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TEXTO_9_-_BARTHELEMY_-_A_CAVALARIA

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TEXTO 9 - BARTHÉLEMY: A CAVALARIA

O desafio de Bertoaldo

Um pouco depois, uma página da crônica dita de “Fredegário” ressoa como um eco o que foi dito. O jogo entre os três reinos do tempo de Gregório de Tours, marcado por frequentes revezes de alianças continua, no entanto, complicado, por uma tensão maior: aquela entre Nêustria e Austrásia — ou seja, as terras mais francas — e os grandes da Borgonha que ainda se declaram uns como “francos de nascimento” e outros (mais meridionais) como “romanos”. Até 613, a figura de proa dessa história é a velha rainha da Austrásia, Brunilda, mas ela é uma referência negativa. Ela comete o erro de querer uma monarquia forte por sua administração fiscal, como antes haviam feito Chilperico e Fredegonda. Quando ela promove o “romano” Protádio ao cargo de mordomo do palácio da Borgonha, é para que ele restaure os direitos do fisco real, ameaçando com isso aquela “liberdade” de tipo germânica em vista da qual a aristocracia do Norte se fez toda franca e à qual a lenda da origem troiana, que Fredegário inventa ou credencia, dá garantias novas e fortes1. Diante de Protádio, aparece, naturalmente, um rival, a quem Fredegário dá todas as qualidades. Esse homem de família franca, prefeito do palácio de Teodorico na Borgonha em 603, não é considerado Cavaleiresco quando o vemos descrito como “comedido, sábio e prudente, valoroso no combate, respeitoso de sua palavra para com todos”?2 Ora, Brunilda quer confiar a função a Protádio, de quem Fredegário alega ser ela amante. Em 604, confia-se a Bertoaldo a missão muito perigosa de cobrar os direitos do fisco na região de Orleans, recentemente tomada à Nêustria de Clotário II — que não se conforma verdadeiramente com a situação. Isso é uma provocação para com esse reino e seu prefeito do palácio, Landry, com o qual se conta para destruir Bertoaldo e sua escolta. Efetivamente, ele chega com uma hoste mais forte. Só resta a Bertoaldo se entrincheirar em Orleans, que lhe é aberta por seu bispo.

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Ao mesmo tempo por valores que ele ilustra e pela narrativa de uma passagem pela Germânia, entre Troia e a Gália. Crônica de “Fredegário”, IV, 24.

25. Ele tem. um “julgamento de Deus” não teria. Na verdade. como previu Bertoaldo. Landry não se lança contra os muros de Orleans. respeitar essa promessa”3. estabelecendo uma convenção de amizade. em 11 de novembro de 604. Para dizer a verdade. diante de Deus. É lá que poderemos ver a sua bravura [utilitas] e a minha. uma série de negociações? A guerra não é total. Também não é certo que esse desafio. IV. que encontra aí uma bela morte de guerreiro. e levando-o consigo diante do rei da Nêustria. e encontremo-nos para lutar. poder-se-ia anulá-la ou interrompê-la. sido possível antes da conversão de 3 Idem. Então. Fredegário é um pouco evasivo sobre a resposta de Landry à segunda proposição. julgálo como covarde ou mau guerreiro. a guerra em 604 se estende a duas hostes. aguce o ódio entre eles. evidentemente. como veremos em cenários do mesmo tipo nas épocas feudais e corteses. como portar vestes vermelhas. Bertoaldo. arrancando-o das garras de seu verdadeiro inimigo. do alto das muralhas. mas que supõem um “julgamento de Deus” pouco costumeiro. a vida de Bertoaldo. pela qual. das quais não temos outros exemplos. desde que prometamos. no entanto. ambos. esporte equestre já em voga nos tempos de Gregório. .2    Landry cerca Orleans com seu exército e grita para que Bertoaldo saia para lutar. engajemo-nos em combate singular. e marchemos à frente dos outros para o início do combate. O Senhor nos julgará”. talvez. Depois. diante de Orleans. Bertoaldo diz: “Se você não ousa lutar. Landry se nega ao combate singular. esse tipo de blefe de Bertoaldo. Landry garantiria. no fim. podemos entendê-lo sem. Longe de radicalizar na agressividade. ambos bem que poderiam sair juntos à caça com gavião. de fato. Vistamo-nos de vermelho. Um duelo proposto supõe a aceitação de regras e convenções. O desafio não esconderia. eu e você. ele troca réplicas com o oponente. logo nossos senhores [os reis] se encontrarão para lutar por causa de seus malfeitos. Protádio. Mas Landry evitou fazê-lo. Na falta de um combate de chefes. A interpretação de tal duelo como podendo ser. se tivesse acontecido. a vantagem militar e um duelo simples restabeleceria em seu detrimento a igualdade de chances. deixemos o resto de nossas tropas a distância. responde: “Se consentir em me esperar. Mas.

com um pouco de flexibilidade –. não se apresenta para nós como a antítese de uma barbárie primordial. que os situa na Itália lombarda e no Oriente. nessa aristocracia de ares guerreiros. talvez. algo de claramente “Cavaleiresco” em sua ideologia e função: não se trata de o guerreiro lutar pelo direito (mesmo que se trate de seu próprio direito) e oferecer ou propor o espetáculo de seu valor. inevitavelmente. 10. em ritos e cerimônias. como testemunha a crônica de “Fredegário”. tal como definida mais acima com tanto rigor quanto possível – e também. como um peixe dentro d’água. como aqui. De resto. exceto. lá onde parece existir apenas um narrador cristão. enfim. em período de 4 Mesmo não estando presente em A Germânia de Tácito. essa época já é apegada aos combates singulares lendários.3    Clóvis. . Quanto à Cavalaria medieval. mais ou menos. mas este poderia ser também a cristianização de uma prática anterior4. Tudo isso foram os modernos que o fizeram dizer. Esse desafio tem. um contramodelo de hábitos civilizacionais romanos. principalmente. a não ser o desenvolvimento de seus próprios meios guerreiros. não apresentou nenhum projeto de abolir a vingança e não opôs de forma alguma a seu rei Chilperico. sob a forma de duelo de augúrio com um prisioneiro: A Germânia. o aprofundamento de certos traços já presentes nas sociedades de guerreiros nobres. ou a esses usos. economizando o sangue dos próximos e dos súditos? Muitas dessas ofertas são rejeitadas. mesmo em versão cristianizada. a batalha. ele renunciou ao topos antigo do furor bárbaro. Ela será muito mais uma versão sofisticada dos acordos entre guerreiros. Apenas o furor do preconceito moderno foi capaz de ver em Gregório de Tours uma forte onda de violência bárbara cobrindo a Gália. capaz de afastar as brumas dos tempos merovíngios. É razoável concluir este capítulo preliminar renunciando a toda dramatização excessiva da “germanidade” antiga ou merovíngia. incansável e apaixonado. É possível que a Cavalaria medieval não tenha o que acrescentar a esse esforço. como o esforço que frequentemente fazem para entrar em acordo em vez de se exporem a ser dizimados e o uso que fazem das armas. que ele arranha acreditando derrubá-lo. mas isso não produz sempre. para dar crédito – sem desferir muitos golpes – a seu personagem social de herói. ao passo que seu cristianismo tingido de julgamentos de Deus e de vinganças de santos é.

4    crescimento econômico (sensível após 600) e de reforço (ligado aos carolíngios) dos poderes reais. toda unívoca e toda moral. Dominique. BARTHÉLEMY. e com frequência. Não temos. da barbárie franca à Cavalaria francesa. dar a Carlos Magno um lugar mais importante e mais específico. . A cavalaria. Da Germânia antiga à França do século XII. a relatar neste livro. todo o século XIX. uma evolução decisiva. como fez um autor como Guizot em 1830. Isso nos permite. ao menos. condais e senhoriais – para melhor exorcizar uma violência potencial maior. Campinas: Editora da Unicamp (no prelo). com ele. portanto.

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