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TEORIA DO DISCURSO
Fundamentos Semióticos

Carlos Alberto Ribeiro de Moura (Filosofia) Profa.br http//www.UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor. Lourdes Sola (Ciências Sociais) Prof. 315 — Cid. Prof. LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor: Prof.fflch.usp. Elias Thomé Saliba (História) Profa. Beth Brait detras) Vendas Livrarias Humanitas-Discurso Av. Dra. Dr. Dr.FACULDADE DE FILOSOFIA. 717 05508-900 — São Paulo — SP – Brasil Telefax: 3091-4589 e-mail: pubfflch@edu. Milton Meira do Nascimento (Filosofia) Membros Profa. Luciano Gualberto.: 3091-3728/ 3091-3796 Humanitas – distribuição Rua do Lago. Dr. Dr. Sueli Angelo Furlan (Geografia) Prof. Renato da Silva Queiroz CONSELHO EDITORIAL DA HUMANITAS Presidente Prof. Universitária 05508-900 — São Paulo — SP — Brasil Tel. Dra.USP . Francis Henrik Aubert Vice-Diretor: Prof.usp.br/hunianitas Humanitas FFLCH/USP março 2002 .. Dra. Dr. Dr. Adolpho José Melfi Vice-Reitor: Prof. hélio Nogueira da Cruz FFLCH .

Diana Luz Pessoa de Barros. 2002 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO • FACULDADE DE FILOSOFIA. edição São Paulo. TEORIA DO DISCURSO Fundamentos Semióticos 3ª. LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS .

I Título CDD 410 HUMANITAS FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. ed.Copyright 2002 da Humanitas FFLCH/USP É proibida a reprodução parcial ou integral. – São Paulo : Humanitas / FLLCH / USP. Consoli Jacintho — MTb n. 28. ISBN 85-7506-059-7 1. Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi — CRB 3608 ____________________________________________________________ B276 Barros.br Telefax: 309 1-4593 Editor Responsável Prof. Dr. sem autorização prévia dos detentores do Copyright. 28.usp. 2001 172p.839 Capa Diana Oliveira dos Santos Revisão de emendas Simone D’Alevedo [página 4] . Rodrigues — MTb n. Semiótica 1. Lingüística 3. Milton Meira do Nascimento Coordenação Editorial Mª. — 3. Helena G. Análise do discurso 2.840 Composição Diarte Composição e Arte Gráfica Emendas Selma Mª. Diana Luz Pessoa de Teoria do discurso: Fundamentos semióticos / Diana Luz pessoa de Barros.

............................................. 8 Análise estrutural da narrativa ................ 73 Projeções da enunciação ................................................ 6 I — NARRATIVIDADE: À PROCURA DE VALORES .................................................. 7 Considerações iniciais ...................................................................................... 24 Conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas ........................................................................................ 27 Gramática narrativa .................................................................. 15 Gramática fundamental ....................... 29 Sintagma elementar: programa narrativo ............................................................................................ 43 Intencionalidade narrativa .................................................... 49 Paixões e apaixonados .... 41 Estratégia narrativa ................................................................................................................................. 31 Percurso narrativo ................................................... 60 Notas .................... 8 A gramática de casos de Fillmore ..................................................................................... 74 Temporalização e espacialização ......................... 14 Percurso gerativo .................. 28 Enunciado elementar ....................................................................................................................................................... 35 Esquema narrativo canônico ..................... 72 Sintaxe discursiva ............................................. 73 Desembreagem e embreagem actancial e teorias do foco narrativo ................... 72 Considerações iniciais ................... 44 Semântica narrativa ...... 20 Sintaxe fundamental ..................................................................................................................................................................................... 45 Modalização e modalidades ......................................... 20 Semântica fundamental ................... 70 II — DISCURSO: A ASSUNÇÃO DE VALORES ........................................... 88 ......................................................... 28 Sintaxe narrativa ...... 10 A gramática sêmio-narrativa ............................... 1 Teoria do discurso ............... 14 Análise imanente ............ 1 Plano do livro ................................................................................SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................... 13 Análise interna .................................................................................................................................................................. 12 Uma proposta semiótica ......................... 7 Estruturas sintático-semânticas subjacentes .............................

............ 115 Isotopia ..................................................... 142 Discurso e classes sociais ................................................................................................................................. 152 Notas .......... 155 BIBLIOGRAFIA ......................................................... 146 Discurso e ideologia ............................................................................. 92 Contrato de veridicção e verdade discursiva ....... 113 Tematização e figurativização ..................... 131 Notas .......... 136 Tema de comunicação ............................. 137 Tema de produção ...................................... 157 ÍNDICE ANALÍTICO . À Flávia que aprende a falar.......................................................................................................................................... 135 Considerações iniciais ...................................................................................... 165 À Mariana que descobre a escrita..................................................................................................................... 148 Texto e problemas de expressão ........................................................................................................................................................ ....................................................................... 92 Argumentação ....................... 135 Estruturas narrativas e discursivas da enunciação ............................ 139 Intertextual idade ............................................ 95 Semântica discursiva ..................Relações entre enunciador e enunciatário ....................................................................................................................................................................................................... 124 Coerência textual . 113 Elementos de semântica estrutural ......................................................... 132 III — ENUNCIAÇÃO: A MANIPULAÇÃO DE VALORES .....

a sim. Finalmente. em 1985. como primeiro passo. outros não o determinaram com igual clareza. deu-se destaque ao objetivo de conciliar as análises externa e interna do texto. principalmente com o desenvolvimento dos estudos de semântica. Teoria do discurso e análise de redações de vestibulandos. no trabalho. Propôs-se. toma a língua como seu objeto. costurar e dar forma a um texto que apresentasse uma visão de conjunto da teoria semiótica de análise do discurso e que servisse a pós-graduandos de lingüística e a todos os que pelo discurso se interessam. sobretudo. com algumas adaptações. TEORIA DO DISCURSO Situemos. de cujo projeto temos participado de vários modos. tornou necessária uma lingüística do texto ou do discurso. mas não o puderam ou souberam fazer. tencionou-se contribuir para o desenvolvimento da teoria. Em segundo lugar. a partir de Saussure e. apresentada e defendida na Universidade de São Paulo. no contexto das atuais preocupações lingüísticas. A lingüística. quase sempre sem ultrapassar a dimensão da frase. . Alguns lingüistas estabeleceram claramente esse limite.INTRODUÇÃO Este livro retoma. com a teoria distribucional. e a aceitação do fato de o texto não ser. outros ainda reconheceram a necessidade de se ir além da frase. a primeira parte da tese de livre-docência A festa do discurso. O interesse pelo texto como um todo. em um mesmo quadro teórico. como já se sabe há muito. os objetivos e interesses deste trabalho.[página 1] ples soma de frases.

etc. preocupado em ser objetivo em suas abordagens. para estabelecer seu objeto. do historiador. sente-se a lingüística um tanto atordoada. reconhece-se que. A lingüística do discurso pode ser. de reconhecida importância para situar a lingüística entre as ciências humanas. bastante polissêmico. lingüístico e extralingüístico fizeram da lingüística a ciência da língua — “social. ou por razões ideológicas. 22) — e suas relações com a “etimologia”. pois ora se vê fortemente solicitada por aqueles que exigem que ela lhes ensine a ler textos como meio de acesso ao homem. tenta derrubar a primeira barreira. 19). que sugerem a sua leitura do discurso. a Igreja. sem fugir dos pressupostos epistemológicos da teoria distribucional. essencial. Constata-se. propondo um processo de estruturação global do texto pela integração das frases em unidades maiores. 1976. em grandes linhas. dos fatores sóciohistóricos que a envolvem. Estabelecidas. p. Língua e fala. as variadas . ato individual de vontade e inteligência” (p. quando se examina o discurso. limitaram. não é fácil delimitar o que é da alçada da lingüística. com a “história política”. a escola.” (p. 7). a necessidade e as pretensões de uma lingüística do discurso. por exemplo. 1969. ou melhor. por outro lado — por má interpretação do mestre. consideradas as condições de produção do texto de Saussure. E preciso distinguir. com “instituições de toda espécie. ora é confrontada com ofertas diversas. Já outros lingüistas do texto. relegando ao extralingüístico a fala — “acessória e mais ou menos acidental. e muito usado em textos sobre a linguagem. por necessidade do momento histórico em que se transformavam os estudos da linguagem. segundo Maingueneau (1976. p. tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade” (SAUSSURE. p. o campo de possível interesse do lingüista. sua localização na encruzilhada entre preocupações da lingüística e das demais ciências humanas (MAINGUENEAU. afirmam outros. 29). dizem alguns. facilmente. assim. Verón. estão mais interessados em vencer a segunda fronteira e retomar ao extralingüístico elementos situacionais indispensáveis à construção do sentido do texto lingüístico. considerada como uma tentativa de ruptura de duas barreiras: a que impede a passagem da frase ao discurso e a que separa a língua da fala.As tão discutidas dicotomias saussurianas. 21) —. do sociólogo. Ao deixar a proteção das limitações de uma lingüística pura e lançarse no caos do extralingüístico. como Pêcheux. O ponto de interseção pode ser encontrado na remissão que diferentes teóricos da linguagem fazem à enunciação ou às condições de produção do discurso. do psicólogo. Harris (1969). Ducrot. nesse projeto. Slakta. com a clareza possível. [página 2] A primeira preocupação é a de estabelecer um denominador comum às varias definições do termo discurso. acreditam terceiros —.

que. competência vs. Segundo Greimas. isto é. coexistem no discurso o sistema da língua e as marcas da opção individual de sua realização que. Mesmo assim. 1975. pretendese tomá-las. de qualquer tipo de discurso.colocações a respeito das relações mantidas pelo discurso com seu quadro enunciativo ou com as condições de sua produção. do discurso. que englobam o mecanismo de colocação dos protagonistas e do objeto do discurso e as características múltiplas de uma situação concreta. 11). ao mesmo tempo. das citações transcritas. Ducrot ou Greimas acatam as dicotomias social vs. tempo. entendidas como suporte sintático-semântico das estruturas discursivas. Guespin (1971) considera que um olhar lançado a um texto do ponto de vista de sua estruturação em língua faz dele um enunciado e que o estudo das suas condições de produção o torna um discurso. realizado. enunciação e condições de produção. individual. algumas observações devem ser feitas sobre o caráter individual e social do discurso. [página 3] Antes de se focalizar a questão central da enunciação. a articulação entre narrativa e discurso. do social e do individual. mas. p. é assumida por uma instância individual. que realiza a passagem das estruturas semióticas narrativas às estruturas discursivas (GREIMAS & COURTÉS. o discurso como lugar. que não aceita a liberdade discursiva . sem. as formações discursivas são componentes de formações ideológicas. Outros autores poderiam ser aqui arrolados. O autor caracteriza o discurso pelas relações que se estabelecem entre indicadores de pessoa. o discurso constituído sobre estruturas narrativas que o sustentam. Lingüistas como Benveniste. Há dois modos distintos de encarar o problema. denominou subjetividade na língua. Para Benveniste. sistema social. Para a análise automática do discurso. caracterizador do discurso nas várias abordagens. p. 253-66) é no discurso que a língua. A segunda forma de abordar a questão está bem colocada por Robin. reunidas. enunciação é a instância de mediação que produz o discurso. ou seja. retórico. como elemento comum. serão examinadas no capítulo 1. fala. por sua vez relacionadas a condições de produção específicas (PECHEUX & FUCHS. cabendo à enunciação transformar o texto em discurso e por ele se responsabilizar. muito apropriadamente. por exemplo. se dispersar em infinitas falas particulares. podem ser a ela referidas. performance. porém. s.). espaço do enunciado e a instância de sua enunciação. lingüístico vs. Para Benveniste (1966. As estruturas narrativas. Ducrot (1980) distingue o texto. mesmo não recobrindo a oposição língua vs.d. se extraem já três pontos decisivos para a concepção de discurso e sua análise: a relação do discurso com a enunciação e com as condições de produção e de recepção. de Pêcheux. abstrato.

se pode denominar semântica da enunciação. com as lingüísticas. atualmente. mais lingüísticas em sentido restrito. Não se pretende invalidar análises realizadas de fatias do sentido. coexistem a invariável sistêmica social e as variáveis. transparente a si próprio (uma Filosofia de antes da descoberta freudiana). ser uma fonte de hipóteses pala os analistas do discurso (1980. forjadas pelas determinações sócio-ideológicas. . genericamente. pois.individual do sujeito “sem inconsciente. Distinguem-se. sem ideologia. A articulação do discurso com a formação social não é. consideram apenas a enunciação pressuposta no discurso. p. prescinde do conteúdo na análise do discurso. o sentido do discurso. e naquela de um sujeito sem determinações sócio-ideológicas (uma Filosofia de antes de Marx)” (p. concordar com Ducrot. Afirma a autora que “esta liberdade atribuída ao domínio da fala inscrevia-se numa Filosofia do sujeito neutro. fornecer pistas. portanto. sem pertencer a uma classe. dar instruções. nele. de orientações que tentam recuperar para a análise do discurso não apenas os elementos da instância enunciativa implícita. que. nessa perspectiva. afirmando que. de realização. sem o que deixarão de lado muitos aspectos da significação do discurso ou estarão até mesmo impossibilitados de construí-la. atentam para o sentido. Essas reflexões. 41). de alguma forma. 12). Os estudiosos. graças ao problema da enunciação. porém. quando afirma que cabe à análise lingüística. Rotulam-se assim orientações diversas como a teoria semântica intencional de Ducrot. é da relação entre a invariante do sistema e a variação social que surge o sentido do discurso. as propostas para uma teoria da argumentação e os esforços da semiótica de Greimas na construção de uma sintaxe e de uma semântica da enunciação. Poucos são os teóricos do discurso que deixam de reconhecer a estreita vinculação existente entre discurso e enunciação. mas também as variáveis sócio-históricas ou condições de produção. que fala. E preciso. seu objeto-resultante. os projetos da pragmática conversacional de Grice e da teoria dos atos de linguagem de Austin e Searle. com método puramente formal. que se fala” (1977. que engendram. fortuita e ocasional ou secundária e acessória. por conseguinte. p. Se a significação nasce da variação. o problema da co-presença do social e do individual no discurso. pois se reconhecem as dificuldades de apreendê-lo todo. como propuseram Barthes (1964 e 1966) e Greimas (1966). 25). também sociais. [página 4] A mudança de objete dos estudos lingüísticos. Cabe retomar. se vêem obrigados a recuperar elementos da enunciação. Harris é um deles. ocorre pouco a pouco na reflexão lingüística que.

assim. cobra sentido. para estudo das estruturas narrativas. com ênfase no caráter modal da sintaxe e na definição passional da semântica. com a análise externa do contexto sócio-histórico. de que essas relações podem e devem ser estabelecidas pela mediação lingüística da enunciação. tal qual foi aqui entendido. No primeiro capítulo serão examinados os princípios fundamentais da teoria semiótica e a sintaxe e a semântica narrativas. uma abordagem interna do texto. acredita-se que. das organizações discursivas. PLANO DO LIVRO O livro divide-se em três capítulos: o primeiro. indispensável para que se reconheçam os mecanismos e regras de engendramento do discurso. ajudem a construir o sentido do discurso. Não se pode esquecer o caráter fronteiriço do discurso. embora aqui resumidas. o segundo. satisfatoriamente. ela constitui. no momento atual. recorrendo sempre que possível e necessário a outras propostas e estudos que.Reconhecendo a pertinência da dimensão histórica para a análise do discurso. propõe-se. em última instância. mas tampouco se pode desconhecer o princípio de que não se somam técnicas ignorando as teorias que implicam. por razões que. serão lembradas e mais bem sentidas no decorrer do trabalho. parte-se da teoria semiótica desenvolvida pelo grupo de investigações sêmio-lingüísticas. [página 5] das relações entre discurso e contexto. sob a direção de Greimas. mas também as muitas dificuldades encontradas na determinação das relações entre formações sócio-ideológicas e formações discursivas. espaço na proposta semiótica. em que o texto se insere e de que. são três os motivos da escolha: a teoria sêmio-lingüística de análise do discurso está suficientemente avançada para oferecer princípios. da enunciação e das relações intertextuais. Para tanto. que serão examinados nos capítulos 1 e 2. mediadora entre formações sociais e discursivas. apreendido em níveis diferentes de geração e de abstração. já que a enunciação. Em síntese. O objetivo é integrar. sem contradições teóricas. sem incoerências teóricas ou contradições. e o terceiro. . entre as ciências humanas. encontrou. por meio da enunciação. promover a conciliação complementar das análises interna e externa do texto. embora a semiótica não tenha tratado ainda. Tenciona-se. a hipótese. há muito. neste trabalho. no quadro epistemo-metodológico da semiótica. conciliatória entre os dois grupos. Tenta-se. um dos poucos e mais completos modelos de abordagem das estruturas narrativas. dessa forma. o projeto avance nessa direção. métodos e técnicas adequados de análise interna do discurso. definir enunciação pelo duplo papel de mediação ao converter as estruturas narrativas em estruturas discursivas e ao relacionar o texto com as condições sócio-históricas de sua produção e de sua recepção.

Caberá ao terceiro capítulo a tarefa de rever a enunciação como articuladora entre formações discursivas e sociais e de efetuar a integração das análises interna e externa. A inserção contextual será considerada a partir das relações de intertextualidade e serão distinguidos os contextos situacional. efeitos de verdade do discurso. conciliação apontada como a finalidade principal deste trabalho. [página 6] .O segundo capítulo será dedicado à sintaxe e à semântica do discurso. No exame da semântica serão abordados os aspectos de tematização e figurativização do discurso. Tenciona-se verificar quais os procedimentos discursivos que se empregam para criar ilusões de enunciação e de realidade e. a partir daí. interno e externo. A sintaxe tratará das relações que se estabelecem entre a instância da enunciação e o discurso enunciado e para sua elaboração serão retomadas as teorias do foco narrativo e os estudos de semântica da enunciação sobre questões de argumentação. pressuposição e atos de linguagem.

a necessidade de dar atenção às estruturas sintático-semânticas narrativas. ainda que não pretendêssemos atribuir papel privilegiado à organização narrativa na teoria do discurso. a respeito de que há muitos textos publicados. de maneira sistemática. tanto na análise lingüística da frase quanto no exame de discursos. de forma sucinta. Em segundo lugar. e restringiu-se a exposição a uma apreciação de conjunto da teoria. neste capítulo. Optou-se por não apresentar exaustivamente a teoria greimasiana de análise narrativa. Em seguida. A primeira delas foi a concepção de discurso assumida e apresentada na Introdução: o discurso caracteriza-se por estruturas sintático-semânticas narrativas que o sustentam e organizam. Procurou-se ressaltar inicialmente. [página 7] . neste trabalho. seríamos obrigados a reconhecer que os modelos de descrição e explicação da narrativa são marcos fundamentais na história da análise do discurso. considerados imprescindíveis para a explicação da narratividade.I — NARRATIVIDADE: À PROCURA DE VALORES CONSIDERAÇÕES INICIAIS Duas razões levaram-nos a tratar a narratividade. algumas propostas precursoras. e apresentar. tratou-se de firmar posição em certos pontos da semiótica narrativa.

semanticamente relevantes. no componente de base. explicitamente. importa determinar. Em nossa tese de doutoramento (1976). que João manifesta o caso agentivo e bola o objetivo e. aproxima-se da dos mitos. capaz de explicar os recortes semânticos culturais. onde firma dois pontos fundamentais da teoria. no quadro da semântica gerativa. ou casos.ESTRUTURAS SINTÁTICO-SEMÂNTICAS SUBJACENTES A gramática de casos de Fillmore1 Examinaram-se. enquanto Fillmore exclui do componente de base as noções funcionais de sujeito e de objeto direto e propõe colocar em seu lugar as relações casuais. apresentamos e discutimos a gramática de casos. o que nem sempre aceitam as teorias lingüísticas. preocupadas com os valores de verdade e de falsidade das proposições. que envolvem os nomes e as estruturas que os contêm. a existência de estruturas profundas mais distanciadas da estrutura de superfície. Não interessa retomar a proposta de Fillmore em sua totalidade. das semânticas formais. para o nível da frase. em que se definem papéis sintático-semânticos. Um deles é a concepção do sentido relativizado em cenas ou. bastando pensar nas propostas de Lévi-Strauss. de Propp ou dos formalistas russos. A análise semântica da frase. em um espetáculo. assim concebida. da dos contos populares e da dos textos em geral. As relações casuais. provavelmente inatos e correspondentes a certos julgamentos que os homens fazem sobre os acontecimentos: Quem fez isso? Com o quê? A quem isso aconteceu? Em que lugar? Na análise de uma frase. O autor reconhece. um suporte sintático-semântico subjacente à organização da frase. só após transformações e já em nível intermediário entre estrutura profunda e de superfície. num modelo gerador de frases. um seguidor da teoria gerativa. as elaborações da gramática de casos de Fillmore (1968). a lingüística pratica. concebidas como relações sintáticas. ao lado das semânticas lógicas. como preferimos. Essas observações têm a finalidade de mostrar que. uma semântica de caráter antropológico. para muitos mais ingênua. tentando pôr em evidência sobretudo as diferenças básicas encontradas entre o modelo de Fillmore e o de Chomsky. dessa forma. já implícitos em seus textos anteriores. já que Fillmore se declarava então. A principal divergência entre eles consiste no fato de Chomsky desenvolver uma gramática de “sujeito-predicado”. mas fazer ver que é forçoso reconhecer. definir suas funções de sujeito e de objeto direto. Fillmore publica ‘The case for case reopened’. O reconhecimento da dimensão . formam um conjunto de conceitos universais. [página 8] Em 1977. como “João joga bola”. em resposta a uma serie de criticas e de sugestões feitas à gramática de casos.

estrutura da informação). de Fillmore quanto à gramática em que são reconhecidos os papéis sintático-semânticos. através da língua. que simulam o espetáculo do homem no mundo. manifestada pelas distinções de modo. de topicalização — e da organização textual — função textual. ou narrativas propriamente ditas. As demais funções acrescentam à [página 9] proposta de Fillmore variáveis da instância da enunciação função interpessoal. vem corroborar as convergências acima apontadas e constitui a maior atração de sua teoria. Apreendida a organização sintático-semântica profunda. estrutura do modo) e função textual (vs. que permitem caracterizar recortes culturais e sócio-históricos da língua e de seu uso. para este trabalho. função interpessoal (vs. marcada sobretudo pela entoação. estrutura da transitividade). Uma única observação é cabível: como a gramática de casos procura explicar. organizações “narrativas” e fazem a ponte entre as estruturas oracionais e as textuais. indiretamente.espetacular da sintaxe (ou da sintaxe-semântica). sintaxe e semântica. constituem. já no nível da frase. que ocorre também em Tesnière (1959). O único reparo que faz a gramática de casos deve-se ao fato de ela não levar em . 1976) e Slakta (l971a. não deve esquecer que tal espetáculo é visto. não é um modelo de gramática e sim uma proposta de descrição e explicação sintático-semântica de um nível da geração da oração. As objeções que podem ser feitas à gramática de casos não se aplicam ao nível geral de interesses e objetivos em que aqui nos colocamos. ou seja. Halliday (1974. O segundo esclarecimento do texto de 1977 é o de que a gramática de casos. ao mesmo tempo. a experiência que o falante tem do mundo. estrutura temática e. Os papéis sintático-semânticos casuais. no interior da qual encontre seu lugar. 1971b e 1974) discordam. no nível da oração. A primeira das funções compara-se facilmente com o nível sintático-semântico dos casos. uma teoria que examina os papéis sintático-semânticos oracionais precisa pressupor uma teoria do texto. através do sistema da transitividade. tornando-se necessário examinar a gramática em que tal instância se insere. Slakta interessa-se pela gramática de casos porque tal teoria pensa. apesar do nome. embora Fillmore não o reconheça. A intenção do autor é localizá-la na gramática gerativa. de certa forma. o espetáculo do homem agindo no mundo. Halliday parte da hipótese de que o funcionamento social da língua está refletido na estrutura lingüística e determina três funções. e julga que. das quais derivam as estruturas constitutivas da oração: função ideacional (vs. pois expressa o sentido cognitivo. o discurso e seu verdadeiro campo de aplicação. o autor desenvolve jogos de perspectivas e pontos de vista sobre a cena. no texto.

e que serão examinados nos próximos itens. o nível das realizações concretas e o nível retórico. ainda que preencha as condições mínimas necessárias seu caráter sintático-semântico — para atingir tais objetivos mais amplos. a respeito de contexto. Deixam de ter sentido as objeções que. de outro ponto de vista e com novos elementos. sobretudo sobre o folclore. Análise estrutural da narrativa Para a análise da narrativa propriamente dita. e as abordagens das mitologias. Não cremos.conta o social. de um lado.2 A gramática narrativa. como foi proposta. além de terem aos poucos alargado suas perspectivas. se podem fazer a gramática de casos. atualmente. as relações entre discurso e enunciação. seja o modelo mais adequado. entre texto e contexto. que explicita regras especificamente lingüísticas por meio da gramática de casos. diferentes caminhos podem ser seguidos. a competência ideológica e para cuja explicação recorre a teoria das ideologias de Althusser. e nesse ponto discordamos de Slakta. a de Halliday ou a de Slakta. que dizem respeito. ao mostrarem a necessidade de compreender as estruturas objetivas da obra. entre outras. não chegaram nunca a eliminar os falos sociais da compreensão lingüística. ou melhor. que a gramática de casos. desde que a concebamos como uma etapa no interior de proposta mais ampla.[página 10] gem bem marcados: os estudos dos formalistas russos. Há. que prescindem de todo um trabalho de adaptação de propostas localizadas. explicitamente o nível da oração. Tanto Slakta quanto Halliday consideram a gramática de casos como uma das etapas da análise do discurso ou da frase — instância de explicação sintático-semântica a que devem ser somados níveis que examinem. modelos mais desenvolvidos de análise narrativa. ambos. e os trabalhos de Propp. Seria. com a análise imanente do texto. dois veios de ori. Schnaiderman chama consciência semiótica ou estrutural. Prevê a análise do discurso em três níveis: o nível teórico-abstrato. no mínimo um engano não reconhecer que os formalistas. interrogada em si mesma. do outro. além de herdar da lingüística. principal fonte da semiótica narratológica. as relações do texto com os elementos sóciohistóricos de produção e de recepção. para o texto. mais especificamente da semântica. . como a de Fillmore. no entanto. Os textos precursores dos formalistas russos trouxeram para a análise narrativa a preocupação. em primeiro lugar. para explicar o suporte sintáticosemântico narrativo do texto. essencialmente na perspectiva de Lévi-Strauss. Escolher se o da gramática narrativa estrutural.

estendidos a outros tipos de textos3: os da “grande literatura”. Ao conceber invariantes narrativas. e dos semioticistas da Escola de Tartu4. do peixe que lhe dá uma escama ou do velho que lhe cede um bastão que bate. Aos esforços precursores dos formalistas russos e dos antropólogos seguem-se. na França. funções distribucionais. como por exemplo a descrição das terminologias do parentesco. pelos trabalhos de Bremond. de Lévi-Strauss sobretudo. como as funções e as esferas de ação. Este. os não-figurativos. que foram desenvolvidas por Bremond (1966. ao menos provisoriamente. nos Estados Unidos. Propp revelou as regularidades subjacentes à variedade dos contos maravilhosos russos. distinguindo. em sua maioria já resolvidos. como a ‘Introdução à análise estrutural da narrativa’. levantou muitos problemas. como os discursos políticos e científicos. por exemplo. mas seus trabalhos têm muito em comum com os estudos dos elementos dessa escola. Barthes e Greimas.[página 11] gram níveis hierarquicamente diferentes. caracterizado pela relação entre actantes. os não-verbais. como os indícios e os informantes. sem sombra de dúvida. ainda bastante presas à etnoliteratura. o doador do objeto mágico do pássaro que oferece uma pena ao herói. procuraram explicar as regularidades estruturais subjacentes e são comparáveis ao modelo lógico-conceptual constituído por Greimas para a representação das estruturas profundas. 1973). de Barthes. não pertenceu ao grupo dos formalistas. a partir de Benveniste (1974). por exemplo. Os métodos e técnicas propostos foram. A vinculação entre os formalistas e os atuais semioticistas russos é . pelas pesquisas que a ele se seguiram. no campo dos estudos literários. uma das obras sobre as quais repousa a análise estrutural da narrativa.Propp. A unidade sintagmática da função. não basta para a construção do sentido do texto. sendo necessário considerar também as relações que inte. de 1966. O texto instigante de Barthes. coube à antropologia. e funções integrativas. ao deduzir regras dos possíveis narrativos. representada. ou relação de mesmo nível. Distingue assim. trabalhos que marcaram época nos estudos da narratividade. desenvolver as pesquisas taxionômicas. de Todorov. de visão estrutural. A elaboração metodológica das etnotaxionomias e as análises paradigmáticas. Todorov. Entre os trabalhos sobre a narratividade. pelos estudos do folclore e. A morfologia do conto de Propp é. foi reformulada em termos de enunciado narrativo. pela primeira vez. posteriormente. Se Propp apreendeu unidades sintagmáticas constantes sob a diversidade do texto. o que permitiu a construção de uma sintaxe narrativa. não podem ser ignoradas as contribuições de Bremond. principalmente na França. Essa distinção teve larga aceitação entre os estudiosos da narrativa. folclorista e etnólogo. reconhece níveis de descrição lingüística e mostra que a distribuição.

A GRAMÁTICA SÊMIO-NARRATIVA A opção feita neste trabalho pela abordagem sêmio-lingüística5 do discurso deve-se. a semiótica deu já os primeiros passos para a construção de um modelo que. Ao conceber um sistema de regras capaz de explicar. pois a enunciação. Enquanto alguns estabelecem uma relação de continuidade direta entre formalistas (período de 1914 a 1930) e semioticistas (a partir de 1960). em primeiro lugar. Em segundo lugar. ressaltar a necessidade de explicar a estrutura sintáticosemântica subjacente ao texto. a partir de vários autores. seja no quadro da frase. tem já lugar na proposta semiótica. poetas em sua maioria. Uma proposta semiótica . as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição textual — cuja contribuição foi inegável para a elaboração de uma teoria semiótica da narratividade. as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural. essencialmente. sem dúvida alguma. examine também sua inserção no contexto. portanto. A apresentação que se acabou de fazer teve por objetivo. como Lévi-Strauss. a proposta mais desenvolvida. 26). responsáveis pelo aparecimento da semiótica de Tartu (SCHNAIDERMAN. seja na instância do discurso. para outros. expor alguns elementos — a ênfase formalista na análise interna e imanente do texto. São principalmente os textos de semiótica da literatura que fazem a ponte entre os formalistas. lingüistas e cibernéticos. conforme foi [página 12] apresentado na Introdução. de análise interna e imanente do texto. pela mediação da enunciação. que se tomará como elemento mediador entre formações discursivas e sociais. ao tratar da gramática narrativa estrutural. sem contradições teóricas. as unidades sintagmáticas constantes ou invariantes narrativas de Propp. e os semioticistas. p. a ruptura é completa. discutimos e fizemos nossa: tal enfoque descreve e explica satisfatoriamente o componente narrativo do discurso. com os mesmos princípios epistemo-metodológicos. à concepção de discurso que. Pretende-se. 1979. sem abandonar a análise do texto. articular o discurso com suas condições de produção. atualmente. pretendeu-se.motivo de controvérsias. fazer o projeto avançar nessa direção. é. que tal modelo permita. tanto as estruturas narrativas quanto as discursivas. acredita-se. finalmente. Schnaiderman não acredita em nenhuma das colocações extremistas e mostra “marcos essenciais no desenvolvimento de uma consciência semiótica” na URSS — um dos quais seria o formalismo —.

ou estruturas profundas de . pois a significação decorre da relação. que vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto. ou seja. uma rede de relações e nunca um termo isolado. ao mesmo tempo que dela depende. considerar o trabalho de construção do sentido. como a vê Greimas. não se acredita.A semiótica. Como foi bem salientado na Introdução. sob a qual é preciso procurar as leis que regem o discurso. e anterior a ela. não toma a linguagem como sistema de signos e sim como sistema de significações. 7). propor uma análise imanente. porém. ao reconhecer o objeto textual como uma máscara. entender o percurso gerativo como um percurso do conteúdo. procurando chegar ao sujeito por meio do texto. A crença na necessidade de análise interna. independente da manifestação. Herdeira de Saussure e de Hjelmslev. Análise imanente Hoje. da frase ou do discurso. isto é. de relações. Falar da significação é falar do sentido negativo decorrente do postulado saussuriano da “diferença”. cobrar da semiótica a explicação dos mecanismos de produção do sentido. produção que não se fecha no texto. poucos são os enfoques que não distinguem a imanência da aparência. como um percurso gerativo. na lingüística. lingüística ou não. 1979. p. da imanência à aparência. a semiótica tem-se esforçado por elaborar procedimentos operatórios e por construir modelos adequados à análise interna. [página 13] d) Análise interna O enfoque semiótico procura organizar o texto como uma totalidade de sentido e determinar o modo de produção desse sentido. A teoria semiótica caracteriza-se por: a) b) c) construir métodos e técnicas adequadas de análise interna. Pretende-se. em que cada nível de profundidade é passível de descrições autônomas. Para atingir tais objetivos. que termine aí a construção do sentido do discurso. de descrição e explicação dos mecanismos e regras que engendram o texto. por conseguinte. assim. Uma grandeza semiótica qualquer é. constitui uma das razões da escolha teórica feita. ou melhor. tenta determinar as condições em que um objeto se torna objeto significante para o homem. mas vai do texto à cultura. como o texto diz o que diz (GROUPE D’ENTREVERNES.

que podem ser comparadas. mais claramente.estruturas de superfície. A noção de percurso gerativo é fundamental para a teoria semiótica. O texto. Sob a aparência. s. da perspectiva adotada. tendo assim caráter puramente operatório. resultam da concepção de discurso e de construção de sentido assumidas e serão percebidas. p. Construções metalingüísticas. Depois de cumpridos os procedimentos de abstração. 352). as estruturas profundas são as estruturas mais simples que geram as estruturas mais complexas. da imanência à aparência. em decorrência. ou ainda macroestruturas de estruturas textuais.d. busca-se a imanência do discurso. que se articulam segundo um percurso “que vai do mais simples ao mais complexo. para ser explicado. como um percurso gerativo. as estruturas aparentes da manifestação. portanto. a partir de estruturas imanentes. p. Prevê-se a apreensão do texto em diferentes instâncias de abstração e. já que novas articulações são introduzidas em cada etapa do percurso e a significação nada mais é que articulação. está mais distante da manifestação. é necessário efetuar o percurso inverso e reconstruir. A maior complexidade deve ser entendida também como uma “complementação” ou um “enriquecimento” do sentido. com a estrutura profunda em Chomsky. por se encon. é uma ilusão — referencial e enunciativa — e.. determinam-se etapas entre a imanência e a aparência e elaboram-se descrições autônomas de cada um dos patamares de profundidade estabelecidos no percurso gerativo. Percurso gerativo O discurso é encarado pela semiótica como uma superposição de níveis de profundidade diferente. objeto da enunciação. ou melhor. com seus papéis sintático-semânticos ou casos. as leis que o produzem. o trabalho de construção do sentido. estrutura profunda e estrutura de superfície designam os pontos de partida e de chegada de uma cadeia de transformações (GREIMAS & COURTÉS. precisa ser desbastado dos efeitos de sentido aparentes. . Em semiótica. igualmente possíveis. o que dificulta ou mesmo impede a tarefa de precisar o que são instância profunda e instância de superfície. Considera-se. A título de exemplo. resultantes de transformações ao menos de subjetivação e objetivação..d. 206). do mais abstrato ao mais concreto” (GREIMAS & COURTÉS. São as estruturas intermediárias. As razões que levaram à escolha de certas etapas e não de outras. em Fillmore. Imanência e aparência são níveis diferentes de abstração e dependem. na explicação de cada patamar. é “mais profunda” que a estrutura profunda em Chomsky. s. sob a máscara.[página 14] trarem no mesmo nível de descrição. podem-se comparar as concepções de estrutura profunda em Fillmore e em Chomsky: a estrutura profunda em Fillmore. portanto.

No nível das estruturas fundamentais. que se situa fora do percurso gerativo e em que se reconhecem as estruturas textuais. uma sintaxe e uma semântica. compreende o percurso gerativo todo e distingue-se do nível lingüístico (ou pictórico. sujeito do fazer. em que são determinadas as estruturas elementares do discurso. no interior da gramática semiótica. A sintaxe e a semântica complementam-se na gramática semiótica. dos mais abstratos aos mais concretos e figurativos” —. São lugares diferentes de articulação do sentido. p. e geral (GREIMAS & COURTÉS. uma sintaxe explica as primeiras articulações da substância semântica e das operações sobre elas efetuadas e uma semântica surge como um inventário de categorias sêmicas com representação sintagmática assegurada pela sintaxe. nível sintático-semântico intermediário. na etapa mais superficial das estruturas discursivas. e do narrativo ao discursivo pela intervenção do sujeito da enunciação. uma semân. mais próximas da manifestação textual. instância mais profunda. ou seja. uma sintaxe organiza as relações entre enunciação e discurso e uma semântica estabelece percursos temáticos e reveste figurativamente os conteúdos da semântica narrativa. .d. O nível semiótico comporta três etapas julgadas necessárias para a clareza da explicação do percurso: a das estruturas fundamentais. s. que pedem a construção. gestual. de três gramáticas — fundamental. e a semântica. assim.. a das estruturas narrativas. do lógico-conceptual ao narrativo graças à ação do homem. Passa-se. sintagmática. em que as relações. narrativa e discursiva —. 431 e 396). uma sintaxe regulamenta o fazer — simulacro do fazer do homem no mundo e das suas relações com os outros homens — e uma semântica atribui estatuto de valor aos objetos do fazer.) aparente. e não apenas taxionômica. na instância das estruturas narrativas. ainda que reconhecidamente abstratas. etc. e a das estruturas discursivas. imanente. A sintaxe semiótica deve ser considerada uma sintaxe conceptual. são significantes.[página 15] tica gerativa — ‘concebida sob a forma de investimentos sucessivos. cada qual com dois componentes.O nível propriamente semiótico.

penugem de moça ao sol. [página 16] É como um grande lençol sem dobras e sem bainha. planta com nome de homem. . pode-se entender melhor a noção de percurso gerativo. É solta sua simetria: como a das ondas na areia ou as ondas da multidão lutando na praça cheia. sem feições. Contudo há no canavial oculta fisionomia: como em pulso de relógio há possível melodia. roupa lavada estendida. O vento no canavial Não se vê no canavial nenhuma planta com nome. papel em branco de escrita. ou como de um avião a paisagem se organiza. ou há finos desenhos nas pedras da praça vazia. é como um mar sem navios. Então. Se venta no canavial estendido sob o sol seu tecido inanimado faz-se sensível lençol. como a campina. nenhuma planta maria.Texto da imagem: Gramática semiótica Gramática fundamental (lógico-conceptual) Gramática narrativa (antropomórfica) Gramática discursiva (da enunciação) Sintaxe Semântica Sintaxe fundamental Semântica fundamental Sintaxe narrativa Sintaxe discursiva Semântica narrativa Semântica discursiva Tomando-se o texto de João Cabral de Melo Neto ‘O vento no canavial’. é da praça cheia que o canavial é a imagem: vêem-se as mesmas correntes que se fazem e desfazem. em análise de rápidas pinceladas. É anônimo o canavial.

redemoinhos iguais.se muda em bandeira viva. cabe explicação das operações sintáticas que põem em movimento as [página 17] relações acima estabelecidas. os fatos sintáticos dos semânticos. nesse rápido exercício. 148-9) Os conceitos empregados. entre o sentido da vida (“sensível lençol”. “bandeira viva”. Não serão distinguidos. as categorias semânticas /anônimo vs. Lembrando a lição da semântica de que o sentido nasce da descontinuidade. da ruptura. do nome. se perdem. da feição. 1975. podem-se reduzir à relação fundamental /não marcado vs. (MELO NETO. Acrescente-se a relação de /estaticidade vs. Ainda no patamar das estruturas fundamentais. As operações lógicas de negação e de asserção determinam os seguintes percursos: 1 continuidade morte (sem-sentido) estaticidade (conservação) 2 descontinuidade não-morte não-estaticidade 3 ruptura vida (sentido) dinamicidade cujas etapas (1. muito provavelmente. primeira etapa na geração do sentido. desordem/ e. com nome/. mudança—transformação/ ou /ordem vs. /em branco vs. da percepção da diferença. com estrelas verdes que no verde nascem. como têm as pedras. p. tem-se a oposição entre a significação da marca. da diluição. 2 e 3) podem ser reconhecidas no texto: . estarão mais bem desenvolvidos no corpo do trabalho. descontínuo/. estarão arroladas as categorias semânticas sobre as quais se constrói o poema. Marcado/ ou /continuo vs. /sem feições vs. dinamicidade/ ou /conservação—manutenção vs. da continuidade ou. do traço e a ausência de significação do anonimato. “no verde nascem”) e o sem-sentido da morte (“tecido inanimado”)6. com cara/. disciplina de milícias. as praças vazias: não tem. Não lembra o canavial então. voragens que se desatam. de cor verde sobre verde. estrelas iguais àquelas que o povo na praça faz. em última instância. Escrito/. No nível das estruturas fundamentais. com nitidez.

1: 2: 3: anônimo. pois parece. tem “fisionomia”. Exa. tecido inanimado. ou seja. é capaz de operálas e. como discurso. destinador. pois. a mais próxima da manifestação. sujeito cognitivo delegado do sujeito da enunciação. O observador. transformase a competência do sujeito para a ação: o sujeito sem nome. finos desenhos nas pedras da praça vazia. que nesse texto a dimensão do saber esteja figurativizada pela visão (“não se vê no canavial”. da ruptura ou do aparecimento da tensão entre estados de distensão e de relaxamento. lençol sem dobras e sem bainha. há um sujeito que transforma estados. não lembra as praças vazias. que “filtra”. papel em branco de escrita. mesmas correntes que se fazem e desfazem. que espera. o destinador aparece sob a figura do vento que muda o canavial. portanto. ondas da multidão. Nada mais justo. feições ou marcas.[página 18] mina-se o texto como resultado da enunciação. redemoinhos que o povo na praça faz. No segundo patamar do percurso gerativo. O texto trata. enfim. que altera a relação de outros sujeitos com os objetos-valor. do surgimento da vida. na teoria semiótica. e esconde segredos. No texto em exame. do movimento. “o canavial é a imagem”. que aspira às mudanças (faz “estrelas”). Instala-se. Retomam-se as estruturas narrativas na perspectiva da instância de enunciação que as assume. possível melodia. etc. graças ao vento. coloca-se como sujeito operador das mudanças de estado e como sujeito “apaixonado”. Nesse caso específico. “oculta fisionomia”. portanto. que confia e desconfia. o das estruturas narrativas. mar sem navios. O sujeito responsável pela alteração das qualidades do sujeito da ação é denominado. é preciso reconhecer sujeitos humanos que realizam as mudanças descritas como operações lógicas. sem feições. Destinador é aquele que determina a competência e os valores do sujeito que age. oculta fisionomia. que conduz o discurso. mas não é estático e sem feições. torna-se um sujeito determinado ou “qualificado”. embora não pareça. que não se conforma e se revolta. sensível lençol. que lhe dá voz e vez.) e que seja claro o jogo de veridicção entre o ser e o parecer: o canavial mente. A terceira e última etapa do percurso gerativo. que nada quer. um observador. ao assumir diferentes posições e perspectivas. finalmente. não tem disciplina de milícias. que se desilude e se aflige. “que o povo na praça faz”). é a das estruturas discursivas. voragens que se desatam. estrelas verdes que no verde nascem. sabe ou pode fazer. a paisagem se organiza. estabelece as regras do jogo. age (“correntes que se fazem e desfazem”. da transformação. O canavial. aquele que. no nível fundamental. No poema. no poema. praça cheia. ao fazer variar o . em suma.

o Nordeste. no nível discursivo. sem que isso signifique deixar de reconhecer a implicação mútua que os define. Cabe lembrar que. na leitura vertical. Percorridas. como um percurso do conteúdo. etc. já retomadas como transformações. sem dúvida. muito bem reconhecido pelos antropólogos). a melodia possível. da fecundação e do nas cimento. com a presença de elemento desencadeador das mudanças operadas pelo povo “lutando na praça” (não se pode esquecer do papel transformador da praça. já fora do percurso gerativo. a escolha lexical. Entende-se o percurso gerativo. Outras são possíveis e não se pensa em esgotálas aqui: a) leitura sócio-política das transformações sociais. Sendo o observador (e não o narrador) o condutor do discurso. apresentam-se. o fecundador misturam-se com o vento. o homem confundem-se com o canavial. pode mudar-se em “bandeira viva”. resta. As relações e operações elementares do nível fundamental. a do vento que mexe com o canavial. A manifestação tem implicações diversas. o herói. leitura sócio-econômica do anonimato e do conformismo do homem do Nordeste. mas que.ponto de vista. visual. Uma primeira leitura é. a semiótica examina os temas e as figuras que os recobrem. A descontinuidade aspectual rompe a duratividade do “papel em branco”. meio e fim. a possibilidade de considerar o texto nas suas relações com o significante — lingüístico. No caso da manifestação . o líder. leitura existencial e cíclica da vida. ainda. que garantem a passagem das transformações narrativas a processos com começo. valores e paixões narrativas. b) c) A apreensão vertical dessas linhas temáticas (e figurativas) cria metáforas: o povo. como a linearidade e a organização no espaço. a partir de Hjelmslev. portanto. as marcas estilísticas. submetido às injunções da política econômica e à natureza e com ela confundido. Também no nível do discurso. a semiótica condiciona a construção de uma metalinguagem descritiva à separação dos planos da expressão e do conteúdo. rapidamente. se soprar o “vento forte”. —. independente de sua manifestação e anterior a ela. as etapas de geração do sentido propostas pela semiótica. ao nascimento ou às lutas na praça cheia. conhece ou reconhece as voragens ocultas. Em ‘O vento no canavial’. os redemoinhos escondidos. várias linhas temático-figurativas podem ser estabelecidas. aparecem fortes recursos de aspectualização. da “campina” ou do “grande lençol” e o aspecto incoativo da mudança dá início a uma nova duratividade. os movimentos da cana balançada pelo vento [página 19] equivalem. como percursos temáticos e figurativos. de que a semiótica não se ocupa.

Com a noção de estrutura elementar. 1981a. ou melhor. os termos do subcomponente taxionômico são interseções ou redes de relações e as operações do subcomponente sintático. “tão simples quanto possível” (RICOEUR. s. da estrutura elementar7.. devendo a relação manifestar sua dupla natureza de conjunção e de disjunção. em primeiro lugar. e que a torne operatória. por sua vez. O quadrado semiótico foi concebido como a representação lógica. stricto sensu. a instância ab quo do percurso de geração do sentido de um discurso (GREIMAS & COURTÉS. 1980.d. p. em instância das estruturas de superfície e instância das estruturas profundas. “atos que estabelecem relações” (GREIMAS & COURTÉS. Tal estrutura necessita. estudadas pela lingüística. . 432-3). a estrutura elementar definese. p. 433). p. procurou-se dotar a semiótica de uma definição de estrutura capai de incluir relações que “constituem o essencial da herança Sobre a qual repousa o cálculo lingüístico desde 1827” (GREI. contrariedade e complementaridade. 6). p 44). corno a relação que se estabelece entre dois termosobjetos — um só termo não significa —. como estrutura elementar. Em decorrência do caráter relacional da sintaxe semiótica.[página 20] MAS. GRAMÁTICA FUNDAMENTAL A sintaxe e a semântica fundamentais constituem o nível profundo da gramática sêmio-narrativa.verbal. s.. ser precisada e interpretada por um modelo lógico que traduza bem suas relações em oposições de contradição. Organização estrutural mínima. o nível textual desdobra-se.d. no plano metodológico. O subcomponente taxionômico ou morfológico descreve e explica o modo de existência da significação como um microssistema relacional não orientado. Sintaxe fundamental A sintaxe fundamental articula-se nos subcomponentes taxionômico ou morfológico e operacional ou sintático. porém.

projetar. o texto ‘O vento no canavial’. mantêm entre si relação de oposição por contraste. Retoma-se. no interior de um mesmo eixo semântico.S 1 S 2 S2 S1 relação de contrariedade relação de contradição relação de complementaridade Os termos da categoria elementar s1 e s2. cada um deles. por uma operação de negação. para melhor situar os conceitos da gramática fundamental. Investindo o quadrado semiótico com as categorias semânticas do poema citado. já utilizado no item sobre o percurso gerativo. como ilustração. e podem. um novo termo. seu contraditório (s 1 e s 2). tem-se: . Só é possível pensar em estrutura elementar quando s1 e s2 forem termos polares de uma mesma categoria semântica.

dinamicidade/ são termos de uma mesma categoria semântica: temporal. s1 e s 2 vs. s2 e s 2 vs. O quadrado semiótico permite ainda uma segunda geração. s 1 e s2 vs. o modelo acima define seis dimensões: dois eixos: s1 + s2 e s 1 + s 2 dois esquemas: s1 + s 1 e s2 + s duas dêixis: s1+ s 2 e s2 + s 1 2 Os termos categoriais (s1. vida/. existencial e de movimento. s1 são complementares). Além das relações categoriais (s1 vs. s 1 são contrários. Os metatermos contraditórios são dois . ruptura/. graças às operações de negação e asserção. s2. s 2 são contraditórios. em que são obtidos os metatermos contraditórios e contrários. /estaticidade vs. e uma terceira geração que produz os termos complexo e neutro. e s 2) resultam de urna primeira geração de termos. respectivamente. /morte vs. s1 vs. s 1.Texto da imagem: S1 continuidade morte estaticidade S2 ruptura vida dinamicidade S 2 não-ruptura não-vida não-dinamicidade [página 21] S 1 descontinuidade não-morte não-estaticidade Percebe-se facilmente que /continuidade vs. s 1 vs.

** negação) As operações são de dois tipos: a negação e a asserção. duas dêixis (s1 + s 2 e s2 + s 1) que mantêm entre si relação de contrariedade (como a mentira e o segredo. a operação de asserção aplica-se aos termos s 1 e s 2 e faz aparecer os termos primitivos afirmativos. Os termos complexo e neutro caracterizam-se. A orientação rias relações é a primeira condição da narratividade e pressupõe já um sujeito produtor do sentido. no quadrado das modalidades veridictórias)8 e os metatermos contrários.esquemas (s1 + s 1 e s2 + s 2) que contraem relação de contradição (por exemplo. [página 22] asserção * asserção ** ** * (texto da imagem: * asserção. efetuada sobre s1 ou sobre s2. Com esse modelo. respectivamente. traduz-se estaticamente a organização relacional do conteúdo. pela reunião dos termos do eixo dos contrários (S (sexualidade) = s1 (macho) + s2 (fêmea)) e dos termos do eixo dos subcontrários (S (assexualidade) = s 1 (não-macho) + s 2 (nãofêmea)). 42-6). A operação de negação. A dinamização do modelo taxionômico da estrutura elementar — as relações são tratadas como operações orientadas — permite passar ao ponto de vista sintático. s1 e s2. Enquanto o subcomponente morfológico ocupa-se do modo de existência da significação. imanência e manifestação. Reúnem-se aí — relações da estrutura elementar da significação e seqüência ordenada de operações sintáticas — as condições mínimas de ou discurso (GREIMAS. produz seus contraditórios. respectivamente s 1 e s 2. . no mesmo quadrado das modalidades veridictórias). 1981a. considerados como termos primitivos. p. a taxionomia do subcomponente morfológico. por meio da reformulação das ralações em operações. cabe ao subcomponente operatório ou sintático descrever e explicar o seu modo de funcionamento. O quadrado semiótico. responde também pela representação dinâmica da estrutura elementar.

As operações realizadas no quadrado semiótico negam um conteúdo e afirmam outro. foram confiadas ao modelo quaternário que acabamos de definir: a primeira é a de modelo constitucional. em qualquer etapa de descrição. lingüístico ou não. passível de narrativização. enquanto modelo de previsibilidade. ainda. a sintaxe fundamental. sobretudo a partir do trabalho de Zilberberg (1981). entre outras. . que de certa forma incluiria a primeira. a /morte/ e a /estaticidade/ e afirma-se a /ruptura/. com a sintaxe fundamental. a eficácia heurística do quadrado. ** negação) Nega-se a /continuidade/. Ressalte-se. a /vida/. No item sobre a semântica fundamental. como vimos. O quadrado semiótico pertence ao nível metalingüístico da semiótica. a dinamização das relações fundamentais em percursos orientados resulta no esquema abaixo: s1 continuidade morte estaticidade s2 ruptura vida dinamicidade s 1 descontinuidade não-morte não-estaticidade ** asserção * (texto da imagem: * asserção. o ponto inicial da geração do discurso. Foram apresentados apenas os elementos de consenso entre os estudiosos da semiótica. em grandes linhas. engendrando a significação e tornando-a. serão analisadas algumas reformulações possíveis. Semântica fundamental A semântica fundamental define-se por seu caráter abstrato e constitui. [página 23] Resumiu-se. qualquer que seja a tarefa cumprida. é a de representar as relações semânticas em sua dimensão paradigmática e propiciar-lhes a sintagmatização pelas operações orientadas. No poema de Cabral que se está usando como exemplo. a /dinamicidade/. a segunda. ponto de partida do percurso de geração de todo discurso. Duas tarefas.

e surgem. 1979b. 9). da disforia à euforia. dita também proprioceptiva. a /morte/ e a /estaticidade/ são disfóricas e opõem-se à euforia da /ruptura/. se tornam operatórias e adquirem estatuto lógico-semântico (GREIMAS. inscrito em um contexto. Os termos da categoria semântica assim investidos são ditos valores axiológicos. uma única categoria é suficiente para produzir um microuniverso semântico. Esse inventário ou taxionomia de categorias semânticas é sintagmatizado pelas operações sintáticas descritas. “Trata-se de uma categoria ‘primitiva’. com a qual se procura formular.” (GREIMAS. como valores virtuais. p. da categoria tímica /euforia/ X /disforia/. não relacionados ainda a um sujeito. p. sobre o quadrado que as articula. ‘se sente’ e reage a seu meio. mas prevêem-se também.Todo semantismo articula-se em categorias semânticas que. ou seja. muito sumariamente. quando tais valores são assumidos por um sujeito. e não apenas valores descritivos. em texto euforizante. e disfórica. representadas pelo quadrado semiótico. Eufórica é a relação de conformidade do ser vivo com o meio ambiente. As categorias semânticas podem ser axiologizadas na instância das estruturas fundamentais pela projeção. A atualização só ocorre na instância superior da semântica narrativa. Em princípio. sua não-conformidade. o modo como todo ser vivo. portanto. categorias hierarquizadas. considerado o ser vivo como ‘um sistema de atrações e repulsões’. da /dinamicidade/. em sua geração. em relação à semântica narrativa. Em ‘O vento no canavial’. l979b. 9). as categorias semânticas geradoras do poema são axiologizadas: a /continuidade/. [página 24] Texto da imagem: . Passa-se. da /vida/.

disforia s1 continuidade morte estaticidade s2 ruptura vida dinamicidade s 1 descontinuidade não-morte não-estaticidade euforia não-disforia A aplicação do tímico sobre o descritivo e os valores axiológicos resultantes. ‘a figura da forma’. têm especial interesse para explicarem-se. o escavará. na instância narrativa. 6). ou melhor. é preciso. 1981. . e que instalaria a descontinuidade na unidade contínua do sema. roerá sua substância para conservar-lhe apenas a forma ou. O ponto de partida das inovações de Zilberberg é a categoria /tensão/ vs.” (ZILBERBERG. Cada sema tem. mas. correspondente à oposição /elevado/ vs. apresentada como oposição-matriz. além de constituírem sistemas de valores virtuais a serem explorados pelo sujeito da enunciação. nessa perspectiva. ou seja. mas serão retomados alguns pontos de sua proposta que se acredita poderem contribuir para melhor explicar o modo de produção do sentido. instalar nessa continuidade uma ‘descontinuidade sistêmica’. Zilberberg (1981) sugere mudanças nas relações entre o tímico e o passional e alterações no próprio percurso gerativo “clássico”. p. ao mesmo tempo. A categoria tímica /euforia/ vs. o sema varia entre um estado tenso e outro relaxado. dupla definição. as articulações modo-passionais que regem as relações entre os sujeitos e os objetos. está por detrás. para Greimas (1979b). melhor ainda e segundo a bela expressão de Valéry. o esvaziará. “Em outras palavras. para satisfazer agora o princípio da descontinuidade. /disforia/. em relaxamento e em tensão. de acordo com a metáfora do percurso gerativo. para satisfazer o princípio da continuidade. /reduzido/ do modelo fonológico acústico. /relaxamento/. de forma geral mantido neste trabalho. como compacto ou contínuo. Não se discutirão aqui o interesse e o alcance de todas as sugestões de Zilberberg. Esta última manterá o sema como unidade. se o sema é mantido. por baixo das organizações modais que definem as paixões.

Neste trabalho. de timia para foria. relaxado (ZILBERBERG. pretende-se empregar a categoria da tensividade. Se as modalidades tensivas subjazem a toda unidade de sentido. 1981. /relaxado/. por exemplo. assim. maléfico (dis-)/. 22-3). p. mas também pela relação de /tenso/ vs. explicita o caráter articulador da categoria. /disforia/. responsável. engloba tanto o ou tenso das oposições quanto o ou relaxado das analogias. como uma tensão . a distinção entre avareza e economia é uma variação de intensidade e não de qualidade. A categoria tímica será redefinida como categoria fá rica. ambos termos tensos que se separam por “qualidade semântica”. papel que Greimas atribui à categoria tímica. tenso. A troca de nomes. A euforia define-se. no nível das estruturas fundamentais. articulada em tensão e relaxamento. os universos semânticos também se determinam pela tensividade: o de Baudelaire. benéfico (eu-)/ vs. [página 25] Texto da imagem: tensão (t) relaxamento (r) intensão (r ) (t ) distensão Zilberberg ilustra bastante bem sua proposta: o operador ou. em La Rochefoucauld. não só pela oposição tímica de /bem. a partir daí. pela axiologização das categorias semânticas fundamentais. ao contrário do que ocorre com avareza e prodigalidade. como foi visto. podem ser consideradas como termos de uma categoria que modaliza as categorias semânticas. o de Verlaine. a ser entendida.Os percursos de tensão e de relaxamento são denominados modalidades tensivas. /mal. A categoria da tensividade poderá levar a melhor caracterizar a categoria tímica /euforia/ vs. mesmo sem acompanhar as demais contribuições de Zilberberg à semiótica.

além de iluminar um pouco as obscuras regras de passagem de um nível semiótico a outro. Pode-se dizer que a conversão das operações lógicas em transformações narrativas é uma antropomorfização. etapa imediatamente superior no percurso gerativo. à pulsão. na sintaxe narrativa e graças ao sujeito do fazer. formulando. tímica ou fórica. inegavelmente. do encontro do ser vivo com o não-vivo. como aumento de tensão e diminuição de relaxamento. Quanto à passagem específica do nível fundamental ao narrativo. ou melhor.[página 26] rias semânticas ou relação sintática responsável pela organização. . ao mesmo tempo que a estrutura se torna mais complexa e o sentido mais “rico”. mais exatamente. a tensividade tem. de caráter antropomórfico. Conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas Caracterizada a gramática Fundamental. a relação básica do homem com o mundo. a variação e a conservação tensiva organizam os conteúdos no nível das estruturas fundamentais e correspondem à metacategoria semântica. em que a sintaxe narrativa. Metacategoria definidora das catego. Sabe-se. As operações da sintaxe fundamental convertem-se. não encontrou ainda real solução. O reconhecimento dos procedimentos de conversão e o estabelecimento de suas regras estão apenas começando. uma vez mais e indiretamente. a disforia. tal qual a propôs Greimas. conservação ou redução das diferenças semânticas. Cumpre tratar da conversão das estruturas profundas em estruturas narrativas. a categoria tímica. concepção que lhe permite homologar a forja ao princípio do prazer de Freud. Retoma-se. introduzindo a continuidade na descontinuidade das etapas. sintaticamente. como a categoria que articula as reações do ser vivo a seu contexto. substitui as operações lógicas da sintaxe fundamental por sujeitos do fazer e define sujeitos de estado pela junção com objetos-valor. como Zilberberg. é uma propriedade do ser vivo ou. O problema colocado pela passagem de um nível a outro. Pode-se concluir que a tensividade. Há semioticistas. para Zilberberg. quaisquer que sejam eles. A tensividade. que determina o descritivo e o torna valor axiológico. um papel a cumprir na instância fundamental do percurso de geração do sentido. portanto. como prefere Zilberberg. que a conversão9 diz respeito à manutenção e não à ruptura. é possível reconhecer certos elementos.decrescente e um relaxamento crescente. que. A equivalência ao modelo inicial deve ser mantida. em enunciados do fazer que regem enunciados de estado. em lugar de definirem a narrativa pela antropomorfização das operações lógicas fundamentais. no momento.

Pela conversão semântica. narratividade como sucessão de . uma fôrma. Em outras palavras. à das estruturas fundamentais. os valores virtuais. assim como em determinar seus participantes. de percursos e mesmo de um esquema narrativo canônico. por exemplo. em valores ideológicos. de situações. em que devam obrigatoriamente entrar os mais diversos discursos. entende-se a sintaxe narrativa como o simulacro do fazer do homem que transforma o mundo. entendidos como valores assumidos por um sujeito. por catálise — explicitação dos pressupostos —. que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos objetos. GRAMÁTICA NARRATIVA A gramática narrativa descreve e explica o modo de existência e de funcionamento das estruturas narrativas ou superficiais que constituem a etapa imediatamente superior. Sintaxe narrativa Retomando a concepção espetacular da sintaxe. Os valores axiológicos virtuais conver[página 27] tem-se. elementos narrativos implícitos. Entende-se a intencionalidade como a tensividade fundamental com um começo e um fim. A atualização realiza-se em duas etapas: inscrição dos valores em objetos. permitem reconhecer. que serão vistos em seguida. dessa forma. no percurso de geração do sentido. ainda não assumidos por uru sujeito na instância fundamental. e junção dos objetos-valor com os sujeitos. a partir de seleção no interior dos sistemas axiológicos. Parte-se de duas concepções complementares de narratividade: narratividade como transformação de estados. como acreditam alguns criar uma camisa-de-força. Para tanto. a análise narrativa procura utilizar o quadro geral e rigoroso da teoria semiótica. são selecionados e atualizados na instância narrativa. a intencionalidade narrativa decorre da aspectualização10 da variação e da conservação tensiva das estruturas fundamentais.preferem determiná-la pela intencionalidade. de programas. Desvendar a organização narrativa consiste. de narrativas diferentes. buscando mostrar e analisar a especificidade de cada texto e não. que facilitam a decomposição do discurso e a explicação coerente das transformações e dos estados e que possibilitam a comparação. Enquanto instrumentos de previsão. só tem sentido se tais modelos forem entendidos como instrumentos de análise e de previsão. isto é. que se tornam objetos-valor. operada pelo fazer transformador de um sujeito. em descrever e explicar as relações e funções do espetáculo. A proposição de modelos de enunciados narrativos. portanto.

Certa vez até. Em outros termos. Investimentos semânticos complementares à relação de transitividade permitem estabelecer distinção entre duas diferentes funções. pois. Desesperado. jornais. microfones. as estruturas narrativas simulam a história da busca de valores. o homem foi ocultando o . em outras palavras. câmaras. de Millôr Fernandes. Rádios. deve-se rever a noção de actante de Tesnière. Função está sendo tomada no sentido lógico-matemático de relação entre duas variáveis. também. gala. de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor. Subitamente.: E não só multidões. outro ovo. na data de hoje atraía verdadeiras multidões. A relação transitiva entre sujeito e objeto dá-lhes existência. da procura de sentido. em dia inesperado. será utilizada para ilustrar os diferentes tipos de enunciados e outros conceitos da gramática narrativa. A Galinha dos ovos de ouro Era uma vez um homem que tinha uma Galinha. Outro ovo de ouro! O homem mal podia dormir. a relação-função é constitutiva dos actantes. a junção e a transformação. são o actante sujeito e o actante objeto. e aos poucos o ia guindando ao milionarismo. A fábula ‘A Galinha dos ovos de ouro’. e entre duas formas canônicas de enunciados elementares. ia dando aqui e ali seus shows diante dos jornais. num esforço de reportagem. Com base nessa concepção de sintaxe relacional. televisão. Porém o tempo passou e muito antes que o homem conseguisse ficar rico. pedindo-lhe impressões. Esperava todas as manhãs pelo ovo de ouro — clara. e os actantes. A relação que caracteriza o enunciado elementar é a de transitividade — relação que comporta um investimento semântico mínimo —. que antigamente poderia passar despercebido. definidos por tal relação. tudo de ouro! — que o tirava da miséria aos poucos. E a Galinha. a Galinha deixou de botar ovos de ouro. seus funtivos. [página 28] Enunciado elementar O enunciado elementar da sintaxe narrativa será definido pela relação-função entre pelo menos dois actantes. tudo entrevistava o homem.estabelecimentos e de rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário. a Galinha pôs um ovo de ouro. Ouro! Outro dia. para a semiótica. actante é o termo-resultante da relaçãofunção ou. querendo saber detalhes de como acontecera o espantoso acontecimento. O fato. conseguiu pôr um ovo diante da câmara da TV Tupi. gema.

Retomando a definição de actantes.O) Ex. em dia inesperado. F junção (S. Os enunciados de fazer operam a passagem de uni estado a outro.. certo dia. os sujeitos serão virtuais. portanto.. A junção é a relação que determina o “estado” do sujeito em relação a um objeto qualquer. F transformação (S. A ... se de conjunção. E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a Galinha propriamente dita. de um estado conjuntivo a um estado disjuntivo e vice-versa.S ⋂ O Ex.. Articula-se em conjunção e disjunção: enunciado de estado conjuntivo. enunciado de estado disjuntivo. serão chamados de sujeitos (e objetos) atualizados. definidas pelas funções de junção e de transformação.serão ditos realizados.fato. 1975.: “Era uma vez um homem que tinha uma Galinha” enunciado de fazer.: “Subitamente..S ⋃ O Ex.: O homem não tinha mais a Galinha dos ovos de ouro. Para sua decepção não havia mais nenhum. Anteriormente à junção. p. até que..O) Ex. a Galinha pôs um ovo de ouro”. (FERNANDES. pode-se dizer que o sujeito não existe nem semântica nem semioticamente se não for determinado pela relação transitiva com um objeto.: O homem tinha a Galinha dos ovos de ouro. O objeto da transformação e.. [página 29] Então o homem — espírito bem moderno — resolveu explorar o nome que lhe ficara do acontecimento e abriu um enorme restaurante.. Na fábula. MORAL: CRIA GALINHAS E DEITA-TE NO NINHO. abriu a galinha para apanhar os ovos que ela tivesse lá dentro. são: enunciado de estado. não se contendo mais. um enunciado de estado... ao matar a galinha (enunciado de fazer) o sujeito do fazer “homem” muda seu estado de conjunção com o objeto “galinha e ovos de ouro” em estado de disjunção. com o sugestivo nome de Aos Ovos de Ouro. 99) As duas formas canônicas de enunciados elementares. ou seja.. Se a relação que os liga for de disjunção.

enquanto objeto sintático. como as da gramática gerativa ou da sintaxe distribucional. a partir do qual se pode reconstituir o estado inicial.natureza da função constitutiva do enunciado permite. p. ainda. o sujeito se relaciona por disjunção com o objeto). que. não mantém relação juntiva com o objeto). o enunciado de estado é o enunciado resultante da transformação. A narratividade deve ser entendida como a sucessão de estados e de transformações. O programa narrativo constitui-se de um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado. seguem-se estados de disjunção e de conjunção do sujeito com o objeto-valor (ovos de ouro. de sujeitos e objetos [página 30] do lazer. a galinha deixa de pôr ovos de ouro e é morta. fama e prestígio). que define a relação entre actantes. Sintagma elementar: programa narrativo O sintagma elementar da sintaxe narrativa é denominado programa narrativo. dinheiro). torna-se um objeto-valor. O objeto. . responsável. Conclui-se. nessa instância. sendo as mudanças ocasionadas por transformações (enunciados de fazer): a galinha começa a botar ovos de ouro. investido pelos projetos e pelas determinações do sujeito (em busca de dinheiro. s. mas uma sintaxe semelhante à de Tesnière ou Fillmore.. distinguir sujeitos e objetos do estado. cujo reconhecimento e distinção constituem o primeiro trabalho da análise narrativa. [página 31] No programa narrativo abaixo representado. Os dois tipos de enunciados marcam no discurso a diferença entre estado e transformação. o programa narrativo. O sujeito apresenta-se ora como sujeito virtual (antes de a galinha botar ovos de ouro.d. 313). e não o enunciado. No texto-exemplo. deve ser considerado a unidade operatória elementar da sintaxe narrativa. que a sintaxe narrativa não é uma sintaxe de sujeitopredicado. ora como sujeito atualizado (quando a galinha deixa de botar ovos de ouro e é morta. Em ‘A Galinha dos ovos de ouro’. Tais investimentos fazem do objeto um objetovalor. o homem abre um restaurante que lhe dá muito dinheiro. pela produção do sentido. caracteriza-se como uma posição actancial que pode receber investimentos de projetos do sujeito (objeto do fazer) e de suas determinações (objeto do estado) (GREIMAS & COURTÉS. o sujeito (homem) define-se pela relação transitiva com o objeto (ovos de ouro. Ao integrar os estados e as transformações. o sujeito passa a estar em conjunção com o objeto). dinheiro). ora como sujeito realizado (quando “sua” galinha põe ovos de ouro. a partir da apresentação das duas formas de enunciados elementares. em que o núcleo é o “verbo”.

.(S. lembrar que. (homem) ⋂ Ov (restaurante-dinheiro. o sujeito do fazer altera a junção do sujeito do estado com os valores e.). e o regido. em que o sujeito (homem) obtém os objetos que valem dinheiro e prestigio. um enunciado descritivo. porém. Há vários tipos de programas narrativos. que determina programas de aquisição ou de privação de objetosvalor (Os PN1 e PN4. o enunciado de fazer é um enunciado modal. No programa narrativo. prestígio))] PN3 = F (abrir a galinha) [S1 (homem) (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro-dinheiro. que “modaliza” o enunciado de estado descritivo. prestígio))] PN4 = F (abrir um restaurante) [S1 (homem) . são programas de aquisição de objeto-valor. os enunciados de estado também podem ser enunciados modais. E preciso. em que o sujeito perde tais valores. e os PN2 e PN3. o afeta. prestígio))] Todo enunciado que rege outro enunciado é um enunciado modal.F = função → = transformação S1 = sujeito do fazer S2 = sujeito do estado ⋂ = conjunção ⋃ = disjunção Ov = objeto-valor PN = F[S1 → (S2 ⋂ OV)] F[S1 → (S2 ⋃ OV)] Pelo fato de transformar estados. prestígio))] PN2 = F (deixar de botar) [S1 (galinha) — (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro-dinheiro. por exemplo: PN1 = F (botar ovos de ouro) [S1 (galinha) — (S2 (homem) ⋂ Ov (ovos de ouro-dinheiro. portanto. como se verá adiante. programas de privação. São programas narrativos. segundo: a) a natureza da junção — conjunção ou disjunção —.

complexos. desde que cumpridas também as condições do item d (Os programas acima são programas de performance11. jornais e televisão. ocorrem programas de aquisição transitiva ou por doação (opera-se a conjunção e o sujeito do fazer é diferente do sujeito de estado). Nos PN3 e PN4. do estado e do fazer. o sujeito do fazer S1 é realizado pelo ator “galinha”. no primeiro caso. O programa de uso pode ser realizado pelo mesmo sujeito que cumpre o programa principal ou por um sujeito do fazer delegado.b) c) o valor investido no objeto — modal ou descritivo —. (Nos PN1 e PN2 acima. em geral. que define. a complexidade do programa narrativo — simples ou complexo — e a relação entre os programas que o constituem (Os programas são. que exige a realização prévia de outros programas. prestígio. por exemplo.). denominados programas narrativos de uso e cujo número depende da maior ou menor complexidade da tarefa a ser executada. programas de performance. Na fábula. podem ser assumidos por um único ator ou por dois atores diferentes. hierarquizados: um programa narrativo de base. de privação reflexiva ou por renuncia (opera-se a disjunção e o sujeito do fazer é igual ao sujeito de . actantes narrativos. apresentando-se os demais programas como programas de uso que levam à realização do programa de base.). de privação transitiva ou por espoliação (opera-se a disjunção e o sujeito do fazer é diferente do sujeito de estado). E o caso. e os atores discursivos12: os dois sujeitos. das entrevistas com rádios. o programa de base é o de aquisição dos valores de dinheiro e prestígio. Os valores (dinheiro. os dois sujeitos. a relação entre os sujeitos.) d) Combinados os critérios a e d. enquanto o sujeito do estado S2 é manifestado pelo ator “homem”. e no segundo. pressupostos. de aquisição reflexiva ou por apropriação (opera-se a conjunção e o sujeito do fazer é igual ao sujeito de estado). do fazer (S1) e do estado (S2). constituídos por mais de um programa. fama) investidos nos objetos são descritivos. são assumidos por um mesmo ator “homem”. Em ‘O [página 32] vento no canavial’ tem-se um bom exemplo de programa de competência: o sujeito do fazer (vento) dota o sujeito de estado (canavial) do valor-modal do poder-fazer (PN = F (“ventar”) [S1 (vento) → (S2 (canavial) ⋂ Ov (poder-fazer))]. programas de transformação de competência e de alteração de estados passionais.

o PN4. ao botar e doar os ovos de ouro. ao parar de pôr ovos. espolia o homem e apropria. confunde-se com a própria definição de programa. de renuncia. se relacionam. Assim. Estabelecese a comunicação do objeto “ovos de ouro” entre os sujeitos “galinha” e “homem”. Opõe-se à competência. Todo programa narrativo projeta um programa correlato. definem-se dois tipos fundamentais de programas narrativos. de espoliação. o PN3. o homem abriu-a “para apanhar os ovos que ela tivesse lá dentro”. o PN2. está a eles renunciando. a competência e a performance. definida como programa de aquisição de valores modais em que o sujeito do fazer e o sujeito do estado são realizados por atores diferentes (aquisição por doação).se dos ovos. A performance. ao programa de renúncia. O PN1 é um programa de doação. O desdobramento e a correlação de programas levam a ler a transformação de estados como transferência de objetos-valor e como comunicação de objetos entre dois sujeitos que. ou seja. de apropriação. PN1 = F (botar ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (homem) ⋂ Ov (ovos de ouro))] DOAÇÃO PN1 correlato = F (botar ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (galinha) ⋃ Ov (ovos de ouro))] RENÚNCIA PN2 = F (deixar de pôr ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro))] ESPOLIAÇÃO PN2 correlato = F (deixar de pôr ovos de ouro) [S1 (galinha) → (S2 (galinha) ⋂ Ov (ovos de ouro))] APROPRIAÇÃO Acreditando na apropriação pela galinha.estado). [página 33] A galinha. da mesma forma que o programa de apropriação é concomitante ao programa de espoliação. Em sentido restrito. o Programa de doação corresponde. em outra perspectiva. em sentido lato. em F[S1a → (S2a ⋂ Ovd)] . constitui um tipo de programa narrativo. por meio deles. Com base nos critérios levantados. o programa de aquisição (ou de produção) de valores descritivos em que o sujeito do fazer e o sujeito do estado estão sincretizados em um único ator (aquisição por apropriação correlata à privação por espoliação).

em luta pelo objetovalor. a partir do valor gustativo desejado. as performances do sujeito “homem” são performances de aquisição de objetos-valor já existentes e em circulação entre sujeitos: os ovos de ouro. da doação de valores modais [página 34] ao sujeito do estado. com a história de Joãozinho e o pé de feijão. dissemos acima. A competência. em que a Galinha-dos-ovos-de-ouro circula entre o Gigante e Joãozinho. O problema das modalidades será examinado em item à parte. o segundo. Se. já existem e circulam entre sujeitos. na competência.: F(abrir restaurante) [S1a (homem) → (S2a (homem) ⋂ Ovd (dinheiro))] tem-se a representação da performance: S1 = S2 (o índice a marca o sincretismo actorial dos sujeitos) e o valor é descritivo.: F(botar ovos) [S1a (galinha) → (S2b (homem) ⋂ Ovm (poder-fazer))] transcreve-se a competência: S1 ≠ S2 (os índices a e b representam a diferença actorial) e o valor é modal. que há performances de aquisição de valores. do fazer-ser. o dinheiro. . representado pela figura da Galinha-dos-ovos-de-ouro. opõem-se um sujeito que faz — a Galinha Ruiva — e outro que não faz — os amiguinhos da Galinha Ruiva. entre homens. quando os objetos. nos moldes propostos. O primeiro tipo de performance pode ser exemplificado. planta o trigo. há conflito entre dois sujeitos de fazer. com a história da Galinha Ruiva que. constitui o segundo passo da análise narrativa. na performance. Quanto à performance. entre a galinha e o homem. para serem lugares de investimento dos valores visados. Caracteriza-se como uma organização hierárquica de modalidades ou de valores modais: o querer-fazer e/ou o dever-fazer regem o poder-fazer e/ou o saber-fazer. mói. é sempre um programa de uso em relação ao programa da performance. no segundo. amassa. no primeiro caso. da representação sintático-semântica do ato. faz e assa o pão. de passagem. tornando-o apto para agir ou para “viver paixões”. entendida como as condições necessárias à realização da performance. No texto de Millôr que está sendo utilizado como exemplo. e performances de construção de objetos ainda inexistentes. Descrever e explicar a organização dos programas narrativos. constrói enfim o objeto em que o valor irá se inscrever. nos contos infantis. Em F[S1a → (S2b ⋂ Ovm)] Ex. Trata-se. em que os valores desejados estão investidos. e. ou seja.Ex.

destinatário) Papel actancial (Ex.. Unidades sintáticas Esquema narrativo Percurso narrativo Programa narrativo (e enunciado elementar) Actantes Actante funcional (sujeito. sujeitos do querer. Há três percursos distintos: o do sujeito. sujeito do fazer-objeto) Unidade do esquema narrativo. torna-se sujeito competente para um dado fazer ou performance e executao. facilitando-lhes a referência. destinador. o actante funcional esta sendo chamado aqui para denominar os percursos que assume. assim como o encadeamento dos dois programas. objeto. sujeitos competentes. objeto — . ou seja. simplesmente. isto é. o conjunto dos papéis actanciais de um percurso define o chamado actante funcional ou actante. cujos papéis engloba. O actante funcional não se caracteriza de uma vez por todas. simples ou complexos. Os papéis actanciais variam segundo o progresso narrativo. cuja explicação pode ser . p. então. são redefinidos. 300). Os actantes sintáticos — sujeito do estado. Os diversos tipos de competência e de performance. com os quais estão em junção — distinguem-se. s.Percurso narrativo “Um percurso narrativo é uma seqüência hipotáxica de programas narrativos (abreviados em PN).d. sujeito do querer) Actante sintático (sujeito do estado. ocupam no percur[página 35] so — existem. um encadeamento lógico em que cada PN é pressuposto por um outro PN” (GREIMAS & COURTÉS. ou o programa de que fazem parte. como papéis actanciais. Na última etapa da hierarquia das unidades sintáticas. sujeitos do saber. e do programa da performance. que participam da formulação do enunciado elementar e do programa narrativo.: sujeito competente. pressuposto. o do destinadormanipulador e o do destinado julgador. caracterizam diferentes percursos do sujeito. mas tem apenas a determinação mínima dada pelo percurso. pressuponente. sujeitos realizadores — e da natureza dos objetos-valor. o sujeito adquire competência modal e semântica. passando a sujeito realizador. sujeito do fazer. O percurso do sujeito é constituído pelo encadeamento lógico do programa da competência. no interior dos percursos narrativos. assim. Os papéis actanciais dependem da posição que os actantes sintáticos.

Em ‘A Galinha dos ovos de ouro’ o Sujeito (funcional) “homem” torna-se sujeito competente (quer. transformando o estado de sujeito sem dinheiro em estado de sujeito com dinheiro. constitui a manipulação propriamente dita e pressupõe o contrato fiduciário acima referido. ou seja. e por meio da “modernidade”.considerada o terceiro passo da análise narrativa. para levá-lo a fazer. com os ovos de ouro. cuja organização determina a competência do sujeito. da ação do sujeito: o sujeito. ao exercer o fazer interpretativo que lhe cabe. Na manipulação. Pretende fazer com que o destinatário. A dotação de competência semântica ou manipulação cognitiva tem todas as características do programa de competência e deve ser entendida como um contrato fiduciário. em geral complexo. o destinador-manipulador ocorre sob a forma da sociedade. e simula a ação do homem sobre as coisas do mundo. e executa tal fazer. finalmente. formado por um programa. percurso do destinador-manipulador ou percurso da manipulação e percurso do destinador-julgador ou percurso da sanção. qualificado para a performance de adquirir dinheiro e prestígio. adota-se a perspectiva do sujeito do fazer. ou [página 36] melhor é quem determina os valores que serão visados pelo sujeito ou o valor dos valores — competência semântica do sujeito — e quem dota o sujeito dos valores modais necessários ao fazer — competência modal do sujeito. a confiança ou a crença nas coisas e no mundo. a do sujeito do estado que “recebe” os valores modais. ao modificar suas . altera estados. O percurso do destinador-manipulador é. creia ser verdadeiro o objeto apresentado. sujeito realizador. Manipulação e competência são correlativos. A manipulação do destinador distingue-se. através da galinha. busca a adesão do destinatário. sabe e pode lazer). Na fábulaexemplo. são pontos de vista diferentes sobre o programa de aquisição por doação. o discurso do outro e o próprio destinador. faz ser. de doação de competência semântica e modal ao destinatário. que será sujeito do fazer. Tal manipulação consiste na doação de valores modais. que lhe lega o saber-fazer (explorar o nome e abrir um restaurante). portanto. O destinador-manipulador é a fonte dos valores. sujeito do saber. A confiança entre os homens fundamenta a confiança nas palavras deles sobre as coisas e o mundo e. o que permite falar em contrato fiduciário. que. lhe dá o poder-fazer. que leva o sujeito a querer-fazer (adquirir dinheiro e prestígio). Há estreita vinculação entre a confiança e a crença. Assume. sujeito do poder. em que o destinador. Os outros dois percursos. diferentes papéis actanciais: sujeito do querer. enquadram o percurso do sujeito. A atribuição de competência modal ao sujeito. sujeito competente. graças a um fazer persuasivo. pelos critérios vistos. na competência. o manipulador transforma o sujeito. pela performance. pela definição acima.

presentes. tentando e intimidando. Na provocação. na provocação. colocando-o em posição de escolha forçada. e.[página 37] colha forçada. o que sabe de sua competência. em que é estabelecido um mínimo de confiança. o destinador diz ao destinatário. de forma clara ou implícita. na sedução. que passa a querer ou a dever- . a persuasão. e o fazer interpretativo. precisa recusar a representação lisonjeira que dele foi feita ou deixar-se manipular. objetos de valor cultural. secundariamente. Há quatro grandes tipos de figuras da manipulação. O destinador-manipulador transforma a competência modal do destinatário ao colocá-lo. a tentação e a intimidação. na sedução.determinações semânticas e modais. Em resumo. O julgamento da competência é. em posição de falta de liberdade ou de não poder não aceitar o contrato proposto. provocando e seduzindo. O fazer persuasivo define-se como um fazer-crer e. positivo. a sedução. por conta do destinatário. o manipulador mostra poder e propõe ao manipulado. articulada no fazer persuasivo que exerce e no fazer interpretativo. para tanto. ou seja. O destinador emprega. deve escolher entre aceitar a imagem desfavorável que dele foi apresentada ou fazer o que o manipulador pretende. A manipulação tem a estrutura contratual da comunicação. No primeiro caso. o destinador-manipulador persuade pelo saber. Na tentação e na intimidação. ou melhor. negativo. O destinatário é levado a efetuar uma es. a provocação. Na provocação e na sedução. portanto. como um fazer-saber. O segundo critério aplica-se à transformação da competência modal do sujeito manipulado. vantagens) e negativo (ameaças). o percurso do destinador-manipulador pode ser desmembrado em três etapas: o contrato fiduciário. o espaço cognitivo da persuasão e da interpretação. como um ato epistêmico que leva a crer. faz-fazer. e representa a ação do homem sobre o homem. a aceitação ou recusa do contrato. como o crer. Percurso do destinador-manipulador Contrato fiduciário Manipulação propriamente dita: Aceitação ou reproposição do contrato. persuasão cusa do contrato e interpretação Uma tipologia da manipulação foi esboçada na semiótica13. durante a comunicação. respectivamente positivo (dinheiro. segundo dois critérios de classificação: o da competência do manipulador para o fazer persuasivo e o da alteração modal operada na competência do sujeito manipulado. ou pelo poder. para que ele faça o esperado.

que a manipulação só será bem sucedida se o sistema de valores que esta por deitas dela for compartilhado pelo manipulado. responsável pela sanção cognitiva. aparece tanto como sanção cognitiva. O terceiro percurso narrativo proposto é o do destinador-julgador ou percurso da sanção15. a provocação e a intimidação. que leva ao reconhecimento do “herói” e ao desmascaramento do “vilão”. agora. que se explicam pela organização e encadeamento dos programas no percurso do destinador-manipulador. além de significar a recusa em participar do jogo. no saloon. o percurso da sanção. constitui. No texto de Millôr. ele não se deixará seduzir pela “fragilidade” da jovem que está com o pneu do carro furado. consiste no encadeamento lógico de programas narrativos. O bom funcionamento da manipulação pressupõe uma certa cumplicidade entre manipulador e manipulado. A sanção faz eco à manipulação e ambas delimitam o percurso do sujeito. Assim. de dois tipos: o primeiro. com a sanção. tanto pelo desenvolvimento dos programas narrativos do percurso do sujeito. Instala-se. se o destinatário provocado não se importar de ser chamado de covarde.fazer. que culmina na retribuição. [página 38] Acrescente-se. não será ele levado pela tentação do suborno. [página 39] A operação cognitiva de sanção é uma interpretação que se cumpre em duas etapas. o segundo. não muito desenvolvido. ao duelo. da mesma forma que a manipulação. encarregado da sanção pragmática. se o homem-motorista não fizer questão de confirmar sua imagem de força e competência frente à mulher. percurso que lhe cabe encerrar. modais e descritivos. quanto pelas correlações que se estabelecem entre manipulação e sanção. Volta-se à questão do contrato fiduciário. sob a forma de recompensa ou punição. além do econômico. encaixando-o entre dois momentos do sistema do destinador. em geral complexos. Os diferentes tipos de manipulação manifestam-se. a proposição de outro sistema de valores14. Escapar da manipulação. se o guarda rodoviário não se interessar por dinheiro ou se prevalecerem nele outros valores. o dever-fazer. a de reconhecimento e a de integração do sujeito e de seu . ele não será levado. como programas de doação de valores. A sanção pragmática pressupõe a cognitiva e caracterizam-se. quanto como sanção pragmática: “E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a Galinha propriamente dita”. também. O querer-fazer caracteriza a sedução e a tentação. o da relação de interpretação entre o sujeito e o destinador-julgador. em geral. um outro ponto de vista na narrativa. no reconhecimento do “espírito moderno” do sujeito e na moral “Cria galinhas e deita-te no ninho”. ambas. O percurso do destinador-julgador. que modificam o ser do sujeito. combinados e confundidos em estruturas de manipulação complexas. A sanção a última fase do algoritmo narrativo e apresenta-se como um fim necessário.

Como eles não assumem o compromisso. Pode-se exemplificar. O sujeito. que os pune. são reconhecidos preguiçosos pela galinha. para que a ajudem a fazer o pão. por sua conformidade ou não com o sistema de valores que representa e. casa-se com ele. integra o percurso narrativo por ele realizado no sistema de valores de que. Na sanção. além de reconhecer o sujeito. com a literatura infantil: a Gata Borralheira. ao pato e ao porco. comendo o pão sozinha.percurso no sistema de valores do destinador. determinado pelas modalidades epistêmicas da certeza ou da dúvida: afirmado ou recusado. o sujeito é. em suma. o percurso do sujeito as transformações e os estados resultantes — torna-se suporte de valores descritivos e modais. o destinador julga a conduta do sujeito e os estados obtidos pelas operações. sob a forma de recompensa.[página 40] trato implícito de coragem e esperteza. e sanção. em seguida. como destinador. reconhecido e considerado cumpridor do contrato que assumiu. definindo-os como verdadeiros (que parecem e são). uma vez mais. Recategorizado como objeto. em primeiro lugar. após julgamento negativo. Uma última possibilidade é a de o sujeito . se faz em nome de uma ideologia. cumprido o com. 1982). de quem o príncipe se enamora. sua apreensão como objeto do saber a ser interpretado. Para isso é necessária. O destinador interpreta os estados resultantes do fazer do sujeito. para adquirir sentido. em geral. é guardião. o sentido do percurso narrativo realizado. da qual depende. o destinador. precisa ser retomado e lido pelo destinadorjulgador. Conclui-se que toda interpretação. O sujeito. admitido ou posto em dúvida. Cabe-lhe verificar se o sujeito cumpriu o compromisso assumido quando da sua instauração como sujeito da performance. recebe a retribuição sob a forma da galinha-dos-ovosde-ouro. passível de interpretação. também. Veridictoriamente modalizado. as modalidades veridictórias e epistêmicas sobredeterminam o ser do sujeito. última etapa da sanção. A retribuição faz parte da estrutura contratual inicial e restabelece o equilíbrio narrativo. A Galinha Ruiva propõe acordo ao rato. No reconhecimento. O inverso também ocorre e a não-obediência ao contrato conduz à punição. No conto popular. ao mesmo tempo que o desmascaramento do vilão ocorre pela passagem do mentiroso ao falso. a “objetivação” do percurso narrativo realizado pelo sujeito (PANIER. Joãozinho. o reconhecimento do herói dá-se pela transformação do secreto em verdadeiro. mentirosos (que parecem e não são) ou secretos (que não parecem e são). caracterizado essencialmente pelo fazer e pelos valores com os quais se relaciona. em relação aos valores implicitados ou explicitados no contrato inicial com o destinadormanipulador. Ou seja. é julgado positivamente e recebe uma retribuição. falsos (que não parecem e não são). após ser reconhecida como a verdadeira princesa.

e a pragmática. ao definir-se como modelo hipotético de uma organização geral da narratividade que procura mostrar as formas pelas quais o sujeito concebe sua vida. é o que ocorre na punição do anti-sujeito. Só pode ser entendido no topo da estrutura sintática hierárquica que se está examinando.. Muitas mudanças . Nesse caso. ao estabelecer a regularidade sintagmática da organização narrativa.d. Em geral. p. Os percursos da manipulação e da sanção situam-se na dimensão cognitiva e enquadram o da ação. O esquema narrativo canônico compreende os três percursos descritos. retoma as contribuições de Propp. a da transitividade. deve ser tomado como referência. desmembrada em destinador e destinatário. passando pelo percurso. enquanto modelo canônico. localizado tanto na dimensão pragmática (encadeamento de atos somático-gestuais). das provas proppianas — qualificante. simplesmente. o sujeito que cumpriu o contrato será julgado negativamente e vice-versa. realização e destino (GREIMAS & COURTÉS. as expansões e as variações narrativas. quanto na cognitiva (sucessão de atos de linguagem). a cognitiva. Visualiza-se o esquema narrativo na representação abaixo: Percurso do destinador-manipulador Dor — Dário Percurso do sujeito S—O Percurso do destinador-julgador Dor — Dário [página 41] Os actantes funcionais ou actantes. O esquema narrativo. s. Podem-se aproximar os três percursos. portanto. articulada em sujeito e objeto. no nível do esquema. de interpretação reconhecimento do sujeito e integração de seu percurso no sistema de valores de ambos os destinadores —. caracterizam-se. a partir do qual são calculados os desvios. duas operações. O esquema narrativo. Esquema narrativo canônico A hierarquia sintática da narrativa vai do programa ao esquema. A sanção realiza. enquanto projeto. 298). o percurso da manipulação ou do destinador-manipulador. de retribuição.ser sancionado por um destinador-julgador que encarne valores contrários ou contraditórios aos do destinador-manipulador. principal e glorificante. constitutivos do esquema. pelos papéis actanciais que englobam e definem-se por duas categorias. o da ação ou do sujeito e o da sanção ou do destinador-julgador. e estabelecidas as comparações entre narrativas diferentes. e a da comunicação ou factitividade.

o das estruturas polêmicas ou conflituais e o das estruturas contratuais. p. Que se pense na semiótica da manipulação e da sanção e na determinação da competência e da existência modais do sujeito. Retomando as duas definições propostas de narratividade. pelo sujeito. graças. sua parte no contrato. da mesma forma que a doação ocorre simultaneamente à renúncia. enquanto luta (de classes) e competição.d. depois da transgressão de contratos sociais implícitos ou explícitos. “O reconhecimento. adotou a perspectiva do sujeito e de seu fazer. escolheu o ponto de vista das relações entre destinador e destinatáriosujeito. desse tipo de estruturas.ocorreram a partir do trabalho precursor de Propp. sobretudo. pode-se agora perceber que a primeira. pelo destinador-julgador. por exemplo. Os objetos-valor circulam em um espaço fechado e a aquisição de . e a sociedade fundada na troca e na coesão social. assim. permite-nos articular e formular. com maior precisão. a atribuição de recompensa ao sujeito fiel a suas obrigações. em todas as etapas hierarquizadas. há. a da sucessão de estabelecimentos e de rupturas de obrigações contratuais. ao mesmo tempo.) [página 42] O reconhecimento da estrutura polêmica na narratividade — no conto da Branca de Neve. cio compromisso assumido. é preciso não esquecer que a organização contratual da intersubjetividade articula-se em dois pólos opostos. na semiótica. o cumprimento. ou seja. a semiótica conserva ainda. a problemática mais geral — peculiar ao conjunto das ciências sociais — no interior da qual se opõem duas concepções quase inconciliáveis da sociabilidade: a vida social. a organização sintática da narrativa. que executa. a história da Branca de Neve e a da madrasta. na sua definição de esquema narrativo. A leitura da estrutura contratual da narrativa mostra o estabelecimento de um acordo entre o destinador-manipulador e o destinatário-sujeito. e a segunda. é concomitante ao programa narrativo de privação transitiva por desapropriação. na fábula da Galinha dos ovos de ouro. No entanto. 341. a de sucessão de estados e de transformações. que caracteriza a performance. o ponto de vista de Propp ao atribuir às regularidades narrativas o estatuto ideológico de um projeto de vida.” (GREIMAS & COURTÉS. O programa narrativo de aquisição reflexiva por apropriação. Se a estrutura contratual parece dominar o conjunto do esquema narrativo. ao reconhecimento dos dispositivos modais da narrativa que permitem reinterpretar a sintaxe narrativa em termos de sintaxe modal. a do homem e a da galinha — obriga-nos a desdobrar. em sentido restrito. s. em geral após a ruptura da ordem estabelecida..

mas constitui o patamar narrativo mais próximo — a meio caminho. percurso do destinador-julgador e percurso do antidestinadorjulgador. a composição dos programas complexos. já repetidas vezes proposta. Aquisição e privação opõem-se paradigmaticamente e pressupõem-se reciprocamente. as passagens entre as dimensões pragmá. cabem algumas observações sobre a intencionalidade. As muitas relações e combinações devidas à estrutura polêmica da narrativa tornam a organização sintática bastante complexa e possibilitam um sem-número de variações. Intencionalidade narrativa Antes de se abordar a semântica narrativa. . A estratégia narrativa não se confunde com as estratégias discursivas e textuais. a forma de sociabilidade. O sentido narrativo depende das opções feitas. Cabe à estratégia narrativa. diretamente relacionadas ao sujeito da enunciação. como traço definidor da narratividade. assim como as demais instâncias hierárquicas da sintaxe narrativa. com os sujeitos delegados. última instância da organização narrativa. que remetem. no âmbito da semiótica. Os esquemas resultantes da estratégia narrativa constituem a instancia sêmionarrativa a partir da qual os discursos são gerados. e não só no do destinadormanipulador —. o desdobramento dos percursos: percurso do sujeito e percurso do antisujeito. oferece muitas oportunidades de variações e combinações que dão caráter único e específico às narrativas-ocorrências. O antidestinador manipula e sanciona o anti-sujeito e opõe-se ao destinador do sujeito. no interior do percurso do sujeito. as tarefas do sujeito e do anti-sujeito na busca de valores. por apropriação ou por construção de objetos. pois ambos representam sistemas de valores contrários ou contraditórios. por exemplo. quem sabe — do discurso. Estratégia narrativa O esquema narrativo. em ultima instância.[página 43] tica e cognitiva. determinando: a articulação dos percursos narrativos. a forma do desdobramento polêmico. o tipo de aquisição de valores. como conseqüência. ao sujeito da enunciação. a dupla implicação que liga os programas de aquisição e privação tem. elaborar os esquemas narrativos. por troca ou por luta. percurso do destinador-manipulador e percurso do antidestinadormanipulador. o emprego recursivo de programas e de percursos — um percurso de manipulação pode ser encontrado. Os percursos narrativos do sujeito e do anti-sujeito caracterizamse pela oposição e pelo fato de os dois sujeitos estarem interessados no mesmo objeto-valor. No nível do percurso narrativo.um objeto por um sujeito corresponde à sua privação para outro sujeito.

em português. entre sujeito e objeto. significado (a relação entre expressão e conteúdo). rumo (a intencionalidade. pois são buscas inconscientes. para Greimas. no nível das estruturas narrativas. é possível conceber as transformações narrativas como uma tensão entre dois modos de existência. Entende-se intencionalidade como a tensividade aspectualizada. Com efeito. /relaxamento/. distinguem-se duas interpretações do termo sens em francês. As mesmas operações tensivas. de 1968 (GREIMAS. mas as engloba. A segunda acepção de sentido permite conceber o desenrolar narrativo como um sintagma programado entre a posição incoativa e a posição terminativa do sujeito. que correspondem. nesse caso. convertidas. A variação tensiva e sua conservação organizam sintaticamente as [página 44] categorias semânticas discretas. concebe o nível fundamental do percurso gerativo do sentido a partir da noção de tensividade. muito de perto. transitiva. não se identifica. quanto como orientação. p. Não seria possível. A definição acima e o papel central da intencionalidade aparecem em texto fundamental da semiótica. direção. nem com a finalidade. que negam a liberdade e o caráter voluntário do discurso.Intencionalidade diferencia-se de intenção. às acepções de sentido. Zilberberg (1981). nem com a motivação. Nesse artigo. com um começo e um fim. A intencionalidade. pela intencionalidade. a virtualidade e a realização. o Novo Dicionário Aurélio define sentido tanto como significação. Dessa forma. ler a intencionalidade narrativa como a procura do prazer e da estabilidade do Nirvana freudiano. Esse sintagma define-se como um projeto cultural. Uma narrativa determinada pela intenção restringiria sua produção e desenvolvimento a atos voluntários e conscientes. 1970. conforme exposto. distinta da intenção. “uma relação que se estabelece entre o trajeto a percorrer e seu ponto de chegada” — (GREIMAS. ou seja. 1970). Sintaxe fundamental conservação tensiva variação tensiva Sintaxe narrativa aspectualização aspectualização intencionalidade recursiva intencionalidade diretiva . respondem. articulada em /tensão/ vs. como uma relação orientada. 63). nem considerar as determinações sócio-históricas.

mas sim de concebê-la num nível de abstração maior. /relaxamento/. /disforia/ ou em /tensão/ vs. quanto ao discurso que será produzido. por exemplo. representam-se como no esquema abaixo: . graças aos dois elementos definidores do valor axiológico. Os termos do nível fundamental. simplesmente). são. como visto. muito embora um tanto camuflada pela ênfase dada ao caráter antropomórfico das organizações narrativas. A noção de intencionalidade esteve sempre. mediante inscrição em um ou mais objetos em junção com sujeitos. dois momentos essenciais na passagem da semântica fundamental à semântica narrativa: a seleção dos valores. articulados nos quadrados semióticos. por disjunção ou conjunção. desmembradas. Não se trata de negar agora que a narratividade é função do sujeito. aspectualizadas e tornadas intencionalidade. em que o valor é investido no objeto e relacionado. no percurso gerativo. ainda no nível das estruturas fundamentais.Barthes define narrativas conservadoras pela intencionalidade recorrente e narrativas reformadoras ou revolucionárias pela intencionalidade diretiva. Conforme foi examinado em itens anteriores. As conversões do nível profundo ao nível narrativo. podem tornar-se valores axiológicos virtuais desde que sobre elas se projete a categoria articulada em /euforia/ vs. portanto. determinam tipos diversos de narrativa e delimitam melhor o entendimento semiótico de conservação e progresso narrativos. Só assim. A escolha de valores corresponde a uma primeira decisão do sujeito da enunciação. A atualização dos valores ocorre. Há. axiologizados como valores virtuais. e a relação com os sujeitos. selecionados e convertidos em valores atuais (ou valores. Semântica narrativa A semântica narrativa é. inscrito na estrutura sintática. na instância narrativa. com o su.[página 45] jeito. resultantes da articulação de categorias semânticas e. ligada à de narratividade. a instância de atualização dos valores. A conservação e a variação tensiva. na semiótica. pela projeção da categoria tímicofórica. as primeiras articulações do sentido em categorias semânticas. no enunciado de estado. o que permite uma generalização crescente e facilita a tarefa de análise narrativa da música ou da gestualidade. Passa-se da taxionomia à axiologia. o valor se torna 1eghel e faz do objeto um objeto-valor.

Se a relação do sujeito com o objeto lhe dá existência semiótica. na instância das estruturas narrativas. que se tornou competente para tal fazer graças ao destinador(vento). estados de alma). estaticidade) Os valores acima são valores descritivos. vs. morte.categoria Semântica semântica fundamental (taxionomia) traços semânticos inscritos nos objetos. atribui-lhe existência semântica. dinamicidade) S (canavial/povo) ⋃ Ov (continuidade. estaticidade) S (canavial/povo) ⋃ Ov (ruptura. encontram-se as categorias semânticas fundamentais continuidade morte estaticidade vs. Em ‘O vento no canavial’16. A transformação é operada pelo sujeito do fazer(canavial/povo). o investimento de traços semânticos no objeto em junção com o sujeito. dinamicidade) [página 46] Depois (la transformação: S (canavial/povo) ⋂ Ov (ruptura.). Os valores descritivos. morte. que “modificam” as relações entre sujeito e objeto valor ideológico (ideologia) ou valor assumido por um sujeito O primeiro aspecto da conversão é a inscrição de elementos semânticos no objeto. vida. conforme foi analisado. etc. o poder. vida. . por sua vez. ruptura vida dinamicidade Esses traços semânticos inscrevem-se. vs. nos objetos relacionados com os sujeitos: Antes da transformação: S (canavial/povo) ⋂ Ov (continuidade’. no interior de enunciados de estado + categoria tímico/fórica = valor axiológico virtual (axiologia) Semântica narrativa traços modais. classificam-se em valores objetivos (consumíveis e armazenáveis) e em valores subjetivos (prazeres. Depende da categoria semântica convertida a subdivisão dos valores narrativos em valores descritivos e valores modais (o saber.

Quando o acabei — a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor.. na instância narrativa. e de mocidade. morte e mocidade vs. às relações de tensão e de relaxamento cio ser vivo com seu contexto. velhice).. compor Um carnaval todo subjetivo: Um carnaval em que o só motivo Fosse o meu próprio ser interior.PN de competência: F (“ventar”) [S1 (vento) → (S2 (canavial/povo) ⋂ Ov (poder-fazer)] PN de performace: F (“balançar/lutar”) S (canavial/povo) → (S2 (canavial/povo) ⋂ Ov (ruptura. E de frescura. dinamicidade))] Em “Epílogo”.. as categorias modais ou modalidades determinam. as categorias semânticas vida vs.. O segundo quadro do esquema mostra a conversão da categoria tímico-fórica em categoria modal.. vida. p. A conversão da categoria tímico-fórica em categorias modais diferenciadas e interdefinidas . velhice ocorrem como traços semânticos descritivos nos objetos dos enunciados narrativos S1 (Schumann) ⋂ Ov (vida. como Schumann.. As categorias fundamentais vida vs. velhice: Epílogo Eu quis um dia. as categorias mo. Em outras palavras. mocidade) S2 (Eu) ⋂ Ov (morte. na estrutura fundamental. no nível das estruturas fundamentais. 42). morte e mocidade vs. as relações que ligam o sujeito ao objeto-valor... Enquanto a categoria tímico-fórica corresponde. — O meu Carnaval sem nenhuma alegria!. há.[página 47] dais modificam as relações do sujeito com os valores. E o meu tinha a morta morta-cor Da senilidade e da amargura. poema de Bandeira (1961.

modificadora da relação do sujeito com o objeto-valor. a categoria tímico-fórica converte-se em categoria modal. dinamicidade) no de Bandeira. operada pelo destinador (vento). No poema de João Cabral tem-se (DISFORIA-TENSÃO) (morte. poder] [S (canavial) ⋂ O vida. a quem atribui o poder-fazer. velhice) vs. dinamicidade/. não-poder] [S1 (Eu) ⋂ O (vida. ruptura. Dessa forma. ruptura] 2 — [S (canavial) ⋂ O poder] [F (balançar. a relação do sujeito (Eu) com o objeto-valor (vida. obtêm-se as categorias modais do querer-ser e do poder-ser (exemplo 1) e do poder-fazer (exemplo 2). o estado resultante de transformação da existência modal do sujeito. No poema ‘Epílogo’.resulta de novas articulações significantes responsáveis pelo enriquecimento semântico das etapas do percurso gerativo do sentido. entre outras: 1 — [S (canavial) ⋂ O querer. conforme as aspirações expressas no primeiro exemplo. mocidade) No nível narrativo. estaticidade) vs. mocidade) é desejável e impossível e a do sujeito (Schumann). mocidade)] . que passa de indesejável e impossível a desejável e possível. lutar) (S1 (canavial) → (S2 (canavial) ⋂ O vida. o sujeito de estado (canavial/povo) quer e pode estar em relação de conjunção com os valores /vida. Esse é. em ‘O vento no canavial’. O vento muda a relação do sujeito (canavial/povo) com o objetovalor. tal como indica o exemplo acima. no poema. ruptura. (EUFORIA-RELAXAMENTO) (vida. (DISFORIA-TENSÃO) (morte. investidos no objeto. as categorias semânticas dos dois textos em exame. A categoria tímico-fórica determina. (EUFORIA-RELAXAMENTO) (vida. O destinador (vento) é o responsável também pela modificação da competência do sujeito. representa-se a competência do sujeito (canavial/povo) para transformar (pelo movimento e pela luta) sua relação com a vida. na instância fundamental. ruptura)] No primeiro exemplo. com os mesmos valores. continuidade. No segundo exemplo. a ruptura e a dinamicidade. desejável e possível: [página 48] 3 — [S1 (Eu) ⋂ querer.

[S2 (Schumann) ⋂ querer. seus estudos estão por detrás dos resultados das investigações que aqui se apresentam. Os trabalhos precursores de Bally. de mudanças na existência modal do sujeito. Brunot. acima. quando se altera a competência modal do sujeito. qualificando-o para o fazer. desejados pelo sujeito e. são casos de modalização do ser. com o qual mantêm uma relação modal qualquer. por sua vez. no poema de João Cabral. e os enunciados são de dois tipos. O exemplo 2. desejados pelo sujeito e. entendendo-se a amargura como o efeito passional de /querer-ser/. ou seja. determinam-se duas classes de modalidades. pragmática converciacional. /saber-poder-ser/ e /querer-fazer-bem/ ao destinador que tornou possível a conjunção. Os exemplos 1 e 3. a não ser para estabelecer. investidos no objeto. Como a modalização diz respeito às relações constitutivas dos enunciados. 1979). semântica da enunciação de Ducrot — atestam a grande produção lingüística sobre modalidades e modalização. para ele. mocidade)] Daí a amargura e a falta de alegria de S1 e o amor de S2. Modalização e modalidades A lógica foi o primeiro campo de reflexão sobre as modalidades e. possíveis. são valores ideológicos.teoria dos atos de linguagem. que caracterizam estados passionais. /crer-ser/. Benveniste e Jakobson e os mais recentes de Pottier e de toda a chamada pragmática lin. No poema ‘Epílogo’. . mostraram-se as paixões de amargura. A semiótica utiliza também aquisições da lingüística para o tratamento das modalidades. tristeza e amor. algumas diferenças de perspectiva17. não se pretende retomar as relações. no texto de Bandeira. ilustra a modalização do fazer. sem dúvida. ruptura e dinamicidade/. para ele. Os valores ideológicos são valores atualizados e assumidos por um sujeito. influências e convergências entre lógica e semiótica ou lingüística. Os traços descritivos /vida. modificando o estatuto dos objetos que estão em relação com o sujeito e definindo estados passionais. não-crer-ser/ e /sabernão-poder-ser/ e definindo-se o amor pela organização das modalidades do /querer-ser/. A modalização do ser dá existência modal ao sujeito do estado. poder] [S2 (Schumann) ⋂ O (vida.[página 49] güística . impossíveis. as existenciais ou modalidades do ser e as intencionais ou modalidades do fazer (GREIMAS. valores axiológicos virtuais convertem-se em valores ideológicos. Mesmo assim. em certos momentos. alegria. da mesma forma que os traços /vida e mocidade/. A modalização do fazer é responsável pela competência modal do sujeito do fazer. No último quadro do esquema das conversões.

as modalidades resultam da conversão da categoria tímico-fórica fundamental. a semiótica obteve. a formulação sintática das modalidades e. sua determinação taxionômica18. p. texto da imagem: .Para Darrault (1976. e alteram. O enunciado modal pode ser tanto um enunciado de estado quanto um enunciado de fazer. modifica um enunciado dito descritivo. operação já examinada no item anterior. deve ser entendida como a determinação sintática de enunciados: um enunciado. em modalidades de fazer e de ser. 6). indiferentemente. que será denominado modal. por sua vez. na lógica. A natureza do enunciado modalizado é um primeiro critério de classificação das modalidades. na lingüística. na instância narrativa. assim. A modalização. as relações do sujeito com os valores. e modalizar enunciados de estado ou de fazer. distinguidas. Na perspectiva da semiótica.

O fazer modalizador é. O destinador. No primeiro caso. visando ao estabelecimento do percurso do sujeito que. o manipulador faz-ser. só assim. A relação entre o primeiro fazer (o do manipulador) e o segundo (a performance do sujeito) é sempre indireta. estabelece. cada um desses fazeres representa.Enunciado modal MODALIDADES DE FAZER Enunciado descritivo Enunciado modal enunciado de estado enunciado de fazer ser-fazer enunciado de fazer MODALIDADES DE SER fazer-fazer enunciado de estado enunciado de fazer enunciado de estado ser-ser fazer-ser As modalidades do fazer são de dois tipos: fazer-fizer e ser-fazer. isto e. transforma o estado modal do sujeito do estado. valores modais que o levam a fazer. em primeiro lugar. seu percurso. Pode-se dizer que. o percurso do sujeito. por doação. o percurso do destinador-manipulador. mediatizada pela transformação da competência modal do sujeito. não há sincretismo actorial entre os sujeitos do fazer.[página 50] ciados do fazer. o percurso do sujeito e modaliza a performance. de natureza cognitiva. na verdade. criando a predisposição para o fazer. como se viu na descrição dos percursos narrativos. no fazer-fazer. se decompõe em competência e performance. o modalizador precisa. tem-se a modalidade factitiva. que o tornam competente para realizar o fazer- . transferindo-lhe. isto é. Essa definição e insuficiente. atribui ao destinatário-sujeito os valores modais do querer e do poder-fazer. todo um percurso e não um enunciado apenas. com sujeitos diferentes. o destinador (vento) faz o destinatário-sujeito (canavial/povo) fazer. como é sabido. e o fazer modalizado. O modalizador realiza. organizações sintáticas bem mais complexas que a do enunciado. com sua ação. pois. definida como uma estrutura modal constituída por dois enun. Para fazer-fazer. no fundo. na verdade. Em ‘O vento no canavial’. alterar a competência do sujeito e. portanto. indiretamente.

O segundo tipo de modalidade do fazer. s. 1976b. o dever. isto é. que depende da comunicação de valores modais pelo destinador ao destinatário-sujeito. 23) Todo ovo que eu choco me toco de novo Todo ovo é a cara Mas fiquei bloqueada e agora de noite só sonho gemada . quanto o fazer (enunciados de fazer) e interdefinem-se e classificam-se segundo diferentes critérios. E preciso distinguir a constituição da competência. galinha. p. fêmea da espécie. [página 51] virtualizantes dever querer atualizantes poder saber realizantes fazer ser MODALIDADES exotáxicas endotáxicas Pode-se ilustrar o quadro com duas histórias de galinha. violão! (FERNANDES. 283. o poder e o saber. 1975. o ser-fazer. todo semestre chocar ovos. Tais valores modais determinam tanto o ser (enunciados de estado). de que se reproduzem pequenos trechos: Mas eu.d. 100) organiza-as pelo modo de existência que as modalizações atribuem ao sujeito e pelos sincretismos actoriais dos sujeitos dos enunciados modal e descritivo. entendida como o “ser do fazer”. caracteriza a competência do sujeito. isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. Greimas (GREIMAS & COURTÉS. inventário estabelecido a partir da experiência de análise de discursos e das descrições de algumas línguas européias19: o querer. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. p. GREIMAS. criar pintos. continuidade e estaticidade ao de vida. Todo dia pôr ovos. no quadro a seguir. Comigo. não. posso estar satisfeita? Não posso. enunciados de estado que modalizam o fazer.transformador: passar do estado de morte. ruptura e dinamicidade. livre e feliz. que se aplica tanto à modalização do fazer quanto à do ser. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo. da organização modal da competência. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios.. A semiótica trabalha essencialmente com quatro modalidades. p.

na estrutura modal de que faz parte. e o querer-fazer. Uma modalidade é chamada exotáxica ou extrínseca quando. O dever-fazer é. As modalidades virtualizantes do querer-fazer e do dever-fazer dão ao sujeito as condições mínimas para o fazer e. assim. e de “objetividade” ou “sociabilidade”. O sujeito definido pelo dever ou pelo querer-fazer é chamado sujeito virtual. O querer é modalidade virtualizante. por existir conflito entre as modalidades virtualizantes do querer e do deverfazer. o que impede a ação do suspeito. que dá à galinha o estatuto de sujeito. ao contrário da galinha da fábula. O sujeito galinha deve. um dever autodestinado.é a clara do vovô A escassa produção alarma o patrão. o sujeito galinha deve botar ovos. e o sujeito modalizado. como o dever. Trata-se de modalidade exotáxica. (BUARQUE. Só o fazer o torna sujeito realizado. 117). qualificado para fazer. apresentam-se como: . em que o sujeito modalizador.. portanto.. o sujeito galinha também deve botar (imposição do patrão) e. a galinha. as condições para pôr ovos). e modalidade endotáxica: o sujeito modalizador e o modalizado estão sincretizados no mesmo ator “galinha”. com casa e comida. e poder recebido da patroa. e de modalidade virtualizante. p. e endotáxica ou intrínseca quando os dois sujeitos estiverem sincretizados no mesmo ator.) Na fábula de Millôr. mas não está atualizada. [página 52] As modalidades virtualizantes instauram o sujeito e as atualizantes o qualificam para ação posterior. projetadas no quadrado semiótico (GREIMAS & COURTÉS. quer botar. sabe e pode botar (saber inato. que impõe o dever.d. se na organização modal de sua competência incluem-se também o saber e/ou o poder-fazer. pois lhe falta o poderfazer. s. Decorrem daí os efeitos de sentido de “subjetividade” ou de “individualidade”. mas não-quer botar. Há incompatibilidade entre as modalidades virtualizantes do querer e do dever-fazer e a modalidade atualizante do não-poder-fazer.d. a galinha é sujeito virtual para o fazer de pôr ovos. da natureza das galinhas. o sujeito modalizador for diferente do sujeito modalizado. tem-se um sujeito atualizado ou competente. Na canção de Chico Buarque. que lhe assegura. um querer do destinador. das exotáxicas. é a patroa. mas não-pode mais botar: o bloqueio psicológico da rotina ou a velhice modalizam-na para não-poder botar. das modalidades endotáxicas. Nesse caso. O sujeito não age. s.

inscrito nos objetos e circulando entre sujeitos. As denominações. Uma das diferenças entre as abordagens lógica e semiótica das modalidades reside no fato de que a semiótica define sintaticamente as denominações da lógica. bastante precárias e arbitrárias. e como um valor modal. pode ser tratado como uma estrutura modal. articulado no quadrado. cumprem o papel de condensar os dois predicados em um valor modal e de facilitar seu emprego nas línguas naturais. definida sintaticamente pela relação entre enunciados. As modalidades atualizantes do poder-fazer e do saber-fazer estruturam-se de forma taxionômica no quadrado semiótico como: .texto da imagem: querer-fazer (vontade ou volição) não-querer-não-fazer (vontade passiva) dever-fazer (prescrição) não-dever-não-fazer (permissividade) querer-não-fazer (abulia) não-querer-fazer (má vontade ou nolição) dever-não-fazer (interdição) não-dever-fazer (facultatividade) Cada termo modal.

Retomando. O dever-fazer e o querer-fazer são compatíveis e constituem a obediência ativa (exemplo da galinha de Chico Buarque). como competência cognitiva e não no emprego semiótico de organização modal. Esse esboço de organização. em geral não distinguidas na lógica. alguns exemplos. implica a prescrição (dever-fazer). do ponto de vista semiótico. para buscar os valores desejados. instauram e qualificam o sujeito. há compatibilidade entre o dever-fazer e o saber-fazer e incompatibilidade entre o dever-fazer e o não-saber-fazer. sobre as modalidades. Há muitas afinidades entre as estruturas modais do poder-fazer e do dever-fazer. pois a modalidade atualizante do poder pressupõe a modalidade virtualizante do dever. por exemplo —. Utilizou-se a denominação de competência. por exemplo. ainda nos domínios das modalizações do fazer. o serfazer e a organização modal sintagmática da competência do sujeito operador. porém. 102-6). entendido como a competência cognitiva para organizar os programas narrativos. no seu sentido usual no português a competência em Chomsky. p. não basta. enquanto o dever-fazer e o não-querer-fazer não se harmonizam e caracterizam a resistência passiva (exemplo da galinha de Millôr). respectivamente. é preciso ainda confrontar as várias modalidades e determinar suas compatibilidades e incompatibilidades. Relacionam-se elas. vê-se que uma primeira composição é a da combinação de modalidades virtualizantes e atualizantes que. Da mesma forma. de que o saber-fazer é apenas uma das modalidades. por implicação. A obediência (nãopoder-não-fazer).texto da imagem: poder-fazer (liberdade) não-poder-não-fazer (obediência) poder-não-fazer (independência) não-poder-fazer (impotência) saber-fazer (competência) não-saber-não-fazer (inabilidade) saber-não-fazer (habilidade) não-saber-fazer (incompetência) [página 53] Teve-se dificuldade em denominar o saber-fazer. apenas para melhor localizar a questão. As combinações . Extraíram-se do artigo de Greimas (1976b.

incide especialmente sobre o sujeito do fazer. afastou sempre a lingüística e a semiótica desse ângulo da análise do discurso. manipulando-o por tentação ou intimidação. Passando à modalização do ser. graças às organizações modais da competência. atualmente alcançados. ocorre obrigatoriamente no percurso do sujeito. sem medo de perder um espaço duramente alcançado ou de voltar caminho. em /ser/ vs. [página 54] A integração da modalização do fazer na sintaxe narrativa. Se o fazer-ser. pode ser explicada de forma mais satisfatória. tal como foi considerada. 1983. uma das estruturas de base da organização do esquema narrativo. A confrontação polêmico-contratual. por sujeitos dotados de “competência modal variável” (GREIMAS. que supre o sujeito do poder e/ou do saber-fazer. persuadindo-o por sedução ou provocação. Observe-se ainda que a modalização do fazer. 115). Os contos maravilhosos analisados por Propp têm um ator para o destinador das modalidades virtualizantes. na teoria da comunicação. A modalização do ser. há até bem pouco tempo. e outro para o destinador das modalidades virtualizantes. qual seja a da abordagem das paixões. /parecer/. mais especificamente no percurso do destinador-manipulador. O amadurecimento e a segurança. permitiram à semiótica enveredar pelos meandros das paixões. como nas histórias das galinhas. levou a se substituírem as casas vazias ou neutras da emissão e da recepção. . no percurso do destinador-julgador. Um último ponto a ser lembrado. O ser que modaliza o ser é chamado modalidade veridictória e articula-se. p. de se retomarem estudos de caracteres e de temperamentos. O risco do “psicologismo”. que atribui o querer ou o dever-fazer ao herói. contratuais ou polêmicas. como categoria modal. importa saber que ela tem sido investigada de forma mais sistemática nos últimos anos e que seus resultados representam um avanço considerável da semiótica em uma direção que parecia não ser a sua. caracterizador da performance do sujeito. em geral o rei. é o fato de que o destinador de valores modais da competência do sujeito pode ser realizado por um único ator ou por vários deles. ou do enunciado de estado. o ser-ser determina a sanção. Abre-se caminho para o tratamento das relações intersubjetivas. o doador do objeto mágico. resulta da regência tanto por um enunciado do fazer — fazer-ser — quanto por um enunciado de estado — ser-ser. na modalização do fazer.compatíveis ou incompatíveis estabelecem-se entre duas ou mais modalidades e determinam tipos diferentes de narrativa.

488) (texto da imagem: *manifestação. o diz verdadeiro. o problema da verdade pelo da veridicção ou do dizer verdadeiro: um estado é considerado verdadeiro quando um outro sujeito. que não o modalizado. **imanência) [página 55] Da modalização do enunciado de estado por um outro enunciado de estado resultam a verdade ou a falsidade das relações juntivas que ligam sujeito e objeto. p.verdade ser segredo * m ife an s o çã ta parecer ima nên cia mentira ** não-parecer falsidade não ser (GREIMAS & COURTÉS. Para modalizar veridictoriamente o enunciado de estado parte-se da manifestação — parecer ou não-parecer — e infere-se a . Substitui-se.d.. dessa forma. s. As modalidades veridictórias aplicam-se à função-junção e determinam-lhe a vaidade.

o canavial não-parece dinâmico. ou seja. Nesse caso. em seguida. também. um fazer cognitivo e consiste em modalizar um enunciado pelo parecer e pelo ser e em estabelecer a correlação entre os dois planos da manifestação e da imanência. e seu estado de ruptura e vida como secreto (não parece e é) e.). provavelmente verdadeiro (não- . O sujeito do fazer persuasivo quer levar seu destinatário a crer que o estado que apresenta parece e é verdadeiro (ou falso. morto. Realiza. como verdadeiro (parece e é). ao dizer verdadeiro ou falso ou mentiroso.. contínuo. em situação de comunicação manipuladora. falsos. etc.imanência — ser ou não-ser. Começa pela manifestação — o canavial parece estático. descontínuo e vivo. a partir daí. a que se tem referido com freqüência neste trabalho. como falso (não parece e não é).)“. portanto. diz ser verdadeiro ou não o estado do canavial: “Não se vê no canavial/ nenhuma planta com nome. Um exemplo claro de fazer interpretativo encontra-se em ‘O vento no canavial’. (. uma performance cognitiva. mentirosos ou secretos — são sobredeterminados pelas modalidades epistêmicas do crer. o destinador realiza um fazer persuasivo que tem sua resposta no fazer interpretativo do destinatário.[página 56] toriamente — denominados verdadeiros. contínuo. realiza um fazer interpretativo. mas o é (“oculta fisionomia”). mas sim efeitos de verdade. O observador. Este é o momento de retomar e explicar melhor o fazer interpretativo. O fazer interpretativo é. o destinatário é colocado em posição de falta de liberdade. O destinador-julgador. As modalidades epistêmicas organizam-se em categoria modal representada no quadrado semiótico como: crer-ser (certeza) não-crer-não-ser (probabilidade) crer-não-ser (impossibilidade/exclusão) não-crer-ser (incerteza) O enunciado de estado interpretado é chamado.. O fazer persuasivo procura fazer-crer por meio do fazer-parecer-verdadeiro. Os enunciados já modalizados veridic. Ou. corno destinador-julgador. Não se trata de produzir. interpreta o estado de estaticidade e morte do canavial como mentiroso (parece mas não é) e. O observador. em posição de não-poder-não-aceitar o contrato proposto. de criar verdades. O observador determina veridictoriamente o enunciado de estado do canavial. sofrem julgamento epistêmico. instalado no poema. Conforme foi visto anteriormente. certamente verdadeiro (crer-ser e parecer)..) Contudo há no canavial/ oculta fisionomia: (. por conseguinte. morto — e chega à imanência — o canavial não é estático.. ou seja.

por sua vez.crer-não-ser e não-crer-não-parecer). mas não são verdadeiras. posso estar satisfeita? Não posso. 1975. MORAL: UM TRABALHO POR JORNADA MANTÉM A FACA AFASTADA. realiza também. certamente falso (crer-não-ser e nãoparecer). Comigo. criar pintos. pois é galo. — Ainda bem que você está satisfeito — disse a galinha. 23) [página 57] Na fábula. O galo. não é bem sucedida. Mas eu. p. A patroa. todo semestre chocar ovos. A manipulação. Ela julga o estado resultante da ação ou da falta de ação da galinha: “galinha que não choca nem põe ovos só serve mesmo é pra . — E tem razão de estar. tivera muitas galinhas em sua vida sentimental e agora. um fazer interpretativo. não. porém. fez questão de frisar que sempre vivera bem. isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. ela interpreta como mentiroso o estado apresentado pela patroa e pelo galo e crê na sua interpretação. parecem. caso não bote. além do fazer persuasivo. fêmea da espécie. dizendo bem alto: “A patroa tem razão: galinha que não choca nem põe ovo só serve mesmo é pra panela”. livre e feliz. galinha. Todo dia pôr ovos. quando a cozinheira. “A galinha reivindicativa”. (FERNANDES. pode ilustrar o fazer interpretativo e a sobredeterminação epistêmica: A galinha reivindicativa ou The he’s liberation Em certo dia de data incerta. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios. entre uma bicada e outra. um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal e. trocaram impressões sobre como o mundo estava mudado. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. sorrateiramente. porém. velho e cansado. o sujeito galinha é manipulado pela patroa e por sua condição de “fêmea” para pôr ovos e chocá-los: ela deve botar (intimidação pressuposta no texto). violão! O velho galo ia ponderar filosoficamente que galo é galo e galinha é galinha e que cada ser tem sua função específica na vida. esperava calmamente o fim de seus dias. pois a galinha crê que a obrigação e a punição. passou a mão no pescoço da doidivanas e saiu com ela esperneando. A fábula de Millôr. ou seja. e assim por diante.

querer. Enquanto a veridicção diz respeito à [página 58] relação de junção caracterizadora do enunciado. ditos verdadeiros. A verdade e a falsidade constituem efeitos de sentido do julgamento epistêmico: o crer precede o saber e pertencem. A modalização do ser é responsável. Comparando a atitude da galinha com aquilo que já conhece. Interpretar. em relação ao objeto-valor “liberdade”. o sujeito que interpreta e julga realiza uma operação de reconhecimento da verdade. quanto à existência modal. as modalidades do dever. poder e saber regem também enunciados de estado. como sujeito que quer. Como decorrência. como sujeito que deve. do fazer e do estado. Para haver transformação. que envolve sobretudo o crer. O julgamento ou ato epistêmico é uma transformação de um estado de crença em outro. que consiste em comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê. que. 133). a patroa interpreta a galinha como verdadeiramente improdutiva (parece e é) e nisso passa a acreditar. o caráter ideológico da interpretação. se misturam e se confundem na certeza ou na dúvida da verdade. Competência modal e existência modal são complementares na definição do sujeito. da adesão “lógica”. saber. no ato de interpretar. Além disso. Se a modalização veridictória e a sobremodalização epistêmica explicam o ser do ser e julgam a verdade ou a falsidade das relações juntivas estabelecidas entre sujeitos e objetos. na verdade ou na falsidade da certeza. enquanto a modalização veridictória assegura a existência veridictória dos sujeitos. o sujeito não cumpridor do contrato de “domesticidade da galinha” é sancionado negativamente: reconhecido como “má galinha” e punido com a panela. as modalidades do dever. Afirma-se. mais especificamente. o sujeito aceita ou recusa o que lhe é proposto. com isso. pelo dever. do ponto de vista da competência modal. a “um único e mesmo universo cognitivo” (GREIMAS. poder e saber. para o sujeito. a um fragmento do universo cognitivo de quem julga. portanto.panela”. é separar tipos de racionalidade. confrontar a proposta recebida com seu universo do saber e do crer. com os sistemas de valores que atribuem sentido aos fazeres e aos estados. querer. a modalização do ser. Na fábula da galinha reivindicativa. por excelência. sobre o valor que nele se encontra investido20. mas . falsos. ambos. constitui a existência modal dos sujeitos. no seu “reconhecimento da verdade”. p. poder e não-querer-fazer) e. mas não quer botar ovos (dever. respectivamente. sabe. Trata-se de verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido. a galinha define-se. ao determinar a existência modal dos objetos. que recorre ao saber. pela existência modal do sujeito do estado. Tendo sido a adequação reconhecida ou rejeitada. pode. querer. mentirosos ou secretos. ou melhor. Distinguir a adesão “fiduciária”. 1983. poder e saber incidem sobre o objeto-valor ou. é.

No primeiro caso a galinha é sujeito do fazer. 1979. não-poder-ser e não-saber-ser). inevitável) querer-não-ser (prejudicial ou nocivo) não-querer-ser (indesejável) dever-não-ser (irrealizável) não-dever-ser (fortuito. 15): texto da imagem: querer-ser (desejável) não-querer-não-ser (não prejudicial) dever-se (indispensável) não-dever-não-ser (realizável) poder-ser (possível) não-poder-não-ser (imprescindível. no segundo sujeito do estado.não pode. ocasional) poder-não-ser (prescindível ou evitável) não-poder-ser (impossível) . p. nem sabe ser (querer-ser. As quatro categorias modais que modificam os enunciados de estado estão abaixo representadas no quadrado semiótico (GREIMAS.

examinou-se a conversão da categoria tímico-fórica em categorias modais. da mesma forma que a competência modal.saber-ser (verdadeiro) não-saber-não-ser (?) saber-não-ser (ilusório) não-saber-ser (?) As denominações. assim caracterizado — estrutura modal que determina a grandeza sêmica —‘ inscreve-se em objetos que se tornam desejáveis e impossíveis. além do mínimo semântico já determinado na conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas. assunto do próximo item. Um novo exemplo pode ser obtido na fábula de Millôr. foram escolhidas para caracterizar os objetos: um objeto-valor será. A existência modal do sujeito é passível de alteração. [página 59] Essas estruturas modais modificam quaisquer valores. indispensável. pois são dispositivos permanentes e independentes de investimento semântico. No item Semântica narrativa. a qualquer momento. portanto. de um fazer. Antes de a galinha começar a pôr ovos de ouro. é possível reconhecê-los como “amor”. os traços semânticos descritivos e exemplificaram-se a conversão e a modalização em ‘O vento no canavial’ e em ‘Epílogo’. Greimas (1979) reescreve o valor corno uma estrutura modal. assim. no nível narrativo. que modificam os valores descritivos dinheiro e prestígio. ‘A Galinha dos ovos de ouro’. poder e saber-ser. O objeto-valor passa de desejável e impossível a desejável e possível. “medo” ou “ambição”. descritivos e modais. o sujeito homem tem sua existência modal definida pelo querer-ser e pelo nâo-poder-ser. já nos domínios da paixão. verdadeiro. Na fábula de Millôr. formada por uma grandeza sêmica (traços semânticos resultantes da conversão de categorias semânticas fundamentais) e por uma organização de modalidades21 (procedentes da categoria tímico-fórica). por meio de transformações operadas por um sujeito do fazer. Atentando-se para os efeitos de sentido dos dispositivos modais da existência. dever. quando seu valor for determinado pelo querer. possível. O valor. desejável. executado por um sujeito transformador. A existência modal. a galinha é o sujeito do fazer que altera a existência modal do sujeito de estado homem. mostrou-se que as categorias modais determinam. quando começa a botar ovos de ouro. a que se aplicam as observações e restrições feitas às modalidades do fazer. Paixões e apaixonados22 . resulta.

o segundo tenta determinar. assim. portanto. Para abordar as configurações passionais. de uma certa forma. com as possibilidades teóricas do momento. e. no exame das estruturas narrativas. partiu da ação. também. que constituem “sistemas de paixões”. o fazer persuasivo do destinador e o fazer interpretativo do destinatário. inicialmente.A semiótica. mais especificamente na conversão da categoria tímico-fórica em categoria modal. Dois caminhos apresentam-se para a colocação do problema: o primeiro estabelece a relação entre a organização modal narrativodiscursiva e as categorias semânticas da estrutura fundamental que estão por detrás das paixões. ser entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito do estado. neste trabalho. Natural. neste trabalho. das paixões. e constatou terem todos preocupações taxionômicas. passa-se à descrição das organizações sintagmáticas e sintáticas passionais e às tentativas de denominação de tais estruturas e de estabelecimento das relações paradigmáticas do sistema das paixões. que resultou na semiótica das paixões. relação de produção e de transformação do sujeito com o objeto. indiretamente. foi ao menos discutida. o caminho inverso e procurou. As paixões. a partir de configurações discursivas. preocupa-se com a relação vertical e de conversão entre dois níveis do percurso gerativo. relação intersubjetiva de comunicação entre o destinador e o destinatário. as relações sintagmáticas modais que caracterizam as paixões. Nada mais previsível que o passo seguinte tenha sido a abordagem da modalização do ser. ou seja. Julgando que a questão da “origem” gerativa das modalidades e. As relações verticais foram abordadas em vários momentos deste capítulo. Tomou. Parte-se. suas relações paradigmáticas. a semiótica levantou. portanto. para explicitar. de análises de paixões . o processo. sobretudo na lógica e na psicanálise. Quando considerou que a comunicação não se reduzia ao fazer informativo do destinador e ao fazer receptivo do destinatário. enveredou a semiótica pelo caminho da modalização. que as modalidades que se aplicam ao fazer e os enunciados modais que regem enunciados do fazer tenham sido os primeiros a serem examinados. e na descrição das organizações modais que caracterizam a existência do sujeito do estado. a “origem” gerativa das paixões. mas incluía também. por conseguinte. e sobretudo. se não foi resolvida. os estudos existentes. Na prática. e chegou à manipulação. tentou-se dar às paixões-lexemas e a suas expressões discursivas definições sintáticas. já antes pressentida na [página 60] definição da competência do sujeito operador. no exame das conversões das estruturas fundamentais em narrativas. horizontalmente. em primeiro lugar. devem.

O sujeito do estado é o lugar privilegiado da confluência das duas relações: enquanto sujeito. de Ban. a combinação das modalidades de /querer-ser. existência modal. no seio da semiótica. o sujeito segue um percurso. existência semântica. não-crer-ser e saber-não-poderser/ é uma estrutura patêmica ou passional. as relações entre actantes são de dois tipos. portanto. a que está relacionado por conjunção ou por disjunção. o objeto de seu desejo. e com o objeto. na instância do discurso. Para explicar as paixões. caracterizada pela relação do sujeito com o valor (narrativa como sintaxe de comunicação entre sujeitos). de caráter modal. As paixões simples decorrem da modalização pelo /querer-ser/. no poema. Só assim se podem determinar o sujeito que quer ser. resultantes de um arranjo modal da relação sujeito-objeto. determinada pela relação sintática entre sujeito e objeto (definição topológica de narrativa como lugar de circulação de valores). ou seja. em termos de sintaxe modal. tensosdisfóricos ou relaxados-eufóricos. que ocorrem entre o destinador e o destinatário. A regra é a complexidade narrativa e percursos passionais complexos. em que várias organizações de modalidades constituem. 1984). de paixões complexas. em ‘Epílogo’. enquanto destinatário. paixões simples ou paixões de objetos. do desespero (FONTANILLE. ou seja. mantém laços afetivos ou passionais com o destinador. por conseguinte. o destinador a quem o sujeito passional quer fazer bem. O sujeito do estado. da indiferença (MARSCIANI. de relações modais e de suas combinações sintagmáticas. entendido como uma sucessão de estados passionais. quase exclusivamente. e comunicativas. O estudo das paixões reabilita. é preciso. Os “estados de alma” estão relacionados à existência modal do sujeito. que o torna sujeito. [página 62] . posto de lado durante bom tempo. Da mesma forma. em que o sujeito se define pela modalização do seu ser e assume papéis patêmicos (narrativa como sintaxe modal). uma configuração patêmica e desenvolvem percursos. Como se sabe. saberpoder-ser e querer-fazer (bem)/ causa o efeito passional de amor. Distinguem-se. Há três formas de definição da existência do sujeito: existência semiótica. o sujeito do estado. papel assumido pelo fato de a junção resultar de um fazer comunicativo. o sujeito em que outro sujeito crê. que produz o efeito de sentido ‘afetivo’ ou “passional” de amargura. relações transitivas. 1980). Assim.lexicalizadas — da cólera (GREIMAS. que ligam o sujeito ao objeto.[página 61] deira. l98lb). A descrição das paixões se faz. aos programas e percursos narrativos. crer-ser. está em conjunção ou em disjunção com o objeto-valor. relaciona-se com o destinador. a organização sintagmática de /querer-ser. em primeiro lugar. recorrer às relações actanciais.

o sujeito do estado deseja que a conjunção se realize. sôfrego. distinta das paixões “de ação”. como a avareza. violento. intenções de conservar o estado de conjunção. excessivo. como na ambição. Na espera simples o sujeito deseja estar em conjunção ou em disjunção com um objeto-valor. as oposições encontradas entre as paixões anulam-se e certos termos empregam-se. irreprimível — e os tipos de valores desejados — pragmático descritivo na cobiça. mais dois critérios de diferenciação das paixões de objeto: a maior ou menor intensidade do querer — desejo ardente. como na avareza. pelas definições analisadas do Novo Dicionário Aurélio. no português. A espera pode ser simples e fiduciária. Outros elementos de classificação das paixões simples./querer ser/ desejo anseio ambição cupidez avidez curiosidade /não-querernão-ser/ avareza mesquinhez usura sovinice /querer-não-ser/ desprendimento generosidade liberalidade prodigalidade /não-querer-ser/ repulsa medo aversão desinteresse Percebem-se. cognitivo na curiosidade. ou de transformar a disjunção em conjunção. Trata-se de uma paixão de “ser acionado”. 1981b. os valores desejados estão em conjunção com outro sujeito —. mas não quer ser o sujeito do fazer responsável pela transformação. por exemplo (GREIMAS. As paixões complexas têm um estado inicial que Greimas (1981b) denomina espera. não marcado na inveja ou no anseio. podem ser lembrados: explicitação do desdobramento polêmico — na inveja. na cupidez e na avareza. sem. em uma ou outra situação passional: a esganação é sinônimo tanto de avareza quanto de avidez. no entanto. descritivo e modal na ambição. indiferentemente. mais propriamente narrativos. Muitas vezes. Na espera. nada fazer para isso. o /querer-ser/ implica querer que o outro não seja. Pode-se representar a espera pelo programa narrativo abaixo: S1 querer [S2 → (S1 ⋂ Ov)] S1: sujeito do estado (que sofre a paixão) S2: sujeito do fazer . 11). p. veemente. isto é.

[página 63] Na espera fiduciária, o sujeito do estado mantém com o sujeito do fazer urna relação fundamentada na confiança. O sujeito do estado pensa poder contar com o sujeito do fazer para realizar suas esperanças ou direitos, ou seja, atribui ao sujeito do fazer um /dever-fazer/. Não se trata, na maior parte das vezes, de contrato verdadeiro e sim de contrato de confiança, um pseudocontrato ou contrato imaginário. Dessa forma, o sujeito do fazer não se sente obrigado a fazer, já que sua modalização deôntica não passa de produto da imaginação do sujeito do estado. No ensaio citado, Greimas, com muita felicidade, denominou o fazer cognitivo contratual cio sujeito de estado construção de simulacros. Os simulacros são objetos imaginários, que não têm fundamento intersubjetivo, mas, mesmo assim, determinam as relações intersubjetivas. O sujeito do estado estabelece urna relação fiduciária — de confiança, de /crer/ — com o simulacro que constrói. A espera fiduciária acrescenta ao programa da espera simples o programa narrativo abaixo representado: S1 crer [S2 dever → (S1 ⋂ Ov)] A contrapartida da espera são a satisfação e a confiança ou a insatisfação e a decepção, que decorrem da conjunção ou da disjunção do sujeito com o objeto-valor desejado e da conservação ou da perda da confiança investida no contrato simulado. Reservam-se os nomes satisfação e insatisfação para os efeitos de sentido de bem-estar ou de malestar, resultantes da relação com o objeto-valor, e empregam-se confiança e decepção para os casos de manutenção ou de ruptura das relações fiduciárias entre sujeitos. A espera é um estado tenso-disfórico de disjunção; a satisfação e a confiança, estados relaxados e eufóricos de conjunção; a insatisfação e a decepção, estados intensos e não-eufóricos de não-conjunção. E possível prever também estados de espera relaxada. A esperança é um dos efeitos de sentido da espera relaxada; a insegurança, que gera a aflição, decorre da espera tensa.
aflição e insegurança (espera tensa) esperança e segurança (espera paciente) satisfação e confiança

disjunção e tensão querer-ser crer-não-ser saber-poder-não-ser

não-disjunção e tensão querer-ser não-crer-não-ser saber-não-poder-não-ser

conjunção e relaxamento ser querer-ser crer-ser saber-poder-ser

[página 64]
satisfação e confiança (espera relaxada) insatisfação e decepção aflição e insegurança da falta

conjunção e relaxamento querer-ser crer-não-ser saber-poder-não-ser

não-conjunção e intensão querer-ser não-crer-não-ser saber-não-poder-não-ser

disjunção e tenção não-ser querer-ser crer-ser saber-poder-ser

A insatisfação e a decepção podem ser determinadas aspectualmente pela duração e prolongar-se em novos efeitos passionais: a mágoa que perdura ou a resignação, por exemplo. Outra possibilidade é a da insatisfação e da decepção conduzirem ao sentimento de falta, definido pelo /querer-ser/ em conflito com o /saber-não-ser/ e com o /crer-não-ser/ e característico da crise de confiança. Os efeitos passionais da insatisfação e da decepção são interrompidos e seguidos pela falta que dá lugar a um programa de liquidação da falta. A insatisfação e a decepção assumem o papel de termos intermediários entre o estado relaxado de crença no contrato imaginado e a situação tensa final de falta. Há dois tipos de falta, conforme resulte da insatisfação ou da decepção (que pressupõe a insatisfação), quais sejam, a falta de objetovalor e a falta fiduciária ou falta de confiança. A liquidação da falta toma, portanto, duas direções, na tentativa de suprir a falta de objeto ou de resolver a crise de confiança, e produz, nesses percursos, novos efeitos passionais. Passa-se, agora, a denominar e explicar as configurações passionais previstas a partir do estado inicial da espera: a) a insatisfação e/ou a decepção que não conduzem, de forma obrigatória, à liquidação da falta e que se prolongam ou não, durativamente, definem três grupos de paixões, exemplificadas respectivamente por amargura ou mágoa, decepção ou desilusão e frustração ou tristeza; a satisfação e/ou a confiança determinam duas classes de efeitos passionais, lexicalizados como esperança ou crença e alegria ou felicidade; a insatisfação e a decepção que geram um programa narrativo de liquidação da falta caracterizam, por exemplo, paixões de cólera ou rancor.

b) c)

O grupo a engloba paixões, lexicalizadas, que não se resolvem na falta a ser liquidada, mas se prolongam temporalmente. Seus três subtipos correspondem: um, aos efeitos passionais da insatisfação e da decepção — amargura, azedume, acrimônia, desagrado, amargor, desprazer; outro, aos da decepção apenas — desilusão, decepção, ressentimento, desen- [página 65] gano, desapontamento; e o último, aos da insatisfação sozinha — frustração, tristeza. O grupo b contém os efeitos passionais de satisfação e confiança. A subdivisão no grupo b faz-se entre as paixões de confiança — crença, esperança — e da satisfação — alegria, felicidade. Não se descobriram, no português, paixões decorrentes, simultaneamente, da satisfação e da confiança. Trata-se de problema de lexicalização, pois, do ponto de vista da estrutura das paixões, nada impede o surgimento de paixões em que se combinem a confiança e a satisfação. As paixões do grupo a são intensivas e podem ser chamadas paixões de ausência (ZILBERBERG, 1981, p. 25-6), diferentes das paixões tensas de falta do grupo c. A falta resolve-se de duas formas diferentes: pela reparação, graças a um sujeito do fazer instaurado, em geral em sincretismo com o sujeito que sofre a falta e a quem cabe realizar um programa para liquidá-la, ou pela resignação e conformação. O programa reparador liquida ora a falta de objeto — efetuam-se novas tentativas de conjunção — ora a falta de confiança. A falta de confiança faz-se acompanhar de malevolência, assim como a confiança é seguida de benevolência (GREIMAS, 1981b, p. 18). A malevolência e a benevolência interpretam, para Greimas, a hostilidade e a atração de paixões definidas pelo /querer-fazer/, bem ou mal, a alguém. O /querer-fazer/ é a modalização que dá início à competência do sujeito reparador da falta. A instauração desse sujeito é um dos três caminhos para o relaxamento da situação tensa de falta fiduciária. Os outros dois são voltar a acreditar — /crer-não-ser → não-crer-não-ser → crer-ser/ — ou prolongar a aflição na “paixão” distensa da resignação. O /querer-fazer/, que instala o sujeito, define-se pela intencionalidade, ou seja, dirige-se para outro sujeito, considerado responsável pela falta. O sujeito que desperta a hostilidade do sujeito do estado pode, segundo Greimas, no ensaio citado, ser entendido como destinador ou como anti-sujeito. “— o sujeito que provocou o ‘sentimento de malevolência’ pode ser o actante Destinador: o querer-fazer do sujeito se integrará então no PN de revolta, comportando a rejeição do Destinador e a busca de uma nova axiologia. — o sujeito que inspirou a malevolência pode

ser o actante Anti-sujeito: o querer-fazer servirá, então, de ponto de partida ao PN de vingança” (GREIMAS, 1981b, p. 19). [página 66] As relações entre sujeito e anti-sujeito e entre destinador destinatário-sujeito são as duas posições de conflito possíveis na organização narrativa. Nesse contexto, entende-se a vingança como o programa de liquidação da falta causada, na perspectiva do sujeito, pelo anti-sujeito. O sujeito e o anti-sujeito, como é sabido, confrontam-se na narrativa, pois estão em busca dos mesmos valores. Na vingança, o sujeito “ofendido” assume o papel de destinador-julgador e sanciona negativamente o antisujeito que não cumpriu o esperado ou que exerceu um fazer contrário e prejudicial aos seus projetos. Já na revolta, programa de reparação da falta provocada pelo destinador, o sujeito do estado exerce um fazer prejudicial ao destinador que faltou à palavra dada, mesmo que se trate de compromisso imaginário. O sujeito coloca-se corno destinatário que cumpriu sua parte no contrato e que espera do destinador a sanção positiva que lhe e devida, sob a forma de reconhecimento e de recompensa. Quando o destinador não o sanciona ou, além do mais, o julga negativamente, o sujeito se decepciona, se torna inseguro e aflito e se revolta23. O desejo de vingança ou de revolta, causado pela violência da ofensa, representa-se, na estrutura modal, pelo /poder-fazer/ (GREIMAS, 1981b, p. 21). O sujeito do estado torna-se, portanto, sujeito competente para o fazer, isto é, instaurado pelo /querer-fazer/ e atualizado pelo /poderfazer/. O querer fazer mal a alguém tem, assim, a possibilidade (poderfazer) de transformar-se em vingança ou revolta. O /poder-fazer/ e a forma de o sujeito ofendido auto-afirmar-se, graças à possibilidade de destruição do ofensor. Os termos que exprimem as paixões de malquerença organizam-se em dois grupos distintos: as de malquerença propriamente dita, isto é, paixões definidas pelo /querer-fazer/, e as que marcam o sentimento de honra ofendida, instalando também o /poder-fazer/. A hostilidade, por exemplo, caracteriza-se pelo /querer-fazer/, já o ódio, além do /quererfazer/, conta, em sua definição, com o /poder-fazer/ do desejo de vingança ou de revolta. Assim como a insatisfação e a decepção levam à malquerença da hostilidade e da agressividade, a satisfação e a confiança conduzem à benquerença da afeição. A benevolência, interpretada como /querer-fazer/ bem ao outro, tem também a possibilidade teórica de ser definida pelo /poder-fazer/, que torna o sujeito competente para o fazer da recompensa. No [página 67] entanto, ao menos pelas definições de dicionário, não há paixões “benevolentes” do poder-fazer/. Enquanto o ódio é entendido como

paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém e a ira como desejo de vingança, o amor caracteriza-se como sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem ou de alguma coisa. Entende-se por isso que, embora seja “ponto de honra” recompensar alguém que corresponde às expectativas, essa questão não tem a mesma força, entre as relações intersubjetivas, que a punição do ofensor. Os arranjos sintagmáticos que definem as paixões podem ser apreendidos como organizações paradigmáticas. Retornam-se, no esquema adiante, as relações básicas de uma taxionomia das paixões, tal qual foram aqui examinadas. Diferenciam-se, num primeiro momento, paixões simples de paixões complexas. As paixões simples definem-se pela relação do sujeito com o objeto e, ao contrário das complexas, não pressupõem um percurso modal e passional anterior. a) paixão simples [querer-ser] ex.: avareza, ambição. vs. paixões complexas [querer-ser + ...] ex.: cólera, ressentimento, vingança, alívio

O segundo critério é o tipo de sujeito, que distingue paixões de ação de paixões de ser acionado. Nas primeiras, o sujeito faz alguma coisa para estar em conjunção com o objeto-valor desejado; nas demais, espera que outro aja em seu lugar, a partir de um contrato. b) paixões de ação
S1 querer [S1 → (S1 ⋂ Ov)]

vs.

Paixões de ser acionado
S1 querer [S2 → (S1 ⋂ Ov)]

ex.: avareza, vingança

ex.: espera, decepção

O terceiro elemento de classificação, que não foi, praticamente, examinado neste trabalho, é a oposição entre as modalidades virtualizantes do querer e do dever-ser. Descreveram-se, em princípio, apenas as paixões de querer-ser. c) paixões de [querer-ser] ex.: cólera, avareza vs. Paixões de [dever-ser] ex.: amor, ódio (na tipologia de Parret, 1982)

Os demais critérios classificatórios aplicam-se apenas às paixões complexas e definem as etapas do percurso do sujeito como estados passionais. Organizam-se de forma hierárquica, embora haja muitas vezes

superposição de critérios, caracterizando a recursividade dos percursos. [página 68] PAIXÕES COMPLEXAS Paixões de falta lato sensu Paixões de falta sirictu sensu Paixões de liquidação de falta (fiduciária) Outras paixões complexas Paixões de objeto ex.: alegria, satisfação, tristeza Paixões de benquerença ex.: amor

Paixões fiduciárias

Paixões fiduciárias ex.: insegurança

Paixões de objeto ex.: aflição ansiedade

Paixões de confiança ex.: confiança decepção desilusão Paixões De virtualização e de atualização paixões de realização ex.: revolta, vingança

Paixões /querer-fazer/ ex.: antipatia

Paixões de /poder-fazer/ ex.: cólera, rancor

A classificação de paixões proposta obedeceu a critérios apenas de organização modal que, conforme foi visto, define estados passionais. A paixão do rancor, por exemplo, determina vários estados passionais do sujeito: estado de espera e de confiança, estado de decepção, estado de falta ou de insegurança e aflição, estado de malevolência e estado de rancor. O

A extensão da analise narrativa a outros domínios só se fez graças a investigações serias no campo da manipulação. Tivemos acesso à semiótica da Escola de Tartu (onde. na verdade. entretanto. os princípios básicos aqui discutidos. da literatura. A primeira foi organizada por Schnaiderman e reúne dezenove textos variados de semiótica da cultura. Jens Ihwe e Teun A. enfim. trabalha Lotman). desenvolvidos com vistas a análise de um objeto. sobretudo a ala que conta com pesquisadores como Janos S. A publicação italiana. Outras gramáticas de casos foram desenvolvidas. sem que se alterem. alem de trabalhos sobre outros sistemas de significação. comumente entendida como a utilização inconseqüente de princípios e métodos. . a falta tensa. O percurso é marcado por variações tensivas: a espera é relaxada.rancor permite ainda a passagem ao fazer reparador. contém textos de semiótica da literatura. 3. em seguida há a distensão da constituição da competência e o relaxamento final do fazer. Petöfi. mas pode também ser sopitado ou reprimido. como a cartomancia. das artes figurativas e da cultura. que atribuíram. a gestualidade e o código de trânsito. a musica. os textos — de semiótica geral. Não se trata de generalização apressada. graças a três coletâneas de textos traduzidos para o português. do cinema e do teatro. da modalização e das estruturas passionais. van Dijk e que sustenta a tese de que a coerência do texto não se define apenas no nível superficial das concatenações frásicas e da organização argumentativa. das artes — foram escolhidos e apresentados por Lotman e Uspenski. sob a responsabilidade de Faccani e Eco. No estágio atual das pesquisas sobre as paixões. para os quais são inadequados. para a edição francesa. a decepção intensa. a outros. da cultura. chegou-se já a alguns fatos imprescindíveis para se fazer a revisão da sintaxe narrativa como uma sintaxe modal e garantir à semântica seu caráter passional. a etiqueta. como a teoria localística de Anderson (1971). mas também no nível macroestrutural ou narrativo subjacente. Outra possibilidade seria a gramática ou lingüística textual. o italiano e o francês. Finalmente. 4. á sintaxe narrativa caráter de sintaxe modal. [página 69] NOTAS 1. 2.

com mais freqüência. 8. p. Mais bem analisado. isto é. 219). “Bendita a morte. Sobre aspectualização. p.. 10. O mesmo acontece com o PN2. Para Greimas. Sobre o quadrado semiótico e suas relações com o quadrado lógico de Apuleio ou com o hexágono de Blanché. mais especificamente. trata-se. ao Dicionário de semiótica de Greimas e Courtés. que é o fim de todos os milagres” (BANDEIRA. 9. no capítulo 2. no capítulo 2. 12-24). principalmente. s. 1 15-33) e a um trabalho de Panier (1982. 1 (BARROS. o item Temporalização e 6. 269-71) e nosso artigo publicado em Le Bulletin n. recorreu-se a um ensaio de Greimas sobre o saber e o crer (1983. Para a apresentação da teoria sêmio-lingüística recorreu-se a textos de semioticistas diversos e.5. o poder-fazer. o PN1 revela-se um programa de competência: o sujeito do fazer “galinha” transforma a competência do sujeito “homem” ao lhe atribuir. no item Modalização e modalidades Hjelmslev emprega o termo conversão para as transformações nãodiacrônicas. além de utilizar OS textos de semiótica já citados. veja-se espacialização. o verbete sobre manipulação no Dicionário de semiótica (GREIMAS & COURTÉS. vejam-se Nef (1976) e Landowski (1981 b). p. [página 70] Para unia primeira tipologia das figuras de manipulação ver. p. Para actante e ator. 184).d. veja-se o item Tematização e figurativização. por meio dos ovos de ouro. O quadrado das modalidades veridictórias pode ser encontrado neste mesmo capítulo. 14. de outro código de honra (1983. Para abordar a sanção. o poder adquirir dinheiro e prestigio. No dizer de outro poeta. 1961. a teoria do mito de Lévi-Strauss ou as oposições binárias fonológicas de Jakobson. 11. em 12. assim como sua filiação ao enfoque lingüístico de Brøndal. 15. 13. 7. p. . 1977).

Zilberberg (1981. reiterada. 19. 16. Há três tipos diferentes de modalização. 17. 18. modalização do objeto. em que os soldados de Luís XVIII. Ver. . Este item foi bastante reduzido na passagem da tese ao livro. inteiramente dedicado ao assunto. que recai sobre o predicado. lingüistas e semioticistas em torno da questão das modalidades. a que já se recorreu em outros momentos. como as do fazer. o número já citado de Langages. sobretudo. o ensaio de Greimas (1979) sobre a modalização do ser. 20. 23. sobre o assunto. de Bandeira. portanto. dever. à tese os que se interessarem pela explicação detalhada das relações sintagmáticas modais que caracterizam as diferentes paixões. Para ilustrar os conceitos da semântica narrativa serão usados o texto de Cabral ‘O vento no canavial’. As modalizações do ser combinam-se. modalização do sujeito do fazer. o fato de a semiótica trabalhar com um inventário de modalidades e não propriamente com uma paradigmática das modalidades. o trabalho de Zilberberg (1981) a respeito das modalidades tensivas e os textos de Parret (1976. com razão. como nas modalizações veridictórias e epistêmicas. no caso do querer. quanto ao local de incidência no enunciado: modalização do enunciado. dever.que o autor procura situar a sanção nu conjunto ria teoria sêmionarrativa. em “alguma coisa de transcendente”. e o poema Epílogo’. Exemplifica com a análise cio texto de Aragon.33) critica. Fontanille (1980) afirma que a revolta decorre do desespero e que o sujeito desesperado rejeita o destinador. 22. 21. Remetam-se. Para esta breve exposição a respeito de modalização e modalidades. 1982) dedicados às modalidades e às paixões. os trabalhos de Coquet e Parret e a revista Langages 43. que reuniu lógicos. poder e saber-fazer. empregaram-se. que repercute no sujeito do estado e se representa pelo querer. mas não os valores que o destinador representa. J). poder e saber-ser. O desespero e a revolta surgem do conflito entre a perda de confiança no outro e em si mesmo e a confiança. e obedecem também a critérios de compatibilidade e incompatibilidade.

mantêm sua adesão aos valores monárquicos. embora não mais aceitem os representantes.abandonados pelo rei na fronteira da Bélgica. [página 71] . da monarquia. de fato e de direito.

muito comumente rotuladas. Os exercícios de análise da instância narrativa multiplicam-se e a recategorização da sintaxe narrativa. como se espera ter mostrado no capítulo anterior. que os converte em discurso e nele deixa “marcas”. de teoria semiótica. como organização passional. A mediação entre estruturas narrativas e estruturas discursivas é tarefa da enunciação: os esquemas narrativos são assumidos pelo sujeito da enunciação.II — DISCURSO: A ASSUNÇÃO DE VALORES CONSIDERAÇÕES INICIAIS Neste capítulo abordam-se os vários aspectos da sintaxe e da semântica discursivas. Atribuiu-se especial importância às estruturas discursivas por serem consideradas o lugar. no . e da semântica. sozinhas. os recursos de persuasão utilizados pelo enunciador para manipular o enunciatário. a cobertura figurativa dos conteúdos narrativos abstratos. rende cada vez mais frutos. [página 72] foram pouco ou mal tratadas pela semiótica. de desvelamento da enunciação e de manifestação dos valores sobre os quais está assentado o texto. As estruturas discursivas. A semiótica. mas retoma aspectos que foram deixados de lado: as projeções da enunciação no enunciado. sempre pressuposta. como uma sintaxe modal. em nível imediatamente superior ao das estruturas narrativas examinadas. desenvolveu bastante bem a sintaxe e a semântica narrativa. por excelência. que a elas. porém. Dessa forma. o exame da sintaxe e da semântica do discurso permite reconstruir e recuperar a instância da enunciação. A análise discursiva opera sobre os mesmos elementos que a análise narrativa.

e também o fato de procurar em outras propostas teóricas ou em práticas experimentadas subsídios para explicar as organizações sintáticas e semânticas do discurso. ao menos. A separação dos dois tipos de mecanismos sintáticos não pode ser entendida como ausência de ligação entre eles. pretende-se examinar. alguns elementos dos estudos literários do foco narrativo. pois. alguns percursos inacabados. distinguir as diversas formas de projeção da enunciação — actancial. confundem-se muitas vezes e as diferentes projeções da enunciação explicam-se. Para a semântica. a exposição menos segura. com as condições de sua produção. e relacionar o discurso. dessa forma. Há. Explica-se.entanto. a partir daí. em última instância. da pressuposição. pensou-se nas diferentes colocações da semântica da enunciação — da argumentação. tem dedicado seus mais recentes esforços. entre enunciador e enunciatário. A intenção é determinar as relações entre enunciação e discurso. além das teorias semânticas desenvolvidas pela lingüística. Para a elaboração da sintaxe. temporal e espacial — e os mecanismos de delegação do saber. SINTAXE DISCURSIVA Serão analisados dois aspectos da sintaxe discursiva: o das projeções da instância da enunciação no discurso-enunciado e o das relações. na verdade. a estilística. como procedimentos utilizados pelo enunciador para levar o enunciatário a crer e a fazer. assim. principalmente quando aprecia questões de foco narrativo. alguns caminhos iniciados. na estilística e na retórica. em primeiro lugar. dos atos de fala —‘ na teoria do texto literário. que se fará da instância discursiva. que é preciso seguir. a retórica e a poética. [página 73] . algumas direções indicadas. em seguida. sobretudo argumentativas. os procedimentos de sintaxe discursiva desenvolvidos pela semiótica e. lembrar e sugerir. percorrer e completar. e quem sabe até mais criativa. Projeções da enunciação Serão examinados. ou. pelo tratamento dado às formas da composição ou do discurso e pela preocupação com os procedimentos de argumentação e persuasão.

surgem. instaurado por tais procedimentos.se que o sujeito da enunciação. As duas histórias de galinhas. o tempo e o espaço da enunciação e a representação actancial/actorial. a enunciação-enunciada e o enunciado propriamente dito. do espaço e do tempo.Desembreagem e embreagem actancial e teorias do foco narrativo A enumeração produz o discurso e.. distintos dos da enunciação.) [página 74] . articula-se. Obtêm-se. para fora dessa instância.. para os enunciados com eu. (FERNANDES. nunca manifestado. para os enunciados com ele. Com a desembreagem criam-se. Fala-se. dos actantes do discurso-enunciado e de suas coordenadas espáciotemporais instaura o discurso e constitui o sujeito da enunciação pelo que ele não é. a projeção de um não-eu do enunciado. /não-pessoa (ele)/. s. A desembreagem actancial é. respectivamente.d. o sujeito.. está sempre implícito e pressuposto. 147). em desembreagem enunciativa e. p. na desembreagem. 1975).d. Em certo dia de data incerta. A operação e os procedimentos pelos quais a enunciação realiza a projeção mencionada denominam-se desembreagem. as categorias da pessoa. Todo ovo que eu choco me toco de novo (BUARQUE. que se tem usado como exemplo. O lugar da enunciação (eu/aqui/agora). seu simulacro e um tipo de enunciado. instaura o sujeito da enunciação. como um depósito de sentido. os dois grandes tipos de unidades discursivas. enunciados que resultam da projeção do eu/tu e enunciados decorrentes da projeção do ele. assim. empregam recursos diferentes de desembreagem. dessas diferentes desembreagens. assim. no discurso-enunciado. A categoria da pessoa. um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal. distinto do eu da enunciação. espacial e temporal do enunciado. A enunciação explora. segundo Benveniste (1966). em desembreagem enunciativa. explorada na desembreagem actancial. é semióticamente vazio e semanticamente cheio. ao mesmo tempo. Deve-se evitar confundir a enunciação pressuposta com a enunciação-enunciada24. A projeção. Observe. O eu e o ele projetados são actantes e atores do enunciado. segundo Greimas e Courtés (s. ao mesmo tempo. em /pessoa (eu-tu)/ vs.

resultante de desembreagem enunciva. Já o enunciado propriamente dito caracteriza os discursos em terceira pessoa. por ele instalado. são ainda possíveis desembreagens de segundo e de terceiro graus. que decorre de desembreagem enunciativa. que instalam os interlocutores do diálogo. A enunciação-enunciada. o poema de Chico Buarque é uma enunciaçãoenunciada. em geral. e o tu. julgados “objetivos”. O esquema abaixo representa as várias relações: IMPLÍCITOS (ENUNCIAÇÃO PRESSUPOSTA) DESEMB. estabelece também ligação metafórica que se funda na similaridade. na equivalência que o simulacro mantém com a enunciação pressuposta.Na fábula de Millôr. tem-se um enunciado. simulacros discursivos do enunciador e do enunciatário implícitos. DE 2º GRAU ENUNCIADOR NARRADOR INTERLUTOR OBJ ETO INTERLOCUTÁRIO NARRATÁRIO ENUNCIATÁRIO [página 75] . Os discursos em primeira pessoa servem de exemplo de enunciação-enunciada e são. DE 1º GRAU-ATORES EXPLÍCITAMENTE INSTALADOS DESEMB. o sujeito que diz eu denomina-se narrador. Na enunciação-enunciada. como efeitos criados pelas diferentes relações que os tipos de enunciado mantêm com a enunciação. Além disso. A subjetividade e a objetividade entendem-se. narratário. considerados “subjetivos”. O enunciado propriamente dito liga-se metonimicamente à enunciação. além dos laços metonímicos. no sentido que lhes atribui Benveniste. em relação de parte a todo.

24 anos. O bigodão resmungou: Tá legal. tio do sargento Ronaldo. 324) ilustra bem as desembreagens internas. “O que não se concebe é a divulgação de tantas informações desconexas” [. ao menos na nossa cultura. 32). cara que escutava vs.... [. é evidente que estão mentindo”. Os diferentes tipos de desembreagem e as subdelegações de voz definem unidades discursivas e produzem efeitos de sentido diferenciados. desembreados em segundo grau como interlocutores (barbudo vs. O efeito de realidade é produzido. e me deu um papel passado em três folhas iguais. a 290 quilômetros de Porto Alegre. terceiro graus) que criam a ilusão de situação “real” do diálogo. Reginaldo. 87. mas eu não sei escrever. Verifique-se o exemplo acima e. p. um barbudo que passava disse assim pro bigodão: Paga a ela.. 14 jan. as reportagens. p.A crônica ‘Glória’ de Drummond (ANDRADE. pelas desembreagens internas (segundo. de Passo Fundo. são de dois tipos: efeitos de referente ou de realidade e efeitos de enunciação. contando o senhor não acredita. Os efeitos de sentido. A verdade ou a falsidade de um discurso ligam-se à comprovação referencial ou à proximidade e autoridade da enunciação. a cabeça não dá. o bigodão respondeu...] Ai eles me viram chorando.] Um cara que estava escutando falou assim: A senhora vai jogar fora esses 50 mangos? E daí? respondi pra ele [. 1 97. pra eu assinar nelas todas. ficaram com pena de mim.] . que empregam a referencialização obtida através de procedimentos de desembreagem interna como recurso na criação de efeitos de verdade e como meio de passar a responsabilidade do que é dito àquele que se cita em discurso direto. bigodão. afirma Hilário Moretto. afirma Hilário Moretto.. “Podem até dizer que acidentes com militares são fatos normais”.[.] “Tudo é inexplicável”. Fazem-se referências à falta de esclarecimentos sobre a causa das mortes e dá-se a palavra a familiares dos sargentos: [. Aí eu disse: O senhor me desculpe. no passado vs.]“A partir dessa premissa. Então nada feito outra vez. bigodão. principalmente.. viúva do sargento Luiz Élvio. mãe. No texto ‘Militares — Linha Secreta Mistério na morte dos três Sargentos’ (Veja. o procedimento é utilizado com sucesso. mãe). [.. em grande medida. Meu filho é artista de televisão.. com os quais se obtêm efeitos de verdade. diz Neuza Muller de Souza..] A mãe é a narradora que instala “o senhor” como narratário e que cede a palavra a vários sujeitos..

de grupo para grupo. Os exemplos são muitos: as histórias contadas com a indicação de “histórias de pescador”. de ideologia para ideologia. Trata-se. distanciado do sujeito da enunciação. empregando os recursos de desembreagem enunciativa (eu/você) e de embreagem enunciva (a mamãe). o grupo pretende deixar visível que esta construindo no palco um simulacro de uma realidade distante no tempo e no espaço e da qual está sendo apenas o ‘portavoz’”. Um bom exemplo é o da mãe que diz à filha “a mamãe amarra o sapato para você”. denominado embreagem. A embreagem apresenta-se como uma operação de retorno de formas já desembreadas à enunciação e cria a ilusão de identificação com a instância da enunciação.. “verdade” às manifestações de estranheza em [página 76] relação às mortes. coloca-se o sujeito do enunciado como um simples locutor2. Conclui-se que.. Incluem-se como efeitos de realidade. de distanciamento da enunciação. A enunciação finge recuperar as formas que projetou fora de si.”. em geral. de irrealidade ou de ficção. Ao se propor a fazer uma ‘leitura dramática demonstrada’. de efeito de enunciação. procura conseguir esse efeito. de enunciação e de verdade também as ilusões contrárias: pode-se pretender obter efeitos de mentira ou de falsidade. [página 77] Para melhor sistematização das relações instauradas entre enunciação e enunciado. Nega-se o enunciado e procurase produzir o efeito de suspensão da oposição entre os atores. recriminam e criticam o Comando Militar. Para se negar a enunciação e se obter a ilusão de objetividade.A atribuição de voz à família dos sargentos dá “realidade” e. criadoras dos efeitos de sentido mencionados. Todas elas produzem efeitos de mentira. Os efeitos de enunciação são. e o tio de um dos sargentos ou a mulher de outro que. o espaço e o tempo do enunciado e os da enunciação. se devem reconhecer os procedimentos utilizados para a obtenção de efeitos de sentido. Xacuntalá reconhecida26. pensamos em . que variam de cultura para cultura. de distanciamento da enunciação. criados pela escolha da desembreagem enunciva ou enunciativa e por um procedimento oposto à desembreagem. as fábulas que se dizem sempre fábulas. que cita e recria discursos diretos que não foram ditos. na análise de discursos. Além disso. ou melhor. diretamente. nesse caso. Outro exemplo é o da montagem da peça de Kálidása. as historias infantis que começam com “Era uma vez. portanto. como uma “leitura dramática demonstrada” e assim explicada no programa: “O texto nas mãos dos atores não quer dizer apenas segurança na interpretação. de irrealidade ou de ficção. O discurso da imprensa.

autor e narrador.recorrer a trabalhos sobre foco narrativo. As razões que nos levaram a procurar tais textos. o da confusão entre narrador e autor. que. a crítica e a teoria literária preocupavam-se com o texto como um todo e com o sentido do discurso. Se James é contra a narrativa em primeira [página 78] pessoa. O abandono em que se encontravam os estudos das diferentes manifestações discursivas. a esse respeito. e menosprezando os demais. cru geral considerados de interesse e responsabilidade da Teoria Literária. permitiu certas conclusões um tanto apressadas. A teoria literária distingue. Um primeiro equívoco se desfez assim. cujos resultados podem. em grande parte. Forster (1969. contra as interferências. a teoria do foco narrativo pôs fim ao conflito instaurado entre os que atribuíam à teoria um caráter normativo. O romance ideal seria aquele em que o narrador quase não se mostrasse. os trabalhos de Kayser (1970) e de Booth (1970). há muito tempo já. de que o narrador não está lá. prendem-se ao fato de reconhecermos que. São. além do literário. como máscara do autor. ser estendidos a outros domínios. Estamos cada Vez mais convencidos de que muitos dos fatos julgados específicos do objeto literário encontram-se também em outros tipos de discursos figurativos e até mesmo nos não-figurativos. E perigoso e. dando a impressão de que a historia se conta a si mesma. por exemplo. Ao reconhecer que as visões narrativas são diferentes máscaras ou projeções do autor. Lubbock (1976) sobretudo e. e contribuir para a teoria do discurso. contra a variação de ponto de vista. Na esteira de James (1948). Friedman (1967) e Mendilow (1972) consideram a terceira pessoa dramatizada como a visão narrativa mais eficaz para o romance e não admitem a intervenção do autor. em parte. portanto. o mais apropriado ao romance. com seus prefácios escritos no fim do século XIX. de que se retomaram apenas as questões gerais. durante muito tempo. p. em oposição ao sempre grande desenvolvimento da teoria e análise literárias. que destrói a “ilusão de realidade”. examinaram-se alguns textos básicos para o estudo do ponto de vista27. comentários e avaliações do autor e. desde que obtenha o resultado esperado. leva . que acabam mesmo por concluir não haver diferença fundamental entre o romance em primeira e em terceira pessoa. acentuado principalmente quando se tratava de discurso em primeira pessoa. mas não admite certas interferências do autor: “Pode o escritor fazer confidências ao leitor sobre suas personagens? Melhor não fazê-lo. em geral. anos de pesquisa e de trabalho. 21) aceita que o romancista mude seu ponto de vista. preconizando o “melhor foco narrativo”. enquanto a lingüística não ia além da frase. também. já que ambos comportam um narrador. Vejam-se. marcou o início da teoria do foco narrativo tal como hoje é concebida. Neste trabalho.

em sua segunda grande contribuição ao tópico do foco narrativo. não passa pela cabeça de ninguém a possibilidade de valorizar uma perspectiva narrativa em detrimento de outra. O mérito e o alcance da proposta de Booth anulam-se. diz Booth. sobretudo com as mudanças sofridas pelo romance. [página 79] O estabelecimento das duas distinções. pior ainda. ou aquele que se mascara no narrador e se projeta em primeira ou em terceira pessoa. o que é mais ou menos poético e sim o que é mais adequado aos efeitos de sentido buscados. Na perspectiva da semiótica. ser ficcional. acaba-se sempre por atribuir maior importância a certas “técnicas” de organização das visões que a outras. A concepção normativa. uma versão superior de si mesmo (1970. está presa a um segundo equívoco. caso o autor-implícito seja considerado. ao determinar que o autor de que o texto fala. ontologicamente definido. que o romance em primeira pessoa não é uma forma menos poética que as outras e que não se pode estabelecer. pressuposto pelo discurso-enunciado. a que se referiu. de História. porém. a um afrouxamento emocional e intelectual e. de espaço. Hoje. não é o ser de carne e osso. mas é preciso. As variações de pessoa. O autor-implícito. a noção de narrador merece alguns reparos. como fazem alguns. segundo ele.a uma queda de temperatura. entre autor e narrador e entre autor e autor-implícito. Foi Booth. isto é. é preciso antecipar certos elementos de semântica discursiva28e da formalização narratológica da enunciação29 e . Sendo porém a valorização uma questão “externa”. de época. de cultura. tomar consciência da relatividade cultural e histórica dos juízos de valor. permite que se deixe de lado o autor e que se pensem as visões narrativas a partir das relações estabelecidas entre o autor-implícito (instância e sujeito da enunciação) e o narrador (sujeito do enunciado). caracterizado e criado a partir do texto. são. A noção de autor-implícito é precursora da de sujeito da enunciação. a um certo tom de jocosidade”. e o autor “de carne e osso”. qual seja a confusão entre o autor. Para fazê-los. E inevitável fazê-lo. que trata de mostrar. 6). ao mesmo tempo que sua obra. A essas considerações normativas opõem-se as de Kayser. mas um autor-implícito. é sempre diferente do homem real e cria. pela escrita. questão de estilo. já que representam apenas formas diferentes de o autor se colocar no texto. apenas uma etapa intermediária entre o autor e o narrador e não a instância produtora do discurso. quem trouxe algum esclarecimento à questão. entre os teóricos do ponto de vista. p. então. de antemão. Kayser antecipa as colocações lingüísticas e semióticas sobre a ilusão de enunciação e sobre a questão da “neutralidade” do sujeito da enunciação em relação ao discurso.

distinguir, com clareza, os actantes dos atores e, entre os actantes, os actantes narrativos dos actantes discursivos. A noção de actante foi examinada no capítulo 1, dedicado à narrativa, O actante pertence à sintaxe e define-se pelos papéis actanciais que engloba: o actante Sujeito subsume, entre outros, os papéis de sujeito do querer, de sujeito competente, de sujeito realizador. Na instância do discurso, o actante converte-se em ator, ao receber investimento semântico, temático e/ou figurativo. O ator resulta, assim, da combinação de papéis da sintaxe narrativa com um recheio temático e/ou figurativo da semântica do discurso. O actante Sujeito, em ‘A galinha reivindicativa’ de Millôr, ocorre, no nível discursivo, como o ator galinha, com as decorrências temáticas de “ser galinha” e com as determinações figurativas da galinha em questão (nova, etc.). Da mesma forma, o actante Destinador do dever torna-se o ator patroa, e o Destinador do saber, o ator galo velho. Há diferentes modos de relacionamento entre os actantes e os atores, sendo comuns os casos de sincretismo. Os actantes são, por conseguinte, concebidos como entidades narrativas. Só é possível pensar em actantes do discurso se uma perspectiva narratológica for adotada no exame da enunciação, ou seja, se a enunciação for abordada do ponto de vista de sua organização narrativa ou espetacular. Deve-se, então, distinguir, entre os actantes, os actantes narrativos, propriamente ditos, dos actantes discursivos, que são também narrativos, mas pertencem à estrutura narrativa da enunciação. Os actantes do discurso instalam-se como projeções da enunciação e simulam os papéis actanciais assumidos pelo sujeito da enunciação (sujeito e destinador/destinatário). Na crônica ‘Glória’ de Drummond (ver p. 76), a mãe-narradora é um ator que investe, no nível do discurso, os actantes discursivos Sujeito do fazer discursivo e Destinador do saber, en- [página 80] quanto o ator mãe “no passado” realiza o actante narrativo Sujeito da performance de cobrar o cachê do filho. Bem esclarecidas as noções de actante e ator e de actante narrativo e actante discursivo, volta-se à questão do narrador. Há, do ponto de vista da semiótica, duas definições possíveis de narrador. Pode-se considerar o narrador como o resultado da projeção da instância da enunciação, fundadora do discurso, tendo o narrador manifestação explícita ou implícita no discurso-enunciado. Narrador seria, então, qualquer máscara da enunciação, e até seu desaparecimento ou seu esfacelamento seriam tomados como “tipos de narrador”. A outra possibilidade, pela qual se optou, é a de reservar o termo narrador apenas para os casos de explicitação do sujeito que assume a palavra no discurso. Pela primeira caracterização, o narrador estaria identificado com os actantes discursivos Sujeito e Destinador, papéis actanciais de nível discursivo, que marcam as relações entre enunciador e enunciado e entre enunciador e enunciatário,

respectivamente. Na segunda concepção, o narrador é entendido como um ator que engloba os papéis actanciais de Sujeito e Destinador discursivos e os papéis temáticos da “narração”, também discursivos. A cobertura semântico-temática do discurso define, nessa perspectiva, o ator-narrador. Não havendo investimento temático, não há ator e não há narrador. Nesse caso, outros mecanismos sintáticos e semânticos são encontrados para marcar os actantes do discurso. Em ‘O vento no canavial’, tem-se um exemplo desses possíveis procedimentos: o fio discursivo está a cargo do observador e não do narrador. Há muitas propostas de classificação dos focos narrativos e as confusões terminológicas são bastante freqüentes. Parece provável que isso se deva à variação de critérios e de perspectivas dos vários teóricos, nem sempre explicitadas. As comparações resultam, portanto, em geral, pouco produtivas. Há um certo consenso, porém, em torno de dois pontos, além dos que já foram levantados: o foco narrativo é um recurso discursivo — diríamos sintático — ligado a um sentido determinado, mas não se pode estabelecer de uma vez por todas os efeitos de sentido resultantes da variação de ponto de vista. Delineiam-se, no entanto, certas tendências na consideração do papel discursivo do foco narrativo e dos tipos de efeitos que cria. Kayser afirma que o foco narrativo é só aparentemente uma questão de forma e que o sentido do discurso muda, segundo variem os pontos de vista. Para Booth, não se pode julgar um recurso técnico, como o ponto de vista, senão em relação às noções mais gerais de sentido e de efeito a que [página 81] tal recurso está destinado a servir. Há discrepâncias entre OS autores quanto aos efeitos que se procura obter com a escolha de determinado foco narrativo. A maior parte dos teóricos consultados, James, Lubbock e, sobretudo, Friedman, vê como objetivo primeiro do ponto de vista, e do romance no seu todo, o de produzir a ilusão completa de realidade, o maior grau possível de “realismo”. A questão da escolha do foco narrativo liga-se, dessa forma, ao tipo de ilusão de realidade que se quer criar. Explica-se assim o caráter normativo de suas considerações, anteriormente mencionadas. Já segundo Booth, a finalidade do romance não é tanto produzir uma ilusão, quanto fazer passar certos valores. A transmissão dos valores, para o autor, é um problema de retórica. Retoma ele uma concepção de retórica que estava desaparecida, sufocada pela retórica clássica das figuras de linguagem, qual seja a retórica como conjunto das técnicas e meios utilizados pelo romancista para comunicar-se com seus leitores, para controlá-los, de modo a fazê-los participar de seu sistema de valores. O problema da retórica da ficção não é o das ligações do narrador com a história que conta, nem apenas o das estruturas internas, mas, sobretudo, o da relação do “autor” com seu “leitor”.

Enquanto Friedman atribui ao foco narrativo o efeito de realidade ou de referente, Booth desloca o problema para o efeito de verdade, para o contrato de veridicção estabelecido entre enunciador e enunciatário e para o jogo da manipulação entre o fazer persuasivo do enunciador e o fazer interpretativo do enunciatário. A questão das relações entre enunciador e enunciatário, apontada por Booth, foi, neste trabalho, separada, um tanto artificialmente, da abordagem dos procedimentos de projeção da enunciação e será examinada no próximo item. Resta retomar o problema relativo à ilusão de realidade, sem dúvida uma das principais razões de escolha do foco narrativo. Não se trata de acreditar, como James, Lubbock ou Friedman, que o romance deva gerar “ilusão de realidade”, mas de entender o jogo dos efeitos de sentido de realidade que o sujeito da enunciação procura obter com as opções e variações de ponto de vista, pois pode tanto querer criar o efeito de realidade quanto o de irrealidade. As ilusões engendradas pelo discurso, assim como a relação entre o procedimento sintático do foco narrativo e os efeitos criados, dependem de vários fatores, tanto de organização narrativodiscursivo-textual, quanto de variação sócio-cultural e histórica. O caráter relativo e contextual da correlação entre foco narrativo e efeitos de sentido não impede, porém, que se bus- [página 82] quem algumas indicações de percursos possíveis, traços e pistas de direções a seguir, sobretudo a partir das classificações mais conhecidas de foco narrativo. Lubbock (1976) distingue dois tipos de apresentação do texto, a cônica e a panorâmica. Na apresentação cênica o narrador restringe-se a momentos particulares, a uma determinada cena frente à qual o leitor é colocado, enquanto na panorâmica sua visão é ampla e geral. As apresentações sofrem dois diferentes tipos de tratamento, ligados à oposição entre o “narrar”e o “mostrar”: o pictórico, em que os fatos são vistos através do narrador que descreve, que “pinta” a história, e o dramático, em que o narrador desaparece e dá lugar à visão “direta” das coisas, ou seja, os fatos visíveis e audíveis contam a história. Friedman (1967) organiza os focos narrativos em oito tipos distintos, que serão apresentados na ordem que vai da onisciência total — o narrador tudo sabe e em tudo se intromete — ao apagamento do narrador.

[página 83] Forster (1969) agrupa os focos narrativos segundo dois critérios: caráter exterior ou interior (onisciência) do ponto de vista ou posição ocupada pelo narrador na história (personagem ou não). Modo dramático: os atos e palavras dos protagonistas contam a história (predomina o discurso direto). narrador + não-onisciência 4. propõe três visões: visão com. Onisciência do narrador organizador: o narrador tudo sabe. chegando-se a /ausência do narrador/ + /não-onisciência/30. Onisciência multisseletiva: o narrador desaparece e a história é “filtrada” através dos personagens (em geral. Onisciência seletiva: não há narrador e a história é filtrada através de um personagem (predomina o discurso indireto livre). para /presença do narrador/ + mão-onisciência/ e para /ausência do narrador/ + /onisciência/. 3. mas se abstém de comentários gerais (3º pessoa e estilo indireto). em que o narrador é onisciente. como um observador. Onisciência do narrador neutro: o narrador tudo sabe. Narrador-testemunha ou observador (em primeira pessoa): o narrador. que aproxima a experiência vivida do romance — do modo de compreensão da realidade surge o ponto de vista —. Pouillon (1974). 7. predomina o discurso indireto livre). Câmera: uma fatia de vida é como que apanhada arbitrária e mecanicamente por uma câmera.1. em que o narrador se limita a descrever os acontecimentos. comenta e avalia. 5. como personagem principal. Booth (1970) prega a necessidade de uma classificação mais rica das vozes do autor e considera insuficientes as oposições entre primeira e . Narrador-protagonista: o narrador participa dos acontecimentos. não-narrador + onisciência 6. Passou-se dos traços de /presença do narrador/ + /onisciência/. não participa diretamente dos acontecimentos. visão por trás. narrador + onisciência 2. não-narrador + não-onisciência 8. em que o narrador vê e sabe com a personagem. visão de fora.

conforme foi visto.terceira pessoa ou entre “contar” e “mostrar”. que os dota de “voz”.[página 84] nímia da instância da enunciação (o enunciado propriamente dito. em primeira pessoa). em primeira pessoa). O foco narrativo é. relacionam-se. narradores representados declarados (conscientes de si mesmos. a nosso ver. respectivamente. não-representados (não-explicitados). Distinguem-se três diferentes aspectos da questão do ponto de vista. em primeiro lugar. sem dúvida. que. em terceira pessoa) ou como urna metáfora (a enunciação-enunciada. aos quais atribui o /dever-fazer/. que os qualifica. em geral. e os narradores nãoconscientes. O sujeito da enunciação projeta o discurso como uma meto. . obtendo com isso diferentes efeitos de sentido que tendem. As diferenças de pessoa. organiza os narradores em: • • narradores representados (explicitados) vs. ilusão de realidade. em relação à instância da enunciação. a organização do saber e a relação entre os papéis do discurso e os da narrativa. portanto. não-declarados (os “refletores”. como o diálogo. narradores não-oniscientes. devem ser redefinidas no interior desse quadro. narradores oniscientes vs. em terceira pessoa. Unidades do discurso. e o /poder-fazer/ ou poder falar por ele. Espera-se que a revisão das tipologias arroladas. através de desembreagens de segundo ou terceiro graus que produzem. pode-se afirmar que o sujeito da enunciação. para construir seu objeto. ao ato de instauração e modalização do enunciado e de seu sujeito. que os instaura como sujeitos. só ganharão em serem diferenciados: a delegação de “voz”. instala um ou mais sujeitos delegados. contribua para a explicação dos mecanismos sintáticos do discurso. • • A multiplicidade de critérios pouco explicitados dificulta o confronto das diferentes classificações dos focos narrativos e causa desentendimentos31. nos pontos de vista. Considera-se a delegação de voz como resultante da operação de desembreagem ou de projeção da instância da enunciação no discurso. autor-implícito e narrador e. O fazer modalizador pode repetir-se no discurso. para a ilusão de ausência de enunciação ou de distância em relação a ela (“objetividade”) e para a de anulação da distância entre enunciação e enunciado. em seguida. Em termos de sintaxe. narradores que são personagens centrais vs. enquanto escritores) vs. um problema de delegação de “voz”. Distingue. narradores que não são personagens centrais (observadores e os que têm alguma influência sobre o curso dos acontecimentos). na perspectiva da sêmio-lingüística (outras são possíveis).

saber sobre as paixões — fornece outros elementos para se organizarem as perspectivas do narrador. o saber define su. definindolhes a competência modal para o narrar — sujeitos que devem e podem assumir a palavra — e a existência modal — sujeitos que sabem ser. o sujeito da enunciação instaura narradores. enquanto a variação de seu objeto — saber sobre competência própria ou dos outros. Bakhtin. concreta. A explicação sintática das unidades do discurso faz-se ainda desejar. O /saber-ser! é necessário. O autor não disse apenas que tal concepção de sintaxe só tem sentido no bojo de uma teoria do discurso. O sujeito do discurso. competente para narrar e existente pelas relações com objetos do saber. formas diferentes de sua realização como sujeito. A oposição entre o “narrar” e o “mostrar”. o sujeito da enunciação atribui ao sujeito do enunciado o /poder-conduzir/ o discurso de diferentes modos. Grande parte das distinções de foco narrativo resultam das diferentes combinações dessas modalizações. sujeitos iludidos e sujeitos desenganados. preocupado com os esquemas lingüísticos de discurso citado. como categoria. p. como sujeito que deve e pode narrar. Enquanto a enunciação como um todo permanecer terra incógnita para o lingüista. As intrusões e a “neutralidade” do narrador constituem. entre a difusão (onisciência multisseletiva) ou a concentração do saber. indireto e indireto livre e afirma que “um estudo fecundo das formas sintáticas só é possível no quadro da elaboração de uma teoria da enunciação. desenvolve trabalho sobre estilo direto. realiza-se de modos diversos. não escolástica das formas sintáticas” (1981. ou seja. uma vez que a competência atribuída ao sujeito o torna sujeito de um fazer informativo ou de comunicação do saber. cumpre o fazer para o qual foi determinado e narra. A delegação do saber tem sido o critério classificatório mais explorado nas distinções entre narrador onisciente e não-onisciente. O segundo aspecto posto em destaque na organização dos pontos de vista é a questão da delegação do saber. que fundamenta a maioria das propostas de classificação dos focos narrativos.e organizadas coerentemente. por exemplo. ou seja. entre narrador consciente de seu papel de narrador e narrador inconsciente. está fora de questão falar de uma compreensão real.32 Em resumo. 140).[página 85] jeitos (e narradores) que sabem e sujeitos ignorantes. Entende-se o saber delegado como um /saber-ser/. pois o /saber-fazer/ não é imprescindível ao narrador. M. saber sobre os fazeres. caracterizado. antes de mais nada. em /saber-ser/ e /saber-não-ser/. explica-se essencialmente pela modalização do /poder-fazer/. Articulado. .

No primeiro caso. Está marcado. Há. em geral sobressai o papel do observador. é também um sujeito cognitivo. entre os actantes do discurso e os actantes e papéis actanciais da narrativa. isto é. o fazerinterpretativo no discurso. “de um avião a paisagem se organiza”). Dizer que uma ação começa. não mais se distinguem. ou seja. Os actantes discursivos e os narrativos manifestam-se ora por meio de atores diferentes. no poema. No quadro a seguir apresentam-se as diferentes possibilidades . nas páginas anteriores. Na diluição do ator narrador. principalmente pelas figuras visuais (“não se vê”. Explicitado e. em geral. são destinadores-manipuladores. principais ou secundárias. narradores que.O último elemento enfatizado nas propostas sobre as visões narrativas é o das relações entre o narrador e as personagens. quando os actantes discursivos e os narrativos realizam-se por meio dos mesmos atores. anti-sujeitos. o modo dramático e a câmera de Friedman. “oculta fisionomia”. quando os actantes discursivos e os narrativos não estão sincretizados nos mesmos atores. o observador realiza seu fazer receptivo e interpretativo e é o grande responsável pela discursivização da narrativa. “o canavial é a imagem”. por exemplo) ou assumindo o modo do implícito. há sempre marcas do observador no discurso. assim. Manifesta-se claramente no discurso ou ocorre de forma implícita. Sobre o narrador. de aspectualização (a descontinuidade aspectual [página 86] do movimento interrompe a duratividade do “papel em branco”. Qualquer que seja o modo de manifestação. em sincretismo com o narrador (narrador-testemunha. ao qual cabe o fazer-receptivo e. muitas vezes. O observador. Em ‘O vento no canavial’ é o observador que conduz o discurso. os papéis discursivos da “narração” dos papéis narrativos da “história narrada”. que se prefere distinguir do narrador. sujeitos de programas de uso. quando a história parece contar-se sozinha. o observador assume o fio condutor do discurso. dura ou termina só é possível pelo fazer do observador. Vejam-se. destinadores-julgadores. isto é. já se falou. pela indeterminação actorial (“não se vê”) e pelos recursos. “cor verde”. Na segunda situação. Um único ator ocupa os postos de narrador e/ou de observador e preenche os encargos de “personagens”. por exemplo. da “campina” ou do “grande lençol”). como sujeito responsável pela interpretação da narrativa do vento e do canavial. sujeitos delegados da narrativa. além de sujeitos e destina. bastante acentuados. instalados no discurso pelo sujeito da enunciação. com nitidez. sujeitos. os actantes discursivos aparecem como sujeitos cognitivos.dores do discurso. e assumem apenas os encargos de narrador e/ou de observador. ora através dos mesmos atores. sendo a principal delas a transformação do fazer do sujeito narrativo em processo. No discurso dito “sem narrador”. graças às categorias aspectuais.

Deus esteja. 1. no quintal. Tiros que o senhor ouviu foram de briga do homem não. no baixo do córrego. Todo dia isso faço. Daí. Podem ser exemplificados com trechos de Guimarães Rosa: Tipo 2: Nonada. em que narrador (no sentido restrito de narrador explicitado) e observador estão sincretizados em um mesmo ator. p. gosto. narrador ≠ actante narrativo 5. e com máscara de cachorro. narrador ≠ actante narrativo 4. O sinal “=“ indica sincretismo actorial e o sinal “≠”. 9. Olympio.de sincretismo. narrador = actante narrativo 6. ausência de sincretismo. narrador = actante narrativo 2. Causa dum bezerro: um bezerro branco. J. vieram me chamar. narrador ≠ actante narrativo observador ≠ ≠ actante narrativo observador = observador ≠ actante narrativo observador ≠ = ≠ observador = actante narrativo observador = actante narrativo ≠ [página 87] Os tipos mais comuns são o 2 e o 4. Por meu acerto. 7. (Grande sertão: veredas. erroso os olhos de nem ser — se viu —.) Tipo 4: . 1970. Alvejei mira em árvore. Rio de Janeiro. ed. desde mal em minha mocidade. narrador = actante narrativo 3.

No segundo texto. J. O sujeito da enunciação instala o tempo e o espaço do enunciado segundo dois sistemas de referência: o primeiro sistema simula metaforicamente o tempo e o espaço da enunciação e tem como ponto de remissão o aqui e o agora do enunciado. posterioridade/. programas concomitantes. o segundo sistema retoma metonimicamente o tempo e o espaço da enunciação e parte do então e do lá do enunciado. A ação narrativa é localizada no tempo anterior ao agora e no espaço do aqui do narrador. 129). Quaisquer que sejam os sistemas de referência. O tempo e o espaço resultantes são ditos. 126-31). Um ônibus atropelou um menino de dez anos (p. anteriores ou posteriores ao aqui ou ao lá. Há. subjetivos e objetivos. por sua vez. Rio de Janeiro. extraídos do conto ‘Livro de ocorrências’. do agora e do aqui do discurso. as observações já feitas sobre as projeções de actantes no discurso. 127). p. de maneira geral. às considerações expostas sobre as relações do sujeito da enunciação com o discurso-enunciado. em /anterioridade vs. o que institui. A desembreagem temporal e a espacial definem-se como a projeção. de Rubem Fonseca (1979. ed. Temporalização e espacialização Aplicam-se. Das diversas escolhas de perspectiva temporal e . No primeiro exemplo. o tempo e o espaço determinam-se pela categoria topológica da /concomitância vs. Os programas narrativos são localizados temporalmente e espacialmente.) É preciso acrescentar. as projeções do tempo e do espaço. não-concomitância/ e a /não-concomitância/ articula-se. respeitado. bom como o cheiro de cerveja. a referência se faz ao então (“manhã quente de dezembro”) e ao lá (“rua São Clemente”). respectivamente. o agora e o aqui da enunciação. (‘Desenredo’. 1979. Olympio. cliente era quieto. ilustram os dois sistemas de referência: [página 88] O investigador Miro trouxe a mulher à minha presença (p. no tempo passado. 5.Do narrador a seus ouvintes: — Jó Joaquim. ao agora ou ao então. remete-se ao aqui e ao agora do enunciado. Tinha o para não ser célebre. Os trechos abaixo. em relação a qualquer dos sistemas de referência. por pressuposição. p. 38. para fora da instância da enunciação. In: Tutaméia — Terceiras estórias. rua São Clemente. aos procedimentos de desembreagem e embreagem de tempo e de espaço. assim. Manhã quente de dezembro.

a partir das duas posições temporais e espaciais “zero”. Ele esta no banheiro. veja-se o encadeamento dos espaços: porta. Os enunciados de estado são situados no tempo e no espaço e os do fazer interpretados como passagens de um espaço a outro. já apontados. O eixo das pressuposições. sala. Ao seu lado um menino magro. Cheguei ao sobrado na rua da Cancela e o guarda que estava na porta disse: primeiro andar. Em resumo. 1979. banheiro. que representa a ordem lógica dos programas narrativos. percebem-se bem as diferenças entre a programação temporal do discurso e a programação textual. triste porque passara no apartamento para uma última olhada e ficara andando do quarto para a sala e da sala para o . O banheiro? Ela me apontou um corredor escuro (FONSECA. desconsolado. depois que ela entrou correndo no saguão do aeroporto gritando: “Mário! Mário!”. de um intervalo temporal a outro. E ele. A programação espácio-temporal do discurso é diferente da [página 89] programação textual em que o sujeito da enunciação tem. finalmente. p.se e também gritou. meio encolhido. respirando com dificuldade. e constituem-se unidades de discurso. na esperança de que ela chegaria no último minuto. resultam os efeitos de sentido. depois de ter tomado três cafezinhos para fazer tempo. Em ”Conto retroativo”. A ordem temporal substitui a ordem lógica e a organização narrativa transforma-se em historia. “Sandra!”. liberdade para reorganizar a cronologia. 119-21). Na sala uma mulher com os olhos vermelhos me olhou em silêncio. p. Ele que tinha vindo para o aeroporto meio sonso no táxi. Além dos procedimentos de localização. corredor. 130). A programação temporal realiza a sintagmatização dos tempos e estabelece uma cronologia.d. No texto a seguir. A programação espacial organiza o encadeamento linear dos espaços parciais já localizados. em geral compatibilizadas com os pontos de vista actanciais. dar tempo a ela de se decidir se embarcaria com ele ou não. Reproduziram-se abaixo o meio e o fim do conto. s. Subi. Beijaram-se. a temporalização e a espacialização discursiva respondem pela programação espácio-temporal. por exemplo. e convertido em eixo das consecuções (GREIMAS & COURTÉS. Veríssimo (1982. de boca aberta. ele virou.. de L. 355). p. F.espacial. que já se preparava para embarcar. primeiro andar. as operações de desembreagem e embreagem criam o quadro de referência para a localização espácio-temporal dos programas narrativos.

a ação em processo. que observa. o processo é apreendido pela sobredeterminação . e ela era muito moça e. A aspectualização transforma as funções narrativas. na véspera da partida. Justifica-se assim a definição. que estava com passaporte. a marca do jeans apertado nas suas coxas lembrando que na última vez ela dissera que não ia mais com ele. ele a convida para ir com ele para a Europa. ele a convida para ir para a Europa. — Alô. eles se conhecem na exposição de Mário. amam-se durante dois meses. pontualidade e outros e transformar. que faz. os semas de duratividade. — O meu é Sandra. apos a apresentação na galeria. eu mesmo confesso: sou o pintor. voltando no tempo. O efeito de sentido decorrente da aspectualização liga-se apenas indiretamente à instância da enunciação.. de tipo lógico. ele se prepara para embarcar. [. inverte a ordem cronológica. E embarcaram juntos. — Alô. lembrando tudo. a aspectualização33.se. conserva-se o caráter retroativo da programação textual. um doido. dessa forma. Observar é ler. de “um ponto de vista sobre a ação”. ela aceita. praticamente. os momentos na cama. beijam. toma três cafezinhos e prepara-se para embarcar. Embora temporal. à exceção do último parágrafo: beijam-se no aeroporto. ele vai para o aeroporto. pois esta desembreia um sujeito do fazer. eles embarcam juntos. era uma loucura. ele era um obsessivo.. ela entra no saguão. lá. em processo. Meu nome e Mário.. e um sujeito cognitivo.. mas. em geral atribuída a aspecto. antes de partir. ela diz. embarcam juntos. diz que não vai mais. que não vai mais. a seguinte: Mário e Sandra se conhecem na galeria em que Mário expõe. ele passa no apartamento e relembra os momentos felizes. ela entra correndo no aeroporto. no componente temporal da sintaxe discursiva. passaram a viver juntos. A organização cronológica ou programação temporal do conto é. não queria se amarrar. A aspectualização mantém relativa independência da enunciação. no ultimo encontro. no fazer do sujeito. A última frase “E embarcaram juntos” é ambí[página 90] gua tanto pode significar que Mário e Sandra partiram para a Europa. quanto que. ele passa pelo apartamento e relembra os momentos felizes. a risada. aproximadamente.] — Antes que alguém me denuncie. graças ao observador colocado no discurso enunciado. ele vai para o aeroporto. o cheiro dela. Na segunda leitura.quarto. passagem mas não ia. ele toma três cafezinhos. Já a programação textual organiza de outra forma o tempo e.. Inclui-se.

p. caracterizam os aspectos discursivos: Duratividade descontinuidade vs. toma a forma de: Incoativo (pontual) → durativo → (descontinuo ou continuo) terminativo (pontual) Conforme foi discutido no capítulo anterior. terminatividade (aspecto (aspecto incoativo) terminativo) O arranjo sintagmático dos semas aspectuais. importa lembrar que.aspectual. Retoma-se. 10) para o espaço: [página 91] ESPAÇO TÓPICO Espaço Espaço Espaço paratópico utópico paratópico PERFORMANCES Estado inicial Deslocamento 1 Performance Deslocamento 2 principal Estado final Espaço heterotópico Espaço heterotópico O espaço tópico é aquele em que as coisas acontecem ou espaço das transformações narrativas. continuidade (aspecto (aspecto iterativo) durativo) vs. os procedimentos de aspectualização são imprescindíveis para a caracterização das configurações passionais. tanto um quanto o outro. As categorias aspectuais. distinguem-se os espaços paratópicos. No interior do espaço tópico. em oposição ao espaço heterotópico ou espaço dos estados narrativos. pontualidade incoatividade vs. entendidos como espaços de . organizadas em sistemas. podem ser relacionados com os actantes narrativos. em que nada ocorre. além de se definirem em relação à instância da enunciação e aos actantes do discurso. a sugestão de Geninasca (1979. Antes de terminar a discussão dos problemas de tempo e de espaço. capaz de explicar um processo. a respeito disso. Os trabalhos de Propp fizeram-se nessa direção.

foi a citação comentada de Alice Berend em Os noivos de Babette Bomberling: “Bem cedo ela começava a enfeitar a árvore. nos seus vários aspectos: os . A ligação de “amanhã” com “era”. desencadeador desse movimento. Rosenfeld (1968). levou-nos a reconsiderar. que responde ao fazer persuasivo do enunciador. a leitura do texto de A.aquisição de competência e de sanção. neste trabalho. o enunciador coloca-se como destinador-manipulador. tratar das diferentes relações entre enunciador e enunciatário. um erro de muitas cruzes em redação de aluno. por sua vez. em todas as instâncias propostas. O enunciatário.[página 92] liza-se no e pelo discurso. os procedimentos de correção de textos. responsável pelos valores do discurso e capaz de levar o enunciatário. recorrer à análise do texto. enquanto professora. que as relações entre enunciador e enunciatário mais se expõem e. e a perceber. Para conhecer o fazer persuasivo do enunciador e o interpretativo do enunciatário. manipulado cognitiva e pragmaticamente pelo enunciador. os procedimentos sintáticos que explicam as relações entre enunciação e discurso. O trecho do ensaio. a crer e a fazer. a relação de manipulação estabelecida entre enunciador e enunciatário. seu destinatário. Resta agora. no entanto. para completar o desenvolvimento da sintaxe do discurso. por conseguinte. Será analisada. os diversos aspectos das relações entre instância da enunciação e enunciado. em alguns casos mais minuciosamente — actancialização —. fez-nos retomar. o desconhecimento dos alunos (e dos mestres) sobre as estruturas discursivas. com maior clareza. cumpre os papéis de destinatário-sujeito. ocorre também no discurso-enunciado. intitulado ‘Literatura e personagem’. O fazer interpretativo do enunciatário. Dessa forma. Há alguns anos. em primeiro lugar. Amanhã era Natal” (p. ainda que o fazer pretendido pelo enunciador não se realize. como um fazer persuasivo. Relações entre enunciador e enunciatário Contrato de veridicção e verdade discursiva Examinaram-se. Enunciador e enunciatário são desdobramentos do Sujeito da enunciação que cumprem os papéis actanciais de destinador e de destinatário do objeto-discurso. O fazer manipulador rea. precisa-se. em outros de forma mais geral — temporalização e espacialização —. 24). com maior facilidade. E certamente no nível das estruturas discursivas. do espaço utópico da performance principal do sujeito. um bonito recurso de temporalização no texto poético. se apreendem.

e creia. por exemplo. permeiam o discurso.contratos propostos e assumidos. por exemplo. que o enunciador propõe um contrato.] É esta incoerência que é falsa’. . pois o que vale para uma entrevista política não se aplica. da persuasão do enunciador. decorrentes de outros contratos de veridicção. ou seja. dentro de um sistema de valores. de uma formação ideológica e da concepção. A interpretação depende. falso. Esta prevê um primeiro contrato fiduciário. o contrato fiduciário é um contrato de veridicção. Mas ninguém pensaria em chamar de falso um autêntico conto de fadas.. que determina o estatuto veridictório do discurso. da cultura e da sociedade. próprios de uma cultura. [. Cita-se. que o reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a urna serie de contratos de veridicção anteriores. de discurso e de seus tipos. abaixo. como um dispositivo veridictório. por exemplo. Rosenfeld (1968. O contrato de veridicção determina as condições para o discurso ser considerado verdadeiro. A verdade ou a falsidade do discurso dependem do tipo de discurso. os meios empregados para a persuasão e a interpretação e os diferentes fazeres pretendidos. assim. sem dúvida. p.. a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer as marcas da veridicção que. isto é. em primeiro lugar. estabelece os parâmetros. No nível do discurso. que estipula como o enun. mentiroso ou secreto. para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare com seus conhecimentos e convicções. em segundo lugar. em que são decididos os valores dos objetos a serem comunicados ou trocados. apesar de o seu mundo imaginário corresponder muito menos à realidade empírica do que o de qualquer romance de entretenimento”. As duas conclusões possíveis são. ao texto literário. da aceitação do contrato fiduciário e. e o que se coloca para um discurso religioso na China não tem o mesmo valor no Brasil. assuma as posições cognitivas formuladas pelo enunciador. Os mesmos padrões que funcionam muito bem no mundo mágicodemoníaco do conto de fadas revelam-se falsos e caricatos quando aplicados à representação do universo profano da nossa sociedade atual. porque percebemos que neles se aplicam padrões do conto da carochinha a situações que pretendem representar a realidade cotidiana.. 19) sobre a relatividade da verdade e sua dependência do tipo de discurso: “Quando chamamos ‘falsos’ um romance trivial ou uma fita medíocre fazemo-lo.[página 93] ciatário deve interpretar a verdade do discurso. Grande parte do capítulo anterior foi ocupada pela explicação da manipulação.

o didático. da função que exerce na estrutura do romance de modo a concluirmos que é mais um problema de organização interna que de equivalência à realidade exterior”. a partir do contrato de veridicção assumido. como o discurso da propaganda. levando-o a querer ou a dever-fazer. na mesma direção. são ditos verdadeiros ou. no confronto com discursos contrários ou contraditórios. distinguem-se dois fazeres possíveis e dois tipos de manipulador. 48). Todos elaboram sua verdade e. em que o enunciador não se preocupa em transmitir ao enunciatário as modalidades do querer ou do dever-fazer. e. até agora. prefere-se falar em “dizer-verdadeiro” e não em verdade discursiva. Antônio Cândido. Na operação de manipulação propriamente dita. antes do mais. Há o manipulador que instaura o sujeito virtual. o discurso político do da fábula ou do conto de fadas. isoladamente. Só quando um discurso é inserido no contexto de outros textos. que parecem verdadeiros. não da sua comparação com o mundo” (1968. Forster. Evita-se o já mencionado equívoco de caracterizar a verdade do discurso pela adequação ao referente. 75). podem-se perceber os procedimentos graças aos quais o enunciador o fez parecer verdadeiro e. pela atribuição do saber e do poder-fazer. Discutiu-se. Dessa concepção de verdade discursiva decorre que a verdade ou a falsidade de um discurso não servem de critério para diferenciar-se o discurso da História do da ficção.O discurso constrói sua própria verdade e. previamente modalizado. mas porque são convincentes” (1969. quando diz que “a verdade da personagem depende. a não ser que sejam mal construídos. encontram-se os discursos programadores. e contenta-se em lhe comunicar o saber ou o poder-fazer. e o que faz o sujeito atual. que parecem verdadeiros. também. e que “o aspecto mais importante para o estudo do romance é o que resulta da análise da sua composição. a respeito disso. p. O enunciador não produz discursos verdadeiros ou falsos. Resta agora explicar alguns dos procedimentos do fazer. o do contrato de veridicção. No segundo grupo. a concepção de verdade discursiva dai advinda. p. afirma que as personagens “são reais não por serem como nós. ao menos. como a receita de cozinha e os folhetos de explicação de uso de uma máquina. A maior parte dos discursos pertence ao primeiro grupo. mas constrói discursos que criam efeitos de sentido de verdade ou de falsidade. chega-se a aceitá-lo ou a recusa-lo.parecer verdadeiro do enunciador. Cita-se. O parecer verdadeiro é interpretado como ser verdadeiro. sem dúvida por reconhecer o enunciatário como um sujeito virtual. por essa razão. o primeiro momento das relações entre enunciador e enunciatário. o político ou o texto literário. os recursos utilizados para dotar o discurso das . [página 94] localizados em formações ideológicas contrárias ou contraditórias. ou melhor.

como na publicidade ou no discurso político. sujeito a pressões sociais. então. dependentes. as relações pragmáticas devem ser explicadas por uma teoria semântica. de interação social do homem na e pela linguagem. de memória e outras. como no texto científico ou literário. que têm porém em comum o fato de estarem procurando aumentar a fatia da linguagem que cabe.marcas de veridicção e para levar o enunciatário a reconhecê-las. de fatores . examinar o fazer persuasivo do enunciador. cabendo a uma teoria da performance explicar o comportamento lingüístico real. à tentação. tradicional. quanto pelo fazer-crer (reconhecer o fazer do político e do professor). constroem-se os demais sentidos. como fenômenos sistemáticos e não fortuitos e ocasionais. Definem todas elas também os fatos pragmáticos. É preciso. a questão do fazer persuasivo do enunciador. Podem ser aqui agrupadas teorias diferentes. como fatos de língua ou de competência. Trata-se de fazer consumir. consideram a pragmática um componente autônomo da gramática da competência. que explicam alguns dos implícitos da linguagem. cujos mecanismos fazem parte das regras que o falante domina para usar a língua. pela recuperação de uma parte do “caos” da fala e pela consideração de certas condições [página 95] de uso da língua. Neste caso. isto é. encontram-se dois grupos. e ressalta que certos enunciados não podem ser descritos. Outros. Muitas das teorias da linguagem explicam estruturas e mecanismos que recobrem. Não eliminam a oposição entre competência e performance. parcialmente.mente. a sintaxe é formal e a semântica trabalha com as condições de verdade ou satisfação do enunciado e responde pelas implicações lógicas. aos estudos lingüísticos. muito provavelmente. tanto pelo fazer-fazer (votar ou assumir certos comportamentos). psicológicas. como Grice ou Searle. fazer cognitivo. semanticamente. ao lado dos componentes sintático e semântico. O discurso político e o pedagógico caracterizam-se. isolado pela semântica. por exemplo. sem a indicação de seu emprego argumentativo ou sem a intervenção de alguns elementos de sua enunciação. Entre os estudiosos que reconhecem os fatos pragmáticos como fatos de língua. Argumentação O fazer persuasivo do enunciador é diferente segundo o jogo de imagens que constrói de si mesmo e do enunciatário34 — e que o leva à sedução. O autor não concebe uma semântica que não tenha por objetivo explicar o sentido. fazer votar ou de fazer crer. à provocação ou à intimidação — e segundo também o tipo de fazer a que pretende persuadir o enunciatário — fazer pragmático. ou seja. como Ducrot. a significação em situação. Sobre esse sentido literal. em suma. ou seja. Para alguns.

pragmáticos. Compete, assim, à pragmática tratar das implicaturas conversacionais e da força ilocucional que se associa ao conteúdo proposicional semântico. Adotou-se o ponto de vista de Ducrot, de que a gramática da língua tem dois componentes, o sintático e o semântico, em que cabem também as regras pragmáticas, pois muitas são as dificuldades encontradas na separação entre fatos semânticos e pragmáticos, sobretudo se não mais se definir a semântica pelas condições de verdade ou pelas implicações lógicas de uma semântica frásica. Quatro tipos de abordagem dos fatos de enunciação foram consultados para este trabalho: a) os textos precursores de Jakobson (sobretudo ‘Les embrayeurs, les catégories verbales et le verbe russe’ — 1963, p. 176-96) e de Benveniste (principalmente a parte sobre o homem na língua — 1966, p. 22-276), que recolocam a questão da enunciação entre as preocupações lingüísticas; os trabalhos de Ducrot, que desenvolve uma teoria semântica da enunciação ou semântica intencional, ao conside- [página 96] ra que os problemas da situação dos enunciados e os elementos relativos à intenção do locutor participam do objeto da semântica (Ducrot distingue, no interior da semântica, dois componentes, um componente lingüístico e um componente retórico, fazendo-se a passagem da significação lingüística ao sentido retórico por meio da enunciação. Para explicar o sentido, assim concebido, formula três leis do discurso: a da informatividade — o falante deve dizer ao ouvinte o que supõe que o ouvinte desconheça —, a da exaustividade — o locutor deve dar as informações mais fortes que tiver sobre o tema em questão — e a da lítotes — o locutor leva o ouvinte a interpretar o enunciado como dizendo mais do que sua significação literal. Com esse modelo, o autor desenvolve, sobretudo, o tratamento dos implícitos da linguagem, pressupostos e subentendidos, e das estruturas argumentativas, e mostra que a linguagem, por sua própria natureza, é um instrumento de argumentação.); A teoria dos atos de linguagem ou pragmática ilocucional que, a partir de Austin (1970) e desenvolvida

b)

c)

principalmente por Searle (1972), vê a linguagem como ação, ou melhor, considera como parte do sentido lingüístico as ações que se realizam quando se diz e pelo dizer (Austin tratou inicialmente dos performativos — eu lhe prometo, eu declaro aberta a sessão — em que o dizer é já um fazer. O exame dos performativos, embora casos muito específicos de fórmulas quase estereotipadas, constitui a primeira etapa para o reconhecimento das ações lingüísticas, pondo em xeque a tese saussuriana de identificação da atividade lingüística com a iniciativa individual. As convenções sociais determinam não apenas o sentido dos enunciados, mas também o valor dos atos de enunciação. Austin desenvolveu, em seguida, uma teoria dos atos de linguagem, em que mostrou que, ao falarmos, realizamos três atos diferentes: um ato de locução — atividades de ordem fonética, gramatical e semântica, independentes da situação do discurso —, um ato de ilocução — produzido pelo falar — e um ato de perlocução — decorrente do dizer, como resultado visado. A ilocução e a perlocução identificam-se a partir das variáveis situacionais. A atividade lingüística, dessa forma, não mais se coloca como uma exceção na língua, sendo os performativos um caso particular e espetacular de ilocução. Os atos ilocucionais e perlocucionais são determinados por regras específicas do discurso, como condições requeridas de sua realização. Graças à teoria dos atos de [página 97] linguagem, os lingüistas deixaram de ver a língua como lugar apenas de representação de significados objetivos, para considerála também como meio convencional de agir no mundo; d) a pragmática conversacional, que elabora máximas conversacionais, como regras gerais de direção do comportamento lingüístico e de formulação das relações vigentes entre locutor e ouvinte. (Grice (1982) estabelece um princípio geral de cooperação e quatro máximas: da quantidade — faça sua contribuição tão informativa quanto requerida e possível —, da qualidade — procure dar uma contribuição que seja verdadeira ou sincera —, da relação — seja relevante — e do modo — seja claro, nítido, não ambíguo, breve, ordenado.)

O aproveitamento das contribuições variadas de teorias lingüísticas que levam em conta a enunciação e as relações entre enunciador e enunciatário faz-se, neste trabalho, no quadro da sintaxe discursiva, buscando, por meio delas, descrever e explicar melhor o fazer persuasivo do enunciador e o fazer interpretativo do enunciatário. Mostra-se, apenas, como essas propostas se integram na sintaxe discursiva, tal qual a semiótica a concebeu, sem se desenvolverem as muitas possibilidades que tais teorias oferecem, pois, para tanto, seria necessário rever e discutir longamente as várias pragmáticas. Um trabalho que gostaríamos, ou gostaremos, de fazer, mas, de toda forma, um outro trabalho. A pragmática tem como objeto de estudo as relações sociais do homem na e pela linguagem, ou melhor, as relações que se estabelecem entre enunciador e enunciatário. As teorias pragmáticas mencionadas procuram explicar aspectos diversos dessa interação. Por isso mesmo, complementam-se, em lugar de se excluírem, e cada qual, sozinha, não é capaz de responder à questão colocada. Usa-se, neste trabalho, o rótulo de teoria da argumentação para aproximá-las e envolvê-las no quadro de análise semiótica da sintaxe do discurso. Uma teoria da argumentação, assim concebida, deve ocupar-se dos diversos aspectos do discurso relacionados à intenção do enunciador, aos efeitos a que este visa, ao produzir seu discurso, e à manipulação que pretende exercer sobre seu enunciatário. É preciso fazer, de antemão, um reparo ao fato de as teorias pragmáticas se preocuparem, em geral, com as marcas, numa dada língua, das estruturas argumentativas, e não com a determinação dessas estruturas. A semiótica, ao pretender, no percurso gerativo, fazer abstração da manifestação, interessa-se antes por estabelecer os recursos e mecanismos ge- [página 98] rais de argumentação, por meio dos quais o enunciador persuade o enunciatário. Partindo das propostas teóricas apresentadas, podem-se extrair três dos principais procedimentos utilizados pelo enunciador para influenciar, de alguma forma, o enunciatário: o recurso de implicitar ou de explicitar conteúdos; a prática de certos atos lingüísticos (ilocucionais), para atingir determinados fins (perlocucionais); a argumentação, em sentido restrito, já que os dois primeiros são também recursos argumentativos lato sensu. Embora os três tipos de procedimentos não se apresentem isolados e sim confundidos no fazer persuasivo do enunciador, serão examinados separadamente, por razões apenas de clareza de exposição. Ao enunciador é oferecida a possibilidade lingüística de jogar com conteúdos implícitos ou explícitos, para fazer passar os valores e deles convencer o enunciatário. Há diferentes modos de implicitar conteúdos. Ducrot (1969, 1977), em seus primeiros trabalhos sobre o assunto,

de duas formas distintas. desenvolvida pelos filósofos de Oxford. Define-se. com Ducrot. cuja possibilidade está inscrita na língua (da mesma forma que a ordem..)” (DUCROT. especialmente na filosofia analítica inglesa.). porque a sua conservação é uma das leis definidoras do . a interrogação ou a ordem” (DUCROT. para explicar a pressuposição. 1977. Descrever a pressuposição como um ato de fala equivale a introduzir o implícito entre o enunciador e o enunciatário. em primeiro lugar. a idéia de que a língua constitui algo assim como um gênero teatral particular. a que se remetem os interessados. a seu ver restritiva. estão os que vêem os pressupostos como condições de emprego. Concebe-se a noção de pressuposição. o dos pressupostos e o dos subentendidos. a pressuposição modifica a fala do interlocutor. Já Ducrot julga que dois atos de linguagem foram efetuados: o de afirmar a gordura atual de João e o de pressupor sua gordura anterior. “O que reteríamos então da filosofia analítica inglesa seria sobretudo uma concepção de conjunto. Em “João continua gordo”. Posteriormente. entre lingüistas e sobretudo entre filósofos da linguagem. ao mesmo tempo que se coloca contra a concepção de pressuposição. a pressuposição. conforme será mostrado adiante. a promessa. afirmar.distingue dois grandes grupos. Existe um grande número de trabalhos a respeito. A escolha dos pressupostos limita a liberdade do destinatário. 59). mas. agrupam-se os que. lógico ou não. 34). reviu essa posição. prometer. mas de alterar seu direito de falar. e com grandes traços. etc. Enquanto ato. como “um dos tipos de relações humanas.. No outro. etc. em lugar de considerar os pressupostos como condições a preencher para que esses papéis possam ser representados. pressuposição “como um ato de fala particular. 59-60). p. do mesmo modo que a afirmação. que oferece ao sujeito falante um certo número de empregos institucionais estereotipados (ordenar.. por eles adotada. desejos e interesses do enunciatário. p.. Veja-se. p. gostaríamos de fazer da pressuposição em si mesma um papel — talvez o mais permanente — na grande comédia da fala” (DUCROT. . nessa acepção. 1977. 1977. segundo Ducrot (1977. p. como parte integrante do sentido. De um lado. consideram os pressupostos como elementos de conteúdo. Não se trata de influir nas crenças. os adeptos da noção de pressuposição como condição de emprego dizem que “João era [página 99] gordo antes” é condição de verdade (emprego lógico) ou condição para que o enunciado atinja o fim pretendido.. a teoria dos atos de fala. 77). para que a afirmação “João é gordo” se realize e a informação passe. O autor utiliza.

o direito do enunciador de organizar o seu discurso da forma que melhor lhe convém. o discurso não pode prosseguir e cria-se uma situação polêmica. pois estarão sendo discutidos o direito do enunciador de organizar o seu próprio discurso e suas qualificações para a tarefa. enamorada de Pedro: “Ontem. Opõem-se. além disso. o enunciador determina sua aceitação como condição de manutenção do “diálogo”. o direito de fala do enunciatário e estabelecendo os limites do que pode ou não ser dito para que o discurso continue. nunca o pressuposto. vê-se que. direito esse que faz parte das regulamentações lingüísticas da interação social. Se. atingindo. que. mulher e filha. o discurso não poderá prosseguir. pois isso equivale a desqualificar o enunciador e a impedir o prosseguimento do discurso. mas as faz passar de qualquer forma. for negado o pressuposto de que. enquanto o progresso discursivo se faz no nível do conteúdo posto. O conteúdo pressuposto garante-lhe a coerência. não aceitar o posto. conteúdos postos e conteúdos pressupostos. como objeto de uma cumplicidade fundamental que liga entre si os participantes do ato de comunicação” (DUCROT. A pressuposição tem. por tais critérios. muitas vezes. O ato de pressupor um conteúdo consiste em situá-lo como já conhecido do enunciatário e em apresentá-lo como fundo comum. A pressuposição. não é objeto de discussão. no interior do qual o discurso deve prosseguir. certas informações que ele sabe não serem compartilhadas com o enunciatário. negar. sem recusar. é possível não aceitar o posto e retrucar que a pesquisa foi mal feita e que os paulistanos preferem agora Mineli. Age assim a Mariazinha quando diz à amiga. encontrei-me com Pedro. precisa tomar os pressupostos como quadro de referência de sua própria fala. ainda assim. todo o discurso. emprego retórico. para não caracterizar intrusão. p. antes das derrotas na Copa. por definição constituído de crenças e conhecimentos presumidos comuns ao enunciador e ao enunciatário. O pressuposto. juntos.discurso. Se o destinatário quer prosseguir o discurso iniciado. 1969. Pode-se discutir. Quando os jornais dizem que “os paulistanos ainda preferem Telê”. Evita dizê-las diretamente. indiscrição ou mesmo injúria. Resumindo as considerações feitas. ao pressupor um conteúdo. pois não se coloca como assunto do discurso que vem a seguir. no cinema”. A . com a recusa. aprisiona o [página 100] enunciatário num universo intelectual que ele não escolheu e que. assegura-lhe a necessária redundância. O enunciador pode colocar como conteúdo pressuposto. no dizer de Ducrot. O pressuposto é apresentado “como comum aos dois personagens do diálogo. o conteúdo explicitado. satisfazem às condições de progresso e de coerência do discurso. ao mesmo tempo. porém. os paulistanos queriam Telê. Se o enunciatário recusa o pressuposto. portanto. não pode negar ou dele duvidar. Está sendo colocado em dúvida. 36).

O enunciador obriga o enunciatário a admitir o conteúdo pressuposto. de argumentar enfim. entidade abstrata. Foi dito aqui que. a noção de ato de linguagem permite separá-los. a oposição encontrada entre pressupostos e subentendidos. Antes passar por “destruidora de lares” que por “idiota enganada”. A partir de l976. A distinção entre implícito da frase e implícito da enunciação não garante. já mencionada. os pressupostos (e todos os atos ilocucionais) ligam-se apenas à frase. inclusive de pressuposição. cabendo ao subentendido a função de “implícito da enunciação”. o ato de pressupor mostra-se. sem o que o discurso não prossegue. que precisa ser caracterizada de outra forma. portanto. entidade concreta. um lingüístico e outro retórico. o mesmo não acontece com o subentendido. e com seu sentido efetivo numa dada situação. num primeiro momento. soubesse do caso e não se importasse. e não lhe dá o direito de discutir. Sabendo. de que isso aconteceu ontem e no cinema. assim. Um dos pressupostos. comum às duas é o fato de Pedro ter mulher e filha. no componente retórico.informação nova. preocupa-se com o enunciado. impor a adesão do enunciatário. Deixou. Mariazinha. Ducrot opunha pressupostos a subentendidos. realmente. e que leva o enunciatário a interpretar o discurso da forma que o enunciador pretende. se a pressuposição é um ato ilocucional.[página 101] cer dois componentes semânticos. Nesse quadro teórico.35 Ducrot revê a questão. que resultam da intervenção da enunciação. de reconhe. pois. o emprego retórico da pressuposição não é. Recurso de grande eficácia. que deveria ser. como uma tática argumentativa. Todo ato de pressupor implica presumir e. Essa distinção ligase a proposta. O subentendido é uma opção de organização do discurso. que a amiga ignorava ser o namorado casado e pai de família. no componente retórico. Além disso. a partir de tal conteúdo. No componente lingüístico. que se oferece ao enunciador. independentemente de qualquer determinação contextual. seu único uso persuasivo-argumentativo. forneceu-lhe a informação como algo já conhecido. o conteúdo posto. é a de que ela se encontrou com Pedro e família. A enunciação encarrega-se de transformar a frase em enunciado. porém. o semanticista explica a frase. Pode-se considerar o subentendido como efeito de sentido que surge na interpretação e que resulta do reconhecimento das razões do enunciador em dizer o que disse. de alguma forma. enquanto o subentendido só aparece ligado à enunciação e ao componente retórico. de antemão. ao reconhecer que há atos ilocucionais. Na definição de Ducrot. já pressuposto. Essa definição de subentendido indica que a pressuposição e demais atos . dois tipos de implícitos. O ato de pressupor ocorre tanto no componente lingüístico quanto no retórico. claramente. de ser considerada “faladeira” ou de envergonhar a amiga que pôde fazer como se. portanto. mesmo assim. e assinala sua significação. no componente lingüístico.

A diferença entre a asserção “posta” e a “pressuposta” num discurso está no fato de que. Ducrot (1977) estabelece leis do discurso. ao conhecimento de um grupo. ou seja. Ducrot (1980) retomou o problema da pressuposição em outra perspectiva. subentendemos que o livro não nos agradou. ao menos. a afirmação de que João atualmente não fuma cabe ao enunciador-locutor e a de que João fumava antes. as implicaturas conversacionais37. que não foi ele quem disse. Em “João parou de fumar”. Outra característica entre eles partilhada é a possibilidade de o enunciador escapar da responsabilidade do dizer. à voz do povo. mas que. ou. pois deixamos de cumprir a lei da exaustividade de Ducrot. por razões diversas. A distinção de Ducrot entre os pares enunciador/enunciatário e locutor/alocutário tem várias conseqüências na sua teoria semântica e é um dos pontos mais . Procurou-se enfatizar o caráter manipulador dos implícitos. que não achou bom o livro. a voz do povo. enquanto o enunciador da asserção “pressuposta” é a comunidade lingüística. exemplo apresentado. Ao responder ao autor. embora realizadas por um Único locutor. alterando apenas alguns ângulos da questão. podendo o enunciador afirmar. pois sabe que o enunciatário. que nos pergunta o que achamos de seu livro. também ciente das máximas. cada ato de afirmar deve ser atribuído a um enunciador diferente. em que se misturam locutor e alocutário. ou melhor. não deve dizer. o enunciador pode sempre atribuir o conteúdo pressuposto ao “senso comum”. que regulamentam a interpretação dos subentendidos e mostram o caráter social e lingüístico do seu reconhecimento. segundo a qual o locutor deve dar as informações mais fortes que tiver sobre o tema em questão. sem o dizer. No caso da pressuposição. 87). dizer. O enunciador da asserção “posta” confunde-se com o locutor. Grice [página 102] (1982). comum ao ato de pressupor e aos procedimentos que envolvem os subentendidos. ao saber comum aos dois elementos envolvidos na comunicação.ilocucionais apresentam-se no componente retórico sob a forma de subentendidos36. p. ou a máxima da quantidade de Grice: “Faça com que sua contribuição seja tão informativa quanto requerido (para o propósito corrente da conversação)” (1982. mas o outro quem assim interpretou. Para determinar os subentendidos e construir o sentido do discurso. em qualquer tempo. a fatos conhecidos de todos e pelos quais ninguém responde. A grande astúcia do subentendido é fazer com que o enunciatário diga o que o enunciador pretende dizer. a forma implícita de dizer faz a responsabilidade recair sobre o enunciatário. Mais recentemente. assim irá interpretá-lo. passando a vê-lo como uma asserção. que a introdução é boa. no do subentendido. O conhecimento dessa “regra de cooperação discursiva” permite ao enunciador subentender. em geral de ordem social. Mantém a definição de pressuposição como ato ilocucional. mas nega a existência de um ato de pressupor específico.

sobre a concepção enunciativa do sentido. ou seja. A teoria dos atos de linguagem teve o mérito. Pode ainda o narrador optar pelos mecanismos do subentendido e. Em primeiro lugar. mas como forma de nele agir. observam-se dois fatos. p. portanto. ao interpretar. pode ainda atribuir a cada um deles várias vozes. cada vez mais voltada para os fatos pragmáticos. as da enunciação (1980. Ducrot explica que se trata. sobre a questão. O discurso é. a do narratário que.[página 103] mente polifônico. Volta-se ao problema. graças ao recurso de colocar sua afirmação como um bem comum. afirma o conteúdo subentendido e a do grupo social que garante o pressuposto e o caráter polêmico do discurso38. A polifonia faz reconsiderarem-se as relações entre enunciação e enunciado e. anteriormente examinado. e o ato de afirmar sem ficar como o único responsável pelo que diz. A segunda observação diz respeito à comparação possível de locutor/alocutário com narrador/narratário. no quadro teórico da análise do discurso. das relações entre enunciação e enunciado. essencial. O segundo grupo de procedimentos empregados para a persuasão do enunciatário é o dos atos ilocucionais. como procedimentos de persuasão. Esse enunciador caracteriza-se pela polifonia. O narrador. . incontestável. projetado pela enunciação. entendidos como práticas para atingir certos fins perlocucionais. nesse caso. Valeria a pena conhecer tais mecanismos e compará-los aos implícitos da linguagem. de fazer ouvir a voz de diversos enunciadores que se dirigem a diversos enunciatários e de identificar esses papéis ilocucionais com personagens que podem ser. de obrigar a ver a linguagem não apenas como instrumento de dizer o mundo. Muito embora os trabalhos conhecidos digam respeito a procedimentos lingüísticos. no discurso de um mesmo locutor. acredita-se que quaisquer sistemas de significação empregam procedimentos para a obtenção de mesmos efeitos de sentido. as “vozes discursivas” confirmam a concepção de Ducrot de língua como um instrumento intrinsecamente polêmico e mostram que. A multiplicidade de vozes sugerida para a definição de pressuposição faz parte de um projeto mais amplo do autor. Ao considerar o sentido como representação da enunciação. por exemplo. se combinam pontos de vista diferentes. entre outras. 56). fundamentalmente. além de desembrear sujeitos discursivos diferentes. A enunciação projeta-se numa pluralidade de vozes que realizam diferentes atos ilocucionais.instigantes de sua exposição. realiza. o ato de afirmar e assumir a responsabilidade pela asserção que faz (o posto). As conseqüências daí advindas são muitas e aparecem na nova postura da lingüística. Foi apontado que o narrador assume a palavra em nome de um enunciador pressuposto. pelo menos ao narratário e a ele (pressuposto). três vozes estão sendo atribuídas ao discurso: a do narrador que assevera o conteúdo explícito.

posso atemorizá-lo ou inquietá-lo. os efeitos que os atos ilocucionais “têm sobre as ações. Searle. a partir de Searle. por exemplo. nos discursos pragmáticos. se lhe peço alguma coisa.O ato ilocucional é definido por Ducrot “como um ato jurídico realizado pela fala . Osakabe (1979. o segundo. Os demais atos enquadram-se na classificação apresentada. O exame e a explicação dos atos ilocucionais do sujeito da enunciação e de suas condições de realização. o primeiro. nos não-pragmáticos. dos ouvintes. e não de um efeito prévio” (1977. representados. Um terceiro tipo.. essencialmente pelos resultados da ação discursiva no ouvinte.1 ser descrita como ato ilocucional na medida em que crie uma obrigação para seu autor. assim como da distribuição polifônica de tais atos no discurso. Acrescente-se ainda que o emprego dos atos ilocucionais tem por objetivo atingir certos fins e que decorre daí a inserção da teoria dos atos de linguagem no quadro da manipulação. posso persuadir ou convencer meu interlocutor.[página 104] ca à sua enunciação. 88-9). pelos verbos persuadir e convencer. sem dúvida. se lhe faço uma advertência. A determinação da ilocução permite caracterizar o sujeito da enunciação por seus atos de linguagem. dessa forma. fazê-lo tomar consciência)” (1972.. p. p. como uma qualificação do sujeito da enunciação. Se. 53) destaca o papel dos atos perlocucionais na análise discursiva. Uma promessa só pode [. p. seria o do ato de informar. posso levá-lo a fazer o que solicito. Afirma ainda que um enunciado tem valor ilocucional quando comporta a atribuição de uma certa eficiência jurídi. os pensamentos ou as crenças.. dois grandes grupos de atos perlocucionais. Nesse sentido. . define os atos perlocucionais como as conseqüências. e que essa obrigação decorra diretamente da fala pronunciada. cuja escolha é bastante marcada do ponto de vista sócio-cultural. embora não desenvolva o estudo da perlocução. em geral ligado aos atos de persuadir e convencer. Todo ato ilocucional apresenta-se. condições que a análise discursiva deve preencher. se lhe forneço uma informação. 62). sobretudo ao caracterizar o comportamento dos interlocutores no “agenciamento do discurso”. sustento um argumento. são. etc. posso convencê-lo (esclarecê-lo. Essas considerações levam-no à proposta de “determinar os atos ilocucionários de um discurso somente após a determinação dos atos perlocucionários” (p. pelo verbo impressionar. inspirá-lo. Organiza.

escapando das certezas do cálculo lógico40.56). abafada. isto é. a demonstração se torna um procedimento de argumentação. da argumentação. que se liga à experiência e à dedução lógica e utiliza provas analíticas. entre outros. desde que se leve em conta a adesão dos espíritos. distinguem a demonstração. as ameaças. por exemplo. Definem uma teoria da argumentação como o “estudo das técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses apresentadas à sua aprovação” (1970. como Ducrot. neste trabalho. proposto neste rápido exame das teorias pragmáticas. os juramentos qualificam o enunciador como sujeito operador dos atos de prometer. considerar neste trabalho que as relações entre ilocução e perlocução definem o enunciador e o enunciatário e explicam o sentido do discurso. é o da argumentação. realizado pelo enunciador e. . no entanto. [página 105] O terceiro e último grupo de procedimentos de persuasão. Para melhor localizar a questão. Prefere-se. ao provável. de que se retiraram alguns poucos elementos a serem aqui comentados. ou seja. enfatizam. que emprega provas dialéticas e diz respeito ao verossímil. segundo os autores. 5). a de considerar a argumentação como o ato ilocucional do enunciador39.se sobretudo aos trabalhos de Perelman. no seu tratado de argumentação que tem como subtítulo A nova retórica. se não forem feitas especificações e examinado o espectro de variação da argumentação. dessa forma. constituem também recursos que emprega para persuadir. Pode-se considerá-la como um ato ilocucional. uma espécie de sinônimo de fazer persuasivo ou fazer-crer. ao plausível. para convencer — ou como tipos de atos de persuadir. que se passe do ponto de vista formal ao ponto de vista argumentativo. Remete. que os atos ilocucionais caracterizam a enunciação. por três séculos de cartesianismo. Duas são as saídas possíveis para definir a argumentação. A generalização corre. ou tomá-la como o ato ilocucional por excelência. mesmo reconhecendo a oposição entre demonstração e argumentação. Da mesma forma. por exemplo. Neste caso. uma promessa ou uma ameaça. ameaçar ou jurar. Os autores do tratado. os atos perlocucionais de persuadir ou convencer assumem papel especial entre as perlocuções. pelas razões apontadas. p. Perelman e Olbrechts-Tyteca (1970). que tem por contraparte o fazer interpretativo do enunciatário. em geral ligado ao ato perlocucional de persuadir ou convencer. no decorrer do texto. procuram recuperar a retórica aristotélica. a segunda hipótese. e os vários atos perlocucionais empregam-se como meios para se atingir a persuasão final — chorar ou informar. Se as promessas. o risco de se tornar excessiva e vazia. convencer ou impressionar o enunciatário. prefere-se. os demais atos ilocucionais. que. são recursos utilizados na argumentação e mantêm relação hierárquica com o ato de argumentar. Em lugar de afirmar.

restringindo-se às técnicas utilizadas pela linguagem para persuadir ou convencer e descartando. de influenciar por meio do discurso a intensidade de adesão de um auditório a certas teses. o fato de manterem relações sociais. considerando-as irrelevantes. Toda argumentação visa a adesão dos espíritos. por exemplo. entendido não apenas no sentido restrito de “público do orador. as condições psíquicas e sociais sem as quais a argumentação não teria objetivo ou efeito. não é mais possível negligenciar completamente. pois os mecanismos de argumentação dependem. e. ou melhor. Perelman e Olbrechts-Tyteca instalam também a de contrato. A mudança de auditório leva à alteração de certos elementos da argumentação. o desejo do enunciador de entrar em . desenvolvida no tratado citado como uma nova retórica. porque houve um distanciamento das condições puramente formais da demonstração. A teoria da argumentação. p. 680). nesse caso.“É assim que Werthermer mostrou. por meio de experiências interessantes. Os autores consideram insustentáveis o realismo e o nominalismo lingüístico. em primeiro lugar. Com a noção de auditório. 11) mostram os meios discursivos de se obter a adesão dos espíritos. As variantes não [página 106] são mais equivalentes. reunido na praça”. gira em torno da concepção social da linguagem. em qualquer situação. as provas extratécnicas de Aristóteles. da relação entre o argumentador e seu “público”. Nesse quadro. 649-50). de que todo discurso é dirigido a um auditório. em concepção bastante próxima à de contrato fiduciário. São condições prévias da argumentação e caracterizam o “contato dos espíritos”: a língua comum a enunciador e enunciatário. supõe a existência de um contrato intelectual” (p 18). mas principalmente na concepção alargada de enunciatário41 de qualquer tipo de discurso. Importa esclarecer também que Perelman e Olbrechts-Tyteca (1970. já mencionado. “instrumento de comunicação e de ação sobre o outro” (p. por isso mesmo. nada mais justo que conservem da retórica antiga e desenvolvam como fundamental a uma teoria da argumentação a idéia de auditório. que vêem a linguagem como reflexo do real ou como criação arbitrária de um indivíduo e se esquecem de seu aspecto social. para passar-se ao exame da força persuasiva das provas” (p. que a compreensão de certas demonstrações matemáticas difere segundo a maneira pela qual se apresenta a figura que as ilustra. “Quando se trata de argumentar.

ele aumenta à medida que a linguagem utilizada se afasta da univocidade. O papel principal atribuído às relações entre enunciação e discurso e entre enunciador e enunciatário. Grice. de todos os mecanismos descritos na sintaxe discursiva. complementares.comunicação e. “Essa interação entre orador e discurso seria mesmo a característica da argumentação. pensamos que uma teoria da argumentação não deve nem procurar um método conforme à natureza das coisas. da interação entre sujeito da enunciação e discurso e entre enunciador e enunciatário. em oposição à demonstração. “Combatemos as oposições filosóficas. à medida que o contexto. Justificam-se as citações por situarem bem o quadro de uma teoria da argumentação passível de ser retomada no seio de uma sintaxe discursiva. leva Perelman e Olbrechts-Tyteca a rechaçarem certas posições extremadas na forma de considerar a argumentação. [página 107] pela assunção do discurso por uma instância enunciadora. categóricas e irredutíveis. . Tanto uma concepção como a outra. em resposta. As condições da argumentação dizem respeito à competência do sujeito da enunciação. 426). A argumentação caracteriza-se. essencialmente. agrupa essas condições no seu “princípio de cooperação”. por conseguinte. No caso da dedução formal. o papel do orador é reduzido ao mínimo. ou seja. 676). da realidade que se impõe a todos e dos valores puramente individuais” (p. a atenção e o interesse do enunciatário. separam fundo e forma. da evidência irrecusável e da vontade enganadora. “Quanto a nós. tradicionalmente aceitas. da objetividade universalmente admitida e da subjetividade incomunicável. destinado a um auditório determinado” (p. no texto já citado. fundadas em oposições filosóficas. 672). da ciência e da opinião. desdobrado em enunciador e enunciatário. nem encarar o discurso como uma obra que encontre nela mesma sua estrutura. na teoria da argumentação. esquecem que a argumentação é um todo. As diferentes formas de argumentar resultam. que os absolutismos de toda espécie nos apresentam: dualismos da razão e da imaginação. as intenções e os fins ganham importância” (p.

e. portanto. faz variar a argumentação. mas representações ou construções do sujeito da enunciação. ou ao menos a criar. cada indivíduo tem sua própria concepção de auditório universal e particular e. Na nova retórica tais contratos são especificados como acordos sobre as premissas da argumentação e divididos em acordos com o auditório universal. uma disposição para a ação. “A finalidade de toda argumentação. de verdadeiro. não se faz com rigidez. A argumentação apresentada a um auditório particular procura persuadir o ouvinte a realizar uma ação imediata ou futura. Entende-se.Em lugar das “oposições filosóficas” acima arroladas e bastante difundidas. definidos . a partir das observações feitas. também. embora não se possa esquecer que. a partir dela. 59). variam as concepções de real. é provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses apresentadas à sua aprovação: uma argumentação eficaz é a que consegue aumentar a intensidade de adesão de modo a provocar nos ouvintes a ação pretendida (ação positiva ou abstenção). efeitos de sentido diversificados. Convencer é /fazer-crer/ e persuadir é /fazer-fazer/. do auditório representado pela enunciação e liga-se aos dois tipos de manipulação descritos. em última instân.[página 108] cia. Perelman e Olbrechts-Tyteca propõem a distinção de dois tipos de auditórios. sobre fatos. A argumentação dirigida a um auditório universal procura convencer o enunciatário da evidência das razões apresentadas e de sua independência de contingências locais ou históricas. desenrolando-se essencialmente no plano prático. pois /fazer-crer/ é condição da ação pretendida. 39). pelo próprio sujeito desdobrado em enunciador e enunciatário. o auditório particular e o auditório universal. portanto. A retórica mais eficaz é aquela que emprega apenas provas lógicas (demonstração). e acordos com o auditório particular. verdades e presunções. Concebem-se de modo relativo os fatos e as verdades. A distinção de convencer e persuadir depende. como dissemos. a cognitiva e a pragmática. que se manifestará no momento oportuno” (p. Cada cultura. no curso da história. conforme foi mostrado. o auditório particular é formado apenas pelo interlocutor ao qual o locutor se dirige ou. neles. A universalidade e a particularidade do auditório não são fatos experimentalmente provados. sobre valores. O auditório universal é “constituído pela humanidade toda ou ao menos por todos os homens adultos e normais” (p. posição compartilhada com os autores do tratado. Essa separação. de válido e de evidência. de que resultam. colocados como condições da eficácia do fazer argumentativo. que a argumentação depende de acordos entre enunciador e enunciatário. de mecanismos diferentes de argumentação. cada classe social.

a analogia ou a metáfora. a determinação dos valores e enfatizam a relatividade discursiva do real e do verdadeiro. de Passo Fundo. A semiótica. no nível discursivo. com essa exposição. “presunções” e “valores” como valores. distinguindo melhor mecanismos e efeitos.pela adesão do auditório universal. distinguem-se. No texto de reportagem já utilizado como exemplo. exaustivamente. A semântica discursiva. Prefere. que. também. cria efeitos de realidade que ajudam a persuadir e a convencer. 87. A superposição ou combinação dos argumentos leva em conta a sua força argumentativa. a 290 quilômetros de Porto Alegre. o estabelecimento de acordos sobre os sistemas de valores é condição para o exercício da argumentação e determina critérios de seleção e de apresentação dos dados e. ao investir figurativamente os conteúdos. ressaltar sobretudo as convergências entre teoria da argumentação e semiótica. 24 anos. localização precisa da cidade e relação com o morto — produzem. [página 109] Ambas deslocam para a relação entre enunciador e enunciatário. em grandes linhas. algumas das possibilidades. nos vários níveis do percurso gerativo. Por isso mesmo. para a interação sócio-historicamente definida. gostaríamos de propor outras formas de organização dos procedimentos argumentativos. assim como o interesse em se reverem certas “figuras da linguagem”. uma vez mais. Neste trabalho serão apenas esboçadas. a ilusão de realidade necessária para a . “verdades”. já que a argumentação se caracteriza pela interação constante e sobre vários planos dos elementos esquematizados. tipos de valores. também convencida do caráter relativo da verdade.se reservar o termo argumentação para os meios sintáticos. Nessa revisão superficial. diz Neusa Muller de Souza. Os dados a respeito da mulher — nome próprio. idade. empregam-se os dois tipos de procedimentos: “‘Tudo é inexplicável’. em primeiro lugar. Os esquemas argumentativos propostos mostram a riqueza e a variação dos procedimentos de argumentação. sobre a morte misteriosa de três sargentos. também. esquemas de argumentos. Para ambas. lugar de moradia. Conclui-se. recursos propriamente sintáticos de procedimentos mais especificamente semânticos. viúva do sargento Luiz Élvio” (Veja. pela ancoragem de ator e de espaço. Pretendeu-se. depende dos auditórios e da finalidade da argumentação. e distingue. as formas de manipulação. assim como o alcance de cada recurso. 32). engloba “fatos”. embora enfatizem o caráter arbitrário desse estudo. p. por critérios sintáticos e semânticos. Perelman e Olbrechts-Tyteca estabelecem. do ponto de vista da busca da adesão. que todas as opções feitas pela enunciação na produção do discurso são argumentativas. ainda. 14 jan. mas são os mecanismos sintáticos do discurso que promovem a relação entre enunciador e enunciatário. por exemplo.

em seu lugar. recente) expressiva para a pósmodernidade. Roland Barthes é o adjuvante que dota o sujeito de competência (poder e saber-fazer) para explicar o pós-moderno. O argumento de autoridade. 14 jan. É a mulher quem fala. opõem-se recursos discursivos a recursos narrativos. 33). 87. p. A analise de Greimas (1983) de um prefácio de Dumezil oferece um bom exemplo da posição semiótica frente à argumentação. 410-1).fabricação de efeitos de [página 110] verdade. Seu alcance dependerá do prestígio da autoridade invocada (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA. Esses recursos diferenciamse. 1986. Roland Barthes estabelece uma distinção entre ‘nouveau’ e ‘neuf’ (entre novo e recém-feito. Nela. afirma o advogado carioca Marcelo Cerqueira” (reportagem sobre estupro. Sua fala funciona como um argumento em favor do “mistério” da morte dos sargentos. assim. mas para nada dizer de novo. A exposição sobre a argumentação apresentou problemas e caminhos mais do que propriamente soluções. o de mostrar a necessidade de mudança na legislação. formulado em termos actanciais na sintaxe narrativa. O advogado. Veja. políticos. realiza programa de uso. já que a família deveria conhecer as causas da morte de um de seus membros. A separação dos discursos. deve ser considerado como a convocação de auxiliares do sujeito ou do anti-sujeito — adjuvantes ou oponentes — para que cumpram programas narrativos de uso: atribuam competência ao sujeito ou realizem. 1970. A organização narrativa dos discursos argumentativos é. dessa forma. direção seguida no texto. que utiliza atos e opiniões de uma pessoa ou de um grupo como prova em favor de uma tese. Pode ser ilustrado com as citações dos discursos científicos — “Escrevendo entre 1973 e 74. do ponto de vista da informação. tendo em vista o programa de base do enunciador do texto. Basta pensar-se no argumento de autoridade. por exemplo. 171) — ou com as constantes remissões no discurso jornalístico —“ ‘Isso está gerando um novo tipo de criminalidade’. reconhecida. em argumentativos e narrativos. embora não pensasse nela” (Coelho. dos procedimentos sintáticos de delegação de voz. Nos discursos “argumentativos” — discursos científicos. não pode mais ser efetuada a partir do critério de existência ou não de narratividade subjacente e desloca-se para a instância da semântica discursiva. Muitos dos esquemas argumentativos apresentados no tratado explicam-se narrativamente. citado na reportagem como autoridade em criminalidade. fazeres necessários ao programa de base. p. porém. Em segundo lugar. colocou-se como questão . p. ser revisto em termos de estruturação narrativa de programas narrativos de busca ou de construção do saber ou de procura de adesão e de confiança. [página 111] onde se diferenciam discursos temáticos e discursos figurativos. entre outros — muito do que sempre se considerou como argumentação deve.

com o exame das estruturas textuais. ou seja. 1980. Retoma-se a questão da interpretação. relações entre actantes e atores discursivos e actantes narrativos. para se deixarem transformar em sentido. 56). na perspectiva semiótica. as contribuições da pragmática mudam os objetivos dos estudos lingüísticos e. A teoria da argumentação assenta-se sobre a idéia de reconhecimento. p. a análise do texto empreendida. explica as relações entre enunciação e enunciado — modalização virtualizante do sujeito do enunciado. No dizer de Ducrot [página 112] “a lingüística ajudar (a compreender um discurso). cotejam-se os valores e os procedimentos sintáticos utilizados pelo enunciatário. no nível discursivo. colocadas no seu devido lugar. na medida em que dá às palavras. as frases então. Ducrot (1973) define a argumentação como a tentativa do locutor de levar o interlocutor a transformar suas opiniões. Tais teorias reconhecem os conflitos entre sujeitos. realização de atos de linguagem. Além disso. caracterizada pela comparação do novo e desconhecido ao já sabido ou acreditado.fundamental a dos acordos entre enunciador e enunciatário sobre os valores. recorreu-se a várias teorias pragmáticas e procurou-se retomar seus princípios e métodos na abordagem da instância discursiva. a reconstruir os debates de que o discurso e o lugar” (DUCROT. determinados por sua inserção na sociedade e na história. em resumo. delegação do saber. Na argumentação. o de análise das estruturas especificamente lingüísticas no nível textual. marcados na própria estrutura do enunciado. graças a princípios que reconhece. instauração do tempo e do espaço do discurso e entre enunciador e enunciatário — implicitação de conteúdos. . Essa concepção dos fatos pragmáticos não é suficiente para explicar satisfatoriamente a organização argumentativa do discurso. e essa foi a direção que este trabalho procurou indicar. Para examinar a sintaxe discursiva. significações que obrigam. mas. A adequação cognitiva não se confunde com a adequação à realidade referencial. procedimentos argumentativos — como recursos discursivos para comunicar valores e convencer e persuadir o enunciatário. desde que inscritos na língua. os estudos pragmáticos de superfície apontam para organizações argumentativas imanentes. A sintaxe discursiva. e oferecem pistas para sua explicação. completam.

1970. 52).mas. p. /horizontal vs. garantindo a relação entre mundo e discurso. dois tipos de categorias semânticas. As duas dimensões mantêm. . por definição. nas línguas naturais. a semiótica das línguas naturais e a semiótica do mundo natural (GREIMAS. As figuras sensoriais visuais. apenas os julgados imprescindíveis para a explicação da tematização e da figurativização. O núcleo sêmico marca “sensorialmente” sua relação com o mundo natural e apresenta-se como a porção invariante do semema. frio/. dos semas. constituem o núcleo sêmico ou a figura nuclear do semema e os classemas. sua base classemática. Dessa articulação dos semas decorrem as duas dimensões fundamentais da linguagem: a dimensão abstrata. A relação entre a linguagem e o mundo. Elementos de semântica estrutural É preciso retomar alguns elementos de semântica estrutural. relação de natureza diferente com o mundo natural44. organizados hierarquicamente. como um mínimo sêmico permanente. tornam-se semas exteroceptivos nas línguas naturais. pois as categorias classemáticas formam uma rede capaz de organizar as figuras nucleares e os sememas em classes de /animados/. por exemplo. /doce vs. que se combinam em bases classemáticas. sobre elas. Os semas. semas propriamente ditos. que assim provê seu discurso de coerência semântica e cria efeitos de realidade. as unidades elementares da forma da expressão do mundo natural constituem parte da forma do conteúdo das línguas naturais. ou seja. Distinguem-se. Os semas interoceptivos denominam-se classemas e os exteroceptivos. O semema reúne as duas dimensões fundamentais da linguagem. dos classe.SEMÂNTICA DISCURSIVA A semântica discursiva descreve e explica a conversão dos percursos narrativos em percursos temáticos e seu posterior revestimento figurativo. Já a dimensão abstrata da língua responde pela organização [página 113] abstrata da realidade significante. A disseminação discursiva dos temas e a figurativização são tarefas do sujeito da enunciação. Inverte-se a direção da seta na relação entre língua e mundo. O núcleo sêmico de pé contém. da expressão do mundo. definidas pela projeção. os semas /extremidade/ e /inferioridade/. táteis. da categoria metassêmica articulada em /exteroceptividade/ vs. auditivas. assim como da noção de isotopia. A primeira é a função classificatória. e a figurativa. vertical/. explica-se como uma rede de correlações entre duas semióticas. pela dimensão figurativa. Os classemas. na organização do semema42. como as categorias /quente vs. cumprem duas funções. unidade de manifestação do plano de conteúdo. azedo/. O mundo natural é responsável. /interoceptividade/43. entendido como realidade-significante.

percursos semêmicos diversos. passional. no interior do semema./humanos/ e outras. “Joana fala várias línguas”. excetuado o mínimo invariante nu semema. na passagem do narrativo ao discursivo. A semântica discursiva recupera a oposição entre as duas dimensões da linguagem. sob a forma de temas. portanto. cabendo à figurativização o acréscimo de sentido previsto na conversão. estabelecendo compatibilidades e incompatibilidades entre figuras sêmicas. Para encerrar essa rápida incursão na semântica estrutural. ao mesmo tempo. . mais específicas e mais complexas e “enriquecidas” que as estruturas narrativas e fundamentais. por exemplo. assim definido. unidade de expressão e de conteúdo que manifesta o semema. conciliadas mas não identificadas no semema. Tem-se então a polissememia (e não a polissemia). O lexema. As estruturas discursivas são. Também os semas nucleares. Os valores disseminam-se. define-se por diferentes percursos semêmicos em contextos variados como “Comi língua ensopada no jantar”. graças a essa junção. segundo os contextos. Resta acrescentar que a variação semêmica no interior das unidades lexemáticas não se deve apenas aos classemas. no nível discursivo. A concordância sêmica garantida pelos classemas foi denominada isotopia classemática. semas contextuais e asseguram a coesão sintagmática do discurso. depende essencialmente do contexto e não pode ser determinado de uma vez por todas. o caráter contextual do semema e suas relações com o lexema. O tratamento dos temas é garantia de manutenção semântica. [página 114] Tematização e figurativização Examinaram-se na semântica narrativa (ver esse item) os valores assumidos por um sujeito que. e. sob a forma de percursos. A segunda função diz respeito ao papel que o classema assume. de denominador comum a toda uma classe de contextos. em percursos temáticos e recebem investimento figurativo. alteram-se contextualmente. e como sujeito competente. resta ressaltar que o semema. Um lexema como língua. em contexto. Os classemas são. “A língua portuguesa tem sua origem na língua latina”. O lexema é uma unidade de significação virtual que. que mantêm entre si algum tipo de ligação e que determinam. “Ela tem uma língua que dá medo” e assim por diante. quando da realização do lexema. assume um ou mais sememas. caracterizase por sua relação com muitos sememas. se define como sujeito existente. também.

A tematização assegura a conversão da semântica narrativa em semântica discursiva e poder-se-ia. Tematização é a formulação abstrata dos valores. a serem examinados nos procedimentos de figurativização semântica. Os discursos literários. entre outros (BARROS.nível das estruturas discursivas + específico + complexo (+ “rico”) nível das estruturas narrativas nível das estruturas fundamentais + geral (noção de extenção lógica) + simples (noção de intenção. 1985). por graus de figurativização. a abstrata e a figurativa. denominados figu. por exemplo. diferenciam-se. a conciliação e a diferenciação das duas dimensões da linguagem. Ê possível. e os científicos. pensar em discursos puramente temáticos ou não-figurativos. relacionados.[página 115] rativos. sob a forma de tema sócioeconômico (relação patrão-operário). obter-se mais de um percurso temático. na verdade. considerados não-figurativos. no nível do discurso. em que assumem relevância as leituras temáticas. na instância discursiva. na lógica Temas e figuras. e sua disseminação em percursos. como os discursos científicos. então. porém. Nos discursos temáticos. O exercício da análise textual tem mostrado. de Chico Buarque. tal como se viu ocorrer no semema. que não há discursos não-figurativos e sim discursos de figuração esparsa. sexual (relação homem-mulher) e político (relação entre estado e subversão da ordem). a partir de um mesmo valor. repetem. O objeto-valor do /poder-fazer/ e do /poder-ser/ da dominação ocorre. . no poema infantil A galinha.

constituído por combinações apenas classemáticas e pertencente só à dimensão abstrata da língua. relacionam-se a um tipo particular de semema. todo o percurso do sujeito encontra-se figurativiza. abrigam apenas percursos narrativos e temáticos. O sujeito que busca o saber na instância narrativa. classificar e organizar a realidade significante. coelho curioso ou criança perdida. povo de Deus. representa-se pelos atores pesquisador. da voz e da presença reveladora de Deus ou da fala da coruja. isto é. Nos discursos temáticos. os actantes recebem o investimento semântico mínimo. na da revelação pela palavra divina no trecho bíblico de Moisés e os Dez Mandamentos ou na da visita à Dona Coruja que dá bons conselhos. ou totalmente recoberta de figuras. São investimentos figurativos diferentes para a mesma busca narrativa do saber. da mesma forma que os morfolexemas. para investir os temas discursivos. encontram-se configurações temáticas que se comparam com os morfolexemas de Greimas. na exploração do Tibete em maio e . necessário para se tornarem atores. tornam-se ações de explorar. já marcado como um actante do discurso. ao nível abstrato dos temas. portanto. por exemplo. estabelecendo relações e dependências temáticas. na história da procura de um manuscrito perdido. pela instalação de figuras do conteúdo que se acrescentam. o tempo e o espaço. contar. também eles. têm por objetivo. As configurações temáticas. escrever. o sujeito. A partir daí. explorador. ocorre com investimento figurativo esparso. O sujeito da enunciação emprega certos procedimentos para figurativizar o discurso. Moisés. em lugar de “representar o mundo” ou de causar esse efeito. Os elementos da sintaxe narrativa — ao menos um papel actancial — e da sintaxe discursiva — resultantes da regulamentação da distância em relação à enunciação — especificam-se por meio de um ou mais papéis temáticos. Os discursos temáticos. eu ou ele. Constituem. diferentes. Tais sememas formam um sistema segundo em relação aos demais. uma dimensão segunda. A figurativização constitui um novo investimento semântico. em relação aos discursos figurativos. determinados em relação à enunciação pelos procedimentos de desembreagem.feitas as ressalvas acima. especificam-se sob a forma de figuras espaciais e temporais do tipo de nos tempos atuais. assumindo papel metalingüístico. já aspectualizados.mente classemático. e diversamente interligados. que é determinado como um ele enuncivo pela sintaxe discursiva. graças ao papel temático de pesquisador. metalingüística. converte-se em ator. ou morfemas de Martinet. escutar. em que o objeto-valor /saber/ aparece sob a figura do manuscrito. no caso do discurso científico. ou gramemas de Pottier. Os morfolexemas têm caráter essencial. segundo os discursos. “recobrindo-o”.[página 116] do: os processos. A narrativa da busca do saber. em que se realizam um ou mais percursos temáticos de uma configuração.

entre mundo e discurso.[página 117] tura e a fotografia que produz. determinadas por traços “sensoriais”. outros mais específicos — Moisés. alguns antropônimos. estão às voltas com a divisão. de figuras. de tal forma que um produza e o outro interprete os efeitos de realidade. topônimos e cronônimos mais genéricos — explorador. na floresta encantada. a mediação da enunciação. ou seja. a partir daí. “. O discurso figurativizado resulta da construção do sentido efetuada pelo sujeito da enunciação. definiram-se as figuras nucleares pela exteroceptividade. no tempo bíblico do Antigo Testamento. ou seja. pois são figuras do conteúdo. Denomina-se figuração a instalação pura e simples das figuras semióticas. a passagem do tema à figura.junho de 1951. Na rápida incursão pela semântica estrutural. sobretudo os textos de Floch e Thürlemann. e iconização. procura fazer-crer no caráter icônico delas. povo de Deus. quanto da semântica discursiva. floresta. criança. A questão da relação entre discurso e referente desloca-se para a do contrato entre enunciador e enunciatário. da figurativização. por sua vez. entre pintura abstrata e pintura figurativa. ou seja. de qualquer forma. a verdade do discurso. A relação intersemiótica — mundo e língua — não deve ser entendida como a instauração de laços analógicos entre realidade e discurso ou de confusão entre imagens do mundo e figuras discursivas. que particularizam e concretizam os discursos abstratos. Floch (1982a) mostra que o enunciador tenta fazer o enunciatário achar semelhante ou não ao “mundo real” a pin. que a criação de efeitos de sentido de realidade é um trabalho tanto da sintaxe discursiva (ver item Desembreagem e embreagem actancial e teorias do foco narrativo) — sobretudo na desembreagem de segundo e de terceiro graus —. isto é. por meio. já que. pela conversão de certos elementos da expressão do mundo natural em traços do conteúdo das línguas naturais. graças ao reconhecimento de . principalmente. mais do que outros. O discurso não é a reprodução do real. O procedimento de figurativização discursiva tem a ver com a definição. ou com a iconicidade da fotografia — “cópia-do-real”. Tibete. retomar a discussão da relação entre língua (ou discurso) e realidade. neste texto. Os trabalhos da chamada semiótica do visual. Falar de figuras discursivas é. Mostrou-se já. O enunciador utiliza as figuras do discurso para fazer-crer. O enunciatário. mas a criação de efeitos de realidade. no tempo em que os bichos falavam ou no da fantasia do “Era uma vez. tradicionalmente aceita. colocam bastante bem o problema. pois se instala.. seu revestimento exaustivo com a finalidade de produzir ilusão referencial. para fazer o enunciatário reconhecer “imagens do mundo” e. tempo em que os animais falavam —.. Os exemplos mostram níveis diferentes de especificação. crêverdadeiro (ou falso ou mentiroso ou secreto). aí proposta. maio e junho de 1951. trabalho esse representado sob a forma do percurso gerativo.

a . Os procedimentos de ancoragem histórica — actorial. ou duradouro e espalhar-se pelo discurso todo. 1982. em que um ou mais investimentos figurativos recobrem o discurso inteiro. No filme A vida de Brian. temporal e espacial —. às três horas da tarde. O investimento figurativo pode ser esporádico e não recobrir totalmente os percursos temáticos. a ilusão contrária.” (MARTINET. A mesma definição aplica-se. entre outros. Com o acordo de reconhecimento. em que não se determinam leituras figurativas completas. nesses textos. comumente utilizados para se obter efeito de realidade. p. produzem. entre outros. as isotopias temáticas e sobressaem os efeitos de sentido de enunciação. Da mesma maneira. os textos literários e históricos. que regulamenta o reconhecimento das figuras. ficam restritos ao âmbito da sintaxe discursiva. marcas e efeitos alcançados —‘ que das de realidade. os dois pontos extremos do reconhecimento. icônica. Parecer real ou irreal são ilusões construídas e que dependem de fatores de contextualização. encontram-se. com figurativização que não atinge as dimensões do discurso. O fazer-crer e o crer pressupõem. quando o enunciatário nelas reconhecer “imagens do mundo”.se.. à abstração. Uma pintura será considerada figurativa e uma fotografia. que se organiza em isotopias figurativas. o trecho transcrito de um prefácio de Martinet. um contrato fiduciário de veridicção. quando forem interpretadas como tal. denominados figurativo e abstrato no campo das artes plásticas. “No entanto o ensino de Saussure só frutificou verdadeiramente uma vez enxertado noutros rebentos e os vários movimentos estruturalistas tiveram de eliminar. quando se diz que no dia 5 de agosto. Esses discursos. Reforçam-se. No primeiro caso. conforme foi visto. No quadro da semiótica geral. graças ao contrato de veridicção e a partir dos efeitos de realidade que o enunciador produziu. em detrimento [página 118] dos de realidade. então. Cristo pregou no deserto. assume-se a relatividade cultural da distinção entre figurativo e abstrato nas artes plásticas e define-se a iconicidade como um efeito de sentido resultante do contrato de veridicção. mais das ilusões enunciativas — presença ou ausência de enunciação. os discursos científicos e políticos. X — os grifos são nossos). graças aos recursos de figurativização. embora não desapareçam totalmente. A verdade discursiva decorre. Veja. aplicam-se às diferentes maneiras de figurativizar o discurso. o espectador ri do absurdo. que. criam efeitos de realidade ou de irrealidade e percorrem o caminho que vai da figuração à iconização.. O segundo tipo de procedimento para tornar os discursos figurativos caracteriza. em certas situações. por exemplo.figuras do mundo natural. em sentido contrário.

na figura nuclear. para as relações entre texto e contexto. na projeção de Pra frente Brasil. as bandeiras verde-amarelas sacudidas —. de fato ocorrido e experimentado. As possibilidades de combinação dos dois recursos são muitas e caracterizam momentos e lugares históricos. Os esquemas abaixo mostram melhor a comparação efetuada.[página 119] xema. há um mínimo sêmico invariante. Define-se configuração discursiva como uma espécie de “lexema do discurso”. quando tudo se fez para obter tal efeito. os efeitos de enunciação. provoca risos nervosos da platéia. contextualmente diferentes. sobre a qual se lê “Este é um filme de ficção”. e variação contextual tanto de traços figurativos. na constituição da verdade discursiva. após tantas de perseguição. tortura e morte. por exemplo. A presença (ou a ausência) e a qualificação do enunciador somam-se à ilusão de referente. tem enfatizado. que fazem prever percursos semêmicos. é a do estádio de futebol. Comparando a composição do semema e a relação entre semema e lexema com a organização semântica do discurso. equilibram. que subsume vários percursos figurativos e temáticos. para um mesmo le.se efeitos de sentido de realidade (ou de irrealidade) e de enunciação.negação no discurso de seu caráter de reprodução do real. podem-se explicar mais minuciosamente as configurações e os percursos figurativos e destacar o papel e a importância da figura. quanto de classemas “abstratos”. No semema. A última cena do filme. nos últimos anos. Nos textos em que o investimento figurativo goza de certa autonomia e ocupa as dimensões do discurso. além dos narrativos. logo depois da vitória do Brasil na copa de 70 — a taça erguida. . A literatura. e conta com algumas figuras invariantes.

então. A principal diferença está no fato de que Courtés não considera a variação figurativa. segundo o contexto. Pode-se ilustrar a questão. embora não se tenha retomado totalmente sua organização da configuração discursiva. Formula. está bordando e fura o dedo com a agulha. Tentou-se. com o motivo do dedo furado por objeto pontiagudo. Os motivos da etnoliteratura são bons exemplos de configuração discursiva ‘. muito rapidamente. Na Branca de Neve. ou seja. no quadro acima. antes de ela nascer.núcleo sêmico (invariante) Figura nuclear variação figurativa Lexema classema 1 Base classemática classema 2 classema 3 sema 1 sema 2 sema 3 figura comum Núcleo figurativo Configuração discursiva Variação temático-narrativa percursos temáticos percursos narrativos variação Figurativa (invariante) percurso figurativo 1 percurso figurativo 2 percurso figurativo 3 percurso temático 1 percurso temático 2 percurso temático 3 percurso narrativo 1 percurso narrativo 2 percurso narrativo 3 Courtés (1980a) serviu de inspiração para os esquemas. que ocorre. enfatizando apenas as diferentes possibilidades temáticas e narrativas de uma configuração. mostrar também as mudanças contextuais figurativas. o desejo de ter urna filha branca como a neve que cai e com os lábios vermelhos como o sangue . procurou-se reconhecer percursos figurativos diferentes. num dia de inverno. ao lado da porção permanente de figuras que permitem a identificação da configuração. por exemplo. no conto da Branca de Neve e no da [página 120] Bela Adormecida. a mãe da princesa.

Pode-se perceber. dorme cem anos. fura o dedo num fuso e. a variação na configuração. A configuração discursiva em exame tem figuras que permanecem. e que permitem identificá-la: o dedo furado. que fora banido do reino. por causa da maldição. O instrumento em que a princesa se fere. por outro lado. está sendo utilizado pela fada má. nos dois textos. por causa de uma maldição. a princesa. também. mulher que faz uso do instrumento de trabalho manual. ao completar quinze anos.de seu dedo. o objeto de ponta que serve para bordar. e com seu barulho atrai a princesinha curiosa. temática ou narrativa. O esquema proposto mostra uma análise mais minuciosa da variação contextual no interior da configuração: Configuração discursiva do “dedo furado”: texto da imagem: . a roca. só sendo acordada pelo beijo de um príncipe apaixonado. a “ação entre mulheres” — mulher que fura o dedo. seja figurativa. Na Bela Adormecida. disfarçada de velha. costurar ou tecer.

duro vs. ação de perfurar. branco • temporalidade posterior: previsão do futuro [página 121] . objeto perfurado — parte do corpo N Figura comum Ú ou invariante C L E O F I G U R A T I V O Variação Figurativa Percurso figurativo na Bela Adormecida • espacialidade: espaço fechado e escondido som: ruído da roca • temporalidade anterior: realização de previsão do passado • Traços sensoriais visuais e táteis: da espacialidade (penetração de espaço interior e preenchimento de espaço pela trama do bordado ou do tecido). longo. mole) Percurso figurativo na Branca de Neve • espacialidade: espaço aberto e contato com o exterior • cor: contraste vermelho vs.• Figura de perfuração: instrumento pontiagudo. sujeito perfurador humano. táteis (pontiagudo.

Destinatário-sujeito) na bela privação do objeto de valor “vida” Adormecida (Sujeito vs.texto da imagem: criação na Branca de Neve informação Percursos temáticos na Bela curiosidade e traição Adormecida (que levam à morte) • sacrifício materno de dar a vida • produzir o belo V A R I A Ç Ã O • previsão de acontecimentos ruins T E M Á T I C O N A R Percursos R narrativos A T I V A na Branca de neve doação de competência e de existência modal e semântica (Destinador vs. Anti-sujeito) .

na Bela Adormecida — e de cor e de som — na Branca de Neve. e fechado. dois claramente englobados como “criação”. tem-se o percurso do destinador que dota o destinatário-sujeito de competência — qualidades que têm importância para o fazer futuro do sujeito — e de existência modal — instaura o sujeito. e um terceiro. a variação figurativa ocorre. [página 122] A rápida e incompleta análise de uma configuração pretendeu apenas mostrar como elas se organizam. na geração do sentido. mostra. para o mesmo percurso figurativo de “furar o dedo com a agulha de bordar”. opõem-se o ruído da roca e o silêncio do sono. num dos temas ao menos. e. por meio de oposições espaciais — espaço aberto para o exterior. temáticos e narrativos na configuração do “dedo furado”. em que a fada má desapropria (disjunção transitiva) a princesa do objeto-valor “vida”. estabelecer a relação entre os vários tipos de percurso.se o nascimento. na Branca de Neve. Ressaltou-se que: a) na análise de um determinado discurso. graças tanto a seu fazer persuasivo “sonoro”. O dedo furado concretiza. é virtual e se realiza sob a forma de percursos figurativos. pode-se dizer do ponto de vista narrativo que. é beleza. percursos figurativos e percursos temáticos mantêm relações variadas. o surgimento da vida pela doação do sangue. enfrenta o sujeito. A gota de sangue é vida. a figurativização é a camada mais superficial sob a qual se acham percursos temáticos e narrativos (Cabe.). encontram-se apenas os percursos.Há diferentes percursos figurativos. Assim. (No exemplo da Branca de Neve. quanto à transgressão das regras pela princesa curiosa. Muito resumidamente. na Bela Adormecida. na Branca de Neve. Finalmente. é aviso. de uma mesma configuração. enquanto na Branca de Neve. propuseram-se. Já na análise da Bela Adormecida. sobretudo. um ou mais. da mesma forma que o lexema. que só se deixa apreender quando se relaciona mais de um discurso (A configuração. nesse discurso.). mais tarde. A fada má é o anti-sujeito que. o crime enfim. na Bela Adormecida —. ou seja. A mãe é o destinador. a relação entre b) c) . na Bela Adormecida manifestase a morte ocasionada pelo outro. o destinatário-sujeito. e Branca de Neve. contrastam e combinam-se o vermelho e o branco. na Branca de Neve. temporais — previsão do futuro. de informação antecipada de acontecimentos ruins. e maldição do passado. três percursos temáticos. Já na Bela Adormecida. o tema de desapropriação da vida. encontra-se o momento da falta. o príncipe. dar a vida e produzir o belo.

sobretudo. nos exemplos vistos. Não se examinou a perspectiva contrária. Não é ingênua. de que ao menos duas unidades são precisas para sua determinação. portanto. só se examinam as isotopias classemáticas — a isotopia resulta da redundância de uma mesma categoria classemática ou da . na Bela Adormecida. e pela organização de temas e de figuras. as figurativizações diferentes. historicamente. da beleza e do conhecimento intuitivo. a escolha de figuras de mulher que borda e que se sacrifica. O conceito de isotopia. As figuras são. para concretizar temas de nascimento e morte.[página 123] positivos de figuras. por excelência. denominam-se isotopia. para o mesmo percurso temático de “tirar a vida”. a fada má leva a jovem ao sono ao lhe furar o dedo — há figuras. quando ocupam a dimensão total do discurso. pelas relações do discurso com a enunciação. na perspectiva semântica. assim como o termo.) Os exemplos propostos e o reconhecimento da variação fazem desembocar na questão do papel das figuras na relação entre texto e contexto. o lugar do ideológico no discurso46. Duas limitações aparecem nas colocações iniciais: em primeiro lugar. de um mesmo tema especificar-se em figuras diversas. O depósito forma-se no tempo e no espaço. na Branca de Neve e na Bela Adormecida. Na Branca de Neve. a madrasta faz a princesa dormir com a maçã envenenada — há uma nítida leitura figurativa gustativa —. as figuras recobrem os temas. ou seja. relacionam-se com o ‘‘extradiscursivo’’ e constitui-se ideologicamente. foi proposto por Greimas. a partir de que o sujeito da enunciação especifica e concretiza os temas abstratos e reveste semanticamente a narrativa. com precisão. graças a seu dis. ou seja. Isotopia As estruturas discursivas foram explicadas. marcam já. na última etapa da geração do sentido. As primeiras definições de isotopia. na Semântica estrutural (1966). como instância de produção do discurso. do ponto de vista sintático. por exemplo.percurso figurativo e percurso temático é de um para um. Comparem-se. A enunciação. foi examinada através de suas projeções no enunciado e está sendo retomada como uma espécie de depósito de figuras. e o discurso figurativizado. embora bastante vagas. táteis e sonoras. ou a de espaços abertos e fechados. A reiteração discursiva dos temas e a redundância das figuras. ligadas ao tema da maternidade. Os temas disseminam-se pelo texto em percursos. a noção de recorrência.

Não muito tempo depois. inicialmente proposta. Só podemos fazer essas generalizações pelo reconhecimento da isotopia temática. a cada passo. Na leitura ingênua de um texto qualquer. em geral. informado. o elemento comum temático da busca do saber. Se a disseminação de temas e a dispersão de figuras em percursos correspondem à sintagmatização das configurações. informante. ligados à mesma configuração. A isotopia temática surge da recorrência de unidades semânticas abstratas em um mesmo percurso temático. as definições encontram-se ainda muito presas às questões de coerência interfrásica ou mesmo frásica. a que já se fizeram muitas referências. é função de isotopias temáticas e figurativas ou de uma isotopia temática. permitem que o conceito de isotopia seja reinterpretado no quadro de uma teoria geral do discurso. que fala do desaparecimento da vida. pode ter atores como pesquisador. em que se dissemina o valor /saber/. esse denominador comum. Distinguem-se dois tipos de isotopia. a recorrência de traços abstratos e figurativos propicia abordagens paradigmáticas do sentido do . de uma escultura. que dá forma ao amor. a noção de isotopia conserva a idéia de recorrência de elementos lingüísticos. de um quadro. segundo as unidades semânticas reiteradas: isotopia temática e isotopia figurativa. assim. que pinta a velhice. sobretudo quanto à distinção de níveis de análise e à concepção de percurso gerativo. ações de pesquisa ou de informação. não mais confundida com relações frásicas ou interfrásicas e capaz de mostrar a organização abstrata do discurso. que desenvolvem um ou mais percursos temáticos. por exemplo. a associação de figuras aparentadas atribui ao discurso uma imagem organizada e completa de realidade ou cria a ilusão total do irreal.se. Diz-se de um livro que ele trata de questões de liberdade. A coerência semântica do discurso. para explicar a coerência figurativa do discurso. A redundância de traços figurativos. A isotopia classemática. Assegura-se. Rastier (1976) retoma algumas das observações marginais na Semântica estrutural e estabelece a noção de isotopia figurativa. pela isotopia temática. do seu componente semântico. [página 124] na instância do discurso. essa homogeneidade obtida mesmo às custas de perda de especificidade discursiva. mais precisamente. em segundo lugar. e retomam. a coerência figurativa do discurso. Os desenvolvimentos da teoria semiótica. substitui-se. entre outros. ao menos. redundância que assegura a linha sintagmática do discurso e responde por sua coerência semântica. A isotopia figurativa caracteriza os discursos que se deixam recobrir totalmente por um ou mais percursos figurativos. de um poema.repetição de um ou de vários classemas — e. pelo visto. Assim recuperada. Um discurso. objetos a serem pesquisados ou objetos de informação. procura.

Os conectores diferem dos desencadeadores de isotopias. sonoros.discurso. [página 125] na Branca de Neve e na Bela Adormecida. em grande parte. puderam-se opor. A respeito disso. p. duas observações precisam ser feitas. que não constituem isotopias. a reformulação da maneira de abordar as “figuras de retórica” tem várias conseqüências. na realidade. Considerase que um elemento desencadeia uma isotopia quando não pode ser . às associações próprias do paradigma. os percursos figurativos da configuração de “furar o dedo”. sua organização. A metáfora é. mas como figuras de discurso. fala-se em conexão segundo a polissemia. 220). conforme sejam ligadas por similaridade ou por contigüidade de conteúdos. na verdade. um dos recursos práticos de determinação das isotopias discursivas. que se estendem pelo discurso. Dessa forma. com que mantém laços. As figuras de palavras ou de frases podem ser. então. já que se trata de determinar traços semânticos figurativos e abstratos. consideradas como conectores de isotopias. entre isotopias figurativas. a outro nível de análise. se não há traços compartilhados. Reconhece-se a definição de Jakobson de função poética como “projeção do princípio de equivalência do eixo da seleção sobre o eixo da combinação” (1963. colocados em percursos isotópicos diferentes. muito embora liguem também percursos figurativos parciais. portanto. dos percursos e das configurações virtuais. não têm sintaxe própria — é a sintaxe narrativa que os sustenta — e devem. mesmo realizados em um contexto. portanto. A análise das linhas isotópicas se faz. espaciais e temporais. de organizá-los e de reconhecer seu caráter iterativo. cada qual pressupondo uma isotopia temática. antes de mais nada. São. a relação de similaridade entre figuras que recobrem temas. Os conectores lêem-se nos dois planos isotópicos e fazem a passagem de uma isotopia a outra. vários sememas. pois são lexemas ou sintagmas da instância de manifestação textual que abrigam. Os conectores de isotopias pertencem. A leitura de um texto implica não só a construção. como também a determinação das relações vigentes entre as várias isotopias. as relações metafóricas e metonímicas estabelecem-se. Distinguem-se tipos de conectores de isotopias a partir das relações entre os sememas englobados pelo mesmo lexema: se têm semas comuns. Os percursos figurativos e temáticos. Em primeiro lugar. no item Tematização e figurativização. As relações entre isotopias são denominadas metafóricas ou metonímicas. Em segundo lugar. a partir essencialmente de traços visuais cromáticos. diz-se que a conexão se faz por homonímia. a partir das reiterações semânticas. a mais importante delas sendo a possibilidade de se tomarem metáfora e metonímia não mais como figuras de palavras ou de frases. por exemplo. com métodos e técnicas da semântica estrutural.

curso. Os resíduos de isotopias obrigam. Salvo a grandiloqüência de uma cheia lhe impondo interina outra linguagem. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. corta. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. [página 126] Rios sem discurso Quando um rio corta. interrompidos pela seca e em luta contínua para se refazerem: rios. mas a enfrasada no curso ou no discurso do rio. estancada no poço. e porque assim estanque. água. mas a em fio. e mais: porque assim estancada. Na isotopia da água. até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate. O lexema discurso conecta duas isotopias figurativas. com nenhuma comunica. estanque. C. lê-se a história dos rios do Nordeste. porque cortou-se a sintaxe desse rio. de Melo Neto ‘Rios sem discurso’ (1975. O curso de um rio. Na leitura figurativa da palavra. e muda porque com nenhuma comunica. em água paralítica. não a parada. cheia. o fio de água por que ele discorria. cortado. a da água. a propor-se um novo plano isotópico. a água se quebra em pedaços. em poços de água. Escolheu-se para exemplificar a conexão de isotopias o lexema discurso no poema de J. um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando. poços. estanque no poço dela mesma. Em situação de poço. fio de água. e a da palavra. de um para outro poço. reatar. estancada. (dis)curso. no discurso. muda. não a guardada. encontra-se o fazer discursivo. seca. então frase e frase.integrado a uma dada leitura já reconhecida. seu discurso-rio. assim. água em fios. 23). estancada. um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. chega raramente a se reatar de vez. em frases curtas. (dis)corria. p. o tomar a . no dicionário. muda.

relacionada à leitura temática sócioeconômica e política. comunica. ao discurso. Cada uma das isotopias figurativas prende-se a pelo menos uma isotopia temática: a água recobre o tema da produção da vida. discorrer. C. cortou-se a sintaxe). No último verso do poema. ao fornecerem tais textos uma espécie de “dicionário das metáforas e das metonímias” do autor. Determinaram-se três mudos práticos de descoberta das isotopias. fio) vs. falam do autoritarismo. E sempre. linearidade (do discurso [página 127] e do curso do rio em fio) vs. entre outros. da opressão e da repressão e atribuem papel social ao fazer criador do homem. silêncio (muda). da palavra dicionária) no tempo. confundidos e combinados na poesia. bidimensionalidade (do fio) vs. frase e frase. a palavra emudecida. Além dos dois recursos textuais de reconhecimento de isotopias. isolada. em pedaços. linguagem. circularidade (da água em poço. com nenhuma comunica. O lexema combate desencadeia a isotopia figurativa de luta. outros procedimentos facilitam sua apreensão e exame. As relações que se instauram entre a água-vida e a palavra-criação definem metáforas. às vezes mais em uma que em outra. na verdade. realmente. no mesmo fazer cuidadoso e continuado. as oposições de: continuidade (correr. voz. o conector. o rio cortado. exercícios de explicação das linhas isotópicas do poema. grandiloqüência) vs. estaticidade (paralítica. água estancada. enfrasem. que se reconheça ser indispensável. no reatamento da voz e da vez. A análise das isotopias enfrenta ainda muitas dificuldades. Além de aparecer em ‘Rios sem discurso’. Relê-se o discurso nesse novo plano isotópico que engloba os demais: a água estancada. o . que não impedem. a outra linguagem imposta. a água se quebra. frases curtas. o discurso: discurso. encontra-se em ‘Os remos do amarelo’ ou em ‘O mar e o canavial’. de Meio Neto. tridimensiorialidade (do poço ou da cheia) no espaço. o curso e o discurso interrompidos. O conhecimento de outros textos do autor. descontinuidade (corta-se o discurso-rio. som (voz. sintaxe. caracteriza muitos dos poemas de J. do grupo ou do período. da época. o tema da criação. com muitas dificuldades. em situação dicionária. que introduz um terceiro par de isotopias temáticas e figurativas. Os exemplos propostos não podem ser considerados. e a palavra investe o tema da criação operada pelo homem. num trabalho miúdo e sem parada da natureza. de forças em oposição. pela natureza ou pelo homem. nas duas leituras. A oposição entre a criação do homem e a da natureza. movimento vs. sentença. do grupo contribui para a descoberta das isotopias. a explicação dos procedimentos de coerência semântica. para a construção do sentido do discurso. Pensa-se sobretudo na intertextualidade. Os traços figurativos asseguram. encontra-se um exemplo de elemento desencadeador de isotopia. muda. porém. estancada). discorria. grandiloqüência. por exemplo.palavra para com ela adquirir voz e constituir.

p. Não basta. em três volumes. O ressurgimento da retórica.desencadeador e a relação intertextual. 1967. uma isotopia temática e que se relacionam. em geral. a metonímica. já que as outras possibilidades de relações [página 129] entre isotopias não caracterizam. de estilística e de poética. a estilística e a teoria literária podem fazer avançar a análise semiótica das relações entre percursos semânticos. e as que a retomam e reequacionam. entre si. finalmente. O poema Rios sem discurso’ exemplifica bem esse tipo de pluriisotopia. 43-67) exerceu papel de importância ao utilizar as noções de metáfora e de metonímia para caracterizar diferentes tipos de discurso. já no contexto da semântica. Nesse sentido. uma é mais abrangente e domina as demais. auxiliam bastante na tarefa. 1974).[página 128] cos é preciso explicá-los e relacioná-los uns com os outros e com os planos temáticos e narrativos. e do Grupo µ (DUBOIS. tem muito a ver com a retomada dos estudos sincrônicos e dos problemas semânticos no quadro da lingüística. em geral. um mesmo e único discurso. Se a oposição entre linguagem natural e figurada. Todorov e principalmente o Grupo µ procuram repensar a retórica em termos estruturais. e não apenas de palavra ou de frase. 1977). fundamento da retórica. Para tanto podem-se convocar recursos dos estudos de retórica. critérios que. de diferentes maneiras — todas se relacionam com todas. contribuiu. e assim por diante. Foi. reavaliando e reinterpretando essa rica tradição de trabalho com a linguagem. cada qual. o . em que se estabelecem relações entre diferentes isotopias temáticas. a segunda possibilidade é dada por diferentes isotopias figurativas ligadas a uma mesma isotopia temática. uma única isotopia figurativa relaciona-se a várias isotopias temáticas. Há quatro possibilidades diferentes de pluriisotopia: a primeira e mais freqüente é a de se encontrarem várias isotopias figurativas que pressupõem. sem dúvida. O primeiro tipo de pluriisotopia é o único que Greimas assim denomina. No que concerne à retórica. Todorov (1967. no entanto. Segundo o lingüista. Barthes. A retórica. têm-se à disposição dois tipos de obras. como a reedição parcial de Fontanier (1968) ou o manual. no terceiro tipo. Jakobson (1963. a última possibilidade é a dos discursos temáticos. no romantismo e no simbolismo predomina a linguagem metafórica. de Lausberg (1966. uma das primeiras tentativas de explicação de figuras de discurso. estabelecer-se a existência de diferentes planos isotópi. pois não se acredita mais no grau zero da escritura ou na inocência da linguagem. sobretudo nos discursos pluriisotópicos. as que são ou tratam de retórica clássica. à luz da lingüística geral. como quer Todorov. no realismo. como ocorre sobretudo nos trabalhos de Barthes (1970). para sua morte. na acepção de estudo das figuras. 1968). o campo de preocupações da retórica e as descrições que propôs de um grande número de fatos lingüísticos merecem ser recuperados.

mais comum no texto literário. em ‘Simoa’. o sujeito seria Daniela. uma privação transitiva ou espoliação. na instância da sintaxe discursiva. em geral. o marido de Daniela. os procedimentos de desembreagem impedem que se opte por uma das possibilidades. Nesse conto. ‘O jardim selvagem’. pela identificação do velho com o sobrinho. A ambigüidade sustenta. etc. Nas análises apresentadas da Branca de Neve e da Bela Adormecida. em ‘Túmulo das aves’. [página 130] Coerência textual No último item deste capítulo. procura-se inserir a questão da isotopia semântica no contexto mais amplo da coerência textual. A terceira possibilidade apresenta-se nos motivos etnoliterários que se manifestam. O tema do renascimento. em que uma categoria classemática (humano vs. aos temas da produção da vida e da criação operada pelo homem. em ‘Imboti’. Duas organizações narrativas são possíveis: a do suicídio. pelo milagre. O segundo tipo de pluriisotopia pode ser ilustrado com o conjunto de contos de Léguas da promissão. em textos diferentes. Pode-se pensar também em dois tipos de ambigüidades semióticas: a discursiva. muito doente. que já havia antes matado seu cachorro doente. morre por causa de um tiro de revólver. correlacionados a temas diferenciados. abordada sob a forma de pluriisotopia. animal. sob a forma de percursos figurativos semelhantes. Há aí. relacionadas. Rastier (1971. é figurativizado de formas diversas: pelo corpo que serve de adubo. Quase nada se disse das relações entre percursos narrativos e percursos semânticos discursivos. e a do assassinato. pela lembrança que faz reviver. O último caso previsto.se porque. da passagem da morte à vida. p. a configuração do “dedo furado” abriga os temas de doação de vida. cultural. de produção do belo e de privação de vida. preocupados em determinar o que faz de um texto um . respectivamente. Ilustra-se a ambigüidade narrativa com o conto de Lígia Fagundes Telles. o das relações entre isotopias temáticas. Os estudiosos do texto. duas isotopias figurativas. a da água e a da palavra. corresponde. à chamada isotopia complexa. natural vs. de Adonias Filho. 289) distingue duas espécies de ambigüidades lingüísticas: a lexical (um mesmo lexema pode recobrir vários sememas) e a sintática (uma mesma seqüência de morfemas pode recobrir várias estruturas profundas diferentes). em ‘O pai’. Para produzir o efeito da ambigüidade narrativa.) se manifesta com seus dois termos na seqüência do sintagma. organizações narrativas diferentes devem ser manifestadas por um mesmo arranjo discursivo ou textual. uma privação reflexiva ou renúncia. conforme foi visto. No segundo caso. e a narrativa.

a elipse. a conjunção e a coesão lexical —. Reconhece-se aqui a importância da coesão textual para a coerência do texto. A narratividade e a argumentatividade são. A coerência semântica das isotopias. na perspectiva semiótica. enfaticamente. não bastam. Excetuada a coesão textual. uma unidade específica e não uma soma de frases. destacamos quatro pontos de vista diferentes sobre o assunto: o da coesão textual. os demais aspectos da organização do texto foram bastante desenvolvidos neste trabalho. sozinhos. no capítulo anterior. têm também muito a dizer sobre a questão. fatores de coerência. ambas. . subjacentes ao nível superficial das relações interfrásicas. um tanto vaga. os diferentes fatores de coerência. definidas no momento discursivo da relação entre enunciador e enunciatário. A coesão textual. Em ‘La cohérence textuelle’ (1985). isto é. portanto. As diferentes teorias do texto e do discurso concebem também diversamente a coerência textual. segundo Halliday e Hasan (1976). têm proposto a noção. 1985. que não se distinguem. mas não se aceita considerá-la como sua única ou principal garantia. 277). o das estruturas narrativas. Todo discurso é narrativo e argumentativo. sobre a qual se discorreu no item anterior. As estruturas narrativas pertencem a nível semiótico mais profundo que as argumentativas. o das estruturas argumentativas e o da isotopia semântica. uma teoria geral que englobe “com os mesmos procedimentos metodológicos e a mesma metalinguagem descritiva. dependem de cinco categorias diferentes de procedimentos — a referência. do percurso gerativo do sentido. localizando-se as estruturas narrativas e as argumentativas em etapas diferentes do percurso de produção de sentido. como critério definidor. O fio narrativo e a finalidade discursiva da argumentação costuram o discurso e tornam o texto coerente. apenas referida na apresentação da gramática textual. de coerência. situados em níveis diferentes de descrição e explicação do discurso. E preciso. é o ultimo dos fatores de coerência apresentados. portanto. ao nível mais superficial da análise do texto. isto é. as diferentes concatenações frásicas lineares que. pertence. embora cada procedimento destacado seja condição de aparecimento do texto. na perspectiva deste trabalho. p. Coloca-se fora. discursos argumentativos e discursos narrativos.texto. o das estruturas propriamente textuais. situando-os em níveis diferentes de análise e explicação e indicando as relações complementares que mantêm na construção do sentido” (BARROS. [página 131] Retomaram-se as concepções mais usuais de coerência textual para mostrai que. Afirmou-se. a substituição. A organização discursiva e a narrativa.

12). [página 132] ‘‘Se há disparidades no entendimento de um mesmo conceito.A semiótica pode ser essa teoria geral. como se apontou a propósito da dicotomia inside-outside ou internal-external. 1977. neste capítulo. Nesses dois capítulos. em outros termos: o eu-autor sabe que o eu. será examinada a estrutura narrativa da enunciação. Para a distinção entre enunciador e locutor. Este. durante a Semana da Índia. é o assunto do próximo capítulo. na Universidade de São Paulo. a coerência do texto está na dependência também de suas relações com o contexto sócio-histórico. p. Exemplos analisados dos focos narrativos propostos por Friedman podem ser encontrados em Leite (1985). A peça foi montada pelo Grupo BHÃRATANÃTYA DARPANA e apresentada em abril de 1985. porém. explicaram-se e situaram-se as diferentes condições de coerência previstas: • nível das estruturas narrativas: coerência narrativa • nível das estruturas discursivas: • sintaxe discursiva: coerência argumentativa • semântica discursiva: coerência semântica das isotopias • nível das estruturas textuais: coesão interfrásica. veja-se Ducrot (1980). NOTAS 24 “o eu que escreve sabe que não é exatamente aquele eu que aparece como sujeito gramatical do texto. Sem dúvida alguma. promoção do Curso de Língua e Literatura Sânscritas. Além dos autores citados no decorrer da exposição sobre foco narrativo. Veja-se.narrador é apenas uma sua variante possível. uma sua possível máscara” (BOSI. sobretudo. contribuíram para esta visão geral do assunto os textos de Rossum-Guyon (1970) e Leite (1985). ocorrre a mesma 25 26 27 28 29 30 31 . No capitulo 3. o item Tematização e figurativização do discurso.

. 1983). F. em geral de caráter argumentativo.d. O critério de encadeamento está bem de acordo com a definição de pressuposto. p. o procedimento de aspectualização caracteriza também a espacialização e a actancialização. até o momento. Outra conseqüência é a substituição dos critérios de negação e de interrogação. mas pode ser identificado pelo critério de encadeamento. Esse pressuposto não se conserva na negação “João não continua magro”. o enunciador não quer ou finge não querer que o desenvolvimento do discurso. Os pressupostos “lingüísticos” ou da frase mantêm-se quando a frase é negada ou interrogada: em “João continua gordo”. os de Landowski (1981a. “João continua magro” tem. objetivo e onisciente” (DAL FARRA. 29). Veríssimo (1981. p. por exemplo) pode ser feito. sob pena de recusa de todo o discurso. e aparece nas publicações de Ducrot a partir de 1977. 10) mostra um bom trabalho com a categoria do /saber-ser/. no quadro teórico da semiótica. só a aspectualização do tempo foi examinada. pois. pelo de encadeamento. classicamente utilizados na determinação dos pressupostos. 1978. torna-se. Segundo Greimas & Courtés (s. nunca sobre o pressuposto.32 33 34 35 36 37 situação quanto às diferentes acepções conferidas a iguais termos. 30). vejam-se o trabalho de Pêcheux (1969) e. em certas situações. Já os pressupostos “subentendidos” ou do enunciado só se identificam pelo encadeamento. Para o jogo de imagens. conforme foi apontado. em 1976 e 1977. o pressuposto de que antes João era gordo conserva-se em “João não continua gordo” ou em “João continua gordo?”. para Tomachevski. Veja-se Guimarães (1979) para uma aproximação das propostas de Ducrot e de Grice.. Encadeia-se sempre sobre o posto. p. mas. porque sobre ele nenhum prolongamento discursivo argumentativo (“João não tem força de vontade”. o pressuposto subentendido de que manter-se magro é sinal de força de vontade e João tem força de vontade. na lingüística e na semiótica. O que é subjetivo e onisciente para Friedman. A crônica ‘Brincadeira’ de L. Essa revisão foi iniciada em curso ministrado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. recaia sobre os pressupostos. Assim.

mas a idéia sim (P. Na psicologia. ao mesmo tempo. sem termos provas. A prova seria um tipo particular de argumento. Os bancos vão mal e precisam do apoio do Governo. Paulo. 39 40 41 42 43 44 45 46 Em texto sobre a argumentação no discurso político. 81) apresenta proposta semelhante. aqui rapidamente apresentados. e interoceptor. 15 mar. 1986). 9). Segundo o autor. o receptor ou órgão sensorial excitado por estímulos internos. em que atribui o caráter migratório do motivo sobretudo à sua capacidade de conservar a identidade figurativa e. núcleo sêmico. [página 134] . p. O argumento apenas motiva o interlocutor. exteroceptor é o receptor ou órgão sensorial estimulado por agentes externos ao organismo. Vejam-se Greimas (1970. 49-91) e Blikstein (1983). Osakabe (1979. Para semema. segundo o contexto de emprego. classema e demais elementos da semântica estrutural. Courtés (1980a) tem desenvolvido pesquisas sobre os motivos. lidamos com argumentos. O mundo natural está sendo concebido como sistema de significação. como realidade significante e não como realidade-coisa.38 Exemplificam-se as três vozes do discurso com ‘Governo deixa os bancos à espera de medidas de apoio’ (Folha de S. Para o caráter ideológico das figuras. na vida de todos os dias. que torna necessária a admissão da conclusão. Ducrot (l973) separa prova e argumento. pressuposto: Os bancos esperavam (e esperam) medidas de apoio do Governo. de exercer papéis narrativos e temáticos variados. em que se tem: posto: Governo protelou as medidas de apoio aos bancos. para que aceite a conclusão. veja-se Greimas (1966). p. subentendido: O Governo não dará apoio aos bancos. veja-se Fiorin (1983). [página 133] O termo enunciatário não é de Perelman. o argumento decisivo.

.

com o exame da inserção contextual do texto. pela análise mais acurada da enunciação. Acabou-se acreditando poder obter ali. de explicar com os mesmos princípios as estruturas narrativas e as discursivas e de examinar a enunciação. é possível fazê-lo. sem resvalar para as superposições de teorias contraditórias. se não as soluções. ao menos pistas que permitam avançar em bom caminho48. a análise interna e imanente do texto. mas em discutir o quadro epistemo-metodológico em que. Procuraremos fazer avançar o projeto de explicação dos vínculos que prendem o discurso a suas condições sócio-históricas de produção e de recepção. a do desenvolvimento de uma teoria do discurso capaz de conciliar a análise do texto. ENUNCIAÇÃO: A MANIPULAÇÃO DE VALORES CONSIDERAÇÕES INICIAIS Neste capítulo examinaremos a questão central de nosso trabalho. pois todo trabalho de construção do sentido conduz sempre à posição privilegiada e misteriosa do sujeito da enunciação. já por outros avançada47. nossa contribuição não reside no reconhecimento do caráter indispensável dessa conciliação. Apostamos na teoria semiótica. Conforme foi apontado na Introdução. Conhecer um pouco mais a enunciação foi a forma encontrada de abordar o assunto.III. [página 135] . de forma satisfatória. no momento. considerado como pretexto do contexto — uma abordagem externa. pelos motivos já sobejamente apontados de propiciar. como sistema de regras explicativas de sua organização imanente — uma abordagem interna —.

Reconhecido o caráter discursivo-temático da enunciação e sua manifestação em dois percursos temáticos distintos. 67). como os actantes e os papéis actanciais. O tema da produção é o da ação do homem sobre as coisas. uma espécie de neutralização de dois diferentes percursos temáticos. deve-se. na verdade. o da comunicação. sob os quais são reconhecidos papéis actanciais e actantes narrativos. organizado pelos percursos do destinador-manipulador. temático Da comunicação P. toma-se. do destinatário-sujeito e do destinador-julgador. consideram-se o enunciador e o enunciatário papéis temáticos discursivos. Os papéis temáticos de enunciador e de enunciatário constituem. p. no percurso de produção (quem produz). o da ação do homem sobre os outros homens. certamente. em seguida.d. A duplicidade de percursos temáticos permite. “criadora das relações intersubjetivas.ESTRUTURAS NARRATIVAS E DISCURSIVAS DA ENUNCIAÇÃO Para o exame da enunciação.. da mesma configuração de “enunciação”: o de produção e o de comunicação. e as distinções apontadas entre unidades narrativas. Com esses elementos. temático Da produção . Reservam-se os papéis de enunciador e enunciatário para o percurso temático de comunicação (quem comunica e quem recebe e interpreta a comunicação) e emprega-se o de sujeito da enunciação. transformando-as ou construindo-as. e as estruturas narrativas. considerar a enunciação como a atividade humana por excelência. s. da análise narrativa e discursiva. ao mesmo tempo produção e comunicação. determinar a correlação entre o nível discursivo. fundadoras da sociedade” (GREIMAS & COURTÉS. e os papéis temáticos e figurativos da instância discursiva. sincretismo de enunciador e de enunciatário. Apresenta-se o resultado no quadro abaixo: DestinadorManipulador ENUNCIADOR DestinatárioSujeito ENUNCIATÁRIO SUJEITO DA ENUNCIAÇÃO DestinadorJulgador (ENUNCIADOR)49 Estrutura Narrativa Estrutura Discursiva P. assim desdobrado. essencialmente a concepção de esquema canônico da narratividade.

e as relações ideológicas dos sujeitos com os objetos-valor ou com outros sujeitos podem ser consideradas marcas. a crer e a fazer. [página 136] Tema de comunicação Na primeira leitura proposta. conclui-se que. Foram também destacados. mas a interpretação. na instância discursiva. no interior do discurso. de euforia e relaxamento ou de disforia e tensão. O fazer persuasivo do enunciador realiza-se. dedicados às estruturas sêmio-narrativas e discursivas. Os capítulos 1 e 2. responsável pelos valores em jogo e capaz de levar o destinatário-sujeito. quando se desenvol. para conhecer e explicar tais fazeres e por meio deles apreender a instância da enunciação. ocorre também no discurso-enunciado. três pontos merecem especial referência: a conversão dos valores virtuais em valores ideológicos. deve realizar o fazer interpretativo. no e pelo discurso. o jogo de manipulação entre destinadores e antidestinadores. Arrolam-se aqui esses momentos fortes do enunciador e do enunciatário. O fazer pretendido nem sempre se realiza. manipulado cognitiva e pragmaticamente pelo enunciador. pretenderam mostrar como efetuar essa análise e os motivos por que se deve realizá-la na forma indicada. Se tanto o fazer persuasivo do enunciador quanto o interpretativo do enunciatário se realizam no e pelo discurso. quando investidos nos objetos e assumidos pelo sujeito. conforme foi examinado na análise das estruturas narrativas e discursivas. crer e fazer o que dele se espera. da enunciação. no percurso proposto. Se as primeiras reações do ser vivo ao seu contexto. e. já enfatizados no capítulo anterior. em resposta ao fazer persuasivo do enunciador. no nível das estruturas discursivas que enunciador e enunciatário mais se expõem. Na instância das organizações narrativas. operada pelo enunciatário e que o instaura como sujeito. O enunciatário. ou seja. deve cumprir os papéis de destinatário. No nível das estruturas fundamentais.sujeito. sem dúvida. é. que mostram suas relações com os objetos e com outros sujeitos e que o inserem numa formação social e num sistema de valores. o conflito ideológico. por sua vez. salienta-se a projeção axiologizante da categoria tímico-fórica sobre as primeiras articulações de sentido. precisa-se proceder à análise interna e imanente do texto. os percursos passionais do sujeito.Conforme foi apontado no capítulo 1. a enunciação é manifestada pelo percurso temático de comunicação.[página 137] veu a . como decorrência. os aspectos que mais fortemente marcaram a relação do discurso com a enunciação pressuposta50. e bastante nítidas. que instalam. o esquema narrativo canônico funciona como modelo de previsibilidade e obriga a que se tente preencher as casas vazias. seu enunciatário. em que o enunciador se coloca como destinatário-manipulador.

as marcas são freqüentemente lidas como sinais da presença ou da ausência da enunciação no enunciado (efeitos de enunciação): diferentes perspectivas discursivas. entendida como comunicação. Em segundo lugar. pela forma como faz passar os valores. dos valores que atualiza no discurso e que podem ser apreendidos no componente semântico. a partir. que desembreiam diálogos internos. que empregam esquemas argumentativos distintos. O enunciador determina-se como um tipo específico de manipulador. regulamentação da relação entre enunciação e enunciado e exercício do fazer argumentativo. de enunciatário. segundo a classe de manipulação empregada — sedução. imerso em paixões. dirigidas para a . agrupar os fatos dispersos de enunciação. Efetuada a análise das estruturas narrativas e discursivas. O segundo fato é o de que a leitura da enunciação como comunicação se faz a partir do discurso. reforçando. nos três níveis de descrição: valores virtuais axiológicos. está-se de posse de certas características do enunciador e do enunciatário do discurso. tipos de enunciador e. entre enunciador e enunciatário. Na sintaxe do discurso. conforme o valor modal utilizado para determinar o enunciatário — querer-fazer. no discurso literário. a intencionalidade narrativa e a finalidade argumentativo-discursiva falam do sentido do sentido e impedem qualquer idéia de neutralidade do discurso. Diferenciaram-se. ao contrário. destacando-se dois aspectos da questão. conseqüentemente. a máscara praticamente se revela como tal. Na semântica discursiva. responsável pelas diferentes opções do discurso. como objeto de persuasão. A direção das operações fundamentais. pragmático ou cognitivo. pela distribuição diferenciada de voz e de saber.análise da sintaxe e da semântica discursiva. valores ideológicos do sujeito. que criam diferentes ilusões de enunciação. portanto. O primeiro deles é o caráter manipulador do discurso comunicado. figuras do mundo e temas. o enunciador caracteriza-se pelo exercício do fazer persuasivo. Subdivisões mais afinadas podem ser obtidas com critérios sobretudo da sintaxe do discurso: enunciadores que dizem eu ou ele. provocação ou intimidação — ou de acordo com o fazer pretendido. por meio de analise sêmio-narrativa discursiva do texto. sua concepção direcional-ideológica. como faz crer. a enunciação e as formações ideológicas que a sustentam mostram-se na escolha dos percursos figurativos e temáticos e nas relações metafóricas e metonímicas que unem as várias isotopias. no religioso ou no científico. A enunciação esta sendo concebida. neste item. para fazer-fazer. ou seja. como instância de mediação entre estruturas sêmio-narrativas e discursivas. tentação. ou seja. já no capítulo anterior. em primeiro lugar. dever-fazer. em que estão inscritos o fazer emissivo e [página 138] persuasivo do enunciador e o fazer receptivo e interpretativo do enunciatário. saber e poder-fazer nos discursos tecnológicos —. Pretendeu-se.

além disso. Os programas narrativos de realização. de se colocar corno lugar desse fazer ou como o próprio fazer engendrante. pois o objeto fabricado traz sempre marcas de seu fabricante e de sua fabricação. O objeto é fabricado. portanto. em que o enunciador e o enunciatário. Na receita de cozinha. As escolhas feitas e os efeitos de sentido obtidos decorrem da enunciação. apresenta a ambigüidade fundamental de resultar do fazer [página 139] construtor do sujeito da enunciação e. um objeto é produzido como suporte de valores que o sujeito operador ou algum outro sujeito deseje ou de que necessite. a execução correta das indicações conduz à construção de um objeto. sincretizados no sujeito da enunciação. que “constrói” o sujeito.manipulação do enunciatário. um sujeito que fabrica o objeto-discurso como lugar de investimento de valores. O sujeito da enunciação pode ser considerado um sujeito realizador de programa de construção de objeto. lêem-se como sujeitos produtores do discurso-objeto. se faz por doação. semiótica e semanticamente. que proporcionará ao cozinheiro ou a seus convidados um prazer estético de ordem gustativa (GREIMAS. por exemplo. Nos programas de construção de sujeitos. Tal empreendimento procura satisfazer a uma necessidade do sujeito ou proporcionar.valor cognitivo. São modos diferentes de o sujeito adquirir e manipular valores. através dos objetos. O discurso. p. A competência do sujeito da enunciação assim como sua performance refazem-se. e não pragmático como os objetosvalor gustativos das figuras do pudim ou do bolo. que só lhe interessam como lugares de investimento de valores.lhe prazer. conforme foi apontado no capítulo 1. Tema de produção A enunciação realiza-se também segundo o percurso temático de produção. figurativizado pelo pudim. 1983. a aquisição do objeto-valor. Essa concepção de enunciação tem sido aceita e desenvolvida pela teoria semiótica e pelas diversas pragmáticas. 157-70) ou lhes matará a fome. ao mesmo tempo. ou seja. O sincretismo destaca o fato de o enunciador e o enunciatário compartirem a responsabilidade da construção do sentido do discurso. ao mesmo tempo que a definem. Já nos programas de construção de objetos. Os procedimentos de sintaxe do discurso já analisados permitem reconstruir a competência e a existência modal do sujeito da enunciação. a partir do discurso. por apropriação ou por troca. em parte. O objeto-discurso construído é um objeto. são de duas espécies distintas: programas de construção de sujeitos e programas de construção de objetos. para vir a ser a cobertura de um ou mais valores com os quais o sujeito quer ou deve estar em conjunção. As figuras semânticas do discurso acrescentam novos elementos à caracterização do .

O produtor é o destinador-manipulador responsável pela competência do sujeito da enunciação e origem de seus valo. Propôs-se. Tais valores. papel temático do destinador-julgador. em outros trabalhos (1985. o papel temático do produtor para ocupar a casa discursiva do destinador-manipulador narrativo. A definição dos valores parece depender. o que lhe dá autonomia apenas da ordem do fazer. e o do receptor-interpretante. no fim das contas.sujeito empreendida. A enunciação começa a se mostrar como estrutura de mediação entre o discurso e o contexto. sendo os valores determinados de antemão pelo destinador sócio-histórico.discurso deve suportar e veicular. que lhe atribuem. de maiores informações sobre o destinadormanipulador. O sujeito da enunciação constrói o discurso enquanto delegado do destinador-produtor. Determinar os destinadores do sujeito da enunciação corresponde a inserir o texto no contexto de uma ou mais formações ideológicas. quando examinadas como pontos de intersecção entre texto e contexto. com base no contrato passado entre destinador-produtor e sujeito. os valores para que se constrói o discurso. portanto. Necessária e capaz de recompor a competência modal e a performance do sujeito da enunciação e de fornecer indicações sobre os valores. a análise interna do texto não é suficiente para determinar.[página 140] res. ao deixarem entrever. o sentido. . Em outras palavras. 1987). realmente. ou boa parte delas. de que provêm. os valores que o objeto. com princípios e métodos da Semiótica. para a do destinador-julgador: Estruturas Narrativas Estruturas Discursivas Tema da Produção DestinadorManipulador PRODUTOR DestinatárioSujeito SUJEITO DA ENUNCIAÇÃO DestinadorJulgador RECEPTORINTERPRETANTE A intenção dessa proposta é criar possibilidades de descrever. é provável que o preenchimento das casas vazias no quadro das relações entre estruturas discursivas e narrativas contribua para esclarecer melhor a questão da enunciação produtora do discurso. julga e sanciona o fazer do sujeito da enunciação. como se sabe pelo esquema narrativo. O receptor-interpretante. são comunicados ao sujeito da enunciação por um destinador-manipulador. Deve ser entendido como destinador sócio-histórico (ou psico-sociohistórico). as chamadas condições de produção e de recepção do texto.

Quer se diga que o discurso foi engendrado apenas como veículo de prazer. assim como os percursos temáticos de produtor e de receptor-interpretante. não se deve esquecer. e o prazer estético do texto distinguem-se. cujos valores opõem-se aos dos destinadores. Foi com essa intenção que se propôs o exame do produtor e do receptor-interpretante sócio-históricos. Revê-se o problema do contexto em termos de relações intertextuais. também. A crítica desfavorável ou a boa aceitação de público decorrem das relações conflituosas entre os destina. há.O desdobramento polêmico da narrativa. Na análise da enunciação. manipulação e veiculação desses valores. o discurso é fabricado como decorrência de necessidade /dever-ser/ do receptor ou de seu desejo /querer-ser/ de certos valores. dizem respeito a grupos sócio-historicamente determinados e [página 141] atendem a diferentes necessidades do homem. produtores e interpretantes do discurso. pode-se dizer que os contextos do produtor e do receptor opõem-se por contradição. Ambos. Pretende-se refazer os caminhos narrativos do destinador-manipulador e do destinador-julgador. prevê. em narrativa do fazer do sujeito e em narrativa do fazer do anti-sujeito. uma ou mais formações ideológicas que apagam o caráter categórico da separação entre prazer e comprometimento social e que é preciso determinar. Assim. por detrás dele. nos textos “engajados”. Na perspectiva aqui adotada. interesse econômico e prazer estético. Há. em que os destinadores não entram em conflito e o receptor interpreta o discurso no mesmo quadro de valores de sua produção. o modo como se concebe tal estudo. oriundas da sociedade o prazer estético do texto. No ensinamento de Verón51. o caso mais freqüente dos discursos conservadores. A necessidade. o aparecimento de antidestinadores. porém. Não se trata. . depende de um código cultural implícito. como alguns poderiam supor. segundo a interpretação do destinador. quer se aceite o seu compromisso como meio de transformação do mundo. pelo recurso aos textos que formam o contexto do discurso em questão. mas não recobrem a oposição do social ao individual. e não apenas por contrariedade. e com o objetivo de se constituir em lugar de inscrição. como ocorre com os discursos reformadores. a duplicação de percursos e de programas permite situar e esclarecer os confrontos sociais em que se assentam os discursos. em geral interpretada como precisão e questão econômica. Cabe esclarecer. de analisar o ser ontológico. na “arte pela arte”. Os objetos são construídos com duas finalidades: suprir as carências ou responder aos anseios do receptor. do mesmo modo que a feijoada é preparada para atender à exigência de alimentação ou ao prazer gustativo daqueles a quem será servida.dores. o texto revolucionário provoca ruptura entre condições de produção e de recepção. Carências e anseios são determinados pelo destinador. correlativamente. sempre.

por meio da explicação da instância enunciadora. Recorta-se. Não se tem a pretensão de reconstruir o macrotexto cultural. nesse caso. mesmo sabendo-a necessária. para a abordagem da segunda leitura temática e apontou-se uma saída.Assim entendido. e relacionaram-se os papéis te. dois meios de acesso à instância da enunciação: o primeiro. sua dupla tarefa de mediação.[página 142] máticos de cada percurso aos actantes e papéis narrativos subjacentes. E antes considerado como um texto maior. à análise interna do texto. Ressaltou-se. ou seja. mas se julga imprescindível. para a análise semiótica de um texto qualquer. conforme foi apontado. reconheceu-se que ao menos dois percursos temáticos se abrigam na configuração da enunciação. dessa forma. Os critérios e os motivos empregados para proceder aos recortes e delineamentos serão discutidos no próximo item. a insuficiência da análise interna. graças às suas relações com o texto em exame. a determinação de suas interações contextuais. com base no objeto. e pela definição do sujeito construtor do discurso. que pareceu adequada. no interior do qual cada texto cobra sentido. pela caracterização sóciohistórica do sujeito da enunciação. a partir de elementos externos ao texto em questão. as análises interna e externa do texto. uma totalidade de significação. o de comunicação e o de produção. O sentido do texto depende do sentido do texto-contexto em que se integra. Essa concepção de contexto faz supor. satisfatória. Confirmam-se as expectativas iniciais sobre o lugar de destaque da enunciação na questão das relações entre texto e contexto e espera-se poder conciliar. a partir das relações intertextuais. sobre intertextualidade. A análise de outros . assim. Há. uma Semiótica da cultura que estabeleça os papéis narrativo-discursivos devidos a cada texto no macrotexto da cultura. julgada. o segundo. INTERTEXTUALIDADE Partindo da hipótese de que a enunciação é o conceito-chave para explicação do discurso e de suas relações com as condições sócio-históricas de produção e de recepção. propôs-se examiná-la com base no aparato conceitual e metodológico da Semiótica. em última instância. entre as estruturas sêmio-narrativas e as estruturas discursivas e entre o discurso e o contexto sócio-histórico. a totalidade do texto-contexto. graças aos procedimentos narrativos e discursivos empregados na manipulação.discurso produzido. porém. A enunciação assume. Recorreu-se. pela determinação do enunciador e do enunciatário. para o exame do primeiro tema e de suas ligações com a organização narrativa. a da intertextualidade contextual. o contexto não se confunde com o “mundo das coisas”.

Há sempre o risco de o analista se perder. a história. Esse tipo de contexto caracteriza a situação de enunciação espacial e temporalmente. com textos de crítica. como objeto de uma metalinguagem natural ou científica. sem a qual a análise do texto se revelaria impossível. de alguma forma. Certamente recortes diferentes podem ser obtidos e um mesmo discurso pode ser lido em contextos diversos.”). do ato de produzir. antes ou depois de sua produção.. no tempo e no espaço. Determina o que o enunciador pensa de seu discurso. conclusões e com todos os demais textos que. os pontos de cruzamento de variáveis de textos distintos. Não se fez referência. de tradução. O primeiro. não haver intersecção entre os recortes. dos objetivos da produção. dependendo do texto a que pertença. que se dispõem a explicar a sociedade. portanto. de comentários. assim como as razões que levaram à fabricação do texto — realizar uma tarefa escolar. inadvertidamente. da mesma forma que a frase propicia várias leituras. destinadores do sujeito da enunciação. . às muitas dificuldades de delimitação do contexto a ser examinado. que formam o contexto do discurso em exame. as justificativas teóricas e a necessidade prática de se considerar o contexto na tarefa de construção do sentido do discurso. ser reconhecido pela crítica. três tipos de contexto. até o momento.. em número. para a definição de produtor e de receptor é o de delimitar o contexto. As resultantes de análises contextuais. mas não infinitas. ainda. o sujeito da enunciação. Pode-se exemplificar o contexto situacional com as cartas em que um dado autor fala de sua obra. Diferenciam-se. com proposições de produção textual (“Faça uma redação sobre. pois os [página 143] textos fornecem pistas para sua inserção contextual. ser aprovado no vestibular. no macrotexto da cultura ou na diversidade de teorias e métodos. o produtor e o receptor e. do enunciatário.textos. Destacaram-se. Há uma seleção a ser feita. O primeiro passo. com prefácios. A distinção adotada pela Lingüística entre contexto e situação e entre contexto lingüístico e contexto extralingüístico pode ser útil na análise do discurso. com as entrevistas com escritores. a partir daí. Além disso. muitas vezes contraditórios. a ideologia. neste trabalho. E muito difícil. introduções. foram denominados produtor e receptor-interpretante. no entanto. servindo para localizar. Tomam-no. mostrar altos objetivos patrióticos ou preocupação com o desenvolvimento da ciência e assim por diante. mais imediato e que será chamado contexto situacional. ou melhor. fonte e destino dos valores do discurso. também o texto pode ser inserido em contextos variados. em relação ao texto que contextualizam. portanto. permite alcançar os fatores sócio-históricos constitutivos da enunciação. de alguma forma limitado. é constituído por textos claramente metalingüísticos. porém. com estudos sobre a visão da criança a respeito da redação na escola. cumprir uma obrigação acadêmica.

reconstitui o caráter idioletal do texto. A extensão desse contexto é grande e fronteiras são estabelecidas com critérios diversificados: de tempo. de espaço em “a literatura no Nordeste”. em “o romance da década de 70”. assim concebida. políticas e ideológicas. . determinada por um sistema de relações econômicas. o estatuto de valor. [página 144] A terceira espécie de contexto. interno e externo —. leva. sobretudo na explicação da argumentação e da figurativização. Nas palavras de Singer (1981. muito provavelmente. tratar de produção ou de recepção e outras. de tempo e de espaço em “a literatura brasileira no início do século”. categoria ou camada. um traço imprescindível e. Pode-se ilustrar a noção de contexto interno com as relações mantidas por um conto com os demais de um mesmo livro ou no interior da obra de um único autor. de cultura. determina os elementos ideológicos e lingüísticos que caracterizam o produtor e o sujeito da enunciação. Reconhecida a variação contextual e seus papéis diferenciados na determinação do sentido do discurso. Há. simulam ou atacam outros discursos. A classe social é. organizando-se os demais elementos contextuais em diferentes arranjos necessários mas de composição variável e facultativa. também são fluidos os limites entre contexto interno e contexto externo. Quaisquer que sejam os contextos considerados — situacional. localizar o produtor no tempo ou espaço. faz-se necessário encontrar um denominador comum que permita caracterizar o produtor e o receptor do ponto de vista sócio-histórico e a que venham se acrescentar as demais determinações contextuais.regulamentam as condições de avaliação do discurso. Da mesma forma que é difícil separar idioleto (normas individuais) de socioleto (normas sociais)52. Sem dúvida. de grupo. Essa convicção baseia-se no fato de que a classe social. sejam eles de classe. O segundo tipo de contexto. p. de grupo profissional e muitos outros. de tema. em última instância. chamada contexto externo. o único obrigatório da definição de produtor e de receptor. 17). de época. deve. finalmente. muitas subclassificações devem ser efetuadas: avaliar o texto antes ou depois da produção. finalmente. a inserir os valores resultantes da análise interna ou mesmo contextual do discurso na formação ideológica. Acredita-se que se possa obter esse resultado pela definição da classe social ou da fração. que lhes atribui. pistas seguras nos discursos que repetem. a análise do discurso fornece várias indicações deles. responder pelos valores que produtor e receptor manipulam. ou seja. que será denominado contexto interno. a que pertençam o produtor e o receptor. além disso. Não basta afirmar que um discurso aborda o tema do romantismo ou da liberdade. é preciso saber de que romantismo e de que liberdade se trata e só a especificação sócio-histórica permite dizê-lo.

o que se encontra por detrás dos embates entre partidos e correntes de opinião. Em outros termos. mesmo que preenchêssemos as condições exigidas. parece mais adequada aos propósitos da análise discursiva. políticas e ideológicas. em segundo lugar porque. mesmo aqueles que não as aceitam totalmente. e. Os autores consultados sobre a questão da classe social reportam-se todos às propostas de Marx. em busca de subsídios para a análise do discurso. E. de cuja luta resultam as grandes transformações sociais e econômicas que constituem a própria história do país”. no processo produtivo. por que não o dizer. do entrechocar de ideologias é a oposição entre diferentes classes. ou seja. desenvolvendo-as.“o pressuposto teórico aqui é que as classes são os verdadeiros atores do drama que se desenrola no cenário histórico. cientistas políticos e economistas. Para este trabalho não interessam as concepções economicistas de classe social. poucos. este trabalho não seria o lugar de um debate desse tipo. [página 145] Expõem-se. embora não chegue a formular-lhe uma condição suficiente” (1983. mas suficientes para os objetivos deste trabalho e para esclarecimento da proposta apresentada. mais especificamente. interpretando-as. p. como o resultado do conjunto das estruturas econômicas. Pretende-se apenas recorrer aos sociólogos. no próximo item. aquelas que consideram as classes sociais determinadas apenas pelas relações econômicas. em primeiro lugar por nos faltar competência para assumir posições no terreno do sociólogo. constituem também o seu discurso. determina uma condição necessária para sua inserção numa classe. 291). dos conflitos entre órgãos de representação. DISCURSO E CLASSES SOCIAIS Não se tenciona participar das discussões sobre os vários conceitos de classe social. Com Giannotti. . alguns elementos de uma teoria das classes sociais. por ser essa definição de classe muito pobre para caracterizar o produtor e o receptor do discurso. A definição de classe social proposta por Poulantzas. aceita-se que “a posição de um indivíduo. reconhecem ser impossível realizar um estudo sobre as classes sociais sem recorrer a tal bibliografia. para a constituição do produtor e do receptorinterpretante do sujeito da enunciação.

tornado consciente. e pode pois ser localizada em relação a uma instância particular.líticas e ideológicas. se fundem e se tornam frações ou categorias sociais de outras classes54. 2? — do nível político e 3? — do nível ideológico. a definição de urna classe enquanto tal e a sua conceptualização [página 146] reporta-se ao conjunto dos níveis dos quais ela constitui o efeito” (POULANTZAS. quer ao nível ideológico. as relações de produção dessa classe se refletem no nível político e no ideológico. tudo se passa como se as classes sociais fossem o efeito de um conjunto de estruturas e de suas relações. quando. 82). uma classe é autônoma quando constitui uma força social. muitas são as decorrências dessa definição mais completa. É preciso. pois tal critério não determina a forma de sua participação nas relações de produção. Uma formação social caracteriza-se pela superposição de vários modos de produção. 99) é a consciência de classe. tampouco interessam a este trabalho as concepções apenas políticas ou ideológicas de classe. no caso concreto 1? — do nível econômico. não se sustentam divisões em classes. em que as classes só existem. graças à aquisição da consciência de classe5. mas um conjunto de interesses que . pois as classes se dissolvem. numa dada formação social.. da situação histórica da classe”. p. marcadamente ideológicas. p. No entanto. quer ao nível político. ou as interpretações “sobrepolitizantes” de classe social. no nível político. em que um dos modos de produção domina os demais. tem interesse para a teoria do discurso. que a define. 1971. Singer (1981. de modo semelhante. entendida como “o sentido. Para Poulantzas (1971. Na prática. efetuadas apenas pelo prestígio da ocupação. Igualmente. Uma classe social pode ser identificada quer ao nível econômico. Justiça seja feita. nem mesmo os “economicistas” julgam a renda suficiente para definir a inserção do indivíduo na classe.. ou seja. só uma concepção de classe social em que são consideradas as relações de produção. afirma que “o que caracteriza as classes não é apenas a posição relativa no processo de produção. p. efetivamente. Em outros termos. lembrar ainda um aspecto da questão das classes sociais: o do número e das combinações das classes sociais numa formação social. Realmente.“. 22). 64-5). Segundo Lukács (1960. O modo de presença e as combinações das classes no interior de uma formação social são sempre diferentes e variáveis. isto é. hierarquizados. nestas rápidas observações. como por exemplo não poder caracterizar as classes sociais apenas pelo critério de rendimento. p. mas também as p0.

uma vez mais. cuja determinação permite inscrever o discurso no contexto sócio-histórico de produção e de recepção. embora apresentem certos “efeitos” particulares e constituam. 1971. A definição de classes sociais como “efeitos da estrutura global no domínio das relações sociais” (POULANTZAS. mesmo dominadas. do modo de produção dominante. DISCURSO E IDEOLOGIA Este trabalho está sendo desenvolvido a partir da convicção de que o discurso é sempre ideológico. organizam-se a partir de relações de dominação. As considerações a respeito da condição ideológica do discurso suscitam duas questões. igualmente fundamental. está bastante bem apresentado em O que é ideologia. como falsa consciência. Observe-se. um modelo objetivo e global de organização da vida social”. porém. a outra concepção. força social.define um ‘projeto de classe’. como criação de ilusão ou como ocultamento da realidade social. de ideologia. que. sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e preservam aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar. ou seja. p. de tradição marxista. determinam as [página 147] classes dominadas (classes dominadas do modo de produção dominante ou classes do modo de produção dominado). Ideologia está sendo entendida como visão de mundo. isto é. pelo recurso à intertextualidade. é preciso determinar os “efeitos” de classe. As classes. nas páginas anteriores. o que devem fazer e como devem fazer. conceberam-se. nem formam uma ideologia própria. Ela é. não desenvolvem uma organização política independente. um corpo explicativo (representações) e prático . o produtor e c receptor do sujeito da enunciação como suportes da teia de relações econômicas. o que devem sentir e como devem sentir. 69) vem justificar a proposta deste trabalho de que. políticas e ideológicas. para conhecer a dimensão sócio-histórica do discurso. As classes dominantes. que compõem forças sociais ou que têm consciência de classe ou que são dotadas de um projeto de classe. como pressupostos ou como decorrências delas: a da concepção de ideologia adotada e a das relações entre linguagem e ideologia. de Marilena Chauí: “A ideologia é um conjunto lógico. portanto. o que devem valorizar e como devem valorizar. que a apreensão das relações sociais das estruturas que as definem faz-se por meio de textos. em geral. Com essa intenção. Não se ignora. Este conceito de ideologia.

ou seja. concorrem para um mesmo resultado: a reprodução das relações de produção.d. preceitos) de caráter prescritivo. como por exemplo. Pelo contrário. que se apresentam sob a forma de instituições especializadas como a religião. os Tribunais. segundo o autor. a Administração. a escola. Althusser distingue o aparelho repressivo do Estado. 49). s. para que as idéias da classe dominante se tornem idéias dominantes ou idéias de todas as classes sociais. regulador. e trabalho intelectual. de dominação e de exploração. a Humanidade. Os aparelhos ideológicos asseguram. que tais idéias e explicações racionais e universais sejam difundidas por meio do que Althusser denominou aparelhos ideológicos do Estado. os sindicatos. 113-4). da divisão da sociedade em classes e da luta de classes. Essa concepção de ideologia decorre: da divisão social do trabalho. os meios de comunicação. a Polícia. que as idéias e ilusões da classe dominante se convertam em representações coletivas. devidas a vestígios das antigas classes dominantes e a afrontamentos com as classes dominadas. p. pois.(normas. apesar das contradições. regras. a partir das divisões na esfera da produção. normativo. em universais abstratos. do fenômeno da alienação. a Nação ou o Estado” (1981. realizado pelos que “não sabem pensar”. seu funcionamento unificado. sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes. p. principalmente. que funciona. é preciso que a dominação e a exploração e até mesmo a divisão em classes sejam ocultadas e dissimuladas. eles dependem da ideologia dominante. encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos. cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais. embora o façam cada qual da maneira que lhe é própria. os diferentes partidos políticos. políticas e [página 148] culturais. a Igualdade. que é a ideologia da classe dominante. mais especificamente. A pluralidade dos aparelhos ideológicos não impede. da dominação e da exploração de uma classe sobre as outras. a Liberdade. segundo o qual os homens se acreditam produzidos pelas condições de existência social e não por elas responsáveis. “Nenhuma classe pode duravelmente deter o poder de Estado sem exercer simultaneamente a sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos do Estado” (ALTHUSSER. a reprodução da . a função da ideologia é a de apagar as diferenças como de classes e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social.. para que ela possa servir de instrumento de dominação de classe. dos aparelhos ideológicos do Estado. No entendimento mencionado de ideologia. isto é. Todos os aparelhos ideológicos. a família. sobretudo da separação entre trabalho manual. pela violência e compreende o Governo. o Exército.

da mesma forma que a concepção anterior. o conceito de ideologia como visão de mundo. ou seja. de suas práticas.se. a um sistema de valores que define normas e regras de condutas sociais. pois incorporam elementos da representação dominante. o mesmo nas diferentes concepções de mundo55. assim. p. na língua as modificações processam-se lentamente. de suas condições de existência.qualificação da força de trabalho. 1981. de um saber. aos trabalhos de Gramsci e corresponde. Se o discurso “reflete as mais imperceptíveis alterações da existência social” (BAKHTIN. A acepção de ideologia como visão de mundo tem muitos pontos em comum com a definição que se acaba de apresentar. Filia. Tenciona-se. Emprega-se. A ideologia. determina-se também em relação às classes sociais e suas práticas. porém. de ideologia como ilusão ou como inversão do real. As ideologias não nascem nos aparelhos. é uma prática social determinada por uma formação ideológica e. Em nossa sociedade basta pensar-se no papel assumido pela escola e pela família. . ao mostrar que há vários saberes ligados às diferentes classes. E no seu interior que se medem e se confrontam valores. e reconhecer contradições em cada forma de ver o mundo. e os aparelhos constituem a forma pela qual a ideologia da classe dominante se realiza. tal como foi apresentado. criticandoa e a ela resistindo. de suas lutas. cujos elementos compartilham os mesmos valores. em [página 149] essência. pois cada visão de mundo prende-se a um dado grupo. ao mesmo tempo. 13). Ao aceitar esse conceito de ideologia não se deixa tampouco de reconhecer o papel da ideologia da classe dominante e sua tarefa de ocultamento e dissimulação. A diferença mais marcante entre as duas formas de considerar a ideologia está no fato de que a ideologia como visão de mundo permite relativizar a “verdade”. historicamente. no dizer de Bruni (1980. surgem das classes sociais. mostrar que no sistema da língua se imprimem. assim concebida. mas não se pretende fazer acreditar no caráter neutro da língua em oposição à condição ideológica afirmada do discurso. que a ideologia dominante é tão abrangente que torna as demais organizações do saber fragmentárias e muitas vezes contraditórias. as marcas [página 150] ideológicas do discurso. pensam e agem de modo semelhante. neste trabalho. especialmente na visão dominante. O grau de coerência e abrangência dos sistemas ideológicos não é. Não se pode esquecer. p. 46). Essa definição de discurso está fundamentada na distinção entre língua e discurso. mas com as ressalvas de que se levam em conta o caráter desequilibrado dos diferentes sistemas de representação e as distorções e ilusões produzidas ideologicamente. O discurso. ao contrário. a repetição. lugar de elaboração e de difusão da ideologia56.

46). enfatizado por varias formas de proceder. Não se põe em dúvida a capacidade dos discursos de instalarem. do intertexto. em que se atraem e. porém. toma-se uma única direção. tentam colocar o signo acima da luta de classes e esconder suas contradições internas. que fazem Bakhtin afirmar que em todo signo se confrontam índices de valor contraditório e que. Nesse caso. um dos valores. “o signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes”. que escolhem um dos pólos. internamente. o signo ideológico é sempre um pouco reacionário e tenta. estabilizar o estágio anterior da corrente dialética da evolução social e valorizar a verdade de ontem como sendo válida hoje em dia. O desdobramento polêmico da narrativa. em suma. sobretudo a dominante. não é neutra e sim complexa. os choques sociais.Sabe-se. Donde o caráter refratário e deformador do signo ideológico nos limites da ideologia dominante” (BAKHTIN. Abafam-se os percursos em conflito. o confronto. 1981. capaz de evoluir” (1981. perde-se a ambigüidade da múltipla posição. surgem os discursos. O caráter dialógico de um discurso. pois classes sociais diferentes utilizam um mesmo sistema lingüístico. esta contradição oculta em todo signo ideológico não se mostra à descoberta porque. “Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária. separao de discursos ideológicos autoritários e pode ser tomado como marco . Os vários percursos semêmicos de um lexema explicam-se por essa polivalência da língua. que recuperam a polêmica escondida. caracterizada dessa forma. ao mesmo tempo. que a língua produz discursos ideologicamente opostos. p. Da língua. Para reconstruir a dialética desaparecida. ideológicos. complexa e viva. tornando-o monovalente e “neutro”. os conflitos entre as classes57. o diálogo intertextual. na ideologia dominante estabelecida. deve-se reconhecer que os traços impressos na língua. a pluralidade que lhe [página 151] dá vida e relativiza a verdade. a organização pluriisotópica de temas e de figuras são procedimentos que estabelecem no interior do discurso a dualidade. a luta. A língua. fazem-se necessários os outros textos. pois tem o poder de instalar uma dialética interna. Nas condições habituais da vida social. do contexto. criam em seu interior choques e contradições. a partir de seu uso discursivo. os recursos diversos de desembreagem. 47). Termina mostrando que “é este cruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel. As ideologias. por assim dizer. se rejeitam elementos julgados inconciliáveis. p.

1972. porém. sem contestações. discurso da verdade absoluta. neste trabalho. por esse motivo. A intertextualidade cumpre. a programação textual. Se o texto parece marcar certas preferências e vícios “subjetivo-psicológicos”. se é que existem. construído no percurso gerativo. chamado a se jungir ao do conteúdo. de elemento que tem a possibilidade de se tornar sensível. portanto. como se sabe. Quanto ao plano da expressão. nem era a intenção. 132). lembrar apenas que a textualização é também tarefa do sujeito da enunciação e que. Não se retomam aqui debates históricos sobre a arbitrariedade e a motivação do signo. da instância fundamental ao discurso. Não é. As marcas mais propriamente individuais de produção textual. a escolha lexical. a partir da qual são geradas as estruturas lingüísticas de superfície. Tenciona-se. além daqueles que no seu interior se defrontam. com o plano da expressão e pode ser considerado a instância profunda lingüística. a coesão textual. a explicação de seus procedimentos contribui para a reconstrução da instância enunciadora. opõem-se verdades. na leitura do discurso. a condensação e a expansão textual. Há. pode-se mesmo prescindir de outros textos-contextos. na perspectiva da Semiótica. ou seja. TEXTO E PROBLEMAS DE EXPRESSÃO Conforme foi proposto na Introdução. muito complicado estabelecer o que nele é idioletal e o que é socioletal. então. A contextualização propicia algumas delimitações. apresentado de forma fragmentária. encontram-se no texto e não no discurso. em qualquer ordem sensorial e que. a organização sintática das frases. no texto. torna-se. é bem conhecido seu papel saussuriano de [página 152] suporte do significado. Não se chegou. porém. examinaram-se as várias etapas de descrição e de explicação do percurso gerativo do sentido. Contesta-se o incontestável. ao texto. na relação entre significante e significado.divisor de tipos discursivos. a regra. expressa o conteúdo ausente (DUCROT & TODOROV. mostrar o interesse em se . mas das relações sociais estáveis dos falantes” (BAKHTIN. Pretende-se apenas rever o problema da expressão. O discurso comumente cristaliza-se e faz-se autoritário. níveis diferentes de abordagem do texto e problemas diversos como a linearização. Em alguns poucos casos. porém ainda vagas e incertas. a explicitação do programa do sujeito em detrimento do do anti-sujeito. Esses elementos situam-se em diferentes patamares de análise lingüística do texto. devido aos recortes impostos à intertextualidade. Observe-se que “a língua não é o reflexo das hesitações subjetivo-psicológicas. O texto resulta da junção do plano do conteúdo. 1981). p. o papel de tentar refazer a complexidade e as contradições dos conflitos sociais. por conseguinte.

os efeitos do permanecer. nasalidade. Essa categoria relaciona-se. que assumem relações de caráter semi-simbólico58 com o plano do conteúdo. em que as rela. ou seja. criar a ilusão de realidade. graças aos traços espaciais de circularidade (“volta”. no poema de Drummond. A correlação proposta entre a categoria da expressão e a do conteúdo cria o sistema semi-simbólico. Há uma linha de leitura da expressão obtida pela reiteração (treze vezes) do traço de nasalidade: muda. no plano da expressão. no sentido atribuído à relação comumente vigente entre expressão e conteúdo. Sem dúvida. Nas organizações semisimbólicas. um novo saber sobre o mundo. As organizações secundárias correspondem. no. em. O traço de ressonância nasal opõe-se à oralidade na constituição da categoria oralidade vs. assim. conforme foi explicado. à categoria abstrata de conteúdo articulada em mudança/transformação vs. investido pelas figuras visuais de conteúdo. além de cumprir o encargo acima apontado de expressar o conteúdo. p. Extrapola-se o nome e fala-se em figuras da expressão. de seguir adiante (“trajeto”). esse percurso temático realiza-se também no discurso. como elas. ressonante. cabe à expressão concretizar sensorialmente as abstrações temáticas do conteúdo. o plano da expressão compõe também organizações secundárias da expressão. por exemplo. na. em geral traços ou conjuntos de traços. no texto de Drummond. “dança”). alcança. uma categoria da expressão que subsume a articulação de contrários correlaciona-se a uma categoria do conteúdo. concretiza sonoramente o tema abstrato da mudança. e aprende-se. procuram. As figuras semânticas do discurso. mesmo no movimento da mudança. nunca. se tudo em volta é uma dança no trajeto da esperança junto ao que nunca se alcança? (ANDRADE. A repetição nasal. que a ressonância nasal expressa conservação e “sentem-se”. do ficar igual. dança. uma. essencialmente. 1984. que se manifestam sob a forma de unidades reiteradas da expressão. em oposição aos de reta.explicarem as organizações da expressão na tarefa de construção do sentido. junto. instaurando. esperança. Nega-se o já sabido. investem e “concretizam” percursos temáticos abstratos. qual seja o da conservação dentro da transformação. às configurações e percursos figurativos do conteúdo. 73). secundárias. manutenção/conservação. Pode-se dizer que . Em outros termos. Pensa-se especificamente nos textos em que. sonoramente. o já conhecido.[página 153] ções entre os dois planos não são convencionais. mudança. Tomem-se como exemplo os versos de Drummond em ‘Mudança’: O que muda na mudança.

repensam ou refazem a realidade. as relações entre elas. estudos de Semiótica do visual que fundamentaram as considerações feitas sobre os sistemas semi-simbólicos secundários da expressão59. Na semântica do discurso. e assumem o papel de estabelecer um outro ponto de vista sobre o mundo. Os efeitos de sentido de realidade resultam. como os procedimentos semânticos de figurativização. porém.também as figuras da expressão concorrem para a referencialização textual. no quadrinho. de forma original. pelos motivos já mencionados. na escultura. Ambas são figuras do texto. “elocução”. portanto. descobrem-se no texto as imagens do mundo. de diferentes procedimentos discursivos e textuais de investimento figurativo de conteúdos abstratos. . assim. podem ser denominados poéticos e ocorrem predominantemente nos textos literários e também na pintura. Com base nessas observações. as rimas. e de mostrar uma outra verdade das coisas. “narrada”. C. sobretudo. ao contrário do que ocorre na figurativização da expressão. devem-se rever as figuras de expressão e aproximá-las das figuras de conteúdo. Só por meio das relações metafóricas e metonímicas instaladas entre duas ou mais linhas isotópicas obtêm-se efeitos de novo saber sobre as coisas e. os anagramas não podem ser pensados apenas como recursos de expressão que reforçam ou enfatizam certos conteúdos ou que criam efeitos de literariedade. pode-se falar de originalidade ou de criatividade. de J. em lugar de reconhecer imagens já vistas. As três isotopias figurativas de ‘O mar e o canavial’. as organizações da expressão recobrem. “cordel”. como a contradição entre a veemência e a mesmice do mar e entre o desmedido e o comedido do canavial. lido e sabido. Os sistemas semi-simbólicos. e não de palavras ou de frases. a expressar conteúdos. Consideradas sistemas semisimbólicos. a partir de novas perspectivas. categorias de conteúdo e. em todos os textos enfim que buscam produzir os efeitos descritos. Nesse caso.[página 154] rente. chamando a atenção para o texto e não para o refe. efeitos apenas de reconhecimento do mundo tal qual o lê o senso comum. 9) — a do mar. Foram. como foi apontado. antes de tudo. na verdade. a partir dessa relação. os efeitos de verdade decorrentes da cobertura figurativa são. As figuras de expressão combinam-se e confundem-se com as metáforas e as metonímias discursivas na tarefa de produzirem uma nova leitura do mundo. mas cumpre. ou seja. primeiro encargo do plano dos significantes. a do canavial e a da criação poética (“verso”. fazem conceber poesia. o papel essencial de fabricar o mundo.) — e. de Meio Neto (1975. no desenho. A organização secundária da expressão não se restringe. não se limita tampouco a criar efeitos de realidade. em geral. etc. p. aprendese a ler o mundo de outro modo. As aliterações.

de forma fragmentária e sem recorrer aos procedimentos lingüísticos de citação. manipulado. no dizer de Poulantzas. nosso ensaio de 1983. nunca nele explicitada. então. têm força social. pois se acredita ter mostrado que essa concepção de enunciação fundamenta todo o trabalho. nada impede. por exemplo. em que propõe três interpretantes do discurso: do código (leitura paradigmática taxionômica). o aparecimento discurso do percurso da sanção. nesse caso. Lukács. 48 49 50 51 52 53 54 . com sua leitura historicista de classe e da consciência de classe. O destinador-julgador é. do contexto (leitura sintagmática) e ideológico (leitura intertextual). Anotações decurso ministrado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Retoma-se aqui. com as propagandas em que o sujeito que comprou o produto anunciado e recompensado com uma bela mulher ou com muito dinheiro. que lhe julgaria o fazer. nem o percurso completo do sujeito. Isso acontece.NOTAS 47 “Veja-se sobretudo o ensaio de Lopes (1978). a burocracia de Estado. se torna sujeito capacitado para o fazer ou sujeito que crê. as categorias sociais BIBLIOGRAFIA são estabelecidas principalmente em relação ao nível político e ao ideológico como. nem a sanção final. pertenceria à tendência “sobrepolitizante”. em Paris. não ocorrendo. porem. muitas vezes. o narrador. p. Não se insistiu mais no fato de que a enunciação está sempre pressuposta no discurso. Em geral o esquema narrativo da enunciação interrompe-se no momento em que o destinatário. como as classes. Se essa e a situação mais freqüente. como acontece. norma social e norma individual. [página 155] As frações de classe. no ano escolar de 1976-1977. ‘Problemas de enunciação’ (1987). investido pelo mesmo ator enunciador ou por seu delegado no discurso. 13-85). no sentido que lhes atribui Coseriu (1979. por exemplo. Empregam-se norma. as camadas sociais indicam efeitos secundários da combinação dos modos de produção numa for maçã social (POULANTZAS. no discurso publicitário. 1971).

130-63). veja-se Hjelmslev (1968) Vejam-se os trabalhos de Floch (1978. Também a dissertação de Tatit (1982). Vejam-se os trabalhos de Bakhtin sobre a condição dialógica ou carnavalesco de certos discursos. de 1986. Thürlemann (1982) e o nosso. sobretudo suas análises de Dostoievski (1970) e de Rabelais (1974) Para a distinção entre linguagens e sistemas simbólicos. sobre a canção popular. 1981). nem cabe aqui discutir as mediações e as relações entre o econômico e o ideológico. os discursos. Veja-se. determinam. Fiorin (1983). vejam-se Bruni (1980) e Fiorin (1983. trata da organização poética da expressão. p. a respeito. por sua vez. determinadas de forma complexa e indireta pela base econômica.55 56 57 58 59 Para a questão do “saber dos dominados”. Não se trata de estabelecer uma determinação direta do nível econômico sobre o discurso. É suficiente reconhecer que as formações ideológicas. [página 156] .

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106-12 . 42 destinatário 36-40. 42 sintático 35-6 sujeito 29-31. 135 Ancoragem 119 actorial 119 espacial 119 temporal 119 Aparência (vs. 42 Actorial (ancoragem) 119 Actorialização 80-1 Aflição (paixão de) 64-5 Ambigüidade 130 discursiva 130 narrativa 130 Análise externa 5-6. manipulação) 37 Actancial (embreagem) 77 (desembreagem) 74-7 (papel) 35-6 Actante 29-31 destinador 36-40.ÍNDICE ANALÍTICO A Abstrato (vs. 14. 86 funcional 35-6. 14. 42 narrativo 80-1. 42 discursivo 80-1. figurativo) 113-24 Ação (vs. imanência) 14-5. 56 Apropriação 33-4 Aquisição (programa de) 32-4 transitiva (ou doação) 33-4 reflexiva (ou apropriação) 33-4 Argumentação 98. 135 interna 5-6. 86 objeto 29-31.

43. 52-3 Auditório 107-9 particular 108-9 universal 108-9 Axiologia 45-6. 104-6 performativo 97 Ator 80-1. 45-6 B Base (programa de) 33 Base classemática 114 Benevolência (paixão de) 66-7 C Categoria da comunicação ou da factividade 42 da pessoa 74-5 da tensividade 25-7 da transitividade 29. 49 Axiologização 24-5. 104-6 locucional 97 perlocucional 97.Argumentativo(a) (discurso) 111-2. 42 descritiva 25 fórica 26-7 semântica 24 . 116-7 Atualização 27-8. 131-2 Aspecto 91 contínuo 91 descontínuo 91 durativo 91 incoativo 91 pontual 91 terminativo 91 Aspectualização 91 Ato de linguagem 97-8 ilocucional 97. 131 (estrutura) 106-12. 30.

tímica 24-7 Classema 113-4 Classemático(a) (base) 1 14 (isotopia) 114. 102 retórico 97. 142-6 externo 145 interno 144 . 102 Comunicação 42. 139 de simulacros 64 de sujeitos 35. 124 Coerência 131-2 semântica 124-31 textual 131-2 Coesão textual 131-2 Cognitivo(a) (dimensão) 41 (lazer ou performance) 56-8 (sanção) 39-41 Competência 34-7 modal 37 semântica 37 Complementar (termo) 21-2 Complementaridade 21-2 Complexo(a) (isotopia) 130 (termo) 22 Componente lingüístico 97. 136-9 Condições de produção 3. 140-5 de recepção 140-5 Conector de isotopia 126-8 Confiança (paixão de) 64-5 Configuração 119-23 discursiva 119-23 figurativa 119-23 passional ou patêmica 61 temática 116 Conjunção 30 Construção de objetos 35. 139 Contexto 117-9.

42 — julgador 39-40 — manipulador 36-9 (percurso do) 36-40 Destinatário 36-40.situacional 144 Continuidade 91 Contradição 21-2 Contraditório (termo) 21-2 Contrariedade 21-2 Contrário (termo) 21-2 Contrato de veridicção 93-5. 117-8 fiduciário 37 Convencer (vs. persuadir) 109 Conversacional (máxima) 98. 128 Destinador 36-40. 50 (valor) 46-7 Desembreagem 74-7 actancial 74-7 enunciativa 74-5 enunciva 74-5 espacial 88-92 interna ou de 2º grau 75-6 temporal 88-92 Desencadeador de isotopia 126. 102-3 (pragmática) 98 Conversão 27-8. 45-9 D Decepção (paixão de) 64-5 Descontinuidade 91 Descritivo(a) (categoria) 25 (enunciado) 32. 42 Dever — fazer 51-3 — ser 58-9 Dimensão abstrata 113-4 .

82. 102-3 narrativo 111-2. 137-9 .cognitiva 41 figurativa 113-4 pragmática 41 Discursivo(a) (ambigüidade) 130 (configuração) 119-23 (estrutura) 15-6 (semântica) 15-6. 117-9 Elementar (enunciado) 29-31 (estrutura) 20-3 (sintagma) 31-5 Embreagem actancial 77 espacial 89 temporal 89 Endotáxica (modalidade) 52-3 Enunciação 3-6. 81-5. 94. 81-5. 117-9. 138 verdade 56. 118-9 — enunciada 74-5 pressuposta 74-5. 84-5. 131 (figuras do) 1 29 (leis do) 97. 113-32 (semiótica) 15-6. 117-9 sentido 76-7. 76-7. 73-112 Discurso 2-4. 118-9 referente ou realidade 76-7. 72-7. 136-44 (efeitos de) 76-7. 72-3 argumentativo 111-2. 72-132 (sintaxe) 15-6. 131 temático 115-6 Disforia 24-6 Disjunção 30 Doação 33-4 Duratividade 91 E Efeito de enunciação 76-7. 123-4.

103. 139-42 Enunciado descritivo 32 de estado 29-30 de fazer 29-30 elementar 29-31 modal 32 vs. 136-9 Enunciatário 75. 92-5. embreagem) 74-7 Espacial (ancoragem) 119 (localização) 88-9 (programação) 88-9 Espacialização 88-92 Espaço 88-92 heterotópico 92 objetivo 88 paratópico 92 subjetivo 88 tópico 92 utópico 92 Espera (paixão de) 63-4 fiduciária 63-4 relaxada 64 simples 63 tensa 64 Esperança (paixão de) 64-5 Espoliação 33-4 Esquema narrativo canônico 41-3 Estratégia narrativa 43 4 Estrutura argumentativa 106-12. Hl 2 discursiva 15-6 elementar 20-3 fundamental 15-6 narrativa 15-6 patêmica ou passional 61 textual 15-20 Estrutural (semântica) 113-4 . embreagem) 74-7 Enuncivo (desembreagem.(projeções da) 73-7 (sujeito da) 136. 136-9 Enunciativo (desembreagem. 92-5. frase 102 Enunciador 75.

56 pragmático 41 (modalidade do) 49-55 Fiduciário(a) (contrato) 37 (espera) 63-4 Figura 115-24. 62 semiótica 30. 129 da expressão 153-5 do discurso 129 nuclear 114 Figuração 117 Figurativização 115-24 Figurativo(a) (discurso) 116-9 (dimensão) 113-5 . 62 veridictória 59 Exotáxica (modalidade) 52-3 Expressão (figuras da) 153-5 (organização secundária da) 153-5 (plano da) 152-5 Externo(a) (análise) 5-6. 56-9 persuasivo 38. 50-1 Falsidade 55-6.Euforia 24-6 Existência modal 59-62 semântica 46. 46. 93-5 Falta 65-6 (liquidação da) 65-6 Fazer cognitivo 56-8 (enunciado de) 29-30 interpretativo 39-41. 135 (contexto) 145 Exteroceptividade 113-4 F Factitividade 42.

148-52 .(isotopia) 124-5 (núcleo) 120-1 (percurso) 119-23 (variação) 120-1 Foco narrativo 78-88 Foria26-7 Fórica (categoria) 26-7 Frase (vs. 20-8 narrativa 15-6 semiótica 15-6 H Heterotópico (espaço) 92 I Iconização 117 Ideologia 49. 20-8 (semântica) 24-7 (sintaxe) 20-4 G Gerativo (percurso) 15-20 Gramática discursiva 15-6 fundamental 15-6. enunciado) 102 Função 29 conjunção 30 disjunção 30 junção 29-30 transformação 29-30 Funcional (actante) 35-6. 42 Fundamental (estrutura) 15-6 (gramática) 15-6.

56-9 Intertextual (relação) 142 Intertextualidade 128. 104-6 (pragmática) 97-8 Imanência (vs.Ilocução 97. 124 complexa 130 (conector de) 126-8 (desencadeador de) 126-8 figurativa 124-5 pluriisotopia 129 temática 118-9. 14. 44-5 Interlocutário 75-6 Interlocutor 75-6 Interno(a) (análise) 5-6. 104-6 Ilocucional (ato) 97. 135 (contexto) 144 Interoceptividade 113-4 Interpretação 39-41. 99-104 Incoatividade 92 Insatisfação (paixão de) 64-5 Insegurança (paixão de) 64-5 Intencionalidade 27. 142-5 intimidação 38 Isotopia 124-30 classemática 114. 125 J Junção 29-30 conjunção 30 disjunção 30 L . 56-9 Interpretativo (fazer) 39-41. 56 Implícito 96. aparência) 14-5.

103 informatividade 97 litotes 97 Lexema 114.Leis do discurso 97. 119 Lingüístico (componente) 97. 102-3 exaustividade 97. 50 (existência) 59. 55-60 exotáxica ou extrínseca 52-3 . 62 (valor) 46-7 Modalidade 47-60 atualizante 52-3 dever 51-3. 103 da relação 98 do modo 98 Mentira 55-6 Modal (categoria) 47-9 (competência) 37 (enunciado) 32. 102 (nível) 15 Liquidação da falta 65-6 Localização espácio-temporal 88-9 Locução 97 Locucional 97 Locutor 103 M Malevolência (paixão de) 66-7 Manifestação 14-5. 56 Manipulação 36-9 intimidação 38 provocação 38 sedução 38 tentação 38 Manipulador (destinador) 36-9 Máxima conversacional 98. 58-9 endotáxica ou intrínseca 52-3 existencial ou do ser 49. 102-3 da qualidade 98 da quantidade 98.

58-9 querer 51-3. 58-9 ser-fazer 51-5 ser-ser 55-8 tensiva 25-7 veridictória 55-8 virtualizante 52-3 Morfolexema 116 Morfológico (ou taxionômico) (sub-componente) 20-2 Motivo 120 N Narrador 75-7. 122 (programa) 31-5 (semântica) 45-69 (sintaxe) 28-45 (variação) 120-2 Neutro (termo) 22 Nuclear (figura) 114 Núcleo figurativo 120-1 sêmico 114 .factitiva ou fazer-fazer 50-1 fazer-ser 58-60 intencional ou do fazer 49-55 poder 51-4. 86 8 Narratário 75-7 Narrativo(a) (ambigüidade) 1 10 (discurso) 111 2. 80 1. 131 (esquema) 41-3 (estratégia) 43-4 (estrutura) 15-6 (foco) 78-88 (percurso) 35-41. 58-9 realizante 52-3 saber 51-3.

91 Operacional (ou sintático) (subcomponente) 20.O Objetividade de discurso 75 de tempo e de espaço 88 Objetivo(a) (discurso) 75 (espaço) 88 (tempo) 88 (valor) 46 Objeto (actante) 29-31. 68 vingança 66-7 Papel . 22 P Paixão 60-9 aflição 64-5 benevolência 66-7 complexa 62-9 confiança 64-5 decepção 64-5 de ausência 66 de benquerença 67 de falta 66 de malquerença 67 espera 63-4 esperança 64-5 insatisfação 64-5 insegurança 64-5 malevolência 66-7 revolta 66-7 resignação 65-6 satisfação 64-5 simples ou de objeto 62-3. 45 Observador 86-8. 42 (construção de) 35. 139 objeto-valor 31.

actancial 35-6 temático 116 Paratópico (espaço) 92 Passional ou patêmica (configuração) 61 Percurso do destinador-manipulador 36-9 do destinador-julgador 39-40 do sujeito 36 figurativo 119-23. convencer) 109 Persuasão 38. 104-6 Perlocucional (ato) 97. 56 Persuasivo (fazer) 38-56 Pessoa (categoria da) 74-5 Pluriisotopia 129-30 Poder 51-4. 104-6 Persuadir (vs. 122 temático 116. 125 gerativo 15-20 narrativo 35-41. 58-9 Poético (sistema semi-simbólico) 155 Polifonia 103-4 Polissememia 114 Ponto de vista 78-88 Pontual (aspecto) 91 Pontualidade 91 Posto 100 Pragmática 95-9 conversacional 98 ilocucional 97-8 Pragmático(a) (dimensão) 41 (fato) 95-106 (fazer) 41 (sanção) 39-41 Pressuposição 99-104 Pressuposto 99-104 (emprego retórico) 101 Privação (programa de) 32.-4 reflexiva (ou renúncia) 33-4 . 125 Performance 34-5 Performativo (verbo) 97 Perlocução 97. 119-23.

112. 139 de construção de sujeito 35. 58. 139 de doação 33-4 de espoliação 33-4 de performance 34-5 de privação transitiva e reflexiva 32-4 de renúncia 33-4 de uso 33 Programação espácio-temporal 88-9 Programação textual 89-91 Provocação 38 Q Quadrado semiótico 21-3 Querer 51-3. 143 Programa narrativo 31-5 de apropriação 33-4 de aquisição transitiva e reflexiva 32-4 de base 33 de competência 34-7 de construção de objeto 35. 81-5.transitiva (ou espoliação) 33-4 Produção 136. 1 17-9 Relação transitiva 29 Relaxamento 25-6 Renúncia 33-4 . 81-5. 1 17-9 Realização 30. 58-9 R Realidade (efeito de) 76-7. 139 (condições de) 140-5 Produtor 139-41. 118 Referente (efeito de) 76-7. 52-3 Recepção (condições de) 140-5 Receptor-interpretante 140-3 Reconhecimento 39-41.

117 narrativa 28-69 Semiótico(a) (existência) 30. 117 discursiva 72-132 do mundo natural 113. 81-5. 58-9 Sanção 39-41 cognitiva 39-41 pragmática 39-41 Satisfação (paixão de) 64-5 Sedução 38 Segredo 55-6 Sema 113-4 Semântica da enunciação 96-7 discursiva 113-32 estrutural 113-4 fundamental 24-7 intencional 96-7 narrativa 45-69 semiótica '5-6 Semântico(a) (categoria) 24 (coerência) 124-30.Retórico (componente) 97. 119 Sêmico (núcleo) 114 Semiótica características gerais 13-4 da língua natural 113. 117-9. 131 (competência) 37 (existência) 46. 62 Semema 114. 102 Retribuição 39-41 Revolta (paixão de) 66-7 S Saber 51-3. 138 . 62 (quadrado) 21-3 * (semântica) 15-6 (sintaxe) 15-6 Semi-simbólico (sistema) 153-5 Sentido (efeito de) 76-7.

22 Sintaxe discursiva 73-112 fundamental 20-4 narrativa 28-45 semiótica 15-6 Situacional (contexto) 144 Subcomponente morfológico ou taxionômico 20 sintático ou operacional 20. 42 competente 35-6 da enunciação 136. 102-3 Ser (modalidade do) 49. 124-5 Temático(a) discurso 115-6 isotopia 118-9. 55-60 Significação (vs. 139-42 do querer 35-6 do saber 35-6 (percurso do) 36 realizador 35-6 T Taxionômico (ou morfológico) (subcomponente) 20 Tema 115-6. 125 papel 116 .(vs. sentido) 97. 102 Simulacro (construção de) 64 Sintagma elementar 31-5 Sintático (ou operacional) (subcomponente) 20. 22 Subentendido 101-5 Subjetividade de discurso 75 de tempo e de espaço 88 na língua 4 Subjetivo (discurso) 75 (espaço) 88 (tempo) 88 (valor) 46 Sujeito (actante) 29-31. significação) 97.

152 (coerência) 131-2 (coesão) 131-2 (nível) 112 (programação) 89-91 Textualização 89-91. 88-9 (programação) 89 Temporalização 88-92 aspectualização 91 localização 88-9 programação 89 Tensão 25-6 Tensividade (categoria da) 25-7 Tensivo(a) (modalidade) 25-7 Tentação 38 Terminatividade 91 Terminativo (aspecto) 91 Termo complexo 22 complementar 21-2 contraditório 21-3 contrário 21-3 neutro 22 Textual (estrutura) 112. 152 Timia 24-7 Tímica (categoria) 24-7 Tópico (espaço) 92 Transformação 29-30 Transitividade 29-42 Transitivo(a) (aquisição) 33-4 (privação) 33-4 (relação) 29-42 .percurso 119-23 variação 120-1 Tematização 115-6 Tempo 88-92 Temporal (ancoragem) 119 (aspectualização) 91 (localização).

30. 93-5 (efeitos de) 76-7. 93-5 imanência 56 manifestação 56 mentira 55-6 segredo 55-6 verdade 55-6. 93-5 Veridictória (modalidade) 55-8 Vingança (paixão de) 66-7 Virtualização 27-8. 117 Verdadeiro (discurso) 94 Veridicção 93-5 (contrato de) 93-5. 52-3 . 94. 82. 43. 117-8 falsidade 55-6.U Uso (programa de) 33 Utópico (espaço) 92 V Valor 45-7 descritivo 46-7 modal 46-7 objetivo 46 subjetivo 46 Variação figurativa 120-1 narrativa 120-1 temática 120-1 Verdade 55-6.

Ficha técnica Divulgação LIVRARIA Humanitas-Discurso Mancha 10.000 .3 x 18 cm Formato 14x21 cm Papel miolo: off-set 75 g/m2 capa: cartão Supremo 240 g/m2 Impressão da capa Prata e vermelho vinho Impressão e acabamento GRÁFICA FFLCH Número de páginas 174 Tiragem 2.

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