de nossa análise. De certa forma. No mesmo sentido analisamos algumas aplicações mais significativas no contexto internacional. Na grande parte das concepções. entre outros aspectos. quando são feitas as primeiras aplicações das idéias. essas críticas parecem ter minado a força desses anseios no contexto das idéias de Unidade de Vizinhança. onde as condições de acesso estariam otimizadas. Os equipamentos de consumo coletivo teriam assim sua área de atendimento coincidindo com os limites da área residencial. o sentido prático da concepção representou um grande apelo. junto com o que poderíamos chamar de crise do paradigma modernista. As concepções mais clássicas de Unidade de Vizinhança apresentam duas preocupações básicas. 29 . Ao buscarmos as idéias de Unidade de Vizinhança em suas origens e seu posterior desenvolvimento tentamos entender as características dessas concepções introduzidas no Brasil.

Uma unidade de vizinhança deve prover habitações para aquela população a qual a escola elementar é comumente requerida. "Tamanho. Aí mencionamos algumas das aplicações iniciais mais significativas. sua área depende da densidade populacional. na primeira parte. Um ou mais locais de comércio adequados à população devem ser oferecidos. Em uma das monografias que integra o plano (The Neighborhood Unit). 4. Espaços Públicos. Áreas Institucionais. Limites. A unidade de vizinhança deve ser limitada por todos os lados por ruas suficientemente largas para facilitar o tráfego. 5. cidade-manifesto que coloca em prática concepções que vinham a muito sendo gestadas.2 A IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA E SUAS ORIGENS Considera-se que o conceito de Unidade de Vizinhança (UV) foi formulado originalmente por Clarence Arthur Perry no contexto do plano de Nova York de 1929. exploramos as origens e o desenvolvimento das idéias de Unidade de Vizinhança no exterior. sendo cada uma delas proporcional à provável carga de tráfego. para facilitar a circulação interior e desencorajar o tráfego de passagem. 6. que fazem a divulgação das idéias entre nós. 2. 1929). “A rede de ruas deve ser desenhada como um todo. Perry assim define a UV: 1. Locais para escola e outras instituições tendo a esfera de serviço coincidindo com os limites da unidade de vizinhança.Assim. ao invés de ser penetrada pelo tráfego de passagem. idéias essas entre as quais destacamos a de Unidade de Vizinhança. Na segunda parte. 5. Sistema Interno de Ruas. 3. Comércio Local. tratamos da sua introdução no Brasil. Na terceira parte abordamos a aplicação das idéias feita por Lúcio Costa em Brasília. A unidade deve ser provida de um sistema especial de ruas. 30 . Um sistema de pequenos parques e espaços de recreação. de preferência na junção das ruas de tráfego e adjacente a outro similar comércio de outra unidade de vizinhança. devem ser adequadamente agrupadas em lugar central e comum. planejados para o encontro e para as necessidades particulares da unidade de vizinhança devem ser providenciados. mencionando experiências de profissionais estrangeiros e nacionais.” (PERRY.

preceitos de transformação da ordem estética do meio urbano. Entretanto. Mas o conceito de UV é na verdade. não se observa na sua concepção. uma iniciativa pioneira que partindo da educação planeja a organização de toda a comunidade. Na formulação de Perry duas preocupações evidenciam-se: a primeira com a distribuição de equipamentos de consumo coletivo. Esforços no mesmo sentido encontramos no familistério de Godin.Plano de uma UV esboçado por Perry. e por conseguinte à toda a cidade. 31 . resultado de uma série de desejos de planejamento físico. Fonte: Perry (1929:36). mas tão somente de ordem funcional. no século 19. a segunda preocupação refere-se à reconstrução e preservação das relações de vizinhança nas cidades sob impacto do desenvolvimento industrial. iniciase no iluminismo. ganha relevo no debate dos utopistas e reformadores que querem corrigir os males da sociedade industrial. cujo principal foco de interesse está na escola. O sentido desses prenúncios evoluem durante a virada para o século 20 para anseios de se traduzir para o espaço urbano as idéias de um sistema escolar em extensão – anseios que Perry interpreta com sua formulação de UV. mas só mais tarde. A experiência de Robert Owen em New Lanark de 1816 é. A reivindicação de educação pública enquanto direito democraticamente estendido à toda população. sem grandes alterações no sistema de parcelamento dos lotes residenciais. As transformações físicas se dariam basicamente no sistema viário e na localização dos equipamentos. segundo Benevolo (1987:53). social e escolar e como tal é síntese de idéias provenientes de diferentes domínios do conhecimento. ou nas Comunidades Icárias de Cabet. Perry pensa a UV como uma unidade pertencente a um conjunto maior – a cidade.

passa a ser vista como um organismo. Perry sugere sua construção como centro comunitário. de 1916. as funções de centro social. Junto com Ward. o "Organicismo" (conhecido também como Evolucionismo). cujos principais objetivos eram a aquisição física e concretização de centros sociais. A preocupação de Perry com a vida coletiva local tem como base sua militância e liderança no movimento comunitário na cidade industrial de Rochester. ou de trocar objetos. A teoria de UV se apoia no conceito sociológico de vizinhança que em seu entendimento clássico é uma área onde os habitantes se conhecem pessoalmente. Como resultados têm-se que a UV é pensada como uma unidade de um conjunto de entidades auto-suficientes. Em grande parte é daí que ele considera que todas as habitações deveriam estar dentro de convenientes limites de acesso da escola elementar. da mesma forma que o organismo possui células e órgãos que crescem e se tornam complexos. Por esse prisma. A matriz dessas concepções tem sido atribuída à Teoria Geral de Robert Spencer (18201903). biblioteca e galeria de arte. Ou seja.. num movimento de integração e diferenciação. assim como na concepção de UV. Ward.) na organização social e política ela é a menor unidade local. e por conseguinte a cidade. a sociedade. tendo como perspectiva. O que ele faz é propor a inversão dos processos usuais. Robert Park considera que a vizinhança – proximidade e contato entre vizinhos são a base para a mais simples e elementar forma de associação com que lidamos na organização da vida citadina (. a cidade convulsionada pela 32 . Burgess e J. é a idéia de uma hierarquia em que o todo é constituído de partes. Com esta transposição. hierarquicamente localizada entre a habitação e o conjunto da cidade.A preocupação de Perry com o planejamento escolar tem origem na sua experiência profissional com a implantação de escolas. Neste contexto. que influenciado pela Teoria da Evolução procura explicar a sociedade através de uma visão metafórica das ciências naturais. organização considerada "natural"." O que está implícito na concepção de vizinhança de Robert Park. ele sugere que a área residencial deva ser dimensionada de modo a garantir habitação para aquela população para a qual a escola era comumente requerida Além de atribuir à escola o papel de elemento dimensionador da área residencial. Em "A cidade: sugestões para investigação do comportamento humano no meio urbano". reforçando seu papel aglutinador da comunidade.. ele teria se interessado pela teoria social e pelas investigações sociológicas. ele luta para fazer da escola um centro social. têm habito de se visitar. o desenvolvimento de cooperação e integração cívica a nível local. cujas idéias tomariam corpo sob a denominação de Escola de Chicago de Ecologia Humana. ao invés da área residencial e sua população produzirem a definição e dimensionamento da escola. que se notabiliza pelos estudos das mudanças nas relações sociais nas cidades americanas e sobre a dinâmica das populações no espaço urbano. aproximando-se de Robert Park. serviços e de fazer de vez em quando coisas em comum. propondo que seu edifício assumisse também.

e que a planificação é o primeiro remédio. pensa as cidades como uma rede de lugares hierarquicamente organizados no território. na citada monografia. ou da mesma linhagem de concepções. o debate sobre a cidade assume duas direções. relegando atenção ao conjunto da cidade formado pelas UV‟s. Da avaliação que faz das vantagens e desvantagens do projeto Forrest Hills. Mas efetivamente a idéia de UV provém da idéia de cidadejardim. enquanto concepção urbana abrangente no livro de Ebennezer Howard. Resulta daí. construída em Nova York por volta de 1911. se antecipando às preocupações com o planejamento regional. que segundo Topalov (1991:30-31) se apóia na crença de que a cidade é um fator de progresso e que existem meios científicos e técnicos para controlá-la. A ciência urbana ao se constituir no início do século 20. inicialmente. apoia-se diretamente no método experimental concebido sobre o modelo da medicina. que a ciência da cidade. Mas Perry deplora que os limites só em parte estejam bem definidos e que uma via de trânsito divida a área urbana em duas partes. onde ele prescreve um tamanho "ótimo" de cidade. As concepções do urbanismo culturalista se antagonizam com aquelas do urbanismo progressista que tem em Le Corbusier seu mais expressivo representante e cujo interesse se centra nas estruturas técnicas e estéticas. Sugestivamente. Ainda que Clarence Arthur Perry advogue uma organização urbana baseada em unidades sócioespaciais separadas e auto-suficientes. Nesse sentido ele apresenta uma visão de conjunto que engloba as áreas urbanas e rurais. desconsiderando os aspectos sócio-culturais. Forest Hills Gardens. na crença que a cidade é um organismo.Revolução Industrial passa a ser encarada como padecendo de uma patologia cujas razões estariam na forma urbana e no comportamento social. Ao se tornar objeto de ciência e objeto de reflexão. desde logo está ligada a uma prática. como uma ilustração de um novo tipo de comunidade urbana local (Perry:1929:90). 33 . com base nas idéias de cidade-jardim é descrita por Perry. idéia que mais tarde se traduziria pela expressão cidadesatélite. como sugere Choay (1973:21). que na primeira metade do século 20. A preocupação central de Howard é a contenção do crescimento das cidades pela expansão das suas periferias. o modelo culturalista e o modelo progressista. o crescimento das cidades – ao contrário do se costuma verificar – deveria se dar pelo surgimento de novas colônias de células urbanas. ao contrário de Howard. ou um sistema onde o bom funcionamento do conjunto depende do bom funcionamento das partes e viceversa. seu foco de interesse se limita às áreas residenciais. O modelo culturalista reconhecidamente aparece pela primeira vez. Perry retira os princípios orientadores da UV. Garden Cities of Tomorrow. Ele chama atenção para o fato da população de Forest Hills formar uma área de serviço compatível com os dimensionamentos usuais para o estabelecimento de uma escola elementar. projeto de Olmsted & Brothers. Nessa concepção.

em seu livro (Toward New Towns for America de 1956).)" entretanto nenhum dos elementos do plano são completamente novos "sua inovação foi a integração do superbloco. coincidentemente o ano da publicação da monografia de Perry. parques (. Newton (1971:370) 5. Mas. Nova Jersey. "a idéia de Radburn responde ao enigma de „como viver com o automóvel‟ ou de „como viver apesar dele. avança no sentido de criação de dois sistemas de circulação independentes: o de pedestres e o de veículos. Segundo Stein. conforme Perry advogava. caminhos. onde inclusive constam ilustrações do plano de Radburn. segundo reconhece o próprio Stein (1956:44). Radburn teve um significativo impacto na visão e na teoria do planejamento urbano do século 20.Figura: Forest Hills Plano de Forest Hills.‟ resolvendo estas dificuldades com uma radical revisão do relacionamento entre casas. cabendo a Clarence Stein e Henry Wright a primeira aplicação da idéia no plano urbano de Radburn.. Pelo conjunto de inovações o plano passou a ser visto como uma realização paradigmática do urbanismo modernista. Clarence Stein reconhece a originalidade da concepção de Perry. o sistema criado pelo arquiteto paisagista Frederick Law Olmsted. 34 .3 APLICAÇÕES DA IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA A Perry é atribuída apenas a formulação da teoria de UV. vias de circulação separadas e especializadas. Por esse motivo a idéia de UV foi algumas vezes atribuída a Stein ou entendida como um dos itens do que viria a se chamar de "idéia de Radburn". Fonte. no Central Park de Nova York. A separação das vias de passagem e das vias locais. Aí são colocadas em prática uma série de concepções que vinham a muito sendo amadurecidas. ruas.. os parques traseiros às casas com duas frentes." (1956:4144). Esta separação teria como precedente. perspectiva. em 1929.

condicionadas que são por fatores culturais e econômicos daquele momento. foi a primeira das 10 cidades-satélites do plano da Grande Londres. Stevenage. principalmente Harlow que se notabiliza por ter sido planejada a partir de preocupações de cunho sócio-cultural que buscam constituir uma identidade local. com as novas necessidades que se colocam no pós-guerra e pelo embate com outras 35 . Newton (1971:370) As chamadas "cidades novas" britânicas. nos Estados Unidos sendo usadas nos planos de uma série de cidades ou expansões urbanas que passaram a ser conhecidas como as cidades greeenbelt. Embora até o final da Segunda Guerra Mundial as idéias tenham ficado restritas aos Estados Unidos. Inicialmente. pode-se notar que as concepções vão sendo reorientadas pelo confronto com as práticas em uso. têm sido consideradas as mais consistentes experiências de planejamento urbano que tomaram por base as idéias de UV. Fonte. construída já em 1946. as idéias de UV sofrem aí grandes transformações. as concepções de UV ganham repercussão. logo o tamanho idealizado por Perry (5 mil habitantes) foi abandonado passando-se a adotar cifras maiores. com os trabalhos de reconstrução do pós-guerra na Europa as idéias de UV ganham grande divulgação. pelas afinidades com as idéias de cidade-jardim. parte do esforço de reconstrução e desconcentração de Londres no período pós-guerras. Figura Radburn Vista aérea de trecho de Radburn em 1930. além de experimentar diversas alterações no modo de se distribuir os equipamentos coletivos. especialmente na Grã-Bretanha. Durante o processo de desenvolvimento das idéias de UV no contexto europeu. No entanto. Tendo em vista a urgência e carência de recursos. outras experiências de grande impacto nas divulgação das idéias de UV foram as construções de Harlow e Milton Keynes.Com Radburn. antes bastante disseminadas. onde as idéias alcançam grande repercussão. Na seqüência de Stevenage.

pelo seu caráter emblemático ganha destaque. teria sido encomendado ao arquiteto americano Albert Mayer. A título de exemplo pode-se citar as experiências das cidades de Beer-Sheva.concepções de cidade. Gerou-se então um princípio de rejeição às idéias enquanto conceito básico para o planejamento residencial. conduzida por Le Corbusier. foi estabelecido com dimensões variando em torno de 800x1. Segundo Françoise Choay. as experiências de UV causaram grande impressão. há similaridade entre as idéias. na Índia. 1975:1291). numa situação que sugere certa semelhança com as soluções adotadas em Brasília. há que se considerar que essas são idéias que partem de princípios diferentes. Em Chandigarh. a diferença reside no fato de Le Corbusier defender um urbanismo progressista que tem seu interesse voltado para estruturas técnicas e estéticas. onde estão as escolas e demais equipamentos comunitários. Mas a experiência de Chandigarh. Kitimat. O "setor". Nesse ambiente. as cidades de Yazd e Rezâyed. via esta que corta uma faixa de espaços livres que atravessa a cidade. e muitas outras. que faz os primeiros estudos. As experiências inglesas ganharam grande divulgação fazendo com que as idéias de UV passassem a ser aplicadas em diferentes contextos ao redor do mundo. A despeito dessas teóricas. a UV seria definida a partir de uma estrutura em xadrez de grandes vias hierarquizadas e pensadas para um trânsito rápido e mecanizado. Sociólogos levantaram a suspeita acerca da sua validade. O plano de Chandigarh.000 metros. quer pelo hipotético reconhecimento por Le Corbusier do valor organizador das idéias de UV. 36 . servido por um sistema interno de vias de circulação de veículos e dividido por uma via ao longo da qual se encontra o comércio. Kiriat Bialik Mostskin e Chaim. A partir daí se manifesta nos meios técnicos europeus uma espécie de prurido em usar a expressão Unidade de Vizinhança. Chandigarh tem sido reconhecida como exemplo da aplicação das idéias de UV. como prefere se referir Le Corbusier. no Canadá. enquanto as idéias de UV são apanágio das correntes culturalistas (1979:20). quer pela sua origem nas concepção inicial de Mayer. em Israel. Ainda que haja similaridade entre as idéias de UV e a idéia de "unidade de habitação" conceituada por Le Corbusier em vários projetos anteriores (Plan de Voisin de 1925 e o plano da Cidade Radiosa de 1930). Esses primeiros estudos foram aproveitados posteriormente por Le Corbusier que passou a assumir o projeto. no Irã. junto com a emergência de uma nova compreensão da vida social. enquanto os planejadores reagiam contra a rigidez imposta aos planos. preferindo-se outras expressões como "comunidade residencial" ou "setor habitacional" (Whittick. mas suscitaram também muitas críticas. mesmo porque. inicialmente.

práticas e profissionais de outros países. Em São Paulo. pelo surgimento de situações problemáticas inéditas que exigem soluções a partir do confronto de paradigmas concorrentes. por exemplo.4 A INTRODUÇÃO DAS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA NO BRASIL A transposição de teorias e experiências surgidas em outros contexto. afinado com as concepções do "urbanismo orgânico" defende também as idéias de UV. opositor de Prestes Maia nos debates sobre os problemas urbanos de São Paulo. pela transposição difusa que se processa pela absorção de idéias. Fonte: Le Corbusier (1953:146).). Do mesmo modo.Legenda: Plano de Chandigarh. segundo. o professor Anhaia Mello. pelos menos inicialmente. no âmbito do presente trabalho não se pretende a confirmação dessa hipótese. Entretanto. já que para tal seria preciso uma pesquisa mais aprofundada. o que fazemos aqui são especulações sobre os processos de transposição das idéias de UV para o Brasil. como recurso projetual apresentado desde 1929. se encaixa na segunda maneira de transposição sugerida por Lamparelli (op. métodos e soluções captadas por pessoas e instituições que exercem influência dispersa e incremental e por último. Nesse sentido. se dá conforme Lamparelli (1994:37) da seguinte maneira: primeiro. Prestes Maia reivindica para si a introdução da idéia de UV. Pode-se supor que o processo de introdução das idéias de UV no Brasil. Cit. 5. tendo tomado conhecimento das concepções de Perry 37 . segundo Regina Meyer (1991:70). pela importação direta de métodos. teorias.

instituição de origem francesa criada e dirigida pelo padre Louis-Joseph Lebret. Pelo menos para aqueles cuja posição social ou profissional possibilita elos de integração no plano internacional. nem sempre se aplica. temos o estudo da chamada SAGMACS – Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais. enquanto a produção do plano da Cidade dos Motores se desenvolveu em outro contexto. Cit. onde está a monografia de Perry. essas experiências se aproximam da unitè d‟habitation de Le Corbusier em Marseille. a construção da Cidade dos Motores em 1947.já no ano da publicação do plano de Nova York (1929). a presença das suas concepções se evidencia.Num certo sentido. que contratada pela prefeitura de São Paulo. em 1956. a existência de um núcleo ou centro de comércio e 38 . não chegam propriamente a configurar uma UV. baseada nos seguintes critérios: existência de limites identificáveis pela população. faz um trabalho de caráter analítico e exploratório. homogeneidade da área. mas previa uma fábrica de tratores e uma área residencial para trabalhadores organizada em quatro UV‟s e equipada com escolas. Embora no documento final entregue pela SAGMACS. Lebret identifica 360 "unidades elementares" constituindo a área urbana da então Grande São Paulo. projeto do arquiteto espanhol Jose Luís Sert. brasileiros fizeram diversas experiências com as idéias de UV. Depois de Sert. que procura resolver no corpo do próprio edifício as demandas dos moradores por equipamentos de consumo quotidiano. O que há de contrastante entre a Cidade dos Motores e a experiência da SAGMACS é a complexidade da elaboração teórica e analítica dessa última e o caráter pragmático e arquitetônico da primeira. faz um abrangente estudo da metrópole paulista e recusando o encargo de desenvolver um plano para a cidade.) temos o caso da primeira aplicação das idéias de UV que se tem notícia entre nós. ambas do arquiteto Affonso Eduardo Reidy. Entretanto o limite dessas duas aplicações. que funcionaram como elemento de divulgação. poderiam ser melhor entendidas como "amostras" das idéia. Ainda na Segunda modalidade de transposição sugerida por Lamparelli. Outra diferença é que os trabalhos da SAGMACS foram desenvolvidos com ampla interação e apoio de equipes locais brasileiras. cada uma composta de duas ou três edificações. provenientes dos grandes centros europeus e americanos. não conste a expressão unidade de vizinhança. comércio e um estádio esportivo. na verdade uma expansão urbana que só parcialmente foi implantada. situada no município de Duque de Caxias. RJ. Na primeira modalidade de transposição proposta por Lamparelli (op. pois já na fase inicial da pesquisa a equipe do Pe. reunindo uma grande massa de informações. Tal é o caso do Conjunto do Pedregulho de 1950 e a Unidade Residencial da Gávea de 1952. na cidade do Rio de Janeiro. Por esses indícios se poderia considerar que a historicamente propalada "demora na chegada de novidades" ao Brasil. Estrutura Urbana do Aglomerado Paulista.

a aglomeração multimunicipal. dada a forma como ocorreu comprometer-se com a „harmonia‟ proposta por Lebret.a unidade municipal. Lebret estabelece os seguintes escalões organizacionais para a cidade: "1º . como ilustra um dos editoriais do jornal O Estado de São Paulo de 22/06/56: "avistamo-nos então com o Padre Joseph Lebret e de seus lábios ouvimos o que nossos urbanistas repetem todos os dias e esta folha tem procurado difundir com lealdade: é necessário mudar o sistema de urbanização. 1956:31). a de maior complexidade é aquela proposta por Lebret. certamente. Referindo-se ao assunto. A presença de Lebret no Brasil na década de 50 coloca em grande evidência as idéias de UV que passa ser disseminada. Regina Meyer diz: "Embora a idéia do planejamento estivesse extremamente prestigiada (o Plano de Metas de Kubitschek era o exemplo maior) dificilmente o desenvolvimento poderia. baseada em uma racionalidade urbana distinta daquela que regia a vida econômica brasileira no decênio 50/60. Partindo de uma trama de critérios. cujo objetivo final seria a reversão total do quadro urbano existente. A opção escolhida foi pragmática. quando se elegeu Brasília a „meta síntese‟ do Plano de Metas.o conjunto de unidades elementares que constituem uma unidade terciária.serviços situado num território cujo diâmetro se situa em torno de 1. 3º . na mesma época. imprimindo à cidade uma estrutura orgânica. 6º . que visa a desconcentração política-administrativa. Mas curiosamente. 5º . para a construção de Brasília.o conjunto de unidades terciárias. Na parte propositiva Pe. criando distritos residenciais e unidades de vizinhança" (apud IBAM. Na verdade este compromisso ocorreu apenas no nível simbólico. 4º . tal como as soluções apresentadas por Sert e Reidy..o loteamento: 2º ..o conjunto de loteamentos que constituem uma unidade elementar." (SAGMACS. 39 . mas dá ênfase às questões sociais. 1957:V-40). Das experiências da fase inaugural das idéias de UV no Brasil." Meyer (1991:257).500 metros e com uma população de aproximadamente 1 mil habitantes. não foram as concepções de cidade e de UV posposta por Lebret que foram adotadas. isto é. não só nos meios profissionais. inclusive por não prender a aspectos puramente arquitetônicos. através da qual busca compor uma hierarquia. mas chega inclusive à grande imprensa. identifica na cidade preexistente a UV.

. embora entre eles possa ser observada uma maior ou menor inflexão às idéias de UV. toda arquitetura digna do nome é a um tempo orgânica e racional (. reconhecidamente. Do mesmo modo não se pode negar certa identidade de princípios entre as casas comunais soviéticas. A penetração das idéias de VU podem também ser constatadas no conjunto de projetos apresentados ao Concurso do Plano-Pilôto de Brasília. nos congressos do CIAM (Congrèss Internationaux d‟Architecture Modern) essas concepções chegaram filtradas e reinterpretadas.5 A CONCEPÇÃO DE UV DE BRASÍLIA: PRECEDENTES E AFINIDADES Pode-se dizer que a idéia de organizar a nova capital do Brasil em UV‟s é anterior ao plano de LúcioCosta. estão 40 . 5.Pilôto de Brasília".6 LÚCIO COSTA E AS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA No relatório do projeto aprovado no concurso para a construção da nova capital intitulado "Plano. reservando-se espaços livres para escola.. Contra as expectativas de análise baseadas nesses modelos teóricos... De fato..5. (1957:12)." (apud Silva. Poderíamos até considerar que outros aspectos do plano. os arquitetos do CIAM e os arquitetos brasileiros que encabeçam a renovação modernista.) servidos por uma rede de circulação ao abrigo do tráfego intensivo. Dessa fusão de idéias nasce um modelo híbrido que poderia ser considerado desconcertante. caso se buscasse a ortodoxia dos princípios progressistas e organicistas (Santos. James Hoston. 1981:13).) (apud CEU: 327). jardins. em depoimento ao Jornal do Brasil em 1961. words . como o sistema viário. 1985:307). aponta para uma possível influência do construtivismo soviético e do funcionalismo pós-stalinista. mesmo porque as origens desses debates se situam em outros contextos. (1993:44/5). recreação e pequeno comércio (unités de voisinage). predominavam os ideais do urbanismo progressista. Na memória deste projeto. portanto. seus autores assim se referem: "Os espaços residenciais (. A solução adotada para os setores habitacionais é abordada de forma muito restrita. num contexto onde. que como já foi dito. se filiam à concepções do urbanismo organicista. solução semelhante a unidade de habitação prescrita por Le Corbusier e pelos manifestos do CIAM. mesmo considerando o plano de Brasília filiado aos ideais do CIAM. urbanistas pela Comissão deLocalização da Nova Capital usam as concepções de UV no projeto da cidade que se chama então deVera Cruz. já que em 1955. onde a distinção e definição dessas concepções se faziam mais nítidas. com as idéias experimentadas em Brasília. é mais correto considerar que as concepções de Brasília são fruto de uma e outra corrente de idéias."words. Chegando até nós pelo consenso que se estabelece no plano internacional. dois anos antes do concurso.. devido a uma certa afinidade de objetivos de transformação social entre os soviéticos. Lúcio Costa responde: . os dados apresentados são como Lúcio Costa diz na introdução. "sumários" apesar de "depois intensamente pensados e resolvidos".

portanto. denominadas por Lúcio Costa de "superquadras". a fim de torná-lo acessível a quem proceda de outros bairros. e as mães." (Costa. 1974:81). facilidades de recreio. ao longo do qual está disposto o setor habitacional que. com campo de jogos e recreio. voltadas para o interior da superquadra. e aos fundo dela as escolas secundárias. margeando o Eixo Rodoviário. por exemplo. numa situação semelhante a que nos referimos no contexto europeu. divide a cidade em duas partes. em 1974. Lúcio Costa manifestaria uma certa reserva de usar a expressão "unidade de vizinhança". com escolas. 1957:art. O tráfego motorizado é delimitado e contido nas áreas internas de acesso aos blocos residenciais e respectivo estacionamento. o Eixo Monumental que aglutina as atividades institucionais e o Eixo Rodoviário. A concepção de UV que Lúcio Costa engendra como meio de estruturar o setor habitacional de Brasília não passa ao largo destas preocupações embora apresente peculiaridades como. rendendo-se assim a pruridos que se generalizavam entre os planejadores urbanos da época. assim designadas não tanto por se pretenderem superiores mas porque são grandes. ele defende sua concepção de cidade dizendo que "A área de vizinhança é o elemento fundamental na proposição de Brasília" (Senado Federal. etc. pelo menos em parte. o fato de ser fracionada em quatro superquadras. a Asa Sul e a Asa Norte. Tal como na concepção clássica. Assim. distantes seis mil milhas de Harlow poderão ver os filhos correr sem risco para a escola. constituindo cada conjunto uma unidade de vizinhança autônomas. num seminário sobre a problemática urbana da cidade. Organizadas com certas condições de auto-suficiência de equipamento. devido ao papel estruturador do sistema viário composto de dois eixos principais que se cruzam. tanto em sua parte norte quanto sul. cada superquadra incluiria uma escola primária e um certo número de estabelecimentos comerciais de nível local nas vias de acesso. durante os anos 70. Ele assim as descreve: "As superquadras residenciais. todo o restante da quadra. há uma nítida preocupação com a distribuição dos 41 . agrupando-se em número de quatro. ficando a extensa área livre intermediária destinada ao clube da juventude. Esta ênfase é compreensível. comércio local. ao passo que na faixa fronteira à rodovia se previu o cinema. a concepção clássica de UV origina-se no desejo de revificar a vida social de nível local e no desejo de organizar os equipamentos de consumo coletivo que acaba resvalando para a organização do conjunto da cidade.16). é composto por uma seqüência de grandes quadras. "Na confluência de quatro quadras localizou-se a igreja do bairro. ao ser cortado pelo Eixo Monumental. 5.mais explicados no relatório. O setor habitacional.7 A UNIDADE DE VIZINHANÇA DE BRASÍLIA Como vimos inicialmente." Mais tarde. inclusive a periferia arborizada é privativa dos pedestres – gente.

23). na justa medida. 42 . Figura: Superquadras de Brasília formando uma UV. (idem. Fonte: Barcellos (1999:88). art. sendo a área residencial pensada em termos de auto-suficiência.equipamentos de consumo coletivo. meio utilizado para se conseguir condições ambientais que permitissem restituir "o chão. ao pedestre".

correio. jardins de infância e bancas de jornal.Ainda que as condições de auto-suficiência na UV do Plano Piloto apresentem peculiaridades pela introdução da superquadra e pelo tratamento dado à distribuição dos equipamentos na UV. escolas secundárias e escolas-parque. c) junto às vias principais (Eixo Leste e Oeste): cinemas. como busca de estabelecer um intercâmbio capaz de transcender as relações de vizinhança. supermercados. Quanto às preocupações com a vida social. Ao compararmos o sistema viário interno e a localização das escolas das superquadras como as soluções encontradas. essas peculiaridades seriam proporcionadas em parte. clube de vizinhança. 1991: 48). O pressuposto é que os equipamentos de uso coletivos funcionariam como aglutinadores da vida social e que a manipulação da sua localização poderia favorecer a coesão social. 1957:17). delegacia e postos de serviço e abastecimento. ainda que o uso e apropriação da população no cotidiano. somos levados a concluir que a solução adotada no Plano Piloto é mais restritiva. Segundo o citado autor. pela articulação dos equipamentos face ao sistema viário.. consta no relatório apresentado no concurso de Brasília. só podendo ser considerada para o caso dos equipamentos situados junto às vias principais e secundárias. pela relação dos equipamentos situados no interior das superquadras.. tal como na concepção clássica. tenha revertido esse caráter local estabelecido no plano. como propunha Perry – mas elimina tal possibilidade. Em Brasília. como Gorovitz (1991) por exemplo. o que de certa forma permite o trânsito de passagem. já que o sistema de vias no interior das superquadras adota uma solução que – não só visa desestimular o tráfego de passagem. que um dos objetivos do agrupamento de superquadras de quatro em quatro é o de propiciar uma "certo grau de coexistência social" (Costa. restaurantes. Há uma diferença de base entre a concepção de Perry e a UV de Lúcio Costa. essas peculiaridades são interpretadas. onde as escolas estão situadas junto as vias internas. a intenção que se observa é a de atribuir à UV um caráter mais local. Ainda que se possa aceitar a idéia da UV do Plano Piloto como uma estrutura mais aberta ao conjunto da cidade. galerias comerciais e praças de esporte. como tentativas de renuncia ao caráter local que é própria da concepção. em Stevenage ou Harlow." (Gorovitz. por exemplo. há um sentido de se atribuir aos equipamentos outras funções além daquelas que lhes são próprias. a área 43 . Mas essa possível opção por uma UV "mais extrovertida" é limitada. Aqui. articulação que daria de três modos distintos: "a) junto às vias locais: escolas primárias. por alguns autores. comércio de entrequadra. igreja. a inversão do papel da escola no dimensionamento da área residencial. (internas à quadra) b) junto às vias secundárias (W-1 e L-1).

segundo Gorovitz (op cit. A arquitetura e urbanismo seriam o instrumento através do qual seria possível transformar a sociedade. Enquanto no discurso dos urbanistas americanos e ingleses a coesão social significa interação entre grupos divididos por questões étnicas e religiosas. se levarmos em consideração que nos planos iniciais previa-se que o comércio local estaria voltado para o interior das superquadras. que terminaram por ser suspensos ou descartados. como uma subunidade da UV. Mas. característica essa que é expressão da vitalidade do comércio aí instalado. Tal intencionalidade é discutível. O uso dos equipamentos favoreceria assim. Durante a construção de Brasília. Talvez fosse mais adequado considerar o significado que a questão da coesão social suscita entre nós brasileiros. A introdução da superquadra. Evidentemente que se deve considerar que a relativa permeabilidade das superquadras não se constituiu num obstáculo a essas mudança.residencial determina a existência e o dimensionamento das escolas que passam a estar referidas. Para os defensores da concepção de Brasília. Como quase tudo que diz respeito a Brasília. correspondendo aos anseios de superação das desigualdades sociais. sido interpretada como uma tentativa de emprestar às áreas residenciais do Plano Piloto um caráter "mais urbano".). as entrequadras do comércio local das superquadras apresentam hoje um caráter sem dúvida marcadamente urbano. A fragmentação e permeabilidade encontrada seriam assim.Pensa-se em projetos de coletivização. principalmente naqueles aspectos 44 . A fragmentação e permeabilidade da UV proposta por Lúcio Costa tem. foi a forma encontrada para liberar a UV dos limites que a concepção de Perry preconizava como ideal para o tamanho da população (5 mil habitantes) e preservar as condições de acessibilidade às escolas. como o das lavanderias e cozinhas coletivas. tanto em Lúcio Costa quanto em Oscar Niemeyer. Para os críticos a configuração da cidade produz a segregação social. às superquadras. no discurso de Lúcio Costa a idéia de coesão social sofre inflexões decorrência das condições peculiares do país. ao convívio de diferentes segmentos socioeconomicos. de modo a igualar as oportunidades de acesso aos equipamentos urbanos. esses anseios de integração social são expandidos pelo otimismo reinante no período. As expressões destas preocupações são bastante conhecidas. os anseios sociais não teriam se realizado pelo fato da proposta original do plano não ter sido respeitada. algumas vezes. fica também difícil aceitar a idéia de um deliberado abandono das preocupações com a coesão social no Plano de Brasília em troca de um possível caráter mais urbano proporcionado pela fragmentação das superquadras. Do mesmo modo. resultado do desejo de abandono dos aspectos intimistas e limitadores de relações sociais mais amplas que marcam as concepções de UV. tal se deve mais ao desvirtuamento da idéia inicial – resultado da convergência do interesse comercial com as práticas da população – que as intenções do plano. a pretendida coesão social gera intensa polêmica. ainda mais. para quem esses anseios se concretizariam através da UV pela distribuição de unidades habitacionais entre os diferentes estratos sociais. em parte. De fato.

Como se sabe esse não é o caso brasileiro. com a experiência de Brasília. as idéias de UV parecem coisa do passado. não são indiferentes às morfologias urbanas e categorizações onde acontecem (Holanda. em que as cidades e populações se apresentam. Mas. Pois a partir de determinado ponto. Quanto aos anseios de organização dos equipamentos de consumo coletivo. como todas as demais concepções urbanas marcadas como sendo modernistas. mas sem corresponder aos desígnios para os quais foram pensados. aceitando-as tal como são em sua concretude. especialmente nas regiões CentroOeste e Norte. durante o processo de expansão das fronteiras econômicas. reduzindo as possibilidades de se determinar através do desenho da cidade as práticas sociais. numa relação que visaria a economia do "capital-social". passado o período de reconstrução do pós-guerra. a gestão social se sujeita a essas estruturas. No Brasil. 1985:39). o que é compreensível no quadro dos países desenvolvidos. o sentido prático das idéias de UV representou um grande apelo para os profissionais e autoridades preocupadas com o equacionamento da questão habitação/equipamentos de consumo coletivo. seja ele decorrente dos processos migratórios seja pela própria expansão da população.da coexistência dos vários segmentos sociais – o que é explicado em termos de oposição das autoridades da época. Nesse contexto. continuamente se reestruturam – muitas vezes a despeito dos desejos dos planejadores – resultado da interação das diferentes forças atuantes no meio urbano. os anseios sintetizados nas concepções de UV são desagregados e recolocados sobre novos eixos. a idéia de UV. Na década de 60 e 70 inúmeros projetos de construção de cidades lançaram mão das idéias. nos países desenvolvidos. estabilizadas. antes que se rejeite totalmente a idéia do determinismo arquitetônico. colocando com premência a necessidade se continuar 45 . Ganham certa força entre nós. 5. parte desses anseios. Entretanto.8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como já foi dito. não se pode deixar de observar que as cidades. até certo ponto. Nesse mesmo período. onde o continuado crescimento das cidades. ser subvertidas ou utilizadas para fins e modos diferentes daqueles para as quais foram pensadas. faz crescer as demandas sociais. Ainda assim é plausível considerar que as estruturas físicas podem. para a maior parte dos arquitetos e urbanistas. ressurge sob a forma de uma "utopia regressiva do localismo". denotando uma perda de interesse sobre a questão. o que fez como que as idéias de UV fossem difundidas e aplicadas em diferentes contextos. Superado o paradigma modernista. na prática. como sugere Arantes (1993:98) ressurge nos debates como "ideologia do lugar público". ou como se prefere Peponis (1989:6). as UVs. estes parecem ter se diluído. passam a ser cada vez mais intensamente questionadas. há que se relevar que os processos sociais. ao se desenvolverem. Entretanto.

[3] Sobre o assunto ver.) Raul Pena Firme. Mumford (1982:541). a expressão foi traduzida como superquadra ou conjunto.pensando a oferta de equipamentos de consumo coletivo nas cidades. acusando que a celebração da comunidade contra os males do capitalismo se coaduna confortavelmente com o sistema. segundo Ernesto Silva (op. Cit. que foi doada à biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. que vê ai um reforçado senso de comunidade. pode contribuir para o desenvolvimento de novas formulações teóricas. número esse que costumava ser adotado para indicar a necessidade de uma escola no contexto americano. e as contundentes críticas que Richard Senett (1988:385) faz a esses mesmos predicados. [7] Os exemplos mais conhecidos são as cidades de Greenbelt Maryland. Roberto Lacombe e José de Oliveira Reis. 46 . aos quais juntam as idéias de UV e a idéia do superbloco rodeado de áreas verdes públicas. ver Harold Lewis (1957:7). [11] Grifo nosso. “todo o plano representa em larga escala a aplicação do princípio de unidade de vizinhança. Lamentavelmente. tomam como princípio orientador de suas configurações as idéias de cidade-jardim. [10] Os urbanistas de Vera Cruz são. e mais especificamente em Brasília. No Brasil. Pensar soluções de distribuição e localização dos equipamentos públicos de consumo coletivo é uma tarefa que cabe àqueles profissionais. Notas: [1] O presente trabalho é uma reelaboração de textos anteriormente produzidos no âmbito acadêmico durante o mestrado e doutorado. Nessa tarefa. [4] Ver Robert Park (1979:31). fazem e pensam a cidade. [6] Nas cidades americanas o bloco (block) eqüivale ao quarteirão. datado e assinado por Anhaia Mello. que pelo menos em tese. a busca da compreensão de concepções urbanas passadas pode contribuir para o aprimoramento de soluções urbanas em uso. assim como. princípio este que é regularizado por Le Corbusier em sua predileção por ângulos retos e monumentalidade. [8] Para Graham Ashorth (1973:12). quando se trata de casas ou edifícios de pequena altura. Greendale e Greenhill. Como o próprio nome evidencia. que inclusive se manifesta na preferência por temas que se colocam hegemonicamente nos centros irradiadores do saber arquitetônico e urbanístico. [2] Perry adota como padrão para cada UV 5 mil habitantes. [5] Sobre a experiência de Forest Hills Gardens.” [9] Há uma cópia do referido plano. tem dominado entre nós um certo alheamento.

ano 1. [13] Gorovitz (1991:48) defendia essa tese. jan 91. Cia das Letras.[12] A referência a cidade inglesa de Harlow deve-se ao fato de Lúcio Costa responder à critica do escritor Antônio Callado. Secretariat des Mission d‟urbanisme et habitat. Brasília. (1991) Unidade de vizinhança marca o modo de vida brasiliense. Org. Projeto. ___________________. que na época. 5. Matheus.9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES. São Paulo. GOROVITZ. Tese de doutorado FAU-USP.E. HOLANDA. (1995) Planejamento urbano. (1973) L‟unité de voisinage en tant que struture en arbre ou semi-trellis. BARCELLOS. (1987) As origens da urbanística moderna. Brasília. Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura UFRGS. Ed. Frederico (1985) A morfologia interna da capital. Rio de Janeiro. Lúcio. COSTA. James. Leonardo. in Brasília ideologia e realidade: espaço urbano em questão.A. Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado. (1962) Lúcio Costa: sobre arquitetura. CHOAY. Porto Alegre. Vicente. ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL. Encarte da revista Módulo. (1957) Relatório do plano-pilôto de Brasília. INSTITUTO BRASILEIRO DE ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL – IBAM (1956) Unidade de vizinhança. cujas habitações que constituem as UV‟s foram desenhadas a partir de preocupações com os aspectos de identidade sócio-cultural. (1999) Os parques como espaços livres públicos de lazer: o caso de Brasília. Perspectiva. São Paulo. Lisboa. julho. FGV. Revista Codeplan. (1993) A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. nº 1. ano III. C. São Paulo. Notícias Municipais. Aldo Paviani. Françoise. 47-52. in. Edusp / Nobel. A.U. Otília. nº 8. FAU – UnB. tece críticas a Brasília e enaltece a solução urbanística adotada em Harlow. in Planification habitat information. São Paulo. J. (19993) O lugar da arquitetura depois dos modernos. HOLSTON. (1979) O urbanismo utopias e realidades: antologia. HURVY. Rio de Janeiro. (1993) A clientela escolar no conceito de unidade de vizinhança: a experiência do Plano Piloto de Brasília. Codeplan. Paris. Editorial Presença. BENEVOLO. São Paulo. 47 .

p. Clarence. Zurich. Centro Gráfico do Senado Federal. Richard. volume VII. as tiranias da intimidade. Cambridge. MEYER. LE CORBUSIER. (1985) História de Brasília.LAMPARELI. Mimeo. Regina (1991) Metrópole e urbanismo: São Paulo anos 50. STEIN. Co. Robert. São Paulo. estruturas atuais e estruturas racionais. (1955) Urbanismo positivo e urbanismo negativo: as modernas cidades inglesas. Instituro de Estudios de Administracion local. SILVA. 334. Ed. (1971) Design on the land: the development of landscape architecture. v. Oeuvre complète 1946 – 1952. Erenesto. Toward new towns for America. SAGMACS – SOCIEDADE PARA ANALISE MECANOGRÁFICA E GRÁFICA DOS COMPLEXOS SOCIAIS (1957) Estrutura urbana da aglomeração paulista. rupturas e sobreposições. Arnold (1975) Unidad vecinal. Rio de Janeiro. MELLO. WITTICK. Atenas. J. 6 nº n. Reinhold Publ. Tese de doutoramento FAUUSP. (1956). Eksticks. SENNETT. In Enciclopedia de la planificacion urbana. Celso. Brasília. Clarence Arthur. in O fenômeno urbano. Cia das Letras. Conferência proferida no 3º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília. Madrid. (1994) O Pe. in Regional Plan of New York and its Environs. (1989) Espaço. New York. Org. NEWTON. cultura e desenho urbano no modernismo tardio e além dele. Zahar. Conferência proferida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em comemoração ao dia Mundial do Urbanismo. Luiz Anhaia. PARK. Otávio Gilberto Velho. São Paulo. Girsberger. Regional Survey. SENADO FEDERAL (1974) 1º Seminário de estudos dos problemas urbanos de Brasília – 5 a 21 de agosto de 1974. Tradução de Frederico Holanda. 1289-92 48 . São Paulo. The Belkanap Press of Harvard University Press. São Paulo. São Paulo. (1979) A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano. Nova York. (1953) Le Corbusier. mimeo. Lebret: continuidades. (1988) O declínio do homem público. PMSP. PEPONIS. PERRY. (1929) Neigborhood and commmunity planning. Norman. Centro Gráfico do Senado Federal.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful