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A Vida Intelectual
A. D. Sertillanges

Índice
CAPÍTULO I - A vocação intelectual.................................................................................................. 3 I – O intelectual é um consagrado. ................................................................................................. 3 II – O intelectual não é um isolado.................................................................................................. 5 III – O intelectual pertence ao seu tempo. ...................................................................................... 6 I - As virtudes comuns..................................................................................................................... 7 II - A virtude própria do intelectual................................................................................................. 9 III - O espírito de oração................................................................................................................11 IV - A disciplina do corpo. ........................................................................................................... 12 CAPÍTULO III - A organização da vida............................................................................................ 14 I – Simplificar................................................................................................................................ 14 II – Guardar a solidão.................................................................................................................... 16 III – Cooperar com os seus iguais..................................................................................................17 IV – Cultivar as relações necessárias.............................................................................................19 V – Conservar a dose necessária de acção.....................................................................................21 VI – Manter o silêncio interior. .................................................................................................... 22 CAPÍTULO IV - O tempo do trabalho...............................................................................................24 I - O trabalho permanente.............................................................................................................. 24 II - O trabalho nocturno................................................................................................................. 27 III – A madrugada e os serões....................................................................................................... 29 IV - Os instantes de plenitude. ......................................................................................................31 CAPÍTULO V - O campo do trabalho............................................................................................... 34 I – A ciência comparada..................................................................................................................... 34 II – O tomismo, quadro ideal do saber...........................................................................................38 III – A especialidade...................................................................................................................... 39 IV – Os sacrifícios necessários. .................................................................................................... 40 CAPÍTULO VI - O espírito do trabalho.............................................................................................41 I – O ardor da investigação............................................................................................................ 41 II – A concentração........................................................................................................................42 III – A submissão à verdade.......................................................................................................... 43 IV – Alargamentos.........................................................................................................................45 V – O senso do mistério. ...............................................................................................................46 CAPITULO VII - A preparação do trabalho...................................................................................... 48 A. – A LEITURA...........................................................................................................................48 I – Ler pouco............................................................................................................................. 48 II – Escolher.............................................................................................................................. 49 III – Quatro espécies de leitura................................................................................................. 50 IV – O trato com o génio.......................................................................................................... 51 V – Conciliar em vez de opor................................................................................................... 54 VI – Assimilar e viver............................................................................................................... 54 B – A ORGANIZAÇÃO DA MEMÓRIA.................................................................................... 57 I – Que se deve reter? ...............................................................................................................57 II – Por que ordem reter? ......................................................................................................... 58 III – Como reter?.......................................................................................................................59 C. – AS NOTAS............................................................................................................................ 60 I – Como tomar notas................................................................................................................60

2 II – Como classificar as notas................................................................................................... 63 III – Como utilizar as notas.......................................................................................................64 CAPÍTULO VIII - O trabalho criador................................................................................................65 I – Escrever.................................................................................................................................... 65 II – Desapegar-se de si e do mundo. ............................................................................................. 67 III –Constância, paciência e perseverança..................................................................................... 69 IV – Fazer tudo bem feito e até ao fim.......................................................................................... 73 V – Não ir além das próprias forças.............................................................................................. 74 CAPÍTULO IX - O trabalhador e o homem....................................................................................... 76 I – Guardar o contacto tom a vida..................................................................................................76 II – Saber distrair-se.......................................................................................................................78 III – Aceitar as provações. ............................................................................................................ 80 IV – Saborear as alegrias............................................................................................................... 81 V – Gozar antecipadamente os frutos. .......................................................................................... 82

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CAPÍTULO I - A vocação intelectual

I – O intelectual é um consagrado.
Falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem de vagar para se entregarem ao estudo, ou porque, no meio de ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito. Digo profundo, para descartar a ideia de tintura superficial. Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos. Este apelo não se deve conjecturar. Quem se aventura a um caminho, que não pode trilhar, com pé firme, conte de antemão com decepções. O trabalho pesa sobre todos e, após a primeira formação sempre custosa, seria loucura deixar descambar o espírito na primitiva indigência. Uma coisa é a conservação pacífica do que se adquiriu, e outra coisa é retomar pela base uma instrução puramente provisória e que se considera simples ponto de partida. Este último estado de espírito é o de um chamado. Implica uma resolução grave, porque a vida de estudo, sendo austera, impõe duros encargos. Paga, e abundantemente; mas exige uma entrada de capital de que poucos são capazes. Os atletas da inteligência, Como os atletas do desporto, têm de prever privações, longos treinos e tenacidade por vezes sobre-humana. Precisam de se dar de alma e coração à conquista da verdade, visto que a verdade só presta serviços a quem a serve. Tal orientação deve ser precedida de maduro e longo exame. A vocação intelectual é como as demais vocações: está inscrita nos nossos instintos, nas nossas capacidades, em um não sei que entusiasmo interior sujeito ao exame da razão. As nossas disposições são como as propriedades químicas que determinam, para cada corpo, as combinações em que pode entrar. Não é coisa que se dê. Vem do céu e da natureza primeira. O ponto está em ser dócil a Deus e a si próprio, depois de ter escutado estas duas vozes. Assim compreendida, a máxima de Disraeli: <<Fazei o que vos agrada, contanto que isso verdadeiramente vos agrade>>, encerra profundo sentido. O gosto, que se encontra cm correlação com as tendências íntimas e com as aptidões, é esplêndido juiz. S. Tomás, afirmando que o prazer qualifica as funções e pode servir para classificar os homens, deve naturalmente concluir que o prazer também pode trair as nossas vocações. Mas é mister esquadrinhar até às profundidades em que o gosto e o ardor espontâneo se encontram com os dons e a providência de Deus. O estudo duma vocação intelectual comporta, além da vantagem incalculável de o homem se realizar plenamente a si próprio, um interesse geral a que ninguém pode renunciar. A humanidade cristã compõe-se de personalidades diversas, e nenhuma destas pode abdicar daquela sem empobrecer o grupo e privar o eterno Cristo de parte do seu reino. Jesus Cristo reina pelo seu desdobramento. A vida de qualquer dos seus <<membros>> é um instante qualificado da sua duração; qualquer caso humano e cristão é um caso incomunicável, único e, por conseguinte, necessário, da extensão do <<corpo espiritual>>. Se sois porta-luz, não escondais, debaixo do alqueire, o brilho pequeno ou grande que de vós se espera na casa do Pai de família. Amai a verdade e os seus frutos de vida, para bem vosso e dos outros; consagrai ao estudo e à sua utilização o principal do vosso tempo e do vosso coração. Todos os caminhos, excepto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direcção onde se espera e se requer a vossa acção. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado. Isto supõe que se abraça a vida intelectual com intenções desinteresseiras e não por ambição ou vã gloríola. Os guisos da publicidade só tentam os espíritos fúteis. A ambição, que quisesse subordinar a si a verdade eterna, ofendê-la-ia. Brincar com as questões que dominam a vida e a morte, com a natureza misteriosa, talhar-se um destino literário e filosófico à custa da

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verdade ou fora da dependência da verdade, constitui um sacrilégio. Tais intentos, sobretudo o primeiro, não conseguiriam manter o investigador; depressa o esforço esmoreceria e a vaidade haveria de entreter-se com bagatelas, sem curar das realidades. Mas isto supõe igualmente que se junta, à aceitação do fim, a aceitação dos meios, sem o que não se deve tomar a sério a obediência à vocação. Quantos há que desejariam saber! Uma vaga aspiração impele as multidões para horizontes que a maior parte admira de longe, como o doente de gota admira, desde a planície, as neves eternas que cobrem o cimo das montanhas. Obter sem gastar, eis o desejo universal; mas desejo de corações cobardes e de cérebros enfermos. O universo não acorre ao primeiro sussurro e para que a luz de Deus baixe a vossas lâmpadas, é necessário que as vossas almas a peçam instantemente. Sois um consagrado: tendes de querer o que a verdade quer; consenti, por causa dela, em vos mobilizardes, em vos fixardes nos seus domínios, em vos organizardes e, porque vos falta a experiência, em vos firmardes na experiência alheia. <<Ah, se a juventude soubesse!...>> Mais do que ninguém, precisam os jovens deste aviso. A ciência é conhecimento pelas causes; mas activamente, quanto à sua produção, é criação pelas causas. É preciso conhecer e adoptar as causas do saber, depois coaduná-las e não adiar o cuidado de lançar os alicerces até ao momento de assentar o telhado. Que belas culturas se podiam empreender nos primeiros anos de liberdade após os estudos, revolvida ainda de fresco a gleba intelectual com as sementes confiadas ao solo! É esse um tempo que não volta mais, o tempo de que se há-de viver mais tarde. Qual ele tiver sido, tal será o homem, porque não há maneira de arrepiar o caminho andado. Se viverdes superficialmente, sofrereis o castigo de ter descurado, em seu tempo, o porvir que vive sempre de esperança. Pense cada qual nisto na hora em que o pensar pode servir. Quantos jovens, que nutrem a pretensão de vir a ser trabalhadores, malbaratam miseravelmente os dias, as forças, a seiva intelectual! ou não trabalham, quando lhes sobra tempo de o fazer, ou trabalham mal, caprichosamente, sem saberem o que são, nem para onde querem ir, nem como se anda. Cursos, leituras, frequentações, dosagem do trabalho e do descanso, da solidão e da acção, arte de extrair e de utilizar os elementos adquiridos, realizações provisórias que anunciam o trabalho próximo, virtudes a alcançar e a desenvolver, nada se prevê, nada será satisfeito. No entanto, em igualdade de recursos, que diferença entre o que sabe e prevê e o que corre à aventura! <<O génio é longa paciência>>, mas paciência organizada, inteligente. Não se requerem faculdades extraordinárias para realizar uma obra; basta uma média superior; o resto, fornece-o a energia e a arte de a aplicar. Sucede aqui o que sucede a um operário honrado, poupado e fiel ao trabalho: chega ao termo, quando muitas vezes o inventor fracassa por causa de irritações e pressas. O que digo aplica-se a todos, dum modo especial aos que só sabem dispor duma parte da vida, da mais fraca, para se entregarem aos trabalhos da inteligência. Mais do que os outros, devem estes ser consagrados. Terão de amontoar, em reduzido espaço, o que lhes não é dado distribuir em vasta extensão. O ascetismo especial e a virtude heróica do trabalhador intelectual deverão ser, para eles, o pão de cada dia. Se, porém, consentirem nesta dupla oferta de si próprios, não desanimem. Se para produzir não faz falta o génio, menos falta ainda faz a plena liberdade, tanto mais que esta tem armadilhas, e para as vencer pode concorrer imenso o estar adstrito a rigorosas obrigações. Uma corrente apertada entre margens estreitas irromperá mais longe. A disciplina do ofício é forte escola que aproveita aos lazeres estudiosos. O homem, quando constrangido, concentra-se mais, aprende a avaliar o tempo, refugia-se com ardor nas horas raras em que, satisfeito o dever, se torna a encontrar o ideal e se goza da calma da acção escolhida, após a acção imposta pela dura existência. O trabalhador que no esforço novo encontra a recompensa do esforço antigo, que dele faz o seu tesouro, é de ordinário um apaixonado; não há meio de o desapegar do que assim é consagrado pelo sacrifício. O seu andar, na aparência mais lento, dispõe de recursos para ir por diante. Pobre tartaruga laboriosa, não perde o tempo em ninharias, porfia, e ao fim de poucos anos, ultrapassa a lebre indolente, cuja marcha desimpedida lhe causava inveja, enquanto se arrastava lentamente. Pensai o mesmo do trabalhador isolado, sem dotes intelectuais, nem facilidade de frequentações que o estimulem, enterrado nalgum canto de província onde parece condenado

poucos bastam. Seja qual for a sua situação. não deve isolarse. a empregá-las com ardor e. não deve deixar-se tentar pelo individualismo. À força de ser alma. Obrigado a ganhar a vida. adquirem e se preparam para os dons magníficos. mergulha todos os dias no manancial que. João Crisóstomo sobre S. Frequentações. sentir-te-ás atirado com maior violência para os teus nobres fins. por vezes anima-vos. aumenta a sede. Na opinião de muitos. não tiverem em si recursos para deles prescindirem. onde qualquer semente rende cem por um e um simples raio de sol doura os frutos do outono. Não desanime. Não vos arrisqueis a perder uma fortuna por uma colher de mel coado. se. . tem confiança. em caso de necessidade. Entregue a ti. A maior parte dos grandes homens exerceu um ofício. pelo desejo. para recolher a herança dos séculos. cessa-se de ser homem. para orientar os olhos inconstantes na direcção das causas primeiras e os. chegar a ser alguma coisa. estímulos. também tu encontrarás lugar. a liberdade da alma. de bom grado trocaria tudo isto pelo comentário de S. em virtude da sua vocação intelectual de consagrado. possuindo-se unicamente a si e obrigado a tudo haurir deste fundo inalienável. para fornecer ao presente as regras do espírito. imagem deformada da personalidade crista. Quando S. um dia. para reavivar a chama que se apaga e organizar a propaganda da verdade e do bem? É esse um quinhão que vale. bastam para talhar um destino intelectual. Mateus>>. este estudo grave e esta prática perseverante franquear-te-ão a entrada no santuário admirável. ó jovem que compreendes esta linguagem e a quem os heróis da inteligência parece chamarem misteriosamente. Um coração ardente dispõe de maiores probabilidades de vencer. Aprende a administrar esse pouco tempo. corações na dos fins supremos. ordinàriamente perturba-vos e dispersa-vos.5 a estagnar-se. que estas páginas quereriam dar-te a prova? Se a tua resposta é afirmativa. podes beber o cálice de sabor esquisito e amargo. Tomás de Aquino se dirigia a Paris e descobriu ao longo a cidade. guarde-se a si próprio. da dificuldade pode brotar a força. Mais vale a solidão apaixonada. A quem vive destes sentimentos pouco importa o lugar onde está ou os meios de que dispõe. só lhe resta perseverar e entregar-se à vida consoante o Plano divino. porque trabalhar humanamente é trabalhar com o sentimento do homem. Se tem tudo contra si. do público vibrante. presentes a quem os invoca. que peço. Escuta-me. longe das ricas bibliotecas. para descobrir os factos e as causas. destinado também de antemão ao Reino de Deus. Se Deus quiser. Hás-de pertencer ao número dos que crescem. esse é um eleito do espírito e. Também aqui. ou os não seguem ou os seguem mal. ganhá-la-ás sem lhe sacrificar. as duas horas. das suas necessidades. da solidariedade que nos liga numa vida estreitamente comum. isto é. ser já. Quanto ao público. Gratry chama a Lógica viva. O trabalhador cristão. O resto sempre se alcança. mais do que isso repousa na certeza. embora em pleno deserto. O isolamento é inumano. sacrifícios suplementares e o cultivo duma paixão absorvente. dessedentando. Tens duas horas por dia? Podes obrigar-te a reservá-las ciosamente. Sobre a montanha. não vigiada. na assembleia dos espíritos nobres. O estudo e a prática daquilo que o P. II – O intelectual não é um isolado. só nos especamos nas passagens difíceis. disse ao irmão que o acompanhava: <<Irmão. e por detrás do pensador ardente erguem-se os grandes séculos. há-os em toda a parte. diria Vitor Hugo. depois. ou verbo humano. Se a solidão vivifica. encontramo-los em espírito na solidão: as grandes seres estão lá. do que um estúrdio do Bairro latino que não sabe aproveitar as facilidades que tem à mão. O querer vale mais do que tudo: querer ser alguém. julguem-no abandonado ou retirado materialmente. depressa se toma funesta. Os que têm a facilidade de assistir a cursos. esse alguém qualificado pelo ideal. como tantas vezes acontece. sem dúvida. nos caminhos planos avançamos folgados. mas que receias encontrar-te desprovido. dos cursos brilhantes. Queres contribuir com a tua quota para perpetuar a sabedoria entre os homens. como tal. além disso. das suas grandezas. e que isso lhe baste. o isolamento paraliza e esteriliza. Livros. pelo contacto directo ou indirecto com o Espírito e o Verbo divino. o desenvolvimento do nosso espírito. e a folga.

o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. não pode separar dele nem os tempos nem os homens. e há um que para nós e praticamente os ultrapassa a todos: o nosso. exactamente como a erva da . Trabalhai. esta palavra – próximo – é termo relativo. Ele retirou-se. Qualquer momento da duração nos diz respeito e qualquer século é nosso próximo. O mundo corre perigo por falta de máximas de vida. a Verdade e a Vida. e não há sinalização. enobrecê-los. Mas indico um espírito. Somos os seus <<membros>>. distingui nele estes e aqueles. portanto o seu espírito em participação. O decurso do livro o mostrará. em espírito de utilização. Encontramo-nos num comboio que desfila a toda a velocidade. que toda a verdade salva. mas todos os tempos são tempos cristãos. o valor dos mortos.6 O trabalhador cristão deveria viver constantemente no universal. é promessa implícita e dom. a sua lei abandona-o: quem lhe restituirá o seu sol? O que digo não visa a estreitar o campo da investigação intelectual. em vida. descobri o que pode arrancá-los à noite. que possui. que habitamos a circunferência. Toda a verdade é vida. a mais elevada é também a prática. Sendo o nosso trabalho necessário para esta acção. e por conseguinte os esforços que lhes devem corresponder. não noutra parte. Já disse que toda a verdade é prática. como Ele. enquanto viveu na terra. caminho em ordem alcançar o fim humano. Utilizemos. e este espírito exclui qualquer forma de diletantismo. A luz. Para ele são os nossos recursos nativos. Em seguida. que a providencial sabedoria determina para cada qual e que cada qual. III – O intelectual pertence ao seu tempo. na sua sabedoria restrita. Nem todos os tempos valem o mesmo. se a sua eternidade é centro irradiante. como vivos. o que de perto ou de longe os salva. nem agulheiros. na história.aplicam-se ao nosso trabalho como a tudo o mais. <<Oramos diante do Crucifixo>>. Toda a verdade é prática. cuja indigência conheceis. do mesmo modo que qualquer homem. nos mananciais do Pai. deve reger-se por esta lei de unidade cordial. Deixai sussurrar em volta o género humano. as nossas forças de hoje e as de amanhã. nós continuamo-lo: eis a nossa honra incomensurável. dentro. A vida real é vida num. deve igualmente determinar. a mais abstracta na aparência. sempre. Todas as virtudes antigas querem reflorescer. a luz que pretende adquirir. A verdade é sempre nova. se todos os tempos são iguais perante Deus. pensai que. certa estima do passado que parece ignorar a presença universal de Deus. vida de família imensa com a caridade por lei: se o estudo pretende ser acto de vida. Exclui também certa tendência arqueológica. não sucede o mesmo na relação dos tempos connosco. homem do século XX. pois. Foi Deus que nos colocou aí. como precisava. como. trabalhemos como Jesus meditava. fora e pelo seu espírito inspirador. Só as verdades redentoras são Santas e as palavras do Apóstolo – <<a vontade de Deus é que sejais santos>> . testemunha de confusões como porventura o mundo nunca presenciou desde que os montes surgiram e os mares foram atirados para seus antros. operava exteriormente pela palavra. certo amor do passado que se desinteressa das dores actuais. indivíduos ou grupos. contemporâneo dum drama permanente. Eis-me aqui. O verdadeiro cristão terá sem cessar diante dos olhos a imagem do globo onde está plantada a cruz. a igual distância do qual correm todos os pontos da circunferência do tempo. portanto os seus cooperadores. Jesus Cristo precisa do nosso espírito. diz Gratry – devemos também trabalhar aí – mas a verdadeira cruz não está isolada da terra>>. orientação. Não nos assemelhemos aos que dão sempre a impressão de pegar às borlas do caixão nos funerais do passado. e no íntimo das almas pela graça. como recomenda o Evangelho. Estamos aqui. O planeta não sabe para onde vai. do seu próprio espírito humano. na vasta roda. Que fazer por este século arquejante? Mais do que nunca. Por isso Jesus Cristo reuniu numa só afirmação: Eu som o Caminho. Opera por nós. e não arte pela arte ou monopólio do abstracto. Porque vive com Jesus Cristo. com o intuito de difundir. reveste-o dum sacerdócio. e onde o sangue redentor procura encontrá-los através de meandros sem conta. onde os pobres seres humanos erram e sofrem. nem a confiná-lo no estudo exclusivamente religioso. haurindo.

Desligados desta raiz comum e. em certo modo. a intelectualidade em potência. Provocaria certo escândalo o atribuir a um valdevinos uma importante invenção. no seio dum todo equilibrado. podemos até deduzir tudo. abeiramo-nos das claridades supremas e das dependências. Apertemos mais esta importante doutrina. As qualidades de carácter desempenham. Ninguém acredita nos joalheiros que vendem pérolas e não as usam. esta a sua vocação. ambos vêm a sofrer: ou a alma se torna anémica ou o espírito se estiola. quando a rendemos à verdade da vida. e sendo a homenagem do facto.As virtudes do intelectual Cristão I . CAPÍTULO II . Pelo contrário. Embarcando no afluente. despenha-se em perigosos declives. e que o viver as ideias não ajudasse a percebê-las. por conseguinte. Praticando a verdade que se conhece. para ser santo só precisaria de ser mais plenamente o que é. não volta a encontrar o seu nível. até do ser. É mister ajudá-lo a renovar. dos que lhe não resistem. Este é o espírito do intelectual católico. requerem-se evidentemente outras qualidades além da inteligência. levando-nos ao nosso fim. menos ligados à sua terra.As virtudes comuns. cuja alma deixou o discernimento sem salvaguardas. mas a eterna face da terra. é preciso ser grande. que no trabalho é já virtuoso. em cem medida. O intelecto não passa de instrumento. A virtude contém. Prefiro. os rectos caminhos de um e da outra. Ficaria com isso magoada a candura dum homem simples. guia-se o saber. porque toda a força isolada. ilumina-se a consciência. Atentai agora nas virtudes que Deus lhe pede. porque a esta primazia da ordem moral prende-se a dependência relativa da verdade. tanto melhor. o génio. ao mar. da harmonia. Escandalizamo-nos duma dissociação que ofenda a harmonia humana. seguir caminho mais modesto. descurando a outra. <<Dize-me o que amas. A força lógica poderá precipitar mais fundo aquele. A vida é unidade. da unidade. Muitas conclusões se podem daqui deduzir. torna-se vítima dele. alimentando a verdade. Deus não envelhece. papel preponderante. Ora. e este amor pressupõe a virtude. nem as crónicas extintas. chega-se ao rio e. pelo rio. O espírito que. a respeito da moralidade que deste modo contrai parentesco com o primeiro princípio. e o seu manejo é que lhe determina os efeitos. e este ponto de partida do conhecimento e da prática não pode deixar de tornar solidários. Donde provém esta unidade da vida? Do amor. do belo. Quanto mais depressa a determinar pelo descobrimento do género de estudos a que se deve consagrar.7 madrugada beijada pelo orvalho. tão importante que só para a relembrar teria sido oportuna a composição deste livrinho. as raízes duma e doutro comunicam entre si. Daí tantas quedas retumbantes. por falta de inspecção. é natural que venha a ressentir-se o senso das grandes verdades. uma vez que. Pelo que. a despeito de possíveis taras. quem se atreve a asseverar que a saúde nada tem de comum . Merecemo-la também com um mérito que é a sua própria recompensa. em todas as coisas. fomentando o bem. merece-se a que se ignora. Para julgar com acerto. dir-te-ei o que és>>. afigura-se-nos jogo perigoso. seria para espantar que se lograsse executar uma função ao máximo. A verdade vem ao encontro dos que a amam. e um pequeno erro ao princípio acaba por ser grande. porém. em mestres desorientados. Para bem reger a inteligência. porque todas as verdades são interdependentes. se o carácter fraqueja. O amor. A virtude é saúde da alma. que é intelectual equivale ao supremo saber. A verdade medra na mesma terra que o bem. Ora. em nós. não os passados enterrados. Um espírito recto declara instintivamente que a superioridade em qualquer género inclui uma dose de superioridade espiritual. a mais decisiva. Gozar do poder da inteligência e convertê-lo em força isolada. de todas. é o começo de tudo. e tantos erros às vezes geniais. Parece um paradoxo está junto dum manancial sublime e não aproveitar a sua natureza moral.

Não nos aproximamos da verdade pelo que em nós há de individual. que recolhe os frutos da investigação. com o regime de vida. por isso. as alucinações. sepulcro dos melhores dons? Na sensualidade. os estudos delirantes. dispersam-na. e todas são para o amor do bem ou para o seu desprezo o que para a nascente são os fios de água que se entrecortam. A visão espiritual não é menos exigente. ramificam-se. mas um rodeio leva dum ao outro. Apaziguar-nos é desembaraçar em nós o senso do universal. desviam-na e alcançam o juízo por rodeios de que Aristóteles e outros muitos após ele perscrutaram os meandros. e um estado insensato.8 com a visão? Perguntai-o ao oculista. Tomás de Aquino. com o bom ou mau funcionamento das vísceras. A ciência depende das orientações passionais e morais. Plenamente de acordo! Ora analisai. As desordens mentais. é desobstruir o senso da verdade. Nós vamos muito mais longe e dizemos: pensamos com todo o ser. as astenias e as hiperestenias. em grande parte. não o podemos honrar como verdade. com o coração trabalhado pelos vícios. em seguida do juízo. Um prático inteligente não se detém a medir a curvatura do cristalino e a escolher combinações de lentes. a um tempo verdade e bem. . O bem moral não é senão o desejável medido pela razão e proposto à vontade como fim. enegrece a imaginação. importa sobremaneira para a aquisição da ciência(1). o pensamento. de qualquer espécie que sejam. Uni estas proposições. directamente é o desejável. Todas as taras mencionadas estão mais ou menos ligadas umas às outras. o esforço da ciência? Da atenção. à parte a loucura. provam claramente que não só o espírito pensa. do seu próprio destino. que ora deslumbra ora entenebrece. através dos fins do querer. mas inquebrantável. Para falar com exactidão. desorientado por amores violentos ou culpados? Há um estado clarividente e um estado cego da alma..lib. Continuai a analisar. das virtudes e do seu papel na ciência. cortam-se. Mas. de que falamos. Ensina a mais segura metafísica que a verdade e o bem não somente estão ligados mas também são idênticos pelos cimos. e. Julgais que pensamos só com a inteligência? Seremos acaso puro feixe de poderes. Este universal. nem se limita a aconselhar colírios ou banhos locais. já que falamos de mananciais. dizia Gratry. antes de mais nada. <<O exercício das virtudes morais. que nos arrasta para o nosso próprio senso a ponto de nos fazer perder o senso universal? Na inveja que recusa obstinadamente uma claridade vizinha? Na irritação que rejeita as críticas e se apega ao erro? Livre destes obstáculos. não é propriamente o bem moral. com a dentição. A <<psicologia dos sentimentos>> governa a prática. E é este fim último que encontra a verdade e com ela se identifica. a evidência não permite dúvidas. cumpre dizer que o bem. o que dizemos dos vícios. não esqueçamos o primeiro. declarava Platão. as inadaptações ao real. e vereis que o bem moral se não é inteiramente idêntico à verdade. Todos os psicólogos contemporâneos estão de acordo neste particular. Não vos admireis se este médico dum só órgão vos interroga acerca da vossa virtude.6. Subamos mais alto. Ora as paixões e os vícios distraem a atenção. mas o homem todo. embota a inteligência. o homem de estudo elevar-se-á mais ou menos. pressupõe sujeitos no restante iguais. Quais são os inimigos do saber? Evidentemente a ininteligência: e. O conhecimento interessa tudo em nós. A pureza do pensamento exige a pureza da alma: eis uma verdade geral inconcussa. desde a ideia vital até à composição química da mais pequenina célula. Oxalá o neófito da ciência se impregne dela. que enfraquece e prostra o corpo. que fixa o Campo da investigação nos concentra nele e apoia todas as nossas forças nesse sentido. mas preocupa-se com o estado geral do enfermo. De que depende. Os fins dependem todos dum fim último. das virtudes que refreiam as paixões. donde retiramos o instrumento apto para isto ou para aquilo? Pensamos <<com toda a alma>>. dela depende. afirma por sua vez S. dissipa a memória? No orgulho. ( 1) VII Physic. mas alcançará o nível do seu próprio génio. Como querereis pensar bem com a alma doente. que inimigos temeis? Não pensais na preguiça. um estado são e conseguintemente sensato. solicitado pelas paixões. mas também. Portanto há entre ambos um laço frouxo ou apertado. mas participando no universal. rectificar-nos. segundo as suas posses e o ambiente em que vive.

para que a sua glória nos inunde. tomado em absoluto. para indicar que o saber. é à custa da sua ascensão para os cimos. . a ambição pode alterar a estudiosidade e os seus efeitos úteis. S. Não será. Deixemos agora a primeira: se o leitor a não detestar no momento de fechar este livro. as suas disposições filiais e amantes abrem-se à invasão das claridades como à dos ardores e das rectidões. Subi a grande pirâmide pelos degraus que representam tão exactamente a ascensão da verdade: se subirdes pelo ângulo norte. o mesmo da curiosidade. entendo o termo nos dois sentidos. constitui sem dúvida o nosso bem supremo. Eis-nos certos de que a virtude. que o estudioso se proponha.A virtude própria do intelectual. que não é homem. As grandes intuições pessoais. quanto maior rectidão moral nela empregarmos. o prático que desdenha da ciência para ( 1) Cf.Tomás. Suma Teológica. mas excluíram de lá muitas outras(1). Quando digo sai. porque verão a Deus. Bem-aventurados os corações puros. à igualdade de valor. não chegareis ao cume sem vos aproximardes do ângulo sul. é ir de través e tornar a descer. queremos comunicar como o foco de luz e de vida. tanto mais fecundo será o estudo. há uma virtude própria do intelectual. descobrir-lhe os rastos e sofrer a sua influência poderosa. Ninguém se apresse a qualificar de simplória esta afirmação. amada e realizada como vida. participamos na verdade participando no Espírito segundo o qual ele existe. porventura. que adaptemos às circunstâncias e liguemos aos outros deveres o apetite de conhecer. A obediência da alma à fonte inefável. as luzes penetrantes vêm. 167. Esta pode tirar lucro dos instintos e viciá-los no momento em que pretende satisfazê-los. Sem ir tio longe. tal qual é. do desapego de si e das banalidades rotineiras. nem de fazer brilhar as próprias faculdades. No entretanto. em si. revela-se como princípio. e quem o pratica não merece o nome de intelectual. recomenda S. porém. Por outra parte. nem sempre é oportuno. O pároco de aldeia que vive para os paroquianos. que será? Existem outros deveres humanos além do estudo. adoramo-lo. a estudiosidade. Manter-vos a distância. é sempre bem-vindo. mas o que saboreamos aqui subordina-se muitas vezes a outros valores que são os equivalentes daqueles sob os auspícios do mérito. do empenho em alcançar os fins sublimes. Tomás ao estudante. e convém insistir nela. <<Guarda a pureza de consciência>>. e renunciamos ao que se lhe opõe. q. E um intelectual. A verdade. um pouco isto o que quer dizer a célebre máxima: <<Os grandes pensamentos brotam do coração>>? II . disse o Senhor. da humanidade. E qualquer outro intuito menos confessável. afastar-vos. Tomás subordinava a estudiosidade a temperança. Um acto de ambição a propósito da ciência já não é acto de ciência. Já mencionamos as pretensões ambiciosas que desorientam a vocação intelectual. e se o não é. No reino da estudiosidade. Não digo. vemos segundo o que somos. <<não cesses de imitar o procedimento dos santos e dos homens de bem>>. isto é.S.9 unir-nos intimamente a ele. mas que a constituição da vida exige que temperemos. mesmo quando desinteressado e recto. do aperfeiçoamento moral. é ficar nos níveis baixos. embora no decurso destas páginas a encontremos frequentemente. da disciplina dos sentidos e da imaginação. que facilmente sai dos justos limites. Opõem-se dois defeitos: a negligência e a vã curiosidade. sem o reconhecer e sem o servir igualmente como bem. O conhecimento. em geral. Não se trata aqui de ostentar destreza. A virtude própria do homem de estudo é. IIª II ªe. da simplicidade. é que se terá enfastiado durante o caminho ou então que fizemos muito mal a travessia. Assim o génio da verdade tende para o bem: se dele se afasta. abeiramo-nos deste centro na sua unidade. como jóias. pois que os mestres no assunto incluíram debaixo desse rótulo muitas coisas. o estudo. é necessária à ciência e que. merece o mesmo veredicto. o sujeito da ciência esquece-se do mister de homem. evidentemente.

Muitos curiosos na ciência não receiam sacrificar-lhe os mais estritos deveres: não são sábios. Abaixo o cap. ou antes de os alicerces estarem consolidados: de contrário tudo desabaria. non statim. Na efígie do real em nós. Quem visa mais alto do que pode e se expõe a errar. é abuso e ilusão. deve preferir a frequentação directa. A ciência comparada. de contrário. Caminhai sempre para a frente em harmonia com o que sois. Afinal. levando a Deus por guia. Cada ser opera segundo a sua quantidade e a sua qualidade. é obedecer a Deus e preparar vitórias certas. o filho de família que aprende um ofício para ajudar os seus e renuncia desse modo a uma cultura liberal. ou então abandonam o estudo que corresponde às suas obrigações. é igualmente curioso no sentido antigo. Não sobrecarregueis o solo. Dois dos dezasseis conselhos de S. V. mas. nem a das grandes almas. e depois permanece em paz. Assiste-vos uma missão que só vós podeis cumprir e que deveis cumprir com perfeição. Ele é um reflexo do ofício divino. acima de tudo. Perde-se quem quer subir como quem quer descer. visto que. No real tudo ascende para o divino. para se entregarem ao estudo que os lisonjeia nos seus desejos. Aceitar-nos tais quais somos. Não devemos estimar-nos acima do que valemos. notam-se as mesmas dependências. em seu tempo. A natureza nunca vai além do que pode. Ninguém pode contar só consigo para começar pelo princípio. de acordo com a sua natureza e a sua força. de sorte que o homem se esqueça de si e. oporiam a Verdade viva a si própria. Tiraremos daí uma importante consequência para a organização do trabalho(1). faltará a um dever capital e além disso os vestígios da imagem de Deus nas coisas criadas só servirão de afastar para longe daquele a quem atestam. porque tudo dele procede. Se quiserdes colher os frutos. Quem sois? Qual a vossa situação? Quais os vossos fundamentos intelectuais? Eis o que deve determinar as vossas empresas no domínio da ciência. o conteúdo do conselho de S. o que é verdade de cada um no respeitante ao espaço percorrido do seu próprio desenvolvimento. em resumo. nem eleveis o edifício mais alto do que os alicerces o permitem. in mare eligas introire. Procedendo de modo diferente. são diletantes. quem deita a perder faculdades reais a fim de adquirir faculdades ilusórias. Tudo nela se mede com precisão sem esforço vão nem avaliações mentirosas. O Campo do Trabalho.10 prestar socorros urgentes. tão úteis para a ciência como para a virtude. a estas necessárias medidas de prudência. é igualmente verdade de cada um com relação aos outros. O sábio começa pelo princípio e só dá novo passo depois de ter consolidado o precedente. plantai a árvore: eis. a depreciação e a mesma. Associando-nos a um grupo em meio do caminho. a não ser que tenhamos transformado as relações da verdade. Tomás ajunta. o cuidado de não deter a curiosidade nos objectos do mundo com detrimento do objecto supremo. tudo dele depende. evitamos a dificuldade dos primeiros passos. Preciosos conselhos. Os destinos não se podem mudar à discrição. não profanam o génio interior. S. equivale a dizer que o regato levará maior quantidade de água se o manancial estancar. à meditação directa das coisas de Deus. mas sim julgar-nos. não faça caso do hóspede interior. Tomás em matéria de estudo dirigem-se a esses tais: <<Altiora te ne quaesieres. nem se leia a palavra sagrada. consoante perscruta a natureza ou a humanidade. salientaremos que o estudo deve ceder o lugar ao culto. inteiramente concentrado nos objectos de estudo. não busques mais do que podes>>. A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas. resolve-te a entrar no mar pelos regatos e não directamente>>. . em vez de tentardes violentar a fortuna. ofenderiam a verdade e a virtude. <<Volo ut per riuulos. Por este motivo. nem a dos santos. à oração. Por outro lado. busca e honra os <<rastos>> criadores ou antes as <<imagens>>. Supor que desse modo aumentarão os progressos ou a produção. Tomás. ( 1) Cf. Só o homem vive de pretensões e de tristeza. rendem homenagem àquela verdade que se identifica com o Bem. Grande ciência e grande virtude é o homem julgar-se rectamente e ser o que realmente é. os autodidactas apresentam tantas deficiências. mas. pelo equilíbrio que comunicam ao homem. por um desvio. Estudar de sorte que se descure a oração e se não pratique o recolhimento.

vive do que recebe e. não se basta a si própria. Mas na própria ciência. Não se requerem esforços extrínsecos. toda a verdade é lugar de entrevista. repetimos sem cessar. nem qualquer outra manifestação da vida se deve separar das suas raízes na alma e no real. de si. Decidamo-nos a trabalhar à sombra das grandes leis e ao abrigo da Lei suprema. Os pormenores não são nada: os factos também não. como Jesus. sob a sístole e a diástole do mundo. Toda a verdade se destaca no Infinito como num fundo de perspectiva. pertence-lhe. É ainda S. e ela é. as imensidades estão mais longe. da sua bondade pelas utilidades. mas não por si mesma. o Dom. Estas disposições ficarão incólumes se. para onde nos podemos encaminhar senão para o manancial de ambos? Quem lá não chega. encontra-se o escabelo que. nos permitirá voltar ao estudo com o espírito mais esclarecido e. o sangue.Tomás que recomenda ao apaixonado da ciência: <<Orationi uacare non desinas. e Van Helmont assim explica este preceito: <<Todo o estudo é estudo da eternidade>>. . no olhar divino. no cimo das comunicações. que ela possui. que balbucia. há a dependência primeira. O real tem vida oculta. do seu poder pelos efeitos. Desligar este <<corpo de Deus>> do seu Espírito. Em suma. Cumpre estabelecer a unidade entre os nossos actos (compreendendo o acto de aprender) e os nossos pensamentos e as nossas realidades primeiras. e a Verdade é Deus. da Verdade eterna em cada caso da verdade. Nem o conhecimento. é revelação da sua sabedoria pelas leis. Cada ser é testemunha. eternidade. está a Luz. ela figura.O espírito de oração. Tomás orava sempre antes de ditar ou de pregar e compusera para esse efeito uma oração admirável(1): o menino da ciência. no que se analisa pela ciência. cada facto. a qual é também vida em Deus. Cada verdade é um fragmento que mostra por todos os lados as suas ligações. busca muito naturalmente.11 III . Librairie de l’Art Catholique. elevando-nos Para Deus. o herói do testemunho. A incarnação de Cristo termina na comunhão. para a alma inteiramente desperta. Ora. o que importa são as dependências. Não será porventura necessário que o espírito se conforme incessantemente com ele e nunca perca o contacto do que é assim o todo de todas as coisas e por conseguinte de toda a ciência? A inteligência só cumpre plenamente a sua missão exercendo uma função religiosa. é como que Vida de Deus. Sem dúvida. um segredo divino: para além está o objecto da revelação. isto é. o imenso Coração do Ser. Pode uma verdade particular ocupar a cena. deve também terminar num êxtase celeste. morreria. aonde o Pensamento supremo convida o nosso pensamento: faltaremos ao encontro sublime? A vida do real não se confina no que se vê. onde o Deus do coração e o Deus dos céus se revelam e se juntam. A ciência é conhecimento pelas causas. a alma e a divindade do Salvador: a espécie de incarnação de Deus no ser. o supremo Laço. o espírito de oração. Através da natureza e da alma. no trabalho. Portanto. a Verdade em si é uma. as trocas que constituem a vida da natureza. independentemente da piedade. debaixo das trocas. as ligações. o Coração. Toda a verdade autêntica é. a palavra que lhe falta. por assim dizer. entregue à sua inconsistência. toda a duração e a própria Divindade. e a. Podíamos dizer: uma verdade particular é apenas símbolo. O espírito inspirado e recto atravessa dum salto os ( 1) Cf. em que se não dissocia o corpo. Sacramento do absoluto. que deve preceder o estudo. toda a natureza. rendendo culto à suprema verdade através da verdade reduzida e dispersa. como é abusar de Cristo ver nele puramente o homem. S. atrás de todas as dependências. orienta para aquela de que é a revelação. parece-se com ele. a invocação de Deus e a sua intervenção especial têm aqui o seu lugar. na ciência cristã. com os dons do profeta. no âmago de todas as ligações.Les Prières de Saint Thomas d’Aquin. da sua tendência para se difundir pelas trocas e pelo crescimento: convém venerar e amar esta espécie de incarnação ao contacto daquele que se encarna. é que se desviou no caminho. símbolo real. Para obter este espírito de oração na ciência. nunca deixes de orar>>. Cada verdade é um reflexo: atrás do reflexo. se cultivar. as comunicações de influência. eterna. Paris. e a dar-lhe o valor. Tudo o que instrui leva a Deus por caminho coberto. não é mister entregar-se o homem a encantações misteriosas. é abusar dele. a Fonte. tenhamos connosco toda a alma. em vez das nossas distraídas investigações e das nossas banais admirações.

bastante vigor ( ( ( ( Quaest.19. quaisquer que sejam as respostas particulares que dê. se estabeleça um vaivém em proveito de ambos.A disciplina do corpo.3. depois de demoradas preparações em que toda a máquina corporal entra em acção. embora a primeira costume assustar os espirituais de juízo pouco firme. a substância homem estão ao serviço desta vida especial que por certos aspectos parece tão pouco humana: não lhe ponham embargos! Tornemo-nos harmonia. por outro. servimo-nos apenas dum meio: produzir nele. A base de tudo é a química celular. de memória. basta que. magnificado. S. De Mrmoria. O fenómeno intelectual produz-se no meio de fenómenos fisiológicos. 3) In II de Anima. 1) 2) . como dizer: só ela constrói ou tece>>(1). art. Como já dissemos. Do mesmo modo. 4) Quaest. que o Santo Doutor desenvolve a cada passo. a sua atenção para que. mesmo que só utilize uma ideia adquirida. Ora. que são os adubos com que se fermenta a ideia. As almas não comunicam senão pelo corpo. por outro lado. de sensações. diante das quais as montanhas são efémeras. tão essencial e providencialmente moderna. é indispensável sujeitar ao pensamento não só a alma e as suas diversas potências. e daí. Mas se a culpa é vossa. nos quais ele descubra a nossa ideia e a possa fazer sua. I. O complexo físico e mental. Génios houve de saúde lamentável. Não admira. há aí duas coisas a encarar sem respeito humano. a alma de cada qual não comunica com a verdade e consigo própria senão pelo corpo. art. O pensamento nasce. de emoções. <<À boa compleição do corpo corresponde a nobreza da alma>>(3).I. o Ser infinito e a duração infinita cercam-vos. ad 12 um. O que aí se descobre é então comentado. Tu que és aluno dos génios estás seguro de possuir.XXVI de Veritate. a doutrina do composto humano opõe-se à dissociação das funções espirituais e das funções corporais. Primeiramente. IV . e sustenta estas proposições na aparência materialista: <<As diversas disposições dos homens nas obras da alma dependem das diversas disposições de seus corpos>>(2). de emoção. deve ser intelectual. retornamos aos vestígios do divino Viageiro. sem evocar uma série de imagens. e a toda a interrogação que se ergue dentro de si. passamos do Vestígio ou da Imagem a Deus. mas também o corpo e todas as suas funções orgânicas? Tudo. ainda as mais estranhas ao pensamento puro. Tomás subscreve este pensamento irónico de Aristóteles: << É tão ridículo dizer: só a alma compreende. vê-se aí um episódio dum imenso acontecimento espiritual. I.12 intermediários. não vos envergonheis de cuidar da saúde. Quando queremos despertar nalguém um pensamento. Ninguém pensa. então isso seria tentar a Deus e caso de grande culpabilidade. como eles. em continuidade com eles e debaixo da sua dependência. directamente ao corpo e só <<por acidente>> à parte intelectual(4). e o vosso estudo é autêntico <<estudo da eternidade>>.XIX de Veritate. de sorte que a mudança pela qual passamos da ignorância à ciência se deve atribuir segundo S. pela palavra ou por sinais. ressaltando com novas forças. dos sentidos que elaboram lentamente as suas aquisições e as fixam pela memória. as mais obscuras sensações preparam a experiência: esta é o produto do trabalho. arg. sobretudo para pensar com ardor e sabedoria durante uma vida inteira. lect. num intelectual. mesmo ocupando-se duma ninharia. uma voz secreta responde: Deus! Por conseguinte. Esta doutrina. não discutamos. que dê em resultado a conquista da verdade. em nós. deixemos ao espírito o seu voo e. lect. estados de sensibilidade e de imaginação. e se Deus permite que assim suceda convosco. Por um movimento rápido e muitas vezes inconsciente. entre o objecto dum estudo particular e o da contemplação religiosa. Tomás. deve gerar a convicção de que para pensar. o homem sente-se cliente de verdades.

Os nossos modernos. que. embrutece e entorpece. entrava a liberdade no momento das suas delicadas funções. Se não podeis exercitar-vos ao ar livre. malogrados possivelmente futuros idiotas. mesmo entre os mais bem dotados. Cap. de quando em quando. Pensávamos então nos seus efeitos psicológicos. Não descureis nada. nas perturbações que trazem ao juízo e à criação do espírito. É bom interromper. portanto ecónomos insensatos do talento que o Mestre lhes confiou. Já falamos das paixões e dos vícios como de formidáveis inimigos do espírito. <<Alma sã no corpo são>>: eis o ideal de sempre. instrumento da alma. desvia a atenção. Muitas anomalias intelectuais. Se Leopardi não tivesse sido o aborto que foi. há-de encontrá-lo para estar doente>>. passeios que se entremeiem com o trabalho e com ele se combinem. no que respeita ao sono. Cuidai mais ainda do sono: não seja demasiado nem escasso. mas existem outros(1). segui as prescrições correntes. ( ( ( Cf. consoante a tradição grega: eis aí outras tantas práticas esplêndidas. Observai-vos. Lisboa. Paris. incentive da outra (1). Não se pode marcar aqui lei comum. Uma enfermidade de estômago muda o carácter do homem e o carácter muda os pensamentos. O pensador não passa a vida em sessões de digestão. ao mesmo tempo que com o pensamento. trad. deveis preocupar-vos.. o cuidado do corpo. simples. não a desdenheis. o repouso. o ar livre e o exercício em plena natureza. pois bem. está em estreita correlação com a respiração e. Muller. pode falsear o juízo pelos efeitos de imaginação e de emotividade que o sofrimento provoca. Em suma. Os antepassados sabiam-no muito bem. moderada em quantidade e em qualidade. é um dos mais inteligentes. para vós. A boa higiene é.-P. velhos antes do tempo. S. O de J. expõe-vos a prolongar e a sobrepor perigosamente as excitações do trabalho. chegados a certo grau. 1881. Não vos torneis raquíticos. porque ela enriquecerá a vossa filosofia. precisa de velar por ela e de não recear consultar o homem da arte(1). quase decerto o não contaríamos no número dos pessimistas. pois isso afrouxaria faculdades naturalmente activas. 1) Contra Gentes.P. permitir-vos-á trabalhar com mais prontidão e liberdade. Physiologie et Hygiène des hommes livrés aux travaux de l’espirit. Consagrai todos os dias algum tempo a exercícios corporais. O homem de pensamento tem uma. Por isso a natureza vinga-se. É importante trabalhar em posição que desembarace os pulmões e não comprima as vísceras. Não quero dizer que vos abstenhais de todo o trabalho. Em igualdade de dons. de se enrugar. Mas o cuidado do corpo comporta outros elementos. a doença é grave inferioridade: diminui o rendimento. Muller. com todas as suas substruções orgânicas. espessa o sangue e o pensamento. Demasiado. A atenção. fisiologia especial. não faltam métodos excelentes que suprem essa deficiência. por assim dizer. como ao alimento. para fazer dois ou três movimentos rítmicos que distendem o corpo e o impedem. O trabalho manual suave e distractivo é igualmente precioso para o espírito e para o corpo. Está demonstrado que são de grande eficácia largas aspirações praticadas de pé e elevando-nos na ponta dos pés. Lembrai-vos da observação dum médico inglês: <<Quem não encontra tempo para fazer ginástica. escasso. sobretudo combinadas com movimentos que as amplifiquem e as tornem normais. vivei ao ar livre. J. Port. O meu sistema. por vezes tão pobres de filosofia. e no decurso do ano. são ricos de higiene. talvez se expliquem deste modo. é. uma virtude por assim dizer intelectual. mas o nosso século zomba da natureza. o estudo aplicado para respirar profundamente. nervo da ciência. Em todo o caso.13 para triunfar na luta incessante da alma contra a fraqueza da carne? Nada nos diz que os génios não tenham visto as suas taras fisiológicas desviarem ou reduzirem-lhes os talentos. 1) 1) . para a saúde em geral. mas sim que predomine. 141. Uma alimentação leve.Réveillé Parise. encontrai a justa medida que vos convém e proponde não sair dela. Tratando-se duma vida elevada. para evitar a congestão e o estiolamento dos órgãos. a abundância de oxigénio é condição primeira. Reservai-vos todos os anos. Janelas abertas ou entreabertas dia e noite quando a prudência o permite. férias para descansar a sério. período frequente de respirações fundas. III. Bertrand. Cuidai da alimentação. Tanto quanto possível. para o intelectual. virtude e prova de sabedoria. bem como a fraca produção de alguns. nesses períodos de tempo.Tomás reconhece isso mesmo e classifica esta sabedoria do corpo entre os elementos que concorrem para a felicidade temporal. com a janela aberta.

não basta organizar por dentro. as preocupações. a contemplação não se compagina com as comodidades demasiado onerosas. se revestira da brancura do Carmelo e do Hermo. sob este aspecto. A disciplina e a mortificação do corpo. científica. Não vos deixeis tomar por essa engrenagem que pouco a pouco toma o tempo. O trabalho e as suas condições. O intelectual é um consagrado. quanto ao ambiente. A mortificação dos sentidos é requerida para o pensamento e só ela nos pode colocar naquele estado clarividente de que falava Gratry. Recepções. porque a sua carne. de que. <<uma inteligência servida por órgãos>>. Os . um pouco de bom gosto. cenário. quem se compraz em excitações malsãs. são antes os defeitos. obedecei a convicções. Lance todos os seus recursos ao fogo da inspiração. a ideia e a dissipação são inimigos mortais. Para dar hospitalidade à ciência. Não atrelarás o jumento com o boi. Não se representa o génio sentado à mesa a jantar. como praticará a higiene que vimos ser necessária? O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. em hábitos que a um tempo debilitam e enervam. juntas aos cuidados necessários. Muita paz. guloso. Dez por cento deste privilégio não o arruinarão: não é ele quem paga. saídas que arrastam novas obrigações. sóbrio e casto. segundo a célebre definição. não se requerem móveis raros. pronto para o ardor e afastado de excessos. Religiosa ou laica. precisar a vocação e administrar as forças: precisais também de dispor a vida. Tomás o doutor angélico? Será unicamente pelo génio alado? Não. e o que não se consegue afastar por fora pode-se afastar da alma. eis o que importa. vizinhanças. algumas comodidades que sirvam de poupar o tempo. A vida mundana é fatal para a ciência. nem com as complicações. do tabaco. Por que motivo se chama S. as disponibilidades. estais em caminho de ser carne. Reduzi o teor de vida. e vós sobretudo. em vós. o dever do pensamento. Tendes de levar a cabo uma viagem difícil: não vos sobrecarregueis de bagagens. por sua conta. Uma palavra que tudo resume: simplificai. do álcool. organizar-vos por dentro. todo esse ritual complicado duma vida artificial que tantos mundanos amaldiçoam cm segredo. obrigações. Quem é preguiçoso. pois pode acontecer que não sejais inteiramente senhor delas. não a ritos. Um certo ascetismo constitui ainda. tudo se oriente para o trabalho. a taxa do luxo. em pecados talvez perdoados periodicamente. não são coisas próprias dum trabalhador. e as convicções dum intelectual devem sempre referir-se ao fim que tem em Vista. literária. que indirectamente se convertem em doenças da alma. jovens. nem criadagem numerosa.14 transformam em potência de trevas. Se obedecerdes à carne.A organização da vida I – Simplificar. as forças. uma das mais preciosas salva. é porque nele tudo se subordinava ao pensamento genial e santo. trabalhadores cristãos.guardas do porvir. é quanto basta. A ideia e a ostentação. Os preconceitos não são os vossos ditadores. Vocação é consagração. como Bernardo Palissy sacrificava os seus móveis. mas cujos efeitos permanecem. prescreve a Lei: o trabalho pacífico e comedido não deve associar-se aos conflitos caprichosos e ruidosos duma vida puramente exterior. oriunda das margens tirrenas. observa Henrique Lavedan. e nesse caso de que serviria legiferar? Erro! Na mesma situação exterior. era todo ele uma alma. cerimónias de vizinhança. É preciso pagar. não vá portanto dispersar-se em futilidades exigentes. Actualmente referimo-nos os seus efeitos corporais. por amor do génio. mas o juro só duplicará. quando deveríeis ser todo espírito. artística. Guiai-vos por vós próprios. quem abusa do vinho. porque. escravo do travesseiro e da mesa. <<Os grandes homens dormem em camas pequenas>>. constituem a melhor parte: tal é. A fim de que. em todo o caso as tentações. CAPÍTULO III . um espírito de simplificação pode muito.

senão com direito. acalmando-lhe as penas. pensadores. obrigando-o a velar sobre si. menos ainda mulher de letras. A vida comum tem aqui por centro um cimo. repetindo de si para consigo a palavra sorridente de Lacordaire a propósito de Ozanam: <<Não soube evitar uma armadilha: o matrimónio>>. logo deve ter igualmente a vocação. dupliquem-no no momento em que se encontra como que diminuído por um gesto talvez excessivo. para aliviar e libertar o espírito. animando-o nos dissabores sem lhos acentuar com demasiada insistência. um motivo de ardor e uma das formas do seu ideal. além dos inconvenientes imediatos. sejam para com ele mãe. podem alterar a vossa inspiração misturando-a de alegria. sois assim levados a procurar o lucro e desorientais os vossos esforços. e para que serviriam eles. a mulher dum intelectual tem uma missão que talvez seja bom assinalar. em sonhar grandes planos e em aguardar tudo da paternidade que os guia. se a vida se sobrecarrega? É caso para reduzir ao mínimo a matéria. Se o homem casado está <<dividido>> de algum modo. que é pura fraqueza. . Suas frontes puras pregam-vos a integridade. a guarda do lar não deve ser o génio mau. interessem-se pelo que faz. mas assim como ao se diz missa por dinheiro. aquietem-no. também não se deve. Quanto às criança. levantando-o nas horas inevitáveis das quedas. A mulher deve desposar a carreira do marido. e defendem-vos assim do abstracto. numa palavra. audições musicais que refrescam a inspiração. o que a entrava e dificulta deve ser excluído. a ave e a alma sem o seu canto? Por conseguinte. reflectem-vos amorosamente a natureza e o homem. têm o direito de se regozijar por isso. que esteja também duplicado. O que favorece a vossa obra é sempre oportuno. irmã do saber. pode produzir muito ajudando o marido a produzir. ao divisius est de S.15 gastos e os cuidados disseminados por ninharias seriam muito melhor utilizados em formar uma biblioteca. uma vez que é uma só carne com o que realiza. a esse real cujo comentário seus olhos interrogadores esperam de vós. só sabe ser o periquito tagarela e dissipador. em esperar. Que importa realizar por si ou pelo marido? Ela deve no entanto realizar. Pense nisso a filha de Eva e não dê razão. em reservar uma viagem instrutiva. e a facilidade em acreditar. animem-no. em vez de procurar distrair dele o pensamento do homem. Mas isto é tanto mais verdadeiro quanto mais nobre e laboriosa for a carreira abraçada. Ao deixar o trabalho. Se pertenceis ao número dos que têm de ganhar a vida fora do trabalho da sua predilecção. Os que renunciaram à família para se consagrarem inteiramente a uma obra e àquele que a inspira. A este respeito. a mulher deve instalar-se nele. Mas o trabalhador envolvido neste laço pode e deve fazer dele uma força. Sem precisar de ser intelectual. Aí está a vida produtiva. se vos não moessem a paciência de tempos a tempos? Mas dão tanto ou mais carinho do que o que vos tomam. a dar o máximo de trabalho. não será também para vós. Deu-lhe Deus uma auxiliar semelhante a si: que ela se não torne outra. sendo a sua recompense após o trabalho. Paulo. esta suave complicação deve servir para renovar o ânimo mais do que para o privar dos seus recursos. introduzem no espírito uma inquietação que o corrói. o homem e como que um ferido. mas sim a musa do mesmo lar. sentirá o vigor orientar-se para novos tormentos. o centro da gravidade da família é sempre o trabalho do pai. por causa do dinheiro. precisa de conforto e de calma: não o violentem. Tomam muito de vós. apreciando as liberdades que este sacrifício lhes outorga. tão frequentemente ela a esquece e. como haveis de preservar as magras horas de que dispondes. umas férias tranquilas. etc. Arrastá-lo para bagatelas alheias às suas aspirações. é o desviar o marido destas duas vidas que mutuamente se contradizem. e este forte. em vez de ser a Beatriz. Desposou uma vocação. uma elevação e um motivo de esperar? Vêde a imagem de Deus e um sinal dos nossos destinos imortais nessa imagem do porvir. O Sacerdote tem com que viver do serviço do altar e o homem de estudo do seu trabalho. As divisões ocasionadas pela incompreensão da alma irmã são fatais à produção. porque. esses pequeninos. pensar e produzir. reconduzem-vos ao real. portanto também o essencial do dever. Esses pensarão em seus irmãos carregados de cuidados. não lhe fica ardor nem alegria. e como é que a ave voaria sem asas.

a alma ardente. <<Nunca te intrometas na vida alheia>>. dos dezasseis conselhos que a ao intelectual. vestida da brancura das paredes e que vigia>>. não espera por ele. porque as muitas palavras obrigam o espírito a escoar-se como água. a excessiva familiaridade que abaixa e desorienta. cujo odor atrai de longe a Esposa. é o teatro das folias do espírito e da sua moderada embriaguez. Emerson proclamava-se <<selvagem>>. Platão consumia <<mais azeite na lâmpada do que vinho na taça>>. os jogos e as querelas de crianças que um beijo acalma. A vida banal. mártires. Profetas. não têm eles a impressão de só traduzir no verso as misteriosas revelações do silêncio que escutam consoante a fórmula de Gabriel d’Annunzio. O ponto essencial a salvar na organização da vida e em vista do qual tudo o mais se adopta. Sobre que vigia senão sobre a oração e o trabalho? Portanto. simbolizado na cela monástica. E os Poetas. pioneiros da ciência. evitai os passos inúteis que consomem as horas e favorecem a vadiagem dos pensamentos. Bossuet levantava-se de noite para encontrar o génio do silêncio e da inspiração. não se apresse a pronunciar o Fiat lux. da invenção. de concentração. é o domicílio da inspiração o lar do entusiasmo. por alusão ao Cântico dos Cânticos e ao comentário de S. suas asas. nas sombras propicias. deixando-te assenhorear de novo .16 II – Guardar a solidão. de que se fala aqui. se rasgara <<Horizonte mais vasto do que o mundo>> e que aí procurava <<as asas do repouso>>. pensador. à imitação do Criador. Para entrar nessa morada. só deste modo nos manteremos em respeito diante da verdade. As grandes obras foram preparadas no deserto. devem cessar com o beijo da musa. os continuadores. e também os investigadores e pescadores de verdades esparsas têm de mergulhar na grande vacuidade que é plenitude. O retiro é laboratório do espírito. Tomás está tão persuadido disso que. simples homens ou Homem-Deus. até mesmo a redenção do mundo. entre a sua alma e Deus. à noite. é preciso deixar as banalidades e praticar o retiro. O rouxinol. A vida silenciosa. A adega. Todos os anunciadores. mesmo aos cuidados superiores. <<Nas celas como ao longo dos grandes corredores. será alcance moral ou intelectual. pregadores. a que vieste a esta vida fora da vida corrente. o silêncio parece uma pessoa magnífica. do génio. o direito de não frequentar verdadeiramente senão alguns cujo comércio vos seja de proveito. pág. infiel ao teu culto. o grilo. Tais são as condições do recolhimento sagrado. evitai. mesmo com esses. isto é. é o arranjo exterior e interior da solidão. a esta vida de consagração. não corrais após as notícias que ocupam o espírito em vão. mas <<não sejais muito familiar com ninguém. da acção? Não sejas. Descartes encerrava-se no seu <<fogão>>. como um <<hino sem voz>>? O que vale deve erguer uma barreira entre si e o que não vale. pagai. é o secreto abrigo da verdade. nem sobretudo passe revista a todos os animais do mundo. S. <<A que vieste>>. <<Não te ocupes das palavras nem das acções seculares>>. inspirados de todas as artes. tome o tempo de dispor a matéria dos astros. apóstolos. a solidão interior e o silêncio. com as carícias embriagantes e calmantes da verdade. porque a demasiada familiaridade gera o desprezo e dá matéria a muitas distracções>>. mas secundários. 67). o Mestre observaram ou devem observar a mesma lei. Bernardo no claustro: ad quid venisti? E tu. sede lentos em falar e em ir aonde se fala. cantam na sombra. <<Quero que sejas lento em falar e lento em ir à sala de visitas>>. Os mais belos cantos da natureza ressoam de noite. todos os poetas. Bernardo. pela cortesia para com todos. escreve Paulo Adam (Dieu. sete são consagrados às relações e ao retiro. perguntava a si próprio S. O galo proclama o dia. todos pagam o tributo ao isolamento. Só assim nos aproximamos dos segredos reais que constituem a felicidade da Esposa. <<Ama a cela. Os precursores. Na noite astral e na sua vacuidade solene afeiçoou Deus o universo: quem quiser saborear as alegrias criadoras. pois. <<Evita acima de tudo as voltas inúteis>>. por conseguinte de solidão? Não foi por escolha? Não preferiste a verdade à mentira quotidiana duma vida que se dispersa. isto é. não vos imiscuais em acções e palavras seculares. da investigação. Nenhum homem superior tentou fugir a essa lei. se quiseres ser introduzido na adega>>. os sublimes pensamentos não lhe acudiam senão no afastamento dos ruídos e dos cuidados fúteis. o sapo de voz cristalina. Dizia Lacordaire que no seu quarto. e os ludribia de que falava Santo Agostinho. <<Mostra-te amável para com todos>>.

explica S. a fim de tonificar o organismo espiritual. De envolta com ela vira a suavidade. dos sentimentos. adquira-a e não dissipeis o grão das vossas sementeiras. Perdemo-nos no meio da multidão. longe dos homens sereis mais homens e estareis mais com os homens. contemplar todo o tempo. o silêncio sua oração>>. Para o intelectual. dá-lhe uma espécie de continuidade. Para que o Espírito nos leve para as solidões interiores. estais na alma disposição de aprender. como num firmamento. mas primeiro devemos criar esta amarra. no recolhimento prolongado. precisamos de lhe dar os nossos espíritos. Quando a verdade se apossa de vós e a penugem das suas asas desliza debaixo da vossa alma para a erguer em gestos harmoniosos. como para uma entrevista que pouco e pouco se converterá em continuidade. Mas para sair assim de si próprio. Levai mais longe a ideia e corrigi: voltei de lá menos homem do que sou. diz S. contacto necessário. a horas determinadas. é indispensável viver consigo. é preciso entrar em si. enquanto ela vos alça às regiões elevadas. se quiserdes realizar-vos e não ser o papagaio de fórmulas aprendidas. mas aquele que só vive para a contemplação que para ela orienta tudo o mais. Na multidão ignoramo-nos. O prazer. Sem retiro não há inspiração. frequentemente retomado. longe do borborinho das estradas. eis o momento de vos erguerdes com ela e de vos librardes. não é o momento de acolher misérias. alma única e que não teve nem terá igual nos séculos. menos eu próprio. apoia a alma sobre o seu objecto. em vida estreitamente comum! Não podemos. Se as palavras da imitação são verdadeiras. isto é. inteiramente atravancados por um eu estranho. <<Como te chamas? – Legião>>: eis a resposta do espírito disperso e dissipado na vida exterior. Dizia o autor da Imitação: <<Sempre que fui ter com os homens. tranquilidade da ordem. o banho de ar e o banho interior de água pura: eu de bom grado ajuntaria o banho do silêncio. Quando a calma do silêncio nos invade e o fogo sagrado crepita sozinho. A solidão permite-vos o contacto convosco. e quando a paz. muito perto. III – Cooperar com os seus iguais. oração à Verdade. estabelece a ordem dos pensamentos. como se fosse instrumento para apertar. e a retoma logo que pode. Antes de dar a verdade. como o próximo do bom Samaritano era o ferido da estrada de Jericó. Tomás. Mas à volta da lâmpada todos os astros do pensamento se congregam. mas sim o profeta do Deus interior que fala a cada qual uma linguagem única. que é multidão. como o atleta sente os músculos e prepara o jogo deles pelos movimentos interiores que lhes dão vida. a continuidade que lhe é possível dar sobre a terra. na solidão. como levou Jesus para o deserto.17 pelo que livremente abandonaste. desdobramento da alma. voltei de lá menos homem>>. estais estritamente no princípio da acção. reforça a atenção e desdobra as potências de aquisição que seriam comprimidas pela tristeza ou pelo aborrecimento. das investigações. Nem por isso sereis o isolado que condenamos: não estareis longe dos vossos irmãos pelo facto de ter abandonado o ruído que fazem e que vos separa deles espiritualmente. Ora a suavidade da contemplação é a parte da sua eficácia. Disse Ravignan: <<A solidão é a pátria dos fortes. porque <<a cela bem guardada torna-se suave: cella continnuata dulcescit>>. a não ser que nos mantenhamos firmes. Os higienistas recomendam para o corpo o banho de água. duma formação que é educação. o próximo é o ser que precisa de verdade. porque Deus não se repete. Voltaremos a esta ideia duma instrução especial a cada um. depois criar. impedindo assim a verdadeira fraternidade. força de cooperação com a sua influência. nem de ir vivendo enquanto o tempo corre. onde todos os objectos entram em contacto e donde extraem a força de verdade e a potência . Tomás. nem de trocar o céu por bagatelas. de acentuar a própria personalidade e de lhe comunicar o sentimento activo. Para conhecer a humanidade e para a servir. podeis juntar.

Longe de competições e de orgulhos. procedêssemos por ensino mútuo. vivendo na simplicidade. Viveu Ele na solidão. excepto o ponto preciso pelo qual Deus podia passar e as almas juntar-se a Ele! Não deveria haver lugar aí. sem estar unido a seus irmãos. Não há maneira de se unir ao que quer que seja senão na liberdade interior. se soubéssemos unir-nos ou auxiliar-nos mutuamente! Se em número de seis ou sete. tratava com a multidão só com uma alma de silêncio. senão para o Homem-Deus e para o homem de Deus. é a frequentação dos seus iguais. se. é preciso ter alma forte. o seu apoio. . Deixar-se monopolizar. Gratry. entre Deus e a multidão. a influência duma fileira de celas laboriosas anima e activa cada asceta. as trocas de impressões. procurada no retiro. Todas as nossas explicações demonstram claramente que a solidão. sem que nenhum deles pretenda impor-se. for favorecida por frequentações escolhidas e medidas com sabedoria. falássemos à noitinha. intelectualmente. por igual entusiastas e aplicados. frequentar sem cooperar não é fazer obra intelectual. dizia. A frequentação primeira do intelectual. supririam. e a alma comum provaria uma riqueza que em nenhuma parte parece ter explicação suficiente. puxar para aqui e para ali. multiplicados uns pelos outros. é trabalhar para desunir. estes alvéolos. depois com a chegada das dificuldades. um mesmo espírito adeja na atmosfera e a harmonia dos pensamentos ergue-se ( 1) Les Sources. que o completem e utilizem. Constituir em si só a sua sociedade intelectual. os amigos assim reunidos seriam. VI. encontrar num pobre querer isolado tanta força quanta pode existir numa massa em movimento ou na dura necessidade. por não sei que concurso de circunstâncias felizes. neste tempo de individualismo e anarquia social. de modo a aprender mais pela conversa e por infiltração do que pelos próprios cursos(1)>>! As oficinas de outrora. aberta para fora e não menos concentrada que anteriormente? Seria esse o momento de conceber e de fundar a oficina intelectual. além dos cursos da tarde e dos estudos sobre os cursos.18 de amor. É certo que o apoio de outrem. o acordo das almas não dá fé dos muros da clausura. quer se trate das coisas quer de pessoas. a oficina familiar ampliada. associação de trabalhadores. para o homem de verdade e de dom. sonhava ele com Port-Royal e queria fazer do Oratório <<um PortRoyal sem cisma>>. Ora este será tanto mais rico e fecundo quanto a vizinhança superior. e nos tornássemos recíproca e alternativamente aluno e mestre. famílias: a oficina de hoje é masmorra. de que a sua palavra é como que a porta estreita para as trocas da divina caridade. Não haverá maneira de ver. neste contacto que reservava tudo. se mesmo. essa potência de imaginação e constância de virtude que só alguns possuem e que no entanto são necessárias para não desistir da prossecução dum grande fim. o demónio da preguiça sugere: para que tanta maçada? Então enfraquece-se a visão do fim. <<Quantos trabalhos nos poderíamos poupar. é apenas vassalo dum reino de morte. o seu ânimo. debaixo da impressão da necessidade que mais e mais se experimenta à nossa volta. o silêncio é colectivo e o trabalho conjunto. não passa de falso místico e. afirma o apóstolo. o exemplo seria de admirável eficácia contra este spleen. e sobretudo as oficinas de arte eram amizades. cujo elogio tecemos. Digo frequentação. porque. Já o deplorava o P. os frutos estão demasiado longínquos ou aparecem amargos. Não advogamos embalde a solidão o sacrifício do convívio e da simpatia dos nossos irmãos vale uma compensação. Para trabalhar só. se assim me atrevo a exprimir. é valor que se deve temperar com valores conexos. sentimos vagamente que nos enganamos. formam um cortiço. Longe dos olhos. ou então meeting. E que soberana eficácia. Jesus mostra-nos bem como se pode viver vida interior e ao mesmo tempo dar-se aos outros. mas o que está unido aos homens e à natureza sem estar unido com Deus no seu íntimo. nem se visitam. em muitos. a que o qualificará. perto do coração. é mentiroso. sem ser cliente do silêncio e da solidão. Mas uma tal conjunção dos espíritos é muito rara. ser todo para os homens e viver todo em Deus. Nos conventos em que os religiosos não se falam. buscando apenas a verdade. na aparência isolados. na igualdade. de falso pensador. cap. Primeira parte. Aquele que se crê unido a Deus. sem prejuízo das suas necessidades e deveres de homem. que heroísmo! Primeiro sente-se entusiasmo. mesmo à mesa. livremente reunidos. pudéssemos viver juntos. com o mesmo pensamento. prefiriria dizer cooperação. sobre todos estes belos assuntos. Não temos direito senão ao esplêndido isolamento. embora possuindo reconhecida superioridade de que o grupo se possa aproveitar.

Os Cabiers de la Quinzaine nasceram deste voto. alcançá-lo-á por si só. conforme a situação actual. Em todo o caso. constituí-a. <<Não se deve acreditar. inspecciona os juízos. também vós tendes algo que respigar. corrigem-se. irmão da verdade. cada qual exprime e escuta. o curso deste mundo é feito para se aliar à virtude. e talvez este último aspecto da cooperação seja o mais cobiçado. tentai agregar-vos a uma fraternidade deste género. recebe e dá. É mister guardar. defendem-se e excitam-se uns aos outros num ambiente. e que as peças do relógio. O bem. que o único e melhor emprego do tempo consiste num trabalho de espírito regrado. não o esqueçais. que se lhe dispensa. não é falanstério. faz-se bom uso da vida. de sorte que não a embaracem. com o sentimento de que outros se esforçam. É a ânsia da medida que se encontra por toda a parte! Mas. IV – Cultivar as relações necessárias. os seus livros são ilisíveis. à parte da Providência. fazer aí o que se deve fazer. privado de . uma vez que não separamos o intelectual do homem. se. orientada por um só principio de vida e de actividade. mas a sirvam. É doloroso sacrificar belas horas em frequentações e assuntos inferiores ao ideal. Sempre que se procede bem. mesmo no isolamento maternal. Fazei o que deveis e o que for preciso: se a vossa humanidade o exigir. tenham Deus como relojoeiro. nem que um suplemento de possibilidades intelectuais possa prevalecer sobre o acabamento do vosso ser.>> Decerto não pensais que a vossa obra valha mais do que vós. onde adeptos convictos assumem uma missão e se consagram a uma concepção. entretém o ardor e inflama o entusiasmo. só. Porque. escreve Maine de Biran no seu Diário. o concerto enriquece-se. Compete-vos ligá-las à intelectualidade. o sentimento da alma comum e da vida. aprende e ensina. <<A carne sozinha – de nada serve>>.19 como motivo de sinfonia que a vaga geral dos sons leva e prolonga. cujo essencial é fornecido por um pensamento iniciador e por uma grande tradição. faz parte da vocação. ela saberá arranjar-se. as Revistas de Juvisy e de Saulchoir cada dia se compenetram mais e mais deste espírito. Escrevia recentemente alguém: <<A dificuldade dos romancistas hodiernos afigura-se-me esta: se não frequentam o mundo. Disse que a solidão do pensador não implica a exclusão dos seus deveres nem o olvido das suas necessidades. persistente e tranquilo. é preparar a contemplação. como. falta-lhes tempo para escrever>>. Estar onde se deve estar. e só a contrariaria. cada qual. às quais cada trabalhador em seu quarto se aplica exclusivamente. Isto é sempre possível. a Revue de jeunes. o cuidado. romancista ou não. Em certos dias. Se puderes. com todos os produtores que a cristandade reúne. mesmo correntes. A unanimidade não consiste tanto em viver juntamente numa morada ou num determinado grupo. a intelectualidade alcançará o seu ganho unicamente através da moralidade. o espírito. se a considerássemos abstractamente. Nunca malbaratado o tempo que se consagra ao dever ou à necessidade real. buscai em espírito a sociedade dos amigos da verdade. alimentá-la e deixar a Deus por Deus. dizia S. mas trabalha-se com o mesmo coração e concertam-se. experimenta as ideias novas. desdobra as asas dos sonhos e dos obscuros pensamentos. em se concentrar quando outros se concentram. apesar das suas concessões virtuosas. por causa do trabalho. E como é que vós o possuireis. sentai-vos fraternalmente com eles e com todos os investigadores. se preciso for. Alistai-vos em suas fileiras. Quando em seguida intervêm as trocas de impressões. Há relações necessárias que fazem parte da vida do intelectual. pode alguma coisa. Nem os próprios monges o fazem. Bernardo. A demasiada solidão empobrece. ajudará a sua irmã. a Amité de France. e se o frequentam. A amizade é maiêutica que extrai de nós os mais ricos e íntimos recursos. é unidade. lembremo-nos que a virtude – intelectual ou moral – retirará daí vantagem. Há exemplos disso hoje nos grupos de jovens e nas revistas de novos. nas frequentações. noutras circunstâncias. quanto em esforçar-se. sentis que não vos podeis enclausurar inteiramente. Nem sempre aí se vive em comunidade. A comunicação dos Santos. porém. de modo que se leve por diante uma tarefa.

um tesouro que vai dispensando com medida sem pressa nem agitação. cristãmente. por qualquer interesse reles. espelho de tudo e que convida o pensador a permanente confrontação? É preciso que.20 comunicação com os humanos. portai-vos de maneira que o espírito e o coração dominem sempre o vosso caso. abstracto. mas recordai-vos do que dizia Leibniz. a saber. por leviandade ou vaidade. Falar para dizer o que se deve dizer. A sociedade é livro para ler. mas de sorte que as próprias taras. que dão sem perderem nada do que possuem. Há na riqueza infinita do real tesouros que vos podem instruir. à sociedade da alta roda prefira a das almas nobres. introduzir o marido na companhia de insensatos. para exprimir um sentimento oportuno ou uma ideia fútil depois disso calar-se. Deveríamos lidar com o mundo externo como os anjos. pelo exercício das virtudes de que eles são os clientes. dá a impressão de vos olhar como se fosseis uma <<proposição>> a inserir num silogismo ou um caso a notar um calepino. instruída e de juízo sólido. Esta associa-se às demais faculdades. encarásseis apenas uma humanidade aérea? O homem nimiamente isolado torna-se tímido. que sempre retirava utilidade. que vos rodeia. basta que a frequentemos em espírito de contemplação. até da leitura dos piores livros. o ser pensante é tudo isto: componde-o o melhor que puderdes. O silêncio é o conteúdo secreto das palavras importantes. por meio de qualquer indústria feliz da grandeza de alma. e as enfermidades. a pessoa associa-se às suas relações. que o seu tacto seja como crivo. se o ambiente. E não será porventura o homem o que nela há de mais importante o homem centro de tudo. um pouco bizarro. falta-lhe o senso do destino. . Sobretudo não vá ela. A esposa dum intelectual deve também velar por isto. se convertam em valores. se os encontrardes. aos pretensos homens de génio prefira gente de peso. fim último de tudo. disponhamos as coisas de maneira a convizinhar o mais possível com pessoas superiores. e que não a desertemos. desse modo não sereis invadido nem contaminado. No trato com o próximo. A solidão é obra-prima. permanecereis recolhidos e lograreis a sabedoria indispensável para o intercâmbio das ideias com o próximo. Que digo? Se até os insensatos concorrem para nos servir e completar a nossa experiência! Não os busqueis: há-os em demasia! Mas. O valor duma alma mede-se pela riqueza do que ela não diz. como nunca pensais só com a inteligência. porque pertencem a outro mundo. quando esconde e deixa adivinhar. Não abra a qualquer as portas de casa. for medíocre e se for nobre. cambaleia no real como o marinheiro quando põe o pé em terra. utilizai-os intelectualmente. embora livro banal. por trás dos sons. visto que no mundo tanto mais se passa por um homem de génio quanto mais se matou a inteligência. que tocam sem ser tocados. reforçará em vós os efeitos da solidão. Nunca pensais só. A palavra pesa. quando por debaixo dela se pressente o silêncio. na medida em que nos for dado escolher. Não existe outro meio de dar autoridade à palavra. eis o segredo de o intelectual se guardar ao mesmo tempo que se comunica. Sendo moderados nas conversas. a alma associa-se ao corpo. o amor à verdade e aos seus ensinamentos.

Mas o composto animado cansa-se descansando. A contemplação recolhe. à acção. Contudo é bem frágil a ciência puramente livresca. não está sujeita a cansaço. controladas por uma parte. serão além disso ilustradas por documentação viva. impõe-se a todo o pensador a necessidade de reservar parte do tempo e do coração para a vida activa. as exposições. como o aleijado nas muletas. mas o silêncio exagerado causa também agitação: o refluxo do homem todo para a cabeça desorienta e dá tonturas. que nem sequer é percebido. corre-se o risco de chegar ao silêncio de morte. não passa de concerto vazio. que é também fonte de verdade. a vida contemplativa e a vida activa estiveram sempre opostas. o silêncio e o ruído. e as suas ideias gerais. daí a necessidade de diversão para a vida cerebral a necessidade do calmante da acção.8. a dose de acção recomendada ao pensador terá a vantagem de lhe estabilizar o espírito e de o enriquecer. a vida interior não escapa a esta lei. Quantas experiências a vida nos propõe cada dia! Não lhes ligamos atenção. é o contrário da acção. sem grandes retoques. a alma que o imita. por pequena que seja. O homem do pensamento precisa de se manter na vizinhança do que é. nelas se apoiam e a elas se reduzem as razões psicológicas. uma chama pela luz. que se imobiliza demasiado. enquanto distinta do corpo. clínica. no mundo. <<És um balão preso à terra. Convém dosear sempre a vida interna e a externa. arruina-se. dispõe-na para o recolhimento. S. atrofia-se e enerva-se. o hospital. Requere ela que a acção se limite e ceda o passo à solidão. . Por outro lado. em que me não vou embrenhar agora. o escritor é solicitado de tantos lados que dificilmente conseguirá esquivar-se e meter ombros a qualquer empresa. elementos assimiláveis e <<talhadas da vida>> que serão a figurção das suas ideias abstractas. Encontra-se até em número mais ( 1) Iª. quase ilusória. uma vez que a alma. Em seguida. une-a à Providência. requere um equilíbrio. estiola-se e. se. contentes.q.84. Tudo isto é recomendável.21 V – Conservar a dose necessária de acção. O que dissemos das frequentações aplica-se. como supôs Platão: esta concepção filosófica tem consequências práticas. a sociedade. cujo centro de gravidade se possa aliás deslocar do corpo para a alma e vice-versa. as excursões. Encontramo-los nos livros. Que outra coisa é o sonho senão pensamento que não quer? O sonho inconsciente é o escolho do pensamento puro. mas o pensador profundo recolhe-as e compõe com elas o seu tesouro. À força de cultivar o silêncio. como há pouco dizíamos que nos forçava a frequentar a sociedade. O pensamento apoia-se nos factos como o pé se firma no solo. a vida intelectual precisa do alimento dos factos. A acção regulada pela consciência prepara-a para as regras da verdade. o médico tem a. precisamos de nos desviar dele como duma causa de impotência e de queda. A vocação intelectual estritamente tomada.Tomás consagra um artigo da Suma a provar a necessidade de nos firmamos no real que o real é o fim último do juízo e o fim deve iluminar ao longo do caminho(1). a acção gasta. cada qual de louvar o que não fazemos. em nós. no seu caminho. Dum modo geral temos de nos resignar a dividir as tarefas. por conseguinte. como se cansa gastando. Há razões fisiológicas. pouco a pouco. de amar os frutos da actividade alheia e de os saborear. para que o espírito não vacile. os seus quadros espirituais ir-se-ão completado paulatinamente. A amplidão e força do pensamento dependem da riqueza dos fantasmas. No entanto. O pensamento e a acção têm um Pai comum. o artista. perde contacto com a realidade e. O corpo. O monge trabalha manualmente ou dedicase a obras de zelo. A ideia. Ora a acção encontra. As ideias estão nos factos. enquanto o silêncio a acalma.art. porque a acção exterior agita a alma. Portanto. a vida real não permite distribuição tão estrita. oferecer ao juízo matéria demasiado quintessenciada. cada coisa tem a sua medida. Sofre do defeito de ser abstracta. dos fantasmas. Porque. não vivem em si mesmas. as conferências. privada dos seus elementos empíricos. como oriundas de pensamentos e de aspirações contrárias. graças à comunhão das almas. O dever pode forçar-nos à acção. não deixes gastar-se a corda que te prende>>. a outra ambiciona dar. dizia a si próprio Amiel.

Um intelectual deve ser intelectual todo o tempo. senão a vida inteira. e o céu. As virtudes de fora virão assim em auxílio às de dentro. como o artista. das divagações. Mergulhando no real pela acção. mesmo até diante da árvore dum Cláudio Lorrain ou dum Corot. nem a sua instrução. pelos resultados que não devem ser para ele como os toros que alguns vão serrar para sobre eles repousarem a cabeça. o silêncio. de quem a elas se dá. alternativamente mergulhado nos dois abismos. realiza o conuersatio nostra in caelis do apóstolo. realça e acaba a sua concepção. será instrumento de pesquisa e árbitro de verdade diferente duma razão alcandorada sobre a árvore porfiriana. O artista. Se me não engano. O individual é inefável. para ele. que lhe é recomendada. traçará muitos esboços dela. empresas que exigem. consiste cm isolar-se pelo alto. Em seguida. voltareis à inspiração. deve aplicar-se ao cristão que busca a luz. ao menos a doação total do ser. a acção estimula e retempera as forças. Aplicai-vos a isso nas horas em que a inspiração vos outorga e até vos impõe um feriado. é mais elevação do que afastamento. encontramos nele formas novas. fazei tudo para glória de o Deus. em rigor. estabelecendo a nossa morada e o nosso comércio no céu dos espíritos. a acção e as frequentações devem ser condicionadas e doseadas pelo retiro. alimenta. de progresso. a verdade: deve pensar nela em toda a parte. Se. Pelos incentives e resistências. sem ceder a arrebatamentos. ao mesmo tempo que os seus tesouros. quando tiver conscienciosamente o modelo. Mas exacto seria dizer: o estado de solidão. pelas dificuldades. de preservação. sociedades de defesa e de acção social. quer façais qualquer outra coisa. dobrar-se a ela em tudo. nem daí poderá derivar o repouso do homem. interessandose. animadas por um espírito de exigência estrita. independentemente delas. nada mais lhe resta fazer. sacode a preguiça fundamental e a orgulhosa quietação. A solidão. no entanto. Paulo sugere ao cristão: quer comais. Agir sem se dar totalmente à acção não é agir como homem. pelo silêncio e pela solidão interior. Gostaria de ver o homem de estudo envolvido nalguma empresa pouco custosa. Por conseguinte. os perigos. o lodo e as asperezas da terra. ligas de bem público. o que importa é o espirito de silêncio. possamos em seguida proceder como se elas não existissem. onde ela vos introduz. Essas duas horas são dedicadas à concentração. o que não quer dizer que. executando. salvas essas duas horas. cujas lições não serão inúteis a um solitário. procurai causas que vos apaixonem pelo seu valor intrínseco. a colheita preparará o mel. iluminado e advertido pelas razões do coração postas em jogo pela acção. o intelectual é um consagrado e se não há possibilidade de servir a dois senhores. não consiste tanto na solidão de lugar como na solidão de recolhimento. requere-se a consagração de toda a vida. sem que lhe ocorra a ideia de reproduzir inteiramente o que a natureza exprime. VI – Manter o silêncio interior. de facto. pelas contradições que suscita e pelas necessidades novas que cria. porque o real é uma espécie de infinito que nenhuma análise ou suputação racional pode esgotar. Pelo quê. o retiro do pensador são realidades mitigadas. nem a sua formação. tão hostis ao pensamento como às realizações. A glória de Deus é. tudo isto resulta que a solidão útil. O que S. a que dedicasse um tempo bem delimitado. podemos conceber uma vida intelectual fundada num trabalho de duas horas por dia. quer bebais. pelos êxitos. O individual é o real em oposição aos temas do espírito. graças ao dom de si às coisas superiores e mediante a fuga das leviandades. O pensamento. a investigação activa ajudará o recolhimento. o instrutor. o do real e o do ideal fortificado por uma vontade aguerrida. diziam os antigos filósofos. ser-vos-á tanto mais agradável quanto mais tiverdes experimentado.22 avultado do que esperava. Tão verdade isto é que. Enfim. pelos reveses. colocado diante duma árvore. se ainda as não tendes. diante dum esboço de árvore. que é a acção. Costuma-se dizer que a solidão é mãe dos obras. . de alma e coração. de levantamento. obras de luz. pelo aborrecimento e cansaço que obriga a vencer. que também lhe é proveitoso a ela. é ao mesmo tempo professor de energia. da mobilidade e de todos os caprichos da vontade.

como há uma falsa paz. Pelo contrário. O que S. por prudência ou pelo cuidado de tomar descanso.23 Ficar em si e entregar-se à garrulice interior. que alimenta e tonifica a alma em vez de a apoucar. cuja necessidade voltaremos a advogar mais abaixo. estareis em pleno universo. mas a sua impureza basta para manchar a própria casa. à exaltação do orgulho. sair e agir por dever. a discrição. às sacudidelas dos desejos. Agostinho chama a <<pureza da solidão>>. <<Podes viver numa cidade. o amor daquilo a que vos dedicastes. Tende a inspiração interior. escreveu Platão. ao fluxo de pensamentos que introduzem em nós um mundo externo absorvente e cheio de discórdia. isolado como o pastor na choça sobre uma colina>>. em toda a parte se pode manter. tende convosco o Deus da verdade e. será isto a solidão? Há uma falsa solidão. pode ser uma solidão superior. embora sozinhos. .

basta relativamente pouca dessa actividade. entrais numa ordem de consideração extremamente preciosa. existem. não é verdade que o desejo do jogo. Se os mais dos homens se deixam prender por desejos erróneos. a oração deve ser ininterrupta: <<É preciso orar sempre. se conseguir não se dobrar todo inteiro! Ora. se também ele é desejo e apelo à verdade? O desejo de saber define a inteligência como potência de vida. Aplicando este comentário à oração activa do estudo. é já para os seus uma oração permanente que eles atendem? É preciso orar sempre equivale a afirmar: é preciso desejar sempre as coisas eternas. segundo o Evangelho. arrastando em suas voltas um sistema de rodas donde se escapam as ideias como as centelhas dum dínamo em pleno rendimento. o funcionamento cerebral. Instintivamente queremos conhecer do mesmo modo que pedimos pão. Tomás ao homem de estudo.O trabalho permanente Qualificámos de muitas maneiras o labor intelectual. o seu valor provém da aspiração interior do seu conteúdo e da sua força. o pão quotidiano de toda a natureza e de toda a oportunidade. Mas os nossos doutores não restringem a tão pouco o sentido destas palavras. alterai-o. A falar a verdade. I8. mas só é pensador em actividade durante muito poucas horas. Uma vez que a maior parte da vida assim se mantém em nível ou em baixo. esta vida permanente? Só a disciplina. a vida em todas as suas amplidões. tomam-nas à letra e delas extraem profundos ensinamentos. I). nunca o será totalmente. Pelo contrário. porque o nosso poder sobre ela é relativo. <<Empenha-te em encerrar no cofre do espírito tudo quanto puderes. Mais abaixo voltaremos a esta comparação. apertemos agora mais as suas diversas condições. não formulou porventura a mais comovente oração? Embora nada tivesse visto. Que falta para aproveitar. A maior parte da actividade nervosa de nada serve. longo espaço de tempo sem nos dirigirmos a Deus. Mas para obter o possível. como quem pretende encher um vaso>>. que a oração. arriscamo-nos a quebrar a máquina. desde que saibamos cultivar o hábito. sem desfalecer>> (Lc. Têm aqui lugar os nossos conselhos práticos. visto ser um desejo e o desejo permanecer. O cérebro trabalha sem remissão. bem montado. e que em seguida olha para a mãe. as turbinas à corrente de água. aproveitando-o como se aproveita um curso de água para mover uma turbina? Será isso possível? Sim. terrestres e celestes. que pode dar aso a equívocos aqui trata-se do cuidado em adquirir. A criança que não. porque o não utilizará. é. Dizia Carlyle: <<Não creio que um literato tenha consagrado à literatura a quinta parte do seu tempo>>. mas fixa o olhar ardente no brinquedo de uma vitrina. O pensador é um consagrado. por que razão não há-de o estudo durar todo o tempo. fortificai ou atenuai o seu ardor. Suprimi o desejo e a oração deixa de existir. em favor da verdade. e a oração toma voo ou perde as asas. pela simples razão de não ser captada.O tempo do trabalho I . Este. e não por intermitências. É preciso que os dínamos estejam ligados às turbinas. consciente ou inconsciente. que reclamo. é preciso que o desejo de conhecer accione regularmente. a experiência e a psicologia o ensinam. Os processos nervosos encadeiam-se em série continua e não param do mesmo modo que os movimentos do coração ou dos pulmões. Mas. se tentarmos forçar o rendimento. O que importa ao homem de verdade é compreender que a verdade está em toda a . o tempo que o pensador lhe consagra. não da maneira. É certo que este texto benignamente interpretado significaria que não devemos deixar passar dia.24 CAPÍTULO IV . e. suprimi a expressão mas deixai o desejo. as turbinas. e a oração muda. inato na criança como a sede de agir. semana. o pensador é obsidiado pelo desejo de saber. giram. se a oração pode durar todo o tempo. é necessário que o homem das alturas desça à planície e se incline: que lucro imenso. O estudo foi cognominado oração à verdade. opera como segunda natureza. A oração exprime o desejo. diz palavra. Primeiramente. as coisas do tempo que as servem. ficará intacta. sob muitos respeitos. recomenda S.

o valor provável de tal ou tal achado. As leis da gravitação dos espíritos.. Aprendei a escutar. As ideias estão nos factos. prega à entrada dos lugares ruidosos. profecias da verdade ou confirmações. nas leituras. que as estrelas vos falem das durações incomensuráveis. uma vez estimulado o espírito pelo desejo. do pensamento inspirador. O pensador é filtro onde a passagem da verdade deixa o melhor da sua substância. mas a luz que ai se concentra expdir-se-ia até iluminar quase toda a vida. estando presentes. nas visitas e nos devaneios. a especialidade de tal bairro. por banais que sejam. Estendo a mão e ninguém me dá atenção>> (Prov. <<A sabedoria clama nas ruas. ouve-se um discurso divino todas as vezes que um homem fala. Circuláveis pelas ruas de Paris. todo o caminho aberto é corredor para Deus. amareis a ignorância?. veremos em toda a pare lições. Que sobre vós espalharei o meu espírito. Mas as mais das vezes estamos ausentes. Que as viagens vos ensinem a conhecer a humanidade. ó ignorantes. os preços. que a vista duma família se associe em vós à das gerações. todas estas riquezas as podemos captar. tudo vos impressiona. estão também nas conversações. do trabalho. quanta riqueza aí recolheríeis! O maior romancista forma-se no limiar das portas. mas vida humana e história. mas não reparáveis nelas. e escutai. o grande observador reserva-se. orientações sucessivas ou diversas da técnica. nem sequer pensáveis nos móveis. vive para si.. da economia antiga e moderna. 10-24). as leis sociológicas. artísticas. Todos os homens se encontram no íntimo de si próprios. Que um museu vos não mostre apenas quadros. confrontai o que se vos oferece com as ideias que vos são familiares ou secretas. pródromos e consequências. Nas mais simples conversas circulam verdades sem conta. alargaria o espírito e enriquecê-lo-ia mais do que muitas sessões laboriosas. estabelecer-se-ia uma corrente que atrairia para a limpada os resultados do pensamento difuso. se a atenção ao real o não tivesse advertido e disposto a reparar que as maçãs caem como os universos. também na praça. na vida corrente se pode aprender a língua do espírito. Mas. a estar presentes a este jogo do universo material e moral. às portas da cidade: até quando. Que uma oficina vos não fale apenas de ferro e de madeira. Em toda a contemplação. Desconhecíeis as tendências da moda. dizia Lamartine diante do mar encapelado. pois. Habituai-vos. <<Toda a gente olha o que eu olho. se já o não sois. etc. morais. filosóficas. I. tomar-vos-eis banal. Este apelo incessante de verdade. que as paisagens evoquem a vossos olhos as grandes leis do mundo. porque tudo está em tudo. como corrente contínua capaz de accionar a alma. primeiro. dir-se-ia que Paris é um visto armazém e no espaço de oito dias ficais ao par do que não lograríeis conhecer durante a vida inteira. Se fosseis romancistas. tudo vos retém. Tudo contém tesouros. Aprendei a olhar. onde abundam as lojas de antiquários. que as pedras do caminho sejam para vós o resíduo da formação da terra. e. nos espectáculos. o mais pequeno na Universidade ou nos salões. eleva a voz nas Praças Públicas. sobe. Estas são necessárias.. e de lá reverteria para este mesmo pensamento. Newton não teria descoberto a gravitação. há oportunidade de reflexões sem-fim. se um regresso instintivo ou virtuoso à simplicidade original afastar os convencionalismos e as paixões que ordinariamente nos escondem a nossos olhos e aos dos outros. mas que ele deixa passar em vão. Há ocasiões em que um camponês mostra maior sabedoria que um filósofo. Se não souberdes olhar assim. mesmo na duma mosca ou duma nuvem que passa. como pretendia Malherbe. Ora a verdade está mais espalhada que os móveis: clama nas ruas e não nos desampara se a não desamparamos.. Se na praça se aprende a língua materna. e se uma profunda impressão. a fim de lhe comunicar orientação e fecundidade. Toda a captação de luz pode conduzir ao sol. e que a menor frequentação vos informe sobre a alta concepção do homem. mas da condição humana. isto é. em vez de se imiscuir. diz a Bíblia. Convertei-vos. e daí podemos retirar uma profunda iniciação. nós ou a nossa atenção. Ora. quem quer que seja. das relações entre as classes. dos sentimentos. nos acasos. e algumas leis da vida ou da natureza governa o mais. se fosse escutado.. Só que. mas escolas de arte e de vida. concepções do destino e da natureza. Qualquer facto pode gerar um sublime pensamento. Em cada homem está o homem todo. a mais insignificante vida afigura-se-lhe soberbo . A mais pequena palavra escutada com atenção pode ser oráculo. Numa cidade não vejais somente casas. não têm menos aplicação em toda a parte. Olhando tudo com espírito de inspiração..25 parte. sempre que lá refluem. Que sucede quando quereis mobilar um quarto? A principio. mas ninguém vê o que eu vejo>>.

o pensador. que esquecem o valor dos outros. questão de método. O pintor só vê. como em perpétua disposição de ver. generais. é. mastiga lentamente. criadora. E. No entanto. porque todos precisam desta experiência intensa. sobretudo se tendes a dita de tratar com alguém que sabe e que pensa. dizemos que esta atenção de espírito pode aproveitar não só à nossa cultura geral. não revela tão potente envergadura. como bom caçador. e com este a sua alma obscura. formas. Encontrando-se a verdade em toda a parte e estando todas as coisas ligadas entre si. discutis com ele só por discutir.não falo da leitura. ali uma vergôntea. A palavra de um grande homem. o poeta. levava-os uma onda invisível. O animal olha ao longe. como a de Deus. o que o romancista busca pode servir a todos. Os grandes valores estão assaz disseminados para deixemos sem uso. nem por isso consintais que ele sepulte ou gaste em silêncio a sua riqueza. O pensador só é verdadeiramente pensador. sábios. ter assim duas almas: a do trabalhador e a do homem folgado que circula? Tal dualismo é inatural. se encontrar. Por isso eu falava dum vaivém entre as luzes interiores e as exteriores. pois leva a crer que buscamos o bem por oficio e não por nobre paixão. mas sabendo-o. compondo com aquele o leite. a curiosidade da infância. recolhemos elementos para uma obra. O espírito deve manter-se em perpétua disposição de reflectir. movimentos. Há neles um tesouro. no mais pequeno impulso de fora. Talvez haja a vosso lado quem valha um Descartes e não lhe prestais atenção. mas brinca-se com a chave sem o abrir. Não podemos abarcar tudo. Quantas vezes passamos sem nada ver. ideias em acto. Ora. por vezes. Só é dado àquele que tem. O espírito do homem é um ruminante. Encontramos o que procuramos. por que não havemos de estudar cada questão relacionando-a com as demais? Tudo deve alimentar a nossa especialidade. As grandes descobertas são apenas reflexões sobre factos comuns a todos. a tendência para ver tudo sob o ângulo do mistério. quase ninguém repara neles. Que é a ciência senão a lenta e sucessiva cura da nossa cegueira? É verdade que a observação precisa de ser preparada por estudos e soluções anteriores. a vivacidade de impressão. Reserva-se o interesse para a livre observação. a uma pesquisa particular. e. exploradores. Será sensato. até que um dia o homem de génio observa os laços existentes entre o que ignoramos e o que vemos constantemente. às vezes. cortais-lhe a palavra para proferir bagatelas. Mas os grandes homens só são grandes após a morte. . mas o corcel em liberdade respira sempre à vontade. como Newton. ao nosso estudo actual. Tudo deve testemunhar pró ou contra as nossas teses. colhe aqui um tufo. motivos de metáforas. Precisando mais. das pequenas excentricidades de pessoas abstractas. não o interrogais. a sua volta. obra nossa. Nessas atitudes não há particularismos estreitos. O cavalo de aluguer entra na cocheira após a corrida. toma-se o que têm de comum e não o que têm de raro. Levai convosco os vossos problemas. <<pensando sempre nisso>>. Às vezes sorrimo-nos do seu acanhamento. O segredo está em ter sempre pensamento em expectativa. e também o Horizonte. É pena que os homens de escol sejam tão pouco úteis aos que os rodeiam! Praticamente assemelham-nos aos simples de espírito. O seu carácter consiste em conservar. Empregam-se a si próprios e toda a gente se utiliza deles sem o saber. de ouvir. a atenção de sobrecelente. a feliz faculdade de encontrar em toda a parte surpresas fecundas. Tal verdade particular ou tal objecto de estudo podem estar de contínuo presentes ao espírito. a ocasião dum entusiasmo ardente. Ensinam-nos a viver na presença de Deus. por que não viver também na presença da verdade? A verdade é como que a divindade especial do pensador. de apontar à presa que passa. e nisso não há mal. mas à nossa especialidade. será normal deixar o investigador no gabinete de trabalho. Observando e escutando . ao trabalho em gestação. o ridículo é tomar ares de superioridade. era una clamor que os impelia para a frente. atenção. por terem encontrado uma personalidade eminente e ouvido o som duma alma! Esse apelo mudo ecoou neles através de toda a existência. pela vida fora. recebe deles instrução e impulso capazes de decidirem. consagramos. duma vida inteira. cores. expressões. o músico percebe ritmos e sons.26 espectáculo. o arquitecto equilibra massas. artistas. porque lá voltaremos – assimilareis e adaptareis às vossas necessidades o que houverdes adquirido. Quantos que foram santos. Em vida. toma o prado à sua conta. O universo é em grande parte. se a despeito da sua potente grandeza de espírito.

O espírito tem o poder de funcionar sem nós. Deste modo o sábio passeia. e concordo que não se pode evitar a divisão. conservam-no alerta e bem disposto. muitas vezes mais felizes porque mais espontâneas.O trabalho nocturno Recomenda insistentemente o P. mas também não se trata de tensão. Diverte-se. à natureza geral.27 Há tempo para tudo. Esta direcção é. a ligação difícil a saída que embalde se procurara à mesa de trabalho. A tarefa já lhe não custa. incutem ânimo ao investigador. que. II . porque as descobertas feitas assim ao acaso. O que não tinha relação com o trabalho conduz a alguma coisa que constitui o fundo do mesmo trabalho. Este processo de acaso responde às contingências cerebrais e ao trabalho obscuro da associação das ideias. arguindo com o que se não pode? Tendes um aí um imenso recurso. longe do esforço concreto e voluntário das horas de concentração. sem as buscarmos. sem dúvida. mas que se entrega. só aproximada e seria absurda uma tensão excessiva. em parte. deitado. ele espera com delícia a hora de retiro para fixar e desenvolver o resultado das pesquisas. a verdade de acordo consigo própria. mas se de facto pensamos todo o tempo. O sono é repouso. por tendência a principio instintiva. durante . se detém a espiar as homenagens dos transeuntes. Radicado em nós o desejo de saber e ateada a paixão da verdade. sem que a vontade intervenha. sem que haja lei para a sua aplicação a uma ou a outra a tal ou a tal hora. não por constrangimento. simplesmente porque nos resolvemos e decidimos a não ser cegos. mas convirá recusar o que se pode. introduzindo pouco de disciplina num trabalho cerebral que sé efectua. Não é símbolo vão a atitude do dormente. falemos. Falei de hábito. por que não utilizaremos o pensamento em benefício do que nos inquieta? Dir-se-á que semelhante tensão é incompatível com a saúde cerebral e com as condições da vida? De acordo. sente a impressão. entrega-se a um desporto útil e inebriante. ou a rapariga à cata de ocasião de rir. poupa muitas canseiras. Cansa-se porventura a mulher que. só debaixo da impressão do desejo que é a alma do pensador e que o qualifica. um intelectual. durante o passeio. também ele. a sua vida com a Vida. Quer que trabalhemos de noite. nele. por todos os tempos e em todas as estradas. depois cultivada. Por toda a parte o seu universo interior se confronta com o outro. perto da terra. um espírito maduro para aquisições que o vulgo descura. Alcança-se muitas vezes. como se dissesse à natureza. Regulai esse trabalho. a fim de a inundo drenar para ele toda a verdade que se gasta nos seus potentes folguedos. não de abandonar a verdade. mas de lhe abrir a porta de par em par. de sorte que o cérebro seja. obedece a uma nova natureza. mas sem vós e de maneira anárquica. a mais humilde ocupação é o prolongamento da mais sublime. Muitas leis se verificam aí. Conselho este que se apoia na psicologia e na experiência. é a abdicação do querer consciente que não pensa em viver nem se propõe um fim. o espírito assemelha-se a um galgo pronto para a caça. deste modo. por pouco que preparemos a faina e tracemos ao de leve o esforço dos canais por onde correrão os seus veios obscuros. de subconsciência. concentrada a atenção consciente sobre os factos da vida próprios para entreter o fogo e satisfazer o desejo. Gratry que não excluamos do trabalho permanente as horas de letargia e de trevas. diz a Bíblia. ordinariamente. os passeios explorações. se quiserdes. empregai-lo. o seu trabalho com o incessante trabalho dos seres. Pensais tão facilmente numa direcção. ou o rapaz à espreita da oportunidade de brincar? O espírito que espreita a verdade por amor. como o jogo qualifica a infância. e tudo isto se combina sem nossa intervenção – quer dizer. como o amor qualifica a mulher – isto não é o excesso de carga que se supõe. e ao sair do estreito espaço em que o seu estudo se concentra. <<Retoma-me. pelo contrário. nem mesmo. A ciência laboriosa recebe daí nova luz. caça. o homem sabe para onde vai e brevemente um lucro inesperado virá coroar os esforços envidados. como outrora ao acaso. mas amorosa e apaixonadamente. de vontade actual. também não sofrerá mais por isso. Mostrar-vos-á a experiência que isto não cansa. A seus olhos. as visitas de cerimónia são inquéritos felizes. estas invenções. as suas audições e respostas mudas um dialogo que mantém.

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bastante tempo me obstinei contra as tuas potências; combati de pé, o teu determinismo nivelador; ao nivelamento de forças, que é a lei deste mundo perecedouro, opus o sobressalto da vida: rendo-me agora, até que chegue a hora de tomar à luta>>. Suspensa deste modo a vida ardente, tendo a correia de transmissão do motor humano passado da liberdade individual à liberdade das forças cósmicas, resulta daí novo funcionamento com leis próprias, que segue caminhos ignorados da clara consciência e realiza combinações estranhas à perspicácia das vontades e dos caprichos. Voltam a agrupar-se as forças interiores; os pensamentos classificam-se e desbastam-se; a energia abandonada pela acção dispende-se pacificamente. Utilizar este trabalho sem lhe perturbar os ritmos é, para o pensador, nova riqueza. Não se trata de velar; pelo contrário, o noctâmbulo é mau trabalhador; já, neste particular, exigimos o obediência à higiene geral, que deve redobrar de pretensões sobre o homem de estudo. Mas o próprio sono é trabalhador, associado do labor diurno; podemos domesticar-lhe as forças, utilizar-lhe as leis, aproveitar a filtração e clarificação que se opera no silêncio da noite. Durante o sono, completa-se e encadeia-se o trabalho cerebral começado e a ideia encetada que um incidente interno ou externo impedira de desabrochar inteiramente: não percais esta ocasião de lucro; recolhei essa claridade que vos pode servir de ajuda, antes que ela torne a mergulhar na noite mental. Como consegui-lo? Há ocasiões em que se não requerem industrias particulares. Ao despertar, encontra-se preparada e registada a colaboração do sono. O trabalho da véspera aparece-nos numa claridade mais distinta; uma vida nova, uma região virgem se abre diante de vós; surgem relações de ideias, de factos, de expressões, uma comparação feliz, uma imagem sugestiva, um trecho ou um plano inteiro. Tudo ai se encontra em perfeita lucidez; só falta utilizar, em seu tempo, o que o deus do sono se dignou efectuar por vós. De ordinário, porém, as coisas seguem rumo diverso. A natureza não esta às nossas ordens; segue o seu caminho. O seu curso arrasta pepitas de ouro; a nós compete recolher e impedir de se afundar na areia o que estas ondas opulentas transportam. Muito frequentemente, uma insónia de minutos, talvez de um segundo, é rasgada de clarões: fixemo-los. Confiá-los ao cérebro em repouso é riscar a água; muito provavelmente no dia imediato nem sequer se dá pelo rasto dum vago incidente. Procedei melhor. Tende à mão um caderno de papel ou uma caixa de verbetes. Tomai nota, sem que isso vos tolha o sono, sem acender a luz, se possível for; depois, mergulhai de novo nas sombras. Aliviar-vos assim do pensamento será talvez favorecer o sono em vez de o perturbar. Se disserdes: <<lembrar-me-ei, quero-o>>, este tacto de vontade perturba mais o sono do que o rabiscar uma nota à pressa. Lembrai-vos de que o sono é repouso do querer. Noutras ocasiões, as claridades acodem de madrugada, logo ao despertar. Abris os olhos e dirse-ia que também o olhar interior se abre e ilumina para um mundo novo. A terra rodou; os céus da inteligência já não apresentam o mesmo aspecto; brilham novas constelações. Fixai esse espectáculo inédito e não tardeis um instante em gravar as linhas mestras; indicai os traços expressivos, os contornos; isto basta para determinar os pormenores, quando tiverdes o lazer de voltar a contemplá-lo. Cada pensador conta na sua experiência factos de lucidez matinal por vezes surpreendentes, quase diríamos milagrosos. Quantos tratados completos que deste modo brotaram em plena luz, após longa e custosa série de estudos complicados, em que o autor como que se sentia perdido numa floresta, sem clareiras nem perspectivas! Muitas invenções também se realizaram assim. Elementos esparsos no espírito, experiências antigas ou conhecimentos, na aparência de interesse nulo, se associaram, e questões se resolveram, por si sós, pela classificação espontânea das imagens mentais que representavam a ideia da sua solução. Agarrai depressa no caderno de notas, quando se vos proporcionar semelhante felicidade. Hauri, enquanto a ideia está presente; extraí, não junteis nada da vossa lavra. Sem intervenção perturbadora, com uma atenção sujeita à natureza do trabalho que tendes entre mãos, ide puxando brandamente pela corrente que se constituiu, desenrolai os elos, as correntes acessórias que deles partem, marcai as proporções, as dependências, sem vos importardes com o estilo – refiro-me a estilo requintado – pois pode muito bem acontecer que desse modo se desenrolem preciosos elementos de estilo. Quando a gaveta está vazia e se vos

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afigurou que de lá retirastes a corrente dos pensamentos novos, cessai de escrever, mas, durante um tempo, fixai a vista nessa riqueza: pode suceder que ela aumente, que se formem novos elos na corrente, e que esses se multipliquem e subdividam. Tudo isto é tão precioso que não deveis deitar a perder uma só parcela: é trabalho que poupais para de dia. A noite, esplêndida colaboradora, deu-vos sem esforço da vossa parte, um dia de vinte e quatro horas completas, talvez semanas, as exigidas para engastar, com dispêndio de esforço voluntário, a jóia preciosa com que ela vos brindou. Contudo, não basta o cuidado de colher. O sono, que trabalha sozinho, trabalha sobre matéria preexistente; não cria coisa alguma; hábil em combinar e em simplificar, em levar a termo, só opera sobre os dados da experiência e o labor diurno. Precisa, pois, de que lhe preparem a tarefa. Contar com ele é, antes de tudo, contar consigo. Os monges, antes de se recolherem à cama, têm o piedoso costume, tão antigo como a piedade, de depor, à laia de semente, nos sulcos da noite, o ponto de meditação. Esperam eles, ao despertar, encontrar a semente amolecida, penetrada pela humidade da terra e talvez germinada: mais prontamente crescerá ao sol da reflexão e da graça. Sem renunciar a esta prática, que seria bom generalizar entre os cristãos, podemos ajuntarlhe a semeadura da noite pelo trabalho. A terra humana é rica: duas sementes convizinharão nela sem conflito. Antes de adormecer, retornai a questão que vos preocupa, a ideia lenta ou renitente em desdobrar as suas virtualidades, e confiai-a a Deus e à alma. Não façais esforço que retarde o sono, mas acalmai neste pensamento: o universo trabalha para mim; o determinismo é escravo da liberdade e, enquanto descanso, ele rodará a sua mó; posso adiar o esforço: os céus rolam e, rolando, movem no meu cérebro as rodas delicadas que eu porventura teria desgastado; eu durmo, a natureza vela, Deus vela e, amanhã, recolherei um pouco do trabalho efectuado por ambos. Nesta calma disposição, descansareis plenamente, mais do que na inquietação do dia de manhã desprovido de auxílio, mais, sobretudo, do que na volta, tão frequente à noitinha, dos aborrecimentos do dia, inimigos que uma semi-consciência aumenta, que envenenam a noite e que de manhãzinha lá estão para vos propinar amarga poção. Do mesmo modo que o trabalho suave e regular harmoniza o dia, assim o trabalho inconsciente da noite pode derramar nele a paz e afastar as divagações, as insanidades esgotadoras ou pecadoras, os pesadelos. Levai muito de mansinho uma criança pela mão e vereis como a sua turbulência acalma. Não preconizamos a estafa, a confusão do dia e da noite. Não, é preciso dormir; é indispensável o sono reparador. Dizemos apenas que a noite, como noite, pode trabalhar por si, que é <<boa conselheira>>; que o sono, como sono, é artista útil; que o repouso, como repouso, é também força. Aproveitemos estes auxílios, consoante a natureza deles e não violentando-os. O repouso não é morte; é vida, e toda a vida produz frutos. Podendo colhê-los, não deixeis aos pássaros nocturnos o fruto do sono.

III – A madrugada e os serões.
Do que acabamos de dizer ressalta a importância extrema, para o trabalhador como para o homem religioso, das horas matutinas e das vespertinas. Não se podem preparar, vigiar, concluir com alma atenta as horas de repouso, abandonando ao acaso o que com elas convizinha. A manhã é sagrada. De manhã, a alma refrescada considera a vida como dum píncaro, onde ela se lhe mostra inteiramente. O destino está ai; recomeça a faina; é o momento de a julgar uma vez mais e de confirmar, por um acto expresso, a nossa tripla vocação de homens, de cristãos e de intelectuais. <<Filipe, lembra-te que és homem>>: estas palavras do escravo macedónio a seu senhor são-nos repetidas pelo dia, quando, ferindo-nos os olhos, ele evoca as luzes da alma; <<homem>>, não em geral, mas qualificado por um caso preciso, homem que está em face de Deus, como um facto singular, único, e, por pequeno que seja, o único capaz de ocupar o seu lugar. E este homem, ao sair das horas de inconsciência, renovado e como que renascido, não vai ele

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encarar o conjunto da vida num olhar rápido, marcar o ponto onde se encontra, compor o dia que começa e partir assim animado, com o espírito iluminado, para nova arrancada? Tal será o esforço combinado do primeiro despertar, da oração matutina, da meditação, e sobretudo da missa, se há possibilidade de a ouvir ou a dita de a celebrar. O primeiro despertar deve ser um Sursum corda! Recitar uma fórmula cristã neste momento é excelente prática; dizê-la em voz alta é melhor ainda, porque, os psicólogos sabem-no muito bem, a voz sugestiona-nos e dá-nos a impressão de ser outro eu, um escravo que não pode ser posto de parte, que se identifica connosco, e cuja voz soa com esquisito império de quem simultâneamente é o que é e outro muito diferente. Ensinamos as criança a <<dar a Deus o coração>>; o intelectual, criança neste particular, deve além disso dar o coração à verdade, lembrar-se de que é servo dela, repudiar os inimigos internos da mesma verdade, amar os inimigos de fora, a fim de os trazer a si, e consentir nos esforços que a verdade exige para esse dia. Em seguida, a oração. O P. Gratry aconselha o intelectual a recitar Prima, que terá, como correspondente à noite, Completas: com efeito, nada mais belo, nada mais eficaz, nada mais animador. A maior parte das orações litúrgicas são obras-primas, amplas e suaves como o nascer e o poente dum astro. Tentai: vereis como falo verdade... Aí está a verdadeira vida, toda a natureza, e o trabalho será, desse modo, preparado como viagem pela abertura duma janela inundada de sol. Qualquer que ela seja a oração do intelectual deve sublinhar de passagem o que é do seu caso, retirar dai utilidade e compor o bom propósito que o trabalho cristão realizará. Acto de fé nas altas verdades que sustêm a ciência; acto de esperança no socorro divino para a luz como para a virtude; acto de amor para com Aquele que é infinitamente amável e para com aqueles que o nosso estudo quer levar para Ele; o Pai Nosso para pedir, com o pão de cada dia, o alimento da inteligência; a Ave-Maria, dirigida à Mulher revestida de sol, vitoriosa do erro e do mal. Nestas e noutras muitas fórmulas, encontra-se o intelectual a si próprio, evoca a sua faina e, sem isolar a sua especialidade do conjunto da vida cristã, pode lucrar do que está previsto para ele e providencialmente deposto no tesouro comum. A meditação é tão essencial ao pensador, que não vale a pena encomiá-la. Preconizamos o espírito de oração: onde poderá ele nutrir-se melhor do que nas contemplações matinais, quando o espírito repousado, ainda não preso pelas preocupações do dia, levado, erguido nas asas da oração, sobe facilmente aos mananciais da verdade que o estudo dificilmente capta? Se tendes a possibilidade de ouvir missa ou de a celebrar, não vos deixareis empolgar pelas sublimidades que ela encerra? Não vereis acaso, do alto do Calvário, de novo erguido, da sala onde se renova o banquete de despedida, a humanidade agrupar-se em volta de vós, esta humanidade com a qual nunca deveis perder o contacto, esta vida iluminada pelas palavras do Salvador, esta indigência que a sua riqueza socorre e que vós deveis juntamente com Ele socorrer, iluminar e salvar pela parte que vos toca, salvando-vos a vós próprios? A missa põe-nos verdadeiramente em estado de eternidade, em espírito de igreja universal, e, no Ite missa est, ficais dispostos a ver uma missão, um envio do vosso zelo à desnudez da terra ignorante e louca. A madrugada impregnada deste orvalho, refrescada e vivificada por estas brisas espirituais, não pode deixar de ser fecunda; acometê-la-eis com denodo; o dia gastará as provisões de luz da aurora; a noite virá antes do esgotamento das claridades, como o ano se encerra deixando sementes nos celeiros para o ano futuro. O fim do dia! Não sabemos de ordinário santificá-lo, apaziguá-lo, prepará-lo para o sono verdadeiramente reparador. Malbaratamo-lo, poluímo-lo, desorientamo-lo! Vêde como o aproveitam os que se entregam ao prazer! Não insistamos nisso, que não vem ao caso. Mas atendemos nos que se dizem trabalhadores: homens de negócio, industriais, funcionários públicos, comerciantes – falo dos mais deles. À noitinha, ei-los <<livres do freio>>, sem pensarem em coisa alguma, deixando vogar o espírito na dissipação que, dizem, repousa, jantando, fumando, jogando, tagarelando ruidosamente, correndo para o teatro ou para os cafés-concerto, bocejando no cinema, e depois indo deitar-se <<descansados>>. Descansado, sim, como o violino cujas cordas se tivessem distendido totalmente. Que trabalhos no dia seguinte, para tornar a afiná-las! Conheço industriais que descansam, lendo Pascal, Montaigne, Ronsard. Repimpados numa preguiceira, bem iluminados e bem quentes, com a família em redor calada ou cochichando,

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eles, depois de maçados, vivem. Essa hora pertence-lhes: é a hora do homem, depois que o especialista esbarrou com a cabeça ou com o coração contra mil obstáculos. O intelectual, embora não precise desta compensação, precisa dessa calma. O seu serão deve ser um recolhimento, o seu jantar uma refeição leve, o seu jogo o pôr em ordem o trabalho diurno e o preparar o trabalho do dia seguinte. Precisa de Completas – desta vez tomo a palavra no sentido figurado – que completem e que inaugurem; porque o complemento dum trabalho contínuo, como nós o requeremos, é tanto um princípio como um termo. Ninguém fecha senão para tornar a abrir. O fim do dia é o órgão de ligação entre os cortes diurnos cujo total forma uma vida. De manhãzinha, é preciso começar logo a viver: para isso disponhamonos à noitinha e preparemos a noite que, a seu modo, solda, sem nós, os labores conscientes. Pense o que pensar a ilusão apaixonada e interesseira daqueles que no homem pretendem reservar a parte do valdevinos, a dissipação não é repouso, é esgotamento. O repouso não pode consistir na disseminação das forças. O repouso é retrocesso para longe do esforço, no sentido das suas fontes; é uma restauração, não um louco gastar. Bem sei que gastar é, por vezes, adquirir; haja vista o desporto, a recreação, e nós não só toleramos, mas até exigimos este repouso activo. Não é esse, porém, o ofício normal do fim do dia. Para esse tempo há dois repousos, um espiritual, outro físico: o repouso em Deus e o repouso na natureza maternal. Ora, o primeiro, é a oração que o dá; o segundo, o repouso do corpo, deve conduzir ao repouso da noite, já que o precede. À noitinha, devemos entregar-nos aos ritmos suaves, de que a respiração nocturna é o modelo. Deixar que se exerçam em nós os determinismos fáceis, que os hábitos substituam as iniciativas, que o ramerrão familiar tome o lugar do esforço da actividade ardente, numa palavra cessar de querer, dum certo modo, para inaugurar a renúncia da noite: eis a sabedoria. E a sabedoria reconhecer-se-á na estrutura desta vida atenuada, desta semiactividade que se acalma. A família terá nisso a sua parte; uma conversa suave selará a união das almas; trocar-se-ão as impressões recebidas e os projectos formados; confirmar-se-ão os planos e os fins; consolar-se-á a velhice do dia; reinará a harmonia e ter-se-á celebrado uma digna vigília da festa que cada novo dia representa para o cristão. O homem, que dorme, toma, muitas vezes, sem dar por isso, a posição que teve outrora no ventre materno. È um símbolo. O repouso volta à origem: origem da vida, origem da inspiração; retempera-se; o dobrar-se, de noite, tem essa significação. Ora, retemperar-se não é agitar-se; é como que refugiar-se, é procurar para a seiva humana, pela concentração pacífica, aumento de vigor, é restaurar em nós a vida orgânica e a vida sagrada, por um feliz repouso, pela oração, pelo silêncio e pelo sono.

IV - Os instantes de plenitude.
Vamos agora tratar do que já não é preparação, prolongamento, folga utilitária, repouso em vista do trabalho, mas trabalho propriamente dito e tempo consagrado à concentração estudiosa, ao esforço pleno. Pelo quê, apelidaremos estes cumes da vida intelectual encarada na sua duração: os instantes de plenitude. Quase todo este livro visa a determinar a maneira de empregar este tempo; portanto, agora, insistimos apenas no modo de o poupar, de o centrar, de o preservar, de defender a <<cela interior>> contra a invasão que a ameaça. Sendo os momentos da vida valores muito desiguais, e obedecendo, em cada um de nós, a repartição destes valores a leis diversas, não podemos estabelecer regra absoluta; mas cumpre insistir neste particular. Estudai-vos; tende em consideração a vida, o que ela permite, favorece ou interdiz, o que ela propõe para as horas ardentes. Como distribuí-las? De manhã ou de tarde? Parte de manhã e parte de tarde? Só vós podeis decidir porque só vós conheceis as vossas obrigações e a vossa natureza, donde depende a estrutura imposta aos vossos dias. Quando se dispõe de poucas horas e estas se podem situar livremente, parece que a manhã deve ter a preferência. A noite reparou as forças; a oração deu asas; reina a paz e o enxame das distracções não zumbe ainda em torno de vós. Podem, contudo surgir contra-indicações. Se o sono for difícil, o tempo matinal será angustioso e entorpecido. Noutros casos, falta a

cumpridas todas as condições. Muitos contentam-se com as aparências. Executai ardentemente o que decidis fazer. com o espírito sujeito às grandes leis. Estas restrições. não vos incomodeis com ninharias. podereis aplicar-vos a fundo. mas sim que vos orienteis. que é repouso a meias. o que lhes compete. a atenção não será distraída nem o esforço dividido. A deusa nem sempre acudirá. Evitai. as mesmas fases. por ora. mas que saibais também a maneira de não consentir que vos incomodem. Note-se que a sessão de trabalho profundo não pode ser mais uniforme do que a vida intelectual no seu conjunto. proporcionalmente. zumbem sempre e nunca realizam trabalho algum. Abrir-se assim à verdade. É preciso ser o Josué desta tarde para prosseguir a batalha sempre demasiado curta. sabei o que quereis fazer e a maneira de o fazer. Tudo assim disposto e previsto. Certos algozes do trabalho alcançaram de facto estas cifras astronómicas. os livros. o trabalho a meias. tomam-se então as escassas horas do isolamento. do qual afirmamos que bastam duas horas por dia para levar a cabo uma obra. Quem conhece o valor do tempo. pois só assim o valorizareis. tomais todas as disposições úteis. O trabalho a meias. mas sim o emprego do tempo. de sorte que a actividade seja uma série de actos continuados com tenacidade. começai por excluir as preparações longínquas. a fim de os explorar integralmente. Renovai o <<espírito de oração>>. Tem. A questão principal não é essa. estareis preparados para a acção. e primeiramente não o encurta. A vossos pés lá muito em baixo. limito-me a indicar uma só: defender tenazmente a solidão. eleva-o. combinai encontros oportunos. Qualquer exigência de fora implica o sacrifício do que está dentro e pode custar. no sonho de Cipião. com afinco. com veleidades trapalhonas. para que esse tempo se conserve intacto e verdadeiramente livre. mesmo de dia. permanecei em estado de eternidade. tomai refeições frugais. levantai-vos da cama com prontidão. como o atirador. são casos para qualificar de feliz monstruosidade. as notas. dissipar. mas. não favorece o estudo nem o descanso. juntai os materiais. tudo o que não for o ponto de mira. depois cansa-se. Não imiteis aqueles que permanecem horas e horas sentados à secretária com atenção remissa. Nunca será exagerado o luxo de severas precauções. Se tendes obrigações. que viseis ao alvo e afasteis do campo visual. com a imaginação aberta como asa. Será preciso tudo prever para que nada venha obstruir. observar-vos e levar por diante o vosso intento. com o coração submetido à verdade. mais que tudo. fugi das conversas vãs. não podendo alongá-lo. a hora exacta. aplicam-se sobretudo ao que constitui o centro dela. ao espírito. que uma segurança completa vos defenda. se me é licito dizer. Além disso. limitai a correspondência ao estrito necessário. treina-se pouco a pouco. das visitas inúteis. bem cunhada e de liga pura. se tendes amigos.32 solidão. consoante elas se apresentam. Não quero com isto dizer que vos estafeis. mais vale a medalha forte. depois de feita a escolha. se a gente importuna vos solicita. sempre o encontra em abundância. lede os jornais com moderação. abstrair de tudo o mais e. pois mesmo então elas não abandonam o seu lugar. Se quereis que cia seja plena. Fazei alguma coisa ou não façais nada. tomar um bilhete para o outro mundo. Os trabalhadores normais apreciam mais duas a seis horas capazes de se aproveitarem de modo durável e fecundo. fechai-lhes a porta com bons modos. Voltaremos a falar das condições desta claridade protegida. Seja como for. às vezes custosamente. convirá poupar os instantes escolhidos e poupar-se a si próprio. que apontamos como amparo da vida de estudo. O tempo é espesso como o ouro. nas horas sagradas. mas sempre se deixa comover pelos esforços sinceros. Chamai então a inspiração. esse pouco basta e vale muito mais do que as pretensas quinze horas de que tantos paroleiros se jactam. Ponde à porta Cérbero. É preferível encurtar o tempo e tratá-lo em profundidade. agitamse ruídos da vida. em tempo normal. É urgente que. dai-lhes. Não os distinguireis. não só vos não incomodem. reduzir ou enfraquecer tão preciosa duração. a perda de . simbolizam a harmonia das forças criadoras. de sorte que todo o vosso ser sinta pairar sobre si as estrelas silenciosas. para que a aplicação seja fecunda. É pouco. chega ao máximo. Ouvireis apenas o canto das esferas que. quando ao de ruidosa loucura. do que a folha dilatada pela arte do batedor. eis o verdadeiro trabalho. o espírito que preside a esse emprego.

Exceptuando os casos que se não discutem. Na unidade da vida inaugurada pelo matrimónio cristão. Há presenças que duplicam a quietação. mais sós estareis. tanto mais defendidas estarão contra o ruído exterior. Lar onde no escritório do marido se vê a mesa ou o açafate de costura da esposa. Comprai a solidão. <<Quando os semi-deuses se vão. O tempo dum pensador. a solidão precisa de ser diligentemente resguardada. Não o apreciamos doutra maneira. nem a parentes inconscientes nem a transeuntes. e que a independência relativa tenha como contrapeso a dependência absoluta. nas bibliotecas públicas. com delicadeza e boas maneiras. como de ambiente favorável ao trabalho. em todo o rigor.W. chegam os deuses>>(1). Em todo o caso. é ajuda. pagai as vossas liberdades. nem mesmo à caridade. Em certos dias. O homem da verdade pertence ao género humano como a própria verdade: não há que temer egoísmos. onde o amor adeja em silêncio. Quanto mais rodeados estiverdes de adoradores que rendam à verdade culto em espírito e em verdade. quando nos isolamos em benefício desta universal benfeitora dos homens. Cumpre acrescentar que a expressão não se deve tomar materialmente. uma alma de escol que compreenda a vossa obra que se una com ela. Quanto mais juntas estiverem as almas irmãs. nem a amigos indiscretos. tanto mais fácil e agradável será a contemplação. Pertenceis à verdade: vá para ela o vosso culto.33 preciosos encontros. caridade universal. nem seríeis capazes de descair. empregado conscienciosamente. deixando flutuar as asas ao vento dos nobres sonhos e da inspiração. penetra-vos e cerca-vos uma atmosfera de recolhimento. . ( 1) R. Industriai-vos de modo que vos absolvam de boamente aqueles a quem abandonais e a quem por vezes também incomodais. há lugar para a unidade de pensamento e de recolhimento. Não se prestem ouvidos a ninguém. é imagem do trabalho. Não se pode ter caridade para com tudo ao mesmo tempo. um amigo absorvido nalgum pensamento ou ocupação harmoniosa. e apoie o vosso esforço com silenciosa ternura e ardor por vós comunicado: isso não é distracção. diante do único só. logo que surjam os deveres. Mãos à obra. evitai que esse retiro lhes seja pesado.Emerson. nada deve suplantar a vocação. em vez de a dissiparem. Poems. Tende junto de vós um trabalhador activo. O ideal está em tornar o vosso retiro mais proveitoso a todos que o vosso concurso. Falei da solidão completa. Subjuga-vos uma impressão religiosa: não ousaríeis distrair-vos. Bem compreendida e bem preparada. é.

pois pertence. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. em coisa alguma sem a história. porque os seus vínculos fazem parte dele. Podemos asseverar sem paradoxo que cada ciência. O espírito ressente-se disso continuamente. em moral sem a psicologia. começais por desconfiar da especialidade. nela mergulham os sábios. a poesia e as ciências a moral. claro. com a sua base de sustentação. encarada em si só. sem pensar na peça vizinha? Ou estudar um órgão. em correlação com o fim a alcançar. Tudo está em tudo: divisões. Seguir até certo ponto as explorações de certos investigadores é. e não saltitando sobre as pontas dos pés. confinar-nos nela exclusivamente. O saber não é torre nem poço. verdadeiramente forte. É difícil dar um conselho determinado sobre o que convém aprender. se quiserdes alcançar um espirito aberto. é um inadaptado. Privar. Será possível estudar uma peça de relógio. que distingue. É questão de vocação pessoal. por vocação. mirra-se. e qualquer tratado inteligente duma delas implica mais ou menos as outras. pisará o solo com pé firme. as suas luzes cruzam-se. desenvolvendo nobre esforço que não deixa indiferente nenhum pensador autêntico. em astronomia sem a mecânica e sem a geologia. Por conseguinte. nenhuma disciplina. A maneira Como as desenvolve será talvez um pouco antiquada. é manga de alpaca. é habitação humana. Não tomamos a questão na sua origem primeira. Embora cultivemos uma especialidade. Todas as ciências são interpendentes. reza o provérbio: abstrahere non est mentiri. a mão para apanhar estrelas. transviado entre os humanos. O saber tentou sondar a noite em todos os sentidos. Tomás não fala disso nos Dezasseis Preceitos. isola e concentra a sua luz num ponto. Vêm aqui a propósito as interessantes observações do P. só as opera a abstracção. não separe do objecto de estudo o que dele depende mais ou menos directamente. não é prudente. Acima de tudo será homem. estiola-se e. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir. . é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. depois a política e a própria religião no que esta possui de humano. na primeira ocasião. em psicologia sem as ciências naturais. um louco. Um especialista.O campo do trabalho I – A ciência comparada. A cultura parcial é sempre indigente e precária. contanto que a abstracção. as ciências a poesia. se não for homem. para vós. Gratry sobre a Ciência Comparada. nem fecundo. falamos para pessoas que já ultrapassaram a idade escolar e se propõem organizar ou completar estudos profundos. extravia-se. a falta de liberdades de movimentos e de segurança de visão paraliza os gestos. os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. a sua esplêndida ignorância torna-o. Entendemos por ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia. profundada. de comunicações um objecto seria falseá-lo. Isolada.34 CAPÍTULO V . e menos ainda sobre a dosagem dos elementos admitidos num plano de trabalho. no entanto merecem ser seriamente ponderadas pelos intelectuais de nossos dias. S. daria as demais ciências. Abstrair não é mentir. Nenhuma ciência se basta a si mesma. é possível dar breves indicações que sirvam de ponto de partida a úteis reflexões. emagrece. assim. ao género humano. um anormal. obrigação que no fim se resolve em capacidade decuplada para as vossas próprias pesquisas. é impossível avançar em física ou em química sem a matemática. Equivaleria a pôr antolhos. Contudo. sem tomar em conta o organismo? Do mesmo modo.

Escolhei acertadamente os conselheiros. Porquê? – porque sabe muitas outras. ao sol. as pampas da América e os palácios chineses. O cultivo exclusivo de qualquer ciência apresenta igualmente perigos que ninguém de bom senso desconhece. a fim de os corrigir um pelo outro. será mais apto para receber sem se prejudicar. o zelo que. Não julgueis que. frequentemente sábios. depois de ter experimentado muita cultura. tinha zelo. consegue deslindar uma língua nova. nas outras foram pelo menos curiosos. sobressaindo numa parte. na Academia das Ciências. o Corno de Ouro. a teologia expõe-vos ao falso sublime e ao orgulho doutoral. outros para cada . e o espírito. Leonardo de Vinci. Uma taça. Num relance. capaz de empolgar uma inteligência ao contacto das grandezas do espírito. o espírito abarca o novo idioma. sereis homens diferentes daqueles que se confinam em estreita disciplina. Não conseguireis confinar num só ramo do saber homens da envergadura de Aristóteles. ficareis sobrecarregados ou impedidos de vos dedicar com afinco a uma especialidade. A fisiologia conduz facilmente ao materialismo. a filosofia incha. e por ele desdobrado como arco-íris. ganhando em amplidão. tem maior capacidade do que à sombra. Traçai um plano amplo. despertos o instinto poderoso e o entusiasmo em todo o homem bem dotado por esta maneira de viajar através das ciências e de explorar estes magníficos domínios. a sua constituição. precisais de variar as culturas para não cansar o solo. As ciências são as diversas línguas em que o homem balbucia penosamente a natureza inefável. a geologia converte-vos em galgos que tudo farejam. pelo facto de prosseguir até certo ponto o estudo comparado. facilitará a visão das coisas. decifrar muitas delas é favorecer cada uma. a astronomia corre o perigo de habituar à divagação. Bacon. que se vá reduzindo pouco a pouco pelo que diz respeito ao tempo consagrado a cada estudo secundário. Henrique Poincaré. ponto onde todas as ciências se identificam. O estudo isolado das matemáticas falseia o juízo.35 Quando chegardes à especialidade. Demais a mais. Precisais de passar de um espírito a outro. Os grandes homens foram sempre mais ou menos universais. às vezes até especialistas. no domínio das capacidades espirituais. com alegria. conhecimentos que enervariam o triste cultor duma única ciência. e menos ainda a vida real comporta. porque afinal todas são uma só coisa. Esse sim. os hipogeus do Egipto. espantava os colegas das outras secções. E que melhor acesso ao centro do que tentar diferentes vias. no espaço de quinze dias. habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência. Um só entre mil Para o conjunto. respondeu: <<Um alqueire cheio de nozes pode levar ainda muitos almudes de azeite>>. e não quanto à largueza de vistas nem ao espírito de trabalho. à maneira dos raios dum circulo. que. a literatura torna-vos balofos. amplificado o olhar e compreendido o sentimento das ligações pelas profundidades. corresponde ao calor que dilata os corpos. pelas suas concepções geniais: consultá-lo era colocar-se imediatamente no centro do saber. os seus caracteres fundamentais. este ardor épico. Um rabino. comunica ao estudo inspiração e facilidade surpreendentes. Quem se instala no centro das ideias fica depois com o caminho desembaraçado para seguir em qualquer direcção. A complexidade da física e da química causa fastio e apouca o espírito. Não alimentais semelhantes pretensões? Embora! O que as grandes sumidades praticaram permanece sempre como indicação fecunda para os demais. como se visitam alternadamente os fiordes da Noruega. que dessa comparação irradia. Leibniz ou Goethe. Um espírito deslumbrado perante o espectáculo da verdade. a quem censuravam de sobrecarregar a lei. dão o sentimento dum encontro e duma encruzilhada comum? Conheço um linguista que. porque a luz. toma-se capaz de adquirir sem fadiga.

e o sábio vê-se então obrigado a filosofar por si próprio. não ensina. Assim como nenhuma ciência particular se basta a si própria. por meio da razão. desclassificam-se e desorientam-se. Paris. Portanto. se não sustenta sem a rainha das ciências – a filosofia(1) –. mas o outro mundo governa este. E os seus mestres. o sábio. (1) Escreveu Carlos Dunan: <<Para a filosofia moderna. pelo fundo. ide direitos ao essencial. é muitas vezes pelo pormenor mas pelo pormenor característico. Repudiamos hoje os primeiros princípios. harmonia que só se obtém por um apelo aos primeiros princípios(1). Possuímos farrapos. As ciências e a filosofia. assim também o conjunto das ciências. assinalou o lugar e a dignidade destas duas rainhas do duplo reino(2). possuímos excelentes capítulos. probabilidade. Hoje que a filosofia esmoreceu. se preciso for. nem as influências que lhe dão fecundidade. liv. sobretudo. Em toda a espécie de objectos e disciplinas. de chefes. hoje que se ignora a teologia. 2. Reparti o tempo. é trabalhar. deveria recorrer ao filósofo. sobre este ponto. I. indo mais além. como num exército. que têm a dupla desgraça de ignorar e de ignorar que ignoram. 1911. etc. mas este. toda a Questão I. retrai-se. as mais das vezes. Suma Teologica. mas. desclassificam-se mais ainda. o homem de verdade deve centrar a sua investigação naquilo que é ponto de partida. a filosofia é estéril. Primeiramente como filósofo. e desorientam-se mais irremediavelmente. espaço. É curioso que. o saber desarticulou-se. as ciências rebaixam-se e dispersam-se. nunca procedendo ao acaso. visto repudiarem uma coroa celeste. para diante e para cima. a própria ciência convida o sábio a elucidar problemas que até aqui dependiam da filosofia: casualidade. não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham as ciências. Questão II. e fá-lo sem experiência e muito frequentemente de través. Mas. . e S. de Boécio. na hora actual. Mas a (1) recíproca é verdadeira: se estes problemas existem. só reina a ordem. pela parte que lhe toca. utilizando a luz que vem do alto. e portanto não é de espantar que o ilumine. não conclui coisa alguma. não temos livro completo. 182. do ponto de vista doutrinal não é a dose de saber. naquilo que é tudo para tudo e para todos. para trás. As ciências. não possuímos vestidos. como num povo. é lá que se completa e ilumina ultimamente o saber. Em cada coisa. nesses casos. os problemas transcendentes são nulos e não existem. Les Deux idéalismes. Gratry exprimiu. faz crítica e faz história sem bússola. O de que o nosso tempo precisa. isto é. sem a filosofia. precisais de penetrar no que ainda falta dizer. nunca tranquiliza nem ilumina. sem a teologia. consideram a teologia uma coisa do outro mundo. e como o espírito só se instrui verdadeiramente pela investigação das casualidades. art. tempo. fecha-se nos seus antigos quadros. P. cap. a teologia pertence ao outro mundo. magníficos ouropéis. continua-o em todos os sentidos. Sim. verdades capitais. a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. por isso. O melhor que pode fazer um intelectual católico. para vos orientardes neste domínio. regra e fim a título primeiro. em nos restituir a ordem de que carecemos. quer dizer que a filosofia moderna não existe>>. Alcan. regulai a sucessão das culturas. contínuo e descontínuo. determinismo. existindo um Ser primeiro e uma Causa primeira. I. O P. no momento em que os princípios. (2) Cf. A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas. nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divina – a teologia. que pertence ao seu tempo.36 parte. porque a terra sem o céu não encontra a sua órbita. como numa casa ordenada. é sectária e muitas vezes destruidora. desempenham o papel de princípios. é a harmonia do saber. em seguida como teólogo. dispostos hierarquicamente até ao princípio primeiro. Tomás. Contra Gentes. quanto ao objecto. Logicamente. Comentário ao De Trinitate. não temos Bíblia.

o livro elementar de J.37 As Bíblias do saber foram outrora as Sumas: faltam-nos hoje as Sumas. Para estudo mais profundo: A. ao fim de algum tempo. no dizer do P. e ninguém entre nós seria capaz de compor uma. Tomás. nem o seu estudo exige muito tempo. é claro. Possuí plenamente este manual e continuai. cônscio desta aberração e das suas consequências. porque a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. todos os conhecimentos são vivificados e todas as ciências alargadas. É a obra colectiva dos humanos unidos em Deus. um repetidor de espírito aberto e bem informado prestar-vos-ia valioso auxílio. A princípio. Tomás de Aquino. isto é. 1) Não se julgue que o Autor possui um segredo para ensinar o latim em dois meses! Não se trata do latim clássico. pôr ordem nos conhecimentos. 1910. Saint Thomás d'Aquin. As enciclopédias estarão para ela como Babel para as catedrais. tomai a mão que se vos estende para vos pôr em movimento(2). O vocabulário tomista é tão reduzido. o desenvolvimento racional da ciência divina. mas do latim empregado por S. Tomás. e encontre nela a maturação e a elevação. do cântico dos cânticos do saber. se aproxime muito naturalmente e sem respeito humano da ciência das ciências. circulais por lá como em vossa casa. [Coll. o texto parecer-vos-á seco e abstruso. logo de entrada. Tomás e servisse de prelibação. Iniciar-vos-ia paulatinamente no vocabulário técnico do tomismo. pode tentar constituir a sua Suma pessoal. que vos fizesse pressentir o conteúdo de S. Todavia. Ser-vos-ia útil alguma obra de introdução. seja-me permitido indicar o Catecismo dos Incrédulos. mas profunda. Não custa penetrar no campo da teologia. o lirismo potente e calmo. deste apelo dos dados humanos a uma colaboração celeste. não vos fieis em falsos mestres. Estudai. ultrapassará em amplidão e inspiração os monumentos da antiguidade e do neo-paganismo. assinalaria as pistas e defenderia os passos dos precipícios. Quem busca a verdade não tem o direito de ignorar tão rico tesouro. é claro. Sobretudo. esclareceria um texto por outro texto. e portanto também em profundidade. inseriu na árvore da ciência um enxerto divino. tal qual é e muito mais ainda quando se escrever a Suma dos tempos modernos. esplêndido resumo da doutrina teológica(1). até ao século XIX. No entanto. Paris. carrilada por esta que tão notoriamente ultrapassa as precedentes. dia a dia. o saber baixou. persuadido como estou do mal que fazem amigos inábeis. Que o católico. depois só tereis de conservar o aprendido. Gratry. as construções sempre as mesmas e tão alheias ao que torna difícil o latim. dêemse ao trabalho de procurar a chave dela. Quem se deixasse acobardar perante o esforço de aprender uma língua que um espírito ordinário consegue dominar em dois meses. brilharão as luzes dominadoras. desde o princípio até ao fim do século XVII. muitas vezes traiçoeiras. da desilusão e escândalo provocado por comentários estúpidos.D. e os sábios. Éléments de Philosophie. mas antes disso aprendereis os dogmas basilares da fé. graças ao qual esta árvore pode produzir frutos que não são os seus>>. em todas as suas dimensões. não pareis aí. ( ( ( A título de auxiliar. cristãos ou não. intelectual ou desejoso de o ser. durante cinco ou seis anos. <<A teologia. 1) . S. foram todos teólogos. Estudai a Suma. publicado com o fim de facilitar aos nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã c das suas bases. invocando os princípios desta ordem. que se tome como objecto de especialidade. aspire à intelectualidade completa. Depois. <<Les Grands Philosophes>>]. Dedicai-lhe quatro horas por semana. ou seja. não mereceria que nos preocupássemos com a sua formação(1). em latim! As traduções da Suma. Os sábios cristãos. expressão completa da vida do espírito. Maritain. pouco a pouco. Mas. a não ser. saiba fazer-lhes frente. Falamos para entusiastas: se querem penetrar na <<adega>>. Paris. com a impressão de que residis numa sublime habitação. foram todos filósofos. se ainda é cedo para redigir uma Suma colectiva. as primeiras dificuldades vencidas terão como recompense novas vitórias. Téqui. Alcan. 1920. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o carácter de cooperação imensa. Por outro lado. em companhia de S. porém. que só um preguiçoso recuará diante da conquista deste tesouro. da teologia inspiradora. 2 vols. alastrou em superfície e perdeu em altura. Tende à mão o Catecismo do Concílio de Trento. aprendereis a língua da terra. Não se lhe tira a seiva. diria até indispensável. Tudo é caótico. 2) Cf. poupar-vos-ia hesitações e quiproquós. Sertillanges. é o suficiente. Em razão deste novo impulso comunicado ao saber. pelo menos cada homem que pensa e que deseja verdadeiramente saber. Por isso a ciência cristã. e. são sempre insuficientes. Tomareis. pelo contrário dá-se-lhe um curso glorioso. filosofando e coroando a sua filosofia por uma teologia sumária. É de esperar que a próxima geração.

aponto aqui um escolho. Dir-se-ia que foi criado há sete séculos para apagar a sede dos nossos contemporâneos. Tomás. sob este respeito. tanto mais me persuado que no tomismo reside o porvir das inteligências católicas. consultai o Index tertius. e depois redigi o artigo estudado. e devo continuar a ouvi-los. mas a ciência completa pode apoiar-se nele como num poder de coordenação e de sobrelevação por assim dizer milagroso. Ao sumo. como das da arte ou da natureza. e ao mesmo tempo o enriquece de noções claras. assemelha-se. sempre ligadas aos princípios primeiros. ao viajante que facilmente descamba no cepticismo. O génio não tem data. ele é manancial límpido. profundas. Esta confusão é uma das grandes calamidades do nosso tempo. imperfeito. amplidão e vigor ao espírito. deslumbrado pela glória de S. e o torna preciso. Se um papa afirmou da obra de S. uma forte síntese. Sou levado muito naturalmente a expor o que sinto acerca do tomismo como quadro da ciência comparada. É incontestável a utilidade de possuir desde muito cedo. capaz. Vamos ver! E depois de lerem duas ou três páginas. a sua ordem. Quem o não possui. comparando-as com a ideia vaga e falsamente grandiosa que delas se formava. S. o peso duma doutrina e a sua novidade são duas coisas distintas. Elas não conseguem preencher este quadro. avaliai as suas ideias mestras. magoareis as mãos. Quando se trata de valores eternos. Libertar-se dela. Persisto. no universo intelectual. consultai cuidadosamente. esse tesouro. tot miracula. o tomismo as valorizará e lhes facultará o adaptarem-se a este tempo. tão afastada dos extremos onde se . Excelente ginástica que dá maleabilidade. as suas sólidas perfeições existem realmente. para melhor dizer. Eis o que explica a desilusão. Já os ouvi em 1920. estudai de sorte que os documentos se completem e comentem mutuamente. sem o suspeitarem. jóias da moda. o tomismo é dum valor a toda a prova. estabelece-o na claridade plena e oferece-lhe quadro maleável e forte para as ulteriores aquisições. Tomás tranquiliza o espírito. as passagens diferentes a que as edições costumam remeter. constituindo. Estudai este sistema. ficam desiludidos. Pelo quê. é beneficio incomparável. Digam o que disserem os partidários da última moda. um corpo de ideias directrizes. Superadas as primeiras dificuldades da maneira de expor arcaica. comparai. graças ao equilíbrio intelectual ministrado por doutrina segura. Nem por isso é ciência completa. em recomendar aos jovens intelectuais que me Iêem: estudai S. bem encadeadas. pela sua coadunação. É que. se possível for. Esforçai-vos por quebrar a noz. quadro ideal do saber. ele é o homem deste tempo. a fecundidade da sua genealogia ascendente. como o íman. II – O tomismo. Estou a ouvir protestos. a abertura angular. apreciai os seus caracteres. mas ainda assim tesouro. Para esse fim. Mas é erro abeirar-se das obrasprimas do pensamento. em consequência de frequentar civilizações diversas e doutrinas contrárias. Tomás. em vez de pesadas barras de ouro. desde o princípio. Ora. no âmago da eternidade. ou. como força atractiva a respeito do todo. Tomás. comece a estudá-lo cheio de entusiasmo. tomada nas suas diversas partes: Quot articuli. de atrair e subordinar a si todos os conhecimentos. a propósito de cada artigo. esperavam encontrar lá. pois. e então será o próprio S. O tomismo é síntese. mas acabareis de a partir.38 recomendo-vos que prefirais a solidão a um concurso pouco inteligente. Em compensação. a sabedoria esta em se dirigir a quem sabe mergulhar. dobrada razão nos assiste para classificá-la de prodígio no seu conjunto. Não falta quem. Em comparação da água barrenta que nos servem. Tomás quem instrui o seu discípulo. que nenhuma semente possui maior poder para absorver e canalizar os sucos da terra. inimigo do sofisma e do pouco mais ou menos. e é loucura privar-se delas por falta de atenção ou adaptação. O tomismo é posição do espírito tão bem escolhida. a capacidade vital de cada noção perante os factos e noções acessórios que a podem alimentar: vereis com espanto que nenhum conjunto parcial sofre comparação com este. devo dizer a quem me queira dispensar alguma confiança: quanto mais vou para diante. em qualquer data temporal.

aquilo que ao princípio é indispensável torna-se em seguida hostil. e não lhe regateeis a livre adesão filial. e devemos perguntar se é prudente cultivar igualmente aquilo para que somos feitos e aquilo que mais ou menos esta fora do nosso alcance. Advogámos uma certa extensão. III – A especialidade. Muito frequentemente. portanto com o sentido das aptidões. mas a vida intelectual não deve ser acrobacia permanente. porque o tomismo tomou posição entre ambas como fortaleza na encruzilhada dos caminhos. A hostilidade manifesta-se aqui de muitas maneiras e leva à decadência do espírito por vias diversas. de facto. é preciso. e. a filosofia e a teologia com uma só e mesma investigação: consultai-vos. ele participou dos erros dos tempos. debaixo de certas condições. nem com a ciência em toda a sua amplidão. mas era em favor da profundidade e a título de formação. sabe que o tomismo é falível e que. mas julga que a sua orgânica corresponde. interpreta-os. em conjunto. os progressos. uma vez ciente da sua vocação especial fixar-se nela. é preciso cavar. Não pretendo agora mostrar o sólido fundamento destas afirmações. Nenhuma metafísica oferece às ciências da natureza princípios de ordenação e de interpretação mais benéficos. tende no coração bastante fé na guia secular. e reconhece que para isso concorrem a ciência e a fé. também . subindo a um nível desconhecido do solipsismo orgulhoso e da modernidade sem base eterna. A igreja crê hoje. os seus recursos. cessam o esforço. isto é. que para ele convergimos de qualquer ponto do saber e dele irradiamos. sem quebras de caminho. em todas as direcções do pensamento e da experiência.39 escavam os abismos. Vencer uma dificuldade é bom. Outros sistemas foram contraditos pelos factos: este sai-lhes ao encontro. que é a Igreja. classifica-os e consagra-os na medida possível. É preciso. Há sistemas que se opõem aos sistemas vizinhos: este concilia-os numa luz mais elevada. Satisfeit0s com as suas explorações através de tudo. alcançareis a recompense da fidelidade. como outrora. É mister sacrificar sempre a extensão à penetração. Apressemo-nos a completar o que fica dito sobre a ciência comparada. descobrir-se a si próprio. introduzindo-nos no centro dos factos. e as causas mergulham como raízes. esperando que cada qual o faça por sua conta. envolve-os. portanto com facilidade relativa. pelo simples motivo de que a extensão por si. nenhuma moral serve melhor o progresso da consciência humana e das instituições. são como os de fogos-fátuos. cada um tem as suas capacidades. primeiro rápidos. nenhuma cosmologia se mostra mais maleável e acolhedora às descobertas que vieram desfazer tantos devaneios antigos. depois de ter pensado nas seduções que ofereciam e de ter prestado justiça ao que neles havia de verdade. fornece a substância do que se buscava numa investigação sem termo. é questão de confiança. no campo das teorias transitórias. Mas o católico deve confiar naquela que recebeu a missão e a graça para guiar o voo do seu espírito. obtida esta e assegurado o profundamento das suas possibilidades. nada é e a penetração. tão central em relação aos cimos. avançando primeiramente em diversas vias. Não o confunde com a fé. Não é licito fazer imposições em tal domínio. não suceda que nos acoimem de promover ciência enciclopédica. as suas dificuldades interiores ou exteriores. a quem forma o propósito de levar de frente as ciências particulares. e só a especialização o permite. Em primeiro lugar. Se conseguirdes isso. não se podendo verificar estas condições – e hoje menos do que nunca elas se verificam – o espírito enciclopédico é inimigo da ciência. Quanto maior for o cabedal da ciência tanto melhor. É muito importante trabalhar com alegria. espalham demasiado: o contentarse com pouco. nenhuma psicologia racional condiz mais com os resultados da psicologia experimental e das ciências anexas. no entanto sempre direi a quem se decide pela ciência comparada. que o tomismo é arca salvadora capaz de manter incólumes os espíritos no dilúvio das doutrinas. A ciência é conhecimento pelas causas. Em seguida. Nenhuma energia se desdobra muito tempo se não for estimulada pela dificuldade crescente e sustida pelo interesse. A ciência consiste mais em profundidade do que em superfície. há um perigo que espreita os espíritos que se. à constituição do real e da inteligência.

. com um olhar de simpatia que também é homenagem à verdade. mas é preciso apelar de novo para a especialidade. se se não quer patinhar no mesmo sítio. mas com o intuito de chegar a fazer alguma coisa. medi a tarefa: após alguns tenteios inevitáveis. Concluí daqui a obrigação de o trabalhador intelectual se resolver a praticar os sacrifícios necessários. um homem superior. que tudo vos é possível. Por outras palavras. Além disso. É preciso descartar a especialidade na medida em que se trata de formar um homem culto e. é urgente. Todos os abismos se assemelham e todos os fundamentos comunicam entre si. Cada qual tem uma obra a realizar na vida. dela deriva uma grande dignidade. por vos terdes querido substituir a todos.40 crescente. de pequenos trabalhos. é o que as sabe só a meias. A nossa acção estende-se ainda ao que não fazemos: fá-lo Deus. se só se pensa em cavar no centro. Custa muito dizer: tomando por um caminho. este resto em toda a sua extensão tem o benefício da viagem para as profundidades. lançar-se a uma tarefa precisa. a dignidade do homem que permanece na sua lei e desempenha a sua missão. Examinado o conjunto. deixai-o a Deus. é preciso abeirar-se da terra largamente para terminar nas profundidades. Não julgueis. Desde que se conhece a fundo alguma coisa. contanto que não se ignore inteiramente o resto. fazem-no nossos irmãos. diminuímo-nos como homens. quando se trata de ser um homem que exerce uma função. mas fazemos parte dum todo e disso nos honramos. O que não for da vossa vocação. naquilo que o tempo e a prudência vos subtraem. limitada. tudo atrai e seduz o espírito generoso. mas há a morte. mas esta faz parte da virtude. o contacto das amplidões. e nós vivemos com eles na unidade do amor. há as necessidades do espírito e das coisas. mas concentrai-vos para aproveitar o principal do tempo e das forças. portanto. à luz dos princípios fundamentais. é preciso compreender tudo. sim. deve aplicar-se a ela com coragem e deixar a outrem o que a Providência lhe reserva. Medi as forças. Somos afinal bem pouca coisa. Dizíamos: é preciso entrar em diversas vias para ter o sentimento dos encontros. é forçoso submeter-se e contentar-se. Tende. supondo que nos lançamos com a mesma energia persistente a todos os ramos do saber. Não vos envergonheis de ignorar o que não poderíeis saber senão dispersando-vos. Feito isto. Tudo é interessante. Sabei o que decidistes saber: não percais de vista o resto. sabei limitar-vos. julgado nas suas relações e unidade. humildade. proporcionada às próprias forças e aplicar-se a ela de alma e coração. tenho que abandonar mil outros. visando a ser gigantes. O meio-sábio não é só o que sabe a metade das coisas. o aperto aparente aproveita em todo o espaço. Que fazer? Por querer ser legião. ter-nos-emos esquecido de ser alguém. depressa nos encontraremos perante uma tarefa impossível. e se propõe um rendimento útil. que disso terá cuidado. IV – Os sacrifícios necessários. Não deserteis de vós. se preciso for. o fundo do orifício mostra todo o céu. As nossas proposições de há pouco encontram aqui a recíproca. porque isso marca a nossa limitação. guardai por meio de leituras e. o benefício das culturas primeiras. no que diz respeito ao herói destas páginas nas. duma investigação laboriosa.

a figuração daquela verdade a que dedicou o seu culto. <<Tu. esses velhos sábios que sufocam debaixo das honras. por declive rápido. Saber. esmagados de exigências. Quem não conhece os <<jarrões>> ou os <<bonzos>>. cumpre indicar o espírito que deve animar o trabalhador. quando já decrépito: <<Só pinta falsos quadros de Henner>>. anteriormente a qualquer modalidade de aplicação. é eterna criança. mas precisamos de estar preparados para ele ou então há que renunciar a vida de estudo. nada se consegue. mais nos devemos precatar contra esta tentação. cada dia. Disse Bossuet: <<O espírito do homem pode chegar ao infinito. A inteligência assemelha-se à criança. só a preguiça põe limites à sua sabedoria e às suas invenções>>. ao Deus da verdade: <<Sinto-me devorado pelo zelo da tua casa>>. Enquanto vive curvado sobre a mesa de trabalho. executar e perfazer. mas para logo perdem o sentimento do seu vácuo. em face da verdade. mas o dito . como de apetite. Pelo contrário. não é senão o silvado dos nossos defeitos e negligências sensuais. na medida do possível. o homem de estudo há-de estar sempre à escuta da verdade. buscar.O espírito do trabalho I – O ardor da investigação. oh Deus. sem energia. e serve-se dessa curiosidade. a tenacidade pode levar-nos além dos limites previstos pelos nossos sonhos. Começam a trabalhar com afinco. Não é ele uma graça? O inimigo capital do saber é a indolência. saber de novo e recomeçar para buscar ainda mais. envia os seus profetas. livros. esta preguiça original que evita o esforço e tenta caprichosamente. Dizia-se do pintor Henner. escreve Leonardo de Vinci nas suas notas. O espírito é como o aeroplano que só se mantém nas alturas. do mesmo modo que o avarento só pensa em amontoar. deixar sem solução nenhum dos problemas que se nos põem no decurso do trabalho. Não subscrevo este parecer. projectar e executar. as mais das vezes. Portanto. vendes os bens aos homens pelo preço do esforço>>. O bom educador procura satisfazer essa fecunda inquietação. <<Tira sempre as dúvidas>>. o Espírito sopra nele. – Tomamos por barreira o que.41 CAPÍTULO VI . homens de reputação consagrada. Um espírito activo anda constantemente à cata de alguma verdade que se lhe afigure. nem sem conclusão apropriada nenhum dos nossos inquéritos. mas volta depressa a um automatismo negligente. não deixe escapar nada porque este espírito da verdade. quantas demoras e desfalecimentos! O hábito do esforço aproxima estas tiradas e conduz da concepção à conclusão. senão que reputa todo o adquirido como simples ponto de partida. um espírito de zelo. Ignoramos até onde vai a plasticidade e o entusiasmo da inteligência. Entre conceber e projectar. Ele próprio foi testemunha disso. para alimentar solidamente o organismo espiritual em via de formação. A alma não envelhece. em cujos lábios pairam de contínuo os porquês. Um martírio! Talvez. uma vez por outra. O intelectual sincero diz. homens. para a subida e descida dos anjos que nos visitam. Quantos que se servem dum leve biombo para ocultarem aos outros e a si próprios uma vasta ignorância! Mas uma vocação real não se satisfaz com tão pouco. Quanto mais avançam os anos. são no entanto puras sombras do que foram. nos vários momentos. e que perdem em representação o tempo outrora dedicado a trabalhos de investigação? Melhor apetrechados. acontecimentos: que a alma atenda. Não pensam que estamos sempre vazios daquilo que não temos e que num campo de descoberta ilimitado. Uma vez determinado o campo do trabalho. porque. nunca podemos depor a enxada. recomenda S. Tomás ao seu discípulo. A quem pretende alardear de erudito ou auferir qualquer lucro basta um pequeno sortido de pensamentos. em virtude da nossa constituição. encarregados da sua educação permanente não devemos. O homem forte ergue diante de si a escada de Jacó. cresce sempre. considerando qualquer impulso vigoroso e continuado um autêntico martírio. alguma arrancada. coisas. e que é. como a graça. já não produzem. se avançar com toda a força da hélice. nisto se resume a vida do homem consagrado à verdade. Certos espíritos contentam-se depressa com uma tintura de ciência. muitas vezes passa e não volta. revela-se talvez fora.

a tenacidade em trilhar o mesmo caminho e a persistência em o retomar. Nesse caso. Seja o vosso espírito lupa. os astros brilham. Nada mais funesto do que a dispersão. permitem-lhe . para tomar balanço. É incrível o que assim se acumula sem agitações que só desgastam. ambicionando entrar no mar que por ela espera lá em baixo. seguidas de repousos oportunos. A criação. É preciso buscar sempre. talvez também por motivos acessórios. Pelo contrário. recomeça. desanima. não avança. Quando se estuda um assunto. e também a sua impotência: tenha. Não quer dizer que se não possam ter vários trabalhos entre mãos: é até uma necessidade. que tacteia e envereda sucessivamente por caminhos diversos. fazê-la no tempo devido. O viajante. para nos corrigirmos. O autêntico pensador aplica-se ao trabalho com disposições diferentes. É preciso deixar cada coisa a si própria. sempre com ânimo redobrado. A morte o limitará.42 é cruel e temível para todos aqueles a quem possa ferir. deveria sempre. Os vaivéns nunca triunfaram. em razão da unidade da verdade e da importância de não perder de vista os seus elementos. a coragem de fugir das fronteiras da preguiça. que a prendem às demais. sempre esforçar-se. todas as coisas. alcança o adversário. consagrar-lhe a plenitude dos recursos de que se dispõe e. ponham-se os outros de parte. em todos os andares. ao menos. reunir todas as condições dela. depois de completa a primeira fase da acção. graças a uma atenção convergente. não pode circunscrever por si as suas formas ideais. voa. torneando os obstáculos. de ideia absorvente. concentrando-a pela interposição duma lupa. e aonde talvez chegará. para repousarmos dum esforço por meio doutro esforço. volte-se a vossa alma exclusivamente para o que se fixou em vós no estado de ideia dominante. porque. e só se passe a outro depois de esgotado o primeiro. esfalfa-se. uma vez levada a cabo. Acresce que esta lei de toda a actividade se reforça no domínio do pensamento puro. Não dissimulemos que também se verifica esta fixação prematura nalguns jovens que. é o meio de produzir ao máximo e ao mesmo tempo de guardar o frescor do pensamento e a coragem intacta. O herói não se fixa nem se limita. Este espírito de zelo deve conciliar-se com a concentração recomendada por todos os homens de pensamento profundo. é aspiração contínua: o espírito. sendo preciso. como nem as formas naturais que naquelas se reflectem. Difundir a luz é enfraquecêla em proporções geometricamente crescentes. um ardor. convém interromper e permutar as ocupações. A alma do verdadeiro trabalhador. que se desdobra diante de nós. os laços. enchendo os vácuos. Seriai os trabalhos a fim de vos poderdes dar inteiramente a eles. a árvore silvestre floresce. a água corre. um entusiasmo. Pelo contrário. na medida do possível o desfalecimento da nossa força. é o de todos os grandes homens activos. Os próprios génios só se engrandeceram pela concentração das energias sobre o ponto que tinham em vista. Cada ideia isolada comporta riqueza infinita. manter-se sossegada e nobre como a assembleia das nuvens na fímbria do Horizonte. Um Guynemer considera uma vitória como ensaio para outra vitória. requere o infinito do desejo para corrigir. isto é. para que deles brote a claridade. em potência. empolga-o o instinto de conquistador. aplique-se a cada trabalho em particular o que dizemos da concentração. uma inspiração heróica. o que era aquecido pela livre irradiação arde agora no foco onde o ardor se ateia. galgando as encostas. passar tranquilamente a outra. porém. Obedecendo a leis da natureza. de sorte que haja entre eles solução de continuidade. volta-se contra novo adversário e só na morte vê o termo da carreira. para melhor nos apreciarmos e. entre duas reflexões sobre o obstáculo. Era esse o segredo de Napoleão. II – A concentração. O infinito. Empreendei cada tarefa como se fosse a única. a despeito das suas preocupações e multiplicidade sucessiva. impando por uma invenção real ou aparente a exploram à saciedade e se comprazem em estirar o fio cada vez mais ténue dos cuidados que seriam melhor empregados em fundir uma barra ou cunhar uma medalha. que é.

mas. a intelecção vai de Deus a Deus através de nós. que se não dá. . a um espírito culto e humildade as luzes acodem de todas as partes e apegam-se a ele como a aurora se apega aos cumes das montanhas. sem humildade. dão matéria suficiente para uma produção genial. Abramos antes os olhos com humildade para que o nosso Espírito inspirador veja. O valor não está na multiplicidade. não vos canseis de cultivar nem de semear. Bem dirigir as investigações e bem centrar os trabalhos.43 regenerar-se de contínuo nesse manancial. e nos mostram as leis que o regem. III – A submissão à verdade. vive em estado de cepticismo e o céptico encontra-se pouco armado para a verdade. ou todo o ser. mas a reacção vital não deve mudar o teor das aquisições. esta atracção. em nós. visto que só as faz nossas. permitindo ao investigador a criação original. Uma grande cultural que tome posse dum espírito. a humildade é o olhar que lê no livro da vida e no livro do universo. Nisto como em todo o mais. o inimigo de Deus é a vontade própria. Afinal. Pouco a pouco. Esta submissão supõe a humildade. Com muito maior razão. à disciplina da verdade. foi a arte dos grandes homens. duma empresa. não o encontrará. porém. enquanto a verdade irradia. todos os passos dum período definido. A inteligência. Há. converte-se em manancial de mentiras. e quem diz simpatia diz dom. Pelo contrário. não disperseis o olhar. Pelo pensamento encontramos alguma coisa. o nosso eu. dum sentimento da vida em busca de formas e de aplicações. digo fortes. dizendo: é Deus que toma. Obediência pronta requer de nós a verdade. Alguns factos bem seleccionados ou algumas ideias fortes. algo de mais importante: a necessidade de nos submetermos. Poder-se-ia definir o estudo. mas nas relações de alguns elementos que governam todo o caso. é o que. Deus é a causa primeira e o fim último da intelecção: na passagem. dizia Bergson: <<O filósofo digno de tal nome nunca afirmou se não uma só coisa>>. a nossa força intelectual é proporcional à nossa receptividade. pois um só germe vale tanto como o campo inteiro. consciência da sua obra. Todas as obras dum espírito bem constituído deveriam ser desenvolvimentos dum pensamento único. Não quero dizer que não haja motivo para reagir. Cavar sempre o mesmo orifício: eis o meio de descer em profundidade e de roubar à terra os seus segredos. tiram-se a limpo as ligações essenciais. o orgulho é o pai das aberrações e das criações factícias. Esta é a estrita condição do seu convívio. a obra em relevo e de sólido alcance. com suas loucas pretensões. lançai à terra a semente dum pensamento fecundo. Conviria relembrar o que dissemos da necessidade das virtudes para o reinado da inteligência. Como toda acção. A descoberta é o resultado da simpatia. pode apartála dessa direcção. porque as virtudes têm por base a exclusão da personalidade orgulhosa. a exemplo deles. duma sessão de estudo deveriam orientar-se e concentrar-se em obediência a uma estrita disciplina. ao mesmo tempo que à disciplina do trabalho. Um dos efeitos desta concentração será a escolha no meio da massa confusa que ordinariamente se nos antolha por ocasião das primeiras pesquisas. o intelecto é potência passiva. que repugna à ordem. depois a semente da nova planta. exercida de fora. Levemos a esta solene entrevista uma alma respeitadora. não a fazemos. A verdade só se entrega a quem primeiro se despoja e se decide a contentar-se exclusivamente com ela. Enquanto se descobrem estas dependências iluminadoras. devemos tentar para nos realizarmos totalmente. Não há muito. Intelectualmente. e é nisto que sobretudo consiste o segredo das obras grandiosas. praticamos um culto ao qual o Deus interior e o Deus universal responderão. revelando a sua unidade e estabelecendo sociedade com a nossa alma. e não se submeter de antemão é esquivar-se ao seu encontro. sem alteração criminosa. pela coerência e concatenação mais do que pelo teor. cria nele novos estímulos e aumenta-lhe a capacidade. quem recusa submeter-se ao pensamento. Cedendo à verdade e exprimindo-a o melhor possível. segurai o fio que vos guia através do labirinto.

nem Bossuet. Ganhareis mais em pouco tempo. mas sabemos que a passividade é a sua lei primeira. o que no próprio génio interessa. de conventículo a conventículo. o despertar da Esposa. mas confiai à memória tudo o que se disser de bom>>. mas a cera. quando compreender é tornar-se outro e sofrer uma feliz invasão. experimentais o desejo de sair para longe. transporta-vos para fora de vós. os vossos pensamentos abstractos. No espírito. não o que se vê. devem os outros calar-se e escutar. lect. de acordo com outro conselho de S. 9. Estais então muito metido convosco. por que motivo terá o espírito tanta dificuldade em vergar o espírito? Lemos na Primeira Epístola aos Coríntios (cap. rejeita a doutrina de outrem. se as leis do mundo estão sujeitas à matéria. sentiram a inspiração.. Conhecemos mal a constituição do espírito. ao mesmo tempo que se procura compreender a maneira como tudo se encadeia e se constrói>>. tanto menos importa saber donde vem. Tomás insere nos Dezasseis Preceitos: <<Não repares donde vêm os ensinamentos. <<Senhor. Ponde-vos nas mãos de Deus e obedecei-lhe. algum dia. Harvey toda a humanidade de mais de quarenta anos. 14) que. além da humildade precisa de certa passividade de atitude que corresponde à natureza do espírito e da inspiração. tende os outros por superiores>> (Fil. deixar de pensar que se pensa. que mais ou menos as esquece. de capelinha a capelinha. No pensamento. Quanto mais preciosa for uma ideia. Em que consiste o trabalho profundo? Em deixar-se penetrar pela verdade. Pouchet a Pasteur. não é Ariosto. Para S. outras a construção. ou que existe no mundo alguma coisa além da verdade. faz que nunca saiamos de nós mesmos. Lister tem contra si a Inglaterra. o que importa não é a proveniência. e. exaltais-vos: é o nirvana da inteligência arroubada e cônscia do seu poder. de génio a génio. <<O essencial é estar em êxtase. Fazei que o vosso espírito seja. É preciso olhar para as coisas através do espírito. algo como a impressão de circular entre os astros. mas podemos verificar que ela utiliza em nós a inconsciência mais do que as iniciativas. não o desanimeis nem expulseis por uma forma de trabalho puramente artificial e exterior. são as dimensões. imitai o poeta inspirado. Erguei-vos à indiferença ( 1) In Euan. do que ruminando. Tomás. o êxtase provém do amor. Laennec opõe-se a Broussais. Sabem-no por experiência os cantores e os que. escreve o pintor Luís Dussour. Num determinado momento. 3. obrigados a receber dos homens por meio da leitura. Conhecemos ainda menos o caminho da inspiração. perdendovos. embora vivais vida interior muito intensa. um dia passado nos teus átrios vale mais do que mil>> (Ps. eis a atitude da contemplação e da produção fecunda. Procurai pensar no objecto da ciência. afogarse nela muito suavemente. mergulhar. há aquilo por que se vê. observa S.. Tomás: <<Ninguém. o orador erguido por uma vaga interior e que não sente o peso do pensamento. deslumbrados pelo fulgor divino. que meio nos não distraia do termo. 2. dos livros e do trato com eles. 83. Retardai. como a ave de rapina. Uma actividade demasiado voluntária torna a inteligência menos segura e menos receptiva. livres e escravos.c. nem Pascal. o superior é o que se encontra mais perto da verdade e por ela se deixa iluminar. longas horas. para o que é. e não no espírito. ou que se vive. Umas vezes falta o êxtase. Se porventura recebeis a visita deste espírito. Se ele se ausentar. No entanto. quanto puderdes a volta da actividade voluntária. A história das ciências está repleta das resistências de talento a talento. Avançamos através de dificuldades como cavaleiro nas trevas: mais vale fiar-nos do cavalo do que puxar indiscretamente pela rédea. Ioan. mas de olhos atentos sobre a presa. Aqui falamos do primeiro. só sois verdadeiramente o que sois. não o sinete. II).44 O pensador. A propósito do quê. como. para que a linha da verdade se mantenha pura. quando falamos. quando vos dais a uma realidade que vos transcenda. por mais sábio que se julgue. Dir-se-ia que a verdade é demasiado luxuriante e que se torna urgente impedi-la de pulular. se ao menor dos fiéis em oração for revelada alguma coisa. nem Leibniz. 3). Sentis-vos a um tempo desdobrados e agrilhoados. adoptai a regra de ouro que S. por pequeno que seja>>(1). . Pois bem. não em vós. é a verdade. Paulo: <<Em toda a humildade. na direcção do objecto dos vossos sonhos: amar a verdade com tanto ardor que nela vos concentreis e vos transporteis assim para o universal. apressai a volta com preces humildes. falamos para fora e não para dentro de nós. para o seio das verdades permanentes. Todavia.

mais vale reflectir. Deixar-se-á o trabalhador iludir pelo seu próprio estratagema? Isolo uma peça dum mecanismo. sempre que um homem ensina? Não é ele a imagem de Deus? Imagem por vezes deformada. IV – Alargamentos. A especialidade ou análise pode ser um método. Só a raros privilegiados. De boamente imaginamos saber tudo. sem o quê a verdade ficará alterada. Porque não nos sentiremos na presença de Deus. e exíguo o caso que vos retém. a inspiração está em toda a parte. Um problema nunca pode encerrar-se em si mesmo. não com o intuito de circunscrever o estudo. visto que concentrar e alargar constituem um só movimento.45 das fontes. até mesmo o centro de tudo. Não nos enfeudemos a ninguém. Por mais restrita que seja a pesquisa. não situeis muito em baixo o ponto de mira. Por onde passou o eterno semeador colhamos a messe. não pode ser estudado à parte. é unir-se ao universo e a si próprio. porque a inteligibilidade por ele invocada provém de mananciais que o transcendem. Enfim. Na mais pobre inteligência existe um reflexo da Sabedoria infinita. mais além. chamo alargamento o sentimento de ser este ponto o centro dum vasto conjunto. Isolemos. sofre e põe condições. o pensamento deve repô-la no seu lugar. Cada objecto de estudo pertence a um todo onde produz e recebe acção. a segunda. quando pinta uma árvore. vê-la accionar no todo. em razão da sua natureza. à nossa fraqueza. quando trabalhais. mas que. há pouco. trasborda sempre. quando esquadrinhais os rebentos da verdade e não apouqueis as questões sublimes. mas frequentemente imagem autêntica. Onde quer que o Deus de verdade deixou vestígios de si. juntemos ao ardor. Portanto. O nosso espírito revela dupla tendência: unificar as minudências para obter uma síntese compreensiva. não esquece o Horizonte. embora deformada. perder na minudência o sentimento da unidade. Chamo concentração a convergência da atenção para um ponto. e a recompense que daí se aufere é tão ampla que a avareza se apossaria dela. também o não é negar crédito a quem quer que seja. mas enquanto a tenho nas mãos e examino. Perguntar por que preço se opera a restauração e em que medida permanece a rectidão. depois. dispensamos atenção e só eles nos servem de inspiradores. como a sístole e a diástole. para melhor penetrar. É mister equilibrar estas duas tendências. A primeira corresponde ao fim da ciência. seria trabalho mais fecundo do que encolher os ombros e oferecer tenaz resistência. homens ou livros. Corot. à submissão um esforço de alargamento que comunica. apressemo-nos a recolher. valor de algum modo total. mas também não desprezemos ninguém. para enobrecer o espírito do trabalho. Estudar uma coisa é evocar gradualmente o sentimento de todas as outras e da sua solidariedade. entre um objecto particular e Deus interpõem-se as leis do mundo. A verdade é una. Só a verdade tem direito. a venerar religiosamente e a utilizar com diligência. em continuidade com este ténue filete. Velasquez situa os seus Meninos . porque na esfera imensa o <<centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma>>. e a humildade sincera lá o encontra. o Espírito sopra nos vales como nos cumes. o universal. cuja amplidão vai crescendo desde a norma aplicada a esse objecto até ao Axioma eterno. Falámos. a fim de a considerar mais detidamente. Vivei em contacto com os grandes segredos. no estro dos grandes seres. e tem-no onde quer que se mostre. nunca a deformação é total. captai a luz que se filtra aqui e ali. inunda os universos e volta à Fonte pura. desde que apresente os seus títulos. não deve ser um espírito. Vem aqui a propósito o que dissemos da ciência comparada. Pensai do alto. ambos. e se não é oportuno acreditar em todos. usamos. tudo depende da Verdade suprema. Sujeito e objecto visam. e só por distracção atendemos a vozes estranhas. na realidade. Guardai a alma dum vidente. É inútil opor-se. ser capazes de tudo. Nisso reside o segredo da liberdade. a cada estudo ou a cada produção. de concentração. para melhor compreender. Ora. à concentração. é imiscuir-se no concerto dos seres. Mas o espírito do homem também é uno e não pode satisfazerse com a mentira das especialidades consideradas como divisão da verdade e da beleza em fracções esparsas. se não se julgasse melhor inspirada aferrolhando os seus cofres. estão realmente em jogo o homem e o universo.

é preciso sentir toda a sua extensão e esfericidade. que se apossa de nós em face de uma verdade nova. . por assim dizer. porque o sofrimento do mistério do Ser é que faz deste prodigioso talento um génio que assombra a alma e encanta os olhos. ao que se projecta para além da tela. captei o mar e os astros. poderá parecer mesquinha àquele a quem deslumbrava. falseiam sempre a resposta não sabendo que ela é parcial. e esta opõe-se à vocação intelectual. ajunta Cláudio Bernard. produz por si este fruto. se a questão é interessante. a saber o que lhes não pertence. o escritor. mas os seus resultados afiguram-se-lhes pequenos. que exigimos. fazem pensar que nada é estranho aos mais profundos pensamentos do homem. um só pensamento. evocando-se unicamente a si própria. Deixar-se amarrar por estreitas fórmulas e petrificar o espirito em moldes livrescos é sinal de inferioridade. se encontram fora do seu ambiente e de bom grado reduziriam os outros à categoria de alunos de instrução primaria. em plena vida. Mas o espírito limitado crê possuir o cosmos e a sua fortuna. Por isso é preciso lê-los. Mais tarde. A letra mata: oxalá a leitura e o estudo sejam espírito e vida. Fugi dos espíritos que não saem da escolaridade e são escravos do trabalho em vez de o propulsarem em plena luz. deve-se pensar sobretudo no quadro que se não pinta. com um balde de água na mão. Quem julga compreender tudo. Pondo o dedo sobre um ponto do mapa-múndi. As portas do infinito mantêm-se sempre abertas. O genuíno tesouro dum texto oculta-se nas entrelinhas. O génio consiste em ver no trabalho o que lá não está. e a eles e a todos. O artista. Segundo uma regra de pintura. através da natureza. Portanto. mas é comum a eles e a outros. não lhe poderei dar respostas>>. Reflectindo seriamente. devemos sentir-nos no centro de tudo. dai aos assuntos restritos o que constitui a sua sólida substância. É o que sucede com Deus. Pode afirmar-se da verdade plena o que de Deus dizia S. Possuem visão larga. graças ao qual cada coisa alcança a sua suprema junção e todas a sua coesão. diríamos com mais verdade em pleno Ser. perde vida. O que há de mais precioso em cada coisa é o que se não exprime. mas com espírito amplo. alma de toda investigação. V – O senso do mistério. Agostinho: <<se compreendes. mesmo depois do nosso esforço máximo e depois que a verdade parece sorrir-nos. e <<para compreender a fundo uma só coisa. Vê-se o mundo sob novo prisma. clama: ora vede. prova que nada compreende. poderemos acaso encontrar melhor modelo para guiar de longe a nossa pobre ciência? O espírito de contemplação e de oração. O ideal seria abrir no espírito uma via comum de pensamentos que se penetrassem e constituíssem. convidados por inesgotáveis riquezas e possibilidades. Toda a questão é enigma que a natureza propõe e. atender ao carácter. O senso do mistério deve permanecer. o orador. Biot respondeu: <<é inútil. nem livresco. ilude o sentimento do infinito. diante dum largo Horizonte. e nos livros o que eles não são capazes de dizer. a propósito do mais insignificante pormenor. em estado de pensamento e de emoção universais. ao valor geral do assunto. Os grandes homens sofrem esta secura dos pensamentos. veremos que o deslumbramento. como a luz é comum às cores e à sua distribuição nos seres. Adoptando o ponto de vista divino. afirma Pascal. podes estar certo que não é isso>>. em vez de os diminuir e esvaziar. depende deste senso das perspectives indefinidas e dos lagos universais. <<Ignoramos tudo>>. sentese palpitar o todo ao contacto do fragmento encontrado. Idiotas ou eternas crianças: eis o nome que merecem esses pretensos trabalhadores que. em qualquer região elevada. Deus: ora o que Deus propõe. Este só passo no sentido da verdade é esteira de luz. aproxima muito naturalmente deste estado. Os que se contentam com respostas provisórias a problemas que na realidade se põem.46 em pleno Escurial. Interpelado por alguém nestes termos: <<vou pôr-vos uma questão interessante>>. esta ideia trazida aquém dos confins em que representava o papel de precursor. Falamos sempre do todo. só Deus o pode resolver. deve pôr-se em estado de devaneio universal. <<seria preciso compreendê-las todas>>. com espírito não literal. estas sugerem.

Um carácter nobre sabe que as nossas luzes são apenas degraus de sombra por onde ascendemos à claridade inacessível. Isso não é colocá-lo na obscuridade. mas um pouco desta comoção é o melhor correctivo para o orgulho balofo e para as pretensões desconcertantes.47 S. Balbuciamos e o enigma do mundo é perfeito. que se não vê. e as relações dos seres mergulham nesta noite em que penetro as apalpadelas. enquanto guardamos a esperança de lá chegar. a que melhor sustém os reflexos da nossa noite astral. Sentir sussurrar em si todo o ser e toda a duração. julgando que tudo esta dito e que só nos falta aprender. cercar-se das melhores garantias para a aquisição da verdade. porque as luzes longínquas atraem-nos. É também estímulo para o trabalho. Tudo depende de tudo. já no fim da vida. classificar alguns factos: só estuda a valer quem põe este pouco debaixo dos auspícios do que ainda ignora. a luz do que se conhece. dominado pelo sentimento do mistério que tudo envolve. porque a luz. em todas as coisas. Tomás. a despeito do seu silêncio. respondia a Frei Reginaldo que o inicitava a escrever: <<Reginaldo. trabalha-se num círculo reduzido e recai-se na imobilidade. tudo o que escrevo me parece palha>>. Estudar é precisar algumas condições. uma vez mais. Pelo contrário. como a unidade é a fonte do número e a imobilidade o segredo das corridas vertiginosas. que é recompensa. é o segredo precursor do grande grito que faz vibrar a alma inundada de luz. O mistério é. chamá-los a dar testemunho é. . Não alimentemos a presunção de desejar que chegue depressa este elevado desespero. não posso mais.

a ânsia. porque produzir é um resultado. a preguiça disfarçada que prefere ao esforço a frequentação fácil. e só aprende. é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma. o trabalho requer longa preparação. por comentários. Em 1921. a intoxicação por excesso de nutrição espiritual. torna-o incapaz de reflexão e concentração e. não com paixão. Paulo Souday também o sabia. ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. Ide antes dar um passeio. Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos. a informação. onde cada qual encontra no vizinho a sugestão. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras. Por tomos. A leitura desordenada não alimenta. de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual. em matéria árdua e complexa. espiritualmente. é necessidade primordial que o homem de estudo não deve esquecer. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça. e não de repente>>. pode compararse o mundo intelectual a uma sala de redacção ou repartição de negócios. e escraviza-o às imagens mentais. é tara. O mesmo sucede com a leitura: é questão. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. manter o horizonte aberto diante de nós. sabe o valor daquela crítica e.A preparação do trabalho A. Paulo Souday que. Proscrevemos. de produção. Portanto. agarrou-se a este preceito: <<lede pouco>>. se leu o jornal. não de gozar e de se embriagar. Nunca pensamos isoladamente: pensamos em sociedade. se queria vingar de mim nalguma coisa. em estado de cefalalgia. Graças à leitura. Ora. – A LEITURA I – Ler pouco. organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas. depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. se assim se pode dizer. lê com calma e suavidade somente o que quer reter. praticar a ciência comparada. pelo visto. A <<paixão>> da leitura. Leia-se com inteligência. sem dúvida. no jornal Le Temps. diz S. retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias. O leitor. o ânimo de que carece.Tomás. Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros. distrair-vos. esse encontra-se. é preciso muito absolutamente. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Eu não aconselho a restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação. mais de governar e administrar bem a casa. entorpece o espírito. saber ler e utilizar as leituras. ler no livro imenso da natureza. ao passo que o trabalhador. a leitura é o meio universal para aprender.48 CAPITULO VII . só retém o que deve servir. por capítulos. Queremos formar um espírito largo. quem primeiro atravessou o simples e o fácil: <<devemos correr para o mar por meio dos regatos. trabalhamos com os trabalhadores do passado e do presente. Primeira regra: lede pouco. em colaboração imensa. Aqui. A série de excitações assim provocadas arruina as energias. porque a obra é vasta. o auxílio. por conseguinte. a paixão de ler. sim. como a constante vibração estraga o aço. senhor de si. e é a preparação próxima ou remota para toda a produção. exterioriza-o no seu interior. a critica. mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas. respirar o ar fresco. o que não se consegue sem muita leitura. . e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo.

pensamentos que serão causa de salvação ou de ruína. é já alguma coisa. Ora estas são pouco numerosas. nenhuma corrente. mas é tão reduzido o conteúdo! E seria tão fácil informar-se dele. para não devorar o silêncio. 1733. Convém saber o que os jornais contêm. sem necessidade de se instalar em intermináveis sessões da preguiça! Em todo o caso. na verdade. e lede pouco. 244. quereis ser do vosso tempo. diluem-se. Ter conselheiros dedicados e sabedores. Fala-se da necessidade de estar <<ao corrente>>. Abri. para com o autor. Admirar de alma e coração o que merece ser admirado. não tenhais a superstição da novidade. e convém aproveitar. mas que em si é tão banal como o escorregar por uma encosta ou o escalar uma montanha. Não acreditar no reclamo interesseiro nem no chamariz dos títulos.49 Depois da actividade tomada voluntariamente. é mister que nele nos apoiemos para comungar verdadeiramente com a inteligência do homem. é fácil. Em resumo: podendo recolher-vos. vos conduzirá aonde quereis chegar. Paris. II – Escolher. Nestas observações está incluído o principio de selecção. longe das pequenas individualidades balbuciantes ou bulhentas. o caminho. um irmão. em vez de vos levar para diante. . o demónio acorda os maus pensamentos em nós latentes>>(1). que encerram as verdades eternas. Quanto aos jornais. Para avançar. menos ainda desinteressar-se do que se escreve na esfera da sua especialidade. ou antes o fundo permanente é o melhor.II. em vez de vos entregardes a um automatismo que de intelectual só tem a matéria. que provavelmente são mal pensadas. Um ou outro de quando em quando por distracção e para não perder de vista alguma glória literária. escreve Nicole. por si só. agitam e desorientam os pensamentos. ou então contradizem-se. não vá a <<corrente>> arrastar todas as disponibilidades laboriosas e. Contudo. porém. verificamos serem raras as descobertas do pensamento. e não enveredeis por todas as sendas que se vos oferecem. organizai a distracção voluntária. Voltemos. ( 1) Nicole. por vós próprios. Haveis de ler. deveis seleccionar nos livros. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais. de noções positivas em evolução ou em crescimento. Nem tudo é igual. Não falemos do veneno dos romances. para escolher o que há-de nutrir o espírito e servir de semente dos pensamentos. A restrição deve afectar sobretudo as leituras menos substanciais e menos sérias. excepto nos momentos de distracção. o que se escreve de bem. sede antes. t. O que hoje lemos com indiferença despertará mais tarde e apresentar-nos-á. o que respeita ao fim em vista. ponde de parte a leitura. essais de morale contenus en divers traité. e decerto um intelectual não pode ignorar o género humano. Deus sugere os bons pensamentos para nos salvar. <<Muito discernimento é preciso. cuidado. amigo.elle Bertin) quem diz: <<só é novo aquilo que se esqueceu>>. não deveis ser um <<tipo arcaico>>. é urgente seleccionar: seleccionar os livros e seleccionar nos livros. gostai dos livros eternos. lede unicamente. sem prevenção. Seleccionar os livros. A maior parte dos escritores são apenas editores. Em seguida. pág. lereis os autores modernos. Desdenhar das obras mal feitas. o que é outra maneira de se repetirem. Portanto. é preciso remar. Ler só obras de primeira mão. em matéria de leituras. Olhando de perto. defendei-vos deles tanto mais energicamente quanto mais constantes e indiscretos são os seus ataques. Nem por isso haveis de assumir atitude de juiz. Dessedentar-se só nas fontes. É uma comerciante de modas (M. mas que seja pura concessão porque a maior parte dos romances abalam e não repousam. imobilizar-vos. sem contudo prodigar a admiração. porém. onde brilham as ideias mestras. e recorrer aos jornais só quando lhe apontem algum artigo notável ou acontecimento grave. e amigo inferior. o fundo antigo. Os livros repetem-se. ao assunto. Frequentar apenas o escol dos pensadores. O trabalhador consciencioso deveria contentar-se com a crónica semanal ou bimensal duma Revista. sem que nisso reparemos. e tanto mais quanto precisardes de informações. há horas mais adaptadas para a corrida às notícias do que a hora do trabalho.

as leituras de estímulo requerem ardor. três ou quatro para a especialidade e outros tantos para cada problema que surja. contudo. depois de Aristóteles. Estes géneros de leitura devem utilizar as nossas observações. precisamos mais de crer nos autores consultados do que criticá-los e. é certo. e só com isso já será diferente a atitude de espírito. Um espírito nobre não consente que o encadeiem. leituras de ocasião. e a corrupção do homem imiscui-se na maior parte das suas acções. e como ela consiste na ignorância e na concupiscência. permaneceis responsável: reservaivos o bastante para guardar a alma e. A escolha dum pai intelectual é negócio muito sério. lemos para nos animarmos a trabalhar e praticar o bem. lemos por motivo de distracção. Quer se trate da primeira formação. um amor do bem servirá de resguardo. Lemos para nos formarmos e ser alguém. quase todos os livros se ressentem destes dois defeitos(1)>>. Tomás para as doutrinas superiores. é necessidade evidente que só passa despercebida aos presumidos e vaidosos. abri-lo sem orgulho. mas o aluno é-o muito menos do que o mestre. por uma vez que terá razão. enquanto se não possuem todas as normas do juízo. <<Os livros são obras dos homens. muitas vezes.. aproveitam a esta última e permitem utilizar as insuficiências. Leibniz utilizava tudo. Mas sois homem livre. cada uma apresenta também exigências particulares. pelo menos debaixo de certos aspectos. de fé provisória. durante a leitura. III – Quatro espécies de leitura. as leituras de repouso requerem liberdade. mas tem as suas ideias predilectas. Requere-se. aberto ao bem. Tomás extraiu dos hereges e dos paganizantes do seu tempo grande número de ideias. se necessário for. 246. não a titulo de formação. quer se encete o estudo de nova disciplina. sigamos o caminho por eles primeiro trilhado. leituras de repouso. de cultura geral. . o tomais por guia. Mas assim como não se aprende a arte de mandar se não obedecendo. O próprio Santo dá exemplo dessa obediência. Pelo contrário. de problema até aí descurado. Não quero dizer que nos entreguemos às cegas. As leituras de fundo requerem docilidade. Três ou quatro autores estudados a fundo para a cultura geral. de confiança. na parte de si que é filha de Deus e na qual um instinto de verdade. diz S. as leituras de ocasião requerem mestria. escutá-lo sem prevenção. Daí a necessidade de filtrar para depurar. sem sofrer de nenhuma. Sendo o livro um irmão mais velho. pede a prudência que comecemos por nos dobrar. uma dose de submissão à verdade mais do que ao escritor. que só lhe foi proveitosa. mas procurai que tudo seja bom. Uma atitude de respeito. o crédito e a relativa passividade. a obra consultada servir-lhe-á apenas de esteio. prudente e progressivo. fé ( 1) Op.cit. acomodando-os à nossa maneira de pensar. diz ainda Nicole. buscar o grão da palha. Aconselhamos S. o louco projecta sobre todas as paredes a sombra da sua fronte estreita e inerte. é quanto basta recorremos a outras fontes a título de informação. Ninguém sabe o que falta a um homem senão calculando a sua riqueza. Concretizando um pouco mais. subtrai-se vinte vezes à verdade e serra vítima das aparências. Comecemos por escolher os guias em quem confiar. O homem inteligente encontra em toda a parte inteligência. <<É preciso acreditar no professor>>. lembrai-vos que até certo ponto um livro vale o que vós valeis. leituras de estímulo ou de edificação. assim o domínio do pensamento só se obtém pela disciplina. é mister honrá-lo. pág. Quem se forma e deve adquirir quase tudo. distingo quatro espécies de leitura. e se recusa submeter-se. Tomás. Há leituras de fundo. confiar em Deus e no melhor de si. suportar-lhe os defeitos. lemos com a mira nalgum fim particular. Querer agir demasiado cedo prejudica a aquisição. e o que o fizerdes valer. que ao mestre concedem alguma coisa do que é devido à verdade. Essa atitude será mesmo diversa sob certos respeitos.50 visto que. para a defender. Ninguém é infalível. largo. o seu plano. pois quem se informa e quer utilizar não se encontra já em estado de pura passividade. Escolhei o melhor que puderdes. em vez de os aproveitar. não podemos circunscrever-nos a ele. Além disso. mas também a este último se deve dar fé. Para isso. S. e as ilusões do professor. não está em período de iniciativas.

Conheço pessoas a quem a peroração do Discurso fúnebre do Grand Condé reanimou anos seguidos. como a Escritura recomenda. nas melhores condições. parece não ter tanta importância a selecção. Alguns saboreiam histórias apimentadas ou fantásticas que os dissociam. uma penetração mais íntima aclimata-a em nós. além das regras gerais apontadas. até se fartar. em igualdade de proveito e de repouso. No que toca às leituras distractivas. tende a inteligência de ler. Cada qual tem seus gostos e o gosto. pela importância que reveste para a conduta do espírito e da vida. Lede o que agrada. consultar. Estas questões de atitude revestem suma importância. levam-nos para fora dos nossos caminhos. Leituras há que não distraem suficientemente. Tomás. devem-no ser sobretudo aqueles que só têm a desempenhar papel acessório. Ter assim. e estudar como quem consulta. a uma parábola do Evangelho. estados de alma que com ela despertam. nos livros de memórias. Quero agora falar expressamente da maneira de aproveitar o convívio com os grandes homens. relativamente. de facto. a ser homem. tem o espírito dominado pelo que pretende realizar. é perder tempo. na comédia lida em casa. que alarga o mundo e nos torna a estada nele mais nobre e mais grata. Ninguém se sacrifica por um leque. seria contra-senso querer distrair-se no tédio. tê-las à mão. outras desviam-nos. isto é. Contudo. Quem lê. o que não prejudica e. é o principal. como sucederia. Uma influência começa sempre por se reforçar. . todas as vezes que se lhes secava a inspiração. ao que é a nossa razão de ser. porque. IV – O trato com o génio. se a fascinação da leitura prejudicasse o intuito de utilização que a justificava. não mergulha na onda. como quem estuda. no domínio espiritual não resistem ao Mistério de Jesus de Pascal. é recurso incomparável. de viver alto e de fundar com os nossos semelhantes. bebe nela. mesmo quando vos distraís. a um capítulo da Imitação de Cristo. lendo a História da Filosofia Grega de Zeller: era uma distracção. em vez de as afogar nas ideias de outrem. de ter o espírito aberto aos mesmos horizontes que os seres superiores. uma só coisa repousa verdadeiramente: a alegria. a associação das ideias e dos sentimentos prende. o mesmo cordial ou o mesmo antídoto. reúna em volta de si os remédios para as doenças da alma. o que for útil de outra maneira e ajudar a completar-vos. Muitos pensadores encontram alívio e atractivo nas histórias de viagens e explorações. aqui. deveríamos preparar-nos para ela pela oração. Se os livros são servos. outras distraem demasiado. na crítica de arte. Observe-se cada qual. nos momentos de depressão intelectual ou espiritual. autores favoritos. Outros. com os nossos inspiradores. que renova para cada um de nós a glória de ser homem. não a tem. com a mira num trabalho. Pensamos muito pouco no privilégio da solidariedade que multiplica a utilidade de viver. Segundo S. o hábito aviva-a. embora depois tenda a gastar-se com o tempo. já que sois consagrado. a tal página. não é indiferente distrair-se deste ou daquele modo. Sei de alguém que se distraía de trabalhos árduos. como os objectos de uso necessário à vida.51 compatível com a liberdade de seguir ou de rejeitar as conclusões a que ele chega. na poesia. Nas leituras de estímulo. reforça as próprias ideias com o que de fora lhe advém. o que não entusiasma demasiado. do mesmo modo que nos recolhermos e nos pomos em estado de recolhimento quando nos abeiramos duma grande personagem ou dum Santo. prestes para inocularem no espírito a boa seiva. Tomás. e sai da leitura enriquecido e não despojado. e não hesite em repetir. O convívio com os génios é uma das graças de predilecção que Deus concede aos pensadores modestos. repare nos seus resultados. mas insuficiente. é ficar sozinho consigo e perder o beneficio que um iniciador vos oferece. outros entregam-se a tentações que os fazem desanimar e lhes prejudicam a alma. Aquilo que uma vez deu bom resultado d provável que o torne a dar segunda vez. a selecção. deve apelar para a experiência de cada qual. Tudo isto é mau. guarda a liberdade de movimentos. a ornar o espírito. a uma Oração de S. quando o fim em vista é voltar. com prejuízo do recolhimento que se lhes deve seguir. fica na margem. no sentido etimológico. páginas reconfortantes.

Hugo). Relembrar. a Kepler. a Alma das almas. eternizado pelo nosso culto e assiduidade. fulgura a beleza. socorrem-nos. no manancial de toda a inspiração. dá mostras de simplicidade encantadora. Leibniz. escreveu Rodin. Movíamo-nos em região baixa: dum golpe. pois que. É sempre estreita a sociedade das inteligências: a leitura alarga-a: volvemos um olhar de súplica para a página genial e somos atendidos. podereis acaso prescindir de Sócrates. e já é benefício enorme a possibilidade de ascensão que nos aparta das futilidades. Pascal? Se sois filósofo. o gigante conduz o anão e o antepassado oferece uma herança. Dão-nos o tom. parece que se desvenda o rosto da verdade. porque não havemos de continuar no mesmo tom e concluir o período em aberto? Infelizmente. o trabalho de Deus nos espíritos de escol é levado em conta para bem nosso e deles. a realidade lá patente. que só espera que nos adaptemos a Ele para desabrochar em discursos divinais. Corneille. é o reconforto da vida intelectual. (V. Boaventura. sempre profética. Bernardo. de relevo tão pouco acentuado como o duma medalha de Roty. a Pasteur? Se sois religioso. só pelo facto da sua superioridade. Mas que nível de inspiração! Somos transportados a um mundo desconhecido. quando fala. dizia Teresa Brunswick. La Fontaine. é folhear títulos de nobreza. mesmo antes de nos ensinarem qualquer coisa. onde de bom grado ficaríamos a vida inteira. mas de se igualar a si. há Deus. S. Platão. séculos de cultura: que benefício incalculável! <<O espírito humano. que resume em si gerações. Paulo. iluminada por luz desconhecida. Newman? A Comunicação dos Santos é o suporte da vida mística. S. também a Aristóteles. Dante. por vezes. chama por nós. Por conseguinte. nos afina e ajuda a apreciar os fogos de artificio pueris de que tantas vezes constam as festas do espírito! Quando em seguida o génio nos ministra temas. gratificam-nos. nos mostra. os que brilham com singular esplendor no firmamento da inteligência. não de igualar o que se venera. a Galileu. por assim dizer. o Banquete dos Sábios. Na hora da messe. S. somos enriquecidos com as riquezas deles. S. Aristóteles. a Euclides. dá-nos direito sobre os domínios por ele conquistados e desbravados. voltamos à importância primitiva e apenas balbuciamos. É seu privilégio por excelência o apresentar ao pensamento. a Darwin. Pelo menos podemos ascender lá em espírito. habituam-nos ao ar das montanhas. o facto de seguir e de compreender estes videntes leva-nos a pensar que somos da mesma raça que reside em nós a Alma universal. Por que não aproveitar este incremento? De nós só depende: basta fidelidade e atenção. o pensador. se o pensamento do homem se ajuntar paciente e silenciosamente ao pensamento das gerações>>. de tempos a tempos. orgulho este que ostenta a beleza e a eficácia do orgulho de filho a respeito dum pai ilustre ou de nobre geração. exprime o homem e o seu eco repercute-se em nós. como Tomás de Aquino ou Goethe. é o meio. e esse é. <<Após os génios vêm logo aqueles que lhe reconhecem o valor>>. Racine. logo que ele nos abandona. . Francisco de Sales. o autor da Imitação de Cristo. explora em nosso proveito as regiões misteriosas e. a Lavoisier. referindo-se a Beethoven. O contacto com os génios traz. concentrados numa só pessoa. Quando se cala. sabeis porventura o que deveis a Arquimedes. Maine de Biran. se não tivessem S. só pode ir longe. Neste mundo de pensamento sublime. Sófocles. mas sabemos que existe a palavra verdadeira e só por isso os nossos balbucios comportam um novo tom. Bergson? Se sois científico. no centro dum sistema de relações que. a torna a criar. o primeiro autor de tudo o que se escreve. não saboreais o benefício de ter atrás de vós Homero. Santa Teresa. permite-nos ir longe com a sua ajuda. erguem-nos à sua atmosfera. Santa Catarina de Sena. Se sois literato. Cultivar a faculdade da admiração e concluir daí a frequentação constante dos pensadores ilustres. por ele semeados e cultivados. a elevação. que nós não enxergávamos. Escutai certos prelúdios de Bach. tranquilizam-nos. a Cládio Bernard. O génio renova tudo. o objectivo a encarar e a visar. cede verdades. iniciam-nos. Shakespeare. S. Dizem pouco: um curto motivo que se repete. O génio. Tomás de Aquino.52 uma sociedade em Deus. como benefício imediato. Descartes. Vergílio. rasgam-nos caminhos. Bossuet. Agostinho. Kant. o Espírito. repito. variações insistentes. pensastes já qual seria a pobreza das almas.

e todos os membros desta humanidade têm nisso parte de glória. pelos recursos e pelo uso que deles faz. em todo o caso. melhor guardados. graças a ele. todos eles conseguem desvendar a um espírito avisado os eternos fundamentos da ciência e os segredos da vida. não mais o largará. portanto. a providência nos proporciona(1) Ponderai o muito que a Igreja deve às heresias. A maior parte das grandes invenções resultam de concentrações súbitas e fulgurantes. este pobre mundo pode produzir algo de bom. a despeito de possíveis aberrações. o génio vê dentro. Directamente. mas é certo que reflectem a humanidade. que se apossou do espírito. porque reflecte a comum humanidade. aos que erram. é o aguilhão das iniciativas ardentes. de modo potente. só somos devedores de verdade. e o nosso fasto compõe-se da sua rica simplicidade. quem escapa ao seu contágio. Sem Ario. Eutiques. Precisamos de nos defender contra eles. é jacto que contém e unifica valores até aí disseminados e indecisos. . Lutero. Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus. a criteriologia estava ainda na infância. devemos. reduz ao essencial as aquisições dessa humanidade. ajustados e fechados os quadros de pensamento. Tomás o dever de gratidão para com quem assim nos tentou. As grandes máximas são múltiplas experiências condensadas. nalguma coisa. mas a própria loucura comporta um ensinamento. não desesperemos de medrar em contacto com os erros geniais. Uma impressão de sublimidade assemelha-se.53 Por detrás de cada facto oculta-se o infinito do pensamento. tudo igualmente pode ser de utilidade aos que se fixaram na verdade. <<Quem tropeça sem cair. como as máscaras apresentam saliências. ao nascer do sol. na pintura. Formando o espírito. O traço sublime. ( 1) S. No entanto. estamos certos de ir longe e além disso podemos resguardar-nos dos seus passos em falso. Destas observações deduz S. se de qualquer sorte contribuíram para o nosso progresso. e a filosofia aos seus grandes litígios. extrai dela uma força. Tomás. Devemos aprender a bem pensar sobretudo no trato com os sábios. frequenta o íntimo dos seres e. não se teria constituído o dogma católico. indirectamente. Sim. por mais que digam dos génios o que os judeus disseram de Cristo. Nestório. A emoção. revela-se-nos uma esfera nova. e é felicidade poder repetir: também eu a possuo! Não é talvez muito exacto afirmar que os grandes homens reflectem apenas o seu século. na música. O génio estimula e desperta a confiança. dá um passo avante>>. Até os erros dos homens superiores são susceptíveis de contribuir para o benefício do convívio com eles. mostra-se-nos uma face do mundo. In II Metaphys. nunca terão razão em face do género humano. conserva todo o vigor e. afasta o véu: e diz-nos: vem! A ciência consiste em ver dentro. há nele uma graça. O génio simplifica. mas. o revelador das vocações e o remédio das hesitações inquietas. por ter corrido estes sublimes perigos sem neles sucumbir.. Um homem superior. donde ele procede. a sua força por vezes transvia-se.I. na alma. por ele provocada. Pelágio. os trabalhos de indagação exigidos pela própria resistência consolidam-nos. é verdade colectivamente. por intermédio deles. fala-nos o mesmo ser e não os nossos ecos fracos e duvidosos. não fosse um filho do Homem. Não nos expondo indiscretamente ao perigo. O que é verdade individualmente. o génio avança. os que recebem a mesma seiva podem esperar crescer e produzir. A sabedoria comprovada nos seus heróis faz-nos também secretos convites. O tronco. talvez com demasiado exclusivismo. na poesia. Se Renan não houvesse escrito sobre as origens cristãs. mas nós esperamos que a perspectiva se desdobre. afirma o Apóstolo. ou o exagero de opiniões de qualquer outra espécie de arrebatamento os aparta do caminho da rectidão. o acréscimo de formação que. Um homem superior não seria coisa alguma. sairemos melhor formados. Não houvesse Kant abalado os fundamentos do conhecimento humano. não possuiria o clero católico a formação histórica e exegética que possui. na arquitectura. seguindo-os com cautela. O génio é a linha egípcia aplicada a tudo. também eles. Os pensadores maldizentes. a animação. como Leonardo de Vinci sintetizava num momento as expressões variáveis do modelo. <<pode lá vir coisa boa de Nazaré?>>. se. pois que produziu Platão. flores imortais. Os seus erros não são erros vulgares: são excessos que todavia não excluem a profundeza e acuidade de visão. lect. quase todos manifestam sombras.

A inteligência assim constituída à inteligência apoucada. que só lêem para encontrar gralhas tipográficas. são forças convergentes. não cavemos fossos entre as suas doutrinas. As colunas do templo assentam as bases sobre as lajes. no entanto. aponta Averróis como depravador do peripatetismo. por numerosas nervuras. . precisa. não são os homens. Lemos para pensar. que prendem secretamente ideias e sistemas. não são os pensamentos. mas a obra por eles realizada e o que dela fica. Ora bem! subi mais alto. sobretudo a respeito dos homens superiores. enriquecemo-nos para utilizar. estreito. tara de funesto agouro. exclusivo. Lamentemos os seus erros. até da teologia. embora pertençam ao número dos <<anjos incompletos>>. Tomás se assemelha aos revisores de provas. que não é criador. não é augustiniano. Vós que buscais a verdade. O processo de exclusão. a investigação profunda informa-se dos pontos de contacto. O que então interessa. Ainda uma derradeira e capital indicação sobre as leituras. teremos que discutir opiniões e classificar homens. O espírito critico tem suas aplicações. Não digo que todos as proclamem. ainda os mais diversos. não os confundamos. tomar atitudes de disputa. solicita. utilizemos então o método por contraste. sendo preciso. de reagir sobre o que lê para o fazer seu. o texto em proveito da sua verdade mais pura ou da sua maior riqueza. É trabalho muito mais fecundo aplicar-se à reconstituição da verdade integral através das deformações do que passar o tempo a criticálas. Empenhou-se ele em aproximar doutrinas. fechando caritativamente os olhos ao que nele posse haver de deplorável. dispõem-se em galerias dispersas. A quem souber utilizá-los. a contenção ou a excitação factícia da inteligência. lancemos pontes. génios parciais que a verdade visitou sem neles assentar morada. dispostos a reconhecer em toda a parte o seu rosto. Vós. embalde nos eternizamos em vincar diferenças. não lanceis um contra o outro os seus servos. acabam por sustentar uma só abóbada. no convívio dos autores. É uma espécie de profanação. <<O indivíduo. quiser adquirir. em vez de tudo encarar à luz do universal. mas unicamente a verdade. Não há mexeriqueiros só na soleira das portas: há-os na história da filosofia. não o ruído. de utilização pessoal ou de exposição doutrinal. irradia intensa luz. quando se trata de formação. A descoberta das ligações. Por conseguinte. mas verdade e penetração. de eliminação sumária e de escolha limitada prejudica enormemente a formação e denota. afastam-se. VI – Assimilar e viver. e muitos os imitam. e consegue tirar a vida e a energia ao seu criador>>. Quem. em as ilustrar e completar umas pelas outras. mas algures apelida-o de sublime espírito (praeclarum ingenium) e cita-o a cada passo. deve dar mostras de espírito de acomodação e de diligente recolha. Para tirar proveito das leituras é indispensável começar por conciliar os seus autores e não os opor. mas as verdades. das ciências. O mel faz-se com muitas flores. que buscais.54 V – Conciliar em vez de opor. mas ligam entre si os arcos e. no espirito que o revela. Quando comenta. Tomás. Reparemos no exemplo admirável de S. Segue Aristóteles. os homens superiores ensinam a comungar nas mesmas verdades. cai na mania do corrilho e da mexeriquice. tem gosto negativo. mas todos nos põem na perspectiva delas e nos empurram nessa direcção. Parece que se combatem e que dividem a ciência e desunem o espírito humano: na realidade. manifestando o que nele se deve ver. Ninguém menos do que S. sem o forçar. o choque dos partidos. O caso é outro. mas faz de Agostinho a sua alimentação constante. escreve Goethe. Embora o leitor deva mostrar certa passividade que não tolha a acção da verdade em seu espírito. exactamente como a abelha. não aptidões de combate. reparai neste abrigo e acolhei-vos à sua sombra. mas encosta-se a Platão.

pode repetir. nem atar as gavelas e cozer o pão. a não ser que digamos: com a luz que Deus infundiu nele. e. e o que o nosso espírito pretende não é repetir. q. I. o caminho é mais antigo. têm só a vantagem de corresponder. e talvez graças a ele mas independentemente dele. arriscamo-nos a não os ouvir. o trabalho é vida. o pensamento. A docilidade é virtude necessária.. v. Afinal as doses de ciência. Ouvida a palavra. Não é a vendedeira da praça que alimenta o meu corpo. matéria para a alma. Tomás. De homem a homem. Agostinho: <<O homem está para o ensino como o agricultor para a árvore>>(2). nunca chegara a instruir-se. a um automatismo que já não é trabalho. (ALFREDO DE MUSSET). pois se limitam a procurar. como a medicina oferece meios de curar os corpos. De Magistro S. mas insuficiente. quando muito. mas nem a medicina tem acção sobre o organismo inerte. permanecem tão exteriores à inteligência como as coisas que se pretendem conhecer. ou seja tomar consigo. Na realidade. Io. 4. Facilita-se assim. o caminho da verdade. porque a evocação dum pensamento. os sinais de um só indirectamente entram em contacto com o outro. a ideias já elaboradas e ordenadas. a luz da tua fade está imprensa em nós (Ps. e não o que o escritor diz. <<A obediência é a base do aperfeiçoamento>>. S. a assimilação é reacção do organismo vivo perante o alimento. por movimento inverso. prosa 5. absorver vitalmente. <<A doutrina. o pensamento é estritamente incomunicável(1). O que noutrem era vida será em nós apenas lâmpada apagada? Ninguém pode instruir-nos sem nós. conforme o salmista: Senhor. diz Augusto Comte. Condenámos o eterno ledor. a vida é assimilação. como o seu inspirador: <<Vim para que tenham a vida e a tenham em maior abundância>> (Io. Io). Não é com os olhos nem com os ouvidos que se ouve uma palavra sublime. pensar por si. é mister. a natureza cura-se a si própria. enfim. que nos instrui. Quem não assimila o que aprende em frequentações dóceis. mas não se supre. Tomás. não é o sistema de sinais proposto. Eis aí por que Deus é o único Mestre de quem procede toda a instrução. Esta penetrante análise tem consequências práticas. O ensino presta. A fonte do saber não está nos livros. meios de agir espiritualmente. que pouco a pouco chega a ler maquinalmente. Mas nem só os que muito lêem correm perigo de cair neste defeito. É forçoso recriar para o ( ( ( 1) 2) 1) Boécio. Os livros são postes indicadores. O que eu absorvo deve converter-se na minha substância: só eu posso conseguir isso. esforcemo-nos para que a matéria intelectual supeditada pelo livro. não é o aperfeiçoamento. observa que a palavra e a escrita nem sequer chegam ao espírito. embora passe a vida a aprender. . para que estes sinais dum interlocutor mudo nos elevem ao pensamento expresso e até mesmo acima dele. a luz vibra os sentidos percebem e comunicam o sinal e. este sinal. escreveu Boécio. Mas em todo este processo não se encontram. que só para isso serve o trigo louro.55 alimentamo-nos para viver. e ninguém trilha. não faz mais do que excitar no espírito do homem o desejo de saber>>(1). nem o ensino consegue vencer o espirito negligente. participando na inspiração deles. que derivou da ideia. escutando-os de fora. art. e o que faz a ciência. tem a missão de provocar uma ideia semelhante. mas sim com a alma erguida ao nível do que lhe é revelado. é mister elaborar a própria carne. deveria carrear outro pensamento. O que acima de tudo nos interessa é o que é. Muitos lêem do mesmo modo que as senhoras fazem malha. De Magistro. Não basta ceifar no tempo devido. A leitura propõe-nos verdade: temos de a fazer nossa. e o espirito só é iluminado com a sua própria luz. que se nos propinam. Já anteriormente dissera S. enquanto sinais. tomado de insolência. baixando mais ao ânimo da questão. Agostinho. De Consolatione Philosophia. mas compreender. está na realidade e no pensamento. S. depois do autor. com a inteligência iluminada pela mesma luz. por meio de sons e de sinais. mas deve nascer do nosso íntimo. O som ressoa. por nós. 7). No entretanto. nas Quaestiones de Veritate. obrigar a alma a repeti-la de si para consigo. com os argumentos e as respostas.XI. Só entramos na intimidade dos génios. assiste inerte ao desfile das ideias Como um pastor deitado a ver correr a água. mas o trabalho da razão sobre eles. no espírito. op. O espírito desses ledores. O génio. Se a ideia não entra em nós.

que dá a outrem. julgo eu. Assim se alcança a originalidade. Vivo. Nunca os autênticos génios quiseram amarrar-nos. comparado o espírito francês e o espírito alemão: <<Os alemães amontoam a lenha da fogueira. Nós que só ansiamos realizar humildes tarefas. Bossuet e Pascal também. Lendo. contemplemos o que existia ante deles. Uma obra é berço. iniciador. mas quereria ao mesmo tempo deixá-lo. O que não gera não é: oxalá a leitura me permita gerar pensamento. e quero uma vida fecunda. Quisessem eles escravizar-nos. obedeço ao meu Mestre. . que o aplicava à ciência social. Eis um sentido novo do que eu dizia: encontrar nos livros o que eles não contêm. intelectualmente. e que no entanto vós criais. não sou um reflexo. O nosso modelo está no pensamento criador. apliquemos as mesmas leis do espírito. estimulante. outro livro tão inútil como o primeiro. mas sim libertar-nos. que não para as nossas páginas. mas o acréscimo de sabedoria. a última palavra a dizer sobre os livros. e os demais homens reconhecem-se nele. Tenho o dever de ser eu próprio. reverte sobre nós. que provenha da mesma fundição e reabsorva na sua unidade viva o que recebeu de fora. tratemos de morrer jovens>>(1). nem prisão. como nem qualquer outra coisa da natureza. inédito e único. Deus está em todos: honremos em nós o homem ( 1) Pensamento familiar ao Padre de Tourville. Quantos volumes e textos compactos existem dentro de nós e que não lemos! É abuso imperdoável convizinhar com génios e não extrair deles senão fórmulas! E é tão fácil reconhecer isto mesmo. ajuda. Enquanto falam. A afirmação é porventura um pouco absoluta. entre Deus e nós. à semelhança. na medida em que procede da nossa intimidade e incomunicabilidade. Quando leio. O livro é sinal. A citação é como a palavra que o dicionário sugere. Mesmo quando se cita literalmente. os franceses deitam-lhe fogo>>. Sem ela. S. devemos partir deles. o que Deus prepara para todos. Ser sombra duma sombra é rebaixamento para aquele que. não é a aquisição de verdades esparsas. Os génios não passam de sombras. seria o calco dum livro. é também o fim da educação que nos propomos dar a nós mesmos. não apenas substituto. o que está acima deles. com muito maior razão a ninguém é dado produzir da sua lavra pensamento novo senão pelo próprio esforço.56 nosso uso toda a ciência. e nós somos homens. em virtude da herança secular. sei que Deus não cria em vão nenhum espírito. <<Quando só se fala do que se leu. O que eles nos legam pertence-nos. O pensamento reflecte o homem. liberta-me com o sentimento duma dívida. e não túmulo. foi da eternidade que eles receberam. Dizia Amiel. A verdade é a antepassada de todos os homens. Libertando-me. enquanto repousava na biblioteca. O homem é múltiplo. pelo menos da leitura das grandes obras. de nos precatar contra uma invasão tanto mais aniquiladora quanto menos fossem os recursos para a luta. Para quê repetir outrem? Por pequeno que eu seja. O pensamento precisa de estar em nós. não devemos ir para os mestres. há nisso originalidade quase como a do mestre. mas de mim próprio! Esta é. O respeito humano afasta-se. As repetições manifestas ou disfarçadas de pressa geram o tédio. neste mundo. mas o fogo vale incontestavelmente mais do que a lenha. Assim como ninguém pode assimilar os conhecimentos comuns senão pelo próprio esforço. O principal benefício da leitura. como a alma cria o corpo. quando os queremos utilizar. escrevendo! Saber utilizar é inventar. diz Schopenhauer. é um facto espiritual incomparável. Se um dia a nossa sabedoria crescer. A glória. assistia-nos a obrigação de nos defender. Em face dos génios somos apenas crianças. O desabrochador da sabedoria era o fim primeiro da educação. <<nascemos velhos. quereria encontrar no livro um ponto de partida sugestivo. entradas para penetrar em novos domínios. esperamos criar obra no bom sentido da palavra. mas crianças que herdam. a sabedoria convida-os a todos. pequeno ou grande. se a citação se encaixa a jeito num discurso que não seja banal. não do meu primeiro inspirador. Fisicamente nascemos jovens e morremos velhos. o que em nós penetra nenhum valor teria. trabalhemos entre a verdade e nós. Tomás cita deste modo. visto pertencer à eternidade. ninguém nos lê>>. Querendo levar a efeito obra verdadeiramente pessoal. a leitura poderá servir de excitante ou de alimento para o nosso ser. Enfim. não deixemos aos maiores o monopólio das utilizações superiores. a espontaneidade aproxima-se da humanidade.

podemos supri-la sem grave prejuízo. quantas <<bibliotecas vivas>>. o que pudermos. servimo-nos da memória para viver. há-as. S. sem as quais ficaremos aquém da nossa missão e daremos aso a que nos qualifiquem de ignorantes e inertes. para depois nos lembrarmos. e seria mesmo impossível reter. depois duma só audição. não há motivo para as reter todas ao acaso. o peso morto oprime o vivo. na mesma medida e com a mesma concentração que ele. por este motivo. quanto maior for a diligência e menor a demora. ordinariamente. Uma regra capital consiste em introduzir a memória na corrente da vida intelectual em levá-la a tomar parte na vocação. O resto ir-se-á adquirindo consoante o exigir a tarefa empreendida. responder ao vosso fim. de sorte que se especialize como o espírito. Arquive-mos. precisamos de subentender alguma coisa. sim. O espírito afoga-se na massa dos materiais. que o não parecem e que de facto o não são. o papel vo-las apresentar sem custo. uma vez que decorar. das quais não nos é lícito separar as vantagens ou os inconvenientes. textos a esmo. sejam úteis muitas coisas.57 e respeitemos no homem a Deus. enfim. Todos os mestres são unânimes em afirmar que sobrecarregar a memória prejudica o pensamento e a atenção. Neste particular. ocasionalmente. é armazenar aquisições. imagens. B – A ORGANIZAÇÃO DA MEMÓRIA I – Que se deve reter? De nada serviria adquirir pela leitura. Quando S. Qual o viajante que. todavia é certo que. Não podemos classificar os mestres segundo este dom. há-as que um intelectual não pode ignorar. define ao mesmo tempo a memória feliz. ou a de Mozart. semelhante graça não é necessária. os elementos úteis à obra e ao trabalho do espírito. a memória ampla e tenaz é recurso precioso. há outras que se referem à especialidade por laços mais ou menos apertados e que cada qual sentirá a necessidade de possuir conforme o espírito de amplidão ou de estreiteza que lhes aplicar. o que. Há coisas que todos devem saber. outros pelo contrário. Confiai à vossa o que é bem. factos. como quem quer encher um vaso>>. com a condição de só querer reter o que serve. se lhe aprouver. porém. o que fica sem emprego atravanca-o e paraliza-o. Génios houve dotados de memória prodigiosa. Tomás <<que de nada se esquecia>>. Mas. que restituía por inteiro. com a condição. uma missa solene. de que seja útil. sobretudo os cristãos. e rogai a Deus que vos outorgue. esquecei-o. que constituem a própria especialidade. Se for preciso. se a memória não arquivasse nem apresentasse. <<quantos dicionários ambulantes>>. a de S. Mas para compreender o significado desta máxima. em igualdade de circunstâncias. sem pressa . os inconvenientes ali apontados conservam aqui todo o valor. Agostinho define a felicidade <<não desejar senão o bem e ter tudo o que se deseja>>. Não concluamos que se deve exercer a memória sem discernimento e sobrecarregá-la de noções. vivificar a vossa inspiração e suster a vossa obra. o alimento excessivo envenena. Prevenimos o intelectual contra o abuso das leituras. a graça de Pascal. em tempo oportuno. decora a Guia dos Caminhos de Ferro? Dizia Pascal que não julgava ter-se esquecido duma coisa que tivesse querido reter. os mais deles tinham-na medíocre e precisavam de recorrer a expedientes para suprir em deficiência. repito. tanto melhor. os espíritos eminentes da sua profissão conhecem. que são disso a prova! Não vivemos da memória. como debaixo da mesma reserva lemos tudo o que podemos. eis a memória útil. Tomás parece dizer o contrário nos Dezasseis Preceitos: <<Arquiva no escrínio do espírito tudo o que puderes. Quantos pretensos eruditos de espírito falso e inerte. O resto. Embora. Cada qual deve empenhar-se em manter bem vivido na memória e disponível para a primeira requisição o que constitui a base do trabalho. Arquivai o que possa ajudar a conceber ou a executar. buscá-las-eis. sob pretexto de ter de tomar um comboio. o que possa assimilar-se à vossa alma.

e o coração do exercício efectuado pelos membros. Num e noutro caso. Cabeça bem feita é árvore genealógica. ocupam a terra em vão. o simples. Regulada a ordem interior. a se desenvolverem por ocasião de cada progresso. É uma maneira de consagrar a nossa comum vocação celestial e de facilitar o esforço para o bem. O que se grava no espírito por meio da memória opera nele mais intensamente. e não consegue completar nem socorrer. estejam elas presentes ao primeiro apelo. do mesmo modo que a leitura. Poucos são os que hoje compreendem tais conselhos. É preciso referir tudo ao essencial. se estabeleça na vossa memória. de quando em quando no decurso do dia. 261 . não encontra lugar numa organização. onde os ramos se prendem ao tronco e pelo tronco comunicam entre si: aí se revelam claramente os parentescos em todos os graus. pág. são infecundos e. de Musset e que se veria em sérios apuros para recitar um salmo. de si para consigo. a fixação partirá duma ideia preconcebida.como dissemos que as buscásseis antes de tudo – as ideias mestras. a manter no seu posto. um só. defender-nos-emos quase automaticamente contra o agravamento do trabalho e verificaremos que dois preceitos na aparência distintos são. Buscai sempre o que prende isto àquilo. Conservai. Um pensamento novo actua retrospectivamente. as ideias antigas.. é mister que estejam abertos os caminhos da claridade.58 nem inquietação. De nada serve adquirir miríades de noções. convém pensar na ordem. o fundamental. II – Por que ordem reter? Depois de regulada a quantidade do conteúdo. Assim aligeirado e bem regulado. a Salve Rainha. antes de tudo. de sorte que esta coordenação. Há nisso evidentemente desordem. sem afinidades precisas. O primordial. ou rezar o Angelus. A memória não deve ser caos. ao qual a memória tem de se adaptar. Há quem seja capaz de declamar trechos de Vergílio. o Te Deum. que os pensamentos estejam em ordem e comuniquem entre si. esbarram nela como em obstáculo e agravam assim a sua ruinosa solidão. Ser-lhe-ia de grande proveito repetir. o espírito poderá dedicar-se às suas obras com todas as forças. a fim de santificar a memória>>(1). de Racine. O inútil que se anicha no caos. quando dela resulta estímulo para a sua fé. prestes a iluminar tudo o que se vos oferece. um archote alumia também para trás. algumas fórmulas cheias de seiva cristã. e não um acervo de farrapos. o Maguinicat. donde sai o complexo por escalões e diferenças sucessivas. como a figueira do Evangelho. Para isso. eis o que sustém a memória e a torna eficaz quando ela tem de intervir. Materiais abandonados transfiguram-se. em vez de se enriquecerem graças às dependências que a memória manifesta. exprimindo uma descendência em todas as suas relações e no seu conjunto. -. Cinquenta dados não valem mais do que um. por assim dizer. Então tudo se recria em nós e toma vida nova. esmigalhados. um católico deve desejar que esta acção se efectue no máximo grau. a despeito de novas contribuições. sem se demorar nas bagatelas que talvez para outro ( 1) Op. se não exprimem a mesma profunda relação. quando ordenados em relação a uma ideia. A ciência é conhecimento pelas causas. se as noções primeiras. Ou servir ou abandonar o lugar! É ridículo o esforço de alguém ou de alguma coisa para invadir um dispositivo onde não é previsto. na memória como no pensamento. irá em linha recta ao alvo. A hierarquia policiase a si própria. Armazenar em montão é inutilizar tudo e condenar-se a rememorar ao acaso. ao passo que a experiência só vale pelas suas conexões. como o cérebro se aproveita do que o estômago recebe. Nicole sugere ao cristão que <<aprenda de cor alguns salmos e sentenças da Sagrada Escritura. o que condiciona isto e aquilo. agrupamentos e hierarquias de valor.cit. ora esta não se satisfaz com noções discordantes. A memória intelectual deve revestir-se dos caracteres da intelectualidade. com a diferença que um trabalho particular é vocação de momento e a vocação um trabalho de dura.

2. Quando ledes ou escutais com o intuito de aprender. o que mergulha no seu meio. mais o buril cava e melhor os sulcos resistirão ao fluxo permanente que tende a substituir as ideias como a morte substitui os seres. reparando que Pasteur investigava a sério e examinava as próprias fontes da vida. ficou compreendendo. que a seguir se recomenda. pouco depois. por sua vez. . no que respeita à fixação das recordações. de números. há-as que também governam a vida. dentro dos corações. São quatro as regras propostas por S. de sorte que possais repetir o que lestes ou ouvistes. uma estrutura correspondente que lhe permita adaptar-se e desse modo agir. lect. 5. 4ª no acto de reminiscência. todas as águas vão dar ao mar. certas ideias dominantes. pode cada qual invocar a experiência pessoal. e a maneira de a utilizar. tomar pela extremidade a cadeia das dependências. ao princípio. analisai. é mister e basta que estabeleça em si. tarde elogiava aquela simplicidade genial. III – Como reter? Falta dizer como se adquire uma memória assim qualificada. Cada verdade é aurora de outra verdade. como que em voz alta. uma série faz corpo e defende-se. Compreender a fundo. concentrai-vos e estai presentes a vós próprios. o qual. declara o Evangelho. partindo do axioma. observai a genealogia dos acontecimentos. graças à memória. a saber. Não é segredo. em cada matéria. A faculdade criadora depende. os filamentos desdobram-se e arrecadam os sucos. é assegurar a coesão do todo. Quanto mais ardente for a atenção. atendei is ligações e às razões das coisas. consultou primeiro o grande entomólogo Henrique Fabre. e a lógica do adquirido tende a prolongar-se em novas contribuições. 3ª meditar nisso com frequência. separado de elementos conexos. aprender em seguida e introduzir no espírito. mas. não anéis a esmo. a lâmpada do santuário. Os pensamentos servem de isca aos pensamentos. 2ª aplicar a isso o espírito. A união faz a força. chega às mais longínquas conclusões. O que se apoia a sua razão de ser. Tratando-se dum livro. dar-se-á àquele que tem e ele abundará. e um elemento. a vida cresce.59 possam constituir a principal ocupação. da sabedoria e da sobriedade da memória. de ideias ou de elementos desconexos. repeti no intimo. procurai os porquês. A aplicação do espírito. Este começou por se espantar da leviandade aparente do <<parisiense>>. como. Se quereis reter. Quando Pasteur se dirigiu ao sul da França pari atacar e vencer em pouco tempo o mal que ameaçava a sericicultura francesa. Acrescenta ainda. não o fecheis sem que o possais resumir e ( ( 1) 2) De Memória et Reminiscentia. corre menos o risco de dispersão. De Memória et Reminiscentia. como acessório. afogar-se-iam no seu isolamento e depressa se sumiriam. embora isso dependa das mais profundas condições da vida mental. e mais. Há. o que diz Cícero. mas uma corrente. Só se conserva o que é. lect. e quando a ordem interior se oferece à experiência. toda a possibilidade procura realizar-se. Tomás: 1ª ordenar o que se quer reter. É muito difícil encaixar na mente uma sucessão de palavras. Já focámos a importância da ordem sob outro aspecto. o que se vos diz. é primeiramente organização. só é a meias. tem por fim reforçar o misterioso buril que traça em nós a figura das palavras e das coisas. que são chaves universais. que o resto seguir-se-lhe-á (1). onde a necessidade. O ambiente da ciência é o cosmos. enquanto as outras só indirectamente(2). sucede o mesmo que a uma raiz que mergulha na terra: a substância trabalha. as sucessões e dependências. em grande parte. a vantagem de ligar a memória das coisas intelectuais à das coisas sensíveis. o é da sua substância. porque a adaptação do ser vivo ao ambiente é a condição única de fecundidade. ignorava os hábitos do bicho da seda. imitai a ordem matemática. O aferrar-se ao essencial mantém abertas para fora todas as perspectivas. e é diante delas que se deve acender. estrutura: para que o homem de estudo progrida. martelai-o em sílabas. uma vez lá metidos. Pelo contrário. porque estas últimas constituem objecto próprio do intelecto e por si pertencem à memória. só se empresta aos ricos. pela ordem com que o fixastes.

espécie de memória exterior a nós. invocando a contiguidade das ideias. que provocou intervenção activa da nossa parte. fica. foge mais dificilmente. se tivéssemos de nos fiar na memória para guardar intacto e prestes a servir o que . quanto puderdes e quanto ele o merecer. supri-la e. procedamos logicamente. do sempre novo. com determinado aspecto da minha vocação. sem a assimilação da inteligência. C. Leia-se relativamente pouco. devem reduzir-se enormemente com relação às leituras. <<memória de papel>>. remontando ou voltando a descer as séries instituídas. da memória e das notas. Verificando que os rastos se desfazem apesar de tudo. é que estas três coisas constituem. por conseguinte. a faculdade da admiração. como dizia Montaigne. que serviu de base à constituição da memória. a atenção ardente. por isso se exige o sossego da vida e a calma das paixões para o bom uso da memória como para as demais funções intelectuais. do livro analisado ou do trabalho executado. ponto de partida dos arranques vigorosos para as fecundas criações ou para a investigação. e a extremidade da corrente. a emoção em face da verdade. mesmo contra nossa vontade. agarrado à pessoa. para o acto rememorativo. Portanto não busquemos ao acaso num todo que não se formou ao acaso. ou ainda que o projecto se inspirara numa leitura anterior ou fora exigido por trabalhos anteriores. Depois disto. aliviá-la e socorrê-la no trabalho em medida aliás difícil de assinalar. Digo isto. Em resumo. quanto. Tende a inspiração elevada. é a arquitectura. meditai. Concorrem igualmente. tratando-se de encontrar a recordação e de repor em actividade as imagens antigas. o mesmo motivo nos convida a repassar o buril pelos cortes. utilizando a lógica das coisas. em seguida a sua ordem e finalmente a habilidade do seu emprego. Retém-se mais facilmente o que prendeu a atenção. e por diversas tentativas tratarei de encontrar o que sei estar ligado com este ou aquele dos seus elementos. O interessante não é a oficina. A vida apaga os rastos da vida. do conjunto ideológico. As notas. a tempo. da missão a desempenhar. se esta se decidir a criar laços ou pontos de contacto entre as noções confiadas à memória. a não poupar a água-forte. Ai de nós. o objecto a preservar do esquecimento. Exemplo: lembro-me de ter pensado num plano de estudo. aconselham-nos que nos apoiemos ima vez mais no facto das dependências mútuas entre os pensamentos e as impressões. é a que se mostra mais imediatamente em dependência do que buscamos. explorarei a vizinhança. uma só. A natureza toma isso a seu cargo. não é tanto o número das aquisições. ou que isto se prendia com determinado conjunto de operações intelectuais. este plano escapa-me. Em tudo isto temos apenas um fim em vista: completar para poder realizar. sem a progressiva unidade duma alma rica e regulada. ou que falava com tal amigo. a revivificar constantemente os pensamentos úteis e a reanimar os factos que queremos conservar à mão. e nunca haveis de carecer de recordações. sem o encadeamento. isto é. por assim dizer. reconduzindo à força para o centro da consciência o que a atenção fixara e armazenara conforme as suas leis. Somos obrigados a repetir-nos muitas vezes. que ele aconselha a puxar. primeiramente a sua qualidade. Tomás chama puxar pela corrente. sem a penetração. o zelo da investigação. da sociedade amiga. Tudo se encadeia mais ou menos no cérebro. talvez exageradamente. Os materiais não faltam ao pensamento.60 apreciar. Se o fizemos. das circunstancias. por isso nos aconselham a burilar fortemente. Aprender não é nada. uma obra. É o que S. como ela se nos apresenta ou como a encaramos no ponto de partida. – AS NOTAS I – Como tomar notas. porque o objecto. é o pensamento que falta aos materiais. retenha-se ainda menos. despertarei a impressão do lugar. Enfim. a juventude de alma em face da natureza e da vida. Partindo dai. numa palavra. É um motivo a mais para o intelectual cultivar o sentimento do novo. Para retomar a ideia desvanecida. A agitação do espírito opõe-se a este trabalho. é sobretudo o espirito do habitante. mas podem alargar-se mais do que a recordação. a propósito das leituras. mas sei que me encontrava então em tal lugar. retirará daí imenso lucro. o que importa à memória. por assim dizer.

Há pessoas que possuem cadernos tão recheados e tão numerosos. Esses pretensos tesouros custaram muito tempo e trabalho e não rendem nada. e esta conta há-de corresponder por um lado ao possuidor e por outro à despesa presumida. pelo menos em parte. Melhor ainda. quando tomais notas com o intuito de produzir. O facto de uma coisa ser boa e bela. não é motivo para a escrever. seria para desejar que.61 encontramos ou descobrimos no decurso da vida de estudo. da nossa vocação. Demais a mais. Leituras. textos ou estatísticas. indicações diversas. lembrança. seria preciso um domínio de si próprio que nenhum mortal possui. tomais notas depois dum trabalho de espírito enérgico e de feição pessoal. se é que soube adaptá-los uns aos outros e a mim próprio. de realizar uma produção. Precisamos de organizar reservas. Como sempre advogamos os alargamentos. da nossa missão. Nós seremos o caixa. portanto assemelhar-se a nós. corresponder aos nossos fins e à forma dos gestos pelos quais podemos e queremos utilizá-los. evite-se o excesso e a acumulação de materiais que só servem de afogar e se tornam inutilizáveis. para estes dois grupos de notas. recorreis a todas es fontes de informação de que podeis dispor e reflectis por vós próprios. as notas. procurais documentar-vos. a memória classifica à sua maneira e nós tentamos ajudá-la nessa tarefa. Trata-se de nos completarmos. Uma vez mais. Neste particular. também as notas se definem. que se tomam fossem não somente adaptadas a vós. correspondentes à preparação remota ou preparação próxima do trabalho. ledes o que se publicou sobre a matéria. muitas vezes permaneceria com vantagem nos volumes donde foram extraídos. Para evitar as surpresas do primeiro momento. perde. factos. deve igualmente estar muito perto do intelectual do que ele deve e quer ser. Como a leitura é nutrição. e a lembrança uma posse que enriquecendo a pessoa faz corpo com ela. de nos armarmos com panóplia à nossa medida. A memória é infiel. tudo isto deve completar-nos. Evitai o capricho em tudo. O livro de contas informa o comerciante acerca do teor de vida e dos fins que tem em vista: o registo de notas. Pelo contrário. A primeira categoria de notas será um pouco fortuita. com excepção dos documentos propriamente ditos. o ficheiro. preferimos a liberdade da alma a uma abastança indigesta. para nos inspirarmos nelas. como a produção apresenta carácter definido. mas porque lhe serve. regras comuns e regras particulares. é lá que está o seu Haver. A solução é o caderno de notas ou o ficheiro. sempre de caneta na não. é certo. e isto não só quando emanam das vossas reflexões. é preferível que lá fique. Há. Por outro lado. nenhum juro. mas estarão ao menos em lugar seguro e à ordem. regras gerais que convém relembrar. e. enterra. as notas são reserva alimentar e pessoal. o efeito de preocupações passageiras e também os entusiasmos causados às vezes por uma palavra sugestiva. que oferecem. há. ser da nossa espécie. apreciareis as colheitas e só encelareis o bom grão. capazes de tornarem a servir: anotai-os. mas as suas classificações são caprichosas e instáveis. e um móvel. que uma espécie de desânimo antecipado os impede de os abrir. Podemos distinguir duas espécies de notas. Obstrui-os uma multidão de nãovalores. precisa teoricamente. bastando uma breve referência para substituir páginas fastidiosas. Tomai notas com reflexão e sobriedade. que se admirou numa loja de antiquário. de nos mobilarmos. mas também quando . mas vossas. Reflicto-me nas minhas obras: devo reflectir-me nos meus meios. a utilidade. factos. todavia. notas. muito de eventual se introduz nas notas dessa categorias. não ordeneis definitivamente senão depois de certo prazo. seguem de perto o objecto visado e formam um todo mais ou menos orgânico. Como a vida é complexa e o espírito fugaz. são os cadernos e os ficheiros que nos valem. Para encontrar no momento oportuno a lembrança desejada. são muito diversas as práticas. quase que não obedece ao apelo. Opomo-nos a que a sobrecarreguem e a que se atravanque o espírito. Há muitas coisas belas nos livros: ireis acaso copiar toda a biblioteca nacional? Ninguém compra um casaco só por ser bonito. Ledes ou meditais para formação e alimento do espirito: apresentam-se ideias que se vos afiguram dignas de registo. tendo de estudar um assunto determinado. só os quadros da especialidade e o acerto na leitura reduzirão a dose do acaso. Com calma e a distância. depositar as economias no banco onde elas não produzirão. Em ambos os casos. se nem o seu estilo nem o seu tamanho se adaptam ao quarto para onde o quereis levar. conforme as necessidades da batalha que se deve travar. Num caso como noutro.

nessa altura o escritor das minhas concepções e ponho-as de parte como riqueza pessoal. reclama todo o vosso ser. e de que não será portanto um esquema arbitrário. sem constrangimento mental. As outras notas. e convém ajuntar o que segue. e eu concebo igualmente o que assimilo em profundidade. traçai. mencionais os termos preciosos. não com o intuito de a completar. a vaga dos viajantes por onde se escoa um amigo. Pedíamos que o modo de notação fosse pessoal isto é. além disso. pois já se esboça nelas o plano em estado latente. As notas assim compreendidas. a ideias vossas. um plano provisório de orientação das leituras e reflexões. neste momento. um plano de gaveta. estais seguros de que corresponde a uma concepção real. que parece o menos lógico. tem a vantagem de vos entregar mais à inspiração. Não vos distraias nem vos demoreis. e nós dizíamos que o que se toma de empréstimo se pode tornar nosso a ponto de não diferir duma criação. tende só presente o vosso objectivo. cujos frutos recolhereis nos momentos que qualificamos de plenitude. que tome em consideração. escrevo. a leitura inteligente é uma resposta possível à questão posta em nós pelo assunto a tratar. sem talvez terdes que lá meter de original. pondes de parte os documentos a utilizar na íntegra. Nada mais de essencial há que dizer a respeito das notas que se tomam de longe. após as quais não correis. que se apresentam. como se acompanha com o olhar. encarai-lo sob todos os aspectos. porém. isto é. Também a leitura deve ser reflectida. Daqui a pouco falaremos da construção. Depois que pensastes ter esgotado a matéria. os materiais enchem o estaleiro. de espontâneo. operais sondagens que não deixam ponto por explorar: acodem-vos ideias e anotai-las. sem que preciseis de efectuar pesquisas demasiadas. de vivo. uma vez estabelecido o plano. terão por vezes o carácter de feliz achado. no espírito. se elas vos ocorrerem. lendo. o que faço meu: por conseguinte sou também. Do mesmo modo. Leio e. pode-se acabar uma obra sem a começar. com a mira num trabalho. esta preparado o trabalho. como dizem os arquitectos. Este último processo. de vos manter alegre. não somente a pessoa e a vocação. mas desde já se vê que o plano vai sair dos materiais e não os materiais do plano. e por vos facilitar ir. fixais as ideias para desenvolver. Neste caso torneais o assunto. em relação exacta com o escritor. por vezes redigis uma passagem inteira. Tendes um assunto determinado: pensai nele fortemente. notas de inspiração. a despeito do que estas palavras comportem de desagradável e de contra-indicado em quase todos os casos: ponde uma venda nos olhos. portanto é mister ler com um sentimento de expectativa.62 procedem duma leitura. pelo facto de encontrardes algo de positivo. lendo e reflectindo em obediência a directivas tomadas. à saída duma estação. mais do que o pensar de outrem. notas de estudo. por compreender no sentido completo da palavra. esperar a inspiração e trabalhar em boa disposição. outros talhados provisoriamente. as notas determinam-lhe o valor. o que me esforço por aprender. de acaso. O escritor é o que concebe. Declarava Cláudio Bernard que uma observação cientifica é a resposta a uma questão que o espírito se propõe. mis porque brota dum jacto e porque a inspiração é como a graça que passa e não volta. que seja como o crivo que só retém o bom grão. As melhores serão as que o estudo aturado convida a ceifar e a enceleirar . mas escrevo o que penso em contacto com outrem. mas a aplicação actual de uma e outra. informes uns. sem escaparem à obrigação do esforço. as comparações felizes. onde se prevê a possibilidade de diversas combinações. Atrevo-me a dizer. sem atentar no do autor. já está circunscrita e. e segundo ele tomareis esta e aquela nota que irão encher os ficheiros. acaso muito diferente. Por conseguinte fazei que a leitura seja cada vez mais tendenciosa. a matéria. não esperando expressar melhor o pensamento comum. e o meu ideal é que isso seja verdade. precisamos de reforçar a aplicação das nossas regras. precisa. Deste modo. vincando apenas as suas características. representam um trabalho rendoso. como Pascal quando escreve antes dum fragmento: Ordem. mesmo quando transcrevo textualmente. De perto. e que na realidade só se encontra o que se procura. mas sem plano propriamente dito. para melhor vos concentrardes naquilo que. diferir. abstractamente considerado. sistema de compartimentos que sois obrigados a encher. e que o é. voltar. Ou estabeleceis um plano pormenorizado e só depois vos documentareis. de estar em relação rigorosa com a obra a realizar. ou começareis pela documentação.

escrevei-a numa ficha. e que. na cama. Querem encher cadernos ou ficheiros. Podemos ter pastas de cartolina. e também as caixas e acessórios indispensáveis. trabalho este que um encadernador ou impressor executará em poucos minutos. embora deixemos espaços em banco. a não ser que adieis o trabalho de classificação. um catálogo de matérias. sendo possível. é preciso ser realista e não perder o tempo em estabelecer divisões a priori. Uma vez ordenadas. se é que ela vos tem dado resultados. se elas hão-de ficar enterradas como tesouro que nunca se utilizará. chamado sistema decimal. Mas. que frequentemente se apossa dos que tomam notas. onde se encerrem as notas relativas ao mesmo assunto. poderá colocar-se num armário. com a condição de poderdes folhear. Desconfiai da mania de coleccionar. de todas as cores. é aplicável a todo o género de investigações. Se temeis a complicação que todos os sistemas mais ou menos oferecem. Uma colecção destas pastas. A organização do trabalho intelectual. Precisais também de fichas classificadoras. em completar. A ordem é uma necessidade. Assentes estes preliminares. precisais de caixas. correspondendo a um título mais geral. De todos o melhor é o que se tiver experimentado e confrontado com as necessidades e hábitos intelectuais de cada qual e o que estiver consagrado por longa prática. as papelarias vos poupam. e cada armário terá do lado de fora se não o título.63 como a riqueza duma vida. vejamos como haveis de proceder. se a não tendes à mão. Mas o método mais prático para a maior parte dos trabalhadores parece ser o método das fichas ou verbetes. O sistema de registo. que facilite a matrícula das fichas. quem desejar informações sobre ele. sobre o qual se escrevem ou colam em fila as notas.. mas é ela que tem de nos servir e não nós a ela. que de nada serviriam. e quanto dinheiro! Na ciência. de formato uniforme regulado pela extensão média das vossas notas. na guilhotina. Nisto. é distrair-se de produzir e mesmo de aprender. como aliás em tudo o mais. As fichas serão cortadas muito exactamente. valei-vos da própria experiência. Classificar supõe que se adoptou um modo de classificação de acordo com o género de trabalhos que se traz em mãos. Chavigny. ao menos um número de ordem correspondente a um índice de matérias que o trabalhador terá sempre à mão. mas não permitem uma classificação e demais a mais são de consulta incómoda. leia a interessante brochura do Dr. só de um lado. Cada qual deve formar. e empilham textos com o mesmo afã com que se recheiam álbuns de selos ou de postais ilustrados. Quando tomais uma nota no decurso duma leitura. gasta-se o tempo em classificá-las. etc. Na indústria. Tomadas as notas e supondo que são de molde para servirem mais tarde. Com efeito. em vez de utilizar as notas. num pedaço de papel. o autor preferido e também de vos poderdes folhear a vós. Um sistema muito engenhoso. recai-se assim na puerilidade. Como classificar as notas? Os homens célebres adoptaram sistemas deferentes. cumpre classificálas. é muito defeituoso. ou. É inútil tomar notas. . vendendo fichas de todos os formatos. Obstinar-se em acumular. Adquiri fichas de papel bastante consistente. se tiverdes um catálogo de matérias. com divisões e subdivisões. Não há inconveniente em continuar numa segunda ficha a nota começada na primeira. por não permitir classificar. dum móvel com gavetas de dimensão apropriada. reflectindo num trabalho. a ordem é dinheiro. cada qual com seu titulo. não vos esqueçais de apor a cada divisão e subdivisão uma letra ou número de ordem. corre-se o risco de vir a ser maníaco. quando vos aprouver. É prática detestável. é pensamento. Aqui só podemos der indicações gerais. sem custo as encontrareis na hora do trabalho. se quiserdes coleccionar muitas notas. ora. II – Como classificar as notas. É bom guardar o rasto das leituras e das reflexões e copiar documentos. tudo aqui se deve subordinar ao bem do trabalho. dão-se pressa em preencher os vácuos. para numerar visivelmente as diversas categorias de notas. Registos diferentes para cada assunto corrigem em pane esse inconveniente. em conformidade com as notas que pretende tomar. e cuidareis de a classificar logo em seguida. aliás.

Fizestes a colheita das notas com o intuito da obra actual. Em seguida. Para isso procedei do seguinte modo: Tendes as fichas em desordem. reuni num pacote as que se referem ao mesmo número. as fichas que lhe dizem respeito. caso as notas hajam de tornar a servir. Se. de reserva as notas antigas que a ela se referem mais ou menos directamente. apertai os pacotes com pinças. recopiai o que escrevestes pela ordem obtida. classificai e empacotai. Distingui com um número as fichas correspondentes ao mesmo assunto. preparastes a vossa obra sem plano determinado. Se tendes um plano pormenorizado e se de acordo com ele constituístes ou recolhestes as notas. Eis-vos chegados ao momento de utilizar a documentação. Percorrei-as. fareis pesquisas suplementares. duas vias se abrem diante de nós. ao catálogo e às indicações que ele vos dá. começai agora por estabelecer o plano. Se no plano de concatenação das ideias ainda houver espaços em branco. numerai a lápis e ao de leve. quanto possível. além disso. Concluída a operação. numerai os artigos sucessivos desse plano. tendes diante de vós as ideias de que dispondes. tomai-as uma a uma e inscrevei num linguado o conteúdo de cada uma com o menor número de palavras possível. tirando-o da documentação. e a redacção está preparada. como há pouco dissemos. referindo-vos. . e nada mais tereis de fazer senão ir estendendo diante de vós. sendo necessário. fácil de corrigir as vezes que se quiser. pelo contrário. tendes. para esse efeito. tendo em conta as suas relações e dependências: focai mentalmente as ideias mestras e agrupai à volta delas as restantes. por conseguinte. sucessivamente. o conteúdo de cada pacote para o trabalho da redacção. servi-vos duma numeração marginal das fichas. Juntai tudo. Depois disso. tratai de os encher.64 III – Como utilizar as notas. mas por simples directivas. classificai-os.

Quem não produz. mas é certo que. Podem-se explicar as qualidades do estilo em tantos artigos quantos se quiser. É preciso escrever ao longo da vida intelectual. A vida decorre em círculo. o vosso verbo. tudo. Toda obra é manancial. A paternidade espiritual é sementeira de bens. é qualidade do meu ser. O contacto com o público obriga o escritor a constante trabalho de aperfeiçoamento. os louvores merecidos animam-no. O discurso é acto de vida: não deve representar um corte na vida. Não podemos passar a vida só a aprender e a preparar. formar. dentro e fora de vós. ser-lhe-á. porém. Chegou a ocasião de dizer em breves palavras o que deve ser o estilo para corresponder aos fins sugeridos aqui ao intelectual. imposto o progresso. que corre. desde que juizes competentes vos julguem capazes disso e desde que vos sintais aptos para voar. A humildade não oferece dificuldade. O P. Gratry insiste muito na eficácia da escrita. para ousar dizer como se escreve. O estilo forma-se. o mutismo diminui a personalidade. é o instrumento espiritual de que me sirvo para me dizer e dizer a outrem o que ouso da verdade eterna. por assim dizer. e por outro viver vida espontânea e sincera. Pelo menos ficamos conhecendo o ideal a que visamos e não alcançamos.65 CAPÍTULO VIII . escrevendo. precisais de saber pensar alto. Bergson diria no tout fait. Escrever por um lado. se resume em três palavras. Falar. habitua-se à passividade. disse Aristóteles. Além de que. para suster e avivar a atenção que depressa esmorece se não for instigada pela acção. tornamo-nos improdutivos. vinco interior. Seria prudente não escrever. o medo de orgulho – porque o orgulho também gera o medo – ou a timidez aumentam mais e mais. para estimular as pesquisas necessárias para levar a cabo a produção.O trabalho criador I – Escrever. . O estilo é verdadeiro quando corresponde a uma necessidade do pensamento e quando se mantém em contacto íntimo com as coisas. que se exerce. intelectualmente. Devem tomar-se em consideração as disposições pessoais. quando diante de Pascal. verdade. isto é. <<O estilo é o homem>>. sou eu envolvido de certo modo. recuamos. individualidade. é preciso começar: <<o começo é mais que metade duma coisa>>. órgão fortificado exerce-se mais vigorosamente. Órgão. Escrevei e publicai. para a maior parte. voai logo que puderdes. Escrevemos primeiramente para nós. exige a longa e precoce aplicação que paulatinamente se converte em hábito mental e constitui o que se chama o estilo. a pena. Em todas as coisas. apoiado em vós e numa prudente maternidade espiritual. é ofender o verbo e a harmoniosa unidade humana. cansamo-nos de esperar. Montaigne. é ouvir a alma e. Chegou o momento de realizar. É o que sucede quando caímos no artificial no convencional. é ouvir-se e sentir a verdade com a frescura de sensação dum homem matinal que ausculta a natureza logo ao despontar do dia. se sofreu a influência dum estilo superior. Bossuet. creio eu. Quer que se medite sempre com a pena na mão e que a hora pura da madrugada seja consagrada a este contacto do espírito consigo próprio. nela a verdade. desempenha o papel do treinador nos jogos desportivos. para reanimar o esforço que se cansaria não vendo os resultados. dissemos. a não ser que se prefira sintetizar nesta única frase: escrever verdade. La Fontaine. Se quereis ser alguém. em vez da estagnação que pode resultar do perpétuo silêncio. a minha <<pena>>. enfim para formar o estilo e adquirir um valor que completa todos os outros valores: a arte de escrever. para ver claro nos nossos casos. disposição do cérebro animado. falar solitária e silenciosamente por meio de escrita. aprender e preparar exigem uma dose de preparação: para encontrar um caminho é preciso enveredar por ele. cresce e fortificase. O pássaro sabe muito bem quando há-de lançar-se no espaço. pensar explicitamente. A arte de escrever. as críticas fiscalizam-no. para determinar melhor os pensamentos. simplicidade. O meu <<estilo>>. melhor do que ele o sabe a mãe.

mas ocultamo-lo por detrás das generalidades adquiridas. é único em toda a terra e em todos os séculos. <<Escrever como o orvalho se deposita sobre a folha e as estalactites se suspendem do tecto das grutas. suscitará interesse inesgotável. o automatismo gasta as línguas. é a abnegação e a rectidão: abnegação que afasta a personalidade. mas só o é. O estilo. Paris. falada ou escrita. A vida reconhece a vida. como a planta que provém da semente: tem arquitectura peculiar. O som da verdade tem de ser ( 1) Emerson. esses maçadores. mas a personalidade da expressão só ganhará em nitidez e relevo. Ora o nosso espírito é decerto muito mais original do que o rosto. Quem assim escreve. talvez o próximo lance um olhar de curiosidade. O que sai de mim sem mim é necessariamente semelhante a mim. Como a carne deriva do sangue. é como o corpo que pertence à alma. O discurso deve corresponder à verdade da vida. e não enfiar frases. A verdade do estilo afasta o molde. logo o discursador não deve ser sombra. Por isso o segredo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas. que convém a um pensamento. das coisas que só se pensam literariamente. é revelar o que é. 640. Para obedecer às leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou. das frases tradicionais. Para viver. evitando certos efeitos que espontaneamente se ingerem esperando a vez de se fazerem valer. daí vem. acrescenta o mesmo autor. gastando com elas aquela eloquência de que a verdadeira eloquência zomba. como a fibra lenhosa se forma da seiva>>(1): eis o ideal. Nunca se deve escrever <<à maneira de. no íntimo delas. Colin. Mostrá-lo tal qual é. e temos exemplos de sobra em Demóstenes e Bossuet. mas ostenta individualidade empolgante e incomunicável. então convencerei e. se me dou com plenitude. deixarei o dardo cravado nas almas. antes. mas sem nos esquecermos de nós. O ouvinte é homem.. A virtude da palavra. esses intrusos. o lugar de transcrição directa e imediata da ideia. O rosto tira da espécie os seus caracteres gerais. a uma fórmula que passou para o uso comum. diz Sidney. quando se trata de intercâmbio entre a verdade que fala dentro e a alma que escuta: rectidão que expõe sinceramente o que foi revelado na inspiração e não lhe acrescenta palavras inúteis. Se me contento com entregar ao próximo um pedaço de papel impresso. e escrever verdade. Edit. A pessoa orgulhosa e perturbadora estará ausente de semelhante discurso.66 O <<discurso de circunstância>> é o tipo das coisas que se dizem porque é preciso dizê-las. com o objecto das meditações habituais. será a arte. se a circunstância extrai do nosso íntimo o que de lá brotaria igualmente por si. a um lote de expressões outrora novas e que já o não são por terem perdido o contacto com a realidade donde nasceram. O meu estilo é o meu rosto. por flutuarem no ar. <<Olha para o teu coração e escreve>>. O ouvinte mostra-nos uma alma que quer ser curada ou iluminada: não lhe propineis só palavras. mas depressa se desfará dele. de facto. como para si só. o que se prende com as opiniões pessoais. Imitar é alienar o pensamento.. Por isso o discurso de circunstância muito frequentemente não passa de discurso de ocasião. pag. e na arte de os exprimir com exclusão de qualquer balbucio acessório. para a humanidade. porque pensar é conceber o que é. Autobiographie. sou árvore que oferece folhas e frutos suculentos. das alianças verbais que só representam velhos hábitos em vez de representarem amor. Régis Michaud. Pode acontecer que seja genial. Para quê ter maneira? A verdade não a tem afirma-se sempre nova. aplicando-nos a articular com vigilância todos os elementos. Semelhante pretensão é o motivo por que devemos apartar esses parasitas. . na qual a humanidade se possa reconhecer como sua inspiradora. porém. Como observa Paulo Valéry. em parte. se é que possui o talento de pronunciar uma palavra verídica. Enquanto desenrolais períodos. fala. o interesse do retrato. se. Chamo molde a uma verdade antiga. escrever sem carácter é declará-lo vago ou pueril. até que elas vos falem e determinem os termos que as devem exprimir. ou por outra escrever de acordo com o pensamento.>>. olhai para fora e para dentro de vós e procurai sentir a correspondência entre a vossa personalidade e a de quem vos escuta. vãos ouropéis que tomam o lugar do autêntico ouro. como Péricles. O estilo superior consiste em descobrir os laços essenciais entre os elementos do pensamento. apoiando-nos nas aquisições que a todos pertencem. temos de utilizar sempre a sintaxe <<em plena consciência>>. nem mesmo à maneira de si próprio. sem orgulho nem artifício.

quando é de mão de mestre. e Delacroix releva neste artista <<os soberbos embutidos. João Evangelista não se fartava de incular: <<Amai-vos uns aos outros>>. deve levá-lo à perfeição. não faz mais do que manifestar o germe onde se esconde a ideia da espécie. que é o direito de quanto existe. ao contrário do que sucede v. as faces simples. tudo na curva pura que vai do germe ao germe. prodiga ali para a glória da verdade. Infelizmente. como convém a um homem que fala a outros homens e procura atingir neles o que directa ou indirectamente é órgão de verdade. expressai-o de sorte que todos vos compreendam. reforça a impressão que o leitor. é que a sua glória reluz. . só há necessidades orgânicas. Não sejais escravos da moda. escreve Júlio Lachelier. foram todos originais. quem só é rimador em vez de ser poeta. que os mestres não se cansam de repetir. encontraram eles a forma particular de a exprimir. a árvore. é economia no seio da riqueza. g. <<O belo corta o supérfluo>>. em matéria de estilo. da simplificação: eis o segredo da força. II – Desapegar-se de si e do mundo.67 pessoal a cada um dos instrumentos. da eliminação. Nada de mais. por seu turno. mas nela o brilhante é também orgânico. como a árvore. Ora. Se a maneira é afectação. Dai água de nascente. em Leonardo e. nada ao lado. A lei e os profetas. Quem possuir o génio do estilo. O estilo. os narizes sem minudências>>. como em Miguel Angelo. Ora. em vez de enfraquecer. O estilo não é um fim. a não ser que se empreguem como simples expediente para encobrir o vácuo da mentalidade do escritor. criam sistemas: ora um sistema é algo do artificial e o artificial ofende a beleza. estilista em vez de escritor. qual o ferreiro que se diverte em tornear volutas por prazer? O estilo exclui a inutilidade. desvia-o e avilta-o o escritor que faz estilo só pelo estilo. sobretudo. Mas nessa simplicidade não deve passar despercebida a firmeza de contornos. a flor é tão grave como o fruto. incomoda-os a própria riqueza e não sabem reduzir-se. só duas espécies de espíritos parecem predispostos para a simplicidade: os de pequena envergadura e os génios. a originalidade verdadeira é facto de verdade que. procurando fazer das suas palavras e dos seus actos a expressão adequada da razão. o que é ainda uma lição. quando existe. em Van Dyck. receberá. pelo contrário. hoje. é rara a inocência do espírito. requer desapego. em Velasquez. No real não há floreados. <<Um estilo completo é o que alcança todas as almas e todas as faculdades das almas>>(1). embora o não tivessem pretendido nem se tivessem julgado tais. Uma vez que determinastes um pensamento ou sentimento. Uma frase. alia-se por vezes à nulidade. sustentado por substruções que nunca falham. O seu papel não é brilhar. Não quer dizer que não haja na natureza nada de brilhante. Não proscrevemos o sentimento pessoal que tudo renova e glorifica. o estilo. Amesquinha a verdade quem só se apega à <<forma>>. Afaste-se a personalidade atravancadora e esqueça-se o mundo. um trecho escrito devem ser como ramo vivo. Os floreados constituem ofensa para o pensamento. mas fazer aparecer: quando ele se apega. Quem pensa na verdade. gasta o que é preciso. Daí brota a simplicidade. que se firma na raiz. os restantes são obrigados a adquiri-la laboriosamente. Todo escritor anseia ser mestre no estilo. dizia Miguel Angelo. poupa aqui. <<Os homens verdadeiramente superiores.>> Todo o instrumento tem timbre. do germe desabrochado no escritor ao germe que deve desabrochar no leitor e propagar a verdade ou a bondade humana. é a inocente nudez que revela o esplendor das formas vivas: pensamento. Para a natureza. não drogas de farmácia. como os filamentos da raiz. imita as criações naturais. e a folhagem tão grave como o ramo. realidade. Por isso. e dum modo mais geral o trabalho criador. como o ferreiro é mestre na forja. não pode ( 1) Gatry. Les Sources. mas sim a vontade própria contrária ao reino da verdade. Muitos escritores. Cultivai a arte da omissão. como S. criações e manifestações do Verbo.

e. um violador efémero. é Cristo>>. O essencial não é o acolhimento feito às nossas palavras. astrónomo. disfarçamos a nossa insuficiência. que se introduz no trabalho. por pouco que nos elevemos na escala das ambições e descuremos o êxito actual. <<Não olheis donde vem a verdade. que puser a mão na consciência. longe da personalidade efémera. A inspiração não se compagina com o desejo. mas o mal está em o trabalho ser vaidade. em companhia da matéria animada ou inanimada. dos anjos e de Deus. que é imortal. dizíamos. Só assim nos engrandecemos verdadeiramente. <<declaramos>>. <<afirmamos>>. Todos os homens se apaixonam em determinados momentos. o regime do trabalho servem apenas para obter uma fita roxa ou vermelha. degenera. Este sublime desinteresse é o distintivo do ser superior. que caminha. <<estamos certos que. fazer dele lei sempre aceite. Estais preparados para morrer pela verdade? Tudo o que um autêntico amigo da verdade escreve. Corneille interpretado por Talma transforma-se num <<não me viste?>>. Não basta trabalhar só no domínio do pensamento: é preciso que o homem todo trabalhe. Quem segue sempre a direito. damos ares de grandes. . Que esperar no homem que pára em si? Eu espero naquele que se atira. A formação dos mundos. Só se trabalha com plenitude em favor das causas pelas quais se aceita a morte. Consagrastesvos inteiramente à verdade: servi-a. diante da vossa obra. contamina tudo. em companhia das almas. Só é verdadeiramente intelectual quem pode afirmar: Para mim. ao morrer. Todos estão expostos à vaidade. poeta. É preciso trabalhar com espírito de eternidade. não deve. teólogo. a falsa originalidade que há pouco reprovávamos a propósito do estilo. Uma forma de personalidade particularmente hostil ao trabalho é a hipocrisia que projecta a aparência de saber onde a sinceridade se confessaria ignorante. >>. quando. no candelabro do espírito. e não preocupações mesquinhas. iludimos o próximo e iludimo-nos a nós. A verdade é essencialmente impessoal. quando afinal nada sabemos. o homem de vaidade. porque nele habita o espírito de verdade. Mas o homem. sentindo-nos pequenos. Em face deste fim sagrado. assim virado do avesso. em companhia da humanidade individual e social. nada menos eterno do que a pretensão ambiciosa.68 deixar-se distrair por si próprio. inspirando-se na verdade e deixando a Deus a responsabilidade das consequências. Creio nesse. reduz tudo. apegam-se sobretudo a minúsculos êxitos. tudo o que ele pensa. Quem quer alguma coisa para seu proveito afasta a verdade: o Deus zeloso não será seu hóspede. Paulo: eis aí uma vocação e uma certeza de acção vitoriosa. Queremos ocultar o nosso segredo. não vos sirvais dela. para o imenso e o universal. viver. viver. no pensamento. traçava com o sangue da sua ferida: Credo. filósofo. que pesam os pequenos cálculos egoístas? Muitos homens. Pedro mártir. é pensador emérito. O humilde suporte recebe também o seu quinhão de glória. mas a paixão nunca deve ser senhora absoluta. ora. o homem de ambição ou de vã complacência. diz S. deveria ser como o sinal que S.. Mas apertar com a verdade para que se nos assemelhe é pôr no lugar dela. reservando-nos o triunfo só pelo efeito do interesse. <<Para mim. a pintura deles ao vai além da cimalha. mas do que lhe poderemos dar. Censuramos o plumitivo de ocasião. que parece estarem apegados de alma e coração a uma obra. A personalidade egoísta decresce sempre. o jornalista em apuros ou o deputado ignaro. Não se trata do que tiraremos da ciência. Quando se serve da nossa voz e do nosso espírito. tender para esse objectivo. Claro está que o espírito. Querer dobrar a verdade à própria personalidade é orgulho insuportável que termina no ridículo. desorienta as forças. a história das sociedades. a ascensão das suas espécies. Outra tara consiste em buscar. para se manifestar. dizia S. mas o acolhimento que fazemos à verdade e o que lhe preparamos nas almas dos outros..ser o homem de paixão. o escritor. Tomás: não olheis também a quem ela glorifica. por velarem a indigência mental sob a roupagem do palavriado. nutri o desejo de que os leitores. é corrigir o que se não pode ocultar à nossa miséria. a poesia deles aspira ao <<caro Mestre>>. o resultado será sem igual. Semelhantes diligências só conseguem degradar o trabalho. e tanto mais quanto menos nisso pensarmos. devera confessar que também neste ponto cede constantemente ao orgulho. toma a cor deles sem que nisso pensemos. resplandece a autêntica chama da verdade. embora nem sempre obedecida. é a verdade. em companhia dos astros. também não olhem donde lhes vem a verdade.

seria um belo receptáculo de verdade. Fala-nos pouco de nós e dá-nos poucas vezes a ocasião de nos vermos com prazer. O trabalho criador exige ainda outras virtudes. A constância mantém-se a pé firme. Podeis fazê-lo. que exigem que os cortejemos. com perseverança. Mas tomar a peito o ser útil não. Esta virtuosa independência é tanto mais necessária quanto a massa do público tem o que é preciso para vos abaixar. o pensamento não será a vossa obra. não sejais escravos. Logo. escreve Nicole.me de Sévigné dizia de Bourdaloue e lance o Salve-se quem puder que termina por seduzir e conquistar as almas. não devemos ceder à opinião nem escrever como se ela lesse por cima dos nossos ombros. quem ultrapassar o homem realizará prodígios. paciência e perseverança. Se quereis que ele ouça as verdades essenciais. mas o seu desdém silencioso medirá a vossa queda. A criança é simples e desembaraçada. a perseverança evita o gasto da vontade.. III –Constância. meditai só a verdade para bem vosso e alheio. quer ser lisonjeado. humanidade assim feita. para que uma obra não seja curta nem indigente. os trabalhos de Bossuet destinados ao Delfim. é o mesmo que pedir uma ordem. À sua confiança ingénua e ao seu discurso directo prende-se um forte interesse. como M.. quando vós é que devíeis pensar por ele. porque abre o caminho ao Espírito. a paciência suporta as dificuldades. Paulo: A palavra de Deus não está presa. para que todos em troca lhe retribuam complacência. <<bata como um surdo>>. Só é poderosa e arrebatadora a convicção forte unida a um carácter que dê garantias aos fracos mortais. e aponta como exemplos os Pensamentos de Pascal. não nos importemos do próximo. com paciência. Lisonjeia pouco as nossas esperanças. a Suma de S. porque nenhuma outra coisa nos oferece maior ensejo de viver connosco. Numa. de evitar andar de viés debaixo da pressão dum conformismo cobarde. Pela maioria das suas vozes proclama convenções. confirma-o a comparação dos sermões quaresmais (Petit Carême) e dos Discursos Sidonais de Massillon. No domínio intelectual como nos demais domínios. nem curemos de ser úteis? Não. Gratry nas Sources. Diante da nossa secretária e na solidão em que Deus fala ao coração. cuja voz ressoaria no íntimo das almas. o mundo amar-vos-á porque lhe pertenceis. Reúno aqui três das suas exigências que mutuamente se corroboram. se o cuidado de agradar e de vos adaptar escraviza a vossa pena. fazendo-nos esquecer a nós próprios. O homem maduro e nutrido de experiência. Tomás. Para triunfar. que soubesse guardar este candor. Buscar a aprovação pública é tirar ao público uma força com que ela contava. na realidade. nem desejos factícios. Se sois deste mundo. os santos. Precisamos de nos despojar dos outros como de nós. sim. não proclama verdades. derrama a preguiça e o . O público pensará então por vós. <<Não se julgue fácil a vida de estudo. que se diz amigo de todos. Buscai a aprovação de Deus. e tudo isto contribui para mortificar enormemente o amor-próprio que.. Aqueles mesmos. É destituída de acção e de movimento. precisamos. tendes de lhas impor à força. A mudança e as ocupações exteriores levam-nos para fora de nós e divertem-nos. escutemos como a criança escuta e escrevamos como a criança fala. Não precisamos de nos deixar influenciar pelo que dirão.69 Dizia eu que se não deve esquecer o público. porque ainda não tem vontade própria. mas merecei exclamar com S. nem paixões. Além disso. não excita vivamente o amor-próprio. escreve o P. não estando satisfeito. apoie-se sobre si mesmo e a natureza das coisas.. desprezam os cortejadores e entregam-se a quem os domina. É esta feliz violência que o pensador solitário deve tentar. O público é primário. a linguagem das palavras é sempre um pouco morta. nem desperta as paixões. O mundo perverso só ama. Precisamos de trabalhar com constância. <<Um livro é tanto mais forte quanto tiver sido escrito mais longe do leitor>>. é um cobarde que sonha heróis. O intelectual pertence a todos e cumpre-lhe não o esquecer. Isto é muito exacto e está plenamente de acordo com o que disse Vauvenargues: <<Tudo o que se pensou só para os outros é ordinariamente pouco natural>>. Não lhe estais vós dedicados? Não lhe assiste o direito de vos perguntar: onde está a vossa obra? Ora. Porque nada contraria tanto a natureza como a uniformidade e o repouso. receia sobretudo que o contrariem.

Recusai energicamente qualquer passagem injustificada. estas armadilhas não oferecem grande perigo. Enquanto buscamos uma palavra que nos não acode. Ideia puxa ideia. . Op. Edison olhava tão pouco para ele que. que de facto se adaptam mal a uma empresa. enquanto dura. A preguiça é muito manhosa. pela maneira como atamos os sapatos: com muito maior razão se verá quem somos pela fidelidade ao trabalho ou seja pela pontualidade em retomar a nossa tarefa. o telefone tenta os nossos lábios. O enervamento seria contraproducente. Não reflectimos que estes bocados de duração. que relembra a teoria do Divertimento de Pascal levar-nos-ia longe. porque <<não vale a pena pôr ombros à empresa>>. surge o demónio da preguiça. Todos os trabalhos têm transições custosas. estão naturalmente indicados para preparar o trabalho ou para lhe der um retoque. mas as horas ingratas não se fazem esperar e. Tomai o trabalho pela outra extremidade e aplicai-vos a ele com redobrada aplicação. E se a ocupação não vale a pessoa. depois outra. Mas diferir não é preguiçar. Já mostrei o valor das horas da madrugada. Durante as horas de trabalho intenso. classificar documentos. disse: <<Meu menino. Quando o tédio se prolonga. da noite e dos momentos de repouso. desde que o menor incidente traz a <<languidez>> e provoca o <<tédio>> de que fala Nicole. Alguém passa na rua. tão embebido estava nas suas investigações. nessa altura. uma recitação em voz alta. porque a alegria da descoberta ou da produção opera como freio. é poderosa a tentação. exactamente como as crianças. Damo-nos a conhecer pela maneira como repousamos e nos distraímos. não há porque nos aplicarmos a ela. Nos momentos de inspiração. para verificar referências. e forçosamente o boneco terá de ser concluído. no dia do casamento – um casamento de amor – foi necessário ir procurá-lo. A uma arrancada em linha recta sucede uma curva de ângulo difícil de medir. como Deus que nunca se separa da sua obra. Caem-nos os olhos sobre um objecto. Nós queremos ser intelectuais todo o tempo e queremos que isso conste. nunca olhes para o relógio>>. Todos os trabalhadores se queixam dos instantes de depressão que cortam as horas ardentes e ameaçam arruinar as economias.. quando deveria ser preciosa tapeçaria. um amigo está na sala vizinha. Tudo está ligado.. É sobretudo nas voltas do caminho que devemos precatar-nos contra o imprevisto e a perfídia dos ataques. Muito amiúde somos tentados a perder tempo.70 tédio sobre todas as acções(1). pág. e pode suceder que o próprio trabalho vos afaste do trabalho. Quem não conhece os intelectuais que trabalham às arremetidas. Uns momentos de leitura dum autor favorito. Pode suceder que um pouco mais tarde tudo se ilumina sem esforço. por estardes muito tranquilo numa poltrona.255. assalta-nos a tentação de interromper o esforço. esse destino que eles transformam em rodilha cheia de remendos. e os instantes assim empregados são tão úteis como os outros. É belo viver só para aquilo que se está fazendo. cravais nele o olhar e bem depressa vos distrais. O tempo assim aproveitado é tempo que se forra para as verdadeiras sessões laboriosas. e lá ficamos presos como numa sarça. ou então é o jornal que chega. Dela retenho apenas a necessidade de pensar em vencer <<a preguiça é o tédio>> que são dois inimigos temíveis. sorrindo. por fases entrecortadas de preguiça e de negligência? Há rasgões no estofo do seu destino. atrai-nos uma curiosidade verbal. Pediram um dia a Edison que dissesse a uma criança alguma palavra que lhe ficasse gravada. perde-se a direcção. interrompei voluntariamente o trabalho para depois o retornar com novo afinco. porque estas pequeninas tarefas dizem-lhes respeito e são indispensáveis. quando se não enxerga a sequência dos acontecimentos e se está exposto ao grave perigo das transições artificiais. Se vos sentirdes muito cansados. apetece mais plantar couves do que prosseguir um estudo fatigante. tem-se inveja do trabalhador manual mas este por sua vez apoda-vos de <<poltrão>>. O grande inventor. porque <<está quase a ser hora>>.. etc. Quando abrimos o dicionário. Esta análise. pelo facto de vos deixardes arrastar para as perspectives abertas diante do espírito por um devaneio acaso provocado por algum pensamento. uma oração feita de joelhos para modificar o estado orgânico e para ( 1) Nicole. Às vezes é bom diferir. tirar notas. hesita-se e. entretemo-nos a desenhar bonecos. vamos ordená-lo e um útil entusiasmo nos retém durante um quarto de hora. os encaixes são a grande dificuldade dos estudos e das criações. Cit.

Pouco a pouco as rodas entram a funcionar. um esforço poupará outros esforços: a coragem dum minuto vale tanto como um dia. Salta-se uma sebe. não obstante serem para eles uma necessidade e ocasião de felicidade. a andar a cavalo e a pintar. alcançá-la-eis para o objecto das vossas predilecções: se sois atreito à dispersão de espírito. E vós. que fazer? Quando os fios da ciência se emaranham uns aos outros e as horas passam em vão. Sereis então um homem. e à inércia dolorosa pode suceder um período de entusiasmo. mas também pela visão renovada do fim em vista. voltai à carga. A sessão de trabalho assemelha-se a terreno de corridas cortado de obstáculos. até que aparecem as taras físicas e mentais. este afinco concorre para facilitar mais e mais a actividade. de recomeçar após um fracasso: é que a liberdade chama por ele. Os génios queixaram-se sempre das tribulações do pensamento. No conjunto da vida. Um excitante anódino é a marcha ao ar livre ou no gabinete de estudo. forçai a energia interior a sair. O prisioneiro que quer fugir do cárcere. de dia para dia torna-se necessário aumentar a dose de excitante. <<As obras realizadas . adaptamo-nos. Quando se recusa a funcionar. O mesmo acontece com o estudo. saltamos. Quem faz alpinismo sente-se muito frequentemente esbaforido e pesado ao fim de algum tempo. rompei para a frente. Em qualquer assunto. Foste tu que as fizestes fortes. de conquistar a liberdade do espírito numa obra feita? Reparai no trabalho concluído: é uma aparição que vos infundirá coragem. Nem é preciso. a vencer outras dificuldades. Longe de ceder à primeira impressão de fadiga. Transponde as dificuldades sem desanimar e sem perder o domínio do vosso ser. não elas que te fizeram fraco>>. Muitos são os trabalhadores intelectuais que deste modo refazem o cérebro pelo exercício muscular. o vosso motor aquece e o carro devorará quilómetros. e em que os tédios momentâneos não surtirão efeito. o busto curva-se para diante. como o corredor que se atira à corrida. o contacto perseverante com os génios tomará o vosso juízo mais agudo e mais seguro. Ainda mesmo na hipótese de serdes destituído de memória.71 libertar o espírito. A coragem mantém-se não só pela oração. quando um doloroso sentimento de impotência se apossa de vós. uns momentos de respiração ao ar livre. caber-vos-á em herança a atenção do profissional. e assim por diante. O efeito é apenas momentâneo. que pouco ou nada dependem da vontade. Uma dificuldade vencida ensina. certos de que entre os obstáculos se estendem zonas planas por onde se corre sem embaraço. depois de ter arrancado um certo número de vezes. A constância vence ainda as impressões de falso cansaço que se apoderam do espírito e do corpo. Mas o excitante mais normal é a coragem. convertendo-te em joguete das circunstâncias. O trabalhador sem constância não passa de criança. os músculos treinam-se. Todavia sempre restará lote considerável de obstáculos para exercitar uma virtude vizinha: a paciência. Há quem recorra aos excitantes: é método nefasto. depois um talude. não suspeitarão quanto trabalhastes. sem que nada anuncie para breve o termo da provação. de bom grado arrepiaria caminho. não tendes de vos libertar do erro. Após o quê. dizia Nietzsche. um pouco mais longe aparece um fosso. que fazer e que socorro invocar além do socorro divino? Os leitores acharão muito naturais os vossos êxitos. Chegados à primeira barreira. por vezes autênticas angústias. Aprendei a ser constantes pela aplicação e porfia em recomeçar: dia virá em que se dissiparão os langores persistentes. alguns movimentos rítmicos: eis os remédios possíveis. <<Os meus pés também escrevem>>. lhes infligiam longos tormentos. O espírito toma o vinco daquilo que se lhe pede frequentemente. lança mão de todos os recursos. O cérebro rege-se por leis obscuras. Mostra a experiência que quem se lança energicamente ao trabalho triunfa das dificuldades. criticarão duramente os vossos desfalecimentos. não nos detemos. Habituamonos a pensar como nos habituamos a tocar piano. sem descoroçoar: não se cansa das preparações longínquas. se fordes pouco apto para discriminar ideias. Ora persisti: as articulações desenferrujam-se. Pergunta Amiel no seu Diário: <<Por que és fraco? – Porque cedeste dez mil vezes. declarando que seus trabalhos. a respiração dilata-se e começa-se a experimentar a alegria da acção. e o trabalho duro tanto como o trabalho fecundo e alegre.

72 à custa de grande trabalho. como os exploradores do polo ou da África central. tende paciência. e o êxito é a comum recompensa de ambos. em Racine. Não confundais o generoso estímulo com as excitações. No domínio do espírito vale mais a calma do que a corrida. disse Leonardo da Vinci. que atravessa uma nuvem. dizia Biot: <<Nada é tão simples como o que se descobriu ontem. no meio da perturbação. nos encontramos fechados num quarto. devem dar a impressão de terem sido fáceis de conceber e executar. do reino dos céus. Quando a febre se apossa de vós. dizia Miguel Angelo. Por sua vez. O alpinista. Quando vos sentirdes desarmados. Ao homem que aproveita o seu tempo pertence a duração inteira. respeitando as leis de nascença das coisas e não ofendendo a ciência com pressas indiscretas. Assim falou Zaratustra. não nos compete. São segredos que o público não suspeita. A arte de pensar é morosa a desproporcionada à nossa coragem habitual. nem impacientar-nos. vencidos. Respeitai cristãmente a Providência de Deus.. quando o caminho se estende diante de vós. e a natureza opera sobre durações. <<No fundo das nascentes tudo se passa com lentidão. pois lhe quebram o ritmo. desvanece-se a liberdade interior e espreita-vos a escravidão espiritual. encontra em Deus a sua morada. afogados em espessas brumas. tendes a impressão de estar perdidos. já não realizais a obra do Verbo. e renunciaram As colheitas! As primeiras tentativas na ciência têm o carácter de provas eliminatórias: sucessivamente. Quem perseverar até ao fim. porém. nesse momento apelai para as energias de reserva. o quarto de estudo é trincheira onde cumpre estar a pé quedo como um mártir. Não podeis levar a cabo. É Ele que põe as condições do saber: a impaciência é revolta contra Ele. Em matéria de ciência. interminável. também aqui. A lei da salvação intelectual é a mesma que a da salvação total. supondo loucamente que tendes falta dele. Quem trabalha por Deus e como Deus quer.. As reservas do tempo pertencem a Deus. ( 1) Nietzsche. precisais da paciência de César ou de Wellington. se estamos instalados em Deus? A perseverança coroa a constância e a paciência. a arte de compor dificilmente versos fáceis. Boileau gabava-se de ter aprendido. Por conseguinte. nem tão difícil como o que se há-de encontrar amanhã>>. evitai a trepidação do homem apressado. pouco a pouco Ele no-las cede. em comparação das quais a vida e a morte do globo são como o nascer e o pôr do sol. diz o Evangelho. e o bom tempo volta. aparai o golpe. e os homens superiores avisam-vos que o pensamento é a mais pesada carga que o homem pode levar. os fortes resistem: no final. desorientados. Quem põe mãos ao arado e olha para trás não é digno. Já não sois vós que operais. nem Cristo em vós. mas ambos são precisos. Persisti. encontram-se apenas os trezentos de Gedeão ou os trinta de David. será salvo. É vasto campo onde a virtude da paciência se pode exercitar à vontade. porque é longa: ars longa. Devagar se vai ao longe. Carregareis a vossa carga sozinho. Para que apressar-se indiscretamente. Muitas vezes. desejamos acaso que ele se apresse? A intelectualidade tem valor intrínseco em todos os seus estados. que está posta na eternidade. pensa que o universo está mergulhado em trevas: continua a subir até encontrar para além da nuvem a luz do sol. A verdade e a natureza seguem par e passo. Ganhareis mais. ou quando. Quantos trabalhadores que deste modo abandonaram os trabalhos. Quando. não percais tempo. Portanto. uita breuis. A grande regra consiste em esforçar-se muito para criar coisas que parece não terem custado nada>>. Deveis mostrar-vos tão indomável na investigação. Aqui mais do que em qualquer outra parte se verifica o prolóquio: tudo se alcança com tempo e paciência. necessitam de esperar muito tempo até saberem o que caiu lá dentro>> (1). a delicada elaboração dos pensamentos novos. . depois de ter encarreirado por falsa direcção. exigi-las. O trabalho é batalha: requer heroísmo. O esforço virtuoso é conquista. se o caminho é termo e o meio fim? Quando olhamos para o Niágara. as sementeiras. o trabalho de paz que é a disposição ordenada das ideias. em tempo de borrasca. A alma é esta fonte secreta: não lhe tenteis desvendar prematuramente o mistério. Custa menos o ardor do que a paciência. Que importa o andar do tempo. escreve Nietzsche. <<A vida bem cheia é longa>>. que são quase o contrário dele. do que com precipitação e arrebatamento. os caracteres fracos cedem. afigura-se-nos que se não pode andar fora de casa: saímos. No ataque ao erro ou na resistência. damos uma volta com todo o sossego.

nunca amou. A necessidade do dever ou duma resolução reflectida. é um consagrado: não se subtrai prematuramente. os Aristóteles. 9). O homem de bem. a fim de conquistar a duração naquela das suas dimensões que vos é directamente acessível. nem eles são capazes de se obrigarem: é água que corre. embora livre de obrigação. Exige a prudência que. condena-os a vocação a que são chamados. tomamos o partido da desordem e da má consciência. As grandes vidas mostram este supremo distintivo. IV – Fazer tudo bem feito e até ao fim. a sua obra a um tempo segue-o e fica para nosso proveito. e. Tais pessoas representam. pequena ou grande. ninguém pensa que um vivo ou um homem poupado pela sorte possa suportar estas paredes que se assemelham às colunas quebradas dos cemitérios. Robustecei a vontade e confiai-a ao Senhor para que Ele a consagre. e por fim não cumprem. Querer é estar sujeito. não tem de recear a mediocridade ou imperfeição do resultado. também ele. dir-se-iam incapazes de cumprir qualquer obrigação. e as largas passadas sem perseverança são saltos perdidos que a nenhuma parte conduzem. Vós. mais ainda as infidelidades. não desistais da obra começada. Outros há que se obrigam. Pertencereis então ao número dos pensadores fiéis. Os gigantes do trabalho. que seguis os vestígios dos grandes homens. convém sublinhar a necessidade de perfazer e a obrigação de concluir o que se julgar útil empreender. que trabalhou longamente sem desfalecer. Um laço moral é superior a um laço material. mas cortai uma só. os Littré. quem não persevera. projecta. fazemos e não fazemos. quereis converter o vosso passado em campos de escombros? Há pessoas com quem podemos contar. deve constranger-nos tanto como as necessidades da natureza. Quem larga. não conseguimos obrigá-los. nunca segurou. que sois consagrados. <<Devagar se vai ao longe>>. finar-se numa morte simples e sumptuosa. perseverai nela com rigor maleável: excluí os deveres inferiores. que andam parte do caminho. não queirais pertencer ao número dos viajantes cobardes que desertam. mas logo param. Terminaram elas como um dia glorioso. os Tomás de Aquino. se deixásseis qualquer trabalho por acabar. Vós. A vermelhidão do pôr do sol não é menos bela que a poalha loura da madrugada. . porque censurar-vos-iam. quando prometem. O destino é um só. e com muito maior razão uma obra parcial. Há em vós uma lei: obedecei-lhe. O abandonar um projecto ou uma empresa denota fraqueza. De que serve uma casa por acabar? Que pensar de quem lhe assentou os alicerces? A sua ruína evoca desgraças. decidi-vos a ser fiéis. Resisti até ao termo da viagem. E vós construtores segundo o espírito. sentam-se esgotados e cedo ou tarde voltam às regiões da vulgaridade. se não for loucura. Todavia. sem <<ter calculado se dispõe de meios para a terminar>> é louco. não quer. o intelectual que se lhes assemelha. preparai o estofo com cuidado. e partireis dignamente ao encontro d'Aquele que pacientemente vos espera. reconhecer-vos-ão por filhos. como diz o Evangelho. Reflecti antes de lançar ombros a um trabalho. quem se mete numa aventura. é estar agrilhoado. resolvei-o com honra. os Pasteur. Envolvido na sua onda. pode. Prometestes executar. Não rematar uma obra é destrui-la. Põe-se-vos um caso de consciência. quando chegar o momento de coser. Determinada a tarefa. O verdadeiro intelectual é. não abandoneis. não é intelectual. pois. os Leibniz. Daí uma diminuição de dignidade que não favorece o progresso. Medi dez vezes. por definição. Habituamo-nos a ceder. deliberemos sobre a oportunidade de começar. em face da obrigação de concluir. quem cessa de amar. perseverante. executai. Assume a tarefa de aprender e de instruir. lemos nos Provérbios (18. os Agostinhos. que ela não vos largará. os Albertos Magnos. ora. até mais imponente. Quem pratica estas três virtudes. uma espécie inferior. ama a verdade com toda a alma.73 Perseverar é querer. moralmente. Esforçai-vos em profundidade. todo começo é promessa. <<Quem fraqueja no decurso duma obra é irmão daquele que destrói o que fez>>. cumprem a palavra.

tudo vai bem. a cobardia de hoje é má garantia para o heroísmo de amanhã. transformava-as em obras-primas. Não termino verdadeiramente o que me recuso a encaminhar para o melhor resultado. Conta-se que Ticiano esboçava vigorosamente as suas telas. deixai-o repousar. seria como nódoa em estofo de seda preciosa. nem as linhas básicas. respondei que esses retornos são as mais das vezes pura ilusão. diz Leonardo de Vinci no seu epitáfio. por um esforço vigoroso. Aplicai então ao vosso parto espiritual as palavras da Bíblia: <<Quem poupa a vara. Ninguém recomenda ao caçador de lebres que ataque o leopardo deste ou daquele modo. Se estiver ao vosso nível criticai-o sem dó nem piedade em todos os pormenores. envolvendo-as num <<olhar inimigo>>. Vem aqui a propósito um conselho prático. 13. por perfeitas que sejam. mas cuja hereditariedade. Concebida a obra. A vocação serve-se dos recursos. até ao fim. e voltai ao trabalho. pois o que não se termina não é. Se nessa altura vos desagrada. Fareis sempre muito. Se a preguiça vos soprar: Cessa agora. Na medida em que o faço mal sou um falhado. o ser e a perfeição respondem à mesma ideia. visando apenas rematar. V – Não ir além das próprias forças. se concluirdes o que fazeis. ano os cria. pertence-lhe em cada caso de que é tecida. está fixa e cujos caracteres fundamentais já se não mudam. 24). É máxima muito sensata. não haverá aderência. Dado o primeiro passo o resto vinha por acréscimo. O último dos Dezasseis Preceitos tomistas reza assim: <<Altiora te ne quaesieris. Depois de vos terdes decidido a empreender um trabalho. Retomava-as então e. mais tarde voltarás à carga. dai tempo ao tempo e. não tentes coisa alguma superior às tuas posses>>. requer a doação total. odeia seu filho>> (Prov. Toda obra quer ser feita dum arranque. nem a composição. O que fizésseis não ajuntaria nada a isso. Observa Beethoven que um trecho acrescentado posteriormente nunca se adapta ao carácter da composição.74 Donde se segue que haveis de coser o melhor que puderdes. Se o que fazeis corresponde ao vosso génio. agimos. Já o oráculo antigo dissera: <<Não alargues o teu destino. Segundo Spinoza. pelo contrário tirar-lhe-á alguma coisa. determinai imediatamente. Se o não fizerdes então. se vos destes totalmente a isso e se o voto da Providência se cumpriu em vós por uma obediência cega. Quando tiverdes realizado um trabalho. às vossas graças e ao tempo de que dispondes. O intelectual mal dotado nunca fará obra com jeito. Ter uma vocação é ter a obrigação do perfeito. mas de acordo com a primeira inspiração. posteritas>>. <<Qual potui feci: ueniam da mihi. destoariam sempre. O trabalho intelectual é apenas o prolongamento das tendências nativas: somos. que Deus e o próximo me perdoem as deficiências. o ser e o bem são convertíveis. Não encontrareis a coragem de repensar ab ouo uma obra medíocre. tratai-a como se trata uma criança que se alimenta e se educa. nunca o fareis. Nessa mesma medida renuncio à minha vocação. Esta severidade supõe que os trabalhos empreendidos se adaptam às vossas forças e por elas se medem. mas significa também perfeito. só depois de um prazo mais ou menos longo. Uma vez descida a encosta. Não é necessário compor muito. volvei para ele o olhar. e é disto . Quanto às correcções que podereis introduzir. dificilmente se torna a subir por ela. Se a presa for mais forte do que o caçador. recomeçai. o valor que ele deve revestir. Antes de cada trabalho dizei: devo fazê-lo e fazê-lo bem. até que possais dizer: esgotaram-se-me as posses. nasce a obra. devora-o. pintava-as até certo ponto e logo a seguir as abandonava até que lhe fossem estranhas. Acabado significa terminado. algodão com seda. nem procures ultrapassar o dever que te é imposto>>. desobedeço ao Senhor ou subtraio-me a meus irmãos. Ticiano retomava a fundo. mas a expressão <<mal dotado>> aplica-se também a um trabalho particular. preparastes e que estais em via de o começar. não modificava os dados primordiais. A vossa vida. Dai sempre o máximo no momento da criação. A vocação intelectual não é um pouco mais ou menos. Nesse caso é ridículo traçar regras. Se tentardes prolongar chumbo com ferro. e ambos estes sentidos se corroboram. consagrada ao Deus de verdade no seu conjunto. O que se não perfaz não é. depois que o concebestes.

começar pelo começo. O orgulho não se dá com esses expedientes. faríeis mal aquilo que o próximo fará bem. é chama apagada. visto que ser chamado a alguma coisa é ver abrir-se. nem a compreender o incompreensível. um caminho na amplidão da vida humana. mas o orgulho é o inimigo do espírito e da consciência. As condições do êxito são as mesmas em todas as coisas: reflectir ao princípio. a nada é fiel. A que for além da medida e de todas a mais pequena. mas a de toda a vocação. pedi conselho. Se preciso for. Julgai de tudo isto com humildade e confiança. É grande sabedoria empreender segundo as suas forças. não se obrigar a pensar o impensável. Muitas vezes dissemos: a vossa obra é única. 0 <<conhece-te a ti mesmo>> de Sócrates não encerra apenas a chave da moral. dizer apenas o que se sabe. a tese que podeis escrever. a disciplina de que sois capazes. aplicaivos ao trabalho de alma e coração. não altereis a ordem.75 que falamos agora. . a matéria que podeis tratar. a dos outros também o é. evitar o perigo de iludir a substância das coisas cuja ausência se disfarça sob a roupagem de termos pomposos. aniquila a própria força. Fixai-vos o melhor que puderdes. Só vós podeis fazer bem aquilo de que vos encarregastes. o livro que vos pode ser útil. Infiel a si. sem esquecer no entanto que nos conselheiros abundam a leviandade e a indiferença. Após o quê. Discerni em todas as ocasiões o esforço que vos convém. Mas a reflexão inicial tem por objecto primário determinar aquilo para que somos feitos. o púbico a quem podeis servir. É grande a obra que for exactamente medida. diante de si. os sacrifícios em que podeis consentir. Deus satisfaz-se em todos. O presunçoso cede ao peso da sua obra ridiculiza-se. envidar todos os esforços. proceder com método.

temos o homem. a simples vista do pôr do sol. querer ver os seus lagos com todas as manifestações criadoras. da acção exterior. não quer que. a audição da Sinfonia heróica ou do Rei Édipo. da amizade. e aplicámo-las aos trabalhos que mutuamente se sustêm. O especialista é antes de mais nada uma pessoa. as manifestações públicas. sem o sobrecarregar. É difícil de precisar a medida de tudo isto. guardar o contacto com a humanidade e com o mundo. O destino não é algo de particular. o poeta. a palma pertence por muitos motivos à segunda. É preciso ser sempre mais do que se é: o filósofo deve ser um pouco poeta. Os fins particulares não valem a vida. Chamando agora noz ao trabalho técnico. A intelectualidade concorre sem dúvida para a soberania do homem. será porventura ironia abeirar-me uma vez mais do intelectual e recomendar-lhe que guarde a liberdade da alma? O que mais importa à vida. da natureza. a fim de sair de cada sessão de estudo com capacidade para novo voo. e o carácter estaria ameaçado. Pascal recusa-se a dar apreço ao especialista que só seja especialista. refresca as cabeças bem feitas. diminuiu-se. as assembleias. os jogos olímpicos. pelo contrário aligeirando-o. devem-se encarar outros factores de alargamento. o azeite da vida intelectual fácil dos nobres lazeres. e o povo até gosta disso. o culto da palavra. e o prático deve saber escrever. da arte. é índice seguro o saber avaliar o valor relativo das coisas. um Mistério em Jumiège ou no teatro de Orange. O trabalho técnico só lucrará com isso. a actividade prática: juntemos-lhes o convívio com a natureza. A árvore é um instrutor e o . Pensamos acaso que uma visita ao museu do Louvre.76 CAPÍTULO IX . o cuidado da casa. O espírito deve manter-se aberto. quando um homem entra numa sociedade. o artista deve ser poeta e filósofo de vez em quando. Das duas espécies de espíritos – os que se esforçam por saber alguma coisa e os que tentam ser alguém –. em vez de se combaterem. A finalidade do estudo consiste em promover a extensão do nosso ser. os desportos inteligentes. O estudo deve ser acto de vida. forjado tantas cadeias. Lucra amplamente da sociedade. nem os actos a acção. não são os conhecimentos. por assim dizer. A natureza renova tudo. uma dose de poesia. É nocivo tudo o que esteja desligado das suas largas relações. é o carácter. que se converterá em tara. oprimido pelo rochedo de Sísifo. mas pensa na harmonia humana. um pouco filósofo. e a alma só se desdobra no ambiente universal. uma sessão patriótica no Trocadero ou no grande anfiteatro da Sorbona. O escritor deve ser prático. em que se inclui a vida religiosa. o não. se lembrem apenas do livro que escreveu. toma um vinco profissional. a obra não vale o artista. as artes. Há outra ciência diferente daquela que se confia à memória: a ciência de viver. a ciência é a natureza ajuntada ao homem: num e noutro caso cumpre salvar o homem. debaixo do seu trabalho. No saber. Agora limito-me a alargar os fundamentos de alcance geral. um discurso solene em Notre-Dame são estranhos a qualquer especialidade? Seria compreender muito mal o pensamento. Já citámos a frase dum rabino: <<Num alqueire cheio de nozes podem caber ainda muitos almudes de azeite>>. Quem só pensa no seu trabalho.O trabalhador e o homem I – Guardar o contacto tom a vida. Depois de haver pedido tanto e. tudo é esboço: concluída a obra. e di-lo não só em conformidade com o espírito de ciência comparada que descrevemos. abre caminhos e sugere vistas de conjunto que a abstracção ignora. poderemos juntar-lhe. e o essencial da pessoa não se confina no que se pensa nem no que se faz. na aparência. diz. mas espero que o leitor encontre nestas páginas pelo menos o espírito de semelhante decisão. se o homem se mantivesse. Mencionamos a sociedade. Para o pensamento e para a prática. Se a arte é o homem ajuntado à natureza. trabalha mal. <<É péssimo sinal>>. deve ser útil à vida. mas não basta. nem o talento uma ampla intuição onde se aniche a existência. Além da moralidade. deve sentir-se impregnado de vida. um passeio a Versalhes em pleno outono. e já indiquei o porquê.

enfiais proposições. Segundo S. O intelectual é homem de saber largo e variado que prolonga uma especialidade penetrada a fundo: é amigo das artes e das belezas naturais. e o ritmo. em que foi tomado como o transeunte num exército em marcha. de que zombava Pascal. quer habitar no pensamento. sensorial.77 prado pulula de ideias como de anémonas ou de malmequeres. debaixo do império das mesmas leis. não volteis as costas ao resto da vida. mas subsistem. É verdade que podemos levar para lá o universo e povoá-lo de Deus. se elevava invencivelmente à ideia dos mundos. A música tem de precioso para o intelectual o não determinar nem perturbar coisa alguma. o céu revolve inspirações com suas nuvens e astros. diante dos iguais e diante da criada. mas este povoamento só é efectivo após longa experiência cujos elementos estão disseminados em toda a parte. Pasteur uma pesquisa mais apaixonada e mais atenta. No horizonte indistinto do sonho. por causa do estudo. elaborais teses.Tomás. o seu espírito revela-se o mesmo nas ocupações correntes e na meditação. Recusai ser cérebro despegado do corpo e homem diminuído na alma. Não renuncieis a coisa alguma que seja do homem. e também o pai do génio. e recusais-lhe guarida. Constituirá excepção apenas a acção de pensar? Não será ela influenciada pelo ambiente imaginativo. e mergulhava a sua obscura acção na comunhão dos seres. encontramo-lo idêntico diante de Deus. espiritual. Não convertais o trabalho em monomania. atribuía ele a esta harmonia o êxito extraordinário do seu Jacó lutador e do cavaleiro do Heliodoro. concorrem para as integrar e comunicar-lhes os seus caracteres. aproveita a seus objectos. uma ideia a desenvolver. na Capela dos Anjos. espíritos encarquilhados. Tudo reside na harmonia e tudo se regenera. para não sermos forçados às galés nem reduzir a intelectualidade a gargantilha. graças ao mesmo Deus donde tudo parte e aonde tudo volta. as montanhas estabilizam os pensamentos com a sua mole. na montanha. Quem ignora que. o intelectual pode ser empolgado por uma impressão de grandeza. vós. Tomando ao trabalho. que. que pretendeis consagrar-vos vocação do estudo. pensais perder o tempo em seguir as torrentes e em errar no rebanho dos astros. num concerto. colore os seus temas habituais e lhe proporcionará brevemente mais rica sessão laboriosa? Não vai ele. arrastou-o para novos caminhos. para que não seja canto isolado. corações ressequidos. embrenhar-vos nas profundas abstracções e brincar com as crianças. sonhando massas que se precipitam com a mesma pressa. Supedita apenas estado de alma. aplicados a esta ou àquela tarefa. entregues a nós somente. Sulpício. o campo calmo e os teatros da arte me não houvessem anteriormente educado? Por isso. A estrela vespertina aborrece-se no seu escrínio sombrio. Hoje as <<togas de pedantes>> e as <<borlas>>. pai do mundo. Encontraria eu a Deus no meu quarto. surtirão efeitos diversos. de que a cercamos. O trabalho é acto livre. social. Delacroix fundia-se deliciosamente com os sons do órgão e com os cantos religiosos. Vós. Rodin fará dela uma estátua. penetrado desta Presença espalhada por toda a parte. e as meditações elevadas lançam-se à procura das correntes de água. Em S. de beleza. levando em si um mundo de ideias e de sentimentos que se não inscrevem . Conheço alguém que. sentia-se levantado pela Força única. Por conseguinte. de poder que se transpõe imediatamente em modos particulares. Gratry uma página ardente. calculais. Guardai equilíbrio onde o peso dominante não ameaçar arrastar tudo após si. cada qual vê subir a imagem da sua preferencia e inscreve rastos dela na sua língua. uma imagem viva? A harmonia alterou-lhe o tom da inspiração. nas costas dum programa. O universo envolve o homem e não o suspeitais. mas urna voz da orquestra? Somos muito pobres. estão nas almas: não vos adereceis com elas. se nunca fosse à igreja nem olhasse para o céu que <<canta a sua glória>>? Escreveria eu debaixo da impressão da natureza e da beleza universal. se os altos cumes. na dependência das mesmas forças. já não têm curso. Sabei estabelecer uma tese e olhar uma aurora. O ritmo. Corot uma paisagem. mas não olhais. é preciso alargar o trabalho. Escreveis. no gabinete de trabalho. como o divino Mestre. onde o mundo se reflecte. as circunstâncias de pessoa e as circunstâncias de facto fazem parte das actividades. olhando uma torrente rápida. rabiscar à pressa o esquema dum capítulo ou dum discurso.

c. descansaria enfaixando molhos de feno no campo. se possível fosse. que os dados da fisiologia corroboram: <<estudar tempo de mais é uma maneira de preguiça>>. O trabalho. Tomás. Nem tudo cansa do mesmo modo. <<Quero que te poupes>>. os nossos poderes de pensamento são proporcionados a certa dose de acção. as vantagens de vaidade. não se cansar. No teatro. Na medicina costumam combater-se os efeitos duma droga nociva pela droga contrária. É preguiça indirectamente. nem no mesmo momento. o génio interior do corpo empreende uma restauração que ele quereria que fosse completa. A intelectualidade não sofre tabiques. O pretenso lazer não passa de transformação de energia. quero dizer. o trabalho se qualifica em certo modo revelando-se excessiva. no sentido que lhe damos. O ensaiador que interrompesse essa tarefa seria inimigo do público e de si próprio. convém louvar mais explicitamente o repouso. de ambição que dela se esperam. Prova-se assim que. na <<adega>>. exige limites que o mantenham em vigor e duração e lhe procurem. distribuindo o feno pelas gamelas dos ( ( 1) 2) De Musica. O ser em contemplação é algo de <<mais pesado que o ar>>: só se mantém elevado por um gasto considerável de energia. as realidades e os seus reflexos têm é mesmo Pai. formam alianças e não se contradizem senão pela harmonia.78 nos livros nem nos discursos. arte. q. em todo o momento. Todavia. o repouso é. A intemperança é pecado porque nos destrói. a maior soma de efeitos de que é capaz. Todos os objectos são portas para penetrar no <<jardim secreto>>. Tudo se une no concerto divino-humano. que se expandem na conversação amigável e guiam a vida. a despeito dos protestos. mas sim o espírito na carne. como os apaixonados de quem se costuma dizer que gostam de amar e do amor mais do que seu objecto. O necessário. aos seus irmãos que daí tirariam lucro. A melhor parte do descanso está compreendida nos modos secundários de vida que mencionámos. um enorme trabalho. Com efeito. que sua diante da fornalha. Urge voltar à natureza e mergulhar nela para nos refazermos (2). art. Filosofia. e formando as mais pequeninas acções práticas a trama de vida para a qual estamos preparados. fisiológicamente. Os pensamentos e as actividades. razoável. Aquele que se cansou demasiado opõe-se também à sua vocação. Ora não há intemperança senão a respeito das alegrias grosseiras. finanças. o palco é invadido por operadores que limpam. Todos percebem que o alargar-se. diz Santo Agostinho a seu discípulo (1). os mais subtis. quando baixa o pano. 2. é estar onde se deve e fazer o que importa. equilibrar o trabalho de maneira que uma operação servisse de descanso a outra. ao seu próprio bem. 2. Na realidade. O repouso é dever. O melhor meio de repousar seria ainda. É preguiça ainda de outro modo mais oculto. Além disso. Quando se interrompe a actividade pensante. e o enfeixador. não se ama a verdade. . termo das pesquisas ardentes. 168. como a higiene. isto é. viagens. aos seus colegas na obra intelectual. inverso do trabalho. precisamente porque é dever. todas as coisas são interdependentes e fazem uma só coisa. Cf. por conseguinte. O esforço não pode persistir. no qual. S. consertam. O fundidor. de que faz parte. submetido ou não à regra humana que se confirmar na lei de Deus. É preguiça directamente. Cortem-se os excessos. modificam e assim preparam o acto seguinte. Ila Il aa. de manejar um freio. da verdade da vida. cuidados domésticos. por ser incapacidade de dominar um determinismo. é descanso. de orgulho. em pouco tempo esgota-se o combustível e torna-se mister encher novamente o depósito. porque recusar um repouso é recusar implicitamente um esforço que o repouso permitiria e que o excesso de cansaço compromete. sendo o sensível o nosso meio conatural. poesia e ténis. II – Saber distrair-se. os mais nobres entusiasmos participam da sua malícia. no decurso da vida. como a conservação das forças. Podemos admitir sem paradoxo estas palavras de Bacon. Àquele que lhe dá. o abandono deste domínio para subir ao abstracto causa fadiga. O espírito não se cansa. É inconsequência amar a verdade à custa da prudência. mas sim o prazer nela experimentado. e temos a obrigação de poupar a vida porque temos a obrigação de viver.

e. o trabalho é o bálsamo. Tomás o verdadeiro repouso da alma é a alegria. são indispensáveis e comportam valor de contemplação. Evitai cuidadosamente. reina a desordem. Os jogos. nos intervalos. Tratai de vos conhecer e de dosear em conformidade com esse conhecimento. Também neste particular cumpre evitar os excessos. a acção deleitável. digo. em posição. Trabalhar muito tempo seguido estafa. Ah! Se pudéssemos trabalhar ao ar livre. Juntai-lhe o silêncio. Somos tão realistas. Estou em pleno esforço criador: falta-me uma referência. toma-se. e ao peso que me assaltam durante o trabalho. mais que não seja tomai aquele repouso relativo que prepara. no que se refere aos <<instantes de plenitude>>. em seguida distraívos. Ao falar do emprego do tempo. um livro. Na intelectualidade. Para S. Já demos bastantes sugestões neste sentido. Escolher livros. separar documentos. favorece ou conclui o trabalho. Introduzindo ordem nas ocupações. O dispor os trabalhos de acordo com a colaboração que exige do cérebro oferece dupla vantagem: evita o excesso de cansaço e comunica ao trabalho intenso toda a sua pureza. esqueci-me de classificar umas notas. referimo-nos ao princípio da distribuição das tarefas. à assembleia das árvores ou das nuvens. encontro apenas uma resposta: o trabalho. Do mesmo modo. que descansam sem todavia interromperem totalmente o trabalho. Sob esta reserva. . aposto que duplicaria o produto do trabalho e que muito outra seria a sua amabilidade e humanidade. Quando se não previu o repouso. repousando demasiado pouco. que não se toma. os acessórios. Uma hora antes. com alegria. trabalho que a minha intemperança quis salvar. resta ainda a possibilidade de efectuar muitas dessas tarefas pouco fatigantes mas que. em vez de nos irritarmos esperando. Qual o conforto para o coração. são ocupações. se ele duvidar da sua obra? O trabalho. sua inspiradora. a Arte fácil. nem Bentham a pretensa aritmética moral. tudo isso se teria feito como que por divertimento. as conversações familiares. sinto-me perturbado. seu companheiro. depois a propósito da constância no trabalho. estão noutro quarto ou soterrados debaixo duma pilha de papéis donde é preciso tirá-los. desde que chega o cansaço. aos animais que passam. classificar manuscritos. os corolários práticos dos pensamentos e das criações. o repouso. no entanto. podemos cansar-nos só com verdadeiro conhecimento de causa. a desgraça é dupla. Em suma: sem verdadeiro repouso. não há verdadeiro trabalho.79 animais. Os desportos modernos: tais são os elementos de repouso. de descansar alguns instantes no meio da verdura ou. O trabalho é o remédio. cuja facilidade e benefícios já conhecemos. descansar muito tempo seguido é destruir o ardor adquirido. Se omiti essas preparações por causa dum trabalho falso. com excepção do <<trabalho permanente>>. disse eu. a vida de família. o ardor detém-se. por se não cuidar delas a tempo. e estareis apetrechados para lutar e vencer. interromper-se demasiado cedo é não dar a sua medida. não são trabalho. juntar notas. Neste momento. não se restauram as forças. as leituras distractivas nas condições apontadas. saboreai as delícias da amizade. os repousos frequentes e curtos. com o pensamento na sessão tranquila que dessa sorte eu teria preparado. um trabalho manual muito suave. quando corremos pelo campo e com a alma librada no alto! Kant não deve ter sonhado o imperativo categórico num prado. sob forma de distracções. Trabalhai com energia. com a janela aberta para uma bela paisagem. Um repouso demasiado longo não só devora o tempo como também prejudica o ardor duma vida laboriosa. pelo abandono momentâneo de preocupações laboriosas. de que necessito. falta a tinta no tinteiro. nem tudo é concentração esgotante: há as preparações. a vizinhança da natureza. se o pensamento estaca. são os mais favoráveis. provas. o divagar inteligente através duma cidade. completo. o trabalho a meias que é repouso a meias e de nada serve. a amizade. o trabalho é o ardor. dispor os objectos do escritório ordenar a biblioteca. um manuscrito. Qual o meio de resistir aos inimigos do esforço e aos invejosos do êxito? O trabalho. e a oração. de sonolência e de necessidade a que é preciso atender. de pedir o parecer às montanhas. os espectáculos pouco fortes e pouco apaixonados. Importa sumamente descobrir o ritmo que permite esse ardor máximo aliado ao mínimo de fadiga. intercala-se subrepticiamente no trabalho. O repouso completo será necessário.

em vez de reagir dentro ou fora. <<Não se diz mal. <<geme e dá à luz>>. e a paz vale mais do que o êxito banal. tende a irritar-se. e a crítica mordaz. se empenhava em firmar posições. e a alma estabiliza-se. invulnerável em si. a sua descoberta é recompensa. diz Schiller. combate essa depressão. da distinção ou do trabalho. entre outros pesares. Depois de assim terdes tirado o bem do mal deixai o resto nas mãos do Senhor que julga por vós e a tempo fará justiça. diante daquele que não escuta>>. resultante do trabalho. 145. Colin. a necessidade de unidade não conseguirá satisfazer-se senão por alguma mania inferior ou por qualquer paixão. Tomás que. o que lhe sucedia muito frequentemente. quando atacado. A agitação e gritaria de crianças barulhentas não conseguiam desviar o boi mudo da Sicília do caminho que trilhava. reclama do trabalhador o seu tributo. Calai-vos. se toca no seu ponto fraco e saliente. dá-lhe a unidade interior. Paris. não talvez o ( 1) Autobiographie. A vida intelectual dissemos nós. o gasto rítmico das forças alteia-lhes o tom e regulariza-as. ele sofre. A verdade é. em seguida permanecei firmes como o rochedo batido pelas vagas. Com o amor de Deus. o alcance do que se diz. Quando nada há que retirar dum ataque. da força dispendida em os derrubar fizeram eles impulsão vitoriosa. com as pedras que lhes atiraram construíram a sua morada. o louvor. O sistema solar não desempata Copérnico e Galileu. em precisar e ilustrar a sua doutrina. observai. escreve Santo Agostinho. A inveja é um imposto sobre o juro da glória. como o animal que se eriça.80 O trabalho equilibra a alma. já que os não pode corrigir. fala ou escuta. <<O verdadeiro sábio não discute nem se defende. desconfiai do vosso juízo e corrigi as vossas faltas. sede impessoal e íntegro. é então que se sente ferido. como o entusiasmo da equipa que rema cantando. senão ao homem: a crítica. Agitar-vos à volta delas é enfraquecer-vos. concorre para o vosso aproveitamento. Régis Michaud. Corrigir-se e calar-se. afirma ou procura penetrar as significações. nas suas produções ou no seu carácter. isenta de enfraquecimento e de rancor. como homem. por vem. escreve Keyserling. no ponto de partida se revelasse má vontade contra vós. e. as obras de verdade participam do seu ser e do seu poder. Fora disso. A verdade é também defesa que consolida e alegra. mais do que isso. Quando a crítica é leviana e injusta. Se a crítica for justa. que funda a hierarquia dos valores. A verdadeira força espiritual exalta-se na perseguição.>> Se vos censuram. é heroísmo: quereríeis que o heroísmo não custasse? As coisas valem na proporção do que custam. Com razão se chama a preguiça mãe de todos os vícios. ela é também mãe dos desfalecimentos e das inquietações. pág. O tempo e as forças que gastaríeis em sustentar uma obra será melhor empregado em realizar outra. III – Aceitar as provações. humilhai-vos diante de Deus. diz Emerson: entregar-me de novo ao trabalho>>(1). os que a praticaram subiram sempre alto. pelo menos favorece-as. Não presteis mais atenção. como diz o Apóstolo. que vos fere. Que este o pague e não recrimine. <<As grandes almas sofrem silenciosamente>>. nos dias de contradição. O sentimento de vitória. Adiai para mais tarde o êxito. realiza ele a subordinação das forças. e depois calava-se. tende a coragem de confessar o vosso erro. defeitos que ele quereria esquecer e ocultar aos olhos dos outros. eis a grande máxima. àquele que porventura é o mais sensível ao intelectual. Que réplica adequada descobrir e que atitude tomar? <<Só encontro uma resposta a todas as críticas. geme. e as fraquezas de toda a espécie retomarão o império. O trabalho. deve a própria pessoa tratar de se retirar incólume. . e o nobre propósito de utilizar a malevolência que Deus põe ao vosso serviço. O valor defende-se a si próprio. com ela consolamo-nos de nós mesmos. engrandecida e melhorada pela prova. mas o seu gemido assemelha-se ao de toda criatura que. a sua manifestação vingança nobre. Conta-se também de S. Édit. porque até o mal está nas mãos de Deus. haveis de resistir à verdade? Embora. O trabalhador está exposto. É pueril querer defender as próprias obras ou estabelecer o valor delas.

a despeito da sua aparente defecção. Se for preciso diferir para mais tarde a vossa utilidade – quem sabe até se para depois da morte – consenti no sacrifício. porque o amor prova-se muito mais quando se trabalha pelo prazer da pessoa amada e pelo prazer de lhe render serviços. os fortes tomam a desforra>>. excitam-lhe a embriaguez. ainda mesmo que a publicidade os esqueça. <<Ver a ordem do universo e as disposições da divina Providência é actividade sumamente deleitável>>. q. mas pelo trabalho. o cingir um só instante a espada dos heróis é já recompensa. como a Esposa: <<Eu durmo. que farão da vossa consciência o seu profeta. IV – Saborear as alegrias. Tomás de Aquino(1). <<Os fracos pensam no passado. Mas o nosso tempo cometeu o crime de o depreciar e de ter substituído a sua beleza por feroz egoísmo.180. permite que repousemos às vezes numa alegria tranquila. semelhantes à de Jesus. semear e não colher. afirma S. 22. Que pretendeis? A gloríola? Nesse caso. Despojado de tudo segundo o espírito e muitas vezes pobre efectivo. O trabalho em si é valor. Entre os intelectuais cometem-se muitas pequenas vilanias e por vezes grandes iniquidades. tem de sobra tudo quanto abandona. Desprender-se delas por meio da alegria cristã é reavivar a chama apagada.81 louvor dos homem. pois só a alegria nos põe em disposição de trabalhar e nos distrai após o esforço. mais sublimes que as dos Alpes. art. Perde o mundo e o mundo é-lhe dado espiritualmente. escreve Maria Bashkirtseff. como ao alpinista que trepa às rochas e aos glaciares. como nem a fé e esperança de sólidas raízes as temem. porque encontra secretamente a posse magnífica do que deixou. não o largarei>>. <<Durante a noite procurei no meu leito aquele a quem o meu coração ama. Ila Il ae . A verdade? É eterna. não passais de falso intelectual. e Deus. para ele. quem ama alegra-se. para nos ajudar. rectas e viris. Segundo o angélico Doutor. Não é mister utilizar a eternidade. O amor não teme as decepções. nadar para o mar alto e ser atirados para a margem. mas uma classificação subentendida nem por isso deixa de consagrar os valores autênticos. Trabalham não só pelo fruto. Os trabalhadores. e a utilidade póstuma satisfaz bastantemente aos verdadeiros fins da vossa obra. Se se envolve na acção interior a ponto de se esquecer de si próprio. alegria da posse ideal e do êxtase por ela provocado(2). encontrei-o. Isto é sempre possível. I. 22. Quando se possuem as disposições requeridas e a alma se consagra a uma obra. . A tristeza e a dúvida matam a inspiração. As paisagens de ideias. para que suas vidas sejam puras. É preciso viver alegre mesmo no meio das afeições e contradições. a contemplação parte do amor e termina na alegria: amor do objecto e amor do conhecimento como acto de vida. a honra póstuma é a mais desinteressada. mas o meu coração vigia>>. mas a renúncia enriquece-o mais do que a altiva opulência. O sentimento da altitude dá ao trabalhador uma alma apertada e ao mesmo tempo feliz. Poderemos trabalhar sem ver o resultado da nossa diligência. O ideal é. a exemplo do Apóstolo: <<Exulto de alegria no meio das tribulações>>. a realidade íntima. mas só se lhes não resistimos. mas o louvor de Deus e o da sua corte. marchar e encontrar diante de nós apenas espaços ilimitados: quem crê e espera não descoroçoa. no mais profundo deste sono aparente poderia repetir. As almas nobres vivem uma vida bela e esperam dela a fecundidade. O trabalho não é só eriçado de contrariedades. vossos irmãos na luta. O intelectual cristão escolheu a renúncia.. que substitui a outra realidade e lhe absorve as taras na beleza. eles servem e é quanto basta. A verdade desvenda-se pouco a pouco. sobe ao trono onde são julgadas as doze tribos de Israel (Lc. 30). quando se ( ( 1) 2) In Psalm. Por isso ao se detêm nas decepções. louvar-vos-ão também. comporta igualmente alegrias e traz felicidade. os que a tiram da sombra não têm que lhe pedir a esmola duma auréola. que tomam como ideal.

inspira-nos. O trabalho fabrica os seus instrumentos. Sábio (sapiens). Os resultados chegam por vezes tarde. mas tão feliz por ter nascido um homem que não mais se recorda dos padecimentos (Io. são apenas os elementos cerebrais mais ou menos livres e activos. Cada indivíduo é único: portanto cada fruto do espírito será também único: O único é sempre precioso. A alma é igual em todos. Não há virtude sem crescimento. quando esse. organizado e aturado. tendo em conta a desproporção das forças. Nobre adeus o que obriga. também não há luz intelectual sem que estes efeitos dela derivem. a quem cumprir as condições essenciais requeridas. etimológicamente. reconfortar-nos perante o . que o êxito de Deus será nosso em parte. do trabalho que tentámos descrever. O intelectual é jovem até ao fim. Ora sabemos que com os socorros celestes podemos triunfar de muitas deficiências. dos nossos irmãos intelectuais. lote dos santos. o verdadeiro intelectual parece escapar a estas tristezas da idade que infligem a tantos homens morte antecipada. pois a seu lado está o Deus que disse: <<Quem busca encontra e a quem bater abrir-se-á>>. Esta confiança. os trabalhos que se preparam são como a semente acalentada pelo sol. conserva-o. quando se anota bem. O verdadeiro intelectual não teme a esterilidade.. diversos. a alma paga. que se funda numa lei das coisas. diz S. Nunca se concebe ideia demasiado elevada do eu. podemos sempre igualar-nos a nós mesmos. e o discernimento é um só. a verdade é a santidade do espírito. Dir-se-ia que participa da eterna juventude da verdade. os acontecimentos pagam. <<Seguindo este caminho. Com efeito. faz suspeitar que a essência da santidade e da intelectualidade seja a mesma. dos amigos. quer dizer que tem gosto ou discernimento. mais ou menos ligados. no entanto este deve igualmente ter fé em si. a inutilidade. quando se faz trabalhar a inconsciência e a noite. Adeus>>. pertence mais ao trabalho do que ao trabalhador. e a Verdade empolga-nos pela inteligência. uma vez lá dentro. Eis o que pode consolar a nossa inferioridade e. Coisa notável. a honra da verdade e assegura. como a criança que a mãe dá à luz no meio de dores. Somos chegados às últimas palavras que convém dirigir ao ouvinte desta curta e demasiado longa teoria da vida intelectual. suposta a vocação. compreendendo a dupla regra do pensamento e da acção. nasce do trabalho. Se não esta em nossa mão igualar-nos com o que admiramos. do trabalho qualificado. mas conserva-se ainda na pujança de vida quando a eternidade o vem recolher. como eles engrandeceram as suas. alcançarás o que desejas. sem fecundidade. o fim e as aspirações profundas são as mesmas para todos. eu é o divino. do mesmo modo que a santidade é a verdade da vida e tende a fortificá-la para este mundo e para o outro. porém. permanente contribuição. produzirás. Não faltemos a Deus. Mas. assiste-nos o direito de afirmar que a cultura não é filha principalmente do génio. a nossa confiança subentende-os. Uma vez mais repetimos: não pretendemos outra coisa. será demasiada a confiança concedida a Deus em nós. dá a solidez e inspira confiança.82 estuda bem e se lê bem. Os grandes homens não são grandes só para si. o Espírito sopra em todos. em favor do estudioso diligente e fiel. na vinha do Senhor. por si própria estende e corrobora o seu reinado. temo-la diante de nós. Nada podemos augurar a quem não for dotado. Como o ferreiro que caldeia as ferramentas. chama por nós. Praticando estes conselhos. folhas e frutos úteis todo o tempo da vida. basta que a árvore seja árvore para produzir frutos. nunca. Temos por nós os génios. mas chegam sempre. Não nos apoiemos em nós. temo-la acima de nós. A recompensa duma obra é o concluí-la. levam-nos. a recompensa do esforço é o ter crescido. Com o seu auxílio podemos também engrandecer a nossa vida. Esta esquisita perenidade. se produzimos. Amadurece geralmente muito cedo. Todos temos a Verdade detrás de nós. A luz pode filtrar-se através das fendas que o esforço alarga. 21). sem alegria. assim o trabalho forma os caracteres. sempre necessário. V – Gozar antecipadamente os frutos. os resultados por que anseia.Tomás ao discípulo. Além do quê. esperamos também dos nossos iniciadores. além da coragem. 16.

repetireis cada dia o vosso propósito. a que Deus espera de vós e que corresponde às suas graças. direis. a vossa resolução.83 dilúvio dos livros. trabalho aturado e bem regulado. Quando se nos exige fidelidade. É próprio do homem errar. ADEUS. promessas com essa condição se irrisórias. Se preciso for. digo. Direis que muitas vidas e muitas obras serão mais belas. a belos e saborosos seus frutos. após breve oração. inscrevei no coração. acrescentai e repeti com convicção: <<Se fizeres isto produzirás frutos úteis e alcançarás o que desejas>>. Quando. não se pretende excluir todo o desfalecimento. Mas o possível também é belo. e que essa fórmula esteja continuamente diante de vós. a resolução firme. não há vida que lhe seja semelhante. Aconselho-vos a escrevê-la igualmente no papel em caracteres lisíveis. . se todavia o não fizestes. Mera possibilidade. Cuidareis de notar especialmente aquilo que vos é menos natural e mais necessário. que dela nada se perdesse nem fosse impuro. se fordes fiel a vós. Depois. esse quinhão basta e é indispensável. acometeis o trabalho. retenhamos o essencial o habitual. interiores e exteriores. Mas. Decidido a pagar. em voz alta para que as palavras melhor penetrem no espírito. hoje mesmo. se o fordes até ao fim. estai certos de alcançar a perfeição da vossa obra. Seria para desejar que a nossa vida fosse chama sem fumo e sem escórias. Acrescentai: não há vida mais bela para mim. de todas as prescrições. recitá-la-eis. Dai tudo o que possuís e. .a vossa. que faz parte dos motivos de confiança. Só mais uma palavra.

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