EDUSC

Editor. dfI Unr ....rsld.d. do S.sr.do Cor.¡io

Coordenacáo Editorial

A Esperanc;a de Pandara
Ensaios sobre a realidade dos estudos cientificos
...............................

Irrná Jacinta Turolo Garcia
Assessoria Administrativa

Irmá Teresa Ana Sofiatti
Assessoria Comercial

Irrná Áurea ele Almeida Nascimento

Bruno Latour

Coordenacüo da Colecáo Filosofia e Política

Luiz Eugenio Véscio

T RA

o U ( Ao

Gilson César Cardoso de Sousa

rJLOSOFIM,POJ rrrcx

EDUSC

L35ge

Larour, Bruno. A espcranca de Pandora: ensaios sobre a realidade dos escudos científicos / Bruno Latour; traduciío de Gilson César Cardoso de Sousa. -- Bauru, SP : EDUSC, 2001. 372 p. : il. ; 21cm. -- (Colecto Eilosofia e Política)

ISBN 85-7460-062-8 Tradudío de : Pandora's hope: essays on che reality of science studies. Incluí índice remissivo. Inclui bibliografia.
l. Ciencia - Eilosofia. 2. Ciencia 3. Realismo. 1. Título. 11. Série.
Teoria.

CDD.501

ISBN O·()74-()~.)3Ú-X (origim]l

O¡Pvrip'hl © ]1)1)9. Prcsfdcnt and Pcllows of Harvard Colicgc Publtshcd by arrangcmcnt wuh Harvard trnlvcrsny I'rL'ss C()P.'rip'hfif) ele Iradll~:,'l() - U>lISC. 2(HJl

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Para Shirley Strum, Dona Haraway,Steve Glickman e seus babuínos, cyborgs e hienas

Agradecimentos

Diversos capítulos desee livro baseiam-se em arrigos originalmente aparecidos em curras publicaqoes. De modo algum tenrei preservar-lhes a forma primitiva e adaprei-os sempre que isso se revelou necessario para a discussño principal. A bem dos leirores sem conhecimento prévio de escudos científicos, reduzi as referéncias ao mínimo; curras informacñes podem ser encontradas nas publ irarúes originais. Agradece JOS organizadores e editores Jos seguintes periódicos e livros, pri rnei ramen re por terem aceitado meus escritos bizarros, depois por permitirem sua reuniáo aquí: "Do Scientific Objects Have a Hisrory? Pasteur and WhiteheaJ in a Bath of Lactic Acid", Common KnOld,,(~, 5, n" 1 (993): 76-91 (rraduzido por Lydia Davis); "Pnsreur no Lactic Acid Yeast - A Partial Semiotic Analysis", CrmfiSllraliom 1, n" 1 (1993): 127-142; "On Technical Mediation", Connnon Knau-iedge 3, n" 2 (994): 29-64; "jolior: History and Physics Mixed Togerher". in Michel Serres, org., History o/ Sclentific ThollShl (London: Blackwell, 1995): 611-635; "Tbe 'Pedofíl' of Boa Vista: A Photo-Philosophical Montage", Common Knou'¡er~~e 4, n'' 1 (1995): 145-187; "Socrates' and Callicles' Sertlement, or che Invention of the Impossible Body Poliric", ConfiSllratiom 5, n" 2 (primavera de 1997): 189-240; "A Few Sreps toward the Anthtopology of the Iconoc1astic Gesture''. Science in Context 10, n'' 1 (J 998): 62-83. Tantas pessoas leram rascunhos de partes do livro que já nem sei bem o que pertence a das e a mimo Como sempre, Michel Callon e Isabelle Stengers deram orienracáo essencial. Por

Urna política livre de ciencia ~.1 Illún.rrás da máscara de árbitro anónimo. Referencia circulante AllloJtretgelll do JO!o da floresta AlIlCfdJlliCet 3. mais solitária e mais aventurosa pode prevalecer contra o seqücsrro das disciplinas científicas por guerreiros da ciencia. que burilou o estilo e a lógica do manuscrito. urna esrrarégia mais frágil. para suas definicóes. consultar o Glossrír¡o. Caso os leirores nao fiquem sarisfeiros com o resultado. como as vezes sucede nos romances policiais.r antes de Pastmr? 201 6. Um colecivo de humanos e nao-humanos No labiríuto de Dédetlo 247 7. A hisroricidade das coisas Por (me/e andauam 0. Durante mais de dez anos.e mais urna vez ele ofereceu abrigo para meu trabalho./etic/1eJ. con tuda. valendo-rne apenas de ferramentas rudimenrures. emprego a expressáo "esrudos científicos" como se tal disciplina realmente existisse e fosse um carpo homogéneo de trabalhos inspirados numa única metafísica coerenre. queiram imaginar a selva ernaranhada pela qual John conseguiu abrir caminho! Devo esclarecer ao leiror que este nao é um livro sobre fatos nem./.io. Urna derradeira advertencia. rentei simplesmente apresentar na lacuna aberra pela dicotomia entre sujeiro e objeto urna cenografia conceitual para o par humano e nao-humano. apresento os estudas científicos como um campo unificado ao qual eu próprio pcrtcnco. O fluxo sangü íneo da ciencia VIII exemplo da iutelightcia cientijíca deJoliot · B 1: 133 4. mas. Concorde que raciocínios vigorosos e escudos de caso empíricos decalhados seriam melhores. Nern preciso dizer que isso está longe da verdade. "vecé acredita na reahdade?" NOIÍi. é Sumário 13 1. um Iivro de filosofia. .ÚfJ das IriJl(heirtlJ das GmrrtrJ na Ciélláa 39 97 2./alicbes 335 Conclusño Q!te artijicio libertará a Esperanca de Pandora? 345 Glossário 357 Bibliografia 363 Índice remissivo Nota do autor: palavras t: frases com sentido técnico aparecem assinaladas por um asterisco. ande curros falharam. Aa langa do livro. Minha maior gratidáo. A ligeira surpresa da acác FdtOJ. A invencáo das Guerras na Ciencia O acordo de Sr)(ralcJ e Cdlictes 271' 8. Mario Biagiol i foi decisivo para a forma final da obra. é para com John Tresch. Da fabricncño a realidade Pastear eJe!! [ermento de ácido ldctico 169 5. Nele. Todavia. beneficieime da generosidade de Lindsay Waters como editora .-// O corpo (()JllIopo//1ico _ 305 9. Muiros de meus colegas c1iscordam da minha abordagem. como nao gasto de viver isolado e prefiro participar das polémicas relativas a um empreendimenro coletivo. exaramente.

.L¡í(i:(er t!() camarada qnetraz 1Hz [edra.Lakaros a Feyerabend . VOl! ansortalhd-los na treua dd rerdade...

"Mais duas perguntas". Terá de fato a real idade se tornado algo em que as pessoas precisam acreditar. respondi. ITQue pergunta! A realidade será acaso alguma coisa em que ternos de acreditar?" Ele me convidara a encontré-lo para urna conversa particular num local táo esquisito guanto a sua pergunta: a beira do lago próximo do chalé. nao era urna piada: ele de fato estava preocupado e fora sincero na inclagacño. Brasil. tirando do bolso um pedaco de papel amarfanhado onde rabiscara algumas palavras. algo como "Náo. Respirou fundo: "Vecé acredita na realidade?'' "Claro que sirn!". acrescentou já um tanto descontraído. de jeito nenhum! Acha acaso que sou dio ingenuo assim?" Portanto. "Creio que sim". admirei-me.capitulo J 'Yace acredita. rindo. muiro de seu 13 INSTITUTO DE PSICOlOGIA . respondi. admirei-me ainda mais." "Entáo a ciencia é cum nlativa?". disse ele. estranha irnitacáo de resort suíco localizado nas montanhas rropicais de Teresópolis. "emborn nesre caso eu nao seja tao taxativo. É que as ciéncias se esquecem rnuiro. meio ansioso como se nao quisesse ceder muito depressa.UFRG:<- BIBLIOTECA . narealidade7" Natícias das trincheiras das Guerras na Ciencia "Quero lhe fazer urna pergunta". "Sabemos hoje mais do que antes?" "Sem dúvida! Mil vezes mais. a resposra a urna pergunta séria feita num toro baixo e hesitanre? A realidade será como Deus. pois aquele alívio provava claramente que anrecipara urna réplica negativa. o tópico de urna confissáo a que se chegou após langa e íntimo debate? Haverá na terra pessoas que nao acreditam na realidade? Ao perceber que ele ficara aliviado com minha resposta rápida e bem-humorada. continuou ele.

um colega . aquelas características que lhes tinham sido negadas pelos humanistas instalados na outra exrrernidade do campus. Podiam ser rotulados de membros de outra disciplina e outro subcampo. cuidava eu. apregoada pelos organizadores. carregadas de instrumentos.passado e muito de seus amigos programas de pesquisa. máquinas e recrias com todas as suas raízes. onde a investigacáo científica jamais se firmara completamente. A suspeita do psicólogo soou-me bastante injusta. oriundas daquele campo misterioso chamado "estudos científicos" do qual jamais vira antes um representante ern carne e osso. Daí nasceu o presente livro. Como poderíamos ser atirados contra os cientistas? O fato de estudarrnos um assunto nao significa que o esrejamos atacando. a seu ver. Heidegger. sangue . os "estudiosos da ciencia". Sem dúvida. ricas em conhecimento prárico. Nao era eu parte da insriruicéo científica francesa? Sen ti-me um pouco vexado por ter sido excluído tiío levianamenre. rizomas e gavinhas? Quem acredita mais na objetividade da ciencia do que aqueles que insistem na possibilidade de transformá-Ia em objeto de pesquisa? Percebi depois que esteva errado. Com efeito (pensava eu. Por que esse equívoco? Teria eu vivido tanto para afinal ouvir. os imunologistas aos anticorpos? Além dissc. pois ele nao parecia compreender que. sociólogos. urna ameaca ao apelo da ciencia. a incrível pergunta: "Vecé acredita na realidade?'? A distancia entre o que eu pensava termos alcancado nos estudas científicos e o que aquela pergunta implicava era tao grande que precisei recuar alguns passos. que os muitos nao-humanos mesclados a nossa vida coleriva gta<. nao passo de um filósofo. escrevera regularmente para periódicos científicos e. antes do advenro dos estudos científicos. mis tramos os que estavam senda atacados por militantes. a América. seguramente foi acrescentar realidade aciencia. digamos que sim. mas que pelo menos assim Ihe haviam ensinado . Deve ter precisado de muira coragem para avistar-se com urna dessas criaturas que. a meu ver. Quem . Acaso os biólogos se opóem a vida. O que eu chamava de "acréscimo de realismo a ciéncia" era de fato considerado. os astrónomos as estrelas. cultura. os aliados mais fiéis dos cientistas somos nós. mas cerramenre nao de "anticientistas'' que avan<. eu lecionara durante vi nte anos ero escolas científicas. redes. feira com roda a sinceridade. nao o contrário. um modo de reduzir-Ihe grau de verdade e as pretens6es a certeza.e que desde enráo tornou-se meu amigo. flexibilidade. todos nos havíamos demonstrado. No todo.em suma. como pontificou um de seus mestres. só por si me desconcertara. Aa invés da pálida e exangue objetividade da ciencia. de que "a ciencia nao pensa". acivistas. filósofos e tecnófobos de todos os naipes. mas que diriam melis amigos dos estudas científicos? Muiros deles foram adestrados ero ciencia e nao pOllCOS se orgulham de estender a visño científica para a própria ciencia.as a prática laboratorial tinham história. tinha contratos de pesquisa junto a diversos grupos de cienrisras da indústria e da universidade.am ao encontro dos cienristas. porém. estuantes dé' paixño. como se os dois grul~os fossem exérciros adversarios conferenciando sob urna bandeira de trégua antes de regressar ao campo de batalha! Eu nao conseguia ignorar a estranheza da pergunra feita por aquele homem que considerava um colega -.ama mais as ciencias do que esta minúscula cribo científica que aprendeu a divulgar fatos. pelos cientistas do congresso.sim. Por que me faz semelhanres pergunras? Quem pensa que sou?" Tive de acomodar rápidamente minhas inrerpretacóes para abranger tanto o monstro que ele vira em mim ao fazer aquelas perguntas quanto sua tocante abertura mental ao decidir encontrar-se pesscalmenre com sernelhante monstro. nesta guerra de guerrilhas travada na terra de ninguém entre as "duas culturas". que conseguimos ao longo dos anos atrair o interesse dos literatos pata a ciencia e a tecnologia . Essa divisño. nós pintamos personagcns vivas. vasos sanguíneos.perguntei-me . Em lugar dos pomposos cientistas dependurados nas paredes dos filósofos de gabinete do passado. juntamente com meus colegas.leitores convencidos.constituiam outra amea~a a ciencia num país. ingenuamenre). ° 14 . imersas em seus laboratórios. exatamente por causa de nosso interesse pelo funcionamenro interno dos fatos cienríficos. Se os estudos científicos lograram alguma coisa. Ele era um psicólogo dos mais respeitáveis e fóramos ambos convidados pela Wenner-Grenn Foundation para um eongresso integrado por dais tercos de ciencistas e um terco de "estudiosos da ciencia". estreitamente relacionadas com um meio mais vasto e mais trepidante. ameas-avam o edifício intei ro da ciencia.

O resultado foi sernelhanre a um televisor mal conectado e nenhuma tentativa de sintonizacáo conseguiu fazer com que esse precursor da rede neural produzisse mais que um rracado de linhas borradas e pontinhos brancos caindo como neve. Gil melhor. nos escudos científicos. porém. a mente de Descartes exige equipamenros de manutencáo artificial da vida para continuar viável. Deus estava longe. Sern essa digressáo. O cérebro extirpado apenas trocou uro kit de sobrevivencia por outro. segura de um objeto do mundo exterior. Descartes exigia certeza absoluta por parte de um cérebro extirpado. Nenhuma forma era reconhecível. Segundo Descartes. Meu compatriota Descartes já a suscitara contra si mesmo ao perquirir como urna mente isolada podia estar absolutamente. Apenas urna mente colocada na esrranha posicáo de contemplar o mundo de dentro para fora e ligada ao exterior unicamente pela rénue conexáo do o/har se agitarla no medo constante de perder a realidade. esse relativismo* inflexível. jamais conseguiríamos entender a amplitude Jo equívoco entre rneu colega e eu ou avaliar a extraordinária forma do realismo radical que os esrudos científicos rém posto a nu. Essas pessoas procuravam uro atalho. baseado no número de rele/foes esrabelecidas com o mundo. Perguntavam-se se o mundo poderia enviar-nos diretamente informacáo suficiente para gerar urna imagem estável de si mesmo em nossas mentes. A solucác surgiu. ao fazer essa pergunra.A estranha invencáo de um mundo "exterior" Nao há no mundo urna situacáo normal em que alguém possa ouvir esta que é a mais estranha das pergunras: "Vecé acredita na realidade?" Para fazé-la. Continuaram a esmiucar urna mente que se comunicava pelo olhar com o mundo exterior perdido. Jamais repuseram o cérebro palpitante em seu carpo exánime. quería-se que exrraísse de rais estímulos todo o necessario para restaurar as formas e hisrórias do mundo. Como o ccracáo retirado do cadáver de urna jovem recém-falecida em acidenre e lago transplantado para o tórax de outra pessoa a milhares de quilómetros de distancia. enconrrava-se já no passado. os empiristas tomaram o mesmo rumo. o único carninho pelo qual uro cérebro extirpado poderia restabelecer algum con tato razoavelmente seguro com o mundo exterior era Deus. é claro. mas na forma de urna catástrofe da qual só agora estamos comecando a nos desvencilhar. Ao invés de voltar atrás e tomar o outro caminho na encruzilhada esquecida. Como no romance de Curt Siodmak. Na época de Descartes. Simplesmente tentaram adestrá-la para reconhecer esquemas. deseobrimos aos poucos tres séculos depois: a saber. certo ao formular sua pergunta conforme a fórmula que aprendi na escola dominical: "Vecé acredita na realidade?" "Credo in unum Deli1llU.e esse próprio medo possui urna historia intelectual que deveria ser ao menos esbocada. Ocorreu-me que a pergunra de meu colega nao era inteiramente nova. pois. a certeza absoluta é o tipo de fantasia neurótica que apenas urna mente cirurgicamente removida buscaria depois de ter perdido tuda o mais. urna vereda outrora rransitável invadida pelo maragal. Nao arrepiaram caminho. ele formulou a pergunra de modo a inviabilizar a única resposta razoável. os filósofos abandonaram até a exigencia de certeza absoluta e aferraram-se a urna solucáo improvisada que preservava ao menos um 6 . muira gente conc1uiu que valer-se de Deus para alcancar o mundo era uro tanto caro e artificial. e nao relativamente. Bombardeado por um mundo reduzido a estímulos sem sentido. Donouan's Brain {O cérebro de Donovan]. Meu amigo psicólogo esrava. como minha amiga Donna Haraway salmodiava em Teresópolis! Depois de Descartes. mas a tabula rasa dos empiristas era táo desconexa quanto a mente nos tempos de Descartes. "Credo in unam realitam". tao precárias se revelaram as conexóes dos sentidos com um mundo que ia senda empurrado cada vez mais para fora. a pessoa tem de distanciar-se a tal ponto da realidade que o medo de perde-Ie/ se torne absolutamente plausível . apenas esse observador sem corpo ansiaria por uro kit de equipamentos de sobrevivéncia absoluto. Perderá-se a certeza absoluta. Havia estática demais para que se obcivesse urna imagem nítida. Todavía. certeza desnecessária quando o cérebro (ou a mente) estác firmemente ligados ao carpo e o carpo se acha completamente envolvido com sua ecologia normal. Decerto. que estamos relativamente seguros de rnuitos objetos com os quais lidamos cotidianamente na prática laboratorial. que nós.

pois lograra outrora por termo a busca da certeza absoluta e colocá-la sob o estanda~te dos I:a prioris universais''. alegavam eles.pequeno acesso a realidade exrerior. como o chamava K~nt. com a emissora de Konigsberg. para a qual o mundo exterior conrribui de maneira decisiva. O pior. era mera ficC. a sociedade inrerpós filtros: sua parafernália de tendencias. uro hábil estratagema que ocultou ainda mais a vereda perdida no matagal. apenas urna série de mentes extirpadas . Em segundo lugar. um rastro na areia. ela mesma. urna posicáo de compromisso num acordo complicado para evitar a perda total do mundo ou o abandono completo da busca da certeza absoluta. porém. Tudo. os p~ntinhos e as linhas do canal empirista numa imagem sólida. simplesmente vinham declarar: "Es_ t~mos mes~o aqui. e as inacessíveis coisas-em-si a que o mundo fora reduzido. As pessoas ficaram trancadas nao apenas dentro da prisáo de suas próprias caregorias. Em terceiro lugar. Quanro progresso! Se os prisioneiros já nao estavam recolhiJos as suas celas. Mas precisamos realmente engolir esses bocados insípidos de filoso~a escolar para compreender a pergunta do psicólogo? Temo que sirn. mas nao sem certas limitacóes: o qu~ ela aprende sozinha tem de ser universal e pode ser captado utucamenre por c~ntatos experimentáis com urna realidade exre_rior. Essa nova definicáo. está por viro Kant invenrou urna espécie de consrrurivismo ero que a mente extirpada elabora rudo por si rnesma. Agora. um planeta verde a volta desse sol patético. isto é. Foi logo substituído por um candidato mais razoável. comportavam-se como convidados lacónicos e estóicoso Se abandonarmos a certeza absoluta.ao. Em primeiro lugar. Nada do mundo conseguia atravessar essa barreira de inrerrnediários e alcancar a mente individual. o que voces estáo comendo nao é poeira" . Já que a rede neural associariva dos empiristas mostrava-se incapaz de fornecer imagens claras do mundo perdido. no encanto. mantida pelas categorias preexistentes do aparato mental. como tarnbém dentro de seus próprios grupos sociais. teorias. dizia Kant. agora urna "mundivisáo''. leis que tirou de si mesma sem a ajuda de ninguém. reduzida ao mínimo. a substituicáo do Ego despótico pela "so_ ciedade" sagrada nao refez os passos dos filósofos: ao contrário. outra certeza a priori que a ~ente extirpada retira de sua própria fiaráo.porem. mas cada qual na figura do mais esrranho dos animais: urna mente isolada contemplando o mundo exterior. que nern Descartes com seu desvio através de Deus nem Hume com seu atalho para os estímulos associados jamais poderiam imaginar. Em lugar de urna Mente mítica que molda. nos havíamos ligado e que pretendo esbocar na seqüéncia do livro. Kant invenrou este pesadelo de fic\ao científica: o mundo exterior gira agora ao redor da mente extirpada. rradicóes e pontos de vista tornou-se urna vidraca opaca. distanciou ainda mais a visáo do indivíduo. Para Kant. tinha apenas urna ligeira sernelhanca com o realismo a que nós. as categorias e os paradigmas de um grupo de pessoas vivendo juntas a determinar as representa\oes de cada urna na comunidade. transformando a estática confusa. O a priori de Kant engendrou esse tipo bizarro de construtivismo. a próxima mudanca . a mente fornecia o alimento. surgindo a realidade apenas para dizer que estava ah e nao era imaginária! Para o festim da realidade. que dita a maioria das leis universais.comprometia o que Kant propós de melhor. vinham os preconceitos. culturas. mas ínfima. a universalidade das caregorias a priori. poderemos pelo menos recuperar a universalidade enquanto permanecermos dentro da esfera restrita da ciencia. porque de outra forma as inovacóes dos escudos científicos permaneceráo invisíveis. Em lugar das linhas imprecisas do televisor mal-sintonizado obrivemos ~ tela nítida. tudo passava a ser g~vernado pela pr?pria mente. a única certeza absoluta substitutiva que conseguiu reé . continuavam confinados ao mesmo dormitório a mesma rnentalidacle coletiva. que a mente (ainda ~xtirpada) tira de Ji mesma tudo o de que necessita para construir formas e histórias. a despeito do emprego do termo "social". do mundo exterior já definitivamente perdido. O restante da busca do absoluto deve repousar na moralidade. mas ainda assim presente. sempre havia algo a girar em torno do déspota estropiado. estudiosos da ciencia. cerro. ou seja. exceto a realidade. tal ha e ordena a realidade. no mars. esculpe. isso provava. que essa fosse a filosofia mais profunda de todas. esta "sociedade" era. a sociedade*. As pessoas nao tardaram a aperceber-se de que a 1l~B:() transcendental".inúmeras.de um só Ego para culturas múltiplas . U m déspota estropiado governa atualmente o mundo da realidacle. Entre ambos. Supunha-se. Sob a etiqueta de urna "revolucáo copernicana'!". e isso causa estranheza.

porque receava que eu respondesse: "A realidade depende daquilo que a massa considera certo em determinada época". Mas. outro estratagema engenhoso . Se a voz de meu amigo tremeu quando ele me pergunrou "Vecé acredita na realidade?". ainda mais impressionante. O mundo real. que fez dessa passagem para a "sociedade" urna catástrofe na esteira da revolucáo kantiana. a perda de um acesso cerro a realidade e a invasao da massa. É a ressonáncia desses dais medos. esse conhecimento de nada servirá para a percepC. porém. Urna das soluC. Ela nos dirá muita coisa sobre como nao nos distanciamos jamais daquilo que vemos. zelosamente reprimidos. desvinculada e a contemplar (agora com olhar cego) o mundo (agora imerso em trevas) por meio da parede de video? Tais pessoas podem rir gostosamenre. váo "desconstruir''. no caso. tornaram-se parte de urna história ainda mais bizarra e associaram-se a um medo ainda mais antigo. Ela consiste em retirar apenas parte da mente da cuba e em seguida fazer a coisa óbvia. que rornou a pergunta ao mesmo tempo tao injusta e tao séria. auto-evidente e náo-reflexa de nós mesmos. Existia. Já nem todos esravam trancafiados no mesmo calabouco: agora surgira muitas prisóes . nao foi apenas porque temia a perda de todos os vínculos com o mundo exterior.incomensuráveis. desconexas.a. Sim. mas isso nao bastará para cobrir o barulho da segunda fileira de portas da priséo. conhecido pela ciencia. no entanto. jamais recuperaremos a certeza. Infelizmente. Sim. Nao. destruir em camera lenta . antes de destrincar essa segunda arneaca. fica todo entregue a si mesmo. urna segunda solucáo foi proposta e ocupou diversos espíritos brilhantes. nós perdemos o mundo. ou. nes- se clamor paradoxal por urna alegre. como nao vislumbramos nunca um espetáculo distante.é ficarmos tao satisfeitos com a perda da certeza absoluta e os a prioris universais que abandoná-Ios se torne coisa prazerosa.5es . ao invés de tremer de medo. Sim. pois nao poderernos fugir ao enfoque limitado da inrencionalidade humana. sua existencia é tao incerta quanto a do rnonstro do Lago Ness. Quem nao escurará os gritos de desespero que ecoam lá no fundo. pois já nao dispomos de urna mente em contato com o mundo exterior e sim de um mundo vivo ao qual se ligou um corpo semiconsciente e intencional.quem quer que lhes lembre um tempo durante o qual eram Iivres e sua linguagem tinha conexáo com o mundo. é possível avancar ainda mais na senda errada. a triste história nao acaba aqui. a saber. carnal e pré-reflexivo. excizada do resto. ficaremos eternamente presos ao ponto de vista dos homens. Nao.ao real das coisas. Infelizmente. No final deste capítulo encontraremos novamente esses prisioneiros exulrantes. como dizem .mas ai!. baten- . nunca superaremos nossas tendencias. táo incerta quanro a do mundo real seria para essas criaturas míticas). oferecer-lhe um novo corpo e colocar o agregado outra vez em relacáo com um mundo que já nao é um espetáculo a ser contemplado. pensando sempre que urna solucáo mais radical resolverá os problemas acumulados gracas a antiga decisáo. prisioneiras em suas langas fileiras de cubas de laboratório. omedo da tírania da massa. como evitar a consratacáo de que nao avancemos um milímetro depois de Descartes? De que a mente continua em sua cuba. ao que parece. Bravo! Bis! Os prisioneieos já amordacarn até mesmo aqueles que lhes pedem para olhar pela janela de suas celas. meticulosamente negados. Todo defeiro da velha posicáo passa a ser sua melhor qualidade. como estamos semprc imersos na rica e vívida textura do mundo . urna quarta raziío. mas. estaremos eternamente aferrados a nossa perspectiva egoísta. mas urna extensáo viva. mas continuarn a descer as curvas espiraladas do mesmo inferno. Ao invés de investigar as maneiras de passar de um ponto de vista a outro. A fenomenologia trata apenas do mundo-para-uma-consciencia-humana.ter. jubilosa e livre construcáo de narrativas e histórias por parte de criaturas acorrentadas para todo o sempre? Mas ainda que existissem pessoas capazes de dizer tais coisas com animo leve e contente (para mim. para ser bem-sucedida. ficaremos para sernpre prisioneiros da linguagem. As pretensóes ao conhecimento por parte daquelas pobres mentes. ainda mais deplorável. Ouviremos muitas frases sobre o mundo dinámico real. o progresso é imenso e a descida ao reino da danacáo se inrerrornpe. A mente nao apenas se desvinculara do mundo como cada mente coletiva e cada cultura se isolaram urnas das outras: mais e mais progresso numa filosofia sonhada.ou melhor. principalmente. por carcereiros.ou seja. Por rnais incrívei que parec. terminemos com a primeira. Em nosso século. Em aparencia. essa operarán de emergencia precisa fatiar a mente ern pedacos ainda menores.

em troca de que? De urna ortodoxia mediana de uns poucos neurofilósofos? De uro_~gº_processo_ darwinianoque limitaria a atividade da mente a urna Iuta pela scbrevivéncia a fim de "enqua?rar-se" nU!lla realidade cuja verdadeira narureza nos escapará para' sernpre? Nao. Semelhante negligencia da geornetria induziu-re a supor que o homem deveria tentar obrer urna COta desproporúonal de coisas'' (S08a). mas na ágora de Atenas. certa. um mundo da ciencia relegado inteiramente a si mesmo. legal.ou nao? Nao. objetiva. Em que pese a todas as suas prerensóes de vencer a distancia entre sujeito e objeto . limitando-a a inrencáo humana. Nesse diálogo.ainda. . enfrenta Cálicles. a fim de unificar as visócs diferentes que dela tem a ciencia! Isso exigiria que ignorássemos inúmeras conrrovérsias. Somos impedidos de :egressar encruailhadasperdidas e tomar o out ro cami~ _ ~~_<:> pelo fantasma perigoso que já mencionei. preservando tanto a historia do envolvimento dos homens na construcáo des tatos científicos quanto o envolvimenro das ciencias na feitura da história humana. poderemos deter a queda e refazer nossos passos. como fizeram os naturalistas com outros aspectos da "vida"? Se a ciencia pode invadir todos os campos. muita história. deceno é capaz de por termo persistente falácia cartesiana e transformar a mente numa parte flexível da narureza. urna curta pausa na descida. Agora. sao os mesmos que eonstituíam o espetáculo de um mundo visto de dentro por um cérebro extirpado. O prirneiro . Sócrates diz a Cálicles: "Deixasre de notar quanto poder a igltaldade geométrica exerce entre denses e bomens. de outro.a? De um amigo e venerável debate. muitos desfechos suspensos. 1994. nao. completamente frio e absolutamente inumano. antes de nos abismarmos ainda mais. porque os ingredientes que constituem e~sa "narurezav't hegemónica e abrangente. a forca prevalecerá. que sem dúvida acorre em muitos lugares. o psicólogo . Oxford: Oxford University Press. que ora inclui a espéere humana. originário do seguinre truísmo: se a razáo nao governar. muitos negocios inacabados. Desumana. a fenomenologia nos deixa as volras com a mais irnpressionanre separa~ao dessa triste história: de um lado. que escuda os homens como "fenómenos naturais" seria ainda pior: abandonaria a rica e controvertida história humana da ciencia . como se nao houvesse sido ideado para ndo ser vencido! -. Caso a fenomenologia abandonasse a ciencia a seu próprio destino. causal. que exarninarei em pormenor nos capítulos 7 e 8. reducionista. dais medos inspiravam a estranha pergunta de meu amigo. mas a natureza vista pelo prisma deformado da cuba de video! Se existe algo de inatingível. Infelizmente.tem história mais curta que o segundo. Sócrates. I a 1. absoluta . derrame o líquido borbulhanre e transforme a mente num cérebro.do e se fechando ainda mais herméticamente as nossas costas. nao somos capazes disso . revertendo a fatal espiral descendente? Em lugar do "mundo da vida" dos fenomenologistas. unánime. quebre o frasco. um rico mundo dinamicode instancias intencionais inrciramente limitado aos humanos e absolutamente divorciado do que as coisas sáo em e para si mesmas. por que nao escudar a adapracáo dos seres humanos.nenhuma dessas palavras pertence a natureza como tal. é o sonho de encarar a natureza como urna unidade homogénea. fria. urn daqueles monstros que precisam ser entrevistados para expor seus absurdos agora nao as margens de urn lago brasileiro. o mesmo medo que fez-avoz de rneu amigo tremer e hesi taro as o medo do governo da massa Como eu disse. Isso sem dúvida agradaria ao meu amigo. O rnovimento contrario. numa máquina de nervos instalada dentro de um animal darwiniano que luta pela vida? Isso nao resolveria todos os problemas.o medo de um cérebro extirpado que perdeu o cantata com o mundo exterior . o verdadeiro cienrista. mas é apresentado com mais clareza e efeito no Górgias de Platáo. Tao grande é essa amea\a que todo expediente político passa a ser usado com impunidade contra aqueles que tendem a advogar a forca em detrimento da razáo. certarnente poderernos fazer melhor.É o medo do gover~­ !:o da massa que nos derérn. Mas de ande provém essa curiosa oposicáo entre o campo da razéo e o campo da forc.como se tal distin~ao fosse algo que pudesse ser vencido. Utilizo a traducáo recente de Robin Waterfield. Por que nao escolher a solucéo aposta e esquecer de vez a mente extirpada? Por que nao permitir que o "mundo exterior" invada a cena.

a qual ele conheeuses e ce. algo que está puro. enrende cos atenienses famosos. equipado com 1T0 poder da igualdade geométrica". "A lei sao as declaracóes proferidas ero urna assembléia de escravos e várias ourras formas de rebotalho humano. que poderiam ser completamente desconsiderados nclo (05se o fato de possutrem forfd lirica" (489c). com vistas a reverter o equilíbrio de poder entre Sócrates e todos os outros atenienses. O hornero superior deve dominar o inferior e posstur rnars que ele" (483c-d). Sócrates está cerro ao fazer de Cálicles alvo de sua ironía? Que tipo de desproporcáo o próprio Sócrates póe em cena? Que tipo de poder renta ele manejar? O Poder que Sócrates defende é o poder da razdo. Mas . dirá tal vez o leitor.as (threats). há quase 25 anos. nenhum trace de humanidade. cego e friamenre fora da Cidade. Seu éxi to em reverter o equilíbrio de forcas é tao extraordinário que afirma. "Urna única pessoa astuta pode ser superior a dez mil papa/vos? Nesse caso o poder político deveria ser dela e os OUtros se lhe submereriam. Convém a quem detém o poder político possuir mais que seus urna for\a moral herdada. pergunta Cálicles. urna dirigida contra Cálicles. Por que. a quesrño n~o é a mera oposicño de force e razáo. repor as moitas que escondiam a encruzilhada perdida e tomar decididamente o OUt ro caminho. A idéia de um mundo completamente exterior. mas Cálicles e a massa ignoram. pois exisrern duas forcas da razáo. exrstem pelo menos dais tipos de Poder: o de CálicIes e o da massa ateniense. o único a derer a maior das cotas urna erernidade de glória que lhe será concedida por Radamanro. Como veremos. A fim de justificar essa tortura auto-infligida e maníaca. para explicar as inquiera~oes de meu amigo. estas duas ordens conrradirórias: "Fique inteiramente desconectado!" e "Enconrre pravas de que está conectado!"? Quem desararia esse duplo nó impossível? Nao admira que tantos filósofos estejam metidos em asilos. monstruoso e desumano. acalentada pelos episte- . Portanto. Con tuda. ao invés de fazer o óbvio: retracar nossos passos. Eis o ponto ero que os dais fios se ligam: é para evitar a rnultidáo desumana que ternos de confiar ero outro recurso nao-humano. "Que mais pensas que renho estado a dizer?".e veremos isso ao final do livro . SÓ depois delas minha posicáo será esclarecida. inclusive Péricles. Sócrates persegue rambém urna for~a capaz de anular a dos "dez mil papalvos". Eis aí um dos primeiros entre os muitos na longa hisrória literária dos cientisras malucos.a superior da massa. no final do GÓrgiaJ. Quando Cálides se refere 1i. ligue basta observar a natureza para concluir que mais vale ter urna co~a m~ior.há uro peque~~ pro~lema. mas o Poder do patrício soli tário contra a fon. precisamos depender de algo que nao tem origem humana. Também ele quer a cota maior. "o poder da igualdade geométrica". nao resta dúvida. teríamos de perseguir um objetivo mais ameno. Como ambos os protagonistas esráo prontos a admitir. as duas amea. ser "o (mico estadista de verdade em Atenas". e outra dirigida lateralmente. há ainda out~o. De que modo as energias combinadas do pavo de Atenas poderiam ser suprimidas? "En tao é assim que pensas?". proclama ele numa antevisáo do darwinismo social. o caminho esquecido? E por que gravar essa mente solitária com a tarefa impossível de descobrir certeza absoluta ao invés de conectá-la a circuitos que lhe forneceriam rodas as certezas relativas de que ela necessita para conhecer e agir? Por que gritar. o objeto objetivo inrocado por máo de homem. o adversário ideal. os magistrados do Inferno! Ridiculariza todos os políti- súdiros" (490a). "Penso''.probleminha aqui. que tornaria tuda vil. "vecé ainda nos arrasta de volta para os gregos apenas para explicar a pergunta que um psicólogo lhe fez no Brasil?" Creio que ambas as digressóes forarn necessárias porque só agora podemos atar os deis fios (threads). precisamos da idéia de um mundo exterior visto do desconfortável ponto de observacáo de um cérebro extirpado? Isso me intrigou desde que me iniciei nos escudos científicos. em primeiro lugar. admire Cálieles francamente.' Éaco e Minos. ae lo~a que "governa os d .. Poder e Direito. forca brura. ironiza Sócrates. O Poder faz o Direiro. pelos dois cantos da boca. a despeito de todas as cáibras que ela infligiu aos filósofos.. e esse de fato tero sido o caso. espero eu. A firn de evitar o perigo do governo da rnassa. governará os cidadáos até depois de morto. Por que há de ser tao importante manter essa ernbaracosa posicáo. ele só.os hornens" .Cálicles é uro mesrre da desproporráo. superior a de dez mil matamouros. "Como se sua historia precipitada da filosofia moderna nao bascasse".

oucam por um instante aquilo que ternos a dizer. naturalmente: UNJo.rnologisras. l . a beira do lago. como se ve.a apenas para aqueles que iniciaram essa impossível cascata de arranjos. Transformaremos O mundo nurn espetáculo a ser visto de dentro. onrologia.1. Entretanto.a qual a pronta e zombeteira resposta é. (Natureza). Esse é o argumento do livro. Em suma. política epsicologia 1/ao depar.. E rambém o motivo de a realidade dos estudos científicos ser tao difícil de localizar. Deus.fa~anha nada insignificante. mente. o social. "em cima".- 8 Ontologia ~ Política e Moralidade t ~OIOgia Sociedade Figura 1. ao invés de tentar calar-nos colocando ero nossos lábios as palavras que Plaráo. Só a insmanidade SlIbjltgard a inmnanidade. lutando pela verdade absoluta sem. moralidade. há tantos séculas. 'fora''. desde que rnais tarde consigamos apetrecharnos com alguns meios absolutos de trazer a certeza de volta . rornou-se clara finalmente: "Vecé acredita na realidade?" significa "Vocé aceitará essa instituicáo da epistemologia. Como se pode ver na figura 1.para nao mencionar a teologia.EP¡steiologia .embora acessível! -. Que ponham ordem em sua própria casa e assumam a responsabilidade por seus próprios pecados. Minha trajetória sernpre foi diferente. psicolegia e política . "Que os mortos enterrem seus morros" e. isolado de tudo o mais. infelizmente. Mas como imaginar um mundo exterior? AIguém já viu acaso essa curiosidade bizarra? Sem problemas. moralidade. e é com vistas a esse objetivo irnpossível que chegamos a invencéo exrraordinária de um cérebro extirpado. imaginaremos um cérebro extirpado totalmente desprendido do mundo e capaz de acessé-lo apenas mediante um conduto estreito e artificial. por trás de qualquer definicáo do "social" existe a mesma preocupacáo: ainda conseguiremos utilizar a realidade objetiva para calar as inúmeras bocas da multidáo? A pergunta de meu amigo. "narureza". Por trás da fria pergunra epistemológica . Para os escudos científicos. É porque desejamos afastar a massa irascível que precisamos de um mundo totalmente exterior . Para obrer esse contraste. política e psicología?" .podern nossas represenracóes captar com alguma certeza os traeos estáveis do mundo exterior? -. mas que todas pertencem ao mesmo arranjo.1 O acordo modernista. nao há sentido em falar independentemenre de epistemologia. epistemologia. dessa maneira. colocou nos lébios de Sócrates e Cálicles a fim de manter o pavo silencioso. por favor. basta para rnanter o mundo lá fora e a mente informada. no mesmo acordo". o qual pode ser substituído por muitos outros. alcancé-la. atingiremos nosso alvo maior: manter as rmlltidiks a distáncia. Nao dizemos que essas esferas esráo isoladas umas das outras.. Esse liame mínimo acreditam os psicólogos. jaz urna segunda e mais candente ansiedade: podemos achar um modo de afastar o povo? Em contrapartida. "embaixo". é a única maneira (segundo os moralistas) de nao cair nas garras do govemo da massa. apresentado por um cérebro extir- pado. sob o teto do chalé que nos preservava do sol tropical do meio-dia naquele inverno austral.' Claro que nao! Quem pensa que sou? Como eu iria acreditar que a realidade é a resposta a um problema de crenca. "dentro". com medo de perder con tato com o mundo exterior porque tem mais medo ainda de ser invadido por um mundo social estigmatizado como nao-humano?" A realidade é um objeto de crenr. sempre deparando com urna solucáo piar e mais radical.

a f1exibilidade e a complexidade até entáo reservadas aos humanos (ver capítulo 5). a fanrasia assusradora de Kant cornecou a perder lentamente seu predomínio insinuante sobre a filosofia da ciencia. Gracas a lima série de revolucóes> anticopernicanas. Nao precisamos de um mundo social para tomper a realidade objetiva. urna mente "dentro" e urna multidáo "embaixo" -. Nao ansiamos nem pela certeza absoluta de um contato com o mundo nem pela certeza absoluta de urna forca transcendente contra a massa ingovernável. O realismo volta com toda a forca. falamos sobre prática* científica e oferecemos assim um relato mais realista da ciencia em a<. sendo-Ihes facultada a multiplicidade de interpreracóes. quentes. uro passo atrás" no qual os esrudos científicos avancaram ao longo dessa vereda há tanto tempo esquecida. Essa descoberta conjunta é que nem o objeto nemo social apresentam o caráter innrnano que o espetáculo melodramático de Sócrates e Cálicles exigiam. O capítulo 6 apresenra um cracamenro mais geral de humanos e nao-humanos misturando-se e formando constantemente entidades coletivas muréveis.Os esrudos científicos. Cornecamos quando. Conforme demonstra a explié . Em lugar dos tres pólos . nao existe urna inurnanidade a ser subjugada por outra inurnanidade. a encruzilhada perdida é reencontrada e já nao há dificuldade em percorrer o caminho negligenciado. fizeram duas descobertas relacionadas que tardaram a surgir em virrude do poder do arranjo que acabo de expor . Quando dizemos que nao existe um mundo exterior. foram sem dúvida alguma fabricados.urna realidade "fora''. o mundo objetivo 'fora't. embora possa parecer inacreditável nestes tempos de guerras na ciencia: nós nao estamos em guerra.ao de "fariche". Quando afirmamos que a ciencia é social. inurnana. Nenhuma dessas duas formas monstruosas de inumanidade . pela primeira vez. que pareceráo marcos ao longo da rota para um "realismo mais realista". a-sociais e distantes por razóes políticas. nao negamos sua existencia. recapitula o ritmo "dois passos a frente. acrescentando rnais e mais realidade as muitas lutas em que cientistas e engenheiros se metiam. "fariche" urna combínacáo das palavras "faro" e "fetiche". descobrimos que os nao-humanos estavarn ali mesmo.e de alguns outros motivos que explicarei mais carde. Mas o realismo tornou-se ainda mais abundante quando os nao-humanos comecaram a ter urna história rambérn. conforme descobrimos.a massa "ernbaixo". ocultando os efeitos gémeos da crenca e do conhecimento. a palavra "social" nao tem para nós o estigma do "reboralho humano". Minha tese.nos inreressa rnuitoo Porranto. fáceis de convocar e aliciar. ingenuidade apropriada áqueles que jamais haviam entendido como o mundo podia estar "do lado de fora". Os fatos. neste livro. Finalmente a ingenuidade estava de volea. ao invés de falar em objetos e objetividade. É muito simples. alicercando-a firmemente em laboratórios. desse désposra aleijado que teme constantemente perder ou o "acesso" ao mundo ou sua 'forca superior" contra o povo. nao precisamos de urna mente ou cérebro extirpado. experimentos e grupos de colegas. Nao sentimos falta de certeza porque nunca quisemos dominar o povo. a meu ver. com a no<. comecamos a falar de ndo-bumanosv. em que o trabalho de fabricacáo foi duas vezes acrescentado. fria e objetiva que lhe foi atribuída_apenas para combater a multidáo. como espero demonsrrar nos próximos capítulos. Depois o realismo fluiu novamente quando. isolada. chegamos por fim a um senso que chamo de colettoo". Instaurou-se de novo um clara senso segundo o qual podíamos dizer que as palavras faaiam referencia ao mundo e que a ciencia apreendia as coisasern-si (ver capítulos 2 e 4). como fa<. Enguanto os objetos se tornavam frios. ao conrrário. Precisamos ainda fornecer urna alternativa real a essa fatídica distincáo entre construcáo e realidade. da "massa ingovernável" que Sócrates e Cálicles apressavam-se a invocar para justificar a busca de urna forca capaz de reverter o poder de "dez mil papalvos''. e eu procuro fazé-lo aqui. Humanos e nao-humanos nos bastam. Tao logo nos recusamos a meter as disciplinas científicas nessa discussáo sobre quem deve dominar o povo. No capítulo 4.ao. nem de uma realidade objetiva para calar a mulridáo. Como veremos no capítulo 9.o nos capítulos 2 e 3. veremos como Pasteur fez seus micróbios enquanto os micróbios "faziam seu Pasreur". recusamo-nos a conceder-lhe a existencia a-histórica. socializados pelo laboratório e com os quais os cienristas e engenheiros entraram a trocar propriedades. Para nós.

o risco de equívocos ao langa do espac. Dizemos aos cienrisras que. combaremos ao mesmo tcmpo essas duas purgacóes. tornou-se fácil reconhecer o caráter humano da prática científica. Tal tentativa poderia. Por isso chamam o universo de todo orgánico. eles recuam horrorizados e tenram impar a maior das censuras a livre expressáo desde Sócrates: só cientistas podem falar de ciencia! Suponhamos que esse lema fosse generalizado: só políticos poderiam [alar de política. Isso inaceitável para a cosmopolírica. ao menos para mim. De maneira mais séria. na pior. realizando aquilo a que Isabelle Stengers dá o bonito nome de cosmopolítica* (Stengers. a despeito de tudo aquilo que vocé diz que seu campo realizou. a ordem. meu amigo psicólogo poderia fazer outra pergunra. ninguém pensaria sequer em fazer a pergunra bizarra: "VOCe acredita na realidade?" . política ou paixáo. térn de acosturnar-se a um bocado de barulho e. mas quando os leigos comecam de faro a construir essa ponte. ou piar ainda: só ratos poderiam falar de ratos. Tendo a esfera social se livrado dos estigmas que lhe apuseram aqueles que desejam silenciar a massa. suas muitas conexóes coro o resto do coletivo. rnais disseminado.o aberro entre espécies diferentes. vocé é amigo ou inimigo da ciencia?" Tres fenómenos diferentes explicam. vivemos num mundo híbrido feito ao mesmo tempo de deuses. Se os cientisras desejam mesmo lancar urna ponte entre as duas culturas.já nao há necessidade de um equipamento de sobrevivéncia. usinas nucleares e mercados. os deuses e os hornens. a mais que urna pontinha de absurdo. O outro. em seu seio. elétrons. desaparece a dificuldade de retomarmos contare com o relativismo. Sócrates definiu muito bem esse coletivo antes de entrar em choque com Cálicles: "A opiniño do especialista é que a cooperacáo. Preencher o abismo entre as duas culturas nao quer dizer apoiar os sonhos de Sócrates e Platao de um controle absoluto. O realismo volta como sangue através dos inúmeros vasos agora religados pelas rnáos habilidosas dos cirurgióes . nao para nós! A originalidade dos estudos científicos Nao obstante. Mas de ande se origina o próprio debate sobre as duas culturas? Numa divisáo de trabalho entre os dois lados do campns. que exige do coletivo a socializacáo. Depois de palmilhar esse caminho. rnais Gil menos como o terreno entre as linhas Siegfried e Maginot. esrreirar o abismo nao significa estender os resultados inequívocos da ciencia a fim de impedir que o "reboralho humano" se comporte irracionalmente. a tecnologia e a objetividade. na melhor das hipóreses. O primeiro é que estamos postados. 1996). estrelas. na terra de ninguém entre as duas culturas. meu caro. subjetividade ou direiros se estes foram protegidos de quaisquer con tatas com a ciencia.pelo menos. as relacóes. sua história vívida. esta mais séria: "Encáo por que. a relatividade em que as ciencias sempre medraram. portante. e nao de barafunda ou desordem" (S07e-S08a). Um deles considera as ciencias acuradas semente depois que se livraram de todas as contarninacóes da suhjetividade. humanistas e literatos nao levam tanto a sério as tolices proferidas pela equipe de cientistas que constrói a ponte a partir da curra margem. só empresários poderiarn falar de negócios. a disciplina e a jusrica !igam o céu e a terra. como eu disse. o amor. sem dúvida. eu me senti tentado a fazer-lhe perguntas idiotas. de propaganda. só dá valor a humanidade. Nós. ser chamada de pedagogia. Sirn. da área de escudos científicos. depois de todas essas filosofias por cujos meandros vocé me conduziu. por definic. dos humanos. onde soldados franceses e alemáes plantavam couves e nabos durante a "guerra de mentirinha" de 1940. os nao-humanos e os deuses. num cosmos como reza o texto grego. Os cienristas estáo sempre a arengar sobre a necessidade de "lancar urna ponte entre as duas culturas". é .o que nos torna traidores de um e outro lado. Afinal de contas. Nao havendo já urna mente extirpada observando o mundo exterior. a procura da certeza absoluta faz-se menos urgente e. essas duas purificacóes . elétrons de elétrons! Isso implica.ao. ainda duvido do realismo radical que vocé defende? Nao posso evitar a sensacáo desagradável de que urna guerra científica está em curso. pessoas.ca<.ao do Górgias nos capítulos 7 e 8. por que a novidade dos "escudos cienrfficos'' nao pode ser tao fa- cilmente registrada. como se alguma houvesse que valesse a pena? Por que. rás de ras. cabe a nós rransformá-Io em "desordem 11 ou em "todo orgánico". moralidade. Afinal de conras.

entretanto. nos ofereceu esse tesauro de conhecimentos? Os próprios cientisras! Essa cegueira me parece tanto mais estranha quanro. dessas "barafundas". posram-se esquisitas mixórdias de política. os estudos científicos tornaram-se reféns da grande passagem de Ciencia para aquilo que poderíamos chamar de Pesquisa (ou Ciencia N" 2. Por engano. nos últimos vinre anos. distanciamento. e que nem o "social" nem o "mundo objetivan desempenham O papel a eles atribuído por Sócrates e Cálicles em seu grotesco melodrama. Fazer parte de um coletivo nao irá privá-los dos naohumanos que voces socializam tao bem. Se a Ciencia possui certeza. mais verificável. me/hor será. De um lado estáo as "disciplinas de guerra fria". quando se aposentam ou quando precisam de muito dinheiro. Os bons cientistas só travam guerras de ciencia ero seu tempo Iivre.e isso também contraria as crencas dos que foram induzidos a cultivar durante anos de adestramento.embora até isso seja errado. exisrem diversas disciplinas de statns incerto. por assim dizer. Em palavras ainda mais incisivas. com franqueza. Essa é a segunda razáo pela qual os "estudos científicos" sao tao polémicos. criptologia. Eis por que ficamos táo furiosos ante a suspeita de nossos colegas cientistas. Por um lado. nao ligam a mínima para os filósofos que acorrern em seu socorro. de outro. ciencias do solo. dizemos que qnanto mais nao-humanos parti/harem a existencia com os humanos. mais h1ifftano será um coletivo . continuamos indo de um partido a ourro. ciencias da com putacáo. descontraiam-se. é tentar livrar os sujeitos humanos dos perigos da objerificacáo e da reifiracáo. maneira de Sócrates. isencño e necessidade. porérn. frieza. mapeamento do genoma ou da vaga lógica. o dos humanistas. pela primeira vez. a Pesquisa parece aprescnrar todas as características oposras: ela é incerta. mais precisa. atulhando a estreira faixa da terra de ninguérn entre as duas linhas. Alguns perseguem o sonho e váo de urna ciencia autónoma e isolada. inúmeras disciplinas científicas vieram juntarse a nós. enquan- a ro nós assinalamos os verdudeiros meios de que necessitam para reaplicar os fatos as realidades sern as quais a existencia das ciencias nao pode sustentar-se. Irá privé-los. que ainda parecem semelhantes a Ciencia do passado. marketing. tecnologia.qnanto mais ligada lima ciencia estner com o resto do coletivo. eles gritam que o guante da objetividade está transformando almas frágeis e quebradicas em máquinas reificadas. por Olltro. aberra. ética e fatos que nao podem facilmenre ser abrangidos pela palavra Ciencia. que tentam aplicar sem sucesso o modelo amigo e nao se acham ainda preparadas para apregoar algo parecido com o que vimos dizendo: "Acalrnern-se.e aqui talvez sejamos com acerto acusados de urna ligeira falta de simetria -. do tipo de objetividade polémica euja única serven tia é funcionar como arma numa guerra política contra a política". esta dentro das próprias ciencias. Eles já nao parecem mais capazes de distinguir amigos de inimigos. as . insisrindo repetidamente que há tanto urna hisrória social das coisas quanto urna história "coisificada" dos humanos. é isto: os "estudiosos de ciencia" combarem milito mais os humanistas que tentam inventar um mundo purgado de nao-humanos do que nós combaremos os epistemologistas que tenram purificar as ciencias de toda conraminaráo pelo social. como Sócrates lhes chamaria. mais sólida (ver capítulo 3) . é difícil dizer o mesmo da neuropsicoiogia. ao passo que os humanistas só o que fazem. chegando mesmo a aliciar o concurso de fornecedores de verbas. auto noma e distanciada do coletivo. ciencia. Quem. como a chamarei no capítulo 8). isso sim. Se algo acontece . melhor. para nomear apenas algumas dessas zonas arivas. valores. vivem armados dia e noite. quando sustentamos que os objetos sao bons para a saúde dos sujeiros (pois nao apresentam nenhuma das características inumanas que tanto temem ). com a máxima seriedade. conforme Plutáo se lembra de nos advertir -. Quando lhes afirmamos que o mundo social é bom para a saúde da ciencia. mercados. parece que os advertimos de que a plebe de Cálicles está vindo para saquear seus laboratórios. sociobiologia. Nós. primatologia. melhor. com C maiúsculo. ternos um modelo que ainda aplica o velho lema: quanto menos desvinculada urna ciencia. quanto mais vinculada urna ciencia.e isso contraria todos os reflexos condicionados dos epistemologistas. focam envolvidos ero outra disputa. Quando tentamos chamar sua arencáo para fatos sólidos e mecanismos robustos. Por que? Porque os cientistas gastam apenas urna parcela de seu tero po purificando as ciencias e. objetiviciade. os out ros. Ao curro partido. Se há alguma plausibilidade na afirmativa de que a cosmologia nao tem a mínima conexáo com a sociedade .

sua énfase exagerada na reflexibilidade. como traeos positivos. Para nós. neste caso. os esmagadores fracassos do projeto racionalista. onde ao longo das idades foi feito o mais extraerdinário dos experimentos coletivos para distinguir. assumiram urna tarefa nao-moderna bem diferente. relativismo. instrumentos e know-how. pois afirmam nao preocupar-se mais com a capacidade da linguagem de referir-se a realidade. de pós-moderno* e o que chamei de náo-modernov. pudesse saber de anremño qual seria a resposta provisória. Daí sua apologia de Cálicles e dos sofistas. o colerivo. A Pesquisa a zona para a qual sao arrastados humanos e nao-humanos. seu júbilo ante a realidade virtual. deixon ele acreditar na possibilidade de conJuzir a bom termo esse programa implausível. mais negacáo e mais desconsrrucáo. quando o espírito da época firmar-se na opiniáo pública. Talvez. descende da série de acordes que definiram a modernidade. [rouxamenre. podem suportar. desenvolvimento. bern como das semeihancas ocasionais. revela algum senso comum. é absolutismo (Bloor [1976). surgida nao se sabe de onde. 1991). exceto pelo fato de assumir. Mas. o segundo acolhe como prova de presenca. cal qual os vejo.ada realidade. Por urna infeliz coincidencia. deixando no Olltro apenas alguns físicos resmungóes de guerra fria. os estudos científicos ostentam urna semelhanca superficial com aqueles prisioneiros encerrados ero suas células que deixamos. a que eleve contar em seu favor. em tempo real. Senre a mesma nostalgia que o modernismo. Mas nao refez a caminho da modernidacle rumo as diversas bifurcacóes que iniciaram esse processo impossível. Os esrudos científicos. resposras provisórias. o Ifcoletivo"*. entretanto. O oposto de relativismo. afirmacáo e construcáo. humaé é é nos e nao-humanos. os estudos de ciencia sejam Anriciéncia. nao é difícil de perceber. outra luta se desenrola nas ciencias sociais e humanidades entre dois modelos opostos: o que se pode chamar. como o nome indica. assim como grassa urna luta no seio das disciplinas científicas entre o modelo da Ciencia e o modelo da Pesquisa. pró ou contra a construcáo social. empreendida pela mente extirpada. pró ou contra os múltiplos pontos de vista. A mim me parece que o segundo modelo mais inteligente que o primeiro. Se a Ciencia prospera agindo como se fosse desvinculada do coletivo. A causa das rnuduncas radicais. seus insanos esforcos para redigir textos que nao encerrem o risco da presenca. seu desmascaramento das "narrativas 'rnestras'". bem o sei . Nunca nos faltaram a realidade e a moralidade. Estou sendo um poueo astuto. Herdou dela a busca da verdade absoluta. Quando falamos de híbridos e mixórdias. incapaz de distinguir até agora o quente do fria. afinal de contas. páginas atrás. estaráo no mesmo campo juntamente com todos os cientistas at ivos. Tudo aquilo que o primeiro invoca como jusrificacño para mais ausencia. debate entre Poder e Direito. préticas. juntos.quem sabe? . convém lembrar. O pós-modernismo. o humano do nao-humano. A luta pró ou contra a verdacle absoluta. No entanro . ainda desejosos de ajudar Sócrates a calar a boca dos "dez mil papalvos'' com urna verdade inquesrionével e absoluta. a modernidade jamáis constiruiu a ordem do dia. mediracóes. Já nao precisamos escolher entre Direiro e Poder porque Olltro partido ingressou na disputa.devido a urna conraminacáo mútua. pró ou contra a presen<. numa fuga apressada da verdade e da razáo. conexóes parciais. já nao ternos de decidir entre Ciencia e Anticiéncia. ou talvez ern virtude de um caso estranho de mimetismo darwiniano na ecologia das ciencias sociais ou ainda . Em seu desapontamento. cientista ou "estudioso de ciéncia". a discincáo radical entre ciencia e política.volras com problemas insignificantes como dinheiro. fragmentando em pedacos ainda menores as categorias que mantérn a mente humana afastada para sempre da presenc. sua afirrnacáo de que é bom aferrar-se ao próprio ponto de vista. redes. o "cosmo" da "desordem" sem que ninguém. o subjetivo do objetivo. relacóes.nao há por que esconde-lo -. eles sao a [aior da Pesquisa e no futuro. o construtivismo de Kant e a urgencia crítica que o acompanha.pode parecer que nós também seguimos o mesmo caminho. empreendendo urna lenta descida de Kant para o inferno . O empenho ° 34 .pois há urna terceira razño que torna difícil acreditar que os estudos científicos tenham tantos benefícios assim a oferecer. mais desmascaramento. pois rambérn aqui aparece um terceiro partido: o mesmo terceiro partido.a sorrir delambidamente durante todo o trajeto. "desordens" .a jamáis foi importante. a Pesquisa vista antes como urna experimenteiéo coletiua daquilo que humanos e nao-humanos.

pecados e doencas. moralidade. A profundidade é demasiada para mim. para destrincar alguns deles. Tenho de admitir qLle esrou sendo astucioso outra vez. Talvez sejamos os primeiros a libertar os ~a. nao a disputa j~ superada para saber se as palavras se referem ou nao ao mundo. só há urna coisa a fazer: mergulhar na caixa quase vazia. a espera de investigacáo e descricáo. mas já que vocé fez sua pergunra de mente aberra. amigos ou inimigos? Devo con~essar que é ne~e:­ sário mais que uro pequeno ato de fé para acei rar essa descricáo de nosso rrabalho. longe de sermos aqueles que Iimirararn a ciencia a limera consrrucáo social" pela massa convulsa. que tentam combater os perigos da objerifiracáo.a política da razáo esse velho acordo entre epistemologia. suas inúmeras gavinhas e suas frágeis redes ainda estáo. pela maior parte. tremendamente difícil. feita em sernelhantcs moldes. Longe ¿o estro~n­ do das guerras nas ciencias. Ao abrir a caixa-preta dos fatos científicos. espalhando pragas e maldicóes .ao deliberada em nossa postura.o-hu­ manos da política de objerividade e os humanos. COISas e deuses. Agora que ela foi aberra. E claro q. no caso. deceno. oculta no meio das couves e nabos. Acre~:ra~os que as ciencias merecem rnais que esse seqücsrro pela CIencia'. na realidade! Ainda duvida.ir nrn modo de libertar as cíincias da jJvlítica . é um pOllCO chflCti ~os~ s~tuar­ mos entre as duas culturas. suas delicadas articulacóes.ue se referem! O leiror poderia também pergunrar-me se acredito em mamáe e na torta de macá ou. bem como seus esforcos para esrabelecer fatos. nao ignorávamos que abríamos a caixa de Pandora. pelo menos de que nao existe nenhuma ofusca<. foram seqüesrrados pela cansativa ~ antiga disputa sobre como controlar melhor as pessoas. e pelos epistemologistas. para resgatar aquilo que. Espero que vocé esteja convencido. amigo? Ainda nao está certo de que sejamos peixes ou aves. talvez sejamos os primetros a descob. a saber. A rneu ver. ern meio as categorías do pós-moderno e do nao-moderno. Sem dúvida. Visamos a urna politica de coisas. das quais nem eu nem voce gostatlaé mos de participar (bem . os fatos e artefaros coro suas bonitas raízes. bem menos belicosas. Contrariamente ao que deva ter pensado quando me convrdou para essa conversa particular.uma r~spos­ ta igualmente franca. no centro da passagem histórica de Ciencia para Pesquisa.em desmascarar. a eJperanfd. a tarefa de extrair o "cosmo" de urna "desordem''. que procuram anular os males trazidos pela massa rebelde. segundo a lencla venerável. mais produrivas e.sim . ficou lá no fundo . seu rrabalho e o de rnuiros de seus colegas.ra­ tes nós da área de estudos científicos. mais amistosas. psicologiae teologia. nao quer ajudar-me na rarefa? Nao c¡uer dar-me urna mñozinha? 36 37 . acho que mer~c~e . fatos e arrefaros poder» inspirar muiras outras conversas. pi acidamente ignorada pelos humanistas. Ela esteve hermeticamenre fechada enquanto permaneceu na terra de ninguém das duas culturas. inventada para satisfazer a sede de poder de Cálides e ~óc. da política de subjetificacáo. calvez eu gostasse de disparar uns tirosl). As próprias disciplinas. mas que ser fiel ao próprio trabalho científico. Procuro fazer o melbor que posso. nestes tempos conturbados. nas páginas seguinres. Era impossível evitá-Io. expor e evitar compromisso debilita a tarefa ~ue sempre pareceu mais relevante para o colecivo das pessoas.

nem lacuna. um mapa. Para apreender isso. poderemos suscitar novarnenre a pergunta c1ássica a que a filosofia da ciencia renrou dar resposra sern a ajuda de fundamentos empíricos: como acondicionamos o mundo ero palavras? Para ccmccar. descobrimos até que ponto foram irrealistas muitas discussóes filosóficas sobre realismo. mas um fenómeno inteiramente diverso: referencia circulante*. prestar arencño aos deralhes da prática científica. Após descreyermos essa prática de rño perto quanto os antropólogos que váo viver torre rribos se-lvagens.urna pesquisa de campo na Amazónia. Com a ajuda de minha camera. tenrou lancar urna estreita pinguela sobre o abismo for~'ando urna arriscada correspondencia entre o que se entendia como domínios ontológicos totalmente diferentes: linguagem e narureza. em seguida. O antigo acordo originou-se de urna lacuna entre palavras e mundo. 39 .e urna situacáo . como veremos. Examinando em pormenor as práticas que geram informac.1 há urna vasta savana. escolhi urna disciplina . vale mais que urna floresta inteira. come~a abruptamente a orla de urna mata densa. Gil seja. A esquerda da figura 2. Se urna imagem vale mais que mil palavras.a pedologia .óes sobre determinada situacáo. Observemos agora a primeira moldura dessa montagem fotofilosófica. que nao exigirá muiro conhecimenro prévio. A direita. rentarei por alguma ordem na selva da prática científica. nern sequer dais dominios ontológicos distintos. ternos de desacelerar um pouco o passo e colocar de parte todas as nossas absrracóes de conveniencia.capitulo 2 Referencia circulante Amostragem do solo da floresta Amazónica A única muneira de compreender a realidade dos escudos científicos é acompanhar o que eles fazem de melhor. Pretendo demonstrar que nao há nem correspondencia.

caro leiror. é Edilel~sa. Familiarizado coro laborarórios. É brasileira como Edileusa. Embora possa parecer que os habitantes locais criaram esse espato limítrofe. Apesar de a savana s~rvi: de pasragern para o gado de alguns proprietários. ciencia do subsolo. mosrrar-lhe-ei alguns traeos da inteligencia de meus cienristas e tentarei conscienrizá-lo do rrabalho exigido por esse transporte e por essa referéncia. Porém. a portentosa árvore que se ve ao fundo pode ser um esculca enviado pela mata como elemento de vanguarda. A terceira pessoa. Serta-Silva. mas essa bem maior que a de Boa Vista. encontrou aIgumas na orla da floresta. a "agencia para o desenvolvimemo de pesquisa científica cooperativa". que geralmente só crescem na savana e sao cercadas de arbustos. após percorrer de jipe estradas rerrfveis até chegar ao local. ensinando botánica na pequena uOl~e~­ sidaJe da cidadezinha de Boa Vista. o :nsriruro de pesquIsas do antigo império colonial francés. capital do estado amazoruco de Roraima.quase outro país. ninguém jamais cultivou aquelas terras e nenhuma linha divisória foi tracada ao longo da orla de centenas de quilómetros.omo numa pintura de Poussin. porei dianre de seus olhos. onde sao mais vigorosas. Edileusa mostra urna espécie de árvores resistentes ao fogo. em Manaus. geomorfolegista: estuda a hisrória natural e social da forma da rerra.1 Um dos lados é árido e vazio. chama-se Heloísa Filizola. Estará a floresta avancando? Edileusa hesita. já que sou urna espécie de filósofo. úmido e estuante de vida. Figurinhas perdidas na paisagem. Ela e . sorrindo para o que Edileusa lhe most ra. Minha funcáo. A seu ver. Por intermédio desse relato forofilosófico. A pnmelra pe. Reside a cerca de mil quilómetros dali. Resolvi também. de Sao Paulo. postadas a(: lado c. utilizar rneu relarório sobre a expedicño para estudar ernpiricarnente a questño epistemológica da referencia científica. Figura 2. o ourro. Para sua surpresa. da Franca. onde o üRSTüM financia seu laborarório num centro de pesquisa brasileiro conhecido como INPA. que a floresta. É geógrafa ou. deparo u com urnas poucas dessas árvores dez metros floresta adentro. sou o que tirou a foto e estou descreyendo a cena. mas nao abrigam plantas menores.rsonagem/ que aponta para árvores e plantas. como insiste em dizer. nao devendo ser confundida com a geolo- 40 41 . que toma notas num caderno. Todavia.brasileira. consiste em acompanhar o trabalho dos tres. mas do sul. sua fronreira e a orla natural da floresta. como cultivam duas disciplinas muiro diferentes. Viaja por conra do üRSTüM. resolvi fazer urna mudanca e observar urna expedicáo de campo. que fica a rnilhares de quilómetros de distancia .gia. Sobre que esrarño conversando nessa manhñ de outubro de 1991. ao retirar-se. . Armand Chauvel e. arre médica de tratar dos pés). A sua direira outra pessoa observa atentame?te. falam deles de modo diverso. nem com a podiarria. sacrificou a usurpacño impiedosa da savana. como antropólogo francés. urna pequena faixa da floresta de Boa Vista. e a sociologia e a demografia das plantas? Esráo conversando sobre o solo e a floresta. apontarn par~ al~llm fenómeno inreressante com seus dedos e canetas. que há muitos anos Edileusn vem dividindo cuidadosamente em sccñes para observar os padrees de crescimenro das árvores. Também Ieciona numa universidade. Quanto a mim. Mora na regiáo. ou ralvez de retaguarda. local em que tendern a morrer por falta de luz. nao urn marco erigido pelo homem. ~ ArmanJ nao é botánico e sim pedólogo (a pedologia e urna das ciencias do solo.

em solo arenoso. que cobre toda a Amazonia. Aqui estáo dais hornens e duas rnulheres. mas nao tem certeza porque a evidencia botánica é confusa: a mesma árvore pode estar desempenhando um de dais papéis conrradirórios. mercúrio e espingarda. nao da areia a argila . Evitarei quanro possível tratar dos problemas de política que cercaram a expedicáo. justifica-se plenamente. Sobre a mesa. nao em seu "contexto" como sociólogo. reunimo-nos no rcrracc do pequeno hotel-restaurante chamada Em"ébio (figura 2. Para a expedicáo. degradando o solo argiloso. Armand (a direita) solicitou a ajuda de seu colega René Boulet (o hornem do cachimbo). a fim de refazer a qucscáo da referencia. os bonitos tons de amarelo. todo o conhecimento de pedologia de Armand fá-Io inclinar-se para a savana. ve-se urna caixa alaranjada cantendo o indispensével topofil. Tarnbérn se justifica plenamente a mistura do know-how de botánica com o ele pedologia numa única expedicño. o que re-nciono fazer aqui reproduair na medida do possfvel os problemas t' o vocabulário dos filósofos. Afinal. o mundo inteiro está inreressado na floresta Amazónica. urna geógrafa e urna botánica. Para Armand. pois nesre capítulo pretendo concentrar-me na referencia científica como filósofo. nao é rnuito longa. ainda que tal combinacño nao seja usual. necessário para as árvores saudáveis. René rambém é pedologista do üRSTüM. A cadeia de rranslacao". Francés como Armand. como o bosque de Birnam em direc.ninguém ignora isso. pois. peco desculpas ao leitor por omitir inúmeros aSlx'cros dessa expedicáo de campo que pertencem a situacño colonial. Se todo o seu con hecimento de botánica faz com que Edileusa fique ao lado da floresta. primeira vista a savana é que pode estar devorando a floresta aos bocados.2 é centro de Boa Vista. ou recuando? Essa é a quesráo que inreressa a Armand. impresso em papel. sobre o qual falarei mais tarde. o pedólogo. O primeiro mapa.2). Estávarnos no a Figura 2. corrigirei a distincáo entre conteúdo e conrexto.ao a Dunsinane. Dais pedólogos. no capítulo 3. as leis da termodinámica deveráo fazé-lo. destinada a resolvé-Io. Urna expedicáo de campo. nossos amigos esrño as volras com um inreressante conflito cognitivo e disciplinar.Estará a floresta avancando.ao do atlas. segundo meus informantes. que lhes permite obter fundos. compilado por Radambrasil nurna escala de um para uro milháo. (Desde já. Mais tarde. na orla de densas zonas rropicais. Os quatro debrucam-se sobre dois tipos de mapas e apontam para a localizacáo exata do sítio demarcado por Edileusa. Dois franceses e duas brasileiras. esculca ou elemento de reraguarda. Aprendí lago a rabiscar pontos de inrerrogacño diante da palavra "coberturas". O solo passa da argila a areia. da floresta e dos ianomámis. corresponde a se<. urna rude cidade de fronreira onde os garimpeiros vendem o ouro que tiraram. A notícia de que a floresta de Boa Vista. laranja e verde do mapa nem sempre correspondem aos dados pedológicos. Tres visitantes e urna "nativa". mas tem sua base em Sao Paulo. Assim. Edileusa acredita que a floresta está avancando. com picareta. por isso ele veio de tao longe. está avancando ou batendo em retirada deve realmente interessar aos hornens de negócios. Por isso desejam obrer um clase utilizando fotografias aéreas em branco e prero 42 . O solo nao pode impedir a degradacño: se as leis da pedologia nao esclarece m isso. na qual só sobrevivem a grama e os arbustos mirrados. reelaborarei a nocáo de contexto e.) Na manbá da parrida.

Na fotografia anterior. pois de ourro modo a comparacáo se perderia e o aspecto que desejam encontrar nao apareceria. Se ele nao houvesse escrito o número 29. A fim de explicar o conhecimento assim adquirido. os bancos de dados. caro leitor. os cientistas dominam o mundo . escrevo estas palavras e designo no ~apa. elirninem-se as dezenas de milhares de horas investidas no atlas de Radambrasil. carrografia. confundam-se as convencóes cartográficas. os desenhistas.a enorme numa cadeira. sem essas marcas.) Removam-se ambos os mapas. a localizacáo do sÍtio para ende Iremos quando Sandoval. na mesa do terraco. superpostas e combinadas. Resta aquele movimento do dedo. geografia. Ed i leusa. Observe. obrigados a reiniciar todo o trabalho de exploracáo. Mas nesta fotografia eles esráo seguros de si. "Eu. Sim. É sempre a mesma historia. em grandes letras pretas. nao devemos deixar de mencionar o foguete Ariane. Urna única inscricáo" nao inspiraria confianr. o técnico. Apaguem os números das mesas e ele ficará dio perdido em seu restaurante quanto nossos cientiscas na floresta. nossos amigos estavam imersos num mundo cujos traeos distintivos só podiarn ser discernidos se aponrados com o dedo. mas rambém ele precisa de inscricóes para gerir a economia de seu pequeno mundo. enfim. ao chegar de manhá. nao poderia acompanhar os pedidos ou distribuir as cantas. que o dono do restaurante parece ter o mesmo problema de nossos pesquisadores e de Tales. os impressores.mas desde que o mundo venha até eles sob a forma de inscricoes" bidimensionais. Parece um mafioso quando desaba coro sua panr. (As duas rnáos de Armand e a máo direita de Edileusa rém de esticar constantemente os cantos do mapa. Por que? Porque podem apcntar o dedo para fenómenos apreendidos pelo olho e sujeitos ao know-how de suas veneráveis disciplinas: trigonometria. Hesiravam. vier nos apanhar de jipe''. o "índice" por excelencia. sobre a mesa do restaurante. os gravado- res. sem mapas.a. todos aqueles cujo trabalho se manifesta aqui em papel.numa escala de um para cinqüenta mil. os satélites orbitais. referenciacáo. desde que Tales se poston ao pé das Pirámides.ao e quadriculacáo feito por centenas de predecessores. nao conseguiria governar seu próprio restaurante. Nossos amigos se atrapalhavam. triangular. mas a superposicáo das duas permite ao menos urna indicacño rápida da loralizacáo exara do sítio. 45 . Essa é urna siruacáo dio trivial que tendemos a esguecer sua novidade: aqui esráo guatro cientisras cujo olhar é capaz de dominar dais mapas da própria paisagem que os cerca. inrerfira-se com o radar dos aeroplanos e nossos quatro cientistas ficaráo perdidos na paisagem.

a re e e coordenadas. como pretendem meus amigos.n Ve-se urna pequena etiqueta onde fo¡ escrí. .a o . miraculosamenre sernelhante ao das ciencias. ' mee o a CO rrr os poucos hecrares de sua área de e squisa com urna rede de coordenadas cartesianas Os' P¡h pe . As ciencias nao falam do mundo.e o SitIO se-j a marcado antes por ostra ciencia a b t" nIela. diIVlidid a em qua-' pe drad 1 os. 1994).os e a gum 1 p . em tempos passados. diante de meus olhos.assim como reria pedid b ' . a dinámica da transicáo floresra-savana. mguern teve JJmais alela cunosa de pespegar-Ihe números F ' . . poderei seguir a trilha de urna disciplina relativamente pobre e fraca.da ignorancia para a certeza. nao aSSlSo ao naSClmento de urna ciencia ex nihilo E' 1 gas dól . Apesar do caráter pioneiro da expedirao acabe¡ _ . em Boa Vista. ogla a que pensara ter escapado vindo para o camp U CIenCIa sempre oculta Outra. Mas nao. .ao sao coisas diferentes? Outra pergunta: em que rninha maneira de discorrer sobre essa fotomontagem difere da maneira pela qual meus informantes falam de seu solo? Os laboratórios sao lugares excelentes. seus primeiros passos . ono o resrau. ¡I °drem¡po (as ( rrerencas entre os pontos da floresta sem ma ca. iniciar-se. Nao a fim de resolver. a POSSUl o que se na~:~ re erenci« tanto ~~ geometria (pela atribui~ao de coorde. evemos presumir obra 1 (Miller. 1992). escrmenrn surglmento (e novas espécies. 01 necessario arecer uro ciennsm ou macleireiro para marcar as ' rem d b d arvores a se.or ISSO.3).qualquer dos casos. ora rrazé-lo para perro. d erru a as. e por isso gesto tanto de estuda-los.. desta~~~id~a/m~nsa~~resta (Figura 2. mas constroern represcntacóes que ora parecem empurrá-lo para longe. No Iaborarório há sernpre um universo préconstruído. tmd' ). rguiares de J mor ob . cortanc o e que-imnnd. eencontro aSSlm a ~~ltO.esta. Em conseqüéncia. O discurso da ciencia possuiré um referente? Quando falo de Boa Vista. o dedo de Edileusa designa um único ponto codificado numa fotografia que apresenta apenas ligeira semelhanca. o Sle que estamos em 11m lahoratório embora m" 1 trae d 1 d d ' muscu o ). criar-se a partir do nada em confronto direro corn o mundo. com as figuras irnpressas no mapa. Aqui. imediatas e inrermediárias.em admlO1stra~ao de estoques (pela afixa 'a d ~ o e numeras espeClficos). que tem também formato quadrad R ' t l' o. ¡a se acomodou. enser estar no amago da floresta mas a impll'eara~o d o ~na "234" ' ' ) .ao. como os mapas. números e rmrrtrao registrar em seu caderno as variaraes de cr ' e o' I ). A floresta . a referéncia nunca deixa de lernbrar uma taurologia (Haeking. ro o numero ) 4ete. entretanto. um galho horizontal Nos rnilhares de anos em que os horne flor J os percorreram essa .s qU. Que sorre! Acompanhando a expedic. instrumentos. linguagens e práticas. . Se eu removesse as etiquetasOdas:~ 46 . Já nao se ve a ciencia" balbuciar. e. da inferioridade em face do mundo para o domínio do mundo pelo olho humano? Essas sao quesróes que me interessam e ern virtude das quais viajei para tao longe. estamos bem longe da floresta. a que se refere a palavra proferida? Ciencia e ficc. prega2. hOllvesse corrido o Brasil na compan la de J ussieu ou Humboldr. Meus amigos tencionarn descobrir se a floresta avanca ou recua e eu quero saber como as ciencias podem ser ao mesmo tempo realistas e construtivisras. Toda planr ' eh f " . ' (e um meticuloso guarda-livros AfóS viajar urna hora de jipe. . No entanro. nos quais se pode entender a producáo de certeza. pregou etiquetas a intervalos re. da eo rafi lOO servar o vaivem g g Iha. corno o mundo conhecido e o mundo cognoscente estáo sempre interagindo. ela própria a colecño de' e _ pa 1 ' -s tnrormacóes no pe.a? J-)()~lem iruciar proveitosamente seu trabalho . a ciencia nao se mistura bem coro os ganmpeiros e as águas claras do rio Branco. se. A mesa do restaurante... ero cerros traeos. e la nao conseguiria 1 b mu t I [if em rar-se por . Em . . eles apresentam a séria desvanragern de confiar na infinita sedimenracáo ele ourras disciplinas. que meus ca ea m~: o ogos n. que irá ensaiar.. . quanro . mas para descrever o gesto mínimo de um dedo apontado para o referente do discurso. idé . ao que parece. da fraqueza para a forca. como se a tivesse na máo. próximas e distantes. chegamos ao trato de terra que Edileusa vem mnpeanrio há anos Como o d d rante f fi' . . para cultivá-la ni .Como se passa da primeira imagem para a segunda . As ciencias falam do mundo? É o que se afirma. . na otog m la anterior. confiáveis e frágeis. . ' ap '. mas Edileusa fala dela com seguranca.. a numera~ao de árvores . une o uniformemente verde Nesse lh da com um a ¡ f i ' ' ga o.

ao. a preservacño de um espécime que mais tarde atuará como fiador quando da própria ficar ero dúvida Ol1. Como as notas de rodapé utilizadas em 1ivros escolares.4). mas urna amostra que se comportará como urna testemunha silenciosa de sua assertiva. diretamente. Cada planta que da removc representa milhares da mesma espécie. por diversos motivos. Na bracada que ela acaba de colher. "trazer de volta''. encontrada na savana. Edileusa corta seus espécimes (figura 2. Cnrateila americana e Cannarus f.nosns. os espécimes que correspondem aos reconhecidos taxonornicarnenre como Gnatteria schombllrgkiana. essa bracada de espéeimes afiuncará o texto que resultará de sua expedicáo de campo. Edileusa nao está colhendo um rarnalhete. A fim de poder dizer que a Afitltlllttl'tI dia. O referente é aquilo que designo com o dedo. urna induC. dar é Figura 2. presentes na floresta.o escusar-me a resposta é porque nao existe nenhuma tecla FF para desenrolar rapidamente a prática da ciencia se eu quiser seguir os muitos passos dados entre nossa chegada ao sítio e a publicacáo final. Edi leusa entraria em pánico como aquelas formigas gigantes cuja trilha perturbei passando lentamente o dedo por suas rodovias químicas. na savana e na zona limítrofe entre ambas. mas apenas a sombra de outras que conseguem sobreviver ali. fora do discurso. Sernpre nos esquecemos de que a palavra "reíeréncia'' vem do latim r~ferre. podemos identificar dais traeos de referencia: de um lado. seus colegas duvidarem de suas afirmacóes. urna economia. A floresta nao pode. ou é aquilo que trago de volta para o interior do discurso? O único objetivo da monragem é responder a essa pergunra.vares ou as miscurasse.-poris.ao inteira. Afirma identificá-los tao bem quanto aos membros de sua própria família. em outra acepcáo da palavra). está reunindo as provas que quer preservar como referencia Caqui. Se parec. urna planta comum da floresta.4 48 . Nesse quadro Edileusa recolhe. da rem de preservar. um atalho. nao a populac. um funil ande Edileusa toma urna única folha de grama como representante de milhares de folhas de grama. de ourro.. da ampla variedade de plantas. as quais o inquiridor ou o cético "fazem referéncie'' (outra acepcáo da palavra). Deve ser capaz de encontrar o que escreve em seus cadernos e recorrer a eles no futuro.

dos nomes das plantas para os espécimes desidratados e classificados. junto com as notas. Os dossiés. a grande distancia da floresta. se acaso houver polémica. volcaremos aos passos intermediários. 1989. Um armário com os compartimentos dispostos ern trés corpos constitui um espaco de trabalho entrecruzado por colunas e fileiras em forma de x e y. nem árvores.5. nero os bugios cujos guinchos podern ser ouvidos a quilómetros de distáncia estáo presentes. aquelas plantas que a botánica recolheu na floresta. Essa pe~a de mobiliário é urna teoria. mas plantas. secou nuro forno de 4ü"C para matar os fungos e ero seguida comprimiu entre folhas de papel-jornal. apenas um pouco mais pesada que a etiqueta da figura 2. pela extracác de um fiador representativo. Achamo-nos.formulários ou cartas -. na colecáo. pois. E. 1998). em Manaus.crédito ao texto de Edileusa. longe da floresta? Melhor seria dizer que nos Figura 2. Urn texto fala de plantas. mas esse crédito ela pode obrer indiretamente. arquivos e pastas abrigam. Apenas aqueles poucos espécimes e representantes que interessam a botánica entraram para a colecáo. para sua colecáo na universidade em Boa Vista. nern verroes.5 . Lynch e Woolgar. Vejamos o que lhes sucederá numa dessas insrituicóes. A floresta inteira? Nao. Na figura 2. recorreremos a seu caderno para remontar dos espécimes ao sítio assinalado de ande ela partiu. pois tal passo é bem mais conhecido e foi descrito com maior freqüéncia (Law e Fyfe. nao textos . Pocleremos entáo passar de seu relatório escrito para os nomes das plantas.. Um texto tem plantas como notas de rodapé. estamos num instituto botánico. nem solo. apto a ser transferido. Depois. Nem formigas. 1990. entre urna caixa e a árvore do conhecimento. pois ela pode ser encontrada aqui. As etiquetas designaro os nomes das plantas colecionadas . Cada compartimento mostrado na fotografia é utilizado tanto para classifiracáo quanto para eriquetacáo e preservacáo. Star e Griesemer. O que acontecerá com essas plantas? Seráo levadas para longe e instaladas numa colecáo. Estamos longe ou perto da floresta? Perto. Urna folhinha jaz num leito de folhas. cuidadosamente preservado e etiquetado.3. porém rnuiro mais apta a organizar o escritório. biblioteca ou museu. Jones e Galison. 1988. um inrermediário perfeito entre o hardware (pois abriga) e o software (pois classifica). nern aran has.

A filosofia.:' l' 1. urna vez classifi- !! ¡i:~ I':ti . Estamos a urna boa distancia e conseguimos transportar um pequeno número de tracsos característicos. A botánica nao conseguiria. A distancia supostamente vasta entre palavras e coisas restringe-se agora a alguns centímetros. porérn. ver além de seu espacso restrito. Mas passemos ern revista o que sabemos dessa superioridade antes de tentar seguir de novo os passos inrerrnediários. como se caules e flores se imprimissem diretamente no papel OU. E para que transportar para cá a floresta inteira? As pessoas se perderiam nela. até as paredes se tornam parte das múltiplas linhas entrecruzadas do mapa ande as plantas encontram seu lugar na taxonomia padronizada há séculas. Durante o transporte. em todo caso. Aqui. arte do maravilhamento. esse je ne sats qxoi. há urna mesa semelhante do restaurante. '" a Figura 2. Aqui. gracas a qual urna partícula permite a apreensáo do todo imenso. Nesse pequeno recinto. se fizessem compatíveis com o mundo do papel. alguma coisa foi preservada. Eis aí urna metonimia assaz económica tanto em ciencia quanto em política. possuindo-a toda por interrnédio desses deputados. Primeira vanragern: conforto. ande os espécimes trazidos de diferentes locais e em diferentes épocas estáo a mostra. examina-los a vontade e escrever ao lado deles. O calor seria tremendo. deveria considerar cuidadosamente essa mesa. acho que compreenderei referencia científica. O espaco se rranforma numa mesa de mapas. Se eu puder captar essa invariante. Folheando as páginas de papel-jornal. Urna segunda vantagem. é que espécimes oriundos de diferentes épocas e locais.6 . Assim.acharnos a meio-carninho. como se o Congresso contivesse os Estados Unidos inteiros.6). ende a botánica preserva sua cole<. pois é gracsas a ela que percebemos por que a botánica ganha mais ao reunir sua colecáo do que perde ao distanciar-se da floresta. nao estamos nem muito longe nem muito perto do local de pesquisa. o armário num conceito e o conceito numa insrituicáo. a mesa de mapas num armário. o ar-condicionado sussurra.ao (figura 2. a pesquisadora pode tornar visíveis as flores e caules secos. pelo menos. igualmente importante.

já que quer dizer ao mesmo tempo "olhar de cima" e "ignorar". colhida a mais de mil quilómetros de distancia. plantas.cados. da disciplina da botánica (padronizada durante séculos) e da insrituicáo que as abriga. O ritmo tem de ser acelerado se nao quisermos sucumbir ao peso de mundos de árvores. algo de assusrador aparece: urna enorme pilha de jornais recheados de plantas trazidas do sftio e a espera de classificacáo. já nao crescem como cresciam na grande floresta. ciencia botánica e floresta. a palavra inglesa oliersight captura exatamente as duas significacóes dessa dorninacáo pelo olhar (sight). também decisiva: a pesquisadora pode mudar a posicéo dos espécimes e substituir uns pelos outros como se embaralhasse cartas. que dependem do pesquisador.a concreta no dito tapete valida minha declaracáo. na biblioteca. qualquer cientista se torna um estruturalista. c1assificadas e etiquetadas. 1979). cujas proporcñes terei de calcular mais tarde. Gracas a seu deslocamento sobre a mesa. o contrário surpreenderia mais. red uzida a sua mais singela expressáo. indiscerníveis. Na floresta . reordenar.no mesmo mundo. plantas. mas passamos muito Jepressa pelas transformacóes a que Edileusa submeteu a floresta. nas reedicóes enviadas por colegas. na prática real. Nao surpreende. mas com todas as suas árvores. tornam-se contemporáneos sobre a mesa plana e visíveis ao mesmo olhar unificador. passamos a conhecé-Ia.l1 . No canto superior direito da fotografia. Mal chegamos e já ternos de partir. Dispersas pelo tempo e pelo espac. O conhecimento deriva desses mouimentos. ande os números dos jornais váo se acumulando. Em seguida sao reaproximadas. A botánica (Edileusa) aprende coisas novas e se transforma de acordo com elas. a arranjar pacientemente as folhas. Terceira vantagern. No en tanto. nao existe diferenca entre observacáo e experiencia: ambas sao construcóes. impossíveis de identificar. A botánica ficou para trás. Esta planta. controlar. assustadoramente presentes. consiga discernir padróes novas que nenhum predecessor viu antes. papel. solo e yermes -. incapaz que sou de dizer tudo o que se pode dizer de urna experiencia de campo que durou apenas 15 dias. a floresta. Ao perder a floresta. Na mesa de jogo.) Darwin fugiu de casa logo depois de volrar de viagem.amos. a botánica nao poderia dispor calmamente as pecas de seu quebra-cabeca sobre a mesa de jogo. mergulhamos num mar de dados. (Também eu renho esse problema. Entretanto. Lago que chegamos a um campo ou acionamos um instrumento. As inovacóes no conhecimento emergem naturalmente da colecáo espalhada sobre a mesa (Eisenstein. esmagados pelos fenómenos complexos. nem sempre o naturalista tem éxito. e esta outra. Ao passar direramenre do campo para a colecáo. classificada há tres anos. conspiram sobre a mesa para formar um quadro sinórico. posso ter esquecido o intermediario decisivo. as folhas jamais se encontrariam caso Edileusa nao rediscribuísse os traeos delas em novas cornbinacóes. mas as plantas se transformam também. raízes. com tantos trunfos a máo. a superfície de conraro entre floresta e savana torna-se urna mistura híbrida de cientista. Na colecáo do naturalista. Agora conhecemos as vantagens de estar num museu com ar-condicionado. acontecem as plantas coisas que jamais ocorreram desde o come<. Eu opus de manei ra excessivamente abrupta a imagem da botánica apuntando para as árvores e a do naturalista controlando espécimes em sua mesa de rrabalho. Desse ponto de vista. Numa be la contradicáo. o primeiro instrumento deixa de ser operacional quando precisamos pensar num segundo dispositivo para absorver o que seu predecessor já inscreveu. preservadas. INSTITUTO DE PSICOLOGIA - UfH(. pode lago transformar-se no emaranhado de galhos de ende come<. textos. separadas. que no calmo e fresco escritório a botánica.~ RIRI IOTFr. Se digo que "o gato está no tapete". con tuda. O mundo pode regredir a confusáo em qualquer ponto desse deslocamento: na pilha de folhas a serem indexadas.o. perseguido por baús de dados que nao paravam de chegar do Beagle. folhas. mas tornaram-se tao móveis e recombináveis como os caracteres de chumbo de uro monotipo. As plantas se véern deslocadas. Acontece o mesmo ero todos os laboratórios. Nao é preciso procurar mais o jogador que arrisca tudo e sempre vence os que suam na floresta. nao da mera contemplacáo da floresta. parece que designo um gato cuja presenc.o do mundo (ver capírulo 5). Dentro da colecáo da botánica. nas notas da botánica que amea~am submergi-la. pois. reunidas e redisrribuídas segundo princípios inteiramenre novas. As plantas nao sao exatamente signos.

Urna vez que a estrurura do solo está sernpre escondida sob nossos pés. Na fotografia da figura 2. mas sempre ao longo de uro arriscado caminho intermediário. A superestrutura seria explicada pela infra-estrutura. René Armand e HeloÍsa discutem em volra de um buraco no chao. do referente para o signo. demarcando um lugar com estacas para esbocar figuras geométricas contra o ruído de fundo.7 1." . a deter~inada ~ro~fun­ didade. diferente sob a floresta e sob a savana. de que modo se pode "eduzi-Ios" no discurso? E preciso volcar ao campo e acompanhar cuidadosamente. O perfil é "bizarro". como apontarei para aquilo euja presen<. que . O que já nao é visíve1 no caso de gatos e tapetes. e a qualquer momento podem sumir-se no Inferno Verde caso se afastem multo uns dos outros. Os pesquisadores nao passam de manchas cáquis e azuis sobre fundo verde. Embora me aproveite da situacao para barer urna foto. E1S urna hipótese simples que poderia ter posta um fim a controvérsia entre a boránica e a pedologia: nern a floresta nem a savana esráo recuando. a mensuracáo de ángulos. exatamenre. para a pedologia. para empregar llr. camadas do solo.o urna declaracáo mais inusitada e complexa. Mergulhados de novo na floresta. mas o modo como nossos amIgos coletarn dados na própria floresta. Deixames o laboratório e estamos agora no amago da floresta virgem. raízes. ou pelo menos para ensejar a possibilidade de seu reconhecimento. Em consonancia com os hábitos de sua profissáo.os sao. geometria cuja origern mítica fui rastreada por Michel Serres (Serres. A hipótese da infra-estrutura nao se sustentou.i' !! . Se eu disser que Ha floresta de Boa Vista avanca sobre a savana".a validaria minha frase? De que modo se pode arrair esses tipos de objetos ~ara dentro do discurso.8. que acontece dentro das colecóes. designad as pe 1a boni oruta pa 1 avra "hori onzon res" . René está de pé e apontando para mim coro uro instrumento que combina bússola e clinómetro. minhocas. tem de se- . OH antes. Figura 2. Buracos e poc.7. Nada na camada rochosa parece explicar a diferenca nos horizontes superficiais . Um perfil é a jusraposicáo das sucessivas .o.ta palavra arruga. desernpenho o papel menor. N a fotografia da figura 2. a pedologia. de estaca de referencia para René determinar onde. 1" cobriram.os pedólogos aprendem a distinguir. como logo des- í " !! . os pedologos queriam saber se o leito rochoso era.. plantas.entretanto. nao apenas 0. a faixa de terreno entre elas reflere apenas urna diferenca de solo. toupeiras e bilhóes de bactérias transformam o material original do leito de rocha (estudado pelos geólogos) em diversos "horizontes" diferentes. abaixo de cinqüenra centímetros o solo sob a savana e o solo sob a floresta eram exatamenre iguais. . 1993). Outra vez urna ciencia. eles se véern forcados a apelar para a mais vetusta das ciencias. c1assificar e envolver numa história que chamam de "pedogenese" (Ruellan e Dosso. torna-se visíve1 00vamenre quando fa<. No entanto. rudo é um borráo só. os pedólogos deveráo cavar seus buracos. os pedólogos só conseguem revelar seu perfil cavando buracos. por setero muito familiares. para utilizarmos urna velha metáfora marxista..argilosos sob a floresta e arenosos sob a savana. Perdidos no mato. es Água de chuva. na tentativa de esrabelecer uro pacido topográfico inicial. nao se trafega direeamente dos objetos para as palaveas. o que urna colecáo de espécimes é para a botánica: o ofício básico e o centro de urna atencáo obsessiva. os pesquisadores recorrem a urna das técnicas mais antigas e primitivas a firn de organizar o espa<. bem de acordo corn minha estatura. 1993). o que deixou meus amigos ainda mais excitados.

f " -' . Ele avanca em gradacóes aproximadas. aguilo que é dado. o sítio está semeado de pedacos de linha que se enroscam em nos sos pés. nenhum agrónomo jamáis nivelou este solo.3). Quanra coisa depende de um pedofil COt de laranja. Além disso. ligados por fios de algodáo que materializam (ou espiritualizam) linhas numa rede ccmposra por urna série de triángulos. em que ela se distingue das outras e quais as controvérsias que daí se originam.~ :1 . revela o mecanismo abrindo a caixa alaranjada. É impossível que um pedólogo caro e distraído se perca no Inferno Verde: a linha de algodáo sempre o levará de volra ao campo. localidades dispersas tornam-se pontos marcados e medidos. supetpor os dados botánicos e pedológicos no mesmo diagrama. A fim de ir de um ponto a outro os pedólogos nao podem usar urna trena. o pedólogo pode ir de um ponto ao seguinte. a agrimensura. Após chegar a seu destino. A sucessáo de triángulos será usada como referencia e acresrentada a nurneracáo de secóes quadradas do sfrio. há muita areia sob a savana e rnuita argila sob a floresta. Seu caminho torna-se um número facilmente transcrito no caderno de notas e . mais tarde. já elaborada por Edileusa (ver figura 2. Se Kant houvesse utilizado esse instrumento. É que. escolhendo primeiro dais solos extremos e depois recolhendo amostras no meio. precisa ser preparada para entregar-se como diagrama (Hirshauer. Se eu esrivesse aqui fazendo as vezes de historiador e nao de filósofo a cata de referencia. 1991). sem a qual cavaríamos nossos buracos ao acaso. reconheeeria nele a forma prát ica de sua filosofia. ou seja. fiados na sorte. O Topofil Chaix [marca tegistrada] (figura 2. Um carretel de linha de algodáo vai girando regularmente e aciana urna roldana que ativa a roda dentada de um contador. por exemplo. para tornar-se reconhecível. 1:: J. Quando se extrai um diagrama de urna confusao de plantas. Cravando o contador no zero e desenrolando o fio de Ariadne atrás de si. Se a floresta virgem tem de transformar-se ero laboratório. A fim de. rujos limites extremos contérn os solos mais diferentes possíveis. esses deis corpos de referencia rém de ser compatíveis.9).. na forografia. Aa invés da trena. verdadeiros "órgáos" do solo).. discutiría mais dernoradamenre o fascinante paradigma daquilo que René chama de "pedologia estrutural". eles se valem de um instrumento maravilhoso. o mundo precisa transformar-se em laboratório. incapezes de lancar no papel o mapa exato que René gostaria de desenhar. mas antes em sublata. o chao se tornou um protolaboratório um mundo eudid iano ende todos os fenómenos podern ser registrados gra. em resultado das medidas de ángulos da bússola e das medidas de linhas do pedofil. 1. Nunca se deve falar em data. Seu método lembra tanto a artilharia (pois busca a aproxirnacáo determinando pontos medianos) quanro a anarornia (pois tra~a a geometria dos horizontes.8 guir a trilha de urna disciplina rnais velha.vantagem duplaassume forma material no pedaco de linha cortado. ou seja. Após uns poucos dias de rrabalho. Aqui. aquilo que é "realizado".as a um conjunro de coordenadas. Se joáozinho e Maria tivessem a máo um "Iopofil Chaix ti ji! perd« n" de ré/érence 1-823T" a história deles seria bem diferente. ele simplesmenre corta a linha com urna lamina instalada junto do carretel e dá uro nó na ponra para evitar que ele gire a toa. Uro olhar para o mostrador revela a disrancia percorrida em metros. Continua assim até obter horizontes homogéneos. A prática corriqueira de René consiste ern reconstituir a superfície do solo ao langa de rranseccóes.Figura 2. que colegas brasileiras apelidaram maliciosamente de "pedofil" e do qual Sandoval.

9 Utilizando-se unicamente as formas a priori da inruicáo. como eu. perrnitem que eIa seja usada tanto para medir profundidade quanro para recolher amostras. irá levé-los a Paris. para que colha- . E um quadro que ternos de preencher sistemaricamente coro informacáo. sua cor e a atividade das minhocas. Ao conrrário da ferramenta de Sandoval. para citar novamente a expressáo de Kant. bem como a distribuicáo de papéis entre homens e mulheres. Os pedólogos exarninam a amostra de solo e em seguida Heloísa coloca-a num saco plástico. é imposta a cada seqüéncia de a<. seria impossfvel aproximar esses sftios. para os quais despachado suas amostras. cavou a maior parte do buraco mostrado na figura 2. Para cada amostra.10. sua granulacáo ou a radiarividade do carbono que contérn sem os insrrumentos caros e a habilidade que nao sao fáceis de encontrar entre os garimpeiros pobres e os proprietários de terras. um aviso: jamais se ofereca para carregar suas maletas. O sucesso da expedicáo depende. recolhendo a terra na pequena cámara localizada na pcnta. equivalente ao protocolo que regula a vida de qualquer laboratório. Ainda que René e Armand possam avaliar no local a qualidade da terra. a picareta pousada no chao agora que sua tarefa term inou. Esse livrinho é que nos permitirá retomar cada dado a fim de reconstituir sua história. pois. da confianca em Heloísa. Quanro aos espécimes de Edileusa. A lista de perguntas. cheias de sacos de terra que eles rransporram de urna parte do mundo a nutra e que lago encheráo sua geladeira. via Manaus e Sao Paulo. remove amostras lá do fundo. elaborada na mesa d? restaurante. Nessa expedicáo. Aguilo que os indusrriais chamam de "rastreabilidade" de referencias depende. Se. precisa anorar os dados qualirativos que seus dais colegas conseguem extrair dos torrñes.Figura 2. sua textura. ráo densa quanro o emaranhado de linha expelida por seus topofils. mediante pressáo e torcáo. Dois tarnpóes de borracha. que sao enormes. neste caso. os membros do grupo esperam que ela anote tuda cuidadosamente em seu caderno. Estas perrnaneceráo ligadas a seu contexto original apenas pelo frágil vínculo dos números escritos com canera prera nos saquinhos transparentes. clinómetros e topofils. instalados a noventa centimenrros e a UID metro. (Sem dúvida. deve registrar as coordenadas do local. os pedólogos representarn a vanguarda de laboratórios distantes. filosofia da sociologia. a manejar equipamenros como bússolas. como impossível seria ensinar um cérebro extirpado. vocé cair um dia nas rnáos de um bando de pedólogos. se eu nao houvesse separado artificialmente a . o técnico. Além disso. A circulacáo das amosrras dessa gente trac. o momento e a profundidade em que a amostra foi colhida.) Armand. Sentados dianre do buraco. reria de explicar essa divisáo de trabalho entre franceses e brasileiros. desse pequeno "diário de bordo".ao por Heloísa. Helofsa comporta-se como o fiador da padrónizacáo dos protocolos experimentáis. Daqui os sacos plásticos iniciam urna langa viagern que. no qual escreve o número do buraco e a profundidade em que a amostra foi colhida. desprovido de membros. nao podem analisar a cornposicáo química do solo.a urna rede sobre aTerra. antes de depositá-Ios nos sacos plásticos. o número do buraco. o único membro do grupo que nasceu na regiáo. Sandoval. rnuitas análises nao podem ser realizadas no campa e sim no laboratório. inclinado sobre a perfurarriz. a perfurarriz é urna peca do equipamento de laboratório. mestices e Indios.

Na grama da savana.10 mos os mesmos tipos de amostras em cada local e da mesma maneira. portante. . assegura a (00tinuidade no cempo e no espaco. incapaz de distinguir um perfil de um horizonte? Nao serei ainda mais exótico. a comparabilidade dos buracos.11. Os índios que ourrora percorriam estas plagas provavelmente se impunham rambém alguns riruais. Heloísa nao se ocupa apenas com etiquetas e protocolos.. distinguimos urna série de cubinhos de papeláo vazios.. . inútil. Na qualidade de geomorfologista. obrigados a manter a todo CLISto e com um mínimo de deforrnacáo a rastreabilidade dos dados que produzimos (emboca os transformemos completamente ao rernové-los do contexto).. dispostos em quadrado. haurindo do esforco de meus informantes o mínimo necessario para urna filosofia da referencia que só interessará a uns poucos colegas em Paris. verifica as inscricóes no saco plástico. Para que tanto cuidado na amosrragem de espécimes cujos traeos permaneceráo visíveis apenas enquanto o contexto do qual foram extraídos nao houver desaparecido? Por que nao permanecer na floresta? Por que nao continuar "nativo"? E que dizer de mim. rondando por ali. !: 1: .. Ela tepe te duas vezes a inforrnacáo que René nos dira e. talvez dio exigentes quanto os de Heloísa. Enviados por insriruicóes sediadas a rnilhares de quilómetros de distancia. Califórnia ou Texas? Por que nao me torno um pedólogo? Por que nao me transformo num coleror de solo nativo. num botánico autóctone? Para entender esses pequenos rnisrérios antropológicos. Esses cubinhos esráo instalados numa moldura de madeira que lhes permite serern acondicionados numa gaveta. Mais coordenadas cartesianas. mais fileiras. fechas e urna aba flexfvel (nao visfveis na fotografia) para cobrir os jil . mas sem dúvida nao tao esrranhos. fazendo CDm que seus colegas expatriados "rriangulem" conclusóes por inrermédio das deIa. temas de nos aproximar mais do belo objeto mostrado na figura 2. duas vezes. quanro ao caderno. participa de todas as conversas. Parece-me que nunca antes a floresta de Boa Vista presenciou tanta disciplina. o "pedocornparador". teríamos parecido bastante exóticos aos Índios. de bracos cruzados. Ouvir Heloísa é ser chamado a ordem. Os protocolos garantem a comparibilidade e. Gracas a habilidade de nossos pedólogos e com o acréscirno de urna alea. mais colunas.--~~ Figura 2.

o peclocomparador está vazio.0 na uilo que passa a ser urna pedobtbhoteca. No enranro. Com urna caneta hidrográfica. Signo e móvel. tentaremos compreen~er.as a engenhosa invencáo desse ~íbndo .ao por palavras cuja verdade ou falsidadc é garantida apenas por sua presenca."cinzas as cinzas. dos verdes-escuras e dos cinzenros da vasta e rnúrrnure floresta.mal s concretamente a tarefa prática de abstracáo e o que significa mudar um estado de coisas em assertiva.12.5. Dianre dos rneus olhos e dos olhos de meus amigos. o pedocomparador pertenee a?s signos. O gato "real" espera pachorrentarnente em seu tapete proverbial para conferir valor de verdade afrase 110 gato está no rapere''. antes que os fenómenos se manifestem. em qualquer caso. depois de colocado dentro do cubo que está na mño esquerda de René. Filoso os analíticos esforcam-sc JX>r descobrir como falar do mundo numa é Figura 2. Todas essas formas vazias sao colocadas por trds dos fenómenos. a curra rnetade negligenciaJa da filosofia analítica. É isso.cubos a gaveta pode transformar-se também em maleta~ A maleta ermire o transporte simultaneo de todos os torrees que desd~entáo se rornaram coordenadas c~rte. Seguro pela máo direita de René. o pedocom parador pert~n_ce as "coisas''. o mundo precisa agitar-se e transformar muito mais a Ji mesmo que as palaoras (ver capítulos 4 e 5).d~ c~ em discurso quanto para falar do propno discurso. pó ao pó''. Coro sua alea.do. sua aba e sel~s cubos. _. transforma-se no reposirório de um código numerado e lago será definido por urna coro Na filosofia da cien- !: . ou seja. o pedocomparador nos . Mas ~a regular~~ dade de seus cubos. ainda que déern importancia aestnuura.11 linguagem permeável a verdade (Moore. Curiosamente. Obscurecidos na floresta por sua imensa quancidade. que os analistas térn agora de reconhecer.sianas e sua acomoda3. remove um rcrrño da profundidade determinada pelo protocolo e deposita-o num dos cubos de papelño. sua arrnacáo de ~adelra. muito diferentes.q~e ~ mu~­ do das coisas pode tornar-se um signo. Por lOterme~lO as tres fotografias seguinrcs. Por enguanto. seu e . e concreto. tra~os característicos serño banhados numa luz tao branca quanro o pedocomparador vazio ou o papel gráfico. dividido em quadrados por números inscritos em etiquetas pregadas as árvores.n~o dispornos i~ um vocabulário táo meticuloso para falar . d Serei abrigado a empregar termos vagos . Consideremos esse peduco de terra. roma-se urn signo. em todas as suas demonstracóes o mundo simplesmenre aguarda clesignat. sua disposiráo em col~na~ e ~lelfas. ele conserva toda a matcrialidade do solo . Na figura 2. René concentra-se. Esse instrumento pode ser incluído na lista de formas vazias que tém prevalecido ao longo da expedicáo: o trato de terra de Edileusa. eng~Jamenro . rater dirscre t o e a possibilidade de se substituir livremente11urna I! • O coluna por outra. . para obter certeza. Helofsa escreverá num dos cantos do cubo um número que também anotará no caderno.aludará a captar a diferenca prática entre abstrato. ende alguns pássaros pipilam de modo tao obsceno que os habitantes locais chamam-nos de llaves namoradoras". a marcaciio dos buracos coro a bússola e o top~(i! de René. grac. assume forma geométrica. No entanro. 1993). Após cortar aterra com urna faca.. os fenómenos finalmente consegttiráo aparecer. ~ C~mo o armário da figura 2. esbarer-se contra os novas panas de fundo que desdobramos astutamente por trás deles. coeréncia e validez de Iinguagem. u antes. a numeracáo das amostras e a seqüéncia disciplinada do protocolo mantido por Helofsa.

ao. O abismo imenso entre coisas e palavras pode ser encontrado em toda parte. Tendo operado a passagem de um torráo para um signo.ele o eduz. que invencáo. Nao estamos saltando do solo para a Idéia de solo.o de terra beneficia-se de um meio de transporte que já nao o modifica. constituem sempre a parte mais importante de ¡: . Todas as rranseccóes se revelam compatfveis e cornparáveis. um esquema de classificacáo (Bensaude-Vincenr.12 67 . A dimensáo terrena do platonismo revela-se nessa imagem. esse momento de substiruiráo. mas de conrínuos e múltiplos pedacos de terra para urna cor discreta num cubo geométrico codificado ern coordenadas x e y.13. A noire. que escuda apenas a absrracáo resultante) a mño esquerda nao sabe o que faz a rnáo díreita! Nos estudos científicos. 1977). que deformacéo. . o instante mesmo em que o futuro signo é abstraído do solo. nós. na figura 2. no restaurante. humildes como estes aqui ou famosos como os de Mendeleiev. somos arnbidestros: atraímos a atencáo do leitor para esse híbrido. de sorce que planejamos anrecipadamence o trabalho do dia seguinte. disrribuído por inconráveis lacunas menores entre os rorrñes e os cubos-caixas-códigos do pedocomparador. ele o arricula* (ver capítulo 4). vemos como muda de localizacáo. vimos como o solo muda de escado. René nao imp5e categorias predeterminadas a um horizonte informe: carrega seu pedocomparador com o significado do pedaco de rerra . Na fotografia anterior. o solo pode agora viajar pelo espaco sem ulteriores transtormaróes e permanecer intacto ao longo do tero po. os cubos conservam torróes ern vias de transformarem-se em signos. 1986. que descoberta! Ao saltar do solo para a gaveta) o pedac. Quando comparados. N unca deveríamos afastar os olhos do peso material dessa aC. Goody. já que sabemos o que precisamos re- Figura 2. os compartimentos definem o que nos resta a encontrar. O restaurante se torna o anexo de urna pedobiblioteca. que movimento.cia. Que transforrnacño. René abre as gavetas de armário dos dois pedocomparadores e contempla a série de cubos de papelño reagrupados ern fileiras que correspondem a buracos e em col unas que correspondem a profundidades. Todavia. porém. Urna vez cheios. Somente conra o rnovimento de subsrituicño pelo qual o solo real se torna o solo que a pedologia conhece. sabemos que os compartimentos vazios..

Figura 2. as amostras mais disparatadas sao apreendidas sinoticamenre.. quente ou fria.a respeito do qual René rabisca notas enguanto fuma ealmamente seu cachimbo. como no caso das descoberras de Edileusa.2 e 2. após tomar um banho a fim de lavar-se da poeira e..• . rica ou pobre. A transicño floresra-savana foi agora traduzida.o indiferenciado.. embora hajam sido recolhidas ao longo de urna semana. invisíve1 e disperso por um espac. ern colunas e fileiras: rransicáo ora apreensível porque o instrumento nos permiriu rnanusear aterra. eujo momento de verdade nao fosse surpreendido numa superficie de um ou dois metros quadrados. "O pedocomparador é que nos diz se realmente terminamos urna transeccáo". " . é que nele rodas as amostras de todas as profundidades fazem-se visfveis simulcaneamenre. tao prontamente observável quanto um mapa. é claro. propositadamente escamoteada pelos episremologistas. Jamais aeompanhei urna ciencia.' 1. O pedocomparador rransformou a transicáo floresea-savana num fenómeno de laboratório quase tao bidimensional quanro um diagrama. as diferencas cromáticas se manifescam e foemam urna cabela ou mapa. cnquanro relato o que observe¡ na frontei ra de Boa Vista. trago de volea para os leitores. um fenómeno: a referenda cirodante". tao fácilmente reembaralhável quanro um punhado de carras. tao "proveirosa" quanto a classificacáo da botánica na figura 2. A primeira grande vantagem do pedocomparador. dispersa na prática dos cientistas e encerrada nos conhecimentos que revelo agora. mal-equipado e portanto carente de rigor. da terra que já nao lhe sao mais úreis.. Eu.6. mediante a superposicño de forografias e texto. Observem René na fotografia: ele é senhor do fenómeno que há poucos dias estava encravado no solo.colher. A invencño quase 1" i: '" . Segundo René.. Grecas ao pedocomparador. calmamente. Outra vanragem do pedocornpurador. percebemos as lacunas em nosso protocolo. tomando chá em minha casa de Paria. De novo.$ ii. tao simplesmente transportável quanro urna maleta . depois de saturado de dados: surge um padráo.13 68 69 . o contrário é que seria espantoso. até agora invisível.6). mercé de arranjos de sombras matizadas de marrom e bege. que um pesquisador de carreta ern punho pocha inspecionar meticulosamente (ver figuras 2. Grecas aos compartimentos vezios. dura ou macia.

ao contrário. A coisa mais incompreensível do mundo seria o padráo permanecer incompreensível após essas recornposicñes. vemos a floresta aesquerda e a savana a direita (o inverso da figura 2. para criar condicóes favoráveis a sua expansáo .14.rta a urna geometria de oucra espécic. mas pode vencer a pequena lacuna entre o pedocomparador já geométrico e o pedaco de papel milimerrado em que René registrou os dados deduzidos das amostras. ele escapara do campo para o restaurante: as gavetas é convertidas em maleta permitiram que René se deslocasse de um sirio desconfortavel e mal-equipado para a comodidade relativa de um café. Na figura 2. da rerra/signo/gaveta híbrida para o papel. René passava do concreto ao absrrato por meio de um gesto rápido. Um cenário finalmente se transformará em texto e o pedocomparador transformará urna tabela em um artigo. a série de amostras precisa ser alterada. rompendo a bonita ordem da mesa e exigindo que recorramos a urna convencáo de leitura ad boc.) Ao lado das gavetas aberras acha-se um diagrama desenhado em papel milimetrado e urna tabela elaborada ern papel comum.14 70 . sao recapturaJas num corte transversal.1) provocando ou sofrendo urnas poucas rransformacóes. As coordenadas das amostras. sem sofrer demasiadas distorcóes. mas menos que a floresta. Pareceria que a floresta lanca seu próprio solo a frente. mais argilosa que a savana. curvam-se agora ao peso da evidencia.sempre segue o novo rnanuseio oferecido por urna nova transla~ao ou transporte. Na figura 2. Na figura 2. Movamo-nos agora do instrumento para o diagrama. E que aqui precisamos perguntar até que ponto o mundo precisa mudar para que um tipo de papel possa ser Jltperpo. É fácil superar essa lacuna e posso até medir a distancia com lima régua plástica: dez centímetros! Figura 2. e em princípio nada (excero os funcionários de alfandega) poderá impedir o transporte desse mapa/gaveea/maleea para qualquer parte do mundo.12. recebeu mais arencáo que as outras. urna rransjormacáo tao importante quanto as anteriores torna-se visível.13. É necessária apenas urna última e minúscula rransformacáo. enguanto o mapa resume as variacóes cromáticas como funcáo de profundidade num determinado conjunto de coordenadas. Entre a savana arenosa e a floresta argilosa. ou sua cornparacáo COID todos os outros perfis alojados ern rodas as outras pedobibliotecas. antes de reconhecer no capítulo 9 por que nao precisaríamos escolher) um fenómeno extraordinário. todavía. na tabela/mapa da figura 2. Essa faixa de terra ambigua. tomadas pela equipe ao longo de urna dada transeccáo. Nesre caso. do lado da savana. Urna régua transparente. a savana esreja degradando o húmus silvestre enquanto se prepara para invadir a floresta. esquecida na gaveta. Tornam-se inrerpreracóes possíveis do material solidamenre instalado na grade do pedocomparador. descobre ou constrói (escolheremos um desses verbos no capítulo 4. Os diversos cenários que meus amigos discutem a noi te. (Urna vez que nao há compartimentos suficientes no pedocomparador. assegurará mais tarde a transicáo de rnóvel a papel. o espanto nao se justifica. A matemática jamais cruzou o imenso abismo entre idéias e coisas.14. la da coisa para o signo e da terra tridimensional para a tabela/mapa ero duas dimensóes e meia. por intermédio do pedccomparador. parece que urna faixa de rerra de vinte metros de largura se estende na orla. Sobre a mesa. Também esea expedicáo. ela. no restaurante. pelo menos. Chama-se inscricáoe. As pessoas muitas vezes se espanrarn corn a possibilidade de aplicar a matemática~ ao mundo.a menos que.

USP.¡r~_) """"" Lirnire d" r~xtllra (ar~Il_) . Filizola (3)." "or «'hroma) _""_'" Lirnire de rexruru (arell"_.tornam possíveis.L Serta Silva (1). A prosa do re1arório final [ala de uro diagrama que resume a forma exibida pelo layolI! do pedocomparador . Ele fala de um referente. Amazonia (Brasil) Relarório da expedicáo ao estado de Roraima. (6) eSI. é abstraído de um dom inio excessivamente concreto antes de tornar-se. (2. porém mais pesado que o papel. é mais móvel que a savana.lS U1Il1 estro rn. H. presente no texto. Gracas ao diagrama. SÓ pode mante-lo de reserva para comparacóes futuras caso tenha alguma vez dúvidas sobre seu artigo. A cada etapa descobrimos [armas elementares de matemánca. Note-se que. esboce. de um modo diverso da prosa: mapa. R. Na figura 2. a rransicáo floresta-savana torna-se papel.. que sao usadas para coletar ?ltatérÚ! mediante a prérica encarnada num grupo ele pesquisadores.escrita.de l(·~es de rnjJ]j¡O<.lp()si~'iío OU o>nr'lllla 73 . rracado e indicado por meio do cruzamento de coordenadas. na etapa seguinre. Sao Paulo (3-5) INPA ' Maoaus. A forma geométrica do diagrama [á-lo compatível com todas as transformacñes geométricas já registradas desde que exisrem centros de cáICltlo*. A. ENSMP.lIl-ar¡.5) ORSTOM Brasil » Vol~emos rapidamenre a estrada pela qual viajamos em comp~nhIa de nossos amigos. assimilável por todos os artigos do mundo e transportável para qualquer texto. que no texto será mostrada num gráfico. O texto científico é diferente de todas as outras formas de narrativa. cquacáo. -rs ¡ 1'""''' j' Figura 2. Vemos apenas urna série intacta de elen:entos perfeiram~nte alojados.. cada um dos quais faz o papel de SIgno para o anterior e de coisa para o posterior. Aparece como "Figura 3" no relatório escrito do qual sou urn dos orgulhosos autores e cujo tírulo é: Relecóes entre dinámica da vegetacáo e diferenciacáo de solos na zona de transicáo tloresta-eavana na regiáo de Boa Vista. por illsr. (2).ltl· Limite dO. excessivamenre concreto ourra vez Jamais d~tecta~os a ruptura entre coisas e signos. 2) H(\ri/. 2-14 de outubro de 1991 E. mas menos que o diagrama que eu poderia transmitir por telefone caso Boa Vista possuísse um aparelho de fax.'. ele permanece objeto.15 Ar~illl-art"ll<Js(> Arl·. diagrama.nrn I'0u<:o mais dar<> du <111~ os horiwlHt's sllperi"r~s (m. urna lacuna tao insignificante e tao gigantesca quanto todos os passos que ternos dado: refiro-me ao hiato que divide nossa prosa dos diagramas anexos de que vou tratar. cada elemento pertence a maréria por sua origem e a forma por sua destinacáo. Morars (4).. Ar. é cem vezes compensado pelos desdobramentos em outras formas que tais reducóes . classifica e codifica o solo. O pedocomparador é codificado . É mais leve que a floresta. devido as sucessivas redu~6es do solo. Escreverernos sobre a transicáo floresra-savana. que é finalmente marcado.. do N. está menos sujeito a corrupcáo que a terra vibrante. rabela. S. jamais arrost~m. Chauvel (5) e B. No relarório que nos preparamos para escrever.:il()s(. Aquilo que perdemos em maréria. (2. Boa Vista RR. entretanto."[">s.ollr~ 1) ¡ Iorizonn. Roraima.os a rrnposrráo de signos arbitrários e desconrínuos a maténa informe e conrínua. "_" Limite de horil. BOLIle.lmt'lol1ar j) f Iorizonn. mas corrompe-se mais que a geometria.Por mais abstrato que o pedocomparador seja. Mobilizando seu próprio referente* interno. cálculo e arquivo . na savana) ":1) H"riwnr~ de rransiclo.e ainda assim René nao pode inseri-lo no texto de seu relatório. to científico traz em si sua própria verificacño. Larour (6) (1) MIRR. urna única ruptura permanecerá.ele extrai.15 vemos o diagrama que combina todos os dados obridos durante a expedicño. em todas as etapas. ese. . o tex-.

ao qual se assemelha por mimese. . se continuar a sofrer rransforrnacóes a cada etapa dessa langa cadeia.. Lembremo-nos de René. que foi imediatamente marcado com um número. transmuracóes e translacóes. na figura 2. Mas o relativismo nao levantará sua cabeca monstruosa se renrarrnos qualificar os matizes de marrom? Poderemos discutir sobre gosros e cores? Como diz o dirado. cuja coeréncia e continuidade ajuda a garantir. atestada com maior certeza e precisáo a cada etapa. Urna coisa pode durar mais e ser levada para mais longe. O conhecimento nao reflere um mundo exterior real. materia. . A diferenca entre eles nao é maior que a existente entre os torróes colhidos por René (figura 2. se exarninarmos rapidamente essas forografias. . ~u~ aparentemente ~ac~ifica a semelhanca a cada etapa apenas par~ l~nslstlr no mesmo significado. No entanto.16 vemos a solucño de René para compensar as devastacóes do relativismo. é. com efeiro. Urna vez que nossos amigos nao podem levar facilmente o solo da Amazonia para a Franca. consideremos um pequeno aparelho tao engenhoso quanto o topofil ou o peclocomparaclor (figura 2.. Nosso relarério de campo refere-se. corpos especializados e grupos. se possível. . mas numa série regulada de transformacóes. Comparem-se os dais extremos nas figuras 2.. tentasse multiplicar os' intermediários. Quer escolha os dais extremos ou multiplique os interrnediários. que permanece intacto depois de inumeras transforrnacóes rápidas. de números.16).1 e 2.16 74 75 . minha própria expedicáo nao seria menos produtiva que a de meus felizes colegas. um jeito de fazer com que algo permanece constante ao longo de urna série de transformacóes. como se as árvores houvessem transformado o solo arenoso em argila. como Zenáo. transmitiu a significacáo de cada fenómeno fazendo a matéria cruzar o abismo que a separava da forma. antes.12. fosse emboca a minha pesquisa mais meticulosa. A descoberta desse estranho e contradirério comportamento vale bem a descoberta de urna floresta capaz de criar seu próprio solo.f J a Figura 2.Ero cada ocasiáo uro novo fenómeno é eduzido desse híbrido de forma. perceberemos que. "Cada cabeca.a. mas sim um mundo interior real. Belo movirnenro esse. De faro. que por sua vez refere-se a floresta de Boa Vista.12) e os pontos de referencia ern que eles se rransformam no pedocomparadar.15. Ele nao dividiu o solo de acordo com categorias intelectuais. como na mitologia kantiana. Se. nao apenas na semelhanca.J ) i5. Parece que a referencia nao é simplesmente o aro de apontar ou urna maneira de manter. já que rodas as fotografias dizem a mesma coisa e representam a mesma transicáo floresta-savana. Se eu pudesse encontrar solucáo para semelhan:e quebra-cabec. Nosso relarório diz respeito estranha dinámica da vegeracao que parece permitir a floresta derrotar a savana. nao obreria urna Jemelhanfd entre as etapas que nos permirisse sobrepó-las. ao contrario. com maior rapidez. urna senrenca".- ~ :. '. a "figura 3 11 . do lado de fora. 1: !::: 1" ". alguma garanria material da veracidade de urna afirmacáo. devem ser capazes de transformar a cor de cada cubo gracas ao uso de etiquetas e. cada etapa revelaria urna brecha tao grande quanro as que a seguem e precedem. a fim de preparar o erescimento na faixa de rerra de vinre metros de largura. colocando aterra marrom no cubo de papeláo branco. que irño tornar as amostras de solo cornpativeis com o universo de cálculo e permitir aos cienristas beneficiarem-se da vantagem que todos os calculadores oferecem a qualquer manipulador de signos. A fim de entender a constante mantida ao longo dessas transformacóes. há também conrinuidade. Na figura 2. Mas esses aros de referencia estáo tanto mais assegurados quanto ronfiam. enconrro a mesma desconcinuidade.

como eu disse. transmuta<. ourra par~ os ~arrons. o limiar entre local e global pode agora ser cruzado de imediaro. por sua vez. seleciona a cor mais condizenre com a da amostra. Há. . levando consigo um caderninho de páginas duras: o código Munsel!. día global quanto é ~acul­ rada a um ser humano. paz de comparar. mas vocé pode. "Eu nao consigo usé-lo". resumida como cor. conscqúcnremcnre. Há urna página para os vermelho-púrpura. O pequeno retángulo plano de cor é em seguida utilizado como um intermediário entre a terra. entre a cauda da amostra de solo e sua cabeca. leitura e.os buraquinhos perjurados acima dos rons de coro Embora aparentemente fora de alcance. . René Jarica LIma ponte.. o mesmo código. " 1 !:: ". ele passa as amostras de solo pelas aberturas praticadas no caderno e. urna ruptura completa a cada etapa entre a parte "coisa" do objeto e sua parte "signo". O único meio de esrabelecer a semelhanca entre urna cor padronizada e urna amostra de solo é fazer buracos nas páginas que nos perrniram alinhar a superfície áspera do rorráo com a superficie brilhante e uniforme do padráo. diz René. ele consegue fazer-se. P. . e o número inscrito abaixo do tom correspondente. . René colheu sua porcáo de rerra. tornado tragicamente local.•. por meio desse código. Sem os buracos nao pode haver alinhamento. abismo é tao grande porque nossos cérebros sao incapazes de memorizar cores coro precisáo. isso j<l. ' .. Com toda a jusrica.. código Mansell constitui urna vancagem decisiva para René.16. René eleve com efeiro ser ca-. . permite o enquadramento do torráo e a selecño de sua cor. Gracas ao código Munsell. :1 ~ . Itas japoneses fizeram um sem buracos". Por sobre o abismo da rnatéria e da forma. número é urna referencia facilmente compreensível e reproduzível por rodos os coloristas do mundo.Por rrinta anos ele laburou nos solos rropicais do mundo inteiro. ignorando-se seu volume e textura. voce e uro vendedor nao podem coro parar amostras de papel de parede. de um arpéu. baseado na rabel a de cores que o vendedor lhe entregou. 1 "~ . seleeionar um número de referencia.ao da terra local em código universal. outra para os vermelho-amarelados. demarcando para nós mesmos a estrada perdida da referencia. simplesmenre. usa-se como padráo comum para pintores. sequer por um mornenro..ilizem a rnesrna com pilacáo . Cada página desse pequeno volume agrupa coces de tons muito similares. mas elevemos admirar também sua completa falta de confianca nas próprias habilidades cognitivas (Hurchins. Duvidam de seus cérebros a tal ponto que precisam inventar pequenos truques como este para. após sucessivas aproxirnacóes. ':1 .nova evidencia do platonismo pratico que transforma poeira em Idéia por inrermédio de duas mjios calosas que agarram firmemente um caderno/instrumen tal cal i brado r. O buraco.ara que a amostra se qualifique como núme-ro. de urna linha. é necessária alguma habilidade para inserir a amostra de solo no código Munsell. precisño. Ainda que a amostra de solo e o padráo nao estivessem distanciados mais que dez ou quinze centímetros . Sem dúvida. que tem na rnáo com a cor padronizada escolhida como referencia. Com menos de um milímetro a separá-las..a largura do cader- a a a a no -. código Munsell é urna norma relativamente universalizada. (E como eu explicaria ao leitor essa obra de referencia sem as fotografias que tirei. Sigamos mais de perro a trilha mostrada na figura 2. pois. 1991) interessa-me menos que urna assombrosa artimanha técnica . enráo e só entao se pode le-las sinoricamenre.". cartógrafos e pedólogos. . A fim de obter esse resul rada. 77 . 1995). embora se renhn tornado infinitesimal por causa dos buracos.o de terra I~cal. A esta altura. desde que u:. garantir a compreensño da cor de urna amosrra de solo. Assim como pode- . imagens que devem ser vistas exatamenre ao mesmo tempo em que se le a historia que conto? Tenho tanto receio de cometer um engano em meu relato que eu próprio insisto em nao perder de vista as fotografias. A cor específica desse solo particular transforma-se num número (relativamente) universal. disp6e tod(~s os matrzes de todas as cores do espectro dando a cada uro seu numero. renunciando ao solo rnuito rico e rnuiro complexo. fabricantes de tintas. Trata-se de um passadico. página após página. sobrepor e alinhar o peda<. basraria para que o cérebro de René esquecesse a correspondencia exara entre ambos. urna amostra de solo pode ser lida como texto: IIOYR3/2" . Perdido em Roraima. Por relefone . ficarnos perplexos ante a mente dos ciencistas. o poder da padronizacño (Schaffer.) A ruptura entre o punhado de p6 e o número impresso está sempre ali.

no relatório. o livro-. protocolo que deixa claro acharmo-nos nurn vasto laboratório verde. Helofsa pensa nos poucos animais existentes nessa floresta verde-acinzenrada. .o.~ Figura 2.17 79 .. da qual apenas urna porcño minúscula (a passagem da cor da amostra para a cor do padráo) repousa na sernelhanca. reversibilidade. mas no fim.' 1': J. rraz o indefecrfvel caderno. um cinto de rnunicáo com ilhoses finos demais para cartuchos. Aqui encontramos a mesma cadeia de antes.17. omitiremos o número. Enverga urna cartucheira de geólogo.. De pé. Reducáo.' . Apenas um passo lembra o que o precede. Ao longo das variacóes de matérias/formas. Como pode a sernelhanca resultar dessa série raramente descrita de transformacees exóticas e insignificantes.tuda isso canta infinitamente mais que a mera adeqnatio. quando leio o relatório de campo. com o cabo da picareta ainda sob seu braco. marcacáo. a tendencia.. Está pronta para abrir o caderno e tomar notas.. detalhado e preciso. contemplando o novo buraco que acaba de cavar.. agora que ambos os pedólogos terminaram seu exame e chegaram a um acordo. logo estaremos aptos a ignorar a COf a fim de conservar apenas o número de referencia. Na máo. o que tenho nas mños é a floresta de Boa Vista. obsessivamente encaixaclas urnas as outras como para rnanter a constancia de alguma coisa? Na figura 2. comparibilidade com texto e números .".. cada uro deles tem um pouquinho do solo extraído do buraco na profundidade dirada pelo protocolo de Heloísa. " ". compressño. que estabelecem urna rota de regresso pela qual é possível arrepiar caminho quando necessário." ~:~ I.mos ignorar o volume da amostra a fim de nos concentrarmos na cor do retángulo.1 ". vemos Sandoval agachado. Todas as outras dependem somenre da conservacáo de traeos. ::~ ~:t . Cuspiram delicadamente no pó e agora o amassam com a outra máo. padronizacáo. Em urna das máos. para reter unicamente o horizonte. na adeqnatio. Um texto realmente fala do mundo. Será isso pelo prazer de modelar figurinhas de barro? J. . Mais tarde. continuidade. que é por demais concreto. mas bons para alojar os Iépis de cor indispensáveis ao cartógrafo profissional. Armand (a esquerda) e René (a direica) empenham-se no esquisitíssimo exercício de "degustar rerra". os cienristas forjam urna vereda. " .

Sera en tao metonimia? Também nao. A fim de atestar e secundar o que afirmo. mesrno que exisrisse nao saberíamos como rrazé-lo para cá. mas ainda assim muito regulada. O que torna difícil e c~ucial a ~i­ ferenciacáo sao os compostos intermediarios de argila e areia.e. areno-argsIOJO a argilo-arenoJo lT • (Esqueci-me de mencionar que alternamos. enou-bou. Trata-se de "u~ deslo:ame~­ ro metafórico? Nao mais que urna correspondencia. ainda. que já nao envolve cor e sim textura. arenoso. mas conserva um trace ql~e a ~efi­ neo Será isso urna correspondencia palavra por palavra? Nao. Já nao se trata de uro problema de reducáo e siro de rransubstanciacáo. mais tenue que os corrimóes que ajudam os alpinistas a cruzar as gargantas mais acrobáticas. por inducao. saltando assim sobre os abismos que separam a maréria da forma. Nao há privilégios na passagem para as palavras e todas as etapas nos permitem igualmente apreender as referencias. se se esfarinha sob os dedos. ao contrario. Como qualificar essa relacáo de represenracáo. feita na palma da máo.::~ " . "Sirn. de modo que.indireto. arrevesado e tentacular . digamos enráo entre argilo-arenoso e areno-argiloso".? A combtnacáo de discussáo. Traca-se.mais argilosos na direcáo da floresta. "Helofsa. para essa finalidade. anote: na página P2. • i 80 . Hé verdade e há realidade. nao existe um equivalente ao código Munsell . Estaremos cruzando a fronteira sagrada entre o mundo e o discurso? Claro que sim. mesmo por um principiante como eu. ero que sob forma de diagrama todo o horizonte de 5 a 17 cm assumirá urna única textura. Infelizmente. mas é urna mudanca de estado tao radical que agora um signo aparece no lugar de urna coisa. .1 . limpa de folhas de grama e fezes de minhocas. dado que queremos qualificar as modificacóes sucis d?s solos de rransicáo . Se quiséssemos definir' a granularidade de urna maneira padronizada. mars arenosos na direcáo da savana. de delegacáo. textura que pode substituir imediaramente. Urna palavra substitui urna coisa. o que pretendern é fazer outro julgamenro. e.Nao. sexo e ?iscip~na~. que lernbra urna espécie de experin. O novo salto nao maior que o anterior. mas também se renova. Eis aqui urna tentativa aparentemente muiro fácil. tornara-se evidencia no teste de sua resistencia a modelagem. pois quando tomamos um punhadc de solo pelo horizonte todo. Mas já fizernos isso urnas dez vezes pelo menos. a cobertura da superficie a partir de um ponto. é argiloso.e~to laborarorial. porque quarro palavras ocupam a Iocalizacáo da amostra de solo. muito envolvida pela realidade e. a maior parte dos elementos se perde. em que Sandoval cavara o buraco P2 com sua picarera. acrescentando assim a política de língua a política de ra<. sem dúvida. é !:: " . nao argilo-arenoso".através de sucessivas camadas de transforrnacáo (James [1907}. no qual aterra extraída por René. no fim. Conseqüenremente. que permite a uro diagrama desenhado ero papel milimetrado fazer as vezes de referente interno para o relarório escrito. Armand e René confiam na discussáo de seus juízos de gesto. muito exara. A cada passo. Sem nenhuma espécie de craveira. Em nenhuma das etapas surge jamais a quesráo de copiar a etapa precedente. precisaríamos de merade de um laboratório bem-equipado. sem outra ajuda que urna semelhanca ocasional. permirindo. atribuindo-lhe o padrao definitivo da verdade.rsemelha ao solo. OU. entre 5 e 17 cm. muito realista? Os filósofos a si próprios se ludibriarn quando procuram urna correspondencia entre palavras e coisas.a. "Arg ilo-arenoso ou areno-argiloso''? "Eu diria argiloso ou arenoso. cornecando pela última. ou o salto anterior a este último. Se o solo é fácilmente rnoldável. preservamos apenas o que está nas é folhas do caderno e nada da terra que serviu para qualificá-Io. I . Teremos aqui urna compressáo de dados? Sim. de alinhar cada etapa coro as que a antececlero e sucedem. o que será dado ero seguida.e manipulacáo física permite chegar a urna qualificacáo calibrada de. a transforrnacáo n ¡ 1. de mais tempo''. nossos amigos rérn de contentar-se coro um teste ~uali­ rativo que repousa em trinta anos de experiencia e que mars t~r­ de comparado com resultados de laboratorio. o julgamento nao se a. quando e1a nao é mimética. existe uro movimenro bem mais confiável. o solo jogadc fora. Os dais extremos sao facilmente reconheclvels. "Amasse um pOllCO rnais. no cademo. possa-se regressar a prirneira. constantemente entre o francés e o portugués. mas nao há nern correspondencia nem adeqnatio. como meu pai fazia ao degustar os vinhos Corron. finalmente. 1975).

o diag:ama en~lquece nossa injormarjio. acaba de juntar aos diagramas as fezes de minhoca que mencionei. que prepara o solo para a chegada da floresta.ried~de de formas por rra:ejados homogéneos! Dizer que o ciennsta assume urna perspectiva" nunca é multo útil. incompleto e rabiscado a lápis. desde entáo esquecidas.ao misteriosa a distancia. Nem a savana. grafia e limpeza. A posicáo das amostras ao longo da rranseccáo. René aponta com seu dedo feito de carne e atraí o olhar dos vivos para um perfil cujo observador jamais poderia existir. engloba a totalidade do sírio. É-nos impossível visualizar a tra~slr. já quase no fim da expedicáo. ]acoby et al. Ternos aí a mesma inversáo de espac. sujo) manchado de suor. Segundo meus amigos. as profundidades. centralizacáo. porérn. René comenta o diagrama de um corte vertical de urna rranseccáo que acabamos de cavar e examinar.' ".ao floresca-eavana em cortes transversais.18 Na figura 2.1 I ~': i ". É que esse observ~dor precisaria nao só morar debaixo da terra.18 estamos em campo. Que será essa ac. como cortar o solo empunhando urna espécie de faca de centenas de metros de comprimento e substiruindo a confus~ va.. qualificá-Ia em horizontes homogéneos. No centro da fotografia.ela reduz a argila a areia. nao apenas rcdisrribui o fluxo temporal e inverre a ordem hierárquica do espar. Na superfície de um papel n?s combma. neste caso. podemos superintender e controlar urna siruacáo na qual estamos mergulhados. a diagrama. o diagrama nos induz a imaginar novas cenanos.e a realidade perdida é subsrituída. misturadas por intermédIO de urna linguagem gráfica homogénea.as as inscricóes. as minhocas pod.em encerrar a solucáo do enigma em seus tratos digestivos espeClal~en:e vorazes.. De um para outro há sem dúvida transformaróes.6es empreendidas no curso de vérios dias. .15. 1984).' '''. as texturas e os números de referencia das cores podem sobrepor-se .. O que produz a faixa de solo argiloso na sav~na.acesso que. René aponta urna linha com o dedo) gesto que já acompanhamos desde o com~o (ver figuras 2.?os fontes muiro diversas. que nossos amigos discutem apaixonadamenre enquanro exarrunam o que está falrando e ande iráo cavar o próximo buraco a fim de volrar aos "dados brutos" com suas picaretas e enxadas (Ochs. os horizontes. esse diagrama é o predecessor direto do que se ve na figura 2. ? I ". até quando tem por alvo um simples pedaco de papel . tornamo-nos superiores áquilo que é maior que nós e conseguimos reunir sinoticamente rodas as ar. o qual paradoxalmente desapareceu por completo) embora estejamos suando no meio dele.2). . A de~peito do panorama implausível que apresenta. pois ele lago se desloca para outra gracas ao uso de um instrumenro. já que . 1994). Os cien ti stas jamais permanecem ero seus pontos de vista. subindo a encosta termodinámica que continua a degradar a argila? Por que nao as minhocas? Nao seriam elas os agentes caralisadores da pedogenese? Aa ~odelar a situacáo. a beira d~ floresta? Nao a floresta. por exemplo. mas sao pouca coisa diante das rransforrnacóes pelas quais nós mesmos acabamos de passar (Tufre. . tal qual urna roupeira. que incluem processos de selecáo.1 e 2. a extensáo do indicador revela sempre um acesso realidade.o e tempo a que já assistimos inúmeras vezes: grar.Figura 2.o . marcá-Ia com pontos de referéncia e linhas..o como nos revela aspectos antes invisíveis.René. pasto que estivessem literalmente debaixo d~s _pés de nossos pedólogos. A menos que seja o prelúdio rancoroso de um soco."' 4.convém lembrar . pois essa faixa avanca vmte metros além da sombra protetora e da umidade nutritiva das árvores. Roto.

epistemologia e reda~ao de artigos -.o diagrama que René tem em máos é mais abstrato ou mais concreto que nossas etapas anteriores? Mais abstrato. O diagrama é urna construcáo. obtidas por satélite. nao quera no momento acompanhá-Ias. que podemos rastrear gracas ao livro-protocolo. Ao mesmo tempo reconhecemos que. Sabemos muito bem que o inventamos e que. francés e portugues. No último dia da expedicáo. Todas essas qualidades contraditórias .. Teremos cntáo volrado ao ponro de parrida (ver figura 2. as Aqui. documentos bidimensionais e literatura publicada. aponrando com um lápis em benefício de Edileusa e Heloísa. OJ pedólogos conduiriem que a sauana está muadindo a floresta. nesre caso. nem sem iólogos . pressentimos ter estado ali. Todavia. :1. de vez que podemos pegar e ver a esséncia da transicáo floresta-savana. nao se parece com coisa alguma.outra forma de registrar entre tantas de inscrever. Ele nao é realista. ~nseflr com~o ap§ndices e evidencias nurna narrativa que elabor~os Juntos. véern-se as páginas CDm fotografias em cores. estamos em terreno bem mais familiar . René tern em rnáos o diagrama agora completo e comenta-o. ele resume sem conseguir substituir completamente aquilo que reuniu.. etiquetas e palavras. como sempre. eis-nos no restaurante. as etiquetas. a delicada teia de aran ha tecida pelo pedofil. finalmente. nem sociólogos de conrrovérsia. Nem filo~~fos de llOguagem. Ele substituí sem nada substituir. retrospectivamente. forcounos a fazer novas perguntas de pedologia (o grifo é do original). agora transformado numa sala de reunióes para nosso laboratório móvel. ao pedocomparador. A cclaboracáo das duas disciplinas. resumida numas poueas linhas. ocupados em so~ p~esar os ars.retórica discurso.2)' Nao. Em primeiro plano estáo os cademos de notas do antropólogo que tira a fotografia . já que aqui se preservou urna fra~ao infinitesimal da siruacáo original. já bem longe do sítio ende trabalhamos durante dez dias.inc~resse do relarório desra expedicáo provém do faro de.19). . con tuda. urna descoberta. prontos a redigir o rascunho do relarório (figura 2.Iastreiam o diagrama com realidade. essas inscricóes novas que tentamos interprerar. Trata-se de um estranho objeto transversal. as estacas e. urna invencáo ou urna convencáo? As quatro coisas. faz mais que parecer: ele assstme o 11Igar da sit1lafdO original. sob os aspectos visíveis do solo. sem nós e os pedólogos.. mas que nós. ele jamais se materializaria. divorciar o diagrama dessa série de rransformacóes. as fichas.0'. nem estudiosos de literatura teriam muita dificuldade aqui. Isolado. Armand acaba de ler a única tese publicada em nosso canto de floresta.' o . Nao podemos. Contudo. um operador de alinhamento confiável apenas enquanto permite a paJJagelll daquilo que antecede para aquilo que sucede. Sem a cotttrihuif-¿¡O dos dados botánicos.contraditórias para nós. Achamo-nos novamente voltas com mapas e signos. sem a codificacáo convencional de julgamentos. Por m~is portentosas que sejam as transformaróes pelas quars Boa VIsta passará de texto para texto.umentos pró e contra o avan~o da floresta. . filósofos .. mais concreto. rudo o que veríamos no diagrama tirado da terra seriam rabiscos informes. ele descobre urna forma até enráo oculta. paragrafo a parágrafo. ~lS ganhall~os es~s diagramas. em duas línguas. O diagrama é construido pelos labores de cinco pessoas e pelo avan~o ao longo de sueessivas construcóes geométricas. nem retóricos. as conclusóes das abordagens botánica e pedo~ó~ica parecerem contraditórias. ele nao teria nenhum significado posterior. . Permitam-me citar urna passagem da página 1: ~ . na prtmerra fase do trabalho. O que agora me interessa é a transforma- . formas.

22).. A pafalJ1a Ilr~ferénáa" designa a qllafidade da cadeia emsna inteireza e nao mais a adeqnatio rei et intellectns. é de crer. Da floresta ao relarório da expedicáo. o que redistribuí essas duas fixacóes obsoletas da filosofia da linguagem: a terra se torna um cubo de papeláo. I . capazes de fechar-se. mas pelo menos um esboce. a rererencra. A sucessáo de etapas tero de ser rastreável. materialidade.ao sofrida pelo solo e vertida em palavras. Ao contrário. Se a cadeia for interrornpida em algum ponto. deixa de transportar a verdade . que deve ser reduzida pela busca de correspondencia e referencia (ver figura 2.. entre urna etapa e a seguinte. há um hiato que nenhuma sernelhanca pode preencher. e possível alongar a cadeia indefinidamente por ambos os extremos. ao contrano. . Correspondencia Elementos de representacao Forma I Matérja Hiato I I Cadeia de elementos Representacáo Para a frente 12 12 ~igura 2. lt e.c. bem como a narureza da transformac. as minhocas. Como resumir isso? Preciso rabiscar. . vai do cenero para as extremidades. mento para a frente e para rrés. Urna propriedade essencial dessa cadeia é sua neeessidade de permanecer reuersnel. de construir. enquanto o circuito nao é interrompido. a cada etapa reconhecemos um operador comum. ainda que possamos resumi-Ias numa única "caixa-prera".a verificada por essa coisa. assim como a referencia nao designa urna coisa por meio de urna sentenc. a cada etapa. O conhecimenro. nao apenas reduaimos como ganhamos ou reganhamos. para que se possa viajar nos dois sentidos. descobri: descoberta trazida do fundo da rerra e digna de nossas irrnás inferiores.. Entretanto. já que gracas ao mesmo trabalho de re.· .' :.isro é. cada gual implicando um pegueno hiato entre unarma 11 e IImaterta''. acrescentando-Ihe outras erapas .~ ( I . caracteriza cada etapa. de sorte que no fim pouca coisa restou além de urnas poucas folhas de papel.. . que a referencia procura cobrir. nao um diagrama como meus colegas. '~~ '. e captar a dialéCIca de ganho e perda que. de cracar.~ ¡ Outra propriedade é revelada pela comparacáo de meus dois esboces: a cadeia nao tem limite em nenhuma das extremidades.ao. representamos consistenremente a rransicáo floresta-savana como se desenhássemos dois triángulos isósceles inversamente superpostos. Etapa após etapa. segundo essa visáo.embora nao nos seja facultado Cortar a linha ou romper a seqüéncia. um esquema que me permita localizar e indicar aquilo que eu. ] 975) da correspondencia implica a existencia de um hiato entre mundo e palavras.20). o pomo principal é que a referencia. Para entender a cadeia de transforrnacáo. de conduzir a verdade. Aqui. qualifica o movi' . 0+0 Mundo Hiato linguagem Figura 2.20 A concepcáo que rém os "salracionisras" (james [1907]. Acompanhando a expedicáo a Boa Visra. o mundo e a linguagem exisnarn ~c~m~ duas esferas finitas. precisamos observar de cima e transversalmente (figura 2. O valor de verdade arcul» como a elerricidade ao longo do [jo. famas perdendo localidade. No modelo anterior (figura 2. separadas por urna única e radicallacuna entre palavras e mundo. no meu próprio campo dos estudos científicos.. Vamos dar o nome de redufao ao primeiro triángulo. cujo vértice é o que realmente conta. as palavras se tornam papel. deixa de produzir. A filosofia da linguagem faz parecer que existam duas esferas díspares.' :. que pertence a matéria num dos extremos e a forma no outro. nao reside no confronto direto da mente com o objeto. cheguei a urna solucáo bem diferente (figura 2.21).f. Aqui. nesse modelo. particularidade. Os operadores estao ligados numa série que atravessa a diferenca entre coisas e palaveas. multiplicidade e eontinuidade.21 A concepcác "deambularória" de referencia preve urna séne de transformacóes. as cores se rornarn números e assim por dianre.20). como vimos.

os fenómenos sao aguilo gue normalmente circula ao langa da cadeia de rransformacóes. Para perceber até que ponto a filosofia kantiana confundiu os triángulos.UFRa~ BIBLIOTECA . No caso da referencia circulante. ampliar nosso vínculo com o conhecimento prárico já estabelecido. Assim. Chamemos a esse segundo triángulo.21).:~ . empiristas. de amplificaféio.23. pode ser descrita como urna barganha entre o que é ganho (amplificacáo) e o que é perdido (reducáo) a cada passo de producáo de informacño. . Nossa tradicáo filosófica enganou-se ao pretender tornar os fenómenos" o ponto de encontro entre as coisas-em-si e as categorias do entendirnenro humano (figura 2. tudo o de que se precisa é urna expedicáo de 15 dias. Sou o primeiro a admitir que nao conseguiria acompanhar racionalmente e de irnediato cada um de seus passos. a referencia instével dvanfd do meio para as extremidades. se esta modesta investiga- ". de avancar de duas extremidades fixas para um ponto de encontro estável localizado no centro. No entanto. circulacáo e universalidade relativa. Realistas. inserimos no relarório de campo nao somente Boa Vista inreira (a que podemos voltar). a cada etapa.) É possível.. ver também capítulo 4). sem medo de contradicáo.represenracáo conseguimos obrer muito mais comparibilidade. todas as etapas que testemunhamos na fotomontagem (figura 2.~ Fenómenos ta e vigorosa base. os fenómenos sao aquilo que circuia ao longo da cadeia reversíve1 de rransformacáo. os fenómenos nao se acham no ponto de eneontro entre as coisas e as formas da mente humana. mas tarnbém a explicacáo de sua dinámica. que váo senda continuamente empurradas para mais longe. padronizaciío. desde que eu nao seja instado a falar de me« trabalho com a mesma porrnenorizacáo com que os pedólogos reportam os seus: 15 dias virariam 25 anos de trabalho pesado. 1" " '. como mero espectador que teve acesso ao conhecimento de seus informantes. Nós pudemos. os novos achados da "pedologia botánica". os fenómenos residem no ponto de encontro entre as coisasinacessíveis em si mesmas e o esforcode categorizacáo empreendido pelo Ego ativo. (Mas isso. comecando pela velha trigonomerria existente upar trás" dos fenómenos e terminando pela nova ecologia.ao~ .22 A transformacño.24). cálculo.23 Na cenografia kantiana. Nada poderia ser mais simples: basta obliterar. em controvérsias com grupos de caros colegas equipados com dados. ponto por ponto. visualizar e descobrir por que o modelo original dos filósofos da linguagem acha-se tao disseminado. idealistas e racionalistas de todo genero digladiaram-se incansavelmente a volra desse modelo bipolar. Ao invés Reducáo Cornpanbihdade Padronizacáo Amplificacáo Figura 2. compreender. perdendo a cada etapa algumas propriedades a fim de ganhar outras que as tornem comparfveis com os centros de cálculo já instalados. com a ajuda de meu esquema. apresso-me a dizer. mediante o qual a diminuta transeccáo de Boa Vista foi dotada de urna vas- Ego transcendental Fenómenos Redu. INSTITUTO DE PSICOLOGIA . Etapas sucesstvas Texto Cálculo Circulacáo Universalidade renn-a " Localidade Partirulandade Materialidade Multiplicidade Contuundade Amphficacáo Figura 2. no final das cantas. Pinto-me aqui.'0 revela prontamente sua impossibilidade. instrumentos e conceitos amealhados durante décadas. texto. a cada passo da referencia (ver figura 2.

rendo a relacáo dos termos finais se tornado saltatória. "a floresta de Boa Vistan. como se procurassem entender de que modo urna lampada e um comutador poderiam "corresponder-se" depois de se cortar o fio e fazer a lampada "contemplar" o comutador "externo". evaporam-se idealmente para urn intervalo vazio a ser cruzado. alguma adeqnatia. e a outra urna frase. razáo pela qua! se amplifica o duplo sentido do movimento de referencia. Et voi/J. procurando alguma coisa para preencher o vazio que criamos.6es de matéria a forma • A vtsso canónica o Crtacáo de uma o Crtacáo de um hiato Os intermediarios. E a descricáo mais concreta é classificada. Aprestam-se para partir. A relacáo entre idéia e objeto. Do laboratório-restaurante dirigimo-nos para out ro laboratório. por serem inrermediários inúteis que tomam a conexáo opaca. p. carregamos as preciosas caixas de papeláo que contero minhocas preservadas ero formaldeído bem como os saquinhos de terra cuidadosamente etiquetados pata o jipe (figura 2.247-8) Na manhá seguinte. Em lugar das mediacóes esquecidas. Conhecer nao é apenas explorar. A idéia. após redigir o relarório da expedicgo. alguma semelhanca entre duas variedades ontológicas que tornamos o mais dissirnilares possível. ou de falsa ou de insuficiente. e dali viajamos mais seis mil quilómetros até a Universidade Jussieu. ora abstrato e saltatório.a sem ser refreada por outras consideracóes concretas. a atividade daquelas minhocas suspeiras: De um ponto de vista pedológico. a seu próprio eu ambulatório.cada qual separada da ourra por um hiato correspondente a distancia entre o que conta como palavras e o que canta como coisas. cada etapa é maréria para aquilo que a sucede e forma para aquilo que a precede . Vamos delinear as extremidades da cadeia como se urna delas fosse o referente. Nao espanta que os filósofos tenham falhado ero compreender o problema do realismo e do relativismo: eles tomaram as duas extremidades provisórias pela cadeia inteira. criemos um hiato radical.25). admitir que a floresta avanca sobre a savana irn plica: extremidade material: o mundo para substituir as mediacóes perdidas e de urna ansia de correspondencia Cnacao de urna extrermdade formal: a linguagem Figura 2. O relatório que preparamos na noite anterior deixa isso muito claro: outra expedicáo será necessária para estudar.. Do texto volvemos as coisas. (James [1907]. mas conseguir refazer os próprios passos. Como disse William James ero seu vigoroso estilo: . no mesmo sítio. em Manaus. capaz de cobrir o abismo hiante que separa a declaracáo que faco em Paris de seu referente a seis mil quilómetros de distancia.. Isso os argumentos filosóficos que pretendem vincular a linguagem ao mundo por meio de urna única rransformacáo regular nao conseguem explicar sarisfatoriamenre.24 A fim de obrer o modelo canónico de palavras e mundo separados por um abismo e ligados pela perigosa ponte da correspondencia. que em sua particularidade concreta formam urna ponte. "significando" uro objeto separado de si mesmo por uro "corte epistemológico". a floresta de Boa Vista. mas preparam-se também para tJO!tar. seguindo a trilha demarcada. Eliminemos todas as rnediacóes que descrevi com tanto gosto. depois. daí por dianre se 0PDe.Referencia circulante Mediar. Sandoval voltará sozinho para Manaus com as valiosas amostras que terá de conservar intactas a despeito da árdua jornada que irá empreender. por ser mais essencial e prévia. Como eu disse. deslocadas um pouquinho para a frente. eis-nos de volta ao antigo modelo. Cada seqüéncia flui "para diante" e "para trás". toda a formula mágica de erlunnmistbeorie cornees e avan¡.1975. execura agora o que o Professor Ladd chama de salto moriale . ternos simplesmente de considerar a referencia circulante e eliminar todas as mediacóes. Isso só é possível no final (provisorio) do processo. situado a mil quil6metros de distancia. ero Paris.

gráficos. Para que essa rede cornece a mentir . quebrando os vid ros de minhoca e espalhando o conteúdo dos saquinhos de terra. basta interromper sua expansáo ern qualquer dos extremos. ficará mais denso depois de lhe acrescentarrnos a ciencia das minhocas. amostras. Edileusa ficará em Boa Vista.. Infelizmente. nao poderei acompanhar a próxima expedi~ao. renho de dizer adieu. levandose em conta a solidez dos argumentos derivados do estudo biológico.' .o. portanto. Os únicos agentes capazes de promover isso sao as minhocas. Embora essas duas nocóes sejam difíceis de conceber a partir dos pressupostos da pedologia clássica.) ." Figura 2. que a floresra e sua arividade biológica transformam o solo arenoso em solo areno-argiloso até urna profundidade de 15 a 20 cm. é necessário. cuja atividade no sftio estudado pudemos verificar e que dispóern de vastas quantidadcs da coalinira existente no horizonte até urna profundidade de setenta centímetros. . jarnais saberemos se a frase do relatório sobre o papel das mi- . Vamos emboca de aviño. Se meus amigos nao conseguirem dinheiro para regressar ao campo. testar essas hipóteses. O aumento de argila nos horizontes superiores nao se eleve a neoformacóes (a falta de urna fonte conhecida de alumínio [o aluminio é respcnsável pela criacáo de argila a partir da sílica comida no quartzo}).l.para que cesse de fazer referencia -. mapas. Construir um fenómeno ern camadas sucessivas torna-o cada vez mais real dentro de urna rede tracada pelos deslocarnenros (em ambos os sentidos) de pesquisadores. que essa arividade rer-se-ia iniciado na orla da savana. a expedicáo inteira terá de ser repetida. dados essenciais para o prosseguimento da pesquisa. 2. Enquanro os ourros membros da equipe dizem au revoir a Edileusa. espécimes. suspender seu financiarnenro ou rompe-la em qualquer outto ponto.25 . nova para ela. em faixa de 15 a 30 m. e continuará a inspecionar seu sfcio. Se o jipe de Sandoval tambar. relatórios e pedidos de verba. encantada pela intensa e amistosa colaboracáo.. O estudo dessa populacáo de minhocas e o cálculo de sua atividacle forneceráo. parar de incentivé-la. Quanto a seu terreno. que devido a superposicáo de pedologia e botánica acaba de ganhar em irnportáncia.

Depois de digitada e salva no disco rígido. que sao os leitores deste livro. slides.26). estendo a rede da transicáo floresta-savana para os filósofos e sociólogos.6es. arquivos e siides. Escrevo um texto de filosofia empírica que nao re-representa sua evidencia a maneira de meus amigos pedólogos. no INPA. Ao conrrário da inscri. Fumando um cigarro. A sec. tarnbém eu escrevo meu relatório em meu laptop. dianre de um irnenso mapa da bacia amazónica. Armand redige a versáo final do relatório em seu laptop. (Deixo-lhe a rarefa de medir a distancia que separa as ciencias naturais e sociais. apoiando seu pedido de yerba para retornar ao campo. sacolas. Figura 2. Como meus colegas. Atonda sem fim da credibilidade científica: cada volta faz com que a pedologia absorva um pouco mais da Amazonia. que seráo submetidas a várias séries de testes nos rnuiros laboratórios selecionados por nossos pedólogos. mas com alusóes e ilustracóes. feira por Armand.) . pois tal mistério exigiria outra expedic. um espa~o mais parecido a um laboratório (figura 2. A transicáo floresra-savana em Boa Vista prossegue em sua marcha de transformac. esrou sentado a escrivaninha atulhada de livros. Estamos em Manaus. movimento que nao pode cessar a menos que se percam imediatamenre a significac.ao para estudar o papel do empirista ranzinza que tenho sido. urna hipórese gratuita ou urna ficcáo. correio eletrónico e disquetes. precedendo as malas cheias de terra e minhocas. minhas fotografias nao transportam aquilo de que falo. can ti s. ar condicionado! Finalmente.ao e o sentido.ao da rede que estou construindo. Os resultados voltaráo para engrossar as pilhas de notas e arquivos sobre a mesa de Arrnand. nao é feíta com o tipo de referencias exaradas pelos ourros cientistas. de Radambrasil. E se meus negativos se extraviarem no laboratório de revelacáo. ela circulará por [ax. e a rabela de Mendeleiev. Separatas. Na parede o mapa da Amazonia.nhocas é urna verdade científica.¡¡o do solo de Boa Vista. num velho barracáo transformado em escritório. assim. como alguém saberá se nao menti? Finalmente. porém.26 . Já em Paris. um motor de popa. a rastreabilidade de meu tema nao é suficientemente imutável para permitir que o leitor volte ao campo. Fumando um cigarro. latas de gasolina. arquivos. Meus esquemas nao fazero referencia da mesma maneira que seus diagramas e mapas.

nao de urna ciencia verde e amistosa como a pedologia. tive de abandonar muitos dos caminhos que se abriam para o contexto da expedicao. o sistema circularério completo da ciéncia. Sem exagerar em demasia. Nesse modelo. no presente caso. Em particular. vinculam-nos a um mundo alinhado.. 1994. Essa filosofia "dcambularória" nao será mais realista e certamenre mais realística que o antigo acordo? capitulo 3 O fluxo sangüf0eq da ciencia Um exemplo da inteligencia científica de Joliot Depois de comecnrmos a perceber que a referencia é algo que circula. As ciencias fazem mais que isso .6es. Isso me permitirá introduzir um poueo de sociología c1ássiea da ciencia. 1995. mas há urna cornpensacáo: apontando com O indicador para os traeos de urna figura impressa no atlas. de que precisamos para prosseguir. neste deixarei de parte quase todo o conreúdo técnico para concentrar-me no próprio caminbo. lego seremos capazes de reunir novamente muitos dos elementos contextuáis que tivemos de abandonar no capítulo anterior. mas posso. 1997). Tomamos a ciencia por urna pintura realista. A firn de ilustrar esse segundo aspecto.e já agora tomado. no capítulo 2. essa seqüéncia potencialmente infinita de mediadores.as a urna série de transformacóes uniformemente descontínuas. perdemos a sernelhanca. mas pesada e sombria como a física atómica..o leitor pode agora contemplar um mapa do Brasil no atlas e deter-se na área de Boa Vista. Quera apenas refundir o sentido do acljetivozinho "social". ao invés de exigir os prazeres insignificantes da adequatio e o um tanro perigoso salto mortale que James tao bem ridicularizou. como alguns de meus colegas fizeram de forma tao excelente (Schaffer. podemos. Todo o velho problema da correspondencia entre palavras e mundo surge de urna simples confusáo entre episrernologia e história da arte. se pagar o pre<. e ajudar o leitor convicto de que 97 . Pickering.o. digamos que os estudos científicos fizerarn urna descobertu nao totalmente diversa da do grande William Harvey. darei um exemplo canónico . vaso após vaso. gra<. construído. estabelecer um laco com Boa Vista. supondo que ela proporcionava urna cópia exata do mundo. saberemos reconstruir. Ao longo de etapas sucessivas. Galison. rudo mudará em nossa cornpreensáo das conexóes entre urna disciplina cienrffica e o restante de seu mundo. Gozemos essa langa cadeia de transformac. estender a cadeia de transformacóes sempre que urna referencia verificada circular ao longo de substiruicóes constantes. Se. Mesmo a nocño de um "ccracáo" conceirual da ciencia assumirá um sentido completamente novo depois de comecarmos a examinar a farta vascularizacño que dá vicia as disciplinas científicas. Seguindo as trilhas da circulacáo dos fatos. Jarnais conseguirei verificar a semelhanca entre minha mente e o mundo.pinturas tarnbém. transformado. Nao renciono contribuir em nada para a historia e a antropologia da física. mas nao para procurar urna semeIhan~"tt entre o mapa e o sitio cuja história venho narrando. A nocño de urna ciencia isolada do resto da sociedade se tornará tao absurda quanro a idéia de um sistema arterial desconectado do sistema venoso.

excogitavam um acordo tao sutil quanro o que apro. Jolior e seus dois principais colegas de pesquisa. ande mostrava ser possível gerar 3. um emigrado da Hungria e físico visionário. Joliot planejava con~trUlr um reator atómico. desta feira. Joliot. a despeiro dos telegramas urgentes que Leo Szilard lhes estava enviando dos Estados Unidos. ero assunros como estes. todas as descobertas dos cle~t1s~as franceses seriam patenteadas por um sindicato que deveria distribuir os lucros igualmente entre a Un ion Miniere e o CNRS.xlmara os interesses do Ministério da Guerra. em abril de 1939. liberando energia. Ero troca. Inglaterra e Uniáo Soviética tiveram a mesma idéia e reorientaram suas invesrigacóes para a obtencáo de urna reacáo em cadeia. aconselhado por seus amigos do Ministerio da Guerra e por André Laugier. como antes dele sua sogra Marie ~llrie. A equipe de Joliot pos-se a trabalhar sem tardanra para demonstrar que semelhunre reacáo era possível e poderia abrir caminho a novas descoberras científicas a urna nova técnica de prcducáo de energia em quantidades ilimitadas. e em seguida a comprovacáo da existencia de depósitos de uranio no Congo. Enquanto isso. pr?m:teu a Jolt~t cinco toneladas de óxido de uraruo. todos os físicos da Alemanha. a posicño de destaque. essa companhia se tornara a principal fornecedora de todos os laboratório~ d~ mundo q~e tentavam realizar a primeira reacáo nuclear art ificial em cadeia. a questáo era coorJenar os comporta- mentas aparentemente irreconciliáveis das panículas atómicas. O efeito dessa radiacividade artificial foi logo percebido por diversos físicos: se. Hans Halban e Le:" Kowarski.um. Nao conseguiu. "A. No mundo inteiro. Ao le-lo. para o qual precisava de grande quantidade de uranio: eis o que transformou um simples refugo da pro(~U­ \ao de rádio em algo valioso. Gracas a descoberta do rádio por Pierre e Marie Curie. Gosrana de poder ir mais depressa. Em 1934 Szilard.a a um número aindu maior conquistaría enorme prestígio na altamente competitiva comunidade cienrffica. 98 99 . será possível integrar as duas com urna definicáo alternativa do objeto. ir depressa é urna receira infalível para apenas repetir o antigo arranjo sem nenhuma perspectiva de aclarar o novo.. assrsrencra recnrca e. cerca de dez equipes votaram-se apaixonadamenre a rarefa de produzir a primeira reacáo nuclear artificial ero cadeia. entretanto. sob bombardeio. montan has de óxi~o de uranl. cada átomo de uranio expeiia dois Oll tres néurrons que por seu turno bombardeavam outros átomos de uranio. Sailard tentava estimular a autocensura de todos os pesquisadores anrinazisras. Um pequeno exemplo de Joliot Em maio de 1939 Frédéric Joliot. Qllando estivermos equrpados com urna nocño diferente de referencia e urna concepc. Quando bombardeado por néutrons. informandoos de seus perigos e requerendo imediata provisño das yerbas gigantescas necessárias para testar a hipótese de jolior. escrevendo irnediatnmenre a seus governos sobre a importancia capital dessa pesquisa.o eram relegadas aos depósitos de lixo.mllháo de francos. Joliot e seus colegas continuaram a publicar seus achados. em que os franceses ocupavam.os escudos científicos procuram oferecer urna explicacáo "socia~!1 da ciencia a abandonar esse preconceito.hia. urna reacáo ern cadeia extremamente poderosa seria ativada. o átomo de uranio se parte em dois. Mas apenas Joliot e seus colaboradores estavam já capacitados a transformti-la ero realidacle militar ou industrial. O princípio da fissáo acabara de ser descoberto.. coml:an. a U010n MIDiere urilizava seus minerais radiativos únicamente como fonte do r~­ dio. Com efeiro. Decidido a chegar a essa importante descoberta científica. na época. mas. que vendia aos médicos. A primeira equipe a provar que cada geracáo de néutrons clava de fato nascenc. direto~ do recém-instalado CNRS (Centre National de la Recherche Scienrifique _ Centro Nacional de Pesquisa Cientí~ca). obtivera urna patente secreta dos principios de fabrica~ao da bomba atómica. Inquieto ante a possibilidade de também os alernáes construírem a bomba tao logo se cerrificassem dé' que os néutrons emitidos eram mais numerosos do que se pensava a princípio.a(~ r:novada do social. Mas. ~ ~mon Miniere du Haut Karanga. im~ginar~ ~~a maneira de atrair a companhia. O «. entrou n~m acordo legal muito finório com urna rornpanhia belga. Jo CNRS e da Unión Miniere. ero seu laboratório do College de France. que ainda está imerso ern sombras. impedir que Joliot publicasse um derradeiro artigo no periódico ingles Natsre.5 néurrons por fissáo.

Apoiara o acordo de Joliot com a Union Miniere e fizera o possível para auxiliar a equipe do Collége de France. os recipientes foram entregues a Joliot. táo bem contado pelo historiador americano Spencer Weart (1979) e do qual apenas resumi um episódio? Dois enormes equívocos tornaram incompreensível o projeto de mapear o sistema circulatorio da ciencia. diariamente. a pesquisa militar e científica avancada. de problemas epistemológicos.­ ra. a hipótese de Joliot sobre a exeqüibilidade da reacáo em cadeia e a convicño de Dautry de que era necessário desenvolver novas armas entrelacaram-se ainda mais quando surgiu a questáo de obrer a água pesada da Noruega. que poderia eventualmente levar a construcáo de um novo tipo de armamento. mas solicitarum que ele alterasse as prioridades: caso a bomba fossc viável . uro isotopo do hidrogénio. o segundo. Custava urna fortuna obrer água pesada. físicos alemáes. bem ~o. Halban sabia que ela absorvia pouquÍssimos neurrons.primeiro problema de Joliot era desacelerar (~s ne~1t~ons e~itidos pelas fissóes iniciáis. duas vezes mais pesado mas com o mesmo co~portAan:enro químico. Como vincular a história da ciencia a da " Franca Como encarar esse caso. Dau. em política. Halban e Kowarski.a ape~~ um aromo de deutério para cada seis mil átomos de bldrog~nlO. Raoul Dautry. ou. Esse elemento poderia tomar o lugar do hidrogénio em moléculas de água. pois se eles fossern mutto rápidos nao provocariam a reacáo. franceses e noruegueses brigavam pelos 26 recipientes que esres últimos haviam confiado aos franceses para evitar que caíssem nas rnáos dos alernáes.mo os comecos do CNRS. Completada esta. Foi Halban quem lh~s :hamou a ~ten~~o para as vantagens decisivas do deutério. Enquanro se travava a "guerra de mentirinha" entre as linhas Siegfried e Maginot. pertencente a companhia norueguesa Norsk Hydro Elekrrisk. na melhor das hipóreses . O prirneiro é a cren<. ia fazendo grecas a ajuda dos dados confusos de uro primitivo contador Geiger. ~mb~. Joliot prometen fornecer um reato: experimental para uso civil. que só foi produzida ern escala industrial numa única fábrica em todo o mundo. por exemplo). até onde o perrnrtra a rradicáo francesa. que dessa forma se ternaria "pesada". Examinemos cada uro desses equívocos. A equipe pos-se em busca de um moderador que pudesse desacelerar os néutrons sern absorv~-Ios ou fazé-los recuar _ ou seja. tinham sido pastos de lado pelo servico secreto francés enquanro durasse a operacáo. Os cálculos de Halban sobre a desaceleracáo dos néutrons. Após algumas semanas conturbadas. deveria ser desenvolvida primeiro e o rnais rápido possível. ou que estaque ero urna posicáo intermediária tentando extrair fatores "puramente" científicos de fatores "meramente" sociais (ver final do capítulo 4). o m~e­ rador ideal apresentava urna desvanragem: havl. espióes. a de que trararn unicamenre de discurso e retórica. formado pela École Polytechnique e antigo funcionário público que se rornou ministro dos Armamentos pouco antes da derrota da Franca na Segund~ Guerra Mun~ia~. ambos esrrangeiros e portanto suspeiros . onde sob a prorecáo de Daurry e dos militares ccmecaram a trabalhar para descobrir um modo de combinar o uranio da Union Miniere e a água pesada dos noruegueses com os cálculos que Halban. rambém estava informado do rrabalho de ]obor desde o prmclpie. a "guerra de menti- i 100 . tJnha a mesma fé no progresso do conhecimenro e o mesmo fervor pela independencia nacional. Em sua oficina de Ivry. mas tal rejeicáo nao significa que adore a postura conrrária. eles experrmentaram diversos moderadores com d iferenres configuracóes (parafina e grafite. tentando integrar. Infel~zmenre. empreendido pelos estudas científicos. puderam volcar ao laboratório do Collége de France. nao parrilhasse as posicóes direitisrus deJolwt. Co~ base ern trabalhos anteriores com a água pesada.tr¡' e outros recnocratas deram generoso apoio a Joliot. Os estudos científicos certamenre rejeicam a idéia de urna ciencia desvinculada do resto da sociedade. O que os esrudos cientfficos repelem por inteiro é o programa de pesqnisas que tenrasse dividir a historia de Joliot ero duas partes: urna para os problemas jurídicos com a Unión Miniere. a de urna "consrrucáo social" da realidade. um moderador ideal com propriedades ~astante difíceis de reconciliar.a de que os estudos científicos buscam urna "explicacáo social" dos fatos científicos. ingleses. banqueiros. dipornaras. sern se importar com "0 mundo real lá fora".

a ourra para o~ neutmnS. Como duas equipes de engenheiros que trabalhasse~ em dois vales paralelos dos Alpes. conhecimenro e proced imentos. el posteriori. o propósito dos estudos científicos é cavar urn túnel entre ambos. Ambos se equivocaram. Urna falaria de Adolf Hirler. De fato. depois.~es políticas com inreresses puramente científicos: Ou que o proJero de desacelerar néutrons com deurério revesna. poi s introduzia consideracóes militares e políticas no Iivre incercárnbio de idéias de ciencia pura~ D:sse modo. para que as duas equipes ataquem o problema de seu lado e se encontrem no rneio. envolve-se com a matemática. Raoul Daurry.! 103 . ternos agora pessoas que narram dois episodios simétricos.as a ourra rransicáo imperceptível. os esrudos científicos revelado. Sern dúvida esrabelecida a divisáo entre atores humanos e nao-humanos todos admitiriam a permanencia de urna área ligeiramente indefinida de híbridos. um deles parti~ári~ de explica<. _. Poder-se-ia dizer. seria "estrrtamente científica". o trabalho que cienrisras e políticos precisaram ernpreender a fim de ligar-se de maneira tao inexrricável. a história ~a. o historiador chega finalmente ao outro. dois diferentes tipos de historiadores.ao. decerto. o curro. segundo a qual o deurério apresenra vanragcns decisivas. mas na ordem imersa.ao e em ge~al chamada eaernaltsia" e a segunda. para o escritório de Daurry e dali para o aeroplano de Jacques Allier. Para haverse com essa "zona crepuscular". por exemplo. ora na oucra. banqueiro e oficial aviador que foi o agente secreto enviado pela Franca para burlar os callas da Lufrwaffe. a história da Franca de 1939 a 1940.6es baseadas na política pura.a<. externalistas e ínrernalisras ter-iam de tomar farores emprestados de suas respectivas listas. mas os caminhos por eles tracados gra<. ínternaliste". por urna /1"amik-¿¡o imperceptível.r:fe~enCla a um dos constituintes igualmente puros: pol ítica e CIenCIa.ri nha" o nacionalismo de Dautry. pelos cálculos de Halban. Acompanhando a argurnenracáo de Halban sobre cortes rransversais (Wearc. as duas hiscórias nao teriarn rido pontos de inrers~<. cien~ia. o analista de ciencia é levado. que partiu da estratégia industrial da Union Miniere e. A primeira espécie de explica<. pelo lado da ciencia. economía. seguindo sern preconceitos as veredas interconectadas de seu raciocinio. A Un ion Miniere poderia ter continuado a produzir e vender cobre sem se preocupar com o rádio ou o uranio. Os estudos científicos poderiam ser definidos como um projeto cujo objetivo consiste em eliminar por inteiro essa divisáo. tal qual relatada por Spencer Weart. esse historiador. O primeiro erudito esperava acompanhar os cálculos de Halban sem precisar envolver-se com a Lufrwaffe. o deurério. Se Marie Curie e mais tarde Frédéric)oliot nao procurassem . cu?ho científico mas era também "influenciado" por farores extractenríficos. ínstiruicóes e paix5es. no mesmo período. a outra discorreria sobre o princípio da reacáo em cadeia. o coeficiente de a~sor<. de idéias. I . a meio caminho. A histeria de Joliot. dlr~Ir~. Avancando a partir do lado da política. gra<. o segundo imaginava poder encarar a Union Miniare sem ter con tato com a física atómica. os espiócs alemáes.as a abertura do túnel sao multo mais interessantes do que supunharn. A prjmeira lista rrataria de pO~lt~~a. o da guerra e da política. Em lugar de seguir os vales paralelos. a segunda. Ao invés de duas histórias que nao se intersecionam ero ponto algur».oes baseadas na ciencia pura. ambas fariam enorme quantrdade de trabalho sern sequer se dar conta urna da outra. os quais incluem os meJ1IIoJ elementos e os mesmos atores. que se poderia encontrar ora numa col una. no túnel. mas nao sobre a Union Miniere ou os bancos que conrrolavam a Norsk Hydro Elekrrisk. Comecando. sem preconceito e sem postular urna nítida divisáo entre ciencia e política. que Joliot "misrurou" preocupa<. pode encontrar um colega vindo da direcáo contraria. d~ ex~ltc. tuda que aparece misturado explica-se por . de boro Oll mau grado. acabou interessadíssimo pelo método de cxrracñc do uranio 235 e. O estudioso dessa época teria entáo duas listas de personagens correspondentes a duas histórias: na primeira. Paderíamos até mesmo imaginar duas subprofissoes. ou talvez em nenhuma. pnncipies. Nesse penodo de 1939-40. 1979). deutério ou parafina. Nao escava previsto que todos os elementos do relato de Weart deveriam ser rnesclados.ao da parafina. Edouard DalacJ¡er e CNRS mas nao de néurrons. Mas. A' proposra de autocensura por parte de Szilard n~o. é urna "traOla inconsútil" que nao se pode partir em duas sern que tanto a política da época quanro a física atómica se rornem incompreensfveis. na segunda.

o urá- '''1 " . na prática. Para Joliot. até cerro ponto. Ao discutir Joliot. um analista da Union Miniere jamais teria de ocuparse de física nuclear. Ha lima tranJlafao* de termos políticos para termos cie~tíficos e vice-versa. pode ter dito ele. A idéia de translacáo fornece as duas equipes de estudiosos. De faro. Digamos que esse é o seu "objetivo". viu-se forcado a calcular a taxa de absorcño de néurrons pela parafina. A história social da ciencia nao diz: "Busquem a sociedade oculta dentro. urna que vem do lado da política e vai para e lado das ciencias. Daurry quer garantir o poderío militar da Franca e a autosuficiencia de sua prcducño energética. com vistas a produzir um reatar. Apenas faz algumas perguntas simples: "Num dado período. nao é esrabelecer a priori que existe "alguma conexáo" entre ciencia e sociedade. depois de vislumbrar a possibilidade da reacáo ern cadeia.interessar a companhia pelo trabalho que faziam em seus laboratórios. pois justamente a "impureza" é que irá permitir a consecucño dos deis objetivos. Nao basta dizer que as conexóes entre ciencia e política formam urna teia emaranhadíssima. Acompanhemos uma operacáo elementar de translacáo a fim de entender como. contrariamente ao que os guerreiros da ciencia queriam induzir todos a crer.de um lado ciencia pura." Essa rransacáo nao é de natureza comercial. A análise dessas operacóes translativas consritui boa parte dos escudos científicos. ern dacia época. a obrer as toneladas de grafite. as premissas e as conexócs que o capacitado. o projeto dos esrudos científicos. Joliot deseja ser o primeiro no mundo a produzir em laboratorio fissño nuclear artificialmente controlada: eis seu objetivo. que só pretendia administrar seus negocios. cujo único interesse era ganhar o premio Nobel. . entre urna ciencia e o resto da cultura. 104 105 . Os esrudos científicos apenas fornecem os meios de tracar essa conexáo quando ela existe. e para Joliot. Joliot poderla direcionar sua pesquisa para outro tópico sem ter de mobilizar. Weart nao precisaria referir-se aCatanga Superior. ao longo de urna série de transicóes imperceptíveis. por sinal dos mais negativos. Em ambos os casos. de outro política pura -. Em suma. é claro. Todas as respostas sao interessantes e consrituern dados de grande relevancia para aqueles que desejam compreender esse imbroglio de coisas e pessoas . os dados que possam mostrar que nao existe a menor conexño. nao se trata de vender a fissáo nuclear. Escrevendo sobre a Franca do pré-guerra. o sistema de orienracáo e alinhamento que Ihes enseja alguma possibilidaJe de encontrarse no meio ao invés de desviar-se. Repelir toda divisáo a priori entre a lista dos atores humanos ou políticos e a lista de idéias e procedimentos nada mais é que o primeiro passo. Weart nao meneion aria joliot. praticamente todos os industriáis e tecnocratas esclarecidos da Franca.¡ conexdo dejJende daquilo que os atores [izeram UN deixaram de [azer para estabeled-la. em parte. "ganhar dinheiro'' significa agora. ou por que lima pessoa. Para o presidente da Union Miniere. pois ela sequer existe amda. até que ponto é possível seguir urna política antes de ter de lidar com o conreúdo detalhado de urna ciencia? Até que ponto é possível examinar o raciocínio de um cientista antes de ter de lidar com os deralhes de urna política? Um minuto? Um século? Urna erernidade? Um segundo? Nao pedimos que corteis o fio que vos conduz. nao renta alterarlhe o objetivo. "será possível ganhar a dianteira em relacáo a outros países e talvez mesmo produzir um explosivo como jamais se imaginou. ocorre a passagem de um registro a ourro. quando Joliot encontra Daurry. Ternos de entender a serie de operacóes pelas quais um industrial. pois a existéncia dess. eles procuram acompanhar os gestos daqueles que o apertam ainda mais. Em contrapartida. independentemente da psicologia que lhe imputemos. em plena guerra. mas apresentar seu próprio projeto de um modo tal que Dautry considere a reacáo nuclear em cadeia como o caminho nsais rJpido e mais seguro para alcancar a independencia nacional. a outra que vem do lado das ciencias e segue as referencias circulantes. a única maneira de fazé-la existir é receber do ministro dos Armamentos o pessoal. Ao contrário. "investir na física de j oliot''. Ao invés de cortar o nó GórJio . Chamar a primeira ambicáo de "puramente política '! e a segunda ele "puramente cientffica" é absurdo. "demonsrrar a possibilidede de lima reacño em cadeia" significa. por trás ou por baixo das ciéncias". "vigiar os espióes nazisras''. "Se vocé utilizar meu laboratorio". deu consigo a preparar urna incursáo de comandos na Noruega. o vocabulário inicial difere do vocabulário final. de um tipo de elemento par~ outrc''.ind/lJiz'e.

relefonando para seu advogado a fim de que a Union Miniére nao cessasse de enviar-lhe uranio e recalculando. indo da matemática ao direito e a política. A operacáo de translacáo consiste em combinar dois interesses até entáo diferentes (guerrear.ICion<1I joliot Objetivo: dominar prime ira . Quer dizer. As paredes do laboratório. néutrons. quando se frusrram seus objetivos. Em nosso exemplo. rnantendo-os ativos e disciplinados. mais os dois problemas se rornavam um só: se um número excessivo de néutrons escapasse do vaso de cobre e baixasse o fluxo da reacáo. Com efeiro. os interesses sao "transladados''.1). uro deslizamento. Quanto mais o ttmpo passava. Ambos os homens acredicam que. os atores tomam atalhos pelos objetivos de outros. Seria inútil escudar urna única negociacño ou rranslacño isoladamente. um deslocamento que. após rerrfvel derrota. Urna coisa era persuadir uro ministro a fornecer o estoque de grafire e bem outra convencer um néutron a desacelerar-se o suficiente para golpear um átomo de uranio e. com a linguagem de um cror sendo substirufda pela linguagem de outro. dependendo do caso. deutério. Ele preciseve de ambos. a oficina de Ivry toenou-se a juntura crucial que iria permitir a realizacño conjunta tanto do projero científico de Joliot quanro da independencia nacional. Há aí urna deriva. nenhuma das partes. pela enésima vez. seu equipamento.l()io em cadete Depois da translacéo Dautrv Objetivo: inuepenuenci. Joliot cruzou e recruzou Paris.¡ 2 ~ 3 nacional Objetivo: dominar primeiro d red<. liberar mais tres néutrons? Sirn e nao. O que importa nessa operacáo de translacáo nao é unicamente a fusño de inreresses que ela ense]a. Para Joliot. Antes da nanslacéo Dautry Objetivo: independénria Il. enquadrar o ministro e os néurrons no mesmo projeto. a curva de absorrño obtida com seu rudimentar contador Geiger.nór¡o pMd a reacáo ern I~ cadeía e futura independénc!a nacional Figura 3. nao há nenhuma garantia de que urna ou outra parte nao esteja trapaceando. Tendo conseguido seu laboratório. o que pertencia a Daurry e o que pertencia a Jolior. De manhá ele trabalhava com os néutrons e a tarde enfrentava o ministro. Para Joliot.:il0 cm cadeía Novo objetivo: urn lahor. sendo impossível paca qualquer deles alcancar direcamente seu objetivo.as mobilizadas em romo da esfera de cobre cheia de uranio e parafina. em meio ao complexo de forc. Sem dúvida. Joliot e Oautry nao alcancaram seu objetivo senáo 15 anos mais tarde. passando telegramas a Szilard para que o fluxo de publ icaróes necessario a promocáo do projeto continuasse. tao cara ao coracáo de Dautry. claro.1 Devemos ser cuidadosos para nao fixar inreresses a priori. Eis seu trabalho científico: manrer juntos todos os fios e arrancar favores de todos. Dautry pode estar desperdigando recursos preciosos ao permitir que Joliot brinque com seus néurrons enquanto os alernáes concentram tanques nas Ardenas. o laboratorio. como se ve no diagrama. Joliot calvez ache que está senda forcado a construir a bomba antes do rearor civil. Já nao era possÍvel afirmar. coleé 107 . daí resultando urna deriva. Ainda que haja equilíbrio perfeito. conseguirá chegar exutamente ao objetivo original. Os esforcos de joliot nao poderiam. mas a criacéo de urna nova mistura.1 rc. seu pessoal e seus recursos foram trazidos a existencia por Dautry e Jolior. assim. noruegueses. nao era muito diferente. desacelerar néutrons) num único objetivo composro (ver figura 3. De igual modo. ele precisava agora negociar com OJ próprioJ nérarons. o ministro perderia a paciencia. nao era de fato realizar tarefas distintas. ser confinados a gabinetes minisreciais. pode ser Ínfimo ou gigantesco.nio e os litros de água pesada necessários. Cornissariat ti Illlnergie Atomiqse (Comissariado de Energia Atómica). quando o general De Gaulle criou o CEA. a pureza política e científica é inútil e o melhor a fazer é negociar um acordo que modifique a relacao entre seus dais alvos originais.

'. Os estudos científicos nunca tiveram in teresse. Corn a ajuda de out ro diagrama. por meio de substituicóes e rranslacóes .2.e prátic~ por ~urro. podemos oferecer explicac. o porvir da física. compreencler essa cede complicada de conexóes sem Imagmar de antemáo que exista uro dado estado de sociedade e uro dado estado de ciencia. fatores puramente políticos ou econor~'licos juntavam-se a fatores puramente científicos. No lado direi ro da fjgura .escudos científicos e as duas hisrórias paralela: que eles substituem. os da segunda empregarao vocabulário do conreúdc" e permaneccráo dentro do núcleo conceitual central. ASSIID. um bom artigo. um premio Nobel e por aí além. mas nunca forma ou conscirui o conreúdo em si das ciéncias. momentos em que. Sem dúvida. é possível estender ~ contraste entre esses dois tipos de investigacño para as conexoes da ciencia. li dos nessa separacáo.ao e de um certo tipo d. no debate clássico.tona de noss~s duas equipes de eruditos. Para os primeiros. as ciencitl. anrinazistas.gas. o statns relativo dos diferentes trabal hadares ou os erres mais tarde revelados. Baseacu . recursos esotéricos (que lembram mais () que lernos nos manuais universirários). No segundo caso. já que nada na defini<. esses dois extremos nao sao mais importantes nem mais reais que as duas ponras de referencia do capítulo anterior . apenas a superficie da disciplina esteja em questño: sua organizacáo. A fim de explicar todas as complicacóes políticas e científicas. Deve ter ficado claro que nao existe relacño alguma entre os dois paradigmas. recursos exotéricos (que lembram mais o que lemos nos artigos diários) e. cO.e W~art). Os csrudos científicos nao se situam. Onde lobngavarn apenas confusáo. em fornecer urna expl icacáo social de qualquer irem de ciencia. "justaposicáo".e pela mesma razáo. Os estudos científicos acornpanham de perta aquelas translarñes irnplausíveis que mobilizam. o ambiente social pode atrapalhar ou estimular StU dese-nvol vimenro. americanos.sse qu: ser cientisra era rarefa fácil? Ser inteftgente. p~rafina. domina tatiibém. de maneira absolutamente inesperada. alimentando a pesquisa contradl. Para esses historiad~res. urna patente..5~s. entre história internalista e história exremalisra. que podernos chamar de modelo de translacáo'" (Callan. Hoje é fácil perceber a diferens¡a entre os .2 mostra a separacáo entre ciencia e política em sua forma mais con:um:llhá l~m núc~e~ de conteúdo científico rodeado por um "ambiente social.m efeito. 1981).ao comum do que seja sociedade poderia explicar a conexáo entre um ministro dos Armamentos e os néurrons. sem necessidade de assisréncia externa lima vez que produzem o comenrário a seu próprio respeiro e se desenvolvem a partir de suas próprias forc. com a ajuda de jolior (e d.6es novas do que consci rui o mundo. Nesse segundo modelo. Se tivessem rido. Só o que se pode dizer é que as sucessivas cadeias de cranslacáo envolvem. Apenas por causa do trabalho de Joliot é que essa conexño foi estabelecida. o futuro da indústria. Tuda o que é importante ocorre entreambOJ e as rnesrnas expl icacóes servem para conduzir a rranslaráo nas duas direcóes. a meu ver. JOS 109 . está o programa de estudos científicos. métodos idénticos sao utilizados para compreender ciencia e sociedade. Cornpreender a ciencia é. geralmenre. suas explicacóes eram exaradas ern termos de "distorciio''. se alguem domina sol idarnente o calculo das secóes rransversais do deuterio. o destino da Franca. Quem di. é ser capaz de mantee unidas todas essas conexóes. defin icñes novas do que é fazer a guerra e definic. fracassariam de pronto. a. pol írico e Itural a que se pode chamar de "contexto" da ciencia. Eles reconfiguram por completo as quesróes.as internas. O lado esquerdo da figura 3. os estudos científicos descobrem urna mbJt~ttti{tio Ie nta . lIimpu~e­ za" ou na melhor das hipóteses. continua e inreirarnente explicável de um cerro tipo de H' preocupac. num extremo.í exj¡!ittllll-Je ti Ji mesmas.embora. as ~uas equipes de historiadores sempre :iveram de ve-las com~ rrusruras lamentáveis de dais registros Igualmente puros.e~terna istas ou internal istas . Todavia.. o qne exp!itd a ciéncia é a 50- ciedade . segundo a etirnologia da palavra. Os membros da pr-imeira empregar~o o vocabulário do contexto" e rentaráo (as vezes) penetrar o m~­ ximo possfvel no conteúdo científico. no outro.

Joliot nao apenas translada consideraróes sociais e científicas cada vez mais intimamente como também mistura questóes epistemológicas e ontológicas cada vez mais profundamente. a declara<. pois confundir aqueles dois domínios supostamente separados é precisamente o que os cien- ° risras fazem a maior parte do tempo. Ourra frase: (2) "joliot afirma que cada néurron libera de tres a quatro néurrons. Alguns anos depois . se seguirmos o conselho dos filósofos. se Joliot t seu grupo tivessem logrado éxito. É o que se le hoje nas enciclopedias e se chama urn "fato cienrffico". Os filósofos da ciencia gostarn ele lembrar-nos. seus colegas passariam imperceptivelmente da segunda frase para urna terceira. as sucessivas rranslacóes fizeram com que os vocabularios esotérico e exotérico tivessem algo em comum. na prática diaria. está sendo por demais otirn ista. No modelo 2. mas isso é impossível. Mais um esforco e chegamos a frase 1JO . Os cíentistas nao apenas confundem. feiro de um conjunto de siruacóes. A elim inacáo dos modificadores é o resultado e as vezes o objetivo da controvérsia científica (conforme veremos no capítulo 4. é o francés típico. um bom indício do surgimento de um fato científico é que o modificador desaparece e só o dial/rlt se mantém. que nao devemos confundir nunca quest6es epistemológicas (nossa representacáo do mundo) com quest6es ontológicas (a realidade do mundo). leríamos frases como: (4) "Numerosos experimentos provaram que cada néurrcn libera entre deis e tres néurrons". pouco rém em comum as explicacóes inrernalisras e extemalisras. É apenas em virtude desse acúmulo gradual de confusño que suas palavras sobre reacóes em cadeia podem ser levadas cada vez mais a serio pelos outros. Aa contrário da frase O). o que é muito interessanre". acreditado que a coisa é viável e trabalharño riela com afinco". como se isso fosse o epítome do bom senso. e. Como já demonsrrei a saciedade. assim. onde Pasteur se afasta de suas células de fermento para permitir que elas falem por si mesmas). concebe-se a ciencia cuma um núcleo rodeado por urna coroa de contextos sociais irrelevantes para a definicáo de ciencia. de sorre que a distincáo entre explicacóes inrernalistas e exrernalisras é tao pequena (ou tao grande) guama a própria cadeia de rrunslacáo. e um elemento multo diferente. contando com o ovo na galinha. pessoas e juízos.ao ou dúlmu*: "cada néutron libera x néutrons". ele nao tem provas. Examinemos a seguinre frase: (1) "Cada néutron libera 25 néutrons". a frase (2) nao condiz coro as regras estilísticas que governam o apareci mento dos fatos científicos.:ao de nao-humanos no discurso humano Agora que o primeiro equívoco foi desfeito.2 No modelo 1.Objetivo 1: exotérico Scciedede 0(/ IicarZio malisla Objetivo 4: esotérico MODELO 1 MODELO 2 Figura 3. Por exemplo. mais respe-iravel: (3) TIA equipe de Joliot parece ter provado que todo néurron libera tres néurrons. Notemos que as duas frases térn um pomo em comum. principalmente com a ajuda do que aprendemos sobre referencia circulanre no capítulo 2. Infelizmente. chamado modificador cu modns". que enráo encontrara abrigo no laboratório de Enrico Fermi. nao se pode le-la em nenhuma enciclopédia. na zona sul de Chicago). é muitíssimo perigoso: se os alemñes lerem suas palavras. as fronteiras entre sua ciencia puramente esotérica e a esfera impuramente exotérica da sociedade como toldam os limites entre o domínio do discurso e aquilo que o mundo é. seja como for. será mais fácil encarar segundo. Seu caráter datado é facilmente discernível (algum momento entre 1939 e 1940) e ela pode ser atribuída a um colega físico (como Szilard. nao compreenderemos nenhuma acividade científica. A progressiva insen.

um por um. a fabricacao do rearor atómico. demasiado humanos. para empregar o dicho surrado. Nao renciono enfatizar aqui a lamentável "dirnensáo social" da ciencia. sem sequer urna alusáo ao mecanismo que a tornou possível ~ penetrará num estado de certeza ainda maior. os esrudos científicos jamais declararam que os "curros" envolvidos no processo de conviccáo eram todos humanos. nao conseguiria torear os colegas a acredirarem nele. se toda vez que ele o disser seus colegas interpuserern objecóes . No entanto. desatentos.e obrer. )oliot tem de introduzir oatros recursos alérn dos que a rerdrica c1ássica lhe transmiriu. aceito pelos demais. po~ d~finiCSao.amos: (1) "Cada néurron libera 2. para provar que os cientistas sao apenas humanos. Mais tarde essa frase .exceto num curso introdutório ou num artigo de divulgacáo -. precisa dos ourros. desinteressados.como liÉ ridículo acreditar nisso {die/mu]ll. Em seus debates com os colegas. embora acrescentasse lago: "desde que os alemñes nao o surrupiem se ocuparem Paris". a transicáo é progressiva e conrfnua . poderíamos até mesmo imaginar )oliot pondo-se imediaramenre a escrever um artigo de enciclopédia sobre o fu ncionamento de urna usina nuclear! É necessário convencer os outros primeiro.as a transtormacóes sucessivas. Sozinho. Os físicos atómicos nem mesmo falarño ou escreverño a respeito . o destino da afirmacáo está nas máos dos outros. de táo óbvio que o assunto se tornou. Se pudesse fazer seu rearor funcionar ao menos por uns segundos . Ao contrário.sern quaisquer resrricóes . que tendem "assintoticamenre" para o verdadeiro estado de coisas? Sustentaremos que (2) é ainda urna afi rmacáo humana. céticos. principalmente dos caros colegas. Joliot se sentirá completamente impotente. como todos os pesquisadores. de novo. sem nome de autor. Apesar da mal dosa insinuacáo dos guerreiros da ciencia. sem julgamento. Os outros estáo sempre lá. formam o grupo social sem o qual Joliot nao pode passar. transformar sua afirmacáo em faro científico. Sztlard quem teve de admitir: "Já acho que Joliot pode mesmo fazer seu reatar funcionar". pravas suficientemente claras para que ninguém o acusasse de ver apenas o que queria ver -. sozinho. nao está completamente inerme. sem polémicas nem conrrovérsias. A controvérsia nao desapareceria caso os pesguisadores fossem apenas "realmente cienrfficos". de modo a seguir-se daí um fluxo estável de referencia em duas direcóes? Como conseguirá Joliot livrar-sc das restricóes ao fato científico que ele deseja esrabelecer? A resposra a essa pergunta explica por que nao pode existir ourra hisrória da ciencia a nao ser os estudos científicos mis quais os defino aqui. liÉ irnpossfvel supor tal coisa {diclllll¡JlI.com a qual come<. precisa dos outros para eferuar essa rransformacáo.-o. precisa discipliná-los e convence-los. mais seráo amados ou odiados). Da conrrovérsia trepidante ao conhecimento tácito. Mas. Entretanto. marcada pela língua e pela hisrória. Como explicaremos essa mudanca progressiva de (2) para (1) através de (3) e (4)1 Diremos. os escudos científicos nao sao o programa de pesquisa que irá tomar posicáo nesse debate clássico.5 néurrons''. JoFOI . )oliot. liÉ perigoso irnaginá-Io [die/mu)" OL! liÉ contrario 'a recria posrulá-Io {dictllllt]1l -. Segundo vimos no capítulo 2. nao pode desprezá-Ios e encerrar-se no Collége de France. Ele nao pode. desse acontecimento. o esforco inteiro dos estudos científicos volrou-se para a observacáo da extraerdinária mescla de humanos e nao-humanos que os cientisras precisam discernir para convencer. indisciplinados. enguanto (1) nao é absolutamente urna afirmacáo e escapa tanto ahistoria quanto a humanidade? A maneira tradicional de responder a tais pergunras é tentar identificar.pelo menos guando tuda vai bem. )oliot pode estar convencido de que a reacño nuclear em cadeia é exeqüível e de que ela levará. agudas que correspondem a um estado de coisas e aquelas que nao Ihe fazem nenhuma referencia. em poucos anos. convicto de que tem razáo. Recorrendo ~utra vez a um mote que renho muitas vezes empregado. que por esse motivo sao ao rnesmo tempo amados e odiados (quanro menos numerosos forem e quanto mais esotérica ou importante se revelar a declaracáo em apres. Por isso tinha tanta pressa em desacelerar os néutrons com deurério. o que certamen te é raro. eles se interessarn por um problema iritei ramente diverso: como pode o mundo ser aos poucos vertido em discurso grac. Nao há como saltar nenhum dos degraus que conduzem a conviccáo. entre as afirrnacóes.

os cienrisras . ~onvens¡ao.comecam a falar com verdade porque mergulham ~inda mais profundamente no mundo secular das palavras. acessíveis apenas arravés de rnediacóes altamente indireras e imensamente complexas de diferentes séries de instrumentos. Isso implica exatarnente o oposto. política.e a prova disso é que tres países em guerra se puseram irnediatamenre a trabalhar na construcáo de seus próprios reatares.a de seus vínculos. por de parte um abismo nao-existente e urna correspondencia ainda menos real entre duas coisas inexistentes . isoladamente. apoiada pelos diagramas de Halban e Kowarski. Decerro. Todavia. Os estudos científicos. já nao imaginamos os cientistas como criaturas que abandonam o universo dos signos. Ao invés de abandonar o mundo vil da retórica. rompirnenro mítico que perrnitiria ao cientisra solitário descobrir o mundo verdadeiro. A nocáo do grande abismo entre palavras e mundo impossibilitou a compreensáo desse carregamento progressivo . obridos da esfera de cobre da oficina de Ivry. ampliando seus próprios laces íntimos com os nao-humanos que eles aprenderam a desancar em suas discussñes. signos. eis urna nova maneira de convencer. modificando e constrangendo os aros de fala de inúmeros humanos sobre os quais ninguém tem nenhum controle durável. Se O quadro tradicional traz a legenda "Quanro mais deseonetada a ciencia. repetimos. mas justamente esse alto custo é que obrigaria seus estimados colegas a levar a sério seu artigo em Namre. Disciplinar homens e mobilizar coisas. os néutrona do reatar poderiam tornar-se visíveis na forma de um diagrama em corte transversal. apéndices. a convenrño e O discurso. Com ele. nao pocha se-lo com tarnanha facilidade . por assim dizer. a opiniiio de Joliot. mais exata ela pode se rornar''. de sua capacidade de tornar os naohumanos acessíveis as palavras. O que de início chocou no novo paradigma foi o fato de ele nao se basear no mito do rompimento heróico com a sociedade. nao tomam posicéo num debate c1ássico será a retórica ou a prava que por fim convence os cientistas? -. A qualidade da referencia de urna ciencia nao vem de um salto mortale para fora do discurso e da sociedade. podia ser desacreditada com um simples aceno de miio.palavras e mundo . mobilizar coisas disciplinando homens. com humanos apenas. da argumenracáo e do cálculo. e devidamente alinhados. Semente a prepotencia do acordo modernista poderia fazer parecer bizarra essa evidencia de senso comum. tentáculos. cujas origens políticas examinarei no capítulo 7. paixóes. de sua habilidade em inreressar e convencer os outros. pois aqueles a quem se dirigem em suas pesquisas nao sao exatarnenre humanos e sim híbridos esquisiros coro longas candas. do acúmulo progressivo de suas rnediacóes. Eles foram sempre urna análise de como a linguagem torna-se aos poucos capaz de transportar coisas sem deformacáo ao longo de transformas¡6es. De forma alguma os estudos científicos sao urna análise da retórica da ciencia. mas reconfiguram a questáo como um todo a fim de entender este estranhíssimo híbrido: urna esfera de cobre fabricada para convencer. atrás delas. Os nao-humanos podem ser acondicionados no discurso com a mesma facilidade com que ministros podem ser induzidos a entender néutrons. Conforme veremos no capítulo 6. A verdade do que os cientisras afirmam já nao provém de seu rompimenro com a sociedade. por trás dele. as vezes chamada de pesquisa científica. os escudos científicos dizem "Quanto mais conetada a ciencia. filamentos que amarram palavras a coisas que estáo. rnelhor".bem a moda dos eremitas religiosos do passado . Os experimentos na oficina de Ivry eram muito caros. paixóes e sen timen tos para descobrir o mundo das frias e desumanas coisas-em-si localizado "lé fora". da dirnensáo discursiva da ciencia.liot já nao estaria só. Mas isso nao significa que os pintemos a conversar com humanos. isso é o mais fácil de alcancar. A opiniáo de Jolior. mediacóes e conexóes. do número de interlocutores que arrai. e de sua institucionalizacáo rotineira desses . Joliot foi o único homem no mundo a ter a disposicáo recursos suficientes para mobilizar colegas e néutrons em torno e dentro de um rearor de verdade. com vistas a ter acesso as coisas. Durante seis meses. da seguranc. mas da segurans¡a proporcionada pelas referencias circulantes que cascateiam ao langa de urn grande número de rransformacóes e rranslacóes.nao é absolutamente o mesmo que dizer que os humanos estáo para sempre aferrolhados na prisáo da linguagem. disciplinados e supervisionados por seus colaboradores. e sim da exrensáo de suas rnudancas.como fez a própria distincáo entre retórica e realidade. materiais e rnediacóes.

e as palavras de Joliot cornecaráo a ené . a energia com que Joliot pressionou Szilard. a dar palestras para os operários nos subúrbios comunistas . entáo todos esses recursos se dispersaráo e se dissiparáo.sem o qual nao teria colegas suficientemente sofisticados na nova física (Pestre. Poi o mesmo trabalho científico que o fez entrar na oficina de Ivry e no escrirório de Dautry.fluxos (ver capítulo 5). tais quesrñes esráo interligadas .ar a entender. e. Dautry e os outros proporcional ao número de recursos e interesses que ele já mobilizara. acenos e sendas que poderiam parecer im previsfveis e tortuosos aos filósofos da ciencia tradicional. até entáo desvinculados. Dautry nao houvesse recebido urna resposta favoráve1 de seus conselheiros. que romperam com a sociedade. finalmente. nao censeguiria também convencer seus próprios colegas. acima de tuda. e de cienristas escassamente conectados. ao mesmo cempo. e de mentirosos. os estudos científicos seguem comandos. do que acontece na esfera de cobre em Ivry. a convidar os direrores da Un ion Miniere a visitar seu laboratório. Nao é urna questño de cientistas confiáveis. aproximar-se dos colegas e refazer seus cálculos. que sao influenciados pelos devaneios da paixáo e da política: é urna quesráo de cientisras altamente conectados. Tanto trabalho já nao valerá a pena. a perder a referencia. Em lugar de definir a priori a distancia entre o núcleo do conreúdo científico e seu contexto. É tarde para apregoar que questfies ontológicas e epistemológicas devem ser claramente separadas. a lutar para que o maldito reator funcionasse. cerrar mentiras. nurna controvérsia. Kowarski. mas ralvez possamos esbocar as diferentes preocupacóes que todos os pesquisadores teráo de alimentar ao mesmo tempo caso queiram Ser bons cientisras. é o resultado dessa própria producáo.e. de fazer funcionar o rearor. o que rornaria incompreensível os numerosos curro-circuitos entre ministros e néurrons. O que importa para os estudos científicos é o fato de um conjunto de elementos heterogéneos. É impossível.e a relevancia do que ele diz para o que o mundo é depende. se nao tivesse conseguido convencer os conselheiros de Dautry. Essa linha de trabalho será considerada dispendiosa.sem os quais o próprio objetivo de sua pesquisa teria sido solapado. Gracas ao rrabalho de Joliot. Tentemos enumerar os vários fluxos que jolior precisa levar em conta simultaneamente e que. como Joliot. de um modo realista. Em qualquer ponto encontramos pessoas e coisas misturadas. 1984) para interessar-se por seus argumentos. compreender o que se passa com esses néurrons agora tao vitais para as partes empenhadas no destino deles. o que nao é menos importante. as operacóes de convencimento rnobilizam urna mistura de agentes humanos e nao-humanos. o que determinada disciplina científica procura: instru- Foi o mesmo trabalho disciplinador e disciplinado que o induziu a ocupar-se do desenvolvimento do CNRS . despertar o interesse de militares. dar urna descriráo geral de todos os laces surpreendentes e heterogeneos que explicam o sistema circularório encarregado de rnanter vivos os fatos científicos.sem o que nao teria recebido as toneladas de refugo radiativo necessárias a seu reator. depois que Joliot esbocou seu projeto. inútil ou prematura. garantem a referencia para aquilo que ele diz. Se. provocando ou encerrando urna controvérsia. parrilhar agora um destino comuro dentro de um coletivo comum e de as palavras de jolior se tornarern verdadeiras ou falsas de acordo com o que circula por esse coletivo recém-formado. Eis aí cinco tipos de atividacles que os estudos científicos tero de descrever em primeiro lugar caso pretendam come¡. mas apenas referencia contínua ou inrerrornpida. A confusáo pela qual este capítulo comecou nao é um aspecto da producáo científica que se deva lamentar. por definicáo. que se limitarn as palavras. se cada néutron liberar apenas outro néutron. Joliot tern. aquele nao obteria os recursos necessários para mobilizar as toneladas de grafite que seu experimento exigia . juntos. e. Nao exisrem afirmacóes verdadeiras que correspondam a um estado de coisas e afirmacóes falsas que nao correspondam. dar ao público urna imagem P> sitiva de suas anvidades. o sistema circulatório dos fatos científicos As operacóes de translarfío transformam as questñes políticas em quesróes de técnica e vice-versa. Como veremos. Se o reator falhar. convencer seus colegas. políticos e industriáis.sem os quais nao haveria apoio arnplo a pesquisa científica como um todo. a escrever artigos para a Nature . agora.

o elemento conceitual (vínculos e nos) contmua . Para qualquer expressao realista da ciencia. renuncie-se ao rearor. de volta a seguran~a de Manaus. essa expressáo designa primariamente os instrumentos e o eouipemenio principal que. animais. finalmente. ela designa também as expedi{oes mandadas ao redor do mundo durante os tres ou quatro últimos séculas para trazer plantas..0 ~~e eu chamo de omculos ou nó. ~esse ~o­ delo.ao do mundo o prirneiro circuito a acompanhar pode ser cha~ado de mobilizd{dO do 'mundo. considerar para reconstituir a rirculacáo dos fatos clentIficos. nem equipamento. nem expedicóes. mapearam todos os horizontes pedológicos e puderam. E urna qucs3 AI'i. troféus e observacóes cartográficas. questionários que reúnem inforrnacóes sobre o estado de urna sociedade ou economia. sern colegas. a rarefa demiúrgica de Atlas . os cientistas fazem os objetos girar em torno deles. Mobiliza<. pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial.:50 do mundo (instrumentos) Figura 3. as galerias do Museu de Hisrória Natural. semente aqui em Paris. a fim de evitar a bagagem histórica ~ue ve~ com a expressáo "conteúdo conceitual''. cada urna nutre-se de si mesma e das dernais: sem aliados.sustentar o mundo nos ombros -. aliados.l(. m~peel os cinco diferentes circuitos que os estudos Clentl~cos. . colegas. Nossos amigos. a palavra "mobilizacáo" nao significará nem instrumentos. ande o solo da floresta Amazónica foi se tornando mais e mais móvel até iniciar urna longa viagem. Como se ve no frontispício do livro de Mercator. nada de grafite e.lm. pore~ já nao coma urna pedra rodeada ~or ~m contexto e srm como um no central ligando os outros quatro crrcurtos. portanro.no me 10. rorná-lo móvel. nada de rearor. Em cerras disciplinas como a física nuclear de Joliot. Quaisquer que sejam os tipos de rnediacgo adorados. mante-lo empenhado e fazé-lo suscetível de argurnenracáo. os pedólagos.as (aliados) 4 Represent.7).mentas. embora difícilmente ele haja percebido até que ponto era prática a atividade designada por essa pomposa expressáo: ao invés de girar em torno dos objetos. Por exemplo. a expedicáo a Noruega. o geógrafo quinhenrista que empregou pela primeira vez o termo atlas. mas também de sitios nos quais todos os objetos do mundo assim mobilizados esréo reunidos e conridos.3. Em outras disciplinas. precrsam . Esse primeiro circuito trata de expedicóes e Ievantarnenros por meio de ferramenras e perrechos. tao de dirigir-se para o mundo. mas Ieuantamentos. num relance. se por isso entendermos a ex~ressao ge. transformou-se num "atlas" e nao exige mais esforcos heróicos que o de voltar as páginas de um bonito livro que o cartógrafo manuseia.ral dos meios pelos quais os nao-humanos sao progressl~amente 10seridos no discurso. sem urna manerra de :alclllar a taxa de reprodu~ao dos nelltrons. as colecóes do Museu do Homem.r. ao convencimento dos colegas.50 pública 2 Autonornizecño (colegas) 1 Mobiliza<. a prov~ e. vérn constituindo a hisrória da Grande Ciencia. os mapas do Servico Geográfico. finalmente. rrazé-Io para o local da controvérsia. os arquivos do CNRS. cumpre levar em canta cio:o circuitos. por urna série de rransforrnacóes. portante. os fichários da polfcia e o equipamenro dos laborarórios de fisiologia do . até a Universidade de Paris.ao mes~o tempo. dominar a floresta que antes os dominara. Em muitas curras.3 Se renunciarmos ao modelo núcleo/co~texto. esse circuito executa na prárica aquilo que Kant chamou de Revolucáo Copernicana. Na ~igl~ra 3. adeus a opiniáo favorá:el de Dautry e. Vimos um exemplo disso no capítulo 2.podere~os exibir um modelo alternativo. estavarn perdidos no meio de urna paisagem indecifrável (ver figura 2. público e. portante. Cada urna dessas Cinco atrvidades é táo importante quanto as outras. conforme vimos no capítulo 2.

u~em bioquímicos a partir de biólogos e químicos. a duras penas.a fins -. O conflito de disciplinas nao e urn freio ao desenvolvimento da ciencia e sim uro de seus motores.em. os cientistas do solo. falando uns com os outros. Foi necessário.exemplo. o segundo circuito ~z a história das imtituif5es* científicas. um cien ti sta de um cunaso. as grandes éwler. Se quisermos entender por que essa gente corneca a falar com mais auroridade e seguranca. Por meio dessa mobilizacáo. sub/ata). de seu laboratorio ern Paris. De um modo mars gera~. Nao seria possível. um pesquisado¡ de grandes temas de um pesquisador de ninharias. A maior credibilidade nos experimentos. grupos e fac~6es que constituem 'as sementes de tod?s os relacionamenros entre pesquisadores. o CNRS. discorrem sobre as coisas com um grau de verdade cada vez maior. sociólogos de filósofos. regular a demografia interna de um campo e en~ontrar . assim como os soldados vém dos civis. expedicóes e levanrarnenros pressupóe um colega capaz ao mesmo tempo de critic~-los e utilizá-los. psicólogos soC~lS . por exemplo. o escudo da logística. observar o avance da floresta de Boa Vista. com os quais estavarn sempre discutindo in absentia. mais exatamente. em out ras palavras. tem asua disposicáo tabelas de sintomas baseados em centenas de casos. entre botánica e pedologia? Aler:n da. mas também de alguém a ser convencido! O objetivo dos historiadores da segunda parte do sistema vascular é mostrar como uro pesquisador encontra colegas.pregos . economistas de juristas.hlstona das profiss5es e disciplinas. A análise das profiss6es científicas é sern dúvida a parte mais f~cil ~os estudos científicos e a mais acessível a compreensao dos crennstas. no curso da hisrór¡a. Para que obter dez milhñes de fotografias coloridas por satélite se só existirem dais especialistas no mundo aptos a inrerpretá-Ias? Um especialista isolado é uro paradoxo. Charno esse segundo circuito de dlltonomizaf¿¡o porque diz respeito ao modo pelo qual urna disciplina. Sernpre nos esquecemos de que os especialistas vém dos amadores. Ela trata da história das associa~6es e sociedades doutas bem como das "panelinhas". Um médico.a partir de psicólogos e sociólogos. jamais deixaram de falar num cenário virtual de colegas.para alunos e discípulos? Como solucionar os I~u~eravels confliros de competencia enrre a profissg¿ e as disciplinas . urna facC.ao ou urna "congregacño invisível"* se torna independente e engendra seus próprios critérios de avaliacáo e relevancia. Nern sempre houve cientisras e pesquisadores. Ou seja. teremos de acompanhar a mobiliza~ao do mundo. recursos. urna profissáo.p~r .College de France sao outros tantos objetos cruciais de estudo para aqueles que desejam compreender a mediacáo gra~as a qual os humanos. é o esrudo da redacáo do "g rande livro da natureza'' em caracteres legíveis para os cienristas ou. ~ssa a. acostumado a tratar seus clientes caso a caso na mesa de cirurgia. que nunca deixam de tagarelar a esse respeito. Até no coracáo da Amazonia nossos amigos. Escrever a historia do primeiro circuito é escrever a história da transformacáo do mundo em móveis imutáveis* e combináveis. As instjtuicóes sao tao necessárias para a solucáo de controversias quanro o fluxo regular de dados obridos no primeiro cir- Autonormzacáo Para convencer. como se a paisagem povoada de árvores houvesse se transformado nos painéis de rnadeira de urna sala de conferencias. extrair químicos de alquimistas. o mundo se converte em argumentos. urn especialista ~e um amador. o cientisra precisa de data (ou. gracas a qual as coisas ora se apresen tam sob urna forma que as torna prontamente úteis nos debates entre cientisras. o controle meticuloso sobre títulos e d~fic~ldades de acesso? Como impor um monopólio de comperencia. o Instituto. Ninguém pode se especializar sem a auronornizacáo simultanea de um pequeno gmpo de pares. Urna ecologista a quem ninguém Ievava a sério intervém agora nos debates brand indo belas fotografias por satélite que lhe perm item . estatutos e regulamentos para manter juntas as assas de colegas. . o Bureau de Recherches Géologiques et Minieres e o Ponrs er Cha~s~es. É preciso haver organizacoes. ou obrer as misturas sutis que pro- n: . tao indispensável para a l~~ica da ciencia. um economista antes desapercebido pode cornecar a elaborar estatísticas confiáveis a urna taxa de milhares de colunas por minuto. Gracas a um novo Ievanrarnento e a novos dados. fornecidas pelo servico de registro do hospital. d. Como estabelecer valores p~ra urna nova profissáo.nálise versa sobre os critérios mediante os quais s~ pode distinguir. imaginar a cienCIa francesa sem a Academia.

entre.o adestrados e disciplinados. estatísticas teoremas . ricos e competentes precisam ser mobilizados para que o trabalho científico se desenvolva ero qualquer escala. o dos reis para a cartografia. Conforme as circunstancias. mas tambérn nao valeria nada. para os cíentistas. que chamo de alianias. por exemplo. A referencia circulante nao cessa com os dados. nenhuma disciplina pode tornar-se autónoma.is ~r. esse dinamen tero de ser criado. o pesquisador nao custaria muiro.l entre um militar e urna molécula química.cuito.omova o conhecimento de nossas própri~s sociedades: a historia de como novos nao-humanos se mesclaram a existencia de milh6es de novas humanos (ver capítulo 6). Grupos grandes. eles nao se encontram só por segurrem urna lOc1lOacsao natural. os outros circuitos nada mais seriam que urna viagem imaginária. nenhuma instiruicáo nova pode ser fundada sem o terceiro circuito. As aliancas nao perverrem o fluxo puro da informa~ao científica.no ccletivo. ao contrario. que instiruiróes prosperas se prontificasssm a oferecer guarida a esse maravilhoso mundo de colegas e colecóes.e as cienCI~. EIS aí urna história langa e apaixonadarnente inreressanre talv~z a que rna. essas aliancas podem ass~mlr d~v~rsas formas. essas tarefas chegam a ser até mesmo um tanto contraditórias: as aliancas dele coopraram estranhos como Dautry e seus conselheiros. constiruem precisamente aquilo que torna esse fluxo sanguíneo mais rápido e com urna raxa mais elevada de puls~~a~. para"que as profissñes evoluam. no entanro. Um pedólogo pode ser exímio na arte de cavar fossos e preservar minhocas em frascos no rneio da floresta. sern colegas e sem um mundo. A pessoa tal vez seja ótima em redigir artigos técnicos convincentes e péssima em persuadir ministros de que eles nao podem passar sem a ciencia. É possível recrutar para as conrrovérsias dos cienristas grupos que antes nao se relacionavam. nao se trata de his- Aliancas Nenhum instrumento pode ser aperfeicoado. o dos congressistas para a ciencia política. o dos industrais para a química. a assist~ncia ~ocial e a educacáo apoiassem amplamen. Tem de continuar a fluir e convencer outros colegas. mas absolutamente nulo ao escrever artigos e conversar com colegas. mas de cientistas inserindo a disciplina nem . É possível atrait o interesse dos militares para a física. que os pares~ houvessem sld. para que as cátedras e outros cargos se multipliquem. em retrospecro. Essa socializacáo macice de objetos novas . enquanto o trabal ha de auronomizaCSao pressupunha limitar a discussáo a seus colegas físicos. Ainda que ~s instrumentos estivessem instalados. o mundo social e material tem de ser trabal~ado para que as aliancas parecarn. fósseis.amplo e seguro para garantir-Ihe a Impac.átomos. as habilidades requeridas para atrair o interesse alheio sao diferentes das requeridas para manusear instrumentos e conquistar colegas. radares. para que as expedicoes se tornem mais numerosas e demandem terras longínquas. bombas. o problema para o cientista prático é que as habilidades exigidas para essa segunda acividade sao inteiramente diferentes das exigidas para a primeira. abalando-Ihes o sisre- . Nao é urna quesráo de estudar o t?tl~dore~ procurando urna explicacáo cantextual para urna disciplina cIent~fica. um industrial pode fomentar seus negácios investindo num laboratório de física de estado sólido ou como um servico geológico estatal pode . inevitáveis. para que as insriruicóes prosperem. Representa~ao pública ~xlstenC1a e a continuidade. De novo. toda essa agitacáo e todas essas controversias chocariam rerrivelmente o cotidiano das pessoas.to d~a base económica no desenvolvimento da superestrutU. E no encanto é preciso fazer as duas coisas. a indústria o exércit~. Conforme vimos na secáo precedente. Todavia.e um elétron. mas de descobrir como. um lOdust~tal . co~te:to suficienternenn. tudo é mais complicado porque a circulacáo nao se interrompe nesse segundo circuito. e que o governo. o enorme esforco de persuasao e alicíamenro nunca é auto-evidente: nao existe nenhuma conexa~ natura.ra cienrífica. Essa inclinacáo. restaría muito trabalho a ser feito. Sem o empenho em tornar o público interessado. o dos professores para a teoria da educacáo.crescer ~ssociando-se a um departamento de transportes. Como no caso de j oliot.

O contrário é que seria de espantar. ao coracáo palpitante. Sem dúvida. apenas redefinir sua topologia. convencer colegas e assediar ministros ou conselhos de di retores tém agora de cuidar de suas relacóes com outro mundo exterior formado por civis: repórreres. foi recebida na Franca a teoria de Isaac Newton? E. Podemos ser desenvoltos ao convencer ministros. agressáo e amor materno. Como produzir urna disciplina capaz de modificar a opiniáo de todos e. Boa parte da pesquisa avancada em biologia molecular na Franca.'la peca.ma normal de crencas e opini6es. esse circuito exige dos cientisras uro conjunto inreiramenre diverso de habilidades . Nao tenciono esmiucá-Ío agora. pelos clérigos ingleses.nao-relacionadas aos dos outros circuitos. Por que esse quinto circuito (que chamo de cinculos e nós a firn de evitar. ineviravelrnenre. sabe que tudo mudará se de repente urna massa de outras formas de vida for acrescenrada adefinicáo do coletivo humano. Como se percebe pela figura 3. nao nos afastamas um instante sequer do curso da inteligencia científica em as¡ao. Todo argumento pró e contra o determinismo genético se abeberará nesse fundo. ela também dá corpo a inúmeras pressuposicóes dos próprios cien ti stas sobre seu objeto de estudo. depende do financiamento privado anual ao combate a distrofia muscular. mas ainda assim determinantes para eles. por enquanro. Se mantemos o conteúdo de um lado e o contexto de outro.a UFRG~ . Chamo esse quarto circuito de representarao ptíbtica (se é que podemos livrar tal expressño do estigma associado a sigla "Rl"). longe de constituir um apéndice marginal da ciencia. o fluxo da ciencia torna-se incompreensível e ourro tanto acontece com a fonte de seu oxigénio e nutricño.3. nao estivemos fazendo rodeios intermináveis para escapar ao "conteúdo conceitual". conforme diriam os guerreiros da ciencia. etólogos e geneticisras produzem genealogias inteiramenre diferentes para papéis de sexo. Apenas seguimos as veias e artérias para chegar agora. Contrariamente ao que é muitas vezes sugerido pelos guerreiros da ciencia. aos poucos. O rnesmo se diga dos estudos científicos. E difícil porque ele precisa manter juntos inúmeros recursos heterogéneos. Vínculos e nós Chegar ao quinto circuito nao é chegar finalmente ao conteúdo científico. como se os OUtros quatro fossem meras condicóes de sua existencia. mas Harvey certamenre nao fez sua famosa descoberm considerando o coracáo de um lado e os vasos sangüíneos de outro. mesmo assim. Assim. bem como com os meios de entrada destes INSTITUTO DE PSICOlOGIA RIRI IOTFr. esse novo mundo exterior nao é mais exterior que os tres precedentes: ele apenas possui outras propriedades e traz para a refrega pessoas coro out ros dons e talentos. ao calcular novamente o número dos planetas que giram em redor das estrelas. a de Charles Darwin? Até onde o taylorismo foi aceito pelos sindicalistas franceses durante a Grande Guerra? Por que a economia. acabou se tornando urna das preocupacóes capitais dos políticos? Como sucedeu que a psicanálise fosse gradualmente absorvida pelas discuss6es psicológicas cotidianas? E por que os especialistas em DNA ocupam o banco das resremunhas? Como os demais. que é por assim dizer urna das razóes de sua solidez. é a de um nó muito apectado no centro de urna rede. por que se surpreenderáo se amplos serores do público se sentirem ofendidos? Todo astrónomo. por exernplo. a palavra "conceito'') goza da reputacáo de ser muito mais difícil de estudar que o restante? Bem. por exemplo. Essa dificuldade nao é como a de um caroco embebido na polpa macia de ut. pois nao é tarefa da ciencia modificar as associacóes de pessoas e coisas? Os mesmos cientistas que precisaram correr mundo para torna-lo móvel. ele é defato mais difícil. esse circuito integra o tecido dos fatos e nao deve ser relegado a teóricos da educacáo e estudanres de mídia. Nossa sensibilidade a reprcscnrarño pública da ciencia pode ser ainda maior porgue a inforrnacáo nao flui sirnplesmente dos OUtros tres circuitos para o quarto. De que modo as sociedades formaram represenracóes da ciencia? Qual é a epistemologia espontánea das pessoas? Até que ponto confiam na ciencia? Como medir essa confianca em diferentes períodos e para disciplinas diferentes? De que maneira. pánditas e pessoas comuns. mas hesirantes ao responder perguntas num programa de entrevistas. Do primeiro círculo em dianre. esperar deles urna aceitacáo passiva? Se os primatologisras. Esse guarro circuito é tanto mais importante quanto os outros tres que depen- dem muitíssimo dele. o coracño é importante para compreendermos o sistema circularório do corpo humano.

colocados pelos deuses no caminho daqueles que esrudam ciencia a fim de humilhálos com a lernbranca da existencia de um outro mundo. de qnais caminhos é a inrersecáo. a fim de capacitá-los a olhar de cima os ignaros da ciencia. um núcleo conceitual. porque sao eles que o constroem unindo mais e mais elementos em coletivos cada vez maiores (como veremos no capítulo 6). se a etimologia puder ajudar. Os guerreiros da ciencia defendem o conteúdo conceitual da ciencia recorrendo a metáfora errada. Que sucederia se nao houvesse um quinto circuito? Os outros quatro desapareceriam irnediatamente. Há. Decerto Joliot "tinha idéias''. O conteúdo de urna ciencia nao é algo que esreja contido: é. quando os estudas científicos procuram entender a centralidade do conteúdo conceitual da ciencia. seus conceitos. de qua! rede é o nó. tenram primeiro descobrir para qual periferia esse conreúdo desempenha o papel de centro. a velha dicotomia sujeito-objeto por urna nova defini~ao do que significa. o cálculo da secáo transversal realizado de noite por Kowarski fará toda a diferenca. é ele que as mantém todas juntas. nem sao oferecidos para divertimento de epistemologistas. Joliot só terá sucesso se compreender a reacáo em cadeia . e o público. ao contrário. Enrremenres. mas porque o mundo que elas agitar». seus Begriffi (de greifen. O mesmo se diga do conteúdo conceitual de urna ciencia: disciplinas difíceis precisam de conceitos mais amplos e mais exigentes que as disciplinas fáceis. os oficiáis e industriáis a quern envolveu. de qual comércio é a cámara de compensacáo. que acelera sita ciratlafao. .e melhor será que o faca logo. decerto "tinha conceitos". para humanos. Eles fazem parte des te mundo. A diferenca nas metáforas nao é irrelevante. seus colegas.3. um mundo que escapa a história. Mas o resto é necessario para que esse cálculo seja a teoria de alguma coisa. nos próximos capítulos. O que os estudos científicos mais almejam explicar é a relacáo entre o tamanho desse quinto circuito e dos outros quatro. Os conteúdos técnicos nao sao mistérios assornbrosos. denunciados como estrangeiros por seus vizinhos. nao por esrarern mais distantes do resto do mundo dos dados. De fato. O coracáo do elefante é muito maior que o do rato. O mundo nao mais seria mobilizável. os aliados perderiam o interesse. Entretanto. decerto sua ciencia tinha algum conteúdo. Trilha de cabra nao precisa de cancela. sirn .na corrente sanguínea. Todavía. ele próprio. compreenderemos por que ele se esforcou tanto para encontrar urna maneira de conservar unidos seus instrumentos. nao posso fazé-lo antes de substituir. Já os estudos científicos entendem-no mais como um coracáo pulsando no centro de um rico sistema de vasos sanguí- neos ou. o continente. "agarrar" ou "apreender") sao o que mantém estreitamenre unido urn coletivo. procurarmos írnediaramenre os OUtros quatro circuitos que lhe dáo sentido. como os milhares de alvéolos dos pulmóes que reoxigenam o sangue. e antes de Halban e Kowarski terem de fugir. de quais veias e artérias é o coracáo.os outros quarro circuitos -'. Sim. sim. antes de os alernás enrrarem em Paris. mas ele nao é definido por preocupacóes localizadas a grande distancia de outras. aliados e espectadores . Surgem apenas aqui. Um conceito nao se torna científico por estar distanciado do restante daquilo que ele envolve. apenas colocarei conceitos. existe urna teoria. Sirn. lidar com nao-humanos. abalarn. ocorrendo o mesmo ao público após expressar sua indignacáo ou indiferenca. melhor ainda. Para que esse ponto nao seja apenas urna declararán vazia de intencóes. o conhecírnento que geraram a respeito dos néutrons lhes dará urna vantagem decisiva antes que a derrota de maio de 1940 ponha uro fim a rudo. que robustece sua coesáo. Se imaginarrnos Joliot vagando ao longo do circuito que forma o centro da figura 3. colegas. Esse ponto representa urna das primeiras baixas nas guerras de ciencia. vínculos e nós numa posicáo diferente para. Iivre da poluicáo deste mundo conspurcado. mas porque se liga mais estreiramenre a uro repertório bem maior de recursos. antes de Szilard. antes de os duzentos litros de água pesada vindos da Noruega se escoarem . Mas esse desaparecimento ocorreria também se qualquer dos outros circuitos fosse eliminado. movem e vinculam é rnuito maior. os colegas se dispersariam em todas as direcóes. em nosso globo. quando aprendermos sobre o conreúdo esotérico de urna ciencia. Querem que ele seja urna espécie de Idéia fluruando no Céu. eu deveria obviamente aproximar-me mais do conteúdo técnico do que o fiz em meu esboco de Joliot. de fato.

O coracáo bombeará para fora e para dentro. e acusam-nos de ignorar o coracáo da ciencia! Aí está. tal como uro muro cinzento de concreto inrerrompia.4). A mutilacáo do 'sistema circulatório da ciencia ainda mais revolcanre (ver figura 3. por contraste. (e) Figura 3. com o que se criou artificialmente o "problerna'' da referencia. Um paradigma novo deveria sempre ser capaz de compreender aquele que vem substituir. ternos também de explicar de que maneira o modelo implausível e irrealista pode ser extraído do modelo realista. Se a dimensáo conceitual . Quanto mais urna ciencia for articulada.a herético . os epistemologisras transformaram esse fato bastante comezinho DUro rnistério inextricável. Em lugar da senda contínua e curva das translacóes.A enucleacáo da sociedade a partir do coletivo De que modo irei convencer meus amigos dentistas de que.4a). a not. constituído por todos os elementos diferentes que as recrias e os conceitos examinam e juntarn. um mínimo descuido e adeus! As ricas e frágeis maé Ihas seráo cortadas e isoludas das coisas que vinculam e reúnem.pelo menos por algurn tero po. Aqui. nao poderia haver nada mais simples. nenhum carpo. Outro cochilo e o núcleo do "conteúdo científico" ficará separado daquilo que irá tornar-se. pulmóes ou sistema vascular. urna espéc¡e de contexto que nao terá relevancia algurna para a definicáo do cerne da ciencia (e). vias férreas e bairros. No entanro. brilhantemente iluminado sobre urna mesa de cirurgia. a circulacáo por um delicado sistema de alamedas. as disciplinas científicas precisam tornar-se sólidas e confiáveis sem se prenderem por vasos de qualquer tipo ao restante de seu mundo. basta um lapso de arencáo. topamos corn urna cortina de ferro a separar as ciencias dos fatores "extraciennficos''.aO vazio.24. com manchas de sangue nos jalecos brancos. pois já nao se distingue o ponto de conexáo essencial. Sornen te pela desatencáo e pelo uso descuidado de diferentes escalpelos analíticos pode-se obter o modelo conteúdo rema contexto a partir do múltiplo e heterogéneo esforco dos cientistaso A rotalidade desse esfor~o torna-se enráo obscura. como conversaremos uns com os outros?! Todavia. dos nós as superficies. lucraremos ero realismo e a ciencia lucrará ero dificuldade? Talvez isso cheire tanto a senso (amuro que parec. é possfvel extrair o modelo canónico do novo pelo cancelarnenro de mediacóes-chave. gra~as ao escudo da vascularizacáo dos fatos científicos. deseorocoados ante objetos tao duros e duráveis que mais parecem provenientes de outro mundo. Se se deixa de dar atencño cabal a inreireza do esforco científico (figura 3. palpitante e complexa.4c). de uro lado.4b). os outros quatro circuitos ora desconectados forrnarño. Os estudos científicos manuseiam urna massa sanguinolenta.24. mas nao haverá nem saída nem entrada de fluxo. Conforme vimos na figura 2. pode-se ter a irnpressáo de que existe. de outro. Os epistemologistas.o círculo central em (a) . toda a vascularizacño do coletivo. Os guerreiros da ciencia só examinaro uro corat. um conteúdo conceitual que importa mais (figura 3.ao de um abismo escancarado entre palavras e mundo foi obrida pelo cancelamento de todas as rnediacóes e pela interrogacáo apenas das duas extremidades confrontanres. Para os epistemologistas. no centro. por razóes políticas que SeCaD esclarecidas no capítulo 7.4 Como na figura 2. quando reconectados. E o primeiro grupo zamba do segundo porque seus integrantes parecem enxovalhados. mais inflexível será. só o que podiam fazer era remete-los ao Céu Platónico e ligá-los uns aos outros numa história inrei ramenre fantasmagórica. como no final do capítulo 2. urna série de contingencias (a coroa) e. proposto pelos esrudos científicos. as vezes chamada de "história conceitual da ciéncia" a despeito do fato de já nao existir nela nada 129 .for extirpada das outras guarro. um "contexto" histórico contingente (figura 3. Teremos passado de um ramo da geometria a ourro. será transformada nurn núcleo (b). em Berlim.

temas agora duas séries paralelas de artefaros que jamais se cruzam: de um lado. é simplesmence aborrecedora e pueril. Como vimos. Sim. de curro. Considerando-se as atividades dos cientist~s nos últimos tres ou quarro séculos. ~ao nos devolverá a rica vascularizacño dos fato~ cienrfficos que circulam pelos cinco circuitos de 3. urna sociedade de humanos e.portanlo. 1997). O que permanece após essa excisáo é. nada de científico (ver capítulo 5). Os historiadores de temas militares. O perigo real consiste na cren~a corresponden te.de histórico e. Por mais que isso possa parecer estra- 131 .o militar francés. dados ao estudo dos aspectos que enurnerei . Nao se trata de princípios disciplinares. é urna questao de [ato: saber se os agentes esrudados pelos historiadores mesclaram ou nao suas vidas e scntimentos a nao-humanos mobiliz~dos por laboratórios e profissñes científicas. de saber se é ou nao cerrero abordar a_história sem dar arencño a ciencia e a tecnologia. Com efeito. Suponhamos. jolior só podia por seu reator em funcionamento se descobrisse um novo elemento radiarivo. em 3. entre recrias e aquilo que elas teorizam. Ora. o que é mais sério nessa separacáo inteiramenre artificial entre o núcleo e a célula. de que pela concatenacáo prévia de contextos "enucleados" é possível explicar a existencia de sociedades sem o concurso da ciencia e dú tecnologiu. essa inevitabilidacle é urna fun<.la~6es. cada qual a sua maneira. que resulta nos sonhos da episremolog ia e na reacáo patelar defensiva dos guerreiros da ciencia. por exemplo.4 eleve deixar óbvio que simplesmente enxertar urna grande coroa de farores sociais no cerne da ciencia C?ffiO. operacóes de translacáo tornaram o laboratório de Joliot indispensável para a condueño do esforc.. eles também nao tornassem incompreensível a própria existinci« social que proclamam investigar e a qual alegarn restringir-se. por um lado.ao do trabalho e do éxito de Jolior. A primeira série. Juntar novamente dois artefatos significa um terceiro arrefaro e nao urna solurño! A figura . a segunda. como de:-e ser () caso neste exernplo. escrever historia militar sem levar em conta os laboratórios que dño carpo a essa historia é um absurdo. que um historiador investigue os programas e decis6es militares da Franca durante a Segunda Guerra Mundial. O mal foi feíto: langas trajetórias de idéias e princípios sólidos parecern agora fluruar sobre urna h istória contingente como outros tantos carpos estranhos. 1982. Alder. i~evitavelmente passam a interessar-se pelo caso do plutónio. idéias. os paradigmas e os métodos sao inteiramente diferentes e totalmente incompat iveis.4c. é bem mais nociva.a? social da ciéncia". sociednde". senrernse desencorajados por todas essas esquisitices que pululam a roda de suas caberas e deixam o cerne conceitual das ciencias para cientistas e filósofos. rnais precisamente. Seria aind~ ~ais absurdo dizer que os escudos científicos procuram reconciliar urna cxplicacño social com urna explicacáo conceitual~e as entendermos como dois tipos distintos de explicacño que irnpedem o cr~zamé'nto das séries paralelas de arrefatos. que provoca a rearáo em cadeia com mais facilidade.4a. Em lugar de um coletivo de humanos e nao-humanos. abandonando o escudo do conteúdo científico e técnico. ao menos para aqueles que. Podemos agora aval iar o grave equívoco cometido por quem afirma que os esrudos científicos oferecem "urna explica<. que resulta na illIJ¿¡o de mn 1IIIIndo social. por curro. Essa invencáo de um contexto social enucleado inviabilizou a cornpreensáo Jo mundo moderno como um todo. por um quarto de hora caso investigue a ciencia do pós-guerra e talvez por urna hora se tratar do século anterior (MeNeill. torna-se impensável nao repor no Jogo o plutonio que Joliot e os militares urilizararn. As metáforas. por quanto tempo alguem esrudará um militar antes de pilhar-se dentro de um laboratório? No máximo. como eu. obtida pela enucleacáo de disciplinas Científicas a partir de sua existencia coleti~a. Essa modéstia em muito os honraria se. eles oferecem urna explicacáo. Conseqüentemente. contentando-se modestamente com arrasrar-se ao longo de 'facores sociais" e "dimensóes sociais".. entre os cienristas sociais. mas da orrgem ar!~rallfa: ~e "" (()r~(eilo imíti! de sociedade*. economistas e sociólogos. Se a resposta for Sl~. para fazer a guerra e a paz. o plutonio.. tentam por em prática urna filosofía realista.. acompanhando a série de rrans.. um núcleo conceirual. Mas o piar ainda está por vir: historiadores. nao é o fato de permitir aos historiadores intelecruais postular esse a-histórico e infindável desdobramenro de idéias "puramente" científicas.

para empregar.e nao") da maior '" . para melhor. acima do qual balanca a perigosa pinguela da correspondencia. essa conceplJao de sociedade f01 inventada por razoes que de modo alguro poderiam explicar fosse o que fosse. ao qual LIma mente extirpada renta obrer acesso estabelecendo alguma correspondencia segura entre palavras e estado de coisas. Em lugar do abismo vertical entre palavras e mundo. é claro. que já nao existe nenhuma "mente" (Hutchins. no capítulo 5. 1995). Em faee dessa injuncác conrraditória. mas um fenómeno circulante cuja deambulacáo . Da fabricaq. tao acanhada que só se pode explica-la por razóes políticas de peso (que examinaremos mais tarde). comecamos a perceber que a referencia nao é algo acrescenrado as palavras.nao eleve ser interrompida por nenhurn salro caso queiramos que as palavras se refiram as coisas progressivamente inseridas nelas. No capítulo 2. por meio do maior número possível de relacóes e vasos. povo".aoárealidade Pasteur e seu fermento de ácido láctico Demos já dais passos que devem come~ar a modificar. um termo de William James . psicologia. mais chances haverá de a exatidño circular por 132 133 . Quanro mais relacóes urna disciplina científica tiver. e nao relativamente. Depois. compreendernos que a única maneira razoável e realista de uma mente discorrer com veracidade sobre o mundo é reconeaar-se. nós precisamos tlband:mar por completo a capítulo 4 no~'¿¡o de soáedade para recuperar o senso de realismo no estud~ da ciencia. nho aos olhos dos guerreiros J a ciencia e. tao fon. novamente. vimos corno o anrigo acorde impunha ao cientista um duplo e impossível compromisso: "lsole-se inteiramente do peso da sociedade. ideologia. e ao mesmo tempo: "Esreja absolutamente.e . o acordo* proposro no primeiro capítulo. A oo\"ao de uro mundo "lé fora".o que significa. Que ninguém se admire: confurro. ternos agora urna sólida e espessa camada de sendas transiersais pelas quais circulam massas de cransformacóes.veremos nos capl:'ulos 7 e 8.ada.• parte dos cientistas sociats. eleve ser encarada agora pelo que vale: urna posicáo das mais irrealisrns em ciencia. a rica vascularizacáo que faz a ciencia fluir . por qu . seguro das leis do mundo exterior".

o antigo acorde seqüestrou as nocóes de construcáo e fabrica<. vimos falando de "construcáo de faros". sucede que. Eu seria o pnmelfO a admitir que essa maneira de explicar a a~ao apresenta inúmeros problemas. nós estávamos solapando alguma coisa. Conanr. Em segundo lugar. se nao formes capazes rarnbérn de alterar nossa rompreensáo daquilo que as entidades do mundo realizam quando entrarn ern contato. rransfor- mando-as em armas numa bamlha polarizada contra a verdade e a realidade. Essa reconfiguracáo é o que desejo plasmar no presente capítulo visitando outro sítio empírico. B. quem está clirigindo a hisrória. numa personagem gloriosa e heróica. mas inteiramenre diversa. Para subsídios. "fabrica~ao de n. Parcialmente traduzida para o ingles por J. Complerei e modifiquei a traducáo em diversos passos.ao. • J l' " 1. esperando para ser meramorfoseados em baltz~s. 1974. com a comunidad e científica e comecam a ser socializadas no coletlv?*. Enfim.os aplicáveis a atividades técnicas. Desde o início dos escudos científicos. nada foi resolvido. rém de ser totalmente reconfiguradas como os demais conceiros que nos foram transmitidos (se. )0lior e seus colegas faziam muiras coisas. se algo foi fabricado. Isso. Essas sao as razóes principais que explicam por que.: Ol~tras express6es similares que enfurecem os g~lerr~lros da c~e~Cla e que eles agora nos devolvern. de fato. um drama reflexivo. essa explica~ao implica que a iniciativa da ac. mas o propno solo e . com un: a lista fixa de ingredientes: a fabricacño simplesmenre os combma. Nao importa quanto modifiquemos a no~ao ele referencia.ro lugar. o Príncipe Encantado. por assim dizer. efetuada pelos crentisras.os próprios néutrons comporravam-se como se tivessem est~do al~ o ternpo todo. 134 135 . deve ser desconstrutfvel. Conant. a solucáo tem sido empregar os termos "construcáo'' e 'fabricacáo" . Paralelamente. Sim. O texto é ideal para nosso propósito pois se esrrutura avolea de dois dramas combinados. se foi consr rufdo. com o mundo fuzendo pouco rnais que o~e­ recer urna espécie de playgrotmd para () engenho humano (ao d~s­ cutir o "[atiche". nao basta para explicar como p~de­ mas discorrer com veracidade a respeito de um estado de corsas. as nocóes básicas de acño e criacéo. diagramas. E~ primeiro lugar.ao s~mpre parte da esfera humana. a opiniáo de Pasreur.de outras formas. pretendemos surpreender a ciencia em a<. mapas. é falso. Construcáo e fabricac. Nos capíru. intacto. Emboca rardéssemos uro pouco a percebe-lo. falar ern consrrucáo implica um jogo zeraclo. um mistério que só aparece no fim: quem está construindo os fatos.seus inúmeros vasos.e tarnbém. Em tercel. Aioda nao acharnos outro melhor. remos agora urna bem mais viáv~l: ligar a dISciplina o mais estreitamente possível ao resto do coletivo. Acompanhemos de perro a "Mémoire sur la fermentation appelée Iactique'" {Memória sobre a fermentacño dita láctea].éutrons". eis o que deve ser l~vado em ccnta se quisermos prossegui r. quanro mais os estudos científicos rnostravam o caráter construtivisra da ciencia. Entretanto. mais profunda era a incompreensáo entre nós e nossos amigos cienrisras.. desea vez o laboratório de Luís Pasreur.:jam ter~. quem está puxando as cordinhas? Os . evidentemente.o minguado que ~ acordo moderno lhes facultava. que os historiadores da ciencia consideram um dos artigos mais importantes de Pasteur. a tecnologia se tornou quase tao obscura quanto a ciencia (como veremos no capítulo 6~. a Cinderela da reoria química. Em lugar da tarefa inexeqüível de liberta~ a ciencia da sociedade. O texto francés pode ser encontrado no volume II das obras completas de Pasteur. o que é muito mais inquietante. mais ainda que referencia e "conreúdo conceitual''. Vem depois o segundo drama. ver Geison.ao. os !)e(~ologos. argumentos e integrantes da es~era do discurso humano. Era como se estivéssemos solapando a precensao da ciencia a verdade.ao). Nós apenas comec. emboca "construir" e T1fabric~rTl s. Nossos amigos. no capítulo 9. rentarei rebater isso). MaiJ realidade. triunfa sobre todas as vicissirudes da teoria de Liebig: TIA pedra que os construtores rejeitararn tornou-se a pedra angular". 1957.los 2 e 3 d:lxamos o mundo. como se verá no capítulo 9. íamos abalando os alicerces do jJróprio idioma da COnJtrufao e da/abriCtt{elo que antes tínhamos por pacífico .amos a nos afastar dos defeitos clamorosos do velho acorde. Converte urna náo-enridade.A fim ~e explicar a rransformacáo do mundo. no ¡argao de soclOlogos e filósofos que trabalhavam dentro do espac. a implicacño é que. in "Harvard Case Sruclies in Experimental Science''. O primeiro modifica o status de um nao-humano e de uro humano. Com freqüéncia.

Pasreur triunfa de seus Inl~I?OS e sua vrsao ganha a baralha. acrescenta-se um drama epistemológico.r idiias de Liebig ou de Berz~llUs . (§5) d sintegradora ao grupo molecular da maréria fermenníve¡ D 136 137 . e le . As qua lid a. como urn cientista resolve. esse triunfo do Príncipe Encantado..'j' E de novo ele encerra o parágrafo com urna frase desafiadora. (§7) l) o primeiro drama: dos atributos a substancia Em 1856.ao a rupra nao e apenas o fermento ' extraído do nada para tornarl ' se a guma c~)I~a: mas ra~bém o Príncipe Encantado..'a d i ' d e . a fermentacáo do ácido láctico nao é mais objeto de discussiío e a industria de laticínios do mundo inreiro pode solicitar pelo correio a quanridade de fermento que desejar. ~ss~ é a causa primaria de todas as termentacóes e a orrgem da .ZI . Berzelius acredita que o ato qurrruco da fermentacáo deve-se a a¡. Quem sofre essa transfo . pessoa. Pasreur em . no final. (§5) q .o. para acompan har • -j er erueÓ.. Teremas oportunidade de ver. integrada a urna classe de fenómenos similares: roma-se. a qual comunica urna turbulencia de- L' bi . muit. f1 . no enranro. nos círculos científicos onde a química de Liebig imperava. do glúren desagregado erc.~s vezes :. algum tcmpo depois de o lévedo de cerveja tornarse seu principal inreresse.d iuranrea f " u" e SI o proU. Mas antes examinemos a edificante historia de Cinderela-Permento. pcrtanro. dois dos problemas fundamentais dos estudos científicos.'e'. outra transforma~-ao de rnaror alcance . a ferrnentacáo do ácido láctico nao tern urna causa óbvia é isolável.ao de cr)JJtato. para si mesmo e para nós.lranre a fermenracáo. que an. ero suma.le se apresen~a IJo 11liJllfrado com a massa de caseína e gIZ que /IdO h"t'{:rhl I11fJIlI' j}(fra Jll. d ' 1 ~s ~~ mundo natural sao alteradas entre o cornero e o fim da hisrória. de tal modo No entanr. estimula a termentacáo em cons~quencla de sua alreracáo. 1 L' b¡ pujan.~ 11l!l1tofatJOI'áx1eiJ a. recorrendo as próprias palavras de Pasteur.preconceiros dos ciencisras ou os nao-humanos? Assim.ce.'. que d esempenha () /hljl[l jJrinájh¡f'l. a causa única da fermentacáo. Pnsreur conclui o parágrafo com esta ousada e surpreendente frase: PIE eje [o fermenrn] . Aí pelo fim do arrigo. rnatena organlca~ferrnentosé a de can tato e decadencia: Segundo [Liebig].rm J¿¡O ImallillltJ t:1Il reieisar a .ao ". Hoje. ao drama ontológico. rma.I~ e Berzelius. urna impureza indesejável capaz de prejudicar e deter a ferrnentacáo. sem a intervencáo de nenhuma coisa viva e apelando para a degradacño das substancias inertes. Em um só parágrafo. quando nao se é prevenido. Pasteur relarou a descoberra de um fermento peculiar ao ácido láctico. A fermentacüo vinha sendo explicada em termos puramente químicos. o Ieiror vive nurn mundo ende a re¡a<. basta que a pessoa "se coloque nas condi\6es da época" para apreciar a originalidade do relatório de Pasteur. Enfim. sua opiniño nada é contra as t . e ccoro c. No cornero.. nao o bstante. que uada i"dira tratar-se de !I111 materia! separado ou t t id d . Em meados do século XIX.: . No corneco do arrigo dé Pasteur. No IniCIO do artn... Se algurn fermento está envolvido. já que apenas por livrar-se de obscuras explicacóes vitalistas é que a química conquistara seus lauros.o ~ l. derrotando a concepcáo qurnuca da fermenta~ao. Pasteur acompanha toda a rransforrnacáo do fermento: Ao microscópio. Seu peso aparente sempre permanereinsignijicanre s: comparado ao do material nitrogenoso originaf1ame~te necessario para a consecucáo do processo. ~ Essas o/. afirmar qUé um microrganismo específico podia explicar a fermenracáo equivalia a dar um passo atrás. ele nada mais é que um subproduto quase invisível de urn mecanismo puramente químico de termentacáo ou. Eis corno corneca: Os ~at~s [que tornam t~o obscura a causa da fermenta~ao do ácido .ljJeilar de JIta exiJlénáa. 11ll1/er1lletl/o i IIIIJa JIIDJtánáa excessiuamente a!terázle! ~~e ~e decompóe e. essa aporeose da C~núerela e.om le Ig. o fermento se torna urna entidade auto-suficiente. os especialistas ern fermenracáo léctica jamais haviam visto rnicrorganisrnos associados a transforrnacáo do acúcar. Aliás. e' nec essana.b -. . piar ainda. _ /1 e a gum npo In uenc~a da orgaruzacao e da VIda como causa do fenómeno ue ora conslJeramos. e~ t~onas c.ula ? p~so dos argumentos anteriores: ITEu adotei urn ponto de utsta tntetrameme diÍ¡¡renle l' Contud o.tactICo] pare. . Todavia.m~lOfJa c!as doencas contagiosas. As oprruoes deles conqaistam mais lndihifidadt: a cada die. é tj"dJe imposstoel distingui-lo da caseína.o..

. Ourras vezes. o surgtrn ente de um novo . de ácido carbónico e hidrogenio. Ii ca com suas próprias palavras. . Lago no die segumre..tuan:e ~ q~le . Jpor CIma o ~pO~J comum.úcar._ 'asos haverá ern tlue irá descobnr. . aonde foi levada pelo mevimenro dos gases. 1Ilaltl"ha. '"ck a fermenracáo parece correlacionar-se coro a '": l_e corof a orga1llrmentaza '¿jo de glóbulos . a. um depósito que cresce contfnua e progressivamenre com a solucáo do giz. o sao redistribuídas entre dados de senso elementar.1 enJa mento é tao ativo quanto qualquer outra tificada e a tal ponto que agora se nutre de m~terial ~rgamco. acrescenra-se um pouco de giz e poltJilha-.a do fermento sem nada Ihe dar e nada lhe tomar. conforme mencionei. • esp . acidentais e arrmnauam o processo. I~ um esse que 'da o principal experimento de Pasteur permite a E ro segur . Na filosofia da ciencia de Pasteur. " .' exp 1 .nao coro sua morte : purrefacáo. No 101C10. .organtz '. . ~ idfer' torma d e VI da " .. De que mo o um . redisator onun o logo tribuir e reagrupar? Que acontece com esse. a ~ova e . . Senda carretas as proporcóes de giz e a<. lIIatl~(eJ!a-Je IIIJlafenllelltarao intensa 1: regular. Urna série de desempenhos* precede a defini~ao de cornperéncia" que. originalmente cristalino.! aJllla' l · A. . O líquido. Aa rnicroscópio.' d de outras entidades que ele precisa destruir. J rransformacáo do acúcar occrreria e)ffi presenc. Os observadores 1 . enquanto se forma. 'e extraordinaria de transforma~oes. (§2_) .. mais tarde. Se alguem examinar CUItludosamente urna termenta<. pesqUl ~ e ue reconhecernm alI " VI III:It!OdI: seres organizados. o lactato se (rútaliza numa massa volumosa dentro do próprio líquido. Dissolvem-se cerca de cinqüenta a cem gramas de acúcar em cada litro. No parágrafo seguinre. . no qual a ero . isas acuradas nao (OJl.rl:lj/úrdll1 descobrir o desemol- Dificilmenre qualquer outra corsa teria menos existéncia que isso! Nao se trata de um objeto e sim de urna nuvem de percepcóes transientes. • h d de lévedo da fermenta~ao do ácido láctico . Pasteur transforma-o naquilo que ern curro lugar chamei de Hum nome de as.ao dláctica . É Iigeriamenre viscosa e de cor cinza. . 1 -ue imparcialmente os resultados deste traju g . Examinemos agora a pnoClpa1 person agem nao-humana da ~. 138 139 . que ainda nao consriruem predicados de urna substancia coesa. ao mesmo rempo. qua. Lser orsrani ado Mas "observador prevenido" detectar o ra ser .. o líquido se 101'- s: " ". Assu~ sera c ama o ~ lo Z 'ntldade e como o limite floresta-savana do capltu o _. caso o líquido haja evaporado. sua prourna sen pria existencia é negada: Ate agora.. dizer entidade teve de passar ate tornar-se. nota-se essa subsráncia aderida aos lados superiores do recipiente. . fim de descobrir por quantas erapas ontológicas d ifeistona a ~. seres estabeleceram ao mesmo rem po que e es eram runs desses g .ao cambé nao e' uro fenómeno devido ao cantata. aos poucos o giz deJaparece.t "J1J toteg¡zem arerial nitrogenoso .0 • " . constituirá a única causa desses mesmos desempenhos. isolados ou em grupo. biJeto x e (1 ojado de todas as suas qualidades essenciais. Algo rnais é necessário para garantir a x urna esséncia. ' rentes essa d ciennsta U rna substancia plenamente aceita. ' d . o . no curso da opera~ao. mas sabemos o que ele . c i. . em pnmelro lugar um objeto circulante submerido a provas e ~a .. . As vezes. (§7) Quando se solidifica [prise al lIIaSJI:). hi •.e . torna-se turvo. surge como que formada por glóll/l/w minúsculos ou filamentos segmentados muito curtos. (§ I O) ba lho e do que pretendo logo publicar reconhecerá COID1gO qU. O gés que se evo/a é puro ácido carbónico ou urna mistura. formando flecos irregulares que /emúralll os de certos precipitados amorfos. torna-se seu alimento. 1 Quero guer que . UID No final o leitor passa a vrver num mun J o ern que . (§4) . A e r. urna abundante cristalizacío de lactato de cal se/orilla durante a noire e a borra apresenra quantidade variével do butirato dessa base.( al: mI/a JU). de urna boa fermentacáo lríctica comum .Depois que a giz dl:Japarece. zerua qll<: ás l'I:ZeJ [orma N1IJa camada [formant q/f/:lq¡¡r:/oiJ zone] na superficie do depósito.(ca durante os testes de laboratório.r1: lima pitada do tIIaterial dnzento obtido. . . ela parece exatamente o fermento comum prensado e drenado. ero proporcóes variadas. por assl1~ 1.ao lT*: ignoramos o que ele Jeja. os fenómenos precedem aquilo ele que sao fenómenos. para fazer dele um ator: a série de testes de laboratório gracas aos quais x provará sua tempera. ao In vés de ser sua causa .

a fibrina. que gera crisrais e que se torna viscoso (Hacking. q/lalldo o[ermento láctico se desenioloe sozinbo. que produz gás. com toda a seguran~a. Recorrendo ametáfora das plantas em crescirnenro. e todas essas substfincias rém provavelmenre esrrururas orgánicas que. a<. que forma um depósito. (§lO) desempenhos durunre os testes de laborarório. Mas isso se pode (OtJJpreender lago. Em suma. E haverá necessidade ~le outra ac. como meio de dar forma a seu aspirante a aror: Aqui encontraremos todas as caracteristicas gerais do Iévedo de cerveja. com surpresa.ad ' para o "neme de urna coisa''? Se atua tanto. isro é. o JtatllJ ontológico firmemente estabelecido dos vegetáis. lal qxal normalmente condnzida. mas agora sabemos: Todos os químicos ficaráo surpresos com a rapidez e regularidade da fermenracño láctica sob as condicóes por mim especificadas.na muito viscoso. (§ 13) Talvez. A essa altura do texto. temas ante os olhos urna fermenta~ao léctica nrudamnue caracü:rizacltl. Frequentemen te mostea-se rnais rápida que a fermentacáo alcoólica da mesma quantidade de material. que provoca ferrnentacáo. colocam-nas em e. ter-se-á lévedo de cerveja e rambém fermenta~ao alcoólica. membra disjeda que ainda nao integram nenhuma entidade . O mais das veLeS. se o expusermos. que só se I:1ljr?. será a entidade uro ator? Nao necessariamente. A fermentacáo Iáctica. que faz o glz desaparecer. seu in1/úlltcro* táo indeterminado que Pasteur nota. a raxonornia. que será designado como a origem daquelas a~oes. sua capacidade de viajar: Ele pode ser coletado e transportado por grandes distancias sem perder a atividade. investigar todas as facetas dos limites vagos que trac. Pasteur terá de tomar precaucóes que logo achará dispensáveis. ele precisa tentear.r do fer- 140 . exige mais tempo. a entidade é tao frágil.propriedades em busca da subsráncia a que pertencem. evoca os processos de dornesticacáo e cultivo. como passará do "nome de a<. transformam-se em 1l111rimle.am inalteradas. para que a vegeracáo ou infusórios estranhos nao as prejudiquem. subscrita por urna subscancia ontológica consagrada. numa classificacío natural. o fenómeno desapareen. for lIIerg. Pasteur nao hesita. como nao concluiríamos que a cornposicáo química de duas plantas é a mesma porque e1as crescem no 11/ml/O solo. que turva líquidos. Algo mais é imprescindível para transformar esse delicado candidato num aror de verdac]e.ou ao redor da entidade a fim de determinar seus contornos exaros. 1983). se agitarmos o frasco. as membranas e os recidos utilizados conrém urna enorme quantidade de matéria inútil. Mas como conseguirá melhorar o J/üIlIJ ontológico de sua entidade. Lanra máo de rudo o que está a seu alcance para estabilizar o substrato nurnénico de sua entidade. já agora urna enridade independente de pleno direito. cujas manifestacóes externas sao assaz conhecidas dos químicos. (§ 11) Há ourra característica que nos permite comparar esse novo fermento com o lévedo de cerveja: se o Jévedo de cerveja. Na secác principal do artigo. Nao devemos concluir daí que a composicáo química dos dais fermentos seja idéntica. mesrno que as ourras condicóes da operacáo permane<.rpécies vizinbas ou em duas familias afins. Muiro pouco desse lévedo é necessério para transformar urna quantidaJe considerável de acúcar. arribuindo-lhe urna atividade parecida a do lévedo de cerveja. com codos os acidentes e complicacóes usuais desse fenómeno. mas sabemos que pode ser polvilh~­ do. e nao o fermento láctico.a.tlhado num líquido cristalino. Até agora é urna lista de itens registrados no cademo do laboratorio. (§8) Ignoramos o que seja. era urna nño-entidade ficou dio bern-esrabelecido no § 11 que ganhou nome e lugar no mais exaro e mais venerável ramo da história natural. Antes que a entidade seja. corn Vistas a definir a competencia que depois será Tlexpressadall ou II man ifestada" em muitoS é o que. o ar o destrua. Tao lago Pasteur desvia a origem de todas as acóes para o fermento. Tais fermentacóes devem ser conduzidas.qliete quando o material é secado ou férvido em água.o para conjurar o substrato desses predicados. O gtúren. no §7. a caseína. Nao sabendo ainda o que aqui lo. passa a urilizá-Ia como elemento estével para redefinir todas as práticas anteriores: nao sabíamos o que estávamos fazendo. como transformará esses limites frégeis e incertos num invólucro sólido. di: pr~t'ri!tria.ucarado e albuminoso. Talvez. com o material protegido do ar.

meio d omina os por r usieu-.?:?t ~o ferrne: 'daJ seu liire derem'011![/1II:¡¡to san e". . O primeiro teste é urna história: diz respeiro a linguagem e se parece com qllalquer . . que transita sub-repticiamente de atributos vagamente existentes para urna substancia plena. Segundo.rttlllClaS A esse respciro. variar para adaptar múltiplos fermentos ~m rompencao a pna. para que o aruante* participe de sirua~6es novas e inesperadas capazes de defini-Io ativamente. da fabricacáo? Digamos que em seu Iaborarório de Lille Pasreur elabora um atoro Como? Urna maneira agora tradicional de explicar isso é dizer que Pasteur elabora restes> para o ator* mostrar quem é. di . Que se pode dizer desse misterioso candidato. a aju a e u . d ' de a<. is Pasreur oíerece urna oportuna solucáo para aqurinromparrver . perturbados ou criados pela personagem em apreco. na hisrória contada por Pasreur. .se pode passar de urna entidade nao-existente para annga ao id d ' urna classe genérica ao langa de etapas ande a enn a e e cons. j f 'menos As 11 • ngularlf dentro de urna classe inteira ce eno . qual ~ao se diferentes estados Jo ambiente. acidez ou composls.' de neu " ra compreender que as orClnJ. baseado no senso comum. E por que definir um arcr por meio de testes? Porque a única mane-ira de definir um ator é por intermédio de sua atuacño: assim também. mas rambém o nao-humano. podem agora ser definidas: Condi<. alcalinidade.. a argúcia de um experimentador consiste ern elaborar enredos alternativos e encená-Ios com cuidado. para gáudio do Ieitor. bienre.~eelap~ apro a fornecer nutricáo ao fermento. [ 1 to sua hoJlloge1let u e . de um sítio de pesquisa a outro. A prárica lenta e ¡ncerra com urna explica~ao obscura :ra~s. ~ '1 ompreensível de novas meto os forma-se num conjunto agl e e b fabrican' d Pasreur: o rempo todo e sem osa er. o fermento? Em grande parre. (b) a história contada por Pasreur a seus colegas na Academia de Ciencia.da qua! nao passava antes de subproduto inútil. • Recorrendo a diversas filosofias da ciéncia al~arentemen~e . a ~~ d' lo d e modo urna entidade nova pode brotar de u~a enti a e e ~u N. Pasteur anda ocupado em seu laborarório a encenar um novo mundo artificial para nele testar seu novo atar. a fermentacáo . fl tomados como um norne tituída por dados sensonalS uruantes.csao por contato coro plantas Gil animálculos -. corn seu lugar garantido na taXOn~mlt ~ culacáo de referencia nao nos arrebata. . (§12) no que transporta informacáo mediante rransforrnacáo.ao e finalmente transformados num ser organt za. numcao que P . ' ' d lJíqui rralidade . de cuei andaram cultivando microrganlsmos nurn ~eq~lJOS . esséncia é existencia e existencia é J<. Ele ignora qual seja a esséncia de um fermento. . Eis um recurso pragmático que poclemos esrender para (a) a própria coisa. (§ 17) adapta no mesrno grau aos Da fabricacao de fatos aos eventos De que modo a explica.ao. que rornou os e ementos 50lúveis e assimiláveis. Pasreur se empenha ao mesmo tempo em tref testes que devem primeiro ser distingmdos e em seguida alinhadoJ uro com curro. que logo será chamada de 'fermento". rransformados. Aquilo que fora a causa primána de ~:n ~ubpro­ uro aro Ii a consequenCla' duro descartável rornou-se a imenro para su Id d 1~ Paste Uf faz dessa entidade recém-mo a a uro 1n d o a ero. ' " d d ro nutriente bern ddaptado a sua narureza 10 IVJ( ua .ao essencial para urna hOd fl:mle"t~/(tio é a pure._ .pell/hos e ca . como nos :ap~t~l os .' ~ lio é apenas 1Umamas de /lflt statllS ontológiCO a olltro. ' loui ber que ainda é tema de controvérsia em eplsteroo ogla. n~~:~u~sdincias geraisTl de um fenomeno táo cornurn. . de um tipo de mdiCIO aloutro.iio dada pelo próprio Pasteur ao primeiro drama de seu texto modifica o entendirnento.ao q~lm1Ca os d . pois a vida de cada. AqUl Ja n :1. e (c) as reacóes dos interlocutores de Pasteur ao que até agora nada mais é que urna historia encontrada num texto escrito.mento láctico somente depois da purrefar.altera. há personagens cuja competencia" é definida por seus desempenhos": a quase invisÍvel Cinderela surge. segundo a no~ao de referencia circulante que já nos é agora familiar.~ dos desempenham papel importante no creSClrnentO pre ~rnl nante deste ou daquele fermento.ao . a única maneira de definir urna atuacáo é indagar em que ourros atores foram modificados. os . como a heroína que triunfa e se diz causa essencial da fermenracáo láctica . Impar . Primeiro. o a ~a- neira das plantas.- ° 142 143 . Pasreur é muiro pragmático: para ele.. .

o fermento do ácido láctico foi inventado. Pasteur terá engambelado seus pares com o conto de Cinderela.gas. que derrota o dragáo da teoría química . da mesma forma que o segundo teste acrescenrou urna nova competencia a este curro amante. fermentos. enráo nao é simplesmente um texto. assistentes de laboratório). diferente da do lévedo de cerveja. mas pe/o fermento. nao havia nada que o amparasse e nem atar nem encenador lograram quaisquer competencias «dicionais.ao específica. Aa menos. o laborarório artificial e feito por máo de homem.. haverá apenas um . mas urna história presa a urna situacáo em que novas aruantes submetem-se a testes terríveis engenhados por habilidosos encenadores.curro teste nos contos de fadas ou mitos. juntamente com uns poucos lévedos informes e produtos químicos desperdir. do próprio Pasreur e do besouro no frasco precisam resolver.e ele. sern dúvida. independentemente do que pensarmos ou questionarmos a respeito do caráter artificial do laboratório ou dos aspectos literários desse tipo peculiar de exegese. Nenhum experimento pode ser esrudado unicamente no laboratório. urna história divertida. Pasteur. Se o derradeiro teste falhar é porque nao passava de um texto. mas que só envolveu suas próprias expectativas e antigas proezas. Ele pontificará entáo como o homem que mosrrou. Eis o ponto principal que quero demonstrar: a "cons'trucáo'' n~o é de forma alguma a mera recombinacáo de elementos preexisrenres. há na verdade urna siruacáo real por trds dele e tanto o aror quanto seus autores ostenrarn nova competencia: Pasteur provou que o fermento é urna coisa viva. quando apresenta urna versáo resumida de seu artigo aAcademia. Ternos de compreender que. É o tnoutmento dos tres tomados era conjunto qnando tñn éxito O/J tomados em separado qnando fa/ham. mas Pasteur precisa deixar claro que a competencia do fermento é do próprio fermento.-ados. O rigor da afirrnacáo nao se relaciona a uro estado de coisas exterior e sim a rastreabilidade de urna série de transformacóes. Suas propriedades se anulam urnas as curras e os colegas podem concluir que Pasreur simplesmente induziu o fermento a dizer o que ele queria que dissesse. que o fermento é um organismo vivo. por sua vez. Pasteur renta agora convencer os académicos de que sua historia nao é urna história e de que ela aconteceu independentemente de sua vonrade e capacidade de imaginacáo. o Fermento. claro é é e como tal passível de esrudo -. em 30 de novembro de 1857. que triunfa contra rodas as expectativas.ou seja. Pasreur e seu fermento intercambiaram e mutuamente aprimoraram Jitas propriedades: Pasreur ajudou o fermento a mostrar quem era. Pasteur submete-se ao novo teste quando conta sua história da Cinderela. esres. Que acomecerá se Pasteur se sair bem nesse novo (terceiro) teste? Urna nova competencia será acrescentada a Ji/a definicáo. que invesngarn a espécie de tafOS existentes entre a primeira historia e a segunda situacáo. O segundo é urna situa~ao: refere-se a componentes náo-verbais. esse é o problema que os testes de seus col. Um experimento lima história. se diluirá na história como urna figura menor. nao-lingüísticos (tubos de ensaio. o velho Pasreur. Ou nao? O rerceiro teste é realizado pelrd responder el essu pergunta. nao por Pasreur. No curso do experimento. Um experimento é um texto sobre urna situacáo nao-con textual . unicamente nos debates entre colegas. Nada de novo foi transmitido pelas palavras de Pasreur na Academia. (lada capaz de modificar o que os colegas diziam dele e das propriedades dos organismos vivos que constituem o mundo. No entanro. nesse caso o segundo teste rerd sido um desperdicio. E vital para todos eles que. Caso o teste final seja bem-sucedido. submet~m-se a testes rerríveis engenhados por seus colegas. Mas que acontecerá se Pasreur falhar? Bem. unicamente na literatura. o fermento pode desencadear urna fermenra<. veremos dais atores (parcialmente) novos na linha de chegada: um novo fermento e um novo Pasreur! Se perder. Se Pasreur alcancar a vitória. o fermento: a saber. nao importa a subdeterminacáo ou o peso das expectativas teórié 144 . nao importa a artificialidade perversa do dispositivo. que pode desencadear urna ferrnentacáo láctica específica. Sem dúvida. para satisfa~ao geral. e do Príncipe Encamado. mais tarde avaliado por ourros para se saber se simplesmente um texto. nao importa a engenhosidade do experimento. reconhecemos novarnenre o movirnenro da referencia circulante que estudamos no capítulo 2. nao dependendo de modo a/gum da solércia de Pasreur ao inventar um teste que lhe permita revelarse. o fermento "ajudou" Pasteur a ganhar urna de suas muitas medalhas. Aqui. um experimento nao é nenhum desses tres testes isolado.

6es na lista dos ato~e. um experitns.a alguma coisa nao-artificial. ela sernpre registrará os mesmos elementos antes e depois . idealistas. toda dificuldade apresenrada pelo artrgo de Pasteur sugere que um experimento é um evento*. Cada qual compensará o déficit recorrendo a seus financiamentos favoritos: natureza "exterior". abjurar. toda entrada é compensada por urna salda. Nada de novo acontece. os at?~es_ dela nao seriam aquinhoados com a competenCIa que adqu:rtra~ no curso do evento. tero de surgir para que o empreendirnento todo nao haja sido em váo.quais se pode sacar para completar a lista e "explicar" a o:Jgmabdade de um resultado experimental. torna-se de todo impossível aceitar um argumento puramente construtivista por rnais de tres minutos. ernbrulhar e desembrulhar esta antinomia impossível: de um lado. Na jaula. racionalistas ou dialéricas. Seja qual for o genio dos cientistas. a mesma teoria. Boa parte da filosofia da ciencia. Mas nao há razáo para acreditar que urn experimento seja u~ Jogo zerado. a concretiza~ao de urna potencialidades e por aí além. Bem. entño nada escapa do laboratório que nao renha sido antes colocado nele.. pois. um juízo sintético a priori». de ourro. alguém transformado pela manifestacáo de algo nao imaginado pelo amigo Pasteur.aó para tornar-se um expert. a ~o. o mesmo fermento.cas. resolver. Por mais artificial que seja o cenário. paradigmas. para satisfacáo geral. no experimento há sempre mais do que nele foi posta. l . construtivistas. como Liebig con~ cedía.s InlCI. refutar. Eis a fraqueza real das definicóes cornuns de construcáo e fahricacáo: qualquer que seja a lista de entradas no cenário que o filósofo apresentar. é .o mesmo Pasteur. um desvelamento urna imposi.ao. recrias. Cada experimento apenas re~e!a a Natureza.v~d~e nao é justificada por modificac. ou entáo sociedade. antes de Pasteur lancar seu experimento. Desse modo. os ursas váo e vém ero seu espa~o limitado. que os fermentos sao criaturas vivas' o f~rment~ pod_e aco~~anhar a ferrnentacáo. como é ao mesmo tero po fabricado e nao-fabricado.c. Infelizmente. Se tallista fosse elaborada. mas pelo acréscimo de um faror destacado que equtltbra a ~ustlfica~ao. A lista de entradas nao precisa ser completada pelo saque contra um estoque de recursos.. retomar. SÓ ?~ q~e acontece na historia da ciencia é a descoberra daquiIo que Ja la estava o rernpo todo. urna coisa nova. Explicar o resultado de um experimento mediante urna lista de fatores e atores estáveis sempre apresentará. jamáis escapando a seus cenários artificiais. independente desse cenário. é imperioso que os fatos nao sejam construídos e que apare<. fatores macro ou microssociais. Essa obstinacáo e essa angústia provém da insistencia ero definir o experimento como um jogo zerado.também que a lista elaborada depois do experimento nao precrsa de nenhum acréscimo por máo da Natureza. antes de o fermento desencadear a fermenta<. antes da reuniáo da Academia. tendencias ou baredeiras elétricas de dialéricos. um déficit. os fatos sao consrrufdos experimentalmente. já que o estoque sacado antes ~o evento experimental nao o mesmo que ser~ sacado depois. se toda saída tiver de ser conrrabalancada por urna entrada. pontos de vista. a volrar a flertar com o vitalismo. Parece haver um suprimenro inesgotável de gordas conras bancárias so?r~ as.a?. para sermos justos. Pasreur consegue safar-se da a<. E_precisamente por isso que um experimento e um evento e nao urna descoberra.als. apesar de nenhum filósofo defender seriamente urna correspondencia entre teoria e verdade. repelir. eles sempre jogarn com um número fixo de cartas. porern nao esta ainda dotado da propriedade de desencadear urna fermenta~ao do ácido láctico diferente da do lévedo de ccrveja.. É ern virtude dessa "dialética" entre fato e artefato que. na natureza ou na sociedade. os mesmos colegas.• • " . obstruir. Ao contrario. . Se o experimento for isso. tendencias e pontos cegos teoncos traem-se no resultado. " . no curso de um experimento.~ • . E p_or isso . digamos urna hora. desde Hume e Kant. Nesse tipo de solu~ao. consiste em assumir. Nessa lista Pasteur surge como um crisralógrafo dos mais promissores. isro é. Nenhurn evento pode ser explicado por urna lista dos elementos que penetraram na siruacáo antes de sua conclusáo. Ego transcendental. ainda nao dependem de um fermento VIVO em seus laboratórios e tal vez prefiram continuar sobre os sólidos alicerces da química que aprenderam de Liebig. ~uanto aos académicos. com menos obstinacáo e angústia do que os filósofos e sociólogos da ciencia vagueando incessantemente do faro ao artefaro. É esse déficit que será depois explicado diferentemente pelas várias conviccóes realistas. e vice-versa. mas nao demonstrou.

que as vezes aparece na parte superior do recipient~. Augus- • " . sentir-se-á indinado instintivamente a atribuir sua causa primaria a um tipo de reacáo consistente com os resultados gerais de sua própria pesquisa. no artigo. Como veremos no próximo capítulo. (§22) Pasreur nao apenas desenvolv. a única solucño pecante questóes filosóficas difíceis é me~gulhar aincla mais fundo ero alguns sítios empíricos para averiguar de que maneira os próprios cientisras se tiram de dificuldades. simultaneamenre. a questjío é que Pasteur também foi modificado e evolui por meio do experimento. mas isso de nada vale para revelar o mistério dos objetos científicos. como tem também um. somos auxiliados pelo duplo significado da palavra 'faro" . a subsra~c~a plena. Sempre que um químico estudar esses fenómenos misteriosos e river a boa sorte de dar um passo importante. como disse Gastan Bachelard . aliás sofisricadíssima.toda urna onrologia a fim de acompanhar a transformac. A seme lhanca da maior parte dos cientistas franceses. para considerar um experimento como um evento e nao como um jogo zerado.sociedade ou seja lá o que for. Cerramente.que sua ~ao química sobre o acúcar corresponde a seu desenvolvrmentc e organizacáo. tenho raciocinado na base da bipátese de que o novo fermento é organizado. ou seja. ele prarrca a a~ao. Eis como vejo as coisas. que apoqucntou a paciencia dos estudos científicos por tantos anos. gracas aos próprios testes do experimento. A solU'. e~ ~esponde. Se alguém ponderasse que com semelhantes conclusóes esrou indo alémdaqui!o queos fatos dmlOtJJtram. carros. o segundo drama: a solucáo de Pasteur para o conflito entre construtivismo e realismo Se nao foi muito difícil reconfigurar a nocáo de construcáo e fabricacáo. construcáo ou fabricacáo. provida de necessidades nurricionais e gostos muito particulares? Como dará esse passo d~ecisivo? 9uem é responsável pela atribuicáo dessas a~5es. cestas e canecas sao ao mesmo tempofabricados e reais.ria que isso de fato é verdade no sentido de que a posrcao por rrum assumida consiste num quadro de idéias (UTI ordre d'idieJ) que. Ao contrário.mas muito trabalho conceitual se faz necessario para provar a sabedoria oculta dessa etimologia (ver capítulo 9). "un fait estfait Tl. Ele o "confessa" explicitamente no último parágrafo de seu artigo: Ao langa deseamemoria. quem e responsavel pelo aquinhoamenro dessas propriedades? ~ao estará :asteur dando a sua entidade um empurdiozinho? Sirn. por que nao? Todos eles váo embora num estado diferente daquele que apresentavam ao entrar. é um organismo vivo e. já que todos os elementos foram parcialmente transformados: um Pasreur (parcialmente) novo.asteur sabe muiro bem que existe urna lacuna em sua genealogia. ele é um ccnstrutivista do tipo racionalista .aquilo que é feiro e aquilo que nao é. em termos rigorosos. é bem mais espinhoso compreender de que modo podemos insistir. e se existe mesmo urna história das coisas e nao apenas de ciencia. É fácil entender por que casas. isso pode induzir-nos a investigar se existe mesmo urna historia da ciencia e nao apenas de cienristas. semelhante ao vegetal. como a Academia e até o fermento.nao porque um fator tenha sido esquecido ou porque a lista nao foi feira com cuidado.1 " . ele preenche a lacuna entre fatos indeterminados e o que deve ser visível. Como poderá ele passar da maréria cinzenra.a epistemologia. Como multas vezes descobri ser o caso. exatamente porque eles foram feítos artificialmente é que conquistarn autonomia completa de qualquer espécie de producáo. Tal é o curso ldgico da mente humana em todas as questóes polémicas. é tao engenhosa que. se o tivéssemos acornpanhado até o fim os esrudos científicos romariam um rumo inteiramente divers~. P. Todos concordam que a ciencia evolui por meio do experimento. ele tem preconeeitos.ao de Pasteur. O problema nao é a mera circunstancia de sua fabricacáo e realidade. conforme percebemos na última secáo. na artificialidade do cenário de laborarório e na autonomía da entidade 'feital! dentro das paredes do laboratório. mas porque os atores ganham ero suas definicóes grecas a esse evento. nao pode serprovado de maneira irrefutáve!.ao de urna náo-entidads em enridade. um fermento (parcialmente) novo e uma Academia (parcialmente) nova congrarulam-se no fimo Os ingredientes da primeira lisra nao bastam .contra o positivismo de sua bete noire. Metáforas técnicas ou industriais nao nos ajudaráo a apreender esse fenómeno intrigante. quase imperceptível.

e o pretenso f~rm~nto. dio prontamente quanto ele.. Mais precisamente. na qual os fatos hao de ser avaliados sern ambigüidade por observadores imparciais. nesse experimento. o experimentador. os fatos precisam scmp re ser enquadrados e gerados por urna teoria. Em primeiro lugar._ Plano de referencia de Pasteur o fermento foi leila pela mao de Pasteur. a esta altura da evolucáo de meu conhecirnento do assumo. Fi~ur~ ~. sem dar mostras de estarsendo paradoxa/. a fonte de sua transcendencia absolut~ '. mas.ao de um quadro de referencia para outro. . bem mais clássica.atório nao arneaca sua validada e verdade. Ele desenvolve gestos.to Comre.rtente com os resultados gerais de sua própria pesquisan). que qtiem qtiel' q"e julgue imparcialmente os resultados desee trabalho e do que pretendo lego publicar reconbecerá comigo que a fermenracíío parece correlacionar-se com a vida e com a organizacáo de glóbulos . como diriam os economistas -. E penso. Compreendemos por que foi dift. consegue transitar de urna epistemologia para seu autónomo Aa passo que na frase anterior a essa o curso lógico da mente humana inviabilizava o "julgamento imparcial".ctl para Past~ur escolher entre urna epistemologia construtiVIsta e urna eplstemologia realista.. tentarei compreender essa lacuna entre duas frases contraditórias que..1 A dific~dade em explicar uro experimento provém da "transfer~nc~a que r~lacJOna o plano de referencia do cientisra ao plano de referéncia d~ o~Jeto.e esse é o paradoxo aparente que ternos de entender a todo custo. Quem é. é . a confissáo de rais preconceitos enfraquece-lhe as pretensóes? Nem uro pouco .. nao-humana (ver figura 4. introduz outra episternologia assaz diferente. Pasteur age p~~a que a levedura aja sozinha. de fato.. "0 curso lógico da mente humana").nao com sua morte e pucrefacáo. que desafiou os observadores durante muito . nao sao tidas como rais.ao é delegada a ou~ra personagem. Essa conexáo capital nao eleveser rompida. A seus próprios olhos.ponemc... No que resta do presente capítulo. mente no plano dele. A artifi~IahdAad~ d~ la. é A fim de entender como Pasteur..1). curiosamente. Outra vez é reiterado o mistério das duas acepcóes apostas da palavrinha "fato". Apenas porque Pasreur trabalhou bem e com afinco em seu Ptopno plano que foi permitido ao fermento viver auronoma. (§22) 0'p?sro ~o!ar. sua rmanencra óbvia e. Pasreur cria um cenário no qual nao precisará criar coisa alguma. que já cirei. O expenmenro desloca* a a<. a for~a ativa? Tanto Pasteur quanto sua ~eved~ra. A origem dessa inevitável "ordre d'idées tl deve ser buscada nas lealdades disciplinares (vum químico''). Duas epistemologías de modo algumrelacionadas sao jNstapostas sem que nem de leve se insinue a possibilidade de haver aqui dificuldades. Para Pasreur.. no segundo a a<. torna-se de súbito possível. Pasteur ignora a dificuldade ou nós somos incapazes de reconciliar. para o mesmo Pasteur.se c~egoll a esse milagre aparente? Gra<. especialmente em "questóes polémicas 11 que nao padem ser "provadas de modo irrefutável''. construtivismo com empirismo? De quem é a contradicáo: nossa ou de Pasteur? TranSfer J "-- Plano de referencia do fermento " . enráo. convencer quem quer que julgue imparcialmente. Ja vimos que um experimento é um ato realizado pelo c~e~tlsta para que o nao-humano apareca por si mesmo.tempo e que P~ste~r ilustra a maravilha. o experimento gera dois planos: no pnmerro o narrador é arivo. os fatos exigem urna recria para fazerem-se visíveis e essa teoria se enraíza na histeria prévia do programa de pesquisa . A frase seguinte. Como . elas próprias ligadas a um investimenro passado (lIconsi.bo. os fatos tero de ser julgados independentemente da historia anterior.é "dependente do caminho". precisamos entender também o modo como distribu¡ a atIvld~d~ entre ele rnesrno.as a um dispoSlt1VO rnuito SImples. . Pasreur enraíza essa inércia disciplinar tanto na cultura e na historia pessoal C'sua própria pesquisan) quanto na natureza humana C'instinto".

Quem pratica a ac. inclui a receita. A atividade humana está de novo sob a luz dos refletores. (§8) No exaro momento em que a enridade se encontra em seu status ontológico mais frágil (ver a primeira secáo deste capítulo). criando essa enndade por projetar nela meus preconceitos ou sendo cri. ferve. a mo~a. Pasreur afirma que "ternos diante dos olhos urna fermentacáo láctica niridamente caracterizada". aumenta-se a temperatura para 30 ou 35 graus centígrados.ao humana é reintroduzida numa descricáo. com todos os acidentes e comp/icariks nsuais desse fenómeno. um poueode giz é acrestmtado. o analista de Pasreur. Se '. manifesta-se urna vívida e regular fermencacéo . algu ns experimentos sao camuflados e obscurecidos. nenhum lévedo comecaria a "dar as caras". culturais. introduzindo ácido carbónico. torne-se independente e autónoma. Mas entáo. Em outro caso. que creseem como plantas no mesmo pedaco de terra. que se aplica por meio de urn tubo de saída curvo. depois. vacilante entre nuvens de dados sensoriais caóticos. que acabo de mencionar. O direror sai de cena e o Ieitor. Firmemente ligado a prática. mas completamente relegado a segundo plano. Já no dia seguinte. devora seu alimento. É iom também introduzir urna correnre de ácido carbónico para expelir o ar do fraseo. 1985).ao láctica. A princípio. filtrando. Diz ele: ácido lá:tico foi descoberto por Sheele em 1780 no soro de leite. .ado ~ forc. cujas manifestacóes exteriores sao bem conhecidasdos químicos. a prática da ciencia é mencionacla em relatos multo estilizados de experimentos que sao logo pastos de parte. em seguida. nos artigos de Pasreur. '" . 'lIé urna [ermentacáo que toma corpo no centro do palco independentemente de tocio trabalho ou consrrucño.. Cerca de cinqüenra a cem gramas de acúcar saoem seguida dissoloidos em cada litro.frascos e protocolos para que a entidade. Mas. oriundo de urna boa fermenracáo comurn.fermentacáo láctica . No mesrno artigo.. temas dianre dos olhos uma fermentacáo táctica nitidamente caracterizada. por exemplo. A cenografia experimental.e históricos ou serei obrigado a acrescentar ao balance o papel atrvo dos nao-humanos que ele tanto moldou? Essas pergunras nao sao problemas filosóficos confinados as páginas dos periód~:os de filosofia da ciencia OH piedosos cenotáfios das guerras na CIencia: sao as próprias quesróes repisadas pelos artigos científicos e grac. Nurna palavra. Ofermento do ácido ládico.ado a agir assim em virtude das propriedades da entidade? Esrarei eu. Seu metodo de extraí-lo do soto é ainda o melhor" (§4). pois que cresce depressa. é atidadosa1l1eJttt:/iltrado. altera-se completamente nos parágrafos centrais 7 e 8. A cenografia de Pesceur.tos e das intervencóes humanas. já nao há "problema com os expertmentos".a partir da qual o fermento do primeiro plano será forcado a aparecer. segundo a expressño de Shapin e Schaffer (Shapin e Schaffer. O líquido. acrescentando.ao nesse novo meio de cultura? Pastear. do procedimento que conduz a fermenracáo do. o mesmo texto se~á construtivista ou realista.aCIdo láctico. a ac. aumentando a temperatura. é extremamente variada porque acompanha todas as sutilezas da ontologia mutável desenvolvida no texto. tratando. mesclando seus olhos aos do encenador. juntamente com os problemas que traz consigo: Extraio a parte solúveldo lévedo de cerveja tratando o fermento por algum tempo com quinze a vinte vezes seu peso em agua.as as quais eles afundam ou sobrenadam. dissolvendo. imerso em agua. Sem urna receita estabilizada da fermentac. urna solucáo complexade material albuminoso e mineral.de receituário. esse procedimento experimental define a linha básica . a esta altura. JI? . onde se apresenta o experimento principal. aplicando tubos etc. explicando o encerramento da controvérsia ao apelar para seus inreresses humanos. o químico experimental está em plena atioidade. e seguidos por declaracóes posrnvistas. Estarei eu. urna vez t~ansferida. com instantes relativistas e construtivistas precedidos pela negacác brutal do papel dos instru~~n. pois que ele polvilha. . e b()rr~fatÚJ um poueodo material cinzenro. Pasteur. Segundo se enfatize um ou outro desses dois aspectos conrraditérios. ganha forcas C'muiro poueo desse fermento é necessário para transformar urna considerável quanridade de acúcar") e entra ern compericáo com outros seres similares. polvilhando. A fermenracño do ácido láctico é um procedimento murto bem-conhecido que Pasteur recebe intacto. filtra e observa. desviando a atcncño do leitor e deslocando o atar autónomo. ao passo que outros recebero o foco da arencáo e rém licenca para sofrer mudancas.. Num único artigo científico o autor atravessou diversas filosofías do experimento. extraindo.'"'. a temperatura de ebulicáo.

atormentado pela falsa consciencia. nao se pode mais comer as cebolas do Egito que os hebreus aehavam. pois o que se acha em causa no texto é exatamente a ínversáo de autoría e auroridade: Pastenr autoriza ofermento a autorizá-Io a falar em nome dele. por seus próprios recursos. diz ele. em ambos os casos. somente o autor. Teríamos o poder de sociedades. o próprio texto acabará sendo autorizado pelo fermento. O porto seguro do arranjo moderno é a nostalgia. "ultrapassei ern muito os fatos e tinha de fazé-Io.:ao e propos. aqui. aceitar o anrigo acordo e acatar os resultados da filosofía da linguagem. em retrospeeto. funcionou nesse im- ". exigem realmente tanto esforco filosófico (bricolage conceirua] seria um norne mais apropriado)? Por que nao permanecer tranqüilos num rneio conforcável e dizer. nada.2)? Infelizmente. mas todo observador imparcial reconhecerá que o ácido láctico é conscituído de organismos vivos e nao de elementos químicos morros". ele será constituído no único autor de urna obra de fitrdo.o onde essa conrradicáo é encenada e resolvida? Pasteur nao está. Como vimos na seC. urna vez que ele insere expliciramente ambas as exigencias contraditórias no parágrafo final do artigo. Se o cenário inteiro resistir ao escrutínio da Academia. 1991)? Todos ficariam felizes. cairemos no poc. num meio puro de cultura? Por que é tao com plicado reconhecer que um experimento consritu¡ justamente o espac.o. tendencias. para serem compreendidos. Nao ternos de escolher entre dais relatos de trabalho científico. nao para turvar o rrabalho dos cientistas. Mas que acontecerá se ignorarmos a arividade autónoma. sua declaracáo de independencia do fermento. repudiando o papel dos nao-humanos em quem todas as pessoas que estudamos concenrram sua arencáo e por quem Pasteur gaston meses de trabalho desenhando essa cenografia. deixando a natureza completamente imune a ela? Os estudos científicos. sem tentar misturar o mundo com o que dizernos dele. assim como a percepcáo das cordinhas nas máos do titeriteiro nao arrefece a credibilidade da história interpretada "livremente'' pelas rnarioneres no outro plano de referencia. removendo os indícios de seu próprio trabalho a medida que avanca.nós apenas impomos nossas categorías filosóficas e metáforas conceituais a seu rrabalho. concorda. . aos albos de Pasteur. é quem faz o trabalho ao escrever o artigo. Isso nao resolveria todas as dificuldades (ver figura 4. nada conseguimos aprender das pessoas que escudamos .. automática e delegada do ácido láctico? Cairemos em outro poc. de cuja verdadeira condura se poderá dizer entáo que subscreve a totalidade do escrito. multo saborosas. mas para torné-lo ao mesmo rempo visível e apto a produzir resultados independentes dele próprio? Os estudos científicos rém lutado tanto com essa quesráo que é lícito perguntar: para que insistir nela? Seria bem mais fácil. " . De que modo encararemos a cenografia artificial do experimento que prerendia deixar o ácido láctico desenvolver-se sozinho. senda o conhecimento apenas a diagonal resultante. tentativa que parece nos arrasrar para incontáveis dificuldades metafísicas. ensinada em "Science Srudies 101" (Bloor [1976]. do construtivismo social. que nosso conhecimenro é a resultante de duas forcas conrraditórias . por exemplo. Por que nao regressar ao senso comum filosófico e sirnplesrnenre distinguir questóes epistemológicas de questóes ontológicas? Por que nao limitar a história a pessoas e sociedade.ao anterior. "Sim''. na outra. o autor humano. Reconbecer a própria atividade nao enfraquece. já que personagcns e autores trocarn credibilidades. os poderes da narureza e da real idade.para utilizar o paralelogramo de forcas que todos aprendemos na escola primária e sua versáo por David Bloor. realmente. tao sem fundo quanto o primeiro. urna forma de exotismo (ver capítulo 9). Em busca de uma figura de retórica: articulac. .o do realismo ingenuo do qual 25 anos de estudos científicos se esforcarem para nos tirar. se os colegas de Academia nao acreditarem em Pasreur.cao Será possível empregar essas caregorias e figuras de retórica (ainda que isso signifique reconfigurá-Ias). . " '" . Nao podemos sequer pretender que. Quem é o autor do processo todo e quem é a autoridade no texto sao quesróes em aberro. Enquanto nao cornpreende- mos por que aquilo que nos parece urna conrradicáo nao o é para Pasteur.ignorarmos o trabalho de Pasteur. paradigmas e sentimenros humanos numa das máos e.

pode explicar por que afixamos a etiqueta de senso com um a urna definic. Somente urna razáo política de peso . primordial e irrestrito a um estado de coisas. Mais exaramente. '. Embora o trabalbo do encenador . Quáo irracional esse compromisso racional realmente é! Segundo a física do paralelogramo.ou.Estado de coisas Declara¡.~" . A dificuldade em entender a solucáo de Pasteur deve-se ao fato de ele empregar as duas assertivas. t. Mas a posicáo contrária. traz certos aspectos do experimento para o pnrneiro plano e subtrai ourros a luz dos refletores. Que outras figuras de retórica contribuiriam para urna compre:nsao melhor da c~rio~a visáo de Pasreur a respeito do que poderíamos chamar de realismo construtivista"? . Figura 4. nao. Se nao houvesse nenhuma pressáo por parte do eixo que chamo de "estado de coisas''. o fermento é portento autónomo.vise claramente a seu próprio desaparecimenro. por um momento. .' " . Quando muuo."as deixa muito a desejar quando renta esclarecer o que acontece num experimento. um estudioso de ciencia? Pasteur nao.esquecer o que realizou para poder dizer que o fermento está "lá foral! ou abandonar lá fora as nocóes de nao-humanos.ifícil ace~tar essa solucéo como senso comum e por que nos sennmos obngados a impedir Pasteur de perpetrar um dos dais crimes analíticos . os cientistas experimentáis? Nao Pasteur. paradigmas e tendencias armazenadas pela sociedade. como diretor. Por que achamos tila d. é como se ele dissesse q~~. estaremos passando lentamente do absurdo para o bom senso.oes contraditórias.ver capítulos 7 e 8 .ao tao pouco realisra do que significa falar com veracidade sobre um estado de coisas. P~teu~. real e independente de qualquer trabalho que ele haja executado. "O fermento foi fabricado em meu Iaboratório'' e tia fermento independe de minha fabricaC. transitando entre posicóes absolutamente contraditórias. ao invés de empurrá-los em direcóes apostas. no caso. em tiirtttde de seu cuidadoso e hábil desempenho no laboratono. possível arranjo artificial de poslc.2 Urna solucáo clássica ao problema do experimento é consideré-lo a resultante de duas forcas. que os guerreiros da ciencia imputam aos estudos científicos. Seguramente. absolutamente. pois ele sabe o trabalho que tem para tornar visível um estado de coisas e nao ignora que esse trabalho é que empresta referencia exata ao arrigo por ele apresentado a seus colegas de Academia.Comecemos pela metáfora da encenafao. Somente porque estamos acostumados ao que deixamos para trás e nao ao que ternos pela frente é que consideramos o antigo acordo mais condizente com asenso comum. de forma alguma. no repertório e nos preconceitos sociais do século XIX. N~o. que utilizei na secáo anterior. revela-se ainda mais implausíve1. Acreditariam nisso. mas ninguém dirá que estamos trocan~o posicóes razoáveis por prerensóes extravagantes.ao'\ como sinónimas. . urna que representa a contribui~¡¡o do mundo empírico e ourra que representa a contribuicío de um dado sistema de crencas. teorias. uro cabo de guerra entre forcas contrárias n~o funcionará. . Onde.Jo resultante . . teremos um acesso direro.'. conjurar e sacudir uro bichinho como o ácido láctico dos frascos de Pasteu~? Nenhuma imagina~ao é fértil o bastante para essa peca de fic~ao. . nossas assertivas sobre o mundo seriam constituídas unicamente pelo antigo repertório de mitos. o acordo moderno funciona enguanto nao pensamos multo sobre ele e aplicamo-lo sem refletir.ou do titeriteiro .as . urna pessoa encontraria algo com que construir. apesar dos ataques furiosos dos guerreiros da ciencia. se nenhuma forca emanar do eixo que chamo de "tendéncias e teorias''. Essa metá~ora apresenta a grande vanragem de chamar a atencáo para os d01S planos de referencia ao mesmo tempo.. Podemos nos sentir constrangidos por abandonar velhos hábitos de pensamenro. Poderiam os cientistas de Iaboratório acreditar nisso por um momento . para conseguir chamar a nossa arcncáo sobre seu traba~ho? A metáfora do paralelogramo de fort. Tendencias e teor.

~uma ser repetida a saciedade por quem afirma que os :lentIstas usam "lentes cromáticas ll que tlfiltram" tuda o que veem . pelo roep d frui r a qualidade do trabalho ainda que ele se esfunos. a pretensáo a realidade por parte da gasolina de modo algum arrefece. . dinheiro [os cinco circuitos que esbocei no capítulo 3] -. que cultivarn "mundivisóes''. coloca os trabalhadores numa posi~ao perver:a: os Cl~tlstaS -o vistos ou como hábeis manipuladores de fenómenos e ve~­ :. "disrorcem'' sua "visáo'' de um objeto.desviando a atencáo do que acontece atrás do palco para o . •mas " ente [1"5 • d esapareclm ai!. • . sucedeu como se quanto mais filtros bomesse.tetizar a obra da ciencia e enfraquecer sua pretens~ a ~er . ao mesmo rernpo c?ostantemente sentido e agradavelmente olvidad~. Entretanto.en~tas pnnc~pa~s . ele está bastante orgulhoso por ser o primeiro homem da historia a criar artificialmente as condicóes que permitem ao fermento do ácido láctico manifestar-se. por exemplo.reJ~dICl~1 que ciencia pelo recurso a no~ao de fetichismo . Muito do prazer da platéia provém. d d ragern desse tipo de discurso: embora ele nao captur~ e ~~ o " id d daquele que al ha ao menos enfatIza a in ea1gum a atrvr a e '''f¡ ó rica cos endéncia e a autonomia da coisa olhada. Franca. A meta ora p... Junto CO~~ o prazer~ manifesta-se a debilidacle principal dessa figur~. os pontos de vista e os senrirnentos. d dif ldade que surge das e1efini~6es fundamental s e acao essa I ICU .' . ter acesso as coisasem-si.instrumentos. ti Se ao menos a ciencia pudesse existir sem aquilo que os estudos científicos incansavelmente mostram ser seu princípio vital. . Em presenca de tais expressóes. decerto. "infelizmente". Longe de interpor filtros ao olhar nao-mediado. urna conrradicáo que as veneráveis metáforas ópticas nao conseguem sustentar sem esfacelar-se. menos p. dos escudos científicos tenha sido torna~ as CleoClas agra~avels (Jorres e Galison. como enridade específica. é obviamente em virtude de tantas . que eles rém "rendéncias". abruptamente. mais serta claro o olhar. Quando. po em " d "d 1 " ada redime os crédulos esquecldos e terem SI o e es me.c e . tirada do mundo da arte. dizem todos eles.lSS0 tera _ e le fatiche". essa figura de. no entanto. "represenracóes" ou "caregonas" por meio dos quais "interpretarn" O mundo. o aCI o "L . ~e ~et?nca: ~ me ráfora. da presenca vacilante desse ourro plano.gma as e algo exterior. em contraste com elas. laboratórios. Aa contrário.d " estu d aremos no cap ftulo 9 . Aqueles para quem. colecóes. nao podemos ser "totalmente livres" das lentes coloridas das tendencias e preconceitos perseguem o mesmo objetivo imaginário daqueles que ainda acredirarn ser possível. sern dúvida ele é indispensá~el para o espetaculo. o ideal da visáo perfeita é o de um acesso irrestriro ao mundo. "paradigmas". Podemos fazer melhor e escapar da arte e do faz-de-con~a" . .is~o ou como mágicos ingenuos. que compreend e r a . com efeiro. finalmente. controvérsias. Quando os cien ti stas sao escntos como fetichistas. ret?~lCa justifica bem o forcadc de quaisquer mdlCIOS de labuta. passa da inreira admissáo de seus preconceitos para a certeza plena de que o fermento é urna criatura viva de direito próprio. o momento ero que introduzirmos a estranha nocao de at. id Por que mostró Pasteur a "olhar" para o fermento .' da visaD! EIS a vanláctico? Por que recorro ametalaras opttcas_ . nós nao estamos a cata de prazer e Siro de urna verdade independente de nossos ates.iloqü. ?s artistas. desde que rompamos todos os laces com a sociedade. mas n " "" d d meemos a causa única das assertivas que aCre?l.> . .' Comparar ciencia e arte é. as mediacóes só podem ser negativaJ. USe ao menos". 1998). sob a luz clara da raaáo.a :" Emboca se possa admitir que urna das conseq?. A última coisa que ele deseja é ver seu trabalho anulado e tido por urna distorcáo inútil! De que maneira se transferirá da cátedra de Lille para um pesto de maior prestígio em Paris se isso acontecer? Nao.. Recorramos agora a urna metáfora industrial. surpresos P?r seus ~ro" sde mágica Ainda nao estamos a altura de reso ver pnos passe · .Iue acontece ero cena. . artigos.. no velho posro da cidadezinha de Jaligny. "pudéssernos descartar todos esses recursos interrnediários graCias aos quais a ciencia se rebaixa para trabalhar . o olhar da ciencia seria muito mais penetrante. reorias. tem a consequenCl~ m~eltz ele. sao ao mesmc ternpo acusados de :squecer p~r mpleto a obra que acabam de realizar e de cede: a autonomla ~o arente do produto de suas próprias máos. " el " e criacáo utilizadas pelos modernistas . pois. Certamente.ta~ on. uro estudioso da industria afirma que houve inúmeras rransformaróes e rnediacóes entre o petróleo entranhado nas camadas geológicas da Arábia Saudita e a gasolina que coloco no tanque de meu carro. quáo mais acurada seria sua ViSaD do mundo! Mas isso nao é tudo a que Pasteur alude quando. instiruicóes.

pois. . Se mostram~s aos cientistas do so~o (capítulo 2) que a linha de algodáo expelida pelo Topofil Chaix "conduz" ao seu terreno de pesquisa. e que..ferment~ come~a como entidade vagamente visível e val assurnindo rnars e mal s competencias e atributos até terminar como subsrancia"plena! Nao pretendemos dizer simplesmente q~e o fer~ent. se o fluxo de conexóes nao for interrompido.ado quanto o tesouro de Ali Baba.transformacóes. Graras a metáfora da trilha. nao queremos mais ficC. mist:rio~ament~. se t~rna a substancia que ele manipula. visível.inho" a aparicáo do fermento. mais independen:e. essa nao é ainda a solucáo para o quebra-cabeca de Pasreur.superior é a gasolina [gas] ao olhar [gaze].~ e consrruído e real como todos os arrefatos. muiríssimo superior a metáfora óptica. interpondo-se entre o olhar dos pesquisadores e seus objetos. eles nao acharño que isso seja a exposicño de um 'filtro' que "disrorce" sua visáo. A metáfora industrial pode explicar por que urna coisa é "feita"..tróleo.tao be~ g"uard. absolutamente nada. para f~zer um ~~o. exceto esperar que a luz incida sobre ele ou que a trilha iluminada pelos cientisras conduza a sua tenaz existencia. esperando a chegada de um pesquisador. permanece tao inerrnemenre clássica quanro a metáfora óptica ao descrever o que o objeto está fazendo. .a~ao.ido láctico é urna espécie de matéria-prima a partir da qual. por assim dizer. ele fornecerá a prova do que afirma. conseqüentemente. A metáfora do palco é boa para salientar que existem dois planos concomitantes de referencia. transportes. mas nao o ato de tornar visível alguma coisa.mtna:~l trocadilho: ela nos permite dar cada passo inrermediário posnrvamente e condiz bem com a no~ao de referencia circulante. Nós. que somos capazes de fazer uso da real idade do pe. porquanto era do invisfvel antes de minha inrervencño quanto o fermento antes da dele! A metáfora óptica pode explicar o visfvel. cornudo. Pasteur cornudo. A despeito do que a metáfora da "trilha'' implica. Lamentavel men re. todos os elementos que eram.anque de meu carro.al e.o qua~. Longe de ser urna materra-pnma da qual cada vez menos traeos se conse~am. ou seja. sem essas mediacóes. pois sem aquele pequeno implemento se sentiriam absolutamente incapazes de tomar um caminho seguro em meio a floresta Amazónica. pors. A metafora IOd~s"trt. mas nao por que ela se torna. os fenómenos nao se encontram "ld fora". t'. Nao pretende dizer que o fermento do ác.mas . o .. mas nao consegue focalizá-Ios simultaneamente. porem que e rnars real depois de ser transformado . a gasolma contmuara a ser petroleo la longe -. como rnurtrssrrno . exceto ao tornar o primeiro plano o plano ele fundo que dá credibilidade afic\ao em cena. certarnente nao negamos . houvesse mais petróleo na Arábia Saudira porque ha ~als ga~ollOa no t.a. O trabalho de Pasreur precisa tornar uisneis os fermentos do ácido láctico..como se.. " " r61 . permaneceria para sem~re lnaces. pois ela rui tao depressa qua~to a outra em face da natureza bizarra do fenómeno que tencrono aclarar: quanto mais Pasteur rrabalha. Se dizemos que o experimento de laboratório nabr~ c"am. ou aceita-las . nao rem em mente esse processo semiindustrial. um circuito continuo que nunca deve ser inrerrornpido para náo bloquear o fluxo de inform. A metáfora da trilha mostra-se boa para enfatizar o trabalho dos cientisras e seus movimentos. . Po~emo"s rejeirar aS"trans~orma\oes _ e nesse caso. tornam-se borizomais. mediante algumas manipulacóes habilidosas. _ As metáforas referentes a estradas. queremos mais realidade e mais conhecimenro! " . refinos químicos etc.slvel. A inadequacáo da metáfora do olhar nao significa que a metáfora da gasolina bastará. entáo. a metáfora da trilha desdobra como ourros tantos tapetes vermelhos sobre os quais os pesquisadores caminharáo confortavelmente para chegar ao fenómeno.. assim como a inovacño filosófica de Pasreur precisa tornar-se visível gracas a mes trabalho. que somos capazes de combinar a vanragem da metáfora industrial (TltcxIos os intermediários sao pravas positivas da realidade de uma enridade") com a vanragem da metáfora do olhar (l'os fenómenos sao exteriores e nao constituem maréria-prima para nossa refinaría conceirual"). teritcais. Aquilo que a metáfora óptica nos obrigava a aceitar como véus sucessivos a esconder a coisa. porém. Sem dúvida. Parece. conseguirá refinar um argumento útil e vigoroso para convencer seus colegas.ao nem mais crenc. caminhos ou rrilhas sao um pouquinho melhores porque preservam o aspecto p?sitivo ~as transíormacóes intermediárias sem arranhar a auronorma do objeto. a metáfora lOd~strtal da fabrica\ao nao consegue sustentar essa estranha rel~\ao. reremos gasolina e nao petróleo! .a e~lstenCla daquilo que no fim é alcancado.

Nao parece beneficiar-se. como aquiJo que lhe '" ~' ~. o senso comum nao ajuda em nada no comeco e rerei de recorrer a meus parcos recursos . de nenhuma figura pronta de retórica. 'falam por si mesmos" . revela os dois planos ao senso comurn.como minhas anoracñes ilé'gíveis. surrupiando um termo a Alfred North Whitehead. pcrdendo caraeterÍstinlS ao longo do macees cuminho Transforma roda mcdiucáo Niio modifica J posi<:iio da coisa que naquilo gut' coma possivcl o nao se sujc'ita .como vemos no alto da figura 4. a nocño de prOpoJiíO'J* é 163 .'.Nada diz do rrabalho e considera todas pendenrc as mcdi. ' permite existir. da Nao é rc. como ourras tantas dúvidas sobre sua existencia. que costurna engendrar muito do que pass a por clareza analítica. nao haverá nenhuma figura de retórica capaz de atender simultaneamente as quarro especifiracóes: daí o desprestígio dos escudos científicos na mente do povo.u/x. Cada urna delas conrribui para nossa compre~nsao da ciencia.!Comeomento acesso as coisas Enfatiza a indepenclenci<l. Enquanro tivermas palavras . Mas rudo pode ser diferente agora que.:ao Fetiche Explica por que o trabalho foi Transforma o óencista ero ludibno de csqllecido SU. (4) por fim. (2) nao possui existencia independente fora do trabalho executado por Pasteur. Eu gostaria de implantar urn modelo totalmente diferente para as relacóes entre humanos e nao-humanos.3. A razáo dessa impossibilidade surgirá mais tarde. que torna o discurso político para sempre vazio. ternos de renunciar a divisáo entre um humano talante e UID mundo calado.Paralelogramo Explica por que o conhecimemo náo 'dpenas natural nem apenas social é Nao pode fondizat ambos os planos ao rnesmo ttmpo porque eles sao contra- dirórios Estenaa e induz uinda mais Teatro Mosrra os deis planos uo mesmo rcropo a fi«.de uro lado e um mundo de ourro. que deveria implicar pelo menos quarro especifica~oescontr~ditórias -= isto é.lS como matéria-prirna.Oll olhar . a dernarcacáo entre questóes ontológicas e epistemológicas.l prúl'ria cOLlsci2ncia falsa Óptica Eixa a aten<:ao na coísa inde. O que tenho buscado desde o inicio do livro urna alternativa ao modelo de assertivas que postulam uro mundo "lú foral! e cuja linguagem tenta alcancar urna correspondéncia por sobré' () abismo que os separa . Para fugir aos defeitos dessas metáforas. no debate público.1 nenhum . conforme a licño do capítulo 2.Toma as COiS. preserva o C. e isso nao é tarefa que enseje urna exposicáo clara! Lembrem-se também de que abandonamos. leva a dificuldadcs mernesmc rernpo. Segundo essa recapitulacño. ternos inúmeras diferencas pequenas entre caminhos horizontais de referencia eles próprios considerados urna série ele rransformacóes progressivas e rastreáveis.oferecendo assim a enorme vantagem política de calar a tagarelice humana com lima voz oriunda nao se sabe de ande.l. em lugar do imenso abismo vertical entre coisas e linguagem. Ela brota da esrranha política pela qual os fatos se tornaram ao mesmo tempo completamente mudos e tao gárrulos que. o experimento é um evento e nao a mera recombinacco de urna lista flxa de ingredientes prévios.músicas taluciosas (ver capitulo 5) rércr do aconrccimcnco histórico.:s como dcfciros a serem eliminados Industrial Liga a n-alidude ~s rrausfor. Pasteur se volta para um fenómeno inteiramente diverso. a prárica experimental seria indescritível. lisa a realídade aquanridade de tr'Jlnlbo Trilha Figura 4.gistradJ uuma metáfora de coisa. Se minha solucño parecer tosca. co~­ rradirórias se recorrermos a teoria modernista da acao (ver caprrulo 9): (1) o fermento do ácido láctico é totalmente independente da consrrucáo humana.4. Como é usual nos estudos científicos. mas positivamente.3 As fraquezas e benefícios dessas metáforas sao resumidos na figura 4. no capítulo 7. por exageradamente ilusória. lembremse os leitores de que estou procurando redistribuir a capacidade de fala entre humanos e nao-humanos. como diz o Jitado. (3) esse trabalho nao eleve ser considerado negativamente. mas faz-nos ignorar aspectos importantes das dificuldades suscitadas pela dupla epistemologia de Pasteur.

localidades.:oe"s. Se Pasteur pode falar com veracidade sobre o fermento. A distincáo capital entre os dais modelos é o papel desempenhado pela linguagem. Por exemplo. aruantes'". a articulacáo se torna urna propriedade bastante comurn das proposicóes.. grac. cenários. obtém-se a referéncia fazendo com que urna assertiva cruze o abismo entre pa~av~as e mundo para realizar a perigosa rarefa de estabe. a única maneira de urna asserriva ter referencia é corresponder a um estado de coisas.20-. o fermento Jo ácido láctico e o l~­ boratório sao proposicóes.-as a sua cuidadosa rnanipulacáo. instrumentos.O~S diferentes entre si. por exernplo. provisórias ou definitivas.(Whitehead [1929J. Ele jJropOe. por exernplo. E isso exatamente o que a palavra "pro-posicóes'' sugere: elas nao sao posicóes. o termo articulacáo de forma alguma se limita a linguagem e pode ser aplicado nao apenas a palavras como também a gestos.as. é claro. se ignorando mundo e palavras considerarmos propos~t. porém ocasiies de fazee contato propiciadas a diferentes entidades. isso é sem dúvida urna falácia. tais diferencas sao grandes al! p~quenas. A relacáo estabelecida entre as proposicóes nao é a de urna correspondencia por sobre o abismo.---1''-1-_~ Figura 4.. Ir além dos fatos e tomar posicño sao coisas péssimas para lima assertiva.ao humana r. ero pnmelro lugar. artigos. No primeiro. "articula" o fermento do ácido láctico em seu laboratorio na cidade de Lille. Entre a asserriva e o estado de coisas a que ela corresponde. Proposicóes nao sao assettivas.lecer corresrond~n:la.. testes.aqui. mas aquilo que chamarei de artimla{do*. sem que se saiba de antemdo ~e. pois o vocébu10 'fermento" nao fermenta. um preconceito. o que as distingue urna da outra nao é uro único abismo vertical entre mundos e o mundo. Mas a expressño 'fermento do ácido láctico" nao lembra de modo algum o próprio fermento.. uro experimento. na figura 2.'1 165 .tarefa impossfvel . Em termos do que se deveria exigir de LIma assertiva corresponden te. rneu amigo René BOLIler.. que o considermos urna entidade viva e específica ao invés de um subproduto inútil de um processo puramente químico. Pasteur. pelo menos.4 No modelo canónico . urna mentira ou. nem algo de intermediário entre ambas. Isso. já que todo tra)"o ele trabalho e ar.12. mas as intimeras diferencas entre das. pois deveria haver semelhanca onde a semelhanca é impossível. Embora utilizado ern lingüística.ver figura . MODELO DE ASSE"TIVAS Mc)"=rd"" Abismo MODELO DE PROPOSI~OES proposes:e Art iCLllar. Essas oca~ioes de inreracáo permitem as entidades modificar suas defin icóes no curso de um evento . Ao invés de constituir um privilégio da mente humana cercada de coisas muelas. da qual diversos tipos de entidades podern participar. sempre se insinúa urna dúvida. Pasteur. Se Pasceur. 1978). ~ois. ~? entanto. obceremos outra relacáo em lugar da correspondencia. redutíveis ou irredutíveis.2. nao é porque diz em palavras a mesma misa que o fermento é . substa~cias ou esséncias inerentes a urna natureza* constituída por objetos mudos ero faee de urna mente humana falante. fala com veracidade sobre o fermento é porque articula relacóes completamente diversas para o fermento. Sao. assim como a palavra "cáo" nao late e a frase 110 gato está no tapete nao ronrona. E é exatamenre o que Pasteur declara: "Esrou indo afélll daquilo que os fatos demonstram . '. O problema é saber se as proposicóes sao articuladas enrre si ou nao. significa urna siruacño totalmente diferente para a linguagem. a posicéo por mim assumicla consiste num quaclro de idéias que ndo pode ser provado de maneira irrefutável 11. estava articulando o rorráo que inserta no cubo de papeláo de seu "pedocornparador". nem coisas.

JOJJtO. A articulacáo entre proposicóes vai mais fundo que a fala.f atrtorizados a falar de modo interessante por aq¡Jilo q/le jJ(!r1lútimoJ falar de modo interesseme (Despret. nao nos leva rnuito longe. As proposicóes nao rérn os limites físicos dos objetos. gracas ao fermento de Pasreur. fermentos e sociedade no século XIX.obscurece o objetivo de atingir o mundo exterior. ao invés de ter de escolher entre biologia e ~ulml­ ca como nos tempos de Liebig. e . ero muitos cenários acivos e arrificiais. As assertivas. urna proposicño que de modo algum lembra o fermento. pois está agora bem mais articulado gra- c. Quanro mais Pasteur trabalha. O que precisamos assinalar aqui é que. a expressáo. nós jdmaiJ proferimos assertivas utilizando unicamente os recursos da linguagem para depois confirmar se existe urna coisa corresponden te que validará ou invalidará o que dissemos. assumern agora significados diferentes. mais o ferrnen((~ do ~Cldo láctico se torna independenre. desconhecido. porém .ao do termo. Tuda isso s. Nós falamos porque as propcsicóes do mundo sao. todavia.ao maneiras ~ d. Sao eventos surpreendenres nas hisrórias de ourras entidades. O campo da bioquímica torna-se. e como ferrnentacáo do ácido láctico. mais e mais coisas a dizer a ~es'p~ito­ e o que é diro por mais e mais pessoas ganha ern c~edlb¡Jldade. a coisa. Qu. eles pass~m a ~xistir :"()T/~O bioquímicos. O fermento do ácido láctico existe agora como entidade distinta porqne se articula entre inúmeras Olltras. Há. articuladas e nao o contrário.as aos artificios do laboratório. 166 167 . mas algo que está senda constirufdo por muitos outros itens muiros outros artigos .]á nao é rnais mudo. na melhor das hipóteses.. Assim. Ao passo que as assert rvas visam a urna correspondencia que jarnais alcancaráo. muitas outras reacóes a outras tantas situacóes. excelentes coisas quando o alvo consiste em articular de modo ainda mais preciso as duas proposicóes do fermento do á~ido láctico e do Iaborarório de Pasreur.as ao cenário artificial do laboratór¡o. Sao. elas próprias. Os termos que empreguel na segunda secáo des te capítulo. 1996).ce~veJ~ a~re d urna era inreiramcnrc nova na relacáo entre ciencia. na prática.ntra~i<. primeiro declarou que Tia gato está no tapete" e depois voltou ao gato proverbial para averiguar se realmente ele estava estirado no proverbial tapete. ~ etc).inclusive memorias apresenradas a Academia! -. industria. Mais precisamente. o nome de a~oes* obtidas por meio de testes* durante o evenro* do experimento. cont~ com a predicacáo'" por curras entidades (A é B. Mas dizer que a ferrnenracáo do ácido láctico pode ser trcltudd C01/tO :lm organismo vivo ráo específico quanro o Itved(~ . Examinaremos minuciosamente essa formulacáo abstrara na primeira secñc do próximo capítulo. podem aspirar a urna repeticáo estéril (A é A).e di~er que.anro mais articulacao houver. melhor. podemos atender as guatro especificacóes registradas acima sern cair em ~o. Dizer q~e "fermenracáo do ácido láctico". em roda a acepc. o fermento do ac~do l~c­ tico se torna articulado.e o mesmo acontece aos bioquímicos. grac. a articulacáo. Indefinido. Ninguém. "rnais articulado" . mas captura com rnuito maior exaridáo o farro repertorio da prática científica. nem mesmo os filósofos da Iinguagem.~o. A nocáo ele proposicóes articuladas estabelece entre conhecedor e coisa conhecida rela~6es inteiramenre diversas das que exisrern na visáo tradicional. Nosso envolvimenro com as coisas das quais falamos é ao mesmo tempo muiro mais íntimo e muito menos direto que o do quadro tradicional: somos autorizados a dizer coisas novas e originais quanclo penetramos em cenários bem-articulados como os bons laboratórios. Realmente. pura e simplesrnente. as proposicóes recorrem a articulacáo de diferencas que ror~a~ os novos fenómenos visíveis nas características que os disringuern.

dirá a pessoa de boro senso. ternos nao só de repensar o que Pasteur e seus micróbios anclavam fazendo antes e depois do experimento como remodelar os conceitos que o arranjo moderno nos transmitiu para estudarmos tais eventos. nao existiam antes de Pas(ellr surgir" . natural e mesmo. Teremos simplesmente volcado a linha divisória entre questóes epistemológicas e 00- ]69 . Nao.capitulo 5 A histaricidade das coisas Por ande andavam os micróbias antes de Pasteur? "Entáo''. Se. entendermos apenas que nossa "representacáo" contemporánea dos mierorganismos data de meados do século XIX. essa Cinderela ser pouco mais que um subproduro invisível de um processo químico inanimado. porém. antes da aparicáo do Príncipe Encantado. Que o relógio haja badalado 12 vezes desde a década de 1850 e seu cocheiro ainda nao (enha volcado a ser rato em nada muda a circunstancia de. A dificuldade filosófica. nao reside. como mostraremos. por "historicidade". num toro ligeiramente exasperado. nebulosa e cinzenra pausada humildemente nas paredes de seus frascos e rransformou-a no fermento esplendido. bem-definido e articulado a voltear magnificentemente pelos salces da Academia. suscitada pela pronta resposta que dei apergunta acima. Sem dúvida. de muiro bom senso! Vimos no capítulo 4 que Pasreur deparou com urna substancia vaga. para qucm o fermento era urna parte da realidade "Idfora" que Pasreur "descobriu" gracas asua percuciente observacño. nao haverá problema. "os fermentos existiarn antes de Pasteur fazé-Ios''? Nao há como fugir a resposra: UNan.resposta óbvia. meus contos de fadas sao tao inúteis quanto os dos guerreiros da ciencia. na bistoricidade dos fermentos e sim na palavrinha 'fazer".

Se Pasreur faz os micróbios . porém . com o risco de ministrar ao leitor urna dose excessiva de fermento do ácido láctico. reformatar a qucstao da hisroricidade utilizando as nocóes de proposicáo e articulacáo que. mais autónomo se tornará seu fermento. nao-humanos. definí no final Jo último capítulo como as únicas figuras de retórica aptas a atender. 70 171 .. a fim de testar a utilidade desse vocabulário. O que tenciono fazer neste capítulo.n~. como fazern os engenheiros para verificar a resistencia de seus materiais. de um lado. ~o caso. que a transformara num jogo zerado . era impossível responder "nño" a pergunta 1105 fermentos (ou os micróbios) exisciam antes de Pasteur". se nao fácil. de outro. digamos. Em seguida. rambérn nao haveria dificuldade. nao importa quáo agitado Oll caótico se mostrasse o mundo de cada lado do abismo. o debate com Pouchet sobre a geracáo espontánea . asseguramos historicidade aos m1Crorganl~mos e n~o apenas aos humanos que os descobriram. mas as proposícóes térn Vou subrnerer urna curta série de conceiros a um duplo teste de rorcáo. A episternologia e a onrologia permanecenam separadas. pelo menos concebnel com o par human(}--nao-huma. os fenómenos seriam definidos como dinámicos. lacuna e correspondencia.3: O qu~ era rmprancavel e absurdo no conto de fadas do sUJe¡to-ob¡eto torna-se. é As substancias nao térn história.e sem redefinir a própria nocáo de acño. no entanto nao inclui a história da ciencia e dos cientistas. comccamos a entender que o par humano-cnáo-hurnanri nao envolve um cabo de guerra entre duas forcas opostas. a linha divisória entre o que pertence a história humana e o ~lle pertence ~ história nat~ral nao seria cruzada. o Big Bang -. pois assim incidiríamos numa espécie de idealismo. en tao Pasceur é o observador passivo da atividade deles. farei um levantamenro do novo v~cabulano de que precisamos para nos desembaracar da categ~na modernista _ reccrrendo ainda ao mesmo exemplo do capitulo 4. Se os micróbios "conduzem o raciocínio de Pasceur''. passarei a outro exemplo canónico "da vida de Pasteur. proposicño e articulacéo. que apenas LIma equipe pode possuir. entendermos por hisroricidade unicamente o fato de os fermentos "evolufrem no rernpo". meu teste laboratorial. como veremos no capítulo 9. Esse tipo de hisroricidade". inventaos -. E apenas ourra maneira de pintar a natureza. quanto mais atividade houver por causa de urna. sujeito. Seu encontro COID Pasteur mudou-os igualmente. Pasreur. como movimento e nao como narureza morra. Na primeira secáo. diferenra. Ternos agora duas listas de instrumentos: objeto. Ao contrário. mais arividade haverá por causa de outra. o realismo ostenrou urna excelente virtude polémica peranrc aqueles que atribuíarn independencia excessiva ao mundo empírico. Novamenre. entiio os microbios sao passivos.inclusive. A fim ~e elimin:r essa linha. Sed esse. como rarnbém os micróbios-para-sl-mesmos mudaram desde os anos 1850. que decidíramos abandona~.o~. Como a de todas as espécies vivas . Que transrcrmacóes sofrerá a no~ao de história quando for instalada nesses dois cenários diferentes? O que se tornad exeqüível ou inexeqüível quando a tensáo passar de um grupo de conceitos para o outro? Sem a nocño de articularáo. Quanto mais Pasteur azafamar-se em seu laboratório. Mas só até aí a polémica se revela engracada. enrarzana firmemente na natureza. a toda~ ~s especificacóes arraladas para a figura 4'. 11'" 11 Se de ourra perspectiva. Em suas variadas formas . Aa invés ele estancos. Se paramos de tratar a arividade como um artigo raro. "acontecen" para eles. por assim dizer.'. a historicidad e de u~ ~ermento se".descendo assim dos fermentos para os micróbios. deixa de ser engracado contemplar pessoas tentando privar-se urna a ourra daquilo que todos os jogadores deveriam ter em abundancia. O idealismo representou um esforco impossível para devolver a atividade aos humanos sem desmantelar o pacto de Yalra. no meio de um liv:o sobre a realidade dos esrudos científicos. o ccnsrrutivismo social -.isto é.rológicas. Isso pressupoe que sejamos capazes de dizer que nao apenas os ~icróbios-para-nós-humanos. Nós. de modo muiro abstraro. como os episódios infames do vírus da gripe ou o H1V. humanos. A dicotomia sujeiro-objeto distribuía atividade e passividade de tal maneira que o que fosse tomado por um seria perdido pelo outro. é claro.

A grande vanragem das proposicóes é que elas nao precisam ser ordenadas ern apenas dnas eJferdJ. a frase "O S fermentos existiarn antes de Pasteur fazé-los" significa c1uas coisas inreirarnenre diversas. por exemplo: para que lado vai ele? E o pedocomparador de René Boulet? E os cálculos d~ s~­ ~ao transversal de Halban? Perteneem a subjetividade. posso atribuir atividade aos trés elementos durante o trajeto todo. se disser que a Academia mostrou-se convencida. cérebro e até sociedade . As asserrivas de Pasreur. Assim. O misrério da referencia entre as dnas . ninguém precisa ser ráo avaro e a sofisticacáo pode ser dividida igualmente entre todos os que contribuem para o ato de referencia. Como vimos a saciedade. É aqui que descobriremos se nosso teste de rorcáo Se sustenta ou se esfacela. n~ historia d~s fermentos (capítulo 4). mente. os fermentos estao no mundo exterior ou nao. a referencia já nao é urna correspondencia na base do tudo-ou-nada. nao urna correspondencia impossíve! entre dois domínios verticais bastante distanciados um do outro. sempre esriverarn lá e no segundo.e somente as duas . Quando dizemos que Pasteur fala com veracidade sobre um estado de coisas real. exceto pelo fato de agora dispormos de urna versáo incrivelmente sofisticada do que acontece num dos pólos . A despeiro do~ milhares ~e livros que os filósofos da linguagem foram despejando no. nao mais lhe pedimos que salte das palavras para o mundo.A dicotomia sujeito-objeto apresenrava ourra desvanragem. Certamente. Com as proposicóes. cada urna dessas pequcnas mediacóes é indispensável para o surgimento do atoe independente que constitui. Dizemos algo como Tia transito na direcáo do centro da cidade está lento esta munhá". mas rarnbérn nao há duas equipes. se digo que Pasteur inventa um rneio de cultura que torna o fermento visível. Na teoria da correspondencia da verdade. Se acrescenrar o Iaborarório de Lille terei qnatro atores. sem dúvida. a rastreabilidade e a estabilidade de urna série transversal de intermed iários al inhados. Nao apenas era um jogo zerado como havia.apítulo 2) existem semente dois tipos de atores. a obierividade ou a ambas? A nenhuma delas. Entretanto. Diz-se que urna asserriva faz referencia se. Nao podem aparecer e desaparecer como os sinais luminosos de um farol. o resultado da obra dos cientisras. sern nenhuma dificuldade. Como poderíamos dizer que. nao obstante. a palavra referéncia" aplica-se a eJ/dbiliddde ele um movimento ao longo de inúmeras mediacóes e implementos diferentes.e de urna versáo absolutamente empobrecida do que acontece no outro . no primeiro caso. que sao nautas. a diferenca normativa entre verdade e falsidade por meio da distin<. abismo entre linguagem e mundo. narureza e sujenos . corresponder» ou nao a uro estado de coisas. houver um estado de coisas que lhe corresponda. Desdobram-se e nao lhes é necessario ordenar-se numa dualidade. Naturalmente.(e.e que.ou seja. que ouvimos no rádio antes de enfrentar o engarrafamento. na história da reacáo atómica em cadeia (capítulo 3) ou na história da fronreira floresta-savana . esse abismo nao parece ter Sido atu- lhado. Nao rendo de preencher lima imensa e radical lacuna entre duas esferas. no entanto. Chegamos agora ao x da questáo. necessariam~n­ te. o tradicional cabo de guerra é desmantelado duas vezes: nao há vencedores ou perdedores. e semente se. Seja como for. e po- 172 173 . nada. tudo o que um ator nao faz o segundo deve assumir? O rneio de cultura de Pasteur. a custo menor. essa vanragem decisiva transformo u-se num pesadelo quando a prática científica comelioU a ser escudada em pormenor.e sornen te as duas . quando é capturada entre os dois pólos da dicotomia sujeito-objero e quando é inserida na série ele humanos e nao-humanos articulados. rerei cinco e assim por dianre. como vimos nos tres últimos capítulos.ao entre proposicces bem-articuladas e desarticuladas. sem me sentir preocupado e aterrado a idéia de que posso fugir dos atores ou misturar as duas reservas .esferas da linguagem e do mundo continua tao impenetrável quanto antes. Das proposicóes se pode dizer. ao contrário. apenas duas espécies ontológicas: natureza e mente (ou sociedade). Isso rornava qualquer relato de obra científica absolutamente implausfvel. nunca. Gracas ao novo quadro que rento pintar. além disso. mas apenas transitar por inúmeras lacunas menores entre entidades ativas ligeiramente diferentes. a fluidez. "Refere-se a algo que está lá" indica a seguranca.linguagem.da qual eles tem de sair. isso nao vai muito longe e terei de mostrar mais tarde como recapturar. a dicotomia sujeiro-objeto apresenta urna grande vantagern: dá sentido claro ao valor de verdade de urna assertiva.

dem aparecer e desaparecer segundo os caprichos da histó~i~. os objetos nao rém meios de aparecer e desaparecer. de corneco. Lille nao é Munique. é porque o cais permaneceu fixo. onde está? Aqlli. de variar. como vimos no capítulo 4. o peso das pressuposicóes ou as dificuldades da rarefa. Essa é urna exigéncia perfeitamente razoável. pois ele sernpre esteve ou nunca esteve "lá foral'.e SZ1lJ a serie toda de rransformacóes que consti tuem a referencia. grar. Se a corda que segura o HMS Britannia se romper. Se .mesmo que se possa dizer ainda que a narureza é dotada de dinamismo. mas o mesmo nao se pode dizer Jo fermento. Eis a razáo para o laivo de exasperacáo na pergunta de senso comum proposra no início desre capítulo. a fra~e nos fermentos existem" nao qualifica mlt dos j)(¡loJ . isto é. porérn. ser cultivado corn Iévedo Oll sem lpvedo.é que nós passamos lentamente de urna série de atributos para urna substancia. A rensáo entre objeto sem histéria e assertivas com história é tao grande que. nao há nada mais simples do que afrouxar a rensño entre aquilo que rem e aquilo que nao tem historia. O que Pasteur deixou claro para nós . a relaciío e-ntre substancia e atributos nao possui a genealogia que a dicotomia sujeiro-objero nos forcou a imaginar: primeiro lima substancia exterior. dos mesmos membros. toda mudanca em qnalqner elemento da série provocará outra na referencia. o que era mais que a soma de suas partes. entdo os dois . com renitencia. no ano de 1852. t por aí alérn. No entanro. crescido numa cultura no laboratório de Pasreur ern Lille. de vez que só nos resta urna hisrória de cientistas enquanto o mundo lá fora permanece inacessível a outra historia . quando eu digo "05 fermentos certamente nao e_xis~iam a~tes de 1858". Será coisa bem diversa estar em Lille e ero Munique. nao a ponte entre dais pontos estáveis ou a corda entre urn ponto fixo e outro que se desloca.r os dO/J ~ protagonistaJ nao podan partilhar igualmente" bistoria. Nao haverá sentido na exprcssao "história da ciencia ll se. isto é. Aparecer num meio de cultura nao é o mesmo que ser o residuo de um processo químico ere. A assert~va de Pasteur tal vez tenha urna historia . na lista mais longa ou mais curta dos elementos que a conscituem. com norne. no ano de 1858. Elas articulam algo diferente. estoU tentando realizar urna tarefa tao impossível quanto manter o HMS Britunnia amarrado a~ cais depois q~e seus motores foram ligados. o que representa curro tipo totalmente diverso de hisroricidade. Un:a vez qu. dos mesmos implementos.tño vívida quanto a fermenracño do ácido láctico! Embora isso soe um tanto abstrato. lima coisa claramente delimitada. As duas sentencas nao se repetem urna a curra.as a nocño de referencia circulante. será porque queremos ter urna substiincia* d/élll de atributos. A palavra "subsráncia" nao designa '·1 . é de muito mais bom senso que o modelo que vem substituir. Pasreur nao é Liebig. nao afrouxarmos a rensáo entre esses dois pólos.a historicidade das coisas? E muito simples: toda I¡lIIdanfa na serie de rransforrnacóes que rom póe a rtferenciafará nrna diferenfa e as díferencas sao rudo o que exigimos. nao é a mesma coisa que um resíduo de fermenracáo alcoólica no laboratório de Liebig em Munique. No entanto. Um fermento de ácido láctico. De que modo a refer~ncia circulante nos ajuda a definir . fora da história. dos mesrnos atores.o que deixei claro no transito de Pasteur por entre múltiplas ontologias .e apen:s funcionam como alvo fixo da correspondéncia. para por em movimento uma hisroricidade vívida . já qUE:' sempre partimos dos desempenhos* para a arribuicáo de LIma comperéncia'".e apena.ut¡!tzamOJ a dicotomia JUjeito-objeto. Se meu ato de afrouxar a tensño parecer urna disrorcáo monstruosa do senso cornurn . das mesmas proposicóes. e depois fenñmenos observados por urna mente. O ano de 1852 nao é o ano de 1858. O motivo de essa rcsposra parecer engracnda a princípio é que nós ainda imaginamos a coisa como algo que se sirua na exrremidade. Mas de ende virá essa fixidez? Unicamente do acordo que ancora o objeto de referencia corno urna das extré'miJades frente a assertiva postada do outro lado do abismo. Felizmente. Por que nao a mesma coisa? Porque nao é feiro dos mesmos artigos. de alguma forma.ocorreu em 1858 e nao antes _. A própria coisa. Todavin.o cais . O fermento comecou como atributos e terminen ((jtJIO snbstdncia . ser visto ao microscópio ou arravés de óculos. Como eu disse. a exatidáo de referencia indica a fluidez e a estabilidade de urna série transversal. 174 175 . se a referencia é aquilo que circula pela série inteira. esperando lá fora para servir de base a referencia.

Se a hisrória nao tem ourro significado a nao ser concretizar urna potencialidade* . por incermédio de urna série de gestos de cotina. Mas a ambivalencia. mas aquilo que arregirnenta urna mulriplicidade de agentes num todo estáve! e coerente. As associacóes de entidades possuem urna historia quando pelo menos um dos artigos que a constituern se altera. Aqui.' " . como abster-se de utilizar a causalidade para explicar seja lá o que foro A causalidade vem depois dos eventos. a incerreza e a plasticidade inquieravam apenas os humanos que abriam caminho rumo a fenómenos em si mesmos garantidos. ou pelo menos nenhuma coisa nova.nao pode ser considerado uro enfraguecimento da pretensáo do fermento a realidade. conforme tentarei deixar claro na última secáo deste capítulo. o melhor termo para designar urna subsrancia é "instiruicño''v. Dizer que Pasteur aprenden. sim. Os escudos científicos nao só deveriam abster-se de utilizar a sociedade para explicar a natureza.~. e que tais tipos de diferenra constituem o que entendemos por historia nao deve. nos anos 1880. . A história.• . Se atribuímos 11m significado racional a pergunra "Os fermentos exisriarn antes de Pasteur?". nada resolvemos enguanto nao qualificamos de maneira carreta o tipo de bistoricidade que no momento distribuimos. está em toda parte. no entanto. pode ser conferida também a instiruicóes. obviamente. A [ermentacáo experimentou ourras vidas antes de 1858.cerveja e álcool . . nao precisa ser permanente. Nao faria sentido empregá-Io antes. Se a história pode ser conferida a fermentos.eram diferentes no laboratório de Liebig em Munique. aliás. a subsráncia é o nome que designa a estabilidade de um conjunto. A substancia lembra mais uro fio que mantém juntas as pérolas de um colar do que o alicerce sempre igual. nao antes. ao sólido edificio da bioquímica emergente. E a melhor prava disso foi dada quando.isto é. sólido e duradouro na própria estabilidade das insticuicoes. a produzir a vontade fermenracáo Iáctica viva muito diferente das nutras fermenta<¡oes . inacessível a história. Tal estabilidade. enráo. Superar a linha divisória modernista nao é o mesmo que garantir a ocorréncia de eventos*. urna noua subsrñncia: pertenciam agora ao edifício sólido da enzimologia.aquilo TIque está por baixo''. que a filosofia da linguagem rentou inutilmenre alcancar por sobre a esrreita ponte da correspondencia.~ . para grande surpresa de Pasteur. datada e loca- a . embora conrinuassem mentidos juntos por urna substancia.a. a enzimologia prevalecen. com extrema equanimidade. fizemos alguns progressos. como organismos-vivos-conrra-a-teoria-química-de-Liebig.aram a ser firmemente institucionalizados em Lille no ano de 1858 nao pode decerto funcionar senáo como truísmo. por si só. já nao somos prisioneiros da origem viciosa de semelhantes conceitos. mas sua nova concrescénciav . Os objetos nao hesirarn nern tremem. urna oporcunidade histórica. a ambigüidade. Se Pasreur hesita. acontecerá jamais. nao assegura que alguma coisa inreressante acontec. ser usado como rnunicáo para as guerras de ciencia. Seu ímpeto nao é apenas mantido pela polémica linha divisória entre sujeiro e objeto como reforcado também pela nocáo de causalidade. ternos de dizer que a terrnentacáo também hesita. no novo acordo que estou esbocando. Infelizmente. chegamos bem mais perta do senso comum: dizer que os fermentos comec. a incerteza e a plasricidade acompanham igualmente criaturas as quais o laborarório oferece a possibilidade de existencia. No esquema sujeito-objeto. efetivar o que já existia na causa -. entre todas as associacóes que constituem urna substancia. Diferentemente articulados. depois de terem pertencido durante várias décadas. tornaram-se outra vez agentes químicos que podiam ser fabricados até mesmo por síntese.:~ ." " . E dizer que eles ~ o conjunto todo . Os fermentos. é urna vida única. A resposta negativa pergunta que abriu o capítulo parece agora mais razoável. nada. As proposicóes. que estamos falando agora a respeito do fermento como de fatos concretos". pois ele provém obviamente do vocabulário da ordem social e nao poderia significar nada mais que a imposicáo arbitrária de urna forma a matéria. Significa. a ambivalencia. Portanro. sob outra forma. Contudo. ainda nao nos livramos da categoria modernista. independentemente da sarabaoda de associacóes que ocorrerem . porguanto o efeito já estava oculto na causa como potencial. Assim como a referencia exara qualifica um tipo de circulacño suave e fácil. nao importa o que seja edificado sobre ele. Como veremos. e viceversa. urna década antes. para empregar mais um termo de Whitehead. em outros lugares. a ambigüidade.~ "fIll . O estado de coisas. eles se fizeram diferentes. ao contrário.

das universidades ao Museu Pasteur. a teste é bastante simples: o aparecimenro e o desaparecimento da geracáo espontánea sao aclarados com mais nitidez pelo modelo dualista ou pelo modelo das proposicóes articuladas' Qual dessas duas abordagens funciona melhor ero nosso teste de torcáo? Prirneiro. mas apenas da singela ativacáo de um potencial já existente. no entanto. de urna diferenca. pelo menos. que se arrastou por quarro anos depois do que estudamos no capítulo 4. fiada nesse novo conjunto de praticas. Essa erradicacgo. Para tanto. a to~a~idade da bacteriologia emergente. Ainda hoje. Mas estas. Aa contrarie. nem inteiramenre um meio nem inreiramente um fimo Como sempre ocorre em filosofía. um movimento compulsório que nos permita recapitular um evento a fim de explicar sua emergencia. 1991). e apenas :nquanto ele pudesse impedir. 1972. E de fato ~ui(o trabalho precísou ser feito.ele próprio transformado por sua segunda descoberta . a entrada em seus frascos de cultura daquilo que chamava de "germes transportados pelo ar". de ocorréncia que nao seja nem urna causa completa nern urna completa conseqíiéncia.e por seu laboratório. o alinhavo de narranv~s históricas.encontramos urna causa. 1974. erradicou a geracáo espontánea. pressupunha a redacáo de manuais. nao assaciando ~uas habilidades e cultura material a disciplina rigorosa da assepsia e da cultura de germes aprendida nos labcratórios de . Muito trabalho tinha de ser feito para rnanrer a prerensáo de Pouchet como crenra" num fenómeno inexistente. a fundacáo de inúmeras instituicóes. em Paris.que nao é obviamente natureza* . A descoberta-invencáoconsrrucáo do fermento láctico exige que cada um dos artigos de sua associacáo receba o status de mediacáo'". porém.a num fenómeno que "nunca" existirá "ern lugar nenhum" do mundo. 1992. da ~ a~ralOdust~la e da medicina. isto é. de um experimentador medíocre. A dificuldade encontrada por Pouchet em reproduzir os experimentos de Pasteur foi vista como prova contra as pretensóes desee último e. nós eliminamos algumas dificuldades artificiais apenas para deparar com outras mais enganosas. no experimento do "pescoco de CIsne (tubo em 5J". Um invólucro espácio-temporal para as proposicóes Se eu quiser trazer a pergunta llande estavarn os fermentos antes de Pasteur?" para a esfera do senso comum. como eu. se o leitor reproduzir o experimento de Pasreur de maneira defeiruosa por nao passar. porranro. sao mais frescas e realistas . O éxito de Pasteur em retirar o fenómeno comum de Pouchet do esp'a~o-tempo t~queria urna extensdo gradual e meticulosa da pránca laboratorial a cada terreno e a cada reivi ndicacáo de seu adversário: "F~nal~entell. de sorte que Pouchet detecrou a ocurrencia de geracáo espontánea ern seus frascos fervidos tao facilmente quanto antes. a rempo de nada serviria e a historia seria va. sobre Pouchet. Geison. Essesdebates sao tao conhecidos que vérn a calhar para meu pequena experimento em historiografia comparada (Farley. a negacáo de sua existencia por Pasreur existía unicamente nos estreitos confins de seu laboratório da rua de Ulm. transformando-a em algo que. ninguém se veria dianre de um evento". Moreau.e podem ser tratadas ernpiricamenre. oferecida por Pasreur . A geracáo espontánea representava uro fenómeno dos mais importantes numa Europa sem refrigeradores e outros recursos para preservar alimentos. 1995. representava agora a crent. . Quando Pouchet tenrou reproduzir esses experimentos em Ruao o novo material de cultura e as novas habilidades inventadas por' Pasreur revelaram-se frágeis demais para viajar de Paris aNormandia. e mesmo urna extensáo de cada um dos cinco circuitos do sistema circulatório da ciencia (discutido no capítulo 3). A nao ser assirn. posto houvesse sido urna ocorréncia comum durante séculos. fenómeno que qualquer um pode reproduzir facilrnenre em sua cozinha e que se tornou indiscutfvel depois da dissem inacáo do microscópio. ver Cantor. como prava da existencia do conhecidíssimo fenómeno universal da geracáo espontánea. vejamos alguns pormenores desse caso. nao como um leiro esrével sobre o qual a hisrória social se desencola e que só pode ser justificado pelo apelo a causas já presentes.lizada. Em parte alguma do universo . terei de mostrar que o vocabulário por rnim esbocado explica melhor a historia das coisas quando estas sao encaradas exatamenre como quaisquer outros eventos históricos. recorrerei aos debates entre Luís Pasreur e Félix Archirnede Poucher sobre a existencia da geracáo esponránea.

Quando um fenómeno existe "ern definitivo''. Os adeptos de Pasteur chamaráo a isso. topo as vezes com adeptos da geracáo espontánea que defendem a postura de Pouchet associando-a. nesse tipo de esquema.nada. deveríamos ser capazes de falar serenamente sobre existéncia reJativa*. no enranro. a história. os historiadores po?em ~ontar-nos algumas coisas divertidas sobre os motivos que induziarn Pouchet e seus adeptos a acreditar erroneamente na existencia da geracáo espontánea e sobre os motivos pelos quais Pasreur perambulou durante anos antes de encontrar a resposta certa. a geracáo espontánea de Poucher jamais terá existido em J¡¡. Existencia relativa significa que acompanhamos as entidades sem as comprimir.gar nenhum do mundo. isso nao quer dizer que existirá eternamente ou independentemente de toda prática e disciplina. todos os dias. nao se . da referencia circulante que come\amos a acompanhar no capítulo 2. mas sua simples presenca consritui um indicador interessante de que o "finalmenre" gra\as ao qual os filósofos da ciencia puderam. tinh~ de se: ensi. a ascensño do Parrido Radieal. terá sido mera ilusño o tempo todo. o mesmo fenómeno que amparou as pretens6es de Pouchet reaparecerá. nesse tipo de interpretacáo. mas é o tipo de existencia que os esrudos científicos gostariam que as proposicóes usufruíssem. entranhada. Para os cientistas. E nao apenas brutal: ele ignora também a quantidade de trabalho que ainda precisa ser feita. livrar para sempre o mundo das entidades que se haviam revelado erroé a é neas é excessivamente brutal. Mesmo em nossos dias ainda podemos encontrar alguns bonapartistas. "Se utr'1' . como a microbiologia. na obscuridade sob Napoleáo IlI. que o estudo das eras prístinas da vida. a lenta expulsáo da geracáo espontánea de Pouchet por Pasteur nao significa que ela nttnca foi parte da natureza. nao há Dia de Descanso! O que me interessa aqui nao é a acuidade desse relato e sim a homologia entre a narrativa da disseminacáo das habilidades microbiológicas e aquela que reria descrito. e querem reescrever a história sem jamais conseguir publicar seus ensaios "revisionistas". mas por toda urna geracáo de técnicos habilidosos. A queda de Napoleáo III nao significa que o Segundo Império jamais existiu. Afinal de contas. Entretanto. por exemplo. agora para a historia. para a proerninéncia durante a Terceira República. entáo a decisáo sobre quem perdeu e quem ganhou tornar-se-ia novamente incerta. que tem de ser monitorada e protegida com o máximo cuidado. mas o rastreamenro desses ziguezagues nao nos daria nenhuma inforrnacáo essencial a respeito das entidades em apre~o. Os fermentos de Pasteur transportados pelo ar. a padronizacáo e a disciplina aprendidas nos laborarórios pasreurianos tivessem de ser interrompidos. prebiótica. Assim também. obviamente. como desapareceu a Terceira República em junho de 1940. no primeiro modelo. estiveram sempre ali e em todaparte. nem o aparecimenro dos motores diesel significa que eles iriio durar para sempre. nao se lhe concede ter feito parte da populacáo de entidades que constituem o esp~o e o tempo. Assim. "contaminacáo'' .e se eu escrever um artigo corroborando a posicáo de Pouchet e revivendo sua cradicáo com base em minhas próprias observacóes. Embora forneca informacáo sobre a subjetividade e os passos dos agentes bsmanos. em algum momento da historia. para ativar a versáo "definitiva" da história. ou a aplicacáo de motores diesel aos submarinos. sendo membros bona fiele da populacáo de entidades que constiruem o espa~o e o tempo. por falta de investimenros suficientes na cultura democrática que.microbiología. Certamente. o Partido Radical desapareceu. Nao há na história nenhum ponto em que urna espécie de forca inercial possa assumir o trabalho duro dos cientistas e transmiti-lo a erernidade. praticada. digamos. em rzarmos tars expressóes. Sempre é perrgoso rmaginar que. "ero parte algumal!. da mesma forma. o mau experimentador. se o corpo coletivo de precaucóes. Tanto os bonapartistas quanto os defensores da geracáo espontánea foram levados a parede. preservada. "sempre" e "em toda parte. espremer e seccionar com as quatro expressóes adverbiais "nunca". na metafísica da história que desejo pór no lugar da tradicional. nao apenas por mim. a inercia basta para preservar a realidade de fenómenos que só com muita dificuldade foram produzidos. ninguém o publicará. enquadrar. Urna sociedade que já nao soubesse cultivar micróbios e controlar contarninacóes se veria em apuros para dirimir a causa dos deis adversários de 1864. mas que foi inserido numa instiruicáo de massa muiro dispendiosa. Essa outra extensáo. Talvez esse nao seja o tipo de existencia que os guerreiros da ciencia desejam para objeto da natureza'". embora sua chance de alcancar a presidencia seja nula.

partidos radicais e imperadores. decencia. na inércia gratuita da a-historicidade. moralistas e epistemologistas recearáo que fiquernos para sempre incapacitados de qualificar a verdade ou a falsidade das assertivas. Nenhum deles é capaz. de uro mal necessário que. Porém. Para os estudos científicos. esquecem-se de pagar o prefo da manutencác das insriruicóes necessárias para que os fatos continuem a existir e confiam. mesmo se lhe for concedido muiro rempo.. na opiniáo dos dais guardas do tesouro. Se purgarmos nossos relatos das quatro expressóes adverbiais absolutas. antes.cro* esPddo-tempora! das proposicóes. Perigosas porque. o velho acordo limita a historicidade aos sujeitos e despoja dela os nao-humanos. a hisroricidade é assegurada apenas aos humanos. para quem a sociedade civil desmoronaria caso nao mais fosse suportada por seus nobres espinhacos e passasse a responsabilidade dos ombros humildes dos plebeus. Ao solicitar que urna entidade exista ou. moralidade e natureza. rnais precisamente.ou.em parte alguma e nunca. com o problema político que está em jogo e é ainda mais grave. enquanro a natureza vai senda periodicamente escoimada de todos os fenómenos nao-existentes. ande sempre esteve e já nao pode ser alcancado por nenhuma espécie de revisáo. como tal.aplica a nao-humanos. nos capítulos 7 e 8.. A demarca~iio* entre o que rem e o que nao tem historia representa. retirar da historia e da localizacáo todo fato que se revelou carrero e armazend-io na seguranca de urna narureza* nao-histórica. como eu disse. ocupando espa~o e tempo definidos. Fecamos. possuindo uro pouco de realidade. engolfando ao mesmo tempo democracia. Que fazem o Fafner do nunca-ern-parre-alguma e o Fasolt do sempre-ern-toda-parte . Mas. gabam-se os gigantes.. a história nao passa de um meio provisorio. os historiadores. esses sao os meios típicos de delimitar aquilo que chamarei de invó!l. nao entre aqui em questáo . um modo sustentado de existéncia para os fatos. para eles. segundo eles.' . Mas por que parece tao difícil dividir a história igualmente entre todos os atores e tracar a volta deles o invólucro de existencia relativa sem adicionar ou subtrair alguma coisa? Porque a história da ciencia.. para os humanos. a demarcafao é inirlúga da diferencia~¡jo*. Como se sabe. a fim de mostrar quáo nitidamenre podem eles ser discernidos desde que nao estejam demarcados. como a história propriamente dita. nao podendo por isso ser diferenciados. está enredada num problema moral que precisamos atacar primeiro . entretanto. por exemplo. de levar os ourros a naoexistencia.. senso comum." ) . é ainda mais eficiente quando renunciamos ao jactancioso e vazio privilégio que eles querem que os nao-humanos tenham sobre os acontccimentos humanos. o que é mais importante. de ter acesso a natureza naohistórica: trata-se de uro intermediário conveniente.. nao deverá ser. localizados e ternporais.entrará no próximo capítulo -. Segundo essa visáo demarcacionista. contingentes. contrária as reivindicacóes de nossos rebarbarivos guardas. Os historiadores cornuns parecem fazer um trabalho muito melhor do que os epistemolog isras eminentes ao preservar as diferencas locais cruciais. t~ .. ou sempre e em toda paree.antes de nos haverrnos. Sem sua ajuda. o mapa dos destinos das prerensóes de Pouchet e Pasteur. as pretensóes de Pasreur e Pouchec. pode ser útil fornecer um modelo rudimenrar das proposicóes e articulacóes que se valem das ferramentas desenvolvidas para o acompanhamenro de projetos* tecnológi- . Nao há nada mais fácil que diferenciar. que tenha existido . Embora a tecnologia. em pormenor. a chave da virtude. Parece que a mesma demonsrracáo pode ser levada a cabo para diferenciar os invólucros espécio-temporais exibidos pelos estudas científicos quando redisrribuern a arividade e a historicidade entre todas as entidades envolvidas. sao ao mesmo tempo inexatas e perigosas. Essas reivindicacóes. Por isso. que rosnam arneacadoramenre esses dais gigantes encarregados de proteger o tesauro na saga dos Nibelungos? Que os esrudos científicos perfilharam uro relativismo singelo ao clamar que rodas os argumentos sao históricos. existindo de alguma forma. Os dais gigantes cornportam-se como os aristocraras franceses do século XVIII. mais exatamenre. A única maneira de escapar ao relativismo é. Essa diferenciarño. a sociedade civil é mais bem conduzida pelos ombros numerosos dos cidadáos do que pelos contorcionismos a Atlas daqueles pilares da ordem cosmológica e social.. e caneando com antecessores e sucessores. elas sao carnbérn inexatas.[ " .. somente um mar indiferenciado de reivindicacóes igualmente válidas surgirá. embora feitas com muira freqüéncia.

é obrida por meio de um número ainda maior de elementos aos quais está associada . Essa diferenca é tao grande quanto a relacáo entre o segmento curto a esquerda e o segmento langa a direita. estados de coisas tornam-se fatos e. Nao é urna dernarcacáo absoiuta entre o que nunca e o que sempre existiu. tempo t + 2. na versác n + 2. é versáo n.embora fenómenos bastante conhecidos como registro. de Pasteur. chamada programa.máquinas. tempo t Associacóes E Geracáo espontánea (Pollchet) :) O versáo n-el . tao importante para nossos deis gigantes. tem de dispersar associados e colaboradores (humanos e nao-humanos). A diferenca.'5:] oC V"> ~ '" :ª" ~ versáo n+2. ao contrario. A geracáo espontánea de Pouchet torna-se cada vez menos real e o método de cultura de Pasteur torna-se cada vez mais real após sofrer inúmeras rransformacóes. isto é. vistas como suas colaboradoras. E e OU. manuais. pois ambos sao relativamente reais e relativamente existentes.:ao A Suponhamos que urna entidade seja definida por um perfil associativo de outras entidades chamadas atores. entre a realidade ampliada de Pasreur e a realidade contraída de Pouchet pode ser agora adequadamenre visualizada. "l' :1": " Exposi¡. a história da tecnologia é bem mais "solta'' do que a da ciencia. Como já vimos.1. quantos elementos de urna associacáo precisam ser modificados para permitir-que outros elementos ingressem no projeto. Na base da figura 5. a existencia nao é urna propriedade do tipo rudo-cu-nada. INSTITUTO DE PSICULüGIA . sao mais frágeis porque perderam quase toda a sua realidade. Suponhamos também que esses atores sejam tirados de urna lista que os dispóe. a-bistoricidade e naturalidade . em ordem alfabética. socializacáo. isto é. Assim. a realidade dos gerrnes transportados pelo ar. isto é. quantos elementos se junram em dado momento.ur""':l! R1RL\OTECA . Os historiadores dos sistemas técnicos sabem que podern ter seu bolo (realidade) e come-lo (historia). Em seguida. Os mesmos termos podem ser aplicados as pretensóes de Poucher que.= lempo t+ 1 . tempo t+2 Germes transportados pelo ar + cultura + contarninacáo (Pasteur) Reuniáo de elementos humanos e nao-humanos " Figura 5. padronizacáo e treinamento pudessem explicar os meios inconsúteis e corriqueiros gra~as aos quais eles seriam preservados e perpetuados. Perde em realidade quando. que desmantelam ou ignoram a associacáo em apre)"o. instituicóes.coso Já que nao existe nenhuma dificuldade metafísica importante em conceder aos motores diesel e aos sistemas de metro urna existencia apenas relativa. Na figura 5.1 A exisréncia relativa pode ser mapeada de acordo com duas dimensóes: associacáo (E). por exemplo. O resultado é urna curva na qual toda modificacáo nas associacóes é "paga" por um movimenro na ourra dimensáo. possibilidades. em seguida. até onde a existencia relativa esteja em jogo. essa figura nao inclui urna etapa final ancle os historiadores sejam superados. que cada associacáo. . mas urna propriedade relativa concebida como a explorarao de um espaco bidimensional feito de asscciacáo e substituicáo. instirucionalizacáo. e subsriruicáo (OU). gestos. subsistentes. recrias etc. Jamais dizemos "existe" ou "náo existe" e sim "esta a historia coletiva implícita na expressáo geracáo espontánea 011 germes transportados pelo ar''. com a entidade entregue a eternidade por inercia. tenha a neutralizá-la os anciprogramas*. Urna entidade ganha ern realidade quando é associada a muitas curras.\. taxoncrn ias.

"os cabeleireiros nao tém urna panacéia para a calvfcie''. enguanto a horizontal corresponde ao número de atores que se ligaram a inovacáo (convencionalmente. Qual é a esséncia do ar? Todas essas associa~oes. porquanro as Monranhas de Duro. Ternos agora de definir duas dimens6es que se cruzam: a associacáo" (semelhante ao sintagma* lingüístico) e a substitui~ao (ou paradigma* para os lingüistas).' . mas a lista de todos os sintagmas ou associacóes do elemento. que será nosso eixo horizontal. em tempo (1) e a versáo (2). Qualquer inovacáo será tracada tanto por sua posicáo nos eixos E-DU quanto por cornparacáo com o registro das posicóes E e OU que sucessivamente a definiram. imperador da Franca. "os filósofos lingüistas gostarn de empregar a frase 'o arual rei de Franca é careca'". digamos que cada elemento. Essa definicáo náo-cssencialista permitirá uro amplo leque de variacóes. os gatos no tapete e outros cisnes negros ou corvos brancos ocuparáo o rnesmo espaco-ternpo que Harnler. ou seja. lemas esses diagramas de cima para baixo). comparamos essa versáo com outras e "calcularnos" a estabilidade da associacéo em outros sintagmas: "Napoleáo 1I1. o programa ABC se rransforma em ABCDE.. A fim de simplificar. A dimensáo vertical corresponde a explcracáo de substituí~5es. . essa abertura da realidade a qualquer entidade parece desafiar o bom senso. chamado instiruicáo". de acordo com urna progressáo semelhante a da figura A. por exernplo "0 atual imperador da Franca é careca''.. o flogístico. por convencáo. pode ser codificada assim: A fim de trazer F para o programa. os buracos negros. "experimento do 'pescoco de cisne" e "gerrnes''. "0 presidente da Franca é careca". que será nosso eixo vertical. os unicornios. Os elementos que foraro dissociados após as múltiplas versóes perderam a existencia. Se substituirmos. em rempo (2). Quanro adinámica da narrativa. para acompanhá-lo (Larour. a fim de passar do antiprograma para o programa. guando associada a "Ruáo'' e "geracáo esponránea''. podemos considerar isso a dimensáo E. urna etiqueta. os reis calvos de Franca. é diferente do gue quando associada a "rua de Ulm". Mauguin el al. exija alguns elementos para abandonar o programa e outros. Quem é o im perador? Todas essas associacóes. e a dirnensáo OV. significará "transporte de forca viral" num caso e "rransporre de oxigénio e transporte de germes pela poeira" em outro. a gera\ao espontánea. entre a versáo (1). pois.. tern bigode". com os quais já esteve duradouramente associado. assim como urna palavra é definida pela lista de seus ern pregos: "ar". todos os diferentes atores por diferentes letras.. ser codificada assim: do ponto de vista de X.E (1) ABC 121 ABCDE 131 EFG 141 FGH 151 GHIj 161GHljK 171 IGHIjI KL 1811 . as quimeras.1 KLMNOPQ OU Figura A. Mas rambém o imperador será diferente quando associado por Pouchet a "apoio ideológico da geracáo espontánea para preservar o poder criarivo de Deus" e por Pasteur a "ajuda financeira dos laboratórios sem envolvimento dos temas da ciéncia". considera-se que os elementos unidos "existern": podern ser registrados juntos e receber urna idenridade.l Finalmente. Para fazer um juízo sobre a existencia ou nao-existencia relativa de urna associacáo. A exrensáo das associacóes e a estabilidade das conexóes ao langa de diversas substituicóes e mudances de ponto de vista explicam suficientemente o que entendemos por existincia e realidade. Essa equanimi- . ABen precisa sair e G precisa enrrar. Para definir urna entidade nao se busca urna esséncia nern urna correspondencia com urn estado de coisas. Popeye e Rarnsés 11. Toda narrativa histórica pode.1. A primeira vista. Depois de muitas dessas versóes. 1992). o que propicia a versáo (3) em tempo (3): EFG. como é o caso do sintagma [GHI]} depois da versáo (7). poderemos tracar o caminho tomado por urna enridade.

Entretanto. tal crítica) no entanto.haja vista que ele goza de certo prestígio junto a irnprensa popular antibonapartista -. Toda entidade urna exploracáo desse tipo . Mais exatamente. parecia nao haver meio de ele manter. o século XIX. ovos aparecendo de novo. o catolicismo.. A história da ciencia nao documenta a viagem. todos os seus atores unidos numa única rede coerente: protestantismo) republicanismo. mas perder a Academia e conquistar a imprensa popular de oposicáo. o equipameoto do museu de história natural de Ruáo etc. os novos elementos nao iráo necessariamente adaptar-se aos antigos.'. Suas associacóes podem ser ampliadas .será urna entidade d~ferente.. embora nao raro a filosofia se prestasse a inventar semelhante tribunal (ver capítulo 7).. Para associar elementos nurn todo durável e assim gaohar existencia. o/' . nao pelos frascos de Pasreur ou por preocupacóes de somenos. "~' . republicanismo. de quem tem a ver com o que. um sintagma consrituído por compromissos variáveis. urna proposicáo do que tem a ver com o que. frascos de fervura. sua entidade .' . trabalhando em Ruáo. mas a sua é urna associacáo de elementos que. nao de urna correspondencia direta entre urna assertiva isolada e um estado de coisas. caso ero que haveria uro movimento descendente na figura . teologia protestante. Se nao o conseguir.' .no sentido lingüístico. Nao nos esquecamos de que Poucher nao está fazendo ciencia periférica. Pouchet tem de aprender boa parte da prática laboratorial de seu adversário a fim de atender as exigencias da cornissáo nomeada pela Academia de Ciencia para dirimir a disputa. Ao enfrentar a oposicáo de Pasteur. ".dade parece sem dúvida excessivamente democrática para evitar os perigos do relativismo. esquece que nossa definicáo de existencia e realidade é extraída. ele precisa modificar a lista que constitui seu fenómeno. substiruicáo Oll translacáo significa urn movimento para cima ou para baixo da dirnensáo vertical da figura 5. Tal movimento implicaria aceitar muito do que os gigantes exigem. ' ". imutável.a geracáo esponránea . Pasreur também explora o coletivo do século XIX. um paradigma* . seu talento como historiador natural. sua teoria da criacáo catastrófica. a intolerancia e a hegemonia da química sobre a história natural. Esse diagrama sucinto das narrativas pretende únicamente chamar nossa atencáo para urna alternativa que nao renuncia aos objetivos rnorais da diferenciacáo: cada existencia relativa possui apenas um invólucro típico. é no comccc constituida de vários elementos: experiencia de senso comurn. urna teoria geológica das criacóes múltiplas. Ela nao é urna substancia que atravessa. Pouchet altera muitos desses elementos. A segunda dimensiio é aquela que captura a historicidade.e poderia registrar-se um desvio para a esquerda devido afalta de associacóes entre os elementos recém-t'recrurados''. Os estudos científicos documentarn as modificacóes dos ingredientes que comp6ern urna articulacáo de entidades. um experimento. nao há urn tribunal superior acima do coletivo e além do alcance da hisrória. é urna série de associacóes. mas sendo empurrado para a periferia. Para desalento de Pouchet. Cornecará entáo urna batalha feroz contra a ciencia oficial. ao longo do tempo) de urna substdncia preexistente. mas nao mais contará com o esperado apoio da Academia. . nao kuhniano do termo . mas de urna assinatura única elaborada por associacóes e substiruicóes através do espa~o conceitual. diferem arné é é " . perderá o apoio da Academia em Paris e terá de confiar rnais e mais nos cientistas republicanos da província. Como os estudos científicos tantas vezes demonstraram. Cada alreracáo. A geracáo espontánea de Pouchet.urna série de eventos. Na época) Pouchet quem parece capaz de controlar o que científico insistindo em que os "grandes problemas" da geracáo espontánea deveriam ser abordados sornenre pela geología e a história do mundo. se ele quiser preservar o conjunto terá de mudar de público e conceder a sua associacáo um tempo-espa~o completamente diferente. a Academia. a bistoria coletioa é que nos permite avaliar a existencia relativa de um fenómeno.que explora aquílo que o colerívo oitocentista pode suportar.por causa da subsri tuicáo .1. de quem tern a ver com quern. do que tem a ver com quemo Se Pouchet aceitar os experimentos de seu adversério. Por exemplo. por exernplo. historia natural) habilidade em observar o deseovolvimento do ovo. antidarwinismo.. Ao compromisso entre associacóes e substituicñes chamo de exploralao do coletno. no comeco.

a agricultura nao mais se interessará pela prática laboratorial. Nessa breve descricáo.pi amente dos de Poucber. outro para a fermenracáo táctica. como alega Pouchet. nao trato Pasteur diferentemente de Pouchet. um laboratório novo em folha. Os microrganismos anriLiebig e anri-Poucher aurorizaráo Pasteur a sustentar a causa da termentacác viva e a especificidade dos fermentos. Esse novo sintagma* inclui inúmeros elementos: urna modifica~ao do vitalismo contra a química. e a própria contarninacáo terá de ser reformatada para tornar-se a génese das novas formas de vida observáveis ao microscópio. com muitas conex6es com a agricultura baseadas na ferrnenracáo. como vimos no caso de joliot. a taxonomia dos micróbios e os projetos agroindustriais. cada qual com sua especificidade . pois. Liebig estará certo ao dizer que Pasreur retrograda ao vitalismo. imperadores. como veremos mais tarde.. coro cada um de seus movimentos modificando a definicáo das enti- dades associadas: o ar e o imperador. Se os fermentos que Pasteur está aprendendo a cultivar ern diferentes meios. Ele mal comeca a combater a teoria química da fermenracáo. em Lille. germes ou ovos aflorando a existencia . Tarobém Pasteur explora. fermentos. para a dicotomia sujeito-objeto. o uso do equipamento de laboratório e a inrerpretacáo de conservas (isto é. urna posicáo. como vimos no capítulo 4. o que tern a ver com quem e quem tem a ver com o que. nao eram os mesmos elementos. que discutimos no final do capítulo 3. mas. alguns experimentos para extrair vida de material inerte. Trata-se de urna vantagem decisiva. outro ainda para a fermenracáo butírica -. A dúvida acerca da distincao entre contexto e conteúdo. urna viagem tortuosa para chegar a Paris e a Academia etc. A msntuícao da substancia Mostrei que podemos esbocar os movirnentos de Pasteur e Pouchet de forma simétrica. Existem inúmeras dificuldades filosóficas nessa maneira de raciocinar. negocia. e assim por diante.por exemplo. quem tem a ver com quem. isso constituirá entáo o fim da associacáo das entidades que Pasteur já reuniu. sintagmas e paradigmas. puderem também aparecer espontáneamente. de Liebig. instrumentos. com mitos e fantasias. como se o primeiro estivesse lutando com fenómenos reais nao-contaminados e o segundo. j. que compensa os defeitos possíveis. Todo conjunto que comp6e urna versáo na figura A. tao fortuita quanto adela mesma. os termos que empregarmos para descrever associacóes humanas e nao-humanas. Mas as associacóes que ele escolhe e as substiruicóes que ele investiga geram uro conjunto socionatural diferente.l é urna lista de associacóes heterogéneas que inclui elementos humanos e nao-humanos.. perminndolhe conrrolá-Ios e cultiva-los dentro dos limites altamente disciplinados e artificiais do laboratório. Quanto menos familiares forem. :'" . melhor.um para a ferrnentacáo alcoólica.ao. Que ganhamos nós com semelhante movimento? Por que deveríamos preferir a explicacño dos estudos científicos sobre a existencia relativa de todas as entidades a nocáo de urna substancia eterna? Por que o acréscimo do esrranho pressuposto da historicidade das coisas a historicidade das pessoas iria simplificar as narrativas de ambas? A primeira vantagem é que nao precisamos considerar certas entidades . Nao há outra maneira de obter realidade. ela apresenta a grande vantagem de nao exigir de nós a estabilizacáo nem da lista que constitui a natureza nem da lista que constitui a sociedade.como coisas radicalmente diferentes de uro contexto de colegas. Entretanto. e colocando-o prontamente em con tato coro a Academia de Ciencia e a agroindústria. que nada tern a ver com a descricáo exata da prática científica. Ambos fizeram o melhor que puderam para manter unidos tantos elementos quanros conseguissem e assim obrer realidade. culturas num meio puro se revelaráo impossíveis devido a contaminacáo incontrolável. d inheiro. alimentos conservados). recuperando tantas diferencas entre eles quantas quisermos sem utilizar a dernarcacáo entre fato e ficc.." . natureza* e sociedade" sao os artefatos de um mecanismo político inteiramente diverso. tem agora a metafísica de sua arnbicño. Também ofereci uro mapa rudimentar a fim de substituir juízos sobre existencia ou nao-existencia pela cornparacáo dos invólucros espécio-remporais obtidos do registro de associacóes e subsriruicóes.. um reemprego de habilidades cristalográficas como semeadura e cultivo de entidades. habilidades manuais etc. renta descobrir o que tem a ver com o que.

ao pode agora ser analisada pela primeira vez. considerando que Pouchet tateia no escuro a cata de entidades nao-existentes. que contaminam as culturas microbianas. a psicologia e as pressuposicóes de Pasreur e Pouchet. A dernarcacño pode ser reaplicada com toda a seguran<. "Está esquentando". Essa vanragem é importante porque nos permite continuar qualificando. a similaridade nao implica que Pasteur e Pouchet esrejam urdindo as mesmas redes e parrilhando a mes- ma história. o imperador. Vista da perspectiva da Academia de Ciencia. é que nao precisamos tratar os dois invólucros de maneira assimétrica.as ao trabalho de Pasteur. gra<.final local e provisório -. os colegas etc. conforme indiquei. O que está em jogo em cada um dos dais conjuntos é o que Deus. os historiadores tarnbém nao precisam imaginar um século XIX único. Em suma. Deus e a posicáo. mas o mesmo ocorre a Pasteur.a as pequenas diferencas entre as entidades as quais Pasteur e Pouchet se associam. o prodllto da lenta diferenciacño dos dois conjuntos. que fica agora diferenciado. Acompanhar ambas as redes ero pormenor nos levaria a definicóes completamente disparatadas do coletivo do século XIX. Siro. os ovos. independentemente dos problemas suscitados pela descricáo de um evento. e aoar. a implernentacáo da linha de demarcac. . em si mesma. Isso é verdadeiro para o fermento do ácido láctico. Quando dizemos que Pasteur derrotou Pou~ chet e que desde cntño os germcs transportados pelo ar esrño "ern toda parte". no capítulo 9. libertamos a di íerenciacáo de seu seqüesrro por um debate moral e político que nada tinha a ver com ela. Agora podemos comparar os dois "campos ampliados" sern estabelecer . A segunda vantagem . no final das ccntas . o imperador. As associacóes reunidas por ambos os protagonistas sao similares apenas porque cada urna tece uro invólucro espácio-temporal que permanece local e temporalmente situado. convictos de que haviam dermbado a "diradura'' química de Pasteur (chamavam-na assim) toreando-a a refugiar-se na frágil fortaleza da "ciéncia oficial". situando e historicizando até mesmo a extensdo de urna realidade "final". Os elementos das duas assocracóes quase que nao apresentam intersecáo . a matéria. Todo elemento tern de ser definido por suas associacóes e constitui um evento criado por ocasiño de cada urna dessas associacóes. os recipientes. esse "em toda parte" pode ser documentado empiricamente. mas com um bónus adicional: a linb¿ de dmldTCafdo d41niti1kl onde a hútóricl pdrdvd e a ontologia natural a . o laboratório da rua de Ulm. O involucro espácio-temporal da geracéo espontánea tem limites tao precisos quanto os dos germes transportados pelo ar. tanto quanro para a cidade de Ruáo. e empiricamente observável. podem fazer. Julgavam ter dominado o campo. que se torna o vencedor de Poucher.é. A diferenca entre Pouchet e Pasteur nao é que o primeiro acredita e o segundo sabe: tanto um quanto o Olltro esráo associando e substituindo elementos. embora Pasteur e seus colegas pensassem o mesmo. de que modo essa simetría poderá ajudar-nos a superar a nocáo impossível de crenca. mas nao a grande diferenca entre crentes e sabedores. Mas partidários da geracño espontánea ainda continuaram a existir por muito tempo.Assim como nao sao obrigados a imaginar urna natureza única sobre a qual Pasteur e Pouchet teceriam diferentes "interpreracóes''. Os fermentos transportados pelo ar sao profundamente modificados pelo laboratório da tua de Ulm. e testando as exigencias contradirérías de cada entidade.wbrtitltÍa desaparecen.' . Nao há dificuldade ern reconhecer as diferenras entre as duas redes depois que se aceita sua similaridade básica.incomensurabilidade que parece tao importante para emitir um juízo ao mesmo rempo moral e epistemológico .as ao célebre experimento do "pescoco de cisne". ao passo que Pasteur se aproxima aos poucos de urna entidade que brinca de esconde-esconde enguanto os historiadores acompanham a busca com advertencias do tipo "Vecé está frio''.afora o cenário experimental desenhado por Pasteur e assumido por Poucher antes de ele fugir das pesadas exigencias da cornissáo da Academia. 193 . O abismo entre as pretensdes que nossos dois gigantes nos obrigaram a admitir sob pena de castigo está de fato ali. em meio que transporta oxigénio e rneio que carrega poeira e germes. Isso significa que a incomensurabilidade das duas posicóes . grac. as posicóes de Pasteur e Pouchet se tornaram incomensuráveis. a geracáo espontánea desaparecen em 1864. que imprimiria sua marca nos atores históricos. poucos dos quais sao similares. "Agora está pegando fogo''! Veremos. Como veremos nos capítulos finais desre livro. Em terceiro lugar.

.1 .e que eles sao delineados por um invólucro ésp<icio-temporal ~rec~­ so. mas eu escou vivendo dentro da rede pasteuriana sempre que tomo iogurte pasteurizado.te~3. aqueles para quem o esforco de preservar as instituicóes da verdade pode Ser inrerrompido sem riscos ele passarem por modelos de moralidade. depende daquilo que eu fizer dele hoje (Stengers. no m. mas de.undo de Pasreur ou no mundo de Poucber? Nao ser quanro ao [eitor. participo da vitóna "final'' de Pasreur sobre Pouchet. que iria afastar para. no sentido kuhniano -. para justificar até mesmo urna vrtona duradoura a nao precisamos atribuir extra-hiscoricidade a um programa de pesquisa como se de repente. Em ourras palavras.o con~ra. mas ele é mais bem esclarecido. bem o sei. mas destu feíta nao espontanearnenre. preserv~m a extensáo da geracáo espontánea. Mais tarde compreenderemos de que rnaneira eles realizaram esse truque e conseguiram virar as mesas da moralidade em cima de nos. Declarar que semelhante vitória nao exige nenhum ollero trubaiho. Eles simplesmente foram tendo cada vez menos elementos em comum. nenhuma ourra acño e nenhuma curra insriruicao seria insensato. pela noc. ao invés de me abster ou nao tirar () título de ele-i ror.ao para esse problema formular a pergunta da seguinte maneira: ero que mundo estamo. Talvez achemos esse raciocínio difícil porque supomos que os micróbios devam ter mais substancia que a série de suas manifestacóes históricas. "invencáo''. Esse remanejamento da nocáo de substancia e Importante porque toca num panco muito mal explicado ~e~a historia d~ ciencia: de que modo os fsnómenos amtinnam ti extsttr sem urna Iei de inércia? Por que nao podemos dizer que Pasteur esrava cert?e Pouchet errado? Bem. provincianos e historiadores naturars que tém acesso imprensa anribonapartisra popul~r. Republicanos. Basta-nos prosseguir hisroricizando e localizando a rede. nas guerras de ciencia. ~lm Jl(pfemento na no. da mesmu forma qUé' participo da vitória "final" dos modos republicanos sobre os modos autocráticos de governo votando no próximo pleito presidencial.ao de i~sti~ui~a?*. Posso dizer sirnplesmente que herdei os microbios de Pasreur. era dita- é 194 195 . Aquilo que foi um evento deve continuar a se-lo.urna diferenca entre "paradigrnes'' incompatíveis e inrraduzfveis aqui. com efeiro. num dado ponto. Afirmar que o "sernpre e em toda parte de tais eventos cobre por intei ro o campo espacio-temporal seria. a pronta resposta que dei no início deste capítulo a pergunta IIO S micróbios exisriarn antes de Pasreur"? Sustentei que minha resposra. um exagero. Nesse sentido. Talvez estejarnos prontos a admitir que o conjunto de desempenhos permanece sernpre no interior das redes . esperando no Céu para ser implantada no ventre de A~a quando chegasse a hora. para descobrir qllem é' o que irá formar seus descendentes. "Claro que nño". Quem os fez assim foi a série de associacóes e suosriruicóes de cada um dos dais conjuntos de protagonistas. por seu rumo. inúmeras ponras soleas nesse uso generalizado das nocóes de evento e proposicño em lugar de expressóes como "descoberta". o enigma da causacao retroativa Ainda há. Dezenas de laboratórios de rmcrobiologia expttlsartt a existencia da gera~ao espontfinea da na~ureza e reformaram o fenómeno do qual ela era constituida mediante as práticas gemeas do meio puro de cultura e da pro. por assim dizer.ao de substancia." . "fabricacáo" OH "construcáo''. que SOl! descendente desse evento .sempre Paste~r de Pouchet. O escándalo nao consiste no fato de os estudos científicos pregarem o relativismo.s vi~end~) agora. Afastemo-nos das redes atuais e definicóes completamente diferentes do iogurte. como a Virgem Maria no dogma da Imaculada Conceicao. Esses dais paradigmas nao sao. que irá.ao. ele nao rnais precisasse de manutencáo. . mas nao conseguimos suprimir a sensacác de que a subsráncia viaja com menos coacóes que os desempenhos. ter existido desde sernpre. 1993). a contaminac. Ele parece ostentar vida própria e. mas desde que expliciternos com toda a clareza e precisáo os mecanismos institllcionais que ainde operartt para conservar a assimerria entre as duas posturas.<.o qual. na melhor das hipóteses. Urna delas é a própria nocáo de construcáo (tirada da prática técnica). Há. Ourra. desconsrruir-se no próximo capítulo. A solu<. conforme sugen na primeira secáo desre capítulo. Ieire pasteurizado ou ~n:i~ióticos. lO~(~mpat1Vels.. mesrno antes da queda de Eva. do Ieire e das formas de governo apareceráo. podemos dizer isso.

as a sedimenra<. exa{a~ mente a últimacinnnstdmia que determina o t1I1Jm:g(j de. que agora InC¡ ' bios combatidos inconscientemente por pratlCus falhas e casualS ."l. texturas e associa~6es produzidos pelo ano de 1864 em 1864. treinamento físico. ~ut~os. Pasrcur remterpretou as práricas aurigas a urna nova luz. minar sm orga1llsmo la formacIo e pro nro I)ara se repro LUIr. 1862e 1861.da pelo senso comum. Minha solucáo. A ora é possível. apos o século I. Nao hri nada mais fácil de entender do que a maneica como os crisraos.':Cld A arte da fermentarán do ácido láctico torna-se urna cienlaborarório.adeqtlllda c~n­ rém uma substancia como o acúcar. e crja~-ao de lealclades e genealogias profissionais _ for ignorada. existem substancias que sempre est iveram por aí. controladas a vontade. .. Agora compreendemo.melhor a curiosa etimologia da palavra IIsubstáneia". 1988). Se essa gigantesca obra de retroadaptac. afirmando que o que safa errado na fermenra~~~ da cerveja.' 196 197 ./idr sua prodLl~'ao local para ourros rempos e lugares.o no e~paf().ao _ que inclui narrativa. mas a condicáo de serem o substrato de arividades. reda~'ao de manuais. como já vimos. a menos . Ele retroadajltoll o passado corn sua própria microbiologia: o ano de 1864.oes qumucas conforme a narureza desee ou daquele termenro. sobrerudo os historiadores da história (Novick. e o trabalho de retroudapldr. tanto no passado quanro no cspaco.'ao . os termes desses fermentos teudem todos a propagar-se ao mesmo temEm geral desenvolvem-se simultaneamenre. ternos agora dois significados práticos da palavra substancia*: a institLli~ao* que mantém unido um amplo conjunto de esrrururas. c~an~: Essa retroprodu~ao da historia constirui Uro traco bastante familiar aos historiadores.1 .¡ue urn do~ termenro~ invada o meio mais d. capaz de sofrer dlVe~as rrans or".Ilantesll de Past~u:~ Contrariamente a primeira impressáo.f1IbJtrato das acóes involuntárias de outras pessoas. nas trevas.lJed1lie~(~do(ck§ . mac.ao de instrumentos. Sim. fazenclo dos micróbios o . que nos vem apoquentan do nestes dois capítulos sobre Pasteur.a. . e~ outras palavras. é hisroricizar IDalS e nao menos. No laboratório. capaz de obnubilar a mente por um minuto ou dais. reformataram todo o Velho Testamento a fim de confirmar urna longa e oculta prepara~ao para o nascirnenro de Cristo. fabricac. gra<. as condicóes podem ser. para Pasteur.epressa que os. era a conraminacáo fortuita dos tonéis por outros fermentos. que considera um evento mais recente como aquilo qUé' ITsubjaz ll a um mais aotigo. Pasreur rcmterpretou as prat. Teneo simpliflcar esse ponto ao máximo na figura 5. mas possibilidade.. porém. de transformar urna enridaJe nova naquilo que J'lIbjaz a 011tras entidades. ~ 1".. q ue Pasteur fez foi produzir em 1864 urna nova versao d~s ~n~s .lcas antigas da fermenta~ao como urna busca. Portanro. Depois desse lapso de rernpo. Substancia nao significa existencia de um "substrato " durável e a-histórico por baixo dos atributos. mvasao ou . Como chegamos a essa Vlsao retrospeCClva do ~assa o. e sua extensao localizada e temporal permanece inteiramente amostra. Logo que es:a bilizou sua reoria dos germes transportados pelo ar.chamaram de d?en~a. elaborado dej)oiJ de 1B64. I Que significa dizer que havia micr~bios .ao do rempo. a reamcu lacáo " por Pasteur daquilo que curros antes dele . Talvez demoremos a manipular sem esfor<¿o to- . " s: ".sem '5 . enrño a pergunra "Os micróbios existiam antes de Pasreur?" assumirá um aspecto paralisantt.:a nos prot~~e~. Quer dizer. 11 1863. mas a um alto custo.o:. _ • saber do que se tratava . nao tinha os mesmos componentes. de entIdadIO des contra as quais podemos a~o. mas apenas ' d _ murna Iilusao de óptica bastante simples que desaparece quando o trabalho de ampliar a existencia no lempo e docll~enra a (~O e piricamente guarreo sua amplia<. passo encerrar o capítulo sem demonsrrar por que penso assim. a pergunra se torna empiricamente respondível: Pasreur também procurou dlll/. por exem~lo. Sempre que UO) líquido albuminoso de compo~i<. . Oll a maneira como as nac. nao existe nenhum miste rio metafísico nesse rnuito tempo "antes" de Pasteur. Disseminur germes num mero de cultura e r. atinar retrospectivamente com o que a agricultura e a indústria andavam fazendo sem saber A diferenca entre passado e presente é que Pas~eur domIn~u a c~lltura de organismos ao invés de se cleixar ma~lpular por e~ nómenos invisíveis. O "sempre e em toda parte ll pode ser alcan~ado. Foi exatamenre o que ocorreu a Pasteur. ulaum n.5es européias tiveram de reinterpretar a historia da Cultura alemñ após a Segunda Guerra Mundial.oe lemento' I mlcro' .2. Nao.

parte do conjunto que gera. nao implica idealismo ou causacío rerroativa. Se 1864 "de 1864" contém a geracáo espontánea como feriómeno geralmenre aceito.) d.p.'no. Nessa segunda dimensáo. ternos ainda um longo desvio a percorrer. ('JI)l ¡emwnto. no tempo. Um ano nao é apenas um algarismo numa série de números inreiros.~'mf.) Ci"llCI. ou seja.. E até possível dizer que as dificuldades em lidar com esses paradoxos aparentes sao minúsculas ero comparacáo coro a mais insignificante das apresenradas pela física relativista. pois. o engenheiro. há rambém urna porcáo do que acontecen em 1864 produzida detois de 1864 e que se torna.a residual na geracáo esponránea e um Pasteur triunfante.'mWlllo. 1864 1863 . mas talvez também urna revisño completa da polémica que. Se a ciencia nao houvesse sido seqüestrada para fins inreiramenre diversos.sempre se move para a frente (1865 vem e/e//I)i. Isso. Esse processo de sedimenraráo nunca acaba. o ano de 1865 é formado por tantos segmentos quanros anos decorreram a partir de entao.ra~. Pouchet vence U porque anrecipou alguos resultados da prebiótica. nao conseguiremos sacudir o fardo moral e político que o acordo modernista colocou de modo tao injusto sobre os ombros dos nao-humanos.in"'J e t.! de 18(4).p"nl. que registra a sucessño sedimentar do tempo.sucessáo linear do rempo . mwnt". porém. e m..l.2 A sera do tempo é a resultante de duas dimensóes. a sucessáo de anos. 1864 "el e 1866" incluí. retrospectivamente. (Oln enzllllol"gl. de redes científicas.l d" culo XIX . a seuunda dimensáo sucessáo sedimentar do rtmpo .2. '""'0 do tempo 1998 Com um ('lllilil" entre g.nao apenas urna nova e farra historiografia da disputa entre Pasteur e Pouchec. a maneira do rnestre dos labirintos: Dédalo. Esse confliro já nao existe um ano mais tarde.rn gerd(. Nesse sentido.. prehlúnca . Sem come~ar a refundir parte da filosofia da tecnologia e parte do mito do progresso.lo espontánea e .'Jo e.. leflllento~ e ". 1H64 "de 186Y' inclui ainda um intenso conflito a respeiro Jefa. No caso ilustrado pela figura 5. Exposir. urna cren<.. Antes. nao de urna: a primeira dimensáo ..-~7 Corn g.ll. é também urna coluna ao longo de urn segundo eixo.move-se para mis (18ó5 ocorre antes de 1864). estamos apetrechados para descobrir os motivos desse seqüestro e mesmo o escondenjo do culpado.'ine. C?ffiO nao há discrepancias em acompanhar sua exrensño no espaco. ao fim. a soma do que aconreceu no ano de 1864.!'.:ao B Um ano rem de ser definido ao langa de dais eixos e nao de um. de Pasteur. já lJue a seta do tempo sempre se move irreversivelmente para a trence.lúri. é ililo 111h4 de l'J'IK Segunda dimenséo: sucessño sedimentar do tempo Figura 5. desde enráo. nao atingimos o segmento super-ior da coluna Ljue conscitui o ano de 1864. 1864 acorre antes de 1865. porém.. Se avancarrnos 130 anos.1 (orn Movimento trreversrvcl mili.~-.!.das essas datas (e datas de datas).'ine.a '" . Mas nao é tuda o que se pode dizer a respeito do ano de 1864. Os nao-humanos nascem livres e esrño por toda parte encadeados. mas apenas a linha transversal lJUI: assinala a contribuicáo do ano de 1865 para a elaboracáo do ano de 1864. haverá ainda um ano 1864 "de 1998 11 ao qual foram acrescentados inúmeros traeos . ger<l~·Jo e.r. 198 199 . Primeira dimensáo: sucessño linear Agora que lobrigamos a possibilidade de estudar a prática científica.\o ""pont. O primeiro eixo registra a dimensáo linear do rempo.l do lempo SPIll gera.l"io ""pont.'!~--"7"-'..in". Quando fazemos a pergunra "Onde esrava o fermento antes c- de 1865?".!!~. depois que a comunidade científica aceitou em definitivo a teoria dos germes transportados pelo ar. mas nao há inconsistencia lógica em falar sobre a extensáo.'hi. nao teríamos nenhum problema em descrever o surgimento e o desaparecimenro de proposicóes que nunca deixaram de ter urna história.

Isso é tanto mais necessario quanto boa parte dos esrudos científicos recorre a nocáo de "construcáo''. portan ro. atores cabais em nosso coletivo. os gerrnes transportados pelo ar estiveram por aí o tempo todo". é claro. A a\ao técnica.. nos impinge quebra-cabecas tño bizarros quanro os implícitos na articuiacáo de fatos. a recria nao consegue capturar a prática. Tendo percebido como a teoría clássica da objetividade deixa de fazer jusrica a prática da ciencia. finalmente. pois o primeiro segmento da coluna que eonstitui o ano de 1864 inteiro ndo incluí nenhum germe aerotransportado. ejJiJleme. compreenderemos. IIPar onde andava Pasreur antes de 1822 (o ano de seu nascirnenro)?" . fazec conexóes. nao é urna forma absurda de idealismo. enfirn. if'" ". aceitar rerroadapracóes. pois. . Em seguida poderemos. a resposta será "em parte alguma". por motivos que só se tornado claros no capítulo 9. porém.. Se considerarrnos apenas a primeira. é preciso rrabalhar. Essa solucño implica tratar a extensáo no (eropo de maneira tao rigurosa quanro a exrensáo no espaco. a pergunra "Por onde andavam os micróbios antes de Pasteur?" nao levanta rnais objecóes fundamenrais que esta ourra.perguora que. é lícito afirmar sem contradicáo tanto que "Os germes transportados pelo ar foram criados em 1864" quanto que "Eles sempre estiveram por af" . compreender esses nao-humanos que sao. o que dá fumos de profundidade a pergunca "Onde estavaro os germes transportados pelo ar antes de 1864?" é urna confusño bastante simples entre a dimensáo linear e a dimensáo sedimentar do ceropo. como venho postulando desde o início. . a filosofia da recnologia nao é mais prontamente útil para definir conexñes humanas e nao-humanas do que o foi a epistemologia. tomada do ernpreendimenro técnico. Para se estar em roda parte no espa<. interconectadas e vascularizadas sao as sendas percorridas pelos fatos científicos. erráticas.. poderemos descobrir urna genealogia diferente rambém para os artefatos técnicos. e pela mesma razáo: no acordo modernista. que a única resposta fundada no bom senso é: "Depois de 1864.o e eternamente no tero po. Agora que os nao-humanos já nao se confundem com objetos. que condenariam os estudos científicos ao absurdo. me/h. já que boa parte dos Olleros segmentos sedimentares de 1864 inclu¡ esses germes. Sustento. A conseqüéncia. capitulo 6 Um coletivo de humanos e nao-humanos No labirinto de Dédalo Os gregos Jistinguiam o caminho reto da razáo e do saber científico. Agora que vimos quáo indiretas. tal vez seja possível imaginar um coletivo no qual os humanos estejam mesclados com eles. Se as resposras a esses pretensos quebra-cabecas forero rnuito direras. examinaremos agora por que a nocáo de "eficiencia técnica sobre a materia" de forma alguma explica a sutileza dos engenheiros. \.. a ninguém ocorreria fazer.1 ~" . por que nao vivernos numa sociedade que olha para urn mundo natural exterior ou num mundo natural que incluí a sociedade como um de seus componentes. no entanto.~. . Portanro. Conforme veremos. Nesse sentido. a pergunta já nao será por que levar a sério semelhantes "mistérios". ""'. mediadas.isto é. da vereda tortuosa e esquiva do conhecimento técnico. mas por que as pessoas os tomam por enigmas filosóficos profundos. na col una vertical que recapitula todos os componentes do ano de 1864 produzidos desde enráo.1 200 201 .

insuperáve1.é possuído pela tecnologia. Humanos e nao-humanos entrelacados Para entender as técnicas ~ os meios técnicos . "fértil em art imanhas") ilustra a perfeicáo (Détienne e Vernant. Nosso destino moderno _ a tecnologia . Procurarei. enquadrados por esse Geuell. solucionou o problema reproduzindo o ardil de Ariadne: arou um fio a urna formiga e. As linhas retas da filosofia de nada servem quando ternos de explorar o labirinto tortuoso dos maquinismos e das maquinacóes. superior. Cócalo abandonou Dédalo. isro é.e seu lugar no coletivo. conseguirá escapar. Dédalo é o melhor epónimo para a técnica . torna-se perigoso. um dos meios pelos quais o Ser se desvela. exigiu a exrradicáo de Dédalo para Creta. criminoso. igualmente triunfante. Dédalo. está enganado. ternos de ser tao erráticos quanto a formiga aqual Dédalo atou seu fio (ou como as minhocas que levavam a floresta para a savana. em oposicáo a Heidegger. mesmo as ciencias puramente teóricas. preciso definir. 1975). indllJiz'e seu suposro domínio sobre nós. cujo fim único é racionalizar e acumular natureza sem finalidade. com a ajuda das filhas de Cócalo e fingindo acidenre. sempre ern guerra com os tres reis que se tornam poderosos gra<. urna simples ferramenta. todas as coisas se desviam da linha reta.'" 203 . A NRA. oferece (o que " ~ ¡ . avessa a linha reta. Significará isso que as tecnologias medeiam a a~ao? Nao. Dédalo é um inventor de rontrafacóes: estátuas que parecem vivas. mas o rei Minos. Quando penetramos na esfera dos engenheiros e artífices. mas o rnaroto. A tecnologia é singular. mediante um exemplo simples e bastante conhecido.de ande. Triunfante.No mito de Dédalo. 1977). bom camarada. cozido como um ovo. (O rei morreu. nenhuma acño nao-mediada é possível. conseguiu desviar a água em ebulicáo do sistema de rubulacóes.e o conceito de daedalion é a melhor fertamenra para penetrarmos a evolucáo daquilo que venho chamando de coletivo* e que pretendo elucidar neste capítulo. Para furar um buraco no alto da concha e riele inserir meu fio.) S6 por um momento conseguiu Minos superar seu magistral engenheiro: Dédalo estava sempre urna rusga. pois nós rnesmos nos tornamos instrumentos para o fim único da instrumentalidade em si (Heidegger. isro é. engenhosa mas falsa. urna maquinacéo a frente de seus rivais. lima tecnologia jamais é um instrumento.peJJoaJ rnatam pessoas".as a seus arrifícios. Racionalizando e acumulando natureza. é urna coisa curva. um monstro nascido entre nos que já devorou suas parteiras involuntárias. bonita mas forcada (Frontisi-Ducroux. longe de servir como ciencia aplicada. a recnolog¡a domina tuda. refugiado na corte do rei Cócalo e sem saber que a oferta era urna armadilha. gracas a outro conjunto de máquinas. para o banho de Minos. Publicou urna recompensa para aquele que conseguisse passar um fio pelas espirais de um caracol. "Armas matam pessoas" é o Jlogan daqueles que procuram controlar a venda livre de armas de fogo. Dédado encarna o tipo de inteligencia que Odisseu (chamado na IIíada de po!ymetis. sendc ilusáo completa acreditar que a podemos possuir. Dédalo reclamou a recompensa. fazendo-a penetrar na concha por urna abertura ern sua parte superior. A isso replica a National Rifle Association com outro Jlogan: "Armas nao mararn pessoas. palavra grega empregada para descrever o labirinto. O primeiro é materialista: a arma age em virtude de componentes materiais irredutfveis as qualidades sociais do atirador. Minos valeu-se de um subterfúgio digno do próprio Dédalo para descobrir o esconderijo do artífice habilidoso e vingar-se. Heidegger. o tipo de 'feitura' que os amigos artífices sabiam executar. Um daedalion. o que significa a rnediacáo na esfera das técnicas. Para este ele construirá o labirinto . que parirá o Minotauro. indispensável. Por causa da arma o cidadáo ordeiro. onipresente. demonstrar a impossibilidade de discorrer sobre qualquer espécie de domínio em nossas relacóes com nao-humanos. induziua a abrir caminho por aquele estreito labirinto. A recnologia é inferior a ciencia e ao conhecimenro puro? Nao: para Heidegger.nao há Mulher em Heidegger . Somos. Desdenhado. O Homem . por seu turno. que instalara no palacio. no capítulo 2). 1974). perdendo o filho Ícaro em caminho. urna anriga versáo de engenbaria genética que permite ao rouro de Poseidon emprenhar Pasifaé. robos-soldados que parrulham Creta. dos artefaros e dos daedalia. porém. Depois que ele escapou do labirinto. a moda das cosmogonias do passado. Para Heidegger. a ciencia é um joguete nas milos da tecnologia.parece a Heidegger coisa inteiramente diversa da poeJiJ. ao contrário. urna "génese das coisas" inteiramente mítica. Nosso caminho nos conduzirá nao só arravés da filosofia como através daquilo que poderíamos chamar de pragmatogonia*.

dirige e até pllxa o gatilho _ e quem. O bom sujeiro que. Desse modo. um veículo neutro a vontade humana. numa oposicáo absurdamente extrema. por onde o bem e o mal podem fluir igualmente. exaramente. o assassinaro que de qualquer maneira ocorreria será (sirnplesmente) executado coro mais eficiencia sem nenbuma altera~-ao na arma em Ji. sem dúvida. a palavra correspondenre a "tecnología" tenda a substituir a palavra correspondenre a "técnica". A única conrribuicáo da arma consiste na aceleracño do ato. passos e inrencóes que Uffi agente pode descrever numa história como a da arma e o atirador (ver figura 6. a série de objetivos. seu potencial para agarrar os pussantes e obrigá-Ios a desempenhar uro papel em sua história. é claro. um revólver. ao falar das operacóes de convencimento entre Joliot e Dautry: nao se pode discorrer sobre técnicas. poderia simplesmente enfurecer-se pode assassinar caso deite rnáo a urn revólver . moralista . entáo o agente faz um desoio como o que vimos no capírulo 3. Em contrapartida. Hyde. Para a NRA. a versáo sociológica da NRA transforma a arma num veículo nentro da vontade. Caricarurei as duas posicóes.e um terceiro agente surge da fusño dos outros c1ois. o primeiro significado de media¡. um meio. O que a arma acrescenta ao disparo? Segundo a visáo materialista. emboca nao a condicáo moral da pessoa que a ernpunha. a história da NRA prevalecerá.ao técnica: interferencia Quem ou o que é responsável pelo ato de matar? A arma nada mais é que um produto de tecnologia mediadora? A resposta a rais perguntas depende do significado da palavra mediacáo'".o que ternos nas máos. um mero inter- . Jekyll no sr. pelo m~nos. Quanro a NRA. A visáo da NRA é. mata-se melhor.Jotiolágica que costurna ser associada é muito divertido. A pergunta agora é: que objetivo perseguirá o novo agente compósito? Se ele voltar. mas ela em nada modifica o objetivo da pessoa. A arma capacita. e se a consecucño de seu objetivo for inrerrompida por um motivo qualquer (talvez ele nao seja suficientemente forre). Eles rém de reconhecer que a arma acrescente alguma coisa. após o desvio. Se o atirador for um bom sujeito. Com urna arma.1). como nao se pode discorrer sobre ciencia. vou utilizar com freqiiéncia as duas. mais sujo. sem aludir aos daedalia. as quais nada rnais sao que escravos flexíveis t diligentes.) O Agente 1 corre para o Agente 2. Um primeiro sentido (vou sugerir quatro) é o que chamarei de programa de artlo*. (Embora. Nenhum materialista iria alegar que as armas matam sozinhas. mas também instruí. pois. em ingles. reservando o termo impuro "recnociéncia'' para urna etapa muito específica de minha pragmatogonia mítica. Se. Esse exemplo simples basta para mostrar que os urrefaros nao sao mais fáceis de apreender que os fatos: precisamos de deis capítulos para atinar com a dupla episrernologia de Pasteur e vamos precisar de muito tempo para compreender. ao Objetivo 1. estiver enraivecido e ansiar por vinganca. empunhando uro canivete..nao importa .o que importa é o que somos. é que o cidadáo ordeiro fica tram/ormado quando carrega armas. a arma será usada com prudencia e só matará quando necessário. A arma é urna ferramenta. nao reve alguma vez vontade de golpear alguém ou alguma coisa? Todo artefaro tero seu script. os sociólogos da NRA apresentam a perturbadora sugestao de que podemos dorn inar técnicas. os materialistas insistem em que somos o que ternos . ~az nada sozinha ou ero conseqüéncia de seus componentes matenars.. e ponto final. ludo: um cidadáo inocente torna-se um criminoso por ter um revólver na máo. os materialistas adiantam a tese intrigante de que nossas qualidades como sujeiros. Assim. seus membros nao podem verdadelrarne~­ te sustentar que a arma seja um objeto tño neutro a ponto de nao participar do ato criminoso.como se o revólver tivesse o poder de metamorfosear o Dr. nao o que ternos. O que os materialistas alegam. Matar com punhos ou laminas é apenas mais lento. a condicño moral da pessoa é urna esséncia platónica: nasce-se bom cidadño ou facínora. que nada acrescenta a a<. porém. A arma é entáo urna ferrarnenm. nossas competéncias e nossas personalidades dependem daquilo que rrazernos nas rnáos.ao e faz as vezes de conducor passivo. mais nojento. o que as coisas nos levam a fazer. mais precisamente. for ~m velhaco ou um lunático. O Agente 1 alicia o revólver ou é por ele aliciado . dadas as suas conviccóes políticas) urna versan a Esquerda: a arma nao.1 205 . Se o agente for humano. desarmado. Revertendo o dogma do rnoralismo.

Empreguei translacáo para indicar desloesmento. a história materialista prevalecerá. de que modo sao usadas.em maior ou menor grau. Por que esse matiz tem tarnanha importancia? Porque. posso substituir este último por "urna classe de desocupados". o revólver empunhado. Quando as proposicóes sao articuladas. Tornam-se "alguém. urna arma nova torna-se uma arma usada. há urna terceira possibilidade: a criacáo de um novo objetivo que nao corresponda ao programa de a<. já o vimos. o mau sujeito torna-se um sujeito pior. o arirador. Se eu definir vecé pelo que tem (urn revólver) e pela série de associacóes a qual passa a pertencer quando usa o que tern (quanelo dispara o revólver). por exernplo. com urna arma ern punho. rransladnndo-os para um agente subindividual.. por exernplo. na figura. mediacáo.--+ Agente 2 . neste caso. esséncia é existencia e exisréncia é ecño. a ~ao humana é que já nao passa de um intermedidrio. que nenhum humano paje controlar. O que é verdadeiro quanto ao sujeiro. a vontade do revólver e o JcrijJt do revólver superaram os do Agente 1. com um revólver na máo. Entretanto. a espingarda de ca/ia torna-se um instrumento assassino. sob controle humano absoluto. Fique claro agora que translacáo nao significa passagem de um vocabulário a ourro.l Como na figura 3. de urna palavra francesa a urna palavra inglesa (como se. elas se juntam numa prcposicáo nova. mas agora. (Vecé só quena machucar. Urna vez que a palavra "agente" é pouco comum no caso de nao-humanos. dependendo do peso das out ras associucóes que carrega.6es a um número maior de agentes do que seria aceitável no relato materialista ou no relato sociológico. Se tentarmos compreender as técnicas presumindo que a capacidade psicológica dos humanos está fixada para sernpre. O bom cidadáo torna-se um criminoso.ao de nenhum dos agentes. O duplo equívoco dos materialistas e dos sociólogos é comecar pelas esséncias. tendencia. esse pomo de partida inviabiliza nossa avaliacáo do papel mediador tanto das técnicas quanro das ciencias.a<. apomado para alguém que grita apavorado. as duas línguas existissem independentemente). Se o Agente 3 passar do Objetivo 1 para o Objetivo 2. perceberernos que nem o sujeito nem () objeto (e seus objetivos) sao fixos. Essa translacáo é totalmente simétrica. a arma se torna out ro objeto porque enrrou nurna relacáo com voceo O revólver nao é rnais o revólver-no-arrnário. modifica os dois originais. o ator híbrido que compreende. de um modo geral.1. Como Pasteur nos mostrou no capítulo 4. Se esrudarmos a arma e o cidadño como proposicóes.) Agente 1 INTE~RUP(Ao e Objetivo 1 DESVIO Agente 2 ¿Ob ietiV03 Agente1:. No capítulo 3. é verdadeiro quanto ao objeto. as dos sujeiros ou as dos objetos. o revólver-na-gaveta ou o revólverno-bolso e sim o revólver-ern-sua-máo. criacño de um vínculo que nao existia e que. é urna pessoa diferente. Observe-se que. podemos descrever a relacáo entre dois agentes como urna translacáo de seus objetivos.6es. e o mito do Destino Autónomo. nao conseguiremos perceber como as técnicas sao criadas ou. no entanto. tem vonrade de matar. A intencáo do revólver. até cerro ponto. a arma é diferente quando empunhada por voceo Vocé se torna outro suieito porque segura a arma.Objetivo 2 PRIMEIRO SIGNIFICADO DE MEDIA(Ao: TRANSLA<J() DE OBJETIVOS Figura 6. () que resulta num objetivo eompósito diferente dos deis originais. arma e atiradoro Precisamos aprender a atribuir ~ a redistribuir ...' ". nao faz diferenca se o Agente 1 e o Agente 2 trocam de lugar: o mito da Ferramenta Neutra. como os engenheiros gostam de dizer). um termo melhor. operando a translacáo do agente individual para um coletivo. chamei essa incerteza quanto aos objetivos de translacáo". Eu poderia redescrever o revólver como "aq uilo que o lohby das é ".' 206 207 . Como vimos no capítulo 5. Voce. entáo vocé é modificado pelo revólver .mediário. ou falar em "motivos inconscientes". sao simétricos. Vecé é diferente quando empunha urna arma. Agora possível transferir nossa atencáo para esse "alguérn mais". quem é o ator: a arma ou o cidadáo? ÜuIra criatura (urna arrna-cidadáo ou um cidadáo-arrna). invencáo. Assim. é "aurante"*. como ern minha vinhera da arma e do atirador. Os agentes sao humanos ou (como a arma) nao-humanos e caela qual pode ter objetivos (ou fun<. alguma coisa'' mais. sequer.

distribuída e encapsulada de práticas cuja soma pode ser obtida. Nao sao nem as pessoas nem as armas que maram.e (assim prossegue a historia) retorna a rarefa anterior.por exemplo. é a composif-aO da a~ao marcada pelas linhas que váo ficando mais longas a cada passo na figura 6. a For- 208 . o acesso a eles interrompido por aquela brecha no caminho reto que distingue metís de episteme. suponhamos que a primeira tarefa haja sido retomada. transladando-o para urna série mecánica de causas e conseqüéncias. Agente 1 SUBPROGRAMA 1 A gen te 2_ __ OBJETIVO --l_ = _ SUBPROGRAMA 2 Agente 3 SEGUNDO StGNIFICADO DE MEDtA<. charná-lo de "a~ao de um garilho sobre um cartucho por intermedio de urna mola e um percussor''. É por engano ou impropriedade que nossas manchetes proc1amam: "Homem voa" ou "Mulher vai ao espaco". Um chimpanzé pode agarrar um porrete e. aqui.¡jo deve ser dividida entre os vários atuanres. O agente. hmreka ou tentativa e erro (exisrem várias psicologías para explicar esse momento).52s nao voa. A responsabilidade pela ". a estrurura é a mesma (Beck. vagueia a esmo numa busca insana e em seguida. mas nenhum computador jamais fez mulheres. O senso comum. O agente rem um ou mais objetivos: súbito.um porrece.armas coloca nas máos de enancas inocentes". agarra curro agente . nao é aqui o guia mais seguro. O Agente 1 é autorizado. Essesexernplos de simetria entre atoe e atuanre obrigam-nos a abandonar a dicotomia sujeito--objeto. (Até ande pode prosseguir a rnulriplicacáo desses subprogramas.ao de for~as para explicar a a~ao. nao no singular) a banana. Sem dúvida. a agucé-lo e inventar. torna-se a opcáo (figura 6. outro subprograma. a perda do objetivo original no ernaranhado de subprogramas -. fabricacáo ou uso de urna ferramenra. O chimpanzé mais o porrete agucado alcancarn (no plural. O desvio. O que me interessa. A dificuldade que acabamos de enfrentar com o exemplo da arma permanece e a solucáo é a mesma: o primeiro motor de urna a~ao torna-se urna série nova. achando-o muito tosco. do papel de primeiro motor de modo algum cancela a necessidade de urna composiC. no reino animal ou humano. rampas de lancamento e balcóes de venda de passagens. em muiras histórias de ferramentas há nao apenas um. e.2.:AO o segundo significado de rnediacáo técnica: composicáo Poder-se-ia objetar que urna assimetria básica subsiste mulheres fazem chips de computador.torna-se a realizacáo comum de cada um dos agentes curvados pelo processo de rranslacáo sucessiva. após outra crise. A a. urna ferramenta composta. O B. entretanto.¡jo é urna das propriedades das entidades associadas. um parceiro. frustrado.) Embora se possam imaginar muitos outros resultados .:AO: COMPOSI<. que impede a compreensáo de coletivos. que inclui aeroportos e avióes. Voar é urna propriedade de toda a associacáo de entidades. A atribuicáo. comecar. urna corrente elérrica . mas dois Oll mais J"llbprograrltds* encaixados uns nos curros. ainda. alcance o objetivo. em caminho. é Figura 6. Para sermos convincentes nesse ponto elevemos fazer urna pequena pesquisa sobre a maneira como falamos a respeiro de ferramentas. um daedalion. Eis o primeiro dos quatro significados de mediacáo.2). como nao o é nas ciéncias.aqui.2 Quando o número de subprogramas aumenta. no laboratório psicológico ou histórico e pré-histórico. 19HO). capacitado pelos ourros. habilitado. Quem prarica a a~ao? O Agente 1 mais o Agente 2 mais o Agente 3. eis o que suscita interessanres questóes em psicologia cognitiva e reoria da evolucao. mas apenas se respeitarrnos o papel mediador de todos os atuanres mobilizados na série. a Iinha curva fina . transladando-o de objeto para instituicáo ou rede comercial. por incuicáo. a um aror. Quando alguém conra urna hisrória sobre a inven~ao. remove o obstáculo. o objetivo composto .

com alguma precisáo. que examinei no capítulo 5. processo que torna a producáo conjunta de atores e arrefacos inteiramente opaca. Precisamos explicar os sete passos. O labirinro de Dédalo se oculta: poderernos escancará-lo e contar o que existe lá dentro? Tomemos. a nada. ourras agitados como um grupo de humanos ao redor de um arrefaro que nao funciona. Na simetria entre humanos e naohumanos. Ele constitui um ponto numa seqüéncia de a<. Num instante. sua prépria "caixa-preta''. Se. a muitos humanos.2 mostraram que os objetivos sao redefinidos por associacóes com atuantes nao-humanos e que a a<. equivalerá a nada). a simetria prevalece tanto no caso da fabricacáo quanto no caso do uso. a nenhum humano . o que vem a ser sirnetria? Aquilo que se conserva ao tongo de transformacóes. p. 1977. Desejo situar-me no palco antes que possamos delinear claramente sujeicos e objetos.3. iráo constituir meu ponto de chegada. se inventar mitos é a única maneira de fazer o trabalho. Fica claro que suas a<. A crise prossegue. situados no mundo exterior. pode equivaler a urna. As figuras 6.e eis o segundo significado de mediacáo técnica. como corrobora inúmeros mitos consagrados.ao nao é urna propriedade de humanos. filhos e filhas de nossas préprias obras. Isso nao apenas corresponde nocáo de arriculacáo>. oferecendo um ao outro novas possibilidades.oes sao cornpostas de passos numa seqüéncia que integra vários gestos humanos. Quantos atuantes exisrern lá. a muitas. de nós. a uro objeto. No entanto. a um grupo. Veremos mais adiante o que fazer da dialética e do Gestell. Já nao focalizamos um objeto e sim um grupo de pessoas reunidas a iolta de um objeto. A cornposicáo dos objetos também varia: as vezes parecem estáveis. o projetor pode equivaler a urna parte. um intermediário* silencioso e mudo. Papéis "atoriais" provisorios podem ser atribuidos a atuanres unicamente porque estes se acham em processo de permutar competencias. nosso "projeror" deixou de ser constituido de zero partes e passou a ostentar muitas. toda a<.6es.ao (digamos. ajustando urna lente e subsrituindo urna lampada. os quais nos ensinam que famas feitos por nossas ferramentas. Assim. Ocorreu urna passagem de atuante a mediador. realmente? A filosofia da tecnologia de que precisamos ero nada ajuda a aritmética.as. um momento antes.e cada parte. o mito aplicável é: "Bnquanro representarmos a tecnologia como um instrumento. mantenho constante a série de competencias e propriedades que os agentes podem permutar sobrepondo-se um ao outro. A expressño Horno faber ou. por seu turno. em enriquece-lo com mais alguns de meus diagramas. nao hesitarei em construir um novo e. cada qual com seu objetivo relativamente independen te. numa palestra). cada qual com seu papel e funcáo. No tocante a Heidegger. mas. um movimento dialético que termina por fazer. a o tercero significado de mediacao técnica: o entrelacarnento de tempo e es paco Por que é tao difícil avaliar.ao é urna propriedade da associacáo inteira. Nos sete passos da figura 6. o papel mediador das técnicas? Porque a a<. mas de Utnd as. nao iráo constituir meu ponto de partida. novas funcóes.a Aérea Americana voa. Portento. Impingimos ao passado a esséncia da recnologia" (Heidegger. trocando pe<.ao. dama-nos canta de que o projetor é constituído de diversas partes. por exemplo. A a<. a cem partes. um projetor de teto. a . nao apenas dos atuantes chamados humanos. como a figura 6.<. Contudo. Horno faber fabrica!tls descreve. plenamente aceito e compleramente determinado por sua fun<. agora até mesmo suas pecas térn existencia individual. permaneceremos aferrados a vontade de dominé-Ia. a situacáo é ainda mais complicada porque o ntímero de atuantes varia a cada passo.ao num único todo pontualizado (um todo que. novas objetivos.3 mostrará. Sujeitos humanos plenos e objetos respeitáveis. para Hegel e André Leroi-Gourhan (Leroi-Gourhan. 1993) e para Marx e Bergson. Os eletricistas entrarn numa seqüéncia rotinizada de a<. Suponhamos agora que o projeror se quebre. antes que a troca de propriedades e competencias seja observável e inrerprerável. forma e materia. logo depois. A crise nos lembra da existencia do projetoro Enquanto os eletricistas se movimentam volta dele. a nenhuroa. objetivos e funcóes. melhor ainda.ao que tentamos avaliar está sujeica ao obsmrecimento".ao pode conduzir a dispersáo dos atuanres ou a sua integra<. mesrno. o projetor mal existia.32).1 e 6.wciaf¿¡o de atnantes .

certamente -'.a se quebrasse. empreguei os termos "história" e "programa de ac. os esrudos científicos supunham que a fé na construcáo de artefaros ajudaría a explicar os fatos. invisíveis. "humanan e "náohumano" como se as técnicas fossem elementos estranhos e dependentes que amparam o mundo do discurso.óes? Poderemos dizer que.A B O O leia este capítulo sentado a escrivaninha? Devolva todas essas en- . recruradas. A B ~ A~ A B C Pesso 2: interesse (intenupcéo. enredadas em ourras. quem é esse "nós"? Nao eu.ao de quem atravessou milenios. Os náo-hurnanos refogem duas vezes as estruturas da objetividade: nao sao nem objetos conhecidos por um sujeito nem objetos manipulados por um senhor (e também nao. mobilizadas. modificarn a substancia de nossa expressáo e nao apenas a sua forma. Passo 1: deslnteresse tidades ao passo 1. elas deveráo ser consideradas escravos e ferramentas ou mera evidencia de um Gestel]? A profundidade de nossa ignorancia das técnicas é insondáve1. "objetivo'' e "funcáo". nada mais surpreendenre. ainda há filósofos que aereditam na existencia de objetos abjetos. Nao conseguimos sequer conté-las ou afirmar que existem como objetos. alistadas. mudas. lernbre-se da época em que elas estavam desinteressadas e seguiam seu próprio carninho. urna caixa-prera cheia de pelias. A hisrória das rranslacóes anteriores por que passaram pode tornar-se visfvel. ourrora. dependencia da crise que sofra. Considere quanras "caixas-pretas" existern por ali.. porém. como conjuntos ou como outras tantas seqüéncias de ac. De que floresta deveremos extrair nossa madeira? Em gue pedreira deixaremos as pedras jazer sossegadamente? A maioria dessas entidades agora permanecem em silencio. quarro significado de media<. Até aqui. trazendo para a cena atual a forca e a at. Cada pelia da caixa-preta é.3. Se alguma pec. sobre a figura 6. que nao medeiam ac. No enranto.o para rcrracar nossos passos e acompanhar todas essas entidades silenciosas que contribuem pacificamente para que vocé .3 Qualquer conjunro de arrefaros pode ser movido para cima ou para baixo nessa sucessáo de passos. intrigado. como se nao exisrissern. Abra-as. examine seu conteúdo. sem serem curvadas.e por sinal. Elas possuem um status ontológico peculiar. desviar aliclamento) A~ Passo 3: compostcao de um novo objetivo Passo 4: ponto de passagem obrtgatórla 0--0--0 Passo S: alinhamento D8 D o--- Passo 6: obscurecimento Pesso 7: pontualizacéo TERCEIRO SIGNIFICADO DE MEDIA(ÁO: OBSCURECIMENTO REVERSíVEL Figura 6. em si rnesma. mas produzem significado gracas a um tipo especial de articulacáo que. As técnicas. é claro. As técnicas tero significado.óes proficientes. "translacáo" e "interesse''. de novo. por nós as termos feito a todas . Aguilo que comumente consideramos um agente (passo 7) pode revelar-se composto de vários (passo 6) que calvez nem estejam alinhados (passo 4). quantos humanos se materializariam imediaramente ao redor dela? Quanto remaríamos no tempo e auaniariamos no espac. transparentes.ao". Se.:ao técnica: transposícáo da fronteira entre signos e coisas O motivo dessa ignorancia torna-se claro quando examinamos o quarto e mais importante significado de rnediacáo. mas significará ísso que nao agem. senhores eles mesmos). até que se libertem novamente da influencia dos outros (passo 1). como a referencia circulante do capítulo 2 e a onrologia variável do capítulo 4. atravessa a fronteira racional entre signos e coisas. o Olhe a volra do recinto ande vecé se debruca..

embora essa possa ser a impressáo dos motoristas. "materializada" ou "gravada" . Ao invés de placas e semáforos. convém entender delegacéo como out ro tipo de deslocarnento* além daquele que utilizamos no capítulo 4 para apreender a obra laboratorial de Pasteur. respeirando sua dererminacáo. O programa dos engenheiros foi delegado ao concreto e. A substáncia da expressáo modificou-se ao longo do caminho. pois para os engenheiros o quebra-molas representa urna articularao significativa em urna gama de proposicóes ande sua liberdade de escolha nao é maior que no caso dos sintagmas* e paradigmas* escudados no capítulo 5. aqui. no capítulo 9. por¿m nao mais no discnrso.permanecensos no significado. A primeira versáo do motorista apela para a moralidade. mas agora confrontados com quebra-molas impassíveis. Aprenderemos. ARTICULA(AO Significado um -------~ Significado dais QUARTO SIGNIFICADO DE MEDIA(AO: DELEGA(AO Figura 6. examinando essa passagem. reconhecemos o mesmo deslocamento que já presenciamos na história da arma. Os dois objetivos sao bastante diversos e. "reificada". Qual a palavra cerra para essa articulacáo? Eu poderia ter dito "objetificada". ao passo que os nao-humanos também agem. Assim. de rranslacáo deve ser modificada para absorver nao apenas (como aconteceu nos exemplos anteriores) urna nova definicáo de objetivos e funcóes.ao (a vigencia da lei de limite de velocidade) se transladou para outro tipo de expressáo. deslocam objetivos e contribuem para sua definicáo. pouco importa o canal por onde se chega a um dado comportamento. nao apenas um significado se deslocou para outro como urna a.1. renunciamos ao conforto relativo das metáforas lingüísricas para penetrar em terri tório desconhecido. em virtude do quebra-molas. "realizada". e isso lhe basta. do ponto de visra de um observador. O programa de aC. O objetivo do motorista é transladado. pois a própria natureza do "significado" foi alterada. os engenheiros do campus usaram concreto e asfalto. A transicáo de motoristas afoitos para motoristas disciplinados foi efetuada por outro desvio. nao é mais fácil encontrar o termo adequado para a atividade das técnicas do gue para a eficácia dos fermentos do ácido láctico..ao dos engenheiros. embora nao residamos entre meros objetos. Da janela. Nesse contexto. "facam os motoristas desacelerar no campus". Como vemos. No exemplo do quebra-molas. a inrroducáo do segundo agente no caminho do primeiro implica um processo de translacáo: aqui. A rransicáo nao é de discurso a matéria.o mais generalizado que o respeito a lei e a vidapelo menos na Franca! O motorista altera seu comportamenro em conseqüéncia do quebra-molas: regride da moralidade a forc.mas esses termos implicam um agente humano todo-poderoso impendo sua vontade a matéria informe. Todavia. porém. a nocño de desvio. delegarao (ver figura 6. Onde esramos? Antes mesmo de comecar a elaborar urna filosofia das técnicas. Pelo que sei. o reitor nota que os carros passam devagar.a. a segunda. que isso se dá porque elas sao toelas fatiches*. a mudanca de significado é muito maior. Se eu digo a vocé "ImagineINTERRUP(AO Agente 1 O DESVIO Agente 2 .4 Como na figura 6. O que eles podem fazer é explorar as associacóes e substituicóes que delineiam urna trajetória única através do coletivo. Nao abandonamos as relacóes humanas significativas e invadimos de súbito um mundo de relacóes humanas puramente mareriais . de "dirninua a velocidade para nao arropelar os alunos'' para "vé devagar para proteger a suspensáo de seu carro".Eis urn exemplo simples do que tenho em mente: o quebra-molas que abriga os motoristas a desacelerar no campns (chamada em francés de "guarda dorrninhoco''). Por enquanto. o desinreresse esclarecido e a ponderacáo. para o egoísmo puro e a ac. acosrumados a lidar com signos maleáveis. . está agora articulado com o concreto.4). vou propor mais um termo. mais gente responde a segunda que a prirneira: o egoísmo é um trac. mas também nma alteraf"ao na própria Jllbs/anda expressiva .ao reflexa.

perrnitindo a seus muitos invesridores desaparecer sem deixar de estar presentes. torna-se out ro aror e depois volta a ser vocé mesmo em seu próprio mundo. Pense na tecnologia como esforqo congelado. é claro. esse deslocamento para baixo. um quebra-rnolas sempre em seu lugar e um enunciado que se tornou usuário de um artefato. diríamos nós.novo híbrido que rransfere aros passados para o presente. nao apenas o transporto para ourro espa~o e tempo como o transformo em out ro aror (Eco. ego. Sem dúvida mas onde está a diferenca? Gracas ao transporte imaginativo. Empresta-rne.mo-nos na pele dos engenheiros do campus quando decidiram instalar os quebra-molas''. h~Je e em relacáo a mimo Vivo no meio de delegados técnicos. onde está o guarda de transito? enquanto alguém ou alguma coisa age confiantemenre como legado. motores e pilotos automáticos. nao consigo ocupar concomitante- mente mais que um quadro de referencia (a menos. nao se parece com um guarda de transito. rrusturo-me aos nao-humanos. no qual o "enunciador" (eu) e o "enunciado" (vocé) investimos ambos no deslocamento dos delegados de nós mesmos para outros quadros de referencia. juntamente com seus muiros quadros de referencia. tomando o lugar do enunciador. moldando um guarda a partir de um barril de concreto úmido ou concedendo a um policial a permanencia e a obstinacáo de urna pedra.as técnicas agem como alteradores deformas. Entretanto. porérn. Sem esse desvió. ou nao existe. Supñe-se que a co-presen~a de enunciadores e enunciados seja necessária para possibilitar um ato de fic~ao. como na ficcáo. A ordenacáo relativa de presen~a e ausencia é redisrri- . vocé ocupa simulraneamenre todos os quadros de referencia. 1979). um desvio por vários tipos de atuantes é iniciado e o retorno é u~ . Finalmente. Desloco vocé da cena que ora ocupa. . por algum tempo. O objeto representa o ator e cria urna assimerria entre construtores ausentes e usuários ocasionais. de eu estar aqui ou em out~a parte. A bordo do aviáo. 1982). No encanto. delegadas que o narrador oferece. As fo~mas relativas dos amantes e seu status ontológico podem ser inteirarnente confundidos . deslocando-se para dentro e para fora de todas as persona. Por meio da fic~ao. bic. Toda a filosofia da técnica tem se preocupado com esse desVl~. Pode-se objetar que é espúria a comparacño entre deslocamento ficcional e deslocamentos de delegacáo na arividade técnica: ser transportado ero imaginacáo da Franca para o Brasil nao é o mesmo que tomar um aviáo da Franca para o Brasil. No caso da delegacáo. o enunciador desse ato técnico desapareceu de cena . posso mobilizar torcas postas em movimento há centenas ou milhóes de anos em plagas longínquas. temporal e "atorial''. controladores de tráfego e vendedores de passagens foram juntados nurn só: o do v60 1107 da Air France para Sao Paulo. instituicóes-objetos a que se delegou a rarefa de movimentar-se enguanto engenheiros e di retores estáo . mas sem se levantar de sua poltrona. mas o que ternos no momento é uro engenheiro ausente. gracas ao deslocamento para baixo. urna personagem que com a ajuda de sua irnaginacáo e paciencia visita comigo out ro lugar. Sernelhantes desvios subverrem a ordem do rernpo e espa~o . pelo menos. Esse mecanismo se chama identificacáo. O deslocamento é rambérn espacial: na rua do campns mora agora um novo atuante que desacelera auromóveis (ou danifica-os). a Dublin nurn belo dia de junho de 1904). A finalidade do deslocamento espacial. nunc poclem ser deslocados e tornar-se outras personae em out ros lugares.para baixo de avióes.ausentes (ou no máximo monitorando). nao compreenderíamos como um en unciador possa estar ausente: ou ele está aí. Vod: faz um desvio pelo escrirório dos engenheiros. mas de urna a~ao m~lto antiga de um ator já desaparecido continuar ariva aqui. No caso do quebra-molas. a urn único ponto no rernpo e esp~o. outra combinacño de ausencia e presen~a torna-se possível. A co-presenca de cnunciadores e enunciados restringiu-se. o deslocarnento é "atorial": o "g uarda dorminhoco'' nao é uro guarda de transito ou. Estou sentado nurna instituicáoobjeto que liga deis aeroportos por meio de urna linha aérea. de ser eu mesmo ou ourra pessoa. nao se trata. Todos os quadros de referencia dos engenheiros. outros tempos. por exemplo. é fazer o leiror viajar sern se mover (Greimas e Courtes. O ato de transporte foi deslocado para baixo* e nao para fora . que me recoste e leia uro romance que me leve. que está no cerne de toda ficcáo.num minuto.onde estáo os engenheiros. Considere a própna natureza do investimenro: um curso regular de aliao é suspenso. o deslocarnenro é temporal: o quebra-molas está ali dia e noire.

posto que invisfveis. "Técnico" um bom adjetivo. sem se valer de nenhum expediente a rnáo. Em segundo lugar.o. "técnico" designa o papel JlIbordint/do de pessoas. nas fendas e abismos das rotinas comuns. que imprime cadeias de causa e efeito nos humanos maleáveis.ao . Em última análise. pois confio em inúmeras acóes delegadas que. iremos retomar nosso curso normal de ar. os construtores humanos (dizem eles). Mas existe um adjetivo. Indica.. "técnico". um artefato ou urn produto da tecnologia. Urna caixa-preta abre-se rnomentanearnente e lago nos vemos encerrados de novo. Quando dizemos "esta é urna questáo técnica" significa que precisamos nos desviar por um momento da rarefa principal e que. porcanro. pela NRA: as armas nao agern sozinhas. mas pelo menos objetiva. a ordem política é subvertida. apenas os humanos fazem isso. me induzern a fazer coisas em lugar de curros que já nao se encontram aqui e dos quais nao posso sequer retrar. como os discutidos mais atrás. altamente circunscrita e claramente subordinada na hierarquia. A mediacáo. planeja e descobre solucóes onde nenhuma era visível. fazendo nosso próprio trabalho duro sob disfarce. é agravada pela acusacáo de fetichismo* assacada por críticos da tecnologia. imperceprfveis na seqüéncin principal da ar.o único enfoque digno de arencáo. ao fim. Procuro apro- ximar-me da zona ande algumas características da pavirnentacáo (mas nao todas) se rornam policiais e algumas características dos policiais (mas nao [Odas)se tornam quebra-molas. com outras inrencóes.ao." lel buída . ern prirneiro lugar.'· " 1" . Aa longo desses desvíos. concreto. Somos nós. como um objeto. urna espécie de justo meio-rermo ou dialética entre objetividade e subjetividade.. em que o ousado inovador desafia as im posicóes da ordem social para fazer cantata com urna matéria tosca e inumana.. urde.nao precisam ser usados para separar os humanos dos múltiplos conjuntos com os quais eles combinam.. a translacáo técnica que estou tentando coropreender reside no ponto cego ande sociedade e matéria trocam propriedades. A delegacáo de acáo a out ros atuantes. Nao é fácil entender um desvio dessa espécie. . foi tao longe que uro programa de ant ifetichismo só nos arrasraria para uro mundo nao-humano. o quebra-molas nao é feito de maréria: está repleto de engenheiros.4). rece. um fantasmagórico mundo perdido anterior a medíacáo dos artefatos. O que tenciono encontrar é Olltro fio de Ariadne . urna tarefa especializada. trocando propriedades entre rnareriais inertes. rumo aos fatos científicos (ver figura 6. por si próprias.. "técnica" substantivo é é um vil Percebemos agora que as técnicas nao existern como tais e que nada há passível de ser definido. que vecé ve nas máquinas e implementos.. animáis. A história que canto nao é a história do H orno faber. Nos artefaros e nas tecnologias.a todo instante encontramos centenas e mesmo milhares de construtores ausentes.outro Topofil Chaix . A erradicacáo da delegacáo pelos críticos antifetichisras tornaria o deslocamenro para baixo. mas ainda assim simultaneamenre ativos e presentes. reitores e legisladores que misturam suas vonrades e perfis históricos aos do cascalho. Ouvimos essa história contada. nada capaz de servir de pano de fundo para a alma humana no cenário modernista. tao opaco guanto o deslocamenro para [ora. nao encontramos a eficiencia e a teimosia da matéria. Nao existe. em direcáo aos artefaros técnicos. conforme veremos no capítulo 9.e sua corruptela "recnologia" . a um subprograma ou série de subprogramas embutidos uns nos ourros. habilidades ou objetos que ocupam a funcáo secundaria de estarem presentes e serern indispensáveis. Deveríamos restaurar o esforco humano (exigem eles) que está por trás daqueles ídolos. mas que chegou séculas atrasada. que podemos empregar adequadamenre em muitas situacóes. No enranto. Mais atrás chamei essa Zona de "arriculacáo'w e isso nao é.. Os humanos já nao agem por Ji mesmos. por fim.ar o curso da existencia. em tecnologia ou em ciencia.para surpreender o modo como Dédalo enrrelaca. Boa história. O substantivo "técnica" . simbólicos e concretos. também nao podemos volver ao materialismo. que agora compartilham nossa existencia humana. tinta e cálculos matemáticos. como espero já renha ficado claro. "Técnico" é aplicável. distanciados no tempo e no espar. ademais. filosófica ou sociologicarnente. A dificuldade.

dirá alguém. O que podia ter sido um meio torna-se um fim. como no jargáo militar. o substantivo nao designa urna coisa e siro um modns »perandi. espacos. Tres expressóes exrraordinárias! Como se a personalidade se tornasse moral por se tornar coletiva. Os artefaros técnicos achamse tao distanciados do status da eficiencia quanto os fatos científicos do nobre pedestal da objetividade. de aparatos. mas um atirador abandonado o que seria? Siro. 00 linguajar comum. o adjetivo designa um solavanco. um humano (o revólver é só um artefato entre muitos). um desarranjo no boro funcionamento dos subprogramas. de urna caixa-preta equivalente a urna unidade ou . uro agente intencional".ñeis. Dédalo. Nesse caso. ou que m sabe um emaranhado no qual nos perderemos para sempre. as quais sao levadas a partilhar o mesmo destino e a criar. Em lugar do reino lendário ande sujeiros encontram objetos. de ocuparem posicóes privilegiadas. embora inferiores. a redistribuir habilidades. isso jamais é O corneco. Um revólver abandonado é apenas urna porcáo de matéria. Somente pessoas jurídicas estáo aptas a absorver a proliferac.e cerrarnente nao um dos americanos ordeiros da NRA. A ac. hesirantes em sua condicáo mista de mediadores. o comeco de um rodeio. Objetos que existem simplesmente como objetos. "Técnico" designa ainda um tipo muito específico de delegafdo. com os tres primeiros tipos de mediacáo definidos acima: interferencia. o pessoal técnico. ou coleriva por se tornar artificial. Aqui. um bloqueio de estrada. Somos urna instituicáo-objeto. Ele apresenra também urna acepcáo útil que concorda. prontos a transformar-se em pessoas ou coisas. de urna langa translacáo e até de todo um novo labirinro.ao intencional e a intencionalidade talvez nao sejam propriedades de objetos. indispensáveis (já que o objetivo é inalcancável sem eles) e. a regular sua expressáo. Em sentido algum se pode dizer que os humanos exisrem como humanos sem entrarem em contato com aquilo que os autoriza e capacita a existir (ou seja. que podem ser chamadas. pelo menos por algum ternpo. ou plural por duplicar a palavra saxá IIbody" com um sinonimo latino. misteriosos. "um produro de tecnologia deve ser apanhado e ativado por um sujeito humano. de cerra maneira. em frases como Huma técnica de comunicacáo" ou "urna técnica para cozinhar ovos''. daquilo que Foucault chama de dispoJitift. esrño sepultados. O problema parece trivial quando considerado assimetricamente. inferiores (já que a carefa principal será no fim retomada). apartados de urna vida coletiva. deslocamento para baixo que se entrecruza com entidades dotadas de propriedades. mas o fim de uro arrastado processo de proliferacáo de mediadores. incertos (já que dependem de urna destreza altamente especializada e circunscrita). como no caso do prirneiro significado. a mobilizar terras e pavos remotos. destreza e "jeiro". contudo. e Vulcano. sao desconhecidos. "Sern dúvida''. Quando se está de frente para uro objeto técnico. ao mesmo tempo. agir). Os artefatos reais sao sempre partes de instituicóes. mas pode ameaiar o objetivo original completamente. composicáo de objetivos e obscurecimento. processo em que todos os subprogramas pertinentes. O quarto significado encerra a mesma incerteza quanro ao que seja um meio e quanto ao que seja um fimo "Habilidade técnica" e "pessoal técnico" aplicam-se aqueles que mostram proficiéncia. o perverso. também nao sao propriedades de humanos. como quando dizemos !IHá um problema técnico que precisamos resolver primeiro". tempos e ontologias diferentes. encaixados uns nos outros. urna interrupcáo. da "pessoa jurídica" [body corporatel ou "pessoa artificial". a forcar caixas a obscurecer-se e fechar-se. mas nao uro soldado . encontram-se numa tarefa "simples". pontos de passagem obrigatória. o deus coxa. Sao propriedades de instituicóes. como também a capacidade de se fazerem indispens.Em terceiro lugar. movimento. Aqui. um novo atuante. Mas o problema que estou levantando é simétrico: o que é verdadeiro relativamente ao "objeto" o é ainda mais relativamente ao "sujeito".ao de mediadores. mas um obstáculo. urna cadeia de gestos e know-how que antecipa resultados. sern saber se sao cornpostos de um ou de muiros. tal vez o desvio nao nos reconduza a via principal. "corpus": Body corporate é aquilo que nós e nossos artefaros nos tornamos. a forma nominal é freqüentemente ernpregada. sao excelentes exemplos desse significado do adjetivo "técnico". caprichosos. Assim. os objetos e as habilidades sao. pilhamo-nos o mais das vezes na esfera da personne mora/e. ao lado do adjetivo. "Técnico" nao designa um mero desvio. assim.

de um labirinto que oculta multiplicidades (MacKenzie, 1990). Os Boeings 747 nao voam, voam as linhas aéreas.

Pragmatogonia: haverá uma alternativa ao mito do progresso?
No acorde modernista, os objetos alojavam-se na natureza e os sujeicos. na sociedade. Hoje, substitufmos objetos e sujeiros por fatos científicos e artefaros técnicos, cujo destino e forma sao de todo diferentes. Enquanto os objetos só podem arrostar os sujeitos - e vice-versa -, os nao-humanos podem entrelacar-se com os humanos gra)"as aos processos-chave da translacáo, articula)"ao, delegacáo, deslocamento para fora e para baixo. Que nome daremos a casa onde esrabeleceram residencia? Nao nacureza'", decerto, porquanto sua existencia é visceralrnente polémica, como veremos no próximo capítulo. Sociedade* rambérn nao, já que os cientistas sociais a transformaram num conto de fadas de relacóes sociais do qual todos os nao-humanos foram cuidadosamente enucleados (ver capítulo 3). No novo paradigma, substituímos a palavra contaminada "sociedade" pela nocáo de colerivo*, definida como um intercambio de propriedades humanas e nao-humanas no seio de urna corporacáo.

Vivemos em coletivos, nao em sociedades
Ao abandonar o dualismo, nossa intencáo nao é atirar rudo na mesma panela e apagar os traeos característicos das diversas partes que integram o colerivo. Ansiamos também pela clareza analítica, mas ao longo de linhas que nao a rracada pelo polémico cabo de guerra entre objetos e sujeiros. O jogo nao consiste ern estender a subjetividaele as coisas, tratar humanos como objetos, tomar máquinas por atores sociais e sim evitara todo custo o emprego ela elistin<;ao sujeiro-objero ao eliscorrer sobre o enrrelacamento ele humanos e nao-humanos. O que o novo quac:lro procura capturar sao os movimentos pelos quais um dado coletivo estende seu tecielo social a outras entidades. É isso o que eu quis dizer até agora com a expressao provisória "Ciéncia e tecnologia sao aquilo que socializa nao-humanos para que travem relacóes humanas". Improvisei a seguinre

frase para substituir a expressño modernista: "Ciencia e tecnologia permitem que a mente rompa com a sociedade para alcancar a natureza objetiva e impor ordem a rnatéria eficiente". Eu gostaria ele ter mais um diagrama onde pudéssemos trac;ar, nao a maneira como os sujeitos humanos conseguem partir as amarras da vida social a fim de impor ordem a narureza ou restaurar as leis para manter a disciplina na sociedade, mas a maneira pela gual o colerivo de urna dada definicáo pode modificar sua construcáo articulando diferentes associacóes, Nesse diagrama impossfvel, precisaríamos acompanhar urna série de rnovimenros coerentes: primeiro, haveria rranslacáot , os meios grac;as aos quais arriculamos espécies variadas de maréria; depois (comando urna imagem de empréstimo a genética), o que eu chamaria de "permuracáo", que consiste na troca de propriedades entre humanos e nao-humanos; em terceiro lugar, o "recrutarnenro'', por rneio do qual um nao-humano é seduzido, manipulado ou induzido ao coletivo; em quarro, como vimos no caso de Joliot e seus clientes militares, a mobilizacáo de nao-humanos dentro do coletivo, que traz recursos frescos e inesperados, daí resultando novos e estranhos híbridos; e, finalmente, o deslocamenro, a direcáo tomada pelo coletivo depois que sua forma, exrensáo e cornposicáo foram alteradas pelo recruramento e a mobilizacáo de novos agentes. Se dispuséssemos desse diagrama, ficaríamos livres do consrrutivismo social para sempre. Aí, eu e meu Macinrosh nao conseguimos fazer nada melhor que a figura 6.5! A única vantagem dessa figura é proporcionar urna base para a comparacáo de coletivos, comparacáo totalmente independente da demografia (de sua escala, por assim dizer). O que os estudos científicos fizeram nos últimos 15 anos foi subverter a distincáo entre técnicas antigas (a poesis dos artesáos) e tecnologias modernas (de larga escala, inumanas, tiránicas). Tal distincáo nunca foi mais que um preconceito. O leiror pode modificar o tamanho do semicírculo na figura 6.5, mas nao precisa modificar sua forma. Poderá também alterar o ángulo das tangentes, o alcance da translacáo, os tipos de recrutarnento, o volume da rnobilizacáo, o impacto do deslocamento - mas nao terá de opor os cclerivos que tratam unicamenre das relacces sociais aos coletivos que lograram livrar-se delas a fim de haver-se com as leis da narureza. Contraria-

LIMITE DO PRIMEIRO COLETIVO

EXPLORA<;:AO DO COLETIVO Recrutarnento

Permutacao

Deslocamento

\.

-.-

Figura 6.5 Aa invés de dizer que a ciencia e a tecnologia rompem as barreiras estreitas de urna sociedade, dizemos que um coletivo está constantemente alterando seu limite por meio de wn processo de exploracño.

mente ao que faz os heideggerianos choramingar, há urna extraordinária eontimúdade, que os historiadores e filósofos da tecnologia tornaram cada vez mais legível, entre usinas nucleares, sistemas de mísseis releguiados. desenho de chips de computador OH automacáo de metros e a velha mistura de sociedade, símbolos e matéria, que os etnógrafos e arqueólogos esrudaram geracáo após gerar;ao nas culturas da Nova Guiné, Velha Inglaterra ou Borgonha quinhentista (Descola e Palsson, 1996). Ao contrario do que a distincáo tradicional sustenta, a diferenca entre uro coletivo antigo ou "primitivo" e uro colerivo moderno ou "avancado" nao é o fato de o primeiro exibir urna rica mescla de cultura social e técnica, ao passo que o segundo só tero a mostrar urna tecnologia sem vínculos coro a ordem social. A diferenca consiste ero que o último translada, permuta, recruta e mobiliza Uffi número maior de elementos mais intimamente conectados, com uro reciclo social mais finamente urdido

do que o primeiro. A relacáo entre a escala dos coletivos e o número de nao-humanos por eles alistados é crucial. Encontramos,
sem dúvida, longas cadeias de acño nos colerivos "modernos", uro número maior de nao-humanos (máquinas, aucórnaros, instrumentos) associados uns com os cutres; entretanto, nao se deve ignorar o tarnanho dos mercados, o ntimero das pessoas em suas órbi-

ras, a amplitllde da mobilizacáo: sim, mais objetos, porém mais sujeitos também. Aqueles que tentaram distinguir essas duas espécies de coletivo, atribuindo "objecividade" e "eficiéncia" a tecnologia moderna e "hurnanidade" a poeJÍJ ultrapassada, enganaram-se redondamente. Objetos e sujeitos sao construídos ao mesmo tempo e o número crescente de sujeiros está diretarnenre relacionado ao número de objetos Jancados - infundidos - no coletivo. O adjetivo "modemo'w nao indica urna diJtanda crescente entre sociedade e tecnologia ou sua alienacáo, mas urna intimidede aprofundada, urna trama mais cerrada entre ambas. Os etnógrafos descrevem as relacñes complexas implícitas em todo ato técnico das culturas rradicionais, o longo e mediado acesso a matéria que essas relacóes pressupóem, o intricado padréo de mitos e ritos necessários para produzir a mais simples enxó ou a rnais simples panda, revelando que os humanos precisavam de toda urna variedade de virtudes sociais e costumes religiosos para interagir com os nao-humanos (Lemonnier, 1993). Mas tetemos, mesrno hoje, acesso nao-mediado a matéria nua? Estado faltando ritos, mitos e protocolos a nossa inrerecáo com a narureza (Descola e Palsson, 1996)? A vascularizac;ao da ciencia diminuiu ou aumenrou? O labirinro de Dédalo endireitou-se ou complicou-se? Acreditar que nos modernizamos seria ignorar a maioria dos casos examinados pelos escudos científicos e tecnológicos. Quáo mediado, complexo, cauteloso, amaneirado e mesmo barroco é o acesso a matéria de qualquer produto da tecnologia! Quanras ciencias - o equivalente funcional dos mitos - sao necessárias para preparar artefaros com vistas a socializacño! Quantas pessoas, ofícios e insrituicóes térn de contribuir para o recrutarnento de um {mico nao-humano, como sucedeu com o fermento do ácido láctico no capítulo 4, a reacáo em cadeia no capitulo 3 ou as amostras de solo no capítulo 2! Quando os etnógrafos descrevem nossa biotecnologia, inteligencia artificial, microchipJ, siderurgia etc., a fraternidade entre coletivos antigos e modernos torna-se imediatamenre óbvia. No mínimo, aquilo que nos parece apenas simbólico nos velhos coletivos é tomado literalmente nos novas: os contextos que exigiam algumas dezenas de pessoas mobilizam agora milhares; onde os aralhos eram

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possfveis, cadeias de a<¡ao multo mais longas sao necessárias. Costumes e protocolos em maior número, e mais intricados; mais mediacóes: rnuitas mais. A conseqüéncia mais importante da superacáo do mito do Homo faber é que, quando intercambiamos propriedades com nao-humanos por meio de delegacáo técnica, esrabelecemos urna rransacéo complicada que perrence aos colerivos tanto "modernos" quaneo rradicionais. Se se pode dizer assim, o coletivo moderno é aquele ern que as relacóes de humanos e nao-humanos sao tao estreitas, as rransacóes tao numerosas, as mediacóes tao convoluras que nao há sentido em pergunrar qual artefaro, corporacáo ou sujeito deva ser discriminado. A fim de explicar essa simetría entre humanos e nao-humanos, por um lado, e essa continuidade entre coletivos tradicionais e modernos, por outro, a teoria social precisa ser um tanto modificada. É lugar-comum, na teoria crítica, afirmar que as técnicas sao sociais porque foram "socialmente construidas" - sim, bem o sei, eu próprio recorri a esse termo no passado, mas isso foi há vinte anos atrás e lago me retratei, pois queria dizer algo inteiramente diverso do que os sociólogos e seus adversários entendem por "social". O conceito de rnediacáo social aprcscnta-se vazio quando os significados de "rnediacáo" e "social" nao sao explicitados. Dizer que as relacóes sociais sao "reificadas" na tecnologia, como quando, ao invés de estar dianre de um artefato, estamos na verdade diante de relacóes sociais, é repisar urna tautologia e das mais irnplausíveis, no caso. Se os artefaros nada mais sao que relacóes sociais, entáo por que a sociedade precisaria levé-los em canta para inscrever-se em algo mais? Por que nao se inscreveria diretamente, urna vez que os artefatos de nada valem? Porque (prosseguem os teóricos críticos), gra<¡as aos artefatos, a dominacáo e a exclusáo se ocultam sob o disfarce de for<;as naturais e objetivas. A teoria crítica, desse modo, oferece urna tautologia - relacóes sociais nada mais sao que relacóes sociais - qual acrescenta urna teoria da conspiracño: a sociedade se esconde por tras do fetiche das técnicas. As técnicas, porém, nao sao fetiches*. Sao imprevisíveis, mediadores e nao meios, meios e fins ao mesmo tempo: eis por que se esteiam no tecido social. A teoría crítica nao consegue ex-

plicar os motivos pelos quais os artefatos penetram no fluxo de nossas relacóes e nós, incessantemente, recrutamos e socializamos nao-humanos. Nao para espelhar, congelar, cristalizar ou camuflar relacóes sociais, mas para refazer essas mesmas relacóes por interméclio de novas e inesperadas fontes de a<;ao. A sociedade nao é suficientemente esrável para inscrever-se em seja lá o que foro Ao contrario, boa parte dos traeos daquilo que entendemos por ordem social - escala, assimetria, durabilidade, poder, hierarquia, distribuicáo de papéis - sequer é passível de definiráo sem o recruramento de nao-humanos socializados. Sim, a sociedade é construida. mas nao comlrllídcl socialmente. Os humanos, durante milenios, estenderam suas relacóes sociais a outros atuanres com os quais trocaram inúmeras propriedades, formando coletivos.
é

Uma narrativa "serva": a história mitica dos coletivos
Aqui, c1everia seguir-se um pormenorizado estudo de caso das redes sociotécnicas. Entretanto, já forarn feitos muiros desses esrudos, que pela maioria nao conseguiram consolidar sua nova teoria social, conforme as guerras de ciencia c1eixaram dolorosamente clara para tocios. Apesar dos esforcos heróicos desses estudos, inúmeros autores foram o mais das vezes mal-interpretados pelos leirores, para quem apenas catalogavam exemplos da "construcáo social" da tecnologia. Os leitores respondem pelas evidencias neles amealhadas segundo o parad igma dualista que Os próprios esmdos freqüenrernenre solapam. A obstinada devocáo a "consrrucáo social" como recurso esclarecedor, tanto da parte de leitores descuidados quamo de autores "crfticos'', parece originar-se da dificuldade em esmiucar os diversos significados do lema sociotánico. O que tenciono fazer é, pois, separar lima a urna essas camadas semánticas e tentar construir urna genealogia de suas associacóes. Além dissc, tendo contestado o paradigma dualista durante anos, cheguei a conclusño de que ninguém está preparado para abandonar urna dicotomia arbitrária, porém útil, como a que existe entre sociedade t recnologia, sem substitui-la por categorias que pelo menos parecam proporcionar o mesmo poder discriminarivo. Sem dúvida, jamais conseguirei fazer o trabalho

a

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a definicáo Jo rumo para o qual nos leva. A seta do tempo continua Id.a mescla de objetividade e subjetividade . poi s foi justamente para libertar a ciencia da política que me meti nessa esrranha aventura. num grau maior de intimidade e numa escala mais ampla.como a Fronteira Oeste . valores. subjetividade e política da esfera humana. com mais clareza ainda. os guerreiros da ciencia nao rém dificuldade alguma para situar os escudos científicos: "Por estarem sempre insistindo em que objetividade e subjetividade [termos dos guerreiros da ciencia para nao-humanos e humanos} encontram-se misturadas. tendencias e preconceiros. Encremences. com o par humano-nao-humano. poderemos dispensar para sempre a frase "conjuntos sociorécnicos" sem ultrapassar o paradigma dualista que gosraríamos de deixar para atrás. os estudiosos da ciencia conduzem-nos para urna única direcao. O que garante credibilidade a seta do tempo é o faro de a modernidade ter por fim escapado a ccnfusño. porém um mecanismo muiro diverso a faz pulsar.representa para nós. pois. humanos e nao-humanos. No amago das guerras na ciencia jaz a acusacáo gravíssima de que quem mina a objetividade da ciencia e a eficiencia da tecnologia está tentando nos arrastar de volea a urna idade das trevas primitiva e bárbara . técnicas e sociedade ainda mais estrettamente associadas que as do passado . independentemente da solucáo do problema do seqüestro político da ciencia. Aquilo que se poderia chamar de urna frente de modemizacéo . que a dicotomia sujeito-objeto realizou.6). é que viverernos aman ha metidos em confus6es de ciencia.distingue assim. existe lima alternativa ao mito do progresso. criada no passado. tero ainda um Impero poderoso e tal vez irresistível. do que deverfamos fazer.como o episódio da "vaca louca" bem dernonsrrou aos comedores de bifes europeus. o rcmpo enreda. Passado Presente objetividade. eficiencia Futuro Seta do tempo Ruptura subjetividade. inacrediravelmenre. com clareza. Com esse mapa em máos. A diferenca entre os dois mapas é total porque aquilo que os guerreiros modernistas da ciencia consideram um horror a ser evitado a todo custo . exigencias éticas. direiros. também.político. os escudos científicos recorrem a um mapa inteiramente diferente (figura 6. na narrativa modernista do progresso.6 O que impele a seta do tempo para dianre. a confusáo de humanos e nao-humanos conscirui nao apenas nosso passado como. que será cada vez mais luminoso porque distinguirá. projetando neles paixóes. num inreressante caso de incomensurabilidade cartográfica. o miro do progresso se baseia num mecanismo dos rnais rudimenrares (figura 6.que. A conseqüéncia dessa certeza é urna frente de modernizacáo que nos permite distinguir recuas de avances. A sensacáo de ternpo. revela-se completamente diferente nos dais mapas. A despeito dessa langa e complicada hisrór ia. o passado confuso do futuro.7). conforme deixarei claro nos próximos capítulos. Ao invés de esclarecer mais as relacóes entre objetividade e subjetividade. A fim de avancar. a marca de urna vida civili- 228 229 . entre o que os objetos realmente sao ern si mesmos e o que a subjetividade dos humanos acredita que sejam. de qual guerra deveríamos participar. Todavía. nossoflttltro. naquele que utilizo (figura 6. os conceitos dos escudos científicos sao de alguma forma "reacionários". preciso convencer o leitor de que. sentimentos Frente de modemizacéo Figura 6. a eficiencia e objetividade das leis da narureza dos valores. o passado obscuro do qual precisamos nos arrancar gra~as a um movimento de conversao radical por cujo intermédio urna pré-modernidade bárbara torna-se urna modernidade civilizada". é a certeza de que o passado diferirá do futuro porque aquilo que era confuso se tornará claro: objerividade e subjerividade já nao se m isturaráo. ao conrrétio. Se algo há tao certo quanto a morte e a cobranca de imposros.7).

os guerré'iros da ciencia sempre conseguiráo pespegar aos estudos cienríficos o estigma infame de "reacionários''. Devo. o mais formidável de todos os mitos modernistas. com essa expressño. eles sao simplesmenre as hibridizacóes que nos tornam humanos e nao-humanos. nao objetos e snjeitos. existe ainda urna seta do tempo.. O que. Obviamente. A décima primeira interpretacáo da permutacáo . por provisória que seja. A esta altura do livro. pois podemos visualizar outro mito do qual ela esteja ausente. Para contar minha hisréria. convictos de que pretendemos confundir objetividade e subjecividade. Contusóes de humanos Sujeitos e nao-humanos em Nivel I 1: ecología política Falar de urna permuracác entre técnicas e política nao indica. O mito do progresso tem atrás de si séculas de institucionalizacáo e só o que ajuda minha pragmatogoniazinha sao rneus pobres diagramas. a sensacáo de insrabilidade. asenso comum é justamente o que busco. Como veremos. Conrudo. crenca na disrincño entre lima esfera material e urna esfera social.entre humanos e nao-humanos é a mais fácil de definir porque é a mais escala ainda rnaior / Figura 6. em minha pragmatogonia. Se eu conseguir abrir algum espaco a irnaginacáo. em sua composicño e no grau de enrrelacarnenro de humanos e nao-humanos. em misturadas de humanos e nao-humanos. vejo-me numa siruacáo embaracosa. 230 231 . entendemos que a cada clia nos afastamos mais da confusño entre fatos. abrirei a caixa de Pandora de trás para a frente. o que faz urna enorme diferenca. mas em registro diferente do da figura 6. Preciso oferecer um quadro alternativo do mundo que nao apele para nenhum dos recursos de senso comum. isto é. entretanto. e sociedade. sabemos muitíssimo mais caso queiramos dizer que nossos coletivos esrñc mergulhando mais profundamente. Até que disponhammos cié' urna alternativa a nocáo de progresso. cornecando pelos tipos mais recentes de meandro. Dessa diferenca os guerreiros da ciencia permanecem santamente ignaros. aumenta mais é a escala crescence em que humanos e nao-humanos estáo ligados.. ir em frente.6: as duas linhas de objetos e sujeitos confundem-se mais no futuro do que no passado daí. teria encontrado urna alternativa ao mito do progresso.:> zada . •• '~"'I . nao reclamo para essas definicóes ou para sua seqüéncia nenhuma plausibilidade: desejo simplesmente mostrar que o despotismo da dicotomia entre objetos e sujeitos nao é inevirável. Pois eu vou elaborar essa alternativa recorrendo aos meios mais estapafúrdios.se.a traca de propriedades . Cada urna dessas permuracóes resulta nurnu mudanca radical na escala do coletivo. isolei 11 camadas distintas.7 Na marrariva "serva" alternativa. nao sabernos . "Sabemos hoje mais do que antes?" Nao. Esrou sirnplesmente eliminando do décimo primeiro nivel aquilo que se encontrava inserido nas definicóes de sociedade e técnica. ralvez isso signifique que nao estamos para sempre aferrados ao mito implausfvel do progresso. o medo dos guerreiros da ciencia nao se justifica: nao há aqui nenhuma regressño perigosa. mais intirnamente.uso tal palavra para enfatizar seu caráter fantasioso -. mais que no passado. No caso de minha atual pragmarogcnia'"."'0'" Passado Objetos Futuro Se eu pudesse pelo menos comecar a recitar essa pragmatogonia . Longe de constituir urna horrenda miscigenacáo entre objetos e sujeitos. já que o mito do progresso é tao' poderoso que encerra qualquer discussáo. aquele que manreve meu amigo ern suas garras quando este me perguntou. no capítulo 1. ?!IdJ humanos e nao-humanos. urna vez que todos os anrigos passos conrinuam conosco.exceto pelo fato de que o rempo irá misturar no futuro. mupearei o labirinto até encontrar o meandro primitivo (mítico).! I il i' . por um lado. Quera contar outra história. Pretendo aclarar as sucessivas permutacóes de propriedades entre humanos e nao-humanos. no final das cantas. porém. por outro. ao contrario.

aurocontrole e disciplina. A sociabilidade é partilhada com nao-humanos de urna forma quase promíscua. embora possa também ser chamada sociotécnica. COmo por exemplo na velha industria cervejeira. de urna ~a­ n. Coloque seu aspecto social de um lado e o DNA do fermento de ourro. descobrirei que nossa atual definicáo de tecnologia é. é racáo entre urna definicño anterior de sociedade e urna versáo Nivel 10: tecnooénoa Se eu descer para o décimo nível. políticos e científicos ou técnicos. o direito de nao ser escravizado. Ele foi absorvido ~o. urna poluicáo. ativisras. ameacaria a ordern natural. O novo híbrido permanece nao-humano. e nao sirnbolicamenre como antes. Tal qual sucede a todas as permutacóes. no contexto de nossa crise ecológica. o fermento era urna entidade estritamenre material. que nem "eles" nem "nós" fomos alguma vez primitivos. e vecé deixará escapar nao apenas as palavras do interlocutor como também a oportunidade de perceber como um genorna se torna con~ecido para urna organizacáo e corno urna organiza<. A representacáo política de nao-humanos parece atualmente nao apenas plausível como necessária. .de trinra laborarérios europeus nos quais seu genoma é mapeado. Vamos definir agora o que charnarei. tememos a poluicáo causada por nossa negligencia . Para ele. Exemplificando: ha algum tempo.o que significa. Como os "primitivos". pasto que primitiva de inreligéncia. para empregar a expressño de Miche! Serre. pois deixamos de usar aerosóis com medo de que o céu desabe sobre nossas cabecas. Os nao-humanos sao dotados de fala. previdéncia. computar e ler . ao mesmo tempo.a de urna confusño sociopclírica. encontramos novamente a permuracáo. mas nao apenas perdeu seu caráter material e objetivo como adquiriu foros de cidadania.eira tanto ínt~ma quanto em larga escala. pois o esgotarnento da camada de ozónio provoca urna controvérsia científica. urna entidade jurídica Clo coordenador") e um fenómeno natural (o genoma. Nao faz muito tempo. urna disputa política entre Norte e Sul. no Instituto Pasreur. as formas de coordenacáo aprendidas gracas as "redes de poder" (ver nfvel 9) estendem-se para as entidades inarticuladas. Ele tern . organizacáo e indústria -. mas agora trabalha para urna rede . de política das coisas. ternos de administrar o planeta que habitamos. Esse primeiro nível de significacáo ." 11" :~:. Costumávamos zombar dos povos primitivos por acredirarem que urna desordem na socieJade. que é o décimo significado de sociotécnico 232 233 . eu sou o coordenador do cromossomo 11 Jo fermenro". rodas as rrocas. As tecno logias nos ensinaram a controlar vastos conjuntos de nao-humanos. contemplar o céu significava reflerir sobre a materia ou a natureza. vemo-nos em presenc. nosso híbrido socio técnico mais novo traz-nos o que costumávamos atribuir ao sistema político. O paradigma dualista nao nos permitirá compreender esse híbrido.ao se naturaliza numa seqüéncia de DNA num disco rígido. livro ou programa de a<.definida para ~e~s p~OpOSltos aqm como urna fusáo de ciencia. embora fosse considerada há poucos anos ridícula ou indecente.sem conservar nada de sua qualidade material. por exemplo. na seqüéncia cronológicaé o da ecologia política ou.o último a chegar.!. coletiv~. Já nao nos rimos com tanto gosto. mas nao num arranjo novo e alearório. urna pessoa (clava a si rnesmo o nome de "eu''). claro. . empresários e filósofos políticos sugerem seriamente agora. humanizado e socializado como código.Aqui. "contraro natural TI (Serres . em si mesma. esta mistura elementos de ambos os lados. Por rneio da tecnociéncia . 1995). Embora nesse modelo. O fermento vem sendo posta a funcionar há milenios. a qualidade do estranho. ecologistas.ao compativeis com nossas formas de codificar. um cientista se apresentou assim: "Olá. a seqüéncia do DNA do fermento). Literalmente. Hoje.' literal. devida a permu- parricula: daquilo que um nao-humano pode ser. bem como importantes mudancas estratégicas na indústria. no próximo capítulo. Além disso o laborat?rio industrial onde trabalhava era um lugar onde mod~s atualizados de organizacáo do trabalho procuravam traeos intelramen~e novos nos nao-humanos. Advogados. O cientista que en trevistei nao pensava em atribuir direiros ou cidadan¡a ao fermento. que se concedam a nao-humanos alguns direitos e mesmo urna condicáo jurídica. O híbrido elija máo apertei era. mas de espéCre diferente e que caminha para ourro lado.

(ver figura 6.8), nao gozem de direitos, os autómatos sao muito mais que entidades materiais: sao organizacóes complexas.

In'

~ignific,ldo de- "socforéc.nko''

Nivel 9: redes de poder
As organizacóes tecnocientíficas, con tuda, nao sao puramente sociais, já que elas próprias recapitularn, em minha história, nove permutacóes anteriores entre humanos e nao-humanos. Alfred Chandler e Thomas Hughes rerracaram a inrerpenetracáo de farores técnicos e sociais naquilo que Chandler denomina "corporacño global" (Chundler, 1977) e Hughcs, "redes de poder" (Hughes, 1983). Também aqui se aplicaria a expressáo "confusáo sociorécnica'', sendo possível substituir o paradigma dualista pela "t rama inconsúril'' dos fato res técnicos e sociais tao habilmenre registrados por Hughes. Mas um Jos objetivos de minha pequena genealogia é rambém identificar, na trama inconsútil, propriedades tomadas ao mundo social para socializar nao-humanos e propriedades tomadas nos nao-humanos para naturalizar e expandir a esfera social. Para cada n ível de significa<;"5.0, tudo o que acontece acontece como se esrivéssemos apreendende, em nossos contatos com UID dos lados, propriedades ontológicas que sao depois reencaminhadas para o outro, gerando efeitos novos e absolutamente imprevisfveis . A extensáo das redes de poder na indústria elétrica, nas telecomunicacóes e no transporte é inimaginávél sem urna mobiliza~ao macica de entidades mareriais, O livro de Hughes é emblemático para os estudiosos da tecnologia porque mostea como urna invencáo técnica (luz elérrica) levou ao esrabelecirnento (por Edison) de urna corporacáo em escala nunca vista, cujas dirnensóes se relacionavam direramente as propriedades físicas das redes elérricas. Nao é que Hughes se refira, de modo algum, a urna infra-esrrutura responsével por rnudancas numa superestrutura; ao conrrário, suas redes de poder sao híbridos completos, embora de um tipo especial - das emprestarn suas qualidades nao-humanas ao que eram até entáo corporacóes frágeis, locais e dispersas. O controle de massas formidáveis de elétrons, clientes, centrais elérricas, subsidiárias, medidores e departamentos de expedi<;ao adquire. pois, o caráter formal e universal de leis científicas.

Estado das relacces soctats

Estado das relacoes nao-humanas

Redes ckpoder
1'{'rrnU!<l\,]()

Náo-hum.uu», ~.]() org,miZ,l(ÜeS R('( ()Illp(l~k,,)() de proprif'lLldt's Intimas

tecnocténcta

Figura 6.8 Todo passo na pragmarogonia mítica pode ser descrito corno urna permuracáo mediante a qua! habilidades e propriedades aprendidas nas relacóes sociais rornam-se pertinentes para o esrabelecimento de relacóes corn nao-humanos. Por convencío, entende-se que o próximo passo é dado na direcño aposta.

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O nono nivel de significacáo lembra o décimo primeiro, poi s em ambos os casos a perrnucacño passa, toscamente, de naohumanos para corporacóes. (O que pode ser feiro com elétrons [e/ectronJ] pode ser feitc com eleitores [e/eetorJ].) Mas a intimidade de humanos e nao-humanos é menos norória nas redes de poder que na ecologia política. Edison, Bell e Fcrd mobilizaram entidades que pareciarn matéria, náo-sociais, ao passo que a ecologia política envolve o destino de nao-humanos já socializados, táo perro de nós que precisar» ser protegidos pela dererminacáo de seus direiros legais.

Nivel 8: indústria
Os filósofos e sociólogos das técnicas rendem a imaginar que nao existe dificuldacle em definir as entidades materiais porque elas sao objetivas, composras simplesmente de forcas, elementos e átomos. Só a esfera social, humana, é difícil de interpretar porque, pensamos sempre. seu carérer histórico e, como c1izem eles, "simbólico" apresenta-se complexo. No entanto, sempre que falamos

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de materra estamos realmente considerando, conforme tentarei demonstrar aqui, um pacote de antigas permutacóes entre elementos sociais e naturais, de sorte que aquilo que consideramos termos puros e primitivos nao passam de termos misturados e tardios. Já vimos que a maréria varia grandemente de nfvel para nÍvel - a maréria no nivel que chamei de "ecología polúica" difere da matéria nos nfveis que chamei de "recnologia'' e "redes de poder''. Longe de ser primitiva, imutável e a-histórica, a maréria tern também urna genealogia complexa e nos é transmitida por inrermédio de urna langa e intricada pragmarogonia. O feito extraordinario daquilo que chamarei de indtistria consiste ern estender amaréria outra propriedade que julgarnos exclusivamente social, a capacidade de relacionamento com os semelhantes, os ca-específicos, por assim dizer. Os nao-humanos possuem essa capacidade quando se tornam parte de um conjunto de amantes a que damos o nome de máquina: um autómato dotado de certa independencia e submetido a leis regulares que podem ser medidas por instrumentos e procedirnenros contábeis. Historicamente, a mudanca se deu de ferramenras nas milos de trabalhadores humanos para conjuntos de máquinas, ande ferramentas se relacionam com ferramentas criando um poderoso dispositivo de labuta e vínculos materiais nas fábricas que Marx descreveu como outros tantos círculos do Interno. O paradoxo dessa erapa no relacionamento de humanos e nao-humanos é que ela foi chamada de "alienacáo" e desumanizacáo, como se fosse essa a primeira vez que a fraqueza dos explorados se viu confrontada pela for<;a objetiva todo-poderosa. Entretanto, correlacionar nao-humanos num conjunto de máquinas, governado por leis e operacionalizado por instrumentos, é conceder-Ihes urna espécie de vida social. Com efeiro, o projeto modernista consiste na criacáo desre híbrido peculiar: um nao-humano fabricado que, sem nada ter do caráter da socieelade e da política, edifica o Estado com tanto mais eficiencia quanto parece completamente alheio a humanidade. Essa famosa rnaréria informe, celebrada com enorme entusiasmo ao longo dos séculas XVIII e XIX, que o Homem - raramente a Mulher - eleve moldar e afeicoar com sua engenhosidade, nao passa de urna das rnuiras maneiras de socializar nao-humanos. Estes rém sido socializados a tal ponto que agora dispóem da capacida-

de de criar seu pr6prio conjunto, um aurómeto apto a inspecionar e supervisionar, acionar OL! rerer outros autómaros como se gozasse de absoluta independencia. De faro, porém. as propriedades da "megaméquina" (ver nivel 7) foram esrendidas aos nao-humanos. Somente porque nao ernpreenclemos urna antropologia de nosso mundo moderno é que podemos menosprezar a estranha e híbrida qualidade da materia, supondo-a capturada e implementada pela indúsrria. Tomamos a materia por algo mecánico, esquecendo-nos de que o mecanismo constitui a metade ela moderna definicáo de sociedade*. Urna sociedade de máquinas? Sim, o oiravo significado do adjetivo "sociotécnico", embora pareca designar urna indústria nada problemática, que domina a rnatéria por intermédio da maquinaria, continua a parecer-nos a mais esquisita confusáo sociotécnica. A maréria nao é urna cria<;ao elada e sim urna criacño histórica recente.

Nivel 7: a megamáquina
Mas de ande vem a indústria? Ela nao é a descoberta nem dada nem súbita, pelo capitalismo, das leis objetivas da matéria. Temas de imaginar sua genealogia recorrendo a signific,ados mais antigos e primitivos do termo sociorécnico. Lewis Mumford apresenrou a tese intrigante de que a megamáquina - organizacño de vasto número de humanos por cadeias elecomando, planejarnento deliberado e procedimentos contáveis - representa urna rnudanca ele escala que precisa ser realizada antes de as roelas e alavancas poderem ser desenvolvidas (Mumford, 1966). Em algum ponto da hisrória as interacóes humanas passam a ser mediadas por um amplo, estratificado e externalizado organismo político que vigia, por meio de toda urna gama de "técnicas intelectuais'' (escrita e contabilidade, basicamente), os inúmeros subprogramas de ac;ao encaixaclos uns aos outros. Quando alguns desses subprogramas (mas nao tocios) sao substituídos por nao-humanos, nascem as máquinas e as fábricas. Os nao-humanos, desse ponto de vista, ingressam numa organizacáo já existente e assumem um papel ensaiado há séculos por obedientes servos humanos alistados na megamáquina imperial. No sétimo nivel, a massa de nao-humanos arregimentados nas cidades por lima ecologia inremalizada (definirei lago adian-

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te essa expressáo) recebeu o encargo de construir o império. A hipórese de Mumford torna-se discutível, para dizer o mínimo, quando nosso contexto de discussáo é a hisrória da tecnologia; mas faz muito sentido no contexto de minha pragmatogonia. Antes que seja possível delegar a~ao a nao-humanos e correlaciona-los num autómaro, cumpre encaixar urna série de subprogramas de acáo uns nos outros, sem perdé-Ios de vista. O controle, diria MumforJ, precede a expansáo das técnicas materiais. Mais ero consonancia com a lógica de minha hisrória, alguém poderia sustentar que, qnandoaprendemos algllma coisa sobre o controle de hu-

se en rendia por vida social e material. Ao descrever o sexto nfvel , elevemos falar em vida urbana, impérios e organizacóes, porém nao em sociednde ou técnicas - nem em represenracáo simbólica e infra-escrururu. Tao profundas sao as mudancas ocorridas nesse n ive] que ultrapassarnos os portóes da história e penetramos no amago da pré-bisrória ou mitologia.

Nivel 5: sociedade
que é urna sociedade, esse ponto de partida de todas as explicacóes sociais, esse ti priori de toda a ciencia social? Se minha pragmatogonia for pelo menos um pouco sugestiva, a sociedade nao pode integrar nosso vocabulario final, já que o próprio termo teve de ser fabricado - "socialmenre consrruído", conforme a expressáo equivocada. Mas, segundo a inrerpretacáo de Durkheim, urna sociedade é mesmo primitiva: ela precede a ar;ao individual, dura mais que qualquer interacáo e domina nossas vidas. Nela nascemos, vivemos e morrernos. É externalizada, reificada, mais real que nós próprios - portento. a origem de toda religiéo, de todo rito sacro, que para Durkheim nada mais sao que o regresso do transcendente, mercé de figura)"Uo e mito, as interacóes individuais. No entanro. a própria sociedade é construída gracas a essas inreracóes coti~lianas. Por mais avancada, diferenciada e disciplinada que a sociedade se tornar, ainda repararemos o recido social recorrenelo aos nossos próprios métodos e conhecimenros imanentes. Durkheim pode estar cerro, mas Harold Garfinkel rambém. Talvez a solurño. em consonancia com o princípio generativo de minha genealogia, seja procurar nao-humanos. (Esse princípio explícito é: procure nao-humanos quanclo o surgimento de um trar;o social for inexplicável; procure o estado das relar;6es sociais quando um novo e inexplicével tipo cle objeto entrar no ccletivo.) O que Durkheim confundiu com o efeito de urna ordem social.wi genens foi sirnplesmenre o efeiro ele se trazer tantas técnicas para explicar nossas relacóes sociais. Foram das técnicas, isto é, da capacidade de encaixar diversos subprogramas uns nos.ourros, que aprendemos o significado de subsistir e expandir, acertar um papel e renunciar a lima funcáo. Devolvendo essa competencia a definiráo de sociedade, ensinarnos nós mesmos a

manos, transferimos esse conaecimento a n¿¡o-hltliumoJ, dotando-os de mais e mais propriedadeJ organizacionais. Os episodios pares 'que
narrei até aqui seguem o seguinte pcdrño: a indústria repassa a nao-humanos o controle das pessoas proficientes na máquina imperial, assim como a tecnociénc¡a repassa a nao-humanos o controle em larga escala aprendido por intermédio de redes de poder. Nos níveis Impares, ocorre o oposto: o qm: se aprendell de nao-humanos é retomado para reconfigurar pessoas.

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Nivel 6: ecología internalizada
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No contexto do sétimo n ível , a megamáquina parece urna forma acabada pura, cornposra inreiramenre de relacóes sociais. Todavía, quando alcancamos o nível 6 e investigamos o que existe por trás da megaméquina, deparamo-nos com a mais extraordinária exrensáo de relacóes sociais a nao-humanos: agricultura e dornesricacáo de animáis. A intensa socializacao, reeducacáo e reconfiguracáo de plantas e animais - tao intensa que altera a forma, a fun<;ao e até mesmo a estrurura genética - é o que chumo de "ecologia internalizada''. Como no caso de nossos outros níveis pares, a doruesr icurúo nao pode ser descrita em termos de um acesso súbito a lima e-sfera material objetiva, existente aléw dos cstreiros limites do social. A fim de alistar animais, plantas e proteínas no novo coletivo, é necessário em primeiro lugar at ribuir-Ihes as curacrerfscicas sociais necessérias a sua integracáo. Esse tráns¡co de características resulta numa paisagem, feira pela mño do hornern para a sociedade (aldeias e cidades), que altera completamente o que antes

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Shirley Strum e eu chamamos esse rerceiro nível de significado de complicafao social (Strum e Larour. a Nivel 4: técnicas A esta altura de nossa genealogia especulativa. modificando-a e em seguida utilizando-a para trabalhar ourra pedra. mas apenas urna história sociorécnica (Larour e Lernonnier. a historia da infra-estrutura e a hisrória da superestrutura. Finalmente. digamos. como um parceiro social. no sentido de um JIlodllJ operandi. Mas entáo o que vem a ser urna ferramenta? A exrensáo de habilidades sociais a nao-humanos. quando codificadas (por exemplo) na consrrucáo genética. Muitos arqueólogos supóern que a caixa de ferramentas básicas (como a chamo) e as técnicas estáo direramente relacionadas pela evolucéo das ferramentas simples para as ferramentas compostas. Kummer. nenhum dispensador de papéis e funcóes. existem apenas interacóes entre pré-humanos. mas conseguem excogitar ferramenras sociais (como Hans Kummer as chama. Se vecé atribuir aos pré-humanos de minha própria mitologia algum tipo de complexidade social. O que animais sociais complexos* nao conseguiam realizar faz-se viável para pré-hurnanos . mas apenas de pré-humanos sociais.a de vestuario sao consti tuídos de partes e pe~as que exigem recombinacáo em seqüéncia de ternpo e espa~o sem relacáo com seus cenários originais. mas para fixar. encaixar subprogramas uns nos outros. estamos em condicao de definir "técnica". nenhuma rota direra.reificá-la.um cerro grau de durabilidade. só dáo testemunho em nome de centenas de milhares de anos. as megamáquinas e as redes. lanca.tratando urna pedra. Em suma. . como diversos teóricos sociais presumem. O envolvimento de nao-humanos resolve a conrradicáo entre durabilidade e negociabilidade. 1994). a sociedade existe. com alguma precisao. sublinhar. Aprendemos rambérn a delegar sociedade a tarefa de nos redelegar papéis e funcóes. Ou melhor. mas depois disso duram mais que as interacóes que os fabricaram. Entretanto. As técnicas sao aquilo que acontece a ferramenras e aruantes nao-humanos quando processados por urna organizacáo que os exrrai. As 240 INSTITUTO DE PSICOlOGIA _ glCllnTLn. As ferramentas pré-humanas. venham de onde vierem. recombina e socializa. nao há nenhuma rota direta da pedra lascada para a usina nuclear. mas urna organizacáo semi-social que arregimenta naohumanos de diferentes climas. E nao há. lugares e materiais. inreracóes sociais mostram-se extremamente instáveis e transitórias. mas nao {Joda/mente construida. flexíveis e duráveis.ferramentas . 1993) gra~as a esrratégias complexas de mútua manipulacáo e modificacáo. ensinam-nos os arqueólogos. nao existe sociedade. sao subprogramas articulados para acóes que subsiscem (no ternpo) e se estendem (no espaco). nesra etapa. sao negociáveis mas transitórias ou. Tornase possível acompanhar (ou "obscurecer") interacóes. Nivel 2: a caixa de ferramentas básicas As ferramentas em Si. nao convém mais falar de humanos anarornicamente modernos. Enfim. ao contrario dos implementos Nivel 3: cornpncacao social Mas que forma de organizacño pode explicar essas recombinacóes? Lembremo-nos de que. nao há um conjunto de histórias paralelas. Os nao-humanos proliferam debaixo da reoria social. Os símios maquiavélicos possuem poucas técnicas. Embora composta unicamente de interacóes. recombinar tarefas altamente complexas. materializar e vigiar a esfera social. 1987). nenhuma esrrutura abrangenre. ao mesmo tempo. martelo. a libertar a sociedade das inreracóes movedicas. Os nao-humanos sao. As técnicas nao implicam sociedaJe (esse híbrido tardío). a esfera social torna-se visível e consegue. até nesse nível primitivo de significado as formas de organizacáo revelam-se inseparáveis dos gestos técnicos.que utilizarn ferramentas nao para obter alimento. podem ser moldados rápidamente. inreracóes complexas sao assinaladas e acompanhadas por nao-humanos alistados para um propósito específico. Aqui. da cornplicacáo social para a sociedade. rede ou pe<. além disso. Arco e flecha. atribuir-lhes-á rambém a possibilidade de gerar ferrarnentas pela transmissdo dessa competencia a nao-humanos . Até as técnicas mais simples sao sociotécnicas. gra)"as ao alistamento de nao-humanos . As técnicas. Qual propósito? Os nao-humanos esrabilizam as negociacóes sociais. muito persistentes mas difíceis de renegociar.

Mais que ninguém. de múltiplas perspectivas. contingentes. complexas. no fundo de nossas mentes. ou 11. As propriedades de humanos e nao-humanos nao podem ser intercambiadas ao acaso. 1987). Certamente. que se abandonarmos a dicotomia entre sociedade e técnicas terernos de encarar urna trama inconsútil de fatores onde tudo está incluído em tudo. expulsas para mais longe ainda do Eden da humanidade e da poesis. Chamamos esse estado. mais articulados se tornam os coletivos nos quais vivemos (ver figura 6. Mas esse golpe contra as narrativas "rnestras" nunca é muito eficaz porque.ad boc de outros primaras. como se pudéssemos ler a história do mundo num relance. que talvez seja ainda mais tosco que meus diagramas . alguma coisa vai sub-repticiamente reunindo tudo num único feixe. viro adireira para desfiar urna narrativa "serva". e seu relato encerra o sombrio e vigoroso apelo de todos os contos de decadencia.urna de rninhas desculpas é a brevidade da investigacáo. Mesmo que a teoria especulativa por mim esbocada seja inteirarnenre falsa. em cada um dos 11 níveis. sempre surpreende constatar quilo poucas alternativas ternos acenografia grandiosa do progresso. de complexidade social. a derradeira circunvolucáo no labirinto de Dédalo. representam igualmente a extensáo de urna habilidade ensaiada na esfera das inreracóes sociais. poderemas dar algum sentido a urna história em que. Se junrarrnos sobre urna mesa os diversos níveis que descrevi brevemente . ou 8. Manipulam-se uns aos outros a fim de sobreviver em grupos. . como se a cada passo na extensáo da ciencia e da tecnologia nos afastássemos cada vez rnais de nossa humanidade. Nível l: complexídade social Chegamos finalmente ao nível dos primaras maquiavélicos. a pretexto de que as coisas sao sempre locais. eles criarn interacóes sociais para reparar a ordem social em perpétua decadencia. como fazem tantos. contra o banimento das narrativas "mestras''. Uma recapítulacao imposslve! mas necessária Sei muiro bem que nao deveria fazer isto. pelo menos. a genealogia demonstra ser falso afirmar. É combater o rnodernismo descobrindo o eseonderijo onde a ciencia rem sido mantida desde seu seqüestro para fins políticos dos quais nao cornpartilho. históricas. nao estamos galgando urn futuro feito de mais subjerividade e mais objerividade. e de que é um crime encerrá-las a todas num esquema pareticarnenre pobre. Foi isso que Heidegger fez.. conseguimos qualificar os significados de um termo até enráo .inclusive a cenografia pós-moderna da multiplicidade e da perspectiva. 1992). Nao sao coercóes ou objetos rnateriais. Aqui. Deixo avasta bibliografia primatológica a tarefa de mostrar que a presente etapa nao está mais livre de con tatos com ferramenras e técnicas do que qualquer urna das etapas posteriores (McGrew. nao importa quáo convictos estejamos da multiplicidade radical da existencia. Eis por que. Meu pequeno conro cosmogónico revela a impossibilidade de termos um artefato que nao incorpore relacóes sociais. Sociotécnico 1 é diferente de sociotécnico 6. bem como a impossibilidade de definir estrururas sociais sern explicitar o amplo papel nelas desempenhado por nao-humanos. Todavia. devo perceber que é loucura tanto extrair as diferentes acepcóes de "sociotécnico" quanto recapitular todas elas nurn único diagrama. Meu alvo nao é ser razoável. esse nível. Nao estamos limitados a explicacóes do tipo "náo apenas. Poderemos tarnbérn abster-nos de qualquer narrativa "rnestra". que no entanto cobre rnilhóes de anos! -. Mas tam~bém nao estamos descendo. Recorrendo a super-roteiros. Padecíamos contra-atacar com urna lúgubre historia de decadencia e ruina. ou 7. o significado da palavra "sociotécnico" é esclarecido quando consideramos a própria troca: o que se aprendeu de nao-humanos e se transferiu para a esfera social e o que se ensaiou na esfera social e se rccxportou para os nao-humanos. Nao estamos presos para sernpre nurna aborrecida alternancia entre objetos ou matéria e sujeitos ou símbolos. Em segundo lugar. Nao apenas existe ordem na troca de propriedades como. ela entreve. a possibilidade de imaginar urna alternativa genealógica ao paradigma dualista. mas rambérn". respeitável ou sensível. quanto mais avancemos. e mais importante.. ficando cada grupo de co-específicos num estado de constante interferencia recíproca (Srrum.9). Também estes possuem urna historia.

nosso próprio carpo. Após a mudanca de paradigma em nossa concepcáo de ciencia e tecnologia. o velho paradigma. a arriculacáo. na verdade. nao deveremos fazé-lo considerando os artefaros como coisas. no entanto. nao possuirmos urna definicño de política apta a responder as especificaqóes dessa história nao-moderna. com efeito. para enfrentar nosso desafio. moralidade. as definicóes que podemos elaborar de humanos e nao-humanos deveráo recapitular todos os níveis anteriores da historia. na verdade.ser monista e fazer distincóes. Jamais estamos limitados a vínculos sociais. menos puras se tornam as definicóes de humanos e nao-humanos. Em lugar da grande dicotomia vertical entre sociedade e técnicas. O principal trace desse mito é que. o planeta inteiro estar votado a elaboracáo de políticas. Estado das relacóes scciais Complexidade social Estado das relacoes humanas Permutacáo ~ Ferramenlas sociais f1exibilidade durabílídade . Conceber humanidade e tecnologia como pólos opostos é. é cornposta ern grande medida de negociacóes e artefatos sociotécnicos. Espero que tenha. esse vasto movimento em espiral. Nós. Jamais nos defrontamos unicamente com objetos. elas crescem juntas e crescem irreversivelmente.ao Ecolog¡a intemaltaada . Pode-se ter o bolo e come-lo . Eles merecem algo melhor. O desagradável problema com que ternos de nos haver é o de. descartar a humanidade: somos anirnais sociotécnicos e toda inreracáo humana é sociotécnica. . Merecern ser alojados ero nossa cultura intelectual como atores sociais de pleno direiro. Esse diagrama final recoloca a humanidade em seu devido lugar . surgirá um padréo: as relacóes entre humanos sao constitufdas a partir de um conjunto prévio de relacñes que vinculavam nao-humanos entre si. criando assim um futuro radicalmente diferente de nosso passado. Objetividade e subjetividade nao sao pólos opostos.9 Se forem sornadas as permutacóes sucessivas. a cada etapa (mítica). na etapa final. a possibilidade de mediar mediadores.na permutacáo. Até a forma dos humanos. Quanto mais avancemos. esse fado. a ponto de. nos revezamos entre estados de relacóes sociais e estados de relacóes naohumanas. leis e.¡ '1+ '1+ Calxa de ferramentas básicas 2" 3" Cornpllcacáo social • I' articulacáo externalizilcao Técnicas 4" 5' Sociedade • r I domeslic<l(. essas novas habilidades e propriedades sao depois reutilizadas para padroniZar novos tipos de releczes entre nao-humanos e assim por dianre. está disponível agora) um legue de distincóes horizonrais entre significados muito diferentes dos híbridos sociotécnicos. nunca aconteceu.'io reifica¡. convencido o leitor de que. no mínimo. infelizmente. mais se extremam a objetividade e a subjetividade. Os arrefaros medeiam nossas a~6es? Nao. A ilusáo da modernidade foi acreditar que. mas isso nao é o mesmo que nos revezarmos entre humanidade e objerividade. Meu problema principal. a escala e o emaranhado aumentam. a coluna central. teoria social e moralidade cifra-se em inventar instiruicóes políticas capazes de absorver essa grande história. sabemos agora que isso nunca acontecerá e. é que em cada um dos 11 episódios que examinei um número crescente de humanos se mistura com um número crescenre de nao-humanos. os artefatos somos nós. Ao contrario. 6' 7" Megamáquina administracáo ('m larga • e~calal automacao ¡ lndústria 8' 9' Redes de poder Tecnocléncle 10' 11' Ecologia potttfca Figura 6. Nao quer dizer que o antigo dualismo. O alvo de nossa filosofia. para logo (creio eu). quanto mais crescemos.inapelavelmente confuso. hoje em dia. esse labirinto. é concebível (de fato. O equívoco do paradigma dualista foi sua definicáo de humanidade. nada tenha a dizer por si mesmo.

] Precisamos confirmar e fortalecer a visáo de um mundo racionalmente compreensível se quisermos proteger-nos contra as tendencias irraeionais que ainda assediam a humanidade. Seu ritmo assernelha-se ao do teorema de Fermat e ao das placas tectónicas das glaciacóes. Pelo contrário. impotente. Nao admira que sempre percamos e sejamos acusados de politizar a ciencia! A epistemologia nao tornou opaca apenas a prática da ciencia e da tecnologia: fe-lo também a prarica da política. . por exemplo.. inclusive aprópriadistinfdo entre ciencia e política. o medo do governo da massa. séculas e séculas podem transcorrer sem afetá-la um mínimo que seja. o amor. os deuses e os homens. é A invencáo na Ciencia o acordo de Sócrates e Cálicles . bastardo. Cálicles. foi entregue aos combatentes pelo partido que desejamos combater. 15) E aqui está a famosa admonicáo de Sócrates: geollletrias gar ameleis! Os sábios. a proverbial cenografia do poder t'erJIIJ direito. a ordem. nao esrou pretendendo que ela se move num ritmo veloz. o que preserva a integridade do antigo acorde..toda definicáo que ternos de política provém do acordo modernista e da definicáo polémica de ciencia que achamos tao deficiente. Como logo veremos. a FOI\=a coma o seu lugar. dizem que a cooperacáo. a similitude entre o veemente discurso que Sócrates dirigiu ao sofista Cálicles no célebre diálogo Górgias e esta recente assercáo de Steve Weinberg no New York Reuieui 01 Books: Nossa civilizacáo rem sido fortemenre aferada pela descoberra de que a natureza é estritamenre governada por leis impessoais [. u Quantas vezes nao ouvimos esse grito de desespero? Nada mais natural do que clamar pelo Direito quando deparamos com os horrores que restemunharnos todos os dias. a disciplina e a juscica unem o céu e a tetra. é o que seqüestrou a prática da ciencia com mira no mais implausível dos projetos: a abolicéo da política.' USe o Direito nao prevalece. Quando digo que esse grito de guerra tero urna história. Considere-se. Cada urna das ferramentas utilizadas nas guerras de ciencia. é o que nos tornou modernos. ilegítimo. Mas esse grito também tem urna hisrória que queremos examinar porque assim talvez possamos resrabelecer urna distincáo entre ciencia e política e explicar por que o Estado foi inventado de um modo que veio a torná-Io impossível. (8 de agosto de 1996.

como Nietzsche. foi discutida. Já em 385 a. irá proteger urn Estado em constante risco de ser feito pela multidáo. aliás. que nenhum homem construiu. Quero. Resumindo: só a inumanidade irá subjugar a inumanidade.a Razáo é tornar a moralidade e a paz social impossíveis. tentar fazer a arqueologia do reflexo pavloviano que faz com que qualquer palestra sobre estudos científicos provoque estas perguntas do público: "En tao vocé quer que só a for~a decida em matéria de preva? Entáo vocé é a favor da regra da multidáo contra a do entendimenro racional? Nao há mesmo outro caminho? É realmente impossível construir outros reflexos. entre os quais. que sao alvejados publicamenre hoje em dia e com quern. C. contra o Sócrates degenerado e moralista. 1994). pesa-me dizé-Io. que eles chamam o universo de ordem e nao de desordem e desregramenro. a partir dos sofistas. tao vaga quanro a maldicño de ser "sofista"). em outras palavras. é o forte vínculo que ambas esrabelecem entre o respeito pelas leis naturais impessoais. especialmente na excelente traducáo de Robin Waterfield (Oxford University Press. entretanto. O princípio comum é que precisamos de algo "inumano'' . Alguns afirmaram que o acréscimo de inumanidade a inumanidade só fez aumentar a miséria e a Iura civil e que se deve iniciar urna luta leal contra a Ciencia e a Razáo para proteger a política contra a intrusao da ciencia e da tecnologia. mas como se ele tivesse sido publicado alguns meses atrás na New York Review of Books como uma contribuicáo para as devastadoras Guerras na Ciencia. Nenhuma dessas críticas. demasiado humana. Esse quebra-cabeca pode formular-se de maneira muito simples: os gregos inventaram em demasia! Inveotaram a dernoé . eu sou freqüenremente confundido. Sim. como se tornará penosamente claro). Somente a conexáo entre as duas. Nao estou lendo o Górgias como se fosse um estudioso grego (nao estou. discutiu simultaneamente a definicáo de Ciencia e a definicáo do Estado que ela implica. Essa linha de raciocínio.se queremos ser capazes de lutar contra a "inurnanidade". assim como. para ver como ela foi encenada pela primeira vez. que se torna cada die mais humana. ao longo de uro enorme intervalo de séculos. em nossos tempos. a violencia do Estado. Esse desprezo pela geometria levou-o a acreditar que se deve querer rer mais do que os outros. e. Mas parece-me que apesar de ~oda a sua cien:i~ vocé nao a~enta nisso. que chamarei de "inumanidade contra inumanidade". que foi comentado por todos os sofistas posteriores da Grécia e. contra quem Plaráo Ianca o seu assalro total até o variegado grupo de pessoas acusadas de "pós-rnodernisrno" (acusacáo. Os pósmodernos do passado e do presente tentaram romper a conexáo entre a descoberta das Ieis narurais do cosmo e a questáo de tornar o Estado seguro para os seus cidadáos.a. ele trata do mesmo quebra-cabeca que associa a academia e as nossas sociedades atuais. ele incluía cientistas e cosrnologistas como Weinberg. meu amigo. cujas demonstracóes escapam a fantasía humana . de outro. e cada dia mais adulterada pela luta civil que ela supostamente abrandaria. Atacar.É por isso. Outros. que nao é feita pelo homem. ou a sua conveniencia. nenhum texto é mais adequado do que o Górgias. lamento dizé-lo. SÓ a Ciencia. tenraram mostrar que a regra da rnultidáo.lura contra a irracionalidade. Neste e no próximo capítulo quera retornar a fonte do que eu chamo de cenografia da lura da Razáo contra a For~a. que só a violencia poderia submeter tanto a mul tidác como o seu séquito de sacerdotes e outros homeos de ressentimento.para ~einberg as leis naturais. ourros recursos intelecruais"? Para avancar um pouco mais nessa genealogia. foi atacada desde o seu princípio. a Razáo é a nossa muralha. SÓ a Razáo nos protege contra a Forca: Razáo contra guerra civil. Em ambas as citacóes o destino da Razáo e o destino da Política estáo associados num (mico destino. Ourros. está poluindo em toda parte a pureza da Ciencia. de um lado. para Sócrates a geometria. A ioumanidade aceita ern ambas ou pelo menos em urna delas. aceitaram desavergonhadamenre a posicáo de Cálicles e afirmaram. nossa Grande Muralha da China nossa Linha Maginot contra a perigosa e intemperante multidáo. de Roma. já que nunca a genealogia foi mais belarnente esrabelecida do que no acrimonioso debate entre Sócrates e Cálicles. depois. a imoralidade e a desordem polftica. por pensadores tao diversos quaoto Charles Perelman e Hannah Arendt. esquecendo-se de que a igualdade geometnra rem muna poder entre os deuses e os homens. ainda. (S07e-SOBa) o ~ue essas duas ciracóes rém em comum.

mas de fato vocé encaminha a discussao para esse tipo de idéias éticas . no qual procurarei mostrar que o Estado poderia comportar-se de maneira muito diferente caso se tivesse outra defini<. mas a conveniencia de quebrar a regra da rnultidáo permanece fora de quesráo. por que me parece correro o que vocé disse. Quero ressaltar dais aspectos da discussáo que. Um deles é que Sócrates e seu rerceiro oponente. Em meu comentário. No fim. SÓCRATES: O amordemótico. Sócrates acusa Górgias e depois Polo de serern escravos do POyO. ou de serem. é que rrabalha contra mimo (513c) Evidentemente. Tres sofistas se opóern sucessivamente a Sócrates e sao derrotados um após outro: Górgias. como veremos. o amor do povo nao está sufocando Sócrates! Ele tem um modo de quebrar a regra da maioria que nenhum obstáculo consegue refrear. fazendo as leis a seu bel-prazer. como doentes. rérn sido freqüenremenre subesrimados. ou. podemos ser capazes. um pouco moroso. 1995). Como veremos. Cálicles.ao da ciencia e da democracia. as únicas capazes de entender a sua posicño e de julgála . Esse será o foco do capítulo 8. epideixis* e apodeixis* (Cassin. para usar os termos que Barbara Cassin comenra de forma táo excelente. Cálicles. a gente comum. qualquer um o admitiria. aos lacaios e servicais de Atenas. e nao da narureza" (482e). agindo como enancas. nem sempre seguirei a ordem cronológica do diálogo e me concenrrarei principalmente em Cálicles. Para revisitar esse "cenário primordial" da Razáo e da Forc. concordam em rudo. que vecé traz no corecso.com boa razáo. Polo. Os dois protagonistas fazem guanto podem para nao serem estigmarizados com esta acusacáo fatal: assemelbar-se ao pOYO. quando é a sua vez de falar. se reescrevermos esse acordo. nos nossos "tempos de vaca louca". receio que teremos de seguir o diálogo com alguma minudéncia. Sócrates. Sócrates.cracia e a demonsrracáo matemática. Como devemos chamar ao gue resiste no seu coracáo senáo "ódio demótico"? Se fizermos urna . incapazes de pronunciar outras palavras que nao as que a rnulridáo furiosa póe na sua boca. Mas Cálicles também. Urna ciencia finalmente livre de ser seqüesrrada pela política? Melhor ainda. a multidáo reunida na ágora. e finalmente o mais áspero dos tres. a meu ver. Tesremunhamos essa troca de idéias na qual um Cálicles condescendente e cansado parece perder o debate referente a distdncia que se deve tomar em relacáo ao demos: CÁLICLES: Nao sei explicá-lo. de tirar partido de ambos. Sócrates e Cálicles versus o povo de Atenas o ódio demótico Estamos tao acostumados a opor Forca e Razáo e a procurar no G'órgias suas melhores exemplificacóes que nos esquecemos de observar que Sócrates e Cálicles rérn um inimigo comum: o POyO de Atenas. Sócrates. Porém comigo se dá como com quase roda a gente: vecé nao consegue convencer-me inteiramente.idéias que sao suficientemente nao-sofisticadas para rer um apelo popular e que dependem por inreiro da convencáo. urna forma de governo finalmente livre de ser deslegitimada pela ciencia? Eis urna coisa que. o famoso e nao-famoso Cálicles. A invocacáo de Sócrates da razño contra as pessoas irracionais molda-se efetivamente na exigencia de Cálicles de urna "partilha desigual de poder". como Cálicles. acusa Sócrates de ser escravizado pelo pavo de Atenas e de esquecer aquilo que torna os senhores nobres superiores ao boipolloi: lIVOCe diz que o seu objetivo é a verdade. meio cansado de urna palestra que acabou de fazer.a. vale a pena tentar. A estrutura da história é clara. O segundo aspecto é que ainda se pode reconhecer na fala dos quatro protagonistas o trace indistinto das condifoes defeliádade* que sao próprias da política e que tanto Cálicles quanro Sócrates (ao menos como personagens do espetáculos de marionetes de Platáo) fizeram o possfvel para apagar. falando sem parar. Ainda estamos lutando. eles nao rardam a discordar quanro amelhor forma de quebrar a regra da maioria. tendo desencorajado a discussño. fala para si mesmo e faz um apelo final as sombras do além. com esse mesmo dilema: como ter urna ciencia e urna democracia ao mesmo rempo? O que eu chamo de acordo entre Sócrates e Cálicles tornou o Estado incapaz de engolir as duas invencóes de urna só vez. Mais felizes do que os gregos.

descendente de urna raca de senhores. ou histórico. (455a) Siro. Devido a hábil encenacéo de Platáo (tao hábil que perdura até hoje nos anfiteatros dos campi). Como Sócrates e Cálicles percebem imediaramente. enancas e escravos que as assembléias merecem esse desprezo? É por se comporem de pessoas que trabalham com as próprias máos? Ou é porque mudam de opiniáo corno bebes e querem ser mimadas e superalirnenradas como criancas irresponsáveis? Tudo isso.posic. mas sua piar qualidade. Está procurando urna force mais forre que a forca.ao que eles aceitam cortesrnente porque Platáo está rnanobrando todos os cordéis das marionetes do diálogo ao mesrno tempo. as condicóes normais do Estado? Nao foi para lidar coro essas siruacóes peculiares de número. ainda visíveis no diálogo. que o direito foi determinado como segue: a pessoa superior há de dominar a pessoa inferior e ter mais do que ela [. A melhor forma de quebrar a regra da maioria A solucáo de Cálides é assaz conhecida. por urna razáo sim- . Tomados de horror pelos números. sem dúvida. Ao Cálicles que retérn aspectos das condicóes precisas de felicidade inventadas pelos so- fisras. eles concordam em outra solucáo radical: quebrar a regra da maioria e escapar dela. É nessa juncáo que a luta entre a Razáo e a Forca está senda inventada. reservada a elite. que tornará a forca fraca.] 'Iais pessoas agem. urgencia e prioridade que se inventaram as sutis habilidades da política? Siro. Embora o Cálicles de palha seja um forte inimigo do demos e a perfeita contrapartida de Sócrates. embora das presumivelmente contradigam as leis feítas pelos homens. "A retórica. As provas disso sao numerosas.r]. o Cálides antropológico nos permitirá restabelecer algumas das especificidades da maneira de dizer a verdade política. ao conrrário. apresenrada sob urna luz clara e ingenua pelo homem bruto e Ioiro nierzschiano. para que nao atribuamos aos sofistas a posicáo em que Sócrates está tentando acuá-los . chamarei o Cálicles que representa um papel de realce para Sócrates de Cálides de palha. como veremos no capítulo 8. Sócrates. mas de algo. em conformidade com a esséncia natural [kata phusitJ] do direiro. para os nossos quatro protagonistas.lista de todos os termos depreciativos com os quais as pessoas comuns sao estigmatizadas por Cálicles e Sócrates. a exemplo das nacóes e comunidades humanas. tuda o que ela quer é persnadi-ias a compreender assuntos tao importantes em tao POlleo tempo". pela urgencia e pela pnoridade. é sobre o mau rapaz que o bom rapaz. ternos de distinguir entre dois papéis desempenhados por Cálicles. Nao sao essas. É a velha solucáo aristocrática.. mas vou ainda mais longe e digo que elas agem em conformidade com as Ieís naturais [kata nomon getés phttseó. é ainda mais elementar: o grande defeito constitutivo das pessoas é que há uro número excessivamente grande delas. entáo''. ou antropológico. a cenografia da commedia dellárte que vai enrreter tantas pessoas durante tanto tempo. que torna as almas nobres incompreensíveis para o demos. "nño está preocupada em educar as pessoas rennidas nos tribunais e nas demais assembléias sobre o cerro e o errado. apesar de suas sarcásticas observacóes. Cálicles apela para a natureza que está acima da história feira pelo homem: Mas acho que precisamos apenas observar a natureza para encontrar provas de que é justo que os melbores tenham uma paree maior do que os piores. vai modelar a sua solucáo simiesca para o mesmo problema: para ambos. Mas nao nos deixemos levar pelo que está acontecendo no palco. as questoes sao por demais importantes [mega/a pragmata]. diz Sócrates em sua tranqüila arrogancia. todavia. É por serem poluídas por mulheres. Devemos seguir com alguma precisáo os ardis que Cálicles emprega porque. sem dúvida. Cálicles nao é a favor da Forca entendida como limera forca". Ourras criaturas mostram. mas essa nao é a postura que Sócrates e Cálicles adotam. Numa anrecipacáo visionária de cenos aspectos da sociobiologia. Acreditar no que Platáo diz dos sofistas seria como reconstituir os escudos científicos a partir dos panfletos dos guerreiros da ciencia! Assirn. porém. essa nao é urna definicáo suficiente da Forca. existe outra lei natural. será difícil saber qual deles as despreza mais. há um número excessivamente grande delas. que os mais capazes a tenham mais do que os menos capazes. o tempo é muito curto [oligo chronor). chamarei de Cálicles positivo. a/értt das leis convencionais feiras pela e para a multídáo..

Mas tenho certeza de que. mas como um elitista e perito quebrando a regra da multidáo e impondo a Razáo superior a to- Esse tipo de afirrnacáo fez muito pela reputacáo de Cálicles. como fazemos com o leño. urna forca belamente definida por Sócrates quando ele resume a posicáo de Cálides: SÓCRATES: Eis. Se tirarmos de Cálicles a capa da imoralidade. Nada mais elitista do que a Perca apavoranre." (489c) Nesse ponto devemos ter todo o cuidado para nao introd~­ zir o argumento moral que virá depois. "Que é que fazemos com os melhores e mais fortes denrre nós"?. Estamos tao habituados a rir quando Cálicles cai em todas as armadilhas forjadas por Sócrates que deixamos de ver quáo similares Sao os papéis que ambos atribucm a urna lei natural irrepressível e nao criada pelo homem. Seu apelo a lei natural irrepressível assemelha-se exatarnente a "inumanidade subjugando a inumanidade'' com que iniciei este capítulo. pois nisso precisamente consisrern o belo e o justo. que será acrescenrada posteriormente ao diálogo no interesse da exposicáo. concentrando-nos apenas no modo pelo qual Cálicles se esquiva a regra da maioria. fórmulas e leis ndo-naturais e. "Provavelrnente vocé nao está pensando que duas pessoas sao melhores do que urna. naturalmente. A nobreza confere urna qualidade distinta e um status nativo que torna os senhores diferentes dos boi polloi. e convence-los de que devem contentarse com a igualdade. a educacáo aristocrática a que o próprio Platáo. e no entanto é a mesma ansia irrepressiva que nem mesmo a má educacáo pode extirpar e que "abalará" a irracionalidade e "brilhará com seu maior fulgor" quando Sócrates derrotar os seus dez mil tolos. mais talentoso) goverrte as pessoas inferiores e renha mais que elas. para moldá-los e transformá-los t/1II estratos mediante encantamentos e fórmulas mágicas. revolrando-se. diz Cálicles. As elites se definem nao só por seu passado e seus ancesrrais mas também por sua conexáo com essa lei natural que nao depende da "construcáo social" levada a cabo por escravos. (490a) dos os direiros de propriedade convencionais. nao como urna mulridáo contra a Razáo. Pois decorre do direito natural que um individuo melhor (ou seja. mas como um homem contra a rnultidáo. se o fizermos trocar nos bastidores as suas vestes de bruto pela roupa alva e vir- . na minha opiniáo? Que mais vocé acha que esrive dizendo? Essa lei consiste nas declaracóes feitas por urna aSJembléia de escravos e ostrasformas variadas de escombros humanos que podem ser completamente despezados. nao sao como os camisas-pardas abrindo caminho até os laboratórios . se nascer um homem em quem a natureza é bastante forte para abalar e desfazer todas essas limitafoes e alcancar a liberdade. e é apropriado para alguém investido de poder político ter mais do que os seus súditos. mas tal é a implicacáo do que vocé está dizendo: um único individuo superior para dez mil asaros. E entáo o direito natural [to tesphltJeós dikaion] brilhará com seu maior fulgor. e nao da lógica. é a nobreza. pergunta Cálicles. CÁUCLES: Foi isso mesmo o que eu disse. ou que os nossos escravos sao melbores do que vocé só porque sao mats fortes". é é Nós os capturamos quando jovens. (483e-484b) Assim. Quando se invoca a Forca no palco. quando mais nao fosse pelo fato de que térn a forfa jirica a sua disposicáo. quando a Forca entra em cena na pessoa do Cálicles nietzschiano. "Estou dizendo que as pessoas snperiores sao melbores. nao obstante. Ora. como tantas vezes já se observou. ele pisará em todos os nossos regulamentos. Nietzsche deduziu habilmente a moral desse paradoxo em seu célebre conselho: "Sernpre é preciso defender o forre contra o fraco".pies e paradoxal: o Cálicles que apela para a lei natural superior é. Mas Cálicles altera consideravelmente o modelo clássico ao complementar a educacáo com um apelo a lei que superior a lei. a sua posicáo: urna sínica pessoa inteligente é quase obrigada a ser superior a dez mil tolos. encantamentos. se tornará dono de nós. Desprovido de sua dimensáo moral. contra miríades de tolos. O modelo empregado por Cálicles. o poder político deve ser dela e eles devem ser os seus súditos. o argumento de Cálicles torna-se um apelo conducente a urna forca mais forte do que a forca democrática das pessoas reunidas. nao estou reproduzindo a forma das palavras que voce usou. Nao Ihe esrou dizendo o tempo todo que 'melhor' e 'superior' sao a mesma coisa. fisicamente maisfraeo que a multidáo. deve a sua virrude.como nos pesadelos dos epistemologisras quando pensam nos estudos científicos -. portanro.

ginal de Antígona, tetemos de reconhecer que seu argumento possui a mesma beleza que a dela contra Creonte, sobre o qual tantos filósofos morais derramaram tantas lágrimas. Ambos dizem que a deforrnacáo pela "construcáo social" nao pode impedirr a lei natural de "brilhar com seu maior fulgor" no coracáo das pessoas naturalmente boas. Com o teropo, os coracóes nobres hao de triunfar sobre as convencóes humanas. Desprezamos os Cálicles e louvamos os Sócrates e as Antígonas, mas isso equivale a ocultar o simples fato de que todos eles querern ficar sozinhos contra o povo. Queixamonos de que sem o Direiro a guerra de todos contra todos irromperá, mas deixamos passar despercebida essa guerra de dais, Sócra~es e Cálicles, contra todos os outros. Com essa pequena advertencia em mente, podemos agora ouvir a solucño de Sócrates com um ouvido diferente. No palco, em verdade, ele se ernpenha em ridicularizar o apelo de Cálicles a urna Perca ilimitada: "VOCe poderia voltar ao início, porém, e dizer-me novamente o que vocé e Píndaro entendem por direito natural? Estou certo ao lembrar que de acordo com voces é o confisco da propriedade perrencente as pessoas inferiores por alguém que é superior, a dominafao dos piares pelos melhores e a distribuicáo desigual dos bens, de tal sotte que a elite tenha mais do que as pessoas de segunda elasse"? (488b). Toda a platéia grita horrorizada quando confrontada coro essa ameaca da Perca engolindo os direiros dos cidadáos comuns. Mas em que a solucáo do próprio Sócrates é tecnicamente diferente? Também aqui, deixemos os parceiros no palco por um momento em trajes comuns, sem as vestes esplendidas da moralidade e atentemos cuidadosamente na concepcáo de Sócrates acerca do' modo como podemos resistir mesma mulridáo reunida. Dessa vez é o pobre Polo que se ve aferroado pela arraia elétrica:

tamenre i,,¡(ti! no onucxto da verdade [Olltos de n elegcbos ondenos axios estin pros lb! a/i;theian], visto ser perfeitamente possfvel que alguém seja derrotado no tribunal por urna horda de testenmnhas dotadas de urna respeirabilidade apenas aparente que testemunharáo falsamente contra ele. (471e-472a)

a

problema, Polo, é que vecé está tentando usar contra mirn o tipo de refuracño retórica que as pessoas nos tríbunais consideram bem-sucedida. Aqui também, como vecé sabe, as pessoas pensam que estáo provando que o outro lado está errado se produzir ttm grande número de testemunbas eminentes em apoio dos seus argumentos, mas seu oponente apresenta-se com um único testemunbo ou mesmo nenhum. Esse tipo de refuracáo, contudo, é cornple-

o

Quantas vezes sua posicáo nao foi admirada! Quantas vozes rremerarn ao comentar a coragem de um homem contra as hordas, como Santa Genoveva detendo as hosres de Átila com a pura luz de sua virtude! Sim. é admirável, mas nao mais que o apelo de Cálicles a lei natural. O objetivo é idéntico, e mesmo Cálicles, em sua definicáo mais ampla da dorninacáo forcada, nunca sonha com urna posicáo de poder como dominante, exclusivo e i?conteste como o que Sócrates exige para o seu conhecimento. E para um grande poder que Sócrates apela, comparando-o ao conhecimento que o médico rem do corpo humano desde que possa escravizar todas as demais formas de perícia e técnica: "Náo compreendem que esse tipo de perícia deve ser apropriadamente o tipo dominante e ter liberdade para com os produtos de todas as outras técnicas porque ele conhece - e nenhum dos curros conhece - o alimento e a bebida que promovem um bom estado físico e os que nao o prornovern. Eis por que o resto deles só é adequado para o trabalho eJCrc11IO, ancilar e degradante e deve pordireito ser subordinado ao treinamento e a medicina" (517e-518a). Entra a verdade e a ágora fica vazia. Um hornero pode triunfar sobre qualquer curro. No "contexto da verdade", como no "contexto da aristocracia", as hordas sao derrotadas por urna forca - sirn, urna for<;a - superior a reputacáo e a fon;'a física do demos e ao seu infindávei e inútil conhecimento prático. Quando a Forca entra ern cena, como eu disse acima. nao é como urna mulridáo, mas como um hornern contra a multidáo. Quando a Verdade entra em cena, nao é como um homem contra qualquer curro, mas como urna Iei natural transcendente, impessoal, urna Forca mais poderosa que a Forca, Os argumentos prevalecem contra tudo o mais porque sao racionalmente elaborados. Foi o que Cálicles deixou de considerar: o poder da igualdade geométrica: ITVoce negligenciou a geometria, Cálicles!TI O rapaz nunca mais se recobrará do golpe.

o motivo pelo qual Cálicles e Sócrates estáo agindo como gérneos siameses nesse diálogo é explicitado por diversos paralelos que Platáo esrabelece entre as duas solucñes de seus heróis. Sócrates compara o apego servil de Cálicles ao demos com seu próprio apego servil a filosofia: "Amo Alcibíades, filho de Clínias, e a filosofía, e seus dais amores sao a J)(jJ¡¡¡ft/{tl ateniense e Demo, fílho de Pirilampo [... ] Assim, em vez de se admirar das coisas que falo, vocé deveria impedir que a minha querida filosofia exprimisse essas opinióes. Como vocé sabe, meu amigo, ela está constantemente repetindo as idéias que vocé acaba de ouvir de mim, e é muito menos tJ()ftÍl1el do que o meu outro amor. Quero dizer, Alcibíades diz diferentes ccisas ern diferentes ocasióes, mas as idéias dafilosofia nunca 11tlldam" (481d-482a). Contra o pavo caprichoso de Atenas, contra o ainda mais extravagante Alcibíades, Sócrates encontrou urna ancora que Ihe permite estar certo contra os caprichos de quem quer que seja, Mas isso é tambérn, apesar da irónica observacao de Sócrates, o que Cálicles pensa das leis naturais: elas o protegem contra os caprichos da turba. Há, é cerro, urna grande diferenca entre as duas ancoras, mas isso deve contar ero favor do Cálicles antropológico real, é' nao de Sócrates: a ancora do bom rapaz está fixada no além, no mundo etéreo das sombras e fantasmas, enquanto a ancora de Cálicles está fixada a sólida e resistente rnatéria do Estado. Qual das duas ancoras está mais firme? Por incrfvel que parece, Platáo consegue fazer-nos acreditar que é a de Sócrates! A beleza do diálogo, como tantas vezes já se observou, reside principalmente na oposicác entre duas cenas paralelas, urna em que Cálicles zamba de Sócrates por ser incapaz de se defender no tribunal deste mundo e a outra no final, quando Sócrates zamba de Cálicles por ser incapaz de se defender no tribunal de Hades no outro mundo. Primeiro ronnd.
Sócrates, vecé está negligenciando marérias que sao náo-negligenciaveis. Atente no nobre temperamento com que a natureza o docou! No entanto, vecé é famoso apenas por se comportar como um adolescente. Nao poderia pronunciar urn discurso apropriado aos conseibos que administram a jusrica ou fazer um apelo plattJível e persuasiuo (. ..}. O importante é que, se vocé, ou qualquer outro do seu tipo fosse decido e levado para a prisáo, injus-

tamente acusados de algum crime, seriam incapazes - e tenho certeza de que está bem cónscio disso - de fazer o que quer que fosse para si mesrno. Coma cabera girandoe de boca aberta, vecé nao saberia o que dizer. (48Se-486b) Urna situacáo deveras terrível para um grego é ser emudecido por urna acusacáo injusta no meio da mul tidáo. Note-se que Cálicles nao admoesta Sócrates por ser demasiado altivo, mas por ser um adolecente impotente, modesto e tolo. Cálides tem um recurso próprio que vem de uma antiga rradicáo aristocrática: um talento inato para o discurso que lhe permite achar a expressáo exata para falar contra as convencóes criadas pelos "cidadáos de segunda classe''. Para encontrar urna réplica, Sócrates tem de esperar até o fim do diálogo e abandonar a sua dialética de perguntas e respostas para contar urna história crepuscular. O ronnd final: Parece-me que IyJ/i lellllllll d~fej¡o que nao lhe permitirá defenderse quando chegar a hora de passar pelo julgamenro do qual acabei de fular. Em vez disso, quando vecé chegar a frente do filho de Egina {Radamanto] e ele o agarrar e o levar para ser julgado, voceficará (O1!l vertignn e de boca aberta lá naqueie mundo tal como eu aqui, e é possfvel mesmo que alguém o esbofereie e Ihe inflija toda sorre de ultraje como se fosse um jo¿¡o-rúllgll/!lII sem qualquer Jta/IIJ. (S2Ge-S27a) Um belo efeiro no palco, sem dúvida, com sombras nuas percorrendo um inferno papier-fltdcher e fumos e névoas artificiais flutuando no aro "Mas um pouco carde, Sócrates'', poderia ter replicado o Cálicles antropológico, "porque a política nao está preocupada coro os morros nus que vivem num mundo de fantasmas e julgados pelos semi-existentes filhos de Zeus, mas com os carpos vestidos e vivos reunidos na ágora com seus statns e seus amigos, sob o reluzente sol da Ática e tentando decidir, no local, no rempo real, o que fazer em seguida". Mas por ora o Cálicles de palha, gra~as a urna feliz coincidencia, foi emudecido por Platáo. O mesmo vale para o método dialético e para o apelo a "cornunidade do livre discurso". Quando chegou a época da rerribuicáo, Sócrates fala sozinho na tao desprezada maneira epidéitica (465e).

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Pena que o diálogo termine com esse cdmirrível mas vazio apelo as sombras da política, porque Cálicles poderla ter mostrado que mesmo a sua egoísta e extravagante reivindicacéo de hedonismo, que o rornou tao desprezível para a multidño do teatro, também é usada por Sócrates para definir a sna maneira de lidar com o povo:
E no entanto, caro amigo, para mim é preferfvel ser urn músico com urna lira desafinadaou um mesrre de um coro dissonante, e é preferível para quaJ/!. todo nmndo achar minbas crenr;as infundadas e erradasdo que mua única pessoa - es -. entrar ern choque {OIJJigo 1II/!.Jma

e vir a contradizer-se. (482b-c)

"Pereca O povo de Atenas", disse o Cálicles de palha, ITco ntanto que eu me divina e tire o máximo que puder das máos dos escombros de segunda classe"! Em que sentido o apdo de Sócrates é menos egoísta? "Perece o mundo inreiro, contante que eu me ponha de acordo nao só com outra pessoa qualquer" - como, segundo veremos, ele disse antes a Polo - limas cornigo mesmo''! Sabendo que Platao deturpa intencionalmente a posicáo de Cálicles e Górgias, enquanro apresenta Sócrates como tendo a última palavra e respondendo com seriedade, quem é mais perigoso - o agorafóbico cientisra louco ou a IT1 0uca ave de rapina"? Qual é mais deletério para a democracia, o Direito ou a Porca? Ao langa do diálogo, o paralelismo entre as solucóes dos dais conrendores é inevitável , No enranro, também de é absolutamente invisível, enguanto continuamos com os olhos fixos no palco. Por qué? Por causa da definicáo ;.le conhecimenro que Sócrates impóe a defini<;ao de Cálicles. E aqui que a simetría se rompe; é isso o que faz Cálicles sair ao som de apupos, por mais que os nietzschianos renrem rrazé-lo de volra para o palco. QED; TKO.

o debate triangular entre Sócrates,
o demos

os sofitas e

Nos tres diálogos do GórgúlJ, a Forca e o Direiro nunca parecem tao comparéveis: mais adiante veremos por qué. O gue permanece suficientemente comensurável para ser discutido sao as gualidades relativas de deis tipos de conhecimento especiali-

zado: um nas máos de Sócrates, o outro nas máos dos teóricos (uro mundo inventado, ao que parece, no GÓrgiaJ). O que está fora de questño, tanto para Sócrates quanto para os sofistas de palha, é que algum conhecimento especializado se faz necessário, seja para fazer com que o pavo de Atenas se comporte da maneira correta, seja para manee-lo ero cheque e fechar-Ihe a boca. Eles já nao consideram a soluráo óbvia para o problema que assedia a ágora, a solucáo que vamos explorar no capítulo 8, emboca ela ainda se ache presente no diálogo pelo menos como uro gabarito negativo: o Estado reunido com o fim de tomar decisóes n¿¡o pode confiar apenas no conhecimenro especializado, dadas as limitacoes de número, rotalidade, urgencia e prioridade impostas pela política. Chegar a urna decisño sem apelar para urna le~ natural impessoal nas mños dos especialistas requer um conhecimento geral dio multifário quanto a própria multidáo. O conbecimento do todo jnWi\d do todo, e ndO das partes. Mas isso seria um escandalo para Calicles e para Sócrates, escandalo eujo nome tem sido o mesmo em rodos os períodos: democracia. Assirn, rambém aqui a discordancia entre os parceiros é secundária ern relacao a sua completa concordancia: o debate é sobre como fechar as bocas das pessoas de rnaneira célere e firme. Com base nisso, Cálicles vai perder rapidarnente. Depois de concordar, com um patemalismo comurn, em que os peritos sao necessários para "cuidar da comunidade e de seus cidadáos" (513e), os dais discurem sobre que tipo de conhecimento será o melhor. Os retóricos térn um tipo de especialidade e Sócrates ourro. Um é epidéirico. o outro apodéitico. Um é empregado nas perigosas condicóes da ágora, o Olltro na tranquila e remota conversacáo a dois. Sócrates importuna os seus discípulos. A primeira vista é como se Sócrates fosse perder nesse jogo, já que de nada vale ter um método destinado a melhorar os cidadáos da ágora que é ele próprio agorafóbico e só opera numa discussáo a dais. "Ficarei contente", Sócrates confessa ingenuamente a Polo, "se l!OCé testar a validade do meu argumento, e canto nnicamente com o seu voto, sem me jJreompar com o quequalquer maro pense" (476a). Mas a política visa precisamente a "cuidar do que cada um pensa''. Contar com uro {mico voto é piar do que uro crime, é um erro político. Assim, quando adrnoesra Sócrates por seu conportamenro infantil, Cálicles deveria levar a palma da

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já que a filosofia está limitada a urna obsessáo especializada inúcil. uro homem 'se distingue'. quando Sócrates faz lima distincáo entre con hecimento real e técnica.ou seja. Toda a diferenca entre os dois tipos de persuasáo reside em duas palavras inócuas: "sem compreensáo". quanto urna bicicleta é út il para um peixe. com C maiúsculo. como de hábito. Ele precisa de ajuda.nao importa quantas curvas de BeH se joguem no pote.-i 54e). Qual é o suplemento fornecido pelo raciocínio apodéitico que o torna muito melhor do que as leis naturais invocadas pelos sofistas contra as convencóes dos "escravos e escombros humanos"? Esse tipo de raciocinio está dlém de qnalquer discnss. poi s é 262 263 .io: SÓCRATES: Mas pode o conhecimento ser verdadeiro ou falso? GÓRGIAS: Certamenre nao. mas nao além da discusséo. que. É o que o retórico facá. em oposicño a lu ta obviamente manipulada entre a Forca e o Direiro. mais bem nascido. enrio Sócrates está errado. Cálicles inventou urn meio de descontar o peso e o número físico da mulridáo.ao. é o raciocínio apodéitico das causas e conseqüéncias. mais natural. Nada porérn torna esse modo de raciocinar capaz de ajustar-se as condicóes extremamente ásperas da ágora. (454d) A transcendencia dos sofistas está além da convencáo. SÓCRATES: Obviamente. convenientemente cai na armadilha como os hornens de palha ideáis. Desse modo o diálogo. mais bem alimentado originam ourro enxame de discussóes. na qual Sócrates é mandado de volra ao seu canto. número. Por sua própria conta. Sua tática consiste ern fazer o adversário hesitar. urna das quais propicia ccnviccáo sem compreensso {to men pixtin j¡dnl)ol¡mlfJll "¡{('JI f(JlI údendiJ. que sao os lugares onde. mas nao para escapar totalmente ao sitio da ágora apinhada. os sofistas (de palha) nao prorestarn. deve terminar com urna única cena. ou seja. Com o "contexto da verdade" que Sócrates está rrazendo para o primeiro plano. a episteme. poderíamos apavorar-nos nesse ponto e deixar de ver quáo bizarro e il6gico o argumento. Mas nao é o que fazernos quando reinvenramos e tornamos a reinvenrar o poder da Ciencia. para empregar o antigo lema feminista. Em vez disso ele passa o resto da vida cocbicbando num canto com tres ou quacro mQ(. wlilJiqtlO [pist is] e conbecimento [episteme} nao sao a mesrna misa. Primeiru ele rern de desarmar o adversário. Assim.vitória: "Mesmo urna pessoa naturalmente dotada nao escá evoluindo para uro bomem real. com seu conhecimento nao-situado da demonstruc. é mister um pouco mais de trabalho para que Sócrates possa fazer uso dessa arma. Sócrates nao pode substituir esse conhecimento pragmático in sítn. visto que as questóes dé ser superior. É um truque muito sutil. enquanto a outra propicia (0»becnaento [ejJilfOlhT (. ou pelo menos fazé-Io acreditar que escá totalmente desarmado: "Porranto seria me-lhor pensarmos em termos de doistipos de persuasño. logicamente. sem nenhuma relacao com o que o "homem real" faz para "distinguir-se" com "idéias importantes e significarivas''. Quando muito. mas suficiente para inverrer o curso lógico do diálogo e fazer Sócrates ganhar ali onde deveria perder. Assim. Epistnnc. Quem lhe dará urna rnáo? Os ouropéis inventados por Plaráo. O fabuloso segredo da dernonsrracáo matemática que ele tem em máos é que ela constitui urna persuasáo passo-a-passo que nos forca a concordar com qualquer coisa. calar-se. mas esse é um modo de dissuasáo inútil no contexto da ágora. Tao venerável t essa oposicáo que. urgencia e prioridade _. ele deixa de levar em conta as coadicóes pragmáticas do ato de decidir o que fazer em seguida na ágora abarrotada de dez mil pessoas falando ao mesmo tempo. porque está fugindo do {ort1f'¿¡o destta comsnidade e da ágora. como se pode resternunhar ainda hoje . ande ele deve ser tao útil. enrfio. o triunfo de Cálicles torna-se impossfvel. A solucáo de Sócrates é muito mais forte. Mas compreensáo do qlle? Se queremos dizer compreensño das próprias condicóes específicas da felicidade para a discussño política . em vez de expressar idéias importantes e Jign~fit:atitidJIT (485d-e). tillamos crirnes nao se cometeram em teu neme! Disso depende toda <1 hisrória. O diálogo nao poderia funcionar e fazer Sócrates triunfar contra todas as probabilidades se os sofistas-marionetes nao cornpartissem da aversño de Sócrates a todas as habilidades e truques com que as pessoas cornuns se ocupa m de seus negócios diários.os. como diz Homero. que é "sem comprcensác''.

GÓRGIAS: Yace nao conhece merade dele.. Mas o ponto-chave é que essa mesma distincao nao tern nenbnm ostro conte. segundo. Todavia. distinguir as duas formas de conhecimenro e estabelecer a diferenca absoluta entre forca e razáo requer um COIlP de force . e como Barb~ra Cassin (Cassin. . Sócrates. ele surge como algo sobrenatnraí. Veremos no próximo capítulo que essa resposra aparentemente cínica é na verdade urna definicáo muito precisa da natureza nao-profissional da a<. mas deforma algllltlcl ¡¡milete/o :¡ qlleJltio r~(r:rente a melhor maneirade disciplinar a fIIuftid¿¡o. a distincáo se perdería. no passado. Sócrates aqui está sobre urna finíssima camada de gelo. que o conhecimento especializado é necessário para substituir o da pobre mulridáo ignara e. Os sofistas nao estáo a altura desse lance dramático. eles tero de confessar que sua forma de perfcia é vazia... Curiosamente. necessário. o médico mostrava-se incapaz de persuadir o paciente a aceitar seu (racamento.. a legitimidade incontesre reside nurn golpe cruento original. Yace pode ignorar tildo o 1I1aiJ e ainda assim tornar-se o melbor dos profissionais" (459c). fazern". Sócrates? A retórica é a única arte que vecé precisa aprender. O raciocínio apodéirico continuará sendo importante. indispensável conhecirnento dos membros do Estado que assurne a tarefa de decidir o que fazer ero seguida na ágora. Nesse caso.o o que ele {o cozinheiro técnico} pode fazer é lembrar urna rouna que se tornou inveterada pelo hábito e pe/a experiencia pclJSdd". distribuido. prirneiro. SÓCRATES: Em tace de fenómenos como o que vecé mencionou. A episteme nao irá distribuir apistis. e essa t a beleza da pe<. o conhecimento especializado da dernonsrracáo nao poderia assumir o preciso. ela nao considerou nern a natureza do prazer nern a razáo pela qual ele ocorre {. e depois de aceitar. Impar isso divide o que realmente ternos? Só a palavra de Sócrates para isso . Como mostrou Lyotard algum tempo atrás.. quando fui com meu irmáo ou algum outro médico a um dos seus pacientes que se recusavam a tomar remédios Oll a deixar o médico operé-lo ou caurenza-Io. . Sem esse COltp. (456a-b) 264 265 . e é também nisso que ele confía para nos dar praze:" (50 1a-~). Como no nascimento de todos os regimes políticos. claro.aquele que expele do conhecimento rigoroso ~s sofistas da filosofia e as pessoas comuns.nutrem o mesmo desprezo aristocrático pela pratIca: "Nao há absolutamente nenhuma arte envolvida no modo como eIa {a culinária] busca o prazer. se essa dernarcacáo absoluta nao é imposta pela mera for~a . se concordarmos ero deixar passar esse ponto e comecarmos a aceitar o debate e Iancar o conhecimento especializado dos cientisras contra o conhecimenro especializado dos retóricos. o sangue que se parrilha é o dojJrójlfio Sócrates. Esse é um dos raros casos na história em que se aplicou a "mera force".ido além do desdérn de Sócrates pelas pessoas comuns. Como soa tola hoje a empáfia de Górgias: "Isso nao simplifica as coisas.] Muitas vezes.e a dócil retirada de Górgias. essa definicáo da peflC¡a meramente pratica. Esse sacrifício torna o lance ainda mais irresistfvel e a legimidade ainda mais inconresre. sutil. e até indispensável. pronunciada embora com desprezo. amda qm: nao Úl'I!JJe 1l1!IIh!l111a orara experiencia exceto a retórica. o que.ao política..a. diferente de todas as habilidades e truques das pessoas comuns. Se soubessem o que fazem. se ajustaría hoje a~ ~ue os fisiologisras. A distincáo entre conhecimento e pe~ rfcia prática tanto é o que lhe permite apelar para para urna Iei natural superior capaz de fechar a boca do adversário quanto o que é imposto pela própria a~ao de calar as dez mil pessoas que se ocupam dos seus negócios todos os dias "sem saber. cntño a sofística se converterá irnediatamente numa manipulacáo vazia. Polo e Cálic1es para aceitar a definicño de Sócrates cuidadosamente encenada na maquinaria teatral de Plaráo. Assirn. os pragmatistas e os antropólogos COgnttIVOS chamariam de "conhecirnenro". dotado de enorme poder.nte deletéria do debate público.a verdadeira tarefa da epistemologia arravés dos tempos -. mas eu o conseguia. 1995) dernonstrou mais recenternenre de manerra tao categórica. É como introduzir um carro de corrida numa rnaratona: a nova máquina torna os corredores mais lentos ridículos. o "contexto da verdade" nao pode suportar a armosfera impossivelme. Tais sao algumas das cond icóes para se fazer um apelo incondicional a urna "lei impessoal'' náo-consrruída.} Tud. No final nao haverá um só olho seco no teatro. Quase toda realizacáo entra no escopo da retórica (.

A derrota dos sofistas de palha nada é comparada com a das pessoas cornuns dé Arenas. urn de cujos ramos é a cniinaria. Como nao considerarmos como qualidades positivas ser "hábil na arte da adivinhacáo". que merecerá toda a nossa aten~ao mais adiante. porque aquilo a que o Górgias real propóe alude é a impotencia dos especialistas para fazer coro que as pessoas como uro todo tornero decisóes inflexíveis. envolvendo as palavras é em tres graus de ironia. (463a-b) O aspecto mais instigan te. fechar as bocas da rnultidáo. a "minoría feliz" -levaram a melhor sobre a "lógica universal". E é verdade: nenhuma tirania durou tanto quanro a desse hornero sacrificado. lancando o POyO de Arenas.as. das quais só a primeira tem sido comentada ad nanseam. como nas tragédias clássicas. isso nao emoioearte. urna certa coragem e um talento natural para interagir WlII as pessoas. E o que esrou dizendo sobre a culinária é que ela se me afigura como urna arre. na rn inha opiniác. os dez mil tolos. nenhum reinado mais inconteste. precisamos de séculas de I rreinamenro pavloviano para lé-las como cínicas. Quando cornecamos a Jer esse famosíssirno diálogo com codo o cuidado. Tendo admitido que a retórica é urna arte. que mal há ern ser tao ralenroso como um cozinheiro? Eu. caJa qual se ocupa de todo o Estado ao mesmo rtropo. o Górgias marionete é feito para dizer que absolutamente nenhum conhecimenro é necessário. (Como vimos anteriormente. mas na verdade nao é: urna habilidade adquirida pe!o hábito [ol/k estin tedmé. e rendo ero seguida constatado o seu vazio. contra o negro Sócrates. Górgias.isro é. habilidade que Sócrates nao quer entender (ernbora a pratique de maneira dio engenhosa). ageometria. Os menos lógicos . companheiros aliados que concordam em tildo e diferem somente quanro a maneira rnais rápida de silenciar a turba.) Mas há urna Jep.IInda lura rravada silenciosamente fora do palco. Os "escombros humanos e variados escravos" sao os grandes ausentes.Mesrno para frases como essa. Sócrates. gritemos nesta época em que o Direiro derrotará a Porc. sem ter sequer um coro a lhes defender asenso cornurn. "saber interagir com as pessoas" (habilidades que sem dúvida faltam a Sócrates apesar de su as afirrnacóes em contrario)? Quanto a isso. as governa . o rinico exeJllp/() de 1011 terdaaeiro estadista" (52 J d). A luta da Forca contra o Direiro é manipulada como um jogo de apanhar a bola e esconde o acordo entre Cálic1es e Sócrates. de marionetes. contra Sócrates e Cálicles. e isso me parece urna atividade rnultifacetada. rebento degenerado de urna raca de sacerdotes e hornens de ressmtíneni. por fim a tumultuosa democracia? Por rneio do apelo a razáo. descobrimos nao apenas urna lura entre Cálicles (isro é. um dos muitos tipos obscuros de arte popular dos quais a retórica nao se pode distinguir. os garotos. os retóricos colocaro a sua cabeca no cepo. e é tao magnificamente encenada que os garoros gritam por medo de que a Perca venha a vencer o Direito. agora eles sao expelidos do conhecimenro e suas habilidades estigmatizadas como mera "adulacáo" (502d). nenhum poder Coi mais absoluto. como se pode ver por um sumário do argumento desenvolvido aré aqui. al!' empeiria kai tribe]". Ainda se supóe que nós. O Górgias real mostea urna habilidade extraordinariamente sutil. diz ele. "que sou o único perito em política na Atenas de hoje. Depois de encerrada a sua derrota. que por sua própria confissño é o menos apto a govemar as pessoas. particularmente. é que mesmo nesse famoso (OIlP de grdce Sócrates ainda está felicitando a retórica.pelo menos no lugar convenientemente remara das Ilhas dos Bem-aventurados: "Quero crer". a Perca) e Sócrates (o Direiro) senáo ainda dllaJ disputas sobreposras. e cada um deles quer dominar a turba e obter urna parte desproporcional dos lauréis deste GU do curro mundo. prefiro um bom che/a muitos maus líderes! Mas Sócrates venceu. O termo geral que uso para me referir a isso é 'adulacáo'.a e a converterá num frágil e manso cordeiro. lanra o sábio contra o loiro bruto. como num sbou. nao faz diferen~a alguma que o en trecho tenha sido rerrabalhado mais tarde por um roteirista nierzschiano e boje lance o be/o e radioso Cálides. Para evitar a queda na Forru. O mais fraco fez o feiti)"o virar contra o feiriceiro. ter "coragern". chefe da raca dos senhores. cada qual concordando em servir como realce clo ourro. OLl seja. aceitemos incondicionalmente a 266 267 . morto entre os vivos. "Bern. Qual a melhor forma de reverter o equilíbrio de forc. tuda o que se requer é urna mente hábil na arte da adivinhacáo. a proporcño? Ou por meio da virtude e da educacáo aristocrática? Sócrates e Cálic1es estáo sozinhos contra a rnultidáo. Urna disputa.

ainda nao reconhecida pelos filósofos. a estranha guerra do duo que ten ta fazer-nos acreditar que sem eles seria a guerra de todos contra todos. nus e arrogantes de um lado. O princípio do meio-rerrno exeluído. a povo reunido de Atenas.a do pavo. de bracos dados é urna experiencia tao iluminadora para os garotos como a de ver os atores de Hamlet bebendo e rindo juntos num bar depois de a cortina baixar. Mas nesse meio tempo. A contradicáo absoluta entre esses dois famosos proragonistas se ve agora deslocada para urna lura aberra entre dais cabos-de-guerra: urna luta entre os dais heróis e a ourra. rnulheres e escravos incluídos. seremos ca- pazes ele discernir riela deis sentidos diferentes: o que designa o poder da Forca de Cálicles contra a Raaáo de Sócrates e o que designa a nunca-descrita multidáo que resiste as tentativas tanto de Sócrates (()1JI() de Cálicles de exercer sobre ela urna forma solitária de poder. doravante.tal foi a versáo anterior. Isso soa melhor em francés: Le tiers exdn est le Tiers État! O filósofo nao escapa da Caverna. Dois hornens frágeis. os arqui-rivais. Em vez de urna cposicáo drástica entre forca e razño.• . criancas. É com urn rrílogo que ternos de nos haver. perplexo e estupefato. e nao mais com um diálogo.a escolha das palavras nao acrescenta. Semelhante experiencia deve deixar-nos mais ve1hos e mais sábios. esperando pelos seus senhores para encontrar a melhor maneira de reverter a sua "forca física". exisrem muitos. A versáo posterior é a mesma as avessas: para evitar cair na Razáo. já seremos capazes de perguntar rranqüilamente: liÉ a regra solitária de Cálieles que vocé está se referindo ou a do conjunto sem voz dos 'escombros humanos e variados escravos'" Quandc ouvirmos a palavrinha esquerdista "social". o pavo de Atenas permanece fora do palco. que se afigura tao forte na ardente escolha entre o Direito e a Perca . e o escandalo de ver Sócrates e Cálieles. muitíssimos a serem engambelados por essa historia infantil da disputa cósmica entre a Forca e o Direito. As máos dos ritereiros sao agora por demais visíveis. A gUE"rra dos dois contra todos. que poderia ser "inreiramenre sobrepujada" se nao houvesse tantos deles. 269 . ele envia o demos inteiro a Caverna para se alimentar apenas de sombras! Agora. nenbn»: matiz decisivo): a for~a de Sócrates. a forca de Cálieles e a forc. teremos de considerar tris diferentes tipos de torca (ou tres diferentes tipos de razáo . quando ouvirmos falar do perigo da regea da mulridáo."escolha o seu campo rapidamente ou todo o inferno será liberado" -. concordemos incondicionalmente em cair nos bracos da Forca. O meto-termo exdrddo é o Terceiro Estado. Sim. a Cidade de Atenas do ourro. é agora inrerrornpido por um terceiro partido. silencioso e mudo. entre os dois heróis puxando o mesmo lado da corda e os dez mil cidadáos comuns puxando do ourro lado.' j" regra da Razáo .

.só que usaremos o mesmo mito de Rousseau para urna finalidade exatarnenre aposta. nao como um ser agindo sempre com base em cerros princípios invariáveis. podemos reconstruir a partir das ruinas do diálogo o Estado original antes de ele desfazer-se em pedccos . que o tempo. esse omp de/orce cuja origem é lavada pelo sangue de um mártir. como a estátua de Glauco. o mar e as tempestades desfigurou a tal ponto que ela se assemelha mais a um animal selvagem que a um deus [. antes do advento da cenografia montada ero comum por Sócrates e Cálicles.)rgias o trace de outra voz. Mas precisamos também volear os olhos para o Terceiro Estado e extrair do G.capitulo 8 Uma políticalivrede ciencia o corpo cosmopolítico A máe de Napoleño costumava escarnecer dos ataques de fúria do filho irnperador: "Commediante! Tragediante l' . urna descendente de Sócrates. No lado comédia ternos a Íuta entre a Forca e a Razño. outra de Cálicles. mas simples prosa.. que nao é Otro comédia nem tragédia. Gil seja. a saber. que eu defini como "a inumanidade contra a inumanidade".] hoje nós a vemos.' Da mesma forma poderfamos zombar dessas duas racas de senhores. mas meramente como o chocan- 271 . Aqui está Rousseau no prefácio do Disarrso sobre el Origem del DeJigllelldelde: TIA alma humana. libertar a política de um excesso de razáo. Mais ou menos como um arqueólogo poderia fazer com o Tolos délfico ou com a estátua de Glauco desenterrada por Rousseau. como aquela simplicidade majestosa que seu amor lhe imprimiu. PIaran está suficiente perro daque!a época ero que a política era respeirada pelo que era. no lado tragédia ternos a distincño absoluta entre episteme e pistis.

oes do debate político.. Lesrer G.ao arqueológica: a invencño de um tempo mítico em que o dizer a verdade política teria sido amplamenre compreendido. Como Górgias ressalta corn plena razác. que as converre ero ruínas. podemos imaginar como era antes que da se convertesse numa quimera. os membros do Conselbo. ao passo que a fraqueza de Sócrates. Polo. a retórica uro simulacro de urna parte da política (po/itikes morions eié a . 272 INSTITUTO DE PSICOLUGIA .a divertir-se irnensamente .a pessoa com quem estou argumentando . um mundo que mais tarde se perdeu por for<¡a da acumulacáo de erros e degeneracáo. o conhecimenro distribuído do todo sobre o todo num conhecimento especializado monopolizado por urna mi noria. por favor. Por meio desse bocado de ficcáo arqueológica. até entáo..é gabada como a sua mais alta qualidade: Como Sócrates revela a virtude do enunciado político No capítulo 7 assinalamos várias das especificac.1 ¡ díilon) (463d). Sócrates.' Desemaranhando as aventuras da razáo. Discourse (m tbe Origill of í nequality. e nao consigo sequer discursar para um grande grupo depessoas. os cidadáos quefrt:qiietttam a Assemhléia ou qualquer forma de reunido pública do corpo de cidaddos.te contraste entre a paixáo que pensa as suas razóes e um delírio cada vez mais compreensivel". isso é simplesmenre a verdade. Rousseau. sua incapacidade de viver na ágora . assembléias. (452d-e) Como acabamos de ver. é ao pedir-Ihe que se adotasse urna dieta de conhecirnento especia- lizado na qua! nenhuma organizacáo desse tipo poderia sobreviver. precisamos apenas tomar positnamente a longa lista de observacóes negativas feitas por Platáo: elas mostram ao revés o que está faltando quando se converte o que era. cerimónias: todos os tipos de reuniáo pública e privada) é negada por Sócrates e transformada num defeito. tanto o gesto iconoclasta que destrói a nossa tao enresourada capacidade de lidar com uro outro quamo as condicóes de sua reconsrrucño possíveL O diálogo é muito explícito quanro a essa iconoclastia porque Sócrates confessa ingenuamente: "Em minha opiniáo. Assim.e tdo dou a menor importáncia ti opit¡it'io da maíoria. (473e-474a) Ainda bern. Converteram-no num eid8/on sem perceber que ao destruí-lo nos privavam de urna parte da nossa humanidade. porque "discursar para um grande número de pessoas" e "prestar arencáo" ao que eles dizem. podemos ser resternunhas privilegiadas de dois fenómenos simultáneos: a especificacáo das condicóes de felicidade próprias da política e a sua destruicáo sistemática por Plaráo. SÓCRATES: Sim. e quando chegou a vez de minha tribo formar ocomite exeaaioo e tive de recolher vosros. a única coisa que sei é pedir a urna única pessoa para votar. Inútil dizer que isso urna tentativa de fazer urna ficc. conselhos. Sim. que nao há nada melhor. nao me concite a contar os votos dos presentes [. Ela [a retórica] é responsável pela liherdade pessoal e permite ao individuo a aquisicío do poder po_ lítico sobre a sua comunidade. 1967).embora ele passe todo o tempo nela e parec. Foi exatamente o que ele e seus companheiros fizerarn: transformaram um Estado ainda recente num "simulacro" Nao sou político. essa mesma condicáo específica de falar a todas as diferentes formas de assembléias é essencial vida ateniense (tribunais.Ur-t<li~ RIRllnTI={'A . a primeira especificacáo do discurso político é que ele é público e nao ocupa lugar no silencioso isolamento da sala de escudos ou do laboratório: GÓRGIAS: Quando eu digo. num monstruoso Animal cuja inquieracño aterroriza os senhores ainda hoje. rrad.persuadir os juízes nos rribunais. enrerros. Crocker (New York: Pocket Books. pus-me a rir porrdo conbecer oprocedimenio para isso. no ano passado eu estava no Conselho. mas o que é da? GÓRGIAS: Estou falando da capacidade de usar a palavra falada para persuadir . pensam e desejam 1. Testemunhamos. Para reconstruir a imagem virtual do Estado original. assim.] Minha especialidade se restringe a produzir uma única testemunba em abono de minhas idéias .

Ver o projero político através da mulridáo. Górgias afirma: "Suponho que vocé está cienre de que foram os conselhos de Temístocles e Péricles.tal como. para a multidáo e a despeito da mulridáo é dio difícil que Sócrates se subtrai a esse problema.a um nítido retrato das qualidades reais que faltam inteirarnenre a Sócrates: "As pessoas superiores a que me refiro nao sao sapareiros ou cozinheiros: estou pensando antes nas pessoas que aplicaram o seu talento a política e pensaram no modo de governar bem a sua comunidade. torna-se ela própria inútil em funcáo de seu próprio apelo para um conhecimento especializado da retórica que se contenta em nao saber absolutamente nada. Aqui as ruínas foram tao deformadas pela obstinacáo iconoclasta de Platáo que se tornaram tao pouco reconhecíveis quanto as de Cartago. mas urna forma muito específica de arencáo ao Corpo total pelo próprio Corpo total. quer numa capacidade privada. esse argumento sim pies converte-se no seguinte argumento absurdo: qualquer perito será derrotado por um ignorante que conheca apenas a retórica. Se Sócrates é dio orgulhoso de "náo ser polícico". nem sabem que tipos de coisas as pessoas apreciam e desejam. a ser apenas manipulador. Mas. parece muiro claro que a política nao tem nada a ver com profissionais que dizem ao povo o que fazer. Em suma. estáo completamente fora de contara com a nattcreza humana. é em torno disso que gira a maior parte do diálogo: a quesráo. Mas entáo. Após a traducáo de Sócrates. os políticos se riem deles mesmos quando se defronram com as nossas discussóes e idéias. ele destrói os meios de praticá-la. A natureza náo-profissional do conhecimento das pessoas pelas pessoas transforma o todo num cosmos ordenado e nao em "sornbras desordenadas". o direito de uns poucos retóricos de prevalecer sobre os verdadeiros peritos mesmo que nao conhecarn nada. as fortificacóes de Atenas e a construcáo dos porros" (455d-e). Mas. ele trac. é estabelecer que tipo de conhecimento é a retórica. como de costume. segundo parece. E naturalmente. com a multidáo. Em primeiro lugar. nem sabem discursar para as assembléias políticas ou privadas. torna-se. É o que Sócrates reconhece sob o nome de um cosmos bom e ordenado nas qualidades requeridas dos técnicos especialistas idemiosrgos): "Cada um deles organiza os varios componentes com os quais trabalha numa estrutura particular e torna-os acomodados e ajmtados uns aos azaros até transformar o todo num objeto organizado e ordenado" (503e-504a). antropológica. Os proragonistas concordam em que o que se faz misrer nao é o conhecimento como tal. E a tocha que incendeia os edifícios públicos é vista como a tocha da Razáo! A segunda especificacáo que se pode recuperar do naufrágio é que a razáo política possivelrnente nao pode ser o objeto do conhecimento profissional. Quando se voltam para a atividade prdiica. E no enranto. como observou Nietzsche. quer política. os sofistas gentilmente obrigam Sócrates a dizer a . que levaram aos estaleiros que vocé mencionou. por urna mudanca sutil. numa espécie de tática de terra arrasada cujo naufrágio ainda hoje é visíve1. imagino. em vez de admitir a derrota e reconhecer a especificidade da política. e nao os dos profissionais. (484d-e) Porém a derrisáo de Cálicles. É precisamente essa coragem de ir "at é o fim" que Sócrates irá deturpar tao injustamente quando desrrói o sutil mecanismo da representacáo ao poluí-Io com a questáo de urna moralidade absoluta. os filósofos nao compreendem o sistema legal de sua comunidade. concudo. por que está ensinando os que sabem mais e por que nao permanece nos confins de sua própria disciplina egoísta. a pessoa hisrórica. cuja presen~a negativa ainda pode ser detectada no diálogo) ressalta corretamente: Na verdade. eles se riem deles mesmos . que. especializada? O que é que os agorafóbicos rérn na ágora? É o que Cálicles (o Cálicles real. cada vez que urna condicáo de felicidade está claramente articulada ela é pervertida e transformada no seu oposto por Sócrates. Mas o talento é apenas urna parte disso: elas também térn a coragem que as capacita a seguir sita política até o[im sem desanimar 011.é exatamente o que está sendo debatido sob o rórulo de "retórica". tern as máos do rei Midas mas converte o ouro em barro. conquanro sublinhe acuradamente as qualidades requeridas de um líder. como de hábito. O que os sofistas queriam dizer era que nenhum perito pode pontificar na ágora pública em virrude das condicóes específicas de felicidade que reinam ali. desistir" (491a). quando define o objetivo de seus amigos aristocráticos.

na vida real e em larga escala sobre coisas que ninguém conhece como certas e que a todos afetam. ele encena urna controvérsia entre dois peritos. se lermos a história cuidadosamente. naturalmente. quer a !ongo prazo. disse. sobre o certo e o errado. vecé disse há pouco [456b] que um retórico será rnais persuasivo do que um médico mesmo quando se tratar da saúde. nao sabemos que bife comer por causa das muitas concrovérsias. escntar na ágora tanto o cozinheiro a cur- to prazo como o médico a longo prazo antes de correr o risco de tomar juntos urna decisáo que terá conseqüéncias legais . Mesmo pondo de lado o aristocrático desprezo de Sócrates pelo povo. Ainda aqui o uso que Sócrates faz de urna história divertida esconde a drástica condicáo de felicidade em prol da qual ele está falando no tempo real. quando Platño faz a sua famosa brincadeira sobre o cozinheiro e o médico pedindo votos peranre urna assembléia de criancas mimadas. daríamos varios anos da nossa vida para recuperar a solucáo que Sócrates sirnplesmenre ignora. GÓRGIAS: Certo.. em lugar algum ele declarou. "por lhefaltar compreenséo raciona! quer do objeto de sua arencáo. quer da natureza das coisas que ele dispensa (e assim ela nao pode explicar a razáo (aitian] pela qual alguma coisa acontece). nao está preocupado em educar as pessoas reunidas em cribunais etc. apreendidas por muitas pessoas nas ásperas condicóes de urgencia. e essa situacáo nao pode calvez ser el mesma cotsa que peritos lidando com peritos nos recessos de suas insrituicóes particulares. falando a urna assembléia de hornens adultos sobre urna estratégia. Ou seja. Assim. e para mim é inconcebível que algumacoisa irracional envo!va o conbecimento especializado [ego de technin ou kalo o an i alogon pragma}" (465a). eu nao deveria pensar que é possfvel para ele fazer com que tantas pessoas enrendam [didaxai] tantas quesróes importantes nnm prazo tao curto. mas nao educar as pessoas sobre quesróes referentes ao cerro e ao errado l. Sobre a maneira de preencher essa condicáo pragmática ele nao tem a mais leve sugesráo. o equívoco já é claro: A retórica é um agente do tipo de persuasáo [peithous demiurgos] que busca produzir conviccáo. o próprio demos. a saber. GÓRGIAS: Sim. desde que ele esteja [aiando perante urna tlittft iddo. (454e-455a) I 1. enráo. entre cozinheiros e médicos a respeito de vacas loucas infectadas ou nao por príons. diz ele a propósito da retórica. Nao. A terceira condicáo de felicidade é similarmente importante e similarmente ignorada. sobre as quais lemos diariamente nos nossos jomais. o cozinheiro e o médico. e no entanto a única solucáo que os nao-peritos tinham em rnáos . um retórico nao seria mais persuasivo do que um médico perame urna plaréia de médicos.coisa ridícula de que há muito eles sao acusados de dizer . cujo resultado nenhurn deles conhece e em virtude de que só um partido irá sofrer. como deve confiar em qualquer tipo de conhecimento prévio de causa e conseqüéncia. Sócrates quer substituir o pístis pelo didatismo que é próprio para professores que pedem a alunos para examinarem coisas conhecidas de anremác e ministraro treinamenro e exercícios mecánicos. ! o "demiurgo da persuasáo" faz exatamente o que o anseio "didático" nao pode fazer: ele lida com as próprias condicóes de urgencia com as quais a política se defronta.a saber.. Nós que. Górgias está insistindo no próprio problema que nos confunde ainda hoje e que ninguém foi capaz de resolvet. nao é? Ou seja. na Europa. requer-se muito pouco talento para distorcer a história e deixar Sócrates embaracado. que lanca um perito sério contra um adulador populista. Sócrates triunfa. Ainda aqui. Como é acurada essa definicáo do que está sendo destruído! É como se estivéssemos vendo ao mesmo tempo a venerável .é feita em pedacos. inclusive Platáo e a sua l?eplíblica.eis a grande vantagem da forma diálogo que falta a epideixis: SÓCRATES: Ora. que discutí anteriormente. A política lida com urna multidño de "nao-peritos". Essa cena divertida só funciona se a multidáo de Atenas for composta de criancas mimadas.] Um retórico. mas nao o é para as erémulas almas que tém de decidir o que é certo e o que é errado no local. SÓCRATES: Com "peranre urna mulridáo" voce quer dizer "perante ndo-peritos". Na passagem seguinre. rudo o que lhe interessa é persuadílas [peistikos). quer a cnrta prazo. Nao só a razáo política lida com quest5es importantes. Sócrates reconhece isso prontamente: "Acho que ela é urna aptidáo [empeirian}".

é o decidir o que é certo e o que é errado. o que é bom e o que é mau. a aversáo acultura popular "irrornpe" roda vez que eles falam de política: "Náo há absolutamente nenbums especialidade envol- .. é sensata. Sócrates exige da retórica algo que ela tal vez nao possa dar.estátua da política e o martelo que a despedace. Sócrates a define com precisáo: "Niío há nada que mesmo urna pessoa relativamente pouco inteligente pode levar mats a sério do que a questáo que estamos debatendo . da percepcáo tardia. do que escolher. sem a qual nao reráo "nenhuma cornpreensáo" acerca do que fazer. e o Estado torna-se impossível. O que poderia funcionar eficientemente com urna diferenca relativa entre o bem e o mal nao pode ser consistente se lhe for exigido um fundamento absoluto. porque vem de dentro. dando ou tomando. o seu ídolo. ] que toda atividade deve visar ao bem e que o bem nao deve ser um meio para o que quer que seja. ) Mas qualquer pessoa competente para distinguir os prazeres bons dos maus. deve decidit no escuro e será conduzido por pessoas tao cegas quanto ele próprio..SOOa). urna especializacáo racional sobre o certo e o errado. numa populaé ~ao bárbara de escravos e criancas ignorantes. do que esperar. Num denegrimenro das belezas de Atenas que é pior do que o saque da cidade pelos persas ou espartanos. Mas o Terceiro Estado foi convertido. o auroconrrole e a bondade em todas as suas manifestacóes entram nas mentes de seus concidadáos e para que a injustica. eles váo persuadir-se de que roda arte visa unicamente a corrupcáo. mas sim a finalidade de toda afao? [ . bic estssltus. um após outro. de que maneira é preciso vivero A vida que vocé me está recomendando implica as atividades humanas de falar aopovo reunido. voltando ao passado. responde ele. essas sao as qualidades a que esse nosso excelente especialista retórico estará visando para todos os seus procedimenros concernentes as mentes das pessoas. mas nao existe outra maneira de fazer política. como veremos. este kairos. sem o benefício da prova. e com razáo! A política irnpóe esta simples e rígida condicáo de felicidade: bíc es! Rbodns.ao repetitiva. Nada é mais emocionante no Górgias do que a passagem na qual Sócrates e Célicles. Também aqui. E Cálicles engole a isca! "Existe uro especialista". do que saber. E no encanto. e acho que a sua província é o certo e o errado" (454b) -. ao exigir do povo um conhecimento das causas que é totalmente irrelevante. Se há urna coisa que nao requcr especialista e nao pode ser tirada das máos dos dez mil papalvos. Doravante já nao há solucáo. quer esteja falando ou agindo. e a invencáo de um mundo do além para resolver a questáo total é exaramenre aquilo de que Sócrates ri. Na política nunca há urna segunda oportunidade .apenas urna. "a moralidade é um simulacro da política". depois de concordar sobre a relevancia da política. da experimentac. o egoísmo e a maldade em todas as suas manifestacóes saem" (504d-e). da gradacáo progressiva. mimados e doentios que esperam avidamente a sua pitanca de moralidade. com o Cálieles de palha seguindo-lhe obedientemente os passos. Ele estará aplicando constantemente a sua inteligencia com o[im de encontrar os meios gra~'dS aos quaiJa justi~'d. Como é emocionante ver. como Sócrates exige: "Vecé admite [.. Sócrates ri dos políticos ignorantes. ao mesmo tempo que torna a tarefa da política impossível. lid ando com o todo sob as coacóes incrivelrnenre rígidas da ágora. Siro. E nao obstante é isso o que Sócrates vai fazer. por Sócrares e por Cálicles. esta ocasiáo.. rreinamento retórico e o tipo de envolvimento político em qtte voce e os do seu tipo estdo envolvidos" (SOOc). como todos esses gregos ainda estavarn imbuídos da natureza positiva dessa democracia que continua sendo a sua mais vasta invencño! Claro que "ela nao envolve o conhecimenro especializado". Essa magnánima defini~ao da política.a saber. claro que lhe falta "compreensáo racional": o todo."repito que seu efeito é persuadir as pessoas nos tipos decomicios de massa qtleacontecem nos tribt/nais e assim por diante. Nao existe nenhum conhecimento de causa"e conseqüéncia. destroem. Como costuma suceder com os coracóes cheios de ódio demótico. mas apenas na medida em que nao esteja desprovida de todos os modos e meios que a rornam eficaz. da previsao. depois que Górgias encarece as condicóes de vida real nas quais o demos tern de chegar a urna decisáo por meio da retórica . É nisso que eles concordam. um technicos. ou isso requer alguém especializado?" (49ge. os únicos meios práticos pelos quais urna rnulridáo de pessoas cegas rateando no escuro deveria obter a luz que as ajudaria a decidir o que fazer em seguida: "Assim.

esse sofisticadíssimo demos aparece assim aos olhos de seu desapontado professor: "Portante. Todas essas pessoas sao ali jadas porque nao sabem o que sabem a maneira didática que o professor Sócrates quer impar ao povo de Atenas. depois sobre os maiores dramaturgos. todos ao mesmo tempo . 2S séculos atrás. votar com sua própria tribo? Nao. mergulhando o demos numa escuridáo muito mais profunda do que antes que eles come~assem a "iluminé-lo" . assistir a pompa panarenefa.] Todavia. porque nao sao Sócrates e Cálicles que se cegam a si mesmos. N urna espécie de raiva cega. os seus concidadáos a adotar o curso de a<. que nos vemos privados de nossas únicas e frágeis luzes. nós o descrevemos como ad¡.os templos. a Acrópole. E isso foi escrito. ou mesmo forrar. Sobre que eles esráo falando de forma do irreverente? Primeiro sobre culinária.vida no modo como ele busca o prazer sem examinar a natnreza do prazer ou a sua causa" (SOla). mas rompe todos os circuitos de inforrnacáo que gerariam esse conhecimento da causa prática. os maiores arquiteros. e nao a lenta iconoclastia dos sofistas atuais. os maiores oradores. que passou a vida inreira imerso na riqueza e na beleza que ele tao tolamente destrói ou considera irrelevante ao produzir a razáo e a reflexáo política. como diz Weinberg. Vemos aqui o drástico vínculo duplo que transforna o Estado num monstro esquizofrénico: Sócrates apela para a razáo e a reflexño . urna após outra. na fúria com que Sócrates destrói ídolos e invoca fantasmas do alérn. mulheres e criancas. extraterrestres.escravos e pessoas livres -. os maiores músicos. Na verdade. defrontamo-nos aqui com um tipo de retórica que se dirige apop¡. os maiores trágicos. nesse diálogo. esses eram apenas meios pelos quais o demos podia realizar o seu feiro mais extraordinário: representar-se publicamente para o público. os dois contendores se póem a matar nao só as artes que tornam possível a reflexividade mas cada uro dos líderes ligeiramente menos cegos cuja experiencia foi crucialmente importante para a política prática de Atenas: Temístocles e o próprio Péricles. acho que eles foram melbores no servico ao Estado do que os políticos atuais [. é que merece a nossa indignacáo. e é um tipo de retórica que nao podemos aprollar. a ágora . Nao admira que Sócrates tenha sido chamada de arraia elétrica! O que ele paralisa com o seu fio elétrico é a própria vida. Essa forma sinistra de iconoclasria nao acorre sem o consentirnenro de Sócrates: é em sua qualidade de servidores do Estado. é mais ou menos licito dizer que eles nao foram melbora do que os políticos aruais no que se refere aper/as a responsabílidade que um bom membro da comunidade cero . cada urna das centenas de frágeis e ténues lampadas. Todos os séculas de artes e literatura. somos nós..ao que resultaria na sua transformacáo em pessoas melbores. tornar visfvel o que ele é e o que ele quer. mas pelo mais sofisticado. nas ruas. Sim! Se acaso já houve urna forma de "supersticáo superior". a própria esséncia do Estado. Ele deprecia o conhecirnento da política por sua incapacidade de compreender as causas do que ela faz. todos os sírios. ela é vista. porque ainda hoje o desprezo pelos políticos que cria o consenso mais amplo nos círculos académicos. todas as ocasióes ande essa reflexividade assume a forma muito específica do todo lida~do com o todo sao consideradas ilegítimas.um auro-aniquilamento odioso que nao podemos ridicularizar como uro mau espetáculo acontecento no palco. os maiores escultores. Ou seja. esse modo tao inteligente de livrar-se dos que querem livrar-se do povo! Nessa passagem os dais parceiros apagam. ESJe tipo de "desconstrucáo".. todos os espa~os públicos .a saber.que Sócrates está denegrindo uro após outro eram os únicos meios que os atenienses tinham inventado para perceber a si mesmos como urna totalidade que vive junto e pensa junto.¡lafelo" (S02d). Quáo sensível era o demos ateniense para inventar a tao ridicularizada instituicáo do ostracismo. escutar poesia. nao por um invasor bárbaro. (517b-c) Nao os estou criticando . Nao. Era simplesmenre ser adulado ir as tragédias. alterar as necessidades da comunidade em vez de cooperar com elas e persuadir. como a nossa única esperan~a contra a irracionalidade. esclarecido e literário de todos os escritores. nao há razáo para rir. Desprovido de todos os seus meios artísticos para se expressar a si mesmo. porque se ostenta como a mais alta virrude e. os maiores estadistas. ouvir as ora~5es.mas entáo todas as artes.¡fafao reunida de homens.

acrescente-se outro disparate. poderemos dizer que a derurpacáo que Sócrates faz dos sofistas decorre de um erro de categoria. arrasrando consigo o Cálicles real e antropológico. prilladas de toda a sua roupa . o Cálicles de palha aceita vergonhosamenre o julgamento de Sócrates. a partir desre mesmo primeiro discurso público. é I Como Sócrates interpreta malo trabalho feito pelo Estado sobre si mesmo O projero de Sócrates equivale a substituir o sangue de um corpo sadio por meio de urna transfusáo a partir de espécies totalmente distintas: ela pode ser feita. com urna alma desembaraf"ada. rérn de ser julgadas depois que morreram.ao for<. nao lida com histórias fantasmagóricas do outro mundo. mas como urna sombra e sobre um demos de sombras: "Elas [as almas] sao mais bem julgadas nnas.tao irrelevante quanto a insistente pergunta do capítulo 4: "Os fatos sao reais ou fabricados"? Se quisermos falar menos poIernicamente. mas totalmente irrelevante para a política. Um operador que era fundamental para o senso comum das pessoas cornuns foi transformado em escolha irrelevante . esses "ornamentos" sao exatamente o que nos obriga a fazer julgamenros agora. O que Sócrates nao quer considerar que esses apegos. ele possa escrutar a alma desembaraft1da de um indivíduo redm-falecido que nao esteja cercado por sens amigos e parentes e deixou aqueles ornamentos para rrés" (523e). vocé pode citar 11m tintco retórico do passado que possa ser considerado fundamental.vale dizer. todas as pessoas de Atenas fossem outros tantos Sócrates que tivessem. Em vez de defender a grande invencáo de urna retórica adaptada as suris condicóes dessa outra grande invencáo que é a democracia. é verdade. Se esrou usando de ironia e indignacáo. Como Nietzsche tinha razáo ao fazer Sócrates encabecar a sua lista de "hornens de ressentimento". é verdade. morto . Sócrates nos dá urna pintura ainda mais pálida.em ourras palavras. por algum milagre fantástico. e assim a única coisa que fica é ou uro apego servil ao que as pessoas pensam ou uro vóo louco para uro além fantasioso no qual exisciriam apenas professores e bons alunos. que nao exige nem a razáo nem o cinismo. . Ele aplica a política um "contexto de verdade" que pertence a outro dominio. que Péricles nao[oi 11171 bom estadista" (516d). a do Terceiro Estado. só um homem triunfa: "Eu sou o sínico praticanre de política autentico na Atenas de hoje. nenbum dos problemas da cidade teria sequer comecado a ser resolvido. esses "amigos e paren tes". na tare/ade/caer coro que os atenienses passassem do terrñel estado em que esravam para outro meíbor?" (5ü3b). Depois de ridicularizar a retórica por fornecer apenas um "simulacro de política". trocado sua sábia pistis pelo conhecimento didático de Sócrates. esse último julgamento. Por que é necessário fazer urna escolha entre essas duas posicóes.m<. que naturalmente teriam gritado de indignacño contra essa iconoclastia.fta essa afirrnaráo. como veremos. essa virtude única em circulacño que é como o seu sangue. o juiz também deve estar rut . Ele governa. e Górgias e Polo. conduziram a política ero Atenas: "Bem. Entre as ruínas fumegantes daquelas instituicóes. Urna Atenas feita de Sócrates virtuosos nao será melhor se o Estado for privado de sua forma específica de racionalidade. Aa que a única resposta devastadora só pode ser que ning.i I 1 • Mas Sócrates. é para contrabalanrar o velho hábito que nos leva ou a compartir do ódio demótico de Sócrates ou a abracar inadvertidamente a definicáo calicriana da política como "mera forca''. Um homem contra todos! Para esconder a dimensáo megalomaníaca dessa conclusáo insana. ainda que essa escolha paralise o Estado? Como sucede com todas as escolhas desse genero. Se há urna coisa que a política nao precisa. mas é por demais arriscada sem o consenrimenro ponderado do paciente. Sócrates assume a incrfvel rarefa de julgar todos os que. o línico exemplo de 11m t1erdadeiro estadista" (521d). privou os estadistas de todos os meios de obrer essa "alteracáo". e nao a luz crepuscular do Hades. Coro essa referencia de nível inadequada. sob o brilhante sol de Atenas. como ele. essa "melhoria".a fim de que. mas com pessoas vivas. O que ele nao quer entender é que se. contrariamente ao que ele diz. entáo. O objetivo desse estilo burlesco é focalizar a nossa atencáo na posicáo mediana. essa "fi. é porque a iconoclastia destruiu um aspecto crucial da a~ao (ver capítulo 9). A ser jlt. A política nao lida com pessoas "recérn-falecidas''. Urna bela cena. mas com as histórias sangrentas desee mundo.llém o foi: "Desse argumento se segué. E o Cálides de palha concorda.osan. é de um outro mundo de "almas desembaracadas".

Mas os pensadores como Plaráo só ofereceram urna reoria do modo como a demonstracáo progredia.se quisesse dizer a verdade . Nenhum professor. urna deturpacéo. é necessariarnente total. e é considerada acurada. Como vimos no capítulo 2.o modelo porque o que está em questáo é a conservacáo das proporcóes por meio de varias relacóes diferentes. Assim eles puderarn usar a idéia de urna proporcáo manrida de forma nao-problemática através de diferentes relacóes como urna referencia de nível pela qual se julgam todas as outras. comandado ou dirigido de cima: "Por favor. a nao ser a breve delonga que é imposta pelo estreito comprimenro de onda da ninfa Eco. no motivo dessa escolha. um mau comportamento.iio é julgada por sua capacidade de transportar urna proporcáo mediante todos os tipos de transforrnaróes. é os impede deproferir essas opiniies que tlOt} seimpede defazer eco a eles" (48Ie-482a). para Sócrates. na prática a natureza dessa transformacáo consiste exatamente em perder inforrnacáo em seu caminho e ern redescrevé-Ia numa cascara de re-representac.admitindo que sornente quandoalguém é snas vontades? Diga-me a verdade. menos um pouquinho de estática. vecé provavelmente responderia . cada qual a aplica sern deforrnacáo ou interpretacáo. ou a obsequiosidade servil. Por ora podemos ignorar o prazer infantil que Piado sente ao fazer Cálicles responder que é o segundo e nos concentrarmos. a fidedignidade de urna representaC. o sofista. quando ele avalia a qualidade de urna assercáo é com base na semelhanfa entre a fonte (aqui o ditador que representa o povo mimado) e o receptor (aqui o jovem sedente de poder): "Vocé é tao incapaz de desafiar decisóes e assercóes de seus amados que.ao. quer quando o próprio Sócrates repete o que seu ver- . mas que se assemelha mais esrreitamente a urna terrnentacáo através da qual o povo se prepara para urna decisño . a maneira sofista. Ou ela a transporta sem deforrnacño.arde e que será ela própria impregnada de definicñes racionalisras.A grande beleza do Górgias é que esse ourro contexto apresenta-se claramente na própria falta de compreensgo que Sócrates exibe ern relacáo ao que vem a ser re-presentar o povo.nunca exatamente de acordo consigo próprio e nunca conduzido. É aqnele que é análogo a prática da medicina e implica confrontar-se com os atenienses e empenbar-se em assegurar-Ihes a perfei<. eco a obediencia. Sabemos de onde ela vem. diga-me entáo qual desses dois modos de cuidar do Estado que vocé está sugerindo eu sigo. é sempre a mesma coisa. Sócrates aplica a política um modelo de igualdade geométrica que requer estrita conformidade com-. Nao me refiro moderna nocáo de representacáo que virá muito n:ais t. Ele deve adestrar-se desde a mais tenra idade ero compartilhar os gostoseaoersies do ditador e deve encontrar urna forma de assemelbar- se ao ditador o máximopossíve/" (5IOd). e é considerada inacurada.óes. A escolha é tao brutal quanto absurda: ou a confroncacño face a face. e nao deve haver diferenca alguma entre representado e representante. quer quando Cálicles repete o que as pessoas dizern. e nao da sua prática. Nao importa que o Estado se torne um animal impossível: o que quer que ele diga. cuja natureza precisa tern sido tao difícil de apreender como a da política. A política é concebida por Sócrates como urna caixa de ressonáncia. Assim. Como Sócrates ignora voluntariamente todas as condicóes de felicidade que relacionei mais acirna.nem tam pouco. Cálides" (52Ia). Toda perturbacáo é julgada um erro. sealgltém expressasse snrpresa ante as cois«s extraordinarias que eles o leuarn a dizer de quando em quando. em vez disso. jamais se comportou assim . Nenhuma invencáo. Sócrates vai calibrar todas as afirmacñes dos pobres sofistas: "Portante esse é o curso que qualquer membro jovem da comunidade que estamos imaginando deve seguir se estiver perguntando como ter rnnito poder e evitar estar no extremo receptor da injusrica. A imicacáo.ao? Ou aquele que é análogo ao dos que só procuram servi-Ios e fazer as a ou referencia circulante. e na verdade nenhum servidor. a maneira do professor. Eco a represenracáo. Urna vez enunciada a ordern. urna traicáo. O mesmo vale para a obediencia ao senhor. mas de uro tipo de atividade ad hoc completamente distinto que nao é nem transcendente nem imanente. nenhuma interpretac. ou a transforma. é claro. Equipado com esse modelo. A escolha tao bizarra que só se pode explicá-Ia pela tentativa de Sócrates de apelar para um recurso inapropriado que o leva a fazer urna pergunta totalmente descabida.

quem conseguir deixá-Io inteiramente igual [ostis ouv se toutoi omoiotaton apergast:tai] o transformará naquilo qut: voce ambiciona ser: político e orador. Se quer esrabelecer qualquer tipo de relacionemento amigatelmente signífícatioo cotn o povo ateniense (.dadeiro amor. e outra química. com os dois amores de Cálicles. criaram muiros truques e um tesouro de conhecimentos para Iidar com a peculiaridade daquilo que nao pode ser considerado urna caixa de ressonáncia ou urna sala de aula .ou seja.mas sua especializacño é devastada pela invesrida de Platáo. mas rumores. dio do agrado dos professores de hoje. nao o de palha . o filho de Pirilampo" (481d-e). (Lembremos que nessa passagem Sócrares compara os seus dois amores. voce recua e diz o qtle elas querem ouvir. que vecé seja de parecer diferente. porque todos gostam de ouvirseta prdprios pontos de vista caractensticos rtltm discurso e ftiio gostam de osoir nada que lhes seja contrario .urna química altamente complexa que faz com que um represente o todo.. e seu comportarnenro é muito parecido com o desse belo rapaz. Pode-se dizer que Cálicles nao se arém a verdade quando "vacila e muda" somente se definirmos o ato de dizer a verdade como o ato de se deixar convencer sozinbo no ontra rmmdo.. como os testes de múltipla escolha. a populaca ateniense e o seu favorito. ele usa um excelente "modelo de rraducáo" que o obriga a "recuar" quando os outros "se recusam a ouvir suas idéias". longe de acreditar num modelo de informa<.o tipo de transporracáo criado como a jusrifica<. pelo menos aos olhos de Sócrates. Na ágora nunca existe eco. como Cálicles tao apropriadamente as definiu mais acima. Mas.6es. mostra a sua completa ignorancia do que deve ser coletivamente convencido sobre questóes para as quais ninguém rern urna resposta definitiva. condensacóes. Isso vale tanto para a representacáo como para a obediencia. acurnulacóes. em particular. deslocamentos. porém. nenhum de- les transmire servilmente. desvios. as pessoas estaráo completamente inconscientes de que outrora ali se erguia urna enorme e bela estatua. entáo nao há outro caminho senáo negociar a própria opiniáo até que cada um dos envolvidos no assunto sejam convencidos. o comportamento de Cálicles . simplifica<. igualmente complexa. se as condicóes de felicidade sao.o Cálieles real. tao poderosa é a sombra iancada sobre o raciocínio político pela nocáo de informacáo sem deforrnacáo . caro amigo. os dois únicos modelos que ele é capaz de imaginar. urna informacáo qualquer. exatamente quando o ato de destruicáo está sendo comerido. mas ainda assim tenho rido ocasiáo de notar que é incapaz de objetar seja o quefor que os seus amados dizem ou créern.] entao nao se trata apenas de sana qttestao de imi/arao: voce sem de ser inerentemente igual a eles. Prova disso é que mesmo aqui eu emprego as palavras "truques" e "conhecirnenros" para descrever urna forma acurada de saber. seja para pior). sendo vecé di/erente das nonas itlsti/uiroes (seja para melhor. Se na Assembléia ateniense as pessoas se recusam a aceitar uma idéia sua. Cálicles. transforrnacóes . Com essa referéncia de nivel é fácil dizer.é perfeitamente adaptado as condicóes ecológicas da ágora. Voce vacila e muda em vez de contraditá-los.ao teórica da demonstracáo geométrica (ver capítulo 2). Nosso diálogo capta a forma específica de disranciamenro político manchado de sangue. quando os iconoclastas tiverem feito o seu trabalho e a poeira assentar. Alcibíades e a filosofía. Os sofistas. Testemunha-o o conselho extraordinariamente paternal que Sócrates dá a Cálieles e que define acuradamente a própria forma de transcendencia na qual Cálicles ainda está operando e que Sócrates está sufocando diente dos nossos olhos: Se vocé acredita que alguém lhe pode ensinar lima arte qualquer que o capacitara a sersana forra política na cidade.a menos. acho que está mganado. quer ainda quando os estadistas obrigam as pessoas a trocar suas maneiras incorreras pelas maneiras correras (503a).ao "difusionisra" que viajaria intacto apesar de tuda. que Péricles nunca melhorou ninguém e que Cálicles simplesmente segue a populaca: "Ora. Quando os cidadáos repetern o que o Estado faz ou quando obedecem alei. sem deformacáo. Numa democracia isso significa todos. Em outras palavras. a filosofía. por assim dizer . vecé é terrivelmente inteligente. Mais tarde. claro. O sonho de Sócrares de subsriruir rodas as suris rradu~6es desses cidadáos por urna forma de raciocínio estritamenre didética. o leva a dizer (482a). que (as vezes) leva o todo a obedecer a um. (513a-c) . para estadistas corajosos "seguir as suas polícias até o fim sem esmorecer e desistir".) Mesmo aqui. Sócrates julga mal a grande distancia positiva entre o que os representados e os representantes estáo dizendo porque julga-a de acordo com a sernelhanca servil ou a indiferenca total.

a água. tal é a misteriosa qualidade da política . Sempre que os retóricos dizem alguma coisa para pravar que os requisitos de Sócra- 289 . a demonstracño da massa. "náo existe um só extremo a que o homem nao chegue para evitar o árduo rrabalho de pensar pol iticamenre''. escondidos em seus desprezados truques e conhecimentos. truques e retórica contribuem para essa ligeira diferenca entre o Corpo e ele mesmo. Por que tantas vezes ele é visto como urna discussáo sobre moralidade? Quero dizer que. expelidos da República pelo rei filósofo.a nao ser que o demos seja ao mesrno tempo o trigo. mas que os políticos felizmente preservam com grande habilidade. o tipo de agiracáo que sempre parecen tao rerrfvel aos olhos dos poderosos e que nern sempre. que obriga o todo a lidar consigo mesmo sem o benefício da inforrnacfio garantida. os gregos criaram urna alternativa radical: ou geometria ou democracia. o objetivo da política é tao impossfvel quanto as lororas do baráo de Munchausen. É verdade que os talentos da política sao tao difíceis.o Cálicles antropológico real seria de parecer diferente se Plaráo nao se tivesse usado o buril para transformar Cálicles num homem de palha. Antes de podermos concluir e restaurar as duas transcendencias ao mesmo tempo com a frágil plausibiliclacle dessa fic~ao arqueológica. Mas os erros de nossos antepassados nao nos irnpedirao de reconhecer as suas facanhas e adorar suas boas qualidades sern os seus defeitos. Nada. Sócrates dota os sofistas do poder de "transforrnarern-se por si mesmos" naquilo que todos os demais estáo fazendo e querendo. mas algo como o preparo do pño . por outra.e isso é urna grande vantagem para os sofistas. Visto do remoto ponto de vista de Sócrates. precisamos entender um pouco mais o diálogo. contra a irnanéncia dos líderes populistas. tao contra-intuitivos e requerern tanto trabalho. foi suficientemente transcendente para fazer o POyO se mobilizar e ser representado. privado do conhecimento e da moralidade. Como ficou dito no capítulo anterior. definindo com incrÍvel precisáo essa estranha forma de transcendencia e esse ainda mais estranho tipo de reflexividade que permanece completamente imanente desde entáo. essa ajucla nao ergueria o povo nem urna polegada. as questóes éticas debatidas por Sócrates e Cálicles sao mitras tantas pistas falsas. Eles ofereciam urna definicáo obscura da "ferrnentacáo" do Estado em vez da auro-representacáo rniricamente clara que foi inventada no período modernista. Nunca o raciocínio político foi definido tao precisamente como o foi por aquele que o tornou para sempre irnpossível. urna fermentacáo. o lévedo e o próprio ato de amassar. senanros cairazes de respeiter 0. o padeiro. A razáo. Sim. A transcendencia específica de que ele precisa nao é a de urna alavanca vinda de fora. é necessária urna completa e total assirnilacáo a natureza de todo mundo [Olt gar miméiin dei einai all' alltophltos omoin tONtois]!'. Sirn. tantas iruerrupcócs que. e a outra igualmente admirável. a da dernonstracáo geométrica. apesar dos eloqüentes comenrários dos filósofos morais. Manipulacóes. em princípio. tao estrenuos. nós nao a compreendemos tal como Sócrates nao a compreendeu . embora totalmen- te distinta. Se Sócrates nao tivesse tentado. erróneamente. e Sócrates generosamente se oferece para lhe dar urna ajuda. precisa de ajuda exterior para resistir. Ler a vocacáo de Cálicles como irnanéncia. se fosse aceita.que se tornou um misrério para nós. mas com duas transcendencias. entretanto. urna realmente admirável. como "assirnila\"ao" que "elimina a diferenca" é nao perceber a forma específica de transcendencia que ocorre quando o todo se representa reflexivamente para o todo. Nao estamos aqui diante de nenhuma transcendencia. longe dos tolos sonhos da represenracáo transparente. para parafrasear Mark Twain. Mas o que herdamos desse impossível Estado foi urna matéria de contingencia histórica. diferencas. substituir um tipo de dernonstracáo. "Náo basta a mimese. Mas. salvo a falta de fibra.exatamente o tipo de coisa que Sócrates é tao incapaz de fazer que foge da ágora com um ou dois jovens e fulmina contra Atenas a partir do seguro e inexistente posto de observacáo do Hades. a geometria. Alttophl¿os diz tuda.1' dentistas sem deJprezar OJ j)()/Íli((JJ. nos obriga a escolher entre as duas invencóes e a renuncia a nossa legítima heranca. por rneio da mediacáo de alguém que assume a tarefa de ser outra pessoa . Ao ler essa alquimia como representacáo. Nem a beatitude orgánica nem a transparencia racionalista: tal era o conhecimento dos sofistas. O demos.

Polo é o prirneiro a cair na armadilha ética. grufas a Cdiides. mas é rarnbérn mais desprezfvel" (508e). Se pela moralidade fazemos esforcos para melhorar o Terceiro Estado proporcionando-lhe os meios e os modos que Ihe permite representar-se a si mesmo a fim de decidir o que fazer em assuntos sobre os quais nao há nenhum conhecimento definido. Isso seria viver segundo o acordo de Cálicles e Sócrates. naturalmente.? (515a) Nao nos apressemos ero responder que política e moralidade sao duas coisas diferentes e que. é facilmente paralisado pelo argumento da caixa de ressonáncia.embota a pcsicáo do próprio Maquiavel nao seja. nas sombras do além. porque ele consegue. isso esraria muito perro de tal asse-rcño. como acabamos de resremunhar. devasso. o alvo de seu malefício. por urna pequena mudanca. Sócrates a interpreta como prova de que os sofistas estáo interessados na questáo moral. Sócrates pode ser até piar porque. Na verdade o crime de Sócrates é surpreendenre. Górgias. "Digo rambém que roubar. a despeito do texto reescrito de Platáo. como de (OSturne. nm modelo de tJirtlld. como mosrrei anteriormente. Com admirável ironia ele [anca. Alguma coisa mais é necessário. a pior coisa do mundo. assalrar . deve provocar antes ranger de dentes que exclamacóes de adrniracño. Isso seria fazer o jogo de Sócrates. por exemplo. Precisamos de um condicionamento extremamente langa para ver essa questño como crucialmente importante. Sai o pobre Górgias. já que ambos esráo competindo sobre a melhor maneira de anular a reg ra da maioria. irrefletido). o seguinte desafio: "Existe alguém . A perversidade de Platáo vai m ui ro além J isso. injusro. de gualquer esfera . a diferenca absoluta entre o que todo animal moral acredita e o que a moral idade superior de Sócrates requer a de ser imposta pela forca. A questáo levan rada por Sócrates parece tao irrelevante que funciona perfeitamente para desviar a atencáo de seu próprio equívoco sobre a representacáo política: "Segué-se que o maleficio é a Jegtmda pior coisa que pode acontecer. ainda apresenta.dagui ou de outro lugar. Exatamente da mesma maneira que a diferen<. fazer qualquer ripo de mal contra mim e minha propriedade . É Polo que nos faz acreditar que aqui nos defronramos com urna assercáo revolucionária: "Se vocé é sério. porque essa desconsideracño pela moralidade é exatamente o que ele quer para as pessoas de Atenas sem ele e o que Maquiavel mais tarde superestimará como urna definicáo positiva da habilidade política . en tao Sócrates é exatamente tao imoral quanto Cálicles. mas oeio a se tornar.em suma. é fazer o mal e nao pagar por isso" (479d). mesmo que por meio de seus disparates. Em seguida. sem quaisquer esperanlias de melhoria.a absolnta entre conhecimento e técnica foi imposta por um coup de force para o qual só dispomos das palavras de Sócrates (ver capítulo 7). ninguém pediu a Cálicles para converrer todos os cidadáos ern "modelos de virtude" . Mesmo se a moralidade fosse tomada como sendo apenas urna espécie de aptidao etológica básica de primaras gregários. subrrair ao Terceiro Estado exatamenre o rnesmo tipo de comportamenro moral com o qual todos concordatn e entño transformar esse comportamento numa tarefa impossível que sé se pode cumprir seguinJo os seu s próprios requisitos impossíveis . () primeiro a adentrar o palco.o que vai desembocar.os sofistas reais sendo vagamente visíveis através de suas contrapartes de palha. e essa coisa é.nao apenas é pior para o malfeiror do que para mim.tes sao totalmente irrelevantes para a questáo ero pauta. ele destrói sisremaricamente o que torna a representacáo eficiente: enquanto Cálicles. a meu ver. tomar a política como o exercício degradado que visa conservar o poder um pouco mais. o comporramento servil do Sócrates de palha. claro totalmente imoral. e se o que vocé está dizendo a verdade. urna vaga reminiscencia de habilidades políticas adequadas . escravizar. a maldicáo snprema. sem dúvidu a vida humana seria virada de cabefa parct é é é 291 . Que feito! E um feiro que.porque se concedermos isso ainda estaremos aceitando a definicáo maquiavélica de política como sendo alheia a moralidade. como vimos. A única coisa que Sócrates acrescente para transformar isso numa "magna questáo" a escrita e absoluta ordem ele prioridade que ele impóe entre sofrer o malefício e praricá-Io.que antes era mau (isro é.

menos os modos de aplicá-la (Nuissbaum. chirnpanzé (DeWaal. 1994). e a cooperaftio é 11m pré-requisito da amizdelell (S07t'). desde que inCd!hlZ ele coo!Jerdfeió. cligamos da América.porque. exceto o Cálicles de paIha tal como Plarño () re-trata! A mitologia da guerra de todos contra todos. fosse a China e. 1987). se pudessem ler Platño. segundo vecé. nao seria? Tuda o que fazemos é o oposto daquilo que. 1982).baixo. no sentido de que qtte}ft une assim nunca estsi em bons termos com ningm!m . muito menos com um deus -. é contada apenas pelos que retiraram do POyO a rnoralidude b. E essa a vida de am [ora-da-lei predatório. depois de apelar. E rambém aqui.m/II/u entre sofrer e fazer o mal é que ela poderá conseguir esclarecer-nos. É urna Iura. Como cosruma suceder com os discursos revolucionarios. Mesmo a sarcástica observacáo de Cálicles segundo a qual as quest5es de moralidade sao totalmente irrelevantes para a discussáo da retórica política nao basta: "Estive pensando no prdzer adolescente q ue vecé tem em agarrar-se a qualquer concessño que alguérn lhe faz. Voce acha mesmo que eu 011 qlla/qller ontro negamos que exisrem prazeres melhores e piores?" (499b).lPllttltiO. aplaudiriam essa descricáo da moral relativa que vige nos grupos sociais (Srrurn. reconhece a óbvia natureza de senso comum daquilo cuja demonstracáo Ihe cusrou tao ingente esforco: "ludo o que esrou dizendo o que sempre digo: eu próprio ignoro os faros dessas marérias. nós deteriamos estar[azendo" (481 e). O que Sócrates faz ao demos de Atenas é tao ostensivamente absurdo como se um psicólogo.ue discordar do que esrou dizendo e ainda assim deixar de ser ridklt/oti (509a). a filosofia moral é um narcótico tao vicioso quanto a episremologia e porque nao podemos abandonar facilmen re o luibiro de pensar que o demos carece de moralidade tao totalmente quanto Ihe falta conhecimento epistémico. porque sem esta o que ele diz e o que as pessoas comuns dizem seriam inaistingnñeis. Mesmo o fato de Sócrates admitir que o que ele diz pertence ao senso comum e nao de modo algum revolucionário nao suficiente. mas lima ruta travada por Sócrates para impar as pessoas lima definicáo da moralidade que elas sempre possuíram. confia: "Náo nos devernos recusar a refrear os nossos desejos.llém jamais disse o oposco.isica que a sociabilidade irnpós durante rnilhóes de anos nos animais gregários. mas confio em que mesmo os babuínos de Shirlcy Strum e as hienas de Sreve Glickman. nem que seja por brincadeira. seu balde ele tinta e sua cánd idu explica~ao psicológica? Podernos pensar que os habitantes da imené é 292 293 . O interessante é que ninp. acerca dos quais nossos conhecimentas etológicos sao exiguos. que.com nenhum ser humano. na parte final do diálogo. Isso deve ser óbvio. como vimos. enanca ou. Coro que olhares ele deparará quando chegar com seu pincel. baseado no conceito chauvinista de que litados os chineses sao parecidos". mas nunca enconirei ninguém.Sócrates confessa cándidamente a natureza ecológica básica da moralidade na qual ele. Sai Pólo. que pllde. porque isso nos condenará ti mua vida em qtte tentaremos sarisfazé-Ios incessantemente. depois de urna langa e acrimoniosa di. na qual Cálides desempenha convenienermenre o papel da desenfreados animais de rapina como se os animáis de rapina fossem eles próprios desenfreados! Como se os lobos se comportassem como lobos e as hienas como hienas! . para as Ieis naturais contra as leis convencionais. é imediaramenre transformado em alguém que exige ilimitado hedonismo. nao há maneira mais segura de fazer urna revoIucáo do que dizer que se está fazendo lima! O que é extraordinario é que Sócrates. Nao é isso urna clara confissáo de que todo esse langa debate coro Polo sobre o modo de dassificar o comportamenro moral nunca foi posto em dúvida por ninguém em nenhum período? Cada um é relatúwuente abrigado pela Regra Dourada. ind/lindo as pessoas aqui presentes. é é é é Nada sei sobre os deuses. os filósofos moráis descrevem o GórgiaJ como a luta magnificente do generoso Sócrates oferecendo as pessoas urna meta que é demasiado alta para alcancarem. mas nao o é . SÓ se quisermos converté-la numa dernarcacáo ab. Ninguérn nega o que Sócrates diz! Quaisquer que sejam as evidencias. que nmcaca engolfar a civilizacño se a moralidade nao for imposta. infelizmente. Essa cortina de fumaca é muiro eficiente para esconder até que ponto a solucáo de Sócrates está próxima da do próprio Cálicles. A grande sorte de Sócrates que Platáo lhe contrapóe a indignacáo dos sofistas. como todo escravo. sim. decidisse pintar grandes números sobre eles para rorná-los finalmente reconhecíveis. nesse caso. O mesmo truque paralisante vai funcionar para o pobre Cálicles.

"sua cabeca girará e ele fieará boquiaberto''! No en tanto. as pessoas nao conseguem reconhecer o que lhes foi tirado. Sexta cena..] a urn hornern que só cuidava de sua pr'. Razño e Moralidade.aJ a poderosa definicño da política real.pria vida e permanecera !()!lj!. dño início a urna guerra de rodos contra todos. Mandados para a caverna. despidas de todas as suas qualidades. as pessoas sao retratadas corno criancas. como vamos ver agora. porque de um cient isra louco fez um mártir . pelo menos. no final. urna alma que levou urna vida de integridade moral e que pertenceu a um hornern que nao desempenhou nerthU1!I pape/lla vida pJÍ!J!ita ou L. que é o epílogo desse espetáculo e terá lugar quando a mulridáo for para casa. É nesse ponto que. Os chineses se reconbecem uns aos outros sem a necessidade de grandes números pintados. agarrando-se a meras sombras. Seja-me permitido fazer mais urna brincadeira (só mais urna. Guerras na Ciencia? E a paz? Abandonemos a ironia e a raiva que se fizeram necessárias para extirpar o veneno e exrrair o meL Podemos agora exrrair do Górg. como escravos mimados prontos para atacar-se uns aos outros sempre que lhes der na véneta. porque há urna coisa a mais e urna coisa a menos! O que foi acrescido durante a passagem para o reino das sombras um requisito absoluro que rorna ineficazes a morulidade e o conhecimento. para esse famoso e justo julgamento por meio do qual as pessoas de Atenas forcararn Sócrates a se envenenar? Na verdade foi um erro político..sa cidade de Xangai saudaráo csse novo modo de se reconhecerem uns aos outros porque durante séculos eles fa ram incapazes de fazé-Io? Claro que nao: eles zornbaráo do psicólogo. essa tragicomédia teve urna grande van ragem sobre as últimas: a de que apenas urn personagem derramou o seu sangue. e ele nao era parte do público. Sócrates tira das pessoas de Atenas sua sociabilidade básica. como animais de rapina." 294 295 . mandemos tuelo para o inferno! O dens ex machina baixa e os tres juízes do Hades condenam todos amarte .. para a qual o conhecimento epistémico e a moralidade absoluta sao obviuamente irrelevantes.1! das coisas enquanto vivera. a partir do exótico reino da demonstracáo geométrica. sob toques de c1arins. Mas.exceto Sócrates e "algumas outras almas"!"~ Aplausos. porém [Radamanto] depara com um tipo diferente de alma. sua moralidade básica. quando elas cos igual d Estado Impossível. seu conhecimento básico. "Ocasionalmente. O que foi subrrafdo sao todas as meditacóes práticas por via das quais as pessoas pod iam fazer bom uso de seu conhecimenro relativo e de sua moralidade relativa nas condicóes específicas da ágora. Depois. Quinta cena: o professor Sócrates escreve na lousa sua equacño triunfante: política ntais moralidade menos rneios práti- Condusáo: O qumháo e a marte de Sócrates Se junrarmos rodas os sucessivos movimenros que Plaráo faz Sócrates execurar no palco. O demos é dorado de toda a moralidade e de todo o conhecimento reflexivo de que necessita para se comportar. que ninguém antes negou que elas possuíssem.mas poderia ter sido. a mais dramática: como o Estado é impossível. Há outra explicacño. Eis o quarto movimenro. Terceira cena: alguma coisa precisa ser feita para rnanter essa turba horrenda em xeque e estabelecer a ordern contra a sua desordem. Nao era justo para alguém que quería julgar sombras nuas do plano superior da justica eterna ser enviado para as Ilhas dos Bem-aventurados pelos cidadáos vivos e plenamente vestidos de Atenas? Mas. A categoria erro está agora suficientemente cla- sao restituídas por Sócrates. numa segunda cena. prometo) e explicar a sétima cena. teremos um ato extremamente ardiloso: Na primeira cena. o uso que Sócrates faz da quesráo da moralidade no GúrgidJ baseia-se exaramente no mesmo tipo de equívoco. urna reacáo sadia contra o injustíssimo julgamento do demos por Sócrates. é 2. a solucáo chega.

pelo contrário. mas numa ciencia ainda pior. passam. nao porque é apolítico ou porque politizado. Uma ciéncia livre da política de abolir a política Vejamos primeiro. Querem . mas porque Iida com questóes inteirarnenre diversas. Essa definicño pode parecer estranha. ele é útil. sua ontologia. diferenca que nunca é respeitada quando a Ciencia N' 1 é tomada. e apenas nesse sentido. mas é a ela que o próprio Weinberg alude ao falar das "leis impessoais". A Ciencia N" 2 lida com entidades nao-humanas que. a entidades que a princípio nao térn as mesmas características dos seres humanos. expedicóes.ra.ao. Para usar um velho termo. como os historiadores da ciencia mais recentes tantas vezes descreveram. O segundo sentido do adjetivo aenufiro é a aquisicao de acesso. que é muiro mais interessanre e nao está empenbado em abolir a política. Desde o princípio. Para se apreciar devidamente esse trabalho científico a Ciencia N° 1 é totalmente inadequada. como podemos testemunhar nestes dias das Guerras da Ciencia. porque o que a Ciencia N" 2 precisa. senda a princípio estranhas a vida social. O acordo de Sócrates e Cálides já nao nos pode impedir de gastar dos cientistas tanto quantu dos políticos. enráo dais sentidos diferentes do adjetivo científico tornam-se novamente discerníveis. senáo o de oferecer um substitn:» para a d iscussáo pública. Todavia. composto de muiro mais entidades. foi seqüestrada para um objetivo político que ela tal vez nao possa cumprir. Nesse sentido. aquela a que Weinberg tanto se apega. Ela sempre foi urna arma política para abolir as coacóes da política. sao lentamente socializadas ern nosso meio arravés dos canais dos laborarórios. no fim deste capítulo. por seus amigos e por seus inimigos. depois de terem sido confundidos durante tanto tempo. é urna ideologia que nunca teve qualquer outro uso nas mños do episremologista. Pasteur. x entidades para curro. curiosamente. no passar dos tempos. incluindo os micróbios. seus micróbios. digamos. A defini<. arravés de sua rnediacáo comum. como rudo guama há a dizer sobre ciencia. Essa Ciencia com C maiúsculo nao é urna descricáo do que os cienristas fazem. problemas. Aquilo de que os cienristas querem ter certeza é que eles nao constrrdram. reconheceremos que urna cerra forma especializada de razáo. Mas "cientffico" rem ourro sentido.coro o "vecé" designando. em breves consideracóes. de um colerivo composto de. para mostrar os muitos modos pelos quais agora podemos prosseguir. como as ciencias podem libertar-se do fardo que consiste em fazer um tipo de política capaz de abnolir a política. receio que essa definicáo da Ciencia N" 1 já nao rern mais utilidade que a Linha Maginor. é de muitas controvérsias. e a sociedade francesa. Urna ligeira mudanca ern nossa definicáo de ciencia e em nossa definicño de política bastará. O primeiro sentido é o da Ciéncin com e maiúsculo. nao "constrói" os seus micróbios.¡ao da Ciencia N" 2 alude assim ao máximo de dístdncia possível entre pontos de vista taodiferentes guanto possível e a sua inregracáo estimada na vida e nos pensamentos diários do maior número possível de seres humanos. o ideal da transrnissáo de inforrnacóes sem discussño ou deforma<. mediante experimentos e cálculos. "Substiruu Ciencia coro e maiúsculo por irracionalidade polítical! é apenas um grito de guerra. Se deixarmos que as ciencias seqüestradas fujam. por exemplo. Tendo sido projetada como arma. como vimos no diálogo. ela foi confeccionada para essa finalidade única e nunca de-ixou. assuncáo de riscos é 296 297 . Contrariamente ao que Weinberg afirma depois de Placáo. essa concepcáo da Ciencia. contrariamente a Ciencia N" 1. Tem apenas um uso: "Mantenha a boca fechada" . as novas entidades as quais rérn acesso. com seu próprio reperrório de acóes. Se agora lermos calmamente o Gorgias. e terei muito prazer em ser rotulado de "anricienrífico" se "científico" civer apenas esse pri meiro sentido. instituicóes e assim por diante. epist"hlte. nao é urilizével nem para "tornar a humanidade menos irracional" nern para tornar as ciencias melhores. exisrem muitos acordos possíveis além daquele que descrevi como "inumenidede para subjugar a inumanidade".que cada nova entidade nao-humana lhes ennqueca o repertório de a~6es. outros cientisras envolvidos em controvérsias tanto quanro as pessoas em geral. Isso resulrou em má política. de ser usada dessa maneira.

como se fez no passado. Para essa ou tra tarefa possível . Longe de tirar-nos da ágora.f?llOn ka/omín. Assim como existe um problema lógico a ser resolvida se vinre mil torcedores estiverem tentando estacionar simulraneamente perta de um estadio de beisebol. "Lixo dentro. os dois campos inimigos entre os quais os estudos científicos estáo tentando consolidar-se: os das humanidades que pensam que damos demasiado as entidades nao-humanas e os de alguns querréis das ciencias "duras" que nos acusam de dar demasiado as entidades humanas. Cálicles. ollk ako. 8 etaire. e a terra. "reunidas". politizada.redefine a ordem política como aqueta que une estrelas. Mas nao se deve confundi-lo com os outros dois. existe um problema lógico a ser resolvido se as massas de dados tém de ser transportadas arravés de urna longa disráncia.nao descreve a ciencia melhor do que o cinismo descreve a política'. lixo fora". muiro mais inreressanre. a disciplina e a iusrica ttnem o (él.a multidáo que tem de 3."apelando para urna forma de inumanidade para evitar o eomportamento social inumano'' -.ao simétrica da política. Assim. céus e pessoas. Naturalmente.SOSa). vacas. esses numerosos pontos de con tato entre entidades humanas e nao-humanas sao impensáveis se por "social" entendemos a pura force bruta de Cálieles ou se por "razáo" entendemos o "fechar a boca" da Ciencia N° 1. modificando assirn profundamente aquilo que constitui o coletivo. inumanidade contra inumanidade. nao asseguca que aiguma caisa sensfvel seja transferida. como reza o lema do computador. confiava demais numa definicáo fantasiosa do social . concebida como um tipo de demonstracáo cujo único objetivo é fazer com que as "leis impessoais'' impecam que as controvérsias venham a transbordar. Essa acusacáo simétrica determina com grande precisáo o lugar ende nos encontramos nos estudos científicos: seguimos os cientisras em sua prática científica cotidiana na definicáo N° 2. a ordem. Reconhecemos aqui. o amor. prions. Quem a definiu mais claramente? Sócratese aqui quero volrar passagem com que principiei e fez penitenciar-me por ter ironizado tanto a expensas desse mestre da ironia: "Na verdade. Esse novo acordo nao é urn acordo no qual Sócrates e Cálieles convém . tratadas. a opiniáo dos especialistas é que a coopera~ao. Que a Ciencia N° 2 seja representada publicamence ern roda a sua bela originalidade. porque na prática pouquíssimos cienristas sentem-se feli- a e 298 299 .nao. nao precisamos apenas de cientistas que abandone m os privilégios mais antigos da Ciencia N" 1 e finalmente constituam urna ciencia (N" 2) livre da política . tentando isolar o máximo possível o cerne autónomo da ciencia da deletéria poluicáo pelo social. entretanto. aliás. caro amigo. que chamarei de logístico porque está direramente ligado ao número de entidades que se deseja socializar e ter acesso a das. OJ demes e OJ bonsens.e imagmacéo e de urna "vascularizacáo" com o resto do coletivo tao rico e tao complexo quanro possível. e nao de urna mistura desordenada ou sombras desregradas [kai to oton tonta díd tanta kO. ser silenciada e disciplinada . como aquilo que estabelece conexóes novas e impredizíveis entre as entidades humanas e as nao-humanas. a Ciencia N° 2 . ou seja. libertar a ciencia da política é fácil. especialmente com a ciencia como acesso a entidades nao-humanas.urna vez elaramente separada da agenda impossível da Ciencia com maiúsculo . classificadas. A segunda solucáo é a melhor e constituí a maneira mais rápida de libertar a ciencia da política. muito mais adaptado ao seu talento e genio do que o enfadonho e repetitivo trabalho de golpear o pobre e indisciplinado demos com a grande chibata das "Ieis impessoais''. A Razño . Para os cientistas tal esforco parece rnuito mais vivo.e numa definicáo ainda mais fantasiosa da Ciencia N" 1. e a tarefa consiste em transformar esse coletivo em um "cosmos" no lugar de "sombras desregradas".precisamos também de urna transforma<. Poder-se-ia acrescenrar um rerceiro significado de "cientffico''. mas algo que se pode definir como "capaz de assegurar coletivamente que o coletivo formado por números sempre mais vastos de entidades humanas e nao-humanas se torne um cosmos". Grande parte do uso comum do adjetivo "cienrffico" refere-se a essa questño logística. resumidas e exprimidas. A primeira solncáo. e nao na definicáo N° 1.mJian olldetlko/aJian]1T (507 e. A Ciencia N° 3 permite que se esrabelecam rápidas e seguras comunicacóes de dados.significando Ciencia N° 1 . Eis por que. Confesso que isso é muito mais difícil.mas libertando quanto possfvel a Ciencia N" 2 do disciplinamenro político que acompanhava a Ciencia N" 1 e que Sócrates introduziu na filosofía. eles chamam o universo de um todo ordenado.

O fatiche*. E chamado "poder" e nao T1 e piJtemell. como nós.encias sociais é que. provas. Social N" 2. de pensar em suas condicóes específicas de felicídade e de construir o Estado com sua própría carne e sangue. que urna vez eIa possuiu. Parece que depois a filosofia política do Górg. O Leviatñ de Hobbes é urna Fera totalmente racionalista. Social N° 1. os sociólogos se comprazem ero usar o seu recente e famoso lema: "Conhecirnenro/Poder".zes na camisa-de-forra que a posicño de Sócrates lhes imp6e e ficariam muito felizes em lidar com aquilo ero que sao bons a Ciencia N" 2. encontra Olltra oposicáo. quando deciframos o cabo-ele-guerra entre Razáo e Force de um lado e o danos do outro. embora isso seja muito mais difícil de se compreender. Quero indicar aqui. e o Estado construido por um ou curra é modelado com a mesma argila: daí a inutil idade do gesto. as pessoas. E. Os críticos sao iludidos pelo esperáculo de Sócrates e Cálicles. que aumenta o interesse pelos atores e pelos críticos em seus camarotes enquanto aborrece a platéia até as lágrimas. Nao importa: a nocáo ordinária do social é modelada sobre o mesmo argumento racionalista que o da Ciencia com C m~iúsculo . quando empregam essa expressáo foucaldiana para exercer a sua competencia crítica. O que torna esse argumento difícil de apreender é que os cientistas naturais e soeiais estáo ambos se comportando como se o Poder se convertesse numa coisa totalmente diferente da Razño . como fiz no capitulo 3. feito de argumentos. elas dizem efetivamente. Mas esse milenio de vitórias pírricas de nada valeram porque. Poder e Razáo sao urna só coisa. nenhuma bandeira popular mais elitista. mas apenas em se verem despojados de sua canhestra Ciencia N" l. sem compreendé-lo: IIQue a concordancia de Sócrates (Conhecimenro) e Cálicles (Poder) prevalece e triunfe sobre o Terceiro Estado"! Nenhum lema é menos crítico do que este. Como vimos mais atrás. mas e Cálicles? Libertar a ciencia da política é fácil. das quais se diz que "combarem" a ciencia seriam calorosamente apoiadas pelos baralhóes das ciencias sociais ou das humanidades. existern dois sentidos da palavra "social". A oposicño dos que acreditar» no T1 S0_ cial'' é muito rnais acrimoniosa do que as nossas (no conjunto) amigáveis trocas com nossos contradirores das categorias científicas. também aqui o que acontece é exatamente o conrrário. que naturalmente estáo preocupados. pode ser refeiro.ao passo que é um senso cornum para os cientisras. outro tratado tornou a unir a Ciencia e a Política num acordo comum . condicóes que o Gárgias revela tia bem mesmo quando Sócrates as despedace. mas nunca volcaré a constituir um todo. O prímeiro. mas isso nao faz diferenca porque. Como isso é possível? Também aqui o acordo entre Sócrates e Cálicles pode esclarecer-nos.. o segundo. Se as linhas de combate das chamadas Guerras da Ciencia forem tracadas de forma plausível. A Ciencia N° 1 é uro escandalo tanto para os sociólogos quanto para os humanistas porque subverte totalmente a definic. é . mas como libertar a política da ciencia? Como libertar a política de um poder/conhecimento que torna a política impossivel o paradoxo que sempre se perde sobre os que acusam os estudas científicos de ciencia politizadora é que ela faz exatamente o contrario mas. é usado por Sócrates contra Cálicles (e aceito pelo Cálicles de palha como urna boa definicáo de torca). eleve ser usado para descrever as condicóes específicas de felicidade para o POyO que representa a si mesmo. muito mais forte que a dos epistemologisras ou de uns poucos cientistas descontentes. A execrável ironia das ci.aJ nunca recobro u o pleno dire-iro. que os deis sentidos de "social" sao tao diferentes quanto o sao a Ciencia N" 1 e 300 a Ciencia N° 2. no entanro. por isso rnesmo. enquanto os epistemologistas falam do "poder da demonsrrecño''.ao do social com que trabalham . urna vez despedacedo.Jaí a suposta originalidade do ato de separé-los e depois reuní-los com um gesto misterioso. no século XVII. Barbara Cassin mostrou magníficamente como os segundos sofistas venceram Plaráo e restabe1eceram o primado da retórica sobre a filosofia. E um animal-rndqnina cartesiano que transporta poder sem el iscussño ou deformacáo.especialmente depois que Maquiavel caiu na armadilha de Sócrates e definiu a política como urna habilidaJe inteiramente desprovida de virtude científica. engrenagenss e rodas dentadas. Mas e a política? Convencer Sócrates é urna coisa.é um transporte sem deformacáo de leis inflexíveis.

quera crer. Sócrates apenas ameacou deixar a ágora sozinha. meio vivos. Devo continuar a triste historia de como transformar um Estado outrora sadio num monsrro inviével e perigoso? Nao. Para resumir o argumento mais urna vez. um monstro e meio. A máo forre de Cálic1es simplemente agarra. ninguém quer escurar mais hisrórias horríficas. ero vez da dernonstracáo de verdades.. Há urna política ainda menos genuína em Hobbes do que no apelo de Sócrates a um além. A única diferenca é que o Estado de Sócrates saiu do mundo dos morros para tornar-se um Leviutá deste mundo. sem parentes e sem amigos" (523c) . Tomar a definicáo do Poder por Cálicles e usá-la para clesconstruir a Razáo e mostrar que. entretanto. um fato inequívoco. na maioria de suas modalidades. sao lentamente envenenados por um fabuloso excesso de carboidraros impróprios para organismos que evolufram durante éons numa dieta pobre em acúcaro Essa é urna boa metáfora para o Estado. porque parecía oferecer a é é 302 303 ..urna cenografia totalmente mais fantasmagórica do que a imaginada por Plarño. e até mesmo no passado recente. as pessoas que estño puxando a outra ponta da corda. Assirn.nao mediante a igualdade geométrica. mas sim outra tentativa de paralisar o que sobrou do Estado. monstruosidades ainda piares advérn ineluravelmenre. já que a forca bruta advogada pelo segundo rornou-se urna questño de dernonstracáo . que quer curar a suposta irracionalidade das pessoas trazendo ainda mais "Ieis impessoais'' para eliminar ainda mais completamente a aborn inável tendéncia da rnultidáo de discutir e obedecer. tal como Cálic1es foi usado como contraparte de Sócrates. e somente o sen sangue fui derramado no fim dessa estranha tentativa de racionalizar a política. Já disse o bastante para deixar claro o motivo por que o Poder/Conhecimemo nao urna solucño. sem roupas. porém urna quanridade cada vez menor dessa forma específica de fluido circulante que é a esséncia do Estado e para o qual os sofistas rém tantos termos excelentes e nós tilo pOllCOS. lentamente envenenado por um fabuloso excesso de Razño. Basta dizer que.o isolado na definicño da Razáo que nao seja compartido pela definicáo da Forca. Como isso parece inocente aos filhos do nosso século! Sócrates nao poderia ter imaginado que mais tarde se inventariarn programas científicos destinados a mandar a totelidede do demos para o ourro mundo e substiruir a vida política pelas leis férreas de urna ciencia . dos obscuros segredos. mas quño piar a do médico qna físico Weinberg. mas o acordo comum é ainda mais claro no século XVII do que vinte séculas antes: agora as leis narurais e as demonsrracóes indiscutfveis favorecem a política racionalmente fundada. meio morros. para fugir ao cinismo hobbesiano.com a colaboracéo da eco- nomia! As ciencias sociais . intoxicados pelo acúcar. se voltarmos a nossa arencao para os sirios e siruacóes contra os quais se criaram os recursos gemeos da Forca/Razáo: a ágora. Cada aspecto isolado da nossa definicáo do "social" provém agora ele Sócrates e Célicles. Tudo se ganhará. mas nao urna colaboracáo que irá reforcar o Terceiro Estado. nao existe um trar. nada se ganha com a tentativa de alternar entre as duas ou expandir urna a expensas da outra. As coisas nao melhoram quando um Estado. e em seguida a máo de Sócrates vem substituir a máo cansada de Cálicles! Admiráve1 colaboracáo. O acorde mais ve-lho exerceu urna grande arracño no passado. As condicóes de felicidade para a lenta criacáo de urn consenso nas ásperas condir. claro. A cirurgia impossível iniciada por Sócrates continua numa escala ainda maior: mais Razáo. Afirma-se com freqüéncia que os carpos das pessoas do século XX. Rousseau terna o Estado ainda mais monstruoso.Ainda aqui Hobbes foi usado como urna contraparte da razáo. composto unicamente por individuos "desernbaracados". Ao pretender despojar a estatua de Glauco de rodas as suas deforma~oes posteriores. é sirnplesrnente inverter as definicóes gérneas formuladas para tornar impensável a política. mas mediante novas ferramc-nras. depois da máo enfraquecida dé' Sócrates a corda usada no cabo-de-guerra contra o demos. "sem armad ilhas. Supóe-se agora que o Estado é transparente para si mesmo. nada se analisou. Nada se realizou. quando urna "polúica científica" acaba sendo inventada. engenhos e truques dos sofistas. como a estarfstica. fundidos num aspecto único. A represenracáo teve éxito. rudo em nome da Razáo. mas foi urna represencacáo cornpreendida nos próprios termos da dernonsrracño de Sócrates. a Razño envolve apenas a demonstracáo da torca. recebe outra rransfnsáo de Razáo pelas máos de Rousseau e seus descendentes. livre das rnanipulacóes. Que a cura do Professor Sócrates era inadequada constitui hoje. represenram a reconciliacño última de Sócrates com Cálicles. mais sangue artificial.oes da ágora desapareceram sub-repticiamente.

só está viva naqueles que sao os mais c1esprezaclos dos homens. que rraz para a ágora um número ainda maior de entidades nao-humanas. as palavras me faltavam. mas de cidadáos adultos. todas as vezes que eu procurava. mas a outra metade. Isso já nao se aplica aos nossos tempos de "vacas loucas". Na verdade. Por que nao conseguimos recuperar prontamente para o nosso discurso ordinário aquilo que é oferecido pela prática? Por que as associacóes de entidades humanas e nao-humanas sempre se tornam. minha descricáo parecia plausível quando seguia os complicados desvios feitos por faros acurados. os políticos.. mas nao aqueta que lance descendentes de Sócrates contra descendentes de Cálicles na reencenac. num momento crucial." 2. que esráo arriscando suas vidas e as nossas nas conrrovérsias políti~o~científicas . deslocamenro para fora. com o qual Sócrates tanto divertiu o público. urna vez es- 3Q4 INSTITUTO DE PSICOLOGIA A ID I I n . sim.. Essa nao é a inadequacáo usual das palavras gerais para a experiencia particular. conexáo e emaranhamento. nenhum curro-circuito. urna "dupla circulacáo" tero de voltar a fluir iivremenre no Estado: a da ciencia (N. parece que desmantelei o velho acordo que nos dominou. nenhuma aceleracáo. da recria da política. demonsrracño e democracia! A ligeira da a<. Para Iidar com essas controvérsias. a termo que me permitiria saltar. no encanto.ao desse velho e cansado espetáculo: é a guerra entre "rurbulentos campos de baralha'' e o "cosmos".. mas de urna coisa estou cerro: nenhum aralho é possível. política virtuosa. sobre a consrrucño e a verdade. desaprendemos . comparada com a lenta e delicada política de produzir política através de meios políticos tal como a aprendemos .. É como se urna prática científica. Metade do nosso conhecirnenro pode estar nas máos dos cientistas. Era realmente urna política perversa.. deslocamento para baixo. rranslacáo. aguda que visava suprimir suas próprias condicóes de felicidade e tornar o Estado impossível para sempre. Como misturar a Ciencia N° 2.e depois. infelizmente. Mas agora ficou claro que._ .inheiro e o médico. No capítulo anterior multipliquei movimentos que nao seguem o reto caminho da razáo. Há urna Guerra da Ciencia. Fiz grande lISO de metáforas como vascularizacáo. essa velha solucáo aumenta também a desordern.as ou verdade sem deformacáo? Nao sei. E. Na história do debate entre o coz.do POyO ateniense. qlle já nao se cornpóe de cnanc. fetiches. urna prática técnica e urna prática política conduzissem a reinos inreiramenre distintos dos da teoria da ciencia. no encanto. Propus muitos termos para descrever movimenros tortuosos: labirinto. E. ainda é como se nao tivesse feito nada. ero que nem o cozinheiro nem o m~dico sabe o que dizer a assembléia." 2) livre da política e a da política livre da ciencia (N" 1). céus e homens num todo ordenado.:ao Fatos. havia certa plausibilidade nessa idéia de expulsar o cozinheiro e deixar o médico dizer o que devemos comer e beber. da teoria das técnica. todas as vezes que apresenrei um exernplo. fatiches Que surpresa! Parece que concluí minha rarefa. transfusño. O esconderijo dos seqüesrradores foi descoberto e as entidades nao-humanas libertadas -libertadas. com o Social N. do sórdido fardo de fornecer carne de canháo para as guerras políticas contra o demos trajando o enfadonho uniforme dos "objetos". a que está faltando. urna aceleracáo fabulosa.maneira mais rápida de transformar os turbulentos campos de baralha de deuses.que conscituem hoje a maior parte do nosso páo cotidiano. que licia coro as muiro específicas condicóes de felicidade que nao podem contentar-se ero transportar forc.as mimadas e "variados cscravos''. arrefaros eficientes. A tarefa de nossos dias pode resumir-se na seguinte quesráo: "Podemos aprender a gostar dos cienrisras tanto quanro dos políticos para que finalmente possamos beneficiar-nos das duas inven~6es gregas. em vez de sirnplesmenre aumentar a ordem. num único impulso. Parecia fornecer um tltalho ideal.

e é a caixa rotulada "Deus". O que se fez foi urna divisáo.ou. retificadas e endireitadas. do dom ínio e da criacáo que serviram de base para o velho acordo modernista. eficiente "saque de passagem''. Urna coisa é certa: depois que a teoria fez o seu corte analítico. elegante. mas pelo seu fimo Tomaremos como exemplo um iconoclasta de nossa época. neste capítulo. mente e maréria . Como recuperar a nossa liberdade de passagem? Como podemos ser treinados novamente para executar esse rápido. dos descendentes de Sócrates. sob o sol coruscante. Os dais significados do agnosticismo Scu nome é Jagannath. mas a Deus como o nome dado a urna teoria da a\ao. no meio do pátio. "Vocés rérn de escolher. palavras e mundo. Interrogamos fatos e ar- as tefatos. mas ainda nao investigamos o próprio domínio e a própria construcáo. um daqueles corajosas críticos que os modernos enviaram ao mundo para estender o alcance da razáo. pior ainda.1 há urna caixa que ainda nao tocamos. Como fazé-lo? Destruindo-os e tirando a nossa desforca. Jagannath hesita. a meu ver. a poderosa pedra que protege a família de casta superior. Mais exatamenre. um modo de terminar essa batalha sem escalar ainda mais o poder de fogo. capítulo após capítulo: um modo de negociar urna passagem pacífica entre objeto e sujeito. Alguma coisa nos está escapando. nao pelo come\o dessa langa hisrória. como vivemos a Boa Vida. ao contrario. pega a pedra e. Eu. os quais aprendem a dura li~1io sobre os motivos por que deveriam. Quando os párias se reúnem no pátio de sua propriedade familiar. como dizem os jogadores de tenis? Por que isso há de ser tao difícil quando em toda parte parece tao fácil. Contrariamente ao que acreditavarn os pragmáticos Ce é por isso que. urna figura de discurso que. como acabamos de fazer com Sócrates. iconoclasta?! Nada me irrita mais do que ser apresentado como provocador ou mesmo como crítico.aqueles cacos que foram feitos para tornar qualquer reconciliacáo impossíve1. um dos primeiros iconoclastas da langa genealogia dos iconoclastas que nos tornaram modernos. para horror de sua tia. as suas filosofias nunca se fixarum na mente do público). atravessando o espaco proibido que separa os bramanes dos intocáveis no recinto que eles comparrilham.um suplemento de alma para os que nao a rérn -.vem daqueles que despedacaram rodas as nossas figuras de discurso. leva o objeto para ser dessacralizado pelos pobres escravos. Somos forcados a recompor sujeitos e objetos. suspender seu gesto crítico. depois que o barulho dos ossos se quebrando foi ouvido. acrescentando mais escombros aos escombros deixados pelos críticos? Nao. como consrruímos. tal cumprimento . sem isso. por melhor que descrevamos as complexidades da prática. já nao é possível dar conta de como sabemos. tao corriqueiro? Parece tao normal quando assistimos li\5es da prática. A amarga ironia é que os iconófilos como eu sao forcados a se defender dos iconoclastas. Precisamos de um meio para desviar essa tendencia. Subitamente. o bem-intencionado iconoclasta. é urna unidade que foi fraturada pelo golpe de um poderoso martelo. Nao estou alud indo a patética nccáo dos modernos de um Deus-do-além . Comecemos. seus tolos"! oferecesse um movimento diferente. por ourro meio. sociedade e natureza. Sttspendendo o golpe do martelo. 1990). porque sei muiro bem que. seremos imediatamente tachados de iconoclastas desejosos de destruir a ciencia e a moralidade. É o que pretendo fazer agora. distorcido e obscuro quando assistimos as palestras da teoria. No arranjo mostrado na figura 1.clarecidas. a diferenca entre recria e prática nao é rnais um dado do que a diferenca entre conreúdo e contexto. e no entanto tao contradirório. Quero tentar. de um veículo. natureza e sociedade. um registro diferente para a prática. nao é nada de que se deva ter medo (Ezechiel e Mukherjee. É sua própria hesita~ao que eu quero usar como meu ponto de partida: . Onde está a solucáo? No próprio ponto de qnebra. vimos como é difícil compreendé-Ios como senda dominados e construídos. em vez de quebrar a sutillinguagem da prárica coro a intim idadora escolha liÉ real ou é fabricado". conscientizar-nos do próprio ato de fazer a prática em pedacos. e ele decidiu quebrar o sorrilégio das castas e da intocabilidade revelando aos párias que o saligrarna sagrado. algo tao completamente diferente: dois lados opostos numa guerra entre sujeitos e objetos? AIguma coisa está faltando. Especialmente quando tal acusacáo .

Um fetiche. É urna "sirnpies pedra". O que que o corajoso iconoclasta quebrou? Sustento que nao foi o fetiche que foi destruído. Depois de longa caminhada voltou para casa. A tensáo era grande demais para os párias. E a violencia personificada. O ar fendia-se com os seus gritos: "Toque. toque. porque vecé o tocou e ¡x>rque todos eles testemunharam esse acontecimenro. Perguncava a si mesmo: Quando eles a tocaram. nao perdemos? E morremos"). neste escura anoitecer. por meio da inversño. entáo seria urna pedra para eles. Mas o que é que o martelo do crítico despedaca? Um ídolo. TOQUE"! Era como o som de um animal enfurecido. nossas fantasias. em miro ou na sociedade? Nao havia resposta. nao perdemos? E marremos. erroneamente.a. Eles contorciam o rosro. toque-a"! Pilla [um capataz intocável] piscava os olhos. Ele baixou a cabec. o objeto é mais do que o produro de nossas próprias máos). mas enconrrou o grupo inreiro subitamente recuando. tocaram naquilo que Jagannath lhes estendia e retiraram-se imediaramenre. nosso trabalho. Nao sabia quando os parias se retiraram. eles e eu. Daí a inquietude do iconoclasta bem-intencionado: "Isso tornou-se um saligram porque tu o ofereci como urna pedra''. Ele falou com voz terrfvel: "Toque. Essa minha importunacáo torna-se um saligrama. toque-a! Vamos. Que está esperando? O que voce trouxe? Talvez seja assim: isso tornou-se um saligrema porque eu o ofereci como pedra. naturalmente. Se nao tocá-la. roque. Ele ansiara por esse auspicioso momento .ao emana dele. Falou com voz forre e tomado de grande ira: "Vamos. o mandadeepa ainda está ardendo. Os párias acharam-no mais ameacador do que Bhutaraya [o demónio-espíriro do deus local]. mas simplesrnenre a tela branca na qual projetamos. vamos. Ele mordeu o lábio inferior e disse com voz firme e baixa: tlpil_ la. Os párias pareciam criaturas asquerosas arras tanda-se sobre suas barrigas. perdemos a nossa humanidade. A dificuldade. de certo modo o fetiche adquire maisforra nas mdos dos antifetichistas. nao estava cónscio de nada mais. A tia podia ser humana mesmo quando trarava os párias como inrocáveis. da reifica<. Esse é o aspecto mais doloroso do antifetichisrno: é sempre urna acuJa~-ao. No en tanto. ande está a falha de rudo isso. está na hora da prece vesperal. Tuda quanto lhes estivera ensinando em todos aqueles dias fora pura perda de tempo. vecé permanecerá um tolo para sempre''. toque. Jagannath senti u-se exausto e perdido. E que o saligrama se mude numa pedra. nada (urn simples pedaco de madeira GU pecica) e um poueo de cada coisa (o que pode inverter a origem da a<. Os que estáo atrás de mim [sua tia e o sacerdote] estáo puxando-me para trás pelos muiros vínculos de obrigacáo. perdemos a nossa hurnanidade. (l01) / Exaurido pela violencia e pela ansiedade. Os párias tinham sido coisas insignificantes para ele. de manipular cínicamente os crentes crédulos por alguém que tem certeza de escapar dessa ilusáo e dela quer lié . Urna enorme angúsria tinha chegado a um fim grotesco. Ele perdera sua humanidade por um momento. toque". eles e eu. toque-a"! Avancou para eles. (98-102) Mas os párias recuam horrorizados: Jagannath rentou acalmá-los. Desgostoso coro sua própria pessoa. Urna crueldade monstruosa sobrepós-se ao homem que havia nele. mas sim um modo de argumentar edeagir quecostumaoa tornar oargumento ea ardo posstoeis e que agora eu quera recuperar ("q uando o tocararn. com medo de se por de pé e com medo de sair corren do.As palavras emperram ero sua garganta. cornec.ao e fazer-nos acreditar que. Que é um fetiche? Algo que nada é em si mesmo. Se vecé recé-lo. que esta pedra se mude num saligrama. Quanto rnais queremos que ele nao seja nada. Essa pedra nao é nada. A escuridáo descera quando ele veio a saber que estava sozinho. Porque eu o dei. sentindo-se aturdido. Disse naquele tom pacato de um professor: "É apenas urna pedra. Mecánicamente eles avancaram . jagannarh jogou fora o saligrama.esse momento dos parias rocando a imagem de Deus. AIguma pessoa GU algumas pessoas sao acusadas de se deixar enganar ou. Eles recuaram.ou a andar de lá para cé. A iconoclastia é urna parte essencial de qualquer crítica. está em explicar como um fetiche pode ser ao mesmo tcmpo tudo (a fonte de todo poder para os crentes). Nao sabia o que lhes acontecera. rnais ac. nossas csperancas e paixóes. como Jagannath renta provar a si mesmo e aos parias. toque o ponto vulnerável de minha mente. Toque-a e verá.[0 ou da objeríficacáo. mas nela coloquei o meu coracáo e a esrou pegando para vecé: toque-a. pior ainda.

com os outros . Todos dizem a 1. enquanto os párias sao metamorfoseados ero "bichos rasrejantes" e meras "coisas". que pode nao existir ero parte alguma. mas um modo poltmico de relac.mas. Contrariamente ao que os críticos sempre imaginam.e transmuta a si mesmo num deus cruel C'mais ameacador do que Bhutaraya") -. é o pensador crítico que intenta a nocáo de crenca e rnanipulacáo e projeta essa nocáo sobre urna siruacáo na qual o fetiche desempenha um papel inteiramenre diverso. O fato é aguilo gue é fabricado e nao fabricado . o que horroriza os "nativos" no movimento iconoclasta nao é o gesto arneacador que destruiria os seus ídolos. Na verdade. O que era ele? Podemos resrabelecer um significado que tornasse a reunir as pec. nao urna pedra erroneamente romada por um espíriro ou coisa que o valha. o combatente de todas as crencas. e isso lhe serve a perfeic. Jagannath destrói sua própria humanidade. um sentimento muito estranho. como o gesro de Jagannarh ilustra belamente. Nao há nada secreco nessa etimologia comum. A única pessoa que está projetando seus sen timen tos no ídolo é ele. mas todos os dicio- nários a vinculam ao parricfpio passado portugués de "tazer''. ou deixar-nos enganar tao esrupidamente? Somos animais? Somos monstros? Somos meras coisas? Essa a fonte de sua vergonha. o ídolo era alguma coisa rnais. na verdade. Somente quando a estatua é atingida pelo golpe violenro do martelo do iconoclasta é que ela se torna um ídolo potencial. 1293. entretanto. e nao aqueles que por esse gesto devem ser libertados de seus grilhóes.ou manipular tao cinicamenre.como discuti no capitulo 4.bertar os outros: ou da crenca ingenua ou de ser manipulador. Nada senáo a indignada perplexidade dos que adoravam a estatua. a cren<sa ingenua. mas a crenca extravagante que o iconoclasta lhes imputa. como os arqueólogos.fari (De Brosses. devemos acreditar tao ingenuamente . Aa transformá-la no poderoso objeto que deve ser rocada pelos párias.as quebradas? Podemos nós. Jagannath transubstancia a pedra numa coisa monstruosa .o vazio do credo desses mesmos eren tes. é que agora ela jaz em pedacos e nada acontece. ver Pierz. Sobre a história conceitual do termo. Mas. conrato violento.exatamente como os episremologistas nao tinham outro modo de contrastar Pasteur e Pouchet senáo dizendo que o último acreditava e o primeiro sabia. Por que? Porque ele (uso um pronome masculino. salvo na mente do iconoclasta.ao!) acredita no sentimento da crenca'". nao é um modo de apreender declaracóes. . Como poderia o iconoclasta rebaixar-se ao ponto de acreditar que nós. Jamais. reparar o dano infligido pelo rempo. é a única maneira de que o iconoclasta dispóe para entrar em contaro. os nativos. A cren~a. De certo modo a humanidade dependia da presen~a impassível dessa "simples pedra". 1997. dos que foram acusados de ser iludidos pelo seu poder e agora esráo "libertados" de sua influencia . para o crítico. Antes de ser despedacado. se o antifetichismo é claramente urna aCltsafao. o iconoclasta com um martelo. A iconoclastia nao despedaca um ídolo. a cren<sa. juntamente com a humanidade daqueles que ele acreditava estar libertando.prova disso. Na realidade o martelo golpeia lateralmente. Nem a tia nem o sacerdote jamais consideraram o saligrama como algo mais que urna simples pedra. Em vez de libertar os párias de sua condicáo abjera. Mas também o fetiche é aquilo que é fabricado e nao fabricadol. e a de sua tia. caindo sobre outro algo que nao aquilo que o iconoclasta gostaria de quebrar. nao é urna descrifao do que acontece com os que acreditam ou sao manipulados. o maior dos iconoclastas? Podemos comecar a espanar os cacos que usamos em nossa linguagem hoje. Como vimos no capítulo 5. ingenua e falsamente dotado de poderes que nao possui .farw1tl. e a fascinante investigacáo em antropologia comparativa de Schaffer. Um dos inventores da palavra "fetichismo" liga-a a outra etimologia:fatJilll. como bem mostra o romance.oes. nao é um estado psicológico. A única pessoa que acredita é ele. erroneamente interpretada pelo crítico como o horror que esses crenres ingenuos devem sentir quando confrontados com o gesto dessacralizador que cxpóe . 1760. 1992. esquecendo gue outrora eles estiveram unidos. mas destrói um modo de argumentar e de agir que era anátema para o iconoclasta.ou é isso o que o crítico acredita . "Fetiche" e 'faro" podem ser remontados mesma raiz. 15). o que jaz em ruínas no meio do templo dessacralizado da família é a humanidade do destruidcr de ícones. lacono.

3 Quando os fetiches sao bem fabricados.2). porque ele já nao pode ser visto como urna cren~a ingenua. criado. mais frágil. Como vimos no capítulo 4. Se o golpe do martelo a amea~a de destruicáo. Ainda pode ser usado. a esquerda. filiforme. Será que a adicáo de sua segunda merade.a está enredada em seus filamentos... ou nac-rabrtcaoo Reais na medida em que sao vistos como nao-fabricados Poderosos apenas na medida em que parecem autónomo '" eles permitem a realidade ser autónoma . o fato que é usado como um sólido martelo também é fabricado. Qualquer um está disposto a dizer com toda a franqueza como ele foi feito. de sua historia oculta. enfraquece o fato? Sim. Mas usamos essas palavras depois que o martelo os partiu ern dois: o fetiche tomou-se nada mais que urna pedra vazia na qual o significado é erroneamente projetado. feiro. A realidade. na figura 9. Quando os falos sao bem fabricados.. elas iráo irromper dessa fmuxa mas elástica rede. Se tabncados.1 e 9. ricamente investido numa prática coletiva. Nenhum de seus praticantes parece precisar da crenr. expliciramenre. obsessivamente: os cientisras ero seu sua prática no laboratorio. ricamente vascularizado (ver capítulo 3) e plenamente capaz de gerar referencia circulacória....2). Requer-se urna rnáo de certa forma mais sutil para pegar esse quase-objeto e uro programa de a. exatidáo e realidade (lado esquerdo da figura 9. os fatos sao autónomos .2).ao algo diferenre deve ser implemenrado coro ela. os adeptos dos cultos fetichistas em seus ritos (Aquino e Barros. E o outro pedaco? Que acontece com o fetiche? Diz-se muito claramente que ele foi fabricado. Nao. ilusórios Porque eles sao fabicados. Agora ele é mais forte. por assim dizer.. Será que o reconhecimento dessa fabricaráo enfraquece de algum modo a afirrnacáo de que o fetiche atua independentemente? Sim. como mera retroprojecáo do labor humano num objeto que nada é em si mesmo. porque ele deixou de ser sólido e forte como um martelo (embaixo. Nao é quebradico e frágil como urna crenca a espera do martelo do iconoclasta. por meio de urna langa e complexa negociacáo.1 Na divisáo canónica de fato e fetiche. e nao a eren. porque ele deixou de ser um fenómeno ventríloquo irresistível. cada urna das duas funcóes divididas (conhecimento e crenca) pode ser exposra pela petgunra: É fabricada ou é real? A pergunra implica que fabricacáo e auronomia sao conrradirórias. Nao. mas nao por uro iconoclasta nem para despedacar urna crenca. muito mais reflexivo. reticulado como vasos sanguíneos (lado direiro da figura 9.1). inventado. Figura 9. o fato tomou-se urna certeza absoluta que pode ser usada como um martelo para despedacar toclas as ilusóes da crenca. 1994). urna inversáo.. no laboratório. sendo substituida por urna nova pergunta transversal: O que é fabricar bens para tornar possível a auronomia? .2 Se a fabricacáo for vista como causa de auronomia e realidade tanto para os fatos como para os fetiches. porque ele é agora. mais complexo. 4 3 4 ..1). Tentemos agora colar os dois símbolos partidos para restaurar os quatro quadrantes de nosso novo repertório (ver figuras 9. uro eco no qual o criador é enganado exatamente por aquilo que ele criou (embaixo a direira na figura 9.. Fatos 1 Fatos 1 2 Fetiches Fetiches 2 0' fabricado. a divisáo vertical entre conhecimenro e crenca da figura 1 desaparece.isso constantemente.. ilusorios Se fabricados.a na cren~a para lhe explicar a eficácia. de seu cenário de laboratório. urna reifica~ao.eles sao o que nos faz agir corretamente fATICHES CONHECIMENTO CREN(A Figura 9...

se a rnediacáo humana é restaurada em ambos os casos (alto da figura 9. Eles acreditam na cren~a. juntamente com o fato de despedacar. cultura popular. O primeiro. consiste numa recusa seletiva a crer no conteúdo da crenca . o pós-modernismo. permitidos e prodnzidos por fatiches. antes a promovem.2). distincóes ou consrrucóes.1). Se o iconoclasta pudesse acreditar ingenuamente que existem crentes suficientemente ingenuos para dotar urna pedra com espfrito (embaixo a direita na figura 9. em todos os seus esforcos críticos. os fetichismos e coisas como saligramas. Quem seria tao ingenuo. é o perguntar se ele é ou nao é urna "sirnples" pedra. aquilo que sempre deve ser remodelado e que é necessário para agir e argumentar. pelo contrário. mais recentemente. já que a clareza do discurso resulta do recurso a mais profunda obscuridade. Mas vou definir o agnosticismo nao como a dúvida em relacáo a valores. dizendo: "Sim.Des sao facilitadoJ. um mundo ande em toda parte os argumentos e as a.1). Responder com o "sern comentário" do agnóstico pode ser facilmenre confundido com urna a. um sério problema pode surgir.Se acrescentarmos aos fatos a sua fabricacáo no laboratório. contra a nocáo de que a crenra poderia de algum modo ser o que mantém unidas quaisquer dessas formas de vida. como fazem tantos pós-rnodernos. mas como dúvidas exercidas contra essa própria dúvida. É a isso que chamo fatiche*. que os proprios fatos que o levare/m a de. os cordéis que mantém os rnarionetes em pé. A salvacáo vern sempre do revelar o labor que está por trás da illnsio de autonornia e independencia. claro. as questñes que tornam todas as associacóes entre entidades humanas e naohumanas totalmente opacas. elas sao. a crenca que devia ser despedacada desaparece. Acreditam que as pessoas acreditam ingenuamente.lpedafar o ídolo podiamexistir Mas. as ligacóes nao diminuem a auronornia. se nos recusamos a responder a pergunta "É real ou consrruído?".1). os dois principais recursos da crítica desapareceráo: o martelo e a bigorna (nao disse o martelo e a foice!). obrigando a escolhar entre construcivismo e realidade (os eixos vertical e horizontal da figura 9. contar historias e fazer crer. tudo se resume em ilusáo. intactas. deixaram a crenca.2). .-eitac. Apareceodo em seu lugar está aquilo que foi quebrado pelo iconoclastia e sempre esteve al i.oes dos criadores de ambos (alto da figura 9. Enguanto nao entendermos que os termos "consrrucáo" e "realidade autónoma" sao sinñnimos.os sonhos da razáo -. a ponto de discutir semelhantes ninharias?" O factiche sugere um movimenro inreiramenre diverso: é por ser construido que ele é tao real.usualmente Deus. iremos considerar erroneamente o factiche como mais curra forma de construtivismo social em vez de ve-lo como a modificacáo de toda a teoria daqnilo que ele pretende construir. a coisa a ser evitada a qualquer custo é o deixar-se enganar. conduzindo-nos acama procrustiana em que o acordo modernista nos quer fazer dormir: os fatos científicos sao reais ou construídos? As crencas nos fetiches sao projetadas nos ídolos ou sao esses ídolos que estáo "realmente" atuando? Embora tais questoes perrencam ao senso com um e parecarn necessárias para qualquer clareza analítica. um objeto poderoso ou urna construcáo social. Poderemos recuperar o factiche do massacre dos fatos e fetiches quando recuperarmos explicitamente as ac. idéias. táo caro ao coracáo dos críticos. hoje em dia.ao do saligrama. salvo nos sonhos . consrrucáo e realidade sao a mesma coisa. Trata-se. táo autónomo. de duas formas de agnosticismo. o centro intocável de suas corajosas empresas. Mas. como eu disse no fim do capítulo 1. E aqui. A noriio de fatiche nao é urna categoria analítica suscetível de ser acrescentada a Olltras por meio de um discurso claro e bem-definido. Se há urna coisa que obscurece a func. pois. A ingenuidade é o crime capital.¿¡o humana (embaixo a esquerda na figura 9. verdades. A solucáo do factiche nao é ignorar a escolha. tao independenre de nossas próprias máos. Nessa definicáo do agnosticismo. Como ternos visto repetidamente. Outro modo de expressar isso é afirmar que os modernistas e os pós-modernistas.ao cínica da falsidade de todas as represenracóes humanas. mais geralmenre. A simetria dos dais símbolos quebrados é restabelecida. Entramos num mundo de onde nunca saímos. foi porqne o iconoclasta também acreditava ingenuamente sem a ajuda de qnaiqner mediar. e enfim os próprios fatos científicos. que os estudas das ciencias flertam perigosamente com o seu oposto polar. e se juntarmos aos fetiches a sua fabricacáo explícita e reflexiva por seus criadores.

Vemos agora que o iconoclasta nao está livre de factiches porque nao pode fugir amedia~ao humana que fabrica faros no laboratório. urna falca de reflexividade? É verdade que o iconoclasta moderno nao acredita mais ingenuamente em sua dupla consrrucáo de fatos e fetiches do que qualquer dos outros acreditavam nos ídolos que o iconoclasta destruía para os "libertar" de seus grilh6es. dentro dos ven tres insulados de seus "laborarórios". Antes disso. É isso que faz do modernista urna verdadeira curiosidade antropológica. urna certa dificuldade em falar como se apenas o iconoclasta fosse uro crente ingenuo. sem nenhum cusro. Tém toda a raiva. entáo poderemos explorar outros modelos de acáo e domínio. protegidos por sua iconoclastia. urna sabedoria diferente que. na verdade. dessacralizar o que ele acredita ser urna simples pedra que as pessoas comuns docam de poderes inexistentes! Estará o crítico moderno aprisionado e acorrentado por sua crenca ilusória e confusa? Pelo contrário: a cren~a em que os antros créem é um mecanismo preciso que proporciona ao ser humano um grau extraordinário de liberdade. "Isso é apenas prática''. a seu talante.ver as duas colunas da figura 9. A liberdade é exatamente o que permite e justifica os golpes do iconoclasta. esse é o seu 11 " • 11 " . nao é a do factiche. limpar o caminho desintegrando entidades e mostrando que sao meras crencas e solidificar opinióes e posicóes mostrando que sao facosconcretos. podem entao proceder como todo mundo para produair. Removendo a median~-ao bnmana duas vezes. quando ele nao está sendo autoconsciente.Se desrruirmos a crenca (nas crencas). tan ros factiches quanros quiserem. por esse mesmo ato de despedacarnenro. a originalidade e o ardor juvenil podem florescer livremence. tarnpouco está livre para abolir entidades confinandoas em estados internos de urna mente dotada de urna imaginacáo e de um inconsciente "profundos". como se ele e só ele projerasse sen timen tos em objecos e se esquecesse de que os fatos que ele cria no laboratório nao sao producos de suas próprias rnáos. desprover de existencia quaisquer entidades que lhes restrinjam a a~ao e dar existencia a quaisquer entidades que promovam ou acelerem sua a~ao (pelo menos esse é o modo com que eles costumavam entender as "outras culturas". nem mesmo o céu é um limite. Como reconhecer um modernista? Relacionemos muito rapidarnenre os aspectos do perfil psicossocial do modernista. Consideremos urna última vez o extraordinário poder do moderno iconoclasta em seu habitar nativo.1. . mas ainda assim urna sabedoria.e nesse sentido. Nesse aspecto os modernistas sao como codo mundo: todo mundo em codo lugar tem necessidade de factiches para agir e argumentar. como Jagannath. A inventividade. " gema umco e incomensurável que permite a antropologia comparativa reconhecer essa cultura entre rodas as demais. no preciso momento em que tenta. torna-se possível. como discutirei na próxima secáo. teremos de dar pelo menos urna rápida olhada na crítica moderna. meras cren~as e representacóes internas) . . Para eles. antes que deixe de ser moderno. Os modernistas sao iconoclastas. como todo mundo. por rortuosa que possa parecer. Os modernistas sao libertados. Ninguém jamais teve tamanha liberdade. ou "paralisadas"). das cadeias que prendem rodas as outras culturas. estar imerso em má fé e obnubilado por urna falsa consciencia? Nao estareí mostrando aqui urna falta de caridade ou . Mas liberdade do que? Liberdade da call1ela e do cuidado. já que podem. piar. e do outro a teoria aparentemente contraditória que distingue radicalmente os fatos (que ninguém produziu) dos fetiches (que sao objetos de todo em todo inexistentes. Existe apenas urna humanidade nao-moderna . ou "limitadas". podem eles dizer. ou seja. Novas híbridos podern ser lancados incerminavelmenre porque nao há conseqüéncias ligadas a eles. Alguma coisa mais está emjogo nessa obsessáo. Os modernistas. eu acredito numa anrropologia universal. Mas a principal astúcia do modernista crítico reside em sua capacidade de usar os dois conjuntos de recursos ao mesmo tempo: de um lado os fatiches. para miro. Um esboce da crítica moderna Há. como se estas fossem "bloqueadas". aí sirn. liberar a passagem para a a~ao. quando ainda possui o seu prístino e intacto exotismo. violencia e poder que lhes permitem destruir os factiches e produzir dais inimigos irreconciliáveis: fetiches e fatos. Como poderia ele e só ele ser ingenuo.

Embaixo eles se confundem.e eu.a o discurso aposta da recria. sempre.. de conservar novarnente e de se desesperar por nao aleanc. pode agir com todo o entusiasmo juvenil do inventor. Mas entáo. apesar de todo esse trabalho de repara<. depois de demolir todas as outras culturas. subsriruídos por urna recria clara e radiante cuja luz ofuscante é alimentada por urna completa e constante distincáo entre fato e fic<. o gesto que criou a modernidade em primeiro lugar. 1987).a dos modernistas na illssio e negar aos modernos. precisaríamos de outra teoria da conspiracáo.. fatos e fetiches torna invisível para sempre os meios bizarros e complicados pelos quais todas essas categorias se rnisrurarn. Nao estamos tratando aqui com um "superego" da teoria silenciando obsessivamente o "id" da prática. e dessa vez destrói a si mesmo em cerirnónias intermináveis de expiacáo. Em cima.. os factiches do moderno existern.a na cren<. intacto.ao. eles permanecem invisfveis e nao é possível registrá-Ios. Nenhum medo. eles fixam. a saber. visfveis a olho nu. Por fim. Acima deles. Embaixo elas se renovam continuamente de alto a baixo.. o culto museográfico do selvagem íntegro.ar o seu intento porque. nenhuma conseqüéncia. Como iconoclasta. Tao desesperados estáo eles que. nas máos firmes dos fatiches . orgánico. ser livre da cren<. os modernistas nunca abandonar» o gesto demolidor que deu início a rudo. o pré-moderno*. os modernos sao conscientes. sao redistribuídos e remexidos interminavelmente.a. de outra psicanálise. mudos. obsessivamente esses fragmentos quebrados. Em cima.como poderia um fato ser apenas um fato. enquanto sacrificam seus próprios fiIhos a Baal: "Sao bezerros. na prática silenciosa que se abre para ele qual enorme cavidade subterránea. sem nenhuma historia. surpreendidos. Embaixo..ao. todos eles.como poderiam nao estar? -. a nítida distincño entre sujeito e objeto. Como sabemos que os modernos estáo cónscios de que nunca foram modernos? Porque. a teoria permanecerá segura para sernpre"."nao tem conseqüéncia aIguma. Claro. já que só a prática silenciosa e sussurrante* pode contar para aquilo que é estritamente proibido em cima. buscando em toda parte os fragmentos de sua destruicáo criativa. sujeitos e objetos estáo entremesclados ao extremo. O mais estranho é que essas criaturas sem deuses e sem fetiches sao vistas por todas as outras como tendo terríveis prote- ° .. seria forcado a tornar-me o iconoclasta que revelaria a áspera realidade da prática que está por trás do véu da teoria. modelo de urna crítica. Usam tudo o que tém arnáo para mostrar que sujeiros e objetos devem ser reconciliados. reparados. o moderno desrrói todos os ídolos. intocado. sob o nome de exotismo. por exemplo. sujeiros e objetos sao infinitamente distantes. lI attfhebunged't. Os modernistas comportam-se como os cartagineses.. um fato "calvo" em vez de um fato "cabeludo''? . urna distincáo absoluta mantém o topo da estrutura separado da parte inferior. nenhum passado. Na verdade.a. observando tuda como deuses procerores. para explicar a cren<. apenas bezerros. reparam e superam interminavelmente. Em cima. especialmente na prática da ciencia. e nao criancas" (Serres. eles ccmecam a invejá-Ias e a criar. longe de manter os fatos separados da fic<. ciencia e política nunca se misturam. embaixo os fatiches estáo lá . invisíveis. Note-se a consrrucáo que torna os factiches tres vezes invisfveis: em cima eles desapareceram.ele passa repentinamente do brava iconoclastia e do ardor juvenil a sentimenros de culpa e consciencia pesada. nao-modernizado! Aa moderno eles acrescentam urna invencáo ainda mais bizarra. depois de misturar todos os tipos de híbridos sem temer quaisquer das conseqüéncias.. Depois. total. ferozmente. mas sua consrrucáo é tao estranha que. mas numa linguagem dilacerada e hesitante que só o rrabalho de campo pode restaurar e que nunca amea<. sobretudo nas reorias da ciencia. entretanto. protegido por esse gesto. mas estáo ocultos. apenas mais e mais cornbinacóes a tentar. Naturalmente. juntando-os em fardos enormes e frágeis. o vasto caldeirño no coracáo de todos os seus projetos. Se eles nao fossem conscientes. o direito de ser como todo mundo. fatos e valores se mantém infinitamente separados.ao e da teoria dessa separacáo em relacáo a prática da rneditacáo. O modernismo nunca pára de reparar. Podemos agora esbocar o tipo psicossocial ideal do moderno. reflexivos e explícitos em relacño a essa consrrucáo tríplice. embora sejam ativos em toda parte. que dizem. e só aos modernos. para explicar a cren<. aterrorizado por urna súbita compreensáo das conseqüéncias . ciencia e política. os atores falam constantemente sobre "aquilo''.

mas sempre que fazemos alguma coisa ruís nao estamos no comando. O cientista faz o fato.:ao Agora que convertemos o repertório modernista de um recurso num tópico de esrudo. Se responder 1'0 cientista".a ameacadora da rnodernizacáo e o poder do deus local.nao mais presos entre faros e fetiches. quem está fazendo a fabrica~ao? O cientista? A coisa? Se responder Tia coisa''. Se responder "arribos". retiros e livros de auto-ajuda a rotalidade do paraíso perdido? nos párias acharamno mais arneacador do que Bhurarayha" . a for. Quer a Iura pela modernizacáo seja ou nao bem-sucedida. a linha divisória entre um mundo físico "lá fora'' e um mundo mental "aqui dentro'! e as definicóes de cuidado e cautela juntamente com as instituicoes públicas que as exibiriam. Se nao somos nem modernos nem pré-modemos. acabando com a iconoclastia. vocé será um realista ulrrapassado. No entanro. como vimos no capítulo 4. fragmentando o mundo em faros de um lado e fetiches do outro. nada pode impedir que se formule a questño dual: vecé proprio consrruiu a coisa ou ela é autónoma? Essa quesrño incessanre. bem dignos da atencáo dos antropólogos comparativos! factiches . parece que sao sempre os párias que acabam perdendo. Acáo e oorrunacao Outra teoria da ar. agora que retratamos os iconoclastas movidos pela culpa como um tipo inreressanre mas peculiar numa cultura entre ourras. o paradoxo do consrrurivismo é que ele usa um vocabulá- 321 . Urna possibilidade que quera esbocar agora requer que consideremos qual tipo de vida levaríamos se voltássemos a viver sob a protecáo dos o que a iconoclastiu quebra e o que que os fati ches nos permirem restaurar? Urna certa teoria da a~ao e da dominacño. tivéssemos de entrar irnediararnenre em um de alguns poueos modelos de política reacionéria.tores e deuses! E as outras culturas nao podern saber quando os modernos sao rnais aterrorizantes: Quando destroem os ídolos e os queimam em autos-de-fé? Quando inovam livremente em seus laboratórios. tentando recuperar em seus museus. Os cientistas de laboratório produzem fatos autónomos.o que significa que agora o paladino da liberdade tem o poder de trer deuses do seu lado em vez de um: a cabera arneacadora do senhor brámane. permitindo-Ihe supurar num nível mais profundo ao converté-Ia numa conrradicáo que precisa ser resol vida e superada. os modernos sao personagens iriteressantes. obviamente. a única alternativa que nos restará nao será a de ser antimoderno? Como multiplicar o número de modelos para a a<. somos ligeiram ente snrpreendídos pela acáo: todo construtor sabe disso. Pelo menos tres coisas mudariam profundamenre: a definicáo de a<. é oferecer urna alternativa para a idéia de pragresso que ainda faz uso da tradicional seta do tempo. Ourro caminho. porque a cenografioa do ativismo tem se baseado tao fortemente na iconoclastia que é como se. estará fazendo um daqueles servicos de reparacño conhecidos como dialética. As coisas mudam inteiramente. estéril e aborrecida paralisou o campo dos esrudos científicos séculos antes que ele sequer rivesse comecado. sem a menor preocupacáo COID as conseqüéncias? Ou quando saem batendo no peiro e arrancando os cabelos.ao política? Como desfazer as definicóes corren tes de política "reacionária" oersns "política "esclarecida"? Urna maneira consiste em modificar a cenografia da própria política. O fato de termos de hesitar entre duas versees desse simples 'faz fazer" (fait-faire) prova que fomos aringidos por um martelo que dividiu o facriche simples e direto em duas partes. Assim. autoflagelando-se desesperadamente pelos pecados cometidos. mas sem a seguranca. será possível imaginar uro modelo para a prática da política que nao confiasse tao fortemente no modelo do crítico? Eis urna quesrño difícil. que tomei no capítulo 6.ao e domínio. filmes. que parece consertar a dicotomia por um momento mas apenas a esconde. remos de dizer que Jau ambos. Depois que o martelo caiu. Quando um faro é fabricado. como renrei fazer nos capítulos 7 e 8. O choque da inteligencia crítica nos tornou estúpidos.:ao e da criar. certeza OLl arrogancia que parecem acompanhar a resposta realista 011 relativista ou a ardilosa oscilacáo entre os dois. será um construtivista. Sim. quando ouvimos o que é diro por cienristas praricanres sem nada acrescentar ou tirar.

dominio algum. o cientista nao cria fatos quem jamais criou alguma coisa! Essa é Olltra fábula. P05fanrasia.ao? Porque é crucialmente importante para o nbos modernista exigir urna escolha entre o que se fabrica . eventos. Estou simplesmente reafirmando a dialécica? Nao. conrradicáo alguma. ou seja. alienacáo alguma. Iigeiramente surpreendido. da humanidade. somos realmente feitos imagem de Deus. "ser a circunstancia de": rais sao alguns dos verbos que assinalam a passagem da atencáo do idioma modernista para o nao-modernista. nem mesmo um arco. nern mesmo lima ferramenta de pedra. inadequados para qualquer outro papel que nao o de opor-se um a~ outro. Todo cientista sabe na prática que as coisas também rém urna história. por causa da nossa mediacáo. simétrica do llomo[aber e lid ando. pedreiro. nao há objeto algum.3:0 que data inreiramente do período modernista e que usa apenas um guarro do seu repertorio ~ o mundo da matéria autónoma inerte. Pasteur "acontece para" os micróbios. Newton "acontece para" a gravidade. um Homa . pela possibilidade de que eu e as circunstancias ao meu redor oferecem áqui lo que foi convidado.mas a mente nao é uro déspota criacior de mundos que cria fatos adeguados sua pensamento é apreendido. modificado e alterado ao encontrar-se com Ele: 'Todas as entidades reais partilham com Deus essa característica de autocausacáo. ou seja. Por essa razáo toda emidacle real também partilha com Deus a característica de transcender rodas as demais entidades reais. menos ainda. Somos logrados pelo que fazemos? Somos controlados. O que age por meu inrerrnédio também surpreendido pelo que faco. ser deslocado e retrabalhado. porque fatos e ferramenras estáo agora firmemente estabelecidos no seu lugar. Todo o trabalho do moderno foi tornar esses dois meé a diadores. inclnindo Dess" (Whitehead. nenhum mediador humano jamais fez. j\llheb/lfl. SÓ os modernistas acreditam que a única escolha a ser feita é entre o mediador sarrriano e urna coisa inerte que está aí. dada essa oportunidade pelo trabalho dos cientisras. Ao tornar o mundo o produto dos pensamentos e fantasias dos indivíduos e ao falar sobre a consrrucáo como se ela envolvesse o livre jogo da fantasia. por causa do clinamen da nossa a~ao.como hornero Iivre e ou . por rudo o que é mudado. de consrrucño social. Como Whitehead propós de forma tao bela. O que está em jogo aqui é o domínio. modificado. sugerinJo o modelo para o Homo [aber que nunca pocle. (1929) 1978. A acáo nao diz respeito ao domínio. Nao nego que as pessoas renham mentes . o ser humano e o objeto. tal como Deus os fez sua. alterado. modificado.I-IairelT. "Bntremesclar-se''. nao totalmente. Claro. "bifurcar". sempre sou ligeiramente surpreendido pelo que fac. "coalescer". planejador urbano ou carpinteiro jamais usaria. Por que é tao difícil recuperar outras teorías da ac. espíriro algum. "urna projecác retrospectiva em nosso fantástico passado de urna definicáo da maréria. de mudar e de bifurcar-se. mas de bifurcacóes. alienados? Nao. COID as fantasias da mente. 1995). isto a o a a a a 322 323 . recobrado. também Deus é Iigeiramente surpreendido pela sua Criacño. Eu nunca ajo. Sim. O que nos surpreende ligeiramente é tambnn. O Humo [aber é fábula do homem.o. dessa vez. há uro '~/a. suas historias. usando o repertorio de acñc inventada pelo ¡-JOllJO [aier.~ algum. pela possibiliclade de modificar-se. 223. "aliar". Nao podemos explicar a prática de laborarório reincorrentio numa definicáo modernista de consrrucño técnica ou . "acontecer". construiu ou fabricou nada. seus destinos. recapirulacáo alguma. do domínio e da media<.WJ completamente. sujeito algum. itálicos meus). Eis urna estranha e ímpia descricáo de Deus. Nao é lima questño de martelo e cacos.~. urna raiz sobre a qual vomitar. Como se Deus fosse dono de Sua Criacáo! Como se fosse onipotente e oniscienre! Se Ele tivesse todas essas perfeicóes. depois disso. nao tendo sido produzido por ninguém. saudade ullien. Os faros sao fabricados. nao haveria Criacao. Nao importa que nao possam ser usados para nada mais! E lima simples qucsrño de ergonomia: eles nao sao adequados para nenhuma outra funcño. nem sernpre. Essas sutilezas sao difíceis de recuperar urna vez operada a iconoclastia. "negociar". Mas há eventos*. os modernistas acrediram estar fazendo o mundo imagem deles. alteram suas trajerórias. Mas.e o que é um fato que simplesmenre está aí. circunstáncias. possuídos. nern mesmo um cesto. suído por entidades nao-humanas que. como vimos no capítulo 6. Mas o idioma muda imediatamenre tao lago se torna a juntar as duas metades.rio de dominio que nenhum arqu irero.hll¡O. por seu turno. nós fazernos faros.

continuamente. 11m para a epistemotogia.ao dessa aparencia de senso comum é extraordinariamente elevado. redes ou máo-de-obra para a producáo. Somos surprcenelidos pelo que fazemos mesmo quanJo ternos. mesrno quando acreditamos ter completo domínio. UID pintor. invenraram-se dois reservatórios fabulosos. fantasias e disrorcóes "aqui dentro"? Como poderíamos sobreviver sem essa distincáo entre questóes epistemológicas e ontclógicus? Ero que tipo de obscurantismo nao incorreríamos se já nño pudéssemos fazer a nítida distincao entre os conteúdos de nossas menees e o mundo exterior a das? E. enráo nada.ao na fabricacáo de fatos. Eles nunca dizem exatarnente isso. sido surpreendido. Nenhum modelo de a)"ao ~olítica p~de ser oferecido como alternativa para o modelo do crítico enquanto nao modificarmos a nossa antropología da cría'Sao.ao de entidades nao-humanas. o que nao é fabricado. Uma alternativa para as crenc. que transformou os factiches ero fatos. Estamos tao habituados a viver sob a influencia do antitetichismo. absolutamente nada os irnpede de proliferar ern toda parte. 11 a l· lenados" GU os "dominados" por forcas exteriores.já nao estava fazendo. É difícil saber qual veio primeiro.as esvaziam o mundo. 00 entanro. interior. de um universo mecánico. uro arquiteto. informacáo.o pago para a obtenl. De fato. dominacáo ou recapirulacao nao é o modo de refletir sobre mis exemplos. Se nenbuma mediacáo humana está .ao possibilitados pelos factiches. As nocóes de matéria. mas apenas fetiches. expansáo e manutencáo de fatos. ilusáo sao mera conseqüénc¡a de se ter partido o factiche em dois . Domínio.o que eles erarn .. Como isso veio a acontecer? Se. Será que a nocáo de urna mente interior foi inventada como repositorio de todas as entidades comprimidas do mundo.as ao mouimento antro. nas circunstancias da a)"3. entre a mulriplicidade de entidades nao-humanas? Porque já nao existe espa~o para entidades nao-humanas ou para qualquer multiplicidade. Os fati ches rrazem consigo urna definicao totalmente diversa de Deus. com a remocáo da rnediacáo humana da fabricacáo de fatos e da fabrica)"ao de factiches. o que nao é fabricado. que nao o eram. nao existem factiches. enquanto nao recuperarmos a antropologia praticada pelos modernistas mesmo quando eles se acrediravarn modernos e quando diziam expl icitamente.o.o que é fabricado. tia afeiros a dar como cerro o abismo entre a sabedoria da prárica e as liC. ~ TI E nao me di Igam que esravam 11 pOSSlIKIOS. Mas as nocóes de crenca.:as Será realmente possível ser agnóstico no sentido que defini? Nao será a crenca na crenca o que permite a disrincáo entre um mundo "Iá fora" e um palácio de idéias. como diria o senso comum. pelo desdobramenro do evento.em aC. arrebatado por aquilo que ela . Por que nao deixá-las onde estavam. permitindo que os "facróides" proliferem como coelhos na Austrália? O cerro é que com a desrruicáo dos meios de argumenracáo e aC. Mesmo uro programador de softiuare é surpreendido por sua criacáo depois de eserever duas mil linhas de software. preenehendo todos os recessos perdidos do mundo . de rnediacáo humana de ac. (ampOlleo nÓJ' sabemos o que estamos fazendo. Dizem que esses outros foraro modificados. ande localizar aquelas coisas em que os crentes acreditam? Nao existe outra solucáo senfio enfiá-Ias nas mentes dos crentes ou em suas fecundas irnaginacóes.ao? Mostrem-me uro romancista. que nada maís sao que pedacos de madeira e pedras mudas. de um mundo natural: rais sao as simples conseqüéncias da ruptura entre os dois significados de "fato" . uro cozinheiro que nao tenha. o pre<. representa'Sao. simnlcdneo.o que é fabricado. se nao há limites de custo. ou será que as cren)"as nas creoc.ou esteve . 11m ¡Jara a ontologia. na prárica. imaginacño. alterados. Esses sujeiros dotados de um interior sao tao estranhos como os objetos relegados a um exterior. ou seja. como Deus. a nocño de um interior dividido a 325 .e ao mesmo ternpo unificando os diversos mundos num mundo único e homogéneo. controlados. a saber. grac. Nenhum nao-moderno deseja ter de lidar com esse tipo de Deus ou esse tipo de Homem.é. O próprio mundo ficou abarrotado para além de sua capacidade.Oes da teoria que parecemos ter esquecido inreiramenre que essa acalenradíssima clareza analítica foi conseguida ao preco de urna invencño incrivelmenre custosa: 11m rmmdofirico "lá fora'' iersus mnitOJ mundos mentáis "aqui dentro". mente. nao deve Deus surprecnder-se depois de reunir uro conjunto finito maior? Quem jamais dominou urna a<. de urn mundo-imagem mecánico. ou incrustá-las ainda mais fundo num inconsciente um tanto perverso e tortuoso.

anjos. zombando do pavo que acredita ingenuamente na Lua. quando já nao existe urna mente interior na qual. divindades. o que os mantém na existencia. mas ao revés: o pensador nao-moderno quer tocar os conteídos das cren<. urna inovacáo fabulosa. O palco estará tao apinhado desse grupo heterogéneo que poderemos comec. para o dedo.partir de um exterior é muiro estranha e constituí. nao devemos olhar para as coisas assim designadas . anirnais. transforma-os em monsrros. a coisa que. a própria diferenca entre interior e exterior. Entendida segundo a dicotomia faetiche-fetiche. segundo os tipos de existencia que elas reivindicam. ufos. gritam: ITNao toque nelesl! Nao toque neles! Anátema"! E no en- 326 327 . e tampouco pretende ser o símbolo para uro espfrito projetado na pedra. todos nos educamos para ser tolos! Essa a nossa deontologia. ser invisível. é é A pedra de ]agannath. no interior das mentes dos crenres. montanhas douradas.as novamente. Bem. O viés antifetichista é tao forte que parece impossível argumentar contra ele sem ouvir os gritos indignados: "Realismo! Religiosidade! Espiritismo! Reacáo''! Devemos agora imaginar urna cena que representasse o trauma de Jagannath. saligramas. positivas. Mas que acontece quando essa bomba é obstruída. pode-se bombea-las para fora da existencia. Com esse instrumento. que torna humanos sua família e os inrocéveis. e daí. Sempre que as entidades sao obstáculos a ac. "Quando o sábio aponta para a Lua''. 11 0 tolo olha para a ponta do seu dedo". descendo o braco ao longo das fibras nervosas. para estar seguro. tomados de horror. urna "simples pedra". vírus. isto é. quando os atores falam sobre a Virgem Maria. a pedra torna-se imediatamente UID espírito. é essa peclra que o roma humano. um conjunto desconcertante de entidades. sobre divindades. em primeiro lugar. personagens. conrudo. reis calvos da Franca. Sempre que existe um déficit de entidades mecánicas certas. mesmo para a tia e o sacerdote. para a mente do crente. naturalmente. as [ormacóes discursivas Ol\ as bases evolutivas que tornam tais cren<.quem seria tao ingenuo hoje em dia? -. salio que é invisível. como tescemunhamos na Exposicáo A no capítulo 5. por si só. como na versáo anriferichista. Na prática. nao reivindica ser uro espírito como na versan fetichista. quando removida.vai de encontro a toda a deontologia das ciencias sociais. e daí descendo a medula espinhal e passando as estruturas sociais. É isso o que um cientista social aprende na escola. Com uro golpe o iconoclasta pñe em movimento a mais poderosa bomba de succño jamais inventada. e os críticos modernistas e pós-modernistas.1 seres bnmanos contra a intlmanidade e a morte. o iconoclasta é capaz de esvaziar o mundo de todos os seus habitantes ao transformá-los em representacóes ao mesmo tempo que o enche de maréria mecánica conr inua. se pode introduzir qualquer entidade e quando já nao existe um mundo exterior feiro de causas a-históricas e inumanas situadas "la fora"? A primeira coisa a observar. O problema é que esse modo de argumentar . O que aparece no seu lugar é. NfÚ sabemos que. lado a lado com numerosas cren<. por exemplo. pode-se bombeá-las para dentro da existencia: agora exisrern pedras em toda parte "lá fora".as para fora da existencia e substituindo-as por objetos da natureza seguros. proposicóes em rodas as fases de existencia possíveis. fortalecido pela oposicáo entre episrernologia e ontologia. deusas. inelutáveis e cerros. Isso nao significa que rudo agora exterior. eIa nunca deixa de ser. aos sistemas culturais. Mas felizmente essas entidades nao requerem os mesmos tipos de eJpec~(ill1foeJ ontológicas. Como ]agannath cornpreende claramente quando ele deixa de dessacralizar o saligrama. urna entidade transcendente que obedece as meJ1J1dJ especificacóes de uro objeto da natureza. diz o proverbio chinés. 1995). mas devemos olhar. Nao se pode ordena-las.as possíveis. buracos negros. a pedra é uro factiche e nao pretende ser uro espirito.conferindo conteúdo ontológico as crcncas . em crencas e realidades. sugando todas as cren<. sob o nome de fanrasia ou crenca.ar a ficar preocupados e a ter saudade da boa idade do ouro moderna. aquilo sem o que eles morreriam. e muito simplesmente. quando a bomba ainda funcionava.ao dessa bomba. esvaziá-las de toda real idade até que nao sejam nada mais que crencas ocas. Ela meramente pede para ser aquilo que protege 0. sexualidade etc. coisas (Nathan e Stengers. mas pode-se ordené-las. ao contrario. conrrcvérsias sobre faros. no único mundo que está. para tornar essas acóes estáveis e para alérn da objecáo. mas simplesmenre que toda a cenografia do exterior e do interior se evaporou.as ingenuas sobre saligramas "aqui dentro". genes.

realizado juntamente com ourros num evento. um movimento popular. os cienrisras dos laboratórios .sernpre viveram sob urna definicño da ac. pelo menos em seu Ideal republicano. proposicóes'".ao rnudou radicalmente desde o advento dos escudos científicos.ao completamente diversa. nas máos de fatiches de formas e funcóes totalmente distintas. Está na hora de deter o pequeno triturador do moinho de sal. Quando renraram quebrar os fetiches. invencáo e criatividade. retrovírus. Mas desde entáo os modelos oferecidos pelo crítico deixaram de ser populares. tentando transformar rudo o mais em crencas. Urna coisa é atacar as crencas quando estamos fortificados pelas certezas da ciencia. A máquina da virrual idade. quando designam um objeto. o faz-fazer. os tocamos. Já nao sao tolhidos por nenhuma coacño. da estética e da metafísica. o libertador. e nao nos mundos que as circundam. e naJa aconteceu exceto que os sonhos do consrrurivismo social desapareceram! Por urna rransfiguracáo exatamente oposta ade Jagannath. podemos cornecar a atacar a principal questáo ero debate nas gu:rras de ciencias. Ele toCOU urna corda em todos os oprimidos do mundo.tanto nós. por um momento. com as oportunidades específicas fornecidas pelas circunstancias. leis etc. Maria. muitas diferentes ontologias práticas. Os fatos foram longe demais. Viré é rualidade é aquilo e-m que rudo o mais se transforma quando a crenca na crcnca ataca as cegas. opressáo e manipulacño se dissiparam. Eles váo de enconrro ao próprio cerne d~quilo que é ser humano e acreditar. e dele para a Lua. protege-os contra 328 329 . está nas cabecas pós-modernas. ou coisas. Mas que devemos fazer quando a própria ciencia se transforma numa crenca? A única solucao a virtualidade pos-moderna _ o nadir. fixadas no alto da entrada do templo modernista. se agora falamos de fariches.ao nao é o que as pessoas fazern. embora seja tao estranho quanro o primeiro e tao real quanro o segundo. mas sim o/dit-/aire. os factiches. os estudanres de ciencia. Gaia. Como eu disse. Depois de séculos de desprendimento. A explicacáo mais simples para todas as atitudes da humanidade desde a aurora de sua existencia provavelrnente que as pessoas quetem dizer o que dizem e que. desanimado de clescobrir que só ele. acredita neles e que todos o demais . mas entidades nao-humanas OU. O fardo de todas essas crencas torna-se insuportável quando. O Iluminismo modernista. djins. foram esses alvorocos que deram aos modernos sua fabulosa energia. A siruacáo tornou-se mais interessante. Esses curros nao sao idéias. Quando os fatos se acomodaram a nossa existencia coletiva. pelo contrario. rock n' rol!. o iconoclasta. o zero absoluto da política. anjos. Defrontamo-nos agora com muitas diferentes metafísicas práticas.ndo urna ilusáo a ser explicada por uro estado mental. glúans. os iconoclastas quebraram . Ao conceder ontología a entidades nao-humanas. nao existem nem crencas (a serem fomentadas ou destruídas) nem fatos (a serem usados como um martelo). grandes nuvens de ilusáo. que rém suas próprias especificacóes lógicas e povoam . tornou-se. o dessacralizador. nenhuma responsabilidade. Mas. A ac. Cuidado e cautela Que fez o factiche antes de ser quebrado pelo golpe do antifetichista? Dizer que ele medien a ac. antes que tuda se torne amargo. Nao paderíamos dizer sirnplesrnenre que as pessoas estáo cansadas de screm acusadas de acreditar em coisas inexistentes 'Alá. esse objeto é a causa de seu comportamento . a própria ciencia é submetida a mesma dúvida.? O intelectual nao-moderno nao assume a posicáo deJagannath. entretanto. Eles declaram publicamente que se eleve tomar cuidado na manipulaC.ao dos híbridos. um mundo que nao é nem o mundo mental dos psicólogos nern o mundo físico dos episremologistas.os párias ordinários. te~ [evisáo. como na categoria pósmoderna. Ainda aqui devernos entender que a situaC. como lhes chamei no capítulo 4. juntamente com seus complexos gradientes. quando tocamos sujeitos e objetos eles se transformaram repentinamente em entidades humanas e nao-humanas. Os factiches sao bons para articular cautela e plIhliádade. dia após dia trazendo novos saligramas para dessacral izar e depois jogá-Ios fora. Era factível ser antifetichista quando os fatos podiam ser usados como armas desrrutivas contra as crencas. As rnetades partidas do factiche.ao entre consrrucño e autonomia é urna explicacño insarisfatór¡a e confin excessivarnenre na ambigüidade do termo mediacáo'". nossa atencáo está se volrando novamente para a ponta do dedo.

Isso nunca passou de urna exótica fanrasia de racismo reacionsirio. a essa prestigiosa genealogia. perforando-os cuidadosamente para ouvir quño oco eles soam? Acreditar no oposro. Nao somos nós os herdeiros de todos os gestos iconoclastas da nossa hisrória? De Moisés destruindo o Bezerro de Ouro (Halbertal e Margalit. 1995). "Reaciondrio' é urna palavra perigosa e insrável (Hirschman. 1991). Em segundo lugar. Os objetos modernistas erarn calvos . O mesmo vale para o paganismo e para a política reacionária. A Reforma Protestante provavelmente escolheu o alvo errado ao Jurar com a piedade católica. a Idéia . 1995). 1996)? Dos luteranos decid indo o que devia e o que nao devia ser pintado (Koerner. ou.. ela própria urna invencáo dos modernizadores. ralvez mesmo progressista . moralmente.ao de fatos e (Ornar o salurar "Cuidado"! novamente audível nas profundezas dos Iaboratórios . 1992)' De Pladio dissolvendo as sombras da Caverna para reverenciar esse que é ele próprio o maior de todos os ídolos. de impacto retardado (Beck. mais precisamente. mas poder-se-la entendé-Is simplesmente como a vontade de trazer o cuidado e a cautela de vofto para a fabrica<. como a antropologia nos tem ensinado ulrimamenre. a divindade o alvo errado da psiquiatría. reacionário ou mesmo pagao. o livre-pensador. "arcaísmo" e "reacáo" sao coisas perigosas. Nesse sentido. para o moderno. O irracionalismo pode ter sido o alvo errado da ciencia. como seu tipo psicossocial ideal. as conseqüéncias nada mais sao que urna reflexño mrdia. É o único depois que a cerimónia dessacralizadora que Jagannath compreende que ninguém jamais acreditou que o saligrama seja al~ guma coisa mais que urna pedra e que a única inumanidade f01 a que ele.se aceitarmos que progresso significa adentrar nurn futuro ainda mais inrricado. Claro. mas semente quando usadas como contrastes para a modernizacáo. salvo que. corno ele pensava.esteticarnenre.eidorn? De Paulo destruindo todos os ídolos pagáos? Das grandes guerras da era bizantina entre iconoclastas e iconódulos (Mondzain. literalmente depois do fato e sob o aspecto subservienre de conseqüéncias inesperadas. a ac. renunciar a essa linhagem. A idolatría pode ter sido. tornar-se moderno implica de novo urna remodelaráo da nossa genealogia e da nossa linhagem. produziu ao destruir o ídolo. um alvo equivocado do monoteísmo. nao queriam dizer. como parte do modo de vida toral dos modernos. a maneira de rizomas.ao teve conseqüéncias. que esravam com medo de que ele quebrasse o tabu. Nao existe. o fetichismo da mercadoria o alvo errado do marxismo. Como poderia urna posicño tño absurda levar a outro modelo para a política? Em prirneiro lugar. seria aceitar a grave acusacáo de tornar-se arcaico. mas estas vieram mais tarde. 1995)? De Galileu espatifando o cosmos antigo? Dos revolucionários derrubando o anáen régime? De Marx denunciando as ilusóes do fetichismo da mercacloria? De Freud convertendo o fetiche num tampáo que nos impede de fazer a terrível descoberta dquilo que sempre esrá faltando? De Nietzsche. desde o pnncfpio. mas sim que estavarn com medo de que ele quebrasse o factiche que mantinha o cuidado e a cautela sob a atenta consideracáo pública (Viramma. o realismo o alvo errado do construtivismo social. o social instável. A lura contra os leones pode ter sido a batalha equivocada empreendida pelos imperadores bizantinos. Quando a ria e o sacerdote gritaram: "Cuidado! Cuidado"}. e essa precau<. a ordem moral é frágil. "paganismo". entrelacados. e eles podem ser rnais inventivos porque acredirarn estar chafurdando na limera prática". só o modernistas querem arrestar-nos de volta a urna época anterior e a um acordo anterior. Estudar a iconoclasria anrropologicamente. Os modernistas sempre tiveram dificuldade para cornpreenderem a si mesmos por calisa de sua iconoclastia e da ansiedade que a destruicáo de ídolos provoca. modifica o seu efeito e o seu impac- 331 . Racine el al. nenhuma cultura arcaica primitiva a qual se possa retornar. mas os produzidos pelos nao-modernos sempre foram cabeludos.ao nao-moderna parece suficientemente sensata. O que o martelo removeu foram o cuidado e a cautela. O erro é sempre o mesmo e decorre da (nn~tI ingenlld na (renft:l ingerllld do ostro. A razáo pela qual devemos acautelar-nos contra os facriches é que suas conseqüéncias sao imprevisíveis. É exatamente isso que os fatos modernistas nos tém mostrado repetidamente.todas as irnplicacóes morais do que eles fazem. o filósofo armado de um martelo e despedacando todos os ídolos.incluindo os dos esrudantes de ciencias. epistemologicamente -. É estranho cornpreender que os golpes do martelo do iconoclasta sempre erraram o alvo. como vimos no capítulo 6.

ninguém lhe está pedindo que desmascare as pedras sagradas da família ou que liberre os ourros. Sem dúvida isso nao pode passar por senso comum. de sorce que para evirar que os objetos caiam na inumanidade .rivemos de invocar os direiros dos sujeiros ell o leite da ternura humana". assim. crencas e coisas.as (como nas caricaras tentativas dos construrivisras sociais). Na longa história do modelo da crítica. mas bem perro. ilusóes. a combinacño e a negociacáo das mediacóes humanas e nao-humanas. precisamos da firme ancora dos objetos. do ourro lado da cerca. Urna das muitas causas desse derramamenro de sangue nao será a esrranha conrradicáo que há ero suspender os sacrifícios humanos enquanto se procede a destruicáo dos ídolos com júbilo e hipocrisia? Nao nos devemos abster rambém dessa destruicáo da humanidade? A máo de quem eleve derer-nos antes de consumarmos o gesro crírico? ande está a ovelha que poderla ser usada como substituto do modo crírico de raciocinar? Se é verdade que tocios somos descendentes da faca suspensa de Abraáo. ilusóes . mas um modelo que entrerenha um número de ontologias práticas táo grande quanro o de fati ches existentes. significando "nós" o pequenino culro dos "náo-crentes'' no extremo da península ocidenral. enráo.as -.subjerividade.as com faros. e mais importante. despotismo . ou pegar um foice e cortar faros com crenr. já que seus alvos já nao sao viáveis: nós nao iremos modernizar a palavra. paixóes. Para proreger os sujeiros de cair na inumanidade . nus. Em terceiro lugar. crenc. por de lado o martelo iconoclasta permite-nos ver que sempre ternos estado envolvidos na cosmopolitice (Sterigers. 332 333 . Essa que é a mais sangrenra de todas as cidades está fundada num sacrificio humano interrompido. Mas. insensibilidade. ou seja. Quem ou o que pode resistir a quem ou qué? Assim outro modelo político se oferece. Só por meio de um encolhimenro extraordinário do significado da política é que ela se restringiu aos valores. A grande vantagem de deixar que os faros rornem a fundir-se em suas redes e conrrovérsias desordenadas e de deixar que as crencas recuperem o seu peso anrológico é que a política se torna o que sempre foi. em miro ou na sociedade? Nao haviu resposta. nao perdemos? E morremos. a liberdade que advém do duplo acréscimo da rnediacáo humana: para a fabricaC.too A faca já nao rem um gume afiado. Iuru civil.ao de faros. eles e eu. 1996). inexpressividade. pegar um martelo e destruir as crenc. interesses. o filho assemelha-se notavelrnente a um ídolo prestes a ser despedacado. Sen tia-se aturdido".fr ieza. sempre foi o curingn no entre monte de carras. antropologicamente falando: a gesráo. Parece que nos faltou alguma coisa ao longo do caminho. mas serem eles próprioJ [aiicbes ~ e talvez também um pouquinho faceciosos -. martelo é pesado demais. nao um modelo que busque acrescentar um suplemento de alma ou exigir que os cidadáos ajustem seus valores aos faros ou nos arraste de volta a urna aglomeracáo tribal arcaica. ao mesmo tempo. Que é inumanidade? Note-se como ela é estranha na era modernista. Devemos repensar a vontade de ser iconoclasta. opinióes e forcas sociais de seres humanos isolados. Mas. localizar a inumanidade em curro lugar: antes de mais nada no gesto que proc1uziu a c1icotomia su jeito-objeto. ande está a falha de rudo. Ninguém esrá pedindo a Jagannath que se contente com a sua posicáo na aIra casta e mantenha o statns quo. que tipo de pesscas nos tornaremos quando nós rambém nos abstivermos de destruir factiches? Jagannath foi deixado ponderando: "Quando a tocaram. materialismo. Depois de langa caminhada ele voltou para casa. Os verdes campos da humanidade nao estáo longe. proleger ti dnvrsidade de statns onrológico contra a arneaca de sua rransformacáo em faros e fetiches. aponra para o desamparado Isaque sobre um pedestal. o risco de parecer reacionário pode ser menor que o de ser modernista na época errada e da maneira errada. no movirnento do fatiche. ° a A dicotomia suje-iro-objeto perdeu sua capacidade de definir a nossa humanidade porque já nao nos permite compreender o sentido de um importante adjetivo: "inurnano". perdemos a nossa humanidade. Talvez esreja na hora de voltarmos sobre os nossos passos. interrompido pela máo de Deus. nossa mais venerável virtude.«le. Foi o que rentei fazer ao suspender a ansia antifetichisra. O papel dos intelectuais nao é. No Museu da Diáspora de Tel Aviv pode-se ver urna iluminacáo medieval em que o gesro de Abraáo. quando os objetos também comecarn a gerar inumanid. sempre subestimamos o significado da liberdade. A inumanidade.ao de fetiches e para a fabricac. Cerramenre é possível fazer melhor.

"De que maneica protegeremos a natureza da cobica humana"? ou "Lograremos edificar urna ordem política decente"? Depressa essas inquiric. que conera as qucstóes de ontologia. por mais que os guerreiros da ciencia se empenhem em manré-Ios nos esrreiros confins do modernismo.6es esbarram com incontáveis dificuldades. nao proclamam que os humanos estáo para sempre isolados do mundo exterior e presos as celas de seus próprios pontos de vista. moral idade e Estado foram produziclas todas juntas. nao desejam volver ao 335 . sociedade. episremologia. Deveria estar claro agora que os esrudos científicos nao ocupam posiráo dentro desse velho acordo. sentido nenhum em examinar isoladamente pergunras como "De que modo pode a mente conhecer o mundo exter-ior?". Nao há. as Ieis dcsumanas da natureza que impedido a humanidade de degenerar em inumanidade. política e reologia (ver figura 1. portento. "Corno o público participará da proficiéncia técnica '? "Conseguiremos erguer barreiras éticas contra o poder da ciéncia">.1). Os esrudos científicos nao afirmam que os fatos sao "socialmente construfdos''.Conclusáo Que artificio libertará a Esperanca de Pandora? Que conseguí mos ao longo dessa exploracño rcconhecidamente esrranha e inscével da realidade dos escudos científicos? Pelo menos um ponto eleve ficar claro: existe apenas 11m acorde. lima vez que as defini<. a fim de criar o mais formidável e o rnais paradoxal dos poderes: urna política que elimina a política.6es de natureza. nao induzem a massa a abrir caminho por entre os laboratórios. ética.

pareciam outras tantas questóes diversas e desvinculadas. Até seu destino comum foi abolido. Desde o comec. por outro par . nao por cima. nao a teoria. O que parece mais bizarro aos olhos dos cienristas sociais é que os estudos científicos nao sao sequer críticos. parecem sacudir os escudos científicos . autentico e humano passado pré-moderno. no níve1 da reoria. escapando completamente a escolha cominatória inventada para impossibilirar o Estado. Bem sei que o aspecto mais polém ico dessa busca de urna alternativa ao ve1ho acordo é o fato de termos posta de parte.e nao o último. escavando ocasionalmente por baixo dos pesados megáliros quando isso era possfvel: por baixo. Por meio de pesquisas. Nenhurn trace de sua juventude liberdadora pode já ser encontrado nelas. Nao é de admirar: tia fiJo foi [tira para ser superada e apenas essa impossibilidade dá sentido aos objetos e sujeitos. Urna vez dentro de tao portentosa. procure¡ neste livro oferecer urna expl icacáo mais plausfvel para a obstinacáo da linha c1ivisória: o objeto que arresta o sujeiro e o sujeiro que arrosra o objeto sao entidades po/Pmúe/J.r. nao pode proferir urna palavra sobre os direitos da subjetividade sem que ela seja apanhada para amesquinhar o poder da ciencia ou compensar a crueldade da natureza.é que os faros nao sao nem reais nem fabricados.o de humanos e nao-humanos. poderia eu ter considerado) sem urna enorme distorc. Aa des locar a atencáo da recria da ciencia petra stta¡mítica*. todos esses tópicos dássicos também se tornaram movedicos quando transferimos nossa arencño para a prática.a verdade nao-modernista . solene e bela arquitetura.o da modernidade. por sua vez. A medida que a modernidade se foi desdobrando. a serern levadas a sério. Aquelas que. anedotas. o sujeito está aí para proteger o objeto da queda na inumanidade. por acaso. eles precisariam de urna ajudazinha de seus 336 . porquanto a verdade . o objeto está aí para proteger o sujeito da queda na inumanidade. com o quadro que sustenta o acordo modernista. talvez. mas independenternente. 'Ienrei substituir a dicotomia sujeito-objero. estudos de texto e algo mais que um brim/d. pois estava sirnplesrnente seguindo a prática. torncu-se inalcancável porque sempre deve ser buscada do outro lado desse enorme abismo hiante. ao contrário. negativamente ou d ialericamente. Dado que incontáveis enigmas foram pespegados a recria da ciencia. Entretanto.:. da ontologia aprópria concepcáo do que seja a mente . temo eu. de tempos em tempos. Será culpa nossa se tantos valores encarecidos .foram capturados por urna teoria da ciencia que uns poucos meses de investigacáo empírica podem abalar seriamente? Isso nao significa que essas questóes care\am de importancia ou que semelhantes valores nao devam JeY defendidos. le-ndas. ninguém pode proferir urna palavra sobre objetos sem que ela passe a ser irnediatamenre usada para apagar algum trace de subjetividade em outra parte. Minha opiniáo é que nao devemos sequer rentar. Depois.r: conceirual . Falharam todos os ensaios de reutilizá-la positivamente. mitos.alguns dos quais provérn . Pasteur como sujeito dianre de um objeto. Para atravessar essas dificuldades. iconoclastas ou provocativos. a dicotomia sujeiro-objero. Como. Ao invés de superar a linha divisória. que acabei deixando intacta. náo inocentes habitantes metafísicos desre mundo. por exemplo. de meu próprio processador de texto. a subjetividade e a objetividade se transformararn em conceiros de ressentimento e vinganca. A hurnanidade.rico. o escudo protetor dos fatiches desapareceu e o Estado tornou-se impotente. revelaram-se entrelacadas quando se escrutinizou a prática cotidiana. eles simplesmente se depararam.ao. conservei o acordo onde ele esrava e parti em outra direcáo. o fermento do ácido láctico (capítulo 4)? O próprio processo sutil de delegacáo que permiriu a Pasteur fabricar fatos iria ficar deslocado na cenografia do modernismo. completamente. Eu teria de responder a perguntas vociferadas pelos novos Fafner e Fasolt que encontramos no capítulo S: 110 fermento é real 011 fabricado"? Pior ainda seria responder Itas duas coisas''.da teologia a própria definicño de aror social. Nao mere\o crédito algum por té-lo feiro. Daí os arroubos de megalomania que. tuda tomou urn curso lógico. significa que precisam ser amarrados com urna corda ainda mais forre e associados ao destino de objetivos mais imponentes. filósofos vém tentando snperar ral dicotomia. A ciencia se polirizou a tal ponto que nern os alvos da política nem os alvos das ciencias permaneceram visfveis. As guerras de ciencia sao apenas o mais recente episódio nesse uso polémico da objetividade .

há obviamente um espaco onde as ciencias estáo aptas a evoluir sem serem seqüestradas pela Ciencia N° 1. Nós falamos com veracidade porque o próprio mundo é articulado e nao o contrário. todavia. é tao implausível que nao se pode sustentar por rnuiro mais tempo: os próprios psicólogos já instalaram a cognicáo a frente da recognicáo. quando a referencia circulante estiver presente em todos os lares. urna máquina de Guerra Fria. e mais importante porque diz respeiro a um número maior de pessoas. de política tanta para humanos quanro para nao-humanos e apenas urna fonre. Nunca se cuidou que a epistemologia os fosse proteger: ela nunca passou de um engenho bélico. nao porque inexista uro mundo. bem como os outros conceitos que procurei reabilirar . do que abandoná-Ios por ali. dos humanos cujo fado as ciencias forcararn os náohumanos a parrilhar. urna idéia absurda num futuro próximo. teremos apenas urna fonre. Que tenha havido um tempo em que se travava urna guerra entre "relativistas". pesquisadores ou engenheiros devam preferir o velho acordo. pulverizados! Foi melhor resraurá-los mal e mal. reprimidas e frustradas pela perpérua infusáo de leis desumanas na natureza. agora que já nao precisam ser constantemente interrompidas.1 -. translacáo'". mas porque nao há urna mente lá dentro. para quem a linguagem se refere apenas a si mesrna. cientistas e instituicóes. no seio das mesmas insciruicóes. articulacáo'". UFHIil' .ar a melhorar. negacáo ou fimo É a única coisa que se pode afirmar com algum grau de certeza.. será o mesmo coletivo. de novas entidades socializadas no coletivo.. a natureza* surge agora como o que sempre foi. tudo quanto deva escapar aos devaneios da sociedade "iá embaixo''.fati ches. Em terceiro lugar. claramente identificável. Que essas injuncóes gérneas possam ter passado por senso comum a pretexto de combaterem o "relativisrno" parecerá. urna alternativa a ele que nao representa sua plenitude. perante urna cultura. claramente identificável. Se os leitares acharem este livro malalinhavado. lembrem-se por obséquio das centenas de fragmentos entre os quais descobri delegacáo. se tentarmos substituir qualquer um dos elementos do velho acordo . Mais exatarnente. ainda assim. aralhadas. Urna natureza objetiva. Existe um acordo modernista e existe. para quem a linguagem pode ocasionalmente corresponder a um verdadeiro estado de coisas. poderemos anotar algumas especificacóes para a tarefa seguinte. creio eu. é coisa inteiramente diversa de urna articulacéo de humanos e nao-humanos.natureza e sociedade -. as condicóes de felicidade na política também podem come<. nao o sei. exrrair certeza da frágil rede de palavras estendida por sobre o perigoso abismo que separa coisas de discurso. por máo de um curador canhestro.as caixas da figura 1.. isto é. como o gás. As disciplinas científicas nascem livres e estáo por toda parte aprisionadas. partidos e inúteis. Nao é fácil fugir a antiga estrutura. isso parecerá a nossos descendentes tao estranho quanto a idéia de urna briga por relíquias sagradas. INSTITUTO DE PSICOLUGlA RIRllnTi=p. num único superpoder. e "realistas". De qualquer maneira. Se os nao-humanos tiverem de ser arrebanhados num coletivo. embora seja sem dúvida urna solucáo provisória que alberga a prática das ciencias e respeita as muiras vascularizacóes de que estas carecem para sobreviver. Ao invés dessa fonte de poder bipolar . Qual possa ser urna alternativa sólida e sustentável. urna máquina de Guerra da Ciencia. A expressáo "socializar nao-humanos para que inregrem o coletivo humanal! parece-me perfeitarnente aceitável. Em segundo lugar. Nao existe um m undo lá fora. Fizemos algum progresso. pelo menos. isso é bem melhor do que subrnerer-se a estas duas coercóes: "Sejam absolutamente desconectados" e "Estejarn absolutamente cerros das palavras que dizem a respeiro do mundo lá fora''. o processo político mais abrangente que jarnais reuniu. A coisa mais fácil e rápida de substituir será todo o artefaro da episremologia. Nao vejo por que cientistas. mas dedicado. despedacados. nenhum prisioneiro da linguagem fiado unicamente nos apertados caminhos da lógica.caídos ao chao. Falar com veracidade a respeito do mundo pode ser tarefa incrivelmente rara e arriscada para urna mente solitária saturada de linguagem. A idéia de urna mente extirpada singular e solitária. observando um mundo exterior do qual se acha absolutamente isolada mas procurando. mas constituí prática bastante comum para sociedades fartamente vascularizadas de corpos. esses facilitadores foram todos partidos em dois pelo gestual iconoclasta dos modernistas críticos. destruicáo.. a água e a eletricidade. No entanto. instrumentos.

ero responder a mais difícil das perguntas: voces esráo prontos a viver. nao há motivos para desespero nem para renunciar a seta do tempo.nao porque a tecnologia é que se ache no comando. É sem dúvida no movimento para a frente da seta do tempo que o acordo futuro fará coisa melhor que o modernista. um deles oculto e indiscutÍvel (natureza). com exclusáo dos nao-humanos que os fabricaram. a despeiro da frieza de seu belo slogan.ferenteJ tarefaJ nomesmo cofetivo.ao só ocorrem por meio de ligeiras e múltiplas transformacóes. Desapego! Quem poderia ainda acreditar. Nós mudamos de senhores muitas vezes. a eficiencia da tecnologia e a lucratividade do mercado das mazelas de um passado ainda mais confuso. nem sequer uro campo anónimo de forca? Estar no comando Oll ser senhor a nao é propriedade de humanos ou de nao-humanos . que cadeias de mediacáo nao sao o mesmo que urna passagem sem esforco da causa para o efeiro. robos. ignorando completamente a natureza exterior. a tecnologia e o mercado nos im pelem a menos confusóes. a menos rnazelas que no passado? Nao. O quarro e mais problemático significado tero a ver com dominacáo. nao resta dúvida. um futuro que difere do passado. "Nem deus nem senhor'' . urna boa vida juntos? Que essas indagacóes do mais alto conteúdo político e moral hajam sido feitas durante séculas. ¿}. por mentes brilhantes. é claro. de urna vez por rodas. espero.nem de Deus. tinha de aparecer sob o disfarce altamente improvável do progresso. campos anónimos de forca em que tudo se dissolve . Há um futuro. logo parecerá. depois as estruturas que nos levam a agir. O interdito sobre a reologia. tao importante na montagem da estrutura modernista. se por isso entendermos urna dúvida geral a respeiro de dominacáo. que a ciencia. servirá. o outro discutível e desdenhado (política). esrrelas. sujeito e política. Como vimos no capítulo 5. o homem! Por que trocar sempre um comandante por outro? Por que nao reconhecer. mas nunca funcionou: as ac. rraindo-se a ponto de falar sobre natureza "fora". nnicamente ti humanos. custe o qUé' cusrar.6es sempre transbordaram de si mesmas. mas também de animais. O ateísmo. que nao existe irnposicáo de categorias a matéria informe.A própria palavra "coletivo" encontra finalmente seu significado: é aquilo que nos coleta a todos na cosmopolítica visualizada por Isabelle Stengers. que agora foi redistribuída. o mesmo se diga do anarquismo.mas. que transferencias de informaC. ela era obrigada a limitar-se aos humanos. teremos dnas di. mas porque. nao será levantado por um retorno ao Deus Criador e sim pela constatacáo de que nao existe senhor algum. ou. Em lugar de dois poderes. vacas. A primeira consistirá ero responder a pergunta: quantos humanos e naohumanos deveráo ser levados em canta? A segunda. que a teologia tenha acedido em desempenhar um papel no acordo modernista. Que tarnbém a religiáo haja sido requisitada pelos modernistas como combustível para sua máquina de guerra política. Mas onde se acomodavam centenas e milhares. daí ao Hamo faber. acomodam-se agora milhóes e bilhóes . nada nem ninguém' comanda. campos de discurso que nos levam a falar. o qual. no ámbito das técnicas. era concebido como um aumento no desapego que liberta a objetividade da narureza. daí se seguindo enormes complicacóes.mas nunca tentamos nao ter senbor algllm. por um instante.pois sempre houve um senhor. Que tenha existido urna década durante a qual as pessoas podiam acreditar no fim da história simples- . os parenteses do progresso estáo se fechando . ninguém se acha no comando . táo extravagante quanto a decisáo dos Pais Fundadores de negar a escravos e mulheres o direito de voto. que ela se altera ao longo das translacóes: que um experimento é um evento que dá um pouco mais do que recebe. O único aspecto que mantinha o tempo avancando no modernismo e fe-lo suspender-se a si mesmo no pós-modernismo era a definicáo de objeto. por seu turno. Cuidava-se que essa fosse urna propriedade de objeros e sujeitos. contrariamente as dúvidas que assoberbam a sensibilidade pós-moderna. verdadeirarnente. A história nunca se sentiu a vontade na casa da modernidade. e que.de pessoas. é ainda coisa do futuro.jps e bytes. aquilo que aprendemos a saciedade nesre livro: que a aC. alma "dentro" e sociedade "ernbaixo". passamos do Deus Criador Natureza Incriada.ao é sutilmente assumida por aquilo sobre que se exerce. como vimos no capítulo 6. como motivo de perplexidade para a geracáo vindoura.

segundo se supóe. Embora a curiosidade irrefreável é que tenha instigado a donzela artificial a abrir a caixa. se disp5em de "aliados" suficientes nos lugares cerros. insuflada por jornalisras universitários. já que obrigam os adversarios a atingir o mesmo nível. é claro.melhor ainda. foi porque eles costumarn perder tempo atacando outros que tém o mesmo nome que eu e. Eu cheguei perro. é verdade que tudo o que diz respeiro ao progresso. que gracas a Deus está chegando ao firn. de que quando nos defronrarmos na linha de frente. que nao existe urna realidade exterior. mas gostaria muito de escolher meu terreno. aliás) o mais gigantesco e. torna as outras guerras irrisórias . sobretudo. de decidir os objetivos de minha guerra. As Guerras da Ciencia nao foram excecáo.fechara um parénrese parecerá (já parece. que a subjetividade deve mesclar-se a objetividade. Se nao respondi aos argumentos dos guerreiros da ciencia palavra por palavra . em comparacáo. Nesre século. Justamente quando urna langa e duradoura paz era necessária para se reunir os fatiches dispersos e se reinventar urna política de humanos e naohumanos solidários. que tuda é discurso. Por infelicidade. Talvez seja mais bern-sucedido da próxima vez. as guerras tém efeitos devastadores. episrernocénrrica . Nas vigorosas palavras de Isabelle Stengers (998). defendem todos os absurdos que venho contestando há 25 anos: que a ciencia é socialmente construída. saberá em que pé estou. precisamos de um artifício novo e mais complexo. e ourro que ainda nao surgiu. . parece que esgotamos os males escapados a caixa da desastrada Pandora. enquanto "parrulhas da verdade" eram despachadas para os campi a fim de fumigar as caixas de marimbondo dos esrudos científicos. ninguém deixaria de admitir que "isso significa guerra". estaremos todos desarmados. guerra mundialpelo menos de narureza metafísica. que tuda. as guerras da ciencia. que os cien ti stas mais fortes. viris e cabeludos sempre vencem. melhor. minhas testemunhas e minhas armas . como sucedeu ao meu amigo responsável pela pergunta que deu início ao livro. Eu nao tenho nada contra urna boa briga. nao há motivo para deixarmos de investigar o que resrou lá dentro. aos valores e ao conhecimento está aqui em pauta. porém. Eis o que tencionei realizar nesre livro.inclusive.mente porque urna concepcáo de progresso ernocéntrica . o último lampejo de um culto da modernidade a que nunca faltou arrogancia. portanto vocé nao poderá fazer nada com as camadas de artefatos que se incrustarn em suas paredes". ao contrário. aproveitar os expedientes disponíveis e pisotear todos os valores de debate e argumenracáo. urna vez que a tarefa de inventar o coletivo é dio formidável que. que a ciencia nao tem conteúdo conceitual. Eu nao preciso correr em auxílio desses meus homónirnos! Que os martas sepulrem seus martas ou. Trata-se de urna batalha que só vale a pena travar se houver niridamenre dais acordos em oposi\ao: o acordo modernista. Se alguém quiser mover essa guerra. conforme costumava dizer meu mentor Roger Guillemin com menos galhardia. que quanto mais ignorante for a pessoa. A fim de encontrar a Esperanca que ficou bem no fundo da caixa. decidi agir como se as guerras de ciencia fossem urna questáo intelectual respeitável e nao urna disputa patética em torno de yerbas. no fundo. esperamos.gostaria. sempre deu licenca para tomar desvios. Estou cerro. Segundo minha própria cartografía.ou sequer mencionei seus nomes -. se prerendéssernos realmente calar as ptetensóes da ciencia ao conhecimento do mundo exterior. o apelo as armas foi ouvido da Direita e da Esquerda. em trajes civis. que valores pretendo defender e que armas simples renciono brand ir. conforme tao dolorosamente aprendemos neste século. que pelo menos em minha opiniáo já está ultrapassado (embora haja sido durante décadas nossa mais inestimável fcnre de luz. e outras enormidades. A guerra nunca foi urna situacáo em que se pudessem ruminar pensamentos sutis. "Vecé acredita na realidade"?. é político. defendida por gigantes antes de passar aos cuidados de anñes). "A ciencia nao é um forno autolirnpante. Ignorando esse obscurecimento.

um sintagma é o conjunto de palavras que podem ser associadas numa frase CfO pescador vai pescar com um cesto" define assim um sintagma). ARTICULA<. "ernbaixo" e "ero cima". SUBSTITUI<. a questáo psicológica de como urna mente consegue preservar sua conexáo coro o mundo exterior. Em lingüística.O: Como translacáo". ANTIPROGRAMAS: Ver programas de a.O. "tora".0 esvaziada pela dicotomia entre objeto e sujeiro ou mundo exterior e mente.:il. esse rermo oeupa a posi<.:il. a questáo política de como logramos mantee a ordem na sociedade e a quesráo moral de como chegaremos a viver urna boa vida . PARADIGMA: Esses dois pares de termos substiruern a obsoleta distincáo entre objetos e sujeitos. mas urna propriedade ontológica do universo. A quescáo nao é mais saber se as assertivas se referem ou nao a um escado de coisas. A metáfora lin- . mas apenas se as proposicóes" sao ou nao bern-articuladas. ASSOCIA<.Glossário ACORDO: Abreviacáo de "acordo modernista". SINTAGMA.:il. APODE/X/S: Ver epideixis. ao passo que um paradigma sao todas as palavras que podem ser substituídas numa dada posicáo na frase Cfo pescador''.ao.O. no merceeiro".3.ero suma. "dentro". responsável por inconráveis problemas que nao podern ser resolvidos separadamente e devem ser encarados ero conjunto: a questáo epistemológica de como podemos conhecer o mundo exterior. "o padeiro" formam um paradigma). A articulacáo nao é urna propriedade da fala humana.

tornando possível algum ripo de cálculo. especialmente da obra de Gilles De1euze e Isabelle Srengers. chegar a existencia. o segundo. cujo rnovimento se pode prever facilmente a partir de sua posi\ao inicial.:ÓES DE FELICIDADE: Expressáo tomada a teoria dos atos da [ala para descrever as condicóes que precisarn ser atendidas a fim de dar significado ao ato lingüístico. CENTRO DE CÁLCULO: Qualquer lugar onde inscricóes " sao combinadas. trabalhando com O el. Se concebermos a história dessa rnaneira. a palavra lTactor ll (ator) se limita a humanos. CONTEXTO. Urna vez que.seus desempenhos* no quadro dos testes* de laboratorio. os estudas científicos enfatizam a natureza complexa e controvertida do que seja. O segredo é definir o ator com base naquilo que ele faz . COMPETENCIA: Ver nome de acáo. é CONDI<. Amplio a definicáo para regimes de articulacáo como ciencia. Hoje existem diferentes políticas e diferentes cosmos. ATOR. Ao invés de cornecar com entidades que já compóem o mundo. cornplicacáo. . um banco de dados etc.6es de humanos e náo-hurnanos". que é um arrefaro imposto pelo acordo* modernista. por exemplo). Pode ser um laborarório. O melhor exemplo o péndulo. esse termo se refere as associa<. é um exemplo). contempla urna série de passos simples (o computador. Opóern-selhes as condicóes de infelicidade. complexidade.que ator pode ser conectado a qual outro? Subsrituicáo . COSMOPOLÍTICA: Antigo termo dos estóicos para exprimir a filiacáo a humanidade em geral e nao a urna cidade em particular. por meio do exame da prática laboratorial. nao mais enquadrada no acordo* modernista da natureza* e da sociedade*.que ator pode substituir qual outro numa dada associacáo? contempla a irrupcéo simultanea de inúmeras variáveis (como nas inreracóes dos primaras. CADEIA DE TRANSLA<. utilizamos muitas vezes "actant" (aruanre). Essa expressáo situa em locais específicos urna habilidade de calcular que quase sempre se localiza na mente. As sociedades contemporáneas podem ser mais complicadas. A concrescencia nao é um ato de conhecimento que aplica categorias humanas a urna maréria exterior indiferente e sirn urna modificacáo de todos os componentes Oll circunstancias do evento. mas menos complexas que as amigas.:Ao INVISÍVEL: Expressáo criada pelos sociólogos da ciencia para designar as conexóes informáis entre cientisras. deixar que o péndulo caia nao acrescenra nenhuma inforrnacáo nova.:Ao: Vet rranslacáo.:Ao DE UMA POTENCIALIDADE: Termo tomado a filosofia da historia.güística se generaliza para formular duas questóes básicas: Associacño . para incluir náo-humanos" na definicño. para um ator. sua competencia* é deduzida e integrada a urna instituicáo'". COLETIVO: Ao contrario de sociedade*. Se a divisáo entre natureza" e sociedade torna invisível o processo político pelo qual o cosmo é coletado num todo habitável. nao existe evenro* e ela se desdobra em váo. um instituto de esracística. tecnologia e política. em ingles. CONGREGA<. inúmeros casos de surgimento de atores. Mais tarde. O primeiro. termo tomado a semiótica. CONCRESCENCIA: Termo empregado por Whitehead para designar um evento* sem recorrer ao idioma kantiano do fenómeno*. Seu slogan poderia ser: "Nenhurna realidade sem represenracáo". O conceito adquiriu significado mais profundo com Isabelle Stengers: a nova política. ATUANTE: O grande interesse dos estudos científicos consiste no fato de proporcionarem. a palavra "colerivc'' torna esse processo crucial. CONCRETIZA<. COMPLEXO VERSUS COMPLICADO: Essa oposicáo contorna a oposicáo tradicional entre complexidade e simplicidade enfatizando dois tipos de complexidade. CONTEÚDO: Termos tomados a história da ciencia para situar o conhecido quebra-cabeca das explicacóes internalistas* tersus externalistas* nos esrudos científicos. os arquivos de um geógrafo. em oposicáo a estrurura formal das filiacóes universitárias.

EXPLICA<.:Ao: Ver demarcacáo. e de denunciar faros como fetiches. que nao repousa na debilidade do acordo* modernista. eliminar a nocáo de crenca". O neologismo é urna combinacáo de "fato" e "fetiche". FETICHISMO: O fetichismo é uma acusacáo feita por um denunciante. pois.A: Como o conhecimento. DEMARCA<. DESEMPENHO: Ver nome de acño. diferentes aspectos. Ao invés de opor fatos a fetiches. enquanto a historicidade humana dos descobridores atrai toda a atencáo). utilizo a palavra "diferenciacáo". Também ajuda a evitar a nocáo de crenca'". agora. APODEIXIS: Termos da retórica grega que sumarizam todo o debate entre filósofos e sofistas. ele pretende levar a sério o papel dos atores* em todos os tipos de atividade e.:ÓES EXTERNAL1STAS: Na história da ciencia. PARA BA1XO: Termos da semiótica referentes ao ato de significac. Quando o leitor é enviado de um plano de referencia para outro. Etimologicamente.demonsrracgo -. tornando óbvio que os dais termos possuem em comum um elemento de fabricaráo. PARA FORA. ambas significarn a mesma coisa . e da importáncia atribuída aos invólucros*. é possível definir existencia nao como um conceito do tipo tudo-ou-nada. a cren~a nao é urna categoria óbvia referente a uro estado psicológico. da énfase no surgimento de atores. DESLOCAMENTO PARA DENTRO. da definicáo pragmática e relacional de aC. Esses movimentos térn por resultado a producáo de um referente" interno.. Na frase "Acredito que a terra está ficando mais quenre''. ao contrario. que constiruern as circunstancias desse experimento (ver concrescencia). FATICHE.ao de descoberta e sua filosofia da história assaz implausível (em que o objeto permanece imóvel.ao pelo qual um texto correlaciona diferentes quadros de referencia (aqui. deslocamento para baixo. D1FERENCIA<. o modus é "acredito". enquanto a segunda designava urna demonstracáo matemática ou pelo menos rigorosa. linguagem -. sao tipos de ac. como se estivéssemos as voleas com um mundo diferenciado. mas a primeira passou a referir-se ao discurso dos sofistas .floreios de .:ÓES INTERNALISTAS. quando é trazido para o plano de referencia original. Isso faculta diferenciacóes'" bem mais sucis que a dernarcacáo entre existencia e nao-existencia.'ao que nao incidem na escolha cominatória entre fato e crenca.ao. dá-se a isso o norne de deslocamento para fora. implica que os crentes apenas projetaram num objeto sem significado suas próprias crenc. Embora essa distincáo tenha sido utilizada durante décadas para acomodar as relacóes entre filósofos e historiadores. Está. MODUS: Termos da rerórica para disringuir aparre da frase que nao muda (die/11m) da parre da frase que altera (modlis) o valor de verdade do diaum. deslocamento para dentro. EVENTO: Termo tomado a Whitehead para substituir a no. foi totalmente desativada pelos estudos científicos em virtude das múltiplas rranslacóes entre contexto e conteúdo. A diferenciacáo nao exige urna disrincáo normativa entre ciencia e nao-ciencia. diferentes ternpos. EPIDEIXIS. A fim de distinguir essa empresa normativa daquela que preceituo no presente livro. de urna visáo profunda.'as e dese jos. esses termos designam urna disputa muitfssimo obsoleta entre aqueles que alegam interessar-se mais pelo conteúdo* de urna ciencia e aqueles que privilegiam seu contexto".CREN<. quando o material expressivo é inteiramente modificado.:Ao VERSUS D1FERENCIA<.. ligada a nocáo de fetichismo* e constituí sempre urna acusacáo levantada contra os outros. Os fatiches. É um artefato da discincáo entre consrruráo e realidade. eu): diferentes espacos. mas enseja inúmeras diferencas e um julgamento normativo bem mais sutil. EXISTENCIA RELATIVA: Em resultado da acepcáo positiva de relativismo'". inclusive os nao-humanos. Definir um experimento como evento traz conseqüéncias para a hisroricidade'" de todos os ingredientes.:Ao: A filosofia normativa da ciencia esforcou-se muito para encontrar critérios capazes de discriminar a ciencia da paraciéncia. mas como um gradiente. EXPLICA<. portanto. FATOS CONCRETOS: A tendencia geral dos estudos científicos é considerar os fatos concretos nao como aquilo que já se DICTUM.

A condicño de indiscurível é o ponto final e nao o come<. Ao invés de opor entidades e histeria. ao mesmo tempo. emprega-se "institucionalizado" para criticar a pobreza da ciencia excessivarnenre rotinizada. mas cuja presen<. "instituicáo'' alude a um lugar e a leis.e o envolvimenro ativo da razáo. NAO-MODERNO. as inscricóes sao bidirnensionais. num pedaco de papel. nas muitas tramas da prática*. já que as insciruicóes propiciam todas as mediac. mas entre os que reconhecem. urna para as propriedades de urna entidade. PÓS-MODERNO. Isso nao limita sua certeza. o primado da razáo humana na modelagem do conhecimenco.o e no tempo.:AO VEI?SUS INTERMEDIÁRIO: O termo "media<. e aos juízos sintéticos a pOJteriori. MODERNO. Neste livro. Se uro intermediário é plenamente definido por aquilo que o provoca.:AO: Termo geral referente a todos os tipos de transforrnacáo que marerializarn urna entidade num signo. meros intermediarios e os que adrnirem mediacóes. PRÉMODERNO: Termos vagos que assumem significado mais consistente quando se levam em conra as concepcóes de ciencia que eles acarretam. é mente positiva. Quando tratamos de proposicóes" articuladas. num arquivo. num traqo. nurn documento. termo que enfatiza o movimento de deslocamento e as exigencias contraditórias da tarefa. mas como o resultado tardio de um longo processo de negocia<. de que feita nao somente de datas como de eventos*. No uso corriqueiro. nao apenas de intermediários* como de mediacñes'". Sao sempre móveis. Quando os rnóveis imutáveis esráo claramente alinhados. Opostos aos juízos analíticos a priori.ao t1. que sao fecundos e puramente empíricos.0. FETICHISMO: Vet fatiche. outra para sua história e urna terceira para o ato de conhecé-Ia. em contraste coro "inrerrnediário".inacessíveis e incognoscíveis. "Modernismo" é uro acordo* responsável pela INSCRI<. de vez que nem a fecundidade . que sao tautológicos e estéreis.nem a lógica precisam ser inseridas entre os pólos objetivo e subjetivo.1999 depois de 1998 -.acha presente no mundo.a se faz necessária para barrar o idealismo . urna rnediacáo seropre ultrapassa sua condicáo. produzem a referencia circulante*. JUÍZO SINTÉTICO A retou). sociólogos e filósofos. a acepcáo é ampla- . seus desempenhos* no espac. INSTITUI<. significa um evento* ou um acor* que nao podem ser exatamente definidos pelo que consomem e pelo que produzem. mas também o fato de que alguma coisa acontece no ternpo. mas nem sempre. Na sociologia tradicional. tal qual se dá no linguajar comum. pessoas e costurnes que se perpetuam no tero po. fornece todo o necessário para que se tornem indiscutíveis e óbvios. Por isso sao rambém chamadas "rnóveis imutáveis". Expressáo empregada por Kant para solucionar o problema da fecundidade do conhecimento realcando. um fenómeno é o ponto de encontro das coisas-ern-si . ao contrário.ao as instituicóes que ensejam a articulacáo'" de fatos.:AO: OS estudos científicos devotaram muita aten<. conteúdo* e contexto*. A diferenca real nao é entre realistas e relativistas. de que a história nao somente passa como transforma. permitem novas translacóes" e articulacóes" ao mesmo tempo que mantero intactas algumas formas de relacáo. mas apenas urna rede contínua. Nenhum desses traeos é conservado na nocáo de proposicáo'". INTERMEDIÁRIO: Ver mediacáo. INVÓLUCRO: Termo ad boc inventado para substituir "esséncia" ou "substáncia" e proporcionar aos atores* urna definicáo provisória.5es* necessárias para o ator* conservar urna substáncia'" duradoura e sustentável. esses juízos sao ao mesmo tempo a priori e sintéticos. podemos descrever o invólucro de um aror. HISTORICIDADE: Termo tomado a filosofía da história para designar nao apenas a passagem do tempo . isto é. sujeitas a superposicáo e combinacño.os eventos* . isto é. nao há tres palavras. tal classificaráo se torna obsoleta. FENÓMENO: Na solucáo modernista de Kant. Usualmente. como na tradicáo empirista. Portante. MEDIA<.ao e institucionalizacáo.

É definido apenas como urna lista de efeitos . coletivamente . e substitui a linha divisória moderna e pos-moderna entre natureza e sociedade pela nocáo de coletivo*. NATUREZA: Como a sociedade*.as. deixando de lado sua complexidade interna. um termo é necessariarnenre definido utilizando-se outro termo. Assim. mas pela en fase nos sitios 10cais. PRAGMATOGONIA: Neologismo inventado por Michel Serres. O "nao-moderno". é modernista toda concepcáo de um futuro em que a ciencia ou a razáo desempenharáo papel importante na ordern política. recusa-se a atalhar o devido processo político recorrendo nocño de narureza. Associacóes de humanos e nao-humanos aludem a um regime político diferente da guerra movida contra nós pela distincéo entre sujeito e objeto.como os experimentos . O par humano-nao-humano nao constituí urna forma de "superar" a distincáo sujeiro-objeto. mas urna forma de ultrapassá-Ia completamente. sendo urna delas obrida pela mediacáo" da ourra. "Pré-rnodernismo" é um exotismo atribuível inven<. para evitar urna tautologia. Aquilo que se revelou gra<. urna rranslacáo'".5. essas acóes 353 . a natureza nao é considerada como o palco racional externo da acáo humana e social. OBSCURECIMENTO ("CAIXA-PRETA"): Expressáo tomada asociologia da ciencia referente a maneira como o trabalho cien- a a tífico e técnico roma-se invisfvel decorrente de seu próprio éxitoo Quando urna máquina funciona bern. As palavras "nao-humanos" e "coletivo"* referem-se a entidades libertadas do fardo político que as obrigava a usar o conceito de natureza para atalhar o devido processo político. paradoxalmente. PREDICAc:. rório. Oll seja. NAo-HUMANO: Esse conceito só significa alguma coisa na diferenca entre o par "humanc--náo-hurnano'' e a dicotomia sujeito-objeto. Cada dispositivo antecipa o que outros atores. Assim. mas nao conhecimentos. rnareriais e mundanos ende as ciencias sao praticadas. quanto mais a ciencia e a tecnologia obtérn sucesso. a palavra "prática" identifica tipos de escudos tao distanciados das filosofias normativas da ciencia guaneo dos esforcos usuais da sociologia.0 da crenca".num labora- sociologia da tecnologia que térn sido usados para emprestar caráter ativo. MÓVEL IMUTÁVEL: Ver inscricáo. para designar urna genealogia mítica dos objetos. a respei ro do mundo. humanos ou nao-humanos. as ciencias.criacáo de urna política em que boa parte da atividade política justifica-se por referencia a narureza". MODUS: Ver dictum. basta-nos enfatizar sua alimentacáo e producáo. mas para multiplicar os mediadores> que produzem. como na sociologia crítica. PARADIGMA: Ver associacáo. a versáo de tempo de paz do objeto: aquilo que este pareceria se nao estivesse metido na guerra para aralhar o devido processo político. mars opacas e obscuras se tornam. aos artefaros técnicos. poderáo fazer (programas de acño).as ao esrudo da prática nao é utilizado para calar as pretensóes da ciencia. O atar ainda nao tem urna esséncia. segundo o esquema morfológico de "cosmogonia''. e muitas vezes polémico. os que nao se entusiasmam pela modemidade sao acusados de possuir únicamente urna cultura e crenc. O termo "nome de acáo" nos recorda a origem pragmática de todos os fatos. em contrapartida.ou desernpenhos . exceto pelo fato de a confianca na amplitude da razáo ter arrefecido. Isso acarreta. Urn nao-humano é. para cada definic. quando uro faro é estabelecido. no en tanto. 56 mais tarde deduzimos desses desempenhos urna com- petencia. O "pós-modernismol! é a conrinuacáo do modernismo.:Ao.:Ao: Termo da retórica e lógica referente ao que acontece na arividade da definicáo quando.ao. portante.:Ao: Expressáo usada para descrever a estranha situacáo . Assim. ANTIPROGRAMAS: Termos da Ac. PRÁTICA: Os estudos científicos nao sao definidos pela extensao de explicacóes sociais a ciencia.em que um ator* surge de seus testes*. mas como o resultado de um acordo* altamente problemático cuja genealogia política rastreamos ao langa do livro. urna substáncia apta a explicar por que o ator age daquela forma. NOME DE PROGRAMAS DE Ac.

antecipadas tal vez nao ocorram porque os curros atores tém programas diferentes - antiprograrnas, do ponto de vista do primeiro atoro Assirn, o artefato se torna a linha de frente de urna controvérsia entre programas e antiprogramas.
PRO]ETO: A grande vantagem dos estudos tecnológicos sobre os escudos científicos é que aqueles lidam com projeros que nao sao obviamente nem objetos nern sujeitos, ou mesmo urna combinacáo qualquer de ambos. Grande parte do que se aprende no esrudo dos artefaros é depois reutilizada para escudar os fatos e sua historia. PROPOSI<;:AO: Nao emprego esse termo no sentido epistemológico de urna frase tida por verdadeira ou falsa (para isso tenho a palavra "assertiva"), mas no sentido ontológico daquilo que um atar oferece a outros atores. A queixa é que o preco para obter clareza analítica - palavras apartadas do mundo e em seguida reconectadas a ele por referencia e julgamenro - é bem maior e produz, no firn das contas, mui to mais obscuridade do que conceder as entidades a capacidade de unir-se entre si por meio dos eventos*. O significado ontológico da palavra foi elaborado por Whitehead. REFERENCIA CIRCULANTE: Ver referencia. REFERENCIA, REFERENTE: Termos da lingüística e da filosofia usados para definir, nao a cenografia das palavras e do mundo, mas as inúmeras práticas que acabam por articular proposi~6es*. "Referéncia" nao designa um referente externo sem significacáo [meaningle.rs] (isro é, literalmente, sem meios [means] de completar seu movimento), mas a qualidade da cacleia de transforrnacóes, a viabilidade de sua circulacáo. "Referente interno" é um termo da semiótica para descrever todos os elementos que produzem, entre os diferentes níveis semánticos de um texto, a mesma diferenca produzida entre um texto e o mundo exterior. Prende-se a nocáo de deslocamenro*. REFERENTE INTERNO: Ver referente.

absolutismo -, mas unicamenre ao processo mundano pelo qual sao estabelecidas relacóes entre pontos de vista grac;as a media<;3:0* de instrumentos. Dessa forma, insistir no relativismo nao enfraquece as conex6es entre as entidades, porém multiplica os caminhos que nos permitem passar de urna perspectiva a outra. Os estudos científicos elaboraram urna nova solucáo para substituir a ingenua distincáo entre local e universal.
REVOLU<;:AO COPERNICANA: Introcluzido por Kant, este se tornou um cliché nos escritos filosóficos. Originalmente, significava a passagem do geocentrismo para o heliocentrismo. Paradoxalrnente, Kant utiliza-o para designar, nao urna descentralizacáo da posicáo humana no mundo, mas urna recentralizacáo do objeto em torno da capacidade humana de conhecer. A expressño "revolucáo contracopernicana" combina, pois, duas metáforas, urna da astronornia e a outra da inquieracño política, para aludir ao distanciamento de rodas as formas de antropomorfismo, inclusive a inventada por Kant. A política nao precisa ser feita por intermédio da narureza'" t' os objetos devem libertar-se, como naohumanos, da obrigacáo de atalhar o devido processo político. SINTAGMA: Ver asscciacáo.

SOCIEDADE: A palavra nao se refere a urna entidade existente em si mesma, governada por su as práprias leis, aposta a ourras entidades como a natureza; significa o resultado de um acordo* que, por rnzóes políticas, divide artificialmente as coisas em esfera natural e esfera social. Para me referir, nao ao artefato sociedade, mas as muitas conexóes entre humanos e nño-humanost , prefiro a palavra "colerivo". SUBSTANClA: Essa palavra designa o que "subjaz'' as propriedades. Os esrudos científicos nao procuraram eliminar completamente a nocáo de substancia, mas criar um espac;o histórico e político no qual entidades recérn-surgidas váo sendo paulatinamente doradas de todos os seus rneios, de todas as suas instirui<;oes* para se rornarern aos pOLlCOS "substanciadas", duráveis e susrentáveis.
SUBSTITUI<;:AO: Ver associacáo.

RELATIVISMO: Esse termo nao se refere a discussao da incomensurabilidade dos pontos de visea - que deveriu chamar-se

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TESTES: Ao surgir, os atores* sao definidos por restes, que podem ser experimentos de vários tipos ande novas desempenhos* sao inferidos. É por intermedio de testes que os atores se definem. TRANSLA<;:Áü: Ao invés de opor palavras ao mundo, os estudos científicos, gra~as asua enfase na prática*, multiplicaram os termos intermediários que insistem nas rransforrnacóes, tao típicas das ciencias; como "inscricáov" ou "articulacáo'!", "rranslac;ao" um termo que entrecruza o acordo* modernista. Em suas conotacóes lingüística e material, refere-se a todos os deslocamentes por entre outros atores cuja mediacáo é indispensável a ocorréncia de qualquer a~ao. Ero lugar de urna rígida oposicáo entre contexto" e conteúdo*, as cadeias de translacáo referem-se ao trabalho grac;as ao qual os atores modificam , deslocam e transladam seus vários e contradirórios inreresses.
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Poucauh. EXP"'1s. Hegel.321.100-1. explicacóes. :)1-2. Humanismo. Michel. 143.. Enzimologia.324-5. 218. 54. Freud.101. 348. 159. 346. 331-2.293-6.300.326.191. Piccáo arqueológica. Geomorfologia. 242. 71.140. 35. 111. 44.293.194. Epistemología. 64-65. 356. 321-3. Euclidiana. Humanidades. 350. 225.175. 169-70. Thomas.23. lO8-9.332. 262. Tomás A. INPA. Grécia amiga.335. 81. 102.193-4. 134. Fermi. geomerria.335-6. Ver tamhém Construcño Pariches. 2. Instiruicóes científicas. 202. 30. . 119. William.. 7). 15. :)39.41.276.26. 117-8. 205. 150.296. 210. 262-. 210. 126. 311-4. 193-4. 71-2. 279. lO8.E Bcologia. i 117-8. 15. 249.175. 214.152. Humboldt. 201. 174-5. 187. 343. 195.254. 5. 257. 59. 301. 347. .349. 300. 28. 101. . 117-9. cient ificos.115. 289.101-5.325. 201.520-2.267. 125-8. Guillemin.66. 46-61.349. 199. 95. 348. 190. 208. Bdison.349. Ícaro. 70. 92.49. 183. 247. F.170. Elites.. 189.). Inrernalisras. J 87. 63. Ilíada. 555. 160. Ego despótico. 112-5. Intermediarios. Inumanidade. Bxternalistas.25-6. Heidegger. Ecología política. 305. Eilosofia analítica.298. Faros. . 155-6. 143. 124. 195. 146.100. ..289.83-5. 26. 342. 271.271. 307-10. 314.. 40. 16.184.316. 94. Geracáo espontánea. 248. 25. 213. Instrumentos. Faros concretos.273. 178-81. 105. 221.218. 195. 247. 342. 284.148-9. 94. Ver Existencia relativa Bxperimenradío coleciva. Hobbes.80.332. Bpideixis. 160. 187-9.202. Sigmund.283.:.142. 191. 108. 34.74. 23-5. 182-4.33.'. 25 t-.183. Estadistas. . 57-8.. 5. 44. 65. Ver Micróbios Gl1stl1ff. 255. 34. 231-3. 276. 286. :)30. H Halban. S3. 23-6. 188.218. Grande Ciencia.158-9.353. Estímulos associados.. 26. uniáo de ciencia e sociedade. F Fabricacáo.21-2. Thomas.314. 56-S. 347. ..165-6.177. 63. 82.33-6. Pierre de. 146. Alexander von. 98. 130. 349. 97~132. Fatos científicos. Glickman. 127. Existencia relativa. 316. 3. 350 .51. Horizontes. 203. Fetiches/fetichismo." 2. Florestas. Jogo zerado. 205. 96. Instituto Pasreur.. 72.258. 281-3. 188. Garfinkel. 43. 258.259.342 . 278.235-7. Harvey. 349.42. G. 300. 114.292.338. 125. 147. Frédéric.205. 233.87. Franca.187. 148.350.63. 250. 23. 170. 352. 191. Igualdade geométrica. 330. 128-3i. 152-3. 14-6. Geomerria. 39-42. 181-182.111. 30-7. 226. 176.129.333.355. 272. 176.324. 135. 47.158.321. Escudos científicos. 171.119.107-9. Guerras da Ciencia.168. 29. 85.316. 122.216. 41. 246. 350. 88. Garimpeiros. Inrerferéncia. Isaque. 223. 248. .354. 2lO. Ver Pedologia Etiquetas. 300.131. Física. 171-2. 90-91. 284. 356. 128. 289.78. 177-8. 191. David. 124.350. 301. 322. 325-6.275. 261. 192. 18. 98-109.284. e fetiches. Sreve. W. Helofsa. 224.288. 249-50.188. 254. 75. 305-6. 346. 351-4.1545. Ecologia inrernalizada.162.349. 126-7.214. 131.. 220.2. Pissáo nuclear. Pilizola.291. 265. G Galileu Galilei. 29. 179. 260-6. Hughes. 282. 26. 121.246. oríginalidade dos. 340. 147. Perca. 300. Insciruicóes. lOl-5.337-8. Donna. 322-3.oes. 19.49.349.139.252. Geografía. Genoveva. 97.221. Governo da massa. 18. Egina. Fenómenos.30-1. 102. .170. 19. 1015. 238. 108. 61. Ver Mediacño/inrermcdiários. Iconoclastia. 242.213. Gorgias. 201.315.111-7. 280.84.86.321. 128. 247-257. Vertambé1ll u.327. 146-8.318. Historicidade. Glauco. Inscricóes. 248-9. 85.317-9. 256-8. 146.179. I n Haraway.349.314. 241.. Física nuclear.103. 297. 24.119. Santa.13. 176. J jagannarh. Germes. Estado. Fermat.16. 36. 339. 135-45. 2212.196-9· Enucleacáo da sociedade. William. Idealismo. 346. . 218. 41. 194. 45.189-90.350. 196. 314. 184. 547. Enrico. Empirismo. jolior.'S. 117-S. 143. 131.133. Fermenracáo. 33.)).319. 299.317. 28.197.14-5. 302. 302. Harold. Hans. 28. 50. 68. Experimentos. 181-2. 37. 266.97-8. 134. 201. James.327-333. 121.278.514. Episteme. e linguagem. 166.309-20. Invólucros. 17. 73. explicu<. 150.298-9.223. Hmtlojabl:r. Homero. 271. 328-9. e relativismo. 126. 293. Ferramenras. 234. 121.264. .224. 335. 111. 200. Roger. 15. Esrudos do solo. 178. 130-1.249.282. Ego transcendental. 18.149-52.337.65. Existencia.331. iso. Eventos. Esrrururalisrno.217. 271.210.321-3. Indústria.134-6.191.90-4. 191. 242. 22-4.208. 47. Marrin. 298. 271. 23. 226. Hume.200.228. 47. 184. 272. 309-10. 16-7. 147.350. Estoicos.39. 177.49. 181. 201. 47.201.181-3.75. 314-8.3. . 327 -330. 134-5.203. 97-132.econteúdode ciencia.297. Artefacos Fenomenologia.114.136.

210.215. 74. 343.173. 155.166. Sao.335. Pos-modernismo. 119. 179. . 350.50. Poder.163.325-8. 34. 66. 111-4. Mediacáo técnica. Mundo da vida. 247. 24. Odisseu. 127. . 3. jean-Francois. 71. vos.166. 52.343. 1. 162. 338. 100. 220. Naturalistas.3. 271. 116. 337. Hans. Nós. 222. 76-8.Paradigma dualista. 243. 109. Hydro Ehktrisk.35.29. 152. 125-7.162. 59-60. 286. 215. 101. 201. 201-46. 41. 351. Brasil. 16-23. 120.26. 38. 326.289. 159. 245. 110.113-5. Luís. Pedologia. 155-7.91. l46. Platáo: Górgias. Dmitri. 22. 92.194. Máquinas. 191. 158.190. Objetividade da ciencia. 190.214.176. 351.92. Lille. 210. 275. 91. 23031.182-3. 92.l7. . 147. 114. 180.169-81. 42. 180. 35. 160.91.152. 273. 175. 111. 138. Lewis. 232.176. Néutrons. .119. 205-19. 88.135.332. 178. 281-2. 234. 34-5. 149. 265.297. 246. Pouchet. . 105. 130-1. Nietzsche.)49.222-9. 135-7. 98. Kummer.127.228.119. 248. jussieu.31-43. Obscurecimenro reversivel. 89. 4. 59. Nature. 91. 94.16. 243. Pedogénese. 107.191. 200. 175.28-9.207.219-20. Leroi-Gourhan. Marxismo.35.184. 150. 8. 126.222.122.350. 247.102. ))0.192-4. Ncwron . 80. 256. Péricles. 37. Pedologia esrrutural.339-41. Charles.112.. 159.102. . Móveis imuráveis.134.164-167.3.Juízos analíticos. Metáforas da encenacéo.136Napoleáo. Knmo-bou-.126. Polícica. 159. 105. em coleriParalelogramo. 248. 341. 260-6. 99. Paulo. Noruega. 169-71. 315. 352. 35. metáfora do. 26.34-5. 73. Ministro dos Armamentos.101. 172. simetna com humaParias. 35.215.118.206. 91. o . 255. 50.121. )50. 15860. 102-4. 205. )oseph de.123.Justus von. 44. André.307.223-4. 120. Maquiavel.3. Pandora. 115. 323.274.80. \ Platonismo. Modelo de translacño. Lew. ModflS.103. 116.240. 245-6. 224. 223. . 199. 84. 143. 194. 148. 42.174. Nicolau. 264. Lyotard.289-95. 327. 73. 126. 27. 170. Mobilizacño: do mundo 118. M Manaus. Nome de aiJao Pistis. Microbiologia.38.218.353.199. 175-6. Matemática.245. 3-'-3. 231-41. 34-5. 15. 94. 66.199-200.323. 159.l2. 131. Objetificacáo. MetiJ. 255.183-4. 166. Perelrnan.35. 33 l. 126. Priedrich.136. 318. 271. Moralidade. 71.111. Metáforas ópticas.99.l 19. 90. 330. 275. )06.l24. 303. 233. 18-20.256. Midas.52. Juízos sintéticos. 32.350.213. 165. 301. 66.210-2. 68. Mapas. Paradigmas. e 87. Polo. 156. 227 -8. Pedocomparadores. 83. 283. 81. Modernismo. André.172-6. 170. Lévedo.105-7. 194-7. Bmanuel. 351. 18.203. Leis impessoais.121. Materialismo.73. Pesquisa. e coletivos. 56.248. 23). )51. 26-30. 300-1. ciencia.155-7. 3l5.117-8. Plutonio. Mundo exterior.246-7. 133. 355. 37. Mendeleiev. 164. 231.191. 77.187. 206. 157. 131. 124. 263.311. 208.50. 119. 189.)-5. Pasreur. 235. 100.l5.145.)6.187Napoleáo I1I.159. 19. 276. Mito da Ferramenta Neutra. 97.178. 15. 234-5. 251. 250. 257. 114. 56. 85. . 120. 3. 202.297. Liberdade. Levantamenros. 300-4. Franca. 352. 241. 193. Mediacüo/inrermediérios. 102. 320. 158.94. 2. 118. Onrologia. 22.107. 4. 351. Marx. 251.ll.239. 47. Metáforas industriais . 63. Menee. 202. 309.173. Nao-modernismo. 262.36. 109.-81. 161. 249. Poder versus Direito.250. 195. Micróbios. 56.210-6. 221. 91. 218. 2. 16~7. 329. 155-6.14. )05. Minos. 86. Félix Archimede. 61. 2. 2.187-90. 222. 299. 323-4.152. Metáforas. Permutacáo.)9. 3)1. 147.297. Franca.24. 66. 249. 285. Minhocas. 1.157.190. 279. 353. 241.173.352.252.182. Rlip¡ih/ica. Obscurecimenro C'caixa-prera''). )55.15). 159-62. 275.236. 203. Leito. livre de ciencia. 25. níveis pragmatogóniParis.220. 40.)2.238. 237-8. 35. 306. 61. 146.245. 114. Liebig. 202. cos. 290. 30.144. 231-3. 22. 210. 222. p K Kant.205. 3()7·10. Mumtord.117.335-6. Narureza. 210·3. Kowarski. 22-4. 24.61.311. [13. 303. Pragmatogonia.356. fermenracáo do. 1. 315.203. 296.184. 146-8. 175. ORSTOM. 108. Mente extirpada. 94. Padronizacáo. 56. 282. 80.l1. Megamáquinas. 119.207. 4l. Língua/linguagem. 2)6.109. Mudancas/deslocamenros. 248.154. . )20. 339. .).163.161. 228. L Laugier. 40-1. 197.147. 35. 201.31. Natisnal Rifle Associaiian.S 50.337. 29.31·6.100. Isaac.17.3-4. 85. 341.94.182. 98. 271-304. 109. 187.216. 277. 18. 140-1. 19. 30. nos. Moisés. 2.3.97.191. Kar!. N Náo-humanos. Nllrsk. 180. 181. 94. 352. Metáforas de rrilha.171. 19.

184. 16. S 210. 164. Rasrreabilidade de dados/referencias. Programas de acáo. 81. )6.105. Preservacáo. 141-2.91-2. 335-6. 135. 287.Prática. 340. 2. Sao Paulo. 19. Shapin. Taxonomía. e 3-48.'9. 355.173.63. 327.. 20. 40. 15-4. 178. Sociobiologia.303. Translacóes. 289. 115. 164.354. e articulacáo. 186-90.141.339. 191. 19. crenca na. 68. Brasil. 11. 261. Robin. 222-7. Whitehead. 232. Protocolos. 136.55. ?d8.346. 87. 58. 232-8 Tecnología. Revolucócs conrracopernicanas.285. 108. cadcias de. 247-.222-8. 61-3. . Wnmrtr-GriJ1'i-TI Posmdation. 188. 146. 9. 171-8. 134.189.Sirios. . 17. 105. 27. Tecnologia mediadora. 237-41 Substáncias.126. Radamanco. 152. Siodmak. 81. 143-5. 36.174.)32.226. 15-6. 98. 2." . e coletivos.1. 131. 121. 1:1. 191.197. 61.119.94. 245. Spencer. Revolucáo copernicana.. 184.'9. 248-5. 131.318.354.155. 50.173. 356. 80. 155. 109. Weart. científicas. Transfcrrnacóes. 104. Tecnociéncia.31.349.203. Temístocles.148.152.107.349. Pré-modernismo.11. cnucleacáo da. U Union Mini~rl! du Haut-Katanga.182. e Realidade. 1. Prática laboratorial. 171. 99.354. 28-30. Represenracáo pública.212-23.16. 61. .340.11. Mark. 119. 315. Seligrams.229.142. 268. 15.17.148. Sandoval. 215. 205.. Sociotecnologia. Psicología.59-60.115. 30. 84. _19. . Testes. Michel.). Predicacáo.272. 34. un.354.116. 326-7.3116.354. 100-4.280. 2}4-5. Uránio.132. Sintagmas. 128-31. 108. . 70. Segunda Guerra Mundial. 94. 224. 26. 197. 98-9. Teologia.339. 60. 297. 148.)-4. UO. 94. Referencia circulante.206-7.251. 94. 78. 177. ll4.. 57. 41. Razáo. Teresópolis. 293. 18-9. 166. "356.42. Vínculos. Serres.81. R Serta-Silva. Substituicóesv oé. 171.347. 266. 101. Shirley. 99. 24. 247-9. 288. Retórica. 60.:l¡8- 9.231. 44. Relativismo.. I 19.33. Referente interno. 41. 61. 183. 284. Proposicóes. Realismo.271. Reducáo. 301-2. 100. jean-jacques: Disamo sobre a T Tales. 110.199.340. LB. 346. 238. 164-7. 141. Stengers. Radiatividade. 264. Alfred North. 352. 151. Grigem da Designaidade. 156. 101. 275. . 65.15. 75. 278 Retroadapracáo. 30. V Verdade. 116.19. 78. 253.257.3511.1.7. 242-3. 222-5.203. 23-4. . 13-37.18.)04.. Brasil.\ 2t 7.327. 225-6. 35.\.163.1.347. 90.127.125.353. lO4. 113.107. 302. 104. Referencias científicas. Q Química. Leo.215. . Isabelle. referente de discurso. 108-9. 15. 275. 242. 197. 178. 42. 170-1. Sime tria. 271. 190.. 68. 259. 222.141. Schaffer. 501. Rousseau. . 52.231.60. 128. 115.205. 226-7. 237.171.152.81. 43.118. . .218.237-8.129. 191. ciencia. 208-9. 57. 192. . 42. 340. 13. 205-6. 130.78.. 52. Protocolos experimenrais.1811. 98. 296. S."05.107. Sócrates. 122. 308.. 14. 123-5.1-4.33.346. 227-8. com hisrória. 329. Técnicas. 188. 222-3.1. 323. Ver Translacóes. Curt: Donu/lan's Brain. Redes de poder. 52. Projecos. Subprogramas. 281. internas Strum. 205.318. 249. 353. 166. 283. Twain.353. 111. 232. 219. 16. 219-21.236. Sociedade.103.136.248.1611. Savanas. 166. 172. S. 2.195. 248-Y). 201. 105. 194. 356.81-7. Topofils. Sreven. 74.134. 48. 56-8. 1:)0. 48. 39-42. 90. . 7. rasrreabilidade de.130. 18. 290. 46. 162. 281.1911.149.144. 45. 243-4. 179. Weinberg.91-4.0. e assercivas.143-4.)j. Relacóes scciais. 34. 16. 240. invólucro para.195.97. 72. 155. 68. 20~ 223. Ver Prárica. Profissóes científicas.354. e colerivos. 206. 109~1O. W Waterfield.)5. 185-6. 29. 189.88. 108-10.102.3. 191.265-6. 80. 41. Referencias/referentes. 237-44.1. Rádio.74. .31111-1. Universalidade. 187. (0.:l¡53. 213-4. 21.274.246. 61. Edileusa. Szilard. 61. 42.256.1.101. 76-7.322. Teorias. circulantes.2.

iio de Texto Parecer Técnico Luzia Bianchi Renato Valderramas Carlos Valero Maria Arminda do Nascimento Areuda Revisiio jussara Di Lolli Projeta Gráfico Cássia Letícia Carrara Domiciano Ctiacdo da Capa André Petraglia Diagramacüo Catalogaftio Valéria Maria Campanerí Hilel Hugo Mazzoni lmpressáo e Acabamento SujJenJisilo Vagnee Vieira Camargo Junior Impresstio Pauto Mendes Toledo Dobra e Costura Celia Regina Qnintanilha Acabamento Final Élcio Cassiola r& Q 111' \l( ~'" SASi UFRGS 05461685 1I . Eras 11 e 12 (títulos) Ripasa .Xerox llniversidade do Sagrado Coracáo Tiragem 1.000 Equipe de Realizacáo Coordenacdo Executiva Producdo Gráfica Edit.-: '''"''¡ Sobre o Livro Formato 14x21 cm Mancha 22.5x38 paícas Tipologi« Papel Garamond Tree 11 e 12 (texto}. Cartáo Supremo 250g/rnl (capa) DocuTech 135 (miolo) Gráfica Sao Joao (capa) Impressdo Acabamento Costurado e Colado no Document Center .Dunas 75g1m' (rnfolo).