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Apelo aos Portugueses: A Legitimidade das Eleições Legislativas Posta em Perigo, José Filipe Sepúlveda da Fonseca

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Apelo aos Portugueses1

A Legitimidade das Eleições Legislativas Posta em Perigo
José Filipe Sepúlveda da Fonseca 13 de Fevereiro de 2005 A falta de um debate sério, elevado e com conteúdo ideológico, a respeito dos temas verdadeiramente em causa nestas eleições, ameaça a actual disputa eleitoral de inautenticidade e de falta de representatividade. Aproxima-se a data em que os portugueses serão mais uma vez chamados às urnas a fim de escolherem os seus representantes para a Assembleia da República, em eleições antecipadas. Ao determinar artificialmente a dissolução da Assembleia com uma maioria parlamentar estável, o Chefe de Estado não conseguiu manter intacta a marca de isenção e de independência partidária a que está obrigado pelo cargo que desempenha. Gerou com isso um ambiente de inegável tensão política e de insegurança institucional: «Em nenhum regime monárquico europeu se assiste a este triste espectáculo de o Chefe do Estado interferir nas políticas e na duração dos governos eleitos»2. A gravidade da conjuntura em que se desenrola esta eleição e dos temas nela envolvidos exige de todos os portugueses uma participação activa nos debates, motivo pelo qual nos sentimos animados a fazer este pronunciamento.

Encruzilhada histórica
Há certas expressões que, em decorrência do uso abusivo e generalizado, acabam geralmente por perder a credibilidade, tornando-se banais. Assim tem acontecido, nas semanas mais recentes, com a palavra «crise». Dizer que Portugal atravessa uma «crise» tornou-se uma expressão séria mas vazia de significado. No entanto – ninguém poderá negá-lo – o nosso País encontra-se numa encruzilhada histórica, marcada por inúmeras incógnitas e por panoramas mal esclarecidos, de debates inexpressivos e de ideias indefinidas. Sobretudo, encontra-se imerso num clima psico-social morno, em que se vão avolumando as incertezas quanto ao futuro, parecendo, numa primeira análise, que a Nação está a caminhar para uma situação sem aparente solução à vista.
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Publicado originalmente no sítio Web dos Arautos d’El-Rei. Cf. «Crise Política – Crise do Regime Republicano», in Diário Digital, 13 de Janeiro de 2005. 1

Decidir o nosso futuro com os olhos postos no mundo
Torna-se imperioso reconhecer que os dilemas profundos que perpassam a sociedade contemporânea, não se restringem às questões político-sociais de âmbito meramente nacional, mas dizem também respeito, em maior ou menor grau, à grande maioria das nações livres. E, consequentemente, as circunstâncias e contextos internacionais condicionam, de modo forçoso, o nosso cenário eleitoral, embora muitos dos nossos políticos pareçam omiti-los ou nem sequer prestar-lhes atenção.

Reagrupamento das esquerdas mundiais em torno do ideal de uma sociedade subconsumista e miserabilista
A esquerda internacional, nas suas diversas vertentes, tenta reagrupar-se no movimento «altermundialista», uma rede anarco-comunista. Essa nova esquerda, reunida nos Fóruns Sociais Mundiais (e organismos afins), tenta explorar e galvanizar certo descontentamento existente relativamente ao processo de globalização, lançando-se assim contra o capitalismo e, mais especificamente, contra o modelo rotulado de «neoliberal». Contudo, o seu último e verdadeiro alvo é a aniquilação da propriedade privada e da livre iniciativa. Para alcançar esse fim, o neo-socialismo propõe a transformação gradual e permanente das instituições sociais a partir de uma mudança das mentalidades, operada por uma revolução cultural. Utiliza, como força dinâmica dessa revolução cultural, minorias até há pouco mal vistas em termos sociais, como os homossexuais, as lésbicas, os transexuais, as prostitutas, os consumidores de drogas, certo tipo de ecologistas, activistas de minorias étnicas e muitos outros que se auto-proclamam de «excluídos». Existe o sério risco de que esta agenda neo-socialista possa vir a tornar-se uma agenda nacional, em função do resultado eleitoral do próximo dia 20.

Os dilemas europeus que condicionam de modo profundo as nossas eleições
Analisemos agora, num âmbito mais restrito, o do Continente Europeu, as circunstâncias em função das quais se desenrolam as nossas eleições legislativas. O grande dilema que divide hoje os povos europeus é o de aderir ou não a uma Constituição transnacional, a qual nega frontalmente as origens cristãs da nossa Civilização Ocidental e que, por outro lado, consagra, em princípios e leis, a faceta libertária do Iluminismo e da Revolução Francesa, ou seja, de um laicismo agressivo, persecutório dos princípios cristãos que regiam os nossos povos.
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Caminhamos para um futuro cheio de incógnitas, conduzidos por euroburocratas que parecem dispostos a consagrar, ao arrepio da vontade e da identidade da maioria dos povos europeus, esta grave imposição ideológica, em virtude da qual o laicismo constituirá a única categoria cultural e referencial possível na nova Europa. A omissão ao Cristianismo, no Preâmbulo do Tratado Constitucional, levou S.S. João Paulo II a afirmar: «É a crise da memória e heranças cristãs, acompanhada por uma espécie de agnosticismo prático e indiferentismo religioso, fazendo com que muitos europeus dêem a impressão de viverem sem substrato espiritual e como herdeiros que delapidaram o património que lhes foi entregue pela História.». Curiosamente, os nossos homens públicos parecem esquecer ou silenciar por completo, nos debates eleitorais, estes temas cruciais e nem sequer temos a garantia plena de algum dia sermos ouvidos em referendo a respeito dos mesmos.

Espanha: o governo socialista leva a cabo uma agenda laica radical, agnóstica e anti-cristã
Se formos mais minuciosos na nossa análise, veremos que as actuais eleições portuguesas se inserem também, de modo fulcral, noutro contexto importante, ou seja, o contexto ibérico. Espanha atravessa actualmente um processo político, cada vez mais turbulento, iniciado a 11 de Março de 2004, com o misterioso atentado de Madrid, perpetrado por radicais islâmicos, ao qual não estiveram alheios – como hoje se sabe – os seus aliados da ETA. José Luiz Rodríguez Zapatero, que manteve durante a campanha eleitoral o tom inexpressivo dos debates e um perfil moderado, uma vez eleito, passou a revelar a verdadeira face radical das actuais correntes da esquerda internacional. O seu primeiro acto político foi a retirada das tropas espanholas do Iraque. A partir de então a sua política externa tem-se baseado na quebra das relações euro-atlânticas. Além disso, no plano interno, o governo socialista de Rodríguez Zapatero, começou por propor o «casamento» homossexual, alargou a legislação do divórcio e do aborto, lançou uma série de ataques aos valores cristãos, expulsou o representante das escolas católicas do mais alto Conselho Escolar do Estado e tem-se mostrado determinado em extinguir os privilégios de que goza a Igreja, ao mesmo tempo que anuncia a sua intenção de favorecer oficialmente o Islão. Tais factos levaram o Primaz da Espanha a declarar que a Igreja agora enfrenta um governo e uns media «dispostos a despedaçá-la»3. E levaram o próprio João Paulo II a denunciar, ante um grupo de bispos espanhóis, que em Espanha se vai difundindo uma mentalidade inspirada num laicismo que visa restringir a liberdade religiosa, promovendo um desprezo

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Cf. Agência Católica Internacional, 16 de Agosto de 2004.
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pelo religioso e relegando a Fé à esfera privada4. Compreende-se, pois, que o reputado «The Wall Street Journal», em recente editorial, tenha feito um «alerta aos navegantes». Segundo o texto, as atitudes de Zapatero têm sido a perfeita nota de agradecimento aos terroristas que o empurraram inesperadamente para a Moncloa. Somente a sua visão ideológica pode explicar a afinidade com os ditadores dos últimos bastiões do socialismo na América Latina. Poderiam ser quatro longos e obscuros anos na Península Ibérica, conclui o editorial do reputado jornal. Sim, longos e obscuros anos na Península Ibérica...

A confusão das ideias, o relativismo ideológico e a irreflexão induzida imperam na cena política portuguesa
É hora de atentarmos no panorama político nacional. Não é nosso intuito entrar em discussões estéreis ou em questões pessoais, nem na análise dos temas económicos que parecem encher de forma desmesurada e quase exclusiva o cenário político pré-eleitoral. Embora nos situemos numa posição supra partidária, de modo a podermos abordar com objectividade o cenário político actual, não nos é possível omitir a referência específica a partidos políticos. Há anos que, em decorrência de situações económicas, políticas e culturais concretas, Portugal vem imergindo num ambiente de distensão próspera, despreocupada e optimista. Cultiva-se neste País a imagem de homens públicos risonhos, pouco voltados para as grandes reflexões, que parecem trazer consigo soluções políticas felizes e de... consenso! O «consenso», nunca definido, tornou-se quase um dogma na nossa vida pública, assim como a igualmente indefinida «estabilidade». «Consenso» e «estabilidade» à custa dos quais se tem sacrificado o debate das ideias e das ideologias. O confronto e a polémica são-nos apresentados como espantalhos malfazejos. Com a falta de um sadio debate de ideologias e de ideias, não se afirma claramente o que se pensa. Mais ainda, usa-se como arma política a estratégia de ocultar para não assustar e a nossa vida pública afunda-se, dia após dia, na confusão, no desinteresse, no desânimo, na trivialidade, na vulgaridade e na falta de autenticidade. A confusão das ideias, o relativismo ideológico, a irreflexão induzida, o consequente debilitar do senso crítico, o «caos tranquilo» que se vai instalando na vida política, fazem com que os movimentos do eleitorado sejam cada vez mais complexos, fluidos e mutáveis. A desilusão crescente do eleitorado reflecte-se, entre outras coisas, no considerável
4

Cf. Gobierno convoca nuncio para expresar extrañeza por críticas del Papa, EFE, 26/1/2005 4

contingente dos abstencionistas. Contingente este que deveria suscitar interrogações aos políticos: serão comodistas todos os que se abstêm? Serão alheios à vida pública e ao bem comum, desinteressados dos destinos do seu País? Ou, pelo contrário, haverá muitas pessoas que não encontram nos políticos e na política a sua autêntica representação e, por conseguinte, se ausentam do debate político? Tem-se a impressão de que o Portugal «oficial» desconhece e se distancia cada vez mais do Portugal autêntico e profundo, o qual vive longe dos holofotes da propaganda e dos media.

Vasta operação mediática para impor ao País uma maioria socialista
É neste cenário de relativismo ideológico que se realizam as actuais eleições. Numa enigmática conjugação de forças políticas, de homens públicos de correntes diversas, de empresários, de vastos sectores dos media, inculca-se no Povo português a ideia de que a solução para garantir a tão decantada «estabilidade», para evitar o agravamento de uma «crise» está numa maioria absoluta do Partido Socialista, para a qual «não existe» qualquer alternativa. Derrubada a actual coligação PSD/CDS-PP tudo se resolveria como num passe de mágica! É, pois, em ambiente de apatia quase geral e longe dos verdadeiros e reais interesses da Nação, que se desenrola o debate eleitoral, resumindo-se a uma discussão vazia de conteúdos e com as atenções a concentrarem-se em pequenos ataques pessoais e questiúnculas políticas, nas fisionomias mais ou menos simpáticas, retocadas pelo «marketing» político. Foi o que levou José Manuel Fernandes a perguntar há poucos dias, no editorial do jornal «Público»: «Será que em Portugal não existem divergências políticas, apenas pessoais? Ou técnicas? Será que nestas eleições se está de acordo quanto ao essencial, divergindo-se nos detalhes e nos protagonistas?»5.

Falseamento da própria democracia representativa
A caça ao voto – sobretudo do chamado «eleitorado do centro» – tornou-se um fim em si mesmo e, «para não assustar», deixam-se por clarificar as ideias e as posturas, o que, de si, leva a um falseamento da própria democracia representativa, podendo acarretar graves consequências para o sistema político vigente. O eleitorado é impelido a votar em função de conveniências imediatas, de cálculos eleitoralistas manipulados, e não de acordo com as suas convicções. Uma vez chegados ao poder, políticos e partidos implementam uma agenda que só eles verdadeiramente conhecem. Deste modo, a democracia dos «consensos» vai-se tornando cada vez mais inautêntica, identificando-se com a democracia da não-discussão, da não-reflexão, da inércia e da
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«Procuram-se Diferenças», Público, 8 de Fevereiro de2005. 5

apatia. Perante uma tal situação e uma vez realizadas as eleições legislativas, considerando a hipótese de o Partido Socialista vir a obter no Parlamento uma maioria absoluta ou uma maioria com partidos da esquerda radical, é legítimo questionarmo-nos se o eleitorado PS iria conhecer os verdadeiros fundamentos ideológicos que os seus líderes tentam agora ocultar da opinião pública e do eleitorado.

Os valores morais e religiosos, no centro do debate eleitoral
Temos a convicção de que as grandes opções em Portugal, neste pleito eleitoral – à imagem de muitos outros países – passam hoje por uma agenda cultural, incluindo-se aí com destaque os fundamentos morais e religiosos da nossa sociedade. E é esse, precisamente, o debate que está a ser silenciado! Apontou com grande clareza o Prof. João César das Neves, em artigo para o Diário de Notícias: «As questões fracturantes existem. As recentes eleições americanas mostraram bem o que outros países também confirmam: as ‘guerras culturais’ são a grande batalha do nosso tempo. (...) A verdadeira luta doutrinal trava-se na definição da família e do direito à vida. (...)»6. Com efeito, a vitória esmagadora do Partido Republicano, assente na defesa dos valores morais tradicionais, desmentiu de forma clara e notória as perspectivas de muitos analistas, observadores, institutos de sondagens e de grande parte dos media a nível mundial.

Impor sorrateiramente à sociedade portuguesa a liberalização de certas leis e a libertinagem dos costumes
Temos por certo que a imensa e desconcertante articulação que visa impor-nos uma maioria absoluta do PS – ou uma maioria de esquerda – contém um objectivo certeiro e não declarado: desencadear sobre a sociedade portuguesa uma acção revolucionária, branda nas aparências mas radical nas metas, para acostumá-la gradualmente a conviver com situações de amoralidade e degradação dos costumes até há poucos anos energicamente repudiadas por largos sectores da população. Pretende-se impor ao povo português, de modo sorrateiro, reformas institucionais que acelerem uma mudança de mentalidades, escondendo cautelosamente o radicalismo ideológico que as inspira. Com hábeis métodos de propaganda, pretende-se estimular e exacerbar um clima de hostilidade em relação à moral católica tradicional, uma amnésia a respeito dos princípios morais, uma pressão social a favor da libertinagem dos costumes e da liberalização de certas leis, com consequências imprevisíveis. Aliás, já começam a fazer ouvir-se as vozes rancorosas do laicismo que tentam negar à
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«A clivagem escondida das eleições», Diário de Notícias, 7 de Fevereiro de 2005. 6

Igreja Católica o direito de intervir na vida política do País, e de relembrar publicamente a sua doutrina divina e perene. Em nossa opinião, pretende-se igualmente fazer «acertar o passo» do processo político português com o processo revolucionário que o governo socialista de Rodríguez Zapatero está a conduzir na vizinha Espanha. Assim, temos por certo que qualquer maioria de esquerda que viesse a resultar das próximas eleições legislativas, introduziria no País a agenda do neo-socialismo, a qual contaria entre outras coisas com: ● um esforço no sentido de fazer aprovar a Constituição Europeia; ● a aprovação do «casamento» homossexual e a regulamentação das uniões de facto7 ; ● a adopção de crianças por «casais» homossexuais ● a liberalização do aborto; ● a imposição da educação sexual nas escolas em todos os níveis; ● a despenalização das drogas; ● a regulamentação da prostituição; ● o intervencionismo do Estado na economia e na educação.

Apelo aos portugueses
Diante destas considerações lançamos um apelo, como católicos e como monárquicos, a todos os portugueses no sentido de elucidarem os seus círculos familiares e de levarem às suas relações sociais e profissionais um esclarecimento sobre o que verdadeiramente está em causa nas eleições do próximo dia 20 de Fevereiro: a defesa de valores civilizacionais que fazem parte do património histórico e cultural português, europeu, ocidental e cristão, e que devem ser defendidos e preservados através dos órgãos de soberania. Não cremos que seja legítimo e patriótico dar o voto a partidos cujos programas eleitorais preconizam a aprovação de leis que atentem contra a essência da ordem moral e da Família, como célula base da sociedade. José Filipe Sepúlveda da Fonseca Arautos d’El-Rei, Coimbra 13 de Fevereiro de 2005

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Cf. Manifesto Eleitoral da JS. 7

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