29ª aula Sumário: O olho humano. Alguns problemas de visão e sua correcção. Natureza ondulatória da luz.

Espectro electromagnético O olho humano A máquina fotográfica, o microscópio óptico, o projector e o telescópio são exemplos de instrumentos ópticos que utilizam sistemas mais ou menos complexos de lentes ou espelhos. O olho humano é também um instrumento óptico. O olho tem lentes que produzem uma imagem real e invertida dos ojectos, a qual é depois transmitida ao cérebro. A Fig. 29.1 mostra esquematicamente o olho humano. O globo ocular, de forma aproximadamente esférica e coberto por uma camada branca, tem vários meios transparentes: a córnea (meio mais exterior do olho), o humor aquoso (entre o cristalino e a córnea), o cristalino (lente convergente) e o humor vítreo (entre o cristalino e a retina).

Figura 29.1

A córnea e o humor aquoso constituem uma lente convergente que foca a luz para o interior do olho. O cristalino, outra lente convergente, permite que se forme na retina uma imagem real, invertida e menor do que o objecto. A elasticidade do cristalino permite alterar a sua forma tornando-a uma lente mais convergente ou menos convergente. São os chamados músculos ciliares que são responsáveis por esta acomodação do cristalino a qual é imprescindível: as distâncias dos objectos ao olho são variáveis mas a imagem tem de se formar sempre na retina! A retina é uma ramificação do nervo óptico através do qual a informação chega ao cérebro. Na parte anterior do olho, a íris é um músculo que, tal como o diafragma de uma máquina fotográfica, regula a maior ou menor quantidade de luz que entra no olho. A íris é capaz de alterar as dimensões do orifício de entrada da luz, a pupila. A íris controla, portanto, o tamanho da pupila, tornando-a variável: numa sala escura, o tamanho da pupila aumenta pois há pouca luz, enquanto num dia de muito sol diminui. Os nossos olhos formam imagens de objectos mais ou menos distantes devido à acomodação do cristalino. Quando os objectos estão distantes, a imagem formada corresponde a ausência de esforço do cristalino, ou seja, os músculos ciliares não estão tensos. A distância máxima a que conseguimos ver com nitidez um objecto chama-se ponto remoto do olho. Normalmente este ponto está muito afastado do olho e, por isso, 1

29. mas vêem bem os objectos mais próximos. etc. A associação da lente convergente com o sistema óptico do olho. o defeito de visão é a hipermetropia. Nesta situação tem-se a máxima acomodação do cristalino (tensão máxima nos músculos ciliares). Figura 29. Como consequência. 29. Alguns problemas de visão e sua correcção Com a idade (a partir dos 40-50 anos) o ponto próximo vai ficando cada vez mais longe devido à perda de flexibilidade do cristalino. 2 . de vez em quando. Os óculos que o corrigem têm lentes que impedem os raios luminosos de convergir demasiado. escrever. presbitia ou presbiopia corrige-se com lentes convergentes. a imagem já se forma sobre a retina. não se formando a imagem sobre esta. Neste caso. aumenta a convergência do sistema da visão. Os casos mais simples (e mais vulgares) de astigmatismo são corrigidos com lentes cilíndricas. o cristalino é uma lente muito convergente. que resulta de uma curvatura irregular da córnea. conhecido por vista cansada. O ponto próximo para um olho normal é 25 cm. Um outro problema comum é o astigmatismo. Para que os raios luminosos convirjam mais perto do cristalino. o ponto remoto está a menor distância do que estaria num olho normal. para que todo o sistema de visão (lente e olho) seja menos convergente.) devemos olhar. A distância mínima a que ainda podemos ver um objecto com nitidez é o ponto próximo. Por isso. fazendo convergir demasiadamente os raios luminosos provenientes do ponto remoto. se os objectos estiverem mais próximos. Por isso. Por isso. Este defeito de visão é a miopia. para um lugar distante de modo a descontrair os músculos ciliares (costuma usar-se a expressão "repousar a vista"). Em certos olhos. No entanto. a imagem forma-se para cá da retina. o defeito visual é corrigido com lentes convergentes (bordos delgados) como se mostra no lado direito da Fig.2. Portanto. para que a imagem se forme sobre a retina. ou seja. Vejamos outros problemas de visão. um olho pode ter um cristalino com excessiva distância focal o que faz os raios luminosos convirjam para lá da retina.é boa aproximação considerar que o feixe de luz proveniente do ponto remoto é um feixe de raios paralelos. As pessoas com este problema vêem mal os objectos distantes (colocados no ponto remoto). que também é convergente. As pessoas que têm este problema vêem bem ao longe mas mal ao perto. lado esquerdo). Este problema. de modo a que a imagem se forme na retina (Fig. quando passamos muito tempo a olhar para objectos próximos (ler. os míopes usam lentes divergentes (lentes de bordos espessos).2 Ao contrário. a imagem é focada na retina apenas em certas direcções o que a torna difusa.2.

Actualmente. A luz detectada pelos nossos olhos e que nos permite ver é luz visível. em todas as direcções. Newton defendeu que as fontes luminosas emitiam pequenos corpúsculos.3). à primeira vista. e ambas coexistem! Contudo..Natureza ondulatória da luz e espectro electromagnético No século XVII. que entretanto foram descobertos. foi com base na teoria ondulatória que se conseguiram explicar outros fenómenos. Há muitas ondas de luz. Porém. só a Mecânica Quântica dá coerência a esta afirmação que parece. mais complicados. só é explicável em termos da teoria corpuscular. Esta teoria para a luz ficou conhecida por teoria corpuscular da luz. com um certo comprimento de onda visíveis ou invisíveis (Fig. tal como dissemos na 27ª aula. Mas. por exemplo. 29. as ondas de rádio ou os raios X também são ondas de luz. Sabemos das primeiras aulas que as ondas são a propagação de uma perturbação. há muitos fenómenos que podem ser estudados sem referir sequer a natureza da luz tal como se faz em óptica geométrica. que não são detectadas pelos olhos. 3 . a teoria ondulatória concordava melhor com a experiência. portanto. fenómenos como a interferência e a difracção só podem ser interpretados invocando os aspectos ondulatórios da luz.3 O espectro electromagnético é formado pelo conjunto de luzes monocromáticas.4).. a grandes velocidades. No caso das ondas electromagnéticas a perturbação é a oscilação de um campo eléctrico e de um campo magnético que lhe é perpendicular (Fig.. De facto. Embora a teoria de Newton tivesse sido aceite durante algum tempo.. Figura 29. Um físico contemporâneo de Newton. mas não as vemos. ondas electromagnéticas. No entanto. noutros fenómenos como partícula (a partícula de luz chama-se fotão). Por isso. pois interpretava os fenómenos ópticos conhecidos na altura. ou seja. O efeito fotoeléctrico. Assim surgiu a teoria ondulatória da luz. afirmar que a natureza da luz é dupla: ondulatória e corpuscular. o holandês Christian Huygens. ou seja. 29. defendeu que a luz também consistia em ondas. tal como as ondas sonoras ou as ondas da água. contraditória. a teoria ondulatória acabou por ganhar à teoria corpuscular. os físicos sabem que a luz se comporta por vezes como onda e. Podemos.

os raios X e os raios gama são também invisíveis e têm comprimentos de onda inferiores ao da luz violeta. Tal como as ondas de luz visível. Vejamos algumas características das várias radiações electromagnéticas não visíveis: Ondas de rádio: Como o próprio nome indica. sendo detectadas por radiotelescópios. Têm os maiores comprimentos de onda do espectro electromagnético. as ondas de rádio são utilizadas nas transmissões de rádio e televisão. também as ondas de luz não visível sofrem fenómenos de reflexão. as microondas e as ondas de rádio são ondas electromagnéticas invisíveis com comprimentos de onda superiores ao da luz vermelha.4 Analisando o espectro electromagnético.luz de cor violeta – a 700 nanometros – luz de cor vermelha (1 nm = 1 ×10−9 m). ν: λν = c . 4 . Os raios infravermelhos.Figura 29. Pelo contrário. λ. os raios ultravioletas. e frequência. refracção e absorção. com comprimentos de onda que vão de 400 nanometros . com c a velocidade da luz). Logo têm baixas frequências (recordamos da 2ª aula a relação entre comprimento de onda. Na Terra são produzidas por circuitos eléctricos mas também provêm de estrelas e galáxias. vemos que a luz visível é apenas uma pequena parte do espectro.

A utilização mais vulgar é. A energia transportada por estas ondas. nos fornos de microondas. Os raios infravermelhos. São emitidos abundantemente por corpos quentes. ou para conservar os alimentos quentes. Infravermelhos: A emissão de raios infravermelhos está associada à temperatura de um corpo. No entanto. Por terem a propriedade de impressionar determinadas películas fotográficas. não é conveniente tirar radiografias em excesso. que são reflectidas nas paredes do forno. na detecção de excesso de velocidade (por radar) e no estudo da superfície do planeta. aos sistemas de segurança anti-roubo. aumentando a agitação das moléculas de água no seu interior. São ainda usadas na transmissão por satélite. Os raios X são prejudiciais ao corpo humano e. Mas. As microondas são utilizadas na comunicação com veículos espaciais e em radioastronomia. quando controlada. são os maiores responsáveis pelo bronzeamento. A grande actividade química dos raios ultravioletas é aproveitada na esterilização de produtos. o corpo humano ou mesmo uma lâmpada (emite mais luz infravermelha do que luz visível). dado o grande poder de penetração dos raios X no corpo humano. Também são utilizados nos aeroportos para detectar objectos metálicos nas bagagens. A emissão de raios infravermelhos é aproveitada de maneira muito diferente. sendo por isso muito perigosas. Penetram bastante no corpo humano. a exposição solar é muito útil na formação da vitamina D. 5 . são utilizados no tratamento de doenças como o reumatismo. através de fotografia (imagens de radar). O consequente aumento da temperatura permite a cozedura dos alimentos. e detectados em satélites e balões. por isso. São emitidas por materiais radioactivos. pelo facto de aquecerem os corpos sobre os quais incidem. Raios gama: Os raios gama são as ondas electromagnéticas de maior frequência. cuja deficiência no organismo pode provocar raquitismo. a exposição solar em excesso pode levar ao aumento do número de cancros da pele. São também produzidos pelo homem. Estas ondas são utilizadas no tratamento de certos cancros. permitindo-nos ver imagens na televisão vindas de outros continentes. São ainda utilizados nos comandos das portas automáticas e nos controlos remotos da televisão. as zonas escuras correspondem às partes do corpo que não absorveram os raios X. O ozono (de fórmula química O3) existente na atmosfera absorve grande parte destas ondas. e à detecção de mísseis por satélites. que os utiliza para fazer radiografias. Ultravioletas: Os ultravioletas são emitidos pelas estrelas. com o alargamento do chamado “buraco do ozono”. incluindo o Sol. é cedida aos alimentos. permitem fotografar no escuro. as mais energéticas e as mais penetrantes. como aquecedores eléctricos. e por lâmpadas de mercúrio. desde a detecção de tumores no cérebro ou do cancro da mama. porém. Numa radiografia.Microondas: O espaço está cheio de microondas que resultaram do processo de formação de átomos algumas centenas de milhares de anos depois do “Big-Bang”. por isso. Têm grande actividade química e. Raios X: Os raios X são emitidos pelas estrelas. incluindo o Sol.

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