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Elisa Vasco

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ELISA VASCO

CARACTERÍSTICAS DAS INTERVENÇÕES PSICOTERAPÊUTICAS REALIZADAS POR PSICÓLOGOS COM SUJEITOS SURDOS

Palhoça 2009

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ELISA VASCO

CARACTERÍSTICAS DAS INTERVENÇÕES PSICOTERAPÊUTICAS REALIZADAS POR PSICÓLOGOS COM SUJEITOS SURDOS

Relatório de pesquisa apresentado na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II, como requisito parcial para obtenção do título de psicólogo

Orientadora: Profª. Drª. Nádia Kienen.

Palhoça 2009

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ELISA VASCO

CARACTERÍSTICAS DAS INTERVENÇÕES PSICOTERAPÊUTICAS REALIZADAS POR PSICÓLOGOS COM SUJEITOS SURDOS

Relatório de pesquisa apresentado na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II, como requisito parcial para obtenção do título de psicólogo

Palhoça, 09 de novembro de 2009.

_____________________________________ Profª. Drª. Nádia Kienen - Orientadora Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL

_____________________________________ Prof. Dr. Adriano Henrique Nuernberg Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

_____________________________________ Profª. Msc. Simone Vieira de Souza Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL

Por estarem ao meu lado me dando força. conquistas e derrotas. À Nádia. À Simone. Sem ele. E também por aceitar o meu convite para participar na banca. que de uma forma ou outra contribuíram alguma coisa para este trabalho tornar-se possível. minha supervisora de estágio. Estando sempre presente. a experimentar “ambientes” desconhecidos para me encontrar como pessoa e futura psicóloga. O meu muito obrigado a todos vocês! . grande amiga. um dos meus professores mais influentes. minha intérprete nas aulas e grande amiga fora da sala de aula. Por me levar de encontro a minha “identidade surda”. por utilizar a minha língua de “conforto” em sala de aula. meu namorado. por me apresentar à Psicologia. seja de angústias. Ao Francisco. me ajudando em todos os momentos. que esteve sempre presente. Ao Adriano. Meu agradecimento Também agradeço-o por aceitar meu convite para participar na banca. acredito que não estaria onde estou e me formando como psicóloga. ou de gargalhadas. Aos meus demais familiares e aos meus amigos – surdos e ouvintes – e a todas as pessoas que passaram e deixaram coisas boas. Pela sua paciência.3 AGRADECIMENTOS Aos meus pais e a minha irmã que sempre me apoiaram na trajetória acadêmica. que foi um grande incentivador. que me acompanhou durante os dois primeiros anos na faculdade como intérprete. À Ione. teorias e psicologia. Companhia constante de discussões sobre surdos. me apoiando para ir até o fim nesta luta. minha amiga. aceitou o desafio não poupando esforço durante a orientação apresentando considerações pertinentes. me acompanhando nas minhas lutas. por aceitar em se aventurar junto comigo em um caminho desconhecido na clínica com pacientes surdos. que apesar de não conhecer muito bem a área da surdez.. Com todo meu carinho. minha orientadora. amo vocês.. carinho e amor! À Mauren. me apoiando sempre e me incentivando a seguir pelos caminhos que escolho para realizar meus sonhos e desejos. me ensinando a ser ousada. À Emiliana.

. eu aceito o surdo. mas temos que permitirlhes ser surdo. TERTE BASILIER (Psiquiatra – Surdo Norueguês) . Nós não devemos mudá-los. Quando eu aceito a língua de Sinais... devemos ensiná-los. e é importante ter sempre em mente que o surdo tem o direito de ser surdo. Quando eu rejeito a língua.. eu aceito a pessoa.4 Quando eu aceito a língua de outra pessoa. eu rejeito a pessoa. porque a língua é parte de nós mesmos.

ao todo. a língua de sinais e desenhos foram destacados como os mais fáceis de aplicar para estabelecer uma comunicação com os surdos. ao invés de minimizá-lo. computador e atividades lúdicas. nem a sua língua. os instrumentos mais fáceis de utilizar foram papel e lápis e atividades lúdicas. . e que utiliza uma visão patológica e não uma visão antropológica e cultural sobre a constituição do sujeito. os instrumentos utilizados com os surdos variaram bastante. podem contribuir para aumentar o sofrimento do sujeito surdo. estratégias de comunicação e instrumentos utilizados pelos psicólogos para intervir com os surdos e facilidades e dificuldades encontradas na intervenção.5 RESUMO A escassez de literatura sobre as intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos com sujeitos surdos pode implicar em dificuldades dos profissionais para trabalhar com os surdos. e o mais difícil. dois deles surdos. Além disso. Para encontrar as intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos no atendimento com o surdo. os mais difíceis. testes não-verbais e projetivos. Os participantes da pesquisa foram. pretende também destacar como isso acontece em se tratando de uma sociedade em que muitos profissionais não possuem conhecimentos sobre a língua de sinais. os psicólogos identificaram as facilidades e dificuldades encontradas na intervenção em relação a utilização de estratégias e instrumentos. Essas dificuldades. para o processo terapêutico. Foi possível identificar quais intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos com surdos foram adequadas e quais. por sua vez. não. testes verbais e projetivos. seis psicólogos. como papel e lápis. culturas e identidades surdas. destacando-se como categorias principais: concepção do que é ser surdo na sociedade e no atendimento. sob o ponto de vista da sociedade. foi realizada análise de conteúdo com base nas falas dos sujeitos. O presente trabalho tem por objetivo analisar as intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos surdos e ouvintes com sujeitos surdos. pois os surdos atendidos por esses psicólogos apresentavam pouco conhecimento da língua portuguesa e não compreenderam o significado dos desenhos do teste de Rorschach. Após as entrevistas. foi possível identificar que a maioria dos psicólogos concebe o sujeito surdo como um ser que. é visto como diferente. os gestos caseiros. Ficou constatado que a sociedade ainda não reconhece o surdo como sujeito. Como resultado. As estratégias de comunicação utilizadas por psicólogos mais identificadas foram a língua de sinais e os desenhos. dois ouvintes que utilizam a língua de sinais e dois ouvintes que não utilizam língua de sinais. foi feita uma pesquisa qualitativa e exploratória com entrevista semiestruturada.

sujeitos surdos. língua de sinais.6 Palavras-chaves: intervenções psicoterapêuticas. .

A.7 LISTA DE SIGLAS CAPS – Centro de Atenção Psicossocial FENEIS – Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos HTP – House-Tree-Person IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais MEC – Ministério da Educação T.T – Teste de Apercepção Temática TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental .

...................................................................................................................... Tabela 14 – As facilidades encontradas por psicólogos ao utilizar as estratégias de comunicação com sujeitos na intervenção psicoterapêutica...................................................................... 130 125 121 117 113 111 106 96 91 ................. Tabela 16 – A frequência da utilização das estratégias de comunicação por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos............................................................... 88 Tabela 8 – As queixas dos sujeitos apresentadas para os psicólogos no atendimento psicoterapêutico.................. 68 70 75 82 no atendimento.................................................8 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Caracterização dos participantes da pesquisa.................... Tabela 6 – A variação na intervenção psicoterapêutica de acordo com o grau de surdez 63 Tabela 2 – Quantidade de sujeitos atendidos por psicólogos e desde quando...................................................................................... 99 Tabela 11 – A importância da participação da família no atendimento psicoterapêutico junto com o sujeito........ Tabela 18 – Os instrumentos adequados para utilizar com os sujeitos surdos na intervenção psicoterapêutica................. Tabela 5 – Os tipos de atendimentos realizados por psicólogos com sujeitos....................................... 103 Tabela 12 – Estratégias de comunicação utilizadas por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos............................................................................. Tabela 9 – As queixas dos familiares dos sujeitos apresentadas para os psicólogos no atendimento psicoterapêutico................................... Tabela 13 – As estratégias de comunicação adequadas para utilizar com sujeitos surdos na intervenção psicoterapêutica.............................................................. Tabela 15 – As dificuldades encontradas por psicólogos ao utilizar as estratégias de comunicação com sujeitos na intervenção psicoterapêutica........................................................................................................................................................................................................................................................................................................... Tabela 17 – Instrumentos utilizados por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos......................................... Tabela 3 – Concepção dos psicólogos sobre o ser surdo na sociedade..................................................................... Tabela 10 – Os motivos da participação da família no atendimento psicoterapêutico junto com o sujeito............................. 85 Tabela 7 – Abordagem teórica utilizada por psicólogos.................................................................................................................................................................................. Tabela 4 – Concepção dos psicólogos sobre quem é o sujeito que faz atendimento psicoterapêutico..................................................................

.........................................................9 Tabela 19 – As facilidades encontradas por psicólogos ao utilizar os instrumentos com sujeitos na intervenção psicoterapêutica.......................................................................................... 139 137 .................................... 133 Tabela 20 – As dificuldades encontradas por psicólogos ao utilizar os instrumentos com sujeitos na intervenção psicoterapêutica.............................. Tabela 21 – A freqüência da utilização dos instrumentos por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos...

.......................6.........................2 Objetivos específicos............2.1 MINHA TRAJETÓRIA.... 16 1.................................... 64 3................................................1 Tema.....................................................6 PROCEDIMENTOS...................................................................... 45 2............ 53 3 MÉTODO...................................... 65 3................................................................... 2 REFERENCIAL TEÓRICO....................................................1 Intervenções de outros profissionais............................................................................................ 3..........................1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA.. 2............................................4 VULNERABILIDADE SOCIAL E PROGRAMÁTICA RELACIONADA A SUJEITOS SURDOS............................................................................ 2....................... 64 3...............4 Da coleta e registro dos dados....2 Intervenções dos psicólogos...............1 Da seleção dos participantes................ 64 3.............2 A PSICOLOGIA E A SURDEZ..............................................................................................2..........................................2 Título... 2............................3 INTERVENÇÕES DOS PROFISSIONAIS REALIZADAS COM SUJEITOS SURDOS E O PROCESSO DE INTERVENÇÃO...............4. 62 62 62 63 63 3..........................1 ALGUMAS CARACTERÍSTICAS SOBRE SURDOS............................................ 13 1............. 3................................... 28 1.......................6..............................3 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA.................... 43 43 2......3 Da construção do roteiro de entrevista..................................... 65 ..............10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................ 15 1.................................................................................................................................................................................................. 3................................6................................................................................................................... 3.......... 14 1........................................................2 PARTICIPANTES DA ENTREVISTA.............. 13 1..............................................................4.......................................... SURDEZ E 29 28 29 COMUNICAÇÃO.........3 Problema de Pesquisa............................................................................................................................................. 16 1.................................................................................................2..2 APRESENTAÇÃO...3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS............................................... 39 2..................2 Do contato com os participantes........................................................................................................................................................5 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS.......................................1 Objetivo geral......................................................... 15 1........... 28 1.............4 SITUAÇÃO E AMBIENTE...............3.....................4 OBJETIVOS..... 65 3...................................6..........................3........................................................................

..... 124 4...... 69 4................... 91 4..........1 Importância da participação da família.........................................6.............................................................................1.................................................................................3 As abordagens teóricas utilizadas no atendimento com sujeitos...........................................5 Da organização............................................4................ 4.....3 Facilidades encontradas em utilizar os instrumentos na intervenção 129 ....3.......................................5.....2 CARACTERÍSTICAS DOS ATENDIMENTOS REALIZADOS COM 79 70 74 SUJEITOS.3......................................3...........1 Instrumentos utilizados com sujeitos no atendimento 124 psicoterapêutico............ 110 4....2.....................1.........................1 Queixas dos sujeitos........................2 Tipos de variação na intervenção psicoterapêutica com sujeitos.......... 4............ 105 4....... 95 99 4..................................................... 103 4......... 4.............3......5 Participação dos familiares no atendimento psicoterapêutico........... 87 4..........................4 As queixas apresentadas pelos sujeitos e familiares.................................................1 Tipos de atendimentos psicoterapêuticos realizados com sujeitos e familiares........................................................ 79 85 4...................... 4............ 106 4.....................................2 Instrumentos adequados para utilizar com sujeitos na intervenção psicoterapêutica.........................................................................................3 Facilidades encontradas no uso das estratégias de comunicação na intervenção psicoterapêutica..4 INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA INTERVENÇÃO 121 117 113 PSICOTERAPÊUTICA...............................................2..................................... 4..... 91 4................................4................4................3 ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO UTILIZADAS NA INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA...................4 Dificuldades encontradas em utilizar as estratégias de comunicação na intervenção psicoterapêutica.......................................................4....................1 CONCEPÇÕES DOS PSICÓLOGOS SOBRE OS SUJEITOS......... 4....4......................2........... 4.............................................. Tipos de estratégias de comunicação utilizadas com sujeitos na intervenção psicoterapêutica.......5 Frequência da utilização das estratégias de comunicação no atendimento psicoterapêutico.....2........ 4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS.....3......................................2..2.................................................................. 66 68 4....................................................................... tratamento e análise dos dados...........................................................................................2 O sujeito surdo que realiza atendimento psicoterapêutico............. 4.............2...........1 Ser surdo na sociedade..2..........2 Estratégias de comunicação adequadas.......................................................... 4.......2 Queixas dos familiares dos sujeitos............. 4..................................................11 3................................1........

CONSIDERAÇÕES FINAIS........... 4.........................4...............................................................................................................4..................................................................... 156 ............................................................ 155 APÊNDICE A – Roteiro de entrevista..... REFERÊNCIAS...........................................................4 Dificuldades encontradas em utilizar os instrumentos na intervenção psicoterapêutica.......................................... 149 APÊNDICE........................................12 psicoterapêutica.....................................................................................................................................................5 Frequência da utilização dos instrumentos no atendimento 139 141 137 psicoterapêutico..................................................................................................................... 133 133 4.............................................

. Um conceito não aceito foi transformador de minha existência. sentindo o vento no rosto e andando por estradas por vezes difíceis sem medo de ousar. minha família não aceitou um conceito tão excludente quanto o que me deram como única escolha. sua trajetória. O ingresso no ambiente acadêmico despertou-me para outras necessidades. Chave que possuo em mãos e cedo a quem desejar. um único conceito é restrito demais em se tratando da vida..13 1. sua língua de sinais.. para tudo isso acontecer. Porém. Línguas presentes e constantes em cada passo e pensamento meu. mas também para o mundo a meu redor.. Ou como em um caminhar entre o presente constante e o que eu queria alcançar... crescer. Ao ser diagnosticada como surda. Nasci tão próxima à primavera que escolhi uma suave madrugada para vir ao mundo e desabrochar como tantas flores que juntamente a mim nasciam naquela estação. um fator ou uma suposição. Escolha de vida... INTRODUÇÃO 1. O ambiente acadêmico do curso de Psicologia e minha própria vivência me permitiram a tentativa de encontrar uma porta na qual a língua de sinais era a chave do descobrir dos dois mundos.. somente? Por vezes.. Mas. fazer e caminhar de mãos dadas com quem me passava segurança... não são coisas que se façam hoje e larguem amanhã.... Ousar como esta pesquisa. Ousar. Nascer. Novos rumos. E nessas andanças da vida tive a possibilidade da liberdade de caminhar entre o oral e a língua de sinais. Há uma nova porta a minha frente. .. mas desde o início um único tema me rodeava.. A porta pela qual entrei está cada vez mais longe. O surdo. e desafia. essencial como o ar que respiro todos os dias. A língua de sinais é parte do meu mundo. eu precisava de algo além. Por isso a necessidade de ousar e mostrar que tal língua e a cultura surda não são bobagem como imaginam.1 MINHA TRAJETÓRIA Do que vale um conceito.. Que me dão a expressão de um sentido a minha busca de respostas para não somente o que me desafiava. Acima de tudo isso. ter apoio e liberdade de poder ser. E eu tive escolha. de possibilidade. a língua de sinais dá ao surdo a tranquilidade de ser parte de um mundo e de ser entendido.. não é conhecida por este mundo do qual faço parte..

piorando a nossa situação. 1. . do município de São José. Foram identificados as dificuldades dos sujeitos surdos na psicoterapia realizada com profissionais ouvintes e os tipos de estratégias de comunicação e de instrumentos utilizados pelos psicólogos na intervenção psicoterapêutica com os surdos. Tentar encontrar uma palavra que possa descrever com exatidão o que queremos dizer pode trazer mais angústias e sofrimentos. Meu desejo é explicar. Para que o surdo pare de receber o rótulo de estorvo social. E também pelos relatos dos meus colegas surdos. a necessidade de profissionais compreenderem que o surdo deve ser atendido ou diagnosticado. Tentativa aqui escrita não somente em língua portuguesa. Por isso. demonstrando suas dificuldades diante do profissional ouvinte que não utiliza a nossa língua. surdos. em busca de melhoria no atendimento. Trabalho este que foi escrito usando a ciência. Tal trabalho está vinculado ao Projeto Time da Mente. exemplificar. muitas vezes necessitamos expor nosso sofrimento e angústias por meio das palavras. mas também a psicologia. Para isso. como alguns lhe aplicam. auxiliando uma mudança de pensamento e.2 APRESENTAÇÃO O interesse desta pesquisa – como ressaltado acima – iniciou-se a partir de experiência acadêmica da pesquisadora surda. mas em língua de sinais. Ele tem como objetivo promover e/ou resgatar a saúde mental de sujeitos atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial II – CAPS II – de Palhoça e pelo Programa de Saúde Mental. em que se observaram práticas realizadas pelos psicólogos diante do sujeito surdo no decorrer do curso de psicologia e também relatos espontâneos dos surdos. nós. consequentemente.14 Este trabalho surgiu com minha experiência ao necessitar de atendimento psicoterapêutico e perceber que profissionais ouvintes não estão preparados para lidar com tal situação nova. de atitude. que faz parte do Núcleo Orientado de Psicologia e Saúde do curso de graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. O projeto de pesquisa “Características das intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos com sujeitos surdos” tem por objetivo investigar como acontece a atuação do profissional da área da saúde diante do sujeito surdo. a vivência e o coração.

é necessário que o futuro psicólogo desenvolva competência nas estratégias de comunicação e instrumentos. Os subprojetos são assim nomeados: Individualmente. 1. Isso porque se o profissional apresentar conhecimento das estratégias e instrumentos utilizados com sujeitos surdos será capaz de promover a qualidade de vida destes.3 Problema de pesquisa Quais as características das intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos com sujeitos surdos? . Neste sentido. Capacitação de Agentes Comunitários de Saúde e Atendimentos às Famílias.2 Título Características das intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos com sujeitos surdos. 1. tais como as intervenções propostas pelo projeto Time da Mente. parece ser importante caracterizar as possibilidades do psicólogo para intervir. Cuidadosamente. Por intermédio desses subprojetos são realizadas Triagens Iniciais. Para realizar intervenções com os sujeitos surdos.1 Tema Intervenções psicoterapêuticas de psicólogos com sujeitos surdos.2. Grupos Operativos. por meio dos quais são realizadas intervenções de assistência a sujeitos com transtorno mental e a seus familiares cuidadores. Comunitariamente.15 O Time da Mente é dividido em subprojetos. e Familiarmente. Brilhantemente. Praticamente. 1.2. Projeto BemEstar. Atendimentos Individuais.2. Visitas Domiciliares.

uma boa parcela dessas pessoas ainda sofre com a discriminação social. Essa discriminação vem desde a Antiguidade. crianças que nasciam com algum “defeito” eram sacrificadas. o texto encontra-se disponível em: http://proa07profaluciane. Acesso em 26 de abril de 2009.pbworks. Censo Demográfico 2000. jogadas em abismos ou excluídas para não viver na sociedade 4. havia uma preocupação com a perfeição física. . estas eram isoladas num local à parte da sociedade. com alguma ou com grande dificuldade permanente de ouvir. 4 Idem. sendo descartado facilmente.37% dos brasileiros com algum tipo de surdez. moderadas. de acordo com a localização da alteração. Tal discriminação ocorria. e podem ser condutivas. somente aquelas surdas permanentemente1. 3 Sobre o sacrifício dos surdos nas sociedades antigas. não representando. para não provocar a ira dos deuses. tendo por única exceção o Egito Antigo. seguem a classificação de leves. na sociedade grega. também tenham excluído crianças surdas devido às fortes influências dos gregos. neurossensoriais. De toda a população nacional há. aproximadamente 3. quando estão afetadas por um ou dois ouvidos. 2 A surdez pode ser classificada como unilaterais ou bilaterais. este número se traduz em 186.3 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE –.10) – se discute sobre a concepção de sujeitos e identidade cultural –. numa visão iluminista. Em relatos de Strobel (2008) – ao examinar sobre a história dos surdos juntamente com Hall (2004. p. Independentemente do grau de surdez2. deixadas distantes da cidade para que não convivessem com as pessoas “perfeitas”. em que. há no Brasil aproximadamente seis milhões de pessoas com incapacidade. mistas e centrais. de maneira específica. severas e profundas. pois eles “não acreditavam 1 Fonte: IBGE.com/NeusaAna-e CristianiAparecida?SearchFor=surdos+na+antiguidade&sp=5. Quanto ao grau de comprometimento. como seu “defeito” era descoberto tardiamente. por exemplo. de acordo com o censo demográfico do ano de 2000.851 pessoas. Em Santa Catarina. Em muitas sociedades antigas. onde o surdo era considerado um Deus – fato raro em se tratando de sociedades em que o ser perfeito imperava e o que não correspondia a isso era considerado inferior. os autores afirmam que é possível que os romanos. No caso das crianças surdas.16 1. Tal preocupação ocorria por conta das guerras e tendo em vista a necessidade de homens “perfeitos” e “sadios” para os futuros combates3.

com isso.gov.com. permanecendo apenas no papel. p.br/CCIVIL/LEIS/L10098. Acesso em: 04 de maio de 2009. . por vezes. Como os surdos não ouviam nem falavam conforme esperado socialmente. notam-se as dificuldades dos 5 A FENEIS é uma entidade filantrópica que visa representar a comunidade surda com suas lutas nas áreas assistencial. Em uma visão sociológica. com o sujeito surdo tendo como base o modelo ouvinte. alguns sujeitos surdos ainda são marginalizados e excluídos da sociedade.htm. reivindica e promove na sociedade o ingresso dos surdos à educação e à acessibilidade. A desconsideração do seu cumprimento acontece dentro da sociedade.gov. eram considerados „imperfeitos‟.htm. Strobel (2008) revela que uma pessoa “normal” é aquela que sabe falar e ouvir. A autora afirma que. p. desconsiderando o discurso cultural. traduzida nas leis. é ignorada ou desconhecida. apresentando as idéias de Hall (2004. mas os professores os ensinavam a ser iguais aos ouvintes.17 que os surdos fossem capazes de receber educação. Porém. Acesso em: 23 de maio de 2009. então os sujeitos surdos eram marginalizados e excluídos da sociedade. consideravam-se os surdos “doentes” e “anormais”. 6 Lei de Acessibilidade disponível em: http://www. ou mesmo a surdez como uma doença que pode ser curada. mesmo com as iniciativas de políticas afirmativas que possibilitam a este grupo a inclusão social permitindo que exerçam a sua cidadania.br/ccivil_03/Leis/2002/L10436. Disponível em: http://www. 2008. educacional e sociocultural. precisava aprender a escutar e a falar. Focalizando acessibilidade para as pessoas surdas na área da saúde. mas este era ainda visto como alguém com “defeito” e que precisava ser “consertado”. fazendo com que o sujeito surdo não consiga por enquanto exercer sua cidadania enquanto sujeito social.” (STROBEL. houve uma nova concepção para pensar o sujeito surdo. No século XXI. Acesso em 23 de maio de 2009. interpretada para o contexto da surdez. representado pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS5 – e pelas Associações de Surdos presentes nos Estados do Brasil. percebendo os surdos como deficientes.br/page/. Este grupo.planalto. em espaços públicos como hospitais. 7 Lei de LIBRAS disponível em: http://www. os surdos possuíam atividade educacional.10). “aprendendo” a falar. na pós-modernidade. O que reflete ainda uma visão clínica – de médicos e demais profissionais da área da saúde – da surdez. levando-os ao isolamento em instituições. sem ter uma vida ativa. 23-24) Após longo tempo de sacrifícios. surgiram as técnicas de treinamento auditivo e a terapia da fala.planalto. linguístico e político da surdez. é necessário entender que muitas vezes a acessibilidade não é aplicada na prática. clínicas e demais lugares onde a Lei de Acessibilidade6 e de LIBRAS7 ainda.feneis.

Ou ainda pelo fato de estarem inconscientemente habituados com a sociedade. a comunicação total10 e. o objetivo da normalização é tornar o surdo uma pessoa ouvinte.18 profissionais.] a existência da comunidade surda. 2005) 10 Comunicão Total: utiliza-se toda uma diversidade de métodos para alcançar a oralização do surdo. (PERLIN. Só assim ele alcançaria a normalidade” (CARVALHO E LEVY apud NOGUEIRA & SILVA. O que estão sentindo? Qual sua enfermidade? Muitas vezes. o diferente. o bilinguismo11. Pode ser visto como estratégias colonialistas dos grupos dominantes – ouvintes. das identidades surdas e das experiências visuais. mas pela diferença linguística e de perceber o mundo. sendo reprimido pelo uso de qualquer gesto. consertar. 8 Para Skliar (2005). pela ausência da experiência auditiva. recentemente. controlar. pela sociedade. da língua de sinais. pois o sujeito surdo é visto como o deficiente. para o atendimento destas pessoas. que determinam o conjunto de diferenças dos surdos em relação a qualquer outro grupo de sujeitos. embora o que se queira seja uma comunicação plena e todas as especificidades da língua. 71). expressão facial ou corporal que se refira à língua visual. além disso. Como o caso do ouvintismo. ao atendimento médico em si. o objetivo era a integração do sujeito surdo à sociedade. normalizar. são eles: o oralismo9. “através da estimulação auditiva. uma personalidade de ouvinte. 2008. ora usada como língua de educação. a dificuldade de descobrir como lidar e atender esses sujeitos está na inabilidade e desconhecimento de como se comunicar com eles. mostrando que a surdez não é marcada pela ausência da audição. que busca sempre a normalização 8 dos sujeitos surdos. 9 Oralismo: é a aquisição da língua oral. Nogueira & Silva (2008) mostram os três momentos ocorridos na história da educação dos surdos. ao posto de saúde. p. a representação do ouvinte sobre o surdo. a surdez aqui era vista como uma deficiência que poderia ser tratada e minimizada. A diferença é que a língua de sinais é utilizada como apoio para o aprendizado da língua oral e escrita. 2005) 11 Bilinguismo: a língua de sinais é vista como comunicação do surdo ou como ora repensada como português sinalizado. O surdo aprenderá a língua oral (preferencialmente na modalidade escrita) que é a língua dos ouvintes. de maneira geral. (PERLIN.” (SKLIAR. o surdo é obrigado a “olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte” (p.. (PERLIN..07) Para entender um pouco melhor como surgiram os métodos lingüísticos que procederam essa tentativa de normalização. segregar e negar. Portanto. e de qual o motivo que as traz ao hospital. o surdo deveria desenvolver a língua oral e. Skliar nos mostra que para chegar ao padrão de normalização a sociedade passou anos e anos tentando corrigir. Com o ensino do método do oralismo. E para os sujeitos surdos não é possível que isso ocorra. 2005) . p. 2005. principalmente no que se refere à compreensão do que desejam. para os ouvintes. “[. 15).

seu fundador e o criador dos Sinais Metódicos. que devem atuar como mediadores do conhecimento.] a comunicação total vê a surdez como algo que irá interferir nas relações sociais. por volta da década de 1970. O terceiro e último momento histórico surgiu no final da década de 1980/ início da década 1990. Assim. pela inserção da língua de sinais nas escolas de surdos. Pedro II. se pautava na terapia da fala. amplificação sonora adequada. e não realizando atividades como terapias da fala e treinamento auditivo que deveriam ser exercidas. No Brasil. . fundou o Instituto Nacional de Surdos-Mudos – atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) – em 1857. de acordo com Carvalho e Levy.. Este é um sistema baseado na língua de sinais e foi visto como um meio de comunicação para os sujeitos surdos.19 A França foi o berço dos métodos gestuais.. durante anos. desde cedo. no caso. o processo de educação dos surdos foi semelhante ao da França. Vale destacar que o objetivo desse método ainda continua a ser a oralidade. “[. 71). sendo que foi D. ela passa também a ter acesso a sua segunda língua do país. e a primeira escola pública de surdos foi criada lá pelo Abade Charles Michel de L‟Epeé. a partir de uma diferença representada por eles mesmos. reforçando a importância do oralismo para os sujeitos surdos. gestos e sinais. a língua portuguesa. 71).. pelos profissionais da área da saúde – neste caso. são dadas a esse todas as possibilidades para se comunicar. a grande maioria dos profissionais – professores da educação – que realizavam algum tipo de intervenção. 2008. fonoaudiólogos –. 2008. p. 71). O outro momento histórico da educação de surdos no Brasil foi o início do uso da Comunicação Total. com isso.. embora tenha contribuído muito ao abrir espaço para a Língua de Sinais (2008. escrita. ocasionando certa confusão na função dos professores. não havendo um olhar para esses sujeitos. Segundo Nogueira & Silva: [. este método é pouco compreendido e utilizado para ensino de sujeitos surdos (CARVALHO E LEVY apud NOGUEIRA & SILVA. fosse ela clínica ou pedagógica. Nogueira & Silva (2008) destacam a luta. leitura. p. porém.] possibilitando a transmissão de conhecimento e de sentimentos. afetivas e cognitivas do surdo. com a chegada do bilinguismo ao Brasil. Com isso. passa a conhecer a língua de sinais. Com esse método. leitura orofacial. podendo se utilizar de fala. a criança surda. normalmente. em 1855. o Congresso de Milão em 1880 proibiu o uso da língua de sinais. que é vista como a sua língua materna. mas não ainda como uma língua desenvolvida” (CARVALHO E LEVY apud NOGUEIRA & SILVA. p. responsável por trazer Hernest Huet – professor surdo francês – para criar a educação dos surdos no País.

a educação e toda a trajetória de ensino fora pautada na oralidade. enfermeiros. interesses e estudos no seu cotidiano. pelas suas atitudes na escola. psiquiatras. Talvez. e não cabe a ele responsabilizar-se pelo que não faz parte de sua função. pelo contexto da educação numa perspectiva oralista. Isto se dava em razão da concepção oralista de ensinar os surdos a falar. Até meados do século XX. acompanhada pelo trabalho terapêutico dos fonoaudiólogos. psicólogos. ao mesmo tempo. o professor não é fonoaudiólogo. mas da maneira com que ele percebe e interage com o mundo por meio do canal visual. profissionais desta área. mímicas e da LIBRAS – enquanto língua oficial de comunicação e expressão das suas necessidades. os profissionais da educação não sabiam exatamente como realizar um trabalho pedagógico com os sujeitos surdos pela dificuldade de se encontrarem diretrizes para esse tipo de trabalho. discriminatório. Portanto. Com relação à área da saúde no decorrer da história dos surdos. mas sim educador. não somente do sujeito. atualmente amenizado. focalizando a terapia da fala. uma maneira de desconsiderá-los na sua diferença linguística – usuários de gestos. que exerciam atividades dos profissionais da área da saúde. com a saúde de seu educando no sentido de perceber. Deve-se preocupar. O papel do professor visa à mediação dos conteúdos escolares e o que as políticas educacionais apresentam. Neste caso. afinal. Ao mesmo tempo. de aplicar técnicas e práticas terapêuticas – terapia da audição e da fala. ensinar o surdo a falar. percebe-se o conflito de funções existentes na área de educação. entre outros necessários para cuidar também do seu bem-estar. utilizando a língua de sinais para se expressar e comunicar. cuja pretensão estava em fazer o surdo “falar”. Cabe refletir sobre uma observação . há outros profissionais cujo objetivo é cuidar da saúde do sujeito surdo. como os médicos. contribuíam para que a normalização dos surdos fosse socialmente difundida. se traça um olhar por vezes normalizador. a não ser por meio da oralidade. sim.20 Em uma sociedade que vê o professor como aquele que ensina. É necessário que essa mistura de responsabilidades seja evitada para melhor desenvolvimento educacional do surdo e da consciência da sociedade quanto à função de cada profissional. assim como deve realizar seu próprio trabalho. pois delegava-se aos professores exercer a função de fonoaudiólogos. sendo. controlar o tom da voz e a sua intensidade. a família não tivesse alternativa que possibilitasse o desenvolvimento psíquico. mostrava o motivo da confusão de funções entre os profissionais da educação. pois também os profissionais que trabalhavam com esses sujeitos. juntamente com suas técnicas de treinamento para memorização de como articular as palavras. biológico e social de seu (sua) filho (a) surdo (a). se ele está se desenvolvendo bem física e emocionalmente.

.. mas que permeiam os seus pensamentos: como ser surdo em um mundo ouvinte? Ir para a escola com o objetivo de estudar os conteúdos curriculares ou para aprender a falar? Como o surdo desaprenderá a falar? Pois.] (apud PERLIN. da língua de sinais. O surdo necessita de sua visão para adquirir experiências vividas no mundo. captando significados diferentes. se o profissional mantiver a visão de que o surdo precisa aprender a falar. 02) afirmam que ser surdo não se trata da deficiência e sim de uma questão de vida com experiências visuais. ou seja. ser homem ou o estado de passagem. Strobel. os surdos ingleses tiveram um espaço criativo para a invenção da nova palavra deafhood..186). permitindo-lhe exercer sua cidadania na sociedade. daquele cuja voz é constitutiva do eu”. p. na visão dos ouvintes. O termo “ser surdo” é denominado Deafhood pelo inglês surdo Paddy Ladd (apud PERLIN. estará de acordo com o padrão de normalização. ser mulher ou o estado de ser ou atingir. por trabalhar em um ambiente onde a maioria dos empregados são ouvintes e desconhecem a língua de sinais. Mas muitas vezes o sujeito surdo não tem essa oportunidade porque convive com uma família de ouvintes. para os ouvintes. Então. significados para os tempos atuais [. p. por estudar em uma escola onde ele é o único surdo.. o mesmo autor afirma: [.21 apresentada pela pesquisadora: a área da saúde também visa a obrigar o surdo a falar? Pois. mas também para a continuidade da exploração de novos níveis de significado. poder se expressar. porém não significa surdez e sim ser surdo. entre suas aspirações e as intervenções da sociedade. (apud LODI. Perlin & Miranda (2003. . Bakhtin enfatiza que o sujeito “necessita do outro. O que concorreu para a formação da palavra deafhood? O inglês tem substantivos como manhood. necessita do Outro. pois o eu não existe sem o Outro. se o surdo utilizar somente a língua de sinais. nesse caso. O processo da construção da subjetividade e a presença do Outro se tornam “mais fáceis”. para o surdo. muitas vezes é o sujeito ouvinte. e isto é conflitante porque o sujeito surdo consegue perceber sua diferença também pelo modo de ser e de perceber o mundo do Outro ouvinte. pelo fato de eles possuírem a audição. de viverem em uma sociedade onde a maioria dos sujeitos é igual a ele. p.. Para definir melhor o que é ser surdo. Com essa pretensão de querer normalizar o sujeito surdo. o surdo se permite conhecer o mundo a sua maneira e se expressar com a sua língua – que é a língua de sinais. o sujeito surdo mantém alguns conflitos internos12. pesquisadora 12 O conflito interno ocorre quando se trata da subjetividade do sujeito surdo. ampliar seu conhecimento. 2003. como foi apresentado anteriormente por Skliar (2001). pois a “experiência visual significa a utilização da visão (substituição total à audição) como meio de comunicação”. é uma palavra nova. 02). 2003. se se comunicar através das mãos e expressões faciais e corporais.. p.] este termo concorre não somente para mover-se e ligar-se à comunidade surda. 02). subjetivos. ou seja. womanhood. deixará de exercitar a oralidade. E com os sujeitos surdos? O Outro. Para que o sujeito possa construir a sua subjetividade. Para o surdo poder construir a sua subjetividade necessita encontrar seu Outro que possibilitará a constituição de sua identidade. 2006. Com essa experiência. Com isso. a sociedade poderá desencadear fatores de conflito entre o ser surdo e o que ao redor dele existe. podendo “esquecer” como se fala.

2001. é possível que os pais acreditem que esses filhos apresentem algum “problema” psicológico. culturas.] o ouvinte estabelece uma relação de poder. sentimentos de revolta e insegurança diante de vários contextos... problemas de afetividade e relacionamentos. 2004.) A visão clínica da professora prioriza a necessidade de o sujeito surdo saber falar adequadamente. Por não haver. o encontro com seu “par igual”. diante dos estigmas sociais. a família na maior parte das vezes desejará que a criança seja vista como “normal” e para isso dela se exigirá a fala e que tenha atitudes de uma pessoa ouvinte. instigando a menina a falar. que podem ter implicações em sua vida na sociedade. nível social. o outro surdo que faz com que “eu” construa a sua subjetividade e identidade enquanto pessoa surda. as imposições dos ouvintes. sofrem danos psicológicos como quadros de ansiedade. 59) Seria esta a relação de poder..]. Com estes tipos de pessoas eu aprendi um sentimento de que era preciso esconder de que sou surda..]”. ao serem excluídos na própria família ou quando são obrigados a ser e a agir tal como as pessoas ouvintes. Na citação. os filhos surdos são levados ao psicólogo. vivenciou em sua infância a discriminação e a possibilidade de uma nova descoberta linguística – Língua Brasileira de Sinais – diante de um discurso de uma professora: Quando eu comecei a frequentar a associação dos surdos. como afirma Solé (2005).... uma comunicação compreensível que permita a interação familiar e a percepção dos pais de que poderia estar havendo um simples problema do cotidiano. neste caso a família: “[. raças. poderia gerar questões como: não tinha contato com a língua de sinais? Será que havia dificuldade na comunicação. fingir e imitar os outros que ouvem e isto me fazia ficar mais confusa.]. Com a falta de comunicação entre pais ouvintes e filhos surdos. irmã da professora. Por quê? Os pais e a irmã da menina surda queriam que ela apresentasse o padrão de normalização que se exigia socialmente? Possivelmente sim. Dentre . [. a menina surda.. ou por não se saber diferenciar o certo do errado. buscando normalizá-lo e privá-lo de conhecer a Língua Brasileira de Sinais LIBRAS. desencadearia o “estar” reprimida? Ou ainda.] esta mesma professora tinha uma irmã surda que era muito reprimida sempre isolada em sua casa e com conflito de identidade e com uma fala difícil de compreender [.22 surda. reprimindo o seu “ser surdo”. A família. [. na maioria das vezes.. foi apresentada como uma pessoa reprimida. isolada. contribuindo para que ela estivesse sempre excluída na própria casa? Ressalta-se que os sujeitos de diversas etnias. p. ouvinte e surdo. E são aceitas.. (PERLIN apud SKLIAR. de dominação [. passivamente. (STROBEL. uma professora questionou a minha mãe „você vai fazer sua filha a desaprender a falar‟.

23 as queixas que os pais relatavam quando vinham falar de seus filhos surdos. por meio das descobertas e discussões. Ainda. os psicólogos – refletir sobre sua prática. no primeiro atendimento foi identificado que este filho apresentava comportamentos contraditórios àqueles pelos quais os pais o trouxeram. Ao conviver com os ouvintes. (STROBEL. foi possível identificar a queixa dos pais de filho surdo relatando que ele apresentava comportamentos agressivos. Se este realmente apresentar algum “problema” psicológico. 2008) . educar e desenvolver o relacionamento familiar. Com relação à “escuta” dessas queixas. como o profissional conseguirá perceber os seus sintomas “escutando” apenas a queixa paterna? Durante a experiência da pesquisadora no atendimento psicoterapêutico. A exclusão do sujeito surdo em sua própria família e o sentir-se confuso pelo contexto em que vive fazem-lhe surgir a necessidade de buscar um espaço onde possa apresentar as suas queixas e amenizar seus sofrimentos. além de “escutar” o relato dos pais. a cultura surda e quaisquer outros laços. aos amigos ou ao trabalho. sofre com as obrigações – e pressões – para aprender a falar e fazer parte da sociedade. o encontro com o outro lhe permite sentir-se acolhido por esse outro. independente da evolução linguística. o profissional também deve “escutar” o que o sujeito surdo tem a dizer e. em que a sociedade quer fazer dele o que ele não é: um ouvinte. utilizando a língua de sinais. a mesma autora nos mostra que a falta de limites era o que mais a intrigava. por um código ético de formação visual. dificuldade de aceitar limites e de relacionamento. Portanto. porém. cabe aos profissionais – nesse caso. sejam eles relacionados à família. Muitas vezes. perceber semelhanças ou diferenças. tal como a língua de sinais. Strobel mostra então que. o problema pode estar também nos pais ao não conseguirem manter uma comunicação e estabelecer um diálogo a fim de impor limites. pois quando ele passa a conhecer e a vivenciar a história do surdo desenvolve a sua identidade pessoal com uma visão mais sistematizada sobre a sua diferença e a do povo surdo13. e faz com que ele encontre o seu lugar na comunidade surda. mas estão ligados por uma origem. assim. Os sujeitos têm suas responsabilidades e liberdade de escolha de estar com o grupo com que se identificam. possibilita a construção da sua identidade surda e o desenvolvimento da percepção de si enquanto sujeito surdo. pois durante o atendimento direciona-se a atenção mais para a queixa dos pais do que para a do sujeito surdo. como afirma Larrosa & Pérez de Lara: 13 Povo Surdo: refere-se aos sujeitos surdos que não habitam no mesmo local. “constrói” por vezes uma identidade ouvinte e novamente aparece a normalização citada. O encontro do surdo com o seu “par igual”. para o sujeito surdo. entre o qual vive.

Peres (2003) mostra que uma pesquisa da equipe formada por um psicólogo e estagiários visava a efetuar a investigação psicológica das crianças surdas.. além do processo de luto que ocorre antes de se passar a aceitar o filho surdo. “As identidades surdas estão nos sujeitos surdos e se constituem de diferentes formas e a partir de diferentes representações e concepções. Para comparar e expor essas e outras questões. Isto leva a pensar sobre o papel da família no processo de descobrir-se. Skliar (2001) e Solé (2005). 1998. poucos explicam qual instrumento foi utilizado durante a intervenção. não possui conhecimento sobre tal deficiência. Muitas vezes isso acontece porque não conseguem se identificar como parte da vida do surdo devido a diversos fatores. descobrir a língua de sinais e o que se é. mais arrogante. p. É o mesmo caso do sujeito surdo: com a descoberta da identidade surda.24 [. fonoaudiologia. Quando não sabe a língua de sinais. o sujeito surdo sofre com a carência de informação. focalizando a personalidade dos sujeitos e suas relações com o mundo exterior. como no caso da família não conseguir reconhecer sua identidade como família do surdo. ou seja. o que faz com que a relação do surdo com a família e outras pessoas seja complicada. Strobel (2008). De acordo com autores como Perlin (1998). criando “falhas” na comunicação assim como a pouca transmissão de informação entre seus componentes. p. 2003. enfermagem e pedagogia. sente-se melhor por se encontrar como indivíduo dotado de singularidades e pluralidades. 39). há pouca literatura sobre a intervenção do profissional com o sujeito surdo nas áreas de psicologia. podem-se desencadear nele o sofrimento psicológico e o conflito interno. quais são suas carências e suas aspirações. se possível. sentemse melhor consigo mesmos. interagindo com a comunidade surda e vivenciando a cultura surda. como revolta. 119) Quando os sujeitos – no caso dos ouvintes – descobrem a sua identidade. o que é que lhe falta. em termos de segurança e confiança. E a alteridade do outro permanece como que reabsorvida em nossa identidade e a reforça ainda mais.] somos nós que decidimos como é o outro. Na área da psicologia. . é preciso perceber se a língua de sinais é ou não aceita e/ou usada neste contexto. Percebe-se que quando o sujeito não encontra a sua identidade na própria família. como o sujeito surdo se vê na sociedade em que habita.. além disto. em relação à família. Mas. rejeição e sentimento de culpa.” (PERLIN. de que necessita. a maioria das famílias de surdos não sabe a língua de sinais. mais segura e mais satisfeita de si mesma (apud SKLIAR. tornaa. É necessário ver o outro lado da questão. Essa aceitação pode não ocorrer de forma satisfatória porque a maioria das famílias ouvintes não está preparada para receber um membro da família com deficiência e.

” (PERES apud KOLCK. preocupados em não obter informações. porém era necessária a presença de um intérprete para conseguir melhores resultados na coleta de dados.25 Nessa pesquisa. de identidades. A escolha do instrumento foi adequada para utilização com as crianças surdas. 2003. há fragilidade nas discussões e produções acadêmicas voltadas para as características das intervenções clínicas dos psicólogos com sujeitos surdos. evidencia-se a dificuldade encontrada pela equipe diante das crianças surdas. a idade variava na faixa etária de seis a doze anos.. mas não esclarece se as professoras possuíam conhecimento de língua de sinais. apesar de contarem com o auxílio das professoras das crianças. de saúde e de respeito aos sujeitos surdos. Parece haver dificuldades de trabalhar com tais pacientes devido à forma de comunicação que eles utilizam e que é desconhecida pelos profissionais e por boa parte da sociedade – a LIBRAS. Baseados na teoria. Pagliuca et al (2006) abordam as técnicas utilizadas por enfermeiros para se comunicar com os pacientes dos hospitais de Fortaleza. pois além de este paciente se comunicar de uma maneira diferenciada. Muitos dos enfermeiros contam que ao se deparar com o paciente surdo ficam ansiosos. 07). omissão. Com isso. 04). cuja técnica visa a “avaliar a personalidade do surdo e também as suas interações com o ambiente. os pesquisadores identificaram dados indicando o que apresentava a maioria das crianças surdas pesquisadas: “[. Na área da enfermagem. tentando deixar o paciente mais calmo. Como os pesquisadores não sabiam a língua de sinais. Mesmo havendo literatura que aborda políticas linguísticas. quando não conseguem estabelecer uma comunicação com os surdos. desproporção de alguns elementos. na interação para intervenção clínica com o sujeito surdo. mímica e gestos. uns com muita fluência na LIBRAS outros menos. tende ao isolamento e à introversão e encontra severas dificuldades nos relacionamentos interpessoais. escolheram uma técnica que facilitasse a comunicação. apesar do esforço para estabelecer uma comunicação. eram onze as crianças surdas participantes. cinco delas do sexo masculino e seis do sexo feminino. a equipe contou com a ajuda das professoras das crianças surdas. p. educacionais. p. afirmam que estão despreparados e têm dificuldades. 2003.] sentimentos de inadequação e inferioridade. As enfermeiras relatam as dificuldades impostas por conta da comunicação e as estratégias utilizadas para obter respostas dos pacientes.” (PERES. o instrumento utilizado durante o trabalho foi o House-Tree-Person (HTP). Os desenhos realizados pelas crianças surdas demonstraram ausência. o psicólogo pode sentir dificuldades no atendimento. Com isso. o profissional pode . recorrem aos familiares para obter as respostas.. Tais profissionais.

os da área da saúde. para identificar as queixas e diagnosticar o paciente. é um desafio.26 equivocar-se no momento de identificar a sua queixa por não conhecer outro tipo de comunicação que não seja a oral. o mais coerentemente possível. Os pais também precisam de atendimento psicológico. . pois a perspectiva que se tinha era de que os surdos eram incapazes de realizar qualquer tipo de atividade. Muitas vezes. O conflito reside no sujeito surdo e no fato de que ele necessita de atendimento psicológico. Mas é importante também que os psicólogos busquem os familiares para entender a história desse sujeito. neste caso. A relevância social desse trabalho se dá ao mostrar. É importante que os profissionais aprendam a língua de sinais. Porém. por não saber como se relacionar com seu filho surdo. com isso. diferenciando-se pela língua que utiliza. realizar intervenções mais adequadas com resultados mais pertinentes para um diagnóstico. mas também fomentar cursos de LIBRAS nas grades curriculares e cursos de especialização. a necessidade de conscientização de profissionais habilitados para o atendimento dos sujeitos surdos. no caso desta pesquisa. pois não lhes é oportunizado “falar” sobre a sua dor e receber informações sobre as possibilidades de seu filho ter uma vida social como qualquer outra pessoa. porque a criança nasceu “assim”. tanto para as autoridades quanto para a própria sociedade. nos espaços destinados à área da saúde. pensando em estratégias de comunicação e instrumentos a serem utilizados. e o desespero. como no caso dos enfermeiros. é conhecer a versão do sujeito surdo e não somente a que sua família apresenta. com a descoberta da surdez e suas implicações – como a decepção e o sentimento de culpa dos pais. sujeito surdo e comunidade surda e de saber como organizar o atendimento. bem como na adequação da intervenção para o sujeito surdo. qualquer queixa traz à tona a história dessa família em que nasceu uma criança aparentemente “normal” e. buscando melhorar o quadro clínico desses sujeitos. tão logo. Devem-se não somente trazer para dentro das universidades as discussões sobre as intervenções clínicas e psicoterapêuticas com sujeitos surdos pelos profissionais da saúde. para que os profissionais se sintam preparados pelo menos para que se estabeleça a comunicação entre o surdo e quem for atendê-lo. podendo. Tudo isso leva a inúmeros sentimentos que não são externalizados pelos pais. focalizar a “escuta” dos sujeitos surdos é se permitir saber o que eles estão sentindo e vivenciando. Esta é uma maneira de se ampliar o conhecimento sobre surdez. os profissionais recorrem aos familiares. Ao mesmo tempo. Compreender o sistema familiar e trazer para o atendimento pais que estão em situação de fragilidade.

e também verificar as possíveis estratégias que o profissional poderá aplicar com o sujeito surdo.27 Para a comunidade científica. o que se deseja com esta pesquisa é possibilitar uma articulação entre comunicação e intervenção em se tratando de sujeitos surdos e profissionais. o pós-lingual terá como primeira a língua portuguesa. Ao se deparar com um profissional que conhece e utiliza a língua de sinais. Por fim. de modo a organizar suas intervenções com estratégias que lhes permitam adequar-se à demanda apresentada por tais pacientes. mas também permitem que o sujeito atendido se sinta seguro e satisfeito quando for para o atendimento. necessita da opção de ser atendido em sua língua materna14. que conheça outras estratégias para colher coerentemente o relato do surdo. a primeira língua para surdos vindos de famílias ouvintes não-sinalizantes. é importante a inserção de cursos. estagiários e profissionais terão ao aprender a língua específica dos sujeitos surdos. Isso porque o surdo. 14 Língua materna é a primeira língua usada por qualquer sujeito. se não for possível ao profissional saber a língua materna do surdo. sendo que a LIBRAS é a primeira língua para surdos vindos de famílias surdas ou de famílias ouvintes conhecedoras da língua de sinais. (QUADROS & KARNOPP. quando surdos tomaram conhecimento da existência de uma estagiária de psicologia surda. Este trabalho tem caráter científico por ser uma pesquisa inédita realizada por uma estudante de um campo de teorização. e a língua portuguesa. o surdo irá recorrer a este profissional. Como aconteceu com a procura pelo atendimento psicoterapêutico no Serviço de Psicologia da UNISUL. Esta pesquisa poderá levar a uma melhor compreensão sobre os sujeitos surdos em suas particularidades e também favorecer os profissionais que se deparam – ou poderão se deparar futuramente – em suas práticas psicoterapêuticas com sujeitos surdos. e poderá contribuir para a reflexão de estudantes. estagiários e profissionais da área de saúde. sem falhas – vindo este a ser diagnosticado efetivamente e favorecido com profissionais capacitados e conscientes da cultura surda e da importância de uma comunicação eficaz. Surdos pré-lingual e pós-lingual terão línguas maternas diferentes. como qualquer outro sujeito. cursos de especialização não somente garantem os benefícios que estudantes. 2004) . oficinas e palestras sobre Língua de Sinais no ambiente acadêmico. o pré-lingual tem a língua de sinais como primeira.

 Comparar os instrumentos utilizados por psicólogos surdos.28 1. quais as estratégias e instrumentos que facilitam o atendimento psicoterapêutico do sujeito surdo.4 OBJETIVOS 1.  Comparar as concepções de psicólogos surdos.  Verificar os instrumentos utilizados por psicólogos durante a intervenção psicoterapêutica com sujeitos surdos. psicólogos ouvintes que utilizam língua de sinais e psicólogos ouvintes que não utilizam língua de sinais sobre as estratégias e instrumentos que facilitam o atendimento psicoterapêutico do sujeito surdo. na concepção de psicólogos. 1. psicólogos ouvintes que utilizam língua de sinais e psicólogos ouvintes que não utilizam língua de sinais para realizar a intervenção psicoterapêutica com sujeitos surdos. psicólogos ouvintes que utilizam língua de sinais e psicólogos ouvintes que não utilizam língua de sinais para realizar a intervenção psicoterapêutica com sujeitos surdos.4.  Comparar as estratégias de comunicação utilizadas por psicólogos surdos.4.2 Objetivos Específicos:  Identificar as estratégias de comunicação utilizadas por psicólogos na intervenção psicoterapêutica com sujeitos surdos.  Identificar.1 Objetivo Geral: Caracterizar a intervenção psicoterapêutica realizada por psicólogos com sujeitos surdos. .

e que o surdo tem a possibilidade de ser “curado”.000Hz e 3. 17 “Decreto que Regulamenta a Lei no 10. Também “é entendido como disciplinamento do comportamento e do corpo” para que os surdos sejam aceitáveis à sociedade (SKLIAR 2005. p. A começar pela família.000Hz.626 de 22 de dezembro de 2005. Parágrafo único. considera-se pessoa surda aquela que. 16 O modelo antropológico descreve a surdez em termos contrários às noções de patologia e de deficiência. que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais . manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais . de 19 de dezembro de 2000. Ressalta-se que há aproximadamente seis milhões de pessoas com alguma incapacidade auditiva no Brasil.000Hz.” Disponível em: . no uso das atribuições que lhe confere o art. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS SOBRE SURDOS. de 19 de dezembro de 2000.Libras. caso da visão da maioria dos médicos – visão clínica. REFERENCIAL TEÓRICO 2. da Constituição.Libras.098. compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais. de 24 de abril de 2002. e no art. aferida por audiograma nas frequências de 500Hz. O Presidente da República. sendo isto constituído como uma constatação (SKLIAR.)”. Por um longo tempo. Há diferença entre o modelo patológico15 e o modelo antropológico16. Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral. 15 O modelo patológico descreve a visão que os médicos possuem quando se trata da surdez. Para os fins deste Decreto. 1. por ter perda auditiva. esses sujeitos ficaram excluídos das interações sociais por serem deficientes considerados incapazes e por não conseguirem estabelecer uma comunicação com os ouvintes. Porém. e o art.1.10). O Decreto nº 5. de “voltar a ouvir”. (DECRETO nº. 84. 2. e tendo em vista o disposto na Lei no 10. 5. SURDEZ E COMUNICAÇÃO Como foi observado anteriormente. 2001. pois para eles a surdez é vista como uma deficiência e/ou uma doença para que há cura. inciso IV. que regulamenta a Lei de LIBRAS – nº 10.098. parcial ou total.29 2. de quarenta e um decibéis (dB) ou mais.626 de 22 de dezembro de 2005)17. 18 da Lei no 10. Cabe entender que a noção patológica da surdez leva a ver o surdo como doente por causa da ausência da audição. 18 da Lei no 10. estendendo-se para o meio social.436.10). A falta de comunicação dos surdos com os ouvintes lhes trouxe implicações sérias no que se refere a seu desenvolvimento como sujeito. p. não há dados que nos mostrem no momento a quantidade exata de surdos no País. e isso pode levar a um não conhecimento da comunidade surda. não esclarece o fato de que a surdez esteja efetivamente incorporada ao discurso da deficiência.436. porém. a história dos surdos no mundo mostra que muitos deles foram discriminados na sociedade. de 24 de abril de 2002.436 de 24 de abril de 2002 – revela o modelo patológico da surdez ao definir o surdo como: Art. 2°.

Acesso em: 07 de maio de 2009. encontrado em um dicionário de psicologia. As observações recentes contribuiriam para acentuar ainda mais a importância do trabalho de Piaget. a linguagem oral. quando estiver me referindo aos surdos apresentarei a nomenclatura sujeitos surdos. os surdos-mudos18 podem adquirir. O significado utilizado para o termo surdez. para os chimpanzés (DORON & PAROT. sem serem levadas em conta sua língua e cultura. 735). é bom salientar que a linguagem dos surdos-mudos empregada nos Estados Unidos (ASL. Essas terminologias se enquadram em uma visão patológica. suas vocalizações quase não se diferenciam das daquelas que ouvem. http://portal. uma linguagem gestual que eles usam entre si. sem condições de ter uma vida compatível com a dos sujeitos ouvintes.gov. Isso porque este utiliza a língua de sinais e dispõe de menor possibilidade comunicativa que outro surdo que tenha o entendimento da língua oral. nesse trecho. Piaget. surdo-mudo. tende a enfatizar os resultados que minimizam esse atraso. pois o vocábulo “surdo” caracteriza aquele que não escuta. 2002. o surdo especificamente observado e analisado diante da prática do psicólogo será o surdo sinalizante. p. Em se tratando deste trabalho.30 Inúmeros conceitos sobre a surdez por vezes inferiorizam a pessoa surda. J. com certo sucesso. e também podem empregar. e também nas experiências sobre a extensão dos conceitos. Porém. em razão de sua opinião a respeito do caráter subordinado da linguagem no desenvolvimento operatório. Essas crianças são menos bem-sucedidas que as ouvintes nas experiências sobre a percepção de figuras complexas que envolvem designações verbais. conceitos estes que ainda são discutidos pelos surdos quando se encontram em ambientes públicos que não levam em consideração as particularidades desse grupo. desenvolve-se nelas com menos atraso que nos cegos. permanece em razão do conceito que é apresentado pela área da psicologia. A seguir.php?option=content&do_pdf=1&id=122&banco. na qual o surdo se situa somente como um conceito médico.mec. Até a idade de seis meses. demonstra uma visão antiga e equivocada – pois há literaturas que ressaltam a capacidade de pessoas surdas – afirmando o sujeito surdo como um ser incapaz. a partir de cinco ou seis anos. o conceito de surdez encontrado no dicionário de psicologia: Surdo-mudez: surdez congênita ou precoce que impede a aquisição normal da linguagem. 18 A expressão “surdos-mudos”. As crianças surdas-mudas conhecem menos palavras que as crianças ouvintes da mesma idade.br/seesp/index2. neste trabalho. e “mudo” denomina o que não fala. utilizando terminologias para nomeá-los como incapaz. Ameslan ou American Sign Language) pode ser ensinada. deficiente. . Vale enfatizar que o termo surdo-mudo não é aceito pela comunidade surda. em parte. porém. doente. Por meio de uma pedagogia especial. Enfim. O pensamento operatório.

ainda é citada a aprendizagem da língua de sinais. por chimpanzés. 2002. ordem. uma linguagem gestual que eles usam entre si. p. Em se tratando das duas citações. como qualquer outro. atualmente. pois a comunicação é essencial no momento da 19 Os termos usados na citação de Doron & Parot – linguagem gestual e linguagem oral – não são apropriados para a língua de sinais e a língua portuguesa. s/d. p. o conceito sobre surdez rotula o sujeito surdo como incapaz. em parte. Destaca-se a observação sobre a forma de compreensão da linguagem oral19 que pode não ser necessariamente a forma de uma criança surda se expressar. personalidade e outros tantos não poderão ser formados pela criança se ela não receber ajuda de professores especialistas nesse tipo de educação [. amor.. os surdos-mudos podem adquirir.] (LANNOY. sendo uma maneira de desqualificar as línguas de sinais utilizadas pelas comunidades surdas em todo o mundo. pois uma área do conhecimento especifica não pode definir uma concepção específica. traduz somente o que a criança surda não consegue fazer. justiça. Conceitos abstratos como vida. a partir de cinco ou seis anos.. desse modo. caridade. é importante destacar que na área da psicologia não há conceito definido sobre a surdez. Não apresenta seu desenvolvimento tal como uma criança ouvinte. na realidade. Língua e linguagem possuem conceitos diferentes. para constituir-se em um sujeito dotado de direitos e deveres. a linguagem oral” (DORON & PAROT. o que se vivencia é diferente do conceito exposto. Portanto. as dificuldades que os profissionais da área da saúde encontram situam-se no despreparo para lidar com esses sujeitos. Com relação aos espaços públicos. tanto social quanto psicologicamente. nesse caso a língua de sinais americana – ASL. as dificuldades também se situam na comunicação. 144). . eletricidade. Complementando a citação do dicionário de psicologia. Também.31 O dicionário de psicologia. Ou melhor. mas também há outros conscientes de que ela não está de acordo com os sujeitos surdos. a partir da teoria de Piaget. há o conceito de surdez na área da psicologia: A surdez não permite à criança adquirir palavras e. e também podem empregar. 735). seu pensamento é concreto. Sabe-se da existência de psicólogos que possuem essa visão. o surdo tem deixado de ser visto como um à margem da sociedade. além dos psicólogos há também outros profissionais da área da saúde com a mesma visão de que o termo como foi usado para denominar a surdez não é adequado aos sujeitos surdos. e ainda mostra que “por meio de uma pedagogia especial. Porém é necessário lembrar que. não devendo ser colocadas como semelhantes.

Os ouvintes apresentam um discurso sobre os sujeitos surdos: pessoas que vivem isoladas. enfatiza-se o não conhecimento dos profissionais sobre a língua de sinais. para que estas possam somente aprender a falar. psicóticos. sendo catalogados não apenas como não-ouvintes. afásicos e esquizofrênicos? Mais uma vez. no decorrer da leitura. ao mesmo tempo. Os surdos adultos são isolados. o que é ser surdo. Será possível verificar. mas ao mesmo tempo são iguais. Nota-se com os dois conceitos de surdez de campos distintos – modelo clínico e antropológico – que os ouvintes aparentam manter uma visão errônea sobre os surdos. psicóticos. uma devastação psíquica sistemática nos surdos. deficientes mentais. (SKLIAR.. a diferença que os dois possuem é a experiência auditiva para os ouvintes e a visual para os surdos (SILVA. Skliar (2005) mostra que as crianças e os adultos surdos não interagem entre si. há também o ponto de vista dos ouvintes sobre os surdos.32 intervenção. exatamente. Mas. Antes de conceituar o que é surdez e o que é ser surdo. o que pode gerar dificuldades durante a intervenção.. interagindo – quando há interação – apenas com a família ouvinte. mas como autistas. comunicação e cultura dos sujeitos surdos. e também que a educação apresentada nas escolas possui diferentes objetivos a cumprir com esses sujeitos. os ouvintes possivelmente aparentam não ter conhecimento adequado da . como forma de evitar que interajam com as crianças surdas pelos “gestos”. Isto. por vezes fechando-se em guetos. Os surdos e os ouvintes são diferentes. pois a sociedade oprime os direitos do surdo em relação à identidade surda e o espaço no mundo em que se utiliza a primeira língua – Língua de Sinais Brasileira – LIBRAS. mas. como afirma Solé (2005). para captar a sua queixa. 2000). Estes estereótipos sobre os surdos não podem ser considerados inocentes e. 21) Mas os sujeitos surdos são assim? Autistas.] finalmente. seguindo a concepção de Stam e Shohat (1995). deficientes mentais. 2005. No caso das crianças surdas. os sujeitos surdos: [. afásicos e esquizofrênicos. com isso. é necessário conhecer as limitações e as competências do sujeito. não é uma visão equivocada. elas passam a maior parte do seu tempo em clínicas ou com a família ouvinte. p. infelizmente. Nota-se que há pouca interação entre eles. faz com que os profissionais mais desavisados – que não possuem esse conhecimento – diagnostiquem equivocadamente o sujeito surdo como possuidor de tais características. e. os diferentes conceitos de surdez. que permitem um controle social eficaz e determinam. Esta língua foi oficializada no Brasil. contêm formas opressivas. não buscando relacionar-se socialmente. Além do modelo patológico.

p. não podendo ser enfatizados pela visão patológica. pois como não possui a audição ela não tem como adquirir tal experiência. expõe o indivíduo a uma série de possibilidades linguísticas e [. Termo utilizado por algumas pessoas para classificar os sujeitos surdos que possuem algum resquício de audição e com o auxilio do aparelho auditivo possuem capacidade em captar sons e podem ser ou não sinalizantes.. o que logicamente não é viável. porém. letrado. civilizado. oralizados.” (SKLIAR. de forma alguma.33 oficialização e sustentam o estigma de que o surdo precisa aprender a “falar” na língua dos ouvintes. De acordo com a citação de Skliar. Tal como Sacks expõe: Ser surdo. e de todas as formas de compreender o universo em seu entorno. tendo ao longo de sua vida a experiência oral-auditiva: A surdez é uma experiência visual [. classe. . É preciso compreender que o conceito de surdo no âmbito cultural é linguístico. 21).. que se comunica com base nas trocas orais. significa não falar – surdo-mudo – e não ser humano. homem. Diferente da visão patológica.. Sujeitos surdos são singulares como qualquer outro. Skliar conceitua a surdez demonstrando que a experiência visuo-espacial do sujeito surdo o faz perceber o mundo. como falantes nativos [. bilíngues. Estes termos são utilizados na visão cultural e linguística.] a série de possibilidades intelectuais e culturais que nós. (SACKS. assim como os ouvintes. sempre procura interagir com os diversos grupos... outros. para eles. um surdo nunca interage somente com um grupo. coloca a pessoa numa situação extraordinária. fato que práticas sociais ouvintistas parecem ignorar. implantados21 e surdocegos. 2007. etc. etnia. p. a comunidade surda possui grupos diversos de sujeitos. ser branco. há uma imposição dos ouvintes para que a criança surda tenha a mesma experiência auditiva que eles. p. 129-130) 20 DA: sigla de deficiente auditivo. se constroem como experiência visual. portanto. nascer surdo. os surdos.. possuem gênero. “Ser ouvinte é ser falante e é. Não é possível aceitar. reduzindo a pessoa surda ao estereótipo. 27-28) Aparentemente. 21 Implantados: se refere a pessoas que possuem implante coclear. (SKLIAR. o visual da língua de sinais e disciplinar a mente e corpo das crianças surdas como sujeitos que vivem uma experiência auditiva. DA20. 2005. profissional. ser surdo.] e isso significa que todos os mecanismos de processamento de informação. profissão. Também há uma concepção discriminatória por parte dos ouvintes e. Diferenciando da experiência do ouvinte. 2005. também. tais como: surdos sinalizantes.] não podemos sequer começar a imaginar.

(DALCIN. sofrimentos – e um deles é o sofrimento psíquico. p. Só havia bocas abrindo e fechando. (DALCIN. diferente. Eu não aprendi nada durante muito tempo. Além de articulá-lo a uma sociedade a qual se vincula à comunidade citada. agora se verificará um pouco como os surdos se sentem ao descobrir que existe uma língua própria para a sua comunidade. com as pessoas com que se depara em ambientes externos. então. E com os três sujeitos surdos da pesquisa de Dalcin verificase que há o antes e o depois do encontro destes com a comunidade surda e a língua de sinais. Ao tentar se comunicar em uma língua que não era a dele existia sofrimento e desconforto por não haver uma compreensão adequada do diálogo tanto por parte dele quanto dos ouvintes. a comunidade surda. 2006. Foram apresentados os conceitos de surdez até aqui. filhos de pais ouvintes. pela falta de um dos sentidos fisiológicos do ser humano – a audição. em que diversos temas eram concebidos “ao pé da letra”. que é linguística e culturalmente completa. assim como os ouvintes.. não aprendia. Também houve a percepção de que a compreensão dos assuntos abordados circulava em uma dimensão mais concreta. Um deles relata como se sentia antes da descoberta da língua de sinais: Antes era calado. Segundo Dalcin. 192) O relato acima demonstra o sentimento do surdo quando não se sentia capaz de se apropriar da língua materna de sua família ouvinte – a língua oral. Pois muitos dos surdos entrevistados apresentaram uma dificuldade em: [..34 Definir o surdo como sujeito cultural é dar-lhe características. Há uma pesquisa realizada por Dalcin (2006) com três surdos adultos. . Todos os surdos eram iguais. com as regras estabelecidas e com os valores instituídos. que adotaram a língua de sinais na adolescência.] lidar com o simbólico. vê-lo como parte de uma comunidade. possuem vida ativa. angústias. Surdo não participava de nada. 2006. menos metaforizada. Era um silêncio total. p. os surdos. apresenta dificuldades na convivência com a sua família. ao estar inserido em uma comunidade ouvinte. Eu era triste. essa ausência leva-o a ser considerado um ser incapaz? Como não ser humano? Tal como o autor citado apresenta. o que é o sujeito surdo para a comunidade ouvinte? O surdo é sujeito patológico – surdez como doença – e marcado na sociedade também pela deficiência. em uma roda de amigos onde há aqueles que não se comunicam por meio da língua utilizada pelos surdos. mais centrada no corpo. com a cultura familiar. O objetivo da pesquisa foi investigar como a cultura familiar colabora para a formação da subjetividade do sujeito surdo. 188) O sujeito surdo. Então. Não era só eu. não dava opinião.

35 como foi dito anteriormente. sendo um contexto ou uma palavra. 199). sendo ele surdo ou não. de interação e recepção do meio social em que o sujeito em questão vive. muitas vezes. Muitas vezes. a um entendimento da língua de sinais. p. seguindo. trata-se de sinais criados pelos familiares e/ou amigos para obter uma comunicação com o sujeito surdo. muitas vezes. como os profissionais – focando os psicólogos – pensariam na intervenção psicoterapêutica dos sujeitos surdos? Como acontece o processamento psicossocial22 desse sujeito? É preciso lembrar que. . perdas? Dúvida que se apresenta sem resposta adequada. os profissionais desconhecem a dinâmica da interação com esses sujeitos. É utilizada para uma tentativa de comunicação facilitada. p. quando um dos sujeitos envolvidos não apresenta conhecimento da língua de sinais ou da língua oral. como planejariam uma intervenção clínica e psicoterapêutica? Dependendo do nível de conhecimento linguístico que o sujeito surdo apresenta poderá o psicólogo necessitar intervir de maneira mais visual do que verbal. o sujeito surdo era tratado de acordo com “ele não fala. o sujeito surdo mantém uma barreira comunicacional devido à diferença linguística entre surdos e ouvintes. sim. Mas. o que dificulta muito o entendimento do sujeito surdo quando os ouvintes utilizam uma linguagem metafórica ou expressões como às idiomáticas. mas isto ocorria antes de ele ter a aquisição da 22 Psicossocial refere-se ao desenvolvimento psicológico e social do sujeito. fazendo-os se sentirem solitários. sentimentos. eram bastante resumidos. mas utilizavam ou gestos caseiros23 ou uma linguagem composta por palavras simples apenas para informá-lo de determinados assuntos que. mas se vincula. 2006. como há em qualquer língua. O entendimento linguístico do surdo não pode ser imposto pela língua oral. reforçando a exclusão dos não ouvintes na comunidade ouvinte (DALCIN. as palavras ao “pé da letra”. Porém. Então. se os surdos não tinham uma compreensão abstrata. 23 Quando aborda sobre gestos caseiros. mas é falado pelos outros” (DALCIN. então como conseguiam se comunicar com tais familiares? Sim. com isso. a separação entre surdos e ouvintes ficou mais nítida. Mas. o isolamento social aumentou cada vez mais. Relatam também que. Se a língua de sinais não faz parte do cotidiano do profissional. seguiam ao “pé da letra”.198). Há metáforas na própria língua de sinais. possivelmente. havia comunicação entre eles. Na maioria das vezes os ouvintes não lhes explicam o significado do que está sendo exposto. com o passar dos anos. 2006. Desenvolvimento que se fundamenta no processamento das características cognitivas. os surdos não possuem uma compreensão metafórica da língua falada. como intervir de maneira visual quando falamos de emoções.

Emmanuele Laborit em seu livro O vôo da Gaivota24 define bem essa situação que muitos dos surdos vivenciam. São Paulo: Best Seller. E mais adiante: “O primeiro. como pode ser encontrado na ênfase de Dalcin: Até então. Diziam-me sempre: Emmanuele é surda”. o sujeito surdo. pois com a língua própria eles têm oportunidade de mostrar o “eu” para outras pessoas. (LABORIT apud DALCIN. Compreendo que esse mundo não se limita a meus pais. 2006. Ou então: “Ela o escuta. Não tinha mais aquela espécie de inocência de antes. possibilitando a ampliação dos conceitos. 199) Os sujeitos surdos não eram vistos como um ser igual aos ouvintes por falta da língua oral. o imenso progresso em sete anos de existência acabara de acontecer: eu me chamo “EU” (p. uma pessoa que não era “eu”. 2006). Nesse caso. . Posso compreender o mundo dos surdos. p. Faz com que se tenha mais participação na comunidade surda e uma vida mais ativa. e assim “liberta a mente aprisionada” (DALCIN. Os surdos perceberam que havia ausência de conhecimentos e informações em diversos assuntos. mesmo não conseguindo se adaptar ao que a família acreditava ser viável ao surdo.53). Não havia o “eu”. eles tiveram que batalhar para ser aceitos na comunidade ouvinte. por exemplo. tem a capacidade de se expressar por meio dos sinais. como os psicólogos realizariam a “escuta” do sujeito surdo se normalmente a família do surdo está sempre falando por ele? Como se comunicaria com o sujeito surdo? Pois. falava de mim como se fosse uma outra pessoa. ela não o escuta”. que há outros também interessantes. Sacks (2007) comprova o que foi dito acima ao dizer que o sujeito surdo.. de contar tudo. p. que na verdade pautava sua educação a partir daquilo com que os profissionais. Identifica-se assim o quanto a língua de sinais é importante para a comunidade surda. conhecendo a língua de sinais. os orientavam. evitando que o outro fale por ele. (. Tinha construído uma reflexão própria.. no trabalho e nos contatos sociais. encontrei a grande chave que abre a porta que me separava do mundo. 204) A língua de sinais muda a vida dos surdos.36 língua de sinais. (DALCIN. por parte da sua família. mas os 24 LABORIT. com a descoberta da língua de sinais a curiosidade dos surdos se ampliou. sinalizante. de dizer tudo. Pode-se verificar no relato de Emmanuele Laborit o que ela sentiu depois da descoberta da língua de sinais e da comunidade surda: Com a descoberta da minha língua. de compreender tudo. O vôo da gaivota. Emmanuelle. fossem da área da saúde ou da educação. e também o mundo dos ouvintes. Necessidade de falar. Encaro as situações de frente. 1994. torna-se intelectualmente mais desenvolvido. 2006. passando a ter maior acesso às informações que ocorrem no país e no mundo. Eu era “ela” (p. Há mais interações com outras pessoas nas escolas. Porém.) Tornei-me falante.51).

Em se tratando da comunicação linguística. necessitando-se então recorrer a outra. terão possibilidades diferentes dos surdos sinalizantes. Em termos mais específicos. p. A comunicação é essencial ao desenvolvimento e à expressão do surdo. isto faz perceber que uma das estratégias de comunicação utilizada com o surdo pode não obter sucesso. O que pode causar perdas no processo psicoterapêutico. os símbolos motores representavam uma interpretação do texto verbal que o paciente estava comunicando. e outro em gestos [sinais].. 47) Ao surdo sinalizante. é possível utilizar a língua oral no atendimento psicoterapêutico..37 psicólogos que não utilizam e não compreendem a língua de sinais irão privá-lo de se expressar. o que levaria a uma dissociação ou duplicidade dos relatos do surdo. A palavra veio. num nível mais geral. pois às vezes não é possível utilizar a escrita com os surdos sinalizantes durante o atendimento. pois os psicólogos só possuem os relatos orais destes sujeitos para estudar o caso. Assim como há diferentes pessoas há também línguas diversas. entre outros. na ontogênese. muitas vezes. Se o surdo oralizado ou com implante coclear. os desenhos.. em termos linguísticos e sociais. o que pode ser observado em: A comunicação por comportamento motor tornou-se uma parte importantíssima da transferência [. mais provavelmente. cada surdo se expressa da forma com que tenha mais fluência e segurança linguística. dependendo da especificidade do sujeito e do caso. Tanto que é a língua que dá ao surdo a capacidade de se afirmar como sujeito linguístico: Nas relações do indivíduo com o grupo social.] (ARLOW apud SACKS.. na intervenção psicoterapêutica. gestos. [. deverá se disponibilizar no auxílio ao sujeito surdo da melhor forma possível. 2007. Aqueles símbolos motores continham material adicional que aumentava ou.] Sem saber. Aqui não se fundamenta uma comparação. O grau linguístico do sujeito surdo pode vir a ser um obstáculo para os profissionais. Goés revela que a comunicação é fundamental. como por exemplo. atividades lúdicas.. eu estava recebendo simultaneamente dois conjuntos de comunicação: um em palavras. mais adequada.] Em outras ocasiões durante a transferência.. ambos não sinalizantes. a caracterizar a condição humana. estão diante de um psicólogo não conhecedor da língua de sinais. contradizia o que estava sendo comunicado verbalmente. a linguagem é fundamental. a forma na qual o paciente se comunicava usualmente comigo. a linguagem tem a função de regular as ações e de . O profissional. como o paciente se comunicava. mas sim uma diferenciação. mas pode ocorrer que ele perceba que o que está pensando não condiz com a língua oral. [. compreendendo essa situação. dramatização.

.118) É possível verificar a importância da língua para o sujeito surdo. sucessos e insucessos. p. essa aproximação dos ouvintes com a comunidade surda permitiria aos primeiros conhecer e experimentar o cotidiano desses sujeitos.” (LANE apud SOLÉ. Harlan Lane. inclusão e exclusão. Não seria possível para os psicólogos que esse “experimentar o cotidiano com os surdos” fosse uma maneira de refletir e organizar adequadamente suas intervenções clínicas com esses sujeitos? Para uma melhor compreensão do ponto de vista dos psicólogos sobre o sujeito surdo. Mas será que os ouvintes não poderiam também se adaptar um pouco à comunidade surda quando encontrassem um de seus componentes? Pois.122). „explosão‟.] a construção social do indivíduo é uma história de relações com outros.). através da linguagem e de transformações do funcionamento psicológico constituídas pelas interações face a face e por relações sociais mais amplas (que configuram lugares sociais. mas estereótipos que ele define como „paternalismo‟. Tal visão é vinculada ao assistencialismo e ao paternalismo. (GOÉS. que não são descrições objetivas.. o indivíduo prepara um ato a ser consumado. ganhos e perdas.. sem prejuízo para o sujeito surdo ou para o sujeito ouvinte. Através da linguagem. a língua de sinais. Vygotski mostra que as relações sociais são constituintes do sujeito. elabora uma lista de adjetivos e características dos sujeitos surdos por meio da investigação psicométrica. ou seja. os sujeitos surdos procuraram adaptar-se à comunidade ouvinte sem obter sucesso. nos quais o ouvinte vê o surdo como ser faltante e suas queixas diagnosticadas como o que foi descrito .32). p. 2000. imaturidade. e é necessário que os profissionais da área da saúde. aprendendo ao mesmo tempo. estudo e/ou trabalho. com isso haveria uma troca mútua entre as partes. formas de inserção em esferas da cultura. 2000. psicólogo americano. (GOÉS. suas atividades. inclusive os psicólogos. chegando ao isolamento social imposto pela língua. os adjetivos e características relacionados são “agressividade.122) Por muitos anos. papéis a serem assumidos etc. depressão. 2000. etc. 2005. p. com os surdos. enfim. Também. E ainda afirma que: [.. p.] e “eu sou uma relação social de mim comigo mesmo” (VYGOTSKI apud GOÉS. visando a necessidade de comunicação. “nos tornamos nós mesmos através dos outros” [.38 propiciar a conduta intencional humana. poderiam vivenciar um pouco esta realidade para saber como se relacionar com esses sujeitos. saibam a primeira língua do sujeito para poder minimizar a ansiedade e as barreiras atitudinais comunicativas. a partir da maneira como eles percebem o mundo.

por exemplo. identidade e a língua de sinais do sujeito surdo. Como se somente o educador fosse responsável pelo surdo. interpretado. tirando do psicólogo algumas “responsabilidades”. porém. mas sim tratar o surdo como um ser que fundamentalmente precisaria aprender a ser como o ouvinte. porém a competência do psicólogo na língua do sujeito surdo é necessária para a escuta.2. . portanto. porém sempre interligados ao que se vive na sociedade. todas as interpretações possíveis sobre o que convencionamos chamar de surdez são interpretações sempre culturais. e ainda é. Educar não compreenderia. que apresentam grau de comprometimento auditivo leve e têm capacidade de se comunicar pela língua oral. com isso. verificase que há poucas pesquisas sobre Psicologia e Surdez. que possui características contradizentes a essa visão. específico dos educadores. Dizer que não há uma psicologia da surdez remete ao fato de que na maioria das vezes o profissional está voltado para um treinamento da fala e da oralidade. numa tentativa de normalização. e há autores como Solé (2005). descobrir. uma vez que é impossível separar cultura do que se vive.39 por Lane. Meynard (1995) e Lane (1992) que afirmam a existência de psicólogos que não aceitam uma psicologia da surdez. (SOLÉ. outros apresentam grau de comprometimento auditivo profundo e se comunicam por meio da língua de sinais. assim. A PSICOLOGIA E A SURDEZ A surdez tornou-se um tema de interesse de vários profissionais. que variam desde o grau de comprometimento auditivo à variação linguística usada pelo surdo. Isto era. O que não reflete a realidade do surdo. 72).” (LOPES. há uma prática terapêutica para cada surdo e necessita-se ver o sujeito não como um só. aprender ou ensinar. 2005. “Portanto. Há sujeitos surdos. o conceito que engloba conhecer. mas cada sujeito surdo com suas especificidades. E por mais que se disponha de conceitos e características. ainda por ser descoberta”. e não se deve ignorar a cultura. sujeitos surdos e língua de sinais são conceitos que mantêm a possibilidade de caminhos diversos.07) 2. Há vários tipos de surdez. enfatizando que a escuta de pessoas surdas não é uma especialidade nem necessita de um profissional especializado. p. sempre haverá algo a ser descoberto. Solé afirma que não existe “uma „psicologia da surdez‟ ou que necessite de uma técnica muito especial de tratamento ou de uma abordagem teórica diferenciada e. p. 2007. Cultura. E tal sociedade sempre opinará.

experimentam maiores dificuldades. Essa pressão familiar vem da medicalização. Conrad selecionou três grupos de crianças surdas: com os critérios de surdez congênita. alguns surdos se submetem a tratamento fonoaudiológico com a intenção de se promover uma terapia da fala. não tendo ocorrido uma organização da função neurológica.. Para isso.40 Instigados pela família. por conta dos custos altos do tratamento com fonoaudiólogo. (MARCHESI.. é importante os psicólogos entenderem o grau da perda auditiva do sujeito surdo antes de realizarem o atendimento.] e sua competência linguística é demasiadamente frágil. 2009). pois já possuem conhecimento do que pode beneficiá-lo como. adotar proteção excessiva ou não se adaptar à necessidade desta criança surda. Para cada grupo formado analisou-se que as crianças com a surdez adquirida tardiamente apresentaram uma experiência melhor com o som e com a linguagem. Identificam-se também as reações dos pais ao tomar conhecimento da notícia de seu filho ser surdo e a influência dessas reações na criança surda. por exemplo.. e as reações dos pais ouvintes podem influenciar o desenvolvimento psicológico do filho surdo (ROSA.] a influência da experiência linguística dos três primeiros anos é tão pequena [. pela ausência da audição. surdez adquirida desde o nascimento até os três anos e surdez adquirida após os três anos. é comum encontrar surdos com graus de comprometimento auditivo variados utilizando a língua de sinais. 1995. Apesar dessa pressão familiar. Há pesquisas que comprovam o grau de comprometimento do desenvolvimento psicológico das crianças surdas em comparação com crianças ouvintes. Diferentemente dos pais surdos. a fim de que possam atender às necessidades de cada um. 1995). a família. ou ao menos tentar descartar. as crianças cuja surdez ocorre depois dos três anos têm uma dominância cerebral mais consolidada e podem manter sua linguagem interna. permitindo uma estrutura de comunicação satisfatória entre si. a comunicação em língua de sinais desde a descoberta da surdez.] modelos mais complexos para a aquisição da linguagem oral.. com isso. Para isto. a língua de sinais e. da aquisição linguística. Os pais ouvintes apresentam “[. facilitando o desenvolvimento linguístico.. não conhecedora do que é o sujeito surdo – e seus aspectos linguísticos e culturais –. pois: [. Alguns pais podem rejeitar ou negar a existência do filho surdo. os quais aceitam com mais facilidade a questão de o filho ser surdo. 199). aceita diretamente o que a sociedade impõe como correto – a normalização – e oprime o surdo ao descartar. as suas possibilidades de desenvolvimento intelectual e psicológico. para encontrar o . como afirma a investigação de Conrad (apud MARCHESI.. p. Ao contrário.

2005.  dificuldades intelectuais – crianças com debilidade mental leve ou profunda que acarreta lentidão na aprendizagem. uma hipotonia ou uma doença. por conta da dificuldade na comunicação linguística entre o surdo e o psicólogo (SOLÉ. pois há a estimulação sensorial. (SOLÉ. p. A “boa” aprendizagem é aquela que consolida e. sobretudo. Esta pode vir a apontar algumas características dos problemas psicológicos dos sujeitos surdos sem que estes sejam diagnosticados corretamente. Ao compreender o surdo pela visão paternalista e como sujeito construído pelo social. a experiência tem de ser tal que permita conhecimentos de um grau maior de generalidade em relação a um momento dado do desenvolvimento do sujeito.  dificuldades de comportamento – como agressividade e dificuldade de aceitar limites. tais como:  dificuldades motoras – desde um problema banal até atraso das aquisições motoras. Isto pode ser visto na afirmação de Goés ao se referir ao desenvolvimento do sujeito por meio da experiência e da aprendizagem: A aprendizagem que se origina no plano intersubjetivo constrói o desenvolvimento. alguns psicólogos podem literalmente „classificar‟ o sujeito surdo sem que este seja ouvido de forma compatível com o que apresenta. p. desenvolvimento simbólico e maior participação dos pais. (GOÉS. ao sensível. Todavia os dois processos não podem ser feitos equivalentes.20) Não somente a aprendizagem precisa ser observada. as experiências é que fazem deslocar as funções psicológicas nos contínuos de sensível-imediato e de restrito-abrangente que têm o efeito de fazer avançar o desenvolvimento. mas também a psicologia. A generalidade do conhecimento é entendida com base em duas dimensões: o espaço de abrangência de aplicação do conhecimento ao real e o nível de sua independência em relação ao imediato-concreto.41 modo de comunicação adequado e para compreender as experiências vividas pela criança surda. cria zonas de desenvolvimento proximal sucessivas.” (MARCHESI. atividades comunicativas e expressivas. É necessário lembrar que não é todo surdo que apresenta esses diagnósticos. pois nem toda a experiência de aprendizagem afeta o desenvolvimento de igual modo. 201) afirma que quando a criança surda recebe uma atenção educacional desde o início da surdez ela apresenta desenvolvimento satisfatório. p. 1995. 2005). ou seja. Alguns profissionais podem classificá-los como autistas ou psicóticos. p. 31) Muitos desses surdos são compreendidos a partir de uma dimensão de sujeito construído social e historicamente. Há também outro fator importante para o desenvolvimento psicológico da criança. Marchesi (1995. fobias. 1991. o que remete à visão paternalista. Para ter repercussão significativa. Assim sendo. leva-se a pensar no que o sujeito . 201). entre outros problemas. Solé também descreve alguns outros tipos de problemas identificados por psicólogos nos sujeitos surdos.

o que muitas vezes não está de acordo com as características e necessidades dos sujeitos surdos por possuírem diferentes experiências. “rotula” o surdo. ao analisar testes ou avaliações psicológicas o surdo não será avaliado como surdo. facilidades. Marchesi (1995). Mesmo com essa luta. 2005). entre outros autores. assim. Analisando o que foi dito anteriormente sobre diagnósticos. a comunidade ou cultura surda. Também. algumas literaturas apresentam teorias sob a visão dos ouvintes. no momento de identificação do profissional perante as queixas do surdo ocorre uma banalização. testes e resultados baseados nas pesquisas com os sujeitos ouvintes. mas sim em comparação com ouvintes. e não conhece. Os próprios surdos relatam que os psicólogos não estão capacitados para atendê-los. Como se todo e qualquer surdo tivesse um problema somente pelo fato de ser surdo. as dificuldades. Muitos dos psicólogos pesquisadores da área da surdez possuem conhecimentos sobre os fatores da surdez. dependendo da situação.42 surdo foi classificado ao longo dos anos por uma sociedade que não conhecia. o que não é necessariamente um diagnóstico direto de dificuldade generalizada. obviamente. Há uma vertente preconceituosa por parte dos terapeutas. ainda podem ser observados psicólogos que carregam uma visão equivocada sobre os sujeitos surdos. Alguns profissionais utilizam também as teorias. abaixo da média e não demonstrarão as reais características do estado mental e de conhecimento do sujeito surdo (LANE apud SOLÉ. Importante lembrar . Psicólogos necessitam compreender que quando o sujeito surdo se depara com as limitações do meio em que está inserido. Como exemplo do referencial citado temos Solé (2005). Gonçalves (2005). Porém. O psicólogo. Sem se levar em conta o que realmente o angustia. uma vez que há uma tentativa de diminuí-los e a idéia de surdez como síndrome a ser curada. e isso dificulta o processo do atendimento. Algo que poderia ser evitado se este profissional aceitasse a especificidade linguística e cultural do sujeito surdo. que vivenciam a experiência auditiva e não a experiência visual adquirida pelos sujeitos surdos. Porém. Esses testes terão resultados. os problemas citados anteriormente já são trabalhados na área da psicologia. e aqui entra a questão de rotular o sujeito surdo sem se dar ao trabalho de um diagnóstico coerente e condizente com o que ele realmente apresenta. sua real necessidade. não são todos os sujeitos que podem aparentar os mesmos problemas. generalizando-o. isto pode desencadear no sujeito diferentes comportamentos. dilemas e sofrimentos vivenciados pelos sujeitos surdos em sua vida cotidiana. De acordo com esse referencial.

a fim de criar melhor relacionamento da sua área com a condição de surdez.. 2.3.] promover a saúde. independentemente de ser surdo ou não. e percebeu o número reduzido de literaturas envolvendo a enfermagem e o surdo. 2005). 2004. A pesquisa de Santos & Shiratori visa a identificar as necessidades dos surdos em relação à área da saúde e saber se eles estão. mesmo que os profissionais manifestem dificuldades na comunicação. 2. mas também à normalização excessiva em que o profissional pode se basear (LANE apud SOLÉ.43 que essa não capacitação se refere não somente ao fato do desconhecimento da língua de sinais. (SANTOS & SHIRATORI. de fato. pois compete também ao enfermeiro orientar nos aspectos que se referem à saúde através de práticas educativas. INTERVENÇÕES DOS PROFISSIONAIS REALIZADAS COM SUJEITOS SURDOS E O PROCESSO DE INTERVENÇÃO Para entender um pouco sobre as diversas intervenções realizadas pelos profissionais – tais como psicólogos. sentiu a necessidade de realizar um melhor atendimento para os sujeitos surdos. fonoaudiologia. elas serão parcialmente abordadas neste capítulo.. independentemente das diferenças. pedagogos – com os sujeitos surdos. sem excluir qualquer grupo ou pessoas. 02) O sujeito. fonoaudiólogos. recebendo as orientações adequadas . necessita e possui direitos iguais quanto ao atendimento clínico.3. O que é apontado na pesquisa relatada do artigo de Santos & Shiratori (2004) surgiu quando uma das autoras – que é enfermeira – esteve presente em um curso de língua de sinais. p. enfermeiros. pois o compromisso social das enfermeiras visa a: [. Além disso.1 Intervenções de outros profissionais Os profissionais de outras áreas tais como enfermagem. pedagogos participam e praticam intervenções e precisam de meios para uma comunicação eficiente. com vistas à promoção e à prevenção.

a menos que seja requerido pelo grupo a fazê-lo. Há ainda os sujeitos surdos que respondiam às enfermeiras por meio da escrita ou do recurso verbal-oral. Ele guardará informações confidenciais e não poderá trair confidências. Os mesmos autores mostram que os sujeitos surdos participantes da pesquisa afirmaram sentir grandes dificuldades no atendimento clínico. sendo que a maioria dos profissionais utiliza a escrita para se comunicar com eles. as quais foram confiadas a ele. p. assim. Quando uma terceira pessoa é levada para a consulta. é necessário verificar a solicitação do sujeito surdo para a sua permanência durante a sessão. sentir e agir. 02) . seu modo de pensar. pois conseguiam se comunicar verbalmente e também apresentavam condições de responder pela escrita.. 2o. poderá entender as necessidades do paciente e. enquanto outros. não.] perceber sua visão de mundo. amigo ou intérprete.. Como revela o código de ética: Artigo 1o. que ao se deparar com o surdo no hospital ficam ansiosos e preocupados pelo fato de não estarem preparados para interagir com este sujeito. confidente e de equilíbrio emocional. consciente. segundo Pagliuca et al.44 dos profissionais. São deveres fundamentais do intérprete: 1o. recorre à ajuda dos familiares para obter as informações. assim: [. Quando o enfermeiro desconhece essas técnicas. 2002. os enfermeiros utilizaram estratégias como gestos ou o alfabeto manual impresso em papel (ao apresentar as letras do alfabeto manual para os sujeitos surdos. (QUADROS. formando as palavras). muitas vezes. minimizando seu sofrimento. com essas técnicas de comunicação utilizadas na intervenção o profissional poderá compreender o surdo e. 2006. pois alguns conseguiam entender os enfermeiros por meio da leitura labial. (PAGLIUCA et al. 32) Segundo Pagliuca. prestar assistência adequada. os enfermeiros mostraram que há surdos com características diferentes. necessitem levar algum membro da família ou intérprete para a consulta. Dessa forma. podendo ser esta um familiar. e para obter algum sucesso na comunicação. O intérprete deve ser uma pessoa de alto caráter moral. durante a consulta. honesto. Pela pesquisa dos autores. isto é. eles apontavam as letras. evitando interferências e opiniões próprias. O que faz com que os surdos. O intérprete deve manter uma atitude imparcial durante o transcurso da interpretação. pois alguns deles têm pouco conhecimento da língua portuguesa. É importante que os profissionais encontrem alguma alternativa para atender o sujeito surdo sem prejudicar as pessoas envolvidas e o próprio paciente. Os enfermeiros afirmam. (2006). p. Isso porque o sigilo na consulta é eticamente indispensável para que o sujeito se expresse.

quando o . 2. a seguir. a comunicação ocupa espaço insubstituível e se ela não é efetiva esta assistência torna-se falha”. (PAGLIUCA et al. a comunicação. como deveria. dificuldades que podem ser verificadas. neste caso. quando o sujeito surdo é acompanhado por uma pessoa no atendimento: O acompanhante do surdo é quem explica ao profissional os problemas de saúde que aquele apresenta. Há também relatos de surdos que sentem vergonha de falar o que lhes aflige diante de familiares ou de um intérprete. Porém. nervosos. 2004. 2006. demonstrando que souberam interagir com eles apesar das dificuldades encontradas. desanimados. ou seja. pelo fato de a família pensar que o surdo não precisa saber ou por não conseguir se comunicar com ele. as dificuldades apresentadas pelos sujeitos surdos durante a pesquisa de Santos & Shiratori (2004) se mostraram quando não houve a presença de intérprete. e muito menos da individualidade necessária para a sua exposição. por sua vez. pois “nesse processo. 02) Os enfermeiros afirmaram que as intervenções realizadas durante o atendimento com os surdos apresentaram bons resultados na comunicação. os surdos ficam. não tomam conhecimento da doença. eles não têm oportunidades nem mesmo de expor as suas dúvidas. e com isso são prejudicados. p.2 Intervenções dos psicólogos O objetivo da intervenção do psicólogo é possibilitar ao sujeito surdo qualidade de vida e diminuição dos sofrimentos. p. Também acontece de o profissional de saúde explicar à família sobre a situação clínica do surdo e este não ter acesso a tal informação. mas sim porque o seu acompanhante não o informou completamente a respeito. familiares ou algum profissional com conhecimento da língua de sinais. agitados. pois não conseguem passar a informação adequada sobre os sintomas nem entender a informação transmitida pelos profissionais. no caso da existência de problemas psicológicos.45 O instrumento relevante para os enfermeiros com os pacientes é. 10) O sujeito surdo revela.3. O momento que antecede a intervenção é o de preparação para o atendimento. portanto. que não recebeu a orientação do profissional não por omissão deste. por vezes. Estes. (SANTOS & SHIRATORI. sendo também a pessoa que recebe as orientações.

2009). análise e intervenção que se realiza através da aplicação sistematizada e controlada de métodos e técnicas psicológicas reconhecidos pela ciência. 17-18) A psicoterapia. técnica e conceitualmente. dentre elas: breve. De acordo com este autor. As dificuldades na intervenção do psicólogo com o sujeito surdo podem-se situar nas estratégias de comunicação verbal/não-verbal ou nas práticas terapêuticas. a psicoterapia é [.. um método.] prática do psicólogo. faz-se necessária a presença de um intérprete de língua de sinais para que haja uma intervenção condizente com a forma de comunicação possível entre esses sujeitos. Para Drawin. hospital – com o objetivo de trabalhar com determinados tipos de sofrimentos psíquicos. é importante ressaltar o conceito de psicoterapia. promovendo a saúde mental e propiciando condições para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de indivíduos ou grupos. No caso do atendimento psicoterapêutico entre sujeito surdo que utiliza a língua de sinais e ouvinte que não utiliza a língua de sinais. ou seja. p.. pois tanto o psicólogo quanto os estagiários perceberam falhas encontradas na execução dos desenhos por causa das dificuldades de .46 profissional percebe como se organizará para acolher o sujeito surdo na sua particularidade. focal. um processo científico de compreensão. Para Peres (2003). um caminho entre a ciência e a clínica. casal. pois era o mais adequado para lhes aplicar. p. Porém. E também..] compreendessem e fossem sensíveis quanto à integralidade e humanização” dos sujeitos surdos. também. o resultado dessa intervenção não foi um sucesso. família. (DRAWIN. referindo-se a profissionais. isto vai depender de cada sujeito e de como o sujeito reagirá diante da intervenção aplicada. 2009. Devem os psicólogos adequar a psicoterapia de acordo com o sujeito e suas queixas para que ocorra uma intervenção eficiente pelo profissional com o sujeito (DRAWIN. de apoio. que “[..01) afirmam a importância da presença de um intérprete ou de que o profissional da área da saúde possua conhecimento da língua de sinais para se obter melhor compreensão da queixa dos sujeitos surdos durante o atendimento. a teoria e a prática (DRAWIN. o instrumento utilizado com as crianças surdas para investigar a relação delas com o mundo exterior foi a técnica do teste psicológico House – Tree – Person (HTP) – . Quando se trata de intervenção psicoterapêutica. Pode ser considerada. pela prática e pela ética profissional. por se constituir. grupo. por conta da barreira comunicacional entre eles. é utilizada sob diversas abordagens – por meio de várias técnicas. portanto. 2009). a psicoterapia beneficia vários grupos sociais específicos – individual. Santos & Shiratori (2004. Não há uma intervenção específica para cada profissional. principalmente linguística.

Quanto à intervenção dos psicólogos. Peres (2003) mostra a pesquisa. além da técnica. papel/lápis – para estabelecer e garantir a eficiência na comunicação entre profissional e paciente. a fim de que se realizem atendimentos psicoterapêuticos com sujeitos surdos de acordo com as necessidades e especificidades de cada um. . não basta os psicólogos terem conhecimento da língua de sinais. a oralização com surdos aptos à leitura labial. Também há a hipótese de que as crianças surdas tenham encontrado dificuldades no momento da realização do teste psicológico por não receber instruções pertinentes para fazê-lo. No entanto. já citada. que podem ser tanto materiais – para beneficiar a comunicação – quanto técnicas e testes psicológicos. Ademais. por exemplo. Em relação aos instrumentos utilizados por psicólogos para trabalhar com sujeitos surdos no atendimento psicoterapêutico. realizada por uma equipe formada por um psicólogo e estagiários com crianças surdas em que se pôde verificar que o tipo da intervenção realizada não obteve sucesso.47 comunicação entre a equipe e as crianças surdas. é necessário também entender a percepção do mundo. Os psicólogos podem escolher os mais convenientes – como. como a escrita. talvez psicólogos possam encontrar outras estratégias de comunicação variando de sujeito a sujeito. A língua de sinais representa a estratégia de comunicação mais adequada a ser utilizada na intervenção psicoterapêutica com sujeitos surdos sinalizantes. pois as crianças surdas apresentaram falhas nos desenhos por falta de instrução sobre como realizar as atividades do teste psicológico HTP. de outras fontes de informação para que as crianças tivessem melhor entendimento do objetivo da atividade. a experiência visual dos sujeitos surdos. deparar-se com um psicólogo que utiliza língua de sinais representa “conforto”. 2005). Para os surdos. por saber que terão liberdade de se expressar sem a preocupação de encontrar palavras adequadas para descrever seus sentimentos. A estratégia de comunicação que a psicanalista Solé (2005) utiliza nas intervenções psicoterapêuticas com sujeitos surdos é a língua de sinais. mas nem todos os psicólogos a conhecem. Foi identificada a necessidade. a maioria dos testes psicológicos foi criada com o propósito de aplicação em crianças ouvintes. Portanto. Porém. Essa intervenção se refere à interação entre o psicólogo e o surdo e a como aconteceu a comunicação entre eles. esses instrumentos podem variar de acordo com a demanda dos surdos. os gestos. para que haja resultados positivos entre profissional e paciente durante a intervenção psicoterapêutica (SOLÉ. o objetivo desta pesquisa é identificar instrumentos utilizados por psicólogos com surdos. os desenhos e outras a serem descobertas e aperfeiçoadas.

2005. Lane enfatiza também os erros de diagnósticos dos psicólogos com os sujeitos surdos. Obviamente. os testes elaborados possuem um resultado baseado na média dos ouvintes. O que um grupo apresenta pode não ser o mesmo que outro. desenvolta e educada. Por isso não se pode usar o resultado obtido num grupo de ouvintes com os surdos. o que leva a conclusões também diferentes. já que possuem experiência de vida diferente e interação diferente. Não há. A respeito dos resultados. uma interação com ouvintes é diferente de uma com surdos. Esses testes não refletem a verdade sobre as características desses sujeitos ou seu estado mental e conhecimento. assim. que teria um diagnóstico mais promissor que o dos sujeitos surdos.. psicológica e sensorial dos surdos não os coloca num patamar inferior. como Rorscharch.. mesmo que o examinador tenha domínio da língua de sinais.” (SOUZA e PAGLIUCA.. somente sendo eles dotados de uma experiência diferente. 2005) Estes fatos demonstram que os surdos. pois muitos deles colocam o estigma referente à surdez antes de . ainda que o sujeito surdo seja capaz de entender a ordem recebida..] pois esses fazem o diagnóstico a partir das referências estabelecidas para uma classe média. pois os resultados também precisariam ser modificados para se adequar aos sujeitos surdos. instrumentos adequados para serem utilizados com os sujeitos surdos. p.. além de não serem capazes de captar a própria percepção do surdo sobre o mundo a sua volta. na área da psicologia..] os testes utilizados pelos psicólogos para examinar os seus clientes surdos são concebidos para ouvintes. 2002) Mas não se deve centrar somente no resultado. p. Além disto.” (LANE apud SOLÉ. a partir das suas particularidades. uma vez que há a necessidade de criação de testes psicológicos específicos para surdos. muitas vezes. mas sim no mesmo nível dos outros sujeitos. porém muitos profissionais procurados não têm conhecimento da língua de sinais nem a compreensão da experiência de ser surdo. 2005. se mudamos a língua ou o procedimento para aplicá-los em surdos.48 Não basta apenas substituir a língua oral pela língua de sinais. (LANE apud SOLÉ. os resultados desses testes são a partir da tabela utilizada para ouvintes.] a cidadania do surdo fica comprometida na medida em que estes passam a depender de outras pessoas para ter acesso às informações que poderiam melhorar sua qualidade de vida. 33). pois “[. Como afirma Lane: [. 33) Há demanda dos sujeitos surdos por psicólogos para falar de seus sofrimentos e angústias. não são vistos como parte integrante da sociedade diante dos profissionais. “[. não podemos comparar os resultados. mesmo quando utilizamos testes projetivos. A experiência social. (LANE apud SOLÉ. Lane pontua uma observação importante sobre a atuação do psicólogo diante do sujeito surdo.

pois o surdo percebe a possibilidade de ser “escutado” por um profissional pela maneira com que constrói e percebe o mundo. e ao mesmo tempo observar também as dificuldades com que eles se deparam diante da literatura focalizada somente nos ouvintes. Muitos psicólogos acabam diagnosticando a criança por falta de comunicação quando usam a surdez para afirmar determinado diagnóstico e se esquecem de verificar qual é a queixa que o sujeito surdo apresenta. pois os lugares que os surdos frequentam – tais como associações de surdos –. pelos relatos espontâneos dos sujeitos surdos25. oralmente. para os surdos. ou crianças surdas psicóticas não tratadas em quem se visualizam sintomas decorrentes da surdez e não da psicose. O modo de experimentar o mundo.49 conhecer as queixas dos surdos (SOLÉ. No decorrer desta pesquisa foi identificado. Um dos meios pelos quais o surdo mais se expressa e traduz a realidade é o relato informal. angústias. o alívio26 em encontrar uma estagiária surda. como pode ser verificado pelo grande número de crianças surdas diagnosticadas como autistas por profissionais mais desavisados. tais como a “escuta” – “o olhar” – psicanalítica (o) em língua de sinais e mostra que os resultados do procedimento do atendimento são positivos. Por exemplo. . Solé (2005) apresenta intervenções modificadas. em termos de procedimentos. Apesar de não ser o foco do tema do projeto. sem a pressão da coleta de dados. por meio da língua de sinais. distinguindo a linguagem usada por este de outras diferentes – como a do esquizofrênico. pois eles perceberam que não seria 25 Relatos espontâneos em conversas informais. alegrias. sem provas evidentes. os profissionais não possuem capacidade de reconhecer no discurso do sujeito surdo o que é decorrente de sua condição social e o que é patologia estrutural. é importante entender como os profissionais se organizam. se não conhece a língua do sujeito surdo? O que foi acima descrito é a conseqüência do não conhecimento da diferenciação entre sujeito surdo e sujeito ouvinte. do retardamento da mente provocado pela depressão psicótica e a da pressão da fala da mania –. sofrimentos. sofrimentos e angústias. Surdos e ouvintes são sujeitos diferentes e iguais. Como diz Solé (2005). como será possível ao psicólogo diagnosticar o surdo. é diferente do modo com que os ouvintes o experimentam. Durante o atendimento. 2005). as histórias. isto leva muitos dos psicólogos a cometer equívocos no diagnóstico e a rotular os surdos de emocionalmente perturbados. a identificação linguística. com seus dilemas. sem se preocupar em encontrar palavras adequadas para descrever seus sentimentos. pois todo sujeito é um ser único. as preocupações são diferentes. para a intervenção clínica e possível diagnóstico do sujeito surdo.

sofrimentos por meio da oralização. o oral. e também que não precisariam descrever como é a comunidade surda e suas percepções do mundo. As autoras afirmam que quando o sujeito surdo possui acesso à língua de sinais. por não possuírem experiência auditiva (SKLIAR. 2001). pois com o uso da língua de sinais ele enriquece seu conhecimento pela experiência visual. sexo feminino.. é importante destacar que os psicólogos necessitam desenvolver um mínimo de conhecimento sobre o sujeito surdo. O objetivo foi observar dois sujeitos surdos – sujeito 1. Quando isto ocorre. a língua de sinais. 74-75) 26 A palavra alívio é aqui usada para mostrar o correspondente à sensação do sujeito surdo ao descobrir que o profissional sabe língua de sinais. 19 anos de idade. para usar do procedimento adequado na intervenção. Pode-se verificar em um dos relatos: Já fiz psicoterapia com o profissional que não sabia língua de sinais. O bom era ter um profissional surdo ou profissional que saiba língua de sinais. sem perder o que o sujeito surdo deseja expressar. explicam como foi realizada a pesquisa das estagiárias de fonoaudiologia. de difícil compreensão. com perda auditiva moderada em um dos ouvidos e profunda no outro. Para obter melhores resultados durante a intervenção com os surdos. sujeito 2. somando o conhecimento teórico ao prático. os surdos devem adotar o modelo do ouvinte. há possibilidade de apresentar melhor desenvolvimento cognitivo e psicossocial. Essa pesquisa tem por objetivo a investigação dos modos de construção da identidade surda no contexto clínico fonoaudiológico. sempre buscando minimizar seu sofrimento e suas angústias. porém. apresenta domínio da língua de sinais e faz uso da língua oral. só precisaria frequentar outros lugares para não sofrer mais e não ir à associação de surdos. com perda auditiva bilateral profunda. Nogueira & Silva. utiliza próteses auditivas bilateralmente. que conheça a comunidade surda. e o modo de agir dos ouvintes é algo fora do alcance dos surdos. p. 24 anos) Verifica-se o dilema com que os sujeitos surdos se deparam ao encontrar profissionais não conhecedores de língua de sinais. sexo masculino. . 2008. as experiências visuais. (Relato de R. porque todos meus amigos frequentam a associação e é como minha segunda casa.50 necessário falar de suas angústias. 16 anos de idade. e foi horrível porque ele [o psicólogo] ficava falando que o meu problema era simples. Mas é impossível para mim. sexo feminino. Lá estão todas as pessoas surdas que posso me comunicar com minha língua. o que facilitará a sua comunicação e expressão. apresenta domínio da língua de sinais e possui uma fala bem desenvolvida – dentro de um grupo de leitura/escrita da clínica fonoaudiológica (NOGUEIRA & SILVA.

pois: Ao desenhar. 02). as estagiárias utilizaram a escrita para estabelecer a comunicação.. da língua oral ou até mesmo desenhos. para que ocorra seu melhor desenvolvimento psicossocial e lingüístico. o uso do desenho com as crianças surdas tendo como objetivo investigar o conhecimento delas por meio deste recurso. Como pode ser visto em: [. com o sujeito 2. 01) . universo simbólico este comum ao gesto. aos sinais e à escrita. além de proporcionar a terapia da fala aos sujeitos surdos.] para que o desenvolvimento e aquisição da linguagem favorecessem as práticas sociais da criança surda.. De acordo com Araújo & Lacerda (2008). como afirmam Araujo & Lacerda (2008). reflete sobre eles. o uso da escrita.. a criança está imersa no universo simbólico. A língua de sinais beneficia os sujeitos surdos para aprender a falar. Estas autoras mostram.. podem interferir significativamente em sua constituição e atuação social (ARAUJO & LACERDA. p. Suas reflexões. posteriormente. os autores afirmaram que o uso da língua de sinais associado ao trabalho realizado com as crianças surdas foi fundamental “[. se o mesmo possui ou não conhecimento da língua de sinais. Ao desenhar. A aquisição de uma segunda língua dará ao surdo a possibilidade de interagir dentro de uma sociedade que não domina a língua de sinais. 2008. resultantes de sua atividade mental e manual. a fonoaudiologia assume um papel grande para as famílias de crianças surdas pois. na forma oral e/ou escrita. os fonoaudiólogos têm a incumbência de orientar a família sobre os procedimentos educativos e terapêuticos relativos ao sujeito surdo. aperfeiçoando-se nesta experiência. Os desenhos podem ser vistos como uma linguagem. Apropriando-se desta técnica na intervenção com as crianças surdas. As intervenções utilizadas pelos fonoaudiólogos dependem do conhecimento e estratégias utilizadas por cada profissional para obter algum tipo de comunicação com o sujeito surdo como. na dimensão de uma primeira língua.” (ARAUJO & LACERDA. abrindo espaço para que esta criança possa se constituir e se perceber como sujeito linguístico (ARAUJO & LACERDA. Concluiu-se que os profissionais da área de fonoaudiologia que trabalham com a terapia da fala não possuem conhecimento da língua de sinais e que o olhar do fonoaudiólogo deve estar voltado para o processo de desenvolvimento de linguagem do sujeito surdo.51 Com o sujeito 1. 2008. escrever e ler. em um relato de caso. na dimensão de uma segunda língua. a criança relaciona-se com signos. utilizaram a língua oral para o mesmo fim.] significando suas primeiras elocuções em sinais. 2008. p. 02). e. p. por exemplo.

ou ainda de encontrar um meio de ser entendido pelo psicólogo. e o profissional terá a chance de entendê-lo com o auxílio do intérprete durante a entrevista individual. O surdo terá a possibilidade de se expressar fluentemente. como a escrita. já que o quadro particular das consultas psicológicas por vezes não lhe permite expressar o que não conseguiu apurar em outras circunstâncias. o terapeuta não toma partido segundo o que ouve e abstém-se de quaisquer conselhos pessoais a partir das suas próprias opiniões. Outro fator importante a destacar é a presença do intérprete. Outra vez.. no momento da escuta (PIRET. aceita como uma oportunidade a possibilidade que lhe é oferecida da presença do intérprete. a intervenção sairá prejudicada. No caso de intervenções com o auxílio do intérprete.. confidencialidade (o segredo das consultas é garantido) e neutralidade [. por exemplo. (PIRET. o psicólogo terá uma expressão do surdo muito mais rica do que se não contasse com este assessoramento. Isto porque o surdo não se prenderá à necessidade de encontrar palavras... A língua de sinais é utilizada apenas por alguns profissionais que têm conhecimento dela como.52 Então. o que acarreta uma retração por ele se expor no atendimento. gestos. .]. o intérprete desempenha um papel importante na implementação conseguida neste quadro. desenhos. Outro ponto importante é que alguns surdos não se sentem à vontade diante do intérprete. 2007). Piret não expõe sobre surdos. 2007) Ao ser assessorado pelo intérprete. Três características são essenciais [.]: ausência de directiva (não se sabe no lugar do paciente nem antes dele o que é importante ele dizer). mas sua teoria aborda a questão linguística e a necessidade de uma terceira pessoa. O profissional de saúde. Caso isto não aconteça. tanto o profissional quanto o sujeito surdo precisam se sentir seguros com a ética profissional do intérprete para se expressarem satisfatoriamente. que na maior parte das vezes não conhece a língua de sinais. observa-se que as técnicas de intervenções utilizadas em diversas áreas de atuação são semelhantes. oralização. os intérpretes atuantes na área de educação. o intérprete. alfabeto manual.

4 VULNERABILIDADE SOCIAL E VULNERABILIDADE PROGRAMÁTICA RELACIONADA A SUJEITOS SURDOS A discussão acerca do conceito de vulnerabilidade iniciou-se por volta de 1980 por pesquisadores atuantes da área da saúde pública e das ciências humanas devido à epidemia da AIDS. isolando-o a . no que diz respeito ao clima e ao espaço geográfico e ao nível socioeconômico (AYRES et al. 2009. o sujeito. exposto como diferente. meio. O conceito de vulnerabilidade tem sido muito utilizado nos últimos anos. da saúde pública e das ciências humanas. 2007). Como se esta tivesse parâmetros de modo que se classificassem cada ação. Tal discussão tinha como objetivo minimizar o impacto social sobre a doença e suas conseqüências nas pessoas com HIV/AIDS. sujeito de acordo com o que acredita por certo ou eficaz. PAULILO & JEOLÁS. em função dos grupos ou indivíduos fragilizados. jurídica ou politicamente para que tivesse igualdade de oportunidade de promoção. com a possibilidade de expansão de conhecimento sobre o quanto as circunstâncias em que o sujeito vive podem fazer com que tenha qualidade de vida – ou não – mesmo em uma situação de vulnerabilidade. MUNOZ SANCHEZ & BERTOLOZZI. estará vulnerável ao que o rodeia. o conceito de vulnerabilidade tem a sua discussão continuada na área dos direitos humanos sendo posteriormente adotada pela área da saúde devido à luta dos movimentos sociais e dos direitos humanos diante da AIDS. 2007. Além disso. contexto. na saúde. 2000).53 2. Caso algo não obedeça a um parâmetro. Como foi dito anteriormente. O termo vulnerabilidade pode ser encontrado também na Advocacia Internacional pelos direitos universais do homem. há outras áreas onde se pode discutir ou já se discute esse conceito. por exemplo. Uma delas se apresenta na área social em que são debatidos aspectos desde barreiras atitudinais como preconceito e discriminação a barreiras comunicacionais. Estas possíveis vulnerabilidades destacam as características adotadas pela sociedade em relação a uma ação ou sujeito pertencente a esta mesma sociedade. além do conceito de vulnerabilidade ter sido aplicado à área dos direitos humanos. (GOMES. 1999. (MUNOZ SANCHEZ & BERTOLOZZI. 2009). GOMES. proteção ou garantia de seus direitos de cidadania. Também há discussões a respeito de vulnerabilidade na educação.

uma vez que pode ocorrer no sujeito a surdez adquirida ou hereditária. p.54 um estigma ou representação muitas vezes não real. no primeiro plano. sejam econômicos. aquela se apresenta receosa em iniciar uma conversa por não saber como se comunicar e acaba se afastando. afirmando que há três planos interdependentes de determinação em que os sujeitos e a sociedade estão suscetíveis a qualquer tipo de acidente ou ocorrência que venham trazer prejuízos. acesso a serviços de saúde (nos diversos segmentos sociais) e tecnologias especificas para os surdos como legendas em todos os programas na TV. Nota-se que em cada área. % PNB27 para investimentos em saúde. Esses três planos. No segundo plano. Wisner destaca que a vulnerabilidade e a capacidade estão relacionadas. como nos hospitais. 2007. não correspondente ao que ele verdadeiramente representa. como também atitudinais e comunicacionais. muitas vezes é segregado nestes grupos tendo que realizar suas tarefas individualmente. econômico. Outro exemplo pode-se verificar quando um ouvinte encontra o sujeito surdo. tanto arquitetônicas. pode-se pensar em tecnologias especificas que podem beneficiar os sujeitos surdos como legendas em todos os programas de televisão. pois a vulnerabilidade está atrelada à “capacidade de luta e de recuperação que o indivíduo pode apresentar” (apud MUNOZ SANCHEZ & BERTOLOZZI. discorrendo um pouco sobre os três planos interdependentes. o aluno surdo. pode-se dizer que se situa na maneira do sujeito surdo agir diante das possibilidades e oportunidades de escolarização. nas escolas. estão interligados ao contexto da surdez. 1996) para definir o conceito de vulnerabilidade. o primeiro plano refere-se à vulnerabilidade individual que é o comportamento pessoal. físico e psicológico. Ayres et al (1999) utilizam-se dos escritos de Mann e Cols (1992. físicos ou psicológicos. Mas. No caso da surdez. 02). Por exemplo. O terceiro e último refere-se à vulnerabilidade programática ou institucional. que ainda apresenta-se em um processo de desconstrução de barreiras. . melhor acesso e atendimento nas áreas da saúde. postos de saúde e clínicas onde há profissionais habilitados para atender os sujeitos surdos sem causar prejuízos aos mesmos. quando há grupo de trabalhos e os alunos são ouvintes. Expressão monetária dos bens e serviços produzidos por fatores de produção nacionais. para posteriormente fazer a articulação com a surdez. O segundo refere-se à vulnerabilidade social que abrange a esfera social e de acordo com os indicadores adotados pela ONU na avaliação de nações: há o acesso à informação. 27 PNB: Produto nacional bruto. trabalho e sua relação com o social. há aspectos específicos em relação ao conceito de vulnerabilidade sendo explorados e que podem ser discutidos.

congênita ou hereditária. É possível verificar que todo sujeito está suscetível à surdez. há o fator dos custos dos tratamentos a que na maioria das vezes esses sujeitos são encaminhados a fazer. consciência do problema e das formas de enfrentá-lo). sentimentos que podem afastar ou não o casal. de não aceitação. Também. são vivenciadas e trabalhadas. os pais passam por várias situações de vulnerabilidade. por causa de uma nova adaptação que terá em virtude da surdez adquirida. p. 2) Os indivíduos infectados pelo HIV têm seu potencial de vulnerabilidade à morbidade. por volta dos dois anos.. além de promover responsabilidade e compromisso dos profissionais de instituições especificas para com os sujeitos surdos. em algum grau. como a terapia da fala e treinamento auditivo quando pertinente realizado por fonoaudiólogos. (JUCÁ. normalmente quando se descobre a surdez de um filho (a). Quando os pais percebem a surdez tardia. vale refletir como será o nível de vulnerabilidade dos sujeitos surdos. Apesar de este ter .] quando as características citadas por alguns autores como próprias do individuo surdo. p. 3) As condições que afetam a vulnerabilidade individual são de ordem cognitiva (informação.. e essa vulnerabilidade pode variar ao longo do tempo em função dos valores e recursos que lhe permitam ou não obter meios para se proteger. principalmente lingüística. quando necessário.. vulnerável à infecção pelo HIV e suas consequências. muitas vezes o sujeito surdo passa a ter perdas em várias etapas de sua vida.04) Até que a aceitação da surdez se apresente.. 2004.] o trabalho com a família começam a ser efetivados pelo apoio para que não passem seu sofrimento para a criança (luto por descobrir surdez do filho) [. invalidez ou morte variável em função inversa ao amparo social e assistência à saúde de que dispuserem. 2009.57) destacam que a vulnerabilidade individual é dividida em três pressupostos condutores em relação à AIDS: 1) Todo indivíduo é. O sujeito ouvinte que ensurdece também está em situação de vulnerabilidade. pois nota-se que a grande maioria dos profissionais da área de saúde ainda não está apta para atender as pessoas com deficiência e muito menos sujeitos surdos. Ayres et al (1999. e os tipos de surdez são: adquirida. pensar sobre um programa e atendimento à saúde mental de pessoas surdas. de sentimento de culpa.55 No terceiro plano. 45) Para analisar a citação anterior. se inicia um processo de luto. Com relação à família. Sendo que: [. p. e. comportamentais (interesse e habilidade para transformar atitudes e ações a partir daqueles elementos cognitivos) e sociais (acesso a recursos e poder para adotar comportamentos protetores) (apud GOMES. a compra e manutenção dos aparelhos auditivos para adequá-los ao nível de surdez do sujeito.

cultura. também. pela escrita. Isto pode acontecer ao se concretizar a . Apesar da diferença de língua. percebe-se que as informações recebidas pelos sujeitos surdos podem não ter coerência de conteúdo. O texto de Ayres et al (1999) transposto para o contexto da surdez pode verificar alguns exemplos de vulnerabilidade. O que interfere nas condições de se desenvolver como sujeito em uma sociedade sem apresentar prejuízos que Ayres destaca com relação a aspectos comportamentais citada anteriormente. Porém. por conta da discriminação da sociedade com os surdos. Há também os aspectos cognitivos e sociais que podem estar comprometidos. Nesta se incluem escolhas para conseguir se comunicar. tanto o surdo quanto o ouvinte possuem suas singularidades. uma vez que estava habituado a ser dependente da sua audição e se comunicar oralmente na sociedade. não são apenas aspectos comportamentais que são afetados nos sujeitos surdos. é possível identificar que ele pode estar mais vulnerável do que o sujeito surdo que já passou pela mesma situação. e já possuir uma aquisição lingüística em função da audição. posteriormente ao processo de luto. raiva. a existência de tal coerência poderia auxiliar o surdo no cotidiano. Como exemplo quando o sujeito percebe que perdeu a audição ou que é “diferente” do outro – do ouvinte –. saúde. lazer. a ocorrência de um acidente ou de alguma doença vai deixar esse mesmo sujeito vulnerável ao se deparar com a dificuldade de compreensão e de comunicação mesmo com pessoas de seu convívio e com o restante da sociedade. angústia. precisará fazer uma nova adaptação. devido à condição de vida onde a comunicação com os surdos é um dos complicadores à interação social. Assim. o uso dos aparelhos auditivos. seja pela leitura labial. A sociedade também pode ser considerada como responsável com relação à vulnerabilidade individual do sujeito surdo. Os sujeitos surdos também podem estar vulneráveis em relação à aceitação social. Cabe refletir: os comportamentos que os sujeitos apresentam ao ter a sua vulnerabilidade afetada estarão de acordo com a surdez adquirida ou com o que a sociedade possui diante de uma pessoa surda? Uma boa parte dos sujeitos surdos não possui acesso à educação. aprendizado e utilização da língua de sinais e. O sujeito com surdez adquirida pode ter aumento da ansiedade. da ausência de audição. enfrentando as dificuldades que surgem sabendo como contornar tais dificuldades. seja na escola ou no trabalho por conta da relação do surdo com os ouvintes e por estes não utilizarem a língua de sinais. discernindo o que pode ser mais adequado ou não para a sua vida. e. estes encontram barreiras comunicacionais diárias.56 nascido ouvinte. são dignos de direitos humanos.

além de implicar em reivindicar e lutar por projetos e estratégias para promover maior acesso os ambientes públicos e privados. Especificando estes dois conceitos cita-se Munoz Sánchez e Bertolozzi: A Vulnerabilidade Social. A sociedade não sabe como interagir com esses sujeitos quando se depara com alguma situação em que necessite de comunicação. clínicas. tais como hospitais. o acesso aos meios de comunicação. a disponibilidade de recursos cognitivos e materiais. 2009). dos movimentos sociais e governamentais que apóiam a acessibilidade dos sujeitos surdos na sociedade e nas instituições. o áudio aperfeiçoado para os surdos com alguns resquícios de audição é outra alternativa que pode minimizar a vulnerabilidade desses sujeitos.57 vulnerabilidade social a qual é interligada ao conceito de vulnerabilidade programática. A vulnerabilidade social e programática deve ser considerada como forma de proporcionar aos indivíduos condições para que estes realizem uma avaliação crítica de diversos fatores de riscos. (MUNOZ SÁNCHEZ & BERTOLOZZI. vulnerabilidade social pode ser uma forma de desmascarar o quanto ainda as leis que foram e são criadas para beneficiar os cidadão/sujeitos surdos não estão.321). Porém muitas dessas instituições e pessoas não estão preparadas para aceitar tal situação que os diferencia dos sujeitos surdos. além do grau e qualidade de compromisso das instituições. conseguindo informar e orientar adequadamente os sujeitos surdos e demais sujeitos. e que esses espaços estejam organizados e preparados para receber os sujeitos surdos. colocadas em prática. Outro tipo de recurso para acesso à informação e que facilita muitas vezes a vida dos surdos é a pesquisa na internet referente aos assuntos que interessam e que estão relacionados à saúde e ao seu cotidiano. o poder de participar de decisões políticas e em instituições. da gerência e do monitoramento dos programas nos diferentes níveis de atenção. habilidade e agilidade de se comunicar em LIBRAS. que avalia a obtenção das informações. p. principalmente. dos recursos. Em se tratando de vulnerabilidade no campo da surdez. especificamente saúde mental a partir de intervenções de . há necessidade de que as instituições governamentais e nãogovernamentais se articulem e elaborem projetos de treinamento para que funcionários e técnicos apresentem conhecimento. E. e a Vulnerabilidade Programática. quando adentramos em discussões que se referem à saúde dos surdos. Para isso. estando “acostumados” ou sofrem falta de informação ou de orientação (GOMES. A isso se vincula notícias que são transmitidas pela televisão quando há disponibilização de legenda tanto para os surdos sinalizados ou surdos oralizados. 2007. de acordo com suas especificidades. que consiste na avaliação dos programas para responder ao controle de enfermidades. efetivamente.

Produto Nacional Bruto (nos países em desenvolvimento).Percentual do PNB .60).000 habitantes (países industrializados). . 28 Texto traduzido por Ornella Pezzini. No caso dos sujeitos surdos. que necessitam de formação e conhecimento para o atendimento psicoterapêutico de sujeitos surdos. nesse caso os psicólogos. seguro de saúde e planejamento familiar. Diretrizes para Avaliação e Intervenção de pessoas com deficiências.Produto Interno Bruto (nos países industrializados) em despesas públicas com hospitais.58 profissionais. concepções sobre a deficiência e possíveis preconceitos podem afetar sua relação profissional com pacientes. habilidades de comunicação. p. suas experiências e vivenciar suas dificuldades encontradas no cotidiano. segundo Ayres et al (1999. 2009). incluindo as convenções adequadas a cada deficiência. e integração das questões relacionadas com a deficiência nas abordagens de avaliação e intervenção. Além disso.Rádios per capita (países em desenvolvimento). também. os psicólogos necessitam conhecer a comunidade surda. precisam familiarizar-se com as experiências de vida relacionadas à deficiência e que influenciam o bem estar psicológico dos seus pacientes. mas é possível identificar que muitos dos psicólogos não possuem essas experiências e nem o conhecimento da língua de sinais e pode promover a vulnerabilidade do surdo no momento do atendimento psicoterapêutico. televisores por 1.Percentual da população com acesso. 2) Gastos com serviços sociais e de saúde . Os itens utilizados para avaliação são: 1) Acesso à informação . Conforme o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas – PNUD – e. os psicólogos para trabalharem de forma eficaz com as pessoas portadoras de deficiência. 4) Mortalidade antes dos cinco anos . os psicólogos raramente recebem cursos ou projetos de extensão para trabalhar com pessoas portadoras de deficiência (GUIDELINES FOR ASSESSMENT OF AND INTERVENTION WITH INDIVIDUALS WHO HAVE DISABILITIES. é importante que eles aprendam as melhores práticas psicológicas "livres de barreiras" para estes pacientes. acomodações apropriadas. 3) Acesso aos serviços de saúde .Coeficiente de mortalidade de crianças com menos de cinco anos por cada 1. Infelizmente. centros de saúde. Os psicólogos também devem ter consciência de como suas atitudes. a vulnerabilidade social é avaliada de acordo com índices utilizados pelo PNUD. reações. 2009. ou percentual do PIB .000 nascidos vivos. Será que os profissionais estão preparados e bem capacitados para realizar esse tipo de intervenção? De acordo com o texto “Guidelines for Assessment of and Intervention with Individuals Who Have Disabilities”28.

discriminação. no caso . Constantemente permanecendo vulneráveis em todos os âmbitos da sociedade. e. garantir e proteger a cidadania dos surdos. a situação de que uma boa parcela desses sujeitos não é alfabetizada. o que dificulta o aceso à informação o que é fundamental ao cotidiano vivenciado pelo sujeito surdo. 2007.59 5) Situação da mulher . quando são. Há.Quanto mais desequilibrada for essa relação em favor dos gastos militares. formação na área da surdez e estratégias de comunicação dos profissionais com os sujeitos surdos. congrega quarenta indicadores que avaliam as condições gerais de promoção. como no caso da dificuldade dos surdos com relação ao acesso às informações devido à falta de preparação da comunidade e dos mesmos. podem ser trazidos para o contexto de vida dos sujeitos surdos. devido à baixa escolaridade. respaldam a organização da sociedade.. com seus direitos e deveres existentes. Políticas públicas poderiam auxiliar a melhorar esse quadro a partir de mudanças sociais e educacionais. ou enfraquecimentos dos grupos sociais e sua capacidade de reação” (apud MUNOZ SÁNCHEZ & BERTOLOZZI. oferecer cursos de língua de sinais para os profissionais da área da saúde. maior tende a ser a vulnerabilidade da população em questão. pois as leis. pois. sabem o básico da língua portuguesa. o conceito de vulnerabilidade social relaciona-se com “os processos de exclusão. Nota-se que alguns dos itens citados acima.Também um índice múltiplo. proteção e garantia das liberdades individuais e direitos de cidadania. p. A dificuldade dos sujeitos surdos com relação ao mercado de trabalho ocorre. suas televisões não possuem a configuração para a programação apresentar a legenda – Close Caption. passando por um processo de exclusão e segregação social. principalmente.Indicador combinando diversos elementos de avaliação que medem condições gerais de bem-estar social e grau de eqüidade entre os sexos. De acordo com Palma e Mattos. na saúde. 6) Índice de liberdade humana .. 8) Índice de desenvolvimento humano . no lazer.Mede a relação entre PNB e distribuição de renda. Os sujeitos surdos. também. normalmente ficam a margem da sociedade. O que dificulta encontrar um trabalho de acordo com o seu currículo. nem todos possuem condições de ter internet e computador em casa. educacional.321). Isto acontece. Outra situação complicadora é a falta de apoio do governo na área de saúde em pensar e programar políticas públicas que permitam a contratação de intérpretes para trabalhar nas redes públicas. Esquecem que este é um ser humano com os mesmos direitos que os sujeitos ouvintes. Identifica-se que os sujeitos surdos são suscetíveis à vulnerabilidade devido à má preparação do governo e da comunidade em não saber como promover. oferta de trabalho e outros benefícios sociais. 7) Relação entre despesas militares e gastos com educação e saúde .

vale promover ações que diminuam as desigualdades de gênero. Refletir sobre a vulnerabilidade no plano individual focando a autoestima do sujeito. tanto social e programática. levando o sujeito surdo a desconhecer a doença que lhe acometeu. contextuais e também aspectos relacionados à disponibilidade ou carência de recursos que são destinados aos cuidados das pessoas que estão vulneráveis as circunstâncias da vida. mas a maioria dos professores não sabe como interagir com o aluno. sensibilizar/mobilizar a comunidade para a questão da vulnerabilidade na qual os sujeitos surdos estão vivendo. é possível pensar que os mesmos sofrem discriminação. O sujeito surdo está na escola. devido à diferença na . se locomover e estar na sociedade atuando e tendo uma remuneração digna para ter o básico para sobrevivência. sua participação na sociedade. caracteriza-se como conjunto de aspectos coletivos.60 dos sujeitos surdos. como no caso dos sujeitos surdos. discursam que não estudaram para trabalhar com “deficientes” e deixam o aluno isolado ou na responsabilidade de algum colega que é uma “alma boa” e que pode ajudá-lo na sala de aula com as atividades. buscando integrar programas para uniformizar ações e buscar metas comuns em todas as instituições. sociais e econômicas utilizando as unidades de saúde e a própria comunidade na qual os sujeitos surdos vivem. No plano institucional. é necessário refletir e ressaltar sobre alguns pontos importantes a serem vivenciados pela sociedade e instituições. não conseguindo trabalhar. Na área da saúde. A discriminação que ocorre leva à agressividade ou isolamento social dos sujeitos surdos. A própria família também exclui o sujeito surdo com esse tipo de comportamento. sensoriais. exclusão na sociedade como a defasagem educacional que acontece em função de uma educação inclusiva que exclui. Como pessoas com algum tipo de doença ou comprometimentos – diferença – físicos. Nesse caso também se pode trabalhar para influenciar/direcionar programas de promoção de inclusão/inserção como a informação e acesso a cursos de formação que permitam os projetos organizados beneficiando a vida dos sujeitos surdos na sociedade. mas isso só acontece com o acompanhamento familiar no atendimento. mentais. destacando ainda mais vulneráveis. em seu projeto de vida e de valores. Para minimizar os efeitos da vulnerabilidade social que afetam os sujeitos surdos. utilizando sistemas de supervisão e avaliação. os sujeitos surdos recebem atendimento médico. Verifica-se que o conceito de vulnerabilidade. Pensar no plano social. Pensando também que a sociedade e as instituições devem rever alguns desses pontos para também acolher o sujeito surdo na sociedade.

ao mercado de trabalho e a saúde que lhe é de direito. podendo ter possibilidade de reduzir a vulnerabilidade dos sujeitos e do que mais estiver envolvido neste contexto de acessibilidade dos sujeitos na sociedade. Para que se tenha uma melhor inserção na sociedade e que consigam ter acesso à educação. . as instituições devem ter acesso às informações adequadas sobre a surdez e os sujeitos surdos.61 comunicação e na maneira de perceber o mundo. Apoiar é a melhor forma de proporcionar desenvolvimento tanto para o sujeito surdo quanto às instituições e a sociedade.

esclarecer e modificar conceitos. dois psicólogos ouvintes que utilizam a língua de sinais e trabalham com surdos. Como afirma Gil (1999). A abordagem qualitativa foi considerada mais adequada para conhecer melhor tais estratégias de intervenção psicoterapêutica. em uma instituição do governo e utiliza língua de sinais nos atendimentos. Um dos psicólogos é aposentado e atualmente trabalha como voluntário em uma instituição de surdos. mas não utilizou a língua de sinais para se comunicar com eles.62 3. 3. a abordagem qualitativa é o recurso mais utilizado para as ciências sociais. a pesquisa exploratória visa a desenvolver. permitindo a identificação de possíveis problemas e hipóteses a serem posteriormente estudados de maneira mais aprofundada. utiliza língua de sinais nos atendimentos. Para identificar melhor quem são os participantes da pesquisa e suas caracterizações. e objetiva descrever e compreender o fenômeno estudado a partir do contexto em que ele se apresenta.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA Esta pesquisa caracterizou-se a partir de abordagem qualitativa e exploratória para explicar os fatores determinantes do problema estudado como as estratégias de comunicação e instrumentos utilizados por psicólogos durante a intervenção com sujeitos surdos. segue abaixo a tabela: . dois dos psicólogos trabalham em uma clínica particular. e um psicólogo ouvinte que já trabalhou com sujeito surdo. Para Neves (1996). possibilitando o levantamento de hipóteses. um dos psicólogos atua em uma instituição filantrópica voltada para surdos e é surdo. sendo que dois são psicólogos surdos. o outro.2 PARTICIPANTES DA ENTREVISTA Os sujeitos da pesquisa foram cinco psicólogos. MÉTODO 3. sendo que um psicólogo é surdo. outro não utilizava língua de sinais e começou a utilizar a pedido de um paciente surdo.

63 Identificação Idade Sexo Formado desde Sujeitos que atende Surdo X Ouvinte X X X X X Utiliza LIBRAS Especialização em educação especial S1 S5 S2 S3 S4 42 43 54 55 67 Feminino Feminino Feminino Feminino Masculino 2005 1988 1983 1977 1975 X Passou a utilizar X X X X X Tabela 1 – Caracterização dos participantes. 3. Para os psicólogos residentes em outros estados foram enviadas duas vias do termo de consentimento pelo correio. a fim de garantir a privacidade e o sigilo do participante desta pesquisa. foi utilizado computador com webcam e o software Messenger com S1. Com S3 foi utilizado filmadora e gravador de voz. pois os mesmos residem em outros estados. webcam e software devido a alguns profissionais residirem em outros estados. Fonte: Elaborado pela autora. uma para cada participante da pesquisa. . a sala em que aconteceu a entrevista estava isenta de ruídos e de entrada e saída de pessoas. com webcam. Também foi utilizado o roteiro de entrevista e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. S2.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE As entrevistas com S1. A entrevista com S3 foi realizada no local de trabalho.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS Para a realização da coleta de dados. 2009. Foi escolhida a utilização do computador. S4 e S5 foram realizadas por meio do software Messenger. S2. S4 e S5. 3. Além disso.

5 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS Para a obtenção dos dados desta pesquisa. Para verificar se o instrumento de coleta de dados estava de acordo com os objetivos. a partir da entrevista piloto. Os profissionais selecionados são psicólogos que atuam na área da saúde . S3 atua em uma instituição estadual. e S4 atuava em uma instituição federal e atualmente em uma instituição filantrópica como psicólogo voluntário.6 PROCEDIMENTO 3. A seleção destes se deu por já haver o conhecimento do trabalho desenvolvido por esses profissionais. foi realizada uma entrevista piloto com psicólogo ouvinte e presença de um intérprete de língua de sinais. E.quatro deles na área da surdez. A pesquisadora seguiu o roteiro de perguntas e complementou alguns aspectos de acordo com as respostas fornecidas pelo entrevistado (MARCONI & LAKATOS.64 3. 3. Nesse roteiro.1 Da seleção dos participantes Os sujeitos da pesquisa foram ao todo cinco participantes. dentro dos objetivos da pesquisa. foram constatados perguntas referentes a estratégias de comunicação e instrumentos utilizados pelos psicólogos no atendimento de sujeitos surdos. tipos de intervenções psicoterapêuticas realizadas. S2 atua em consultório clínico e como colaborador em instituições. foi possível identificar o que foi necessário aperfeiçoar para a primeira entrevista. com experiência de quatro anos ou mais com esse tipo de intervenção. usaram-se os mesmos materiais (gravador de voz e filmadora). . foi utilizada a entrevista semiestruturada com um roteiro de perguntas abertas. O objetivo de entrevistar psicólogos surdos e ouvintes é verificar se eles utilizam diferentes intervenções durante o atendimento ao sujeito surdo.6. S1 atuava em consultório clínico e atualmente trabalha em uma instituição. S5 atua em consultório particular. Seguindo os mesmos critérios dos participantes da pesquisa para identificar as respostas adequadas aos objetivos. 2000). facilidades e dificuldades encontradas durante o atendimento.

A entrevista tem caráter semiestrutural de modo que haja abertura de uma nova colocação se a pesquisadora sentir necessidade de mais aprofundamento em determinada questão (MARCONI & LAKATOS. 3. mas concordaram.3 Da construção do roteiro de entrevista O roteiro de entrevista levou em conta as necessidades da pesquisa. Os três psicólogos aceitaram e dois deles demonstraram resistência.2 Do contato com os participantes O contato inicial com os profissionais foi realizado por e-mail. apresentando resumidamente de que se tratava a pesquisa e a importância da contribuição da sua participação. bem como reforçou que as informações fornecidas foram utilizadas para fins científicos.6. Vale ressaltar que dos onze participantes contatados seis não responderam ou não aceitaram contribuir com a pesquisa. Após terem aceitado participar da entrevista. 2000). além dos objetivos e do problema a ser respondido ao longo dela.6. assim como o consentimento para gravações de áudio/vídeo para formalizar tal participação. entregou duas vias do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para assinatura. com duas vias e com envelope e postagem paga pela pesquisadora para ser devolvido.65 3. e para o participante residente no mesmo estado da pesquisadora foi entregue em mãos. Os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido foram enviados pelo correio aos participantes residentes em outros estados. As .4 Da coleta e registro dos dados No ato da entrevista. a pesquisadora enfatizou a relevância e os objetivos da pesquisa. Foi enfatizado o sigilo de privacidade durante este primeiro contato. foi combinado com cada participante dia e horário em que eles estariam disponíveis para realizá-la. 3.6.

o registro se perderia e isto não auxiliaria na comprovação ou descoberta do que os dados disponibilizavam. com a autorização dos participantes. tratamento e análise dos dados Após a transcrição das entrevistas. não disponibilizam . A transcrição da filmagem com S3 foi realizada em língua de sinais e posteriormente houve transcrição para o português escrito. não foi capaz de captar. 2000: 91). A transcrição dos dados das entrevistas realizadas via software Messenger foi feita diretamente na língua portuguesa. foram gravadas/filmadas para posterior transcrição. foi realizada a análise de conteúdo de modo que foi possível explicitar categorias e subcategorias representativas das falas dos sujeitos. busca-se recuperar todos os elementos da entrevista que a textualização. Sobre transcrição. houve auxílio de um intérprete de língua de sinais para verificar a correspondência entre a gravação de áudio e a transcrição para o português. modelando o depoimento de modo a torná-lo um documento histórico produzido em coautoria (pesquisador e colaborador) (MEIHY. sozinha. estratégias de comunicação. realiza-se a recriação do texto. com o auxílio das anotações registradas no diário de campo. pode-se afirmar que: A chamada transcrição é o processo no qual. Nesse processo.6. instrumentos que os psicólogos entrevistados utilizam em suas intervenções psicoterapêuticas com sujeitos surdos.5 Da organização. organização. tratamento e análise dos dados obtidos. É a fase em que a interferência do pesquisador se dá de forma mais nítida.66 entrevistas. A análise de conteúdo descrita por Bardin (2004) remete à necessidade de vincular os dados obtidos durante as entrevistas com o que se predispõe a pesquisar e analisar neste trabalho. 3. isoladamente. A entrevista com cada psicólogo participante ocorreu aproximadamente duas horas de duração. as quais foram comparadas entre si para verificar as concepções. Sem a transcrição. O registro da entrevista com um dos psicólogos ouvintes que utilizam a língua de sinais se deu por meio de uma filmadora e gravador de voz. O registro dos dados dos dois psicólogos surdos. de um psicólogo ouvinte que utiliza a língua de sinais e um psicólogo ouvinte que não utiliza a língua de sinais foi realizado por meio do software Messenger e webcam. Uma vez que tanto dados como teoria.

Sacks (2007). Para realizar a análise de conteúdo. o trabalho pretende exemplificar as intervenções psicoterapêuticas realizadas por psicólogos. Ao analisar os dados em categorias e subcategorias.67 clareza de entendimento do assunto tratado. . Skliar (2005) para relacionar aos capítulos que abordam sobre a concepção dos psicólogos pelos sujeitos surdos. Solé (2005) articulando com as estratégias e instrumentos utilizados pelos psicólogos no atendimento psicoterapêutico com os sujeitos surdos. Ayres et al (1999) quando for abordado sobre a vulnerabilidade dos surdos e entre outros autores. foi utilizado os autores como Goés (2000).

é importante identificar a quantidade de sujeitos surdos e ouvintes atendidos e desde quando. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS Os dados coletados nas entrevistas com os participantes são apresentados nas categorizações seguindo os objetivos desta pesquisa. as variações de atendimento devido à surdez do sujeito. 2009 . as queixas dos sujeitos e de suas famílias. além disto. será realizada a comparação entre a concepção do ser surdo. Não sabe exatamente. A partir da análise dos dados coletados. Esclarecendo que esta categorização não consta nos objetivos específicos da pesquisa. Segue abaixo a tabela com as características de cada psicólogo: PARTICIPANTE ANO DE FORMAÇÃO SURDOS OUVINTES S1 S2 S3 S4 S5 2005 1983 1977 1975 1988 Quantos foram atendidos Não sabe exatamente. os tipos de atendimento realizados. surgiram outras categorizações importantes para serem utilizadas na interpretação de dados. estratégias de comunicação e instrumentos utilizados por cada psicólogo. como as abordagens teóricas utilizadas por psicólogos nos atendimentos. Não sabe exatamente. percebeu-se a necessidade de entender a concepção dos psicólogos sobre os sujeitos surdos antes de verificar as estratégias de comunicação e instrumentos que são utilizados por esses profissionais nas intervenções. Este capítulo está organizado de acordo com as categorizações como: a concepção dos psicólogos sobre o ser surdo na sociedade e quem é o sujeito surdo que realiza atendimento psicoterapêutico. Antes de começar a destacar as características de intervenção realizadas por psicólogos. Cerca de 150 3 Desde quando 2005 1990 1979 2000 2000 Quantos foram atendidos 9 3 Cerca de 200 Mais de 300 Desde quando 1997 2000 1999 1989 Tabela 2 – Quantidade de sujeitos atendidos por psicólogos e desde quando começou a atendê-los. a concepção dos psicólogos sobre o ser surdo.68 4. porém. Fonte: Elaborado pela autora. os motivos que levaram os psicólogos a chamar a família para participar no atendimento com o sujeito.

depois de sua aposentadoria. e que realizava somente orientações com os ouvintes – familiares dos pacientes. e não utiliza língua de sinais. trabalha com surdos em uma instituição destas e passou a atendê-los a partir de 2000. . Outros psicólogos convidaram S3 para abrir uma clínica e foi neste local que ele atendeu três ouvintes. 4. atualmente. trabalha como psicólogo voluntário em uma instituição filantrópica. 1 CONCEPÇÕES DOS PSICÓLOGOS SOBRE SUJEITOS Neste capítulo. os psicólogos começaram a atender sujeitos surdos a partir do ano de 2000. S2 e S3. e afirmaram que os atendem ou atenderam – como no caso de S329 – há anos e foram muitos deles. bem como quem é esse sujeito surdo que faz atendimento psicoterapêutico. apresentam-se os dados relacionados à concepção dos psicólogos sobre o significado de o que é ser surdo na sociedade atualmente. pois trabalhava em uma instituição estadual durante 40 horas.69 Com exceção de S2 e S3. Percebe-se que S4 formou-se na área da psicologia em 1975. mas precisou fechá-lo. pois era psicólogo concursado em uma instituição federal e. S3 atendeu apenas três ouvintes. mas começou a realizar atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos a partir de 1999. O psicólogo S5 atendeu apenas três surdos e atualmente o faz com apenas um. não sabem a quantidade exata de surdos atendidos por eles. pois se mudou para outra cidade. S1. S1 destacou durante a entrevista que seu foco é atender somente sujeitos surdos. S3 relatou que está há um ano afastada da instituição por motivos de saúde. Já teve como pacientes mais de 300 pessoas ouvintes. atualmente. sendo que anteriormente trabalhava em seu consultório. Três psicólogos. Atualmente. pois não atua na área da surdez. S1 trabalha voluntariamente em uma instituição filantrópica e possui a sua clínica na mesma instituição. 29 No momento da entrevista. passou a realizar trabalhos voluntários como psicólogo em instituições filantrópicas.

a sua percepção visual para compreender o mundo e que utiliza a LIBRAS como a sua língua. dos surdos e dos ouvintes.. É preciso provar ser normal e capaz” (S5) “Acredito que não há diferenças de direitos e deveres entre surdos e ouvintes. tem mais sorte do que os surdos. alguns psicólogos destacaram na entrevista que os surdos ainda são discriminados pela sociedade. Que possui uma interação com o meio. interação.]” (S1) “Ser surdo é aquele que aceita sua identidade e a sua cultura.1. falar com as mãos.” (S2) “[. cultura surda e é muito importante” (S1) “São aqueles que foram vítimas da sociedade etnocêntrica. com sua cultura e língua. comportamento.. O surdo precisa entrar nos dois mundos. Ser surdo na sociedade A partir dos dados coletados sobre essa categoria. o surdo continua excluído. a diferença existente é o funcionamento de um órgão sensorial” (S3) “É como ser um estrangeiro em seu próprio país. Os surdos sofrem de preconceito. 2009. Veja a seguir na tabela de categorização: SER SURDO NA SOCIEDADE Portador de deficiência Diferenças SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE - - 1 - 1 - Ser estrangeiro 2 2 - Preconceito 1 - - Vivência pela experiência visual 1 - - Vítimas da sociedade 1 - - Igual em direitos e deveres - 1 - “Para a sociedade o surdo é um portador de deficiência. não aceitando o sujeito surdo como o diferente... o ouvinte vive sem preconceito. Apesar dos esforços do programa de inclusão. mesmo os que não tinham condições de fala eram obrigados a aprender. conviver com pessoas em um universo de barulhos e isso faz com que os surdos sejam diferentes e não necessariamente deficientes.1. Ser surdo é aprender uma língua oral-auditiva através da língua de sinais.]” (S3) Tabela 3 – Concepção dos psicólogos sobre o ser surdo na sociedade Fonte: Elaborado pela autora.] o surdo é como qualquer um em seus direitos e também deveres [. onde o surdo era visto como o doente. Podemos ver que a diferença está no modo de apreender o mundo. .” (S4) “Há muita diferença.. há valor. usando prótese e fazer terapia de fonoaudiologia para adquirir a língua oral.. e que precisavam ser “curados” pela medicina. incapaz. por falta de informação por parte dos ouvintes [.70 4.

e o art. pois.br/seesp/index2. e tendo em vista o disposto na Lei nº 10.Libras. tem mais sorte do que os surdos”. singularidades relacionadas com identidade.71 O relato de S5 demonstra que a sociedade entende que o sujeito surdo “é portador de deficiência”. no tipo de língua utilizada para estabelecer a comunicação com o meio social. Skliar (2005) afirma essa situação com muita propriedade quando fala que o ouvintismo. neste momento.098. deficiência. inciso IV. que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais . as associações de surdos.436. os seus direitos de cidadania. pretendem normalizá-los como se não existisse nenhuma diferença significativa em suas vidas. Diante do 30 Decreto que regulamenta a Lei nº 10. da Constituição. no uso das atribuições que lhe confere o art. e no art. 18 da Lei nº 10. os surdos são sujeitos que possuem suas particularidades. porém. É possível identificar o sofrimento que muitos dos surdos vivenciam ao se deparar com os obstáculos – barreiras comunicacionais e atitudinais – encontrados no cotidiano. Certamente ele terá passado pelo processo de normalização que a sociedade impôs por muitos anos. principalmente na maneira como interagem com o mundo. . sem precisar provar quem são eles para a sociedade.626/0530. O Presidente da República. as escolas especializadas. refere-se aos que ouvem e querem dominar os surdos. a posição dos surdos e dos ouvintes na sociedade. e a perspectiva tanto da surdez quanto do sujeito surdo a partir da comunidade surda é da diferença e não da deficiência. enquanto pessoa surda com a experiência social de ser surdo. de 19 de dezembro de 2000. de acordo com Perlin (1998). denominação do próprio autor. com uma diferença e não. por meio da experiência visual. Também a resistência em aceitar a língua de sinais como primeira língua e a sua utilização no cotidiano dos sujeitos surdos e a discussão sobre as identidades surdas. de 19 de dezembro de 2000. do ponto de vista antropológico. de 24 de abril de 2002. 18 da Lei nº 10. comparando-se com os ouvintes. S1 apresenta em seu discurso. Disponível em: http://portal. Acesso em: 07 de maio de 2009. demonstra o preconceito por parte do surdo pelos ouvintes quando afirma que o ouvinte “vive sem preconceito.mec. 84. mas os obstáculos encontrados pelos surdos se refere à aceitação deles pela sociedade como sujeitos com uma diferença linguística.gov. pois a sociedade ainda não está preparada para lidar. por mais que exista aprovação da lei 10. não respeitando e não levando em consideração as particularidades e singularidades dos surdos. S4 define o ser surdo como “um estrangeiro em seu próprio país”. a cultura linguística. e que os fazem se comportar como os ouvintes – grupo majoritário – utilizando a língua oral.436. as instituições especiais.php?option=content&do_pdf=1&id=122&banco.436/02 de LIBRAS e o decreto que a regulamenta 5. os surdos continuam excluídos do meio social onde transitam os ouvintes.098. para se comunicar e a aceitá-los na vida cotidiana. Strobel (2008) e Skliar (2005). A diferença existente entre os surdos e ouvintes está. de 24 de abril de 2002.

000Hz. o desejo de querer “consertar” o funcionamento da audição do surdo. na família. medo de enfrentar os desafios surgidos no dia a dia.000Hz e 3. sim. O conceito de surdez do ponto de vista patológico presente no Art 2º do Decreto nº 5. a sociedade destaca a diferença. existe. ainda está muito presente. mas há diferença quando se trata do “funcionamento de um órgão sensorial”. Muitos dos surdos eram e continuam sendo vítimas da sociedade. como diz S2. não apresentam outras saídas a não ser que o surdo tenha a identidade ouvinte e a oralização (PERLIN. na verdade a deficiência. Os ouvintes. SKLIAR.. o surdo pode estar mais vulnerável do ponto de vista individual e social. pois muitos ouvintes não acreditam nesta competência. 1998. A visão patológica visa a “curar” a surdez do sujeito. enfatizando apenas o conceito patológico da surdez e esquecendo que os surdos e ouvintes possuem suas singularidades. Ao identificar a diferença do funcionamento do órgão sensorial. ausência da . 2005).. terapia da fala e o implante coclear para que o surdo consiga ouvir e adequar o seu comportamento tal como o dos ouvintes. e este é um fato que realmente acontece. Porém. o que para o surdo contribui para produzir ansiedade. angústias. em locais públicos entre outros. 2005).626 parágrafo único. na qual o ouvinte está sempre em posição superior. porém. mais uma vez. não é possível exigir nem mesmo fazer com que o surdo se comporte como ouvinte. Segundo Perlin. eles eram vistos como “[. oferecendo próteses auditivas. eles criaram espaços para encontrar outros sujeitos surdos e fazer com que o “eu” encontre o “outro” surdo e construa sua identidade sem ser dominado pelo ouvintismo (PERLIN. ouvintismo e oralismo não são a mesma coisa. de acordo com a mesma autora.. 1. tal como afirma Skliar. 2. Outra subcategoria destacada por S5 é ao necessidade do surdo de “provar ser normal e capaz” para a sociedade. a visão patológica é entendida como disciplina do comportamento e do corpo para produzir surdos aceitáveis para a sociedade (SKLIAR. E ainda. afirma: “considera-se deficiência auditiva a perda bilateral. aferida por audiograma nas frequências de 500Hz. e que precisavam ser „curados‟ pela medicina [. A partir desse sentimento. pode-se verificar o processo de normalização. sendo que. incapaz.72 despreparo da sociedade. parcial ou total.000Hz. A visão patológica da surdez é destacada por S3 ao descrever que não há diferença entre os surdos e os ouvintes quando se trata de direitos e deveres.] o doente. Esta visão patológica da sociedade com relação aos sujeitos surdos.. Percebe-se que os surdos necessitam sempre provar a sua capacidade. seja no trabalho. o conceito de ouvintismo baseia-se numa proximidade entre surdo e ouvinte. no ambiente acadêmico. de quarenta e um decibéis (dB) ou mais.]”. traduzida aqui pelo profissional.”. 2005). de sentir-se como um estrangeiro em seu próprio país.

O sujeito surdo é “aquele que aceita sua identidade e cultura”. . Wrigley (apud SKLIAR. entre outros. mas isso não é o complicador para a comunidade surda. os programas de acessibilidade ainda passam pelo processo de descoberta de como organizar a sociedade para colocar em prática melhores condições de acesso dos sujeitos surdos nos ambientes públicos. eles também estão sujeitos à vulnerabilidade programática. como organizar a sociedade de maneira que seja mais adequada às necessidades dos surdos. educação. entre outros. 2005) nos provoca e nos leva a refletir sobre a surdez sob um viés epistemológico e não da audiologia. entre amigos. não negando as concepções e representações patológicas da surdez.]” e com essa interação com o mundo o surdo poderá destacar as suas particularidades e singularidades e o “ser diferente” não como o deficiente que a sociedade rotula. Seja na família.nesse caso o atendimento psicológico -. 2005). o surdo possui uma percepção visual do mundo e o ouvinte possui a percepção auditiva do mundo (SKLIAR. Porém. A experiência de vivência do surdo e a do ouvinte são diferentes. lazer. é possível identificar a possibilidade de os surdos estarem mais suscetíveis à vulnerabilidade individual. na fonte. em projetos assistenciais vinculados aos programas de acessibilidade.. é um contraste se pensarmos no ser surdo enquanto diferença. social e programática. De acordo com a visão da sociedade sobre o ser surdo que os psicólogos destacam encontrados nas subcategorizações. pois “possui uma interação com o meio. no lazer. A qual vulnerabilidade o surdo está mais suscetível? Às três? O surdo estará mais suscetível à vulnerabilidade individual caso os ouvintes não saibam como se comunicar e interagir com ele. a sua percepção visual para compreender o mundo [. da incapacidade com relação aos surdos. torna-se difícil que o sujeito surdo seja participante ativo desta sociedade.73 audição.. no trabalho e na própria sociedade de modo geral. As instituições. seja na universidade. realmente. mas não possuem as informações necessárias de como melhorar o acesso destes sujeitos. os surdos sofrem limitações quando necessitam de atendimentos na área da saúde . nas instituições onde há inserção dos surdos. na educação. deixando o estigma da deficiência. Eles se deparam com profissionais que desconhecem a língua de sinais e as particularidades que compõem a comunidade surda. ser a barreira na relação. e ainda diz que. como diz S1. é um contraste pensar a surdez como privação sensorial. as instituições e os programas de acessibilidade possuem conhecimento das leis. em atendimento relacionados a saúde. como um mundo marcado pela ausência e confrontá-la com a capacidade e diferença de sujeitos que por longo tempo ficaram à margem da sociedade. principalmente porque desejam fazer as descobertas por si mesmos em vez de buscar na comunidade surda. Quanto à vulnerabilidade social.

4. o surdo é visto como um ser diferente. pois após o surdo aceitar a sua língua. Os psicólogos S3 e S4 – psicólogos ouvintes que utilizam língua de sinais – também apresentam a sua percepção em relação ao surdo como estrangeiro em seu próprio país.1. não precisa necessariamente saber e conhecer a língua de sinais. dependendo da idade. do grau de surdez. ao enfatizar que o surdo é o portador de deficiência. cuja língua foi reconhecida oficialmente a partir do dia 22 de dezembro de 2005 pelo decreto nº 5. Também foi possível verificar a percepção que a sociedade tem sobre os sujeitos surdos. que são vítimas da sociedade e sofrem de preconceito. Afirmam a importância de esses sujeitos utilizarem a sua língua de conforto. que declara a utilização da conversação – língua oral – com seus pacientes surdos. ele apresenta a ausência de audição e possui os mesmos direitos e deveres. S1 e S2 são psicólogos surdos e a sua percepção enfatiza que os surdos são vistos como estrangeiros. S5. O surdo não “porta” a deficiência. em razão da ausência da audição. Apesar de S5 afirmar que realizou curso de LIBRAS a pedido de um de seus pacientes. perpetuando o preconceito dos ouvintes para os surdos e não respeitando a diferença linguística e cultural.626. mas aceitar o surdo como cidadão.2 O sujeito surdo que realiza atendimento psicoterapêutico O propósito deste capítulo é compreender quem é esse sujeito surdo – na concepção dos psicólogos – que busca atendimento psicoterapêutico. apresenta a posição de ouvintismo ao querer normalizar o surdo e persistir em utilizar a língua oral. foi necessário identificar a sua percepção em relação ao sujeito surdo para verificar se esta percepção influencia no atendimento. com suas particularidades. da aquisição linguística e do nível de aprendizado. Mesmo com as poucas . sua identidade. Para S3. não utiliza esta língua no atendimento. mas são iguais quanto a direitos e deveres. O importante é a sociedade aceitar o sujeito. Durante a entrevista com os participantes.74 Verifica-se que os surdos continuam estigmatizados pela sociedade como pessoas incapazes e que a surdez tem “cura”. passará a ter melhor desenvolvimento psicológico e sua experiência visual será mais “rica”. Foi possível perceber que ambos utilizaram características da intervenção adequada a cada sujeito.

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literaturas encontradas sobre a psicologia e surdez, é possível encontrar “rótulos” sobre os sujeitos surdos. Há psicólogos que, por falta do conhecimento da língua de sinais, acreditam que muitos dos surdos são psicóticos, esquizofrênicos, autistas, afásicos (SKLIAR, 2005; SACKS, 2007; SOLÉ, 2005). Se os psicólogos tivessem o conhecimento sobre a surdez, sobre o ser surdo a partir da perspectiva da comunidade surda, que apresenta principalmente uma visão antropológica de sujeito como um sujeito cultural, com fluência na língua de sinais, possivelmente não haveria tantos rótulos, mas sim apareceriam sintomas, questões emocionais, sofrimento psíquico a serem analisados para posteriormente encontrar o que realmente está causando sofrimento ao paciente. Pela falta de comunicação com a família e colegas, a não aceitação de sua identidade e de ser surdo, de viver em uma sociedade onde a maioria dos sujeitos é ouvinte, e por sofrer pressão para ser integrado ao padrão de normalização, eles estão mais suscetíveis a sofrimentos psíquicos, a ansiedade. E será possível identificá-los, a partir da categorização a seguir.

CONCEPÇÃO DOS PSICÓLOGOS SOBRE O SUJEITO NA PSICOTERAPIA Constituição psíquica

SURDOS (ocorrências)
Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5)

UCE

2

-

Psiquismo semelhante

-

1

-

Déficit cognitivo

-

1

-

Viver em situação de conflito

-

-

1

Sujeito com limitação para obter atendimento psicoterapêutico

-

1

-

“Na constituição psíquica do sujeito surdo é importante que ele tenha acesso a uma língua que o permita estabelecer contato com a cultura a qual está inserido e, consequentemente ter recursos para interagir com o mundo simbólico pela aprendizagem da linguagem, possibilitando o processo de humanização através do convívio entre seus pares.” (S1) “É um sujeito cujo psiquismo não difere do dos ouvintes, com demandas psicológicas semelhantes às dos ouvintes.” (S4) “Apresenta um déficit cognitivo decorrente da falta de comunicação, mas possui as mesmas potencialidades do sujeito ouvinte, desde que lhe sejam oferecidas oportunidades e recursos adequados.” (S4) “Uma pessoa normal em suas fases do desenvolvimento, que enfrenta conflitos conforme sua história, tal quais outros sujeitos e que com apoio da família consegue desenvolver-se e atuar na sociedade, mas sem este suporte é alguém cheio de preconceitos e defesas.” (S5) “Tomando como referência a minha experiência e, pelo conhecimento que possuo de serviços para atendimento psicoterapêutico para as pessoas com surdez, são poucos os surdos que

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recebem atendimento psicológico pela especificidade que é necessária. Vou explicar o por que: as pessoas não sabem se comunicar, não sabe Língua de Sinais, conhecimentos básicos como cultura surda, identidade surda, por exemplo, é daí o medo de se aventurar no mundo do surdo. Quando falo em se aventurar, me refiro ao despojar-se dos medos, de buscar informações, de manter contatos com a comunidade surda, etc. e, de jeito nenhum esquecer, de jeito nenhum, a ética e respeito com o surdo” (S3) Tabela 4 – Concepção dos psicólogos sobre quem é o sujeito que faz atendimento psicoterapêutico. Fonte: Elaborado pela autora, 2009.

Os psicólogos surdos S1 e S2 explicam o quanto é importante para a vida dos sujeitos surdos aceitarem como sua primeira língua a língua de sinais, como pode ser verificado pela fala de S1: “Na constituição psíquica do sujeito surdo é importante que ele tenha acesso a uma língua que o permita estabelecer contato com a cultura na qual está inserido e, consequentemente, ter recursos para interagir com o mundo simbólico pela aprendizagem da linguagem, possibilitando o processo de humanização através do convívio entre seus pares.” A partir do momento em que o surdo passa a utilizar a sua língua, é possível verificar que ele adquire possibilidades de se desenvolver psicologicamente e, também, que se permite o estabelecimento de comunicação no ambiente em que se encontra inserido – a comunidade surda – sendo uma maneira de não sofrer pressão do ouvintismo (SKLIAR, 2005). Transitar pela sociedade passa ser um desafio, já que há toda a problemática da comunicação, estigmas e discriminação. Sacks (2005) afirma que, com o aprendizado da língua de sinais, o surdo se desenvolverá intelectualmente. Este fato de o sujeito aprender a sua língua de conforto apresentará, além do desenvolvimento intelectual, o desenvolvimento psicológico. Portanto, o mesmo fato equivale também para os sujeitos ouvintes. É possível fazer uma analogia com os índios que utilizam a sua língua nativa e vão para outro lugar, onde esta língua não é utilizada; este sujeito poderá se sentir desprovido de informações, de interação, por não encontrar outros que se comunicam por meio de sua língua. Para inverter tal situação, tanto o surdo quanto o índio precisaram se esforçar para utilizar outra língua que não a deles. E a comunidade não poderá se esforçar para utilizar a língua de conforto destes sujeitos? S4 não encontra diferenças com relação às demandas psicológicas entre surdos e ouvintes; ele fala que o surdo “É um sujeito cujo psiquismo não difere do dos ouvintes, com

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demandas psicológicas semelhantes às dos ouvintes”. Então, tanto os surdos quanto os ouvintes apresentam demandas semelhantes, são sujeitos diferentes no modo de perceber o mundo, mas com demandas semelhantes, com os mesmos sofrimentos e angústias. S4 afirma que o surdo “apresenta um déficit cognitivo decorrente da falta de comunicação, mas possui as mesmas potencialidades do sujeito ouvinte, desde que lhe sejam oferecidas oportunidades e recursos adequados”, ou seja, se o surdo não encontrar oportunidades e recursos adequados, o que poderá acontecer a ele? O surdo será desprovido intelectualmente e incompetente por não ter tais oportunidades e recursos? Se os ouvintes não encontrarem oportunidades e recursos, também serão desprovidos intelectualmente e incompetentes? Marchesi (1995) afirma que o surdo pós-lingual possui melhor comunicação, pois já houve a aquisição do conhecimento da língua oral, melhor interação com os ouvintes; o surdo pré-lingual apresenta maior dificuldade em interagir com o mundo pela ausência da comunicação oral, e muitos dos ouvintes não se comunicam por meio da primeira língua dos surdos. Para Marchesi (1995), os surdos apresentam déficit cognitivo pela ausência da comunicação. Há outro autor que discorda do que foi dito anteriormente. Feuerstein discute a questão da privação cultural; para ele, o termo “privação cultural” não se refere à cultura do grupo ao qual se pertence. A negação cultural também não é o fator determinante, o que é prejudicial é o sujeito ou o grupo serem privados de sua própria cultura, os conhecimentos, valores e crenças não serem transmitidos de uma geração a outra. Portanto, “a privação cultural é o resultado do fato de um grupo não transmitir ou mediar sua cultura às novas gerações.” (apud ROS, 2002, p. 44). Por conta dessa privação cultural, possivelmente, muitos psicólogos se equivocam ao afirmar que os surdos apresentam déficit cognitivo, como o faz S4. No caso dos surdos, possivelmente, eles são suscetíveis à privação cultural e, devido a isto, são vistos – na maioria das vezes – com déficit cognitivo, o que é algo a mais para sua segregação social. Os surdos sofrem de privação cultural pela falta de informação dos pais, pois eles colocam seus filhos (as) surdos (as) em escolas regulares onde há a proposta de inclusão, mas o que acontece na realidade é a exclusão. Quando falamos em inclusão, já se pressupõem que existe a exclusão, há o preconceito por parte dos colegas que muitas vezes não desejam interagir por meio da língua de sinais, mas a maior barreira que se encontra ainda é por parte dos professores que argumentam a ausência dessa especificidade,

Com a falta de apoio da família ou de pessoas próximas. e que com apoio da família conseguem desenvolver-se e atuar na sociedade [. a buscar informações. é daí o medo de se aventurar no mundo do surdo. Vou explicar o porquê: as pessoas não sabem se comunicar. Furth destaca que os surdos congênitos – pré-linguais – sofrem de privação de informações. (FURTH apud SACKS. etc.. etc. ou por ser tão difícil que acaba não dando a atenção devida para o momento de sofrimento por que o sujeito está passando. porém. não têm conhecimentos básicos como cultura surda. e que umas das razões para isso é que eles são menos expostos ao aprendizado fora da escola. por exemplo. de jeito nenhum. a manter contatos com a comunidade surda. Pela afirmação de S3 .78 de estudar sobre os “deficientes” em sua graduação e também pela falta de compreensão da própria equipe pedagógica e da escola sobre o que seja a inclusão escolar de um aluno surdo. ele afirma que os surdos e os ouvintes são pessoas normais “em suas fases do desenvolvimento. por exemplo. filmes sem legenda.“Tomando como referência a minha experiência e pelo conhecimento que possuo de serviços para atendimento psicoterapêutico para as pessoas com surdez. tal qual outros sujeitos. nas conversas entre pessoas quando eles não conseguem interagir com outros. de jeito nenhum. muitos deles procuram apoio psicológico para minimizar seus sofrimentos e angústias.o psicólogo necessita conhecer um pouco sobre a comunidade surda para haver oportunidade para os sujeitos surdos realizarem atendimento psicoterapêutico e minimizarem seus sofrimentos. 2007) Com isso desencadeiam-se o sofrimento e conflito psíquico dos sujeitos surdos. pela Língua de Sinais. e. como. . tanto que ao perguntar para S5 sobre quem é o sujeito que faz atendimento psicoterapêutico. são poucos os surdos que recebem atendimento psicológico pela especificidade que é necessária. mas nem sempre a família oferece apoio ou porque não sabe lidar com tal situação por falta de conhecimento e informação. identidade surda. a ética e respeito com o surdo” . que enfrentam conflitos conforme sua história. o que pode ocorrer também com os ouvintes. me refiro a despojar-se dos medos. programas de televisão.]”.. esquecer. os ouvintes também passam por sofrimentos psíquicos e conflitos desencadeados por alguma situação que tenha ocorrido entre ele e o afetado. ele afirma que o surdo sofre com limitações devido aos psicólogos não conhecerem a sua língua de sinais. Quando falo em se aventurar. Ao perguntar para S3 sobre o sujeito surdo que realiza o atendimento psicoterapêutico.

É possível encontrar a partir das subcategorizações que S1 e S2 – psicólogos . 4. com seus dilemas e sofrimentos. ouvintes e familiares. É possível comparar a concepção de cada psicólogo. O psicólogo S5 considera o surdo uma pessoa “normal”. O psicólogo ouvinte que utiliza língua de sinais. porém encontram-se poucos artigos a respeito. S3 – psicólogo ouvinte que utiliza língua de sinais – enfatiza a limitação dos surdos ao procurar atendimento psicoterapêutico por falta de outros psicólogos que utilizam a língua de sinais. colegas ouvintes.1 Tipos de atendimentos psicoterapêuticos realizados com sujeitos e familiares Os psicólogos relataram os atendimentos que eles realizaram com sujeitos surdos e ouvintes. como o sujeito ter déficit cognitivo devido a falta da língua. as abordagens teóricas utilizadas por psicólogos e as queixas que os sujeitos e familiares apresentam.79 Muitos dos psicólogos não conhecem a área da surdez devido a literatura escassa. S1 e S2 – psicólogos surdos – destacam a importância de o sujeito surdo aceitar a língua de sinais. se o surdo não tiver apoio da família e amigos. porém. 4. E também afirma que o surdo e o ouvinte possuem psiquismo semelhante.2.2 CARACTERÍSTICAS DOS ATENDIMENTOS REALIZADOS COM SUJEITOS Neste capítulo apresentam-se os dados relacionados ao tipo de atendimento realizado com surdos. interação com o meio e a percepção de si mesmo como um sujeito melhor que aquele surdo que não utiliza língua de sinais. apresenta uma concepção que pode não estar de acordo com os surdos. só não encontram outras pessoas que a utilizam – com exceção de outros surdos – como seus familiares. pois com a aceitação desta língua o sujeito poderá apresentar desenvolvimento psíquico. Solé (2005) afirma que somente há dez anos alguns psicanalistas apresentaram interesse em estudar a área da surdez. S4. ele se apresentará como uma pessoa preconceituosa. É preciso lembrar que os surdos possuem uma língua.

É possível também encontrar surdos pré-linguais que apresentam a compreensão linguística na língua oral. Com o conhecimento da língua de sinais por parte dos psicólogos. para que o psicólogo realizasse curso de LIBRAS para se comunicar com mais eficiência durante o seu atendimento psicoterapêutico. por parte do surdo. descrevendo seus sentimentos e sofrimentos com o acompanhamento e atenção adequados por parte dos psicólogos que estarão em condições de realizar intervenções mais . Pois os ouvintes. no seu real significado. é importante ressaltar que há surdos oralizados com uma boa compreensão da língua portuguesa. os surdos oralizados possuem dificuldade em expressar seus sentimentos na língua oral por haver desconhecimento das palavras (escritas e faladas) que expressam os seus sentimentos. angústias e sofrimentos. segundo Skliar (2005). O psicólogo ouvinte – S5 – não atua na área da surdez e não utilizava língua de sinais quando começou a atender surdos. mas é importante ressaltar que. que foram grandes incentivadores em seu processo de aprendizado. sendo uma maneira de beneficiar a comunicação durante o atendimento. não somente da fala mas dos conteúdos tanto da vida cotidiana quanto escolar. possivelmente. são casos isolados. O que. gerou dificuldade entre ambos de estabelecerem uma comunicação adequada durante o atendimento psicoterapêutico. Para Dalcin (2006). familiares. os sujeitos surdos poderão receber o atendimento psicoterapêutico na sua língua de “conforto”. e a alternativa mais apropriada seria que o profissional buscasse o curso de LIBRAS. Porém. muitas vezes não explicavam o significado dessas palavras na língua falada.80 surdos – e S3 e S4 – psicólogos ouvintes – possuem conhecimento da língua de sinais e a utilizam no atendimento psicoterapêutico dos surdos. Portanto. O próprio paciente surdo pode ter encontrado dificuldade em se comunicar e se expressar devido à falta de conhecimento da língua de sinais de S5. principalmente aqueles sujeitos que tiveram uma surdez adquirida – surdo pós-lingual – ou a família se empenhou para aquisição da oralidade e também pelo trabalho de profissionais. os surdos encontram o espaço onde conseguem se expressar em sua língua sem se preocupar em encontrar palavras adequadas para descrever seus sentimentos na língua oral. uma das maneiras de favorecer a comunicação entre profissional e paciente. quando se minimiza a ansiedade por conta do uso da “língua estrangeira”. como professores e fonoaudiólogos. A partir do início do tratamento de um surdo foi possível identificar que houve uma solicitação. adequados à situação que estão vivenciando. com a presença de psicólogos surdos ou ouvintes que utilizam a língua de sinais. pessoas mais próximas. Deve haver o empenho de todos os sujeitos que convivem com o surdo para que ele consiga ter êxito em sua aprendizagem por meio somente da oralidade.

que está apto a “escutar” e ajudá-lo. p. um resultado do processo psicoterapêutico melhor. tanto para o surdo quanto para os psicólogos. Se nesse primeiro encontro entre o psicólogo e o paciente não ocorrer uma comunicação adequada. “o „processo‟ da entrevista referese ao desenvolvimento da relação médico-paciente. mas ele vai-se deparar com dificuldade para encontrar palavras adequadas para descrever o motivo que o trouxe ao atendimento psicoterapêutico.81 coerentes. possivelmente é importante o psicólogo utilizar a língua de sinais para estabelecer uma comunicação adequada no atendimento psicoterapêutico. E é responsabilidade do psicólogo transmitir-lhe que ele está do seu lado. tanto os surdos quanto os ouvintes. Geralmente. o seu sofrimento. amenizar a sua ansiedade e insegurança. o vínculo psicólogo-paciente poderá se estabelecer por meio da língua de sinais. verifica-se a categorização dos tipos de atendimento realizados por psicólogos com sujeitos: . pois se sente inseguro em relação ao psicólogo por não saber o que esperar dele. não encontrar um outro que possibilite uma comunicação genuína seja construída neste espaço. 19). os sujeitos. Buscando. as suas angústias. a partir da sua língua de conforto – é um registro que pode contribuir para o aumento da vulnerabilidade. ansiedade. para deixá-los à vontade na primeira consulta. com mais eficiência. Relacionando com o autor citado acima articulando com os sujeitos surdos. Conforme a afirmação de MacKinnon & Michles. preocupação quanto a se o psicólogo irá entender a sua fala. Othmer & Othmer (2003) enfatizam que é comum encontrar o sujeito apreensivo e ansioso na primeira consulta. apresentam-se ansiosos na primeira consulta psicoterapêutica. a insegurança. Antes de destacar a fala dos participantes. a ansiedade são expressões bastante familiares quando se trata de uma primeira consulta psicológica e está presente também nos sujeitos ouvintes – contudo. De acordo com Mackinnon & Michels (1992). pois ele se expressará pela língua de sinais. Pode ocorrer de os surdos apresentarem seus sentimentos pela língua oral ou escrita. podem apresentar-se mais ansiosos devido à comunicação. a partir da sua percepção das demandas que os sujeitos surdos que fazem psicoterapia apresentam.” (MACKINNON & MICHELS. assim. Relaciona-se particularmente com o significado implícito das comunicações. sofrimento e isto deve ser uma garantia de cidadania. o medo. Com relação aos surdos oralizados e implantados. podem-se apresentar menos ansiosos e apreensivos que os surdos sinalizantes por dominarem a língua oral e estabelecer uma melhor comunicação com o psicólogo ouvinte que não utiliza língua de sinais. 1992. é importante que o psicólogo crie um vínculo com o paciente para que tenha sucesso no processo psicoterapêutico. No caso dos sujeitos surdos. Porém.

o mesmo psicólogo relata utilizar dinâmicas e filmes sobre surdos para que os pais adquiram uma melhor compreensão do mundo visual dos surdos. apenas realiza com eles orientação de como se relacionar com filho (a) surdo (a). 2009.. . S1 diz que não atende os familiares. Além do atendimento aos sujeitos surdos.82 SURDOS (ocorrências) TIPOS DE ATENDIMENTO Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE Atendimento individual sem intérprete 2 2 1 1 2 1 “Atendo os surdos sem a presença do intérprete.. trocas de idéias.” (S1) “Os irmãos ouvintes de surdos pedem orientações em como entender o irmão surdo para se relacionar melhor. Utilizo dinâmicas para eles entenderem o mundo dos surdos como filmes. S3. S4 e S5 – também afirmaram realizar atendimento com ouvintes. os psicólogos entrevistados – S2. S1 trabalha também sob forma de orientação. No atendimento grupal com os familiares. destacando as diferenças entre o mundo visual e auditivo.” (S3) Atendimento individual com intérprete Atendimento familiar sem intérprete - - - - - “[.” (S2) 1 - - - - - Atendimento/ orientação à família 2 1 - - - - Tabela 5 – Os tipos de atendimentos realizados por psicólogos com sujeitos Fonte: Elaborado pela autora.] atendi [.. podendo ser este trabalho individual ou grupal. neste caso sou a tradutora entre eles. e as queixas são que não sabem se comunicar com os filhos surdos e não conseguem entender. apesar de não ter domínio da LIBRAS.” (S2) 1 2 1 - 1 1 Atendimento familiar com intérprete Atendimento grupal - - - - - “Atendimento grupal com as famílias para orientações. No atendimento grupal.] as mães de surd@s..

S3 enfatizou em sua fala que não apresenta . De acordo com Ayres et al (1999). como no caso da família ouvinte que não utiliza a primeira língua do surdo. A ausência de comunicação entre a família ouvinte e filho (a) surdo (a) é um grande problema de relacionamento. dificuldade em acesso na área da saúde como hospitais. a vulnerabilidade social refere-se à abrangência da esfera social como o acesso do sujeito à informação na TV e rádio. acesso aos serviços de saúde (AYRES et al. apesar de não ter domínio da LIBRAS”. A vulnerabilidade programática.83 S2 também afirmou que já orientou os irmãos de surdos. é necessário pensar em outros fatores que possibilitam ao surdo apresentar-se vulnerável. muitas vezes. Para Ayres. se a sociedade tiver mais consciência da realidade dos surdos – não somente dos surdos. ele pode apresentar autoestima baixa. com maior acessibilidade e apoio a eles. pois estes buscaram orientações “em como entender o irmão surdo para se relacionar melhor”. posto de saúde e consultório pela dificuldade de comunicação e também pode ser possível encontrar profissionais que não sabem como se comunicar com eles. S3 enfatiza: “atendo os surdos sem a presença do intérprete. pois ambos estarão utilizando a primeira língua do surdo. pois a grande maioria dos profissionais da área de saúde ainda não está preparada para atender pessoas com deficiência nem os sujeitos surdos. podendo deixar o sujeito surdo ansioso e mais suscetível à vulnerabilidade individual. e o resultado poderá ser gratificante. física e mental – poderá reverter a situação. Porém. Portanto. ser inseguro. minimizando-se a vulnerabilidade desses sujeitos. e que as mães dos pacientes queixavam-se de que não sabiam como se comunicar com o filho (a). 1999). S2 fala que já atendeu pais de surdos. também das pessoas com deficiência visual. segundo o mesmo autor. É possível identificar que com o uso da língua de sinais os surdos poderão se encontrar menos suscetíveis à vulnerabilidade individual com S3. como a desvantagem social e programática. S2 foi o tradutor entre eles. É possível identificar a ausência de um programa de apoio à saúde mental de pessoas com surdez e também programa e atendimento para as pessoas surdas. relaciona-se a instituições. não é apenas o fato da ausência da comunicação entre pais e surdo que pode promover a vulnerabilidade individual do surdo. a vulnerabilidade individual refere-se ao comportamento pessoal relacionado ao surdo. ansioso ou agressivo por não encontrar outras pessoas que se comunicam pela língua de sinais. é possível identificar a dificuldade dos surdos em conseguir acesso às informações pela ausência de legenda nas televisões. Ao relacionar a vulnerabilidade social com o sujeito surdo.

prevenção de recorrências e convivência harmônica. trocas de ideias. as dificuldades com que os surdos se deparam no cotidiano. No caso dos surdos. a psicoeducação familiar pode apresentar o mesmo objetivo de intervenção. apenas S4 e S5 realizaram atendimento familiar. Apesar de S2 ser surdo. que pode ser verificado na sua fala: “Atendimento grupal com as famílias para orientações.”. tanto dos pais quanto dos surdos. os psicólogos podem possibilitar aos pais de surdos um melhor conhecimento da comunidade surda. neste caso sou a tradutora entre eles. orientar aos pais para realizar cursos de língua de sinais para ter uma comunicação melhor com seus filhos (as) surdos (as). pois propiciará uma interação melhor com seus (suas) filhos (as) surdos (as). . pois estará possibilitando aos pais o conhecimento da comunidade surda. pois terá uma comunicação melhor.. a psicoeducação familiar visa a ensinar aos membros da família como cuidar de um doente mental. Utilizo dinâmicas para eles entenderem o mundo dos surdos. como filmes. S2 – psicólogo surdo –. o que facilita a comunicação com os ouvintes. havendo essa preocupação. os psicólogos poderão minimizar a ansiedade e a vulnerabilidade individual. Há também o atendimento grupal com pais de filhos (as) surdos (as) realizado por S1. como pode ser destacado no relato: “[. sobre a doença que o sujeito possui. Com essa intervenção psicoeducativa. as suas capacidades de desenvolvimento e habilidades. Os psicólogos surdos. Não somente S3 atende surdos sem intérprete. Quando se trata de orientação.”. S1.] atendi [. É possível identificar a preocupação dos irmãos ouvintes de surdos em como se relacionar com ele. é possível que o surdo se apresente menos vulnerável. os tratamentos e as necessidades do sujeito.84 domínio na língua de sinais. ele afirma apresentar boa oralização. S3 e S4 também realizam atendimento familiar sem a presença do intérprete com a família de surdos. mas já realizou vários cursos de LIBRAS para aperfeiçoar a sua comunicação. e as queixas são que não sabem se comunicar com os filhos surdos e não conseguem entender. realizam orientação com a família de surdos para tirar dúvidas em relação ao filho (a) surdo (a).. S4 e S5 também o fazem. e isto é importante para os pais.”. atendimento familiar ou grupal pode ser visto como uma psicoeducação familiar.. S2. Com esse trabalho.] as mães de surdos. Como pode ser identificado na fala de S2: “Os irmãos ouvintes de surdos pedem orientações em como entender o irmão surdo para se relacionar melhor. S1 e S2. S1 poderá privilegiar os surdos.. informações sobre como interagir melhor com filhos (as) surdos (as). Segundo Yacubian & Neto (2001). Com a família de ouvintes.

2. S2. conflitos.85 Há importância de o psicólogo apresentar conhecimento da língua de sinais. Os procedimentos variam de acordo com [. Com crianças e surdos com patologias associadas como a cegueira.2 Tipos de variação na intervenção psicoterapêutica com sujeitos Os psicólogos S1. insegurança. e S1 também realiza atendimento grupal com a família de surdos com o objetivo de os pais encontrarem um espaço para trocar ideias...]pois algumas abordagens que uso não são adequadas para outros. o grau de surdez. [. a faixa etária. modificando-se apenas a forma de comunicação. para realizar um atendimento adequado aos sujeitos surdos. dificuldades de relacionamentos gerais... [.. Todos os psicólogos entrevistados realizam atendimento individual sem a presença de intérprete com surdos. Os procedimentos variam de acordo com faixa etária [. S1 e S2 realizam orientação à família de surdos.” (S2) . é comum o uso de técnicas comportamentais de reforço. tirar dúvidas. O profissional que utiliza a língua de sinais poderá ser o “responsável” por minimizar a ansiedade.. pois o surdo encontrará seu espaço.. o nível de pensamento. Com adultos a abordagem é eclética. seqüelas neurológicas. por exemplo..” (S4) “Dependendo do nível do pensamento (concreto ou formal). como pode ser verificado a seguir na tabela: SURDOS (ocorrências) VARIAÇÃO NA INTERVENÇÃO PSICOTERAPEUTICA Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE Faixa etária - 1 - Grau de surdez - 1 - Nível do pensamento 1 - - “Sim. oferecendo-lhes os mesmos privilégios dos sujeitos ouvintes. S2 e S4 apresentam variação na intervenção psicoterapêutica com o surdo devido a cada especificidade deles como. S4 e S5 realizam atendimento individual com sujeitos ouvintes sem a presença do intérprete. 4.. minimizar suas angústias.]. pois vai depender de cada caso” (S4) “Sim. ao nível cognitivo. a língua utilizada. confiança e segurança com ele.] Sou flexível e tenho técnicas para cada caso..] grau de surdez.

é comum o uso de técnicas comportamentais de reforço.. mas também se havia compreensão dos significados das palavras.86 Desenvolvimento cognitivo Oralização 1 - - 2 - - Não há variação - 1 1 “Dependendo [. sequelas neurológicas.. como pode ser verificado na sua fala: “Sim. S4 afirma que há variação na intervenção psicoterapêutica. conforme seu relato: “Sim.] do desenvolvimento cognitivo. língua de sinais com surdos sinalizantes. após o curso. ele atendeu três surdos até hoje e é possível que os sujeitos apresentassem uma boa leitura labial e compreensão na língua portuguesa. conseguiu-se estabelecer uma comunicação mais eficaz e o psicólogo compreendeu melhor os seus relatos. Os procedimentos variam de acordo com faixa etária [. O psicólogo S2 afirma que a variação na intervenção psicoterapêutica se relaciona de acordo com o nível do pensamento e desenvolvimento cognitivo do surdo. como por exemplo. eu vario.” (S2) “Com o surdo oralizado ou implantado. Com crianças e surdos com patologias associadas como a cegueira. De acordo com S5. Porém. Fonte: Elaborado pela autora. não somente o entendimento da palavra. Quanto a faixa etária. Porém.]. De acordo com . vou utilizar a língua oral em todos os atendimentos” (S1) “Não. 2009.] grau de surdez. O que supõe que S4 varie de acordo com a língua do surdo também.. Com adultos a abordagem é eclética. S5 afirma: “sempre mantive boa comunicação com os sujeitos surdos que atendi e eles entendiam meus questionamentos e pensavam comigo”. Sempre mantive boa comunicação com os sujeitos surdos que atendi e eles entendiam meus questionamentos e pensavam comigo. surdos oralizados e implantados com a língua oral. Solé (2005) afirma que há surdos oralizados que não apresentam entendimento dos significados de algumas palavras pela falta de terem sido ensinados sobre como entender a frase toda e não só as palavras. separadamente (SOLÉ. pois vai depender de cada caso”. ele afirma que fez curso de língua de sinais por solicitação de um dos pacientes e o resultado disto foi que.”. Enquanto que S3 e S5 afirmam em seus relatos que não há variação na intervenção psicoterapêutica. 2005). S4 varia também de acordo com o grau de surdez. Os procedimentos variam de acordo com [. será que S5 não percebeu que o pedido de um surdo para ele fazer um curso de LIBRAS era algum indício de que se necessitava de alguma variação do psicólogo na intervenção psicoterapêutica? Também é possível refletir se o sujeito surdo compreendia as palavras de S5. pois algumas abordagens que uso não são adequadas para outros..” (S5) Tabela 6 – A variação na intervenção psicoterapêutica de acordo com o grau de surdez no atendimento...

2. “Sim. surdos profundos. a abordagem teórica mais utilizada para falar sobre isso parece ser a Psicanálise. pelo menos no Brasil. como é destacado na fala de S1: “Com o surdo oralizado ou implantado. É possível encontrar artigos sobre o sujeito surdo relacionado à teórica psicanalítica. e de acordo com o desenvolvimento cognitivo do surdo. S2 também varia de acordo com o nível de pensamento. como em Solé (2005).87 a afirmação de S2. É possível comparar as diferentes variações que os psicólogos utilizam na intervenção psicoterapêutica dos surdos. pois algumas abordagens que uso não são adequadas para outros”. S1 e S2 modificam a variação de acordo com a língua que o surdo utiliza para se comunicar. Caso o sujeito surdo seja oralizado – que pode ser surdos com resquícios de audição. varia! Dependendo do nível do pensamento (concreto ou formal) do desenvolvimento cognitivo. Apenas S3 e S5 afirmam que não há variação na intervenção psicoterapêutica com surdos. S4 varia na intervenção de acordo com a faixa etária e com o grau de surdez. uma das autoras psicanalíticas que já trabalharam na área da surdez. mas se se procurar literatura sobre psicologia e surdez. S4 não descreveu quais abordagens não são adequadas. As abordagens que os psicólogos entrevistados utilizam para atender os surdos verificam-se a seguir na tabela: . vou utilizar a língua oral em todos os atendimentos”. surdos implantados –. 4. mas afirmou possuir técnicas para cada caso. eu vario. mas não se encontram dados afirmando qual é a abordagem teórica adequada. que pode ser concreto ou formal. S1 e S2 variam de acordo com a língua que o surdo utiliza.3 As abordagens teóricas utilizadas no atendimento com sujeitos Não foi encontrada literatura que explique qual é a abordagem adequada para trabalhar com sujeitos surdos.

. que se sente muito ansioso... Peço para os meus pacientes.] acredito que o meu enfoque foi baseado nessa abordagem... esperar que o surdo fale o que quiser e com isso vou “pegando” os conteúdos mais importantes para fazer a devolução. na abordagem TCC..” (S3) “Utilizo abordagem eclética. [. se não tem limites.]. utilizo a TCC.” (S1) “[. com adequações para a nossa realidade.. angustiado. medo de namorar [. falta de limite [..] posso trabalhar com o sujeito surdo na forma de fazer apenas poucas perguntas. as angústias.] consigo focalizar mais nos medos.. [...].. [. Alguns possuem medo de sair de casa. escrever no caderno como se fosse um diário relatando seus medos.] se o surdo apresenta problemas de simbolismo..].. A peculiaridade das condições da surdez . se tem medo.. eu utilizo a teoria psicanalítica...]” (S1) “Caso o surdo apresentar-se mimado.88 SURDOS (ocorrências) ABORDAGEM TEÓRICA Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE Psicanálise 1 - - - - - Terapia CognitivoComportamental 2 - - - - - Terapia Familiar Sistêmica - 1 1 - 1 1 Abordagem eclética - 1 - - - - “[.] e às vezes a culpa é da família. [. ansiedades e outros para poder organizar a estrutura psíquica dele. Também já trabalhei com pacientes bulimicos e outros sintomas [....

pois depende do caso que o surdo apresenta e as abordagens que uso são [.] psicodrama [.89 Abordagem Transpessoal Psicologia educacional - - - - 1 - 1 - - - - - Psicodrama 1 - - - - - exige criatividade e utilização de diversos recursos conforme cada caso” (S4) “Utilizo a abordagem transpessoal. S3 e S5 possuem formação em Terapia Sistêmica Familiar e S3 relata que utiliza técnicas da abordagem sistêmica como tarefas para os surdos e ouvintes. 2009. Tanto S4 quanto os outros psicólogos utilizam mais de uma abordagem nos atendimentos com os surdos.... independendo da especificidade de cada surdo. com adequações para a nossa realidade”. A abordagem psicodrama pode ser vista como adequada para trabalhar com os surdos. A Teoria Sistêmica Familiar visa a trabalhar com a estrutura familiar e a relação comunicacional entre o sujeito e a família (fonte). S3 afirma “acredito que o meu enfoque foi baseado nessa abordagem. com visão holística.]” (S2) Tabela 7 – Abordagem teórica utilizada por psicólogos. ele utiliza também terapia cognitivocomportamental – TCC e psicodrama. a justificativa que eles apresentam para esta utilização é que cada sujeito possui uma especificidade e não é qualquer abordagem que se apresenta de acordo com o caso do surdo. Esta teoria pode não ser adequada para trabalhar individualmente. Fonte: Elaborado pela autora. Por exemplo. pois o enfoque desta abordagem visa a trabalhar com a família...” (S4) “Dependendo do caso tenho trabalhado a psicologia educacional junto com a estruturação da linguagem.] psicodrama [.]”. porém... pois depende do caso que o surdo apresenta e as abordagens que uso são [.. pois a teoria de Moreno tem como objetivo que o paciente seja atuante e o lema desta abordagem é a . S4 utiliza a abordagem transpessoal com visão holística para atender os ouvintes. porém. Há apenas dois psicólogos que afirmam utilizar uma única abordagem tanto para os surdos quanto para os ouvintes. o que indica que S3 identifica que algumas técnicas específicas da abordagem necessitam de adequações para o atendimento com surdos. como foi destacado em sua fala: “Varia muito. pode utilizar diversas técnicas com enfoque nesta abordagem. Além de utilizar a psicologia educacional para atender o surdo. S2 diz “dependendo do caso tenho trabalhado a psicologia educacional junto com a estruturação da linguagem”.” (S2) “Varia muito.

A peculiaridade das condições da surdez exige criatividade e utilização de diversos recursos conforme cada caso” Questiona-se se a abordagem eclética pode ser adequada para o trabalho dos psicólogos. Nesta abordagem. o psicólogo. E a psicanálise é utilizada quando o surdo apresenta problemas relacionadas ao simbolismo. e descreve que dependendo do caso utiliza uma ou outra para atender o surdo. S1 utiliza a psicanálise e a TCC. possivelmente terá como focalizar em seus atendimentos psicoterapêuticos com os sujeitos surdos suas principais queixas e demandas para que realize as suas intervenções mais adequadamente. frustrações e outros sentimentos. pois além do atendimento individual há também o atendimento grupal. caso o sujeito apresente queixas relacionadas a medo. pois S2 possui especialização na área de educação especial.90 espontaneidade e a criatividade. quando necessários. S3 e S5 utilizam apenas uma abordagem teórica. utiliza a TCC. ele afirmou que utiliza abordagem eclética: “Utilizo abordagem eclética. angústias. sendo que “posso trabalhar com o sujeito surdo na forma de fazer apenas poucas perguntas. há a dramatização. citada por S2. há abordagens específicas para problemas específicos? Vale refletir que a abordagem teórica para o psicólogo vem traçar a diretriz de seu trabalho. ansiedade. e ainda. Ao perguntar para S4 sobre a abordagem que ele utiliza com os surdos. em que os pacientes representam suas felicidades. raivas. Em relação à psicologia educacional. o que pode ser considerado “eclético” são as técnicas utilizadas nos atendimentos psicoterapêuticos e que estão presentes nas diversas abordagens teóricas. sejam sinalizantes ou oralizados. pois é possível utilizá-las fazendo adaptações e ajustes. é mais um contexto de intervenção do psicólogo. porém. é provável que esteja articulando seus conhecimentos na área da psicologia com a área de educação para poder trabalhar na estrutura linguística do surdo. Por exemplo. Será que é possível pensar que há abordagens específicas para cada sujeito. esperar que o surdo fale o que quiser e com isso vou „pegando‟ os conteúdos mais importantes para fazer a devolução”. tanto para surdos quanto para . S2 também utiliza a TCC. 1980). o passado e o futuro são o presente (FONSECA FILHO. como no caso de S4. Apenas S1 utiliza a abordagem teórica psicanalítica e a TCC. e ela pode ser trabalhada por meio do processo anafórico. Há diversas abordagens teóricas utilizadas por psicólogos. psicodrama e psicologia educacional. com seus estudos aprofundados e com uma abordagem teórica que sustente o seu trabalho. neste caso para os sujeitos surdos. essa abordagem é utilizada com surdos que apresentam domínio na linguagem. O que pode facilitar o trabalho com surdos.

1 Queixas dos sujeitos As queixas apresentadas por psicólogos sobre os sujeitos foram variadas. as mesmas queixas? 4. .. porém.91 ouvintes. Eles 31 Tabela 8 – As queixas dos sujeitos apresentadas para os psicólogos no atendimento psicoterapêutico. sendo que a quantidade das queixas dos surdos foi maior que a dos ouvintes. utiliza uma abordagem eclética dependendo do sujeito.] falta de liberdade em diferentes situações como sair à noite pra balada com os amigos. ele não encontrou resposta para essa questão (LANE apud SOLÉ. a Teoria Sistêmica Familiar. Fonte: Elaborado pela autora. p. 33). É possível que os surdos e os ouvintes possuam as mesmas funções psicológicas. sofrimentos e angústias. ir pro shopping. ir pro cinema pra namorar. ou seja.] os surdos se diferem dos ouvintes no tipo e frequência de doenças mentais [. Há uma questão feita por Lane em relação aos surdos e ouvintes: “[. 4.4. emocionalmente perturbados sem se encontrarem provas evidentes de que de fato estejam apresentando tais problemas. 2009...4 As queixas apresentadas pelos sujeitos e familiares De acordo com alguns autores como Skliar (2005) e Solé (2005). como pode ser identificado na tabela a seguir: SURDOS (ocorrências) TIPOS DE QUEIXAS31 Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE Falta de liberdade 2 1 - - - - “[. S4 utiliza abordagem transpessoal com visão holística com os ouvintes e com os surdos. psicóticos... afasia..2.]”. os surdos recebem diagnósticos de esquizofrenia. 2005.2.

...]” (S1) “As queixas que os surdos apresentam são depressão [..]” (S2) “Com os surdos com implantes cocleares (aqueles que colocaram já adulto) tem problemas com frustrações.” (S2) “[.92 Isolamento - 1 - - - - Transtorno de Ansiedade Depressão 1 1 - - 1 - - 1 - - 1 - Transtorno de Humor Transtorno de Somatoformes Dificuldades de relacionamento 1 1 - 1 - - 1 - - - - 2 2 1 - 2 1 Discriminação 1 1 - - - - Autoestima 1 1 - - 1 - Revolta 1 - - - - - Frustrações 1 1 - - - - Insegurança 1 - - 1 - - Transtorno de Personalidade 1 - - - - - Dificuldade de 1 - - - - - não entendem as preocupações dos pais em relação à violência.] há também transtornos como paranóica..]” (S3). os relacionamentos e.” (S2) “[...... suas conseqüências.. histriônica.] não aceitam sua .]” (S2) “Os professores ouvintes de alunos surdos apresentaram queixas de insegurança pessoal.....] somatizações”(S4) “Os sujeitos surdos (adolescentes) na grande maioria se queixam do relacionamento com seus pais [...] da revolta de seus pais e do mundo [... as drogas.] isolamento [.. o oral e não conseguem bons resultados e tem nível intelectual baixo por falta de informações [. etc.] preconceitos e discriminação por parte dos ouvintes” (S4) “Eles reclamam muito por causa [. “As queixas [.....]”(S4) “A maioria deles possui síndrome do pânico [. pois ficam confusos devidos á pressão para treinar a fala...] transtorno bipolar” (S1) “As queixas que os surdos apresentam são [...]”(S4) “A maioria deles possui [..] são [.” (S3) “As queixas que os surdos apresentam são [.] e da baixa autoestima” (S1) “Os surdos adolescentes e adultos reclamam [..

depressão. baixa autoestima. . com isso. frustração. não aceitação de sua identidade e outros transtornos de personalidade.. sendo que a mãe pode reagir de dois modos: “ou através de compensações de privilégios e acréscimo de amor. Para Meynard. p. discriminação. é tomada como consequência de uma tensão afetiva que não se pôde aliviar pela palavra” (SOLÉ. como os que acontecem com a mãe da criança surda. pois o sujeito surdo e o psicólogo ouvinte que não utiliza língua de sinais não conseguem estabelecer comunicação. surgem outros comportamentos e problemas emocionais e sociais. p. para Solé. Esta afirmação pode estar de acordo com a realidade de hoje. os pais encontram dificuldades em impor limites. pois. não deixando o sujeito surdo “livre” entre os ouvintes como cidadão com seus direitos e deveres. e isso pode desencadear dificuldades de relacionamento. Muitas vezes há impossibilidade de o sujeito surdo conseguir expressar seus afetos. conflitos e outros sentimentos em palavras. Fatores relatados por Meynard. podem estar relacionados à queixa dos surdos sobre a falta de liberdade ou dificuldades de relacionamentos. A ansiedade é destacada nas queixas dos sujeitos surdos. O isolamento pode ser causado pela visão ouvintista que a sociedade representa. fazendo com que ela procure outros meios para que seu filho esteja de acordo com o padrão de normalização. ou retirando o investimento” (MEYNARD apud SOLÉ. a criança surda pode causar reação na mãe ante esta diferença. 2005.. de maneira geral. ansiedades e mudanças de humor. como somatoformes. p. A autora citada acima afirma que é necessário entender que esses sintomas não surgem pela falta de comunicação e sim “daquilo que o sujeito pode experienciar dela” (SOLÉ. imagens ou até mesmo em língua de sinais. revolta. 59). 2005. 2005. constantemente descrita nos surdos. Com a ausência de comunicação. insegurança. “a ansiedade. explicar o que os (as) filhos (as) surdos (as) podem fazer. pois o diagnóstico de surdez provoca na mãe a tentativa de não identificar essa diferença – auditiva –. o que pode desencadear diversos sintomas de comportamento agressivo.39).93 aceitação da identidade identidade [. A ausência de conhecimento da cultura e língua dos surdos por ouvintes também é outro fator desencadeante em relação ao isolamento. 39). Um dos aspectos que talvez contribua para as queixas apresentadas por surdos é a falta de comunicação entre pais e filhos.]” (S1) As queixas dos surdos mais identificadas pelos psicólogos foram a falta de liberdade e as dificuldades de relacionamento.

pois são aceitos pela sociedade por serem iguais. a ênfase das queixas se situa no transtorno de ansiedade e de humor. o que acaba sendo uma queixa apresentada pelos surdos (VIROLE apud SOLÉ. Com relação aos ouvintes. os relacionamentos e suas consequências”. os . de humor e de somatoformes. os surdos passam a ficar ansiosos. do meio social e das instituições. parece que a falta de comunicação é o principal fator que causa certos comportamentos nos surdos. que S1. os profissionais cometem erros nos diagnósticos. mas observa-se com relação aos sujeitos surdos que suas queixas situam-se principalmente em razão da dificuldade de comunicação com as pessoas do seu meio de convivência. os problemas podem estar equivocadamente diagnosticados pois. frustrados. a preocupação dos pais é a mesma para os pais de filhos (as) ouvintes. casal e com ouvintes. social. tal qual os surdos. os ouvintes em relação aos surdos possuem menos sofrimento. é o despreparo dos outros sujeitos. frustração. tais como transtorno de ansiedade. às drogas. S2. que os surdos “não entendem as preocupações dos pais em relação à violência. deixando-os vulneráveis. familiar e do parceiro (a).94 Outro motivo que talvez contribua para o aparecimento dessas queixas. S3 e S4 relatam ter identificado. As dificuldades de relacionamento que os ouvintes apresentam são relacionadas às questões profissionais. além disto. como ansiedade. possuem uma comunicação – a língua oral. favorecendo a sua interação com os outros. isolamento. discriminação. brabeza. irritados. S3 destaca que os surdos queixam-se da falta de liberdade de seus pais. No caso de pais ouvintes de filhos (as) surdos (as) sinalizantes que não utilizam língua de sinais. além da falta de comunicação. de acordo com o psicólogo Lane. Ou seja. revolta e outros. não é apenas falta de comunicação e sim como passar as informações para orientar os filhos. ao não conseguirem exprimir pela fala os seus sentimentos. 2005). Parece haver certa incongruência. E as dificuldades dos surdos são relacionadas ao relacionamento familiar. Em relação aos diagnósticos dos surdos. a comunicação entre eles poderá ser comprometedora por não conseguirem transmitir suas preocupações. sexuais. Só que não é o único fator que provoca o aparecimento das suas queixas. de personalidade. porém. Os ouvintes que foram atendidos por psicólogos entrevistados não apresentaram queixas como a não aceitação de sua identidade. eles apresentam menos queixas se comparados aos surdos. falta de liberdade e os transtornos. mas estas queixas são semelhantes. Ou seja. revolta. Para ele. sua língua mais utilizada –. Portanto. orientações. Por parte dos ouvintes. por conta da ausência de comunicação entre os pais e filhos. dificultando-se o relacionamento entre eles.

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resultados dos diagnósticos são baseados “a partir das referências estabelecidas para uma classe média, desenvolta e educada”. (LANE apud SOLÉ, 2005, p. 33). Lane nos apresenta uma pergunta: como o profissional – psiquiatra ou psicólogo – pode realizar o diagnóstico separando a diferença da “linguagem estranha do esquizofrênico, do retardamento da mente provocado pela depressão psicótica e a pressão da fala da mania” se o próprio profissional não conhece a língua de sinais? Por conta disto, o profissional erra no diagnóstico e cria rótulos de que crianças e adultos surdos são emocionalmente perturbados, sem provas evidentes (SOLÉ, 2005). Infelizmente, esses diagnósticos equivocados ocorrem muitas vezes com a realidade dos surdos. É importante o profissional distinguir a língua de sinais da linguagem dos psicóticos, esquizofrênicos e outros sintomas que representam algum tipo de transtorno. Os psicólogos não necessitam sempre encontrar algum diagnóstico para os surdos. Podem simplesmente pensar que o sujeito surdo tem necessidade de encontrar um espaço para desabafar seu sofrimento, solicitar o seu auxílio para entender melhor tais situações que ocorrem no seu cotidiano. Os psicólogos destacaram uma grande diferença na quantidade de queixas; na categorização, os surdos apresentaram vinte e um tipos de queixas, enquanto que os ouvintes apresentaram apenas sete. Fica constatado o preconceito que a sociedade demonstra em relação aos surdos, o que pode ocasionar sua vulnerabilidade, seja individual, social ou programática. Com o surgimento da vulnerabilidade, o surdo desenvolve ansiedade, agressividade, brabeza, dificuldade em aceitar os limites, entre outros. Por isso que encontram-se aqui mais queixas que entre os ouvintes. Muitas vezes, com essas queixas, os psicólogos fazem diagnósticos equivocados diante da falta de comunicação entre psicólogopaciente. Os psicólogos identificaram uma queixa unânime tanto para surdos quanto para ouvintes, a dificuldade de relacionamento, de maneira generalizada.

4.2.4.2 Queixas dos familiares dos sujeitos

Vimos anteriormente as queixas dos surdos, agora verificam-se as queixas dos familiares sobre os sujeitos. Parece não haver coerência com as queixas dos sujeitos, porém é possível que os familiares tenham uma visão diferente dos sujeitos em identificar os problemas. A seguir, a tabela das queixas dos familiares:

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TIPOS DE QUEIXA DOS FAMILIARES
Dúvidas em como se relacionar com o filho

SURDOS (ocorrências)
Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5)

OUVINTES (ocorrências)
Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5)

UCE

-

1

-

-

-

-

Dificuldade em impor limites

2

1

-

-

-

-

Dificuldade de comunicação

2

1

-

-

1

1

Comportamento agressivo

2

1

1

-

1

1

Preguiça Preocupação

1 2

1 1

-

-

1 -

-

Teimosia

-

-

1

-

-

-

Luto do filho idealizado

-

1

-

-

-

-

“Quando do processo de descoberta, os familiares se queixam de não saberem como tratar o filho [...]”(S3) “[...] não sabem como trabalhar com a questão dos limites.” (S3) “[...] atendi mães de surd@s e as queixas são que não sabem se comunicar com o filho e não conseguem entender.” (S2) “São comportamento agressivo, [...] ingratidão.” (S4) “São [...] desleixo, preguiça [...]” (S4) “[...] os filhos surdos não param em casa, pois estão sempre na rua e ficam preocupados [...]” (S2) “[...] eles sempre se queixam que são [...] teimosos” (S5) “Neste período de luto do filho idealizado, as famílias vivenciam diferentes fases: do choro, angústias e, em casos mais acentuados, a depressão” (S3)

Tabela 9 – As queixas dos familiares dos sujeitos apresentadas para os psicólogos no atendimento psicoterapêutico. Fonte: Elaborado pela autora, 2009.

Os pais apresentam queixas relacionadas aos seus dilemas, dúvidas – no caso de filhos (as) surdos (as) – em como se relacionar com esse filho (a). Apresentam preocupação também, e pode ser por causa da dificuldade de comunicação, do não conhecimento da língua

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de sinais. Caso os pais apresentassem vontade de aprender a língua de sinais - o que atualmente não é a nossa realidade -, possivelmente a preocupação e as dúvidas sobre como se relacionar com o (a) filho (a) surdo (a) poderiam ser minimizadas. Meynard destaca que quando os pais descobrem a surdez de seus filhos eles apresentam desejo de esconder a falta de audição e fazer os filhos aprenderem a falar. Ou seja, os pais proíbem o uso da língua de sinais, fazendo-os falar, uma tarefa árdua (apud SOLÉ, 2005). Só que é necessário enfatizar que a oralização é um processo demorado e caro. O mesmo autor afirma que, com isso, a criança passa muitos anos sendo dependente dos pais para compreender o mundo. Muitas vezes, os pais passam a falar por eles, o que causa a dificuldade de o surdo construir a sua subjetividade e encontrar os outros surdos (apud SOLÉ, 2005). Os pais apresentam dificuldade de comunicação com seus filhos (as) surdos (as), como pode ser afirmado na fala de S2: “[...] atendi mães de surdos e as queixas são que não sabem se comunicar com o filho e não conseguem entender.”. S1 e S3 também apresentam queixas semelhantes a S2: os pais não conseguem entender seus filhos (as) surdos (as) e também não sabem se comunicar com eles. A dificuldade dos pais acontece devido a não saberem como transmitir uma informação por não saberem manter um diálogo. Em relação a dificuldade de comunicação, os psicólogos S3 e S5 afirmam receber a mesma queixa dos pais de filhos (as) ouvintes. A dificuldade de comunicação não está, portanto, atrelada aos filhos (as) surdos (as) de pais ouvintes. Os pais de filhos (as) ouvintes têm essa dificuldade pelo fato de seus filhos não “ouvirem” suas falas. Pais de filhos (as) surdos (as) e ouvintes apresentam a mesma queixa em relação à dificuldade de comunicação, mas há diferenças. Enquanto pais de filhos (as) surdos (as) têm dificuldade devido à língua de sinais, os pais de filhos (as) ouvintes apresentam dificuldade em como transmitir a informação aos filhos, em como fazer com que eles os escutem. S3 afirma que a queixa dos pais está relacionada a não saber como se relacionar com seu filho: “Quando do processo de descoberta, os familiares se queixam de não saberem como tratar o filho [...]”. E também há a queixa sobre o luto do filho idealizado; S3 afirma no seu relato: “Neste período de luto do filho idealizado, as famílias vivenciam diferentes fases: do choro, angústias e, em casos mais acentuados, a depressão”. Solé (2005) afirma que é comum encontrar a frustração dos pais em não ter o seu filho idealizado ao descobrir a surdez. Os pais também apresentaram queixas devido à dificuldade de impor limites, e S3 relata pela entrevista: “[...] não sabem como trabalhar com a questão dos limites.”. Essa dificuldade apresentada pelos pais pode ser comum, devido ao processo de luto, não aceitação

o pai é surdo sinalizante..]”. como pode ser visto na fala de S4: “São [.] eles sempre se queixam que são [. brincalhona. uma criança agitada como as outras surdas e ouvintes de sua idade. falante e respeitando os limites. De acordo com a experiência da pesquisadora no Serviço de Psicologia – SP – da UNISUL. S4 destaca que com os pais de filhos (as) ouvintes também há queixas semelhantes relacionadas ao comportamento agressivo. Os psicólogos S1. preguiça [. pois estão sempre na rua e ficam preocupados [.. A queixa dos pais de filhos (as) surdos (as) apresentada por S5 relaciona-se com a teimosia: “[. S1..] ingratidão. Será que os pais ficam preocupados por causa da surdez? Ou por causa da dependência. S2 e S3 relatam a preocupação dos pais com seus filhos (as) surdos (as). No primeiro encontro com a criança surda.] os filhos surdos não param em casa..]”. 2005).. Solé (2005) afirma que o comportamento agressivo surge devido à falta de comunicação entre pais e filhos. em como se comunicar com ele..] desleixo.. irritabilidade. S4 relata na entrevista que a queixa apresentada pelos pais sobre seus (suas) filhos (as) surdos (as) está relacionada ao comportamento agressivo: “São comportamento agressivo. Além de S4.98 da surdez de seu (sua) filho (a) e por não encontrar informações sobre como educar seu (sua) filho (a) surdo (a).] teimosos”. Os psicólogos S1 e S2 também apresentam queixa dos pais semelhantes às apresentadas por S3. como pode ser identificado na fala de S2: “[. que são a dificuldade de comunicação. [.. esta se apresentou o contrário da queixa dos pais. pois com a ansiedade do filho (a) surdo (a) por querer se comunicar e não conseguir faz com que ele seja agressivo (SOLÉ. S2 e S4 relatam que os pais se queixam de os filhos (as) surdos (as) serem preguiçosos. S2 e S5 também mostram queixas semelhantes. Será que as dificuldades encontradas pelos pais com os (as) filhos (as) surdos (as) não estariam em acordo com a sua falta de “investimento” na criança? Não seria justamente a falta de comunicação entre os pais e a criança um fator que provoca tais comportamentos? Os psicólogos apresentaram queixas semelhantes dos familiares dos sujeitos surdos e ouvintes. os pais da criança surda apresentaram a queixa de que há dificuldade de limites.. comportamento agressivo e preguiça. Já as outras queixas apresentadas são somente dos familiares do sujeito surdo. de acreditarem que os filhos precisam ficar perto deles? Pois em relação aos pais de filhos (as) ouvintes não há queixa igualmente relacionadas. Esclarecendo que a mãe é ouvinte e utiliza língua de sinais. alegre. brabeza... ....”.

é para entender melhor as queixas dos sujeitos.” (S4) “Já chamei a família em espaços separados.99 4. quais os assuntos seriam tratados e que foram discutidos no atendimento para escutar o que a mãe tinha para nos dizer.5 Participação dos familiares no atendimento psicoterapêutico Os psicólogos enfatizam que necessitam da participação dos familiares nos atendimentos junto com sujeitos. Porém. Ele necessita chamar os pais para conferir se o sujeito surdo está falando a verdade? Às vezes a necessidade dos psicólogos em chamar os pais pode estar relacionada à língua estrangeira dos surdos. muitas vezes. não se sabe se esse é o foco dos psicólogos. No final do encontro foram feitas considerações à respeito das atitudes da mãe em relação ao filho e as implicações no comportamento do filho diante das . agressões e impasses conjugais pois grande parte dos casais surdos moram com os pais.2. O objetivo de chamar a família. mas o sujeito surdo tinha o conhecimento do encontro. É possível verificar que é importante o psicólogo escutar as queixas dos sujeitos e também dos familiares para conferir se há compatibilidade. Segue a tabela abaixo: SURDOS (ocorrências) PARTICIPAÇÃO DA FAMÍLIA Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE Conflito familiar 2 1 1 1 Escuta da mãe - 1 - - - - “Geralmente para esclarecer conflitos familiares. e assim poder continuar o processo psicoterapêutico com novos dados obtidos por meio do ponto de vista dos familiares.

pois no começo as perguntas e respostas eram bastante insatisfatórias.” (S2) Tabela 10 – Os motivos da participação da família no atendimento psicoterapêutico junto com o sujeito. mas esta não é considerada a primeira língua deles. Porque. a mãe ou um responsável sempre participa.” (S3) “Na primeira sessão e durante a anamnese. o que pode gerar equívocos no entendimento dos psicólogos na comunicação com os surdos..” (S4) “Sim.] os pais. que trabalham na abordagem Terapia Sistêmica Familiar. Um dos motivos que levam o psicólogo a chamar a família para participar é o conflito familiar. Os psicólogos ouvintes. S5 declara a justificativa em chamar a família: “sou terapeuta de Família e Casal e . o sujeito surdo e a namorada foram chamados para participarem de uma situação que estava incomodando os pais e. que o sujeito surdo não tinha dimensão do que os pais pensavam à respeito. Uma das causas que eu chamo a família é por causa da comunicação.. Fonte: Elaborado pela autora. Tanto S3 quanto S4 e S5 chamam os pais para entender a causa do conflito entre pais e filho. No caso de S3 e S5.100 Esclarecer a situação 1 - - - - Anamnese 1 1 - - - - Avaliação do tratamento - 1 - - 1 - Comunicação 1 - - - - - interferências. tanto a família quanto o surdo não se entendem por terem línguas diferentes. S3 e S4.” (S3) “[. dependendo do caso é necessário.” (S4) “A mãe é convidada a comparecer sempre que há necessidade de avaliação do tratamento. Foi bastante importante esse esclarecimento. sabem utilizar a língua dos surdos. 2009.

as “agressões e impasses conjugais. 2005). após atender o surdo e escutar as suas queixas. Às vezes o comportamento do filho pode ser desencadeado pelas atitudes das mães. os pais muitas vezes interferem nos relacionamentos conjugais dos surdos acreditando estar fazendo o melhor para eles. pois grande parte dos casais moram com os pais”. em que os pais. por encontrar dificuldades na oralização. S4 admite chamar a mãe de filho (a) surdo (a) para comparecer ao atendimento “sempre que há necessidade de avaliação de tratamento”. (apud SOLÉ. agressividade e rebeldia. irritabilidade. verifica-se a importância da escuta tanto dos surdos quanto dos familiares para que o psicólogo consiga obter melhores resultados durante o processo psicoterapêutico. E. 2005. o que pode ser a causa da resistência . talvez por conta da língua de sinais. S3 também teve uma experiência semelhante a S4. S1 e S4 chamam os pais ou responsáveis para realizar a anamnese.101 é natural conhecer as famílias. pois a demanda que os pais apresentaram foi o incômodo em relação ao namoro de seu filho surdo. “o sujeito surdo tinha conhecimento do encontro. após a escuta da mãe. brabeza. mas com essa intromissão os surdos se sentem frustrados por não encontrar liberdade nem quando estão casados e construindo a relação conjugal. Com o ouvintismo (SKLIAR. S4 relata que sentiu necessidade de chamar a família para esclarecer os conflitos gerados entre eles. S1 diz que às vezes necessita de intérprete quando recebe a família ouvinte. “pois no começo as perguntas e respostas eram bastante insatisfatórias.” Mais uma vez. p. o psicólogo necessita da escuta da mãe para ver se a queixa do surdo realmente existe para não criar equívocos no processo. porém. sendo que o sujeito surdo “não tinha dimensão do que os pais pensavam a respeito” de seu namoro. houve a necessidade do psicólogo de escutar a queixa da família. S3 afirma que “no final do encontro foram feitas considerações a respeito das atitudes da mãe em relação ao filho e as implicações no comportamento do filho diante das interferências”. S1 relata que encontra dificuldades de realizar a anamnese com as mães por apresentarem resistência. S3 afirma que a participação da família foi importante para esclarecer as dúvidas. 43). porém. principalmente quando existe conflito familiar”. quais os assuntos seriam tratados e que foram discutidos no atendimento para escutar o que a mãe tinha para nos dizer”. Virole afirma que a “falta do uso da língua de sinais acarreta frequentemente frustrações intensas e a falta de confiança na comunicação com os ouvintes”. nervosismo. no caso de surdos sinalizantes e pais que não utilizam a língua deles. chamou a família em um espaço separado. e as mães apresentam queixas de que seus filhos surdos apresentam comportamentos agressivos como birras. o sujeito surdo e a namorada foram chamados para participar em uma sessão. minimizando os conflitos gerados entre eles. já S4 não encontra dificuldades em realizar anamnese. S3 relata que.

pois S1 é psicólogo surdo e os pais são ouvintes e as línguas que ambos utilizam são diferentes. S1 e S2 realizaram apenas orientação com a família.102 apresentada pelos pais. De acordo com os relatos dos psicólogos. tanto a família quanto o surdo não se entendem por terem línguas diferentes”. S3 fala que “[. porém. S2 é surdo sinalizante e oralizado. importância da participação da família. S4 destaca a necessidade de chamar a mãe para realizar a avaliação do tratamento: “A mãe é convidada a comparecer sempre que há necessidade de avaliação do tratamento”. Porém. mas com os surdos essa relação se apresenta. para obter mais informações sobre o surdo e a família.. Como foi destacado anteriormente sobre os diagnósticos equivocados que alguns psicólogos cometem. A comunicação é o essencial numa relação familiar. frustrações entre eles.. pois os psicólogos poderão ter mais informações e com isso obter eficiência no processo terapêutico do sujeito. sendo que esta diferença pode ser encontrada na comunicação. por a maioria não utilizar língua de sinais. Porque. . ansiedade. Há. comprometida. S4 e S5 realizaram atendimento com a família. S3. eles só chamaram a família para participar no atendimento para esclarecer o que estava incomodando o surdo ou os pais. e diz que a falta e a dificuldade de comunicação são os principais fatores que influenciam os conflitos familiares. muitos psicólogos “escutam” a queixa dos pais sobre o (a) filho (a) surdo (a) sem “escutar” as queixas dos surdos. então. com o objetivo de minimizar as dúvidas e angústias apresentadas pelos pais. na maioria das vezes. S4 afirma que raramente chama a família de filhos (as) ouvintes. o psicólogo ao fazer isto estará cometendo um erro a mais. É possível identificar a diferença que S4 encontra entre a família de filhos (as) surdos (as) e ouvintes. mais uma vez. Há diferenças em relação ao atendimento familiar.] dependendo do caso é necessário” chamar a família: “uma das causas que eu chamo a família é por causa da comunicação. angústias. no caso da família do sujeito surdo. S5 não atendeu o surdo junto com a família. e também afirma que muitas vezes exerce o papel de tradutora entre eles. para entender melhor o caso do surdo. a fim de minimizar os conflitos e para que ambos consigam estabelecer uma boa relação. É possível identificar que os cinco psicólogos afirmam chamar a família para participar no atendimento com o objetivo de ter uma melhor compreensão dos problemas existentes entre eles. só quando é identificado que o problema está na estrutura familiar.

. rejeição. muitas mães não aceitam se comunicar pela língua de sinais. só que ainda permanece “uma ferida que jamais curaria”. quando os pais recebem o diagnóstico de surdez de seus (suas) filhos (as) “[. de forma sutil (SOLÉ.2. mas que agora a aceitam. 129). Além de identificar as rupturas causadas pelo diagnóstico de surdez que leva os psicólogos a chamarem os pais para participar. 2005).. começam a entender mais sobre a cultura surda e acabam com .” (S1) “[. é possível identificar resultados positivos após haver a participação da família com sujeitos no atendimento. causando depressão. IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DA FAMÍLIA Melhoras de comunicação SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE 2 1 - - - - Compreensão da cultura surda 1 - - - - - “[.. É possível que ocorra a tal ruptura na relação entre mãe e filhos.] a família. ajudar a esclarecer as informações entre eles e com isso.5... durante a gravidez. e compreensão dos pais sobre o mundo dos surdos.] posso trabalhar entre eles o diálogo conflituoso.1 Importância da participação da família De acordo com os relatos. pois. os relatos mostram melhorias após realizar o atendimento familiar.] da maneira como tem sido dado até agora.. melhora a relação entre pais e filhos por causa da comunicação.103 4. causa uma ruptura na relação entre mãe e filho muitas vezes irrecuperável” (p. A mesma autora relata a experiência de algumas mães que passaram anos não aceitando a surdez de seus filhos. elas cultivam uma idealização do filho e quando descobrem que ele é surdo essa idealização é desfeita. Os psicólogos também apresentam ganhos com a presença da família. na comunicação e na dinâmica familiar. o que pode ser o preconceito dos pais. depois das orientações do psicólogo. não aceitação. De acordo com Solé (2005). por conta dela.

impulsividade e outros. 2009 S1 e S2 relatam que identificam a importância da participação da família.” (S2) “É sempre indispensável.104 Mais informações - 2 - - - 1 Dinâmica familiar - - 1 - 1 1 o rótulo de que os filhos são incapazes. Há . e quando fazem o curso de LIBRAS. esclarecer-lhes as dúvidas e. tristeza. devido à comunicação. a ausência de comunicação provoca diversos fatores desencadeantes como ansiedade. a participação da família é indispensável. Daí. e quando fazem o curso de LIBRAS. S5 diz que é importante a presença da família no atendimento. favorecer a relação entre as partes. como foi dito anteriormente. com isso. Para S4. pois conseguem trabalhar com eles sobre o diálogo conflituoso. pois poderá identificar a “dinâmica das relações interfamiliares acontecendo no setting terapêutico”. a importância de os pais utilizarem a língua de sinais para estabelecer uma comunicação adequada com seus (suas) filhos (as) surdos (as) e. S2 relata que com as orientações realizadas com os pais. pois “facilita a coleta de informações quanto a história de vida do surdo e a família recebe orientação de como lidar com o filho. muda tudo entre eles e os surdos começam a se comunicar e aprender mais”. evitando super-proteção e bloqueio de suas competências e independências”.” (S4) “Penso ser fundamental para ver a dinâmica das relações interfamiliares acontecendo no setting terapêutico” (S5) Tabela 11 – A importância da participação da família no atendimento psicoterapêutico junto com o sujeito. agressividade. muda tudo entre eles e os surdos começam a se comunicar e aprender mais. brabeza. Pois facilita a coleta de informações quanto a história de vida do surdo e a família recebe orientação de como lidar com o filho. eles “começam a entender mais sobre a cultura surda e acabam com o rótulo de que os filhos são incapazes. evitando superproteção e bloqueio de suas competências e independência. Fonte: Elaborado pela autora.

Todos os psicólogos estão de acordo com relação à importância da presença da família nos atendimentos. assim como as facilidades e dificuldades de utilizar tais estratégias e a que foi considerada adequada para se utilizar na intervenção psicoterapêutica com surdos. A partir do próximo capítulo serão destacadas as intervenções psicoterapêuticas. as queixas dos sujeitos e dos familiares. eu fiz curso de LIBRAS. participação da família.105 casos em que os pais. Também o profissional poderá orientar tanto o sujeito quanto a família sobre o assunto que provocou o comparecimento junto com seu (sua) filho (a) – tanto surdo quanto ouvinte. o objetivo desta pesquisa. mas entendo com mais facilidade e o pouco que uso torna mais empática minha figura terapêutica” (S5) Os dados apresentados neste capítulo estão relacionados aos tipos de estratégias de comunicação utilizadas por psicólogos. as variações na intervenção psicoterapêutica. pois eles poderão entender melhor a estrutura familiar. mas foi necessário entender um pouco das concepções dos psicólogos sobre os sujeitos surdos. O que foi trazido até aqui não está atrelado aos objetivos desta pesquisa. 2005). . Não foi necessário aprofundar. passam a protegê-lo. pois não é o objetivo desta pesquisa. devido à surdez do (a) filho (a) surdo (a). Como foi dito anteriormente. a participação da família é importante para os psicólogos. os tipos de atendimentos realizados. 4. e podem trabalhar a partir disto.3 ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO UTILIZADAS NA INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA “Por sugestão de um paciente surdo. acreditando que ele não possui autonomia para lidar com os obstáculos surgidos no decorrer cotidiano (SOLÉ. o que incomoda o sujeito e a família. como não pratico eu não me comunico bem.

eles também já atenderam surdos oralizados.. movimentos corporais [...]‟ frases chaves escrita‟ é o mesmo que palavras chaves.]” (S3) “Utilizo [..]faço uso de expressões faciais. sendo que modificaram o tipo de comunicação para usar com eles.. implantados e os que utilizam apenas gestos.]” (S4) “Com as crianças pequenas de 2 a 3 anos que estão mantendo contato com instrutor surdo para se apropriarem da Língua de Sinais.]) [.106 4.. como a língua oral e outros meios de comunicação com os surdos que utilizam gestos.] recursos de informática” (S4) “Uso a língua oral..” . porém. [. Veremos a seguir na tabela os tipos de estratégias de comunicação que os psicólogos utilizam durante a intervenção psicoterapêutica: TIPOS DE ESTRÁTEGIAS DE COMUNICAÇÃO UTILIZADAS LIBRAS SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE 2 2 - - - - Expressão facial e corporal - 2 - - - - Computador - 1 - - - - Língua oral 2 2 1 - 2 1 Desenhos 1 2 1 - - - Escrita - 1 1 - - - “Utilizo a escuta e intervenção diretiva (através da LIBRAS [.1. mas é a frase toda que uso como recurso para promover reflexão..] desenhos” (S3) “utilizo [..3.]” (S2) “Pra complementar a idéia e garantir que a mensagem seja recebida acrescento [...... Tipos de estratégias de comunicação utilizadas com sujeitos na intervenção psicoterapêutica O tipo de comunicação que S1 e S2 afirmam mais utilizar nos atendimentos é a língua de sinais. pois há surdos oralizados [..

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Gestos caseiros Atividades lúdicas

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(S5) “Utilizo também [...] gestos” (S1) “[...] para intervir no atendimento, usei a atividade lúdica com a casinha, Barbie e Ken e deu certo, pois ela mostrou através da brincadeira como ocorreu o estupro [...]” (S1)

Tabela 12 – Estratégias de comunicação utilizadas por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos. Fonte: Elaborado pela autora, 2009.

A LIBRAS é utilizada por S1, S2, S3 e S4; apenas o psicólogo S5 não utilizava a língua com seus pacientes surdos, porém um dos pacientes surdos que S5 atendia solicitou que o mesmo realizasse curso de LIBRAS. S5 afirmou que utiliza a LIBRAS apenas para facilitar o entendimento entre psicólogo-paciente apesar de não apresentar domínio sobre ela. S4 afirma que: “utiliza a escuta e intervenção diretiva (através da LIBRAS [..])[...]” para se comunicar com sujeitos surdos; quando estes encontram no psicólogo a escuta e intervenção diretiva, se estabelece um vínculo de confiança com o psicólogo por utilizar a mesma língua deles. Em relação ao vínculo de confiança, os autores Othmer & Othmer (2003) afirmam que a comunicação é o item mais importante entre psicólogo e paciente durante o atendimento psicoterapêutico, pois o psicólogo poderá se tornar empático para o paciente e criar vínculo com ele. Caso o psicólogo não saiba utilizar a língua de sinais, como poderá ficar a relação entre psicólogo ouvinte e sujeito surdo sinalizante? S4 também utiliza a escuta e intervenção diretiva com os surdos oralizados pela verbalização – língua oral. Os cinco psicólogos utilizam a língua oral com surdos oralizados e implantados, como pode ser verificado na fala de S2: “Uso a língua oral, pois há surdos oralizados [...]”. O psicólogo precisa verificar antes de intervir qual é a língua que o sujeito utiliza para se comunicar e respeitar a escolha dele. S5 utiliza a conversação como língua oral com seus pacientes. Os três pacientes atendidos por S5 são surdos profundos. A escrita também é utilizada por S3 e S5. S5 relata em sua fala: “utilizo [...] „frases chaves escrita‟ que é o mesmo que palavras chaves, mas é a frase toda que uso como recurso para promover reflexão”. Para S5, o uso das frases-chaves causa impacto nos surdos atendidos, pois faz com que eles elaborem reflexões. Dalcin (2006) afirma que os surdos não possuem compreensão metafórica, mas o que pode ser visto é a barreira comunicacional que há entre surdos e ouvintes. Por conta dessa barreira comunicacional, muitos surdos são

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rotulados por ouvintes como uma pessoa em quem não há pensamento abstrato. Se não possuem pensamento abstrato, como S5 afirma conseguir utilizar frases-chaves com os sujeitos surdos na intervenção psicoterapêutica? Pode-se pensar que S5 explica para os surdos o significado das frases ou os surdos apresentam nível de pensamento desenvolvido possível de compreender as frases. Pode ser possível encontrar surdos que não apresentem pensamento abstrato devido à educação precária que tenham recebido, pois há os que não foram alfabetizados, outros que estudaram, graduaram a faculdade, e assim por diante. Como também acontece com as pessoas ouvintes que não foram alfabetizadas, outras que estudaram até a faculdade. Portanto, o nível de compreensão e de pensamento depende do processo que cada sujeito obteve, e não da surdez. A língua de sinais, do ponto de vista da pesquisadora, é considerada uma das estratégias de comunicação mais eficazes para serem utilizadas com surdos sinalizantes, por permitir que eles encontrem o outro que se comunica com a mesma língua e favorecer o desabafo, deixando-os menos ansiosos e preocupados. S3 e S4 relatam utilizar a expressão facial e corporal com surdos, pois é outra estratégia de comunicação utilizada por eles e um meio de complementar e acrescentar informações a suas falas pela língua de sinais ou verbalização. Com o mesmo objetivo, S3 utiliza também desenhos, além das expressões faciais e corporais, para garantir que o surdo compreenda o que se pretende transmitir na informação: “Com as crianças pequenas de 2 a 3 anos que estão mantendo contato com instrutor surdo para se apropriarem da Língua de Sinais, [...] faço uso de expressões faciais, movimentos corporais”. Apesar de S1 e S2 não dizerem que utilizam a expressão facial e corporal como uma estratégia de comunicação, ambos são surdos e, para a comunidade surda, a expressão facial e corporal encontra-se integrada à língua de sinais, como a entonação de voz que os ouvintes utilizam para se comunicar (QUADROS & SCHMIEDT, 2006). A expressão facial e corporal é uma estratégia de comunicação importante para os surdos, pois eles identificam a intensidade das palavras, assim como os ouvintes percebem a intensidade das palavras pela entonação de voz. Outra estratégia de comunicação utilizada com surdos é o desenho. Os psicólogos que afirmam utilizar esta estratégia são S1, S3, S4 e S5, conforme fala S3: “Pra complementar a ideia e garantir que a mensagem seja recebida acrescento [...] desenhos”. É importante sempre encontrar outra estratégia com o objetivo de passar a informação correta para o surdo no atendimento psicoterapêutico. S3 é pertinente ao utilizar o desenho para garantir que a informação foi adequada para o surdo; S3 trabalhou na área da surdez por trinta

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anos, o que lhe confere conhecimento da comunidade surda e suas dificuldades. Será que o psicólogo que desconheça a comunidade surda e suas peculiaridades apresentará outros tipos de estratégias para se comunicar com o surdo? S3 utiliza gestos – mímicas – com crianças para que possa ser compreendida por elas. S1 também utiliza gestos com surdos – somente com aqueles que não apresentam uma língua. Quando S1 se depara com surdos que utilizam gestos, usa outra estratégia, a atividade lúdica, para ter uma melhor compreensão e diálogo com eles. S1 relata que em seu consultório apareceu uma menina surda dizendo que tinha sofrido estupro, porém a língua da menina era precária, ela utilizava apenas gestos caseiros: “[...] para intervir no atendimento, usei a atividade lúdica com a casinha, Barbie e Ken e deu certo, pois ela mostrou através da brincadeira como ocorreu o estupro [...]”. Os gestos e mímicas são considerados uma linguagem para se comunicar. Essa linguagem não apresenta as mesmas características de uma língua (QUADROS & SCHMIEDT, 2006). A atividade lúdica é utilizada por S1 como uma estratégia de comunicação e a psicóloga relata ter bons resultados com o seu uso: “[...] para intervir no atendimento, usei a atividade lúdica com a casinha, Barbie e Ken e deu certo, pois ela mostrou através da brincadeira como ocorreu o estupro [...]”. Esta estratégia pode ser adequada para se utilizar com os surdos que não possuem uma língua, e com as crianças também. De acordo com Jucá (2004), o brinquedo proporciona uma segurança maior para a criança em relação à realidade, pois através do brincar a criança surda não percebe a entonação da voz do psicólogo, os timbres, as malícias, etc. Portanto, ao utilizar a atividade lúdica, a criança encontrará uma forma de se comunicar sem utilizar a fala propriamente dita (JUCÁ, 2006). Pela atividade lúdica, a criança não necessitará encontrar palavras para expressar seus sentimentos, podendo se expressar ao brincar, e isto poderá facilitar o entendimento do psicólogo. S4 relata que utiliza o computador como uma estratégia de comunicação com os surdos, “utilizo [...] recursos de informática”. Para ele, o computador ajuda os pacientes, pois o recurso lhes possibilita procurar imagens, digitar, e isto favorece o surgimento de dados importantes para o atendimento. Será que esta pode ser considerada uma estratégia de comunicação? S4 encontrou resultados ao utilizar o computador, e isto pode beneficiar os surdos; ao aprender a utilizar o computador, eles aperfeiçoam seus conhecimento da língua portuguesa.

2 Estratégias de comunicação adequadas Durante a entrevista. desenhos. há surdos na mesma situação que pode apresentar melhor compreensão linguística. A mesma autora já se deparou com uma situação em que Paulo32 – o paciente surdo oralizado – pediu que a comunicação entre ele e a psicanalista fosse feita pela língua oral. Veja a seguir a tabela das estratégias de comunicação adequadas para utilizar com sujeitos surdos: 32 Paulo é o nome do paciente que a autora atendeu (SOLÉ. a mais adequada na percepção dos entrevistados. apenas uma estratégia de comunicação é utilizada com surdos e com ouvintes. como quando disse que a palavra influente significava a pessoa não apresentar fluência nas conversas (SOLÉ. Portanto. como Solé (2005). As estratégias utilizadas por eles não são semelhantes. ler livros e assistir filmes. p. Como afirma Skliar (2005). As diferenças encontradas na utilização das estratégias são o uso do computador. De acordo com os autores pesquisados. mas nas sessões seguintes pôde perceber que seu paciente perdia grande parte das palavras proferidas. para estabelecer uma comunicação com surdos. E em uma das sessões identificou que Paulo emprestava significados que achava melhor para algumas palavras. Apesar de a autora afirmar que Paulo faz faculdade. há surdos que compreendem a língua portuguesa. percebe-se que pode ser possível encontrar surdos oralizados que não possuem compreensão linguística. 4. Solé percebeu que muitas vezes necessitava repetir as falas para verificar se Paulo estava compreendendo. 2005). a pesquisadora buscou identificar. apenas a língua de sinais e língua oral e a seguir os desenhos e a escrita. expressão facial e corporal e gestos caseiros para estabelecer uma comunicação melhor com o surdo. . 2005. atividade lúdica. 72). oralizados e implantados e com os ouvintes – familiares também. mas são casos isolados.110 As estratégias de comunicação citadas até aqui foram utilizadas somente com sujeitos surdos. A língua oral é a estratégia que os cinco psicólogos utilizam com ambos os sujeitos. diante das estratégias utilizadas pelos profissionais na intervenção psicoterapêutica. É possível identificar que a língua de sinais e a oral são mais utilizadas entre os psicólogos para se comunicar com sujeitos surdos sinalizantes.3. é possível perceber que nem todos surdos possuem uma compreensão linguística da língua oral. a escrita.

. S3 considera o processo anafórico33 uma estratégia adequada. o desenho e a atividade lúdica também são considerados adequados. de acordo com Bernadino.] porque consigo ter uma melhor compreensão [. o processo anafórico.] pois é a língua que os surdos mais utilizam”. para ele. Os surdos utilizam o processo anafórico no cotidiano para se comunicar...]” (S5) “[. pois fará com que eles “sintam na pele” o que ele e o psicólogo utilizam para representar no atendimento. “[..]” (S1) “[.. tanto crianças surdas quanto ouvintes gostam de desenhar e brincar e podem ser beneficiados no atendimento... consiste na referenciação feita a partir da apontação na direção do interlocutor ou leve deslocamento do enunciador para o ponto de referência que ele .] pois é a língua que os surdos mais utilizam” (S2) “Os surdos tem facilidade de se comunicar pelo computador.. pois sua percepção é predominantemente visual. Para S1. perceber melhor o que eles querem falar”.] atividades lúdicas [. pois estas são ferramentas encontradas por psicólogos para descobrir as carências.. S3 utiliza uma estratégia interessante para trabalhar com surdos.]” (S1) “Pela minha experiência as „frases chaves escritas‟ tem impacto importante e levam a reflexão [. S1 é psicólogo surdo e. narrar alguma história e essa técnica pode apresentar resultados positivos.. conforme fala de S2 em sua justificativa. 2009.. pois “consigo ter uma melhor compreensão.] porque consigo ter uma melhor compreensão [... 33 O processo anafórico ou shifting. Os psicólogos surdos afirmaram a língua de sinais como a estratégia mais adequada para utilizar com surdos.111 ESTRATEGIAS DE COMUNICAÇÃO ADEQUADAS PARA UTILIZAR LIBRAS Computador SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE 2 - 1 - Desenhos Atividades lúdicas 1 1 - - Escrita - - 1 Língua oral - - 1 “[. o desenho e a atividade podem ser considerados adequados por conseguir oferecer mais informações sobre os pacientes surdos. Do ponto de vista da pesquisadora..] as conversas são ricas em conteúdo e ajudam a estabelecer vínculo” (S5) Tabela 13 – As estratégias de comunicação adequadas para utilizar com sujeitos surdos na intervenção psicoterapêutica Fonte: Elaborado pela autora..” (S4) “[. pois pode representar pessoas....

Os surdos atendidos por S5 são surdos profundos. etc. possivelmente. como pode ser visto em seu relato: “Os surdos têm facilidade de se comunicar pelo computador. precisaram sempre procurar outra ferramenta para garantir que os surdos estejam compreendendo a sua fala –.. justamente pelo fato de os surdos não possuírem a audição. 2004. Será que S5 está apresentando contradição? Pois durante a entrevista ele afirma utilizar a língua oral com paciente surdo. que é a pessoa surda. como resultado. mas também utiliza língua de sinais. S5 relata: “as „frases chaves escritas‟ têm impacto importante e levam a reflexão”.112 locais. resultado positivo com os surdos. podendo-se utilizar trejeitos que a identificam e o caracterizam (ALBRES & VILHALVA. colegas de sala. para a pesquisadora as adequadas são o uso da língua de sinais com surdos sinalizantes. o uso de “frases-chaves escritas” apresentou. foi considerado uma estratégia adequada. a percepção do mundo do surdo apresenta diferença da experiência e percepção do mundo dos ouvintes.07). Com o uso das frases-chaves. se são oralizados. Porém. para S4. pois S5 afirmou na entrevista que utiliza a língua de sinais uma vez por semana e pode ser o mesmo paciente que pediu ao psicólogo fazer um curso de língua de sinais. porém ela pode não ser adequada para todos os surdos. .: “[. ou a pessoa de quem estava falando. Entretanto.] representando em lugares diferentes as pessoas envolvidas para que possa visualizar a situação como um todo. mas sabe-se que um deles utiliza língua de sinais.. segundo o entrevistado. De todas as estratégias apresentadas como mais adequadas pelos psicólogos entrevistados. oralização com surdos oralizados e implantados – se os mesmos apresentarem compreensão linguística e os psicólogos. assumindo a postura de primeira pessoa “eu”. como afirma Solé (2005). Pode ser positivo para S5 o uso desta estratégia. para ele a língua oral é considerada a estratégia de comunicação mais adequada para ser utilizada com surdos. Skliar (2005) e Sacks (2007) afirmam que o surdo possui uma experiência visual. mas não foi possível identificar se eles são pré ou pós-lingual. Desta forma certas dificuldades aparecem e há. p.”. que pode ser os pais. uma reflexão positiva na medida em que existe uma mobilização para a solução das dificuldades. pois “as conversas são ricas em conteúdo e ajudam a estabelecer vínculo”. utilizei como estratégia fazer o papel da própria pessoa. para que pudesse perceber o que havia dito em relação a eles e conseguir refletir a respeito da situação. pois sua percepção é predominantemente visual.” Pela experiência de S5. Ou S5 apresenta uma visão de normalização? O computador. desenhos e passa a incorporar.

no caso. O psicólogo S3 afirma que o processo anafórico é o mais adequado. o surdo absorve bem novos conceitos sobre seus sentimentos e emoções e é disciplinado e persistente quando . pois possivelmente pode ser a forma mais tranquila para utilizar com surdos. não está familiarizado com a realidade da comunidade surda. mais uma vez.113 atividades lúdicas com crianças e jovens surdos que apresentam dificuldades em se expressar através de uma língua. Apenas os psicólogos surdos. S1 e S2. S5 frisa que a língua oral é mais adequada.3. Nem todos os surdos possuem alfabetização linguística como os ouvintes. escolheram a língua de sinais como a mais adequada.3. Facilidades encontradas no uso das estratégias de comunicação na intervenção psicoterapêutica Serão apresentadas as facilidades encontradas em utilizar as estratégias de comunicação com surdos e ouvintes na intervenção psicoterapêutica utilizadas por psicólogos com surdos e ouvintes. A escolha da estratégia de comunicação mais adequada apresenta diferenças. pois pode representar o papel que o surdo traz para o atendimento psicoterapêutico. Veja a seguir a tabela desta categorização: FACILIDADES ENCONTRADAS AO UTILIZAR AS ESTRATEGIAS Mais dificuldades que facilidades SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE - 1 - - - - “Há mais dificuldades que facilidades. é possível identificar que ele “carrega” o ouvintismo no atendimento psicoterapêutico. Contudo. o profissional. com que buscam novas informações que podem ser trabalhadas no atendimento psicoterapêutico. 4. S4 afirma que o uso do computador é mais adequado. e para os surdos é possível que se encontrem “confortáveis” por utilizar a sua primeira língua. ou até mesmo representar o próprio surdo para que ele perceba as próprias atitudes e reflita. o que pode ser ideal para determinado trabalho.

” (S5) “Não foi fácil no inicio. o uso de tais estratégias facilita a expressão de sentimentos dos surdos. torna-se muito mais fácil se comunicar com o sujeito ouvinte e. pois: “[.. aplicar as estratégias. Fonte: Elaborado pela autora. expressões faciais e corporais e etc. consequentemente.. preocupações e é um facilitador na comunicação. foram questionadas com os psicólogos as facilidades que eles encontraram ao utilizar suas estratégias com surdos e ouvintes. 2009. Para S1 e S3..114 Mais expressão de sentimentos 1 1 - - - - As mesmas dos surdos - - - - 1 - Empatia - - 1 - - - Não encontrou facilidade 1 - - - - - Verbalização através da língua oral - - - - 1 1 tem intenções sinceras de mudar sua vida e crescer como pessoa” (S4) “As estratégias de comunicação fazem com que o sujeito surdo exponha mais os seus sentimentos. pois há diferentes possibilidades de expressão que pode ser a língua de sinais.] fazem com que o .” (S4) Tabela 14 – As facilidades encontradas por psicólogos ao utilizar as estratégias de comunicação com sujeitos na intervenção psicoterapêutica. pois eu não sabia LIBRAS.” (S3) “A facilidade em usar essas estratégias com sujeitos surdos é a aceitação por parte deles que respondendo bem constroem comigo o processo terapêutico. Sobre essa categorização. o que muda é apenas na forma de comunicação. que antes usava português sinalizado. O período de tratamento é menos prolongado que com surdos.” (S2) “Devido à facilidade de verbalização. para resolver os problemas” (S3) “São as mesmas para o sujeito surdo..

conhecimento da comunidade surda. Com os ouvintes. ao destacar que encontrou mais dificuldade que facilidade. S2. 2005). o psicólogo encontrará dificuldade em intervir? Ou pode ser visto como uma maneira de eximir sua responsabilidade como profissional caso não ocorram mudanças com os surdos que ele atende? Pela afirmação de S4. preocupações e é um facilitador na comunicação. Mas é preciso entender que ela afirma não apresentar domínio da língua de sinais. expressão. é sinalizante e oralizado e afirma que no começo não encontrou facilidade em se comunicar com surdos sinalizantes.. pois ele é oralizado e a língua oral foi a primeira que aprendeu. escrita e gestos como estratégias de comunicação.115 sujeito surdo exponha mais os seus sentimentos.. S4 enfatiza que encontrou mais dificuldades que facilidades ao utilizar as estratégias. sendo que S3 utiliza a língua de sinais. Um dos psicólogos surdos. a facilidade encontrada ao utilizar essas estratégias pode depender.] o que muda é apenas a forma de comunicação”. segundo ele: “contudo. E se o surdo não mostrar disciplina e persistência em mudar a sua vida e crescer como pessoa. o que muda é apenas a forma de comunicação”. ao ser perguntado sobre as facilidades encontradas ao utilizar tais estratégias com ouvintes. pois o profissional nunca ficou “surdo”. S5 destaca: “A facilidade em usar essas estratégias com sujeitos surdos é a aceitação por parte deles que respondendo bem constroem comigo o processo terapêutico. pode ser possível refletir que essa dificuldade encontrada se deva à língua que o surdo utiliza? Será que ele apresenta domínio da língua de sinais? Solé (2005) destaca que por mais que o psicólogo ouvinte apresente fluência na língua de sinais. oralização. mas. e a sua figura terapêutica se torna mais empática para os surdos. S3. Para S3. mas com o pouco conhecimento que apresenta desta língua compreende melhor os dados dos surdos. porém “[. Com surdos oralizados. pois há diferentes possibilidades de expressão que pode ser a língua de sinais. os sofrimentos e obstáculos surgidos no cotidiano decorrentes da surdez podem trazer dificuldade em se compreenderem tais sentimentos dos surdos.”. encontrou as mesmas facilidades. o surdo absorve bem novos conceitos sobre seus sentimentos e emoções e é disciplinado e persistente quando tem intenções sinceras de mudar sua vida e crescer como pessoa”.”. S3 vê o surdo e o ouvinte como iguais. pois utilizava o português sinalizado e não sabia LIBRAS. não vivenciou as mesmas experiências que o sujeito surdo vivencia (SOLÉ. . afirma que encontrou facilidades em utilizar a língua oral. desenhos. foi enfático ao afirmar: “São as mesmas para o sujeito surdo. etc. expressões faciais e corporais.. o que os diferencia é a ausência de audição dos surdos e a língua utilizada para se comunicar com surdos sinalizantes e ouvintes..

mas precisa-se analisar a queixa do surdo (SOLÉ. atingir o objetivo do psicólogo e também o que levou o surdo a buscar atendimento psicoterapêutico. . torna-se muito mais fácil se comunicar com o sujeito ouvinte e. 2005). Ao comparar as facilidades encontradas pelos psicólogos. S5 também afirma a facilidade de utilizar a língua oral com os ouvintes. mas afirmou encontrar facilidade em utilizar as estratégias com os ouvintes devido à língua oral. Se encontrar o sujeito ouvinte e o sujeito surdo com as mesmas queixas. há diferenças.116 Para S4. ele possui apenas a experiência auditiva. como no caso de S5. mas ele afirmou que a entrevista se deu no momento em que começou a trabalhar com surdos. O único psicólogo entrevistado que não encontrou facilidade foi S2. pode pensar que esteja “rotulando” os surdos. O tratamento com os surdos pode ser mais prolongado do que com os ouvintes. apesar de S4 atuar na área da surdez desde o ano de 2000. porém o que modificou foi a língua utilizada para se comunicar com ambos os sujeitos. cada sujeito apresenta uma demanda diferente. que é a sua mesma língua. Porém. visto que com essa expressão é possível obter mais demandas para prosseguir com a psicoterapia. S4 encontrou mais dificuldade que facilidade em utilizar as estratégias de comunicação com surdos. a facilidade encontrada em utilizar as estratégias com os ouvintes ocorre pelo uso da língua oral. consequentemente. a duração do tratamento de ambos será igual? Não foi possível encontrar respostas ao pesquisar os livros e artigos dos autores citados nesta pesquisa. cada sujeito lida o sofrimento diferentemente dos outros. a facilidade ao utilizar tais estratégias ocorre devido à facilidade de o surdo se expressar mais os seus sentimentos. S5 afirmou que a facilidade encontrada em utilizar as estratégias foi pela empatia dos pacientes com o profissional. por não apresentar domínio da língua de sinais. Com os surdos. Para S1 e S3. A afirmação de S5 foi semelhante à de S4. aplicar as estratégias. pois é ouvinte: “Devido à facilidade de verbalização. É possível perceber que para os psicólogos ouvintes esta intervenção pode tornar-se mais fácil que com os surdos. Quando S4 afirma que o tratamento do ouvinte é menos prolongado que com surdos. os surdos podem encontrar dificuldades em descrever seus sentimentos através das palavras e isto lhes pode ocasionar ansiedade. O período de tratamento é menos prolongado que com surdos”. S3 afirma que as facilidades encontradas em utilizar as estratégias de comunicação com surdos e ouvintes foi a mesma. Como já foi citado anteriormente pela autora Solé.

” (S4) “[....” (S3) “Em adolescentes e adultos os mecanismos de defesa dificultam a comunicação.. Então é necessário ajustar o . quando é necessário assumir as responsabilidades pelas escolhas sem culpabilizar os outros e a sociedade. porque é complicado..3.117 4..] é uma língua que o surdo cria para se comunicar apenas com a família e eu não tenho conhecimento de todos os gestos. o que requer muito tempo e persistência.]..4 Dificuldades encontradas em utilizar as estratégias de comunicação na intervenção psicoterapêutica Serão apresentadas as dificuldades encontradas em utilizar as estratégias de comunicação com surdos e ouvintes durante a intervenção psicoterapêutica utilizadas por psicólogos com surdos e ouvintes. Veja a seguir a tabela desta categorização: DIFICULDADES ENCONTRADAS AO UTILIZAR AS ESTRATEGIAS Gestos caseiros SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE 1 - - - - - Fluência em LIBRAS - 1 - - - - Não encontrou 1 1 - 1 1 - Verbalização na língua oral - - - - 1 - “[. preciso descobrir e demora mais!” (S1) “O terapeuta precisa ter fluência em LIBRAS. É mais difícil para identificar o que o surdo está querendo dizer para mim. Nem sempre o surdo se comunica bem em LIBRAS ou mesmo não se comunica [..] porque utilizo todas as possibilidades pra que comunicação aconteça.

os gestos caseiros utilizados por esses surdos são criados por ele e sua família como uma forma de se comunicar e não são padronizados.. o que permite a produção de frases simples a complexas.]”. gestos caseiros não são uma língua. que facilita a comunicação entre as pessoas. pois para ele “O terapeuta precisa ter fluência em LIBRAS. É mais difícil para identificar o que o surdo está querendo dizer para mim. e a comunidade surda. S4 relata ter encontrado dificuldade em relação a não ter uma fluência em língua de sinais. preciso descobrir e demora mais!”.118 Entendimento do conteúdo - 1 1 - - - São comuns - - - - - 1 discurso. comunica-se por meio dela. Segundo Saussure. a língua é um sistema linguístico com regras. como a língua de sinais. (QUADROS & SCHMIEDT. É possível que o psicólogo encontre dificuldade ao atender o surdo que utiliza gestos em razão dessa falta de padronização. Nem sempre o surdo se comunica bem em LIBRAS ou mesmo não se comunica [. Basicamente. a linguagem é um sistema de comunicação natural ou artificial (apud QUADROS & SCHMIEDT. pode-se verificar no relato de S1 a dificuldade encontrada ao utilizar os gestos caseiros: “é uma língua que o surdo cria para se comunicar apenas com a família e eu não tenho conhecimento de todos os gestos. tais como negação. projeção. etc.. de maneira geral. Como foi destacado anteriormente.. não precisando abranger uma língua. Para Goldfeld (2002). com reavaliação de conceitos e visão de vida. a linguagem denomina-se como códigos que envolvem a significação. a língua é compartilhada pelos indivíduos de uma comunidade linguística e composta de regras abstratas de elementos significativos e interrelacionados. o que requer muito tempo e persistência. porque é complicado. De acordo com Lyons. 2006). 2009. Em relação ao autor citado acima... 2006). Os gestos caseiros não são considerados uma língua e sim uma linguagem.” (S4) “É comum precisarmos repetir o que está sendo dito (tanto pelo paciente como terapeuta) para ser entendido pelo outro” (S5) “As normais do processo terapêutico.. Portanto.” (S5) Tabela 15 – As dificuldades encontradas por psicólogos ao utilizar as estratégias de comunicação com sujeitos na intervenção psicoterapêutica Fonte: Elaborado pela autora. sendo que a . pois seus mecanismos de defesa são mais persistentes que nos surdos. Já a língua de sinais é denominada uma língua.

Retomando as estratégias de comunicação utilizadas por S5 com sujeitos surdos. em vez de persistir na estratégia. quando é necessário assumir as responsabilidades pelas escolhas sem culpabilizar os outros e a sociedade. Há dificuldade de S5 utilizar a língua oral.119 língua de sinais possui estrutura gramatical própria e independente de qualquer outra língua. 1991) É possível identificar que S4 demonstra consciência em seu relato sobre o profissional necessitar de fluência na língua de sinais. pois necessita repetir para garantir que ambos tentam entendido a informação. Para S4. pois seus mecanismos de defesa são mais persistentes que nos . Caso o psicólogo não saiba utilizar a língua de sinais. a sua percepção sobre a importância da língua de sinais parece denotar que ele esteja atento às necessidades e características dos sujeitos surdos. pode encontrar outros tipos de estratégias de comunicação que facilitem a comunicação de ambos. Quando se trata das dificuldades encontradas em utilizar tais estratégias com sujeitos ouvintes. o que faz com que se caracterize por língua. então ele poderia utilizar outras estratégias como a escrita ou o desenho para facilitar a comunicação e minimizar a ansiedade e a vulnerabilidade individual do surdo. o que pode causar – por parte do sujeito surdo – conflito no entendimento. pois esta é uma ferramenta importante entre psicólogo e paciente para estabelecer comunicação e vínculo. a dificuldade com ouvintes é: “Em adolescentes e adultos os mecanismos de defesa dificultam a comunicação. S5 afirma utilizar a língua oral no atendimento com seus pacientes surdos. no que diz respeito à língua. como mostra no relato: “É comum precisarmos repetir o que está sendo dito (tanto pelo paciente como terapeuta) para ser entendido pelo outro”. S4 e S5 encontraram dificuldades. o profissional não irá conseguir dar prosseguimento ao atendimento psicoterapêutico e ganhar confiança dos sujeitos surdos e poderá acarretar mais fatores que levaram o surdo a procurar atendimento psicoterapêutico. S4 é psicólogo ouvinte e utiliza língua de sinais no atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos. não em relação à língua e sim à resistência que os ouvintes apresentaram durante a intervenção. ansiedade por perceber que o psicólogo não está compreendendo suas falas e isto pode causar interferência no processo psicoterapêutico. Ele destacou a dificuldade ao utilizar a língua oral. ele não utiliza a primeira língua do surdo. Devido ao pouco conhecimento da língua de sinais. foram identificadas diferenças devido à língua que tanto psicólogos ouvintes como pacientes ouvintes utilizam. e não por linguagem (SAUSSURE. Sem esse conhecimento. Então é necessário ajustar o discurso. percebe-se que ele utiliza a escrita. com reavaliação de conceitos e visão de vida. Conforme relato de S5. o desenho e a língua oral para se comunicar com surdos.

S5 também pode apresentar a mesma visão de S4 ao persistir em utilizar a língua oral e o uso desta estratégia faça com que tanto o psicólogo quanto o surdo necessitem repetir sempre as informações até que o outro entenda. é necessário sempre encontrar outras estratégias de comunicação para evitar que ela se comprometa por falta de criatividade e empenho do profissional. a autora afirma encontrar sujeitos surdos que realizaram a transferência como resistência com a desculpa de que não sabia utilizar a língua de sinais e que. provavelmente não encontrou dificuldades porque aparenta utilizar . Porém. etc. de acordo com a psicanalista Solé.” Essa tática parece ser adequada para todos os psicólogos que atendem surdos. Fica patente a visão de normalização e de ouvintismo de S4 ao afirmar que os mecanismos de defesa dos surdos são menos persistentes que dos ouvintes. As possíveis dificuldades encontradas para atender os surdos pode estar relacionada à língua.. A dificuldade de S1 encontra-se atrelada à linguagem que o surdo utiliza apenas para se comunicar com seus familiares e é necessário entender que. quando encontra dificuldade.”. pois são encontradas sempre. A dificuldade destacada por S5 é comum. enfatiza que a transferência por parte do psicólogo deve ser questionada pelo seu interesse em aprender a língua dos surdos sinalizantes (SOLÉ. pois S4 utiliza língua de sinais. projeção. S2 e S3. muitos pacientes abandonavam a análise (SOLÉ. Será mesmo que os mecanismos de defesa dos ouvintes são mais persistentes? Os sujeitos surdos não apresentam negação. como se encontra no relato: “As normais do processo terapêutico. não foi possível identificar se os mecanismos de defesas. No caso de S2. Solé.] porque utilizo todas as possibilidades pra que a comunicação aconteça. mas aparenta não apresentar domínio dela. projeção no atendimento psicoterapêutico? Do ponto de vista teórico. Apenas dois psicólogos. 2005). Pode-se supor que S5 não demonstra interesse em utilizar a língua do paciente. projeção dos surdos apresentam diferenças dos ouvintes.”.120 surdos. S2 utiliza ambas as línguas com fluência o que pode torna-se vantajoso ao atender o surdo e ouvinte. S2 e S3 afirmam que não encontraram dificuldades com o uso das estratégias com surdos e ouvintes. possivelmente.. 2005). e S5 não possui domínio da língua de sinais. S1 não convive no meio dos surdos que utilizam gestos. procura outro meio para superar essa dificuldade não deixando atrapalhar o processo terapêutico: “[. por conta disto. na visão psicanalítica.. apresentam semelhanças ao afirmar que não encontraram dificuldades em utilizar tais estratégias de comunicação com surdos e ouvintes.. negação. tais como negação. S3 afirma que.

as facilidades e dificuldades encontradas. porém afirmou que quando se depara com surdos que se comunicam com essa linguagem utiliza estratégias de comunicação como desenhos e atividades lúdicas.121 fluentemente a língua de sinais e a língua oral. FREQUENCIA DA UTILIZAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO Utiliza durante todo o tratamento SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE - 1 1 - 1 1 De acordo com a evolução - 1 - 1 De acordo com a demanda - 1 - - “O uso da informática (digitação.3.5 Frequência da utilização das estratégias de comunicação no atendimento psicoterapêutico Após identificar as estratégias de comunicação utilizadas. verifica-se nesta categoria a frequência com que são utilizadas pelos psicólogos no atendimento. O psicólogo surdo S1 afirma encontrar dificuldade quando o surdo utiliza os gestos caseiros para se comunicar. Já S3 afirma que não encontrou dificuldade por sempre buscar outras estratégias até encontrar aquela adequada para o surdo e o ouvinte. sendo estas estratégias consideradas pertinentes para ser utilizadas com surdos. dependendo de cada caso” (S4) “Durante todo o tempo em que . 4. pois com estas os surdos têm mais facilidade para expor seus sentimentos.” (S4) “As estratégias são modificadas ou substituídas de acordo com a evolução do tratamento. S1 aparenta não estar familiarizado com essa linguagem. compreensão de novos conceitos através de imagens e aprendizado da língua portuguesa) seguem durante todo o tratamento.

S4 afirma a utilização das estratégias de comunicação – computador e papel/lápis – durante todo o tratamento e percebe-se na fala dele que: “O uso da informática (digitação. Fonte: Elaborado pela autora. porque relata na .” (S1) Tabela 16 – A frequência da utilização das estratégias de comunicação por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos. Pode esta ser considerada uma estratégia adequada para ser utilizada com surdos por favorecer o processo psicoterapêutico.” (S3) “Com o surdo sinalizante. como a língua oral. pois é um caminho de mão dupla..122 De acordo com a língua do sujeito 2 - - - mantenho contato com o sujeito surdo de acordo com a demanda levando-o a reflexão de suas experiências emocionais. vou utilizar sempre a LIBRAS em todos os atendimentos. escrita e desenhos. S5 também afirma utilizar as estratégias durante todo o tratamento. compreensão de novos conceitos através de imagens e aprendizado da língua portuguesa) seguem durante todo o tratamento”. uso sempre também em todos os atendimentos. S4 também utiliza as estratégias de comunicação durante todo o tratamento com os ouvintes. uso quando é necessário para variar no atendimento com esses surdos. com as crianças e surdos que não possuem domínio na língua de sinais. Os desenhos.. vou utilizar a língua oral em todos os atendimentos. de que maneira os seus comportamentos modificam o do outro e o do outro modifica o dele. Se S5 afirma utilizar sempre essas estratégias. Com o surdo oralizado ou implantado. conscientizando-o dos mecanismos usado. Ah. pois é a língua dele. 2009.

Entretanto.”. Em relação a demanda. conscientizando-o dos mecanismos usados. Os psicólogos utilizam então essas estratégias para intervir com as crianças. em relação aos atendimentos infantis de outros autores como Oaklander (1980). “[. Acredita-se que algumas estratégias podem ser modificadas de acordo com a evolução do sujeito. sendo que a frequência varia de acordo com o fato de o surdo não possuir domínio da língua de sinais. vou utilizar sempre a LIBRAS em todos os atendimentos. pois é a língua dele.. passando para a verbalização – podendo ser por meio da LIBRAS ou da oralização. ou elas apresentam inibição em expor seus sentimentos.. uso sempre também em todos os atendimentos.123 entrevista que tanto ele quanto o paciente necessitam repetir as informações para ter garantia de que o outro está entendendo? S4 também afirma utilizar as estratégias de acordo com a evolução do sujeito – surdo e ouvinte – e explica com que frequência as utiliza no atendimento: “as estratégias são modificadas ou substituídas de acordo com a evolução do tratamento. o psicólogo utiliza sempre as mesmas estratégias de comunicação – com exceção da língua de sinais e oral – em todas as sessões com o sujeito? Pois com a variação de estratégias. S3 utiliza todas as estratégias para intervir com o surdo em todo o tempo a fim de prosseguir com o processo terapêutico.]”. Compara-se.[. S3 afirma que a frequência do uso das estratégias varia de acordo com a demanda que o sujeito apresenta. e isto pode ser utilizado também com as crianças surdas. Jucá afirma .. pois é um caminho de mão dupla”. o uso dos desenhos e atividades lúdicas nos atendimentos com crianças ouvintes. Com o surdo oralizado ou implantado. Ambos os psicólogos relataram algo semelhante.] com as crianças e surdos que não possuem domínio da língua de sinais. S1 destaca o desenho como outra estratégia utilizada nos atendimentos. o sujeito poderá apresentar novas demandas com novas estratégias utilizadas. de que maneira os seus comportamentos modificam o do outro e o do outro modifica o dele. S3 afirma utilizar as estratégias: “durante todo o tempo em que mantenho contato com o sujeito surdo de acordo com a demanda levando-o a reflexão de suas experiências emocionais. como pode ser visto na fala de S1: “Com o surdo sinalizante. S1 e S2 enfatizam que a frequência do uso das estratégias varia de acordo com a língua que o surdo utiliza. pois nem todas as crianças apresentam domínio na língua. pois não há necessidade de utilizar desenhos em todas as sessões se o sujeito apresentar melhoras na expressão de sentimentos através do papel.. dependendo de cada caso”. vou utilizar a língua oral em todos os atendimentos. O desenho aparenta ser outra estratégia importante para ser utilizada com surdos caso os mesmos não apresentem domínio da língua de sinais e pode ser utilizado sempre.

as facilidades e as dificuldades em utilizar os instrumentos. o que possibilita haver mais contato com a realidade. Os psicólogos surdos apresentaram semelhanças no relato ao afirmar que a utilização das estratégias depende da língua que o surdo utiliza. Já o psicólogo S3 utiliza as estratégias relacionadas às demandas dos surdos.4 INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA Neste capítulo. Verificam-se os dados a partir das categorizações a seguir: . é possível perceber as diferenças e semelhanças. 4. a mesma autora destaca que foi possível perceber nas avaliações psicológicas que as crianças surdas – de fato – não brincavam. Ao comparar a frequência do uso das estratégias de comunicação no atendimento por psicólogos. É possível identificar nas falas dos psicólogos que as estratégias foram adaptadas de acordo com as especificidades de cada caso e sujeito. sendo que a língua de sinais é utilizada com surdos sinalizantes e a língua oral. com surdos oralizados e implantados. Apenas S4 utiliza as estratégias de acordo com a evolução dos sujeitos surdos e ouvintes. 4.1 Instrumentos utilizados com sujeitos no atendimento psicoterapêutico Apresentam-se a partir das categorizações os instrumentos utilizados por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos e ouvintes. com exceção de S5.4. apresentam-se dados relacionados aos instrumentos utilizados por psicólogos. S4 e S5 utilizam as estratégias durante todo o tratamento com surdos e ouvintes. os instrumentos considerados adequados e a frequência ao utilizar estes instrumentos.124 que o brincar favorece à criança perceber o outro e assim aplicar as suas ações sobre ele. Porém. ao persistir no uso da língua oral com surdos.

.... o que beneficia o trabalho entre o psicólogo e o sujeito.]” (S1) “[...]”. A anamnese é o instrumento que S1 e S4 afirmam utilizar com a família dos sujeitos para obter mais informações do atendido..]” (S1) “[... de acordo com a sua fala. . os instrumentos utilizados são: “[. queixa principal.125 SURDOS (ocorrências) INSTRUMENTOS UTILIZADOS Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE Anamnese - - - 1 1 - Atividade lúdica 1 - - - - - Papel e lápis - 1 - - 1 - Computador - 1 - - - - Teste não-verbais 1 1 - - - - Testes projetivos 2 - - - - - “[.] com a família de surdos.] atenção concentrada” (S2) “[. história do sujeito e de seus relacionamentos e outros. De acordo com Pontes (1998).] utilizo papel e lápis para anotações [. Barbie e o Ken [.] computador [. utilizo anamnese [. a anamnese é um instrumento realizado sob um roteiro sistemático a fim de coletar maiores informações com o objetivo de conduzir um diagnóstico... utilizo anamnese [.] utilizo [.] R-1..] HTP..]”. história da doença anterior e atual (se o sujeito tiver).] utilizo [. o surdo encontra possibilidades de se expressar pela brincadeira e consequentemente a fala pode surgir também.] utilizo o teste das pirâmides coloridas.. [. G38...T [.. T. S1 relata: “[.... A anamnese requer detalhes sobre o sujeito e este instrumento é importante para o psicólogo.] usei a atividade lúdica com a casinha..]” (S2) Não utiliza - - 1 - - 1 Tabela 17 – Instrumentos utilizados por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos Fonte: Elaborado pela autora...] com a família de surdos.]” (S4) “[. raven.. Barbie e o Ken [.. [....] usei a atividade lúdica com a casinha... A atividade lúdica é uma estratégia que S1 utiliza para se comunicar com surdos e.A.. 2009.... pois com isto ele poderá compreender o histórico do sujeito e aperfeiçoará o processo terapêutico.]” (S4) “[.. os dados importantes encontrados na anamnese incluem informações pessoais.... Com o uso destes instrumentos.

raven. Sabe-se que hoje em dia a tecnologia influencia a vida de todos os sujeitos e pode ser considerado ideal para trabalhar com eles. 2000). S4 diz: “[. R-1 é o teste de inteligência não-verbal que visa a avaliar a habilidade do sujeito em manipular a informação e a capacidade de raciocínio. e será possível obter resultados. A maioria dos sujeitos de todas as idades utiliza este instrumento e ele pode ser visto como um recurso favorecedor do surgimento de novas demandas dos pacientes. relacionado aos problemas de aprendizagem.. utilizava apenas alguns sinais e gestos caseiros. ele não entendeu a pergunta. S2 e S3 relatam o uso de testes não-verbais com surdos.] utilizo papel e lápis para anotações [. imagens. S1 também afirma utilizar o mesmo instrumento com crianças e jovens surdos para realizar desenhos durante o atendimento psicoterapêutico.] utilizo [. conflitos. estes instrumentos podem apresentar eficácia e necessidade de ser utilizados. Antes de falar sobre os testes psicológicos utilizados por psicólogos. ..126 O instrumento papel/lápis é utilizado por S4 e com o uso deste o psicólogo pode encontrar algum resultado. este pode ser considerado um instrumento a ser utilizado caso o surdo apresente dificuldade em compreender algum conceito.] R-1.]”. esses testes são considerados um instrumento que também faz parte do processo e servem para facilitar o conhecimento mais completo do sujeito e ajudá-lo (FORMIGA & MELLO. pois o surdo não possuía fluência na língua de sinais. foi possível obter a resposta. O computador é um instrumento que S4 afirma utilizar com os surdos.. encontra-se que alguns dos enfermeiros utilizam a escrita com os surdos e foi uma solução que eles encontraram para se comunicar.. que relata sobre a comunicação entre enfermeiros e pacientes surdos. são utilizados na clínica para o diagnóstico do sujeito. Ao perguntar para o surdo os dados importantes para realizar a triagem. livros e outros. comportamentos. Na pesquisa de Pagliuca et al (2006)... caso não utilizasse computador. atitudes. Porém. de acordo com Formiga & Mello (2000).. [... A pesquisadora teve uma experiência com um paciente surdo no Serviço de Psicologia da UNISUL em que precisou utilizar papel e lápis. Voltando à categorização. com isso. com surdos e ouvintes. é necessário entender que os testes. sempre que for possível. S4 também utiliza os mesmos instrumentos com os ouvintes. instrumentos semelhantes seriam revistas. fazendo com que a pesquisadora repetisse algumas vezes até mudar para o desenho em que utilizou papel e lápis.] atenção concentrada”. G38. Testes não verbais utilizados por S2: “[. De acordo com Sisto et al (2006).. assim podendo minimizar a ansiedade destes pacientes e conseguir continuar com o trabalho de cuidar da sua saúde. Portanto.

como.A. quando e porquê (FORMIGA & MELLO. e os resultados e desenhos do sujeito serão relacionados com os resultados do teste HTP (VETOR. 2002). o que ele faz ou não faz. Pode-se pensar que este teste aparenta ser pertinente para utilização com surdos. Os testes G38 e Raven também são considerados testes de inteligência e possuem características semelhantes às do R-1. mais uma vez. Esses testes são caracterizados como não-verbais. porém. E tem sido utilizado com frequência para avaliação psicológica na área da psicologia de trânsito. A sociedade utiliza a . Abaixo dos desenhos há em média de seis a oito quadrados representando o quadrado branco. Para Formiga & Mello (2000). a forma como faz. organizacional.T. citando Frank. relacionadas aos desenhos que eles fizeram. educacional. pois os surdos usam a visualização. O mesmo equivale para os testes de Rorschach – ao relatar a imagem que o sujeito percebe nas manchas de tintas – e o HTP. pela ausência de comunicação. e o método projetivo propõe compreender o sujeito. este teste utiliza imagens e o sujeito irá narrar uma história baseada na imagem que há no cartão (MURRAY. por exemplo. necessitam da verbalização – tanto na língua de sinais quanto na língua oral. em si mesmo e em suas interações com o ambiente.A. S1 e S2 afirmam utilizar os testes projetivos – teste de Rorschach. mas esse fato ocorre. p. 04). Segundo o manual do T. o teste R-1 possui desenhos em que há um quadrado branco.. o teste HTP visa a “avaliar a personalidade do sujeito. T. hospitalar. que “esconde” continuação do desenho. É possível perceber que os surdos podem apresentar dificuldades em se relacionar com o meio. é próprio para avaliar os processos de atenção. 2000). O manual do HTP de Retondo (2000) afirma que o teste apresenta resultados de acordo com a idade de cada sujeito. e as Pirâmides Coloridas de Pfister. quantos andares tem a sua casa.A. segundo Montiel et al (2006). s/d). dentre outras (MONTIEL et al.. para o sujeito. e podem apresentar adequação e facilidade para aplicação com surdos por necessitar do uso da visualização. 2006).” (KOLCK apud PERES.T. De acordo com Kolck. De acordo com Oliveira. 2003. pois ao final dos desenhos o psicólogo realiza perguntas que há no protocolo de interpretação. O teste de atenção concentrada utiliza figuras geométricas e. o teste projetivo é designado para o estudo das personalidades baseando-se nos testes de Rorschach e T.T. 1995). HTP.127 aprendizagem e resolução de problemas. Sendo que o paciente precisa encontrar quais das imagens desses seis ou oito quadrados representam o quadrado branco da imagem acima para deixar o desenho completo (OLIVEIRA.

mas sem os relacionar com os resultados baseados nos dos ouvintes. os resultados serão baseados de acordo com a média dos ouvintes de classe média. não se podendo privar do seu uso. os psicólogos podem utilizá-los para verificar o funcionamento psicológico dos surdos. Esses testes podem verificar o grau de percepção dos surdos. a força-tarefa – equipe responsável pela criação das diretrizes – afirma . pesquisados. S5 relata não utilizar esses instrumentos com surdos e ouvintes. De acordo com “Guidelines for Assessment of and Intervention with Individuals Who Have Disabilities”. inteligência. enquanto S4 não os aplica e usa apenas instrumentos relacionados à comunicação. 2005. a pesquisadora percebe a possibilidade de os testes serem pertinentes para utilizar com surdos. imaginação e organização do pensamento ao elaborar histórias. p. para ele. esses testes não “refletem a verdade sobre as características desses sujeitos ou do seu estado mental e conhecimento” (LANE apud SOLÉ. O psicólogo S4 é o único que afirma utilizar computador com seus pacientes surdos. pois Lane enfatiza que os testes psicológicos são concebidos para sujeitos ouvintes. mesmo com a modificação da língua oral para a língua de sinais. como computador e papel/lápis. Mas o uso destes testes com sujeitos surdos nos leva a refletir sobre a eficácia dos resultados. resultados e afirmação do autor Lane. Os resultados dos testes psicológicos são baseados nos ouvintes. atenção e outros. Portanto. Em relação aos manuais. como percepção. Apenas o psicólogo ouvinte S3 e os psicólogos surdos S1 e S2 utilizam testes com surdos. mas muitas vezes os psicólogos necessitam utilizá-los para verificar o processo do surdo. Porém. Os testes utilizados por S1 e S2 utilizam-se da visualização e da verbalização na língua de sinais ou oral. A anamnese é utilizada por S1 e S4 com os pais de filhos (as) surdos (as) para obter mais informações sobre o histórico do sujeito surdo. A atividade lúdica é o instrumento que S1 utiliza com seus pacientes surdos. Apesar de encontrar confirmação de Lane sobre a não eficácia destes recursos com os surdos. 33).128 língua oral para se comunicar com o restante. É possível identificar que os instrumentos utilizados por psicólogos apresentaram semelhanças e diferenças. é possível enfatizar a importância de os psicólogos terem cuidado ao utilizar os resultados dos testes que os surdos realizaram. os surdos necessitam da língua de sinais para se comunicar e ela não é viável para todos. pois questiona-se se eles “medem adequadamente” o que se propõe medir quando são aplicados em populações com características diferentes daquelas para as quais foram elaborados. pois não há testes específicos para surdos.

O que pode levar a pensar que os psicólogos utilizarão os testes com surdos. e validados nas populações que não incluem os indivíduos com deficiências específicas. os resultados podem indicar que ele está deprimido. por exemplo. e não se basear nos resultados dos testes específicos para uma população ouvinte de classe média. se afirma na diretriz 13. ou dentro de normas separadas. A diretriz 12 de “Guidelines for Assessment of and Intervention with Individuals Who Have Disabilities” destaca a importância de o psicólogo – em todas as especialidades – avaliar uma pessoa com uma deficiência dentro do contexto.4. em vez de focar na deficiência (GUIDELINES FOR ASSESSMENT OF AND INTERVENTION WITH INDIVIDUALS WHO HAVE DISABILITIES. o psicólogo necessita adaptar alguns testes para os surdos para obter resultados pertinentes de acordo com a realidade deste sujeito. ao aplicar os testes com surdos. o que pode ser uma interpretação incorreta. 2009). 2009).2 Instrumentos adequados para utilizar com sujeitos na intervenção psicoterapêutica Os psicólogos destacaram quais instrumentos encontram-se adequados para utilizar na intervenção psicoterapêutica com sujeitos. com os resultados baseados em ouvintes de classe média. 4.129 que ao realizar. Como. Continuando com a diretriz. o teste de personalidade pode ajudar o psicólogo a compreender o significado da deficiência na vida de um paciente e o modo como ele encara a própria deficiência (GUIDELINES FOR ASSESSMENT OF AND INTERVENTION WITH INDIVIDUALS WHO HAVE DISABILITIES. pois os surdos e ouvintes apresentam experiências de vida diferentes. se requerem. os resultados dos testes deveriam estar de acordo com as especificidades de cada sujeito que apresenta alguma deficiência. ao trabalhar com pacientes deficientes. por parte dos psicólogos. ou seja. mas sem avaliá-los. se focalizarem na deficiência – surdez – em vez de focalizar o surdo como sujeito. As diretrizes afirmam a importância de incluir as pessoas com deficiência dentro das normas do seu grupo. Há a possibilidade de os psicólogos. De acordo com a questão dos . conhecimento e habilidades especializadas. Pode-se pensar como critério a possibilidade do psicólogo de adquirir conhecimento e habilidade para a formação daqueles. normatizados. alguns graus de depressão são desenvolvidos. E quando práticas são aplicadas a um indivíduo com deficiência. Portanto. por exemplo.

como afirma Solé (2005). pois o surdo consegue se expor e aceitar mais fácil”. quando o sujeito surdo encontra algum psicólogo que utiliza língua de sinais poderá apresentar segurança e confiança por utilizarem a mesma língua. Elas gostam de desenhar e aproveito para conversar com elas através dos desenhos que elas fazem. não buscou identificar os instrumentos adequados para os ouvintes. como uma narração de história.] ” (S1) “Todos os testes não-verbais. mas o que deve ser enfatizado é a forma de comunicação para que o sujeito surdo possa compreender o que está sendo falado e.” (S2) “Acredito que não! Pois as técnicas empregadas não dependem da pessoa ser surda ou não.. também possa ser entendido pelo psicólogo. pois. é o mais adequado. o problema não são os testes. consequentemente. No meu caso tenho consciência de que preciso aperfeiçoar mais meu domínio da LIBRAS”. traga mais demandas. Ter a fluência em língua de sinais é considerado um instrumento importante para S4.” (S3) Tabela 18 – Os instrumentos adequados para utilizar com os sujeitos surdos na intervenção psicoterapêutica Fonte: Elaborado pela autora. pois poderá construir vínculo e isto equivale também para o uso de testes não-verbais. pois alguns surdos possuem pensamentos concretos e não há compreensão na escrita. se constrói pela experiência visual.. segundo ele: “O melhor instrumento é ter a fluência em LIBRAS. pois.. o psicólogo poderá conseguir que o surdo sinta-se seguro e. 2009. é o mais adequado. Com o domínio da língua. principalmente para as crianças. Skliar (2005) destaca que a surdez é uma experiência visual e seu mecanismo de processar informações. pois o surdo consegue se expor e aceitar mais fácil” (S1) “Os desenhos também são adequados. portanto é necessário o profissional saber a língua de sinais. atividades lúdicas e desenhos. No meu caso tenho consciência de que preciso aperfeiçoar mais meu domínio da LIBRAS” (S4) “Atividade lúdica. mas os surdos que não são preparados para fazer os testes.[. INSTRUMENTOS ADEQUADOS PARA A UTILIZAÇÃO Fluência em LIBRAS SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE - 1 - Atividade lúdica 1 - - Desenhos 1 - - Testes não-verbais 1 - - Não encontrou - 1 - “O melhor instrumento é ter a fluência em LIBRAS.. pra mim.130 instrumentos adequados para utilizar com surdos. S1 enfatiza como instrumento adequado para utilizar com surdos: “Atividade lúdica. de compreender o mundo. pra mim. e ..

mas aparenta contradição: “Todos os testes não-verbais. o problema não são os testes. em compreender o sujeito no que ele faz e não faz. como afirmam os autores Formiga & Mello. O principal é o sujeito poder construir sua percepção e. ao utilizar a atividade lúdica com bonecos e casinha. S1 afirma que os desenhos também são adequados. encontra “liberdade” para se expressar através da língua dele e de sua experiência visual. O surdo poderá trabalhar e estimular seus pensamentos e imaginação – que são considerados abstratos do ponto de vista de Marchesi (1995) – passando para o concreto. com isso. O surdo. porque persiste em aplicar tais testes com surdos? Em relação à incompreensão da escrita. pois alguns surdos possuem pensamentos concretos e não há compreensão na escrita”. muitos profissionais . pois não necessitam que o surdo utilize a verbalização através da língua oral. sendo que a tal experiência poderá ser visual. Skliar nos traz a questão da incompreensão na escrita devido ao fracasso dos surdos na educação por conta das representações ouvintistas acerca do sujeito surdo (SKLIAR. Se o psicólogo S2 afirma em seu relato que os surdos não estão preparados para realizar tais testes por conta da incompreensão na escrita e possuir pensamento concreto. por não necessitar da escrita. seria possível encontrar menos informações em relação à existência do pensamento concreto e incompreensão na escrita. infelizmente. 200). se não o apresentassem. Mas. 2005). porém. S2 afirma a adequação ao utilizar os testes não-verbais. Os sujeitos necessitam apresentarse preparados para realizar os testes? O objetivo da utilização do teste justifica-se. quando e por quê. Para que esse fracasso não perpetue.131 essa afirmação de S1 é pertinente à de Skliar. os direitos linguísticos e cidadania dos surdos. mas os surdos que não são preparados para fazer os testes. citada acima. auditiva ou tátil. Os mesmos autores também destacam que o objetivo do uso dos testes facilitam uma compreensão melhor do que o psicólogo deseja observar no sujeito (FORMIGA & MELLO. Se os educadores buscassem utilizar essas estratégias. a forma como faz. Marchesi (1995) afirma que os surdos não apresentam pensamento abstrato. também buscar ampliar conhecimento relacionado à comunidade surda. e expressá-los através do papel. como eles poderiam utilizar a imaginação para realizar seus desenhos? É possível pensar que a imaginação pode surgir por meio da experiência do sujeito. ampliar seus conhecimentos. é preciso que os profissionais – educadores – encontrem alguma metodologia adequada de acordo com as condições cognitivas dos surdos com os mesmos objetivos de educar os sujeitos ouvintes.

132

optam por ver os surdos baseados no modelo de ouvintismo, apesar de ter a experiência visual mas ter a fala e o comportamento de ouvinte (SKLIAR, 2005). O psicólogo ouvinte que utiliza língua de sinais, S3, afirmou na entrevista que não encontrou instrumento adequado para ser utilizado com surdos durante a intervenção psicoterapêutica, como pode ser verificado na fala: “Acredito que não! Pois as técnicas empregadas não dependem da pessoa ser surda ou não, mas o que deve ser enfatizado é a forma de comunicação para que o sujeito surdo possa compreender o que está sendo falado e também possa ser entendido pelo psicólogo”. S3 busca pertinência na comunicação entre ele e o surdo, independentemente de identificar o surdo como um ser diferente do ouvinte. S3 não carrega o “rótulo” do ouvintismo que S5 apresenta em suas falas. Ao comparar os instrumentos adequados, cada psicólogo caracteriza um instrumento diferente como tal. Para S1, ter a fluência da LIBRAS assim é considerado para quem atende surdos, como no caso dele, que é psicólogo ouvinte e afirma que necessita aperfeiçoar a língua de sinais. Portanto, não são apenas os psicólogos ouvintes que necessitam aperfeiçoar a língua de sinais, os surdos também o necessitam. Pois como a língua portuguesa, a língua de sinais também sofre alteração com o passar dos anos. S1 elege a atividade lúdica e desenhos como os instrumentos adequados; ele afirmou encontrar bons resultados com o uso destes instrumentos. Os psicólogos surdos apresentam a experiência visual, já passaram pelas mesmas vivências, experiências e dificuldades dos sujeitos surdos. Podem-se relacionar as experiências vividas pelos psicólogos surdos com os testes que ambos utilizam com surdos. Tais testes podem estar de acordo com as experiências que tiveram e os resultados podem mostrar pertinência aos surdos, mesmo que tenham sido baseados nos ouvintes. S3 utiliza também testes não-verbais com surdos – como foi destacado no subtópico anterior –; apesar de ser ouvinte e apresentar experiência auditiva, ele trabalhou por trinta anos com surdos e pode ser possível que se encontre familiarizado com as experiências dos surdos; porém, não poderá sentir tais experiências “na pele”. Em relação aos resultados dos testes, Formiga & Mello (2000) afirmam que por mais que a exatidão atribuída aos resultados dos testes seja valorizada, o psicólogo sempre terá uma limitação ao desejar ampliar a compreensão dos fatos testados. O psicólogo S3 afirmou não ter encontrado instrumentos adequados para utilizar, pois, para ele, as técnicas utilizadas não dependem de a pessoa ser surda e sim em como utilizar a comunicação com os sujeitos.

133

4.4.3

Facilidades

encontradas

em

utilizar

os

instrumentos

na

intervenção

psicoterapêutica

Os psicólogos destacaram tanto os instrumentos quanto a facilidade encontrada ao utilizar tais instrumentos. Como pode ser verificado na tabela a seguir:

FACILIDADES DE UTILIZAÇÃO DOS INSTRUMENTOS Papel e lápis

SURDOS (ocorrências)
Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2)

OUVINTES (ocorrências)
Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5)

UCE

1

1

-

-

-

-

Computador

1

-

-

-

Atividades lúdicas

1

-

-

-

-

-

De acordo com o nível de

1

-

-

-

-

-

“Com o surdo, papel e lápis, pois eles podem complementar a comunicação, quando têm dúvidas para se expressarem através da Libras. Apesar das dificuldades de se expressar em português, o surdo gosta de usar estes instrumentos (papel, quadro de giz e computador), o que facilita a comunicação e o entendimento de novos conceitos.” (S4) “[...] o surdo gosta de usar estes instrumentos ([...] computador), o que facilita a comunicação e o entendimento de novos conceitos.” (S4) “Agora uso mais a atividade lúdica [...] que são os mais fáceis para trabalhar, pois consigo ter resultado no diálogo com os surdos.” (S1) “Vai depender do nível de

134

compreensão

Depende do sujeito

-

1

-

-

1

-

Maior facilidade

-

-

-

-

1

-

compreensão do surdo, e escolho os testes mais eficazes..” (S2) “Vai depender do sujeito, porém, a facilidade principal, na minha percepção, com a utilização desses instrumentos é contribuir para a reflexão do sujeito surdo sobre a situação „problema‟ ou seja, as coisas que realmente incomodam e, ir avançando gradativamente até chegar aos seus objetivos.” (S3) “[...] é indiferente o uso de papel e lápis ou quadro de giz. Há maior facilidade devido a possibilidade de verbalização e compreensão dos diferentes contextos.” (S4)

Tabela 19 – As facilidades encontradas por psicólogos ao utilizar os instrumentos com sujeitos na intervenção psicoterapêutica Fonte: Elaborado pela autora, 2009.

Para S4, os instrumentos papel-lápis e quadro-giz foram considerados fáceis de utilizar, “[...] pois eles podem complementar a comunicação, quando têm dúvida para se expressarem através da LIBRAS”. Com o uso destes instrumentos, S4 afirma o motivo da facilidade em utilizar. Solé (2005) destaca que quando o surdo não consegue se expressar através da palavra, se torna ansioso por não conseguir baixar a tensão afetiva. Portanto, com o uso do papel-lápis e quadro-giz, o surdo poderá desenhar, fazer grafismo ou outra coisa para representar a sua fala. Assim como também tanto o psicólogo quanto o surdo poderão reforçar com estes instrumentos a comunicação entre eles. S1 também utiliza papel e lápis no desenho como uma estratégia de comunicação com crianças e jovens surdos. O computador é recurso semelhante aos instrumentos citados acima, ampliando o conhecimento de novos conceitos dos surdos e por ser identificado como um meio facilitador de comunicação entre eles. Como pode ser verificado na fala de S4: “apesar das dificuldades de se expressar em português, o surdo gosta de usar estes instrumentos (papel, quadro de giz

. S3 encontrou as mesmas facilidades dos surdos com os sujeitos ouvintes.. mas S2 não descreveu quais instrumentos apresentam eficácia e também não respondeu a essa pergunta. porém. para S1. bonecas.135 e computador). Porém. porém.”.] é indiferente o uso de papel/lápis ou quadro de giz. pois consigo ter resultado no diálogo com os surdos.. pois poderão representar com essas brincadeiras o que lhes incomoda. conforme demonstrado por uma menina surda que foi estuprada. S4 encontrou indiferença em relação à utilização dos instrumentos papel/lápis e quadro de giz com ouvintes. escolho os testes mais eficazes”. o que ajuda na produção de demanda dos surdos. pois é possível identificar a diferença da percepção dele sobre surdos e ouvintes . Solé afirma que em suas experiências clínicas foi possível encontrar surdos com medo de lhe mostrar que não tinham vocabulário rico. Será que o objetivo do psicólogo se resume a ensinar novos conceitos da língua portuguesa? O trabalho do psicólogo visa a atender o sujeito. 2005). na minha percepção. com a utilização desses instrumentos é contribuir para a reflexão do sujeito surdo sobre a situação „problema‟ ou seja. mas S4 aparenta estar “carregando” representação ouvintista em querer ensinar o surdo a aprender novos conceitos na língua oral o que poderá prejudicar o vínculo entre o surdo e profissional. encontra maior facilidade com os ouvintes devido à verbalização na língua oral: “[. O mesmo psicólogo aparenta estar subestimando o potencial do surdo em relação aos ouvintes. enfatizando que o diferencial é a forma de comunicação.. O objetivo de S3 é estabelecer uma comunicação e promover reflexão dos surdos diante de alguns fatores que o trouxeram para realizar atendimento psicoterapêutico. Os instrumentos utilizados por S1 são casinha. e não a ensinar novos conceitos da língua portuguesa. a facilidade principal. De acordo com a afirmação de S2: “vai depender do nível de compreensão do surdo. é o instrumento fácil de ser aplicado e a facilidade em utilizar se encontra na espontaneidade dos surdos: “Agora uso mais a atividade lúdica [. Barbie e Ken. o que dificultava seu vínculo com estes pacientes (SOLÉ. A atividade lúdica. angústia. minimizar seu sofrimento. as coisas que realmente incomodam e ir avançando gradativamente até chegar aos seus objetivos”. Há maior facilidade devido à possibilidade de verbalização e compreensão dos diferentes contextos”. S3 destaca que a facilidade de utilizar tais instrumentos depende do surdo: “Vai depender do sujeito.] que são os mais fáceis para trabalhar.”. o que facilita a comunicação e o entendimento de novos conceitos. esses instrumentos podem ser um facilitador para ampliar a comunicação entre eles e o conhecimento de novos conceitos para os surdos. tais instrumentos dependem da compreensão do surdo.

O surdo possui capacidade de compreender o mundo de acordo com sua experiência. sendo que apenas S1 e S4 apresentam semelhanças ao utilizar papel/lápis como instrumento. percepção. S4 afirma que o uso do computador apresentou facilidade. é necessário refletir que a ausência de uma língua não compromete o desenvolvimento psicológico de um sujeito. 2003). Este menino vivia na selva e quando o encontraram ele apresentava comportamento igual ao de animal (SACKS. Porém. As facilidades encontradas por psicólogos apresentam diferenças também. a experiência auditiva. o sujeito ouvinte serve como o modelo ideal para os surdos. tanto os surdos quanto os ouvintes. apenas afirmou que a facilidade vai depender do nível de compreensão do surdo. o mesmo psicólogo relata encontrar maior facilidade na língua oral. e isto se perpetua até os dias de hoje. porém a preocupação dele encontra-se em contribuir para a reflexão dos sujeitos. O que leva a comprometer o tal desenvolvimento é a privação cultural. O psicólogo S2. isto ocorre apenas com surdos? Com os ouvintes também é possível o encontrar. Portanto. como destaca Feuerstein (ROS.136 em relação à compreensão. É preciso lembrar que os surdos possuem uma experiência visual e o ouvinte. Não se promovendo o acesso dos surdos a outros ambientes. Skliar (2005) e Sacks (2007). 2007). do ponto de vista do ouvintismo. como afirmam Perlin & Miranda (2003). para ampliar seu conhecimento. que paciente profissional utilizam. como pode ser comparado em relação ao Menino Selvagem de Aveyron. novos conceitos. Só que. S1 relata que as atividades lúdicas apresentam facilidade ao serem utilizadas com surdos. assim como o ouvinte. enquanto o ouvinte utiliza a sua audição como meio de se comunicar. Marchesi (1995) frisa que as crianças surdas em comparação às ouvintes apresentam maior comprometimento do desenvolvimento psicológico devido à ausência de comunicação. não respondeu a essa pergunta. S3 afirma que a facilidade de utilizar os instrumentos depende do sujeito surdo. que era desprovido de uma linguagem. 2002). . haverá desenvolvimento intelectual e psicológico precário. mas não significa que o surdo é menos inteligente e desprovido que os ouvintes. São dois tipos de experiências diferentes. o surdo utiliza a visão como substituição total da audição como meio de se comunicar (PERLIN & MIRANDA.

pois até mesmo os surdos oralizados não dominam o português.].. pois muitos julgam não possuir habilidade ou se recusam a usar o computador.4 Dificuldades encontradas em utilizar os instrumentos na intervenção psicoterapêutica As dificuldades encontradas relatadas por psicólogos ao utilizar tais instrumentos se encontram na tabela a seguir: DIFICULDADES ENCONTRADAS AO UTILIZAR OS INSTRUMENTOS Teste projetivos SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE 1 - - - - - Testes verbais 1 - - - - - Computador - 1 - - - - Não encontrou - 1 - - 2 - “[..‟” (S1) “[..... [. entretanto há que se ter certeza que a comunicação está acontecendo entre o surdo e o psicólogo ou terapeuta” (S3) Tabela 20 – As dificuldades encontradas por psicólogos ao utilizar os instrumentos com sujeitos na intervenção psicoterapêutica Fonte: Elaborado pela autora.] é mais difícil o uso do computador...] os surdos não entendiam nada [.137 4. .] os mais difíceis são aqueles que são testes verbais. 2009... devido à dificuldade de escrever e entender a língua portuguesa” (S4) “Não encontrei dificuldades. não consigo ver nada.] eles falavam: „Que desenho é esse? Não tem nada!‟ ou „Não to entendendo nada. apenas manchas.4..” (S2) “[.

por não haver a metodologia adequada para surdos.. [. Talvez S1 tenha utilizado o teste com surdos que não possuem alfabetização tanto na língua de sinais quando na língua oral.] os surdos não entendiam nada [. destaca-se que o mesmo psicólogo afirmou contradição ao relatar que encontra facilidade em utilizar o computador com surdos. Os mesmos autores afirmam que após o surdo aprender e utilizar a língua de sinais. pois muitos julgam não possuir habilidade ou se recusam a usar o computador. SACKS. Ao deparar com surdos oralizados que não dominam o português.. mas não pode generalizar que todos os surdos apresentam dificuldades. Para utilizar tal teste necessita-se da visualização. pois muitos deles gostam de utilizá-lo e que ele favorece o conhecimento de novos conceitos.138 S1 destacou a dificuldade ao utilizar o teste de Rorschach com os surdos: “[. os testes verbais foram considerados os mais difíceis para aplicar aos sujeitos surdos. . e que eles tenham encontrado dificuldade em descrever o que viam nos desenhos por não conhecer os significados e apresentar vocabulário restrito. Com essa dificuldade encontrada. Em relação à dificuldade dos surdos com a língua portuguesa. porém o objetivo do teste é a interpretação do sujeito em relação à imagem. devido à dificuldade de escrever e entender a língua portuguesa”.....]. que surdos oralizados que apresentam domínio na língua portuguesa são considerados casos isolados..] é mais difícil o uso do computador.] eles falavam: „Que desenho é esse? Não tem nada!‟ ou „Não tô entendendo nada.‟”. sua inteligência apresenta evolução e sua mente encontra “liberdade” (DALCIN. Porém.. S4 considera que o computador é difícil de ser utilizado: “[.. “[. 2007). ele desistiu de utilizar este teste com surdos. S4 pode estar relacionando a dificuldade em utilizar o instrumento a alguns surdos que se recusam a usá-lo. Porém. Ao verificar os testes de Rorschach.] os mais difíceis são aqueles que são testes verbais. 2006. é importante lembrar. pois é preciso verificar o nível de compreensão do sujeito. não consigo ver nada. imaginação e verbalização e ele pode ser considerado fácil de utilizar com surdos devido à mesma visualização que utiliza. foi possível à pesquisadora identificar que algumas imagens apresentam dificuldade em ser compreendidas. pois até mesmo os surdos oralizados não dominam o português...”. de acordo com Skliar (2005). por não apresentarem habilidade e terem dificuldade na compreensão da língua portuguesa. Tanto Dalcin (2006) quanto Sacks (2007) frisam que o surdo oralizado muitas vezes é privado de obter mais conhecimento por não compreender bem a língua dos ouvintes e também por não ser a sua “língua de conforto”. pode estar de acordo com o fracasso escolar como afirma Skliar. apenas manchas. Para S2.

5 Frequência da utilização dos instrumentos no atendimento psicoterapêutico Os psicólogos descrevem a frequência com que utilizam os instrumentos no atendimento com surdos e ouvintes.4. As dificuldades encontradas por psicólogos ao utilizar os instrumentos com surdos apresentaram diferenças. 4. devido à não habilidade em utilizar e à dificuldade dos surdos em escrever e entender a língua portuguesa.139 S3 não encontrou dificuldade em utilizar tais instrumentos com os ouvintes: “Não encontrei dificuldades. entretanto há que se ter certeza que a comunicação está acontecendo entre o surdo e o psicólogo ou terapeuta”. Se a comunicação entre psicólogo e sujeito está coerente para dar continuidade ao processo psicoterapêutico. equivale para os surdos também. Seguem os dados na tabela a seguir: FREQUENCIA DA UTILIZAÇÃO DOS INSTRUMENTOS Utiliza durante todo o atendimento SURDOS (ocorrências) Psicólogos surdos (S1 e S2) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) Psicólogos surdos (S1 e S2) OUVINTES (ocorrências) Psicólogos ouvintes que utilizam LIBRAS (S3 e S4) Psicólogo ouvinte que não utiliza LIBRAS (S5) UCE 1 1 - - - - Avaliação Psicológica 1 - - - - - Para melhorar comunicação - 1 - - - - Raramente - - - - 1 - “Utilizo todas as vezes que mantiver contato com ele no atendimento” (S3) “Utilizo esses instrumentos só para fazer a avaliação psicológica. ao afirmarem que não encontraram dificuldades com os ouvintes ao utilizar os instrumentos. o computador foi considerado o instrumento que apresentou dificuldade para os surdos. O psicólogo afirma que não encontrou dificuldades em utilizar os instrumentos com os ouvintes devido à língua oral. Para o psicólogo.” (S2) “Utilizo somente quando necessário para melhorar a comunicação” (S4) “Raramente . Os psicólogos surdos S1 e S2 afirmaram que ao utilizar os testes com surdos encontraram dificuldade como os testes de Rorschach – teste projetivo – e os verbais. com exceção de S3 e S4.

casinha e papel/lápis. visto que os instrumentos utilizados por S1 são bonecos. entrevistas com o sujeito e observações de registros de casos. o psicólogo poderá encontrar outras informações importantes que contribuirão para a sua intervenção com estes sujeitos. 2009. por exemplo. O psicólogo ouvinte S4 relata que utiliza os instrumentos como computador e papel/lápis apenas quando acha necessário melhorar a comunicação entre ele e o sujeito surdo. Ao realizar a avaliação psicológica com surdos. a anamnese é um roteiro com perguntas para coletar mais informações sobre o sujeito.140 utilizo” (S4) Tabela 21 – A freqüência da utilização dos instrumentos por psicólogos no atendimento psicoterapêutico com sujeitos Fonte: Elaborado pela autora. desde que os profissionais saibam como utilizar estes instrumentos de acordo com a demanda e especificidade de cada sujeito. a observação comportamental. ele afirma raramente utilizar a anamnese e papel/lápis. Com os ouvintes. ele utiliza raramente este instrumento? Quando o psicólogo S4 afirma utilizar os instrumentos papel/lápis e computador para melhorar a comunicação. é possível verificar que ele busca encontrar outra forma de se comunicar com o surdo. Barbie e Ken. Qual será a diferença que S4 encontra entre o sujeito surdo e ouvinte para relatar que. As diretrizes de “Guidelines for Assessment of and Intervention with Individuals Who Have Disabilities” destacam que a avaliação psicológica compreende a resolução de problemas ou a resposta às perguntas e. e com essas informações o psicólogo poderá dar continuidade ao processo psicoterapêutico com o sujeito. Será que para S4 os sujeitos ouvintes não necessitam da anamnese? Para Pontes (1998). Mas utilizar instrumentos para melhorar a comunicação somente com os sujeitos surdos? Com os ouvintes não há necessidade? É necessário utilizar alguns instrumentos durante todo o atendimento com sujeitos para que o psicólogo encontre resultados. pode incorporar vários métodos de coleta de dados como. e o psicólogo S3 utiliza o teste nãoverbal. . S1 e S3 afirmam a utilização dos instrumentos durante todo o atendimento com sujeitos surdos e podem ser considerados pertinentes. além de rever os resultados dos testes. porém questiona-se: há necessidade de utilizar o teste durante todo o atendimento? S2 afirma utilizar os testes não-verbais e projetivos somente quando necessita realizar a avaliação psicológica com os surdos. com ouvintes.

sua identidade. com algumas adaptações como. dois ouvintes que utilizam língua de sinais e dois ouvintes não conhecedores da língua de sinais.141 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste trabalho. assim como as estratégias de comunicação e instrumentos que foram utilizados no atendimento psicoterapêutico com surdos. foi possível identificar as estratégias de comunicação e instrumentos utilizados por psicólogos na intervenção psicoterapêutica com sujeitos surdos e ouvintes. Mas para chegar aos resultados. e foi decidido entrevistar seis psicólogos. Porém. Atingiu-se o objetivo desta pesquisa. ele passará a ter melhor desenvolvimento . sendo dois deles surdos. e algumas estratégias e instrumentos utilizados com surdos são semelhantes às aplicadas em ouvintes. E este estudo apresenta contribuições tanto para a sociedade quanto para a comunidade científica. O desenvolvimento desta pesquisa constituiu-se a partir das dificuldades da pesquisadora em encontrar literatura científica que abordasse especificamente o atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos e suas estratégias e instrumentos para as intervenções com tais pacientes. foi necessário identificar a sua percepção em relação ao sujeito surdo. Com a entrevista. ao contatar os participantes. a forma de comunicação – língua de sinais. S1 e S2 são psicólogos surdos e a sua percepção enfatiza que os surdos são vistos como estrangeiros. foi necessário identificar a importância de realizar entrevista com os psicólogos que atendem ou já realizaram atendimento psicoterapêutico com surdos. Afirmam a importância de esses sujeitos utilizarem a sua língua de conforto. apenas cinco aceitaram participar da entrevista. que são vítimas da sociedade e sofrem de preconceito. Durante a entrevista com os participantes. e também do pouco conhecimento da área da psicologia em relação aos sujeitos surdos. esta pesquisa teve como finalidade identificar as características de intervenção realizadas por psicólogos. Após algumas indagações sobre o tema. para verificar se a percepção dos profissionais influencia no atendimento. várias buscas de materiais e leituras foram necessárias para que fosse possível a realização desta pesquisa. foi possível vislumbrar a trajetória profissional de psicólogos surdos e ouvintes atuando com sujeitos surdos e ouvintes no atendimento psicoterapêutico. a partir dos dados coletados na entrevista foram comparadas as intervenções psicoterapêuticas semelhantes e diferentes entre eles. Neste contexto. por exemplo. pois após o surdo aceitar a sua língua.

S5 não utiliza esta língua no atendimento. não apresentando ouvintismo e a normalização com o surdo. do grau de surdez. em um ambiente acadêmico onde não há outros surdos no mesmo curso – psicologia – no qual me empenhei em fazer minha profissão. tanto por parte dos docentes como dos discentes também. O psiquismo do surdo e ouvinte. Enquanto pesquisadora. porém. também não apresenta diferenças e eles têm demandas semelhantes. mas não há diferença de direitos e deveres entre surdo e ouvinte. um significado ou até mesmo uma situação na qual. utilizando estratégias e instrumentos adequados a cada tipo de surdez. a comunicação para uma boa parte flui tranquilamente por meio da fala. S3 e S4 – psicólogos ouvintes que utilizam língua de sinais – também apresentam a sua percepção em relação ao surdo como estrangeiro em seu próprio país. sendo para eles a sua língua de conforto. ao persistir em utilizar a língua oral. mesmo que a sociedade diariamente tente me apresentar como tal. Na língua de sinais. o surdo é visto como um ser diferente. foi possível “ouvir” – ver – na fala dos professores a afirmação e ênfase sobre a importância de aceitar e respeitar o outro na sua diferença. não me considero deficiente. S3 considera o surdo um ser igual ao ouvinte. Sou e me sinto diferente e uma sinalizante no meio dos “falantes”. um sinal pode ser uma palavra. Para S3. Durante os cinco anos cursando psicologia. ser surda em uma sociedade com uma população de ouvintes numerosa. na prática do ambiente acadêmico. diferença e identidade. quando declara a utilização da conversação – língua oral – com seus pacientes surdos. trago a sensação de ser uma estrangeira dentro do meu próprio país. S5 apresenta a posição de ouvintismo ao querer normalizar o surdo. Foi possível perceber que ambos utilizaram intervenção adequada a cada sujeito. com agilidade. fluente e com facilidade. da aquisição linguística e do nível de aprendizado. . Pensar na língua de sinais como uma língua de conforto é poder encontrar a língua na qual o expressar-se ocorre naturalmente. para S4. Apesar de afirmar que realizou curso de LIBRAS a pedido de um de seus pacientes. Para os surdos oralizados. em razão da ausência da audição. De acordo com as suas falas. dependendo da idade. Estes psicólogos aceitaram a diferença do surdo. percebo a necessidade de refletir sobre respeito.142 psicológico e sua experiência visual será mais “rica”. Não me sinto deficiente. para os surdos sinalizantes a comunicação flui naturalmente. sem precisar “procurar” as palavras adequadas na língua portuguesa para expressar seus sentimentos.

os que se desviavam do padrão de beleza. mesmo S5 afirmando que realizou um curso a respeito. Os demais psicólogos entrevistados realizaram o atendimento psicoterapêutico com ouvintes e as queixas apresentadas por esses sujeitos apresentaram grande diferença em sua quantidade se comparadas com as dos sujeitos surdos. não se respeitando a diferença linguística e cultural ao se enfatizar que o surdo é portador de deficiência.626. não foi possível verificar a queixa dos ouvintes. A partir destes dados encontrados.143 Em relação à persistência de S5 utilizar a oralização com seus pacientes no atendimento psicoterapêutico. conforme apresentado nos dados. faz pensar que esse profissional não está levando em consideração o conforto que a língua de sinais traz para o sujeito surdo. os surdos apresentaram vinte e um tipos de queixas enquanto os ouvintes apresentaram apenas sete. Com relação aos atendimentos. Será que o aprender a língua de sinais também não seria uma maneira de o sujeito surdo mostrar para o psicólogo que encontrou dificuldades no momento do atendimento terapêutico e a necessidade de que a comunicação entre ambos aconteça efetivamente? Também. O surdo não “porta” a deficiência. será mesmo a partir de uma perspectiva ouvintista? A não utilização da língua de sinais. tecnológica. em um curso de língua de sinais. Leis – a sociedade ainda tem o seu olhar para o sujeito surdo como incapacitado. como S5 realiza. em que apenas as pessoas “normais” eram inseridas na sociedade. o atendimento psicoterapêutico por meio da oralidade. pelos dados coletados. na idade média. apenas S1 não atendeu ouvintes. Outro aspecto que esta pesquisa pretendeu verificar foram as queixas apresentadas por surdos e ouvintes. poderia ser um desencadeador de mais angústias e ansiedades por parte do sujeito surdo? E a importância da oralidade por parte do psicólogo – mesmo percebendo que o curso de língua de sinais lhe permitiu compreender melhor o sujeito surdo – seria devido a concepção de normalização da surdez e ao ouvintismo presente na sociedade? Também foi possível verificar. e a língua do surdo foi reconhecida oficialmente pela lei 10. perpetuando o preconceito dos ouvintes contra os surdos. Pode-se comparar nossa sociedade com a dos gregos.436/2002 regulamentada em 22 de dezembro de 2005 pelo Decreto nº 5. Como foi possível verificar na categorização sobre as queixas. ele apresenta somente a ausência de audição e possui os mesmos direitos e deveres. nesse caso. . tendo sido isto demonstrado pelo paciente para o profissional no momento em que solicita a sua participação. da força e da capacidade para produzir e beneficiar a sociedade eram excluídos. pode-se refletir o quanto esse profissional se posiciona diante do sujeito surdo. a percepção que a sociedade tem sobre os sujeitos surdos. Mesmo diante de avanços – falando de acessibilidade arquitetônica. realizava somente orientação para a família dos surdos sendo que. enquanto terapeuta.

Mas. Com o uso dessa estratégia de comunicação. Outro fator encontrado na participação da família foi a possibilidade de os psicólogos encontrarem novas informações sobre o surdo para melhor compreensão da história desse sujeito. pois ajudou a compreender a estrutura familiar e a realizar uma intervenção mais adequada. percebeu-se que os resultados apresentados foram positivos. a participação da família foi importante para o processo terapêutico. mais queixas entre os sujeitos surdos do que entre os ouvintes. pois. de . para ele. muitas vezes equivocados devido à falta de comunicação durante o atendimento psicoterapêutico entre psicólogo e sujeito surdo. com dificuldades de aceitar os limites que tanto a família quanto a sociedade lhes impõem. agressivo. Refletindo. tanto do ponto de vista dos psicólogos quanto da pesquisadora. social ou programática. se houver interesse pelo menos de uma das partes. Para os psicólogos que atendem surdos. principalmente por causa da falta de comunicação.144 nota-se o quanto a sociedade ainda desconhece o que é um sujeito surdo na sua diferença e como o preconceito. Encontram-se. desde que seja solicitada principalmente pelo sujeito. o profissional que tem o contato tanto com o surdo quanto com a família deve buscar estratégias que permitam uma aproximação. As estratégias de comunicação mais utilizadas pelos psicólogos foram a língua de sinais – com surdos sinalizantes – língua oral – com surdos oralizados e implantados – desenhos e escrita. Com a presença da família sem seu consentimento. sendo que cada dado novo encontrado tem sua importância para o profissional e para o atendimento psicoterapêutico. e são essas queixas que os psicólogos utilizam para a realização dos seus diagnósticos. o surdo possivelmente ficará ansioso. do computador. da casinha e de bonecos. há também a situação em que o sujeito surdo não conta com o apoio e o interesse de sua família pela sua vida. Também foi possível identificar a participação da família. livre de julgamentos por suas atitudes demonstradas – ou não – no seu cotidiano. Nesse caso. tanto para o sujeito surdo quanto para a sua família. possivelmente não haverá conforto no atendimento psicoterapêutico. a discriminação e a exclusão podem ocasionar a vulnerabilidade nos surdos. do sujeito surdo ou de algum familiar seu. Os instrumentos utilizados por psicólogos durante o atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos foram o uso de papel/lápis. é abandonado dentro de seu próprio lar. enquanto filho. a família tem seu lugar de valor no processo psicoterapêutico do surdo. pois o espaço terapêutico em que o surdo se encontra. seja individual. Isto faz com que surjam problemas emocionais. Com o surgimento da vulnerabilidade. A forma de se comunicar com os sujeitos a partir de sua condição linguística foi considerada a mais adequada. pode ser um lugar seguro.

o nervosismo e a teimosia. estas apresentaram semelhanças. o nível linguístico no qual eles se encontravam – ainda em aprendizagem da língua de sinais. Contudo. com o foco na ausência da audição. sua compreensão da vida e de mundo. mas em testes que sejam adequados para compreender as demandas dos sujeitos surdos. também surge a necessidade de se pensar não somente nas técnicas. dentre elas. Os surdos não são iguais. que estão relacionados aos surdos são vistos como características desses sujeitos. o que na verdade na maioria das vezes é um reflexo da dificuldade de comunicação entre surdo/família e surdo/sociedade. e cada um deles encontrou um instrumento mais adequado para trabalhar com surdos. sendo trabalhado em todos os atendimentos. foi possível encontrar várias dificuldades na utilização de algumas técnicas com esses sujeitos. os testes e as técnicas não são o foco desta pesquisa. A questão não é na verdade porque o sujeito é surdo. o que ocasiona comportamentos diferentes entre surdos e ouvintes para a sociedade. não necessariamente possuem as mesmas demandas.145 testes projetivos e não-verbais. cada surdo apresenta uma forma diferente de receber o atendimento psicoterapêutico e cabe ao psicólogo encontrar a maneira mais adequada de organizar o seu atendimento para realizar a intervenção conforme a demanda do sujeito. diagnósticos mais coerentes com o que esses sujeitos apresentam no atendimento psicoterapêutico. E. pois os resultados destes testes são baseados nos ouvintes de classe média. Os surdos possuem uma experiência visual que é diferente da experiência auditiva dos ouvintes. Em algumas sessões realizou-se atividade lúdica com esse sujeito com uma variedade de recursos que permitissem . com isso. foi utilizado pela pesquisadora o desenho como estratégia de comunicação. Com um dos sujeitos surdos. Não podemos generalizar que todos os instrumentos podem ser utilizados da mesma maneira com estes pacientes. a agressividade. O uso de tais instrumentos pode fazer surgir diagnósticos equivocados. porém com os instrumentos as diferenças foram evidentes. mas sim o deparar-se com problemas de comunicação e recursos que impedem seu livre acesso na sociedade. quando for necessário. Tais comportamentos diferentes – como foi possível verificar na categorização das queixas da família. Com relação às estratégias de comunicação. sendo interessante que novas pesquisas se façam buscando obter resultados que permitam a utilização desses instrumentos com os sujeitos surdos. há possibilidade de adaptações ao sujeito. no sentido de perceber o nível linguístico do surdo. Refletindo um pouco a experiência prática da pesquisadora no serviço de psicologia da UNISUL no atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos. buscando apresentar. que se traduzem em comportamentos na maioria das vezes inadequados tanto para a família do sujeito quanto para a sociedade – a brabeza.

da casa e bonecos. após muitos e-mails e mensagens de celular. Ao utilizar esses instrumentos para auxiliar na comunicação. porém. houve certa dificuldade por parte da pesquisadora na seleção dos participantes. não retornaram para comunicar que não desejavam participar. Inicialmente foi realizado contato por e-mail informalmente com onze psicólogos. mesmo com intervenções da pesquisadora. justificando-se o número de participantes menor do que o proposto inicialmente no projeto. . Houve dificuldade no processo de coleta de dados. suas falas carregavam poucas informações. o mais difícil foi não ter o retorno dos outros seis convidados a participar da pesquisa. da massinha de modelar. mas apenas três deles aceitaram prontamente participar desta pesquisa. Essa situação da distância foi razoavelmente contornada. pois faltavam informações. dificultando a interação “presencial” da pesquisadora com os entrevistados. A partir dos dados coletados na entrevista com os psicólogos que participaram da pesquisa. havia demora da resposta. e no momento da entrevista.146 que se expressasse e comunicasse suas demandas da maneira que fosse mais confortável – além da língua de sinais – com o uso do papel e lápis. com o decorrer do tempo. dois participantes não se mostraram dispostos a responder todas as perguntas. devido ao número reduzido de profissionais que já atenderam ou realizam o atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos. ocasionando certo desconforto para a pesquisadora. pois o surdo conseguia expressar seus sentimentos e demonstrar a sua situação familiar e o seu cotidiano. durante a análise e interpretação dos dados pela pesquisadora. Os demais convidados. Os participantes não permitiam à pesquisadora seguir adiante com a resposta deles. Dois dos onze profissionais aceitaram participar. permitiram as entrevistas com os participantes residentes em outros estados. Quando era encaminhado o e-mail para marcação do dia. e atrapalharam de alguma maneira o andamento da pesquisa. foi possível perceber as diversidades e semelhanças de intervenções que são realizadas com os sujeitos surdos e seus familiares no atendimento psicoterapêutico. Em relação ao método. a maneira mais rápida de comunicação que poderia ocorrer entre pesquisadora surda e participantes. devido à distância. mas apresentaram durante o processo de organização e marcação dos dias para a realização das entrevistas resistência à participação. pois as tecnologias como o computador com web cam. O semestre letivo foi passando e a pesquisa foi sendo desenvolvida com os cinco participantes que se dispuseram a responder a entrevista. O local em que os participantes residem também foi um fator complicador para a realização das entrevistas. a internet com o MSN. posteriormente. o que gerou reflexo. foi possível verificar resultados positivos durante o atendimento psicoterapêutico.

foi possível verificar a escassez de literatura científica no campo da psicologia voltado para o problema da surdez. Surdos sinalizantes. mas com enfoque na área de educação. É necessário pensar desde a organização do atendimento. além da abordagem teórica que utilizam. para orientar o trabalho e a intervenção psicoterapêutica dos psicólogos com sujeitos surdos. usuários da LIBRAS. Verifica-se a importância da continuação desta pesquisa para obter maiores informações sobre as estratégias e instrumentos utilizados com outros psicólogos – surdos e ouvintes. Surdos que são oralizados preferem a oralidade. os profissionais da psicologia terão o conhecimento sobre a surdez. a partir da pesquisa bibliográfica para realização deste trabalho de conclusão de curso. a visão tanto patológica quanto antropológica da surdez adentrando nos estudos culturais e estudos surdos. O que os participantes apresentaram foi a conveniência para o sujeito surdo de utilizar a língua para se comunicar. realizam o atendimento por meio da fala. O que estes profissionais poderão encontrar nessa literatura é a história da surdez.147 Também. pois é preciso pesquisar . desenhos. dando-lhe o retorno na mesma linguagem utilizada por ele. atividades lúdicas. foi encontrado na fala de S3 e S4. das estratégias de comunicação e instrumentos que utilizam com eles no atendimento psicoterapêutico e os resultados percebidos. sob o ponto de vista deles em relação à postura – acolhimento. mas continuarão com “algo vago” no seu trabalho de atendimento psicoterapêutico com os surdos. na estratégia de comunicação que estarão utilizando. utilizam a língua de sinais e todos os seus recursos possível para se comunicar. Esta pesquisa apresenta o pouco do que foi obtido nas entrevistas e poderá ser de valia para alguns psicólogos que realizam atendimento com surdos. Após obter tais informações da surdez na área da educação. entre outros. Deve ser observado sempre como esse sujeito se expressa e se comunica. finalizando mas não esgotando a discussão sobre as estratégias de comunicação no atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos. surdos não oralizados nem sinalizantes buscam imagens. o que pode ser considerado vago para os psicólogos. Mas o que foi possível verificar como muito evidente foi que as intervenções dos psicólogos no atendimento psicoterapêutico devem estar pautadas. sobre o sujeito surdo. Mais um dado importante. estratégias. instrumentos para a realização da intervenção. as representações dos ouvintes sobre os surdos. Com muita facilidade encontra-se literatura sobre a surdez. aceitação da língua de sinais e da identidade – do psicólogo. Também seria importante realizar a mesma pesquisa com os surdos. que ressaltam a importância de o psicólogo ter a fluência e o domínio da língua de sinais e vocação para o trabalho.

mas agora os sujeitos surdos terão o apoio de uma psicóloga surda.]penso que o resultado foi satisfatório. tenho a personalidade de ouvinte e tentei colocar-me no lugar do sujeito surdo. conviver com os surdos para entender melhor a sua percepção em relação à sociedade. onde a comunicação dar-se-á na mesma língua. Isto não significa dizer que a minha contribuição tenha sido rudimentar. os valores e a identidade surda para ter o melhor resultado. e diz: [..[.148 constantemente a comunidade surda... participar dos seus eventos sociais e culturais. tenho a certeza de ter contribuído para o crescimento dos sujeitos surdos.. com identidade surda e com o domínio da Língua de Sinais.] . muito pelo contrário. E S3 traz seu olhar sobre quem é esse profissional – psicólogo – que deveria estar realizando o atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos. mas quero esclarecer que sou ouvinte.

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155 APÊNDICE .

Quantos surdos você já atendeu? 9.Há quanto tempo você se formou? 3. você atende pacientes ouvintes? 10.Há quanto tempo você se formou na especialização em educação especial ou na área de educação? 5.Quantos ouvintes você já atendeu? 11.Além da sua formação em Psicologia. você possui alguma especialização em educação especial ou na área da surdez? 4.Qual é a sua formação? 2.156 APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA Idade: _______ Sexo: ________ 1.Qual é o grau de surdez dos sujeitos surdos que você atende? 8.Em que tipos de instituições que você já trabalhou? E atualmente.Desde quando você realiza atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos? E com ouvintes? 12.Qual a abordagem teórica que você utiliza no atendimento psicoterapêutico com sujeitos surdos? . onde você trabalha? 6.Atualmente.Atualmente você atende pacientes surdos? 7.

A sua intervenção psicoterapêutica varia de acordo com o grau de surdez dos sujeitos que você atende? Se sim. por quê? 21.Dos sujeitos ouvintes que você já atendeu.E qual é a queixa mais frequente por parte dos familiares sobre o sujeito surdo? 27.157 13. no que consiste essa variação? Se não.E qual é a queixa mais frequente por parte dos familiares sobre o ouvinte? .Dos sujeitos surdos que você já atendeu. quais as queixas apresentadas? 24.Os familiares dos sujeitos surdos apresentaram queixas sobre o surdo? Quais? 26. além do consultório? 16. qual o significado de ser surdo na sociedade? 18.E quais dessas queixas são mais frequentes? 25. quem é esse sujeito surdo que recebe o atendimento psicoterapêutico? 19.Qual a abordagem teórica que você utiliza no atendimento psicoterapêutico com os ouvintes? 14.Enquanto psicólogo (a) e conhecedor (a) do campo da surdez.Enquanto psicólogo (a) e conhecedor (a) do campo da surdez.Quais são os ambientes em que você utiliza a língua de sinais.Os familiares dos sujeitos ouvintes apresentaram queixas sobre o ouvinte? Quais? 28.Como você aprendeu a língua de sinais? 15.E qual é a frequência com que você utiliza a língua de sinais? 17.E quais dessas queixas são mais frequentes? 23. quais são as queixas apresentadas? 22.Na sua concepção. quem é esse sujeito ouvinte que recebe o atendimento psicoterapêutico? 20.

Quais tipos de estratégias de comunicação você utiliza durante o atendimento psicoterapêutico com o sujeito surdo? 30.Quais as facilidades encontradas na utilização dessas estratégias de comunicação com sujeito ouvinte na intervenção psicoterapêutica? 37.Quais tipos de estratégias de comunicação você utiliza durante o atendimento psicoterapêutico com o ouvinte? 31.Dentre as estratégias de comunicação que você utiliza.Com que frequência você utiliza essas estratégias de comunicação com sujeito surdo na intervenção psicoterapêutica? 32.Que estratégias foram pensadas para a superação dessa dificuldade durante o atendimento psicoterapêutico com o sujeito surdo? 38.Qual foi a importância da família neste atendimento? .Há dificuldades de comunicação durante o atendimento psicoterapêutico com os sujeitos ouvintes? Quais? 39.Quais as facilidades encontradas na utilização dessas estratégias de comunicação com sujeito surdo na intervenção psicoterapêutica? 34.Com que frequência você utiliza essas estratégias de comunicação com sujeito ouvinte na intervenção psicoterapêutica? 33.158 29. qual a mais adequada para estabelecer comunicação com o sujeito surdo? Por quê? 35.Há dificuldades de comunicação durante o atendimento psicoterapêutico com os sujeitos surdos? Quais? 36.Em algum momento você chamou a família do sujeito surdo para participar no atendimento psicoterapêutico junto com ele? Por quê? Quando? 40.

Você utiliza algum tipo de instrumento na intervenção psicoterapêutica com sujeito ouvinte? E quais são esses instrumentos? 46.Qual foi a importância da família neste atendimento? 43. há instrumentos mais adequados que outros a serem usados com sujeito surdo? Quais? Por quê? 52.Quais as dificuldades de utilizar esses instrumentos na intervenção com sujeitos ouvinte? Por quê? 51.Quais as facilidades de utilizar esses instrumentos na intervenção com sujeito surdo? Por quê? 48.Você utiliza algum tipo de instrumento na intervenção psicoterapêutica com sujeito surdo? E quais são esses instrumentos? 44.Com que frequência você utiliza esses instrumentos durante o atendimento psicoterapêutico com sujeito ouvinte? 47.Quais as facilidades de utilizar esses instrumentos na intervenção com sujeito ouvinte? Por quê? 50.Em algum momento você chamou a família do sujeito ouvinte para participar no atendimento psicoterapêutico junto com ele? Por quê? Quando? 42.Em uma intervenção psicoterapêutica.Com que frequência você utiliza esses instrumentos durante o atendimento psicoterapêutico com sujeito surdo? 45.Você gostaria de acrescentar alguma coisa? .Quais as dificuldades de utilizar esses instrumentos na intervenção com sujeitos surdos? Por quê? 49.159 41.

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