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o desejo de não saber

Acompanhe a coluna de Betty Milan em veJa.comlbettlmllan

olrusai poderia ser sinônimo de Japão como Van Gogh é de Holanda. Um e outro são a expressão do seu país, embora Holrusai não seja muito conhecido no Ocidente, talvez por não ter sido tão bem-aceito pela Academia quanto o foi pelos japoneses. O fato é que ele ilustrou mais de 120 obras, abordando temas diversos, descrevendo os trabalhos e os prazeres dos seus compatriotas na rua, no campo e no mar. As suas cortesãs são mágicas e as suas visões, inesquecíveis. Entre as imagens da coleção' Manga, palavra cuja tradução é "desenho espontâneo", há uma do Buda particularmente interessante. Ele aparece em meio a quatro demônios. Ao lado de cada um deles está escrita uma das quatro verdades do budismo: a do sofrimento que toda vida implica; a da origem desse sofrimento; a do seu fim; e a do caminho que conduz a esse fim. Na imagem de Holrusai, a verdade está associada à figura do demônio porque os homens tendem a ignorá-Ia. Para explicar essa inclinação, o budista diz que somos vítimas do "desejo de ignorar", e o psicanalista se refere ao "desejo de não querer saber". Nos dois casos, acabamos produzindo nos-

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sa própria miséria. Entre o budismo e a psicanálise não há oposição direta, embora exista uma grande diferença. Para o budista, e a cultura do Extremo Oriente em geral, a subjetividade não existe ~ o que importa é integrar-se ao Todo. Para o psicanalista, o caminho da verdade é o que permite decifrar o inconsciente, ou seja, o da escuta. São posições diferentes. A cultura ocidental não existe sem o sujeito, o desejo e a fantasia individuais. Embora diferentes', tanto o budismo quanto a psicanálise podem nos guiar,já que o que realmente interessa é não nos distanciarmos da verdade, qualquer que seja ela, não cairmos no engodo de mentir para nós mesmos e, desse modo, sofrer além da conta.
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A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental em VEJA.c:om. Uma vez por mês, ela publica em VEJA um artigo especialmente esatto para a revista Impressa

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I2 DE NOVEMBRO. 2011

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