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A Vida Intelectual
A. D. Sertillanges

Índice
CAPÍTULO I - A vocação intelectual.................................................................................................. 3 I – O intelectual é um consagrado. ................................................................................................. 3 II – O intelectual não é um isolado.................................................................................................. 5 III – O intelectual pertence ao seu tempo. ...................................................................................... 6 I - As virtudes comuns..................................................................................................................... 7 II - A virtude própria do intelectual................................................................................................. 9 III - O espírito de oração................................................................................................................11 IV - A disciplina do corpo. ........................................................................................................... 12 CAPÍTULO III - A organização da vida............................................................................................ 14 I – Simplificar................................................................................................................................ 14 II – Guardar a solidão.................................................................................................................... 16 III – Cooperar com os seus iguais..................................................................................................17 IV – Cultivar as relações necessárias.............................................................................................19 V – Conservar a dose necessária de acção.....................................................................................21 VI – Manter o silêncio interior. .................................................................................................... 22 CAPÍTULO IV - O tempo do trabalho...............................................................................................24 I - O trabalho permanente.............................................................................................................. 24 II - O trabalho nocturno................................................................................................................. 27 III – A madrugada e os serões....................................................................................................... 29 IV - Os instantes de plenitude. ......................................................................................................31 CAPÍTULO V - O campo do trabalho............................................................................................... 34 I – A ciência comparada..................................................................................................................... 34 II – O tomismo, quadro ideal do saber...........................................................................................38 III – A especialidade...................................................................................................................... 39 IV – Os sacrifícios necessários. .................................................................................................... 40 CAPÍTULO VI - O espírito do trabalho.............................................................................................41 I – O ardor da investigação............................................................................................................ 41 II – A concentração........................................................................................................................42 III – A submissão à verdade.......................................................................................................... 43 IV – Alargamentos.........................................................................................................................45 V – O senso do mistério. ...............................................................................................................46 CAPITULO VII - A preparação do trabalho...................................................................................... 48 A. – A LEITURA...........................................................................................................................48 I – Ler pouco............................................................................................................................. 48 II – Escolher.............................................................................................................................. 49 III – Quatro espécies de leitura................................................................................................. 50 IV – O trato com o génio.......................................................................................................... 51 V – Conciliar em vez de opor................................................................................................... 54 VI – Assimilar e viver............................................................................................................... 54 B – A ORGANIZAÇÃO DA MEMÓRIA.................................................................................... 57 I – Que se deve reter? ...............................................................................................................57 II – Por que ordem reter? ......................................................................................................... 58 III – Como reter?.......................................................................................................................59 C. – AS NOTAS............................................................................................................................ 60 I – Como tomar notas................................................................................................................60

2 II – Como classificar as notas................................................................................................... 63 III – Como utilizar as notas.......................................................................................................64 CAPÍTULO VIII - O trabalho criador................................................................................................65 I – Escrever.................................................................................................................................... 65 II – Desapegar-se de si e do mundo. ............................................................................................. 67 III –Constância, paciência e perseverança..................................................................................... 69 IV – Fazer tudo bem feito e até ao fim.......................................................................................... 73 V – Não ir além das próprias forças.............................................................................................. 74 CAPÍTULO IX - O trabalhador e o homem....................................................................................... 76 I – Guardar o contacto tom a vida..................................................................................................76 II – Saber distrair-se.......................................................................................................................78 III – Aceitar as provações. ............................................................................................................ 80 IV – Saborear as alegrias............................................................................................................... 81 V – Gozar antecipadamente os frutos. .......................................................................................... 82

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CAPÍTULO I - A vocação intelectual

I – O intelectual é um consagrado.
Falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem de vagar para se entregarem ao estudo, ou porque, no meio de ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito. Digo profundo, para descartar a ideia de tintura superficial. Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos. Este apelo não se deve conjecturar. Quem se aventura a um caminho, que não pode trilhar, com pé firme, conte de antemão com decepções. O trabalho pesa sobre todos e, após a primeira formação sempre custosa, seria loucura deixar descambar o espírito na primitiva indigência. Uma coisa é a conservação pacífica do que se adquiriu, e outra coisa é retomar pela base uma instrução puramente provisória e que se considera simples ponto de partida. Este último estado de espírito é o de um chamado. Implica uma resolução grave, porque a vida de estudo, sendo austera, impõe duros encargos. Paga, e abundantemente; mas exige uma entrada de capital de que poucos são capazes. Os atletas da inteligência, Como os atletas do desporto, têm de prever privações, longos treinos e tenacidade por vezes sobre-humana. Precisam de se dar de alma e coração à conquista da verdade, visto que a verdade só presta serviços a quem a serve. Tal orientação deve ser precedida de maduro e longo exame. A vocação intelectual é como as demais vocações: está inscrita nos nossos instintos, nas nossas capacidades, em um não sei que entusiasmo interior sujeito ao exame da razão. As nossas disposições são como as propriedades químicas que determinam, para cada corpo, as combinações em que pode entrar. Não é coisa que se dê. Vem do céu e da natureza primeira. O ponto está em ser dócil a Deus e a si próprio, depois de ter escutado estas duas vozes. Assim compreendida, a máxima de Disraeli: <<Fazei o que vos agrada, contanto que isso verdadeiramente vos agrade>>, encerra profundo sentido. O gosto, que se encontra cm correlação com as tendências íntimas e com as aptidões, é esplêndido juiz. S. Tomás, afirmando que o prazer qualifica as funções e pode servir para classificar os homens, deve naturalmente concluir que o prazer também pode trair as nossas vocações. Mas é mister esquadrinhar até às profundidades em que o gosto e o ardor espontâneo se encontram com os dons e a providência de Deus. O estudo duma vocação intelectual comporta, além da vantagem incalculável de o homem se realizar plenamente a si próprio, um interesse geral a que ninguém pode renunciar. A humanidade cristã compõe-se de personalidades diversas, e nenhuma destas pode abdicar daquela sem empobrecer o grupo e privar o eterno Cristo de parte do seu reino. Jesus Cristo reina pelo seu desdobramento. A vida de qualquer dos seus <<membros>> é um instante qualificado da sua duração; qualquer caso humano e cristão é um caso incomunicável, único e, por conseguinte, necessário, da extensão do <<corpo espiritual>>. Se sois porta-luz, não escondais, debaixo do alqueire, o brilho pequeno ou grande que de vós se espera na casa do Pai de família. Amai a verdade e os seus frutos de vida, para bem vosso e dos outros; consagrai ao estudo e à sua utilização o principal do vosso tempo e do vosso coração. Todos os caminhos, excepto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direcção onde se espera e se requer a vossa acção. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado. Isto supõe que se abraça a vida intelectual com intenções desinteresseiras e não por ambição ou vã gloríola. Os guisos da publicidade só tentam os espíritos fúteis. A ambição, que quisesse subordinar a si a verdade eterna, ofendê-la-ia. Brincar com as questões que dominam a vida e a morte, com a natureza misteriosa, talhar-se um destino literário e filosófico à custa da

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verdade ou fora da dependência da verdade, constitui um sacrilégio. Tais intentos, sobretudo o primeiro, não conseguiriam manter o investigador; depressa o esforço esmoreceria e a vaidade haveria de entreter-se com bagatelas, sem curar das realidades. Mas isto supõe igualmente que se junta, à aceitação do fim, a aceitação dos meios, sem o que não se deve tomar a sério a obediência à vocação. Quantos há que desejariam saber! Uma vaga aspiração impele as multidões para horizontes que a maior parte admira de longe, como o doente de gota admira, desde a planície, as neves eternas que cobrem o cimo das montanhas. Obter sem gastar, eis o desejo universal; mas desejo de corações cobardes e de cérebros enfermos. O universo não acorre ao primeiro sussurro e para que a luz de Deus baixe a vossas lâmpadas, é necessário que as vossas almas a peçam instantemente. Sois um consagrado: tendes de querer o que a verdade quer; consenti, por causa dela, em vos mobilizardes, em vos fixardes nos seus domínios, em vos organizardes e, porque vos falta a experiência, em vos firmardes na experiência alheia. <<Ah, se a juventude soubesse!...>> Mais do que ninguém, precisam os jovens deste aviso. A ciência é conhecimento pelas causes; mas activamente, quanto à sua produção, é criação pelas causas. É preciso conhecer e adoptar as causas do saber, depois coaduná-las e não adiar o cuidado de lançar os alicerces até ao momento de assentar o telhado. Que belas culturas se podiam empreender nos primeiros anos de liberdade após os estudos, revolvida ainda de fresco a gleba intelectual com as sementes confiadas ao solo! É esse um tempo que não volta mais, o tempo de que se há-de viver mais tarde. Qual ele tiver sido, tal será o homem, porque não há maneira de arrepiar o caminho andado. Se viverdes superficialmente, sofrereis o castigo de ter descurado, em seu tempo, o porvir que vive sempre de esperança. Pense cada qual nisto na hora em que o pensar pode servir. Quantos jovens, que nutrem a pretensão de vir a ser trabalhadores, malbaratam miseravelmente os dias, as forças, a seiva intelectual! ou não trabalham, quando lhes sobra tempo de o fazer, ou trabalham mal, caprichosamente, sem saberem o que são, nem para onde querem ir, nem como se anda. Cursos, leituras, frequentações, dosagem do trabalho e do descanso, da solidão e da acção, arte de extrair e de utilizar os elementos adquiridos, realizações provisórias que anunciam o trabalho próximo, virtudes a alcançar e a desenvolver, nada se prevê, nada será satisfeito. No entanto, em igualdade de recursos, que diferença entre o que sabe e prevê e o que corre à aventura! <<O génio é longa paciência>>, mas paciência organizada, inteligente. Não se requerem faculdades extraordinárias para realizar uma obra; basta uma média superior; o resto, fornece-o a energia e a arte de a aplicar. Sucede aqui o que sucede a um operário honrado, poupado e fiel ao trabalho: chega ao termo, quando muitas vezes o inventor fracassa por causa de irritações e pressas. O que digo aplica-se a todos, dum modo especial aos que só sabem dispor duma parte da vida, da mais fraca, para se entregarem aos trabalhos da inteligência. Mais do que os outros, devem estes ser consagrados. Terão de amontoar, em reduzido espaço, o que lhes não é dado distribuir em vasta extensão. O ascetismo especial e a virtude heróica do trabalhador intelectual deverão ser, para eles, o pão de cada dia. Se, porém, consentirem nesta dupla oferta de si próprios, não desanimem. Se para produzir não faz falta o génio, menos falta ainda faz a plena liberdade, tanto mais que esta tem armadilhas, e para as vencer pode concorrer imenso o estar adstrito a rigorosas obrigações. Uma corrente apertada entre margens estreitas irromperá mais longe. A disciplina do ofício é forte escola que aproveita aos lazeres estudiosos. O homem, quando constrangido, concentra-se mais, aprende a avaliar o tempo, refugia-se com ardor nas horas raras em que, satisfeito o dever, se torna a encontrar o ideal e se goza da calma da acção escolhida, após a acção imposta pela dura existência. O trabalhador que no esforço novo encontra a recompensa do esforço antigo, que dele faz o seu tesouro, é de ordinário um apaixonado; não há meio de o desapegar do que assim é consagrado pelo sacrifício. O seu andar, na aparência mais lento, dispõe de recursos para ir por diante. Pobre tartaruga laboriosa, não perde o tempo em ninharias, porfia, e ao fim de poucos anos, ultrapassa a lebre indolente, cuja marcha desimpedida lhe causava inveja, enquanto se arrastava lentamente. Pensai o mesmo do trabalhador isolado, sem dotes intelectuais, nem facilidade de frequentações que o estimulem, enterrado nalgum canto de província onde parece condenado

nos caminhos planos avançamos folgados. só lhe resta perseverar e entregar-se à vida consoante o Plano divino. Mais vale a solidão apaixonada. em virtude da sua vocação intelectual de consagrado. destinado também de antemão ao Reino de Deus. das suas grandezas. para recolher a herança dos séculos.5 a estagnar-se. guarde-se a si próprio. encontramo-los em espírito na solidão: as grandes seres estão lá. para reavivar a chama que se apaga e organizar a propaganda da verdade e do bem? É esse um quinhão que vale. Quanto ao público. depressa se toma funesta. ó jovem que compreendes esta linguagem e a quem os heróis da inteligência parece chamarem misteriosamente. porque trabalhar humanamente é trabalhar com o sentimento do homem. da solidariedade que nos liga numa vida estreitamente comum. na assembleia dos espíritos nobres. não deve deixar-se tentar pelo individualismo. podes beber o cálice de sabor esquisito e amargo. depois. embora em pleno deserto. Obrigado a ganhar a vida. a empregá-las com ardor e. em caso de necessidade. o isolamento paraliza e esteriliza. Se a solidão vivifica. corações na dos fins supremos. Se Deus quiser. mas que receias encontrar-te desprovido. O estudo e a prática daquilo que o P. se. ordinàriamente perturba-vos e dispersa-vos. Livros. aumenta a sede. bastam para talhar um destino intelectual. tem confiança. Os que têm a facilidade de assistir a cursos. mais do que isso repousa na certeza. Também aqui. II – O intelectual não é um isolado. como tantas vezes acontece. Se tem tudo contra si. . onde qualquer semente rende cem por um e um simples raio de sol doura os frutos do outono. para descobrir os factos e as causas. Não vos arrisqueis a perder uma fortuna por uma colher de mel coado. Gratry chama a Lógica viva. como tal. poucos bastam. sentir-te-ás atirado com maior violência para os teus nobres fins. além disso. da dificuldade pode brotar a força. Tens duas horas por dia? Podes obrigar-te a reservá-las ciosamente. ou verbo humano. e a folga. possuindo-se unicamente a si e obrigado a tudo haurir deste fundo inalienável. Quando S. Mateus>>. não deve isolarse. Um coração ardente dispõe de maiores probabilidades de vencer. um dia. dessedentando. presentes a quem os invoca. o desenvolvimento do nosso espírito. sem dúvida. do que um estúrdio do Bairro latino que não sabe aproveitar as facilidades que tem à mão. para orientar os olhos inconstantes na direcção das causas primeiras e os. por vezes anima-vos. A maior parte dos grandes homens exerceu um ofício. isto é. adquirem e se preparam para os dons magníficos. que estas páginas quereriam dar-te a prova? Se a tua resposta é afirmativa. das suas necessidades. este estudo grave e esta prática perseverante franquear-te-ão a entrada no santuário admirável. do público vibrante. ser já. pelo desejo. longe das ricas bibliotecas. O isolamento é inumano. ou os não seguem ou os seguem mal. estímulos. Não desanime. Hás-de pertencer ao número dos que crescem. O querer vale mais do que tudo: querer ser alguém. e por detrás do pensador ardente erguem-se os grandes séculos. ganhá-la-ás sem lhe sacrificar. Seja qual for a sua situação. Sobre a montanha. Na opinião de muitos. não vigiada. Tomás de Aquino se dirigia a Paris e descobriu ao longo a cidade. Frequentações. O resto sempre se alcança. pelo contacto directo ou indirecto com o Espírito e o Verbo divino. disse ao irmão que o acompanhava: <<Irmão. esse é um eleito do espírito e. as duas horas. A quem vive destes sentimentos pouco importa o lugar onde está ou os meios de que dispõe. só nos especamos nas passagens difíceis. Queres contribuir com a tua quota para perpetuar a sabedoria entre os homens. julguem-no abandonado ou retirado materialmente. imagem deformada da personalidade crista. diria Vitor Hugo. esse alguém qualificado pelo ideal. para fornecer ao presente as regras do espírito. a liberdade da alma. João Crisóstomo sobre S. Aprende a administrar esse pouco tempo. Entregue a ti. sacrifícios suplementares e o cultivo duma paixão absorvente. não tiverem em si recursos para deles prescindirem. Escuta-me. chegar a ser alguma coisa. cessa-se de ser homem. dos cursos brilhantes. e que isso lhe baste. também tu encontrarás lugar. que peço. mergulha todos os dias no manancial que. há-os em toda a parte. O trabalhador cristão. de bom grado trocaria tudo isto pelo comentário de S. À força de ser alma.

Trabalhai. e há um que para nós e praticamente os ultrapassa a todos: o nosso. fora e pelo seu espírito inspirador. o valor dos mortos. nós continuamo-lo: eis a nossa honra incomensurável. haurindo. do mesmo modo que qualquer homem. O planeta não sabe para onde vai. que a providencial sabedoria determina para cada qual e que cada qual. O decurso do livro o mostrará. dentro. que toda a verdade salva. pensai que. Em seguida. cuja indigência conheceis. e por conseguinte os esforços que lhes devem corresponder. O verdadeiro cristão terá sem cessar diante dos olhos a imagem do globo onde está plantada a cruz. a mais abstracta na aparência. vida de família imensa com a caridade por lei: se o estudo pretende ser acto de vida. Mas indico um espírito. Qualquer momento da duração nos diz respeito e qualquer século é nosso próximo. A verdade é sempre nova. trabalhemos como Jesus meditava. as nossas forças de hoje e as de amanhã. e onde o sangue redentor procura encontrá-los através de meandros sem conta. não pode separar dele nem os tempos nem os homens. enobrecê-los. e este espírito exclui qualquer forma de diletantismo. o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. na história. onde os pobres seres humanos erram e sofrem. portanto o seu espírito em participação. Opera por nós. A luz. e não arte pela arte ou monopólio do abstracto. Estamos aqui. em vida. se todos os tempos são iguais perante Deus. não sucede o mesmo na relação dos tempos connosco. Somos os seus <<membros>>. Por isso Jesus Cristo reuniu numa só afirmação: Eu som o Caminho. contemporâneo dum drama permanente. com o intuito de difundir. III – O intelectual pertence ao seu tempo. Sendo o nosso trabalho necessário para esta acção. Não nos assemelhemos aos que dão sempre a impressão de pegar às borlas do caixão nos funerais do passado. <<Oramos diante do Crucifixo>>. Exclui também certa tendência arqueológica. distingui nele estes e aqueles. a mais elevada é também a prática. testemunha de confusões como porventura o mundo nunca presenciou desde que os montes surgiram e os mares foram atirados para seus antros. Toda a verdade é vida. Nem todos os tempos valem o mesmo. que habitamos a circunferência. e não há sinalização. é promessa implícita e dom. a Verdade e a Vida. operava exteriormente pela palavra. pois. diz Gratry – devemos também trabalhar aí – mas a verdadeira cruz não está isolada da terra>>. nos mananciais do Pai. Só as verdades redentoras são Santas e as palavras do Apóstolo – <<a vontade de Deus é que sejais santos>> . sempre. mas todos os tempos são tempos cristãos. se a sua eternidade é centro irradiante. Porque vive com Jesus Cristo. na vasta roda. esta palavra – próximo – é termo relativo. Já disse que toda a verdade é prática. nem agulheiros. e no íntimo das almas pela graça. a igual distância do qual correm todos os pontos da circunferência do tempo. caminho em ordem alcançar o fim humano. Que fazer por este século arquejante? Mais do que nunca. exactamente como a erva da . o que de perto ou de longe os salva. em espírito de utilização. portanto os seus cooperadores. nem a confiná-lo no estudo exclusivamente religioso. Eis-me aqui. do seu próprio espírito humano. Toda a verdade é prática. certa estima do passado que parece ignorar a presença universal de Deus. Utilizemos. Para ele são os nossos recursos nativos. como vivos. homem do século XX. orientação. reveste-o dum sacerdócio. a luz que pretende adquirir. Deixai sussurrar em volta o género humano. como precisava. indivíduos ou grupos. A vida real é vida num. descobri o que pode arrancá-los à noite. que possui. na sua sabedoria restrita. Ele retirou-se. certo amor do passado que se desinteressa das dores actuais. Encontramo-nos num comboio que desfila a toda a velocidade. a sua lei abandona-o: quem lhe restituirá o seu sol? O que digo não visa a estreitar o campo da investigação intelectual. Todas as virtudes antigas querem reflorescer. não noutra parte. O mundo corre perigo por falta de máximas de vida. como recomenda o Evangelho. enquanto viveu na terra. como Ele. como. Foi Deus que nos colocou aí.aplicam-se ao nosso trabalho como a tudo o mais.6 O trabalhador cristão deveria viver constantemente no universal. deve reger-se por esta lei de unidade cordial. Jesus Cristo precisa do nosso espírito. deve igualmente determinar.

É mister ajudá-lo a renovar. torna-se vítima dele. alimentando a verdade. Provocaria certo escândalo o atribuir a um valdevinos uma importante invenção. e tantos erros às vezes geniais. merece-se a que se ignora. <<Dize-me o que amas. A verdade medra na mesma terra que o bem. a despeito de possíveis taras. Este é o espírito do intelectual católico. papel preponderante. quando a rendemos à verdade da vida. chega-se ao rio e. menos ligados à sua terra. que no trabalho é já virtuoso. dos que lhe não resistem. tão importante que só para a relembrar teria sido oportuna a composição deste livrinho. Merecemo-la também com um mérito que é a sua própria recompensa. podemos até deduzir tudo. que é intelectual equivale ao supremo saber. A virtude contém. Atentai agora nas virtudes que Deus lhe pede. a mais decisiva. A vida é unidade. Escandalizamo-nos duma dissociação que ofenda a harmonia humana. e este amor pressupõe a virtude. tanto melhor. abeiramo-nos das claridades supremas e das dependências. e um pequeno erro ao princípio acaba por ser grande. despenha-se em perigosos declives. Pelo contrário. Donde provém esta unidade da vida? Do amor. é preciso ser grande. seguir caminho mais modesto. a intelectualidade em potência. requerem-se evidentemente outras qualidades além da inteligência. os rectos caminhos de um e da outra. porque toda a força isolada. nem as crónicas extintas. no seio dum todo equilibrado. o génio. por conseguinte. Para julgar com acerto. fomentando o bem. O espírito que. e que o viver as ideias não ajudasse a percebê-las. as raízes duma e doutro comunicam entre si. Gozar do poder da inteligência e convertê-lo em força isolada. cuja alma deixou o discernimento sem salvaguardas. CAPÍTULO II . para ser santo só precisaria de ser mais plenamente o que é. do belo. A força lógica poderá precipitar mais fundo aquele. por falta de inspecção. em nós. em mestres desorientados.As virtudes do intelectual Cristão I . uma vez que. descurando a outra. esta a sua vocação. quem se atreve a asseverar que a saúde nada tem de comum . é natural que venha a ressentir-se o senso das grandes verdades. Muitas conclusões se podem daqui deduzir. O amor. Deus não envelhece.As virtudes comuns. guia-se o saber. da unidade. pelo rio.7 madrugada beijada pelo orvalho. Ora. Para bem reger a inteligência. ao mar. porém. Pelo que. Ninguém acredita nos joalheiros que vendem pérolas e não as usam. Quanto mais depressa a determinar pelo descobrimento do género de estudos a que se deve consagrar. As qualidades de carácter desempenham. da harmonia. ambos vêm a sofrer: ou a alma se torna anémica ou o espírito se estiola. mas a eterna face da terra. e este ponto de partida do conhecimento e da prática não pode deixar de tornar solidários. ilumina-se a consciência. dir-te-ei o que és>>. em todas as coisas. Um espírito recto declara instintivamente que a superioridade em qualquer género inclui uma dose de superioridade espiritual. é o começo de tudo. não volta a encontrar o seu nível. A verdade vem ao encontro dos que a amam. Daí tantas quedas retumbantes. de todas. e sendo a homenagem do facto. Ora. Praticando a verdade que se conhece. Parece um paradoxo está junto dum manancial sublime e não aproveitar a sua natureza moral. A virtude é saúde da alma. em certo modo. porque a esta primazia da ordem moral prende-se a dependência relativa da verdade. Prefiro. em cem medida. não os passados enterrados. se o carácter fraqueja. e o seu manejo é que lhe determina os efeitos. seria para espantar que se lograsse executar uma função ao máximo. Embarcando no afluente. Desligados desta raiz comum e. Ficaria com isso magoada a candura dum homem simples. Apertemos mais esta importante doutrina. afigura-se-nos jogo perigoso. até do ser. porque todas as verdades são interdependentes. levando-nos ao nosso fim. a respeito da moralidade que deste modo contrai parentesco com o primeiro princípio. O intelecto não passa de instrumento.

enegrece a imaginação. Oxalá o neófito da ciência se impregne dela. do seu próprio destino. as alucinações.. De que depende. com o coração trabalhado pelos vícios. mas um rodeio leva dum ao outro. segundo as suas posses e o ambiente em que vive. Para falar com exactidão. os estudos delirantes. Continuai a analisar. um estado são e conseguintemente sensato. que recolhe os frutos da investigação. mas participando no universal. com a dentição. dela depende. à parte a loucura. O conhecimento interessa tudo em nós. o que dizemos dos vícios. As desordens mentais. a evidência não permite dúvidas. cortam-se. Todos os psicólogos contemporâneos estão de acordo neste particular. Mas. A <<psicologia dos sentimentos>> governa a prática. Ensina a mais segura metafísica que a verdade e o bem não somente estão ligados mas também são idênticos pelos cimos. em grande parte. em seguida do juízo. e vereis que o bem moral se não é inteiramente idêntico à verdade. E é este fim último que encontra a verdade e com ela se identifica. é desobstruir o senso da verdade. não esqueçamos o primeiro. <<O exercício das virtudes morais. A visão espiritual não é menos exigente. Um prático inteligente não se detém a medir a curvatura do cristalino e a escolher combinações de lentes. mas inquebrantável. mas o homem todo. por isso. as astenias e as hiperestenias. as inadaptações ao real. das virtudes e do seu papel na ciência. O bem moral não é senão o desejável medido pela razão e proposto à vontade como fim. sepulcro dos melhores dons? Na sensualidade. a um tempo verdade e bem. Quais são os inimigos do saber? Evidentemente a ininteligência: e. das virtudes que refreiam as paixões. mas alcançará o nível do seu próprio génio. solicitado pelas paixões. o esforço da ciência? Da atenção. pressupõe sujeitos no restante iguais. cumpre dizer que o bem. Os fins dependem todos dum fim último. directamente é o desejável. Ora as paixões e os vícios distraem a atenção. desorientado por amores violentos ou culpados? Há um estado clarividente e um estado cego da alma. embota a inteligência. de que falamos. Nós vamos muito mais longe e dizemos: pensamos com todo o ser. mas também. A ciência depende das orientações passionais e morais. desviam-na e alcançam o juízo por rodeios de que Aristóteles e outros muitos após ele perscrutaram os meandros. dizia Gratry. afirma por sua vez S. provam claramente que não só o espírito pensa. que inimigos temeis? Não pensais na preguiça. com o regime de vida. através dos fins do querer. não é propriamente o bem moral. Este universal. dissipa a memória? No orgulho. Não vos admireis se este médico dum só órgão vos interroga acerca da vossa virtude. e. já que falamos de mananciais. o homem de estudo elevar-se-á mais ou menos. dispersam-na. que fixa o Campo da investigação nos concentra nele e apoia todas as nossas forças nesse sentido. Subamos mais alto. de qualquer espécie que sejam. declarava Platão. ( 1) VII Physic. com o bom ou mau funcionamento das vísceras.6. A pureza do pensamento exige a pureza da alma: eis uma verdade geral inconcussa. antes de mais nada. que nos arrasta para o nosso próprio senso a ponto de nos fazer perder o senso universal? Na inveja que recusa obstinadamente uma claridade vizinha? Na irritação que rejeita as críticas e se apega ao erro? Livre destes obstáculos.8 com a visão? Perguntai-o ao oculista. Tomás de Aquino. o pensamento. mas preocupa-se com o estado geral do enfermo. Julgais que pensamos só com a inteligência? Seremos acaso puro feixe de poderes. Portanto há entre ambos um laço frouxo ou apertado. que ora deslumbra ora entenebrece. desde a ideia vital até à composição química da mais pequenina célula. donde retiramos o instrumento apto para isto ou para aquilo? Pensamos <<com toda a alma>>. nem se limita a aconselhar colírios ou banhos locais. e um estado insensato. importa sobremaneira para a aquisição da ciência(1).lib. Todas as taras mencionadas estão mais ou menos ligadas umas às outras. Como querereis pensar bem com a alma doente. . Plenamente de acordo! Ora analisai. rectificar-nos. que enfraquece e prostra o corpo. Não nos aproximamos da verdade pelo que em nós há de individual. ramificam-se. e todas são para o amor do bem ou para o seu desprezo o que para a nascente são os fios de água que se entrecortam. Uni estas proposições. não o podemos honrar como verdade. Apaziguar-nos é desembaraçar em nós o senso do universal.

Não digo. O conhecimento. revela-se como princípio. o sujeito da ciência esquece-se do mister de homem. da disciplina dos sentidos e da imaginação. afastar-vos. pois que os mestres no assunto incluíram debaixo desse rótulo muitas coisas. q. o prático que desdenha da ciência para ( 1) Cf. Sem ir tio longe. para indicar que o saber. isto é. disse o Senhor. constitui sem dúvida o nosso bem supremo. do empenho em alcançar os fins sublimes. amada e realizada como vida. é ir de través e tornar a descer. A virtude própria do homem de estudo é. Esta pode tirar lucro dos instintos e viciá-los no momento em que pretende satisfazê-los. No reino da estudiosidade. o mesmo da curiosidade. Subi a grande pirâmide pelos degraus que representam tão exactamente a ascensão da verdade: se subirdes pelo ângulo norte. Opõem-se dois defeitos: a negligência e a vã curiosidade. O pároco de aldeia que vive para os paroquianos. há uma virtude própria do intelectual. E qualquer outro intuito menos confessável. e quem o pratica não merece o nome de intelectual. que adaptemos às circunstâncias e liguemos aos outros deveres o apetite de conhecer. participamos na verdade participando no Espírito segundo o qual ele existe. Não se trata aqui de ostentar destreza. <<não cesses de imitar o procedimento dos santos e dos homens de bem>>. Quando digo sai. e se o não é. da humanidade. a ambição pode alterar a estudiosidade e os seus efeitos úteis. as luzes penetrantes vêm. Bem-aventurados os corações puros. Um acto de ambição a propósito da ciência já não é acto de ciência. e convém insistir nela.S. é sempre bem-vindo. mas que a constituição da vida exige que temperemos. do desapego de si e das banalidades rotineiras. E um intelectual. as suas disposições filiais e amantes abrem-se à invasão das claridades como à dos ardores e das rectidões. embora no decurso destas páginas a encontremos frequentemente.9 unir-nos intimamente a ele. As grandes intuições pessoais. merece o mesmo veredicto. Já mencionamos as pretensões ambiciosas que desorientam a vocação intelectual. tal qual é. porém. abeiramo-nos deste centro na sua unidade. entendo o termo nos dois sentidos. A obediência da alma à fonte inefável. Manter-vos a distância. . recomenda S. 167. para que a sua glória nos inunde. a estudiosidade. do aperfeiçoamento moral. mesmo quando desinteressado e recto. como jóias. No entretanto. evidentemente.A virtude própria do intelectual. vemos segundo o que somos. não chegareis ao cume sem vos aproximardes do ângulo sul. é à custa da sua ascensão para os cimos.Tomás. Eis-nos certos de que a virtude. Por outra parte. tomado em absoluto. adoramo-lo. Assim o génio da verdade tende para o bem: se dele se afasta. queremos comunicar como o foco de luz e de vida. sem o reconhecer e sem o servir igualmente como bem. Deixemos agora a primeira: se o leitor a não detestar no momento de fechar este livro. um pouco isto o que quer dizer a célebre máxima: <<Os grandes pensamentos brotam do coração>>? II . <<Guarda a pureza de consciência>>. que o estudioso se proponha. S. que facilmente sai dos justos limites. Não será. Tomás ao estudante. é ficar nos níveis baixos. nem sempre é oportuno. Ninguém se apresse a qualificar de simplória esta afirmação. da simplicidade. descobrir-lhe os rastos e sofrer a sua influência poderosa. o estudo. que não é homem. mas o que saboreamos aqui subordina-se muitas vezes a outros valores que são os equivalentes daqueles sob os auspícios do mérito. mas excluíram de lá muitas outras(1). em si. é necessária à ciência e que. em geral. A verdade. que será? Existem outros deveres humanos além do estudo. quanto maior rectidão moral nela empregarmos. IIª II ªe. porventura. Tomás subordinava a estudiosidade a temperança. tanto mais fecundo será o estudo. porque verão a Deus. e renunciamos ao que se lhe opõe. Suma Teológica. nem de fazer brilhar as próprias faculdades. é que se terá enfastiado durante o caminho ou então que fizemos muito mal a travessia. à igualdade de valor.

não profanam o génio interior. Tomás ajunta. visto que. A ciência comparada. Na efígie do real em nós. evitamos a dificuldade dos primeiros passos. nem eleveis o edifício mais alto do que os alicerces o permitem. rendem homenagem àquela verdade que se identifica com o Bem. Tomás. Por este motivo. quem deita a perder faculdades reais a fim de adquirir faculdades ilusórias. V. Ninguém pode contar só consigo para começar pelo princípio. Quem visa mais alto do que pode e se expõe a errar. Perde-se quem quer subir como quem quer descer. mas sim julgar-nos. ou então abandonam o estudo que corresponde às suas obrigações. é igualmente verdade de cada um com relação aos outros. Ele é um reflexo do ofício divino. inteiramente concentrado nos objectos de estudo. são diletantes. mas. A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas. A natureza nunca vai além do que pode. o filho de família que aprende um ofício para ajudar os seus e renuncia desse modo a uma cultura liberal. Por outro lado. plantai a árvore: eis. é obedecer a Deus e preparar vitórias certas. ofenderiam a verdade e a virtude. de acordo com a sua natureza e a sua força. equivale a dizer que o regato levará maior quantidade de água se o manancial estancar. Não devemos estimar-nos acima do que valemos. ou antes de os alicerces estarem consolidados: de contrário tudo desabaria. Tudo nela se mede com precisão sem esforço vão nem avaliações mentirosas. os autodidactas apresentam tantas deficiências. in mare eligas introire. tudo dele depende. Aceitar-nos tais quais somos. busca e honra os <<rastos>> criadores ou antes as <<imagens>>. Tomás em matéria de estudo dirigem-se a esses tais: <<Altiora te ne quaesieres. não busques mais do que podes>>. porque tudo dele procede. faltará a um dever capital e além disso os vestígios da imagem de Deus nas coisas criadas só servirão de afastar para longe daquele a quem atestam. consoante perscruta a natureza ou a humanidade. em seu tempo. notam-se as mesmas dependências. salientaremos que o estudo deve ceder o lugar ao culto. Só o homem vive de pretensões e de tristeza. S. nem a das grandes almas. e depois permanece em paz. de sorte que o homem se esqueça de si e. a depreciação e a mesma. é igualmente curioso no sentido antigo. O Campo do Trabalho. Os destinos não se podem mudar à discrição. para se entregarem ao estudo que os lisonjeia nos seus desejos. nem se leia a palavra sagrada. mas. Procedendo de modo diferente. Associando-nos a um grupo em meio do caminho. em vez de tentardes violentar a fortuna. pelo equilíbrio que comunicam ao homem. O sábio começa pelo princípio e só dá novo passo depois de ter consolidado o precedente. resolve-te a entrar no mar pelos regatos e não directamente>>. . a não ser que tenhamos transformado as relações da verdade. Assiste-vos uma missão que só vós podeis cumprir e que deveis cumprir com perfeição. Grande ciência e grande virtude é o homem julgar-se rectamente e ser o que realmente é. Caminhai sempre para a frente em harmonia com o que sois. Estudar de sorte que se descure a oração e se não pratique o recolhimento.10 prestar socorros urgentes. Tiraremos daí uma importante consequência para a organização do trabalho(1). ( 1) Cf. não faça caso do hóspede interior. o conteúdo do conselho de S. Muitos curiosos na ciência não receiam sacrificar-lhe os mais estritos deveres: não são sábios. oporiam a Verdade viva a si própria. levando a Deus por guia. o cuidado de não deter a curiosidade nos objectos do mundo com detrimento do objecto supremo. Supor que desse modo aumentarão os progressos ou a produção. tão úteis para a ciência como para a virtude. No real tudo ascende para o divino. Afinal. Cada ser opera segundo a sua quantidade e a sua qualidade. de contrário. Não sobrecarregueis o solo. a estas necessárias medidas de prudência. em resumo. à oração. acima de tudo. Abaixo o cap. Preciosos conselhos. non statim. por um desvio. deve preferir a frequentação directa. Quem sois? Qual a vossa situação? Quais os vossos fundamentos intelectuais? Eis o que deve determinar as vossas empresas no domínio da ciência. é abuso e ilusão. à meditação directa das coisas de Deus. o que é verdade de cada um no respeitante ao espaço percorrido do seu próprio desenvolvimento. <<Volo ut per riuulos. Se quiserdes colher os frutos. Dois dos dezasseis conselhos de S. nem a dos santos.

na ciência cristã. Desligar este <<corpo de Deus>> do seu Espírito. de si. morreria. orienta para aquela de que é a revelação. no trabalho. um segredo divino: para além está o objecto da revelação. debaixo das trocas. e ela é. nunca deixes de orar>>. é como que Vida de Deus. entregue à sua inconsistência. o espírito de oração.11 III . o Coração. está a Luz. Nem o conhecimento. em que se não dissocia o corpo. toda a natureza. o supremo Laço. Librairie de l’Art Catholique.O espírito de oração. o que importa são as dependências. como é abusar de Cristo ver nele puramente o homem. o Dom. é abusar dele. atrás de todas as dependências. isto é. no que se analisa pela ciência. Cada verdade é um reflexo: atrás do reflexo. é que se desviou no caminho. É ainda S. ela figura. as trocas que constituem a vida da natureza. pertence-lhe. a invocação de Deus e a sua intervenção especial têm aqui o seu lugar. Sem dúvida. Tomás orava sempre antes de ditar ou de pregar e compusera para esse efeito uma oração admirável(1): o menino da ciência. Decidamo-nos a trabalhar à sombra das grandes leis e ao abrigo da Lei suprema. cada facto. onde o Deus do coração e o Deus dos céus se revelam e se juntam. Pode uma verdade particular ocupar a cena. no cimo das comunicações. busca muito naturalmente. Ora. por assim dizer. e a. vive do que recebe e. S. tenhamos connosco toda a alma. Cumpre estabelecer a unidade entre os nossos actos (compreendendo o acto de aprender) e os nossos pensamentos e as nossas realidades primeiras. o sangue.Les Prières de Saint Thomas d’Aquin. há a dependência primeira. toda a duração e a própria Divindade. as imensidades estão mais longe. e a dar-lhe o valor. o herói do testemunho. o imenso Coração do Ser. toda a verdade é lugar de entrevista. rendendo culto à suprema verdade através da verdade reduzida e dispersa. do seu poder pelos efeitos. que deve preceder o estudo. O espírito inspirado e recto atravessa dum salto os ( 1) Cf. no olhar divino. as comunicações de influência. Paris. a Fonte. com os dons do profeta. deve também terminar num êxtase celeste. se cultivar.Tomás que recomenda ao apaixonado da ciência: <<Orationi uacare non desinas. Mas na própria ciência. A ciência é conhecimento pelas causas. Toda a verdade autêntica é. repetimos sem cessar. Portanto. elevando-nos Para Deus. Através da natureza e da alma. independentemente da piedade. não se basta a si própria. Toda a verdade se destaca no Infinito como num fundo de perspectiva. eterna. símbolo real. para onde nos podemos encaminhar senão para o manancial de ambos? Quem lá não chega. sob a sístole e a diástole do mundo. nem qualquer outra manifestação da vida se deve separar das suas raízes na alma e no real. Para obter este espírito de oração na ciência. e Van Helmont assim explica este preceito: <<Todo o estudo é estudo da eternidade>>. e a Verdade é Deus. as ligações. da Verdade eterna em cada caso da verdade. como Jesus. da sua bondade pelas utilidades. da sua tendência para se difundir pelas trocas e pelo crescimento: convém venerar e amar esta espécie de incarnação ao contacto daquele que se encarna. em vez das nossas distraídas investigações e das nossas banais admirações. Sacramento do absoluto. Podíamos dizer: uma verdade particular é apenas símbolo. Não se requerem esforços extrínsecos. Não será porventura necessário que o espírito se conforme incessantemente com ele e nunca perca o contacto do que é assim o todo de todas as coisas e por conseguinte de toda a ciência? A inteligência só cumpre plenamente a sua missão exercendo uma função religiosa. Cada ser é testemunha. que ela possui. aonde o Pensamento supremo convida o nosso pensamento: faltaremos ao encontro sublime? A vida do real não se confina no que se vê. encontra-se o escabelo que. que balbucia. A incarnação de Cristo termina na comunhão. a alma e a divindade do Salvador: a espécie de incarnação de Deus no ser. Os pormenores não são nada: os factos também não. Cada verdade é um fragmento que mostra por todos os lados as suas ligações. mas não por si mesma. não é mister entregar-se o homem a encantações misteriosas. a qual é também vida em Deus. nos permitirá voltar ao estudo com o espírito mais esclarecido e. O real tem vida oculta. no âmago de todas as ligações. Em suma. Estas disposições ficarão incólumes se. a palavra que lhe falta. a Verdade em si é uma. é revelação da sua sabedoria pelas leis. Tudo o que instrui leva a Deus por caminho coberto. parece-se com ele. eternidade. . para a alma inteiramente desperta.

e daí. por outro. pela palavra ou por sinais. nos quais ele descubra a nossa ideia e a possa fazer sua. a substância homem estão ao serviço desta vida especial que por certos aspectos parece tão pouco humana: não lhe ponham embargos! Tornemo-nos harmonia. S. e sustenta estas proposições na aparência materialista: <<As diversas disposições dos homens nas obras da alma dependem das diversas disposições de seus corpos>>(2). As almas não comunicam senão pelo corpo. 4) Quaest. a sua atenção para que. a alma de cada qual não comunica com a verdade e consigo própria senão pelo corpo. 3) In II de Anima. as mais obscuras sensações preparam a experiência: esta é o produto do trabalho. deixemos ao espírito o seu voo e. O complexo físico e mental. De Mrmoria. directamente ao corpo e só <<por acidente>> à parte intelectual(4). de sorte que a mudança pela qual passamos da ignorância à ciência se deve atribuir segundo S. mesmo que só utilize uma ideia adquirida. de emoções. Esta doutrina.A disciplina do corpo. estados de sensibilidade e de imaginação. O que aí se descobre é então comentado. há aí duas coisas a encarar sem respeito humano. não discutamos. magnificado. lect. ainda as mais estranhas ao pensamento puro. o Ser infinito e a duração infinita cercam-vos. bastante vigor ( ( ( ( Quaest. ressaltando com novas forças. IV . basta que. como eles. diante das quais as montanhas são efémeras. mas também o corpo e todas as suas funções orgânicas? Tudo. passamos do Vestígio ou da Imagem a Deus. como dizer: só ela constrói ou tece>>(1). que são os adubos com que se fermenta a ideia. sobretudo para pensar com ardor e sabedoria durante uma vida inteira. e se Deus permite que assim suceda convosco. Por um movimento rápido e muitas vezes inconsciente. Tu que és aluno dos génios estás seguro de possuir. então isso seria tentar a Deus e caso de grande culpabilidade. é indispensável sujeitar ao pensamento não só a alma e as suas diversas potências. que dê em resultado a conquista da verdade. num intelectual.I. depois de demoradas preparações em que toda a máquina corporal entra em acção. deve ser intelectual. art. embora a primeira costume assustar os espirituais de juízo pouco firme. O fenómeno intelectual produz-se no meio de fenómenos fisiológicos. sem evocar uma série de imagens. O pensamento nasce. Não admira. Ora. Primeiramente. de memória.12 intermediários. o homem sente-se cliente de verdades. I. por outro lado. 1) 2) . Génios houve de saúde lamentável. de emoção. dos sentidos que elaboram lentamente as suas aquisições e as fixam pela memória. <<À boa compleição do corpo corresponde a nobreza da alma>>(3).3. de sensações. A base de tudo é a química celular. mesmo ocupando-se duma ninharia. entre o objecto dum estudo particular e o da contemplação religiosa. tão essencial e providencialmente moderna. não vos envergonheis de cuidar da saúde. que o Santo Doutor desenvolve a cada passo. ad 12 um. I. e o vosso estudo é autêntico <<estudo da eternidade>>.19. Mas se a culpa é vossa. uma voz secreta responde: Deus! Por conseguinte. a doutrina do composto humano opõe-se à dissociação das funções espirituais e das funções corporais. Do mesmo modo. em continuidade com eles e debaixo da sua dependência. vê-se aí um episódio dum imenso acontecimento espiritual. se estabeleça um vaivém em proveito de ambos. em nós. Quando queremos despertar nalguém um pensamento. deve gerar a convicção de que para pensar. arg. lect. Ninguém pensa. e a toda a interrogação que se ergue dentro de si.XIX de Veritate. Tomás. Como já dissemos. retornamos aos vestígios do divino Viageiro. Tomás subscreve este pensamento irónico de Aristóteles: << É tão ridículo dizer: só a alma compreende. art. servimo-nos apenas dum meio: produzir nele. quaisquer que sejam as respostas particulares que dê.XXVI de Veritate.

fisiologia especial.. Não se pode marcar aqui lei comum. Physiologie et Hygiène des hommes livrés aux travaux de l’espirit. Port. simples. Janelas abertas ou entreabertas dia e noite quando a prudência o permite. portanto ecónomos insensatos do talento que o Mestre lhes confiou. precisa de velar por ela e de não recear consultar o homem da arte(1). Uma enfermidade de estômago muda o carácter do homem e o carácter muda os pensamentos. Muitas anomalias intelectuais. passeios que se entremeiem com o trabalho e com ele se combinem. porque ela enriquecerá a vossa filosofia. O trabalho manual suave e distractivo é igualmente precioso para o espírito e para o corpo. para a saúde em geral. É importante trabalhar em posição que desembarace os pulmões e não comprima as vísceras. o repouso. Mas o cuidado do corpo comporta outros elementos. trad. mas existem outros(1). mas sim que predomine. Lisboa. quase decerto o não contaríamos no número dos pessimistas. há-de encontrá-lo para estar doente>>. nesses períodos de tempo. Os nossos modernos. A atenção. É bom interromper. o estudo aplicado para respirar profundamente. de quando em quando.P. Se Leopardi não tivesse sido o aborto que foi. Está demonstrado que são de grande eficácia largas aspirações praticadas de pé e elevando-nos na ponta dos pés. no que respeita ao sono. III. Cuidai mais ainda do sono: não seja demasiado nem escasso. Em igualdade de dons. Em todo o caso. com todas as suas substruções orgânicas. permitir-vos-á trabalhar com mais prontidão e liberdade. pois isso afrouxaria faculdades naturalmente activas. que. O de J. mesmo entre os mais bem dotados. <<Alma sã no corpo são>>: eis o ideal de sempre. segui as prescrições correntes.Tomás reconhece isso mesmo e classifica esta sabedoria do corpo entre os elementos que concorrem para a felicidade temporal. Paris. Observai-vos. Já falamos das paixões e dos vícios como de formidáveis inimigos do espírito. período frequente de respirações fundas. Os antepassados sabiam-no muito bem. O homem de pensamento tem uma. expõe-vos a prolongar e a sobrepor perigosamente as excitações do trabalho. é. nervo da ciência. velhos antes do tempo. talvez se expliquem deste modo. Demasiado. S. bem como a fraca produção de alguns. a abundância de oxigénio é condição primeira. mas o nosso século zomba da natureza. A boa higiene é.13 para triunfar na luta incessante da alma contra a fraqueza da carne? Nada nos diz que os génios não tenham visto as suas taras fisiológicas desviarem ou reduzirem-lhes os talentos. 1881. pode falsear o juízo pelos efeitos de imaginação e de emotividade que o sofrimento provoca. O meu sistema. o ar livre e o exercício em plena natureza. deveis preocupar-vos. uma virtude por assim dizer intelectual. e no decurso do ano. Reservai-vos todos os anos. está em estreita correlação com a respiração e. ao mesmo tempo que com o pensamento. Se não podeis exercitar-vos ao ar livre. Bertrand. o cuidado do corpo. vivei ao ar livre. moderada em quantidade e em qualidade. por assim dizer. para o intelectual. embrutece e entorpece. Lembrai-vos da observação dum médico inglês: <<Quem não encontra tempo para fazer ginástica. Uma alimentação leve.Réveillé Parise.-P. não faltam métodos excelentes que suprem essa deficiência. Muller. Tanto quanto possível. entrava a liberdade no momento das suas delicadas funções. não a desdenheis. encontrai a justa medida que vos convém e proponde não sair dela. J. ( ( ( Cf. como ao alimento. consoante a tradição grega: eis aí outras tantas práticas esplêndidas. incentive da outra (1). férias para descansar a sério. é um dos mais inteligentes. Muller. espessa o sangue e o pensamento. Por isso a natureza vinga-se. 141. desvia a atenção. O pensador não passa a vida em sessões de digestão. são ricos de higiene. para evitar a congestão e o estiolamento dos órgãos. de se enrugar. Não descureis nada. Cuidai da alimentação. virtude e prova de sabedoria. com a janela aberta. malogrados possivelmente futuros idiotas. Cap. nas perturbações que trazem ao juízo e à criação do espírito. escasso. Pensávamos então nos seus efeitos psicológicos. para vós. a doença é grave inferioridade: diminui o rendimento. sobretudo combinadas com movimentos que as amplifiquem e as tornem normais. Consagrai todos os dias algum tempo a exercícios corporais. Não vos torneis raquíticos. Tratando-se duma vida elevada. pois bem. 1) 1) . 1) Contra Gentes. instrumento da alma. Não quero dizer que vos abstenhais de todo o trabalho. para fazer dois ou três movimentos rítmicos que distendem o corpo e o impedem. Em suma. chegados a certo grau. por vezes tão pobres de filosofia.

prescreve a Lei: o trabalho pacífico e comedido não deve associar-se aos conflitos caprichosos e ruidosos duma vida puramente exterior. não são coisas próprias dum trabalhador. Uma palavra que tudo resume: simplificai. porque a sua carne. do tabaco. não vá portanto dispersar-se em futilidades exigentes. É preciso pagar. cenário. e o que não se consegue afastar por fora pode-se afastar da alma. um espírito de simplificação pode muito. obedecei a convicções. a taxa do luxo. Para dar hospitalidade à ciência. jovens. sóbrio e casto. observa Henrique Lavedan. e as convicções dum intelectual devem sempre referir-se ao fim que tem em Vista. quem abusa do vinho. pronto para o ardor e afastado de excessos. A vida mundana é fatal para a ciência. precisar a vocação e administrar as forças: precisais também de dispor a vida. Se obedecerdes à carne. <<uma inteligência servida por órgãos>>. organizar-vos por dentro. em pecados talvez perdoados periodicamente. Tomás o doutor angélico? Será unicamente pelo génio alado? Não. A fim de que. é quanto basta. oriunda das margens tirrenas. sob este aspecto. como praticará a higiene que vimos ser necessária? O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. científica. Vocação é consagração. A ideia e a ostentação. por amor do génio. Não se representa o génio sentado à mesa a jantar. mas o juro só duplicará. de que. como Bernardo Palissy sacrificava os seus móveis. artística. por sua conta. Religiosa ou laica. que indirectamente se convertem em doenças da alma. são antes os defeitos. Recepções. tudo se oriente para o trabalho. literária. em vós. A mortificação dos sentidos é requerida para o pensamento e só ela nos pode colocar naquele estado clarividente de que falava Gratry. nem criadagem numerosa. Reduzi o teor de vida. CAPÍTULO III . em hábitos que a um tempo debilitam e enervam. se revestira da brancura do Carmelo e do Hermo. não se requerem móveis raros. A disciplina e a mortificação do corpo. escravo do travesseiro e da mesa. quando deveríeis ser todo espírito. Os preconceitos não são os vossos ditadores. constituem a melhor parte: tal é. mas cujos efeitos permanecem. eis o que importa. nem com as complicações. do álcool. não a ritos. pois pode acontecer que não sejais inteiramente senhor delas. as forças. Actualmente referimo-nos os seus efeitos corporais. segundo a célebre definição. em todo o caso as tentações.guardas do porvir. O trabalho e as suas condições. cerimónias de vizinhança. e nesse caso de que serviria legiferar? Erro! Na mesma situação exterior. não basta organizar por dentro. <<Os grandes homens dormem em camas pequenas>>. as preocupações. obrigações. saídas que arrastam novas obrigações. Lance todos os seus recursos ao fogo da inspiração. vizinhanças. Um certo ascetismo constitui ainda. Quem é preguiçoso. o dever do pensamento.A organização da vida I – Simplificar. Muita paz. quanto ao ambiente. trabalhadores cristãos. uma das mais preciosas salva. Tendes de levar a cabo uma viagem difícil: não vos sobrecarregueis de bagagens. Guiai-vos por vós próprios. O intelectual é um consagrado. Não vos deixeis tomar por essa engrenagem que pouco a pouco toma o tempo. algumas comodidades que sirvam de poupar o tempo. Por que motivo se chama S. a contemplação não se compagina com as comodidades demasiado onerosas. Não atrelarás o jumento com o boi. Os .14 transformam em potência de trevas. quem se compraz em excitações malsãs. guloso. é porque nele tudo se subordinava ao pensamento genial e santo. estais em caminho de ser carne. juntas aos cuidados necessários. as disponibilidades. Dez por cento deste privilégio não o arruinarão: não é ele quem paga. a ideia e a dissipação são inimigos mortais. era todo ele uma alma. todo esse ritual complicado duma vida artificial que tantos mundanos amaldiçoam cm segredo. um pouco de bom gosto. e vós sobretudo. porque.

introduzem no espírito uma inquietação que o corrói. em sonhar grandes planos e em aguardar tudo da paternidade que os guia. que esteja também duplicado. esta suave complicação deve servir para renovar o ânimo mais do que para o privar dos seus recursos. Mas isto é tanto mais verdadeiro quanto mais nobre e laboriosa for a carreira abraçada. mas assim como ao se diz missa por dinheiro. se a vida se sobrecarrega? É caso para reduzir ao mínimo a matéria. Tomam muito de vós. Ao deixar o trabalho. Pense nisso a filha de Eva e não dê razão. apreciando as liberdades que este sacrifício lhes outorga. sejam para com ele mãe. o centro da gravidade da família é sempre o trabalho do pai. animem-no. obrigando-o a velar sobre si. se vos não moessem a paciência de tempos a tempos? Mas dão tanto ou mais carinho do que o que vos tomam. sois assim levados a procurar o lucro e desorientais os vossos esforços. Esses pensarão em seus irmãos carregados de cuidados. . O que favorece a vossa obra é sempre oportuno. Paulo. O Sacerdote tem com que viver do serviço do altar e o homem de estudo do seu trabalho. e a facilidade em acreditar. o que a entrava e dificulta deve ser excluído. a ave e a alma sem o seu canto? Por conseguinte. o homem e como que um ferido. a dar o máximo de trabalho. portanto também o essencial do dever. têm o direito de se regozijar por isso. e defendem-vos assim do abstracto. como haveis de preservar as magras horas de que dispondes. a guarda do lar não deve ser o génio mau. menos ainda mulher de letras. em vez de ser a Beatriz. pode produzir muito ajudando o marido a produzir. A mulher deve desposar a carreira do marido. Mas o trabalhador envolvido neste laço pode e deve fazer dele uma força. uma vez que é uma só carne com o que realiza. não lhe fica ardor nem alegria. em esperar. Deu-lhe Deus uma auxiliar semelhante a si: que ela se não torne outra. um motivo de ardor e uma das formas do seu ideal. aquietem-no. audições musicais que refrescam a inspiração. dupliquem-no no momento em que se encontra como que diminuído por um gesto talvez excessivo. irmã do saber. tão frequentemente ela a esquece e. pensadores. em reservar uma viagem instrutiva. e para que serviriam eles. para aliviar e libertar o espírito. a mulher dum intelectual tem uma missão que talvez seja bom assinalar. As divisões ocasionadas pela incompreensão da alma irmã são fatais à produção. por causa do dinheiro. precisa de conforto e de calma: não o violentem. e como é que a ave voaria sem asas. e este forte. mas sim a musa do mesmo lar. Suas frontes puras pregam-vos a integridade. em vez de procurar distrair dele o pensamento do homem. não será também para vós. numa palavra. reconduzem-vos ao real. logo deve ter igualmente a vocação. repetindo de si para consigo a palavra sorridente de Lacordaire a propósito de Ozanam: <<Não soube evitar uma armadilha: o matrimónio>>. a mulher deve instalar-se nele. A este respeito. ao divisius est de S. porque. além dos inconvenientes imediatos. Que importa realizar por si ou pelo marido? Ela deve no entanto realizar. Aí está a vida produtiva. levantando-o nas horas inevitáveis das quedas. também não se deve. a esse real cujo comentário seus olhos interrogadores esperam de vós.15 gastos e os cuidados disseminados por ninharias seriam muito melhor utilizados em formar uma biblioteca. Quanto às criança. interessem-se pelo que faz. Se pertenceis ao número dos que têm de ganhar a vida fora do trabalho da sua predilecção. Arrastá-lo para bagatelas alheias às suas aspirações. é o desviar o marido destas duas vidas que mutuamente se contradizem. A vida comum tem aqui por centro um cimo. uma elevação e um motivo de esperar? Vêde a imagem de Deus e um sinal dos nossos destinos imortais nessa imagem do porvir. podem alterar a vossa inspiração misturando-a de alegria. pensar e produzir. umas férias tranquilas. etc. Se o homem casado está <<dividido>> de algum modo. sendo a sua recompense após o trabalho. senão com direito. reflectem-vos amorosamente a natureza e o homem. Desposou uma vocação. acalmando-lhe as penas. só sabe ser o periquito tagarela e dissipador. sentirá o vigor orientar-se para novos tormentos. que é pura fraqueza. Sem precisar de ser intelectual. Os que renunciaram à família para se consagrarem inteiramente a uma obra e àquele que a inspira. animando-o nos dissabores sem lhos acentuar com demasiada insistência. esses pequeninos.

não corrais após as notícias que ocupam o espírito em vão. por conseguinte de solidão? Não foi por escolha? Não preferiste a verdade à mentira quotidiana duma vida que se dispersa. por alusão ao Cântico dos Cânticos e ao comentário de S. sede lentos em falar e em ir aonde se fala. Todos os anunciadores. é o arranjo exterior e interior da solidão. e também os investigadores e pescadores de verdades esparsas têm de mergulhar na grande vacuidade que é plenitude. o silêncio parece uma pessoa magnífica. de concentração. pregadores. mas <<não sejais muito familiar com ninguém. As grandes obras foram preparadas no deserto. é preciso deixar as banalidades e praticar o retiro. pensador. Bossuet levantava-se de noite para encontrar o génio do silêncio e da inspiração. perguntava a si próprio S. com as carícias embriagantes e calmantes da verdade. A adega. o direito de não frequentar verdadeiramente senão alguns cujo comércio vos seja de proveito. evitai. a excessiva familiaridade que abaixa e desorienta. a esta vida de consagração. se rasgara <<Horizonte mais vasto do que o mundo>> e que aí procurava <<as asas do repouso>>. mesmo com esses. da investigação. pela cortesia para com todos. não têm eles a impressão de só traduzir no verso as misteriosas revelações do silêncio que escutam consoante a fórmula de Gabriel d’Annunzio. <<Nas celas como ao longo dos grandes corredores. até mesmo a redenção do mundo. cujo odor atrai de longe a Esposa. a alma ardente. Sobre que vigia senão sobre a oração e o trabalho? Portanto. suas asas. porque a demasiada familiaridade gera o desprezo e dá matéria a muitas distracções>>. e os ludribia de que falava Santo Agostinho. como um <<hino sem voz>>? O que vale deve erguer uma barreira entre si e o que não vale. mas secundários. Platão consumia <<mais azeite na lâmpada do que vinho na taça>>. será alcance moral ou intelectual.16 II – Guardar a solidão. S. Para entrar nessa morada. sete são consagrados às relações e ao retiro. simbolizado na cela monástica. à imitação do Criador. de que se fala aqui. pois. <<Ama a cela. os continuadores. Tomás está tão persuadido disso que. <<Nunca te intrometas na vida alheia>>. evitai os passos inúteis que consomem as horas e favorecem a vadiagem dos pensamentos. não espera por ele. não vos imiscuais em acções e palavras seculares. mesmo aos cuidados superiores. O retiro é laboratório do espírito. é o teatro das folias do espírito e da sua moderada embriaguez. da acção? Não sejas. do génio. cantam na sombra. A vida banal. a que vieste a esta vida fora da vida corrente. <<Evita acima de tudo as voltas inúteis>>. o Mestre observaram ou devem observar a mesma lei. os sublimes pensamentos não lhe acudiam senão no afastamento dos ruídos e dos cuidados fúteis. 67). dos dezasseis conselhos que a ao intelectual. O ponto essencial a salvar na organização da vida e em vista do qual tudo o mais se adopta. entre a sua alma e Deus. todos os poetas. mártires. isto é. os jogos e as querelas de crianças que um beijo acalma. tome o tempo de dispor a matéria dos astros. Na noite astral e na sua vacuidade solene afeiçoou Deus o universo: quem quiser saborear as alegrias criadoras. infiel ao teu culto. simples homens ou Homem-Deus. Bernardo no claustro: ad quid venisti? E tu. vestida da brancura das paredes e que vigia>>. Nenhum homem superior tentou fugir a essa lei. é o secreto abrigo da verdade. pagai. nas sombras propicias. inspirados de todas as artes. Bernardo. o grilo. isto é. apóstolos. O galo proclama o dia. só deste modo nos manteremos em respeito diante da verdade. à noite. é o domicílio da inspiração o lar do entusiasmo. o sapo de voz cristalina. Os mais belos cantos da natureza ressoam de noite. Os precursores. O rouxinol. <<Quero que sejas lento em falar e lento em ir à sala de visitas>>. escreve Paulo Adam (Dieu. pág. nem sobretudo passe revista a todos os animais do mundo. todos pagam o tributo ao isolamento. porque as muitas palavras obrigam o espírito a escoar-se como água. devem cessar com o beijo da musa. pioneiros da ciência. E os Poetas. deixando-te assenhorear de novo . da invenção. se quiseres ser introduzido na adega>>. A vida silenciosa. Descartes encerrava-se no seu <<fogão>>. Só assim nos aproximamos dos segredos reais que constituem a felicidade da Esposa. Emerson proclamava-se <<selvagem>>. <<A que vieste>>. <<Não te ocupes das palavras nem das acções seculares>>. a solidão interior e o silêncio. Dizia Lacordaire que no seu quarto. Tais são as condições do recolhimento sagrado. Profetas. não se apresse a pronunciar o Fiat lux. <<Mostra-te amável para com todos>>.

o silêncio sua oração>>. mas primeiro devemos criar esta amarra. longe dos homens sereis mais homens e estareis mais com os homens. e quando a paz. diz S. das investigações. a não ser que nos mantenhamos firmes. III – Cooperar com os seus iguais. se quiserdes realizar-vos e não ser o papagaio de fórmulas aprendidas. O prazer. a horas determinadas. Para o intelectual. de acentuar a própria personalidade e de lhe comunicar o sentimento activo. Antes de dar a verdade. a fim de tonificar o organismo espiritual. Perdemo-nos no meio da multidão. a continuidade que lhe é possível dar sobre a terra. menos eu próprio. no recolhimento prolongado. como num firmamento. porque <<a cela bem guardada torna-se suave: cella continnuata dulcescit>>. longe do borborinho das estradas. Para que o Espírito nos leve para as solidões interiores. Voltaremos a esta ideia duma instrução especial a cada um. estais na alma disposição de aprender. desdobramento da alma. como para uma entrevista que pouco e pouco se converterá em continuidade. Na multidão ignoramo-nos. onde todos os objectos entram em contacto e donde extraem a força de verdade e a potência . reforça a atenção e desdobra as potências de aquisição que seriam comprimidas pela tristeza ou pelo aborrecimento. Nem por isso sereis o isolado que condenamos: não estareis longe dos vossos irmãos pelo facto de ter abandonado o ruído que fazem e que vos separa deles espiritualmente. é preciso entrar em si. como levou Jesus para o deserto. o próximo é o ser que precisa de verdade. A solidão permite-vos o contacto convosco. porque Deus não se repete. Mas para sair assim de si próprio. Tomás. inteiramente atravancados por um eu estranho. precisamos de lhe dar os nossos espíritos. nem de ir vivendo enquanto o tempo corre. <<Como te chamas? – Legião>>: eis a resposta do espírito disperso e dissipado na vida exterior. Quando a calma do silêncio nos invade e o fogo sagrado crepita sozinho. na solidão. explica S. impedindo assim a verdadeira fraternidade. oração à Verdade. Mas à volta da lâmpada todos os astros do pensamento se congregam. que é multidão. Se as palavras da imitação são verdadeiras. estais estritamente no princípio da acção. dos sentimentos. e a retoma logo que pode. eis o momento de vos erguerdes com ela e de vos librardes. não é o momento de acolher misérias. podeis juntar. dá-lhe uma espécie de continuidade. Para conhecer a humanidade e para a servir. em vida estreitamente comum! Não podemos. apoia a alma sobre o seu objecto.17 pelo que livremente abandonaste. Tomás. mas aquele que só vive para a contemplação que para ela orienta tudo o mais. Dizia o autor da Imitação: <<Sempre que fui ter com os homens. é indispensável viver consigo. frequentemente retomado. muito perto. Os higienistas recomendam para o corpo o banho de água. como o próximo do bom Samaritano era o ferido da estrada de Jericó. mas sim o profeta do Deus interior que fala a cada qual uma linguagem única. depois criar. enquanto ela vos alça às regiões elevadas. Ora a suavidade da contemplação é a parte da sua eficácia. nem de trocar o céu por bagatelas. alma única e que não teve nem terá igual nos séculos. Levai mais longe a ideia e corrigi: voltei de lá menos homem do que sou. tranquilidade da ordem. como se fosse instrumento para apertar. Quando a verdade se apossa de vós e a penugem das suas asas desliza debaixo da vossa alma para a erguer em gestos harmoniosos. duma formação que é educação. o banho de ar e o banho interior de água pura: eu de bom grado ajuntaria o banho do silêncio. voltei de lá menos homem>>. Disse Ravignan: <<A solidão é a pátria dos fortes. adquira-a e não dissipeis o grão das vossas sementeiras. como o atleta sente os músculos e prepara o jogo deles pelos movimentos interiores que lhes dão vida. estabelece a ordem dos pensamentos. De envolta com ela vira a suavidade. isto é. força de cooperação com a sua influência. contemplar todo o tempo. contacto necessário. Sem retiro não há inspiração.

. senão para o Homem-Deus e para o homem de Deus. Mas uma tal conjunção dos espíritos é muito rara. intelectualmente. as trocas de impressões. prefiriria dizer cooperação. o exemplo seria de admirável eficácia contra este spleen. mesmo à mesa. quer se trate das coisas quer de pessoas. Digo frequentação. associação de trabalhadores. Não advogamos embalde a solidão o sacrifício do convívio e da simpatia dos nossos irmãos vale uma compensação. de falso pensador. se. essa potência de imaginação e constância de virtude que só alguns possuem e que no entanto são necessárias para não desistir da prossecução dum grande fim. Deixar-se monopolizar. de que a sua palavra é como que a porta estreita para as trocas da divina caridade. pudéssemos viver juntos. cujo elogio tecemos. for favorecida por frequentações escolhidas e medidas com sabedoria. é preciso ter alma forte. o seu apoio. é apenas vassalo dum reino de morte. cap. que o completem e utilizem. sobre todos estes belos assuntos. não passa de falso místico e. Não há maneira de se unir ao que quer que seja senão na liberdade interior. frequentar sem cooperar não é fazer obra intelectual. o seu ânimo. é a frequentação dos seus iguais. Gratry. excepto o ponto preciso pelo qual Deus podia passar e as almas juntar-se a Ele! Não deveria haver lugar aí. Longe dos olhos. famílias: a oficina de hoje é masmorra. os frutos estão demasiado longínquos ou aparecem amargos. Não temos direito senão ao esplêndido isolamento. puxar para aqui e para ali.18 de amor. formam um cortiço. Aquele que se crê unido a Deus. porque. VI. que heroísmo! Primeiro sente-se entusiasmo. Longe de competições e de orgulhos. o silêncio é colectivo e o trabalho conjunto. e sobretudo as oficinas de arte eram amizades. mas o que está unido aos homens e à natureza sem estar unido com Deus no seu íntimo. é valor que se deve temperar com valores conexos. os amigos assim reunidos seriam. E que soberana eficácia. neste tempo de individualismo e anarquia social. buscando apenas a verdade. perto do coração. debaixo da impressão da necessidade que mais e mais se experimenta à nossa volta. e nos tornássemos recíproca e alternativamente aluno e mestre. multiplicados uns pelos outros. vivendo na simplicidade. é trabalhar para desunir. ser todo para os homens e viver todo em Deus. Nos conventos em que os religiosos não se falam. sonhava ele com Port-Royal e queria fazer do Oratório <<um PortRoyal sem cisma>>. além dos cursos da tarde e dos estudos sobre os cursos. é mentiroso. para o homem de verdade e de dom. Não haverá maneira de ver. supririam. nem se visitam. e a alma comum provaria uma riqueza que em nenhuma parte parece ter explicação suficiente. Jesus mostra-nos bem como se pode viver vida interior e ao mesmo tempo dar-se aos outros. Todas as nossas explicações demonstram claramente que a solidão. se assim me atrevo a exprimir. estes alvéolos. se soubéssemos unir-nos ou auxiliar-nos mutuamente! Se em número de seis ou sete. a influência duma fileira de celas laboriosas anima e activa cada asceta. sem que nenhum deles pretenda impor-se. Para trabalhar só. depois com a chegada das dificuldades. sentimos vagamente que nos enganamos. procurada no retiro. sem ser cliente do silêncio e da solidão. em muitos. com o mesmo pensamento. <<Quantos trabalhos nos poderíamos poupar. na aparência isolados. aberta para fora e não menos concentrada que anteriormente? Seria esse o momento de conceber e de fundar a oficina intelectual. neste contacto que reservava tudo. sem estar unido a seus irmãos. sem prejuízo das suas necessidades e deveres de homem. entre Deus e a multidão. procedêssemos por ensino mútuo. afirma o apóstolo. um mesmo espírito adeja na atmosfera e a harmonia dos pensamentos ergue-se ( 1) Les Sources. embora possuindo reconhecida superioridade de que o grupo se possa aproveitar. por igual entusiastas e aplicados. ou então meeting. Já o deplorava o P. Viveu Ele na solidão. na igualdade. a oficina familiar ampliada. dizia. Constituir em si só a sua sociedade intelectual. o demónio da preguiça sugere: para que tanta maçada? Então enfraquece-se a visão do fim. tratava com a multidão só com uma alma de silêncio. falássemos à noitinha. Primeira parte. de modo a aprender mais pela conversa e por infiltração do que pelos próprios cursos(1)>>! As oficinas de outrora. o acordo das almas não dá fé dos muros da clausura. livremente reunidos. se mesmo. Ora este será tanto mais rico e fecundo quanto a vizinhança superior. por não sei que concurso de circunstâncias felizes. É certo que o apoio de outrem. a que o qualificará. encontrar num pobre querer isolado tanta força quanta pode existir numa massa em movimento ou na dura necessidade. A frequentação primeira do intelectual.

Os Cabiers de la Quinzaine nasceram deste voto. mesmo correntes. onde adeptos convictos assumem uma missão e se consagram a uma concepção. romancista ou não. se. sentis que não vos podeis enclausurar inteiramente. quanto em esforçar-se. conforme a situação actual. lembremo-nos que a virtude – intelectual ou moral – retirará daí vantagem. com o sentimento de que outros se esforçam. Bernardo. irmão da verdade. se preciso for. mas a sirvam. Sempre que se procede bem. também vós tendes algo que respigar. Alistai-vos em suas fileiras. dizia S. que o único e melhor emprego do tempo consiste num trabalho de espírito regrado. pode alguma coisa. nem que um suplemento de possibilidades intelectuais possa prevalecer sobre o acabamento do vosso ser. defendem-se e excitam-se uns aos outros num ambiente. e talvez este último aspecto da cooperação seja o mais cobiçado. escreve Maine de Biran no seu Diário. ajudará a sua irmã. é preparar a contemplação. o sentimento da alma comum e da vida. é unidade. Nem os próprios monges o fazem. A amizade é maiêutica que extrai de nós os mais ricos e íntimos recursos. Compete-vos ligá-las à intelectualidade. <<Não se deve acreditar. tenham Deus como relojoeiro. apesar das suas concessões virtuosas. A comunicação dos Santos. cujo essencial é fornecido por um pensamento iniciador e por uma grande tradição.19 como motivo de sinfonia que a vaga geral dos sons leva e prolonga. noutras circunstâncias. O bem. à parte da Providência. e só a contrariaria. Isto é sempre possível. a intelectualidade alcançará o seu ganho unicamente através da moralidade. as Revistas de Juvisy e de Saulchoir cada dia se compenetram mais e mais deste espírito. E como é que vós o possuireis. que se lhe dispensa. tentai agregar-vos a uma fraternidade deste género. Em certos dias. É mister guardar. corrigem-se. o espírito. persistente e tranquilo. desdobra as asas dos sonhos e dos obscuros pensamentos. aprende e ensina. cada qual exprime e escuta. Porque. experimenta as ideias novas. o curso deste mundo é feito para se aliar à virtude. de modo que se leve por diante uma tarefa. como. entretém o ardor e inflama o entusiasmo. nas frequentações. cada qual. alcançá-lo-á por si só. Há relações necessárias que fazem parte da vida do intelectual. mas trabalha-se com o mesmo coração e concertam-se. com todos os produtores que a cristandade reúne. se a considerássemos abstractamente. o concerto enriquece-se. ela saberá arranjar-se. fazer aí o que se deve fazer. de sorte que não a embaracem. recebe e dá. em se concentrar quando outros se concentram. só. A unanimidade não consiste tanto em viver juntamente numa morada ou num determinado grupo. Quando em seguida intervêm as trocas de impressões. mesmo no isolamento maternal. por causa do trabalho. Em todo o caso. sentai-vos fraternalmente com eles e com todos os investigadores. privado de . faz parte da vocação. não é falanstério. orientada por um só principio de vida e de actividade. a Amité de France. uma vez que não separamos o intelectual do homem. porém. o cuidado. IV – Cultivar as relações necessárias. a Revue de jeunes. Há exemplos disso hoje nos grupos de jovens e nas revistas de novos. Estar onde se deve estar. falta-lhes tempo para escrever>>. buscai em espírito a sociedade dos amigos da verdade. Se puderes. Fazei o que deveis e o que for preciso: se a vossa humanidade o exigir. e se o frequentam. Nem sempre aí se vive em comunidade. É doloroso sacrificar belas horas em frequentações e assuntos inferiores ao ideal. faz-se bom uso da vida. Disse que a solidão do pensador não implica a exclusão dos seus deveres nem o olvido das suas necessidades. e que as peças do relógio. às quais cada trabalhador em seu quarto se aplica exclusivamente. Nunca malbaratado o tempo que se consagra ao dever ou à necessidade real.>> Decerto não pensais que a vossa obra valha mais do que vós. constituí-a. não o esqueçais. os seus livros são ilisíveis. inspecciona os juízos. <<A carne sozinha – de nada serve>>. Escrevia recentemente alguém: <<A dificuldade dos romancistas hodiernos afigura-se-me esta: se não frequentam o mundo. A demasiada solidão empobrece. É a ânsia da medida que se encontra por toda a parte! Mas. alimentá-la e deixar a Deus por Deus.

aos pretensos homens de génio prefira gente de peso. reforçará em vós os efeitos da solidão. que vos rodeia. e as enfermidades. mas de sorte que as próprias taras. se o ambiente. a pessoa associa-se às suas relações. Há na riqueza infinita do real tesouros que vos podem instruir. à sociedade da alta roda prefira a das almas nobres. Sendo moderados nas conversas. visto que no mundo tanto mais se passa por um homem de génio quanto mais se matou a inteligência. instruída e de juízo sólido. cambaleia no real como o marinheiro quando põe o pé em terra. se convertam em valores. pelo exercício das virtudes de que eles são os clientes. quando esconde e deixa adivinhar. espelho de tudo e que convida o pensador a permanente confrontação? É preciso que. Não abra a qualquer as portas de casa. encarásseis apenas uma humanidade aérea? O homem nimiamente isolado torna-se tímido. cristãmente. por qualquer interesse reles. abstracto. O silêncio é o conteúdo secreto das palavras importantes. que sempre retirava utilidade. utilizai-os intelectualmente. porque pertencem a outro mundo. Sobretudo não vá ela. dá a impressão de vos olhar como se fosseis uma <<proposição>> a inserir num silogismo ou um caso a notar um calepino. basta que a frequentemos em espírito de contemplação. na medida em que nos for dado escolher. mas recordai-vos do que dizia Leibniz. a saber. Nunca pensais só. como nunca pensais só com a inteligência. para exprimir um sentimento oportuno ou uma ideia fútil depois disso calar-se. portai-vos de maneira que o espírito e o coração dominem sempre o vosso caso. Esta associa-se às demais faculdades. Falar para dizer o que se deve dizer. um pouco bizarro. por meio de qualquer indústria feliz da grandeza de alma. disponhamos as coisas de maneira a convizinhar o mais possível com pessoas superiores. que o seu tacto seja como crivo. e que não a desertemos. fim último de tudo. E não será porventura o homem o que nela há de mais importante o homem centro de tudo.20 comunicação com os humanos. falta-lhe o senso do destino. quando por debaixo dela se pressente o silêncio. que tocam sem ser tocados. introduzir o marido na companhia de insensatos. o ser pensante é tudo isto: componde-o o melhor que puderdes. até da leitura dos piores livros. eis o segredo de o intelectual se guardar ao mesmo tempo que se comunica. A sociedade é livro para ler. Que digo? Se até os insensatos concorrem para nos servir e completar a nossa experiência! Não os busqueis: há-os em demasia! Mas. por leviandade ou vaidade. desse modo não sereis invadido nem contaminado. se os encontrardes. No trato com o próximo. embora livro banal. por trás dos sons. o amor à verdade e aos seus ensinamentos. . for medíocre e se for nobre. a alma associa-se ao corpo. que dão sem perderem nada do que possuem. A palavra pesa. A solidão é obra-prima. permanecereis recolhidos e lograreis a sabedoria indispensável para o intercâmbio das ideias com o próximo. Não existe outro meio de dar autoridade à palavra. um tesouro que vai dispensando com medida sem pressa nem agitação. A esposa dum intelectual deve também velar por isto. Deveríamos lidar com o mundo externo como os anjos. O valor duma alma mede-se pela riqueza do que ela não diz.

. daí a necessidade de diversão para a vida cerebral a necessidade do calmante da acção. se. que nem sequer é percebido. No entanto. sem grandes retoques. Encontramo-los nos livros. Há razões fisiológicas. Convém dosear sempre a vida interna e a externa. não deixes gastar-se a corda que te prende>>. cada qual de louvar o que não fazemos. a alma que o imita. a sociedade. não está sujeita a cansaço. A ideia. controladas por uma parte. precisamos de nos desviar dele como duma causa de impotência e de queda. como se cansa gastando. dos fantasmas. estiola-se e. as exposições. atrofia-se e enerva-se. Que outra coisa é o sonho senão pensamento que não quer? O sonho inconsciente é o escolho do pensamento puro. O monge trabalha manualmente ou dedicase a obras de zelo. que se imobiliza demasiado. arruina-se. como supôs Platão: esta concepção filosófica tem consequências práticas. O que dissemos das frequentações aplica-se. que é também fonte de verdade. nelas se apoiam e a elas se reduzem as razões psicológicas. Encontra-se até em número mais ( 1) Iª. Sofre do defeito de ser abstracta. Em seguida. Portanto. A vocação intelectual estritamente tomada. O pensamento e a acção têm um Pai comum.8. como há pouco dizíamos que nos forçava a frequentar a sociedade. Quantas experiências a vida nos propõe cada dia! Não lhes ligamos atenção. e as suas ideias gerais. a acção gasta. uma chama pela luz. as excursões. a dose de acção recomendada ao pensador terá a vantagem de lhe estabilizar o espírito e de o enriquecer. À força de cultivar o silêncio. Dum modo geral temos de nos resignar a dividir as tarefas. elementos assimiláveis e <<talhadas da vida>> que serão a figurção das suas ideias abstractas. corre-se o risco de chegar ao silêncio de morte. à acção. Requere ela que a acção se limite e ceda o passo à solidão. cada coisa tem a sua medida. em que me não vou embrenhar agora. Tudo isto é recomendável. no seu caminho. por conseguinte. impõe-se a todo o pensador a necessidade de reservar parte do tempo e do coração para a vida activa. S. A amplidão e força do pensamento dependem da riqueza dos fantasmas. para que o espírito não vacile. A acção regulada pela consciência prepara-a para as regras da verdade. A contemplação recolhe. Por outro lado. não vivem em si mesmas.art. <<És um balão preso à terra. O dever pode forçar-nos à acção. O corpo. a vida real não permite distribuição tão estrita.21 V – Conservar a dose necessária de acção. por pequena que seja. enquanto distinta do corpo. dizia a si próprio Amiel. os seus quadros espirituais ir-se-ão completado paulatinamente. o médico tem a. como oriundas de pensamentos e de aspirações contrárias. mas o silêncio exagerado causa também agitação: o refluxo do homem todo para a cabeça desorienta e dá tonturas. As ideias estão nos factos. como o aleijado nas muletas. a vida contemplativa e a vida activa estiveram sempre opostas. Porque. uma vez que a alma. o silêncio e o ruído. Ora a acção encontra.84. de amar os frutos da actividade alheia e de os saborear. Contudo é bem frágil a ciência puramente livresca. o escritor é solicitado de tantos lados que dificilmente conseguirá esquivar-se e meter ombros a qualquer empresa. contentes. O pensamento apoia-se nos factos como o pé se firma no solo. requere um equilíbrio. Mas o composto animado cansa-se descansando. quase ilusória. o hospital. no mundo. pouco a pouco.q. privada dos seus elementos empíricos. mas o pensador profundo recolhe-as e compõe com elas o seu tesouro. porque a acção exterior agita a alma.Tomás consagra um artigo da Suma a provar a necessidade de nos firmamos no real que o real é o fim último do juízo e o fim deve iluminar ao longo do caminho(1). graças à comunhão das almas. serão além disso ilustradas por documentação viva. dispõe-na para o recolhimento. oferecer ao juízo matéria demasiado quintessenciada. é o contrário da acção. O homem do pensamento precisa de se manter na vizinhança do que é. não passa de concerto vazio. une-a à Providência. a vida interior não escapa a esta lei. as conferências. a outra ambiciona dar. cujo centro de gravidade se possa aliás deslocar do corpo para a alma e vice-versa. perde contacto com a realidade e. em nós. clínica. enquanto o silêncio a acalma. a vida intelectual precisa do alimento dos factos. o artista.

estabelecendo a nossa morada e o nosso comércio no céu dos espíritos. O artista. dobrar-se a ela em tudo. onde ela vos introduz. cujas lições não serão inúteis a um solitário. quando tiver conscienciosamente o modelo. senão a vida inteira. quer façais qualquer outra coisa. das divagações. alimenta. o retiro do pensador são realidades mitigadas. tão hostis ao pensamento como às realizações. realça e acaba a sua concepção. O pensamento. deve aplicar-se ao cristão que busca a luz. possamos em seguida proceder como se elas não existissem. ao mesmo tempo que os seus tesouros. executando. Costuma-se dizer que a solidão é mãe dos obras. obras de luz. de facto. iluminado e advertido pelas razões do coração postas em jogo pela acção. de alma e coração. Mas exacto seria dizer: o estado de solidão. colocado diante duma árvore. como o artista. a investigação activa ajudará o recolhimento. animadas por um espírito de exigência estrita. Se. O individual é inefável. não consiste tanto na solidão de lugar como na solidão de recolhimento. a acção estimula e retempera as forças. procurai causas que vos apaixonem pelo seu valor intrínseco. ligas de bem público. será instrumento de pesquisa e árbitro de verdade diferente duma razão alcandorada sobre a árvore porfiriana. O individual é o real em oposição aos temas do espírito. Enfim. a colheita preparará o mel. sem ceder a arrebatamentos. em rigor. independentemente delas. se ainda as não tendes. diante dum esboço de árvore. graças ao dom de si às coisas superiores e mediante a fuga das leviandades. realiza o conuersatio nostra in caelis do apóstolo. Pelos incentives e resistências. consiste cm isolar-se pelo alto. pelos resultados que não devem ser para ele como os toros que alguns vão serrar para sobre eles repousarem a cabeça. no entanto. alternativamente mergulhado nos dois abismos. Se me não engano. Paulo sugere ao cristão: quer comais. pelo aborrecimento e cansaço que obriga a vencer. o lodo e as asperezas da terra. sociedades de defesa e de acção social. e o céu. empresas que exigem. A solidão. que é a acção.22 avultado do que esperava. a verdade: deve pensar nela em toda a parte. o do real e o do ideal fortificado por uma vontade aguerrida. As virtudes de fora virão assim em auxílio às de dentro. traçará muitos esboços dela. requere-se a consagração de toda a vida. ser-vos-á tanto mais agradável quanto mais tiverdes experimentado. A glória de Deus é. interessandose. Por conseguinte. voltareis à inspiração. a que dedicasse um tempo bem delimitado. nem a sua instrução. encontramos nele formas novas. porque o real é uma espécie de infinito que nenhuma análise ou suputação racional pode esgotar. da mobilidade e de todos os caprichos da vontade. salvas essas duas horas. pelos reveses. pelas dificuldades. VI – Manter o silêncio interior. o silêncio. nem a sua formação. mesmo até diante da árvore dum Cláudio Lorrain ou dum Corot. Gostaria de ver o homem de estudo envolvido nalguma empresa pouco custosa. de quem a elas se dá. que também lhe é proveitoso a ela. tudo isto resulta que a solidão útil. Um intelectual deve ser intelectual todo o tempo. Essas duas horas são dedicadas à concentração. quer bebais. pelo silêncio e pela solidão interior. é ao mesmo tempo professor de energia. sem que lhe ocorra a ideia de reproduzir inteiramente o que a natureza exprime. os perigos. Mergulhando no real pela acção. podemos conceber uma vida intelectual fundada num trabalho de duas horas por dia. de levantamento. pelas contradições que suscita e pelas necessidades novas que cria. o instrutor. o intelectual é um consagrado e se não há possibilidade de servir a dois senhores. Em seguida. pelos êxitos. é mais elevação do que afastamento. sacode a preguiça fundamental e a orgulhosa quietação. que lhe é recomendada. para ele. o que não quer dizer que. Tão verdade isto é que. diziam os antigos filósofos. de preservação. O que S. nada mais lhe resta fazer. Aplicai-vos a isso nas horas em que a inspiração vos outorga e até vos impõe um feriado. fazei tudo para glória de o Deus. Pelo quê. nem daí poderá derivar o repouso do homem. Agir sem se dar totalmente à acção não é agir como homem. de progresso. a acção e as frequentações devem ser condicionadas e doseadas pelo retiro. ao menos a doação total do ser. . o que importa é o espirito de silêncio.

mas a sua impureza basta para manchar a própria casa. embora sozinhos. Pelo contrário. por prudência ou pelo cuidado de tomar descanso. Tende a inspiração interior. à exaltação do orgulho. tende convosco o Deus da verdade e. estareis em pleno universo. sair e agir por dever. em toda a parte se pode manter. . <<Podes viver numa cidade. que alimenta e tonifica a alma em vez de a apoucar. isolado como o pastor na choça sobre uma colina>>. cuja necessidade voltaremos a advogar mais abaixo. o amor daquilo a que vos dedicastes. a discrição. O que S. Agostinho chama a <<pureza da solidão>>. será isto a solidão? Há uma falsa solidão. escreveu Platão. ao fluxo de pensamentos que introduzem em nós um mundo externo absorvente e cheio de discórdia.23 Ficar em si e entregar-se à garrulice interior. como há uma falsa paz. pode ser uma solidão superior. às sacudidelas dos desejos.

entrais numa ordem de consideração extremamente preciosa. O cérebro trabalha sem remissão. se conseguir não se dobrar todo inteiro! Ora. giram. as turbinas.O tempo do trabalho I . tomam-nas à letra e delas extraem profundos ensinamentos. visto ser um desejo e o desejo permanecer. o pão quotidiano de toda a natureza e de toda a oportunidade. O que importa ao homem de verdade é compreender que a verdade está em toda a . Suprimi o desejo e a oração deixa de existir. que reclamo. que a oração. em favor da verdade. as turbinas à corrente de água. nunca o será totalmente. e não por intermitências. opera como segunda natureza. É certo que este texto benignamente interpretado significaria que não devemos deixar passar dia. O estudo foi cognominado oração à verdade. bem montado. é necessário que o homem das alturas desça à planície e se incline: que lucro imenso. semana. recomenda S. o pensador é obsidiado pelo desejo de saber. Primeiramente. <<Empenha-te em encerrar no cofre do espírito tudo quanto puderes. arriscamo-nos a quebrar a máquina. A falar a verdade. o funcionamento cerebral. sem desfalecer>> (Lc. esta vida permanente? Só a disciplina. não formulou porventura a mais comovente oração? Embora nada tivesse visto. consciente ou inconsciente. I). e a oração toma voo ou perde as asas. Têm aqui lugar os nossos conselhos práticos. Mas. e a oração muda. A criança que não. as coisas do tempo que as servem. mas fixa o olhar ardente no brinquedo de uma vitrina. Dizia Carlyle: <<Não creio que um literato tenha consagrado à literatura a quinta parte do seu tempo>>. Mas para obter o possível. o seu valor provém da aspiração interior do seu conteúdo e da sua força. sob muitos respeitos. suprimi a expressão mas deixai o desejo. I8. Este. Mas os nossos doutores não restringem a tão pouco o sentido destas palavras. alterai-o. O pensador é um consagrado. apertemos agora mais as suas diversas condições. não da maneira. Instintivamente queremos conhecer do mesmo modo que pedimos pão. Mais abaixo voltaremos a esta comparação. longo espaço de tempo sem nos dirigirmos a Deus. é já para os seus uma oração permanente que eles atendem? É preciso orar sempre equivale a afirmar: é preciso desejar sempre as coisas eternas. inato na criança como a sede de agir. ficará intacta. terrestres e celestes. e. e que em seguida olha para a mãe. que pode dar aso a equívocos aqui trata-se do cuidado em adquirir. porque o nosso poder sobre ela é relativo. porque o não utilizará. fortificai ou atenuai o seu ardor. A oração exprime o desejo. arrastando em suas voltas um sistema de rodas donde se escapam as ideias como as centelhas dum dínamo em pleno rendimento. É preciso que os dínamos estejam ligados às turbinas. se tentarmos forçar o rendimento. a vida em todas as suas amplidões. como quem pretende encher um vaso>>. não é verdade que o desejo do jogo. Que falta para aproveitar. é. o tempo que o pensador lhe consagra. desde que saibamos cultivar o hábito. A maior parte da actividade nervosa de nada serve. a experiência e a psicologia o ensinam. a oração deve ser ininterrupta: <<É preciso orar sempre.O trabalho permanente Qualificámos de muitas maneiras o labor intelectual. Aplicando este comentário à oração activa do estudo. é preciso que o desejo de conhecer accione regularmente. se a oração pode durar todo o tempo. Uma vez que a maior parte da vida assim se mantém em nível ou em baixo. se também ele é desejo e apelo à verdade? O desejo de saber define a inteligência como potência de vida. diz palavra. Tomás ao homem de estudo. segundo o Evangelho. aproveitando-o como se aproveita um curso de água para mover uma turbina? Será isso possível? Sim. por que razão não há-de o estudo durar todo o tempo. Os processos nervosos encadeiam-se em série continua e não param do mesmo modo que os movimentos do coração ou dos pulmões. Pelo contrário.24 CAPÍTULO IV . existem. mas só é pensador em actividade durante muito poucas horas. Se os mais dos homens se deixam prender por desejos erróneos. pela simples razão de não ser captada. basta relativamente pouca dessa actividade.

também na praça. Desconhecíeis as tendências da moda. Aprendei a escutar. não têm menos aplicação em toda a parte. as leis sociológicas. Newton não teria descoberto a gravitação. Só que. estando presentes. ouve-se um discurso divino todas as vezes que um homem fala. Circuláveis pelas ruas de Paris. isto é. se fosse escutado. Há ocasiões em que um camponês mostra maior sabedoria que um filósofo. concepções do destino e da natureza. se a atenção ao real o não tivesse advertido e disposto a reparar que as maçãs caem como os universos. Que sucede quando quereis mobilar um quarto? A principio. do pensamento inspirador. mas ninguém vê o que eu vejo>>. mas não reparáveis nelas. mas escolas de arte e de vida. dos sentimentos. confrontai o que se vos oferece com as ideias que vos são familiares ou secretas. das relações entre as classes. Aprendei a olhar. Mas. nos acasos. nós ou a nossa atenção. vive para si. e algumas leis da vida ou da natureza governa o mais. onde abundam as lojas de antiquários. veremos em toda a pare lições. amareis a ignorância?. se um regresso instintivo ou virtuoso à simplicidade original afastar os convencionalismos e as paixões que ordinariamente nos escondem a nossos olhos e aos dos outros. uma vez estimulado o espírito pelo desejo. eleva a voz nas Praças Públicas. Que sobre vós espalharei o meu espírito. estão também nas conversações. As leis da gravitação dos espíritos. se já o não sois. Ora a verdade está mais espalhada que os móveis: clama nas ruas e não nos desampara se a não desamparamos. artísticas. quanta riqueza aí recolheríeis! O maior romancista forma-se no limiar das portas. a estar presentes a este jogo do universo material e moral. o mais pequeno na Universidade ou nos salões. porque tudo está em tudo. Em cada homem está o homem todo. a fim de lhe comunicar orientação e fecundidade. sobe. da economia antiga e moderna. nem sequer pensáveis nos móveis. Nas mais simples conversas circulam verdades sem conta. Todos os homens se encontram no íntimo de si próprios.. Estendo a mão e ninguém me dá atenção>> (Prov. nos espectáculos. que as paisagens evoquem a vossos olhos as grandes leis do mundo. e que a menor frequentação vos informe sobre a alta concepção do homem. mesmo na duma mosca ou duma nuvem que passa. tudo vos impressiona. sempre que lá refluem. mas vida humana e história. que as estrelas vos falem das durações incomensuráveis. Olhando tudo com espírito de inspiração. dizia Lamartine diante do mar encapelado.. Toda a captação de luz pode conduzir ao sol. I. e de lá reverteria para este mesmo pensamento.. nas visitas e nos devaneios. do trabalho. filosóficas. na vida corrente se pode aprender a língua do espírito. o grande observador reserva-se. morais. mas da condição humana. Se na praça se aprende a língua materna. Habituai-vos. todas estas riquezas as podemos captar. dir-se-ia que Paris é um visto armazém e no espaço de oito dias ficais ao par do que não lograríeis conhecer durante a vida inteira. mas a luz que ai se concentra expdir-se-ia até iluminar quase toda a vida. os preços. e. prega à entrada dos lugares ruidosos. como pretendia Malherbe. em vez de se imiscuir. Numa cidade não vejais somente casas. diz a Bíblia. tomar-vos-eis banal. todo o caminho aberto é corredor para Deus. há oportunidade de reflexões sem-fim. Ora. nas leituras. <<A sabedoria clama nas ruas. pois. e daí podemos retirar uma profunda iniciação. estabelecer-se-ia uma corrente que atrairia para a limpada os resultados do pensamento difuso.. que as pedras do caminho sejam para vós o resíduo da formação da terra.. O pensador é filtro onde a passagem da verdade deixa o melhor da sua substância. Este apelo incessante de verdade. primeiro. etc. Em toda a contemplação. mas que ele deixa passar em vão. às portas da cidade: até quando. orientações sucessivas ou diversas da técnica. Que um museu vos não mostre apenas quadros. ó ignorantes. Mas as mais das vezes estamos ausentes. a especialidade de tal bairro. quem quer que seja. a mais insignificante vida afigura-se-lhe soberbo . que a vista duma família se associe em vós à das gerações.. alargaria o espírito e enriquecê-lo-ia mais do que muitas sessões laboriosas. <<Toda a gente olha o que eu olho. As ideias estão nos factos. Qualquer facto pode gerar um sublime pensamento.25 parte. Se fosseis romancistas. A mais pequena palavra escutada com atenção pode ser oráculo. e escutai. profecias da verdade ou confirmações. Convertei-vos. Tudo contém tesouros. tudo vos retém. por banais que sejam. Que uma oficina vos não fale apenas de ferro e de madeira. como corrente contínua capaz de accionar a alma. o valor provável de tal ou tal achado. Estas são necessárias. 10-24). pródromos e consequências. Que as viagens vos ensinem a conhecer a humanidade. Se não souberdes olhar assim. e se uma profunda impressão.

o arquitecto equilibra massas. às vezes. o músico percebe ritmos e sons. O seu carácter consiste em conservar. pela vida fora. mas sabendo-o. Observando e escutando . Quantas vezes passamos sem nada ver. se encontrar. por que não viver também na presença da verdade? A verdade é como que a divindade especial do pensador. ao trabalho em gestação. Encontramos o que procuramos. por terem encontrado uma personalidade eminente e ouvido o som duma alma! Esse apelo mudo ecoou neles através de toda a existência. A palavra de um grande homem. artistas. Tudo deve testemunhar pró ou contra as nossas teses. ali uma vergôntea. levava-os uma onda invisível. o pensador. e. questão de método. O espírito deve manter-se em perpétua disposição de reflectir. exploradores. a feliz faculdade de encontrar em toda a parte surpresas fecundas. sobretudo se tendes a dita de tratar com alguém que sabe e que pensa. de apontar à presa que passa. toma o prado à sua conta. por que não havemos de estudar cada questão relacionando-a com as demais? Tudo deve alimentar a nossa especialidade. Levai convosco os vossos problemas. nem por isso consintais que ele sepulte ou gaste em silêncio a sua riqueza. ao nosso estudo actual. Ensinam-nos a viver na presença de Deus. Reserva-se o interesse para a livre observação. No entanto. o ridículo é tomar ares de superioridade. Às vezes sorrimo-nos do seu acanhamento. o que o romancista busca pode servir a todos. movimentos. Nessas atitudes não há particularismos estreitos. O pintor só vê. porque lá voltaremos – assimilareis e adaptareis às vossas necessidades o que houverdes adquirido. a tendência para ver tudo sob o ângulo do mistério.não falo da leitura. recolhemos elementos para uma obra. Quantos que foram santos. que esquecem o valor dos outros. cortais-lhe a palavra para proferir bagatelas. Será sensato.26 espectáculo. cores. sábios. a vivacidade de impressão. Precisando mais. a uma pesquisa particular. a curiosidade da infância. formas. será normal deixar o investigador no gabinete de trabalho. e com este a sua alma obscura. não revela tão potente envergadura. Encontrando-se a verdade em toda a parte e estando todas as coisas ligadas entre si. E. criadora. ter assim duas almas: a do trabalhador e a do homem folgado que circula? Tal dualismo é inatural. de ouvir. Os grandes valores estão assaz disseminados para deixemos sem uso. e também o Horizonte. mas o corcel em liberdade respira sempre à vontade. como Newton. discutis com ele só por discutir. As grandes descobertas são apenas reflexões sobre factos comuns a todos. recebe deles instrução e impulso capazes de decidirem. <<pensando sempre nisso>>. duma vida inteira. porque todos precisam desta experiência intensa. quase ninguém repara neles. consagramos. É pena que os homens de escol sejam tão pouco úteis aos que os rodeiam! Praticamente assemelham-nos aos simples de espírito. Não podemos abarcar tudo. como a de Deus. . no mais pequeno impulso de fora. a atenção de sobrecelente. ideias em acto. a sua volta. até que um dia o homem de génio observa os laços existentes entre o que ignoramos e o que vemos constantemente. Só é dado àquele que tem. Por isso eu falava dum vaivém entre as luzes interiores e as exteriores. O universo é em grande parte. mas à nossa especialidade. como bom caçador. Que é a ciência senão a lenta e sucessiva cura da nossa cegueira? É verdade que a observação precisa de ser preparada por estudos e soluções anteriores. colhe aqui um tufo. mastiga lentamente. compondo com aquele o leite. motivos de metáforas. não o interrogais. Tal verdade particular ou tal objecto de estudo podem estar de contínuo presentes ao espírito. O cavalo de aluguer entra na cocheira após a corrida. por vezes. Mas os grandes homens só são grandes após a morte. O pensador só é verdadeiramente pensador. obra nossa. O espírito do homem é um ruminante. se a despeito da sua potente grandeza de espírito. Empregam-se a si próprios e toda a gente se utiliza deles sem o saber. das pequenas excentricidades de pessoas abstractas. Ora. o poeta. a ocasião dum entusiasmo ardente. mas brinca-se com a chave sem o abrir. Talvez haja a vosso lado quem valha um Descartes e não lhe prestais atenção. pois leva a crer que buscamos o bem por oficio e não por nobre paixão. dizemos que esta atenção de espírito pode aproveitar não só à nossa cultura geral. O animal olha ao longe. O segredo está em ter sempre pensamento em expectativa. Em vida. atenção. toma-se o que têm de comum e não o que têm de raro. e nisso não há mal. é. generais. expressões. como em perpétua disposição de ver. Há neles um tesouro. era una clamor que os impelia para a frente.

por que não utilizaremos o pensamento em benefício do que nos inquieta? Dir-se-á que semelhante tensão é incompatível com a saúde cerebral e com as condições da vida? De acordo. ou o rapaz à espreita da oportunidade de brincar? O espírito que espreita a verdade por amor. por todos os tempos e em todas as estradas. conservam-no alerta e bem disposto. porque as descobertas feitas assim ao acaso. a ligação difícil a saída que embalde se procurara à mesa de trabalho. diz a Bíblia. como outrora ao acaso. sente a impressão. Mostrar-vos-á a experiência que isto não cansa. por tendência a principio instintiva. de sorte que o cérebro seja. Muitas leis se verificam aí. que. e concordo que não se pode evitar a divisão. Por toda a parte o seu universo interior se confronta com o outro. mas que se entrega. mas amorosa e apaixonadamente. de subconsciência. mas convirá recusar o que se pode. caça. e ao sair do estreito espaço em que o seu estudo se concentra. os passeios explorações. durante o passeio. poupa muitas canseiras. também ele. a mais humilde ocupação é o prolongamento da mais sublime. Pensais tão facilmente numa direcção.27 Há tempo para tudo. Alcança-se muitas vezes. Radicado em nós o desejo de saber e ateada a paixão da verdade. e tudo isto se combina sem nossa intervenção – quer dizer. simplesmente porque nos resolvemos e decidimos a não ser cegos. depois cultivada. falemos. deste modo. O que não tinha relação com o trabalho conduz a alguma coisa que constitui o fundo do mesmo trabalho. mas de lhe abrir a porta de par em par. as visitas de cerimónia são inquéritos felizes. é a abdicação do querer consciente que não pensa em viver nem se propõe um fim. como o jogo qualifica a infância. também não sofrerá mais por isso. pelo contrário. ou a rapariga à cata de ocasião de rir. o seu trabalho com o incessante trabalho dos seres. sem que haja lei para a sua aplicação a uma ou a outra a tal ou a tal hora. Esta direcção é. ele espera com delícia a hora de retiro para fixar e desenvolver o resultado das pesquisas. a sua vida com a Vida. mas também não se trata de tensão. concentrada a atenção consciente sobre os factos da vida próprios para entreter o fogo e satisfazer o desejo. Cansa-se porventura a mulher que. mas se de facto pensamos todo o tempo. não por constrangimento. A ciência laboriosa recebe daí nova luz. introduzindo pouco de disciplina num trabalho cerebral que sé efectua. como o amor qualifica a mulher – isto não é o excesso de carga que se supõe. as suas audições e respostas mudas um dialogo que mantém. <<Retoma-me. perto da terra. Este processo de acaso responde às contingências cerebrais e ao trabalho obscuro da associação das ideias. o homem sabe para onde vai e brevemente um lucro inesperado virá coroar os esforços envidados. sem dúvida. Falei de hábito. se quiserdes. Deste modo o sábio passeia. só aproximada e seria absurda uma tensão excessiva. não de abandonar a verdade. arguindo com o que se não pode? Tendes um aí um imenso recurso. se detém a espiar as homenagens dos transeuntes. durante . A tarefa já lhe não custa. muitas vezes mais felizes porque mais espontâneas. sem que a vontade intervenha. incutem ânimo ao investigador. O espírito tem o poder de funcionar sem nós. Gratry que não excluamos do trabalho permanente as horas de letargia e de trevas. um intelectual. de vontade actual.O trabalho nocturno Recomenda insistentemente o P. só debaixo da impressão do desejo que é a alma do pensador e que o qualifica. longe do esforço concreto e voluntário das horas de concentração. por pouco que preparemos a faina e tracemos ao de leve o esforço dos canais por onde correrão os seus veios obscuros. a verdade de acordo consigo própria. Diverte-se. Conselho este que se apoia na psicologia e na experiência. ordinariamente. O sono é repouso. estas invenções. um espírito maduro para aquisições que o vulgo descura. deitado. a fim de a inundo drenar para ele toda a verdade que se gasta nos seus potentes folguedos. como se dissesse à natureza. nele. em parte. Regulai esse trabalho. Quer que trabalhemos de noite. A seus olhos. o espírito assemelha-se a um galgo pronto para a caça. Não é símbolo vão a atitude do dormente. II . entrega-se a um desporto útil e inebriante. à natureza geral. empregai-lo. nem mesmo. sem as buscarmos. obedece a uma nova natureza. mas sem vós e de maneira anárquica.

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bastante tempo me obstinei contra as tuas potências; combati de pé, o teu determinismo nivelador; ao nivelamento de forças, que é a lei deste mundo perecedouro, opus o sobressalto da vida: rendo-me agora, até que chegue a hora de tomar à luta>>. Suspensa deste modo a vida ardente, tendo a correia de transmissão do motor humano passado da liberdade individual à liberdade das forças cósmicas, resulta daí novo funcionamento com leis próprias, que segue caminhos ignorados da clara consciência e realiza combinações estranhas à perspicácia das vontades e dos caprichos. Voltam a agrupar-se as forças interiores; os pensamentos classificam-se e desbastam-se; a energia abandonada pela acção dispende-se pacificamente. Utilizar este trabalho sem lhe perturbar os ritmos é, para o pensador, nova riqueza. Não se trata de velar; pelo contrário, o noctâmbulo é mau trabalhador; já, neste particular, exigimos o obediência à higiene geral, que deve redobrar de pretensões sobre o homem de estudo. Mas o próprio sono é trabalhador, associado do labor diurno; podemos domesticar-lhe as forças, utilizar-lhe as leis, aproveitar a filtração e clarificação que se opera no silêncio da noite. Durante o sono, completa-se e encadeia-se o trabalho cerebral começado e a ideia encetada que um incidente interno ou externo impedira de desabrochar inteiramente: não percais esta ocasião de lucro; recolhei essa claridade que vos pode servir de ajuda, antes que ela torne a mergulhar na noite mental. Como consegui-lo? Há ocasiões em que se não requerem industrias particulares. Ao despertar, encontra-se preparada e registada a colaboração do sono. O trabalho da véspera aparece-nos numa claridade mais distinta; uma vida nova, uma região virgem se abre diante de vós; surgem relações de ideias, de factos, de expressões, uma comparação feliz, uma imagem sugestiva, um trecho ou um plano inteiro. Tudo ai se encontra em perfeita lucidez; só falta utilizar, em seu tempo, o que o deus do sono se dignou efectuar por vós. De ordinário, porém, as coisas seguem rumo diverso. A natureza não esta às nossas ordens; segue o seu caminho. O seu curso arrasta pepitas de ouro; a nós compete recolher e impedir de se afundar na areia o que estas ondas opulentas transportam. Muito frequentemente, uma insónia de minutos, talvez de um segundo, é rasgada de clarões: fixemo-los. Confiá-los ao cérebro em repouso é riscar a água; muito provavelmente no dia imediato nem sequer se dá pelo rasto dum vago incidente. Procedei melhor. Tende à mão um caderno de papel ou uma caixa de verbetes. Tomai nota, sem que isso vos tolha o sono, sem acender a luz, se possível for; depois, mergulhai de novo nas sombras. Aliviar-vos assim do pensamento será talvez favorecer o sono em vez de o perturbar. Se disserdes: <<lembrar-me-ei, quero-o>>, este tacto de vontade perturba mais o sono do que o rabiscar uma nota à pressa. Lembrai-vos de que o sono é repouso do querer. Noutras ocasiões, as claridades acodem de madrugada, logo ao despertar. Abris os olhos e dirse-ia que também o olhar interior se abre e ilumina para um mundo novo. A terra rodou; os céus da inteligência já não apresentam o mesmo aspecto; brilham novas constelações. Fixai esse espectáculo inédito e não tardeis um instante em gravar as linhas mestras; indicai os traços expressivos, os contornos; isto basta para determinar os pormenores, quando tiverdes o lazer de voltar a contemplá-lo. Cada pensador conta na sua experiência factos de lucidez matinal por vezes surpreendentes, quase diríamos milagrosos. Quantos tratados completos que deste modo brotaram em plena luz, após longa e custosa série de estudos complicados, em que o autor como que se sentia perdido numa floresta, sem clareiras nem perspectivas! Muitas invenções também se realizaram assim. Elementos esparsos no espírito, experiências antigas ou conhecimentos, na aparência de interesse nulo, se associaram, e questões se resolveram, por si sós, pela classificação espontânea das imagens mentais que representavam a ideia da sua solução. Agarrai depressa no caderno de notas, quando se vos proporcionar semelhante felicidade. Hauri, enquanto a ideia está presente; extraí, não junteis nada da vossa lavra. Sem intervenção perturbadora, com uma atenção sujeita à natureza do trabalho que tendes entre mãos, ide puxando brandamente pela corrente que se constituiu, desenrolai os elos, as correntes acessórias que deles partem, marcai as proporções, as dependências, sem vos importardes com o estilo – refiro-me a estilo requintado – pois pode muito bem acontecer que desse modo se desenrolem preciosos elementos de estilo. Quando a gaveta está vazia e se vos

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afigurou que de lá retirastes a corrente dos pensamentos novos, cessai de escrever, mas, durante um tempo, fixai a vista nessa riqueza: pode suceder que ela aumente, que se formem novos elos na corrente, e que esses se multipliquem e subdividam. Tudo isto é tão precioso que não deveis deitar a perder uma só parcela: é trabalho que poupais para de dia. A noite, esplêndida colaboradora, deu-vos sem esforço da vossa parte, um dia de vinte e quatro horas completas, talvez semanas, as exigidas para engastar, com dispêndio de esforço voluntário, a jóia preciosa com que ela vos brindou. Contudo, não basta o cuidado de colher. O sono, que trabalha sozinho, trabalha sobre matéria preexistente; não cria coisa alguma; hábil em combinar e em simplificar, em levar a termo, só opera sobre os dados da experiência e o labor diurno. Precisa, pois, de que lhe preparem a tarefa. Contar com ele é, antes de tudo, contar consigo. Os monges, antes de se recolherem à cama, têm o piedoso costume, tão antigo como a piedade, de depor, à laia de semente, nos sulcos da noite, o ponto de meditação. Esperam eles, ao despertar, encontrar a semente amolecida, penetrada pela humidade da terra e talvez germinada: mais prontamente crescerá ao sol da reflexão e da graça. Sem renunciar a esta prática, que seria bom generalizar entre os cristãos, podemos ajuntarlhe a semeadura da noite pelo trabalho. A terra humana é rica: duas sementes convizinharão nela sem conflito. Antes de adormecer, retornai a questão que vos preocupa, a ideia lenta ou renitente em desdobrar as suas virtualidades, e confiai-a a Deus e à alma. Não façais esforço que retarde o sono, mas acalmai neste pensamento: o universo trabalha para mim; o determinismo é escravo da liberdade e, enquanto descanso, ele rodará a sua mó; posso adiar o esforço: os céus rolam e, rolando, movem no meu cérebro as rodas delicadas que eu porventura teria desgastado; eu durmo, a natureza vela, Deus vela e, amanhã, recolherei um pouco do trabalho efectuado por ambos. Nesta calma disposição, descansareis plenamente, mais do que na inquietação do dia de manhã desprovido de auxílio, mais, sobretudo, do que na volta, tão frequente à noitinha, dos aborrecimentos do dia, inimigos que uma semi-consciência aumenta, que envenenam a noite e que de manhãzinha lá estão para vos propinar amarga poção. Do mesmo modo que o trabalho suave e regular harmoniza o dia, assim o trabalho inconsciente da noite pode derramar nele a paz e afastar as divagações, as insanidades esgotadoras ou pecadoras, os pesadelos. Levai muito de mansinho uma criança pela mão e vereis como a sua turbulência acalma. Não preconizamos a estafa, a confusão do dia e da noite. Não, é preciso dormir; é indispensável o sono reparador. Dizemos apenas que a noite, como noite, pode trabalhar por si, que é <<boa conselheira>>; que o sono, como sono, é artista útil; que o repouso, como repouso, é também força. Aproveitemos estes auxílios, consoante a natureza deles e não violentando-os. O repouso não é morte; é vida, e toda a vida produz frutos. Podendo colhê-los, não deixeis aos pássaros nocturnos o fruto do sono.

III – A madrugada e os serões.
Do que acabamos de dizer ressalta a importância extrema, para o trabalhador como para o homem religioso, das horas matutinas e das vespertinas. Não se podem preparar, vigiar, concluir com alma atenta as horas de repouso, abandonando ao acaso o que com elas convizinha. A manhã é sagrada. De manhã, a alma refrescada considera a vida como dum píncaro, onde ela se lhe mostra inteiramente. O destino está ai; recomeça a faina; é o momento de a julgar uma vez mais e de confirmar, por um acto expresso, a nossa tripla vocação de homens, de cristãos e de intelectuais. <<Filipe, lembra-te que és homem>>: estas palavras do escravo macedónio a seu senhor são-nos repetidas pelo dia, quando, ferindo-nos os olhos, ele evoca as luzes da alma; <<homem>>, não em geral, mas qualificado por um caso preciso, homem que está em face de Deus, como um facto singular, único, e, por pequeno que seja, o único capaz de ocupar o seu lugar. E este homem, ao sair das horas de inconsciência, renovado e como que renascido, não vai ele

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encarar o conjunto da vida num olhar rápido, marcar o ponto onde se encontra, compor o dia que começa e partir assim animado, com o espírito iluminado, para nova arrancada? Tal será o esforço combinado do primeiro despertar, da oração matutina, da meditação, e sobretudo da missa, se há possibilidade de a ouvir ou a dita de a celebrar. O primeiro despertar deve ser um Sursum corda! Recitar uma fórmula cristã neste momento é excelente prática; dizê-la em voz alta é melhor ainda, porque, os psicólogos sabem-no muito bem, a voz sugestiona-nos e dá-nos a impressão de ser outro eu, um escravo que não pode ser posto de parte, que se identifica connosco, e cuja voz soa com esquisito império de quem simultâneamente é o que é e outro muito diferente. Ensinamos as criança a <<dar a Deus o coração>>; o intelectual, criança neste particular, deve além disso dar o coração à verdade, lembrar-se de que é servo dela, repudiar os inimigos internos da mesma verdade, amar os inimigos de fora, a fim de os trazer a si, e consentir nos esforços que a verdade exige para esse dia. Em seguida, a oração. O P. Gratry aconselha o intelectual a recitar Prima, que terá, como correspondente à noite, Completas: com efeito, nada mais belo, nada mais eficaz, nada mais animador. A maior parte das orações litúrgicas são obras-primas, amplas e suaves como o nascer e o poente dum astro. Tentai: vereis como falo verdade... Aí está a verdadeira vida, toda a natureza, e o trabalho será, desse modo, preparado como viagem pela abertura duma janela inundada de sol. Qualquer que ela seja a oração do intelectual deve sublinhar de passagem o que é do seu caso, retirar dai utilidade e compor o bom propósito que o trabalho cristão realizará. Acto de fé nas altas verdades que sustêm a ciência; acto de esperança no socorro divino para a luz como para a virtude; acto de amor para com Aquele que é infinitamente amável e para com aqueles que o nosso estudo quer levar para Ele; o Pai Nosso para pedir, com o pão de cada dia, o alimento da inteligência; a Ave-Maria, dirigida à Mulher revestida de sol, vitoriosa do erro e do mal. Nestas e noutras muitas fórmulas, encontra-se o intelectual a si próprio, evoca a sua faina e, sem isolar a sua especialidade do conjunto da vida cristã, pode lucrar do que está previsto para ele e providencialmente deposto no tesouro comum. A meditação é tão essencial ao pensador, que não vale a pena encomiá-la. Preconizamos o espírito de oração: onde poderá ele nutrir-se melhor do que nas contemplações matinais, quando o espírito repousado, ainda não preso pelas preocupações do dia, levado, erguido nas asas da oração, sobe facilmente aos mananciais da verdade que o estudo dificilmente capta? Se tendes a possibilidade de ouvir missa ou de a celebrar, não vos deixareis empolgar pelas sublimidades que ela encerra? Não vereis acaso, do alto do Calvário, de novo erguido, da sala onde se renova o banquete de despedida, a humanidade agrupar-se em volta de vós, esta humanidade com a qual nunca deveis perder o contacto, esta vida iluminada pelas palavras do Salvador, esta indigência que a sua riqueza socorre e que vós deveis juntamente com Ele socorrer, iluminar e salvar pela parte que vos toca, salvando-vos a vós próprios? A missa põe-nos verdadeiramente em estado de eternidade, em espírito de igreja universal, e, no Ite missa est, ficais dispostos a ver uma missão, um envio do vosso zelo à desnudez da terra ignorante e louca. A madrugada impregnada deste orvalho, refrescada e vivificada por estas brisas espirituais, não pode deixar de ser fecunda; acometê-la-eis com denodo; o dia gastará as provisões de luz da aurora; a noite virá antes do esgotamento das claridades, como o ano se encerra deixando sementes nos celeiros para o ano futuro. O fim do dia! Não sabemos de ordinário santificá-lo, apaziguá-lo, prepará-lo para o sono verdadeiramente reparador. Malbaratamo-lo, poluímo-lo, desorientamo-lo! Vêde como o aproveitam os que se entregam ao prazer! Não insistamos nisso, que não vem ao caso. Mas atendemos nos que se dizem trabalhadores: homens de negócio, industriais, funcionários públicos, comerciantes – falo dos mais deles. À noitinha, ei-los <<livres do freio>>, sem pensarem em coisa alguma, deixando vogar o espírito na dissipação que, dizem, repousa, jantando, fumando, jogando, tagarelando ruidosamente, correndo para o teatro ou para os cafés-concerto, bocejando no cinema, e depois indo deitar-se <<descansados>>. Descansado, sim, como o violino cujas cordas se tivessem distendido totalmente. Que trabalhos no dia seguinte, para tornar a afiná-las! Conheço industriais que descansam, lendo Pascal, Montaigne, Ronsard. Repimpados numa preguiceira, bem iluminados e bem quentes, com a família em redor calada ou cochichando,

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eles, depois de maçados, vivem. Essa hora pertence-lhes: é a hora do homem, depois que o especialista esbarrou com a cabeça ou com o coração contra mil obstáculos. O intelectual, embora não precise desta compensação, precisa dessa calma. O seu serão deve ser um recolhimento, o seu jantar uma refeição leve, o seu jogo o pôr em ordem o trabalho diurno e o preparar o trabalho do dia seguinte. Precisa de Completas – desta vez tomo a palavra no sentido figurado – que completem e que inaugurem; porque o complemento dum trabalho contínuo, como nós o requeremos, é tanto um princípio como um termo. Ninguém fecha senão para tornar a abrir. O fim do dia é o órgão de ligação entre os cortes diurnos cujo total forma uma vida. De manhãzinha, é preciso começar logo a viver: para isso disponhamonos à noitinha e preparemos a noite que, a seu modo, solda, sem nós, os labores conscientes. Pense o que pensar a ilusão apaixonada e interesseira daqueles que no homem pretendem reservar a parte do valdevinos, a dissipação não é repouso, é esgotamento. O repouso não pode consistir na disseminação das forças. O repouso é retrocesso para longe do esforço, no sentido das suas fontes; é uma restauração, não um louco gastar. Bem sei que gastar é, por vezes, adquirir; haja vista o desporto, a recreação, e nós não só toleramos, mas até exigimos este repouso activo. Não é esse, porém, o ofício normal do fim do dia. Para esse tempo há dois repousos, um espiritual, outro físico: o repouso em Deus e o repouso na natureza maternal. Ora, o primeiro, é a oração que o dá; o segundo, o repouso do corpo, deve conduzir ao repouso da noite, já que o precede. À noitinha, devemos entregar-nos aos ritmos suaves, de que a respiração nocturna é o modelo. Deixar que se exerçam em nós os determinismos fáceis, que os hábitos substituam as iniciativas, que o ramerrão familiar tome o lugar do esforço da actividade ardente, numa palavra cessar de querer, dum certo modo, para inaugurar a renúncia da noite: eis a sabedoria. E a sabedoria reconhecer-se-á na estrutura desta vida atenuada, desta semiactividade que se acalma. A família terá nisso a sua parte; uma conversa suave selará a união das almas; trocar-se-ão as impressões recebidas e os projectos formados; confirmar-se-ão os planos e os fins; consolar-se-á a velhice do dia; reinará a harmonia e ter-se-á celebrado uma digna vigília da festa que cada novo dia representa para o cristão. O homem, que dorme, toma, muitas vezes, sem dar por isso, a posição que teve outrora no ventre materno. È um símbolo. O repouso volta à origem: origem da vida, origem da inspiração; retempera-se; o dobrar-se, de noite, tem essa significação. Ora, retemperar-se não é agitar-se; é como que refugiar-se, é procurar para a seiva humana, pela concentração pacífica, aumento de vigor, é restaurar em nós a vida orgânica e a vida sagrada, por um feliz repouso, pela oração, pelo silêncio e pelo sono.

IV - Os instantes de plenitude.
Vamos agora tratar do que já não é preparação, prolongamento, folga utilitária, repouso em vista do trabalho, mas trabalho propriamente dito e tempo consagrado à concentração estudiosa, ao esforço pleno. Pelo quê, apelidaremos estes cumes da vida intelectual encarada na sua duração: os instantes de plenitude. Quase todo este livro visa a determinar a maneira de empregar este tempo; portanto, agora, insistimos apenas no modo de o poupar, de o centrar, de o preservar, de defender a <<cela interior>> contra a invasão que a ameaça. Sendo os momentos da vida valores muito desiguais, e obedecendo, em cada um de nós, a repartição destes valores a leis diversas, não podemos estabelecer regra absoluta; mas cumpre insistir neste particular. Estudai-vos; tende em consideração a vida, o que ela permite, favorece ou interdiz, o que ela propõe para as horas ardentes. Como distribuí-las? De manhã ou de tarde? Parte de manhã e parte de tarde? Só vós podeis decidir porque só vós conheceis as vossas obrigações e a vossa natureza, donde depende a estrutura imposta aos vossos dias. Quando se dispõe de poucas horas e estas se podem situar livremente, parece que a manhã deve ter a preferência. A noite reparou as forças; a oração deu asas; reina a paz e o enxame das distracções não zumbe ainda em torno de vós. Podem, contudo surgir contra-indicações. Se o sono for difícil, o tempo matinal será angustioso e entorpecido. Noutros casos, falta a

eleva-o. limito-me a indicar uma só: defender tenazmente a solidão. permanecei em estado de eternidade. Seja como for. Evitai. Abrir-se assim à verdade. mas que saibais também a maneira de não consentir que vos incomodem. Será preciso tudo prever para que nada venha obstruir. se me é licito dizer. mas sempre se deixa comover pelos esforços sinceros. tomam-se então as escassas horas do isolamento. consoante elas se apresentam. sabei o que quereis fazer e a maneira de o fazer. combinai encontros oportunos. o trabalho a meias. estareis preparados para a acção. tomai refeições frugais. pois mesmo então elas não abandonam o seu lugar. Muitos contentam-se com as aparências. do que a folha dilatada pela arte do batedor. treina-se pouco a pouco.32 solidão. em tempo normal. Certos algozes do trabalho alcançaram de facto estas cifras astronómicas. O trabalho a meias. dissipar. não só vos não incomodem. Tudo assim disposto e previsto. aplicam-se sobretudo ao que constitui o centro dela. que é repouso a meias. Executai ardentemente o que decidis fazer. Renovai o <<espírito de oração>>. simbolizam a harmonia das forças criadoras. Note-se que a sessão de trabalho profundo não pode ser mais uniforme do que a vida intelectual no seu conjunto. mas sim o emprego do tempo. com veleidades trapalhonas. observar-vos e levar por diante o vosso intento. são casos para qualificar de feliz monstruosidade. com afinco. É preferível encurtar o tempo e tratá-lo em profundidade. fechai-lhes a porta com bons modos. É preciso ser o Josué desta tarde para prosseguir a batalha sempre demasiado curta. Não quero com isto dizer que vos estafeis. as notas. começai por excluir as preparações longínquas. tomar um bilhete para o outro mundo. que viseis ao alvo e afasteis do campo visual. se a gente importuna vos solicita. tudo o que não for o ponto de mira. as mesmas fases. fugi das conversas vãs. de sorte que a actividade seja uma série de actos continuados com tenacidade. Ouvireis apenas o canto das esferas que. para que a aplicação seja fecunda. eis o verdadeiro trabalho. Estas restrições. levantai-vos da cama com prontidão. cumpridas todas as condições. A questão principal não é essa. Os trabalhadores normais apreciam mais duas a seis horas capazes de se aproveitarem de modo durável e fecundo. reduzir ou enfraquecer tão preciosa duração. lede os jornais com moderação. a hora exacta. mais vale a medalha forte. para que esse tempo se conserve intacto e verdadeiramente livre. Além disso. a atenção não será distraída nem o esforço dividido. juntai os materiais. com a imaginação aberta como asa. quando ao de ruidosa loucura. mais que tudo. por ora. pois só assim o valorizareis. no sonho de Cipião. Chamai então a inspiração. mas. proporcionalmente. É urgente que. mesmo de dia. tomais todas as disposições úteis. depois cansa-se. A vossos pés lá muito em baixo. Nunca será exagerado o luxo de severas precauções. o que lhes compete. Se tendes obrigações. que apontamos como amparo da vida de estudo. nas horas sagradas. convirá poupar os instantes escolhidos e poupar-se a si próprio. É pouco. não podendo alongá-lo. Se quereis que cia seja plena. não favorece o estudo nem o descanso. zumbem sempre e nunca realizam trabalho algum. sempre o encontra em abundância. do qual afirmamos que bastam duas horas por dia para levar a cabo uma obra. A deusa nem sempre acudirá. com o coração submetido à verdade. não vos incomodeis com ninharias. das visitas inúteis. e primeiramente não o encurta. se tendes amigos. Ponde à porta Cérbero. mas sim que vos orienteis. como o atirador. agitamse ruídos da vida. que uma segurança completa vos defenda. bem cunhada e de liga pura. limitai a correspondência ao estrito necessário. Tem. Voltaremos a falar das condições desta claridade protegida. a fim de os explorar integralmente. o espírito que preside a esse emprego. a perda de . chega ao máximo. podereis aplicar-vos a fundo. Quem conhece o valor do tempo. Não os distinguireis. com o espírito sujeito às grandes leis. esse pouco basta e vale muito mais do que as pretensas quinze horas de que tantos paroleiros se jactam. O tempo é espesso como o ouro. abstrair de tudo o mais e. os livros. Fazei alguma coisa ou não façais nada. às vezes custosamente. de sorte que todo o vosso ser sinta pairar sobre si as estrelas silenciosas. Qualquer exigência de fora implica o sacrifício do que está dentro e pode custar. depois de feita a escolha. dai-lhes. Não imiteis aqueles que permanecem horas e horas sentados à secretária com atenção remissa. ao espírito.

O homem da verdade pertence ao género humano como a própria verdade: não há que temer egoísmos.Emerson. diante do único só. deixando flutuar as asas ao vento dos nobres sonhos e da inspiração. . Industriai-vos de modo que vos absolvam de boamente aqueles a quem abandonais e a quem por vezes também incomodais. Bem compreendida e bem preparada. O ideal está em tornar o vosso retiro mais proveitoso a todos que o vosso concurso. nem a amigos indiscretos. logo que surjam os deveres. em todo o rigor. nem seríeis capazes de descair. Não o apreciamos doutra maneira. <<Quando os semi-deuses se vão. é ajuda. é imagem do trabalho. Cumpre acrescentar que a expressão não se deve tomar materialmente. mais sós estareis. nas bibliotecas públicas. ( 1) R. nem mesmo à caridade. penetra-vos e cerca-vos uma atmosfera de recolhimento. O tempo dum pensador. Subjuga-vos uma impressão religiosa: não ousaríeis distrair-vos. Poems. Exceptuando os casos que se não discutem. uma alma de escol que compreenda a vossa obra que se una com ela. e apoie o vosso esforço com silenciosa ternura e ardor por vós comunicado: isso não é distracção.W. Lar onde no escritório do marido se vê a mesa ou o açafate de costura da esposa. Na unidade da vida inaugurada pelo matrimónio cristão. tanto mais defendidas estarão contra o ruído exterior. como de ambiente favorável ao trabalho. empregado conscienciosamente. onde o amor adeja em silêncio. Há presenças que duplicam a quietação. Não se pode ter caridade para com tudo ao mesmo tempo. é. em vez de a dissiparem. Comprai a solidão. nada deve suplantar a vocação. Não se prestem ouvidos a ninguém. e que a independência relativa tenha como contrapeso a dependência absoluta. Pertenceis à verdade: vá para ela o vosso culto. pagai as vossas liberdades. quando nos isolamos em benefício desta universal benfeitora dos homens. Quanto mais juntas estiverem as almas irmãs. nem a parentes inconscientes nem a transeuntes. um amigo absorvido nalgum pensamento ou ocupação harmoniosa. chegam os deuses>>(1).33 preciosos encontros. caridade universal. Tende junto de vós um trabalhador activo. Falei da solidão completa. Em certos dias. Mãos à obra. tanto mais fácil e agradável será a contemplação. com delicadeza e boas maneiras. a solidão precisa de ser diligentemente resguardada. evitai que esse retiro lhes seja pesado. Quanto mais rodeados estiverdes de adoradores que rendam à verdade culto em espírito e em verdade. há lugar para a unidade de pensamento e de recolhimento. Em todo o caso.

na primeira ocasião. falamos para pessoas que já ultrapassaram a idade escolar e se propõem organizar ou completar estudos profundos. um louco. profundada. é possível dar breves indicações que sirvam de ponto de partida a úteis reflexões. a falta de liberdades de movimentos e de segurança de visão paraliza os gestos. nem fecundo. a mão para apanhar estrelas.O campo do trabalho I – A ciência comparada. Um especialista. Contudo. em psicologia sem as ciências naturais. isola e concentra a sua luz num ponto. Será possível estudar uma peça de relógio. Gratry sobre a Ciência Comparada. Seguir até certo ponto as explorações de certos investigadores é. O saber não é torre nem poço. Isolada. encarada em si só. Privar. se não for homem. em moral sem a psicologia. O espírito ressente-se disso continuamente. começais por desconfiar da especialidade. Podemos asseverar sem paradoxo que cada ciência. e qualquer tratado inteligente duma delas implica mais ou menos as outras. no entanto merecem ser seriamente ponderadas pelos intelectuais de nossos dias. os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. em coisa alguma sem a história. ao género humano. reza o provérbio: abstrahere non est mentiri. um anormal. verdadeiramente forte. Embora cultivemos uma especialidade. mirra-se. a sua esplêndida ignorância torna-o. S. Entendemos por ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia. É questão de vocação pessoal. por vocação. as suas luzes cruzam-se. confinar-nos nela exclusivamente. Equivaleria a pôr antolhos. contanto que a abstracção. A cultura parcial é sempre indigente e precária. de comunicações um objecto seria falseá-lo. Todas as ciências são interpendentes. . estiola-se e. para vós. e menos ainda sobre a dosagem dos elementos admitidos num plano de trabalho. sem tomar em conta o organismo? Do mesmo modo. Não tomamos a questão na sua origem primeira. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. obrigação que no fim se resolve em capacidade decuplada para as vossas próprias pesquisas. não separe do objecto de estudo o que dele depende mais ou menos directamente. extravia-se. porque os seus vínculos fazem parte dele. a poesia e as ciências a moral. é manga de alpaca. Tudo está em tudo: divisões. Por conseguinte. A maneira Como as desenvolve será talvez um pouco antiquada. que distingue. depois a política e a própria religião no que esta possui de humano. é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. desenvolvendo nobre esforço que não deixa indiferente nenhum pensador autêntico. sem pensar na peça vizinha? Ou estudar um órgão.34 CAPÍTULO V . Acima de tudo será homem. O saber tentou sondar a noite em todos os sentidos. emagrece. pisará o solo com pé firme. É difícil dar um conselho determinado sobre o que convém aprender. com a sua base de sustentação. não é prudente. daria as demais ciências. Abstrair não é mentir. claro. nenhuma disciplina. assim. é um inadaptado. e não saltitando sobre as pontas dos pés. só as opera a abstracção. se quiserdes alcançar um espirito aberto. nela mergulham os sábios. em correlação com o fim a alcançar. Vêm aqui a propósito as interessantes observações do P. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir. é habitação humana. as ciências a poesia. Nenhuma ciência se basta a si mesma. em astronomia sem a mecânica e sem a geologia. transviado entre os humanos. Tomás não fala disso nos Dezasseis Preceitos. pois pertence. é impossível avançar em física ou em química sem a matemática.

O cultivo exclusivo de qualquer ciência apresenta igualmente perigos que ninguém de bom senso desconhece. comunica ao estudo inspiração e facilidade surpreendentes. na Academia das Ciências. Bacon. ficareis sobrecarregados ou impedidos de vos dedicar com afinco a uma especialidade. como se visitam alternadamente os fiordes da Noruega. Leibniz ou Goethe. que dessa comparação irradia. sobressaindo numa parte. Um espírito deslumbrado perante o espectáculo da verdade. pelo facto de prosseguir até certo ponto o estudo comparado. A complexidade da física e da química causa fastio e apouca o espírito. tem maior capacidade do que à sombra. tinha zelo. sereis homens diferentes daqueles que se confinam em estreita disciplina. pelas suas concepções geniais: consultá-lo era colocar-se imediatamente no centro do saber. a literatura torna-vos balofos. Num relance. os seus caracteres fundamentais. Henrique Poincaré. Demais a mais. O estudo isolado das matemáticas falseia o juízo. Precisais de passar de um espírito a outro. respondeu: <<Um alqueire cheio de nozes pode levar ainda muitos almudes de azeite>>. consegue deslindar uma língua nova. Não alimentais semelhantes pretensões? Embora! O que as grandes sumidades praticaram permanece sempre como indicação fecunda para os demais. despertos o instinto poderoso e o entusiasmo em todo o homem bem dotado por esta maneira de viajar através das ciências e de explorar estes magníficos domínios. a fim de os corrigir um pelo outro. Não conseguireis confinar num só ramo do saber homens da envergadura de Aristóteles. Um rabino. Uma taça. no espaço de quinze dias. toma-se capaz de adquirir sem fadiga. outros para cada . ao sol. o espírito abarca o novo idioma. ganhando em amplidão. que. será mais apto para receber sem se prejudicar. nas outras foram pelo menos curiosos. à maneira dos raios dum circulo. e não quanto à largueza de vistas nem ao espírito de trabalho. a teologia expõe-vos ao falso sublime e ao orgulho doutoral. E que melhor acesso ao centro do que tentar diferentes vias. o zelo que. ponto onde todas as ciências se identificam. a sua constituição. Um só entre mil Para o conjunto. Quem se instala no centro das ideias fica depois com o caminho desembaraçado para seguir em qualquer direcção. e o espírito. decifrar muitas delas é favorecer cada uma. precisais de variar as culturas para não cansar o solo. este ardor épico. as pampas da América e os palácios chineses.35 Quando chegardes à especialidade. facilitará a visão das coisas. e por ele desdobrado como arco-íris. frequentemente sábios. Leonardo de Vinci. com alegria. Os grandes homens foram sempre mais ou menos universais. a filosofia incha. no domínio das capacidades espirituais. a quem censuravam de sobrecarregar a lei. habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência. amplificado o olhar e compreendido o sentimento das ligações pelas profundidades. depois de ter experimentado muita cultura. que se vá reduzindo pouco a pouco pelo que diz respeito ao tempo consagrado a cada estudo secundário. o Corno de Ouro. Traçai um plano amplo. dão o sentimento dum encontro e duma encruzilhada comum? Conheço um linguista que. porque a luz. Porquê? – porque sabe muitas outras. e menos ainda a vida real comporta. capaz de empolgar uma inteligência ao contacto das grandezas do espírito. Não julgueis que. corresponde ao calor que dilata os corpos. Esse sim. espantava os colegas das outras secções. às vezes até especialistas. os hipogeus do Egipto. a astronomia corre o perigo de habituar à divagação. A fisiologia conduz facilmente ao materialismo. a geologia converte-vos em galgos que tudo farejam. porque afinal todas são uma só coisa. conhecimentos que enervariam o triste cultor duma única ciência. Escolhei acertadamente os conselheiros. As ciências são as diversas línguas em que o homem balbucia penosamente a natureza inefável.

Alcan. deveria recorrer ao filósofo. Possuímos farrapos. em seguida como teólogo. pelo fundo. regulai a sucessão das culturas. e o sábio vê-se então obrigado a filosofar por si próprio. e como o espírito só se instrui verdadeiramente pela investigação das casualidades. (1) Escreveu Carlos Dunan: <<Para a filosofia moderna. dispostos hierarquicamente até ao princípio primeiro. que têm a dupla desgraça de ignorar e de ignorar que ignoram. (2) Cf. e fá-lo sem experiência e muito frequentemente de través. não temos Bíblia. determinismo. visto repudiarem uma coroa celeste. se preciso for. harmonia que só se obtém por um apelo aos primeiros princípios(1). é trabalhar. não ensina. que pertence ao seu tempo. Em cada coisa. Assim como nenhuma ciência particular se basta a si própria. não conclui coisa alguma. os problemas transcendentes são nulos e não existem. 2. utilizando a luz que vem do alto. As ciências. ide direitos ao essencial. não temos livro completo. desclassificam-se mais ainda. no momento em que os princípios. como num povo. tempo. e portanto não é de espantar que o ilumine. é muitas vezes pelo pormenor mas pelo pormenor característico. é sectária e muitas vezes destruidora. e S. em nos restituir a ordem de que carecemos. mas o outro mundo governa este. I. 1911. Repudiamos hoje os primeiros princípios. Hoje que a filosofia esmoreceu. desempenham o papel de princípios. do ponto de vista doutrinal não é a dose de saber. só reina a ordem. art. contínuo e descontínuo. hoje que se ignora a teologia. P. nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divina – a teologia. etc. como numa casa ordenada. as ciências rebaixam-se e dispersam-se. sobre este ponto. cap. A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas. de Boécio. a filosofia é estéril. retrai-se. consideram a teologia uma coisa do outro mundo. sem a filosofia. o sábio. a teologia pertence ao outro mundo. . e desorientam-se mais irremediavelmente. naquilo que é tudo para tudo e para todos. mas este. Comentário ao De Trinitate. nem as influências que lhe dão fecundidade. Mas a (1) recíproca é verdadeira: se estes problemas existem. Em toda a espécie de objectos e disciplinas. é a harmonia do saber. verdades capitais. existindo um Ser primeiro e uma Causa primeira. É curioso que. para trás. fecha-se nos seus antigos quadros. faz crítica e faz história sem bússola. porque a terra sem o céu não encontra a sua órbita. quer dizer que a filosofia moderna não existe>>. Paris. Mas. possuímos excelentes capítulos. continua-o em todos os sentidos. é lá que se completa e ilumina ultimamente o saber. Les Deux idéalismes. Sim. liv. E os seus mestres. mas. por meio da razão. Questão II. na hora actual. Suma Teologica. a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. probabilidade. as mais das vezes. O P.36 parte. magníficos ouropéis. espaço. para vos orientardes neste domínio. isto é. I. Logicamente. pela parte que lhe toca. 182. nunca procedendo ao acaso. por isso. sem a teologia. Reparti o tempo. indo mais além. regra e fim a título primeiro. nesses casos. assim também o conjunto das ciências. O melhor que pode fazer um intelectual católico. de chefes. Tomás. o homem de verdade deve centrar a sua investigação naquilo que é ponto de partida. não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham as ciências. não possuímos vestidos. quanto ao objecto. As ciências e a filosofia. sobretudo. nunca tranquiliza nem ilumina. Contra Gentes. toda a Questão I. O de que o nosso tempo precisa. precisais de penetrar no que ainda falta dizer. como num exército. Primeiramente como filósofo. Gratry exprimiu. o saber desarticulou-se. desclassificam-se e desorientam-se. assinalou o lugar e a dignidade destas duas rainhas do duplo reino(2). a própria ciência convida o sábio a elucidar problemas que até aqui dependiam da filosofia: casualidade. para diante e para cima. se não sustenta sem a rainha das ciências – a filosofia(1) –. Portanto.

do cântico dos cânticos do saber. Quem se deixasse acobardar perante o esforço de aprender uma língua que um espírito ordinário consegue dominar em dois meses. Saint Thomás d'Aquin. são sempre insuficientes. Tomás. invocando os princípios desta ordem. se aproxime muito naturalmente e sem respeito humano da ciência das ciências. não pareis aí. Tende à mão o Catecismo do Concílio de Trento. cristãos ou não. que se tome como objecto de especialidade. Falamos para entusiastas: se querem penetrar na <<adega>>. inseriu na árvore da ciência um enxerto divino. pelo menos cada homem que pensa e que deseja verdadeiramente saber. ou seja. brilharão as luzes dominadoras. porque a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. Mas. publicado com o fim de facilitar aos nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã c das suas bases. em latim! As traduções da Suma. pode tentar constituir a sua Suma pessoal. 2 vols. é claro. Ser-vos-ia útil alguma obra de introdução. todos os conhecimentos são vivificados e todas as ciências alargadas. tal qual é e muito mais ainda quando se escrever a Suma dos tempos modernos. intelectual ou desejoso de o ser. e ninguém entre nós seria capaz de compor uma. não mereceria que nos preocupássemos com a sua formação(1). tomai a mão que se vos estende para vos pôr em movimento(2). no dizer do P. Estudai a Suma. Em razão deste novo impulso comunicado ao saber. graças ao qual esta árvore pode produzir frutos que não são os seus>>. Paris. a não ser. com a impressão de que residis numa sublime habitação. saiba fazer-lhes frente. cônscio desta aberração e das suas consequências. Os sábios cristãos. o livro elementar de J. o lirismo potente e calmo. aspire à intelectualidade completa. e encontre nela a maturação e a elevação. ( ( ( A título de auxiliar. <<Les Grands Philosophes>>]. dia a dia. poupar-vos-ia hesitações e quiproquós. em todas as suas dimensões. é claro. Téqui. as construções sempre as mesmas e tão alheias ao que torna difícil o latim.D. depois só tereis de conservar o aprendido. aprendereis a língua da terra. Dedicai-lhe quatro horas por semana. [Coll. pelo contrário dá-se-lhe um curso glorioso. ultrapassará em amplidão e inspiração os monumentos da antiguidade e do neo-paganismo. esclareceria um texto por outro texto. durante cinco ou seis anos. um repetidor de espírito aberto e bem informado prestar-vos-ia valioso auxílio. Sobretudo. não vos fieis em falsos mestres. deste apelo dos dados humanos a uma colaboração celeste. Tomareis. Paris. as primeiras dificuldades vencidas terão como recompense novas vitórias. que só um preguiçoso recuará diante da conquista deste tesouro. Alcan. S. filosofando e coroando a sua filosofia por uma teologia sumária. logo de entrada. Por isso a ciência cristã. No entanto. mas profunda. alastrou em superfície e perdeu em altura. pôr ordem nos conhecimentos. dêemse ao trabalho de procurar a chave dela. esplêndido resumo da doutrina teológica(1). Iniciar-vos-ia paulatinamente no vocabulário técnico do tomismo. Depois. Quem busca a verdade não tem o direito de ignorar tão rico tesouro. 1) . Tudo é caótico. Por outro lado. 1) Não se julgue que o Autor possui um segredo para ensinar o latim em dois meses! Não se trata do latim clássico. persuadido como estou do mal que fazem amigos inábeis. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o carácter de cooperação imensa. muitas vezes traiçoeiras. circulais por lá como em vossa casa. Maritain. isto é. porém. da teologia inspiradora.37 As Bíblias do saber foram outrora as Sumas: faltam-nos hoje as Sumas. o desenvolvimento racional da ciência divina. assinalaria as pistas e defenderia os passos dos precipícios. A princípio. desde o princípio até ao fim do século XVII. <<A teologia. Todavia. ao fim de algum tempo. e portanto também em profundidade. Sertillanges. 2) Cf. Éléments de Philosophie. É de esperar que a próxima geração. Que o católico. carrilada por esta que tão notoriamente ultrapassa as precedentes. nem o seu estudo exige muito tempo. o texto parecer-vos-á seco e abstruso. Não se lhe tira a seiva. Gratry. mas do latim empregado por S. que vos fizesse pressentir o conteúdo de S. expressão completa da vida do espírito. Para estudo mais profundo: A. Tomás e servisse de prelibação. As enciclopédias estarão para ela como Babel para as catedrais. da desilusão e escândalo provocado por comentários estúpidos. O vocabulário tomista é tão reduzido. se ainda é cedo para redigir uma Suma colectiva. 1910. e. seja-me permitido indicar o Catecismo dos Incrédulos. Estudai. foram todos teólogos. e os sábios. diria até indispensável. Tomás. o saber baixou. mas antes disso aprendereis os dogmas basilares da fé. até ao século XIX. 1920. é o suficiente. É a obra colectiva dos humanos unidos em Deus. Possuí plenamente este manual e continuai. Não custa penetrar no campo da teologia. foram todos filósofos. pouco a pouco. em companhia de S. Tomás de Aquino.

no âmago da eternidade. Quando se trata de valores eternos. esse tesouro. imperfeito. Excelente ginástica que dá maleabilidade. ele é manancial límpido. Para esse fim. a fecundidade da sua genealogia ascendente. sem o suspeitarem. o tomismo é dum valor a toda a prova. inimigo do sofisma e do pouco mais ou menos. a abertura angular. Estou a ouvir protestos. O tomismo é síntese. como o íman. sempre ligadas aos princípios primeiros. ao viajante que facilmente descamba no cepticismo. Esta confusão é uma das grandes calamidades do nosso tempo. Mas é erro abeirar-se das obrasprimas do pensamento. Não falta quem. em recomendar aos jovens intelectuais que me Iêem: estudai S. assemelha-se. tão afastada dos extremos onde se . a sabedoria esta em se dirigir a quem sabe mergulhar. Em compensação. e devo continuar a ouvi-los. pela sua coadunação. É incontestável a utilidade de possuir desde muito cedo. tanto mais me persuado que no tomismo reside o porvir das inteligências católicas. amplidão e vigor ao espírito. deslumbrado pela glória de S. graças ao equilíbrio intelectual ministrado por doutrina segura. que nenhuma semente possui maior poder para absorver e canalizar os sucos da terra. Sou levado muito naturalmente a expor o que sinto acerca do tomismo como quadro da ciência comparada. uma forte síntese. É que. as passagens diferentes a que as edições costumam remeter. ficam desiludidos. comece a estudá-lo cheio de entusiasmo. avaliai as suas ideias mestras. em consequência de frequentar civilizações diversas e doutrinas contrárias. no universo intelectual. Tomás tranquiliza o espírito. comparai. constituindo. de atrair e subordinar a si todos os conhecimentos. o peso duma doutrina e a sua novidade são duas coisas distintas. Digam o que disserem os partidários da última moda. como das da arte ou da natureza. consultai o Index tertius. é beneficio incomparável. ou. capaz. Tomás. Vamos ver! E depois de lerem duas ou três páginas. Se um papa afirmou da obra de S. aponto aqui um escolho. sob este respeito. mas a ciência completa pode apoiar-se nele como num poder de coordenação e de sobrelevação por assim dizer milagroso. Ora. e ao mesmo tempo o enriquece de noções claras. as suas sólidas perfeições existem realmente. profundas. mas ainda assim tesouro. tomada nas suas diversas partes: Quot articuli. jóias da moda. Já os ouvi em 1920. em qualquer data temporal. Nem por isso é ciência completa. magoareis as mãos. II – O tomismo. Dir-se-ia que foi criado há sete séculos para apagar a sede dos nossos contemporâneos. em vez de pesadas barras de ouro. Tomás. dobrada razão nos assiste para classificá-la de prodígio no seu conjunto. tot miracula. a propósito de cada artigo. O tomismo é posição do espírito tão bem escolhida. Persisto. ele é o homem deste tempo. estudai de sorte que os documentos se completem e comentem mutuamente. consultai cuidadosamente. quadro ideal do saber. Elas não conseguem preencher este quadro. mas acabareis de a partir. e então será o próprio S. esperavam encontrar lá. Tomás quem instrui o seu discípulo. bem encadeadas. Tomás. um corpo de ideias directrizes. Esforçai-vos por quebrar a noz. pois. como força atractiva a respeito do todo. para melhor dizer. Em comparação da água barrenta que nos servem. Ao sumo. estabelece-o na claridade plena e oferece-lhe quadro maleável e forte para as ulteriores aquisições. Estudai este sistema. desde o princípio. Superadas as primeiras dificuldades da maneira de expor arcaica. devo dizer a quem me queira dispensar alguma confiança: quanto mais vou para diante. comparando-as com a ideia vaga e falsamente grandiosa que delas se formava. se possível for. o tomismo as valorizará e lhes facultará o adaptarem-se a este tempo. e depois redigi o artigo estudado. a sua ordem. Libertar-se dela. a capacidade vital de cada noção perante os factos e noções acessórios que a podem alimentar: vereis com espanto que nenhum conjunto parcial sofre comparação com este. Eis o que explica a desilusão. O génio não tem data. Pelo quê. e é loucura privar-se delas por falta de atenção ou adaptação. e o torna preciso. apreciai os seus caracteres. Quem o não possui. S.38 recomendo-vos que prefirais a solidão a um concurso pouco inteligente.

como outrora. Outros sistemas foram contraditos pelos factos: este sai-lhes ao encontro. nada é e a penetração. são como os de fogos-fátuos. tende no coração bastante fé na guia secular. não suceda que nos acoimem de promover ciência enciclopédica. que é a Igreja. Nenhuma energia se desdobra muito tempo se não for estimulada pela dificuldade crescente e sustida pelo interesse. Apressemo-nos a completar o que fica dito sobre a ciência comparada. debaixo de certas condições. uma vez ciente da sua vocação especial fixar-se nela. tão central em relação aos cimos. aquilo que ao princípio é indispensável torna-se em seguida hostil. A ciência consiste mais em profundidade do que em superfície. cessam o esforço. avançando primeiramente em diversas vias. classifica-os e consagra-os na medida possível. alcançareis a recompense da fidelidade. e só a especialização o permite. introduzindo-nos no centro dos factos. mas julga que a sua orgânica corresponde. porque o tomismo tomou posição entre ambas como fortaleza na encruzilhada dos caminhos. os progressos. Em seguida. A ciência é conhecimento pelas causas. interpreta-os. Não é licito fazer imposições em tal domínio. Vencer uma dificuldade é bom. e não lhe regateeis a livre adesão filial. em conjunto. fornece a substância do que se buscava numa investigação sem termo. portanto com facilidade relativa. espalham demasiado: o contentarse com pouco. sabe que o tomismo é falível e que. em todas as direcções do pensamento e da experiência. A hostilidade manifesta-se aqui de muitas maneiras e leva à decadência do espírito por vias diversas. é preciso cavar. Nenhuma metafísica oferece às ciências da natureza princípios de ordenação e de interpretação mais benéficos. mas a vida intelectual não deve ser acrobacia permanente. sem quebras de caminho. Não o confunde com a fé. envolve-os. no campo das teorias transitórias. É muito importante trabalhar com alegria. nenhuma cosmologia se mostra mais maleável e acolhedora às descobertas que vieram desfazer tantos devaneios antigos. e devemos perguntar se é prudente cultivar igualmente aquilo para que somos feitos e aquilo que mais ou menos esta fora do nosso alcance. e. Mas o católico deve confiar naquela que recebeu a missão e a graça para guiar o voo do seu espírito. Quanto maior for o cabedal da ciência tanto melhor. Advogámos uma certa extensão. É preciso. e reconhece que para isso concorrem a ciência e a fé. que o tomismo é arca salvadora capaz de manter incólumes os espíritos no dilúvio das doutrinas. não se podendo verificar estas condições – e hoje menos do que nunca elas se verificam – o espírito enciclopédico é inimigo da ciência. depois de ter pensado nas seduções que ofereciam e de ter prestado justiça ao que neles havia de verdade. que para ele convergimos de qualquer ponto do saber e dele irradiamos. Se conseguirdes isso. portanto com o sentido das aptidões. a quem forma o propósito de levar de frente as ciências particulares. as suas dificuldades interiores ou exteriores. obtida esta e assegurado o profundamento das suas possibilidades. Satisfeit0s com as suas explorações através de tudo. mas era em favor da profundidade e a título de formação. primeiro rápidos. à constituição do real e da inteligência. nenhuma psicologia racional condiz mais com os resultados da psicologia experimental e das ciências anexas. é questão de confiança. Muito frequentemente. cada um tem as suas capacidades. nem com a ciência em toda a sua amplidão. a filosofia e a teologia com uma só e mesma investigação: consultai-vos. esperando que cada qual o faça por sua conta. É mister sacrificar sempre a extensão à penetração. ele participou dos erros dos tempos. descobrir-se a si próprio. também . III – A especialidade. Em primeiro lugar. Há sistemas que se opõem aos sistemas vizinhos: este concilia-os numa luz mais elevada. e as causas mergulham como raízes. é preciso.39 escavam os abismos. Não pretendo agora mostrar o sólido fundamento destas afirmações. no entanto sempre direi a quem se decide pela ciência comparada. nenhuma moral serve melhor o progresso da consciência humana e das instituições. de facto. os seus recursos. isto é. há um perigo que espreita os espíritos que se. A igreja crê hoje. subindo a um nível desconhecido do solipsismo orgulhoso e da modernidade sem base eterna. pelo simples motivo de que a extensão por si.

é o que as sabe só a meias. é forçoso submeter-se e contentar-se. o benefício das culturas primeiras. tudo atrai e seduz o espírito generoso. ter-nos-emos esquecido de ser alguém. sabei limitar-vos. Não deserteis de vós. naquilo que o tempo e a prudência vos subtraem. se preciso for. este resto em toda a sua extensão tem o benefício da viagem para as profundidades. medi a tarefa: após alguns tenteios inevitáveis. julgado nas suas relações e unidade. Somos afinal bem pouca coisa. se só se pensa em cavar no centro. que disso terá cuidado. Dizíamos: é preciso entrar em diversas vias para ter o sentimento dos encontros. dela deriva uma grande dignidade. Tudo é interessante. há as necessidades do espírito e das coisas. que tudo vos é possível. Medi as forças. É preciso descartar a especialidade na medida em que se trata de formar um homem culto e. mas com o intuito de chegar a fazer alguma coisa. Examinado o conjunto. guardai por meio de leituras e. Além disso. e nós vivemos com eles na unidade do amor. tenho que abandonar mil outros. sim. no que diz respeito ao herói destas páginas nas. humildade. O que não for da vossa vocação. mas há a morte. a dignidade do homem que permanece na sua lei e desempenha a sua missão. supondo que nos lançamos com a mesma energia persistente a todos os ramos do saber. com um olhar de simpatia que também é homenagem à verdade. Que fazer? Por querer ser legião. mas esta faz parte da virtude. proporcionada às próprias forças e aplicar-se a ela de alma e coração. Todos os abismos se assemelham e todos os fundamentos comunicam entre si. visando a ser gigantes. Sabei o que decidistes saber: não percais de vista o resto. diminuímo-nos como homens. se se não quer patinhar no mesmo sítio. o aperto aparente aproveita em todo o espaço. e se propõe um rendimento útil. porque isso marca a nossa limitação. Por outras palavras. As nossas proposições de há pouco encontram aqui a recíproca. mas é preciso apelar de novo para a especialidade. lançar-se a uma tarefa precisa. portanto. mas fazemos parte dum todo e disso nos honramos. por vos terdes querido substituir a todos. IV – Os sacrifícios necessários. é urgente. um homem superior. Tende. A nossa acção estende-se ainda ao que não fazemos: fá-lo Deus. o contacto das amplidões. Não vos envergonheis de ignorar o que não poderíeis saber senão dispersando-vos. o fundo do orifício mostra todo o céu. duma investigação laboriosa. Cada qual tem uma obra a realizar na vida. contanto que não se ignore inteiramente o resto. Concluí daqui a obrigação de o trabalhador intelectual se resolver a praticar os sacrifícios necessários. deixai-o a Deus. limitada.40 crescente. Desde que se conhece a fundo alguma coisa. O meio-sábio não é só o que sabe a metade das coisas. Custa muito dizer: tomando por um caminho. é preciso compreender tudo. . quando se trata de ser um homem que exerce uma função. mas concentrai-vos para aproveitar o principal do tempo e das forças. de pequenos trabalhos. fazem-no nossos irmãos. é preciso abeirar-se da terra largamente para terminar nas profundidades. Feito isto. depressa nos encontraremos perante uma tarefa impossível. Não julgueis. deve aplicar-se a ela com coragem e deixar a outrem o que a Providência lhe reserva. à luz dos princípios fundamentais.

Quantos que se servem dum leve biombo para ocultarem aos outros e a si próprios uma vasta ignorância! Mas uma vocação real não se satisfaz com tão pouco. esmagados de exigências. cresce sempre. a tenacidade pode levar-nos além dos limites previstos pelos nossos sonhos. Entre conceber e projectar. Não é ele uma graça? O inimigo capital do saber é a indolência. mais nos devemos precatar contra esta tentação. ao Deus da verdade: <<Sinto-me devorado pelo zelo da tua casa>>. Uma vez determinado o campo do trabalho. homens. se avançar com toda a força da hélice. nunca podemos depor a enxada. Ele próprio foi testemunha disso. Ignoramos até onde vai a plasticidade e o entusiasmo da inteligência. revela-se talvez fora. o Espírito sopra nele. Quanto mais avançam os anos. Não subscrevo este parecer. não é senão o silvado dos nossos defeitos e negligências sensuais. nem sem conclusão apropriada nenhum dos nossos inquéritos. O intelectual sincero diz. o homem de estudo há-de estar sempre à escuta da verdade. como a graça. <<Tu. Começam a trabalhar com afinco. envia os seus profetas. Tomás ao seu discípulo. e que é. considerando qualquer impulso vigoroso e continuado um autêntico martírio. em virtude da nossa constituição. encarregados da sua educação permanente não devemos. para alimentar solidamente o organismo espiritual em via de formação. a figuração daquela verdade a que dedicou o seu culto.41 CAPÍTULO VI . livros. O bom educador procura satisfazer essa fecunda inquietação. projectar e executar. já não produzem. para a subida e descida dos anjos que nos visitam. Pelo contrário. cumpre indicar o espírito que deve animar o trabalhador. anteriormente a qualquer modalidade de aplicação. alguma arrancada. na medida do possível. em face da verdade. mas volta depressa a um automatismo negligente. quando já decrépito: <<Só pinta falsos quadros de Henner>>. – Tomamos por barreira o que. sem energia. mas precisamos de estar preparados para ele ou então há que renunciar a vida de estudo. esses velhos sábios que sufocam debaixo das honras. quantas demoras e desfalecimentos! O hábito do esforço aproxima estas tiradas e conduz da concepção à conclusão. são no entanto puras sombras do que foram. é eterna criança. um espírito de zelo. homens de reputação consagrada. oh Deus. buscar. A quem pretende alardear de erudito ou auferir qualquer lucro basta um pequeno sortido de pensamentos. e que perdem em representação o tempo outrora dedicado a trabalhos de investigação? Melhor apetrechados. cada dia. Não pensam que estamos sempre vazios daquilo que não temos e que num campo de descoberta ilimitado. não deixe escapar nada porque este espírito da verdade. <<Tira sempre as dúvidas>>. Um martírio! Talvez. Quem não conhece os <<jarrões>> ou os <<bonzos>>. Um espírito activo anda constantemente à cata de alguma verdade que se lhe afigure.O espírito do trabalho I – O ardor da investigação. do mesmo modo que o avarento só pensa em amontoar. em cujos lábios pairam de contínuo os porquês. uma vez por outra. Dizia-se do pintor Henner. nisto se resume a vida do homem consagrado à verdade. nos vários momentos. acontecimentos: que a alma atenda. recomenda S. mas para logo perdem o sentimento do seu vácuo. esta preguiça original que evita o esforço e tenta caprichosamente. A alma não envelhece. nada se consegue. porque. como de apetite. mas o dito . e serve-se dessa curiosidade. O homem forte ergue diante de si a escada de Jacó. muitas vezes passa e não volta. Saber. as mais das vezes. escreve Leonardo de Vinci nas suas notas. só a preguiça põe limites à sua sabedoria e às suas invenções>>. Portanto. deixar sem solução nenhum dos problemas que se nos põem no decurso do trabalho. Certos espíritos contentam-se depressa com uma tintura de ciência. saber de novo e recomeçar para buscar ainda mais. executar e perfazer. coisas. O espírito é como o aeroplano que só se mantém nas alturas. Disse Bossuet: <<O espírito do homem pode chegar ao infinito. A inteligência assemelha-se à criança. Enquanto vive curvado sobre a mesa de trabalho. senão que reputa todo o adquirido como simples ponto de partida. vendes os bens aos homens pelo preço do esforço>>. por declive rápido.

e também a sua impotência: tenha. voa. É preciso buscar sempre. em potência. a despeito das suas preocupações e multiplicidade sucessiva. Este espírito de zelo deve conciliar-se com a concentração recomendada por todos os homens de pensamento profundo. esfalfa-se. os laços. A criação. que a prendem às demais. Difundir a luz é enfraquecêla em proporções geometricamente crescentes. um entusiasmo. a água corre. fazê-la no tempo devido. não pode circunscrever por si as suas formas ideais. uma inspiração heróica. desanima. todas as coisas. Nesse caso. Quando se estuda um assunto. impando por uma invenção real ou aparente a exploram à saciedade e se comprazem em estirar o fio cada vez mais ténue dos cuidados que seriam melhor empregados em fundir uma barra ou cunhar uma medalha. O autêntico pensador aplica-se ao trabalho com disposições diferentes. é o de todos os grandes homens activos. para que deles brote a claridade. sempre esforçar-se. Acresce que esta lei de toda a actividade se reforça no domínio do pensamento puro. a árvore silvestre floresce. Seja o vosso espírito lupa. permitem-lhe . a tenacidade em trilhar o mesmo caminho e a persistência em o retomar. consagrar-lhe a plenitude dos recursos de que se dispõe e. ambicionando entrar no mar que por ela espera lá em baixo. passar tranquilamente a outra. porém. sendo preciso. deveria sempre. É preciso deixar cada coisa a si própria. volte-se a vossa alma exclusivamente para o que se fixou em vós no estado de ideia dominante. Um Guynemer considera uma vitória como ensaio para outra vitória. Os próprios génios só se engrandeceram pela concentração das energias sobre o ponto que tinham em vista. e só se passe a outro depois de esgotado o primeiro. que se desdobra diante de nós. reunir todas as condições dela. É incrível o que assim se acumula sem agitações que só desgastam. Era esse o segredo de Napoleão. na medida do possível o desfalecimento da nossa força. é o meio de produzir ao máximo e ao mesmo tempo de guardar o frescor do pensamento e a coragem intacta. Não quer dizer que se não possam ter vários trabalhos entre mãos: é até uma necessidade. para melhor nos apreciarmos e. que é.42 é cruel e temível para todos aqueles a quem possa ferir. Empreendei cada tarefa como se fosse a única. torneando os obstáculos. requere o infinito do desejo para corrigir. ao menos. como nem as formas naturais que naquelas se reflectem. alcança o adversário. seguidas de repousos oportunos. volta-se contra novo adversário e só na morte vê o termo da carreira. Seriai os trabalhos a fim de vos poderdes dar inteiramente a eles. Não dissimulemos que também se verifica esta fixação prematura nalguns jovens que. e aonde talvez chegará. um ardor. Obedecendo a leis da natureza. manter-se sossegada e nobre como a assembleia das nuvens na fímbria do Horizonte. aplique-se a cada trabalho em particular o que dizemos da concentração. porque. Cada ideia isolada comporta riqueza infinita. A morte o limitará. empolga-o o instinto de conquistador. convém interromper e permutar as ocupações. sempre com ânimo redobrado. a coragem de fugir das fronteiras da preguiça. O viajante. Pelo contrário. recomeça. talvez também por motivos acessórios. Pelo contrário. para nos corrigirmos. uma vez levada a cabo. O infinito. os astros brilham. para repousarmos dum esforço por meio doutro esforço. Nada mais funesto do que a dispersão. depois de completa a primeira fase da acção. que tacteia e envereda sucessivamente por caminhos diversos. em todos os andares. para tomar balanço. concentrando-a pela interposição duma lupa. o que era aquecido pela livre irradiação arde agora no foco onde o ardor se ateia. em razão da unidade da verdade e da importância de não perder de vista os seus elementos. galgando as encostas. entre duas reflexões sobre o obstáculo. Os vaivéns nunca triunfaram. isto é. não avança. II – A concentração. graças a uma atenção convergente. de ideia absorvente. é aspiração contínua: o espírito. enchendo os vácuos. de sorte que haja entre eles solução de continuidade. ponham-se os outros de parte. O herói não se fixa nem se limita. A alma do verdadeiro trabalhador.

depois a semente da nova planta. Levemos a esta solene entrevista uma alma respeitadora. visto que só as faz nossas. a nossa força intelectual é proporcional à nossa receptividade. tiram-se a limpo as ligações essenciais. mas nas relações de alguns elementos que governam todo o caso. Enquanto se descobrem estas dependências iluminadoras. Conviria relembrar o que dissemos da necessidade das virtudes para o reinado da inteligência. Bem dirigir as investigações e bem centrar os trabalhos. que se não dá. dão matéria suficiente para uma produção genial. Abramos antes os olhos com humildade para que o nosso Espírito inspirador veja. dum sentimento da vida em busca de formas e de aplicações. sem humildade. enquanto a verdade irradia. o inimigo de Deus é a vontade própria. foi a arte dos grandes homens. Não há muito. a um espírito culto e humildade as luzes acodem de todas as partes e apegam-se a ele como a aurora se apega aos cumes das montanhas. o orgulho é o pai das aberrações e das criações factícias. . A verdade só se entrega a quem primeiro se despoja e se decide a contentar-se exclusivamente com ela. com suas loucas pretensões. ou todo o ser. vive em estado de cepticismo e o céptico encontra-se pouco armado para a verdade. não disperseis o olhar. Pelo contrário. consciência da sua obra. e quem diz simpatia diz dom. exercida de fora. Pouco a pouco. Cedendo à verdade e exprimindo-a o melhor possível. dizendo: é Deus que toma. Afinal. e é nisto que sobretudo consiste o segredo das obras grandiosas. mas. Esta é a estrita condição do seu convívio. duma empresa. converte-se em manancial de mentiras. Nisto como em todo o mais. Cavar sempre o mesmo orifício: eis o meio de descer em profundidade e de roubar à terra os seus segredos. revelando a sua unidade e estabelecendo sociedade com a nossa alma. porque as virtudes têm por base a exclusão da personalidade orgulhosa. e nos mostram as leis que o regem. Deus é a causa primeira e o fim último da intelecção: na passagem. que repugna à ordem. Obediência pronta requer de nós a verdade. Não quero dizer que não haja motivo para reagir. pela coerência e concatenação mais do que pelo teor. Um dos efeitos desta concentração será a escolha no meio da massa confusa que ordinariamente se nos antolha por ocasião das primeiras pesquisas. pode apartála dessa direcção. digo fortes. A descoberta é o resultado da simpatia. à disciplina da verdade. a obra em relevo e de sólido alcance. duma sessão de estudo deveriam orientar-se e concentrar-se em obediência a uma estrita disciplina. o nosso eu. III – A submissão à verdade. Poder-se-ia definir o estudo. Uma grande cultural que tome posse dum espírito. todos os passos dum período definido. sem alteração criminosa. algo de mais importante: a necessidade de nos submetermos. dizia Bergson: <<O filósofo digno de tal nome nunca afirmou se não uma só coisa>>. em nós. cria nele novos estímulos e aumenta-lhe a capacidade. Como toda acção. A inteligência. lançai à terra a semente dum pensamento fecundo. é o que. devemos tentar para nos realizarmos totalmente. segurai o fio que vos guia através do labirinto. não o encontrará. não vos canseis de cultivar nem de semear. pois um só germe vale tanto como o campo inteiro. e não se submeter de antemão é esquivar-se ao seu encontro. esta atracção. Todas as obras dum espírito bem constituído deveriam ser desenvolvimentos dum pensamento único. Com muito maior razão. Intelectualmente.43 regenerar-se de contínuo nesse manancial. não a fazemos. porém. Esta submissão supõe a humildade. Há. a exemplo deles. praticamos um culto ao qual o Deus interior e o Deus universal responderão. Pelo pensamento encontramos alguma coisa. permitindo ao investigador a criação original. Alguns factos bem seleccionados ou algumas ideias fortes. quem recusa submeter-se ao pensamento. ao mesmo tempo que à disciplina do trabalho. O valor não está na multiplicidade. o intelecto é potência passiva. a intelecção vai de Deus a Deus através de nós. a humildade é o olhar que lê no livro da vida e no livro do universo. mas a reacção vital não deve mudar o teor das aquisições.

não o desanimeis nem expulseis por uma forma de trabalho puramente artificial e exterior. <<Senhor. como. Pouchet a Pasteur. quanto puderdes a volta da actividade voluntária. embora vivais vida interior muito intensa. Num determinado momento. rejeita a doutrina de outrem.44 O pensador. Procurai pensar no objecto da ciência. transporta-vos para fora de vós. mergulhar. Para S. algum dia. <<O essencial é estar em êxtase. se as leis do mundo estão sujeitas à matéria. para o que é. Quanto mais preciosa for uma ideia. que mais ou menos as esquece. deixar de pensar que se pensa. Em que consiste o trabalho profundo? Em deixar-se penetrar pela verdade. 3). mas sabemos que a passividade é a sua lei primeira. mas a cera. tende os outros por superiores>> (Fil. É preciso olhar para as coisas através do espírito. No espírito. lect. exaltais-vos: é o nirvana da inteligência arroubada e cônscia do seu poder. só sois verdadeiramente o que sois. nem Pascal. Sabem-no por experiência os cantores e os que. para que a linha da verdade se mantenha pura. Ponde-vos nas mãos de Deus e obedecei-lhe. sentiram a inspiração. algo como a impressão de circular entre os astros. nem Leibniz. tanto menos importa saber donde vem. não é Ariosto. . se ao menor dos fiéis em oração for revelada alguma coisa. Harvey toda a humanidade de mais de quarenta anos. 9. os vossos pensamentos abstractos. ou que se vive. adoptai a regra de ouro que S. II). quando compreender é tornar-se outro e sofrer uma feliz invasão. Sentis-vos a um tempo desdobrados e agrilhoados. obrigados a receber dos homens por meio da leitura. Tomás insere nos Dezasseis Preceitos: <<Não repares donde vêm os ensinamentos. devem os outros calar-se e escutar. há aquilo por que se vê. o despertar da Esposa. Tomás: <<Ninguém. experimentais o desejo de sair para longe. Todavia. 83. A história das ciências está repleta das resistências de talento a talento. Laennec opõe-se a Broussais. Paulo: <<Em toda a humildade. de génio a génio. o orador erguido por uma vaga interior e que não sente o peso do pensamento. livres e escravos. falamos para fora e não para dentro de nós.. longas horas. Ioan. de acordo com outro conselho de S. No pensamento. de conventículo a conventículo. imitai o poeta inspirado. mas de olhos atentos sobre a presa. No entanto. 3. Tomás.. além da humildade precisa de certa passividade de atitude que corresponde à natureza do espírito e da inspiração. Conhecemos ainda menos o caminho da inspiração. deslumbrados pelo fulgor divino. são as dimensões. não o sinete. por pequeno que seja>>(1). 2. apressai a volta com preces humildes. Fazei que o vosso espírito seja. escreve o pintor Luís Dussour. é a verdade. o êxtase provém do amor. afogarse nela muito suavemente. que meio nos não distraia do termo. Estais então muito metido convosco. nem Bossuet. mas confiai à memória tudo o que se disser de bom>>. Avançamos através de dificuldades como cavaleiro nas trevas: mais vale fiar-nos do cavalo do que puxar indiscretamente pela rédea. e. de capelinha a capelinha. Se porventura recebeis a visita deste espírito. mas podemos verificar que ela utiliza em nós a inconsciência mais do que as iniciativas.c. dos livros e do trato com eles. não o que se vê. eis a atitude da contemplação e da produção fecunda. Uma actividade demasiado voluntária torna a inteligência menos segura e menos receptiva. e não no espírito. Se ele se ausentar. para o seio das verdades permanentes. Erguei-vos à indiferença ( 1) In Euan. como a ave de rapina. outras a construção. quando vos dais a uma realidade que vos transcenda. ao mesmo tempo que se procura compreender a maneira como tudo se encadeia e se constrói>>. observa S. Aqui falamos do primeiro. A propósito do quê. Pois bem. Retardai. perdendovos. por mais sábio que se julgue. Lister tem contra si a Inglaterra. por que motivo terá o espírito tanta dificuldade em vergar o espírito? Lemos na Primeira Epístola aos Coríntios (cap. na direcção do objecto dos vossos sonhos: amar a verdade com tanto ardor que nela vos concentreis e vos transporteis assim para o universal. o que importa não é a proveniência. faz que nunca saiamos de nós mesmos. o que no próprio génio interessa. 14) que. quando falamos. Dir-se-ia que a verdade é demasiado luxuriante e que se torna urgente impedi-la de pulular. o superior é o que se encontra mais perto da verdade e por ela se deixa iluminar. do que ruminando. não em vós. ou que existe no mundo alguma coisa além da verdade. Conhecemos mal a constituição do espírito. um dia passado nos teus átrios vale mais do que mil>> (Ps. Umas vezes falta o êxtase. Ganhareis mais em pouco tempo.

homens ou livros. Portanto. IV – Alargamentos. e tem-no onde quer que se mostre. Isolemos. vê-la accionar no todo. quando pinta uma árvore. Nisso reside o segredo da liberdade. usamos. para melhor compreender. Estudar uma coisa é evocar gradualmente o sentimento de todas as outras e da sua solidariedade. dispensamos atenção e só eles nos servem de inspiradores. A primeira corresponde ao fim da ciência. até mesmo o centro de tudo. Não nos enfeudemos a ninguém. ambos. Só a verdade tem direito. entre um objecto particular e Deus interpõem-se as leis do mundo. porque a inteligibilidade por ele invocada provém de mananciais que o transcendem. mais vale reflectir. à submissão um esforço de alargamento que comunica. Guardai a alma dum vidente. Um problema nunca pode encerrar-se em si mesmo. mas frequentemente imagem autêntica. Vem aqui a propósito o que dissemos da ciência comparada. quando esquadrinhais os rebentos da verdade e não apouqueis as questões sublimes. Pensai do alto. a segunda. inunda os universos e volta à Fonte pura. mas também não desprezemos ninguém. porque na esfera imensa o <<centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma>>. a venerar religiosamente e a utilizar com diligência. Por onde passou o eterno semeador colhamos a messe. sempre que um homem ensina? Não é ele a imagem de Deus? Imagem por vezes deformada. apressemo-nos a recolher. Perguntar por que preço se opera a restauração e em que medida permanece a rectidão. em continuidade com este ténue filete. e se não é oportuno acreditar em todos. Falámos. mas que. sofre e põe condições. se não se julgasse melhor inspirada aferrolhando os seus cofres. mais além. embora deformada. captai a luz que se filtra aqui e ali. como a sístole e a diástole. o universal. para enobrecer o espírito do trabalho. Deixar-se-á o trabalhador iludir pelo seu próprio estratagema? Isolo uma peça dum mecanismo. para melhor penetrar. Corot. Velasquez situa os seus Meninos . De boamente imaginamos saber tudo. O nosso espírito revela dupla tendência: unificar as minudências para obter uma síntese compreensiva. juntemos ao ardor. o Espírito sopra nos vales como nos cumes. depois. a cada estudo ou a cada produção. e a humildade sincera lá o encontra. não situeis muito em baixo o ponto de mira. a inspiração está em toda a parte. há pouco. Só a raros privilegiados. estão realmente em jogo o homem e o universo. não pode ser estudado à parte. cuja amplidão vai crescendo desde a norma aplicada a esse objecto até ao Axioma eterno. valor de algum modo total. e só por distracção atendemos a vozes estranhas. Vivei em contacto com os grandes segredos. chamo alargamento o sentimento de ser este ponto o centro dum vasto conjunto. não com o intuito de circunscrever o estudo. Mas o espírito do homem também é uno e não pode satisfazerse com a mentira das especialidades consideradas como divisão da verdade e da beleza em fracções esparsas. A especialidade ou análise pode ser um método. no estro dos grandes seres. A verdade é una. visto que concentrar e alargar constituem um só movimento. Enfim. desde que apresente os seus títulos. e a recompense que daí se aufere é tão ampla que a avareza se apossaria dela. é imiscuir-se no concerto dos seres. sem o quê a verdade ficará alterada. Sujeito e objecto visam. Ora. seria trabalho mais fecundo do que encolher os ombros e oferecer tenaz resistência. É mister equilibrar estas duas tendências. o pensamento deve repô-la no seu lugar. Cada objecto de estudo pertence a um todo onde produz e recebe acção. na realidade. Na mais pobre inteligência existe um reflexo da Sabedoria infinita. é unir-se ao universo e a si próprio. trasborda sempre. Onde quer que o Deus de verdade deixou vestígios de si. à concentração. tudo depende da Verdade suprema. não esquece o Horizonte. nunca a deformação é total. também o não é negar crédito a quem quer que seja. e exíguo o caso que vos retém. de concentração. em razão da sua natureza. quando trabalhais. a fim de a considerar mais detidamente. à nossa fraqueza. não deve ser um espírito. perder na minudência o sentimento da unidade. mas enquanto a tenho nas mãos e examino. ser capazes de tudo. Porque não nos sentiremos na presença de Deus. Por mais restrita que seja a pesquisa.45 das fontes. É inútil opor-se. Chamo concentração a convergência da atenção para um ponto.

e a eles e a todos. ao valor geral do assunto. Os que se contentam com respostas provisórias a problemas que na realidade se põem. Por isso é preciso lê-los. Interpelado por alguém nestes termos: <<vou pôr-vos uma questão interessante>>. devemos sentir-nos no centro de tudo. e esta opõe-se à vocação intelectual. convidados por inesgotáveis riquezas e possibilidades. Biot respondeu: <<é inútil. o orador. diríamos com mais verdade em pleno Ser. <<seria preciso compreendê-las todas>>. diante dum largo Horizonte. evocando-se unicamente a si própria. depende deste senso das perspectives indefinidas e dos lagos universais. O que há de mais precioso em cada coisa é o que se não exprime. Possuem visão larga. As portas do infinito mantêm-se sempre abertas. O artista. Portanto. só Deus o pode resolver. afirma Pascal. mesmo depois do nosso esforço máximo e depois que a verdade parece sorrir-nos. com espírito não literal. clama: ora vede. O senso do mistério deve permanecer. É o que sucede com Deus. mas com espírito amplo. Pondo o dedo sobre um ponto do mapa-múndi. Falamos sempre do todo. a propósito do mais insignificante pormenor. Deixar-se amarrar por estreitas fórmulas e petrificar o espirito em moldes livrescos é sinal de inferioridade. V – O senso do mistério. Quem julga compreender tudo. deve pôr-se em estado de devaneio universal. Segundo uma regra de pintura. Mais tarde. Agostinho: <<se compreendes. Toda a questão é enigma que a natureza propõe e. O génio consiste em ver no trabalho o que lá não está. estas sugerem. Os grandes homens sofrem esta secura dos pensamentos. Pode afirmar-se da verdade plena o que de Deus dizia S. Mas o espírito limitado crê possuir o cosmos e a sua fortuna. deve-se pensar sobretudo no quadro que se não pinta. Vê-se o mundo sob novo prisma. Fugi dos espíritos que não saem da escolaridade e são escravos do trabalho em vez de o propulsarem em plena luz. Deus: ora o que Deus propõe. Reflectindo seriamente. sentese palpitar o todo ao contacto do fragmento encontrado. em qualquer região elevada. a saber o que lhes não pertence. <<Ignoramos tudo>>. podes estar certo que não é isso>>. através da natureza. em estado de pensamento e de emoção universais. não lhe poderei dar respostas>>. e <<para compreender a fundo uma só coisa. um só pensamento. atender ao carácter. e nos livros o que eles não são capazes de dizer. ao que se projecta para além da tela. aproxima muito naturalmente deste estado. dai aos assuntos restritos o que constitui a sua sólida substância. ilude o sentimento do infinito. mas os seus resultados afiguram-se-lhes pequenos. O ideal seria abrir no espírito uma via comum de pensamentos que se penetrassem e constituíssem. captei o mar e os astros. Adoptando o ponto de vista divino. alma de toda investigação. que se apossa de nós em face de uma verdade nova. ajunta Cláudio Bernard. com um balde de água na mão. A letra mata: oxalá a leitura e o estudo sejam espírito e vida. é preciso sentir toda a sua extensão e esfericidade. poderá parecer mesquinha àquele a quem deslumbrava. por assim dizer. que exigimos. O genuíno tesouro dum texto oculta-se nas entrelinhas. produz por si este fruto. mas é comum a eles e a outros. veremos que o deslumbramento. nem livresco. porque o sofrimento do mistério do Ser é que faz deste prodigioso talento um génio que assombra a alma e encanta os olhos. . em vez de os diminuir e esvaziar.46 em pleno Escurial. perde vida. falseiam sempre a resposta não sabendo que ela é parcial. como a luz é comum às cores e à sua distribuição nos seres. fazem pensar que nada é estranho aos mais profundos pensamentos do homem. em plena vida. graças ao qual cada coisa alcança a sua suprema junção e todas a sua coesão. esta ideia trazida aquém dos confins em que representava o papel de precursor. Este só passo no sentido da verdade é esteira de luz. se a questão é interessante. prova que nada compreende. Idiotas ou eternas crianças: eis o nome que merecem esses pretensos trabalhadores que. se encontram fora do seu ambiente e de bom grado reduziriam os outros à categoria de alunos de instrução primaria. poderemos acaso encontrar melhor modelo para guiar de longe a nossa pobre ciência? O espírito de contemplação e de oração. o escritor.

Estudar é precisar algumas condições. respondia a Frei Reginaldo que o inicitava a escrever: <<Reginaldo. a luz do que se conhece. Isso não é colocá-lo na obscuridade. É também estímulo para o trabalho. não posso mais. Pelo contrário. cercar-se das melhores garantias para a aquisição da verdade. que é recompensa. que se não vê. porque as luzes longínquas atraem-nos. como a unidade é a fonte do número e a imobilidade o segredo das corridas vertiginosas. classificar alguns factos: só estuda a valer quem põe este pouco debaixo dos auspícios do que ainda ignora. Balbuciamos e o enigma do mundo é perfeito. Tudo depende de tudo. julgando que tudo esta dito e que só nos falta aprender. trabalha-se num círculo reduzido e recai-se na imobilidade. tudo o que escrevo me parece palha>>. é o segredo precursor do grande grito que faz vibrar a alma inundada de luz. . a despeito do seu silêncio. uma vez mais. Um carácter nobre sabe que as nossas luzes são apenas degraus de sombra por onde ascendemos à claridade inacessível. Não alimentemos a presunção de desejar que chegue depressa este elevado desespero. enquanto guardamos a esperança de lá chegar. Tomás. e as relações dos seres mergulham nesta noite em que penetro as apalpadelas. porque a luz.47 S. chamá-los a dar testemunho é. mas um pouco desta comoção é o melhor correctivo para o orgulho balofo e para as pretensões desconcertantes. O mistério é. Sentir sussurrar em si todo o ser e toda a duração. a que melhor sustém os reflexos da nossa noite astral. em todas as coisas. dominado pelo sentimento do mistério que tudo envolve. já no fim da vida.

agarrou-se a este preceito: <<lede pouco>>. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual. o que não se consegue sem muita leitura. Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos. saber ler e utilizar as leituras. Aqui. porque produzir é um resultado. Portanto. por capítulos. Eu não aconselho a restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação. Paulo Souday que. A leitura desordenada não alimenta. Queremos formar um espírito largo. sem dúvida. esse encontra-se. porque a obra é vasta. depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. no jornal Le Temps. mais de governar e administrar bem a casa. é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma. a ânsia. por conseguinte. e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo. a informação. pelo visto. A <<paixão>> da leitura. é necessidade primordial que o homem de estudo não deve esquecer. Graças à leitura. organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas. praticar a ciência comparada. ler no livro imenso da natureza. a critica. A série de excitações assim provocadas arruina as energias. não de gozar e de se embriagar. ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. Primeira regra: lede pouco. sim. manter o horizonte aberto diante de nós.48 CAPITULO VII . mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas. Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros. espiritualmente. Nunca pensamos isoladamente: pensamos em sociedade. Em 1921. distrair-vos. em colaboração imensa. em estado de cefalalgia. . entorpece o espírito. O leitor.Tomás. Proscrevemos. não com paixão. pode compararse o mundo intelectual a uma sala de redacção ou repartição de negócios. e é a preparação próxima ou remota para toda a produção. ao passo que o trabalhador. se queria vingar de mim nalguma coisa. Leia-se com inteligência. de produção. a preguiça disfarçada que prefere ao esforço a frequentação fácil. respirar o ar fresco. a intoxicação por excesso de nutrição espiritual. por comentários.A preparação do trabalho A. diz S. – A LEITURA I – Ler pouco. Ora. como a constante vibração estraga o aço. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras. só retém o que deve servir. torna-o incapaz de reflexão e concentração e. retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias. o auxílio. em matéria árdua e complexa. se leu o jornal. lê com calma e suavidade somente o que quer reter. é preciso muito absolutamente. onde cada qual encontra no vizinho a sugestão. se assim se pode dizer. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça. a paixão de ler. trabalhamos com os trabalhadores do passado e do presente. O mesmo sucede com a leitura: é questão. e não de repente>>. Por tomos. e só aprende. sabe o valor daquela crítica e. é tara. senhor de si. o trabalho requer longa preparação. quem primeiro atravessou o simples e o fácil: <<devemos correr para o mar por meio dos regatos. e escraviza-o às imagens mentais. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. exterioriza-o no seu interior. a leitura é o meio universal para aprender. o ânimo de que carece. Paulo Souday também o sabia. Ide antes dar um passeio.

ponde de parte a leitura. escreve Nicole. sem necessidade de se instalar em intermináveis sessões da preguiça! Em todo o caso. um irmão. Em seguida. em matéria de leituras. o fundo antigo. pág. Ter conselheiros dedicados e sabedores. em vez de vos levar para diante. gostai dos livros eternos. Convém saber o que os jornais contêm. essais de morale contenus en divers traité. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais. Em resumo: podendo recolher-vos. vos conduzirá aonde quereis chegar. Não acreditar no reclamo interesseiro nem no chamariz dos títulos.elle Bertin) quem diz: <<só é novo aquilo que se esqueceu>>. de noções positivas em evolução ou em crescimento. quereis ser do vosso tempo. o demónio acorda os maus pensamentos em nós latentes>>(1). Nem por isso haveis de assumir atitude de juiz. sem contudo prodigar a admiração. não vá a <<corrente>> arrastar todas as disponibilidades laboriosas e. Nem tudo é igual. Olhando de perto. organizai a distracção voluntária. lede unicamente. não deveis ser um <<tipo arcaico>>. imobilizar-vos. Abri. que provavelmente são mal pensadas. Voltemos. Um ou outro de quando em quando por distracção e para não perder de vista alguma glória literária. deveis seleccionar nos livros. defendei-vos deles tanto mais energicamente quanto mais constantes e indiscretos são os seus ataques. é fácil. menos ainda desinteressar-se do que se escreve na esfera da sua especialidade. é mister que nele nos apoiemos para comungar verdadeiramente com a inteligência do homem. ( 1) Nicole. amigo.49 Depois da actividade tomada voluntariamente. ao assunto. Seleccionar os livros. Admirar de alma e coração o que merece ser admirado. Não falemos do veneno dos romances. porém. Frequentar apenas o escol dos pensadores. mas é tão reduzido o conteúdo! E seria tão fácil informar-se dele. Os livros repetem-se. . em vez de vos entregardes a um automatismo que de intelectual só tem a matéria. que encerram as verdades eternas. Fala-se da necessidade de estar <<ao corrente>>. há horas mais adaptadas para a corrida às notícias do que a hora do trabalho. Para avançar. na verdade. Portanto. É uma comerciante de modas (M. excepto nos momentos de distracção. mas que seja pura concessão porque a maior parte dos romances abalam e não repousam. para escolher o que há-de nutrir o espírito e servir de semente dos pensamentos. ou antes o fundo permanente é o melhor. e não enveredeis por todas as sendas que se vos oferecem. Dessedentar-se só nas fontes. A maior parte dos escritores são apenas editores. Paris. por si só. é já alguma coisa. Nestas observações está incluído o principio de selecção. o caminho. é preciso remar. t. e amigo inferior. II – Escolher. e recorrer aos jornais só quando lhe apontem algum artigo notável ou acontecimento grave. sem que nisso reparemos. 1733. mas que em si é tão banal como o escorregar por uma encosta ou o escalar uma montanha. Ler só obras de primeira mão. cuidado. sede antes. o que respeita ao fim em vista. pensamentos que serão causa de salvação ou de ruína. e lede pouco. <<Muito discernimento é preciso. diluem-se. agitam e desorientam os pensamentos. nenhuma corrente. e convém aproveitar. longe das pequenas individualidades balbuciantes ou bulhentas. e decerto um intelectual não pode ignorar o género humano. Contudo. Quanto aos jornais. O trabalhador consciencioso deveria contentar-se com a crónica semanal ou bimensal duma Revista. o que se escreve de bem. verificamos serem raras as descobertas do pensamento. Ora estas são pouco numerosas. lereis os autores modernos. onde brilham as ideias mestras. não tenhais a superstição da novidade. é urgente seleccionar: seleccionar os livros e seleccionar nos livros. Haveis de ler.II. por vós próprios. sem prevenção. O que hoje lemos com indiferença despertará mais tarde e apresentar-nos-á. 244. o que é outra maneira de se repetirem. Desdenhar das obras mal feitas. e tanto mais quanto precisardes de informações. para não devorar o silêncio. porém. ou então contradizem-se. A restrição deve afectar sobretudo as leituras menos substanciais e menos sérias. Deus sugere os bons pensamentos para nos salvar. para com o autor.

Estes géneros de leitura devem utilizar as nossas observações. o louco projecta sobre todas as paredes a sombra da sua fronte estreita e inerte. por uma vez que terá razão. a obra consultada servir-lhe-á apenas de esteio. o seu plano. muitas vezes. mas o aluno é-o muito menos do que o mestre. assim o domínio do pensamento só se obtém pela disciplina. Pelo contrário. lembrai-vos que até certo ponto um livro vale o que vós valeis. de fé provisória. Para isso. buscar o grão da palha. diz S. é mister honrá-lo. contudo.cit. Leibniz utilizava tudo. o crédito e a relativa passividade. <<É preciso acreditar no professor>>. . depois de Aristóteles. e a corrupção do homem imiscui-se na maior parte das suas acções. pois quem se informa e quer utilizar não se encontra já em estado de pura passividade. Daí a necessidade de filtrar para depurar. Ninguém é infalível. enquanto se não possuem todas as normas do juízo. Uma atitude de respeito. Escolhei o melhor que puderdes. Um espírito nobre não consente que o encadeiem. um amor do bem servirá de resguardo. subtrai-se vinte vezes à verdade e serra vítima das aparências. fé ( 1) Op. o tomais por guia. lemos por motivo de distracção. aberto ao bem. não podemos circunscrever-nos a ele. Requere-se. O homem inteligente encontra em toda a parte inteligência. Mas sois homem livre. durante a leitura. que ao mestre concedem alguma coisa do que é devido à verdade. Lemos para nos formarmos e ser alguém. Tomás. prudente e progressivo. Não quero dizer que nos entreguemos às cegas. sem sofrer de nenhuma. Há leituras de fundo. se necessário for. Aconselhamos S. O próprio Santo dá exemplo dessa obediência. mas tem as suas ideias predilectas. leituras de repouso. é quanto basta recorremos a outras fontes a título de informação. lemos para nos animarmos a trabalhar e praticar o bem. mas procurai que tudo seja bom. A escolha dum pai intelectual é negócio muito sério. pede a prudência que comecemos por nos dobrar. e se recusa submeter-se. e as ilusões do professor. Três ou quatro autores estudados a fundo para a cultura geral. Essa atitude será mesmo diversa sob certos respeitos. As leituras de fundo requerem docilidade. abri-lo sem orgulho. de cultura geral. pelo menos debaixo de certos aspectos. Tomás extraiu dos hereges e dos paganizantes do seu tempo grande número de ideias. leituras de estímulo ou de edificação. Quer se trate da primeira formação. e só com isso já será diferente a atitude de espírito. não a titulo de formação. Sendo o livro um irmão mais velho. Quem se forma e deve adquirir quase tudo. Comecemos por escolher os guias em quem confiar. diz ainda Nicole. lemos com a mira nalgum fim particular. sigamos o caminho por eles primeiro trilhado. é certo. Além disso. distingo quatro espécies de leitura. em vez de os aproveitar. quase todos os livros se ressentem destes dois defeitos(1)>>.50 visto que. <<Os livros são obras dos homens. Concretizando um pouco mais. de confiança. 246. as leituras de repouso requerem liberdade. S. Mas assim como não se aprende a arte de mandar se não obedecendo. três ou quatro para a especialidade e outros tantos para cada problema que surja. permaneceis responsável: reservaivos o bastante para guardar a alma e. precisamos mais de crer nos autores consultados do que criticá-los e. as leituras de ocasião requerem mestria. uma dose de submissão à verdade mais do que ao escritor. não está em período de iniciativas. de problema até aí descurado. escutá-lo sem prevenção. as leituras de estímulo requerem ardor. suportar-lhe os defeitos. aproveitam a esta última e permitem utilizar as insuficiências. e como ela consiste na ignorância e na concupiscência. que só lhe foi proveitosa. Ninguém sabe o que falta a um homem senão calculando a sua riqueza. acomodando-os à nossa maneira de pensar. para a defender. confiar em Deus e no melhor de si. cada uma apresenta também exigências particulares. leituras de ocasião. é necessidade evidente que só passa despercebida aos presumidos e vaidosos. Querer agir demasiado cedo prejudica a aquisição. quer se encete o estudo de nova disciplina. mas também a este último se deve dar fé. III – Quatro espécies de leitura. largo. Tomás para as doutrinas superiores.. e o que o fizerdes valer. na parte de si que é filha de Deus e na qual um instinto de verdade. pág.

relativamente. porque. repare nos seus resultados. na poesia. Alguns saboreiam histórias apimentadas ou fantásticas que os dissociam. Lede o que agrada. Ter assim. na comédia lida em casa. é o principal. no sentido etimológico. a um capítulo da Imitação de Cristo. No que toca às leituras distractivas. devem-no ser sobretudo aqueles que só têm a desempenhar papel acessório. pela importância que reveste para a conduta do espírito e da vida. a tal página. outros entregam-se a tentações que os fazem desanimar e lhes prejudicam a alma. na crítica de arte. uma só coisa repousa verdadeiramente: a alegria. Se os livros são servos. Contudo. que alarga o mundo e nos torna a estada nele mais nobre e mais grata. reúna em volta de si os remédios para as doenças da alma. e não hesite em repetir. o mesmo cordial ou o mesmo antídoto. Segundo S. Estas questões de atitude revestem suma importância. parece não ter tanta importância a selecção. a uma parábola do Evangelho. ao que é a nossa razão de ser. Pensamos muito pouco no privilégio da solidariedade que multiplica a utilidade de viver. não a tem. é ficar sozinho consigo e perder o beneficio que um iniciador vos oferece. já que sois consagrado. em vez de as afogar nas ideias de outrem. Leituras há que não distraem suficientemente. a uma Oração de S. todas as vezes que se lhes secava a inspiração. deve apelar para a experiência de cada qual. Tomás. de facto. lendo a História da Filosofia Grega de Zeller: era uma distracção. com prejuízo do recolhimento que se lhes deve seguir. Sei de alguém que se distraía de trabalhos árduos. como quem estuda. embora depois tenda a gastar-se com o tempo. como os objectos de uso necessário à vida. se a fascinação da leitura prejudicasse o intuito de utilização que a justificava. que renova para cada um de nós a glória de ser homem. prestes para inocularem no espírito a boa seiva. Conheço pessoas a quem a peroração do Discurso fúnebre do Grand Condé reanimou anos seguidos. não é indiferente distrair-se deste ou daquele modo. nos momentos de depressão intelectual ou espiritual. além das regras gerais apontadas. estados de alma que com ela despertam. Tomás. páginas reconfortantes. em igualdade de proveito e de repouso. e estudar como quem consulta. como a Escritura recomenda. consultar. a ornar o espírito. bebe nela. seria contra-senso querer distrair-se no tédio. do mesmo modo que nos recolhermos e nos pomos em estado de recolhimento quando nos abeiramos duma grande personagem ou dum Santo. de ter o espírito aberto aos mesmos horizontes que os seres superiores. como sucederia. no domínio espiritual não resistem ao Mistério de Jesus de Pascal. outras desviam-nos. o que for útil de outra maneira e ajudar a completar-vos. com os nossos inspiradores. Aquilo que uma vez deu bom resultado d provável que o torne a dar segunda vez. Quero agora falar expressamente da maneira de aproveitar o convívio com os grandes homens. Observe-se cada qual. quando o fim em vista é voltar. guarda a liberdade de movimentos. Outros. deveríamos preparar-nos para ela pela oração. reforça as próprias ideias com o que de fora lhe advém. Ninguém se sacrifica por um leque. com a mira num trabalho. o hábito aviva-a. Cada qual tem seus gostos e o gosto. o que não prejudica e. nos livros de memórias. mesmo quando vos distraís. Nas leituras de estímulo. aqui. tê-las à mão. Muitos pensadores encontram alívio e atractivo nas histórias de viagens e explorações. é recurso incomparável. levam-nos para fora dos nossos caminhos. Quem lê. é perder tempo. a selecção. . fica na margem. isto é. a ser homem. Uma influência começa sempre por se reforçar. o que não entusiasma demasiado. Tudo isto é mau. tem o espírito dominado pelo que pretende realizar. O convívio com os génios é uma das graças de predilecção que Deus concede aos pensadores modestos. até se fartar. outras distraem demasiado. mas insuficiente. nas melhores condições. tende a inteligência de ler.51 compatível com a liberdade de seguir ou de rejeitar as conclusões a que ele chega. IV – O trato com o génio. e sai da leitura enriquecido e não despojado. de viver alto e de fundar com os nossos semelhantes. uma penetração mais íntima aclimata-a em nós. não mergulha na onda. autores favoritos. a associação das ideias e dos sentimentos prende.

habituam-nos ao ar das montanhas. cede verdades. Tomás de Aquino. Mas que nível de inspiração! Somos transportados a um mundo desconhecido. só pelo facto da sua superioridade. Movíamo-nos em região baixa: dum golpe. S. Agostinho. podereis acaso prescindir de Sócrates. não de igualar o que se venera. Na hora da messe. o objectivo a encarar e a visar. quando fala. Dizem pouco: um curto motivo que se repete. de relevo tão pouco acentuado como o duma medalha de Roty. que resume em si gerações. La Fontaine. Maine de Biran. O contacto com os génios traz. Escutai certos prelúdios de Bach. no centro dum sistema de relações que. dizia Teresa Brunswick. O génio. há Deus. Pascal? Se sois filósofo. só pode ir longe. onde de bom grado ficaríamos a vida inteira. Relembrar. S. a Galileu. Leibniz. logo que ele nos abandona. socorrem-nos. pois que. variações insistentes. Santa Catarina de Sena. O génio renova tudo. Descartes. é o reconforto da vida intelectual. Kant. o Espírito. mas de se igualar a si. Cultivar a faculdade da admiração e concluir daí a frequentação constante dos pensadores ilustres. e esse é. . não saboreais o benefício de ter atrás de vós Homero. porque não havemos de continuar no mesmo tom e concluir o período em aberto? Infelizmente. a realidade lá patente. somos enriquecidos com as riquezas deles. É sempre estreita a sociedade das inteligências: a leitura alarga-a: volvemos um olhar de súplica para a página genial e somos atendidos. por assim dizer. Shakespeare. repito. Platão. Vergílio. e já é benefício enorme a possibilidade de ascensão que nos aparta das futilidades. Boaventura. a Pasteur? Se sois religioso. se o pensamento do homem se ajuntar paciente e silenciosamente ao pensamento das gerações>>. Bossuet. Bernardo. gratificam-nos. explora em nosso proveito as regiões misteriosas e. voltamos à importância primitiva e apenas balbuciamos. Hugo). (V. exprime o homem e o seu eco repercute-se em nós. a Euclides. também a Aristóteles. por ele semeados e cultivados. o trabalho de Deus nos espíritos de escol é levado em conta para bem nosso e deles. S. é o meio. que só espera que nos adaptemos a Ele para desabrochar em discursos divinais. a torna a criar. a Kepler. nos afina e ajuda a apreciar os fogos de artificio pueris de que tantas vezes constam as festas do espírito! Quando em seguida o génio nos ministra temas. sabeis porventura o que deveis a Arquimedes. é folhear títulos de nobreza. o gigante conduz o anão e o antepassado oferece uma herança. dá mostras de simplicidade encantadora. o pensador. séculos de cultura: que benefício incalculável! <<O espírito humano. pensastes já qual seria a pobreza das almas. sempre profética.52 uma sociedade em Deus. fulgura a beleza. rasgam-nos caminhos. a Alma das almas. por vezes. Pelo menos podemos ascender lá em espírito. eternizado pelo nosso culto e assiduidade. Dão-nos o tom. Por conseguinte. Quando se cala. iniciam-nos. parece que se desvenda o rosto da verdade. como Tomás de Aquino ou Goethe. chama por nós. Sófocles. Racine. orgulho este que ostenta a beleza e a eficácia do orgulho de filho a respeito dum pai ilustre ou de nobre geração. se não tivessem S. S. É seu privilégio por excelência o apresentar ao pensamento. o facto de seguir e de compreender estes videntes leva-nos a pensar que somos da mesma raça que reside em nós a Alma universal. a elevação. no manancial de toda a inspiração. nos mostra. Francisco de Sales. os que brilham com singular esplendor no firmamento da inteligência. erguem-nos à sua atmosfera. como benefício imediato. iluminada por luz desconhecida. Aristóteles. Bergson? Se sois científico. <<Após os génios vêm logo aqueles que lhe reconhecem o valor>>. Paulo. mesmo antes de nos ensinarem qualquer coisa. Se sois literato. S. a Lavoisier. concentrados numa só pessoa. o Banquete dos Sábios. Por que não aproveitar este incremento? De nós só depende: basta fidelidade e atenção. referindo-se a Beethoven. de tempos a tempos. a Darwin. Neste mundo de pensamento sublime. a Cládio Bernard. permite-nos ir longe com a sua ajuda. tranquilizam-nos. o primeiro autor de tudo o que se escreve. que nós não enxergávamos. Corneille. Newman? A Comunicação dos Santos é o suporte da vida mística. o autor da Imitação de Cristo. dá-nos direito sobre os domínios por ele conquistados e desbravados. mas sabemos que existe a palavra verdadeira e só por isso os nossos balbucios comportam um novo tom. Santa Teresa. Dante. escreveu Rodin.

Tomás o dever de gratidão para com quem assim nos tentou. por intermédio deles. ajustados e fechados os quadros de pensamento. por mais que digam dos génios o que os judeus disseram de Cristo. revela-se-nos uma esfera nova. <<Quem tropeça sem cair.. Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus. Eutiques. que se apossou do espírito. Lutero. os que recebem a mesma seiva podem esperar crescer e produzir. Os pensadores maldizentes. frequenta o íntimo dos seres e. na música. donde ele procede. Não nos expondo indiscretamente ao perigo. indirectamente. estamos certos de ir longe e além disso podemos resguardar-nos dos seus passos em falso. . Sim. e é felicidade poder repetir: também eu a possuo! Não é talvez muito exacto afirmar que os grandes homens reflectem apenas o seu século. por ter corrido estes sublimes perigos sem neles sucumbir.53 Por detrás de cada facto oculta-se o infinito do pensamento. a sua força por vezes transvia-se. devemos. é jacto que contém e unifica valores até aí disseminados e indecisos. O tronco. talvez com demasiado exclusivismo. quase todos manifestam sombras. conserva todo o vigor e. ou o exagero de opiniões de qualquer outra espécie de arrebatamento os aparta do caminho da rectidão. a providência nos proporciona(1) Ponderai o muito que a Igreja deve às heresias. Um homem superior não seria coisa alguma. ( 1) S.I. fala-nos o mesmo ser e não os nossos ecos fracos e duvidosos. afirma o Apóstolo. também eles. por ele provocada. Precisamos de nos defender contra eles. aos que erram. não se teria constituído o dogma católico. a despeito de possíveis aberrações. não fosse um filho do Homem. Até os erros dos homens superiores são susceptíveis de contribuir para o benefício do convívio com eles. como as máscaras apresentam saliências. Pelágio. nalguma coisa. As grandes máximas são múltiplas experiências condensadas. O génio simplifica. mas. ao nascer do sol. Se Renan não houvesse escrito sobre as origens cristãs. reduz ao essencial as aquisições dessa humanidade. quem escapa ao seu contágio. é o aguilhão das iniciativas ardentes. e todos os membros desta humanidade têm nisso parte de glória. In II Metaphys. o revelador das vocações e o remédio das hesitações inquietas. Devemos aprender a bem pensar sobretudo no trato com os sábios. o génio avança. Os seus erros não são erros vulgares: são excessos que todavia não excluem a profundeza e acuidade de visão. é verdade colectivamente. O génio estimula e desperta a confiança. porque reflecte a comum humanidade. Não houvesse Kant abalado os fundamentos do conhecimento humano. extrai dela uma força. portanto. mas é certo que reflectem a humanidade. <<pode lá vir coisa boa de Nazaré?>>. não desesperemos de medrar em contacto com os erros geniais. lect. na arquitectura. e a filosofia aos seus grandes litígios. se de qualquer sorte contribuíram para o nosso progresso. Nestório. em todo o caso. Tomás. só somos devedores de verdade. pois que produziu Platão. Directamente. Uma impressão de sublimidade assemelha-se. sairemos melhor formados. há nele uma graça. nunca terão razão em face do género humano. seguindo-os com cautela. pelos recursos e pelo uso que deles faz. graças a ele. o acréscimo de formação que. mas a própria loucura comporta um ensinamento. este pobre mundo pode produzir algo de bom. melhor guardados. a criteriologia estava ainda na infância. se. dá um passo avante>>. No entanto. não possuiria o clero católico a formação histórica e exegética que possui. Destas observações deduz S. O que é verdade individualmente. na pintura. como Leonardo de Vinci sintetizava num momento as expressões variáveis do modelo. todos eles conseguem desvendar a um espírito avisado os eternos fundamentos da ciência e os segredos da vida. mostra-se-nos uma face do mundo. A emoção. na alma. a animação. o génio vê dentro. tudo igualmente pode ser de utilidade aos que se fixaram na verdade. não mais o largará. A sabedoria comprovada nos seus heróis faz-nos também secretos convites. de modo potente. flores imortais. A maior parte das grandes invenções resultam de concentrações súbitas e fulgurantes. os trabalhos de indagação exigidos pela própria resistência consolidam-nos. e o nosso fasto compõe-se da sua rica simplicidade. Sem Ario. Formando o espírito. O génio é a linha egípcia aplicada a tudo. O traço sublime. na poesia. mas nós esperamos que a perspectiva se desdobre. Um homem superior. afasta o véu: e diz-nos: vem! A ciência consiste em ver dentro.

sendo preciso.54 V – Conciliar em vez de opor. embora pertençam ao número dos <<anjos incompletos>>. quiser adquirir. Vós que buscais a verdade. não são os pensamentos. VI – Assimilar e viver. Quem. tem gosto negativo. mas todos nos põem na perspectiva delas e nos empurram nessa direcção. Segue Aristóteles. o texto em proveito da sua verdade mais pura ou da sua maior riqueza. não o ruído. e muitos os imitam. dispõem-se em galerias dispersas. <<O indivíduo. mas ligam entre si os arcos e. mas encosta-se a Platão. estreito. no convívio dos autores. O caso é outro. sem o forçar. Lemos para pensar. manifestando o que nele se deve ver. e consegue tirar a vida e a energia ao seu criador>>. os homens superiores ensinam a comungar nas mesmas verdades. O mel faz-se com muitas flores. Tomás se assemelha aos revisores de provas. de utilização pessoal ou de exposição doutrinal. Empenhou-se ele em aproximar doutrinas. reparai neste abrigo e acolhei-vos à sua sombra. no espirito que o revela. A inteligência assim constituída à inteligência apoucada. Para tirar proveito das leituras é indispensável começar por conciliar os seus autores e não os opor. tara de funesto agouro. a contenção ou a excitação factícia da inteligência. irradia intensa luz. O processo de exclusão. Embora o leitor deva mostrar certa passividade que não tolha a acção da verdade em seu espírito. que prendem secretamente ideias e sistemas. não cavemos fossos entre as suas doutrinas. Não digo que todos as proclamem. cai na mania do corrilho e da mexeriquice. As colunas do templo assentam as bases sobre as lajes. Não há mexeriqueiros só na soleira das portas: há-os na história da filosofia. que buscais. Tomás. não aptidões de combate. afastam-se. Reparemos no exemplo admirável de S. não é augustiniano. Ainda uma derradeira e capital indicação sobre as leituras. Vós. mas as verdades. acabam por sustentar uma só abóbada. Parece que se combatem e que dividem a ciência e desunem o espírito humano: na realidade. deve dar mostras de espírito de acomodação e de diligente recolha. enriquecemo-nos para utilizar. são forças convergentes. Ora bem! subi mais alto. em as ilustrar e completar umas pelas outras. Ninguém menos do que S. não são os homens. o choque dos partidos. das ciências. escreve Goethe. mas algures apelida-o de sublime espírito (praeclarum ingenium) e cita-o a cada passo. . mas verdade e penetração. por numerosas nervuras. precisa. no entanto. O espírito critico tem suas aplicações. dispostos a reconhecer em toda a parte o seu rosto. lancemos pontes. sobretudo a respeito dos homens superiores. até da teologia. A quem souber utilizá-los. que só lêem para encontrar gralhas tipográficas. O que então interessa. exclusivo. ainda os mais diversos. não lanceis um contra o outro os seus servos. aponta Averróis como depravador do peripatetismo. Por conseguinte. mas a obra por eles realizada e o que dela fica. que não é criador. embalde nos eternizamos em vincar diferenças. tomar atitudes de disputa. a investigação profunda informa-se dos pontos de contacto. não os confundamos. utilizemos então o método por contraste. fechando caritativamente os olhos ao que nele posse haver de deplorável. quando se trata de formação. Lamentemos os seus erros. génios parciais que a verdade visitou sem neles assentar morada. A descoberta das ligações. mas unicamente a verdade. Quando comenta. de eliminação sumária e de escolha limitada prejudica enormemente a formação e denota. solicita. É trabalho muito mais fecundo aplicar-se à reconstituição da verdade integral através das deformações do que passar o tempo a criticálas. em vez de tudo encarar à luz do universal. de reagir sobre o que lê para o fazer seu. exactamente como a abelha. teremos que discutir opiniões e classificar homens. É uma espécie de profanação. mas faz de Agostinho a sua alimentação constante.

está na realidade e no pensamento. é mister. porque a evocação dum pensamento. Mas nem só os que muito lêem correm perigo de cair neste defeito. Agostinho: <<O homem está para o ensino como o agricultor para a árvore>>(2). a assimilação é reacção do organismo vivo perante o alimento. O ensino presta. que derivou da ideia. nunca chegara a instruir-se. <<A doutrina. 4. Os livros são postes indicadores. esforcemo-nos para que a matéria intelectual supeditada pelo livro. baixando mais ao ânimo da questão. Não é com os olhos nem com os ouvidos que se ouve uma palavra sublime. com os argumentos e as respostas. quando muito. não faz mais do que excitar no espírito do homem o desejo de saber>>(1). art. permanecem tão exteriores à inteligência como as coisas que se pretendem conhecer. escutando-os de fora. É forçoso recriar para o ( ( ( 1) 2) 1) Boécio. q. O que noutrem era vida será em nós apenas lâmpada apagada? Ninguém pode instruir-nos sem nós. A fonte do saber não está nos livros. a ideias já elaboradas e ordenadas. Io. Muitos lêem do mesmo modo que as senhoras fazem malha. De homem a homem. o caminho da verdade. O génio. S. Afinal as doses de ciência. De Magistro. Condenámos o eterno ledor. Ouvida a palavra. tomado de insolência. que nos instrui. prosa 5. nas Quaestiones de Veritate. mas deve nascer do nosso íntimo. Não basta ceifar no tempo devido.. mas insuficiente. o trabalho é vida. De Magistro S. como o seu inspirador: <<Vim para que tenham a vida e a tenham em maior abundância>> (Io. A docilidade é virtude necessária. enfim. e não o que o escritor diz. que se nos propinam. conforme o salmista: Senhor. que pouco a pouco chega a ler maquinalmente. é mister elaborar a própria carne. não é o aperfeiçoamento. Tomás. Quem não assimila o que aprende em frequentações dóceis. diz Augusto Comte. obrigar a alma a repeti-la de si para consigo. I. Mas em todo este processo não se encontram. este sinal. S. mas o trabalho da razão sobre eles. O som ressoa. e o que faz a ciência. v. No entretanto. a um automatismo que já não é trabalho. . pode repetir. O que acima de tudo nos interessa é o que é. mas sim com a alma erguida ao nível do que lhe é revelado. Agostinho. a natureza cura-se a si própria. ou seja tomar consigo. assiste inerte ao desfile das ideias Como um pastor deitado a ver correr a água. (ALFREDO DE MUSSET). Só entramos na intimidade dos génios. têm só a vantagem de corresponder. nem o ensino consegue vencer o espirito negligente. mas não se supre. pois se limitam a procurar. Tomás. mas nem a medicina tem acção sobre o organismo inerte. por meio de sons e de sinais.XI. o pensamento é estritamente incomunicável(1). e. nem atar as gavelas e cozer o pão. Eis aí por que Deus é o único Mestre de quem procede toda a instrução. os sinais de um só indirectamente entram em contacto com o outro. A leitura propõe-nos verdade: temos de a fazer nossa.55 alimentamo-nos para viver. Facilita-se assim. participando na inspiração deles. no espírito. meios de agir espiritualmente. O que eu absorvo deve converter-se na minha substância: só eu posso conseguir isso. a luz vibra os sentidos percebem e comunicam o sinal e. De Consolatione Philosophia. depois do autor. com a inteligência iluminada pela mesma luz. escreveu Boécio. o pensamento. embora passe a vida a aprender. como a medicina oferece meios de curar os corpos. deveria carrear outro pensamento. e talvez graças a ele mas independentemente dele. e o que o nosso espírito pretende não é repetir. <<A obediência é a base do aperfeiçoamento>>. o caminho é mais antigo. O espírito desses ledores. Não é a vendedeira da praça que alimenta o meu corpo. Esta penetrante análise tem consequências práticas. absorver vitalmente. para que estes sinais dum interlocutor mudo nos elevem ao pensamento expresso e até mesmo acima dele. op. Se a ideia não entra em nós. não é o sistema de sinais proposto. a luz da tua fade está imprensa em nós (Ps. tem a missão de provocar uma ideia semelhante. enquanto sinais. observa que a palavra e a escrita nem sequer chegam ao espírito. por nós. matéria para a alma. Na realidade. e ninguém trilha. por movimento inverso. 7). Io). mas compreender. arriscamo-nos a não os ouvir. que só para isso serve o trigo louro. pensar por si. a vida é assimilação. a não ser que digamos: com a luz que Deus infundiu nele. Já anteriormente dissera S. e o espirito só é iluminado com a sua própria luz.

a última palavra a dizer sobre os livros. Fisicamente nascemos jovens e morremos velhos. Libertando-me. Ser sombra duma sombra é rebaixamento para aquele que. a leitura poderá servir de excitante ou de alimento para o nosso ser. que provenha da mesma fundição e reabsorva na sua unidade viva o que recebeu de fora. e quero uma vida fecunda. Quisessem eles escravizar-nos. e os demais homens reconhecem-se nele. Eis um sentido novo do que eu dizia: encontrar nos livros o que eles não contêm. escrevendo! Saber utilizar é inventar. não do meu primeiro inspirador. não sou um reflexo. não deixemos aos maiores o monopólio das utilizações superiores. tratemos de morrer jovens>>(1). Vivo. a espontaneidade aproxima-se da humanidade. A glória. mas sim libertar-nos. como nem qualquer outra coisa da natureza. Assim como ninguém pode assimilar os conhecimentos comuns senão pelo próprio esforço. outro livro tão inútil como o primeiro. Quando leio. diz Schopenhauer. <<nascemos velhos. mas o acréscimo de sabedoria. O que eles nos legam pertence-nos. esperamos criar obra no bom sentido da palavra. não devemos ir para os mestres. ninguém nos lê>>. Lendo. Dizia Amiel. <<Quando só se fala do que se leu. obedeço ao meu Mestre. devemos partir deles. Tenho o dever de ser eu próprio. a sabedoria convida-os a todos. Uma obra é berço. contemplemos o que existia ante deles. quando os queremos utilizar. iniciador. comparado o espírito francês e o espírito alemão: <<Os alemães amontoam a lenha da fogueira. entre Deus e nós. não é a aquisição de verdades esparsas. sei que Deus não cria em vão nenhum espírito. O pensamento precisa de estar em nós. mas crianças que herdam. Enfim. estimulante. e nós somos homens. Deus está em todos: honremos em nós o homem ( 1) Pensamento familiar ao Padre de Tourville. assistia-nos a obrigação de nos defender. mas quereria ao mesmo tempo deixá-lo. intelectualmente. com muito maior razão a ninguém é dado produzir da sua lavra pensamento novo senão pelo próprio esforço. A citação é como a palavra que o dicionário sugere. em virtude da herança secular. Quantos volumes e textos compactos existem dentro de nós e que não lemos! É abuso imperdoável convizinhar com génios e não extrair deles senão fórmulas! E é tão fácil reconhecer isto mesmo. Enquanto falam. foi da eternidade que eles receberam. nem prisão. se a citação se encaixa a jeito num discurso que não seja banal. O principal benefício da leitura. ajuda. Se um dia a nossa sabedoria crescer. mas de mim próprio! Esta é. Nós que só ansiamos realizar humildes tarefas. S. o que está acima deles. o que Deus prepara para todos. há nisso originalidade quase como a do mestre. Mesmo quando se cita literalmente. As repetições manifestas ou disfarçadas de pressa geram o tédio. Para quê repetir outrem? Por pequeno que eu seja. Sem ela. O homem é múltiplo. apliquemos as mesmas leis do espírito. o que em nós penetra nenhum valor teria. visto pertencer à eternidade. neste mundo. enquanto repousava na biblioteca. Assim se alcança a originalidade. é também o fim da educação que nos propomos dar a nós mesmos. O desabrochador da sabedoria era o fim primeiro da educação. que dá a outrem. pequeno ou grande. como a alma cria o corpo. Nunca os autênticos génios quiseram amarrar-nos. O respeito humano afasta-se. na medida em que procede da nossa intimidade e incomunicabilidade. Os génios não passam de sombras. e não túmulo. e que no entanto vós criais. Bossuet e Pascal também. Tomás cita deste modo. O livro é sinal. pelo menos da leitura das grandes obras. Em face dos génios somos apenas crianças. inédito e único. liberta-me com o sentimento duma dívida. de nos precatar contra uma invasão tanto mais aniquiladora quanto menos fossem os recursos para a luta. . Querendo levar a efeito obra verdadeiramente pessoal. que o aplicava à ciência social. A verdade é a antepassada de todos os homens. julgo eu. A afirmação é porventura um pouco absoluta. seria o calco dum livro. O pensamento reflecte o homem. não apenas substituto. os franceses deitam-lhe fogo>>. O nosso modelo está no pensamento criador.56 nosso uso toda a ciência. reverte sobre nós. que não para as nossas páginas. quereria encontrar no livro um ponto de partida sugestivo. é um facto espiritual incomparável. mas o fogo vale incontestavelmente mais do que a lenha. trabalhemos entre a verdade e nós. à semelhança. entradas para penetrar em novos domínios. O que não gera não é: oxalá a leitura me permita gerar pensamento.

sobretudo os cristãos. o que. Todos os mestres são unânimes em afirmar que sobrecarregar a memória prejudica o pensamento e a atenção. ocasionalmente. responder ao vosso fim. Quando S. eis a memória útil. porém. os mais deles tinham-na medíocre e precisavam de recorrer a expedientes para suprir em deficiência. que o não parecem e que de facto o não são. podemos supri-la sem grave prejuízo. na mesma medida e com a mesma concentração que ele. Confiai à vossa o que é bem. buscá-las-eis. S. Prevenimos o intelectual contra o abuso das leituras. sob pretexto de ter de tomar um comboio. ou a de Mozart. se a memória não arquivasse nem apresentasse. de sorte que se especialize como o espírito. Cada qual deve empenhar-se em manter bem vivido na memória e disponível para a primeira requisição o que constitui a base do trabalho. o que possa assimilar-se à vossa alma. em igualdade de circunstâncias. que constituem a própria especialidade. vivificar a vossa inspiração e suster a vossa obra. sim. com a condição. sem as quais ficaremos aquém da nossa missão e daremos aso a que nos qualifiquem de ignorantes e inertes. O resto. o alimento excessivo envenena. a graça de Pascal. precisamos de subentender alguma coisa. O espírito afoga-se na massa dos materiais. Tomás parece dizer o contrário nos Dezasseis Preceitos: <<Arquiva no escrínio do espírito tudo o que puderes. o que pudermos. imagens. O resto ir-se-á adquirindo consoante o exigir a tarefa empreendida. os elementos úteis à obra e ao trabalho do espírito. Não concluamos que se deve exercer a memória sem discernimento e sobrecarregá-la de noções. B – A ORGANIZAÇÃO DA MEMÓRIA I – Que se deve reter? De nada serviria adquirir pela leitura. decora a Guia dos Caminhos de Ferro? Dizia Pascal que não julgava ter-se esquecido duma coisa que tivesse querido reter. como debaixo da mesma reserva lemos tudo o que podemos. sem pressa . o peso morto oprime o vivo. tanto melhor. Embora. outros pelo contrário. Tomás <<que de nada se esquecia>>. quantas <<bibliotecas vivas>>. como quem quer encher um vaso>>. factos. define ao mesmo tempo a memória feliz. Há coisas que todos devem saber. a memória ampla e tenaz é recurso precioso. o papel vo-las apresentar sem custo. é armazenar aquisições. <<quantos dicionários ambulantes>>. há-as que um intelectual não pode ignorar.57 e respeitemos no homem a Deus. quanto maior for a diligência e menor a demora. todavia é certo que. e seria mesmo impossível reter. Quantos pretensos eruditos de espírito falso e inerte. há outras que se referem à especialidade por laços mais ou menos apertados e que cada qual sentirá a necessidade de possuir conforme o espírito de amplidão ou de estreiteza que lhes aplicar. enfim. o que fica sem emprego atravanca-o e paraliza-o. não há motivo para as reter todas ao acaso. para depois nos lembrarmos. Agostinho define a felicidade <<não desejar senão o bem e ter tudo o que se deseja>>. a de S. textos a esmo. esquecei-o. Arquivai o que possa ajudar a conceber ou a executar. ordinariamente. depois duma só audição. semelhante graça não é necessária. servimo-nos da memória para viver. com a condição de só querer reter o que serve. de que seja útil. uma missa solene. que restituía por inteiro. há-as. Neste particular. Qual o viajante que. em tempo oportuno. repito. Génios houve dotados de memória prodigiosa. Mas. e rogai a Deus que vos outorgue. os espíritos eminentes da sua profissão conhecem. os inconvenientes ali apontados conservam aqui todo o valor. Arquive-mos. sejam úteis muitas coisas. Mas para compreender o significado desta máxima. que são disso a prova! Não vivemos da memória. se lhe aprouver. Uma regra capital consiste em introduzir a memória na corrente da vida intelectual em levá-la a tomar parte na vocação. por este motivo. Se for preciso. das quais não nos é lícito separar as vantagens ou os inconvenientes. Não podemos classificar os mestres segundo este dom. uma vez que decorar.

Assim aligeirado e bem regulado. e não consegue completar nem socorrer. ao qual a memória tem de se adaptar. É uma maneira de consagrar a nossa comum vocação celestial e de facilitar o esforço para o bem. sem se demorar nas bagatelas que talvez para outro ( 1) Op. o Te Deum. do mesmo modo que a leitura. e não um acervo de farrapos. Cabeça bem feita é árvore genealógica. agrupamentos e hierarquias de valor. se as noções primeiras. e o coração do exercício efectuado pelos membros. como a figueira do Evangelho. A memória intelectual deve revestir-se dos caracteres da intelectualidade. de sorte que esta coordenação. É preciso referir tudo ao essencial. a se desenvolverem por ocasião de cada progresso. 261 . -. A ciência é conhecimento pelas causas. eis o que sustém a memória e a torna eficaz quando ela tem de intervir. Cinquenta dados não valem mais do que um. onde os ramos se prendem ao tronco e pelo tronco comunicam entre si: aí se revelam claramente os parentescos em todos os graus. quando dela resulta estímulo para a sua fé. com a diferença que um trabalho particular é vocação de momento e a vocação um trabalho de dura.58 nem inquietação. como o cérebro se aproveita do que o estômago recebe. exprimindo uma descendência em todas as suas relações e no seu conjunto. que os pensamentos estejam em ordem e comuniquem entre si. De nada serve adquirir miríades de noções. Há quem seja capaz de declamar trechos de Vergílio. na memória como no pensamento. é mister que estejam abertos os caminhos da claridade. quando ordenados em relação a uma ideia. o simples. de Musset e que se veria em sérios apuros para recitar um salmo. sem afinidades precisas. convém pensar na ordem. algumas fórmulas cheias de seiva cristã. de Racine. Ser-lhe-ia de grande proveito repetir. por assim dizer. de si para consigo. o fundamental. O que se grava no espírito por meio da memória opera nele mais intensamente. um só. se estabeleça na vossa memória. as ideias antigas. o espírito poderá dedicar-se às suas obras com todas as forças. irá em linha recta ao alvo. o que condiciona isto e aquilo. donde sai o complexo por escalões e diferenças sucessivas. a manter no seu posto. esmigalhados. não encontra lugar numa organização. prestes a iluminar tudo o que se vos oferece. Materiais abandonados transfiguram-se. a fixação partirá duma ideia preconcebida. O inútil que se anicha no caos. a Salve Rainha. Um pensamento novo actua retrospectivamente. estejam elas presentes ao primeiro apelo.como dissemos que as buscásseis antes de tudo – as ideias mestras. A hierarquia policiase a si própria. Ou servir ou abandonar o lugar! É ridículo o esforço de alguém ou de alguma coisa para invadir um dispositivo onde não é previsto. Num e noutro caso. um archote alumia também para trás.cit. ao passo que a experiência só vale pelas suas conexões. Poucos são os que hoje compreendem tais conselhos. ora esta não se satisfaz com noções discordantes. Regulada a ordem interior. Nicole sugere ao cristão que <<aprenda de cor alguns salmos e sentenças da Sagrada Escritura. defender-nos-emos quase automaticamente contra o agravamento do trabalho e verificaremos que dois preceitos na aparência distintos são. em vez de se enriquecerem graças às dependências que a memória manifesta. Armazenar em montão é inutilizar tudo e condenar-se a rememorar ao acaso. um católico deve desejar que esta acção se efectue no máximo grau. Para isso. de quando em quando no decurso do dia. esbarram nela como em obstáculo e agravam assim a sua ruinosa solidão. são infecundos e. A memória não deve ser caos. se não exprimem a mesma profunda relação. a despeito de novas contribuições. Buscai sempre o que prende isto àquilo. Conservai. Então tudo se recria em nós e toma vida nova. O primordial. ocupam a terra em vão. ou rezar o Angelus. antes de tudo. o Maguinicat. pág. a fim de santificar a memória>>(1). Há nisso evidentemente desordem.. II – Por que ordem reter? Depois de regulada a quantidade do conteúdo.

e mais. de sorte que possais repetir o que lestes ou ouvistes. Este começou por se espantar da leviandade aparente do <<parisiense>>. pouco depois. lect. 2ª aplicar a isso o espírito. De Memória et Reminiscentia. É muito difícil encaixar na mente uma sucessão de palavras. o é da sua substância. que a seguir se recomenda. 4ª no acto de reminiscência. Só se conserva o que é. a lâmpada do santuário. Cada verdade é aurora de outra verdade. ficou compreendendo. observai a genealogia dos acontecimentos. separado de elementos conexos. Há. aprender em seguida e introduzir no espírito. Quanto mais ardente for a atenção. é assegurar a coesão do todo. porque estas últimas constituem objecto próprio do intelecto e por si pertencem à memória. como que em voz alta. em cada matéria. e a lógica do adquirido tende a prolongar-se em novas contribuições. que são chaves universais. tem por fim reforçar o misterioso buril que traça em nós a figura das palavras e das coisas. Se quereis reter. embora isso dependa das mais profundas condições da vida mental. de números. Tomás: 1ª ordenar o que se quer reter. partindo do axioma. a vida cresce. O ambiente da ciência é o cosmos. o que mergulha no seu meio. analisai. não anéis a esmo. mais o buril cava e melhor os sulcos resistirão ao fluxo permanente que tende a substituir as ideias como a morte substitui os seres. consultou primeiro o grande entomólogo Henrique Fabre. Não é segredo. e um elemento. A faculdade criadora depende. afogar-se-iam no seu isolamento e depressa se sumiriam. Já focámos a importância da ordem sob outro aspecto. a vantagem de ligar a memória das coisas intelectuais à das coisas sensíveis. sucede o mesmo que a uma raiz que mergulha na terra: a substância trabalha. como acessório. pela ordem com que o fixastes. que o resto seguir-se-lhe-á (1). dar-se-á àquele que tem e ele abundará. mas. chega às mais longínquas conclusões. só se empresta aos ricos. 2. certas ideias dominantes. não o fecheis sem que o possais resumir e ( ( 1) 2) De Memória et Reminiscentia. por sua vez. concentrai-vos e estai presentes a vós próprios. . porque a adaptação do ser vivo ao ambiente é a condição única de fecundidade. III – Como reter? Falta dizer como se adquire uma memória assim qualificada. todas as águas vão dar ao mar. de ideias ou de elementos desconexos. o qual. tarde elogiava aquela simplicidade genial. repeti no intimo. uma vez lá metidos. Os pensamentos servem de isca aos pensamentos. é mister e basta que estabeleça em si. e é diante delas que se deve acender. graças à memória. e a maneira de a utilizar. São quatro as regras propostas por S. O que se apoia a sua razão de ser. tomar pela extremidade a cadeia das dependências. o que diz Cícero. ao princípio. atendei is ligações e às razões das coisas. A união faz a força. é primeiramente organização. uma estrutura correspondente que lhe permita adaptar-se e desse modo agir. da sabedoria e da sobriedade da memória. há-as que também governam a vida. 5. Quando ledes ou escutais com o intuito de aprender. Quando Pasteur se dirigiu ao sul da França pari atacar e vencer em pouco tempo o mal que ameaçava a sericicultura francesa. Compreender a fundo. estrutura: para que o homem de estudo progrida. mas uma corrente. dentro dos corações. uma série faz corpo e defende-se. em grande parte. enquanto as outras só indirectamente(2). ignorava os hábitos do bicho da seda.59 possam constituir a principal ocupação. imitai a ordem matemática. martelai-o em sílabas. declara o Evangelho. só é a meias. A aplicação do espírito. os filamentos desdobram-se e arrecadam os sucos. no que respeita à fixação das recordações. como. onde a necessidade. e quando a ordem interior se oferece à experiência. 3ª meditar nisso com frequência. reparando que Pasteur investigava a sério e examinava as próprias fontes da vida. O aferrar-se ao essencial mantém abertas para fora todas as perspectivas. procurai os porquês. a saber. Tratando-se dum livro. pode cada qual invocar a experiência pessoal. as sucessões e dependências. Pelo contrário. toda a possibilidade procura realizar-se. Acrescenta ainda. lect. corre menos o risco de dispersão. o que se vos diz.

não é tanto o número das aquisições. do livro analisado ou do trabalho executado. Depois disto. fica. <<memória de papel>>. a tempo. sem a penetração. remontando ou voltando a descer as séries instituídas. explorarei a vizinhança. se esta se decidir a criar laços ou pontos de contacto entre as noções confiadas à memória. a emoção em face da verdade. tratando-se de encontrar a recordação e de repor em actividade as imagens antigas. aconselham-nos que nos apoiemos ima vez mais no facto das dependências mútuas entre os pensamentos e as impressões. agarrado à pessoa. Os materiais não faltam ao pensamento. como dizia Montaigne. isto é. e por diversas tentativas tratarei de encontrar o que sei estar ligado com este ou aquele dos seus elementos. – AS NOTAS I – Como tomar notas. mas sei que me encontrava então em tal lugar. porque o objecto. por assim dizer. Se o fizemos. e a extremidade da corrente. Aprender não é nada. despertarei a impressão do lugar. Somos obrigados a repetir-nos muitas vezes. C. do sempre novo. ou que isto se prendia com determinado conjunto de operações intelectuais. da missão a desempenhar. a propósito das leituras. por isso se exige o sossego da vida e a calma das paixões para o bom uso da memória como para as demais funções intelectuais. quanto puderdes e quanto ele o merecer. das circunstancias. sem a assimilação da inteligência. Em tudo isto temos apenas um fim em vista: completar para poder realizar. Tomás chama puxar pela corrente. com determinado aspecto da minha vocação. Leia-se relativamente pouco. sem a progressiva unidade duma alma rica e regulada. a faculdade da admiração. é o pensamento que falta aos materiais. que ele aconselha a puxar. Portanto não busquemos ao acaso num todo que não se formou ao acaso. se tivéssemos de nos fiar na memória para guardar intacto e prestes a servir o que . espécie de memória exterior a nós.60 apreciar. que provocou intervenção activa da nossa parte. em seguida a sua ordem e finalmente a habilidade do seu emprego. A natureza toma isso a seu cargo. As notas. é a arquitectura. para o acto rememorativo. Exemplo: lembro-me de ter pensado num plano de estudo. e nunca haveis de carecer de recordações. por isso nos aconselham a burilar fortemente. da memória e das notas. Digo isto. a não poupar a água-forte. aliviá-la e socorrê-la no trabalho em medida aliás difícil de assinalar. que serviu de base à constituição da memória. invocando a contiguidade das ideias. reconduzindo à força para o centro da consciência o que a atenção fixara e armazenara conforme as suas leis. numa palavra. a atenção ardente. Em resumo. foge mais dificilmente. A agitação do espírito opõe-se a este trabalho. por assim dizer. o objecto a preservar do esquecimento. mesmo contra nossa vontade. ou que falava com tal amigo. procedamos logicamente. Concorrem igualmente. Verificando que os rastos se desfazem apesar de tudo. o zelo da investigação. Tudo se encadeia mais ou menos no cérebro. quanto. sem o encadeamento. por conseguinte. uma só. da sociedade amiga. A vida apaga os rastos da vida. este plano escapa-me. do conjunto ideológico. Ai de nós. O interessante não é a oficina. Para retomar a ideia desvanecida. a juventude de alma em face da natureza e da vida. Enfim. o que importa à memória. a revivificar constantemente os pensamentos úteis e a reanimar os factos que queremos conservar à mão. Retém-se mais facilmente o que prendeu a atenção. é sobretudo o espirito do habitante. retenha-se ainda menos. como ela se nos apresenta ou como a encaramos no ponto de partida. o mesmo motivo nos convida a repassar o buril pelos cortes. é a que se mostra mais imediatamente em dependência do que buscamos. Partindo dai. uma obra. primeiramente a sua qualidade. É o que S. mas podem alargar-se mais do que a recordação. Tende a inspiração elevada. devem reduzir-se enormemente com relação às leituras. supri-la e. ponto de partida dos arranques vigorosos para as fecundas criações ou para a investigação. utilizando a lógica das coisas. meditai. ou ainda que o projecto se inspirara numa leitura anterior ou fora exigido por trabalhos anteriores. É um motivo a mais para o intelectual cultivar o sentimento do novo. retirará daí imenso lucro. é que estas três coisas constituem. talvez exageradamente.

Uma vez mais. Há muitas coisas belas nos livros: ireis acaso copiar toda a biblioteca nacional? Ninguém compra um casaco só por ser bonito. e um móvel. as notas são reserva alimentar e pessoal. são muito diversas as práticas. textos ou estatísticas. o ficheiro. Tomai notas com reflexão e sobriedade. que uma espécie de desânimo antecipado os impede de os abrir. todavia. Trata-se de nos completarmos. como a produção apresenta carácter definido. Neste particular. Esses pretensos tesouros custaram muito tempo e trabalho e não rendem nada. factos. Pelo contrário. corresponder aos nossos fins e à forma dos gestos pelos quais podemos e queremos utilizá-los. Reflicto-me nas minhas obras: devo reflectir-me nos meus meios. Com calma e a distância. as notas. deve igualmente estar muito perto do intelectual do que ele deve e quer ser. capazes de tornarem a servir: anotai-os. só os quadros da especialidade e o acerto na leitura reduzirão a dose do acaso. que se tomam fossem não somente adaptadas a vós. tomais notas depois dum trabalho de espírito enérgico e de feição pessoal. ser da nossa espécie. apreciareis as colheitas e só encelareis o bom grão. mas vossas. mas porque lhe serve. é lá que está o seu Haver. A primeira categoria de notas será um pouco fortuita. a utilidade. muitas vezes permaneceria com vantagem nos volumes donde foram extraídos. ledes o que se publicou sobre a matéria. regras comuns e regras particulares. há. se é que soube adaptá-los uns aos outros e a mim próprio. de nos armarmos com panóplia à nossa medida. A memória é infiel. Leituras. notas. mas as suas classificações são caprichosas e instáveis. Em ambos os casos. correspondentes à preparação remota ou preparação próxima do trabalho. pelo menos em parte. factos. mas também quando . se nem o seu estilo nem o seu tamanho se adaptam ao quarto para onde o quereis levar. O facto de uma coisa ser boa e bela. Melhor ainda. regras gerais que convém relembrar. que oferecem. muito de eventual se introduz nas notas dessa categorias. Nós seremos o caixa. de nos mobilarmos. bastando uma breve referência para substituir páginas fastidiosas. não ordeneis definitivamente senão depois de certo prazo. tendo de estudar um assunto determinado. mas estarão ao menos em lugar seguro e à ordem. seguem de perto o objecto visado e formam um todo mais ou menos orgânico. sempre de caneta na não. que se admirou numa loja de antiquário. com excepção dos documentos propriamente ditos. recorreis a todas es fontes de informação de que podeis dispor e reflectis por vós próprios. Como sempre advogamos os alargamentos. portanto assemelhar-se a nós. é preferível que lá fique. A solução é o caderno de notas ou o ficheiro. quando tomais notas com o intuito de produzir. conforme as necessidades da batalha que se deve travar. e esta conta há-de corresponder por um lado ao possuidor e por outro à despesa presumida.61 encontramos ou descobrimos no decurso da vida de estudo. Precisamos de organizar reservas. procurais documentar-vos. depositar as economias no banco onde elas não produzirão. não é motivo para a escrever. Ledes ou meditais para formação e alimento do espirito: apresentam-se ideias que se vos afiguram dignas de registo. Evitai o capricho em tudo. Opomo-nos a que a sobrecarreguem e a que se atravanque o espírito. preferimos a liberdade da alma a uma abastança indigesta. o efeito de preocupações passageiras e também os entusiasmos causados às vezes por uma palavra sugestiva. quase que não obedece ao apelo. Para encontrar no momento oportuno a lembrança desejada. enterra. precisa teoricamente. lembrança. seria para desejar que. seria preciso um domínio de si próprio que nenhum mortal possui. também as notas se definem. é certo. tudo isto deve completar-nos. Para evitar as surpresas do primeiro momento. Há pessoas que possuem cadernos tão recheados e tão numerosos. e isto não só quando emanam das vossas reflexões. da nossa vocação. são os cadernos e os ficheiros que nos valem. indicações diversas. O livro de contas informa o comerciante acerca do teor de vida e dos fins que tem em vista: o registo de notas. Podemos distinguir duas espécies de notas. Há. da nossa missão. a memória classifica à sua maneira e nós tentamos ajudá-la nessa tarefa. e. para nos inspirarmos nelas. para estes dois grupos de notas. Como a vida é complexa e o espírito fugaz. perde. Por outro lado. Obstrui-os uma multidão de nãovalores. e a lembrança uma posse que enriquecendo a pessoa faz corpo com ela. Como a leitura é nutrição. de realizar uma produção. Demais a mais. nenhum juro. evite-se o excesso e a acumulação de materiais que só servem de afogar e se tornam inutilizáveis. Num caso como noutro.

notas de inspiração. mencionais os termos preciosos. Deste modo. notas de estudo. Depois que pensastes ter esgotado a matéria. Daqui a pouco falaremos da construção. não com o intuito de a completar. As outras notas.62 procedem duma leitura. fixais as ideias para desenvolver. a leitura inteligente é uma resposta possível à questão posta em nós pelo assunto a tratar. O escritor é o que concebe. tem a vantagem de vos entregar mais à inspiração. porém. e convém ajuntar o que segue. como Pascal quando escreve antes dum fragmento: Ordem. no espírito. outros talhados provisoriamente. além disso. uma vez estabelecido o plano. pode-se acabar uma obra sem a começar. onde se prevê a possibilidade de diversas combinações. tende só presente o vosso objectivo. reclama todo o vosso ser. neste momento. traçai. Do mesmo modo. com a mira num trabalho. a matéria. que se apresentam. e eu concebo igualmente o que assimilo em profundidade. Nada mais de essencial há que dizer a respeito das notas que se tomam de longe. precisa. de acaso. Atrevo-me a dizer. que seja como o crivo que só retém o bom grão. pelo facto de encontrardes algo de positivo. e que o é. Leio e. se elas vos ocorrerem. Declarava Cláudio Bernard que uma observação cientifica é a resposta a uma questão que o espírito se propõe. terão por vezes o carácter de feliz achado. diferir. não somente a pessoa e a vocação. sem talvez terdes que lá meter de original. a despeito do que estas palavras comportem de desagradável e de contra-indicado em quase todos os casos: ponde uma venda nos olhos. por vezes redigis uma passagem inteira. pois já se esboça nelas o plano em estado latente. cujos frutos recolhereis nos momentos que qualificamos de plenitude. para melhor vos concentrardes naquilo que. Este último processo. lendo e reflectindo em obediência a directivas tomadas. sistema de compartimentos que sois obrigados a encher. operais sondagens que não deixam ponto por explorar: acodem-vos ideias e anotai-las. sem que preciseis de efectuar pesquisas demasiadas. o que faço meu: por conseguinte sou também. lendo. acaso muito diferente. informes uns. as comparações felizes. esperar a inspiração e trabalhar em boa disposição. nessa altura o escritor das minhas concepções e ponho-as de parte como riqueza pessoal. vincando apenas as suas características. as notas determinam-lhe o valor. e nós dizíamos que o que se toma de empréstimo se pode tornar nosso a ponto de não diferir duma criação. Tendes um assunto determinado: pensai nele fortemente. que parece o menos lógico. Também a leitura deve ser reflectida. sem constrangimento mental. ou começareis pela documentação. mas a aplicação actual de uma e outra. As melhores serão as que o estudo aturado convida a ceifar e a enceleirar . representam um trabalho rendoso. Pedíamos que o modo de notação fosse pessoal isto é. como dizem os arquitectos. Ou estabeleceis um plano pormenorizado e só depois vos documentareis. mas sem plano propriamente dito. e o meu ideal é que isso seja verdade. voltar. sem escaparem à obrigação do esforço. mis porque brota dum jacto e porque a inspiração é como a graça que passa e não volta. mas escrevo o que penso em contacto com outrem. de espontâneo. a vaga dos viajantes por onde se escoa um amigo. precisamos de reforçar a aplicação das nossas regras. escrevo. mas desde já se vê que o plano vai sair dos materiais e não os materiais do plano. o que me esforço por aprender. Neste caso torneais o assunto. de vos manter alegre. um plano de gaveta. em relação exacta com o escritor. à saída duma estação. de estar em relação rigorosa com a obra a realizar. pondes de parte os documentos a utilizar na íntegra. e segundo ele tomareis esta e aquela nota que irão encher os ficheiros. já está circunscrita e. e de que não será portanto um esquema arbitrário. abstractamente considerado. um plano provisório de orientação das leituras e reflexões. os materiais enchem o estaleiro. a ideias vossas. encarai-lo sob todos os aspectos. como se acompanha com o olhar. mesmo quando transcrevo textualmente. após as quais não correis. De perto. estais seguros de que corresponde a uma concepção real. por compreender no sentido completo da palavra. não esperando expressar melhor o pensamento comum. mais do que o pensar de outrem. e por vos facilitar ir. Não vos distraias nem vos demoreis. isto é. sem atentar no do autor. que tome em consideração. As notas assim compreendidas. e que na realidade só se encontra o que se procura. esta preparado o trabalho. de vivo. Por conseguinte fazei que a leitura seja cada vez mais tendenciosa. portanto é mister ler com um sentimento de expectativa.

se elas hão-de ficar enterradas como tesouro que nunca se utilizará. Desconfiai da mania de coleccionar. Se temeis a complicação que todos os sistemas mais ou menos oferecem. mas não permitem uma classificação e demais a mais são de consulta incómoda. II – Como classificar as notas. trabalho este que um encadernador ou impressor executará em poucos minutos. na cama. é muito defeituoso. com divisões e subdivisões. aliás. em vez de utilizar as notas. para numerar visivelmente as diversas categorias de notas. por não permitir classificar. As fichas serão cortadas muito exactamente. não vos esqueçais de apor a cada divisão e subdivisão uma letra ou número de ordem. Mas o método mais prático para a maior parte dos trabalhadores parece ser o método das fichas ou verbetes. vendendo fichas de todos os formatos. dum móvel com gavetas de dimensão apropriada. Classificar supõe que se adoptou um modo de classificação de acordo com o género de trabalhos que se traz em mãos. Nisto. ao menos um número de ordem correspondente a um índice de matérias que o trabalhador terá sempre à mão. A ordem é uma necessidade. quem desejar informações sobre ele. Como classificar as notas? Os homens célebres adoptaram sistemas deferentes. Um sistema muito engenhoso. quando vos aprouver. em completar. poderá colocar-se num armário. valei-vos da própria experiência. onde se encerrem as notas relativas ao mesmo assunto. cada qual com seu titulo. com a condição de poderdes folhear. ou. Na indústria. leia a interessante brochura do Dr. a ordem é dinheiro. que frequentemente se apossa dos que tomam notas. Quando tomais uma nota no decurso duma leitura. como aliás em tudo o mais. É prática detestável. só de um lado. num pedaço de papel. de formato uniforme regulado pela extensão média das vossas notas. De todos o melhor é o que se tiver experimentado e confrontado com as necessidades e hábitos intelectuais de cada qual e o que estiver consagrado por longa prática. se tiverdes um catálogo de matérias. e que. escrevei-a numa ficha. na guilhotina. etc. é preciso ser realista e não perder o tempo em estabelecer divisões a priori. as papelarias vos poupam. Não há inconveniente em continuar numa segunda ficha a nota começada na primeira. e empilham textos com o mesmo afã com que se recheiam álbuns de selos ou de postais ilustrados. corre-se o risco de vir a ser maníaco. Mas. sem custo as encontrareis na hora do trabalho. dão-se pressa em preencher os vácuos. Aqui só podemos der indicações gerais. Assentes estes preliminares. e cada armário terá do lado de fora se não o título. se quiserdes coleccionar muitas notas. embora deixemos espaços em banco. é pensamento. um catálogo de matérias. a não ser que adieis o trabalho de classificação. ora. Podemos ter pastas de cartolina. mas é ela que tem de nos servir e não nós a ela. Cada qual deve formar. é distrair-se de produzir e mesmo de aprender. Registos diferentes para cada assunto corrigem em pane esse inconveniente. chamado sistema decimal. cumpre classificálas. e quanto dinheiro! Na ciência. sendo possível. Querem encher cadernos ou ficheiros. em conformidade com as notas que pretende tomar. precisais de caixas. que de nada serviriam. é aplicável a todo o género de investigações. O sistema de registo.63 como a riqueza duma vida. Uma colecção destas pastas. de todas as cores. gasta-se o tempo em classificá-las. Com efeito. se a não tendes à mão. Uma vez ordenadas. . sobre o qual se escrevem ou colam em fila as notas. vejamos como haveis de proceder. É bom guardar o rasto das leituras e das reflexões e copiar documentos. Tomadas as notas e supondo que são de molde para servirem mais tarde.. o autor preferido e também de vos poderdes folhear a vós. se é que ela vos tem dado resultados. É inútil tomar notas. A organização do trabalho intelectual. e também as caixas e acessórios indispensáveis. Precisais também de fichas classificadoras. recai-se assim na puerilidade. e cuidareis de a classificar logo em seguida. tudo aqui se deve subordinar ao bem do trabalho. reflectindo num trabalho. Chavigny. Obstinar-se em acumular. Adquiri fichas de papel bastante consistente. que facilite a matrícula das fichas. correspondendo a um título mais geral.

Se tendes um plano pormenorizado e se de acordo com ele constituístes ou recolhestes as notas. sendo necessário. Para isso procedei do seguinte modo: Tendes as fichas em desordem. e a redacção está preparada. Eis-vos chegados ao momento de utilizar a documentação. fácil de corrigir as vezes que se quiser. recopiai o que escrevestes pela ordem obtida. numerai a lápis e ao de leve. como há pouco dissemos. tendo em conta as suas relações e dependências: focai mentalmente as ideias mestras e agrupai à volta delas as restantes. quanto possível. de reserva as notas antigas que a ela se referem mais ou menos directamente. Juntai tudo. mas por simples directivas. para esse efeito. duas vias se abrem diante de nós. e nada mais tereis de fazer senão ir estendendo diante de vós. caso as notas hajam de tornar a servir. referindo-vos. Concluída a operação. preparastes a vossa obra sem plano determinado. tomai-as uma a uma e inscrevei num linguado o conteúdo de cada uma com o menor número de palavras possível. classificai e empacotai. servi-vos duma numeração marginal das fichas. as fichas que lhe dizem respeito.64 III – Como utilizar as notas. além disso. tendes diante de vós as ideias de que dispondes. Se. reuni num pacote as que se referem ao mesmo número. por conseguinte. classificai-os. apertai os pacotes com pinças. Em seguida. Depois disso. tirando-o da documentação. Fizestes a colheita das notas com o intuito da obra actual. Percorrei-as. fareis pesquisas suplementares. sucessivamente. tratai de os encher. numerai os artigos sucessivos desse plano. tendes. Distingui com um número as fichas correspondentes ao mesmo assunto. Se no plano de concatenação das ideias ainda houver espaços em branco. . ao catálogo e às indicações que ele vos dá. pelo contrário. começai agora por estabelecer o plano. o conteúdo de cada pacote para o trabalho da redacção.

formar. Não podemos passar a vida só a aprender e a preparar. quando diante de Pascal.65 CAPÍTULO VIII . para a maior parte. Em todas as coisas. para determinar melhor os pensamentos. para ousar dizer como se escreve. a minha <<pena>>. os louvores merecidos animam-no. Pelo menos ficamos conhecendo o ideal a que visamos e não alcançamos. para estimular as pesquisas necessárias para levar a cabo a produção. escrevendo. cresce e fortificase. é ouvir a alma e. O pássaro sabe muito bem quando há-de lançar-se no espaço. que corre. se resume em três palavras. individualidade. disposição do cérebro animado. Montaigne. Escrevei e publicai. Falar. Podem-se explicar as qualidades do estilo em tantos artigos quantos se quiser. Devem tomar-se em consideração as disposições pessoais. o mutismo diminui a personalidade. desempenha o papel do treinador nos jogos desportivos. o vosso verbo. falar solitária e silenciosamente por meio de escrita. se sofreu a influência dum estilo superior. para suster e avivar a atenção que depressa esmorece se não for instigada pela acção. É o que sucede quando caímos no artificial no convencional. A arte de escrever. Seria prudente não escrever. desde que juizes competentes vos julguem capazes disso e desde que vos sintais aptos para voar. creio eu. ser-lhe-á. enfim para formar o estilo e adquirir um valor que completa todos os outros valores: a arte de escrever. nela a verdade. melhor do que ele o sabe a mãe. O meu <<estilo>>. que se exerce. Toda obra é manancial. a não ser que se prefira sintetizar nesta única frase: escrever verdade. Quem não produz. é ouvir-se e sentir a verdade com a frescura de sensação dum homem matinal que ausculta a natureza logo ao despontar do dia. voai logo que puderdes. Escrever por um lado. Escrevemos primeiramente para nós. A humildade não oferece dificuldade. O estilo é verdadeiro quando corresponde a uma necessidade do pensamento e quando se mantém em contacto íntimo com as coisas. La Fontaine. Além de que. por assim dizer. as críticas fiscalizam-no. O discurso é acto de vida: não deve representar um corte na vida. vinco interior. em vez da estagnação que pode resultar do perpétuo silêncio. habitua-se à passividade. é ofender o verbo e a harmoniosa unidade humana. é o instrumento espiritual de que me sirvo para me dizer e dizer a outrem o que ouso da verdade eterna. aprender e preparar exigem uma dose de preparação: para encontrar um caminho é preciso enveredar por ele. O estilo forma-se. Bossuet. simplicidade. sou eu envolvido de certo modo. É preciso escrever ao longo da vida intelectual. apoiado em vós e numa prudente maternidade espiritual. intelectualmente. O P. A paternidade espiritual é sementeira de bens. é qualidade do meu ser. disse Aristóteles. Chegou o momento de realizar. <<O estilo é o homem>>. Bergson diria no tout fait. pensar explicitamente. . cansamo-nos de esperar. tornamo-nos improdutivos. para reanimar o esforço que se cansaria não vendo os resultados. dissemos. porém. Se quereis ser alguém. A vida decorre em círculo. mas é certo que.O trabalho criador I – Escrever. Chegou a ocasião de dizer em breves palavras o que deve ser o estilo para corresponder aos fins sugeridos aqui ao intelectual. para ver claro nos nossos casos. a pena. dentro e fora de vós. tudo. verdade. Quer que se medite sempre com a pena na mão e que a hora pura da madrugada seja consagrada a este contacto do espírito consigo próprio. Órgão. é preciso começar: <<o começo é mais que metade duma coisa>>. imposto o progresso. recuamos. Gratry insiste muito na eficácia da escrita. isto é. o medo de orgulho – porque o orgulho também gera o medo – ou a timidez aumentam mais e mais. exige a longa e precoce aplicação que paulatinamente se converte em hábito mental e constitui o que se chama o estilo. O contacto com o público obriga o escritor a constante trabalho de aperfeiçoamento. e por outro viver vida espontânea e sincera. precisais de saber pensar alto. órgão fortificado exerce-se mais vigorosamente.

de facto. no íntimo delas. temos de utilizar sempre a sintaxe <<em plena consciência>>. Como observa Paulo Valéry. esses intrusos. A pessoa orgulhosa e perturbadora estará ausente de semelhante discurso. Mostrá-lo tal qual é. vãos ouropéis que tomam o lugar do autêntico ouro. esses maçadores. O ouvinte é homem. das coisas que só se pensam literariamente. Régis Michaud. e escrever verdade. Quem assim escreve. Por isso o segredo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas. o lugar de transcrição directa e imediata da ideia. evitando certos efeitos que espontaneamente se ingerem esperando a vez de se fazerem valer. <<Olha para o teu coração e escreve>>. Paris. Para obedecer às leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou. para a humanidade. se é que possui o talento de pronunciar uma palavra verídica. acrescenta o mesmo autor. suscitará interesse inesgotável. fala. se a circunstância extrai do nosso íntimo o que de lá brotaria igualmente por si. é revelar o que é.66 O <<discurso de circunstância>> é o tipo das coisas que se dizem porque é preciso dizê-las. e temos exemplos de sobra em Demóstenes e Bossuet. quando se trata de intercâmbio entre a verdade que fala dentro e a alma que escuta: rectidão que expõe sinceramente o que foi revelado na inspiração e não lhe acrescenta palavras inúteis. pag.. mas ocultamo-lo por detrás das generalidades adquiridas. o interesse do retrato. é a abnegação e a rectidão: abnegação que afasta a personalidade. O estilo. antes. olhai para fora e para dentro de vós e procurai sentir a correspondência entre a vossa personalidade e a de quem vos escuta. a um lote de expressões outrora novas e que já o não são por terem perdido o contacto com a realidade donde nasceram. logo o discursador não deve ser sombra. porém. Imitar é alienar o pensamento. Chamo molde a uma verdade antiga. <<Escrever como o orvalho se deposita sobre a folha e as estalactites se suspendem do tecto das grutas. Ora o nosso espírito é decerto muito mais original do que o rosto. O ouvinte mostra-nos uma alma que quer ser curada ou iluminada: não lhe propineis só palavras. mas depressa se desfará dele. porque pensar é conceber o que é. até que elas vos falem e determinem os termos que as devem exprimir. Colin. o que se prende com as opiniões pessoais. O discurso deve corresponder à verdade da vida. 640. Por isso o discurso de circunstância muito frequentemente não passa de discurso de ocasião. mas a personalidade da expressão só ganhará em nitidez e relevo. . Como a carne deriva do sangue. diz Sidney. e não enfiar frases. Semelhante pretensão é o motivo por que devemos apartar esses parasitas.>>. se. O rosto tira da espécie os seus caracteres gerais. que convém a um pensamento. então convencerei e. como a planta que provém da semente: tem arquitectura peculiar. escrever sem carácter é declará-lo vago ou pueril. daí vem. como a fibra lenhosa se forma da seiva>>(1): eis o ideal. A verdade do estilo afasta o molde. como para si só. sou árvore que oferece folhas e frutos suculentos. falada ou escrita. será a arte. por flutuarem no ar. é como o corpo que pertence à alma. Autobiographie. apoiando-nos nas aquisições que a todos pertencem. se me dou com plenitude. Enquanto desenrolais períodos. nem mesmo à maneira de si próprio. gastando com elas aquela eloquência de que a verdadeira eloquência zomba. mas sem nos esquecermos de nós. Edit. das alianças verbais que só representam velhos hábitos em vez de representarem amor. sem orgulho nem artifício. Nunca se deve escrever <<à maneira de. mas ostenta individualidade empolgante e incomunicável. ou por outra escrever de acordo com o pensamento. O som da verdade tem de ser ( 1) Emerson. aplicando-nos a articular com vigilância todos os elementos. A vida reconhece a vida. A virtude da palavra. mas só o é. O estilo superior consiste em descobrir os laços essenciais entre os elementos do pensamento. o automatismo gasta as línguas. Pode acontecer que seja genial. em parte. na qual a humanidade se possa reconhecer como sua inspiradora. deixarei o dardo cravado nas almas. Se me contento com entregar ao próximo um pedaço de papel impresso. Para quê ter maneira? A verdade não a tem afirma-se sempre nova. com o objecto das meditações habituais.. Para viver. talvez o próximo lance um olhar de curiosidade. O que sai de mim sem mim é necessariamente semelhante a mim. é único em toda a terra e em todos os séculos. e na arte de os exprimir com exclusão de qualquer balbucio acessório. a uma fórmula que passou para o uso comum. das frases tradicionais. como Péricles. O meu estilo é o meu rosto.

por seu turno. O seu papel não é brilhar. é economia no seio da riqueza. O estilo. e a folhagem tão grave como o ramo. Não quer dizer que não haja na natureza nada de brilhante. não pode ( 1) Gatry. hoje. Quem possuir o génio do estilo. os restantes são obrigados a adquiri-la laboriosamente. Ora. <<O belo corta o supérfluo>>. escreve Júlio Lachelier. II – Desapegar-se de si e do mundo. g. Não sejais escravos da moda. embora o não tivessem pretendido nem se tivessem julgado tais. Os floreados constituem ofensa para o pensamento. Les Sources. Por isso. que é o direito de quanto existe. expressai-o de sorte que todos vos compreendam. ao contrário do que sucede v. criam sistemas: ora um sistema é algo do artificial e o artificial ofende a beleza. em Van Dyck.>> Todo o instrumento tem timbre. Quem pensa na verdade. as faces simples. estilista em vez de escritor. e Delacroix releva neste artista <<os soberbos embutidos. que se firma na raiz. Uma vez que determinastes um pensamento ou sentimento. sustentado por substruções que nunca falham. Não proscrevemos o sentimento pessoal que tudo renova e glorifica. só há necessidades orgânicas. O estilo não é um fim. nada ao lado. Dai água de nascente. quem só é rimador em vez de ser poeta. é a inocente nudez que revela o esplendor das formas vivas: pensamento. imita as criações naturais. realidade. Nada de mais. os narizes sem minudências>>. Afaste-se a personalidade atravancadora e esqueça-se o mundo. procurando fazer das suas palavras e dos seus actos a expressão adequada da razão. tudo na curva pura que vai do germe ao germe. o que é ainda uma lição. a árvore. alia-se por vezes à nulidade. gasta o que é preciso. prodiga ali para a glória da verdade. reforça a impressão que o leitor. Daí brota a simplicidade. quando existe. é que a sua glória reluz. é rara a inocência do espírito. como S. a não ser que se empreguem como simples expediente para encobrir o vácuo da mentalidade do escritor. incomoda-os a própria riqueza e não sabem reduzir-se. Para a natureza. sobretudo. como os filamentos da raiz. da eliminação. Ora. como convém a um homem que fala a outros homens e procura atingir neles o que directa ou indirectamente é órgão de verdade. requer desapego. mas nela o brilhante é também orgânico. e dum modo mais geral o trabalho criador. receberá. Muitos escritores. o estilo. em Leonardo e.67 pessoal a cada um dos instrumentos. dizia Miguel Angelo. <<Os homens verdadeiramente superiores. poupa aqui. um trecho escrito devem ser como ramo vivo. João Evangelista não se fartava de incular: <<Amai-vos uns aos outros>>. A lei e os profetas. qual o ferreiro que se diverte em tornear volutas por prazer? O estilo exclui a inutilidade. como em Miguel Angelo. Cultivai a arte da omissão. No real não há floreados. não faz mais do que manifestar o germe onde se esconde a ideia da espécie. em vez de enfraquecer. pelo contrário. desvia-o e avilta-o o escritor que faz estilo só pelo estilo. criações e manifestações do Verbo. em Velasquez. do germe desabrochado no escritor ao germe que deve desabrochar no leitor e propagar a verdade ou a bondade humana. só duas espécies de espíritos parecem predispostos para a simplicidade: os de pequena envergadura e os génios. da simplificação: eis o segredo da força. . como o ferreiro é mestre na forja. que os mestres não se cansam de repetir. mas fazer aparecer: quando ele se apega. <<Um estilo completo é o que alcança todas as almas e todas as faculdades das almas>>(1). Mas nessa simplicidade não deve passar despercebida a firmeza de contornos. Amesquinha a verdade quem só se apega à <<forma>>. mas sim a vontade própria contrária ao reino da verdade. em matéria de estilo. Infelizmente. Todo escritor anseia ser mestre no estilo. Se a maneira é afectação. quando é de mão de mestre. a originalidade verdadeira é facto de verdade que. deve levá-lo à perfeição. foram todos originais. a flor é tão grave como o fruto. não drogas de farmácia. Uma frase. como a árvore. encontraram eles a forma particular de a exprimir.

desorienta as forças. Só assim nos engrandecemos verdadeiramente. Quem quer alguma coisa para seu proveito afasta a verdade: o Deus zeloso não será seu hóspede. deveria ser como o sinal que S. degenera. Consagrastesvos inteiramente à verdade: servi-a. o homem de vaidade. Em face deste fim sagrado. sentindo-nos pequenos. <<estamos certos que. ora. diz S. e tanto mais quanto menos nisso pensarmos. longe da personalidade efémera. resplandece a autêntica chama da verdade. dos anjos e de Deus. Todos estão expostos à vaidade. que é imortal. também não olhem donde lhes vem a verdade. o regime do trabalho servem apenas para obter uma fita roxa ou vermelha. assim virado do avesso. não vos sirvais dela. Todos os homens se apaixonam em determinados momentos. iludimos o próximo e iludimo-nos a nós. ao morrer. Semelhantes diligências só conseguem degradar o trabalho. é Cristo>>. toma a cor deles sem que nisso pensemos. quando afinal nada sabemos.. Uma forma de personalidade particularmente hostil ao trabalho é a hipocrisia que projecta a aparência de saber onde a sinceridade se confessaria ignorante. reservando-nos o triunfo só pelo efeito do interesse. diante da vossa obra. por pouco que nos elevemos na escala das ambições e descuremos o êxito actual. Paulo: eis aí uma vocação e uma certeza de acção vitoriosa. viver. mas o acolhimento que fazemos à verdade e o que lhe preparamos nas almas dos outros. <<Para mim.ser o homem de paixão. apegam-se sobretudo a minúsculos êxitos. o jornalista em apuros ou o deputado ignaro. Não se trata do que tiraremos da ciência. e. Não basta trabalhar só no domínio do pensamento: é preciso que o homem todo trabalhe. é corrigir o que se não pode ocultar à nossa miséria. poeta. nada menos eterno do que a pretensão ambiciosa. a pintura deles ao vai além da cimalha. é a verdade. por velarem a indigência mental sob a roupagem do palavriado. porque nele habita o espírito de verdade. que caminha. Mas apertar com a verdade para que se nos assemelhe é pôr no lugar dela. <<declaramos>>. Corneille interpretado por Talma transforma-se num <<não me viste?>>. . embora nem sempre obedecida. a história das sociedades. Pedro mártir. mas a paixão nunca deve ser senhora absoluta. >>. no candelabro do espírito. não deve. damos ares de grandes. teólogo. Creio nesse. mas o mal está em o trabalho ser vaidade. <<Não olheis donde vem a verdade. astrónomo. Quando se serve da nossa voz e do nosso espírito. que parece estarem apegados de alma e coração a uma obra. e não preocupações mesquinhas. no pensamento. traçava com o sangue da sua ferida: Credo. para o imenso e o universal. Mas o homem. viver. que pesam os pequenos cálculos egoístas? Muitos homens. Só se trabalha com plenitude em favor das causas pelas quais se aceita a morte. Só é verdadeiramente intelectual quem pode afirmar: Para mim. Claro está que o espírito. Este sublime desinteresse é o distintivo do ser superior. a falsa originalidade que há pouco reprovávamos a propósito do estilo. Querer dobrar a verdade à própria personalidade é orgulho insuportável que termina no ridículo. dizíamos. quando. é pensador emérito. em companhia dos astros. tender para esse objectivo. A inspiração não se compagina com o desejo. a ascensão das suas espécies. o homem de ambição ou de vã complacência. Que esperar no homem que pára em si? Eu espero naquele que se atira. mas do que lhe poderemos dar. É preciso trabalhar com espírito de eternidade. que se introduz no trabalho.. um violador efémero. A verdade é essencialmente impessoal. o escritor.68 deixar-se distrair por si próprio. disfarçamos a nossa insuficiência. que puser a mão na consciência. dizia S. O essencial não é o acolhimento feito às nossas palavras. fazer dele lei sempre aceite. <<afirmamos>>. A personalidade egoísta decresce sempre. O humilde suporte recebe também o seu quinhão de glória. reduz tudo. contamina tudo. Tomás: não olheis também a quem ela glorifica. devera confessar que também neste ponto cede constantemente ao orgulho. a poesia deles aspira ao <<caro Mestre>>. Quem segue sempre a direito. o resultado será sem igual. Estais preparados para morrer pela verdade? Tudo o que um autêntico amigo da verdade escreve. Outra tara consiste em buscar. inspirando-se na verdade e deixando a Deus a responsabilidade das consequências. em companhia das almas. A formação dos mundos. em companhia da humanidade individual e social. filósofo. tudo o que ele pensa. para se manifestar. Censuramos o plumitivo de ocasião. em companhia da matéria animada ou inanimada. nutri o desejo de que os leitores. Queremos ocultar o nosso segredo.

O homem maduro e nutrido de experiência. é um cobarde que sonha heróis.. O mundo perverso só ama. fazendo-nos esquecer a nós próprios. O intelectual pertence a todos e cumpre-lhe não o esquecer. Pela maioria das suas vozes proclama convenções. para que uma obra não seja curta nem indigente. desprezam os cortejadores e entregam-se a quem os domina. não devemos ceder à opinião nem escrever como se ela lesse por cima dos nossos ombros. Precisamos de trabalhar com constância. quem ultrapassar o homem realizará prodígios. sim. Gratry nas Sources. não estando satisfeito. Além disso.me de Sévigné dizia de Bourdaloue e lance o Salve-se quem puder que termina por seduzir e conquistar as almas. Fala-nos pouco de nós e dá-nos poucas vezes a ocasião de nos vermos com prazer. a Suma de S. os trabalhos de Bossuet destinados ao Delfim. Precisamos de nos despojar dos outros como de nós. Logo. porque abre o caminho ao Espírito.. seria um belo receptáculo de verdade. Podeis fazê-lo. tendes de lhas impor à força. Só é poderosa e arrebatadora a convicção forte unida a um carácter que dê garantias aos fracos mortais. não proclama verdades. não excita vivamente o amor-próprio.69 Dizia eu que se não deve esquecer o público. No domínio intelectual como nos demais domínios. Aqueles mesmos. confirma-o a comparação dos sermões quaresmais (Petit Carême) e dos Discursos Sidonais de Massillon. Diante da nossa secretária e na solidão em que Deus fala ao coração. para que todos em troca lhe retribuam complacência. <<Não se julgue fácil a vida de estudo. receia sobretudo que o contrariem. humanidade assim feita. Se sois deste mundo. e aponta como exemplos os Pensamentos de Pascal. Esta virtuosa independência é tanto mais necessária quanto a massa do público tem o que é preciso para vos abaixar. Paulo: A palavra de Deus não está presa. nem desejos factícios. de evitar andar de viés debaixo da pressão dum conformismo cobarde. os santos. Numa. meditai só a verdade para bem vosso e alheio.. Não lhe estais vós dedicados? Não lhe assiste o direito de vos perguntar: onde está a vossa obra? Ora. Tomás. mas merecei exclamar com S. <<Um livro é tanto mais forte quanto tiver sido escrito mais longe do leitor>>. como M. quer ser lisonjeado. o pensamento não será a vossa obra. a linguagem das palavras é sempre um pouco morta. Mas tomar a peito o ser útil não. Lisonjeia pouco as nossas esperanças. não nos importemos do próximo. Porque nada contraria tanto a natureza como a uniformidade e o repouso. escreve o P. nem paixões. o mundo amar-vos-á porque lhe pertenceis. Isto é muito exacto e está plenamente de acordo com o que disse Vauvenargues: <<Tudo o que se pensou só para os outros é ordinariamente pouco natural>>.. paciência e perseverança. quando vós é que devíeis pensar por ele. Buscai a aprovação de Deus. O público é primário. que exigem que os cortejemos. precisamos. O trabalho criador exige ainda outras virtudes. mas o seu desdém silencioso medirá a vossa queda. porque nenhuma outra coisa nos oferece maior ensejo de viver connosco. com paciência. É esta feliz violência que o pensador solitário deve tentar. se o cuidado de agradar e de vos adaptar escraviza a vossa pena. é o mesmo que pedir uma ordem. O público pensará então por vós. apoie-se sobre si mesmo e a natureza das coisas. A constância mantém-se a pé firme. derrama a preguiça e o . a paciência suporta as dificuldades. Não precisamos de nos deixar influenciar pelo que dirão. escreve Nicole. A mudança e as ocupações exteriores levam-nos para fora de nós e divertem-nos. III –Constância. e tudo isto contribui para mortificar enormemente o amor-próprio que. À sua confiança ingénua e ao seu discurso directo prende-se um forte interesse. cuja voz ressoaria no íntimo das almas. nem desperta as paixões. na realidade. a perseverança evita o gasto da vontade. não sejais escravos. A criança é simples e desembaraçada. Se quereis que ele ouça as verdades essenciais. porque ainda não tem vontade própria. com perseverança. escutemos como a criança escuta e escrevamos como a criança fala. que soubesse guardar este candor. Buscar a aprovação pública é tirar ao público uma força com que ela contava. <<bata como um surdo>>. É destituída de acção e de movimento. Para triunfar. nem curemos de ser úteis? Não. Reúno aqui três das suas exigências que mutuamente se corroboram. que se diz amigo de todos.

quando se não enxerga a sequência dos acontecimentos e se está exposto ao grave perigo das transições artificiais. Enquanto buscamos uma palavra que nos não acode. atrai-nos uma curiosidade verbal. assalta-nos a tentação de interromper o esforço. nessa altura. Muito amiúde somos tentados a perder tempo. Ideia puxa ideia. exactamente como as crianças. A preguiça é muito manhosa. Uns momentos de leitura dum autor favorito. e forçosamente o boneco terá de ser concluído. no dia do casamento – um casamento de amor – foi necessário ir procurá-lo. para verificar referências. depois outra. . Nos momentos de inspiração. perde-se a direcção. A uma arrancada em linha recta sucede uma curva de ângulo difícil de medir. Op. hesita-se e. Tomai o trabalho pela outra extremidade e aplicai-vos a ele com redobrada aplicação. Damo-nos a conhecer pela maneira como repousamos e nos distraímos. Quem não conhece os intelectuais que trabalham às arremetidas. o telefone tenta os nossos lábios. e pode suceder que o próprio trabalho vos afaste do trabalho. Pediram um dia a Edison que dissesse a uma criança alguma palavra que lhe ficasse gravada. que relembra a teoria do Divertimento de Pascal levar-nos-ia longe. Quando abrimos o dicionário. disse: <<Meu menino. porque <<não vale a pena pôr ombros à empresa>>. apetece mais plantar couves do que prosseguir um estudo fatigante. enquanto dura. Quando o tédio se prolonga. por fases entrecortadas de preguiça e de negligência? Há rasgões no estofo do seu destino. por estardes muito tranquilo numa poltrona. Caem-nos os olhos sobre um objecto. O tempo assim aproveitado é tempo que se forra para as verdadeiras sessões laboriosas. entretemo-nos a desenhar bonecos. e lá ficamos presos como numa sarça. estão naturalmente indicados para preparar o trabalho ou para lhe der um retoque. Mas diferir não é preguiçar. Às vezes é bom diferir. Todos os trabalhos têm transições custosas. pág. pelo facto de vos deixardes arrastar para as perspectives abertas diante do espírito por um devaneio acaso provocado por algum pensamento. como Deus que nunca se separa da sua obra. tirar notas. quando deveria ser preciosa tapeçaria. tem-se inveja do trabalhador manual mas este por sua vez apoda-vos de <<poltrão>>. desde que o menor incidente traz a <<languidez>> e provoca o <<tédio>> de que fala Nicole.. sorrindo. O enervamento seria contraproducente. Durante as horas de trabalho intenso. Pode suceder que um pouco mais tarde tudo se ilumina sem esforço. Dela retenho apenas a necessidade de pensar em vencer <<a preguiça é o tédio>> que são dois inimigos temíveis. que de facto se adaptam mal a uma empresa. um amigo está na sala vizinha. da noite e dos momentos de repouso. vamos ordená-lo e um útil entusiasmo nos retém durante um quarto de hora. Esta análise.70 tédio sobre todas as acções(1).. Se vos sentirdes muito cansados.255. E se a ocupação não vale a pessoa. e os instantes assim empregados são tão úteis como os outros. cravais nele o olhar e bem depressa vos distrais. O grande inventor. os encaixes são a grande dificuldade dos estudos e das criações. Tudo está ligado.. Edison olhava tão pouco para ele que. Cit. Alguém passa na rua. uma recitação em voz alta. porque <<está quase a ser hora>>. Já mostrei o valor das horas da madrugada. nunca olhes para o relógio>>. tão embebido estava nas suas investigações. Recusai energicamente qualquer passagem injustificada. É belo viver só para aquilo que se está fazendo. porque estas pequeninas tarefas dizem-lhes respeito e são indispensáveis. pela maneira como atamos os sapatos: com muito maior razão se verá quem somos pela fidelidade ao trabalho ou seja pela pontualidade em retomar a nossa tarefa. esse destino que eles transformam em rodilha cheia de remendos. Nós queremos ser intelectuais todo o tempo e queremos que isso conste. porque a alegria da descoberta ou da produção opera como freio. surge o demónio da preguiça. classificar documentos. interrompei voluntariamente o trabalho para depois o retornar com novo afinco. uma oração feita de joelhos para modificar o estado orgânico e para ( 1) Nicole. não há porque nos aplicarmos a ela. mas as horas ingratas não se fazem esperar e. Não reflectimos que estes bocados de duração. Todos os trabalhadores se queixam dos instantes de depressão que cortam as horas ardentes e ameaçam arruinar as economias. é poderosa a tentação. estas armadilhas não oferecem grande perigo. etc. É sobretudo nas voltas do caminho que devemos precatar-nos contra o imprevisto e a perfídia dos ataques. ou então é o jornal que chega.

O cérebro rege-se por leis obscuras. que pouco ou nada dependem da vontade. criticarão duramente os vossos desfalecimentos. e à inércia dolorosa pode suceder um período de entusiasmo. não obstante serem para eles uma necessidade e ocasião de felicidade. <<As obras realizadas . saltamos. Habituamonos a pensar como nos habituamos a tocar piano. e assim por diante. A sessão de trabalho assemelha-se a terreno de corridas cortado de obstáculos. No conjunto da vida. Pouco a pouco as rodas entram a funcionar. de recomeçar após um fracasso: é que a liberdade chama por ele. a respiração dilata-se e começa-se a experimentar a alegria da acção. não elas que te fizeram fraco>>. de dia para dia torna-se necessário aumentar a dose de excitante. Salta-se uma sebe. sem que nada anuncie para breve o termo da provação. os músculos treinam-se. lança mão de todos os recursos. O prisioneiro que quer fugir do cárcere. Após o quê. não tendes de vos libertar do erro. como o corredor que se atira à corrida. Ainda mesmo na hipótese de serdes destituído de memória. o contacto perseverante com os génios tomará o vosso juízo mais agudo e mais seguro. mas também pela visão renovada do fim em vista. Todavia sempre restará lote considerável de obstáculos para exercitar uma virtude vizinha: a paciência. O efeito é apenas momentâneo. de conquistar a liberdade do espírito numa obra feita? Reparai no trabalho concluído: é uma aparição que vos infundirá coragem. Uma dificuldade vencida ensina. <<Os meus pés também escrevem>>. se fordes pouco apto para discriminar ideias. Pergunta Amiel no seu Diário: <<Por que és fraco? – Porque cedeste dez mil vezes. e o trabalho duro tanto como o trabalho fecundo e alegre. um esforço poupará outros esforços: a coragem dum minuto vale tanto como um dia. Longe de ceder à primeira impressão de fadiga. certos de que entre os obstáculos se estendem zonas planas por onde se corre sem embaraço. lhes infligiam longos tormentos. depois de ter arrancado um certo número de vezes. e em que os tédios momentâneos não surtirão efeito. A constância vence ainda as impressões de falso cansaço que se apoderam do espírito e do corpo. até que aparecem as taras físicas e mentais. não nos detemos. Um excitante anódino é a marcha ao ar livre ou no gabinete de estudo. Mas o excitante mais normal é a coragem. Chegados à primeira barreira. o busto curva-se para diante. Ora persisti: as articulações desenferrujam-se. depois um talude. O mesmo acontece com o estudo. uns momentos de respiração ao ar livre. o vosso motor aquece e o carro devorará quilómetros. E vós. rompei para a frente. Muitos são os trabalhadores intelectuais que deste modo refazem o cérebro pelo exercício muscular. um pouco mais longe aparece um fosso. convertendo-te em joguete das circunstâncias. Quando se recusa a funcionar.71 libertar o espírito. a vencer outras dificuldades. Os génios queixaram-se sempre das tribulações do pensamento. não suspeitarão quanto trabalhastes. O trabalhador sem constância não passa de criança. quando um doloroso sentimento de impotência se apossa de vós. que fazer e que socorro invocar além do socorro divino? Os leitores acharão muito naturais os vossos êxitos. Mostra a experiência que quem se lança energicamente ao trabalho triunfa das dificuldades. declarando que seus trabalhos. forçai a energia interior a sair. sem descoroçoar: não se cansa das preparações longínquas. Quem faz alpinismo sente-se muito frequentemente esbaforido e pesado ao fim de algum tempo. A coragem mantém-se não só pela oração. O espírito toma o vinco daquilo que se lhe pede frequentemente. caber-vos-á em herança a atenção do profissional. voltai à carga. adaptamo-nos. de bom grado arrepiaria caminho. Aprendei a ser constantes pela aplicação e porfia em recomeçar: dia virá em que se dissiparão os langores persistentes. Nem é preciso. a andar a cavalo e a pintar. Foste tu que as fizestes fortes. alguns movimentos rítmicos: eis os remédios possíveis. que fazer? Quando os fios da ciência se emaranham uns aos outros e as horas passam em vão. Transponde as dificuldades sem desanimar e sem perder o domínio do vosso ser. este afinco concorre para facilitar mais e mais a actividade. Há quem recorra aos excitantes: é método nefasto. alcançá-la-eis para o objecto das vossas predilecções: se sois atreito à dispersão de espírito. por vezes autênticas angústias. Em qualquer assunto. Sereis então um homem. dizia Nietzsche.

as sementeiras. uita breuis. Em matéria de ciência. Já não sois vós que operais. dizia Biot: <<Nada é tão simples como o que se descobriu ontem. Quem perseverar até ao fim. Quem trabalha por Deus e como Deus quer. encontra em Deus a sua morada. A verdade e a natureza seguem par e passo. desorientados. Custa menos o ardor do que a paciência. A arte de pensar é morosa a desproporcionada à nossa coragem habitual. do que com precipitação e arrebatamento. No domínio do espírito vale mais a calma do que a corrida. Persisti. interminável. supondo loucamente que tendes falta dele. se estamos instalados em Deus? A perseverança coroa a constância e a paciência. É vasto campo onde a virtude da paciência se pode exercitar à vontade. Quem põe mãos ao arado e olha para trás não é digno. pois lhe quebram o ritmo. tende paciência. nem Cristo em vós. Quando a febre se apossa de vós. pensa que o universo está mergulhado em trevas: continua a subir até encontrar para além da nuvem a luz do sol. <<A vida bem cheia é longa>>. Assim falou Zaratustra. que são quase o contrário dele. Não podeis levar a cabo. . ( 1) Nietzsche.. Boileau gabava-se de ter aprendido. e o bom tempo volta. dizia Miguel Angelo. evitai a trepidação do homem apressado. mas ambos são precisos. e os homens superiores avisam-vos que o pensamento é a mais pesada carga que o homem pode levar. Quantos trabalhadores que deste modo abandonaram os trabalhos. O trabalho é batalha: requer heroísmo. Que importa o andar do tempo. A alma é esta fonte secreta: não lhe tenteis desvendar prematuramente o mistério. Portanto. o trabalho de paz que é a disposição ordenada das ideias. nos encontramos fechados num quarto. nesse momento apelai para as energias de reserva. Respeitai cristãmente a Providência de Deus. depois de ter encarreirado por falsa direcção. não nos compete. e o êxito é a comum recompensa de ambos. quando o caminho se estende diante de vós. Quando vos sentirdes desarmados. desejamos acaso que ele se apresse? A intelectualidade tem valor intrínseco em todos os seus estados. afogados em espessas brumas. e a natureza opera sobre durações. os caracteres fracos cedem. encontram-se apenas os trezentos de Gedeão ou os trinta de David. Por sua vez. Deveis mostrar-vos tão indomável na investigação. em tempo de borrasca. Por conseguinte. e renunciaram As colheitas! As primeiras tentativas na ciência têm o carácter de provas eliminatórias: sucessivamente. que atravessa uma nuvem. pouco a pouco Ele no-las cede. diz o Evangelho. Para que apressar-se indiscretamente.72 à custa de grande trabalho. desvanece-se a liberdade interior e espreita-vos a escravidão espiritual. tendes a impressão de estar perdidos. também aqui. exigi-las. A grande regra consiste em esforçar-se muito para criar coisas que parece não terem custado nada>>. a delicada elaboração dos pensamentos novos. Aqui mais do que em qualquer outra parte se verifica o prolóquio: tudo se alcança com tempo e paciência. É Ele que põe as condições do saber: a impaciência é revolta contra Ele. Ganhareis mais. necessitam de esperar muito tempo até saberem o que caiu lá dentro>> (1). Muitas vezes. será salvo. porque é longa: ars longa. escreve Nietzsche. não percais tempo. o quarto de estudo é trincheira onde cumpre estar a pé quedo como um mártir. Devagar se vai ao longe. O alpinista.. vencidos. afigura-se-nos que se não pode andar fora de casa: saímos. no meio da perturbação. disse Leonardo da Vinci. os fortes resistem: no final. A lei da salvação intelectual é a mesma que a da salvação total. Quando. porém. <<No fundo das nascentes tudo se passa com lentidão. se o caminho é termo e o meio fim? Quando olhamos para o Niágara. nem tão difícil como o que se há-de encontrar amanhã>>. respeitando as leis de nascença das coisas e não ofendendo a ciência com pressas indiscretas. já não realizais a obra do Verbo. nem impacientar-nos. ou quando. Carregareis a vossa carga sozinho. São segredos que o público não suspeita. damos uma volta com todo o sossego. O esforço virtuoso é conquista. em Racine. Ao homem que aproveita o seu tempo pertence a duração inteira. aparai o golpe. como os exploradores do polo ou da África central. em comparação das quais a vida e a morte do globo são como o nascer e o pôr do sol. precisais da paciência de César ou de Wellington. que está posta na eternidade. do reino dos céus. Não confundais o generoso estímulo com as excitações. a arte de compor dificilmente versos fáceis. No ataque ao erro ou na resistência. devem dar a impressão de terem sido fáceis de conceber e executar. As reservas do tempo pertencem a Deus.

a fim de conquistar a duração naquela das suas dimensões que vos é directamente acessível. os Aristóteles. reconhecer-vos-ão por filhos. quem não persevera. não desistais da obra começada. ninguém pensa que um vivo ou um homem poupado pela sorte possa suportar estas paredes que se assemelham às colunas quebradas dos cemitérios. convém sublinhar a necessidade de perfazer e a obrigação de concluir o que se julgar útil empreender. os Albertos Magnos. em face da obrigação de concluir. se deixásseis qualquer trabalho por acabar. Querer é estar sujeito. deve constranger-nos tanto como as necessidades da natureza. As grandes vidas mostram este supremo distintivo. Envolvido na sua onda. E vós construtores segundo o espírito. não tem de recear a mediocridade ou imperfeição do resultado. dir-se-iam incapazes de cumprir qualquer obrigação. Habituamo-nos a ceder. perseverante. Põe-se-vos um caso de consciência. não é intelectual. Reflecti antes de lançar ombros a um trabalho. que sois consagrados. Terminaram elas como um dia glorioso. pode. Quem pratica estas três virtudes. Robustecei a vontade e confiai-a ao Senhor para que Ele a consagre. 9). preparai o estofo com cuidado. sentam-se esgotados e cedo ou tarde voltam às regiões da vulgaridade. Daí uma diminuição de dignidade que não favorece o progresso. pois. que seguis os vestígios dos grandes homens. os Agostinhos. Assume a tarefa de aprender e de instruir. tomamos o partido da desordem e da má consciência. pequena ou grande. mas cortai uma só. perseverai nela com rigor maleável: excluí os deveres inferiores. mas logo param. se não for loucura. lemos nos Provérbios (18. não queirais pertencer ao número dos viajantes cobardes que desertam. <<Quem fraqueja no decurso duma obra é irmão daquele que destrói o que fez>>. Vós. Quem larga. O verdadeiro intelectual é. como diz o Evangelho. embora livre de obrigação. condena-os a vocação a que são chamados. por definição. Outros há que se obrigam. Tais pessoas representam. ama a verdade com toda a alma. Medi dez vezes. Pertencereis então ao número dos pensadores fiéis. os Leibniz.73 Perseverar é querer. IV – Fazer tudo bem feito e até ao fim. sem <<ter calculado se dispõe de meios para a terminar>> é louco. O abandonar um projecto ou uma empresa denota fraqueza. não conseguimos obrigá-los. quem cessa de amar. Todavia. e partireis dignamente ao encontro d'Aquele que pacientemente vos espera. a sua obra a um tempo segue-o e fica para nosso proveito. A vermelhidão do pôr do sol não é menos bela que a poalha loura da madrugada. o intelectual que se lhes assemelha. os Pasteur. é estar agrilhoado. Um laço moral é superior a um laço material. fazemos e não fazemos. que trabalhou longamente sem desfalecer. resolvei-o com honra. uma espécie inferior. nunca amou. Esforçai-vos em profundidade. Os gigantes do trabalho. e com muito maior razão uma obra parcial. O homem de bem. O destino é um só. e as largas passadas sem perseverança são saltos perdidos que a nenhuma parte conduzem. e. cumprem a palavra. projecta. A necessidade do dever ou duma resolução reflectida. Resisti até ao termo da viagem. até mais imponente. . Determinada a tarefa. executai. nem eles são capazes de se obrigarem: é água que corre. também ele. Há em vós uma lei: obedecei-lhe. não abandoneis. finar-se numa morte simples e sumptuosa. quando prometem. deliberemos sobre a oportunidade de começar. os Littré. Não rematar uma obra é destrui-la. quem se mete numa aventura. que andam parte do caminho. e por fim não cumprem. Exige a prudência que. não quer. que ela não vos largará. quereis converter o vosso passado em campos de escombros? Há pessoas com quem podemos contar. nunca segurou. <<Devagar se vai ao longe>>. ora. quando chegar o momento de coser. porque censurar-vos-iam. todo começo é promessa. Prometestes executar. moralmente. Vós. decidi-vos a ser fiéis. os Tomás de Aquino. é um consagrado: não se subtrai prematuramente. mais ainda as infidelidades. De que serve uma casa por acabar? Que pensar de quem lhe assentou os alicerces? A sua ruína evoca desgraças.

Segundo Spinoza. o ser e o bem são convertíveis. O trabalho intelectual é apenas o prolongamento das tendências nativas: somos. respondei que esses retornos são as mais das vezes pura ilusão. mais tarde voltarás à carga. tudo vai bem. volvei para ele o olhar. agimos. não haverá aderência. Se a preguiça vos soprar: Cessa agora. nem as linhas básicas. mas significa também perfeito. Vem aqui a propósito um conselho prático. Dai sempre o máximo no momento da criação. A vocação intelectual não é um pouco mais ou menos. consagrada ao Deus de verdade no seu conjunto. Ninguém recomenda ao caçador de lebres que ataque o leopardo deste ou daquele modo. visando apenas rematar. nem a composição. até ao fim. às vossas graças e ao tempo de que dispondes. dai tempo ao tempo e. devora-o. mas cuja hereditariedade. ano os cria. Fareis sempre muito. por um esforço vigoroso. requer a doação total. diz Leonardo de Vinci no seu epitáfio. e ambos estes sentidos se corroboram. Observa Beethoven que um trecho acrescentado posteriormente nunca se adapta ao carácter da composição. pertence-lhe em cada caso de que é tecida. recomeçai. destoariam sempre. posteritas>>. Se estiver ao vosso nível criticai-o sem dó nem piedade em todos os pormenores. o ser e a perfeição respondem à mesma ideia. Nessa mesma medida renuncio à minha vocação. Aplicai então ao vosso parto espiritual as palavras da Bíblia: <<Quem poupa a vara. preparastes e que estais em via de o começar. Toda obra quer ser feita dum arranque. tratai-a como se trata uma criança que se alimenta e se educa. Já o oráculo antigo dissera: <<Não alargues o teu destino. Conta-se que Ticiano esboçava vigorosamente as suas telas. o valor que ele deve revestir. É máxima muito sensata. Se a presa for mais forte do que o caçador. odeia seu filho>> (Prov. 13. que Deus e o próximo me perdoem as deficiências. Quanto às correcções que podereis introduzir. pois o que não se termina não é. nem procures ultrapassar o dever que te é imposto>>. dificilmente se torna a subir por ela. seria como nódoa em estofo de seda preciosa.74 Donde se segue que haveis de coser o melhor que puderdes. transformava-as em obras-primas. se vos destes totalmente a isso e se o voto da Providência se cumpriu em vós por uma obediência cega. Esta severidade supõe que os trabalhos empreendidos se adaptam às vossas forças e por elas se medem. está fixa e cujos caracteres fundamentais já se não mudam. <<Qual potui feci: ueniam da mihi. Se o que fazeis corresponde ao vosso génio. V – Não ir além das próprias forças. Na medida em que o faço mal sou um falhado. envolvendo-as num <<olhar inimigo>>. algodão com seda. nasce a obra. A vocação serve-se dos recursos. Uma vez descida a encosta. Não encontrareis a coragem de repensar ab ouo uma obra medíocre. Quando tiverdes realizado um trabalho. a cobardia de hoje é má garantia para o heroísmo de amanhã. pintava-as até certo ponto e logo a seguir as abandonava até que lhe fossem estranhas. Dado o primeiro passo o resto vinha por acréscimo. e voltai ao trabalho. Acabado significa terminado. Retomava-as então e. 24). mas a expressão <<mal dotado>> aplica-se também a um trabalho particular. Depois de vos terdes decidido a empreender um trabalho. O que fizésseis não ajuntaria nada a isso. se concluirdes o que fazeis. Não termino verdadeiramente o que me recuso a encaminhar para o melhor resultado. até que possais dizer: esgotaram-se-me as posses. depois que o concebestes. Ter uma vocação é ter a obrigação do perfeito. O intelectual mal dotado nunca fará obra com jeito. não tentes coisa alguma superior às tuas posses>>. desobedeço ao Senhor ou subtraio-me a meus irmãos. Não é necessário compor muito. nunca o fareis. só depois de um prazo mais ou menos longo. A vossa vida. determinai imediatamente. Ticiano retomava a fundo. Antes de cada trabalho dizei: devo fazê-lo e fazê-lo bem. e é disto . Se tentardes prolongar chumbo com ferro. Se o não fizerdes então. Concebida a obra. por perfeitas que sejam. pelo contrário tirar-lhe-á alguma coisa. O último dos Dezasseis Preceitos tomistas reza assim: <<Altiora te ne quaesieris. Se nessa altura vos desagrada. não modificava os dados primordiais. deixai-o repousar. mas de acordo com a primeira inspiração. Nesse caso é ridículo traçar regras. O que se não perfaz não é.

o livro que vos pode ser útil. a nada é fiel.75 que falamos agora. É grande sabedoria empreender segundo as suas forças. envidar todos os esforços. Só vós podeis fazer bem aquilo de que vos encarregastes. Se preciso for. diante de si. Mas a reflexão inicial tem por objecto primário determinar aquilo para que somos feitos. O presunçoso cede ao peso da sua obra ridiculiza-se. aplicaivos ao trabalho de alma e coração. Julgai de tudo isto com humildade e confiança. a disciplina de que sois capazes. sem esquecer no entanto que nos conselheiros abundam a leviandade e a indiferença. aniquila a própria força. proceder com método. O orgulho não se dá com esses expedientes. não se obrigar a pensar o impensável. é chama apagada. o púbico a quem podeis servir. começar pelo começo. É grande a obra que for exactamente medida. 0 <<conhece-te a ti mesmo>> de Sócrates não encerra apenas a chave da moral. mas a de toda a vocação. Fixai-vos o melhor que puderdes. Discerni em todas as ocasiões o esforço que vos convém. nem a compreender o incompreensível. mas o orgulho é o inimigo do espírito e da consciência. A que for além da medida e de todas a mais pequena. a tese que podeis escrever. As condições do êxito são as mesmas em todas as coisas: reflectir ao princípio. . Deus satisfaz-se em todos. um caminho na amplidão da vida humana. evitar o perigo de iludir a substância das coisas cuja ausência se disfarça sob a roupagem de termos pomposos. pedi conselho. dizer apenas o que se sabe. Após o quê. visto que ser chamado a alguma coisa é ver abrir-se. a dos outros também o é. os sacrifícios em que podeis consentir. Muitas vezes dissemos: a vossa obra é única. Infiel a si. faríeis mal aquilo que o próximo fará bem. não altereis a ordem. a matéria que podeis tratar.

tudo é esboço: concluída a obra. da amizade. em que se inclui a vida religiosa. as assembleias. e o essencial da pessoa não se confina no que se pensa nem no que se faz. será porventura ironia abeirar-me uma vez mais do intelectual e recomendar-lhe que guarde a liberdade da alma? O que mais importa à vida. Já citámos a frase dum rabino: <<Num alqueire cheio de nozes podem caber ainda muitos almudes de azeite>>. e o carácter estaria ameaçado. se o homem se mantivesse. sem o sobrecarregar. nem os actos a acção. Chamando agora noz ao trabalho técnico. mas não basta.O trabalhador e o homem I – Guardar o contacto tom a vida. o artista deve ser poeta e filósofo de vez em quando. um pouco filósofo. e já indiquei o porquê. A árvore é um instrutor e o . e o povo até gosta disso. a palma pertence por muitos motivos à segunda. da natureza. Depois de haver pedido tanto e. guardar o contacto com a humanidade e com o mundo. É preciso ser sempre mais do que se é: o filósofo deve ser um pouco poeta. uma dose de poesia. é índice seguro o saber avaliar o valor relativo das coisas. O escritor deve ser prático. as artes. Pascal recusa-se a dar apreço ao especialista que só seja especialista. que se converterá em tara. Além da moralidade. O estudo deve ser acto de vida. o azeite da vida intelectual fácil dos nobres lazeres. os jogos olímpicos. forjado tantas cadeias. devem-se encarar outros factores de alargamento. a simples vista do pôr do sol. temos o homem. Mencionamos a sociedade. A natureza renova tudo. não são os conhecimentos. a ciência é a natureza ajuntada ao homem: num e noutro caso cumpre salvar o homem. a fim de sair de cada sessão de estudo com capacidade para novo voo. um Mistério em Jumiège ou no teatro de Orange. e a alma só se desdobra no ambiente universal. Das duas espécies de espíritos – os que se esforçam por saber alguma coisa e os que tentam ser alguém –. oprimido pelo rochedo de Sísifo. e aplicámo-las aos trabalhos que mutuamente se sustêm. Lucra amplamente da sociedade. quando um homem entra numa sociedade. querer ver os seus lagos com todas as manifestações criadoras. O espírito deve manter-se aberto. É nocivo tudo o que esteja desligado das suas largas relações. a actividade prática: juntemos-lhes o convívio com a natureza. toma um vinco profissional. o cuidado da casa. Os fins particulares não valem a vida. da arte. O trabalho técnico só lucrará com isso. mas pensa na harmonia humana. o culto da palavra. poderemos juntar-lhe. um passeio a Versalhes em pleno outono. Há outra ciência diferente daquela que se confia à memória: a ciência de viver. debaixo do seu trabalho. uma sessão patriótica no Trocadero ou no grande anfiteatro da Sorbona. Quem só pensa no seu trabalho. nem o talento uma ampla intuição onde se aniche a existência. O especialista é antes de mais nada uma pessoa. refresca as cabeças bem feitas. e di-lo não só em conformidade com o espírito de ciência comparada que descrevemos. <<É péssimo sinal>>. o poeta. mas espero que o leitor encontre nestas páginas pelo menos o espírito de semelhante decisão. em vez de se combaterem. deve sentir-se impregnado de vida. por assim dizer. pelo contrário aligeirando-o. diz. os desportos inteligentes.76 CAPÍTULO IX . O destino não é algo de particular. da acção exterior. Para o pensamento e para a prática. A finalidade do estudo consiste em promover a extensão do nosso ser. Pensamos acaso que uma visita ao museu do Louvre. trabalha mal. e o prático deve saber escrever. abre caminhos e sugere vistas de conjunto que a abstracção ignora. Agora limito-me a alargar os fundamentos de alcance geral. um discurso solene em Notre-Dame são estranhos a qualquer especialidade? Seria compreender muito mal o pensamento. é o carácter. No saber. se lembrem apenas do livro que escreveu. Se a arte é o homem ajuntado à natureza. não quer que. na aparência. A intelectualidade concorre sem dúvida para a soberania do homem. o não. É difícil de precisar a medida de tudo isto. deve ser útil à vida. diminuiu-se. a audição da Sinfonia heróica ou do Rei Édipo. as manifestações públicas. a obra não vale o artista.

e as meditações elevadas lançam-se à procura das correntes de água. e mergulhava a sua obscura acção na comunhão dos seres. estão nas almas: não vos adereceis com elas. Constituirá excepção apenas a acção de pensar? Não será ela influenciada pelo ambiente imaginativo. quer habitar no pensamento. É verdade que podemos levar para lá o universo e povoá-lo de Deus. Segundo S. as montanhas estabilizam os pensamentos com a sua mole. encontramo-lo idêntico diante de Deus. nas costas dum programa. elaborais teses. é preciso alargar o trabalho. Hoje as <<togas de pedantes>> e as <<borlas>>. uma ideia a desenvolver. O universo envolve o homem e não o suspeitais. espiritual. de que a cercamos. surtirão efeitos diversos. as circunstâncias de pessoa e as circunstâncias de facto fazem parte das actividades. Conheço alguém que. para não sermos forçados às galés nem reduzir a intelectualidade a gargantilha. penetrado desta Presença espalhada por toda a parte.77 prado pulula de ideias como de anémonas ou de malmequeres. Tomando ao trabalho. diante dos iguais e diante da criada. No horizonte indistinto do sonho. rabiscar à pressa o esquema dum capítulo ou dum discurso. Não renuncieis a coisa alguma que seja do homem. para que não seja canto isolado. de que zombava Pascal. já não têm curso. cada qual vê subir a imagem da sua preferencia e inscreve rastos dela na sua língua. aplicados a esta ou àquela tarefa. atribuía ele a esta harmonia o êxito extraordinário do seu Jacó lutador e do cavaleiro do Heliodoro. Vós. se os altos cumes. na montanha. Quem ignora que. e recusais-lhe guarida. O ritmo. espíritos encarquilhados. Sabei estabelecer uma tese e olhar uma aurora. Delacroix fundia-se deliciosamente com os sons do órgão e com os cantos religiosos. Pasteur uma pesquisa mais apaixonada e mais atenta. mas este povoamento só é efectivo após longa experiência cujos elementos estão disseminados em toda a parte. Gratry uma página ardente. entregues a nós somente. graças ao mesmo Deus donde tudo parte e aonde tudo volta. O trabalho é acto livre. o intelectual pode ser empolgado por uma impressão de grandeza. no gabinete de trabalho. Não convertais o trabalho em monomania. o campo calmo e os teatros da arte me não houvessem anteriormente educado? Por isso. uma imagem viva? A harmonia alterou-lhe o tom da inspiração. Recusai ser cérebro despegado do corpo e homem diminuído na alma. não volteis as costas ao resto da vida. Escreveis. num concerto. o céu revolve inspirações com suas nuvens e astros. Por conseguinte. O intelectual é homem de saber largo e variado que prolonga uma especialidade penetrada a fundo: é amigo das artes e das belezas naturais. concorrem para as integrar e comunicar-lhes os seus caracteres. sensorial. na Capela dos Anjos. pensais perder o tempo em seguir as torrentes e em errar no rebanho dos astros. e também o pai do génio. colore os seus temas habituais e lhe proporcionará brevemente mais rica sessão laboriosa? Não vai ele. calculais. por causa do estudo. aproveita a seus objectos. embrenhar-vos nas profundas abstracções e brincar com as crianças. na dependência das mesmas forças. de poder que se transpõe imediatamente em modos particulares. A música tem de precioso para o intelectual o não determinar nem perturbar coisa alguma. Corot uma paisagem. em que foi tomado como o transeunte num exército em marcha. corações ressequidos. o seu espírito revela-se o mesmo nas ocupações correntes e na meditação. mas urna voz da orquestra? Somos muito pobres. vós. Rodin fará dela uma estátua. que pretendeis consagrar-vos vocação do estudo. Em S. mas subsistem. debaixo do império das mesmas leis. que. Supedita apenas estado de alma. Tudo reside na harmonia e tudo se regenera. A estrela vespertina aborrece-se no seu escrínio sombrio. enfiais proposições. se nunca fosse à igreja nem olhasse para o céu que <<canta a sua glória>>? Escreveria eu debaixo da impressão da natureza e da beleza universal. Encontraria eu a Deus no meu quarto. de beleza. levando em si um mundo de ideias e de sentimentos que se não inscrevem . sonhando massas que se precipitam com a mesma pressa. Guardai equilíbrio onde o peso dominante não ameaçar arrastar tudo após si. social. sentia-se levantado pela Força única. se elevava invencivelmente à ideia dos mundos. e o ritmo. onde o mundo se reflecte. mas não olhais. olhando uma torrente rápida. pai do mundo. como o divino Mestre. Sulpício.Tomás. arrastou-o para novos caminhos.

se possível fosse. de manejar um freio. o génio interior do corpo empreende uma restauração que ele quereria que fosse completa. na <<adega>>. mas sim o prazer nela experimentado. Todos percebem que o alargar-se. Ora não há intemperança senão a respeito das alegrias grosseiras. formam alianças e não se contradizem senão pela harmonia. o repouso é. Àquele que lhe dá. Quando se interrompe a actividade pensante. equilibrar o trabalho de maneira que uma operação servisse de descanso a outra. que os dados da fisiologia corroboram: <<estudar tempo de mais é uma maneira de preguiça>>.78 nos livros nem nos discursos. arte. O necessário. O pretenso lazer não passa de transformação de energia. descansaria enfaixando molhos de feno no campo. O espírito não se cansa. o palco é invadido por operadores que limpam. finanças. 168. a despeito dos protestos. e formando as mais pequeninas acções práticas a trama de vida para a qual estamos preparados. como a conservação das forças. S. da verdade da vida. viagens. quero dizer. no qual. Na medicina costumam combater-se os efeitos duma droga nociva pela droga contrária. convém louvar mais explicitamente o repouso. . e o enfeixador. mas sim o espírito na carne. Ila Il aa. é descanso. Urge voltar à natureza e mergulhar nela para nos refazermos (2). O ser em contemplação é algo de <<mais pesado que o ar>>: só se mantém elevado por um gasto considerável de energia. Cf. inverso do trabalho. O melhor meio de repousar seria ainda. cuidados domésticos. termo das pesquisas ardentes. Prova-se assim que. não se cansar. por ser incapacidade de dominar um determinismo. razoável. Além disso. O repouso é dever. O fundidor. distribuindo o feno pelas gamelas dos ( ( 1) 2) De Musica. no decurso da vida. que sua diante da fornalha. q. todas as coisas são interdependentes e fazem uma só coisa. Filosofia. Os pensamentos e as actividades. e temos a obrigação de poupar a vida porque temos a obrigação de viver. É preguiça indirectamente. A melhor parte do descanso está compreendida nos modos secundários de vida que mencionámos. diz Santo Agostinho a seu discípulo (1). A intelectualidade não sofre tabiques. o abandono deste domínio para subir ao abstracto causa fadiga. submetido ou não à regra humana que se confirmar na lei de Deus. Todavia. um enorme trabalho. os mais subtis. c. nem no mesmo momento. de orgulho. poesia e ténis. É preguiça ainda de outro modo mais oculto. de que faz parte. no sentido que lhe damos. aos seus irmãos que daí tirariam lucro. 2. Aquele que se cansou demasiado opõe-se também à sua vocação. em todo o momento. ao seu próprio bem. II – Saber distrair-se. a maior soma de efeitos de que é capaz. Nem tudo cansa do mesmo modo. os mais nobres entusiasmos participam da sua malícia. quando baixa o pano. Cortem-se os excessos. é estar onde se deve e fazer o que importa. sendo o sensível o nosso meio conatural. o trabalho se qualifica em certo modo revelando-se excessiva. isto é. em pouco tempo esgota-se o combustível e torna-se mister encher novamente o depósito. O esforço não pode persistir. precisamente porque é dever. fisiológicamente. exige limites que o mantenham em vigor e duração e lhe procurem. que se expandem na conversação amigável e guiam a vida. as vantagens de vaidade. É preguiça directamente. aos seus colegas na obra intelectual. Tomás. <<Quero que te poupes>>. Tudo se une no concerto divino-humano. os nossos poderes de pensamento são proporcionados a certa dose de acção. No teatro. 2. art. as realidades e os seus reflexos têm é mesmo Pai. É inconsequência amar a verdade à custa da prudência. consertam. O trabalho. por conseguinte. de ambição que dela se esperam. não se ama a verdade. O ensaiador que interrompesse essa tarefa seria inimigo do público e de si próprio. modificam e assim preparam o acto seguinte. Podemos admitir sem paradoxo estas palavras de Bacon. como os apaixonados de quem se costuma dizer que gostam de amar e do amor mais do que seu objecto. Com efeito. porque recusar um repouso é recusar implicitamente um esforço que o repouso permitiria e que o excesso de cansaço compromete. Todos os objectos são portas para penetrar no <<jardim secreto>>. como a higiene. Na realidade. A intemperança é pecado porque nos destrói.

esqueci-me de classificar umas notas. sua inspiradora. Escolher livros. os corolários práticos dos pensamentos e das criações. e a oração. referimo-nos ao princípio da distribuição das tarefas. sinto-me perturbado. com excepção do <<trabalho permanente>>. por se não cuidar delas a tempo. Ao falar do emprego do tempo. com alegria. repousando demasiado pouco. Somos tão realistas. nem tudo é concentração esgotante: há as preparações. interromper-se demasiado cedo é não dar a sua medida. descansar muito tempo seguido é destruir o ardor adquirido. Os desportos modernos: tais são os elementos de repouso. resta ainda a possibilidade de efectuar muitas dessas tarefas pouco fatigantes mas que. não se restauram as forças. Qual o meio de resistir aos inimigos do esforço e aos invejosos do êxito? O trabalho. que não se toma. nem Bentham a pretensa aritmética moral. toma-se. provas. tudo isso se teria feito como que por divertimento. em posição. Importa sumamente descobrir o ritmo que permite esse ardor máximo aliado ao mínimo de fadiga. saboreai as delícias da amizade. juntar notas. O repouso completo será necessário. os acessórios. Trabalhar muito tempo seguido estafa. o repouso. seu companheiro. aposto que duplicaria o produto do trabalho e que muito outra seria a sua amabilidade e humanidade. a Arte fácil. digo. depois a propósito da constância no trabalho. Em suma: sem verdadeiro repouso. pelo abandono momentâneo de preocupações laboriosas. Tomás o verdadeiro repouso da alma é a alegria. em seguida distraívos. um manuscrito. a desgraça é dupla. Introduzindo ordem nas ocupações. trabalho que a minha intemperança quis salvar. Do mesmo modo. mais que não seja tomai aquele repouso relativo que prepara. se o pensamento estaca. as conversações familiares. o trabalho é o ardor. os espectáculos pouco fortes e pouco apaixonados. aos animais que passam. são ocupações. Para S. Um repouso demasiado longo não só devora o tempo como também prejudica o ardor duma vida laboriosa. e. que descansam sem todavia interromperem totalmente o trabalho. a acção deleitável. não há verdadeiro trabalho. em vez de nos irritarmos esperando. a vida de família. completo. e estareis apetrechados para lutar e vencer. são os mais favoráveis. Sob esta reserva. falta a tinta no tinteiro. Juntai-lhe o silêncio. as leituras distractivas nas condições apontadas. Qual o conforto para o coração. sob forma de distracções. reina a desordem. de que necessito. Estou em pleno esforço criador: falta-me uma referência. são indispensáveis e comportam valor de contemplação. com a janela aberta para uma bela paisagem. intercala-se subrepticiamente no trabalho. no que se refere aos <<instantes de plenitude>>. encontro apenas uma resposta: o trabalho. . separar documentos. quando corremos pelo campo e com a alma librada no alto! Kant não deve ter sonhado o imperativo categórico num prado. o trabalho a meias que é repouso a meias e de nada serve. com o pensamento na sessão tranquila que dessa sorte eu teria preparado. classificar manuscritos. se ele duvidar da sua obra? O trabalho. os repousos frequentes e curtos. a vizinhança da natureza. Evitai cuidadosamente. Ah! Se pudéssemos trabalhar ao ar livre. Tratai de vos conhecer e de dosear em conformidade com esse conhecimento. Se omiti essas preparações por causa dum trabalho falso. a amizade. favorece ou conclui o trabalho. podemos cansar-nos só com verdadeiro conhecimento de causa. O trabalho é o remédio. Quando se não previu o repouso. cuja facilidade e benefícios já conhecemos. Neste momento. à assembleia das árvores ou das nuvens. Também neste particular cumpre evitar os excessos. disse eu. de descansar alguns instantes no meio da verdura ou. desde que chega o cansaço. no entanto. O dispor os trabalhos de acordo com a colaboração que exige do cérebro oferece dupla vantagem: evita o excesso de cansaço e comunica ao trabalho intenso toda a sua pureza. o ardor detém-se. Uma hora antes. e ao peso que me assaltam durante o trabalho. Os jogos. um trabalho manual muito suave.79 animais. nos intervalos. de pedir o parecer às montanhas. não são trabalho. dispor os objectos do escritório ordenar a biblioteca. de sonolência e de necessidade a que é preciso atender. estão noutro quarto ou soterrados debaixo duma pilha de papéis donde é preciso tirá-los. Na intelectualidade. Trabalhai com energia. o trabalho é o bálsamo. um livro. o divagar inteligente através duma cidade. Já demos bastantes sugestões neste sentido.

àquele que porventura é o mais sensível ao intelectual. tende a irritar-se. escreve Keyserling. engrandecida e melhorada pela prova. O trabalhador está exposto. em seguida permanecei firmes como o rochedo batido pelas vagas. O trabalho. Calai-vos. como homem. porque até o mal está nas mãos de Deus. Que este o pague e não recrimine. resultante do trabalho. entre outros pesares. e a paz vale mais do que o êxito banal. A inveja é um imposto sobre o juro da glória. pág. Que réplica adequada descobrir e que atitude tomar? <<Só encontro uma resposta a todas as críticas. O valor defende-se a si próprio. Agitar-vos à volta delas é enfraquecer-vos. e as fraquezas de toda a espécie retomarão o império. combate essa depressão. Tomás que. É pueril querer defender as próprias obras ou estabelecer o valor delas. humilhai-vos diante de Deus. por vem. as obras de verdade participam do seu ser e do seu poder. realiza ele a subordinação das forças. <<Não se diz mal. Paris. A agitação e gritaria de crianças barulhentas não conseguiam desviar o boi mudo da Sicília do caminho que trilhava. que funda a hierarquia dos valores. como o entusiasmo da equipa que rema cantando. 145. ela é também mãe dos desfalecimentos e das inquietações. senão ao homem: a crítica. A vida intelectual dissemos nós. os que a praticaram subiram sempre alto. O sistema solar não desempata Copérnico e Galileu. pelo menos favorece-as. desconfiai do vosso juízo e corrigi as vossas faltas. <<geme e dá à luz>>. com ela consolamo-nos de nós mesmos. geme. concorre para o vosso aproveitamento. Colin. se empenhava em firmar posições. é então que se sente ferido. Se a crítica for justa. diz Schiller. Quando a crítica é leviana e injusta. Corrigir-se e calar-se. invulnerável em si. reclama do trabalhador o seu tributo. Com o amor de Deus. o que lhe sucedia muito frequentemente. <<As grandes almas sofrem silenciosamente>>. Depois de assim terdes tirado o bem do mal deixai o resto nas mãos do Senhor que julga por vós e a tempo fará justiça. diante daquele que não escuta>>. fala ou escuta. eis a grande máxima. isenta de enfraquecimento e de rancor. o gasto rítmico das forças alteia-lhes o tom e regulariza-as. ele sofre. Adiai para mais tarde o êxito. nas suas produções ou no seu carácter. Édit. a sua descoberta é recompensa. não talvez o ( 1) Autobiographie. <<O verdadeiro sábio não discute nem se defende. Conta-se também de S. mas o seu gemido assemelha-se ao de toda criatura que. A verdade é. Com razão se chama a preguiça mãe de todos os vícios. a sua manifestação vingança nobre. da distinção ou do trabalho. nos dias de contradição. mais do que isso. O tempo e as forças que gastaríeis em sustentar uma obra será melhor empregado em realizar outra. o alcance do que se diz. deve a própria pessoa tratar de se retirar incólume. afirma ou procura penetrar as significações. em vez de reagir dentro ou fora. III – Aceitar as provações. A verdadeira força espiritual exalta-se na perseguição. Fora disso. em precisar e ilustrar a sua doutrina. e a alma estabiliza-se.80 O trabalho equilibra a alma. defeitos que ele quereria esquecer e ocultar aos olhos dos outros. escreve Santo Agostinho. já que os não pode corrigir. se toca no seu ponto fraco e saliente. no ponto de partida se revelasse má vontade contra vós. haveis de resistir à verdade? Embora. e. como diz o Apóstolo. tende a coragem de confessar o vosso erro. a necessidade de unidade não conseguirá satisfazer-se senão por alguma mania inferior ou por qualquer paixão. que vos fere. como o animal que se eriça. da força dispendida em os derrubar fizeram eles impulsão vitoriosa. Régis Michaud. com as pedras que lhes atiraram construíram a sua morada.>> Se vos censuram. quando atacado. e a crítica mordaz. Não presteis mais atenção. A verdade é também defesa que consolida e alegra. é heroísmo: quereríeis que o heroísmo não custasse? As coisas valem na proporção do que custam. O sentimento de vitória. diz Emerson: entregar-me de novo ao trabalho>>(1). o louvor. dá-lhe a unidade interior. observai. Quando nada há que retirar dum ataque. sede impessoal e íntegro. e depois calava-se. e o nobre propósito de utilizar a malevolência que Deus põe ao vosso serviço. .

excitam-lhe a embriaguez. o cingir um só instante a espada dos heróis é já recompensa. permite que repousemos às vezes numa alegria tranquila. Por isso ao se detêm nas decepções. e Deus. alegria da posse ideal e do êxtase por ela provocado(2). art. Se for preciso diferir para mais tarde a vossa utilidade – quem sabe até se para depois da morte – consenti no sacrifício. Trabalham não só pelo fruto. comporta igualmente alegrias e traz felicidade. mas pelo trabalho. a honra póstuma é a mais desinteressada. Se se envolve na acção interior a ponto de se esquecer de si próprio. porque encontra secretamente a posse magnífica do que deixou. As almas nobres vivem uma vida bela e esperam dela a fecundidade. quem ama alegra-se. As paisagens de ideias. O trabalho em si é valor. O trabalho não é só eriçado de contrariedades. Segundo o angélico Doutor. A verdade desvenda-se pouco a pouco. Os trabalhadores. <<Os fracos pensam no passado. que tomam como ideal. É preciso viver alegre mesmo no meio das afeições e contradições. como ao alpinista que trepa às rochas e aos glaciares. como nem a fé e esperança de sólidas raízes as temem. Despojado de tudo segundo o espírito e muitas vezes pobre efectivo. quando se ( ( 1) 2) In Psalm. semear e não colher. mas uma classificação subentendida nem por isso deixa de consagrar os valores autênticos. encontrei-o. mas a renúncia enriquece-o mais do que a altiva opulência. marchar e encontrar diante de nós apenas espaços ilimitados: quem crê e espera não descoroçoa. Perde o mundo e o mundo é-lhe dado espiritualmente. afirma S. rectas e viris. a despeito da sua aparente defecção. A verdade? É eterna. <<Ver a ordem do universo e as disposições da divina Providência é actividade sumamente deleitável>>. para que suas vidas sejam puras. pois só a alegria nos põe em disposição de trabalhar e nos distrai após o esforço. não passais de falso intelectual. mas só se lhes não resistimos. a realidade íntima. para nos ajudar. Isto é sempre possível. Entre os intelectuais cometem-se muitas pequenas vilanias e por vezes grandes iniquidades. A tristeza e a dúvida matam a inspiração. os que a tiram da sombra não têm que lhe pedir a esmola duma auréola. sobe ao trono onde são julgadas as doze tribos de Israel (Lc. Quando se possuem as disposições requeridas e a alma se consagra a uma obra. nadar para o mar alto e ser atirados para a margem. Mas o nosso tempo cometeu o crime de o depreciar e de ter substituído a sua beleza por feroz egoísmo. no mais profundo deste sono aparente poderia repetir. O sentimento da altitude dá ao trabalhador uma alma apertada e ao mesmo tempo feliz. escreve Maria Bashkirtseff. O ideal é. q. mas o louvor de Deus e o da sua corte. . para ele. e a utilidade póstuma satisfaz bastantemente aos verdadeiros fins da vossa obra. I. 22. semelhantes à de Jesus. Que pretendeis? A gloríola? Nesse caso. 30). 22.180. tem de sobra tudo quanto abandona. eles servem e é quanto basta. Ila Il ae . os fortes tomam a desforra>>. <<Durante a noite procurei no meu leito aquele a quem o meu coração ama. Desprender-se delas por meio da alegria cristã é reavivar a chama apagada. IV – Saborear as alegrias. mas o meu coração vigia>>. Não é mister utilizar a eternidade. não o largarei>>. vossos irmãos na luta. porque o amor prova-se muito mais quando se trabalha pelo prazer da pessoa amada e pelo prazer de lhe render serviços. que substitui a outra realidade e lhe absorve as taras na beleza. ainda mesmo que a publicidade os esqueça. Tomás de Aquino(1). Poderemos trabalhar sem ver o resultado da nossa diligência. que farão da vossa consciência o seu profeta. mais sublimes que as dos Alpes. O amor não teme as decepções. louvar-vos-ão também.. a exemplo do Apóstolo: <<Exulto de alegria no meio das tribulações>>.81 louvor dos homem. a contemplação parte do amor e termina na alegria: amor do objecto e amor do conhecimento como acto de vida. como a Esposa: <<Eu durmo. O intelectual cristão escolheu a renúncia.

Não há virtude sem crescimento. na vinha do Senhor. mas tão feliz por ter nascido um homem que não mais se recorda dos padecimentos (Io. a verdade é a santidade do espírito. se produzimos. Não faltemos a Deus. e a Verdade empolga-nos pela inteligência. nasce do trabalho. O intelectual é jovem até ao fim. Adeus>>. a recompensa do esforço é o ter crescido.82 estuda bem e se lê bem. que o êxito de Deus será nosso em parte. Mas. do trabalho que tentámos descrever. como a criança que a mãe dá à luz no meio de dores. O verdadeiro intelectual não teme a esterilidade. o Espírito sopra em todos. dos nossos irmãos intelectuais. Os grandes homens não são grandes só para si. quando se faz trabalhar a inconsciência e a noite. Dir-se-ia que participa da eterna juventude da verdade. Ora sabemos que com os socorros celestes podemos triunfar de muitas deficiências. a inutilidade. <<Seguindo este caminho. compreendendo a dupla regra do pensamento e da acção. porém. A recompensa duma obra é o concluí-la. também não há luz intelectual sem que estes efeitos dela derivem. 16.Tomás ao discípulo. Com o seu auxílio podemos também engrandecer a nossa vida. Eis o que pode consolar a nossa inferioridade e. A luz pode filtrar-se através das fendas que o esforço alarga. inspira-nos. Nada podemos augurar a quem não for dotado. a honra da verdade e assegura.. alcançarás o que desejas. assiste-nos o direito de afirmar que a cultura não é filha principalmente do génio. Nobre adeus o que obriga. reconfortar-nos perante o . a alma paga. que se funda numa lei das coisas. eu é o divino. do mesmo modo que a santidade é a verdade da vida e tende a fortificá-la para este mundo e para o outro. quer dizer que tem gosto ou discernimento. e o discernimento é um só. Praticando estes conselhos. chama por nós. lote dos santos. etimológicamente. quando esse. os trabalhos que se preparam são como a semente acalentada pelo sol. nunca. mas conserva-se ainda na pujança de vida quando a eternidade o vem recolher. V – Gozar antecipadamente os frutos. Sábio (sapiens). os acontecimentos pagam. Esta esquisita perenidade. sempre necessário. Uma vez mais repetimos: não pretendemos outra coisa. pois a seu lado está o Deus que disse: <<Quem busca encontra e a quem bater abrir-se-á>>. do trabalho qualificado. conserva-o. diversos. a quem cumprir as condições essenciais requeridas. A alma é igual em todos. Como o ferreiro que caldeia as ferramentas. podemos sempre igualar-nos a nós mesmos. produzirás. em favor do estudioso diligente e fiel. Somos chegados às últimas palavras que convém dirigir ao ouvinte desta curta e demasiado longa teoria da vida intelectual. Amadurece geralmente muito cedo. assim o trabalho forma os caracteres. os resultados por que anseia. dos amigos. Cada indivíduo é único: portanto cada fruto do espírito será também único: O único é sempre precioso. Nunca se concebe ideia demasiado elevada do eu. pertence mais ao trabalho do que ao trabalhador. Todos temos a Verdade detrás de nós. Coisa notável. são apenas os elementos cerebrais mais ou menos livres e activos. sem alegria. folhas e frutos úteis todo o tempo da vida. basta que a árvore seja árvore para produzir frutos. temo-la diante de nós. levam-nos. a nossa confiança subentende-os. Esta confiança. Além do quê. o fim e as aspirações profundas são as mesmas para todos. sem fecundidade. como eles engrandeceram as suas. Com efeito. permanente contribuição. diz S. dá a solidez e inspira confiança. mais ou menos ligados. 21). faz suspeitar que a essência da santidade e da intelectualidade seja a mesma. será demasiada a confiança concedida a Deus em nós. organizado e aturado. temo-la acima de nós. uma vez lá dentro. quando se anota bem. tendo em conta a desproporção das forças. Temos por nós os génios. no entanto este deve igualmente ter fé em si. além da coragem. o verdadeiro intelectual parece escapar a estas tristezas da idade que infligem a tantos homens morte antecipada. suposta a vocação. O trabalho fabrica os seus instrumentos. Não nos apoiemos em nós. Os resultados chegam por vezes tarde. mas chegam sempre. Se não esta em nossa mão igualar-nos com o que admiramos. por si própria estende e corrobora o seu reinado. esperamos também dos nossos iniciadores.

em voz alta para que as palavras melhor penetrem no espírito. repetireis cada dia o vosso propósito.83 dilúvio dos livros. se o fordes até ao fim. que dela nada se perdesse nem fosse impuro. a resolução firme. Só mais uma palavra. e que essa fórmula esteja continuamente diante de vós. não se pretende excluir todo o desfalecimento.a vossa. recitá-la-eis. digo. direis. retenhamos o essencial o habitual. Depois. . Seria para desejar que a nossa vida fosse chama sem fumo e sem escórias. se fordes fiel a vós. É próprio do homem errar. Se preciso for. esse quinhão basta e é indispensável. Aconselho-vos a escrevê-la igualmente no papel em caracteres lisíveis. Mera possibilidade. Acrescentai: não há vida mais bela para mim. inscrevei no coração. após breve oração. não há vida que lhe seja semelhante. Dai tudo o que possuís e. a belos e saborosos seus frutos. a vossa resolução. trabalho aturado e bem regulado. Quando. Quando se nos exige fidelidade. . interiores e exteriores. Direis que muitas vidas e muitas obras serão mais belas. de todas as prescrições. hoje mesmo. se todavia o não fizestes. Decidido a pagar. promessas com essa condição se irrisórias. Mas o possível também é belo. Mas. acrescentai e repeti com convicção: <<Se fizeres isto produzirás frutos úteis e alcançarás o que desejas>>. acometeis o trabalho. Cuidareis de notar especialmente aquilo que vos é menos natural e mais necessário. ADEUS. estai certos de alcançar a perfeição da vossa obra. a que Deus espera de vós e que corresponde às suas graças. que faz parte dos motivos de confiança.

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