Nosso Lar

(OBRA MEDIÚNICA) I

Série André Luiz
I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI Nosso Lar Os Mensageiros Missionários da Luz Obreiros da Vida Eterna No Mundo Maior Agenda Cristã Libertação Entre a Terra e o Céu Nos Domínios da Mediunidade Ação e Reação Evolução em Dois Mundos Mecanismos da Mediunidade Conduta Espírita Sexo e Destino Desobsessão E a Vida Continua...

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

Nosso Lar
Quando o servidor está pronto, o serviço aparece.

DITADO PELO ESPÍRITO

ANDRÉ LUIZ

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil

ISBN 85-7328-023-9 45ª edição

Do 1.101º ao 1.125º milheiro
Capa de CECCONI B.N. 6.802 864-AA;000.25-O;2/1996

Copyright 1944 by FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA (Casa-Máter do Espiritismo) SGAN 603 - Conjunto F 78830-030 - Brasília - DF - Brasil Composição, fotolitos e impressão offset das Oficinas do Departamento Editorial e Gráfico da FEB Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio, RJ - Brasil C.G.C nº 33.644.857/0002-84 I.E. nº 81.600.503 Impresso no Brasil PRESITA EN BRAZILO
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ÍNDICE

Novo Amigo Mensagem de André Luiz
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Nas zonas inferiores Clarêncio A oração coletiva O médico espiritual Recebendo assistência Precioso aviso Explicações de Lísias Organização de serviços Problema de alimentação No bosque das águas Notícias do plano O Umbral No gabinete do ministro Elucidações de Clarêncio A visita materna Confidências Em casa de Lísias Amor, alimento das almas A jovem desencarnada Noções de lar

9 13 17 21 26 31 36 41 45 50 54 59 64 69 74 80 85 90 95 100 105 110

8 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 - Continuando a palestra O bônus-hora Saber ouvir O impressionante apelo Generoso alvitre Novas perspectivas O trabalho. enfim Em serviço A visão de Francisco Herança e eutanásia Vampiro Notícias de Veneranda Curiosas observações Com os recém-chegados do Umbral Encontro singular O sonho A preleção da ministra O caso Tobias Ouvindo a senhora Laura Quem semeia colherá Convocados à luta A palavra do Governador Em conversação As trevas No campo da música Sacrifício de mulher A volta de Laura Culto familiar Regressando à casa Cidadão de "Nosso Lar" 115 120 126 131 136 141 146 152 157 162 168 175 180 185 190 195 200 207 214 219 225 231 237 242 247 253 259 264 270 276 .

em geral. É por isso que não podemos apresentar o médico terrestre e autor humano. Para redimirmos o passado escabroso. exaltando-lhes o mérito e comentando-lhes a personalidade.9 Novo amigo Os prefácios. Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo. mas sim o novo amigo e irmão na eternidade. nem perturbar a lavoura verde. a situação é diferente. Os que colhem as espigas maduras. não devem ofender os que plantam a distância. porém. inclusive a do próprio nome. cerrar a cortina sobre si mesmo. igualmente. Embalde os companheiros encarnados procurariam o médico André Luiz nos catálogos da convenção. necessitou despojar-se de todas as convenções. para não ferir corações amados. o anonimato é filho do legítimo entendimento e do verdadeiro amor. André precisou. Por vezes. Aqui. . envolvidos ainda nos velhos mantos da ilusão. Funciona o esquecimento temporário como bênção da Divina Misericórdia. apresentam autores. ainda em flor. modificam-se tabelas da nomenclatura usual na reencarnação.

Não comentaríamos. por mais respeitável que seja. no plano físico. envergando a roupagem . Não basta investigar fenômenos.. além-túmulo. Quem não sorriria. experiências. quando se lhe falasse da aviação. aderir verbalmente. melhorar a estatística. entretanto. embora intimamente ligadas ao planeta. Milhares de criaturas interessam-se pelos seus trabalhos. O homem terrestre não é um deserdado. Nesse campo imenso de novidades.. da radiofonia? A surpresa. O inabitual. É filho de Deus. tão-somente ao objetivo essencial do trabalho. não deve o homem descurar de si mesmo. É indispensável cogitar do conhecimento de nossos infinitos potenciais. Certamente que numerosos amigos sorrirão ao contacto de determinadas passagens das narrativas. é justíssimo. todavia. em trabalho construtivo. qualquer impressão alheia. Todo leitor precisa analisar o que lê. com todos os detalhes possíveis à legítima compreensão da ordem que preside o esforço dos desencarnados laboriosos e bem-intencionados. Entretanto. de há muito desejamos trazer ao nosso círculo espiritual alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiência própria. causa surpresa em todos os tempos. modalidades. nas esferas invisíveis ao olhar humano. doutrinar consciências alheias. É mais que natural. Reportamo-nos. na Terra. da eletricidade. por nossa vez. O Espiritismo ganha expressão numérica. pois.10 Reconhecemos que este livro não é único. aplicando-os. Outras entidades já comentaram as condições da vida. fazer proselitismo e conquistar favores da opinião. a perplexidade e a dúvida são de todos os aprendizes que ainda não passaram pela lição. desse modo. nos serviços do bem. anos atrás.

mas.11 da carne. no lugar que ocupa pela vontade do Senhor. que ninguém. Ela diz bem alto que não basta à criatura apegar-se à existência humana. devem dirigir-se verdadeiramente ao Cristo. vem lembrar que a Terra é oficina sagrada. todavia. do ESPIRITISMO e do ESPIRITUALISMO. André Luiz vem contar a você. o seu livro. e que ninguém a menosprezará. de ESPIRITUALIDADE. . onde precisa aprender a elevar-se. que os passos do cristão. a sua ferramenta. em verdade. estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal. leitor amigo. se descuide das necessidades próprias. 3 de outubro de 1943. EMMANUEL Pedro Leopoldo. sem conhecer o preço do terrível engano a que submeteu o próprio coração. onde edificamos o céu. em função restauradora do Cristianismo puro. A luta humana é a sua oportunidade. Guarde a experiência dele no livro dalma. aluno de escola benemérita. que a maior surpresa da morte carnal é a de nos colocar face a face com própria consciência. em nosso campo doutrinário. O intercâmbio com o invisível é um movimento sagrado. precisamos. em qualquer escola religiosa. muito mais. mas precisa saber aproveitá-la dignamente. e que.

a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas. Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamente simples. conhecer-vos detalhe a detalhe. antes de tentar a suprema equação da Vida Eterna! É indispensável viver o vosso drama. O grande rio tem seu trajeto. antes do mar imenso. misteriosos caminhos do coração! É mister percorrer-vos. avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade. também recebe afluentes de conhecimentos. Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixar do pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito. Oh! caminhos das almas. Copiando-lhe a expressão. como a troca de vestidos nada tem que ver com as soluções profundas do destino e do ser. . antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria. Permutar a roupagem física não decide o problema fundamental da iluminação. no longo processo do aperfeiçoamento espiritual!.. A vida é fonte eterna e a morte é jogo escuro das ilusões. aqui e ali..13 Mensagem de André Luiz A vida não cessa.

uma aquisição. Forneceremos. Um triunfo . Um século . quantos serviços. Uma morte . na companhia do Mestre. Aliás. Que os vasos se fortaleçam. em primeiro lugar. Quantas existências. ingresso que se verifica. não nos interessaria. portanto. junto vós outros. Grato. de estranha maneira . quantas mortes necessitamos ainda? E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais e posições definitivas! Ai! por toda parte. quantos séculos. Um serviço . algumas ligeiras notícias ao espírito sequioso dos nossos irmãos na . Muito longa. Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma idéia dessa verdade fundamental. quantos triunfos. Não atormentaremos alguém com a idéia da eternidade. quase sempre.um sopro renovador. os cultos em doutrina e os analfabetos do espírito! É preciso muito esforço do homem para ingressar na academia do Evangelho do Cristo.uma veste. somente.uma experiência. nossa jornada laboriosa. quantos corpos. que não podem conter ainda toda a verdade.14 Uma existência é um ato. A existência humana apresenta grande maioria de vasos frágeis.ele só. recebendo lições sem cátedras visíveis e ouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas. com os seus valores coletivos. senão a experiência profunda. pois. Um corpo .um dia. meus amigos! Manifestamo-nos. agora. no anonimato que obedece à caridade fraternal. efetuando o curso difícil.

ANDRÉ LUIZ . Crede que guardarei semelhantes valores comigo. no santuário do coração. e que compreendem conosco que "o espírito sopra onde quer". E.15 senda de realização espiritual. Atração e reconhecimento. Que o Senhor nos abençoe. amigos. amor e júbilo moram na alma. a vosso respeito. que meus agradecimentos se calem no papel. recolhendo-se ao grande silêncio da simpatia e da gratidão. agora.

A paisagem. que os meus. na verdade. Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietude ambiente. Sentia-me. de quando em quando. medo terrível senhoreando-me. Formas diabólicas. rostos alvares.17 1 NAS ZONAS INFERIORES Eu guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo. meus pulmões respiravam a longos haustos. no entanto. Desde quando me tornara joguete de forças irresistíveis? Impossível esclarecer. lamentos mais comovedores. Algum companheiro desconhecido estaria. Cabelos eriçados. A noção de espaço esvaíra-se-me de há muito. agravando-me o assombro. como que amortalhada . prisioneiro da loucura. respondiam-me aos clamores. Estava convicto de não mais pertencer ao número dos encarnados no mundo e. implorei piedade e clamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito. coração aos saltos. quando o silêncio implacável não me absorvia a voz estentórica. mas. parecia banhada de luz alvacenta. amargurado duende nas grades escuras do horror. quando não totalmente escura. muita vez gritei como louco. expressões animalescas surgiam. a meu ver.

Pensamentos angustiosos atritavam-me o cérebro. conhecia as letras do Velho Testamento e muita vez folheara o Evangelho. agora. Em momento algum. Interrompia-se. Verificava que alguma coisa permanece acima de toda cogitação meramente intelectual. bruscamente. os filhos? Perdera toda a noção de rumo. que os raios de Sol aquecessem de muito longe. a esposa. Reconhecia. em pleno sepulcro! Atormentava-me a consciência: preferiria a ausência total da razão. a esfera diferente a erguer-se da poalha do mundo e. a caminho de gloriosa destinação. Identificavaas . a meu ver. Com que fim? Quem o poderia dizer? Apenas sabia que fugia sempre. manifestação divina ao homem.. todavia. De fato. entretanto. as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto e apenas. contudo. Semelhante análise surgia. incidentes numerosos impeliam-me a considerações estonteantes. Esse algo é a fé. a sensação de alívio. o não-ser. era tarde. Seres monstruosos acordavam-me. E a estranha viagem prosseguia. Mal delineava projetos de solução. logo que me desprendera dos últimos laços físicos. felicitava-me a bênção do sono. Onde o lar. tardiamente.. De início. o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos. porém. figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana. valioso patrimônio nos planos da Terra. O medo me impelia de roldão. políticos e científicos. O receio do ignoto e o pavor da treva absorviamme todas as faculdades de raciocínio.. era imprescindível fugir deles. mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gerações transitórias e sim de Espíritos eternos. Significavam. em minutos raros. irônicos. era forçoso reconhecer que nunca procurara as letras sagradas com a luz do coração.18 NOSSO LAR em neblina espessa. Os princípios puramente filosóficos..

como a flor de estufa. ou em pleno desacordo com as verdades essenciais. absorvera-me. compartilhara os vícios da mocidade do meu tempo. organizara o lar. com a silenciosa acusação da consciência. que aí despertasse à maneira de aleijado que. Deliciara-me com os júbilos da família. examinando atentamente a mim mesmo. conseguira filhos. A existência terrestre. no desejo incontido de bem estar. Filho de pais talvez excessivamente generosos. mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme. algo me fazia experimentar a noção de tempo perdido. Noutras ocasiões. mas. restituído ao rio infinito da eternidade. Era justo. esquecido de estender essa benção divina à imensa família humana. interpretava-as com o sacerdócio organizado. onde estacionara voluntariamente. esposa e filhos que prendera. Não adestrara órgãos para a vida nova. conquistara meus títulos universitários sem maior sacrifício. no meu próprio conceito. A filosofia do imediatismo. colhera as bênçãos da vida.19 NOSSO LAR através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimento e à consciência. que a morte transformara. surdo a comezinhos deveres de fraternidade. Em verdade. porém. Não desenvolvera os germes divinos que o Senhor da Vida colocara em minhalma. Habitara a Terra. não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum. perseguira situações estáveis que garantissem a tranqüilidade econômica do meu grupo familiar. criminosamente. Enfim. ferozmente. nas teias rijas do egoísmo destruidor. não suportava agora o clima das realidades eternas. cuja generosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei. não pudesse . pois. Sufocara-os. sem sair jamais do círculo de contradições. não fora um criminoso. Possuíra um lar que fechei a todos os que palmilhavam o deserto da angústia. Tivera pais. gozara-lhe os bens.

Buscai a verdade. exausto em pleno deserto. ou como mendigo infeliz. perambula à mercê de impetuosos tufões. Oh! amigos da Terra! quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração? Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra.20 NOSSO LAR acompanhar senão compulsoriamente a carreira incessante das águas. Suai agora para não chorardes depois. . antes que a verdade vos surpreenda. que.

Crescera-me a barba. a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência. Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos. quando meu desespero atingia o auge. mobilizando extremas energias. Em vão.21 2 CLARÊNCIO "Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!" . Irritavam-me. escorregadios na treva espessa e. esmurrava o ar nos paroxismos da cólera. a sede me escaldava. A circunstância mais dolorosa. atacava-os. porém. aqueles la- . Onde os sicários de coração empedernido? Por vezes. cercavam-me de todos os lados. Para quem apelar? Torturava-me a fome. Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam-se-me aos olhos. na região desconhecida. no entanto. esquadrinhar razões e estabelecer novas diretrizes ao pensamento. enxergava-os de relance. enquanto os vultos negros desapareciam na sombra.gritos assim. mas aquelas vozes. Desejava ponderar maduramente a situação. não é o terrível abandono a que me sentia votado. aniquilavam-me a possibilidade de concatenar idéias. mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros.

extravasando do coração. a família e o doce convívio dos meus? O homem mais forte conhecerá limites à resistência emocional. . no terror da eterna separação. lembrava a assistência desvelada que tivera. Depois.. perturbavam-me o coração. mas. Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos. sim. enunciados na Casa de Saúde. semelhavam-se a pequenas bolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens. não eram procedentes. Infeliz. Meus conhecimentos. comecei por entregar-me a longos períodos de desânimo.nunca! Essas increpações. não poderia alterar. incessantemente repetidas. a última cena que precedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhos contemplando-me. o despertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada que parecia sem-fim. e. o pique desagradável da agulha de injeções e. Entretanto. no curso dessas reminiscências. Perguntan- . por ignorar o próprio fim. ante o infinito. longe de prosseguir na fortaleza moral. a meu ver. desnorteavam-me irremediavelmente. A quem recorrer? Por maior que fosse a cultura intelectual trazida do mundo. Recordava meu porfiado duelo com a morte. infeliz! Aonde vais.Que buscas. Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe. Firme e resoluto a princípio. senti que as lágrimas longamente represadas visitavam-me com mais freqüência. a situação não modificava a outra realidade do meu ser essencial. por fim.. o contacto do termômetro. os curativos dolorosos que experimentara nos dias longos que se seguiram à delicada operação dos intestinos. agora. suicida? Tais objurgatórias. Por que a pecha de suicídio. a realidade da vida.22 NOSSO LAR mentos misturados de acusações nominais. quando fora compelido a abandonar a casa. Sentia. suicida? . Eu havia deixado o corpo físico a contragosto.

experimentava agora a necessidade de conforto místico. nada obstante. impunha-se-me atitude renovadora. em tão amargurosa emergência. Eu. deparavam-se-me verduras que me pareciam agrestes. que detestara as religiões no mundo. Quanto tempo durou a rogativa? Quantas horas consagrei à súplica. enquanto mo permitiam as forças irresistíveis. era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos. E.23 NOSSO LAR do a mim mesmo se não enlouquecera. e. em torno de humildes filetes dágua a que me atirava sequioso. quando me senti absolutamente colado ao lodo da Terra. a impelirem-me para a frente. quando as energias me faltaram de todo. esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo. fosse onde fosse. Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida. completamente esque- . Devorava as folhas desconhecidas. que todos os meus sentimentos se concentraram na prece dolorosa. Tornava-se imprescindível confessar a falência do amorpróprio. recordei o antigo pão de cada dia. vertendo copioso pranto. de mãos-postas. sem forças para reerguer-me. Não raro. que passavam em bando. De quando em quando. imitando a criança aflita? Apenas sei que a chuva das lágrimas me lavou o rosto. sem modificação. Muita vez suguei a lama da estrada. Castigava-me a fome todas as fibras. pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais. colava os lábios à nascente turva. quais feras insaciáveis. Estaria. então. a que me consagrara orgulhoso. Essa idéia confortou-me. o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão. encontrava a consciência vigilante. Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha geração. com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material. Persistiam as necessidades fisiológicas. Eram quadros de estarrecer! acentuava-se o desalento.

E. Foi nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu. Alvo lençol foi estendido ali mesmo. para tomar com eficácia o sublime elixir de esperança. percebendo o meu esgotamento. sou apenas teu irmão. chamou dois companheiros que guardavam atitude de servos desvelados e ordenou: . comentar a consolação que me chegava. Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. é necessário haver conhecido o remorso. pude apenas inquirir: . meu filho! O Senhor não te desampara. para entender todas as misteriosas belezas da oração. fixou nos meus os grandes olhos lúcidos. acrescentou: . embora não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quando engolfado nas vaidades da experiência humana? Por que não me perdoaria o Eterno Pai. Amargurado pranto banhava-me a alma toda. . Emocionado. mas. generoso emissário de Deus? O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu: . a extrema desventura. bondoso. emissário dos Céus. É preciso descansar para reaver energias. permanece calmo e silencioso. a humilhação. à guisa de maca improvisada. igualmente. generosamente. quis traduzir meu júbilo. reunindo todas as forças que me restavam. a flor tenra dos campos agrestes? Ah! é preciso haver sofrido muito.24 NOSSO LAR cido? Não era.Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência. filho de Deus.Quem sois. aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me. e falou: .Chama-me Clarêncio.Coragem. quando providenciava ninho às aves inconscientes e protegia. Em seguida. Inclinou--se.Agora.

Vamos sem demora. Preciso atingir "Nosso Lar" com a presteza possível. cuidadosos.25 NOSSO LAR Quando me alçavam. Clarêncio meditou um instante e esclareceu. como quem recorda inadiável obrigação: . .

conseguia identificar preciosas construções. cobertos de trepadeiras floridas e graciosas. lobriguei o quadro confortante que se desdobrava à minha vista. que se apoiava num cajado de substância luminosa. Dois jovens.26 3 A ORAÇÃO COLETIVA Embora transportado à maneira de ferido comum. gracioso foco de luz dava a idéia de um pôr do sol em tardes primaveris. devagarinho. a maca improvisada. carinhoso: . acorreram pressurosos ao chamado de meu benfeitor. Tateando um ponto da muralha. à feição de grande hospital terreno. fez-se longa abertura. Ao longe. Branda claridade inundava ali todas as coisas. silenciosos. A meus olhos surgiu. situadas em extensos jardins. A medida que avançávamos. os condutores depuseram. e quando me acomodavam num leito de emergência. detevese à frente de grande porta encravada em altos muros. envergando túnicas de níveo linho. a porta acolhedora de alvo edifício. para me conduzirem cuidadosamente ao interior. então. Clarêncio. Ao sinal de Clarêncio. através da qual penetramos. ouvi o generoso ancião recomendar.

A estrela que o Senhor acendeu para os nossos trabalhos terrestres é mais preciosa e bela do que a supomos quando no círculo carnal. meditando na imensurável bondade dAquele que no-lo concede para o caminho eterno da vida.Amigos. que nunca fixara o Sol. então. Aqui. Aquela reduzida porção de liquido reanimava-me inesperadamente. ricamente mobilado. Nosso Sol é a divina matriz da vida. esta luz confortadora e brilhante? Um deles afagou-me a fronte. e perdi-me no curso de profundas cogitações. seguido de água muito fresca. através das janelas. nossa percepção visual é muito mais rica. neste momento. Recordei. ao mesmo tempo que era conduzido a confortável aposento de amplas proporções. nos dias terrestres. e o Sol que nos ilumina. onde me ofereceram leito acolhedor. esforcei-me por lhes dirigir a palavra. que me pareceu portadora de fluidos divinos. entretanto. por quem sois. Amanhã cedo voltarei a vê-lo. agora..Guardem nosso tutelado no pavilhão da direita. e a claridade que irradia provém do Autor da Criação. serviram-me caldo reconfortante. Semelhava-me assim ao cego venturoso.27 NOSSO LAR . conseguindo dizer por fim: . Esperam agora por mim. Enderecei-lhe um olhar de gratidão. como se fora conhecido pessoal de longo tempo e acentuou: . A essa altura. depois de longos séculos de escuridão. Não saberia di- .Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra. que abre os olhos para a Natureza sublime.. explicai-me em que novo mundo me encontro. Meu ego. Envolvendo os dois enfermeiros na vibração do meu reconhecimento. é o mesmo que nos vivificava o corpo físico. como que absorvido em onda de infinito respeito. De que estrela me vem. fixou a luz branda que invadia o quarto.

despediu-se. que permanecia ao lado.. ao passo que mal . gentil -. se alimentação sedativa. que vinham do teto à base.28 NOSSO LAR zer que espécie de sopa era aquela.esclareceu. Da abóbada cheia de claridade brilhante. Novas energias amparavam-me a alma. . cheguei a enorme salão. Aquela melodia renovava-me as energias profundas. esclareceu. reservava-se para instantes depois.Não poderei acompanhar-vos? . Em todos os núcleos desta colônia de trabalho. fique em paz.Agora. há ligação direta com as preces da Governadoria. profundas comoções vibravam-me no espírito. suplicante. E enquanto a música embalsamava o ambiente. caso sinta-se disposto. Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia. se remédio salutar. todavia.perguntei. formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior. Voltarei logo após a oração. . todavia. onde numerosa assembléia meditava em silêncio. profundamente recolhida. parecendo suave colmeia de sons a caminho das esferas superiores. o enfermeiro. pendiam delicadas e flóreas guirlandas. consagrada ao Cristo. Ante meu olhar indagador. bondoso: É chegado o crepúsculo em "Nosso Lar". atencioso: . divina melodia penetrou quarto a dentro. Empolgou-me ansiedade súbita. Minha maior emoção. Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração. Mal não saíra da consoladora surpresa..Está ainda fraco . Seguindo vacilante. Ninguém parecia dar conta da minha presença.

A fisionomia de Clarêncio. pareciam aguardar alguma coisa. e. Louvemos o Coração Invisível do Céu. repleto de indefinível beleza. com estrias douradas. as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino. Todos os circunstantes. surgiu o cenário de templo maravilhoso. um coração maravilhosamente azul (1). Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente. Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e. de sublimado reconhecimento. esclareceu em voz baixa. desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica. Cariciosa __________ (1) . através da audição e visão a distância.) . (Nota do Autor espiritual. setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitoso silêncio. O cântico celeste constituía-se de notas angelicais. Apertei o braço do enfermeiro amigo. notei que ao fundo. Obedecendo a processos adiantados de televisão. quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato. Todas as residências e instituições de "Nosso Lar" estão orando com o Governador. reparei Clarêncio participando da assembléia. em tela gigantesca. atentos. em atitude de prece. envergando alva túnica de irradiações resplandecentes. figurou-se-me tocada de mais intensa luz. um ancião coroado de luz fixava o Alto.Imagem simbólica formada pelas vibrações mentais dos habitantes da colônia. Altamente surpreendido. Sentado em lugar de destaque. desenhou-se ao longe.Conserve-se tranqüilo.29 NOSSO LAR dissimulava eu a surpresa inexcedível. Em plano inferior. entre os que cercavam o velhinho refulgente. Mal terminara a explicação. no círculo dos veneráveis companheiros. compreendendo ele que minhas perguntas não se fariam esperar. que mais se assemelhava a leve sopro: . em plano elevado.

30 NOSSO LAR música. saudoso e atormentado. por minha vez. à maneira de cálice muito tempo vazio. ao tocar-nos a fronte. A primeira prece coletiva. As corolas minúsculas desfaziam-se de leve. singular renovação de energias ao contacto das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração. em "Nosso Lar". regressei ao aposento de enfermo. amparado pelo amigo que me atendia de perto. Conforto inesperado envolvia-me a alma. procedente talvez de esferas distantes. se fixávamos os miosótis celestiais. Entretanto. enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança. mas. respondia aos louvores. em seguida. Pela primeira vez. . não conseguíamos detê-los nas mãos. operara em mim completa transformação. Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós. experimentando eu. Terminada a sublime oração. não era mais o doente grave de horas antes. depois de anos consecutivos de sofrimento. o pobre coração.

Sentia-me outro. gozar o espetáculo da Natureza cheia de brisas e de luz. prestando informações. Acorreu o enfermeiro. atenciosos. mas tão grande era a sensação de alívio que eu sossegava o espírito. sem a cooperação magnética do enfermeiro. Cumprimentaram-me. Energias novas tocavam-me o íntimo. qual suave mensagem ao coração. tornava-se-me impossível deixar o leito.31 4 O MÉDICO ESPIRITUAL No dia imediato. desejando-me paz. Meu benfeitor da véspera indagou do meu estado geral. Tinha a impressão de sorver a alegria da vida. apenas um ponto sombrio . experimentei a bênção radiosa do Sol amigo. inundando o recinto de cariciosa luz. Claridade reconfortante atravessava ampla janela. Numerosas interrogações pairavam-me na mente.a saudade do lar. quando se abriu a porta e vi entrar Clarêncio acompanhado por simpático desconhecido. . Quis levantar-me. após reparador e profundo repouso. a longos haustos. mas não o consegui e concluí que. Não voltara a mim das surpresas consecutivas. longe de qualquer interpelação. o apego à família que ficara distante. Na alma.

mas a oclusão radicava-se em causas profundas. Nun- .É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio.esclareceu o médico. Talvez o amigo não tenha ponderado bastante.32 NOSSO LAR Sorridente. sorriu e explicou: . indicava determinados pontos do meu corpo: . Trajado de branco. de algumas leviandades do meu estimado irmão. na Casa de Saúde. Tratavase. muita vez exasperado e sombrio. meu regresso do mundo não teve essa causa.Sim . Enquanto Clarêncio permanecia sereno. Não obstante o cabedal de gratidão que começava a acumular. . no campo da sífilis.asseverei. Entretanto. tentando vencer a morte. Sofri duas operações graves. . A moléstia talvez não assumisse características tão graves. disse. . Henrique auscultou-me demoradamente.Vejamos a zona intestinal . seu modo especial de conviver. demonstrando a mesma serenidade superior -. Lutei mais de quarenta dias. do Serviço de Assistência Médica da colônia espiritual. atencioso. O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo. do irmão Henrique de Luna. e estes. E inclinando-se.exclamou. traços fisionômicos irradiando enorme simpatia. devido a oclusão intestinal.. por sua vez. o velhinho amigo apresentou-me o companheiro.A oclusão derivava de elementos cancerosos.. senti que singular assomo de revolta me borbulhava no íntimo. captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam. Suicídio? Recordei as acusações dos seres perversos das sombras. não calei a incriminação. melindrado -. se o seu procedimento mental no planeta estivesse enquadrado nos princípios da fraternidade e da temperança.Creio haja engano .

não poderia supor. até ali. segundo os desígnios do Senhor. os erros humanos. Todo acontecimento insignificante. esclarecendo: . iludiu excelentes oportunidades. em que me examinava atentamente. aparentemente sem importância. Parecendo desconhecer a angústia que me oprimia. que me seriam pedidas contas de episódios simples.33 NOSSO LAR ca imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós mesmos? A ausência de autodomínio. conseguia ajustar numerosas máscaras ao rosto.Os órgãos do corpo somático possuem incalculáveis reservas. conduziam-no freqüentemente à esfera dos seres doentes e inferiores. Conceituara. continuava o médico. estranho aos códigos. refletindo nas oportunidades perdidas. o seu estado físico. que lhe foi confiada pelos Maiores da Espiritualidade Superior. A longa tarefa. que os rins foram esquecidos. a inadvertência no trato com os semelhantes. Meditei nos problemas dos caminhos humanos. de muito.Já observou. entraria na . Tal circunstância agravou. segundo os preceitos da criminologia. continuou: . foi reduzida a meras tentativas de trabalho que não se consumou. O meu amigo. aos quais muitas vezes ofendeu sem refletir. Todo o aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas. Na vida humana. talhando-as conforme as situações. Aliás. esperdiçado patrimônios preciosos da experiência física. que costumava considerar como fatos sem maior significação. o suicídio é incontestável. com terrível menosprezo às dádivas sagradas? Singular desapontamento invadira-me o coração. que seu fígado foi maltratado pela sua própria ação. no entanto. noutro tempo. Como vê. meu amigo. Depois de longa pausa. Devoroulhe a sífilis energias essenciais.

Perante minha visão espiritual só existia. porém. doía-me a vergonha. agora.34 NOSSO LAR relação de fenômenos naturais. nem me surpreendiam abismos infernais. Não me defrontavam tribunais de tortura. não passava de náufrago a quem se recolhia por caridade. Rosto entre as mãos. penetravam-me fundo o espírito. benfeitores sorridentes comentavam-me as fraquezas como quem cuida de uma criança desorientada. A falsa noção da dignidade pessoal cedia terreno à justiça. a calma fraternal do enfermeiro. qual menino contrariado e infeliz. no entanto. sentando-se no leito. Tuas lágrimas atingem seus corações. de tridente nas mãos. encontrasse forças para tornar a derrota menos amarga. visitado por figuras diabólicas a me torturarem. agora. Deparava-se-me. longe das vistas paternas. Não me dilacerava o desejo de reação. Busquei-te atendendo à intercessão dos que te amam. uma realidade torturante: era verdadeiramente um suicida. perdera o ensejo precioso da experiência humana. feria-me a vaidade de homem. mantendo-te tranqüilo no exame das próprias faltas? Na verdade. a meu lado. Não havia como discordar. não te lastimes tanto. afagou-me paternalmente os cabelos e falou comovido: . Aquele interesse espontâneo. Henrique de Luna falava com sobejas razões. Por fim. a inflexão de ternura do médico. Foi então que o generoso Clarêncio. reconheci a extensão de minhas leviandades de outros tempos. pus-me a soluçar com a dor que me parecia irremediável. Não desejas ser grato. Todavia. abafando os impulsos vaidosos. E chorei.Oh! meu filho. Talvez que. dos planos mais altos. nas mes- . outro sistema de verificação das faltas cometidas. contudo. mas é necessário reconhecer que centenas de criaturas se ausentam diariamente da Terra. a bondade exuberante de Clarêncio. tua posição é a do suicida inconsciente.

pois. Sossega a alma perturbada. Confia no Senhor e em nossa dedicação fraternal. porque muitos de nós outros já perambulamos igualmente nos teus caminhos. embora tardio.35 NOSSO LAR mas condições. guarda a bênção do remorso. Ante a generosidade que transbordava dessas palavras. . Acalma-te. sem esquecer que a aflição não resolve problemas. Aproveita os tesouros do arrependimento. mergulhei a cabeça em seu colo paternal e chorei longamente.

Meu diretor. endereçava-me ele sorriso acolhedor. acentuou: . Grande bolsa pendente da mão. ou providências que se refiram a enfermos recém-chegados. basta lembrar que apenas aqui. O amigo ingressou agora na colônia e. designou-me para servi-lo. . Notando-me a surpresa. enquanto precisar tratamento.É você o tutelado de Clarêncio? A pergunta vinha de um jovem de singular e doce expressão. . explicou: .36 5 RECEBENDO ASSISTÊNCIA . . o assistente Henrique de Luna. Nessa qualidade.É enfermeiro? .Sou Lísias. como quem conduzia apetrechos de assistência. seu irmão. naturalmente. Ao meu sinal afirmativo. mostrou-se à vontade e.Sou visitador dos serviços de saúde. Para fazer uma idéia.Nas minhas condições há numerosos servidores em "Nosso Lar". ignora a amplitude dos nossos trabalhos. não só coopero na enfermagem. como também assinalo necessidades de socorro. maneiras fraternas.indaguei.

os mutilados.repliquei . Reconhecendo o acanhamento da confissão reticenciosa.A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com vestígios muito exatos do câncer. prosseguiu: . apressou-se a consolar: . se conferirmos ao termo sua razoável acepção. interessado em utilizar o dom da locomoção fácil nos atos criminosos.. Lísias levantou-se da poltrona a que se recolhera e começou a auscultar-me. explicando que devo esses distúrbios a mim mesmo. a dos rins demonstra característicos de esgotamento prematuro.Sabe o irmão o que significa isso? . porque temos trabalho. e a ale- . Sorrindo. E talvez ignore que existem. quando não é recolhido absolutamente sem pernas? Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costumam chegar em extrema loucura? Identificando-me a perplexidade natural. . bondoso. Somos felizes. impedindo-me o agradecimento verbal. e note que este é um dos menores edifícios do nosso parque hospitalar.. que gastou os olhos no mal.Na turma de oitenta enfermos a que devo assistência diária. cinqüenta e sete se encontram nas suas condições. Adivinhando que minhas observações iam descambar para o elogio espontâneo. aqui comparece de órbitas vazias? Que o malfeitor. acrescentou: . . o médico esclareceu ontem.Tudo isso é maravilhoso! .Sim . existem mais de mil doentes espirituais. experimenta a desolação da paralisia. a região do fígado revela dilacerações.exclamei. Já pensou nisso? Sabe que o homem imprevidente. por aqui."Nosso Lar" não é estância de espíritos propriamente vitoriosos. atento.37 NOSSO LAR na seção em que se encontra.

Notando-me a admiração.As religiões.Continue. doentes e ignorantes. agrava-se o capricho de cada um. que a morte do corpo nos conduziria a planos de milagres? Somos compelidos a trabalho áspero.Recordemos o antigo ensinamento que se refere a muitos chamados e poucos escolhidos na Terra. a massa humana prefere aceder a outro gênero de convites. meu amigo. para retificar. Aproveitando a pausa mais longa. Incontável é o número dos chamados. acentuou: . interrogou: . E vagueando o olhar no horizonte longínquo. a serviços pesados e não basta isso. Se temos débitos no planeta. pode alegar ignorância nesse particular. Em sã consciência. Não será esta região um departamento celestial dos eleitos? Lísias sorriu e explicou: . é imprescindível voltar. um dia. porventura.38 NOSSO LAR gria habita cada recanto da colônia. elimina-se o corpo físico a golpes de irreflexão. por mais alto que ascendamos. lavando o rosto no suor do mundo. esclareça-me. constituídas de loucos. onde os que atendem ao chamado? Com raras exceções. no planeta.Acreditaria. ninguém que se tenha aproximado. convocam as criaturas ao banquete celestial. desatando algemas de ódio e . da noção de Deus. mas. meu amigo. como a fixar experiências de si mesmo no painel das recordações mais íntimas. Sinto-me aliviado e tranqüilo. Gasta-se a possibilidade nos desvios do bem. Resultado: milhares de criaturas retiram-se diariamente da esfera da carne em doloroso estado de incompreensão. porque o Senhor não nos retirou o pão abençoado do serviço. Multidões sem conto erram em todas as direções nos círculos imediatos à crosta planetária. exclamei sensibilizado: .

Não observa o tratamento especializado da zona cancerosa? Pois note bem: toda medicina honesta é serviço de amor. entretanto. No arrependimento verdadeiro é preciso saber falar. trabalhará muito e. a causa dos seus males persistirá em si mesmo. Acabrunhado com a lembrança dos próprios erros. sentir-se-á forte como nos tempos mais belos da sua juventude terrena. O Senhor não esquece homem algum.Caso dos muitos chamados.Como fui perverso! Contudo. que agregou ao seu corpo sutil pelo descuido moral e pelo desejo de gozar mais que os outros. atenciosamente. murmurando: . é também o campo bendito onde conseguimos realizar frutuo- . diante de tão grandes noções de responsabilidade individual. acrescentava: . para construir de novo. aplicou-me passes magnéticos. todavia.39 NOSSO LAR substituindo-as por laços sagrados de amor. Abanando a cabeça. até que se desfaça dos germes de perversão da saúde divina. Em seguida. mas o trabalho de cura é peculiar a cada espírito. onde abusamos. A carne terrestre. antes que me alongasse noutras exclamações. creio. com as próprias mãos.Cale-se! meditemos no trabalho a fazer. atividade de socorro justo. Meu irmão será tratado carinhosamente. meu caro. Não seria justo impor a outrem a tarefa de mondar o campo que semeamos de espinhos. Fazendo os curativos na zona intestinal. o visitador colocou a destra carinhosa em meus lábios. esclareceu: . raríssimos homens o recordam. será um dos melhores colaboradores em "Nosso Lar". objetei: .

afagou-me carinhosamente a fronte abatida e despediu-se com um ósculo de amor. na exaltação da sensibilidade.Quando as lágrimas não se originam da revolta. Sem elas. sempre constituem remédio depurador. Desabafe o coração. quando permanecemos atentos ao dever justo. ponderei a bondade divina e. E abençoemos aquelas beneméritas organizações microscópicas que são as células de carne na Terra. tão detestadas e tão sublimes pelo espírito de serviço. com serenidade. Meditei os conceitos. . Tão humildes e tão preciosas. terminou o tratamento do dia. Chore. quantos milênios gastaríamos na ignorância? Assim falando. e falou: . que nos oferecem templo à retificação. meu amigo. contudo.40 NOSSO LAR sos labores de cura radical. chorei copiosamente. Lísias.

perguntou. Obedecendo ao velho vicio.Não posso negar que esteja melhor. o carinho fraterno é mal interpretado. às vezes. Muitas dores na zona intestinal.. amolecendo as fibras emotivas.. demonstrando grande interesse pelas minhas lamentações.Como vai? Melhorzinho? Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra. após a oração do crepúsculo.. atencioso. meu amigo. Ah! como tem sido pesada a minha cruz!. Fisionomia a irradiar generosidade. estranhas sensações de angústia no coração. comecei a explicar-me. sofro intensamente. sem o menor gesto . abraçando-me: . creio que a dor me aniquilou todas as forças disponíveis. Clarêncio ouvia. No mundo. entretanto. Nunca supus fosse capaz de tamanha resistência. Agora que posso concatenar idéias.. enquanto os dois benfeitores se sentavam comodamente a meu lado: . Clarêncio me procurou em companhia do atencioso visitador.41 6 PRECIOSO AVISO No dia imediato.

deseja você. abafando escassas notas de alegria. de meus filhos? Teria o meu primogênito conseguido progredir. desenganos.Além do mais. a vida? Sucessivo desenrolar de misérias e lágrimas? Não haverá recurso à semeadura da paz? Por mais que deseje firmar-me no otimismo. levantou-se sereno e falou sem afetação: . se um dia eu lhe faltasse. segundo meu velho ideal? E as filhinhas? Minha desventurada Zélia muitas vezes afirmou que morreria de saudades. generoso benfeitor!. Admirável esposa! Ainda lhe sinto as lágrimas dos momentos derradeiros. Amainada a tormenta exterior com os socorros recebidos. martirizações no alémtúmulo! Que será. doenças. Que desventurado destino. continuou: .Meu amigo. contudo. o vendaval da queixa me conduzira o barco mental ao oceano largo das lágrimas. Encorajado com essa atitude. depois. vicissitudes. Onde estará minha pobre companheira? Chorando junto às cinzas do meu corpo..42 NOSSO LAR que denunciasse o propósito de intervir no assunto. sinto que a noção de infelicidade me bloqueia o espírito.. Continuadas dilacerações roubaramme a noção do tempo. os sofrimentos da morte do corpo. volto agora às tempestades íntimas. Não sei desde quando vivo o pesadelo da distância. Em seguida. incompreensões e amarguras. a cura espiritual? Ao meu gesto afirmativo. Clarêncio. ou nalgum recanto escuro das regiões da morte? Oh! minha dor é muito amarga! Que terrível destino o do homem penhorado no devotamento à família! Creio que raras criaturas terão padecido tanto quanto eu!.. como terrível cárcere do coração. então.. de fato. continuei: . meus sofrimentos morais são enormes e inexprimíveis. Chegado a essa altura.. Que terá sido feito de minha esposa.. No planeta.

considerando que a Providência desborda amor. Lamentação denota enfermidade mental e enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil. nesta colônia. então. assumi diversa atitude. o programa não é diferente.43 NOSSO LAR . oferecendo-lhe teto generoso. Estaremos a seu lado para resolver dificuldades presentes e estruturar projetos de futuro. nem comente a própria dor. Apenas di- . pelas expressões de conforto. mas não dispomos do tempo para voltar a zonas estéreis de lamentação. .prosseguiu Clarêncio. secara-se-me o pranto e. embora envergonhado da minha fraqueza. abrindo o coração ao Sol da Divindade. O mesmo Pai que vela por sua pessoa. decorrentes das boas situações? Não estimava a obtenção de recursos lícitos. na carne . Além disso. mas sem esquecer que nossas famílias são seções da Família universal. com possibilidades de atender à família? Aqui. É indispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios. bondoso -.Não disputava você. enxergar padecimentos onde há luta edificante. as vantagens naturais. aprenda a pensar com justeza. a não falar excessivamente de si mesmo. Devemos ter nosso agrupamento familiar como sagrada construção. mais duros se tornarão os laços que o prendem a lembranças mesquinhas. sói identificar indesejável cegueira dalma. Somente conseguiremos equilíbrio. sob a Direção Divina. o compromisso de aceitar o trabalho mais áspero como bênção de realização. temos. enquanto nós vivemos onerados de dívidas. Classificar o esforço necessário de imposição esmagadora. atenderá aos seus parentes terrestres. Quanto mais utilize o verbo por dilatar considerações dolorosas. chamado a brios pelo generoso instrutor. nesta casa.Aprenda. ansioso de estender benefícios aos entes amados? Não se interessava pelas remunerações justas. no círculo da personalidade. Nesse ínterim. Se deseja permanecer nesta casa de assistência.

recebem o serviço como patrimônio sagrado. Se ama. as fortes. meu benfeitor. para melhor compreender a Vontade Divina. Ninguém lhe condena a saudade justa. Nos círculos carnais. aqui. Dor. a caminho da perfeição.Vou bem melhor. tornou a perguntar com um belo sorriso: . a convenção e a garantia monetária. é preciso bom ânimo para lhe ser útil. Enquanto meditava a sabedoria da valiosa advertência. deitam-se para se queixarem aos que passam. . ante o serviço. como passa? Melhor? Contente por me sentir desculpado. confortado: . Acresce notar. o trabalho e as aquisições definitivas do espírito imortal. na movimentação do qual se preparam. qual o pai que esquece a leviandade dos filhos para recomeçar serenamente a lição. A palavra de Clarêncio levantara-me para elucubrações mais sadias. nem pretende estancar sua fonte de sentimentos sublimes. todavia.44 NOSSO LAR vergem os detalhes. que o pranto da desesperação não edifica o bem.Então. a luta constitui caminho para a divina realização. significa possibilidade de enriquecer a alma. Compreendeu a diferença? As almas débeis. a família terrena. à maneira da criança que deseja aprender. respondi. em verdade. para nós. Fez-se longa pausa. porém.

substâncias mais delicadas. porém. Nenhum sem flores à entrada. Forrava-se o solo de vegetação. sobretudo. contemplando os horizontes vastos. agora. o receio do desconhecido. Deleitava-me. Notava. a mágoa da inadaptação. Diminuíram as dores e os impedimentos de locomoção fácil. Desenhavam-se montes coroados de luz. que. alteavam-se graciosos edifícios. encontrava mais segurança dentro de mim. Impressionavam-me. Grandes árvores. debruçado às janelas espaçosas. À medida que procurava habituar-me aos deveres novos. exibindo formas diversas. Apesar de tudo. sensações de desafogo me aliviavam o coração. a recordações mais fortes dos fenômenos físicos. Quase tudo. os aspectos da Natureza. melhorada cópia da Terra. A pequena distância. destacando-se algumas casinhas . Alinhavam-se a espaços regulares. em continuidade à planície onde a colônia repousava. me voltavam a angústia. pomares fartos e jardins deliciosos. Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero. Cores mais harmônicas.45 7 EXPLICAÇÕES DE LÍSIAS Repetiram-se as visitas periódicas de Clarêncio e a atenção diária de Lísias.

Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e. não regateava explicações. noutro tempo. Das janelas largas. havia muitas semanas. pousavam agrupadas nas torres muito alvas. formas e coisas. curioso. . perdia-me em indagações de toda sorte.46 NOSSO LAR encantadoras. a se erguerem retilíneas. considerando a circunstância de me encontrar numa esfera propriamente espiritual. num parque de saúde. não fora eu a única pessoa do meu círculo a decifrar o enigma da sepultura. me haviam precedido. como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre. Lísias. permanecer ali. onde rosas diferentes desabrochavam. Preocupava-me. entre as árvores frondosas. cercadas por muros de hera. Nas minhas lutas introspectivas. obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa. então. rumo ao céu. aqui e ali. Extremamente surpreendido. Meus pais me haviam antecipado na grande jornada. Almas e sentimentos. A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas. Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do planeta. Todo processo evolutivo implica gradação. dizia. observava. lembrando lírios gigantescos. o movimento do parque. Há regiões múltiplas para os desencarnados. o companheiro amável de todos os dias. de quando em quando. adornando o verde de cambiantes variados. Afinal. Amigos vários. todavia. identificava animais domésticos. para conforto do meu coração dolorido? Bastariam alguns momentos de consolação. enfileiradas ao fundo. sem a visita sequer de um conhecido do mundo. não apareciam naquele quarto de enfermidade espiritual. Por que.

Meu pai. . Ignorava o número de anos que me distanciavam da gleba terrestre. entretanto. não pude conter-me e perguntei ao solícito visitador: .Como não? Pensa que está esquecido?!. duplicou-se o interesse maternal a seu respeito.No dia em que você orou com tanta alma . em "Nosso Lar".prosseguiu o enfermeiro visitador -.47 NOSSO LAR Um dia.. fez a grande viagem. seu pranto era diferente.Sim. com o nó de lágrimas represadas no coração. Quando se acamou para abandonar o casulo terrestre. o encontro com aqueles que nos antecederam na morte do corpo físico? . Rogou os bons ofícios de Clarêncio. é indispensável nos colocarmos .Pois note . desde a crise que antecipou sua vinda. até que o medico da Terra. Compreendeu? Eu tinha os olhos úmidos. Por que não me visitam? Na Terra. Desejei conhecer os processos de proteção imperceptível. igualmente. Minha mãe. Minhas cordas vocais estavam entorpecidas. acha possível. se afastasse um tanto. . três anos antes do meu trespasse. até agora não deu sinal de vida. Ela jamais desanimou. Não sabe que há chuvas que destroem e chuvas que criam? Lágrimas há também. aqui. É lógico que o Senhor não espera por nossas rogativas para nos amar.. Intercedeu. mas não consegui.Meu caro Lísias. sempre contei com a abnegação maternal.esclareceu Lísias -. . Talvez não saiba ainda que sua permanência nas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos. quando compreendeu que tudo no Universo pertence ao Pai Sublime. sua mãe o tem ajudado dia e noite. vaidoso. no entanto. a seu favor. assim. a fim de surgir o filho dos Céus. muitas vezes. que começou a visitá-lo freqüentemente.

ela virá. acrescentou. fraterno: . Lísias sorriu com inteligência. E quando sua mãezinha soube que o filho havia rasgado os véus escuros com o auxílio da oração.Não vive em "Nosso Lar" . porém. Observando meu desapontamento.. a lição do próprio caso. chorou de alegria. Quando alguém deseja algo ardentemente.. demorou muito a encontrar Clarêncio. albergando o medo. habita esferas mais altas. mas. Olhos brilhantes. você. abraçá-la. o Pai não precisa de nossas penitências.exclamei. exclamei. . as tristezas e desilusões. já se encontra a caminho da realização. com todas as minhas forças. quando mentalizou firmemente a necessidade de receber o auxílio divino. Um espelho enfuscado não reflete a luz. ajoelhar-me a seus pés! . Anos a fio rolou.. então. e. encorajado pelo esclarecimento recebido. segundo me contaram. resoluto: .48 NOSSO LAR em determinada posição receptiva. .. generoso. antes mesmo do que pensamos. onde trabalha não somente por você. por certo. por fim.Virá vê-lo.esclareceu Lísias -. quero vê-la. Entendeu? Clarêncio não teve dificuldade em localizá-lo. ela virá. a fim de compreender-lhe a infinita bondade.E onde está minha mãe? .Desejarei. . Se me é permitido. Desse modo. Tem você.. como pluma. mas convenhamos que as penitências prestam ótimos serviços a nós mesmos. atendendo aos apelos de sua carinhosa genitora da Terra. nesse particular. como quem previne.. dilatou o padrão vibratório da mente e alcançou visão e socorro. afirmou ao despedir-se: .

trabalho persistente e merecimento justo. a saber: primeiro. ou. merecer. a meditar no extenso programa formulado em tão poucas palavras. . sorridente. saber desejar. terceiro.49 NOSSO LAR .Convém não esquecer. contudo. segundo. por outros termos. O visitador ganhou a porta de saída. desejar. que a realização nobre exige três requisitos fundamentais. vontade ativa. enquanto eu me detinha silencioso. e.

porque as vias públicas estavam repletas. representa instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição. pela primeira vez. Não havia. edifícios. atende-se a doentes. ou aos que choram na Terra. saí. Incumbia-se o companheiro de orientar-me em face das surpresas que surgiam ininterruptas. em companhia de Lísias. Vastas avenidas. estu- .Estamos no local do Ministério do Auxílio. Entidades numerosas iam e vinham. preparam-se reencarnações terrenas. porém. Percebendo-me as íntimas conjeturas. Algumas pareciam situar a mente em lugares distantes. mas outras me dirigiam olhares acolhedores. Ar puro. enfeitadas de árvores frondosas. Tudo o que vemos. organizam-se turmas de socorro aos habitantes do Umbral. qualquer sinal de inércia ou de ociosidade. ouvem-se rogativas. Impressionou-me o espetáculo das ruas. casas residenciais. selecionam-se preces. atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual. esclareceu solícito: .50 8 ORGANIZAÇÃO DE SERVIÇOS Decorridas algumas semanas de tratamento ativo. operários e outros serviçais da missão residem aqui. Orientadores. Nesta zona.

. Ne- . nos atos da prece. quando inspirado pelas mentes que funcionam nas esferas mais altas. nosso Governador Espiritual cercado de setenta e dois colaboradores? Pois são os Ministros de "Nosso Lar". A colônia. é um dos Ministros do Auxílio. divide-se em seis Ministérios. no mundo. quando orientada pela mente do homem. um Ministério do Auxílio? . o nosso chefe amigo. A natureza agreste transforma-se em jardim. O homem vulgar ignora que toda manifestação de ordem. o véu da ilusão é muito denso nos círculos carnais.esclareceu Lísias -. prosseguiu: ..Sim . orientados. por doze Ministros. .Há. sob a orientação dos que nos presidem os destinos. Temos os Ministérios da Regeneração. Clarêncio. transforma-se em potencial criador. Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres. da Elevação e da União Divina. da Comunicação. comovido: . Valendo-me da pausa natural. e o pensamento humano. . que é essencialmente de trabalho e realização.Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organização que se aperfeiçoa dia a dia.perguntei. exclamei. Fixando em mim os olhos lúcidos. procede do plano superior. selvagem na criatura primitiva. do Auxílio.. do Esclarecimento.Não tem visto. cada qual. os mais sublimes no da União Divina. visto que a nossa cidade espiritual é zona de transição. os dois últimos nos ligam ao plano superior. então.51 NOSSO LAR dam-se soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento. em "Nosso Lar". Os serviços mais grosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração. depois da morte do corpo físico!.Oh! nunca imaginei a possibilidade de organizações tão completas.

Apontando o palácio. a escravidão. . sem que seus raios iniciais partam de cima. Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior. encabeçado de torres soberanas. continuou: . o amor espiritual. se empregava a violência. edifícios de fino lavor. por lá.52 NOSSO LAR nhuma organização útil se materializa na crosta terrena.Mas "Nosso Lar" terá igualmente uma história. onde se localiza a Governadoria . mesmo para os espíritos fortes. a solidariedade fraterna. no século XVI.disse o visitador. segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento. Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres. desencarnados no Brasil. Os trabalhos primordiais foram desanimadores. copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera material. A princípio. como há. que se perdiam no céu. enorme e exaustiva foi a luta. tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira. como as grandes cidades planetárias? . atingíramos uma praça de maravilhosos contornos. porém. Os fundadores não desanimaram. partindo daqui. erguia-se um palácio de magnificente beleza. aqui. e. No centro da praça. A essa altura. no planeta. grandes tratos de natureza rude e incivilizada. ostentando extensos jardins. Prosseguiram na obra. Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra. "Nosso Lar" é antiga fundação de portugueses distintos. . apenas com a diferença de que. Os planos vizinhos da esfera terráquea possuem. misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas do pais e as construções infantis de suas mentes rudimentares. a guerra. igualmente. natureza específica. o serviço perseverante.Sem dúvida.Os fundadores da colônia começaram o esforço.

utiliza ele a colaboração de três mil funcionários. respeitoso.Ali vive o nosso abnegado orientador. ele mesmo.Não faz muito. entretanto. . com exceção das assembléias referentes às preces coletivas.Temos. Faz questão que descansemos. obriga-nos a férias periódicas. Basta lembrar que estou aqui há quarenta anos e. nós outros gozamos entretenimentos habituais. Pareceme que a glória dele é o serviço perene. estendendo-se em forma triangular. porém. quase nunca repousa. Os Ministros costumam excursionar noutras esferas. Nos trabalhos administrativos. sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge. nesta praça. Depois de longa pausa... evidenciando comovida reverência. Calara-se Lísias. Todos começam da Governadoria. comemorou-se o 114º aniversário da sua magnânima direção. raramente o tenho visto em festividades públicas. o enfermeiro amigo acentuou: . comentou: . o ponto de convergência dos seis ministérios a que me referi. ao passo que. respeitoso e embevecido. é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos. renovando energias e valorizando conhecimentos. Seu pensamento. as torres maravilhosas que pareciam cindir o firmamento.53 NOSSO LAR . abrange todos os círculos de serviço. E. mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso. mesmo no que concerne às horas de sono. enquanto eu a seu lado contemplava.

os serviços dessa natureza assumiam feição mais destacada. reduzidas a simples serviço de distribuição. Lísias anuiu de bom grado... sob o controle direto da Governadoria.ponderei . a providência constitui medida das mais benéficas. As atividades de abastecimento ficaram. assim. formando figuras encantadoras.explicou o paciente interlocutor . Rezam os anais que a colônia. . Agradável sensação de paz me felicitava o espírito. Muitos recém-chegados ao "Nosso .Quem observa esta colmeia imensa de serviço . o atual Governador atenuar todas as expressões de vida que nos recordassem os fenômenos puramente materiais. Deliberou. Caprichosos repuxos de água colorida ziguezagueavam no ar. lutava com extremas dificuldades para adaptar os habitantes às leis da simplicidade.Antigamente . E o abastecimento? Não tenho notícia de um Ministério da Economia. pedi ao dedicado enfermeiro para descansar alguns minutos num banco próximo. Aliás.54 9 PROBLEMA DE ALIMENTAÇÃO Enlevado na visão dos jardins prodigiosos.é induzido a examinar numerosos problemas. há um século. porém. .

Por mais de dez vezes. os projetos e finalidades do regime. providências e atividades. durante trinta anos consecutivos. os demais viviam sobrecarregados de angustiosos problemas dessa ordem. mediante exigências desse teor. jamais castigou alguém. não poupou esforços. puseram-me ao corrente de curiosos acontecimentos. Disseram-me que. Alguns colaboradores técnicos de "Nosso Lar" manifestavam-se contrários. Convocava os adversários da medida a palácio e expunha-lhes. relativos à ciência da respiração e da absorção de princípios vitais da atmosfera. Algumas entidades eminentes chegaram a formular protestos de caráter público. a pedido da Governadoria. O Governador. a fim de espalharem novos conhecimentos. reclamando. Tão logo assumiu obrigações administrativas. adotou providências justas. o Ministério do Auxílio esteve superlotado de enfermos. alegando que a cidade é de transição e que não seria justo. no entanto. O Governador atual. Nesses períodos. Antigos missionários. em planos mais elevados que o nosso. ganhando. sem grave perigo para suas organizações espirituais. desambientar imediatamente os homens desencarnados. Queriam mesas lautas. maior número de adeptos. porém. dilatando velhos vícios terrenos. Prosseguiram as reuniões. não desanimou. contudo. vieram duzentos instrutores de uma esfera muito elevada. assim. paternalmente. os opositores da redução multiplicavam acusações. todavia. nem possível. facilitava aos mais rebeldes inimigos do novo processo variadas excursões de estudo. O Governador. onde se confessavam vítimas do novo sistema de alimentação deficiente. . Apenas o Ministério da União Divina ficou imune de tais abusos. pelas características que lhe são próprias. Realizaram-se assembléias numerosas.55 NOSSO LAR Lar" duplicavam exigências. daqui. bebidas excitantes. destacava a superioridade dos métodos de espiritualização.

reclamei. Dado o alarme. hoje transformado em Ministério. Ele. por parte da Governadoria. não cediam terreno nas concepções correspondentes daqui. a imprudência. repletas de análises e numerações. por vezes. O mesmo não aconteceu com o Ministério do Esclarecimento. os espíritos menos elevados que ali se recolhiam entregaram-se a condenáveis manifestações. que demorou muito a assumir compromisso. dando ensejo a perigoso assalto das multidões obscuras do Umbral.Depois de vinte e um anos de perseverantes demonstrações.56 NOSSO LAR Ante pausa mais longa. e jamais deixou o menor boletim de esclarecimento sem exame minucioso. Requisitou assistência de nobres mentores. imprescindíveis aos veículos físicos. Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coletivos de "Nosso Lar". em virtude dos vícios de alimentação. o Governador não se perturbou. contudo. interessado: . por favor. que ali trabalham. Semanalmente. Enquanto argumentavam os cientistas e a Governadoria contemporizava. solicitou audiência ao Ministério . O velho governante. nunca agiu por si só. em vista dos numerosos espíritos dedicados às ciências matemáticas. porém. onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino. Encorajados pela rebeldia dos cooperadores do Esclarecimento. aderiu o Ministério da Elevação. Eram eles os mais teimosos adversários. atingindo. que tentaram invadir a cidade. passando a abastecer-se apenas do indispensável.Continue. meu caro Lísias. Como terminou a luta edificante? . Mecanizados nos processos de proteínas e carboidratos. formaram-se perigosos distúrbios no antigo Departamento de Regeneração. aproveitando brechas nos serviços de Regeneração. que nos orientam através do Ministério da União Divina. Terríveis ameaças pairavam sobre todos. enviavam ao Governador longas observações e advertências.

isto é. e. Não houve combate. Presentemente. para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum. regozijo público e dizem que.57 NOSSO LAR da União Divina e. em meio da alegria geral. A cidade voltou ao movimento normal. os serviços de alimentação. Houve. pela primeira vez na sua administração. A colônia ficou. só existe maior suprimento de substâncias alimentícias que lembram a Terra. mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicação. sabendo o que vem a ser a indignação do espírito manso e justo. O antigo Departamento da Regeneração foi convertido em Ministério. mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade. então. onde há sempre grande número de necessitados. a Governadoria estava vitoriosa. Reduziu-se a . para isolamento dos recalcitrantes. Por mais de seis meses. depois de ouvir o nosso mais alto Conselho. todo o serviço de alimentação obedece a inexcedível sobriedade. determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração. mas resistência resoluta. nesse comenos. através da respiração. o Governador chorou sensibilizado. advertiu o Ministério do Esclarecimento. nem ofensiva da colônia. elétricos e magnéticos. foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera. todos reconhecem que a suposta impertinência do Governador representou medida de elevado alcance para nossa libertação espiritual. Desde então. Findo o período mais agudo. nos Ministérios da Regeneração e do Auxílio. e água misturada a elementos solares. O próprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e cooperou nos trabalhos de reajustamento. cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos. em "Nosso Lar". Nos demais há somente o indispensável. proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores. declarando que a compreensão geral constituía o verdadeiro prêmio ao seu coração.

. Lísias silenciou e eu me entreguei a profundos pensamentos sobre a grande lição.58 NOSSO LAR expressão física e surgiu maravilhoso coeficiente de espiritualidade.

Vamos ao grande reservatório da colônia. quando surgiu grande carro. suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros. em virtude do grande número de antenas na tolda. o generoso amigo acrescentou: . . à maneira de um elevador terrestre. Chegados a extenso ângulo da praça. Verá que a água é quase tudo em nossa estância de transição. Lísias convidou: . que seria na Terra um grande funicular. parecendo ligada a fios invisíveis.Esperemos o aeróbus. (1) Mal me refazia da surpresa. con__________ (1) Carro aéreo. Ao descer até nós. Constituída de material muito flexível.59 10 NO BOSQUE DAS ÁGUAS Dado o meu interesse crescente pelos processos de alimentação. Lá observará coisas interessantes. examinei-o com atenção. tinha enorme comprimento. Não era máquina conhecida na Terra. acompanhei o enfermeiro sem vacilar. Mais tarde. Curiosíssimo.

em floração maravilhosa. Lísias explicou: . entre desconhecidos. esclareceu: . sorridente e calmo. O bosque. para as experiências da Terra. Trata-se de um dos locais prediletos para as excursões dos amantes. Plantadas a espaços regulares. porque só depois de quarenta minutos.Estamos no Bosque das Águas. Notando o meu deslumbramento. árvores frondosas ofereciam sombra amiga. mas Lísias não me deu azo a perguntas nesse particular. que aqui vêm tecer as mais lindas promessas de amor e fidelidade. embalsamava o vento fresco de inebriante perfume. me convidou Lísias a descer. Indicando um edifício de enormes proporções.60 NOSSO LAR firmei minhas suposições. incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros. deslizava um rio de grandes proporções. toda esmaltada de azulíneas flores. Aboletados convenientemente no recinto confortável. seguimos Silenciosos. A corrente rolava tranqüila. em vista dos reflexos do firmamento. A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso. Experimentava a timidez natural do homem desambientado. à maneira de pousos deliciosos. Lísias não me deu tempo a indagações. Entre margens bordadas de grama viçosa. A observação ensejava considerações muito interessantes. Temos aqui uma das mais belas regiões de "Nosso Lar". Estradas largas cortavam a verdura da paisagem. visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte. mas tão cristalina que parecia tonalizada em matiz celeste. A distância não era pequena. na claridade do Sol confortador. Deslumbrou-me o panorama de belezas sublimes. Bancos de caprichosos formatos convidavam ao descanso. Tudo em prodígio de cores e luzes cariciosas.

Conhecendo-a mais intimamente. Todo o volume do Rio Azul. outros são os conhecimentos. sabemos que a água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer natureza. Nesta cidade espiritual. quase fluídica. Nos círculos religiosos do planeta. contudo. acrescentou: . Em "Nosso Lar". Muito mais tênue.perguntei.Ali é o grande reservatório da colônia. é absorvido em caixas imensas de distribuição.elucidou Lísias . abaixo dos serviços da Regeneração. ignorando como conciliar uma e outra coisa. Percebendo-me a indagação íntima.Que diz? . O visitador sorriu e obtemperou prazenteiro: . que prossegue o curso normal. ensinam que o Senhor criou as águas. ela é empregada sobretudo como alimento e remédio. As águas que servem a todas as atividades da colônia partem daqui. que temos à vista.Com efeito. aprendemos a agradecer ao Pai e aos seus divinos colaboradores semelhante dádiva. interroguei: .Imagine . e voltam a constituir o rio. reúnem-se novamente. Há repartições no Ministério do Auxílio absolutamente consagradas à manipulação de água pura. Em seguida. a água aqui tem outra densidade. Aqui. rumo ao grande oceano de substâncias invisíveis para a Terra. com certos princípios suscetíveis de serem captados na .que este é um dos raros serviços materiais do Ministério da União Divina! .A que Ministério está afeto o serviço de distribuição? .Na Terra quase ninguém cogita seriamente de conhecer a importância da água. Ora. é lógico que todo serviço criado precisa de energias e braços para ser convenientemente mantido.61 NOSSO LAR . Notando as magníficas construções que me fronteavam. pura.

O homem é desatento. com a pureza imprescindível.No planeta . encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor. . no ponto longínquo. conduzindo em seu seio nossas qualidades espirituais. ele sempre se julga o absoluto dominador do mundo. Fazem eles o serviço inicial de limpeza e os institutos realizam trabalhos específicos.62 NOSSO LAR luz do Sol e no magnetismo espiritual. Virá tempo. antes de qualquer consideração.tornou Lísias -. . absorvendo amarguras. em cada lar. entre nós. a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço. o mar equilibra-lhe a moradia planetária. Quando os diversos fios da corrente se reúnem de novo. entretanto. jamais recebi elucidações desta natureza. meu amigo. oposto a este bosque. então. como fluido criador. a chuva dá-lhe o pão. há muitos séculos . as características mentais de seus moradores. absorve. mas constituirá igualmente um veículo da Providência Divina. em que copiará nossos serviços. ódios e ansiedades dos . o sistema de alimentação tem aí suas bases. mas também as expressões de nossa vida mental. Eu estava embevecido com as explicações. sua corrente não só espalhará bênção de vida. o rio organiza-lhe a cidade. Será nociva nas mãos perversas. Acontece. no suprimento de substâncias alimentares e curativas. Compreenderá.objetei -. A água. no mundo. ausenta-se o rio de nossa zona. Na maioria das regiões da extensa colônia. quando em movimento. porém. não somente carreia os resíduos dos corpos. que a água. útil nas mãos generosas e. cabendo-lhes a magnetização geral das águas do Rio Azul. o elemento aquoso fornece-lhe o corpo físico. esquecendo que é filho do Altíssimo. a fim de que sirvam a todos os habitantes de "Nosso Lar". que só os Ministros da União Divina são detentores do maior padrão de Espiritualidade Superior. contudo.

lavando-lhes a casa material e purificando-lhes a atmosfera íntima.63 NOSSO LAR homens. . Calou-se o interlocutor em atitude reverente. enquanto meus olhos fixavam a corrente tranqüila a despertar-me sublimes pensamentos.

Clarêncio tem poderes para obter-lhe ingresso fácil em qualquer dependência. . Agora.64 11 NOTÍCIAS DO PLANO Desejaria meu generoso companheiro facultar-me observações diferentes. sentia-me quase à vontade. Nem mesmo alguns dias de estudo oferecem ensejo à visão detalhada de um só deles. aproveitei o minuto para valer-me do companheiro. que não se fez esperar. Não lhe faltará oportunidade. Voltamos ao ponto de passagem do aeróbus. os Ministérios do "Nosso Lar" são enormes células de trabalho ativo. quando possível. Interessado em resolvê-las. A experiência anterior fizera-me benefícios enormes. Ainda que me não seja possível acompanhá-lo. nos diversos bairros da colônia. mas obrigações imperiosas chamavam-no ao posto. . A presença de muitos passageiros não me constrangia.Terá você ocasião de conhecer as diversas regiões dos nossos serviços . porém. conforme vê. Esfervilhava-me o cérebro de úteis indagações.exclamou bondosamente -' pois.

Muito bem! . que. cada região e cada estabelecimento revelam traços peculiares.Sim. somente com o Governador atual. como definição de espiritualidade. interroguei: . Adotaram o processo. muitas vezes os que nos antecederam buscaram inspiração nos trabalhos de abnegados trabalhadores de outras esferas. Se nas esferas materiais. todavia. permanece em degraus diferentes na grande ascensão. tal como na Terra. Aqui. . Observando que o intervalo se fazia mais longo. como cada entidade. considerando que a organização em Ministérios é mais expressiva. mas substituíram a palavra departamento por Ministério. amigo . . os missionários da criação de "Nosso Lar" visitaram os serviços de "Alvorada Nova". com exceção dos serviços regeneradores. poderá informar-me se todas as colônias espirituais são idênticas a esta? Os mesmos processos.65 NOSSO LAR . as criaturas se identificam pelas fontes comuns de origem e pela grandeza dos fins que devem atingir.perguntei -. Assim procederam. outros agrupamentos buscam o nosso concurso para outras colônias em formação.Lísias. em compensação. Todas as experiências de grupo diversificam-se entre si e "Nosso Lar" constitui uma experiência coletiva dessa natureza. apresenta particularidades essenciais. uma das colônias espirituais mais importantes que nos circunvizinham e ali encontraram a divisão por departamentos. imagine a multiplicidade de condições em nossos planos. conseguiram elevação.Partiu daqui a interessante formação de Ministérios? .acrescentei.De modo algum. mas importa considerar que cada colônia. as mesmas características? . Cada organização. Segundo nossos arquivos.

Somente alguns conseguem atividade prolongada no Ministério da Elevação. com eficiência. Enquanto eu ouvia essas informações. para futuras tarefas planetárias. com o correr do tempo são admitidos aos trabalhos de Auxílio. os trabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidade individual. Comunicação e Esclarecimento. E não suponha que os testemunhos sejam vagas expressões de atividade idealista. quando. são encaminhados ao Ministério da Regeneração. no curso de dez anos. as atividades da União Divina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amor universal. no Ministério da União Divina. voltamos a reencarnar. Lísias continuava: .Quando os recém-chegados das zonas inferiores do Umbral se revelam aptos a receber cooperação fraterna.E não é tudo . os campos do Esclarecimento requisitam grande capacidade de trabalho e valores intelectuais profundos. no que concerne à ordem e à hierarquia. os deveres no Ministério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos. se mostram refratários. Nenhuma condição de destaque é concedida aqui a título de favor. demoram no Ministério do Auxílio. onde o desencarnado é promovido compulsoriamente a fantasma.prosseguiu o enfermeiro. Já não estamos na esfera do globo. os que alcançam intimidade nos trabalhos da União Divina. com responsabilidade definida. a instituição é eminentemente rigorosa. a fim de se prepararem. Se revelam proveito. decorrido longo estágio de serviço e aprendizado. porém. A Governado- . Em geral.66 NOSSO LAR . para atividades de aperfeiçoamento. atencioso -. o Ministério da Elevação pede renúncia e iluminação. justamente curioso. As tarefas de Auxílio são laboriosas e complicadas. Vivemos em circulo de demonstrações ativas. e raríssimos. Somente quatro entidades conseguiram ingressar. todos nós. em cada dez anos.

trânsito.Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham os habitantes de "Nosso Lar". . como. o de alimentação. reconheceu a Governadoria que a música . Aproveita ele. é sede movimentada de todos os assuntos administrativos. No que concerne ao repouso. Nesse mister.Somente nas ocasiões que o bem público o exige. nunca se ausenta ele do palácio? . mas a lei do trabalho é também rigorosamente cumprida. distribuição de energias elétricas. a única exceção é o próprio Governador. ouviam-se. para cooperar com os Ministros da Regeneração. as tardes de domingo.67 NOSSO LAR ria. de alegrias sagradas. atendendo-lhes os difíceis problemas de trabalho. A não ser em obediência a esse imperativo. numerosos serviços de controle direto. belas melodias atravessando o ar. transporte e outros. a lei do descanso é rigorosamente observada. que nunca aproveita o que lhe toca. Em plena via pública. Numerosas multidões de espíritos desviados ali se encontram recolhidas. pois. tal qual observara à saída. Deixara-nos o aeróbus nas vizinhanças do hospital. às vezes. dada a sintonia de muitos dos seus abrigados com os irmãos do Umbral. Lísias explicou fraternalmente: . priva-se. amparando a desorientados e sofredores. Aqui. depois de orar com a cidade no Grande Templo da Governadoria. que representa a zona de "Nosso Lar" onde há maior número de perturbações.interroguei.Mas. . por exemplo. onde me aguardava o aposento confortador. para que determinados servidores não fiquem mais sobrecarregados que outros. por sua vez. Após consecutivas observações. Notando-me a expressão indagadora. o Governador vai semanalmente ao Ministério da Regeneração. nesse terreno. em verdade.

O companheiro afastou-se.68 NOSSO LAR intensifica o rendimento do serviço. ninguém trabalha em "Nosso Lar". enquanto eu me recolhia ao aposento particular. . sem esse estimulo de alegria. porém. calmo. chegáramos à Portaria. repleto de indagações íntimas. Nesse ínterim. Desde então. chamam-no ao pavilhão da direita para serviço urgente. em todos os setores de esforço construtivo.Irmão Lísias. Atencioso enfermeiro adiantou-se e notificou: .

A ausência de preparação religiosa. experimentando arrepios de horror. atencioso.O Umbral . a idéia do inferno e do purgatório.69 12 O UMBRAL Após receber tão valiosas elucidações. através dos sermões ouvidos nas cerimônias católico-romanas a que assistira. Que seria o Umbral? Conhecia. nunca tivera notícias.começa na crosta terrestre. solícito . dá motivo a dolorosas perturbações. no mundo.Ora. porém. apenas. . ora. Desse Umbral. Ao primeiro encontro com o generoso visitador. minhas perguntas não se fizeram esperar. As referências a espíritos do Umbral mordiam-me a curiosidade. É a zona obscura de quantos no mun- . e replicou: . obedecendo a preceitos protocolares. Lísias ouviu-me. pois você andou detido por lá tanto tempo e não conhece a região? Recordei os sofrimentos passados. aguçava-se-me o desejo de intensificar a aquisição de conhecimentos relativos a diversos problemas que a palavra de Lísias sugeria.continuou ele.

Lísias procurou tornar a lição mais clara: . e. a fim de cumpri-los. renascendo no planeta.70 NOSSO LAR do não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados. portanto. as bênçãos da oportunidade terrestre. em piores condições? O Umbral funciona. O dever cumprido é uma porta que atravessamos no Infinito. entretanto. promete cumprir o programa de serviços do Pai. de novo. sem aproveitamento. portanto. Ora. Assim é que mantidos são o mesmo ódio aos adversários e a mesma paixão pelos amigos. porém. Mas. ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem. esquecemos. contraindo novos laços e encarcerando-nos a nós mesmos em verdadeira escravidão. Pois bem: todas as multidões de desequilibrados permanecem nas regiões nevoentas. prejudica a economia da vida. nem a paixão é amor. como regressar a esse mesmo ambiente luminoso. para lavar no tanque da vida humana. Compartilhando. rumo ao continente sagrado da união com o Senhor. se ao voltarmos ao mundo procurávamos um meio de fugir à sujidade. Tudo o que excede. somos portadores de um fato sujo. Essa roupa imunda é o corpo causal. Quando o espírito reencarna. como região destinada a esgotamen- . tecido por nossas mãos. para só procurar o que lhe satisfaça ao egoísmo. que se seguem aos fluidos carnais. manchamo-nos ainda mais. demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos. É natural. que o homem esquivo à obrigação justa.Imagine que cada um de nós. nas experiências anteriores. Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento. ao recapitular experiências no planeta. nem o ódio é justiça. pelo desacordo de nossa situação com o meio elevado. com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais. tenha essa bênção indefinidamente adiada. é muito difícil fazê-lo. o objetivo essencial.

Por não encontrarem o Senhor à disposição dos seus caprichos. permitindo se criasse tal departamento em torno do planeta. Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes. mas esses núcleos possuem infeli- . sentindo que a coroa da vida eterna é a glória intransferível dos que trabalham com o Pai. Lá vivem. aí. Não havia como disfarçar minha justa admiração. onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado. quando o comboio não aparece? Pois o Umbral está repleto de desesperados. essas criaturas se revelam e demoram em mesquinhas edificações. mais convincente. e. A imagem não podia ser mais clara.O Umbral é região de profundo interesse para quem esteja na Terra. separados deles apenas por leis vibratórias. Não é de estranhar. E note você que a Providência Divina agiu sabiamente. agrupam-se. companheiros imediatos dos homens encarnados. portanto. Muita gente da Terra não recorda que se desespera quando o carteiro não vem. "Nosso Lar" tem uma sociedade espiritual. que semelhantes lugares se caracterizem por grandes perturbações. os revoltados de toda espécie. Formam. menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena. pela concentração das tendências e desejos gerais. após a morte do corpo físico. Representam fileiras de habitantes do Umbral. nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação. que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa. igualmente. tudo o que não tem finalidade para a vida superior. Concentra-se. núcleos invisíveis de notável poder. uma espécie de zona purgatorial. Compreendendo o efeito benéfico que me traziam aqueles esclarecimentos. Lísias continuou: .71 NOSSO LAR to de resíduos mentais.

Para isso. malfeitores e vagabundos de várias categorias. É zona de verdugos e vítimas.Como explicar? Então não há por lá defesa. O viajante distraído perde o comboio. Cada espírito lá permanece o tempo que se faça necessário. que se fizera espontânea. esteja onde estiver. impressionado: . . Valendo-me da pausa. organização? Sorriu o interlocutor. transformam ou destroem. E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um. Quem pensa. Há uma extensa humanidade invisível. Uma certeza.observei -.Sim . é um núcleo irradiante de forças que criam. exclamei.72 NOSSO LAR zes. e é nessa zona que se estendem os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamento dos encarnados. então . . nunca faltou lá a proteção divina. As missões mais laboriosas do Ministério do Au- . em verdade. porém. porque. permitiu o Senhor se erigissem muitas colônias como esta. meu amigo. está fazendo alguma coisa alhures. Toda alma é um ímã poderoso. que essa esfera se mistura quase com a esfera dos homens.Organização é atributo dos espíritos organizados. o agricultor que não semeou não pode colher. exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender. Que quer você? A zona inferior a que nos referimos é qual a casa onde não há pão: todos gritam e ninguém tem razão. posso darlhe: .Creio. todo espírito.confirmou o dedicado amigo -. que se segue à humanidade visível. de exploradores e explorados. consagradas ao trabalho e ao socorro espiritual.não obstante as sombras e angústias do Umbral. esclarecendo: .

acentuou. exclamei: . os missionários do Umbral encontram fluidos pesadíssimos emitidos. É necessário muita coragem e muita renúncia para ajudar a quem nada compreende do auxílio que se lhe oferece. pelas labaredas e ondas de fumo que os defrontam. depois de meditar em silêncio. Interrompera-se Lísias. na prática do mal. ou terrivelmente flageladas nos sofrimentos retificadores. sem cessar.Ah! como desejo trabalhar junto dessas legiões de infelizes. e. por largos instantes. ao despedir-se: . levandolhes o pão espiritual do esclarecimento! O enfermeiro amigo fixou-me bondosamente. Sumamente impressionado. porque se a tarefa dos bombeiros nas grandes cidades terrenas é difícil. por milhares de mentes desequilibradas.Será que você se sente com o preparo indispensável a semelhante serviço? .73 NOSSO LAR xílio são constituídas por abnegados servidores. no Umbral.

Cercado de enfermos. contudo. porém.74 13 NO GABINETE DO MINISTRO Com as melhoras crescentes. surgia a necessidade de movimentação e trabalho. Claro que não me faltava desejo. Os médicos espirituais eram detentores de técnica diferente. como vigoroso agricultor em pleno campo. Decorrido tanto tempo. de mãos atadas e impossibilitado de atacar o trabalho. a me- . Agora. No planeta. Minha posição ali. sentindo um certo "vazio" no coração. no mundo. o médico e o pesquisador. não me era lícita nem mesmo a função de enfermeiro e colaborador nos casos de socorro urgente. mas. como noutros tempos. Ouvindo gemidos incessantes nos apartamentos contíguos. reunindo em mim o amigo. sabia que meu direito de intervir começava nos livros conhecidos e nos títulos conquistados. esgotados anos difíceis de luta. naquele ambiente novo. recordava os quinze anos de clínica. não podia aproximar-me. volvia-me o interesse pelos afazeres que enchem o dia útil de todo homem normal. Incontestável que havia perdido excelentes oportunidades na Terra. Identificavame a mim mesmo. que muitas falhas me assinalavam o caminho. era assaz humilde para me atrever.

invasão de seara alheia. contudo. Peça-lhe conselhos. assim atendendo a necessidades de ordem geral. dos mais simples. Impressionou-me tal processo de audiência. tinha conhecimentos e possibilidades muito superiores à minha ciência. Lísias era o amigo indicado às minhas confidências de irmão. em identidade de circunstâncias! O delicado Ministro do Auxílio chegara muito antes de nós e atendia a assuntos mais importantes que a recepção de visitas e solicitações. as providências. esclareceu: . ganhando tempo e proveito. Ele pergunta sempre por sua pessoa e tudo fará a seu favor. em "Nosso Lar". Interpelado. portanto.Por que não pedir o socorro de Clarêncio? Atendê-lo-á por certo. . Terminado o serviço urgente. começou a chamar-nos. Iniciando. Qualquer enfermeiro. mais tarde. que ele aproveitava esse método para que os pareceres fornecidos a qualquer interessado servissem igualmente a outros. Consultaria o Ministro do Auxílio. exteriorizando-se em amor e cuidado fraternal. Inexeqüível. Animou-me grande esperança. porém. qualquer tentativa de trabalho espontâneo. muito cedo. Esperei ansioso o momento oportuno. minha surpresa vendo que três pessoas lá estavam aguardando Clarêncio. Soube. no gabinete particular. No apuro de tais dificuldades. porém. dois a dois. Qual não foi. No dia imediato. por constituir.75 NOSSO LAR dicina começava no coração. procurei o local indicado. fui informado de que o generoso benfeitor somente poderia atender na manhã seguinte. a meu ver.

76 NOSSO LAR Decorridos muitos minutos, chegou-me a vez. Penetrei no gabinete em companhia de uma senhora idosa, que seria ouvida em primeiro lugar, por ordem de precedência. O Ministro recebeunos, cordial, deixando-nos à vontade para discorrer. - Nobre Clarêncio - começou a companheira desconhecida -, venho pedir seus bons ofícios a favor de meus dois filhos. Ah! já não tolero tantas saudades e estou informada de que ambos vivem exaustos e sobrecarregados de infortúnios, no ambiente terrestre. Reconheço que os desígnios do Pai são justos e amorosos; no entanto, sou mãe! Não consigo subtrair-me ao peso da angústia!... E a pobre criatura se desfez, ali mesmo, em copioso pranto. O Ministro, dirigindo-lhe um olhar de fraternidade, embora conservando intacta a energia pessoal, respondeu, bondoso: - Mas, se a irmã reconhece que os desígnios do Pai são justos e santos, que me cabe fazer? - Desejava - replicou, aflita - que me concedesse recursos para protegê-los eu mesma, nas esferas do globo!... - Ah! minha amiga - disse o benfeitor amorável -' só no espírito de humildade e de trabalho é possível a nós outros proteger alguém. Que me diz de um pai terrestre que desejasse ajudar os filhinhos, mantendo-se em absoluta quietação no conforto do lar? O Pai criou o serviço e a cooperação como leis que ninguém pode trair sem prejuízo próprio. Nada lhe diz a consciência, neste sentido? Quantos bônus-hora (1) poderá apresentar em benefício de sua pretensão?
__________ (1) Ponto relativo a cada hora de serviço.

(Nota do Autor espiritual.)

77 NOSSO LAR A interpelada respondeu, hesitante: - Trezentos e quatro. - É de lamentar - elucidou Clarêncio, sorrindo -, pois aqui se hospeda, há mais de seis anos, e apenas deu à colônia, até hoje, trezentos e quatro horas de trabalho. Entretanto, logo que se restabeleceu das lutas sofridas em região inferior, ofereci-lhe atividade louvável na Turma de vigilância, do Ministério da Comunicação... - Mas aquilo por lá era serviço intolerável - atalhou a interlocutora -, uma luta incessante contra entidades malfazejas. Era natural que não me adaptasse. Clarêncio continuou, imperturbável: - Coloquei-a, depois, entre os Irmãos da Suportação, nas tarefas regeneradoras. - Pior! - exclamou a senhora - aqueles apartamentos andam repletos de pessoas imundas. Palavrões, indecências, miséria. - Reconhecendo suas dificuldades - esclareceu o Ministro -, enviei-a a cooperar na Enfermagem dos Perturbados. - Mas quem os tolerará, senão os santos? - inquiriu a pedinte rebelde fiz o possível; entretanto, aquela multidão de almas desviadas assombra a qualquer! - Não ficaram aí meus esforços - replicou o benfeitor sem se perturbar -, localizei-a nos Gabinetes de Investigações e Pesquisas do Ministério do Esclarecimento e, contudo, talvez enfadada com as minhas providências, a irmã se recolheu, deliberadamente, aos Campos de Repouso. - Era, também, impossível continuar ali - disse a impertinente -, só encontrei experiências exaustivas, fluidos estranhos, chefes ásperos.

78 NOSSO LAR - Pois note, minha amiga - esclareceu o devotado e seguro orientador , o trabalho e a humildade são as duas margens do caminho do auxílio. Para ajudarmos alguém, precisamos de irmãos que se façam cooperadores, amigos, protetores e servos nossos. Antes de amparar os que amamos, é indispensável estabelecer correntes de simpatia. Sem a cooperação é impossível atender com eficiência. O camponês que cultiva a terra alcança a gratidão dos que saboreiam os frutos. O operário que entende os chefes exigentes, executando-lhes as determinações, representa o sustentáculo do lar, em que o Senhor o colocou. O servidor que obedece, construindo, conquista os superiores, companheiros e interessados no serviço. E nenhum administrador intermediário poderá ser útil aos que ama, se não souber servir e obedecer nobremente. Fira-se o coração, experimente-se a dificuldade, mas, que saiba cada qual que o serviço útil pertence, acima de tudo, ao Doador Universal. Depois de pequena pausa, continuou: - Que fará, pois, na Terra se não aprendeu ainda a suportar coisa alguma? Não duvido da sua dedicação aos filhos queridos, mas importa notar que haveria de comparecer por lá, como mãe paralítica, incapaz de prestar socorro justo. Para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados, faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado, por nossa vez. Os que não cooperam não recebem cooperação. Isso é da lei eterna. E se minha irmã nada acumulou de seu para dar, é justo que procure a contribuição amorosa dos outros. Mas, como receber a colaboração imprescindível, se ainda não semeou, nem mesmo a simples simpatia? Volte aos Campos de Repouso, onde se abrigou ultimamente, e reflita. Examinaremos depois o assunto com a devida atenção.

79 NOSSO LAR Sentou-se a mãe inquieta, enxugando lágrimas copiosas. Em seguida, o Ministro fitou-me compassivamente e falou: - Aproxime-se, meu amigo! Levantei-me, hesitante, para conversar.

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14

ELUCIDAÇÕES DE CLARÊNCIO
Pulsava-me precipite o coração, fazendo-me lembrar o aprendiz bisonho, diante de examinadores rigorosos. Vendo aquela mulher em lágrimas e ponderando a energia serena do Ministro do Auxílio, tremia dentro de mim mesmo, arrependido de haver provocado aquela audiência. Não seria melhor calar, aprendendo a esperar deliberações superiores? Não seria presunção descabida pedir atribuições de médico naquela casa, onde permanecia como enfermo? A sinceridade de Clarêncio, para com a irmã que me antecedera, despertara-me raciocínios novos. Quis desistir, renunciar ao desejo da véspera e voltar ao aposento, mas, era impossível. O Ministro do Auxílio, como se adivinhasse meus propósitos mais íntimos, exclamou em tom firme: - Pronto a ouvi-lo. Ia solicitar instintivamente qualquer serviço médico em "Nosso Lar", embora a indecisão que me dominava; entretanto, a consciência me advertia: Por que referir-se a serviço especializado? Não seria repetir os erros humanos, dentro dos quais a vaidade não tolera outro gênero de atividade senão o correspondente aos preconcei-

Enquanto moço e sadio.Convém notar. não teve sequer as dificuldades do médico pobre. rogar seus bons ofícios para que me reintegre no trabalho.Já sei. o Ministro prosseguiu: . Ando saudoso dos meus misteres. mas.81 NOSSO LAR tos dos títulos nobiliárquicos. ou acadêmicos? Esta idéia equilibrava-me a tempo. no fundo. cometeu numerosos abusos. porque seus pais. desde que me afaste da inação. compelido a mobilizar relações afetivas para fazer clínica. . no capítulo dos estudos. Clarêncio fitou-me longamente. que às vezes o Pai nos honra com a Sua confiança e nós desvirtuamos os verdadeiros títulos de serviço. com gestos confirmativos. Qualquer trabalho útil me interessa. sente falta dos seus clientes. . Logo depois de graduado.Tomei a liberdade de vir até aqui. do seu gabinete. Bastante confundido. agora que a generosidade do "Nosso Lar" me reconduziu à bênção da harmonia orgânica. da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra. as palavras dele eram jatos de conforto e esperança. Você foi médico na Terra. falei: . todavia. Depois de uma pausa mais longa. cercado de todas as facilidades. Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa. Até aí. dentro do quadro de trabalho a que Jesus o conduziu. começou a receber proventos compensadores. generosos. que eu recebia no coração. porém. Prosperou tão rapidamente que transformou facilidades conquistadas em carreira para a morte prematura do corpo. Nunca soube o preço de um livro. como a identificar-me as intenções mais íntimas. lhe custeavam todas as despesas.

no mundo.Impulso muito nobre . Meu irmão recebeu uma ficha de médico. o homem fica habilitado a aprender nobremente e a servir ao Senhor. no quadro de Seus divinos serviços no planeta. no campo das profissões. é convite do Pai para que o homem penetre os templos divinos do trabalho. Com essa ficha. Concordemos que a Matemática é respeitável. Tal princípio é aplicável a todas as atividades terrestres. Respeitosamente. quando fez questão de circunscrever observações exclusivamente à esfera do corpo físico? Não nego sua capacidade de excelente fisiologista. é preciso convir que toda tarefa na Terra. Como transformá-lo. mas o campo da vida é muito extenso. excluída a convenção dos setores nos quais se desdobrem. prefere apenas a conclusão matemática diante dos serviços de anatomia.Reconheço a procedência das observações. mas não é a única ciência do Universo. consagrando-me sinceramente aos enfermos deste parque hospitalar.disse Clarêncio sem austeridade -. costuma representar uma porta aberta a todos os disparates. O título. Como reconhece agora. sondar-lhe as profundezas.82 NOSSO LAR Ante aquele olhar firme e bondoso ao mesmo tempo. mas. o medico não pode estacionar em diagnósticos e terminologias. estimaria obter meios de resgatar meus débitos. são . não se verificou em normas que me autorizem a endossar seus atuais desejos. no planeta. para nós. mas sua ação. Que me diz de um botânico que alinhasse definições apenas com o exame das cascas secas de algumas árvores? Grande número de médicos. em médico de espíritos enfermos. de um momento para outro. contudo. se possível. . estranha perturbação apossara-se de mim. Muitos profissionais da Medicina. na Terra. Penetrou o templo da Medicina. mas. Há que penetrar a alma. é simplesmente uma ficha. ponderei: . lá dentro.

para essas exceções.atrevi-me a dizer -.Meu amigo.Minha mãe? . sobrepor-se a preconceitos comuns e. entretanto. Fiquei atônito.continuou ele -.Sim . humilde: . reduzido à ficha de ingresso em zonas de trabalho para cooperação ativa com o Senhor Supremo. não possuo apenas verdades amargas. não se preparou convenientemente para os nossos serviços aqui. a seu favor. porque a vaidade lhes roubou a chave do cárcere. respondeu: . Muita imprevidência. reservam-se as zombarias do mundo e o escárnio dos companheiros.Submeto-me a qualquer trabalho. Tenho igualmente a palavra de estímulo. . que examinei atentamente.Conforme deduz . . nesta colônia de realização e paz. pedi. é confortadora. no coração dos quais você plantou a semente da simpatia. Logo após sua vinda. aguardei que o Ministro do Auxílio retomasse o fio das elucidações. . Assombrava-me a interpretação do título acadêmico. fazendo esforço por conter as lágrimas. Incapaz de intervir. inebriado de alegria. pedi ao Ministério do Esclarecimento providenciasse a obtenção de suas notas.83 NOSSO LAR prisioneiros das salas acadêmicas. pelas intercessões chegadas ao Ministério do Auxílio. Não pode ainda ser médico em "Nosso Lar". sua mãe e outros amigos.Generoso benfeitor . Raros conseguem atravessar o pântano dos interesses inferiores. Com um profundo olhar de simpatia. oportunamente. Sua posição atual não é das melhores. mas poderá assumir o cargo de aprendiz.esclareceu o Ministro -. .perguntei. Não conhecia tais noções de responsabilidade profissional. E. . compreendo a lição e curvome à evidência.

cooperará eficientemente conosco. Oh! Quem poderá entender. é preciso se cale o coração no grandiloqüente silêncio divino. mas. mas. a sorrir. mesmo por troça. . absolutamente por troça. semelhante júbilo? Por vezes. Concluindo. Pela primeira vez. depois de experiências úteis. no entanto. na Terra. Na maioria das vezes. pode verificar que. Clarêncio acentuou: . nos quinze anos de sua clínica. as elucidações surpreendentes. Devo esclarecer.84 NOSSO LAR numerosos abusos e muita irreflexão. preparando-se para o futuro infinito. presentemente. Sentia-me radiante. que mesmo o bem que proporcionou aos indiferentes surge aqui a seu favor. chorei de alegria na colônia. quinze não o esqueceram e têm enviado. o verdadeiro bem espalha bênçãos em nossos caminhos. praticou esses atos meritórios.Aprenderá lições novas em "Nosso Lar" e. Desses beneficiados. até aqui. também proporcionou receituário gratuito a mais de seis mil necessitados. veementes apelos a seu favor.

grande ansiedade de rever o lar terreno. naquelas circunstâncias. No íntimo. em hipótese alguma. Em verdade. reconhecia não merecer a hospitalidade de "Nosso Lar". Adivinhavam-me os pensamentos. apenas agora reconhecia que a experiência humana. mas.85 15 A VISITA MATERNA Atento às recomendações de Clarêncio. Passei dias entregue a profundas reflexões sobre a vida. Se até ali não me haviam proporcionado satisfação espontânea a semelhante desejo. Considerando as oportunidades perdidas. A importância da encarnação na Terra surgia-me aos olhos. porém. evidenciando grandezas até então ignoradas. talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão ríspidas. Clarêncio tinha dobradas razões para falar-me com aquela franqueza. procurava reconstituir energias para recomeçar o aprendizado. Abstinha-me. Os benfeitores do Ministério do Auxílio eram excessivamente generosos para comigo. lembrava meus erros antigos e sentia-me confortado. é que tal propósito não . Os fluidos carnais compelem a alma a profundas sonolências. Noutro tempo. poderia ser levada à conta de brincadeira. de pedir novas concessões.

Beijei-a repetidas vezes. E em vez de carregar minha adorada velhinha nos braços. filhinho. costuma castigar o coração. apertei-a nos braços. radiante.Estás ainda fraco. Calava-me. Olhos arregalados de alegria. confiante. . . não me enganavam. Afinal.86 NOSSO LAR seria oportuno. resignado e algo triste. nos derradeiros tempos de sua romagem por lá. querido meu! Não posso dizer o que se passou então. como fazia na Terra. nessa fase de recolhimento inexprimível. Senti-me criança. foi ela quem me despertou do enlevo. porém. foi ela quem me enxugou o pranto copioso. em que o homem é chamado para dentro de si mesmo.respondi. Lísias fazia o possível por alegrar-me com os seus pareceres consoladores. recomendando: . quando excessiva.Filho! meu filho! Vem a mim.Vamos. pela consciência profunda. vi minha mãe entrar de braços estendidos. aqueles olhos brilhantes de Lísias. no meu apartamento. na areia do jardim. não te emociones tanto assim! A alegria também. conduzindo-me ao divã. o bondoso visitador penetrou. então. pés descalços. Não desperdices energias. como no tempo em que brincava à chuva. Um dia. filho. chorando de júbilo.Minha mãe! . Eu estava. exclamando: . experimentando os mais sagrados transportes da ventura espiritual. misturei minhas lágrimas com as suas lágrimas. . .Adivinhe quem chegou à sua procura! Aquela fisionomia alegre. Abraceime a ela carinhoso. abraçados. contudo. e não sei quanto tempo estivemos juntos.

temporariamente. cuidadosamente.Nunca saberemos agradecer a Deus tamanhas dádivas. para que aprendamos o amor divino. ao carinho maternal. fixava-lhe as vestes. aureolada a fios de neve. acariciava-lhe as mãos queridas. e sim preciosa bênção de acréscimo da misericórdia divina. as meias de lã. Copiando antigas exi- . Aqueles minutos davam-me a idéia de um sonho tecido em trama de felicidade indizível. a Providência separa os corações. Às vezes. Qual menino que procura detalhes. cópia perfeita de um dos seus velhos trajos caseiros. em seus joelhos. afagando-me de leve. Identificando-lhe a ternura de todos os tempos. Oh! como é difícil alijar resíduos trazidos da Terra! Como pesa a imperfeição acumulada em séculos sucessivos! Quantas vezes ouvira conselhos salutares de Clarêncio. todavia. porém. senti que se me reavivavam as chagas terrenas. meu filho. Notando-lhe o vestido escuro. para renunciar às lamentações. o olhar doce e calmo de todos os dias. mas.87 NOSSO LAR Sentei-me a seu lado e ela. ajeitou-me a fronte cansada. Do pranto de alegria passei às lágrimas de angústia. a mantilha azul. O Pai jamais nos esquece. falou com serenidade: . relembrando exacerbadamente os trâmites terrestres. contemplei a cabeça pequenina. o mais venturoso dos homens. Mãos trêmulas de contentamento. confortando-me à luz de santas recordações. como que se reabriam velhas feridas. Que longo tempo de separação! Não julgues. Não conseguia atinar que a visita não era para satisfação dos meus caprichos. mais forte que eu. Senti-me. Guardava a impressão de haver o barco de minha esperança ancorado em porto mais seguro. sem conseguir articular uma frase. então. A presença maternal constituía infinito reconforto ao meu coração. observações fraternais de Lísias. que me houvesse esquecido. as rugas do rosto. Minha mãe.

ou pelas feridas que sangram em nós.88 NOSSO LAR gências. portanto. Nossa dor. antes de tudo. Sintamo-nos agora numa escola diferente. quase sempre.Oh! filho. concluí erroneamente que minha genitora deveria continuar como repositório de minhas queixas e males sem-fim. porém. pois. Na posição de mãe terrestre. Agradeçamos ao Pai a bênção desta reaproximação. Não te queixes. é indispensável atender. ao Senhor. . aqui. Minha mãe ouviu-me calada. não ignoro as instruções que o nosso generoso Clarêncio te ministrou. nem sou a única mãe a sentir-se distante dos entes amados. nem sempre consegui orientar-te como convinha. não nos edifica pelos prantos que vertemos. Na mesma falsa concepção de outros tempos. Esses gestos são perdoáveis nas esferas da carne. Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder. filho meu. Na Terra. Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos. aconchegando-me de quando em quando mais estreitamente ao coração. falou. onde aprendemos a ser filhos do Senhor. presentemente. Olhos úmidos. as mães não passam de escravas. Também eu trabalho. Alguma coisa tenta operar o retrocesso de minhalma. mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito. Não és o único homem desencarnado a reparar os próprios erros. qual se foras a melhor criatura do Universo. mas essa atitude. Tuas lágrimas fazem-me voltar à paisagem dos sentimentos humanos. descambei para o terreno das confidências dolorosas. reajustando o coração. a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos. erigir-te um trono. no conceito dos filhos. Quero dar razão aos teus lamentos. não se coaduna com as novas lições da vida. deixando transparecer inexprimível melancolia. carinhosa: .

e beijei-a na fronte. minha mãe prosseguiu: . filho. Aquelas palavras benditas me despertaram. por que desviá-los para a sombra das lamentações? Regozijemo-nos. sentindo-a mais amorosa e mais bela que nunca. Amemonos. mostrando belo sorriso. Guardava a impressão de fluidos vigorosos que partiam do sentimento materno vitalizando-me o coração.Se é possível aproveitar estes minutos rápidos. Ergui-me. em que a consciência profunda me advertia solene.89 NOSSO LAR Depois de longa pausa. Modifica a atitude mental. com o grande e sagrado amor divino. experimento sublime felicidade em tua ternura filial. respeitoso. . mas não posso retroceder nas minhas experiências. em expansões de amor. Confortame tua confiança em meu carinho. Minha mãe me contemplava desvanecida. e trabalhemos incessantemente. agora.

animado e feliz. Devo fazer-te sentir. sempre. permanecem agarradas ao lar terrestre. Desde que voltei da Terra.Oh! minha mãe! . mais alegre. É antes revelação de responsabilidade necessária.deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação! Que sublimes contemplações espirituais. a distância dos deveres justos. no entanto. mais trabalho. Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e dificuldades. a pretexto de muito amarem . requer. que ventura!. tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual. Sentia-me outro. . que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza. Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas. levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes. reorganizando-me as energias interiores. maior abnegação.90 16 CONFIDÊNCIAS Consolou-me a palavra maternal. na situação em que me encontro. desencarnando. meu filho. Inesperado e inexprimível contentamento banhava-me o espírito.exclamei comovido .A esfera elevada. Aqueles conceitos alimentavam-me de estranho modo. Ela esboçou um sorriso significativo e obtemperou: . Muitas entidades.

precisa trabalhar sempre. nem a assistência desvelada de outros amigos nossos. restringira o padrão vibratório. fora do nosso lar. a quem fizera muitas promessas. porque as desventuradas criaturas. Tendo gasto muitos anos a fingir. arraigado ao cavalheirismo do alto comércio. Duas delas estavam mentalmente ligadas a vasta rede de entidades maléficas. pela mente e pelo coração.91 NOSSO LAR os que demoram no mundo carnal... por falta de perseverança no bom e reto pensamento. em matéria religiosa. portanto. novamente enredado na sombra. Laerte. A princípio. Os princípios da família e o amor ao nosso nome ocuparam algum tempo o seu espírito. no fundo. então. . não percebeu minha presença espiritual. no Umbral. De algum modo. repelindo as tentações. aguardavam-no ansiosas.Ah! teu pai! teu pai!. mas. para transbordar em benefícios. a cujos quadros pertenceu até ao fim da existência. e. mas não pôde compreender que após a morte do corpo físico a alma se encontra tal qual vive intrinsecamente. tão logo desencarnou o meu pobre Laerte. todavia. e o resultado foi achar-se tão-só na companhia das relações que cultivara irrefletidamente. e ao fervor do culto externo. mas caiu afinal. Desde minha vinda. Na Terra. procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos. viciara a visão espiritual. que o verdadeiro amor. sempre nos parecera fiel às tradições da família. esforçando-se por encontrar-me. era fraco e mantinha ligações clandestinas. prendendo-o de novo nas teias da ilusão.onde está? Por que não veio com a senhora? Minha mãe estampou singular expressão no rosto e respondeu: . ele quis reagir. lutou.perguntei .E meu pai? . . Ensinaram-me aqui. a passagem no Umbral lhe foi muito amarga. Há doze anos que está numa zona de trevas compactas.

inclusive aqui em "Nosso Lar". suspirou.Talvez não saibas ainda que tuas irmãs Clara e Priscila vivem hoje igualmente no Umbral. . de quando em quando. que te restabeleças breve. Depois de longa pausa. anos a fio. retiram-no às minhas sugestões.. Meu único auxílio direto repousava na cooperação afetuosa de tua irmã Luísa. meios de subtrai-lo a tais abjeções? . de ti e das irmãs. tão grande é a perturbação dos nossos familiares.Não há. Tento atraí-lo ao bom caminho. agarradas á crosta da Terra. em benefício de teu pai. de atividade espiritual mais elevada. porém. Venho trabalhando intensamente. Espero. ainda na Terra. a meu lado. entre a indiferença e a revolta.92 NOSSO LAR Muitíssimo impressionado. Seu potencial vibratório é ainda muito baixo.elucidou a palavra materna -. Não é possível acender luz em candeia sem óleo e sem pavio. sem obter resoluções sérias. a fim de reencarnar entre eles. As infelizes. não me percebe. Clarêncio quase conseguiu atraí-lo ao Ministério da Regeneração. eu o visito freqüentemente. Precisamos da adesão mental de Laerte. o pobrezinho permanece inativo em si mesmo. para conseguir levantá-lo e abrir-lhe a visão espiritual. Ele. pois. aquela que partiu quando eras pequenino.. mas debalde. Solicitei o amparo de amigos em cinco núcleos diversos. num gesto heróico de sublime renúncia. mas apenas consigo arrancar-lhe algumas lágrimas de arrependimento. continuando: .Ah! meu filho . para que possamos desdobrar atividades no bem. Luísa esperou-me aqui muitos anos. pela inspiração. depois de lutar corajosa. Ultimamente. contudo. foi meu braço forte nos trabalhos ásperos de amparo à família terrena. perguntei: . que voltou a semana passada. porém. Sou compelida a atender às necessidades de todos. No entanto. das quais se tornou prisioneiro. Certa vez.

Que espécie de lutas seriam as dele? Não parecia sincero praticante dos preceitos religiosos.Não as classifiques assim . antes. entretanto. o instante de voltar a casa. acentuou: . Oh! minhas imensas saudades devem ser igualmente compartilhadas por eles! Como deve sofrer minha desventurada esposa com esta separação!. que tem acompanhado o papai devotadamente. a fim de auxiliá-los.Não deves. mas por elas também.A senhora. Espantou-me a grande manifestação de renúncia. Pensei subitamente em minha família direta. nossas irmãs doentes. nada poderá informar relativamente a Zélia e às crianças? Aguardo. Minha mãe esboçou um sorriso triste e acrescentou: . não obstante a ligação dele com essas mulheres infames? . em primeiro lugar. depois de meditar alguns instantes. meu filho. Senti o velho apego à esposa e aos filhos queridos. e estou convencida de haver encontrado recursos para atraí-los todos ao meu coração.. São filhas de nosso Pai. Aproveitando o minuto que corria célere. igualmente. interroguei: . porém. não comungava todos os domingos? Enlevado com a dedicação maternal. ignorantes ou infelizes.A senhora. Perante Clarêncio e Lísias. inquietar-te com o problema de auxílio à família. E. Não tenho feito intercessões apenas por Laerte.93 NOSSO LAR Assombravam-me as informações referentes a meu pai. perguntei: . ansioso.. Prepara-te.ponderou minha mãe -' dize. mas o olhar materno encorajava-me. Alguma coisa me fazia sentir que minha mãe não se demoraria muito tempo a meu lado.Tenho visitado meus netos periodicamente. Vão bem. deliberava sempre recalcar sentimentos e calar indagações. auxilia o papai. para .

Não venhas. preciso ainda avistarme com o Ministro Célio. nos gabinetes transformatórios. Afagou-me então. Curioso por saber como vivia até ali. A palestra estendeu-se ainda longa. Mais tarde. carinhosa. E. em pensamento. esquivando-se. envolvendo-me em sublime conforto. meu filho. Esperam-me com urgência no Ministério da Comunicação. . há questões que precisamos entregar ao Senhor. antes de trabalhar na solução que elas requerem. pedi permissão para acompanhá-la.94 NOSSO LAR que sejamos bem sucedidos. deixando-me nalma duradoura impressão de felicidade. beijou-me e partiu. Quis insistir no assunto para colher pormenores. para agradecer a oportunidade desta visita. ela despediu-se. onde serei munida de recursos fluídicos para a jornada de regresso. Além disso. delicada. e disse: . mas minha mãe não reincidiu nele.

Segui-o. surpreso. Clarêncio. Não cabia em mim de contente. Recebido amavelmente pelo magnânimo benfeitor. agora. Olhei para Lísias. após a inesperada visita de minha mãe.95 17 EM CASA DE LÍSIAS Não se passaram muitos dias. examinarei atentamente a possibili- . De alguma sorte. Henrique de Luna deu por terminado seu tratamento. quando Lísias me veio buscar. aproveite o tempo observando e aprendendo. naquele instante. O enfermeiro correspondeu-me ao olhar com intenso júbilo.disse. . doravante está autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos serviços. com exceção dos Ministérios de natureza superior. esperava-lhe as ordens com enorme prazer. afável -.Tornando-se dispensável sua permanência no parque hospitalar. poderia trabalhar. como irmão que devia participar da minha felicidade indizível. ingressando em escolas diferentes. e é justo. acentuou: . na semana última.Meu amigo . Era o início de vida nova. que parecia perceber minha intraduzível ventura. a chamado do Ministro Clarêncio.

. Consultarei alguma de nossas instituições. O interstício das experiências carnais deve ser bem aproveitado. . enquanto perdurar o curso de observações. Não perca tempo. meu caro. . Clarêncio.96 NOSSO LAR dade de sua localização em ambiente novo. porém. da Comunicação e do Esclarecimento. acrescentou: . Lísias. Ao tinido brando da campainha no interior. cortou-lhe a palavra. estimaria recebê-lo em nossa casa. .gritou o enfermeiro.disse-me o atencioso Ministro do Auxílio. do Auxílio. Passados minutos. durante um ano. .. surgiu à porta simpática matrona. por sua vez...Se possível. também lhe endereçou um olhar de aprovação. enlevado de prazer. apresentando-me alegremente este é o irmão que prometi trazer-te. Abracei o prestativo enfermeiro.exclamou o delicado companheiro. murmurando: . sempre que recebemos um amigo no coração. entregando-me pequena caderneta -. veremos o que será possível fazer relativamente aos seus desejos. A alegria às vezes nos emudece. sem poder traduzir meu agradecimento. exclamando: .Mãe! Mãe!.O nosso lar.É aqui . Lísias deu-me o braço e saí. Decorrido esse tempo. com ele. Lísias! Jesus alegra-se conosco. com expressão carinhosa. minha mãe o trataria como filho. dentro de "Nosso Lar". Fitei o visitador num transporte de alegria. lá. . cercada de colorido jardim. Instrua-se.Guarde este documento . poderá ingressar nos Ministérios da Regeneração.Muito bem. eis-nos à porta de graciosa construção. E.

Rimo-nos todos e murmurei. quando passaram por aqui alguns embaixadores da Harmonia? .Como vê. Móveis quase idênticos aos terrestres. Não sabia como agradecer a generosa hospitalidade. depois do sepulcro não encontrou ainda os anjos harpistas. . Lísias falou. não faças ironia. demonstrando pequeninas variantes. revelando singular bom humor.97 NOSSO LAR . com funções maternais. descansando sobre ele grande harpa talhada em linhas nobres e delicadas. amigo! . Quadros de sublime significação espiritual. Obrigar-me-ia a lembrar. de repente. mamãe. Identificando-me a curiosidade. mas a nobre matrona. Ambiente simples e acolhedor. prazenteiro: . e precisamos criar audição espiritual. Nesse caso. mas quero apenas dizer que os harpistas existem. Não te recordas como o Ministério da União Divina recebeu o pessoal da Elevação. no ano passado. .atalhou a palavra materna.Esta casa é sua. objetos em geral. para demonstrar minha comoção e reconhecimento.. carinhosa -.Sim. Ia ensaiar algumas frases. . terá em mim uma irmã.Oh! Lísias . adiantou-se.Que o Senhor traduza meu agradecimento a todos em renovadas bênçãos de alegria e paz. mas aí temos uma harpa esperando por nós mesmos. muitas frases convencionais da Terra. Entramos..exclamou a senhora nobremente. adivinhando-me os pensamentos: . Não o faça. E abraçando-me: .Seja bem-vindo.Está proibido de falar em agradecimentos. um piano de notáveis proporções. comovido: .Soube que sua mamãe não vive aqui.

Em seguida aos conceitos obrigatórios de apresentação. continuando a observar os primores da arte fotográfica. cheia de ternura. mas confortável. enlevava-me. Respirava-se.Temos em "Nosso Lar". ali. demorando-me na Sala de Banho. Não conseguia disfarçar meu contentamento e enorme alegria. com que relacionei minha procedência. tinha consigo duas irmãs. no que concerne à literatura. os que estimam o veneno psicológico. Não pude deixar de sorrir. Aquele primeiro contacto com a organização doméstica na colônia. . nas páginas sob meus olhos. Iolanda e Judite. vim a saber que a família de Lísias vivera em antiga cidade do Estado do Rio de Janeiro. Notando-me o interesse.98 NOSSO LAR para ouvi-los. enquanto perseveram em semelhante estado dalma. A hospitalidade. arrancava-me ao espírito notas de profunda emoção. Não voltara a mim da admiração que me empolgava. Em face do tiroteio de perguntas. esforçando-nos. quando a senhora Laura convidou à oração. chamou-me Lísias para ver algumas dependências da casa. no aprendizado das coisas divinas. nem mesmo no Ministério da Regeneração. Por aqui não se equilibram. uma enorme vantagem. Iolanda exibiu-me livros maravilhosos. em casa. Em seguida. doce e reconfortante intimidade. Tudo simples. que sua mãe chamava-se Laura e que. são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral. a dona da casa advertiu: . cujas instalações interessantes me maravilharam. é que os escritores de má-fé. por nossa vez.

Ligado um grande aparelho. fez-se ouvir música suave. Era o louvor do momento crepuscular. que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes. . senti que minhalma se ajoelhava no templo interior. silenciosos. ao fundo. E vendo o coração azul desenhado ao longe. porém. Surgiu. em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento. o mesmo quadro prodigioso da Governadoria. em torno de grande mesa. Naquele momento.99 NOSSO LAR Sentamo-nos. sentia-me dominado de profunda e misteriosa alegria. no parque hospitalar.

Na Comunicação e no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos. em "Nosso Lar". Na Elevação o consumo de sucos e concen- . não os dispensam. ALIMENTO DAS ALMAS Terminada a oração.ponderou uma das jovens -. vivamos a depender de alimentos.100 18 AMOR. diferindo apenas a feição substancial. mas. inclusive o da União Divina. nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Há residências. chamou-nos à mesa a dona da casa. nas zonas do Ministério do Auxílio. não quer dizer que somente nós. não podemos prescindir dos concentrados fluídicos. ouvi a senhora Laura observar com graça: . servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas. Eminentemente surpreendido.Isso. tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem.Afinal. . que as dispensam quase por completo. que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos. Despendemos grande quantidade de energias. Todos os Ministérios. porém . É necessário renovar provisões de força. os funcionários do Auxílio e da Regeneração.

criaturas desencarnadas. transforma-o segundo a exigência do paladar que lhe é próprio. e. explicando: . a exemplo da criança sugando o seio materno. como no caso dos veículos terrestres. O alimento físico. mesmo aqui. Percebendo-me a satisfação íntima. propriamente considerado. no subsolo do planeta. mas a mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos. em si. recebemos em "Nosso Lar" grandes comissões de instrutores. Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura. que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual.Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor. e serve-se dele à mesa do lar. quanto mais evolvido o ser criado. e o processo será cada vez mais delicado. De quando em quando. é simples problema de materialidade transitória. Nós outros. mais sutil o processo de alimentação. e. apenas se nutre de amor. Lísias interveio.Tudo se equilibra no amor infinito de Deus. O grande animal colhe na planta os elementos de manutenção. nas variadas esferas da vida. Todo sistema de alimentação. necessitados de colaboração da graxa e do óleo. acentuando: . ansioso de explicações imediatas. os fenômenos de alimentação atingem o inimaginável. O verme. necessitamos de substâncias suculentas. mais extensamente conheceremos essa verdade. nutre-se essencialmente de terra. na União Divina. O homem colhe o fruto do vegetal. tendentes à condição fluídica. tem no amor a base profunda.101 NOSSO LAR trados não é reduzido. A alma. . Sorriam todos da minha natural perplexidade. Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação. Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo? Tais elucidações confortavam-me sobremaneira. à medida que se intensifique a ascensão individual.

dependemos absolutamente do amor. mais tarde.102 NOSSO LAR . o homem e nós. a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física.acrescentou a senhora Laura -. nos quais todos aprenderemos.Não esqueçamos. porque. adivinhando-me talvez os pensamentos. Recordei instintivamente as teorias do sexo. a luz da compreensão.constituem sólidos alimentos para a vida em si. experimentamos grandes limitações. a questão dos veículos .E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual. O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino.aduzi. que a prática do bem constitui simples dever. a nos alimentarmos uns aos outros. mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito. todavia. Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência. reconhecemos que toda a estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual. Aconselhava-nos. a bondade recíproca. Reencarnados na Terra. cidades e nações em obediência a imperativos tais.É extraordinário! . a realização transitória. O homem encarnado saberá. que a conversação amiga. . largamente divulgadas no mundo. Formam-se lares. o verme. a senhora Laura sentenciou: . . o interesse fraternal . comovido. reduzida.Não se lembra do ensino evangélico do "amai-vos uns aos outros"? prosseguiu a mãe de Lísias atenciosa . a confiança mútua. mais dia menos dia. vilas. voltando para cá. mas. o carinho e a confiança. no fundo. o gesto afetuoso.patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo .Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão-somente os casos de caridade. A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à . Entre os casais mais espiritualizados. igualmente. o animal. entre eles. entretanto. no campo da fraternidade e da simpatia.

almas irmãs. Utilizaram o dia com proveito. Decorridos momentos. faltam companheiros. hoje. Não estraguem o programa afetivo. . amparando-se mutuamente. alegria.Todos vocês trabalharam muito.nossos irmãos Polidoro e Estácio.objetou Lísias contente -. porém. sem que a maior parte dos homens se aperceba. tiniu a campainha fortemente. meu amigo . Para que se alimente a ventura. constituem pares e grupos numerosos. às vezes. Judite acrescentou: . conseguem equilíbrio no plano de redenção. a senhora Laura falou sorridente: . Saudações. Notando a preocupação de Lísias. Valendo-se da pausa. Dois rapazes de fino trato entraram na sala. dirigindo-se a mim gentilmente . advertiu a palavra materna: .Aqui tem . porém. até que te possa acompanhai nesses entretenimentos. Unindo-se umas às outras. de se alinharem novas considerações." Antes. Não faças Lascínia esperar tanto.Como vê. Não esqueçam a excursão ao Campo da Música. por nossa causa. Nosso irmão ficará em minha companhia. abraços. basta a presença e.103 NOSSO LAR manifestação da harmonia. . ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo. apenas a compreensão. "Nem só de pão vive o homem. Almas gêmeas.disse Lísias. a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada. companheiros de serviço no Ministério do Esclarecimento. meu filho. Quando. Levantou-se o enfermeiro para atender. almas afins.Aprendemos em "Nosso Lar" que a vida terrestre se equilibra no amor. .Vai.

exclamei. Os laços afetivos. que voltou da Terra há poucos dias. Saíram todos. A senhora Laura. . meu amigo. ainda hoje. fechando a porta.Vão em busca do alimento a que nos referíamos. em meio do júbilo geral. Temos em casa minha neta convalescente. O amor. esboçou amável sorriso e respondeu . são mais belos e mais fortes. aqui.Não se incomode por mim . porém. o pábulo sublime dos corações. A dona da casa.Não poderei compartilhar das alegrias do Campo. é o pão divino das almas.104 NOSSO LAR . voltou-se para mim e explicou sorridente: . instintivamente.

em forte sonolência.perguntei à dona da casa. alimenta-se a sós . a tolinha continua nervosa. Demandamos um quarto confortável e muito amplo. Minha neta demorou-se no Umbral quinze dias. Seria muito interessante ouvi-la. veio submeter-se aos meus cuidados diretos.105 19 A JOVEM DESENCARNADA . Há quanto tempo estava sem notícias diretas da existência comum? A senhora Laura não se fez rogada quando lhe dei a conhecer meu desejo. A neurastenia e a inquietação emitem fluidos pesados e venenosos. ensaiando palestra mais íntima. assistida por nós.esclareceu dona Laura -. Manifestei desejo de visitar a recém-chegada do planeta. que se misturam automaticamente às substâncias alimentares. Uma jovem muito pálida repousava em cômoda poltrona. Surpreendeu-se vivamente ao verme. Aqui. . abatida.Por enquanto. mas. afinal. Deveria ingressar nos pavilhões hospitalares. não trazemos à mesa qualquer pessoa que se manifeste perturbada ou desgostosa. .Sua neta não vem à mesa para as refeições? .

é necessário reagir contra isso.Este amigo.Deve estar cansada . Vi a jovem arregalar os olhos muito negros. entretanto. . nada mais. justifica-se. dando-me eu a conhecer. colando o lenço ao rosto. que ela respondesse.106 NOSSO LAR . embora os olhos perdidos nas fundas olheiras traduzissem grande esforço para concentrar atenção. Eloísa .Admitamos que viesse. do otimismo e da coragem. forçando a lei. Antes. a senhora Laura acrescentou: . mas em vão. Sorrindo maternalmente. é um irmão nosso que voltou da esfera física. O tórax começou a arfar-lhe violentamente e.explicou a genitora de Lísias. porém. Cumprimentou-me. de modo algum. como a reter o pranto. não se pode prescindir. Em parte.Eloísa tem estado inquieta. Não seria mais duro o sofrimento? Não pagarias caro a cooperação .observei. Estas impressões são os resultados da educação religiosa deficiente. procurando subtrai-la a esforços sobreposse fatigantes: . por minha vez. esboçando vago sorriso. que. a tempo algum.disse a meiga senhora abraçando-a . Sabes que tua mãe não se demorará e que não podes contar com a fidelidade do noivo. A moça fitou-me curiosa. não conseguia conter os soluços angustiosos.Tolinha! . desposará outra e deves habituar-te a esta convicção. Ele ainda está longe do espírito sublime do amor iluminado. Nem seria justo exigir-lhe a vinda brusca. está preparado a te oferecer uma sincera dedicação espiritual na Terra. aflita. adiantou-se a senhora Laura. Naturalmente. há pouco tempo. indicando-me -. . A tuberculose foi longa e deixou-lhe traços profundos.

é inenarrável. Penalizou-me o pranto copioso da jovem. de fato. E se amas. tentando subtrai-la à crise de lágrimas.Mas não deve chorar assim . Eloísa? . Tudo isso dá que pensar . . falando mais calma: . porém.. ora. Além disso. comparadas às nossas experiências. Você é muito feliz. agora calada..interroguei. quanto tenho sofrido... está com os seus parentes e não conheceu tempestades na grande viagem. . porém.Donde vem você.Ora. . Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa. Ela pareceu reanimar-se. Além disso. ficou sem consolo.observou a senhora Laura a sorrir. o rapaz. vovó. Desencarnou há poucos dias. parecia igualmente desejosa de vê-la desembaraçar-se..Não imagina.Do Rio de Janeiro..acentuou contrafeita. deves procurar harmonia para beneficiá-lo mais tarde. Oito meses de luta com a tuberculose.. desesperado. não obstante os tratamentos. . tua mãe não tarda a chegar. . Pura cegueira: há milhões de criaturas afrontando situações verdadeiramente cruéis. A mãe de Lísias.107 NOSSO LAR que houvesses desenvolvido nesse particular? Não te faltarão amizades carinhosas.objetei.Arnaldo. Procurei estabelecer novo rumo à conversação. nem colaboração fraternal.. para que te equilibres aqui. o que padeceu por minha causa o pobre noivo. a mágoa de haver transmitido a moléstia a minha carinhosa mãe. a moça respondeu: . não diga isso . Após longos instantes em que enxugava os olhos lacrimosos.

Poderás auxiliá-lo. já o encontrarás casado com outra.perguntou a matrona com inflexão de carinho. sem dúvida. Observei teu ex-noivo. vendo-te o corpo reduzido a frangalhos. em caráter confidencial.Será possível? A genitora de Lísias esboçou um gesto extremamente carinhoso e falou: . por quê? É preciso te habituares a considerar as necessidades alheias. Não podes operai milagres nele. a colega que te levava flores todos os domingos? Pois nota: quando o médico anunciou. Não sabia a convalescente como portar-se ante a serenidade e o bom senso da avó. nem tentes desmentir-me. notei a surpresa dolorosa de Eloísa.Horror. a impossibilidade de restabelecer-te o corpo físico. Reconfortar-se-á muito depressa. o teu otimismo. Amor iluminado não é para qualquer criatura humana.Não sejas teimosa. a senhora Laura insistiu. diversas vezes. começou a envolvê-la em vibrações mentais diferentes. Era natural que ele se comovesse tanto. embora muito magoado.Não te recordas da Maria da Luz. não demorarão muito as resoluções novas. Conserva. muito meiga: . quando puderes excursionar às esferas do planeta. Arnaldo. mas não está preparado para compreender um sentimento puro. Ah! que horror. Agora que aqui estás. por . Admirado por minha vez. em nossa companhia.E acreditas sinceramente nessa impressão? .108 NOSSO LAR . não está alertado para as belezas sublimes do amor espiritual. mas no que concerne à união conjugal. muitas vezes. Vendo que a enferma parecia tomar a atitude íntima de quem deseja provas. Teu noivo é homem comum. . vovó! . portanto. no curso da tua enfermidade.

a mãe de Lísias convidou-me novamente à sala de estar. Questão de tempo e serenidade. nas teias do amor-próprio. A bondosa senhora percebeu-me a intranqüilidade e.Não será.justamente Maria da Luz. mais agradável confiá-lo aos cuidados de uma criatura irmã? Maria da Luz será sempre tua amiga espiritual. filhinha: nasce da terra inculta do nosso milenário egoísmo.109 NOSSO LAR muito que o ames. A senhora Laura. o lugar dela seria em qualquer dos nossos hospitais. a vovó não te fala para ferir. porque minha querida Teresa. Entretanto. Eloísa prorrompera em soluços. falou em tom confidencial: . Arnaldo conhecerá mais tarde a beleza do teu idealismo. mais tarde. esclareceu sensatamente: . Ao sentarmo-nos. mas. considerando que a doente necessitava de repouso. A descoberta de si mesmo é apanágio de cada um. . sorriu e falou. sua mãe. todavia. da nossa renitente vaidade humana. aliás.clamou a jovem. chorando . . ao passo que outra mulher talvez te dificultasse. é muito do meu agrado. é preciso entregá-lo às experiências de que necessita. cautelosa: . porém. entretanto. A rigor. está a chegar. mas para acordar. Enquanto Eloísa chorava. Isso. Um pouco de paciência e atingiremos a solução justa. Prendeu o coração. o acesso ao coração dele.Sei a causa do teu pranto. demasiadamente.Minha neta chegou profundamente fatigada. Eu estava eminentemente surpreendido. a amiga que sempre julguei fidelíssima. o Assistente Couceiro julgou melhor situá-la junto ao nosso carinho. por agora. no propósito talvez de orientar tanto a neta quanto a mim.Não me conformo! .

com raras exceções. em "Nosso Lar". e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo. perguntei. preparando-se para voltar ao planeta ou para ascender a esferas mais altas. no entanto.O lar terrestre é que.Desempenhando tantos deveres.Sim. invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal. a senhora ainda tem atribuições fora de casa? . assumem numerosas obrigações. . As almas femininas. as finalidades da colônia residem no trabalho e no aprendizado. aqui.Mas a organização doméstica. pela última . estão ainda a mondar o terreno dos sentimentos. mas os cônjuges por lá. Quando regressei do planeta. vivemos numa cidade de transição. se esforça por copiar nosso instituto doméstico.110 20 NOÇÕES DE LAR Desejando colher valores educativos que fluíam naturalmente da palestra da senhora Laura. de há muito. é idêntica à da Terra? A interlocutora esboçou uma facies muito significativa e acrescentou: . curioso: .

. nas esferas do globo.prosseguiu ela -. envolvido nas inspirações criadoras da vida. como é natural. que. um faz viagens mentais . muito versado em matemática . Há na Terra. Dissimulam em sociedade e.indaguei com interesse. Quando o marido permanece calmo. A reta vertical é o sentimento feminino. os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz.111 NOSSO LAR vez. no Ministério do Esclarecimento. porém. na minha crise de orgulho ferido. nova corrente de idéias me penetrou o espírito. Importa considerar. É templo. Coincidiu. Desde esse dia. Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada. fui levada a ouvir um grande instrutor. profundas ilusões. Onde. que. onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente. a mulher parece desesperada. quando a esposa se cala.Não poderia dizer-me algo das lições recebidas? . trazia. . baseado na harmonia justa. rumo aos planos superiores da Criação. humilde. grande número de estudiosos das questões sociais. o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente. na vida íntima. Nem a consorte se decide a animar o esposo.O orientador. A reta horizontal é o sentimento masculino. em marcha de realizações no campo do progresso comum. feznos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. entretanto. O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. o verdadeiro instituto doméstico. nem o marido se resolve a segui-la no vôo divino de ternura e sentimento. na linha horizontal de seus trabalhos temporais. a rigor. com os direitos e deveres legitimamente partilhados? Na maioria. o companheiro tiraniza. que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica. agora.

a maioria atravessa os véus do desejo. que lhe diz respeito. na integração de suas forças sublimes. quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar. Não há concessões recíprocas. observei: . Perguntas e . procuram-se mobilizando os máximos recursos do espírito. Se a mulher fala nos fílhinhos. essas definições suscitam um mundo de pensamentos novos. Esses conceitos calavam-me fundo e. nem mesmo fraternidade. Duas linhas divergentes tentam. o ângulo divino não está devidamente traçado. É claro que. meu amigo . e daí o dizer-se que todos os seres são belos quando estão verdadeiramente amando. Não se entendem.112 NOSSO LAR de longa distância. Ah! se conhecêssemos tudo isso lá na Terra!. se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho. E apaga-se a beleza luminosa do amor. o marido excursiona através dos negócios. Mas logo que recebem a bênção nupcial. Daí em diante. Enquanto as criaturas vulgares atravessam a florida região do noivado.replicou a nobre matrona -. formar o vértice sublime. os mais rudes mal se suportam.Senhora Laura. com todo o coração e com toda a alma. raros conhecem que o lar é instituição essencialmente divina e que se deve viver. e cai nos braços dos velhos monstros que tiranizam corações. . a mente da esposa volta ao gabinete da modista. os mais educados respeitam-se. Não há tolerância e. em tais circunstâncias.. quando os cônjuges perdem a camaradagem e o gosto de conversar. por vezes. sumamente impressionado. O assunto mais trivial assume singular encanto nas palestras mais fúteis. o homem e a mulher aprenderão no sofrimento e na luta.Questão de experiência. O homem e a mulher comparecem aí.. dentro de suas portas. a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna. Por enquanto. em vão.

A mulher não pode ir ao duelo com os homens. Por mais que se unam os corpos. e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. ensina que existem nobres serviços de extensão do lar. A tarefa da mulher.Tudo isso é a pura verdade! . Dentro de casa. o ensino. Uma não viverá sem a outra. sob algemas. A enfermagem. onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. irmã. e esmagadora porcentagem de ligações de resgate. não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão. Como sustentar-se o rio sem a fonte. os serviços de paciência. Nossa colônia. É preciso aprender a ser mãe. através de escritórios e gabinetes. porém. Procurando retomar o fio das considerações sugeridas por minha pergunta inicial. . existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas. no lar.aduzi comovido. a informação. O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados. . O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências. e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio? . porém. a indústria do fio.Que fazer.replicou a bondosa senhora . operando em rumos opostos. para as mulheres. fora dela.na fase atual evolutiva do planeta. esposa. meu amigo? . É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constituí abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino. missionária. representam atividades assaz expressivas. continuou a genitora de Lísias: .As almas femininas não podem permanecer inativas aqui. reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins. a atividade. vivem as mentes separadas. a inspiração.113 NOSSO LAR respostas são formuladas em vocábulos breves.

. não temos qualquer pessoa da família em zonas de repouso. quando isso não acontece.Quando o Ministério do Auxílio me confia crianças ao lar. continuou: . Sentir-me-ia envergonhada se não o executasse também. é programa fácil a todos. Interrompeu-se a interlocutora por alguns momentos. enquanto me perdia em vastas considerações. Oito horas de atividade no interesse coletivo. Todos trabalham em nossa casa. o que lhe pode dar idéia da importância do serviço maternal no plano terreno. ouvindo a interrogação. A não ser minha neta convalescente.114 NOSSO LAR Não pude deixar de sorrir. tenho meus deveres diuturnos nos trabalhos de enfermagem. minhas horas de serviço são contadas em dobro. com a semana de quarenta e oito horas de tarefa. diariamente. . depois de longo intervalo. A mãe de Lísias. Entretanto..

por exemplo. pertence-lhe? Ela sorriu e esclareceu: .A palestra. porém. cada família espiritual. pode conquistar um lar (nunca mais que um). sugere numerosas interrogações. Não estou em condições de ensinar. a propriedade aqui é relativa. Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons. é o nosso dinheiro. Rimo-nos da observação e indaguei em seguida: . todavia.retrucou. no fundo.115 21 CONTINUANDO A PALESTRA . o abuso. apresentando trinta mil bônus-hora.. As construções em geral representam patrimônio comum. pergunte sempre. relevar-me-á a curiosidade. bondosa -. sob controle da Governadoria. a custa de esforço e dedicação.Não diga isso .exclamei com interesse -. Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho. obtidos por nós mesmos. é sempre fácil informar. . senhora Laura .Como se encara o problema da propriedade na colônia? Esta casa.Tal como se dá na Terra.. Nossa morada . o que se pode conseguir com algum tempo de serviço. O bônus-hora.

porém. muito cedo. Dada a nossa boa- . que a existência laboriosa me livrara das indecisões e angústias do Umbral. aumentando nossa felicidade. Com o correr do tempo. o passado chamava a contas. A custa de testemunhos difíceis.116 NOSSO LAR foi conquistada pelo trabalho perseverante de meu esposo. Após ligeiro intervalo. aos trabalhos árduos. Não podíamos pagar à Terra com bônus-hora e sim com o suor honrado. Lísias. e cooperando no progresso efetivo dos que nos são afins. Desde então. representava o céu para mim. tive de enfrentar serviços rudes. porém. por colocar-me a coberto de muitas e perigosas tentações. nos campos de atividade honesta. tecer novo ninho de afetos. depois. mas sempre unidos pelos elos espirituais. Muito moça ainda. Compreendi. proporcionei aos rebentos de nossa união os valores educativos. vivemos a vida de perene ventura. trabalhando por nossa evolução. em que parecia meditar. de que eu podia dispor. Iolanda e Judite reuniram-se a nós.Mas a esfera do globo nos esperava. Minhas lutas na viuvez haviam sido intensas. Se o presente estava cheio de alegria. O suor do corpo ou a preocupação justa. meu esposo ministrou-me conhecimentos novos. não descansou. fruto de trabalhos. que veio para a esfera espiritual muito antes de mim. estreamos a habitação que ele organizara com esmero. preparando-nos um ninho para o futuro. habituando-os. acentuando-se nossa ventura. compreendeu imediatamente a necessidade do esforço ativo. depois de certo período de extremas perturbações. Reencontrar Ricardo. para que o futuro se harmonizasse com a lei eterna. Dezoito anos estivemos separados pelos laços físicos. Quando cheguei. Recolhido ao "Nosso Lar". Durante anos consecutivos. constituem valiosos recursos para a elevação e defesa da alma. unindo-nos cada vez mais. Ricardo. com os filhos tenros. minha interlocutora prosseguiu em tom grave: .

relativamente ao pretérito doloroso. o assunto referente a encarnações pregressas. quando se me aclarou a visão interior. por obséquio. e quem recorda o crime de que foi vítima. As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências. nos ciclos da vida eterna. Não estou isento dos laços físicos? Não atravessei o rio da morte? A senhora recordou o passado. . logo após sua vinda.replicou. É preciso grande equilíbrio para podermos recordar. A lei do ritmo exigia. não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura. nossa volta. até agora. sorridente -. na colônia. considera-se em conta de infeliz.Senhora Laura .exclamei. somente a alma. . um aparte. aclarava-se-nos a visão. muito segura de si. se tentam burlar esse dispositivo da lei. no entanto. ainda não pude conhecer mais detidamente o que se relaciona com o meu passado espiritual. então. Era a primeira vez que se feria tão fundo aos meus ouvidos. .perguntei. do mesmo modo.respondeu bondosamente -. As escamas da inferioridade são muito fortes. ou esperou o concurso do tempo? . Resolvemos ambos consultar o assistente Longobardo. . Coincidiu que meu marido partilhava o mesmo estado dalma. Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo. as lembranças vagas me causavam perturbações de vulto. edificando. recebe tais atributos como realização espontânea. Em geral. Portanto.Mas a senhora recordou o passado de maneira natural? . interrompendo-a -. e. permita.117 NOSSO LAR -vontade. Perdoe a curiosidade. é indispensável nos despojarmos das impressões físicas. antes de tudo.Esperei-o . Esse amigo. todos temos erros clamorosos.Explico-me . Aquelas afirmativas causavam-me viva impressão.

atalhei.Não. quão grande é ainda o nosso débito para com as organizações do planeta!. muito trabalho.. fomos submetidos a determinadas operações psíquicas.E bastou a leitura para que se sentisse na posse das reminiscências? .. declarando-nos incapazes de suportar as lembranças correspondentes a outras épocas. Os espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro. tivemos acesso em primeiro lugar à Seção do Arquivo.Em vista de nossas observações referentes ao passado. combinamos novo encontro nas esferas da crosta. nos encaminhou aos magnetizadores do Ministério do Esclarecimento.. Compreendemos. . Aguardo apenas a chegada de Teresa. e como surpresas indescritíveis. então. exclamei sob forte impressão. senhores de trezentos anos de memória integral. Ricardo partiu há três anos. para deixá-la junto aos nossos. Desse modo. . Ricardo e eu ficamos. a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações. seguirei dentro de breves dias. Temos trabalho. despertando certas energias adormecidas. A genitora de Lísias meneou significativamente a cabeça e murmurou: .E onde está nosso irmão Ricardo? Como estimaria conhecê-lo!. Quanto a mim.. O chefe do serviço de Recordações não nos permitiu a leitura de fases anteriores.. Depois de longo período de meditação para esclarecimento próprio. . curioso. na Terra. A leitura apenas informa.. onde todos nós temos anotações particulares. . sem prejuízo de nossa tarefa do Auxílio. Aconselharam-nos os técnicos daquele Ministério a ler nossas próprias memórias. então. durante dois anos. Recebidos com carinho.118 NOSSO LAR depois de minucioso exame das nossas impressões. abrangendo o período de três séculos.

transmitir-lhe minhas obrigações no Auxílio e partir sossegada. Pelo muito que sofreu não precisará dos tratamentos da Regeneração.119 NOSSO LAR E de olhar vago. ao lado da filha ainda retida na Terra. como se a mente estivesse muito longe. A passagem dela através do Umbral será somente de algumas horas.A mãe de Eloísa não tardará. Poderei. em vista dos seus profundos sacrifícios. O Senhor não nos esquecerá. portanto. a senhora Laura acentuou: . desde a infância. .

Aquisitivo? . atenciosa: . Há serviços centrais de distribuição na Governadoria e departamentos do mesmo trabalho nos Ministérios. porém. mas ficha de serviço individual.respondeu a bondosa senhora -. adquirem direitos justos. Cada habitante de "Nosso Lar" .Que me diz do bônus-hora? Trata-se de algum metal amoedado? Minha interlocutora perdeu o aspecto cismativo. .Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio comum e dele vivem. funcionando como valor aquisitivo. em "Nosso Lar" a produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em comum. Os que trabalham. modifiquei o rumo da palestra.Não é propriamente moeda. acentuou: . .120 22 O BÔNUS-HORA Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido. interrogando: . O celeiro fundamental é propriedade coletiva. Ante meu gesto silencioso de espanto. a que se recolhera. e replicou.Explico-me .perguntei abruptamente.

como também na obediência. cuja remuneração é duplicada e. Desse modo. indaguei. entretanto. de boa-vontade. os que cooperem podem ter casa própria. mas o operário dedicado vestirá o que melhor lhe pareça. nas diversas escolas dos Ministérios em geral. ou o contacto de orientadores sábios. no mínimo. Lembrando as organizações terrestres. nos lugares consagrados ao entretenimento. os que trabalhamos. poderá ser abrigado aqui. como conciliar semelhante padrão com a natureza do serviço? O administrador ganhará oito bônus-hora na atividade normal do dia. no que se refere ao estritamente necessário. sem falar dos serviços sacrificiais. sem dúvida. as almas operosas conquistam o bônus-hora e podem gozar a companhia de irmãos queridos. O espírito que ainda não trabalha.perguntei. mas os que se esforçam na obtenção do bônus-hora conseguem certas prerrogativas na comunidade social. deve dar. às vezes. espantado: . no entanto. . Os programas de trabalho. compreendeu? Os inativos podem permanecer nos campos de repouso. é o padrão de pagamento a todos os colaboradores da colônia.Mas. Cada um de nós. O ocioso vestirá. são numerosos e a Governadoria permite quatro horas de esforço extraordinário. ou nos parques de tratamento. nas vinte e quatro de que o dia se constitui. . há muita gente que consegue setenta e dois bônus-hora.Sim.121 NOSSO LAR recebe provisões de pão e roupa. Precisamos conhecer o preço de cada nota de melhoria e elevação. triplicada. favorecidos pela intercessão de amigos. aos que desejem colaborar no trabalho comum. oito horas de serviço útil. é esse o único título de remuneração? . por semana. e o operário do . porém.Todavia. não só na administração.

mais detidamente a sua pergunta. a confessar ausência do impulso vocacional. Vivem. quase todos. porém. porém. que todos pagarão muito caro a displicência. a natureza de serviço? Há técnicos de indústria econômica. o trabalho é de sacrifício pessoal. exigindo abonos. Todo o ganho externo do mundo é lucro transitório. aí. Se. é imprescindível fixar as remunerações terrestres com maior atenção. na própria esfera da crosta é que o assunto apresenta solução mais difícil. Examinando. esquecer determinados prejuízos da Terra.122 NOSSO LAR transporte receberá a mesma coisa? Não é o trabalho do primeiro mais elevado que o do segundo? A senhora sorriu à pergunta e explicou: . Onde. contudo. Parece ainda dis- . facilidades e aposentadorias. precisamos. a expressão remunerativa é justamente multiplicada. outros amontoam expressões bancárias que lhes servem de martírio pessoal e de ruína à família. Governos e empresas pagam a médicos que se entregam à exploração de interesses outros e a operários que matam o tempo. é indispensável considerar que setenta por cento dos administradores terrenos não pesam os deveres morais que lhes competem. Por isso mesmo. recebendo embora os proventos comuns aos cargos que ocupam. A natureza do serviço é problema dos mais importantes. que nunca prezaram integralmente a obrigação que lhes assiste e valem-se de leis magnânimas.Tudo é relativo. antes de mais nada. transmitindo fortunas vultosas à inconsciência e à dissipação. Vemos trabalhadores obcecados pela questão de ganhar. A maioria dos homens encarnados está simplesmente ensaiando o espírito de serviço e aprendendo a trabalhar nos diversos setores da vida humana. na orientação ou na subalternidade. à maneira de moscas venenosas no pão sagrado. Por outro lado. e que a mesma porcentagem pode ser adjudicada a quantos foram chamados à subordinação. Creia.

No Ministério da Regeneração. gastar nossos bônus-hora a favor dos amigos? indaguei curioso. a maioria prepara-se com vistas à necessidade de regresso aos círculos carnais. Percebendome a sede de instrução. extensão de possibilidades. o Bônus-HoraEsclarecimento. entretanto. Poderemos gastar os bônus-hora conquistados. Ora. para o plano espiritual superior. porque.O verdadeiro ganho da criatura é de natureza espiritual e o bônushora. quase tudo. e assim por diante. aqui. educação. examinando o provento espiritual. . estará mais sábio. que nos confere direito a preciosos títulos. no Ministério do Esclarecimento. em nossa cidade de transição. porém. sem a consideração dos valores morais despendidos. o que despendeu seis mil horas de atividade. a interlocutora continuou: . segundo a natureza dos nossos serviços. é razoável que a documentação de trabalho revele a essência do serviço. a benefício de si mesmo. em serviços regeneradores. os fatores assiduidade e dedicação representam.Poderemos. modifica-se em valor substancial. Examinando esse princípio. é mais valioso ainda o registro individual da contagem de tempo de serviço útil. é natural que o homem que empregou cinco mil horas. temos o Bônus-Hora-Regeneração. não se especificará teor de trabalho. em nossa organização. Em geral. Essas palavras despertavam-me para concepções novas. Semelhantes instruções interessavam-me profundamente. As aquisições fundamentais constituem-se de experiência. tenha efetuado esforço sublime. Nesse prisma.123 NOSSO LAR tante o tempo em que os institutos sociais poderão determinar a qualidade de serviço dos homens. no Ministério do Esclarecimento. . enriquecimento de bênçãos divinas.

é ocorrência muito significativa na existência de cada um.respondeu a senhora Laura. poderemos repartir as bênçãos de nosso esforço com quem nos aprouver. coope- . no entanto. no meu quadro de economia pessoal. nos anos de cooperação no Ministério do Auxílio.Perfeitamente . sorrindo. o valioso auxílio das organizações de nossa colônia espiritual. porque esses valores serão revertidos ao patrimônio comum. referentes ao processo simples de ganhar. A essa altura. . aqui. o meu caso. durante minha permanência nos círculos carnais. aproveitar. por exemplo. Ia prorromper em exclamações admirativas. igualmente.Quanto maior a contagem do nosso tempo de trabalho. minha ficha de serviço autoriza-me a interceder por ela e preparar-lhe aqui trabalho e concurso amigo.124 NOSSO LAR . entendeu? . investida de valores mais altos e demonstrando qualidades mais nobres de preparação ao êxito desejado. Compreendemos. Tenho comigo três mil Bônus-HoraAuxílio. portanto. Nesse cômputo. que nada existe sem preço e que para receber é indispensável dar alguma coisa. Aproxima-se o tempo do meu regresso aos planos da crosta. Não posso legá-los a minha filha que está a chegar. Isto é direito inalienável do trabalhador fiel.inquiri de repente. Somente poderão rogar providências e dispensar obséquio os portadores de títulos adequados. Volto à Terra. pela movimentação da amizade e do estimulo fraternal.disse ela -. deixo de referirme ao lucro maravilhoso que adquiri no capítulo da experiência. maiores intercessões podemos fazer. assegurando-me.Não temos aqui demasiadas complicações . a genitora de Lis ias sorriu e observou: . Vejamos. permanecendo minha família apenas com o direito de herança ao lar. Pedir.E o problema da herança? . Contam-se por milhares as pessoas favorecidas em "Nosso Lar".

mas um brando burburinho aproximou-se da casa. satisfeita: .125 NOSSO LAR rar e servir.Nossos queridos estão de volta. a senhora Laura murmurou. E levantou-se para atender. Antes que pudesse emitir qualquer observação. confrontando aquelas soluções com os princípios imperantes no planeta. .

O espetáculo apresentava-se soberbo! Habituado à reclusão hospitalar. ali. enquanto acompanhando Lísias fui aos canteiros em flor. enquanto os jovens se despediam. .Olá! ainda não se recolheu? . sorridente. lamentei a interrupção da palestra. convidava-me. E. pois ainda não viu o luar destes sítios. A dona da casa entrava em conversação com as filhas. solícito: .126 23 SABER OUVIR Intimamente. matizados de ligeiro azul ao fun- . nos vastos quarteirões do Ministério do Auxílio Glicínias de prodigiosa beleza enfeitavam a paisagem. Lírios de neve. Lísias entrou em casa visivelmente satisfeito.Venha ao jardim. ainda não conhecia o quadro maravilhoso que a noite clara apresentava.perguntou. entre grandes árvores. Os esclarecimentos da senhora Laura fortaleciam-me o coração.

para nós outros. A programação do serviço necessário. de caricioso aroma. falei comovidamente: . entretanto. Ao longe.Mas não há recurso . em todos os Ministérios. pareciam taças. O companheiro sorriu e acentuou: . Após enlevar-me na contemplação do quadro prodigioso. Aguçou-se-me a curiosidade. o amigo esclareceu: .para recolher as emissões terrestres? . Dessarte. Deslumbrado. à maneira de nossos receptores radiofônicos. voltamos ao interior onde Lísias se aproximou de pequeno aparelho postado na sala.Nunca presenciei tamanha paz! Que noite!... o esforço da maioria se transforma numa prece quase perene. agora. Dai nascerem as vibrações de paz que observamos. Que iríamos ouvir? Mensagens da Terra? Vindo ao encontro de minhas interrogações íntimas. no sentido de não se emitirem pensamentos contrários ao bem. Nossas transmissões baseiam-se em forças vibratórias mais sutis que as da esfera da crosta. . muito acima de qualquer cogitação terrestre.Sem dúvida que temos elementos para fazê-lo.indaguei . . não conseguia emitir impressões. no ambiente doméstico o problema de nossa atualidade é essencial. as notas da Espiritualidade Superior e os ensinamentos elevados vivem.Há compromisso entre todos os habitantes equilibrados da colônia. Esforçando-me para exteriorizar a admiração que me invadia a alma. sentindo que ondas de energia nova me penetravam o ser.Não ouviremos vozes do planeta.127 NOSSO LAR do do cálice. como se estivesse bebendo a luz e a calma da noite. as torres da Governadoria mostravam belos efeitos de luz. Respirei a longos haustos.

Mas o Ministro generoso. No início da colônia. A bondade desviada provoca indisciplinas e quedas. inquiri.Será tanto assim? E os parentes que ficaram a distância? Nossos pais. em geral. que incrementou a medida. Segundo nosso arquivo. a medalha da vida apresenta a outra face. muitas vezes. Do Ministério da Regeneração ao da Elevação. velhos prisioneiros da condição exclusivista. um dos generosos Ministros da União Divina compelia a Governadoria a melhorar a situação. ao que sabemos. E. precisamente há dois séculos. Houve luta. mas. as notícias dos afeiçoados terrestres punham muitas famílias em polvorosa. eram aqui verdadeiras calamidades públicas. É preciso curar nossas velhas enfermidades e sanar injustiças. o Governador proibiu o intercâmbio generalizado. por lá. habituado ao apego doméstico. que propriamente zona de refazimento e instrução.128 NOSSO LAR A observação era justa. Vivemos distraídos dos verdadeiros princípios de fraternidade. quando interessassem algumas entidades em "Nosso Lar".Já esperava essa pergunta: Nos círculos terrestres somos levados. Amparado pela União Divina. de quando em quando. valeu-se do . ligavam-se com os núcleos de evolução terrestre. isolamo-nos freqüentemente no cadinho do sangue e esquecemos o resto das obrigações. de pronto: . Mas. Ensinamo-los a todo mundo. A hipertrofia do sentimento é mal comum de quase todos nós. a viciar as situações. Em família. Boatos assustadores perturbavam as atividades em geral. meu amigo. Os desastres coletivos no mundo. somos solidários apenas com os nossos. vivia-se em constante guerra nervosa. mas. Somos. nossos filhos? . a cidade era mais um departamento do Umbral. todas as moradias. Aqui. chegado o momento do testemunho. Ninguém suportava a ausência de notícias da parentela comum. O exGovernador era talvez demasiadamente tolerante. porém.

a fim de ver se valeria a pena. experimentando desequilíbrios do sentimento e do raciocínio.Não devemos procurar notícias dos planos inferiores . em sabendo que um filho de seu coração está caluniado ou caluniando? Se alguém o informasse. Se eles oferecessem campo adequado ao amor espiritual. seria interessante colher notícias dos nossos amados em trânsito na Terra.Entretanto . desapontado. que a criatura alguma auxiliará com justiça. teria bastante força para conservar-se tranqüilo? Sorri. Precisamos.Observe a si mesmo. nos altos e baixos das flutuações de ordem material. . antes de novos contactos com os parentes terrenos.senão para levar auxílios justos. é indispensável a preparação conveniente.objetei -. que permanecia junto ao receptor. sem ligá-lo. Convenhamos. ainda. qual seu pai. Lísias. evitar a queda nos círculos vibratórios inferiores. evidenciando minha teimosia caprichosa. para manter a precisa serenidade. por exemplo. não gostaria de comunicar-se com ele? . ó intercâmbio seria desejável. você que tem um amigo encarnado.129 NOSSO LAR ensinamento de Jesus que manda os mortos enterrarem seus mortos e a inovação se tornou vitoriosa em pouco tempo. Não daria isso mais tranqüilidade à alma? Lísias.prosseguiu. embora as dificuldades sentimentais. esperando com fé e agindo com os preceitos divinos.Mas. . Está preparado. porém. como interessado em me fornecer explicações mais amplas. de que um dos seus irmãos consangüíneos foi hoje encarcerado como criminoso. Por isso. indaguei: . acrescentou: . nem mesmo o domínio próprio e vive às tontas. Contudo. solicito . mas esmagadora porcentagem de encarnados não alcançou. agora.

quando merecemos essa alegria. recorrer aos órgãos competentes. E.130 NOSSO LAR . pois. Calei-me vencido pelo argumento ponderoso. quando se trata de qualquer expressão de intercâmbio entre ele e nós. Existem. certas leis que mandam compreender devidamente os que se encontram nas zonas mais baixas.respondeu bondosamente -. em campo de confusão. Para esse fim. não sabendo ouvir. que determinem a oportunidade ou o merecimento exigidos. É tão importante saber falar como saber ouvir. da esfera superior. o enfermeiro amigo abriu o controle de recepção sob meus olhos curiosos. Acresce notar que. visitamo-lo em sua nova forma. é possível descer à inferior com mais facilidade. verificando-se o mesmo. Não devemos esquecer. . Necessitamos. não podia auxiliar com êxito e a colônia transformava-se.Sem dúvida . enquanto me conservava em silêncio. entretanto. "Nosso Lar" vivia em perturbações porque. contudo. que somos criaturas falíveis. freqüentemente. temos o Ministério da Comunicação.

cercam as nações européias. suave melodia derramou-se no ambiente. no gabinete de trabalho. começou ele a falar: . Daí a instantes.. de "Moradia". Há serviço para todos. embalando-nos em harmoniosa sonoridade. em benefício da paz na Terra. quantos puderem ceder algumas horas de cooperação nas zonas de trabalho que ligam as forças obscuras do Umbral à mente humana. impulsionando-as a novos crimes. pedindo concurso fraterno e auxílio possível. Ajudai-nos. Concitamos os colaboradores de bom ânimo a congregar energias no serviço de preservação do equilíbrio moral nas esferas do globo. Negras falanges da ignorância. Lembrai-vos de que a paz necessita de trabalhadores de defesa! Colaborai conosco na medida de vossas forças!. junto aos demais que se consagram ao trabalho de higiene espiritual. desde os cam- . denuncia esses movimentos dos poderes concentrados do mal.Emissora do Posto Dois. nos círculos mais próximos da crosta. Continuamos a irradiar o apelo da colônia. depois de espalharem os fachos incendiários da guerra na Ásia..131 24 O IMPRESSIONANTE APELO Ligado o receptor. Nosso núcleo. vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor.

estamos em agosto de 1939.. mas posso afiançar que as nações do planeta se encontram na iminência de tremendas batalhas. 5. Assombrava-me.indaguei. Havia. explicando: . aterrado . a imensidade dos serviços espirituais nos planos de vida nova a que me recolhera. sem . ouvindo-se divina música. A inflexão do estranho convite abalara-me as fibras mais íntimas. Pois havia cidades de espíritos generosos. tão grande dificuldade no capítulo do intercâmbio? Identificando-me as perplexidades. sobretudo. Veio Lísias em meu socorro. Vira-lhe a fisionomia abatida. Tal como na Terra. Como sabe. os que se afinam perfeitamente entre si podem permutar pensamentos. Interrompeu-se a voz. O. Demonstrava ansiedade profunda nos olhos inquietos..Estamos ouvindo "Moradia". Lísias esclareceu: . Pela primeira vez o enfermeiro amigo não me respondeu. E a linguagem? Ouvira-lhe nitidamente o idioma português. Seu mutismo constrangera-me. Que o Senhor nos abençoe. velha colônia de serviços muito ligada às zonas inferiores. Julgava que todas as colônias espirituais se intercomunicassem pelas vibrações do pensamento. como a lastimar em silêncio a gravidade da hora humana. claro e correto. novamente.Estamos ainda muito longe das regiões ideais da mente pura. . suplicando socorro e cooperação? Apresentara-se a voz do locutor com entonação de verdadeiro 5. no espelho da televisão.132 NOSSO LAR pos da crosta às nossas portas!. Seus últimos sofrimentos pessoais não lhe deram tempo para ponderar sobre a angustiosa situação do mundo. fixando em mim os olhos brilhantes e profundos. ainda ali.Que diz? .pois não bastou o sangue da última grande guerra? Lísias sorriu.

imperante nas leis evolutivas. no entanto. Há muitos benfeitores devotados. nos gabinetes políticos. respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem. mas insta considerar que a regra é sofrer-se dessas restrições. interrompia-se a música. caminham esses países para uma guerra de grandes proporções Oh! irmãos muito amados. no lato sentido da expressão. dos núcleos superiores. de "Moradia".. Nada enganará o princípio de seqüência. .133 NOSSO LAR as barreiras idiomáticas. Que o Senhor nos abençoe. auxiliemos a preservação da tranqüilidade humana!. Nesse ínterim. Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus da Europa. Nosso campo de lutas é imensurável.. logo após a morte do corpo físico. condicionados a fronteiras psíquicas. possível atingir as zonas aperfeiçoadas. que integra muitos bilhões de criaturas. une-se à humanidade invisível do planeta. se encontram excessivamente centralizados. não podemos prescindir da forma. Os patrimônios nacionais e lingüísticos remanescem ainda aqui. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. Calou-se o locutor e voltaram as cariciosas melodias.. de modo geral. Não seria. Forças tenebrosas do Umbral penetram em todas as direções. portanto. A humanidade terrestre. oferecendo escassas possibilidades à colaboração de natureza espiritual. Alguns governos. Sem órgãos de ponderação e conselho desapaixonado. constituída de milhões de seres.. mas. voltando o locutor: . Defendamos os séculos de experiência de numerosas pátriasmães da Civilização Ocidental!.Emissora do Posto Dois. Nos mais diversos setores de nossa atividade espiritual existe elevado número de espíritos libertos de todas as limitações. lutando com sacrifícios em favor da concórdia internacional.

Que o Senhor nos abençoe. todavia. desligou Lísias o aparelho e vi-o enxugar discretamente uma lágrima. a humanidade terrestre pagará. de "Moradia". . Companheiros e irmãos. Contra o assédio das trevas. Rios de sangue e lágrimas ameaçam os campos das comunidades européias. contra a guerra do mal. falou. comovido: . que seus olhos não conseguiam conter. a mesma voz se fez novamente ouvir: . os irmãos de "Moradia"! Tudo inútil.. Quanto estiver ao vosso alcance. e muitos de nós volveremos aos fluidos carnais para resgatar prístinos erros.Grandes abnegados.. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. invoquemos o amparo das poderosas Fraternidades da Luz.Não há. sensibilizado. Após cinco minutos de harmonia repousante. Unamo-nos numa só vibração. terríveis tributos de sofrimento. em dias próximos. triste. acendamos a luz. . movimentemos a resistência do bem. que presidem aos destinos da América! Cooperai conosco na salvação de milenários patrimônios da evolução terrestre! Marchemos em socorro das coletividades indefesas. A humanidade encarnada é igualmente nossa família. que não ousei interromper. Proclamemos a necessidade do trabalho construtivo. amparemos os corações maternais sufocados de angústia! Nossas energias estão empenhadas em vigoroso duelo com as legiões da ignorância. A essa altura. recurso para conjurar a tremenda catástrofe? perguntei. dilatemos nossa fé.134 NOSSO LAR O enfermeiro permaneceu em silêncio. porém acentuou. depois de ligeira pausa -. Num gesto expressivo.Emissora do Posto Dois. vinde em nosso auxílio! Somos a parte invisível da humanidade terrestre.

Infelizmente . .135 NOSSO LAR . reunimos aqui numerosas assembléias. Demonstrando. Nutriram-se várias nações de orgulho criminoso. a necessidade de expelir os venenos letais. agora. vaidade e egoísmo feroz. mas o Ministério da União Divina esclareceu que a humanidade carnal. A crise orgânica é inevitável. está nas condições do homem insaciável que devorou excesso de substâncias no banquete comum.a situação geral é muito crítica. como personalidade coletiva. entretanto.acrescentou Lísias em tom grave e doloroso . Para atender às solicitações de "Moradia" e de outros núcleos que funcionam nas vizinhanças do Umbral. o propósito de não prosseguir no amarguroso assunto. Experimentam. Lísias convidou-me a recolher.

Estava radiante. Rafael é antiga relação de nossa família e apresentá-lo-á. . bem-humorada: .Já lhe arranjei companhia para hoje. em meu nome. sensibilizando-me o coração. avise ao Ministro Clarêncio que comparecerei ao expediente. passará por aqui. demonstrou grande alegria. comovido. muito cedo. a senhora Laura encorajou-me o espírito hesitante. por sua vez.136 25 GENEROSO ALVITRE No dia imediato. a senhora Laura recomendou: .Você. Lísias. ao Ministro Genésio. Lísias. a meu pedido. dizendo. rumo ao trabalho do Auxílio. sem encontrar palavras que definissem meu júbilo. Antes que os filhos se despedissem. funcionário da Regeneração. Agradeci. Abraçou-me efusivamente antes de sair. Poderá aceitar-lhe a companhia em direção ao novo Ministério. Não poderia explicar o contentamento que me dominou a alma. Ao beijar o filho. logo que entregue nosso amigo aos cuidados de Rafael. fiz leve refeição em companhia de Lísias e familiares. Nosso amigo Rafael.

ser-lhe-á muito fácil deslizar na posição nova. permita-me algumas indicações para os seus novos caminhos. pode ser zona mental muito interessante.Sim.respondi.. que não o obteve de pronto. Sei que seu espírito de pesquisa intelectual é muito forte. Ficando a sós. essa autorização. Dentro dela. reivindico a satisfação de orientá-lo neste momento. A curiosidade. de lâmpada em lâmpada. Sorriu a bondosa senhora. abandone. a necessária autorização para visitar os Ministérios que nos ligam mais fortemente à Terra. sensibilizado -. Médico estudioso.. agora. relembrando as elucidações de Clarêncio. Falo com o direito de experiência maior. .. o es- .Estou informada de que pediu trabalho há algum tempo. .137 NOSSO LAR Comovidíssimo. mais tarde. mas perigosa. .É justamente neste sentido que lhe ofereço minhas sugestões humildes.. igualmente. eu não conseguia agradecer tamanha dedicação. nunca saberei traduzir meu reconhecimento à sua atenção.Meu irmão. acrescentando: . apaixonado de novidades e enigmas. Esboçando significativa expressão fisionômica. sim.Gratíssimo . por vezes.esclareci. já que sua mãezinha não reside em "Nosso Lar". quanto lhe seja possível. Não esqueça que poderá obter valores mais preciosos e dignos que a simples análise das coisas. recebendo. Creio que a colaboração maternal sempre vale alguma coisa e. a desvelada genitora do meu amigo dirigiu-me a palavra carinhosa: . . os propósitos de mera curiosidade. a boa senhora acrescentou: . mesmo sadia. Detendo.Sei. Não deseje personificar a mariposa.

localizando-se ali a região mais baixa de nossa colônia espiritual. Lembro-lhe que em todas as nossas esferas. pode ser criminoso atrevimento. Pois bem: não se limite a observar. Pesquisar atividades alheias. Muitos fracassos. a conhecer. raros se dispõem a realizar. mas os indecisos e inexperientes podem conhecer dores amargas. não se preocupe em alcançar o espetáculo dos serviços nos demais Ministérios. Saem de lá todas as turmas destinadas aos serviços mais árduos. medite no trabalho e atire-se a ele na primeira ocasião que se ofereça. Surgindo ensejo nas tarefas da Regeneração.138 NOSSO LAR pírito desassombrado e leal consegue movimentar-se em atividades nobilitantes. com justiça. começando pela Regeneração. Aprenda a construir o seu círculo de simpatias e não olvide que o espírito de investigação deve manifestar-se após o espírito de serviço. gentilmente. Ao invés de albergar a curiosidade. É possível receber alguém negativa justa dos que administram. mas pode. visitar e analisar. Todos querem observar. sem proveito para ninguém. converter observações em tarefa útil. Somente o trabalho digno confere ao espírito o merecimento indispensável a quaisquer direitos novos. nas edificações do mundo. humilhado por atender às tarefas humildes. originam-se de semelhante anomalia. como servidor de bom senso. em nos referindo à Terra. quando peça determinado gênero de atividade reservada. desde o planeta até os núcleos mais elevados das zonas superiores. sem testemunhos no bem. porém. O Ministério da Regeneração está repleto de lutas pesadas. aos que muito hão lutado e sofrido no capítulo da especialização. O Ministro Clarêncio autorizou-o. mas ninguém se recusará a aceitar o concurso do . Clarêncio ofereceu-lhe ingresso nos Ministérios. Não se considere. o Maior Trabalhador é o próprio Cristo e que Ele não desdenhou o serrote pesado de uma carpintaria.

que voltou. pronunciadas com meiguice maternal. experimentei a felicidade que nasce dos afetos puros e tive impressão de conhecer minha interlocuto- . nesse sentido. Faça desta casa a sua habitação. Espero vê-lo animado e feliz. um dia. e cobri-as do pranto jubiloso que me inundava o coração. fixei-lhe a expressão carinhosa. como se desejasse temperar com amor os criteriosos conceitos. agora de olhos fixos no horizonte. continuaremos sempre unidos pelo coração. entretanto. Tomei-lhe as mãos como filho agradecido. antes de minha partida. Creio que você não veio a esta casa atendendo ao mecanismo da casualidade. pela cultura e pela mocidade. Estamos todos entrelaçados em teia de amizade secular. que ama o trabalho pelo prazer de servir. Levantei os olhos rasos dágua.A ciência de recomeçar é das mais nobres que nosso espírito pode aprender. Poucas vezes sentira na vida tanto interesse fraternal pela minha sorte. Trabalhe e animese. Semelhante conselho calava-me no fundo dalma e.Muito grata. contudo. Lembremos. como tecelão rústico e pobre. alvo de geral atenção em Jerusalém. A genitora de Lísias. ao deserto para recomeçar a experiência humana. Doutor do Sinédrio. a senhora Laura acrescentou com inflexão carinhosa: . Meus olhos estavam úmidos. Aquelas palavras. Não pude mais. Temos escassos exemplos humanos. o de Paulo de Tarso. confiando em Deus. caíam-me no coração como bálsamo precioso. meu irmão.139 NOSSO LAR espírito de boa-vontade. Brevemente voltarei ao círculo da carne. murmurou: . São muito raros os que a compreendem nas esferas da crosta. esperança de uma raça.

identificar-lhe o carinho nas reminiscências mais distantes. Quis beijá-la muitas vezes. pensando em Jesus. de velhos tempos. nesse instante. Fitou-me a senhora Laura. alguém bateu à porta. Vá. mostrando indefinível ternura maternal e falou: . meu amigo. para que possa encontrar seu próprio bem. mas. Trabalhe para o bem dos outros.140 NOSSO LAR ra. com o enternecimento filial do coração. . debalde.É Rafael que vem buscá-lo. embora tentasse.

acompanhei Rafael. não às visitas de observações. convicto de que iria. rumo ao local onde me aguardava o Ministro Genésio. Em compensação. surpreso. os magníficos aspectos da nova região. O próprio Rafael. Anotava. Deixou-nos o aeróbus à frente de espaçoso edifício. contudo. como se não devesse esperar tal atitude de minha parte. em silêncio. estranho agora ao prazer das muitas indagações. pedindo a Jesus me auxiliasse nos caminhos novos. agora a utilizava como valioso ponto de referência sentimental aos propósitos de serviço. lançava-me curioso olhar. calados. avesso às manifestações da prece. de quando em vez. Dava-me todo à oração. seguia Rafael. experimentava novo gênero de atividade mental. . a fim de que me não faltasse trabalho e forças para realizá-lo. Descemos.141 26 NOVAS PERSPECTIVAS Ponderando as sugestões carinhosas e sábias da mãe de Lísias. Antigamente. mas ao aprendizado e serviço útil.

porém.Tenho notificação de Laura. é o nosso irmão André? . roguei. abraçando-me em seguida.Para servi-lo . neste Ministério. Noto. meu lugar é aqui. Nesse ínterim. e. . Tenho mesmo suplicado às Forças Divinas que me ajudem o espírito frágil. Genésio parecia comovido com as minhas palavras. talvez devido a constante intercessão de minha devotada e santa mãe. Quase sempre recebemos pessoal do Ministério do Auxílio. Fique à vontade. redundam em estágios de serviço. o companheiro aproximou-se respeitosamente e despediu-se. referente à sua vinda. um velhinho simpático. na sua maior parte. com interesse. Rafael apresentou-me fraternalmente .Clarêncio falou-me a seu respeito. cujo semblante revelava. em estação de aprendizado. Certo.Senhor Ministro.respondi. Compreendi a sutil alusão e obtemperei: . . compreendo agora que minha passagem pelo Ministério do Auxílio se verificou por efeito da graça misericordiosa do Altíssimo. singular energia. que somente venho recebendo benefícios. Genésio começou a dizer: .142 NOSSO LAR Em poucos minutos.Ah! sim disse o generoso Ministro -. sem nada produzir de útil. permitindo seja convertida a minha permanência. Rafael era esperado com urgência no setor de tarefas a seu cargo. valendo-me das inspirações que me inclinavam à humildade. de olhos úmidos: . em visita de observações que. achava-me diante do respeitável Genésio. entretanto.Este o meu maior desejo. Fixando em mim os olhos muito lúcidos.

cego nas pretensões descabidas do egotismo em que vivia. e perguntou: . No entanto..143 NOSSO LAR nas atividades regeneradoras. como que preocupado em levantar-me o ânimo e acender-me no espírito novas esperanças. Satisfeito. E. diante do que vira e ouvira. Não me preocupava o gênero de tarefa. fiz enormes gastos de energia na ridícula adoração de mim mesmo!. era o desejo de continuar a ser o que tinha sido até então . por obséquio. faça. a sinceridade viva. Era sincero.Sim. então: . nem enxergava as bênçãos santificantes da oportunidade.Quando o discípulo está preparado. Se possível. Queria serviço. O meu amigo tem recebido enormes recursos da Providência.o médico orgulhoso e respeitado.. Não entendia o valor do tempo. a necessidade de regenerar meus próprios valores. O velhinho fitou-me. Genésio calou por momentos... no fundo de meu coração. punha nos lábios quanto possuía de melhor. Quando o servidor está pronto.É mesmo você o ex-médico? . agora. não estava ainda bastante consciente do que pedia.Louvo seus propósitos e peço igualmente ao Senhor o conserve nessa posição digna. relativamente ao trabalho. o Pai envia o instrutor. acentuou: . mas talvez não desejasse servir. mais que nunca. encarcerado nas opiniões próprias. dizendo. surpreendido. seja transformada a concessão de visitar em possibilidade de servir. o serviço aparece. notava ele. compreendendo a responsabilidade de cada filho de Deus na obra infinita da Criação. enfim. No fundo. acanhado. procurava o conteúdo sublime do espírito de serviço. . Perdi muito tempo na vaidade inútil.murmurei. Compreendo hoje. como buscando resolução para o caso. O mesmo se dá. . Quando eu recorrera ao Ministro Clarêncio.

gentil: . examine. Prontificou-se Tobias. . Nos círculos carnais..É possível obter ocupações justas. . aqui tem um amigo que vem do Ministério do Auxílio. porém. atencioso -. Estendi-lhe a mão. entretanto. Estima-se a compreensão. afirmando. se deseja acompanhar-me. bem-humorado -. o esforço próprio. . Creio de muito proveito para ele o contacto com as atividades das câmaras retificadoras.144 NOSSO LAR Está bem disposto à colaboração. Identificando-me a ansiedade. Por enquanto. revelando a maior boa-vontade. observe. André precisa integrar-se no conhecimento mais íntimo de nossas tarefas. Tal atitude é sumamente favorável à concretização dos seus desejos. é preferível que visite. concluiu: .Conduza-o . ligando-se ao gabinete próximo.acrescentou ele.Estou de caminho .Tobias . em tarefa de observação. aceita o dever. falou em voz alta: . Faculte-lhe toda oportunidade de que possamos dispor. Não se passaram muitos minutos e assomou à porta um senhor de maneiras desembaraçadas. a humildade sincera. compreende a responsabilidade.. E logo. costumamos felicitar um homem quando ele atinge prosperidade financeira ou excelente figuração externa. aqui a situação é diferente. antes que se dirija às Câmaras de Retificação.explicou Genésio.respondi. enquanto o desconhecido correspondia. .Perfeitamente . satisfeito.Solicito a presença de Tobias.Às suas ordens.prosseguiu o ministro. evidenciando grande bondade. .

comovido.145 NOSSO LAR O Ministro Genésio abraçou-me. que se regeneram e se iluminam ao mesmo tempo. . com palavras de animação. comunicando com os pavimentos inferiores. penetramos num edifício de aspecto nobre. E notando minha estranheza.As Câmaras de Retificação estão localizadas nas vizinhanças do Umbral. Servidores numerosos iam e vinham.disse Tobias em tom grave. nem a atmosfera de cima. deparou-se-nos vastíssima escadaria. A preparação de sucos. . Os necessitados que aí se reúnem não toleram as luzes. de tecidos e artefatos em geral. Depois de extensos corredores.Desçamos . o novo amigo esclareceu: . nos primeiros tempos de moradia em "Nosso Lar".Temos aqui as grandes fábricas de "Nosso Lar". Segui Tobias resolutamente. explicou. Percebendo-me a silenciosa indagação. onde numerosos edifícios me pareceram colmeias de serviço intenso. Atravessamos largos quarteirões. Daí a momentos. solícito: . dá trabalho a mais de cem mil criaturas.

imperturbável. que aconteceu? .146 27 O TRABALHO. Gemidos. soluços.esclareceu a velhinha em tom respeitoso determinou que a maioria acompa- . Singular vozerio pairava no ar. chamou velha servidora. facies monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual.Vejo poucos auxiliares . Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar. que acudiu atenciosamente: .. frases dolorosas pronunciadas a esmo.. Rostos escaveirados. ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos. mãos esqueléticas.disse admirado -.O Ministro Flácus . nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica. Tobias. Não era bem o hospital de sangue. ENFIM Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos. Era uma série de câmaras vastas.

emitidos pelos parentes encarnados.) . examinou-o com atenção e perguntou: . a correr desabaladamente.Há que multiplicar energias . distante do lar. então. Deliberei.Experimentou uma crise de grandes proporções . . . por caridade! . muito cedo.147 NOSSO LAR nhasse os Samaritanos (1) para os serviços de hoje. quero ar. a serviçal prosseguia esclarecendo: . que era crueldade retê-lo aqui.Irmão Tobias!.(Nota do Autor espiritual. Socorro! socorro! quero sair. gesticulando. ele se ausentou sem consentimento nosso.. .Hoje. nas regiões do Umbral. não temos tempo a perder. Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito. à maneira de louco . mas foi impossível... o pobre não tem resistido. Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo. em benefício dele mesmo.. agarrado ao leito. Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo.explicou a serva . Irmão Tobias!.e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios. era a causa fundamental desse agravo de perturbação. Gritava que lhe exigiam a presença no lar.. .tornou ele sereno -. que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos.gritou um ancião.. muito ar! Tobias aproximou-se.Por que teria o Ribeiro piorado tanto? . sair!.estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra. Subtrai-lhe as forças e a motilidade. . __________ (1) Organização de Espíritos benfeitores em "Nosso Lar". como seria de desejar. aplicar alguns passes de prostração.

Notando-me a admiração. Ele chamara Tobias como a criança que conhece o benfeitor. sentindo a desagradável exalação ambiente. mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito. que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama.apenas a entidades de natureza masculina.explicou o companheiro bondosamente . Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas. para que nos deixe o Ribeiro em paz. relativas à curiosidade. encontra na vida real o que amontoou para si mesmo.acentuou Tobias. Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima. recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias. Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões.O pobrezinho permanece na fase de pesadelo. pensativo -. rosto ceráceo. em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias. o novo orientador explicou: . vou pedir providências contra a atitude da família. verificando a legítima expressão de um dementado. e calei. . com as dolorosas impressões da morte física e. É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações.Fez muito bem . das emanações mentais dos que ali se congregavam. Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos. conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação. oriunda. O homem. Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras. meu caro. Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança. muita vez. Ribeiro.Reservam-se estas câmaras .148 NOSSO LAR . . como vim a saber mais tarde. esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas. entretanto. sob o império de baixos pensamentos. muito trêmulo.

. A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração. pelo menos... acentuou: . onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes.Não devemos observar aqui somente dor e desolação. Quanto às lágrimas que vertem. E depois de uma pausa. recordemos que devem a si mesmos esses padecimentos.bradava um estagiário. .gritava outro.Por amor de Deus!.Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos planos do Espírito. Não suporto mais!. como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados! Por que este quadro angustioso? Tobias respondeu sem se perturbar: .. interessado.. O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme: . oferecendo-lhes ensejos a disparates novos. Não apren- . Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas. . irmão!.atalhei. . em que parecia surdo a tantos clamores.. Estou morrendo à fome e sede! . Lembre. meu irmão. a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também. Foram negociantes imprevidentes.Meu amigo.. . já se preparam para o serviço regenerador.149 NOSSO LAR . Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais. descuidosos de si mesmos.exclamava ainda outro. que estes doentes estão atendidos. o poder do dinheiro.São contrabandistas na vida eterna.Tobias! Tobias. Nestes pavilhões. que já se retiraram do Umbral. ..Como assim? .Socorro. Supunham que o prazer criminoso. não contive a interrogação penosa: .

. Realíssimo! Tobias não podia ser mais lógico. admitiam somente o nada. solícita. Muito cuidadoso. que fazer? Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma. Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento. trocavam contos de réis por libras esterlinas. no movimento. Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e. no trabalho. Chamamos-lhes crentes negativos. acompanhava-nos.150 NOSSO LAR deram as mais simples operações de câmbio no mundo. Agora. Não conseguia externar meu espanto. em pesadelos sinistros. conduziu-me a vasta câmara anexa. ao invés de crerem na vida. Narcisa. Ao invés de aceitarem o Senhor. Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa. evidenciando apenas leves movimentos de respiração. após distribuir conforto e esclarecimento a granel. em forma de grande enfermaria. entretanto. como não tinham qualquer idéia do bem. Meu novo instrutor. sob meus olhos atônitos. Fazendo gesto significativo com o indicador. Quando iam a Londres. começaram ambos a expelir . a serviço da coletividade.. notificando: .Vejamos alguns dos infelizes semimortos. Tobias esclareceu: . Finda a operação nos dois primeiros. nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade. Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos. a servidora. não há outro recurso senão dormirem longos anos. eram vassalos intransigentes do egoísmo. a imobilidade e a vitória do crime.Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes.

O serviço continuou por todo o dia. e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo. me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor.151 NOSSO LAR negra substância pela boca. Foi então. ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos. mas debalde. na enfermagem rudimentar. custando-me abençoado suor.São fluidos venenosos que segregam . instintivamente. Grande numero deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida. que. com terríveis emanações cadavéricas. . .explicou Tobias. muito calmo. espécie de vômito escuro e viscoso. Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza. A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão.

a fim de ouvir os Samaritanos em atividade no Umbral. E o espírito de serviço fornece tônicos de misterioso vigor. Sentia-me algo cansado pelos intensos esforços despendidos. Samaritanos ao Ministério da Regeneração!. seqüestrando às trevas espirituais vinte e nove irmãos. vim a saber que as turmas de operações dessa natureza se comunicavam com as retaguardas de tarefa. Nossas turmas estão organizando o transporte. Estabelecido o contacto elétrico... Foi possível deslocar grande multidão de infelizes.Samaritanos ao Ministério da Regeneração!. afinal.. o pequenino aparelho. começou a transmitir o recado... sob meus olhos. depois de alguns minutos de espera: . mas o coração entoava hinos de alegria interior. Recebera a ventura do trabalho. Tobias ligou o receptor. Justamente curioso.152 28 EM SERVIÇO Encerrada a prece coletiva. Chegare- . Vinte e dois em desequilíbrio mental e sete em completa inanição psíquica. em horas convencionais. Muito trabalho nos abismos da sombra.. ao crepúsculo.

dirigiu-se a Narcisa.O irmão esquece que não chegou ao Ministério do Auxílio de outro modo.153 NOSSO LAR mos alguns minutos depois da meia-noite. as vastas regiões do céu.. Pedimos providenciar.Resolveremos facilmente a questão da hospitalidade. não se dará no concernente à assistência. entretanto. na Terra. sempre. Notando que Narcisa e Tobias se entreolhavam fundamente admirados. Em seguida.respondeu Tobias resoluto -. Conheço o episódio de sua vinda. ponderando: . . e exclamou: . alojaremos os perturbados no Pavilhão 7 e os enfraquecidos na Câmara 33.Serão necessários muitos leitos! . porém. célere. tanto o avestruz como a andorinha. E deixando perceber que o momento não comportava divagações.. estamos revestidos de fluidos pesadíssimos. É preciso recordar. ou nos círculos do Umbral. . o primeiro apenas subirá às alturas se transportado.Não se aflija . levou a destra à fronte.Como assim? Por que esse transporte em massa? Não são todos espíritos? Tobias sorriu e explicou: . Nossos auxiliares mais fortes foram requisitados para garantir os serviços da Comunicação nas es- . que a Natureza não dá saltos e que.. enquanto a segunda corta. como a ponderar algo muito sério. não pude conter a pergunta que me desbordava dos lábios: .. o mesmo. Precisamos tomar providências imediatas. São aves e têm asas. tão logo silenciou a estranha voz.murmurou a serva algo pesarosa.É muito grande a leva desta noite.

Abraçou-me o generoso amigo. eu e Tobias movíamos pesado material no Pavilhão 7 e na Câmara 33. mesclada de gratidão.Pois bem.indaguei por minha vez . no entanto. .Ofereço-me. Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia. caso necessário. Precisamos de pessoal de serviço noturno. porquanto os operários em função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados.Outros não fazem o mesmo? . em vista de compromissos anteriores. com prazer. preparando roupa adequada e petrechos de enfermagem. mandarei Venâncio e Salústio. experimentava júbilo inexcedível no coração. preciso recuperar o tempo perdido. para o que possa aproveitar . . durante a noite? perguntou. você ou algum dos nossos me comunicará qualquer ocorrência de maior gravidade. Enquanto cinco servidores operavam em companhia de Narcisa. de plantão noturno. aceito confiante a colaboração. admirado.exclamei espontaneamente. em vista das nuvens de treva que ora envolvem o mundo dos encarnados.Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras. Não posso permanecer aqui.154 NOSSO LAR feras da Crosta. Traçarei o plano dos trabalhos. Narcisa e os demais companheiros ficarão também de guarda. acrescentando: . Apesar da fadiga dos braços. Não poderia explicar o que se passava comigo. fazendo-me experimentar cariciosa alegria íntima. Além do mais. dois irmãos de minha confiança. . E descortinou-se campo enorme de providências.sinto-me disposto e forte. facilitando quanto possível a execução. .

A velhinha amável semelhava-se a um livro sublime de bondade e sabedoria. às oito horas. maternalmente. Ao despedir-se. mas estamos em circunstâncias especiais. falou Narcisa amavelmente: . busquei aproximar-me com interesse. que atendia a todos. contudo.perguntei. impressionou-me a bondade espontânea de Narcisa. na compensação dos bônus-hora. . cada dia. Atraído pela sua generosidade. passei a interessar-me pelos doentes. ainda me faltam mais de três anos para realizar meus desejos.Mas. a certa altura da palestra amistosa. servir constitui alegria suprema.Sim. .Preciso um endosso muito sério. com mais carinho. minha satisfação era profunda. perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio. boa noite e serviço útil. onde a maioria procura o trabalho. . em serviço ativo. francamente. O máximo de trabalho. Não foi difícil alcançar o prazer de sua conversação carinhosa e simples. A sós com o grande número de enfermeiros. reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado.155 NOSSO LAR Na oficina. permaneço nas Câmaras de Retificação. Tobias voltou a abraçar-me e falou: . há seis anos e alguns meses. entretanto.Desejo a vocês muita paz de Jesus. você poderá descansar. Não pensava. nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço. Dentre as figuras de auxiliares presentes. Amanhã. Respondi que as determinações me enchiam de sincero contentamento. a irmã aqui trabalha há muito? . é de doze horas. Ante a silenciosa indagação do meu olhar. entendendo-lhe o sublime valor.

aceitando-lhe o parecer. recorrer a Ministra Veneranda. e nossa benfeitora da Regeneração prometeu que endossaria meus propósitos no Ministério do Auxílio. Ia manifestar profunda admiração.156 NOSSO LAR . em razão de meus desvios passados. No primeiro instante. o conselho não visava a interesses dela e sim ao meu próprio benefício. na Terra.Que quer dizer com isso? .perguntei interessado. creio. transformada em mãe espiritual dos sofredores. viverei com dignidade espiritual minha futura experiência na Terra.Preciso encontrar alguns espíritos amados. Vivia perturbada. quis recusar. a possibilidade necessária aos meus fins. considerando demasiada a exigência. reconheci que ela estava com a razão. para que eu possa corrigir certos desequilíbrios do sentimento. roguei. E ganhei muito. para serviços de elevação em conjunto. mas exigiu dez anos consecutivos de trabalho aqui. . em vão. aquela irmã dedicada. por mera curiosidade pessoal. depois. Aconselharam-me. porém. Por muito tempo. . aflita. Sinto-me mais equilibrada e mais humana e. Afinal. mas um dos enfermos próximos gritou: .Narcisa! Narcisa! Não me cabia reter.

notei Narcisa a lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios. Através do fio. Regressando ao contacto direto com os enfermos. esquecera-me de avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno. que esta casa também lhe pertence. Era a senhora Laura que pedia notícias. porém. embriague-se de serviço útil. De fato. . bondosa: .157 29 A VISÃO DE FRANCISCO Enquanto Narcisa consolava o doente aflito. disse. atenderemos à nossa edificação eterna. Pedi desculpas à minha benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação.Muito bem. meu filho! apaixone-se pelo seu trabalho. Somente assim. Procurei ajudá-la. a genitora de Lísias parecia exultar. Lembre. fui informado de que me chamavam ao aparelho de comunicações urbanas. compartilhando meu justo contentamento. Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos. Ao termo de nossa ligeira conversa.

. cordata -.Confie em Jesus e esqueça o monstro . E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores... E. Francisco .Mas. que Francisco agradeceu.respondia ela. não quero!. irmã. O doente mostrava boa-vontade. piedosamente -. Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre. . vamos ao passe. .158 NOSSO LAR O pobrezinho. .. de olhos perdidos no espaço.. Já voltou a atormentarme! Veja. mas depende do seu esforço. O fantasma fugirá de nós. ganhar muita serenidade e alegria.Estou vendo-o. mas volvia à mesma palidez de antes.. por amor de Deus! Tenho medo. repare bem.Este fantasma diabólico!. olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de pavor. . "ele" não me deixa. mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo. o monstro! Sinto os vermes novamente! "Ele"! "Ele"!. acentuava: . Ajudá-lo-ei a fazê-lo. É necessário expelir a substância azeda.pedia a companheira dos infortunados -.Calma. Francisco .. mas o trabalho mais intenso cabe a você mesmo. . .dizia a irmã dos infelizes. provocando compaixão. .acrescentava a chorar como criança. acalmava-se enquanto ouvia os conceitos carinhosos. prorrompendo em novas exclamações. Livre-me "dele" irmã! Não quero... veja!. você vai libertar-se. medo!. manifestando imensa alegria no olhar.. gritava.Irmã Narcisa.. .Acuda-me. lá vem "ele"!. espantadiço: .

159 NOSSO LAR - Agora - disse ele, finda a operação magnética -, estou mais tranqüilo. Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros, mandou que uma serva lhe trouxesse água magnetizada. Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me. O bem, como o mal, em toda parte estabelece misterioso contágio. Observando-me o sincero desejo de aprender, Narcisa aproximou-se mais, mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço. - A quem se refere o doente? - indaguei, impressionado. Está, porventura, assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar? A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e falou: - Trata-se do seu próprio cadáver. - Que me diz? - tornei, espantado. - O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio para a esfera espiritual após um desastre, oriundo de pura imprudência. Esteve, durante muitos dias, ao lado dos despojos, em pleno sepulcro, sem se conformar com situação diversa. Queria firmemente levantar o corpo hirto, tal o império da ilusão em que vivera e, nesse triste esforço, gastou muito tempo. Amedrontava-se com a idéia de enfrentar o desconhecido e não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às sensações físicas. Não valeram socorros das esferas mais altas, porque fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna. Por fim, os vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se afastou do túmulo, tomado de horror. Começou, então, a peregrinar nas zonas inferiores do Umbral; no entanto, os que lhe foram pais na Terra possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação

160 NOSSO LAR na colônia. Trouxeram-no os Samaritanos, quase à força. Seu estado, contudo, é ainda tão grave que não poderá ausentar-se, tão cedo, das Câmaras de Retificação. O amigo, que lhe foi genitor na carne, está presentemente em arriscada missão, distante de "Nosso Lar". - E vem visitar o doente? - perguntei. - Já veio duas vezes e experimentei grande comoção, observando-lhe o sofrimento, discreto. Tamanha é a perturbação do rapaz, que não reconheceu o pai generoso e dedicado. Gritava, aflito, mostrando a demência dolorosa. O genitor, que veio vê-lo em companhia do Ministro Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu muito superior à condição humana, enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera hospitalidade para o filho infeliz. Demoraram-se bastante, comentando a situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais. Mas, quando o Ministro Pádua se retirou, compelido por circunstâncias de serviço, o pai do rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do enfermo. Tomou-lhe as mãos, ansioso, como se estivesse a transmitir vigorosos fluidos vitais, e beijou-lhe a face, chorando copiosamente. Não pude conter as lágrimas e retirei-me, deixando-os a sós Não sei o que se passou, em seguida, entre ambos; mas notei que Francisco, desde esse dia, melhorou bastante. A demência total reduziu-se a crises que são, agora, cada vez mais espaçadas. - Como tudo isso comove! - exclamei sob forte impressão. Entretanto, como pode a imagem do cadáver persegui-lo? - A visão de Francisco - esclareceu a velhinha, atenciosa -, é o pesadelo de muitos espíritos depois da morte carnal. Apegam-se demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, nem vivem senão dele e para ele,

161 NOSSO LAR votando-lhe verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam. Repelem quaisquer idéias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar. Surgem, no entanto, os vermes vorazes, e os expulsam. A essa altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista. A visão do cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no imo da alma. Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma. Notando-me a comoção, Narcisa acrescentou: - Graças ao Pai, venho aproveitando bastante, nestes últimos anos de serviço. Ah! como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos na carne! Isto, porém, deve preocupar-nos, mas não deve ferir-nos. A crisálida cola-se à matéria inerte, mas a borboleta alçará o vôo; a semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será um gigante. A flor morta volve à terra, mas o perfume vive no céu. Todo embrião de vida parece dormir. Não devemos esquecer estas lições. E Narcisa calou-se, sem que me atrevesse a interromper-lhe o silêncio.

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HERANÇA E EUTANÁSIA
Ainda não voltara a mim da profunda surpresa, quando Salústio se aproximou, informando a Narcisa: - Nossa irmã Paulina deseja ver o pai enfermo, no Pavilhão 5. Antes de atender, julguei razoável consultá-la, porque o doente continua em crise muito aguda. Mostrando gestos de bondade que lhe eram característicos, Narcisa acentuou: - Mande-a entrar sem demora. Ela tem permissão da Ministra, visto estar consagrando o tempo disponível em tarefa de reconciliação dos familiares. Enquanto o mensageiro se despedia, apressado, a enfermeira bondosa acrescentava, dirigindo-se a mim: - Você verá que filha dedicada! Não decorrera um minuto e Paulina estava diante de nós, esbelta e linda. Trajava uma túnica muito leve, tecida em seda luminosa. Angelical beleza caracterizava-lhe os traços fisionômicos, mas os olhos denunciavam extrema preocupação. Narcisa apresentou-a delicadamente e, sentindo talvez que poderia confiar na minha presença, perguntou, algo inquieta:

163 NOSSO LAR - E papai, minha amiga? - Um pouco melhor - esclareceu a enfermeira -, no entanto, ainda acusa desequilíbrios fortes. - É lamentável - retrucou a jovem -, nem ele, nem os outros cedem no estado mental a que se recolheram. Sempre o mesmo ódio e a mesma displicência. Narcisa nos convidou a acompanhá-la, e, minutos após, tinha diante de mim um velho de fisionomia desagradável. Olhar duro, cabeleira desgrenhada, rugas profundas, lábios retraídos, inspirava mais piedade que simpatia. Procurei, contudo, vencer as vibrações inferiores que me dominaram, a fim de observar, acima do sofredor, o irmão espiritual. Desapareceu a impressão de repugnância, aclarando-se-me os raciocínios. Apliquei a lição a mim mesmo. Como teria chegado, por minha vez, ao Ministério do Auxílio? Deveria ser horrível meu semblante de desesperado. Quando examinamos a desventura de alguém, lembrando as próprias deficiências, há sempre asilo para o amor fraterno, no coração. O velho enfermo não teve uma palavra de ternura para a filha que o saudou carinhosa. Através do olhar, que evidenciava aspereza e revolta, semelhava-se a uma fera humana enjaulada. - Papai, o senhor sente-se melhor? - perguntou com extremo carinho filial. - Ai!... Ai!... - gritou o doente em voz estentórica - não posso esquecer o infame, não posso descansar o pensamento... Ainda o vejo a meu lado, ministrando-me o veneno mortal!... - Não diga isso, papai - pediu a moça delicadamente -, lembre-se de que Edelberto entrou em nossa casa como filho, enviado por Deus. - Meu filho?! - gritou o infeliz - nunca! nunca!... É criminoso sem perdão, filho do inferno!...

Ouçamos. deste leito. Muito lutamos e padecemos. papai. lá observando extremas perturbações. Nossos lares terrestres são cadinhos de purificação dos sentimentos ou templos de união sublime. Estive em nossa casa. Atravessamos experiências consangüíneas. alcança o alvo. e eles lhe fazem o mesmo por idêntico modo. na Terra. em vibrações sutis. A permuta de ódio e desentendimento causa ruína e sofrimento nas almas. que recomenda nos amemos uns aos outros. O pensamento. mas o irmão necessitado de esclarecimento.Perdoe Edelberto. . cujas sombras poderiam diminuir. Daqui. uma fortuna de um milhão e quinhentos mil cruzeiros. em virtude dos grandes patrimônios materiais que o senhor ajuntou nas esferas da carne. Um quadro terrível. o doente se pôs a chorar convulsivamente. sob a bênção providencial de um Pai único. faz alguns dias. até adquirir o verdadeiro título de irmão. Somos todos uma só família. o senhor envolve todos os nossos em fluidos de amargura e incompreensão. ralada de angústia. agora. por mais distante que esteja. mamãe louca e os filhos perturbados. mas o Senhor da Vida nos permite a paternidade ou a maternidade no mundo. não o filho leviano. . ainda hoje. Em meio de tantas mentes desequilibradas. papai! Procure sentir nele. Aliás. Mamãe recolheu-se. na Criação. Amália e Cacilda entraram em luta judicial com Edelberto e Agenor. E que .164 NOSSO LAR Paulina falava. se sua mente vigorosa não estivesse mergulhada em propósitos de vingança. vemo-lo em estado grave. com os olhos rasos dágua. Ouvindo-lhe a voz muito meiga. a caminho da solidariedade universal. é indispensável reconhecer que só existe um Pai realmente eterno. a fim de aprendermos a fraternidade sem mácula. Aqui. a lição de Jesus. ao hospício. que é Deus. para adquirir o verdadeiro amor espiritual. na Terra. odiando-se entre si.

Tal gênero de vida arruinou nossa casa. qualidades de tolerância. Paulina não o deixou terminar. e é justo que não prescinda da contribuição de mordomos fiéis. rancorosamente -. mas ninguém será mordomo do Pai com avareza e propósitos de dominação. desejando o bem-estar de todos. seu esforço seria de valiosa previdência. como preguiçosas da banalidade social. papai... mas. São raros os que se preocupam em ajuntar conhecimentos nobres. afastamo-nos dos serviços do Pai. Querendo viver acima dos outros. senão nas expressões externas da vida. se não há um átomo de felicidade para ninguém? . Impomos a outrem os nossos caprichos. noutro tempo.atalhou o infeliz. Se o senhor assegurasse o futuro dos nossos. Ninguém nasce no planeta simplesmente para acumular moedas nos cofres ou valores nos bancos. esquecemos a lapidação do nosso espírito. encontraram ociosos que as desposaram. visando a vantagens financeiras. entregando-se a más companhias.Nem sempre sabemos interpretar o que seja benefício. costumamos amealhar o dinheiro por espírito de vaidade e ambição. Debalde. alheando-se por completo da Medicina e exercendo-a tão-somente de longe em lon- . no capítulo da riqueza transitória. às vezes. não nos lembramos disso. busquei levar socorro espiritual ao ambiente doméstico.165 NOSSO LAR vale isso. que saibam administrar com sabedoria. Edelberto conquistou o título de médico.Mas eu leguei enorme patrimônio à família . Agenor repudiou o estudo sério. É natural que a vida humana peça o concurso da previdência. Enquanto o senhor e mamãe se sacrificavam por aumentar haveres. Amália e Cacilda esqueceram o serviço útil e. garantindo-lhes a tranqüilidade moral e o trabalho honesto. retomando a palavra: . bênçãos de compreensão. luzes de humildade.

empregou. Voltando à intimidade. o Edelberto. bondosa: . Daí a instante. Esforçamo-nos por . porém. papai! Tenha compaixão de seu filho.. mas muita tristeza no olhar afogado em justa preocupação. as lágrimas. Todos arruinaram belas possibilidades espirituais. em regra. Fui a casa de nossa amiga. esquisitices e desavenças. O enfermo tomou uma expressão de pavor e acrescentou: . quando o irmão.. mas Narcisa endereçou-lhe significativo olhar.Maldito Edelberto! Filho criminoso e ingrato! Matou-me sem piedade.. A jovem preparavase para discutir. continuou a praguejar em voz alta..Os casos de herança. Calou-se Paulina. ainda por alguns minutos. distraídos pelo dinheiro fácil e apegados à idéia de herança. mas também a eutanásia.166 NOSSO LAR ge à maneira do trabalhador que visita o serviço por curiosidade.Cale-se. no genitor quase moribundo. quando ainda necessitava regularizar minhas disposições testamentárias! Malvado!. Com raras exceções. chamando Salústio para socorrer o doente em crise. acarretam enorme peso a legadores e legatários.. sob forte impressão. A ambição do dinheiro criou. . retirava-me em companhia de ambas. Malvado!. a custo. médico de aparência distinta. Narcisa disse.. acariciando a fronte paterna e contendo. Neste caso. são extremamente complicados. Pais avarentos possuem filhos esbanjadores. As duas amigas trocaram confidências. porém. perdoe e esqueça!. despedindo-se Paulina a evidenciar muita generosidade nas frases gentis. a chamada "morte suave". em toda a família de Paulina. vemos não só isso. O velho.

O pobre rapaz desejava. E com expressivo gesto. mas nós costumamos transformar-nos em espíritos diabólicos.Deus criou seres e céus.o ódio e a moléstia. . e aí temos agora a imprevidência e o resultado . apressar o desenlace. criando nossos infernos individuais. mas foi tudo em vão. de fato. Narcisa rematou: .167 NOSSO LAR o evitar. por questões de ordem financeira.

senão em momentos de palestra rápida.disse -. Ainda não havíamos descansado. Guarde essa emoção para mais tarde. um doente pedia alívio. para não me desviar da obrigação justa. a cada momento.168 31 VAMPIRO Eram vinte e uma horas. Logo após às vinte e uma horas. necessária à solução de problemas espirituais. Era um homenzinho de semblante singular. mas Narcisa deteve-me. Não insisti. fervilhavam-me no cérebro mil interrogações. no Pavilhão 11. ali. Era indispensável recordar o conselho da genitora de Lísias. Abrira-se um mundo novo à minha pesquisa intelectual. atenciosa: . Quando fomos atender a dois enfermos. localizam-se ali os desequilibrados do sexo. evidenciando a condição de trabalha- . O quadro seria extremamente doloroso para seus olhos. escutei gritaria próxima. Fiz instintivo movimento de aproximação. chegou alguém dos fundos do enorme parque.Não prossiga . outro necessitava passes de reconforto. Entretanto. Aqui.

. não pude fazê-lo.Filhos de Deus . através do campo enluarado. Lado a lado. . Havíamos percorrido mais de um quilômetro. coberta de andrajos. ordinariamente calma. então. . via-se o arvoredo tranqüilo do parque muito extenso. A distância não era pequena. assustada. Justino? Qual é a sua mensagem? O operário.Sim. O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou: . no grande portão que dá para os campos de cultura. o caso é muito grave. segui a enfermeira. a miserável figura da mulher que implorava socorro do outro lado.revidou Narcisa.bradou a mendiga ao avistar-nos -. aflito: .Que há. perguntando: .169 NOSSO LAR dor humilde.Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro.Então.interrogou a enfermeira. Deparou-se-nos. Nada vi. .Que me diz? . imperceptíveis ao meu olhar. porque a pobrezinha está rodeada de pontos negros. senhora. Creio tenha passado despercebida aos vigilantes das primeiras linhas. rosto horrendo e pernas em chaga viva.Segundo as ordens que nos regem. agitado pelo vento caricioso. mas Narcisa parecia divisar outros detalhes. Narcisa recebeu-o com gentileza. respondeu.E por que não a atendeu? . dado o assombro que estampou na fisionomia. senão o vulto da infeliz. quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador. . dai-me abrigo à alma cansada! Onde está . Curioso. que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de Retificação.

Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração.170 NOSSO LAR o paraíso dos eleitos. abriria imediatamente a nossa porta. entrei em contacto com o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação. Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe.Faça o obséquio de esperar alguns minutos.Está mulher. aproximou-se da infeliz e informou.Não está vendo os pontos negros? . e disse: . E. orientador dos vigilantes. nada posso resolver por mim mesma. É preciso entregá-la à própria sorte . Chegados à cancela.Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada. examinou atentamente a recém-chegada do Umbral. Voltamos apressadamente ao interior. Narcisa apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência. para que eu possa fruir a paz desejada. por sua vez.Se estivesse em minhas mãos. em tom fraterno: . mostrava-se comovida. Vamos até lá. quando se trata de criaturas nestas condições. o Irmão Paulo.respondi. . Tratase de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje. por enquanto.Não . Dirigimo-nos os três para o local indicado. Ele esboçou um gesto significativo e ajuntou: . em serviço. mas. continuou: .Fez muito bem. Assim dizendo. depois de ligeira pausa. não pode receber nosso socorro. Narcisa. Pela primeira vez. mas falou em tom confidencial: . comunicando-me o fato.

Esses pontos escuros representam cinqüenta e oito crianças assassinadas ao nascerem. A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas.Conte as manchas pretas.Permitir essa providência . explorando a infelicidade de jovens inexperientes. adiantou-se suplicante: . O Irmão Paulo. A pretexto de aliviar consciências alheias. era minha instrutora de serviço que respondia negativamente. que. Essa desventurada criatura foi profissional de ginecologia. apresentam atenuantes de vulto.171 NOSSO LAR Senti-me escandalizado. Irmão Paulo. exclamou para a enfermeira: . umas por golpes esmagadores. outras por asfixia.Mas. E indicando a mendiga que esperava a decisão. seria trair minha função de vigilante.Cinqüenta e oito. Narcisa fixou o olhar na infeliz e respondeu.respondeu o Vigilante-Chefe. . que me pareceu compartilhar da mesma impressão.esclareceu ele -. entregava-se a crimes nefandos. Em cada mancha vejo a imagem mental de uma criancinha aniquilada. com a paciência dos que sabem esclarecer com amor. não há um meio de acolhermos essa miserável criatura nas Câmaras? . por vezes. explicou: . Baixando o tom de voz. alguma coisa além dos pontos negros? Agora. recomendou: . Não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora ao azar do caminho? Narcisa. . a gritar impaciente. Narcisa. após alguns instantes: .Pois vejo mais .Já notou.

temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas e a boa-vontade de resgatar nossos débitos.Reconheço.. Para que nos serve aqui um serviço de vigilância? E. . minha amiga . os processos da medicina. entretanto. da pedinte e perguntou: . assombrado. minha amiga . por agora.ponderou acertadamente -. exclamou: . Demonstrando a sensibilidade das almas nobres. Os que trazem os sentimentos calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas. sorrindo expressivamente. Narcisa rogou: . em que muitas vezes enxergara. eu lhe dispensarei cuidados especiais. O Vigilante-Chefe aproximou-se.Não falo aqui de providências legítimas.respondeu lacrimosa. mas.Socorro! socorro! socorro!.Mas.respondeu o diretor da vigilância. de perto.172 NOSSO LAR Recordei. do nosso concurso fraterno? . impressionando pela sinceridade -. mas esta criatura. que todos somos espíritos endividados. também eu já errei muito no passado. a necessidade da eliminação de nascituros para salvar o organismo materno.. Se me permite. então. .Irmão Paulo.Busquemos a prova. que constituem aspectos das provações redentoras. refiro-me ao crime de assassinar os que começam a trajetória na experiência terrestre. com o direito sublime da vida. o Irmão Paulo acrescentou: . . nas ocasiões perigosas. Atendamos a esta desventurada.Que deseja a irmã. é preciso sabermos aceitar o sofrimento retifica- . nada deseja senão perturbar quem trabalha. lendo-me o pensamento.

Quem me atribui essa infâmia? Minha consciência está tranqüila. praticando boas obras. E. Fui caridosa e crente. Não voltarei jamais!. Assumindo atitude ainda mais firme. então..Demônio! Feiticeiro! Sequaz de Satã!. e. . perdeu o aspecto de enferma ambulante. acrescentou: . Não temos aqui o céu que deseja. Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar. Estamos numa casa de trabalho. então.. retirando-se a passo firme.. Estou procurando o paraíso que fiz por merecer. onde os doentes reconhecem o seu mal e tentam curar-se. que iam à luta com a permissão de Deus? Ouvindo-o. junto de servidores de boa-vontade.173 NOSSO LAR dor.. Creio que a irmã ainda não recebeu. nem mesmo o benefício do remorso. como quem permanece absolutamente senhor de si Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar.Não lhe pedi remédio.. volte até aqui. ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou: .Faça.. A mendiga objetou atrevidamente: . o favor de retirar-se. falou o Vigilante-Chefe com autoridade: . boa e pura. inquieta. voltando-se para nós. respondeu a interlocutora: . durante longos minutos. reconhecendo as necessidades próprias. endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera.Não é isso que se observa na fotografia viva dos seus pensamentos e atos. Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus.. canalha!.. nem serviço. Irada. Empreguei a existência auxiliando a maternidade na Terra. Por que razão tantas vezes cortou a vida a entezinhos frágeis.

não lhe poderia abrir nossas portas.174 NOSSO LAR . sofre desesperadamente e alega tranqüilidade. Naturalmente. na posição em que me encontro. . a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina.Observaram o Vampiro? Exibe a condição de criminosa e declara-se inocente. criou um inferno para si própria e assevera que está procurando o céu. Ante o silêncio com que lhe ouvíamos a lição. é profundamente má e afirma-se boa e pura. por princípio de caridade legítima.É imprescindível tomar cuidado com as boas ou más aparências. mas. o Vigilante-Chefe rematou: .

não há somente caminhos para o Umbral ou apenas cultura de vegetação destinada aos sucos alimentícios. quando ele se digna de vir até nós. experimentava singular fascinação. Aquelas árvores acolhedoras. que penetrara o parque banhado de luz. outros para Ministros visitantes e estudiosos em geral. há recintos de maravilhosos contornos para as conferências dos Ministros da Regeneração. . porém.dizia ela .Trata-se dos "salões verdes" para serviço de educação. continuou esclarecendo: . . Entre as grandes fileiras das árvores. E observando-me a curiosidade sadia. reservando-se. para as conversações do Governador. enunciando perguntas veladas. Periodicamente.175 32 NOTÍCIAS DE VENERANDA Agora. De maneira indireta.No grande parque . A Ministra Veneranda criou planos excelentes para os nossos processos educativos. aquelas virentes sementeiras reclamavam-me a todo momento. um de assinalada beleza. provocava explicações de Narcisa.

então. são os que se instituíram nas escolas. interpelei: . . cheias de encantos naturais.E o mobiliário dos salões? Tal como dos grandes recintos terrenos? Narcisa sorriu e acentuou: . Todos os Ministérios pediram cooperação. dentro do qual se abrigam cinco numerosas classes de aprendizados e cinco instrutores diferentes. em forma de estrela. com o qual é possível levar a efeito cinco projeções variadas.Há diferença. A Ministra ideou os quadros evangélicos do tempo que assinalou a passagem do Cristo . Temos. funciona enorme aparelho destinado a demonstrações pela imagem. No centro. Essa iniciativa melhorou consideravelmente a cidade. Soube que tal se dera.176 NOSSO LAR as árvores eretas se cobrem de flores. a meu ver.Sem dúvida . aplausos francos em toda a colônia. havia precisamente quarenta anos. inclusive o da União Divina. Variam nas formas e dimensões. entusiasticamente -. no Bosque das Águas. todavia. assim. com as bênçãos do Sol ou das estrelas distantes. o teto acolhedor. Valendo-me da pausa natural. instalou a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação. Surgiram deliciosos recantos em toda parte. no firmamento. unindo no mesmo esforço o serviço proveitoso à utilidade prática e à beleza espiritual. a campanha do "salão natural". Nos parques de educação do Esclarecimento. à maneira do cinematógrafo terrestre. segundo me informaram. Iniciouse. dando idéia de pequenas torres coloridas. simultaneamente. . Os mais interessantes.prosseguiu a enfermeira.Devem ser prodigiosos esses palácios da natureza . o projeto da Ministra despertou. que solicitou o concurso de Veneranda na organização de recintos dessa ordem.acrescentei.

em comemoração ao Natal de Jesus. A Ministra Veneranda descobriu que ele sempre estimou as paisagens de gosto helênico. A conservação exige cuidados permanentes. Cada mês do ano mostra cores diferentes. mas a beleza dos quadros representa vasta compensação. em homenagem ao Mestre dos mestres. A Ministra reserva o mais lindo aspecto para o mês de dezembro. mais antigo. e decorou o salão a traços especiais. de trinta a trinta dias. conferenciando com os Ministros da Regeneração. Ali permanece longas horas. formados em pequenos canais de água fresca. Esse salão é nota de júbilo para os nossos Ministérios. Disse a organizadora que seria justo lembrar as preleções do Mestre. mas. Talvez já saiba que o Governador aqui vem. em razão das flores que se vão modificando em espécie. interrompeu-se a bondosa enfermeira. por sua vez. aos domingos. lagos minúsculos. recebendo nossos votos e visitas.. quase que semanalmente. quando a cidade recebe os mais formosos pensamentos e as mais vigorosas promessas dos nossos companheiros encarnados na Terra e envia. e confortan- . e dessa recordação surgiu o empreendimento do "mobiliário natural". forrados de relva olente e macia. pontes graciosas. identificando-me o interesse silencioso. A essa altura. oferecendo sugestões valiosas.177 NOSSO LAR pelo mundo.O mais belo recinto do nosso Ministério é o destinado às palestras do Governador. prosseguiu: . em plena praia. e sugeriu recursos da própria natureza. quando de suas divinas excursões junto ao Tiberíades. conversando com os trabalhadores. Cada "salão natural" tem bancos e poltronas esculturados na substância do solo. palanquins de arvoredo e frondejante vegetação. Isso imprime formosura e disposições características. examinando nossas vizinhanças com o Umbral. ardentes afirmações de esperança e serviço às esferas superiores.

em "Nosso Lar". neste Ministério. mas nunca comentou esse fato de sua vida espiritual e esquiva-se à menor informação a tal respeito. que já viu Jesus nas Esferas Resplandecentes.é também esplêndido recinto. Sua tradição de trabalho. Permanece em tarefa ativa. Um dia.continuou Narcisa. Ouvindo os interessantes informes. É a entidade com maior número de horas de serviço na colônia e a figura mais antiga do Governo e do Ministério. a Governadoria se socorre dos seus pareceres.. nesta cidade.178 NOSSO LAR do enfermos convalescentes. executados por jovens e crianças dos nossos educandários. adiantei: . foram por ela criados para atender aos mais infelizes. eu experimentava um misto de alegria e curiosidade. Grande número de benefícios. que se hospedam em "Nosso Lar". que acomoda confortavelmente mais de trinta mil pessoas. Além disso. é considerada pela Governadoria como das mais dignas. "Nosso Lar" ama- . há outra nota interessante. há mais de duzentos anos. quando pode demorar-se. ouvem-na antes de tomar qualquer providência de vulto. A maioria dos forasteiros. em geral. em "Nosso Lar".O salão da Ministra Veneranda .Como deve ser respeitável essa benfeitora!. . Os onze Ministros. Todo o nosso préstimo será pouco para retribuir as dedicações dessa abnegada serva de Nosso Senhor. Em numerosos processos. .. animadamente . ouve música e assiste a números de arte.atalhou Narcisa. Com exceção do Governador. Impressionado com as informações. À noitinha. cuja conservação nos merece especial carinho. costuma vir até aqui só no propósito de conhecer esse "palácio natural". relativamente a ela. que com ela atuam na Regeneração. com reverência -. é criatura das mais elevadas de nossa colônia espiritual. há quatro anos. a Ministra Veneranda é a única entidade.Você diz muito bem .

apesar dos protestos do Governador. Generosa comissão veio trazer a honrosa mercê.Extraordinária mulher! . afirmando que não o merecia e transmitindo-o à personalidade coletiva da colônia. em seguida.perguntei. . Entregou. ela vive em zonas muito superiores à nossa e permanece em "Nosso Lar" por espírito de amor e sacrifício. o acontecimento. Narcisa.Como poderei conhecê-la? . a primeira entidade da colônia que conseguiu. à tardinha. na praça maior. sem interromper. semelhante triunfo. a Ministra Veneranda apenas chorou em silêncio. impressionado. a Ministra virá ao salão. Soube que essa benfeitora sublime vem trabalhando.179 NOSSO LAR nheceu em festa. a fim de esclarecer alguns aprendizes sobre o pensamento. As Fraternidades da Luz. . após as preces. que parecia alegrar-se com o meu interesse.por que não se encaminharia a esferas mais altas? Narcisa baixou o tom de voz e declarou: . Desistiu de todas as homenagens festivas com que se pretendia comemorar. os Ministérios e a multidão. o troféu aos arquivos da cidade. homenagearam Veneranda conferindo-lhe a medalha do Mérito de Serviço. que regem os destinos cristãos da América. até hoje.disse eu . pelo grupo de corações bem-amados que demoram na Terra. . há mais de mil anos. explicou. e espera com paciência. mais tarde. reunidos a Governadoria. apresentando um milhão de horas de trabalho útil. mas em meio do júbilo geral.Amanhã. jamais comentando a honrosa conquista.Intimamente. satisfeita: . sem reclamar e sem esmorecer.

apesar das janelas amplas. Assim caminhava. Onde estaria a paragem de sonho? Na Terra. para tomar providências. não experimentara tamanha impressão de bem-estar. Era imprescindível observar-lhes a volta. envolvendo-me em sensações de repouso. sob as frondes carinhosas. Os Samaritanos deviam estar nas vizinhanças. folhas caprichosas lembrando a acácia e o pinheiro.180 33 CURIOSAS OBSERVAÇÕES Poucos minutos antes de meia-noite. ponderei os acontecimentos que me sobrevieram. além. desde o primeiro encontro com o Ministro Clarêncio. qualquer notícia pertinente ao meu antigo lar? Minha própria mãe me acon- . Com que emoção tornei ao caminho cercado de árvores frondosas e acolhedoras! Aqui. contudo. silencioso. Narcisa permitiu minha ida ao grande portão das Câmaras. Ventos frescos agitavamnas de manso. ou naquela colônia espiritual? Que teria sucedido a Zélia e aos filhinhos? Por que razão me prestavam ali tão grande esclarecimentos sobre as mais variadas questões da vida. Aquele ar embalsamado figurava-se-me uma bênção. Nas Câmaras. Sentindo-me só. troncos que recordavam o carvalho vetusto da Terra. omitindo.

idéias generosas confortavam-me o íntimo. receber de novo o beijo dos filhinhos.. admirava-me de haver perdido tanto tempo no mundo em frioleiras de toda sorte. Não era eu o náufrago abandonado. como se eu fosse um náufrago em praia desconhecida? Simultaneamente. Tarde verificava esse descuido.181 NOSSO LAR selhara o silêncio. e. Se minha experiência podia classificar-se como naufrágio. encontrava a saudade viva dos meus. como que desejoso de me espertar a mente para estados mais altos. O vento calmo parecia sussurrar concepções grandiosas. reconhecia que nada criara de sólido e útil no espírito dos meus familiares. penetrando os recessos do ser. não pode voltar com a intenção de abastecer-se. Em verdade. deslocados da estabilidade doméstica para as sombras da viuvez e da orfandade? Inútil interrogação. Torturavam-me as inquirições internas. dispensara aos filhinhos ternuras incessantes. E que teria sucedido à esposa e aos filhinhos. Tais pensamentos instalavam-se-me no cérebro com veemência irritante. no entanto.. sem dúvida. mas. encontrara as penúrias da incompreensão. no sentido de renovar-me intrinsecamente. Tudo indicava a necessidade de esquecer os problemas carnais. prendendo-me então aos imperativos do dever justo. abstendo-se de qualquer informação direta. apro- . Quem atravessa um campo sem organizar sementeira necessária ao pão e sem proteger a fonte que sacia a sede. Por que decisões do destino estávamos agora separados. não devia o desastre senão a mim mesmo. Agora que observava em "Nosso Lar" vibrações novas de trabalho intenso e construtivo. muito amara a companheira de lutas e. mas. Ao deixar os círculos carnais. Desejava ardentemente rever a esposa muito amada. examinando desapaixonadamente minha situação de esposo e pai.

semiluminosa. abandonar o veículo corpóreo. voltei apressadamente ao interior. Os Samaritanos não podem tardar.Também eu. voltei com ela ao grande portão. que conseguem atingir estas paragens. Satisfeito. .Ora essa. Pareciam dois homens de substância indefinível. Tudo luar e serenidade. céu sublime e beleza silenciosa! Extasiandome na contemplação do quadro. Inquieto e amedrontado. Não se arreceie. não reconheceu aquelas personagens? Fundamente desapontado. portanto. Instantes depois. nada consegui responder. meu amigo .disse. acentuou: . demorei alguns minutos entre a admiração e a prece. experimentei a mesma surpresa. transitando livremente em nossos planos. Tive a impressão de identificar dois autênticos fantasmas. Os filamentos e fios que observou são singularidades que os diferenciam de nós outros. Cabelos eriçados. expus a Narcisa a ocorrência. Não suportei. são criaturas extraordinariamente espiritualizadas. notando que ela mal continha o riso. apesar de obscuras ou humildes na Terra. em outros tempos. mas Narcisa continuou: . E. . mostrando bom humor -. e da cabeça como que se escapava um longo fio de singulares proporções. Trata-se de poderosos espíritos que vivem na carne em missão redentora e podem.Vamos até lá. divisei ao longe dois vultos enormes que me impressionaram vivamente. Dos pés e dos braços pendiam filamentos estranhos. encorajando-me bondosamente. por minha vez. Temos quarenta minutos depois de meia-noite. como nobres iniciados da Eterna Sabedoria. Aqueles são os nossos próprios irmãos da Terra.182 NOSSO LAR ximei-me da grande cancela. Os encarnados. investigando além. por fim. através dos campos de cultura.

Fixei atentamente o grupo estranho que se aproximava devagarinho. e observou: . Em dado momento. mas também verdadeiros monstros. eram tirados por animais que. a Narcisa. me pareceram iguais aos muares terrestres. parados na contemplação dos campos silenciosos. a enorme distância. Seis grandes carros. assombrado. que não cabe agora descrever. onde não estacionam somente os homens desencarnados. precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos.183 NOSSO LAR Lobrigava-se. chamou os servos distantes. Mas a nota mais interessante era os grandes bandos de aves. Dirigi-me. A enfermeira. produzindo ruídos singulares.Estão envolvidos em claridade azul. acima dos carros. De repente. ainda. sob a claridade branda do céu. em tarefa que não podemos conhecer. porém. a bondosa amiga indicou um ponto escuro no horizonte enluarado. tranqüilamente.são auxiliares preciosos nas regiões obscuras do Umbral. a grande distância.disse Narcisa .Os cães . A enfermeira contemplou-os. perguntando: . . enviando um deles ao interior. transmitindo avisos. formato diligência. de corpo volumoso. Devem ser dois mensageiros muito elevados na esfera carnal. Ali estivemos. que voavam a curta distância. em voz ativa. incontinenti. .Que é isso? .Lá vêm eles! Identifiquei a caravana que avançava em nossa direção.interroguei. ouvi o ladrar de cães. os dois vultos que se afastavam de "Nosso Lar". mesmo de longe. fez um gesto expressivo de reverência e exclamou: . minutos longos.

E distribuindo ordens de serviço. a enfermeira explicou: . o dever não comporta minudências informativas. . e aquelas aves .Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral? Dizendo-me que não.acrescentou.184 NOSSO LAR . mas. . surpreso. são excelentes auxiliares dos Samaritanos. .Questão de densidade da matéria. agora. Além disso.Os cães facilitam o trabalho. os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição. mas no Ministério do Esclarecimento. indaguei das razões.Como assim? . Narcisa fixou-me com bondosa atenção. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. que denominamos íbis viajores. não se pode prescindir da colaboração dos animais. Vinha. preparava-se para receber novos doentes do espírito. Sempre atenciosa. por devorarem as formas mentais odiosas e perversas. entrando em luta franca com as trevas umbralinas. aqui e acolá. por espírito de compaixão pelos que sofrem. não aqui. no momento.perguntei. em muitos casos. Poderá colher valiosas lições sobre os animais. rematando: . os muares suportam cargas pacientemente e fornecem calor nas zonas onde se faça necessário. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. indicando-as no espaço -.Mas. mais próxima a caravana. onde se localizam os parques de estudo e experimentação. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino.

. todavia.. conduzidas por trabalhadores de pulso firme. estávamos todos enfrentando os enormes corredores de ingresso às Câmaras de Retificação. reclamavam em altas vozes. Não somente Narcisa. Observando-me perto.graças à Providência Divina. . sob amparo forte. Servidores movimentavam-se apressados. Salústio e outros companheiros se lançavam à lide.. cheios de amor fraternal. afastei-me do purgatório. com muita dificuldade. . mas também os Samaritanos mobilizavam todas as energias no afã de socorrer.continuou benzendo-se . Alguns enfermos portavam-se com humildade e resignação.185 34 COM OS RECÉM-CHEGADOS DO UMBRAL Estacaram as matilhas de cães ao nosso lado. Alguns doentes eram levados ao interior. espantada: .. notei que uma velhota procurava descer do último carro. exclamou. outros. Atacando igualmente o serviço.Cruzes! Credo! . Daí a minutos.Tenha piedade. Aproximei-me com interesse. meu filho! Ajude-me por amor de Deus!.

porque deixei uns dinheiros para celebração de missas mensais por meu descanso. de um momento para outro. Sabe o senhor que ninguém está livre de pecar. conservaram-me enclausurada. olvidando por completo.respondeu. Ajudei-a a descer.Absolutamente não . Mas. assim. Como lhe disse.Como são interessantes as suas observações! Mas não procurou saber as razões de sua demora naquelas paragens? . enquanto estive na Terra. entretanto. ouvia referências ao inferno e ao purgatório. começou a explicar-se: . de tão longe? Falando desse modo. como costumava fazer na Terra. tomado de extrema curiosidade. fiz muita caridade. partidas de uma boca que me parecia calma e ajuizada. Pela primeira vez. Fui. Atendendo ao impulso vicioso de perseguir assuntos que nada tinham que ver comigo. meu filho. Os espíritos diabólicos.186 NOSSO LAR Ah! que malditos demônios lá me torturavam! Que inferno! Mas os Anjos do Senhor sempre chegaram. mulher de muito bons costumes. que me arrebataram em verdadeiro torvelinho. e embora a fortuna me proporcio- . persignando-se.Vem. A princípio implorei a proteção dos Arcanjos Celestes. afetei ares de profundo interesse fraternal.De grande distância. as sábias recomendações da mãe de Lísias. interroguei: . percebendo o meu interesse. vi-me cercada de seres monstruosos. naquele instante. insisti: . na Terra. rezei incessantemente como sincera devota. quem pode com as artes de Satanás? Ao sair do mundo. A pobre criatura. Meus escravos provocavam rixas e contendas. Mas eu não perdia a esperança de ser libertada. fiz o possível por ser uma boa religiosa. Talvez obedecendo mais à malícia que me era peculiar.

quando o padre Amâncio visitava a fazenda e. de quando em quando era necessário aplicar disciplinas. senão para cumprir minhas ordens. irritada: . filhos de Satã! Chego a admirar-me da paciência com que tolerei . Não raro algum negro morria no tronco para escarmento geral. os filhinhos dos servos são iguais aos dos senhores. nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro. Pois se havia cativos em casa de bispos. era obrigada a vender as mães cativas. estava livre dessas faltas veniais. Os escravos eram igualmente nossos irmãos. recebendo a absolvição no confessionário e ingerindo a sagrada partícula. Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das visitas. ela bateu o pé autoritariamente e falou. A essa altura. porque. por questões de harmonia doméstica. comecei a doutrinar: . a religião nos ensinaria o contrário. Nessas ocasiões. estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus. separando-as dos filhos. escandalizado com a exposição. Se assim não fora. outras vezes. então. senão eles? E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como verdadeira honra!. nosso virtuoso sacerdote.Minha irmã.. Ouvindo-me.187 NOSSO LAR nasse vida calma. disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo. Os leitores eram excessivamente escrupulosos e eu não podia hesitar nas ordens de cada dia. os escravos são seres perversos.Isso é que não! Escravo é escravo. mas confessava-me todos os meses. Padre Amâncio. depois da comunhão. essa razão de paz espiritual era falsa. sentia morder-me a consciência. que me poderia encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas? Não tenha dúvida. Perante o Pai Eterno.. quanto mais em nossas fazendas? Quem haveria de plantar a terra. Pensa.

. . Experimentei estranha sensação de espanto. mas lembro-me perfeitamente. por me haver chocado a determinação da Princesa. entretanto. recebi as palavras de conforto do nosso sacerdote. Como poderíamos ficar no mundo.Não se impressione . Decorreram muitos anos. gastando interesse espiritual. e quando padre Amâncio trouxe a nova da cidade. não seria melhor morrer? Recordo que me confessei com dificuldade. E devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo. libertando esses bandidos.É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as missas. mas Narcisa aproximou-se e disse-me. Achavame adoentada. A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou: . Ia responder. . eles desejariam escravizar-nos por sua vez. meu amigo.E quando veio? . você esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados? Que proveito lhe advém de semelhantes informações? Os dementes falam de maneira incessante. e a servir a gente dessa laia. convocando-lhe os raciocínios à zona superior. atendamos aos irmãos perturbados. . havia muitos dias. e quem os ouve. .. sem coragem de a elas responder. sendo eu obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje.exclamou a enfermeira delicadamente -. pode não estar menos louco. fornecendo-lhe idéias novas de fraternidade e fé. piorei de súbito. mas parece que os demônios são também africanos e viviam à espreita.André. bondosa: .188 NOSSO LAR essa gente na Terra.Em maio de 1888. vendo esses criminosos em liberdade? Certo. deixei a disposição em testamento. Aquelas palavras foram ditas com tanta bondade que corei de vergonha.perguntei.

porém. dirigiu-se a um dos auxiliares. melindrada.Justamente. Zenóbio. E. creio. torturada pelos demônios. tomou expressão de fraternidade carinhosa e exclamou: . atalhou: . em meu nome.189 NOSSO LAR . .. que deve estar muito cansada. seu esforço purgatorial foi muito longo. . vá ao departamento feminino e chame Nemésia. não imagina o que tenho sofrido. Já sei tudo que lhe ocorreu de amargo e doloroso. Narcisa. ensinando-me como proceder em tais circunstâncias. A pobre criatura ia continuar repetindo a mesma história.Não.Não comente o mal.Mas.esclareceu a recém-chegada do Umbral -. demonstrando suas excelentes qualidades de psicóloga. no mesmo instante. mas Narcisa. Descanse. para que conduza mais uma irmã aos leitos de tratamento. justamente .Você. pensando que vou atendê-la. sem afetação: .. a senhora é de opinião que estou nesse número? . não digo isso.perguntou a velhota.. minha amiga. porém..

compreendendo a situação. de todos os bens. um dia. onde a sinceridade transparecia de todos os semblantes.. corresponder ao gesto afetuoso. acrescentando: . . quando a voz de alguém se fez ouvir carinhosamente. Quis cumprimentá-lo.Francamente. Voltei-me surpreendido e reconheci. ignorava que você tivesse deixado o corpo e estava longe de pensar que o encontraria em "Nosso Lar". veio em meu socorro. no Samaritano que assim falava. a quem meu pai. a meu lado: . Foi o próprio Silveira que. então.André! você aqui? Muito bem! Que agradável surpresa!. Justo acanhamento dominou-me.190 35 ENCONTRO SINGULAR Guardavam-se petrechos da excursão e recolhiam-se animais de serviço. mas a lembrança do passado paralisava-me de súbito. como negociante inflexível.. o velho Silveira. pessoa de meu conhecimento. Não podia fingir naquele ambiente novo. despojara.

dirigindo olhares doridos à minha mãe. e pediu a meu pai esquecesse os documentos assinados. comentando a situação de outros clientes que. O marido estava acamado. Meu genitor. porém. levando o lenço aos olhos. abracei-o comovido. murmurando palavras de reconhecimento. agravando-se-lhes a penúria com a enfermidade de dois filhinhos. A pobrezinha chorava. Quis ensaiar algumas explicações relativamente ao passado. havia muito. E consolava a esposa aflita. No fundo. Não podia. se encontravam em piores condições que o Silveira. esclarecer a situação. que ajudaria o cliente e amigo. não podia compreender a condição do retalhista. mas não o consegui. suplicante. habituado a transações de vulto e favorecido pela sorte. implorava concessões justas. As necessidades não eram reduzidas e os tratamentos exigiam soma considerável. Recordei que minha mãe intercedeu. quando a pobre mulher se despediu. no tocante aos débitos reconhecidos. de novo. Manteve-se irredutível. abstendo-se de qualquer ação judicial. levando-o ao extremo de uma falência desastrosa. A memória exibia. a seu ver. repreen- . Pedia mora. quebrar as normas e precedentes do seu estabelecimento comercial. Lembrei os olhares de simpatia que minha mãe lançou à desventurada postulante afogada em lágrimas.191 NOSSO LAR Identificando-lhe a amabilidade espontânea. eu desejava pedir desculpas pelo procedimento de meu pai. quando foi a nossa casa. como a rogar entendimento e socorro no coração de outra mulher. que. atenciosa. porém. frisando. não via outra alternativa que a de cumprir religiosamente os dispositivos legais. Naquele instante. afirmava. Parecia-me ouvir ainda a senhora Silveira. eu revia mentalmente o clichê do pretérito. e. As promissórias teriam efeito legal. o quadro vivo. Meu pai guardara profunda indiferença a todas as súplicas. Declarou que lamentava as ocorrências. de outro modo. Humilhava-se.

que. Essas reminiscências alinhavam-se-me no cérebro com a rapidez de segundos. sorrindo. Nunca mais tivera noticias daquela família. na ocasião. amargando o desastre financeiro em extrema penúria. a evidenciar espontâneo carinho. talvez. Derrotados na luta. nesse ponto. Abraçou-me cavalheirescamente e voltou ao trabalho ativo. o instante em que o próprio piano da senhorita Silveira foi retirado da residência para satisfazer às últimas exigências do credor implacável. . nos devia odiar. Relembrava. Via. o Silveira. Silveira identificou-me o constrangimento e apiedando-se. apesar do imenso desejo. a vaidade apossara-se de mim. os direitos de minha casa. E enquanto mal dissimulava o desapontamento. Inútil qualquer argumentação materna. tinha sido inexorável. certo. considerava minha mãe excessivamente sentimentalista e induzira-o a prosseguir na ação. porque. E. A pobre família houve de arcar com a ruína financeira completa. chamava-me à realidade: .Tem visitado o "velho"? Aquela pergunta. até ao fim. nada mais. do meu estado íntimo. não conseguira ainda tal satisfação. aumentava o meu pejo. procurou afastar-se. não conseguia enxergar as necessidades alheias. também encorajara meu pai a consumar o iníquo atentado. Queria desculpar-me e todavia não encontrava frases justas. Esclareci que. Não queria saber se outros sofriam. Muito jovem ainda. proibindo-lhe qualquer intromissão na esfera dos negócios comerciais. os Silveiras haviam procurado recanto humilde no Interior. apenas.192 NOSSO LAR deu minha mãe austeramente. reconstituíra todo o passado de sombras. Num momento. perfeitamente.

Que quer dizer? . detalhando os sucessos terrenos. identificando-se como antigo ofensor. que nos renova a oportunidade de restabelecer a simpatia interrompida. representa honra legítima para a alma. Vi-me. .Não tema insucessos. e abrace-o de outra maneira. quaisquer que sejam.Aproveitou. Corri ao encontro de Silveira e falei-lhe abertamente. há tempos. Sei. porque o Silveira é ocupadíssimo e talvez não se ofereça tão cedo outra oportunidade. que isso é uma bênção do Senhor. procurei Narcisa. Expuslhe a ocorrência. Ela ouviu-me com paciência e observou carinhosamente: . Narcisa acrescentou: . Toda vez que oferecemos raciocínio e sentimento ao bem. Tome a iniciativa. Empreender ações dignas. Já que você pode examinar-se a si mesmo com bastante luz de entendimento. as ofensas e os erros cometidos. e a mim. você.indaguei. Já tive a felicidade de encontrar por aqui o maior número das pessoas que ofendi no mundo. E. não perca a oportunidade de se fazer amigo. Vá. perguntou: . nas mesmas condições. hoje. o belo ensejo? . Recorde o Evangelho e vã buscar o tesouro da reconciliação.Desculpou-se com o Silveira? Olhe que é grande felicidade reconhecer os próprios erros. Não mais vacilei. rogando perdoasse a meu pai. Notando-me a indecisão. recompondo os elos quebrados. Jesus nos concede quanto se faça necessário ao êxito. .Não estranhe o fato. meu caro. Aproveite o momento. da corrente espiritual. tornando-se mais categórica no ensinamento. ansioso de conselhos.193 NOSSO LAR Muito desconcertado.

Silveira. Devemos-lhe. se me acendera divina luz para sempre. reconhecendo o infinito da vida. então. senão o interesse próprio. num dos escaninhos escuros do coração. sim. aqui. seu pai foi meu verdadeiro instrutor.Não perca tempo com isso. Em tal estado. André. abençoadas lições de esforço pessoal. poderia você acreditar que vivi isento de erros? Além disso. comovidíssimo. afagou-me paternalmente e rematou: . Pareceu-me que. nada conseguíamos vislumbrar.194 NOSSO LAR . Abracei-o. Quando o dinheiro se alia à vaidade. Sem aquela atitude enérgica que nos subtraiu as possibilidades materiais.Você compreende acentuei -. Silveira. Trabalhemos com o Senhor. em silêncio. dificilmente pode o homem afastar-se do mau caminho. junto de você. não me deixou terminar: . nós estávamos cegos. Nossos adversários não são propriamente inimigos e. emocionado. os meus olhos úmidos. Breve. todos os velhos conceitos da vida humana. benfeitores. meus filhos e eu. . Não se entregue a lembranças tristes. E fixando.Ora. quem haverá isento de faltas? Acaso. experimentando alegria nova em minhalma. que seria de nós no tocante ao progresso do espírito? Renovamos. quero ter a satisfação de visitar seu pai.

contente . regressou Tobias às Câmaras e. quando a senhora Laura e Lísias chegaram e me abraçaram. Disputei a satisfação de levar a notícia ao Ministro Clarêncio.Muito bem. mais por generosidade que por outro motivo. Pela manhã. receberá bônus em dobro. .195 36 O SONHO Prosseguiram os serviços. já me sentia integrado no mecanismo dos passes. aplicando-os aos necessitados de toda sorte. que me recomendou cumprimentasse a você em nome dele.exclamou ele. sorrindo -.vou recomendá-lo ao Ministro Genésio e.Sentimo-nos profundamente satisfeitos . pelos serviços iniciais. Ao cair da noite. . estimulou-me com palavras animadoras. acompanhei-o em espírito.disse a generosa senhora. perturbados reclamando dedicação. incessantemente. durante a noite. Ensaiava palavras de reconhecimento. . e sua estréia no trabalho é motivo de justa alegria em nosso círculo doméstico. Enfermos exigindo cuidado. André! .

Pediram-me relatório verbal de impressões e eu não cabia em mim de contente. Daí a instantes. a prodigioso bosque. onde alguém me chamou com especial carinho: . extasiado embora com as magnificências da paisagem..196 NOSSO LAR Trocaram observações afetuosas com Tobias e Narcisa. vi-me à frente de um porto maravilhoso. sensações de leveza invadiram-me a alma toda e tive a impressão de ser arrebatado em pequenino barco. ao lado das Câmaras de Retificação. Para onde me dirigia? Impossível responder. A meu lado. Recolhido ao quarto confortável e espaçoso. André!. Narcisa preparou-me o leito com desvelos de irmã. Desembarquei com precipitação verdadeiramente infantil. não obstante os movimentos de ascensão. A "proveitosa fadiga" dos que cumprem o dever não me deu ensejo a qualquer vigília desagradável. e aconselhoume algum descanso.. um homem silencioso sustinha o leme. Fui conduzido. Tobias pós à minha disposição um apartamento de repouso. onde as flores eram dotadas de singular propriedade .a . reservavam-se para depois. Nada obstante o convite amável da genitora de Lísias para que voltasse a casa por descansar.André!. Decorridos minutos. porém. então. deixava-me conduzir sem exclamações de qualquer natureza. Parecia-me que a embarcação seguia célere. Reconheceria aquela voz entre milhares. sentia grande necessidade do sono. por ela. rumando a regiões desconhecidas. Num momento. orei ao Senhor da Vida agradecendo-lhe a bênção de ter sido útil. Minhas alegrias sublimes. E qual criança que não pode enumerar nem definir as belezas do caminho. De fato... abraçava minha mãe em transbordamentos de júbilo.

revelando a festa permanente do perfume e da cor.. meu filho. desse modo. igualmente. que o Senhor observa e registra a nosso favor. A riqueza de emoções. afirmava-se cada vez mais intensa. são serviços divinos que nunca ficarão deslembrados na Casa de Nosso Pai. Alguns se dizem desencorajados pela solidão. e tinha absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso. constituem bênçãos de trabalho espiritual. A fisionomia de minha genitora estava mais bela que nunca. minha mãe esclareceu bondosamente: . Após dirigir-me sagrados incentivos espirituais. declaram-se em desacordo com o meio a que foram chamados para servir ao Senhor. a esperança ao aflito. Minhas noções de espaço e tempo eram exatas. É indispensável. em "Nosso Lar". que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação. demoram em atitudes contraproducentes. aqui. dessa maneira. sob as grandes árvores sussurrantes ao vento. O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. o bálsamo ao leproso. o prato de sopa ao faminto. por sua vez. no teu primeiro dia de serviço útil. meu filho. aguardando milagres que jamais se verificarão.. converter toda a oportunidade da vida em motivo de atenção a Deus. o olhar de compreensão ao culpado. Minhas impressões de felicidade e paz eram inexcedíveis.197 NOSSO LAR de reter a luz. perfeitamente.Muito roguei a Jesus me permitisse a sublime satisfação de ter-te a meu lado. Reduzem-se. Tapetes dourados e luminosos estendiam-se. a promessa evangélica aos que vivem no desespero. após deixarem a Terra. outros. Numerosos companheiros nossos. como sucedia na Terra. formosas capacidades a simples expressões parasitárias. Como vês. o gesto de amor ao desiludido. André. Eu sabia. Seus olhos de madona pareciam irradiar lu- . Nos círculos inferiores. o trabalho é tônico divino para o coração.

espiritualmente. que todos os milionários da Terra congregados no serviço. fluidos criadores de energias novas. nos gestos de ternura. jamais esqueças dar de ti mesmo. Aprendamos a concretizar semelhante princípio. Assim como eu.198 NOSSO LAR minosidade sublime. Minha mãe fez uma pausa. . posso ver. Deus nos vê e acompanha a todos. indigente como sou. olvida o entretenimento e busca o serviço útil. na maioria das colônias espirituais.continuou amorosamente -. fazendo o bem. em amor fraternal e divina compreensão. vivem almas inquietas. onde identifiquei. Trabalha. teus serviços. sublime embora. porém. suas mãos transmitiam-me.Conhecemos. aos últimos seres da Criação. Lágrimas de emoção embargavam-me a voz. como nas esferas do globo. aqui. Sobretudo. muito abaixo dos vermes da Terra. a par de caridosas emoções. desde o mais lúcido embaixador de sua bondade. teus esforços em "Nosso Lar" e seguir as mágoas de teu pai nas zonas umbralinas. Sempre que possas. Jesus deu mais de si para o engrandecimento dos homens. Ela endereçou-me carinhoso olhar. Nossa base de compensação une dois fatores essenciais. meu filho. em espírito. ansiosas de novidades e distração. filho meu. Não te envergonhes de amparar os chaguentos e esclarecer os loucos que penetrem as Câmaras de Retificação.O Evangelho de Jesus. Dá sempre. à noite passada. para que cheguemos à prática do bem interior. meu André . O bô- . A prática do bem exterior é um ensinamento e um apelo. lembra-nos que há maior alegria em dar que em receber. da caridade material. no esforço diário a que formos conduzidos pela nossa própria felicidade. compreendendo a situação e continuou: . que desejei aproveitar para dizer alguma coisa. mas não pude. em tolerância construtiva. Em todas as nossas colônias espirituais. a remuneração de serviço do bônus-hora.

mas.199 NOSSO LAR nus representa a possibilidade de receber alguma coisa de nossos irmãos em luta. Foi então que ela me tomou nos braços. A ninguém esquece e reserva-se o direito de entenderse com o trabalhador. no concernente ao conteúdo espiritual da hora.. pagamentos. perdi a consciência de mim mesmo. Todo administrador sincero é cioso dos serviços que lhe competem. que nossas atividades experimentais. há correspondência direta entre o Servidor e as Forças Divinas da Criação. Minha mãe calou-se enquanto eu enxugava os olhos. É por isso. acariciando-me desveladamente. são modalidades de experimentação dos administradores. por algum tempo. Tabelas. André. quadros. sofrem contínuas modificações todos os dias. considerando nossa posição de criaturas em labores de evolução. a partir da esfera carnal. É por essa razão que o Altíssimo concede sabedoria ao que gasta tempo em aprender e dá mais vida e mais alegria aos que sabem renunciar!. meu filho.. para despertar mais tarde nas Câmaras de Retificação. Toda compensação exterior afeta a personalidade em experiência. a que o Senhor concedeu a oportunidade de cooperar nas Obras Divinas da Vida. experimentando vigorosas sensações de alegria. assim como concede à criatura o privilégio de ser pai ou mãe. ou de remunerar alguém que se encontre em nossas realizações. como acontece na Terra. aquela que permanecerá sempre em nossos círculos de vida. em marcha para a glória de Deus. Deus também. . todo pai consciente está cheio de amor desvelado. Qual o menino que adormece após a lição. no progresso comum. é Administrador vigilante e Pai devotadíssimo. todo valor de tempo interessa à personalidade eterna. mas o critério quanto ao valor da hora pertence exclusivamente a Deus. na Terra e noutros mundos. quanto ao verdadeiro proveito no tempo de serviço. Na bonificação exterior pode haver muitos erros de nossa personalidade falível. mas.

não podem perder tempo.Desejo-lhe excelente proveito. Os instrutores. aqueles esclarecimentos sobre o bônus-hora me haviam suscitado certas interrogações de vulto. entre servidores e abrigados dos Ministérios da Regeneração e do Auxílio. desse modo. grande era o meu interesse pela conferência da Ministra Veneranda. a contagem do .Essas aulas . autorizado a comparecer com os ouvintes que se contam por centenas. Ciente de que necessitaria permissão. rematou: .disse ele .200 37 A PRELEÇÃO DA MINISTRA No curso de trabalhos do dia imediato. logo após o despertar. Fica você. Como poderia estar a compensação da hora afeta a Deus? Não era atribuição do administrador espiritual. enchiam-me o espírito de sublime conforto.são ouvidas somente pelos espíritos sinceramente interessados. Transcorreu o novo dia em serviço ativo. ou humano. entendi-me com Tobias a respeito. Num gesto afetuoso de estímulo. A princípio. . O contacto de minha mãe. suas belas observações relativas à prática do bem. aqui.

impende a obrigação de contar o tempo de serviços. dela se retiram com a mesma incipiência da primeira hora. igualmente. como se fossem entes malditos. Na disposição comum da grande assembléia. Tanto é precioso o conceito de sua mamãe disse Tobias . assim como existem homens que. Há servidores que. transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno. em geral. porém. provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual. só mesmo as Forças Divinas podem determinar com exatidão. Calculei a assistência em mais de mil pessoas. em todos os sentidos. onde grandes bancos de relva nos acolheram confortadoramente. Chegada a hora destinada à preleção da Ministra. nos segundos. dirigi-me. que se realizou após a oração vespertina.que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus. atingindo cem anos de existência. esclarecera-me a inteligência faminta de luz. em látegos de tormento e remorso. para o grande salão em plena natureza. Flores variadas. instituírem elementos de respeito e consideração ao mérito do trabalhador. notei que vinte entidades se assentavam em local destacado entre nós outros e a eminência florida onde se via a poltrona da instrutora. Cada filho acerta contas com o Pai. conforme o emprego da oportunidade. Nos primeiros. exalavam delicado perfume. quanto ao valor essencial do aproveitamento justo. mas. Aos administradores. Essa contribuição de esclarecimento auxiliou-me a ponderar o valor do tempo. dela saem com a mesma ignorância da idade infantil. brilhando à luz de belos candelabros. sendo justo. Verdadeira maravilha o recinto verde.201 NOSSO LAR tempo? Tobias. depois de quarenta anos de atividade especial. em companhia de Narcisa e Salústio. ou segundo suas obras. .

Por enquanto. poderão ser esclarecidos ou aproveitados.Não pode você figurar entre eles? . Veneranda espalhou. Adquiriram esse direito pela aplicação ao assunto. . quaisquer pontos de vista. Narcisa explicou: .Muito curioso o processo . o que contrastava com o nome. mas. sim. por nossa vez. o semblante de nobre senhora na idade madura. companheiros que podem interpelar a Ministra. sem afetação. são os mais adiantados na matéria de hoje. Mal acabara de falar e eis que a Ministra Veneranda penetrou no recinto em companhia de duas senhoras de porte distinto. cheia de simplicidade. com grave perda de tempo para o conjunto.prosseguiu a enfermeira explicando .Estamos na assembléia de ouvintes. condição que poderemos alcançar também. tendo em vista o momento adequado. Há. como a informar-se das necessidades domi- . . com a simples presença.indaguei.aduzi. irmãos que ali permanecem no trato de várias teses.determinou essa medida. .202 NOSSO LAR A uma pergunta minha. enorme alegria em todos os semblantes.O Governador . conforme a cultura já adquirida. . nas aulas e palestras de todos os Ministros. verdadeiramente úteis. sem base justa. Não mostrava a fisionomia de uma velha. Aqueles irmãos. porém. Depois de palestrar ligeiramente com os vinte companheiros. que se conservam em lugar de realce. Quaisquer dúvidas.Não. posso sentar-me ali somente nas noites que a instrutora verse o tratamento dos espíritos perturbados. que Narcisa informou serem Ministras da Comunicação. a fim de que os trabalhos não se convertessem em desregramento da opinião pessoal.

"Como sempre. contudo. com relação ao tema da noite. encontraram aqui a habitação. próximos do Divino. representa período demasiadamente curto para aspirarmos à . Esta realidade. Não podemos esquecer que temos vivido. em velhos círculos de antagonismo vibratório. Não haviam aprendido que o pensamento é a linguagem universal? Não foram informados de que a criação mental é quase tudo em nossa vida? São numerosos os irmãos que formulam semelhantes perguntas. no momento. Não somos. o utensílio e a linguagem terrestres. mas aqui estou para conversar com vocês. Em geral. na carne terrestre. Os grandes instrutores da humanidade carnal ensinam princípios divinos. não deve causar surpresa a ninguém. Todavia. começou por dizer: . nos círculos do globo. entre nós. relacionando algumas observações sobre o pensamento. "Encontram-se.203 NOSSO LAR nantes na assembléia em geral. expõem verdades eternas e profundas. porém. "Será crível que. comparáveis aos irmãos mais velhos e mais sábios. recebemos notícias dessas leis sem nos submetermos a elas. não posso aproveitar a nossa reunião para discursos de longa tiragem verbal. por enquanto. até agora (referindo-nos à existência humana). algo insubmissas ainda às leis universais. algumas centenas de ouvintes que se surpreendem com a nossa esfera cheia de formas análogas às do planeta. O pensamento é a base das relações espirituais dos seres entre si. mas milhões de entidades a viverem nos caprichosos "mundos inferiores" do nosso "eu". e tomamos conhecimento dessas verdades sem lhes consagrarmos nossas vidas. nas atividades terrenas. somente por admitir o poder do pensamento. ficasse o homem liberto de toda a condição inferior? Impossível! "Uma existência secular. mas não olvidemos que somos milhões de almas dentro do Universo.

nas mentes evolvidas. conservemo-la com os detritos da terra e fála-emos habitação de micróbios destruidores. Após elevar-se às alturas. a água volta purificada. mas com freqüência agimos exclusivamente no terreno das afirmativas verbais. mas esquecemos que toda a nossa energia. Nele. é coisa sabida que um homem é obrigado a alimentar os próprios filhos. Recorramos a símbolo mais simples. nas mesmas condições. atenderá ao dever apenas com palavras. em milênios sucessivos. cada espírito é compelido a manter e nutrir as criações que lhe são peculiares. "Todos sabemos que o pensamento é força essencial. veiculando vigorosos fluidos vitais. no Lar Universal. basta o intercâmbio mental sem necessidade das formas. nesse particular. "O pensamento é força viva. mas não admitimos nossa milenária viciação no desvio dessa força. é atmosfera criadora que envolve o Pai e os filhos. Ninguém. transformam-se homens em anjos. tem sido empregada por nós. a Causa e os Efeitos. Informamo-nos a respeito da força mental no aprendizado mundano. nas criações mentais destrutivas ou prejudiciais a nós mesmos. entre os desencarnados e encarnados. "Somos admitidos aos cursos de espiritualização nas diversas escolas religiosas do mundo. a caminho do céu ou se fazem gênios diabólicos. "Apreendem vocês a importância disso? Certo. Uma idéia criminosa produzirá gerações mentais da mesma natureza. todavia. "Ora. no orvalho protetor ou na chuva benéfica. em toda parte. . a caminho do inferno.204 NOSSO LAR posição de cooperadores essencialmente divinos. Ensina a Bíblia que o próprio Senhor da Vida não estacionou no Verbo e continuou o trabalho criativo na Ação. um princípio elevado obedecerá à mesma lei.

ao som da música habitual. a Ministra sorriu para o auditório e perguntou: . revelando amor e compreensão. pensamento a pensamento. prescindindo de forma verbalista especial. delicadeza e sabedoria. em núcleos insulados. para que alguns poucos se preparem à ascensão. é uma bênção a nós concedida por "acréscimo de misericórdia". indaguei de Narcisa. e somos compelidos a prosseguir nas construções transitórias da Terra. e para que a maioria volte à Terra em serviços redentores.205 NOSSO LAR e é justo destacar que o pensamento em si é a base de todas as mensagens silenciosas da idéia. porém. nesse caso.Quem deseja aproveitar? Logo após. como cidade espiritual de transição. "Nosso Lar". a fim de regressar aos círculos planetários com maior bagagem evolutiva. Compreendamos a grandiosidade das leis do pensamento e submetamo-nos a elas. entre os seres de toda espécie. nas esferas de absoluta pureza mental. Afinamo-nos uns com os outros. portanto. findou a palestra com uma pergunta graciosa. suave música encheu o recinto de cariciosas melodias." Depois de longa pausa. Dentro desse princípio. onde todas as criaturas têm afinidades entre si. Não estamos. será sempre a do receptor. Sem qualquer solenidade nos gestos para evidenciar o término da conversação. Veneranda conversou ainda por muito tempo. o espírito que haja vivido exclusivamente em França poderá comunicar-se no Brasil. mas isso também exige a afinidade pura. que. desde hoje. nos maravilhosos planos da intuição. Quando vi os companheiros levantarem-se para as despedidas. surpreendido: .

. sorridente: . Ela costuma afirmar que as preleções evangélicas começaram com Jesus. mas ninguém pode saber quando e como terminarão. Finaliza a conversação em meio do nosso maior interesse.206 NOSSO LAR .A Ministra Veneranda é sempre assim.Que é isso? Acabou a reunião? A enfermeira bondosa esclareceu.

de perto. alguns caramanchões de caprichosos formatos. Esclareceu que esta era sua esposa e aquela. ao entardecer. parecia especializar-se na cultura de determinadas flores. de vez que outros se incumbiram da assistência noturna. Findo o serviço. apresentavam no alto . irmã. apresentou-me duas senhoras. Cada casa. A senhora Hilda convidou-me a visitar o jardim. Luciana e Hilda. Logo de entrada. Belos caramanchões de árvores delicadas. alegrou-me Tobias com agradável surpresa. Em casa de Lísias. fui fraternalmente levado à residência dele. recordando o bambu ainda novo. primaram em gentilezas. as glicínias e os lírios contavam-se por centenas. uma já idosa e outra bordejando a madureza. na residência de Tobias. Reunidos na formosa biblioteca de Tobias. para que pudesse observar. onde me aguardavam belos momentos de alegria e aprendizado. afáveis e delicadas. examinamos volumes maravilhosos na encadernação e no conteúdo espiritual. em "Nosso Lar". as hortênsias inumeráveis desabrochavam nos verdes lençóis de violetas.207 38 O CASO TOBIAS No terceiro dia de trabalho.

dirigindo-se a mim: . quando nos encontramos com alguma visita de recémchegados da Terra. temos numerosos núcleos nas mesmas condições. à guisa de enormes laços floridos. a bem dizer. cuja especialidade é unir frondes diversas. Nesse ínterim. E. Imagine que fui casado duas vezes. sorridente: . observando-me a silenciosa interpelação. .Isso mesmo . Não sabia traduzir minha admiração.. indicando as companheiras de sala. irmão André. .Desculpe o nosso Tobias. prosseguiu num gesto de bom humor: .. o dono da casa continuou: . na verde cabeleira das árvores. a senhora Hilda tomou a palavra. não sabia como agradecer ao generoso anfitrião. quando Luciana nos chamou ao interior. vista daquele ângulo do Ministério da Regeneração. Sorriam ao mesmo tempo as duas senhoras.murmurei extremamente confundido -. Embalsamava-se a atmosfera de inebriante perfume. Encantado com o ambiente simples. cheio de notas de fraternidade sincera. quer dizer que as senhoras Hilda e Luciana compartilharam das suas experiências na Terra. para leve refeição.. é ainda novato em nosso Ministério e talvez desconheça o meu caso familiar. formando gracioso teto.Aliás. . Comentávamos a beleza da paisagem geral.respondeu tranqüilo. A certa altura da palestra amável. Tobias acrescentou. e.Ah! sim ..O meu amigo.208 NOSSO LAR uma trepadeira interessante.Creio nada precisar esclarecer quanto às esposas. Ele está sempre disposto a falar do passado.

que ainda não nos achamos na esfera dos anjos e. o caminho até o anjo representa imensa distância a percorrer. Ora. Como resolver tão alta questão afetiva. Como proceder? Condenar o homem ou a mulher que se casaram mais de uma vez? Encontraríamos.atalhou o anfitrião. conquistando.perguntei.De fato . pelo menos. considerando a espiritualidade eterna? Sabemos que a morte do corpo apenas transforma sem destruir. também. . por supremo esforço da vontade.Forçoso é reconhecer. a passagem evangélica em que o Mestre nos promete a vida dos anjos.Pois não será motivo de júbilo . Em . em estado de segundas núpcias. com toda a nossa veneração ao Senhor .Mas. alguma expressão de fraternidade real? . porém. se ainda não somos nem mesmo fraternos uns com os outros? Claro que existem caminheiros de ânimo forte. Os laços da alma prosseguem. dos homens desencarnados. reconhecemos que entre o irracional e o homem há enorme série gradativa de posições. o problema interessa profundamente a todos nós.objetei -. todavia. como solucionar aqui semelhante situação? . bondoso -. com interesse. Muitas vezes já lembrei.209 NOSSO LAR . através do Infinito. milhões de criaturas nessas condições. Há milhões de pessoas. . Assim. vencer o monstro do ciúme inferior.Muito simplesmente. como podemos aspirar à companhia de seres angélicos. sim. Tobias sorriu e considerou: . entre nós outros.aduziu Tobias bem-humorado -. nos círculos do planeta. quando se referiu ao casamento na Eternidade. mas a maioria não prescinde de pontes ou do socorro de guardiães caridosos. que se revelam superiores a todos os obstáculos da senda.

por ocasião do nascimento do segundo filhinho.Calem-se. Nesse instante. E continuou. que tudo isso. que se mantinha silenciosa. Minha cunhada solteira não tolerava as . Buscarei sumariar nossa história. que parecia enciumada de nossa ventura.Convém explicar. acrescentando: . então. Creio desnecessário descrever a felicidade de duas almas que se unem e se amam verdadeiramente no matrimônio. todavia. A morte. depois de fixar um gesto de narradora amável: . felicidade e compreensão. os casos dessa natureza são resolvidos nos alicerces da fraternidade legítima.Tobias e eu nos casamos na Terra. Nosso tormento foi. no entanto. Queria lutar. quando ainda muito jovens. reconhecendo-se que o verdadeiro casamento é de almas e essa união ninguém poderá quebrantar.210 NOSSO LAR vista dessa verdade. Tobias chorava sem remédio. em obediência a sagradas afinidades espirituais. indescritível. devemos ao espírito de amor e renúncia de nossa Hilda. como a galinha ao lado dos pintainhos. por intuição. Nada de qualidades que não possuo. acentuou: . que os pequeninos reclamavam assistência maternal. surda a todo esclarecimento que os amigos espirituais me enviavam. Tornava-se a situação francamente insuportável. ao passo que eu me via sem forças para sufocar a própria angústia. subtraiu-me do mundo. a fim de que nosso hóspede conheça meu doloroso aprendizado. demonstrando humildade digna. interveio. Luciana. Reconhecia que o esposo necessitava reorganizar o ambiente doméstico. A senhora Tobias. porém. Não tive remédio senão continuar agarrada ao marido e ao casal de filhinhos. Pesados dias de Umbral abateram-se sobre mim.

contrariando meus caprichos. que veio também ter conosco para nossa completa alegria. Trabalhei. reunindo-se a mim. sentou-se a meu lado. Desde essa época. é jardineira do seu jardim. E aí tem. e perguntoume lacrimosa: . que passou a me pertencer. a nossa história. Não pôde Tobias adiar a solução justa e. pelos sagrados laços espirituais. decorrido um ano da nova situação. funciona como criada de sua casa. busquei ajudar a todos."Que é isso. tive em Luciana mais uma filha. então. igualmente. voltou ele. ao lado dele? É assim que o seu coração agradece os benefícios divinos e remunera aqueles que o servem? Quer você uma escrava e despreza uma irmã? Hilda! Hilda! onde está a religião do Crucificado que você aprendeu? Oh! minha pobre neta. desencarnada havia muitos anos. acompanhado de Luciana. Constituiu Tobias uma família nova. em nosso antigo lar terrestre.. ao melhoramento moral de mim mesma. em lágrimas.. minha pobre!. então. com a velhinha santa e abandonei o antigo ambiente doméstico. Foi aí que Jesus me concedeu a visita providencial de minha avó materna. vindo em companhia dela para os serviços de "Nosso Lar".211 NOSSO LAR crianças e a cozinheira apenas fingia dedicação.. Consagrei-me ao estudo sério. . Chegou ela como quem nada desejava." Abracei-me. Duas amas jovens pautavam toda a conduta pessoal pela insensatez. suporta a bílis do seu marido e não pode assumir o lugar provisório de companheira de lutas. enchendo-me de surpresa. Minha ignorância deu até para lutar com a pobrezinha. tentando aniquilá-la. pôs-me em seguida ao colo. intensamente. sem distinção. desposou Luciana. Mais tarde. meu amigo.. Ah! se soubesse como me revoltei! Semelhava-me a uma loba ferida. como noutro tempo. minha neta? Que papel é o seu na vida? Você é leoa ou alma consciente de Deus? Pois nossa irmã Luciana serve de mãe a seus filhos.

viúvo.acrescentou o dono da casa. ou então.Quando desposei Tobias. triste- . desentendimento. que os cônjuges espirituais respondessem. . senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior. acariciando-lhe a destra. Incapaz de sopitar a curiosidade. indaguei: . atencioso -. representando os demais simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores.Não disse ela. ensinando-me com exemplos. para ser mais explícito -.Que dizes. Aliás.Mas. acima de tudo. de provação. O matrimônio espiritual realiza-se. alma com alma.212 NOSSO LAR Luciana. graças a Jesus e a ela. já devia estar certa de que. filha? .Mas. quanto se tem sacrificado. de dever. e. pela afinidade máxima ou completa.E assim construímos nosso novo lar. contudo. de fraternidade. se os consortes padecem inquietação. meu casamento seria uma união fraternal. perdoando-me.perguntou a senhora Tobias. na base da fraternidade legítima . aprendi que há casamento de amor. esqueci a lição de bom-tom e interroguei: caso? . no dia em que Hilda me beijou. .Pela combinação vibratória . qual a posição de nossa irmã Luciana neste Antes. embora todos sejam sagrados. porém. porém. tomou a palavra e observou: . Foi o que me custou a compreender.esclareceu Tobias. foi a própria interessada que explicou: . com todas as probabilidades. Aproveitando o ligeiro silêncio que se fizera. Luciana sorriu e ajuntou: . é lógico que.Mas como se processa o casamento aqui? .

contudo. mas não integrados no matrimônio espiritual. Tobias foi chamado à pressa.Fique tranqüilo. Sorrimos todos alegremente. desse modo. compreendeu-me o pensamento e explicou: . Nesse instante. . entretanto. Luciana está em pleno noivado espiritual. No ano próximo. para atender a um caso grave nas Câmaras de Retificação. Creio que o momento feliz será em São Paulo. regressando ao círculo carnal. ela seguirá igualmente ao seu encontro. Queria perguntar mais alguma coisa. estão unidos fisicamente. encerrar a palestra. Era preciso.213 NOSSO LAR za. Seu nobre companheiro de muitas etapas terrenas precedeu-a há alguns anos. não encontrava palavras que revelassem ausência de impertinente indiscrição. A senhora Hilda.

ansioso de explicações da senhora Laura. alicerçada em princípios novos de união fraterna. deliberei visitar Lísias. . esperei o momento propicio. Aquela casa. Tão preocupado me senti que. não seria capaz de aborrecer tanto a minha querida Zélia e jamais aceitaria tal imposição por parte de minha esposa.214 39 OUVINDO A SENHORA LAURA O caso Tobias impressionara-me profundamente. no dia imediato. a quem votava confiança filial. também ainda me sentia senhor do lar terrestre e avaliava quão difícil para mim próprio seria semelhante situação. A meu ver. em que pudesse ouvir a mãezinha de Lísias com calma e serenidade. Não conseguia encontrar esclarecimentos justos que pudessem satisfazer-me. Afinal de contas. Teria coragem de proceder como Tobias. Recebido com enormes demonstrações de alegria. num momento de folga. imitando-lhe a conduta? Admitia que não. Aquelas observações da casa de Tobias torturavam-me o cérebro. preocupava-me como assunto obsidente.

Você fez bem em trazer a questão ao nosso estudo recíproco. . ali. que se tenham casado . com a grande experiência da vida. E depois de ligeira pausa. Todo problema que torture a alma pede cooperação amiga para ser resolvido. Nem todos conseguem substituir cadeias de sombra por laços de luz em tão pouco tempo. Empregamos muitos séculos para emergir das camadas inferiores. que se caracterizam pelo pensamento elevado.O caso Tobias é apenas um dos inumeráveis que conhecemos aqui e noutros núcleos espirituais. que demoramos a compreender.Mas. meu amigo. entretanto. Todo homem e toda mulher. O sexo participa do patrimônio de faculdades divinas. atenciosa: . expus à generosa amiga o problema que me apoquentava.215 NOSSO LAR Depois de se ausentarem os jovens. não sem natural acanhamento. prosseguiu. sobrepor-mos a tudo os princípios de natureza espiritual.atalhei com interesse. Ela sorriu.Quando nos atemos aos pontos de vista propriamente humanos. da organização doméstica que visitou ontem. no sentido elevado. a felicidade. entretanto. a caminho de entretenimentos habituais. presentemente. pela atmosfera de compreensão que se criou entre as personagens do drama terrestre. é necessário. Não será fácil para você. essas coisas dão até para escandalizar. . e começou a dizer: .Mas temos nisso uma regra geral? . agora. precisamos compreender o espírito de seqüência que rege os quadros evolutivos da vida. . choca-nos o sentimento. Nesse sentido. a penetração. é justo que essa animalidade não desapareça de um dia para outro. é muito grande. André. não é verdade? . Se atravessamos longa escala de animalidade.indaguei.

pelas criações inferiores que inventam para si mesmas . simplesmente porque se esquivam à fraternidade legítima. É indispensável seguir devagar. na organização física do planeta. Não esqueça que nossas construções vibratórias são muito mais importantes que as da Terra. onde se localizarão as pobres almas em experiências dessa ordem? . . a interlocutora explicou: . logicamente não atravessará essas fronteiras. por parte das três almas interessadas na aquisição de justo entendimento. Enquanto odiarem. aqueles de quem se afastaram deliberadamente pelo veneno do ódio ou da incompreensão.interroguei. conseqüentemente. e vão receber.se não são admitidas aos núcleos espirituais de aprendizado nobre. enquanto não entenderem a verdade. O caso Tobias é o caso de vitória da fraternidade real. nos laços da consangüinidade.redargüiu a mãe de Lísias -.216 NOSSO LAR mais de uma vez. valendo-me da pausa da interlocutora . Concede-lhes a Bondade Divina o esquecimento do passado. sofrerão o império da mentira e. São incontáveis as criaturas que padecem longos anos. fazendo-se acompanhar de todas as afeições que hajam conhecido? Esboçando um gesto de grande paciência. Quem não se adaptar à lei de fraternidade e compreensão. As regiões obscuras do Umbral estão cheias de entidades que não resistiram a semelhantes provas. restabelecem aqui o núcleo doméstico. vão fazer na experiência carnal o que não conseguiram realizar em ambiente estranho ao corpo terrestre. então? .Depois de padecimentos verdadeiramente infernais. sem qualquer alívio espiritual. não poderão penetrar as zonas de atividade superior. Daí se infere . assemelham-se a agulhas magnéticas sob os mais antagônicos influxos.Não seja tão radicalista.E que acontece. Muita gente pode ter afeição e não ter compreensão.

A experiência do casamento é muito sagrada aos meus olhos. suportando menor bagagem de preocupações. ocorriam-me a mente as palavras antigas do Velho Tes- . da recomendação de Jesus. com Jesus. dentro de si mesmo. Aproveitando o ensejo. regressando à matéria grosseira. é imprescindível destacar. é problema sério. Não se resolve em conversas. Devemos observá-lo em proveito próprio. meu caro André. que compreendemos a necessidade da iluminação com o Cristo.Aos espíritos ainda em simples experiência animal. que eu sobrepunha a todas as afeições. O alvitre. mas aquele que perdoa realmente. não deixei de corar. pode efetuar sublimes construções espirituais. cada vez mais viva. Quem sabe valer-se do tempo. para nós.217 NOSSO LAR a oportunidade. A interlocutora não se surpreendeu com a afirmativa e obtemperou: . no entanto. por afetar profundamente a vida da alma. não só a experiência do casamento. precisa mover e remover pesados fardos de outras eras. como quem precisava meditar na amplitude dos conceitos expendidos. O problema do perdão. finda a experiência terrena. a senhora Laura silenciou. Minha mulher fora para mim um objeto sagrado. aduziu: . nossa conversação não interessa. ainda que precise voltar aos círculos da carne. Há muitos espíritos que gastam séculos tentando desfazer animosidades e antipatias na existência terrestre e refazendo-as após a desencarnação. interessa a nós mesmos. Perdoar verbalmente é questão de palavras. Ouvindo a observação. quando nos aconselha imediata reconciliação com os adversários. antes de tudo. com relação à paz da consciência. lembrando o meu passado de homem comum. mas. ao ouvir a mãe de Lísias. mas toda experiência de sexo. A essa altura.

senti-me incapaz de prosseguir. Nessa altura. se pudesse. nem a sua serva. Ainda há pouco tempo ouvi um grande instrutor no Ministério da Elevação assegurar que. Toda experiência sexual da criatura que já recebeu alguma luz do espírito. voltei às Câmaras de Retificação. e depois de verificar as melhoras crescentes da jovem recém-chegada do planeta. É por isso que o entendimento fraterno precede a qualquer trabalho verdadeiramente salvacionista. mergulhado em profundas cogitações. que nos oferece tantos caminhos a retificações justas. percebeu minha perturbação intima e continuou: . dando a entender que não desejava explanar outras minudências sobre o assunto. nem coisa alguma que lhe pertença". a fim de dizer aos religiosos. estranhando o caso Tobias. a dona da casa convidou-me a visitar Eloísa. porém.218 NOSSO LAR tamento: . em geral. a imponente questão da fraternidade humana. que toda caridade. nem o seu boi."não cobiçarás a casa do teu próximo. Agora não mais me preocupava a situação de Tobias.Onde o esforço de consertar é tarefa de quase todos. A interlocutora. e acontecimento de enorme importância para si mesma. nem o seu servo. para ser divina. nem as atitudes de Hilda e Luciana. iria materializar-se nos planos carnais. nem o seu jumento. precisa apoiar-se na fraternidade. Impressionava-me. Num instante. sim. não cobiçarás a mulher do teu próximo. deve haver lugar para muita compreensão e muito respeito à misericórdia divina. . ainda recolhida ao interior doméstico.

219 40 QUEM SEMEIA COLHERÁ Eu não sabia explicar a grande atração pela visita ao departamento feminino das Câmaras de Retificação. que se caracterizava pela mesma generosidade de Narcisa. prontificando-se ela a satisfazer-me. Desde que nossos pensamentos visem à prática do bem. Nemésia. na vida. tem finalidade definida. .Quando o Pai nos convoca a determinado lugar . Aqui e ali.. No mesmo dia. não será difícil identificar as sugestões divinas. do meu desejo. que mais se assemelhavam a frangalhos humanos. acolá. Filas de leitos muitos alvos e bem cuidados exibiam mulheres. Falei a Narcisa. a enfermeira acompanhou-me. à procura de Nemésia. Não foi difícil encontrá-la. é que lá nos aguarda alguma tarefa. Cada situação.disse. prestigiosa cooperadora naquele setor de serviço. angustiosas exclamações. Não deixe de observar este princípio em suas visitas aparentemente casuais. -. gemidos lancinantes. falou com bondade: . bondosa..

quando fixei alguém que me despertou mais viva atenção. depois.220 NOSSO LAR . um a um. Elisa pareceu-me bastante leviana. enumerando observações e ensinamentos. que aceitou as recomendações trazidas. de quem abusa da faculdade de mandar e da condição de servir alguém. Aquela mesma Elisa que conhecera nos tempos de rapaz. coração oprimido. Lembrei. Os olhos. mas não podia ter quaisquer dúvidas. quando atingimos o Pavilhão 7. Fiquem à vontade. não . Localizavam-se ali algumas dezenas de mulheres.O amigo deve estar agora habituado a estes cenários. Estudava eu a fisionomia das enfermas. misto de ironia e resignação. acentuou: . E. embaciados e tristes. penetrara em nossa casa levada por velha amiga de minha mãe. Era Elisa. em leitos separados. fazendo um gesto significativo à companheira. agravando com isso a irreflexão de nossos pensamentos. Minha amiga e eu comentávamos a vaidade humana. perfeitamente. Memória inquieta. faça o obséquio de acompanhar nosso irmão e mostrar os serviços que julgar convenientes ao aprendizado dele. de aparência original? Velhice que parecia prematura tipificava-lhe o semblante. dizia.Narcisa. Recordei o dia em que minha genitora me chamou a conselhos justos. o ritmo comum. Estava modificada pelo sofrimento. quando a sós comigo. a intimidade excessiva. A princípio. em cujos lábios pairava um ricto. comentava sem escrúpulo certas aventuras da sua mocidade. admitindo-a para os serviços domésticos. e. em poucos instantes localizei-a no passado. mostravam-se defeituosos. Quem seria aquela mulher amargurada. a regular distância. o dia em que ela. Aquela intimidade. sempre atida aos prazeres físicos. nada de extraordinário. humilde. No departamento masculino a situação é quase a mesma.

sem coragem de me lançar em rosto qualquer acusação. envergonhado da exumação daquelas reminiscências. mas. Entretanto. Adivinho o epílogo da história. agora. em meu pensamento. perto de quem pudera repartir o débito com meu pai. Eu mesmo me admirava da confiança que aquelas santas mulheres me inspiravam. estava também vivo. Conheço o seu martírio moral. pelo olhar que me endereçou. No entanto. confiando mais que nunca. se tivesse Tobias a meu lado. Cheguei a tremer. . Não se entregue a pensamentos destrutivos. Entretanto. A dívida. voltei-me para a enfermeira. vencida e humilhada! Por onde vivera a mísera criatura. abandonou Elisa. Comecei a falar. se o Senhor permitiu que reencontrasse agora esta irmã. qual criança ansiosa de perdão pelas faltas cometidas. não me defrontava o Silveira. a nossa casa. naquele caso. Considerando que a mulher generosa e cristã é sempre mãe. é que já o considera em condições de resgatar a dívida. mas.. pedindo orientação.221 NOSSO LAR ficava bem. o episódio. como alguma coisa da vida. tão cedo atirada a doloroso capitulo de sofrimentos? Donde vinha? Ah!. Era razoável que dispensássemos à serva generosidade afetuosa. mais tarde. de experiência própria.Não precisa continuar. E o tempo passou. A minha frente tinha Elisa. outra seria minha conduta naquele instante.. Sob enorme angústia moral. possivelmente. dirigi-me a Narcisa. a episódio fortuito da existência humana. Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as elucidações que pedira à mãe de Lísias e. agora. parecia tudo compreender. Narcisa. estouvadamente. a certa altura da confissão penosa. mas convinha pautar nossas relações com sadio critério. reduzindo o fato. levara eu muito longe a nossa camaradagem. contendo o pranto. era inteiramente minha. minha amiga obtemperou: .

dando o próprio nome e prestando.E sua história. A infeliz. pelo fato de continuar ela em cegueira quase completa. E. percebendo-me a resolução firme de empreender o necessário ajuste de contas. para que a lição me penetrasse nalma com caracteres indeléveis. Isso não será difícil. Havia três meses que fora recolhida às Câmaras de Retificação. outras informações. meu irmão. e desabafou: .objetei. Tenho colhido muito proveito de situações iguais a esta. Esta afirmativa não é frase doutrinária.Não tema. e falou: .Minha experiência foi a de todas as mulheres doidivanas que trocam o pão bendito do trabalho pelo . Aproximamo-nos. Todos nós. Faça-o. diante de Narcisa. meditou alguns momentos. temporariamente.Vamos. por enquanto. sorriu. é realidade universal. muito resignada.. perguntei: . que apresentava profunda modificação moral. Bem-aventurados os devedores em condições de pagar..222 NOSSO LAR Vendo a minha indecisão. prosseguiu: . depois de beneficiá-la com êxito. Sentindo a inflexão afetuosa da pergunta. como quem concatenava idéias. Tomei a iniciativa da palavra confortadora. Elisa? Deve ter sofrido muito.As experiências dolorosas ensinam sempre . Interessado em castigar a mim mesmo. mas não se dê a conhecer.Para que lembrar coisas tão tristes? . Elisa identificou-se. Pelas forças que a envolvem. acentuou: . Aproxime-se dela e reconforte-a. noto-lhe a triste característica das mães fracassadas e das mulheres de ninguém. de boa-vontade. encontramos no caminho os frutos do bem ou do mal que semeamos.

em seguida. mas. Conheci. Nos tempos da mocidade distante. trazendo-me a esta casa de abençoada consolação. em terrível desespero.indaguei. Comovidíssimo até às lágrimas. perguntei: . que não preciso comentar. acabrunhado.223 NOSSO LAR fel venenoso da ilusão. e depois da intimidade estabelecida entre nós. muito tempo. rolou uma lágrima de arrependimento e remorso. como filha de um lar paupérrimo. e entreguei-me a experiências dolorosas. Para odiá-lo. quando toda a reação de minha parte seria inútil. esqueci criminosamente que Deus reserva o trabalho a todos os que amem a vida sã. o prazer. . o abandono de todos. Esse negociante tinha um filho. as tremendas desilusões que culminaram na cegueira e na morte do corpo. onde a vida me impôs imensa transformação. Tomei-lhe a destra sobre a qual. a sífilis.No período do meu sofrimento anterior. um dia.E você o odeia? . por mais faltosos que tenham sido. tão jovem quanto eu. tanto roguei o amparo da Virgem de Nazaré. então. mas a irmã Nemésia modificoume. o horror de mim mesma. Errei. sem que o pudesse evitar. o conforto material e. vali-me do emprego em casa de abastado comerciante. Ela sorriu tristemente e respondeu: . . recriminar ninguém.E ele? Como se chama o homem que a fez tão infeliz? Ouvia-a. amaldiçoava-lhe a lembrança. o hospital. a culpa deve ser repartida. pronunciar meu nome e de meus pais. o luxo. No meu caso. de perto. Não devo. nutrindo por ele um ódio mortal. tenho de odiar a mim mesma. Aquela humildade sensibilizou-me. que mensageiros do bem me recolheram por amor ao seu nome. pois.

disse ela enxugando as lágrimas . minha amiga . também eu me chamo André e preciso ajudá-la. dando-me o consolo da amizade sincera!.parece a dele. Mas você será aqui minha irmã do coração.disse Elisa. maternalmente.continuei. . No semblante da sofredora. Narcisa tomou-me as mãos. Conte com o meu devotamento de amigo. Conte comigo. e repetiu: .Ouça. comovido -.224 NOSSO LAR .há quantos anos ninguém me fala assim. não tenho propriamente uma família em "Nosso Lar".Como lhe sou grata! . quando minhas lágrimas se fizeram mais abundantes. nesse tom familiar.E sua voz . Que Jesus o abençoe. .falei com emoção forte -. até agora. .Pois bem . . Nesse instante.. ingenuamente . um grande sorriso parecia uma grande luz..Que Jesus o abençoe. doravante.

o choque por que passaram diversas colônias espirituais. nessas circunstâncias. que as Grandes Fraternidades do Oriente suportavam as vibrações antagônicas da nação japonesa. Entidades numerosas comentavam os empreendimentos bélicos em perspectiva. no campo da fraternidade e da simpatia. Além de valiosas recomendações. experimentando dificuldades de vulto. sem disfarçarem o imenso terror de que se possuíam. passam a considerar as nações agressoras . Anotavam-se. Sabia-se. fatos curiosos de alto padrão educativo. "Nosso Lar" sofreu. preparava-se "Nosso Lar" para o mesmo gênero de serviço. Era a guerra européia. agora. determinou o Governador tivéssemos cuidado na esfera do pensamento. tão destruidora nos círculos da carne.225 41 CONVOCADOS À LUTA Nos primeiros dias de setembro de 1939. Reconheci que os Espíritos superiores. preservando-nos de qualquer inclinação menos digna. desde muito. Assim como os nobres círculos espirituais da velha Ásia lutavam em silêncio. quão perturbadora no plano do espírito. de ordem sentimental. ligadas à civilização americana. igualmente. porém.

nas Câmaras de Retificação. elas servirão somente para lhes agravar a ruína. em núcleos poderosos de centralização das forças do mal. Logo após os primeiros dias que assinalaram as primeiras bombas na terra polonesa. ao entardecer. com exceção dos espíritos nobres e sábios que lhes integram os quadros de serviço. embriagam-se ao contacto dos elementos de perversão. contra os empreendimentos da ignorância e da sombra. Se devemos lastimar a criatura em oposição à lei do bem. para a destruição. os agrupamentos espirituais da vida nobre movimentam-se em auxílio dos agredidos. nos acontecimentos dessa natureza. .Infelizes dos povos que se embriaguem com o vinho do mal .226 NOSSO LAR não como inimigas. Observei. naturalmente. que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa.disseme Salústio -. Profunda emoção nos invadira a todos. que invocam das camadas sombrias. com mais propriedade devemos lamentar o povo que olvidou a justiça. Quando um país toma a iniciativa da guerra. encontrava-me. encabeça a desordem da Casa do Pai. esses povos. Coletividades operosas convertem-se em autômatos do crime. então. acentuando-lhes as derrotas fatais. ainda que consigam vitórias temporárias. congregados para a anarquia e. e pagará um preço terrível. Sem se precatarem dos perigos imensos. transformando-as em campos de perversidade e horror. Esclareceram-me os colegas de trabalho que. quando inesquecível clarim se fez ouvir por mais de um quarto de hora. junto de Tobias e Narcisa. . os países agressores convertem-se. enquanto os bandos escuros se apoderam da mente dos agressores. Mas. Legiões infernais precipitam-se sobre grandes oficinas do progresso comum. conseqüentemente. mas como desordeiras e cuja atividade criminosa é imprescindível reprimir.

. para que o apelo se grave em nossos corações.227 NOSSO LAR É a convocação superior aos serviços de socorro a Terra . Identificando-me o espanto natural. A clarinada fazia-se ouvir com modulações estranhas e imponentes. notamos intenso movimento em todos os setores. Profundamente comovido. Notei que profundo silêncio caiu sobre todo o Ministério da Regeneração. Chegados aos pavimentos superiores.Quando soa o clarim de alerta. fomos ao grande parque. a fim de observar o céu. tive a atenção atraída para enormes rumores provenientes das zonas mais altas da colônia. vi inúmeros pontos luminosos. inquieto -. o companheiro explicou: .disse Tobias igualmente emocionado . a librarem-se no firmamento. bondosamente. onde se localizavam as vias públicas. Tobias informou: . Tobias confiou a Narcisa certas atividades de importância junto aos enfermos e convidou-me a sair. Regressando ao interior das Câmaras. em nome do Senhor. . toda a vida psíquica americana teve na Europa a sua origem. de onde nos poderíamos encaminhar à Praça da Governadoria. com terríveis tormentos para o espírito humano . Quando o misterioso instrumento desferiu a última nota. precisamos fazer calar os ruídos de baixo. Teremos grande trabalho em preservar o Novo Mundo. para observar o movimento popular. de elevada expressão hierárquica.exclamou Tobias. parecendo pequenos focos resplandecentes e longínquos.Esse clarim .é utilizado por espíritos vigilantes. embora a distância. Atento à minha atitude de angustiosa expectativa.explicoume Narcisa.Temos o sinal de que a guerra prosseguirá.

Tobias segurou-me o braço. replicou.Imagine . Quanto ao mais. só vem até nós em circunstâncias muito graves. Todos sabemos que se trata da guerra. Há muitos meses consecutivos.o que será de nós no Auxílio.De qualquer modo. e exclamou: . A única novidade é o acréscimo de serviço que. há muito tempo. No meu setor... a meu ver.E nós. de leve.dizia uma .228 NOSSO LAR .Será crivei que a calamidade nos atinja a todos? O interpelado. Observe os transeuntes. Aproximando-nos de dois homens.objetava o cavalheiro mais idoso . Ouçamos o que dizem outros grupos.Estes grupos enormes dirigem-se ao Ministério da Comunicação. qualquer demonstração de assombro. à procura de noticias. que parecia portador de grande equilíbrio espiritual. Experimentamos justa dificuldade para atender a todos os deveres. tudo é natural. ouvi um deles perguntando: . Ao nosso lado.os serviços prosseguem consideravelmente aumentados. não vejo motivo para precipitações. . a vigilância contra as vibrações umbralinas reclama esforços incessantes. Estou avaliando o que virá sobre nós. constituirá uma bênção. vinham dois senhores e quatro senhoras. sereno: . A China está sob a metralha. . o desastre dá ponderação. O clarim que acaba de soar. e não mostrou você. em conversação animada. com a Regeneração? .Adiantemo-nos um pouco. ainda. no fundo. A doença é mestra da saúde. mas é possível que a Comunicação nos forneça algum detalhe essencial. o movimento de súplicas tem sido extraordinário. .

me submeteria a novas crueldades. ou coisa pior? Tobias. verificando que o pitoresco não faltava.Mas a guerra .Receio . em que observávamos a multidão espiritual. esqueçamos o "meu programa" para pensar em "nossos programas". naquele crepúsculo de inquietação.A questão impressiona-me sobremaneira . que aconteceria? . atingimos o Ministério da Comuni- . Portugal está muito longe do teatro dos acontecimentos.olvidaste que Everardo será barrado pelo Umbral. observei três senhoras que iam na mesma direção à nossa esquerda. . . porque Everardo não deve regressar do mundo agora.Mas agora .Tola que és! . É muito ignorante e.disse uma das companheiras -. ao que parece. .Helvécio. desapontado .que ele me procure na qualidade de esposa.objetou o companheiro. .parece que serei compelido a modificar meu programa de trabalho.indagou a outra componente do trio -. não alcançará a Península.Entretanto .229 NOSSO LAR .dizia a mais moça -.Ela teme a libertação de um marido imprudente e perverso. informou: . de modo algum. Helvécio. igualmente ali.esclareceu a mais jovem . Não o poderia suportar. Atendendo a novo gesto de Tobias.comentou a companheira . por que semelhante preocupação? Se Everardo viesse. Decorridos longos minutos. sorrindo. O outro sorriu e ponderou: . que me reclamava atenção.

de quem falava com autoridade e amor. operou singular efeito na multidão.230 NOSSO LAR cação. em nossos postos. dentro de dez minutos.É o Ministro Esperidião informou Tobias. atendendo-Lhe a Vontade Divina no trabalho silencioso. porém. Impossível. toda a colônia regressava à serenidade habitual. . far-se-ia ouvir um apelo do Governador." Aquela voz clara e veemente. aflitamente. A aflição não constrói. Extremamente surpreendido com o vozerio enorme. No curto espaço de uma hora. Todos queriam informações e esclarecimentos. Saibamos ser dignos do clarim do Senhor. através de numerosos alto-falantes: . um acordo geral. . a ansiedade não edifica. Milhares de entidades acotovelavam-se. Era um velho de aspecto imponente. daí a momentos ouviu-se a voz do próprio Governador. não vos entregueis a distúrbios do pensamento ou da palavra. atendendo-me a curiosidade. reclamando a atenção popular. Serenado o barulho."Irmãos de "Nosso Lar". vi que alguém subira a uma sacada de grande altura. anunciando que. detendo-nos ante os enormes edifícios consagrados ao trabalho informativo.

a elevada porcentagem de existências humanas estranguladas simplesmente pelas vibrações destrutivas do terror. prometeu o Governador a realização do culto evangélico no Ministério da Regeneração.231 42 A PALAVRA DO GOVERNADOR Para o domingo imediato à visita do clarim. por alojar-se na cidadela da alma. Classificamos o medo como dos piores inimigos da criatura. .acrescentei. . O objetivo essencial da medida. atenciosa. seria a preparação de novas escolas de assistência no Auxílio e núcleos de adestramento na Regeneração. atacando as forças mais profundas.determinados elementos para o serviço hospitalar urgente.dizia ela . admirado.objetou a enfermeira.Contra o medo? . embora o conflito se tenha manifestado tão longe. . bem como exercícios adequados contra o medo. que é tão contagioso como qualquer moléstia de perigosa propagação. continuou: . como acontece a muita gente.Precisamos organizar . esclareceu Narcisa. . Observando-me a estranheza.Como não? .Talvez estranhe.

232 NOSSO LAR

- Não tenha dúvida. A Governadoria, nas atuais emergências, coloca o treinamento contra o medo muito acima das próprias lições de enfermagem. A calma é garantia do êxito. Mais tarde, compreenderá tais imperativos de serviço. Não encontrei argumento de contestação para retrucar. Na véspera do grande acontecimento, tive a honra de integrar o quadro de cooperadores numerosos, no trabalho de limpeza e ornamentação natural do grande salão consagrado ao chefe maior da colônia. Experimentava, então, ansiedade justa. Ia ver, pela primeira vez, a meu lado, o nobre condutor que merecia a veneração geral. Não me sentia sozinho em semelhante expectativa, porque havia inúmeros companheiros nas minhas condições. Tive a impressão de que toda a vida social do nosso Ministério convergiu para o grande salão natural, desde o raiar de domingo, quando verdadeiras caravanas de todos os departamentos regeneradores chegavam ao local. O Grande Coro do Templo da Governadoria, aliando-se aos meninos cantores das escolas do Esclarecimento, iniciou a festividade com o maravilhoso hino intitulado "Sempre Contigo, Senhor Jesus", cantado por duas mil vozes ao mesmo tempo. Outras melodias de beleza singular encheram a amplidão. O murmúrio doce do vento, canalizado em vagas de perfume, parecia responder às harmonias suaves. Havia permissão geral de ingresso ao enorme recinto verde, para todos os servidores da Regeneração, porque, conforme o programa estabelecido, o culto evangélico era dedicado especialmente a eles, comparecendo os demais Ministérios, por numerosas delegações.

233 NOSSO LAR Pela primeira vez, tive à frente dos olhos alguns cooperadores dos Ministérios da Elevação e União Divina, que me pareceram vestidos em brilhantes claridades. A festividade excedia a tudo que eu pudesse sonhar em beleza e deslumbramento. Instrumentos musicais de sublime poder vibratório embalavam de melodias a paisagem odorante. Às dez horas, chegou o Governador acompanhado pelos doze Ministros da Regeneração. Nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço; a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e justo. Alto, magro, envergando uma túnica muito alva, olhos penetrantes e maravilhosamente lúcidos, apoiava-se num bordão, embora caminhasse com aprumo juvenil. Satisfazendo-me a curiosidade, Salústio informou: - O Governador sempre estimou as atitudes patriarcais, considerando que se deve administrar com amor paterno. Sentando-se ele na tribuna suprema, levantaram-se as vozes infantis, seguidas de harpas caridosas, entoando o hino "A Ti, Senhor, Nossas Vidas". O velhinho enérgico e amorável passeou o olhar pela assembléia compacta, constituída de milhares de assistentes. Em seguida, abriu um livro luminoso que o companheiro me informou ser o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Folheou-o atento e, depois, leu em voz pausada: - "E ouvíreis falar de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.,' Palavras do Mestre em Mateus, capítulo 24, versículo 6.

234 NOSSO LAR Volume de voz consideravelmente aumentado pelas vibrações elétricas, o chefe da cidade orou comovidamente, invocando as bênçãos do Cristo, saudando, em seguida, os representantes da União Divina, da Elevação, do Esclarecimento, da Comunicação e do Auxílio, dirigindo-se, com especial atenção, a todos os colaboradores dos trabalhos de nosso Ministério. Impossível descrever a entonação doce e enérgica, amorosa e convincente, daquela voz inesquecível, bem como traduzir no papel humano as considerações divinas do comentário evangélico, vazado em profundo sentimento de veneração pelas coisas sagradas. Finalizando, em meio de respeitoso silêncio, dirigiu-se o Governador, de maneira particular, aos servidores da Regeneração, exclamando, mais ou menos nestes termos: - É para vós, irmãos meus, cujos labores se aproximam das atividades terrestres, com mais propriedade, que dirijo meu apelo pessoal, muito esperando da vossa nobre dedicação. Elevemos ao máximo nosso padrão de coragem e de espírito de serviço. Quando as forças da sombra agravam as dificuldades das esferas inferiores, é imprescindível acender novas luzes que dissipem, na Terra, as trevas densas. Consagrei o culto de hoje a todos os servidores deste Ministério, votando-lhes de modo particular a confiança do meu coração. Não me dirijo, pois, neste momento, aos nossos irmãos cujas mentes já funcionam em zonas mais altas da vida, mas a vós outros, que trazeis nas sandálias da recordação os sinais da poeira do mundo, para exalçar a tarefa gigantesca. "Nosso Lar" precisa de trinta mil servidores adestrados no serviço defensivo, trinta mil trabalhadores que não meçam necessidade de repouso, nem conveniências pessoais, enquanto perdurar nossa batalha com as forças desencadeadas do crime e da ignorância. Haverá serviço para

235 NOSSO LAR todos, nas regiões de limite vibratório, entre nós e os planos inferiores, porque não podemos esperar o adversário em nossa morada espiritual. Nas organizações coletivas, é forçoso considerar a medicina preventiva como medida primordial na preservação da paz interna. Somos, em "Nosso Lar", mais de um milhão de criaturas devotadas aos desígnios superiores e ao melhoramento moral de nós mesmos. Seria caridade permitir a invasão de vários milhões de espíritos desordeiros? Não podemos, portanto, hesitar no que se refere à defesa do bem. Sei que muitos de vós recordais, neste instante, o Grande Crucificado. Sim, Jesus entregou-se à turba de amotinados e criminosos, por amor à redenção de todos nós, mas não entregou o mundo à desordem e ao aniquilamento. Todos devemos estar prontos para o sacrifício individual, mas não podemos entregar nossa morada aos malfeitores. Lógico que a nossa tarefa essencial é de confraternização e paz, de amor e alívio aos que sofrem; claro que interpretaremos todo mal como desperdício de energia, e todo crime como enfermidade dalma; entretanto, "Nosso Lar', e um patrimônio divino, que precisamos defender com todas as energias do coração. Quem não sabe preservar, não é digno de usufruir. Preparemos, pois, legiões de trabalhadores que operem esclarecendo e consolando, na Terra, no Umbral e nas Trevas, em missões de amor fraternal; mas precisamos organizar, neste Ministério, antes de tudo, uma legião especial de defesa, que nos garanta as realizações espirituais, em nossas fronteiras vibratórias. Assim continuou a discorrer, por longo tempo, encarecendo providências de caráter fundamental, tecendo considerações que jamais conseguiria aqui descrever. Ultimando os comentários, repetiu a leitura do versículo de Mateus, invocando, de novo, as bênçãos de Jesus e as

236 NOSSO LAR energias dos ouvintes, para que nenhum de nós recebesse dádivas em vão. Comovido e deslumbrado, ouvi as crianças entoarem o hino que a Ministra Veneranda intitulara "A Grande Jerusalém". O Governador desceu da tribuna sob vibrações de imensa esperança e foi então que brisas cariciosas começaram a soprar sobre as árvores, trazendo, talvez de muito longe, pétalas de rosas diferentes, em maravilhoso azul, que se desfaziam, de leve, ao tocar nossas frontes, enchendo-nos o coração de intenso júbilo.

solicitando acréscimo de responsabilidade. disse-nos. dia e noite. não obstante se haver retirado o Governador ao seu círculo mais íntimo. Destarte. Recorde que trinta mil servidores vão ser convocados para a vigilância permanente.André. serão muito grandes os claros a preencher. na retaguarda. Não se precipite. Procurei Tobias. mas o generoso irmão sorriu da minha ingenuidade e falou: . o Governador. Comentavam-se os acontecimentos. . assim correspondendo ao apelo do grande chefe espiritual. você está começando agora uma tarefa nova. Centenas de companheiros se ofereciam para os trabalhos árduos da defensiva.237 43 EM CONVERSAÇÃO O Ministério da Regeneração continuou cheio de expressões festivas. Não se aflija. ainda agora. Haverá serviço para todos. para consultá-lo sobre a possibilidade do meu aproveitamento. Não se esqueça de que as nossas Câmaras de Retificação constituem núcleos de esforço ativo.

bemhumorado. que integrara. onde Benevenuto trocava impressões com diversos amigos. Nesse ínterim. Tudo obscuro.replicou Lísias. consagrado aos trabalhos desse Ministro da Regeneração. há muito que tenho a honra de incluí-lo no círculo das minhas relações pessoais.indagou ele . estávamos no grande recinto verde. Com a licença de Tobias. o mesmo que chegou anteontem da Polônia. admitindo-me na sua roda com extrema bondade. . habituados ao serviço da paz na América. Numerosos grupos de visitantes permutavam idéias sob a copa das grandes árvores. Daí a momentos. a deputação do Ministério do Auxílio.Contente-se com a matrícula na escola contra o medo.Não tenho esse prazer. Não se podem. . Lísias conduziu-me ao núcleo maior. cortês. Creia que isso lhe fará enorme bem.comentava Benevenuto em tom grave -. acentuou depois de ligeira pausa: .238 NOSSO LAR Identificando-me o desapontamento. ali.o Ministro Benevenuto. . O Ministro acolheu-me. o bondoso companheiro. que eu apenas conhecia de vista. aqui na Regeneração.Vamos ao seu encontro . nenhum de nós imaginava o que fosse o trabalho de socorro espiritual nos campos da Polônia. A conversação continuou nos rumos naturais e notei que se discutia a situação da esfera terrestre.Muito doloroso o quadro que vimos .Conhece você . na festa. apresentando-me com generosas palavras. . retirei-me em companhia de Lísias para gozar de palestra mais íntima. . envolvendo-me nas vibrações do seu imenso carinho fraterno -. recebi grande abraço de Lísias. tudo difícil.

saturado de vibrações destruidoras. por forças tenebrosas.ajuntou o Ministro. Aos fluidos venenosos da metralha. fugiam dos Espíritos missionários. . Bombas de alto poder explosivo destroem edifícios pacientemente edificados. Vi homens inteligentes e instruídos localizarem. julgou conveniente permanecermos exclusivamente atidos à tarefa. foi a triste condição dos militares agressores. porém. evidencia o espírito humano a condição de alma decaída. para enriquecermos observações e melhor aproveitar a experiência.. casam-se as emanações pestilentas do ódio e tornam quase impossível qualquer auxílio.E a comissão demorou-se muito por lá? . . Os encarnados não nos ajudam. Com efeito. como na guerra.Todo o tempo disponível .239 NOSSO LAR esperar claridades de fé nos agressores. invisível aos nossos irmãos terrestres. Desde o começo do meu Ministério. compelido pelas circunstâncias. as condições não poderiam ser melhores. nosso colega do Auxílio.perguntou um dos companheiros com interesse. O campo de batalha. tampouco na maioria das vítimas. que se entregam totalmente a pavorosas impressões. Todas as tarefas de assistência imediata funcionam perfeitamente. para o a que chamam "impactos diretos'. apenas consomem nossas forças. determinados setores de atividade pacífica. O chefe da expedição. nunca vi tamanhos sofrimentos coletivos. chamando-lhes a todos "fantasmas da cruz". apresentando características essencialmente diabólicas. Acredito que nossa posição está muito distante da extraordinária capacidade de resistência dos abnegados servidores espirituais que ali se encontram de serviço. Dominados. quando algum deles abandonava as vestes carnais. na maioria. a despeito do ar asfixiante. O que mais nos contristou. . com minuciosa atenção. é verdadeiro inferno de indescritíveis proporções. Nunca.

outro companheiro opinou: . meus amigos -definiu o Ministro com expressiva inflexão de voz -. demasiadamente dolorosos. Os espetáculos entrevistos foram. com tantos patrimônios culturais. onde serão naturalmente compelidas a reajustar-se. quando cuide essencialmente da Verdade de Deus. o Espiritismo? . mas que remédio se reservará aos loucos furiosos. Sem o sopro divino. porém.E não eram recolhidos para esclarecimento justo? . no lar. que as missões de auxílio recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado. não basta ao homem a inteligência apurada. a fé e a confiança. Benevenuto esboçou um gesto significativo e respondeu: . As igrejas são sempre santas em seus fundamentos e o sacerdócio será sempre divino. élhe necessário iluminar raciocínios para a vida eterna.inquiriu alguém. . há mais de cinqüenta anos? Não continua esse movimento novo a serviço das verdades eternas? .É quase incrível que a Europa. se tenha abalançado a semelhante calamidade. portanto. por muitas razões. senão deixá-las nos precipícios das trevas.240 NOSSO LAR . interrompendo o narrador.perguntou abruptamente um dos circunstantes. portanto. mas o sacerdócio político jamais atenderá a sede espiritual da civilização. dando ensejo a pensamentos dignos.Será sempre possível atender aos loucos pacíficos. Valendo-se de ligeiro intervalo. É razoável. Não surgiram as primeiras florações doutrinárias na América e na Europa.Falta de preparação religiosa. as personalidades religiosas poderão inspirar respeito e admiração. não. senão o hospício? Não havia outro recurso para tais criaturas.Mas. .

. gravemente: . podemos permanecer em paz. Enquanto muitos estudiosos reduzem os médiuns a cobaias humanas. Querem receber proveitos. Não esqueçamos.O Espiritismo é a nossa grande esperança e. esboçou um gesto extremamente significativo e acrescentou: .Nossos serviços são astronômicos. O trocadilho arrancou expressões de bom humor geral. Esmagadora porcentagem dos aprendizes novos aproxima-se dessa fonte divina a copiar antigos vícios religiosos. embora curados. Ataquemos a execução de nossos deveres com esperança e otimismo. e estejamos sempre convictos de que. Enfim. Trata-se de uma dádiva sublime. crêem mais na doença que na saúde. e nunca utilizam os próprios pés. porém. é o Consolador da humanidade encarnada. por todos os títulos. mas não caminham ao encontro dela. mas a nossa marcha é ainda muito lenta. procuram-se. acrescentando o Ministro. que todo homem é semente da divindade. por lá. numerosos crentes procedem à maneira de certos enfermos que. Invocam a verdade. ao passo que nós outros vivemos à procura de homens espiritualizados para o trabalho sério. mas não se dispõem a dar coisa alguma de si mesmos. porque o Senhor fará o resto. para a qual a maioria dos homens ainda não possuí "olhos de ver".241 NOSSO LAR Benevenuto sorriu. os espíritos materializados para o fenomenismo passageiro. se bem fizermos a nossa parte.

no planeta. Dedilhando com maestria as cordas da cítara. Quando me vi a sós com o bondoso enfermeiro do Auxílio. Cada criatura viverá daquilo que cultiva. quando nos reunimos àqueles a quem amamos. É o alimento do amor. . ocorre algo de confortador e construtivo em nosso íntimo. como se estivéssemos em pleno paraíso. sorrindo . através dos quais cada um recebe seu quinhão de alegria ou sofrimento. o problema do ambiente é sempre fator ponderável no caminho de cada homem. Quem se oferece diariamente .Não tenha dúvida disse.242 44 AS TREVAS Enriquecendo as alegrias da reunião. Lísias deu-me a conhecer novos valores da sua cultura e sensibilidade. da vibração geral. André. fez-nos lembrar velhas canções e melodias da Terra. formando núcleos de força viva. seus pensamentos se entrelaçam. procurei transmitir-lhe minhas sublimes impressões. Dia verdadeiramente maravilhoso! Sucediam-se júbilos espirituais. É por essa razão que. Quando numerosas almas se congregam no círculo de tal ou qual atividade.

tanto nos esforços do bem.exclamei. Referira-se o Governador. expondo-lhe a perplexidade em que me encontrava. do Umbral e das Trevas. mas. nas Câmaras. sairemos envenenados com as vibrações destrutivas desses sentimentos. numerosos desequilibrados e doentes de toda espécie. Das reuniões de fraternidade. Ele esboçou uma fisionomia bastante significativa. e. É lei da vida. Observando-me a estranheza. confirmando a sorrir. qualquer notícia deste último plano. durante anos consecutivos? Não via. confiei-lhe minhas dúvidas íntimas. até então. quem enaltece a enfermidade. no início da minha experiência em "Nosso Lar". a esperança. vejo nisso. vivemos na antecâmara da ventura celeste. francamente. de toda assembléia de tendências inferiores. quando nos dirigiu a palavra.243 NOSSO LAR à tristeza. em sombras densas. Foi. sairemos com a fraternidade. concluiu: . por minha vez. e falou: . de algumas horas. Lísias teve uma expressão de bom humor. igualmente. o amor e a alegria de todos. me torturava a mente.Tem razão . procedentes das zonas umbralinas? Recordando que Lísias me dera esclarecimentos tão valiosos da minha própria situação. como nos movimentos do mal. de amor e de alegria. que me lembrei de interpelá-lo sobre uma coisa que. a vaidade ou o crime.Não há nisto mistério. os princípios que regem a vida nos lares humanos. . mas. temos o inferno vivo. de esperança. em que predominam o egoísmo. Não seria região trevosa o próprio Umbral. comovido -. aos círculos da Terra. se permanecemos em desentendimento e maldade. então. Quando há compreensão recíproca. sofrer-lhe-á o dano. não tinha eu. onde vivera. nela se movimentará.

estacionando no fundo do abismo por tempo indeterminado. A maioria. que nas esferas superiores as defesas são mais fortes. Sensibilizado. Nessa movimentação.Chamamos Trevas às regiões mais inferiores que conhecemos. ficam à mercê de inúmeras vicissitudes. ponderei: .Sua observação é oportuna. O ambiente divino. o conhecimento da verdade. estaciona. que descobriram a essência divina em si mesmos. porém. mais intensidade de culpa na falta cometida. perturbados no labirinto que tracejam para os próprios pés. Classificam-se. porém. visando ao objetivo essencial da jornada. Alguns poucos seguem resolutos. . a queda sempre me pareceu impossível nas regiões estranhas ao corpo terreno. recapitulando experiências. salientando-se.Entretanto . no entanto. Os primeiros seguem por linhas retas. Compreendeu? As elucidações não poderiam ser mais claras. marchando para o alvo sublime. preferindo caminhar às escuras. São os espíritos nobilíssimos. sem vacilações. Considere as criaturas como itinerantes da vida. Outros. o espírito pode precipitar-se nas furnas do mal. o au- . que me diz dessas quedas? Verificam-se apenas na Terra? Somente os encarnados são suscetíveis de precipitação no despenhadeiro? Lísias pensou um minuto e respondeu: . pela preocupação egoística que os absorve. conseqüentemente. repetindo marchas e refazendo velhos esforços. imprimindo-se. os milhões de seres que perambulam no Umbral. Temos então a multidão de almas que demoram séculos e séculos. Os segundos caminham descrevendo grandes curvas. Assim é que muitos costumam perder-se em plena floresta da vida. com a extensão e complexidade do assunto.Entretanto. costumam cair em precipícios. Em qualquer lugar. aí.244 NOSSO LAR .objetei -.

Em tudo há energias viventes e cada espécie de seres funciona em determinada zona da vida. os guerreiros estimam a destruição na primavera e no estio. os latrocínios e homicídios são praticados. paisagens e expressões essencialmente divinas. em geral. A maioria dos verdugos da Humanidade constitui-se de homens eminentemente cultos. O companheiro sorriu e esclareceu: . ali. ouvindo elevadas revelações da verdade superior. quando a Lua e as estrelas enchem o planeta de poesia divina. outros exploram os mais fracos. Lísias. quando a Natureza estende no solo e no firmamento maravilhas de cor. As palavras do enfermeiro calavam-me fundo no espírito.Contudo. na Terra. insensíveis à profunda sugestão das estrelas. em que me pareceu meditar profundamente. acrescentei: .disse ele.O problema da tentação é mais complexo. poderá você dar-me uma idéia da localização dessa zona de Trevas? Se o Umbral está ligado à mente humana. à noite. As paisagens do planeta terrestre estão cheias de ambiente divino. perfume e luz. solícito -. Não são poucos os que compartem.245 NOSSO LAR xílio superior figuravam-se-me antídotos infalíveis ao veneno da vaidade e da tentação. Depois de pequeno intervalo. muitos cometem homicídios ao luar. o vácuo sempre há de ser mera imagem literária. Renovando minha concepção referente à queda espiritual. que desprezam a inspiração divina. de preferência. de batalhas destruidoras entre as árvores acolhedoras e os campos primaveris.Há esferas de vida em toda parte . Não faltam. conhecimento da verdade e auxílio superior. continuou: . De fato. onde ficará semelhante lugar de sofrimento e pavor? .

Além disso. de pronto. que há elementos no cérebro do homem que lhe presidem o senso diretivo. É organização viva. Percebe? Lísias. nas zonas mais baixas da existência. com que corrige o culpado e dá passagem ao triunfador para a vida eterna. além da morte do corpo. Como alguém que precisa ponderar bastante. como médico humano. . porém. porque o abismo atrai o abismo e cada um de nós chegará ao local para onde esteja dirigindo os próprios passos. e concluiu: . também o planeta traz em si expressões altas e baixas. que se precipite nas Trevas.Qual acontece a nós outros. como se dá com os corpos materiais. que trazemos em nosso íntimo o superior e o inferior.. Avaliei. devo lembrar que as aves livres ascendem às alturas.246 NOSSO LAR . não precisaria fazer-me esta pergunta. A vida. pensou. contudo. embotará o sentido divino da direção. na essência. É claro que a alma esmagada de culpas não poderá subir à tona do lago maravilhoso da vida. para exprimir-se. a nosso bel-prazer. esquecido do nível para baixo. o companheiro pensou. portanto. A Terra não é somente o campo que podemos ferir ou menosprezar. Hoje.Naturalmente. porém. há princípios de gravitação para o espírito. palpita na profundeza dos mares e no âmago da terra. Quem estime viver exclusivamente nas sombras. o quadro imenso de lutas purificadoras. Você sabe. apenas os círculos a se iniciarem da superfície do globo para cima. você situou como região de existência.. segundo nossas obras. e as que se prendem a peso considerável são meras escravas do desconhecido. possuidora de certas leis que nos escravizarão ou libertarão. a desenhar-se ante meus olhos espirituais. as que se embaraçam no cipoal sentem-se tolhidas no vôo. como aconteceu a nós outros. Resumindo. reconhece que esses elementos não são propriamente físicos e sim espirituais. Não será demais.

Salústio e eu aproveitávamos todos os instantes de folga para melhorar o interior. já dedicava grande amor àquelas Câmaras. como se fossem nossos filhos. meu iniciador no trabalho anuiu. gentil. Recebendo a solicitação. acerquei-me de Tobias. André! . satisfeito: . suavizando a situação dos enfermos. a companhia de Narcisa. porém. acentuou: .247 45 NO CAMPO DA MÚSICA À tardinha. Narcisa. a quem o enfermeiro do Auxilio dirigiu a palavra com respeitosa intimidade. que estimávamos de todo o coração. tudo isso me falava particularmente ao espírito. A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso. observava em mim mesmo singular fenômeno. Vendo-me relutante.É preciso distrair-se um pouco. a inspiração de Tobias. Considerando a nova posição em que me encontrava. aqui e ali. . Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música. As visitas diárias do Ministro Genésio.Falarei a Tobias. a camaradagem dos companheiros. Vamos! Eu. Não obstante a escassez dos meus dias de serviço.disse ele.

E. A casa estava repleta de contentamento. na próxima semana.. ainda ficarei hoje em casa. .É curioso .Finalmente. abraçando-me: .. Quanto a mim. Aproveite! Volte à noite.Como não? Vive o amor sublime no corpo mortal. Lísias. logo que deixamos o aeróbus numa das praças do Ministério da Elevação. .Não hesite. Vingar-me-ei de vocês. reconhecidamente.encontrarmos noivados.... quando quiser. Acompanhei Lísias. a quem tenho falado muitas vezes a seu respeito. a dona da casa me abraçou e falou. Todos os nossos serviços estão convenientemente atendidos. Despedindo-nos. também por aqui. tive a satisfação de rever a senhora Laura e informarme quanto ao regresso da abnegada mãe de Eloísa. meu caro.248 NOSSO LAR . com quem palestravam animadamente. ganhamos a via pública. Havia mais beleza no interior doméstico. bem-humorada: . porém. doravante. no Ministério do Auxílio. As jovens faziam-se acompanhar de Polidoro e Estácio.observei. a meu lado. vai você conhecer minha noiva.Então. disse carinhoso: . Em meio da geral alegria. no círculo terrestre.Ótimo programa! André precisa conhecer o Campo da Música. Atingindo-lhe a residência. a cidade terá mais um freqüentador para o Campo da Música! Tome cuidado com o coração!. intrigado . novas disposições no jardim. o amor é uma espécie de ouro abafado nas pedras .. ou na alma eterna? Lá. que deveria regressar do planeta. muito breve! Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!.

tem você em mira novos planos para os círculos carnais? . a seu favor. prosseguiu: . . Amiúde. além disso. A observação era lógica. é a expressão da verdade. A liberdade que as leis sociais do planeta conferem ao sexo masculino. minhas dívidas para com o planeta são ainda enormes.Nem podia ser de outro modo .Contudo . Luzes de indescritível beleza banhavam extenso . todavia. necessito enriquecer o patrimônio das experiências e. porém. as disciplinas mais rigorosas. têm tido. pressuroso -. ao contrário. crendo que voltaremos à Terra precisamente daqui a uns trinta anos. Devo confessar que quase todos os desastres do pretérito tiveram origem na minha imprevidência e absoluta falta de autodomínio. convertemo-la em resvaladouro para a animalidade. dentro em breve. Somos o que somos. verificamos o reajustamento dos valores. Lascínia e eu fundaremos aqui.249 NOSSO LAR brutas.explicou ele. Lascínia e eu já fracassamos muitas vezes nas experiências materiais. os desejos e estados inferiores.O noivado é muito mais belo na espiritualidade.indaguei -. Reconhecendo o efeito benéfico da explicação. Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer. até agora. aqui. Na existência passageira. As mulheres. que raramente se diferenciará a ganga do precioso metal. Raramente algum de nós a utiliza no mundo em serviço de espiritualização. nossa casinha de felicidade. Tanto o misturam os homens com as necessidades. Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música. ainda não foi devidamente compreendida por nós outros. sofrem-nos a tirania e suportam o peso das nossas imposições. Não existem véus de ilusão a obscurecer-nos o olhar. Parece paradoxo e.

.Mas.você deve compreender que estou ligado a Zélia. dando acesso ao interior do parque. Antes que pudesse manifestar minha profunda admiração. nesse instante.respondi. Lis ias recomendou bem-humorado: . .Nas extremidades do Campo. temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime. ali mesmo. onde um corpo orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira. Não sabe mais ser o irmão de alguém. Não creio. a arte santificada. temos a música universal e divina. o companheiro explicou: . onde Lísias pagou gentilmente o ingresso.Lascínia sempre se faz acompanhar de duas irmãs. Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes: um espetáculo absolutamente novo para mim. acrescentando: . e nada pude replicar. Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente. . O enfermeiro amigo. no centro. no entanto. em várias direções. por excelência. mas. Nesse momento. em torno de gracioso coreto. . espero faça você as honras de cavalheiro. onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas. considerando minha antiga posição conjugal .250 NOSSO LAR parque. Observando minha admiração pelas canções que se ouviam. que a união esponsalícia deva trazer o esquecimento da vida social. riu a valer. Notei. atingimos a faixa de entrada. Lísias. às quais. André? Ri-me. reticencioso. grande grupo de passeantes. desconcertado.Era o que faltava! Ninguém quer ferir seus sentimentos de fidelidade.

O centro do campo estava repleto. depois de atravessarmos alamedas risonhas.251 NOSSO LAR Com efeito. onde cada flor parecia possuir seu reinado particular. o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso. de simpatia. A nata de "Nosso Lar" apresentava-se em magnífica forma. Era a expressão natural de tudo. Eu havia presenciado numerosas agregações de gente. experimentava a mensagem silenciosa. O elemento feminino aparecia na paisagem. na colônia. verificava-se o contrário. diferentes das que se conhecem na Terra. nem excesso de qualquer natureza. Grupos de senhoras e cavalheiros entretinham-se em animada conversação. valiosa e construtiva. mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então. extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador. sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina. Ouvia frases soltas. a arte pura e a vida sem artifícios. Não somente os pares afetuosos demoravam nas estradas floridas. iluminados e acolhedores. Grandes árvores. sem qualquer atrito de opi- . contudo. revelando extremo apuro de gosto individual. a pesquisa científica. contudo. em nenhuma palestra notei o mais ligeiro laivo de malícia ou de acusação aos homens. guarnecem belos recintos. comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu. Não era luxo. mas todos os comentários tendiam à esfera elevada do auxílio mútuo. Não obstante sentir-me sinceramente humilhado pela minha insignificância ante aquela aglomeração seletíssima. Ali. a simplicidade confundida com a beleza. a filosofia edificante. e. no olhar de quantos me defrontavam. Discutia-se o amor. a cultura intelectual. Na Terra. relativamente aos círculos carnais. há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional.

e. transmitindo-as. visíveis e invisíveis. O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus. Aquela sociedade otimista encantava-me. ou do injustificável desalento. está cheio de beleza e sublimidade. quanto possível. André. Em palestras numerosas. o que mais me impressionava era a nota de alegria reinante em todas as conversações. no entanto. por vezes. e os grandes compositores terrestres são. por sua vez. ouvi Lísias dizer: . absorvem raios de inspiração nos planos mais altos. ao passo que os menos instruídos elevavam. O Universo. ali. tinha concretizadas as esperanças de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres. Observei que. onde recebem algumas expressões melódicas. não pôde continuar. recolhia referências a Jesus e ao Evangelho. adornando os temas recebidos com o gênio que possuem.252 NOSSO LAR nião. O enfermeiro do Auxilio. Grandemente maravilhado com a música sublime. trazidos às esferas como a nossa. Fôramos defrontados por gracioso grupo. Lascínia e as irmãs haviam chegado e era preciso atender aos imperativos da confraternização. . Ninguém recordava o Mestre com as vibrações negativas da tristeza inútil.Nossos orientadores. aos ouvidos humanos. mas também consciente da energia e da vigilância necessárias à preservação da ordem e da justiça. Jesus era lembrado por todos como supremo orientador das organizações terrenas. todavia. na Terra. Diante dos olhos. cheio de compreensão e bondade. em harmonia. o mais sábio restringia as vibrações de seu poder intelectual. a capacidade de compreensão para absorver as dádivas do conhecimento superior.

no entanto. com imensa alegria para mim. com o carinho e apreço de todos os companheiros? Reconhecia. o Ministro Clarêncio continuava a responsabilizar-se pela minha permanência na colônia. mas alguma coisa me tolhia. apesar do imenso desejo que me espicaçava o coração. As vezes. encontrara o prazer do serviço. Clarêncio nunca modificava a atitude reservada. experimentando crescente júbilo e confiança. mantinha-se ele sempre silencioso sobre o assunto. A senhora Laura e o próprio Tobias não se cansavam de me lembrar esse fato. Além disso.253 46 SACRIFÍCIO DE MULHER Um ano se passou em trabalhos construtivos. que. portanto. de há muito teria sido encaminhado ao velho ambiente doméstico. não voltara ao lar terrestre. nesse particular. ali. no desempenho das obrigações concernentes à sua autoridade. se houvesse proveito. Aprendera a ser útil. Não recebera auxilio adequado. Por diversas vezes tinha defrontado o generoso Ministro do Auxilio e. não contava. intentava pedir concessões. Cumpria. aguardar a palavra de ordem. não obstante desdobrar atividades na Regeneração. Até ali. Aliás. pois. Apenas pelo .

minha mãe veio às Câmaras e. a melhores tentames. embora permanecesse em círculos mais altos. cheio de bom ânimo. nos primeiros dias de setembro de 1940. Aquela atitude maternal de suave conformação nos sofrimentos morais que lhe feriam a alma sensível. que nunca me abandonou à própria sorte. Agradeci. . encaminhando-a. de longe em longe era visitado por minha mãe. intensificava-se-me a ansiedade de rever os meus. sem que visse a realização de meus desejos. Que novas resoluções teria tomado? Intrigado. porém. de maneira indireta. sem solução de continuidade. Confortava-me.254 NOSSO LAR Natal. Em compensação. comovera-me profundamente. esperando. Com efeito. ansioso de conhecer-lhe os planos. tocara levemente no assunto. quando me encontrara nos festejos da Elevação. com serviço útil. adivinhando-me as saudades da esposa e dos filhinhos. a certeza de haver preenchido todo o meu tempo nas Câmaras de Retificação. Não perdia de vista a pobre Elisa. depois das saudações carinhosas. que se consolidava meu equilíbrio emocional. comovidamente. Habituara-me a cuidar dos enfermos. Entretanto. porém. À medida. a interpretar-lhes os pensamentos. Nossas tarefas prosseguiam sempre. A última vez que nos avistáramos. comunicou-me o propósito de voltar à Terra. A saudade doía fundo. Não descansara. Comentara as alegrias da noite e asseverara não andar longe o dia em que me acompanharia ao ninho familiar. esperei-lhe a visita. ela me disse que tencionava cientificar-me de projetos novos. atingíramos setembro de 1940.

pensei. explicou o projeto. Mas. de novo. Que fazer.respondi. os espíritos que amam. .Não. se não pudéssemos estendê-la aos entes amados? Poderíamos. Laerte é hoje um céptico de coração envenenado. trabalharia por auxiliá-lo. residir num palácio relegando os filhinhos à intempérie? Não posso ficar a distância. sem necessidade imediata? Mostrando nobre expressão de serenidade. Meus superiores hierárquicos foram acordes no conselho.Não concordo. surpreendido e discordando de semelhante decisão. Já que poderei contar contigo aqui. sob pena de mergulhar em abismos mais fundos. senão isso? Não . impressionado -. No entanto. Não posso trazer o inferior para o superior. mas posso fazer o contrário. verdadeiramente.Não consideras a angustiosa condição de teu pai. Não seria possível. André? Terias coragem de revê-lo em tal situação.Não . meu filho? Há muitos anos trabalho para reerguê-lo e meus esforços têm sido improfícuos. Não haverá meios de evitar essa contingência? . no entanto. protestei: . doravante reunir-me-ei a Luísa a fim de auxiliar teu pai a reencontrar o caminho certo. Não poderia persistir em semelhante posição. no caminho escuro. não se limitam a estender as mãos de longe.Insistiria. com a senhora. e redargüi: .255 NOSSO LAR Em tom afetuoso. Que me resta. mas a senhora poderá ajudá-lo mesmo daqui. Estudei detidamente o assunto. Pensei. De que nos valeria toda a riqueza material. minha mãe ponderou: .Não duvido. Voltar a senhora à carne? Por quê? Internar-se. acaso. esquivando-te ao socorro justo? .

não o abandonam. e obtemperou: . preparando-lhe a reencarnação imediata sem que ele nos identificasse o auxílio direto. Tenho em ti o amparo do futuro.indaguei . . Deus criou o livre-arbítrio. Quis fugir das mulheres que ainda o subjugam. é indispensável reconhecer que o devedor é escravo do compromisso assumido. e. a semana passada. Enquanto me perdia em graves pensamentos. algo triste.disse minha mãe com significativa expressão fisionômica. entretanto. Estarei novamente no mundo. meu filho. que talvez ainda se encontrem nas sombras do Umbral. zela por tuas irmãs.As infelizes irmãs que o perseguem.Não . Não te percas. em trabalho ativo de purgação. pois. nós criamos a fatalidade. quando puderes transitar entre as esferas que nos separam da crosta.como se encontra ele com a senhora? Em espírito? .Mas . para jungi-lo à nova situação carnal.Há reencarnações que funcionam como drásticos. Quanto ao mais. em breves dias. onde me encontrarei com Laerte para os serviços que o Pai nos confiar. a alma pode invocar esse direito somente quando compreenda o dever e o pratique. Com a colaboração de alguns amigos. as algemas que fundimos para nós mesmos. . Relativamente à liberdade irrestrita. portanto. talvez com razão. continuou ela. localizei-o na Terra. retomando as anteriores observações: . Entrementes. não fosse a Proteção Divina por .Mas isso é possível? E a liberdade individual? Minha mãe sorriu. Ainda que o doente não se sinta corajoso. embora muito amargo.256 NOSSO LAR devo hesitar um minuto. É preciso quebrar. e auxilia tua mãe. e aproveitamos essa disposição. existem amigos que o ajudam a sorver o remédio santo.

amor e união.257 NOSSO LAR intermédio de nossos guardas espirituais. Identificando-lhe o espírito de renúncia. intensificando as forças contrárias. André! Os que descrêem perdem o rumo verdadeiro. realizando minha nova experiência.. Ninguém ajuda eficientemente. . peregrinando pelo deserto.esclareceu minha genitora.Essas interrogações.indaguei. cercada de outros afetos sacrossantos. devem pairar em nossos corações e em nossos lábios. Em futuro não distante.Deus meu! .exclamei. olhos brilhantes e úmidos. mergulhando no pântano. É preciso não esqueceres que irei ao mundo em auxílio de teu pai. Que será feito dessas infelizes? Minha mãe sorriu e respondeu: . É indispensável amar. como não se pode apagar na Terra um incêndio com petróleo. . .. Não tomes empréstimos à maldade.. ajoelhei-me e beijei-lhe as mãos. como se estivesse a contemplar horizontes do porvir..E essas mulheres? . e antes de transformarmos irmãos em adversários para o caminho. para uma grande festividade de alegria. os que erram se desviam da estrada real. antes de contrairmos qualquer débito. quem sabe? talvez regresse a "Nosso Lar"..Será então possível? Estamos à mercê do mal até esse ponto? Simples joguetes em mão dos inimigos? . colocarei todos eles em meu regaço materno. .E mais tarde. E. Teu pai é hoje um céptico e essas pobres irmãs suportam pesados fardos na lama da ignorância e da ilusão. meu filho .Serão minhas filhas daqui a alguns anos. muito calma -.. talvez lhe subtraíssem a oportunidade da nova reencarnação. rematou: .

258 NOSSO LAR Desde aquela hora, minha mãe não era apenas minha mãe. Era muito mais que isso. Era a mensageira do Amparo, que sabia converter verdugos em filhos do seu coração, para que eles retomassem o caminho dos filhos de Deus.

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A VOLTA DE LAURA
Não só minha mãe se preparava para regressar aos círculos terrenos. Também a senhora Laura encontrava-se em vésperas do grande cometimento. Avisado por alguns companheiros, aderi à demonstração de simpatia e apreço que diversos funcionários, particularmente do Auxílio e da Regeneração, iam prestar à nobre matrona, por motivo de sua volta às experiências humanas. Realizou-se a homenagem afetuosa na noite em que o Departamento de Contas lhe entregou a notificação do tempo global de serviço na colônia. Não é possível traduzir, em letras comuns, a significação espiritual da festa íntima. Povoava-se a encantadora residência de melodias e luzes. As flores pareciam mais belas. Numerosas famílias foram saudar a companheira, prestes a regressar. Os visitantes, na maioria, cumprimentavam-na, carinhosos, ausentando-se, sem maiores delongas; no entanto, os amigos mais íntimos lá permaneceram até alta noite Tive, assim, ocasião de ouvir observações curiosas e sábias.

260 NOSSO LAR A senhora Laura me pareceu mais circunspecta, mais grave. Notavase-lhe o esforço para acompanhar a corrente de otimismo geral. Repleta a sala de estar, a genitora de Lísias explicava ao representante do Departamento: - Creio não me demorar mais que dois dias. Terminaram as aplicações do Serviço de Preparação, do Esclarecimento. E, com um olhar algo triste, concluía: - Como vê, estou pronta. O interlocutor tomou expressão de sincera fraternidade e acrescentou, estimulando-a: - Espero, entretanto, que se encontre animada para a luta. É uma glória seguir para o mundo, nas suas condições. Milhares e milhares de horas de serviço a seu favor, perante a comunidade de mais de um milhão de companheiros. Além disso, os filhinhos constituirão seu belo estímulo à retaguarda. - Tudo isso me reconforta - exclamou a dona da casa, sem disfarçar a preocupação íntima -, mas devemos compreender que a reencarnação é sempre uma tentativa de magna importância. Reconheço que meu esposo me precedeu no enorme esforço, e que os filhos amados serão meus amigos de todo instante; contudo... - Ora essa! não se deixe levar por conjeturas - atalhou o Ministro Genésio -, precisamos confiar na Proteção Divina e em nós mesmos. O manancial da Providência é inesgotável. É preciso quebrar os óculos escuros que nos apresentam a paisagem física como exílio amarguroso. Não pense em possibilidades de fracasso; mentalize, sim, as probabilidades de êxito. Além do mais, é justo confiar alguma coisa em nós outros, seus amigos, que não estaremos tão longe, no tocante à "distância vi-

261 NOSSO LAR bratória". Pense na alegria de auxiliar antigas afeições, pondere na glória imensa de ser útil. Sorriu a senhora Laura, parecendo mais encorajada, e asseverou: - Tenho solicitado o socorro espiritual de todos os companheiros, a fim de manter-me vigilante nas lições aqui recebidas. Bem sei que a Terra está cheia da grandeza divina. Basta recordar que o nosso Sol é o mesmo que alimenta os homens; no entanto, meu caro Ministro, tenho receio daquele olvido temporário em que nos precipitamos. Sinto-me qual enferma que se curou de numerosas feridas... Em verdade, as úlceras não mais me apoquentam, mas conservo as cicatrizes. Bastaria um leve arranhão, para voltar a enfermidade. O Ministro esboçou o gesto de quem compreendia o sentido da alegação e revidou: - Não ignoro o que representam as sombras do campo inferior, mas é indispensável coragem, e caminhar para diante. Ajudá-la-emos a trabalhar muito mais no bem dos outros, que na satisfação de si mesma. O grande perigo, ainda e sempre, é a demora nas tentações complexas do egoísmo. - Aqui - tornou a interlocutora sensatamente -, contamos com as vibrações espirituais da maioria dos habitantes educados, quase todos, nas luzes do Evangelho Redentor; e ainda que velhas fraquezas subam á tona de nossos pensamentos, encontramos defesa natural no próprio ambiente. Na Terra, porém, nossa boa intenção é como se fora bruxuleante luz num mar imenso de forças agressivas. - Não diga isso - atalhou o generoso Ministro -, não dê tamanha importância às influências das zonas inferiores. Seria armar o inimigo para que nos torturasse. O campo das idéias é igualmente campo de luta.

262 NOSSO LAR Toda luz que acendermos, de fato, na Terra, lá ficará para sempre, porque a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus. A senhora pareceu agora ver tudo mais claro, em face dos conceitos ouvidos; mudou radicalmente a atitude mental e falou, cobrando novo alento: - Estou convencida, agora, de que sua visita é providencial. Precisava levantar energias. Faltava-me essa exortação. É verdade: nossa zona mental é campo de batalha incessante. É preciso aniquilar o mal e a treva dentro de nós mesmos, surpreendê-los no reduto a que se recolhem, sem lhes dar a importância que exigem. Sim, agora compreendo. Genésio sorriu satisfeito e acrescentou: - Dentro do nosso mundo individual, cada idéia é como se fora uma entidade à parte... É necessário pensar nisso. Nutrindo os elementos do bem, progredirão eles para nossa felicidade, constituirão nossos exércitos de defesa; todavia, alimentar quaisquer elementos do mal é construir base segura para os nossos inimigos verdugos. A essa altura, o funcionário das Contas observou: - E não podemos esquecer que Laura volta à Terra com extraordinários créditos espirituais. Ainda hoje, o Gabinete da Governadoria forneceu uma nota ao Ministério do Auxílio, recomendando aos cooperadores técnicos da Reencarnação o máximo cuidado no trato com os ascendentes biológicos que vão entrar em função para constituir o novo organismo de nossa irmã. - Ah! é verdade - disse ela -, pedi essa providência para que não me encontre demasiadamente sujeita à lei da hereditariedade. Tenho tido grande preocupação, relativamente ao sangue.

sorridente -. Não falte. Lísias e as irmãs.263 NOSSO LAR . os comentários voltaram ao plano da confiança e do otimismo.disse a senhora Laura. alta noite. amanhã estarei a despedir-me. espero igualmente por você.faltava-me ouvilo. terá ao seu lado inúmeros irmãos e companheiros a colaborarem no seu bem-estar.Graças a Deus! .exclamou o Ministro Genésio. não ficaremos aqui a dormir. Agradeci.Têm razão .Minha mãe precisava esquecer as preocupações . Embora se encontre nos laços físicos. minha amiga . comovidamente. Ricardo será trazido até aqui. cultivarei a esperança. André.Amanhã à noite. a senhora Laura disse-me em tom maternal: . para o bem. . . .Não se preocupe. Além disso. às quais se unia agora a simpática e generosa Teresa. O Ministério da Comunicação prometeu-nos a visita de meu esposo. Em seguida. faltava-me ouvi-lo. portanto.que o seu mérito em "Nosso Lar" é bem grande.. com o auxílio fraternal de companheiros nossos. afinal de contas. solicito .disse o interlocutor. Ao despedir-me. porquanto o próprio Governador determinou medidas diretas. .. senão como bendita oportunidade de recapitular e aprender. . confortada . esforçando-me por ocultar as lágrimas das saudades prematuras que me despontavam no coração. manifestaram alegria sincera. confiarei no Senhor e em todos vocês. Ninguém comentou a volta à Terra.aduziu a dona da casa -.comentou o abnegado enfermeiro do Auxílio -. Faremos pequena reunião íntima.Repare .

A distância de quatro metros. em longa série de fios que se ligavam a pequeno aparelho. em casa de Lísias. o quadro era inédito e interessante Na espaçosa sala de estar. doze a doze diante do estrado.264 48 CULTO FAMILIAR Talvez que a praticantes do Espiritismo não fosse tão surpreendente a reunião a que compareci. da altura de dois metros presumíveis. mas observava conversações fraternas em todos os grupos. porém. Numerosas indagações me bailavam no cérebro. onde o Ministro Clarêncio assumira posição de diretor. Aos meus olhos. Enfileiravam-se poltronas confortáveis. A disposição dos móveis era a mais simples. idêntico aos nossos alto-falantes. havia um grande globo cristalino. Achando-me ao lado de Nicolas. cada qual tomara lugar adequado. ousei . reunia-se pequena assembléia de pouco mais de trinta pessoas. cercando-se da senhora Laura e dos filhos. envolvido. na parte inferior. Na sala extensa. antigo servidor do Ministério do Auxílio e íntimo da família de Lísias. aproximadamente.

por vezes. . que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite.É preciso lembrar . Naturalmente. . entre duas regiões. disse Nicolas em voz baixa: . Poder-se-ia começar o trabalho culminante da reunião. . longo tempo de serviço. Notando-me o olhar interrogativo. . contudo.Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra.Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo.Como não? .Mas virá ele até aqui? . .Por que o globo cristalino? . os pais dormem.Não poderia manifestar-se sem ele? . O companheiro não se fez rogado e esclareceu: .Estamos prontos. E. aguardamos a ordem da Comunicação. atenciosamente .indaguei.Ali está a câmara que no-lo apresentará. Era chegado o momento. lá na Terra. Nossas energias mentais não poderão atravessá-la. indicando o aparelho à nossa frente. mais fortes. e ele. espíritos há que vivem por lá entre dois mundos. informou: .disse Nicolas. Verifiquei.. no relógio de parede. Nesse instante.perguntei. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante. Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos. em a nova fase. curioso. Como os pombos-correio que vivem. não permanece inteiramente junto ao berço.que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar.revidou o interlocutor. a casa descansa. foi Lísias chamado ao fone por funcionários da Comunicação..265 NOSSO LAR perguntar alguma coisa. . por alguns instantes.

tomando posição junto dos instrumentos musicais. respectivamente. levantando-se. mas tentarei fazê-lo para demonstrar a riqueza das afeições nos planos de vida que se estendem para além da morte: Pai querido.266 NOSSO LAR Não lhe foi possível continuar. acompanhadas de Lísias. Muito difícil frasear humanamente as estrofes significativas. a Ricardo a nossa mensagem de amor. pai carinhoso. enquanto a noite Traz a benção do repouso. Judite.. composta por eles mesmos. . enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento.disse . cheias de espiritualidade e beleza. Vem unir à nossa prece A voz do teu coração. Nosso afeto e devoção!. Em seguida. do piano. então. cariciosa e divina. pediu homogeneidade de pensamentos e verdadeira fusão de sentimentos. Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção. agora. Observei. ao lado de Teresa e Eloísa.. e Clarêncio disse comovedora e singela prece. Lísias se fez ouvir na citara harmoniosa. da harpa e da citara. que as filhas e a neta da senhora Laura. Fez-se grande quietude.Irmão . Iolanda e Lísias se encarregaram. que integravam o gracioso coro familiar. Enquanto as estrelas cantam Na luz que as empalidece. Logo após. As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se. abandonavam o estrado.. O Ministro Clarêncio. quando vozes argentinas embalaram o interior. Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento. enviemos. com surpresa. semelhante a gorjeio celeste. Clarêncio tomou novamente a palavra: . Recebe.

Não te doa o sofrimento. Torna às luzes do caminho. apresentando. a bondade. logo em seguida. pai.267 NOSSO LAR Não te perturbes na estrada De sombras do esquecimento. Sobe ao cume da montanha. . Volveremos à alegria Do jardim do teu amor. Espera por nós que. Vem conosco orar também. Era Ricardo. um minuto. Esquece. notei que o globo se cobria. Não temas a dor terrestre. Enquanto dormes no mundo. Vem a nós. interiormente. Atravessa a sombra espessa. pai generoso. Conserva a flor da esperança Para a ventura imortal. Inda que seja a sonhar. Aguarda o porvir risonho. a figura simpática de um homem na idade madura. Às derradeiras notas da bela composição. Jamais te firas no mal. a carne estranha. Nossa casa não te olvida O sacrifício. Vence. Recorda a nossa aliança. a Terra E vem sorver da água pura De consolo e de ternura Das fontes de "Nosso Lar". um dia. Nossas almas acordadas Relembram as alvoradas Desta vida superior. de substância leitoso-acinzentada. A sublime claridade De tuas lições no bem. Volta à paz do nosso ninho.

ainda aqui. dirigindo-lhe amorosas saudações. Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós. pedindo fosse repetida a suave canção filial. senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre? Todos chorávamos. diga o que precisa de nós.Pai querido. os mesmos tons acinzentados. Como sou feliz! A senhora Laura chorava discretamente. que ouviu banhado em lágrimas. filhinha! Mais tarde. igualmente! Que mais eu poderia desejar. após falar particularmente à companheira e aos filhos. Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto. de novo. ouvindoa exclamar carinhosamente: . esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração! Observei. Quando se calaram as últimas notas. muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é. porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino.Sua mãe virá ter comigo. Quando o globo começou a apresentar. em breve. Possivelmente. falou comovidamente: . que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite! Nesta sala temos procurado. que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou: . virão vocês. juntos. todos ali mantinham análoga impressão. enternecidos. o caminho das esferas superiores. como é grande a bondade de Jesus. O recém-chegado. fixou o olhar amigo em nós outros. que nos reencontramos para o estímulo santo. então. ouvi Ricardo exclamando.Oh! meus filhos.268 NOSSO LAR Impossível descrever a sagrada emoção da família. para ser feliz. quase a despedida: .

quando alguém me atalhou os passos quase junto à dona da casa.Você tem regular quantidade de horas de trabalho extraordinário a seu favor. Possuído de júbilo intenso. mas lembrei instintivamente o serviço das Câmaras. Ia. Era Clarêncio. Dirigi-me ao estrado para abraçar a senhora Laura. amanhã acompanharei nossa irmã Laura à esfera carnal. chorando e rindo ao mesmo tempo. O Ministro Clarêncio orou com sentimento e a sessão foi encerrada. a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!. que.André. porém. voltou ao aspecto normal.Ah! filhos meus. enfim.. Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo. o pensamento. Profunda sensação de alegria me empolgou.. exprimindo-lhe de viva voz minha profunda impressão e reconhecimento. poderá vir conosco para visitar sua família. o generoso Ministro voltou a dizer: . Não podia ser maior a surpresa. depois do primeiro ano de cooperação ativa. rever a esposa e os filhos amados. que me falou em tom amável: . alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minhalma! roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra. Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara. Se lhe apraz. Adivinhando-me. que se ocupava a atender às numerosas felicitações dos amigos presentes. em seguida. .269 NOSSO LAR . Não será difícil a Genésio conceder-lhe uma semana de ausência. deixando-nos imersos em alegria indescritível. agradeci.

atento aos cuidados que devo consagrar aos problemas da reencarnação de nossa irmã. Sim.270 49 REGRESSANDO A CASA Imitando a criança que se conduz pelos passos dos benfeitores. a longos haustos. aproveitará minha companhia.Você tem uma semana ao seu dispor. respirando o ar de outros tempos. que seguiria adiante. Embriagado de alegria. e despedi-me da pequena caravana. o mar. Atravessei celeremente algumas ruas. Se quiser ir a "Nosso Lar". As velhas árvores do bairro. com a sensação indescritível do viajante que torna ao berço natal depois de longa ausência. a paisagem não se modificara de maneira sensível. André! Último adeus à dedicada mãe de Lísias e me vi só. não mais notei a expressão fisionômica da senhora Laura. Não me demorei a examinar pormenores. o mesmo perfume errante. o mesmo céu. Passarei aqui diariamente para revê-lo. O cora- . Clarêncio abraçou-me e falou: . Passe bem. a caminho de casa. cheguei à minha cidade. que denunciava extrema preocupação.

Ernesto reclama absoluto repouso. por caridade! Peço-lhe! Oh! não suportaria uma segunda viuvez. Quem seria aquele Dr. perguntou ao cavalheiro alguma coisa que não pude compreender de pronto. como outrora. onde vi a filhinha mais nova. vi Zélia que saía do quarto. à medida que me aproximava do grande portão de entrada. em virtude da hipertensão. baixando a voz. mas as palavras pareciam reboar pela casa sem atingir os ouvidos dos circunstantes. Muito atenta. com o carinho da minha saudade imensa. quase no mesmo instante. avancei para o interior. transformada em jovem casadoura. acompanhando um cavalheiro que me pareceu médico. Tudo. a palmeira que.271 NOSSO LAR ção me batia descompassado. à primeira vista. doutor. desapontado. porque a pneumonia se apresenta muito complicada. Em frente ao pórtico. salve-o. ansiosa: . formávamos gracioso grupo? Alguma coisa me oprimia ansiosamente. Onde estariam os velhos móveis de jacarandá? E o grande retrato onde. respeitoso: . o Dr. Todo o cuidado é pouco. garbosa. O vento. Ébrio de felicidade. mas Zélia parecia totalmente insensível ao meu gesto de amor. E. Compreendi a situação e calei-me. Dirigi-me à sala de jantar. denotava diferenças enormes. saudando a luz primaveril. com a esposa e os filhinhos. Ernesto? Perdia-me num mar de indagações. com Zélia. porém. Abracei-me à companheira. respondeu.Só amanhã poderei diagnosticar seguramente. quando ouvi minha esposa suplicar. Desabrochavam azáleas e rosas.Mas. ostentava-se. Que teria acontecido? Comecei a cambalear de emoção. sussurrava carícias no arvoredo do pequeno parque. eu havia plantado no primeiro aniversário de casamento. O interlocutor. Gritei minha alegria com toda a força dos pulmões. .

E meu filho? Onde estaria ele? Zélia instruiu convenientemente uma velha enfermeira e veio palestrar. A mais velha casara-se e tinha ao colo o filhinho. hoje. Sucediam-se as surpresas. Outro homem se apossara do meu lar. mais calmamente. mostrando-se interessadas em lhe agravar os padecimentos. singulares saudades do papai me atormentam o coração. verificando que outro mobiliário existia na alcova espaçosa. entretanto. à sala de jantar. Verifiquei que o doente estava cercado de entidades inferiores. Ao lado dele. Assentei-me. três figuras negras iam e vinham. cambaleante.Vim vê-los. como também porque. onde encontrei as filhas conversando.exclamou a primogênita -. e. Ernesto. É uma coisa que não sei bem definir. estava um homem de idade madura. acariciando o enfermo com a ternura que me coubera noutros tempos. Valia a pena de ter esperado tanto para colher semelhantes desilusões? Corri ao meu quarto. não consegui auxiliá-lo imediatamente. A casa não mais me pertencia. devotadas ao mal. . Desde cedo. varias vezes. vendo Zélia entrar no aposento e dele sair... voltei. De pronto. A esposa me esquecera. tive ímpetos de odiar o intruso com todas as forças. demonstrando imensa angústia. . decepcionado e acabrunhado. mamãe . O Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor. com as filhas.272 NOSSO LAR Zélia chorava e torcia as mãos. evidenciando melindroso estado de saúde. Um corisco não me fulminaria com tamanha violência. mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos. não sei por que penso tanto nele. da fraternidade e do perdão. No leito. depois de algumas horas de amarga observação e meditação. não só para colher notícias do Dr.

Aflitíssima como estou.Desde que a pobre mana começou a se interessar pelo maldito Espiritismo. que ela não registrou auditiva. A outra. e você não me pode ajudar nisso? A filha mais jovem interveio. mamãe.. Não se esqueça de que André está morto.tornou Zélia.Não estou traduzindo convicções religiosas.Ora. não têm sentimento? Se papai estivesse conosco. Não me venha com lamúrias e lágrimas pelo passado irremediável. acrescentando: . Onde já se viu tal disparate? Essa história dos mortos voltarem é o cúmulo dos absurdos. agora. a praticar por aí tantas loucuras. ora . Zélia. seu único filho varão não andaria. nervosa e enfadada -. cada qual tem a sorte que Deus lhe dá. com imensa surpresa para mim. falou com dificuldade: .Ora essa! Era o que nos faltava!. dirigiu-se à filha autoritariamente: . embora continuasse chorando. minha filha? Já proibi a vocês. Que passadismo é esse. nesta casa.273 NOSSO LAR Não terminou. vive com essas tolices na cachola.. Lágrimas abundantes borbotavam-lhe dos olhos. a seu pai. terminantemente. modifiquei o aspecto das próprias paredes. Aproximei-me da filha chorosa e estanquei-lhe o pranto. Então é crime sentir saudades de papai? Vocês também não amam. Não sabe que isso desgosta o Ernesto? Já vendi tudo quanto nos recordava aqui o passado morto. sob a feição de pensamentos confortadores. murmurando palavras de encorajamento e consolação. Afinal. . o motivo pelo qual meus verdadeiros . via-me em face de singular conjuntura! Compreendia. qualquer alusão. mas subjetivamente. tolerar as suas perturbações.

Nem haveres. não posso esquecer que aquela recomendação de Jesus para que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. verdadeiros milagres de felicidade e compreensão. comecei a ponderar o alcance da recomendação evangélica e refleti com mais serenidade. Apenas. suportado a prolongada solidão? Não teria recorrido a mil pretex- . me haviam proporcionado lágrimas tão amargas. disse. o meu retorno ao lar terreno. Qualquer conselho de minha parte. encontrando-me na mesma situação de perplexidade. oferecendo-me o cordial da sua palavra amiga e reta. Minha casa pareceume. portanto. tanto. então. em nossos caminhos. solícito: . absolutamente só no testemunho. Então. Clarêncio sorriu e despediu-se. Clarêncio passou. por que condenar o procedimento de Zélia? E se fosse eu o viúvo na Terra? Teria.Compreendo suas mágoas e rejubilo-me pela ótima oportunidade deste testemunho. quando seguida. Chegou a noite e voltou o dia. Angústias e decepções sucediam-se de tropel. e pedi que me não desamparasse com o necessário auxílio. seria intempestivo. opera sempre. Afinal de contas. sensibilizado. nem títulos. nos primeiros dias de alémtúmulo. um patrimônio que os ladrões e os vermes haviam transformado. Não tenho diretrizes novas. Agradeci. Nem os longos anos de sofrimento.274 NOSSO LAR amigos haviam procrastinado. em face da realidade. À tardinha. a ouvir conceitos e a surpreender atitudes que nunca poderia ter suspeitado. acaso. nem afetos! Somente uma filha ali estava de sentinela ao meu velho e sincero amor. meu caro. Percebendo meu abatimento.

constituída de centenas de enfermos nas Câmaras de Retificação e estendiase. senti que a linfa do verdadeiro amor começava a brotar das feridas benéficas que a realidade me abrira no coração. agora. sim. se Zélia não lhe houvesse aceitado a aliança afetiva? Preciso era. Minha família não era. talvez. pois. Jesus conduzira-me a outras fontes. Dominado de novos pensamentos. à comunidade universal. em piores condições. . Não podia proceder como homem da Terra. lutar contra o egoísmo feroz. uma esposa e três filhos na Terra.275 NOSSO LAR tos para justificar novo consórcio? E o pobre enfermo? Como e por que odiá-lo? Não era também meu irmão na Casa de Nosso Pai? Não estaria o lar. apenas. Era.

Recordei que a senhora Laura. Não era proprietário de Zélia. companheiros de luta e realização. extraindo de cada uma a substância dos bons exemplos. no treinamento de elevação a que muitos de nós se consagravam. onde os entes amados se convertiam em verdugos. As meditações preciosas que a palavra de Clarêncio me sugerira. Em "Nosso Lar". Começava a compreender o valor do alimento espiritual. mas seu irmão e amigo.276 50 CIDADÃO DE "NOSSO LAR" Na segunda noite. certa feita. as necessidades humanas. sem alimentação comum. atravessava dias vários de serviço ativo. sentia-me cansadíssimo. sim. que são as almas nobres. davam-me certa calma ao coração. através do amor e do entendimento recíprocos. as manifestações de afeto. a absorção de elementos puros através do ar e da água mas ali não encontrava senão escuro campo de batalha. deve proceder como a abelha. Bastava-me a presença dos amigos queridos. Compreendia. acercando-se das flores da vida. me afirmara que toda criatura. para adquirir o mel da sabedoria . finalmente. no campo das lembranças. no testemunho. Não era dono de meus filhos e.

A senhora Hilda vencera o dragão do ciúme inferior.277 NOSSO LAR Apliquei ao meu caso o proveitoso conselho e comecei recordando minha mãe. que se erguia. Reconheci que Zélia e Ernesto se amavam intensamente. de regresso ao mundo. procurei o apartamento do enfermo. e. querido! Não me deixes só! Que será de mim se me faltares? O doente acariciava-lhe as mãos e respondia com imenso afeto. Tobias como irmão. a mãe de Lísias me recebera como filho. célere. A Ministra Veneranda trabalhava séculos sucessivos pelo grupo espiritual que lhe estava mais particularmente ligado ao coração. se de fato me sentia companheiro fraternal . Não se sacrificara ela por meu pai. E. apesar da forte dispnéia. acima de todos os meus sentimentos pessoais. banhada em lágrimas: . Narcisa sacrificava-se nas Câmaras para obter endosso espiritual. cujo estado se agravava de momento a momento. Cada companheiro de minhas novas lutas me oferecia algo de útil à construção mental diferente. a ponto de adotar mulheres infelizes como filhas do coração? "Nosso Lar" estava repleto de exemplos edificantes. as justas necessidades dos meus semelhantes. E a expressão de fraternidade dos demais amigos da colônia? Clarêncio me acolhera com devotamento de pai. Roguei ao Senhor energias necessárias para manter a compreensão imprescindível e passei a interpretar os cônjuges como se fossem meus irmãos.Ernesto. tem pena de mim. Ernesto. Zélia amparava-lhe a fronte e dizia. no meu espírito. Procurei abstrair-me das considerações aparentemente ingratas que ouvia no ambiente doméstico e deliberei colocar acima de tudo o amor divino. No meu cansaço. em tarefa de auxílio.

alguém me tocou de leve no ombro. Não cabia em mim de contentamento. devia auxiliá-los com os recursos ao meu alcance. porém. Passados vinte minutos. eram enormes. meu amigo. em pensamento. o que não poderia esperar. Concentrei-me em fervorosa oração ao Pai e. e vim ao seu encontro. . em 'Nosso Lar'. compreendeu a gravidade do momento e acrescentou: . nas vibrações da prece. A mensageira do bem fixou o quadro. lembrei certa lição de Tobias. e nem todos precisam de aparelhos de comunicação para conversar a distância. nem todos necessitam do aeróbus para se locomoverem. Contava-lhe. por se manterem. porque os habitantes mais elevados da colônia dispõem do poder de volitação. podem dispor.Não temos tempo a perder. quando ainda não havia retirado a mente da rogativa. Sentia-me abatidíssimo. num plano de perfeita sintonia de pensamentos. minha experiência dolorosa. Iniciei o trabalho procurando esclarecer os espíritos infelizes que se mantinham em estreita ligação com o enfermo. dirigime a Narcisa encarecendo socorro. Aconteceu. do processo de conversação mental. então. Minhas dificuldades. entre si.Ouvi seu apelo. quando me dissera: "aqui.278 NOSSO LAR de ambos. mais ou menos. apesar da distância". comunicava-lhe meus propósitos de auxílio e insistia para que me não desamparasse. sorrindo: . Os que se encontrem afinados desse modo. à vontade. Nessa emergência. Era Narcisa que atendia. Lembrei quanto me seria útil a colaboração de Narcisa e experimentei.

surge a Providência. na obra divina. que se afastaram como por encanto. há quem ensine. é o espírito imprevidente. Elas nos auxiliarão eficazmente.279 NOSSO LAR Antes de tudo. cedo. durante toda a noite.Vamos à Natureza. extremamente surpreendido: . Daí a momentos. Para o caso do nosso enfermo. E. a enfermeira explicou: . nada existe de inútil na Casa de Nosso Pai. Chegados a local onde se alinhavam enormes frondes. aplicou passes de reconforto ao doente. Imensamente surpreendido. segui-a.Como vê. Narcisa manipulou. se há quem necessite aprender.São servidores comuns do reino vegetal. acentuou: . e ela. que me eram totalmente estranhos. Devidamente informada pelos amigos. As forças naturais fazem o mesmo. e onde aparece a dificuldade. o médico observou. os irmãos que nos atenderam. convidoume com decisão: . Admirado da lição nova. Em toda parte. O enfermo experimentou melhoras sensíveis.Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los. rematou: . precisamos das árvores. em poucos instantes. notando-me a estranheza. aplicamos o remédio ao enfermo. que se condenou às trevas da maldade. com expressões que eu não podia compreender. silencioso. Narcisa chamou alguém. Pela manhã. O único desventurado. certa substância com as emanações do eucalipto e da mangueira e. isolando-o das formas escuras. através da respiração comum e da absorção pelos poros. Acompanhei-a sem hesitação. nos reinos diversos em que se subdividem. à vista da minha surpresa. Em seguida. vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos. oito entidades espirituais atendiam-lhe ao apelo.

Clarêncio visitava-me. Encheu-se a casa de alegria nova. Comunicando à enfermeira generosa minha impressão de leveza. Ao fim da semana. quando é preciso ganhar distância e tempo.280 NOSSO LAR . regressar aos deveres justos. que vigorosos laços de inferioridade se haviam rompido dentro de mim. Por minha vez. Nova compreensão e novos júbilos me enriqueciam o espírito. sem dificuldade de vulto. chegara ao termo de minha primeira licença nos serviços das Câmaras de Retificação. totalmente modificado. ia da casa terrestre à cidade espiritual e vice-versa. A luz dormente e cariciosa do crepúsculo. mas. pois. visto a maioria não ter adquirido essa faculdade. voltei a "Nosso Lar" em companhia de Narcisa e. tomei o caminho de "Nosso Lar". nas áreas de nosso domínio vibratório. A bandeira da alegria desfraldara-se em meu íntimo. grande parte dos companheiros poderia dispensar o aeróbus e transportar-se.Verificou-se esta noite extraordinária reação! Verdadeiro milagre da Natureza! Zélia estava radiante. Instruído por Narcisa. eu mesmo. intensificando o tratamento de Ernesto. Na- . para sempre. à vontade. Era preciso. Essa abstenção. Reconhecia. Profundo alento e belas esperanças revigoravam-me o ser. A alegria tornara aos cônjuges. diariamente. francas e rápidas. cujas melhoras se firmaram. todos se abstêm de exercê-la em nossas vias públicas. que passei a estimar como irmãos. Nesse dia. experimentava grande júbilo nalma.Em "Nosso Lar". não impede que utilizemos o processo longe da cidade. pela primeira vez. ganhávamos grandes distâncias. ouvi-a esclarecer: . mostrando-se satisfeito com o meu trabalho. Num momento. experimentei a capacidade de volitação. todavia.

E. Narcisa. Como é grande a Providência Divina! . estendeu-me a destra e falou: . a chorar de gratidão e de alegria.dizia. porém. você era meu pupilo na cidade. Por que tamanha magnanimidade se meu triunfo era tão pequenino? Não conseguia reter as lágrimas de emoção que me embargavam a voz. Todos me saudavam. colhido. adiantou-se. Não sabia que atitude assumir. André. . Tobias. então. mas. Lascínia.Até hoje. atirei-me aos braços paternais de Clarêncio. declaro-o cidadão de "Nosso Lar". aprendera preciosas lições práticas no culto vivo da compreensão e da fraternidade legítimas. Foi. Silveira. surgindo à frente de todos. Mais de duzentos companheiros vinham ao meu encontro. doravante. Lísias. Salústio e numerosos cooperadores das Câmaras ali estavam. a monologar intimamente. considerando a grandeza da Bondade Divina. que o Ministro Clarêncio. me arrancou da meditação a que me recolhera. em nome da Governadoria. A tarde sublime enchia-me de magnos pensamentos. assim. generosos e acolhedores.281 NOSSO LAR queles rápidos sete dias. Com que sabedoria dispõe o Senhor todos os trabalhos e situações da vida! Com que amor atende a toda a Criação! Algo. de surpresa.

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