A RELIGIÃO ISLÂMICA

Origem
O islamismo foi fundado no ano de 622, na região da Arábia, atual Arábia Saudita. Seu fundador, o profeta Maomé, reuniu a base da fé islâmica num conjunto de versos conhecido como Corão - segundo ele, as escrituras foram reveladas a ele por Deus por intermédio do Anjo Gabriel. Assim como as duas outras grandes religiões monoteístas, o cristianismo e do judaísmo, as raízes de Maomé estão ligadas ao profeta e patriarca Abraão. Maomé seria seu descendente. Abraão construiu a Caaba, em Meca, principal local sagrado do islamismo. Para os muçulmanos, o islamismo é a restauração da fé de Abraão. Ainda no início da formação do Corão, Maomé e um ainda pequeno grupo de seguidores foram perseguidos por grupos rivais e deixaram a cidade de Meca rumo a Medina. A migração, conhecida como Hégira, dá início ao calendário muçulmano. Em Medina, a palavra de Deus revelada a Maomé conquistou adeptos em ritmo acelerado. O profeta retornou a Meca anos depois, perdoou os inimigos e iniciou a consolidação da religião islâmica. Quando ele morreu, aos 63 anos, a maior parte da Arábia já era muçulmana. Um século depois, o islamismo era praticado da Espanha até a China. Na virada do segundo milênio, a religião tornou-se a mais praticada do mundo, com 1,3 bilhão de adeptos.

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Profeta Maomé
Maomé nasceu em Meca, no ano de 570. Órfão de pai e mãe, foi criado pelo tio, membro da tribo dos coraixitas. De acordo com historiadores, tornou-se conhecido pela sabedoria e compreensão, tanto que servia de mediador em disputas tribais. Adepto da meditação, ele realizava um retiro quando afirmou ter recebido a primeira revelação de Deus através do anjo Gabriel. Na época, ele tinha 40 anos. As revelações prosseguiram pelos 23 anos restantes da vida do profeta. Contrário à guerra entre tribos na Arábia, Maomé foi alvo de terroristas e escapou de várias tentativas de assassinato. Enquanto conquistava fiéis, empregava as escrituras na tentativa de pacificar sua terra tarefa que cumpriu antes de morrer, aos 63 anos, depois de retornar a Meca. Para os muçulmanos, Maomé é uma figura digna de extrema admiração e respeito, mas não é o alvo de sua adoração. Ele foi o último dos profetas a trazer a mensagem divina, mas só Deus é adorado.

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Conversão
Não é preciso ter nascido muçulmano ou ser casado com um praticante da religião. Também não é necessário estudar ou se preparar especialmente para a conversão. Uma pessoa se torna muçulmana quando proferir, em árabe e diante de uma testemunha, que "não há divindade além de Deus, e Mohammad é o Mensageiro de Deus". O processo de conversão extremamente simples é apontado como um dos motivos para a rápida expansão do islamismo pelo mundo. A jornada para a prática completa da fé, contudo, é muito mais complexa. Nessa tarefa, outros muçulmanos devem ajudar no ensinamento.

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Crenças
A base da fé islâmica é o cumprimento dos desejos de Deus, que é único e incomparável. A própria palavra Islã quer dizer "rendição", ou "submissão". Assim, o seguidor da religião islâmica deve obedecer às escrituras, orar e glorificar apenas seu Deus e ser fiel à mensagem que Maomé trouxe. Os muçulmanos enxergam nas escrituras divulgadas por Maomé a continuação de uma grande linhagem de profecias, trazidas por figuras que fazem parte dos livros sagrados dos judeus e cristãos - como Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e Jesus. Os cristãos e judeus, aliás, são chamados no Corão Povos das Escrituras, com garantia de respeito e tolerância. O seguidor do islamismo tem como algumas de suas obrigações "promover o bem e reprimir o mal", evitar a usúria e o jogo e não consumir o álcool e a carne de porco. Um dos principais desafios do muçulmano é obter êxito na jihad - que, ao contrário do que muitos acreditam no Ocidente, não significa exatamente "guerra santa", mas sim o esforço e a luta do muçulmano para agir corretamente e cumprir o caminho indicado por Deus. Os muçulmanos acreditam no dia do juízo final e na vida após a morte, quando o praticante da religião recebe sua recompensa ou sua punição pelo que fez na Terra. Acreditam também na unidade da "nação" do Islã - uma crença simbolizada pela gigantesca peregrinação anual a Meca, que reúne muçulmanos do mundo todo, lado a lado.

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Cinco pilares
Os cinco pilares do islamismo formam a estrutura de vida do seguidor da religião. São eles: • Pronunciar a declaração de fé intitulada "chahada": "Não há outra divindade além de Deus e Mohammad é seu Mensageiro". • Realizar as cinco orações obrigatórias durante cada dia, no ritual chamado "salat". As orações servem como uma ligação direta entre o muçulmano e Deus. Como não há autoridades hierárquicas, como padres ou pastores, um membro da comunidade com grande conhecimento do Corão dirige as orações. Os versos são recitados em árabe, e as súplicas pessoas são feitas no idioma de escolha do muçulmano. As orações são feitas no amanhecer, ao meio-dia, no meio da tarde, no cair da noite e à noite. Não é obrigatório orar na mesquita - o ritual pode ser cumprido em qualquer lugar. • Fazer o que puder para ajudar quem precisa, no chamado "zakat". A caridade é uma obrigação do muçulmano, mas deve ser voluntária e, de preferência, em segredo. O muçulmano deve doar uma parte de sua riqueza anualmente, uma forma de mostrar que a prosperidade não é da pessoa - a riqueza é originária de Deus e retorna para Deus. • Jejuar durante o mês sagrado do Ramadã, todos os anos. Nesse período, todos os muçulmanos devem permanecer em jejum do amanhecer ao anoitecer, abstendo-se também de bebida e sexo. As exceções são os doentes, idosos, mulheres grávidas ou pessoas com algum tipo de incapacidade física - eles podem fazer o jejum em outra época do ano ou alimentar uma pessoa necessitada para cada dia que o jejum foi quebrado. O muçulmano que cumpre o jejum se purifica ao vivenciar a experiência de quem passa fome. No fim do Ramadã, o muçulmano celebra o Eid-al-Fith, uma das duas principais festas do calendário islâmico. • Realizar a peregrinação a Meca, o "haj". Todos os muçulmanos com saúde e condição financeira favorável deve realizar a peregrinação pelo menos uma vez na vida. Todos os anos, cerca de 2 milhões de pessoas de todas as partes do mundo se reúnem em Meca, sempre com vestimentas simples - para eliminar as diferenças de classe e cultura. No fim da peregrinação, há o festival de Eid-Al-Adha, com orações e troca de presentes - a segunda festa mais importante.

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O Corão
O livro sagrado dos muçulmanos reúne todas as revelações de Deus feitas ao profeta Maomé através do anjo Gabriel. No Corão estão instruções para a crença e a conduta do seguidor da religião - não fala apenas de fé, mas também de aspectos sociais e políticos. Dividido em 114 "suratas" (capítuolos), com vários versículos cada (o número varia de 3 a 286 versículos), o Corão foi escrito em árabe formal e, com o tempo, tornou-se de difícil entendimento. O complemento para sua leitura é a Sunna, coletânea de registros de discursos do profeta Maomé, geralmente em linguagem mais clara e fluente. Cada uma dessas mensagens tiradas dos discursos é conhecida como "hadith". Como os relatos foram de pessoas diferentes, há muitas divergências entre os registros de ensinamentos do profeta: cada um contava a mensagem da forma que o interessava. Além de contradições, as "hadith" provocaram também uma expansão dos conceitos do Islã, ao incorporar tradições e doutrinas sobre sociedade e justiça - aspecto importante na formação da cultura islâmica em geral, que não ficou restrita à religião.

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Sharia
É a lei religiosa do islamismo. Como o muçulmano não vê distinção entre o aspecto religioso e o resto da sua conduta pessoal, a lei islâmica não trata só de rituais e crenças, mas de todos os aspectos da vida cotidiana. Apesar de ter passado por um detalhado processo de formatação, a lei islâmica ainda é aplicada de formas variadas ao redor do mundo - os países adotam a sharia têm interpretações mais ou menos rigorosas dela. Na Arábia Saudita, por exemplo, vigora uma das mais conservadoras versões da lei islâmica. O Afeganistão da época da milícia Talibã teve a mais dura e radical aplicação da sharia nos tempos modernos - proibia música e outras expressões culturais e esportivas, restringia gravemente todos os direitos das mulheres e ordenava punições bárbaras. A sharia, porém, é adotada formalmente numa minoria de países com grandes populações islâmicas.

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Mesquitas
As construções reservadas para as orações dos muçulmanos são chamadas mesquitas, ou "masjids". Os prédios, contudo, não precisam ser especialmente construídos com esse fim - qualquer local onde a comunidade muçulmana se reúne para orar é uma mesquita. Há dezenas de milhares de mesquitas no mundo, e elas vão desde as construções mais esplendorosas, com arquitetura riquíssima, às mais modestas, adaptadas dentro de outras estruturas. A mesquita de Caaba, em Meca, é uma das mais famosas, pois é o centro da peregrinação do "haj". A mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, também é um local muito visitado pelos muçulmanos de todo o mundo - ela abrigaria a pedra de onde Maomé "ascendeu ao céu".

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Festas e datas
As duas principais festividades do islamismo são o Eid-Al-Adha, que coincide com a peregrinação anual a Meca, e o Eid-al-Fith, quando se quebra o jejum do mês do Ramadã. O mês sagrado, aliás, é o principal período do calendário islâmico. Os muçulmanos xiitas também comemoram o Eid-al-Ghadir aniversário da declaração de Maomé indicando Ali como seu sucessor. Outras festas islâmicas são o aniversário de Maomé (Al-Mawlid AlNabawwi) e o aniversário de sua jornada a Jerusalém (Al-Isra Wa-lMiraj).

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Grupos
Os muçulmanos estão divididos entre sunitas, o grupo majoritário, e xiitas, a minoria dentro da religião. Os sunitas formam o tronco principal da religião, ligado à interpretação mais aceita da história islâmica, e reúnem cerca de 90% dos muçulmanos no mundo. A diferença em relação ao Islã xiita é a aceitação à seqüência de califas da história islâmica. Sem características comuns entre si, os muçulmanos sunitas incluem praticantes da religião em todas as partes do mundo e de todas as tendências, dos mais conservadores até os moderados e seculares. Os xiitas, que reúnem cerca de 10% dos muçulmanos, surgiram como movimento político de apoio a Ali e acabaram formando uma ramificação da religião islâmica. A dissidência surgiu quando os xiitas se uniram para apoiar Ali, primo de Maomé, como o herdeiro legítimo do poder no Islã após a morte do profeta, com base na suposta declaração de que ele era seu sucessor ideal. A evolução para uma fórmula religiosa diferente teria começado com o martírio de Husain, o filho mais novo de ali, no ano de 680, em Karbala (no atual Iraque). Os clérigos xiitas são os mulás e mujtahids, mas o clero não tem uma hierarquia formal. Os xiitas foram os responsáveis pela revolução islâmica do Irã, em 1979, e têm graves divergências com setores do islamismo sunita.

OS PAÍSES COM MAIORIA ISLÂMICA

Oriente Médio
Arábia Saudita 95% de muçulmanos sunitas, 5% de muçulmanos xiitas Berço do Islã, abriga as cidades sagradas de Meca e Medina e adota uma interpretação conservadora da lei islâmica. País natal de Osama bin Laden e de quinze dos 19 seqüestradores dos aviões de 11 de setembro de 2001. Em função de sua boa relação com os EUA, a família real sofre a oposição de vários grupos radicais, incluindo a rede Al Qaeda. Sabe-se, porém, que muitas figuras importantes ajudam a financiar os terroristas muçulmanos. Irã 89% de muçulmanos xiitas, 10% de muçulmanos sunitas O país se tornou uma República Islâmica depois da revolução de 1979. Desde então, os aiatolás são a autoridade política máxima, cujo poder se sobrepõe ao do presidente e do parlamento, eleitos em votação popular. Desde o fim da década de 90, o Irã vive uma luta entre os clérigos conservadores e os reformistas, que defendem a flexibilização do regime islâmico. Iraque 60% de muçulmanos xiitas, 32% de muçulmanos sunitas No regime de Saddam Hussein (um sunita), o estado era secular, e manifestações religiosas eram proibidas dentro da estrutura do governo. Com a queda do ditador, a maioria xiita pretende ter um papel mais influente no comando do país. A guerra teve um efeito contrário ao esperado pelos EUA: o fanatismo religioso e o terrorismo ligado à religião estão mais fortes que na época de Saddam. Egito 94% de muçulmanos sunitas

O governo e o sistema judicial são seculares, mas as leis familiares são baseadas na religião e a atuação de grupos radicais ainda é grande. O Egito é o local de origem da primeira facção radical do Islã, a Irmandade Muçulmana, e deu origem também ao grupo Jihad Islâmica. Depois da execução do presidente Anuar Sadat pelos radicais, em 1981, o governo prendeu e matou milhares de pessoas na repressão ao extremismo religioso. Territórios palestinos 90% de muçulmanos A sociedade e a política palestinas têm fortes tradições seculares. A revolta contra Israel, no entanto, deu força a grupos religiosos radicais (Hamas, Jihad Islâmica, Brigadas de Mártires de Al Aqsa) e a influência do islamismo na política tornou-se dominante. Líbano 41% de muçulmanos xiitas e 27% de muçulmanos sunitas Com uma formação de governo que reflete a distribuição religiosa da população (primeiro-ministro é sempre sunita e o presidente do parlamento, xiita), é a terra do grupo radical Hezbolá. Para os EUA, o Hezbolá é uma organização terrorista; para o Líbano, um movimento legítimo de resistência contra os israelenses e uma organização política legalizada. Jordânia 92% de muçulmanos sunitas A família real está no poder desde a independência, em 1946 - e sua aceitação se baseia no fato de que os príncipes seriam descendentes diretos do profeta Maomé. A sociedade é conservadora e a interpretação do Islã é rigorosa - costumes de séculos atrás são mantidos graças à religião. Outros países de maioria muçulmana: Iêmen, Omã, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Síria

OS PAÍSES COM MAIORIA ISLÂMICA

Ásia
Indonésia 88% de muçulmanos Apesar de abrigar a maior população muçulmana do planeta, o país tem uma constituição secular. Há dezenas de facções radicais que defendem a adoção da lei islâmica e a formação de um estado com governo religioso, mas os muçulmanos moderados são contra. É a terra do Jemaah Islamiah, grupo ligado à Al Qaeda culpado pelo atentado que matou 200 pessoas em Bali, em 2002. Afeganistão 84% de muçulmanos sunitas, 15% de muçulmanos xiitas País onde surgiu a mais radical forma de interpretação do islamismo, através da milícia Talibã, que governo o país do fim da década de 90 até depois do 11 de setembro de 2001. Serviu de campo de treinamento para terroristas islâmicos do mundo todo, até que a ação militar americana atacou essas instalações e colocou no poder um líder muçulmano moderado. Paquistão 77% de muçulmanos sunitas, 20% de muçulmanos xiitas Formado como um estado muçulmano resultante da partilha do subcontinente indiano, em 1947, trava uma tensa disputa com a vizinha Índia pela posse da Caxemira. Os extremistas islâmicos atacam os soldados indianos, que controlam o território, por julgar que a área é dos muçulmanos. Além disso o país sofre com conflitos entre sunitas e xiitas e entre muçulmanos radicais e cristãos. Malásia 53% de muçulmanos O governo diz ser tolerante com todas as religiões, mas o islamismo é a fé oficial do país. Não-muçulmanos dizem ser vítimas de discriminação das autoridades. Os radicais muçulmanos dizem que não é o bastante: querem oficializar a adoção da lei islâmica tradicional em toda a Malásia. Outros países de maioria muçulmana: Brunei, Bangladesh

OS PAÍSES COM MAIORIA ISLÂMICA

África
Nigéria 50% de muçulmanos Tensões com os cristãos provocaram milhares de mortes no país. A adoção da lei islâmica em doze estados do norte provocou um êxodo entre os seguidores do cristianismo. O governo tem dificuldade para controlar os grupos radicais de ambos os lados. Argélia 99% de muçulmanos Em 1991, a vitória de um partido islâmico nas eleições gerais foi impedida por um golpe político. Desde então, governo e exército combatem os extremistas muçulmanos numa disputa que já provocou dezenas de milhares de mortes. Sudão 70% de muçulmanos Governado por um partido islâmico desde 1989, quando um golpe militar teve apoio dos extremistas, o país foi devastado por uma guerra de duas décadas entre rebeldes muçulmanos do norte e cristãos do sul. Osama bin Laden permaneceu no país por alguns anos antes de ir para o Afeganistão. Somália 100% de muçulmanos A religião da população é a mesma, mas conflitos entre tribos inimigas alimentaram uma guerra que se arrasta desde os anos 90. Há grupos radicais em atividade no país - e um deles é ligado à Al Qaeda. A maior empresa do país foi fechada pelos EUA por suas ligações com Osama bin Laden. Outros países de maioria muçulmana: Senegal, Gâmbia, Guiné, Serra Leone, Costa do Marfim, Mauritânia, Mali, Níger, Chade, Líbia, Tunísia, Eritréia, Djibouti, Ilhas Comoros

OS PAÍSES COM MAIORIA ISLÂMICA

Europa
Turquia 99,8% de muçulmanos Estado secular, a Turquia garante liberdade religiosa à população. Na prática, porém, os costumes e crenças do islamismo têm grande influência sobre o comando do país. O partido que conquistou o poder em 2002, por exemplo, tem raízes islâmicas, apesar de se descrever como "conservador". Kosovo 92% de muçulmanos Palco de uma violenta campanha de perseguição pelos sérvios, o território foi ocupado pela Otan e teve seu controle assumido pela ONU em 1999. Isso não impediu a morte de 10.000 pessoas e a fuga de cerca de 1,5 milhão para a Albânia ou para a região da fronteira. Albânia 70% de muçulmanos O governo comunista do país fechou todos os templos religiosos - incluindo igrejas e mesquitas - em 1967. A prática religiosa só voltou a ser permitida em 1991. Chechênia maioria de muçulmanos Desde o fim da União Soviética, a república russa vem sendo palco de violentos confrontos entre o governo de Moscou e as forças separatistas formadas pelos radicais islâmicos. No período em que a Rússia retirou suas forças do território, o islamismo tornou-se religião oficial. Usbequistão 88% de muçulmanos Estado secular, viu o islamismo ganhar força nos anos 90. Junto com esse crescimento, surgiram os grupos radicais contrários ao governo. Depois de uma série de atentados, as forças do governo reprimiram os radicais. Os grupos, porém, continuam em atividade. Outros países de maioria muçulmana: Azerbaijão, Turcomenistão, Quirgistão, Tadjiquistão, Cazaquistão

A PRESENÇA DO ISLAMISMO EM OUTROS PAÍSES

Estados Unidos
O palco do maior ato de terrorismo islâmico da História tem mais de 6 milhões de muçulmanos e em torno de 2.000 mesquitas. Entre os seguidores da religião nos EUA, 77,6% são imigrantes, e 22,4%, americanos natos. Apesar do 11 de setembro de 2001, o islamismo está crescendo: estima-se que, no ano de 2010, a população muçulmana supere a judaica - apenas o cristianismo terá mais seguidores.

A PRESENÇA DO ISLAMISMO EM OUTROS PAÍSES

Índia
Cerca de 12% dos indianos são muçulmanos, formando uma população total de 120 milhões de pessoas. A constituição do país garante a liberdade religiosa. Na prática, contudo, os muçulmanos da Índia são alvos freqüentes de atos de violência - e as facções radicais revidam as agressões. Na última onda de conflitos entre muçulmanos e os hindus radicais, cerca de 2.000 pessoas morreram.

A PRESENÇA DO ISLAMISMO EM OUTROS PAÍSES

China
O país mais populoso do mundo tem cerca de 20 milhões de muçulmanos, cerca de 1,5% da população. A religião está no país desde o século VII. É oficialmente reconhecida e tolerada no país, que tem mais de 30.000 mesquitas, e os chineses muçulmanos estão concentrados no extremo oeste do país. Há facções extremistas - uma delas listada como grupo terrorista pela ONU e pelos EUA.

A PRESENÇA DO ISLAMISMO EM OUTROS PAÍSES

Brasil
Um dos maiores países católicos do mundo tem uma comunidade islâmica relativamente grande - e seus números vêm crescendo. Há quarenta anos a comunidade árabe brasileira tinha uma única mesquita. Atualmente são mais de 50 templos, espalhados por todo o país e freqüentados por entre 1,5 e 2 milhões de fiéis. Não há atuação de grupos extremistas armados no território brasileiro.

CONTEXTO
PERSPECTIVAS

O Islã no centro do mundo
A religião que mais cresce vive uma hora decisiva

CADA VEZ MAIOR: peregrinação anual a Meca, um dos pilares do Islã

O mundo islâmico vem sendo rotineiramente devassado nos meios acadêmicos há muito tempo. Contudo, até 11 de setembro de 2001, quando dezenove muçulmanos praticaram o maior atentado terrorista da História, as multidões nos países ocidentais não sabiam que o universo dos turbantes era muito mais complexo do que parecia. Depois do fim do comunismo, os Estados Unidos e seus aliados - os países industrializados da Ásia e da Europa - convenceram-se de que a modernidade, a democracia e a economia de mercado são desejadas em todo o mundo. Devido a outra escala de valores, porém, tais novidades não são bemvindas para um número significativo de muçulmanos. Foi a descoberta de que o Islã era um dos limites da globalização, até então despercebido. Após o choque resultante da carnificina cometida em nome de Alá, o mundo islâmico foi repentinamente iluminado por um holofote. Nunca, até onde a memória alcança, uma civilização foi tão escrutinada como a muçulmana está sendo nos dias atuais. Uma cultura e uma fé que viviam relegadas à periferia do mundo dito civilizado despertam agora um interesse voraz em pessoas que até outro dia dispunham de pouquíssimas referências sobre o universo islâmico. Os governos das nações poderosas também estão ávidos por entender e agir de forma a evitar uma explosão nas sociedades dos turbantes que elegeram como seu herói o terrorista Osama bin Laden e como bandeira a guerra santa aos valores ocidentais.

E, no decorrer desse processo de exploração, a opinião pública mundial descobriu que esse universo era menos administrável do que se imaginava. 20% do mundo - Para elevar ainda mais o grau de importância dessa revelação, pesquisas realizadas ao redor do globo mostraram que o islamismo é a religião que mais cresceu nas últimas décadas, e que essa tendência não mudou depois do 11 de setembro. Em 1973, havia 36 países com maioria muçulmana no planeta; exatos trinta anos depois, eles já eram 47. Também no início dos anos 70, o islamismo reunia cerca de 370 milhões de fiéis. Três décadas depois, eles chegaram a 1,3 bilhão. Hoje, quase 20% da população do mundo é muçulmana, e estima-se que, em 2020, de cada quatro habitantes do planeta um seguirá o islamismo. Essa explosão demográfica - em parte provocada pela proibição religiosa do uso de métodos contraceptivos - está devolvendo ao islamismo uma força considerável. E não é só no Oriente: com o liberalismo religioso da maior parte do Ocidente, os muçulmanos também se espalham com alguma facilidade. Só na Europa, berço da civilização cristã, existem 20 milhões de muçulmanos, e quase metade deles está instalada na Europa Ocidental. Há mesquitas até na Roma dos papas. Outro fator que emprestou maior visibilidade aos países islâmicos está em sua imensa riqueza estratégica: são donos das mais generosas reservas de petróleo do mundo. Entre os cinco maiores produtores de óleo do Oriente Médio, o PIB conjunto quadruplicou nos últimos trinta anos, enquanto o PIB mundial apenas dobrou de tamanho. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora. Bomba-relógio - Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. O Islã é multifacetado por várias nações, mas tem uma característica curiosa: não produziu um só país democrático e desenvolvido. O contraste entre a pobreza dos fiéis e a riqueza do Ocidente fomentou rancor. A resposta às dificuldades materiais e à falta de liberdade, levantada nas mesquitas, é a de que a identidade religiosa supera todos os valores políticos. A questão tornou-se urgente depois do 11 de setembro, mas até agora não se encontrou uma resposta: como desarmar a bomba-relógio do radicalismo islâmico? Enquanto os nós não forem desfeitos, é possível que o extremismo e o fanatismo, embora restritos a grupos minoritários, sigam achando espaço para ensangüentar a história humana.

ANTECEDENTES

As raízes de uma religião pacífica
A mensagem do profeta Maomé era de tolerância

FANATISMO É MINORIA: muçulmanas oram pela paz depois do 11/9

A ligação entre a carnificina provocada pelos terroristas muçulmanos e as raízes verdadeiras da fé islâmica é o maior problema enfrentado nos dias atuais pela religião mais praticada do planeta. Dezenas de milhões de pessoas, em especial no Ocidente, confundem o islamismo com uma prática religiosa radical e raivosa, que convoca seus seguidores a matar inocentes, permite (e recompensa) o suicídio em nome de Deus e não tolera crenças diferentes. De acordo com a esmagadora maioria dos especialistas, religiosos e fiéis, contudo, a verdadeira face do Islã é exatamente oposta: a de uma fé que estimula o entendimento e desencoraja o conflito. A própria origem do termo Islã - ou "rendição", em árabe - está ligada à palavra salam, que significa "paz". O fundador do islamismo, o profeta Maomé, dedicou sua vida à tentativa de promover a paz em sua terra, a Arábia. Antes do Islã, as tribos árabes estavam presas num círculo vicioso de ataques, revides e vinganças. O próprio Maomé e seus primeiros seguidores escaparam de dezenas de tentativas de assassinato e de uma grande ofensiva para exterminá-los em Meca. O profeta teve de lutar, mas em nome da própria sobrevivência - quando acreditou estar a salvo, passou a dedicar-se exclusivamente à reconciliação das tribos, através de uma grande campanha ideológica de não-violência. Quando morreu, no ano de 632, a meta havia sido cumprida - e justamente em função de seus ensinamentos sobre paz e tolerância.

Espírito de caridade - Quando revelou a base da crença islâmica pelos versos do Corão, Maomé convivia com uma guerra em larga escala em sua terra. Assim, muitas passagens das escrituras sagradas dos muçulmanos tratam de conflitos armados, da execução de inimigos, da guerra em nome de sua crença. Os terroristas e radicais de hoje, contudo, gostam de citar o Corão apenas nos trechos em que se convoca a luta, e não nos versos em que se prega a paz e o entendimento. Pouco depois do ataque de 11 de setembro de 2001, a escritora americana Karen Armstrong, autora de vários livros sobre a religião islâmica, compilou alguns desses versos. A seguir, alguns deles: • No Corão, os muçulmanos recebem a ordem de Deus para "eliminar os inimigos onde quer que eles estejam". A frase é uma das preferidas de Osama bin Laden e seus discípulos do terror. No verso seguinte, contudo, a mensagem é a segunte: "Se eles deixarem-no em paz e não fomentarem guerra, e oferecerem a paz, Deus não permite que sejam machucados". • O texto sagrado dos muçulmanos diz que a única forma aceitável de guerra é aquela conduzida em auto-defesa. Os muçulmanos jamais devem iniciar as hostilidades. A guerra é sempre manifestação do mal, indica o Corão, mas às vezes é preciso lutar para preservar seus valores - ou, como fez o profeta Maomé em Meca, para combater perseguições e se livrar dos opressores. • Em certo trecho, o Corão cita a Torá, escritura sagrada dos judeus, ao dizer que é permitido ao muçulmano retribuir uma agressão - olho por olho, dente por dente. O texto ressalta, porém, que perdoar e deixar de lado as vinganças em nome de um espírito de caridade é uma atitude digna de mérito e admiração. • Quando a guerra é necessária e justificada, as hostilidades contra o inimigo devem acabar logo que for possível. A guerra termina quando o inimigo acena com um gesto de paz. O Corão também diz que os outros povos, mesmo quando forem inimigos, jamais devem ser forçados a seguir a crença dos muçulmanos: "Não deve haver coerção nos assuntos da fé!" • Na mais famosa distorção a respeito da doutrina muçulmana, a palavra "jihad" é traduzida no Ocidente como "guerra santa" - quando,

na verdade, equivale a "luta", "esforço", "empenho". O termo se refere ao esforço que deve ser empregado para que a vontade de Deus seja colocada em prática em todos os aspectos da vida - não só na política, como também na vida pessoal e social. Há relatos de que Maomé disse certa vez, ao retornar de uma batalha: "Estamos voltando da jihad menos importante para a jihad maior", que seria a tentativa de curar os males da sociedade. • O Corão diz que os "Povos das Escrituras", os cristãos e judeus principais alvos dos extremistas islâmicos hoje, - devem ser respeitados. Em um de seus últimos discursos, o profeta Maomé teria dito: "Formamos nações e tribos para que conhecessem uns aos outros" - ou seja, não para que os povos conquistassem outros povos e tentassem oprimir suas crenças. Reação à modernidade - Se a brutalidade contra outros povos e religiões é proibida, se a guerra é uma manifestação do mal, se o inimigo só pode ser atacado se agredir primeiro, por que os radicais muçulmanos continuam usando a religião para justificar seus atos de terrorismo? Para quase todos os especialistas, essa pergunta não tem uma resposta sensata - o que significa que a luta dos extremistas é, de fato, ilegítima e injustificada. Na avaliação de Karen Armstrong, a forma militante de culto religioso surgida no século XX sob a classificação de fundamentalismo é uma reação à modernidade. Seus seguidores estão convencidos de que a sociedade liberal e secular visa acabar com a religião - assim, os princípios de sua fé acabam desvirtuados e distorcidos em nome de uma luta irracional. Desta forma, enxergar em Osama bin Laden e em seus seguidores terroristas uma representação legítima da tradição e da fé islâmica é um erro gravíssimo. Resta à maioria dos muçulmanos, que condenam os atos terroristas e as interpretações radicais das escrituras, a árdua missão de reverter essa imagem e reforçar as raízes pacíficas de sua crença.

ANÁLISE

A minoria que agride e assusta
O que está por trás do extremismo no mundo islâmico?

CONTRA O OCIDENTE: protesto anti-EUA na tensa Karachi, Paquistão

Com o surgimento dos primeiros indícios de que a onda de terror de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foi obra de radicais islâmicos, uma questão tornou-se inevitável: quem é essa gente que se suicida jogando aviões contra edifícios? Que se veste de bombas e se explode em supermercados e pizzarias de Israel? Que estoura carros recheados de explosivos contra muros de quartéis? Quem é, enfim, essa gente que se mata em nome de Alá? Atualmente, calcula-se que exista em torno de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, divididos em diversas correntes religiosas - e apenas uma parcela pequena está disposta a entregar a vida pela causa. São muçulmanos que integram ramificações extremistas da religião, como os sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, para os quais o suicídio em nome de Alá, normalmente cometido aos gritos de "Deus é grande", é uma forma suprema de entrega ao amor divino. A maioria dos muçulmanos, no entanto, repudia os ataques suicidas e os considera pecado extremo, uma ofensa contra Alá, na medida em que atenta contra o dom da vida - um dom divino. "O primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão, um terrorista em potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo. O islamismo é a religião que mais cresce no planeta, e ganhou visibilidade nas últimas décadas em função de sua imensa riqueza estratégica: eles são donos das mais generosas reservas de petróleo

do mundo. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora. Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. "Num ambiente de carência social e autoritarismo político, a religião funciona como uma poderosíssima válvula de escape", define a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da USP. Mas isso não é tudo. Até pouco tempo atrás, a América Latina também convivia simultaneamente com miséria e ditadura - e, no entanto, nunca se viram grupos extremistas de latino-americanos promovendo atos de terrorismo pelo mundo afora em nome de sua libertação econômica e política. Por que então alguns grupos de fanáticos islâmicos chocam o mundo com espetáculos inimagináveis de terror? A explicação sobre o que move esses extremistas, segundo alguns especialistas, talvez esteja num dado mais sutil: o choque de civilizações. Cimitarra no coração - "Os Estados nacionais permanecerão como os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos globais ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações", aposta o professor Samuel P. Huntington, especialista em estudos internacionais da Universidade Harvard e autor de um livro dedicado ao assunto. "O choque de civilizações será a linha divisória das batalhas do futuro." Nem todos os estudiosos do assunto concordam com a tese de Huntington, mas não há como negar que, num mundo cada vez menor, cada vez mais próximo, a religião também funciona como um instrumento de afirmação da identidade nacional. E a globalização crescente é um processo que se desenrola sob o comando inequívoco do mundo ocidental - em especial, do império americano. As potências ocidentais não trilham sua trajetória segundo parâmetros da Bíblia, da fé cristã, dos ensinamentos de Jesus, mas, mesmo assim, elas acabam por se contrapor, culturalmente, aos países muçulmanos, muitos dos quais se pautam pelo Corão, pela fé islâmica, pelos ensinamentos de Maomé. Hoje, as potências ocidentais encontram-se no auge do poder. Os Estados Unidos, com sua incomparável pujança econômica, seu formidável poderio militar e sua vigorosa influência política e cultural sobre os destinos do mundo, representam o triunfo dos valores ocidentais - pelo menos aos olhos de fundamentalistas islâmicos, que, é sempre bom lembrar, são uma minoria entre os

muçulmanos. Daí por que o terror de 11 de setembro não se esgotou na destruição de arranha-céus e na morte de inocentes. Pretendeu, sobretudo, cravar uma cimitarra no coração e no orgulho da maior potência ocidental. McDonalds no Líbano - Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental sobre o planeta - nos costumes, nos hábitos de consumo, no modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos, especialmente os talibãs do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível, e é muito expressivo o contingente feminino que freqüenta a universidade - uma raridade em algumas nações islâmicas que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo ocidental que são plenamente aceitos pelas populações muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso do Marrocos ao Líbano," diz ele. "Sem dúvida, o extremismo religioso está ligado às frustrações, principalmente entre os mais jovens, pois os países árabes têm economia fraca, analfabetismo e desemprego crescente", afirma Sharif Shuja, professor de relações internacionais da Universidade Bond, na Austrália. "Mas, além disso, o massacre de muçulmanos na Bósnia, na Chechênia, na Palestina e na Caxemira faz o mundo árabe imaginar que o Ocidente está contra ele", completa o especialista. A melhor maneira de reduzir o crescimento do extremismo talvez esteja na expansão democrática dos países islâmicos - tema ao qual as potências ocidentais vinham dedicando pouca atenção até 11 de setembro. A riqueza econômica do petróleo, por si só, não foi capaz de melhorar esse cenário. "Na verdade, ocorreu o contrário", analisa o professor Michael Hudson, da Universidade Georgetown. "Jordânia, Líbano, Marrocos e Palestina, que não têm reservas petrolíferas, hoje são países muito mais abertos que os ricos em petróleo, como Arábia Saudita, Iraque e Líbia." A exceção é o Irã, único islâmico rico que vive um acelerado processo de democratização. 'Todas as armas' - Osama bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade, enfurnados em cavernas do Afeganistão, envoltos

numa aura de mistério, mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar os escritos do milionário que virou o mais exaltado dos radicais islâmicos. Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos das bases que eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença de não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como uma profanação do solo santo onde nasceu o Islã. "Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado", esclarece Laden, em documento datado de 1996. Realizada a primeira missão divina, ele pretende partir para a segunda, de alcance mais amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma comunidade, governada de acordo com a interpretação mais literal e estrita dos preceitos do Corão. Para isso, os governos dos países muçulmanos considerados corrompidos pela influência ocidental - ou seja, todos - devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais, unificados sob esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros crentes se lançariam então rumo à etapa final - arrebatar o resto do planeta. "Chegará o tempo em que vocês desempenharão papel decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja suprema e as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu ele a seus seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever dos muçulmanos é empregar todas as armas possíveis para atacar os inimigos de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã". Parece coisa de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados no cinema ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante de fanatismo religioso pregada por Laden, porém, tem raízes bem fincadas na história da religião muçulmana, constantemente marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber da palavra mais pura do Corão, de reviver um passado mítico. Período de decadência - Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores

também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais. Chegamos, assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em sua vertente mais extremada: o recurso à violência como meio não só legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente interpretados da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam há séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra. São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis da mesma maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás que lançaram as bases da revolução fundamentalista que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá complementa: "Aqueles que estudam a guerra santa islâmica compreendem por que o Islã quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países subjugados pelo Islã receberão a marca da salvação eterna. Pois eles viverão sob a luz da lei celestial". Quando Osama bin Laden diz que "matar americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever individual de todo muçulmano que tenha condições de fazer isso, em qualquer lugar onde seja possível fazer isso", ele está seguindo exatamente o mesmo raciocínio.

DEBATE

O papel da mulher no islamismo
Elas ainda sofrem, mas a culpa não é apenas da religião

POR TRÁS DOS VÉUS: garota olha entre mulheres afegãs com burcas

A lista de horrores já soa, a esta altura, familiar. Meninas proibidas de ir à escola e condenadas ao analfabetismo. Mulheres impedidas de trabalhar e de andar pelas ruas sozinhas. Milhares de viúvas que, sem poder ganhar seu sustento, dependem de esmolas ou simplesmente passam fome. Mulheres com os dedos decepados por pintar as unhas. Casadas, solteiras, velhas ou moças que sejam suspeitas de transgressões - e tudo o que compõe a vida normal é visto como transgressão - são espancadas ou executadas. E por toda parte aquelas imagens que já se tornaram um símbolo: grupos de figuras idênticas, sem forma e sem rosto, cobertas da cabeça aos pés nas suas túnicas - as burqas. Quando o Afeganistão entrou no noticiário por aninhar os terroristas que bombardearam o World Trade Center e o Pentágono, essas cenas de mulheres tratadas como animais voltaram a espantar o Ocidente. Elas viviam em regime de submissão absoluta havia muito tempo, mas a situação ficou ainda pior desde que a milícia Talibã tomou o poder no país, em 1996. O cenário de Idade Média não era uma prerrogativa afegã. Trata-se de uma avenida permanentemente aberta aos regimes islâmicos que desejem interpretar os ensinamentos do Corão a ferro e fogo. A isso se dá o nome de fundamentalismo. Há países de islamismo mais flexível, como o Egito, e outros de um rigor extremo, como a Arábia Saudita. Para o pensamento ortodoxo muçulmano, a mulher vale menos do que o homem, explica Leila Ahmed, especialista em estudos da mulher e do Oriente Próximo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. "Um 'infiel' pode se converter e se livrar da inferioridade que o separa dos

'fiéis'. Já a inferioridade da mulher é imutável", escreveu Leila num ensaio sobre o tema, em 1992. Por trás dessa situação há uma ironia trágica. A exclusão feminina não está presente nas fundações do islamismo, mas apenas no edifício que se erigiu sobre elas. O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, contém versículos dedicados a deixar claro que, aos olhos de Alá, homens e mulheres são iguais. O mais importante deles é o que está reproduzido nesta página. Ele mostra que Deus espera a mesma fidelidade de ambos os sexos, e que a premiará de forma idêntica. O Corão é o mandamento divino, e não uma interpretação qualquer da vontade de Deus. Como se explica, então, que idéias tão avançadas tenham se perdido, para dar lugar a Estados religiosos em que as mulheres têm de viver trancafiadas e cobertas por véus, em pleno século XXI? As respostas têm de ser buscadas muito longe, no próprio nascimento do Islã. Casamento aos 9 - Quando tinha 25 anos, Maomé se casou com Khadidja, uma viúva rica que o empregara para supervisionar sua caravana de comércio entre a cidade de Meca, na atual Arábia Saudita, e a Síria. A própria Khadidja, de 40 anos, propôs as núpcias, num arranjo que não era assim tão incomum. Naquela época, a Arábia era uma das poucas regiões do Oriente Médio em que o casamento comandado pelo marido ainda convivia com outros tipos de união. Acredita-se que havia até mulheres que tinham vários maridos - e muitas viviam com considerável autonomia pessoal e financeira. Era o caso de Khadidja, uma negociante experiente. Alguns anos depois de seu casamento, Maomé começou a receber o que seriam revelações de Deus. Julgando-se louco, procurou o conselho da esposa. Ela dispersou suas dúvidas e, para provar sua confiança no marido, converteu-se à nova religião. O primeiro muçulmano foi, assim, uma mulher. Quando Khadidja morreu, Maomé entrou em vários casamentos simultâneos. A mais célebre de suas esposas é Aisha, que tinha 9 anos na ocasião das bodas. Segundo alguns relatos, ela brincava no quintal quando foi chamada para dentro de casa. Lá, encontrou o noivo e foi posta sobre seus joelhos. Os pais da menina se retiraram, e o casamento teria se consumado ali, na casa paterna. Aisha é uma figura central nesses primeiros anos do Islã (cujo calendário começa a ser contado no ano 622 da era cristã). Inteligente, articulada e dona de uma memória prodigiosa, ela foi a mais querida e respeitada das mulheres do profeta - embora todas partilhassem de seus ensinamentos e apoiassem ativamente sua causa. Eram, aliás, tão assediadas por pessoas em busca de favores e influência que talvez por isso tenham sido as primeiras muçulmanas (e, por algum tempo, as únicas) a usar véu e ficar

recolhidas em casa - e, ainda assim, só nos últimos anos da vida de Maomé. Aisha tinha 18 anos quando Maomé morreu. Nas quase cinco décadas seguintes de sua vida, ela foi inúmeras vezes consultada em pontos importantes da religião, da política e também da conduta do profeta. Isso porque Maomé legou aos muçulmanos o Corão, que é quase um tratado ético, mas não teve tempo de regulamentar todos os princípios que deveriam reger o cotidiano dos convertidos. Quando vivo, podia ser consultado a qualquer momento. Depois de sua morte, tornouse tarefa de seus seguidores próximos transferir da memória para a escrita as palavras e ações do profeta. A intenção era que o conjunto servisse de guia aos fiéis. Esses "ditados" são os Hadith. Juntos, eles compõem a tradição maior, a Sunna. Com as complicações surgidas por causa da sucessão de Maomé, os Hadith tornaram-se uma ferramenta crucial. Não era difícil que alguém sacasse um deles para resolver um impasse. E, é claro, não demorou para que muitos fossem forjados. Cerca de 200 anos depois da morte do profeta, um respeitado historiador do islamismo, al-Bukhari, contou 7 275 Hadith genuínos, contra quase 600.000 inventados. Mesmo os tidos como verdadeiros merecem algum escrutínio, argumentam estudiosos como a marroquina Fatima Mernissi. Fatima investigou a origem dos Hadith que são as pedras angulares para justificar a inferioridade feminina no Islã. Um deles é o que compara as mulheres aos cães e jumentos na sua capacidade de perturbar a oração. Fatima concluiu que o narrador desse Hadith, Abu Hurayra, era um homem com sérios problemas de identidade sexual e um feroz opositor de Aisha, que amiúde o repreendia em público por sua mania de inventar Hadith. Nessa ocasião, ela corrigiu Hurayra, dizendo que o profeta costumava rezar perto de suas mulheres sem nenhum medo de que elas o atrapalhassem. Mas sua versão não passou à história. Outro Hadith que todo muçulmano sabe de cor é o que diz que "aqueles que confiam seus negócios a uma mulher nunca conhecerão a prosperidade". Segundo Fatima Mernissi, o surgimento desse Hadith é ainda mais misterioso. Abu Bakra, seu narrador, lembrou dessa frase do profeta (e pela primeira vez) mais de vinte anos depois de supostamente ela ter sido dita. Curiosamente, veio-lhe à memória (assim ele afirmou) no momento em que Aisha sofreu sua grande derrocada. A viúva do profeta virou o centro de uma crise quando, ao suspeitar de um golpe, pegou em armas para intervir numa das etapas da sucessão de Maomé. Na batalha que se seguiu, perdeu 13.000 de seus soldados e saiu derrotada, em vários sentidos. Foi, primeiro, criticada por ter se exposto de uma maneira inconveniente a uma mulher. E, com a perda de prestígio, teve muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith suprimidos ou

ignorados - como no caso daquele que fala dos cães e jumentos. Esses são só alguns exemplos de como a voz feminina, tão valorizada nos primórdios do Islã, começou a se silenciar. Ideais de pureza - A pesquisadora Leila Ahmed tem mais explicações para a opressão das mulheres no Islã. Os muçulmanos, diz ela, costumavam manter os hábitos das regiões onde se firmavam, desde que esses estivessem em sintonia com seu pensamento. O restante era descartado. Na Arábia, por exemplo, eliminaram as outras formas de casamento para que prevalecesse apenas o patriarcal. Quando conquistaram a região que hoje abarca o Irã e o Iraque, assimilaram a prática de formar haréns, o uso disseminado do véu para as mulheres e, principalmente, os mecanismos de repressão feminina que eram uma característica marcante dos povos locais. Foi nesse ambiente altamente misógino que, nos séculos seguintes, o direito islâmico foi elaborado. Separado em escolas que diferem em vários pontos, mas se apresentam como sendo timbres diversos de uma só voz, esse direito é dado como absoluto e imutável. Seus princípios não podem ser questionados nem relativizados à luz de traços culturais. Por isso são, até hoje, um instrumento útil para calar as mulheres em países nos quais vigora o regime teocrático. Um dado complicador é que as muçulmanas têm até hoje um conhecimento muito vago da lei divina. Aderem ao fundamentalismo atraídas pelos ideais de pureza da religião e, quando ele é instaurado, são surpreendidas por seus rigores - a exemplo do que ocorreu no Irã dos aiatolás. Não é pequena a importância de estudos históricos como os de Leila Ahmed e Fatima Mernissi. Eles ajudam a demonstrar que a liberdade feminina não equivale à ocidentalização e à aculturação - ou, em outras palavras, à traição do Islã. Pelo contrário: é possível ser, ao mesmo tempo, uma muçulmana livre e uma muçulmana fiel. Se a democracia chegou para as mulheres que vivem sob a égide da civilização judaicocristã, que também não é lá muito célebre por sua visão feminista do mundo, não há por que ela não possa ser almejada pelas muçulmanas que se orgulham de sua religião. Em tempo: um dia, um seguidor de Maomé lhe indagou qual a pessoa que ele mais amava no mundo. "Aisha, minha mulher", respondeu o profeta. Irritado com uma resposta assim, no feminino, o curioso insistiu: "E qual o homem que o senhor mais ama?". Maomé não hesitou. "Abu Bakr. Porque ele é o pai de Aisha."

POLÍTICA

A democracia poderá prosperar?
A ofensiva para reformar os regimes mais opressores

POUCOS PODEM VOTAR: muçulmana na eleição presidencial argelina

Entre mais de meia centena de países com maioria muçulmana, apenas três nações adotaram regimes com características democráticas: Turquia, Bangladesh e Indonésia. Com exceção da Turquia, no entanto, nenhum governo islâmico seria reconhecido como democrata pelos padrões ocidentais. Eles são governados por teocracias, monarquias absolutas, ditaduras de partido único e presidentes perpétuos. Mesmo na Turquia a situação é bastante diferente se comparada às democracias ocidentais. Na fundação do país sobre as ruínas do Império Otomano, o Estado tornou-se laico na marra: foram impostas roupas ocidentais, o uso do véu feminino em repartições e escolas públicas foi proibido e o alfabeto árabe foi substituído pelo latino no prazo recorde de seis meses. Os militares turcos trataram de impedir, desde então, que os fundamentalistas chegassem ao poder - na única vez em que isso ocorreu, na década de 90, eles caíram um ano depois de assumir o governo. O Estado supervisiona a educação religiosa, nomeia os 80.000 clérigos do país e paga seus salários. Mesmo assim, o islamismo continua forte. De cada dez turcos, nove fazem o jejum no mês do Ramadã e metade reza cinco vezes por dia para Alá. A esperança de democracia no Oriente Médio se assenta principalmente na multiplicação dos muçulmanos moderados. Esses personagens não oferecem perigo ao Ocidente. Eles são, no entanto, uma ameaça para os regimes totalitários da região - que ganharam a

tolerância do Ocidente por tanto tempo justamente por combaterem os extremistas - na verdade, oprimindo qualque voz forte de oposição. Serão necessárias centenas de milhares deles em dezenas de países para que a química explosiva da região encontre um mínimo de equilíbrio. Para muitos analistas ocidentais, essa possibilidade não passa de uma utopia. Mas todos concordam que a única barreira real de longo prazo para deter o terrorismo religioso são os moderados islâmicos. A eficiência dos serviços de contenção dos radicais prestados por regimes totalitários pró-ocidentais na região está se exaurindo. Essa tendência deve acentuar-se com a presença dos Estados Unidos no Iraque, na exata medida em que os americanos sejam bemsucedidos na instalação de um governo minimamente representativo no país que já foi de Saddam Hussein e seus asseclas. Maldição do petróleo - Se no mundo islâmico em geral a democracia é raridade, nos países árabes ela inexiste. Segundo especialistas, a dificuldade de criar regimes democráticos em países árabes decorre de fatores históricos e culturais, mas se agrava hoje em dia em razão de dois aspectos. De um lado, existe um estado permanente de beligerância, pela vizinhança com Israel, o que tende a concentrar o poder nas mãos de um líder ou de um grupo. O constante clima de guerra, além disso, torna prioridade o fortalecimento do Exército, do serviço de inteligência, da polícia secreta, da guarda nacional, instituições que também servem para conter aspirações populares malvistas pelos dirigentes. De outro lado, a comunidade árabe é dividida pela glória e pela desgraça do petróleo. Quem tem senta-se sobre ele. Quem não tem usa sua influência junto aos países ricos em petróleo para garantir investimentos e ajuda externa. Assim, tanto os com-petróleo quanto os sem-petróleo, excessivamente amarrados à dependência de capital externo, tendem a ignorar as demandas internas por maior participação política. "A principal barreira à democracia no mundo árabe não é o islamismo ou a cultura árabe. É o petróleo", diz o jornalista Fareed Zakaria, jornalista da revista Newsweek e professor da Universidade Harvard. "Como bastava furar o chão para o dinheiro jorrar, não houve a necessidade de criar uma economia capitalista moderna, que exige trabalho duro. Costumo dizer que o petróleo é a maldição do mundo árabe. Pelo menos no que diz respeito à modernização econômica e política. De todos os países com petróleo, apenas um, a Noruega, é democrático."

Sinais de mudança - Na avaliação de outro importante especialista no assunto, o escritor Bernard Lewis, os exemplos de democracia no mundo islâmico são "raros, mas não impossíveis". "É um processo lento e difícil. Não podemos esquecer que generalizações são sempre imprecisas. Quando discutimos o Islã, estamos falando de mais de catorze séculos de história, mais de cinqüenta países, uma tradição cultural de uma diversidade enorme. O Islã pode ser interpretado de várias formas", diz ele. É inegável que os sinais de mudança estão aparecendo. Além dos casos do Iraque e do Afeganistão, em que os americanos investem pesado para estimular a democracia, e do Irã, onde o rígido regime islâmico não impediu uma onda de apoio popular às reformas democráticas, há vários episódios animadores: • Horas depois da queda da capital iraquiana, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, anunciou sua desistência de fazer o filho, Gamal, seu sucessor no poder. O Egito está submetido a variações de estado de sítio desde 1931 e seus principais órgãos de imprensa são estatais. Portanto, o gesto de Mubarak tem um peso. • O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, anunciou em 2003 o desencadeamento de um plano de "aprimoramento econômico e político" que, segundo Alkebsi, prevê a eleição de um Parlamento. Monarquia religiosa, a Arábia Saudita é o país formalmente mais alinhado com o Ocidente na região. Mas existem evidências desconcertantes de que, nos bastidores, a dinastia saudita dá sustentação a grupos terroristas. O aceno com a possibilidade de eleger um Parlamento é a melhor notícia ventilada daquele lado do deserto há dezenas de anos. • Em setembro de 2002, o Marrocos promoveu as primeiras eleições livres de sua história. A ida às urnas foi fiscalizada por monitores internacionais. Um partido ligado ao clero islâmico ganhou um bom número de cadeiras no Parlamento, e o governo reconheceu oficialmente o resultado. • Também no fim de 2002, o Barein, um pequeno país do Golfo com menos de 1 milhão de habitantes, convocou eleições gerais em que, pela primeira vez, as mulheres também puderam votar e se candidatar a cargos eletivos.

Do Iraque à Suíça - A empolgação sobre a possibilidade de espalhar a democracia pelo mundo islâmico contagia os ocidentais, mas os próprios defensores da idéia de que vale a pena semear democracia no deserto alertam para os perigos. O mais evidente deles é o fato de que naturalmente os políticos com ligações com o clero islâmico serão, pelo menos no primeiro momento, os mais populares. Há possibilidade também de que os radicais sejam os mais votados e até que cheguem ao poder pelo voto. Na Argélia, em 1992, os militares deram um golpe preventivo assim que as pesquisas não deixavam mais dúvidas de que os fundamentalistas chegariam ao poder nas eleições gerais daquele ano. O que fazer nesses casos? Esse é um ponto crucial, pois, se os eleitores dos países árabes suspeitarem que a democracia só vale quando forem eleitos políticos com simpatia pelo Ocidente, todo o processo ficará desmoralizado. "Não esqueçamos que Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha por meio de uma eleição. Se a democracia for introduzida de forma prematura, é possível que tenha vida curta", afirma Bernard Lewis. "Uma eleição livre é o fim de um processo de democratização, não o começo. A democracia é um remédio forte que tem de ser tomado em doses pequenas e com cuidado. Não se pode importar a democracia como quem compra um brinquedo com instruções no estilo monte você mesmo. O Iraque não vai transformar-se numa Suíça da noite para o dia."

ECONOMIA

O caminho para o desenvolvimento
Por que não há países islâmicos entre os mais ricos?

AVANÇANDO POUCO: sauditas acessam a internet num hotel de Riad

Ainda sob o choque do 11 de setembro de 2001, o mundo descobriu, espantado, que os homens que haviam derrubado o maior símbolo do capitalismo mundial viviam num dos países mais miseráveis e arrasados do planeta. A pobreza, obviamente, não é uma exclusividade daquele país. E muito menos se trata de uma criação muçulmana. Mas uma pergunta começou a ser feita: seria o Islã uma barreira intransponível para o surgimento de uma sociedade rica, moderna e democrática? As estatísticas, se não respondem a tal questão, oferecem ao menos uma constatação: não há nenhuma nação com maioria muçulmana que se situe entre as mais avançadas do mundo. Ao contrário - a esmagadora maioria delas ocupa posições vexaminosas nas categorias que aferem o desenvolvimento humano e os graus de instrução e de liberdade da população. Nem mesmo os países do Golfo Pérsico, que embolsaram centenas de bilhões de dólares nos últimos anos por meio da exportação de petróleo, conseguiram (ou souberam, ou quiseram) melhorar o estado geral das coisas de maneira a incluir-se no clube dos desenvolvidos. Entre os cinco maiores produtores de óleo do Oriente Médio (Irã, Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait), o PIB conjunto quadruplicou nos últimos trinta anos - enquanto o PIB mundial apenas dobrou de tamanho. Os petrodólares, na verdade,

só serviram para aumentar a concentração de renda e criar simulacros de modernidade em meio às areias escaldantes do deserto. Para se ter uma idéia, a família real saudita detém 40% de toda a renda nacional. Ocidentalização forçada - Nas nações islâmicas, a religião espraia-se pelos campos econômico, social e moral de maneira sufocante. E não se está falando apenas dos regimes teocráticos, como o do Irã e o do Afeganistão. Mesmo nos países com um governo descolado formalmente da hierarquia religiosa, essa distância não é suficiente para neutralizar a crescente ingerência de imãs, aiatolás e ulemás em assuntos que se encontram fora do âmbito teológico. A exceção é a Turquia, que passou por um violento processo de ocidentalização forçada na década de 20. O problema é exatamente esse: entre os muçulmanos, a religião não é parte, mas cada vez mais o todo. Engana-se quem acha ser esse um pecado original. O totalitarismo islâmico - uma outra designação para o fundamentalismo que hoje Osama bin Laden encarna de forma tão assustadora - é produto recente, tem menos de meio século, como notou o jornalista Fareed Zakaria, da revista Newsweek. Ele foi adubado em terreno secular e árabe. Nasceu no Egito, na década de 50, como resistência ao processo de modernização que o então presidente Gamal Abdel Nasser procurou implementar a ferro e fogo. Nasser causou a reação fundamentalista ao tentar, por meio de uma repressão feroz, divorciar completamente o Estado da religião muçulmana. Falhou, como está claro, principalmente porque suas reformas nunca foram além do aspecto cosmético. E, ao falhar, abriu caminho para que o fundamentalismo ganhasse corpo dentro e fora das fronteiras egípcias. 'Preço dos melões' - No Ocidente, a reforma protestante do século XVI engendrou uma ética que, como demonstrou o sociólogo alemão Max Weber, acabaria por libertar o espírito empreendedor das amarras católicas e impulsionar o capitalismo. O fundamentalismo islâmico do século XX, e que adentra o XXI, é uma mentalidade que, do ponto de vista econômico e social, se originou da oposição cega a avanços de qualquer tipo. Alimenta-se da pobreza e, por isso mesmo, não pode ser apartado dela, sob pena de desaparecer como

uma miragem. Daí a razão de seu discurso ser irracional - está sempre atrelado a causas genéricas e vagas, como o "panislamismo" e a "destruição do Grande Satã". Nunca se detém sobre as questões que realmente interessam. Em seu grande momento, a revolução iraniana de 1979, o fundamentalismo encontrou sua tradução mais fiel numa frase do aiatolá Khomeini: "A revolução refere-se ao Islã, e não ao preço dos melões". Para alguns especialistas, não é possível dizer que o islamismo determina o fracasso econômico e comercial de uma nação. No cenário atual, porém, é impossível não culpar o fundamentalismo pela escassez de avanços nos países islâmicos. Ele não encerra projeto que vise, pelo menos em tese, ao desenvolvimento de um povo. No máximo, oferece migalhas assistencialistas - um modo eficiente, aliás, de arregimentar os jovens sem futuro que perambulam nas superpovoadas e caóticas metrópoles do Oriente Médio. A um fundamentalista cabe tão-somente vagar no inferno, com a esperança de alcançar um paraíso que não existe. O Islã é uma barreira para o desenvolvimento? Diante do radicalismo que contaminou a religião nas últimas décadas, infelizmente sim.

Perguntas e respostas
As dúvidas freqüentes sobre a religião que mais cresce no planeta

O que é islamismo, Islã e muçulmano? O islamismo é a religião fundada pelo profeta Maomé no início do século VII, na região da Arábia. O Islã é o conjunto dos povos de civilização islâmica, que professam o islamismo; em resumo, é o mundo dos seguidores dessa religião. O muçulmano é o seguidor da fé islâmica, também chamado por alguns de islamita. O termo maometano às vezes é usado para se referir ao muçulmano, mas muitos rejeitam essa expressão - afinal, a religião seria de devoção a Deus, e não ao profeta Maomé. De onde vem o termo Islã? Em árabe, Islã significa "rendição" ou "submissão" e se refere à obrigação do muçulmano de seguir a vontade de Deus. O termo está ligado a outra palavra árabe, salam, que significa "paz" - o que reforça o caráter pacífico e tolerante da fé islâmica. O termo surgiu por obra do fundador do islamismo, o profeta Maomé, que dedicou a vida à tentativa de promover a paz em sua Arábia natal. Todos os muçulmanos são árabes? Esta é uma das mais famosas distorções a respeito do Islã. Na verdade, o Oriente Médio reúne somente cerca de 18% da população muçulmana no mundo - sendo que turcos, afegãos e iranianos (persas) não são sequer árabes. Outros 30% de muçulmanos estão no subcontinente indiano (Índia e Paquistão), 20% no norte da África, 17% no sudeste da Ásia e 10% na Rússia e na China. Há minorias muçulmanas em quase todas as partes do mundo, inclusive nos EUA (cerca de 6 milhões) e no Brasil (entre 1,5 milhão e 2 milhões). A maior comunidade islâmica do mundo vive na Indonésia. As raízes do islamismo são conflitantes com as origens do cristianismo e judaísmo? Não. Assim como as duas outras grandes religiões monoteístas, as raízes do islamismo vêm do profeta Abraão. O profeta Maomé, fundador do islamismo, seria descendente do primeiro filho de Abraão, Ismael. Moisés e Jesus seriam descendentes do filho mais novo de Abraão, Isaac. Abraão, o patriarca do judaísmo, estabeleceu as bases

do que hoje é a cidade de Meca e construiu a Caaba - todos os muçulmanos se voltam a ela quando realizam suas orações. Os muçulmanos acreditam num Deus diferente? Não, pois Alá é simplesmente a palavra árabe para "Deus". A aceitação de um Deus único é idêntica à de judeus e cristãos. Deus tem o mesmo nome no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, e Alá é o mesmo Deus adorado pelos judeus, cristãos e muçulmanos. Como alguém se torna muçulmano? Não é preciso ter nascido muçulmano ou ser casado com um praticante da religião. Também não é necessário estudar ou se preparar especialmente para a conversão. Uma pessoa se torna muçulmana quando proferir, em árabe e diante de uma testemunha, que "não há divindade além de Deus, e Mohammad é o Mensageiro de Deus". O processo de conversão extremamente simples é apontado como um dos motivos para a rápida expansão do islamismo pelo mundo. A jornada para a prática completa da fé, contudo, é muito mais complexa. Nessa tarefa, outros muçulmanos devem ajudar no ensinamento. Os muçulmanos praticam uma religião violenta ou extremista? Uma minoria entre os cerca de 1,3 bilhão de praticantes da religião é adepta de interpretações radicais dos ensinamentos de Maomé. Entre eles, a violência contra outros povos e religiões é considerada uma forma de garantir a sobrevivência do Islã em seu estado puro. Para a maioria dos seguidores do islamismo, contudo, a religião muçulmana é de paz e tolerância. O Islã oprime a mulher? A base da religião muçulmana não determina qualquer tipo de discriminação grave contra a mulher. No entanto, as interpretações radicais das escrituras deram origem a casos brutais. A opressão contra a mulher é comum nos países que seguem com rigor a Sharia, a lei islâmica, e têm tradições contrárias à libertação da mulher. Assim, o problema da opressão à mulher muçulmana não é causado pela crença islâmica em si - ele surgiu em culturas que incorporaram tradições prejudiciais às mulheres. Um ótimo exemplo disso é o fato de que o uso de véus e a adoção de outros costumes que causam estranheza no Ocidente muitas vezes são mantidos por mulheres mesmo quando não

há nenhuma obrigação. Ou seja: os hábitos estão integrados às culturas, não necessariamente à religião. Os muçulmanos são mais atrasados do que os povos ocidentais? Durante séculos, as civilizações do Islã foram muito superiores às ocidentais. A combinação de idéias orientais e ocidentais provocou grandes avanços na Medicina, Matemática, Física, Arquitetura e Artes, entre outras áreas. Muitos elementos importantes para o avanço do homem, como os instrumentos de navegação marítima e os sistemas algébricos, surgiram no Islã. Nos últimos séculos, contudo, os povos do ocidente conquistaram a supremacia das novas descobertas. A religião islâmica não pode ser apontada como origem do abismo crescente entre algumas potências do Ocidente e alguns países subdesenvolvidos do Islã. O fundamentalismo muçulmano, contudo, é visto por muitos especialistas como enorme barreira ao avanço destes povos orientais. O Islã é um obstáculo para a democracia? Os especialistas se dividem em relação a esse assunto. Para muitos, a religião e cultura islâmica formou sociedades em que os princípios democráticos não ganham espaço nem atraem as pessoas. Quem acredita nessa linha de pensamento consideram que é inútil tentar impor regimes democráticos no Islã - a própria população não estaria disposta a abraçar a mudança. Mas outros analistas dizem que o islamismo não impede o florescimento da democracia, e que os países muçulmanos têm ditaduras e monarquias por causa de outros fatores. Seja qual for a explicação, o fato é que as democracias são raras no Islã: só a Indonésia, a Turquia e Bangladesh têm esse tipo de regime.

Guia
Lista de termos, lugares, grupos e personagens ligados ao assunto

• Akhirah: Crença na vida após a morte, parte importante da fé islâmica • Alá Akbar: "Deus é grande" • Alá: Palavra que significa "Deus" em árabe (não é o nome de um deus diferente dos outros) • Azan: Convocação à oração dos muçulmanos • Bismillah: "Em nome de Deus", verso usado pelos muçulmanos para pedir a bênção divina. Aparece no início de quase todas as suratas do Corão • Caaba: Construção rochosa localizada no centro da grande mesquita de Meca e ponto focal das orações muçulmanas. Teria sido erguida por Abraão • Cinco pilares do Islã: As obrigações que o muçulmano deve cumprir para seguir sua fé • Corão: O livro sagrado do Islã, com as revelações de Deus ao profeta Maomé • Din: A religião e o estilo de vida do Islã • Eid-Al-Adha: Festa que coincide com a peregrinação anual a Meca • Eid-al-Fith: Festa celebrada no fim do mês do Ramadã, a principal da religião

• Eid-al-Ghadir: Aniversário da declaração de Maomé indicando Ali como seu sucessor, comemorado apenas pelos xiitas • Fard: Obrigação, algo que deve ser feito em nome da fé • Hadith: Um discurso, mensagem, ação ou história do profeta Maomé, relatado pelos seus contemporâneos • Hafiz: Pessoa que sabe todos os versos do Corão • Haj: A peregrinação anual a Meca, um dos cinco pilares do Islã. O muçulmano saudável e com condições financeiras deve fazer o haj pelo menos uma vez na vida • Halal: Algo que o muçulmano pode fazer ou comer • Haram: Algo que o muçulmano não deve fazer ou comer • Hégira: A migração de Maomé e seus seguidores de Meca para Medina, para escapar da perseguição às suas crenças. A migração inaugura o islamismo é marca o início de seu calendário • Hijab: Traje típico islâmico usado pelas mulheres para "proteger sua modéstia", como manda o Corão. Seu tamanho varia de acordo com as tradições regionais • Iftar: Desjejum • Ihram: Estado de pureza espiritual exigido dos muçulmanos que desejam fazer a peregrinação a Meca

• Imã: Professor, clérigo ou figura que lidera uma oração muçulmana • Islã: Conjunto dos povos de civilização islâmica, que professam o islamismo. Significa "rendição" ou "submissão" em árabe • Islamismo: A religião dos muçulmanos • Jihad: A luta e o esforço de um seguidor da religião para viver a fé islâmica da melhor forma possível e defender o Islã, mesmo que isso signifique o uso da força • Madraçal: Escola dedicada a formar e doutrinar meninos muçulmanos • Masjid: Sinônimo para mesquita • Mawlid Al-Nabi: Festa do aniversário de nascimento de Maomé • Meca: Cidade sagrada do islamismo, onde Maomé nasceu e para onde retornou depois de fundar o islamismo • Medina: A segunda cidade sagrada do islamismo, para onde Maomé fugiu quando foi perseguido • Mesquita: Local onde os muçulmanos fazem suas orações em conjunto • Mihrab: Nicho aberto em todas as mesquitas para apontar a direção de Meca • Minaret: A torre da mesquita, de onde é feita a convocação para as orações • Minbar: Púlpito de uma mesquita

• Muçulmano: Seguidor da fé islâmica • Muezzin: O religioso que convoca os muçulmanos para as orações • Niyya: Declaração sincera da intenção de glorificar Deus, feita em silêncio • Quiblah: A direção de Meca • Rakah: Conjunto de movimentos do ritual de orações, ou salah • Ramadã: Mês sagrado dos muçulmanos • Sadaquah: Fazer doações voluntárias para caridade • Salah: Ritual obrigatório de cinco orações por dia • Salat-ul-Juma: As orações de sexta-feira, dia sagrado dos muçulmanos, nas mesquitas • Saum: Jejuar durante o dia • Shahadah: A declaração de fé ("Não há outra divindade além de Deus e Mohammad é seu Mensageiro") • Sharia: Conjunto de leis islâmicas, tratando de costumes e da vida em sociedade • Sufismo: Movimento místico dentro do islamismo

• Sujud: Posição de oração em que testa, nariz, mãos, joelhos e dedos do pé devem tocar o chão • Sunita: O principal tronco da religião, concentrando 90% dos muçulmanos • Surata: Capítulo do Corão • Takbir: O processo de se concentrar numa oração e ignorar o que está ao redor • Tawaf: Dar sete voltas na Caaba durante o haj • Wudu: O ritual de lavar as mãos antes das orações diárias • Xiita: O segundo maior grupo dentro da religião, concentrando 10% dos muçulmanos • Zakat: Doação anual de parte das riquezas acumuladas por um muçulmano

Cronologia
Os principais fatos da trajetória religiosa e política do islamismo

Origens (570-632) • 570: nasce, em Meca, o profeta Maomé • 595: Maomé se casa com Khadija • 611: o profeta começa a receber a revelação do Corão • 622: Maomé e seus seguidores migram para Medina; começa o calendário islâmico • 630: os discípulos do profeta conquistam Meca e Maomé retorna à sua terra • 632: Maomé morre Formação e expansão (632-661) • 632-634: califado de Abu Bakr, sucessor de Maomé; o Islã se expande rumo ao Egito, Síria e Irã • 634-644: califado de Umar, o segundo sucessor; o texto do Corão é lançado • 644-656: califado de Uthman, o terceiro sucessor • 656-661: califado de Ali, o quarto sucessor Islã Clássico (661-1258) • 661-750: dinastia Umayyad; o Islã cruza os mares e chega à Espanha e Índia • 680: fundação do xiismo • 750-1258: dinastia Abbasid • 800-900: texto das Hadith é compilado • 909-1171: dinastia Fatimid no Egito • 1095-1270: cruzadas cristãs na terra santa

Últimos impérios (1258-1918) • 1200-1526: sultanato de Dehli no norte da Índia • 1350-1680: estados muçulmanos no sul da Índia • 1380-1918: Império Otomano • 1453: otomanos conquistam a cristã Constantinopla, que passa a se chamar Istambul • 1492: cristãos expulsam os últimos muçulmanos da Espanha • 1501-1799: dinastia Safavid no Irã • 1526-1857: dinastia Mughal na Índia • 1654: concluída a construção do Taj Mahal • 1798: Napoleão invade o Egito • 1815-1900: cristãos colonizam o norte da África e o Oriente Médio Período moderno (1918-) • 1918: Império Otomano é dividido entre potências européias • 1919-1984: países muçulmanos deixam de ser colônias do Ocidente • 1928: fundada a Irmandade Muçulmana, primeiro grupo extremista • 1948: guerra entre árabes e israelenses • 1964: fundação da Organização para Libertação da Palestina • 1979: Revolução Islâmica do Irã • 1996: milícia Talibã toma o poder no Afeganistão e cria regime islâmico mais rigoroso da Terra • 2001: ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os EUA; guerra no Afeganistão • 2003: EUA atacam o Iraque e derrubam o ditador Saddam Hussein; começa ofensiva para democratizar o mundo islâmico

Frases
Declarações marcantes no Islã, dos extremistas aos moderados

"Islã é a solução" Lema dos líderes e seguidores da Revolução Islâmica do Irã (1979) "Se a carnificina que testemunhamos em 11 de setembro fosse típica da religião, e se o Islã realmente justificasse tal violência, seu crescimento e presença na Europa e nos EUA seria uma perspectiva aterradora. Felizmente, esse não é o caso." Karen Armstrong, escritora americana, autora de vários livros sobre a religião (2001) "O clero e os fundamentalistas ensinam uma história errada do islã, olhando apenas para o autoritarismo e o militarismo do passado. Por que nunca falam no verso corânico que diz que a fé não tem valor se for imposta à força?" Tarik Ali, romancista paquistanês que reside na Inglaterra (2000) "O Islã pode ser interpretado de várias formas. A pergunta talvez não seja o que o Islã fez com os muçulmanos, mas o que os muçulmanos fizeram com o Islã." Bernard Lewis, pesquisador especializado em Oriente Médio (2003) "Onze coisas são impuras: a urina, o excremento, o esperma, o tutano, o sangue, o cão, o porco, o homem ou a mulher não muçulmanos, o vinho, a cerveja e o suor de camelo que come excrementos." Aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica do Irã (1979) "Todas as religiões produziram terroristas, incluindo o cristianismo e o judaísmo. O extremismo islâmico é responsável, hoje, pela maioria dos atentados, e há várias razões para isso. Boa parte dos países muçulmanos é governada por regimes ditatoriais, que só fizeram aumentar o sentimento de frustração. É preciso lembrar que os EUA sempre preferiram apoiar esse tipo de governo." Jessica Stern, especialista americana em terrorismo (2003) "Os moradores dos países islâmicos são escravizados. Devemos penetrar em seu coração, com a verdade libertadora do

Evangelho." Luis Bush, pregador cristão americano (2003) "Os não-muçulmanos deverão ter uma marca de diferenciação em seus trajes para que possam ser identificados." Maulawi Abdul Wali, ministro da Promoção das Virtudes e da Supressão dos Vícios, do extinto governo Talibã do Afeganistão (2001) "Se as vozes moderadas do Islã não modernizarem sua cultura e sua fé, pode ser que os ‘Rushdies’ tenham de fazê-lo por elas." Salman Rushdie, escritor condenado à morte em 1989 pelos líderes do Irã por causa de seu livro Versos Satânicos, em artigo no The New York Times (2002) "No Alcorão há várias citações exigindo o uso do véu." Sultaana Freeman, cidadã americana convertida ao islamismo, que entrou na Justiça em busca da permissão para não tirar o véu ao posar para o retrato de sua carteira de motorista (2003) "Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado." Osama bin Laden, dissidente saudita e líder da rede terrorista Al Qaeda (1996) "A esmagadora maioria da sociedade saudita apóia Osama bin Laden." Saad al-Fagih, dirigente do Movimento por uma Reforma Islâmica na Arábia, um grupo de oposição à família real saudita com sede em Londres (2002) "A guerra vai produzir uma centena de Bin Ladens." Hosni Mubarak, presidente do Egito, antes da invasão americana ao Iraque - a segunda guerra entre os EUA e um país muçulmano em apenas dois anos (2003) "A elite intelectual nos países árabes não vê diferença entre os valores da democracia ocidental e os prescritos nos livros sagrados do Islã. Dignidade humana, império da lei e a limitação do poder do Estado estão claramente expostos no Corão." Abdulwahab Alkebsi, diretor executivo do Centro para Estudos do Islã e a Democracia e pregador da moderação no Oriente Médio (2003)

"A comunidade muçulmana precisa decidir se quer fazer as pazes com a modernidade." Francis Fukuyama, historiador americano (2002) "Os líderes fundamentalistas são demagogos. Eles sabem perfeitamente que não existe algo como 'a volta às raízes do Islã'. Utilizam as crenças das pessoas para tecer discursos ideológicos e implementar políticas retrógradas." Tahar Ben Jelloun, escritor marroquino (2002) "Quase todo muçulmano acha que não teve papel algum na configuração do sistema mundial em vigor, na fixação de seus valores, na montagem de suas regras. Fascinados pelo mundo contemporâneo, alguns também se assustam com ele. E reagem de maneiras diversas." Amir Taheri, escritor e jornalista iraniano, editor da revista Politique Internationale, publicada em Paris (2002) "Um 'infiel' pode se converter e se livrar da inferioridade que o separa dos 'fiéis'. Já a inferioridade da mulher é imutável." Leila Ahmed, especialista em estudos da mulher e do Oriente Próximo da Universidade de Massachusetts, dos EUA (1992) "A força do Islã está no fato de que é uma religião extremamente acessível. Não há hierarquia, a fé pode ser praticada em qualquer lugar e não exige muito engajamento de seus adeptos." Frei Betto, dominicano brasileiro, na época em que o Islamismo tornouse a religião mais praticada do mundo (1999) "A despolitização do Islã é a urtiga que todas as sociedades muçulmanas terão de agarrar com as mãos para poder se tornar modernas." Salman Rushdie, escritor, para quem a grande questão levantada pela guerra ao terror é o Islã (2001)
"A turba que se apressa a pôr a culpa no Islã tem, obviamente, razão num certo sentido. A atitude dos fundamentalistas contraria a lógica da globalização e, mais cedo ou mais tarde, alguma das partes terá de ceder. Porém, se a história serve para alguma orientação, quem vai ceder, no fim, será a religião reacionária, não o progresso tecnológico. Não existe uma essência do Islã eterna e imutável, enraizada no Corão, que o condene a uma moralidade medieval." Robert Wright, ensaísta e autor de diversos livros (2002)

INFOGRÁFICOS E MAPAS
O mundo é de Alá
02 de junho de 1999

Com a conquista de católicos, o islamismo se transforma na maior religião do mundo Uma revelação estatística paira sobre os preparativos para as comemorações dos 2.000 anos do cristianismo. A hegemonia da Igreja Católica Romana começará o novo milênio mais abalada do que nunca. A maior religião do mundo passou a ser o islamismo. O número de muçulmanos supera o de católicos romanos. O islã Paulo Martins reza em congrega 1,14 bilhão de fiéis. São 100 milhões de mesquita de São Paulo: contato direto com Deus pessoas a mais que o rebanho do papa João Paulo II. Há várias razões para as mudanças ocorridas no ranking da fé. Não há religião que cresça no ritmo do islamismo – 16% a mais de crentes a cada ano. Há de se levar em conta que mais da metade dos muçulmanos vive na Ásia, onde as taxas de natalidade são muito altas. A maior parte dos católicos, por sua vez, se concentra na Europa, Estados Unidos e América Latina, onde o crescimento demográfico vem caindo nos últimos anos. Os fatores demográficos, porém, não explicam toda a força da expansão islâmica. Mesmo em países de forte tradição cristã cresce a presença muçulmana. Em 1970, havia na França apenas onze mesquitas. Quase trinta anos depois, os templos já somam mais de 1.000. No início da década de 70, a Inglaterra contava com 3.000 muçulmanos. Agora, eles são 1 milhão. Até no Brasil, um dos maiores países católicos do mundo, o Alcorão, livro sagrado do islã, atrai cada vez mais adeptos. Há quarenta anos a comunidade árabe possuía uma única mesquita. Hoje são 52 templos, espalhados por todo o país e freqüentados por cerca de 2 milhões de fiéis. "O aumento do contingente nos países ocidentais ocorreu graças à adesão de ex-cristãos convertidos à fé islâmica", diz Faustino Teixeira, professor de ciência da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. "A conquista de novos adeptos alavancou a liderança

muçulmana." Duas vezes por dia o computador do corretor de seguros Paulo Martins emite um pequeno sinal luminoso. Nesses momentos, ele interrompe o trabalho e ora. Em um tom quase inaudível, voltado para a cidade de Meca, na Arábia Saudita, Martins recita orações em árabe. Repete as preces cinco vezes por dia. Às sextas-feiras, ele reza em companhia de centenas de outros brasileiros em uma mesquita em São Paulo. Nascido em uma família de forte tradição católica, Martins, de 41 anos, abandonou suas origens e se converteu ao islamismo em 1995. "No catolicismo, sempre me senti distante de Deus", diz ele. "Com o islamismo, a aproximação com o sagrado não depende de terceiros. Quando eu rezo, falo diretamente com Deus." O contato direto com Alá, sem intermediários – esse é um dos grandes trunfos do islamismo na conquista de cristãos para as fileiras muçulmanas. "A força do islã está no fato de que é uma religião extremamente acessível. Não há hierarquia, a fé pode ser praticada em qualquer lugar e não exige muito engajamento de seus adeptos", analisa o dominicano frei Betto. Os ensinamentos contidos no Alcorão têm força de lei. Os muçulmanos acreditam na ressurreição dos mortos, no inferno e no paraíso. Misericordioso, benévolo, perdoante, clemente, pacificador – o Deus do islã é um só, mas pode ser identificado por 99 adjetivos expressos no Alcorão. Um ditado repetido entre os fiéis diz que "Deus está mais perto de nós do que nossa veia jugular". São metáforas simples mas repletas de sentido místico e fascinantes para muitos. Muito mais atrativas e confortadoras do que a formalidade católica e a exaltação evangélica. Desde 1979, quando a revolução iraniana, liderada pelo clero xiita, derrubou uma monarquia pró-Ocidente, o islã virou sinônimo de fanatismo e terrorismo. Os radicais existem, mas são minoria. Na Arábia Saudita, berço do islamismo, quem rouba tem a mão cortada. Quem mata injustamente é executado em praça pública. São resquícios de um radicalismo cada vez menos praticado. Hoje, a maioria dos países muçulmanos reconhece os direitos das mulheres. A elas já é permitido trabalhar fora. Os tradicionais véus que cobrem o rosto e a cabeça das mulheres convivem em paz com calças jeans e tênis da moda. Com a bênção de Alá.

Sob o manto do fanatismo
01 de março de 2000 O fundamentalismo islâmico, que ameaça subverter o mundo com as bombas dos terroristas, perde fôlego e enfrenta uma contra-revolução na sua maior fortaleza, o Irã

O islã tem catorze séculos de existência, mas é relativamente recente a preocupação do mundo com os aspectos de fanatismo político que cresceu nas comunidades islâmicas. O fenômeno tem pouco mais de duas décadas e sua forma é uma guerra santa cujo projeto é tomar o poder, varrer a influência ocidental e estabelecer o reino de Alá na Terra. O novo credo espalhou-se como uma labareda entre o 1,2 bilhão de fiéis, fatia que representa um quinto da humanidade. Produziu ditaduras religiosas medievais, dadas ao terrorismo em nome de Deus. Logo se profetizou que a existência de uns cinqüenta países com populações majoritariamente muçulmanas, além de algumas dezenas deles com grandes minorias de seguidores de Alá, poderia evoluir como uma nova ameaça global, comparável em alguns aspectos a outra ideologia messiânica do século XX, o comunismo. Estudiosos apressaram-se em prever um titânico choque de civilizações, ainda mais irreconciliável que a falecida Guerra Fria. O ápice do furor revolucionário foi a derrubada da monarquia e a criação da primeira república islâmica no Irã, em 1979. A tomada do poder num país de importância estratégica e dono de 9% da reserva mundial de petróleo pôs em marcha uma cadeia de acontecimentos que até hoje ameaça mudar a ordem mundial. Nesta virada do milênio, uma nova revolução está em marcha no país que serve de vitrine à teocracia islâmica. Só que esta revolução agora vai no sentido contrário da anterior. Uma nova geração, moderada e moderna, decidiu guardar a espada e tenta dar uma face humana ao regime dos aiatolás. O que está ocorrendo no Irã vai ter influência em todo o universo muçulmano. É ali que se pôde observar com mais clareza

como funciona um regime islâmico que aplica a lei do Corão a todos os aspectos da vida do povo. O resultado é desencorajador e essa conclusão tem a força de uma prova de laboratório. Além de seu poder religioso, como intérpretes da vontade de Alá, os aiatolás se firmaram no papel de donos do aparelho de Estado, dos tribunais e dos canhões. Mas, finalmente, começam a perder a luta pela alma do povo iraniano. Na sexta-feira 18, o voto popular colocou para fora uma chusma de clérigos que há duas décadas dava as cartas no Parlamento do Irã. A sede de mudança ficou demonstrada de forma cristalina: 70% dos deputados eleitos estão alinhados com a ala moderada e reformista do presidente Mohammed Khatami, o inimigo número 1 da linha dura dos turbantes negros. Só a Frente de Participação Islâmica, liderada por Reza Khatami, irmão do presidente, conquistou 141 cadeiras. Vinte e um anos depois de o aiatolá Ruhollah Khomeini derrubar o xá Reza Pahlevi e instalar uma ditadura religiosa, os mais de 70 milhões de iranianos estão fartos do clero que manda no país e em cada detalhe de suas vidas. O resultado das urnas é uma dessas reviravoltas que os historiadores costumam aproveitar como um marco que sinaliza o antes e o depois. O antes era uma nação de costumes medievais, opressão política e furor místico de meter medo até na superpotência americana. O que se tem agora é a contraprova de que o fanatismo islâmico – o mesmo que parecia prestes a pôr fogo no mundo – está perdendo fôlego. Dentro e fora do Irã, respira-se um ar um pouco mais leve. Os iranianos já tinham expressado sua insatisfação nas eleições para presidente, em 1997. Khatami foi eleito com mais de 70% dos votos, massacrando o adversário abençoado pelos ultraconservadores. Ele próprio é um clérigo, filho de um aiatolá famoso e usa com orgulho o turbante preto daqueles que se acreditam descendentes diretos do profeta Maomé. A diferença é que reza por um catecismo moderadíssimo. Ministro da Cultura em 1992, ele se pôs a liberar livros e a permitir debates públicos sobre temas tabus. Terminou expurgado por "liberalismo" e "negligência". Dois em cada três iranianos são jovens demais para se lembrar das frustrações da vida sob a monarquia do xá. Eles só conhecem as frustrações sob os aiatolás e esperam que Khatami promova uma reforma de alto a baixo na república islâmica. Querem coisas complexas, como restabelecer a supremacia da lei civil sobre o direito canônico. E também restaurar direitos triviais do cotidiano, como namorar, vestir gravata e usar saia

curta. Se isso está demorando é porque, apesar do formidável valor simbólico da votação, o presidente tinha até agora limitada liberdade de ação. Não controlava o Parlamento, nem os órgãos de segurança e o Exército. Mesmo a economia, por ser em grande parte nacionalizada, está sob o domínio da caciqueria religiosa. A maioria no Parlamento significa que agora o Irã dispõe de uma base sólida na luta pela descompressão política e religiosa. Mas é preciso reconhecer: os iranianos ainda estão longe de resolver a polêmica sobre quem manda no país. No Irã, como em todo o mundo muçulmano, a questão vai muito além de desacordos políticos. Khatami sustenta que a vontade popular, expressa pelo voto, deve prevalecer sobre a opinião dos sábios nas mesquitas. Trata-se de um conceito aceito universalmente, mas para o clero iraniano é mais que subversivo, beira a heresia. Desde o início do século XX, quando a influência ocidental entrou na terra dos minaretes, teólogos e políticos engalfinham-se em torno de uma dúvida: a democracia pode existir numa verdadeira república islâmica? Os aiatolás iranianos dizem que não. Num Estado islâmico perfeito, a única lei é a de Alá e daqueles que governam em seu nome. "O próprio conceito de liberdade do homem pode ser visto como uma afronta à única lei legítima, a de Deus, porquanto o islã dispõe de regras para qualquer assunto espiritual ou temporal", escreveu um especialista, o inglês David Hirst. O desastre eleitoral da ortodoxia iraniana reflete um fenômeno mais abrangente, o declínio do islã militante, aquele das bombas assassinas. O fanatismo político islâmico que o mundo conheceria a partir de atentados terroristas e do controle total das sociedades pelo clero não nasceu em Teerã, mas com a Fraternidade Muçulmana no Egito, nos anos 20. Demorou meio século para o grito de "O islã é a solução" tornar-se uma ideologia forte no mundo muçulmano. Outro problema: o mundo muçulmano adora fingir unidade, mas é um saco de gatos étnico e político, onde se misturam povos e culturas totalmente diferentes uns dos outros. Os governos em alguns países de maioria muçulmana olham para o islã político com temor e aversão ainda maiores que os sentidos nos países de tradição européia e cristã. Em 1982, o governo Hafez Assad massacrou 20 000 pessoas na cidade síria de Hama, considerada um bastião da Irmandade Muçulmana. O Egito recém-proclamou vitória

sobre o terrorismo islâmico, que durante uma década tentou arruinar a indústria turística do país chacinando visitantes estrangeiros. A Turquia, talvez o mais democrático país muçulmano do Oriente Médio, já saiu dos trilhos para impedir que a oposição islâmica (moderadíssima) assumisse o poder conquistado nas urnas. O momento é contraditório, pois, ao mesmo tempo em que o fundamentalismo armado perde fôlego, o islã, como fé e cultura, passa por um vibrante processo de renascimento. A noção de que a religião deve ter um papel importante na vida pública tem raízes profundas e não pode ser ignorada pelos governantes dos países de população muçulmana. Como reagem à religiosidade de seus habitantes depende, contudo, das peculiaridades de cada país. O que se conhece como mundo islâmico é uma área vasta, que vai da Europa ao Pacífico, no outro lado do planeta. Um único país, o Irã, é absolutamente teocrático, ou seja, é dirigido pelo clero muçulmano a partir não de leis votadas em parlamento, e sim das regras do Corão. Boa parte dos 23 países árabes é governada por presidentes com preocupações religiosas apenas formais. Ainda que disponham de poder de decisão equivalente ao dos aiatolás do Irã, Hafez Assad, na Síria, Hosni Mubarak, no Egito, e Saddam Hussein, no Iraque, se fazem reeleger periodicamente em simulacros de eleições, mantendo uma democracia de fachada. O zelo religioso é várias vezes mais intenso nas monarquias do Golfo Pérsico. Guardiã dos lugares santos, a família real saudita inventou a polícia da moralidade, que os iranianos copiariam mais tarde. Mulher que sai de casa sem véu apanha na rua de chicote. Uma embaixatriz brasileira levou um pontapé no traseiro num shopping de Riad, capital da Arábia Saudita, porque deixou o véu sobre cabeça deslizar para cima dos ombros. Adúlteras são executadas em vários países muçulmanos rígidos, como o Afeganistão. Mesmo o pai que mata uma filha, por surpreendê-la em relação sexual fora do casamento, não costuma ser condenado a prisão. A diversidade das formas de governo é sempre citada, entre os árabes, como prova de que o islamismo não é necessariamente sinônimo de ditadura. Dizem eles que, se há pouca democracia no Oriente Médio, isso decorre mais da história de cada país do que da religião. Há certa verdade nisso. Mesmo naqueles países onde os cléricos não tomaram o poder, no entanto, há quase sempre partidos islâmicos, mais ou menos extremados, na oposição política. Não costumam ter sucesso nas urnas. Nas desastrosas eleições de 1992, na Argélia, cujo

cancelamento levou à guerra civil com 100.000 mortos, a Frente Islâmica recebeu apenas 3,25 milhões dos 13 milhões de votos. Onde ganhou, como ocorreu na Turquia, declinou nas eleições seguintes. A baixa popularidade dos islâmicos fundamentalistas nesses lugares decorre, em parte, da sombria invocação dos chamados Versos da Espada. Trata-se de uma interpretação seletiva do Corão, com ênfase no apelo à Guerra Santa. "O clero e os fundamentalistas ensinam uma história errada do islã, olhando apenas para o autoritarismo e o militarismo do passado", disse a VEJA o romancista paquistanês Tarik Ali, que vive em Londres. "Por que nunca falam no verso corânico que diz que a fé não tem valor se for imposta à força?" O fato é que a postura belicosa que se tornou a palavra de ordem no islã significa encrenca em toda parte. Em fevereiro, a introdução da sharia, a lei islâmica, em dois Estados no norte da Nigéria deflagrou uma guerra tribal com a população cristã, minoritária. Há também conflitos confessionais na Indonésia e perseguição oficial aos cristãos no Paquistão. A adoção da sharia faz parte do discurso oposicionista em todo o mundo islâmico. Mas quando isso ocorre os excessos assustam até quem está disposto a colaborar. Os iranianos sentiram na carne o que significa reduzir a religião à observância cega de certas normas que proíbem o álcool, exigem vestuário de freira para as mulheres e não admitem sexo nas condições aceitas em países ocidentais. Um grupo de estudantes fanáticos e com origem tribal, o Taliban, tomou a maior parte do Afeganistão e adotou a sharia ao pé da letra. Baniu o corte de barba e a música e proibiu as mulheres de trabalhar fora de casa. Há uma longa distância entre o exagero bárbaro do Taliban e o exagero refinado dos aiatolás. Os dois regimes são, por sinal, inimigos mortais e já estiveram perto da guerra aberta. "Como fundamentalista sunita, o Taliban é profundamente antixiita", explica o professor Houchang E. Chehabi, da Universidade de Boston. "Se o Irã abrandar o regime, os fundamentalistas sunitas podem entender isso mais como um fracasso da seita rival do que como um exemplo a ser seguido." A revolução iraniana começou como uma explosão espontânea, reunindo todas as forças políticas e os grupos sociais descontentes com a monarquia. O regime tornou-se rapidamente um pesadelo. Os sacerdotes (mulás) saíram matando e exilando todos que pudessem ser oposição, de comunistas a muçulmanos moderados. Logo fizeram o aparato repressivo do xá parecer coisa de criança. Os mulás também

não tinham nenhum truque para sanar as mazelas do subdesenvolvimento. Talvez não exista mesmo como aplicar na prática uma economia baseada na justiça islâmica. O clero foi além, contudo, aproveitando-se das propriedades confiscadas para enriquecer. O Irã, em que o petróleo responde por 85% das exportações, foi esmagado pela queda no preço do barril, pelas sanções internacionais (impostas porque o regime financiava o terrorismo no exterior) e pela interminável guerra contra o Iraque. Não houve investimentos em atividade produtiva e o desemprego tornou-se crônico. Na última década, o governo iraniano produziu alguns benefícios: pavimentou estradas, melhorou a distribuição de eletricidade e de água. No final dos anos 70, só metade dos jovens iranianos eram alfabetizados. O porcentual cresceu 93% em duas décadas. O número de formandos universitários saltou de 430.000 para mais de 4 milhões. Com o xador negro, as iranianas tornaram-se o estereótipo da opressão xiita. Em contrapartida, são as mulheres com maior atividade política no Golfo Pérsico e, talvez, no mundo islâmico. Mais de 40% dos estudantes universitários são do sexo feminino. É verdade que a revolução também baixou a idade mínima para uma mulher se casar para 9 anos. A ironia é que a revolução produziu uma geração bemeducada, ansiosa por mergulhar na cultura globalizada. Iranianos, homens e mulheres, querem hoje usar roupas elegantes, expor suas antenas parabólicas e namorar em público – exatamente o que é proibido. O fracasso da única teocracia deu impulso a novas formulações sobre o Estado islâmico moderno. Muitas das discussões mais profundas dentro do islã estão ocorrendo nos jornais, tribunais e salas de aula iranianas. Mesmo clérigos e intelectuais que foram próximos a Khomeini estão agora colocando em dúvida as bases do pensamento religioso sobre o qual construíram a República Islâmica. A luta dos iranianos para liberalizar o regime (ninguém sugere publicamente que a teocracia pode ser abolida) é um dos movimentos mais fascinantes da virada do milênio. Ao derrubar o xá, Khomeini atingiu pela primeira vez na História moderna o objetivo comum a todos os muçulmanos: tomar o poder político em nome de Alá. A atual geração está tentando devolver o poder político ao povo, sem precisar jogar Alá pela janela.

A vida atrás dos véus
O mais enérgico movimento social a emergir no Irã desde 1979 foi o das mulheres. Apesar de obrigadas a esconder os cabelos com lenços pretos, as iranianas conquistaram posições importantes no governo, na universidade e na imprensa. Não é uma situação comum no mundo islâmico, sobretudo nos países árabes. Ao contrário, as mulheres são privadas de direitos básicos na maioria deles e não há notícia de nenhuma organização pelos direitos femininos que tenha sobrevivido por muito tempo. Na Arábia Saudita, elas não podem dirigir automóvel ou sentar-se sozinhas num restaurante. Em vários países, entre eles o Irã, seu testemunho na Justiça vale metade do de um homem. O Egito, que no início do século XX aboliu o uso do véu e nos anos 50 adotou o voto feminino, não permite que a mãe passe a nacionalidade egípcia ao filho. Há hoje 80 000 apátridas no país, todos filhos fora do casamento ou de pai desconhecido. Na década passada, o Estado baniu a mutilação genital, mas o hábito – cujo objetivo é privar a mulher do prazer sexual – continua amplamente difundido. Recentemente, para não contrariar a oposição islâmica, o governo retirou um projeto de lei que permitiria às mulheres viajar para o exterior sem autorização escrita do marido. A situação de inferioridade da mulher no Islã decorre, sobretudo, dos costumes patriarcais, mas a religião desempenha seu papel. Inspirada nos preceitos do Corão, a lei concede ao marido o direito de repudiar a esposa, sem que ela possa contestar ou pedir pensão. Na situação inversa, o divórcio exige da mulher longas batalhas judiciais. Em muitas nações, a mãe divorciada só pode criar as filhas até os 12 anos e os filhos até os 10. Daí em diante são entregues ao pai. Em vários países, a viúva não tem direito à herança do marido, repartida apenas entre a prole masculina. O próprio rei da Jordânia está empenhado numa campanha contra os chamados "crimes de honra". São pais ou irmãos que matam a filha ou irmã solteira suspeita de conduta sexual imprópria e raramente são punidos. A polícia jordaniana coloca as jovens ameaçadas atrás das grades para evitar que sejam assassinadas pela própria família. Em todos os países árabes em que há estatísticas disponíveis, a presença das mulheres no mercado de trabalho dobrou nos últimos vinte anos. Em vários existem mais mulheres que homens nas universidades. Ainda assim, elas continuam inferiores perante a lei e sem presença na política. A milícia fundamentalista Taliban, dona da maior parte do território do Afeganistão, foi mais longe. Proibiu as mulheres de trabalhar fora de casa, obrigou-as a cobrir todo o corpo – inclusive os olhos – com vestidões que escondem as formas femininas. Um tornozelo à mostra em local público pode ser punido com chibatada. Uma suspeita de adultério é morte certa, a pedrada.

O mundo do Islã
26 de setembro de 2001 Um quinto da população mundial segue os mandamentos de Maomé, o profeta que queria conquistar o planeta para Alá

Primeiro é preciso considerar que o Islã é o segundo maior grupo religioso do planeta. A grande maioria dos muçulmanos está na Ásia e na África, mas entre os americanos eles já são quase 7 milhões – e o número de adesões é crescente. Depois, é preciso admitir que os muçulmanos ocupam países paupérrimos, como o Sudão, mas também controlam áreas que são grandes produtoras de petróleo. E, finalmente, deve-se levar em conta que, embora os islamitas em sua maioria sejam pessoas pacíficas e generosas, há um grupo radical e violento cuja influência entre os seguidores de Maomé vem se tornando mais importante a cada ano. E que esse grupo foi capaz de explodir o World Trade Center, ícone do capitalismo, matando mais de 6 000 pessoas.

As faces do Islã são tão diversas como os países nos quais se estabeleceu (veja mapa). Mas de maneira geral os muçulmanos formam um povo profundamente religioso. Seguem os mandamentos de Maomé, o profeta que nasceu em 570, em Meca, na Arábia Saudita. Maomé viveu os primeiros cinco anos da infância no deserto. Depois, foi ser pastor de carneiros e, quando completou 20 anos de idade, trabalhou como caravaneiro de uma viúva rica, Khadidja. Ela era dez anos mais velha que ele. Os dois se casaram, tiveram uma filha e, por volta do ano 612, Maomé começou a ter visões. Ele criou então uma religião que absorveu toda a tradição judaica e cristã. Dizia que Abraão, Moisés e Jesus eram profetas de uma mesma linhagem. Ele próprio era o último e o mais importante dos profetas de Alá. Seus ensinamentos, portanto, eram os que deveriam ser seguidos. E todo o muçulmano teria como missão espalhar a fé islâmica pelo planeta.

MULHER MUÇULMANA Ela tem de andar com o corpo todo coberto, não pode estudar nem trabalhar, não tem direito a herança e, em caso de adultério, é apedrejada. Os muçulmanos acreditam que assim demonstram o apreço que têm pela mulher

O XADOR A falta de liberdade, a pobreza e a desesperança têm feito crescer o radicalismo islâmico entre os jovens muçulmanos

Nos ensinamentos de Maomé há preceitos religiosos, regras para a organização do Estado, instruções para o relacionamento entre pessoas e até normas para o dia-a-dia do tipo: as pessoas devem cortar as unhas começando pelo dedo mínimo da mão direita e terminando no polegar. Segundo sua doutrina, todo muçulmano nasce puro, e ganha o reino dos céus se cumpre com suas obrigações, todas muito bem definidas. Os cinco pilares da religião islâmica são:

a propagação da crença num deus único; a oração, que deve ser feita cinco vezes ao dia; o jejum durante o mês do Ramadã (em que o Corão foi revelado a Maomé); o zakat, doação anual que todos estão obrigados a fazer ao governo para redistribuição posterior; a peregrinação anual a Meca. O problema está justamente no primeiro dos itens acima. Segundo o Corão, os crentes devem defender sua fé, divulgá-la e lutar pela justiça e pelo bem. Ocorre que, há cerca de três décadas, vem crescendo o número de grupos que interpretam o texto sagrado de forma radical e pegam em armas para impor a fé islâmica. Hoje, todo o governo secular muçulmano enfrenta o desafio desses grupos radicais. Eles reclamam não apenas que os líderes políticos abandonaram a lei do Corão, mas que fizeram isso sem resolver os problemas crônicos de desemprego, corrupção e desesperança que afligem seus povos. Os americanos são odiados e atacados por seu apoio a Israel, a governos ditatoriais, como o do xá Reza Pahlevi, do Irã (deposto em 1979), por manterem tropas no território santificado da Arábia Saudita, berço do islamismo, e por serem o símbolo do capitalismo, que os mais conservadores consideram uma ameaça.

A tradução da palavra Islã é "rendição" – rendição dos infiéis à doutrina de Maomé. Os muçulmanos comuns, quando morrem, ficam numa espécie de estágio intermediário aguardando o juízo final, quando será decidido se irão para o céu ou para o inferno. Mas a fé islâmica reverencia os mártires da luta religiosa, que vão diretamente para o céu, sem escalas – e o céu dos muçulmanos é maravilhoso. Na descrição do texto sagrado, ele tem leitos incrustados com ouro e pedras preciosas, onde os homens são servidos de frutas e bebidas de sua predileção por jovens que fazem sexo, mas permanecem sempre virgens. Cada homem tem direito a 100 virgens. Mulher, no universo muçulmano, é um ser especial. Tem de vestir uma bata longa que esconda as formas do corpo e cubra o cabelo. Em países mais tradicionais, mulheres que deixam o lenço escorregar em local público são chicoteadas. Elas sofrem ainda outras restrições no Islã. Não podem estudar, trabalhar, discutir com seus maridos – aliás, é permitido a eles bater nas esposas. E, se ficam viúvas ou órfãs, não têm direito a herança. Essas são normas que vêm do século VII. Ainda valem em muitas regiões porque o Corão é tido, entre os islamitas, como uma versão concreta do sagrado. Conforme a crença muçulmana, o Corão já existia, no céu, antes que Maomé pusesse as palavras no papel. É, portanto, intocável. No capítulo que trata das obrigações missionárias do povo, o Corão esclarece: "Não há compulsão no Islã". Os povos não podem ser convertidos pela força. Mas a força pode e deve ser usada para banir a hostilidade ao islamismo. O texto sagrado, está-se vendo, autoriza a guerra contra os inimigos do povo muçulmano. E ainda ensina: "Quando empreendida, a luta deve ser levada a cabo com vigor". A história do Islã tem catorze séculos. Durante oito deles, os muçulmanos dominaram um terço do mundo conhecido. Invadiram grande parte da Europa e a Pérsia, chegaram à Indonésia. Naquela época, eles formavam um povo ilustrado que impunha sua cultura em ambientes medievais decadentes. Foi um tempo de glória. A força dos radicais muçulmanos, atualmente, está no apelo que fazem à memória dos tempos de prestígio de seu povo. E a uma interpretação meio enviesada do Corão. Em sua versão, o suicídio no campo de batalha é uma das espécies de martírio, em favor da fé, premiadas com as delícias do céu.

Os pobres de Alá
17 de outubro de 2001

A PERGUNTA Cabul, antes dos bombardeios: seria o Islã uma barreira intransponível para o surgimento de uma sociedade rica, moderna e democrática?

A fotografia acima mostra uma cena da capital do Afeganistão, Cabul, antes do início da ofensiva militar americana. É uma imagem edulcorada, quase alegórica, da falta de perspectiva da população afegã. A pobreza, obviamente, não é uma exclusividade daquele país. E muito menos se trata de uma criação muçulmana. Mas, neste hiato politicamente incorreto que o mundo vive, há uma pergunta que finalmente pode ser feita: seria o Islã uma barreira intransponível para o surgimento de uma sociedade rica, moderna e democrática? As estatísticas, se não respondem a tal questão, oferecem ao menos uma constatação: não há nenhuma nação com maioria muçulmana que se situe entre as mais avançadas do mundo. Ao contrário, a esmagadora maioria delas ocupa posições vexaminosas nas categorias que aferem o desenvolvimento humano e os graus de instrução e de liberdade da população (veja quadro). Nem mesmo os países do Golfo Pérsico, que embolsaram centenas de bilhões de dólares nos últimos 25 anos, por meio da exportação de petróleo, conseguiram (ou souberam, ou quiseram) melhorar o estado geral das coisas de maneira a incluir-se no clube dos desenvolvidos. Os petrodólares, na verdade, só serviram para aumentar a concentração de renda e criar simulacros de modernidade em

meio às areias escaldantes do deserto. Para se ter uma idéia, a família real saudita detém 40% de toda a renda nacional. Poder-se-ia culpar o catolicismo pelo atraso brasileiro, se o papa João Paulo II – ou Frei Betto, tanto faz – legislasse sobre assuntos econômicos. Afinal de contas, padres de direita e de esquerda são, em linhas gerais, contra o capitalismo e o anatematizam como se fosse o demo. Mas as batinas por aqui não têm muita voz, graças a Deus. O Brasil, assim como tantos outros integrantes do Terceiro Mundo, ainda está longe de ser um modelo de sociedade harmoniosa por motivos estritamente laicos, que vão da rapacidade da classe política a uma crônica falta de bom senso. No que se refere às nações islâmicas, no entanto, a religião espraia-se pelos campos econômico, social e moral de maneira sufocante. E não se está falando apenas dos regimes teocráticos, como o do Irã e o do Afeganistão. Mesmo nos países com um governo descolado formalmente da hierarquia religiosa, essa distância não é suficiente para neutralizar a crescente ingerência de imãs, aiatolás e ulemás em assuntos que se encontram fora do âmbito teológico. A exceção é a Turquia, que passou por um violento processo de ocidentalização forçada na década de 20.

O problema é exatamente esse: entre os muçulmanos, a religião não é parte, mas cada vez mais o todo. Engana-se quem acha ser esse um pecado original. O totalitarismo islâmico – uma outra designação para o fundamentalismo que hoje Osama bin Laden encarna de forma tão assustadora – é produto recente, tem menos de meio século, como notou o jornalista Fareed Zakaria, da revista MIRAGEM Newsweek. Ele foi adubado em terreno O hotel Burj Al Arab, nos Emirados secular e árabe. Nasceu no Egito, na Árabes: a arquitetura pode ser década de 50, como resistência ao arrojada, mas a paisagem verdadeira é de atraso processo de modernização que o então presidente Gamal Abdel Nasser procurou implementar a ferro e fogo. Nasser causou a reação fundamentalista ao tentar, por meio de uma repressão feroz, divorciar completamente o Estado da religião muçulmana. Falhou, como está claro, principalmente porque suas reformas nunca foram além do aspecto cosmético. E, ao falhar, abriu caminho para que o fundamentalismo ganhasse corpo dentro e fora das fronteiras egípcias.

No Ocidente, a reforma protestante do século XVI engendrou uma ética que, como demonstrou o sociólogo alemão Max Weber, acabaria por libertar o espírito empreendedor das amarras católicas e impulsionar o capitalismo. O fundamentalismo islâmico do século XX, e que adentra o XXI, é uma mentalidade que, do ponto de vista econômico e social, se originou da oposição cega a avanços de qualquer tipo. Alimenta-se da pobreza e, por isso mesmo, não pode ser apartado dela, sob pena de desaparecer como uma miragem. Daí a razão de seu discurso ser irracional – está sempre atrelado a causas genéricas e vagas, como o "pan-islamismo" e a "destruição do Grande Satã". Nunca se detém sobre as questões que realmente interessam. Em seu grande momento, a revolução iraniana de 1979, o fundamentalismo encontrou sua tradução mais fiel numa frase do aiatolá Khomeini: "A revolução refere-se ao Islã, e não ao preço dos melões".

O humorista Millôr Fernandes é autor de uma máxima preciosa: "Xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez". Parafraseando Millôr, o fundamentalismo é um jogo árabe que aumenta a capacidade de ser fundamentalista. Ele não encerra projeto que vise, pelo menos em tese, ao É SÓ PARA SAUDITA VER desenvolvimento de um povo. No A Fundação Rei Faisal, em Riad: não máximo, oferece migalhas existe nação muçulmana entre as mais avançadas do mundo assistencialistas – um modo eficiente, aliás, de arregimentar os jovens sem futuro que perambulam nas superpovoadas e caóticas metrópoles do Oriente Médio. A um fundamentalista cabe tão-somente vagar no inferno, com a esperança de alcançar um paraíso que não existe. Está respondida a pergunta do primeiro parágrafo.

Fontes: População: ONU (2001)/Índice de liberdade: Freedom House (2000-01)/Ranking de desenvolvimento humano: ONU (2000)/Liberdade de imprensa: Freedom House (2001)/Acesso à internet: Freedom House (2001)/Porcentual da população analfabeta: ONU (2000)

OPINIÃO
Ao meu amigo muçulmano
"O terrorismo é uma guerra contra a humanidade e deve ser combatido por todos"
Henry I. Sobel

Caro amigo muçulmano, escrevo-lhe hoje com pesar no coração, profundamente abalado com o hediondo atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina, Amia, em Buenos Aires, e com as bombas terroristas que explodiram em Londres. Escrevo-lhe para desabafar e, ao mesmo tempo, para lhe oferecer consolo. Sei quanto sofro quando radicais do meu lado praticam um ato de violência. Imagino que você deva estar sentindo agora a mesma angústia. Embora não existam ainda provas conclusivas, há indicações de que os criminosos pertencem a um grupo islâmico fundamentalista. Até o momento, dois dos tais grupos reivindicaram o atentado. É óbvio que pelo menos um deles está mentindo, vangloriando-se à toa. Vangloriando-se de que, meu Deus? O que há de tão heróico em tramar a morte de crianças, mulheres e homens desarmados? Não se derramou sangue de guerreiros, mas sangue de civis inocentes. Não se atacou um objetivo estratégico, mas um prédio onde trabalhavam mais de 100 pessoas, numa rua por onde passavam dezenas de transeuntes. Foi um atentado perverso, abominável, covarde. O que me assusta - e certamente o assusta também, meu amigo muçulmano - é a selvageria do terrorismo contemporâneo, seu tenebroso grau de brutalidade. Antigamente, o terror era dirigido contra a pessoa supostamente culpada dos males reais ou imaginários que os terroristas pretendiam eliminar. Se algum inocente fosse ferido ou morto, era apenas acidentalmente. Hoje em dia, o alvo do terrorismo são sempre inocentes: atletas participando de uma Olimpíada, crianças assistindo às aulas numa escola, turistas num aeroporto, passageiros de um ônibus ou um avião, fiéis orando numa sinagoga ou numa mesquita. A finalidade de tal matança indiscriminada é simplesmente espalhar o terror, semear o pânico, abalar as estruturas da sociedade. Um determinado grupo terrorista pode-se rotular de anti-semita e dizer que está atacando apenas os judeus. Mas as conseqüências transcendem a comunidade judaica. O terrorismo é uma guerra contra a humanidade e deve ser combatido, em conjunto, por todas

as nações civilizadas e por todos os seres humanos que repudiam a violência. Eu e você, meu amigo muçulmano, trazemos na alma as marcas da perseguição. Seu povo e o meu sofreram na própria carne os golpes do ódio irracional. E, mesmo assim, mantivemo-nos fiéis aos nossos respectivos credos, às nossas respectivas tradições. Não abandonamos nosso legado de fé. E continuamos saudando nossos irmãos com a mais bela palavra do mundo: shalom, Salam, paz. O número de vítimas da atrocidade perpetrada em Buenos Aires é infinitamente maior do que foi noticiado. Fomos vítimas todos nós, judeus e não judeus, que sonhamos com um mundo de paz e harmonia e fraternidade. Esperemos que esse crime tão sórdido seja prontamente punido - não com retaliações para vingar o sangue dos que caíram, mas sim com o firme empenho de identificar os autores do atentado e buscar, por todos os meios civilizados possíveis, submetê-los aos rigores da Justiça. No auge da ditadura em nosso país, um general mandou um recado a líderes da oposição: "Segurem seus radicais, que a gente segura os nossos". Este é agora o nosso papel, meu amigo muçulmano: tentar, dentro das nossas limitações (e como são grandes as limitações), segurar nossos radicais. Tentar mostrar-lhes que o derramamento de sangue não leva a nada. Tentar mostrar-lhes que a sua percepção da verdade não passa disso: uma percepção. E, como tal, pode ser parcial, distorcida, tingida por traumas passados, os quais - por mais reais e dolorosos que sejam - não justificam atos de loucura no presente. Tentar mostrar-lhes que somos todos filhos de um mesmo Deus, embora o chamemos de nomes diferentes, e que o direito à filiação divina é atributo que não se rompe pelo explodir de bombas. Tentar mostrar-lhes que só atingiremos nossos objetivos se desarmarmos o espírito e nos empenharmos pelo entendimento entre nossos povos e apoiarmos os líderes moderados no Oriente Médio - líderes israelenses e árabes - que estão determinados a superar, por meio do diálogo, anos e anos de ressentimento mútuo. Não desanimemos, meu amigo muçulmano. Não deixemos que a esperança de paz fique soterrada sob os escombros do prédio da Calle Pasteur.
Henry I. Sobel é presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista

Árabe, islã e fundamentalismo
"É perigoso ver um monolito onde há um mosaico de etnias, culturas e diversidade religiosa"
Claudio de Moura Castro

Farid era um colega egípcio durante meu doutorado nos Estados Unidos. Sendo profundamente religioso, logo que alugou um apartamento saiu atrás de uma igreja. Escolheu a mais próxima, que, por acaso, era batista. Quando estranhei que um muçulmano passasse a freqüentar uma igreja batista, tranqüilamente retrucou que era o mesmo Deus. Esse pequeno episódio de tolerância dá o mote para desfazer alguns equívocos perigosos. A imprensa cotidiana mistura árabe com islã, com fundamentalismo e com terrorismo. Árabe pode não ser muçulmano, como os libaneses cristãos que vieram para o Brasil. E muçulmano pode não ser árabe, como é o caso dos turcos, iranianos, indonésios e outros. Mas o erro daninho é imputar ao islã uma índole fundamentalista e intolerante. Pior: supor que mesmo as minorias fundamentalistas endossam o terrorismo. Desfazer tais equívocos é vital, tratando-se de uma religião abraçada por 1,3 bilhão de pessoas – um quinto da população do globo. Historicamente, o cristianismo tem sido mais intolerante que o islã. Ao longo dos séculos, havia templos e mosteiros católicos espalhados por quase todos os países islâmicos e não havia uma só mesquita na Europa. Existiam bairros judeus e sinagogas em Sevilha, Cairo, Samarcan e outros grandes centros culturais islâmicos. As Cruzadas eram guerras religiosas apenas para os cristãos. Para os árabes, significavam não mais do que uma invasão por nações estrangeiras. Com a iminente queda de Constantinopla, sede da igreja cristã ortodoxa, a comunidade religiosa que lá operava tinha a opção de fugir ou ficar. Como confiava na tolerância religiosa dos muçulmanos que estavam prestes a ocupar a cidade, preferiu ficar. De fato, estão lá bem tranqüilos, há mais de 500 anos, rodeados de muçulmanos. Por sua índole, o impacto dos mandamentos islâmicos afeta muito mais o funcionamento da família do que a sociedade ou o sistema político. É uma religião com a tônica de regular a vida pessoal e familiar. Embora em sua origem e difusão o islã tenha sido um movimento com características agressivas e fundamentalistas, ele secularizou-se, dando lugar à Idade de

Ouro do Racionalismo Islâmico, enquanto a Europa permanecia mergulhada nas trevas da Idade Média. Lembremo-nos: no primeiro contato da Europa com Aristóteles, os livros estavam escritos em árabe e tiveram de ser traduzidos. No mesmo Irã dos rabugentos aiatolás viveu Omar Kayyam, um poeta respeitado e de grande liderança intelectual na sua época. Em seu conhecido Rubaiyat, ele não se cansa de louvar Alá, o vinho e a beleza das mulheres (no Corão, as bebidas alcoólicas são desaconselhadas, mas não são proibidas). O que aconteceu nas últimas décadas foi o uso político da religião. Em países como Turquia, Malásia, Marrocos, Tunísia e muitos outros, o islã permaneceu em seus eixos tradicionais. Contudo, no Irã, Líbia, Sudão, Afeganistão, Palestina e Argélia, a religião foi usada por líderes políticos, como uma forma de mobilização fanática. De religião tolerante, virou seita fundamentalista. De uma fonte de orientação para o comportamento individual, foi transformada em um grito de guerra, a guerra santa do Jihad. Os movimentos fundamentalistas islâmicos são movimentos políticos que usam a religião para recrutar os pobres, os menos educados e os mais vulneráveis. É uma forma de controle social brandindo a caricatura de uma religião. Ora, se o islã se presta a tais reinterpretações, por que imputar a ele a tolerância e não o fundamentalismo? A razão para isso parece bem sólida, pois, segundo meus amigos muçulmanos, a natureza do Corão é ser explícito em seus ensinamentos, diferentemente da Bíblia, que fala por metáforas e permite interpretações. O Corão diz o que se deve fazer, o que é aceitável mas não é bom e o que não se pode fazer. O Corão é literal em seus ensinamentos. O que não diz que é proibido não pode passar a sê-lo em interpretação de algum fanático. Segundo as lideranças intelectuais islâmicas, as interpretações intolerantes e extremadas defendidas pelos fundamentalistas colidem com o espírito do Corão. É perigoso ver um monolito onde há um mosaico de etnias, culturas, diversidade religiosa, tolerância, enclaves fundamentalistas e, no limite, terrorismo desfraldando a bandeira do islã. Corremos o risco de criar uma outra intolerância contrária, esvaziando o espaço para o tradicional islã tolerante e empurrando para os braços dos extremistas grupos e pessoas cuja índole não podia ser mais diferente.

Em torno do xador
A mulher – eis a causa da gigantesca discórdia que barbariza e assusta o mundo
Roberto Pompeu de Toledo

A jornalista australiana Geraldine Brooks, então trabalhando no Irã, cobriuse com um xador e disparou para a casa do grande morto. O xador, o leitor sabe, é o traje que esconde as mulheres muçulmanas da cabeça aos pés. Ficam de fora apenas o rosto, entre as sobrancelhas e a boca, e as mãos, e nesse ponto o xador é mais liberal do que a burqa em voga no Afeganistão – um traje que nem o rosto deixa a descoberto, comportando apenas uma pequena tela, à altura dos olhos e do nariz, para permitir que a criatura embrulhada lá dentro enxergue por onde anda e não venha a sufocar. Nem por ser esse tanto menos estrito, o xador é menos indicativo de uma certa forma de encarar a mulher, e naquela época, a época do grande morto, estava no auge. Era um dos símbolos do tempo, no Irã. O grande morto era ele mesmo – o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder supremo da revolução. Geraldine Brooks se tinha enfiado no xador para apresentar as condolências à viúva, Khadija. Até aquele momento, poucos sabiam da existência de Khadija. Khomeini nada deixava entrever de sua vida pessoal. Agora lá estava aquela viúva, ela também, claro, enrolada num xador, do qual emergia, descreve a jornalista, "o rosto enrugado e amável de uma vovó". Quando Khadija estendeu a mão a Geraldine, o movimento deslocoulhe ligeiramente o véu – e então Geraldine viu... Viu uma réstia de cabelos encaracolados – brancos na raiz e cor de cenoura mais acima. Espanto. A senhora Khomeini pintava os cabelos! Geraldine Brooks aproveitou o tempo em que trabalhou como correspondente do The Wall Street Journal no Oriente Médio para pesquisar o que haveria para mais além do xador. Qual seja, o mundo das mulheres islâmicas. O resultado foi o livro Nove Partes do Desejo, que ganhou uma edição brasileira em 1996 (Editora Gryphus). Qual o sentido do xador? O clérigo iraniano Ibrahim Amini dizia que era o de deixar as esposas tranqüilas. Como todas as mulheres o usavam, oferecia a garantia de que os maridos, ao sair de casa, não seriam atraídos pela lascívia de alguma assanhada. Uma visão alternativa, também citada no livro, e de autoria do erudito Shabbir Akhtar, era a de que o xador contribuía para "uma verdadeira cultura erótica, em que se prescinde da excitação artificial da pornografia". Já entre os jacobinos da revolução iraniana o sentido era claramente anticapitalista. O traje ocidental transformaria a mulher num

produto de comércio, e as mulheres do Terceiro Mundo em consumidoras dependentes de modas que rapidamente ficam obsoletas. Põe o xador, tira o xador, põe o xador, tira o xador. Essa tem sido a sina das mulheres iranianas, e muçulmanas em geral. Os ventos que sopram na política acabam por cobri-las ou descobri-las. No tempo do xá Reza Pahlevi, que tinha por meta a ocidentalização do país, o xador foi proibido. As mulheres que ousavam desobedecer à ordem se arriscavam a ter as roupas arrancadas e rasgadas por policiais, além de ser impedidas de subir nos ônibus e entrar nas lojas. Algumas, inconformadas, nunca mais saíram de casa. A mulher de Khomeini foi uma delas. Uma vez, Geraldine Brooks foi convidada a tomar chá, num hotel, com duas mulheres do Hezbollah, o grupo fundamentalista do Líbano. Quando chegou, foi recebida por uma mulher com os cabelos oxigenados até a cintura, vestindo um négligé de seda. Pensou que tivesse batido na porta errada. Não reconheceu a militante que, dias antes, encontrara na paz de seu xador. Outra mulher, deitada na cama, vestia uma camisola escarlate com grandes fendas laterais. Quando a jornalista confessou sua surpresa em encontrá-las daquele jeito, elas riram. "É assim que ficamos em casa", explicaram, enquanto encenavam poses sedutoras. "O Islã nos encoraja a ficar lindas para nossos maridos." Geraldine Brooks deu neste momento um passo a mais na compreensão dos cabelos pintados da senhora Khomeini. Cherchez la femme... Procure-se a mulher, diz a sabedoria francesa, e se encontrará a razão que leva os homens a agir, a brigar, a perder a cabeça. No atual momento de barbárie e de guerra, concentremo-nos no xador. Ou melhor, no que existe dentro dele. Procuremos a mulher. Eureca! Eis a chave de tudo! Está ali, no modo de encará-las e conceber o papel que lhes cabe, um dos pontos centrais – não, o ponto central – da divergência entre as duas concepções de mundo que se chocaram, primeiro nos céus de Nova York e, agora, nos do Afeganistão. ... E por falar em mulher... eis a piada que circula na internet. Matar Laden só trará aborrecimentos aos Estados Unidos. Equivale a canonizar um santo para multidões de islamitas. Prendê-lo também tem inconvenientes. É incentivar os seqüestros para obter sua libertação. A solução seria capturá-lo e levá-lo a um hospital, para uma rápida mudança de sexo. Em seguida, ele – ou melhor, ela – seria solto em Kandahar, para viver – como mulher – entre os talibãs.

Em torno do xador (II)
Um pouco mais sobre a mulher como pólo de estranhamento entre os ocidentais e os muçulmanos Maomé teve mais de dez mulheres. As mais famosas são a primeira, Khadidja, com quem viveu monogamicamente até a morte dela, e Aisha, a queridinha da fase poligâmica que se seguiu. Chegou a ficar casado com nove a um tempo. Não se tratava de furor pela prática do sexo, embora o profeta não escondesse que a apreciava. Os casamentos constituíam-se em recurso para firmar alianças com diferentes clãs. Maomé era carinhoso e atencioso com as esposas. Dormia uma noite com cada uma, em sistema de rodízio. À parte o fato de a poligamia, quando só permitida para o homem, constituir-se em si numa violência contra as mulheres, era o mais justo e bondoso possível. Jesus de Nazaré não casou, segundo o entendimento dominante. Mantinha relações, porém, relações sociais, bem entendido, assíduas e naturais, com as mulheres. Para apóstolos, é verdade, escolheu só homens. Mas um punhado de amigas desfilam nos evangelhos – Marta e Maria de Betânia, Maria Madalena, Joana e Susana, estas duas, menos conhecidas, citadas por Lucas entre as "várias" mulheres que o seguiam nas peregrinações pelos povoados da Galiléia. Há cenas de carinho entre Jesus e as mulheres. Numa delas, Maria de Betânia lava os pés de Jesus com um perfume e enxuga-os com os próprios cabelos. Embora a sexualidade explícita do primeiro não se confirme no segundo, tanto um como o outro dos fundadores das duas maiores religiões monoteístas conviviam tranqüilamente com as mulheres. Eis um ponto de coincidência entre ambos. Nos dois casos, foi aos herdeiros que coube iniciar a escalada discriminatória que, quando não condenava, isolava ou diminuía as mulheres. Entre os muçulmanos, Omar, o segundo califa, foi quem baixou os decretos mais cruéis para elas. Determinou que ficassem confinadas em seus quartos, de onde só poderiam sair cobertas da cabeça aos pés, que tivessem lugares separados para fazer as orações e que as adúlteras fossem castigadas com a morte por apedrejamento. No cristianismo, a lenta elaboração de um pensamento que estigmatizava o sexo e, de cambulhada, a mulher desembocou, na virada do século IV para o V, nas construções teóricas de Santo Agostinho, o grande Santo Agostinho, ele que tanto pecara na juventude. "Estou convencido de que nada afasta mais o espírito do homem das alturas do que os carinhos da mulher e aqueles movimentos do corpo sem os quais um homem não pode possuir sua esposa", escreveu. Segundo o biógrafo Possídio, Agostinho não permitia que

mulher ingressasse em sua casa se não houvesse ali uma terceira pessoa, sem exceção para a irmã nem para as três sobrinhas, todas freiras. Tal comportamento fixaria um padrão de longa duração. O papa João XXIII, o maior reformador da Igreja no século XX, escreveria 1.500 anos depois em seu diário como lhe foi benéfica a educação que recebeu do bispo de Bergamo, Radini Redeschi, que lhe falava de tudo – menos de mulheres. "Era como se não existissem mulheres no mundo", deixou registrado, para concluir: "Essa falta de familiaridade com relação ao sexo oposto foi uma das mais poderosas e profundas lições em minha juventude como padre, e ainda hoje preservo, grato, a excelente e benéfica lembrança daquele homem que me educou nessa disciplina". Tudo isso é para dizer, neste momento em que tanto se comparam as culturas muçulmana e cristã, que em si, no que se refere à crucial questão da mulher, as duas religiões não diferem tanto. Certo, o cristianismo jamais prescreveu o apedrejamento das adúlteras. Em compensação, mandou-as para a fogueira, as adúlteras e outras que, ao explorar, ou imaginar-se que exploravam, os dengos femininos, caíam na fúria da Inquisição. O que distingue de verdade os povos cristãos e muçulmanos é a maneira como eles interagiram, a partir de certo momento, e interagem ainda, com as respectivas religiões. As sociedades ocidentais, robustecidas por períodos de afirmação humanística como o Renascimento e o Iluminismo, deram como que um chega-pra-lá no império da religião. Não é apenas que, como um dos fundamentos da democracia, tenham consagrado o princípio da divisão entre Igreja e Estado. Também na vida íntima, os cidadãos esvaziaram o poder legiferante da Igreja. Tomem-se os anticoncepcionais. O papa os proíbe, mas quem se importa com isso? Mesmo robustecidas por períodos de afirmação humanística como o Renascimento e o Iluminismo, deram como que um chega-pra-lá no império da religião. Não é apenas que, como um dos fundamentos da democracia, tenham consagrado o princípio da divisão entre Igreja e Estado. Também na vida íntima, os cidadãos esvaziaram o poder legiferante da Igreja. Tomem-se os anticoncepcionais. O papa os proíbe, mas quem se importa com isso? Mesmo católicos que vão à missa não se importam. Salto semelhante ficou faltando nas sociedades muçulmanas. Talvez isso se deva, entre outros motivos, ao fato de Maomé, fundador, de um só golpe, da fé muçulmana e do império árabe, ter criado ao mesmo tempo uma religião e um Estado. Ficou mais difícil separá-los. Até hoje, monarquias como as da Arábia Saudita e da Jordânia são conduzidas por dinastias que se dizem herdeiras do profeta. Daí que, nessa confusão, as leis da religião sirvam ao Estado e vice-versa. O resultado é o xador que tanta estranheza causa a um ocidental. Ou, inversamente, a minissaia e a mulher ao volante que tanto escandalizam os muçulmanos ortodoxos.

Em torno do xador (III)
O contrato de namoro no Irã, os apuros da rainha da Jordânia, a poligamia: casos de mulher e sexo no Islã No Brasil há o namoro, o noivado, a transa, o chamego, a ficada, a pulada de cerca. Há ainda o ajuntamento dos trapos, também conhecido, se se preferir fórmulas tão mais castiças quanto mais bregas, por "amancebamento" ou "concubinagem". São todas variedades de relacionamento amoroso que se distinguem do ato formal e religiosamente sancionado do casamento. No Irã, existe o "sinjeh". É o que se aprende no livro da jornalista australiana Geraldine Brooks já citado nesta coluna, dois números de VEJA atrás (Nove Partes do Desejo, edição brasileira da editora Gryphus). Que é o sinjeh? Esse nome compreende diversas formas de relacionamento – namoro, ficada, transa, amancebamento. Pode durar um dia ou anos. Ao contrário dos jeitos brasileiros de não-casar, no entanto, o sinjeh tem a curiosa característica de ser religiosamente aprovado. Faz-se um contrato de sinjeh perante o mulá, ou o aiatolá, os clérigos credenciados para chancelálo. De posse desse documento, o casal terá direito a se hospedar num hotel ou viajar junto sem o risco de ser detido numa blitz na estrada. O contrato serve também para conferir reconhecimento aos filhos nascidos dessa união, além de representar a versão iraniana da barriga de aluguel: o marido de mulher infértil pode celebrar o sinjeh com outra mulher, ter um filho com ela e trazê-lo para ser criado com a mulher permanente. Antiga instituição do ramo xiita do Islã, o sinjeh caíra em desuso, mas foi ressuscitado depois da guerra Irã-Iraque. Rafsanjani, o presidente da época, julgou que as muitas viúvas deixadas pela guerra tinham direito à retomada de uma vida afetiva. Além disso, precisava-se investir no repovoamento do país. Foi um avanço, em relação à repressão anterior às relações fora do casamento. O livro de Geraldine Brooks, fruto dos seis anos que ela passou como correspondente no Oriente Médio, é uma investigação sobre a condição da mulher no mundo islâmico, recheada de episódios vividos pela autora. Uma vez, na Jordânia, ao cobrir uma manifestação contra o aumento dos preços, teve a surpresa de descobrir que, a esse protesto, somava-se outro: pediase que o rei Hussein se divorciasse da mulher, a americana Noor. Um beduíno que estava por perto, kaffiyeh à Arafat na cabeça, explicou: "As pessoas daqui fazem muitas perguntas sobre a rainha. Ela era virgem quando se casou com o rei? É mesmo muçulmana, como diz? Se é, por que não cobre os cabelos?" Noutra ocasião, Geraldine Brooks acompanhou a rainha Noor numa solenidade. A rainha vestia uma saia que lhe cobria os

joelhos. Já a saia de Geraldine era mais curta. No dia seguinte, teve a surpresa de notar, numa foto de jornal em que aparecia atrás da rainha, que suas pernas haviam sumido. Um retoque lhes providenciara um par de pudicas calças. Na Arábia Saudita de hábitos muito mais estritos, onde nada além de cobrir o corpo todo é permitido, uma vez a autora foi a uma festa em que, como é de regra, as mulheres entravam por uma porta, os homens por outra e, uma vez lá dentro, eles ficavam num ambiente e elas noutro. Como Geraldine precisava entrevistar um dos homens da festa, sobre tema político, teve permissão para ir ao ambiente dos homens. Quando voltou, a mulher do entrevistado piscou e lhe disse: "Você me fez um grande favor. Meu marido adora falar de política. E falar de política com uma mulher certamente o deixou excitado. Hoje vou ter uma grande noite de sexo". Em território palestino, Geraldine fez amizade com uma família de marido, duas mulheres e catorze filhos. O ambiente poligâmico lembrou-a de uma canção berbere, cujos pungentes versos celebram a chegada de uma nova esposa a casa: "A estranha chegou; ela tem seu lugar na nossa casa. / Ela é nova, é linda, bem como meu marido queria. / As noites não são suficientemente longas para os jogos deles. / Desde que ela chegou a casa não é mais a mesma. (...) Mas aceito meu novo destino / Porque meu marido está feliz com sua nova mulher. / Eu também já fui linda, mas meu tempo passou". Imagine-se a situação do passageiro de avião que não leu as instruções de segurança ao embarcar, nem prestou atenção nas palavras do comissário. No meio do vôo há uma pane, e ele agora procura desesperadamente se atualizar sobre o tema. E toca a procurar o papel com as instruções, a consultar o passageiro ao lado, a chamar a aeromoça... Após os atentados de 11 de setembro, o resto do mundo procura, com a mesma sofreguidão, e na mesma situação de emergência, atualizar-se sobre o Islã. O livro de Geraldine Brooks aborda um assunto, a mulher, que é talvez, como já se insistiu aqui, nos dois textos anteriores, a causa de maior estranhamento entre a cultura muçulmana e a de origem européia. Algumas pessoas fazem diários para recordar-se das viagens, outras juntam fotos. Geraldine diz que tem o guarda-roupa nesse papel. Ali estão os lenços e véus sem os quais não circularia na região. E, num lugar de honra, o xador negro de rigor no Irã, com o qual se embrulha e se esconde essa nitroglicerina pura que é a mulher.

O gringo talibã
"A expansão do Islã traz no bojo sua própria transformação. Seu convívio com outras religiões, no seio de Estados que respeitam o princípio da laicidade, dará a plena dimensão de seu humanismo." Luiz Felipe de Alencastro

O rosto emaciado de John Philip Walker, o jovem americano de família católica que se converteu ao Islã e combatia ao lado dos talibãs, surgiu em TVs e jornais do mundo inteiro na semana passada. Com seus olhos fundos, o americano assemelhava-se aos afegãos e aos árabes: o rosto de todos os homens acuados encontra-se na mesma parecença, no mesmo desespero. Mas a foto do gringo talibã deixava também entrever outro aspecto da atualidade: o avanço muçulmano no Ocidente, dentro e fora das comunidades de imigrantes tradicionalmente filiados a essa religião.

Como se sabe, o Islã é a religião que mais se estende no mundo. Algumas fontes, como o Book of the Year da enciclopédia Britannica, calculam que já existam mais muçulmanos (cerca de 5,8 milhões) que judeus (5,6 milhões) nos Estados Unidos. O mesmo crescimento é observado na Europa, onde o Islã conta com um número crescente de seguidores. Em certas mesquitas francesas e inglesas já é perceptível a presença de muçulmanos de descendência européia. Nos Estados Unidos, é notória a penetração do Islã entre os afro-americanos. Qual o impacto desse fenômeno? Na The New York Review of Books, Christopher Jencks, professor em Harvard, publica um ensaio resenhando livros importantes sobre a população americana ("Who should get in?", 29 de novembro de 2001). Recapitulando

a imigração nos Estados Unidos, Jencks observa a virada operada nos anos 1921-1924, quando foram estabelecidas as cotas que reduziam drasticamente o número de imigrantes vindos da Europa central e da Europa do sul. Jencks cita os efeitos da crise econômica dos anos 1890 como um dos motivos do freio à imigração. Mas não menciona as conseqüências do processo de Sacco e Vanzetti. Acusados de roubo e assassinato, esses dois imigrantes italianos, militantes anarquistas, foram condenados à morte em 1921 e executados em 1927. Persuadidos de sua inocência, milhares de manifestantes se mobilizaram em vários países. No entanto, para muitas outras pessoas o caso Sacco e Vanzetti teve significação diferente. De fato, para a maioria dos americanos que acreditavam na culpabilidade dos dois italianos, o caso Sacco-Vanzetti rompia um dos mitos fundadores dos Estados Unidos: a idéia de que o país podia receber do mundo inteiro gente de todas as crenças e transformá-la em bons cidadãos. Doravante, o governo deveria rejeitar os indesejáveis. Tal foi o contexto da política de cotas de 1924. Em 1965, o Congresso abrandou as cotas, abrindo espaço para os imigrantes da América Latina, das Antilhas e da Ásia. A modificação deu lugar a uma nova vaga de imigração que facilitou a ida dos brasileiros atualmente residentes nos Estados Unidos. Se o movimento prosseguir no mesmo ritmo, em 2050 metade da população americana será formada pelo conjunto dos imigrantes pós-1965 e seus descendentes. Os atentados de 11 de setembro farão com que a política imigratória americana se torne novamente restritiva? Mais de 100.000 pedidos de autorização de residência e extensão de visto, assim como 80.000 solicitações de asilo por parte de refugiados, estão sendo passados a pente-fino pelas autoridades. Nessa perspectiva, o presidente Bush deu uma declaração bastante significativa: "Saudamos o processo que encoraja pessoas a vir para nosso país para visitá-lo, estudar ou trabalhar. O que não saudamos são pessoas que vêm para ferir o povo americano". Na seqüência, o secretário da Justiça, John Ashcroft, foi encarregado de implementar uma política de imigração restritiva a fim de impedir a entrada no território americano de terroristas e seus aliados. O endurecimento visará aos muçulmanos em geral e aos árabes em particular? Se tal for o caso, a nova política americana estará fadada ao fracasso. Na realidade, a expansão do Islã traz no bojo sua própria transformação. Seu convívio com outras religiões, no seio de Estados que respeitam o princípio da laicidade, dará a plena dimensão de seu humanismo.

É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?

O ódio dos muçulmanos ao Ocidente é cultivado por governos e imprensa
Amir Taheri

Ainda que a maioria não goste de admitir, porque seria pouco polido, pouco político, ou ambos, o fato é que existe no mundo muçulmano um sentimento de raiva contra o sistema global regido por um punhado de potências ocidentais, sobretudo pelos Estados Unidos. Fingir, como faz o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, que a guerra contra o terrorismo não tem nada a ver com o Islã é, no mínimo, ingenuidade. Tampouco a afirmação do presidente George W. Bush de que o Islã é uma "religião de amor e misericórdia" reflete a realidade existencial do islamismo de hoje. Quase todo muçulmano acha que não teve papel algum na configuração do sistema mundial em vigor, na fixação de seus valores, na montagem de suas regras. Fascinados pelo mundo contemporâneo, alguns também se assustam com ele. E reagem de maneiras diversas. A imensa maioria responde tentando minimizar seu contato com o mundo dominado pelo Ocidente. Mesmo os muçulmanos que vivem na Europa e na América do Norte procuram criar refúgios seguros – mentais, culturais, por vezes físicos, para não dizer guetos. Medo do Ocidente e fascínio diante de suas realizações são temas constantes em praticamente todos os níveis do discurso islâmico. Lá estão, em quase todos os sermões das mesquitas, da Indonésia ao Marrocos, passando pela Europa e pelas Américas. Os mais serenos desses sermões buscam marcar a distância entre o Islã e o Ocidente sem necessariamente incitar ódios. As versões mais radicais, porém, retratam o Ocidente como uma civilização baseada em cobiça, materialismo, corrupção e, pior, falta de religião. Apresentam o Islã como "a única fé verdadeira" e "a última chance para a humanidade" salvar-se da degeneração moral e da destruição completa. Quanto mais causticantes os ataques ao "Ocidente podre", mais altos os brados de "Allah Akbar" ("Alá é grande") nas multidões eletrizadas das preces de sexta-feira.

OVOS DA SERPENTE Há indícios de que os terroristas que atacaram os Estados Unidos em 11 de setembro foram chefiados pelo egípcio Mohamed Atta (foto maior). Numa hipótese perversa, aventada no vídeo em que Osama bin Laden confessa ter conhecimento dos crimes e sugere tê-los planejado, alguns dos terroristas árabes não saberiam que se tratava de uma missão suicida. Só os pilotos dos aviões seqüestrados que se chocaram contra as torres gêmeas e o edifício do Pentágono, em Washington, sabiam da natureza do ataque. Os demais foram levados a pensar que o seqüestro lhes renderia um bom dinheiro e uma aposentadoria segura em algum país árabe que dá guarida a terroristas islâmicos. Atta e os comparsas aprenderam a pilotar nos Estados Unidos e freqüentaram escolas técnicas na Alemanha

O EFEITO DOMINÓ Manifestações foram orquestradas pelos tradicionais inimigos dos Estados Unidos no mundo, em especial por ex-comunistas ainda pesarosos da derrocada da União Soviética, há dez anos. Em países como a Indonésia, o antiamericanismo se fundiu com o ressentimento religioso islâmico. O resultado foram greves gerais, tumultos de rua e protestos violentos produzidos por estudantes como o da foto, que freqüenta a Universidade da Indonésia em Jacarta

Durante a Guerra Fria, parte do repúdio muçulmano ao mundo moderno voltou-se contra o bloco soviético, execrado por seu ateísmo. De lá para cá, os Estados Unidos tornaram-se o alvo principal. Muitos ex-comunistas de origem muçulmana disfarçam agora seu ódio ao "imperialismo" americano como atos de "autodefesa cultural do Islã". A raiva do Ocidente reflete-se nos livros didáticos em todo o mundo muçulmano. Muitas vezes eles oferecem uma visão acanhada da história, na qual a experiência das Cruzadas e do colonialismo define as relações atuais entre o Islã e a cristandade. Afastam-se o mais possível da "ciência ímpia" do Ocidente, insistindo em que todas as "boas ciências" provêm dos muçulmanos de séculos atrás. Às publicações didáticas somam-se dezenas de livros de intelectuais muçulmanos que frisam o tema antiocidental de modo por vezes francamente vulgar. Numa recente feira de livros pan-islâmica em Doha, a capital do Catar, contamos mais de 100 títulos com temas contra o Ocidente e os judeus. Boa parte da mídia do mundo muçulmano ganha dinheiro com o sentimento antiocidental. Quase sempre, mais por oportunismo comercial dos donos e gerentes da mídia que por análise refletida. O fato de praticamente todo o produto cultural do mundo islâmico, da literatura ao cinema, à música, à arquitetura, ser obra de leigos aprofunda o senso de isolamento das massas muçulmanas, mesmo em seus países. Para se distinguirem, muitos muçulmanos passaram a fazer uso da aparência física. Os homens deixaram crescer barbas hirsutas e as mulheres adotaram um pano especial na cabeça semelhante ao utilizado pelas freiras católicas, adereço até meados da década de 70 desconhecido no Islã. Muitos homens também adotaram o traje paquistanês (uma camisa comprida chamada qamis) e o gorro típico de algodão, modas, de novo, só lançadas nos anos 70. Mais importante ainda, houve uma explosão no número de muçulmanos que mandam os filhos a escolas corânicas, em tempo integral ou de meio período. Mesmo na Europa, sempre que possível, muitos fazem questão de uma educação separada para meninos e meninas e organizam para eles cursos especiais. O objetivo desses cursos é "proteger as crianças" da contaminação de idéias ocidentais. Em diversas escolas para meninas muçulmanas na Inglaterra, os professores homens dão aula atrás de uma cortina, para não ver as alunas.

Nem todos os radicais defendem a violência, inclusive o terrorismo, para combater o Ocidente. A galáxia de organizações terroristas do mundo islâmico talvez se resuma a alguns milhares de homens espalhados por vários países. Mas, usando a analogia das bonecas matrioshkas russas, esses minúsculos grupos de terror estão lá no fundo das grandes comunidades. Essas comunidades talvez não aprovem os métodos dos terroristas, mas certamente simpatizam ao menos com alguns de seus objetivos. A maioria dos muçulmanos com quem se fala no assunto condena os ataques de 11 de setembro a Nova York e a Washington. Porém em seguida argumentam por uma "compreensão" que, às vezes, beira a justificação. Argumento típico: os responsáveis pelo 11 de setembro erraram. Mas foram forçados ao extremismo pelo apoio dos Estados Unidos a Israel, que oprime os palestinos. Claro que a questão de Israel não é o único motivo para "compreender" os atos terroristas em nome do Islã. Em 1979, os mulás montaram a tomada da embaixada americana em Teerã e fizeram reféns seus diplomatas não por causa de Israel, mas porque queriam que os Estados Unidos prendessem o ex-xá, hospitalizado em Nova York. Em 1983, terroristas islâmicos assassinaram cerca de 300 fuzileiros navais americanos que dormiam, em Beirute, não por causa de Israel, mas porque os EUA intervieram para ajudar Yasser Arafat a escapar de uma armadilha mortal montada por Ariel Sharon! O atentado aos fuzileiros foi organizado pela Síria e pelo Irã, que também queriam Arafat morto – ainda que por motivos próprios! Os soldados americanos que participavam da força de paz na Somália foram mortos não por causa de Israel, e sim porque tentaram prender o criminoso de guerra Mohamed Aidid, em nome das Nações Unidas. Mesmo que Israel seja varrido do mapa, radicais haverá no mundo muçulmano convencidos da missão divina de uma "guerra santa" contra o Ocidente liderado pelos Estados Unidos. Eles odeiam a democracia – qualificada por Khomeini como "forma de prostituição" – e os escandaliza o conceito de direitos humanos que trata como iguais homens e mulheres, crentes e não-crentes. O radicalismo islâmico rega o solo no qual crescem e prosperam movimentos terroristas. A violência não se limita a degolar alguém num avião seqüestrado. Também vem sob a forma de campanha de ódio em sermões, livros, artigos de jornal e programas de rádio e televisão. É desnecessário dizer que as primeiras vítimas dessa violência são os muçulmanos que não se submetem aos radicais.

O radicalismo islâmico recruta quase todo o seu pessoal na classe média e nas camadas ricas das sociedades muçulmanas. Dizer que o terrorismo é a arma dos pobres não é verdade. Entre meados da década de 60 e fim dos anos 70, quase todos os grupos terroristas operantes no Islã foram criados e controlados por governos, sobretudo do Egito, da Síria e do Iraque. O grupo Fatah, de Yasser Arafat, nasceu de um cheque de 50 000 dólares do emir do Kuwait, em 1967. Todos os dezenove terroristas dos ataques de 11 de setembro a Nova York e Washington vinham de família abastada. Quinze eram da Arábia Saudita, o país mais rico do mundo muçulmano, enquanto dois outros eram cidadãos dos Emirados Árabes, que têm um PIB per capita de quase 20 000 dólares. Novidade é a "privatização" do terrorismo no mundo islâmico, a partir dos anos 80, simbolizada pelo surgimento de grupos não controlados por nenhum Estado. No momento, as organizações terroristas muçulmanas podem ser divididas em três categorias. A primeira é composta de grupos que são, pelo menos em parte, controlados por algum Estado. É o caso do Hezbollah, com filiais em dezessete países muçulmanos e forte presença de agentes "dormentes" na Europa, sobretudo na Alemanha, nos Estados Unidos e na América do Sul. Criado pelo serviço secreto iraniano, o movimento é financiado por Teerã. Já seu ramo libanês é obrigado a "consultar" também Damasco nas decisõeschave, quando mais não seja porque a Síria ocupa o Líbano, com cerca de 40 000 soldados. Outro exemplo é o grupo dos Combatentes do Povo, financiado e controlado pelo Iraque, que também controla o que restou do bando de Abu Nidal. Ainda nessa primeira categoria seria possível incluir uma série de organizações palestinas menores, em geral de esquerda, estabelecidas na Síria e controladas por Damasco. O Tehrik Jaafari (Movimento Xiita Jaafarita), do Paquistão, entra nessa categoria por causa das ligações financeiras e políticas que tem com Teerã, que também controla vários grupos menores, inclusive o bando Imad Mughniyah, no Líbano, e o Partido da Ação Islâmica, do Iraque. O Sudão fundou e continua a financiar o Congresso Popular do Povo Muçulmano e seus rebentos terroristas. A segunda categoria de grupos que empregam o terrorismo é a dos que se concentram em questões específicas. Nela entram várias organizações palestinas, formadas por gente disposta a matar israelenses inocentes, mas que não opera contra outras nacionalidades e países. Também se poderiam incluir nessa categoria os grupos que lutam por autonomia ou independência na Caxemira, na Chechênia, em Xinjiang, no vale Fergana (UzbequistãoQuirguistão), nas Filipinas e em várias ilhas indonésias.

Esses, e outras duas dúzias de grupos parecidos, ativos em partes da África, de Zanzibar à Nigéria, recorrem a táticas terroristas apenas contra inimigos locais. A terceira categoria é composta de grupos terroristas pan-islâmicos que fazem uma guerra global contra os "inimigos do Islã", reais ou imaginários. Os EUA identificaram essa terceira categoria com um único homem: Osama bin Laden, um milionário saudita que, a certa altura da vida, participou de um esquema anti-soviético liderado pela CIA no Afeganistão. Mas o movimento armado islâmico vai muito além de Laden. Seus integrantes são vistos lutando ao lado da UCK em Kosovo e na Macedônia, onde Mohamed, o irmão mais moço de Aiman al-Zawahiri, tido como o herdeiro de Laden até ser morto no Afeganistão, comanda uma das unidades. E também são vistos combatendo numa dezena de outras frentes, de Sumatra à Argélia, passando pela Chechênia e Líbia. O movimento pan-islâmico terrorista criou uma teoideologia própria, baseada no wahabismo, versão radical do islamismo formulada inicialmente no século XVIII. Essa teoideologia se chama salafismo e é o alicerce da rede global tecida nos últimos 25 anos. A Al Qaeda ("a base") de Laden, como o nome indica, era uma espécie de quartel-general do movimento armado mundial salafi. A Al Qaeda tinha cerca de cinqüenta acampamentos grandes e pequenos no Afeganistão. Alguns, como Badr I, Badr II e Abu Khabab, eram quartéis de grande porte, capazes de receber milhares de soldados a qualquer momento. O cerne do exército particular de Laden não deve ter passado de algumas centenas de homens comandados por seu segundo filho, Mohamed. Mas no passado o saudita fez uma série de alianças com comandantes irregulares afegãos e com chefes terroristas de uma dúzia de países árabes e chegou a dispor de uns 20 000 guerreiros no efetivo total. Além disso, a Al Qaeda ainda conta com uma rede de "células dormentes" em diversos países árabes e ocidentais. Mencionem-se ainda vários grupos egípcios, entre os quais Anátema e Migração, Vanguardas da Vitória, Jihad Islâmica e Espada da Justiça. O grupo filipino Abu Sayyaf faz seqüestros e atua sobretudo em Mindanao. No entanto, alguns de seus integrantes têm combatido em outros teatros, inclusive no Afeganistão e no Uzbequistão. Os maiores grupos salafis, contudo, têm base no Paquistão. Um deles é o Lashkar Taibah (Exército dos Puros), uma força, segundo se diz, de 50 000 homens. Suas operações se limitam, em princípio, a ataques contra xiitas paquistaneses e incursões ocasionais na Caxemira sob o domínio da Índia. Mas alguns de seus homens também combateram na Chechênia, no Daguestão, na Bósnia, em Kosovo e na Macedônia.

Vai mais longe, entretanto, o papel especial do Paquistão, que tem cerca de 70 000 escolas corânicas, financiadas pelos países petroleiros do Golfo Pérsico, onde 6 milhões de crianças são instruídas na versão mais militante do islamismo e preparadas para dedicar a vida à guerra santa. O salafismo conseguiu dominar os movimentos radicais da Argélia, substituindo grupos mais tradicionais, como a Frente de Salvação Islâmica. O Grupo Islâmico de Combate líbio, ainda que se dedique à derrubada do coronel Kadafi, também andou lutando em regiões muito distantes de sua base. Uma rede complexa de bancos, instituições de caridade, associações e empresas comerciais, dos quais só alguns têm ligação com Laden, apóia o movimento salafi e suas diversas facções armadas. Desmantelar essa rede pode levar anos. O movimento terrorista contra o qual o presidente Bush declarou sua "cruzada" tem raízes profundas não só no Afeganistão e no Paquistão, mas numa dezena de outros países muçulmanos e em várias nações ocidentais, notadamente nos próprios Estados Unidos. Os EUA, na verdade, têm sido uma das principais fontes de recursos do salafismo, e isso desde o começo dos anos 80. Em 1985 houve em Dallas, no Texas, a maior conferência de líderes islâmicos radicais, a que estiveram presentes, inclusive, vários chefes terroristas ligados ao grupo de Laden. Mesmo que Laden seja morto ou preso, com seus principais homens, o Ocidente ainda terá dois problemas cruciais. O primeiro é desmontar o polvo. O segundo é convencer o mundo muçulmano de que o sistema global, com todas as suas imperfeições, está aberto a todos. É nessa segunda frente que pode acabar sendo bem mais difícil vencer a guerra.
Amir Taheri Iraniano, escritor e jornalista, editor da revista Politique Internationale, publicada em Paris

O islamismo é uma religião violenta?

Quem vai ceder no fim será a religião reacionária
Robert Wright

A opinião politicamente incorreta a respeito do Islã parece estar ganhando impulso. Logo após 11 de setembro, o governo Bush fez questão de declarar que o Islã é uma religião pacífica, "seqüestrada" por alguns poucos extremistas. Na ocasião, em artigo publicado na New York Times Magazine, Andrew Sullivan discordou. Admitiu que existem muçulmanos moderados e que certas passagens do Corão recomendam a misericórdia e a tolerância. "Mas seria ingenuidade não reconhecer, no Islã, uma profunda tendência à intolerância com relação aos infiéis, sobretudo quando são tidos como uma ameaça ao mundo islâmico." Em seguida, citava o preceito do Corão que manda "matar aqueles que misturam outros deuses ao Deus, onde quer que tu os encontre". Agora, um artigo publicado no Washington Post reforça a idéia de que devemos examinar o Corão em busca de indícios para entender o Islã moderno – e admite que os indícios são incriminadores. "Os estudiosos do Corão nos asseguram que, no texto, não há nenhuma ordem para os fiéis empunharem a espada contra os inocentes", escreve Michael Skube. "No entanto, como o texto deixa claro, a espada tem de ser empunhada – contra aqueles que negam Alá e seu Mensageiro, contra aqueles que acreditaram mas se afastaram da fé, contra os inimigos da fé, reais ou imaginários." Num recente balanço do incessante debate em torno do Islã, Seth Stevenson, da revista eletrônica Slate, observou de passagem que os textos sagrados cristãos e judeus também não são isentos de beligerância. Ele não estava brincando. Eis uma recomendação do livro Deuteronômio: "Quando te aproximares de alguma cidade para lutar contra ela, oferecerás a paz. Se a resposta for de paz e a cidade te abrir as portas, todo o povo que nela estiver será sujeito a trabalhos forçados para ti e te servirá. Porém, se ela não fizer paz contigo, mas sim guerrear contra ti, então a sitiarás; e, quando o Senhor teu Deus a entregar na tua mão, passarás a fio de espada todos os do sexo masculino que houver na cidade, mas as mulheres, as crianças e os animais, e tudo o mais que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti". Sem dúvida, o Deus judaico-cristão – ao contrário dos seqüestradores muçulmanos – parece, aqui, disposto a poupar mulheres e crianças. Mas esse tratamento é reservado às "cidades muito distantes de ti". Nas mais

próximas, "as cidades daqueles povos que o Senhor teu Deus te dá em herança, não deixarás com vida nada que respire, deves antes destruí-los completamente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus, conforme te ordenou o Senhor teu Deus; para que não te ensinem a agir segundo todos os usos abomináveis que seguem no culto aos deuses deles e, portanto, a pecar contra o Senhor teu Deus". Por outro lado, o Corão – na interpretação não de Mohamed Atta, mas sim de Mohamed (Maomé), uma tremenda autoridade no assunto – recomenda poupar mulheres e crianças, mesmo numa guerra santa. Não estou dizendo que o Islã é irrelevante com relação ao que ocorreu em 11 de setembro. De fato, admito em larga medida a tese de Sullivan de que entender o fundamentalismo contemporâneo como algo distinto das correntes moderadas do Islã ajuda a esclarecer nossos apuros. Mas digo que toda essa história de garimpar o Corão à cata de citações incendiárias é, em essência, inútil. As religiões se desenvolvem e em suas escrituras fundadoras existe, em geral, ambigüidade bastante para permitir que elas evoluam em qualquer direção. Se Osama bin Laden fosse cristão e quisesse destruir o World Trade Center, citaria a reação violenta de Jesus contra os vendilhões no templo. Se não quisesse destruir o World Trade Center, poderia destacar o Sermão da Montanha. Para certos críticos do Islã, essa concepção evolutiva da religião parece apenas reforçar sua acusação contra a fé. Por que, perguntam eles, o Islã não fez o mesmo que outras crenças – usar a margem de liberdade concedida pela ambigüidade das escrituras para afastar-se da intolerância truculenta? Se, durante as Cruzadas, os muçulmanos e os cristãos europeus se mostraram igualmente propensos a massacrar os infiéis (ou seja, a massacrar-se mutuamente), os cristãos europeus de hoje parecem aceitar a diversidade religiosa de um modo inadmissível para milhões de muçulmanos. Por que é assim? Para mim, a resposta parece simples: as nações predominantemente cristãs tornaram-se mais avançadas economicamente, mais globalizadas, o que leva naturalmente a uma perspectiva mais cosmopolita. É impossível fazer negócios com pessoas ao mesmo tempo que as massacramos e é bem difícil fazer negócios com elas enquanto lhes dizemos que vão arder para sempre nas chamas do inferno. O capitalismo global moderno tem seus defeitos, mas a intolerância religiosa não está entre eles. Desse ponto de vista, a intolerância dos fundamentalistas islâmicos não reflete as escrituras tal como registradas 1 400 anos atrás, mas sim as circunstâncias sociológicas em que viveram essas pessoas nas últimas décadas. No Paquistão, ao lado de milhões de fundamentalistas isolados e,

na maior parte, pobres, existem muçulmanos mais ricos, mais profanos e mais moderados. Os marxistas se equivocam na maioria das coisas, mas, quando encaram a religião como uma "superestrutura" – o produto de uma dinâmica econômica e política mais profunda –, estão no caminho certo. Entre aqueles que reconhecem que a modernização salvou o cristianismo da intolerância raivosa, alguns gostariam de converter mesmo isso numa acusação contra o Islã. Por que, indagam eles, desconfiados, o mundo muçulmano não se modernizou rapidamente? Por que a Europa cristã alcançou a Revolução Industrial antes da civilização islâmica? Não haveria no Islã algo intrinsecamente opressivo e economicamente paralisante? A chave para o sucesso da era industrial na Europa não estaria em alguma ênfase cristã na liberdade pessoal? Há várias coisas que me desagradam nessa linha de raciocínio: 1) sua incompatibilidade com as grandes conquistas intelectuais e econômicas da civilização islâmica durante boa parte da Idade Média; 2) sua incompatibilidade com o profundo autoritarismo de alguns líderes cristãos antes da Revolução Industrial (Calvino governou Genebra tão brutalmente quanto Stalin, na Rússia); 3) sua incompatibilidade com minha teoria predileta sobre a razão pela qual a Europa se industrializou antes da China e da civilização islâmica, que até então estavam na ponta-de-lança do comércio e da tecnologia. Essa teoria destaca a ausência de um poder eficaz – de um governo centralizado e firme – na Europa durante o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. Como a Europa estava fragmentada politicamente, numerosos Estados experimentavam diferentes formas de organização política e econômica, no intuito de superar seus vizinhos. Quanto mais experimentos, maiores as chances de encontrar uma fórmula vitoriosa – como a combinação de liberdade política com liberdade econômica, que demonstrou sua força na Holanda, no fim do século XVI, e na Inglaterra, no fim do século XVII. O êxito dessa fórmula deixou as nações cristãs vizinhas sem outra opção senão adotá-la também, e seu cristianismo desenvolveu-se em consonância com isso. A fórmula mágica de liberdade política mais liberdade econômica difundiu-se, desde então, por boa parte do mundo. Mais cedo ou mais tarde, tenho certeza, ela prevalecerá mesmo nos Estados islâmicos repressivos atuais. Infelizmente, a transformação pode ser dolorosa. Embora a globalização constitua, a longo prazo, a esperança para a sociedade muçulmana, ela é uma ameaça a curto prazo. Sim, economias de mercado são o único remédio duradouro para a pobreza. Mas, não raro, o primeiro passo da cura força em

demasia os laços da tradição, ao deslocar pessoas de comunidades rurais, alicerçadas no parentesco, para cidades ou favelas. E, mesmo décadas após esse deslocamento inicial, quando as famílias já foram postas a salvo da pobreza, a modernização pode ainda ameaçar os valores de pessoas profundamente religiosas. Daí decorre o paradoxo entre os dois tipos de seqüestradores que agiram em 11 de setembro: os pobres e de pouca instrução e os de classe média porém alienados. A turba que se apressa a pôr a culpa no Islã tem, obviamente, razão num certo sentido, e o Islã é parte do problema. A atitude dos fundamentalistas muçulmanos – sua repulsa ao mundo não-islâmico – contraria a lógica da globalização e, mais cedo ou mais tarde, alguma das partes terá de ceder. Porém, se a história serve para alguma orientação, quem vai ceder, no fim, será a religião reacionária, não o progresso tecnológico. Tal como ocorreu no passado, o efeito será o desenvolvimento de uma fé mais humana e tolerante. Não existe uma essência do Islã eterna e imutável, enraizada no Corão, que o condene a uma moralidade medieval. A realidade já é bastante desalentadora: temos de combater a pobreza e a ignorância, no entanto o remédio mais seguro para isso – a modernização econômica – comporta graves perigos a curto prazo. Não é preciso aumentar mais ainda nosso desânimo esquecendo que a maior parte das nações cristãs prósperas já teve, em outros tempos, a mesma mentalidade dos muçulmanos fundamentalistas atuais. Viviam atoladas num sistema religioso pré-moderno – e, não fosse por obra e graça de umas poucas reviravoltas da história, poderiam ainda estar lá.
Robert Wright Ensaísta e autor de diversos livros, entre eles O Animal Moral: Psicologia Evolucionária e o Cotidiano

Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local ou serão sempre focos de tensão?

Eles são milhões e vivem entre nós
Dominique Schnapper

Os países europeus em sua maioria foram, até a II Guerra Mundial, países de emigração. Eles povoaram as Américas e a Austrália e também muitos países da Ásia e da África. Nesse caso, a França é uma exceção. A inversão de situação que se observa agora não poderia ser mais impressionante. A Europa tem recebido uma imigração em massa desde o fim da guerra. Dois fenômenos históricos se conjugaram: o fim dos impérios coloniais da Inglaterra, da França, da Bélgica e da Holanda e um desenvolvimento econômico que pareceu milagre para quem conheceu as crises de entre as duas guerras. As necessidades da economia criaram um verdadeiro sorvedouro, que se conjugou ao atrativo das sociedades européias, mais ricas e mais livres que as sociedades de origem. O apelo da modernidade, seja qual for a ambigüidade do termo, somou-se ao efeito da pobreza nos países de origem. Migrações têm fluxos diversos e as populações muçulmanas não são as únicas que se instalaram na Europa estabilizada. Mas constituem uma alta proporção. A maioria dispõe, ademais, da cidadania do país de chegada. Os filhos de imigrantes nascidos na Europa só conhecem a terra natal dos pais como lugar de férias, e ninguém pretende "retornar". Mas o número não é o único ponto: é em torno da presença dos muçulmanos que se cristalizam as interrogações, inquietações e oposições, às vezes violentas, que recémchegados sempre suscitam nas coletividades organizadas. Os paquistaneses na Inglaterra, os marroquinos, turcos, surinameses e molucanos na Holanda, os argelinos, marroquinos e tunisianos na França e os turcos na Alemanha são as mais numerosas populações recentemente instaladas. Mas, além disso, tornaram-se os símbolos do imigrante e do que é considerado um "problema" social e político. O imaginário cristão é também rico em representações fantasmagóricas do Islã, tido como irracional, fanático e perigoso. É claro que os eventos de 11 de setembro as reativaram e suscitaram nova rodada de interrogações sobre a integração dos muçulmanos. Pergunta-se sobre sua disposição em participar de sociedades democráticas modernas e de que forma as tradições muçulmanas podem adaptar-se às exigências da sociedade democrática. Afinal, é possível a participação dos

muçulmanos nas democracias européias? A prática do Islã ultrapassa o domínio apenas religioso, impondo-se a lei religiosa em todos os aspectos da vida familiar e social. A não-separação do político e do religioso, que caracteriza o islamismo, não contradiz o princípio da separação do político e do religioso inscrito na legitimidade democrática? Por outro lado, o direito islâmico, fundado na desigualdade entre homens e mulheres, não contradiz o princípio de igualdade civil e política de todos, homens e mulheres, nas democracias? É bom não ceder à tentação de globalizar "o Islã". As culturas muçulmanas são tão diferentes entre si quanto os países de onde partiram os imigrantes. O Islã paquistanês, que é o fundamento da existência do país, é austero, autoritário e exigente, comparado ao Islã do Magreb, a região formada por Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia no norte da África. Formou-se num combate de vida ou morte pela independência da união indiana, quando da retirada das tropas inglesas. É um "Islã de combate", trazido pela forte politização dos paquistaneses britânicos. A situação é muito diferente na França, onde a maioria dos muçulmanos vem de três países do Magreb. No islamismo do Magreb se misturam as recordações romanas, as tradições cabilas e berberes e as singularidades próprias dos países mediterrâneos, sem esquecer a longa influência que os franceses exerceram sobre o país – no caso da Argélia, por mais de um século. Antes de emigrarem, os magrebinos tiveram uma forte aculturação francesa durante a colonização. A posição do Islã na sociedade difere igualmente de um país para outro, segundo a tradição de cidadania e segundo a maneira como as relações entre a política e a religião se organizam. Em todos os casos, impõe-se a necessidade, conforme os valores democráticos, de reconhecer o islamismo como uma das religiões da população nacional. Mas as maneiras de proceder a esse reconhecimento continuam muito diferentes. Os ingleses têm uma política de grande tolerância. Admitem a representação social da comunidade muçulmana. Os paquistaneses, em geral agrupados no espaço urbano em comunidades em volta de suas mesquitas, que fazem o papel de centros comunitários, gozam de uma autonomia cultural e institucional desconhecida nos outros países. Eles ainda não têm os mesmos direitos das outras religiões no que toca às escolas, mas dispõem de seus programas de rádio e televisão, reivindicam a construção de mesquitas, cujo número se multiplica. Conseguiram que suas filhas tenham um regime especial nas escolas, que respeite sua "discrição", conforme as regras impostas pela tradição islâmica. Desde o caso Salman Rushdie, os líderes da comunidade islâmica na Inglaterra têm assumido abertamente uma posição cada vez mais política.No clima liberal da Inglaterra, as redes islâmicas se desenvolvem com muito desembaraço. O governo inglês, contudo, recusou a

possibilidade de um "Parlamento muçulmano", e os juízes negam-se, em nome da convenção européia de direitos humanos, a admitir as práticas mais arcaicas, como casamento forçado, matrimônio precoce, a proibição de desposar um não-muçulmano ou a mutilação genital. A política francesa tem um estilo aparentemente diverso. País de imigração desde a primeira metade do século XIX, a França tem uma política tradicional de integração dos imigrantes, adaptada à integração nacional de tipo jacobino e ao ideal da cidadania individual. A integração é pessoal, não reconhece comunidades. A maioria das populações imigradas reivindica direitos de cidadania, mas não direitos comunitários. Os muçulmanos franceses se abstiveram de manifestação na crise Salman Rushdie. Não se manifestaram durante a Guerra do Golfo. A Alemanha é ainda um caso diferente. Há muito tempo, recusa considerarse um país de imigração e quer adotar uma política de gastarbeiter, quer dizer, de trabalhadores vindos de fora em busca de um emprego por tempo limitado. Declaradamente, espera-se que retornem ao país de origem. Não se trata de transformar imigrantes em alemães. Um código restritivo de nacionalidade contribuiu para essa política. Apesar das diferenças, vê-se que as políticas de diversos países europeus ante as populações muçulmanas acabam convergindo. A presença destas se tornou um fato e um direito e impõe aos governos o objetivo de ajudar o processo de integração dos imigrantes e sobretudo de seus filhos na coletividade nacional. Todos os países estão num processo de reconhecimento. A Alemanha debate o assunto, mas a reticência das populações e dos governos estaduais não permitiu ainda concluir o avanço. A organização de um "culto" muçulmano é, de resto, difícil, pois o Islã vem sendo diversificado por islamismos nacionais. Turcos e marroquinos, na Holanda, recusam-se a participar da mesma organização. Na França, sucessivos ministros da Justiça tentaram formar uma representação muçulmana no modelo da representação judaica. Mas os muçulmanos estão divididos e o projeto ainda não se concluiu. Como na Holanda, os turcos se recusam a colaborar com os muçulmanos magrebinos. É claro que o reconhecimento institucional não é o único fator de integração. O que dizer da integração social? As pesquisas sociológicas mostram as populações muçulmanas da Europa democrática, em sua maioria, evoluindo para a integração, cada qual no estilo do país onde se instalou. Os muçulmanos franceses aceitam os princípios fundadores da república laica. Na Alemanha, o comportamento das famílias turcas alinha-se mais e mais ao das alemãs: a fecundidade das mulheres turcas criadas e educadas na

Alemanha é próxima à das mulheres alemãs, não à de suas compatriotas na terra natal. As normas de educação, mais indulgentes e individualistas, conformam-se àquelas correntes na sociedade global. Vêem-se os mesmos resultados na França. Apenas os paquistaneses britânicos se conservam mais específicos. Brilham na vida econômica e cultural, mesmo mantendo os valores muçulmanos, de modo que seus filhos, ao mesmo tempo que participam da vida coletiva, têm o comportamento e os valores marcados pela tradição que os pais lhes inculcaram. Entretanto, de modo geral, não há dúvida quanto à tendência à integração. Mas por vezes essa adoção de um islamismo "tranqüilo", estimulada pelas famílias e pelos assistentes sociais, se transforma. Alguns dos convertidos acabaram por entrar nas redes islâmicas mundiais. Trata-se de uma ínfima minoria, que pode tornar-se significativa se adotar a suspeita dos nacionais de que o Islã é inassimilável pelas democracias européias. Na Inglaterra, os paquistaneses cultivam relações antigas com os movimentos fundamentalistas. Mantêm-se em contato estreito, econômico, familiar, cultural com seu país de origem. Alguns são bem ligados aos meios integristas. Veja-se a fúria com que aderiram à fatwa que condenou Salman Rushdie à morte. Nos outros países, o apoio à sentença iraniana contra o escritor anglo-indiano foi esporádico ou nenhum. A identificação com um Islã combativo perante o Ocidente é grande na população britânica de origem paquistanesa. Os muçulmanos modestos das periferias francesas têm uma consciência islâmica e nacional bem menos forte, mas sua solidariedade com o Islã vem crescendo desde 11 de setembro, e o anti-semitismo se desenvolve. Os acontecimentos de 11 de setembro nos ensinaram que a adoção de alguns traços de modernidade ocidental com a profunda rejeição do poder e dos valores do Ocidente é uma combinação possível na cabeça dos muçulmanos que vivem na Europa. As populações muçulmanas instaladas na Europa integram-se cada vez mais na vida coletiva. Mas isso não exclui a solidariedade com o Islã transnacional. Não basta falar a mesma língua nem ter a mesma formação técnica para compartilhar os mesmos valores morais e políticos. De qualquer modo, a integração objetiva em larga escala não impede que os acontecimentos mundiais dificultem a plena participação dos muçulmanos nas sociedades democráticas da Europa.

Dominique Schnapper Socióloga, integrante do Conselho Constitucional da França, estudiosa do fenômeno das migrações

Os provocadores de Cristo
Uma horda de pregadores evangélicos lança-se à empreitada de converter muçulmanos no Iraque Roberto Pompeu de Toledo

Com tanto espaço no planeta, por que as religiões foram nascer todas no mesmo lugar, amontoadas umas sobre as outras, acotoveladas como em ônibus cheio? Quer dizer: todas não – as "três grandes religiões monoteístas", como é costume referir-se à trinca integrada (por ordem de entrada na história) por judaísmo, cristianismo e islamismo. Se uma tivesse nascido na Sibéria, outra na Patagônia e outra – uma só ainda vai – no Oriente Médio, o mundo seria menos conflitado. Mas não. Nasceram todas naquela congestionada esquina do mundo. Pode-se mesmo dizer que nasceram – ou, se não nasceram, ganharam força e ressonância – na mesma cidade, Jerusalém. São as três aparentadas, fincadas nas mesmas raízes semitas, nascidas na mesma paisagem onde os desertos se alternam bruscamente com rios generosos e os tipos humanos se distribuem entre nômades, pastores de ovelhas e mercadores com bancas em sujas vielas. As origens comuns poderiam ter gerado compreensão e fraternidade entre elas, ainda mais que, em princípio, o deus é o mesmo. Não. O que há é hostilidade e tensão, responsáveis por algumas das piores catástrofes da história humana. Já não bastasse a impossível convivência, em espaço tão reduzido, de judeus e muçulmanos, os cristãos não esquecem de meter sua colher. Em seguida à invasão americana do Iraque, missionários evangélicos enxergaram no país antes governado por Saddam Hussein uma oportunidade. E lá estão eles, Bíblias traduzidas e panfletos escritos em árabe nas mãos, quando não vídeos com a história de Jesus, devidamente dublados na mesma língua, na empreitada arriscada e arrogante, quando não suicida, de tentar converter os muçulmanos. A estrela maior dessa onda é Franklin Graham, filho do mais célebre pregador evangélico dos Estados Unidos, Billy Graham. Como o pai em sua época, Graham filho mantém relações estreitas com os altos poderes de Washington. É próximo de George W. Bush. Já pregou para os militares do Pentágono numa Sexta-Feira Santa. Sua opinião sobre o Islã é que é uma religião "do mal". A revista Time dedicou sua última reportagem de capa ao tema. "Devem os cristãos converter os muçulmanos?" é o título da reportagem, e nela se é apresentado a personagens como Luis Bush (não é parente de sangue, mas, nas idéias... quem sabe?), outro pregador evangélico. Ele é autor da tese de

que toda uma larga faixa do planeta, variando entre 10 e 40 graus norte, é "escravizada" pelo Islã, pelo hinduísmo e pelo budismo e portanto, em última análise, pelo demônio. O Islã, segundo ele, tenta, a partir de sua base, lançar tentáculos pelo mundo afora. "Numa estratégia similar", acrescenta, "devemos penetrar em seu coração, com a verdade libertadora do Evangelho." Outro personagem, este protegido pela Time, por razões de segurança, com o nome fictício de "Robert", festejou a guerra contra o Iraque como o evento que lhe abriu as portas para o país onde mais queria concentrar os esforços. "O que é preciso entender", diz ele, "é que a diplomacia não funciona com Satanás." Nem todos os missionários compartilham a mesma visão predatória. Alguns nem proselitismo fazem. Contentam-se com as obras de caridade como forma indireta de angariar simpatias e, com alguma sorte, adeptos. Há uma violência intrínseca, no entanto, mesmo nas versões mais benignas do missionarismo. O Brasil das origens teve experiência disso. Os jesuítas e evangelizadores de outras ordens contribuíram para o desenraizamento e a perda de identidade dos nativos tanto quanto os colonos que os escravizavam e maltratavam fisicamente. O missionário sempre se põe numa situação de superior para inferior com relação à sua presa. Claro, ele é o portador da Verdade. A Verdade. Quem pode com ele? Ainda se fosse como no Japão... No Japão as famílias têm em casa um altar xintoísta e outro budista. Podem praticar as duas religiões ao mesmo tempo. Já as monoteístas são terrivelmente exclusivistas. Há exceções, como o sincretismo que no Brasil mistura o cristianismo e as crenças africanas. A religião católica, depois de um milênio e meio de intolerância, muitas vezes intolerância assassina, aprendeu as virtudes da flexibilidade. O mesmo não se pode dizer dos evangélicos. Os missionários que invadem o Iraque, implicitamente estimulados pelo fundamentalismo reinante em Washington, agem, se se permite a comparação, como o PTB ou o PL, quando lançam sua rede de pescar sobre as almas perdidas do Parlamento brasileiro. Só que muçulmano é diferente de deputado brasileiro do baixo clero. A religião integra sua identidade. Tentar despojá-lo dela equivale a tentar quebrá-lo por dentro. Diogo Mainardi escreveu, algumas edições de VEJA atrás, que o Brasil precisa de menos deus. O mundo precisa de menos ainda. A religião está entranhada em quase todos os conflitos contemporâneos – da Irlanda e da Bósnia, na Europa, às lutas da África. Religião, no mundo de hoje, divide de modo mais cruel que política, que cor da pele ou que futebol.

ENTREVISTAS
O terror de Alá
Amir Taheri - 21 de outubro de 1987

O radicalismo islâmico, que está no poder no Irã do aiatolá Khomeini, conduz sempre ao terrorismo, diz escritor exilado
Desde que começou a expor ao mundo as entranhas do regime do aiatolá Khomeini através de seus livros, o jornalista, escritor e economista iraniano Amir Taheri, de 43 anos, tinha consciência de que o preço dessa ousadia seria alto. Taheri não visita a família em Teerã desde setembro de 1982 e não pensa em repetir a viagem tão cedo. "Depois de ter publicado meus livros, não sei como seria recebido", desconfia ele. "Poderia até passar despercebido - afinal, sou um escritor -, mas correria o risco de ser fuzilado. 0 regime iraniano é imprevisível." Exilado por conta própria em Paris, poucos meses depois de Khomeini tomar o poder, em 11 de fevereiro de 19791 Taberi transformou-se em um dos mais requisitados observadores dos acontecimentos em seu país no Ocidente. por onde circula quinzenalmente no eixo Paris-Londres-Nova York. Em 1985, Taberi escreveu Khomeini, uma biografia do aiatolá já traduzida para oito idiomas, em que mostra por que o líder iraniano desafia igualmente a União Soviética e os Estados Unidos. No ano passado, ele publicou Holy Terror (Terror Santo), considerada uma das obras mais bem documentadas sobre o terrorismo islâmico. Economista formado na Inglaterra, Taheri despeja em seus livros toda a experiência acumulada como jornalista no Irã. Quando Khomeim assumiu o poder, ele era o redator-chefe do principal jornal iraniano, o Kayan, e deixou o país, decepcionado, ao ver o novo regime nacionalizar toda a imprensa. Em qualquer capital da Europa onde esteja, Taheri toma precauções básicas para sua segurança pessoal, não fornecendo o número do seu telefone e endereço sem antes certificar-se da identidade e das intenções de quem o procura. "A polícia européia não elucida os casos de terrorismo entre muçulmanos", queixa-se ele. Ocupado com os retoques finais do livro que escreveu sobre o escândalo da venda de armas americanas ao Irã e o início de uma nova obra sobre a vida dos muçulmanos na União Soviética, Taberi abriu um espaço em sua agenda para falar a VEJA sobre a vida no lrã dos aiatolás e a temida exportação da revolução islâmica.

VEJA - Em seu livro Khomeini o senhor compara o aiatoló a Stálín. Que pontos existem em comum entre eles? TAHERI - Os dois são idealistas, no sentido de tentar impor a sua verdade, as suas idéias. Os dois são extremamente cínicos e acham que o fim justifica os meios. O culto à personalidade é outra característica em comum. Não é por acaso que o título de Stálin era o "Guia Supremo". Khomeini também é o guia supremo. Mas acho que Khomeini é pior do que foi Stálin. Khomeini é um rebelde místico, o que o torna mais perigoso ainda. VEJA - Como o senhor define o regime do aiatolá Khomeini? TAHERI - O Irã vive hoje uma versão oriental do nazismo. Toda dissidência é punida, o povo é arregimentado e, como fazia Hitler, o governo de Khomeini se dirige aos jovens. VEJA - Que técnicas de persuasão os adeptos do seu governo utilizam? TAHERI - As pessoas vivem aterrorizadas no Irã. Quando vai haver alguma manifestação, os líderes mais fanáticos saem batendo de porta em porta anunciando a hora e o local, e dizem que se eles não participarem o sangue dos mártires da guerra vai ferver e coisas ruins podem acontecer. A casa pode ser incendiada, o carro destruído, os filhos poderão desaparecer e a mulher ser presa. Aterrorizando as pessoas, os adeptos do governo ao mesmo tempo as mobilizam. VEJA - Por que as mulheres iranianas voltaram a usar o chador, depois da revolução, com tanto entusiasmo? TAHERI - As que não portam o chador são atacadas pelas gangues de jovens militantes. Eles desfiguram as mulheres com ácido sulfúrico ou com canivetes e elas podem ser presas por vários meses. O terror é permanente e as mulheres são os seres mais oprimidos pelo regime de Khomeini. VEJA - Mas são constantes as manifestações de apoio ao regime feitas por mulheres. Esse apoio não é real? TAHERI – O islamismo infantifiza as mulheres e, ao mesmo tempo, lhes dá segurança. Elas não têm que competir no mercado de trabalho, não precisam encontrar um marido. Tudo é arranjado para elas. VEJA - A que se deve a opressão das mulheres no Irã?

TAHERI - Khomeini prega que as mulheres têm satã dentro delas e que 60% dos problemas humanos são devidos à relação sexual. Ele diz com freqüência: "Pena que as mulheres existam, porque sem elas os homens poderiam dar toda a sua atenção a Alá". VEJA - Como o regime iraniano mobiliza os jovens? TAHERI - As crianças e os jovens são recrutados, manipulados e submetidos a uma lavagem cerebral. O regime lhes dá uma ilusão de poder. Nas repartições públicas, existem muitos adolescentes que possuem poderes extraordinários. Ao lado de cada funcionário graduado existem dois ou três jovens, com a barba rala, que podem decidir até quem deve ou não ir para a cadeia. VEJA - E isso não gera o caos na administração iraniana? TAHERI - Recentemente, um bando de jovens funcionários do governo prendeu por dez dias o prefeito de Ispahã, a segunda cidade mais importante do Irã, e houve muita confusão antes que os próprios dirigentes os convencessem a soltá-lo. Ninguém foi punido. Em outra ocasião, um rapaz de 16 anos foi à principal agência do Banco Nacional de Teerã, expulsou o diretor e instalou um comitê revolucionário em seu lugar. Verificando os arquivos do banco, eles viram que muitas pessoas deviam dinheiro e consideraram isso um pecado. Mandaram prender todos os devedores e as autoridades levaram quinze dias de negociação para explicar-lhes que aquelas pessoas haviam feito empréstimos regulares com o banco. VEJA - De que maneira os jovens são recrutados para a guerra? TAHERI - Antes de partir, eles recebem uma chave de plástico colorida fabricada em Formosa que Khomeini diz ser a chave do paraíso. E eles a colocam em torno do pescoço. Khomeini diz também que os combatentes corajosos montarão num cavalo feito inteiramente de luz e subirão ao céu para contemplar Alá. VEJA - Que idade têm essas crianças? TAHEIU - Em média 15 anos, mas muitos têm 10 ou 12 anos. É a idade propícia a qualquer manipulação. Atores arregimentados pelo regime fazem representações de aparições de santos no horizonte e uma voz lúgubre diz: "Meus filhos, eu vim do céu para confortá-los nesse momento terríve!". São atores pagos pelo Estado para fazer o papel das aparições divinas. VEJA - E qual a função das crianças na guerra e na cidade?

TAHERI - Elas servem para a limpeza dos campos minados. Muitas vezes os pais têm de esconder os filhos para impedir que sejam mortos no front. Nas cidades elas são recrutadas também como espiões para vigiar quem é um mau muçulmano. Em troca, Khomeini promete que elas terão um lugar no paraíso. Em 1984 ele conclamou as crianças a espionar os hábitos dos pais, dos professores e dos vizinhos. Cada jovem tinha o dever de espionar sete vizinhos. VEJA - Qual é a justificativa para esse tipo de tratamento? TAHERI - Khomeini diz que a infância é uma invenção do Ocidente para impedir os seres humanos de assumir suas responsabilidades. "Se uma criança compreende que não deve pôr a mão no fogo porque queima, ela já é uma pessoa que sabe distinguir entre o bem e o mal", escreveu Khomeini em seu livro. Não se deve esquecer que os homens podem se casar aos 16 anos e as mulheres aos 9. Khomeim mesmo se casou com sua mulher quando ela tinha 9 anos. VEJA - Por que o Ocidente é tão odiado no Irã? TAHERI - Com a corrupção do regime do xá, os regimes ocidentais foram associados à falta de honestidade. As elites que falavam em democracia e socialismo andavam de Mercedes-Beriz. Os iranianos não perderam a confiança na democracia, mas a falta de tradição democrática ajudou Khorneini a pregar a volta ao século XIV. VEJA - Como é feita essa propaganda? TAHERI - Khomeini diz que os estrangeiros, principalmente os americanos, vão conquistar nosso país, vão dormir com nossas mães, irmãs e filhas, vão nos desonrar e nos violentar. VEJA - Muitas pessoas da classe dirigente do regime de Khomeini estudaram em universidades da Europa e dos Estados Unidos. Como é possível que hoje pensem assim? TAHERI - O ministro das Relações Exteriores do Irã é médico pediatra. Seu pai era contínuo de um banco e sua mãe empregada doméstica. Ele foi enviado, corn bolsa de estudo do governo, para estudar nos Estados Unidos. Trata-se de um caso típico. Quando um homem assim retorna, os pais que possuem um vocabulário de cerca de 1 000 palavras não conseguem entendê-lo. Ele se revolta com isso e passa a rejeitar o Ocidente. Sair do Irã para estudar num país desenvolvido equivale, muitas vezes, ao choque de um carro num muro de concreto a 200 quilômetros por hora.

VEJA - A presença da Marinha dos Estados Unidos no Golfo Pérsico está influindo nos rumos da guerra entre o Irã e o Iraque? TAHERI - Mesmo com incidentes com os recentes ataques americanos contra barcos do Irã, Khomeini tem pouco a reclamar da vigilância da Marinha dos EUA no golfo. A presença americana exige também que os iraquianos não ataquem navios e instalações petroleiras do Irã. Ora, é exatamente isso que os iranianos pedem desde 1984. O Irã é forte na guerra em terra firme. No ar, a supremacia é do Iraque. Por isso, o único local onde os iraquianos infligiam perdas significativas ao Irã era no golfo, atrapalhando a exportação do petróleo iramano. O Iraque não tem nenhum interesse nessa área porque escoa sua produção através da Turquia e da Arábia Saudita. É a primeira vez desde 1983 que o Irã está vendendo seu petróleo sem problemas - 400 000 barris de óleo a mais atualmente do que antes da presença americana no golfo. É o recorde absoluto desde que a guerra começou. VEJA - Os EUA gastam milhões de dólares para preservar os seus interesses e acabam protegendo os interesses do Irã? TAHERI - Os americanos gastam cerca de 10 milhões de dólares por dia para manter a frota no Golfo Pérsico e, por tabela, ajudam Khomeini a receber 60 milhões de dólares a mais diariamente. Ao mesmo tempo, o aiatolá mobiliza o país contra o "Grande Satã". VEJA - É possível aderir aos muçulmano sem ser terrorista? princípios do fundamentalismo

TAHERI - O radicalismo islâmico leva inevitavelmente ao terror. Há catorze séculos que isso é verdade. Não se pode dizer que um islamita radical mesmo que trabalhe num escritório, escreva tranqüilamente e não participe de nenhuma ação - seja inofensivo. As coisas que ele escreve matam. Não se pode impor o fundamentalismo islâmico no mundo de hoje sem a violência. Conheço radicais islamitas que são puros e gentis, mas estão fora do poder. Uma vez no governo, o idealismo deles mata. O fundamentalismo é um instrumento de assassinato individual e coletivo. VEJA - Por que os governos da França e dos EUA, entre outros, negociam com o terrorismo? TAHERI - Para obter resultados eleitorais. O governo de Khomeini é terrorista em sua política externa e interna. E preciso haver uma ação comum para combatê-lo. Essa atitude comum deve basear-se em princípios claros de retaliação econômica e política, e não em bravatas no Golfo Pérsico.

VEJA - Como o regime de Khomein organiza a exportação da revolução islâmica? TAHERI - Khorneim diz que o dever de cada islamita é de "matar e ser morto por Alá". É assim que ele encoraja os terroristas. Ele diz também que o primeiro dever de cada diplomata no exterior é a exportação da revolução islâmica. A Embaixada do Irã em Brasília não existe para fazer diplomacia, comércio ou intercâmbio cultural. O dever dos diplomatas que lá estão é o de promover a revolução islâmica. Há quatro meses Khomeim recebeu todos o diplomatas do Irã na Europa e reafirmou essa orientação. VEJA - As embaixadas praticam atos de terrorismo? TARERI - Elas servem de base logística. Algumas são de extrema importância como a Embaixada do Irã no Vaticano. Desde 1982, ela passou a funcionar como o principal centro de incentivo ao terrorismo islâmico na Europa. VEJA - Que atribuições tinha esta embaixada? TAHERI - Financiar o terrorismo, utilizar a mala diplomática para troca de documentos sobre as operações, fornecer documentos falsos e recrutar pessoas. Nós sabemos hoje que a embaixada no Vaticano chefiava a rede de terroristas na Europa. VEJA - Por que a Embaixada do Vaticano foi escolhida para exercer esse tipo de coordenação? TAHERi - Exatamente porque o Vaticano não exerce nenhum tipo de controle e fiscalização sobre ela e porque ela está a salvo da polícia italiana. Hoje, a embaixada em Genebra tomou-se muito importante também como centro de espionagem. A da Inglaterra e a da França foram núcleos importantes até recentemente. Não se trata de nenhum segredo, só que ninguém lê os discursos de Khomeini como ninguém lia os discursos de Hitler. VEJA - Como é a formação de um terrorista? TAHERI - Primeiro existem escolas ideológicas para lavagem cerebral, como a escola de Qom. Os alunos em seguida seguem três caminhos distintos: uma parte é enviada ao front de guerra, outros tornam-se propagandistas e vão pregar a revolução islâmica nos países árabes, na Europa e nos Estados Unidos, e uma terceira parcela especializa-se em atos terroristas. VEJA - O que se ensina nesses cursos de terrorismo?

TAHERI - Existem basicamente dois cursos: o de pirataria aérea. localizado no Líbano, e o de fabricação de bombas e terrorismo urbano, ministrado em Teerã e Tabriz. Na escola de pirataria aérea, o aprendizado é feito em maquetes de aviões Boeing e Airbus. VEJA - As escolas religiosas conhecidas como centros corânicos e que começam a se espalhar pela Europa também fazem parte dessa rede? TAHERI – Os radicais de cada centro pressionam e intimidam os moderados. Em Genebra, um bando de khorneinistas atacou recentemente uma escola coránica enorme. Eles destruíram tudo, bateram nos alunos e a polícia suíça nada fez. Também recentemente os radicais mataram um iraniano no centro de Genebra, na frente de sua mulher, e a polícia nada descobriu. VEJA - E por que a polícia se acomoda nesses casos? TAHERI - Quando se trata de terrorismo entre muçulmanos, a polícia nada faz com medo de represálias contra a sua própria população. Se matarem um cidadão suíço, será outra coisa. Em Paris, foram assassinadas cinco pessoas ligadas ao regime do xá, e não se descobriu nada. VEJA - Qual a reação das companhias aéreas ao terrorismo? TAHERI - A Lufthansa, a British Airways e a Swissair pagam aos terroristas iranianos para não ter seus aviões seqüestrados. Minhas fontes no Oriente Médio deram provas disso. Evidentemente, não posso identificá-las, mas são de toda confiança. VEJA - A exportação da revolução islâmica é mais agressiva do que a comunista? TAHERI - Eu creio que sim. O comunismo faz parte do mundo moderno. Nós podemos gostar ou não dele. Nos países desenvolvidos, os comunistas, em geral, combatem no plano das idéias. Na França, o comunismo não é exportado pela violência, mas o islamismo é. A implantação do comunismo nos países subdesenvolvidos é violenta, mas esse combate se dá em tomo de idéias e sistemas aceitos no século XX. Os comunistas, com freqüência, negociam politicamente. Com os islamitas não existe acordo possível. Eles querem dominar e destruir não importa qual sistema de todos os países. VEJA - Qual é o ponto fraco do regime iraniano? TAHERI - A multiplicidade das facções que disputam o poder. No Irã existem várias correntes contraditórias unidas pela autoridade de Khomeini. Com o

fim do aiatolá, esses grupos vão perder esse fator de coesão. Será o mesmo que imaginar o nazismo sem Hitler. VEJA - Qual é o futuro do Irã na sua opinião? TAHERI- Acho que até o fim do século a República islâmica estará extinta. O radicalismo dos camicases do regime age nos dois sentidos. Hoje, os livros islamitas, vendidos a preços irrisórios, sobram nas livrarias. Os cidadãos comuns freqüentam cada vez menos os locais de peregrinação e os que perderam as suas casas e seus filhos na guerra começam a associar tal fatalidade ao regime a que estão submetidos. São 4 milhões de desabrigados, 1 milhão de mortos e 1 milhão de feridos. Cento e cinqüenta mil prisioneiros, 3 milhões de exilados e 5 milhões de desempregados que começam a gerar uma reação em cadeia. Aristóteles diz que a corrupção de um sistema vem sempre do exagero de seu princípio fundamental. Excesso de democracia mata a democracia. O comunismo radical acaba asfixiando o regime comunista. Assim, o exagero islâmico acabará com o regime islamita. VEJA - O senhor prevê a volta da monarquia? TAHERI - Acho difícil prever a forma do regime político que o povo escolherá com o fim do islamismo. Espero que seja um governo capaz de fazer o Irã entrar no século XX antes que ele acabe.

Não peço desculpas
Salman Rushdie 17 de maio de 95 Condenado à morte por Khomeini há seis anos, o escritor está farto de viver escondido, mas continua resistindo às pressões ......................... William Waack

Entrevistar o escritor britânico Salman Rushdie, escondido desde 1989, quando o aiatolá Khomeini, então o todo-poderoso líder do Irã, prometeu 3 milhões de dólares para quem o matasse, é como participar de um filme barato. Rick, do Special Branch da Scotland Yard (os 280 policiais do esquadrão de elite antiterrorista), abre cada uma das 36 latinhas de filme, revista minuciosamente repórter e fotógrafo e, sempre vigilante, só então os transporta para um lugar neutro e desconhecido, que resulta ser uma suíte no 2º andar de um tradicional hotel no centro de Londres. Outro policial está no quarto, recompondo a TV que desmontou à procura de alguma bomba. Acompanhado por mais dois agentes, Rushdie chega apressado, o rosto disfarçado com um vistoso chapéu marrom de abas largas e óculos escuros. "Já estou cheio de viver assim", desabafa. Depender para sobreviver da mesma polícia que ele acusava de brutal e racista em relação a imigrantes é apenas uma das ironias dos últimos conturbados anos da vida de Rushdie, 47 anos, filho de uma próspera família de Bombaim e há 33 vivendo na Inglaterra. Revelação literária no país com sua novela Os Filhos da Meia-Noite, ganhou celebridade mundial ao se transformar em alvo de muçulmanos enfurecidos com a publicação de Os Versos Satânicos, livro tão discutido quanto pouco lido e que, do ponto de vista de fundamentalistas, contém ofensas imperdoáveis ao Islã. Governos ocidentais trataram do caso Rushdie com visível má vontade, companhias aéreas o tiraram da lista de passageiros, o casamento acabou e a ex-mulher saiu criticando-o em entrevistas. No Brasil, nunca foi publicado, por temor dos editores. Mas Rushdie não parou de trabalhar. Seu último livro, Oriente, Ocidente, uma coleção de contos tendo a imigração como tema principal, sai no Brasil no mês que vem. Um novo romance, O último Suspiro do Mouro, está programado para 1996. Rushdie falou a VEJA na semana passada,

pensando na hipótese de visitar o Brasil. "Disseram-me que lá é o paraíso", sonha ele. VEJA - Como é viver escondido durante seis anos, depois de ter sido condenado à morte por fundamentalistas islâmicos? RUSHDIE - Intolerável. Estragou a melhor parte da minha vida: tinha 41 anos quando isso começou. VEJA - O senhor pode sair, ir a restaurantes ou ao cinema? RUSHDIE - Posso, pois há uma diferença entre esconder e proteger alguém. VEJA - Cercado de agentes secretos, dá para fazer coisas comuns, como visitar amigos? RUSHDIE - Prefiro nem responder a essa pergunta, tire suas próprias conclusões. O confinamento a que eu estava submetido no começo não existe mais, embora a ameaça continue presente. E isso destrói a vida de qualquer um. VEJA - Sobrou alguma coisa da intensa vida social que o senhor levava antes? RUSHDIE - Os jornais já se acostumaram a que eu apareça em um lugar ou outro, a ponto de os conservadores dizerem que não vale mais a pena gastar dinheiro público na minha proteção pessoal. VEJA - É verdade que o senhor está pagando sua proteção do próprio bolso? RUSHDIE - Mais de 800.000 dólares do meu dinheiro foram gastos nisso. Foi um acordo com a polícia, do qual não posso dar detalhes, para melhorar minha segurança pessoal. Tem gente falando que minha proteção custou cerca de 6 milhões de dólares ao ano. É exagero. Acho que nunca chegou nem perto disso. VEJA - Companhias aéreas continuam recusando-se a aceitá-lo como passageiro? RUSHDIE - Com a Lufthansa e a British Airways é um problema. Os argumentos que elas mencionam para não me transportar não são

racionais. O governo britânico acha que se forem tomadas as precauções habituais eu não represento nenhum risco adicional. No caso da Lufthansa, acredito que as verdadeiras razões são as boas conexões comerciais entre os alemães e os iranianos. VEJA - Seu casamento terminou durante esse período, o senhor está separado de seu filho. Como faz para lidar com esse tipo de situação? RUSHDIE - Meu casamento já estava terminando, de qualquer maneira. Mas consegui levar uma vida quase normal, emocionalmente. Eu não quero dar detalhes, só posso dizer que nada é impossível. Quanto ao meu filho, se você não se importa, gostaria de deixar isso de fora. Eu tento ser pai, falo muito com ele pelo telefone e acho que conseguimos estabelecer uma boa relação, mas não quero falar muito disso. Fico impressionado com a coragem que ele mostrou nesse tempo todo. VEJA - Como tem sido seu trabalho de escritor, artificialmente separado de quase tudo? RUSHDIE - A memória de um escritor é muito ampla, e há muita coisa para tratar. Meu isolamento já não é tão completo como no começo, mas cria problemas especiais. O livro que acabei de terminar, e que sairá no Brasil, estava na minha cabeça há muito tempo. Uso muito as anotações sobre vários lugares que visitei na índia e a memória tão viva que tenho de minha cidade natal, Bombaim, da qual sou capaz de dizer qual loja está em qual esquina, qual ônibus vai para onde. VEJA - O senhor está pensando em trabalhar literariamente sua experiência como condenado à morte? RUSHDIE - Durante esse tempo todo escrevi um diário. Um dia gostaria de escrever um livro contando tudo, sobretudo um monte de segredos que não posso revelar agora, nomes de pessoas maravilhosas que me ajudaram e ainda não posso mencionar. VEJA - É verdade que, em troca da suspensão da sentença, o senhor estaria disposto a não se meter mais em política?

RUSHDIE - Não faço compromissos com assassinos. Não tenho interesse, de qualquer maneira, em projeção política, embora minha obra seja de certo modo política, o que traz suas conseqüências. VEJA - Seu caso não tem sido defendido com unanimidade, não importa se em círculos de esquerda ou direita. Como o senhor se sente diante disso? RUSHDIE - Há períodos em que realmente é muito difícil interessar as pessoas ou os governos pelo meu caso. Aqui na Inglaterra, por exemplo, foi duro mobilizar até mesmo a antiga liderança do Partido Trabalhista, que eu sempre apoiei. Com Tony Blair (o novo líder trabalhista), isso mudou. Por outro lado, o governo conservador foi muito enérgico em me proteger. VEJA - O senhor, que tem criticado abertamente os governos europeus, acredita que nada está sendo feito para ajudá-lo? RUSHDIE - Até há pouco não havia realmente muita disposição política em resolver meu caso. É muito difícil convencer esses governos a aplicar pressão econômica sobre o Irã, pois existe um desejo muito forte de ganhar dinheiro com esse país. Mas agora o Irã passa por uma situação difícil e não está mais podendo pagar suas contas, o que tornou mais fácil para os governos europeus lembrar coisas como direitos humanos. VEJA - Mas os governos da União Européia apresentaram ao Irã a exigência de suspender a sentença de morte contra o senhor. RUSHDIE - Até agora não temos resposta a essa exigência, que não é a criação de uma zona livre para mim - algo com que não concordo, pois seria admitir implicitamente a sentença de morte. O que está sendo exigido são garantias, de alcance mundial, de que essa sentença não será executada. VEJA - O governo iraniano argumenta que nada tem a ver com isso, que a decisão foi tomada por autoridades religiosas e não seculares. RUSHDIE - O regime iraniano é teocrático. Em tudo está misturada a autoridade governamental e a religiosa. Só no meu caso seria diferente? Existe uma unidade entre religião e governo no Irã. Desde

1989, quando o aiatolá Khomeini pronunciou a sentença, a única ameaça detectada pelos serviços secretos britânicos era representada por agentes diretamente ligados ao governo do Irã. Se obtivermos uma garantia do Estado iraniano de que nada será feito, 95% do problema estará resolvido. A longo prazo admito que outro fanático possa representar perigo, mas todo tipo de personalidade pública sofre essa espécie de risco. No fundo, essa coisa toda a meu respeito está cansando todo mundo. A mim, inclusive. Gostaria de nunca mais ter de mencionar a palavra Irã, um país pelo qual nunca me interessei muito. VEJA - Nem pelo tipo de movimento político, popular e religioso que ocorreu lá? RUSHDIE - Nem isso, pois eu fui criado num tipo de islamismo de fundo sunita. Nada tenho a ver com os xiitas iranianos. Minha família não era muito religiosa. VEJA - Mas o senhor declarou, pouco depois da sentença proferida por Khomeini, que se havia convertido ao Islã. Por que fez isso? RUSHDIE - Esse foi meu maior erro. Aconteceu no final de 1989, no pior momento psicológico para mim, quando me sentia totalmente sozinho e abandonado. Por culpa desse desespero é que declarei que me tinha convertido ao Islã, o que tratei de corrigir mais tarde. A razão para voltar atrás é que não estava sendo honesto comigo mesmo. Foi a única vez em que disse alguma coisa que não correspondia a minha convicção. VEJA - O movimento religioso e popular inspirado por Khomeini nunca o impressionou? RUSHDIE - Evidentemente, quando a revolução iraniana começou, unia todo o arco da sociedade em torno de Khomeini. Muita gente, eu também, cometeu o erro de acreditar que depois da vitória da revolução o elemento religioso ficaria em plano secundário. Acho que todo mundo o subestimou. Minutos após a vitória da revolução, Khomeini a devorou. Foi uma revolução extraordinária, e uma grande tragédia que essa coligação contra o xá tivesse sido destruída de maneira tão rápida.

VEJA - Ao escrever seu livro mais famoso, Os Versos Satânicos, que originou toda essa situação, havia ou não a intenção de criticar uma religião, o Islã? RUSHDIE - Não, a maior parte do livro não é sobre religião, e sim sobre imigração, sobre gente que sai de um mundo e entra em outro. Minha idéia, muito simples, era a de que uma pessoa que passa por isso acaba questionando tudo, sua cultura, sua identidade, reinventadas num novo mundo. Isso vale tanto para um indiano que chega à Grã-Bretanha como para um brasileiro que aterrissa nos Estados Unidos. Um desses aspectos é, obviamente, a religião. No meu livro o que existe é uma versão do Islã, mas poderia ter sido de qualquer outra religião, a católica, a judaica ou a hinduísta. VEJA - Mas o senhor escolheu o Islã, e muita gente se sentiu ofendida. RUSHDIE - O Islã entra no livro através de seqüências de sonhos de um dos personagens, e ainda por cima um personagem que está ficando louco. Não pretendia fazer um retrato dessa religião. VEJA - Pessoas muito religiosas em geral não estão dispostas a aceitar que se façam paródias, retratos ou brincadeiras com suas crenças. RUSHDIE - No fundo tudo isso pode ser resumido a uma guerra entre pessoas que encaram uma piada e outras que não conseguem aceitar brincadeiras. A maioria das pessoas que se sentiram ofendidas nem sequer leu o livro. VEJA - O senhor não está esperando de religiosos uma abordagem fria e racional quando se sentem ofendidos, está? RUSHDIE - Muita gente se sente ofendida por várias coisas, até por obras de arte. O papa achou ofensiva a nudez das pinturas de Michelangelo na Capela Sistina, por exemplo. É comum que obras de arte ofendam pessoas. VEJA - O senhor nunca se sentiu compelido a oferecer desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas com seu livro?

RUSHDIE - Não. Eu me sinto ofendido o tempo todo por coisas, mas não penso em matar seus autores. É muito fácil sentir ofendido por um livro: é só não lê-lo. Se você é uma muito religiosa, não precisa ler o livro. Se estiver lendo e não feche o livro.

muitas não se pessoa gostar,

VEJA - Aproveitando o furor em torno do seu caso, algumas pessoas dizem que valores religiosos deveriam ter um tipo de proteção especial. RUSHDIE - Discordo totalmente disso. Claro que valores religiosos são importantes para muita gente, mas quem vai decidir quais valores serão protegidos de que maneira? Os extremistas religiosos? É importante que o discurso religioso não mereça nenhum outro tipo de privilégio em relação a qualquer outro tipo de discurso. Toda religião é relevante, mas ela é apenas uma idéia entre outras idéias. VEJA - Como o senhor vê a expansão de idéias religiosas fundamentalistas pela ásia, áfrica e Oriente Médio? RUSHDIE - O fundamentalismo é um movimento político, e não religioso. A teologia do fundamentalismo é completamente banal. Nada tem a oferecer. É sofisticado apenas como movimento terrorista. E traz a maior das opressões: a opressão contra a mulher. Nenhuma cultura progride enquanto se encerra numa gaiola. Cultura é diálogo, é uma infinita e ininterrupta conversa entre pontos de vista divergentes. VEJA - Alguns de seus amigos de esquerda dizem que o senhor não os ajuda a defendê-lo, já que assumiu em sua obra posições incômodas, agressivas com os sistemas de valores de muita gente. O senhor concorda? RUSHDIE - Eu sou incômodo porque tentaram me matar. O engraçado é que meu livro nem sequer é uma crítica muito forte ao Islã. No meu livro o Profeta se sai bem, supera as tentações a que é submetido como todo profeta em toda religião. E, ao superar as tentações e deparar em seu triunfo com todo tipo de pessoa, as que o amavam e as que o odiavam, ele se mostra em meu livro uma pessoa tolerante. A única pessoa que ele mata é o personagem do escritor.
VEJA - Esse mesmo personagem afirma no livro que não consegue ver a diferença entre escritores e prostitutas. É um recado seu?

RUSHDIE - Não, isso não é o que eu penso, é o que gente do tipo de Khomeini pensa. A grande diferença entre escritores e prostitutas é que a maior parte dos escritores ganha menos dinheiro do que elas. VEJA - Em sua obra o senhor já experimentou diversos estilos. Isso foi intencional ou o resultado de amadurecimento? RUSHDIE - Eu escrevi um livro uma vez pensando numa criança de uns 11 anos de idade. Da mesma maneira que no cinema, acho possível escrever de forma que, pronto o trabalho, nem interessa mais saber se foi originalmente feito para crianças ou não. Basta pensar em Spielberg. VEJA - Como o senhor acha que sua obra será recebida no Brasil, um país que pertence a uma região e uma cultura com as quais o senhor nunca teve muito contato? RUSHDIE - Estou muito curioso. Críticos compararam meus livros a escritos de autores como Gabriel García Márquez. O realismo mágico está relacionado a uma literatura e a um continente específico, é uma expressão que pretendo evitar utilizar em meu caso. Nos últimos vinte anos algumas das melhores obras vieram da América do Sul. Li Márquez, Vargas Llosa, Juan Rulfo, Jorge Amado, Alejo Carpentier, Ernesto Sábato, Carlos Fuentes, Julio Cortázar. Li todos eles em inglês. Indiretamente fui influenciado por eles, sobretudo quando era estudante e descobri Jorge Luis Borges. Autores desdobram e mostram quais são as possibilidades que se tem ao escrever. Ele foi importante na minha formação. E quando meu livro Os Filhos da Meia-Noite foi publicado fiquei muito lisonjeado ao saber da comparação com os realistas mágicos da América Latina. Nunca conheci García Márquez, que acho um dos maiores escritores do mundo. Encontrei uma vez Jorge Amado, aqui em Londres, numa recepção da embaixada brasileira. Fui lá apertar a mão dele, a quem admiro muito, mas acho que ele não vai lembrar-se de mim. O mundo latino-americano é muito diferente do meu, mas fico contente em saber que existe essa literatura com a qual me identifico bastante. VEJA - O senhor pensa em ir ao Brasil? RUSHDIE - Penso, se eu puder. Minha agente adora o Brasil e sempre fala tanto de lá. Minha teoria é a de que o Brasil é o paraíso.

O Islã na mira
Paul Johnson - 26 de setembro de 2001 Para o historiador inglês, não basta dar caça aos terroristas internacionais. É preciso levar a democracia aos países muçulmanos
...................................... Carlos Graieb

O inglês Paul Johnson é um homem sem meias palavras. Enquanto boa parte dos intelectuais do Ocidente lança mão de eufemismos e procura relativizar a responsabilidade das nações islâmicas nos atentados terroristas aos Estados Unidos, Johnson ataca de frente. Nesta entrevista a VEJA, ele defende de maneira incondicional a posição americana e israelense nos conflitos do Oriente Médio e afirma que o fundamentalismo não é um traço acidental do Islã, mas algo inerente a ele. São opiniões que esse ex-aluno da Universidade de Oxford, hoje com 73 anos, forjou em várias décadas de trabalho como jornalista e historiador. Católico, monarquista, conservador, ele é um dos principais colunistas da revista The Spectator, uma das mais tradicionais da Inglaterra. No campo da pesquisa histórica, Johnson especializou-se em elaborar grandes sínteses – tijolões com várias centenas de páginas, no estilo "tudo que você queria saber sobre...". Uma de suas obras mais recentes, A History of the American People (Uma História do Povo Americano), de 1999, é uma homenagem do autor inglês ao país que ele considera "uma realização humana sem paralelos". Ao longo dos anos, o estudo da religião também ocupou lugar de destaque nas preocupações de Johnson. Sua bibliografia de dezessete títulos abriga dois volumes irmãos, História dos Judeus e História do Cristianismo, esse último recém-traduzido no Brasil. Johnson não descarta a idéia de um dia debruçar-se sobre a terceira das grandes religiões monoteístas – o islamismo, que ele considera "ainda mergulhado na Idade Média". Veja – Há duas explicações, não necessariamente excludentes, para o antiamericanismo dos muçulmanos. A primeira é que esse sentimento decorre de um ódio religioso à modernidade, simbolizada pelos Estados Unidos. A outra, que ele é resultado de ações políticas concretas dos americanos no Oriente Médio. Qual delas o senhor acha a mais determinante? Johnson – Não é a segunda, definitivamente. As fontes do antiamericanismo exibido no ataque ao World Trade Center e ao Pentágono

estão sem dúvida ligadas à natureza da religião islâmica. Tanto o judaísmo quanto o cristianismo, ao qual pertenço, são religiões antigas que passaram por grandes movimentos de modernização nos últimos séculos. O catolicismo viveu a Reforma e a Contra-Reforma, e com isso adaptou-se a situações cambiantes. O judaísmo atravessou aquilo que se convencionou chamar de Iluminismo Judaico, no século XVIII. Já o islamismo não passou por um correspondente período de modernização. Permaneceu uma religião de feições medievais e gerou Estados de feições medievais, nos quais religião e política não se separaram uma da outra. Quando falamos de fundamentalismo islâmico, na verdade estamos usando uma expressão enganosa. Todo o Islã é fundamentalista na essência. É uma característica congênita. Baseia-se na crença de que toda palavra do Corão é verdadeira e imutável – algo que só o mais extremista dos extremistas sustentaria hoje num ambiente cristão, em relação à Bíblia. Em termos de religião comparada, não há nada de moderado no islamismo. Veja – Ainda que se concorde com essa idéia, daí não decorre necessariamente que o islamismo incite à violência. É o que muitos estudiosos têm lembrado nos últimos dias: que a religião muçulmana prega a paz e a convivência entre os povos. Johnson – Sim, há ensinamentos de paz no islamismo, mas eles não compõem o coração da doutrina. A palavra "Islã" não significa paz, mas "submissão". Basta ler o Corão. A sura 9, versículo 5, decreta: "Matai os idólatras onde quer que os encontreis, e capturai-os, e cercai-os e usai de emboscadas contra eles". E mais adiante o livro insiste que nações, não importa quão poderosas, deverão ser combatidas "até que abracem o Islã". Essa é a vertente central, ortodoxa do islamismo. Paz não é uma palavra que se possa encaixar facilmente nessa forma de pensamento. Estamos falando de uma religião imperialista, que parte da premissa de que deve espalhar-se pela força, se necessário. Na Indonésia, por exemplo, muitos nãomuçulmanos são confrontados hoje com uma escolha absurda: converter-se ou morrer. Como contraste, gostaria de citar o exemplo dos Estados Unidos. Eles são de longe o país mais religioso do Ocidente – e não uma sociedade puramente materialista, como costumam dizer seus críticos. A diferença é que lá a religião é uma escolha voluntária. Veja – E quanto ao elemento político dos ataques? Johnson – Possivelmente o desejo de desestabilizar os governos de países muçulmanos alinhados com o Ocidente é um dos elementos políticos dos ataques. Boa parte desses governos não tem o apoio de suas populações, como ilustra o Paquistão. Mas a principal questão política é a incapacidade dos países árabes de reconhecer os direitos e a existência do Estado de

Israel. Embora nas Nações Unidas e nas mesas de negociação países como o Egito pareçam aceitar Israel e reconhecer o direito dos israelenses de viver onde vivem, em seus jornais nacionais, em suas mesquitas e em suas universidades a pregação é diferente: a opinião hegemônica é a de que o Estado judaico é ilegítimo e, portanto, deve ser eliminado. Veja – O senhor não parece ver uma solução para o conflito no Oriente Médio. Johnson – A dificuldade é que os árabes sempre quiseram resolver esse conflito pela força. Eles poderiam ter conseguido um acordo interessante na época da II Guerra, mas não quiseram. Em 1947, o plano das Nações Unidas para a divisão da Palestina teria significado um Estado de Israel substancialmente menor do que ele é hoje. Em vez de aceitarem esse plano, no entanto, os árabes foram à guerra e ela significou o nascimento de um Estado judaico muito mais forte. Algo semelhante ocorreu em 1956 e em 1967. Combates que deveriam culminar na aniquilação de Israel tiveram o efeito contrário: a cada vez, o país emergia mais poderoso. Não vejo como resolver o conflito árabe-israelense pela via da negociação, neste momento. Nos últimos anos, Israel fez diversas ofertas, mas elas sempre caíram em ouvidos moucos. As relações de Israel com seus vizinhos continuarão sendo as de uma paz armada. A paz real não virá até que o Islã passe por uma modernização revolucionária. Veja – Na semana passada, o escritor americano Gore Vidal afirmou que os Estados Unidos se transformaram num "Estado policial" e que os atentados têm tudo para fortalecer os mecanismos de controle de uma elite troglodita sobre a população do país. Vidal tem alguma razão no que diz? Johnson – Gore Vidal é um extremista que ninguém mais leva a sério. Ele sempre vem com essa história, e todo mundo de bom senso o ignora. Não há perigo de os Estados Unidos se transformarem num Estado policial. Suas instituições democráticas são fortes demais. E acho que as agências de investigação vão conquistar mais poderes não por causa de uma conspiração da elite, mas porque os americanos se deram conta de que suas amplas liberdades não devem servir para que terroristas, aproveitando-se delas, possam armar durante dezoito meses seguidos uma enorme operação assassina como aquela que acabamos de presenciar. As preocupações de Vidal passam ao largo do debate verdadeiramente importante que está se desenrolando agora: qual a retaliação adequada para o crime cometido pelos terroristas e como ela será feita. O país está de acordo em que o ataque foi um ato de guerra e deverá ser respondido como tal. Também há consenso sobre a idéia de que uma nação que abriga terroristas é, ela mesma,

terrorista e deve sofrer as conseqüências. A questão é onde, como e quando as medidas de guerra terão lugar. Veja – George W. Bush é um líder à altura do desafio que vai enfrentar? Johnson – Ele é um presidente inexperiente, que teve o azar de enfrentar essa crise no começo de seu mandato. Mas é também um homem de bom senso, que está aprendendo rápido. Acima de tudo, Bush tem um vice e um gabinete excepcionalmente fortes. Também acredita que governar é um trabalho de equipe. A existência desse gabinete forte e a obediência de Bush à Constituição dos Estados Unidos são, a meu ver, dados tranqüilizantes para o resto do mundo. Veja – Bush está demorando a reagir? Johnson – De maneira nenhuma. Ainda existe uma investigação em andamento e ela é fundamental por duas razões. Primeiro, para estabelecer os culpados sem nenhuma possibilidade de erro, o que é importante para a legitimação de qualquer ação de guerra no futuro. Em segundo lugar, os Estados Unidos têm de organizar sua estratégia militar e uma ampla coalizão política, o que deve levar um bom tempo. Lembremos do Vietnã: o período de preparação para a guerra foi curto, as estratégias de ataque e sustentação política tiveram de ser remendadas depois e o resultado foi um desastre. Na Guerra do Golfo, ao contrário, os americanos demonstraram haver aprendido a lição. Montaram, sem pressa, uma coalizão internacional de forças e um plano militar. Assim, atingiram seus objetivos em pouco tempo, com poucas perdas humanas. Não prenderam Saddam Hussein, mas o alvo militar primário foi atingido de maneira exemplar. Esse é o tipo de procedimento que está sendo adotado agora. Teremos de esperar algum tempo pela resposta americana. Veja – Era mesmo possível prever o ataque terrorista aos Estados Unidos? Johnson – Sim, essa era uma tragédia anunciada. Espero não soar arrogante, mas desde o final dos anos 70 venho alertando para os perigos do terrorismo internacional. Naquela época, organizei, juntamente com o exprimeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, uma conferência pioneira sobre o assunto. Tivemos uma rodada de debates em Jerusalém e outra em Washington, para a qual conseguimos atrair o então secretário de Estado americano, George Shultz. Foi a primeira vez, creio, que os Estados Unidos se deram conta de que o terrorismo não era apenas um problema judeu, por causa dos palestinos, ou inglês, por causa do IRA, mas uma questão que

deveria preocupar a todos. Infelizmente, não deram ao assunto a prioridade política que, estou certo, ele terá a partir de agora. Veja – O Império Britânico, no século XIX, e a União Soviética, no século XX, foram derrotados em guerras no Afeganistão. O que esperar de um novo conflito naquela região? Johnson – Ficarei muito surpreso se os Estados Unidos decidirem ir à guerra no Afeganistão. Seria uma escolha perigosa e desnecessária. Já existe um movimento de oposição ao Talibã no país, o que torna mais razoável a hipótese de armar e dar apoio a esse grupo. Acho que os efeitos positivos de uma ação militar voltada contra o Iraque seriam maiores. A substituição da ditadura de Saddam Hussein por um regime democrático seria uma conquista e tanto. A guerra deve ser travada não apenas para exterminar o terrorismo internacional, mas para dar a uma larga porção do mundo algo que ela nunca teve: liberdade. Se os países árabes pudessem ter regimes democráticos, nos quais a voz do povo contasse com canais para se fazer ouvir, o problema do terrorismo tenderia a desaparecer. Veja – Com exceção da liderança britânica e da liderança espanhola, os governantes dos outros países europeus têm-se mostrado reticentes ao falar sobre o apoio aos Estados Unidos no caso de uma guerra. Quais são os obstáculos para que esse apoio seja conquistado? Johnson – Como sempre, os franceses estão fazendo fricote, enquanto os alemães se mostram nervosos. A Europa continental é sempre recalcitrante. Basta ver a sujeira que eles fizeram no caso dos Bálcãs: no fim, americanos e ingleses acabaram tendo de resolver o problema sozinhos. Estamos acostumados a isso e essa situação não me preocupa, porque o apoio realmente importante, que é o da Otan, foi irrestrito. Isso significa que os Estados Unidos receberam carta branca da aliança militar para tomar as ações militares necessárias, quando necessário. Não acho que esse apoio vá ser retirado. Quanto às relações entre Estados Unidos e Inglaterra, não há nada a temer. Elas estão mais fortes que nunca e é como se a aliança da II Guerra houvesse renascido. Veja – Quais as chances dos Estados Unidos nessa guerra contra o terrorismo? Johnson – Eles vão ganhar essa guerra. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso.

Entre dois mundos
Tahar Ben Jelloun - 14 de agosto de 2002 O respeitado escritor marroquino ataca os preconceitos e procura criar uma ponte entre o Ocidente e o Islã
Carlos Graieb

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Se existe um fosso entre as civilizações do Ocidente e do Islã, poucos intelectuais têm feito mais esforços para estreitá-lo do que o marroquino Tahar Ben Jelloun, de 58 anos. Num vaivém contínuo entre seu país natal e a França, onde fixou residência, ele tem procurado traduzir e interpretar as queixas que surgem de lado a lado. Além de uma abundante produção jornalística, também dedica seu tempo a criar obras de caráter didático, como O Racismo Explicado à Minha Filha ou O Islã Explicado às Crianças. Mas o empenho político de Ben Jelloun não deve ocultar outro fato: ele é um poeta e romancista consagrado. Já recebeu a mais importante honraria literária francesa, o Prêmio Goncourt, e é um best-seller no mundo árabe. Uma de suas coletâneas de contos foi há pouco publicada no Brasil: O Primeiro Amor É Sempre o Último, um retrato da guerra dos sexos à maneira muçulmana. "Freqüentemente me perguntam se minhas raízes literárias são mais marroquinas ou francesas. Na verdade, acho que os autores de que me sinto mais próximo são mesmo os latino-americanos, como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa", diz Ben Jelloun, que nesta entrevista fala de xenofobia na Europa, antiamericanismo no Oriente Médio – e amor.

Veja – Se um jovem marroquino lhe perguntasse hoje se deveria ou não emigrar para a França, o que o senhor diria? Ben Jelloun – Eu certamente procuraria dissuadi-lo se ele pensasse em emigrar clandestinamente. Há todo tipo de argumento contrário a essa forma de emigração, a começar pelo político – não invada um país que vem dando mostras muito claras de que não deseja sua presença. As circunstâncias em que a travessia para a Europa é feita também são cada vez mais assustadoras. Não passa uma semana sem que a televisão espanhola, sintonizada facilmente no Marrocos, mostre imagens de africanos e magrebinos detidos quando tentavam entrar na Espanha ilegalmente ou afogados quando a barca precária em que navegavam afundou. O que me espanta, contudo, é o fato de as pessoas continuarem emigrando, apesar de todos os perigos e de saberem que não terão uma vida fácil se conseguirem chegar ao seu destino. Isso é o sinal claro de um desespero muito grande. Veja – O que causa esse desespero?

Ben Jelloun – O fato de países como o Marrocos, nas condições geopolíticas atuais, terem se transformado em verdadeiros fabricantes de pobres. Por que isso acontece? Por causa, é claro, de uma antiga história de concentração de riqueza, que faz com que uma parcela ínfima da população detenha uma fatia imensa da riqueza desses países. Mas, sem o desejo de soar ressentido, gostaria de apontar também para a responsabilidade e o egoísmo dos europeus, que freqüentemente conduzem sua política econômica de maneira a sufocar o crescimento das nações pobres que lhes estão próximas. Recentemente vimos o Marrocos ser fragorosamente derrotado numa negociação sobre cotas de venda de pescados – o país foi obrigado a aceitar uma cota bem mais baixa do que seria de seu interesse. Também vimos a Espanha impor barreiras de importação contra nossos produtos agrícolas. É hipócrita torcer pelo desenvolvimento marroquino e ao mesmo tempo tomar medidas que sufocam esse desenvolvimento. O problema é que, quando as iniciativas marroquinas se tornam impossíveis, o marroquino perde seu sustento e sente a necessidade de partir para onde haja emprego. Veja – O que mudou na vida dos imigrantes depois do 11 de setembro? Ben Jelloun – Houve um recrudescimento do medo, da raiva e da desconfiança dirigidos contra eles. E, como vem sendo fartamente noticiado, tornaram-se muito mais audíveis as vozes de extrema direita que falam contra o imigrante. É preciso dizer que esse movimento de inclinação para a direita vem crescendo já há vinte anos. Mas o 11 de setembro criou o ambiente propício para que ele ganhasse força mesmo em países como a Holanda, onde o número de imigrantes está longe de ser tão grande quanto na França ou na Bélgica. Veja – Fala-se na possibilidade de a Europa harmonizar suas leis de imigração. O senhor crê que isso seja possível? Ben Jelloun – Acho muito difícil. A França, por exemplo, ainda mantém uma relação de metrópole com países como a Argélia e o Marrocos. Já a Itália não tem nenhum antecedente nesse campo. Como harmonizar memórias que são tão diferentes? Os magrebinos têm direito de reclamar muito mais da França do que podem fazê-lo em relação à Itália ou à Holanda. Veja – Além de muita retórica, os políticos de extrema direita também lançam mão de estatísticas sobre criminalidade, para defender medidas rigorosas contra a imigração. Eles não têm um bom argumento aí?

Ben Jelloun – Quanto à retórica, gostaria de registrar que ela é muito grosseira e, ao mesmo tempo, muito eficaz. Quanto às estatísticas de criminalidade, é preciso observar os fatos de perto para interpretá-las melhor. Vejamos o exemplo da França. Lá, a delinqüência de fato cresceu entre os imigrantes. Na maior prisão de Marselha, quase 70% da população carcerária é de origem não-francesa. Mas é preciso notar que não estamos falando de crimes graves, que envolvem assassinatos ou máfias organizadas. São coisas como furtos de automóveis, roubos de carteiras – enfim, o varejo da delinqüência. E isso se explica por motivos pelos quais a França também tem responsabilidade. Em 1974, o então presidente francês Valéry Giscard d'Estaing tomou medidas favoráveis ao chamado reagrupamento familiar – ou seja, a possibilidade de os imigrantes que trabalhavam na França trazerem seus parentes do estrangeiro. Foi um gesto generoso, mas sem planejamento. Antes, era preciso criar condições de vida e educação para aqueles que viriam e cresceriam no país. Em vez disso, deixaram essas pessoas entregues à sua própria sorte, vivendo em condições urbanas precárias. Há, por exemplo, um número incrível de repetência escolar entre os imigrantes. Apenas 4% dos estudantes que entram na universidade na França, hoje em dia, são de origem estrangeira. O número se mostra mais preocupante quando se sabe que, entre os franceses com o mesmo nível de remuneração dos estrangeiros, 25% dos jovens conseguem chegar à universidade. As crianças não chegam ao ensino superior por duas razões básicas: como os pais em geral são analfabetos, eles não incentivam os filhos a continuar na escola. Além disso, as crianças vivem em cômodos muito pequenos e não têm privacidade para estudar. Nenhum governo francês desde d'Estaing tomou medida alguma para cuidar desse problema, e hoje o país paga a conta. Tudo o que eles fizeram ficou no plano da repressão. E a repressão é política de curto prazo, que não tem efeitos duradouros. Veja – Qual sua opinião sobre o líder francês de extrema direita Jean-Marie Le Pen? Ben Jelloun – Ele é um político astuto e malicioso. Le Pen é verdadeiramente racista, acredita de fato na inferioridade de certos homens em relação a outros. É um homem de má-fé, que utiliza táticas de comunicação muito bem estudadas, apresentando-se como um guru que tem todas as respostas, embora tecnicamente seus argumentos sejam absurdos. Quando ele afirma que enviará todos os imigrantes para casa, não profere mais que uma bravata. Num país em que 8% da força de trabalho é formada por imigrantes, se isso acontecesse a economia entraria imediatamente em colapso. Le Pen diz absurdos, mas com tal ênfase e brio demagógicos que as pessoas acreditam nele.

Veja – Repetindo o título de um de seus livros, como explicar o preconceito a uma criança? É preciso explicar o preconceito a uma criança? Ben Jelloun – Se você está falando a uma criança privilegiada, é preciso estimular sua imaginação, colocá-la na posição de alguém que seria vítima de discriminação. É preciso perguntar se ela aceitaria ser privada de sobremesa só porque é árabe. Em meu livro, e nas palestras que dou pela França, é isso que procuro fazer: pôr as crianças numa posição de identificação, fazê-las sentir que não tolerariam ser submetidas àquilo que seus vizinhos muitas vezes têm de agüentar. É uma técnica simples e eficaz. Para a criança que é vítima de preconceito, insisto na necessidade de discutir, de dialogar. Acima de tudo, tento insuflar confiança nela. O mais importante é impedir que se sinta uma vítima, que afunde no ressentimento ou na apatia, pois nesse caso endossará os preconceitos e contribuirá para a sua perpetuação. Veja – O intelectual palestino Edward Said costuma dizer que o fundamentalismo "é menos um retorno às raízes da religião islâmica do que uma reação aos governos corruptos do Oriente". O senhor concorda com essa idéia? Ben Jelloun – Concordo, e acrescentaria que o fundamentalismo é também uma reação extremada ao Ocidente e à conivência dos governos ocidentais com os ditadores do mundo árabe-muçulmano. Os líderes fundamentalistas são demagogos. Eles sabem perfeitamente que não existe algo como "a volta às raízes do Islã". Utilizam as crenças das pessoas para tecer discursos ideológicos e implementar políticas retrógradas. De certa maneira, estão próximos de Le Pen, que também faz uso do medo e da ignorância para atingir seus fins políticos. Veja – Qual o papel do problema palestino no relacionamento entre o mundo muçulmano e o Ocidente?
Ben Jelloun – Absolutamente central. O nó do problema é a causa palestina, e o apoio sistemático que os Estados Unidos dão a tudo o que os israelenses fazem. O que ocorreu no campo de refugiados de Jenin deixou os árabes furiosos, mais ainda porque nem os Estados Unidos nem a Europa se empenharam para que houvesse uma investigação séria a respeito. Nada disso, evidentemente, serve de justificativa para atentados terroristas. Atos como esses não podem ser justificados de maneira nenhuma. Há uma diferença, no entanto, entre justificar um ato extremo e tentar compreendê-lo. Eu posso compreender por que um jovem palestino que viu sua casa ser dinamitada ou que não pode estudar nem trabalhar acaba se tornando um homem-bomba. Diante da falta de oportunidades, você se transforma em candidato a qualquer

coisa, mesmo a essa morte absurda. É preciso colocar-se na pele desse jovem sem futuro. Mas são raras as pessoas no Ocidente que procuram fazer essa ginástica intelectual. Veja – Em seu livro de contos, recentemente publicado no Brasil, uma das personagens femininas pergunta-se: "Por que, em nosso povo, quase nunca existe harmonia entre o homem e a mulher?" É assim mesmo que ocorre entre os muçulmanos? Ben Jelloun – A reflexão dessa personagem é verdadeira. Se, de um certo ponto de vista, os sexos estão sempre em guerra, no Islã essa guerra é acentuada pela falta de justiça em relação às mulheres. Se um homem e uma mulher se apresentarem diante de um tribunal num país muçulmano, ela, de saída, já está em desvantagem. Alterar essa situação é um dos maiores desafios para os países islâmicos. Por causa dessa desigualdade perante as instituições, homens e mulheres também vivem suas relações amorosas, seus encontros mais íntimos, como disputas de força. Não há negociação. Na Europa, se um homem e uma mulher se sentem incapazes de conviver, eles negociam uma separação, uma reparação. Nos países muçulmanos, não há diálogo. Há tomada de poder. Veja – Parece haver uma contradição no que diz respeito ao sexo nos países árabes. Fala-se muito a respeito da sexualidade, ao mesmo tempo que sua vivência é problemática. Ben Jelloun – Há, de fato, uma espécie de contradição que termina freqüentemente em violência. Quando somos crianças, aprendemos que no islamismo a discussão sobre a sexualidade é autorizada e mesmo encorajada. "Não há pudor em falar da sexualidade no Islã" é um bordão muito conhecido. E há muitos textos clássicos, feitos por grandes teólogos dos séculos XIV ou XVI, que têm por tema o erotismo. Eles são francos e claros. Por outro lado, há algo que é comum a todas as sociedades mediterrâneas, e não apenas às islâmicas: o que poderíamos chamar de "medo do feminino". Temos irmãos ciumentos de suas irmãs, pais obcecados por suas filhas, maridos que temem patologicamente a infidelidade de sua mulher. Lembro-me de um caso ocorrido há cerca de um ano, na França, no qual um imigrante marroquino matou sua filha com as próprias mãos porque ela queria casar-se com um católico. "Eu não pude suportar a idéia de que ela se casaria com alguém não-muçulmano", disse ele. Veja – A poligamia ainda existe no Marrocos? Ben Jelloun – Sim, mas é extremamente rara e podem incluir em seu contrato de casamento uma Ou seja, elas mesmas podem proibi-la. Para dizer da poligamia é muito mais excitante para os muçulmanos. malvista. Hoje, as mulheres cláusula contra essa prática. a verdade, acho que a idéia ocidentais do que para os

O futuro do Islã
Bernard Lewis - 2 de abril de 2003 Guru do vice dos EUA é otimista com a perspectiva de democracia no Oriente Médio, mas diz que antes é preciso remover os tiranos ...............................
Eduardo Salgado

Depois de 11 de setembro de 2001, o vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, um dos mais influentes da história do país, começou a fazer uma espécie de curso privado em Islã e Oriente Médio. Cheney ouviu especialistas para discutir o Iraque pós-Saddam Hussein e as perspectivas da democracia na região. Bernard Lewis, de 86 anos, professor emérito da Universidade Princeton e uma das maiores autoridades em Oriente Médio, foi uma das vozes que mais influenciaram Cheney. Com mais de vinte livros publicados, Lewis é um ferrenho defensor da democracia na região. O autor de O que Deu Errado no Oriente Médio? explora sua extensa erudição sobre o mundo islâmico para justificar o fim do apoio do Ocidente aos mandatários da região. Nascido na Inglaterra, Lewis começou a dar aulas sobre o Oriente Médio em 1938, na Universidade de Londres. Receptivo e bem-humorado, falou a VEJA por telefone de sua casa em Princeton, na costa leste dos Estados Unidos. Veja – O governo americano estava certo de que seus soldados seriam recebidos como libertadores no Iraque. Por que não se viu nada disso? Lewis – A relutância dos iraquianos em mostrar apoio aos soldados americanos tem boas razões de ser. Os iraquianos ainda temem Saddam Hussein e seu aparato de repressão. Em 1991, o presidente George Bush pai pediu que os iraquianos se revoltassem contra o tirano. Os curdos, no norte, e os xiitas, no sul, obedeceram. O que aconteceu? Saddam massacrou seus opositores enquanto os Estados Unidos assistiam a tudo passivamente. A lembrança do incitamento e da traição ainda está muito viva. Sejamos justos. Eles têm toda a razão em manter a cautela. O regime de Saddam foi enfraquecido, talvez fatalmente, mas ainda não foi destruído. Em Basra, a cidade xiita ao sul do Iraque, estou seguro de que a população daria as boas-vindas aos americanos se tivesse certeza de que não seria traída, como há uma década, e se o aparato de repressão de Saddam não fosse ainda eficaz.

Veja – Outra decepção do governo americano foi com a resistência militar oferecida por algumas unidades de Saddam. A guerra será longa? Lewis – Uma guerra longa seria um desastre para todo mundo. Acho que isso não irá acontecer. O Iraque não é um novo Vietnã. Existe uma demanda da população para que Saddam desapareça de vez. E outra coisa: não existe nenhum Vietnã do Norte para ajudá-lo. Saddam não tem apoio externo. Veja – Na opinião do senhor, o que seria uma guerra longa? Lewis – Seis meses. A opinião pública americana ficaria desiludida e exigiria a saída das tropas. Para os governantes da região, a mensagem seria: os americanos não são perigosos e podemos fazer o que quisermos. Veja – Com a invasão do Iraque estamos vendo o início de uma nova fase de dominação direta estrangeira no Oriente Médio? Lewis – É possível. Mas se acontecer não será uma dominação americana. Os Estados Unidos não têm interesses de longo prazo na região. O petróleo pode ser vital hoje, mas existem outros fornecedores do produto e novas fontes de energia estão se tornando economicamente viáveis. É mais provável que a dominação venha da Ásia. O Oriente Médio é de importância vital para as potências asiáticas. Elas estão mais perto e possuem grandes populações muçulmanas. Consigo ver a região se tornando um motivo de rivalidade entre a Índia e a China, como era entre as potências européias no passado. O real perigo no Oriente Médio, no entanto, é de outra natureza. Perigo mesmo é deixar as coisas como estão. Refiro-me aos conflitos armados e ao sentimento cultivado pelos árabes de que são uns coitadinhos e injustiçados. Um cenário em que os homens-bomba se tornem uma metáfora da região como um todo é inaceitável. Caso isso de fato aconteça, as potências externas vão intervir mais severamente na região. Acho que a Europa não faria isso. Talvez a Rússia. Cedo ou tarde, a Rússia vai sair da posição periférica que ocupa hoje. Veja – Quais as chances de a democracia criar raízes no Oriente Médio? Lewis – São boas. É importante lembrar que a ditadura brutal de Saddam Hussein é um produto europeu e não árabe ou de influência muçulmana. O Partido Baath, de Saddam, é o único baseado em um modelo europeu que funcionou no Oriente Médio. Seus modelos são os partidos fascista, nazista e comunista. As características são semelhantes: partido único cujo poder deriva da doutrinação e da repressão. Ou seja, é possível voltar ao sistema

que vigorava antes de a região ser influenciada pelo que houve de pior no século XX. Obviamente, nunca existiu ali uma democracia nos moldes ocidentais. Mas havia as noções de um governo responsável, com poder limitado e obediente às leis. Tudo isso faz parte da tradição islâmica. Historicamente, a democracia começou a chegar à maior parte das regiões do mundo há bem pouco tempo. E os resultados não são tão ruins assim. Veja – Os Estados Unidos têm como impor a democracia? Lewis – Não. O que é possível é remover os obstáculos que impedem o florescimento da democracia. Os americanos e ingleses não impuseram a democracia aos alemães e japoneses no fim da II Guerra Mundial, mas criaram as condições para que ela se desenvolvesse. As chances de sucesso no Iraque são boas por várias razões. Primeiro, porque os iraquianos sentiram na pele a experiência de viver sob uma das ditaduras mais cruéis e repressivas. Segundo, porque, entre todos os países ricos em petróleo, o Iraque foi um dos que melhor aproveitaram seus recursos. Criou uma boa infra-estrutura, investiu em educação primária e secundária e em universidades. Tem uma classe média culta, que não foi totalmente destruída por Saddam. As mulheres têm acesso à educação e o nível de alfabetização é alto. Não deixa de ser curioso que, para os tiranos do Oriente Médio, um Iraque democrático é visto como uma grande ameaça, um problema. Veja – Por que temer se os exemplos de democracia no mundo islâmico são tão raros? Lewis – Raros, mas não impossíveis. A Turquia tem uma democracia pluripartidária que funciona há cerca de cinqüenta anos. Em Bangladesh, há ótimas perspectivas. O mesmo pode ser dito sobre nações de maioria islâmica na África. É um processo lento e difícil. Não podemos esquecer que generalizações são sempre imprecisas. Quando discutimos o Islã, estamos falando de mais de catorze séculos de história, mais de cinqüenta países, uma tradição cultural de uma diversidade enorme. O Islã pode ser interpretado de várias formas. A pergunta talvez não seja o que o Islã fez com os muçulmanos, mas o que os muçulmanos fizeram com o Islã. Veja – A religião islâmica como é praticada hoje é compatível com os ritos democráticos? Lewis – Eu respondo com outra pergunta: qualquer religião é compatível com a democracia? Do ponto de vista histórico, há respostas diferentes para cada uma das religiões. O cristianismo ortodoxo é compatível? Os livros de história não nos encorajam a dar uma resposta afirmativa. E o cristianismo católico? As evidências são contraditórias. E o cristianismo protestante? Esse,

sim. O vital é que exista clara separação entre o Estado e a religião. No passado, os muçulmanos faziam troça dizendo que essa separação era um remédio cristão para uma doença cristã. Eles estão começando a achar que pegaram a doença e precisam tentar o remédio. Veja – Existe demanda popular por mudanças modernizantes nas ruas das cidades árabes? Lewis – Existe, sim. Não digo que queiram uma democracia no estilo ocidental. Mas um governo mais responsável. Infelizmente, existe uma grande desilusão com as idéias ocidentais. Nos últimos cinqüenta anos ou mais, as duas idéias dominantes no Oriente Médio foram nacionalismo e socialismo, ambas importadas da Europa. Com a independência, se livraram de governantes estrangeiros e ganharam tiranos locais. Com o socialismo, viram as promessas de desenvolvimento se transformar em economias falidas dominadas por elites corruptas. Eles não estão totalmente errados em culpar o Ocidente. Esses fatos dão força aos argumentos de líderes religiosos como Osama bin Laden, que defendem a luta contra as idéias do Ocidente. Há dois grupos. Os que acham que o mal é a modernização no estilo ocidental e os que dizem que houve modernização de menos. Se os iraquianos, com a ajuda dos americanos, conseguirem construir um país livre depois da guerra, poderão incentivar os reformistas em outras partes do mundo muçulmano a se expressar com mais ênfase. A meu ver, o Irã e o Afeganistão vão ser os primeiros países a se reformar, seguidos de Malásia, Indonésia e Tunísia. Veja – Qual é o perigo de a democracia levar os fundamentalistas ao poder? Lewis – A democracia tem seus perigos. Não esqueçamos que Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha por meio de uma eleição. Se a democracia for introduzida de forma prematura, é possível que tenha vida curta. Uma eleição livre é o fim de um processo de democratização, não o começo. A democracia é um remédio forte que tem de ser tomado em doses pequenas e com cuidado. Não se pode importar a democracia como quem compra um brinquedo com instruções no estilo monte você mesmo. O Iraque não vai transformar-se numa Suíça da noite para o dia. Primeiro, terá câmaras municipais e assembléias legislativas. Talvez parte dos membros eleitos e a outra parte indicada. Veja – Os reformistas da Arábia Saudita não estão certos em denunciar os Estados Unidos pelo apoio que dão à monarquia despótica?

Lewis – Sim. O mesmo vale para o Egito e para outros países. No Ocidente, há duas maneiras de encarar a questão do mundo islâmico. A primeira é orientada pela seguinte linha: aquele povo não é como a gente. Eles não são civilizados. São bárbaros. Qualquer ajuda que dermos de nada adiantará. Serão sempre governados por tiranos. Portanto, o objetivo de nossa política externa precisa ser tiranos amigos em vez de tiranos hostis. Lembre-se de que Saddam já foi "o nosso" tirano. Essa abordagem é cínica e não funciona. Ela mostra desrespeito pelo passado do Islã e falta de consideração com seu presente e seu futuro. Essa política já evidenciou suas falhas quando apoiamos tiranos na América Central e no Sudeste Asiático. Existe outra maneira de encarar o mundo islâmico que é o oposto da que mencionei. Os muçulmanos são os herdeiros de uma grande civilização que estão numa fase ruim e é nossa missão ajudá-los. E, com um pequeno empurrão, eles voltarão ao elevado estágio de desenvolvimento que já desfrutaram. Essa estratégia, infelizmente, é chamada pelos críticos de imperialismo. Veja – O senhor quer dizer que remover os tiranos é uma manobra justa e que deve continuar a ser implementada na região depois da deposição de Saddam? Lewis – Não podemos esquecer que o destino do mundo islâmico é de responsabilidade dos muçulmanos. Não podemos resolver os problemas deles. O que podemos fazer, sim, é parar de obstruir o caminho. Parar de dar apoio aos tiranos. Veja – A Palestina é bem mais complexa do que simplesmente mandar um tirano passear, não? Lewis – Ali, a solução é um Estado palestino convivendo ao lado de Israel. Obviamente, nenhum representante israelense aceitará colocar em negociação a própria existência de Israel. Isso é um dado. Para muitos governos da região, a criação de um Estado palestino seria encarada como um problema. Hoje, a questão palestina é usada como uma perfeita válvula de escape para esses governos. A população do Egito ou da Arábia Saudita é em grande parte revoltada com a situação em que vive – seja a pobreza, seja a tirania, seja o atraso –, mas não pode reclamar. A única maneira de manifestar descontentamento nas ruas sem ser reprimida é atacar Israel e defender a causa palestina. Por isso, acho que muitos governos árabes querem que a situação na Palestina se mantenha instável e sem solução. Veja – A exuberante economia árabe se estagnou em algum ponto do passado e começou a regredir. Afinal, o que deu errado no Oriente Médio?

Lewis – Não existe uma resposta simples. Isso é parte de um processo longo e complexo. Em parte, dá para responder perguntando: o que deu certo com a Europa, que na Idade Média era vista pelos muçulmanos da mesma forma que a África? Vamos pegar o exemplo de Portugal. Mesmo sendo um pequeno país, Portugal conseguiu criar um vasto império. Por quê? Por estarem na costa do Oceano Atlântico, os portugueses construíram barcos grandes. Quando chegaram ao Oriente, essas embarcações eram muito superiores aos barcos dos árabes. Uma caravela carregava mais armas e carga que os barcos árabes. Era adequada tanto aos tempos de guerra quanto aos tempos de paz. A esquadra marítima européia é parte da resposta, mas não explica tudo. Você poderia perguntar: por que os muçulmanos não construíram uma esquadra atlântica antes dos portugueses? Isso apenas mostra a complexidade dessa discussão. Veja – Por que a riqueza do petróleo não foi a esperada redenção para os países árabes? Lewis – Para mim, o petróleo foi uma maldição. Os países ricos em petróleo ganharam dinheiro muito fácil. Com isso, não viram a necessidade de criar uma economia diversificada. No Ocidente, tivemos de trabalhar muito para desenvolver uma economia moderna. Os árabes não tiveram sequer o trabalho de descobrir o petróleo. Ficaram sentados em cima daquela riqueza durante milhares de anos. Não inventaram nenhuma forma de utilizá-lo nem mesmo de extraí-lo. Dessa maneira, aumentaram a dependência de empresas estrangeiras.

A reinvenção do Islã
Irshad Manji - 1° de dezembro de 2004 A escritora muçulmana diz que é preciso ler o Corão com olhar crítico e parar de segui-lo ao pé da letra ......................................
Tânia Menai, de Nova York

"Acredito que é possível seguir a ortodoxia do Islã e, ao mesmo tempo, ser tolerante com o mundo moderno"

A canadense Irshad Manji, 36 anos, é muçulmana, feminista, jornalista e homossexual. Âncora do programa Big Ideas (Grandes Idéias), exibido pela TV Ontario, ela entrevista personagens do mundo intelectual. Antes disso, apresentou durante quatro anos um premiado programa sobre a vida gay. Irshad era pequena quando sua família fugiu da Uganda do ditador Idi Amin, em 1972. Ela cresceu em Vancouver, onde, vestindo véu, freqüentava a madraçal, escola islâmica, todos os sábados. Dos ensinamentos, recorda-se de dois: as mulheres são inferiores aos homens e os judeus devem ser odiados. Aos 14 anos, foi expulsa por seu professor, pois "questionava demais". Durante vinte anos, ela estudou o Corão sozinha em busca de respostas. Sua imersão resultou no polêmico livro The Trouble with Islam (Minha Briga com o Islã, no título da edição brasileira que chega às livrarias nesta semana). Por causa do livro, no qual questiona a religião de dentro para fora, ela foi ameaçada de morte. Irshad recebeu VEJA para a seguinte entrevista na casa de amigos (aliás, judeus), em Nova York.

Veja – Qual é, afinal, sua briga com o Islã? Irshad – É contra a maneira como a religião é praticada atualmente, com base na interpretação literal do Corão. Isso faz com que os muçulmanos vivam sob uma lei marcial, sem liberdade para pensar ou discordar. Trata-se de um problema que surgiu há séculos, muito antes da colonização européia ou da criação de Israel, e está cada vez pior. Nos primórdios da religião, o Islã adotou a tradição do pensamento crítico, chamado ijtihad. O espírito do ijtihad estimulou um clima de criatividade e de curiosidade que permitia à civilização muçulmana liderar o mundo no aspecto da inovação. Na Espanha islâmica, acadêmicos instigavam os estudantes a ler o Corão com olhar crítico, mesmo que isso contrariasse a opinião do clero. Se essa tradição já existiu no Islã, temos apenas de redescobri-la. Veja – Quando os muçulmanos passaram a interpretar o Corão de forma literal? Irshad – No fim do século XI, os portões do ijtihad foram fechados em decorrência de disputas internas no império muçulmano. As 135 escolas de pensamento independente que existiam ficaram reduzidas a quatro, todas conservadoras. Isso levou à leitura inflexível do Corão. Os acadêmicos foram proibidos de rejeitar ou contestar as opiniões legais, as chamadas fatwas. O castigo para quem o fizesse era a morte. No milênio seguinte, os acadêmicos islâmicos passaram apenas a imitar uns aos outros, incluindo seus preconceitos. Embora esses problemas sejam antigos, sua gravidade ficou latente apenas nos últimos anos. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o mundo tornou-se unipolar, dominado por uma superpotência, os Estados Unidos. Os radicais islâmicos se autoproclamaram os únicos capazes de desafiar os valores de pluralismo, consumismo e materialismo que a cultura americana representa. Espanta que muitos não-muçulmanos concordem com eles. Veja – Os Estados Unidos fundamentalismo islâmico? demoraram para levar a sério o

Irshad – Os Estados Unidos só se deram conta desse problema no mundo muçulmano depois dos atentados de Nova York e Washington. Um livro como o meu não poderia ter sido publicado antes de 11 de setembro de 2001. Não que os assuntos nele tratados não fossem relevantes, mas porque o Ocidente não estava prestando atenção. Isso é trágico por sugerir que nós, seres humanos, com toda a nossa tecnologia, inteligência e desejo de fazer alguma diferença, ainda somos intelectualmente letárgicos. É preciso passar por uma crise dessas para constatar que precisamos ficar atentos o tempo todo. Caso contrário, o que acontecer em outra parte do mundo se voltará contra nós.

Veja – Qual a reação dos muçulmanos que discordam de suas idéias? Irshad – É comum me acusarem de ser uma "judia camuflada" ou de "agente do Mossad", o serviço secreto israelense. Também me chamam de "muçulmana ismaili", expressão que se refere a um setor liberal do islamismo composto de pessoas com educação de alto nível, empreendedoras e ligadas à filantropia. Por causa dessas qualidades, esse grupo é chamado de "judeus do mundo muçulmano". É um grande elogio, mas, obviamente, não estão me elogiando. Recebo muitas ameaças de morte por e-mail e, às vezes, pessoalmente. Certa vez, uma amiga que me acompanhava num aeroporto foi abordada por um árabe. Ele disse que ela tinha mais sorte do que eu. Com a mão, imitou o gesto de puxar o gatilho de uma arma em minha direção. E foi embora. Por outro lado, desde o lançamento do livro tenho recebido apoio de muçulmanos do mundo todo, principalmente de jovens e mulheres. Mas é um apoio secreto: eles não podem verbalizar publicamente suas opiniões porque temem represálias. Para chamar atenção para o assunto, resolvi não viajar mais com guardacostas para fazer palestras, a não ser que a polícia local insista. Se acredito na possibilidade de seguir a ortodoxia da religião islâmica e, ao mesmo tempo, ser tolerante com o mundo moderno, não posso carregar um leãode-chácara comigo. Seria hipocrisia da minha parte. Veja – O Canadá é um país seguro e, mesmo assim, a senhora precisa de guarda-costas? Irshad – Sim, mas uso esporadicamente. Primeiro, porque custa caro. O Estado não paga por ele, nem a editora do livro – sou eu quem pago. Nós, aqueles com coragem de levantar assuntos polêmicos e pregar a moderação, temos de encarar os seguidores da Jihad nos olhos e dizer que nos recusamos a viver com medo. Não vou viver com paranóia, mas também não quero ser uma vítima inocente. Temo apenas a morte prematura, que cortaria uma vida cheia de propósitos. Veja – Seria possível escrever este livro se a senhora estivesse vivendo num país muçulmano? Irshad – Mil vezes não. Essa é uma das razões pela qual agradeço a Alá todas as manhãs pela liberdade que tenho nesta parte do mundo. Sou uma refugiada que veio parar num país onde posso ser uma muçulmana engajada e explorar todo o meu potencial. Quantas muçulmanas têm esse privilégio? Quero desafiar todos os muçulmanos que vivem no Ocidente a usufruir essa liberdade preciosa.

Veja – O que esses muçulmanos podem fazer? Irshad – Eles precisam ter a segurança de que podem ter fé e, ao mesmo tempo, idéias próprias. Por isso, estou criando um instituto para estimular o pensamento islâmico independente. A idéia é formar um centro de liderança para educar jovens muçulmanos sobre a arte de debater, sobre a Era de Ouro do Islã, quando judeus, cristãos e muçulmanos conviviam em harmonia. Quero trazer acadêmicos de outras religiões para conversar com esses jovens. Depois, devolveríamos esses jovens para suas comunidades, para que eles pudessem dar início a um processo de abertura no Islã dentro da realidade em que cada um deles vive. Ninguém é capaz de fazer isso sozinho. Quando um jovem muçulmano me questiona sobre o próximo passo, eu devolvo a pergunta. Digo que cada um é o seu próprio líder. Veja – Como seria possível melhorar a situação das mulheres no mundo muçulmano? Irshad – O melhor caminho é a educação. Quando se educa um menino, educa-se apenas aquele menino. Quando se educa uma menina, educa-se a família inteira. Não quero parecer romântica, mas quando as mulheres têm permissão para aprender tornam-se capazes de interpretar as ambigüidades do Corão sobre os direitos delas. Assim, podem dispensar os conselhos dos mulás, que, aliás, nunca mencionam direito algum. A participação feminina é vital para tirar o Islã do atoleiro em que ele se encontra. Veja – O Corão condena as mulheres à posição submissa ou isso é um tema aberto a interpretações? Irshad – Diferentemente da Bíblia, o Corão não diz que Adão foi criado antes de Eva. Portanto, não há base para alegar a superioridade masculina. Na verdade, o Corão manda honrar a figura da mãe. O problema é que apenas algumas linhas adiante dá uma guinada com a afirmação de que os homens foram criados superiores às mulheres. Impressionam as interpretações de uma determinada passagem, na qual se lê: "As mulheres são seus campos. Vá a elas e faça o que quiser". Alguns acadêmicos vêem aí uma comparação positiva, visto que os campos precisam ser cultivados. Ou seja, precisam do esperma masculino para se desenvolver em algo vibrante e robusto, e também de amor. Mas isso só diz respeito ao campo. E quanto ao "faça o que quiser"? Não será um modo de estabelecer um poder desproporcional? É curioso que são exatamente as passagens negativas existentes no Corão que influenciam as leis no mundo muçulmano. Veja – Muitos muçulmanos acham que a senhora não deve ser levada a sério por ser homossexual. Como a senhora lida com essa questão?

Irshad – O Corão é ambíguo, e quem quiser segui-lo à risca terá de escolher a qual passagem dar ênfase. É verdade que alguns trechos corânicos condenam o homossexualismo. Ao mesmo tempo, o livro sagrado diz que tudo o que Alá criou é excelente – e nada do que Ele criou foi em vão. Se devemos acreditar no Corão, como os muçulmanos podem conciliar esses ensinamentos com a condenação ao homossexualismo? Posso estar errada, mas pergunto aos meus críticos: como eles sabem que estão certos? Não estou pedindo que aceitem ou aprovem minha orientação sexual. Foi Deus quem me criou. Apenas Ele irá me aprovar, ou não. Peço, somente, que haja espaço para debater esses assuntos. Veja – Como o mundo árabe vê os Estados Unidos? Irshad – É uma relação de amor e ódio. Políticos árabes cometem falcatruas para enriquecer e mandar seus filhos para universidades americanas. São os mesmos que gritam "Abaixo os Estados Unidos". No íntimo, devem acrescentar "mas só depois que meu filho se formar". Em geral, os árabes não consideram os americanos responsáveis por seus problemas. Se há decepção é porque julgam insuficiente a interferência dos Estados Unidos na região. Muitos governos americanos deixaram de apoiar os movimentos pelos direitos humanos no mundo árabe. Reside aí a origem desse ressentimento. Se o presidente George W. Bush fala em democratizar o Iraque, por que não faz o mesmo com relação ao Irã e ao Egito? Veja – O que a levou a visitar Israel? Irshad – Para reportar sobre qualquer conflito, é preciso estar lá, ouvir as pessoas. Escutei de vários árabes israelenses, secretamente, que a vida deles é melhor em Israel do que seria em qualquer país árabe. Eles dispõem de um sistema judiciário independente, têm direito de votar e são representados por cinco partidos políticos, o que é muito mais do que em qualquer outra parte do Oriente Médio. Por fim, têm oportunidades de trabalho e de estudo. Sei que Israel ocupa indevidamente territórios palestinos e isso tem de acabar. Existe, contudo, algo pior: a ocupação ideológica dos palestinos, pelos seus líderes. Por que o texto do acordo de Oslo, de 1993, entre Israel e os palestinos nunca foi traduzido para o árabe? Isso permitiria que pessoas comuns o lessem e decidissem por si. Acredito na democracia para os palestinos, mas isso não vai acontecer até que as duas ocupações acabem. Veja – Por que os palestinos aceitam essa situação? Irshad – Eles têm medo. Não é desculpa, apenas a realidade. Quando estive em Ramallah, na Cisjordânia, procurei o escritor Raja Shehadeh. Ele escreveu um livro que me impressionou, no qual critica o sistema tribal que marca as relações entre os palestinos. O encontro, na presença de outros

ativistas palestinos, foi uma decepção. Shehadeh simplesmente se calou, e ainda mudou o discurso – disse que Israel era o opressor e os palestinos, os oprimidos. Provavelmente, ele percebeu que colocaria sua vida em risco ao dizer o que pensa. E ele é um advogado que criou uma organização de direitos humanos. Imagine o que acontece com os pobres. Veja – A senhora costuma dizer que o Islã precisa se livrar da herança árabe. Por quê? Irshad – Os árabes representam apenas 13% dos muçulmanos, mas o peso de seus costumes é enorme no islamismo. É preciso separar o Islã dos conceitos tribais que são tradicionais entre os árabes. O profeta Maomé levou o Islã para o mundo árabe justamente para que ele aprendesse a fazer a paz. A intenção era unificar as tribos árabes, que brigavam entre si. Um psiquiatra na Faixa de Gaza disse-me que, em vez de abafar a parte negativa da cultura árabe, o Islã acabou estimulando-a. Em janeiro, o Hamas tomou uma decisão "progressista": permitiu que mulheres se candidatassem a ataques suicidas. Contudo, só aquelas que desonraram sua família. Ou seja, as que casaram fora de sua fé, que foram estupradas ou que traíram o marido. A morte, segundo o Hamas, as salvaria. Veja – Seu livro está sendo traduzido para o árabe. Alguma editora se dispôs a publicá-lo? Irshad – Não, nenhuma. Mas jovens muçulmanos me deram a idéia de publicá-lo na íntegra, em árabe, no meu website. Estará também disponível em urdu, a língua do Paquistão. Assim, muito mais gente terá acesso, com privacidade e sem medo. Veja – Osama bin Laden representa o Islã? Irshad – Não, ao contrário. Líderes fundamentalistas como Osama bin Laden não têm a importância religiosa que lhes é atribuída. Eles usam o Islã apenas para alcançar o poder. Seu regime dos sonhos é baseado no nazismo, não tem nada a ver com religião. Muitos muçulmanos estão cansados com o que está acontecendo com sua fé. Se alguém me perguntasse há alguns anos quanto de rancor antiocidental existe entre os muçulmanos, eu teria dito 80%. Hoje, eu diria 50%. Algo já mudou, e para melhor. O apoio que estou recebendo seria impensável no passado. O desafio será transformar essa sede por mudanças em um fenômeno visível. E isso significa dar à próxima geração de muçulmanos poder para transcender esse medo de violência e de marginalização.

"O Islã prega a paz”
Ali Mohamed Abdouni - 20 de julho de 2005 O líder da comunidade muçulmana diz que a ação dos fanáticos fundamentalistas distorce a imagem da religião no Ocidente
José Eduardo Barella

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"Se uma pessoa se submete voluntariamente à vontade de Deus, ela jamais terá envolvimento com o terrorismo"

O título de xeque e o cargo de presidente do Conselho Superior para Assuntos Islâmicos no Brasil dão ao sul-mato-grossense Ali Mohamed Abdouni, de 41 anos, as credenciais para falar em nome do 1,5 milhão de brasileiros que seguem a religião fundada por Maomé no século VII. No Brasil, apenas o conselho que ele preside tem o direito de emitir fatwas, os decretos que estabelecem a regra islâmica para uma questão. Desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, cometidos em nome do Islã, sua grande preocupação tem sido a de explicar aos não-muçulmanos que a "verdadeira natureza" de sua religião é ser pacífica e tolerante. Filho de imigrantes libaneses, Abdouni passou a infância no Líbano e a adolescência no Brasil. O fascínio pelo Corão, o livro que os muçulmanos acreditam ser a palavra de Alá revelada ao profeta Maomé, levou-o a estudar teologia islâmica durante seis anos em Medina, na Arábia Saudita. Abdouni é

casado e pai de cinco filhos, três meninas e dois meninos com idade entre 2 e 11 anos. Veja – O que senhor diz aos fiéis e aos amigos não-islâmicos de sua comunidade quando ocorre um atentado como o de Londres, cuja autoria foi atribuída a seguidores do Islã? Abdouni – Nós condenamos todos os tipos de atentados realizados contra inocentes, já que o Islã deixa claras todas as leis em estado de guerra e em estado de paz. Portanto, quando alguém comete um atentado como o de Londres, nós repudiamos e também instruímos nossa comunidade sobre os fatos. Muitas vezes não sabemos se realmente os autores são muçulmanos, mas, se forem, somos contra da mesma maneira. Cabe aqui um alerta. É um erro generalizar e transformar um ato terrorista perpetrado por um grupo de pessoas em algo que difame a imagem de toda uma nação ou de uma religião. A palavra Islã significa paz, justiça. Ou, em outra interpretação, submissão total à vontade de Deus. Se uma pessoa se submete voluntariamente à vontade de Deus, ela jamais terá envolvimento com o terrorismo. Veja – Algumas pessoas acreditam que o Islã é em si mesmo uma religião que predispõe as pessoas a atos violentos. Até que ponto isso é verdade? Abdouni – Isso não é verdade. O Corão, o livro sagrado do Islã, prega a paz. A guerra só pode ser uma forma de um muçulmano se defender, ainda assim, dentro de seu território. Como alguns grupos islâmicos estão praticando agora atos terroristas, a religião muçulmana é vista no Ocidente como violenta. Ora, o Islã tem catorze séculos de existência e uma história marcada pela tolerância. Se o Brasil, a Espanha e a América Latina são hoje predominantemente católicos, isso se deve à tolerância que prevaleceu nos oito séculos em que o império muçulmano dominou a Andaluzia, na Península Ibérica. Naquele período, o idioma, os costumes e as tradições religiosas locais foram cuidadosamente preservados. O Islã prega uma mensagem de paz e harmonia, e não de guerra e terrorismo. Veja – Surpreende que os religiosos muçulmanos tenham condenado à morte um escritor acusado de blasfêmia, mas nenhum tenha até hoje emitido uma condenação contra Osama bin Laden. Por que é assim? Abdouni – Os muçulmanos deploram o terrorismo e, quando for provado que Osama bin Laden organizou os atentados de 11 de setembro, ele

também será condenado pelo Islã. O responsável deve ser procurado, processado, julgado e punido. Seja quem for. Seja de que religião for. Veja – A separação entre a Igreja e o Estado é uma das conquistas mais preciosas da civilização ocidental. Por isso, os ocidentais se surpreendem que não seja assim no Islã. É possível existir separação entre o Estado e a mesquita? Abdouni – A religião islâmica é o conjunto de leis criado por Deus para ser seguido pelos homens. Ela permite que nós possamos respeitar o próximo, preservar o universo no qual vivemos e proteger nossos espíritos e mentes para alcançar a felicidade. A vida do ser humano, porém, não se restringe ao tempo em que ele passa no templo religioso. A lei islâmica deve acompanhálo em todos os momentos e lugares para impedir que ele cometa erros. Por isso, o Islã também se define como um sistema político, econômico, social, educacional, jurídico e familiar. É um código de vida completo, de fonte divina, que não pode ser dividido. As regras que vão definir todos esses sistemas foram estabelecidas por Deus, e não pelo homem. Como Deus é perfeito e o homem não, a maior conquista dos muçulmanos é que a religião possa reger todas as esferas de sua vida. Veja – O Brasil é a terra do Carnaval, dos biquínis ousados e do sincretismo religioso. Como é ser muçulmano em um país com tal liberdade de costumes? Abdouni – No Brasil, como em qualquer país do mundo, ser muçulmano implica desafios. As pessoas constantemente deparam com testes a sua fé. Como disse Deus no Corão, a religião não deve ser imposta. Ela deve ser fruto de uma convicção, de análise e aceitação racional. Quando isso acontece, não importa o lugar onde um fiel se encontre, ele seguirá a religião e seus preceitos com tranqüilidade. Além do mais, assim como os muçulmanos, uma grande parte dos brasileiros não aceita o Carnaval nem o biquíni. Essa é uma escolha livre. Quanto ao sincretismo, a religião islâmica estabelece que os muçulmanos devem respeitar todo tipo de religiosidade. Ela nos dá o direito de discordar de outras crenças, mas nos obriga a respeitá-las. Veja – Durante séculos, sábios do Islã discutiram se um muçulmano podia viver num país cristão. Os muçulmanos realmente se sentem desconfortáveis quando são minoria? Abdouni – Não há desconforto. Por duas razões. Primeiro, porque a religião islâmica é universal, ou seja, nada impede o muçulmano de praticá-la em qualquer lugar. Segundo, porque os muçulmanos estão acostumados a viver

onde não são maioria. Nos primórdios da religião, o próprio profeta Maomé incentivou que muçulmanos viajassem para lugares distantes para que aprendessem com seguidores de outras religiões e também lhes ensinassem a mensagem do Islã. O que os sábios do passado discutiam é se uma minoria muçulmana poderia permanecer em um país que não respeitasse sua religião. Essa preocupação não existe hoje porque felizmente os direitos dos muçulmanos são preservados, tanto no Brasil quanto na América do Norte e na Europa. Veja – O Islã está interessado em conquistar fiéis entre os brasileiros cristãos? Abdouni – O Islã é a religião que mais cresce no mundo. Cresce principalmente no Ocidente. Em vários países da Europa, o islamismo já é a segunda religião. Nos Estados Unidos, existem 8 milhões de seguidores. Aqui no Brasil há 1,5 milhão, muitos deles novos adeptos. Veja – O Corão foi escrito no século VII e reflete bastante os costumes e as circunstâncias daquele determinado momento histórico. Por que é tão difícil para os muçulmanos examinar seus ensinamentos no contexto em que foram escritos em lugar de levar tudo ao pé da letra? Abdouni – Desde que foi revelado, há catorze séculos, o Corão assegura direitos e deveres que permanecem imutáveis. O livro sagrado também traz soluções para os problemas existentes numa sociedade moderna. Sob esse ponto de vista, o Islã é moderno. Muitos intelectuais ocidentais reconhecem isso. O dramaturgo irlandês Bernard Shaw disse certa vez que, se vivesse na atualidade, aplicando os ensinamentos do Corão, o profeta Maomé resolveria os problemas do mundo tomando uma xícara de chá. Veja – Em vários países muçulmanos a mulher que tirar o véu em público pode ser presa ou espancada pela polícia religiosa. Isso é moderno? Abdouni – Essas ações não são preceitos islâmicos, já que se segue o Islã por meio da convicção, e não da imposição. Porém, sabemos o que acontece quando a mulher tira a roupa e se expõe, principalmente no mundo ocidental: ela é desrespeitada de forma inaceitável. Estatísticas mostram que nos Estados Unidos ocorre um estupro a cada seis minutos. A exposição da mulher acaba facilitando esse tipo de crime. É claro que o homem também deve se preservar. O Corão diz que a obrigação de evitar a cobiça e o adultério deve ser de ambos os sexos.

Veja – Nos testemunho tribunais e disposições modernas...

países que seguem a lei islâmica ao pé da letra, o das mulheres vale menos que o dos homens nos a parte delas na herança também é menor. Essas do Corão também não podem ser consideradas

Abdouni – Na religião muçulmana, a mulher tem o mesmo espaço que o homem. A questão é que a maioria dos países não pratica o Islã de forma correta. Talvez seja isso o que ocorre hoje. Na época de ouro do império islâmico, quando as leis do Corão eram seguidas à risca, a mulher ocupava papel de destaque na sociedade. Antes do surgimento do Islã, as mulheres não tinham direitos. Na Europa, elas permaneceram nessa situação até a Idade Média. Porém, quanto à herança, há um equívoco na interpretação, pois o homem recebe mais que a mulher por ter de sustentar sua família. Então ele recebe bruto, enquanto a mulher não tem a obrigação de dividir nem de sustentar ninguém. Portanto, o que ela recebe é líquido. Veja – O senhor permitiria à sua mulher trabalhar fora? Abdouni – Ela estuda computação e exerce a profissão mais importante para a mulher, que é a de educar os filhos. A mulher tem grande responsabilidade nessa tarefa, mais até do que o homem. Mas, se ela quiser, ela tem o direito de trabalhar. Veja – A mutilação genital das mulheres é mesmo comum em países de maioria muçulmana? Abdouni – A mutilação genital é um costume pré-islâmico, proibido pela religião muçulmana. Os líderes religiosos a condenam porque viola os direitos da mulher contidos no Corão. A mutilação genital não é praticada na maioria do mundo islâmico. Apenas em países africanos e, mesmo assim, em algumas tribos. Não é correto julgar o Islã por causa desse costume. Veja – O profeta Maomé casou-se com uma menina de 9 anos. Casarse ainda criança é uma imposição do Islã às mulheres? Abdouni – O casamento é permitido pelo Islã quando a mulher atinge a maioridade. O critério de maturidade para a religião é a puberdade. Antigamente era comum as mulheres se casarem com 9 ou 10 anos. Tanto que ninguém contestou quando o profeta se casou com Aisha, nem os incrédulos, nem os idólatras daquele tempo. Devemos levar em conta os costumes e as tradições de cada período histórico, como também o desenvolvimento físico das pessoas da época.

Veja – Uma das primeiras medidas do aiatolá Khomeini, após a Revolução Islâmica, em 1979, foi baixar para 9 anos a idade mínima para casar. Ele agiu de acordo com a lei islâmica? Abdouni – Para a religião muçulmana, a mulher não é mais dependente dos pais quando atinge a puberdade e, portanto, a maioridade. Ela passa a ter direitos e deveres, entre eles o direito ao casamento. É assim desde o tempo do profeta. Temos de verificar em que idade a maioria dos jovens de hoje atinge a puberdade e determiná-la como maioridade. Veja – Por que razão, em caso de divórcio, a lei islâmica dá a guarda dos filhos sempre ao pai? Abdouni – O Corão assegura às mulheres todos os direitos, incluindo o de escolher o noivo e também o de se divorciar. Nesse caso, pela religião muçulmana, a mãe só perde a guarda dos filhos se não houver entendimento entre os pais e ela se casar outra vez, para poder facilitar um novo relacionamento. Quando atingem a puberdade, os filhos têm a opção de escolher se querem morar com o pai ou permanecer com a mãe. Veja – O trecho corânico que autoriza os muçulmanos a eliminar infiéis onde os encontrarem é entendido por muitos não-muçulmanos como uma licença para matar. É isso mesmo? Abdouni – Não. Existe confusão em torno desse versículo. Essa confusão desaparece quando se lê o texto por inteiro. Ele foi revelado depois que os idólatras romperam um acordo de paz com o profeta Maomé. Ou seja, as determinações expressas no versículo só valeram para aquela situação e contra aquele grupo específico. Prova disso são os templos religiosos milenares dos judeus e cristãos que permaneceram protegidos e funcionando normalmente durante catorze séculos de governo islâmico. Os fanáticos de todas as religiões, e não apenas do Islã, costumam usar trechos tirados do contexto para justificar suas ações violentas. Veja – Qual país tem o sistema de governo mais admirável do ponto de vista do Islã? Abdouni – Não há país que pratique o Islã de maneira perfeita. Mas existem alguns países que respeitam os preceitos mais amplos da religião, no que se refere à tolerância, à justiça social, ao desenvolvimento econômico e tecnológico. Nesse grupo eu destacaria a Malásia, a Indonésia e Sharjah, um dos Emirados Árabes Unidos.

REPORTAGENS
As chamas do Islã
21 de fevereiro de 1979

Revivendo cenas que se julgavam esquecidas na História, a revolução iraniana irrompe com ímpeto e abre perspectivas inquietantes no plano internacional Os homens enchiam de terra sacos de estopa, levantavam barricadas com tijolos e madeira. E muitos entre eles traziam faixas de tecido branco na testa, símbolo muçulmano da disposição de morrer em combate. Envoltas em seus véus negros, os chadors, mulheres de todas as idades ocupavam-se em uma frenética fabricação de coquetéis Molotov. E pelas esquinas de Farahabad, bairro no setor leste de Teerã, jovens interrompiam os passantes para colocar-lhes nas mãos uma metralhadora, um fuzil - o convite para juntar-se à jihad, a "guerra santa" islâmica que começava a engolfar o Irã. Um ano depois das primeiras passeatas contra o regime do xá Mohammed Reza Pahlevi, que governou o país com mão de ferro durante 37 anos, era toda a população de Teerã que, como num único movimento, se sublevava para tomar o poder pelas armas. Foi um dia sangrento, o sábado, 10 de fevereiro, na capital do Irã. Durante todo o dia, multidões enfurecidas investiram contra quartéis, delegacias de polícia e outros postos de resistência da monarquia. A cidade cobriu-se de grossas espirais de fumaça que, aqui e ali, indicavam tanques do Exército e edifícios públicos incendiados. Tudo que se ouvia eram explosões e tiros. Ouviam-se também e principalmente os gritos dos seguidores do ayatollah Ruhollah Khomeini, o líder supremo da rebelião, que insuflavam a turbamulta por meio de alto-falantes. No final da tarde, combatia-se por toda a cidade. Pelo menos 200 mortos e 800 feridos haviam sido recolhidos das ruas. E a fúria do levante popular trazia à lembrança de um mundo assombrado cenas que se acreditava definitivamente arquivadas nos livros de História ou nos relatos do passado - como a tomada do Palácio de Inverno, na Revolução Bolchevique de 1917, por exemplo, ou até mesmo a derrubada da Bastilha, durante a Revolução Francesa, no remoto 1789. CAPÍTULO FINAL - O fato é que bastaram onze dias da presença de Khomeini em Teerã, após um exílio de quinze anos - no Iraque, depois na França -, para que a insurreição iraniana ganhasse os contornos definitivos

de uma revolução. Mais ainda: um verdadeiro assalto popular ao poder, algo que os cientistas políticos já não mais esperavam ver neste final de século, em que ações militares, as intervenções estrangeiras ou incontáveis fórmulas de acomodação tornaram-se a modalidade dominante de transformação política. O capítulo final da monarquia persa, velha de 2.500 anos - e também da moderna dinastia Pahlevi, fundada pelo pai do atual xá em 1921 -, começou na noite de sexta-feira atrasada, quando cadetes da base aérea Dashan Tadeh se amotinaram contra seus oficiais. As Forças Armadas, talvez a única instituição que ainda barrava o avanço das hordas iranianas rumo ao poder em Teerã, começavam a ceder. Unidades da Guarda Imperial, uma tropa de elite incondicionalmente fiel ao governo do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, foram chamadas para sufocar o levante. Mas os soldados mal haviam chegado a Dashan Tadeh quando milhares de populares armados surgiram nas imediações da base para reforçar a posição dos cadetes. Começou então a batalha - e o sangue não deixaria mais de correr até a derrocada final do governo e a captura do poder pelo ayatollah. ASSALTO À PRISÃO - Os combates não tardaram a estender-se a um arsenal militar situado nas proximidades, o de Eshratabad, e prolongaram-se durante toda a noite. Na manhã de domingo, finalmente, renderam-se os últimos oficiais leais ao governo. Pouco depois, o Estado-Maior das Forças Armadas comunicava que as tropas seriam chamadas de volta aos quartéis, "para evitar mais derramamento de sangue e anarquia". Era, na prática, a retirada de apoio militar ao desprestigiado governo de Bakhtiar, um advogado de 63 anos, designado pelo xá no início de janeiro, antes da partida do monarca para o exílio. E caía, com Bakhtiar, o último obstáculo para a instauração da "república islâmica" pregada por Khomeini. Como seria de esperar, uma explosão de júbilo tomou conta da cidade mas a comemoração foi breve. Em poucas horas espalharam-se rumores de que a saída de cena das Forças Armadas não passara de um blefe dos comandos militares. Não era verdade - mas, no caos da revolução ainda quente, as multidões enfureceram-se e lançaram-se a uma louca escalada de violências. De Dashan Tadeh a massa humana dirigiu-se contra o Palácio Golestan, uma ex-residência do xá, atualmente destinada a hóspedes de Estado. Depois, investiu contra o escritório do primeiro-ministro Bakhtiar, que, àquela altura, estava desaparecido. A casa de Bakhtiar também foi saqueada, como a sede da missão comercial de Israel, a sede da missão militar americana - já abandonada - e o prédio onde funciona a Câmara Baixa do Parlamento.

À maneira da Revolução Francesa de 1789, não faltou nem mesmo um apoteótico assédio à maior prisão iraniana, a de Jamshidiyeh, em Teerã. De um só golpe, nada menos de 11.000 presos, muitos deles criminosos comuns, ganharam a liberdade. Mas a massa queria, também, acertar contas com alguns membros do antigo regime ali encarcerados por corrupção. Suas presas mais desejadas: o ex-primeiro-ministro Amir Abbas Hovejda, que ocupou o posto por treze anos, e o ex-chefe da odiada polícia política, a Savak, general Nematollah Nassiri. CABEÇAS DECEPADAS - Hovejda e Nassiri, que haviam sido presos por ordem do xá no final do ano passado, como uma concessão aos opositores do regime, foram salvos do linchamento pela chamada "guarda islâmica" de Khomeini - a esta altura abrindo fogo não mais para derrubar o governo mas, sim, para tentar recompor alguma ordem. Salvos, mas não por muito tempo. Ambos foram conduzidos a um cárcere improvisado no quartelgeneral do ayatollah. E, na sexta-feira, após um julgamento sumário, Nassiri seria fuzilado juntamente com mais três generais - as primeiras de uma série de cabeças que, segundo se acredita, a espada da "república islâmica" vai decepar. Mas, ao mesmo tempo que estendia seu domínio sobre o país, a rebelião começava a escapar, na semana passada, ao controle de seu patrono Khomeini - o líder religioso de 78 anos que, contando apenas com sua ascendência sobre as massas, conduziu a revolta do exílio em Neauphle-leChâteau, França, a 4.500 quilômetros de Teerã. Com a tomada de quartéis e arsenais ao longo do fim de semana retrasado, cerca de 140.000 armas teriam caído nas mãos dos rebeldes. E, apesar dos apelos de Khomeini para que a população os entregasse à "guarda islâmica", pouco mais de 10.000 haviam sido recuperados até sexta-feira passada. A maior parte desse material, segundo se acredita, está em poder de bandos anárquicos e de guerrilheiros marxistas, como os do grupo Fedayn-e-Kalc. Criada em 1971, esta organização uniu-se ao movimento religioso de Khomeini para a derrubada do xá - mas, como outros grupos radicais, pretende ir muito além da "república islâmica" desejada pelo ayatollah. Ao que tudo indica, teriam sido esses extremistas os responsáveis pelo ataque à embaixada dos Estados Unidos em Teerã, na quarta-feira - explosão de violência duramente amargada pelo novo governo. O episódio, que aguçou as apreensões de Washington iraniana, só terminou com a intervenção de uma Khomeini. Depois de quase duas hora de cerco pelos fuzileiros navais que defendiam a embaixada haviam embaixador William Suilivan para que se rendessem diante da revolução força armada prófedayin, os dezoito recebido ordem do devido ao desigual

poder de fogo dos atacantes. Neste momento, extremistas invadiram o edifício. Eles já estavam retirando os 140 ocupantes da embaixada, sob a mira de fuzis, quando a "guarda islâmica" os resgatou. SOBRE BAIONETAS - Havia, por outro lado, um foco de resistência do antigo regime na cidade de Tabriz, capital da província de Azerbaijão, no norte, a 100 quilômetros da fronteira com a União Soviética. Ali, ex-agentes da Savak enfrentaram os populares pró-Khomeini até quarta-feira, com um saldo de 700 mortos. Mas o fato é que, em sua primeira etapa, a revolução fora definitivamente vitoriosa - e seus inimigos, agora, estão dentro dela própria. De fato, pouco ou nada restou do regime anterior. Já na segundafeira, o primeiro-ministro Bakhtiar, que, segundo as primeiras versões, se teria suicidado, apresentou sua renúncia. Este veterano oposicionista, que abandonou os correligionários ao aceitar sua nomeação pelo xá, passava assim o governo a um ex-companheiro de luta política: o tecnocrata muçulmano Mehdi Bazaran, designado para o posto por Khomeini. Como é natural nos momentos de grande convulsão política, abria-se então, para o Irã e seus 35 milhões de habitantes, um horizonte de incertezas. Mas não apenas para o Irã - pois o dramático desfecho da crise lança indagações que se projetam muito além das fronteiras da antiga Pérsia. No final da semana passada, diplomatas, estadistas e cientistas políticos de todo o mundo debruçavam-se sobre o fenômeno em busca de suas raízes. PRIMEIRO LUGAR - Apesar de seus 78 anos, quinze dos quais longe do Irã, o ayatollah Khomeini conseguiu sobre as massas iranianas um domínio raras vezes visto na História - e acabou por se transformar numa das grandes figuras carismáticas deste século. Armado unicamente com sua palavra, este asceta de barbas brancas teleguiou multidões, manipulou sem hesitar seu fanatismo, paralisou a economia do Irã, fechou as torneiras do petróleo do segundo maior exportador do mundo. Como tudo isso foi possível? Mas a revolução tem ainda outros pontos intrigantes. Como explicar que, em apenas um ano, um levante popular tenha derrubado um governo sedimentado em 37 anos de existência e apoiado em um dos mais poderosos e bem armados exércitos do planeta? Não eram poucas, na verdade, na semana passada, as reflexões sobre a fragilidade da ordem que se apóia unicamente sobre as baionetas. Com os bilhões de dólares do petróleo, o xá dotou suas Forças Armadas de quase 500.000 homens dos mais sofisticados equipamentos de que se tem notícia só os Estados Unidos venderam ao Irã 12 bilhões de dólares em armas nos últimos seis anos.

O monarca se garantiu ainda contra seus opositores com uma brutal polícia política - a Savak, que deu ao Irã, em 1977, segundo a organização Anistia Internacional, o primeiro lugar no mundo entre os países violadores de direitos humanos. REVOLUÇÃO DE MAIORIA - Como se não bastasse, o xá Reza Pahlevi também tinha a seu favor um insólito consenso internacional. Até o último momento, seu governo teve o apoio de países como China, Estados Unidos e mesmo a União Soviética - os russos, na verdade, sempre preferiram o xá, com quem estabeleceram pacata convivência, ao visceralmente anticomunista Ruhollah Khomeini. Mas nenhum desses pólos de sustentação, como se viu, mostrou-se suficiente para salvar o regime. Pelo contrário. Entre todas as revoluções da História, a iraniana prima pela quase unanimidade da oposição à ordem reinante. Acredita-se que nada menos de 90% dos iranianos colocaram-se contra o governo ao longo do ano passado. Segundo disse a VEJA o professor Thomas Ricks, do Departamento de História da Universidade de Georgetown, em Washington, este particular faz da revolução iraniana um dos mais profundos movimentos sociais deste século. Ele lembra que a revolução comunista na Rússia, por exemplo, foi feita pelos bolcheviques, uma minoria dentro da sociedade. No Irã, diversamente, é ínfimo o número de defensores da velha ordem. Mas o que dá ao fenômeno iraniano um caráter ainda mais intrigante é sem dúvida seu conteúdo religioso. Seria a rebelião o primeiro rebento de um renascimento islâmico? Existem, hoje, entre 750 milhões e 1 bilhão de muçulmanos no mundo. Trata-se da única religião em expansão - e, além do mais, é a crença dominante nos países detentores das principais reservas conhecidas de petróleo. 80.000 MESQUITAS - Esses fatos, por si só, bastam para explicar a apreensão com os perigos de contágio da insurreição iraniana. Pode-se enganar, contudo, quem interpreta a revolução como um fenômeno exclusivamente religioso. "Não houve uma revolução islâmica no Irã", acredita o professor inglês Freddy Halliday, diretor do Transnational Institute de Londres. "O que aconteceu", disse ele na semana passada a VEJA, "foi uma revolução contra a velha classe política, na qual só existiu um elemento catalisador organizado: a religião." É certo que o xiismo, a seita muçulmana que é a religião oficial do Irã, é tradicionalmente vinculado às questões políticas. Mas é possível, como quer o professor Halliday, que o movimento religioso não tenha sido o motor da rebelião popular mas, sim, seu canal de expressão. Privados, sob o regime ditatorial do xá, de imprensa livre, partidos políticos representativos e

entidades estudantis, os iranianos voltaram-se para o único fórum que permanecera aberto: as 80.000 mesquitas existentes no Irã. Mas a mais importante contribuição do clero para o movimento subversivo foi emprestar-lhe sua secular estrutura de comunicações no interior do país. Quando os ayatollahs ditavam palavras de ordem políticas para a população, elas eram imediatamente transmitidas, para baixo, em direção a uma rede de 18.000 mullahs - espécie de sacerdotes paroquiais - e, ainda num degrau inferior, para 600.000 saias, crentes considerados como "descendentes diretos" do profeta Maomé. TRANSTORNOS - Durante a revolta dos últimos meses, esta rede foi ainda acrescida com a participação dos bawaris, os comerciantes tradicionais que existem em todas as cidades iranianas. Muito ligados ao clero, eles recolhem dízimos sobre seus ganhos. Por tradição, nomeiam líderes comunitários para organizar as procissões religiosas - e existem mais de 5.000 só em Teerã. É compreensível, assim, que milhões de iranianos tenham se reunido com tanta freqüência nos últimos meses para clamar pelo fim da monarquia. E se entende, também, como a rebelião obteve tantos recursos materiais. Mas por que a insatisfação com o regime teria chegado só agora ao ponto de ebulição? As revoluções se desencadeiam, segundo a clássica fórmula do professor americano Crane Brinton, de Harvard, "nos momentos em que crescem as expectativas de ascensão econômica e social por parte das massas". E o caso do Irã parece ajustar-se com perfeição ao modelo teórico. A quadruplicação dos preços do petróleo em 1973/1974 multiplicou por 20 a renda do Irã com a exportação do produto, chegando a uma receita de nada menos que 24 bilhões de dólares anuais - o dobro do total das vendas externas brasileiras. Mas o fato é que o Irã não chegou a se estruturar como uma sociedade capitalista - passou do estágio feudal, vigente até alguns anos atrás, para um mero estado de crescimento desordenado. Tentando utilizar o dinheiro do petróleo, o governo lançou-se a um vasto programa de desenvolvimento acelerado e acenou com um futuro cheio de promessas. Mas não conseguiu nem teve tempo de trazer parcelas consideráveis da população para os benefícios do sistema - ou de criar na sociedade iraniana interesses que combinassem com os seus. Na verdade, a injeção de capital na economia, sem a necessária competência administrativa para geri-lo, acabou trazendo mais transtornos que benefícios para o cidadão. Esta é, entre outras, a análise do professor americano Marvin Zones, diretor do Centro de Estudos sobre Oriente Médio da Universidade de Chicago e autor de um dos mais respeitados estudos recentes sobre o Irã.

TEIMOSIA - Entre outras conseqüências, o Irã, antes auto-suficiente em produção de alimentos, tornou-se gradativamente dependente de importação para 50% do consumo. Grandes massas de população emigraram para as zonas urbanas - Teerã, por exemplo, ganhou 1 milhão de habitantes em cinco anos. E, nas cidades, os novos contingentes vieram agravar a carência de infra-estrutura sanitária, serviços médicos e escolas sem falar no desemprego. Paralelamente, cerca da metade das receitas do petróleo era destinada anualmente à compra de armamentos. O restante, como se pode imaginar, não bastava para melhorar significativamente o lote do cidadão comum. A extraordinária inépcia na gerência da economia acabou obrigando a uma política de contenção. Em agosto de 1977, com a inflação por volta de 50% ao ano, e uma dívida externa calculada em 10 bilhões de dólares, o governo resolveu restringir o crédito. Para agravar as coisas, este momento de frustração das expectativas abertas pelo petróleo coincidiu com uma tímida política de liberalização política. Ou seja, ao mesmo tempo que se aprofundava a insatisfação popular abriam-se canais para sua manifestação. E esta combinação, segundo Marvin Zones, teria sido fatal para o regime. Há quem veja ainda na rebelião iraniana um típico caso de crise de modernização, a exemplo da que levou à revolução chinesa na década de 40. Assim, para Ira Klein, professor de História da American University, em Washington, os acontecimentos da semana passada seriam apenas o ápice de um processo revolucionário iniciado no Irã no começo do século: a adaptação da velha ordem política à nova realidade econômica do país. Segundo este raciocínio, a monarquia teria sido eliminada de forma pacífica há muitos anos, não fosse a teimosia de nações estrangeiras no sentido de mantê-la - como foi o caso do golpe patrocinado em 1953 pelos Estados Unidos para repor o xá Reza Pahlevi no trono. Temporariamente contido, o processo histórico estaria agora apenas seguindo seu curso. TRABALHO ÁRDUO - O fato é que a intransigência do regime do xá em abrir espaço político para a oposição acabou radicalizando a frente antigovernamental. Agora, as conseqüências disso deverão revelar-se com toda sua força. Em primeiro lugar, o país está falido. Não bastasse o corte nas receitas do petróleo, o novo governo deverá enfrentar a conseqüência da inevitável fuga de capitais que precedeu a queda da monarquia. Só em novembro e dezembro passados, diante da absoluta incapacidade de se tocar qualquer negócio no país, mais de 3 bilhões de dólares fugiram do Irã.

Por outro lado, o colapso da produção causado pelas greves prolongadas exigirá um árduo trabalho de reconstrução. No caso do petróleo, particularmente, acredita-se que a produção não voltará aos níveis anteriores antes de pelo menos um ano - mesmo que o novo governo se empenhe neste sentido, o que ainda não se sabe se acontecerá. Mais árduos, contudo, prometem ser os problemas na frente política. Já na semana passada, com a república ainda nascendo, surgiram as primeiras fissuras na coalizão oposicionista que conduziu a luta contra o xá. E o confronto principal, ao que tudo indica, será entre a esquerda e os religiosos. "CONSELHO REVOLUCIONÁRIO" - Mais que o minúsculo Partido Comunista do Irã, o Tudeh - na clandestinidade desde 1949 - são os extremados grupos marxistas-leninistas que estão pressionando para influenciar a nova ordem. Seu quartel-general é a Universidade de Teerã e foram eles, na verdade, que tomaram a dianteira nos combates de rua. Os esquerdistas também conquistaram posições junto aos trabalhadores dos campos petrolíferos e, agora, querem uma "participação" na feitura do programa do governo. O problema é que não se trata bem de uma "participação" - e sim, a julgar por suas extraordinárias exigências, de uma virtual captura do governo. Entre outras coisas, os fedayin, estimulados pelas armas que detêm, querem a criação de um "exército popular" para substituir as atuais Forças Armadas. Pleiteiam também a transformação do conselho de representantes eleitos das comissões de greve em um "conselho revolucionário" - o que eqüivaleria, na prática, a um soviete. E querem nada mais nada menos que o controle das grandes instituições nacionalizadas, como a Companhia Nacional de Petróleo e a Rádio e Televisão Nacional. Ao mesmo tempo que lida com a economia e duela com a esquerda armada, o novo primeiro-ministro Mehdi Bazargan terá que começar a construir as instituições da "república islâmica" pretendida. Por enquanto, tudo que se sabe é que Bazargan pretende convocar um plebiscito popular sobre o abandono formal da monarquia, eleições para uma Assembléia Constituinte e, no futuro, para um novo Parlamento. Mas como funcionará o país neste período de transição? Será realmente a nova "república islâmica" uma tentativa de copiar o sistema que vigorava na Arábia sob Maomé ou o califa Omar, 1.300 anos atrás? É pouco provável que o governo agora empossado pretenda realmente abolir todos os elementos de modernização da vida iraniana - mesmo porque tal empreitada seria simplesmente inviável. Mas os passos concretos a serem dados nas próximas semanas permanecem marcados pela mais absoluta incerteza.

"ESTADOS-CLIENTES" - Esta falta de definições é particularmente grave no campo das relações internacionais. Constata-se, de imediato, que o ocidente perdeu um de seus mais importantes peões no Oriente Médio. Com seus 2.600 quilômetros de fronteira com a União Soviética, o Irã era uma base ideal para os sofisticadíssimos aparelhos americanos de acompanhamento eletrônico das atividades militares e espaciais soviéticas. Mais que isso, o Irã tem sido uma fonte vital de petróleo para todo o mundo ocidental. E, para completar, empenhava-se de bom grado na missão de "policiar" o estratégico golfo Pérsico. Mas a derrota ocidental no Irã não se limita à perda de "um verdadeiro protetorado", como observa o jornalista americano Richard Burt. Mais grave que isso é a admissão do fracasso do sistema de "Estados-clientes", que floresceu nos anos da guerra fria. Segundo esse sistema, a defesa ocidental passou a basear-se em pactos regionais centrados em "Estados-clientes" países intermediários que se alinham aos interesses estratégicos americanos em troca de ajuda econômica e militar. A lição da revolução iraniana, segundo Burt, é que os "Estados-clientes" já não são mais confiáveis. COM A OLP - Mas o país mais diretamente prejudicado com a derrubada do xá é sem dúvida Israel. Sob Reza Pahlevi, o Irã foi o único membro da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) a ignorar o embargo de petróleo para Telavive decretado pelos árabes, em 1973. E, até o início, da crise iraniana, ainda era responsável por 60% do petróleo consumido naquele país. O Irã, daqui para frente, está firmemente alinhado com a OLP (Organização de Libertação da Palestina) - e aí está mais um dado capaz de complicar consideravelmente a política internacional. Com a União Soviética e os Estados Unidos acusando-se mutuamente pela radicalização do conflito no Irã, também a détente sofre abalos. Em suma, a primeira revolução feita sob a égide do Islã nos tempos modernos ainda tem contornos imprecisos e o mundo todo, nas próximas semanas, estará acompanhando inquieto seu desenrolar.

Morte à queima-roupa
14 de outubro de 1981

Assassinado em plena tribuna de honra, Anuar Sadat sai de cena no Oriente Médio deixando aliados e inimigos com expectativa de mudança Com garbo e orgulho, a esquadrilha de cinco aviões Mirage da Força Aérea do Egito prosseguiu com suas rasantes piruetas enquanto outros aparelhos soltavam caudas de fumaça vermelha, branca e preta - as cores nacionais do Egito - no céu ensolarado do Cairo. Para os pilotos, a perfeição era essencial: embaixo, na terra, o presidente Anuar Sadat deveria estar com os olhos voltados para cima acompanhando as evoluções, satisfeito. Até as 13h02 da fatídica terça-feira da semana passada, assim foi. Mas, naquele instante, retomando as palavras de Moshe Dayan, "o mundo mudou". A parada militar do dia 6 de outubro é o ponto alto da liturgia patriótica egípcia. Para comemorar a data em que lançou a ofensiva para recuperar a margem oriental do canal de Suez, em 1973, Sadat mandou construir uma tribuna de concreto e granito vermelho, diante da pirâmide estilizada que serve de túmulo ao Soldado Desconhecido no bairro de Medinet el Nasr, a meio caminho entre a capital e o aeroporto. Lá, todos os anos, assistia em companhia da cúpula do regime, do corpo diplomático e dos adidos militares estrangeiros a um desfile de ambicioso rigor marcial, pontilhado de espetaculares demonstrações de eficiência bélica. Ao final, sempre sozinho, Sadat costumava embarcar num helicóptero que o esperava atrás da tribuna e seguia para Mit Abul Kom, sua aldeia natal no delta do Nilo, para meditar e pregar diante do túmulo do irmão mais moço, Atif, morto na guerra de 1973. Também na semana passada o presidente egípcio embarcou no helicóptero, só que para um vôo inútil ao Hospital de Maadi: com sua impecável farda azul-marinho de mushir - marechal e comandante-em-chefe - encharcada de sangue, Anuar Sadat estava mortalmente ferido no pescoço, peito, braço e pernas. Uma equipe de doze médicos militares instalou o presidente na sala de cirurgia "A", no 1º andar, e durante meia hora lutou para evitar sua morte. Mas Sadat já chegou em coma profundo, com perda de sangue pela boca. Transfusões, injeções para reativar o coração, eletrochoques e massagens cardíacas externas foram tentados. Por fim, foi aberta a caixa torácica para massagear diretamente o coração mas, a essa altura, a linha do eletroencefalograma já não apresentava mais nenhum relevo. Às 13h45, o general Ahmad Sami Karin - o mesmo que assinou o atestado de óbito do xá

Reza Pahlevi - declarou morto o Rais. "Só Deus é eterno", disse à viúva Jihane Sadat. SURGE MUBARAK - O alucinante ataque de metralhadoras e granadas que irrompeu em pleno desfile, e tomou de assalto o palanque montado na avenida da Vitória, fora bem-sucedido. Restava ao mundo, perplexo, juntar rapidamente os estilhaços políticos do atentado mais dramático desde o assassinato de John Kennedy em 1963 e ficar de prontidão para a eventualidade de um desdobramento ainda maior. De imediato, o próprio Egito, a vizinha Líbia e sobretudo Israel colocaram suas Forças Armadas em estado de alerta. Os 4.000 homens das duas unidades anfíbias da VI Frota americana e a totalidade das Forças de Deslocamento Rápido, recentemente constituídas para descer numa crise no Oriente Médio, em poucas horas, também foram equipadas para uma necessidade de embarque. Tomando a ofensiva no plano diplomático, o primeiro-ministro de Israel, Menahem Begin, tratou logo de conter o dique de interrogações que se formaram em torno da sobrevivência, ou não, dos acordos de Camp David, nos quais Israel e Egito regulamentaram um plano de paz duradoura, em 1979, e anunciou que respeitaria metro por metro o cronograma da devolução do Sinai ocupado. Em suma, o mundo começava a se movimentar na ausência de Anuar Sadat, o estadista árabe mais singular do pós-guerra. Ao mesmo tempo, no Egito, o atentado veio provar a existência de uma oposição radical, cujo potencial não diminuiu com a demonstração de autocontrole institucional na rápida indicação do vicepresidente Mohammed Hosni Mubarak como sucessor do Rais. Menos de quarenta horas após o brutal assassinato, o rosto anguloso de Mubarak tomou conta do país - antes mesmo que os egípcios e o resto do mundo tivessem uma imagem completa dos acontecimentos da avenida da Vitória. Nem mesmo as 1.500 pessoas portadoras de convites individuais, sentadas no palanque e nas arquibancadas à volta de Sadat, tiveram uma visão clara do que ocorreu na imponente avenida de quase 100 metros de largura. CAMINHÃO PARADO - Por meio de testemunhos fragmentados, sabe-se que a 1 hora da tarde, faltando 20 minutos para o fim do desfile iniciado uma hora antes, começaria a longa e ruidosa procissão de blindados e caminhões da Artilharia. Enquanto na tribuna reservada aos diplomatas, à esquerda do presidente, um suboficial distribuía suco de goiaba e Coca-Cola a algumas crianças, na tribuna dos adidos militares, à direita de Sadat, o coronel brasileiro Ney Eichler Cardoso, oficial de Artilharia servindo na Embaixada do Cairo, concentrava sua atenção num grupo de nove caminhões de fabricação

soviética, que rebocavam reluzentes canhões recentemente importados da Coréia do Sul.

de

122

milímetros,

"De repente", conta o coronel Eichler, "percebi que a linha dos caminhões estava flutuando." No jargão militar, isso significa que a fila de veículos perdeu o alinhamento, coisa inesperada num desfile exaustivamente ensaiado. A surpresa foi ainda maior quando o primeiro caminhão da fila mais próxima à tribuna parou, avançou mais alguns metros e parou definitivamente diante das autoridades. Segundo outro depoimento, o presidente pensou que o comando de assassinos vinha-lhe apresentar armas. A cena já se havia repetido algumas vezes durante o desfile. "Assim", lembra o general Mahmoud El Masri, comandante da Guarda Republicana, "quando eles se aproximaram, o presidente levantou-se naturalmente para fazer continência." Seja como for, tudo indica que Sadat não usou o instinto militar que levou seus dois vizinhos de tribuna, o ministro de Defesa, general Abu Ghazala, e o vice-presidente Hosni Mubarak, a se lançarem ao chão ao primeiro disparo. O ataque foi rápido e decisivo. Primeiro, um tenente robusto e dois soldados saltaram do caminhão parado, e correram em direção à tribuna de honra, lançando três granadas e disparando suas metralhadoras Kalashnikov. Um quarto soldado, a bordo do veículo, abriu fogo diretamente sobre Sadat. Talvez tenham sido estes tiros que o feriram primeiro. NA PONTA DOS PÉS - Com muita pontaria e pouca sorte, os assassinos lançaram duas granadas dentro da tribuna. "A primeira não explodiu", lembrou depois o ministro da Defesa, que estava sentado ao lado esquerdo de Sadat. "A segunda atingiu o rosto do general Hafez, chefe do EstadoMaior das Forças Armadas, também sentado na primeira fila, mas tampouco explodiu." Se um dos dois petardos explodisse, desapareceria toda a cúpula do governo egípcio. Uma terceira granada, de fumaça, explodiu aos pés do palanque. Os atacantes continuaram avançando e, segundo Ghazala, lançaram fora da tribuna mais duas granadas, do tipo defensivo, cujo leque de estilhaços bastante fechado e vertical feriu poucas pessoas. "Nesse momento, olhei para o presidente e fui ferido por estilhaços no braço direito e na face", relatou o general. Haviam decorrido não mais de 30 segundos desde a parada do caminhão. Anuar Sadat ainda se encontrava em seu lugar quando o quarto atacante, mesmo ferido pelos disparos tardios de um agente de segurança, deixou o veículo e se juntou aos demais. Foi então que o general Hassan Allam, seu chefe da Casa Militar, junto com o secretário particular, Fawzi Abdel Hafez, e o ajudante-de-ordens Nazih Helmi, todos sentados na segunda fileira, se lançaram sobre Sadat para jogá-lo ao chão. Mas, não sendo guarda-costas profissionais, os três chegaram tarde: o presidente caiu entre as cadeiras já

sangrando abundantemente, o general Allam morreu, e Helmi e Abdel Hafez ficaram gravemente feridos. Quanto aos seis agentes de segurança do presidente, incompreensivelmente sentados dez filas atrás, eles não impediram sequer que dois dos assassinos chegassem livremente à tribuna, nela se apoiassem e, elevando-se na ponta dos pés, disparassem suas metralhadoras qual máquinas fotográficas, acima da cabeça, sem sequer mirar. No chão, as personalidades tentavam proteger-se com cadeiras, em meio a quepes, medalhas, sabres e pedaços de carne. Milagrosamente, o vice-presidente Mubarak escapou apenas com um ferimento na mão esquerda. Foi ele quem comandou o resgate do presidente ferido, ajudando a carregá-lo ainda durante o tiroteio, até a porta dos fundos do palanque, para embarcá-lo no desesperado vôo de helicóptero até o hospital. É possível que o crescente orgulho pessoal de Sadat como Rais do Egito e seu aguçado sentido de um destino histórico expliquem por que ele não usava um colete à prova de balas. Seu guarda-roupa incluía pelo menos dois exemplares, um deles presenteado pelos russos antes da expulsão dos 20.000 conselheiros militares e técnicos soviéticos em 1972, mas nunca se soube que os tivesse usado. ÚLTIMA PALAVRA - Os disparos, no total, não duraram mais que 1 minuto. Mas o pânico que tomou conta das tribunas certamente ajudou a aumentar o número de feridos e, possivelmente, de mortos. Além do presidente morreram outras oito pessoas, inclusive um dos soldados atacantes, o presidente do Tribunal de Contas e um bispo da Igreja copta. Entre os quarenta feridos havia crianças pisoteadas no palanque e soldados atropelados por veículos que abandonaram o desfile em revoada. Uma ambulância conseguiu chegar até o palanque para recolher as vítimas. Houve também, naturalmente, ironias do destino. O ministro da Defesa da Irlanda, Jim Tully, por exemplo, tinha ido passar em revista o batalhão irlandês das forças da ONU no Sinai. Estava em trânsito pelo Cairo quando recebeu um convite de última hora para assistir ao desfile. Sentiu-se honrado ao receber um lugar na segunda fila, perto de Sadat. Foi lá que recebeu um estilhaço que lhe atravessou a mandíbula, saindo pela boca. "Lancei-me ao chão", contaria mais tarde, "mas não consegui ir longe porque o corpo do presidente estava atrás de mim." Outro que se pode considerar marcado pela sorte - ou pelo azar - é o boliviano Reynaldo Del Carpio: em 1980, foi seqüestrado junto com outros quinze embaixadores por terroristas colombianos em Bogotá. Nada sofreu, além do trauma. Transferido para o Cairo, acabou sendo ferido no atentado contra Sadat. Ainda na noite do atentado, Mubarak foi à vila da família Sadat, no bairro de Giza, apresentar suas condolências à viúva Jihane e às três filhas do casal. A

viúva do presidente havia presenciado boa parte da tragédia pois se encontrava num camarote envidraçado no alto da tribuna, junto com outras mulheres de personalidades presentes. Segundo lhe contaram, a última palavra pronunciada por Sadat foi: "Não". Quanto ao único filho homem do casal, Gamal, de 25 anos, encontrava-se pescando no litoral da Flórida e só conseguiu chegar no Cairo no dia seguinte ao atentado. Àquela altura, já estavam prontos os planos para o solene funeral de sábado passado, e começavam a surgir as primeiras pistas sobre a autoria do atentado. GOVERNO TEMPORÁRIO - Apesar de sua proclamada devoção religiosa, Sadat parece ter sido morto por ordem da confraria dos Irmãos Muçulmanos, uma organização islâmica fundada na década de 30 e que jamais aceitou a ocidentalização do país e de seus costumes. A Irmandade Muçulmana não chega a ser uma seita islâmica como os xiitas do Irã, mas é igualmente radical e violenta. Tem a morte de pelo menos três chefes de governo em sua folha corrida e conta com comprovada solidariedade em setores das Forças Armadas. Tudo indica que a ameaça do fundamentalismo islâmico, que custou a Reza Pahlevi o trono e aos iranianos a desintegração de seu Estado, vinha sendo até agora mal avaliada no Egito. O proselitismo em favor de um modelo de vida de acordo com a chariat - a lei islâmica - expande-se com rapidez, sobretudo entre os jovens. Nas universidades é crescente o número de rapazes que deixa crescer sintomáticas barbas de inspiração islâmica, ao mesmo tempo que exige que o ensino de ginecologia seja exclusivamente dedicado a estudantes do sexo feminino. "Vejo o governo Mubarak como um governo temporário", diz Henry Jackson, professor de Ciência Política da Columbia University, em Nova York. Jackson é o especialista em Oriente Médio e África que previu a saída de cena de Sadat, por golpe ou assassinato, no penúltimo número da revista Foreign Policy, em artigo que esta semana se transformou em leitura obrigatória no Pentágono. "O perigo de fragmentação política e anarquia no Egito é real (...), o processo de paz de Camp David está morto (...) e os israelenses, independentemente de suas declarações do momento, estão se preparando para um período de caos no Egito", declarou ele a VEJA na semana passada, A seu ver, o Egito de Mubarak caminhará inexoravelmente em direção a um entrosamento maior com países árabes conservadores, e estritamente muçulmanos, como a Arábia Saudita. Apesar do empenho do governo egípcio em reduzir a autoria do atentado a um minúsculo núcleo de quatro fanáticos, o próprio relato oficial apresentado pelo ministro da Defesa Ghazali oferece luzes mais amplas. Segundo o general, o comandante do grupo que atacou o palanque seria o tenente

Khaled Istambuli, irmão de um conhecido militante muçulmano encarcerado no mês passado na operação arrastão desencadeada por Sadat contra a "sedição religiosa". Istambuli morreu no ato e ninguém consegue explicar como ele vinha escapando dos sucessivos expurgos empreendidos nas fileiras militares. O outro membro do comando era um tenente da reserva, que, junto com dois exrecrutas, foi ferido e preso 2 minutos após o atentado, não por agentes da segurança presidencial mas por policiais. Em outras palavras, apenas um dos atacantes seria militar de carreira e os demais, civis. Mas, como o Egito é o país de onde originaram as versões oficiais mais fantasiosas sobre o atentado - o mesmo Ghazali sugerira anteriormente que Sadat enfrentara seus assassinos de pé, peito erguido, valentemente -, será prudente aguardar um histórico mais sereno de todo o episódio. MODELO SOLITÁRIO - Satisfeito com seu modelo solitário de gerir o poder, apoiado numa estrutura estatal fortemente baseada no organograma das Forças Armadas, o ex-presidente Anuar Sadat de certa forma colocou-se acima de uma sociedade que só lhe dedicou genuína admiração pela decisão de atacar as forças de Israel que ocupavam o Sinai, em 1973. No mais, o amplo espectro da oposição egípcia é capaz de incluir de personalidades respeitáveis, como o general Chazli, veterano da guerra do Yom Kippur, a tipos como o tenente Istambuli e possivelmente oficiais mais graduados que o ajudaram. É possível que a decretação do estado de emergência e a proibição de manifestações tenham impedido cenas de pranto por Sadat antes do funeral. De qualquer forma, o pesado silêncio, alternado por uma estranha normalidade nas ruas do Cairo, dava a impressão de que o presidente não deixou tantos órfãos entre as emotivas massas egípcias. Foi do exterior que chegaram as manifestações mais ostensivas de apreço. Na tarde de sexta-feira, um avião da Força Aérea dos Estados Unidos despejou em solo egípcio nada menos que três ex-presidentes (Jimmy Carter, Gerald Ford e Richard Nixon), além do secretário de Estado Alexander Haig e seu predecessor Henry Kissinger - que, assim, pode saborear um pouco suas glórias passadas. Todos vieram assistir ao enterro, junto com Menahem Begin, que violou as normas mais elementares de segurança e as regras mais rígidas da religião judaica para estar no mausoléu de Anuar Sadat na manhã de shabbat. Assim como a junta médica batalhou com valentia para manter vivo Anuar Sadat, Begin lutará com igual vigor para conservar viva a política do Rais assassinado. Primeiro a chegar no Cairo, o líder israelense também foi o primeiro chefe de Estado a conversar com Mubarak. Os dois se abraçaram e Begin perguntou como fora o atentado. "Aconteceu tão de repente...", murmurou Mubarak. Dos dois, era o israelense quem parecia mais órfão de Sadat. Com razão: enquanto sua sobrevivência política está irremediavelmente atrelada aos acordos de Camp David, a identidade política de Mubarak, para se afirmar, poderá exigir rumos novos.

A espada do profeta
10 de março de 1993

Crescem a influência e a violência fundamentalista no mundo muçulmano

Entoado com fervor, o nome de Alá queima como fogo no norte da áfrica e se estende até rincões esquecidos no coração da ásia, onde nasceram nações dos destroços da extinta União Soviética. O clamor que acompanha a prece é um só: instaurar um regime islâmico, espelhado no governo tribal do profeta Maomé, no século VII, e combater aqueles que não vivem pelo Corão. O movimento fundamentalista, que nasceu no Egito nos anos 50, avança e só deixa duas opções aos governos em que se aninha - ceder à onda radical ou reprimi-la brutalmente. Na maioria dos casos, vale a segunda alternativa. Durante três décadas, regimes laicos, governando com mão de ferro quase todos os países de maioria muçulmana, prometeram a felicidade por meio do desenvolvimento econômico. Como continuam pobres e infelizes, seus habitantes estão cada dia mais dispostos a ouvir os ecos de um passado dourado e abstêmio, em que se mutilavam os ladrões, as mulheres jamais se descobriam e os governantes eram apenas executores dos preceitos ditados pelo deus islamita ao profeta. No ano passado, a Frente Islâmica de Salvação, FIS, saiu na dianteira no primeiro turno das eleições parlamentares da Argélia. às vésperas do segundo turno, a FIS foi banida por um golpe militar e caiu na clandestinidade. Desde fevereiro do ano passado, mais de 600 pessoas foram mortas em conflitos entre militantes da FIS e a polícia. Na Tunísia, o governo, assustado com a força do fundamentalismo, encarcerou 6.500 pessoas nos últimos meses. Até na Arábia Saudita, onde o governo é muçulmano ortodoxo, o rei Fahd é fustigado por grupos radicais que exigem um regime mais rigoroso ainda. Os fundamentalistas tomaram o poder no Sudão e estabeleceram a primeira república islâmica da áfrica moderna. Com apoio militar do Irã, o governo sudanês desencadeou uma repressão feroz aos cristãos e animistas que vivem no sul do país.

MÁRTIRES - Nos territórios ocupados por Israel, a militância fundamentalista converteu-se ao mesmo tempo no pesadelo do primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, e do presidente da OLP, Yasser Arafat. Em dezembro, Rabin expulsou 415 palestinos sob a acusação de pertencerem ao Hamas, o grupo fundamentalista que assassinou oito soldados israelenses no final do ano passado, mas o Líbano barrou-lhes a entrada, criando o impasse que já dura três meses e cavou um lugar para o Hamas nas negociações de paz - inútil, pois os fundamentalistas pregam a destruição de Israel. Nos territórios ocupados, os palestinos expulsos transformaram-se em mártires e sua influência não pára de crescer. O estrondo radical dos aiatolás xiitas no Irã e no Líbano fez o Ocidente acreditar que o fundamentalismo sunita - a vertente majoritária do islã - era um fenômeno benigno. O engano está cobrando seu preço. Houve um tempo em que Israel, na ânsia de enfraquecer a OLP, deu dinheiro e apoio a grupos muçulmanos. A estratégia anti-OLP deu certo - tão certo que agora os israelenses se arrependem. Os Estados Unidos, que amargam o gosto de um atentado patrocinado possivelmente por grupos fundamentalistas sunitas, também se enfiaram no vespeiro religioso. Nos anos 80, em plena Guerra Fria, fizeram uma aliança com os fundamentalistas no Afeganistão contra o Exército soviético e treinaram guerrilheiros. Mais tarde, os combatentes afegãos espalharam-se pelo Egito, Argélia e até pela Bósnia conflagrada, devotados à Jihad fundamentalista.

Ataque covarde
12 de maio de 1993

Embaixatriz brasileira é agredida em Riad A embaixatriz brasileira Maria Rosita Pedroso mora em Riad, capital da Arábia Saudita, e só sai às ruas coberta da cabeça aos pés com a abaia, um pesado vestidão negro. Casada com o embaixador Luiz Villarinho Pedroso, Rosita, de 57 anos, não se converteu ao islamismo. O traje negro é uma deferência aos rigidíssimos costumes locais, segundo os quais as mulheres não podem exibir nenhuma parte do corpo fora de casa - as estrangeiras são eximidas apenas do véu que cobre inteiramente os cabelos e o rosto. O uso da abaia poupa-lhes aborrecimentos com os mutauas, a polícia religiosa encarregada de observar o cumprimento da interpretação ultrapuritana das leis do Islã. No sábado, dia 1º de maio, a embaixatriz foi às compras trajando o manto negro, como de hábito. Dentro do centro comercial Ryad Al Akharia, o mais luxuoso da cidade, Rosita descobriu a cabeça e entrou numa farmácia. Foi abordada por três mutauas, que lhe ordenaram, em inglês, que cobrisse os cabelos. "Não cubro porque não sou muçulmana", explicou. Rosita deu as costas para os policiais e foi agredida. Os mutauas puxaram-lhe os cabelos, cuspiram-lhe no rosto e chutaram-na pelas costas. "São covardes que atacam senhoras indefesas", indignou-se o embaixador Villarinho. No mesmo dia, a embaixada brasileira enviou uma nota de protesto à chancelaria saudita. "Espero que os agressores de minha esposa sejam identificados e punidos", exigiu o embaixador. Na terça-feira passada, o encarregado de negócios da Arábia Saudita no Brasil, Mansour Saleh Alsafi, foi chamado ao Itamaraty para dar explicações. Pediu desculpas e garantiu que o episódio não passaria em branco - mas até a sexta-feira o governo saudita não se havia mexido. VARAS E SPRAY - Os mutauas são agentes voluntários, com salários pagos pelo Estado e poderes amplos e difusos. Suas armas são varas finas e tubos de spray, que usam para molestar as mulheres que saem às ruas sem a abaia. Entre suas atribuições estão a vistoria das lojas (os comerciantes devem fechar as portas cinco vezes ao dia, para rezar voltados para a cidade sagrada de Meca) e a detenção de cidadãos, sauditas ou estrangeiros, flagrados com bebidas alcoólicas ou material pornográfico. As mulheres sauditas são o alvo mais vigiado: além de se cobrir inteiramente, elas não podem sair sozinhas, dirigir ou conversar com homens que não sejam parentes. Desde a Guerra do Golfo, quando se suspeitava de que a presença de meio milhão de soldados americanos - inclusive mulheres - pudesse subverter o rigor dos costumes sauditas, os policiais religiosos tornaram-se onipresentes. Invadem casas à procura de álcool e prendem estrangeiros que não se curvam às suas exigências. Os 400 brasileiros que vivem no país sofrem com o patrulhamento. "Já fomos importunados várias vezes, mas nunca com violência", conta a embaixatriz Rosita.

Caçada aos cabelos
30 de junho de 1993

No Irã, campanha moralizadora humilha e persegue mulheres que descumprem a lei islâmica fechando as portas à liberalização
Nos últimos tempos, as mulheres do Irã vinham ensaiando uma revolução silenciosa. Os véus negros com que se embrulhavam da cabeça aos pés iam sendo substituídos aos poucos por casacões e lenços coloridos. As mais ousadas cobriam a cabeça, mas deixavam à mostra algumas mechas de cabelo. O falecido aiatolá Khomeini, pai da revolução que defenestrou o xá Reza Pahlevi e fez do Irã um Estado teocrático, teria uma síncope se soubesse que as mulheres iranianas dos anos 90 pintam as unhas de vermelho, fazem ginástica aeróbica em academias e vestem minissaias por baixo do vestidão preto. Na semana passada, foi deflagrada uma blitz para reabilitar os "bons costumes" no país. Durante quatro dias, agentes da polícia e da Guarda Revolucionária iraniana prenderam 802 pessoas, entre mulheres e alguns homens, acusadas de desrespeitar a lei islâmica. Na quarta-feira, o jornal Jomhuri Eslami, de Teerã, noticiou que várias mulheres foram condenadas ao açoitamento, punição recomendada pelo Corão às fiéis que não se vestem de maneira "devota". Segundo a interpretação xiita do Corão, as muçulmanas devotas devem cobrir os cabelos, orelhas e testa. Só ficam à mostra as mãos e o rosto. Nos países sunitas mais conservadores, não sobra nem o rosto. Ambas as correntes do islamismo, religião nascida nas durezas do deserto numa época em que as mulheres eram alvo privilegiado nos ataques das tribos rivais, dedicam especial pavor aos cabelos femininos. "O cabelo das mulheres tem uma espécie de brilho que tenta os homens", reforçou Abolhassan Bani-Sadr, o primeiro presidente iraniano após a revolução, então badalado nas esquerdas ocidentais como progressista e esclarecido. Aos homens, a lei islâmica prescreve apenas a modéstia no vestir. As mulheres presas na semana passada estavam "mal cobertas", isto é, mostravam parcialmente o cabelo. O pecado dos senhores que foram parar na cadeia era usar óculos de sol ("Eles tinham aparência decadente", justificou um policial). A maioria foi liberada rapidamente, depois de confessar arrependimento. As mulheres mal cobertas eram listadas num computador, e receberiam penas mais severas se reincidissem. "Será uma campanha decisiva", explicou o chefe de polícia de Teerã, general Abdollah Oqbaei. "Nossa missão é orientar aqueles que desrespeitam o Corão." MADONNA E PRINCE - Entre os países que professam a fé muçulmana, o Irã é dos que cumprem com mais rigor os preceitos da lei islâmica. A linha dura só é comparável à vigente na Arábia Saudita. As iranianas não podem caminhar pelas ruas em companhia masculina - a não ser que o homem seja parente próximo. Só viajam sozinhas se tiverem autorização do pai, marido ou outro parente do sexo oposto. Uma decisão da Corte Suprema anunciada no ano passado proíbe as iranianas de pedir o divórcio, a não ser que o marido seja comprovadamente insano

ou esteja desaparecido há mais de quatro anos. A guarda dos filhos cabe sempre ao pai ou à sua família, porque, segundo o Corão, a mãe é capaz de "decisões irracionais". "Isso tudo é terrível para as mulheres iranianas, muitas delas profissionais de nível universitário ou com estudos no Ocidente", avalia a escritora e feminista italiana Elena Giannini Bellotti. "Para elas, é como uma condenação à Idade Média." Com uma classe média informada e educada, inclusive por herança da ocidentalização promovida durante o reinado do xá, as tentativas de liberalização sempre procuram brechas na rigidez do regime. Madonna, Prince e Michael Jackson continuam oficialmente proibidos no país. A diferença é que agora os adolescentes ouvem suas músicas em casa - e os pais toleram. As meninas usam jeans e mulheres mais ricas encomendam lenços Chanel para cobrir os cabelos. Um decreto religioso recente autorizou o aborto como forma de controlar a natalidade. Muitas mulheres estão saindo de casa para trabalhar e desfrutam de mais liberdade do que nos primeiros anos da revolução dos aiatolás. Clubes e escolas continuam segregando os sexos, mas homens e mulheres já podem praticar juntos, à distância, pelo menos um esporte - o esqui. É claro que a aprendiz de esquiadora se mantém escondida debaixo dos véus negros e a vigilância religiosa é implacável. BOMBA NO ANO 2000 - A repressão às mulheres iranianas acompanha os humores do regime. "São períodos sistemáticos, que vão e voltam", disse a VEJA a escritora francesa Claire Brière, autora do livro Irã - A Revolução em Nome de Deus. "Sempre que há uma crise no país, política ou econômica, o governo busca recuperar o que se considera como a grande força da nação: o comportamento, a coesão moral. E as mulheres são peça-chave nesse processo." A caça às bruxas da semana passada aconteceu dias depois de uma eleição desanimada, que estendeu por mais quatro anos o mandato do presidente Hashemi Rafsanjani. Considerado um "moderado", Rafsanjani condenou como um exagero a blitz do início da semana, expondo os ultra-radicais com quem de vez em quando se desentende na disputa pelo poder. No essencial, todos estão de acordo: o Irã, que saiu lucrando com a surra levada por seu eterno inimigo, o Iraque, desponta como a potência dominante na complicada região do Golfo Pérsico. Apesar da economia combalida, 4 bilhões de dólares do orçamento nacional foram dedicados ao rearmamento do país em 1991. Suspeita-se que, além da compra de mísseis e submarinos, o Irã estaria adquirindo também tecnologia para montar sua própria bomba atômica. O governo americano prevê para o ano 2000 a construção do primeiro artefato nuclear. "Estamos apenas repondo as armas que perdemos durante a guerra contra o Iraque", justifica Ali Mohammad Besharati, um figurão da chancelaria iraniana. Para consumo público, o governo deixou vazar recentemente um relatório preparado pela inteligência iraniana com os grandes perigos para a segurança nacional. São eles: as minorias étnicas, a corrupção administrativa, a burocracia - e as mulheres. Por enquanto, a revolução vai ter de esperar.

Rushdie de saias
27 de julho de 1994

Escritora condenada à morte pede socorro
"Estou em perigo. Os fundamentalistas querem me matar. Por favor, me ajudem." Desde o mês passado, um fax com esse apelo, assinado pela escritora Taslima Nasrin, de Bangladesh, tem chegado a endereços importantes da Europa e dos Estados Unidos. Foragida da Justiça de seu país e ameaçada de morte por extremistas muçulmanos, ela vive na clandestinidade desde o início de junho. O perigo que corre é real. Embora Bangladesh não seja um Estado teocrático, como o Irã dos aiatolás, 87% da população é muçulmana - e a influência dos fundamentalistas cresce a cada dia. Aos 32 anos, Taslima é o Salman Rushdie de saias. A exemplo do anglo-indiano que vive escondido na Inglaterra há cinco anos, condenado à morte pela autoria dos Versos Satânicos, a escritora bengalesa também foi alvo de uma fatwa, a sentença de morte por blasfêmia contra o Islã. Com a cabeça a prêmio, ela se refugiou na casa de amigos, de onde vem lançando seus pedidos de socorro. Um deles alcançou o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Klaus Kinkel, que levou o assunto à reunião de chanceleres da União Européia. Na semana passada, os doze países membros da União Européia ofereceram asilo político à escritora e instruíram suas embaixadas a ajudá-la a sair de Bangladesh. Pode não haver outro caminho para Taslima Nasrin. Formada em Medicina, ela trabalhou vários anos como ginecologista numa clínica estatal em Daca. Seus problemas iniciaram-se em 1990, quando começou a se destacar por artigos, publicados em jornais feministas, nos quais denunciava a posição subalterna da mulher no mundo muçulmano. Algumas de suas posições eram surpreendentes. Taslima, que já foi casada três vezes, chegou a defender o direito de as bengalesas terem quatro maridos simultaneamente. Nada mais justo, argumentava, uma vez que o Corão autoriza os homems a manter quatro esposas. Ela foi ainda a primeira escritora muçulmana a usar a palavra "vagina" num poema erótico. Seu livro mais recente, Vergonha, do ano passado, denuncia a perseguição religiosa à minoria hindu em Bangladesh, um assunto tabu em seu país. O livro vendeu 60.000 exemplares antes de ser proibido pelo governo. RECOMPENSA - A gota d'água que desencadeou a fúria dos fundamentalistas foi uma entrevista que ela concedeu em maio a um jornal indiano em que teria proposto revisão radical do Corão. Taslima negou (disse que pediu mudanças apenas na lei islâmica), mas o estrago estava feito. Pouco depois, dois líderes religiosos bengaleses anunciaram a sentença de morte contra ela. A recompensa pela sua execução foi fixada em 4.000 dólares, soma considerável no país, que é um dos mais miseráveis do planeta. Sob pressão dos fundamentalistas, que têm saído às ruas todos os dias para exigir o enforcamento da escritora, o governo desenterrou uma lei do Código Penal até então em desuso para condená-la a dois anos de prisão, por ter "ofendido deliberadamente os sentimentos dos muçulmanos". Ao tomar conhecimento da oferta de asilo da União Européia, o governo bengalês saiu-se com uma pérola de cinismo: disse que, antes, ela teria de se apresentar e cumprir a pena de prisão.

A escalada do Islã
9 de fevereiro de 1994

Fundamentalistas conquistam multidões nos países muçulmanos, bagunçam a nova ordem mundial e desenham um dos confrontos de fim de século com o Ocidente Adeus foice-e-martelo, chegou a vez da cimitarra. Com o fim do comunismo, uma nova assombração veio perturbar o sono do Ocidente: o fundamentalismo islâmico. Há poucos meses, um editorial do The New York Times, o porta-voz mais autorizado da imprensa ocidental, qualificava a ascensão do islamismo militante como uma "ameaça à paz e segurança do mundo, semelhante à do nazismo e do fascismo nos anos 30 e à do comunismo nos anos 50". O fundamentalismo prega um Estado regido única e exclusivamente pelas leis do Corão, o livro transmitido há 1.400 anos, segundo a tradição, ao profeta Maomé. Em uma república islâmica, não há distinção entre Estado e mesquita, religião e política. O Irã dos aiatolás, o paupérrimo Sudão e a monárquica Arábia Saudita são os três países mais próximos desse tipo de regime. Violentos ou pacíficos, os métodos dos fundamentalistas variam de país para país. Eles podem ser sunitas ou xiitas os dois ramos da religião muçulmana. Só estão de acordo num ponto: a necessidade de romper com a influência do Ocidente (o "Grande Satã") e substituir a lei dos homens pela lei de Deus, ou Sharia, um conjunto de regras que abarca tópicos distintos como o vestuário, o casamento, a política, a alimentação, a justiça, os juros bancários, as relações sexuais e a educação das crianças. Onde se instala, o integrismo muçulmano é sinônimo de turbulência. Na Argélia, uma vitória eleitoral dos fundamentalistas, há dois anos, provocou uma guerra civil que já matou 2.000 pessoas e colocou o país num impasse em que é difícil saber qual das duas opções é a pior: uma ditadura à la Pinochet ou um Estado teocrático à la Khomeini. No Egito, o mais importante e populoso dos países árabes, o confronto entre o terror islâmico e o governo já deixou mais de 200 mortos e espantou os turistas que lá iam andar a camelo e apreciar as pirâmides. Nos territórios palestinos ocupados, os integristas do Hamas se transformaram no grande obstáculo ao acordo de paz entre a OLP e Israel. A influência dos guerreiros de Deus se estende a lugares tão distantes como a França, onde a presença do fundamentalismo entre os milhões de imigrantes árabes alimenta a retórica apocalíptica da extrema direita racista, e os Estados Unidos, onde o terrorismo islâmico desembarcou, há um ano, na forma do espantoso atentado ao World Trade Center, em Nova York. Nas repúblicas asiáticas da extinta União Soviética,

mesquitas nascem da noite para o dia, como cogumelos, erguidas com dinheiro do Irã e da Arábia Saudita. DESCAMISADOS - O integrismo muçulmano ganha terreno em toda uma faixa do planeta que vai do norte da áfrica ao Sudeste Asiático, modificando a vida cotidiana de milhões de pessoas, assustando governos instituídos e dando calafrios de medo em países ocidentais, onde a vitória fundamentalista no Irã, exatamente há quinze anos, mudou o panorama político de todo um naco do planeta. "As forças islâmicas já venceram", diz o acadêmico francês Gilles Kepel, um especialista no assunto. "Estamos assistindo à reislamização de uma região inteira." Mesmo em países de costumes mais liberais, os governos fazem concessões aos rigores da lei islâmica na esperança de reduzir o ímpeto dos radicais. A Jordânia, por exemplo, fechou as piscinas mistas e deixou de servir bebidas alcoólicas nos vôos da companhia aérea nacional. No Egito, o livro As Mil e Uma Noites, o maior clássico da literatura árabe, foi banido em 1985 como pornográfico. Há casos de regimes autoritários que manipulam o Islã para conter a oposição. Na Indonésia, a maior concentração de muçulmanos do planeta, a ditadura de Suharto atendeu prontamente à exigência de manifestantes que, com o Corão aberto na página em que se condena a jogatina, pediam o fim da loteria - algo bem mais fácil de fazer do que promover eleições livres. O renascimento de uma vertente islâmica virulenta e radical não é novidade. A Fraternidade Muçulmana, o mais antigo grupo integrista em atividade, foi fundada no Egito na década de 20. O que catapultou o fundamentalismo ao primeiro plano foi o fracasso dos dirigentes laicos em atender às demandas de justiça e dignidade nos países onde agora viceja a semente radical. Os movimentos que inspiraram as massas árabes no pós-guerra, como o nacionalismo de Nasser, naufragaram num oceano de incompetência, autoritarismo e corrupção. O marxismo - ateu - nunca deu muito ibope e o capitalismo só trouxe benefícios para uma pequena elite que passa as férias na Europa e capta a televisão ocidental em suas antenas parabólicas. Para os descamisados, a esmagadora maioria, a modernidade significou miséria e desemprego na periferia das metrópoles superpovoadas. É natural que, à falta de alternativas, as multidões se voltem para os imãs barbudos que lhes prometem restaurar a vida simples, porém decente, de seus antepassados, acabar com a roubalheira e as injustiças sociais e, de quebra, garantir o passaporte para uma existência melhor depois da morte. "O Islã deu uma razão, um significado ao fato de que ser pobre não é uma falha do indivíduo e sim da sociedade corrupta", analisa o ex-diplomata egípcio Tahseen Bashir. Aonde o Estado não chega, o clero muçulmano finca sua rede de assistência social, com escolas, hospitais, creches e escritórios de advocacia. É lá que os fundamentalistas recrutam seus militantes e seus profissionais, que matam

em nome de Deus e condenam ao fogo de Satã tudo o que tenha a marca do Ocidente. HEREGES NA FOGUEIRA - O confronto com o Ocidente é de longa data. Na verdade, já dura catorze séculos, pois começou com o próprio advento do Islã, seguido de uma extraordinária expansão, que implantou a palavra - e a espada - do profeta até na Sicília, na Espanha, em Portugal e numa parte da França. Do ponto de vista histórico, a calmaria dos últimos três séculos é que foi excepcional. "Desde o fracasso do segundo cerco turco a Viena, em 1683, e a ascensão dos impérios coloniais europeus na ásia e na áfrica, o Islã passou para a defensiva, enquanto a civilização cristã e pós-cristã colocou todo o mundo sob sua órbita", observa o historiador Bernard Lewis. Com seu comportamento ensandecido, os terroristas de Deus ajudam a alimentar antigos preconceitos do Ocidente - como o que atribui aos árabes uma inclinação natural para praticar a violência em nome da fé. Em filmes de Hollywood, nas histórias em quadrinhos, no folclore de inspiração cristã, o muçulmano é sempre o malvado, o agressor, um sujeito de faca na mão ou bomba na mala, pronto para matar pela glória de Alá. Os muçulmanos não possuem, de forma alguma, esse monopólio da agressão de inspiração divina. Durante muitos séculos, a civilização árabe foi um modelo de tolerância religiosa, comparada a uma Europa onde se queimavam hereges na fogueira, se expulsavam judeus e se matavam os pagãos que recusassem o batismo. Mesmo hoje, é injusto atribuir aos muçulmanos, indiscriminadamente, a pecha de fanáticos ou de briguentos. Nas ruínas da ex-Iugoslávia, são os sérvios - cristãos ortodoxos - que iniciaram a carnificina com sua "limpeza étnica" contra os muçulmanos bósnios, enxotados de suas terras em meio às mais terríveis atrocidades. Na índia, os muçulmanos são perseguidos por fanáticos hinduístas que utilizam a rivalidade religiosa como uma arma suja na disputa pelo poder. Ainda assim, a simples existência de um fundamentalismo muçulmano em ascensão chama a atenção para uma das facetas mais desconcertantes da nossa época: o fato de que, às portas do século XXI, os homens ainda se matam uns aos outros porque cultuam deuses diferentes, ou o mesmo Deus de forma diversa. Não se trata, na opinião de muitos estudiosos, de um resíduo do passado, mas uma tendência fadada a dominar o panorama mundial no pós-Guerra Fria. Samuel Huntington, da Universidade Harvard, um dos mais renomados cientistas políticos americanos, acredita que "o mundo está entrando numa nova fase, na qual a fonte essencial de conflito não será ideológica nem econômica. O choque das civilizações vai dominar". Pelo figurino de Huntington, a humanidade se divide em sete ou oito grandes civilizações - a ocidental, a confuciana, a hinduísta, a islâmica e assim por diante -, cada qual com opiniões diferentes sobre as relações entre Deus e o

homem, o cidadão e o Estado, pais e filhos, liberdade e autoridade, igualdade e hierarquia. "Mudanças econômicas e sociais estão afastando as pessoas de identidades locais há muito existentes", argumenta Huntington. "Em boa parte do mundo, a religião está preenchendo o vazio, freqüentemente sob a forma de movimentos rotulados de fundamentalistas." AVERSÃO AO NOVO - A teoria do "choque das civilizações" - que profetiza, como cenário mais provável, um conflito entre "o Ocidente e o resto" - é contestada por outros analistas e pode até não passar de uma provocação intelectual, como o "fim da História" do filósofo americano Francis Fukuyama. É descabido, sem dúvida, comparar o desafio do fundamentalismo à quedade-braço nuclear dos tempos da Guerra Fria. Os imãs não têm bombas atômicas nem, muito menos, os meios de usá-las de modo eficaz contra o Ocidente. Mas é também verdade que há traços no islamismo militante que justificam os calafrios no resto do planeta. Remando contra a História, os fundamentalistas sonham transplantar para o mundo de hoje as normas e os costumes de uma sociedade arcaica, forjada na luta de vida ou morte contra o deserto, tal como a que descreveu Maomé no século VII, antes, muito antes da Idade Média. Não há lugar, na legislação islâmica, para direitos individuais tão elementares, hoje em dia, quanto o de escolher a própria religião, o de se opor à autoridade, o de manifestar livremente o pensamento - sem falar na emancipação da mulher, considerada inferior. O medo do novo é uma marca registrada do islamismo ortodoxo. A palavra inovação (bid'a, em árabe) é o que existe de mais próximo da noção ocidental de heresia. Uma das falas atribuídas a Maomé traça a seguinte idéia: "A verdadeira comunicação é o livro de Deus, a melhor orientação é a de Maomé e a pior de todas as coisas é a inovação. Toda inovação é herética, toda heresia é um erro e todo erro leva ao inferno". Não há mesmo como existir democracia num quadro cultural de tamanha aversão à mudança, de intolerância perante as vozes discordantes. O escritor americano Gore Vidal publicou recentemente o livro Ao Vivo do Calvário, recheado de provocações ao cristianismo, baixarias sobre os santos católicos e blasfêmias em torno do nome de Jesus. Talvez o papa João Paulo II tenha até sentido a tentação de condenar Vidal à fogueira. Mas não pode. O escritor continua a viver em absoluta tranqüilidade na cidade italiana de Ravello, num dos países mais católicos do mundo, que abriga o Vaticano. O anglo-indiano Salman Rushdie fez algo muitíssimo menos agressivo, mas similar, com o profeta Maomé e vive escondido, cercado de guarda-costas, porque o Irã dos aiatolás e da justiça corânica o condenou à morte. Na definição, bem apropriada, de outro escritor, Albert Camus, um francês nascido na Argélia: quando a política se mistura com a fé, o resultado é a Inquisição.

O peso da lei de Alá
9 de outubro de 1996

Milícia fundamentalista controla Cabul, executa adversários e decreta retorno à moral medieval
Situado numa região montanhosa e inacessível do centro-oeste da Ásia, com tradição guerreira e orgulho de ter sido um dos poucos países do "quintal do mundo" a jamais passar pela colonização das potências ocidentais, o Afeganistão certamente nunca foi um exemplo de modernidade. O salto para o passado que deu, no entanto, é surpreendente até pelos padrões locais. Depois de tomar a capital, Cabul, a milícia Taliban - uma força guerrilheira nascida nos seminários islâmicos e que já se apoderou de 70% do país começou imediatamente a reformar o cotidiano dos afegãos segundo uma interpretação fanática e primitiva do Corão. Desde a semana passada, as mulheres estão proibidas de trabalhar fora de casa e só podem sair à rua vestidas com o chaderi, o longo camisolão que as cobre inteiramente, incluindo o rosto. Sozinhas, nem pensar - só em companhia de algum homem da família. Até as escolas para meninas foram fechadas. No meio da semana, os novos mandachuvas foram obrigados a ceder, em alguns pontos, diante de outro tipo de estatística. Metade dos funcionários públicos são mulheres e um terço delas viúvas de combatentes e arrimo de família. Retê-las na cozinha das casas aumentaria ainda mais o caos administrativo e social em que o país mergulhou em dezessete anos de guerra civil. As escolas e repartições públicas serão "adaptadas" - o que significa a mais estrita separação entre os sexos - e as funcionárias receberão salários enquanto aguardam em casa. O recuo, porém, não deve ser confundido com perda de fôlego ideológico. Um decreto promulgado pelo recém-criado Ministério da Propagação da Virtude e de Combate ao Vício não deixa dúvidas sobre os rigores exigidos de uma população que, em geral, já segue os costumes islâmicos mas agora terá de se enquadrar na linha mais radical. A televisão, considerada máquina demoníaca, saiu do ar. Música, casas noturnas, cinemas e bebidas alcoólicas estão banidos. Todos os homens receberam um prazo de 45 dias para deixar crescer a barba, bem longa, segundo a tradição islâmica. Foi adotada a sharia, o severo código legal muçulmano, que prevê a amputação de pés e mãos de ladrões, o apedrejamento até a morte de adúlteras e traficantes de drogas e o açoite em praça pública dos consumidores de bebidas alcoólicas. "O Afeganistão

será um Estado integralmente islâmico", anunciou o mulá Mohammed Rabbani, membro da junta que governa Cabul. TIROS NA NUCA - Sob a batuta de regimes fundamentalistas, a sharia já é aplicada no Irã, Sudão e Arábia Saudita. O que se prevê para o Afeganistão, contudo, é coisa mais pesada ainda. "Deve surgir aí o mais rígido regime islâmico da Terra, mais duro que o da Arábia Saudita ou o do Sudão", acredita Tom Gouttiere, especialista em Afeganistão da Universidade de Nebraska. Explosão similar de fanatismo, embora com fundo político totalmente diferente, só se viu quando o Khmer Vermelho entrou em Phnom Penh, capital do Camboja, em 1975. Dispostos a implantar um comunismo totalmente "puro", os guerrilheiros esvaziaram a cidade e enviaram seus habitantes para centros de reeducação no campo. Ter qualquer tipo de instrução, e até usar óculos, era anátema. Quando foram apeados do poder três anos mais tarde, o furor revolucionário do Khmer Vermelho era responsável pelo extermínio de um terço da população cambojana. A entrada da Taliban em Cabul foi igualmente marcada por cenas sangrentas. Retirados de um prédio das Nações Unidas onde viviam refugiados desde 1992, o ex-presidente Najibullah Ahmedzi e seu irmão Shahpur foram arrastados amarrados na traseira de um jipe, executados com tiros na nuca e pendurados pelo pescoço na praça central da cidade. Comunista colocado no poder pelas tropas soviéticas que ocuparam o país em 1979, Najibullah cometeu sua cota de atrocidades - mas a crueza da execução sinalizou que coisa pior ainda vem pela frente. Segundo a Anistia Internacional, ocorreram execuções em massa e milhares de pessoas estão desaparecidas. Ao longo da semana, as estradas se encheram com 250 000 refugiados deixando Cabul. ARREPENDIMENTO - Transformado num ponto quente da Guerra Fria quando existia a União Soviética, que interferiu diretamente no país para sustentar um regime comunista e se deu mal, o Afeganistão converteu-se numa incubadeira de fanáticos armados. Os fanáticos internos só podem fazer mal a seu próprio país, hoje praticamente irrelevante. Os estrangeiros é que são o problema. Quando se fala em radicais "afegãos", a expressão não se refere aos nativos do país, mas aos combatentes recrutados em países muçulmanos e enviados para lutar contra o Exército Vermelho no Afeganistão. Armados e treinados com a ajuda dos Estados Unidos, que só viram a oportunidade de humilhar Moscou e hoje têm amargos motivos para arrependimento, esses veteranos espalharam-se pelo Oriente Médio, norte da África, Filipinas e até a Bósnia. Eram "afegãos" os sauditas que explodiram o primeiro carro-bomba contra as forças americanas na Arábia Saudita. Ramzi Ahmed Yousef, condenado nos Estados Unidos por planejar

atentados contra aviões americanos, recebeu treinamento nos campos de refugiados afegãos no Paquistão. Depois da retirada das tropas soviéticas, na era Gorbachev, o Afeganistão voltou à sua insignificância geopolítica, um peão de interesses regionais. As facções guerrilheiras, marcadas por lealdades tribais, engalfinharam-se numa carnificina que ainda está longe de terminar. A milícia Taliban representa a maioria étnica dos pashtuns e cresceu com a ajuda do Paquistão e uma mensagem que parecia estar acima do interesse dos caudilhos tribais. ANARQUIA - Muitos habitantes de Cabul receberam os conquistadores com certo alívio pela esperança do fim de quase duas décadas de guerra. A conquista significou também o fim do cerco de 22 meses que deixou a capital em ruínas e custou a vida de 30 000 pessoas. A perspectiva otimista é que a vitória da Taliban acabe com a anarquia e instaure algum tipo de estabilidade política para o Afeganistão - mesmo sob o chicote da sharia. "A vantagem é que surgiu uma facção que parece capaz de controlar um governo no Afeganistão", opina o senador americano Hank Brown, que em julho visitou o país. "O preocupante é que não sabemos nada sobre as idéias políticas da Taliban." Outro problema é que a guerra ainda não acabou. O presidente Burhanuddin Rabbani conseguiu fugir da capital e junto com o chefe de seu Exército, Ahmed Shah Massoud, um caudilho da minoria tadjique, se preparava para enfrentar o avanço da Taliban no norte. Outra frente de resistência está montada pelo general Rashid Dostum entre os usbeques, grupo étnico que controla outra fatia do norte do país. Quando passar a surpresa causada no Ocidente pelas medidas radicais, eles voltarão a se matar sem atrair maiores atenções.

Ramadã sangrento
29 de janeiro de 1997

Numa espiral de violência, mais de 200 pessoas são mortas em duas semanas de atentados Vítimas de uma guerra civil que já matou 60.000 pessoas nos últimos cinco anos, os 30 milhões de argelinos suportam uma situação sintetizada por Elias Canetti: a vida tornou-se uma sentença de morte suspensa, que pode ser aplicada a qualquer momento. Nas últimas duas semanas, num banho de sangue selvagem até para os padrões locais, mais de 200 argelinos foram mortos em chacinas ou atentados com carros-bombas. A onda renovada de violência insana é pendurada na conta do Grupo Islâmico Armado, GIA, o mais belicoso e bem organizado movimento armado da oposição muçulmana. Mas a polícia e o Exército também deixam um rastro de sangue. No último dia 18, catorze pessoas foram fuziladas num único confronto com suspeitos nas ruas de Argel, a capital. As origens do conflito argelino repousam no golpe de Estado preventivo para impedir que os fundamentalistas muçulmanos, vencedores das eleições parlamentares, assumissem o governo em 1992. Não há sombra de diálogo entre os fundamentalistas e o presidente Liamine Zeroual, que governa com o apoio das Forças Armadas. A matança das últimas semanas foi anunciada com antecedência. No início do mês, o GIA avisou, com manifestos afixados às portas das mesquitas, que tinha preparado um arsenal de cinqüenta bombas para tornar inesquecível este Ramadã, o mês de jejum e orações do Islã. No dia 16, uma bomba matou catorze pessoas no mercado da cidade de Boufarik, um bastião dos fundamentalistas. Entre 19 e 22, quatro bombas duas delas artefatos sofisticados acionados por controle remoto explodiram em Argel, matando mais de sessenta pessoas. Num desses ataques, diante de um cinema, quarenta civis perderam a vida.

GARGANTAS CORTADAS - Além dos atentados com explosivos, os terroristas do GIA ampliaram a campanha de terror, que consiste em degolar famílias inteiras nas aldeias e pequenas cidades do interior: dezenove pessoas tiveram a garganta cortada no dia 12, em duas aldeias, e outras 49 no dia 18, dentro de uma mesquita, na cidade de Medea. Em ambos os casos, a chacina não poupou mulheres, crianças nem bebês. As bombas e a degola indiscriminada têm o objetivo de demonstrar que o GIA não se dobra à repressão policial e desestimular a adesão dos camponeses às milícias de autodefesa organizadas pelo governo uma tática usada pelo Exército peruano no combate ao Sendero Luminoso que redundou em violência maior ainda. São esses milicianos, recompensados com bons salários, e os comandos policiais que respondem pelas atrocidades em nome do governo. A matança é tanta que muitas vezes não se distinguem mais os autores das sucessivas chacinas. Nas cidades maiores, os fundamentalistas islâmicos costumam adotar a estratégia de assassinar pessoas comuns acusadas de não seguir o Islã com o devido fervor, jornalistas e estrangeiros - mais de 100 já foram mortos nos últimos cinco anos, a maioria franceses. Agora, os carros-bombas começaram a explodir indiscriminadamente, inclusive em bairros pobres, onde o apoio aos radicais de Alá é grande. A Argélia sangra e não se vislumbra solução alguma. No fim do ano passado, o governo comemorou o plebiscito que endossou a reforma constitucional pela qual os partidos religiosos foram banidos e o presidente ganhou poderes ditatoriais. A resposta dos fundamentalistas veio agora, escrita a sangue. A matança continua.

Ritual em chamas
23 de abril de 1997

Incêndio e pânico provocam mais de 300 mortes na peregrinação anual dos muçulmanos a Meca
O Corão, o livro sagrado do islamismo, manda que todo muçulmano com posses e saúde faça pelo menos uma vez na vida uma peregrinação a Meca, a cidade onde nasceu o profeta Maomé, na Arábia Saudita. Tudo é metodicamente previsto: a duração do ritual (seis dias), a data (o último mês do calendário muçulmano) e as orações que devem ser feitas (uma para cada dia de peregrinação). Mesmo esse meticuloso planejamento não conseguiu impedir a tragédia de terça-feira passada, quando em pleno haj, como é chamada a peregrinação, um incêndio tomou conta de um acampamento com milhares de tendas na Planície de Mina, pegada a Meca. Cinco horas de pandemônio depois, 343 peregrinos estavam mortos e 1.290 lotavam doze hospitais da área. A causa do incêndio parece ter sido um pequeno botijão de gás ou um arcondicionado portátil que explodiu em uma das tendas - ambos equipamentos imprescindíveis na planície árida e desabitada, onde a temperatura nesta época sobe a quase 40 graus. O vento forte do deserto alastrou o fogo em minutos, causando novas explosões. "As pessoas entraram em pânico e puseram-se a correr em todas as direções", contou uma testemunha. Muitos morreram queimados, outros sufocados pela fumaça e outros ainda pisoteados na correria. O socorro não demorou a chegar - polícia e bombeiros sauditas permanecem em alerta máximo durante o haj. Helicópteros sobrevoaram o acampamento, jogando água, que também era lançada em enormes jatos dos caminhões de bombeiro. Mesmo assim, 70.000 tendas queimaram-se, deixando um rastro de eletrodomésticos derretidos e roupas destruídas. Horas depois de contido o incêndio, uma enorme nuvem de fumaça negra era perfeitamente visível em Meca, a 11 quilômetros de distância. Outro princípio de incêndio, dois dias depois, foi debelado rapidamente, sem vítimas. A Planície de Mina é parada obrigatória na peregrinação anual de mais de 2 milhões de muçulmanos, vindos de cerca de 100 países, uma das maiores concentrações humanas eventuais do mundo. Aparecida, um dos principais santuários religiosos do Brasil, recebeu no ano passado 215.000 católicos, e isso em um dia só - 12 de outubro, a data da padroeira. Pela multidão que acolhe, Mina é também um dos pontos de altíssimo risco de acidente no percurso dos peregrinos muçulmanos. Os grupos de tendas são separados por nacionalidade em Mina, e os mais atingidos na tragédia da semana passada foram indianos e paquistaneses. Segundo o embaixador da Índia, Mohammad Ansari, pelo menos 100 vítimas eram peregrinos desse país. Parentes e governos enfrentavam grande dificuldade para identificar os mortos. A única identificação dos

peregrinos, que, além de muito queimados, não tinham bolsos nem carregavam carteira, era uma espécie de pulseira com seu nome e nacionalidade - acessório precário, que também foi consumido pelas chamas. No ano passado, um incêndio chegou a destruir várias tendas em Mina, sem feridos. Em 1990, em um dos túneis para pedestres que ligam Meca a Mina construídos para facilitar o tráfego na estrada e evitar acidentes -, aconteceu a pior tragédia até hoje: sete pessoas caíram de uma passarela interna, a multidão disparou e 1.426 peregrinos morreram pisoteados. A lista de desastres no haj inclui ainda 270 pessoas mortas em outra correria, em 1994, e mais 402 vítimas, na maioria iranianos, num confronto com a polícia saudita durante uma manifestação anti-Estados Unidos em 1987. De lá para cá, todo ano os peregrinos do Irã desafiam a proibição de atividade política e promovem um protesto durante o haj, geralmente nos últimos dias do ritual. REFORMA BILIONÁRIA - O haj começa na grande mesquita de Meca, onde fica a Caaba, um enorme bloco de pedra preta que teria sido erguido originalmente por Abraão, o patriarca bíblico dos povos árabe e judeu. Lá também é venerada a Pedra Preta, que teria sido dada a Abraão pelo anjo Gabriel. Os peregrinos - os homens enrolados em dois cortes de tecido branco sem costura, as mulheres de vestido branco ou preto até os pés e véu - dão sete voltas ao redor da Caaba. No dia seguinte, vão para Mina, onde se preparam para o ponto alto da peregrinação: a reza no Monte Arafat, onde Maomé teria feito seu último sermão. Depois a multidão visita os três pilares representando o demônio, que são apedrejados com sete pedrinhas "do tamanho de feijões" recolhidas, de preferência, no Monte Arafat. Segue-se, no mesmo dia, o ritual do sacrifício: um carneiro por pessoa ou uma vaca ou camelo para cada grupo de seis. Neste ano, segundo a imprensa saudita, sacrificaram-se 500.000 carneiros e 15.000 camelos e vacas, e a carne foi doada a pobres em 27 países. Nos três dias seguintes, os peregrinos preparamse para a volta: compram mantimentos, os homens raspam a cabeça e todos repetem o ritual em volta da Caaba. A Arábia Saudita, orgulhosa "guardiã das duas mesquitas sagradas" - a outra é em Medina, onde está o túmulo de Maomé -, gastou quase 20 bilhões de dólares nos últimos anos para receber e acomodar os milhões de fiéis da segunda maior religião do mundo (a primeira é o cristianismo) e a que cresce mais rapidamente. Entre outras coisas, ampliou a mesquita de Meca de menos de 30.000 para 160.000 metros quadrados, com capacidade para acomodar 300.000 pessoas ao mesmo tempo. A polícia cuida de evitar superlotações - a própria Planície de Mina acabava de ser cercada e fechada a novos peregrinos quando o incêndio começou. Nenhuma providência, porém, foi capaz até hoje de evitar a ocorrência de tragédias como a da semana passada. Como que confirmando o inevitável, o rei Fahd, dirigindo-se aos parentes das vítimas do incêndio de terça-feira, disse que pedia a Deus "que lhes dê paciência" para enfrentar o desastre.

Blasfêmia fatal
09 de julho de 1997

Ameaça contra israelense que ofendeu Maomé Numa cidade com os nervos à flor da pele e uma história de tragédias sangrentas, não é complicado imaginar provocações capazes de atear novos conflitos. Na semana passada, Hebron, a cidade palestina onde soldados israelenses defendem de arma em punho um enclave habitado por um punhado de judeus ultra-religiosos, explodiu em batalhas de rua causadas por um desafio deliberado: cartazes com insultos à religião islâmica, produzidos e afixados nas paredes de Hebron por uma militante ultranacionalista israelense, Tatiana Susskind. Os desenhos mostravam um porco -- animal considerado impuro e impróprio como alimento por muçulmanos e judeus -- com o turbante árabe na cabeça e a palavra Maomé escrita em árabe e inglês. O animal tinha uma pata sobre o Corão, o livro sagrado do Islã, e uma caneta na outra, como se estivesse escrevendo o texto. Susskind, uma imigrante russa de 25 anos que vive em Jerusalém e estudou artes plásticas, foi presa pela polícia israelense no sábado 28, quando apedrejava um ônibus árabe. Será agora processada por ofensas religiosas e agressão, crimes que teoricamente podem mantê-la por vinte anos na cadeia. Não é a primeira provocação de fanáticos judeus, ansiosos por um confronto tão sangrento que ponha a perder os acordos de paz entre Israel e a OLP -- mas desta vez as conseqüências foram inesperadas. Na quinta-feira passada, o aiatolá iraniano Yousef Sanei ordenou a morte de Susskind numa fatwa, decreto religioso similar à sentença contra o escritor anglo-indiano Salman Rushdie, acusado de blasfêmia oito anos atrás. Recompensa -- Exortações à destruição de Israel fazem parte da rotina no Irã, mas a condenação de um israelense individualmente é inédita. E deve ser levada a sério. Yousef Sanei é irmão do aiatolá Hassan Sanei, mandachuva da fundação que oferece 2,5 milhões de dólares pela cabeça de Rushdie. Os conflitos em Hebron e, em menor escala, em torno das colônias judaicas na Faixa de Gaza começaram há três semanas em protesto contra o reconhecimento de Jerusalém como capital israelense pelo Congresso americano e dão a dimensão da deterioração das relações entre Israel e os palestinos. Com as negociações de paz interrompidas desde março, quando o governo israelense deu luz verde para a construção de um bairro judeu no setor árabe de Jerusalém, gestos de alucinados como Susskind funcionam com a eficiência de uma faísca num paiol.

Levantando o véu
17 de dezembro de 1997

Presidente moderado avança mais um pouco na guerra dos aiatolás Dois aiatolás, duas barbas grisalhas, dois discursos divergentes. Na terça-feira, o velho Irã radical e sua face mais aberta, que começa cuidadosamente a emergir, se defrontaram na abertura da reunião de cúpula da Organização da Conferência Islâmica, o encontro de chefes de Estado de 55 países muçulmanos que tirou o regime dos aiatolás do isolamento internacional quase total em que vive desde a revolução de fevereiro de 1979. Primeiro, como manda a hierarquia, falou o ultraconservador aiatolá Ali Khamenei, "líder supremo" e última palavra nos assuntos iranianos. Mostrou-se linha-dura como sempre e vociferou contra os inimigos habituais: Israel, Estados Unidos e a "civilização ocidental materialista, onde dinheiro, glutonice e desejos carnais são a aspiração máxima". Na sua vez, o presidente e também aiatolá Mohammed Khatami, um moderado entre os enfezados turbantes da cúpula iraniana, tratou de oferecer aos presentes outra versão do Irã, pregando entendimento e moderação. "Só avançaremos se aprendermos a utilizar as conquistas científicas, tecnológicas e sociais do ocidente, um estágio inevitável no nosso caminho para o futuro", disse. Nos últimos seis meses, desde que Khatami ganhou de lavada a eleição para presidente, derrotando o candidato dos religiosos mais ortodoxos e do próprio Khamenei, o Irã tem convivido com discursos antagônicos no poder. Não houve ainda nenhuma reviravolta nos princípios fundamentalistas em vigor desde a revolução islâmica, dezoito anos atrás mas Khatami tem-se mostrado melhor do que a encomenda e o país vive clima mais leve, com o sentimento de que pequenas ousadias são permitidas. No sábado 6, Teerã viveu a primeira experiência de manifestação popular espontânea de grandes proporções em quase duas décadas. Em lugar do slogan oficial "Marg bar Amrika" (Morte à América), dezenas de milhares de iranianos gritavam "Viva Badu". Badu é o apelido de Valdeir Vieira, o técnico brasileiro da seleção iraniana, classificada para a Copa do Mundo. Os aiatolás se reuniram às pressas para decidir o que fazer e acabaram aceitando o carnaval. Mais espantoso: não reagiram quando 5.000

mulheres, de chador e tudo, se misturaram à multidão, de 70.000 torcedores, no Estádio Azadi, para dar boas-vindas ao time. Dissidente O episódio mexeu com um dos sinais mais flagrantes do o tratamento dado às mulheres. Elas são rigor revolucionário obrigadas a cobrir os cabelos em público, não podem ter contato com homens estranhos e estão proibidas de assistir a esportes masculinos. Se os aiatolás aceitaram tudo isso, foi porque, realmente, a ortodoxia enfrenta resistências sérias, nascidas dentro do próprio regime. Um mês atrás, num gesto ousado, o presidente Khatami concedeu visto para o principal dissidente do país, o filósofo Abdul-Karim Surush, viajar para uma conferência em Chipre. Uma pequena revolução, pois Surush vivia numa espécie de prisão domiciliar. No início do mês, outro aiatolá importante, Ali Montazeri, que chegou a ser indicado sucessor pelo pai da revolução, Khomeini, colocou em dúvida o direito de Khamenei ter a palavra final em todos os assuntos iranianos ou seja, desafiou a pedra fundamental do regime teocrático. Khamenei reagiu enviando a Guarda Revolucionária para cercar a casa de Montazeri e ameaça julgá-lo por traição. A Guarda Revolucionária continua ativa e baderneira, mas falta-lhe o apoio popular dos primeiros tempos da revolução. Recentemente, invadiram uma festa de casamento na cidade santa de Mashhad e açoitaram os noivos e todos os convidados sob a acusação de que ouviam músicas ilegais. Antenas parabólicas e aparelhos de videocassete continuam sendo destruídos sempre que encontrados. A administração do país, feudalizada em baronatos religiosos, continua caótica. Mas, na semana passada, a face humana da revolução islâmica ganhou pontos na guerra dos aiatolás.

O país das cabeças cortadas
07 de janeiro de 1998 Com espantosa seqüência de massacres de civis indefesos, a Argélia mergulha no martírio sem fim

Em todo o mundo islâmico, o mês do Ramadã é o período no qual os fiéis se dedicam às orações, ao jejum e às ações piedosas. Na Argélia, onde governo e fundamentalistas muçulmanos travam há seis anos uma sangrenta guerra civil com mais de 80.000 mortos, o mês santo tornou-se sinônimo de matança, medo e cabeças cortadas. As chacinas de civis, com inacreditáveis requintes de crueldade, ocorrem com feroz regularidade desde 1996. Nesta época do ano, porém, assumem uma progressão ensandecida que culmina no Ramadã. Durante o mês de dezembro, bandos terroristas massacraram entre 600 e 1.000 pessoas, na maioria habitantes de vilarejos pobres e poeirentos, sobretudo na área apelidada de Triângulo da Morte, que vai da periferia de Argel, a capital, até a cidade de Medéia, a 70 quilômetros de distância. Na noite de terçafeira passada, a primeira do Ramadã, pelo menos oitenta pessoas foram mortas em três chacinas na província de Relizane, a 250 quilômetros da capital. Repetiu-se, em todos esses lugares, a orgia de crueldade. Os assaltantes chegam nas primeiras horas da madrugada, em caminhões e peruas, dinamitam casas e degolam os moradores, sem discriminar homens, mulheres e crianças. O morticínio obedece a um padrão: a degola das vítimas, gesto que lembra o sacrifício ritual de cordeiros, uma prática milenar que subsiste entre os muçulmanos. A evisceração e outras mutilações também são comuns. As vítimas, na maioria, são mulheres, crianças e idosos, mais fracos para resistir e mais lentos na fuga. Em algumas regiões, os assassinos circulam com uma guilhotina instalada na caçamba de uma picape, de modo a dar eficiência quase industrial à decapitação. As vítimas são amarradas e têm a boca tapada com pedaços de jornal, para impedir que gritem. Em Zouabria, a 225 quilômetros a sudoeste de Argel, 27 civis foram chacinados na véspera do Natal, entre eles um recémnascido de 12 dias degolado no colo da mãe. Na aldeia vizinha de Shari, dois dias antes, os assassinos decapitaram um velho de 88 anos e cinco mulheres e rasgaram a faca o peito de um bebê de 6 meses. O horror é tamanho que ninguém consegue entender por que os radicais integristas, que começaram atacando alvos "compreensíveis" militares, policiais, funcionários públicos, jornalistas e intelectuais considerados antireligiosos , agora se dedicam à matança de gente comum. Numa rara

entrevista a um jornal francês, um líder da organização fundamentalista mais ativa, o Grupo Islâmico Armado, GIA, esboçou uma justificativa de arrepiar: não há razão para se preocupar com a seleção das vítimas, afirmou, pois "Alá conhece a identidade do inocente e o transforma imediatamente em anjo". Em parte por causa dos atentados em Israel, o Tática maoísta fundamentalismo islâmico tornou-se sinônimo de terrorismo selvagem contra civis desarmados. A violência indiscriminada na Argélia, contudo, escapa às explicações convencionais. Se há uma lógica política e uma estratégia definidas por trás dos ataques palestinos em Israel (tumultuar o capenga processo de paz, que não aceitam), é difícil encontrar sentido na selvageria dos radicais argelinos contra seu próprio povo. É como se o Hamas, guardadas as diferenças, detonasse seus homens-bombas na Faixa de Gaza e não nas ruas de Tel Aviv. Uma possibilidade é a de que a guerrilha islâmica esteja tentando amedrontar os moradores dos bairros e aldeias pobres para mantê-los distantes dos grupos de autodefesa formados pelo governo, tática similar à posta em prática pelos militantes maoístas do Sendero Luminoso no Peru. Os grupos de autodefesa, que hoje reúnem 57.000 membros em todo o país, começaram a ser formados em 1996 para proteger suas casas e famílias com armas velhas e algum treinamento oferecidos pelo Exército. Mas, se o objetivo dos massacres é sabotar o programa militar do governo, por que tantas matanças ocorrem em tradicionais redutos eleitorais dos partidos islâmicos? A Argélia sangra desde o Ramadã de 1992, quando as Forças Armadas, num golpe preventivo, cancelaram o segundo turno das eleições parlamentares e colocaram fora da lei a Frente Islâmica de Salvação, FIS, o braço político do fundamentalismo islâmico, sob o argumento de que era a única maneira de evitar uma ditadura teocrática. Nascido nos bairros e aldeias mais pobres, em torno de mesquitas e instituições de assistência social mantidas pelo movimento islâmico, a FIS tinha vencido no primeiro turno e estava a um passo da maioria parlamentar. O fundamentalismo islâmico se reorganizou na clandestinidade e uma série de grupos armados, entre eles o GIA, partiu para a violência. O regime militarizado respondeu na mesma linguagem, cometendo sua própria cota de barbaridades. Numa fase posterior, no entanto, passou a procurar interlocutores comparativamente moderados entre os fundamentalistas e promoveu eleições. Radicais de ambos os lados não gostaram. Da mesma forma que o cessar-fogo decretado pela FIS no ano passado é ignorado pelos combatentes islâmicos na linha de frente, militares linha-dura não

engolem uma solução negociada. Talvez as chacinas estejam servindo aos interesses dos dois extremos, ocupados em levar o conflito às últimas conseqüências. Seria a explicação para a facilidade com que têm ocorrido massacres nas barbas de guarnições militares, que só atendem aos pedidos de socorro depois que os assassinos terminam o serviço. O turbante e a espada – É uma ironia histórica que no fim do século a Argélia agonize numa luta mortal entre militares linha-dura e fundamentalistas religiosos. Quarenta anos atrás, recém-saída de sete anos de guerra anticolonialista, a Argélia galvanizou a simpatia da esquerda mundial. Colônia francesa durante 132 anos, o país chegou à independência em 1962 com um regime de partido único, a Frente de Libertação Nacional, líderes com aura de austeridade e bandeiras terceiromundistas. Com uma economia de comando, como era obrigatório entre a esquerda na época, e uma renda razoável proporcionada pelo petróleo bom e farto, o país embarcou num ambicioso programa de industrialização. No fim dos anos 70, um ministro da Indústria fez uma previsão que se tornou famosa pela vacuidade: a Argélia se transformaria em um segundo Japão. A fragilidade da economia semi-estatizada, já agravada pelo desemprego crônico e pelos pesados subsídios aos produtos de consumo popular, tornou-se evidente quando o preço do barril de petróleo desabou pela metade em 1986. Dois anos depois, uma revolta popular tomou as ruas, com centenas de mortos. Para acalmar os ânimos no país traumatizado pela matança, o presidente da época, Chadli Bendjedid, partiu para a abertura política, com liberdades democráticas e a legalização de mais de sessenta partidos. O que emergiu das sombras do regime autoritário foi uma oposição democrática fragmentada e um movimento fundamentalista bem organizado. A primeira reação do governo ao crescimento dos integristas religiosos foi deixar o barco correr, imaginando que a população ficaria assustada com as medidas medievais adotadas nas prefeituras dominadas desde 1990 pelos fundamentalistas, nas quais a FIS tinha imposto a charia, o severo código de conduta muçulmano, proibindo música e obrigando as mulheres a cobrir os cabelos. Um estupendo erro de cálculo, pois, sem esperança de progresso econômico e com escassa experiência democrática, os eleitores votaram nos turbantes dos religiosos.
Encostados nos muros Hoje, grande parte dos argelinos vive no pior dos mundos. O pouco de paternalismo social do passado, herança do período socialista, acabou-se. O aumento de atividade em certos setores da economia, promovido pelas medidas liberalizantes impostas quando o

governo se viu obrigado a cumprir o ritual dos falidos e passar o chapéu no FMI, tem produzido poucos benefícios para a maioria da população. Fora alguns oásis de relativa prosperidade, onde é possível fazer compras no shopping de Riad-El-Feth, na Baía de Argel, ou dançar o raï, o popular ritmo do norte da África, no Triângulo, a discoteca da moda, sem temor de ser degolado na saída, a realidade argelina é a de um país apenas alguns degraus acima dos mais pobres do planeta, agravada pelo clima de terror. Desde 1994, quando o governo começou a cortar despesas, investimentos e subsídios para fazer o ajuste econômico, o preço dos alimentos subiu sem contrapartida salarial. O PIB per capita (1.200 dólares) caiu para a metade do que foi há cinco anos. O desemprego, na faixa dos 30%, está em ascensão. Sem perspectivas, os jovens passam os dias sem fazer nada – seu apelido é hittistas, literalmente "os que ficam encostados nos muros". Na família do funcionário público Rachid (sobrenome omitido a pedido), que mora em Bab-el-Oued, um bairro popular no coração de Argel, a rotina diária é marcada pelo medo dos atentados e pelo desencanto com o futuro. Hakim, de 18 anos, um dos filhos, foi reprovado no colégio, mas não se preocupa. "Com ou sem diploma, sei que não vou mesmo conseguir emprego", disse a VEJA. Yasmina e Hayat, as duas filhas adolescentes, nunca saem à noite, e de dia, por segurança, só vão para a rua com o hidjab, o lenço que cobre os cabelos das muçulmanas devotas – nos bairros mais pobres, as "patrulhas islâmicas" perseguem e espancam as mulheres flagradas de cabeça descoberta. Houve caso de garotas mortas por mostrar os cabelos. Severíssima em assuntos de moralidade, a guerrilha muçulmana adotou a prática do estupro sistemático, uma abominação aos olhos da religião revelada a Maomé, mas permitida por uma perversa interpretação dos preceitos islâmicos. Nas chacinas, os atacantes costumam separar da fila dos que vão morrer as jovens entre 17 e 28 anos de idade. Seqüestradas para os esconderijos na condição de "esposas temporárias", são forçadas a prestar serviços domésticos e regularmente violentadas. Ao cabo de alguns meses, geralmente quando ficam grávidas, têm a garganta cortada. Yamila, de 23 anos, que no mês passado conseguiu escapar de um campo, contou como era tratada, na condição de butim de guerra. "O que você merece é o inferno", dizia-lhe o seu seqüestrador. "É o que eles chamam de Zawadj-elMoutaa, casamento temporário por prazer, prática desconhecida pelo Islã magrebino que os integristas importaram dos mulás iranianos", disse a VEJA Zazi Sadou, líder da União Argelina das Mulheres Democratas. "A mulher que resiste é terrivelmente mutilada antes de ser degolada." No país das cabeças cortadas, cerca de 1.600 jovens argelinas tiveram esse destino nos últimos dois anos.

Cotidiano de medo e bombas
Areski Aït-Larbi, de Sidi-Iousef No vilarejo de Sidi-Iousef, as crianças não vão à escola e os adultos não trabalham. Aqui, o empenho de todos, 24 horas por dia, é conseguir sobreviver. Em setembro passado, um bando armado invadiu o lugar de casas pobres e ruas de terra e matou mais de setenta pessoas, muitas mulheres e crianças, bebês inclusive, a maioria degolada. Uns dizem que foram terroristas do famigerado Grupo Islâmico Armado, GIA, que tem como tática de guerra chacinar civis. Outros, que foram soldados do Exército disfarçados, numa incursão destinada a aumentar a conta de barbáries do terror islâmico. Dos habitantes de Sidi-Iousef, um quase subúrbio de Argel, a capital da Argélia, quem pôde foi morar em outro lugar. Os que ficaram vivem com medo, pois o pesadelo está longe de acabar - Sidi-Iousef fica bem ao lado de um bosque ocupado há dois anos pelo bando do emir Athmane Khélifi, um chefete terrorista. Hamid, 32 anos, rosto cansado, funcionário público que, por segurança, omite o sobrenome, conta: "Há um mês, seis homens armados, com uniforme de guardasflorestais, entraram na minha casa e degolaram minha mãe, meu irmão e meu sobrinho. Depois, seqüestraram minha irmã de 15 anos". Compreensivelmente, os sobreviventes não confiam em ninguém e mantêm vigilância contínua. Cada noite agrupam as mulheres e crianças em um lugar diferente e montam guarda em guaritas improvisadas sobre casas em construção, armados com umas poucas espingardas de caça cedidas pelo Exército. A vida em Sidi-Iousef está no extremo da precariedade e do terror, mas, de um modo geral, vive-se hoje no medo e no sobressalto constante em boa parte da Argélia. Em outra aldeia, Aït-Méraou, situada na região de Kabylie, os terroristas não se aventuram há meses, depois de rechaçados a bala pela população reunida em comitês de autodefesa. Mesmo assim, Tahar, morador de uma casa isolada, esteve à beira da morte em julho do ano passado. Capturado, mãos atadas, jogado no chão, ouviu sua condenação à morte e a convocação de Farid, o degolador oficial do grupo, para cumprir a sentença. "Fiz minhas preces em silêncio e implorei a ajuda de Deus. Fui atendido: Farid tinha sido morto no ataque". Os atacantes acabaram fugindo, deixando Tahar para trás. "Não podemos nunca baixar a guarda", alerta Djaffar, sociólogo que atualmente, de arma na mão, protege a casa da família. Perfume e pólvora - Em Argel, os períodos agitados e tensos, com medo de atentados, alternam-se com fases tranqüilas. Janeiro do ano passado começou com bombas, tiroteios e mortos, mas depois sobreveio a calma. No verão, as praias encheram e a população redescobriu as delícias da vida noturna, lotando bares e casas de shows, para ouvir o raï. Em setembro, contudo, quando o GIA invadiu um balneário encostado em Argel e chacinou dezenas de pessoas em férias, a população da capital voltou a se assustar. Entre as vítimas, quase todas degoladas, foi achado o corpo carbonizado de um bebê de 4 meses no forno de um fogão. No início da década, quando os fundamentalistas muçulmanos estavam por cima, Bab-elOued, um dos bairros mais populosos de Argel, era sua "capital espiritual". Vestidos de combatentes afegãos (o integrismo floresceu com os voluntários na luta contra os russos que ocupavam o Afeganistão), os militantes marchavam pelas ruelas proibindo música ocidental e obrigando as mulheres a cobrir a cabeça. Mais tarde, o bairro foi tomado pelos ninjas das forças especiais, encarregadas de caçar os extremistas islâmicos. Hoje reina uma certa normalidade no bairro. Mas ninguém se deixa enganar. Dois meses atrás, o perfume de especiarias e de coentro que caracteriza o mercado de Nelson, em Bab-el-Oued, foi substituído pelo cheiro de pólvora - a explosão de uma bomba caseira deixou dezenas de feridos. Viver é sempre perigoso na Argélia.

Torcida unida
22 de abril de 1998 Futebol e mulheres reforçam o movimento pela abertura política no país dos aiatolás Enquanto estudantes reformistas e militantes conservadores se enfrentavam nas ruas de Teerã por causa da prisão do prefeito da cidade, Gholam-Hossein Karbaschi, o jornal Iran, editado pela agência oficial Irna, publicou uma notícia aparentemente irrelevante: as iranianas poderão ser autorizadas a jogar futebol. A novidade tem mais importância do que parece. Mulheres e futebol são dois elementos que estão na origem do movimento pela abertura do fechado regime dos aiatolás. A classificação da seleção do Irã para a Copa do Mundo, em dezembro, provocou irreprimível onda de euforia impossível no país. As comemorações do empate contra a Austrália, que garantiu a vaga na França, levaram às ruas milhares de pessoas, numa manifestação de massa inédita desde os tempos da revolução islâmica que derrubou o xá Reza Pahlevi, em 1979. Um considerável contingente dos manifestantes era constituído por mulheres, que pela primeira vez em vinte anos ignoraram a proibição de participar de atos públicos lado a lado com homens. "As comemorações pela classificação do Irã têm dimensão muito maior do que a alegria por uma vitória esportiva", diz o veterano comentarista político americano James Reston, que esteve recentemente visitando o país. "A reação das mulheres provocou um impacto notável, que deverá levar a outras conseqüências sociais." As manifestações foram tão amplas que não permitiram a intervenção dos guardas da revolução, sempre prontos a reprimir qualquer transgressão às normas do Islã. Uma das características mais marcantes dos fundamentalistas muçulmanos, em qualquer país, é sempre a obsessão por controlar o comportamento da mulher, em todas as esferas. É por isso que cada "transgressão", por menor que seja — um lenço colorido no cabelo em lugar do preto regulamentar, um toque de batom nos lábios —, ganha dimensão política. Assim, para as iranianas, tradicionalmente mais independentes do que as mulheres dos países árabes, foi uma considerável vitória obter autorização para freqüentar estádios (por enquanto apenas de basquete, em recinto fechado e em arquibancadas isoladas dos homens). Além da promessa de jogar futebol, já se começa a admitir mulheres nos cursos para árbitro e técnico da modalidade. A federação iraniana está promovendo aulas especiais para elas, separadas dos homens. Até a revolução dos aiatolás, o Irã era um dos países líderes do futebol no Oriente Médio. Campeã por três vezes da Copa da Ásia, a seleção praticamente fez sua despedida dos campos internacionais na Copa da

Argentina, em 1978, sua única participação em um Mundial de futebol até agora. Um ano depois, com o regime dos aiatolás no poder, o futebol foi proibido. A exemplo de outros valores culturais introduzidos pelos colonizadores ingleses no início do século, o futebol passou a ser considerado atividade fútil e sinal de decadência ocidental. Em matéria de esporte, os fundamentalistas permitiam apenas a luta clássica. Só dez anos mais tarde, coincidindo com a morte do aiatolá Khomeini, o futebol voltou a ser tolerado. A transmissão de jogos pela televisão, porém, continua proibida e até bem pouco tempo só era permitida a publicação em jornais e revistas de fotos dos jogadores de meio corpo, sem mostrar as pernas. O futebol é uma das raras formas de lazer permitidas aos jovens, que não podem dançar nem ouvir música profana, pelo menos em público. O interesse e a paixão pelo futebol cresceram no mesmo ritmo da insatisfação popular com o regime e o movimento aberturista. A eleição do candidato reformista Mohammed Khatami, com o apoio de intelectuais, dos estudantes e das mulheres, ocorreu na época em que os jogos da seleção pelas eliminatórias da Copa eram acompanhados com enorme entusiasmo. Jogadores como o atacante Bagheri viraram ídolos da noite para o dia. O que acontecia em campo repercutia na política. Uma derrota para o Catar levou um grupo de deputados a exigir a demissão do ministro da Educação e do Esporte. Em três meses, a seleção teve quatro técnicos, entre eles o brasileiro Badu Vieira, substituído pelo croata Tomislav Ivic. A idéia de que o esporte praticado por Edmundo possa ter finalidade política nobre está ficando cada vez mais intrigante.

De volta às ruas
Se fosse uma partida de futebol, poderia ser definida como uma vitória suada. Pela primeira vez, os rigorosos aiatolás que controlam o poder no Irã cederam espaço na queda-de-braço com a vertente mais moderada. Na quarta-feira passada, o aiatolá Ali Khamenei mandou libertar o prefeito de Teerã, Gholam-Hossein Karbaschi, símbolo de uma versão menos severa da revolução islâmica. Na noite anterior, centenas de estudantes tinham saído às ruas da capital para protestar contra a prisão e Khamenei, líder espiritual e autoridade máxima do regime, temendo a eclosão de distúrbios mais graves, mandou soltar o prefeito. A tensão foi aliviada por pouco tempo: Karbaschi deve ir a julgamento público, com direito a transmissão pela rádio estatal, no início de maio. A acusação formal é corrupção, mas por trás disso está sendo travada uma disputa de poder entre o clero ultraconservador e o presidente Mohammed Khatami, um moderado que venceu as eleições no ano passado com a promessa implícita de abrir o regime. A maioria dos iranianos quer mudanças. Mas até arrebatar o controle da bola dos conservadores, muita coisa ainda vai rolar nesse campo

Prazer extirpado
10 de junho de 1998

Em nome da honra e da tradição, milhões de mulheres têm os genitais mutilados Às vésperas do século XXI, o ritual se repete diariamente: a menina é imobilizada por quatro mulheres, que mantêm suas pernas bem abertas. A mais velha, munida de uma lâmina de barbear, executa a cirurgia, sem anestesia. Com gestos rápidos, corta fora o clitóris, os pequenos e grandes lábios da vagina, e no fim costura tudo, deixando um pequeno orifício para a passagem de urina e sangue da menstruação. A menina faz o possível para não urrar de dor. Agüentar tudo em silêncio é prova de coragem, de que se orgulhará depois. Assunto encerrado, a garota é enfaixada até os joelhos, com as pernas fechadas, e nessa posição ficará, de quarentena, sangrando e penando até cicatrizar — ou morrer. Não se trata de um caso isolado de barbarismo primitivo. A mutilação genital é praticada em 28 países da África e dois do Oriente Médio (veja mapa abaixo), atingindo milhões de mulheres todo ano. O objetivo é exercer a mais total forma de controle do desejo sexual feminino, de forma a garantir esposas dóceis e fiéis.

Alvo de campanhas esporádicas por parte de organizações de mulheres, a mutilação genital voltou a ser lembrada com a publicação, nos Estados Unidos, do livro Do They Hear You When You Cry ("Eles Escutam Quando Você Chora"), escrito a quatro mãos por Fauziya Kassindja, 20 anos, que fugiu há três do Togo para não ser mutilada, e sua advogada americana, Layli Miller Bashir. Fauziya entrou nos Estados Unidos com passaporte falso e

amargou quase um ano e meio de cadeia, até se tornar a primeira mulher a obter asilo político no país sob a alegação de que mutilação genital é uma forma de perseguição. Seu caso despertou atenção, levando o Congresso americano a aprovar um antigo projeto de lei banindo a prática nos Estados Unidos, onde, devido ao crescente número de imigrantes do norte da África, em 1996 o Centro para Controle e Prevenção de Doenças calculava que mais de 150.000 meninas corriam o risco de ser mutiladas. "Fico feliz se contribuir para conscientizar gente no mundo inteiro para esse grande drama africano", disse Fauziya a VEJA.

Fauziya Kassindja: fuga e asilo político nos Estados Unidos Segundo a ONU, 110 milhões de mulheres em todo o mundo já foram submetidas ao ritual da mutilação. Pelo mesmo cálculo, cerca de 2 milhões de meninas são mutiladas a cada ano. Em lugares como Somália e Djibuti, estima-se que praticamente todas as mulheres são extirpadas. Alguns países coíbem a prática, medida inócua que não arranha a convicção arraigada entre homens e mulheres de que remover os genitais femininos externos é questão de respeito e honra. No Egito, onde se calcula que pelo menos 55% das mulheres muçulmanas e cristãs coptas ainda sejam submetidas à mutilação, o governo proibiu a operação em hospitais públicos e particulares em 1996. Houve uma chuva de protestos de líderes religiosos mais ortodoxos, sobretudo os fundamentalistas muçulmanos, empenhados em "proteger as mulheres das conseqüências do excessivo desejo sexual". As egípcias, em geral, são submetidas à excisão, ou circuncisão feminina, como é erroneamente chamada a remoção do clitóris e dos pequenos lábios — versão um pouco menos radical da infibulação, em que também os grandes lábios são cortados e costurados. Presentes e festas — A prática é antiqüíssima, anterior ao cristianismo e ao islamismo. Acredita-se que tenha começado no Egito ou no chamado Chifre da África (extremo leste do continente) há mais de 2.000 anos. A idade em que é feita varia de acordo com a tribo e a região de cada país — vai desde uns poucos meses de vida até as vésperas do casamento, entre 15 e 17 anos. Embora a prática também se verifique em cidades grandes, como

o Cairo, é muito mais disseminada no interior. Lá, com freqüência, devido ao peso da tradição, as jovens criadas apenas no ambiente tribal acham a obrigação natural e até desejam ser cortadas, para receber todos os presentes e festas a que têm direito. Condenadas a uma vida sem nenhuma esperança de prazer sexual, só descobrem do que foram vítimas quando têm acesso a informações sobre um mundo onde a mutilação não existe. Nas últimas semanas, com a febre mundial em torno do Viagra, egípcias que ouviram falar do efeito do remédio contra a impotência também para mulheres têm procurado a pílula no mercado negro. Buscam o orgasmo que lhes foi negado para sempre.

"Sangrei durante meses"
Aos 5 anos, vagando com sua tribo nômade pela Somália, a modelo Waris Dirie foi infibulada. "A mulher que me cortou era uma velha cigana. Ela usou uma navalha suja de sangue. Abri minhas pernas, fechei os olhos e bloqueei minha mente. Fiz isso porque minha mãe pediu. A mulher não cortou só o clitóris, cortou tudo e depois me costurou com agulha, bem apertado. Eu só sentia dor. Fiquei deitada no chão, agonizando. Sangrei durante dois ou três meses. O tempo todo, sentia vontade de morrer." Waris sobreviveu e, aos 13 anos, fugiu. Acabou em Londres, como empregada doméstica. Cozinhou e fez faxina até ser descoberta na rua por um fotógrafo e estrear, aos 18 anos, como modelo. Dez anos depois, encheu-se de coragem e contou sua história — a primeira mulher a fazê-lo na primeira pessoa, em um depoimento arrepiante. Waris levou muito tempo para começar a namorar. "Os homens perguntam se não gosto de sexo", diz. "Não conto a eles o que me aconteceu." Ao contrário da maioria das mulheres mutiladas, que a cada parto têm a costura estraçalhada e depois são costuradas novamente, Waris teve os genitais reabertos em um hospital, por médicos habilitados, mas nenhuma cirurgia pôde reconstituir seu clitóris. Mesmo assim, acha que escapou de destino pior. "Tive muita sorte. Não quero que sintam pena de mim", diz.

Guerra santa às mulheres
05 de agosto de 1998 Com o fim das últimas escolas para meninas, o regime fanático do Afeganistão volta aos costumes medievais

Às vésperas do século XXI e com o mundo todo mergulhado no abraço da globalização, o Afeganistão é um lugar com a desesperadora peculiaridade de ter dado um salto para trás. Desde que tomou a capital, Cabul, menos de dois anos atrás, a milícia Taliban — uma força guerrilheira nascida nos seminários islâmicos e que controla dois terços do país — transformou em lei uma versão severa, tacanha e radical da sharia, o conjunto de leis e regras de comportamento prescritos para os muçulmanos. Impôs um rígido código de vestuário, proibiu raspar a barba, música, cinema, televisão, antenas parabólicas, jogos de cartas, criar pássaros e soltar pipa. Nada, contudo, é mais sufocante que a situação das mulheres. A partir da adolescência, elas não podem nem falar com homens, exceto parentes próximos. São impedidas de trabalhar e estudar. Só saem à rua por motivo justificado, assim mesmo acompanhadas de um parente e cobertas da cabeça aos pés pelo burqa, o manto que envolve o corpo todo — um pequeno círculo, à altura dos olhos e do nariz, permite a visão através de uma tela, protegida por tecido mais fino. Patrulhas do Ministério da Propagação da Virtude e de Combate ao Vício percorrem as ruas, de chicote em punho, atrás de um pecaminoso pé sem meia dentro da sandália. Os talibans lutam em duas frentes — contra milícias rivais no norte e contra o pecado no restante do país. A islamização do país, contudo, parece mais uma guerra às mulheres. Um país atrasadíssimo numa região montanhosa do Centro-Oeste da Ásia, o Afeganistão nunca foi uma sociedade igualitária para os sexos. Apenas 1% das meninas chegava à universidade em 1979, quando a União Soviética invadiu o país para ajudar um presidente comunista e o transformou num ponto de tensão da Guerra Fria. O Taliban vê o trabalho feminino como uma arma na conspiração ocidental contra o Islã e, duas semanas atrás, fechou as últimas dez escolas para meninas (eram, na realidade, classes improvisadas em casas particulares). Só as médicas continuam em atividade, pois um homem não poderia atender pacientes do sexo oposto. Os princípios da sharia

são aplicados em outros países, como a Arábia Saudita e o Irã, mas o rigor primitivo dos afegãos escandaliza até os aiatolás de Teerã. Depois de dezessete anos de guerra civil, a milícia fanática trouxe certa ordem e paz para Cabul, mas o preço tem sido terrível. Três semanas atrás, com a expulsão das agências humanitárias internacionais, fechou-se a última porta ao exterior. Vestidas em seus burqas, só resta às afegãs olhar o mundo por uma fresta de luz.

O direito de ser devota
No mundo muçulmano, onde a regra é impor às mulheres severos códigos de conduta, a Turquia vive na contramão. Lá, o governo está às voltas com manifestações semanais, que chegam a reunir 3000 universitárias diante da Universidade de Istambul, pelo direito de cobrir os cabelos segundo o figurino das muçulmanas devotas. A liberdade de vestimentas está longe de ser um assunto banal no país. Quando fundou a atual Turquia nos escombros do Império Otomano, em 1923, Mustafa Kemal, o Ataturk, separou radicalmente a mesquita do Estado. Entre as medidas que impôs para tentar criar um país moderno e laico estão as roupas ocidentais e o alfabeto latino. O véu, compulsório no regime teocrático dos sultões, foi banido do serviço público e das escolas. O Exército e o governo querem manter essas inovações a todo custo, mas a maioria da população prefere viver segundo costumes tradicionais. O uso do véu ressurgiu com toda força na última década, acompanhando a efervescência islâmica no Oriente Médio. Em 1995, um partido fundamentalista chegou a ganhar as eleições e governou por mais de um ano, até ser cassado pela Suprema Corte. O dilema tem certa ironia: liberdade para as turcas inclui o direito de cobrir a cabeça.

Abaixo o hambúrguer
04 de novembro de 1998 Os curiosos caminhos dos regimes islâmicos que tentam combater a cultura ocidental
Quem quiser conhecer em detalhes as providências tomadas pelos fundamentalistas islâmicos para impor costumes medievais ao Afeganistão deve consultar www.taliban.com. No site eletrônico, o movimento fundamentalista resenhava, na semana passada, como a polícia religiosa combate a influência estrangeira destruindo televisores, videocassetes e antenas parabólicas. Uma recente ofensiva contra "elementos anti-sociais" resultou na apreensão de 240 cassetes com música ocidental. O fato de o movimento Taliban, notório por proibir a educação das meninas e aparar à força cabeleiras masculinas, ter recorrido ao símbolo da informação sem fronteiras para apregoar a idade das trevas ilustra bem um paradoxo moderno: a quase impossibilidade de manter um povo isolado da cultura globalizada. Nenhum país mais bem talhado que o Afeganistão, paupérrimo, arruinado por décadas de guerra civil e perdido num canto obscuro da Ásia, para bater a porta na cara do mundo moderno. Nem para eles é assim tão fácil. Chega a ser surreal a força da cultura de massa ocidental (bem, reconheçamos, americana) em países onde as mulheres não podem mostrar o rosto. Arquiinimigo dos Estados Unidos, o Irã dos aiatolás demonstra o mesmíssimo apetite do resto do mundo por Titanic, um megassucesso no país, com a particularidade de só poder ser visto em fitas contrabandeadas. Apesar de proibidas, as antenas parabólicas são visíveis por toda Teerã, e as autoridades não dão conta da inundação de fitas, videocassetes e CDs contrabandeados do exterior. A resistência à cultura ocidental foi um dos pilares da revolução islâmica de 1979. No ano passado, o presidente Mohammed Khatami elegeu-se prometendo liberar, moderadamente, o contato com o resto do mundo. O que está ocorrendo no Irã mostra a futilidade de tentar conter a globalização cultural. A proliferação dos meios modernos de comunicação e o colapso dos regimes totalitários criaram um fluxo de informações sem paralelo na História. A exportação de cultura ocidental — livros, filmes, música, programas de computador — atingiu dimensão igualmente incomparável. A preocupação com a preservação da identidade cultural não é, evidentemente, uma excentricidade islâmica. O presidente francês, Jacques Chirac, preocupa-se com o dano que o inglês usado na Internet pode ter sobre o amado idioma francês. Na Índia, para não ofender a maioria hinduísta, que venera a vaca, o McDonald's vende somente hambúrguer de cordeiro. Complicado é estabelecer o limite entre a invasão cultural, que pode ser deletéria, e o livre intercâmbio de informações e mercadorias, essa bela conquista do mundo moderno. Só quem sonha com um mundo primitivo é capaz de pôr tudo no mesmo saco. Exemplo disso se viu na semana passada, com milhares de muçulmanos ortodoxos marchando por Islamabad para exortar os paquistaneses a boicotar os símbolos nefastos da influência ocidental. São eles, imagine-se, hambúrgueres e refrigerantes.

Cada vez melhor
17 de março de 1999 Khatami vê o papa e se firma como o Gorbachev de turbante Quem hoje anda pelas ruas de Teerã vê cenas inimagináveis até poucos anos atrás: casais de namorados de mãos dadas, antenas parabólicas e gente de gravata. Se tanta coisa banida pela revolução islâmica em 1979 voltou ao cotidiano da capital iraniana, é porque o presidente Mohammed Khatami vem bancando uma queda-debraço, lenta e gradual, contra os aiatolás de linha dura. Há dois anos, Khatami, um clérigo apenas moderado, catalisou a insatisfação dos iranianos com o fanatismo do regime e se elegeu presidente, com 70% dos votos. A preferência popular por uma sociedade mais arejada foi confirmada três semanas atrás, com a vitória esmagadora dos candidatos moderados na disputa pelas Câmaras Municipais. Na semana passada, o presidente deu um novo passo em direção à luz, tornando-se a mais alta autoridade iraniana a visitar a Europa desde a queda do xá Reza Pahlevi. A viagem à Itália foi muito mais que um simples gesto diplomático. Significou a reabertura do diálogo com o Ocidente, encerrado, havia vinte anos, com uma declaração de guerra santa. Uma das bases ideológicas do fundamentalismo muçulmano era varrer do Oriente Médio qualquer resquício de influência dos "cruzados" e "adoradores da cruz", termos usados para os ocidentais cristãos. A importância do encontro de Khatami com o papa João Paulo II, na quinta-feira, e de sua proposta de um "diálogo entre civilizações" deve ser entendida contra esse pano de fundo. Representa uma guinada fenomenal, comparável à dada por Mikhail Gorbachev quando começou a sacudir as bases dogmáticas e esclerosadas do comunismo. Mais do que Gorbachev, o presidente iraniano precisa se mover com cautela redobrada. Ele não tem cacife institucional para escancarar o regime. Apesar do peso político conquistado com o apoio da opinião pública, as Forças Armadas, a polícia e as leis estão nas mãos do aiatolá conservador Ali Khamenei, líder espiritual da república islâmica. A política externa está igualmente nas mãos do clero inimigo das reformas. É por isso que o passo em direção ao diálogo internacional tem significado notável. A popularidade de Khatami deve-se à promessa de instaurar o estado de direito no Irã, uma nação onde os dogmas do clero xiita dão as cartas. Respira-se melhor no país. A imprensa já pode discutir mais livremente certos assuntos, e mesmo as antenas parabólicas — porta de entrada da influência estrangeira — são toleradas. Nada garante, por enquanto, o sucesso. A linha dura islâmica anda cada dia mais agressiva. Milícias espancam até líderes religiosos se estes discordam de seu sermão. O maior esforço de Khatami tem sido convencer o alto clero de que a sobrevivência do regime depende de ampliar a abertura, tanto interna quanto externa. Foi com esse argumento que conseguiu que o serviço secreto, controlado pela linha dura, responsabilizasse os próprios arapongas por uma série recente de assassinatos de intelectuais liberais. Tudo ainda pode dar errado, mas o Irã nunca esteve tão perto de se tornar um país decente.

No jardim de Alá
21 de setembro de 1999

V.S. Naipaul lança um olhar penetrante sobre o fundamentalismo muçulmano No final dos anos 70, "renascimento islâmico" era uma expressão comum no noticiário internacional. Países orientais cujas instituições pareciam abertas à influência do Ocidente voltavam a seguir preceitos muçulmanos em diferentes esferas. Restauravam-se leis ditadas pela religião, tais como o uso de véu para as mulheres ou a punição do furto com o corte das mãos. Logo ficou claro que "renascimento" era um jeito brando de falar. O que estava a caminho era um novo fundamentalismo, para horror de muitos observadores ocidentais. Um desses observadores é o escritor anglo-caribenho V.S. Naipaul. Por duas vezes, nas últimas décadas, ele percorreu o Irã, o Paquistão, a Malásia e a Indonésia. Das viagens resultaram dois livros, lançados agora no Brasil: Entre os Fiéis (tradução de Cid Knipel Moreira; Companhia das Letras; 544 páginas; 37 reais) e Além da Fé (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 549 páginas; 37 reais). Trabalhos de ourives como literatura, as obras são ásperas em outros aspectos. O retrato que Naipaul faz dos países islâmicos é cortante o suficiente para deixar em desalinho as barbas do Profeta. Ao partir em sua primeira jornada, em 1979, Naipaul não sabia quase nada sobre o islamismo. Desejava investigá-lo, observar a fé em ação. Embora os países visitados guardassem profundas diferenças, Naipaul identificou neles traços comuns – e quase que exclusivamente negativos. Entre os Fiéis mostra sociedades movidas pela raiva e pelo ressentimento, mergulhadas em profunda confusão, obcecadas com o ideal da pureza religiosa. Nelas, a desconfiança com relação ao Ocidente era imensa. Ao mesmo tempo, porém, o islã não deixava de parasitar as conquistas materiais e tecnológicas ocidentais.

"Islamofóbico" – No relato de sua segunda viagem, realizada em 1995, Naipaul retoma alguns desses temas. Mas, agora, sua curiosidade tem um fio condutor. Ele parte do pressuposto de que Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia não eram países islâmicos na origem. Sofreram a invasão de uma fé cuja lógica é imperialista. Nos territórios conquistados pelo islã, crenças ancestrais devem ser erradicadas e é feita tábula rasa da História local. "O convertido tem de recusar tudo o que é seu", escreve Naipaul. "A perturbação para as sociedades é imensa e, mesmo após 1.000 anos, pode permanecer sem solução." Na única passagem pessoal do livro, Naipaul lembra de sua infância em Trinidad, colônia do império britânico, onde nasceu. Seus pais eram imigrantes indianos. Vivendo naquela pequena ilha caribenha, privado do contato com as raízes de sua etnia, Naipaul teve de encontrar seu caminho partindo de um "vazio espiritual". Um vazio, diz ele, semelhante àquele imposto aos convertidos do islamismo. Quem se lembra do que aconteceu com o escritor Salman Rushdie sabe que há algo de temerário em mexer com o brio dos religiosos fundamentalistas. Em 1989, Rushdie, também britânico de origem indiana, publicou o romance Os Versos Satânicos. Nele, cometia imprudências como batizar prostitutas com os nomes das esposas de Maomé. O aiatolá Khomeini, do Irã, considerou o livro blasfemo e decretou uma sentença de morte contra seu autor, que até hoje vive sob proteção do serviço secreto inglês. Os livros de Naipaul também provocaram respostas iradas. Um crítico denunciou Além da Fé como um amontoado de preconceitos, um panfleto "islamofóbico" para o consumo de liberais brancos. Resenhistas menos agressivos observaram que o retrato do islã como um imperialismo avassalador é falso, pois é feito sem levar em conta sutilezas históricas. Mas Naipaul não chegou a sofrer ameaças. O motivo provavelmente é um só: seus livros não criticam a religião, mas apenas apontam seus efeitos sociais nefastos. Ainda que se tenha pouco interesse pelos países islâmicos, vale a pena ler Naipaul. Numa época em que os escritores são desleixados com as palavras, ele é de um rigor obstinado. Na preparação de Entre os Fiéis e Além da Fé, seu método foi o mesmo (embora só atinja a perfeição

no segundo livro): a cada viagem ele entrevistava pessoas e recolhia suas histórias. Ao escrever, deixava que cada personagem falasse com a própria voz. Seu papel era o de "administrador da narrativa", o de buscar o termo preciso, que não falsificasse a realidade observada ou o depoimento colhido. Além disso, Naipaul lutou para suspender os próprios julgamentos. "Este é um livro sobre gente", escreve ele no prefácio de Além da Fé. "Não é um livro de opinião." É uma tarefa difícil. Muitos duvidam de que seja possível. Em seu esforço, porém, Naipaul certamente obteve uma conquista literária. Seus dois livros não se encaixam em nenhuma descrição usual. Não são jornalismo político nem narrativas tradicionais de viagem. Formam um gênero à parte, ainda sem nome – reconhecível apenas pela marca inconfundível do autor.

Imperialismo intransigente
"A crueldade do fundamentalismo islâmico consiste em permitir a apenas um povo – os árabes, o povo original do Profeta – ter um passado, lugares sagrados, locais de peregrinação e cultos à terra. Esses lugares sagrados árabes têm de ser necessariamente os lugares sagrados de todos os povos convertidos. Os povos convertidos precisam se despojar de seu passado; nada se exige dos povos convertidos, senão a fé mais pura (se é que algo assim possa ser alcançado), o islã, a submissão. É o imperialismo mais intransigente que existe." Extraído de Além da Fé

Cerco ao pária
24 de novembro de 1999

ONU impõe sanções contra os fanáticos do Taliban Um lugar isolado e evitado por todo mundo desde 1996, quando os guerrilheiros fundamentalistas do Taliban derrubaram o governo, o Afeganistão recebeu o carimbo final em sua condição de país proscrito na segunda-feira passada. A Organização das Nações Unidas pôs em prática sanções econômicas decretadas como punição pelo acobertamento do terrorista Osama bin Laden. Trata-se de um milionário saudita com dinheiro suficiente para financiar sua guerra santa particular. Laden não só é peça-chave no combate que permitiu ao Taliban controlar 90% do território afegão como também estendeu seus tentáculos muito além do mundo muçulmano. Passou ao topo da lista dos homens mais procurados do mundo, acusado de ser o mentor dos atentados que mataram 224 pessoas em duas embaixadas americanas na África, no ano passado. Dificilmente as sanções trarão efeito imediato num país que retomou práticas medievais, como proibir o acesso das mulheres à educação e banir a televisão e os computadores. Quem ainda tinha alguma coisa a perder engrossou o fluxo de refugiados para o Paquistão.

Punição: ácido no rosto
08 de dezembro de 1999

Muçulmanas que ousam se rebelar contra as tradições têm as feições desfiguradas Com apenas 28 anos de vida independente, Bangladesh coleciona uma impressionante série de tragédias. Sua própria criação foi precedida de uma guerra entre Índia e Paquistão. Nasceu miserável, e as mazelas se multiplicam periodicamente pelo efeito de enchentes e ciclones. Como de hábito, a pobreza propicia terreno fértil para o fanatismo religioso, neste caso o dos grupos muçulmanos que fazem uma leitura primitiva do Corão. A mistura viciosa se estampa no rosto das mulheres atacadas com jatos de ácido, um crime cada vez mais comum em Bangladesh. As vítimas são quase sempre garotas pobres que recusaram casamentos arranjados, investidas sexuais ou a clausura que lhes querem impor os pais ou maridos. Pelo equivalente a 60 centavos de dólar, qualquer homem contrariado em seu machismo ou em sua visão tacanha de mundo pode comprar ácido sulfúrico. A substância corrói a pele e os músculos das vítimas. As queimaduras causam a morte de algumas. Muitas ficam cegas ou surdas. E quase todas acabam rejeitadas pelas próprias famílias – desfiguradas, dificilmente se casarão. Calcula-se que entre um terço e a metade dos 127 milhões de habitantes de Bangladesh faz apenas uma refeição por dia. Dote e herança da família do noivo habitam os sonhos da maioria dos pais de meninas, sobretudo nas áreas rurais. As mulheres são, nesses meios, vistas como mercadoria, com poucas perspectivas de trabalho ou estudo. O índice de analfabetismo, que entre os homens já é grande, 50%, chega a 74% entre as mulheres. Plástica no exterior – Não bastasse o trauma psicológico e a dor física, o destino mais provável das vítimas do ácido é a mendicância e o ocultamento do rosto pelo resto da vida. A vergonha e o medo de represália inibem muitas dessas mulheres

de prestar queixa à polícia ou buscar ajuda. Com isso, a barbárie tende a crescer. No ano passado, houve mais de 200 ataques registrados, setenta a mais do que em 1997. A impunidade contribui para que a prática se perpetue. Mesmo com a adoção, há quatro anos, de uma lei mais rigorosa, apenas dez criminosos foram presos. Ignorado durante muito tempo, o problema só agora começa a ser conhecido no exterior. Em maio, a Organização das Nações Unidas, ONU, criou um programa em Bangladesh com o fim específico de socorrer as mulheres desfiguradas por ácido. Hospitais americanos e europeus também lhes vêm dando assistência gratuita. Em julho, um grupo de seis moças retornou ao país depois de nove meses de tratamento intensivo na Espanha com cirurgias plásticas que, se não lhes puderam devolver as feições, pelo menos mitigaram seu sofrimento. Ao contrário de países como o Afeganistão ou o Irã, Bangladesh não adota o islamismo como ideário político. Se o sexo feminino é oficialmente marginalizado naqueles países, em Bangladesh mulheres ocupam o cargo de primeiro-ministro e o posto de líder da oposição. Os sucessivos governos, no entanto, não têm conseguido melhorar a qualidade de vida da imensa maioria da população. Somem-se a isso as recorrentes suspeitas de corrupção e fica explicada a desconfiança crescente com que os políticos são vistos. Paralelamente, o fundamentalismo muçulmano retira sua força das raízes da sociedade, principalmente as mais atrasadas. Graças a programas de desenvolvimento criados pelo governo e apoiados por organizações humanitárias estrangeiras, nos últimos anos as mulheres vêm conquistando mais empregos e uma pequena parcela já não tem no casamento a única chance de sobrevivência econômica. Esse avanço provoca a fúria dos homens que teimam em vê-las como servas. Sinal de que as mudanças precisam começar do berço.

O rei democrata
05 de janeiro de 2000

Herdeiro do trono põe fim à repressão e manda libertar os presos políticos

Enquanto reinou, Hassan II, do Marrocos, reprimiu com mão de ferro todas as tentativas de insurreição contra seu governo e manteve no exílio ou atrás das grades seus mais destacados colaboradores. Ele morreu em julho do ano passado, vítima de um ataque do coração, e desde então o país testemunhou uma reviravolta impressionante. Seu filho e herdeiro do trono, Mohamed VI, demonstrou até agora disposição para surpreender mesmo o mais otimista dos democratas marroquinos. Com seu primeiro decreto, assinado uma semana depois da posse, o rei libertou quase 8.000 prisioneiros e comutou a pena de mais de 38.000. Foi a estréia de um estilo que pode ter influência direta sobre o futuro político de todo o norte da África, uma região geograficamente vizinha e politicamente distante da Europa democrática. Mohamed deu os primeiros sinais de mudança em relação ao governo de seu pai logo no discurso de posse. Nele, prometeu honrar as leis internacionais de direitos humanos e embicar o país na rota da democracia. A disposição foi elogiada pelo primeiro-ministro francês, Lionel Jospin. A França, que dominou o norte da África até os anos 50, é o país mais interessado numa mudança profunda da orientação política do Marrocos. Durante o reinado de Hassan II, procuraram abrigo em território francês milhares de marroquinos em busca de melhores condições de vida ou simplesmente fugindo das perseguições políticas. Atualmente, pelo menos uma das causas dos problemas parece haver desaparecido. Discreto e de poucas palavras, Mohamed VI não fez alarde algum ao tomar a mais importante de suas decisões até agora. Em novembro, sem discutir o assunto nem mesmo com o primeiro-ministro, o rei demitiu o até então todo-poderoso ministro do Interior, Driss Basri. Braço direito de Hassan II, Basri era o chefe da repressão política. Era ele quem ordenava prisões sem justificativa e mandava a polícia reprimir manifestações. O ex-ministro foi mantido preso em sua casa. Sua família e três dezenas de aliados foram proibidos de deixar o país.

As condições de vida no Marrocos são precárias. A pobreza é visível em cada esquina de cidades como Marrakesh e Fès, onde turistas se encantam com os labirintos das medinas (bairros antigos) e são achacados por desocupados que se fazem passar por guias. Quase metade da população não tem acesso a água tratada e 54% são analfabetos. Esses são alguns dos problemas que o novo rei terá de enfrentar caso queira consolidar a simpatia que mereceu nos primeiros meses de governo. As reformas prometidas terão momentos espinhosos. Mohamed, por exemplo, deverá abrir mão do Saara Ocidental, ocupado indevidamente pelo Marrocos. Por enquanto, os marroquinos acreditam que não precisam mais temer seu rei.

Ultimato ao islã na Argélia
A Argélia é o maior exemplo do desejo de mudança que domina o norte da África. Poucos países no mundo têm motivos tão fortes para tentar esquecer o passado recente. Para os argelinos, a década de 90 foi marcada por um conflito que matou 100.000 pessoas. Há dois anos, o mundo foi tomado pelas imagens de mulheres e crianças degoladas por extremistas islâmicos, que usavam o terror contra civis para tentar desestabilizar o governo. No próximo dia 13, vence o ultimato dado pelo presidente Abdelaziz Bouteflika para que os fundamentalistas aceitem seu projeto de anistia, já aprovado em plebiscito. O recente assassinato de Abdelkader Hachani, principal interlocutor político dos extremistas, lançou dúvidas a respeito do incipiente processo de paz. Em novembro, novos massacres de civis deixaram 150 mortos. O governo promete desfechar uma perseguição implacável aos grupos armados que não se entregarem, o que lança ainda mais intranqüilidade sobre o país.

À sombra do islã
02 de fevereiro de 2000

A literatura nos países muçulmanos continua viva, apesar da opressão político-religiosa

No começo do século XVIII, um livro incendiou a imaginação dos ocidentais. Ele se chamava As Mil e Uma Noites. Quem primeiro o traduziu do árabe foi o estudioso francês Antoine Galland, que retornou de uma viagem a Istambul trazendo na mala um exemplar do texto. Publicados entre 1707 e 1717, os doze volumes dessa tradução conquistaram desde cedo legiões de admiradores. O mundo árabe e adjacências se transformaram na terra das maravilhas. Hoje, passados três séculos, pouco resta dessa imagem. Gênios e odaliscas foram substituídos, no pensamento ocidental, por xeques do petróleo, mulheres de véu negro e fanáticos religiosos que aparecem na televisão. Curiosamente, no entanto, as histórias narradas por Sherazade continuaram sendo as únicas, de toda a literatura árabe ou muçulmana, conhecidas na Europa e nas Américas. Tudo se passa como se não houvesse escritores por lá. Mas eles existem. E vêm

produzindo obras de grande valor, mesmo quando precisam desafiar a opressão política, a censura religiosa ou a pobreza. Recentemente, alguns ficcionistas chegaram ao mercado brasileiro com o selo da editora Record. Do libanês Amin Maalouf temos Jardins de Luz, que fala sobre o fundador da religião maniqueísta. Já o marroquino Tahar Ben Jelloun, em Os Frutos da Dor, descreve a situação dos imigrantes islâmicos na França, escolhendo como narradora uma jovem que precisa enfrentar tanto o racismo dos europeus quanto as superstições de seu próprio povo. Por fim, o paquistanês Tariq Ali reconstitui de maneira empolgante, em O Livro de Saladino, a época das cruzadas sob o ponto de vista muçulmano. São três ótimos romances, diferentes entre si, que "desafiam os preconceitos do leitor ocidental" – para usar as palavras de Ali. Nenhum desses autores, porém, vive em seu país de origem. Os dois primeiros moram na França e publicam em francês, enquanto o último mora na Inglaterra e publica em inglês. Por causa disso, não representam à perfeição a atual cultura da região. É preciso ir às fontes. Uma primeira surpresa, para quem começa a investigar o assunto, é descobrir que a literatura dessa parte do mundo vive num feliz estado de efervescência. Inaugurada na semana passada, a Feira do Livro do Cairo, no Egito, dá uma idéia da agitação. Um total de 79 países participa do evento e 25.000 títulos estão em exibição. "Nossa literatura não tem do que se envergonhar, seja em quantidade, seja em qualidade", afirma o contista egípcio Bahaa Taher (que traduziu O Alquimista, de Paulo Coelho, para o árabe). "Mesmo no romance, uma forma literária que só chegou por aqui há 100 anos, quase todos os países contam com grandes nomes. Azar do Ocidente, que ainda não os descobriu." A julgar pelos dois autores árabes de maior renome internacional, Taher tem mesmo razão. O egípcio Naguib Mahfouz, ganhador do Prêmio Nobel de 1988, é um genial retratista do Cairo. Já o saudita Abdelrahman Munif é responsável pela monumental trilogia Cidades de Sal, que fala sobre os dilemas de um país que se moderniza depois de descobrir petróleo. "Sexo e álcool" – A falta de divulgação, entretanto, está longe de ser o maior problema desses escritores. Um levantamento realizado em 1999 pela PEN International, entidade que congrega literatos do mundo todo, mostra que setenta intelectuais foram mortos,

encarcerados ou desapareceram nos últimos anos em países de maioria islâmica. Por certo, existem diferenças entre essas nações no que diz respeito à liberdade de expressão. No Marrocos, onde um regime democrático lançou raízes nos últimos dez anos, a censura veio ao chão. Em outro extremo acha-se o Irã, dominado pelo fundamentalismo. "Romances iranianos não podem ter cenas de sexo ou mencionar bebidas alcoólicas", diz a iraniana Azar Nafisi, professora de estudos culturais da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. "A repressão é tão intensa que os escritores se autocensuram, temendo represálias das autoridades." Azar conta que todos os meses recebe uns dez livros clandestinos de jovens compatriotas que não conseguem ser ouvidos em seu próprio país. "O assombroso é que eles são muçulmanos sinceros, que não desejam ofender sua religião." Por fim, há os casos intermediários. O próprio Egito, um grande centro de difusão cultural, não vive em regime de liberdade plena. Um governo autoritário controla a imprensa e as editoras. Como se não bastasse, grupos fundamentalistas perseguem os escritores. Até Naguib Mahfouz foi vítima de um atentado. Em 1994, um fanático o esfaqueou no pescoço, por achar que seus livros ofendem o islã. Por que, então, muitos outros autores não seguem os passos daqueles que se mudaram para o Ocidente? Por que Mahfouz, apesar das ameaças e da fama que desfruta, continua vivendo no mesmo bairro onde sempre morou? "Ao contrário do que se pensa, o fundamentalismo e o autoritarismo não são traços imanentes de nossa cultura", acredita o filósofo Mohammed Abed al-Jabri. "Ambos são produto de uma distorção." Considerado o mais importante pensador marroquino da atualidade, Al-Jabri é autor de um best-seller no Oriente, Introdução à Crítica da Razão Árabe, lançado no Brasil pela editora Unesp. Seu principal objetivo é reviver o que chama de vertentes racionalistas da cultura árabe. "O pensamento árabe contemporâneo pode recuperar e reutilizar os ensinamentos racionais e liberais de sua própria tradição – a luta contra o feudalismo e o misticismo, a vontade de instaurar uma Cidade da razão e da justiça", escreve ele. Esse projeto está inscrito nas obras que acabam de sair no Brasil. Vale a pena conferir.

Desafio aos mulás
23 de fevereiro de 2000

Reformistas enfrentam seu maior teste numa eleição com jeito de plebiscito A História mostra que turbante não combina com democracia. Ainda mais quando se trata do Irã, a terra dos aiatolás e das mulheres cobertas de preto. Mas há certas nuances. A república islâmica costuma realizar eleições razoavelmente limpas (sobretudo se comparadas às da maioria de seus vizinhos) e respeita a vontade das urnas de modo inusitado para um Estado teocrático. Na sexta-feira passada, os iranianos depositaram seus votos numa eleição com feições plebiscitárias. Escolhiam-se os deputados do Majlis, o Parlamento, mas o pano de fundo era a definição do sentido do pêndulo na disputa entre reformistas e o clero linha-dura sobre o destino da revolução islâmica. A questão está na ordem do dia desde a espetacular vitória do reformista Mohammed Khatami, em 1997. Quando se tinha como certa a eleição de um presidente alinhado com o conservadorismo oficial, os iranianos, sobretudo os jovens e as mulheres, viraram a mesa e elegeram Khatami, cuja promessa era aliviar o peso do fanatismo xiita no dia-a-dia da população. Só nesta semana, quando forem contados os votos das províncias mais remotas e feitas as complexas contas da representação proporcional, é que se saberá o tamanho da bancada reformista. Todas as estimativas eram, às vésperas do pleito, de uma grande manifestação popular por mudanças. No sistema teológico criado pelo falecido aiatolá Khomeini, o poder real repousa nas mãos do líder supremo — o próprio Khomeini, enquanto viveu, e hoje o aiatolá Ali Khamenei. Ele controla as Forças Armadas, a polícia, o Judiciário e tem a última palavra sobre todos os assuntos internos e internacionais de alguma importância. Às vésperas das eleições, o alto clero fez valer suas prerrogativas e vetou a candidatura de centenas de pessoas, quase todas das fileiras reformistas. Ainda assim, respira-se mais livremente no Irã desde a vitória de Khatami. Já é possível ver casais de namorados em Teerã, antenas parabólicas nos telhados e até críticas nos jornais. Tudo isso, contudo, continua oficialmente proibido. Se os reformistas confirmarem a vitória prevista para sexta-feira passada, talvez o país possa dar o passo mais ousado: iniciar as reformas institucionais. Há coisas básicas a ser instituídas, como a entrega do poder a candidatos eleitos, um Judiciário independente e a separação entre mesquita e Estado. O clero vai permitir tudo isso? O certo é que os turbantes negros já não representam a verdadeira cara do país. Dois terços da população têm menos de 30 anos e pouco se lembram do movimento revolucionário que, em 1979, apeou o xá Reza Pahlevi e colocou o país de costas para o mundo. Mesmo

sem conhecer outra realidade, os jovens estão ansiosos por uma vida de maior liberdade e abertura para o exterior. Nas universidades e nas ruas, o regime islâmico tem sido enfrentado com pequenas transgressões, como o uso de batom e unhas pintadas — e também ruidosas manifestações. Em julho, depois que a polícia religiosa invadiu a universidade de Teerã e espancou os alunos, os protestos estudantis chegaram perto de se transformar num levante popular. Às sextas-feiras, dia de folga no Irã, centenas de pessoas saem de Teerã em direção às montanhas, onde podem usufruir um pouco mais de liberdade. Algo como andar de mãos dadas com alguém do sexo oposto, ouvir música americana e dançar — necessidades básicas de um jovem em qualquer país. Para as mulheres, condenadas a viver de acordo com códigos de conduta medievais, o momento é ainda mais decisivo. O número de candidatas, 513 de um total de 6.083, foi excepcionalmente alto. Temas antes proibidos, como a equivalência salarial ou o fim dos casamentos forçados, foram escancarados durante a campanha. O regime iraniano não chegou a extremos como proibir o trabalho feminino, a exemplo do que faz o governo islâmico do Afeganistão, mas as mulheres são consideradas legalmente inferiores aos homens. Uma mulher quer ir à Justiça? Seu testemunho valerá a metade do de um homem. Ficou viúva? Não adianta chiar: os bens serão herdados pelo sogro. Contra as adversidades, as mulheres do país conseguem ter um bom nível educacional e são maioria nas universidades. O que necessitam agora é se livrar do xador, o pano preto que lhes esconde os cabelos. Sob o aiatolá Ali Khamenei, um líder sem carisma, as rédeas começaram a se soltar, mas a linha dura xiita está longe de ter entregue os pontos. Uma vitória esmagadora dos candidatos reformistas e moderados ajudaria o presidente Khatami a conter as forças conservadoras e levar adiante sua proposta de liberalização gradual do regime. Desde que tomou posse, ele vem se debatendo contra um Parlamento dominado por conservadores, que não quer nem ouvir falar de novidades. Um de seus principais ministros foi demitido pelos parlamentares. Outro aliado importante, o prefeito de Teerã, Gholam-Hossein Karbaschi, passou dois anos na prisão e levou sessenta chibatadas, acusado de corrupção. A relativa liberdade de imprensa, um dos principais feitos do presidente, vive sob constante ameaça. O resultado das urnas pode tornar a teocracia iraniana menos sufocante.

Turbantes em fúria
03 de maio de 2000

Derrotados nas eleições, aiatolás fecham dezesseis jornais alinhados com as reformas

Cabelo feminino à mostra e manifestação conservadora: embate entre o novo e o velho

Dois meses atrás, os eleitores deram aos candidatos reformistas uma espetacular vitória no Irã. Na semana passada, os aiatolás de linha dura, que detêm o poder real no país, foram à forra: proibiram a circulação de dezesseis jornais alinhados com o reformismo moderado do presidente Mohammed Khatami. O recado é claro e violento. O pessoal de turbante, que há duas décadas tenta enquadrar iranianos nos usos e costumes do século VII, quando o profeta Maomé orientava pessoalmente seus fiéis, não vai aceitar pacificamente o resultado das urnas. Será que ainda dá tempo para segurar a vida moderna que teima em sobreviver num país onde as mulheres são obrigadas a se cobrir da cabeça aos pés com vestes disformes? Os dois Irãs, de um lado os reformistas, mais abertos ao Ocidente e ao bem-estar gerado pelo desenvolvimento, e do outro os conservadores, apegados ao obscurantismo fundamentalista, empenham-se agora numa espécie de duelo fatal. Na quinta-feira, estudantes enfrentavam a polícia nas ruas de Teerã, em desafio aberto aos aiatolás. "O Irã chegou a um ponto de abertura em que não há mais retorno", acredita Nader Entessar, diretor do departamento de ciência política da Spring Hill College, no Alabama, Estados Unidos.

A dicotomia entre o novo e o velho pode ser notada no dia-a-dia das pessoas. É como se houvesse um país público, em que tudo é proibido, e um privado, onde se pode quase tudo. Em Teerã, é possível observar mulheres vestidas com lenços coloridos em vez do preto tradicional, com as unhas pintadas, o rosto maquiado e com mechas de cabelo aparecendo por baixo do véu. Casais de namorados andam de mãos dadas, apesar da ameaça da polícia religiosa armada de metralhadora e chibata. A música popular e a dança, banidas após a revolução, renascem às claras. Tudo na mais absoluta e tolerada ilegalidade. Até as antenas parabólicas, mesmo proibidas, começam a proliferar, muitas delas camufladas dentro de casinhas de cachorro. A florescente indústria cinematográfica do país retrata o processo de mudança cultural. Grandes nomes, como o diretor Mohsen Makhmalbaf, antes um fiel seguidor do regime dos aiatolás, hoje produzem filmes com conteúdo crítico. "É uma questão de tempo para que os iranianos estejam vivendo como qualquer ocidental", avalia Neeguin Yavari, professora do Instituto do Oriente Médio da Universidade Colúmbia, em Nova York. Em parte, os aiatolás estão colhendo agora o resultado de uma política desequilibrada. Antes da revolução islâmica de 1979, apenas 54% da população sabia ler e escrever. Hoje, 72% dela está alfabetizada. As mulheres foram as que mais aproveitaram a oportunidade. Quase a metade dos universitários do país pertence ao sexo feminino. Para todos os efeitos, o Irã ainda é um país miserável, com mais de 50% da população vivendo abaixo da linha de pobreza. A economia, capenga, continua dependente das exportações de petróleo. Bem-educados, os jovens, que são dois terços da população e não vivenciaram a derrubada do xá, cobram agora as mudanças prometidas nas eleições. Sem o apoio deles, é pouco provável que os aiatolás consigam brecar as reformas. É bem possível, aliás, que os jornais fechados reabram com outro nome, como muitos têm feito desde 1997. A abertura lenta e gradual preconizada por Khatami deve continuar, mas nada impede que outros percalços apareçam pelo caminho.

O reino proibido
31 de maio de 2000

País fechado aos não-muçulmanos, a Arábia Saudita já aceita visitantes selecionados
A Arábia Saudita sempre manteve as portas completamente fechadas ao turismo convencional, embora receba de braços abertos os muçulmanos que cumprem o dever da peregrinação a Meca. A situação está mudando aos poucos no berço do islamismo. O reino quer expor seus tesouros naturais e históricos a visitantes estrangeiros para diversificar a economia, até agora quase que inteiramente atrelada à venda de petróleo. A peregrinação à cidade sagrada de Meca e a visita a Medina, que a cada ano atraem 2 milhões de fiéis, deixariam assim de ser a única forma de turismo existente no país. Desde o ano passado o governo saudita vem, de maneira discreta, concedendo vistos em conta-gotas a uns poucos afortunados da Europa, dos Estados Unidos e do Japão. Estima-se que 1.000 pessoas tenham visitado a Arábia Saudita como turistas em 1999, sempre em pequenos grupos organizados por agências escolhidas a dedo. Entre elas, as americanas Smithsonian Study Tours (www.si.edu/tsa/sst) e a Lindblad Expeditions (www.expeditions.com). O preço de uma viagem de duas semanas é de cerca de 7.000 dólares, incluindo refeições e passagens aéreas. O acesso às cidades sagradas continua restrito aos seguidores do Corão, mas os sauditas permitem aos turistas passeios a lugares magníficos e pouco explorados. Sítios arqueológicos do período pré-islâmico, cidades parcialmente enterradas pelas areias do Deserto de Rub'al Khali, antigos fortes otomanos, fontes de águas termais, mergulhos no Mar Vermelho e visitas aos mercados de ouro, tecidos e produtos típicos são algumas das atrações do reino. O que atrapalha o turismo são as severas leis islâmicas, que podem colocar em apuros um estrangeiro desavisado. Não há cinemas nem teatros no país – considerados imorais –, e o consumo de álcool é terminantemente proibido. As mulheres não podem dirigir carros e devem sempre andar acompanhadas de homens. Nos lugares públicos elas usam véus e abayas, aquelas pesadas túnicas pretas que lhes cobrem até os pés. Quem desobedece a alguma das regras de comportamento, mesmo sendo turista ou diplomata, corre o risco de enfrentar a polícia da moralidade, que pode chegar a agredir o transgressor. Mesmo com todas as restrições, visitar a Arábia Saudita é o sonho de muita gente. As excursões até agora organizadas pelas agências americanas autorizadas saem lotadas. No Brasil, a Embaixada da Arábia Saudita aguarda apenas o recebimento de instruções da recém-criada Suprema Comissão de Turismo – órgão que responde diretamente ao Conselho de Ministros da Arábia Saudita – para conceder os primeiros vistos a grupos de turistas brasileiros.

Atrasado e drogado
21 de junho de 2000

Um lugar distante da vida moderna, onde se vive para seqüestrar e usar uma droga, o qat O diplomata norueguês Gudbrand Stuve, 44 anos, deixou-se atrair pelo fascinante ambiente de mil e uma noites que envolve o Iêmen, país parado no tempo. Em viagem de retorno de seu posto na Zâmbia, desembarcou com a família em Sanaa, capital iemenita, para alguns dias de lazer. Como acontece com freqüência aos turistas que visitam o país, Stuve e seu filho de 9 anos foram seqüestrados. Até aí nada de mais, pois passar alguns dias como refém em uma aldeia encarapitada numa montanha faz parte do passeio e, muitas vezes, está incluído no pacote turístico. Desafortunadamente o passeio terminou em tragédia. Os seqüestradores foram surpreendidos por uma patrulha militar nos arredores da capital, e Stuve morreu baleado no sábado 10. O menino escapou ileso. Nos últimos dois anos, este foi o quinto assassinato em circunstâncias parecidas. O que atrai os turistas europeus a esse país é a fascinante combinação de hábitos medievais e telefones celulares – junto com os jipões Land Rover, os únicos indícios de vida moderna por lá. A indústria do seqüestro é conseqüência da belicosidade dos clãs e da precária infraestrutura do interior. Os reféns servem como meio de pressão para exigir serviços básicos do governo. Dois anos atrás, o presidente do país decretou a pena de morte para os casos de seqüestro. De nada adiantou. De 1991 até o ano passado foram quase 150 casos envolvendo estrangeiros, pelo menos catorze após a nova lei. A maioria dos seqüestros termina sem vítimas, apesar do colossal arsenal doméstico existente. Em média, cada habitante do país tem três armas de fogo. São 50 milhões de gatilhos para pouco mais de 17 milhões de habitantes. O fuzil de assalto AK-47 faz parte da indumentária masculina, tanto quanto a tradicional adaga e o camisolão que chega ao tornozelo.

O governo não se faz obedecer porque a prisão de um criminoso pode levar sua tribo à sublevação. O Iêmen é uma terra de contradições. Localizado na Península Arábica, ao lado dos abastados reinos do petróleo, não dispõe da mesma abundância de óleo em seu subsolo. Sobra-lhe terra fértil, mas ela é desperdiçada com plantações de qat, planta narcótica que é a paixão nacional. Como oito em cada dez adultos são viciados na droga, vendida em folhas, praticamente nenhuma outra cultura vale a pena. A religião oficial é o islamismo, mas numa versão cheia de anjos e fantasmas. As mulheres vivem em semiconfinamento, como na Idade Média. Cobrem-se com vestes largas e escuras, não trabalham fora de casa e nem pensam em dirigir um carro. Tal é o isolamento que desenvolveram um dialeto próprio, falado apenas entre elas. Politicamente o país é peculiar. Até uma década atrás estava dividido entre o norte capitalista (se é que se pode falar assim de uma sociedade tribal) e o sul islâmico-comunista (se é que isso pode existir). A reunificação foi pacífica, mas degenerou em guerra civil vencida pelo norte, mais desenvolvido. O país é um dos poucos no mundo árabe que elegem diretamente o presidente. Mas governo, Exército e partidos políticos fazem pouco sentido no Iêmen. O que define a lealdade e as responsabilidades de cada habitante é seu clã. Vale mais a palavra do xeque – misto de autoridade tribal, líder espiritual e juiz – que tudo aquilo que está escrito na Constituição. O verdadeiro denominador de identidade cultural no Iêmen é o qat. Trata-se de uma planta de sabor amargo que contém substâncias anfetamínicas. Quando mascado ou fumado, produz um efeito de leve euforia. Para os iemenitas, o mundo não existe sem a planta, e sua proibição seria o suicídio político e a ruína econômica do país. Estimase que ela seja responsável por 25% do produto nacional bruto. O cultivo de 250 000 toneladas por ano de qat ocupa metade das terras aráveis do país e emprega meio milhão de pessoas. Os iemenitas passam a manhã no telefone combinando onde vão reunir-se para mascar qat. A tarde é dedicada à droga e ao papo furado. Drogas e seqüestros – isso é o que move o Iêmen.

A última do Taliban
26 de julho de 2000

O regime da repressão total em nome de Deus, no Afeganistão, chega ao cúmulo de raspar a cabeça de jogadores pelo pecado de jogar futebol de calção

Time de futebol castigado: cabeças raspadas por mostrar as pernas A principal utilidade dos estádios no Afeganistão é serem usados como local de execução de sentenças. É neles que o Taliban, a milícia islâmica que impôs um regime medieval ao país, chicoteia as mulheres que falam com homens estranhos, corta a mão dos ladrões e apedreja até a morte o casal de adúlteros. Nem quando serve de palco para jogos de futebol o estádio está livre dos horrores do fanatismo religioso. Que o digam os jogadores de uma equipe da cidade paquistanesa de Chaman, convidada na semana passada para um amistoso em Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão e quartel-general da milícia. Na metade do jogo apareceu a polícia religiosa, armada de metralhadoras, que prendeu doze dos dezessete visitantes. Cinco jogadores conseguiram escapar e se refugiaram no consulado de seu país. Os demais tiveram a cabeça raspada como punição por usar calções – desses shorts comuns, até os joelhos, uniforme universal das equipes de futebol, mas considerados indecentes pelos padrões morais do Taliban. No mundo absurdo criado pelo fanatismo afegão, os homens só podem vestir-se segundo o figurino estabelecido pelos religiosos: camisolão com calças folgadas por baixo. É ruim? Pior é para as mulheres, que vivem cobertas da cabeça ao dedão do pé por um manto disforme, o burqa, que não deixa à mostra nem mesmo os olhos.

Depois de horas de medo e incerteza, os doze jogadores foram libertados no dia seguinte, com a intervenção do ministro dos Esportes, que achou a atitude excessiva, visto que os paquistaneses eram convidados. Apesar das desculpas do ministro, o incidente no estádio de futebol é sintomático de uma situação inusitada: a de um país cujo objetivo é viver segundo uma interpretação tão estrita da lei islâmica que horroriza até mesmo os aiatolás do vizinho Irã. Desde 1998, quando consolidou seu domínio sobre 90% do território do Afeganistão (uma milícia rival, menos furiosa do ponto de vista religioso, controla a porção restante), o Taliban mergulhou o país nas trevas do obscurantismo mais atroz. Em nome da fiel observância da sharia, a lei islâmica, tenta-se eliminar os sinais de vida moderna. Música, cinema, televisão, revistas, jogos de carta são proibidos como futilidades que afastam o fiel do caminho de Alá. Imagens de homens ou animais são igualmente proibidas. Fotografia, nem pensar: não é permitido fotografar nem guardar fotos de outras pessoas, mesmo de parentes próximos. Por quê? Porque só se pode adorar a Deus, e a foto é uma espécie de idolatria do fotografado. Assim como têm de usar calça comprida para jogar futebol, os atletas afegãos não podem lutar boxe, porque estão proibidos de fazer a barba. Homem de cara raspada pode pegar até dez dias de prisão, tempo suficiente para sair da cadeia devidamente barbado. O regime é especialmente severo com as mulheres. Só as mãos ficam à mostra, mas unhas pintadas, dependendo do humor da polícia da moralidade, podem custar as próprias unhas. Braços ou rosto à vista em local público autorizam qualquer cavalheiro a castigá-las com umas bordoadas. Ao atingir a puberdade, não mais podem conversar ou simplesmente permanecer na presença de homem que não seja da família. Só saem à rua com autorização do marido ou do pai. Foram proibidas de estudar e de exercer qualquer profissão, exceto as de médica e enfermeira. O resultado é que a maioria das mulheres vive hoje da mendicância. É natural que seja assim, pois, após de duas décadas de guerra civil, é enorme a quantidade de viúvas e órfãs que agora não podem ganhar honestamente o pão. Um repórter americano que conhece muito bem o país e lá esteve recentemente ficou chocado com a quantidade de crianças e mulheres mendigando por toda parte. Os agentes do Ministério para a Propagação da Virtude e da Prevenção do Vício estão atentos ao menor deslize. Uma mulher surpreendida levantando o véu (elas fazem isso por razões práticas, como contar dinheiro, pois a visão é prejudicada pelo burqa) é açoitada. A surra deixa-a de cama por semanas e pode até causar a morte.

Como a população consegue suportar tudo isso sem se revoltar? O Afeganistão sempre foi um país instável, dividido por rixas tribais e diferenças étnicas. Nos anos 70, um grupo de esquerdistas assumiu o poder e resolveu impor o comunismo às tribos. Para proteger esses alucinados, a União Soviética invadiu o país em 1979. Foi o início de uma guerra sangrenta, em que os Estados Unidos armaram a resistência afegã, que combatia em nome do islã. Desmoralizados, os russos retiraram-se em 1989 e as facções ficaram livres para lutar umas contra as outras. A novidade surgiu em 1994 – os talibans, originalmente estudantes religiosos. Eles ganharam prestígio combatendo a criminalidade e desarmando a população. A favor deles é sempre lembrado que nunca tiveram por hábito estuprar as mulheres, como faziam outras milícias e a soldadesca russa. A população tem para com eles a gratidão pelo fim da guerra e do banditismo desenfreado das milícias rivais. A maioria jamais havia vivido em período de paz e segurança como agora. Os costumes medievais, bem, são parecidos com os praticados há séculos nas aldeias afegãs. O preço a pagar é alto. Em nome de Alá, os talibans fazem o que querem, sem se preocupar com leis, advogados ou juízes. Como toda diversão está proibida, o lazer é assistir a execuções públicas. A pena para quem rouba, ainda que seja um prato de comida, é a amputação da mão direita. O reincidente perde a perna esquerda. Consumir bebida alcoólica em qualquer quantidade vale algumas chicotadas. Adultério é punido com a morte por apedrejamento. O casal é amarrado numa cama, o juiz joga a primeira pedra e o povo depois continua. O espetáculo costuma prolongar-se por duas horas de sofrimentos atrozes e não faltam espectadores nem pedras. O Afeganistão nunca foi rico e a guerra terminou por arruiná-lo. Sanções internacionais ajudam a piorar a situação. A população vive do contrabando, da esmola e da agricultura rudimentar. O Taliban socorre-se no narcotráfico, apesar de o consumo de drogas ser proibido pela lei islâmica. Relatório da Organização das Nações Unidas mostra que a fabricação de ópio no país já supera a soma de todo o restante da produção mundial. Foram 4.600 toneladas de ópio produzidas em 1999, contra 2.600 em 1998. O sistema bancário, controlado pela milícia, financia os plantadores de papoula, a matéria-prima do ópio e da heroína. O Taliban cobra pedágio de 20% de todo carregamento de drogas que deixa o país. Cada vez mais a cobrança de retidão e de rigor só se aplica à população que ousa transgredir alguma das inúmeras regras de comportamento.

O site do aiatolá
09 de agosto de 2000

Líder religioso iraniano preso por subversão se comunica com o mundo pela internet

O aiatolá Montazeri faz discursos políticos pela internet, no site www.montazeri.com, mas dribla a censura graças a uma esperteza: evita críticas diretas ao governo

O aiatolá Hussein Ali Montazeri é um dos dissidentes mais populares do Irã e se encontra em prisão domiciliar desde 1997. Não pode mais pôr os pés na rua. Sua casa é vigiada dia e noite por soldados. Visitas, só de parentes próximos. Mesmo diante de tantos cuidados, arranjou um jeito de driblar o cerco dos turbantes negros. Criou uma página na internet na qual expõe em persa suas idéias sobre política e religião. De quebra, coloca-se à disposição dos fiéis que desejam fazer consultas por e-mail. As questões são catalogadas de acordo com os temas. As respostas são depois divulgadas na rede. A história de Montazeri, o aiatolá cibernético, representa um bom exemplo de como a censura à internet é difícil de ser realizada na prática. Os regimes fechados bem que tentam controlar o acesso a informações que circulam pela rede. Num relatório recente, a ONG internacional Repórteres sem Fronteiras listou vinte países que movem mundos e fundos para censurar websites e e-mails. Estão na relação nações

como China, Cuba, Serra Leoa, Iraque e, obviamente, Irã. O vizinho – e igualmente uma ditadura – Iraque tem um mecanismo bem eficiente de vigilância, pois o único provedor existente no país pertence ao governo. No Irã, o Estado apenas monitora, por meio de filtros, algumas palavras-chave para identificar sites considerados subversivos ou pornográficos. Para os padrões islâmicos, é sempre bom lembrar, até uma página de anatomia destinada a estudantes de medicina pode ser enquadrada como erótica – e, portanto, proibida. Até um ano atrás, o acesso à internet era restrito a estudantes e professores de universidades de Teerã, a capital do Irã, e a membros da elite do país. Essa barreira caiu por terra e a rede temse popularizado entre várias outras camadas da população. Uma prova visível desse fenômeno é a multiplicação dos chamados cibercafés na capital. Apesar dos progressos, a internet ainda engatinha por lá quando comparada a seu estágio de avanço nas democracias. Estimativas do número de internautas iranianos variam entre 30.000 e 60.000, quase nada diante da população de 67 milhões. Há ainda limitações técnicas: o acesso é lento e existem poucas linhas telefônicas (apenas 9 milhões no país inteiro). Quem ousa navegar pelos sites proibidos perde o precioso direito de acessar a internet. Mesmo assim, a repressão à rede não se compara à exercida sobre a imprensa. Só em abril deste ano, dezesseis jornais foram fechados por se aliarem com o presidente Mohammed Khatami, o clérigo reformista que se elegeu prometendo aliviar a mão pesada do fundamentalismo religioso no cotidiano da população. Ele chegou ao cargo em 1997, arrebatando 70% dos votos. Foi apoiado principalmente por mulheres e estudantes, ávidos por recuperar o direito de namorar em público ou se vestir com roupas normais. As iranianas são obrigadas a cobrir os cabelos e a usar batas disformes. Homens e mulheres não podem andar juntos, exceto se forem parentes próximos. Desde a eleição de Khatami, o país é convulsionado por uma queda-de-braço entre reformistas e a linha dura. O poder do presidente é reduzido, pois a

última palavra é privilégio do líder espiritual do país, o aiatolá Ali Khamenei, que fica de cabelos arrepiados a cada passo em direção ao mundo moderno. A linha dura controla as Forças Armadas, a polícia e o Judiciário. Também pode contar com a fidelidade dos 125.000 homens da Guarda Revolucionária e com o apoio da população das pequenas cidades e aldeias, disposta a sair às ruas para protestar contra Khatami. É nesse contexto perigoso que o aiatolá Montazeri, um venerando líder religioso de 78 anos, se mostra um mestre no manejo da comunicação eletrônica. Para não melindrar a turma do turbante negro e evitar que sua página saia do ar, deixa de fazer qualquer crítica direta aos conservadores e recorre a sutilezas. Ele incluiu no site menções elogiosas a alguns dos líderes que o adulavam no tempo em que era cotado para suceder ao aiatolá Khomeini, o fundador da república islâmica, e que mais tarde seriam os responsáveis por seu ostracismo. Sobre o ultraconservador Ali Khamenei, o aiatolá Montazeri é só confete: "Tenho orgulho por esta pessoa existir na república islâmica". O aiatolá cibernético tornou-se um ícone entre os reformistas. Sua tese mais subversiva é que o comando do país deve ser entregue a alguém escolhido pelo povo e não pelos turbantes negros. Essa idéia, porém, em nome da prudência, ele ainda não divulga na internet. A regra atual, instituída pelo aiatolá Khomeini, entrega a uma assembléia de clérigos a responsabilidade pela escolha. Esse organismo é dominado pelos fundamentalistas, que se julgam eleitos por Deus para realizar essa tarefa e ditar os outros dogmas do islã. A criação da página de Montazeri na internet casa perfeitamente com sua biografia, pontuada de dribles às autoridades. Encarcerado repetidas vezes pelo xá Reza Pahlevi, que a revolução islâmica mandou para o exílio em 1979, Montazeri sempre conseguia que estudantes de teologia editassem boletins clandestinos com os escritos produzidos no cárcere. A estratégia é a mesma. Com a diferença de que agora a rede mundial exerce a função dos panfletos mal impressos no passado.

Receita de aiatolá
30 de agosto de 2000

Religiosos na Turquia e na Espanha aconselham o uso da violência para manter as esposas submissas

Mulher na Turquia: conflito entre o Estado moderno e a lei islâmica

O marido pode bater na mulher? A pergunta soa absurda e a resposta é óbvia para a maioria das pessoas. Para os muçulmanos, no entanto, a questão ainda se coloca. Na Turquia e na Espanha acabam de ser publicados dois livretos com a assinatura de respeitáveis religiosos islâmicos, nos quais o "espancamento coercivo" das mulheres é explicitamente recomendado. Se saíssem à luz apenas em países onde o islã domina também o aparelho de Estado, as publicações passariam despercebidas. Como circularam em países democráticos e mais modernos, os guias para amansar mulher despertaram forte reação. Mesmo na Turquia, um país onde 99% da população é muçulmana, mas Estado e religião estão oficialmente separados, os conselhos dos aiatolás foram recebidos com indignação. "O livro dá uma interpretação equivocada das palavras do profeta Maomé", disse Sema Piskinsut, deputada que preside a comissão de direitos humanos do Parlamento. "É ultrajante que tal livro tenha sido publicado com dinheiro público originário de impostos pagos também pelas mulheres", esbravejou Zuhal Kilic, que preside uma ONG feminista. O livreto turco, intitulado Guia do Muçulmano, foi publicado por uma fundação ligada ao governo. Na publicação, o clérigo Kemal Guran orienta os maridos a bater nas mulheres quando elas forem teimosas, contanto que não o façam com muita força e que evitem machucá-las.

Não se deve atingir os seios, o estômago ou o rosto, ensina a obra. Em caso de doença da mulher, quando ela não puder cumprir com suas obrigações domésticas, o homem pode arrumar uma segunda esposa se não tiver dinheiro suficiente para pagar uma empregada. Guran fundamenta o direito masculino à pancada com a afirmação de que "os homens são naturalmente superiores às mulheres". Os conselhos de Guran chegam num momento em que a Turquia se esforça para adotar uma interpretação moderna do islã. O mais democrático país muçulmano, com boa parte de seu território no oeste asiático e 3% dele no sudeste europeu, vem pleiteando sua entrada na União Européia para aproveitar a maré de prosperidade que já trouxe benefícios à vizinha Grécia. Uma das exigências para aderir ao pacto europeu é o estrito respeito aos direitos humanos. As denúncias freqüentes de tortura nas prisões turcas, a perseguição aos curdos e a discriminação contra as mulheres são entraves sérios à pretensão turca. Fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal, o Ataturk, em 1923, separou radicalmente a mesquita do Estado. Entre as medidas impostas por ele para tentar arrancar o país da servidão religiosa estava o incentivo ao uso de roupas ocidentais e do alfabeto latino. O atual governo quer manter essas inovações a todo o custo, embora boa parte da população prefira seguir os costumes tradicionais. O uso do véu pelas mulheres ressurgiu com força na última década. O hábito da exclusão das mulheres é tão arraigado que intérpretes radicais do Corão estão se sentindo à vontade para pregar seu obscurantismo mesmo em países onde os muçulmanos são minoria. Livreto semelhante ao do clérigo turco foi publicado pelo imã Mohamed Kamal Mostafa, que dirige a mesquita da cidade de Fuengirola, no sul da Espanha. Nele, o imã recomenda a greve de sexo para castigar mulheres malcomportadas e ensina a bater sem deixar marcas no corpo da vítima. O livro lhe rendeu um processo por incitação à violência. No mundo civilizado é assim, na Justiça, que se tenta resolver problemas desse tipo.

Cimitarra afiada
27 de junho de 2001

Egito pode obrigar escritora feminista a se divorciar O mundo islâmico já esteve na vanguarda da civilização, mas ameaça passar cada vez mais para a lanterninha, graças à ação dos fundamentalistas religiosos. Por causa de sua visibilidade, os intelectuais se acham entre os alvos favoritos. Segundo organizações especializadas no assunto, aqueles mortos ou encarcerados por esses regimes já se contam às dezenas. Mesmo em Estados como o Egito, que se apresentam como liberais, a pressão dos fundamentalistas é cada vez mais forte. O romancista e ganhador do Prêmio Nobel Naguib Mahfouz, por exemplo, já havia sido esfaqueado no pescoço, em 1994, por um louco que o julgava apóstata. Agora, sofre ameaças novamente, por ter permitido que obras suas fossem traduzidas para o hebraico e lançadas em Israel. Nas próximas semanas, a perseguição pode atingir uma das mais influentes figuras femininas do mundo árabe. A escritora e feminista egípcia Nawal el-Saadawi, de 70 anos, pode ser não só presa como obrigada a se divorciar do marido por decisão de um tribunal. Isso porque numa entrevista concedida no início deste ano Nawal disse que o ritual da peregrinação a Meca guarda vestígios pagãos. A afirmação despertou a ira de um advogado conservador, para quem Nawal "renunciou ao Islã" e por isso não deve continuar casada com um fiel: está sujeita à punição do divórcio. A decisão deve sair no dia 9 de julho – e nem a repercussão negativa do caso no Ocidente permite prever qual será seu desfecho.

Gays no tribunal
25 de julho de 2001 Governo egípcio usa lei de emergência para julgar 52 acusados de homossexualismo

Vexame público: acusados de ser gays são levados para julgamento

Uma das formas de aferir o grau de democracia de um país é ver como são tratadas as minorias. Os homossexuais, em especial, são um bom termômetro, visto que o tema envolve complexas considerações de ordem moral, religiosa e tabus sexuais. A regra nos Estados modernos é aceitar o direito individual de seguir sem constrangimentos uma orientação sexual que não é a da maioria. Tomado por essa medida, o Egito está no rol dos países mais primitivos do planeta. Na quarta-feira passada, começou no Cairo o julgamento de 52 homens acusados de homossexualismo. A maioria foi presa em maio numa boate gay instalada num barco no Rio Nilo. Todos dizem ter sido torturados pela polícia. Como o homossexualismo não é proibido pelas leis egípcias, eles estão sendo processados por "ofensa à moral pública", que pode render até cinco anos de prisão. O governo transformou o caso numa questão de segurança nacional. Por isso, o julgamento passou a ser realizado sob a mesma lei de emergência – que não dá direito a apelação – usada para julgar fundamentalistas islâmicos empenhados em derrubar o regime.

Desde o final do ano passado, a polícia egípcia está em campanha contra o homossexualismo, sobretudo na internet. Alguns gays foram presos ao responder a anúncios sexuais publicados pela própria polícia. É difícil saber por que o governo quer condenar os homossexuais. "É típico desse regime criar casos para distrair a opinião pública Controvérsia na Turquia: de problemas mais sérios, como corrupção e governo só aceita desemprego", diz Maha Youssef, porta-voz de enfermeiras virgens um centro de direitos humanos do Egito. Mesmo os militantes dos direitos humanos, contudo, evitam manifestar apoio aos gays. Isso porque o islamismo pune o homossexualismo com a morte, e a opinião pública acha justa a punição. A força da religião e a persistência de costumes medievais também explicam a atual controvérsia sobre a virgindade na Turquia, também de maioria islâmica. Na semana passada, o ministro da Saúde, Osman Durmus, autorizou exames ginecológicos para as estudantes de enfermagem. O objetivo era expulsar das escolas públicas aquelas que não fossem virgens. A reclamação das feministas fez o governo recuar. A virgindade ainda é um valor fundamental na Turquia, onde até 1999 os homens tinham direito de exigir testes de virgindade antes do casamento. A lei foi abolida depois da tentativa de suicídio de cinco órfãs, entre 12 e 16 anos, que tomaram veneno de rato e pularam num poço quando souberam que seriam submetidas aos exames. O mistério é saber por que o governo só quer enfermeiras virgens.

Assassinato em nome de Alá
19 de setembro de 2001

Miséria e falta de democracia, aliadas ao nacionalismo, fazem o caldo no qual nasce o radicalismo islâmico – uma minoria na religião Com o surgimento dos primeiros indícios de que a onda de terror nos Estados Unidos foi obra de radicais islâmicos, uma questão tornou-se inevitável: quem é essa gente que se suicida jogando aviões contra edifícios? Que se veste de bombas e se explode em supermercados e pizzarias de Israel? Que estoura carros recheados de explosivos contra muros de quartéis? Quem é, enfim, essa gente que se mata em nome de Alá? Atualmente, calcula-se que exista em torno de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, divididos em diversas correntes religiosas – e apenas uma parcela pequena está disposta a entregar a vida pela causa. São muçulmanos que integram ramificações extremistas da religião, como os sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, para os quais o suicídio em nome de Alá, normalmente cometido aos gritos de "Deus é grande", é uma forma suprema de entrega ao amor divino. A maioria dos muçulmanos, no entanto, repudia os ataques suicidas e os considera pecado extremo, uma ofensa contra Alá, na medida em que atenta contra o dom da vida – um dom divino. "O primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão, um terrorista em potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo. O segundo equívoco, e até mais freqüente que o primeiro, é julgar que todos os muçulmanos são árabes, quando a maioria, na verdade, é formada por povos não-árabes. Somando-se um erro ao outro, produz-se uma generalização tão deformada quanto a de alguém que supõe que todos os católicos são irlandeses e, portanto, todos são radicais. Há quarenta anos, 15% da população mundial era devota de Alá. Hoje, são quase 20%, e estima-se que, por volta de 2020, de cada quatro habitantes do planeta um será muçulmano. Essa explosão demográfica – em parte provocada pela proibição religiosa do uso de métodos contraceptivos – está devolvendo ao islamismo uma força

considerável. Com o liberalismo religioso da maior parte do Ocidente, os muçulmanos também se espalham com alguma facilidade. Só na Europa, berço da civilização cristã, existem 20 milhões de muçulmanos, e quase metade deles está instalada na Europa Ocidental. Há mesquitas até na Roma dos papas. Outro fator que emprestou maior visibilidade aos países islâmicos está em sua imensa riqueza estratégica: eles são donos das mais generosas reservas de petróleo do mundo. Entre os cinco maiores produtores de óleo do Oriente Médio (Irã, Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait), o PIB conjunto quadruplicou nos últimos trinta anos – enquanto o PIB mundial apenas dobrou de tamanho. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora. Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. "Num ambiente de carência social e autoritarismo político, a religião funciona como uma poderosíssima válvula de escape", define a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da USP. Mas isso não é tudo. Até pouco tempo atrás, a América Latina também convivia simultaneamente com miséria e ditadura – e, no entanto, nunca se viram grupos extremistas de latino-americanos promovendo atos de terrorismo pelo mundo afora em nome de sua libertação econômica e política. Por que então alguns grupos de fanáticos islâmicos chocam o mundo com espetáculos inimagináveis de terror? A explicação sobre o que move esses extremistas, segundo alguns especialistas, talvez esteja num dado mais sutil: o choque de civilizações. "Os Estados nacionais permanecerão como os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos globais ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações", aposta o professor Samuel P. Huntington, especialista em estudos internacionais da Universidade Harvard e autor de um livro dedicado ao assunto. "O choque de civilizações será a linha divisória das batalhas do futuro." Nem todos os estudiosos do assunto concordam com a tese de Huntington, mas não há como negar que, num mundo cada vez menor, cada vez mais próximo, a religião também funciona como um instrumento de afirmação da identidade nacional. E a globalização crescente é um processo que se desenrola sob o comando inequívoco do mundo

ocidental – em especial, do império americano. As potências ocidentais não trilham sua trajetória segundo parâmetros da Bíblia, da fé cristã, dos ensinamentos de Jesus, mas, mesmo assim, elas acabam por se contrapor, culturalmente, aos países muçulmanos, muitos dos quais se pautam pelo Corão, pela fé islâmica, pelos ensinamentos de Maomé. Com 1 400 anos de rivalidade, o cristianismo e o islamismo vêm alternando auges e colapsos. Fundado em 622 pelo profeta Maomé, o islamismo logo se lançou, com sucesso, à conquista de terras e almas. Por volta de 1 500, no entanto, os europeus cristãos partiram para a conquista do Oceano Atlântico, com os portugueses à frente, e acharam a rota marítima para as cobiçadas riquezas da Ásia – e aí começou o declínio da civilização islâmica. Hoje, as potências ocidentais encontram-se no auge do poder. Os Estados Unidos, com sua incomparável pujança econômica, seu formidável poderio militar e sua vigorosa influência política e cultural sobre os destinos do mundo, representam o triunfo dos valores ocidentais – pelo menos aos olhos de fundamentalistas islâmicos, que, é sempre bom lembrar, são uma minoria entre os muçulmanos. Daí por que o terror da terça-feira não se esgotou na destruição de arranha-céus e na morte de inocentes. Pretendeu, sobretudo, cravar uma cimitarra no coração e no orgulho da maior potência ocidental. Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental sobre o planeta – nos costumes, nos hábitos de consumo, no modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos, especialmente os talibans do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível, e é muito expressivo o contingente feminino que freqüenta a universidade – uma raridade em algumas nações islâmicas que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo ocidental que são plenamente aceitos pelas populações muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso do Marrocos ao Líbano," diz ele. "Sem dúvida, o extremismo religioso está ligado às frustrações, principalmente entre os mais jovens, pois os países árabes têm

economia fraca, analfabetismo e desemprego crescente", afirma Sharif Shuja, professor de relações internacionais da Universidade Bond, na Austrália. "Mas, além disso, o massacre de muçulmanos na Bósnia, na Chechênia, na Palestina e na Caxemira faz o mundo árabe imaginar que o Ocidente está contra ele", completa o especialista. A melhor maneira de reduzir o crescimento do extremismo talvez esteja na expansão democrática dos países islâmicos – tema ao qual as potências ocidentais têm dedicado pouca atenção. A riqueza econômica do petróleo, por si só, não foi capaz de melhorar esse cenário. "Na verdade, ocorreu o contrário", analisa o professor Michael Hudson, da Universidade Georgetown. "Jordânia, Líbano, Marrocos e Palestina, que não têm reservas petrolíferas, hoje são países muito mais abertos que os ricos em petróleo, como Arábia Saudita, Iraque e Líbia." A exceção é o Irã, único islâmico rico que vive um acelerado processo de democratização. A dificuldade de criar regimes democráticos em países árabes decorre de fatores históricos e culturais, mas se agrava hoje em dia em razão de dois aspectos. De um lado, existe um estado permanente de beligerância, pela vizinhança com Israel, o que tende a concentrar o poder nas mãos de um líder ou de um grupo. O constante clima de guerra, além disso, torna prioridade o fortalecimento do Exército, do serviço de inteligência, da polícia secreta, da guarda nacional, instituições que também servem para conter aspirações populares malvistas pelos dirigentes. De outro lado, a comunidade árabe é dividida pela glória e pela desgraça do petróleo. Quem tem senta-se sobre ele. Quem não tem usa sua influência junto aos países ricos em petróleo para garantir investimentos e ajuda externa. Assim, tanto os com-petróleo quanto os sem-petróleo, excessivamente amarrados à dependência de capital externo, tendem a ignorar as demandas internas por maior participação política. Enquanto os nós não forem desfeitos, é possível que o extremismo e o fanatismo, embora restritos a grupos minoritários, sigam achando espaço para ensangüentar a história humana. Alertas contra isso é o que não falta. Quatro séculos antes de Cristo e dez séculos antes de Maomé, o grego Eurípedes já se insurgia contra o fundamentalismo, contra a prática de invocar os deuses para justificar guerras e carnificinas. Suas peças são um libelo de desmistificação dos sacerdotes, dos generais, dos políticos – enfim, dos poderosos de seu tempo. E investem contra o uso que essa elite fazia da adoração aos

deuses como razão para praticar seus desmandos. Na peça Electra, Eurípedes denuncia o abuso que os homens fazem do culto a Apolo para cometer seus pequenos atos de terror. Em outra peça, Mulheres de Tróia, desmantela moralmente os políticos por promoverem guerras em nome dos deuses. Quem sabe a lição do grego ainda triunfe – e os radicais islâmicos deixem de voar contra edifícios.
A cara das guerras
Confira como mudou a natureza dos conflitos nos últimos 500 anos, período em que se consolidou o domínio da civilização cristã e ocidental no mundo ENTRE MONARQUIAS Quando, a partir de 1500, a cultura ocidental começa a se impor no mundo, os conflitos se dão, basicamente, entre príncipes, imperadores e monarcas que tentam expandir seu poder, seu comércio, suas fronteiras. Essa situação perdurará até a Revolução Francesa, em 1789

ENTRE NAÇÕES A partir da Revolução Francesa, consolida-se a idéia de Estado-nação e as guerras passam a adquirir caráter nacional, de expansão territorial de uma nação e seu povo. Essa característica se manterá até a Revolução Russa, em 1917

ENTRE IDEOLOGIAS Com a criação da União Soviética, surge uma superpotência comunista, que rivalizará com o mundo capitalista, liderado pelos EUA. A disputa ideológica passa a ser o fio condutor dos conflitos - uma situação que só mudará com a queda do Muro de Berlim, em 1989

ENTRE CIVILIZAÇÕES Com o fim da Guerra Fria e o triunfo do império americano, os conflitos perdem sua matriz ideológica e ganham tons cultural e religioso, de rivalidade entre Ocidente e Oriente, entre cristãos e islâmicos. Para alguns estudiosos, é a fase do conflito entre civilizações

O que querem os fundamentalistas
10 de outubro de 2001 Osama bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade, enfurnados em cavernas do Afeganistão, envoltos numa aura de mistério, mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar os escritos do milionário que virou o mais exaltado dos radicais islâmicos. Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos das bases que eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença de não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como uma profanação do solo santo onde nasceu o Islã. "Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado", esclarece Laden, em documento datado de 1996. Realizada a primeira missão divina, ele pretende partir para a segunda, de alcance mais amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma comunidade, governada de acordo com a interpretação mais literal e estrita dos preceitos do Corão. Para isso, os governos dos países muçulmanos considerados corrompidos pela influência ocidental – ou seja, todos, com exceção do Afeganistão, onde já reina o fundamentalismo mais radical – devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais, unificados sob esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros crentes se lançariam então rumo à etapa final – arrebatar o resto do planeta. "Chegará o tempo em que vocês desempenharão papel decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja suprema e as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu ele a seus seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever dos muçulmanos é empregar todas as armas possíveis para atacar os inimigos de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã". Parece coisa de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados no cinema ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante de fanatismo religioso pregada por Laden, porém, tem raízes bem fincadas na história da religião muçulmana, constantemente marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber da palavra mais pura do Corão, de reviver um passado mítico. Esse movimento é chamado, genericamente, de fundamentalismo e está entranhado no próprio código genético do Islã, religião que tem uma visão totalizante do mundo e apresenta um modelo para tudo o que se faz em qualquer das esferas da vida, públicas ou privadas. Na ótica fundamentalista, a união da religião e do Estado é um ideal ordenado por Deus – e sua separação, uma invenção ocidental que provocou o declínio do mundo muçulmano. Para retornar ao "verdadeiro Islã", todas as sociedades muçulmanas devem se unir numa comunidade única, chamada ummah. Tudo isso sob o signo da charia, a lei corânica tal como foi estabelecida há quase 1.400 anos, com castigos coerentes com a

sociedade tribal da época: amputação de membros para os ladrões, decapitação para assassinos ou hereges, apedrejamento para as adúlteras. O modelo a ser seguido é o que vigorou no tempo dos quatro califas, como são chamados os primeiros sucessores diretos do profeta Maomé. Esse passado idílico, um ideal comum às correntes messiânicas de várias religiões, obviamente está mais na imaginação dos fundamentalistas. Na verdade, três dos quatro califas foram assassinados nas violentas disputas sucessórias – a morte do último deles, Ali, produziu a mais conhecida corrente minoritária da religião muçulmana, os xiitas. "Eles dizem que houve um momento na História em que a comunidade social e seus líderes foram perfeitos. Tudo, evidentemente, é uma interpretação muito pessoal do que apresentam como uma verdade eterna", explica o estudioso das religiões Martin E. Marty, da Universidade de Chicago. "No fundo, todas as religiões querem ser absolutamente puras e se consideram o único instrumento de Deus. Nesse anseio, os fundamentalistas se isolam, erguem barreiras psicológicas para se manter a distância. Dessa forma, o mundo fica dividido em dois: os seus seguidores e seus inimigos." Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais. "Aterrorizados por sua visão do mundo contemporâneo, os integristas procuram abrigo e proteção num passado que nunca existiu da forma como imaginam hoje", analisou o iraniano Amir Taheri, autor de dois livros sobre o "terror sagrado".

Chegamos, assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em sua vertente mais extremada: o recurso à violência como meio não só legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente interpretados da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam há séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra. São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis da mesma maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás que lançaram as bases da revolução fundamentalista que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá complementa: "Aqueles que estudam a guerra santa islâmica compreendem por que o Islã quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países subjugados pelo Islã receberão a marca da salvação eterna. Pois eles viverão sob a luz da lei celestial". Quando Osama bin Laden diz que "matar americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever individual de todo muçulmano que tenha condições de fazer isso, em qualquer lugar onde seja possível fazer isso", ele está seguindo exatamente o mesmo raciocínio. É interessante notar que Laden estabeleceu como objetivo número 1 o seu próprio país, a Arábia Saudita. Quer livrar o território saudita da presença contaminadora de militares americanos. A ironia é que na Arábia Saudita já vigora o mais severo fundamentalismo. É um dos poucos países islâmicos onde o Corão é a Constituição e as normas punitivas islâmicas ocupam o lugar do Código Penal. O Irã xiita, que tem relações gélidas com as demais nações muçulmanas, e o Sudão também formam nesse grupo. A unificação e a independência da Arábia Saudita aconteceram sob a bandeira de uma seita chamada wahabita, cujo radicalismo é reproduzido agora no Afeganistão do Talibã. Além de cobrir as mulheres de panos dos pés à cabeça, sem deixar uma única nesga de pele à mostra, os wahabitas têm horror a tudo que lembre remotamente diversão – música, cinema, teatro, até vasos de flores a certa altura foram proibidos. O rei Faisal foi assassinado em 1975 por um sobrinho por ter tomado uma medida muito liberal: depois de um longo debate teológico, liberou a televisão. Bebidas alcoólicas rendem chicotadas em praça pública, a polícia religiosa anda pela rua controlando qualquer desvio. Até uma princesa da família reinante foi executada, por adultério. Pois todo esse rigor, para Laden, não vale nada. Ao permitir que militares americanos se instalassem no país (para proteger os sauditas, e todo seu petróleo, da sanha de Saddam Hussein), a monarquia wahabita se transformou em traidora da fé e merecedora de todos os castigos. É para arrancar os americanos do solo saudita, reverenciado como o berço do profeta Maomé e da revelação divina, que Laden iniciou a campanha de ataques terroristas que culminou com o massacre de Manhattan. O que pode vir em seguida?

Operações espetaculares como os atentados contra os Estados Unidos, estarrecedores tanto por sua magnitude quanto pelas conseqüências em todo o planeta, podem criar a impressão de que o mundo está à beira de ser engolfado pelo fundamentalismo mais ensandecido, com massas de seguidores do profeta tomando o poder de assalto. Na verdade, as duas grandes ondas de apoio popular aconteceram em 1979, com a revolução iraniana, e 1991, quando os integristas ganharam, mas não levaram, as eleições na Argélia. Nos outros países muçulmanos onde existe algum tipo de teste das urnas, os partidos fundamentalistas costumam ter em torno de 20% dos votos. Inseridos no jogo político, acabam envolvidos em projetos nacionais. Isso é exatamente o oposto do que prega o fundamentalismo, que "rejeita violentamente não só o nacionalismo, mas a própria idéia de construir um Estado islâmico num só país", segundo analisa o pesquisador francês Olivier Roy, estudioso do tema. Na visão de Roy, o fundamentalismo "clássico" está em refluxo. Desde 1997, quando aconteceu o massacre dos turistas estrangeiros em Luxor, não acontecem atentados de grande impacto no Egito. A situação acalmou-se na Argélia, a violência brutal dos atentados palestinos contra israelenses acontece contra o pano de fundo de uma luta nacional. E, ironia das ironias, o Irã dos aiatolás tem agora uma convergência de interesses com os Estados Unidos no combate aos talibãs e seu aliado saudita. Para o pesquisador, Laden é uma aberração até mesmo no contexto do fundamentalismo. Seus seguidores, arrancados do grupo familiar e da sociedade de origem, desenraizados e aculturados, "fazem um retorno individual a um Islã abstrato e desligado da realidade social". Reside aí, justamente, seu ponto fraco. Como se diria no jargão de uma outra doutrina fundamentalista, já extinta, eles se afastaram das bases – e por isso estão condenados ao fracasso. Queira Alá que seja verdade.

Tortura cotidiana
10 de outubro de 2001

A lista de horrores já soa, a esta altura, familiar. Meninas proibidas de ir à escola e condenadas ao analfabetismo. Mulheres impedidas de trabalhar e de andar pelas ruas sozinhas. Milhares de viúvas que, sem poder ganhar seu sustento, dependem de esmolas ou simplesmente passam fome. Mulheres com os dedos decepados por pintar as unhas. Casadas, solteiras, velhas ou moças que sejam suspeitas de transgressões – e tudo o que compõe a vida normal é visto como transgressão – são espancadas ou executadas. E por toda parte aquelas imagens que já se tornaram um símbolo: grupos de figuras idênticas, sem forma e sem rosto, cobertas da cabeça aos pés nas suas túnicas – as burqas. Quando o Afeganistão entrou no noticiário por aninhar os terroristas que bombardearam o World Trade Center e o Pentágono, essas cenas de mulheres tratadas como animais voltaram a espantar o Ocidente. Elas vivem em regime de submissão absoluta há muito tempo, mas a situação ficou ainda pior desde que a milícia Talibã tomou o poder no país, em 1996. O cenário de Idade Média não é uma prerrogativa afegã. Trata-se de uma avenida permanentemente aberta aos regimes islâmicos que desejem interpretar os ensinamentos do Corão a ferro e fogo. A isso se dá o nome de fundamentalismo. Há países de islamismo mais flexível, como o Egito, e outros de um rigor extremo, como a Arábia Saudita e, principalmente, o Afeganistão. Para o pensamento ortodoxo muçulmano, a mulher vale menos do que o homem, explica Leila Ahmed, especialista em estudos da mulher e do Oriente Próximo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. "Um 'infiel' pode se converter e se livrar da inferioridade que o separa dos 'fiéis'. Já a inferioridade da mulher é imutável", escreveu Leila num ensaio sobre o tema, em 1992. Por trás dessa situação há uma ironia trágica. A exclusão feminina não está presente nas fundações do islamismo, mas apenas no edifício que se erigiu sobre elas. O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, contém versículos dedicados a deixar claro que, aos olhos de Alá, homens e mulheres são iguais. O mais importante deles é o que está reproduzido nesta página. Ele mostra que Deus espera a mesma fidelidade de ambos os sexos, e que a premiará de forma idêntica. Segundo o dogma islâmico, o Corão é o conjunto de revelações que o profeta Maomé recebeu diretamente de Deus, no século VII. É o mandamento divino, e não uma interpretação qualquer de Sua vontade. Como se explica, então, que idéias tão avançadas tenham se perdido, para dar lugar a Estados religiosos em que as mulheres têm de viver trancafiadas e cobertas por véus, em pleno século XXI? As respostas têm de ser buscadas muito longe, no próprio nascimento do Islã.

Quando tinha 25 anos, Maomé se casou com Khadidja, uma viúva rica que o empregara para supervisionar sua caravana de comércio entre a cidade de Meca, na atual Arábia Saudita, e a Síria. A própria Khadidja, de 40 anos, propôs as núpcias, num arranjo que não era assim tão incomum. Naquela época, a Arábia era uma das poucas regiões do Oriente Médio em que o casamento comandado pelo marido ainda convivia com outros tipos de união. Acredita-se que havia até mulheres que tinham vários maridos – e muitas viviam com considerável autonomia pessoal e financeira. Era o caso de Khadidja, uma negociante experiente. Alguns anos depois de seu casamento, Maomé começou a receber o que seriam revelações de Deus. Julgando-se louco, procurou o conselho da esposa. Ela dispersou suas dúvidas e, para provar sua confiança no marido, converteu-se à nova religião. O primeiro muçulmano foi, assim, uma mulher. Quando Khadidja morreu, Maomé entrou em vários casamentos simultâneos. A mais célebre de suas esposas é Aisha, que tinha 9 anos na ocasião das bodas. Segundo alguns relatos, ela brincava no quintal quando foi chamada para dentro de casa. Lá, encontrou o noivo e foi posta sobre seus joelhos. Os pais da menina se retiraram, e o casamento teria se consumado ali, na casa paterna. Aisha é uma figura central nesses primeiros anos do Islã (cujo calendário começa a ser contado no ano 622 da era cristã). Inteligente, articulada e dona de uma memória prodigiosa, ela foi a mais querida e respeitada das mulheres do profeta – embora todas partilhassem de seus ensinamentos e apoiassem ativamente sua causa. Eram, aliás, tão assediadas por pessoas em busca de favores e influência que talvez por isso tenham sido as primeiras muçulmanas (e, por algum tempo, as únicas) a usar véu e ficar recolhidas em casa – e, ainda assim, só nos últimos anos da vida de Maomé. Aisha tinha 18 anos quando Maomé morreu. Nas quase cinco décadas seguintes de sua vida, ela foi inúmeras vezes consultada em pontos importantes da religião, da política e também da conduta do profeta. Isso porque Maomé legou aos muçulmanos o Corão, que é quase um tratado ético, mas não teve tempo de regulamentar todos os princípios que deveriam reger o cotidiano dos convertidos. Quando vivo, podia ser consultado a qualquer momento. Depois de sua morte, tornou-se tarefa de seus seguidores próximos transferir da memória para a escrita as palavras e ações do profeta. A intenção era que o conjunto servisse de guia aos fiéis. Esses "ditados" são os Hadith. Juntos, eles compõem a tradição maior, a Sunna. Com as complicações surgidas por causa da sucessão de Maomé, os Hadith tornaram-se uma ferramenta crucial. Não era difícil que alguém sacasse um deles para resolver um impasse. E, é claro, não demorou para que muitos fossem forjados. Cerca de 200 anos depois da morte do profeta, um respeitado historiador do islamismo, al-Bukhari, contou 7 275 Hadith genuínos, contra quase 600.000 inventados. Mesmo os tidos como verdadeiros merecem algum escrutínio, argumentam estudiosos como a marroquina Fatima Mernissi. Fatima investigou a origem dos Hadith que são as pedras angulares para justificar a inferioridade feminina no Islã. Um deles é o que compara as

mulheres aos cães e jumentos na sua capacidade de perturbar a oração. Fatima concluiu que o narrador desse Hadith, Abu Hurayra, era um homem com sérios problemas de identidade sexual e um feroz opositor de Aisha, que amiúde o repreendia em público por sua mania de inventar Hadith. Nessa ocasião, ela corrigiu Hurayra, dizendo que o profeta costumava rezar perto de suas mulheres sem nenhum medo de que elas o atrapalhassem. Mas sua versão não passou à história. Outro Hadith que todo muçulmano sabe de cor é o que diz que "aqueles que confiam seus negócios a uma mulher nunca conhecerão a prosperidade". Segundo Fatima Mernissi, o surgimento desse Hadith é ainda mais misterioso. Abu Bakra, seu narrador, lembrou dessa frase do profeta (e pela primeira vez) mais de vinte anos depois de supostamente ela ter sido dita. Curiosamente, veio-lhe à memória (assim ele afirmou) no momento em que Aisha sofreu sua grande derrocada. A viúva do profeta virou o centro de uma crise quando, ao suspeitar de um golpe, pegou em armas para intervir numa das etapas da sucessão de Maomé. Na batalha que se seguiu, perdeu 13.000 de seus soldados e saiu derrotada, em vários sentidos. Foi, primeiro, criticada por ter se exposto de uma maneira inconveniente a uma mulher. E, com a perda de prestígio, teve muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith suprimidos ou ignorados – como no caso daquele que fala dos cães e jumentos. Esses são só alguns exemplos de como a voz feminina, tão valorizada nos primórdios do Islã, começou a se silenciar. A pesquisadora Leila Ahmed tem mais explicações para a opressão das mulheres no Islã. Os muçulmanos, diz ela, costumavam manter os hábitos das regiões onde se firmavam, desde que esses estivessem em sintonia com seu pensamento. O restante era descartado. Na Arábia, por exemplo, eliminaram as outras formas de casamento para que prevalecesse apenas o patriarcal. Quando conquistaram a região que hoje abarca o Irã e o Iraque, assimilaram a prática de formar haréns, o uso disseminado do véu para as mulheres e, principalmente, os mecanismos de repressão feminina que eram uma característica marcante dos povos locais. Foi nesse ambiente altamente misógino que, nos séculos seguintes, o direito islâmico foi elaborado. Separado em escolas que diferem em vários pontos, mas se apresentam como sendo timbres diversos de uma só voz, esse direito é dado como absoluto e imutável. Seus princípios não podem ser questionados nem relativizados à luz de traços culturais. Por isso são, até hoje, um instrumento útil para calar as mulheres em países nos quais vigora o regime teocrático. Um dado complicador é que as muçulmanas têm até hoje um conhecimento muito vago da lei divina. Aderem ao fundamentalismo atraídas pelos ideais de pureza da religião e, quando ele é instaurado, são surpreendidas por seus rigores – a exemplo do que ocorreu no Irã dos aiatolás. Não é pequena a importância de estudos históricos como os de Leila Ahmed e Fatima Mernissi. Eles ajudam a demonstrar que a liberdade feminina não equivale à ocidentalização e à aculturação – ou, em outras palavras, à traição do Islã. Pelo contrário: é possível ser, ao mesmo tempo, uma muçulmana livre e

uma muçulmana fiel. Se a democracia chegou para as mulheres que vivem sob a égide da civilização judaico-cristã, que também não é lá muito célebre por sua visão feminista do mundo, não há por que ela não possa ser almejada pelas muçulmanas que se orgulham de sua religião. Em tempo: um dia, um seguidor de Maomé lhe indagou qual a pessoa que ele mais amava no mundo. "Aisha, minha mulher", respondeu o profeta. Irritado com uma resposta assim, no feminino, o curioso insistiu: "E qual o homem que o senhor mais ama?". Maomé não hesitou. "Abu Bakr. Porque ele é o pai de Aisha."

A igualdade no Corão
"Os submissos e as submissas, os crentes e as crentes, os homens obedientes e as mulheres obedientes, os homens leais e as mulheres leais, os homens perseverantes e as mulheres perseverantes, os homens humildes e as mulheres humildes, os homens caridosos e as mulheres caridosas, os homens que jejuam e as mulheres que jejuam, os homens castos e as mulheres castas, os homens que invocam a Deus com freqüência e as mulheres que invocam a Deus com freqüência – para todos eles, Deus preparou a indulgência e grandes recompensas." (Sura 33:35) DEVERES E PUNIÇÕES Como a lei limitou a vida das muçulmanas no Irã, país quase "liberal" perto do Afeganistão dominado pelo Talibã Em público, as mulheres devem cobrir-se dos pés à cabeça, sob pena de chibata ou prisão. O rosto pode ficar à mostra Não podem participar de atividades sociais com homens solteiros ou que não sejam parentes Em edifícios públicos, usam entradas separadas das dos homens Só podem viajar com autorização expressa do marido Precisam de permissão do pai ou de outro homem responsável para se casar Podem praticar alguns esportes, como futebol ou tênis, desde que vestidas com o xador, e nunca na presença de homens Estão sujeitas ao apedrejamento em caso de adultério Se doentes, têm de ser atendidas por outras mulheres Mulheres divorciadas raramente ficam com os filhos

Do lado errado, de novo
17 de outubro de 2001

MASSA DE MANOBRA Hordas de pobres proclamam fé em Laden, e não estão sozinhos: ricos e instruídos do mundo islâmico também apóiam

Adivinhe de onde partiram as frases abaixo, ditas nos últimos dias por pessoas consultadas por jornalistas estrangeiros: "Osama bin Laden já foi chamado de consciência do Islã. Ele diz e faz o que muitos muçulmanos gostariam de dizer e fazer, mas não podem. Nós gostamos disso, concordamos com ele". "Tem gente que acha que ele é um herói, o muçulmano ideal, o epítome do que um árabe deve ser". "Ele se tornou um símbolo de desafio em face da arrogância americana". Pelos termos empregados, é evidente que não se trata das massas que têm protestado diariamente nas ruas empoeiradas das cidades paquistanesas, pisoteando bandeiras americanas com suas sandálias gastas. Esses pobres pés-sujos, gente ignorante e fanatizada por seus líderes religiosos, identificados pela proximidade territorial e pela etnia com os vizinhos afegãos do Talibã, não usam esse tipo de vocabulário. As declarações acima foram feitas por cidadãos instruídos da Arábia Saudita – respectivamente, um advogado de multinacional com dez anos de estudos nos Estados Unidos, um professor universitário e um jornalista, homens que provavelmente se dariam muito mal se Osama bin Laden implantasse a versão de autoritarismo teocrático que prega para seu país natal, mais fundamentalista ainda do que o sistema em vigor. São opiniões de apenas três pessoas – mas elas refletem o pensamento de milhões e milhões de muçulmanos. "A

esmagadora maioria da sociedade saudita apóia Laden", disse a VEJA Saad al-Fagih, dirigente do Movimento por uma Reforma Islâmica na Arábia, um grupo de oposição à família real saudita com sede em Londres. Osama bin Laden nasceu na Arábia Saudita e está rompido com as autoridades locais porque se opõe à presença de americanos numa base militar que os EUA instalaram no país desde os tempos da Guerra do Golfo. Os sauditas são apenas parte da platéia do terrorista. Do Oriente Médio ou da Ásia Central até a periferia do mundo muçulmano, como a distante Indonésia, chovem as manifestações de apoio a Laden. Essa adesão ao terror é muitas vezes justificada com a ajuda de teorias conspiracionistas ensandecidas. Ora os atentados contra Nova York e Washington foram praticados pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, para lançar os Estados Unidos contra o Islã. Ora tudo foi feito com a conivência dos americanos, de maneira a criar um pretexto que lhes permita se apossar do petróleo e do gás natural da Ásia Central. Os ricos sauditas teriam perdido suas fortunas, seu estilo de vida e até seu país caso os Estados Unidos não os salvassem da gula territorial do iraquiano Saddam Hussein. No entanto, eles se esqueceram disso. Vêem Osama bin Laden como defensor da causa árabe contra os americanos maus, que se instalaram na Arábia Saudita, profanando com sua simples presença o santo solo onde nasceu o Islã. Mas não foi Saddam quem começou tudo há dez anos, quando invadiu o Kuwait e acabou provocando a vinda dos militares "infiéis"? Que nada, respondem, a sério, os sauditas. Foi tudo um plano maligno: os americanos incentivaram o ditador do Iraque a praticar suas perfídias para se infiltrar na Arábia Saudita e, claro, passar a mão no petróleo, sempre o petróleo.

TERRENO FÉRTIL Rodeados de símbolos americanos, policiais e manifestante paquistanês: ódio aos EUA dita escolhas irracionais

Não é de estranhar que, com uma opinião pública assim, mesmo num regime autocrático como o saudita, os poderosos tenham receio de apoiar muito abertamente os Estados Unidos. "Numa democracia ocidental, quem perde o contato com o povo perde a eleição. Numa monarquia, perde a cabeça", filosofou o príncipe Bandar bin Sultan, o eterno embaixador saudita nos EUA. Na Palestina, o semblante lívido de Yasser Arafat é um retrato da aposta arriscadíssima que fez: mesmo ao preço de atrair a antipatia das massas palestinas, ele tem procurado distanciar-se ao máximo de Laden. Arafat, um ex-chefe terrorista que durante algum tempo não pôde pisar em solo americano, chegou a mandar a polícia palestina baixar o cassetete nos manifestantes que saíram às ruas de Gaza para dar apoio a Laden. Arafat, mesmo com seu passado ultra-radical, é um homem experiente e flexível. Tem bom trânsito entre as autoridades do Ocidente e parece entender perfeitamente o que significaria para a causa palestina ter suas aspirações confundidas com as do grupo terrorista de Osama bin Laden. Por isso, quer distância do saudita. No Egito, onde o governo controla tudo e a posição oficial é de cautelosíssimo apoio aos Estados Unidos, as manifestações a favor de Laden são confinadas. Já ocorreu, porém, uma mudança perceptível nos ventos da opinião pública. Laden não era nada popular no país até recentemente, pois seu número 2, o fundamentalista egípcio Aiman al-Zawahiri, comandou a onda de atentados contra turistas estrangeiros que fez encolher uma fonte de renda vital para o Egito. "Agora, as pessoas começam a dizer que ele não é tão ruim assim, é até simpático, tem cara boa", descreve a jornalista Randa Achmawi. Na avaliação dela, a repercussão do vídeo divulgado pela Al Jazira foi simplesmente arrasadora – e o que pesou mais foi a referência à causa palestina, um tema que mobiliza maciçamente os egípcios.

BATALHA DA PROPAGANDA A agitação na Indonésia e o protesto, bem controlado, no Egito: "Laden não é tão ruim, tem cara boa"

Entra aí outro golpe de astúcia de Laden. Após enviar seus seqüestradores suicidas aos massacres em território americano, ele próprio seqüestrou a causa palestina. Depois de sair vitorioso em sua causa inicial – a luta contra os soviéticos que haviam invadido o Afeganistão –, Laden passou a se dedicar, de maneira cada vez mais radical, a outra bandeira: expulsar os americanos instalados em território saudita desde a guerra contra Saddam Hussein. Os documentos, as declarações de guerra santa e os próprios ataques terroristas praticados pela Al Qaeda tinham todos, basicamente, esse objetivo. A questão palestina era mencionada de passagem, no meio de uma lista de queixas abrangente. De repente, no vídeo divulgado há uma semana, logo depois de iniciados os bombardeios no Afeganistão, lá estava Laden, transformado em paladino dos palestinos e das criancinhas iraquianas vitimadas pelo embargo americano, outra causa para a qual nunca deu importância. Trata-se de oportunismo evidente, mas há terreno favorável para isso no mundo muçulmano. Nesse universo de turbantes, instalou-se uma síndrome depressiva, provocada pelo atrito entre um passado de glórias e um presente de fracassos. Os regimes laicos, que prometiam a modernização, terminaram em ditaduras cruéis ou, no mínimo, ineficientes. Os regimes tradicionais, mesmo quando abençoados pelas benesses do petróleo, não conseguiram promover a guinada que traria progresso de verdade. A criação de Israel abriu uma chaga permanente e dolorosa. A esperança de cicatrizá-la com um acordo de paz que dê aos palestinos uma saída pelo menos parcialmente justa sofre um revés atrás do outro – e nenhum regime árabe jamais abriu mão de manipular a causa palestina para desviar as frustrações da massa. O apoio americano a Israel alimenta há décadas a fornalha onde crepita o ódio aos Estados Unidos, um sentimento que comanda escolhas irracionais, em que o inimigo do nosso inimigo é sempre nosso amigo não importam os horrores que faça. A onda pró-Laden que varre os países islâmicos é novidade apenas quanto ao personagem. Há dez anos, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, houve manifestações similares a favor do tirano do Iraque. Essa simpatia não mudou o rumo dos acontecimentos. Saddam foi derrotado pelos americanos. Agora, de novo, muita gente nos países muçulmanos está ficando do lado errado. Do lado, inevitavelmente, do perdedor.

Nada pode. Nem música
24 de outubro de 2001

Wali Jan, chefe da tribo Nurzai, é um dos homens mais importantes da cidade de Kandahar, quartel-general do Talibã. Dono do mercado público, com 1 200 barracas e três séculos de existência, ele é também um dos comerciantes mais infelizes do planeta. Isso porque as restrições impostas pela milícia fundamentalista são tantas que o comércio se vê privado das mercadorias mais valiosas. "Os mulás não param de proibir: televisão, vídeos, pinturas e até mesmo relógios com fotografias", queixou-se Wali Jan a um repórter europeu que visitou a cidade em agosto, pouco antes de o Afeganistão se transformar no campo de batalha da guerra ao terrorismo islâmico. "Não podemos mais vender fitas nem CDs, a não ser as Dez Mais do Talibã, que são terríveis." Desolado, o comerciante procurou o mulá Mohamed Omar, o chefe do Talibã, e perguntou-lhe como, com tantas proibições, o povo podia divertir-se. "Olhem as flores", aconselhou Omar, responsável por algumas das mais bizarras proibições religiosas. O regime do Talibã proíbe soltar pipa e criar passarinho, por exemplo. Em nome de Alá, evidentemente. Há uma explicação mais comezinha para tal absurdo: na opinião de Omar, caçar passarinho ou empinar pipa poderia ser um pretexto para espiar mulheres sem véu no quintal do vizinho. O Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção do Vício, cujo trabalho é erradicar o pecado da forma como é definido pelo Talibã, dedica especial aversão à música e aos instrumentos musicais. Não é permitido ouvir canções no rádio, em aparelho de som em casa ou no toca-fitas do carro nem tocar instrumentos. A posse de fitas e CDs é punida com chibatadas e prisão. A única exceção são os cânticos religiosos sem acompanhamento de instrumentos e as marchas patrióticas transmitidas pela rádio estatal. O mulá Omar sustenta que a música "corrompe a todos, distraindo as pessoas de suas verdadeiras obrigações, que são reverenciar e rezar para Alá". Antes de o Talibã conquistar a maior parte do território do Afeganistão, em 1996, a melosa música romântica dos vizinhos Irã e Índia eram as preferidas dos afegãos. As canções ocidentais também eram populares depois que Cabul foi cenário de um festival internacional patrocinado por uma fábrica de cigarros, nos anos 70. Antes do Talibã, a música estava presente em toda atividade da população, com exceção dos funerais. Com o mesmo fanatismo com que dinamitou imagens

milenares de Buda, o Talibã destruiu os arquivos de música folclórica da rádio Cabul. A ojeriza à música não é uma excentricidade exclusiva dos fanáticos afegãos. Outros regimes fundamentalistas islâmicos acreditam que Alá prefere o silêncio. A atividade musical é restrita na Arábia Saudita. No Sudão, os músicos não podem tocar à noite. Os aiatolás do Irã baniram a música ocidental e proibiram as mulheres de cantar. Não é de espantar que, diante da proibição, as músicas de Madonna, Whitney Houston e Britney Spears sejam as mais requisitadas no próspero mercado negro de CDs de Teerã. Boa parte dessa mania de proibir o entretenimento tem raízes na Arábia Saudita, reino fundado e governado por seguidores de uma seita purista, a Wahabi. Lá, por exemplo, mulheres não podem dirigir automóvel, coisa que fanáticos de outros países procuram imitar. Como se explica tal proibição, visto que o Profeta viveu 1.300 anos antes da invenção desse veículo? "Essa é uma questão da cultura local sem nenhuma relação com o islamismo", explicou a VEJA um diplomata saudita. O modo com que cada fanático interpreta os textos sagrados é motivo de discórdia entre os regimes fundamentalistas. É o caso da lei talibã que obriga os homens a usar barba longa, como a do Profeta, e não é imposta em outros países fundamentalistas. Ou da proibição do cinema, que ocorre na Arábia Saudita e no Afeganistão, mas não no Irã. Há 300 salas de exibição no país dos aiatolás xiitas, e os filmes iranianos são a nova coqueluche entre os cinéfilos descolados. Nesse caso, contudo, trata-se realmente de uma séria questão teológica. Como Alá proibiu ídolos à semelhança do homem, um fanático pode ver sacrilégio em qualquer representação, mesmo em fotografias. Isso nos leva de volta ao infeliz Wali Jan, o chefe tribal de Kandahar. Recentemente, ele importou grande quantidade de sabão da Malásia. Logo que o produto foi colocado à venda, a polícia religiosa talibã percebeu a existência de uma pequena silhueta de mulher num canto da embalagem. O resultado: todo o estoque foi incinerado em praça pública.

A teologia da fanatização
24 de outubro de 2001

As madraçais, escolas islâmicas do Paquistão, são diferentes das outras formadoras de religiosos muçulmanos que se espalham pelo mundo árabe e em algumas partes do Ocidente. São internatos para homens de 5 a 30 anos, todos muito pobres, que permanecem isolados de suas famílias e das notícias do mundo, mergulhados apenas no estudo do Corão e das leis islâmicas. Essas escolas tornaram-se um problemão político no Paquistão e na Índia. É de suas fileiras que saem os mais fanáticos militantes muçulmanos. Acredita-se que muitos dos terroristas do grupo Al Qaeda, de Osama bin Laden, tenham estudado nessas escolas. As madraçais são uma criação do século XI, quando a religião de Maomé já tinha sólidos quatro séculos de existência e era hegemônica numa região enorme do planeta que ia da Ásia Menor ao leste da África. Elas nasceram para formar juízes, professores, matemáticos e astrônomos. Sua função puramente doutrinária era secundária. As madraçais hoje nem de longe lembram suas sisudas ancestrais. No Paquistão há cerca de 7.000 madraçais, que atendem 600.000 alunos. Metade delas ainda consegue manter certa tradição de ensino. A outra metade caiu na teologia da fanatização. Infiltradas por partidos e grupos clandestinos, passaram a formar militantes radicais. Durante a infância e a puberdade eles ouvem todos os dias que o Ocidente é a fonte de todo mal e que a maior glória é morrer por Alá. A politização das madraçais começou em 1979, ano da revolução iraniana e da invasão do Afeganistão pelos soviéticos. Foram dois eventos cruciais. A revolução iraniana marcou a chegada do clero islâmico ao poder político num país de peso. A invasão do Afeganistão pelos soviéticos criou uma resistência armada ao invasor que foi servir-se de combatentes entre os estudantes religiosos. O Talibã, termo que pode ser traduzido por "estudante", nasceu nas madraçais. A multiplicação dessas escolas no Paquistão é também um subproduto da invasão soviética. Milhões de refugiados afegãos cruzaram a fronteira. Isso obrigou o Paquistão a autorizar a criação em massa de escolas religiosas para dar-lhes algum tipo de educação. Essa educação acabou sendo baseada no ódio aos soviéticos – que mais tarde degeneraria em aversão ao Ocidente. "Os jovens saem de nossas madraçais com uma visão de mundo que inclui um compromisso com as lutas islâmicas, armadas ou não", diz Gulzar Khan, ex-comissário para refugiados da fronteira noroeste do Paquistão. "Agora que os Estados Unidos e a Inglaterra declararam guerra a nossos irmãos talibãs, nós todos estamos em guerra", completa Abdul Rashid Ghazi, mulá da famosa

Mesquita Vermelha, de Islamabad, um dos líderes radicais islâmicos do Paquistão. "As madraçais precisam preparar gente para essa guerra." Antes dos atentados terroristas de 11 de setembro, Pervez Musharraf, presidente do Paquistão, dizia que as madraçais eram apenas parte do "sistema de assistência social aos pobres". Depois dos atentados, a pressão internacional forçou-o a uma revisão. Musharraf colocou muitas das escolas islâmicas sob vigilância. "Há influências de extremistas políticos e religiosos em nossas madraçais, por isso temos de mudar nossa estratégia de educação. Estamos propondo às escolas que ensinem outros assuntos, além da religião, a seus alunos, para que os rapazes possam integrar-se à vida do país. Vamos agir para que nossas madraçais não sejam escolas de terrorismo ou de militância política", disse. Estão sob investigação especialmente as escolas de Quetta, cidade vizinha do Afeganistão. "Os moderados da região da fronteira estão preocupados com a reputação das escolas. Nem todas elas, afinal, são formadoras de fanáticos", diz Mansoor Akbar Kundi, professor de ciência política da Universidade do Baluquistão, em Quetta. Segundo o professor Kundi, existem mais de 100 madraçais na cidade e nos arredores. Destas, umas dez são escolas dominadas por "maulanas", ou mestres, comprometidos com a liderança talibã do vizinho Afeganistão. Mesmo assim, nem todos os alunos formados atendem ao apelo para se alistarem nas milícias. Kundi calcula que essas escolas tenham, em média, 250 alunos entre 16 e 22 anos. Apenas duas dezenas deles confessam que vão juntar-se aos guerreiros de Alá. A maioria dos alunos pobres formados em Quetta, embora submetidos a um sistema de lavagem cerebral para livrá-los de "todas as más influências ocidentais", sai das escolas para disputar empregos comuns no governo do Paquistão. "Eles estudam as leis islâmicas, medicina e até administração pública", diz Kundi. As madraçais têm denominações pomposas. Uma delas, encravada na beira do deserto na fronteira noroeste do Paquistão, é famosa por ter formado ou servido de abrigo a diversos líderes do Talibã, entre eles o mulá Omar, chefe supremo do Afeganistão. Ela se chama Jamia Darul Uloom Haqqania. Em árabe, isso significa Universidade do Conhecimento Justo. Só o nome tem pompa, diga-se. A Haqqania mantém permanentemente cerca de duas centenas de alunos. Eles ocupam meia dúzia de dormitórios e se ajeitam em ralos cobertores de lã espalhados sobre o chão de concreto. O currículo é quase totalmente islâmico: o Corão, gramática árabe para ler o Corão e história do Islã e, para variar, matemática. Os alunos das madraçais do Paquistão formam entre os

jovens mais pobres do país. Pais ricos, de classe média ou remediados não mandam os filhos para as madraçais. Como o presidente paquistanês Pervez Musharraf sustentava, elas são mesmo o último recurso de um jovem depauperado de um país islâmico. Muitos se internam apenas pela comida, que é frugal mas nunca falta. Os alunos passam de oito a nove anos vivendo em suas instalações. O Talibã encontrou nesses internatos um terreno fértil de doutrinação. No próprio Afeganistão cerca de trinta dessas escolas se declararam "jihadmadraçais" – ou seja, escolas da guerra santa. "Elas formam um tipo especial de muçulmano, um homem altamente comprometido com a fé", descreve Rehmatullah Kakazada, cônsul-geral do Afeganistão em Karachi, no Paquistão. Elas têm entre 1.000 e 2.000 alunos cada uma. Para muita gente essas jihad-madraçais não passam de campos de treinamento de guerrilheiros e terroristas. Parece uma aposta óbvia. As únicas atividades conhecidas dessas escolas são a leitura do Corão e o intenso treinamento físico e militar. Os americanos as conhecem bem. "Nos tempos da ocupação soviética do Afeganistão eles incentivavam os estudantes religiosos a fazer treinamento militar", diz Hameed Gul, ex-comandante do ISI, o serviço de espionagem do Paquistão. Os governos da região descobriram – ou foram obrigados a descobrir – tarde demais o poder das madraçais. A maior dificuldade em controlá-las está no fato de que as escolas são independentes. Não podem ser vendidas, porque foram construídas e são mantidas com dinheiro doado a título de caridade. Como formam os fiscais do cumprimento da "charia", o código de princípios morais e legais do Islã, são muito poderosas. Na semana passada, o presidente Musharraf, numa tentativa de torná-las mais ecléticas, ofereceu nomear professores de química, matemática e geografia para as 7.000 escolas. Só 700 aceitaram a oferta.

A China e seus talibãs
31 de outubro de 2001

O ISLÃ NA CHINA Uigures em Xinjiang: a China pode contar com o silêncio americano na repressão ao separatismo muçulmano na província

A guerra contra o terrorismo está fazendo a felicidade de um governo inesperado – o da China. Desde que o fundamentalismo islâmico se revelou um cruel inimigo da civilização, o governo de Pequim percebeu que pode tratar com mão pesada as aspirações separatistas de seus próprios muçulmanos, sem que os Estados Unidos reclamem de violação dos direitos humanos. O problema chinês está concentrado na província de Xinjiang, no noroeste do país. A região faz fronteira com oito países da Ásia Central – dois deles, o Paquistão e o Tadjiquistão, diretamente envolvidos no conflito do Afeganistão. Xinjiang é habitada por 8 milhões de uigures, povo muçulmano de língua turca incorporado à China no século XIX. O medo chinês aos uigures é ancestral – barrar o avanço desse povo das estepes foi uma das razões para erguer a Grande Muralha, a construção de 7.300 quilômetros de comprimento que corta o país de leste a oeste e é tão grande que pode ser vista do espaço como uma fita estendida no solo chinês. No momento, o motivo de temor é mais moderno. A China teme que o crescimento do movimento separatista uigur ponha fogo no delicado relacionamento da etnia han (que representa 92% do 1,3 bilhão de chineses) com as muitas minorias existentes no país.

O Partido Comunista chinês sempre viveu às turras com as minorias. Da mesma forma que fez no Tibete, ocupado nos anos 50, a China impôs a Xinjiang um regime cruel, de formato colonialista. Em ambos, tentou suplantar numericamente a população local com a instalação de milhões de colonos chineses. Há cinqüenta anos, os chineses eram 5% da população da província e hoje já são 40%. Também tentou incentivar a miscigenação oferecendo o equivalente a 250 dólares ao uigur que se casar com uma chinesa – mas os casamentos mistos são raros. A religião também é suspeita. Crianças são proibidas de freqüentar a mesquita, e as mulheres com o tradicional véu islâmico não são atendidas em repartições públicas. A província é uma das mais pobres da China, mas passa por um período de acelerado desenvolvimento com a extração de petróleo e o cultivo do algodão. No entanto os chineses ficam com os melhores empregos e os uigures estão cada vez mais pobres. Xinjiang é um lugar estratégico devido a suas riquezas. Corresponde a 15% do território e concentra um terço das reservas de petróleo da China. O dia em que o Uzbequistão, o Turcomenistão e o Casaquistão decidirem exportar petróleo para a China, a província será o corredor natural para os dutos. O resultado da opressão foi que o movimento separatista ganhou impulso na última década. Muitos separatistas entraram em contato com grupos extremistas muçulmanos nos países vizinhos. Outros foram lutar contra os russos na Chechênia. Uns 200 ou 300 acabaram nos campos de treinamento da Al Qaeda, a organização terrorista de Osama bin Laden. Na semana passada, pelo menos quinze deles foram mortos pelos bombardeios americanos nas trincheiras do Talibã perto de Kandahar. Os separatistas se puseram a atacar tropas chinesas e a colocar bombas em ônibus e estações ferroviárias. Pequim reagiu com brutalidade. Cerca de 200 uigures foram fuzilados entre 1997 e 1999. Cinco foram condenados à morte neste mês, um dia antes de o presidente George W. Bush conversar em Xangai com o presidente Jiang Zemin e obter seu apoio para a luta contra o terrorismo. Habitualmente, os Estados Unidos protestam contra os abusos de direitos humanos no Tibete e em Xinjiang. Desta vez, contudo, os americanos contornaram o assunto. O raciocínio é simples: como precisa da ajuda chinesa para combater os fundamentalistas islâmicos, Washington não pode mais reclamar da repressão chinesa aos uigures. A lógica vale também para a Rússia e os separatistas muçulmanos da Chechênia. Todos podem ser tratados sem piedade, como expressões regionais do fanatismo talibã.

A guerra real ao fanatismo
31 de outubro de 2001

MISÉRIA EM MASSA As nações islâmicas tiveram nas duas últimas décadas as mais altas taxas de natalidade do mundo. Em alguns países, a maioria da população é miserável e tem entre 16 e 30 anos: terreno fértil para o fanatismo

No dia 11 de setembro, o mundo assimilou horrorizado os atentados terroristas nos Estados Unidos. Seis semanas depois, já se estabeleceu a convicção de que o episódio está longe de se restringir a meros ataques do terror muçulmano, por mais hediondos que tenham sido. Vive-se nada menos que uma mudança histórica. Enquanto no Afeganistão os militares da aliança ocidental marcham para Cabul, a capital corroída de um dos mais miseráveis países do mundo, o resto do planeta trata de se adaptar mentalmente a um novo panorama internacional no qual não apenas a diplomacia, a economia e a esfera militar sofreram mudanças. Houve também, e principalmente, uma alteração de conceitos. A partir de 11 de setembro, o mundo pensa de forma diferente. "A história voltou das férias", como expressou o articulista George F. Will, da revista semanal americana Newsweek. Nunca, até onde a memória alcança, uma civilização foi tão escrutinada como a muçulmana está sendo nos dias atuais. Uma cultura e uma fé que viviam relegadas à periferia do mundo dito civilizado despertam agora um interesse voraz em pessoas que até outro dia dispunham de pouquíssimas referências sobre o universo islâmico. Os governos das nações poderosas também estão ávidos por entender e agir de forma a evitar uma explosão nas

sociedades dos turbantes que elegeram como seu herói o terrorista Osama bin Laden e como bandeira a guerra santa aos valores ocidentais. Na semana passada, o presidente americano George Bush visitou a China e obteve do rival asiático um inédito "apoio irrestrito" à luta contra o terrorismo. Pela primeira vez, o governo de Israel cedeu às pressões internacionais lideradas pelos americanos e começou a retirar seus tanques da Cisjordânia, que ocupara para vingar o assassinato de um ministro por militantes palestinos. A idéia de criar um Estado palestino saiu em poucos dias da classificação de inaceitável para a de inevitável. Alegando que sua luta perdeu apoio internacional depois dos atentados aos Estados Unidos, o grupo terrorista IRA, movimento revolucionário da Irlanda do Norte, começou, na semana passada, a depor suas armas. É disso que se trata: as engrenagens da História estão se movendo diante dos olhos de uma geração. "As rivalidades locais estão rapidamente perdendo a razão de ser diante das fabulosas mudanças de alcance mundial", disse o pesquisador americano Edward Luttwak, que foi estrategista do Pentágono durante o governo Reagan. A apreciação que Luttwak faz do momento atual é a clássica definição das reviravoltas históricas – acontecimentos de proporções planetárias que empalidecem e magnetizam os eventos menores e os fazem girar em torno do novo centro de atração gravitacional. São momentos transformadores. Um dos mais estudados é o fim do domínio colonialista britânico nos anos 40. O mundo emergiu mudado ao término da II Guerra Mundial. A ordem natural das coisas – que, segundo o ditado popular, incluía "o Sol, as estrelas e o Império Britânico" – era outra. Uma a uma, as colônias inglesas foram se tornando independentes até que, em 1947, os ingleses saíram da Índia, onde estiveram pelos 300 anos precedentes. Desde então, a idéia da ocupação pela força de um país por uma potência estrangeira passou a ser condenada universalmente. O que parecia natural antes passou depois a ser considerado repulsivo. A Guerra Fria foi outro desses momentos definidores. Russos e americanos puseram e depuseram governos, escolheram quem seria herói ou vilão nos países de sua área de influência direta. Com o fim da Guerra Fria, o mundo deu outra guinada. A muitos parecia definitiva. Num artigo quase lendário entre os acadêmicos, o pesquisador americano Francis Fukuyama escreveu que o "fim da História" havia chegado, com a derrota do comunismo real pela queda do Muro de Berlim. O mundo, segundo Fukuyama, nunca mais se debateria com eventos políticos com força sísmica suficiente para mudar completamente sua estrutura. A

democracia liberal e sua base material de sustentação, a economia de mercado, tinham vencido definitivamente. Na semana passada, Fukuyama escreveu ao Wall Street Journal para sustentar com brilhantismo que sua tese permanece de pé, "pois o islamismo radical jamais será uma alternativa viável de sociedade para o Ocidente". No mesmo artigo, ele reconhece, no entanto, que não se pode classificar o atual momento em que vivemos senão de "histórico". Os analistas começam agora a se perguntar que tipo de mundo vai emergir do pós-guerra ao terror. Não existem respostas simples. Até porque se está no epicentro do turbilhão transformador. É quase impossível enxergar os eventos com imparcialidade e distanciamento. Mas algumas tendências muito fortes estão emergindo de forma distinta. A mais interessante delas é a constatação de que pode estar para começar a mais justa de todas as guerras, aquela que, pela primeira vez, vai cuidar da distribuição mais eqüitativa da renda, da saúde, da educação e da democracia. "A vitória contra Laden, se e quando vier, não será o fim da ameaça terrorista aos Estados Unidos. Essa ameaça só vai ceder se for bem-sucedido um esforço profundo por parte dos americanos e do Ocidente para aliviar a miséria no mundo em desenvolvimento", escreveu Anthony Lewis no jornal americano The New York Times. O presidente Fernando Henrique Cardoso definiu esse esforço como uma atitude imprescindível. Ele o chamou de "globalização solidária". Anteriormente a 11 de setembro essa pregação seria considerada utópica, inalcançável. Agora, a ordem entre os países poderosos parece ser agir antes que o pior aconteça. Até 11 de setembro prevalecia a idéia de que, cedo ou tarde, os países pobres seriam bafejados pela brisa modernizante da democracia e da economia de mercado. Essa concepção está liquidada. "Estávamos tentando ensinar os países a correr, quando muitos deles mal podiam caminhar", disse James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial. Não se trata da adesão repentina a uma visão caridosa dos países e dos povos que foram deixados para trás na corrida da modernização e do bem-estar. Tampouco se está diante da rendição à idéia de que o terrorismo é produto direto da miséria dos países islâmicos. O ódio ao Ocidente, a seus liberalismos e ao esbanjamento material é, sem dúvida, um ingrediente da insatisfação popular no mundo islâmico. Mas o ato terrorista em si é um crime complexo, frio e calculista. É o resultado de uma ideologia fascista, em geral amparada logisticamente por governos criminosos. Fossem a miséria e a opressão o alvo do terrorismo islâmico, o mais razoável seria que ele se tivesse abatido sobre Saddam Hussein, o

ditador do Iraque, ou a família real da Arábia Saudita. Saddam já matou mais muçulmanos dissidentes que a intervenção americana no Oriente. A monarquia saudita concentra entre seus familiares 40% do PIB do país que governa com poderes ditatoriais, uma apropriação de riqueza indecente que se repete em vários países muçulmanos, como no sultanato asiático de Brunei, onde tudo o que se produz pertence à casa governante. A mudança de mentalidade que parece estar em curso nas lideranças dos países ricos visa a aliviar as tensões que não justificam o terrorismo diretamente, mas acabam por insuflá-lo. "É urgente começar a ouvir os países pobres, os não-ocidentais. É preciso evitar um novo apartheid a todo custo", disse Samuel Huntington, o famoso professor de Harvard e autor da tese do "choque das civilizações". Nenhum país islâmico fez a transição do Terceiro para o Primeiro Mundo. Poucos países africanos fizeram a transição do Quarto para o Terceiro Mundo. Essa ascensão não é impossível. Taiwan, Hong Kong, Coréia do Sul e Cingapura a realizaram. Imaginava-se que cedo ou tarde também as nações africanas e islâmicas radicais tenderiam a se modernizar e, nesse processo, seriam naturalmente apaziguadas. Essa idéia também morreu. Em parte porque as sociedades islâmicas são resistentes à mudança. As africanas também. "Ambas as regiões não podem modernizar-se sem perder sua identidade. Esse é o problema central", diz Huntington. O que fazer, então? Não há opção a não ser pela ajuda desinteressada, sem impor a condição de que o país beneficiado abra suas portas para a cultura e a economia do mundo globalizado. Os Estados Unidos reservam apenas 0,1% de seu PIB para a assistência aos países pobres. Os ricos europeus e asiáticos não fazem coisa diferente. Do discurso à prática já houve avanços. O Banco Mundial está preconizando um aumento substancial na ajuda às nações carentes. Está-se armando uma ofensiva internacional para combater a Aids na África. Ganha força até mesmo a proposta de que a dívida externa dos países miseráveis terá de ser perdoada em sua totalidade. O governo americano parece sensível à idéia já arraigada na opinião pública de que da sorte da centena de milhares de refugiados afegãos vai depender o rumo da guerra ao terror. Se os americanos fracassarem na ajuda humanitária imediata, estarão mandando um péssimo sinal ao resto do mundo. Na nova ordem isso é intolerável.

Reino da fantasia
14 de novembro de 2001
Os Estados Unidos estão em guerra com a rede terrorista comandada por Osama bin Laden, mas a monarquia saudita, a maior interessada em cortar as asas desse ex-compatriota que lhe devota ódio assassino, tem concentrado forças sobre um outro inimigo: a imprensa americana. A fúria é tamanha que pôs em campo no início da semana passada o próprio príncipe herdeiro Abdullah, na prática a autoridade máxima do país em razão da semiaposentadoria de seu irmão, o rei Fahd, eternamente doente e mais interessado em contemplar os peixes que nadam atrás do vidro do gigantesco aquário subterrâneo montado em seu palácio de 3 bilhões de dólares. Recorrendo ao vocabulário consagrado pelos regimes autoritários, Abdullah acusou a imprensa de mover uma campanha de difamação contra a Arábia Saudita – e, para complicar uma questão já complexa, meteu a religião no meio. "A campanha feroz da mídia ocidental contra o reino não passa de uma manifestação de seu ódio pelo sistema islâmico", acusou o príncipe. A diatribe de Abdullah, um homem de 77 anos e cabeça em geral tão fria quanto seus olhos azuis, foi desencadeada por um artigo do Wall Street Journal propondo que os Estados Unidos simplesmente rompam o relacionamento estratégico com a Arábia Saudita e abandonem os xeques do petróleo à própria sorte, nem que seja ao preço de vê-los trocados por um regime hostil e mais fundamentalista ainda. O artigo reproduz a exasperação de uma corrente do pensamento político americano ante a ambigüidade dos sauditas, aliados relutantes dos Estados Unidos. Com uma mão, os governantes da Arábia Saudita empenham toda a cooperação no combate ao terrorismo. Com a outra, não conseguem, ou não querem, desenredar a tortuosa teia de interesses que os mantém conectados aos islamitas mais radicais, inclusive a Al Qaeda de Osama bin Laden, o homem que gostaria de exibir as cabeças da família real enfileiradas como quibes numa bandeja. Romper com os sauditas e largar mão de todo aquele petróleo? "Eles estão cheios de dívidas e precisam dos petrodólares tanto quanto os países ocidentais precisam do petróleo. Um embargo por motivos políticos pode jogar o mundo desenvolvido na recessão, mas os países ocidentais se sairiam melhor que as nações do Golfo", provocou o Wall Street (o tom de valentia fica até amenizado diante de gente mais exaltada, como o jornal New York Post, que, num surto de talibanismo, também propôs a ruptura com os sauditas, mas acompanhada de uma ocupação dos campos petrolíferos, equivalente a uma declaração de guerra). O nó no relacionamento entre os dois países, tão mutuamente crucial, ainda mais neste momento, retrata as contradições que estão na própria gênese nacional do reino saudita, unificado no início do século XX sob a espada de Abdul Aziz ibn Saud, o fundador da dinastia no poder, e a bandeira verde-Islã de uma seita fundamentalista nascida nos rigores do deserto, os wahabitas. Desde

então, o clã Al Saud oscila em constante movimento pendular. De um lado, deriva sua legitimidade da condição de guardião dos lugares santos, Meca e Medina, e do compromisso, que está na origem do wahabismo, de propagar sua puritaníssima versão do islamismo. Para cumprir esse compromisso, e comprar a boa vontade dos ultrafundamentalistas que vivem rosnando em seus calcanhares, a família reinante sempre foi a maior fornecedora de dinheiro às associações beneficentes que servem de fachada para os islamitas em todo o mundo muçulmano. Quando os soviéticos invadiram o Afeganistão, na virada dos anos 80, os Estados Unidos recorreram à dinheirama saudita para rachar os custos da campanha de resistência aos infiéis comunistas. Além dos petrodólares, a Arábia Saudita também mandou batalhões de jovens idealistas, dispostos a se sacrificar na Jihad, entre eles um certo Osama bin Laden – e o resto da história já é sobejamente conhecido. O outro movimento do pêndulo empurra a Arábia Saudita para a modernização, nem que seja a versão trôpega que lhe valeu o apelido de "reino da fantasia". Também a empurra para o alinhamento com os países ocidentais que lhe compram o petróleo e em direção ao regaço seguro da superpotência americana. A dependência ficou clara quando Saddam Hussein deglutiu o Kuwait e, encostadinho na fronteira saudita, já se preparava para traçar os miraculosos campos onde jaz um quarto das reservas mundiais de petróleo. Sem os americanos e a surra que aplicaram nas tropas de Saddam, toda a fulgurante riqueza dos sauditas iria para o fundo do ralo, junto com a família real, os palácios de mármore, as fontes onde Exércitos inteiros poderiam se banhar em pleno deserto, os fabulosos shopping centers onde mulheres cobertas da cabeça aos pés torram milhões, as faraônicas obras em Meca e Medina (17 bilhões de dólares até agora, em grande parte destinados a um certo Binladin Group, a empresa da família do próprio). Dez anos depois, no entanto, é praticamente impossível achar o mais remoto resquício, se não de gratidão, pelo menos de algum reconhecimento. Ao contrário, em todas as esferas da vida nacional, dos príncipes Al Saud à imprensa oficial, dos ulemás aos professores universitários, grassa o mais indisfarçado antiamericanismo. Pouco antes dos atentados de setembro, o príncipe Abdullah mandou uma carta a George W. Bush na qual dizia que as relações bilaterais se encontravam numa "encruzilhada" e estava na hora de cada um dos países cuidar dos próprios interesses. Foi essa ameaça de ruptura branca que propiciou o artigo desaforado do Wall Street Journal propondo ao governo americano aceitar o desafio e mandar os sauditas passear. Bush, obviamente, não vai fazer nada disso – ao contrário, telefonou para afagar o ego de Abdullah. A Arábia Saudita é mais um dos aliados fundamentais na campanha contra os loucos de Alá que querem incendiar o mundo na fogueira integrista. Nessa condição, os sauditas podem abusar. Por enquanto.

Era como na Idade Média
28 de novembro de 2001

LUZ DO SOL Centenas de mulheres sem a burca se reuniram em Cabul, na terça-feira passada, e exigiram o direito de trabalhar. Muitas delas ousaram exibir unhas pintadas

O mundo sombrio criado pelo Talibã estava reduzido, na sexta-feira passada, a uma nesga de território no sul do Afeganistão e a uma última fortaleza no norte, Kondoz, cercada e negociando a rendição. Em algum grotão continuava escondido o terrorista Osama bin Laden, com suas quatro mulheres. No restante do país, a população começava rapidamente a tirar vantagem da libertação. Televisores e videocassetes reapareceram nas prateleiras das lojas, homens fizeram fila nas barbearias para raspar a barba, a primeira sessão de cinema em Cabul atraiu uma multidão. Como se fosse celebração, viram-se pipas – um passatempo popular proibido por anos – voar alto sobre as casas. Nos bazares e táxis de Cabul, ouve-se música alta pela primeira vez desde 1996. O pesadelo do obscurantismo medieval, contudo, ainda paira como uma advertência sobre o Afeganistão. A lembrança do cotidiano de terror está bem viva. O futuro é incerto e depende de chefes tribais acostumados a fazer as próprias leis. Não há no Afeganistão uma revolução feminista queimando burcas. Mas se a esperança de um futuro civilizado pode ser personalizada, reside no rosto de centenas de mulheres que, na terça-feira da semana passada, se reuniram em Cabul para exigir o direito de trabalhar. O Talibã as tinha proibido de exercer qualquer profissão, exceto a medicina. Também as obrigava a andar

cobertas dos pés à cabeça. Num cenário desses, a simples exibição à luz do sol de rostos femininos já é um progresso considerável. O fato é que as mudanças nas cidades liberadas pelo avanço da Aliança do Norte têm sido rápidas em várias facetas. Não se trata, contudo, de fazer a sociedade afegã funcionar da noite para o dia de acordo com os padrões modernos de democracia e liberdade. Liberdade no Afeganistão é, para citar um exemplo banal, o direito de expor a foto do vovô na parede. Só agora, com jornalistas estrangeiros podendo circular pelas cidades afegãs, se conhece com detalhes mais vívidos como foi assustador o cotidiano sob o regime dos mulás no Afeganistão. Amy Waldman, repórter do jornal The New York Times, examinou na semana passada os registros da prisão mantida em Herat pelo Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção do Vício. Ali encontrou burocraticamente anotadas 3.183 prisões de sapateiros, engraxates, vendedores de óleo de cozinha e alfaiates, surpreendidos fazendo negócios no horário das orações de sexta-feira. Há também o registro de homens punidos com alguns dias de detenção por usar a barba curta demais ou exibir um penteado "à beatle" (estes tiveram a cabeça raspada). A burocracia do Talibã, escreveu Waldman, foi inepta em todas as áreas da administração, exceto numa: a aplicação sem piedade do código penal imposto pelo líder da milícia, o mulá Mohamed Omar. A leitura desse código é, pode-se dizer, um passeio revelador por sua mente perturbada. Por razões que Freud explicaria melhor, o mulá se preocupava acima de tudo com o confinamento das mulheres.

O LEÃO DE CABUL Marjan, o leão solitário do zoológico de Cabul, matou um talibã que invadira sua jaula para demonstrar bravura. O irmão do morto vingou-se com uma granada, que tirou um olho e deformou o focinho do animal

O primeiro artigo do código trata exatamente do uso do véu. Se dil;ão, exceto numa: a aplicação sem piedade do código penal imposto pelo líder da milícia, o mulá Mohamed Omar. A leitura desse código é, pode-se dizer, um passeio revelador por sua mente perturbada. Por razões que Freud explicaria melhor, o mulá se preocupava acima de tudo com o confinamento das mulheres. O primeiro artigo do código trata exatamente do uso do véu. Se alguma mulher mostrasse o rosto em público, "sua casa seria marcada e seu marido punido". Mulheres não podiam ser tratadas por médicos do sexo

masculino e, por causa disso, muitas pacientes morriam por falta de atendimento mesmo quando conseguiam chegar a um dos raros postos de saúde. Todas estavam proibidas de falar com homens que não fossem da família. Não podiam rir alto, aparecer em manifestações públicas, usar cores fortes, praticar esportes nem estudar. Todos os nomes de lugares públicos que tinham a palavra "mulher" foram trocados. Exemplo: O Jardim das Mulheres foi rebatizado de O Jardim da Primavera. Espancar mulheres por razões disciplinares era um fenômeno rotineiro no regime Talibã. A polícia religiosa usava o chicote se visse algum tornozelo pela rua. Mulher que usasse salto alto e barulhento, ou meias finas demais, também entrava na chibata. O Unicef, órgão das Nações Unidas para a infância, organizou uma conferência sobre o direito da criança em Cabul, em 1999. Quando os agentes do Ministério para a Propagação da Virtude e da Prevenção do Vício chegaram, momentos antes do início do evento, acharam que o lençol que separava homens e mulheres era insuficiente. Às pressas, os organizadores tiveram de realizar a reunião em duas salas. "Os conferencistas ficaram correndo entre o 1º e o 2º andar", contou a VEJA a americana Paula Claycomb, que foi coordenadora de comunicação do projeto do Unicef no Afeganistão. Com furor fanático, os clérigos talibãs se voltaram contra 2.750 peças do acervo do Museu Nacional de Cabul no ano passado. As esculturas foram destruídas a pedradas e machadadas, numa operação comandada pessoalmente pelo ministro da Cultura e o das Finanças. As obras antigas retratavam seres vivos – o que, de acordo com a interpretação do Talibã, é uma forma de idolatria. Um arqueólogo e um historiador do museu foram obrigados, com dor no coração, a acompanhar a destruição. Meses depois, em março deste ano, o Talibã destruiu com dinamite duas imagens gigantescas de Buda, cavadas em pedra entre os séculos III e V, que constituíam o principal patrimônio arqueológico do Afeganistão. Nada era deixado ao acaso ou à imaginação dos afegãos. A embalagem de produtos importados era examinada e todas a imagens precisavam ser cobertas com tinta ou rasgadas, sobretudo as femininas. O código penal do mulá Omar inclui uma impressionante lista de "coisas impuras", entre elas música e esmalte de unha. Todas as pessoas com nome considerado não islâmico tiveram de trocá-lo. Aqueles que criavam pombos iam para a cadeia até que os "pombos sumissem de sua casa". Quem vendesse uma pipa era condenado a três dias de cadeia. A curiosa explicação para a proibição das pipas, um passatempo popular no Afeganistão, era o temor de que alguém se aproveitasse para subir no muro ou no telhado e, assim, espiar as mulheres no quintal do vizinho.

A maior parte dos dirigentes afegãos era formada por homens criados em aldeias, sem instrução formal. Em Herat, a repórter americana Amy Waldman foi informada de que a única preocupação do governador-geral da província era se os funcionários tinham a cabeça raspada, usavam barba longa e turbante e faziam as orações na hora certa. Não à toa, a administração do país virou um caos. O comportamento dos milicianos, fanáticos e analfabetos, era imprevisível. Para demonstrar bravura, um deles pulou dentro da jaula de "Marjan", o solitário leão do Zoológico de Cabul, que, faminto, comeu o invasor. Fiel ao código de honra afegão, o irmão do morto vingou-se jogando uma granada no animal, que perdeu um olho na explosão. A população aprendeu a dissimular. Esmalte de unha, instrumentos musicais, gravadores, CD-players, fitas, televisores e tudo o mais que apareceu de repente nas lojas afegãs depois da derrocada talibã já estavam por lá, só que ocultados. "As pessoas freqüentavam salões de beleza clandestinos e faziam festas, ouviam música e tocavam instrumentos às escondidas. Mas tomavam o cuidado de colocar colchões na porta para abafar o som", contou a VEJA o paquistanês Ahmed Rashid, autor de um respeitado livro sobre o Talibã.

Muitas famílias não aceitavam pacificamente a decisão de proibir as mulheres de ensinar e estudar. Sobretudo no norte do Afeganistão, tradicionalmente os pais se orgulhavam de mandar as filhas para a escola. Estima-se que 30.000 meninas estudavam em 600 escolas clandestinas só na região fronteiriça com o Paquistão. Em algumas regiões, os governantes muitas vezes faziam vista grossa. "O Talibã sabia que dávamos apoio material a escolas informais em Cabul", disse a VEJA o alemão Rudy von Bernuth, vice-presidente da organização não-governamental Save the Children. É irreal imaginar que a sociedade afegã possa ser modernizada da noite para o dia. Na quartafeira da semana passada, o fétido Rio Cabul, que corta a capital, estava cheio de mulheres lavando roupa em público – coisa que o Talibã proibia expressamente. Diante da surpresa dos jornalistas, uma delas apressou-se em explicar, por trás da burca: "Estou aqui porque não tenho água em casa". A vida no Afeganistão está mais leve, mas continua um pesadelo.

MERCADORIAS O comércio afegão ganha nova vida sem as restrições do Talibã. Em Herat, perto da fronteira com o Irã, comerciante reabriu loja de televisores

PRIMEIRA SESSÃO Depois de cinco anos sem irem ao cinema, moradores de Cabul disputaram um lugar na primeira sessão. O programa foi duplo: um filme de guerra afegão e um novelão indiano

Censura eletrônica
28 de novembro de 2001 Como tudo o que representa uma revolução, a internet também tem inimigos. Um deles é a Arábia Saudita, que acaba de abrir concorrência para substituir seus programas de vigilância da rede mundial. Os sauditas têm um computador central por onde passam todas as conexões à web feitas no país. A idéia é modernizar um sistema que impede que determinados endereços sejam acessados. Esse bloqueio visa a evitar a exibição de mulheres nuas, debates sobre o Islã e críticas à família real. É censura. É também um negócio que atraiu fabricantes de software de todo o mundo, alguns se oferecendo para trabalhar de graça. A empresa vencedora deverá faturar 8 milhões de dólares por ano. O dinheiro é o de menos. O ganhador da concorrência conquistará uma vitrine para se exibir a dezenas de outros países e a milhares de entidades que desejam controlar, em níveis variados, o que as pessoas podem ou não acessar. A censura eletrônica também é praticada em Cuba. Na ilha de Fidel Castro, a internet é restrita a sites escolhidos pelo governo, como uma espécie de rede local, acessível a quem tem autorização especial. Na China, a restrição é feita por fiscais que monitoram os cibercafés. Usuários domésticos, vigiados eletronicamente, acabam presos se flagrados navegando em páginas proibidas. A um custo entre 5 e 15 dólares por usuário a ser reprimido, qualquer ditadura poderá contratar os serviços de quem vencer a concorrência. Esses sistemas vasculham cada página colocada na rede. Palavras-chave e a origem de determinadas páginas levam ao bloqueio. Como guerrilheiros virtuais, dezenas de sites tentam furar essas barreiras mudando de locação, de nome e de apresentação. Na Somália, eram tantos desses sites que na semana passada os Estados Unidos cortaram o acesso do país à rede, desconectando um cabo de transmissão. A tecnologia de controle pode ter um bom uso, aplicada, por exemplo, como filtro para material criminoso. O Exército americano já usa esquema parecido. Na Alemanha, há mercado para qualquer coisa que controle propaganda nazista. "Esse é um ramo excelente de negócios", define Geoff Haggart, vice-presidente da Websense, uma das empresas de softwares desse tipo.

A derrota do terror
12 de dezembro de 2001

TALIBÃ HUMILHADO Derrotados na batalha de Mazar-e-Sharif, no norte do Afeganistão, 3 350 talibãs se amontoam num presídio da Aliança do Norte: anistia não beneficiará estrangeiros recrutados por Laden

O mulá Mohamed Omar, chefe do Talibã, convocou seus seguidores a lutar até a morte em Kandahar, capital espiritual e última fortaleza da milícia afegã. Pessoalmente, o Comandante dos Fiéis, como o barbudo de um só olho é chamado, adotou outra estratégia. Negociou com o inimigo a rendição e fugiu da cidade no meio da noite, para evitar a inevitável punição pelo barbarismo do regime que comandou. Ninguém sabe quantos homens o acompanharam nessa jornada final – mas isso não preocupa ninguém, pois Omar é um personagem cuja importância se esvai junto com seu regime. O que se viu foram bandos talibãs aproveitando para saquear a cidade e escapar carregados de mercadorias roubadas. Terminou assim, sem os propalados atos de martírio ou heroísmo, o reinado da milícia que durante cinco anos impôs um regime de pesadelo fanático à maioria dos afegãos. A derrota do Talibã, agora reduzido a uns poucos bolsões recalcitrantes, não é o fim da guerra no Afeganistão, que continua dilacerado pelas rixas entre tribos e facções guerreiras. Mas, no que diz respeito à campanha movida naquele país pelos Estados Unidos, na sexta-feira passada só restava completar um objetivo essencial: a captura ou morte de Osama bin Laden, o homem que orquestrou os atentados contra Nova York e Washington em setembro.

Sem a proteção do Talibã, Laden via-se, na sexta-feira passada, na condição miserável de ser um fugitivo em meio à neve que cai nas montanhas do sudeste do Afeganistão. No dia anterior, a soldadesca da Aliança do Norte vasculhou Tora Bora, a fortaleza encravada nas rochas, e tomou a principal base usada pelo terrorista saudita e sua organização, a Al Qaeda. Esse complexo de cavernas a 56 quilômetros da cidade de Jalalabad foi construído com a ajuda dos Estados Unidos, quando os afegãos combatiam as tropas soviéticas nos anos 80. O conhecimento daquela época foi de grande ajuda, pois permitiu nas últimas semanas que os bombardeiros B-52 acertassem com grande precisão bombas poderosas no interior das cavernas. Os bombardeios mataram o braço direito de Laden, o egípcio Aiman al-Zawahiri, e, suspeita-se, outros caciques importantes do terror. Mulheres e crianças, provavelmente familiares deixados para trás pelos terroristas árabes, foram aprisionadas – mas não se viu sinal do terrorista-chefe. A suspeita, até a sexta-feira à noite, era que ele tenha fugido em direção ao sul, tentando alcançar a fronteira com o Paquistão. Ou, como fizeram muitos combatentes estrangeiros, árabes e paquistaneses na maioria, tivesse se entrincheirado em algum lugar alto, esperando por uma oportunidade de escapar ao cerco. O terrorista não tem de se preocupar apenas com os soldados das forças especiais americanas. Dois chefes tribais competiam para ver qual deles iria capturar ou matar Laden e reivindicar a recompensa de 25 milhões de dólares oferecida pelo governo dos Estados Unidos.

FIM DO SONHO Voluntários estrangeiros que lutaram pelo Talibã detidos no norte afegão: abandonados à própria sorte

VITÓRIA RÁPIDA Fuzileiros em trincheiras perto de Kandahar: apoio logístico às milícias antiTalibã e poucas baixas no Afeganistão

A derrocada do Talibã ocorreu apenas três meses depois que os atentados nos Estados Unidos iniciaram a guerra e dois meses após começarem os bombardeios americanos no Afeganistão. É igualmente boa notícia a comprovação de que o fanatismo do regime e de seus hóspedes estrangeiros tornou-se tremendamente impopular entre os afegãos. O Talibã foi um governante brutal. Seus mulás tomaram ao pé da letra o memorável pronunciamento do aiatolá Khomeini – "Não há diversão no Islã". Eles baniram as pipas, a música, a televisão e proibiram as mulheres de estudar ou trabalhar. Os ladrões tinham as mãos amputadas, adúlteras eram apedrejadas até a morte e assassinos eram executados pessoalmente por familiares da vítima. A guerra no Afeganistão foi cheia de surpresas. Até um legítimo americano foi encontrado lutando ao lado dos talibãs. Nascido em Washington, John Philip Walker Lindh, de 20 anos, que se converteu ao islamismo aos 16, foi um dos oitenta sobreviventes da rebelião talibã numa prisão perto de Mazar-e-Sharif, a principal cidade na região norte do Afeganistão. A vida pós-Talibã também já começou a ser organizada. A maior dor de cabeça é como pacificar o país de modo que deixe de ser um terreno fértil para o surgimento e o treinamento de terroristas. A dificuldade não reside na geografia difícil ou na pobreza massacrante da maioria da população depois de duas décadas de guerras. O problema real é a fragmentação do país em tribos, clãs e facções rivais, todos querendo tirar proveito da situação. Hamid Karzai, o homem que negociou a rendição do mulá Omar, foi escolhido numa assembléia de líderes afegãos na Alemanha como chefe de um governo provisório. Sua missão é convocar dentro de seis meses uma assembléia de líderes tribais, a Loya Jirga. Como chefe do poderoso clã Popalzai, que por séculos esteve ligado à realeza afegã, Karzai tem o pedigree certo para o cargo. Bem à moda afegã, o acerto foi logo rejeitado por dois dos mais poderosos chefes de milícia, cada um deles entrincheirado em seu próprio feudo. Mal o Talibã depôs armas, guerreiros de dois líderes tribais vitoriosos começaram a trocar tiros nas ruas de Kandahar. Os Estados Unidos têm agora uma substancial presença militar em solo, com dois milhares de soldados no país. Mas eles devem manter-se distantes da anarquia afegã e se concentrar no que realmente interessa: Osama bin Laden.

O TALIBÃ AMERICANO Walker, ao ser preso (à esq.), e com o pai antes de entrar para o Talibã: convertido e fanático

Nunca antes uma personalidade foi apresentada ao mundo com tamanho estrondo quanto Laden. Em poucos dias, o rosto moreno desse saudita se tornou conhecido no mundo inteiro. Da infância de menino rico na Arábia Saudita ao comando de uma rede terrorista de dimensões globais, a trajetória de Laden desperta a curiosidade geral. Poucos ocidentais o conhecem tão bem quanto o jornalista americano Peter Bergen. Produtor da rede de televisão CNN, ele encontrou o milionário saudita no início de 1997, para uma entrevista feita pelo premiado repórter Peter Arnett. Desde então, Bergen conduziu uma grande investigação sobre os bastidores da Al Qaeda e a vida do homem mais procurado do mundo. Em sua edição de dezembro, a revista americana Vanity Fair publicou trechos de um livro sobre o assunto escrito por Bergen que estará em breve nas livrarias. No texto, ele conta detalhes do encontro que teve com Laden nas montanhas do Afeganistão. Ao desembarcar no aeroporto de Islamabad, a equipe de TV entrou numa van para atravessar a fronteira com o Afeganistão. Três homens armados fecharam as cortinas do carro onde estavam os jornalistas e perguntaram se estavam usando um rastreador. Disseram que se estivessem com o aparelho e contassem a verdade não haveria problemas. Caso contrário, seriam executados. Depois de passar por um terreno montanhoso, a equipe chegou a um pequeno platô.

AMIGO DO REI Hamid Karzai, chefe de clã e ligado ao rei exilado: no comando de um governo provisório

Osama bin Laden apareceu por volta da meia-noite, acompanhado de um tradutor e vários guarda-costas. Entrou apoiado numa bengala e usava um turbante. Sobre a túnica, vestia uma jaqueta camuflada. Sentou-se próximo de um rifle Kalashnikov. "Ele pertencia a um russo que matei", disse Laden. Como era de esperar, começou a discursar sobre as injustiças cometidas contra os muçulmanos e sobre como seu país, a Arábia Saudita, prejudicava o islamismo por ser leal aos Estados Unidos. Com uma tosse fraca e intermitente, falava enquanto tomava chá. Disse que os Estados Unidos eram responsáveis pela morte de palestinos, libaneses e iraquianos, entre outros cidadãos do mundo árabe. Por isso, declarara guerra santa aos americanos. A seguir, veio a descrição de seu ideal de globalização: a restauração de um grande califado do porte do que fora, um dia, o Império Otomano, desfeito depois da I Guerra. Bergen conta que Laden surpreendeu a todos quando admitiu que árabes ligados a seu grupo terrorista estavam envolvidos na morte de tropas americanas na Somália, em 1993. Com a graça de Alá, Laden disse, muçulmanos na Somália cooperaram com alguns guerreiros árabes no combate que matou dezoito soldados americanos. Depois da entrevista, o líder saudita serviu gentilmente à equipe uma xícara de chá e posou de forma muito simpática para fotos. Tendo herdado do pai empreiteiro uma fortuna apreciável, Laden resolveu abandonar a vida de ricaço na Arábia Saudita e aos 22 anos foi para o Afeganistão lutar contra os soviéticos que invadiram o país em 1979. A notícia de que ele estava na região e os relatos a seu respeito provocaram uma avalanche de jovens entusiasmados com a causa. Ele era descrito como um herói que abandonou os palácios e o estilo de vida luxuoso de Jidá para juntar-se aos miseráveis afegãos. Foi daí que surgiu a Al Qaeda, que depois se ramificou por dezenas de países. Logo após a guerra no Afeganistão contra a União Soviética, Laden disse: "Essa guerra acabou com o mito de que as superpotências eram invencíveis. Isso aconteceu não só na minha cabeça como na de todos os muçulmanos". E continuou: "Nós achamos que os Estados Unidos são ainda mais fracos que a União Soviética". Deve ter mudado de idéia.

Pobres, fracos e ignorantes
31 de julho de 2002

Assim são os muçulmanos, na visão de Bernard Lewis

Pobres, fracos e ignorantes. É como o historiador inglês Bernard Lewis define os muçulmanos em O Que Deu Errado no Oriente Médio? (tradução de Maria Luiza Borges; Jorge Zahar; 204 páginas; 24 reais). Pobres: só produzem combustíveis fósseis, extraídos com tecnologia ocidental. Fracos: perdem todas as guerras em que se metem. Ignorantes: confundem-se até mesmo para datar um documento ou medir uma propriedade. Nem sempre foi assim, claro. Lewis traça a história do Oriente Médio demonstrando que, por cerca de 1.000 anos, os muçulmanos mantiveram a supremacia econômica, militar, científica e cultural sobre o resto da humanidade. Daí a pergunta: O que deu errado? Como o Ocidente conseguiu alcançá-los e deixá-los para trás? Onde eles falharam? Lewis aponta para a incapacidade do mundo muçulmano de separar religião e Estado. Faltou-lhes algo como a Reforma Protestante ou a Revolução Francesa. A promiscuidade entre religião e Estado gerou um sistema monolítico, avesso às contraposições, que os impediu de desenvolver conceitos como democracia, emancipação feminina, liberdade de imprensa ou música sinfônica, em que cada instrumento segue a própria partitura para estabelecer uma harmonia de conjunto.

Não que o Ocidente não tenha tido culpas. O colonialismo europeu e, mais tarde, o imperialismo americano e o soviético provocaram uma infinidade de desastres entre os muçulmanos. Mas Lewis prefere inverter a questão, observando que eles só foram conquistados pelo Ocidente porque já haviam entrado em decadência. A cultura ocidental foi mal assimilada pelo mundo islâmico. Uma idéia como o nacionalismo, por exemplo, só produziu aberrações como monarquias absolutistas e ditaduras militares. A frustração e o ressentimento causados pelo fracasso das idéias ocidentais insuflou o fundamentalismo religioso, com sua falsa promessa de um retorno a um passado glorioso em que os muçulmanos dominavam o mundo. É exatamente o que pretendiam fazer os talibãs no Afeganistão: imitar a vida dos tempos do profeta Maomé. Mais ou menos como se nós, brasileiros, reintroduzíssemos os costumes dos tupinambás. O Ocidente reagiu aos atentados de 11 de setembro com julgamentos de valor preconceituosos e ignorantes sobre o islamismo. Lewis, professor emérito da Universidade Princeton, autor de mais de vinte livros sobre o assunto, ajuda a trazer a discussão para o terreno da análise. Não significa que sua análise seja neutra. Pelo contrário: Lewis tem posições extremas. Tempos atrás, um tribunal francês o condenou por uma entrevista em que minimizava o genocídio dos armênios por parte dos turcos, em 1915. Mais recentemente, afirmou que Israel errou ao permitir que Arafat voltasse de seu exílio. O maior oponente de Lewis no universo acadêmico americano é Edward Said, autor de Orientalismo. Não por acaso, o primeiro é judeu, e o segundo, palestino. Para se ter uma visão mais clara do Oriente Médio, convém ler os dois, deixando-os soltos para guerrear dentro de sua casa. Com a esperança de que não apareça nenhum homem-bomba, e de que um F-16 não venha retaliar explodindo seus filhos.

Por que o Islã não sente remorso
11 de setembro de 2002 Os dezenove terroristas responsáveis pela carnificina no World Trade Center e no Pentágono eram árabes e muçulmanos. Eles atacaram em nome de uma versão fundamentalista do Islã minoritária entre o 1,3 bilhão de muçulmanos. Um ano depois do atentado, a reação da maioria islâmica ao desafio da minoria fanática ainda é uma questão sem resposta Um efeito notável dos atentados de 11 de setembro foi o de revelar para a maioria das pessoas a existência de um mundo obscuro, agressivamente primitivo e vingativo, o do fundamentalismo islâmico. Tão logo se soube que a carnificina fora cometida em nome de Alá, levantou-se um coro de vozes sensatas – entre elas a do presidente americano George W. Bush – para garantir que Osama bin Laden e os dezenove seqüestradores não podiam ser vistos como a verdadeira face do islamismo, religião com 1.400 anos de existência e 1,3 bilhão de fiéis. Um ano depois, ainda está em aberto a questão de como o mundo muçulmano reagirá ao desafio da minoria fanática e sedenta de sangue. O que se viu até agora é pouco animador. Do Marrocos à Indonésia, as ruas foram tomadas por manifestações a favor de Osama bin Laden. No Paquistão, os mulás emitiram decretos religiosos, as chamadas fatwas, convocando os fiéis à guerra santa contra os americanos no Afeganistão, e milhares de voluntários atenderam ao chamado. O historiador americano Daniel Pipes estimou, em entrevista a VEJA, que a versão extremista atrai a simpatia de menos de 15% dos muçulmanos. Isso torna mais intrigante a escassez de oposição pública ao terrorismo no universo desses países. No início dos anos 90, Samuel Huntington, da Universidade Harvard, defendeu a tese de que, encerrada a disputa ideológica entre capitalismo e comunismo, o confronto global mais iminente seria o choque de civilizações entre o Ocidente e o Islã. Na prática, as coisas são um pouco mais complexas, pois o mundo islâmico é muito diversificado. O historiador americano-palestino Edward Said acredita que, na realidade, os atentados são conseqüência de uma disputa por corações e almas entre diferentes correntes islâmicas no mundo árabe. Essa disputa se alimenta do fracasso político, cultural e econômico acumulado pelos países muçulmanos após o fim do colonialismo europeu. O sentimento de frustração desses povos é intensificado por uma infecção cultural típica do Oriente Médio: a arraigada convicção de que todos os acontecimentos significativos têm origem numa conspiração externa.

GUERRA SANTA Militantes de partido islâmico paquistanês manifestam apoio a Osama bin Laden nas ruas de Karachi: dificuldades de conviver com a tolerância religiosa

O mundo moderno é repleto de promessas – mas a maioria dos muçulmanos é pobre demais para usufruir delas. Muito mais presente é a desorientação cultural produzida pela própria modernidade. Os regimes árabes são, praticamente todos, arremedos ditatoriais de modelos políticos ocidentais, com pouco a oferecer a seus cidadãos. Os fundamentalistas, em contrapartida, prometem um mundo de regras bem definidas, com destaque para a guerra maniqueísta entre os crentes e os infiéis. Francis Fukuyama, professor de política econômica internacional da Universidade Johns Hopkins, diz que os americanos tendem a acreditar que seus valores e instituições – democracia, direitos individuais e liberdade econômica – são aspirações universais. Infelizmente não é assim. Enquanto a maioria dos povos da América Latina, da Ásia e da África inveja a riqueza das nações desenvolvidas, os fanáticos fundamentalistas só vêem provas de consumismo decadente no mundo ocidental. As massas do mundo árabe tenderam a comemorar os atentados de 11 de setembro porque essa tragédia, segundo a visão de muitos dos que aprovaram o ataque, humilhou os Estados Unidos, país que eles consideram corrompido e infiel. "A corrupção não se expressa na permissividade ou nos direitos da mulher, mas na sociedade leiga. O que detestam é que o Estado promova o pluralismo religioso e a tolerância, em vez de ser um servo da verdade religiosa", diz Fukuyama. A ofensiva militar contra a Al Qaeda é uma boa forma de neutralizar o terrorismo islâmico. Mas haverá sempre um problema de grande envergadura se os próprios países islâmicos não derem sua contribuição no combate ao terrorismo. O desafio para a comunidade muçulmana está na convivência com o princípio do Estado leigo e da tolerância religiosa. "Ela precisa decidir se quer fazer as pazes com a modernidade", afirma Fukuyama.

Nem no Irã
25 de setembro de 2002

Autor francês é julgado por criticar o islamismo Em setembro de 2001, a revista francesa Lire publicou uma entrevista com Michel Houellebecq. Escritor popularíssimo em seu país, especialista em causar polêmica, ele discutiu, a certa altura, as religiões monoteístas. Disse que acreditar num Deus único era um ato cretino. E arrematou: "A religião mais idiota é o islamismo. Ela é perigosa desde o seu surgimento". Dias depois, o World Trade Center foi atacado e as declarações, é claro, ganharam enorme ressonância. Quatro organizações islâmicas decidiram processar o autor por injúria racial e incitação ao ódio. A primeira audiência ocorreu na terça-feira passada, durou mais de cinco horas e mobilizou os franceses. Vários intelectuais lançaram um manifesto de apoio a Houellebecq e se apresentaram para depor em seu favor. O escritor Philippe Sollers argumentou, exoticamente, que seria preciso ser tolerante com o humor que, segundo ele, está no centro das declarações de Houellebecq. Outros insistiram no princípio, auto-evidente, da liberdade de expressão – o que fez com que as organizações islâmicas declarassem que a audiência se transformou numa ocasião para reafirmar esse princípio de maneira arrogante e, suprema ofensa, "neocolonialista". Houellebecq disse que jamais nutriu desprezo pelos muçulmanos, mas reafirmou sua falta de apreço pelo islamismo. O autor poderia ser condenado a passar um ano na cadeia e a pagar multa de 45.000 euros. A sentença sai no dia 22 de outubro, mas os próprios promotores já se anteciparam e pediram que essa insanidade seja simplesmente arquivada.

Turbante vitorioso
13 de novembro de 2002 Partido islâmico vence as eleições na Turquia, a única democracia do mundo muçulmano

Contrastes turcos: modelo em desfile de moda, na semana passada, e mulheres religiosas em Istambul

A Turquia é uma exceção entre as nações muçulmanas. Primeiro, é uma democracia. Segundo, é um país que separa com rigidez a mesquita do Estado. Na semana passada, o cenário foi revirado pela avassaladora vitória eleitoral de um partido islâmico, o AKP. O homem do momento é Recep Tayyip Erdogan, líder dos vencedores. Ex-prefeito de Istambul, ele não pode concorrer pessoalmente por causa de uma condenação por incitar o ódio religioso, mas deve governar por meio de um primeiro-ministro fantoche. Erdogan está longe de ser um aiatolá. Só usa ternos bem cortados e marcou sua campanha com um discurso moderado, na linha "paz e amor". Seu desafio é provar que é possível conciliar o Islã com a democracia.

AP Há sete anos, um partido fundamentalista islâmico chegou pela primeira vez ao poder na Turquia. Os militares, guardiães do Estado laico fundado na marra por Mustafa Kemal, o Ataturk (pai dos turcos), nos anos 20, pressionaram o primeiroministro muçulmano até seu governo cair, um ano depois. Desta vez, os islâmicos prometem respeitar o caráter laico do país, e os militares, o resultado das urnas. Ao fundar a Turquia sobre as ruínas do Império Otomano, Ataturk impôs roupas ocidentais, proibiu o uso do véu feminino em repartições e escolas públicas e substituiu o alfabeto árabe pelo latino no prazo recorde de seis meses. O Estado Erdogan: ternos bem supervisiona a educação religiosa, nomeia os 80 cortados e campanha 000 clérigos do país e paga seus salários. Mesmo de "paz e amor" assim, o islamismo continua forte. De cada dez turcos, nove fazem o jejum no mês do Ramadã e metade reza cinco vezes por dia para Alá. A Turquia quer entrar para a União Européia, mas para isso precisa provar que seus muçulmanos são civilizados e pôr fim à sangrenta repressão ao movimento separatista da minoria curda. A vitória do AKP deve-se mais à crise econômica que às convicções religiosas da população, 97% muçulmana. O partido do veterano primeiro-ministro Bulent Ecevit, que ocupava pela quinta vez o cargo, recebeu apenas 1% dos votos. Seu governo fracassou no combate à inflação (45% ao ano) e ao desemprego, que castiga três em cada dez turcos. A vitória islâmica é um problema para os Estadoor="#000000"> A vitória do AKP deve-se mais à crise econômica que às convicções religiosas da população, 97% muçulmana. O partido do veterano primeiro-ministro Bulent Ecevit, que ocupava pela quinta vez o cargo, recebeu apenas 1% dos votos. Seu governo fracassou no combate à inflação (45% ao ano) e ao desemprego, que castiga três em cada dez turcos. A vitória islâmica é um problema para os Estados Unidos, aliados da Turquia desde a Guerra Fria. Situado entre o Ocidente e o Oriente, o país abriga bases militares da Otan que os americanos planejavam usar para um ataque militar ao vizinho Iraque. A dúvida é se o novo governo muçulmano vai concordar em participar dessa guerra.

A hora dos radicais
02 de abril de 2003

FÉ E VIOLÊNCIA Ativistas do grupo terrorista Hamas em manifestação na Faixa de Gaza: só os moderados podem segurar os radicais

Com os olhos azuis faiscantes sob o sol do deserto, Peter O'Toole (Lawrence) vira-se para Ali (Omar Sharif) e diz: "Enquanto o povo árabe continuar lutando tribo contra tribo, será sempre um povo tolo, ganancioso, bárbaro e cruel". A fala é do filme Lawrence da Arábia, de 1962, quando ainda se podia fazer abordagens romanceadas da história dos conflitos no Oriente Médio. Agora, o que existe são o rancor e o desencanto dos árabes com a modernidade do Ocidente e o medo do terrorismo nas capitais ocidentais. Graças à influência do Ocidente, as tribos árabes não mais se dizimam em lutas fratricidas no meio do deserto, genocídios particulares cujas dimensões nunca foram esclarecidas mas que ainda sobrevivem na tradição oral dos árabes. Atualmente, as tribos vivem sob bandeiras das nações criadas pela França e pela Inglaterra, potências emergentes ao final da I Guerra Mundial (1914-1918). Vivem, sobretudo, sob o manto religioso do islamismo. Nos últimos anos, assistiu-se nessa região à chegada ao poder das vertentes fundamentalistas do islamismo. Para essas correntes radicais, não existem governos nem fronteiras. O desenrolar da guerra no Iraque e o que vai ocorrer depois no país de Saddam Hussein serão pontos decisivos para o frágil equilíbrio em que vivem hoje dezenas de países de população muçulmana. O mundo islâmico se concentra numa faixa quase contínua que vai da África aos confins da Ásia. Ao todo, os muçulmanos são 1,2 bilhão de pessoas e representam 20% da humanidade. A diversidade religiosa, étnica e política

nesses países é gigantesca. Mas em todos observa-se um padrão preocupante. O número de pessoas que desconfiam das intenções do Ocidente, em especial dos Estados Unidos, cresce ano a ano. "De modo geral, há uma lenta mas inexorável migração de corações e mentes dos povos islâmicos para posições de rancor contra o Ocidente", diz Daniel Pipes, em seu livro Militant Islam Reaches America (O Islã Militante Chega à América). De acordo com Pipes, atualmente um de cada dez muçulmanos aderiu a alguma vertente fanática em seu país. Os terroristas, como se sabe, são recrutados entre os fanáticos. Conclui-se que o exército potencial do terror no mundo islâmico teria, com base na avaliação de Pipes, 120 milhões de cabeças. Obviamente, esse cálculo não deve ser tomado pelo seu lado matemático, mas apenas como termômetro do sentimento antiocidental que se pode colher hoje nas ruas dos principais países islâmicos. Pelo que se vê, a febre é alta. Na Síria, no Paquistão, na Faixa de Gaza, a ação militar ocidental americana dos últimos dias produziu violentas manifestações de rua. Mas os analistas concordam que não há perigo imediato de erupções revolucionárias com força suficiente para mudar o equilíbrio de forças na região. O que existe é o aumento da má vontade contra os Estados Unidos.

NÃO À GUERRA Partido religioso do Paquistão reúne 100 000 em protesto: um Iraque moderado no pós-guerra pode pôr água na fervura dos fundamentalistas

A diversidade da vida nos países islâmicos é um fator de estabilidade, e não o contrário. Algumas nações com governo totalmente contrário ao "imperialismo ianque", como o Irã, têm grande parte da população com simpatias pelo modo de vida americano. As vanguardas intelectuais e os estudantes iranianos, ainda bafejados pelos ventos ocidentais dos tempos do xá Reza Pahlevi, aproveitam todas as brechas do regime dos aiatolás para pedir modernização à moda do Ocidente. Por outro lado, em países com

regimes abertamente alinhados com Washington, as ruas fervorosamente antiamericanas. É o caso da Jordânia e do Egito.

são

São dois países de governos autoritários. A Jordânia é uma monarquia parlamentarista e o Egito, uma república com um presidente vitalício. As pessoas nesses países desfrutam relativa liberdade de expressão – mais relativa do que absoluta, diga-se. Apesar de pobre, com seus 1 750 dólares de renda per capita e mais de 50% da população de origem palestina, a Jordânia parece bem segura nas mãos do rei Abdullah. No Egito, a história é outra. O homem forte do país, Hosni Mubarak, há vinte anos proíbe manifestações públicas nas ruas do Cairo e de Alexandria, embora as tolere nas cidades menores. Com seus 70 milhões de habitantes, o Egito é talvez a dor de cabeça potencial mais preocupante do Oriente Médio. A ditadura de Mubarak vem se segurando no governo pelo uso cada vez mais intenso da concentração de poder. É verdade que o governo egípcio conseguiu um feito memorável ao negociar com os terroristas islâmicos em ação no país, obtendo uma trégua em troca de maior liberdade de ação dos fundamentalistas nas universidades e nas mesquitas. "A universidade, a imprensa e o clero no Egito são dominados pelos radicais islâmicos. Quanto tempo um governo, mesmo o mais duro, se sustenta no poder numa situação assim?", pergunta Thomas Friedman, o articulista do New York Times que acaba de fazer sua estréia como documentarista no canal Discovery. Seu filme tem o título Procurando pelas Raízes de 11 de Setembro e faz uma análise do ódio aos Estados Unidos no Oriente Médio.

REVOLTA Sírios queimam bandeira britânica: raiva e caos nos países vizinhos ao Iraque preocupam líderes do Oriente

Nos demais países islâmicos, a guerra dos americanos no Iraque vem servindo a um propósito político. Como os países não podem tolerar manifestações de rua contra seus governos, eles admitem que as pessoas se

reúnam e gritem slogans contra os Estados Unidos. O ódio aos americanos funciona como uma válvula de escape. "Há vinte anos, um líder árabe que se apresentasse como amigo dos Estados Unidos seria admirado pelo seu povo. Dez anos atrás, ele seria visto com desconfiança. Hoje é visto com ódio", disse Tariq Aziz, vice-primeiro-ministro do Iraque e um dos homens de confiança de Saddam Hussein. A frase é reproduzida no livro Iraque: a Guerra Permanente, do jornalista francês Patrick Denaud, que acaba de ser publicado no Brasil. Tariq, em que pesem os crimes de seu regime, é uma fonte relativamente confiável sobre o que vai pela mente dos líderes árabes. "Os americanos não têm amigos entre os árabes. Têm agentes e altos funcionários com interesses comerciais com os Estados Unidos", ataca Tariq Aziz. Depois da invasão do Iraque, líderes notoriamente aliados dos Estados Unidos, como o ministro do Exterior da Arábia Saudita, Saud al-Faisal, apressaram-se em veicular mensagens de repúdio à guerra e pediram o cessar-fogo ao presidente George W. Bush. "Todo esse esforço em mostrarse contra a guerra é uma atitude desesperada para manter o controle interno de seus países, que estão tomados de caos e ódio", disse a VEJA Jon Alterman, chefe de Estudos do Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington. O destino do Iraque depois da queda de Bagdá será decisivo para o futuro político dos países islâmicos, especialmente os do Oriente Médio. As nações islâmicas da Ásia, como a Indonésia, com seus 200 milhões de muçulmanos, e a Malásia, têm tradições culturais ainda mais fortes que a religiosidade do povo, o que se torna uma garantia de estabilidade a longo prazo. Um Iraque estável pode mesmo, como esperam os americanos, ser a água na fervura na região. Caso o Iraque se transforme numa democracia adaptada ao islamismo, o país poderá ser usado como um modelo por líderes moderados do Oriente Médio. Seria uma vitória dos reformistas contra os fundamentalistas. Uma pesquisa de opinião pública feita no início do mês pela Zogby International em seis países árabes – Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Marrocos, Emirados Árabes e Líbano – constatou um avanço do ideário fundamentalista. A maioria dos entrevistados preferiria ter um clero islâmico que desempenhasse papéis mais decisivos nos governos árabes. Encomendada pelo professor Shibley Telhami, da Universidade de Maryland, a pesquisa mostrou também que só 6% do total de pessoas ouvidas acredita que haverá democracia no Oriente Médio após a guerra. A maioria ainda acha que o terrorismo vai aumentar, e não diminuir. Como toda pesquisa de opinião, a do professor Telhami é pesadamente influenciada pelo atual estágio da guerra no Iraque. Como o próprio Telhami admite, a opinião pública muda de direção tão facilmente quanto o vento, mesmo no Oriente Médio.

Em todas as análises sobre o Oriente Médio feitas por especialistas ocidentais ficam claras duas coisas. A primeira é que, com toda a interpenetração entre Oriente e Ocidente, o entendimento da cultura e das sociedades islâmicas é ainda precário. A outra se trata de uma constatação histórica: não se podem impor modelos de governança aos países do Oriente Médio. Os árabes adaptam qualquer influência estrangeira a seus padrões milenares de conduta. A tradição e a resistência às mudanças já derrotaram conquistadores bem mais decididos que George W. Bush. O confucionismo atravessou incólume meio século do regime de Mao Tsé-tung e mantém-se como a força cultural predominante na China atual. Três gerações de russos viveram sob o jugo do comunismo ateu, mas o cristianismo bizantino ficou intacto e continua sendo um fosso a separar a Rússia do resto da Europa. O confucionismo tem 2 500 anos de existência, enquanto a vertente bizantina do catolicismo, 1 700 anos. A história é cheia de provas de que as potências militares e políticas conseguiram mudar apenas de modo superficial e momentâneo a natureza de povos com raízes culturais fincadas tão profundamente no tempo. O Oriente Médio constitui a prova mais viva dessa realidade. É prudente, portanto, não alimentar esperanças de que, depois de vencido o Iraque, as barreiras à cultura ocidental no Oriente Médio vão cair uma depois da outra como "um dominó modernizante", na descrição de Paul Wolfowitz, subsecretário de Defesa do governo George W. Bush.
UM RESUMO DO ISLÃ ECONOMIA Apenas oito das 48 nações islâmicas têm renda per capita superior à brasileira (3 400 dólares) DEMOCRACIA Com exceção da Turquia, nenhum governo islâmico seria reconhecido como democrata pelos padrões ocidentais. Eles são governados por teocracias, monarquias absolutas, ditaduras de partido único e presidentes perpétuos PETRÓLEO Dois terços das reservas mundiais de petróleo estão situados em países islâmicos, a maioria no Golfo Pérsico ÁRABES Apenas 15% dos muçulmanos são árabes. A Indonésia, na Ásia, é o maior entre os países islâmicos e responde por 17% da população muçulmana AS DUAS CORRENTES O ramo principal do Islã é o sunita, com 1 bilhão de fiéis e dividido em várias vertentes. Os xiitas, uma dissidência do século VII, têm 120 milhões de seguidores. São maioria no Irã, Iraque e Barein SHARIA É a lei sagrada do Islã datada do século VII que contém regras para o sistema judiciário, para a guerra e sobre como devem ser as relações entre homens e mulheres

Os moderados são a chave da paz
16 de abril de 2003 As vésperas da invasão do Iraque, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, fez um alerta aos Estados Unidos: "A guerra vai produzir uma centena de Bin Ladens", disse o mandatário do Egito, referindo-se ao terrorista saudita Osama bin Laden, chefe da rede Al Qaeda, responsável pelo ataque às torres gêmeas de Nova York e ao Pentágono no fatídico 11 de setembro de 2001. Três semanas depois, com a invasão do Iraque chegando ao fim de sua etapa militar, os Estados Unidos têm como gigantesco desafio político impedir que a previsão de Mubarak se confirme e, ao mesmo tempo, incentivar a proliferação no Oriente Médio de outro tipo de militante, o muçulmano moderado. São estudiosos da religião, alguns são clérigos, mas a maioria dos moderados islâmicos é formada por profissionais liberais e intelectuais das universidades. Esses novos personagens não oferecem perigo ao Ocidente. Eles são, no entanto, uma ameaça para os regimes totalitários da região, em especial para aqueles como o do egípcio Mubarak, cuja existência e cujos exageros repressivos sempre foram tolerados no Ocidente por ser vistos como uma barreira ao avanço dos radicais. "Mubarak só se manteve no poder sem ser seriamente incomodado por tantos anos porque, a pretexto de combater o radicalismo islâmico, colocou na cadeia todos os que discordam dele", disse a VEJA o egípcio Saad Eddin Ibrahim, 64 anos, um dos mais respeitados intelectuais árabes, que, não por acaso, acaba de sair de uma prisão no Cairo. A esperança de democracia no Oriente Médio se assenta principalmente na multiplicação dos Ibrahims. Serão necessárias centenas de milhares deles em dezenas de países para que a química explosiva da região encontre um mínimo de equilíbrio. Para muitos analistas ocidentais, essa possibilidade não passa de uma utopia. Mas todos concordam que a única barreira real de longo prazo para deter o terrorismo religioso são os moderados islâmicos. A eficiência dos serviços de contenção dos radicais prestados por regimes totalitários pró-ocidentais na região está se exaurindo. Essa tendência deve acentuar-se com a presença dos Estados Unidos no Iraque, na exata medida em que os americanos sejam bem-sucedidos na instalação de um governo minimamente representativo no país que já foi de Saddam Hussein e seus asseclas. "Os americanos serão sábios se conseguirem afastar qualquer conotação colonial no empreendimento de reerguer o Iraque. Eles precisam deixar as próprias vítimas de Saddam contarem aos árabes tudo o que sofreram sob o antigo regime", aconselha o professor Ibrahim. "Os árabes têm desconfiança e mágoa dos americanos. Isso não vai se dissipar tão

cedo, mas esse sentimento não precisa ser traduzido para sempre na forma de agressão, hostilidade e até terrorismo contra o Ocidente." Outro pregador da moderação no Oriente Médio é Abdulwahab Alkebsi, diretor executivo do Centro para Estudos do Islã e a Democracia, entidade baseada em Washington. Alkebsi montou uma vasta rede de analistas que abastecem diariamente, via internet, seus arquivos sobre o Oriente Médio. Na semana passada, algumas horas depois que as estátuas de Saddam Hussein começaram a ser derrubadas em Bagdá, Alkebsi montou um fórum on-line em que perguntava a seus informantes no mundo árabe como eles enxergavam a promessa americana de incentivar os avanços institucionais no Oriente Médio. "A elite intelectual nos países árabes não vê diferença entre os valores da democracia ocidental e os prescritos nos livros sagrados do Islã", disse Alkebsi. "Dignidade humana, império da lei e a limitação do poder do Estado estão claramente expostos no Corão." Alkebsi reconhece que passar da teoria à prática exigirá um esforço gigantesco, sem garantias de sucesso. Mas ele acha tolice não tentar e "loucura não aproveitar a queda de Saddam e a possibilidade de surgimento de um Iraque democrático para dar uma chance aos moderados islâmicos". O instituto que Alkebsi dirige em Washington listou na semana passada avanços institucionais recentes, alguns anunciados depois da queda de Bagdá em mãos dos soldados americanos. Os exemplos abaixo são gotas de esperança no deserto de insatisfação do mundo islâmico, mas ajudam a demonstrar a existência de saídas democráticas realistas no Oriente Médio e que elas não conflitam com a cultura árabe.
• Horas depois da queda da capital iraquiana, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, anunciou sua desistência de fazer o filho, Gamal, seu sucessor no poder. O Egito está submetido a variações de estado de sítio desde 1931 e seus principais órgãos de imprensa são estatais. Portanto, o gesto de Mubarak tem um peso. • O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, anunciou recentemente o desencadeamento de um plano de "aprimoramento econômico e político" que, segundo Alkebsi, prevê a eleição de um Parlamento. Monarquia religiosa, a Arábia Saudita é o país formalmente mais alinhado com o Ocidente na região. Mas existem evidências desconcertantes de que, nos bastidores, a dinastia saudita dá sustentação a grupos terroristas. O aceno com a possibilidade de eleger um Parlamento é a melhor notícia ventilada daquele lado do deserto há dezenas de anos. • Em setembro do ano passado, o Marrocos promoveu as primeiras eleições livres de sua história. A ida às urnas foi fiscalizada por monitores internacionais. Um partido ligado ao clero islâmico ganhou um bom número de cadeiras no Parlamento, e o governo reconheceu oficialmente o resultado.

• Também no fim do ano passado, o Barein, um pequeno país do Golfo com menos de 1 milhão de habitantes, convocou eleições gerais em que, pela primeira vez, as mulheres também puderam votar e se candidatar a cargos eletivos.

"Os Estados Unidos não podem perder a chance aberta com o sucesso da campanha militar no Iraque. É preciso deixar claro que a invasão foi um caso único. Se os países vizinhos se sentirem ameaçados, a pequena chama dos moderados pode se apagar e o incêndio radical dominar a cena", disse a VEJA Abdulwahab Alkebsi. Os defensores da idéia de que vale a pena semear democracia no deserto alertam para os perigos. O mais evidente deles é o fato de que naturalmente os políticos com ligações com o clero islâmico serão, pelo menos no primeiro momento, os mais populares. Há possibilidade também de que os radicais sejam os mais votados e até que cheguem ao poder pelo voto. Na Argélia, em 1992, os militares deram um golpe preventivo assim que as pesquisas não deixavam mais dúvidas de que os fundamentalistas chegariam ao poder nas eleições gerais daquele ano. O que fazer nesses casos? Esse é um ponto crucial, pois, se os eleitores dos países árabes suspeitarem que a democracia só vale quando forem eleitos políticos com simpatia pelo Ocidente, todo o processo ficará desmoralizado. Especialistas como Alkebsi e Eddin Ibrahim acreditam que esses riscos precisam ser enfrentados. "A democracia é um fenômeno novo até mesmo no Ocidente e nunca atingiu a perfeição. No Oriente Médio é preciso ir pelo método da tentativa e erro, e, nesse caso, quem tem de exercitar mais a paciência são os Estados Unidos. É provável que eles vejam seus adversários serem os primeiros a se eleger nos países que se liberalizarem", alerta Ibrahim.

ENTRE DOIS MUNDOS A rainha Noor, da Jordânia, americana de nascimento, diz em seu novo livro, Espírito da Paz, que o Islã e a democracia podem conviver muito bem

No campo prático imediato será preciso encaminhar uma solução para o conflito entre Israel e os palestinos. "A Palestina é um microcosmo de todas as injustiças das quais os árabes se sentem vítimas", diz o professor Eddin Ibrahim. Na semana passada, no encontro que teve com Tony Blair, primeiro-ministro britânico, na Irlanda do Norte, o presidente George W. Bush se adiantou à questão. "A existência de um Estado Palestino convivendo em paz lado a lado com Israel é uma etapa fundamental", disse Bush. A questão palestina, no entanto, é tão complexa que os moderados islâmicos sustentam que será necessário perseguir as reformas nos demais países mesmo sem muitos avanços na luta entre Israel e seu vizinho. Sobre as possibilidades de mudança no Oriente Médio pesa também o manto do empuxo histórico negativo. Os estudiosos como Alkebsi e o professor Ibrahim lembram que a civilização árabe teve seu momento clássico que, a exemplo dos gregos, primava pela democracia e pelo igualitarismo. É verdade. Mas outros historiadores acreditam que a herança cultural predominante nos dias de hoje no Oriente Médio vem de outra vertente, o Império Otomano, cuja influência atual entre os árabes ainda é quase tão grande quanto o confucionismo na China e o catolicismo ortodoxo na Rússia. "A tarefa de modernizar o Oriente Médio vai encontrar resistência muito forte", disse a VEJA Richard Pipes, historiador americano da Universidade Harvard. Ele lembra que a primazia da religião sobre todos os outros aspectos da vida, e em especial sobre a política, no Oriente Médio é uma herança do Império Otomano, e não do islamismo. Esse império se estendeu da Turquia, seu centro, até o sul da Ásia, e do norte da África ao sul da Europa. Durou do fim do século XIII até pouco depois da I Guerra Mundial. A história desse vasto reino é a chave para entender os enigmas que o Oriente Médio oferece. São charadas complicadas. Os historiadores apostam que serão fatores complicadores da bem-sucedida invasão do Iraque pelos americanos. A idéia de usar a religião para regular a vida em sociedade no Oriente foi o mecanismo de dominação imaginado pelo sultão Osman I, fundador do Império Otomano (referência à denominação da tribo a que pertencia Osman I). Os sultões do império, descendentes do fundador, se declararam califas, ou seja, sacerdotes do islamismo. Por séculos eles esmagaram facilmente quase todas as revoltas em nome de Alá. "Poder e religião andam juntos há séculos no Oriente Médio", diz David Fromkin, professor da Universidade de Boston e autor do livro A Paz para Acabar com a Paz, em que relata os momentos finais do Império Otomano e a invenção do Oriente Médio como o conhecemos hoje. O título do livro do professor Fromkin é talvez o melhor resumo dos desafios que os americanos terão pela frente depois de sua vitória militar no Iraque.

O que eles têm em comum?
23 de abril de 2003

LÍBIA Muamar Kadafi

PALESTINA Yasser Arafat

IRAQUE Saddam Hussein

EGITO Hosni Mubarak

JORDÂNIA Rei Abdullah

SÍRIA Bashar Assad

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos e as guerras que se seguiram, a do Afeganistão e a do Iraque, trouxeram para o Ocidente de forma violenta e crua a realidade do Oriente Médio. A opinião pública ocidental passou a devorar informações na tentativa de entender esse pedaço do mundo, que, embora tenha freqüentado o noticiário por suas guerras locais e pelo eterno cabo-de-guerra com Israel, sempre se moveu num ritmo peculiar. Agora que os Estados Unidos estão se preparando para reconstruir o Iraque, depois de uma guerra fulminante de três semanas de duração, saber como funciona a sociedade dos povos árabes tornou-se um exercício vital. Não por acaso, o general da reserva americano Jay Garner, encarregado de montar um país onde antes existiu o regime de Saddam Hussein, revelou aos jornalistas que tem estudado os trabalhos da pessoa que mergulhou mais profundamente na mente árabe, a exploradora inglesa Gertrude Bell. "No dia em que as tropas americanas entraram em Bagdá, eu não estava assistindo à CNN, mas a um documentário sobre a senhora Bell", disse Garner.

A senhora Bell a que se refere o general morreu em 1926, quando ocupava o cargo de diretora de antiguidades do Iraque. Antes ela servira como secretária do Alto Comissariado Britânico na região. Respeitada pelos chefes árabes, Gertrude Bell foi a responsável direta pelo traçado das fronteiras no mapa do Oriente Médio ao fim da I Guerra Mundial, o que ela fez, segundo seu biógrafo Victor Winstone, "com um frio na espinha". O biógrafo reproduz uma carta enviada por um missionário americano à senhora Bell, que ela guardou até o fim da vida. A carta contém um alerta que pode ser muito útil ao general Garner em sua tarefa de montar uma administração estável no Iraque. "Esses povos nunca formaram uma unidade independente. Não basta desenhar uma fronteira em torno deles e chamá-los de país. Eles não têm noção de nacionalidade." Dependendo de como essa realidade é encarada, ela pode até mesmo facilitar o trabalho do general Garner. Fruto da criação de estrategistas ocidentais, os países árabes devotaram boa parte do esforço político despendido no século passado a construir uma identidade nacional. Por outra característica típica do Oriente Médio, porém, a unidade que os maiores líderes árabes perseguiram ultrapassava as fronteiras dos países e visava à montagem de uma grande pátria árabe. Sob o comando do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, Egito e Síria chegaram a fundir seus países em uma unidade política batizada de República Árabe Unida (RAU). Seria o primeiro passo para a criação da grande nação árabe. O arranjo funcionou durante três anos, entre 1958 e 1961, e desmoronou, como sempre ocorre no Oriente Médio, pelo impacto de choques externos, no caso a Guerra Fria. A RAU passou a atuar como força auxiliar dos soviéticos na região. Os Estados Unidos e a Inglaterra reagiram, patrocinando líderes e partidos com plataformas identificadas com o Ocidente. Saddam Hussein e seu partido chegaram a ser vistos, a princípio, como a esperança de conter os radicais islâmicos com simpatias pelo comunismo. Em sua guerra contra o Irã nos anos 80, Saddam foi ajudado pela inteligência americana. Ele só foi considerado um estorvo depois da queda da União Soviética, quando passou a agir como uma força independente que se julgava capaz de unir os árabes em torno do Iraque. O que têm em comum o líder egípcio Hosni Mubarak e o líbio Muamar Kadafi? Que traços unem Saddam Hussein ao presidente sírio, Bashar Assad, ou ao rei Abdullah, da Jordânia? São todos árabes. Falam a mesma língua, têm uma origem étnica igual. São todos também fruto de intervenções estrangeiras na região. Seus países foram criados por potências ocidentais ou seus regimes foram sustentados por algum interesse externo. Todos eles, em algum momento, alimentaram o desejo de unir todos os árabes sob uma mesma bandeira. Esse foi o sonho que acabou sendo a desgraça de Saddam. Ao escolher os Estados Unidos como inimigo, o regime de Saddam Hussein esperava unir todos os árabes em torno de Bagdá. Agora a etapa militar está concluída no Iraque. A Síria aparece no horizonte como a próxima grande encrenca na região. Os analistas dizem que, nem de longe, os sírios oferecem o mesmo perigo que Saddam. A razão é simples. Damasco não levantou a

bandeira expansionista, além de sua influência histórica no Líbano, e tampouco é vista como uma capital capaz de unir os árabes numa cruzada popular contra o Ocidente. Além disso, seu presidente, Bashar Assad, um médico com aparência de treinador de futebol do interior do Brasil, não encarna o perfil do líder carismático, com poder de arrastar as massas árabes. Mas existe um único povo árabe? Atualmente cerca de 350 milhões de pessoas falam o idioma árabe. Elas se espalham desde o Oceano Atlântico até o Iraque. Em comum têm o idioma, que, fora alguns dialetos locais, é mais ou menos o mesmo. Qualquer cidadão nessa extensa faixa de terra entende sem muito esforço as gravações de Osama bin Laden levadas ao ar pela televisão Al Jazira. Um jornal líbio pode ser lido sem maior esforço no Egito, na Jordânia e na Síria. Do ponto de vista étnico, os povos que falam árabe são descendentes de uma mesma pequena população que habitou a Península Arábica há milhares de anos. São os chamados povos semitas, dos quais descende também boa parte dos judeus israelenses. Uma pesquisa comparativa de DNA feita pelo americano Luigi Luca Cavalli-Sforza, da Universidade Stanford, determinou que a unidade genética entre os povos semitas, judeus e árabes é marcante, confirmando a tese de que eles têm antepassados comuns. Unidos pela origem genética, os árabes nunca souberam transformar essa raiz comum em algum tipo de organização supranacional. Nos quase seis séculos em que estiveram submetidos ao Império Otomano, eles viveram em tribos. Essa existência nômade, de povo perseguido, apagou nos árabes os vestígios da exuberância de seu próprio império. A religião islâmica, que é um forte fator de união, ainda não conseguiu superar suas divergências internas. "Se for o caso, um xiita do sul do Iraque se alia facilmente com um xiita do Irã ou da Jordânia contra um sunita de Bagdá", diz o professor Manolo Florentino, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os analistas ocidentais dizem que, se for preciso classificar as variáveis da sociedade árabe por seu poder agregador, a religião seria a força principal. Em seguida viriam as lealdades tribais e, em terceiro, o arabismo, a identidade árabe acima das fronteiras nacionais. "Para montar seu quebra-cabeça no Iraque, o general Garner terá de criar em todos os iraquianos um sentimento nacional", disse na semana passada o estudioso inglês Bernard Lewis. Vai ser um desafio e tanto. Egito, Marrocos, Argélia e Líbia conseguiram despertar em seus cidadãos uma identidade nacional forte. São países que foram unificados por regimes populistas autoritários e que produziram líderes carismáticos, como Gamal Abdel Nasser, no Egito. Nos países da Península Arábica e do Oriente Médio as raízes tribais têm mais força que a nacionalidade. "Nesses países, os líderes locais só conseguiram firmar-se sobre o tribalismo usando o arabismo internacional como plataforma", escreveu o professor Albert Hourani, morto em 1993, que deixou uma obra formidável, Uma História dos Povos Árabes. Certamente essa não será uma opção para o general Garner.

Fanatismo marcado a fogo
25 de junho de 2003 Exilados iranianos recorrem à auto-imolação em série como forma de protesto na Europa Atear fogo ao próprio corpo é uma forma extrema de protesto político e, por isso, pouco comum. Não se trata de um suicídio, pois a morte nem sempre é o desfecho de quem parte para a auto-imolação. E as marcas para os que sobrevivem são terríveis e permanentes. Em apenas dois dias da semana passada, oito exilados iranianos transformaram-se em tochas humanas durante manifestações em Paris, Londres, Roma e Berna. Um deles, uma mulher, morreu em Paris. A auto-imolação em série no coração da Europa foi a resposta desses exilados a uma megaoperação da polícia francesa para desarticular o Mujahidin do Povo, grupo armado Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do que luta contra o regime teocrático do Irã e é Irã: dono da palavra final considerado organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Européia. Desde o início da década de 60, quando um monge budista vietnamita inaugurou esse tipo de protesto político, não se viam tantos casos seguidos. Na realidade, foi a primeira vez que se viu uma demonstração com tal quantidade de homens-tocha. O objetivo das auto-imolações foi pedir a libertação imediata de Maryam Rajavi, que eles chamam de "presidente do Irã". Mulher do líder dos mujahidin, Massoud Rajavi, que foi expulso da França em 1986 e instalou seu quartel-general no Iraque, ela é a mais importante entre os 165 militantes presos pela polícia nos arredores de Paris. Quase todos foram libertados depois de prestar depoimento, mas Maryam e outros vinte continuam detidos. Na noite de quinta-feira passada, ela divulgou um comunicado pedindo a seus seguidores o fim do sacrifício, que a estava deixando "triste e atormentada". Disciplinados, eles pararam de se encharcar de gasolina e atear fogo ao próprio corpo. Mas deixaram o alerta de que a demonstração de fanatismo pode recomeçar a qualquer momento, se a "presidente" continuar atrás das grades. O Mujahidin do Povo atua nos moldes de uma seita. Sua linha política, uma estranha mistura de conceitos marxistas com islamismo, é marcada pelo fanatismo e por exacerbado culto à personalidade em torno do casal Rajavi. Chama a atenção a forte presença

feminina entre seus combatentes. As mulheres representam um terço do braço militar da organização – entre os oito incendiários, dois eram mulheres.

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PARIS

BERNA AP

LONDRES

ROMA

PARIS

Seqüência de auto-imolações de iranianos em cidades européias: oito exilados, ligados a grupo de oposição ao regime do Irã, atearam fogo ao corpo em protesto contra a prisão da líder e de outros ativistas na França

Quando eram mais comunistas e menos islâmicos, os mujahidin lutavam para derrubar o xá Reza Pahlevi, do Irã. Embora defenda a adoção de um governo secular, o grupo participou da Revolução Islâmica de 1979, aliandose ao aiatolá Khomeini. Nessa condição foi co-participante nos horrores iniciais do regime. A lua-de-mel com os turbantes negros durou menos de dois anos. Em 1981, os mujahidin mataram num atentado o presidente, o primeiro-ministro e setenta altos funcionários do Irã. O governo contra-

atacou sem dó e varreu a organização do território iraniano – estima-se que o número de militantes mortos ultrapasse 100.000. Os que escaparam da repressão partiram para o exílio, sobretudo na França. Na guerra entre o Irã e o Iraque, o casal Rajavi ficou com Saddam Hussein, que lhe deu armas e bases para treinamento. Em troca, ajudaram o ditador a massacrar as rebeliões curdas e xiitas em 1991. Durante a invasão do Iraque, o governo americano primeiro flertou com o Mujahidin e usou o grupo para evitar que o Irã se metesse no conflito. Depois, tirou-lhe todos os tanques e a artilharia, mas permitiu que continuasse nos acampamentos e fizesse exercícios de ordem unida com armas leves. Apesar de serem o mais bem organizado movimento oposicionista iraniano, os mujahidin não são uma alternativa que interesse a Washington. São alucinados demais para merecer confiança. Além disso, por causa da aliança com Saddam, o casal Rajavi é tremendamente impopular entre os iranianos. As prisões foram um aceno de boa vontade feito pelo governo francês aos dirigentes do Irã – um modo de a França voltar a ter a mínima influência no Oriente Médio, hoje sob hegemonia dos Estados Unidos. É uma rara notícia animadora para os aiatolás de Teerã. O governo islâmico passou as duas últimas semanas às voltas com a maior onda de protestos internos já vistos de dois anos para cá. As manifestações, os buzinaços e os comícios comandados por estudantes universitários começaram de forma espontânea na capital e acabaram se alastrando para várias cidades do interior. O regime teocrático rapidamente responsabilizou os Estados Unidos de incitar os jovens e prendeu dezenas de estudantes. Mas foi forçado a amenizar a repressão depois que os protestos passaram a contar, pela primeira vez, com o apoio de trabalhadores e intelectuais.

Milicianos do Mujahidin do Povo mostram fotos de parentes mortos (acima), e o protesto dos jovens em Teerã (ao lado): aiatolás em apuros

A crise interna se resume a uma contradição aparentemente insolúvel. De um lado, a insistência dos aiatolás que detêm o poder de fato no Irã em manter intacto o rígido código de costumes, em vigor desde a Revolução Islâmica. De outro, a insatisfação dos jovens iranianos com a falta de liberdade. Dois terços da população têm menos de 25 anos e estão cansados da interferência dos líderes religiosos nos mínimos detalhes do cotidiano. Tudo é proibido pelo regime teocrático, da música a um simples aperto de mão em público entre um homem e uma mulher. Para driblar a vigilância das milícias religiosas, os jovens organizam bailes clandestinos e alimentam o lucrativo contrabando de CDs e livros ocidentais. Os iranianos já tentaram de tudo. Nas duas últimas eleições, deram vitória folgada aos reformistas liderados pelo presidente Khatami. Mas toda medida liberalizante elaborada no Parlamento é vetada pelo aiatolá Ali Khamenei, o supremo líder espiritual, que controla do Judiciário às Forças Armadas e dá a última palavra em qualquer assunto. O Irã só não entra em convulsão porque não existe uma oposição organizada. Mas a irritação é tão grande que até Khatami, o reformista que não reforma, passou a ser vaiado nas passeatas. Não bastasse a efervescência popular, o governo americano voltou a ameaçar com punições caso fique comprovado o objetivo militar do programa nuclear iraniano. O regime teocrático ainda está no controle, mas começa a balançar. Se prosseguir nesse ritmo, só Alá poderá salvá-lo.

A riqueza dos aiatolás
03 de setembro de 2003

Clero xiita se aproveitou do poder total para enriquecer no Irã Os aiatolás do Irã derrubaram o xá Reza Pahlevi em 1979 com a promessa de instaurar um regime de pureza islâmica e alto padrão de moralidade pública. Para atingir tais objetivos, o clero xiita assumiu total controle do aparelho de Estado, das instituições nacionais e também de boa parte da economia. Duas décadas depois, o resultado da islamização é impressionante: os iranianos estão mais pobres e os aiatolás, muito mais ricos. O surgimento de uma casta de milionários de turbante era previsível. Não há decisão política ou econômica importante no Irã sem a bênção dos mulás. E eles usam essa influência para controlar os melhores negócios, principalmente os que envolvem moeda forte. Não se tem notícia de que o falecido aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica, tenha tirado proveito financeiro do poder ilimitado de que dispunha. Já seu filho mais velho, Ahmed, clérigo sem fortuna que passou a controlar a agenda do pai, tinha se tornado o homem mais rico do Irã quando morreu, em 1995. Com base em cálculos do economista iraniano Saeed Laylaz, a revista americana Forbes diz que o clero xiita desviou de 3 bilhões a 5 bilhões de dólares por ano na última década só com subsídios concedidos aos religiosos na compra de moeda estrangeira. O Irã detém 9% das reservas mundiais de petróleo e também é rico em gás natural – só se pode supor quanto dessa riqueza tem sido rapinada pela turma de turbante. O aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani pode ser considerado o maior exemplo do enriquecimento fácil em nome de Alá. Filho de uma família humilde de agricultores, Rafsanjani foi um dos principais assessores de Khomeini. Presidiu o Parlamento nos anos 80 e, após a morte do imã, foi nomeado seu sucessor. Entre 1989 e 1997, Rafsanjani ocupou a Presidência – período no qual começou a erguer seu império recorrendo ao nepotismo. Nomeou um irmão para dirigir a maior mina de cobre do Irã e outro para cuidar da rede estatal de rádio e TV. Para assegurar o controle da produção de petróleo, Rafsanjani indicou um

dos filhos e um sobrinho para postos estratégicos no ministério do setor e não sossegou até que um cunhado assumisse o governo de uma região coalhada de poços. Paralelamente, Rafsanjani colocou em marcha um processo de abertura econômica que recebeu elogios no Ocidente – mas que se caracterizou pela venda de estatais a preço de banana para aliados e parentes. Rafsanjani foi derrotado nas eleições de 1997 pelo atual presidente, o reformista Mohammed Khatami. A maioria dos parentes que havia nomeado foi afastada e alguns aliados acabaram formalmente acusados de corrupção. Mesmo assim, um de seus filhos continuou à frente da construção do metrô de Teerã, obra de 700 milhões de dólares e repleta de denúncias de irregularidades. Sua família, porém, já amealhou o suficiente para tocar por conta própria um império econômico de interesses diversos, incluindo uma companhia aérea, uma montadora de carros e resorts no exterior (veja quadro ao lado). Hoje, Rafsanjani mantém sua influência política dirigindo um dos vários órgãos consultivos do Parlamento. A fortuna acumulada pelos líderes religiosos é assunto tabu no Irã por várias razões. A primeira, óbvia, pelo fato de os iranianos viverem sob uma ditadura – não há partidos de oposição legalizados, Judiciário independente nem liberdade de imprensa para denunciar os desmandos dos mulás. "Quando o assunto é dinheiro, somem as divergências entre conservadores e reformistas, que costumam dividir esses líderes religiosos em correntes políticas bem definidas", disse a VEJA o cientista político iraniano Shaul Bakhash, do Instituto Brookings, nos Estados Unidos. A estrutura de poder no Irã também facilita a roubalheira. Cerca de 60% da economia está nas mãos do Estado. Outros 20% são controlados pelas bayads – as fundações de caridade religiosa que, na prática, funcionam como estatais gigantes. As bayads foram criadas após a Revolução Islâmica com o patrimônio confiscado da família do xá e das multinacionais nacionalizadas. Sua função era atender às camadas pobres da população, mas acabaram se convertendo rapidamente em

instrumento de clientelismo político e fonte incontrolável de corrupção. Até recentemente, essas fundações eram isentas de impostos, podiam pegar emprestado dinheiro de bancos estatais a juros subsidiados e ainda tinham acesso a taxas de câmbio especiais. De quebra, não precisavam prestar contas ao governo – apenas a Alá. Com tantos benefícios, essas fundações religiosas criaram impérios econômicos. Um exemplo é a Fundação dos Oprimidos, dirigida por Moshen Rafiqdoost, ex-chefe da segurança pessoal de Khomeini. Apesar do nome, a fundação tem 400 000 funcionários e bens avaliados em 12 bilhões de dólares – entre eles, redes de hotéis cincoestrelas e uma fábrica da Pepsi nacionalizada, sem contar setores da indústria petrolífera, têxtil e de construção civil. Além de encherem os bolsos dos mulás e servirem de cabides de emprego, as bayads financiam grupos terroristas no exterior, como o Hezbollah, no Líbano, e são apontadas como fonte de recursos para o programa nuclear secreto do governo. Foi uma dessas fundações que, em 1989, ofereceu 2 milhões de dólares pela cabeça do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, acusado de blasfemar contra o Islã no romance Os Versos Satânicos. Khatami, o presidente reformista, conseguiu aprovar algumas leis que cortaram vários dos benefícios fiscais das bayads e tomou medidas para coibir a corrupção. Mas parece improvável uma caça aos mulás milionários. Um filho do aiatolá Vaez Tabasi, Naser, que dirigia uma zona de livre comércio na região do Golfo, chegou a ser acusado de fraude e evasão de divisas. Mas acabou absolvido por um tribunal há quatro meses sob a justificativa de que não sabia que estava cometendo um crime. Resta saber se será perdoado por Alá.

Carnificina na mesquita de Ali

Resgate dos feridos em Najaf: um ataque num local santo para os xiitas

O atentado foi devastador: o carro-bomba que explodiu ao lado da mesquita de Ali, o local mais sagrado dos muçulmanos xiitas, na sexta-feira passada, matou pelo menos oitenta pessoas e feriu 100. Entre os mortos está o aiatolá Mohammed Bakir Al-Hakim, líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, a maior organização política dos xiitas, que representam 60% da população daquele país. Centenas de pessoas estavam no complexo, que abriga a tumba de Ali, sobrinho do profeta Maomé e fundador do ramo xiita do Islã, na cidade de Najaf. A bomba foi acionada por controle remoto e danificou a entrada principal da mesquita. A pergunta óbvia nessas ocasiões é: a quem interessa a morte de AlHakim? Exilado no vizinho Irã, durante duas décadas, ele liderou uma guerra de guerrilhas contra o regime de Saddam Hussein. Voltou ao Iraque depois da queda do ditador e se mostrava moderado e disposto a negociar com os americanos. Os mulás xiitas estão em guerra aberta uns com os outros e vários já foram mortos. Mas é difícil imaginar que algum deles tivesse a ousadia de dinamitar a mesquita de Ali.

É por isso que os principais suspeitos são os remanescentes do regime de Saddam, que representava a vertente sunita do islamismo. O ataque aos aiatolás combina com a estratégia de estabelecer o caos no Iraque para tornar insuportável a vida das tropas de ocupação. Dias antes, outro aiatolá, tio de Hakim, escapou de um atentado em que morreram alguns de seus guarda-costas. É a complicação que faltava para os americanos: agora também precisam garantir a vida dos aiatolás. Como fazer isso se as tropas de ocupação costumam ser recebidas por multidões furiosas quando se aproximam dos locais santos dos xiitas? Na semana passada, soube-se que aumenta a infiltração através da Arábia Saudita e da Síria de estrangeiros ansiosos para combater os americanos. A situação está tão complicada que Washington começou a pensar o impensável: pedir a ajuda da ONU O aiatolá Al-Hakim, para patrulhar o Iraque. Até agora, o governo Bush relutava, visto que morto no ataque: diálogo com o Conselho de Segurança da organização não endossou a invasão do americanos Iraque. Na última semana, o Departamento de Estado mudou de tom. As tropas de paz da ONU são bem-vindas, desde que sob comando americano.

FOTOGRAFIAS A fé e as tradições

VIGIADOS: policial israelense em mesquita de Jerusalém

RESTRIÇÕES: muçulmanos barrados em mesquita de Jerusalém

RITUAL: seguidores da seita Kaznazani em Bagdá, Iraque

CANTO E DANÇA: muçulmanos sunitas no Ramadã iraquiano

SOB RISCO: na Caxemira, oração e perseguição religiosa

NO OCIDENTE: muçulmanos em mesquita de Chicago, nos EUA

DEVOÇÃO: o afegão Muhammad Ali faz oração em Cabul

RAMADÃ: orações na mesquita de Meca

VÉUS: muçulmanas oram na primeira noite do Ramadã

LOCAL HISTÓRICO: o templo de Hazrat Alli, no Afeganistão

LIVRO SAGRADO: meninas com um Corão em Jacarta, Indonésia

NA PALESTINA: menino lê o Corão na Faixa de Gaza

PEDRA SAGRADA: no centro da mesquita de Meca, a Caaba

PEREGRINAÇÃO: à noite, centenas de milhares em Meca

XIITAS NO IRAQUE: muçulmanas na Tumba de Ali (Najaf)

NAZARÉ, ISRAEL: local de construção de nova mesquita

BANGLADESH: devotos em trem na Conferência Islâmica

JERUSALÉM: orações diante da cúpula dourada de Al Aqsa

O radicalismo no islã

SÍMBOLO: Osama bin Laden estampa calendário na Malásia

'HERÓI': pôster do líder da Al Qaeda à venda no Paquistão

INTOLERÂNCIA: policiais cercam homossexuais no Egito

ESCOLA ISLÂMICA: famílias homenageiam alunos das madraçais

PELA FÉ: paquistanês protege exemplares do Corão em cavernas

UZBEQUISTÃO: oração contra ataque dos EUA ao vizinho Afeganistão

ARMAS E ROSAS: iranianas desfilam com fuzis AK-47 em Teerã

GUERRA SANTA: 'Jihad é o nosso caminho', diz paquistanês

VÍTIMA DO TALIBÃ: afegãos oram em memória do líder Ahmed Massud

AUTOFLAGELAÇÃO: xiitas batem em seus próprios corpos FANATISMO ENTRE OS JOVENS: meninos iraquianos se golpeiam

SACRIFÍCIO: autoflagelação dos xiitas em Najaf, Iraque

PROIBIÇÕES: garrafas de bebida são destruídas na Indonésia

Festas e costumes

MECA: fiéis chegam a mesquita para orações de sexta-feira

JACARTA: dançarinos se apresentam em festa no Ramadã

COMPRAS: paquistanês escolhe chapéu usado durante orações

DESPERTAR NO RAMADÃ: iraquiano acorda os fiéis para oração

SOB O VÉU: iraquianas compram tecidos em mercado de Bagdá

SOBREMESA: mulher egípcia espera nova fornada de kunafeh

ADEREÇOS: paquistanesas escolhem contas e brilhos em loja

PARA QUEBRAR O JEJUM: muçulmano vende fainis na rua

FESTIVAL: iemenita compra frutas e nozes para o Eid-al-Fitr

CARIDADE: vendedores turcos distribuem pão durante o Ramadã

DOCES: paquistaneses preparam o prato conhecido como jilebi

AFEGÃOS EM NOVA YORK: muçulmanos dividem arroz com carneiro

BUBOR LAMBUK: prato com arroz, leite de côco, carne e anchovas

PESHAWAR: um refugiado afegão compra pão no Paquistão

XADOR: iranianas usam a veste negra que cobre o corpo todo

CORÃO FEITO DE CHOCOLATE: chef indonésio apresenta criação

NOVA DÉLI: indiano vende feni, alimento popular no Ramadã

NA PALESTINA: primeiro-ministro Qorei no desjejum no Ramadã

BANGLADESH: vendedor seca porções de shemai, doce típico

A mulher mulçumana

MODA: modelo malaia exibe vestido de costureira saudita

PENA DE MORTE: nigeriana Amina Lawal, acusada de adultério

VÉU EM QUADRA: egípcia disputa Copa do Mundo de Vôlei

SEM A BURCA: mulher afegã nos exames da Universidade de Cabul

CONDENADA E PERDOADA: Safiya Hussaini escapou da morte

CHICOTEADAS: iranianas punidas por ferir lei islâmica

BARBIES DO ISLÃ: iraniana observa as bonecas Dara e Sara

REABERTURA: Fakria Sarwar faz teste para trabalhar em rádio afegã

100 CHIBATADAS: Magazu, condenada por adultério na Nigéria

DOS PÉS À CABEÇA: afegã usa burca em vilarejo do Afeganistão

XADOR: veste que cobre o corpo e parte do rosto, típico do Irã

70 CHIBATADAS: condenada por comemorar fim de ano com homens

SARA MUSTAFÁ: morta pelo pai porque namorava um nãomuçulmano

IRÃ: mulher navega na internet para concluir estudo universitário

COBERTAS NO MAR: muçulmanas em praia do litoral marroquino

INDONÉSIA: mulheres acusadas de prostituição têm cabelos cortados