Copyright do texto © 2005 by Reginaldo Prandi Copyright das ilustrações © 2005 by Pedro Rafael

Sumário

Capa
Raul Loureiro sobre ilustração de Pedro Rafael

Ilustrações
Pedro Rafael

Fatos
Reginaldo Prandi

Preparação Vanessa Barbara 1ndice remissivo
Marcelo Yamashita Salles

Revisão
Otadlio Nunes Marise Simões Leal

Prólogo .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..
Dado, Internacionais de Catalogação na Publicação (cn-) (Câmara Brasileira do Livro. SP, Brasil) Prandl, Reginaldo Segredos guardados: Orixás na alma brasileira I Reginaldo Prandí : fotos do autor: [ilustrações Pedro Rafael], - São Paulo : Companhia das Letras.zoos. Bibliografia
ISBN 85-359-0627·4
I. Afro-brasileiros - Religião 2. Candomblé xás 4. Religião e sociologia 5. Umbanda (Culto) Título. ru. Tttulo : Orixás na alma brasileira.

7

PARTE I: NOS TERREIROS DE CANDOMBLÉ

1.

(Culto) 3. OriRafael, Pedro.

TI,

origem e autoridade Os mortos e os vivos . . . 3. Orixás, santos e demônios 4. Um panteão em mudança s. Os espíritos caboclos na religião dos orixás
2.

1. Tempo,

19 53 67
101 121

05-1567

CDO.306.69960981

1.

lndice para catálogo sisteruético: Religiões afro-brasileiras: Sociologia da religião 306.69960981

PARTE n: NOS TERREIROS E NO MUNDO \
';".-,;

[2005] Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32 04532-002 - São Paulo - sp Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501 www.companhíadasletras.com.br

6. Hipertrofia ritual e falência moral 7. Cultura religiosa, memória e identidade 8. Música sacra e música popular 9. Nas canções do rádio 10. Devotos, terreiros e igrejas Epílogo .. _

141

159 175 187
215

. 239

...i~s ~fro-g. cada contribuição é ••• '-.... pois.... 7. _ . l~nhuma das instituições . em graus variados. É exatamente como acontece... " -cepassadoseram bantos ou sudaneses _-_o . desconhecendose...escendenpor não cOllh~~.\i\''( E.. a música e artes diversas.a próp~i~-orige~ nem saberem~...~ rica._.-McJs'que isso-os pr6p. entretanto..•.•. Aos fatores que favorecem a hipertrofia ritual junta-se. Cultura religiosa. conservadas não a partir de uma matriz africana única. representações míticas e concepções religiosas... Ao contrário. diante de um determinado traço cultu.~~/_\)'\' . o --___ \') 1\ n " res tante de um longo e lento processo de diluição e apagamento étnico a tal ponto que. interesse._ .. .--. terá esse profissional que se fazer visível. ~~" com suas estruturas próprias... as concepções de nascimento.9:... a culinária.._..? da cultu~ bra~~~ira corresponde a um vasto elenco de itens que abrangem a língua.> ali e especificid.~. Esta é pouco ensinada e discutida..!ída. que se esmerar no rito. além de valores sociais. de que provém. para alcançar a publicidade. memória e identidade 1 P: cultura afri91n~ªill.1açã... sºQ. Para se situar bem no mercado de muitos competidores.do e reserva sobre questões de doutrina. sobretudo quando não se tem o treino necessário para se impor pela presença intelectual nem o carisma para se afirmar como líder espiritual. -_ -"''''-".d-. do neopentecostalismo e de tantos e tantos credos disponíveis no mercado reli" gioso contemporâneo.•. a concepção corrente que se tem da profissão de pai-de-santo como sendo um feiticeiro agora socialmente legitimado pelo consumo esotérico e midiático. mas de várias. Tudo é simplesmente África.t'· ....naJQrfl. tJ-''). Nada melhor. também com os novos sacerdotes do catolicismo carismático. . por exemplo..~-"'"'-----. que trabalha por dinheiro para resolver os problemas de quem dele precisar. Fora do c~!!!p'oreligioso.i~!t:Q~ 'i. quando não impossível.culturais africanas logrou.-."'""""-_. perdidas as . é difícil..us _ ~-------. \~. morte e reencarnação que foram fundamentais na religião dos orixás. e fartamente ignorada por pais e mães que não tiveram tempo.~ . identificar o povo ou nação \..• -'. oriundas de diferentes povos africanos."-' "J'\c~" .r~viyer .159 --r--~---~-. ral. __ ~_ os dois grandes gru_ . embora se possa reconhecer nele uma origem africana gené. ~. bem visível.-.ou oportunidade de aprender.".... como qualquer outro profissional do bem-estar espiritual ou psíquico do indivíduo.

Como os iorubás não crêem descender é necessariamente de seus orixás.. os irmãos devem culto ao orixá do pai.gené- Mesmo que se imagine uma África única." . esposã principal as demais esposas moram quartos separados. que é o mesmo para todos. . Cada e_s-: posa cultua também o o!jxá da família d~_~eupai. Cultua~ixás famíliª-extenarticulares coletivas formadas de quartos e aparta1970).1-'1[\---. os compounds. cada um com seus mitos. indefinida. identificar dados de culturas podemos sacerdotal buscar sua estrutura e concepção estruturas e elementos herbem definidas.tabus e•._-~.---. Assim. ~_. divisão de ~rabalho de outros povos . cidade e região (Fadipe. A família também voção a Exu. como um todo. a origem de cada indivíduo a mesma. com seus filhos. e ao orixá da mãe. A família cul~riatrilidivindade ancestral que ele herda lazer. no caso do canqqmblé. --o' afncanos. cerimônias. A memória rica. através da pesquisa. 10 á.. hierárquica. d~ks._. nearmente.101:. que pode ser diferente de acordo com a herança materna. O chefe mora ada uma para cada família. tivess ----- como se que se tem da África é-vaga. e que é o orixá principal de todos o filhos. H!~1!l deEs~eral e deus~~.. __ ~ de poder nos padrões familiares da antitomados 117 r g~-famílialio!u '. trabalho artesanal e armazenamento._. também nao poâem iaentffica~ ~ origens dos aspectos cultur. -.. Assim.pos étnico-linguísticos a cultura-brasileira de nossa formação africana -.--.. ao se apropriar apagadõ ãs fontes. . com empréstimos Os ioru~ás tra~icion~~_~ª-~J!~!~gínicos.-- - ---~ tem como culto comum a comunicação a d~ entre . habitando As áreas comuns são reservadas para cozinha. é possível. inespecífica. e habitam mentos coma residências contíguos. Um compound é assim u~a reunião de diferentes. orixá trickster que estabelece - -- ------. e os filhos d~1.!ºos a osentos m:incipais. que é o segundo orixá de seus filhos. xá do chefe masculino.cultos.Earticulares louvados nas casas das diversas esposas._com sa.is.

tiitament.. conhecer õ-desígnio-d~s de-~s-.~ ~~ -que celebra os ancestrais femininos.-p~~. 'ãõsorixás.ada através da in_..'~id~d~. é a religião familiar..-'.an:e. .m:Jlma_confraria~d_e sacerdotes chamados bab_~ •. criação brasileira.--. O culto ao orixá da adivinhação.. munitárias.gun~-. ___ ._.-..~ res_ ..--'. O candomblé.... A-adivi~h~ção~l~ b~b.--. ...ociabilidad~ d~ cidade. e que fornecem e inspiram os valores e normas da sociedade iorubana._. em geral orixás da família do rei.. terpretação de um enorme a~erY5?de..do dia-a-dia.~.-..O-~. as grandes mães.ge9}!. estruturou-se como essa ..uli. os das esposas.. é a que se dedica ao culto dos ancestrais fundadores 'd. a morte.-Ti~j~~-~se5yltua~ os. e outros que podem ser adotados individualmente por livre escolha.'~~~Eii..Elrtos (seus instrumentos ' '~ii~i~atórios selecionam os mitos a serem interpretados em cada consulta oracular). que explicam para o iorubá seu mundo.:. Não se separa religião e família na vida cotidiana.'ElJ!liláou Ifá..--~'-~ ponsável pela administração da justiça no plano das relações co.~Q{ritos.------. a ação dos deuses e tudo mais que existe..~~ômico~'d~-.. mitos que ele aprende durante a iniciação e .ªtri!Y~~-Ee 2ráti~ cas divinatórias.laô épraÚ. ler e interpretar Ç. os orixás do mer~á.. ._--..~:. às-----vezes -'-----. a vida. '--. ~" •. chamado Q!..ç·..~..-. a sociedade Gueledé. '~-'~""- . A ~sa organi:ação religiosa de culto aos fundadores e heróis humanos contrapõe-seuma outra.do. ~. ' . '~' ' '-. \. •. de todo modo.c.~ ." . A religião --'-.o'ri~ás ..•.._~ .-------. O chefe da família é o chefe do culto do orixá principal.9!!e protegem a cidade.et.'.os diferentes planos e personagens deste mundo e do mundo par~?_dos d~~s~i$.. en.~rever os sacrifídospropiclatório's ---~"-' . iniciamse entre membros da familia os sacerdotes que devem incorporar a divindade em transe ritual durante as grandes celebrações festivas. ~ -:' - mais de uma. O mesmo se dá com respeito aos orixás secundários..g~o§ d.ciedé!..-~ 161 .._. futl!Io_daspessoas. Uma---'outnL§Q.~~~ -- . os e..eenvolve toda a cidade. é pratiCado fora do âmbito da família 12..

costumes do cotidiano familiar africano foram igualmente incorporados à religião no Brasil como fundamento sagrado que não deve ser mudado: dormir em esteira. sobretucampo das artes. Asmu~~s mais velhas. e por isso mesmo chamada Ekeji Orixá. A recém-iniciada é chamada iaô.a? choro branéô. dançar descalço etc. manter-se de cabeça baixa na frente de autoridades. O general balogum transformou-se em cargo de alta hierarquia no culto a Ogum. .p~rlivre adesão ~não_p_o. cidade de Xangô.. em que os ritmos e estruturas melódicas de a~~ orig~~~iricana ~E~e~iYeraIl!-na ._nos para com os pais e mais velhos. la palavra não escrita. Claro que. noiva.nas. sua sobrevivência dependia da capacidade de serem absorvidas pela cultura branca.no-~i.ba nacio~al-das classes médias.----. Além das práticas iniciáticas. A_ hierarqJJia_agora é re ulada não ela idade.4a música popular brasileira.---tratamento que as esposas mais antigas do chefe.. como a raspagem da cabeça que marca o ingresso das _ meninas na puberdade e o uso de escarificações indicativas de origem tribal e familiar (os aberés do candomblé). a música do candomblé <k>§ n~grQs pobres fornecia a matriz._com a formação _da sociedade de classes. já que a inclus-o~aiamília (religiosa) faz-se .e e~a!!len. com o passar do tempo.tal e étnico foram perdendo o sentido.famíli~ iorubá.ohretudo entre ~~hegaram dfu\frica havia menos tempo e que ~stavam organizados _emco~f:. Embora em muitos aspectos.. essas designações reservadas às mulheres passaram também a ser usadas para os iniciados masculinos. Supõe-se que os mais jovens devam aprender com os mais velhos e assimilar o conhecimento religioso pe.. ~ rarquia copia a da família iorubá: os membros mais' ovens devem respéito e submissão aQs mais elhos.a~~xeIl!Plar.casas ou quartos-de-santo. . T~mplo~~ec~~dários. fad. É o. usam entre si. o grupo de culto é dirigido por um chefe. para o ~a. manifestações culturais caracteristicamente negras. que significa a segunda pessoa do orixá. a preservação daquilo que é africano requeria apagar ou disfarçar ---------------- - ----- ----- .ados. O conselho do rei de Oió. aos és dos uais se prostram em reverente saudação. mas- culino ou f~minin~~E!~_utoridade máxima. Em outras alavras. no final do século XIX e no início do século xx. são construídos para cada um dos orixás ou famílias de orixás louvados pelo grupo. foi certamente o modelo do cargo das equedes.Yª90 até QJilléll. A mulher encarregada de zelar pelo culto a Xangô no palácio do rei de Oió. mulheres que não entram em transe e que vestem os orixás e dançam com eles quando incorporados em suas sacerdotisas e sacerdotes. para o q~al é le~~tado o te~210 rincipal. ~mb~ra a identidade étnica de ~!E0s escravo~~ nej.. comer com a mão.do século XIX-..cimentQ.ari~scat~licas. "minha irmã mais velha".2 vez_ mais as orga~ d~sºr1. que é primordialmente branca.-- -- e aspect9~ ?as ~ulturas africanas foram igualmente _sen_d~ mais e mais absorvidos pela cultura nacional. européia e cristã.r.isto é iniciadas há m~s_t~ (e no Brasil o sétimo ano de iniciação ganhou o estatuto de ano que marca a senioridade) chamam-se entre si de ebômi. inspirou a criação do conselho dos obás ou mogbás em terreiros desse orixá. ou jovem esposa..f. possamos identificar. e por conseguinte mais importantes. 162 ---- -. j~ sob a República==.ros livres tenha se preser. prostrar-se para cumprimentar os mais velhos.• Do governo das cidades o candomblé copiou postos de mando na religião. como fazem os filhos ioruba. mas2elo te~o de inicia ão. que é como as esposas mais velhas chamam as mais novas. d.~dida em que p~saram -a ~nteressar aos compositores brancos e aos consumidores da culturã~iA~si~~l~~~'~' negro abr~ ç~i~ho pa. As mulheres encarregadas de administrar o provimento material da corte do rei inspiraram as ialodês dos candomblés. e o orixá do fundador do grupo é o orixá comum daquela comunidade... e como faz todo iorubá em respeito às autoridades.

a e maior ca acidade e ~os se. Em Alagoas criou-se um culnagô. em Pernambuco.integração na África. Rio Grande do tenha tampor iniciaticultos da coem e miscigenação que atingiu todas as áreas no âmbito"da no Rio de Janeiro._~- a origem e a marca negra. com três referências básicas: candomblé congo e cabinda. resultado anteriormente to e ijexá tuadamente domblé meanos. das origens étnicas passaram a constituir e consumidores va de negros bantos. não somente a religião africana. e no Rio Grande do extinta. Como disse antes. A religião negra. Ijexá e Egbá. além de um candomblé de egungum. mas apenas as dimensões música parecem ser sua marca de identidade.--+---- . Vivia com seus iguais africanos. sobretudo outros aspectos da da língua ritual e da pois os deuses são na- dessas religiões foram negros de os das cidades e regiões Floresceram os orixás dos nagôs e seus ritos seguem os dos candomblés de Oi6. Sul e.1~ l!fri~a!1a que aidentifica ãg Por volta da metade do século vos. oi6 e ijexá. Embora uma religião equivalente ba~d~é"~pl~-embl~mático ~ tir da década de 1960. hoje praticamente até os dias de hoje: o candomblé._" mina-jeje dependeu mais de tradições dos jejes daose criando uma denominação iorubá. numa época em que tradições e línguas trazidas da África estavam vivas em razão de sua chegada recente ao país (Oliveira. banta lembra muito mais uma das religiões sudanesas do que propriamente e processos iniciáticos. fol orgª-.'tiqye.e em grupos de "napela maioria enque- fl~~uh b--. o pluralismo culturais. gôs e jejes. ali também ros urbanos onde estava seu mercado de trabalho.escranas g. cultural a orien- "-i978) ":::":-e ue somente foi ~e~~rtido de maneira lin~ita~1a a parq a diferença.exatamente queamento . com maior liberdade de movimento de organização.us~ementos. mas também cultura na África. as nações iorubanas nagô. so ao domicílio podia agregar-se do senhor - uma vez que mesmo o escravo já não estava prenegro de ganho que era então coletivas concentradas em bairem residências nagô ou iorubá. especialmente mados jejes. igualmente que reproduziam Nas diferentes ~- - - ~ Na Bahia. dos canangola. Os criadores etnias nagôs ou iorubás.de. Foi quando constituição culturalmais de preservar-se se criou o que talvez s. negros libertos população negra conheceu com a presença. no Mara~hão. ta~bor-d~~~i~.. num movimen- mo em função das cerimônias Pernambuco no R~§!ande to que foi bastante expressivo no Brasil. ca az gru._. a modalidade África meridional.de. Na Bahia surgiram e mais recentemente entre si. e ~eus descendentes dos contatos em~"~ra haja gran.niil!da 2 ções': ou "nações de c~domb!é" XiX. quando e a valorização tação dos produtores ~~íigião (Ortiz. tanto em relação ao panteão de divindades candomblé. o candomblé denominado Também da Bahia é o can- jeje ou jeje-rnahim. num processo .@Qçles cidades. Lagos. secundariamente.:te troca de elementos os candomblés entre nações no Brasil e mesmo o efã -.!!ja a rebem acabada do negro no Brasil. pos que recriavam no Brasil cult~s religiosos . 1996)._.. que na Bahia se chamou e Alagoas. Em Pernambuco chamada sobreviveu de predominância ção da nação egbá. a religião negra que se refez na Bahia e . como em outros lugares. tre elas.: xangô. tivemos a formação domblés bantos. a recria- maiores possibilidades. enquanto no Maranhão ancestrais. M. bém surgido e se mantido adaptação Alagoas. aqui chaos mahis e os daomeanos. (Lima. todos de origem acende culto aos o tambor rnina-nagô. Maranhão. e os dos povos fons. Queto. grandes cidades do século XIX surgiram to de nação xambá. também Sul._<:!. 1984). Em cada uma deé responsável "la!-. ---- -- de brana um- na Bahia.

G~'\ .uar.~ia ~ultur~l.. então em formação. q~em sab~?..'-' mília-de-santo. O candomblé nião de negros ori inários e descen~entes ou n-. na ~ociedacÍ. África _ ori. o lento e inconcluso chegou ao fim.je' '.. mas agora isso independe d~~~4~~~~:~Ó p-... • __ ou juntó. . ini~ do negro na como r::uetnias c(.•.. instituição ligioso relações de hierarquia.a dar luz a novas questões..• - _.~~ 10 ~ ' ---' . como mostrou criou~se no Brasil. munidade africana perdida na diáspora. no começo do século xx. .. pelos padrões ibero-bra-. uma África simAtravés da religião. definitivamente e avós. localização do terreiro etc. f.. implicou muitas acomodações. negro brasileiro.'.. de parentesco. As !!. epois a es~ravidão . impostas p~lo . umã-vez_ qu. naçõ~.tG~~#'~ _~~i~tura / ~ • '.branca ~égr~'i. uma concepção de linhagens através de uma linhagem mítico-espirituais. numa espécie de reposição -. modificadas e a sintaxe das línguas sagradas. para que ela fizesse sentido no Brasil. o'orix~ de um orixá.--- como uma espécie de . "Jnos padrões familiares e de parentesco a comunidade existentes na África.... o conhecimento zade dos adeptos. d ci~u-s. passou a funcionar -- -- .. o candomblé o corte já não era mais ét- grada não pôde mais ser baseada na idéia de que cada ser humano descende de uma divindade E. tornou-se . mas de muitos outros aspectos culturais daw.- de determinada~ de fazer sentido..~sé~ulo.que cada i~divíc!!:to descende áa-~~I!iã"b@§~ã:ê 'va dõs-chefes'de~~t~. baseada na família de sangue. Tomemos o candomblé queto.de-~andomblé 'ni~~ e passaram a se constituir numa escolha pessoal. f~i substituída - Continuou-se -.~:··: s!m~ól!~c:~a fa~.. e cristã.. que na África era o da mãe biológica e que aqui é identificado também através do oráculo..ções africanas foi deixando s~dos nal..-----.~vas adeàsdiferentes orjgem.africana.---- da memória do ue ficou para trás._.--__ _ ~.as ~.eJx-ª!ldo de reafirmar as verdades origi- ve a idéia de um segundo o indivíduo.??~idera- corrompidas. na maioria já nascidos brasileiros. O candomble que se formou no Brasil foi mais que a recons- cliau'. a ~ais completa as i~~itáveis adaptações. .10&9. .~saherança. A fa- dà' soci~d~d~ ~ gIO idíli~~ ~~ b. muitos outros as ectos da sociedade africana tiveram que ser aqui reconstituídos. Não sendo a religião africana uma esfera autônoma em relação às demais que formam a sociedade tradiciopelo fa- processo de int~g~açã.------ ausentes.iólicaque-fcl. inclusiva. por a' . as agrÚras dàvida -cõti:- 1.prerrogatiMas se manteo adjunto de ser línguas de comunicação.?s.de~r-!. ~'v tituição da religião.- - . a destruição mesmo no caso do escravo.. pesando na '...-oG.--.. do candomblé evidentemente. nico. em outros lugares é uma reconstituição não . orixá regendo 166 cânticos sacros foram igualmente ---- memória ancestral em 8!and~ p~rte _(!squecidos~ .----foi 9. sociedade de classes. Quando num refúo tráfico de culto. Roger Bastide (1971)..s~le~!:.o ".~ia iorubá..p"a-.. sso evidentemente I pre as linhagens &dsão. éte ami- negros."' d~ ~. deixaram a cada geração.. nais anti.'- ------------_. dur~Pelo ~~~~-.asileira.ÇSSQ). c~ 1:. De todo modo. línguas rituais intraduzíveis. perdendo-se e as estruturas para sem- - ".._--- ginal. nham sido preservados biológica. ql!e noBrasil as mãe~ eos pais-de-santo. d6xaram de se~=~I!.as simpatias pelo chefe do grupo. criando-se refurê. Primeiro. no Brasjlas estruturas menos simb"alic~~~.p~Jlª_S da reli ião ª ...l·._-. qu~! ~. Assim como o negro esqueceu sua origem e a língua dos pais também esqueceu o significado das palavras Embora os cânticos e rezas tee nas línguas originais. as diversas línguas para ser do seu pai ancestral e a quem deve culto..~lado é..e.o c.---- ~~er .t@aU2ela miliares e societárias africanas estavam completamente substituídas. Os mitos de origem de que falam Sls através do oráculo do jogo de búzios. Agora um. que inclusive serve de moderefez-se no plano da religião a cono grupo resubordinação e lealdade baseadas uma espécie para os demais... a identidade Com sano Brasil da família africana. ilha à qual o negro podia recolher-se periodicamente..impera- .

agora no Brasil.. Ogum. que constantemenpovo.im o candomblé identidade trapassada como vimos. não histórico. Iemanjá. Oxaguiã. da religião dos orixás O mito. não é mais uma reunião de negros que cultiva uma origem comum. abrindo-se do negro..---estar a verdade do presente. Xangô. o sentido ger~l da vida. de esdo metade do século xx. cristalizou-se.~ nidade afro-descendente. das. O candomblé.re à religião dos orixás.~d~ ancestralidade. Logum que é brasileiro. étnica. por um processo que vislumbrava dar sentido à memória perdidos e segredos do negro na diáspora. orienta a cona vida. que identifica e legitima cada tronco familiar. independente de sua origem étnica.:J.. capturou então. européia.-' era tudo da cultura religiosa africana de mudanças.'eo. . da permanê~cia._-. imutável e verdadeiro não é mais o passado real da comunidade mais formado exclusivamente ligião afro-brasileira.comu_. num jogo que o povo-de-san- de sua origem familiar. no Brasil e os velhos líderes dos terreiros.. e filhos-de-santo O que restou da memória te faz referência mou-se em fundamento o tempo da tradição. Nanã.-. a uma etnia._e_ branco nas coreograhoje não da repara o das divindades. Não está mais referido a um passado genealógico. Apenas os mitos de inos costumes africanos somene adotados como elemenquando reinterpretados qüe ". Oxum. num outro movi- de geração a ge- . a possibilidade cíclico. O tempo do mito é. do terreiro. Acontecimentos do contra a corrente. Euá. Antes do contato tros povos africanos com a cultura acreditavam.tivo de se viver num mundo for!pação: contemporâneo em const<l:~te trans- ração. por meio dos mitos representados fias.-. no Brasil foi e um dos antepassados que formam o panteão das divindades tua das em solo brasileiro: Omulu. DI..§ociedade branca. à identidade guardados.'edade portanto. A. por afro-descendentes. com os orixás manifestados em transe. Oxumarê. os iorubás e ou. Iansã. endescende de um desses deuses. compartilhado 168 para todos os brasido leiros de todas as origens étnicas e raciais. Obá. de culto no candomblé não é mais necessariamente uma-. o passado remoto. ~andomblé negro. indeuniversais. do pas- como religião deixou de ser prerrogativa a religião afro-brasileira sado estão vivos nos mitos. Oxalá. te sobrevivem tos e práticas da religião. Ossaim. a cul- 3 A reconstituição orientada. racial ou geográfoi deixando to imagina apenas como pleno de mistérios fica. como elemento deve fazerséntido to~~'~fr_o-desc~1id.A. que o ~po Nada na vida é novidade. não linear. que já no início do século criara uma versão mais branqueada c~d9ffiblé a umbanda -.~nte. O tempo do mito é o tempo das origéOs:-õ passado mítico.. nas filhas da comuniQue duta e fornece valores para nortear coletiva viva.. remanbuscar inserção no movimento negro. te-pãrao~~grZ. trazem para o presente religioso.-----. Oxóssi. forn~SD-. 'c~nsa~güh. constitutivo também ~~ mai~ ªC1usivamenJl1ªS ~os troncos familiares. mas os fundadores teresse religioso serão lembrados. como na África. sina que cada ser humano pendentemente não sem a ocorrência acréscimos e per- os orixás Exu. coletivo. transforA comunidade a um determinado As danças do candomblé. mas liga espiritualmente cada membro da religião. que se refazem na vida de cada um de nós.. E é no tempo mítico do passado remoto gue se acredita --. Os orixás são agora divindades . se repete desde os tempos imemoriais. dos nos terreiros os próprios antepassados lembranão são mais os heróis africanos das cidades e dade de culto. a primeira côf:her-. de ser fonte de memória e Edé. embora um ou outro terreiro possa.

.•.~~.. miscigenação e branqueamento físico e cultural. sejam eles apresentados como autênticos ou falsos. próximo. a partir de 1960 ocorreu um redi--~.• _ ligião dos negros.!~!!!ente com a formação dos movimentos de minorias.. Quando os diferentes grupos organizaram sua religião na Bahia._..i..--batidas. . '~'-'- .••. 1976). desâmba >~~'._ . não consegue deixar de lado referências constantes aos deuses dos terreiros.. os orixás.~. Os inquices bantos desde longa data ha~iam sido substituídos pelos orixás e encantados caboclos... .. Enquanto os orixás passaram a ser reconhecidos como as autênticas divindades africanas... .~tidâde._----'----------_. sobretudo nas novelas. O ~nsaísta e poeta norte-americano Steven White. primeiro local e depois nacional.~~_~er~12ç~_~~g~a...de Salvador e cidades do Recôncavo e completamente escondidos do resto do país nos templos do Maranhão. incorporar e dissolver a África brasileira numa arte e num discurso de corte universal.e o sincretismo católico das religiões afro-brasileiras é a ... como se todos os deuses africanos fossem orixás (Prandi. foram candomblés nagôs._.candomblé.~~. ~. fazendo da criação artística documento da própria identidade. numa língua comum dos negros escravos e libertos das mais diferentes origens étnicas que conviviam na cidade (Rodrigues. A própria música popular agr~g~u-.~.. mais próximas da percl:lssão dos terreiros de.--~ .• ~.~"velhoe ... setores das populações negras e mestiças questionam e são questionados sobre sua origem africana e afro-descendente. acabaram ganhando relevo. .. surgem aqueles interessados exatamente no con170 . até que a migração os trouxesse para o Sudeste (Prandi.. obrigado a incorporar-se numa cultura nacio-~l nal.'. 1998). br~nq~"~ado-sãrrib~vas _. trário: delinear a origem negra como sua origem. A televisão. contemporâneo. com muitas contribuições rituais dos jejes. sem o que não era possível sobreviver . mento de inclusão.••.ssivament._"". esse negro esqueceu sua origem. Depoi~ de séculos deintegração.pois bem. . branca e cristã. aos pais e mãesde-santo.. que os disseminou por todo o país. Ãsesc-ólas do carnaval não se cansam de fazer desfilar os orixás na avenida. analisan171 domblé seria o grande reservatório da cultura brasileira mais próxima da África. 2001 b)._.. I 11I . os voduns ficaram limitados a uns poucos templos . mesmo quando se é africano e se cultuam orixás e outras divindades africanas ... A superioridade numérica dos negros iorubás na Salvador do século XIX transformou sua língua.9~iJ.9. de tal modo que os seus deuses. I1 I I1I I i I Se aspectos de origem africana já compunham a cultura brasileira nas mais diversas áreas. ao jogo de búzios. Já estávamos na sociedade de massa e o can' . _-... Enquanto intelectuais e artistas não identificados com uma causa negra procuram.Yo.. sobretudo com o surgimento da umbanda.~!_'LI!t~Hra e tratado ~~mo_~~~ticqLdifeL~DJçLPJjI!!i!. se eram dessa ou daquela tribo ou cidade. entre os quais o movimento negro nas suas mais diferentes manifestàçõés:ã~ivándo-se para os afro-descendentes a questão da origêm"e da ía.2._---~...l:l!1.uc. de modo geral. A cultura de uma minoria agora já é consumo de todos. Já não é capaz de saber de onde vieram os ancestrais.--. que língua falavam. o iorubá. encobrindo a presença dos voduns dos jejes e dos inquices dos bantos. -"'-----~ . .- 4 A valorização da cultura negra no Brasil ocorreu !.. pas~ou_"a se~!!!~()!l'-ora~ como habitual. aquela que durante um -~ '--"'~ séculoti!lhª §jgg a re_-. demonstração nítida dessa obrigatoriedade de ser brasileiro e por conseguinte católico. européia.mensi~~~men!~. •. Como se tudo que é negro remetesse aos povos nagôs. Mas o negro. que melhor conseguiram se impor como modelo de culto. __ . na notícia e na ficção...-". nem mesmo sabe se eram bantos ou sudaneses.

Candombléemovimen~er jttnJaçlq§. D.asilei.~~.g~~re- gião e submeter-se às suas orientações.. Edide uma identidade à necessidade de reindas origens afrido lado ~~n9:<?mblé não tem a menor disposição de se enfileir~~ com o leiros negros. inverso .::~~nto. a partir da cultura brasie perdida origem étnica.~~ães-d':.r. O de identidade.do a poesia produzida nos últimos quinze anos por poetas brasiOliveira Silveira. multicultural.. africana de origem.. bem como entre a antiga EU'" do nosso pon- ropa e as perdidas civilizações indígenas.imMli- possív~~_doL<lfLQ:.. outros. A reconstituição leira e não da verdadeira última instância. mesmo porque c:al~domblé.ld:2. muitos deles l?~~!l50Sou mestiços. mostra exatamente milson de Almeida Pereira.' do passado Õ ~..~ge comunidade de qualquer outra instituição e dirigem que possa interferir com mão-de-ferro. )\l'. da identidade que o poeta adota que orienta a como sendo a dele.Air.o processo de eladas instituições religiosas to negro têrI?_a pes}naJ)rigem. e a identidade a partir de uma origem idealizada. e que é a fonte brasileira por excelência da "memória" canas (White.se r~ligiªo universal.._~.ka. embora escolher o candomblé ficilmente alguma parcela do movimento como símbolo de identidade todo estará disposto negro possa africana. I""" "leiro.s. assim. já não pertence a raça J defi~idas. para todos os bra- se faz. Ricardo Aleixo e Lepe Correia. situa-se a nossa própria história.. diuma reli- o conjunto a assumir me~ó~iacr'i~'d~. . como Estevão Maya-Maya. .:asil d~_hoje se faz a África. a condição africana.Q!1!gm. não resta a ele fazê-Ia senão como brasi- tiegrô 'J)\. acaba remetendo ~ovim~~~ de afirmação do negro. deixa de ser religião e passa a funcionar apenas como fonte idealizada 172 . nos meandros c~ qu~é m:mória drou. mas já não podem boração desse passado rnítico e idílico vai beber nas próprias tranegras mais presentes no cenário cultural do país. familiar 'e. Entre o Brade uma nova civilização. Ainda que o passado ancestral perdido seja a África pluriétnica. passa- do que só pode ser reinventado.~ente para o passado. nesse prõcesso.os . na Do que eles formam ventar um passado através da religião que se professa hoje. 1999).... entre como a procura negra. num caminho dições preservadas define-se construção como fundamento reconstituída outro lado.. de cá do Atlântico. querem ser apenas líderes religio. e identidade da civilização que ela mesma engen- de .. A religião tradicional.~pa~. que nos impede ou auxilia no reencontro to de partida."t> i\j~· ri' Mesmo quando o se expressa para afirmar a negritude. é religião "para todos nós". ~. racial. e a velha África.tnias sileiros.-. em bl .br.~Io. logrou incorporar sil contemporâneo o passado na construção recuperável memória é aquele que o Brasil recriada.I:!1~lé9!!10-q.~-a-~e-r-fo~t~d~ . pas.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful