Teoria das Elites.

I. DEFINIÇÃO DE ELITE. — Por teoria das Elites ou elitista — de onde também o nome de elitismo — se entende a teoria segundo a qual, em toda a sociedade, existe, sempre e apenas, uma minoria que, por várias formas, é detentora do poder, em contraposição a uma maioria que dele está privada. Uma vez que, entre todas as formas de poder (entre aquelas que, socialmente ou estrategicamente, são mais importantes estão o poder econômico, o poder ideológico e o poder político), a teoria das Elites nasceu e se desenvolveu por uma especial relação com o estudo das Elites políticas, ela pode ser redefinida como a teoria segundo a qual, em cada sociedade, o poder político pertence sempre a um restrito círculo de pessoas: o poder de tomar e de impor decisões válidas para todos os membros do grupo, mesmo que tenha de recorrer à força, em última instância. A formulação, hoje tornada clássica, desta teoria foi dada por Gaetano Mosca nos Elementi di scienza política (1896): "Entre as tendências e os fatos constantes que se acham em todos os organismos políticos, um existe cuja evidência pode ser a todos facilmente manifesta: em todas as sociedades, a começar por aquelas mais mediocremente desenvolvidas e que são apenas chegadas aos primórdios da civilização, até as mais cultas e fortes, existem duas classes de pessoas: a dos governantes e a dos governados. A primeira, que é sempre a menos numerosa, cumpre todas as funções públicas, monopoliza o poder e goza as vantagens que a ela estão anexas; enquanto que a segunda, mais numerosa, é dirigida e regulada pela primeira, de modo mais ou menos legal ou de modo mais ou menos arbitrário e violento, fornecendo a ela, ao menos aparentemente, os meios materiais de subsistência e os que são necessários à vitalidade do organismo político'' (I, p. 78). A fortuna do termo Elite, porém, remonta a Pareto, que alguns anos depois, por influência de Mosca, enunciou, na introdução aos Systèmes socialistes (1902), a tese segundo a qual em toda a sociedade há uma classe "superior" que detém geralmente o poder político e o poder econômico, à qual se deu o nome de "aristocracia" ou Elite. II. OS PRECURSORES: MOSCA, PARETO, MICHELS.— Que toda sociedade seja dividida em governantes e governados e os governantes sejam uma minoria é uma tese que certamente não é nova, comum a todos os escritores que tinham condividido uma concepção realista da política. O mesmo Mosca, de resto, reconheceu ter tido alguns precursores, citando Saint-Simon, Taine e MarxEngels. O que permite considerar Mosca, mais ainda do que Pareto (à parte a diatribe entre os dois sobre a respectiva prioridade), o primeiro teórico da classe política é o fato de que ele apresentou esta tese como o ponto cardeal de uma concepção que pretendia ser científica, a saber, fundada sobre uma paciente e imparcial observação dos fatos, não mais apriorística, ideológica ou ideologizante da política; elevou-a a lei constante e certa de toda sociedade política, primitiva ou evoluída, antiga ou moderna; dela tomou o ponto de partida para reformular, de maneira nova, alguns conceitos fundamentais da teoria política tradicional, como o das três formas clássicas de Governo (todos os Governos, partindo da teoria da classe política, são oligárquicos), para renovar a própria matéria da ciência política, a qual deveria concentrar sua atenção na natureza diversa e nas diferentes características dos tempos e das civilizações, nos problemas da formação e da organização da classe política. Além disso, Mosca não se limitou a enunciar o princípio segundo o qual existe, em toda a sociedade, uma classe política composta por um número restrito de pessoas, mas procurou também dar uma explicação do fenômeno, insistindo repetidamente sobre a observação de que a classe política encontra sua própria força no fato de ser "organizada", entendendo por organização, tanto o conjunto de relações de interesse que induzem os membros da classe política a coligarem-se entre si e a constituírem um grupo homogêneo e solidário contra a mais numerosa, dividida, desarticulada, dispersa e desagregada classe dirigida, como o aparelho ou máquina estatal da qual se serve a classe política como instrumento para a realização de seus próprios fins. Com base nesta característica, a teoria da classe política é habitualmente também chamada teoria da minoria organizada.

contribuiu para consolidar o seu sucesso. em espécie. Já na introdução ao Systèmes socialistes. e o ideal do democratismo igualitário teve de sustentar o choque com a dura e áspera lição do darwinismo social. Pareto foi atraído pelo fenômeno da grandeza e da decadência da aristocracia. que havia caracterizado o período da burguesia ascendente. as econômicas (com os pólos nos especuladores e nos banqueiros) e as intelectuais (onde se contrapõem continuamente os homens de fé e os homens de ciência). 1912). ou melhor. III. ou seja. não obstante a pretensão de valer como teoria científica. dos mandatários sobre os mandantes. ao nascer. mais ou menos. pelos mesmos anos. em contraste com o provinciano Mosca. publicou. enquanto que para Michels é a mesma organização que tem por conseqüência a formação de um grupo oligárquico —. seja o inverso da que foi proposta por Mosca — para Mosca a organização é um instrumento para a formação da minoria governante. em grande parte. e revela que para o autor. usando um termo que. diferentemente de aristocracia usado pelo conservador Pareto. Do ponto de vista ideológico. segundo Michels. indivíduos que. internacionalmente conhecido. cujas principais são as políticas (estas têm dois pólos: os políticos que usam a força (leões) e os que usam a astúcia (raposas). foi uma das muitas expressões através das quais se manifestou. mas mais nas do primeiro do que nas do segundo. Nos anos que intercorrem entre as duas obras de Pareto (1902 e 1916). INTERPRETAÇÃO CONSERVADORA E INTERPRETAÇÃO DEMOCRÁTICA DA TEORIA DAS ELITES. a crise da idéia do progresso indefinido. pelo fato de que as aristocracias não duram e a história é um teatro de contínua luta entre uma aristocracia e outra. em vários níveis. ainda que inevitável. depois em edição italiana (La sociologia del partito político nella democrazia moderna. Mais do que dos problemas da constituição e da formação da classe política. o fenômeno tinha um caráter degenerativo. Conquanto a relação entre organização e grupo de poder.Contribuiu certamente para fazer ressaltar particularmente a teoria da classe política e para fazer dela uma espécie de tema dominante da ciência política a circunstância de que. deteve-se particularmente sobre os. e que se chamava Vilfredo Pareto. Pareto chamou atenção para o fato de que. sendo os homens desiguais em todo o campo de sua atividade. mostrando a possibilidade de uma sua mais ampla aplicação. as impiedosas mas necessárias condições da evolução. No Tratatto di sociologia generale (1916). dispõem-se. se integram e se intercambiam as diversas classes de Elite. que Mosca tinha constatado na sociedade em geral. Roberto Michels. — A fortuna da teoria das Elites. especialmente na exposição paretiana. sobre o modo como se combinam. Tão inevitável que o induziu a formular precisamente a famosa (ou mal-afamada) "lei férrea da oligarquia". esta teoria. proveniente das filas do movimento socialista. a teoria fosse acolhida por um personagem importante no campo das ciências sociais. constituem a Elite política ou a aristocracia. como a dos partidos de massa. a teoria do equilíbrio social é fundada. o mesmo fenômeno da concentração do poder num grupo restrito de pessoas. chamou de Elites aqueles que fazem parte do grau superior. no final do século. ocupando os graus superiores da riqueza e do poder. do partido social-democrático alemão. estudando a estrutura dos grandes partidos de massa. A este grupo de poder deu o nome de "oligarquia". cuja enunciação mais conhecida é a seguinte: "A organização é a mãe do predomínio dos eleitos sobre os eleitores. ainda. tem uma conotação negativa de valor. a obra de Michels constitui uma confirmação histórica e empírica da teoria elitista. A evolução podia . como primeira teoria científica no campo da política. na seleção através da luta. uma verificação num campo específico como no dos partidos de massa e. surgiu como uma fortíssima carga polêmica antidemocrática e antisocialista. dos delegados sobre os delegantes. colocou em relevo. no âmbito de uma grande organização. que vão do superior ao inferior. primeiro em edição alemã (1910). que defendia. que politicamente foi a mais divulgada. inspirando-se nas idéias de Mosca e de Pareto. Quem diz organização diz oligarquia". dependeu do fato de que. que refletia bem o "grande medo" das classes dirigentes dos países onde os conflitos sociais eram ou estavam para se tornar mais intensos. uma obra que.

entre classe política no Governo e classe política na oposição. enquanto que nos segundos as Elites são abertas e amplas. De tal forma que. a diferença entre regimes aristocráticos e autocráticos. ligado à experiência gobettiana da "revolução liberal". Mosca abrira o caminho para uma interpretação não ideologicamente restrita pela teoria. dentre os maiores teóricos das elites na Itália conta-se o escritor democrático Guido Dorso. por escritores liberais e até democráticos. mas no fato de que nos primeiros existem Elites fechadas e restritas. onde não contam os ideais. e regimes liberais e democráticos. A teoria das minorias governantes caminha pari passu com uma concepção essencialmente desigual da sociedade. por falta de outro termo. de "formações oligárquicas que constituem a ossatura de toda a estrutura social". com uma incredulidade quase total em relação aos benefícios da democracia. 1923). nos primeiros anos. Filippo Burzio. por seu valor científico. ao mesmo tempo em que defendeu sua validade histórica. Esta concepção. Por seu lado. tinha interesse em demonstrar que a história é uma repetição monótona de conflitos. partindo da constatação irrefutável da existência. distinguindo. em toda a sociedade. com uma atitude mais pessimista do que otimista da natureza humana. ou são os novos bárbaros ou são apenas um exército de manobra da nova classe política em ascensão. dois modos diferentes de formação das classes políticas. separando-se pouco a pouco da sua matriz ideológica. cujos defeitos foram asperamente criticados por Mosca. o livro Essência e atualidade do liberalismo. os resultados da pesquisa científica não conseguiram amolecer nele as aspirações e as esperanças democráticas. segundo o poder se transmite por herança. classe política e classe dirigente. Depois de Mosca. que faz parte da teoria das minorias governantes. a teoria das Elites serviu de bacia coletora de todos os humores antidemocráticos e anti-socialistas (mais exatamente para alguns antidemocráticos porque anti-socialistas). e que as chamadas revoluções não são mais do que a substituição de uma classe dirigente por outra. após a libertação do fascismo. Mosca chamou de liberais mas que teria podido chamar também corretamente de democráticos. No primeiro momento de sua aparição. que as massas. além de controlada a partir de baixo. E permitiu formular. onde o termo positivo era o primeiro e negativo o segundo. por um lado. na verdade. E um escritor liberal. Michels é mais moderado. fervoroso seguidor de Pareto. Desta forma. numa segunda etapa (cuja obra conclusiva é a segunda edição dos Elementi di scienza política. de uma maneira que até então não tinha sido assim tão nítida. embora num sentido em que democracia se contrapõe não à aristocracia mas à autocracia. num regime pluralista. um ensaio intitulado Ditadura. de onde provêm os regimes aristocráticos. e com uma desconfiança que se aproxima do desprezo pelas massas portadoras de novos valores. O regime parlamentar. num capítulo acrescentado à segunda edição. com uma crítica radical do socialismo. descreveu as relações entre classe dirigente e classe política. Distingue também dois modos diversos de organização das classes políticas: o poder que desce do alto e que dá lugar aos regimes autocráticos e o poder que vem de baixo e dá lugar aos regimes que. Salvemini e Gobetti. Escreveu em 1944. é um regime que não desmente a teoria das Elites: ele representa o regime em que. cujo advento é considerado iminente pelos reformadores sociais e a quem se atribui valor taumatúrgico. como viático para o novo Estado democrático que deveria surgir das cinzas do fascismo.fornecer bons argumentos a quem. como os italianos Einaudi e Croce. provocados pelo aparecimento do movimento operário. mas a força e a astúcia. ou buscando continuamente realimentar-se nas classes inferiores. é sustentada por Mosca e Pareto. foi acolhida como teoria historicamente correta. passa a sustentar que as melhores Elites são aquelas que se formam através da luta e estão em contínua concorrência entre si. Pelo menos. Mas já através de Michels e de Mosca. por outro. a antítese Elite-massa. não deve ser mais pesquisada na presença de uma classe política. no qual. as quais. e onde o sujeito histórico teria sido não as elites mas as massas (mesmo se lideradas por vanguardas inconscientes). após afirmar que tudo que se faz de original e de criativo no mundo é obra de minorias. a classe política é mais aberta e menos restrita. como uma visão estática ou inteiramente cíclica da história. sendo eleitas . como afirmam as doutrinas liberais. de onde nascem os regimes democráticos. como criador de uma nova civilização. a teoria das Elites foi-se impondo por seu valor heurístico. que publicou em 1945.

desde o momento em que foi acolhida. Ao formular o conceito de Elite. Wright Mills parte da contraposição entre o homem comum. a possibilidade de conceber um tipo de Governo democrático. Wright Mills. além de Sorel. how (Quem obtém o quê. articulando melhor o conceito. 53-4). quando e como. sobretudo. consiste na passagem de uma classe dominante (a dos burgueses-capitalistas) para outra (a dos managers). p. deve a sua divulgação nos Estados Unidos. e da massa. 1951. que são precisamente. o resto é massa" (The political writings of H. No livro posterior. da Elite média. Pareto e Michels. Aqueles que obtêm a maior parte delas são Elites. D. cuja popularidade foi muito maior do que os produtos que saem das instituições universitárias: The managerial revolution (A revolução dos managers. que a introdução do conceito de Elite feche. mas das relações que decorrem entre a Elite e a massa: do modo como a Elite é recrutada e do modo como exerce seu poder" (ed.e controladas periodicamente pelos cidadãos. distingue a verdadeira Elite. Os valores disponíveis podem ser classificados como valores de deferência. mais ou menos pela mesma época em que foi introduzido entre os estudiosos americanos e ampla e acirradamente discutido. que é constituída por aqueles que têm o poder maior numa sociedade. IV. 1950). 1956). Power and society (Poder e sociedade. a sociologia americana oficial e acadêmica sempre olhou as teorias elitistas com uma certa suspeita. um grupo que em antítese com o resto da sociedade tem. The machiavellians (Os maquiavélicos. a história é a sucessão variada de uma classe dominante para outra. 1936). em seu sentido originário. personalizada por Maquiavel. personalizada por Dante. Pareto e Michels são habitualmente considerados fundadores. Além disso. e The power elite (A elite do poder. A interpretação geral da história em que se funda o afortunadíssimo livro sobre a revolução dos managers é elitista: cada sociedade é caracterizada pelo fato de ser dominada por um grupo de poder (ruling class) que tem certas características: "Onde existe tal grupo de controle.. constituída por aqueles que têm um poder menor. não se "impõem" mas se "propõem". 218). A revolução social do nosso tempo. Who gets what. O SUCESSO DA TEORIA DAS ELITES NOS ESTADOS UNIDOS. à tecnocracia. Lasswell faz referência explícita à tradição de Mosca. Lasswell. de C. de renda.. que ele descreve e profetiza. o Trattato de Pareto (1935). p.). 296). 1941). 1947). reelaborada e divulgada por Harold D. teceu o elogio dos novos maquiavélicos. a de especialistas. em maior medida. . como afirmam as teorias democráticas. uma Elite de nobres dá lugar à forma aristocrática de domínio. não obstante a autoridade de Lasswell. definido como "aquele cujos poderes são limitados pelo . Aqueles que têm influência são aqueles que tomam a maior parte daquilo que se pode tomar. já enunciado por Mosca. when. Distingue as várias formas de domínio em que o poder numa sociedade é controlado e exercido à base de vários tipos de Elite (uma Elite de funcionários dá lugar a uma forma burocrática de domínio. a dois livros extra moenia. renascida e renovada nos Estados Unidos. que. ele mesmo revelou. de segurança. segundo o qual "a democracidade de uma estrutura social não depende do fato de existir ou não existir uma Elite. de James Burnham. Mosca. etc). sem hesitação. podemos falar deste grupo como de um grupo socialmente dominante ou da ruling class desta sociedade" (pp. o controle do acesso aos instrumentos de produção e um tratamento preferencial na distribuição dos produtos destes instrumentos. Embora Burnham estivesse ligado à tradição dos fundadores. Mas a teoria das Elites conquistou verdadeira cidadania na ciência política contemporânea. escrito em colaboração com Abraham Kaplan. Contra a imagem idílica de uma América como paraíso do homem comum. num livro publicado alguns anos depois. através da afortunada tradução inglesa. de antemão. — Mosca. partindo da contraposição entre a concepção idealista da política. O elitismo. Nega. Numa das suas obras principais. Pareto e Michels. o primeiro capítulo "Elite" se abre com estas palavras: "O estudo da política é o estudo da influência daqueles que a exercem (. constituída por aqueles que têm um poder inferior. Não hesita em afirmar que os membros da Elite são ordinariamente menos numerosos que os da massa. reforça o princípio. Lasswell. ital. e a realista.

. sustentam-se e se reforçam uns aos outros. pp. a teoria das Elites como uma coisa que "tira inevitavelmente a atenção dos problemas da estrutura e do processo social e leva a procurar causas externas aos problemas sociais". critica. e a Elite no poder. procura demonstrar que. de verdade. dos três "c" (consciência. Retomando a tradição iniciada por Mosca. A crítica dos liberais não conduz necessariamente a uma negação radical do elitismo. tendem sempre mais a concentrar os seus instrumentos de poder em instituições centralizadas e interdependentes. negam que o poder na sociedade "americana esteja reunido num grupo monolítico. não três Elites setoriais unidas numa Elite do poder. O conceito de Elite no poder foi criticado pelas duas partes opostas: os liberais negam a unidade da Elite no poder. a riqueza e a celebridade" (trad. para compreender. Com uma avaliação sintética que lembra. a cúpula é muito mais unida e poderosa. defendem que a Elite no poder não se encontra. O mais autorizado representante da primeira crítica é Robert A. como a americana.mundo cotidiano em que vive" e que "parece freqüentemente ser movido por forças que não pode compreender nem controlar". mas o monolitismo. atualmente. a teoria das Elites no poder não tem. a tese de Mosca sobre as minorias organizadas contra as maiorias desorganizadas. Wright Mills escreve: "No sistema americano do poder. ao contrário. defendeu que a hipótese da existência de uma Elite no poder pode ser aprovada se: a) a hipotética ruling elite for um grupo bem definido. globalmente. estão ligados uns aos outros por razões sociais. articulada nos três setores indicados por Mills. Sweezy (Power elite or ruling class?. a dos detentores do poder econômico. mas "uma classe dominante" (no sentido marxista da palavra) que. 9-10). porque a classe dominante é uma só. de "política". Ela não nega que existam Elites ou que até numa sociedade democrática exista uma contraposição permanente entre aqueles que têm o poder e aqueles que não o têm. V. "composta de homens que se acham em posições tais que lhes é possível transcender o ambiente do homem comum" e "ocupam aquelas posições estratégicas da estrutura social em que estão atualmente concentrados os instrumentos de poder. que constitui precisamente a "Elite no poder" e é composto por aqueles que ocupam as posições-chaves nos três setores: da economia. Estes constituem uma Elite no poder porque. segundo Dahl. Com uma análise histórica e sociológica. entre Elites aristocrático-autocráticas e Elites democrático-liberais. e que numa sociedade extremamente complexa e fundamentalmente conflituosa. quer dizer. Os radicais. e opõem a ela a teoria que foi de variadas maneiras denominada "pluralística". nega. por retorsão polêmica. não apenas o elitismo. exista apenas uma Elite. e a base muito mais desunida e impotente do que supõem geralmente aqueles que se deixam distrair na observação dos estratos médios do próprio poder: estratos não exprimem a vontade da base nem determinam as decisões da cúpula" (p. conspiração). que distinguiu. ital. Da segunda crítica se fez intérprete Paul M. do exército e da política. 1956). contrariamente ao que aparece ou se faz crer. de modo surpreendente. fundamento científico. defende que nos Estados Unidos existem. 34). é necessário estudar todo o sistema do capitalismo monopolista e não os domínios separados da vida social norte-americana. enfim. "poliárquica" e até. coesão. Dahl. o qual num ensaio intitulado A critique of the ruling elite model (1958). os Estados Unidos são dominados por um restrito grupo de poder. b) houver uma amostragem suficiente de casos de decisões fundamentais. o qual acha que Wright Mills superestimou o papel dos militares e dos políticos de profissão. OS CRÍTICOS DEMOCRÁTICOS E OS CRÍTICOS MARXISTAS. ou melhor dizendo. segundo a tese que foi chamada. os marxistas. em torno da validade do elitismo como teoria científica. c) em todos estes casos. as preferências da hipotética Elite prevalecem. aparecido dois anos depois do livro de Robert Mills. familiares e econômicas. em que as preferências da hipotética Elite contrastam com as de outros grupos. — O modo polêmico e talvez provocante com que a tese de Wright Mills foi apresentada deu oportunidade a um debate em torno do conceito de Elite e em geral. como antítese ao monolitismo. como se disse. Como nem o primeiro nem o terceiro ponto foram até agora empiricamente provados.

partindo da dicotomia Elite-massa. realista. no momento que um marxista consideraria superestrutural. Ainda: enquanto a teoria marxista. em Pouvoir politique et classes sociales.. por um lado. e que já existiu. a crítica proveniente dos marxistas (bastaria lembrar. a relação entre Elite e massa não é necessariamente antagônica. Enquanto a teoria elitista parte. Estudioso da teoria de Pareto. esta teoria se religa à concepção de Joseph Schumpeter. para terminar com o artigo Social class. nos últimos anos. 353-59) funda-se sobre uma interpretação radicalmente diversa da sociedade. o fato de que estas Elites devem dar conta de sua ação periódica junto aos eleitores e sejam diversamente acessíveis aos pedidos que vêm das classes inferiores" (P. Na sua tentativa de fixar uma tipologia das diversas sociedades. isto é. political class. uma das características fundamentais da democracia moderna. voltando um pouco atrás. Bachrach. I. defende em seu livro Soziale Klassen und Klassenkonflikt in der industriellen Gesellschaft (Classes e conflitos de classes na sociedade industrial. 252). a teoria elitista individua o elemento determinante da desigualdade social. 1960. por outro. trad. bem além da polêmica Wright Mills-Sweezy. 1942. que é interessante confrontar com a teoria das Elites nas duas versões. entendida como conjunto de relações entre dominantes e dominados. que foi batizada e recentemente criticada com o nome de "elitismo democrático" e cujas principais conotações são a "concorrência das Elites políticas. 1950. a maior ou menor possibilidade que têm as massas de ser mobilizadas pelas Elites {The politics of mass society. para encontrar os elementos constitutivos e determinantes do movimento social. monista e pluralista. Milano 1955. a este tema. 1956). William Kornhauser toma em consideração. isto é. juntamente com o princípio de igualdade de todos os homens e o de autonomia dos indivíduos. a começar pelo artigo Social structure and the ruling class (In "The British Journal of Sociology". ruling class (in "The European Journal of Sociology". o método que permite a cada indivíduo ou grupos rivais lutar pela conquista do poder em concorrência entre si "através de uma competição. Karl Mannheim. 1957) que é a . na diversa distribuição do poder. criticando Marx e ligando-se explicitamente aos teóricos das Elites.prosseguida por I. 1967. e considerava este princípio. e que convém manter bem distinta para não cair em confusões e simplificações deformantes. que caracteriza toda sociedade existente. como já se viu. 179). pp. mais exatamente. os juízos acutilantes de Lukács e de Gramsci sobre a obra de Michels. 26081). 8). 1968.asswell. repetindo Mosca: "A democracia não implica que não haja Elites: implica sim um certo princípio específico de formação das Elites" (p. numa análise escrita por volta de 1950 e publicada postumamente sobre o processo de democratização da sociedade contemporânea (The democralization oi culture in Essays on the sociology of culture. e conduz a uma verdadeira teoria alternativa. Em substância. com base na diferença entre oligarquia desintegrada e oligarquia unificada num partido único. De resto. também Raymond Aron voltou repetidamente. Diferentemente da crítica dos pluralistas. que considerou perfeitamente compatível a existência das Elites com o funcionamento do regime democrático. tinha já afirmado. Na visão elitista da sociedade. a crítica do elitismo monolítico terminou por dar origem a uma concepção desmitificada. por meio de instrumentos analíticos diversos. a maior ou menor possibilidade que as Elites têm de ser influenciadas pelas massas e. desencantada da democracia. remonta à forma de produção. a teoria marxista parte da contraposição entre as duas classes antagônicas dos donos dos instrumentos de produção e dos proletários e considera o conflito entre as duas classes sociais o principal motor do movimento histórico. e recentemente as objeções levantadas por Nikos Poulantzas. pp. pp. o qual. onde entre outras coisas escreveu: "A diferença fundamental entre uma sociedade de tipo soviético e uma de tipo ocidental é que a primeira tem uma Elite unificada enquanto que a última tem uma Elite dividida". 1960): nenhuma destas duas relações é uma relação antagônica como a que é posta em relevo especial pela teoria marxista. segundo a qual aquilo que caracteriza o regime democrático é o método e. que tem por objetivo o voto popular" (Capitalism. it. 109-10. socialism and democracy. 1-16). ao momento estrutural. I. com particular destaque para o poder político. da contraposição entre Elite e massa distintas entre si como o elemento passivo da sociedade e limita o elemento conflitual ao conflito interno das Elites. em que contrapõe as sociedades industriais do Ocidente à sociedade industrial da União Soviética. Neste sentido se pronunciou também Ralf Dahrendorf. p.

por sua vez. as . quem das pesquisas empiricamente até agora realizadas quisesse tirar uma confirmação da preponderância de uma das interpretações da teoria elitista sobre outra. Observou-se também que as diversas conclusões a que chegaram Hunter e Dahl podem depender também das diferentes técnicas adotadas por um e por outro. 1953).autoridade e não a propriedade. entre a interpretação monista e pluralista. que há dezenas de anos representa. Contra o segundo. com sucesso alternado. Não se disse que aquilo que vale numa comunidade vale também na outra comunidade. Além disso. A study of decision makers. empiricamente. tal como as administrações municipais. nos Estados Unidos. que foram dirigidas por razões técnicas facilmente compreensíveis ao estudo dos grupos de poder de comunidades de pequena ou grande dimensão. Das duas pesquisas mencionadas. o poder de comando. é forçada a perder alguma coisa da sua rigidez e da sua pretensão de valer universalmente. para identificar os componentes do grupo de poder da cidade selecionada. se integram muito bem. ao contrário.VERIFICAÇÃO EMPÍRICA: INVESTIGAÇÕES SOBRE AS ELITES DAS COMUNIDADES LOCAIS. propondo substituir o critério da distribuição do poder pelo da distribuição da propriedade. têm razão tanto os monistas quanto os pluralistas. descendo do céu das abstrações para a terra da pesquisa de campo. mas que. que o melhor modo para identificar um grupo de poder consiste em utilizar os dois métodos. tira a conseqüência de que é possível identificar os contendores de um certo tipo de conflito quando se consegue individualizar "aqueles que ocupam as posições de domínio e de subordinação numa determinada associação". Como primeiro exemplo importante e de certo modo antecipador do estudo das Elites de um centro urbano. CARACTERÍSTICAS POSITIVAS E NEGATIVAS DA TEORIA. entre outras coisas. Hunter dirigiu-se a um certo número de pessoas influentes da cidade e pediu-lhes que indicassem quem achavam que eram os poderosos da cidade (método reputacional). Desta premissa. ou seja. Mas a pesquisa mais conhecida é a que Robert Dahl fez alguns anos depois em Nova York (Who governs? Democracy and power in an american city. para explicar a divisão da sociedade em grupos opostos. exprime bastante bem uma forma atualizada da interpretação elitista da sociedade em oposição direta à interpretação mantida pelos clássicos do marxismo. pode-se indicar. Dahrendorf. — Para além das discussões teóricas que a concepção elitista da sociedade levantou e continua a levantar. ou seja. que tinha causado tanto barulho através da obra de Wright Mills. chegaria a uma desilusão. na Georgia (Community power. a convicção pouco antes lembrada que a teoria de uma única Elite no poder. Dahl. É provável. examinou o iter de algumas decisões sobre problemas particularmente relevantes para a cidade escolhida como amostra e observou que grupos de interesse prevaleceram (método decisional). que não são de fato incompatíveis. deve-se mencionar a pesquisa que Floyd Hunter desenvolveu em Atlanta. tanto a de Hunter quanto a de Dahl. uma em manter a tese monística e outra em manter a tese pluralística. tem-se afirmado nestes últimos vinte anos. 1961) e da qual tirou. Poder-se-ia assim chegar à conclusão de que a distinção entre monistas e pluralistas é uma distinção teórica (talvez ideológica) e que. Toda teoria. uma tendência constante na ciência política. Nenhum dos métodos escapou da crítica: o primeiro foi criticado por não distinguir o poder reputado do poder real e por ser mais levado a identificar o poder potencial que o poder real. alguns traços comuns que servem para distinguir esta teoria. foi levantada a objeção de que a influência de um grupo de poder não se explica apenas pelas decisões que consegue tomar. — Não obstante as divergências que dividem os defensores da teoria das Elites. a título de conclusão. a que se seguiram muitas outras. é empiricamente falsa. que consegue obediência e é a causa da formação das classes sociais. das desigualdades e dos conflitos. na verdade. ao contrário. VI. sindicais e profissionais. são as duas seguras. mas também pelas decisões que consegue impedir que sejam tomadas. 1) em toda sociedade organizada. a tendência em verificar a validade da teoria na base de pesquisas empíricas. VII. conforme recentemente já foi observado (Stoppino 1971).

New York 1963. Boston e Toronto 1967 . 7) o elemento oposto à Elite. DOMHOFF e H. La Scuola. Se na sua face ideológica pode ter contribuído para obstacular o avanço de uma transformação democrática da sociedade (no sentido em que democracia e existência de uma classe política minoritária não são incompatíveis). é a massa. H. Negativamente. ou seja. a sua principal função histórica. 1998. S. e portanto não só contra a democracia substancial mas também contra a democracia formal. Il Mulino. na base da forma diferente como se organizam e na base da forma diferente com que exercem o poder. Political elite. G. KELLER. II. por um lado. por outro lado. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. of Michigan Press. . segundo a qual é possível uma sociedade em que o poder seja exercido efetivamente pela maioria. Boston 1968. BOTTOMORE. as sempre renascentes ilusões de uma democracia integral. M. a crítica da ideologia democrática radical. Classi ed élites politiche: teorie ed analisi. MARLETTI.P. Potere ed élites politiche.relações entre indivíduos ou grupos que a caracterizam são relações de desigualdades. Ideologicamente. pp. Milano 1967. 143-236. Beyond the ruling class. sendo poucos e tendo interesses comuns. a classe política propriamente dita. ora a uns. BALLARD. MUSEU The myth of the ruling class. Randon House. são sempre uma minoria. PASSIBLI. Chi comanda? I metodi di ricerca del potere nella comunità locale. ou seja. a nu. para descobrir e colocar. The theory of democratic elitism. sobre o poder de todo o povo. foi a de denunciar. C. Brescia 1966. ou à não-Elite. Elite e società (1957). ou pelo menos não têm um poder politicamente relevante. que permitem. vol. Wright Mills and the power elite. C. BIBLIOGRAFIA. de vez em quando. estando o poder ligado à propriedade dos meios de produção. são numericamente a maioria. Il Saggiatore. e. ECIG. especialmente o poder político. Como teoria realista da política. W. o exercício alternativo do poder. no fato de que o poder tende a ficar concentrado nas mãos de um grupo restrito de pessoas. a crítica da teoria marxista. ora a outros. [NORBERTO BOBBIO] Fonte: BOBBIO. não são organizadas. 6) um regime se diferencia de outro na base do modo diferente como as Elites surgem. ao cuidado de G. 3) entre as várias formas de poder. Bologna 1971. desenvolvem-se e decaem. Dicionário de Política. o fingimento da "democracia manipulada". J. têm ligames entre si e são solidários pelo menos na manutenção das regras do jogo. 5) uma das causas principais por que uma minoria consegue dominar um número bem maior de pessoas está no fato de que os membros da classe política. segundo a qual. B. 4) aqueles que detêm o poder. A critique. Brown e C. ou seja. 2) a causa principal da desigualdade está na distribuição desigual do poder. Univ. ou são organizadas por aqueles que participam do poder da classe dominante e estão portanto a serviço da classe dominante (a teoria da sociedade de massa é a contrapartida da teoria das Elites e ambas se desenvolveram neste último século paralelamente). ela mantém firme a tese segundo a qual o poder pertence sempre a uma minoria e a única diferença entre um regime e outro está na presença de minorias em competição entre si. desde o momento em que a propriedade dos meios de produção seja coletivizada. in Questioni di sociologia. London 1969. nascida como reação contra o advento temido da sociedade de massa. STOPPINO. BACHRACH. Ann Arbor 1958. Genova 1982. Little. PARRY. ainda hoje. o mais determinante é o poder político. na sua face realista contribuiu e contribui. ao cuidado de S. B. Norberto. Caetano Mosco and the elite. . é possível uma sociedade fundada sobre o poder da maioria.T. mais do que esgotada. a qual constitui o conjunto das pessoas que não têm poder. Strategic elite in modern society. o que as várias teorias elitistas têm em comum é.