Sine Die

ANDRÉ DOMINGUES

ANDRÉ DOMINGUES

SINE DIE

Miguel António Borges Montenegro acreditava no milagre estapafúrdio de um dia podermos ser todos originais a tempo inteiro. sem olharmos a questões práticas. corolários e apelos. François Villon (O debate do coração e do corpo de Villon) Ser sempre original. Luiza Neto Jorge – E de onde vem o dano? – Da desventura.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE O teu amor espreita o meu corpo ao longe. que exigisse do hospedeiro a dedicação e a renúncia de um 1 . tal era a grande e estimada obsessão de Montenegro. nascida de uma perfeita inadequação ao mundo e aos seus limites. como uma auto-imposta e irónica doença. E essa convicção afectuosa e destrutiva. economia de meios ou necessidades objectivas. até quando a originalidade põe seriamente em causa a eficácia óbvia dos gestos mais simples. rapidamente alcançou os lugares cimeiros na tradição dos vícios metafísicos.

coreografia inadvertida que ia resgatar ao seu baú de “danças dissolventes”. fazia primeiro uma pequena incursão pela momice. preferindo os piores caminhos para cumprir as leis básicas da sobrevivência. e depois obrigava-se a fazer qualquer coisa que estivesse nos antípodas daquela urgência (como pentear-se. ou meter conversa com algum desconhecido). Montenegro ao invés de levar imediatamente a mão e a mestria dos dedos ao sítio onde o prurido o perseguia. arriscando armadilhar todos os trilhos de bifurcações e impedimentos. ou então promovendo a construção de parques temáticos para a inutilidade do dia-a-dia. Por exemplo: quando sentia alguma comichão na parte posterior da orelha esquerda. e assim sucessivamente até ao coração do labirinto. contornando habilmente as obrigações do momento. entretinha-se desviando a rota dos compromissos. Pelo caminho. beber água sem ter sede. e só então acudia à sua comichão com a sobranceria 2 . Montenegro embarcava na sua obsessão logo de manhã cedo e só voltava à margem da normalidade já o dia estava vencido.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES monge entorpecido.

e só depois fazia o percurso contrário até ao seu quarto. dirigia-se à porta da rua. cobrindose. a cidade e a maior parte das expectativas. depois de o incêndio já ter engolido a floresta. o edredão. apenas cobrir. gritava “chiu” para a noite fria de caprichos e de estrelas. olhava primeiro para um lado. e.. finalmente. coxeando de forma deliberada e patética. E isto. apagando a luz e. porque o mesmo acontecia em relação a todas as outras necessidades de índole fisiológica e carácter 3 . deitando-se. os lençóis. faziam Montenegro único entre os seus pares e até algo humanamente incompreensível. Borges Montenegro acendia a luz. puxar o cobertor. depois para o outro. levantava-se da cama e ia até ao escritório descalço e despido. como costumam ser todos aqueles que se sujeitam à inércia de uma vida profundamente incapaz de prosseguir pelos próprios meios. dava duas ou três voltas à escrivaninha. etc.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE da chuva lenta quando começa finalmente a cair. abria-a. Outro exemplo: se sentisse frio durante a noite e se se quisesse cobrir. A arte do seu dispêndio e a forma reeducada como dispunha desse dom terrível.

SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES intempestivo. que. o projecto em todo o seu enunciado encoberto. mas que lhe davam um imenso gozo incrédulo. sempre taxou o seu caminho sob o adágio “é preciso ser sublime sem interrupção”. e seguindo o ideal máximo do dandismo. um biógrafo de Montenegro. E viver permanentemente diante de um espelho é talvez ceder ou aceder ao narcisismo mais ilícito. aquela na qual estamos conscientes de 4 . Corroborando a pertinente observação desse crítico. É que no segundo termo desta sua famosa equação. normalmente por intermédio de um circuito de acções e comportamentos dispersivos e oblíquos. o senhor Carlos Bósforo Milton Neves. acredita (cofiando a barba. mas inscrevendo-a num campo de análise muito mais extenso. Baudelaire acrescentou a nudez da eternidade diante de um espelho. qual icárico vaticínio. síndrome entre as síndromes. para além de se situarem naquilo a que um crítico uma vez chamou de “estância do sublime vingativo”. postergando sempre a sua satisfação acesa. por sua vez. um pouco impaciente) que esta particularidade fora possivelmente herdada das leituras excessivas de Baudelaire. não cumprindo porém.

onde. de facto. o único na posse secreta das suas famosas “Agendas e Desequilíbrios”. que envelhecer é um mau filme passado num cinema decrépito do nosso bairro mais belo e que a nossa biografia seria muito melhor se decorresse num planeta mais persuasivo. Ininterrupto porque sublime. vestirmo-nos todos os dias como se fôssemos morrer de repente. que não envelhecemos nunca. essa ponte aparece iluminada e estabelecida: “Só na morte se é ininterrupto e sublime. a anos-luz da tentação de Dorian Gray. na teimosia deliquescente de estar 5 . pois. Lá as luzes ardem para nada e para ninguém. “O pensamento mágico e tautológico de Miguel Borges Montenegro”.” E ainda esta outra. transcrevendo para o núcleo da sua tese. em directo e em privado para nós mesmos. A morte – é sabido – não tem interruptores.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE que captamos o nosso envelhecimento como exterior à nossa vontade de envelhecer. ou já estivéssemos mortos e permanecêssemos por aí. confirma. e fingimos. falso e diferido. igualmente inquietante e inconclusiva: “É possível. O mesmo biógrafo. esta citação curiosa. Sublime porque ininterrupto.

“Comédia Inédita”. Nesta última obra. e da sua obra mais considerada. ele mesmo.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES vivo. I. II e III)”. “Necessidades Abaixo de Zero (vols.” Falar das insignes tautologias de Montenegro. que escreveu durante a sua curta estadia no manicómio de Mondragón (onde privou. no início do Inverno de 1997. de forma muitas vezes impudica e frequentemente 6 . por sua própria conta e risco. bem como do pequeno caderno de aforismos e apontamentos. o poeta espanhol que ameaçava ter Baudelaire encarcerado na sua cabeça). no seu arrojo vital. dispensa planos de pormenor e qualquer estratégia complacente.” Os três grandiosos e esgotados volumes de “Necessidades abaixo de zero” compreendem um vasto programa enciclopédico. Montenegro volta a colocar a tónica na originalidade eterna e na visionária e impossível tarefa de a adquirir: “A originalidade levada ao extremo mata hoje em dia mais pessoas dentro de mim. é falar de Montenegro. onde Montenegro dá conta e relevo. do que os efeitos do tabaco no mundo inteiro. tantas vezes atravessadas por uma ironia que. com Leopoldo María Panero.

I.. entre outras coisas. Montenegro confessa estar a construir uma E. “A ficção – pensava Montenegro – é a única necessidade que pode abolir todas as outras e que. que lançou definitivamente uma nova luz sobre o mundo minucioso e incrédulo de Montenegro e permitiu aos seus leitores. desenhos e promessas que ilustram melhor a sua ideia e delegam o seu entendimento ao “mercúrio negro do porvir”. credos e sexos. da persistência histórica de algumas necessidades básicas da espécie que. fora a descoberta tardia do seu diário. Escola de Procrastinação Infinita. Neste diário.P. revestem de puro anacronismo as nossas vidas. Contudo.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE violenta. “Biorragias – a arte irresponsável do esvaimento”. dirigida a gente de todas as idades. ao mesmo 7 . biógrafos e críticos compreenderem de uma vez por todas o mecanismo controverso da sua “Épica Débil” (expressão pela qual ficou conhecida a reunião completa dos seus textos poéticos). no seu ponto de vista. estava a urgência de escrever. Conservada nas fundações da sua pirâmide de necessidades invertida. acrescentando no final de cada capítulo mapas.

SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES tempo. o escrivão. sexo e circulação impertinente de gases e fluidos o homem teria mais tempo certamente para se esquecer de si. mais respeita a fisiologia da nossa liberdade. nos intervalos toleráveis da persistência. ocuparmos o lugar do desaparecido. “De facto”. comentava um jornalista num daqueles programas televisivos que se mantêm em câmara frigorífica até ao dia em que um escritor assina de vez a sua ausência. entre os quais assoma a silhueta apócrifa de um Vila-Matas com ar de falso curandeiro da mentira. fome. que se quer sempre saciada com a maior diligência possível. Como ainda não nos é possível elidir esses presentes envenenados da biologia. resta-nos adiar o mais que pudermos a sua satisfação compulsiva e. Num mundo sem sede. mas depois não são capazes de a recolocar na sua ilha de etiologias imprevistas. A prova maior do que acabo de dizer está na forma como rapidamente ele substituiu os pais (“os maiores 8 . “Miguel Borges Montenegro não admitia que houvesse nenhuma influência na sua vida. fazem derivar a obsessão Montenegriana como mais um tentáculo do espectro da síndrome de Bartleby. sono.” Alguns estudiosos da obra de Montenegro.

do outro lado do mundo. Vila-Matas e os seus testigos acudiram em massa à porta do prédio onde Montenegro vivia. como ele sugeria) por duas radiografias completas pertencentes a dois indigentes. falácia e influência sobre tudo o que houve. de quem Montenegro dizia ter aprendido tudo o que vale a pena aprender. uma voz aplaudiu: “Compreendo a sua dor. pretendeu tornar-se o mais afastado e imperceptível escritor de todos os tempos. o herói atormentado e inconsequente de Camus. Mas. e felicito-o: você protagoniza a verdadeira 9 . com cartazes que o denunciavam como um Bartleby bastardo e indecente.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE produtores e portadores de influências e malefícios”. havia e ainda estava por haver. Outros diziam tratar-se de um plágio flagrante de Meursault. sob uma luz infeliz e rarefeita. por cima da cabeceira da cama onde por vezes fingia sonhar com uma existência possível.” A sentença adquire poderes extraordinários quando vai buscar à constatação a sua força primitiva. e que pendurou. A partir do momento em que Montenegro se apercebeu de que tudo tinha um núcleo feroz e magmático de interrupção.

como se fosse a boca irregular de uma cicatriz. o nexo negro das heranças tardias e a importância do isolamento como vacina. naquele que seria o segundo e último email trocado entre eles (mal soube que Bloom transportava o espírito da história de todas as influências. comentou ironicamente Harold Bloom. desenvolvendo depois.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES angústia da influência! Não só adoptou o meu conceito. Montenegro deixou de lhe responder) e onde Montenegro tornou pública a sua descodificação aberrante do conceito que o autor americano deixou a pairar no seu livro. que “haveria de 10 . nos bastidores dos pensamentos seguintes. como o alargou à luz do seu próprio mal-entendido”. já em off.” Seguiram-se cerca de 150 esboços ou fragmentos de teorias irrealistas sobre a maculada concepção dos discípulos. a teoria do “martírio branco do parricida”. com a entrega e o carinho de um pai biológico e genuíno. bem como o projecto de uma casa paradisíaca contra a instituição quotidiana de vínculos (outra necessidade que deveria ser erradicada para sempre). que começava assim: “Entra em êxtase aquele que cospe na origem e depois beija esse momento.

mal conseguiu vender numa feira de antiguidades alguns livros. curiosamente. Em Fevereiro de 2005. para voltar ao “mais honesto planeta do inapreensível”. o mais depressa que pudesse. injectando colunas de silêncio onde antes havia armários cheios de tralha e pequenos troféus. alusões à irresponsabilidade e livros. ver televisão. letras e algarismos.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE ter jardim. Montenegro preparou-se e precipitou-se para o seu próprio êxodo. Montenegro deixou de ler jornais. demolindo divisões e enfrentando poeira e paredes vazias. Aproveitando a força inusitada do paralelismo. coincidiam). reformando 11 . transformando o seu pequeno apartamento numa cela monástica. com o último dinheiro que tinha recebido da família por ocasião do Natal e do seu aniversário (que. desviava agora o olhar dos letreiros. ouvir notícias na rádio e consultar o grande horóscopo do mundo nas páginas agnósticas da Internet. poemas. grande parte da sua mobília obsoleta e alguns artigos decorativos de gosto discutível. desfocava a atenção das imagens invasivas e chegou mesmo a considerar desaprender a ler. com baloiços de éter e muita gente impassível”. livros.

e os rostos infiltrados de suspeita e os olhos tatuados de perfídia. sandálias e máscaras apropriadas para o exercício do seu erro. com hábitos. Depois. Deixou de escrever durante algum tempo e passou a descrever apenas os estádios a que se submetia. Montenegro tomou a diabólica decisão de nunca mais sair de casa e de se afundar seriamente no seu projecto sublime. Depois da rejeição arrebatada e definitiva da sua ascendência. depois de ter execrado tudo o que à sua volta lhe suscitasse alguma ideia que não nascesse pura e simplesmente do vazio. abandonou definitivamente a palavra escrita e começou a fazer uma série de instalações com o seu próprio corpo inerte. (que lhe valeu a morte prematura dos progenitores e um processo por pseudohomicídio).SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES o seu guarda-roupa. que era o de ser sempre original sem nunca mais ser interrompido ou influenciado por nada nem por ninguém. do seu pletórico vazio. mesmo que com a regularidade cínica dos cometas. depois da expulsão desencantada dos dois ou três amigos de infância que ainda o visitavam. Pediu emprestado aos surrealistas a coroa 12 .

depois de uma overdose de livros de cavalaria. Montenegro levou a experiência do jejum ao limite. Basta que a mente esteja suficientemente iludida para escrevermos com o corpo os caracteres que todas as nossas biografias possíveis e impossíveis reclamam aos gritos. do fundo da sua clausura de papel”. inaugurou ele mesmo. 13 . o mais arriscado também. “Sine Die. professor experiente do tempo perdido. e. Na sua última entrevista conhecida. guardador de lapsos de memória. Temos o exemplo de Quixote que. o que implicou uma maior vigilância consequente. já deixava entrever o que viria a seguir: “Para mim – e para muitos outros – a literatura nunca foi um fim em si. e auto-proclamou-se príncipe da incompetência protegida. sem dúvida. na presença dele mesmo. Nele.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE do seu cadavre exquis. Gratia Plena” foi o seu projecto de maior envergadura. substituto orgânico da vida. a primeira micro-nação do mundo – ele mesmo! – capaz de um governo inteiramente auto-suficiente. decide deixar-se guiar pelo cinema pernicioso e retroactivo de tudo o que leu. Para a literatura acontecer não é necessário [e sublinhou a palavra necessário] que a linguagem escrita a preceda.

até aos pés. e apenas água.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES Bebia água. castanho. para poder continuar com a experiência sem ter de recorrer às pálidas reprimendas dos médicos. como cogumelos. para evitar deslocar-se do seu trono incompreensível. Nunca despia o hábito. Comprou até uma colecção de fraldas descartáveis. três vezes por semana. Montenegro era a narcose dos idealistas. elaborada com os tons da tristeza e da indolência. do conceito de cilindro de ar comprimido e. Como um mergulhador que descesse aos cúmulos do seu artifício e se esquecesse do conceito de máscara. que iam nascendo. instalado na sua chaise-longue o dia inteiro. principalmente. misturava duas colheres de chá de um forte complexo de proteínas e vitaminas. bebedeira das 14 . do conceito de tubo. do conceito de respiração como consequência de uma carência impreterível e de um sossego ausente. nem descalçava as sandálias que revelavam as unhas dos pés negras e retorcidas e mantinha sempre posta a máscara cenobita. que mudava muito espaçadamente. nas paredes da sua utopia. fazia bolinhas de sabão para aliviar os pensamentos intrusivos e. imundo.

a Mishima? Versão dissipadora dos reinados ascéticos? Ou mero exercício exibicionista? As opiniões dividem-se. como não poderia deixar de ser. a De Quincey. para um site que ele próprio criou e desenvolveu. esta apoteose da perda. era difundida através da sua minúscula webcam. como se para além desse ponto não se discernisse mais nada. a Musil. Sacrifício ritual interactivo? Homenagem negativa à vida? Figura de culto explícito a Diógenes. 24h por dia.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE profundidades à superfície de um complexo sistema de preferências que desafiavam todos os índices fetichistas e iam depositar os seus ovos estéreis nas fendas da percepção mais habituada à sinceridade trágica e grotesca. quilómetros e quilómetros de tempo perdido. rigorosamente nada. propriedades onde a nitidez e o realce abraçavam a sombra e 15 . Toda esta performance perdulária. a Bataille. encaixe cósmico do côncavo e do convexo. fim de linha fictício. espécie de promontório inábil do insucesso. leito de morte de uma criança incomparável prestes a despenhar-se na sua própria vertigem. a respeito daquela que seria a última grande obra de Montenegro.

enleando-o de vínculos. a não ser na construção imóvel de um muro altíssimo que divide o tempo em surtos cada vez mais prolongados e virulentos de vida ausente ou fora de si. necessidades e promessas que Montenegro tarda. que assistem diariamente ao seu suicídio longínquo e que se referem à sua arte com o jargão da pornografia e a atitude do onanista instruído. Os dias e os meses vão passando. curiosos e desprevenidos. que lhe pede um pouco mais de privacidade e o arrasta para uma rede de amor à primeira vista. Gratia Plena” ditou a sua consagração.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES a doença. reconhecemos o nome de Beatriz Ilitch. “Sine Die. A comunicação social descobre o site. em desfazer. como sempre. Montenegro não pode trabalhar. Entre tantos outros rostos anónimos. Beatriz está a redigir uma dissertação de doutoramento sobre “Ingratidão 16 . explora timidamente o fenómeno e o número de visitantes diários ascende. Mas o dinheiro para os fios que suspendem a sua residência na Terra desaparece misteriosamente entre as horas esquecidas. uma mulher de inacessível perfil.

não aparece senão de perfil. os vem vencer. não se realiza.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE e literatura” e do fundo dos infernos da sua argumentação antiga. pior ainda. e de que as doenças não pedem licença para exercer em nós o seu laborioso domínio. necessidade sem tratamento possível. de que finalmente lhe espera uma 17 . até que a manhã. pensa Montenegro. Beatriz desvaloriza a sua imagem. mas foi a única que chegou até ele. não tem coordenadas fixas. percorre as inúmeras formas manifestas de literatura mal-agradecida e a voz dos seus respectivos protagonistas e antagonistas. admirável inconveniência. sentados à volta de ideias intransponíveis. Ficam horas a conversar sobre a microfísica do desconhecido. Montenegro apercebe-se de que a paralisia não é uma ave extinta nem inocente. Beatriz é sexy porque desvaloriza. com a sua claridade literal. A 4 de Setembro de 2007. recriando um mapa que há muito já deveria ter sido alvo de leituras mais atentas. manda beijinhos. Toda ela é desvalorização. diz adeus. contágio. às 17 horas e 35 minutos da tarde. Apercebe-se de que vai ficar sem barco de regresso para o dia seguinte e. enquanto sorri para a webcam.

incapaz de enfrentar o novo volume da sua rocha. demorava 3 ou 4 vezes mais a fazer as coisas básicas que tinha de fazer. uma versão menos pacífica de Plume talvez. A matemática da deficiência. nos últimos dias de 2007 passava a manhã inteira para se levantar. como o percalço de Sísifo. as fezes amontoam-se entre as ruínas do tempo perdido. À sua volta. A incapacidade de se reunir. sucessor do seu “conhecimento pelos abismos”. locatário das suas “propriedades” improváveis no centro da censura perpétua que é a vida. Alastra o lapso de tempo perdido. O insepulto aquário do tempo partiu-se. O muro estratosférico perdeu os limites. tendo preferido sempre vencer a velocidade inábil dos acontecimentos. negando-os à partida. (mas ainda assim lá as fazia). horas e horas a fio de danças 18 . a tarde para chegar à casa de banho e lavar os dentes. A sua obsessão agrava-se de dia para dia. agora do tamanho da montanha inteira. de início. Pelo meio. e grande parte da noite para abrir a água do chuveiro e ouvir a água a cair. Sente-se muito próximo de Michaux.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES vida onde o adiamento não tem razão de ser. Se.

recuperava e repunha em cena toda uma panóplia de técnicas que os santos e os místicos da idade média utilizavam em prol dos seus êxtases significativos. deixando por fim uma mensagem sórdida no atendedor de chamadas. como o primeiro voo de um 19 . distracções alienígenas.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE e deslizes pela mística evasiva. no entanto. A partir desta mensagem. Montenegro começa a vegetar. a vegetar como um poeta e como um príncipe. e depois a desatar a rir) foi indispensável para que Montenegro não pudesse distinguir uma sílaba. não o assustava. A sensação de que o tempo era a grande ratoeira do infinito e de que a sua vida tinha caído nela com a ingenuidade com que a carência se explica à caridade invisível. preso a uma rede de preocupações altamente periféricas. onde a raiva (ouve-se alguém do outro lado a partir um espelho. Neste processo. Por mais de duas ou três vezes Vila-Matas tentou ligar-lhe. pensamentos perigosos. Montenegro estava a aproximar-se da originalidade plena ao ritmo da sua paralisia efectiva e isso era o que verdadeiramente tinha importância para ele.

ainda mais quando o mundo é feito de coisas que só funcionam porque dependem da persistência de outras que só funcionam porque repetem sincrónica. percursos e conquistas. Adquire a imobilidade ascética de um preguiçoso divino. 20 . do sufoco e do sono. a utopia haveria de ceder às chantagens da fisiologia incandescente. Mais tarde ou mais cedo. É dono da sua própria bissectriz. Descalça-se da vida. as suas asas ridículas embaraçadas pelo peso do seu corpo suspenso. hesitações negociadas entre o medo e o improviso. forçaria o desvio a tomar novamente a estrada principal e o destino prévio que qualquer viagem implícita assume desde o seu início. do calor e do frio.SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES pássaro ainda cheio de asteriscos e quebras. que. e o triunfo dos segundos perdidos pesa sobre a nossa incapacidade para nos desprendermos dos efeitos secundários dessa imensa e falsa autonomia. aberta à linguagem cósmica da fome e da sede. Mas não há lugar para a originalidade quando a necessidade afinal nos espia por detrás do reino da dormência. mesmo que a meio decida vingar-se da vida nula dos itinerários e do bom senso. mecânica e geometricamente os mesmos movimentos.

carregados de técnicas de reanimação e uma ansiosa e ávida perícia. Chegam mais automóveis. até o relevo do mundo – que é sempre aparatosamente montanhoso e estridente – voltar a si. vão chegando à sala caixas com monitores. A equipa médica está toda em volta da sua chaise-longue. Veio também uma equipa de médicos e enfermeiros com eles. mais um grupo de cenografia televisiva. ambulâncias. os médicos sorriam mais para as câmaras do que 21 . carpinteiros. o cenário estava quase completo. A sua derradeira vontade estava a ser contrariada de uma forma muito convincente e os médicos ao fim de alguns minutos sorriram. viaturas da polícia. soro fisiológico. maquilhadoras. Dois dias depois. quando uma equipa de televisão invade o seu apartamento. enquanto umas enfermeiras transportavam resíduos e rotinas. argumentistas. Beatriz tinha-se perdido. depois outro e outro e outro ainda. medicação e anestesia.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE Montenegro estava a usufruir do seu último suspiro. Enquanto lhe prestam assistência. Estão vários automóveis à porta do seu prédio. No electrocardiógrafo houve um acidente no sono da planície. o povo no seu ofício pedestre. pensa Montenegro.

exposto como nunca às inúmeras águias que o cercam e que devoram e simultaneamente lhe regeneram o seu único vestígio. Mas. à mobília do vazio. agrilhoado às colunas de silêncio que erigiu. Continua sem se poder mexer. Montenegro lê facilmente o título da sua última obra projectada um pouco por toda a área que o faz refém daquele acontecimento: SINE DIE. e com a inércia um projecto de sobrevivência sem grande impacto nas estatísticas. Há a inércia. mas abaixo de qualquer probabilidade exequível da existência. mas num grau de dependência prometeica. apenas a inércia. Afastam-se os médicos e os enfermeiros 22 .SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES para o seu estado de náufrago constituído arguido pelos tribunais da salvação descabida das audiências. mantendo-o de facto vivo. Como o cenário é repleto de espelhos. pela primeira vez. Alguém dá ordem para que o programa inicie. Montenegro vê o mundo à sua volta a mexer. a perspectivas desfeitas. holofotes e miniaturas da sua condição crítica. Mesmo os médicos que o salvaram têm o logótipo do programa estampado nas suas consciências e artérias. depreende. Está vivo.

quase primitiva. o cabelo penteado como uma onda que cristalizasse no preciso momento que quebraria. uma apresentadora faz as suas últimas orações e entra em cena. Sejam muito bem-vindos ao SINE DIE. a apresentadora dirige-se para uma câmara. Uma saia muito curta. O meu nome é Beatriz. técnicos. depois para outra. tacões altos.ANDRÉ DOMINGUES | SINE DIE do set e ficam só operadores de câmara. O genérico termina.” 23 . olha finalmente para o teleponto e diz: “Boa noite. Por detrás de um camarim. o realizador e os argumentistas. A noite ilumina-se com a música patológica do genérico.

SINE DIE | ANDRÉ DOMINGUES ANDRÉ DOMINGUES SINE DIE ILUSTRAÇÃO PEDRO LINO | WHO 24 .

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