O Amante Marguerite Duras

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Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: "Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado. " Penso frequentemente nesta imagem que sou a única a ver ainda e de que nunca falei. Está sempre aí no mesmo silêncio, deslumbrante. É, de todas, a que me agrada de mim própria, onde me reconheço, onde me encanto. Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezessete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezenove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído. Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. É a passagem de uma barcaça no Mékong. A imagem dura toda a travessia do rio. Tenho quinze anos e meio e não há estações neste país, estamos numa estação única, quente, monótona, estamos na longa zona quente da terra, não há Primavera, não há renovação. Estou num pensionato do Estado em Saigão. Durmo e como lá, nesse pensionato, mas vou às aulas fora, ao liceu francês. A minha mãe, professora, quer o curso secundário para a sua filhinha. Para ti, tem de ser o secundário. O que era suficiente para ela já não é para a pequena. O secundário e depois um bom curso de matemática. Ouvi sempre esta ladainha desde os primeiros anos de escola. Nunca imaginei que pudesse escapar ao curso de matemática, sentia-me feliz em fazê-lo esperar. Vi sempre a minha mãe fazer todos os dias o futuro dos filhos e o seu. Um dia, já não estava em condições de fazer futuros grandiosos para os filhos, fez então outros, futuros colados com cuspo mas que mesmo assim desempenhavam a sua função, faziam uma barreira ao tempo à sua frente. Lembro-

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me dos cursos de contabilidade para o meu irmão mais novo. A escola Universal, todos os anos, em todos os níveis. É preciso recuperar, dizia a minha mãe. Durava três dias, nunca quatro, nunca. Deixava-se a escola Universal quando se mudava de posto. Recomeçava-se no seguinte. A minha mãe aguentou dez anos. Sem resultado. O irmãozinho tornou-se um pequeno contabilista em Saigão. Como não havia escola Violet na colónia, devemos-lhe a partida do meu irmão mais velho para França. Durante alguns anos ficou em França para tirar o curso da escola Violet. Não tirou. A minha mãe não se devia deixar iludir, mas não tinha alternativa, era preciso separar aquele filho dos outros dois. Durante alguns anos deixou de fazer parte da família. Foi na sua ausência que a minha mãe comprou a concessão. Terrível aventura, mas para nós, os filhos que ficavam, menos terrível do que teria sido a presença do assassino dos filhos da noite, da noite do caçador. Muitas vezes me disseram que era o sol demasiado forte durante toda a infância. Mas não acreditei. Disseram-me também que era a reflexão em que a miséria mergulhava as crianças. Mas não, não é isso. As crianças-velhas da fome endémica, sim, mas nós, não, nós não tínhamos fome, nós tínhamos vergonha, nós vendíamos os móveis, mas não tínhamos fome, nós tínhamos um boy e comíamos por vezes, é certo, porcarias, aves pernaltas, pequenos jacarés, mas essas porcarias eram cozidas por um boy e servidas por ele e por vezes até as recusávamos, dávamo-nos ao luxo de não querer comer. Não, passou-se qualquer coisa quando tinha dezoito anos que fez este rosto acontecer-me. Devia ser de noite. Tinha medo de mim, tinha medo de Deus. De dia, tinha menos medo e a morte parecia menos grave. Mas não me deixava. Queria matar o meu irmão mais velho, queria matá-lo, queria vencê-lo uma vez, uma vez só e vê-lo morrer. Era para tirar da frente da minha mãe o objecto do seu amor, esse filho, castigá-la por o amar tanto, tão mal, e sobretudo para salvar o meu irmão mais novo, acreditava que era também isso, o meu irmão mais novo, o meu filho, da vida viva desse irmão mais velho a pesar sobre a dele, desse véu negro sobre o dia, dessa lei representada por ele, ditada por ele, um ser humano, e que era uma lei animal, e que a cada instante de cada dia da vida daquele irmão mais novo trazia o medo a essa vida, medo que uma vez atingiu o seu coração e o fez morrer. Escrevi muito sobre esta gente da minha família, mas quando o fazia eles ainda eram vivos, a mãe e os irmãos, e escrevi à volta deles, à volta destas coisas sem ir ao centro delas. A história da minha vida não existe. Isso não existe. Nunca há um centro. Não há caminho, nem linha. Há vastos lugares onde se faz crer que havia alguém, não é verdade, não havia ninguém. A história de uma pequeníssima parte da minha juventude, escrevi-a já mais ou menos, enfim, quero dizer, dei uma idéia, falo justamente desta, da travessia do rio. O que faço aqui é diferente, e semelhante. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam iluminados. Aqui falo dos períodos ocultos dessa mesma juventude, de certas dissimulações que teria operado sobre certos factos, sobre certos sentimentos, sobre certos acontecimentos. Comecei a escrever num meio que me impelia ao pudor. Escrever, para eles, era ainda moral. Escrever, agora, dir-se-ia que muitas vezes já não é nada. Por vezes sei isto: que a partir do momento em que escrever não é, todas as coisas confundidas, ir à vacuidade e ao vento, escrever não é nada.

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Que a partir do momento em que escrever não é, todas as vezes, todas as coisas confundidas numa só, por essência inqualificável, escrever não passa de publicidade. Mas a maior parte das vezes não tenho opinião, vejo que todos os campos estão abertos, que não haveria mais paredes, que o escrito já não saberia onde se meter para se esconder, se fazer, se ler, que a sua inconveniência fundamental deixaria de ser respeitada, mas já não penso nisso antes. Agora vejo que muito jovem, aos dezoito anos, aos quinze anos, tive esse rosto premonitório daquele que apanhei depois com o álcool na meia-idade da minha vida. O álcool preencheu a função que Deus não teve, teve também a de me matar, de matar. Este rosto do álcool veio-me antes do álcool. O álcool veio confirmá-lo. Tinha em mim o lugar para aquilo, soube-o como os outros mas, curiosamente, antes da hora. Tal como tinha em mim o lugar do desejo. Tinha aos quinze anos o rosto do prazer e não conhecia o prazer. Este rosto via-se muito. Mesmo a minha mãe devia vê-lo. Os meus irmãos viam-no. Tudo começou para mim desta maneira, por este rosto clarividente, extenuado, estes olhos pisados adiantados ao tempo, aos factos. Quinze anos e meio. É a travessia do rio. Quando volto a Saigão, estou em viagem, sobretudo quando apanho o carro. E nessa manhã apanhei o carro em Sadec onde a minha mãe dirige a escola das raparigas. É o fim das férias escolares, já não sei quais. Fui passá-las na pequena casa de posto da minha mãe. E nesse dia regresso a Saigão, ao pensionato. O carro para os indígenas saiu da praça do mercado de Sadec. Como habitualmente, a minha mãe acompanhou-me e confioume ao motorista, confia-me sempre aos motoristas dos carros de Saigão, para o caso de um acidente, de um incêndio, de uma violação, de um ataque de piratas, de um desastre mortal da barcaça. Como habitualmente, o motorista pôs-me junto dele à janela, no lugar reservado aos viajantes brancos. É no decurso desta viagem que a imagem se teria destacado, que teria sido roubada ao conjunto. Ela poderia ter existido, uma fotografia poderia ter sido tirada, como outra, algures, noutras circunstâncias. Mas não foi. O objecto era demasiado insignificante para a provocar. Quem se teria lembrado disso? Só poderia ser tirada se alguém pudesse ter previsto a importância deste acontecimento na minha vida, esta travessia do rio. Ora, enquanto esta se dava, ignorava-se até a sua existência. Só Deus a conhecia. É por isso que esta imagem, e não podia ser de outra maneira, não existe. Foi omitida. Foi esquecida. Não foi destacada, retirada ao conjunto. É a este não ter sido feita que deve a sua virtude, a de representar um absoluto, de ser justamente o seu autor. É, portanto, durante a travessia de um braço do Mékong na barcaça que está entre Vinhlong e Sadec, na grande planície de lama e de arroz do sul da Cochinchina, a das Aves. Desço do carro. Vou à amurada. Olho o rio. A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mékong e os seus braços que descem para os oceanos, estes territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na

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planura a perder de vista, estes rios vão depressa, vertem como se a terra se inclinasse. Desço sempre do carro quando chegamos à barcaça, mesmo à noite, porque tenho sempre medo, tenho medo que os cabos cedam, que sejamos arrastados para o mar. Na corrente terrível olho o último momento da minha vida. A corrente é tão forte, levaria tudo, pedras, uma catedral, uma cidade. Há uma tempestade que sopra no interior das águas do rio. Vento que se debate. Trago um vestido de seda natural, usado, quase transparente. Antes, foi um vestido da minha mãe, um dia ela deixou de o pôr porque o achava demasiado claro, deu-mo. É um vestido sem mangas muito decotado. É desse tom amarelado que a seda natural ganha com o uso. É um vestido de que me lembro. Acho que me fica bem. Pus um cinto de couro à cintura, talvez um cinto dos meus irmãos. Não me lembro dos sapatos que usava nesses anos, mas apenas de certos vestidos. A maior parte do tempo ando sem meias e sandálias de lona. Falo do tempo que precedeu o colégio de Saigão. A partir daí, evidentemente, calcei sempre meias. Nesse dia, devo trazer esse famoso par de saltos altos de lamé dourado. Não vejo mais nada que pudesse usar nesse dia, por isso uso-os. Um saldo que a minha mãe me comprou. Calço esses lamés dourados para ir ao liceu. Vou ao liceu de sapatos de noite enfeitados de pequenos desenhos em strass. É a minha vontade. Não me suporto senão com aquele par de sapatos e ainda agora me quero assim, estes saltos altos são os primeiros da minha vida, são bonitos, eclipsaram todos os sapatos que os precederam, os de correr e brincar, de lona branca. Não são os sapatos o que há de insólito, de extraordinário, nesse dia, na aparência da garota. O que há nesse dia é que a menina traz na cabeça um chapéu de homem de abas direitas, um feltro mole cor de pau-rosa com uma fita preta larga. A ambiguidade determinante da imagem está neste chapéu. Como ele chegou até mim, esqueci. Não vejo quem mo teria dado. Creio que foi a minha mãe que mo comprou e a meu pedido. Única certeza, eram saldos saldados. Como explicar esta compra? Nenhuma mulher, nenhuma rapariga, usa um chapéu de feltro de homem nesta colónia, nesta época. Nem nenhuma mulher indígena. Isto é o que deve ter acontecido, experimentei este chapéu a brincar, olheime no espelho do vendedor e vi: sob o chapéu de homem, a magreza ingrata, esse defeito de infância, tornou-se outra coisa. Deixou de ser um dado brutal, fatal, da natureza. Tornou-se, ao contrário, uma escolha que a contrariava, uma escolha do espírito. Subitamente, essa magreza era escolhida. De repente vejo-me outra, como outra seria vista, lá fora, posta à disposição de todos, à disposição de todos os olhares, na circulação das cidades, das estradas, do desejo. Fico com o chapéu, já não me separo dele, tenho isto, este chapéu que me faz só por si inteira, não o largo mais. Quanto aos sapatos, deve ter sido mais ou menos a mesma coisa, mas depois do chapéu. Contradizem o chapéu, como o chapéu contradiz o corpo frágil, logo são bons para mim. Também já não os deixo, vou para todo o lado com estes sapatos, este chapéu, para a rua, com qualquer tempo, em todas as ocasiões, vou para a cidade.

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Encontrei uma fotografia do meu filho aos vinte anos. Está na Califórnia com os seus amigos Erika e Elisabeth Lennard. É magro, tão magro, dir-se-ia um ugandês branco. Também ele. Achei-lhe um sorriso arrogante, um pouco o ar de quem se está nas tintas. Quer dar de si uma imagem desleixada de jovem vagabundo. É assim que gosta de si, pobre, com esta expressão de pobre, este andar desmanchado de jovem magro. É esta fotografia a que está mais próxima da que não foi tirada à rapariga da barcaça. A que comprou o chapéu cor-de-rosa de abas direitas e fita preta larga é ela, essa mulher duma certa fotografia, é a minha mãe. Reconheço-a melhor ali do que em fotografias mais recentes. É o pátio duma casa sobre o Pequeno Lago de Hanói. Estamos juntos, ela e nós, seus filhos. Tenho quatro anos. A minha mãe está no centro da imagem. Bem vejo como ela está mal sentada, como não sorri, como espera que a fotografia acabe. Pelas suas feições cansadas, por uma certa desordem da sua aparência, pela sonolência do seu olhar, sei que faz calor, que está extenuada, que se aborrece. Mas é pela maneira como estamos vestidos, nós, seus filhos, como uns infelizes, que reencontro um certo estado em que a minha mãe por vezes caía e de que já, na idade que temos na fotografia, conhecemos os sinais prenunciadores, essa maneira, justamente, que ela tinha, de repente, de já não conseguir lavar-nos, de já não nos vestir, e por vezes mesmo de já não nos alimentar. Este grande desencorajamento de viver, atravessava-o a minha mãe todos os dias. Às vezes perdurava, às vezes desaparecia com a noite. Tive esta sorte de ter uma mãe desesperada de um desespero tão puro que mesmo a felicidade da vida, por mais viva que fosse, às vezes, não chegava a distraí-Ia completamente. O que ignorarei sempre é o género de factos concretos que a faziam todos os dias deixar-nos assim. Desta vez, talvez seja aquele disparate que acaba de fazer, esta casa que acaba de comprar - a da fotografia - de que não tínhamos qualquer necessidade e isto quando o meu pai está já muito doente, tão perto de morrer, a poucos meses. Ou talvez tenha acabado de saber que está também ela doente com a doença de que ele vai morrer? As datas coincidem. O que ignoro, como ela devia ignorar, é a natureza das evidências que a trespassavam e faziam surgir-lhe aquele desencorajamento. Era a morte do meu pai já presente, ou a morte do dia? As dúvidas sobre aquele casamento? Aquele marido? Aqueles filhos? Ou outra, mais geral, de tudo isto? Era todos os dias. Disto tenho a certeza. Devia ser brutal. A um dado momento do dia este desespero mostrava-se. Depois seguia-se a impossibilidade de avançar ainda, ou o sono, ou por vezes nada, ou por vezes ao contrário as compras de casas, as mudanças, ou por vezes este humor, só este humor, este abatimento ou por vezes, uma rainha, tudo o que lhe pediam, tudo o que lhe ofereciam, esta casa sobre o Pequeno Lago, sem qualquer razão, o meu pai já moribundo, ou este chapéu de abas direitas, porque a pequena o queria tanto, ou estes sapatos de lamé dourado ou idem. Ou nada, ou dormir, morrer. Nunca vi nenhum filme com essas índias que usam estes mesmos chapéus de aba direita e tranças caídas para o peito. Nesse dia também tenho tranças, não as prendi ao alto como habitualmente faço, mas não são as mesmas. Tenho duas longas tranças caídas para o peito como essas mulheres do cinema que nunca vi, mas são tranças de menina. Desde que tenho o chapéu, para poder pô-lo, já não

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apanho o cabelo ao alto. Há já algum tempo que estico o cabelo com força, penteioo para trás, gostaria que fosse liso, que se visse menos. Todas as noites o penteio e refaço as tranças antes de me deitar como a minha mãe me ensinou. Os meus cabelos são pesados, flexíveis, dolorosos, uma massa acobreada que me chega aos rins. Dizem muitas vezes que é o que tenho de mais bonito e eu acho que isso significa que não sou bonita. Estes cabelos tão vistosos hei-de mandá-los cortar aos vinte e três anos em Paris, cinco anos depois de ter deixado a minha mãe. Disse: corte. Ele cortou. Tudo num único gesto, para desbastar, a tesoura fria roçou a pele do pescoço. Caíram no chão. Perguntaram-me se os queria, que os embrulhavam. Disse que não. Depois disso já não disseram que tinha um cabelo bonito, quer dizer nunca mais o disseram com tanto ênfase, como antes me diziam, antes de o cortar. Depois, diziam: tem um belo olhar. O sorriso também não está mal. Na barcaça, olham para mim, ainda o tenho. Quinze anos e meio. Já me pinto. Ponho creme Tokalon, tento esconder as sardas que tenho nas maçãs do rosto, por baixo dos olhos. Sobre o creme Tokalon ponho pó cor de carne, marca Houbigan. Este pó é da minha mãe que o põe para ir às festas da AdministraçãoGeral. Nesse dia também pus baton vermelho-escuro como então se usava, cerise. Não sei como o arranjei, talvez tenha sido Hélène Lagonelle que o roubou à mãe dela para mim, já não sei. Não tenho perfume, em casa de minha mãe é água-decolónia e sabonete Palmolive. Na barcaça, ao lado do carro, há uma grande limusina preta com um motorista fardado de algodão branco. Sim, é o grande automóvel fúnebre dos meus livros. É o Morris Léon-Bollée. O Lancia negro da embaixada de França em Calcutá não fez ainda a sua ,entrada na literatura. Entre os motoristas e os patrões há ainda vidros de correr. Há ainda banquetas. Ainda é grande como um quarto. Na limusina há um homem muito elegante que me olha. Não é um branco. Está vestido à européia, usa o fato de seda claro dos banqueiros de Saigão. Olhame. Estou já habituada a que me olhem. Olha-se as brancas nas colónias, e as rapariguinhas brancas de doze anos também. Desde há três anos que os brancos também me olham nas ruas e os amigos da minha mãe convidam-me amavelmente para ir lanchar a casa deles à hora em que as mulheres jogam ténis no Clube Desportivo. Poderia enganar-me, julgar que sou bonita como as mulheres bonitas, como as mulheres olhadas, porque realmente me olham muito. Mas sei que não é uma questão de beleza mas doutra coisa, por exemplo, de espírito. O que quero parecer, pareço, bela também, se é o que querem que seja, bela ou bonita, bonita por exemplo para a família, mas só para a família, posso ser tudo o que quiserem de mim. E acreditam que sou. Acreditar que também sou encantadora. Desde que acredite, que isso se torna verdade para quem me vê e quer que eu seja segundo o seu gosto, também o sei. Assim, em plena consciência posso ser encantadora mesmo se estou obcecada pela execução do meu irmão. Para a morte, uma única cúmplice, a minha mãe. Digo a palavra encantadora como a diziam à minha volta, à volta das crianças.

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Já sei muito. Sei uma coisa. Sei que não são os vestidos que fazem as mulheres mais ou menos bonitas, nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos enfeites. Sei que o problema está algures. Não sei onde. Sei só que não está onde as mulheres julgam. Olho as mulheres nas ruas de Saigão, nos postos do mato. Há-as muito belas, muito brancas, têm um cuidado extremo com a sua beleza, sobretudo nos postos do mato. Não fazem nada, guardam-se apenas, guardam-se para a Europa, os amantes, as férias em Itália, as longas licenças de seis meses, de três em três anos; quando poderão finalmente falar do que se passa aqui, desta existência colonial tão particular, do serviço desta gente, destes boys, tão perfeitos, da vegetação, dos bailes, destas vivendas brancas, grandes a ponto de nos perdermos nelas, onde estão alojados os funcionários nos postos afastados. Esperam. Vestem-se para nada. Olham-se. Na sombra dessas vivendas, olham-se para mais tarde, julgam viver um romance, têm já longos armários cheios de vestidos a que não sabem que fazer, coleccionados como o tempo, a longa seqüência dos dias de espera. Algumas ficam loucas. Algumas são trocadas por uma jovem criada que se cala. Abandonadas. Ouve-se esta palavra atingi-Ias, o barulho que faz, o barulho da bofetada que ele dá. Algumas matam-se. Esta falta das mulheres a si próprias, por si próprias perpetrada, apareceu-me sempre como um erro. Não havia que atrair o desejo. Ele estava naquela que o provocava ou não existia. Ou estava lá desde o primeiro olhar ou então nunca existira. Era a inteligência imediata da relação de sexualidade ou então não era nada. Isso soube-o eu antes do experiment. Só Hélène Lagonelle escapava à lei do erro. Demorada na infância. Estou muito tempo sem ter vestidos meus. Os meus vestidos são uma espécie de saco, feitos de antigos vestidos da minha mãe que são por sua vez uma espécie de saco. À excepção dos que a minha mãe manda a Dó fazer-me. É a governanta que nunca deixará a minha mãe mesmo quando ela voltar para França, mesmo quando o meu irmão mais velho a tentar violar na casa do posto de Sadec, mesmo quando já não lhe pagarem. Dó foi educada pelas freiras, borda e faz pregas, cose à mão como já não se cose há séculos, com agulhas finas como cabelos. Como ela borda, a minha mãe manda-a bordar lençóis. Como ela faz pregas, a minha mãe manda-a fazer-me vestidos com pregas, vestidos com folhos, uso-os como sacos, estão fora de moda, sempre infantis, duas filas de pregas à frente e gola redonda ou nervuras na saia, ou folhos bordados em viés para armar à alta costura. Uso estes vestidos como sacos, com cintos que os deformam, tornamse então eternos. Quinze anos e meio. O corpo é delgado, quase frágil, seios de criança ainda, pintada de rosa-pálido e vermelho. E depois esta vestimenta que podia fazer rir e de que ninguém ri. Bem vejo que tudo se joga aí. Tudo se joga aí e nada está ainda jogado, vejo-o nos olhos, tudo está já nos olhos. Quero escrever. Já o disse à minha mãe: o que eu quero é isso, escrever. Não há resposta da primeira vez. E depois

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pergunta: escrever o quê? Digo livros, romances. Ela diz asperamente: depois do curso de matemática escreves o que quiseres, já não tenho nada com isso. Ela é contra, não é digno, não é trabalho, é uma brincadeira - dir-mo-á mais tarde: uma idéia de criança. A garota do chapéu de feltro está na luz lodosa do rio, só, na coberta da barcaça, encostada à amurada. O chapéu de homem tinge de rosa toda a cena. É a única cor. Ao sol brumoso do rio, o sol do calor, as margens apagaram-se, o rio parece colar-se ao horizonte. O rio corre surdamente, sem ruído, o sangue no corpo. Não há vento fora da água. O motor da barcaça, único ruído da cena, o de um velho motor desconjuntado de bielas soldadas. De vez em quando, por rajadas leves, ruídos de vozes. E depois os latidos dos cães vêm de toda a parte, de trás da bruma, de todas as aldeias. A garota conhece o barqueiro desde criança. O barqueiro sorri-lhe e pede-lhe notícias da Senhora Directora. Diz-lhe que a vê passar muitas vezes à noite, que ela vai com freqüência à concessão do Camboja. A mãe vai passando bem, diz a garota. À volta da barcaça o rio está cheio, as suas águas em marcha atravessam as águas estagnantes dos arrozais, não se misturam. Arrebanhou tudo o que encontrou desde o Tonlésap, a floresta cambojana. Leva tudo o que aparece, palhotas, florestas, incêndios extintos, pássaros mortos, cães mortos, tigres, búfalos, afogados, homens afogados, engodos, ilhas de jacintos-deágua aglutinados, tudo em direcção ao Pacífico, nada tem tempo de se escoar, tudo é arrastado pela tempestade profunda e vertiginosa da corrente interior, tudo fica suspenso à superfície da força do rio. Respondi-lhe que o que eu queria antes de tudo era escrever, mais nada, nada. Está ciumenta. Não há resposta, um olhar breve logo desviado, o ligeiro encolher dos ombros, inesquecível. Seria a primeira a partir. Será preciso esperar ainda alguns anos para que ela me perca, para que perca esta, esta filha. Quanto aos filhos não havia que temer. Mas esta, um dia, ela bem o sabia, partiria, conseguiria sair. Primeira em francês. O reitor diz-lhe: a sua filha, minha senhora, é a primeira em francês. A minha. mãe não diz nada, nada, descontente porque não são os seus filhos que são os primeiros em francês, que chatice, minha mãe, meu amor, pergunta: e em matemática? Dizem: ainda não é, mas há de lá chegar com o tempo. A minha mãe pergunta: mas quando? Respondem: quando ela quiser, minha senhora. Minha mãe meu amor, meu incrível andar desengonçado com as meias de algodão passajadas por Dô, nos trópicos e ainda julga que se tem de usar meias para ser a senhora directora da escola, os seus vestidos lamentáveis, disformes, remendados por Dó, vem ainda directa da sua quinta da Picardia povoada de primas, usa tudo até ao fim, julga que é preciso merecer, merecer tudo, os sapatos, os sapatos estão cambados, anda de lado, com uma dor de cão, os cabelos esticados e apertados num carrapito de chinesa, faz-nos vergonha, faz-me vergonha na rua diante do liceu, quando chega no seu B 12 diante do liceu toda a gente olha, ela nunca se apercebe de nada, nunca, boa para meter no manicómio, bater, matar. Olha-me, diz: talvez te consigas safar. Dia e noite essa idéia fixa. Não é que seja preciso chegar a qualquer coisa, o que é preciso é sair da situação em que se está.

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Quando a minha mãe retoma alento, quando sai do desespero, descobre o chapéu de homem e os sapatos de lamé dourado. Pergunta-me o que é aquilo. Digo-lhe que não é nada. Olha-me, gosta, sorri. Não é feio, diz, não te fica mal, é uma variante. Não pergunta se foi ela que os comprou, sabe que foi ela. Sabe que é bem capaz disso, que certas vezes, essas vezes a que me referia, fazemos dela o que queremos, que não pode nada contra nós. Digo-lhe: não foi caro, não te preocupes. Ela pergunta onde foi. Digo-lhe que foi na Rua Catinat, saldos saldados. Ela olha-me com simpatia. Deve achar que é um sintoma reconfortante esta imaginação da pequena, inventar vestir-se desta maneira. Não só admite esta palhaçada, esta inconveniência, ela bem comportada como uma viúva, vestida de escuro como uma freira, mas esta inconveniência agrada-lhe. O elo com a miséria está também no chapéu de homem porque lá terá de ser que o dinheiro entre em casa, duma maneira ou de outra, terá de entrar. À volta dela é o deserto, os filhos são o deserto, não farão nada, as terras salgadas também, o dinheiro continuará perdido, acabou de vez. Resta aquela pequena que cresce e que saberá talvez um dia como fazer entrar dinheiro naquela casa. É por esta razão, embora não o saiba, que a mãe deixa a sua filha sair naquela figura de criança prostituída. E é por isso também que a criança sabe já muito bem como fazer para desviar a atenção que lhe dão a ela para a que ela dá ao dinheiro. Isso faz sorrir a mãe. A mãe não a impedirá de o fazer quando ela procurar dinheiro. A filha dirá: pedi-lhe quinhentas piastras para o regresso a França. A mãe dirá que está bem, que é quanto é preciso para se instalar em Paris, dirá: com quinhentas piastras já te governas. A filha sabe que o que ela faz é o que a mãe teria escolhido que a sua filha fizesse, se tivesse ousado, se tivesse força para tal, se o mal que essa idéia lhe fazia não estivesse presente dia após dia, extenuante. Nas histórias dos meus livros que se relacionam com a minha infância, já não sei de repente o que evitei dizer, o que disse, creio ter dito o amor que tínhamos pela nossa mãe mas não sei se disse o ódio que também lhe tínhamos e o amor que tínhamos uns pelos outros e o ódio também, terrível, nesta história comum de ruína e de morte que era a desta família em todos os casos, no do amor como no do ódio e que escapa ainda ao meu completo entendimento, que me é ainda inacessível, escondida no mais profundo da minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia. Ela é o lugar à entrada do qual o silêncio começa. O que aí se passa é justamente o silêncio, este lento trabalho para toda a minha vida. Ainda estou lá, diante destas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, julgando fazê-lo, nunca amei, julgando amar, nunca fiz nada senão esperar diante da porta fechada. Quando estou na barcaça do Mékong, nesse dia da limusina preta, a concessão da barragem não foi ainda abandonada pela minha mãe. De vez em quando metemo-nos ainda a caminho, como dantes, à noite, ainda lá vamos os três, vamos lá passar alguns dias. Ficamos ali à varanda do bungalow, face à montanha do Sião. E depois partimos. Ela não tem nada a fazer ali, mas volta lá. O meu irmão pequeno e eu estamos junto dela na varanda face à floresta. Somos já crescidos, já não tomamos banho no rio, já não vamos à caça da pantera negra nos pântanos dos

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estuários, já não vamos nem à floresta nem às aldeias das plantações de pimenta. Tudo cresceu à nossa volta. Já não há crianças nem em cima dos búfalos nem em parte alguma. Somos atingidos por uma sensação de estranheza e a mesma lentidão que se apoderou da minha mãe apoderou-se também de nós. Não aprendemos nada, a não ser a olhar a floresta, a esperar, a chorar. As terras baixas estão definitivamente perdidas, os criados cultivam as parcelas de cima, deixamoslhes o arroz com casca, e eles ficam lá sem salário, aproveitam as boas palhotas que a minha mãe mandou construir. Amam-nos como se fôssemos membros da sua família, fazem como se guardassem o bungalow e guardam-no. Não falta nenhuma peça do pobre serviço de louça. O telhado apodrecido pelas chuvas continua a desaparecer. Mas os móveis estão limpos. E a forma do bungalow continua inalterável como um desenho, visível da estrada. As portas são abertas todos os dias para que o vento passe e seque a madeira. E fechadas à noite, aos cães vadios, aos contrabandistas da montanha. Como vêem, não é pois na cantina de Réam, como tinha escrito, que encontro o homem da limusina preta, é depois do abandono da concessão, dois ou três anos mais tarde, nesta luz de bruma e de calor. É um ano e meio depois deste encontro que a minha mãe regressa a França connosco. Venderá todos os seus móveis. Depois irá uma última vez à barragem. Sentar-se-á na varanda face ao poente, olharemos ainda uma vez para o Sião, uma última vez, nunca mais, mesmo quando ela deixar de novo a França, quando mudar outra vez de idéias e voltar mais uma vez à Indochina para se reformar em Saigão, nunca mais ela irá diante daquela montanha, diante daquele céu amarelo e verde por cima daquela floresta. Sim, dir-vos-ei ainda, já tarde na sua vida, ela recomeçou. Abriu uma escola de língua francesa, a Nouvelle École Française, que lhe permitirá pagar uma parte dos meus estudos e sustentar o filho mais velho enquanto viveu. O irmãozinho morreu em três dias de uma broncopneumonia, o coração não aguentou. Foi nesse momento que deixei a minha mãe. Era durante a ocupação japonesa. Tudo acabou nesse dia. Nunca mais lhe fiz perguntas sobre a nossa infância, sobre ela. Ela morreu para mim com a morte do meu irmãozinho. Tal como o meu irmão mais velho. Nunca ultrapassei o horror que de repente me inspiraram. Já não me importam. Não sei nada deles desde esse dia. Não sei ainda como é que ela conseguiu pagar as dívidas aos chettys. Um dia deixaram de vir. Vejo-os. Estão sentados no pequeno salão de Sadec, vestidos de panos brancos, ficam ali sem uma palavra, meses, anos. Ouve-se a minha mãe que chora e os insulta, está no quarto, não quer de lá sair, grita que a deixem, eles são surdos, calmos, sorridentes, - ficam. E depois um dia já lá não estão. Estão mortos agora, a mãe e os dois irmãos. Também para as recordações é tarde de mais. Agora já não os amo. Já não sei se os amei. Deixei-os. Já não tenho na cabeça o perfume da sua pele nem nos meus olhos a cor dos seus olhos. Já não me lembro da voz, excepto talvez da voz da doçura com o cansaço da noite. O riso, já não o oiço, nem o riso, nem os gritos. Acabou, já não me lembro. É por isso que agora escrevo tão facilmente sobre ela, tão longamente, tão pormenorizadamente, ela tornou-se escrita corrente.

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Teve de ficar em Saigão de 1932 a 1949, aquela mulher. É em Dezembro de 1942 que o meu irmão mais novo morre. Ela já não pode sair de lado nenhum. Ficou ainda lá, perto da sepultura, diz. E depois acabou por voltar a França. O meu filho tinha dois anos quando voltámos a ver-nos. Era tarde de mais para nos reencontrarmos. Compreendêmo-lo desde o primeiro olhar. Já não havia nada a reencontrar. Salvo para o filho mais velho, acabara para tudo o resto. Foi viver e morrer no Loir-et-Cher no falso castelo Luís XIV. Vivia com Dó. Tinha ainda medo da noite. Tinha comprado uma espingarda. Dô fazia de sentinela nas mansardas do último andar do castelo. Tinha comprado também uma propriedade ao filho mais velho, perto de Amboise. A propriedade tinha bosques. Ele mandou cortar as árvores. Foi jogar o dinheiro num clube de bacará em Paris. Perdeu os bosques numa noite. Onde a recordação subitamente cede, onde o meu irmão me faz talvez vir as lágrimas aos olhos, é depois da perda do dinheiro destes bosques. O que sei é que o encontram deitado no carro, em Montparnasse, em frente da Coupole, que quer morrer. Depois, já não sei. O que ela fizera do seu castelo é realmente inimaginável e sempre por causa do filho mais velho que não sabe, ele, criança de cinquenta anos, ganhar dinheiro. Compra incubadoras eléctricas, instala-as no grande salão do rés-do-chão. De súbito tem seiscentos pintainhos, quarenta metros quadrados de pintainhos. Tinha-se enganado a regular os infravermelhos, nenhum pinto consegue alimentar-se. Os seiscentos pintos têm o bico que não coincide, que não fecha, morrem todos de fome, ela não repete a experiência. Vim ao castelo durante a eclosão dos pintainhos, era uma festa. Em seguida, o fedor dos pintos mortos e o da ração é tal que já não posso comer no castelo da minha mãe sem vomitar. Morreu entre Dô e aquele a quem chama o seu filho no grande quarto do primeiro andar, o mesmo onde punha carneiros a dormir, quatro a seis carneiros à volta da cama nos períodos de geada, durante vários invernos, os últimos. É aqui, na última casa, a do Loire, quando tiver acabado o seu vaivém incessante, no fim das coisas desta família, é lá que vejo claramente a loucura pela primeira vez. Vejo que a minha mãe é indubitavelmente louca. Vejo que Dó e o meu irmão tiveram sempre acesso a essa loucura. Que eu, não, nunca a tinha visto. Que nunca tinha visto a minha mãe como uma louca. Ela era-o. De nascença. No sangue. Não era doente da sua loucura, vivia-a como a saúde. Entre Dó e o filho mais velho. Ninguém mais além deles a pressentira. Ela tivera sempre muitos amigos, mantinha os mesmos durante longos anos e sempre fizera novos, por vezes muito jovens, entre os recém-chegados dos postos do mato, ou mais tarde entre as pessoas de Touraine entre as quais havia reformados das colónias francesas. Conservava as pessoas junto dela, e isto em qualquer idade, por causa da sua inteligência, diziam, tão viva, da sua alegria, daquela natureza incomparável que nunca cansava. Não sei quem tirara a fotografia do desespero. É o pátio da casa de Hanói. Talvez o meu pai uma última vez. Dentro de alguns meses será repatriado para França por razões de saúde. Antes, mudará de posto, será nomeado para PnomPenh. Ficará lá algumas semanas. Morrerá em menos de um ano. A minha mãe terá recusado acompanhá-lo a França, terá ficado ali onde estava, ali parada. Em PnomPenh. Naquela residência admirável que fica sobre o Mékong, o antigo palácio do rei

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do Camboja, no meio daquele parque assustador, hectares e hectares, onde a minha mãe tem medo. A noite faz-nos medo. Dormimos os quatro na mesma cama. Ela diz que tem medo da noite. É nesta residência que a minha mãe saberá da morte do meu pai. Irá sabê-lo antes da chegada do telegrama, na véspera, por um sinal que só ela vira e entendera, por essa ave que em plena noite chamara, aflita, perdida no escritório da ala norte do palácio, o do meu pai. É também lá, a alguns dias da morte do marido, também em plena noite, que a minha mãe se encontrou face a face com a imagem do seu pai, do pai dela. Acende a luz. Ele está ali. Está junto à mesa, de pé, no grande salão octogonal do palácio. Olha-a. Lembro-me de um grito, de um apelo. Acordou-nos, contou-nos a história, a maneira como ele estava vestido, com o seu fato dos domingos, cinzento, como ele estava de pé, e o seu olhar, directamente sobre ela. Ela diz: chamei-o como quando era pequena. Ela diz: não tive medo. Correu para a imagem desaparecida. Tinham morrido os dois nas datas e às horas das aves, das imagens. Daí sem dúvida a admiração que tínhamos pelo saber da nossa mãe, em todas as coisas, incluindo as da morte. O homem elegante saiu da limusina, fuma um cigarro inglês. Olha a rapariga com o chapéu de homem e sapatos de ouro. Vem lentamente na sua direcção. É visível que está intimidado. Não sorri logo. Primeiro oferece-lhe um cigarro. A mão treme-lhe. Há esta diferença de raças, ele não é branco, tem de a superar, é por isso que treme. Ela diz-lhe que não fuma, não obrigada. Ela não diz mais nada, não diz deixe-me em paz. Então ele sente menos medo. Então ele diz que lhe parece estar a sonhar. Ela não responde. Não vale a pena responder, que lhe havia de responder? Ela espera. Então ele pergunta-lhe: de onde é que vem? Ela diz que é filha da professora da escola feminina de Sadec. Ele pensa e depois diz-lhe que ouviu falar dessa senhora, sua mãe, da sua pouca sorte com essa concessão que teria comprado no Camboja, é isso, não é verdade? Sim, é isso. Ele repete que é extraordinário encontrá-la naquela barcaça. De manhã tão cedo, uma jovem bonita como ela é, não imagina, é completamente inesperado, uma rapariga branca num carro indígena. Diz-lhe que o chapéu lhe fica bem, muito bem mesmo, que é... original... um chapéu de homem, porque não? Ela é tão bonita que se pode permitir tudo. Ela olha-o. Pergunta-lhe quem ele é. Ele diz-lhe que regressa de Paris onde fez os seus estudos, que vive também em Sadec, justamente junto ao rio, a grande casa com grandes terraços de balaustradas de cerâmica azul. Ela pergunta-lhe o que é que ele é. Ele diz-lhe que é chinês, que a sua família é originária da China do Norte, de Fu-Chuen. Permite-me que a leve a sua casa, em Saigão? Ela concorda. Ele diz ao motorista que tire as bagagens da rapariga do carro e as ponha no automóvel preto. Chinês. Pertence a essa minoria financeira de origem chinesa que detém todo o imobiliário popular da colónia. Ele é aquele que passava no Mékong nesse dia em direcção a Saigão. Ela entra no automóvel preto. A porta fecha-se. Um sentimento de opressão vagamente pressentido invade-a de repente, uma fadiga, a luz sobre o rio que se

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embacia, mas só ligeiramente. Uma surdez muito ligeira também, um nevoeiro, por todo o lado. Não voltarei a fazer a viagem no carro dos indígenas. Doravante, terei uma limusina para ir ao liceu e voltar ao pensionato. Jantarei nos sítios mais elegantes da cidade. E estarei sempre a lamentar tudo o que faço, tudo o que deixo, tudo o que agarro, o bom e o mau, o carro, o motorista do carro com quem ria, as velhas que mascavam tabaco nos lugares de trás, as crianças no porta-bagagens, a família de Sadec, o horror da família de Sadec, o seu silêncio genial. Ele falava. Dizia que tinha saudades de Paris, das adoráveis parisienses, das estúrdias, das farras, isso é que era vida, da Coupole, da Rotonde, eu da Rotonde prefiro as boites, dessa vida "espantosa" que levara durante dois anos. Ela ouvia, atenta às referências da conversa que podiam informá-la quanto à sua riqueza, que teriam podido dar-lhe uma indicação sobre o montante dos milhões. Ele continuava a contar. A mãe morrera, era filho único. Só lhe restava o pai detentor do dinheiro. Mas sabe como é, vive agarrado ao cachimbo de ópio frente ao rio há dez anos, gere a sua fortuna da cama. Ela diz que está a ver. Ele recusará o casamento do filho com a pequena prostituta branca do posto de Sadec. A imagem começa muito antes de ele ter abordado a menina branca junto da amurada, no momento em que saiu da limusina preta, quando começou a aproximar-se dela, e que ela, ela sabia, sabia que ele tinha medo. Desde o primeiro instante ela sabe qualquer coisa deste género, ou seja, que ele está à sua mercê. Logo, que outros além dele poderiam ficar também à sua mercê, se a oportunidade surgisse. Sabe também outra coisa, que doravante chegou sem dúvida o tempo em que não pode escapar a certas obrigações que tem para consigo própria. E que a mãe não deve saber nada disso, nem os irmãos, sabe-o também nesse dia. Desde que entrou no automóvel preto, soube-o, está à margem daquela família pela primeira vez e para sempre. A partir daqui não devem mais saber o que vier a ser dela. Que lha tirem, que lha levem, que lha magoem, que lha estraguem, já não devem sabê-lo. Nem a mãe nem os irmãos. A partir daqui cada um seguirá o seu destino. É já caso para choros na limusina preta. A criança agora tem de se haver com este homem, o primeiro, o que surgiu na barcaça. Aconteceu muito depressa nesse dia, uma quinta-feira. Ele veio todos os dias buscá-la ao liceu para a levar ao pensionato. E depois, uma vez, veio uma quintafeira à tarde ao pensionato. Levou-a no automóvel preto. É em Cholen. É do lado oposto às avenidas que ligam a cidade chinesa ao centro de Saigão, essas grandes estradas à americana percorridas pelos eléctricos, os riquexós, os carros. É logo no começo da tarde. Ela escapou ao passeio obrigatório das raparigas do pensionato.

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É um apartamento no sul da cidade. O sítio é moderno, dir-se-ia que mobilado de qualquer maneira, com móveis a atirar para o modern style. Ele diz: não escolhi os móveis. Está escuro no estúdio, ela não lhe pede que abra as persianas. Não tem um sentimento muito definido, nem ódio, nem repugnância, então é sem dúvida já desejo. Não sabe. Concordou em vir logo que ele lhe pediu na véspera à noite. Está ali onde tem de estar, deslocada ali. Sente um leve medo. Dir-se-ia com efeito que isso deve corresponder não só ao que ela espera, mas ao que deveria acontecer precisamente no seu caso. Está muito atenta ao exterior das coisas, à luz, ao barulho da cidade em que o quarto está imerso. Ele, treme. Olha-a primeiro como se esperasse que ela fale, mas ela não fala. Então ele também não faz qualquer gesto, não se despe, diz que a ama como um louco, di-lo muito baixo. Depois cala-se. Ela não lhe responde. Poderia responderlhe que não o ama. Não diz nada. De repente sabe, ali, nesse instante, sabe que ele não a conhece, que nunca a conhecerá, que não tem maneira de conhecer tanta perversidade. E ao fazer tantos e tantos desvios para a agarrar, não poderá nunca. Cabe-lhe a ela saber. Sabe. A partir da ignorância dele, ela sabe de repente; já na barcaça ele lhe agradava. Ele agrada-lhe, a coisa só dependia dela. Ela diz-lhe: preferia que não me amasse. Mesmo que me ame gostaria que fizesse como habitualmente faz com as mulheres. Ele olha-a como que apavorado, pergunta: é isso que quer? Ela diz que sim. Ele começou a sofrer ali, no quarto, pela primeira vez, já não mente acerca disso. Diz-lhe que já sabe que ela não o amará nunca. Ela deixa-o dizer. Primeiro diz que não sabe, depois deixa-o dizer. Ele diz-lhe que está só, atrozmente só, com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que também ela está só. Não diz com quê. Ele diz: seguiu-me até aqui como teria seguido outro qualquer. Ela responde que não pode saber, que nunca seguiu ninguém a quarto nenhum. Ela diz que não quer que lhe fale, o que ela quer é que ele faça como habitualmente faz com as outras mulheres que leva àquele apartamento. Pede-lhe que o faça assim. Ele arrancou o vestido, arrancou as calcinhas de algodão branco e leva-a assim nua até à cama. E depois volta-se para o outro lado na cama e chora. E ela, lenta, paciente, vira-o para si e começa a despi-lo. De olhos fechados, despe-o. Lentamente. Ele quer fazer gestos para a ajudar. Ela pede-lhe que não se mexa. Deixe-me. Ela diz que quer ser ela a fazê-lo. Fá-lo. Despe-o. Quando ela lhe pede ele desloca o corpo na cama, mas muito levemente, como para não a acordar. A pele é duma sumptuosa suavidade. O corpo. O corpo é frágil, sem força, sem músculos, poderia ter estado doente, estar em convalescença, é imberbe, sem outra virilidade que a do sexo, é muito fraco, parece à mercê de um insulto, débil. Ela não o olha no rosto. Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Está num estado de amor abominável. E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída, transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ela. O mar, sem forma, simplesmente incomparável.

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Já na barcaça, antes de chegar a sua hora, a imagem teria participado daquele instante. A imagem da mulher com as meias passajadas atravessou o quarto. Aparece enfim como criança. Os filhos já o sabiam. A filha, ainda não. Nunca falarão da mãe, deste conhecimento que têm e que os separa dela, deste conhecimento decisivo, derradeiro, o da infância da mãe. A mãe não conhecera o prazer. Não sabia que se deitava sangue. Ele pergunta-me se me doeu, digo-lhe que não, ele diz ainda bem. Ele limpa o sangue, lava-me. Olho-o enquanto o faz. Insensivelmente ele torna a ser desejável. Pergunto a mim própria como é que tive forças para ir contra a proibição ditada pela minha mãe. Com esta calma, esta determinação. Como consegui ir "até ao fim da idéia". Olhamo-nos. Ele beija-me o corpo. Pergunta-me porque vim. Eu digo que tinha de ser, que era como uma obrigação. É a primeira vez que falamos. Falo-lhe da existência dos meus dois irmãos. Digo-lhe que não temos dinheiro. Nada. Ele conhece o irmão mais velho, encontrou-o nas casas de ópio do posto. Digo que esse irmão rouba a minha mãe para ir fumar, que rouba os criados, e que por vezes os donos das casas de ópio vêm exigir dinheiro à minha mãe. Falo-lhe das barragens. Digo que a minha mãe vai morrer, que aquilo não pode durar mais. Que a morte próxima da minha mãe deve estar também em correlação com o que me aconteceu hoje. Apercebo-me de que o desejo. Ele lamenta-me, eu digo-lhe que não, que não sou de lamentar, que ninguém o é, excepto a minha mãe. Ele diz-me: vieste porque tenho dinheiro. Digo-lhe que o desejo assim com o seu dinheiro, que quando o vi ele já estava naquele carro, naquele dinheiro, e que portanto não posso saber o que teria feito se fosse de outra maneira. Ele diz: gostaria de te levar, partir contigo. Digo-lhe que não poderia ainda deixar a minha mãe sem morrer de desgosto. Ele diz que decididamente não teve sorte comigo, mas que de qualquer modo me dará dinheiro, que não me preocupe. Deitou-se de novo. De novo nos calamos. O ruído da cidade é muito forte, na recordação é o som dum filme que estivesse excessivamente alto, que ensurdece. Lembro-me bem, o quarto está escuro, não falamos, está cercado pelo barulho contínuo da cidade, embarcado na cidade, no torvelinho da cidade. Não há vidros nas janelas, há estores e persianas. Vemos nos estores as sombras das pessoas que passam no sol dos passeios. Estas multidões são sempre enormes. As sombras são regularmente estriadas pelas riscas das persianas. O matraquear dos tamancos de madeira martela na cabeça, as vozes são estridentes, o chinês é uma língua que se grita como imagino sempre as línguas dos desertos, é uma língua incrivelmente estrangeira.

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Lá fora o dia está no fim, sabemo-lo pelo barulho das vozes e pelos passos cada vez mais numerosos, cada vez mais misturados. É uma cidade de prazer que atinge o auge à noite. E a noite começa agora com o pôr do Sol. A cama está separada da cidade por estas persianas, por este estore de algodão. Nenhum material duro nos separa das outras pessoas. Eles, ignoram a nossa existência. Nós, captamos qualquer coisa da sua, a soma das suas vozes, dos seus movimentos, como uma sirena que lançasse um apelo quebrado, triste, sem eco. Um cheiro de caramelo invade o quarto, o cheiro dos amendoins torrados, das sopas chinesas, das carnes assadas, das ervas de cheiro, do jasmim, do pó, do incenso, do lume de carvão, o fogo transporta-se aqui em cestos, vende-se na rua, o cheiro da cidade é o das aldeias do mato, da floresta. Vi-o subitamente com um roupão preto. Estava sentado, bebia um whisky, fumava. Disse-me que eu tinha dormido, que ele tomara um duche. Mal sentira o sono vir. Ele acendeu um candeeiro numa mesa baixa. É um homem de hábitos, penso nele de repente, deve vir com relativa frequência a este quarto, é um homem que deve fazer amor muitas vezes, é um homem que tem medo, deve fazer amor muitas vezes para lutar contra o medo. Digo-lhe que me agrada a idéia de que tenha muitas mulheres, a idéia de estar entre essas mulheres, com elas confundida. Olhamo-nos. Ele compreende o que acabo de dizer. O olhar de repente alterado, falso, preso no mal, na morte. Digo-lhe que venha, que deve possuir-me de novo. Ele vem. Cheira bem a cigarro inglês, a perfume caro, cheira a mel, à força a sua pele apanhou o cheiro da seda, da seda aromática do tussor de seda, do ouro, desejo-o. Digo-lhe este desejo dele. Ele diz-me que espere um pouco. Fala-me, diz que soube logo, desde a travessia do rio, que eu seria assim com o primeiro amante, que amaria o amor, diz que sabe já que o hei-de enganar e também que hei-de enganar todos os homens com quem virei a estar. Diz que, no seu caso, foi ele o instrumento da sua própria infelicidade. Estou feliz por tudo o que ele me anuncia e digo-lho. Ele torna-se brutal, está desesperado, deita-se a mim, come os seios de criança, grita, insulta. Fecho os olhos àquele prazer tão forte. Penso: ele está habituado, é o que ele faz na vida, amor, só isso. As mãos são experientes, maravilhosas, perfeitas. Tenho muita sorte, é evidente, é como uma profissão que ele tivesse, sem o saber teria o saber exacto do que se deve fazer, do que se deve dizer. Chama-me puta, porca, diz que sou o seu único amor, e é isso que ele deve dizer e é isso que diz quando deixamos o dizer fazer-se, quando deixamos o corpo fazer e procurar e encontrar e agarrar o que ele quer, e aí tudo é bom, não há desperdícios, os desperdícios são cobertos de novo, vai tudo na torrente, na força do desejo. O ruído da cidade está tão próximo, tão perto, que o ouvimos roçar contra a madeira das persianas. Ouvimos como se eles atravessassem o quarto. Acaricio o

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seu corpo neste ruído, nesta passagem. O mar, a imensidade que reagrupa, se afasta, regressa. Tinha-lhe pedido que o fizesse mais e mais. Que me fizesse aquilo. Fizera-o. Fizera-o na untuosidade do sangue. E isso fora de morrer. Foi de morrer. Ele acendeu um cigarro e deu-mo. E muito baixo contra a minha boca faloume. Falei-lhe também muito baixo. Porque ele não sabe digo-lho por ele, em vez dele, porque ele não sabe que traz em si uma elegância cardinal, digo-o por ele. É a noite que chega agora. Diz-me que me lembrarei toda a vida desta tarde, mesmo quando tiver esquecido até o seu rosto, o seu nome. Pergunto se me lembrarei da casa. Ele diz-me: olha-a bem. Digo-lhe que é como qualquer outra. Ele diz-me que sim, que é isso, como sempre. Revejo ainda o rosto, e lembro-me do nome. Vejo ainda as paredes caiadas, o estore de lona que dá para a fornalha, a outra porta em arcada que leva ao outro quarto e a um jardim a céu aberto - as plantas morreram de calor - rodeado de balaustradas azuis como o grande palacete de Sadec com terraços em degraus que dá para o Mékong. É um lugar de abandono, naufragado. Pede-me que lhe diga em que penso. Digo-lhe que penso na minha mãe, que ela me matará se souber a verdade. Vejo que ele faz um esforço e depois di-lo, diz que compreende o que a minha mãe quer dizer, di-lo: esta desonra. Diz que não poderia suportar essa idéia em caso de casamento. Olho-o. Ele olha-me por sua vez, desculpa-se com orgulho: sou um Chinês. Sorrimos. Pergunto-lhe se é costume estar-se triste como nós estamos. Ele diz que é porque fizemos amor durante o dia, no momento em que o calor é maior. Diz que é sempre terrível depois. Sorri. Diz: quer nos amemos, quer não, é sempre terrível. Diz que há-de passar com a noite, assim que ela chegar. Digo-lhe que não é só por ter sido durante o dia, que está enganado, que estou numa tristeza que já esperava e - que só vem de mim. Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza também nas fotografias em que sou muito pequena. Que hoje esta tristeza, reconhecendo-a embora como a que sempre tive, poderia quase dar-lhe o meu nome, de tal modo se me assemelha. Hoje digo-lhe que é um bem-estar esta tristeza, o de ter finalmente caído numa desgraça que a minha mãe me anuncia desde sempre quando grita no deserto da sua vida. Digo-lhe: não percebo muito bem o que ela diz, mas sei que este quarto é o que eu esperava. Falo sem esperar resposta. Digo-lhe que a minha mãe grita aquilo em que crê como os enviados de Deus. Grita que não se deve esperar nada, nunca, nem de pessoa alguma, nem de Estado algum, nem de Deus algum. Ele vê-me falar, não tira os olhos de mim, olha a minha boca enquanto falo, estou nua, ele acaricia-me, talvez não me ouça, não sei. Eu digo que não faço da desgraça em que me encontro uma questão pessoal. Conto-lhe como era simplesmente tão difícil comer, vestir, viver em suma, só com o ordenado da minha mãe. Tenho cada vez mais dificuldade em falar. Ele diz: como é

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que faziam? Digo-lhe que estávamos fora, que a miséria fizera ruir os muros da família e que nos tínhamos encontrado todos fora de casa, cada um a fazer o que queria. Estávamos desonrados. É assim que estou aqui contigo. Ele está em cima de mim, abisma-se mais uma vez. Ficamos assim, pregados, a gemer no clamor da cidade ainda exterior. Ainda o ouvimos. E depois deixamos de o ouvir. Os beijos pelo corpo fazem chorar. Dir-se-ia que consolam. Em família não choro. Neste dia neste quarto, as lágrimas consolam do passado e também do futuro. Digo-lhe que um dia me separarei da minha mãe, que mesmo para a minha mãe um dia já não terei amor. Choro. Ele põe a cabeça sobre mim e chora de me ver chorar. Digo-lhe que na minha infância a desgraça da minha mãe ocupou o lugar do sonho. Que o sonho era a minha mãe e nunca as árvores de Natal, sempre só ela, quer seja a mãe em carne viva da miséria ou a outra, fora de si, que fala no deserto, quer seja a que tenta arranjar comida ou a outra que interminavelmente conta o que lhe aconteceu a ela, Marie Legrand de Roubaix, ela fala da sua inocência, das suas economias, da sua esperança. Através das persianas a noite chegou. O clamor aumentou. É mais estridente, menos surdo. Os lampadários de luzes avermelhadas acenderam-se. Saímos do apartamento. Voltei a pôr o chapéu de homem com a fita preta, os sapatos de ouro, o vermelho-escuro dos lábios, o vestido de seda. Envelheci. Sei-o de repente. Ele também vê; diz: estás cansada. No passeio, a multidão vai em todos os sentidos, lenta ou viva, abre passagem, é peganhenta como os cães abandonados, é uma multidão da China, revejo-a ainda nas imagens da prosperidade de hoje, na maneira que eles têm de caminhar juntos sem impaciência, nunca, de se encontrar na multidão como se estivessem sós, sem felicidade dir-se-ia, sem curiosidade, caminhando sem ter o ar de ir, sem intenção de ir, mas somente de avançar aqui em vez de ali, sós, e na multidão, nunca sós ainda por si mesmos, sempre sós na multidão. Vamos a um desses restaurantes chineses com vários andares, ocupam prédios inteiros, são grandes como grandes armazéns, quartéis, abrem para a cidade em varandas, terraços. O barulho que vem desses prédios é inconcebível na Europa, é o das encomendas gritadas pelos criados e repetidas e gritadas nas cozinhas. Ninguém fala nestes restaurantes. Nos terraços há orquestras chinesas. Vamos para o andar mais calmo, o dos Europeus, as ementas são as mesmas mas grita-se menos. Há ventiladores e pesadas tapeçarias contra o ruído. Peço-lhe que me diga como é que o pai é rico, de que maneira. Ele diz que o aborrece falar de dinheiro, mas que se eu insisto ele está disposto a dizer-me o que sabe da fortuna do pai. Tudo começou em Cholen, com os compartimentos para indígenas. Mandou construir trezentos. Várias ruas lhe pertencem. Fala francês com um sotaque parisiense ligeiramente forçado, fala do dinheiro com uma desenvoltura sincera. O pai tinha prédios que vendeu para comprar terrenos de construção, ao sul de Cholen. Foram também vendidos arrozais, julga ele, em Sadec. Faço-lhe perguntas sobre as epidemias. Digo-lhe que vi ruas inteiras de compartimentos interditos, de um dia para o outro, portas e janelas pregadas, por causa da epidemia

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da peste. Ele diz-me que há menos aqui, que as desratizações são muito mais freqüentes do que no mato. De repente conta-me uma grande história sobre os compartimentos. O seu custo é muito menos elevado do que o dos prédios ou das moradias individuais e respondem muito melhor às necessidades dos bairros populares do que as habitações separadas. A população aqui gosta de estar junta, sobretudo esta população pobre que vem do campo e também gosta de viver ao ar livre, na rua. Não se deve destruir os hábitos dos pobres. O pai acaba justamente de fazer uma série de compartimentos com galerias cobertas que dão para a rua. Isso torna as ruas muito claras, muito aprazíveis. As pessoas passam os dias nessas galerias exteriores. Também lá dormem quando faz muito calor. Digo-lhe que eu também teria gostado de morar numa galeria exterior, que quando era criança isso me parecia ideal, dormir ao ar livre. Subitamente tenho uma dor. Mal a sinto, é muito leve. É o bater do coração deslocado para ali, para a ferida viva e fresca que ele me fez, ele, aquele que me fala, aquele que fez o prazer desta tarde. Já não ouço o que ele diz, já não escuto. Ele vê, cala-se. Digo-lhe que continue a falar. Assim faz. Escuto de novo. Diz que pensa muito em Paris. Acha que sou diferente das parisienses, muito menos delicada. Digo-lhe que aquele negócio dos compartimentos não deve ser assim tão rentável. Ele já não me responde. Durante todo o tempo da nossa história, durante um ano e meio falaremos desta maneira, não falaremos nunca de nós. Desde os primeiros dias que sabemos que um futuro comum não é previsível, por isso nunca falamos do futuro, teremos conversas como que jornalísticas, e, a contrário, e de igual teor. Digo-lhe que a sua estada em França lhe foi fatal. Ele concorda. Diz que em Paris comprou tudo, as mulheres, os conhecimentos, as idéias. Tem mais doze anos do que eu e isso assusta-o. Ouço como ele fala, como se engana, como me ama também, numa espécie de teatralidade simultaneamente convencional e sincera. Digo-lhe que o vou apresentar à minha família, ele quer fugir e eu rio. Ele não pode exprimir os seus sentimentos a não ser pela paródia. Descubro que ele não tem força de me amar contra o seu pai, de ficar comigo, de me levar. Chora muitas vezes porque não encontra forças para amar para além do medo. O seu heroísmo sou eu, o seu servilismo é o dinheiro do pai. Quando falo dos meus irmãos cai logo nesse medo, fica como que desmascarado. Julga que toda a gente à minha volta espera o seu pedido de casamento. Sabe que está já perdido aos olhos da minha família, que para ela não pode senão perder-se ainda mais e perder-me a mim em consequência. Diz que foi tirar um curso comercial a Paris, diz finalmente a verdade, que não fez nada, que o pai lhe cortou a mesada, que lhe mandou o bilhete de regresso, que foi obrigado a deixar a França. Este regresso é a sua tragédia. Não acabou o curso dessa escola comercial. Diz que pensa acabá-lo aqui com lições por correspondência. Os encontros com a família começaram com grandes jantares em Cholen. Quando a minha mãe e os meus irmãos vêm a Saigão, digo-lhe que os deve

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convidar para os grandes restaurantes chineses que eles não conhecem, onde nunca foram. Estas noites passam-se todas da mesma maneira. Os meus irmãos nunca lhe dirigem a palavra. Nem sequer para ele olham. Não podem olhá-lo. Não seriam capazes de o fazer. Se pudessem fazer isso, o esforço de o ver, seriam capazes também de fazer os seus estudos, de se vergar às regras elementares da vida em sociedade. Durante estes jantares só a minha mãe fala, fala muito pouco, sobretudo os primeiros tempos, diz algumas frases sobre os pratos que trazem, sobre o seu preço exorbitante, e depois cala-se. Ele, das duas primeiras vezes, atira-se de cabeça, tenta abordar o tema das suas aventuras de Paris, mas em vão. É como se ele não tivesse falado, como se não tivessem ouvido. Os meus irmãos continuam a devorar. Devoram como nunca vi ninguém devorar em parte alguma. Paga. Conta o dinheiro. Pousa-o no pires. Toda a gente olha. Da primeira vez, lembro-me, alinha setenta e sete piastras. A minha mãe está prestes a ter um ataque de riso. Levantamo-nos para sair. Não há um obrigado, de ninguém. Nunca se diz obrigado pelo óptimo jantar, nem adeus até qualquer dia, nem como está, nunca se diz nada. Os meus irmãos nunca lhe dirigem a palavra. É como se não o vissem, como se não fosse suficientemente denso para ser perceptível, visto, ouvido por eles. Isso porque ele está aos meus pés, que parte do princípio de que não o amo, que estou com ele por dinheiro, que não posso amá-lo, que é impossível, que ele poderia suportar tudo de mim sem chegar nunca ao limite desse amor. E isso porque é um chinês, não é um branco. A maneira que aquele irmão mais velho tem de se calar e de ignorar a existência do meu amante deriva de uma tal convicção que é exemplar. Seguimos todos o exemplo do irmão mais velho face àquele amante. Também eu, à frente deles, não falo com ele. Na presença da minha família não devo nunca dirigirlhe a palavra. Salvo quando lhe transmito um recado da parte deles, então sim. Por exemplo depois do jantar, quando os meus irmãos me dizem que querem ir beber e dançar à Source, sou eu que lhe digo que queremos ir à Source beber e dançar. Primeiro faz como se não tivesse ouvido. E eu, na lógica do meu irmão mais velho, não devo repetir o que acabo de dizer, reiterar o meu pedido, se o fizesse, seria um erro, condescenderia com a sua queixa. Acaba por me responder. Em voz baixa que pretenderia ser íntima, diz que gostaria muito de estar só comigo por um momento. Di-lo para pôr fim ao suplício. Nessa altura, devo ouvi-lo ainda mal, como uma traição mais, como se assim ele quisesse acusar o golpe, denunciar a conduta do meu irmão mais velho a seu respeito, portanto, devo continuar a não lhe responder. Ele continua ainda, diz-me, atreve-se: a sua mãe está cansada, olhe para ela. Com efeito a nossa mãe cai de sono no fim dos jantares fabulosos dos chineses de Cholen. Continuo a não responder. É então que ouço a voz do meu irmão mais velho, ele diz uma frase muito curta, cortante, definitiva. A minha mãe dizia dele: dos três, é ele o que melhor fala. Tudo pára: reconheço o medo do meu amante, é o mesmo do meu irmão mais novo. Ele não resiste. Vamos à Source. A minha mãe também vai à Source, vai adormecer na Source. Na presença do meu irmão mais velho ele deixa de ser meu amante. Não deixa de existir mas já não é nada. Torna-se terra queimada. O meu desejo obedece

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ao meu irmão mais velho, rejeita o meu amante. Sempre que os vejo juntos, julgo nunca mais poder suportar essa visão. O meu amante é negado justamente no seu corpo fraco, nessa fraqueza que me arrebata de prazer. Perante o meu irmão ele torna-se um escândalo inconfessável, um motivo de vergonha que é preciso esconder. Não posso lutar contra aquelas ordens mudas do meu irmão. Posso, quando se trata do meu irmão mais novo. Quando se trata do meu amante não posso nada contra mim própria. Só de falar nisso agora me vem à lembrança a hipocrisia da expressão, do ar distraído de alguém que olha para outro sítio, que tem mais em que pensar mas que, no entanto, vê-se pelos maxilares ligeiramente cerrados, está irritado e sofre por ter de suportar aquilo, aquela indignidade, só para comer bem, num restaurante caro, o que deveria ser perfeitamente natural. À volta da recordação, a claridade lívida de noite do caçador tem um som estridente de alerta, de grito de criança. Na Source, também ninguém fala com ele. Mandamos todos vir Martel Perrier. Os meus irmãos bebem o deles imediatamente e mandam vir outro. A minha mãe e eu damos-lhes os nossos. Os meus irmãos depressa ficam bêbados. Nem por isso falam com ele, mas caem na recriminação. Sobretudo o meu irmão mais novo. Queixa-se de que o sítio é triste e não tem pegas. Há muito pouca gente nos dias de semana na Source. Danço com ele, com o meu irmão mais novo. Danço também com o meu amante. Nunca danço com o meu irmão mais velho, nunca dancei com ele. Sempre impedida pela sensação perturbante de um perigo, o dessa atracção maléfica que ele exerce sobre todos, o da aproximação dos nossos corpos. Parecemo-nos de uma maneira impressionante, sobretudo na cara. O Chinês de Cholen fala-me, está à beira das lágrimas, diz: o que é que eu lhes fiz. Digo-lhe que não se deve preocupar, que é sempre assim, também entre nós, em todas as circunstâncias da vida. Explico-lhe quando nos voltarmos a encontrar no apartamento. Digo-lhe que aquela violência do meu irmão mais velho, fria, insultuosa, acompanha tudo o que nos acontece. O seu primeiro movimento é matar, riscar da vida, dispor da vida, desprezar, perseguir, fazer sofrer. Digo-lhe para não ter medo. Que ele não corre qualquer risco. Porque a única pessoa que o irmão mais velho teme, perante quem curiosamente se intimida, sou eu. Nunca bom dia, boa noite, bom ano. Nunca obrigado. Nunca falar. Nunca necessidade de falar. Tudo fica mudo, longe. É uma, família de pedra, petrificada numa espessura sem qualquer acesso. Todos os dias tentamos matar-nos, matar. Não só não nos falamos como não nos olhamos. A partir do momento em que somos vistos, não podemos olhar. Olhar é ter um movimento de curiosidade para, por, é descer. Nenhuma pessoa olhada vale o olhar sobre ela. É sempre desonroso. A palavra conversa é banida. Creio que é ela que melhor aqui reflecte a vergonha e o orgulho. Qualquer comunidade, seja ela familiar ou outra, é-nos odiosa, degradante. Estamos juntos numa vergonha de princípio que é ter de viver a vida. É aí que estamos no mais profundo da nossa história comum, a de sermos os três filhos

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daquela pessoa de boa fé, a nossa mãe, que a sociedade assassinou. Estamos do lado dessa sociedade que reduziu a minha mãe ao desespero. Por causa do que fizeram à nossa mãe tão simpática, tão confiante, odiamos a vida, odiamo-nos. A nossa mãe não previa aquilo em que nos tornámos a partir do espectáculo do seu desespero, falo sobretudo dos rapazes, dos filhos. Mas tivesse-o ela previsto, como poderia ter calado o que se tornara a sua própria história? Fazer mentir o seu rosto, o seu olhar, a sua voz? O seu amor? Poderia ter morrido. Suprimir-se. Dispersar aquela comunidade invivível. Fazer com que o mais velho fosse completamente separado dos dois mais novos. Não o fez. Foi imprudente, inconsequente, irresponsável. Foi tudo isso. Viveu. Amámo-la os três para além do amor. Por isso mesmo, por ela não ter podido, porque não podia calar-se, esconder, mentir, por muito diferentes que tenhamos sido os três, amámo-la da mesma maneira. Foi muito tempo. Durou sete anos. Começou tínhamos dez anos. E depois fizemos doze anos e depois treze anos. E depois catorze anos, quinze anos. E depois dezasseis anos, dezassete anos. Durou todo este tempo, sete anos. E depois finalmente a esperança foi deixada. Foi abandonada. Abandonadas também as tentativas contra o oceano. À sombra da varanda olhamos a montanha de Sião, muito escura em pleno sol, quase negra. A mãe está finalmente calma, emparedada. Nós somos crianças heróicas, desesperadas. O irmãozinho morreu em Dezembro de 1942 sob a ocupação japonesa. Eu deixara Saigão após o meu segundo bacharelato em 1931. Ele escreveu-me uma única vez em dez anos. Sem que eu alguma vez saiba porquê. A carta era convencional, copiada, sem erros, a caligrafia cuidada. Dizia-me que estavam bem, que a escola estava a funcionar. Era uma longa carta de duas páginas. Reconheci a sua letra de criança. Dizia-me também que tinha um apartamento, um carro, dizia a marca. Que voltara a jogar ténis. Que estava bem, que estava tudo bem. Que me beijava tanto como gostava de mim, muito. Não falava da guerra nem do nosso irmão mais velho. Falo frequentemente dos meus irmãos como de um conjunto, como ela o fazia, a nossa mãe. Digo: os meus irmãos, também ela fora da família dizia: os meus filhos. Ela falou sempre da força dos filhos de maneira provocante. Para o exterior, não entrava em pormenores, não dizia que o filho mais velho era muito mais forte do que o segundo, dizia que ele era tão forte como os irmãos dela, os cultivadores do Norte. Sentia orgulho da força dos filhos como sentira da dos irmãos. Tal como o filho mais velho, ela desprezava os fracos. Do meu amante de Cholen dizia o mesmo que o irmão mais velho. Não escrevo essas palavras. Eram palavras que tinham que ver com as carcaças de animais mortos que se encontram nos desertos. Eu digo: os meus irmãos, porque era assim que eu própria dizia. Foi mais tarde que disse de outra maneira, quando o irmãozinho cresceu e se tornou mártir. Nenhum aniversário se festeja na nossa família, como nenhuma árvore de Natal, nenhum lenço bordado, nenhuma flor, nunca. Mas também nenhum morto,

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nenhuma sepultura, nenhuma memória. Só ela. O irmão mais velho continuará a ser um assassino. O irmão mais novo morrerá por causa desse irmão. Eu parti, arranquei-me. Até à sua morte, o irmão mais velho teve-o só para ele. Nessa época, de Cholen, da imagem, do amante, a minha mãe teve um sobressalto de loucura. Não sabe nada do que aconteceu em Cholen. Mas vejo que ela me observa, que desconfia de qualquer coisa. Conhece a sua filha, essa criança, à volta dessa criança paira, há algum tempo, um ar de estranheza, uma reserva, dirse-ia, recente, que desperta a atenção, a sua fala é mais lenta ainda que de costume, e ela, tão curiosa de tudo está distraída, o seu olhar mudou, tornou-se espectadora da sua mãe, da desgraça da sua mãe, dir-se-ia que assiste ao seu próprio acontecimento. O súbito terror na vida da minha mãe. A sua filha corre o maior dos perigos, o de nunca se casar, de nunca se estabelecer na sociedade, de ficar desamparada perante aquela sociedade, perdida, solitária. Nas suas crises a minha mãe deita-se a mim, fecha-me no quarto, dá-me murros, esbofeteia-me, despe-me, aproxima-se de mim, cheira-me o corpo, a roupa, diz que sente o perfume do homem chinês, vai mais longe, vê se há manchas suspeitas na roupa interior e grita, a cidade a ouvi-Ia, que a filha é uma prostituta, que a vai pôr fora de casa, que só quer vê-Ia morta,. que ninguém vai querê-la, que está desonrada, é pior que uma cadela. E chora perguntando o que é que pode fazer senão pô-la fora de casa para não a empestar mais. Por detrás das paredes do quarto fechado, o irmão. O irmão responde à mãe, diz-lhe que tem razão em bater na criança, a voz dele é velada, íntima, acariciadora, diz-lhe que têm de saber a verdade seja a que preço for, que têm de saber para impedir que essa menina se perca, para impedir que a mãe fique desesperada com essa perdição. A mãe bate com toda a força. O irmão mais novo grita à mãe que a deixe em paz. Vai para o jardim, esconde-se, tem medo que eu morra, tem medo, tem sempre medo desse desconhecido, o nosso irmão mais velho. O medo do irmãozinho acalma a minha mãe. Chora pelo desastre da sua vida, pela sua filha desonrada. Choro com ela. Minto. Juro pela minha vida que não me aconteceu nada, nem sequer um beijo. Como é que tu queres, digo eu, com um chinês, como é que tu queres que eu faça isso com um chinês, tão feio, tão enfezado? Sei que o irmão mais velho está colado à porta, escuta, sabe o que a minha mãe está a fazer, sabe que a miúda está nua, e espancada, gostaria que durasse mais e mais até ao perigo. A minha mãe não ignora esse desejo do meu irmão mais velho, obscuro, aterrador. Ainda somos muito pequenos. Regularmente rebentam batalhas entre os meus irmãos, sem pretexto aparente, salvo o clássico do irmão mais velho, que diz ao pequeno: sai daí, estás a estorvar. Assim que o diz, bate. Lutam sem uma palavra, ouve-se-lhes apenas a respiração, os gemidos, o ruído surdo das pancadas. Minha mãe, como em todas as circunstâncias, acompanha a cena com uma ópera de gritos. São dotados da mesma capacidade de cólera, dessas cóleras negras, assassinas, que nunca se viram senão entre irmãos, irmãs, mães. O irmão mais velho sofre por não fazer livremente o mal, por não reger o mal, não só aqui mas em

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todo o lado. O mais novo, por assistir impotente a este horror, a esta disposição do irmão mais velho. Quando lutavam, tínhamos um medo igual da morte por um e por outro; a mãe dizia que eles tinham lutado sempre, que nunca tinham brincado juntos, nem falado um com o outro. Que a única coisa que tinham em comum era ela, a mãe deles, e, sobretudo, aquela irmãzinha, nada a não ser o sangue. Creio que só do filho mais velho a minha mãe dizia: o meu filho. Chamava-lhe algumas vezes assim. Dos outros dois dizia: os mais novos. De tudo isto não dizíamos nada lá fora, tínhamos primeiro aprendido a calarmo-nos sobre o principal da nossa vida, a miséria. E depois, também, sobre tudo o resto. Os primeiros confidentes, a palavra parece desmedida, são os nossos amantes, os nossos encontros fora dos postos, nas ruas de Saigão primeiro e depois nos navios de carreira, nos comboios, e depois em todo o lado. A minha mãe, dá-lhe de repente, para o fim da tarde, sobretudo na estação seca, manda lavar a casa de ponta a ponta, para limpar diz ela, para a pôr asseada, para a refrescar. A casa está construída num terraplano que a isola do jardim, das serpentes, dos escorpiões, das formigas vermelhas, das inundações do Mékong, as que se seguem aos grandes tornados das monções. Esta elevação da casa acima do solo permite lavá-la com grandes baldes de água, banhá-la toda como um jardim. Todas as cadeiras estão em cima das mesas, a casa toda escorre, o piano do salão pequeno tem os pés dentro de água. A água desce pelos patamares, invade o pátio em direcção às cozinhas. Os pequenos boys estão muito contentes, estamos com os pequenos boys, atiramos água uns aos outros, e depois ensaboa-se o chão com sabão amarelo. Estamos todos descalçados, a mãe também. A mãe ri. A mãe não tem de que se queixar. Toda a casa está perfumada, tem o cheiro delicioso da terra molhada depois da tempestade, é um cheiro que nos põe loucos de alegria, sobretudo quando se mistura com outro cheiro, o do sabão amarelo, o da pureza, da honestidade, da roupa branca, da brancura, da nossa mãe, da imensidão da candura de nossa mãe. A água desce até aos carreiros do jardim. As famílias dos boys chegam, as visitas dos boys também, as crianças brancas das casas da vizinhança. A mãe está muito contente com esta desordem, a mãe pode ser muito muito feliz às vezes, o tempo de esquecer, o de lavar a casa pode convir à felicidade da mãe. A mãe vai até à sala, senta-se ao piano, toca as únicas árias que sabe de cor, que aprendeu na Escola Normal. Canta. Às vezes toca, ri. Levanta-se e dança, a cantar. E todos pensamos e ela também, a mãe, que se pode ser feliz nesta casa desfigurada que de repente se transforma num charco, num campo à beira dum rio, um vau, uma praia. São as duas crianças mais novas, a menina e o irmãozinho, os primeiros a lembrar-se. Param de rir subitamente e vão para o jardim onde a noite chega. Lembro-me, no próprio instante em que escrevo, de que o nosso irmão mais velho não estava em Vinhlong quando se lavava a casa. Estava com o nosso tutor, um padre de aldeia no Lot-et-Garonne.

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A ele também lhe acontecia rir, às vezes, mas nunca tanto como nós. Esqueço tudo, esqueço-me de dizer isso, que éramos crianças risonhas, o meu irmãozinho e eu, gostávamos de rir até perder o fôlego, a vida. Vejo a guerra com as mesmas cores que a minha infância. Confundo o tempo da guerra com o reinado do meu irmão mais velho. É também sem dúvida porque é durante a guerra que o meu irmão mais novo morre: o coração, como já disse, cedera, abandonado. O irmão mais velho, creio bem nunca o ter visto durante a guerra. Já não me importava saber se estava vivo ou morto. Vejo a guerra como ela era, a espalhar-se por todo o lado, penetrar em todo o lado, roubar, meter na prisão, estar em toda a parte, sempre ali, misturada com tudo, enredada, presente no corpo, no pensamento, na vigília, no sono, o tempo todo, presa da paixão embriagante de ocupar o território adorável do corpo da criança, do corpo dos menos fortes, dos povos vencidos, isto porque o mal está aí, à porta, contra a pele. Voltamos ao apartamento dele. Somos amantes. Não podemos parar de amar. Às vezes não vou dormir ao pensionato, durmo junto dele. Não quero dormir nos seus braços, no seu calor, mas durmo no mesmo quarto, na mesma cama. Às vezes falto ao liceu. Vamos comer à cidade à noite. Ele dá-me banho com o chuveiro, lava-me, enxagua-me, adora, pinta-me e veste-me, adora-me. Sou a favorita da sua vida. Vive no pânico de que eu encontre outro homem. Eu não tenho medo de nada do género, nunca. Tem também outro medo, não porque eu seja branca, mas porque sou tão nova, tão nova que ele poderia ser preso se descobrissem a nossa história. Diz-me que continue a mentir à minha mãe e sobretudo ao meu irmão mais velho, que não diga nada a ninguém. Continuo a mentir. Rio-me do seu medo. Digo-lhe que somos demasiado pobres para que a mãe possa sequer pôr um processo, que além disso todos os processos que ela moveu, perdeu-os, contra o cadastro, contra os administradores, contra os governadores, contra a lei, ela não sabe conduzi-los, manter a calma, esperar, esperar mais, não pode, grita e deita a perder as suas possibilidades. Com este seria a mesma coisa, não vale a pena ter medo. Marie-Claude Carpenter. Era americana, era, julgo lembrar-me, de Boston. Os olhos eram muito claros, cinzento-azulados. 1943. Marie-Claude Carpenter era loira. Muito pouco envelhecida. Bastante bonita. Com um sorriso breve que se fechava muito depressa, desaparecia num relâmpago. Com uma voz de que me lembro de repente, baixa, um tanto discordante nos agudos. Tinha quarenta e cinco anos, a idade, a idade mesmo. Vivia no seizième, junto da Alma. A casa ocupava o último e vasto andar de um prédio que daria para o Sena. Íamos jantar a casa dela no Inverno. Ou almoçar, no Verão. As refeições eram encomendadas nos melhores fornecedores de Paris. Sempre decentes, quase, mas só quase, insuficientes. Nunca a vimos a não ser em casa dela, nunca fora. Também havia lá, por vezes, um mallarmeano. E frequentemente, também, um ou dois ou três literatos, vinham uma vez e nunca mais os víamos. Nunca soube onde é que ela os encontrava, onde os tinha conhecido, nem porque os convidara. Nunca ouvi falar de nenhum deles nem li ou ouvi falar das suas obras. As refeições

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duravam pouco tempo. Falava-se muito da guerra, era a época de Estalinegrado, era no fim do Inverno de 42. Marie-Claude Carpenter ouvia muito, informava-se muito, falava pouco, muitas vezes admirava-se que tantos acontecimentos lhe escapassem, ria-se. Logo a seguir às refeições pedia desculpa por ter de se ir embora tão depressa, mas tinha que fazer, dizia ela. Nunca dizia o quê. Quando éramos em número suficiente, ficávamos uma ou duas horas depois de ela se ir embora. Dizia-nos: fiquem o tempo que quiserem. Na sua ausência, ninguém falava dela. Aliás creio que ninguém teria sido capaz, porque ninguém a conhecia. Saíamos, e voltávamos sempre a casa com esse sentimento de ter atravessado uma espécie de pesadelo branco, de acabar de passar algumas horas com desconhecidos, na presença de convidados que estavam na mesma situação, e igualmente desconhecidos, de ter vivido um momento sem qualquer futuro, sem qualquer motivação humana ou outra. Era como ter atravessado uma terceira fronteira, ter feito uma viagem de comboio, ter esperado na sala de espera de médicos, em hotéis, em aeroportos. No Verão, almoçávamos num grande terraço que olhava o Sena e tomávamos café no jardim que ocupava todo o telhado do prédio. Havia uma piscina. Ninguém tomava banho. Olhávamos Paris. As avenidas vazias, o rio, as ruas. Nas ruas vazias, as orquídeas em flor. Mallarméen, no original. Marie-Claude Carpenter. Eu olhava muito para ela, quase o tempo todo, ela ficava constrangida mas eu não me podia conter. Olhava-a para descobrir, descobrir quem era, Marie-Claude Carpenter. Porque estava ali e não noutro lado, porque era de tão longe, de Boston, porque era rica, porque ignorávamos rigorosamente tudo sobre ela, ninguém, nada, porquê essas recepções como que forçadas, porquê, porquê nos seus olhos, dentro, muito ao longe, no fundo da vista essa partícula de morte, porquê? Marie-Claude Carpenter. Por que tinham os seus vestidos todos em comum um não sei quê que escapava, que os fazia não exactamente seus, mas que poderiam ter vestido da mesma maneira um outro corpo. Vestidos neutros, estritos, muito claros, brancos como o Estio no coração do Inverno. Betty Fernandez. A recordação que se tem dos homens nunca se produz nesse clarão iluminante que acompanha a das mulheres. Betty Fernandez. Também ela estrangeira. Pronunciado que é o nome, ei-la numa rua de Paris, é míope, vê muito pouco, franze os olhos para reconhecer completamente, cumprimenta com mão ligeira. Bom dia, tem passado bem? Agora, morta há muito tempo. Talvez há trinta anos. Lembro-me da graça, agora é tarde de mais para que eu esqueça, ainda nada atingiu a sua perfeição, nada lhe alcançará alguma vez a perfeição, nem as circunstâncias, nem a época, nem o frio, nem a fome, nem a derrota alemã, nem o trazer à plena luz do Crime. Passa sempre a rua por cima da História dessas coisas, por mais terríveis que sejam. Também aqui os olhos são claros. O vestido cor-derosa é antigo, e cheia de pó a capelina negra ao sol da rua. É magra, alta, desenhada a tinta-da-china, uma gravura. As pessoas param e olham maravilhadas a elegância desta estrangeira que passa sem ver. Soberana. Não se percebe logo de onde ela é. E depois dizemo-nos que não pode ser senão de fora, senão daí. É bela, bela por esta incidência. Veste-se com os velhos trapos da Europa, com restos de brocados, com velhos saia-e-casaco fora de moda, com velhos cortinados, com velhos restos, velhos retalhos, velhos farrapos de alta costura, velhas raposas roídas

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pelas traças, velhas lontras, a sua beleza é assim, rasgada, friorenta, soluçante, e de exílio, nada lhe fica bem, tudo é grande de mais para ela, e é bonito, ela bóia, demasiado magra, nada se lhe ajusta e, no entanto, é bonito. É feita assim, na cabeça e no corpo, de modo que cada coisa que a toca participa desde logo, indefectivelmente, dessa beleza. Ela recebia, Betty Fernandez, tinha um dia. Fomos lá umas vezes. Uma vez estava Drieu Ia Rochelle. Sofria visivelmente de orgulho, falava pouco para não condescender, numa voz dobrada, numa língua como que traduzida, incómoda. Talvez também lá estivesse Brasillach, mas não me lembro, tenho muita pena. Nunca estava Sartre. Havia poetas de Montparnasse, mas já não sei nenhum nome, nem nada. Não havia alemães. Não se falava de política. Falava-se de literatura. Ramon Fernandez falava de Balzac. Tê-lo-íamos escutado até ao fim das noites. Falava com um saber quase completamente esquecido, de que não devia ter ficado quase nada de completamente verificável. Dava poucas informações, dava antes opiniões. Falava de Balzac como o faria de si próprio, como se tivesse uma vez experimentado ser, ele também, isso mesmo, Balzac. Ramon Fernandez tinha uma civilidade sublime até no saber, um modo ao mesmo tempo essencial e transparente de se servir do conhecimento, sem nunca fazer sentir a sua obrigação, o peso. Era uma pessoa sincera. Era sempre uma festa encontrá-lo na rua, no café, ficava contente por nos ver, e era verdade, cumprimentava-nos com prazer. Bom dia tem passado bem? Isto à inglesa, sem vírgula, num riso e no tempo desse riso a própria guerra se tornava uma brincadeira assim como todo o sofrimento forçado que decorria dela, tanto a Resistência como a Colaboração, a fome como o frio, o martírio como a infâmia. Ela só falava nas pessoas, Betty Femandez, das que via na rua ou das que conhecia, de como estavam, das coisas que ainda havia para vender nas montras, das distribuições dos suplementos de leite, de peixe, das soluções que mitigavam as faltas, o frio, a fome constante, estava sempre no pormenor prático da existência, mantinha-se ali, sempre com uma amizade atenta, muito fiel e muito terna. Colaboradores, os Femandez. E eu, dois anos depois da guerra, membro do PCF. A equivalência é absoluta, definitiva. É a mesma coisa, a mesma piedade, o mesmo pedido de socorro, a mesma debilidade do juízo, a mesma superstição, digamos, que consiste em acreditar na solução política do problema pessoal. Também ela, Betty Femandez, olhava as ruas vazias da ocupação alemã, olhava Paris, as praças de orquídeas em flor como essa outra mulher, Marie-Claude Carpenter. Tinha também os seus dias de receber. Ele acompanha-me ao pensionato na limusina preta. Pára um pouco antes da entrada para que não o vejam. É de noite. Ela desce, corre, não se volta para ele. Logo passado o portão, ela vê que o grande pátio de recreio ainda está iluminado. Assim que desemboca do corredor vê-a, a ela, que a esperava, já preocupada, direita, sem nenhum sorriso. Pergunta-lhe: onde estiveste? Ela diz: não vim dormir. Não diz porquê e Hélène Lagonelle não lhe pergunta. Tira o chapéu cor-de-rosa e desfaz as tranças para se deitar. Também não foste ao liceu. Também não. Hélène diz que telefonaram, é por isso que ela sabe, que tem de ir falar com a vigilantechefe. Há muitas raparigas na sombra do pátio. Todas estão de branco. Há grandes candeeiros nas árvores. Algumas salas de estudo ainda estão de luz acesa. Há alunas que ainda trabalham, outras que ficam nas salas de aula para conversar, ou jogar às cartas, ou cantar. Não há hora de deitar para as alunas, o calor é tal durante

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o dia, deixa-se correr o serão um pouco como se quiser, como querem as jovens vigilantes. Somos as únicas brancas do pensionato do Estado. Há muitas mestiças, a maior parte delas foram abandonadas pelo pai, soldado ou marinheiro ou pequeno funcionário da alfândega, dos postos, das obras públicas. A maioria vem da Assistência. Também há algumas cabritas. Hélène Lagonelle acredita que o Governo francês as educa para fazer delas enfermeiras nos hospitais ou então vigilantes nos orfanatos, nas leprosarias, nos hospitais psiquiátricos. Hélène Lagonelle acha que também as mandam para os lazaretos de coléricos e atacados de peste. É o que Hélène Lagonelle acredita e chora porque não quer nenhum desses empregos, fala sempre em fugir do pensionato. Fui falar com a vigilante de serviço, também ela uma jovem mestiça, que olha muito para nós, para Hélène e para mim. Diz: não foi ao liceu e não dormiu aqui a noite passada, vamos ser obrigados a informar a sua mãe. Digo-lhe que não pude fazer outra coisa mas que a partir dessa noite, daqui para o futuro, tentarei vir dormir todas as noites ao pensionato, que não vale a pena informar a minha mãe. A jovem vigilante olha-me e sorri-me. Voltarei a fazê-lo. A minha mãe será informada. Virá falar com a directora do pensionato e pedir-lhe-á que me deixe livre à noite, que não controle a hora a que eu entro, e que também não me obrigue a ir passear ao domingo com as pensionistas. Diz: é uma criança que sempre foi livre, senão fugiria, eu própria, sua mãe, não posso nada contra isso, se quero que ela fique comigo tenho de a deixar livre. A directora aceitou porque eu sou branca e que por causa da reputação do pensionato, na massa de mestiças tem de haver algumas brancas. A minha mãe disse também que eu trabalhava bem no liceu mesmo sendo tão livre e que o que lhe acontecera com os seus filhos era tão terrível, tão grave, que os estudos da pequena eram a única esperança que lhe restava. A directora deixou-me viver no pensionato como num hotel. Em breve terei um diamante no dedo do noivado. Então as vigilantes não me farão mais observações. Hão-de suspeitar que eu não estou noiva, mas o diamante é muito caro, ninguém duvidará que é verdadeiro e ninguém dirá mais nada por causa do preço do diamante que deram à rapariguinha tão nova. Volto para junto de Hélène Lagonelle. Está deitada num banco e chora porque julga que vou deixar o pensionato. Sento-me no banco. Estou extenuada com a beleza do corpo de Hélène Lagonelle estirado contra o meu. Este corpo é sublime, livre debaixo do vestido, ao alcance da mão. Os seios são como nunca vi nenhuns. Nunca os toquei. Ela é impudica, Hélène Lagonelle, não se dá conta disso, passeiase toda nua pelos dormitórios. O que há de mais belo, de todas as coisas dadas por Deus, é este corpo de Hélène Lagonelle, incomparável, este equilíbrio entre a estatura e a maneira como o corpo oferece os seios, fora dele, como coisas separadas. Nada é mais extraordinário que esta rotundidade exterior dos seios oferecidos, esta exterioridade estendida para as mãos. Mesmo o corpo de pequeno coolie do meu irmãozinho desaparece perante este esplendor. Os corpos dos homens têm formas avaras, fechadas. Também não se estragam como as de Hélène Lagonelle que, essas, nunca duram, talvez apenas um Verão, quando muito, é tudo.

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Ela vem dos altos planaltos de Dalat, Hélène Lagonelle. O seu pai é funcionário dos postos. Chegou em pleno ano escolar há pouco tempo. Tem medo, põe-se ao nosso lado, deixa-se ali estar sem dizer nada, muitas vezes a chorar. Tem a pele rosada e morena da montanha, reconhecemo-la sempre aqui onde todas as crianças têm a palidez esverdeada da anemia, do calor tórrido. Hélène Lagonelle não vai ao liceu. Ela não sabe ir à escola, Hélène L. Ela não aprende, não retém. Freqüenta os cursos primários do pensionato mas não serve de nada. Chora contra o meu corpo, e eu faço-lhe festas no cabelo, nas mãos, digo-lhe que ficarei com ela no pensionato. Ela não sabe que é muito bela, Hélène L. Os pais não sabem o que hãode fazer dela, procuram casá-la o mais depressa possível. Ela teria todos os noivos que quisesse, Hélène Lagonelle, mas não os quer, não se quer casar, quer voltar para o pé da mãe. Ela. Hélène L. Hélène Lagonelle. Acabará por fazer o que a mãe quiser. Ela é muito mais bonita do que eu, do que esta do chapéu de palhaço, calçada de lamé, infinitamente mais casável do que ela, Hélène Lagonelle, ela, pode-se casá-la, estabelecê-la na conjugalidade, assustá-la, explicar-lhe o que lhe faz medo e ela não compreende, ordenar-lhe que se deixe estar ali, que espere. Hélène Lagonelle, ela, ela não sabe ainda o que eu sei. Ela tem, no entanto, dezassete anos. É como se eu o adivinhasse, ela nunca há-de saber o que eu sei. O corpo de Hélène Lagonelle é pesado, ainda inocente, a suavidade da sua pele é tal, a de certos frutos, está à beira de não ser percebida, ilusória um pouco, é demasiado. Hélène Lagonelle dá vontade de a matar, faz tomar forma o sonho maravilhoso de a matarmos com as nossas próprias mãos. Essas formas de flor de farinha, oferece-as, sem nenhum saber, mostra essas coisas para as mãos as amassarem, para a boca as comer, sem as reter, sem conhecimento delas, nem conhecimento do seu fabuloso poder. Quereria comer os seios de Hélène Lagonelle como ele come os meus seios no quarto da cidade chinesa onde vou todas as noites aprofundar o conhecimento de Deus. Ser devorada por esses seios de flor de farinha que são os seus. Estou extenuada do desejo de Hélène Lagonelle. Estou extenuada de desejo. Quero levar comigo Hélène Lagonelle, àquele lugar em que todas as noites de olhos fechados deixo que me dêem o gozo que faz gritar. Quereria dar Hélène Lagonelle a esse homem que faz isso em mim para que o faça, por sua vez, nela. Isto na minha presença, que ela o faça de acordo com o meu desejo, que ela se dê aí onde me dou. Seria pelo desvio do corpo de Hélène Lagonelle, pela travessia do seu corpo que o gozo me chegaria dele, então definitivo. De morrer. Vejo-a como sendo da mesma carne que esse homem de Cholen, mas num presente irradiante, solar, inocente, numa eclosão repetida dela própria, em cada gesto, em cada lágrima, em cada uma das suas falhas, em cada uma das suas ignorâncias. Hélène Lagonelle, ela é a mulher desse moço de fretes que me torna o gozo tão abstracto, tão duro, esse homem obscuro de Cholen, da China. Hélène Lagonelle. Não esqueci esse moço de fretes. Quando parti, quando o deixei, fiquei

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dois anos sem me aproximar de nenhum outro homem. Mas essa misteriosa fidelidade devia ser a mim mesma. Ainda estou nesta família, é aí que habito com exclusão de todos os outros lugares. É na sua aridez, na sua terrível dureza, na sua maleficência que estou mais profundamente segura de mim, no mais profundo da minha certeza essencial, a saber, que mais tarde escreverei. É esse o lugar a que me hei-de agarrar mais tarde, uma vez abandonado o presente, à exclusão de qualquer outro lugar. As horas que passo no apartamento de Cholen fazem aparecer esse lugar sob uma luz fresca, nova. É um lugar irrespirável, paredes-meias com a morte, um lugar de violência, de dor, de desespero, de desonra. E tal é o lugar de Cholen. Do outro lado do rio. Uma vez atravessado o rio. Nunca soube o que aconteceu a Hélène Lagonelle, se morreu. Foi ela a primeira a deixar o pensionato, muito antes da minha partida para França. Voltou para Dalat. Fora a mãe que lhe pedira que voltasse para Dalat. Creio lembrar-me que era para a casarem, que ela devia conhecer um recém-chegado da metrópole. Talvez me engane, confunda o que eu achava que iria acontecer a Hélène Lagonelle com a partida forçada reclamada por sua mãe. Que vos diga também o que era, como era. É isto: ele rouba aos boys para ir fumar ópio. Rouba à nossa mãe. Rebusca nos armários. Rouba. Joga. O meu pai comprara uma casa em Entre-deux-Mers antes de morrer. Era o nosso único bem. Ele joga. A minha mãe vende-a para pagar as dívidas. Não basta, nunca basta. Em nova, tenta vender-me a clientes da Coupole. É por ele que a minha mãe ainda quer viver, para que ele coma ainda, que durma no quente, que ainda ouça chamar o seu nome. E a propriedade que ela lhe comprou perto de Amboise, dez anos de economias. Numa noite hipotecada. Ela paga os juros. E o produto todo do corte dos bosques que vos contei. Numa noite. Roubou minha mãe moribunda. Era uma pessoa que revistava os armários, que tinha faro, que sabia procurar bem, descobrir as boas pilhas de lençóis, os esconderijos. Roubou as alianças, esse tipo de coisas, muitas, as jóias, a comida. Roubou a Dó, aos boys, ao meu irmãozinho. A mim, muito. Era capaz de a ter vendido, a ela, à sua mãe. Quando ela morre manda imediatamente chamar o notário, na emoção da morte. Sabe aproveitar-se da emoção da morte. O notário diz que o testamento não é válido. Que ela beneficiou de mais o seu filho mais velho à minha custa. A diferença é enorme, risível. É preciso que, com inteiro conhecimento de causa, eu o aceite ou o recuse. Certifico que aceito: assino. Aceitei-o. O meu irmão, de olhos baixos, obrigado. Chora. Na emoção da morte da nossa mãe. É sincero. Na libertação de Paris, sem dúvida perseguido por actos de colaboração no Sul, já não sabe para onde ir. Vem para minha casa. Nunca soube muito bem, ele foge de um perigo. Talvez tenha entregue pessoas, judeus, tudo é possível. Está muito afável, afectuoso como sempre depois dos seus assassínios ou quando precisa dos nossos serviços. O meu marido está deportado. Ele lastima. Fica três dias. Esqueci-me, quando saio não fecho nada. Ele faz uma busca. Guardo, para o regresso do meu marido, o açúcar e o arroz das minhas senhas. Faz uma busca e apanha-os. Revista ainda um armário do meu quarto. Encontra. Leva a totalidade das minhas economias, cinquenta mil francos.

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Não deixa uma única nota. Abandona a casa, com os roubos. Quando o voltar a ver, não lhe falarei nisto, a vergonha por ele é tão grande, não serei capaz. Depois do falso testamento, o falso castelo Luís XIV é vendido por dez réis de mel coado. A venda foi falsificada, como o testamento. Depois da morte da minha mãe, ele fica só. Não tem amigos, nunca teve amigos, teve algumas vezes mulheres que ele fazia "trabalhar" em Montpamasse, às vezes as mulheres que não fazia trabalhar, pelo menos ao princípio, às vezes homens mas que, esses, lhe pagavam. Vivia numa grande solidão. Esta aumentou com a velhice. Era apenas um vadio, as suas causas eram fracas. Fez medo à sua volta, mais nada. Connosco perdeu o seu verdadeiro império. Não era um gangster, era um patife familiar, um tipo que revistava os armários, um assassino sem armas. Não se comprometia. Os patifes vivem assim como ele vivia, sem solidariedade, sem grandeza, no medo. Ele tinha medo. Depois da morte da minha mãe leva uma existência estranha. Em Tours. Só conhece os empregados de café para os "contactos" das corridas e a clientela vinosa dos pôqueres nas salas das traseiras. Começa a parecer-se com eles, bebe muito, fica com os olhos injectados, a boca torpe. Em Tours já não tem nada. As duas propriedades liquidadas, mais nada. Durante um ano vive num armazém de móveis alugado pela minha mãe. Dorme durante um ano num sofá. Fazem o favor de o deixar entrar. Aí fica um ano. E depois é posto fora. Durante um ano deve ter tido esperança de voltar a comprar a sua propriedade hipotecada. Jogou um a um os móveis da minha mãe no armazém, os budas de bronze, os cobres e depois as camas, e depois os armários, e depois os lençóis. E depois um dia não tinha mais nada, isso acontece-lhes, um dia tem o fato que traz vestido, mais nada, nem um lençol, nem um talher. Está só. Num ano, ninguém lhe abriu a porta. Escreve a um primo de Paris. Terá um quarto de criado em Malesherbes. E, com mais de cinqüenta anos, terá o seu primeiro emprego, o primeiro salário da sua vida, é contínuo numa companhia de seguros marítimos. Isto durou, creio eu, quinze anos. Foi para o hospital. Não morreu lá. Morreu no quarto dele. A minha mãe nunca falou desse filho. Nunca se queixou dele. Nunca falou a ninguém daquele que revistava os armários. Viveu essa maternidade como um delito. Tinha-a escondida. Devia achá-la ininteligível, incomunicável a quem quer que não conhecesse o seu filho como ela o conhecia, diante de Deus e apenas diante Dele. Dizia a seu respeito pequenas banalidades, sempre as mesmas. Que, se tivesse querido, teria sido o mais inteligente dos três. O mais "artista". O mais esperto. E também o que tinha amado mais a sua mãe. O que, em definitivo, a tinha compreendido melhor. Eu não sabia, dizia ela, que se pudesse esperar isto de um rapaz, uma tal intuição, uma ternura tão profunda. Voltámos a ver-nos uma vez, ele falou-me do irmãozinho morto. Disse: que horror aquela morte, é abominável, o nosso irmãozinho, o nosso pequeno Paulo. Fica esta imagem do nosso parentesco: é uma refeição em Sadec. Estamos os três a comer à mesa da sala de jantar. Eles têm dezassete, dezoito anos. A minha mãe não está connosco. Ele está a ver-nos comer, ao irmãozinho e a mim, e depois

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pousa o garfo, olha só para o meu irmão. Olha-o durante muito tempo e depois diz de repente, muito calmo, algo terrível. A frase é sobre a comida. Diz-lhe que deve ter cuidado, que não deve comer tanto. O irmãozinho não responde nada. Ele continua. Lembra-lhe que os bocados grandes de carne são para ele, que não se deve esquecer disso. Senão, diz ele. Eu pergunto: porquê para ti? Ele diz: porque é assim mesmo. Eu digo: queria que tu morresses. Não consigo comer. O irmãozinho também não. Ele espera que o irmãozinho se atreva a dizer uma palavra, uma única palavra, os seus punhos fechados já estão prontos em cima da mesa para lhe esmurrarem a cara. O irmãozinho não diz nada. Está muito pálido. Entre as pestanas, o começo do choro. Quando ele morre, é um dia sombrio. Creio que de Primavera, de Abril. Telefonam-me. Nada, não dizem mais nada, foi encontrado morto, no chão, no quarto. A morte adiantava-se ao fim da sua história. Em vivo já tudo estava consumado, era tarde de mais para que morresse, estava morto desde a morte do irmãozinho. As palavras subjugantes: tudo está consumado. Ela pediu que aquele filho fosse enterrado com ela. Já não sei em que sítio, em que cemitério, sei que é na região do Loire. Estão os dois na cova. Só eles dois. É justo. A imagem é de um intolerável esplendor. O crepúsculo caía à mesma hora todo o ano. Era muito curto, quase brutal. Na estação das chuvas, durante semanas, não se via o céu, estava envolto num nevoeiro uniforme que nem a luz da Lua atravessava. Na estação seca, em contrapartida, o céu estava nu, descoberto na sua totalidade, cru. Até as noites sem Lua eram iluminadas. E as sombras estavam igualmente desenhadas no chão, nas águas, nos caminhos, nas paredes. Lembro-me mal dos dias. A luz solar embaciava as cores, esmagava. Das noites, lembro-me. O azul estava mais longe que o céu, estava atrás de todas as espessuras, recobria o fundo do mundo. O céu, para mim, era esse rasto de puro brilho que atravessa o azul, essa fusão fria para além de toda a cor. Às vezes, era em Vinhlong, quando a minha mãe estava triste, mandava aparelhar o tilburi e íamos para o campo ver a noite da estação seca. Tive essa sorte, para essas noites, aquela mãe. A luz caía do céu em cataratas de pura transparência, em trombas de silêncio e de imobilidade. O ar era azul, apanhávamo-lo na mão. Azul. O céu era essa palpitação contínua da brilhância da luz. A noite iluminava tudo, todos os campos de cada margem do rio até aos limites da vista. Cada noite era particular, cada uma podia chamar-se o tempo da sua duração. O som das noites era o dos cães do campo. Uivavam ao mistério. Respondiam uns aos outros de aldeia em aldeia até à consumação total do espaço e do tempo da noite. Nas áleas do pátio as sombras das macieiras-caneleiras são de tinta escura. O jardim está todo inteiro fixo numa imobilidade de mármore. A casa também, monumental, fúnebre. E o meu irmãozinho que caminhava ao pé de mim e que agora olha com insistência o portão aberto sobre a avenida deserta. Uma vez ele não está em frente do liceu. O motorista está só no automóvel preto. Diz-me que o pai está doente, que o senhor voltou para Sadec. Que ele, o

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motorista, recebeu ordem de ficar em Saigão para me levar ao liceu e conduzir-me de volta ao pensionato. O senhor regressou ao fim de alguns dias. De novo estava no banco de trás do automóvel preto, o rosto desviado para não ver os olhares, sempre com medo. Beijámo-nos, sem uma palavra, beijámo-nos ali, tínhamo-nos esquecido, em frente do liceu, beijámo-nos. No beijo ele chorava, o pai ainda viveria. Ia-se a sua última esperança. Tinha-lhe pedido. Tinha-lhe suplicado que o deixasse manter-me ainda com ele, contra o seu corpo, tinha-lhe dito que devia compreendêlo, que devia ele próprio ter vivido pelo menos uma vez uma paixão como esta no decurso da sua longa vida, que era impossível que não fosse assim, tinha-lhe rogado que lhe permitisse viver por sua vez, uma vez só, uma paixão assim, aquela loucura, esse amor louco pela rapariguinha branca, tinha-lhe pedido que lhe desse tempo para a amar ainda antes de a mandar para França, que a deixasse ainda ficar com ele, mais um ano talvez, porque não lhe era possível abandonar já esse amor, era novo de mais, ainda muito forte, ainda muito na sua violência nascente, que era ainda horrível de mais separar-se do seu corpo, sabendo ainda por cima, ele sabia-o bem, ele, o pai, que aquilo nunca mais se reproduziria. O pai repetira-lhe que preferia vê-lo morto. Tomámos banho juntos com a água fresca das talhas, beijámo-nos, chorámos, e ainda foi de morrer mas desta vez, já de um gozo inconsolável. E depois disse-lhe. Disse-lhe que não lamentasse nada, lembrei-lhe o que ele tinha dito, que eu me havia de ir embora de todo o lado, que eu não podia decidir sobre o meu comportamento. Ele disse que mesmo isso agora já não tinha importância para ele, que tudo estava ultrapassado. Então eu disse-lhe que era da opinião do pai dele. Que me recusava a ficar com ele. Não dei razões. É uma das longas avenidas de Vinhlong que termina no Mékong. É uma avenida que está sempre deserta à noite. Nessa noite, como quase todas as noites, há uma avaria na electricidade. Tudo começa por aí. Assim que chego à avenida, que o portão se fecha atrás de mim, falta a electricidade. Corro. Corro porque tenho medo do escuro. Corro cada vez mais depressa. E de repente parece-me que oiço alguém correr atrás de mim. E de repente tenho a certeza que atrás de mim alguém corre no meu rasto. Sempre a correr, volto-me e vejo. É uma mulher enorme, muito magra, magra como a morte e que ri e que corre. Está descalça, corre atrás de mim para me agarrar. Reconheço-a, é a louca do posto, a louca de Vinhlong. Ouço-a pela primeira vez, fala de noite, de dia dorme, e muitas vezes ali naquela avenida, diante do jardim. Corre gritando numa língua que não conheço. O medo é tal que não consigo chamar ninguém. Devo ter oito anos. Oiço o seu riso uivante e os seus gritos de alegria, tenho a certeza que deve estar a divertir-se à minha custa. A recordação é a de um medo central. Dizer que esse medo ultrapassa o meu entendimento, a minha força, é dizer pouco. O que se pode avançar, é a lembrança dessa certeza de todo o ser, a saber, que se a mulher me toca, mesmo ligeiramente, com a mão, passarei por minha vez a um estado bem pior que o da morte, o estado da loucura. Cheguei ao jardim dos vizinhos, à casa, subi as escadas e caí à entrada. Nos dias seguintes fico sem poder contar de todo o que me aconteceu. Tarde na minha vida, ainda tenho medo de ver agravar-se um estado da minha mãe - ainda não nomeio esse estado - o que a poria no caso de ser separada

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dos filhos. Acho que me caberia saber quando o dia chegasse, e não aos meus irmãos, porque os meus irmãos não saberiam avaliar esse estado. Foi a alguns meses da nossa separação definitiva, foi em Saigão, ao fim da tarde, estávamos na grande varanda da casa da Rua Testard. Dó também estava. Olhei minha mãe. Tive dificuldade em reconhecê-la. E depois, numa espécie de apagamento súbito, de queda, brutalmente, deixei absolutamente de a reconhecer. Havia, de súbito, ali, ao pé de mim, uma pessoa sentada no lugar da minha mãe, não era a minha mãe, tinha a sua aparência, mas nunca tinha sido a minha mãe. Tinha um ar ligeiramente embrutecido, olhava para o parque, para um certo ponto do parque, espiava ao que parece a iminência de um acontecimento de que eu não me apercebia. Havia nela uma juventude das feições, do olhar, uma felicidade que ela reprimia por um pudor a que deveria estar habituada. Era bela. Dó estava a seu lado. Dó parecia não se ter dado conta de nada. O horror não tinha a ver com o que eu estou a dizer dela, das suas feições, do seu ar de felicidade, da sua beleza, mas vinha do facto de ela estar sentada ali mesmo onde a minha mãe estivera sentada quando a substituição se produzira, de saber que mais ninguém ali estava no seu lugar, ninguém senão ela mesma, mas que justamente esta identidade que não era substituível por nenhuma outra tinha desaparecido e que eu não tinha maneira nenhuma de fazer com que ela voltasse, que ela começasse a voltar. Já nada se propunha para habitar a imagem. Enlouqueci em plena razão. O tempo de gritar. Gritei. Um grito fraco, um pedido de socorro, para que se quebre esse vidro em que se imobilizava mortalmente toda a cena. A minha mãe voltou-se. Povoei a cidade toda com aquela pedinte da avenida. Todas as pedintes das cidades, dos arrozais, as das pistas que orlavam o Sião, as das margens do Mékong, povoei-a com todas elas, ela que me fez medo. Ela veio de todo o lado. Chegou sempre a Calcutá, donde quer que tivesse vindo. Sempre dormiu à sombra das macieiras-caneleiras do pátio de recreio. A minha mãe esteve sempre lá junto dela, a tratar-lhe do pé roído pelos vermes, cheio de moscas. A seu lado, a rapariguinha da história. Trá-la consigo há dois mil quilómetros. Já não a quer para nada, dá-a, vá, toma. Já não tem filhos. Não tem filho. Todos mortos ou deitados fora, faz uma grande quantidade no fim da vida. Esta que dorme debaixo das macieiras-caneleiras ainda não está morta. É a que há-de-viver mais tempo. Morrerá dentro de casa, num vestido de renda. Será chorada. Ela está no declive dos arrozais que orlam a pista, grita e ri a bandeiras despregadas. Tem um riso de ouro, de fazer acordar os mortos, de fazer acordar quem quer que oiça rir as crianças. Posta-se diante do bungalow dias e dias, há brancos no bungalow, ela lembra-se, eles dão de comer aos mendigos. Depois uma vez, enfim, acorda de manhãzinha e põe-se a caminhar, um dia vai-se embora, váse lá saber porquê, obliqua para a montanha, atravessa a floresta e segue os carreiros que seguem ao longo das cristas da cadeia do Sião. À força de ver, talvez, de ver um céu amarelo e verde do outro lado da planície, ela atravessa-a. Começa a descer para o mar, para o fim. Desce na sua grande passada magra as encostas da floresta. Ela atravessa, atravessa. São as florestas pestilenciais. As regiões muito quentes. Não há o vento salubre do mar. Há a algazarra estagnante dos mosquitos, as crianças mortas, a chuva todos os dias. E depois os deltas. São os maiores

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deltas da terra. São de lodo negro. Para os lados de Chittagong. Deixou as pistas, as florestas, as rotas do chá, os sóis vermelhos, e percorre sempre em frente a abertura dos deltas. Toma a direcção do redemoinho do mundo, essa sempre longínqua, envolvente, do este. Um dia está em frente do mar. Grita, ri no seu cacarejar miraculoso de pássaro. Por causa do riso, encontra em Chittagong um junco que a leva ao outro lado, os pescadores querem levá-la, atravessa com companhia o golfo de Bengala. Começa-se, começa-se depois a vê-Ia junto das lixeiras nos arredores de Calcutá. E depois perdemo-la. E depois encontramo-la outra vez. Está atrás da Embaixada de França daquela mesma cidade. Dorme num parque, saciada de um alimento infinito. Aí fica durante a noite. Depois no Ganges ao romper do dia. O humor risonho e trocista, sempre. Já não se vai embora. Aqui ela come, ela dorme, é calmo de noite, fica ali no parque de loureiros-rosa. Um dia chego, passo por lá. Tenho dezassete anos. É o bairro inglês, os parques das embaixadas, é a monção, os ténis estão desertos. Ao longo do Ganges os leprosos riem. Estamos em escala em Calcutá. Uma avaria no navio. Visitamos a cidade para passar o tempo. Partimos no dia seguinte ao fim do dia. Quinze anos e meio. A coisa sabe-se muito depressa no posto de Sadec. Bastava aquela indumentária para dizer a desonra. A mãe não tem sentido nenhum de nada, nem o da maneira de educar uma filha. A pobre criança. Não pensem, aquele chapéu não é inocente, nem o batôn, tudo aquilo significa qualquer coisa, não é inocente, quer dizer, é para atrair os olhares, o dinheiro. Os irmãos, uns malandros. Diz-se que é um chinês, o filho do milionário, o palacete do Mékong, com cerâmicas azuis. Mesmo ele, em vez de se sentir honrado, não a quer para o filho. Família de malandros brancos. Chamávamos-lhe a Senhora, tinha vindo de Savannakhet. O marido nomeado para Vinhlong. Durante um ano não a vimos em Vinhlong. Por causa daquele rapaz, administrador-adjunto em Savannakhet. Já não podiam amar-se. Então ele matarase com um tiro de revólver. A história chegou até ao novo posto de Vinhlong. No dia da partida dela de Savannakhet para Vinhlong, uma bala no coração. Na grande praça do posto em pleno sol. Por causa das filhas pequenas e do seu marido nomeado para Vinhlong ela dissera-lhe que aquilo tinha de acabar. Aquilo passa-se no bairro mal afamado de Cholen, todas as noites. Todas as noites aquela pequena viciosa vai fazer-se acariciar o corpo por um porco chinês milionário. Também está no liceu em que andam as raparigas brancas, as pequenas desportistas brancas que aprendem o crawl na piscina do Clube Desportivo. Um dia receberão ordens para deixarem de falar à filha da professora primária de Sadec.

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No recreio, ela olha para a rua, sozinha, encostada a um pilar do pátio. Não conta nada disto à mãe. Continua a vir para as aulas na limusina preta do Chinês de Cholen. Elas vêem-na ir. Não haverá excepção. Nenhuma delas lhe dirigirá mais a palavra. Este isolamento fez erguer-se a pura recordação da Senhora de Vinhlong. Tinha feito, nessa altura, trinta e oito anos. E a criança, dez. E depois, agora, dezasseis, ao recordar-se. A senhora está na varanda do seu quarto, olha as avenidas ao longo do Mékong, vejo-a quando venho do catecismo com o meu irmãozinho. O quarto fica no centro de um grande palácio com varandas cobertas, o palácio fica no centro do parque de loureiros-rosa e de palmas. A mesma diferença separa a senhora e a rapariga do chapéu chato das outras pessoas do posto. Tal como ambas olham as longas avenidas dos rios, ambas são. Isoladas ambas. Sós, umas rainhas. A sua desgraça é evidente. Ambas votadas ao descrédito pelo facto da natureza do corpo que têm, acariciado pelos amantes, beijado por suas bocas, entregues à infâmia de um gozo de morrer, dizem elas, de morrer dessa morte misteriosa dos amantes sem amor. É disso que se trata, desse humor de morte. Aquilo evola-se delas, dos seus quartos, essa morte tão forte que o facto é conhecido na cidade toda, nos postos do mato, nas capitais, nas recepções, nos bailes frouxos das administrações-gerais. A senhora acaba justamente de retomar essas recepções oficiais, julga que já está, que o rapaz de Savannakhet entrou no esquecimento. A senhora retomou então os seus serões a que é obrigada para que as pessoas possam ainda ver-se, de vez em quando, e de vez em quando também sair da solidão horrível em que se mantêm os postos do mato perdidos nas extensões quadrilaterais do arroz, do medo, da loucura, das febres, do esquecimento. À tarde, à saída do liceu, a mesma limusina preta, o mesmo chapéu de insolência e de infância, os mesmos sapatos de lamé e ela, ela vai, ela vai fazer-se descobrir o corpo pelo milionário chinês, lavá-la-á muito tempo, como ela fazia todas as noites em casa da mãe com a água fresca de uma talha que ele guarda para ela, e depois há-de levá-la molhada para a cama, pôr a ventoinha a funcionar e beijá-la-á cada vez mais por todo o lado e ela pedir-lhe-á sempre mais e mais, e depois voltará para o pensionato, e ninguém para a castigar, lhe bater, desfigurá-la, insultá-la. Fôra ao fim da noite que ele se matara, na grande praça do posto cintilante de luz. Ela dançava. Depois chegara o dia. Tinha contornado o corpo. Depois, com o passar do tempo, o sol tinha esmagado a forma. Ninguém tinha ousado aproximarse. A polícia fá-lo-á. Ao meio-dia, após a chegada das lanchas da viagem, não haverá nada, a praça estará limpa. A minha mãe disse à directora do pensionato: não faz mal, nada disso tem importância, já viu? Aqueles vestidinhos usados, o chapéu cor-de-rosa e os sapatos dourados, como lhe ficam bem? A mãe fica louca de alegria quando fala dos filhos e então o seu encanto é ainda maior. As jovens vigilantes do pensionato ouvem a mãe apaixonadamente. Todos, diz a mãe, andam de roda dela, todos os homens do posto, casados ou não, andam de roda daquilo, querem a pequena, aquilo, ainda não muito definido, olhem, ainda uma criança. Desonrada, dizem as pessoas? E eu digo: como é que a inocência se poderia desonrar?

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A mãe fala, fala. Fala da prostituição declarada, ri-se, do escândalo, daquela palhaçada, daquele chapéu deslocado, dessa elegância sublime da menina da travessia do rio, e ri dessa coisa irresistível aqui nas colónias francesas, falo, diz ela, daquela pele branca, da criança que estivera até então escondida nos postos do mato e que chega de repente em pleno dia e se expõe na cidade à vista de todos, com a ralé do milionário chinês, diamante no dedo como uma jovem banqueira, e ela chora. Quando viu o diamante disse numa vozinha: faz-me lembrar um pequeno solitário que tive no noivado com o meu primeiro marido. Digo: o senhor Obscuro. Rimo-nos. Era o nome dele, diz ela, é mesmo verdade. Olhámo-nos muito tempo e depois ela fez um sorriso muito meigo, ligeiramente trocista, repleto de um conhecimento tão profundo dos seus filhos e do que os esperaria mais tarde, que quase estive para lhe falar de Cholen. Não o fiz. Nunca o fiz. Esperou muito tempo antes de me falar outra vez, depois fê-lo, com muito amor: Sabes que acabou? Que nunca te poderás casar aqui na colónia? Encolho os ombros, rio-me. Digo: posso casar-me em qualquer lado, quando eu quiser. A minha mãe acena que não. Não. Diz: aqui sabe-se tudo, aqui já não podes. Ela olha-me e diz-me coisas inesquecíveis: agradas-lhes? Respondo: é isso, agrado-lhes mesmo assim. É então que ela diz: agradas-lhes também por causa do que tu és. Ainda me perguntou: é só pelo dinheiro que estás com ele? Hesito e depois digo que é apenas pelo dinheiro. Ela olha-me ainda muito tempo, não me acredita. Diz: eu não era como tu, tive mais dificuldades nos estudos e eu cá era muito séria, fui-o durante tempo de mais, tarde de mais, perdi o gosto do meu prazer. Era um dia de férias em Sadec. Ela descansava numa cadeira de baloiço, os pés em cima doutra cadeira, tinha feito uma corrente de ar entre as portas do salão e da sala de jantar. Estava pacífica, tranqüila, sem maldade. De súbito tinha visto a sua menina, tinha-lhe apetecido falar com ela. Não estávamos longe do fim, do abandono das terras da barragem. Não longe da partida para França. Eu via-a adormecer. De vez em quando a minha mãe decreta: amanhã vamos ao fotógrafo. Queixa-se do preço mas mesmo assim faz a despesa das fotografias de família. As fotografias, olhamo-las, não nos olhamos mas olhamos as fotografias, cada um separadamente, sem uma palavra de comentário, mas olhamo-las, vemonos. Vemos os outros membros da família um por um ou em conjunto. Revemo-nos quando éramos muito pequenos em fotografias antigas e olhamo-nos nas fotografias recentes. A separação ainda cresceu mais entre nós. Uma vez olhadas, as fotografias são arrumadas com a roupa branca nos armários. A minha mãe leva-nos a tirar fotografias para nos poder ver, ver se crescemos normalmente. Olha-nos

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longamente como outras mães, outros filhos. Compara as fotografias entre si, fala do crescimento de cada um. Ninguém lhe responde. A minha mãe só tira fotografias aos filhos. A mais nada. Não tenho fotografias de Vinhlong, nem uma, do jardim, do rio, das avenidas direitas, orladas pelas tamareiras da conquista francesa, nem uma, da casa, dos nossos quartos de asilo caiados, com as grandes camas de ferro pretas e douradas, iluminadas como salas de aula com as lâmpadas avermelhadas das avenidas, os quebra-luzes de chapa de ferro verde, nem uma, nem uma imagem desses lugares incríveis, sempre provisórios, para além de toda a fealdade, de fugir, onde a minha mãe acampava à espera, dizia ela, de se instalar verdadeiramente, mas em França, nessas regiões de que falou a vida toda e que se situavam, conforme o seu humor, a sua idade, a sua tristeza, entre o Pas-de-Calais e Entre-deux-Mers. Quando ela parar para sempre, quando se instalar no Loire, o seu quarto será a réplica do de Sadec, terrível. Ela terá esquecido. Nunca tirava fotografias aos lugares, às paisagens, só a nós, os seus filhos, e a maioria das vezes, em grupo para que a fotografia fosse mais barata. As poucas fotografias de amador que nos tiraram foram feitas por amigos da minha mãe, colegas recém-chegados à colónia que tiravam fotografias à paisagem equatorial, coqueiros e coolies, para mandarem à família. Misteriosamente, minha mãe mostra as fotografias dos filhos à família dela, durante as férias. Nós não queremos ir com ela ver a família. Os meus irmãos nunca a conheceram. A mim, a mais nova, dantes arrastava-me até lá. E depois nunca mais fui, porque as minhas tias, por causa do meu comportamento escandaloso, já não queriam que as filhas me vissem. Assim não resta a minha mãe senão mostrar as fotografias, assim a minha mãe mostra-as, logicamente, ajuizadamente, mostra às suas primas direitas os filhos que tem. Tem para consigo mesma o dever de o fazer, então fá-lo, as suas primas são o que resta da família, e assim mostra-lhes as fotografias da família. Será que percebemos algo desta mulher através desta maneira de ser? Através desta disposição que ela tem para ir até ao fim das coisas sem alguma vez imaginar que poderia abandonar, deixar, as primas, o esforço, a chatice? Acho que sim. É nessa coragem da espécie, absurda, que eu própria encontro a graça profunda. Quando ficou velha, de cabelos brancos, também ela foi ao fotógrafo, foi lá sozinha, e fez-se fotografar com o seu belo vestido vermelho-escuro e as suas duas jóias, o cordão e o broche de ouro e jade, um pequeno cilindro de jade embutido em ouro. Na fotografia está bem penteada, nem uma ruga, uma imagem. Os indígenas endinheirados iam, também eles ao fotógrafo, uma vez na vida, quando viam que a morte se aproximava. As fotografias eram grandes, todas do mesmo formato, encaixilhadas em belas molduras douradas e penduradas junto ao altar dos antepassados. Todas as pessoas fotografadas, e vi muitas, davam quase a mesma fotografia, a sua semelhança era alucinante. Não é só que os velhos se assemelhem, é que os retratos eram retocados, sempre, e de tal modo que as particularidades do rosto, se ainda as havia, eram atenuadas. Os rostos eram preparados da mesma maneira para enfrentar a eternidade, eram alisados, uniformemente rejuvenescidos. Era o que as pessoas queriam. Essa semelhança

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essa discrição - deveria vestir a recordação da sua passagem pela família, testemunhar a um tempo a sua singularidade e a sua efectividade. Quanto mais se pareciam, mais a pertença às hostes da família devia ser patente. Além disso, todos os homens tinham o mesmo turbante, as mulheres o mesmo carrapito, os mesmos penteados esticados, os homens e as mulheres a mesma túnica de colarinho subido. Tinham todos o mesmo ar que eu haveria de reconhecer ainda entre todos. E aquele ar que a minha mãe tinha na fotografia do vestido vermelho era o deles, era esse mesmo, nobre, dirão alguns, e alguns outros, apagado. Nunca mais falam disso. É um caso arrumado que ele tentará mais nada junto do pai para casar com ela. Que o não terá piedade nenhuma do filho. Não tem de ninguém. Todos os emigrantes chineses que detêm o comércio do posta, o das varandas azuis é o mais terrível, o mais rico, aquele cujos bens se estendem mais longe para lá de Sadec, até Cholen, a capital chinesa da Indochina francesa. O homem de Cholen sabe que a decisão de seu pai e a da menina são as mesmas e que são sem apelo. Em menor grau, começa a compreender que a partida que o háde separar dela é a sorte da história deles. Que esta não é das que se casam, que fugiria de todos os casamentos, que será preciso abandoná-la, esquecê-la, voltar a dá-Ia aos brancos, aos seus irmãos. Desde que ele estava louco pelo corpo dela, a rapariguinha já não sofria com ele, com a sua magreza e, também, estranhamente, a sua mãe já não se preocupava como dantes, como se tivesse descoberto, ela também, que aquele corpo era no fim de contas plausível, aceitável, tanto como qualquer outro. Ele, o amante de Cholen, julga que o crescimento da rapariga branca sofreu com o calor demasiado forte. Também ele nasceu e se desenvolveu nesse calor. Descobre que tem com ela esse parentesco. Diz que todos os anos ali passados, naquela intolerável latitude, fizeram com que ela se tornasse uma jovem desse país da Indochina. Que tem a finura dos pulsos deles, os seus cabelos espessos de que se diria que tomaram para si a força toda, compridos como os deles e, sobretudo, aquela pele, aquela pele de todo o corpo que vem da água da chuva que aqui se guarda para o banho das mulheres, das crianças. Diz que as mulheres de França, ao lado destas, têm a pele do corpo dura, quase áspera. Diz ainda que a alimentação pobre dos trópicos, feita de peixes, frutas, também tem algo a ver com isso. E também os tecidos de algodão e as sedas de que a roupa é feita, sempre largos esses fatos que deixam o corpo longe deles, livre, nu. O amante de Cholen habituou-se à adolescência da rapariga branca até se perder nela. O gozo que tira dela todas as noites comprometeu o seu tempo, a sua vida. Já quase não lhe fala. Talvez ele julgue que ela já não compreenderia o que lhe diria dela, daquele amor que ele ainda não conhecia e de que não sabe dizer nada. Talvez ele descubra que nunca se falaram ainda, salvo quando chamam um pelo outro nos gritos do quarto à noite. Sim, acho que ele não sabia, que descobre que não sabia. Ele olha-a. Com os olhos fechados ainda a olha. Respira o rosto dela. Respira a menina, de olhos fechados respira a sua respiração, esse ar quente que sai dela. Discerne cada vez menos claramente os limites desse corpo, aquele não é como os outros, não está acabado, cresce ainda no quarto, não tem ainda formas definidas,

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faz-se a cada momento, não está apenas ali onde ele o vê, também está algures, estende-se para lá da vista, para o jogo, a morte, é elástico, parte inteiro para o gozo como se fosse grande, em idade, sem malícia, duma inteligência assustadora. Eu observava o que ele fazia de mim, como se servia de mim e nunca pensara que se pudesse fazê-lo daquela maneira, ia além da minha esperança e conforme com o destino do meu corpo. Assim tinha-me tornado sua filha. Ele também se tinha transformado noutra coisa para mim. Começava a reconhecer a suavidade inexprimível da sua pele, do seu sexo, para além dele mesmo. A sombra dum outro homem também devia passar pelo quarto, a dum jovem assassino, mas eu ainda não o sabia, nada disso aparecia ainda a meus olhos. A dum jovem caçador também devia passar pelo quarto mas quanto a essa, sim, eu sabia-o, por vezes estava presente no gozo e eu dizia-lho, ao amante de Cholen, falava-lhe do seu corpo e do seu sexo também, da sua inegável suavidade, da sua coragem na floresta e nos rios de estuários de panteras negras. Tudo ia ao encontro do seu desejo e o fazia possuir-me. Tinha-me tornado sua filha. Era com a filha que fazia amor todas as noites. E às vezes fica com medo, de repente preocupa-se com a sua saúde como se descobrisse que ela era mortal e o trespassasse a idéia de que a podia perder. Que ela seja tão magra, de repente, e também fica com medo às vezes, brutalmente. E daquelas dores de cabeça também, que tantas vezes a põem moribunda, lívida, imóvel, com um pano húmido nos olhos. E também desse enjôo que ela tem às vezes da vida, quando isso lhe dá, pensa na mãe e subitamente grita e chora de cólera com a idéia de não poder mudar as coisas, fazer a mãe feliz antes que ela morra, matar os que fizeram aquele mal. O rosto contra o seu, ele toma as suas lágrimas, esmaga-as contra si, louco do desejo das suas lágrimas, da sua cólera. Possuía-a como possuiria a sua filha. Era assim que possuiria a sua filha. Brinca com o corpo da filha, volta-a, cobre com ele o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a abandonar-se na direcção exacta que ele tomou quando começou a brincar. E de súbito é ela que lhe pede, não diz o quê, e ele, ele grita-lhe que se cale, grita-lhe que já não a quer, que já não quer ter prazer com ela, e ei-los de novo presos, aferrolhados entre si no horror, e eis que esse horror se desfaz mais uma vez, que lhe cedem mais uma vez, em lágrimas, no desespero, na felicidade. Calam-se durante toda a noite. No automóvel preto que a leva ao pensionato, encosta a cabeça ao ombro dele. Ele enlaça-a. Diz-lhe que é bom que o barco de França chegue em breve e a leve e os separe. Calam-se durante o trajecto. Às vezes ele pede ao motorista que guie ao longo do rio, que dê uma volta. Ela adormece, extenuada, contra ele. Ele acorda-a com beijos. No dormitório, a luz é azul. Há um cheiro a incenso, queimam sempre algum ao crepúsculo. O calor é estagnante, todas as janelas estão abertas de par em par e não há uma aragem. Descalço os sapatos para não fazer barulho mas estou sossegada, sei que a vigilante não se há-de levantar, que agora é coisa aceite que eu volte de noite à hora que quiser. Vou logo ver o lugar de H. L., sempre com um pouco de inquietação, sempre com medo que ela tenha fugido do pensionato durante o dia. Ela está ali. Ela dorme bem, H. L. Tenho a lembrança dum sono obstinado, quase hostil. De recusa. Os seus braços nus rodeiam a cabeça,

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abandonados. O corpo não está deitado com compostura como o das outras raparigas, as pernas estão dobradas, não se lhe vê a cara, a almofada escorregou. Adivinho que ela me deve ter esperado e depois adormecido assim na impaciência, na cólera. Também deve ter chorado e depois caído no abismo. Queria acordá-la e que conversássemos baixinho. Já não falo com o homem de Cholen, ele já não fala comigo, preciso de ouvir as perguntas de H. L. Ela tem essa atenção incomparável das pessoas que não compreendem o que se lhes diz. Mas não é possível que eu a acorde. Uma vez acordada assim, a meio da noite, H. L. não consegue voltar a adormecer. Levanta-se, apetece-lhe sair, e fá-lo, desce as escadas, anda pelos corredores, pelos grandes pátios vazios, corre, chama-me, está tão contente, não se pode nada contra isso, e quando a privamos do passeio sabemos que era disso que ela estava à espera. Hesito e afinal não, não a acordo. Debaixo do mosquiteiro o calor é sufocante, quando o fecho parece impossível de suportar. Mas sei que é porque venho de fora, das margens do rio onde faz sempre fresco de noite. Estou habituada, não me mexo, espero que passe. Passa. Nunca adormeço logo de seguida, apesar daqueles novos cansaços na minha vida. Penso no homem de Cholen. Deve estar numa boâte para os lados da Source, com o motorista, devem beber em silêncio, é a aguardente de arroz quando estão sós. Ou então voltou para casa, adormeceu na luz do quarto, sempre sem falar com ninguém. Nessa noite já não aguento pensar no homem de Cholen. Já não aguento pensar em H. L. Parece que têm uma vida preenchida, que isso lhes vem do exterior deles mesmos. Parece que não tenho nada semelhante. A mãe diz: aquela nunca ficará satisfeita com coisa nenhuma. Acho que a minha vida começou a mostrar-se-me. Acho que já sei dizermo, tenho vagamente vontade de morrer. Esta palavra, já não a separo da minha vida. Creio que me apetece vagamente estar sozinha, tal como me apercebo de que já não estou só desde que deixei a infância, a família do Caçador. Vou escrever livros. É o que vejo para além do instante, no grande deserto sob a aparência do qual me surge a vastidão da minha vida. Já não sei quais eram as palavras do telegrama de Saigão. Se diziam que o meu irmãozinho tinha falecido ou se diziam: chamado a Deus. A evidência trespassou-me: não era ela quem teria podido enviar o telegrama. O irmãozinho. Morto. Primeiro é ininteligível e depois, bruscamente, por todo o lado, do fundo do mundo, a dor chega, recobriu-me, levou-me, não reconhecia nada, deixei de existir salvo a dor, qual, não sabia qual, se era a de ter perdido um filho alguns meses antes que voltava ou se era uma dor nova. Agora creio que era uma dor nova, o meu filho morto à nascença nunca o conhecera e não tinha querido matar-me como agora queria. Tínhamo-nos enganado. O erro que fizéramos, em alguns segundos, alcançou o universo inteiro. O escândalo era à escala de Deus. O meu irmãozinho era imortal e não tínhamos dado por isso. O corpo daquele irmão fora depositário de imortalidade enquanto vivia e nós, nós não tínhamos visto que era nesse corpo que acontecia habitar a imortalidade. O corpo do meu irmão estava morto. A imortalidade tinha morrido com ele. E assim ia o mundo agora, privado desse corpo visitado, e dessa visita. Tínhamo-nos enganado completamente. O erro alcançou o Universo inteiro, o escândalo. Desde o momento em que ele morreu, ele, o irmãozinho, tudo devia morrer a seguir a ele. E por ele. A morte, em cadeia, partia dele, a criança.

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O corpo morto da criança, esse, não se ressentia em nada desses acontecimentos de que era a causa. A imortalidade que tinha abrigado durante vinte e sete anos da sua vida, ele não lhe conhecia o nome. Ninguém via claro senão eu. E a partir do momento em que acedi a esse acontecimento, tão simples, a saber, que o corpo do meu irmãozinho era também o meu, devia morrer. E morri. O meu irmão amalgamou-me a si, puxou-me a si e morri. Era preciso prevenir as pessoas destas coisas. Ensinar-lhes que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que ainda acontece. Que não se anuncia enquanto tal, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que não existe no pormenor, mas apenas no princípio. Que certas pessoas podem dela transportar a presença na condição de ignorarem que o fazem. Tal como certas outras pessoas podem detectar-lhe a presença nessas pessoas, na mesma condição, ignorarem que o podem fazer. Que é enquanto ela se vive que a vida é imortal, enquanto está em vida. Que a imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, que não é uma questão de imortalidade, que é questão de outra coisa que permanece ignorada. Que é tão falso dizer que ela não tem começo nem fim, como dizer que começa e acaba com a vida do espírito uma vez que é do espírito que ela participa e da perseguição do vento. Olhai as areias mortas dos desertos, o corpo morto das crianças: a imortalidade não passa por aí, pára e contorna. Quanto ao irmãozinho, tratou-se de uma imortalidade sem falha, sem lenda, sem acidente, pura, de um único impulso. O irmãozinho não tinha nada a gritar no deserto, não tinha nada a dizer, algures ou mesmo aqui, nada. Não tinha instrução, nunca tinha conseguido instruir-se no que quer que fosse. Não sabia falar, quase não sabia ler, quase não sabia escrever, às vezes julgávamos que nem sequer sabia sofrer. Era uma pessoa que não compreendia e que tinha medo. Este amor insensato que lhe tenho permanece para mim um insondável mistério. Não sei por que o amava ao ponto de querer morrer da sua morte. Estava separada dele há dez anos quando aconteceu e só raramente pensava nele. Amavao, parecia, para sempre, e nada de novo podia acontecer àquele amor. Tinha-me esquecido da morte. Falávamos pouco os dois, falávamos muito pouco do irmão mais velho, da nossa infelicidade, da da mãe, da da planície. Falávamos antes da caça, de carabinas, de mecânica, de automóveis. Irritava-se com o automóvel estragado e contava-me, descrevia-me os carros que havia de ter mais tarde. Eu conhecia todas as marcas de carabinas de caça e todas as dos carros. Também falávamos, claro, de sermos devorados por tigres se não tivéssemos cuidado ou de nos afogarmos no Mékong se continuássemos a nadar nas correntes. Era dois anos mais velho do que eu. O vento parou e há debaixo das árvores a luz sobrenatural que se segue à chuva. Os pássaros gritam com todas as forças, dementes, aguçam o bico contra o ar frio, fazem-no ressoar em todo o comprimento, de modo quase ensurdecedor.

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Os navios subiam o rio de Saigão, de motores parados, puxados por rebocadores até às instalações portuárias que ficavam naquele cotovelo do Mékong à altura de Saigão. Esse cotovelo, esse braço do Mékong, chama-se o Rio, o Rio de Saigão. A escala era de oito dias. Assim que os barcos atracavam, a França aí estava. Podia-se ir jantar a França, dançar, era demasiado caro para a minha mãe e além disso, para ela não valia a pena, mas com ele, o amante de Cholen, podíamos ter lá ido. Ele não ia porque teria medo de ser visto com a menina branca tão nova. Ele não o dizia mas ela sabia-o. Nessa época, e não é assim tão remota, apenas cinqüenta anos, não havia senão os barcos para se ir a qualquer lado do mundo. Grandes fracções dos continentes ainda não tinham estradas, nem caminhos-deferro. Em centenas, milhares de quilómetros quadrados, só havia ainda os caminhos da Pré-História. Eram os belos navios da Companhia Francesa dos Transportes Marítimos, os mosqueteiros da linha, o Porthos, o Dartagnan, o Aramis, que ligavam a Indochina à França. Essa viagem durava vinte e quatro dias. Os navios das linhas eram já cidades com ruas, bares, cafés, bibliotecas, salões, encontros, amantes, casamentos, mortos. Formavam-se sociedades de acaso, eram forçadas, sabíamo-lo, não o esquecíamos, e por isso mesmo tornavam-se vivíveis, e mesmo, às vezes, de inesquecível encanto. Essas eram as únicas viagens das mulheres. Para muitas delas sobretudo mas também para certos homens às vezes, as viagens para chegarem à colónia eram a verdadeira aventura. Para a mãe sempre tinha sido, com a nossa infância, o que ela chamava "o melhor da sua vida". As partidas. Eram sempre as mesmas partidas. Eram sempre as primeiras partidas no mar. A separação da terra tinha-se feito sempre na dor e no desespero, mas isso nunca impediria os homens de partir, os judeus, os homens do pensamento e os puros viajantes apenas da viagem no mar, e isso também nunca impediria as mulheres de os deixarem ir, elas que nunca iam, que ficavam a guardar o lugar natal, a raça, os bens, a razão de ser do regresso. Durante séculos, os navios fizeram com que as viagens fossem mais lentas, também mais trágicas do que são nos nossos dias. A duração da viagem cobria o comprimento da distância de forma natural. Estava-se habituado àquelas lentas velocidades humanas na terra e no mar, àqueles atrasos, àquele esperar pelo vento, pelas abertas, pelos naufrágios, pelo sol, pela morte. Os navios que a menina branca conhecera estavam já entre os últimos correios do mundo. Fora durante a sua juventude, de facto, que se instituíram as primeiras linhas aéreas que deviam progressivamente privar a humanidade das viagens através dos mares. Ainda íamos todos os dias à casa de Cholen. Ele fazia como habitualmente, durante toda uma época ele fazia como habitualmente, dava-me banho com a água das talhas e levava-me ao colo para a cama. Chegava-se a mim, deitava-se também mas tinha-se-lhe ido a força toda, impotente. A data da partida, mesmo que ainda longínqua, uma vez fixada, ele já nada podia fazer com o meu corpo. Tinha acontecido brutalmente, sem ele ter consciência disso. O seu corpo já não queria esta que ia partir, trair. Dizia: já não posso possuir-te, pensava que ainda podia, mas já não posso. Dizia que estava morto. Desculpava-se com um sorriso muito meigo, dizia que talvez aquilo nunca mais lhe voltasse. Eu perguntava-lhe se ele tinha querido que as coisas se passassem assim. Ele quase ria, dizia: não sei, neste

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momento talvez sim. A sua meiguice tinha ficado inteira na dor. Não falava dessa dor, nunca dissera uma palavra sobre ela. Às vezes o seu rosto estremecia, fechava os olhos e cerrava os dentes. Mas calava-se sempre sobre as imagens que via por trás dos olhos fechados. Dir-se-ia que amava aquela dor, que a amava como me amara, com muita força, talvez até morrer, e que agora a preferia a mim. Às vezes dizia que queria acariciar-me porque sabia que me apetecia muito e que queria olhar para mim quando o gozo viesse. Fazia-o, olhava para mim ao mesmo tempo e chamava-me como sua filha. Tínhamos decidido não nos vermos mais mas não era possível. Todas as noites o encontrava diante do liceu no seu automóvel preto, a cabeça voltada da vergonha. Quando se aproximava a hora da partida, o barco lançava três apitos de sirena, muito compridos, de uma força terrível, ouvia-se na cidade toda e para os lados do porto o céu ficava negro. Então os rebocadores aproximavam-se do barco e puxavam-no para o meio do rio. Depois, os rebocadores soltavam as amarras e voltavam para o porto. Então o barco dizia adeus ainda mais uma vez, lançava de novo os seus mugidos terríveis e tão misteriosamente tristes que faziam as pessoas chorar, não só as da viagem, as que se separavam, mas também as que tinham vindo ver, e as que estavam ali sem uma razão precisa, que não tinham ninguém em quem pensar. O barco depois, muito lentamente, com as suas próprias forças, embrenhava-se no rio. Via-se durante muito tempo a sua forma alta avançar para o mar. Muita gente ficava ali a olhá-lo, a acenar cada vez mais lentamente, cada vez mais desencorajadamente, com os seus xailes, os seus lenços. E depois, por fim, a terra levava a forma do barco na sua curvatura. Em tempo claro, víamo-lo afundarse lentamente. Ela também, fora quando o barco lançara o seu primeiro adeus, quando tinham recolhido a passadeira e os rebocadores começado a puxá-lo, a afastá-lo da terra, que tinha chorado. Tinha-o feito sem mostrar as suas lágrimas, porque ele era chinês e não se devia chorar esse género de amantes. Sem mostrar à mãe e ao irmãozinho que sofria, sem mostrar nada, como era habitual entre eles. O grande automóvel dele estava lá, comprido e negro, no banco da frente o motorista fardado de branco. Estava um pouco afastado do parque de automóveis da Companhia Marítima, isolado. Ela tinha-o reconhecido por esses sinais. Era ele na parte de trás, essa forma quase invisível, que não fazia qualquer movimento, abatido. Ela estava encostada à amurada como da primeira vez na barcaça. Ela sabia que ele olhava para ela. Ela também o olhava, já não o via mas ainda olhava para a força do automóvel preto. E depois, por fim, tinha deixado de o ver. O porto apagara-se, e depois a terra. Havia o mar da China, o mar Vermelho, o oceano indico, o canal do Suez, de manhã acordávamos e já estava, sabíamo-lo pela ausência de trepidações, avançávamos pelas areias. Mas antes do mais havia aquele oceano. Era o mais distante, o mais vasto, chegava ao pólo Sul, o mais comprido entre escalas, entre Ceilão e a Somália. Às vezes estava tão calmo e o tempo tão puro, tão suave, que, quando o atravessávamos, parecia como que uma outra viagem que não esta através do mar. Então o barco todo se abria, os salões, as coxias, as vigias. Os passageiros evitavam as cabinas tórridas e dormiam mesmo no convés.

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No decorrer de uma viagem, durante a travessia desse oceano, alguém morrera. Ela já não sabia muito bem se foi no decorrer dessa viagem ou doutra viagem que aconteceu. Havia gente que jogava às cartas no bar da primeira classe, entre os jogadores havia um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, tinha pousado as cartas, saíra do bar, atravessara o convés a correr e atirara-se ao mar. O tempo de parar o barco que ia com muita velocidade e o corpo tinha-se perdido. Não, ao escrever isto, ela não vê o barco mas um outro lugar, o lugar em que ouviu contar a história. Era Sadec. Era o filho do administrador de Sadec. Ela conhecia-o, ele também andava no liceu de Saigão. Ela lembra-se dele, muito alto, o rosto muito meigo, moreno, óculos de tartaruga. Não se tinha encontrado nada na cabina, nenhuma carta. A idade ficou na memória, aterrorizante, a mesma, dezassete anos. O barco voltara a pôr-se em funcionamento ao alvorecer. O mais terrível era isso. O nascer do Sol, o mar vazio, e a decisão de abandonar as buscas. A separação. E outra vez, ainda no decorrer dessa mesma viagem, durante a travessia desse mesmo oceano, a noite já começara também, aconteceu no grande salão do convés principal o estalar duma valsa de Chopin que ela conhecia de modo secreto e íntimo porque tentara aprendê-la durante meses e nunca tinha conseguido tocá-la correctamente, nunca, o que fizera com que depois a mãe consentisse em deixá-la abandonar o piano. Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha tinha-a passado justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se por sua vez ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada através do mar. Como mais tarde a eternidade do irmãozinho através da morte. À sua volta as pessoas dormiam, cobertas pela música mas não acordadas por ela, tranqüilas. A rapariga pensava que acabava de ver a noite mais calma que alguma vez existira no oceano Índico. Julga que também foi nessa noite que viu chegar ao convés o seu irmãozinho com uma mulher. Ele tinha-se encostado à amurada, ela tinha-o enlaçado e tinham-se beijado. A rapariga escondera-se para ver melhor. Reconhecera a mulher. Ela e o irmãozinho estavam já sempre juntos. Era uma mulher casada. Tratava-se dum casal morto. O marido parecia não se aperceber de nada. Durante os últimos dias da viagem o irmãozinho e essa mulher ficavam o dia todo no camarote, só saíam à noite. Nesses mesmos dias o irmãozinho olhava a mãe, e a irmã sem as reconhecer, poder-se-ia dizer. A mãe tornara-se irritável, silenciosa, ciumenta. Ela, a menina, chorava. Estava feliz, achava ela, e ao mesmo tempo tinha medo do que aconteceria mais tarde ao

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irmãozinho. Acreditava que ele as abandonaria, que se iria embora com essa mulher, mas não, tinha-se-lhes juntado à chegada a França. Ela não soube quanto tempo depois da partida da rapariga branca ele executou a ordem do pai, quando fez aquele casamento com a rapariga designada pelas famílias há dez anos, também ela coberta de ouro, de diamantes, de jade. Uma Chinesa, também ela oriunda do Norte, da cidade de Fu-Chuen, que veio acompanhada pela família. Deve ter ficado muito tempo sem poder estar com ela, sem conseguir dar-lhe o herdeiro das fortunas. A recordação da menina branca devia estar ali, deitada, o corpo, ali, atravessado na cama. Ela deve ter permanecido muito tempo a soberana do seu desejo, a referência pessoal à emoção, à imensidão da ternura, à sombria e terrível profundidade carnal. Depois chegou o dia em que isso deve ter sido possível. Justamente aquele em que o desejo da pequena branca devia ser tal, insustentável a um ponto tal que ele poderia ter encontrado a sua imagem completa como uma febre grande e forte e penetrar a outra mulher desse desejo dela; da menina branca. Deve ter-se reencontrado pela mentira, dentro dessa mulher, e pela mentira, fazia o que as famílias, o Céu, os antepassados do Norte esperavam dele, a saber, o herdeiro do nome. Talvez ela soubesse da existência da rapariga branca. Tinha criadas nativas de Sadec que conheciam a história e que deviam ter falado. Ela não devia ignorar o seu desgosto. Deveriam ser da mesma idade, dezasseis anos. Será que nessa noite ela viu o seu esposo a chorar? E, vendo-o, tê-lo-ia consolado? Podia uma menina de dezasseis anos, uma noiva chinesa dos anos trinta, sem cometer uma inconveniência, consolar aquele género de tristeza adúltera de que era ela a vítima? Quem sabe? Talvez se enganasse, talvez tivesse chorado com ele, sem uma palavra, o resto da noite. E depois vir o amor, depois do choro. Ela, a rapariga branca, nunca soube nada desses acontecimentos. Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paris com a mulher. Telefonara-lhe. Sou eu. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte. Neaup Ne-le-Château - Paris Fevereiro-Março de 1984. 15ª edição Tradução de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira DIFEL Título original: L'AMANT (c) 1984, by Les Éditions de Minuit Todos os direitos para a publicação desta obra em Portugal reservados por: DIFEL Para Bruno Nuytten Difusão EditonaI,S.A.

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Denominação Social - DIFEL 82 - Difusão Editorial, S .A. Sede Social - Avenida das Túlipas, n.° 40-C - Miraflores - 1495-159 Algés - Portugal - Telefs.: 214120848 - 214120849 - Fax:214120850 - E-mail: Dife1.SA@mail.telepac.pt Capital Social - 60 000 000$00 (sessenta milhões de escudos) Contribuinte n.° - 501 378 537 Matrícula n.° 8680 - Conservatória do Registo Comercial de Oeiras Capa: Rogério Petinga Composição: Textype -Artes Gráficas, Lda., Lisboa Impressão e acabamento: Tipografia Guerra- Viseu Depósito Legal n.° 154 168/2000 ISBN 972-29-0068-4 / Setembro 2000 Proibida a reprodução total ou parcial sem a prévia autorização do Editor

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