1 FLORBELA ESPANCA DO LIVRO DE SÓROR SAÜDADE (1923) FRIEZA

Os teus olhos são frios como as espadas, E claros como os trágicos punhais; Têm brilhos cortantes de metais E fulgores de lâminas geladas. Vejo neles imagens retratadas De abandonos cruéis e desleais, Fantásticos desejos irreais, E todo o oiro e o sol das madrugadas! Mas não te invejo, Amor, essa indiferença, Que viver neste mundo sem amar É pior que ser cego de nascença! Tu invejas a dor que vive em mim! E quanta vez dirás a soluçar: “Ah! Quem me dera irmã, amar assim...” xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

CARAVELAS
Cheguei a meio da vida já cansada De tanto caminhar! Já me perdi! Dum estranho país que nunca vi Sou neste mundo imenso, a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada. E as torres de marfim que construí Em trágica loucura as destuí Por minhas próprias mãos mal fadada!

. e porque não? Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração! . quem me dera as que eu deitei ao Mar! As que eu lancei à vida e não voltaram!. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx SAÜDADES Saüdades! Sim. Que há de partir também. Eterna sonhadora edificava Meu castelo de luz que me caiu! Tanto clarão nas trevas refulgiu.. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx INCONSTÂNCIA Procurei o amor....... sem vagas e sem porto Onde velas de sonhos se rasgaram! Caravelas doiradas a bailar.. Ai..2 Se eu sempre fui assim este Mar Morto: Mar sem marés. que me mentiu..... E tanto beijo a boca me queimava! E era o sol que os longes delumbrava Igual a tanto sol que me fugiu! Passei a vida a amar e a esquecer.. talvez. Pedi à Vida mais do que ela dava. Atrás do sol dum dia outro a aquecer As brumas dos atalhos por onde ando. nem eu sei quando. E este amor que assim me vai fugindo É igual a outro amor que vai surgindo..

Ah! Não seres como as outras raparigas Ó Princesa Encantada da Quimera!.. já te esqueci. Se êle deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como o pão! Quantas vezes. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx . como é vão! Que tudo isso. A rastejar no chão. A que nem sabe a estrada que ora trilha.3 Esquecer! Para quê? Ah. Irrita e amargura.. nos não importe. Que nem um lindo amor de maravilha Sequer deslumbra.. Todo feito de lágrimas amargas! És ano que não teve primavera. Amor. Aquela a quem a Mágoa chamou filha.. A que aos homens e a Deus nada merece! Aquela que o sol claro entenebrece. Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fôsse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saüdade andasse presa a mim! xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx O QUE TU ÉS És aquela que tudo te entristece. como as mendigas. e ilumina e esquece! Mar-Morto sem marés nem ondas largas. Amor. tudo humilha. Para mais doidamente me lembrar.

a nossa casa! Onde está ela. Andamos de mãos dadas... Num país de ilusão que nunca vi. Pés nus.dentro de ti E tu. E que eu moro – tão bom. . ó meu Amor... dentro de mim. a noite iluminar E as pedras do caminho florescer! Beijando a areia d’oiro dos desertos Procurara-te em vão! Braços abertos.. nos caminhos Duma terra de rosas. para te ver Abriu-se a noite em mágico luar.. a escutar. Amor.4 A NOSSA CASA A nossa casa. Amor. Chegas-te.. que não a vejo? Na minha doida fantasia em brasa Constrói-a num instante. Amor. É p’ra o som de teus passos conhecer Pôs-se o silêncio. emfim! Milagre de endoidar! Viu-se nessa hora o que não pode ser: Em plena noite. a nossa casa O bem que neste mundo mais invejo? O brando ninho aonde o nosso beijo Será mais puro e doce que uma asa? Sonho. dois pobrezinhos.. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx TARDE DEMAIS Quando chegas-te emfim. num jardim. em volta. a boca em flor! . o meu desejo! Onde está ela. olhos a rir. que eu e tu.

Como bate no peito à outra gente.php EROS E PSIQUE . são.5 E há cem anos que eu era nova e linda!. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx QUE IMPORTA?. a mesma verdade.. Sem sombra de desejo ou emoção... meu Irmão.E assim vêdes. e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor.. Agora. E a minha boca morta grita ainda: Porque chegas-te tarde ó meu amor?!. ainda que opostas.com. (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal) Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria .. Emquanto as asas loiras da ilusão ??????????????????.. olhas-me tu altivamente. a indiferente. Nunca sentira em mim o coração Bater em violências de paixão. que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito.br/art/pessoa/cancioneiro/182.. Eu era a desdenhosa.insite.. ????????????????? ???????????????? ??????????????? ??????????????/ ????????????????? ????????????????? http://www.

E vencendo estrada e muro. Chega onde em sono ela mora. uma grinalda de hera.os 41-42. Ele tinha que. Sem saber que intuito tem. pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II. Ela para ele é ninguém. e encontra hera. Longe o Infante. Vencer o mal e o bem.o que é fato . E falso. Antes que.6 Um Infante.que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem. Ergue a mão. Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada. Fernando Pessoa Publicado pela primeira vez in Presença. Ele dela é ignorado. A Princesa Adormecida. dormindo espera. Rompe o caminho fadado.] . epígrafe ao meu poema "Eros e Psique". tentado. n. em maresia. Casais Monteiro. em carta a este último: A citação. extinta. ele vem seguro. se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora. esforçado. indica simplesmente . eu não citaria o trecho do Ritual. de um trecho (traduzido. ou em dormência desde cerca de 1888. Verde. pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal. Coimbra. À cabeça. maio de 1934. Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. E. E orna-lhe a fronte esquecida. E. que viria De além do muro da estrada. Se espera. Sonha em morte a sua vida. E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia. já libertado. Se não estivesse em dormência. inda tonto do que houvera.

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