O conceito de "cidadania" é basicamente, o acesso a três tipos de direitos: civis, políticos e sociais.

Paralelamente a esses três direitos, podem-se colocar as três formas de liberdade: liberdade negativa, política e positiva. Pode-se, desse modo, observar como os conceitos de cidadania e liberdade são inseparáveis. Ao primeiro tipo de direito, os direitos civis, correspondem a liberdade negativa, que é o direito de não ser impedido. Estão incluídos nessa categoria o direito (ou a liberdade) de ir e vir, a liberdade de expressão, o direito à propriedade e à vida, diretamente derivados dos modelos jusnaturalistas. Pode-se dizer sem sombra de dúvida que os direitos sociais correspondem à liberdade positiva, representada pelo direito ao trabalho digno e justamente remunerado, a habitação, saúde e a educação, que é considerada a única forma de estabelecer a igualdade e a oportunidade de desempenho efetivo da cidadania. É inegável que isso é nada mais do que uma forma de estabelecer a liberdade: o homem que tem maior participação nos negócios públicos e tem condições de fazer escolhas cada vez mais racionais é também mais livre. Nesse sentido, é inegável que o homem que exerce de forma mais plena sua cidadania é também mais livre. Observando a história brasileira, pode-se estabelecer com sucesso essa relação íntima entre liberdade e cidadania. Nosso país vem sendo, historicamente, bastante problemático nessa questão. O maior empecilho para a concretização da cidadania entre o povo brasileiro foi o regime escravocrata, que marcou por mais de três séculos nosso modo de produção e até hoje, no século XXI, nossas relações sociais, embora, claro, de modo diferente. A escravidão do Brasil deixou profundas cicatrizes na nossa sociedade, cicatrizes essas que estão ainda relativamente pouco superadas, o que é evidenciado de forma bem clara na manifestação cotidiana (porém velada) do racismo e, sobretudo, da desigualdade social. Infelizmente, pode-se ainda dizer (embora com algumas ressalvas) que a pobreza no Brasil tem cor. Infelizmente, no entanto, a promulgação da Lei Áurea pela princesa Isabel em 1888, ainda é vista como um evento que instaurou a liberdade dos afrobrasileiros. Como já fica claro, qualquer concepção mais aprofundada de liberdade permite entender que esse evento teve muito menos de libertador do que possa parecer. Afinal, não seria de se esperar que o escravo, visto como uma mercadoria humana, se tornasse, após uma assinatura, um cidadão com pleno atendimento de seus direitos sociais. Do mesmo modo, as exigências do sistema eleitoral brasileiro no período impediam a participação da grande maioria dos afrodescendentes no pleito (uma vez que grande parte era analfabeta e/ou estava muito longe de ter a renda necessária para ter direito ao voto). O acesso aos direitos sociais, dentre estes, é aquele que mais se mostra atualmente como longe do ideal. Uma dificuldade que encontramos aqui, e acreditamos ser comum em qualquer pesquisa nessa linha, é com relação à definição do que é ser "negro" no nosso país. Como será tratado mais adiante, a relação entre raças no Brasil não é caracterizada pela dicotomia da realidade norte-americana. As relações de identificação e discriminação tornam-se mais complexas e difíceis de identificar num povo como o brasileiro, marcado pela miscigenação, que, no entanto, não eliminou o racismo, que ainda hoje se encontra tão presente nas relações interpessoais. Acreditar que a libertação é, na verdade, um processo, é também enxergar que essa luta está longe do final no nosso país. Os africanos que aqui chegavam, eram provenientes de várias etnias, muitas vezes inimigas entre si, com dialetos e espécies diversas de religião. Tudo isso, aliado a forma como eles foram alocados aqui, contribuía para dificultar uma unidade política que lhes desse força para contestar a cultura escravista. Abolida a escravidão era necessária a implementação de políticas voltadas à inserção dos ex-escravos a sociedade, políticas que auxiliariam na construção da Nação, o que, em verdade, não

pôde-se ver que a FNB foi uma instituição que procurou socializar o negro. casamentos e batizados. de cunho nacionalista. restou a marginalização social. em 1938 ano em que se comemoraram 50 anos da abolição da escravatura. queriam uma transformação social maior. na condição de grupo majoritário. Nas regiões onde havia dinamismo econômico foi incentivada a ida de imigrantes. mas apenas os que tinham condições tinham a oportunidade de ir. Portanto. com simples importação de estrangeiros. alterando a nomenclatura da instituição para União Negra Brasileira. pois acreditavam que eram práticas culturais marginalizadas. fazer com que o negro seja um cidadão brasileiro com direitos e deveres. eram realizados eventos como instrumentos (meios) de promover a socialização do negro. liderada pelos negros. Com o agravamento da situação desfavorável as associações brasileiras e a repressão subversiva feita as organizações. era necessário aderir a comportamentos. assim. Com isso surgiu um movimento chamado de Frente Negra Brasileira (FNB). Vargas instaura o Estado Novo e decreta o fechamento dos partidos. O Teatro possuía uma formulação moderna e positiva que ressaltava os costumes folclóricos e popularescos da cultura negra. o candomblé entre outros. isto resultaria na marginalização do negro recém-egresso da escravidão. Libertos. A Frente Negra Brasileira acreditava que a África não era motivo para a luta dos negros brasileiros e que a sociedade negra não tinha motivos para defender sua cultura e seus costumes (contra a descendência afro-brasileira). enfraqueceram a FNB. que foi fundada em 16 de setembro de 1931. Para atingir este objetivo. principalmente italianos. ao procurar melhores condições de vida do negro e ao se apoiar em um pensamento com tendências xenófobas. os escravos foram relegados a sua própria sorte. freqüentavam festas de fundo de quintal. Aqueles tinham clara consciência de que o negro. a FNB organizava eventos para que os negros participassem e se socializassem. Num pensamento também bem americanizado os africanistas. esse era um sentimento imposto por uma sociedade altamente elitista presente na época. mas a censura acabou com os meios da instituição pondo um fim nela. 1937. Criaria um novo problema. enquanto os outros. O objetivo de Vargas era transformar as relações com o grupo político e relações com grupo social. em 1936. foi a primeira instituição negra organizada no período pos-abolição da escravidão. Primeiramente esses eventos possuíam um valor político para defender os interesses da população negra e assim construir uma identidade negra. porém só os negros que possuíssem condições apresentáveis tinham permissão para comparecer a esses eventos. deformado pela escravidão não teria meios de competir com imigrantes europeus. Para isso. Além disso. Se. porém no ano seguinte. tais como o samba. por outro. porém sem levar em conta suas raízes culturais e se apoiando em um modelo elitista que tinha como base o pensamento de um partido político fascista. a capoeira. O que realmente a instituição queria era incorporar o negro no projeto da nação brasileira. costumes. ou seja. O Teatro Experimental do Negro (TEN) foi criado em 1940. Com isso. regras de etiqueta" da "sociedade branca" ou burguesa da época. por um lado. a FNB torna-se um partido político para lutar pelo reconhecimento do negro na sociedade brasileira. Isso fez com que houvesse uma tentativa de restaurar a entidade. conseqüentemente a FNB foi muito afetada. impondo-os a marginalização. ele permitia a formação e afirmação . Aos negros.ocorreu. O principal motivo dessa instituição é incluir o negro na sociedade brasileira. Porém a FNB rejeitava a herança cultural do negro. encontravam inspiração nas lutas de libertação da África e. no Rio de Janeiro após o lançamento do livro CasaGrande e Senzala de Gilberto Freire (defensor da "democracia racial"). Isso mostra o quão incoerente era a instituição. Ou seja. poder-se-ia resolver o problema de mãoobra. mais pobres. já que a sociedade não teria meios de absorver estes.

mas de novas formas de representar a cultura black. pela mesma ambivalência de suas relações com as classes trabalhadoras. uma característica que está de acordo com os valores do "branco" (elite). as manifestações da população negra ficaram consideravelmente reduzidas à esfera cultural. no caso. que ele aceite sua etnia e pare de procurar copiar os moldes arcaicos. Porém essa transformação só é capaz. a suposta "harmonia racial" do país. Toda essa transformação de uma característica "préletrada". em conjunto com outros intelectuais. Movimento negro na república populista (1945-1964) O período Vargas ficou marcado. o sentimento de que não existe preconceito no Brasil. Não era o caso do samba ou da umbanda. procura uma harmonia e uma homogeneidade social. no público do teatro brasileiro. por sua vez. tanto negros quanto não-negros. pouco entrando propriamente no político. que rompe.ou seja. além de exigir que a "sociedade branca" se desvincule dos arcaísmo escravocrata que permearam a história. Para que assim aconteça uma modificação na realidade em prol de sua pessoa. ou seja. tendo sido os primeiros fundados pelo antropólogo Gilberto Freyre. a um produto intelectualístico que criou caminhos para a consciência revolucionária da condição do negro.inicialmente. e o mesmo resguarda condições que permitem que o negro seja mais negro. o que o valoriza socialmente. pois ele adquiriu educação e cultura. Portanto.pode se dizer que a negritude equivale . mas constante. O TEN retoma as raízes culturais e identitárias do negro brasileiro como o candomblé. Tendo em vista essas ações do "branco". principalmente. cujo o maior valor era a generosidade para com os sofrimento dos negros. o TEN era considerado como um instrumento expressão da negritude. com a estética dos moldes arcaicos europeus e norteamericanos. pois as pessoas ainda têm pensamentos arraigados de uma cultura escravocrata o que impede a existência de uma "democracia racial" justa. Uma característica bem marcante desse primeiro .artística do negro. que já haviam sido por eles agregados e "nacionalizados". Hoje o "branco" possui mais consciência sobre a condição histórico-cultural do negro brasileiro. Essa característica mais acadêmica que suburbana que caracterizou o debate sobre a questão do negro no Brasil foi um dos maiores empecilhos para que a discussão fosse refletida na prática. das quais se destacam os modos de se vestir e os penteados. No entanto. No entanto. A década de 40 assistiu ao surgimento de centros de estudos afrobrasileiros no país. incorporando esses temas às peças teatrais) e. É extremamente marcante o destaque que formas simbólicas de representação cultural exerceram no movimento. Além disso. a capoeira e o samba (volta-se para o continente africano. que busca a reivindicação de seu passado e luta pela preservação de sua herança cultural. passando a divulgar seus valores e divulgar suas origens. nas quais os negros tinham participação considerável. tornava o governo Vargas popular entre esse grande grupo da população brasileira. ainda é disfarçada e injusta. que busca essa harmonia. dando-lhes a oportunidade de expressão. O grande número de benefícios concedidos às massas trabalhadores. é disfarçado. o discurso do Estado Novo com relação às reivindicações dos afro-brasileiros era a velha ideologia elitista de que o Brasil era uma democracia racial -termo que manteve forte presença no discurso das classes dominantes durante o período populista. e foi retomado com ainda mais força na ditadura militar. por ser uma miscigenação de etnias. que ameaçavam de forma indireta. se existir a participação do negro nos eventos culturais. é importante ressaltar desde já o grande incômodo que essas manifestações culturais afro-brasileiras causavam na classe média e na elite branca do país. A "democracia racial" tão almejada. com relação à questão racial. é retratada a luta pela identidade em contraposição a "sociedade branca" ou burguesa. Há um uso da cultura como instrumento legítimo na luta antiracista.

como já demonstrado. Qualquer . Foi o caso do movimento negro. a esquerda representada em partidos políticos. como havia sido na FNB. valorizadas pela elite dominante do país. na verdade. O golpe militar de 64 representou uma interrupção no curso dos movimentos sociais do país. as intenções desses "novos negros" em se igualar aos padrões daquela elite pela qual eram discriminados. O debate sobre a questão da raça foi tratado de forma mais profunda e esta não foi relegada a um segundo plano. que procuravam se igualar às brancas. Apesar de tudo isso. Assim. seja no Brasil ou no exterior (no exílio) houve o crescimento da esquerda entre os círculos afro-brasileiros. tornando-a subordinada à luta de classes. Essa. que o grupo negro ascendente enfrentava nos círculos da elite branca. foi nesse período que foi instituído um dos maiores avanços da luta dos negros no Brasil: a aprovação da Lei Afonso Arinos. foi bastante diferente da que se verificou no capítulo anterior. A pouca quantidade de grupos socialistas nesses movimentos.período do movimento negro pós-Vargas é a hegemonia dos valores das classes dominantes no seio desses movimentos. submetendo-os à clandestinidade. que eram. no período entre ditaduras. Em geral. que parecia não se sentir muito tocado pelos ideais "civilizatórios" e de "embranquecimento" que lhes eram pregados. foi fundado o Clube Renascença. A Lei foi a primeira no país a tratar da discriminação racial. Por mais que o período da "linha dura" já estivesse para trás. Diretamente relacionado ao aumento do acesso do negro ao ensino superior. Pelo contrário: predominava na esquerda a inspiração em movimentos de insurreição não-brancos pelo Terceiro Mundo. que ressurgiria publicamente no início da década de 70. Como se vê. não havia grande diferença entre esses grupos e a direita conservadora no que tange a essa questão. procurando se inserir nos valores dominantes 21 até então. nem sempre muito sutil. mas de uma crise diplomática gerada quando uma bailarina negra norte-americana foi impedida de se hospedar em um hotel na cidade de São Paulo. normalmente ortodoxos. em 1951. inclusive. Essa postura é claramente evidenciada pela criação de clubes como o Aristocrata e o Elite. Além disso. Falava-se na elevação do nível cultural e dos valores do negro. não se pode falar em liberdade absoluta de expressão política. O afro-brasileiro na ditadura militar e na redemocratização A dinâmica dos movimentos negros que ressurgiram na década de 70. o que pode ser explicado pelo fato de ambas serem formadas predominantemente por brancos. tendeu a ignorar as questões raciais. o movimento negro assumiu uma postura muito distante da esquerda. o que foi bastante evidente no Teatro Experimental do Negro. a criação de uma elite afro-brasileira (num molde capitalista). a aproximação entre essa classe negra "ascendente" e o proletariado urbano afrodescendente. uma resposta à exclusão. Outra dificuldade considerável do movimento negro nesse período foi. do qual a característica mais marcante foi a negação das idéias de ascensão social nos moldes capitalistas e baseado nos valores da classe dominante. instituindo como punição o pagamento de uma multa. no entanto. no entanto. esses valores eram pouco ou nada contestados pelos grupos afro-brasileiros. que não sentiam a discriminação racial de forma muito forte no seu cotidiano. O clube Aristocrata promovia uma série de eventos e patrocínios. no declínio do período "linha dura" da ditadura militar brasileira. Isso se deve ao fato de estarem muitas vezes no comando desses grupos aquelas famílias negras ascendentes. com objetivos bem semelhantes. sem contestar aquilo que lhes era imposto por elas (com relação a valores e costumes). sempre com base em idéias eurocêntricas. Eram bem claras. não foi um resultado direto da luta dos grupos nacionais. na prática. No Rio de Janeiro. como bailes de debutantes davam bolsas de estudos e ajuda financeira e administrativa a candidatos negros a cargos políticos. com uma cara totalmente nova. torna isso muito claro. em São Paulo.

que mostravam imagens da luta e dos sofrimentos dos negros americanos. assim como as autoridades. os bailes do Black Soul rapidamente se insiriram na economia do lazer e do turismo no Rio de Janeiro. diferentemente do que ocorria nas décadas de 40 e 50. No Rio. p. de Monsieur Lima. o retorno às raízes africanas como forma de identificação negra. A politização foi ainda mais favorecida a partir do momento em que a música nos bailes passou a ser acompanhada por imagens de telão. 140). As elites. inclusive. Havia sido consagrado. muitas vezes. embora não de forma consensual. Aí. com o surgimento de vários intelectuais negros no Rio. Por mais que o destino dessa forma de expressão tenha seguido o mesmo caminho das outras duas depois de algum tempo (tendo sido o pai de outras manifestações musicais. No entanto. que o movimento negro conseguia de forma mais efetiva aproximar-se das massas e politizá-las.23 tagem e a divulgação das atividades políticas do movimento. proprietário de uma das boates black mostra como os bailes poderiam ser apropriados.movimento político não classificado na oposição Arena-MDB era visto com desconfiança pelo Estado e tratado como criminoso. Era só através dessa provocação indireta que os afro-brasileiros conseguiam mexer com a ordem social estabelecida e o ideal de união nacional. é inegável a importância desse movimento na criação de uma identidade negra entre a população afro-brasileira. sobretudo no Rio de Janeiro. Além disso. em São Paulo. que tratava a questão da raça como um tabu. o retorno às raízes africanas. que seria uma ameaça à identidade nacional. gerava conflitos familiares com pais consevadores. grandes empresários que muito pouco tinham de relações com o movimento negro.24 ções mais destacadas foram a Sociedade de Intercâmbio BrasilÁfrica (SINBA). Brasília e no Recife. Era por meio da música. 2001. os bailes tornavam-se oportunidades enormes para a panfle. como forma de controle social: Não fosse por esses bailes. associações artísticas e encontro de lideranças negras pelo Brasil durante essa década. Apesar disso. É importante lembrar que essa fase de predomínio do Black Soul coincidiu com uma fase ainda bastante violenta da ditadura militar (1969-1975). sendo uma grande fonte de renda para muitas pessoas. A face mais interessante da realidade do afro-brasileiro nesse período é a que se manifestou através dos bailes do Black Soul. e o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN). surgidos na década de 50. viam no Black Soul uma tentativa de quebrar essa harmonia e instaurar a segregação racial no país. havia grande empatia entre um e outro. Salvador. que deveriam ser mantidos de qualquer maneira pelo governo mlitar. as organiza.) o governo deveria incentivar isso [os bailes]" (in HARCHAND. portanto. o que levava a uma identificação muito forte dos brasileiros com eles. Essa identificação ficava ainda mais forte à medida que o afro-brasileiro procurava reproduzir os estilos de roupa e penteado daqueles artistas que via aparecendo nos filmes -o que. mais americanista. como uma resposta "puramente" negra à apropriação que as elites tinham realizado de elementos da cultura negra como o samba e a umbanda. um carioca branco. a cultura negra mostrou-se como uma forma fundamental de expressão no movimento. A absurda declaração a seguir. garanto que haveria um grande aumento dos assaltos nos fins de semana por essas pessoas que não teriam o que fazer (. Além disso. Na década de 70. proliferaram os festivais. como o funk e o rap). mais africanista. que é que as massas de pessoas fariam nos sábados e domingos? Como iriam se divertir? Se não tivessem isso. mais uma vez. Embora normalmente não houvesse entre os membros mais atuantes do black soul e o movimento negro propriamente dito. evidências de que líderes do movimento negro durante a ditadura militar foram investigados e perseguidos por autoridades do governo. a cultura não era mais vista como um fim em . também. o Brasil também viu o surgimento de outras organizações de valorização do povo afro-brasileiro. Há.

que viriam a formar.25 cial. conseguissem manter o interesse que o público voltava para as atividades artísticas para o lado político do movimento. foi o . o subemprego e a marginalização. contra a repressão policial. nas igrejas. nunca mais conseguiu. a moradia e a educação à maioria de seus cidadãos" (HARCHAND. com uma forte participação de ativistas negros. foi proferido a carta de fundação do MNUDC. Minas Gerais. Apesar de funcionar separadamente da política partidária. o que. 2001. em nossos terreiros de umbanda. numa campanha de denúncia. Além disso. numa tentativa de incluir entre os presos políticos anistiados todos os negros presos por crimes contra a propriedade. Convidamos os setores democráticos da sociedade que nos apóiam a criarem as condições necessárias para uma verdadeira democracia racial" (in HARCHAND. cometendo o mesmo erro de movimentos anteriores. em protesto à tortura e ao assassinato de um motorista de táxi negro por policiais em São Paulo. Uma campanha contra a discriminação racial.si. 2001. em todos os lugares onde as pessoas vivem: CENTROS DE LUTA que promovam o debate. que posteriormente passou a se chamar apenas Movimento Negro Unificado (MNU). p. de forma a dar mais força ao movimento de uma forma geral. na realidade. 26 8. acabaram sendo criados em várias outras cidades. para uma platéia de 2000 pessoas. Em novembro de 1978 ocorreu a primeira investida política significativa do MNU na política. a organização constante da Comunidade para enfrentar qualquer tipo de racismo (. p. Surge ainda nessa década o movimento Convergência Socialista. o MNU era mais uma organização e não o movimento único e abrangente que pretendia ser. como Flávio Carrança. as condições de submissão à tortura e maus-tratos na prisão tornariam os negros mais próximos àqueles presos políticos. o que ainda era mais dificultado pela escassez crônica de recursos que enfrentava. Além disso. Estamos na rua para denunciar a qualidade extremamente precária da vida da Comunidade Negra (. A primeira manifestação do MNUDC ocorreu em 1978. nas cidades. o Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUDC). No final dos anos 80. deu-se desde de 1985. Hamilton Cardoso. em 1978. mas um caminho para garantir conquistas sociais. acabou por espantar grande parte da população negra da participação direta.). no trabalho. seus discursos muitas vezes excessivamente academicistas. a conscientização e a organização da comunidade negra (. na constituinte.). tanto do Rio quanto de São Paulo. propomos a criação de CENTROS DE LUTA DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL nos bairros. Nessa manifestação.) O Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial foi criado como um instrumento de luta da Comunidade Negra. com vista para a ANC. 149) Esses centros de luta. de fato. nos terreiros de candomblé. nas escolas de samba. que tinha como objetivo organizar e mediar as relações entre os diversos grupos constituintes do movimento negro no Brasil. O negro brasileiro na Constituição de 1988 A mobilização para o grande debate sobre a situação do negro no Brasil. a informação. 150). Essa participação tornou-se forte. Vanderlei José Maria. sob a justificativa que estes eram "respostas políticas a uma elite que recusava o emprego. Por essa razão. o MNU dava apoio aos candidatos que tinham uma postura com relação à questão da raça parecida com a sua. Milton Barbosa e Rafael Pinto. O movimento negro. começou a organizar encontros em nível municipal e estadual visando mobilizar a sociedade para a questão do negro. o que não estava em desacordo com as tendências crescentes de violência racial no país. embora houvesse grande dificuldade para que os movimentos. nas prisões. no entanto. Um dos mais importantes aconteceu em Belo Horizonte. que reflete bem seus objetivos: Hoje estimamos na rua. de inspiração trotskista. Esse movimento deverá ter como princípio básico o trabalho de denúncia permanente de todos os atos de discriminação ra.

e representantes de 40 municípios. tais como educação. cultura negra e até sobre sistema tributário.envolvendo entidades negras. saúde. relações sociais no campo. igreja. trabalho. mas à todos os brasileiros. associações de bairros. para evitar uma "guetorização". Tomou-se o cuidado de não direcionar somente para os negros. .expondo o Brasil como pais formado por várias etnias e raças.Primeiro Encontro Estadual "O Negro e a Constituinte". O documento gerado traz propostas para diversas áreas.

inciso VI diz que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença. poderemos ver Deus nos outros.Fala-se muito em liberdade religiosa. essa não é a impressão que temos às vezes. É comum vermos no interior de órgãos públicos um crucifixo na parede. paradas de ônibus. Hospitais. ou mesmo dentro dos ônibus. pois. A pesar de o Estado Brasileiro ser laico. também afirma que a Liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais. na forma da lei. pregando um "evangelho" com palavras agressivas. Sei que os que crêem na autenticidade desses feriados com certeza vão querer dar uma fundamentação histórica para defender seus interesses religiosos ou políticos.? Por que no aniversário de emancipação de uma cidade. no lugar de um culto católico e/ou evangélico. pois boa parte deles têm sido vítimas de intolerância. e ainda hoje. A pesar de tudo isso. pedindo que os passageiros seguissem tal religião? Como os passageiros cristãos agiriam? Creio que no mínimo ela seria "convidada" a descer do ônibus ou parar de falar. a Fé Bah’ai. o Kardecismo etc. maçons. A nossa Constituição no artigo 5º. um símbolo Bah’ai. Não pode haver uma cultura de paz. por que no lugar do crucifixo não se coloca também. . Precisamos cada vez mais tirar as vendas do preconceito religioso e da intolerância religiosa. nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele. Muitos cristãos ainda hoje se auto-afirmam donos da verdade. uma foto de Maomé. Creio que todos precisam muito aprender sobre paz e tolerância religiosa com religiões como o Budismo. só assim. condenando ao inferno quem não crer como ele/ela. não se faz uma mística macro-religiosa com a presença de sacerdotes cristãos e não cristãos? Esses últimos são indignos? Não são filhos de Deus? Eu não creio assim! Já pensaram se uma Yalorixá (Mãe de santo) entrasse em um ônibus e começasse a falar sobre a influência dos orixás na vida das pessoas. etc. Uma coisa é o rastro da religião deixado por conseqüência da colonização. se podem aprender a odiar. Exterminaram índios e negros. apelativas. A Declaração Universal dos Direitos humanos." (Nelson Mandela). podem ser ensinadas a amar. Espíritas etc. divorciados. uma imagem de Maria ou uma Bíblia em um lugar de destaque. sem tolerância religiosa. por exemplo. condenam ao inferno os homossexuais. Isso é liberdade religiosa ou abuso da liberdade religiosa? Se vivemos em um Estado Laico. já são equipados com capela "cristã" para prestarem assistência religiosa. etc. Não é difícil vermos também celebrações ecumênicas que na maioria das vezes são dirigidas apenas por padres e/ou pastores. O Estado Brasileiro é laico. Para odiar. e não tem religião. uma imagem de Krishna. uma imagem de Buda. uma boa parte dos feriados nacionais e municipais são na verdade feriados religiosos cristãos. por sua origem ou ainda por sua religião. muçulmanos. alguém empunhando uma Bíblia como se fosse uma metralhadora. a proteção aos locais de culto e suas liturgias". É comum presenciarmos em praças públicas. uma imagem de uma Divindade africana. e. ele não deve ter. . ainda falam de Paz do Senhor. mataram bruxas. muitos se aproveitam desse momento de fragilidade dos doentes e seus familiares para lhes convencerem a sair da sua religião e virem para a "verdadeira". as pessoas precisam aprender. o Candomblé. por exemplo. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. o Induísmo. outra coisa é o preconceito e intolerância religiosa visibilizados em nossa sociedade no dia a dia. "Ninguém.

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA .De uma certa maneira. por parte dos teóricos e autores. dos seus costumes. evocam idéias religiosas.Será que os/as professores/as estão preocupados com este tema? Como lidar com esse assunto. Será que os professores e os currículos escolares persistirão segregando as questões religiosas e dirigindo-as para um único período da grade curricular? 5. mas praticamente inexistem referências à multiplicidade de discursos religiosos que também fazem parte da cultura dos estudantes. Até quando? 6. em sala de aula. respeito. Será que os professores estão abrindo espaço para que os alunos explicitem. diversidade cultural. em abordar questões ligadas a discursos religiosos. sexualidade. numa perspectiva de acolhimento. a temática acaba sendo banalizada pelos professores e educadores em geral. raça. fala-se muito sobre a importância do negro na história da formação do nosso país. culinária. sobre o preconceito. por não ser considerado um tema nobre. Mas.Como acolher. mas basta observarmos um livro didático para perceber que a identidade religiosa dos negros é pouco valorizada. se autorizem a falar suas idéias religiosas? 2. inclusão. devemos “tapar os ouvidos” e nos tornarmos omissos? . as contribuições ligadas às danças. a diversidade de discursos que manifestam as vivências religiosas dos(as) alunos(as) na perspectiva de uma pedagogia inclusiva? Ou. No âmbito de estudos sobre diferenças na escola.Alguns professores temem abordar esta temática em sala de aula. pois aceitam a idéia de que “religião é coisa particular/pessoal” ou “o que vem de Deus não se discute”.Não se discute religião! O que existe. Por exemplo. por quê? 4. que no seu caso(professor) são presentes nas manifestações dos alunos em diferentes momentos. ou é silenciada.PERGUNTAS P/ PROFESSOR 1. mas também de problematização de verdades instituídas? 3. muito se escreve e teoriza sobre questões ligadas a gênero. de fato é uma bibliografia extremamente restrita e uma certa falta de interesse.Os discursos sobre as questões de religiões. etnias.