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Prosas medievais_convertido

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Prosas medievais: livros de linhagem e Fernão Lopes
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O Pajem do Mestre que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila consoante já fora combinado

,Prosas Medievais de ir começou rijamente a galope encima do cavalo em que estava, dizendo em altas vozes, bradando pela rua: Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre que o Matam! E assim chegou a casa de Álvoro Pais, que era dali grande espaço.As gentes LITERATURA PORTUGUESA que isto ouviam saíam à rua a ver que coisa era, e, começando a falar uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e Prosas Medievais começavam a tomar armas cada um como melhor e mais asinha 10.º C e D podia. Álvoro Pais, que estava prestes e armado com uma coifa na Escola EBS do Cerco cabeça, segundo a usança daquele tempo, cavalgou logo à pressa encima de um cavalo, quando havia anos que não cavalgava, e todos os seus aliados iam com ele, que, bradando a quaisquer que achava, dizia: Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, que filho é delRei dom Pedro. E assim bradavam ele e o Pajem indo pelas ruas.Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre, e assim como viúva que rei não tinha, e como se este outro lhe ficara em lugar de marido, se moveram todos com mão armada, correndo à pressa para onde diziam que isto se fazia, para lhe darem vida e escusar a morte. Álvoro Pais não se detinha ao ir para lá, bradando a todos: acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem porquê.A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha coisa de ver. Não cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro, e perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não minguava quem respondesse que o matava o Conde João Fernandes, por mandado da Rainha.E, por vontade de Deus, todos feitos de um só coração com talante de o vingar, quando foram às portas do Paço, que eram já cerradas antes que eles chegassem, com espantosas palavras começaram de dizer: Onde matam o 1 Mestre? Que é do Mestre? Quem cerrou estas portas? Ali eram ouvidos brados de desvairadas maneiras. Tais aí havia que

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LIVROS DE LINHAGENS E A HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA A historiografia1 portuguesa propriamente dita nasce na época de D. Dinis e é representada pelos Livros de Linhagens pelas Crónicas. Na História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes traçam, em resumo, um quadro desta época, dizendo que: “temos durante o século XIV os seguintes grandes textos históricos, uns conservados, outros perdidos: 1 - A Crónica Geral de Espanha em galego-português, que é de textos castelhanos; 2 - A Crónica Portuguesa de Espanha e Portugal (c. 1342) c. principalmente portuguesas, e da qual se conservou um fragmento da Crónica Breve de Santa Cruz; 3 - Três Livros das Linhagens, sendo os dois últimos da iniciativa de D. Pedro, conde de Barcelos; 4 - A primeira versão da Crónica Geral de 1344, atribuída ao mesmo Conde de que só se conhece a versão castelhana; 5 - A segunda versão da Crónica Geral de 1344, redigida em 1400. Destes, interessam principalmente à historiografia medieval os Livros de Linhagens, "registos de famílias nobres, compilados em épocas diversas, acrescentados e interpolados de cópia em cópia até ao século XVI". Os Livros de Linhagens foram, no século XVI, designados por Nobiliários sobre os quais Joaquim Veríssimo Serrão diz: - "Os quatro Nobiliários revelam interesse para a História política e social, dando notícia das famílias ilustres, sobretudo, dos membros ainda vivos, que se haviam destacado na formação do Reino. "
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Os Livros de Linhagens, a que no século XVI se deu também o nome de Nobiliários, são quatro obras escritas durante a Idade Média onde se descreve a genealogia das principais famílias nobres no reino. O primeiro, também chamado Livro Velho e o quarto, conhecido como Nobiliário do Conde D. Pedro de Barcelos, estão completos. Dos restantes chegaram até nós apenas fragmentos (Segundo de Linhagens, ou Segundo Livro Velho, e Terceiro Livro de Linhagens, ou Nobiliário da Ajuda). O Livro do Conde D. Pedro de Barcelos é o mais desenvolvido dos quatro, tendo o autor pretendido apresentar um resumo da história universal. D. Pedro, Conde de Barcelos, era filho natural de D. Dinis e bisneto de Afonso X. Os Livros de Linhagens foram publicados no século XIX por Alexandre Herculano nos Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores.
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Atividade literária que consiste em registar factos históricos. A historiografia portuguesa nasceu na época de D. Dinis, representando, logo de início, dois géneros: livros de linhagens, que registavam dados genealógicos da nobreza, e crónicas, que evocavam factos históricos ou lendários em que intervinham diversos personagens.

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D. Pedro, conde de Barcelos Conde de Barcelos, nascido em 1285 e falecido em 1354, era filho bastardo de D. Dinis. Era dono de um rico património em terras, doado pelo monarca seu pai. A certa altura, porém, exilou-se em Castela, por ter desagradado ao rei o seu envolvimento nos conflitos civis de então. De regresso a Portugal, culturalmente enriquecido, afastou-se da corte e remeteu-se ao estudo e ao labor literário. Escreveu numerosas cantigas e um Livro de Linhagens.

QUARTO LIVRO DE LINHAGENS OU NOBILIARIO DO CONDE D. PEDRO DE BARCELOS

DA LINHAGEM DOS HOMENS COMO VEM DE PADRE A FILHO, DES O COMEÇO DO MUNDO, E DO QUE CADA UM VIVEU E DE QUE VIDA FOI. E COMEÇA EM ADÃO, O PRIMEIRO HOMEM QUE DEUS FEZ, QUANDO FORMOU O CEU E A TERRA.

PRÓLOGO

Em nome de Deus que e fonte e padre de amor, e porque este amor nom sofre nenhuma cousa de mal, porem em servi-lo de coraçom e carreira real, e nenhum melhor serviço nom pode o homem fazer que ama-lo de todo seu sen e seu proximo como si mesmo, porque este precepto e o que Deus deu a Moises na Vedra Lei. Porem eu, conde Dom Pedro, filho do mui nobre rei Dom Dinis, o houve de catar por grão trabalho, por muitas terras, escrituras que falavam dos linhagens. E vendo as escrituras com grande estudo e em como falavam de outros grandes feitos, compuge este livro por ganhar o seu amor e por meter amor e amizade antre os nobres fidalgos da Espanha. E como quer que antre eles deve haver amizade, segundo seu ordenamento antigo, em dando-se fe pera se nom fazerem mal uns aos outros, a menos de torvarem a este amor e amizade per desfiarem-se2. Esto diz Aristotiles que, se os homens houvessem antre si amizade verdadeira, nom haveriam mester reis nem justiças, ca amizade os faria viver seguramente em o serviço de Deus. E a todolos homens, ricos e pobres, cumpre amizade. E os que som
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A ponto de prejudicarem este amor e amizade por desconfiança

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meninos hão mester quem os crie e ensine; e, se som mancebos, hão mester quem os conselhe pera fazer sas cousas seguramente; e, se forem velhos, hão mester que lhes acorram aos seus desfalicimentos. E os amigos verdadeiros devem-se guardar em sas palavras de dizer cousa per que seus amigos nom venham a fama ou a mal, ca per i se desataria a amizade. E nom se devem mover a crer de ligeiro as cousas que lhes deles digam de mal, e devem-se guardar segredos e nom devem retraer as obras que se fezerom. E porque nenhuma amizade nom pode ser tão pura, segundo natura come daqueles que descendem de um sangue, porque estes movem-se mais de ligeiro as cousas por onde se mantem, houve de declarar este livro per títulos e per alegações, que cada um fidalgo de ligeiro esto pudesse saber e esta amizade fosse descoberta e nom se perdesse antre aqueles que a deviam haver. E o que me a esto moveu forom sete cousas. A primeira, pera se cumprir e guardar este precepto de que primeiro falamos. A segunda, e por saberem estes fidalgos de quais descenderam de padre a filho e das linhas travessas. A terceira, por serem de um coraçom de haverem de seus enmigos que som em estruimento da fe de Jesu Cristo, ca, pois eles vem de um linhagem e sejam no quarto ou no quinto grau ou dali acima, nom devem poer deferença antre si. E mais que som chegados como primos e terceiros, ca mais nobre cousa e, e mais santa, amar o homem a seu parente alongado per divido3, se bom e, que amar ao mais chegado, se faleçudo e. E os homens que nom som de bom conhecer nom fazem conta do linhagem que hajam, senão de irmãos e primos coirmãos e segundos e terceiros; e dos quartos acima nom fazem conta. Estes tais erram a Deus e a si, ca o que tem parente no quinto ou sexto grau, ou dali acima, se e de grão poder, deve-o servir porque vem de seu sangue; e se e seu igual, deveo de ajudar; e se e mais pequeno que si, deve-lhe fazer bem e todos devem ser de um coraçom. A quarta, por saberem os nomes daqueles donde vem e algumas bondadades que em eles houve. A quinta, por os reis haverem de conhecer aos vivos com mercees por os merecimentos e trabalhos e grandes lazeiras que receberom os seus avos em se ganhar esta terra de Espanha per eles. A sexta, pera saberem como podem casar sem pecado, segundo os sacramentos da Santa Igreja. A setima, pera saberem de quais moesteiros som naturais e benfeitores. E por esta materia ser mais crara e os nobres fidalgos saberem por grã parte dos linhagens dos reis e emperadores e dos feitos em breve4 que forom e passarom nas outras terras do começo do mundo, u os seus avos forom a demandar suas aventuiras por que eles ganharom nome e os que dele decenderom, por algumas nobrezas que ali fezerom, falaremos primeiro do linhagem dos homens e dos reis de Jerusalem, des Adão ataa
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Parente afastado Em resumo

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nacença de Jesu Cristo; e das conquistas que fezerom os reis de Síria e el-rei Farão e
Livros de Linhagens

Os objetivos morias destes registos genealógicos Divisão do livro

Do que se falará neste livro

Pedido do Conde

Factos de ordem social que deram origem aos Livros de Linhagens.

Os Livros de Linhagens não são propriamente uma obra de literatura. Herculano diz que estes registos familiares, existindo, talvez, desde o início da nacionalidade, cor¬responderam a uma urgente necessidade social. A introdução de lendas, troços de história, batalhas e anedotas ameniza a aridez da genealogia e dá-lhes, então, interesse literário. Lê-se logo no inícío do prólogo: "meter amor e amizade antre os nobres fidalgos de Espanha" e entre "todolos os homeens ricos e pobres". Salienta, depois, a solidariedade de criar e ensinar os meninos, aconselhar os mancebos e socorrer os mais velhos. O livro está dividido em "títolos e alegações" para que a amizade "non se perdesse antre aqueles que a deviam haver. E o que me a esta moveo foram sete causas". Sendo, entre nós, a primeira tentativa de uma História Geral, começa a narração da história com os filhos de Adão, passando pela história de Jerusalém e Troia até "donde descendem os Reis de Portugal", "donde descendem os nobres fidalgos de Castela e de Portugal e Galiza". Roga que acrescentem nos títulos deste livro "aqueles que adiante descenderem dos nobres fidalgos de Espanha, e os ponham e escrevam nos lugares u convem". Frequência de matrimónios celebrados em contrário das disposições eclesiásticas. Lei da avoenga (direito de preferência no caso da venda dos bens hereditários da família). Abusos do direito de padroado (relaciona-se com os mosteiros).

Nabucodonosor em Jerusalem. Des i falaremos dos reis da Troia e dos reis de Roma e emperadores, e dos reis da Gram-Bretanha, que ora se chama Inglaterra. Des i dos reis gentis que houve em Persia, e reis e emperadores que houve no Egito e em Roma, e da destruiçom de jerusalem e como d'i levou Vaspasiano pera Roma os novecentos mil judeus; e dos Godos como entrarom a Espanha e o tempo que em ela viverom, e como ao depois foi perduda per rei Rodrigo, e como foi cobrada per el-rei Palaio5, o Montesinho, e per el-rei Dom Afonso o Catolico e per outros reis que apos eles vierom; e como, per soberba de el-rei Dom Ordonho de Leão, os Castelãos fezerom juízes que mantiveram a terra em dereito. E de como destes juízes decenderom os reis de Castela, de uma parte, e da outra, os reis de Navarra. Des i falaremos dos reis de Navarra e dos de Aragom e dos de França e donde decenderom os reis de Portugal. Livros de Linhagens do Conde D. Pedro

ROTEIRO DE LEITURA

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Pelágio

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A imagem de monarca ideal construída pelo Conde é definida pela figura de um rei que domina a hierarquia da nobreza, é Ele quem define escalões, confere prestígio. O rei constitui-se, nessa visão, como elemento chave na aplicação da Justiça e das leis. As leis elaboradas pelo rei são feitas para todos do reino. Dessa forma centralizaria sua autoridade, sobrepondo-a aos poderes locais. Essa centralização, no entanto só seria alcançada se governasse de maneira piedosa, com justiça e misericórdia. A Justiça deixaria de ser um privilégio para tornar-se um direito de todos, em nome do rei. O Bom rei deveria desenvolver ações a fim de que houvesse, segundo coloca o Conde Pedro de Barcelos ainda no Prólogo do Livro de Linhagens, “amor” e “amizade” entre seus súditos, zelando e promovendo o bem comum. A figura do rei como regulador e promotor do bem comum é necessária na medida em que a nobreza encontra-se fragmentada, desorientada e sem consciência de grupo e da importância que possui dentro do reino. Dois valores que permitiriam à nobreza ajudar-se mutuamente: “amor” e “amizade” estariam sendo deixados de lado. A amizade, considerada como o maior de todos os bens, seria capaz de impedir discórdias. Valores como fidelidade, lealdade e assistência mútua estão ligados a ela. São valores que fazem parte da ética cavaleiresca, princípio básico que deve organizar a sociedade. Se houvesse fidelidade entre os nobres não haveria necessidade dos reis. Em uma sociedade configurada a partir de vínculos pessoais, a fidelidade é imprescindível. O rei, na conceção do Conde, só é digno de fidelidade se souber respeitar os foros e costumes nobiliárquicos. Deve apoiar-se nos vínculos pessoais que sustentam a sociedade, a fim de manter a justiça e ordenar a mesma. A imagem do rei pacífico, capaz de promover a paz no reino é a personificação desse ideal. O bom rei é ainda o rei cristão, temente a Deus. É o rei da Reconquista, que luta em defesa da cristandade, combate mouros, reconquista territórios e garante a unidade da cristandade. (Adriana Mocelim de Souza Lima, in A construção de um modelo ideal de monarca no livro de linhagens do Conde Pedro de Barcelos)

FERNÃO LOPES
1380? - 1460?

Os dados biográficos relativos a Fernão Lopes são escassos. Presume-se que tenha nascido em Lisboa, entre 1380 e 1390, no seio de uma família da pequena burguesia urbana, provavelmente mesteirais. A data da sua morte é igualmente incerta, calculandose que tenha ocorrido por volta de 1460. Nada se sabe, com certeza, da sua formação escolar. Poderá ter feito os seus estudos numa das escolas que a Igreja mantinha para formação do clero; ou talvez tenha mesmo frequentado os Estudos Gerais (universidade), o que seria mais condizente com a importância dos cargos que desempenhou. Um documento de 1418 revela que era "guardador das escrituras do Tombo", isto é, responsável pelos documentos oficiais da coroa portuguesa, e "escrivão dos livros" (secretário) de D. João I, tendo exercido as mesmas funções junto de D. Duarte. A partir de 1422 exerceu também as funções de "escrivão da puridade" do infante D. Fernando. Foi ele que lavrou o testamento desse infante, em 1437, altura em que era já "tabelião-geral do reino". Na sequência do fracasso da expedição a Tânger, o infante D. Fernando foi aprisionado pelos mouros, juntamente com muitos outros portugueses, entre eles um filho de Fernão Lopes, mestre Martinho, médico do infante. Foi em 1434 que o rei D. Duarte lhe confiou a tarefa de pôr em crónica os feitos dos antigos reis de Portugal, para o que lhe atribuiu uma tença anual. Assim, foi ele o primeiro cronista-mor do reino. No entanto, é possível que este documento constitua apenas uma confirmação de instruções anteriores, e que a redação dessas crónicas tenha começado por volta de 1422. O certo é que, ao longo de vários anos, Fernão Lopes se 6

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incumbiu dessa tarefa, tendo redigido as crónicas dos três últimos reis, D. Pedro, D. Fernando e D. João I. Presume-se que terá igualmente redigido as crónicas dos primeiros reis de Portugal, mas, se assim foi, esses textos desapareceram completamente. Em 1454 foi dispensado das suas funções de "guardador das escrituras do Tombo", devido à idade avançada, sendo substituído por Gomes Eanes de Azurara. A partir de 1459 deixa de haver referências escritas a Fernão Lopes. O facto de exercer cumulativamente as funções de "guardador das escrituras" facilitou a sua atividade de cronista, beneficiando do acesso exclusivo a informações oficiais. O mérito de Fernão Lopes é inegável em dois níveis. Do ponto de vista literário, deve ser considerado o primeiro grande prosador da língua portuguesa. Nas suas mãos a língua começa a ser capaz de "dizer" as coisas de forma expressiva, a ganhar maleabilidade e vivacidade. Como "historiador", afasta-se da tradição cronística anterior. A crónica deixa de ser um mero relato elogioso dos feitos dos poderosos, para se transformar numa narração de acontecimentos, tanto quanto possível verdadeira. Pela primeira vez em Portugal há a preocupação de fundamentar o relato em documentos ou, em alternativa, de considerar as várias versões explicativas. Por outro lado, não se limita a seguir os passos das suas personagens; procura, sim, dar uma visão abrangente dos acontecimentos, tendo em conta os aspetos políticos, económicos e sociais.

1. Obras conservadas Fernão Lopes, ao ser arquiveiro da Torre do Tombo, tem acesso a muitos documentos, o que lhe facilita a redação das suas crónicas. Só conservamos dele três crónicas: 1) Crónica do rei D. Pedro, onde pela primeira vez aparece em prosa a história de Inês de Castro. 2) Crónica do rei D. Fernando, onde se tratam os acontecimentos do reinado de D. Fernando e os que se passam um pouco depois da sua morte, quando governa a rainha regente Leonor Teles, figura à qual Fernão Lopes lhe presta especial atenção. 3) Crónica do rei D. João, a mais volumosa de todas. Está dividida em duas partes: a) Primeira parte → pré-Aljubarrota: narra os acontecimentos que tiveram lugar após a morte de D. Fernando até que se designa como rei de D. João I. b) Segunda parte → pós-Aljubarrota: narra os acontecimentos do reinado de D. João I. Há indícios de que Fernão Lopes tivesse escrito outras crónicas anteriores à de D. Pedro, já que ele mesmo faz nestas obras referências a crónicas como a de D. Sancho I, que diz que ele escreveu mas que não conservámos. 7

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PRÓLOGO DA CRÓNICA DE D. PEDRO (excerto) Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, sómente d'aquella para que o real poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz, é nossa intenção, n'este prologo, muito curtamente falar, não como buscador de novas razões, por propria invenção achadas, mas como ajuntador, em um breve mólho, dos ditos de alguns que nos aprouveram. Á uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do que fala a historia; á outra, por seguirmos inteiramente a ordem do nosso arrazoado, no primeiro prologo já tangida. E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessaria ao rei, se o é assim ao povo: vós, n'aquelle estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis lêr por esta maneira. Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão, e isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vicios e virtudes. Esta virtude é mui necessaria ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que elle puzer, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, póde cada um ganhar por obra de bom entendimento, e ás vezes nascem alguns assim naturalmente a ella dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vicios sejam inclinados. A razão por que esta virtude é necessaria nos subditos, é por cumprirem as leis do principe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e quem taes leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas principe não animado, e o rei é principe animado, porque ellas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessaria, assim no povo como no rei, porque sem ella nenhuma cidade nem reino pode estar em socego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode supportar muito tempo, porque, como a alma supporta o corpo e partindo-se d'elle, o corpo se perde, assim a justiça supporta os reinos e partindo-se d'elles perecem de todo. Ora, se a virtude da justiça é necessaria ao povo, muito mais o é ao rei; porque se a lei é regra do que se ha de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a ha de encaminhar, porque a lei é principe sem alma, como dissemos, e o principe é lei e regra da justiça com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excellencia sobre as leis: cá o rei deve de ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê ás leis a execução; de outra guisa, mostrar-se-hia seu reino cheio de boas leis e maus costumes, que era cousa torpe de vêr. Pois duvidar se o rei ha de ser justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra ha de ser direita, a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por ella fazer. […]

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CAPÍTULO VI (excerto) COMO ELREI MANDOU DEGOLLAR DOUS SEUS CRIADOS, PORQUE ROUBAROM HUUM JUDEU E O MATAROM

Este rei Dom Pedro, emquanto viveu, usou muito de justiça sem affeição, tendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhum perdoava os erros que fazia, por criação nem bem querença que com elle houvesse. […] E pois que escrevemos que foi justiçoso, por fazer direito em reger seu povo, bem é que ouçaes duas ou três cousas, por vêrdes o geito que n'isto tinha. Assim adveiu que pousando elle nos paços de Bellas, que elle fizera, dois seus escudeiros que gram tempo havia que com elle viviam, sendo ambos parceiros, houveram conselho que fossem roubar um judeu que pelos montes andava vendendo especiaria e outras cousas. E foi assim, de feito, que foram buscar aquella suja préa, e roubaram-no de tudo, e, o peior d'isto, foi morto por elles. Sua ventura, que lhe foi contraria, azou de tal guisa que foram logo presos e trazidos a el rei, alli hu pousava. El-rei, como os viu, tomou gram prazer por serem filhados, e começou-os de perguntar como fôra aquillo. Elles, pensando que longa criação e serviço que lhe feito haviam, o demovesse a ter algum geito com elles, não tal como tinha com outras pessoas, começaram de negar, dizendo que de tal cousa não sabiam parte. Elle, que sabia já de que guisa fôra, disse que não haviam por que mais negar, que ou confessassem como o mataram, senão, que a poder de crueis açoutes lhe faria dizer a verdade. Elles em negando viram que el-rei queria pôr em obra o que lhe por palavra dizia, confessaram tudo assim como fôra; e el-rei, sorrindo-se, disse que fizeram bem, que tomar queriam mister de ladrões e matar homens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro nos judeus, e depois viriam aos christãos. E em dizendo estas e outras palavras, passeava perante elles de uma parte á outra, e parece que lembrando-lhe a criação que n'elles fizera, e como os queria mandar matar, vinham-lhe as lagrimas aos olhos, por vezes. Depois, tornava asperamente contra elles, reprehendendo-os muito do que feito haviam. E assim andou por um grande espaço. Os que hi estavam, que aquesto viam, suspeitando mal de suas razões, afincavamse muito a pedir mercê por elles, dizendo que por um judeu astroso não era bem morrerem taes homens, e que bem era de os castigar por degredo ou outra alguma pena, mas não mostrar contra aquelles que criara, pelo primeiro erro, tão grande crueza. El-rei, ouvindo todos, respondia sempre que dos judeus viriam depois aos christãos. Em fim d'estas e outras razões, mandou que os degolassem. E foi assim feito.

CAPÍTULO XLIV (excerto) 9

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Como foi trasladada Dona Inês para o mosteiro de Alcobaça, e da morte d'el-rei Dom Pedro. Porque semelhante amor, qual el-rei Dom Pedro houve a Dona Inês, raramente é achado em alguma pessoa, porém disseram os antigos que nenhum é tão verdadeiramente achado, como aquelle cuja morte não tira da memoria o grande espaço do tempo. E se algum disser que muitos foram já, que tanto e mais que elle amaram, assim como Adriana, e Dido, e outras que não nomeamos, segundo se lê em suas epistolas, respondese que não falamos em amores compostos, os quaes alguns autores abastados de eloquencia, e florescentes em bem ditar, ordenaram segundo lhes prouve, dizendo em nome de taes pessoas razões que nunca nenhuma d'ellas cuidou; mas falamos d'aquelles amores que se contam e leem nas histórias, que seu fundamento teem sobre verdade. Esse verdadeiro amor houve el-rei Dom Pedro a Dona Inês, como se d'ella namorou sendo casado e ainda infante, de guisa que, pero d'ella no começo perdesse vista e fala, sendo alongado, como ouvistes, que é o principal azo de se perder o amor, nunca cessava de lhe enviar recados, como em seu logar tendes ouvido. Quanto depois trabalhou pela haver, e o que fez por sua morte, e quaes justiças n'aquelles que em ella foram culpados, indo contra seu juramento, bem é testemunho do que nós dizemos. E sendo lembrado de lhe honrar seus ossos, pois lhe já mais fazer não podia, mandou fazer um moimento de alva pedra, todo mui subtilmente obrado, pondo elevada sobre a campa de cima a imagem d'ella, com corôa na cabeça, como se fôra rainha. E este moimento mandou pôr no mosteiro de Alcobaça, não á entrada, onde jazem os reis, mas dentro na egreja, á mão direita, a cerca da capella-mór. E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde jazia, o mais honradamente que se fazer pode, cá ella vinha em umas andas, muito bem corrigidas para tal tempo, as quaes traziam grandes cavalleiros, acompanhadas de grandes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e donzellas e muita clerezia. Pelo caminho estavam muitos homens com cirios nas mãos, de tal guisa ordenados, que sempre o seu corpo foi, por todo o caminho, por entre cirios accesos; e assim chegaram até ao dito mosteiro, que eram d'alli dezesete leguas, onde com muitas missas e grão solemnidade foi posto seu corpo n'aquelle moimento. E foi esta a mais honrada trasladação que até áquelle tempo em Portugal fôra vista. Semelhavelmente mandou el-rei fazer outro tal moimento, e tambem obrado, para si, e fêl-o pôr a cerca do seu d'ella, para quando acontecesse de morrer o deitarem n'elle. E estando el-rei em Estremoz, adoeceu de sua postremeira dôr, e jazendo doente, lembrou-se como, depois da morte de Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, elle fôra certo que Diogo Lopes Pacheco não fôra em culpa da morte de Dona Inês, e perdoou-lhe todo queixume que d'elle havia, e mandou que lhe entregassem todos seus bens: e assim o fez depois el-rei Dom Fernando, seu filho, que lh'os mandou entregar todos, e lhe alçou a sentença, que el-rei seu padre contra elle passára, quanto com direito poude. E mandou el-rei em seu testamento, que lhe tivessem em cada um anno, para sempre, no dito mosteiro, seis capellães que cantassem por elle cada dia uma missa officiada, e sairem sobre ella com cruz e agua benta. E el-rei Dom Fernando, seu filho, 10

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por se isto melhor cumprir, e se cantarem as ditas missas, deu depois ao dito mosteiro, em doação por sempre, o logar que chamam as Paredes, termo de Leiria, com todas as rendas e senhorio que n'elle havia. E deixou el-rei Dom Pedro, em seu testamento, certos legados, a saber: á infante Dona Beatriz, sua filha, para casamento, cem mil libras; e ao infante Dom João, seu filho, vinte mil libras; e ao infante Dom Diniz, outras vinte mil; e assim a outras pessoas. E morreu el-rei Dom Pedro uma segunda-feira de madrugada, dezoito dias de janeiro da era de mil e quatrocentos e cinco annos, havendo dez annos e sete mezes e vinte dias, que reinava, e quarenta e sete annos e nove mezes e oito dias de sua idade. E mandou-se levar áquelle mosteiro que dissemos, e lançar em seu moimento, que está junto com o de Dona Inês. E porquanto o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, não era então ahi, foi el-rei detido e não levado logo, até que o infante veiu; e á quarta-feira foi posto no moimento. E diziam as gentes, que taes dez annos nunca houve em Portugal, como estes que reinára el-rei Dom Pedro.

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CRÓNICA DE D. JOÃO I| PRÓLOGO DA CRÓNICA DE D. JOÃO I

Grande licença 6 deu a afeiçom a muitos que teverom cárrego7 d'ordenar estórias, moormente dos senhores em cuja mercê8 e terra viviam e u forom nados seus antigos avós, seendo-lhe muito favorávees no recontamento de seus feitos; e tal favoreza9 como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom é salvo conformidade dalgüa cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homees per longo costume e tempo forom criados geera üa tal conformidade antre o seu entendimento e ela que, avendo de julgar algüa sua cousa, assim em louvor como per contrairo, nunca per eles é dereitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom.

O afeto à terra pode levar à perda da objetividade.

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atrevimento encargo 8 dependência 9 parcialidade

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Outra cousa geera ainda esta conformidade e natural inclinaçom, segundo sentença dalguüs, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame10, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritos geerados de taes viandas 11 tem üa tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alguüs outros consideram que esto decia na semente, no tempo da geeraçom; a qual despõe per tal guisa 12 aquelo que dela é geerado, que lhe fica esta conformidade tam bem acerca da terra como de seus dívidos13. E assi parece que o sentio Túlio14, quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós meesmos, porque üa parte de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o juizo do homem, acena de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega15. Esta mundanal afeiçom fez a algunsestoriadores que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que16 homens de boa autoridade fossem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros 17 escusos, por as mínguas das terras de que eram em certos passos claramente nom seerem vistas; e especialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria Dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, ouve com o nobre e poderoso Rei Dom Joam de Castela, poendo parte de seus boõs feitos fora do louvor que mereciam, e eadendo18 em alguãs outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo-se a publicar esto em vida de taes que lhe forom companheiros, bem sabedores de todo o contrairo. Nós certamente levando outro modo, posta a de parte toda a afeiçom que por aazo19 das ditas razões aver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mestura, leixando20 nos boõs aqueecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao poboo quaesquer contrairas cousas, da guisa que aveerom. E se o Senhor Deos a nós outorgasse21 o que a alguüs escrevendo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem dúvida nom somente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom queriamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso. E nós, engando22 per ignorancia de velhas escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa voontade. Ó! com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguagens e terras! e isso meesmo públicas escrituras de muitos cartários e outros logares, nas quaes, depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom aver não podemos da conteúda em esta obra. E seendo achado em algunstg livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas.
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O sentimento de dívida com a pessoa que lhe paga ao cronista também pode levar à perda da objetividade.

Crítica implícita a López de Ayala pela sua parcialidade.

Pretensão de objetividade.

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Diferença entre erro vs. mentira e certeza vs. verdade. - Referência ao importante trabalho de pesquisa e análise das fontes, justificando assim qualquer erro.

fome alimentos 12 de tal forma 13 parentes 14 Cícero, escritor romano 15 falha, erra 16 Embora. 17 atalhos 18 acrescentando 19 Razão, causa 20 deixando 21 autorizasse 22 seguindo

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Se outros per ventura em esta crónica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das estórias, desprazer-lhe-à de nosso razoado23, muito ligeiro a eles d'ouvir e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé; doutra guisa, ante nos calariamos que escrever cousas falsas.

Pretensão de fazer uma prosa simples, de subordinar a formosura formal à verdade.

Que lugar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto despeso24 nom basta pera ordenar a nua verdade? Porém, apegando-nos a ela firme, os claros feitos, dignos de grande renembrança, do mui famoso Rei Dom Joan, seendo Meestre, de que guisa matou o conde Joam Fernández, e como o poboo de Lisboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor, e depois outros alguüs do reino, e d'i em deante como reinou e em que tempo, breve e sãamente contados, poemos em praça na seguinte ordem.

Diferenciação entre as duas partes da crónica. Referência à morte do Conde Andeeiro25 (Joam Fernández).

FICHA DE TRABALHO 1. Fernão Lopes teve necessidade de expor, no inicio da 1.ª parte da Crónica de El.Rei D. João I a sua conceção sobre o papel do historiador. Que erros apontou aos historiadores anteriores? 2. 3. Tais erros deveram-se, segundo ele, a três fatores. Indica-os. Que expressão encontrou para os sintetizar?

4. Para que não lhe aconteça o mesmo, que processo de trabalho se propõe utilizar? 5. Comenta a frase: “poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade” 6. Fernão Lopes não exclui a hipótese de se enganar. Apesar disso exige inteira credibilidade ao que escreve. Como explicas esta aparente contradição? 7. Conclui sobre a atualidade do conceito de história que esteve por base na elaboração deste Prólogo.

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discurso dispendido 25 Num dos capítulos conta-se como se produz este facto: o Mestre de Avis é convidado a um convite no Paço, com Leornor Teles e o Conde Andeeiro. A estratégia para matar o conde consistiu en criar confussão dizendo que íam matar o Mestre de Avis, pelo que o povo vai socorrer o Mestre e, nessa confussão, alguém mata o Conde Andeiro. Assim, a morte do Conde Andeeiro da mão do Mestre de Avis ou de algum dos seus é vista como uma fazanha em defessa própria.

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CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS SUAS CRÓNICAS

Fernão Lopes expõe muito pormenorizadamente no prólogo da Crónica de D. João I qual é a sua conceção da História, mas o que ele diz , nem sempre coincide com o que faz na prática:

1) Perda da objetividade pelo afeto à terra e o sentimento de dívida perante a pessoa que
encarrega as crónicas, o que faz que se exagere o positivo e reduza o negativo. Diz Fernão Lopes que isto é que lhe passa a López de Ayala na sua Crónica del rei D. Juan I, na que considera que privilegia os feitos de D. Juan I de Castilha por cima dos de D. João I de Portugal. Ele diz que quer evitar isto, mas não sempre o consegue já que é evidente o favoritismo pela Casa de Avis, como podemos comprovar nalguns trechos:

a) Quando faz o cômputo das vítimas de Aljubarrota diz que alguns castelhanos foram
encontrados mortos e não tinham qualquer ferimento porque morreram de medo perante os portugueses. b) Menciona que em Aljubarrota os castelhanos fugiam só porque os portugueses gritavam. c) No retrato duma batalha menor diz que os portugueses lutavam contra os castelhanos numa proporção de um português por cada seis castelhanos. Entre os castelhanos houve centenares de mortos, mais de dez prisioneiros e um ferido, mentes que do lado dos portugueses só houve um morto e um ferido.

2) Faz referência à diferença entre verdade e certeza, comprometendo-se a contar a verdade
mas não a certeza, já que pode que os dados lhe cheguem transformados, de jeito que não pode estar seguro de que conta a certeza absoluta. Nega a mentira, mas não desbota a possibilidade de cair em erros. verdade mentira certeza erro

3) Em relação com o anterior, Fernão Lopes consulta multidão e variedade de fontes, já que
faz apuradas investigações. Faz referência a que muitas das fontes estão em pergaminhos muito antigos e é possível que não as interprete corretamente. Assim, quando há dúvida em quanto às fontes expõe-lhe ao leitor as diversas versões das diferentes fontes para que ele escolha.

a) Tipos de fontes: 1. Narrativas: crónicas doutros autores, em especial de López de Ayala, ou anónimas,
às que tem aceso por ser o guarda-mor da Torre do Tombo. Assim, cita até cinco narrativas anónimas que consulta sobre o tema de Aljubarrota e são frequentes expressões como alguns dizem ou outros historiadores dizem que. 2. Documentais: atas de conselhos ou das Cortes, bulas eclesiásticas, correspondência epistolar ou epitáfios que ele denomina bitafes antigos.

b) Análise crítica das fontes: 1. Confronta a documentação contraditória e decide-se pela mais razoável. 2. Em caso de dúvida:

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Expõe as diferentes versões para que o leitor escolha qual quiser. Um exemplo disto encontramo-lo na narração do matrimónio póstumo de Inês de Castro e D. Pedro I na Crónica do rei D. Pedro. Prefere os documentos oficiais à opinião de narrativas literárias.

4) No prólogo expõe a sua pretensão de usar uma prosa simples, sem ornamentação que possa
levar a ambiguidade ou falsas interpretações. Porém, na prática não sempre faz isto já que há ocasiões nas que usa metáforas, comparações, muita adjetivação ornamental. É frequente também uma prosa emotiva (exclamações, implicação emocional), por isso se diz dele que chora com os que choram e ri com os que rim.

5) Pormenorização na que em muitas ocasiões se descobrem dados fictícios: a) Transcrição de diálogos diretos. b) Descrição de pormenores dificilmente comprováveis: sentimentos dos soldados, número
exato de pedradas contra um forte...

6) Protagonismo do povo, que denomina arraia miúda: a) Faz ouvir a voz de alfaiates, pastores... Exemplos: insultos a Leonor Teles perante o
casamento da sua filha com o rei castelão; gritaria quando se pensa que o Mestre de Avis vai ser assassinado. Isto tem também uma certa dose de subjetividade. b) Denomina-o ventres ao sol quando sai à rua com espírito revolucionário. c) Apesar do seu protagonismo, também critica o povo quando exerce uma violência injusta. Exemplo: “Alvoroço popular”

7) Comunicação direta com o leitor, pretendendo relatar as cenas num tom coloquial e de
forma visual. Assim, destaca a expressão e ora guardai como se fôsses presente, ou outras como vejamos ou escutemos. Fernão Lopes é considerado o iniciador da história moderna, já que nas suas crónicas inclui todas as categorias sociais portuguesas, atingindo o povo um grande protagonismo e, ademais, defende a verdade nua e crua. __________________ CAPÍTULO XI [CRÓNICA DE D. JOÃO I] DO ALVOROÇO QUE FOI NA CIDADE CUIDANDO QUE MATAVAM O MESTRE, E COMO ALI FOI ÁLVORO PAIS E MUITAS GENTES COM ELE.

O Pajem do Mestre que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila consoante já fora combinado, começou de ir rijamente a galope encima do cavalo em que estava, dizendo em altas vozes, bradando pela rua: − Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre que o Matam! E assim chegou a casa de Álvoro Pais, que era dali grande espaço.

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As gentes que isto ouviam saíam à rua a ver que coisa era, e, começando a falar uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam a tomar armas cada um como melhor e mais asinha podia26. Álvaro Pais, que estava prestes e armado com uma coifa na cabeça, segundo a usança daquele tempo, cavalgou logo à pressa encima de um cavalo, quando havia anos que não cavalgava, e todos os seus aliados iam com ele, que, bradando a quaisquer que achava, dizia: Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, que filho é delRei dom Pedro. E assim bradavam ele e o Pajem indo pelas ruas. Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre, e assim como viúva que rei não tinha, e como se este outro lhe ficara em lugar de marido, se moveram todos com mão armada, correndo à pressa para onde diziam que isto se fazia, para lhe darem vida e escusar a morte. Álvaro Pais não se detinha ao ir para lá, bradando a todos: acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem porquê. A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha coisa de ver. Não cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro, e perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não minguava quem respondesse que o matava o Conde João Fernandes, por mandado da Rainha. E, por vontade de Deus, todos feitos de um só coração com talante de o vingar, quando foram às portas do Paço, que eram já cerradas antes que eles chegassem, com espantosas palavras começaram de dizer: Onde matam o Mestre? Que é do Mestre? Quem cerrou estas portas? Ali eram ouvidos brados de desvairadas maneiras. Tais aí havia que certificavam que o Mestre era morto, pois as portas estavam cerradas, dizendo que as britassem para entrar adentro, e que veriam que era do Mestre ou que coisa era aquela. Alguns deles bradavam por lenha e que viesse lume para porem fogo aos Paços e queimar o traidor e a aleivosa. Outros se afincavam pedindo escadas para subir acima e verem que era do Mestre, e em tudo isto era o arruído tamanho que se não entendiam uns com os outros nem determinavam coisa nenhuma. E não somente era isto à porta dos Paços mas ainda ao redor deles, por onde homens e mulheres pudessem estar. Uns vinham com feixes de lenha, outros traziam carqueja para acender o fogo, e cuidavam queimar assim o muro dos Paços, dizendo muitos doestos contra a Rainha. De cima não minguava27 quem bradasse que o Mestre era vivo e o Conde João Fernandes morto, mas isto não queria nenhum crer, dizendo: − Pois se vivo é mostrai-no-lo e vê-lo-emos. Então os do Mestre, vendo tamanho alvoroço como este, que cada vez se acendia mais, disseram que fizesse sua mercê de se mostrar àquelas gentes, doutra guisa estas poderiam
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rapidamente faltava

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quebrar as portas ou pôr-lhes o fogo, e entrando assim por ali dentro à força não as poderiam tolher de fazer o que quisessem. Então se mostrou o Mestre a uma grande janela que dava para a rua onde estava Álvoro Pais e a mais força da gente, e disse: − Amigos apacificai-vos, que eu vivo e são sou a Deus graças! E tanta era a turvação deles, e tinham já assim em crença que o Mestre era morto, que tais aí havia que teimavam que não era aquele, porém, conhecendo-o todos claramente, houveram grande prazer quando o viram, e diziam uns para os outros: − Oh que mal que fez! Pois que matou o traidor do Conde e que não matou logo a aleivosa com ele. Crede em Deus que ainda lhe há de vir algum mal por ela. Olhai e vede que maldade tão grande, mandaram-no chamar donde já ia em seu caminho para o matarem aqui por traição, Oh aleivosa! Já nos matou um senhor 28 e agora queria matarnos outro! Deixai-la, que ainda há de acabar mal por estas coisas que faz. E sem dúvida que se eles entravam dentro não se livraria a Rainha de morte, e já fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Mestre estava à janela e todos olhavam para ele, dizendo: − Oh Senhor! Como vos quiseram matar à traição, bento seja Deus que vos guardou desse traidor. Vinde-vos, dai ao demo esses Paços, não sejais lá mais! E em dizendo isto muitos choravam pelo prazer de o ver vivo. Vendo ele então que nenhuma dúvida tinha quanto à sua segurança, desceu abaixo e cavalgou com os seus, acompanhado de todos os outros, tantos que era maravilha de ver. Os quais, mui ledos em volta dele, bradavam dizendo: − Que nos mandais fazer, Senhor? Que quereis que façamos? E ele lhes respondia, mal podendo ser ouvido, que lho agradecia muito, mas que por então não havia deles mais mister. E assim se encaminhou para os Paços do Almirante, onde pousava o Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, com que havia de comer. As donas da cidade, na rua por onde ele ia, saíam todas às janelas com prazer, dizendo a altas vozes: − Mantenha-vos Deus, Senhor. Bento seja Deus que vos guardou de tamanha traição que vos tinham preparada. Pois que ninguém por então podia outra coisa pensar. E andando assim até à entrada do Rossio, o Conde veio-lhe ao encontro com todos os seus e outros bons da cidade que o aguardavam, assim como AfonsEanes Nogueira, e Martim Afonso Valente, e Estêvão Vasques Filipe, e Álvoro do Rego e outros fidalgos, e quando viu o Mestre vir daquela guisa, foi-o abraçar com prazer e disse:
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O povo acreditava que ela, D. Leonor, tinha contribuído para a morte de D. Fernando.

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− Mantenha-vos Deus, Senhor. Sei que nos tirastes de grande cuidado, mas vós merecíeis esta honra melhor do que nós. Andai, vamos logo comer. E assim foram para os paços onde pousava o Conde. E estando eles para se assentar à mesa, vieram dizer ao Mestre como os da cidade queriam matar o Bispo, e que faria bem de lhe ir acorrer, e o Mestre quisera lá ir. Disse então o Conde: − Não cureis disso de o matarem, Senhor, quer o matem quer não, pois, posto que ele morra, não faltará outro bispo português que vos sirva melhor do que ele. Ao dito do Conde cessou o Mestre de sua boa vontade, e o Bispo foi morto desta guisa que se segue.
1. Indique os momentos fundamentais do texto, mostrando que eles se vão sucedendo em espaços diferentes, dando-se sucessivamente um estreitamento de espaço. 2. Mostre que há, nos movimentos do povo, um crescendo de emotividade, atingindo-se mesmo o climax. Qual lhe parece ser a personagem − estratega a conduzir o povo para um fim preconcebido? 4.Qual é a importância da personagem coletiva em evidência no texto?

3.

5.

Há no texto uma certa dinâmica e um certo tom dramáticos. Se está de acordo, justifique.

6. Há dados no texto que sugerem uma certa predestinação divina em favor do empreendimento do Mestre. Justifique a afirmação.

7.

Fernão Lopes encontrou uma linguagem e um estilo apropriados a um discurso de dinâmica ao mesmo tempo narrativa, descritiva e dramática. Confirme a afirmação, fazendo a análise estilística do texto.

«O Prólogo da Crónica de D. João I obedece a um objetivo fundamental: evidenciar a atitude crítica do cronista, que só pretende atingir a «clara certidom da verdade», com manifesto desprezo pelos valores literários: «Se outros per ventuira em esta crónica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das estarias, desprazer-lhes-á "de nosso razoado, muito ligeiro a eles de ouvir ...». E Fernão Lopes volta a glosar o mesmo tópico de «falsa modéstia», opondo a procura da verdade à beleza da expressão literária: «Mas nós [...], leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitam aqueles que ouvem, antepoemos a simpres verdade que a afremosentada falsidade». Contudo, o repúdio da literariedade, tão insistentemente repetido nas advertências do cronista, é totalmente desmentido pela obra. [...] Assim, em vez de uma narração impessoal, na terceira pessoa do singular, em que os acontecimentos históricos se encadeassem linearmente por ordem cronológica, encontram-se na obra de Fernão Lopes, sobretudo na Crónica de D. Fernando e na Crónica de D. João I, conjuntos de cenas, em que se movimentam personagens, algumas das quais elevadas a primeiro plano, e em que se estabelecem relações de causa a efeito entre os acontecimentos relatados, o que constitui um enredo ou intriga, tal como se encontra nas obras de ficção. [...] Adotando a técnica do ficcionista, Fernão Lopes dá vida às personagens por meio da reconstituição dos diálogos que, em momentos decisivos, não só documentam a evolução do processo histórico, mas também, animados por um dito de espírito ou por uma anedota, ajudam a definir os carateres, que são geralmente apresentados em ação, revelando-se por si próprios, a partir das atitudes, o que constitui uma antecipação do processo de «caracterização indireta», adotado a partir do Realismo. Todavia, a «caracterização direta» é também utilizada pelo cronista, principalmente o processo em que se revela simultaneamente pintor e psicólogo: o

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retrato. Com efeito, Fernão Lopes deixou-nos instantâneos inolvidáveis de certas figuras históricas (tais como D. Pedro I, o infante D. João, D. Leonor Teles), graças ao descritivismo visualista em que era mestre. Mas os processos de «caracterização direta» empregados por Fernão Lopes não se limitam ao discurso do narrador: os monólogos e diálogos, assim como as opiniões das outras personagens, ajudam a erguer as figuras históricas com naturalidade e verosimilhança, sempre enquadradas num contexto ou participantes de uma situação. A intenção estética de Fernão Lopes fica igualmente bem documentada na «técnica de reportagem» utilizada nas suas crónicas, em especial nas duas últimas: o narrador situa-se no próprio momento em que ocorrem os factos testemunhados por ele e indiretamente pelo narratário, que na obra de Lopes é um «espectador-ouvinte» e não um leitor, o que poderá justificar o predomínio desta técnica narrativa, assim como de certos processos estilísticos relacionados com o código oral, e a insistência no emprego dos verbos ver/ouvir.» (Mª Ema Tarracha Ferreira. in Crónicas de Fernão Lopes) ************************

Comenta a seguinte afirmação de Alexandre Herculano: "Fernão Lopes adivinhou os princípios da moderna história: a vida dos tempos de que escreveu transmitiu-a à posteridade, e não, como outros fizeram, somente um esqueleto de sucessos políticos e de nomes célebres. Nas crónicas de Fernão Lopes não há só história: há poesia e drama; há a Idade Média com sua fé, seu entusiasmo ou amor de glória."

FICHA DE AVALIAÇÃO

Toda a cidade era dada a nojo, chea de mesquinhas querelas, sem nenhum prazer que i houvesse: uns com gram mingua do que padeciam; outros havendo dó dos atribulados; e isto nom sem razom, cá se é tríste e mesqninho o coraçom cuidoso nas cousas contrairás que lhe avinr podem, veede que fariam aqueles que as continuadamente tam presentes tiinham? Pero com todo esto, quando repicavom, nenhum nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus inimigos. Esforçavom-se uns por consolar os outros, por dar remédio a seu grande nojo. mas nom prestava conforto de palavras, nem podia tal door seer amansada com nenhumas doces razões; e assi como é natural cousa a mão ir amiúde onde see a door, assi uus homees falando com outros, nom podiam em ai departir senom em na mingua que cada uiï padecia. Ó quantas vezes encomendavam nas missas e pregações que rogassem a Deos devotamente pelo estado da cidade! E ficados os geolhos, beijando a terra, bradavom a Deos que lhes acorresse, e suas precs nom eram cumpridas! Uns choravom antre si, maldizendo seus dias, queixando-se por que tanto viviam, como se dissessem com o Profeta: «Ora veesse a morte ante do tempo, e a terra cobrisse nossas faces, pera nom 19

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veermos tantos males!» Assi que rogavom a morte que os levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe seerem cada dia renovados desvairados padecimentos. Outros se querelavom a seus amigos, dizendo que forom desaventuirada gente, que se ante nom derom a el-Rei de Castela que cada dia padecer novas mizquiindades, firmando-se de todo nas peores cousas que fortuna em esto podia obrar. [...] Como nom queres que maldissessem sua vida e desejassem morrer alguns homens e mulheres, que tanta deferença há d'ouvir estas cousas aaqueles que as entom passa-om, como há da vida aã morte? Os padres e madres viam estalar de fame os filhos que muito amavom, rompiam as faces e peitos sobre eles, nom teendo com que lhe acorrer, senom planto e espargimento de lágrimas; e sobre todo isto, medo grande da cruel vingança que entendiam que el-Rei de Castela deles havia de tomar; assi que eles padeciam duas grandes guerras, uma dos inimigos que os cercados tinham, e outra dos mantimentos que lhes minguavom, de guisa que eram postos em cuidado de se defender da morte per duas guisas. Pera que é dizer mais de taes falecimentos? [...] Onde sabee que esta fame e falecimento que as gentes padeciam, nom era por seer o cerco perlongado, ca nom havia tanto tempo que Lixboa era cercada; mas era per aazo das muitas gentes que se a ela colherem de todo o termo; e isso meesmo da frota do Porto quando veo. e os mantiimentos seerem muito poucos. Ora esguardae, como se fossees presente, uma tal cidade assi desconfortada e sem nenhuma certa feúza de seu livramento, como veviriam em desvairados cuidados quem sofria ondas de tais aflições? Ó geração que depois veio. Povo bem aventurado, que não soube parte de tantos males, nem foi quinhoeiro de tais padecimentos! Os quaes a Deos por Sua mercê prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees. Fernão Lopes, Crónica de D. João I
ficados os geolhos [ajoelhados] - querelavom [queixavam] - mizquiindades [maldades] feúza de seu livramento [sem confiança na sua libertação] - falecimentos [miséria] Ora esguardae [olhai1] - quinhoeiro [participou] - acerca [em breve]

I 1. Compõe um texto, comprovando que o gramatismo existente neste excerto bem o pode aproximar de uma tragédia. 2. Além da tragédia, o excerto também nos lembra o discurso oratório. Justifica com elementios sintáticos e estilisticois. 3. Demonstra, pelo excerto, que Fernão Lopes é, além de um grande historiador, um veradeiro artista da prosa. 4. Em oito a dez linhas, relembra o retrato de uma das personagens que Fernão Lopes traça na Crónica de D. Pedro I. II 20

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"O empenho supremo da arte de Fernão Lopes é fazer-nos presenciar a cena, vê-la como ele próprio a via." Rodrigues Lapa Desenvolva as ideias contidas na afirmação de Rodrigues Lapa, referindo-se aos processos utilizados por Fernão Lopes para tornar vivos, presentes e empolgantes os factos narrados.

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