Jean-Pierre Vernant 1

Fábio Duarte Joly 2

No Brasil, os estudos clássicos, em geral, e a História Antiga, em particular, têm uma história acadêmica relativamente recente, se considerarmos que foi a partir da segunda metade do século XX que se iniciou a formação e consolidação de programas de pós-graduação nas universidades brasileiras – em que pesem desníveis regionais –, gerando investigações variadas acerca das sociedades do Antigo Oriente Próximo, Grécia e Roma. Mais recentemente se observa uma abertura do mercado editorial para a publicação de livros, oriundos de pesquisas de mestrado e doutorado, que versam sobre a Antiguidade. Contudo, ainda é inegável uma preponderância de títulos estrangeiros, sobretudo de estudiosos franceses, ingleses e norte-americanos, traduzidos para o português. No caso da história grega, por exemplo, quem se dispuser a realizar uma pesquisa bibliográfica, certamente deparar-se-á com o nome de Jean-Pierre Vernant. Pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) de 1948 a 1958, quando entrou para a École Pratique des Hautes Études, Vernant foi eleito para o Collège de France, em 1974, onde se aposentou em 1984, embora depois continuasse atuando como professor honorário. Faleceu em 9 de janeiro de 2007, aos 93 anos, deixando uma vasta obra, da qual limitaremos a mencionar os livros que encontraram traduções brasileiras e respectivos anos de publicação na França: As origens do pensamento grego (1962); Mito e pensamento entre os gregos. Estudos de psicologia histórica (1965); Mito e tragédia na Grécia antiga (1972, volume 1), cujo segundo volume (1986) tem Pierre Vidal-Naquet como co-autor; Mito e sociedade na Grécia antiga (1974); Métis – as astúcias da inteligência, com Marcel Detienne (1974); A morte nos olhos – a figuração do outro na Grécia antiga (1985); Trabalho e escravidão na Grécia antiga (1988), com Vidal-Naquet; Mito e religião na Grécia antiga (1990); Entre mito e política (1996); e O universo, os deuses, os homens (1999). Em tradução portuguesa, há ainda o volume intitulado O homem grego (1991), organizado por Vernant para uma coleção italiana.

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Publicado em LOPES, M. A.; MUNHOZ, S. J.. (Org.). Historiadores de nosso tempo. São Paulo: Alameda, 2010, p. 173-192. 2 Professor de História Antiga na Universidade Federal de Ouro Preto e membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR).

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Esta pequena amostra revela os três principais temas que percorrem sua produção intelectual: a religião, o pensamento e a política. Neste artigo pretendo me deter primordialmente no lugar da política na obra vernantiana, visto que esse assunto parece estar no centro de avaliações da contribuição desse helenista para os estudos gregos, ao se indagarem sobre a pertinência do “primado da política” como eixo estruturante de sua obra. Esse aspecto é apenas devidamente apreciado, a meu ver, caso se tenha em mente como Vernant pensava as possibilidades de ação política no mundo contemporâneo. Mas, antes de chegar a esse ponto, convém iniciar com algumas considerações sobre o modo como concebia o trabalho científico, em termos acadêmicos e metodológicos. Há que se notar, em primeiro lugar, que seus livros, em geral, reúnem ensaios – que alguns resenhistas qualificam até de informais por seu estilo 3 – com um determinado tema como denominador comum. Essa “informalidade” do ensaio, como gênero eleito para a transmissão de suas idéias, certamente coadunava-se com sua preocupação em atingir um público mais amplo, para além da Academia. Nesse sentido, não é casual que seus livros sejam largamente traduzidos no Brasil, ao lado de historiadores como seu compatriota e companheiro de escritos, Pierre Vidal-Naquet (1930-2006), e o norte-americano Moses I. Finley (1912-1986). Todos eles, à sua maneira, foram, nas palavras de Miguel Palmeira, “emblemáticos por anteciparem a emergência de um perfil novo de classicistas que ocupariam o topo da escala de prestígio dos Estudos Clássicos”. Tais pesquisadores destacaram-se ao “falar para fora do círculo de especialistas e assim se tornarem como que porta-vozes da História Antiga para letrados não-especialistas da Europa e dos EUA”. 4 De fato, Vernant prefere partir do presente para o passado, num movimento enunciado de forma explícita, como na introdução a Mito e religião na Grécia antiga, quando afirma que “no ‘retorno do religioso’ com que cada um hoje se surpreende, para regozijar-se ou para deplorá-lo, o politeísmo dos gregos não tem lugar. (...) Do

Por exemplo, ao resenhar as edições norte americanas de Mito e Tragédia e Mito e Sociedade, James Redfield observou que: “Os ensaios de Vernant parecem mais aspectos de uma meditação contínua; eles são conformados não tanto por um método ou conjunto de conceitos, mas também por sua personalidade. Seu ponto forte, desde Les origines, tem sido o ensaio informal, um pouco divagador, em que nos apresenta como vê a realidade diante de si; ele não reúne evidências para provar algo, mas cita o material a fim de ilustrar suas idéias. Não há pontos de partida ou de chegada claros”. REDFIELD, James. J.-P. Vernant: Structure and History (Review article). History of Religions, 31, 1, 1991, p. 70-71. 4 PALMEIRA, Miguel Soares. A nova “economia antiga”: notas sobre a gênese de um modelo. In: PIRES, Francisco Murari & SUANO, Marlene (Org.). Antigos e Modernos: diálogos sobre a (escrita da) História. São Paulo: Alameda, 2009, p. 162 e 166.

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paganismo ao mundo contemporâneo, foi o próprio estatuto da religião, seu papel, suas funções que mudaram, ao mesmo tempo em que seu lugar no indivíduo e no grupo”. 5 Daí que, ao optar por um ensaio, evitava “discussões entre especialistas” ou adentrar numa “controvérsia erudita”. Sua ambição era “propor uma chave de leitura para compreender a religião grega”.6 Na construção dessas chaves de leitura entram não apenas um domínio da bibliografia especializada e erudita – que ele de modo algum descartava –, mas sobretudo o arsenal teórico das Ciências Humanas e Sociais, como a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia Histórica etc., e, também, a colaboração de outros pesquisadores, uma segunda característica marcante de sua produção. Pierre Vidal-Naquet aparece nos livros de Vernant como o companheiro mais assíduo, mas o próprio Vernant fez questão de apresentar sua obra como produto de um grupo. Em discurso pronunciado em 18 de dezembro de 1984, no CNRS, por ocasião do recebimento de medalha de ouro, frisou esse ponto, ao rememorar sua trajetória: Fui pesquisador por dez anos. Trabalhava sozinho em bibliotecas, lendo todos os textos gregos que podia para tentar me tornar um helenista. (...) Depois dos anos sessenta, tudo mudou: não havia mais um Vernant isolado; havia Vernant e seu grupo, a equipe Vernant, que alguns, no exterior, chamaram de escola de Paris (...) Nem minha própria obra, nem minha vida, nem minha pessoa podem ser separados da equipe. 7 Em outro texto, o autor assevera da seguinte maneira como enxergava sua posição de liderança acadêmica (a qual, diga-se de passagem, lembra o cerne de sua definição da polis grega – que veremos mais adiante –, em que reina a igualdade sem descartar as diferenças entre os indivíduos):
No Centro Louis Gernet, grupo de pesquisas que fundei em 1964 e que dirigi por vinte anos, tratava-se de criar uma comunidade cuja hierarquia não fosse nem imposta nem institucionalizada fora da própria vida do grupo. Foi o que sempre tentei fazer com as pessoas que trabalharam comigo. Eu era o mais velho, o fundador do grupo; muitos daqueles que dele participavam haviam sido meus alunos, mas eu nunca lhes impus nada, acredito, porque sempre os considerei como meus iguais. E é porque eram meus iguais que eram diferentes
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. Trad. de Constança Marcondes César. Campinas: Papirus, 1992, p. 9. 6 Idem, p. 17. 7 VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política. Trad. de Cristina Murachco. São Paulo: Edusp, 2001, p. 48-49. Neste livro Vernant recolhe vários textos que permitem uma visualização de sua trajetória política e intelectual. Daí suas recorrentes citações neste artigo por ser uma fonte obrigatória para o estudo do perfil desse intelectual. Para um estudo geral sobre a obra de Vernant, o leitor pode também consultar BELEBONI, Renata Cardoso. A originalidade do olhar de Jean-Pierre Vernant sobre a Grécia: diálogos, inovações e atualidade. Dissertação de Mestrado, IFCS-Unicamp, 2001, 150p., disponível on-line no banco de dissertações e teses da Unicamp.
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e que tinham o direito não só de me contradizer, mas até mesmo de trilhar caminhos completamente divergentes. 8

Incorporado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e associado ao CNRS, o Centro de Pesquisas Comparadas sobre as Sociedades Antigas, que depois passou a se chamar Centro Louis Gernet, representou, para Vernant, o lócus institucional de uma prática de pesquisa que ele concebia como diferenciada, difícil de ser enquadrada nas fronteiras tradicionalmente estabelecidas nas Ciências Humanas, pois requeria “a união em um todo das ciências sociais e das ciências humanas, o estabelecimento de passagens entre setores diferentes, a criação de estruturas horizontais que recortam todo o campo dos diferentes saberes para recentrá-los em torno de um mesmo tema”. 9 Com esse objetivo, tal Centro reunia, inicialmente, também especialistas em Roma, China, Antigo Oriente Próximo, Egito e África. Seu método é assim exposto:

Examinávamos, a partir de cada sociedade que estudávamos, os diversos aspectos que o religioso, o poder, a realeza, a guerra, a vida agrícola, o trabalho, a economia podiam revestir. Assim, cada um de nós era levado não só a interrogar-se sobre o modo como esses diversos planos se articulavam uns aos outros no seio de uma mesma cultura, como também a questionar a pertinência dessas categorias, que nos parecem óbvias, mas que se tornam problemáticas quando são aplicadas a civilizações historicamente distantes da nossa. 10

Como se depreende dessa passagem, a idéia não era tanto comparar as sociedades antigas entre si, mas de compreender as estruturas econômicas, religiosas e políticas de cada sociedade à luz de uma crítica das categorias modernas disponíveis para sua interpretação. O próprio Vernant, em sua obra, não se detém num comparativismo com outras sociedades antigas. Sua atenção recai na denominada “Grécia antiga”, em especial nos temas da política e da religião, desdobramento da relação entre mito e razão, se bem que ambos analisados tendo como pano de fundo sua percepção do mundo contemporâneo: a polis grega de Jean-Pierre Vernant é simultaneamente abordada em sua peculiaridade, mas sem perder o horizonte de sua contemporaneidade. Para compreender essa perspectiva analítica é preciso que nos reportemos, primeiramente, às influências intelectuais que Vernant reconhece em seu

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Idem, p. 28. Idem, p. 48. 10 Idem, p. 49.

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trabalho e, depois, ao objetivo primordial que visou atingir ao longo de sua caminhada como pesquisador, qual seja, a compreensão do “homem grego”. Quanto às influências, Vernant é direto: “Minha pesquisa inscreve-se na linha de uma psicologia histórica cujos fundamentos foram estabelecidos na França por Meyerson e que se coloca sob o signo de Marx, escrevendo que toda a história não passa da transformação contínua da natureza humana”. 11 Nascido em Varsóvia, Ignace Meyerson (1888-1983), após estudos na Polônia e na Alemanha, chegou, em 1906, a Paris, onde estudou medicina, ciências e filosofia. Depois da Primeira Guerra Mundial, já tendo publicado trabalhos na área de neurofisiologia, atuou no Instituto de Psicologia da Universidade de Paris, na Sociedade Francesa de Psicologia e no Journal de psychologie normale et pathologique, do qual foi diretor a partir de 1938. Publicou, em 1948, seu único livro, As funções psicológicas e as obras, produto de tese de doutorado defendida aos sessenta anos de idade. 12 Do pensamento de Meyerson, Vernant retirou o axioma de que “o homem está naquilo que, continuamente, por todos os tempos, ele construiu, conservou, transmitiu”, isto é, ferramentas e técnicas, línguas, religiões, instituições sociais, ciências e artes. 13 Psicologia histórica significa não mais estudar a atividade mental como um reflexo de condicionantes neurofisiológicos, mas consubstanciada nos variados produtos da ação humana, no tempo e no espaço, salientando seus “pontos de crise, de inflexão e de parada”. 14 A menção ao pensamento de Marx também se insere nessa preocupação em historicizar as ações humanas, indagando-se sobre as transformações que o próprio homem sofre ao transformar o mundo ao redor de si. Na interpretação de Meyerson, tal como descrita por Vernant, os comportamentos humanos e conteúdos espirituais estão em relação de mútua determinação, de modo que se trata, em suma, de estudar as relações entre o campo psicológico e o campo social:

Todos os fatos humanos – atos, obras, instituições, civilizações – são ao mesmo tempo psicológicos e sociais. Nesse sentido, o social em geral nunca pode ser um princípio de explicação psicológica; nem o psicológico em geral um princípio de explicação social. Para ser válida, a análise deve ser limitada, precisa, histórica: deve seguir pelas obras o elo que une tal forma mental a tal estrutura social. Elo complexo: a estrutura social depende de outras estruturas, e
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Idem, p. 54. DI DONATO, Riccardo. L’anthropologie historique de Louis Gernet. Annales, 37, 5, 1982, p. 989. 13 VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 123. 14 Idem, p. 143.

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a forma mental de outras formas; entre umas e outras não existe causalidade unilateral, e sim, sempre, ações recíprocas. 15

Não há, por conseguinte, “um espírito imutável, funções psicológicas permanentes, um sujeito interior fixo” subjacentes às obras humanas, o que Vernant chama de um preconceito “fixista”, a busca de espírito puro, que pairasse acima das realizações concretas. A aplicação desses pressupostos da psicologia histórica ao estudo da Grécia antiga é a tarefa que Vernant impôs a si, como atesta na introdução de Mito e Pensamento entre os Gregos, dedicada a Meyerson, afirmando que, por meio do estudo das obras humanas “buscamos aquilo que o homem foi, este homem grego antigo que não se pode separar do quadro social e cultural do qual ele é, ao mesmo tempo, o criador e o produto”. 16 Conservados nos documentos, esses fatos não descartam, inclusive, uma comparação com o homem atual. 17 Logo, Vernant adota uma visão histórica simultaneamente sincrônica e diacrônica, analisando os fatos sociais não apenas nos limites temporais de uma dada sociedade, como também pensando em estabelecer comparações com o presente. Além de Meyerson, mas comungando pontos comuns à obra desse psicólogo, Louis Gernet (1882-1962) é outro intelectual a que Vernant faz questão de reconhecer sua dívida. Aliás, a obra de Gernet gozou de um reconhecimento tardio, em grande parte devido aos trabalhos de Vernant, como As origens do pensamento grego e Mito e pensamento entre os Gregos. 18 Gernet obteve sua “agrégation de grammaire” na École Normale, no momento em que Paris era o centro dos estudos de filologia comparada. De 1907 a 1914 foi pesquisador na Fondation Thiers, dirigida por Émile Boutroux, professor de Durkheim. Durante esse período Gernet formou-se em Direito, publicou um ensaio sobre o suprimento de trigo na Atenas clássica, que escrevera na École Normale e trabalhou sobre suas duas teses, uma tradução e comentário do livro IX d’As Leis, de Platão, e um estudo sobre o desenvolvimento do pensamento jurídico e moral na Grécia. De 1917 ao final da Segunda Guerra Mundial, lecionou na Faculdade de Letras da Universidade de Argel. Em 1948, começou a ministrar aulas na área de

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Idem, p. 147-148. VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Estudos de psicologia histórica. Trad. de Haiganuch Sarian. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 15. 17 VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 140 e 152. 18 HUMPHREYS, Sarah C. The Work of Louis Gernet. History and Theory, 10, 2, 1971, p. 177.

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sociologia jurídica na École Pratique des Hautes Études. A essa época também ocupou o cargo de secretário-geral e editor-chefe da revista Année sociologique. 19 A conexão entre Meyerson e Gernet, entre o psicólogo e o helenista, não é fortuita se levarmos em conta que Meyerson serviu-se dos trabalhos de Gernet em seu magnum opus. No livro As funções psicológicas e as obras, avalia como corretas, no tocante ao método, as observações de Gernet acerca de “todo historiador que pesquisa sobre os conteúdos mentais e os interpreta”, e também cita a tese de Gernet sobre direito e moral na Grécia, retomando suas observações sobre a reconstrução da pessoa no direito grego, fundada na oposição entre um pensamento científico e o desenvolvimento do pensamento moral. Em contrapartida, ecos de Meyerson estão presentes em artigo de Gernet, composto para o cinquentenário do Journal de psychologie normale et pathologique, intitulado “Histoire des religions et psychologie. Confrontations d’aujourd’hui” (1954). Negando a fronteira entre etnografia e história, Meyerson afirma estudar “aquilo que tem por objeto, ou pelo menos por matéria, os fatos humanos não isolados de seus contextos e que são considerados no que têm de localizados e condicionados”. 20 Em seus papéis não publicados, encontra-se uma reflexão metodológica que ilumina a influência de Gernet sobre o pensamento de Vernant:

(...) Não há uma explicação de aplicabilidade geral [passe-partout], o método deve ser criado nos diferentes domínios da experiência, acomodando-se à plasticidade das experiências humanas: a China, a Índia, a Grécia etc. Ambição que vai além de Durkheim e do marxismo: Durkheim admite que a partir de noções muito gerais, outrora miticamente conhecidas, e que pertencem às “forma elementares’, há uma atividade “livre” e fantasiosa da imaginação que, em suma, não é possível apreender; o marxismo admite, ou admitia, uma distinção radical entre infra-estrutura e superestrutura (ideologia). 21

Essa crítica coaduna-se tanto com o método da psicologia histórica quanto com uma antropologia histórica, uma etiqueta que Vernant permitia que fosse aplicada a seu trabalho – apesar de toda sua ênfase no espaço/tempo, Vernant tampouco chega a se apresentar como historiador. Ao explicar o métier do antropólogo, serve-se de um contraste com aquele do psicanalista. Enquanto este procede por meio de arquétipos pré-determinados na abordagem de fatos culturais, o antropólogo parte do princípio da relatividade dos fenômenos culturais, temporal e espacialmente situados. Daí que sua

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Idem, p. 172-173. Citado por DI DONATO, Riccardo. Op. cit., p. 991. 21 Idem, p. 993.

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alternativa é analisar as características de um material documental, procurando estabelecer relações entre elas a fim de constituir um conjunto significativo. 22 Qual o papel específico da Grécia nesse contexto metodológico? Vernant diz que a contribuição de Gernet foi, que, embora especialista em direito grego, sempre considerou o “homem grego total”, deixando sua marca ao formular questões ao mundo antigo que dissessem respeito diretamente a nós, modernos: “Por que e como foram constituídas aquelas formas de vida social, aqueles modos de pensar nos quais o Ocidente encontra sua origem, nos quais acredita poder reconhecer-se e que ainda hoje servem de referência e justificativa para a cultura européia?”. 23 Esse questionamento negaria aquela idéia de um Espírito ou Razão absolutos, enfatizando a especificidade da experiência grega ao compará-la com as de outras civilizações. Pode-se dizer que as obras de Meyerson e Gernet permitiram a Vernant criticar o que ele denominou de concepções “racionalistas” que postulam tal Razão imutável e eterna, “idéia, cara aos homens da Revolução Francesa, de uma deusa Razão que ilumina o caminho da humanidade, dissipando as trevas da ignorância, os fantasmas da superstição religiosa ou as ilusões do sentimento”. Trata-se, em última instância, de abandonar uma metafísica da Razão em prol de uma história das formas do pensamento racional em sua diversidade e variações. 24 Como se vê, o problema central permanece o mesmo, ou seja, fazer uma arqueologia da Razão. Muda o princípio de análise: não há uma única Razão que perpassa a história dos homens desde a Antiguidade e, nesse sentido, a razão grega não é igual à razão contemporânea, embora esteja em sua origem. Estamos, portanto, simultaneamente, distantes e próximos do “homem grego antigo”. A distância decorre das condições históricas específicas do surgimento da razão grega.
VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 79. Em raciocínio semelhante, disse que, embora tenha sido influenciado por Claude Lévi-Strauss e sua abordagem estruturalista dos mitos, sentia-se mais próximo de Georges Dumézil, com sua perspectiva histórica (embora, se, por um lado, Vernant seguisse Dumézil ao entender a religião como possuindo uma sistematicidade, não concordava que, no caso grego, o trifuncionalismo religioso indo-europeu se aplicasse. GUIMARÃES, José Otávio. Como um barco à deriva: três colegas do Collège de France. Teoria & Pesquisa, 16, 2, 2007, p. 174. Sobre Lévi-Strauss e Dumézil, Vernant afirmou, em entrevista cedida a José Otávio Guimarães, em 1999: “Tinha enorme admiração pelo que Lévi-Strauss fazia. Mas me demarcava dele, sentindo-me mais próximo de Dumézil, pelo fato de que ele tinha uma atitude um pouco kantiana com relação às construções do imaginário mítico. Essas não eram exatamente a priori; apresentavam-se sempre a partir do concreto, das flores, das plantas, dos animais, da organização social, mas traduzindo formas de atividade mental, sobre as quais Lévi-Strauss tinha tendência a pensar que se encontravam por todos os lados. Não pensava – como eu procurava fazer, na continuação de Dumézil – que, desde que houvesse um pouco de sociedade, um pouco de civilização com sua história, era preciso considerar essas narrativas lendárias, esses mitos ou esse aspecto de fabricação imaginária como integrados a um conjunto e dele fazendo parte. Tal elemento se explicava pelo conjunto e explicava o conjunto”. Idem, p. 180-181. 23 VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 158. 24 Idem, p. 191-192.
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Para Vernant – assim como para Gernet 25 – o advento de um pensamento positivo racional está ligado ao nascimento da polis, da cidade. As inovações decorrentes desse fenômeno marcaram “uma mudança de mentalidade tão profunda que foi possível considerá-las como a certidão de nascimento do homem ocidental”. 26 Que essa é a base mais ampla sobre a qual Vernant elabora sua reflexão sobre a Grécia antiga atesta-o como apresenta o programa ao qual respondem os livros As origens do pensamento grego, Mito e pensamento entre os gregos e Mito e tragédia na Grécia Antiga:

No espaço de poucos séculos, a Grécia antiga conheceu, em sua vida social e intelectual, mutações tão profundas que foi possível ver nelas o nascimento do homem moderno, o advento do espírito como poder de reflexão crítica, ou, em outras palavras, foi naquele momento que se teria produzido a passagem do mito à razão. Assim, perguntei-me como, por que e até que ponto de fato se desprenderam da mentalidade religiosa modos de pensar e de agir que, antes de se apresentarem como funções bem diferenciadas, adaptadas a objetivos precisos, parecem todos mais ou menos incluídos no universo simbólico da religião. E, nesse processo de mutação que levou a fazer surgir, como outros tantos setores distintos, os planos do econômico, do político, do jurídico, da arte, da ciência, da ética, da filosofia, quais mudanças afetaram, de um lado, os instrumentos mentais – instrumental conceitual, modos de raciocínio, quadros lógicos do pensamento – e, de outro, as grandes funções psicológicas: tempo, espaço, memória, imaginação, vontade, persona. 27

Além do estudo das conexões entre a razão grega e o advento da polis, e suas respectivas consequências no modo de pensar, a religião grega foi outro campo de análise escolhido por Vernant, em especial no tocante à decifração dos mitos e evidenciação das estruturas do panteão grego. 28 Todavia, a religião também é estudada em seu caráter cívico, como intrinsecamente ligada à polis. A emergência da política é, portanto, a pedra basilar da análise vernantiana da Grécia antiga, pois dela decorrem todas as demais transformações sociais. André Laks ressalta que o pano de fundo mais amplo dessa questão concebida por Vernant é de ordem epistemológica. Em vez de aceitar a idéia de um “milagre grego” – de uma razão grega que surge sem qualquer origem –, ele pretende dar conta de uma descontinuidade na história, de uma ruptura, cujo exemplo maior seria visível na Grécia clássica, com o aparecimento de uma nova forma de organização política. A
Cf. HUMPHREYS, Sarah C. Op. cit., p. 193. VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 42. 27 Idem, p. 55. 28 Idem, p. 43. Sobre o tratamento dos mitos gregos por Vernant, pode-se consultar BELEBONI, Renata Cardoso. O mito na perspectiva de Jean-Pierre Vernant. Boletim do CPA, 10, 2000, p. 69-75.
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insistência na descontinuidade devia-se também a uma contraposição aos antropólogos “ritualistas” de Cambridge, como F. M. Cornford, que salientavam as continuidades existentes entre o pensamento mítico e o racional e, portanto, a dependência desse último àquele. Como resume Laks, “é contra a dupla ilusão de um nascimento ex nihilo e a permanência do idêntico que Vernant recorreu à categoria de ‘revolução’, ou, seguindo a terminologia de Meyerson, de ‘mutação’. O termo aponta para a mudança, considerável (para os ritualistas); mas não se trata de milagre, pois ele parte, poder-se-ia dizer, tanto da mutação, como da consciência: ela é sempre a mutação de alguma coisa”. 29 O que então mudou? As origens do pensamento grego é a obra seminal do helenista para acompanharmos o desenvolvimento de sua reflexão sobre esse ponto. Na escrita desse livro, publicado originalmente em 1962, Vernant já podia contar com o deciframento do linear B micênico, 30 o que lhe descortinou possibilidades de comparação não disponíveis, por exemplo, para Gernet. 31 A peculiaridade do mundo grego definiu-se, para Vernant, no momento em que estruturas sociopolíticas, típicas do Próximo Oriente, não são mais imitadas ou assimiladas, tal como ocorrera no sistema palaciano micênico, dos séculos XIV ao XII a.C. Quando, a partir do século X a.C., os gregos retomaram contatos comerciais com o Oriente, teve lugar uma consciência de si, de modo que doravante a Grécia “se reconhece numa certa forma de vida social, num tipo de reflexão que definem a seus próprios olhos sua originalidade, sua superioridade sobre o mundo bárbaro”. 32 O modelo oriental da realeza micênica, ao qual se contraporá o modelo grego da polis, é caracterizado como funcionando em torno do palácio cujo papel é, ao mesmo tempo, religioso, político, militar, administrativo e econômico. O rei (ánax) concentra e unifica em sua pessoa todos esses elementos do poder e governa, por um lado, apoiado numa classe de escribas, que registra as propriedades do palácio mediante uma escrita
LAKS, André. O problema das origens da racionalidade grega hoje: as contribuições de Max Weber e Jean-Pierre Vernant. Phaos, 6, 2006, p. 8-9. Para a apreciação do trabalho de Cornford por Vernant consultar: VERNANT, Jean-Pierre. “Du mythe à la raison. La formation de la pensée positive dans la Grèce archaïque”. Annales, 12, 2, 1957, p. 183-187. 30 A decifração do Linear B correspondeu a um processo longo, mas cujos primeiros resultados já se tornavam amplamente conhecidos para os especialistas nos anos 1951-1953 e contam com uma difusão mais ampla com a publicação por Michael Ventris e John Chadwick de Documents in Mycenaean Greek. Three Hundred Selected Tablets from Knossos, Pylos and Mycenae with Commentary and Vocabulary. Cambridge: Cambridge University Press, 1956. Nesse mesmo ano de 1956 Ventris morreu precocemente – com 34 anos – em acidente automobilístico. Agradeço a Fábio Faversani por esta nota. 31 HUMPHREYS, Sarah C. Op. cit., 179. 32 VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. de Ísis Borges B. da Fonseca. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994, p. 6.
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própria, não difundida, e, por outro, sustentado por uma aristocracia guerreira. Esse sistema palaciano permitia, contudo, uma relativa autonomia das comunidades camponesas, algumas das quais sob domínio de vassalos do ánax, os basileis. Autonomia relativa porque tais comunidades poderiam subsistir independentemente do rei, possuindo inclusive seu conselho de anciãos (gerousia). 33 A invasão dórica rompeu esse quadro, pondo fim aos palácios e, consequentemente, quebrou a ligação com o Oriente. O ánax desaparece e persistem os basileis, como chefes locais, originando o que Vernant qualificou de “crise da soberania”. A aristocracia guerreira e as comunidades aldeãs vêem-se livres de um monarca que tudo coordenava e agora entram em conflito para determinar com quem reside o poder. Nas palavras de Vernant, “entre essas forças opostas, liberadas pelo desmoronamento do sistema palaciano, que se vão chocar às vezes com violência, a busca de um equilíbrio, de um acordo, fará nascer, num período de desordem, uma reflexão moral e especulações políticas que vão definir uma primeira forma de ‘sabedoria’ humana”. 34 A aparição da polis entre os séculos VIII e VII a.C. correspondeu à criação de um domínio público, antes inexistente, pautado pela preeminência da palavra – como instrumento de persuasão – e pelo pressuposto da publicidade, cujo principal suporte é a escrita. Um outro aspecto da cidade diz respeito àqueles que a compõem. Apesar da diferença, existe uma semelhança “que cria a unidade da polis, porque, para os gregos, só os semelhantes podem encontrar-se mutuamente unidos pela Philia, associados numa mesma comunidade”, na qual as relações entre os homens tomam a “forma de uma relação recíproca, reversível, substituindo as relações hierárquicas de submissão e domínio”. 35 É preciso lembrar que a cidade nasce aristocrática e paulatinamente ocorre uma abertura para círculos mais amplos, sobretudo por conta de questões militares, como exemplifica a chamada “revolução hoplítica”. E mesmo com a ampliação da cidadania, e seu conteúdo igualitário, para Vernant, o ponto de vista aristocrático sempre esteve presente no interior de uma visão democrática da sociedade e do Estado. Os cidadãos são iguais, mas competem pelo mérito; a discussão é uma prática pública, aberta, mas

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Idem, p. 16-22. Idem, p. 27. 35 Idem, p. 42.

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gera conflito. A unidade da cidade grega sempre aparece ameaçada pela divisão36 e Vernant reconhece que os séculos VII e IV a.C. foram marcados por constantes choques e conflitos sociais abertos. 37 Em uma passagem de seu artigo sobre a luta de classes, em Mito e sociedade na Grécia antiga, o helenista enfatiza, após referir-se a Marx, ao papel da política na conformação dessas lutas sociais na história grega:

Os grupos humanos entram em luta em função de interesses materiais que os opõem uns aos outros. Mas esses interesses materiais não derivam direta nem exclusivamente do lugar dos indivíduos no processo de produção. Estão sempre em função do lugar que ocupam os mesmos indivíduos na vida política que, no sistema da polis, desempenha o papel principal. Dito de outro modo, é através da mediação do estatuto político que a função econômica dos diversos indivíduos determina seus interesses materiais, estrutura suas necessidades sociais e orienta sua ação social e política em solidariedade com tal grupo ou oposição a outro. 38

Como observou José A. Dabdab Trabulsi, ao se expressar com essas palavras, Vernant acabou por alinhar-se a uma vertente de explicação da economia antiga que advoga a ausência de uma esfera econômica autônoma nas sociedades clássicas. De inspiração weberiana, tal vertente encontrou expressão na obra de Karl Polanyi e uma recepção nos escritos de Moses Finley, Michel Austin e Pierre Vidal-Naquet, dentre outros. Essa visão, que foi batizada de “primitivista”, em oposição a uma visada “modernista”, cujos proponentes acentuavam o caráter já capitalista da economia antiga, teve como desdobramento uma ênfase na política como a esfera que, em grande parte, determinava comportamentos econômicos. O conceito de status ganhou assim maior relevância frente ao de classe. 39 Um dos corolários dessa maneira de compreender o passado é a restrição da análise ao corpo de cidadãos. E quanto aos que não são cidadãos, como, por exemplo, os escravos em Atenas? A resposta de Vernant é clara: “É evidente que essas lutas ocorrem nos quadros da vida política. Por conseguinte, delas estão excluídos aqueles que não pertencem a esse quadro e, assim, não podemos dizer

VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 28. Idem, p. 105. 38 VERNANT, Jean-Pierre. Mito y sociedad en la Grecia antigua. México: Siglo XXI, 1987, p. 16. 39 TRABULSI, José A. Dabdab, Structuralisme et Grèce ancienne: autour du problème du changement historique. Mélanges Pierre Lévêque, Besançon/Paris, v. 3, 1989, p. 93, nota 7. Para uma apreciação da querela entre primitivistas e modernistas, pode-se consultar: SCHIAVONE, Aldo. A história rompida: Roma antiga e Ocidente moderno. São Paulo: Edusp, 2005, cap. 4. Sobre a relação entre economia e política em Max Weber, na sua abordagem do mundo antigo, tivemos a ocasião de tratar em JOLY, Fábio D. Capitalismo e burocracia: economia e política nas Relações Agrárias na Antiguidade, de Max Weber. Revista de História, 140, 1999, p. 9-22.
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que os escravos como grupo sejam um dos elementos motores da dinâmica social, do movimento histórico na Antiguidade grega na época clássica”. 40 Logo, é claramente perceptível na obra de Vernant um primado da política, seja para a caracterização da razão grega como filha da polis, seja para a definição dos atores sociais que contam nos quadros da cidade. Quanto ao primeiro ponto, André Laks argumenta que a equação entre racionalidade e cidade não é necessariamente automática, pois é igualmente possível sustentar que o contexto de desenvolvimento do pensamento racional pode ter sido, ao mesmo tempo em que político, também antipolítico e transpolítico. Anti-político pela própria diferenciação da disciplina filosófica e consequente formação de uma classe de especialistas que não reconhecia o espaço público. Transpolítico uma vez que o desenvolvimento dessa racionalidade estava ligada ao fenômeno do panhelenismo, uma tendência à universalização que transcende os limites da cidade. 41 Seguindo uma mesma linha de crítica, Kostas Vlassopoulos recentemente incluiu Vernant no rol daqueles pesquisadores que entendem a polis como uma entidade unitária e fator unificador da história grega, com um objetivo último de alçá-la, numa visão eurocêntrica, à condição de precursora do Ocidente. Com esse intuito a multiplicidade das poleis, em termos espaciais e temporais, é deixada deliberadamente em segundo plano, colocando-se em relevo uma polis como unidade auto-suficiente de análise. 42 Por outro lado, no nível metodológico, o que está em discussão é a relação de causalidade histórica entre polis e razão, ou, como aponta Dabdab Trabulsi, entre mudança social e mutação dos esquemas de pensamento. Nesse caso, Trabulsi acrescenta que, nos trabalhos de Vernant, o princípio de causalidade é pouco explorado, preponderando termos como “interferências”, “correspondências” ou “solidariedade”,
VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 108. Pierre Vidal-Naquet, em um artigo intitulado “Os escravos gregos constituíam uma classe?”, originalmente publicado em 1968, adota o mesmo ponto de vista, ao comparar os escravos atenienses e os hilotas espartanos quanto às possibilidades de participação militar de ambos: “Exceto em casos totalmente excepcionais, nem se pensa em mobilizar escravos em Atenas e, se são utilizados no exército, são libertados. O resultado é que, por mais afastado que seja o hilota do cidadão em pleno exercício, não deixa de desempenhar um papel e um papel capital no jogo político. Uma reivindicação política dos hilotas é possível em Esparta, enquanto uma reivindicação política dos escravos em Atenas é propriamente inconcebível”. VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 94. Também para Finley, os escravos-mercadoria, por serem mais desprovidos de direitos e os mais totalmente estrangeiros, seriam aqueles com menor tendência para a ação coletiva. Cf. FINLEY, Moses. Entre a escravatura e a liberdade. In: ANNEQUIN, J.; CLAVEL-LÊVÉQUE, M. & FAVARY, F. (Org.). Formas de exploração do trabalho e relações sociais na Antigüidade clássica. Lisboa: Editorial Estampa, 1978, p. 92. 41 LAKS, André. Op. cit., p. 13. 42 VLASSOPOULOS, Kostas. Unthinking the Greek polis: Ancient Greek History beyond Eurocentrism. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 55-56.
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revelando um estruturalismo vago e uma análise marxista em que o político é o elemento principal e estruturante. Em sua conclusão: “Dizer que tudo é solidário equivale a sustentar que uma sociedade funciona, sem explicar como”. 43 Podemos acrescentar ainda o “princípio da simpatia”, que guarda relações com o campo político e atua também no sentido de matizar o princípio da causalidade direta. Vernant diz realizar um jogo de contrastes entre o homem grego e o homem moderno a fim de melhor compreender a ambos. Na introdução que compôs para O homem grego, reunião de artigos de especialistas sobre tipos sociais da Grécia antiga, Vernant alerta o leitor que não falará do “grego tal como foi em si, tarefa impossível porque a idéia em si é desprovida de sentido, mas [d]o grego tal como aparece hoje para nós no fim de uma abordagem que procede, na falta do diálogo direto, num incessante ir e vir, de nós a ele, dele a nós, conjugando a análise objetiva a um esforço de simpatia, jogando com a distância e a proximidade”. 44 Quem é, afinal, esse homem grego com o qual nos defrontamos? Vernant admite que, por motivos documentais, é o homem de Atenas do período clássico, ou melhor, é o cidadão ateniense. A diferença do homem grego frente ao homem moderno reside no fato de que a visão de mundo do primeiro seria mais integrada do que aquela do segundo. Por exemplo, entre o mundano e o divino, para o grego, não existiria uma cisão radical. Embora o homem não possa pretender ser igual a um deus, limitado que está por sua mortalidade, deuses e homens habitam mundos similares, mas construídos sobre planos diversos e rigorosamente hierarquizados. A existência humana, enfim, não se refere unicamente a si própria:

A partir do instante em que seus olhos se abrem para a luz, o homem está em dívida. Ele a paga ao prestar escrupulosamente para a divindade, pela observação dos ritos tradicionais, a homenagem que ela tem o direito de exigir. (...) Ao criar o contato com os deuses e ao torná-los, de alguma forma, presentes entre os mortais, o culto introduz na vida dos homens uma nova dimensão, feita de beleza, de comunhão feliz. 45

A ubiqüidade da religião torna ininteligível uma demarcação entre crença e nãocrença, pois, a bem da verdade, não haveria uma doutrina a seguir ou uma Igreja a pertencer e tampouco livros sagrados a guiar condutas. Em Mito e religião na Grécia antiga, Vernant critica as correntes de interpretação que analisam o politeísmo grego à
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TRABULSI, José A. Dabdab. Op. cit., p. 100. VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 172-173. 45 Idem, p. 175.

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luz do monoteísmo judaico-cristão, fazendo desse último o modelo ideal de religião e considerando os mitos como excrescências literárias. A peculiaridade da “religião grega” deriva de que nela “o indivíduo como tal não ocupa um lugar central”. A participação nos cultos não se dá a título de salvação pessoal, de um contato íntimo com os deuses. O indivíduo está aí inserido como “magistrado, cidadão, fatrio, membro de uma tribo ou de um demo, pai de família, matrona, jovem – rapaz ou moça – nas diversas etapas de sua entrada na vida adulta”. 46 Nesse contexto de uma religião cívica, indivíduo e cidade complementam-se: não ser religioso significa negar sua inserção como cidadão. Essa preeminência da sociedade política frente ao indivíduo faz-nos recordar a tese de Fustel de Coulanges, n’A Cidade Antiga, de 1864, em que postula uma diferença entre a liberdade moderna e a liberdade dos antigos gregos e romanos, pois “o homem atual não pensa da mesma maneira como pensou vinte e cinco séculos atrás, e por isso já não se governa atualmente pelas mesmas leis que então o regeram”. Em Grécia e Roma, “a liberdade individual fora (...) desconhecida e o homem era incapaz de libertar a sua própria consciência da onipotência da cidade. (...) A cidade era a única força viva, nada lhe era superior ou inferior: nem a unidade nacional, nem a liberdade individual”. 47 Entretanto, à diferença de Coulanges, Vernant vê de maneira positiva essa inserção, já que, em sua opinião, o homem moderno vive desconectado do mundo que o cerca, não tendo mais uma existência cósmica como o homem grego, que “encontra-se em uma relação de comunidade íntima com o universo animado ao qual tudo o liga”. 48 Para o helenista, a experiência moderna de si está fundada na introspecção, enquanto a experiência grega é extrovertida. O cogito, ergo sum cartesiano não tem sentido para um grego, que busca a si próprio no espelho dos outros da cidade. Num ensaio exclusivamente dedicado ao tema do indivíduo, em que Vernant toma como ponto de partida a distinção, traçada por Louis Dumont, 49 entre o indivíduo fora do mundo e o indivíduo no mundo, escreve ele que o homem grego submete-se a uma ascese moral que visa submeter o inferior ao superior para realizar, dentro de si, um estado de

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia antiga, p. 14. COULANGES, F. de. A cidade antiga. São Paulo: Ediouro, s/d, p. 247. 48 VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 179. 49 A referência são os livros Homo Hierarchicus: o sistema das castas e suas implicações (Paris, 1966; trad. bras. São Paulo, Edusp, 1992) e Homo Aequalis: gênese e plenitude da ideologia econômica (Paris, 1977; trad. bras. Bauru, Edusc, 2000).
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liberdade análogo àquele do cidadão na cidade, que precisa saber se dominar para não vir a ser escravo, de outrem ou de si mesmo. 50 Se o homem grego antigo não é introspectivo por conta de sua inserção na cidade, como então Vernant enxerga o homem contemporâneo em sua relação com a política? Buscar uma resposta para essa pergunta talvez ajude a compreender a centralidade da política em sua obra, bem como a relevância de conceitos como “solidariedade” e “comunhão” que se sobreporiam àqueles mais direcionados para estabelecer nexos de causalidade para explicar a história social grega. Na opinião de Vernant, a despolitização e a irracionalidade são fenômenos que caminham pari passu nas sociedades contemporâneas:

As pessoas, como indivíduos, ou como membros de pequenos grupos: uma família, uma aldeia, não se sentem mais diretamente responsáveis ou engajadas na vida coletiva. Sobre aqueles que tomavam as decisões na Rússia, dizia-se sempre “eles” ou “lá em cima” – um lugar absolutamente distante, estranho e do qual não se participava. Hoje, em nossas democracias ditas liberais, ocorre um fenômeno do mesmo tipo: as pessoas têm a sensação de que a política é um negócio de profissionais mais ou menos capazes, mais ou menos honestos, e que elas mesmo não fazem muito mais parte disso. O desengajamento político é um aspecto desse fenômeno muito mais geral que é a volta em massa do irracional, que é chamado de volta do religioso em suas diversas formas. 51

Pode-se dizer que a argumentação de Vernant volta-se aqui a uma crítica da chamada “teoria elitista da democracia”, que advoga um governo de especialistas, amparado por uma burocracia e com sustentação de meios de comunicação em massa. 52 O modelo grego justifica-se como uma alternativa a essa configuração das atuais democracias ocidentais, as quais, se, por um lado, estenderam a cidadania a grandes parcelas da população, por outro, cercearam suas chances de exercício direto do poder por meio de mecanismos de representação. Tal teoria é igualmente combatida por Moses Finley, em seu livro Democracia antiga e moderna, que alça a democracia ateniense como um exemplo de participação direta dos cidadãos no governo, a despeito

VERNANT, Jean-Pierre. L’individu, la mort, l’amour. Paris: Gallimard, 2007, p. 229. VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 499. 52 Um bom exemplo desta perspectiva é fornecido por Max Weber, para quem “a mente equilibrada e lúcida, e uma política bem-sucedida, especialmente a política democrática bem-sucedida, é feita, indubitavelmente, com a mente e predominará nas decisões responsáveis, tanto mais: 1. quanto menor for o número de participantes na decisão; 2. quanto mais claras forem as responsabilidades atribuídas a cada um deles e a seus liderados”. WEBER, Max. Parlamento e governo na Alemanha reordenada. São Paulo: Vozes, 1993, p. 128-129. Cf. FAVERSANI, Fábio. A ética da participação política na democracia antiga comparada à contemporaneidade. Consciencia, Vitória da Conquista, v. 7, 1997.
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de seu número diminuto no contexto da população geral. 53 Vernant vai além: encerra seu prefácio da tradução francesa desse livro de Finley, ponderando que o político, ao pressupor que o poder seja colocado no meio, para ser objeto de debate, confere à vida em grupo seu caráter propriamente humano. 54 Em sua história de vida, Vernant declara que tanto a luta, durante a Segunda Guerra Mundial, na Resistência, quanto sua militância no Partido Comunista Francês marcaram-lhe indelevelmente. 55 É quando menciona essa última experiência que se desvela o modo como concebia uma relação adequada entre religião e política, que não está muito distante daquela que projeta na Antiguidade grega. Ele traça uma distinção entre os militantes comunistas que eram crentes ideológicos – ávidos de um “sistema explicativo total que justificasse sua existência” – e os crentes políticos, para quem contava “a forma como a política se delineava”.56 Alternativamente, uma crença na política antes que uma crença política é, enfim, o que o helenista vislumbra em seu “homem grego”. A despeito da validade dessa mensagem política implícita na obra de Vernant, resta indagar, a título de conclusão, qual é a contribuição do helenista para nossa compreensão da história grega. É certo que, do ponto de vista metodológico, suas propostas analíticas ancoradas numa psicologia histórica, que considera uma relação de mútua determinação entre o homem e suas obras, continuam instigantes. Todavia, não podemos furtar-nos a reconhecer que as duas pedras basilares da visão de Vernant sobre a Grécia antiga estão sob a mira de uma historiografia recente que está revisitando os modelos interpretativos sobre a história e a cidade grega. Refiro-me à idéia da Grécia como origem de uma “civilização ocidental” e à desconsideração de grupos sem participação política institucionalizada – mulheres, escravos e estrangeiros (metecos) – como agentes ativos na vida política e intelectual da polis. As críticas ao eurocentrismo focam o caráter teleológico que tal perspectiva acabou por imprimir à história européia, como se essa seguisse uma linha independente que começara na Grécia como única fonte original. 57 Com relação aos estudos sobre a
FINLEY, Moses. Democracia antiga e moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1988. Veja-se especialmente o capítulo “Líderes e liderados”. 54 Naissance du politique. In: VERNANT, Jean-Pierre. La traversée des frontières. Paris: Éditions du Seuil, 2004, p. 146. 55 VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política, p. 33-34. 56 Idem, p. 510. 57 Ver, por exemplo, o já citado livro de Kostas Vlassopoulos, Unthinking the Greek polis: Ancient Greek History beyond Eurocentrism, e a obra de Martin Bernal, Black Athena: The Afroasiatic roots of classical civilization, em especial o volume I intitulado “The fabrication of ancient Greece, 1785-1985”, em que o
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polis grega, quando mencionado, Vernant – em especial, suas Origens do pensamento grego – é colocado como exemplo de uma perspectiva que deve ser abandonada a favor de uma outra que pense a polis não unicamente como o espaço da cidadania. Essa seria uma fonte de identidade e uma forma de participação na cidade, dentre outras. Pareceme que, embora haja uma ênfase de Vernant na política como marco distintivo da história grega, sua análise consolidou um entendimento por demais restrito do conceito, ocasionando dificuldades de aceitação de sua obra no atual contexto em que se pede uma concepção ampla de atuação política, para além de um “clube fechado” de cidadãos, incluindo-se setores diversos da sociedade civil. Por último, as características que Vernant atribui a seu homem grego tendem a ser generalizadas pela historiografia sobre o mundo greco-romano ao ponto de condensarem uma “estrutura antropológica das aristocracias mediterrâneas”, 58 isto é, de se tornarem a essência do homem antigo, de mentalidade aristocrática, priorizando o cultivo da honra e avessa a um comportamento econômico similar àquele propugnado pelo capitalismo moderno. Essa imagem antropológica converteu-se em fator que confere uma unidade psicológica ao “mundo antigo”, de Homero ao fim do Império Romano. 59 Atualmente, percebe-se que a balança dos estudos acadêmicos começa a pender para aspectos da diversidade cultural na Antiguidade, colocando em xeque identidades de cunho essencialista. 60 É claro que esses limites da produção intelectual de Vernant não desqualificam a contribuição que nos legou. Seus escritos situam-se num contexto específico de afirmação dos estudos clássicos no ambiente acadêmico francês. Cabe a nós utilizá-los na medida em que se mostrarem relevantes para a discussão de problemas que consideremos candentes para a pesquisa de História Antiga no Brasil.

autor faz uma crítica das teorias racistas do século XIX que propuseram uma imagem da Grécia como desvinculada da influência de povos semitas e africanos (como os egípcios) a fim de enaltecer um caráter intrinsecamente europeu da civilização grega, entendida como origem cultural do mundo ocidental. Sobre o eurocentrismo na História Antiga, ver também GUARINELLO, Norberto L. Uma morfologia da História: as formas da História Antiga. Politeia: História e Sociedade, v. 3, n. 1, 2003, p. 41-62. 58 Tomo a expressão de Aldo Schiavone, Op. cit., p. 228, que cita Vernant como apoio para sua tese de que a carência de desenvolvimento econômico do mundo romano deveu-se, em grande parte, à mentalidade aristocrática das elites dirigentes. 59 A obra de Moses Finley, A economia antiga, publicada em 1973, é a principal representante dessa perspectiva e de forte influência na historiografia sobre economia grega e romana. Ver: FINLEY, Moses. A economia antiga. Porto: Afrontamento, 1986. Sobre a influência da obra finleyriana, pode-se consultar ANDREAU, J. L’économie antique: présentation. Annales, 5, 1995, p. 947-960. 60 Andrew Wallace-Hadrill oferece uma síntese do debate sobre identidade no mundo greco-romano em seu mais recente livro, Rome’s Cultural Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2008. Ver, em especial, o capítulo I.

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Bibliografia

Livros de Jean-Pierre Vernant publicados em língua portuguesa As origens do pensamento grego. Trad. de Ísis Borges B. da Fonseca. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. A morte nos olhos – a figuração do outro na Grécia antiga. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. Entre mito e política. Trad. de Cristina Murachco. São Paulo: Edusp, 2001. Figuras, ídolos, máscaras. Trad. de Telma Costa. Lisboa: Teorema, 1991. Métis – as astúcias da inteligência (com Marcel Detienne). São Paulo: Odysseus, 2008. Mito e pensamento entre os gregos. Estudos de Psicologia Histórica. Trad. de Haiganuch Sarian. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. Mito e religião na Grécia antiga. Trad. de Constança Marcondes César. Campinas: Papirus, 1992. Mito e sociedade na Grécia antiga. Trad. de Myriam Campello. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. Mito e tragédia na Grécia antiga. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, 1999. O homem grego. Trad. de Maria J. V. de Figueiredo. Lisboa: Editora Presença, 1994. O universo, os deuses, os homens. Trad. de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Trabalho e escravidão na Grécia antiga (com Pierre Vidal-Naquet). Trad. de Marina Appenzeller. Campinas: Papirus, 1989.

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