Letras Vernáculas

DOCÊNCIA E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO
MÓDULO 2 - VOLUME 1

MÓDULO 3 - VOLUME 4

Odilon Pinto de Mesquita Filho

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LINGUÍSTICA III:
TEORIA DA ANÁLISE DO DISCURSO

Universidade Estadual de Santa Cruz Reitor Prof. Flávia Azevedo de Mattos Moura Costa Diretor do Departamento de Letras e Artes Prof. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro Pró-reitora de Graduação Profª. Antonio Joaquim da Silva Bastos Vice-reitora Profª. Samuel Leandro Oliveira de Mattos Ministério da Educação .

[2011]. Lingüística. volume 4 / Odilon Pinto de Mesquita Filho. Inclui referências. : il. BA] : UAB/ UESC. I. Odilon Pinto de. – [Ilhéus. Lingüística III : teoria da análise do discurso Letras Vernáculas .Ficha Catalográfica M582 Mesquita Filho. 2. módulo 3. volume 4.41 . 230p. Análise do discurso.EAD. ISBN: 978-85-7455-221-7 1. CDD 401. Título: Letras Vernáculas: módulo 3.

Sylvia Maria Campos Teixeira Coordenação de Design Profª. Julianna Nascimento Torezani Diagramação Jamile A. Msc. Dr. Gessilene Silveira Kanthack Revisão Profª. UAB|UESC Coordenação UAB – UESC Profª. Msc. Marileide dos Santos de Olivera Profª. Drª. Dr. Msc. de Mattos Chagouri Ocké João Luiz Cardeal Craveiro Capa Sheylla Tomás Silva . Maridalva de Souza Penteado Coordenação do Curso de Licenciatura em Letras Vernáculas (EAD) Prof. Drª.Letras Vernáculas EAD . Rodrigo Aragão Elaboração de Conteúdo Prof. Odilon Pinto de Mesquita Filho Instrucional Design Profª.

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PARA REFLETIR As pausas para reflexão são pequenas provocações feitas ao longo do texto para que você interrompa por alguns minutos a leitura e pense sobre o que está sendo estudado. DESAFIOS . Momento de debates sobre questões específicas.PARA ORIENTAR SEUS ESTUDOS Ao longo do texto você encontrará alguns boxes com orientações de estudo. na construção do conhecimento. Não é necessário escrever nem debater com seus colegas. ATENÇÃO Nos boxes em que há o pedido de atenção são apresentadas questões ou conceitos importantes para a elaboração de sua aprendizagem e continuidade dos estudos. ATIVIDADE Esses são boxes que trazem curiosidades a respeito da temática abordada. VOCÊ SABIA? Um conselho. uma orientação feita pelo professor a respeito de algo que foi dito. filmes (curtas-metragens e/ou longas-metragens) etc. EXERCÍCIO LEITURA RECOMENDADA/ NECESSÁRIA São indicações de leituras que contribuem para a complementação e aprofundamento dos estudos realizados. auxiliando assim. Cada exercício possui uma orientação específica sobre como deve ser realizado. As atividades devem ser realizadas de acordo com as orientações específicas de cada uma. PARA CONHECER Os desafios auxiliarão na assimilação e aplicação dos conhecimetnos adquiridos. mas é importante que você pare para refletir sobre o que está sendo proposto antes de dar continuidade à leitura. fontes de pesquisa. SAIBA MAIS Aqui são apresentados trechos de textos que complementam e enriquecem o estudo que está sendo realizado. UM CONSELHO Indicação e referências de autores. livros. Cada um deles deve ser realizado de acordo com as orientações específicas. A seguir descrevo o que cada uma significa e como você deve proceder diante das orientações. websites.

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.............. 17 PROBLEMAS QUE DERAM ORIGEM À CIÊNCIA LINGUÍSTICA ......................... 77 ............................................................2 Os esquecimentos........................................................... 67 O SUJEITO ............................................................................................2...................................................................................................................................................................................................................................................... 42 RESUMINDO ..........................65 1 2 INTRODUÇÃO ............................. 72 2......................2 O problema do significado ou sentido .........................................Sumário UNIDADE I | O QUE É DISCURSO AULA 1: A QUESTÃO DO SENTIDO NA LINGUÍSTICA ESTRUTURAL DE SAUSSURE ................ 53 TEXTO E DISCURSO .................................................................................51 1 2 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................................................................................................................. 76 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 21 RESUMINDO ..................................................... 20 2..................................................... 74 2................................................... 60 UNIDADE II | CONCEITOS TEÓRICOS DA ANÁLISE DE DISCURSO AULA 1: O SUJEITO......................................... 54 RESUMINDO .......................................................... IDEOLOGIA E SENTIDO ................... 37 AULA 3: O CONCEITO DE DISCURSO ..... 71 2.................................................................................................................................................................. 18 2.................................................................... 41 O DISCURSO.......................................... 30 IDEOLOGIA ...........................................................................................27 1 2 3 INTRODUÇÃO .........................................15 1 2 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................ 29 ENUNCIAÇÃO E ENUNCIADO ................................... 18 2............................. 25 AULA 2: ENUNCIAÇÃO................................................................................. 33 RESUMINDO ......................................39 1 2 INTRODUÇÃO . 49 AULA 4: TEXTO E DISCURSO .1 Bom sujeito e mau sujeito ...................... 75 RESUMINDO ................................................................................ 68 2........................ 25 REFERÊNCIAS .........................................................3 O autor ......1 O problema do objeto da ciência linguística ...............................................................4 Polifonia ................................... 48 REFERÊNCIAS ................................................................... 60 REFERÊNCIAS ...................1 A arbitrariedade do signo..................................................................................................................................................................................... 36 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................................................................................

...................................................................................................................................................................... 146 RESUMINDO ................................................ 110 RESUMINDO ............ 113 REFERÊNCIAS ....................................................................AULA 2: CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO E FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS.......... 130 AULA 2: EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO ............................................................................................133 1 2 INTRODUÇÃO ....................................3 O tipo de discurso .......................................................................... 142 2..................................................................................................................................... 94 RESUMINDO ..........................119 1 INTRODUÇÃO ............................................................5 Considerações finais......... 129 REFERÊNCIAS................. 88 AULA 3: PRÉ-CONSTRUÍDO E DISCURSO TRANSVERSO .................................................................................................. 135 O DISCURSO DOS BRASILEIROS SOBRE O BRASIL ... 122 ........................................................... 125 2........................................................... 93 O PRÉ-CONSTRUÍDO ........................................ 81 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO E FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS .................. 139 2.................................................3 A Formação Discursiva Negativa ........................................................... 128 RESUMINDO ........................................................................................................................................... 147 REFERÊNCIAS ................................................1 Formação Ideológica ......................................................... 127 2.................................................... 100 AULA 4: HETEROGENEIDADE DISCURSIVA E POLIFONIA .4 O Espaço Discursivo .......................... 138 2.......................... 127 2................................................................. 87 REFERÊNCIAS ..............................................................2 O silêncio ...................................................................................2 Formações Discursivas ............. 140 2.......................................................... 99 REFERÊNCIAS ........................................................................ 148 2A METODOLOGIA EM ANÁLISE DE DISCURSO ...................................1 O Recorte .......................................................................................................91 1 2 INTRODUÇÃO .......... 136 2............................................................................ 106 POLIFONIA ......................... 114 UNIDADE III | METODOLOGIA E PRÁTICA EM ANÁLISE DE DISCURSO AULA 1: METODOLOGIA EM ANÁLISE DE DISCURSO .........................................................................................79 1 2 INTRODUÇÃO .........................................................................................................103 1 2 3 INTRODUÇÃO ........................................................................... 121 2.. 105 HETEROGENEIDADE DISCURSIVA ........................................4 Discurso e texto ................................................................................................................... 126 2.................................. 82 RESUMINDO ................................................................................................................................................................................................................5 Propriedade e marca ......................................................................

.................................................................................................................................. 163 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 196 2................................................... 190 AULA 2: ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS ........................................................................................................... 153 O DISCURSO SOBRE OS CIGANOS NA OBRA DE BARTOLOMEU CAMPOS QUEIRÓS .............................................................................................................................................................................181 1 2 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 221 PRODUÇÃO TEXTUAL ................................................................................................................................... 169 2.................................................... 183 ANÁLISE DE DISCURSO E O ENSINO ESCOLAR DE LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO ................................................................. 165 1 2 INTRODUÇÃO ................................................... 154 RESUMINDO ............... 167 O DISCURSO DE GÊNERO NO EVANGELHO DE MARIA MADALENA ..............................................2 Considerações finais...............205 1 2 INTRODUÇÃO ........................ 217 AULA 4: ANÁLISE DE DISCURSO E PRODUÇÃO TEXTUAL ............................................. 230 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................................................................................................................... 208 RESUMINDO .......................................... 217 REFERÊNCIAS ............................... 176 UNIDADE IV | APLICAÇÃO DA ANÁLISE DE DISCURSO NO ENSINO ESCOLAR DE PORTUGUÊS........... 195 LEITURA ............................. 202 AULA 3: ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS ...............151 1 2 INTRODUÇÃO ........................................................1 Análise dos dados ................................................................................................... 190 REFERÊNCIAS ........................ 184 2................................ 230 .. 184 2............................2 A incompletude ........................................................................................... 222 RESUMINDO .............1 Legibilidade ................AULA 3: EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO ..................................................................................................................................................................................................................................... 176 REFERÊNCIAS ................................. 188 RESUMINDO .................................. 202 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 163 AULA 4: EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO ........................................... 207 O ENSINO DE LEITURA .........................................................................................219 1 2 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 174 RESUMINDO ...............................................................................................193 1 2 INTRODUÇÃO ........................ 196 RESUMINDO .................... FUNDAMENTAL E MÉDIO AULA 1: ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS ............................................................................................................................................................................................................................................................... 168 2............................................................................1 O leitor é co-autor ......................................

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As principais vertentes teóricas da linguística do discurso. em 2003. mestrado e doutorado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). respectivamente. texto. Análise de discurso e ensino. enunciação. 2005 e 2006. 2004. ideologia. linguagem. Coisas da Vida. Heterogeneidade discursiva e inter-intradiscurso. Odilon Pinto de Mesquita Filho APRESENTAÇÃO Professor do Curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Português no Vestibular e Turismo em Porto Seguro: aspectos (Org.). destacam-se os livros Usos do Português. Possui graduação. sujeito. Dentre os vários trabalhos divulgados. . publicados pela Editora Via Litterarum. As condições de produção do discurso e as formações imaginárias. polifonia.DISCIPLINA LINGUÍSTICA III TEORIA DA ANÁLISE DE DISCURSO Prof. EMENTA Estudo dos conceitos básicos em Análise de Discurso: discurso.

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1234 unidade O QUE É DISCURSO Aula 1 A questão do sentido na linguística estrutural de Saussure Aula 2 Enunciação. ideologia e sentido Aula 3 O conceito de discurso Aula 4 Texto e discurso .

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aula 1 A QUESTÃO DO SENTIDO NA LINGUÍSTICA ESTRUTURAL DE SAUSSURE Objetivos Ao final desta aula. você deverá: • analisar criticamente a proposta teórica da linguística estruturalista de Saussure. . • compreender os signos como um sistema de valores consensuais estabelecidos pela coletividade. • identificar o tipo de relação existente entre significante e significado na concepção de Saussure. linguagem e fala. • estabelecer a diferença entre língua.

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4. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas. ed. Por exemplo. a Física surgiu quando o homem quis entender o problema das causas do movimento dos corpos na Terra e no Universo. UESC Letras Vernáculas 21 1 ... Discurso e leitura. 1999. Da mesma forma. Unidade I Aula AULA 1 A QUESTÃO DO SENTIDO NA LINGUÍSTICA ESTRUTURAL DE SAUSSURE 1 INTRODUÇÃO Toda ciência surge para resolver problemas enfrentados pelo homem. para resolvê-los. São Paulo: Cortez. LEITURAS PRÉVIAS ORLANDI.. vamos analisar alguns problemas que deram origem à ciência Linguística e que teorias foram propostas pelo seu fundador. Nesta aula. Eni Puccinelli. a Química surgiu quando o homem quis entender o problema de como algumas substâncias se transformam em outras. Saussure.

como um som. no ano de 1500. o som do fonema /a/ não pode ser isolado dos órgãos vocais humanos. ao mesmo tempo.Teoria da análise de discurso A questão do sentido na linguística estrutural de saussure 2 PROBLEMAS QUE DERAM ORIGEM À CIÊNCIA LINGUÍSTICA 2. Enquanto fenômeno social.org/ wiki/File:Ferdinand_de_Saussure. Por exemplo. estaremos desprezando outros aspectos importantes da linguagem. No caso do fenômeno linguístico. mas não eram ainda considerados uma ciência porque não possuíam um objeto delimitado. também. enquanto fato social.Linguística III . podemos considerá-lo: . . . portanto. enquanto fenômeno individual.finalmente. está no campo da Psicologia e da Antropologia.além disso. Portanto. Antes de Saussure.1 O problema do objeto da ciência linguística Para que um conhecimento seja considerado científico. que língua devemos estudar: a mais antiga ou a atual? O fenômeno linguístico pode ser estudado enquanto som. um fenômeno individual e social. Se delimitarmos qualquer um desses aspectos como objeto da Linguística. Como Saussure enfrentou esse problema de delimitar o objeto da ciência Linguística? Ele responde: Há. mas se trata de um som produzido pelo aparelho fonador humano e. o fonema /a/. os estudos linguísticos já tinham uma tradição de séculos. formam palavras que estão associadas a ideias do pensamento. a linguagem está sempre em mudança. enquanto fato individual e enquanto mudanças históricas. é produto do aparelho fonador e é.wikimedia. Saussure (1995) mostrou que ele apresenta variados aspectos. O português que falamos hoje não é o mesmo falado por Camões nem por Pedro Álvares Cabral. segundo nos parece. distinto dos objetos de todos os outros conhecimentos científicos. uma solução para todas essas dificuldades: é necessário colocar-se primeiramente no terreno da língua e tomá-la como norma de todas as outras manifestações da linguagem. é preciso que ele tenha um objeto delimitado. De fato. quando pronunFigura 1: Ferdinand de Saussure Fonte: http://commons. enquanto produto do aparelho fonador. E aí. entre 22 Módulo 3 I Volume 1 EAD . está no campo da sociologia e. e os outros sons de uma língua.a linguagem é. enquanto ideia mental. o fenômeno linguístico é som.jpg ciamos o fonema /a/. ideia mental. .

A língua é social. Por exemplo. a língua é um sistema de signos que permite a um sujeito compreender e fazer-se compreender. que tratam do uso de linguagens por deficientes físicos. em nenhum campo científico (ARRIVÉ. apesar de não terem a fala. você pode analisar e discutir com colegas se eles têm uma língua.E o que é a língua. a Linguagem não se deixa classificar. Ela não depende da fala e é social. LINGUAGEM: pode ser estudada enquanto fenômeno sonoro. dando-lhe autonomia. 1 . como O curso começou ontem. você pode tentar ver filmes como O Milagre de Anne Sullivan. mesmo assim. temos o seguinte princípio sintático: o artigo precede o substantivo. enquanto a fala é o acessório. Filhos do Silêncio e outros filmes. Brandão (1995. sem a fala. O fenômeno total da linguagem apresenta dois fatores: a língua e a fala. podemos estudá-lo. a linguagem está no campo psíquico. Nenhum outro campo científico pode incluir a língua em seu objeto. p. por ser produzida pelo aparelho fonador. vamos distinguir dois conceitos que. Dessa forma Saussure conseguiu delimitar um objeto específico para a ciência linguística. 1995. língua e fala não se excluem. que. Se a linguagem só existe como atividade. muitas vezes. p. “exterior ao indivíduo. 22). Por exemplo. um sistema social e abstrato de signos. enquanto as inúmeras frases. 1999). é estudada pela Física. porém. PARA REFLETIR Segundo Saussure. virtual ou potencial. a língua não depende da fala. A linguagem apresenta dois fatores: língua e fala. 91) explica a diferença entre língua e fala: Segundo a dicotomia estabelecida por Saussure entre língua e fala – a língua é o sistema abstrato. a língua é essencial. Linguagem. para Saussure? Primeiro. pois se a fala é a realização concreta da língua. 16-17). psíquico e sociológico. Se você observar a linguagem de LIBRAS. A língua é a linguagem. hoje o Latim não é mais falado. não fiz o trabalho etc.. tem várias formas e está situada em vários campos científicos ao mesmo tempo: por ser som. por estar associada às ideias do pensamento. enquanto que a fala é o ato lingüístico material e concreto. Enfim. na estrutura da língua portuguesa. somente a língua parece suscetível duma definição autônoma e fornece um ponto de apoio satisfatório para o espírito (SAUSSURE. 1995. p. isto é. enquanto língua. são realizações concretas desse princípio na fala. por si só. Assim. é estudada pela Fisiologia. Saussure estabeleceu a língua como objeto da ciência linguística. tomada no seu todo. Este princípio pertence à língua portuguesa. A propósito. por ser social. fisiológico. UESC Letras Vernáculas 23 Unidade I Aula tantas dualidades. de modo exclusivo. mais ou menos acidental. Dei o livro ao professor. aquela não existe sem ela. são tomados como iguais: linguagem e língua. é o uso que cada indivíduo faz da língua. enquanto a fala é individual. não pode nem criá-la nem modificá-la” (SAUSSURE. é estudada pela Sociologia. além de outros. usada pelos surdos-mudos. A Língua é a parte mais importante da Linguagem. Apresenta dois fatores: língua e fala.

Teoria da análise de discurso A questão do sentido na linguística estrutural de saussure 2. O signo linguístico pode ser representado pela figura abaixo: ATENÇÃO Observe a expressão “entidade psíquica”. às formas de polidez. objeto da ciência linguística. aos sinais militares etc. Tanto assim que podemos falar conosco mesmos. é um sistema de signos que exprime ideias. porque o significante não é o som concreto das palavras. FALA: ato concreto de linguagem. p. Da mesma forma. abstrato e essencial na linguagem. mas é um conceito abstrato. ela é “comparável à escrita. ou recitar mentalmente um poema. isto é. 1995. o significado da palavra cavalo seria o animal chamado por esse nome. E Saussure conclui: “O signo lingüístico é. O significante não é o som que ouvimos. na LÍNGUA: sistema de signos de caráter social.” (SAUSSURE. ao alfabeto dos surdos-mudos. material e acessório. sem movermos os lábios. A Linguística foi considerada parte de uma outra ciência. A noção mais simples do significado das palavras é a de que a língua é uma lista de nomes para as coisas do mundo. estamos usando significantes? Sim. de caráter individual. O vínculo que une um nome a uma coisa seria uma operação muito simples (SAUSSURE.2 O problema do significado ou sentido Além do objeto. pois. 24). 80). O significante não é o som concreto da palavra. Conceito Imagem acústica Figura 2: O signo linguístico Fonte: SAUSSURE (1995. o significado de uma palavra não é a coisa concreta chamada por esse nome. aos ritos simbólicos. mas as impressões deles em nossa mente. 80). Mas o signo linguístico não une uma palavra a uma coisa. p. mas a impressão psíquica desse som em nossa mente. Por isso. outro problema enfrentado no estabelecimento da ciência linguística foi o do significado das palavras. a impressão psíquica do som da palavra (significante) a um conceito (significado). Ele une uma imagem acústica. Nesse caso. A língua.Linguística III . uma entidade psíquica de duas faces: significante e significado” (SAUSSURE. que estuda “a vida dos signos no seio da vida social” (ibidem). visão de Saussure. O essencial da língua é a união do sentido e da imagem acústica (BENVENISTE. p. 1995. estamos. 24 Módulo 3 I Volume 1 EAD . 1995). a Semiologia. mas é a impressão psíquica dele em nossa mente. Isto quer dizer que tanto o significante quanto o significado são entidades que existem apenas em nossa mente. Assim. 1989).

). O significado das palavras é. p. não pode ser vista isoladamente. A língua é também comparável a uma folha de papel: o pensamento é o anverso e o som o verso. nem sequer da palavra ‘sol’ se pode fixar imediatamente o valor sem levar em conta o que lhe existe em redor (SAUSSURE. imagem acústica (significante) com um conceito (significado).. a palavra homem tem como significado o conceito: homem é um animal racional. uma convenção social. Não podemos acreditar. o outro. p. Assim. os sons da língua delimitam unidades de pensamento e estas. Elas têm valores que emanam do sistema total de signos. O significado de cada palavra de uma língua é a diferença própria que ela tem de todas as outras palavras dessa língua. 1995. portanto. As palavras não servem para expressar ideias já prontas de antemão. 135). que é o conceito. (SAUSSURE.No signo linguístico. e tem um valor que é puramente diferencial. Por exemplo. se poderia isolar o som do pensamento. Os signos formam um sistema de valores consensuais.. Todas as palavras de uma língua formam um sistema de signos. na língua. Assim. o valor de qualquer termo que seja está determinado por aquilo que o rodeia. no entanto. ou o pensamento do som (SAUSSURE. O papel característico da língua é servir de intermediário entre o pensamento e o som. Saussure (1995.1 A arbitrariedade do signo . definido por suas relações com outros termos do sistema. um hábito coletivo. Mas cada união de um som. em condições tais que uma união conduza necessariamente a delimitações recíprocas de unidades”. o laço que une o significante ao significado é arbitrário. o significante cadeira poderia ter como significado o conceito do objeto panela. Assim. 1995. 132). não se pode cortar um sem cortar. delimitam os sons da língua. e tem um valor: o UESC Letras Vernáculas 25 Unidade I Aula 1 2. por sua vez. Essa diferença é chamada valor. que as ideias estão claras em nossa mente e que os sons da língua são apenas instrumentos para transmitir essas ideias. O significante é a imagem acústica dos sons da língua em nossa mente. estabelecidos pela coletividade. O significado está ligado ao nosso pensamento. assim tampouco.2. 80). 131) afirma que “O pensamento é caótico por natureza (. p. p. Cada palavra tem um significado. 1995. ao mesmo tempo.

não do significado diretamente. Essa posição ou valor é inteiramente determinada pelas relações desse signo com os demais. Saussure não vai se preocupar em saber qual é o seu significado (a ‘idéia’ que lhe corresponde) mas vai investigar as relações que esse signo mantém com outros signos. Mas esse conceito é apenas o valor dessa palavra. 36). BORGES. o significado de uma palavra. não é vermelha. não é azul. Ou seja. isto é. a diferença que essa palavra tem com todas as outras palavras semelhantes da língua. Mas isso não exprime a essência do fato linguístico de que o significado de uma palavra é o seu valor.. indivíduo etc. não é pessoa. 1991. ao tratar semanticamente um signo como ‘cadeira’. Dessa forma. vemos que o conceito. (SAUSSURE. original. Assim. A palavra homem significa o conceito animal racional. não é ser humano. simplesmente. isto é. como ‘sofá’. Assim. E o que é animal racional? É o animal que não é irracional. mas do valor: [. Assim. Saussure. é preciso que eu conheça todas as outras palavras semelhantes da língua. para eu identificar o valor de uma palavra. só podemos determinar o valor de qualquer signo tendo em vista a totalidade do sistema da língua. a diferença que ela tem com palavras semelhantes. Nesse caso. pessoa. ‘mesa’. O conjunto dessas relações vai determinar o valor de ‘cadeira’ (DASCAL.] ou seja.. Qual o valor da palavra branca? Branca é a cor que não é preta. Com essa caracterização 26 Módulo 3 I Volume 1 EAD . p. que é autônoma em relação aos falantes e ao meio social. não é sem pensamento etc.Linguística III . ‘poltrona’. não é sem inteligência. o valor de homem é constituído pelo que não é gente. não é verde etc. não é indivíduo etc. 1995). o significado da palavra homem é o conceito: animal racional. A saída que ele achou para esse problema foi fazer a semântica. na diferença que ele mantém com todos os outros significados da língua. mas é um valor determinado pelas relações dessa palavra com outras palavras com valores semelhantes. a ‘posição’ de um signo no interior de um conjunto de signos. ser humano. etc. isto é. como: gente. A gente pode dizer. o valor da palavra homem é sua diferença de outras palavras. teve de explicar como as palavras significam ideias. O significado de uma palavra tem fundamento no seu valor. Como se pode ver. para estabelecer a ciência linguística.Teoria da análise de discurso A questão do sentido na linguística estrutural de saussure valor do significado da palavra homem é definido por todas as outras palavras semelhantes no sistema da língua. não é autônomo. que o significado da palavra homem é o conceito animal racional.

baseado no valor. não existindo um sem o outro. nas diferenças que apresenta em relação a todos os outros significados da língua. os preconceitos seriam usos individuais da língua. exclui o sujeito falante e o seu interlocutor. contrariando Saussure. na língua. estética. 1997. a palavra “sociedade” significa elite econômica. 37). p. Além da ideologia. em vez de sustentarmos que as palavras “representam” conceitos. com os vizinhos. na fala (Eagleton.) Como conciliar a UESC Letras Vernáculas 27 Unidade I Aula 1 abstrata da língua. em determinada sociedade. portanto. signo e ideologia andam sempre juntos. apresenta conceitos diferentes. 99). uma mesma palavra. Mas “se partirmos do fato de que as línguas só existem na medida em que se acham associadas a grupos humanos. Para ele. é um determinante do significado das palavras. acidentais. moral. a palavra negro significa “raça inferior”. com toda nossa experiência social. nem por isso.. E aí? Como fica a teoria de Saussure? Um significante pode ter mais de um significado? Conforme já visto. Por exemplo. como propõe Saussure. podem “preencher qualquer espécie de função ideológica. com a escola e. Saussure exclui a fala do objeto da ciência linguística e. Dessa forma. Mas. Mas aprendemos a língua no contato com a família. no colunismo social da mídia. religiosa” (VOLOSHINOV. a mesma palavra significa grupo social. diferente do significado não-racista de “ser humano igual a todos os outros”. Para Saussure. o significado de uma palavra é um conceito mental e este tem sua base no valor. longe de terem um significado fixo. No entanto. há tantas significações possíveis quantos contextos possíveis. assim. científica. fora do objeto da ciência linguística. De fato. (. o contexto é também determinante do significado das palavras. Segundo Voloshinov (1997). as interações sociais. por fim. podemos chegar à concepção de que. Saussure desvinculou-a daquilo que é propria- . O preconceito ideológico. o social e o histórico coincidem” (ORLANDI. exclui toda a prática histórico-social. 1997). 1996. como aprendemos a língua nas interações com a comunidade. No entanto. p. Para isso. Além disso.mente social e histórico. acessórios. Mas. isto é. As palavras. Eagleton (1997) considera que o conceito é mais uma prática social do que uma entidade mental. podemos considerar que “ter um conceito” é a capacidade do indivíduo de usar palavras de maneiras particulares. vemos que. a palavra deixa de ser una. temos de incluir a fala como objeto da ciência linguística. Saussure não estuda a fala.. na sociologia. Basta observarmos os preconceitos: para uma pessoa com ideologia racista.

é preciso conhecer todas as outras palavras da língua para delimitarmos o seu valor. isto é. Como. aprendemos e usamos a língua nas interações sociais. é um sistema de signos sociais? 6. quais as diferenças entre língua e fala? 2. a semântica do valor. a diferença deste com todos os outros significados? Desse modo. isto é. de modo grosseiro e elementar. Se a linguagem tem dois fatores. Conforme Saussure. 106). em vez de um significado fixo. pode ter significados diferentes. como objeto da linguística. a teoria do valor não é observável na fala concreta. o problema fundamental da semântica (VOLOSHINOV. observamos que uma mesma palavra. Na fala. portanto. Por que o significante tem uma relação arbitrária com seu significado? 28 Módulo 3 I Volume 1 EAD . Ou seja. Além disso. em contextos diferentes. segundo Saussure. p. Explique a teoria do valor. abstrata e social. Vimos. língua e fala.Linguística III . Uma mesma palavra. torna-se inviável. Mas nenhum indivíduo conhece todas as palavras de sua língua. sem levar em conta a fala que usamos no cotidiano. 1997. para estabelecer o significado de uma palavra. Por que a língua. pode apresentar mais de um conceito. na teoria de Saussure. vamos analisar aspectos da relação entre ideologia e significados de palavras. 4. Na fala cotidiana. Isso contraria a teoria proposta por Saussure de uma relação fixa e abstrata entre significante e significado. por que Saussure estabeleceu apenas a língua como objeto da ciência linguística? 3. cada palavra tem apenas um significado? Por quê? 5. ATIVIDADES 1. Devido aos preconceitos ideológicos. ele pode estabelecer o valor de cada significado. portanto. o contexto em que se usa uma palavra é determinante do seu significado. Segundo ele. a diferença que este significado mantém com os significados de todas as outras palavras. como negro. que Saussure definiu a língua.Teoria da análise de discurso A questão do sentido na linguística estrutural de saussure polissemia da palavra com sua unicidade? É assim que podemos formular. proposta por Saussure. Na próxima aula.

São Paulo: UNESP. Curso de Lingüística Geral. In: Histoire Epistemologie Langage. SAUSSURE. fascicule I 1991. Émile. O signo linguístico é formado pela união de um significante e um significado. para Saussure:       A linguagem é constituída por dois fatores: língua e fala. O significado de uma palavra está baseado unicamente no seu valor. Campinas: Pontes. 1996. N. 1997. Tradução de Luís Carlos Borges. sociais e essenciais. ORLANDI. A língua é o objeto da ciência linguística. Campinas: UNICAMP. BORGES NETO. ARRIVÉ. VOLOSHINOV. 4. Marcelo. Terry. DASCAL. 13-50. p. EAGLETON. A linguagem e seu funcionamento. 1991. Michel. Paris: Presses Universitaires de Vincennes. 1999. Campinas: Pontes. Yara Frateschi Vieira.  A teoria do valor não leva em conta a influência da ideologia nem do contexto no significado de palavras. ed. Ideologia: uma introdução. Tradução de Lucy Magalhães. Linguagem e psicanálise. 1989. Rio de Janeiro: Zahar. BRANDÃO. V. José Paulo Paes. 1995. Introdução à análise do discurso. BENVENISTE. Izidoro Blinkstein. afinal?. N. na diferença que mantém com todos os outros significados da língua. tome 13. A língua é um sistema de signos abstratos. Silvana Vieira. Eni Puccinelli. sem incluir a fala. 1995. 8. ed.Nesta aula você viu que. 4. ed. lingüística e inconsciente. Problemas de lingüística geral II. Helena H. De que trata a lingüística. Tradução de Eduardo Guimarães et al. São Paulo: Cultrix. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Antônio Chelini. A fala é concreta. São Paulo: Hucitec. isto é. 1997. individual e acessória.Tradução de Michel Lahud. As formas do discurso. José. Ferdinand de. UESC Letras Vernáculas 29 Unidade I Aula 1 REFERÊNCIAS RESUMINDO .

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.aula 2 ENUNCIAÇÃO. IDEOLOGIA E SENTIDO Objetivos Ao final desta aula. • analisar a relação entre ideologia e sentido em enunciados. o aluno deverá: • estabelecer a relação existente entre enunciação e enunciado. • analisar o conceito de ideologia apresentado nas diferentes concepções.

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3. Louis.. In ____. Rio de Janeiro: DP&A. 7.. isto é. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. 1985. incluindo língua e fala. Problemas de lingüística geral II. Émile. Isto o levou a uma teoria sobre o significado das palavras baseada no valor. 1 INTRODUÇÃO Já vimos que Saussure tomou a língua. ed. Tradução de Eduardo Guimarães et al. O Aparelho Formal da Enunciação. BENVENISTE. Aparelhos ideológicos de estado. No entanto. 8190 HALL. Campinas: Pontes. 1999. IDEOLOGIA E SENTIDO LEITURAS PRÉVIAS ALTHUSSER. 1989. podemos chegar a outras teorias sobre o significado das palavras. como objeto científico de estudo. A identidade cultural na pós-modernidade. se tomarmos a linguagem. Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. ed. Unidade I Aula AULA 2 ENUNCIAÇÃO. nas diferenças que um significado mantém com todos os outros significados da língua. ou o sentido das palavras. como objeto científico de estudo. abstrata e social. Guacira Lopes Louro. UESC Letras Vernáculas 33 2 . p.. Rio de Janeiro: Graal. Stuart.

(1989. mas passa a ser vista como uma forma de atividade entre o sujeito da enunciação e seu destinatário. que não ocupa uma posição superior à nossa. então. Entretanto. Mas a enunciação não é simplesmente a fala. em que se dá esse ato. A enunciação se dá num aqui e agora. Por exemplo. Mas elas só funcionam quando são usadas nos atos de enunciação. Enunciação é a emissão de um conjunto de signos que é produto da interação de indivíduos socialmente organizados. deixa de ser vista apenas como instrumento externo de comunicação e de transmissão de informação. 89) define: ENUNCIAÇÃO: é a emissão de um conjunto de signos que é produto da interação de indivíduos socialmente organizados. tal como definida por Saussure. quando alguém.Teoria da análise de discurso Enunciação. como sujeito que fala. Este enunciado só é possível numa situação em que. nos dá uma ordem. e vai exigir um sujeito da enunciação. o sujeito da enunciação se coloca numa posição superior e institui o interlocutor como alguém numa posição inferior. um superior se dirige a um subalterno. Segundo Benveniste. se oferecem aos falantes como virtualidades. ideologia e sentido 2 ENUNCIAÇÃO E ENUNCIADO Saussure excluiu a fala do objeto científico da linguística. Ela se marca pela singularidade. p.Linguística III . hierarquicamente.Vá para casa agora mesmo! Ao produzir este enunciado. As formas da língua. jamais se repetindo. Para Cardoso (1999. E assim ela vai exigir uma situação. 16) a enunciação restitui “aos estudos da linguagem a instância que coloca o propriamente lingüístico em conexão com os enunciadores e mundo”. Ao produzir um enunciado. como possibilidades. o sujeito da enunciação institui a si mesmo. No cotidiano. 82). A enunciação é um espaço em que se organizam os lugares dos protagonistas do ato de linguagem. Brandão (1995. a enunciação é “este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização”. p. a enunciação está situada no campo da fala. o interlocutor. imagine o seguinte enunciado: . A linguagem. nossa resposta é: “quem você pensa que eu sou?” “Quem você pensa 34 Módulo 2 I Volume 8 EAD . p. e institui o outro. ela é o ato de produzir um enunciado.

aquele que fala. O termo eu denota o indivíduo que profere a enunciação e o termo tu denota o destinatário. Com a enunciação. ela postula um alocutário” (BENVENISTE. e você. que atinge um ouvinte e que provoca uma outra enunciação de retorno (BENVENISTE. Trata-se de um princípio geral que pode ser exemplificado em frases. sendo um co-enunciador. UESC Letras Vernáculas 35 Unidade I Aula 2 . e que tal afirmação seja um consenso entre ela. Ela está expressando uma certa relação com um tipo de mundo onde o pecado foi trazido pela mulher. a enunciação estabeleceu um mundo que é consenso entre o sujeito da enunciação e você. Essa relação é expressa como sendo um consenso pragmático entre o sujeito da enunciação e o seu destinatário. porque o mundo referido foi estabelecido em comum acordo entre ambos. ela também “tenta legitimar esse quadro instituído” (MAINGUENEAU. dizemos que não aceitamos o modo como o sujeito da enunciação instituiu a si mesmo e a nós. quando uma pessoa lhe diz: “A mulher foi quem trouxe o pecado ao mundo!”. todo enunciado é o produto de um acontecimento único. um destinatário. nossa reação foi não aceitar essa relação como legítima e respondemos: “Quem você pensa que é?” Agora não estamos mais diante da língua abstrata estabelecida por Saussure. o sujeito da enunciação implanta também o outro diante de si: “Toda enunciação é. p. sujeito da enunciação. por meio de enunciados. 93). assumo o índice de pessoa tu. um momento e um lugar particulares. e não o ensino da linguagem. abstratamente. podemos dizer que o destinatário participa também da enunciação. A enunciação emprega a língua para expressar uma certa relação com o mundo. sem precisar especificar quem falou. Quando falo. Assim. se referindo a um mesmo mundo. assumo o índice de pessoa eu. Esse conjunto de elementos define a situação de enunciação” (MAINGUENEAU. o destinatário. No exemplo acima. explícita ou implicitamente. 1989. ainda predomina o ensino da estrutura da língua. p. SITUAÇÃO DE ENUNCIAÇÃO: é o conjunto dos seguintes elementos: sujeito da enunciação. no ensino escolar. A enunciação institui seu sujeito e o interlocutor. através do enunciado. p. Da enunciação é que emergem os índices de pessoa. 2001. Ao mesmo tempo em que se declara locutor. Além disso. 1996. com quem falou. Com a enunciação. sua enunciação. onde falou. mas quando alguém fala comigo. Os dois estão de acordo. ATENÇÃO Observe que antes estudávamos apenas a estrutura da língua. uma alocução. quando falou etc. a relação eu-tu. 5). O ato da enunciação está centrado no sujeito da enunciação e na situação em que este produz o enunciado. 1989). No entanto. “que supõe um sujeito da enunciação. Por exemplo. o momento e o lugar em que foi produzido o enunciado. esta pessoa supõe que você está de acordo com isso. Assim. Caso você fique calado e continue a conversa. a língua deixa de ser apenas possibilidades e se torna uma instância sonora da fala de um locutor. passamos a estudar a linguagem. dando-nos uma ordem. 84). referida pela sua fala e para o interlocutor. isto é. incluindo língua e fala e a situação de enunciação. Por exemplo. estudávamos que o verbo concorda em número e pessoa com o sujeito. por meio de frases. quando uma ordem nos instituiu como inferior ao sujeito da enunciação.que é?” Em outras palavras. o destinatário.

as fofocas. Por exemplo.Linguística III . portanto. tornando insuficiente a relação arbitrária entre significante e significado. isto é. A palavra samba. Nas formas verbais. Por exemplo. Podemos concluir que a enunciação tem importância fundamental na significação das palavras. o presente do verbo “viajo” e do advérbio “agora” coincidem com o momento da enunciação. com o momento em que estou falando. isto é. 2003. Por exemplo. 230). não estamos repetindo um conceito já pronto e aceito por todos. e o “extralinguístico”. agora é 36 Módulo 2 I Volume 8 EAD . avaliando os planos de um amigo: “Isso não vai dar samba!”. estamos instituindo novas pessoas: a mulher. em vez de uma relação fixa entre significado e significante. são enunciações que instituem novas pessoas. Por exemplo. mas existe uma união que varia. Esta instaura a categoria do presente. é ilusória a crença de que há um único mundo estável. Assim. a fala. numa cidade pequena. O uso das formas temporais emerge igualmente do eu da enunciação. da qual deriva o passado e o futuro. que. folga. assume conotações e nuances próprias daquela enunciação e da Formação Discursiva dominante. antes considerado capaz e correto. ideologia e sentido Também é da enunciação que emergem as formas chamadas “pronomes pessoais” e “demonstrativos” que adquirem significados a depender da situação ou contexto em que são usadas. seu significado está sendo constituído. a estrutura da língua. o “presente” coincide com o momento da enunciação. quando falamos do samba. Daí a necessidade de estarmos sempre conversando. A cada vez que é feita alguma enunciação sobre o samba. Se alguém enuncia que a mulher de Fulano o está traindo com outro homem. na enunciação. se digo a alguém: “Não saio daqui!”. Quando digo a alguém: “Viajo agora!”. isto é. as significações socioculturais “estão sendo constituídas no próprio ato de enunciação” (BHABHA.Teoria da análise de discurso Enunciação. em cada fala. o marido. de estarmos fazendo enunciações para atualizar nosso mundo socioculturalmente compartilhado. As teorias linguísticas da enunciação refutam precisamente o corte que Saussure operou entre o linguístico. a depender do contexto. a expressão significa “não vai dar certo”. o significado do termo aqui vai depender do lugar de onde eu esteja falando. O tempo é produzido na e pela enunciação. O mundo é sempre constituído no ato de cada enunciação. antes considerada honesta. Dessa forma. reclamando da preguiça do aluno: “Você não fez a atividade! Só quer viver no samba!”. no qual toda uma comunidade acredite. na música brasileira. Vemos. a palavra “samba” significa brincadeira. no enunciado de um professor. postulada inicialmente por Saussure. Mas no enunciado. p. agora é constituída como uma adúltera. não há uma união fixa entre significante e significado.

p. primeiro. Tal representação existe sempre num Aparelho Ideológico de Estado (AIE). Todos estes elementos estão marcados no enunciado. no século XIX. por sua vez. apenas se referem a ele. e que nossa fala. p. A concepção marxista de ideologia é a de ser um instrumento de dominação de classe (BRANDÃO. 1998. A enunciação é um acontecimento que não se repete. É assim que. seu destinatário e o mundo compartilhado pelos dois. a ideologia interpela os indivíduos como sujeitos e é uma representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência. Assim. Converse com pessoas de diferentes classes sociais e você irá perceber que. podemos dizer que dois enunciados. na verdade. etc. o político. ideias de um determinado grupo social. formado pelo sistema das diferentes igrejas. O conceito de ideologia. que são as instituições. Isso é uma ilusão. quando fazemos uma enunciação é que estamos constituindo o mundo. mas a relação que o indivíduo tem com esse mundo real. em situações um pouco diferentes. “não há sentidos cristalizados. portanto. numa enunciação (BRANDÃO. ocultamento da realidade. O enunciado. Assim. Eagleton (1997. a ideologia não representa o mundo real. 98). os servos eram explorados pelos UESC Letras Vernáculas 37 Unidade I Aula 2 . como falsa consciência. isto é. numa certa data e num certo horário. A maioria das pessoas pensa que. tem recebido diferentes significações. seu mundo oceânico é totalmente diverso do mundo turístico. em suas enunciações. O sentido de um enunciado é. Segundo Althusser (1985). Basta perguntar-lhe o que acha do carnaval. existe um mundo já pronto. independentes. pode perceber que o mundo que ela constitui em sua enunciação é diferente do mundo tal como o vivemos em nosso cotidiano. Eles funcionam principalmente pela ideologia e. PARA REFLETIR Se você conversa com uma pessoa muito religiosa. entre outras. por exemplo. Por exemplo. se caracteriza por ser repetível.constituído como um bobo que está sendo enganado. nossas enunciações. A enunciação institui seu sujeito. vamos constituindo o mundo e as pessoas em nossas enunciações. 15) apresenta 16 delas. a representação de sua enunciação. pronunciados por duas pessoas. para ver que este deixa de ser uma festa popular para se transformar numa orgia satânica. como o AIE religioso. o sindical. constituiriam um só enunciado. já constituído. 3 IDEOLOGIA A ideologia se materializa na linguagem e é um mecanismo estruturante do processo de significação. Dessa forma. porque se realiza num certo local. secundariamente. vão ser constituídos diferentes mundos. Na realidade. que é o produto da enunciação. mas sentidos construídos numa situação discursiva”. acreditando ingenuamente que tudo já existia antes tal como o estamos constituindo em nosso discurso. 1995). desde o seu surgimento. o jurídico. visão de mundo. pela repressão. o AIE escolar. Se perguntar a um pescador o que ele acha do mar. o familiar. na Idade Média.

Desse modo. trazida pelo colonialismo europeu. as instituições religiosas que nos interpelam em sujeitos são a religião cristã.Fonte: http://www. pensando que fazemos uma escolha livre e consciente. às suas costas. mas representava uma relação imaginária que esses servos tinham com a exploração que sofriam. chamando-o pelo nome. mas também seus rebanhos. formada pela ideologia. familiares. só existe prática dentro de uma ideologia. expulsão. na instituição religiosa. a ideologia só pode ser vista como reprodutora. Esta era a realidade do mundo. nas cidades brasileiras. uma ideologia existe sempre num aparelho e em suas práticas. as escolas e igrejas dispõem de métodos adequados de punição. A ideologia se materializa. ideologia e sentido senhores feudais. Dessa forma. PARA REFLETIR Observe que. seleção. Por isso. As instituições nos chamam. Por quê? Porque. a escola e a religião. após a morte. Todos os AIEs contribuem para a reprodução das relações capitalistas de exploração. Nossa prática está ligada às instituições e. se formos antes interpelados por ele. é como se você respondesse a um chamado da ideologia. e o culto das entidades. E assim. Você já se volta agindo como filho: “Sim. instituição família. a ideologia católica medieval não representava as condições reais de existência dos servos. como se você fosse interpelado pela ideologia. passando a agir. os padres enBem aventurados os pobres porque verão a Deus! sinavam uma relação imaginária. em nossa formação histórica. mãe!”. quase não encontramos pessoas da religião islâmica ou budista. Vamos imaginar que você escute a voz de sua mãe. Se a voz fosse a de um amigo. cada um de nós é levado a ocupar um determinado lugar na sociedade. O mesmo se aplica às outras instituições.Linguística III . ao fazer parte das instituições sociais. pelo funcionamento dela. a infraestrutura econômica da sociedade determina o funcionamento da superestrutura. Essa circularidade no funcionamento da sociedade acaba por criar uma impossibilidade de mudanças sociais e o sujeito dificilmente consegue sair do movimento circular entre infraestrutura e superestrutura. nas instituições. portanto. em que o sofrimento causado pela exploração seria recompensado com o céu. nas instituições jurídicas. regida por rituais: ir à missa.hu/photo/472534 Assim. Da mesma forma. como a IDEOLOGIA: é a representação de uma relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência. você já se voltaria agindo como amigo: “Oi cara!”. podemos dizer que a ideologia. nas instituições sociais. perpetuando a base econômica e a estrutura da sociedade. nos faz agir. Figura 2 . inconscientemente. como a família. portanto. Nessa visão althusseriana.sxc. assistir a uma aula. 38 Módulo 2 I Volume 8 EAD . isto é. a escola e órgãos culturais. Como sujeito é aquele que age. trazido pelos africanos e já praticado pelos indígenas. nos Aparelhos Ideológicos do Estado. participar de uma reunião política ou familiar etc. Só podemos ser membros de algum grupo religioso. nos interpela como sujeitos. No entanto. numa determinada social. para disciplinar não apenas seus pastores e sacerdotes. nos interpelam o tempo todo em sujeitos e nós atendemos a esse chamado.Teoria da análise de discurso Enunciação. religiosas etc.

A Análise de Discurso parte do conceito de interpelação proposto por Althusser, mas introduz uma teoria materialista do discurso, em que as relações de classe se caracterizam pelo afrontalógicos, isto é, nas instituições, temos, em um dado momento, forças se contrapondo a outras forças. Por exemplo, dentro da Igreja católica hoje, os adeptos da Teologia da Libertação se contrapõem à teologia tradicional e aos grupos carismáticos. Dentro de uma instituição, as Formações Ideológicas são esses conjuntos de representações e atitudes, relacionados com as posições de classe em conflito. Cada Formação Ideológica, numa dada conjuntura, inclui uma ou várias formações discursivas, que determinam o que pode e deve ser dito a partir dessa posição. Assim, as palavras ganham seu sentido de acordo com a formação ideológica na qual se inscrevem aqueles que as empregam. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é nesse e por esse processo que se constituem os significados ou sentidos das palavras. Dessa forma, o signo linguístico não é uma relação fixa e arbitrária entre significante e significado, mas tem um caráter ideológico, relacionado à luta de classe dentro das instituições sociais:
Na realidade, um signo, uma palavra, uma enunciação só podem ser tomados dentro de um contexto de produção que leve em consideração o seu caráter ideológico, social e histórico, ou seja, no momento concreto de sua realização, dentro da situação concreta que lhes deu origem (BRAGGIO, 1992, p. 90).

Na próxima aula, vamos ver como língua, enunciação e ideologia são articuladas no discurso.

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mento de formações ideológicas (ABREU, 2006). Nos aparelhos ideo-

Linguística III - Teoria da análise de discurso

Enunciação, ideologia e sentido

ATIVIDADE
1. O que diferencia uma frase de um enunciado? 2. Quem institui o sujeito da enunciação, o destinatário e o mundo referente? Explique. 3. O que são e em que lugar da sociedade ocorrem as Formações Ideológicas? Explique. 4. Qual a relação entre Ideologia e o sentido das palavras? 5. O mundo e as pessoas sobre os quais você fala, existem antes de você falar sobre eles? 6. Explique e dê exemplos de dêiticos.

RESUMINDO
Nesta aula você viu que a enunciação:    Institui o enunciador e seu destinatário. Estabelece, de forma consensual, o mundo a que se refere, tornando o destinatário co-enunciador. Faz emergir os índices de pessoa eu-tu e outros dêiticos, isto é, palavras cujos significados dependem do contexto, como os “pronomes pessoais” e os “demonstrativos”.       A enunciação interfere no significado das palavras. As significações socioculturais são constituídas no próprio ato de enunciação. O mundo é sempre constituído no ato de cada enunciação. O sentido de um enunciado é, a representação de sua enunciação. A enunciação é um acontecimento que não se repete, porque se realiza num certo local, data e horário. O enunciado é repetível.

Viu também que a ideologia:       Materializa-se na linguagem, influenciando o significado das palavras; Interpela os indivíduos como sujeitos e é uma representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência; Existe sempre nas instituições e em suas práticas. Leva-nos a ocupar um determinado lugar na sociedade; Manifesta-se no afrontamento de formações ideológicas nas instituições. Cada Formação Ideológica, numa dada conjuntura, inclui uma ou várias formações discursivas, que determinam o que pode e deve ser dito a partir dessa posição.  Cada Formação Ideológica dominante determina o significado das palavras.

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ABREU, Ana Sílvia Couto de. Escola e Escola on line: alguns efeitos do discurso pedagógico midiatizado. Tese de doutorado. Campinas: FE/UNICAMP, 2006. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. 7. ed. Tradução de Walter José Evangelista; Maria Laura Viveiros de Castro; Rio de Janeiro: Graal, 1985. BENVENISTE, Émile. “O Aparelho Formal da Enunciação” In: ____. Problemas de lingüística geral II. Tradução de Eduardo Guimarães et al. Campinas: Pontes, 1989. p. 81-90. BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis; Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 2003. BRAGGIO, Sílvia Lúcia Bigonjal. Leitura e alfabetização: da concepção mecanicista à sociopsicolingüística. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. BRANDÃO, Helena H. N. Introdução à análise do discurso. 4. ed. Campinas: UNICAMP, 1995.

REFERÊNCIAS

_____. Subjetividade, argumentação, polifonia. A propaganda da Petrobrás. São Paulo: UNESP, 1998. CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. Tradução de Luís Carlos Borges; Silvana Vieira. São Paulo: UNESP, 1997. MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de lingüística para o texto literário. Tradução de Maria Augusta Bastos de Mattos. São Paulo: Martins Fontes, 1996. _____. Análise de textos de comunicação. Tradução de Cecília P. de Souza Silva; Décio Rocha. São Paulo: Cortez, 2001.

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Suas anotações
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estabelecer diferença/relação entre língua. ideologia e instituições sociais.aula 3 O CONCEITO DE DISCURSO Objetivos Ao final desta aula você deverá: • • • • • analisar o conceito de discurso na concepção de Foucault. analisar a relação discurso e formação discursiva. relacionar o conceito de discurso com ideologia. discurso. . relacionar o conceito de discurso com enunciação.

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Campinas: Pontes. Na análise de discurso. A linguagem e seu funcionamento. UESC Letras Vernáculas 45 3 .ciberfil. 4. Além da instância do fonema. Com isso.ig. da palavra e da frase. tal como formulada por Saussure.AULA 3 O CONCEITO DE DISCURSO . Eni Puccinelli.com.br 1 INTRODUÇÃO Já vimos que a enunciação fez com que os estudos linguísticos deixassem de considerar apenas a língua abstrata. o sentido das palavras passa a ser determinado pela enunciação e pela ideologia do discurso em que são usadas. incluindo a fala. Michel. a linguística passou a considerar a situação imediata e o contexto sócio-histórico da enunciação.hpg. As formas do discurso.. FOUCAULT. www. para tomar como objeto a linguagem. ed.. Unidade I Aula LEITURAS PRÉVIAS ORLANDI. A ordem do discurso. a linguística voltou-se também para a instância do texto e a instância do discurso. 1996.

não se trabalha com a história e a sociedade como se fossem independentes do que significam na linguagem. 2002. cada uma destas com subdivisões. Etimologicamente. a Psicologia. p. que é um objeto sócio-histórico. os conflitos ideológicos ocorrem nas instituições. 17-18). discurso é palavra em movimento. sindicatos etc. igrejas. ele vê o discurso como sendo formado por enunciados dispersos. Não se trabalha com a língua fechada nela mesma. Por exemplo. podemos perceber conflitos ideológicos em diversas instituições. o texto. espíritas. Nas instituições jurídicas. órgãos governamentais etc. a Análise de Discurso (daqui em diante AD) parte de “uma relação necessária entre o dizer e as condições de produção desse dizer”.Linguística III . Por outro lado. Conforme já visto. A Análise de Discurso é um modo particular de se estudar a linguagem. observar o homem falando (ORLANDI. 3). Todos estes enfoques permitem analisar unidades além da frase. Assim. pela semântica histórica de Bréal. a Gramática Normativa enfoca as normas de bem dizer. 1995. tem que levar em conta: • os objetos e temas que aparecem e coexistem nesses elementos PARA REFLETIR Neste início de século XXI. Estes conflitos se multiplicam em instituições. A AD trabalha essa relação língua/discurso/ideologia (ORLANDI. Nessa visão. cabe à AD descrever essa dispersão. a OAB. como os sindicatos. cultos de origem africana. ou seja. correr por. uma característica do enunciado é que ele é repetível. escola. buscando estabelecer regras capazes de reger a formação dos discursos. A materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a língua. movimento. Dentro da Igreja católica. Para isso. com seus afrontamentos ideológicos. a Gramática Histórica estuda as mudanças da língua no tempo etc. o discurso existe “na sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita” (FOUCAULT. prática de linguagem. enquanto sistema de signos. mas com o discurso. no Brasil. Assim. que parecem não estar ligados por nenhum princípio de unidade. Em sua linha francesa. linguista francês. a Sociologia etc. como família. 1999). Para Foucault. estamos assistindo ao conflito ideológico entre um juiz de São Paulo (De Santis) e os tribunais superiores em processos movidos contra banqueiros e grandes empreiteiras. Mas os estudos sobre a produção de sentidos na língua já tinham sido realizados pelos retóricos da Antiguidade e. além do espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo. entre os outros discursos. a palavra discurso significa percurso.Teoria da análise de discurso O conceito de Discurso 2 O DISCURSO Podemos estudar a linguagem de diversas maneiras: a Linguística concentra sua atenção sobre a língua. Conforme já visto. 1999). A Análise de Discurso surgiu nos anos 60 do século XX. Por isso o conceito de discurso vai levar em conta a instituição a que está relacionado. (BRANDÃO. que pressentiram no texto uma estrutura. e pelos formalistas russos. exigindo uma articulação teórica com a História. as instituições religiosas estão divididas em cristãs. 46 Módulo 2 I Volume 8 EAD . p. os partidários da Teologia da Libertação se opõem aos carismáticos. no século passado.

até recentemente em cerimônia religiosa católica de casamento) . . Os enunciados dispersos que puderem ser reunidos por Formação Discursiva. em suas formas de aparecimento e transformação. Ele é a unidade elementar. e enunciado. Por exemplo. algo realmente dito ou escrito por uma pessoa. com diferentes formas de jogos enunciativos. são agrupados numa .dispersos. Assim. que forma um discurso.Mulher ao volante. E assim. passam a integrar a regularidade de uma Formação Discursiva. numa dada situação. construída segundo os princípios da língua. já visto. (Frase de caminhão) . os conceitos que apresentam. perigo dobrado. é o produto de uma enunciação e. cujos elementos constitutivos são regidos por “regras de formação”. construída segundo os princípios da língua. (Enunciado usado.Eu dirijo caminhão e minha mulher dirige o fogão. com homem do lado. antes dispersos.o conceito de “Formação Discursiva”. Frase é uma sequência de palavras.Mulher. o discurso é visto como um conjunto de enunciados que têm seus princípios de regularidade em uma mesma Formação Discursiva. não pode ser confundido com frase. (Conversa masculina em uma academia de ginástica). . isto é.a distinção entre enunciação. perigo constante. isto é. Frase é uma sequência de palavras. relacionados em um sistema comum. Enunciado. por isso. Dessa forma. básica. • • os tipos de enunciação que podem permear esses elementos. como uma família de enunciados pertencentes a uma mesma Formação Discursiva. os enunciados.Mulher é o sexo frágil. unidade básica do discurso. UESC Letras Vernáculas 47 Unidade I Aula 3 meio das características acima comuns. os enunciados abaixo reafirmam essa inferioridade e pertencem à Formação Discursiva machista: . p. articulada com outras práticas não discursivas. O enunciado é o produto de uma enunciação. um sistema de relações entre objetos. O discurso seria concebido. conceitos e estratégias. (Conversa entre dois motoristas) . Analisar uma Formação Discursiva é descrever os enunciados que a compõem. então. a mulher tem uma relação de inferioridade com o homem. sede submissa ao marido. 1995. conforme. tipos enunciativos. ATENÇÃO Observe que não se pode confundir frase com enunciado. DISCURSO: é um conjunto de enunciados que têm seus princípios de regularidade em uma mesma Formação Discursiva. na Formação Discursiva machista. Podemos destacar as seguintes contribuições de Foucault para o estudo da linguagem (BRANDÃO.concepção de discurso como atividade. 31-32): .

enquanto discurso. posicionados em diferentes pontos de vista. Por exemplo. expressões Figura 1 . a partir de uma posição dada. inocente. de pergunta e de resposta. significa gênero inferior ao homem.flickr. mas. Dessa forma. Podemos ter também o caso de um mesmo fenômeno receber nomes diferentes. expressão ou proposição pode receber sentidos diferentes. que as palavras mudam de sentido ao passarem de uma Formação Discursiva para outra.o discurso como espaço de articulação do saber e do poder. . 1995). que determinam o que pode e deve ser dito em cada discurso.Linguística III . para o discurso político dos palestinos. ela não é neutra. O discurso também não é natural. Nessa perspectiva. porque está engajada numa intencionalidade.com/photos/anniemole/39379374/ 48 Módulo 2 I Volume 8 EAD . é interação.a produção dos discursos é controlada. portanto. mas ele é o lugar privilegiado de manifestação da ideologia (BRANDÃO.a concepção de discurso como jogo estratégico de ação e de reação. portanto. entretanto. é um modo de produção social. num discurso humanista significa gênero igual ao homem. de esquiva e de luta. não enfoca o discurso no nível linguístico. . para o discurso político do governo norteamericano. espontâneo. selecionada. Foucault. o modo como se produz linguagem. a mesma palavra. O discurso é. fala de algum lugar. o que gera poder. num discurso machista. o discurso é um dos aspectos materiais da ideologia. a pessoa que pratica um ataque suicida é chamada de “terrorista”. A língua é o lugar material em que em que o discurso produz os efeitos de sentido e faz emergir as significações.“terrorista” ou “mártir”? Homem bomba (por Annie Mole) Fonte: http://www. uma mesma palavra. a Formação Ideológica governa uma ou várias Formações Discursivas. Dessa forma. A Formação Discursiva representa a articulação entre língua e ideologia e é só dentro dela que as palavras adquirem sentido. Vemos. Isso mostra que as palavras. numa dada conjuntura. FORMAÇÃO DISCURSIVA: conjunto de princípios que determinam o que pode e deve ser dito em cada discurso. Por exemplo. de dominação. a partir de uma posição dada. conforme esteja sendo usada em uma ou outra Formação Discursiva. essa pessoa é chamada de “mártir”. A linguagem. o sentido das palavras é produzido historicamente pelo uso e o discurso é um efeito de sentido entre locutores. Quem fala. em diferentes Formações Discursivas.Teoria da análise de discurso O conceito de Discurso . a partir de um direito reconhecido institucionalmente. a palavra mulher. organizada e redistribuída pelo poder. numa dada conjuntura. Por isso.

o aluno não pode exigir do professor que lhe seja tirada a falta. no funcionamento da linguagem (ORLANDI. a culpa pela falta registrada não é do professor. usa da língua o verbo “passou”. O que chamamos de sentido denotativo não passa de usos cristalizados da língua à disposição do falante. que a escolha do verbo “passou” não foi unicamente uma opção linguística. dizendo que estava sem prestar atenção. pois isso seria confessar a própria culpa e justificar a falta recebida. Observe o funcionamento da linguagem na fala do aluno: “Meu nome passou!”. O aluno. mas foi uma escolha determinada também pela situação e seus participantes. na hora do funcionamento da língua. 1996. E o professor. o professor avisou: “Vou fazer a chamada e não vou gritar! Quem não responder vai ter falta!” O barulho diminuiu. porque tal verbo nem faz exigência ao professor. No final da chamada um aluno veio reclamar: “Meu nome passou!”. Mas nem tudo se resolve pela mera aplicação mecânica desses usos cristalizados nos dicionários. A antiga distinção entre sentido denotativo e conotativo não consegue mais dar conta do significado das palavras. portanto. A própria situação e seus participantes entram na constituição da linguagem. assim. Vemos. faz parte do sentido. mas é do “nome” que “passou”. sem confessar sua culpa. com ironia: “Então corra atrás dele! Vá depressa para não ficar sem nome!” Na verdade. nem confessa sua própria falha. nem do aluno. mas não cessou de todo. Vejamos a seguinte situação: como os alunos estivessem fazendo muito barulho na sala de aula. O conceito de discurso é o da UESC Letras Vernáculas 49 Unidade I Aula 3 .e proposições não têm um sentido próprio ou literal. temos de fazer a análise do discurso. levando em conta suas condições de produção. 117). O efeito de sentido do verbo “passou”. Mas também o aluno não pode admitir o próprio erro. sabemos que esta situação e seus participantes entram no funcionamento da linguagem. p. então. A situação. ele sabia que o aluno queria dizer que não respondera à chamada e queria ter sua falta apagada. Há muita coisa que tem de ser estruturada na hora do próprio uso da língua. mas têm um efeito de sentido que se constitui na Formação Discursiva em que está sendo usada. Ele diz: “Meu nome passou!” Nesse caso. Ou seja. é o de pedir o apagamento da falta. Por ocupar uma posição inferior e ter tido um comportamento indisciplinado. no discurso do aluno. Ora.

A língua é indiferente aos afrontamentos ideológicos nas instituições. o discurso não é algo pronto e acabado. uma vez que dele fazem parte as condições de produção. O modo de funcionamento da linguagem não é integralmente linguístico. tanto para o discurso machista quanto para o discurso humanista. 1996. o discurso é o efeito de sentido construído no processo de interlocução. mas os confrontos ideológicos nas instituições são variados. O texto não é um amontoado aleatório de enunciados. são constitutivos da significação. Por isso. Um discurso não pode ser visto como sendo isolado de outros discursos. mas também não podemos ficar reduzidos a isso. O desafio que a AD enfrenta é justamente o de realizar leituras críticas e reflexivas. e a variabilidade da fala que é dependente do discurso (GERALDI. o contexto histórico-social. ela fornece a mesma palavra mulher.Linguística III . O discurso é o lugar da relação entre a invariabilidade da língua. uma mesma palavra da língua pode ter sentidos diferentes. 1999. e o contexto histórico-social. do que se diz. o contexto imediato. 39). 1996. p. assim como o contexto. No discurso. Na verdade. A AD articula o linguístico com o social. p. O discurso manifesta-se linguisticamente nos textos. não podemos excluir a situação e seus participantes. O discurso materializa o contato entre o ideológico e o linguístico. constituem o sentido da sequência verbal produzida” (ORLANDI. “Então. isto é. texto se insere numa situação de discurso. realizados ou possíveis” (ORLANDI. ou seja. devem ser levados em conta: os interlocutores. 12). A dicotomia língua/fala de Saussure é substituída por uma divisão entre língua/discurso/fala. mas é um estado de um processo contínuo. as condições de produção.Teoria da análise de discurso O conceito de Discurso linguagem em interação. 26). a linguagem em relação às suas condições de produção. a depender da ideologia do discurso em que estiver sendo usada. Ela fornece a palavra terrorista para o discurso político da instituição governamental 50 Módulo 2 I Volume 8 EAD . levando em conta que a relação estabelecida pelos interlocutores. isto é. Na AD. ao lugar de para quem se diz e aos outros discursos. relacionado ao lugar social de quem diz. Não há começo absoluto nem ponto final para um discurso. p. a situação. No exemplo já visto. A língua é uma só para toda uma mesma sociedade. o referente. Todo TEXTO: é uma unidade de sentido que possui um todo significativo e acabado. há uma “relação necessária da linguagem com o contexto de sua produção” (ORLANDI. Portanto. 1996). ele “tem sempre relação com outros discursos. os interlocutores. com autonomia relativa. mas uma unidade que possui um todo significativo e acabado. sem reduzir o discurso aos seus aspectos linguísticos nem aos seus aspectos ideológicos. que representam o mecanismo de situar os protagonistas e o objeto do discurso.

Assim. p. por princípio. frase ou proposição. pertencem a um mesmo discurso porque obedecem a uma mesma doutrina. 71). pois não há sentido sem repetição. Por serem interpelações ideológicas. Por exemplo. repetição de sentido. podem fazer parte de um mesmo discurso. UESC Letras Vernáculas 51 Unidade I Aula 3 isso. A AD trabalha entre o mesmo (paráfrase) e o diferente (polissemia). Tal pessoa sabe. A Formação Discursiva se caracteriza pelo espaço de reformulação-paráfrase. Por ataques suicidas são chamados terroristas e. diferença de sentidos. analisando como eles se inter-relacionam no discurso. que é um trabalhador e sabe o que tudo isto implica” (HENRY. de uma mesma Formação Discursiva. Por isso o discurso machista e o discurso humanista vão atribuir significados diferentes à palavra mulher. por exemplo. 1999. Dessa forma. portanto. A língua é.. não se fecha. POLISSEMIA: é a diferença de sentidos. os discursos fazem os indivíduos assumirem “suas” posições de sujeitos na sociedade: “Quando alguém se vê obrigado a ocupar um lugar dentro de um sistema de trabalho. este processo já se deu anteriormente. é no discurso que se faz a relação entre a indiferença e invariabilidade da língua com a variabilidade e a ideologia do enunciado. Explicar o sentido de uma palavra. condição de possibilidade do discurso. isto é. A paráfrase. os sermões ditos nas igrejas católicas. PARÁFRASE: é repetição de sentidos semelhantes.norte-americana. repetir o sentido com outras palavras. na instituição governamental norte-americana. Porém. de uma frase ou de uma proposição é sempre usar outra palavra. mas os discursos variam conforme suas posições ideológicas. p. são os dois grandes processos da linguagem. A paráfrase é a matriz do sentido. e a polissemia.. na instituição políticomilitar dos palestinos. A língua é a mesma para todos. “o discurso. os autores de . 26). enunciados de diferentes textos. mas que foram produzidos nas mesmas condições histórico-ideológicas. Assim. 1993. Por isso. esses mesmos atacantes são chamados de mártires. o discurso não é indiferente aos afrontamentos ideológicos nas instituições. o discurso pode ser visto como uma dispersão de textos que apresentam regularidades enunciativo-discursivas. nas missas de um domingo. As disputas ideológicas nas instituições sociais só podem ser analisadas no discurso e não na língua.) é uma prática” (ORLANDI. como fornece a palavra mártir para a instituição político-militar dos palestinos. mas é sempre um processo em curso (.

É um conjunto de enunciados que têm seus princípios de regularidade em uma mesma Formação Discursiva. RESUMINDO Nesta aula você viu que discurso:       Está relacionado aos afrontamentos ideológicos nas instituições.Teoria da análise de discurso O conceito de Discurso ATIVIDADES 1) Quais as relações entre instituições sociais. levando em conta os interlocutores e contexto da situação. ideologia. É uma dispersão de textos que apresentam regularidades enunciativo-discursivas. 52 Módulo 2 I Volume 8 EAD .Linguística III . É sempre um processo em curso. 6) Explique o afrontamento ideológico que há hoje na instituição do Congresso Nacional. língua e discurso? 2) O que é Formação Discursiva? 3) Qual a relação entre significado de palavras e Formação Discursiva? 4) Apresente cinco enunciados de um mesmo discurso. Articula língua e ideologia. sem ponto final. entre a bancada ruralista e a bancada de esquerda. 5) Identifique três instituições sociais brasileiras atuais e aponte um afrontamento ideológico em cada uma delas. É a linguagem em interação.

Associação de Leitura do Brasil. Linguagem e ensino: exercícios de militância e divulgação. 1995. Helena H.com. ______. 2. Princípios & Procedimentos. Campinas: Mercado de Letras. 2009. A linguagem e seu funcionamento. Françoise e HAK. T. A ordem do discurso. As formas do discurso. 4. Campinas: Editora da UNICAMP. 1993. Introdução à análise do discurso. 4. hpg. Campinas: Pontes. Análise de discurso. Paul. ed.BRANDÃO.ciberfil. In GADET.. Disponível em www. GERALDI. João Wanderley. p. Eni Puccinelli. Campinas: UNICAMP. Por uma análise automática do discurso. HENRY. 13-38 ORLANDI.). ed. (Orgs. Michel. REFERÊNCIAS FOUCAULT. (Coleção Repertórios). Os Fundamentos Teóricos da ‘Análise Automática do Discurso’ de Michel Pêcheux. Tradução de Tetrania S.ig. Campinas: Pontes. ed. Mariani et al. 1999 UESC Letras Vernáculas 53 Unidade I Aula 3 . 1996. N. 1996.br Acesso em: mar.

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.................................Suas anotações ...................................................... ........................................................................................................................................................................................................................................... ............. ................................................................................ ............................................................................................................................................................................................................................................................................... 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analisar os aspectos da relação entre texto e discurso. identificar os diversos discursos a partir de textos. distinguir num texto os diferentes discursos.aula 4 TEXTO E DISCURSO Objetivos Ao final desta aula você deverá: • • • • • diferenciar texto e discurso. identificar na Linguística Textual e na Análise de Discurso o objeto empírico e o objeto teórico. .

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1 INTRODUÇÃO Já vimos que a enunciação fez com que os estudos linguísticos deixassem de considerar apenas a língua abstrata. mas o discurso é uma categoria teórica mais abstrata. enfocando unidades maiores do que a palavra e a frase. para tomar como objeto a linguagem. Discurso e leitura. como o texto e o discurso. Eni Pulcinelli. incluindo a enunciação e a ideologia. Com isso. Embora mantenham semelhanças e relações próximas. O texto. enquanto enunciado. 1999.AULA 4 TEXTO E DISCURSO . tal como formulada por Saussure.. é a base empírica de ambas as teorias. texto e discurso têm objetos teóricos diferentes. Unicamp. mas se voltaram para a questão de como um texto funciona. São Paulo: Cortez. os estudos passaram a não visar mais “o que o texto quer dizer” (posição tradicional da análise de conteúdo). ed. UESC Letras Vernáculas 57 4 . 4. Unidade I Aula LEITURAS PRÉVIAS ORLANDI.. Surgiram assim a Linguística Textual e a Análise de Discurso.

. Vemos. com começo. o texto é uma unidade completa de 58 Módulo 2 I Volume 8 EAD . como objeto empírico de análise. geografia. um mesmo objeto observacional ou empírico pode ser visto por meio de diferentes objetos teóricos. isto é. O texto. BORGES. p. As disciplinas científicas dividem a realidade observável em regiões do conhecimento: psicologia. com começo. a enunciação é única. o texto é uma: [. na aula anterior. Do ponto de vista empírico. Cada sermão é um texto e. palavras. O objeto observacional ou empírico é “a ‘região’ da realidade que a teoria privilegia como foco de sua atenção e é constituído por um conjunto de fenômenos observáveis” (DASCAL. sua natureza é intervalar. (. 19).. meio e fim. criados por teorias diversas. Vimos. como o percebemos pela audição (texto oral) ou pela visão (texto escrito). a partir do seu objetivo geral de estudo. nas missas de um domingo. textos e discursos. A Linguística delimita sua região observacional na linguagem. na Igreja Católica: são enunciados diferentes.. conforme a teoria seja a Linguística Textual ou a Análise de Discurso. Assim. Mas o enunciado é repetível. embora produzidos em momentos e locais diferentes. mas. o texto é considerado em sua aparência. enunciados. porque se dá num dado momento e num dado local.Linguística III . o texto pode ser um objeto acabado. uma mesma doutrina e têm uma mesma forma enunciativa. química etc. 92). enquanto objeto teórico. Mas. que o texto pode ser visto como objeto teórico e como objeto empírico. o discurso é uma dispersão de textos e o texto é uma dispersão de sequências discursivas.) o texto como objeto teórico não é uma unidade completa. incluindo fonemas. por exemplo. meio e fim. o objeto empírico da Medicina é o corpo humano. Por exemplo. situação. mas pertencem todos a um mesmo discurso porque tratam de um mesmo tema.Teoria da análise de discurso Texto e discurso 2 TEXTO E DISCURSO Conforme já visto. p.. O objeto teórico é construído a partir do objetivo geral do estudo. sílabas.] unidade complexa de significação cuja análise implica as condições de sua produção (contexto histórico-social. OBJETO EMPÍRICO: é a área da realidade que uma teoria elege para observar em seus estudos. Na Linguística Textual. Dessa forma. portanto. é sempre o mesmo. OBJETO TEÓRICO: é um objeto criado por cada teoria. o texto. ele muda. o objeto teórico da Medicina é a descrição e o funcionamento do corpo humano. portanto. dois ou mais enunciados podem apresentar regularidades que os tornem governados por uma mesma Formação Discursiva. interlocutores). 1991. Por exemplo. Para Brandão (1995. o exemplo dos sermões. Não é algo concreto da realidade. se apresenta como uma sequência acabada de enunciados. enquanto objeto empírico ou observacional. como objeto empírico de análise. isto é. pois o sentido do texto se constrói no espaço discursivo dos interlocutores.

no intuito de alcançar um fim social. mas o objeto teórico varia. na AD. No entanto. mesmo aquele que se constitui de uma só palavra ou frase. Os textos resultam da atividade verbal de indivíduos socialmente atuantes. No entanto. há uma mudança de substância das coisas. ou a Terra se movimentando ao redor do Sol. Na AD. são levados em conta os elementos indispensáveis de sua produção: os interlocutores. e ato perlocutório. isto é. cada teoria tem objeto teórico diferente. o objeto teórico são as relações de textualidade. que podemos perceber com nossos sentidos. que é seu objeto empírico. ato ilocutório – tipo de ação que essa pessoa pratica com a emissão do enunciado. não um amontoado aleatório de enunciados. Dessa forma. que o tornam. no texto escrito. Todas as teorias linguísticas têm o mesmo objeto observacional: a linguagem. o contexto imediato e o contexto histórico. ou textualidade. só pode ser estudado no texto. consideradas as condições de sua realização. Assim. como um carro que se desloca de um ponto a outro. mas diferentes objetos teóricos. e seu objeto teórico é a textualidade. o texto. que o diferenciam de uma soma de frases. ele é intervalar porque o sentido é construído no espaço discursivo dos interlocutores. criativa. Vejamos o caso da Química e da Física.o efeito que essa pessoa pretende obter do destinatário com a emissão do enunciado. isto é. quando uma pessoa fala com outra.sentido. Vemos que o objeto observacional ou empírico é a fala de uma pessoa com outra. Mas esse objeto teórico. a linguagem tende para a textualidade. UESC Letras Vernáculas 59 Unidade I Aula 4 . Na AD. a teoria gerativa de Chomsky ignora o contexto da enunciação e se concentra no enunciado. 2001). O texto forma uma unidade significativa global e é marcado por um conjunto de relações. a serviço de fins sociais e. se insere numa situação de discurso. que compreende o desenvolvimento de estratégias concretas de ação e a escolha de meios adequados à realização dos objetivos (KOCH. . mas uma unidade que possui um todo significativo e acabado. Na Linguística Textual. o objeto teórico é o discurso que se manifesta no texto. A AD instaura um objeto teórico diferente. portanto. o texto. delimita como seu objeto teórico os fenômenos da natureza que não alterem a substância das coisas. que não se confunde com o mundo tal como o observamos. Assim. Na Linguística Textual. a Química delimita como seu objeto teórico os fenômenos da natureza que alterem a substância das coisas. ou seja. são objetos da Física porque nem o carro nem a Terra se transformam em outras coisas depois de realizarem seus movimentos. enquanto interação. na AD. A unidade fundamental da linguagem é o texto. Na Linguística Textual. além do quadro PARA REFLETIR As várias ciências podem ter um mesmo objeto empírico. O texto é uma unidade complexa de significação. o processo de queimar lenha em uma fogueira. suas relações internas e externas. o referente. enquanto um todo significativo e acabado. ele não é uma unidade completa de sentido. criando uma realidade particular da teoria. as duas teorias partem do mesmo objeto empírico. ATENÇÃO Observe que o objeto empírico é algo concreto. Por exemplo. por sua vez. Para o filósofo Austin. mas. é objeto da Química porque a madeira se transforma em cinzas. empiricamente. o discurso. uma soma de frases. A Física. o discurso se manifesta no texto. a vocação da linguagem é ser texto. sua discursividade. o objeto empírico ou observacional é o texto. mas. os movimentos das coisas no universo. a produção de texto é uma atividade verbal. consciente. ele é concreto. pelas quais um texto não é uma soma de frases. e pode ser percebido pela visão. Na Linguística Textual. No caso do texto. o texto é contínuo. o discurso. Ambas têm como objeto empírico observacional a matéria de que é constituído o universo. Trata-se de uma atividade interacional. pode ser percebido pela nossa audição. um mundo todo seu. a fala de uma pessoa realiza um ato assertivo que envolve três atos: ato locutório – a emissão do enunciado. inserida em contextos mais complexos de atividade. no texto oral. Por isso. mas elas têm objetos teóricos diferentes.

Mas se. Assim. 1996. para a AD. é o nível de superfície de manifestação do discurso. porque todos entendem o que significam. Mas as propriedades do texto. Nesse caso. é constitutiva da significação. o texto não é um objeto acabado. PARA REFLETIR Observe o conceito do que é texto: texto pode ser uma letra. portanto que é impossível delimitar um discurso. É preciso ver se. na AD. eu vejo pichadas num muro as letras H e M. naquela situação. O discurso machista. por sua vez. mas. 73). são aquelas que o constituem enquanto visto na perspectiva do discurso. se definem na sua inclusão em formações ideológicas” (ORLANDI. o discurso cristão. trata-se de um texto.Teoria da análise de discurso Texto e discurso das instituições em que o discurso é produzido. Nesta situação. dependendo da inserção do texto em uma ou outra formação discursiva. 1996. na AD. “Os processos discursivos se delimitam e se definem na sua inclusão em formações discursivas que. Então. Todo texto pode ser relacionado a uma Formação Ideológica. são partes de uma Formação Ideológica. a relação estabelecida pelos interlocutores. Então não temos mais um texto. uma frase ou uma grande sequência de frases. Para elas. o discurso é o objeto teórico enquanto o texto é o objeto empírico ou observacional. O texto. Vemos. Vamos supor que esse papel seja uma carta que eu recebi. manifestandose em textos. Na AD. nunca final. uma palavra. o texto é visto como um objeto acabado. é incompleto. 140). no final do salão. esse papel não tem nenhum sentido completo naquela situação de lavar roupa no rio. com a situação discursiva” (ORLANDI. p. Na prática. existem duas portas. “E esse todo tem compromisso com as tais condições de produção. elas indicam que ali são os banheiros para homens e para mulheres. o discurso comunista. com começo. p. mais concreto. com alguma coisa escrita. A AD parte do texto para remetê-lo imediatamente a um 60 Módulo 2 I Volume 8 EAD . de tal forma que o sentido se define por essa relação. e não de algo pronto e acabado. mas é possível delimitar um texto. em sua discursividade. que é algo mais abstrato e subjacente ao texto. ou seja. Cada Formação Ideológica dá origem a duas ou mais Formações Discursivas. enquanto o discurso é o objeto teórico. ao passar numa rua. são todos processos em curso na história e seu estado é sempre provisório. por sua vez. o objeto da explicação é o discurso e o objeto observável de análise é o texto. Na Linguística Textual. O texto é o todo que organiza os possíveis recortes que dele se possa fazer. o texto é uma unidade em cujo processo de significação também entra os elementos do contexto situacional. não significa que eu tenho um texto. a delimitação do discurso é impossível porque se trata de um processo em curso. na AD. meio e fim.Linguística III . porque é referido às suas condições de produção. isto é. p. por exemplo. o texto é visto na perspectiva do discurso. você entra em um restaurante e. Por exemplo. o texto é o objeto empírico. A relação do texto com a ideologia se dá pela Formação Discursiva de que ele faz parte. Como já visto. Os textos são partes de Formações Discursivas que. Na Linguística Textual. o fato de eu ter nas mãos uma folha de papel. “Isso quer dizer que. o texto é visto em suas relações de textualidade. Neste caso a letra H e a letra M são textos. 229). aí elas já não são textos porque não têm um sentido completo em tal situação. desde que tenham sentido completo numa dada situação. Mas vamos imaginar que o vento arranque esse pape da minha mão e esse papel seja levado até a um grupo de lavadeiras na beira do rio. respectivamente. aquela escrita no papel tem sentido completo. O conceito de discurso é o da linguagem em relação às suas condições de produção. 1996. Para a AD. mas. uma com a letra H e outra com a letra M. assim como o contexto. pode-se observar uma variação de sentido” (ORLANDI. essas duas letras têm sentido completo.

O texto se constitui. e se apreende a historicidade do texto. que é um processo inacabado. em termos finais. produz sentidos. 21). mas é uma prática simbólica histórico-social. faz aparecer o processo. por sua vez. com homem do lado.” Temos aí um texto acabado. A AD visa compreender como um objeto simbólico. Para se passar da superfície do texto ao processo discursivo. Por meio dessa análise é que se observa a materialização da ideologia na língua. é o primeiro passo para essa compreensão (ORLANDI. “É UESC Letras Vernáculas 61 Unidade I Aula 4 . Portanto. faz-se a operação de recorte. Compreender como um texto funciona é compreender como ele produz sentidos. há mais de dois mil anos. uma vez que há uma regularidade entre ambos de afirmar a inferioridade da mulher em relação ao homem. Vamos supor o enunciado: “Mulher no volante. passando da superfície linguística do texto ao processo discursivo. na perspectiva da AD. é um fazer. Este discurso já aparece em textos da bíblia. deriva de uma Formação Ideológica dominante numa dada conjuntura. mas nunca vamos poder delimitar. enquanto produto acabado. Ele não é um conjunto de textos. Este se delimita em suas regularidades pela referência a uma ou outra Formação Discursiva que. A transformação da superfície linguística do texto em um processo discursivo. o texto não é a soma de frases e não é fechado em si mesmo. nunca está acabado. é um processo em curso. 1999). 1999).discurso. isto é. portanto no processo de interação (ORLANDI. Mas o discurso é um processo. o discurso não é dado. isto é. o discurso machista. perigo constante. explicitando a discursividade que o constitui. e continua aparecendo hoje em numerosos textos. palpável. por exemplo. A análise de discurso tem como unidade o texto. a situação discursiva. Nesse modo de pensar a relação do discurso com o texto. ao estabelecer sua filiação a uma dada Formação Discursiva. podemos ligar esse texto à Formação Discursiva machista. Na perspectiva da análise de discurso. O discurso. enquanto enunciado. em que se procuram estabelecer unidades discursivas. perigo dobrado. O texto. saímos do texto. como em ditos populares sobre a mulher. o texto é definido pragmaticamente como a unidade complexa de significação. é uma prática. parte-se da variedade textual para a unidade do discurso. por princípio. Assim. consideradas as condições de sua produção. o analista. Enquanto o texto é concreto. pronto. Num trabalho de análise. ele supõe um trabalho do analista para ser alcançado (ORLANDI. O todo que é o texto se impõe sobre suas partes e tem a ver com as condições de produção. estabelecido. e entramos no processo discursivo. sua relação com uma conjuntura dada. acabado. como o texto. é um produto acabado e. não se fecha. através do discurso. Ao fazermos isso. enquanto objeto linguísticohistórico. podemos ter textos onde se manifesta o discurso machista. ATENÇÃO Observe que o texto é algo pronto. p. 1999. a relação das partes com o todo.

podemos observar a existência de dois discursos: o discurso contra o casamento entre homossexuais e o discurso religioso. para caracterizar um discurso é menos importante remeter a um conjunto de textos efetivos do que a um conjunto virtual. 1999).” Portanto. Assim. nunca poderemos reunir todos os textos efetivos que pertencem ao discurso machista. piora. O que poderemos fazer é observar a Formação Discursiva que domina o discurso machista e nos remetermos a um conjunto virtual de todos os textos que afirmem a superioridade do homem sobre a mulher. o que é impossível com pessoas do mesmo sexo. Um discurso é normalmente constituído de 62 Módulo 2 I Volume 8 EAD .Linguística III . numa pesquisa sobre o casamento gay. Vemos também que a relação entre esses dois discursos é de sustentação. Assim. de neutralidade aparente. A relação entre essas diferentes Formações Discursivas no texto podem ser de confronto. que o texto é a manifestação verbal do discurso. com seus implícitos e com o que não é dito. Nesse enfoque discursivo. Por exemplo. No exemplo já visto do discurso machista. portanto. de sustentação mútua. isto é. o discurso machista não é um conjunto de textos. além de sua relação com outros textos. esse todo em que se constitui o texto é de natureza incompleta. 2001. fazendo intervir na reflexão a ideologia” ( ORLANDI. não piora. p. Já vimos. de exclusão. o texto tem relação com o que não é dito e com outros textos. O discurso é um processo. podemos ter o seguinte texto: “Mulher não fica louca. de gradação etc. No exemplo acima. esse texto está relacionado a um outro que não é dito: “Homem fica louco. A sua delimitação não vem da análise dos textos machistas.” Observe que não aparece a palavra homem. na perspectiva da AD. Por isso.” Nesse texto. mas pensá-lo como unidade imaginária. 13). é uma prática. Todo discurso é dominado por uma Formação Discursiva e esta é um conjunto de regularidades numa prática discursiva. o discurso religioso sustenta o discurso contra o casamento gay. Além disso. um informante respondeu com o seguinte texto: “Sou contra o casamento gay porque Deus criou o casamento entre o homem e a mulher para a procriação. o texto tem relação com o que não é ele. não é um estado do qual se parte para a análise. mas da análise das regularidades enunciativas em sua produção (ORLANDI. o dos enunciados produzíveis conforme as regras de regularidade da Formação Discursiva.Teoria da análise de discurso Texto e discurso preciso não nos iludirmos com o texto enquanto unidade empírica. Mas ela está implícita. o que equivale a dizer que os discursos são lidos e ouvidos sob a forma de textos. isto é. Num mesmo texto podemos encontrar diferentes Formações Discursivas.

5) No texto da letra do hino nacional brasileiro. 4) Produza um texto de cinco linhas. o discurso sobre dietas para emagrecer e o discurso do PT são todos uma pluralidade de textos. Justifique. 1999. 3) Dê dois exemplos de textos formados por uma só palavra. O texto pode ser tomado como “uma unidade fechada e completa.uma pluralidade de textos. apenas enquanto objeto empírico de análise” (HANAUER. UESC Letras Vernáculas 63 Unidade I Aula 4 . como unidade que lhe permite ter acesso indireto à discursividade. relacionado à Formação Discursiva de incentivar a solidariedade internacional ao Haiti. p. em que apareçam o discurso condenando a corrupção dos políticos e o discurso de que esta corrupção é inevitável. 2) Recorte outro texto da mídia e mostre dois discursos contidos nele. 1999. que enunciados pertencem ao discurso sobre o povo brasileiro? 6) Produza um texto de. mas o texto como parte de um processo. naturalizada. objeto final de sua explicação. 50). O analista de discurso não visa interpretar os textos que analisa. ATIVIDADES 1) Recorte um texto da mídia e identifique um discurso contido nele. p. 142). E vimos também que um só texto “é normalmente atravessado por vários discursos” (CARDOSO. 36). mas compreender os processos de significação que estes textos atestam (ORLANDI. p. dez linhas. Mas a AD está interessada no texto não como unidade linguística disponível. no máximo. o discurso feminista. Por exemplo. 2001.

BRANDÃO. 138-148 KOCH. ORLANDI. As formas do discurso. tome 13. 2001. o objeto teórico são as relações de textualidade. afinal?. O texto e a construção dos sentidos. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. na Análise de Discurso. Helena Nagamine. FERREIRA.Linguística III . 1996. São Paulo: Contexto. enquanto o discurso é o objeto teórico. A Linguística Textual e a Análise de Discurso têm o mesmo objeto observacional empírico. Paris: Presses Universitaires de Vincennes. Análise de discurso. Marcelo. o texto é o objeto observacional. Campinas: UNICAMP. Um mesmo texto pode estar atravessado por diferentes discursos. o texto está relacionado aos implícitos. Campinas: Pontes. 2001. Porto Alegre: Sagra Luzzatto. Introdução à análise do discurso. Eni Puccinelli.    Na AD. Sílvia Helena Barbi. BORGES NETO. aos não ditos e a outros textos. 13-50. 1999. Princípios & Procedimentos. Campinas: Pontes. (Orgs. o texto.Teoria da análise de discurso Texto e discurso RESUMINDO Nesta aula você viu que:   Em Análise de Discurso. 1999. Jeane Maria. 1991. ed. In: Histoire Epistemologie Langage. 4. DASCAL. fascicule I 1991. Freda. 1995. ed. Campinas: Pontes. De que trata a lingüística. Belo Horizonte: Autêntica. p. 4. Ingedore V. Sexo seguro/voto seguro: a questão do sentido. HANAUER. 5. Discurso e Texto: formulação e circulação dos sentidos. A linguagem e seu funcionamento. In: INDURSKY. _____. _____. na Linguística Textual. CARDOSO. No entanto. todo texto pode ser relacionado a uma Formação Discursiva e a uma Formação Ideológica. ed. No enfoque discursivo.). Discurso e ensino. p. Maria Cristina Leandro. o objeto teórico são as relações de discursividade. 1999. REFERÊNCIAS 64 Módulo 2 I Volume 8 EAD . e. José.

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1234 unidade CONCEITOS TEÓRICOS DA ANÁLISE DE DISCURSO Aula 1 O sujeito Aula 2 Condições de produção e formações imaginárias Aula 3 Pré-construído e discurso transverso Aula 4 Heterogeneidade discursiva e polifonia .

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entender o que significa o autor em Análise de Discurso. distinguir bom sujeito de mau sujeito. identificar os tipos de esquecimento que afetam o sujeito. conceituar polifonia dialógica.aula 1 O SUJEITO Objetivos Ao final desta aula você deverá: • • • • • • • • • compreender o conceito de sujeito em Análise de Discurso. relacionar o conceito de Sujeito com lugar social. identificar nas teorias lingüísticas modernas as etapas da concepção de sujeito. estabelecer a diferença entre discurso direto e indireto. relacionar o conceito de Sujeito com ideologia. .

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Um dos conceitos importantes nessa teoria é o de Sujeito. 3. Enquanto objeto teórico. o objeto empírico é o texto e o objeto teórico é o discurso. na teoria da Análise de Discurso. em AD. Introdução à análise do discurso. 1995. com significados diferentes. Na teoria da enunciação. o sujeito é aquele que fala. eu. 1999.. (Ler capítulo sobre Sujeito) HALL.. como a sociologia e a antropologia. ed. Campinas: UNICAMP. em AD. dividimos a oração em dois termos essenciais: sujeito e predicado. N. Por isso. representado pelo pronome de primeira pessoa. 4. Helena H. Em sintaxe. Guacira Lopes Louro. que se relacionam. A maior dificuldade para se compreender o Sujeito. UESC Letras Vernáculas 71 1 . o discurso é parte de uma construção. Rio de Janeiro: DP&A. ed. Stuart. Em outras disciplinas científicas. englobando vários conceitos. vamos ver o conceito de Sujeito. Unidade II | Aula LEITURAS PRÉVIAS BRANDÃO. em outras teorias.AULA 1 O SUJEITO . A identidade cultural na pósmodernidade. o termo sujeito assume outros sentidos. é o fato de essa mesma palavra já ter sido usada antes. 1 INTRODUÇÃO Já vimos que o discurso se manifesta nos textos. em oposição a um tu. Ou seja. nesta aula. segundo os princípios da teoria da AD. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva.

A interpelação ideológica atual nos faz acreditar que sempre fomos esse único e mesmo sujeito. por meio do “eu”. elimina todos os outros a que já fomos submetidos antes. e é óbvio que nossa fala apenas representa esta realidade anterior. dizendo que você estava perdido. Ao ser assujeitado à Formação Discursiva evangélica e ao seu sujeito. você a está constituindo em outro. e o que aparece é um semprejá sujeito evangélico. e não mais como um folião animado. p. “sou eu”. Perguntamos a quem bate à porta: “Quem é?” e a resposta é simplesmente: “Sou eu!”. implantamos o outro diante de nós. Esse apagamento é inconsciente e o sujeito não tem acesso a ele. a resposta “sou eu” equivale a dizer “sou a pessoa que está falando!”. algo único. você vai lembrar-se do carnaval que brincou. somos assujeitados a diferentes discursos e sujeitos? Porque.Teoria da análise de discurso O sujeito 2 O SUJEITO A noção de sujeito. Este diálogo parece confirmar a evidência de que o sujeito é algo óbvio. 26). retoma um sentido preexistente” (ORLANDI. o sujeito carnavalesco é apagado. Mais uma vez. Na verdade. é óbvio que todos sabem quem somos e que a nossa fala apenas representa esse fato anterior. você seja convertido a uma igreja evangélica. dominado por Demônio etc. achamos que sempre-já fomos tal sujeito. se perguntamos: “Quem é?”. ao falar com sua mãe hoje. No entanto vai lembrá-lo agora como sujeito evangélico. Por que não notamos essas mudanças? Porque toda vez que somos assujeitados. acreditando ser a fonte exclusiva de seu discurso. tal resposta é um absurdo porque é evidente “que eu sou a única pessoa que poderia dizer “eu”. mas a forma como você a institui em outro. insubstituível e idêntico a si mesmo. Segundo Brandão (1995). A nossa crença ingênua é a de que é evidente quem somos. Para Benveniste (1989). quando alguém fala. varia a cada enunciação. na realidade. Embora não tenhamos consciência disso. sujeitos diferentes já constituímos para nós mesmos em nossa fala. na semana seguinte. ao longo de um mesmo dia. E isso não responde à pergunta. o indivíduo se apropria da língua e enuncia sua posição de locutor. vamos supor que você brinque o carnaval e. você acha que sempre-já era esse sujeito e. p. portanto. todos sabem quem é a pessoa com quem estou falando. nossa posição de locutor. Ao ser assujeitado à Formação Discursiva evangélica e ao seu sujeito. a nossa crença ingênua é a de que é evidente quem o outro é. ao mesmo tempo em que implanta o outro diante de si. Na verdade. aqui e agora.Linguística III . introduz a si mesmo em sua fala. 1996. Será que o que você chama hoje de “eu” é o mesmo sujeito em sua fala de criança ou adolescente? Por que não percebemos que. somos assujeitados a diferentes Formações Discursivas com seus sujeitos. enunciamos. essa ilusão não resiste à simples lembrança de quantos outros já instituímos para uma mesma pessoa. à primeira vista. 155). “O sujeito que produz linguagem também está reproduzido nela. Tal ilusão não resiste à simples lembrança de quantos PARA REFLETIR Ao longo de um mesmo dia. e com a mesma palavra eu. parece tratar-se de uma evidência. 1997. ao falar de mim mesmo” (PÊCHEUX. a concepção de sujeito nas teorias 72 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Por exemplo. a cada momento em que estamos assujeitados à forma-sujeito de um discurso. da mesma forma que o fazia quando criança? A pessoa é a mesma. Cada sujeito discursivo. toda vez que nos apropriamos da língua. Por exemplo. Novamente. A palavra eu significa apenas a pessoa que fala. na enunciação. que nos assujeita. o sujeito parece ter sido sempre-já esse sujeito. Ou seja. quando.. Ao mesmo tempo.

portanto. 27/01/2010. disse: “Nunca antes nesse país se viu um presidente fazer DISCURSO INDIRETO: é um discurso em que o locutor usa suas próprias palavras para relatar o que disse um outro locutor. troca entre o eu e o tu. Por exemplo. “Espaço Aberto” em 15/01/2010).] ao exaltar a importância da obra. é centrada no outro.. em que o locutor usa suas próprias palavras para remeter a uma outra fonte de “sentido”. uma apresentadora de debate na televisão (TV Globo.. p. predomina a idéia de interação. vemos um discurso direto. O centro da relação está no espaço discursivo criado entre ambos e o sujeito só se completa na interação com o outro. que c) Numa terceira etapa. na imitação etc. se referindo a Lula. Podemos ver o caráter contraditório do sujeito no discurso relatado. fortemente influenciada pela retórica... a ministra Dilma Roussef. em que a tarefa de convencer o tu determina o que o eu diz. segundo as convenções sociais. sobretudo político. o locutor joga com o outro discurso. que um locutor complexo e contraditório inscreve no seu discurso as palavras do outro. DISCURSO DIRETO: é o discurso em que o locutor recorta as palavras do outro e cita-as.linguísticas modernas passou por três etapas: a) Numa primeira etapa. mas nós vamos ganhar para poder ter continuidade. a ministra [Dilma Roussef] lembrou que a oposição já investiu contra os programas de transferência de renda do governo (.). como no texto acima. mas sem mostrar explicitamente.) foi a vez do presidente Lula: ‘Que me desculpem os adversários.. o sujeito passa a ter um caráter contraditório.. através do itálico ou de uma entonação específica. de harmonia conversacional. mostrando-as através das aspas. numa relação dinâmica entre identidade e alteridade. Por exemplo: [. Na segunda parte do mesmo texto. como nos exemplos acima. (VEJA.. Em outra solenidade no mesmo dia (. Marcado pela incompletude.. ou. há uma idéia de conflito. Essa concepção. em outros textos. o sujeito é ele e o outro. uma fronteira linguística nítida entre sua fala de locutor e a do outro. 56) Na primeira parte do texto acima. b) Numa segunda etapa.. o locutor recorta as palavras do outro e cita-as. . Na ironia. O sujeito é aquele que conversa tranquilamente com o outro. UESC Letras Vernáculas 73 Unidade II | Aula 1 exerce uma espécie de tirania sobre o eu. no discurso indireto livre. vemos um discurso indireto. Vemos.

A apresentadora não cita explicitamente o presidente Lula. não é o indivíduo que escolhe o que vai dizer no discurso. p. cada discurso já tem sua posição de sujeito. a priori. 1993. 55). um EU. a ideologia é que constitui esses indivíduos concretos em sujeitos. numa Formação Ideológica.Teoria da análise de discurso O sujeito tanta campanha política!” A expressão “Nunca antes nesse país” fora repetida por Lula. a depender da Formação Discursiva que os domine: “isto define o sujeito como uma posição. 62). p. mas pelo fenômeno da interação social verbal. “O discurso só é discurso enquanto remete a um sujeito. o sujeito não é a pessoa física que fala ou escreve. alguns meses atrás e fora objeto de comentários satíricos. realizada através da enunciação. 74 Módulo 2 I Volume 8 EAD . como um lugar vazio. isto é. espaciais” (MAINGUENEAU. tomados em uma conjuntura histórica determinada. O indivíduo da espécie humana só se torna sujeito quando é interpelado por uma Formação Ideológica e assujeitado a uma Formação Discursiva. p. Por isso. é a Formação Discursiva que determina o que o sujeito do discurso pode e deve dizer e o indivíduo a ela é assujeitado. em AD. fazendo com que todo sujeito ache que sempre já era indivíduo interpelado em sujeito. sujeitos falantes. “Isso quer dizer que os sentidos que produzimos não nascem em nós. Por isso. como sustância” (HENRY. podendo ser ocupada por indivíduos diversos. 2001. 1996. “O sujeito só constrói sua identidade na interação com o outro. como o sentido. podem concordar ou se afrontar. é constituído no discurso. e não como uma coisa em si mesma. temporais. o sujeito só é apreensível no discurso. Da mesma forma. Ou seja. O sujeito é uma certa posição sócio-histórica. E o espaço dessa interação é o texto” (BRANDÃO. p. Assim. O sujeito. 29) O indivíduo é o “não sujeito”. e vai se tornando uma relação dinâmica entre identidade e alteridade. Ao contrário. na qual os enunciadores são substituíveis. como estabeleceu Saussure. a concepção de sujeito vai perdendo a polaridade entre. assujeitados a tal Formação Discursiva. mas. a significação se dá no espaço discursivo constituído pelos dois interlocutores. A interpelação ideológica tem um efeito retroativo. sugerida e as vozes de ambos se imiscuem nos limites de uma única construção linguística. Nós os retomamos” (ORLANDI.Linguística III . 1995. 83). Vemos assim que a substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas. que é ocupado por diferentes indivíduos. nem é dado antes. por meio da ironia. Não é o sujeito que fala o discurso. Fica claro que. a voz do outro fica implícita. mas é este que fala aquele. ora o eu e ora o tu. que se coloca como fonte de referências pessoais.

no entanto. O espaço de sua constituição é tenso. No exemplo dado da Igreja. com diferentes Formações Discursivas. liderada pelo papa Bento XVI. 264). mesmo que ainda não sejam dominantes. 1999. Em outras palavras. dentro da mesma Formação Discursiva católica. No caso dos movimentos sociais brasileiros que lutam pela reforma agrária. Cai-se UESC Letras Vernáculas 75 Unidade II | Aula 1 tradicional dominante e seu sujeito. uma posição sóciohistórica em cada Formação Discursiva. Quando o sujeito da enunciação segue completamente a forma-sujeito da Formação Discursiva dominante. a Formação Discursiva dominante. Eles defendem. Muitos sujeitos católicos. especificamente seu. isto é. p. formação social e num dado momento. Aquele sujeito que não segue completamente a Formação Discursiva dominante é o chamado “mau sujeito”.2. um lugar que é único. e são. temos o discurso do MST e do MLT oferecem diferentes posições de sujeito. agindo e eventualmente interferindo no curso da história. MAU SUJEITO: é o sujeito da enunciação que não segue completamente a forma-sujeito da Formação Discursiva dominante. mas originadas a partir de novas interações já existentes na sociedade.1 Bom sujeito e mau sujeito As formas concretas da ideologia são realizadas nas instituições. dentro da mesma Formação Discursiva a favor da reforma agrária. é a tradicional. por exemplo. Por exemplo. anula a possibilidade de os sujeitos assumirem posições éticas. BOM SUJEITO: é o sujeito da enunciação que segue completamente a forma-sujeito da Formação Discursiva dominante. o discurso católico tradicional e o discurso católico que aceita a camisinha e o aborto. não seguem completamente à essa Formação Discursiva o uso da camisinha e do aborto. não originadas a partir de uma autoconsciência do sujeito. ele ocupa na Formação Discursiva que o determina. Cada Formação Discursiva não determina um sujeito único. SUJEITO: é um lugar vazio. com sua história particular. O conceito de sujeito totalmente subjugado anula toda e qualquer possibilidade de verdadeiros sujeitos. mas diferentes posições de sujeito. que é ocupado por diferentes indivíduos assujeitados a tal Formação Discursiva. na igreja católica de hoje. componentes que se manifestam Numa dada materialmente na linguagem” (LIMA. Ao mesmo tempo em que é interpelado pela ideologia. A identificação do sujeito do discurso com a Formação Discursiva que o domina é a forma-sujeito. “maus sujeitos” católicos. o sujeito interpelado e afetado pela ideologia. ele é chamado “bom sujeito”. Vemos que há uma contradição no interior dessa concepção de sujeito da AD: ele não é totalmente livre nem é totalmente submetido. oferecem diferentes posições de sujeito. E aí surgem as variações ideológicas. por isso. uma instituição social pode apresentar afrontamentos ideológicos. . A AD trabalha com um sujeito “atravessado pelo componente ideológico e inconsciente.

O processo de assujeitamento é inconsciente e o sujeito se coloca como fonte do que diz. Nesse processo de apagamento. dentro da instituição católica. Ao falar 76 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Mas não se trata de o indivíduo escolher este ou aquele discurso católico. o sujeito tem a ilusão de que é ele o criador absoluto do seu discurso. “O efeito-sujeito é constituído-produzido por um processo natural e sócio-histórico. Isso altera o equilíbrio de poder dentro da Igreja. Não se reconhece a natureza mutante do equilíbrio de poder e consequentemente a natureza dinâmica da estrutura social. diferentes discursos e sujeitos podem assujeitar os indivíduos. o sujeito rejeita e apaga. criando uma realidade discursiva ilusória. o sujeito se coloca como a origem do que diz. 1997. 65). (. Ao ser interpelado por uma Formação Ideológica e assujeitado a uma Formação Discursiva. numa dada instituição social. um indivíduo assujeitado a um discurso evangélico fundamentalista torna-se um sujeito que não tem mais acesso ao seu exterior. Pelo primeiro esquecimento. 1990).Teoria da análise de discurso O sujeito numa causalidade puramente mecânica: não se dá conta de como os regimes de poder se transformam em consequência do realinhamento de suas forças. conforme veremos a seguir. p. ao ser assujeitado hoje à Formação Discursiva católica. antes de ter se tornado evangélico.Linguística III . Por exemplo. Por esse esquecimento.2 Os esquecimentos O sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento. p. inconscientemente.) há o acobertamento da causa do efeito-sujeito. o sujeito sofre a influência das atuais condições de produção desse discurso. “qualquer elemento que o remeta ao exterior de sua Formação Discursiva” (BRANDÃO. 1995. inacessível ao sujeito. por causa dos esquecimentos.. ao mesmo tempo em que o constitui. Não se reconhece que os diversos elementos que constituem essas estruturas estão em permanente estado de tensão entre si (CARDOSO. considera-se sempre-já sujeito. Assim. fonte exclusiva do sentido de seu discurso. O “esquecimento” é o acobertamento da causa do sujeito no próprio interior do seu efeito.. No exemplo já visto da Igreja. o sujeito sofre a influência do momento histórico da enunciação. Trata-se de um esquecimento inconsciente e ideológico. 183). no próprio interior desse efeito-sujeito” (PÊCHEUX. Mas é constituído-reproduzido como interior sem exterior. 2. incluindo a existência da camisinha e de formas seguras de aborto. assim como a heterogeneidade das identidades sociais e das estruturas do discurso.

o texto produzido pelo fiel que defende o uso da camisinha e do aborto. central e origem do sentido. portanto. mas há também um sujeito não-católico. num nível anterior ao dessas escolhas linguísticas. se caracteriza por um funcionamento do tipo pré-consciente/consciente” (PÊCHEUX. que segue os dogmas centrais dessa religião. Já vimos que um texto pode ter vários discursos e. Só existe sujeito em um discurso. que ainda não havia se encontrado com Jesus. O esquecimento 1 é uma zona inacessível ao sujeito. por isso. tendo uma delas a relação de dominância sobre as outras. várias posições de sujeito. por parte do sujeito. O sujeito “esquece” que seu discurso resulta. e não um outro. Por isso o texto não tem um sujeito uno central. ilusoriamente. no interior da Formação Discursiva que o domina. de que foi assujeitado e. p. simultaneamente. sem exterior. Na medida em que o sujeito se corrige para explicitar a si próprio o que disse e formulá-lo mais adequadamente. “pode-se dizer que esta zona 2. UESC Letras Vernáculas 77 Unidade II | Aula 1 . porque é aí que este se constitui.sobre esse passado. E o sujeito é exatamente o que se apresenta como fonte do sentido do discurso. Ele fala como se sempre-já fosse um crente. No exemplo dado da Igreja católica. da interpelação ideológica e do assujeitamento à Formação Discursiva. por isso. A identificação fundadora do sujeito com a Formação Discursiva que o constitui e domina é que estabelece a unidade imaginária do sujeito. seleciona paráfrases. como as que defendem o uso da camisinha e do aborto. ele dirá que era uma ovelha perdida. mas se rebela contra algumas orientações da Igreja. ele é atravessado por várias Formações Discursivas. A Formação Discursiva estabelece. forma ou sequência. construído com a ideia de ser uno. com a ilusão de que o discurso reflete o conhecimento objetivo que tem da realidade. Por outro lado. um corpo biológico. ocupando várias posições enunciativas. Esse esquecimento permite a operação linguística que todo falante faz entre o que é dito e o que deixa de ser dito e dá ao sujeito a ilusão de que o discurso reflete o conhecimento objetivo que tem da realidade. que segue os dogmas centrais. mas é uma dispersão de sujeitos. Por causa desses esquecimentos. de que foi assujeitado e. reformulação tendenciosa e o uso manipulatório da ambiguidade. ESQUECIMENTO nº 2: é o esquecimento. se coloca como a fonte exclusiva do sentido de seu discurso. dentro da Formação Discursiva dominante. reformulálo e usar estratégias discursivas. como interrogação retórica. É por este segundo esquecimento que o sujeito-falante ‘seleciona’. o sentido (o que o sujeito pode e deve dizer) e o próprio sujeito. o discurso é uma dispersão de textos porque pode estar atravessado por várias Formações Discursivas. 1997. o sujeito é. O segundo esquecimento se caracteriza pela possibilidade de o sujeito retomar seu discurso para explicar a si mesmo. O sujeito não tem substância fora do discurso. mas a PARA REFLETIR Observe que o sujeito não é uma pessoa física. O sujeito pode penetrar conscientemente na zona do esquecimento 2. por um retorno de seu discurso sobre si. FUCHS. um enunciado. 177). No caso do discurso católico hoje. numa estratégia discursiva. por parte do sujeito. ESQUECIMENTO nº 1: é o esquecimento. que é a dos processos de enunciação. Os traços que determinam o sujeito são reinscritos no discurso do próprio sujeito. é uma dispersão de sujeitos: há um sujeito católico.

portanto. vemos um enunciado do discurso em defesa do papa e da Igreja católica. o mesmo discurso católico pode aparecer em variados textos ortodoxos. Este sujeito dominante cria um efeito discursivo que deriva do princípio do autor. A Formação Discursiva dominante é a de defesa do papa e da Igreja católica. origem e coerência de suas significações.Teoria da análise de discurso O sujeito Formação Discursiva tradicional exerce uma relação de dominância sobre as outras.3 O autor Como é que o texto. o sujeito da Formação Discursiva dominante estabelece um efeito discursivo que unifica coerentemente as significações. O autor. Assim. não é o indivíduo que fala ou que escreve. em cada texto. excluindo os possíveis 78 Módulo 2 I Volume 8 EAD . sendo uma dispersão de sujeitos e discursos. segundo a AD. como unidade. disse durante o sermão desta sextafeira na Basílica de São Pedro que os ataques à Igreja Católica e ao papa sobre escândalos de abuso sexual podiam ser comparados à ‘violência coletiva’ contra os judeus. 2. por meio de uma comparação. que dá unidade ao discurso. mas é como um princípio de agrupamento do discurso. há uma Formação Discursiva e um sujeito dominantes. Apesar dos diferentes discursos em um texto. em que só aparece a Formação Discursiva tradicional dominante. em defesa do papa e da Igreja católica. Nesse texto. como unidade. O princípio do autor é o elemento que centraliza. uma vez que ela determina um efeito discursivo que unifica coerentemente. A agência de notícias Reuters. divulgou o seguinte texto: O pregador pessoal do papa.Linguística III . que ordena. outras Formações Discursivas diversas. origem e coerência de suas significações. em AD. além da tradicional dominante. vemos um enunciado do discurso sobre escândalos de abuso sexual na Igreja católica e vemos um enunciado do discurso sobre a violência coletiva contra os judeus. Ele funciona como um princípio de agrupamento dos discursos. sob a forma do texto. e em variados textos não-ortodoxos em que aparecem. pode nos parecer como tendo uma unidade textual? É porque. comparando as críticas feitas à Igreja pelos escândalos de abuso sexual à violência coletiva contra os judeus. o discurso sobre escândalos de abuso sexual e o discurso sobre a violência coletiva contra os judeus. é uma função do sujeito desse discurso dominante. O autor. uma das ordens reguladoras do discurso. padre Raniero Cantalamessa.

Podemos ver isso no seguinte diálogo: “Você é ateu?” E o outro responde: “Sou ateu. Este princípio limitaria o acaso do discurso. mas tal como existe socialmente. de toda fala estar atravessada pela fala do outro (BRANDÃO. entre a dispersão do sujeito e a vocação totalizante do locutor em busca da unidade e coerência textuais. 1995. 92). oposto a um discurso monológico.elementos desviantes da forma individual do eu. limites fossem dispostos de maneira dirigida. como unidade. mas é um efeito discursivo. para que sua desordem fosse organizada e controlada. Há discursos que se “fingem” monológicos. enquanto produtor da linguagem. Refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso do outro. O autor é a função enunciativa do sujeito que está mais determinada pela exterioridade (contexto sócio-histórico) e mais afetada pelas exigências de coerência. a fonte absoluta do UESC Letras Vernáculas 79 Unidade II | Aula 1 eu constrói. “O sujeito da linguagem não é o sujeito em si. sua descontinuidade e sua desordem. Assim. . o sujeito não é a origem. Vemos. todo discurso tem dentro dele outro discurso. entre a incompletude e o desejo de ser completo. barragens. uma vez que toda palavra é dialógica. sua proliferação. nem totalmente assujeitado. portanto que. O sujeito falante tem as seguintes funções enunciativas: a) locutor – aquele que se representa como eu no discurso. o sujeito é marcado por contradições. não-contradição. como um princípio de agrupamento do discurso. graças a Deus!” O sujeito não é totalmente livre. Dessa forma. origem do sentido. 91). p. origem e coerência de suas significações. foi retomado posteriormente por Ducrot que lhe deu um tratamento lingüístico.4 Polifonia Essa noção do sujeito que se desdobra e assume vários papéis no discurso nos remete ao conceito de polifonia dialógica. responsabilidade. AUTOR: não é o indivíduo que fala ou escreve. porque tudo que é dito é um “já-dito”. A polifonia conceito elaborado inicialmente por Bakhtin que o aplicou à literatura. entre o caráter polifônico da linguagem e a estratégia monofonizante de um locutor marcado pela ilusão do sujeito como fonte. Tudo se passa como se interditos. b) enunciador – é a perspectiva. p. 1995. A autoria é necessária para qualquer discurso e é o que dá origem à textualidade. o ponto de vista que esse c) autor – é a função social que esse eu assume. interpelado pela ideologia” (BRANDÃO. 2. na AD.

O autor. Comente a diferença entre indivíduo e sujeito. mas é como um princípio de agrupamento do discurso. Você acha que pode existir a fala de um sujeito. 3. O sujeito não é a pessoa física que fala ou escreve. Pelo primeiro esquecimento. numa relação dinâmica entre identidade e alteridade. como unidade. marcado pela incompletude. porque na sua fala outras falas se dizem.Teoria da análise de discurso O sujeito sentido.   80 Módulo 2 I Volume 8 EAD . fonte exclusiva do sentido de seu discurso. quem é o sujeito desse discurso? Por quê? RESUMINDO Nesta aula. Recorte algum texto em que aparece o sujeito usando as possibilidades do esquecimento 2. O sujeito é marcado por contradições. a priori. 2. nem é dado antes. criando uma realidade discursiva ilusória. sem estar assujeitado a nenhuma formação discursiva? Explique. a origem do sentido do que diz. não é o indivíduo que fala ou que escreve. ATIVIDADE 1. O sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento.Linguística III . acreditando ser a fonte exclusiva de seu discurso. O segundo possibilita o sujeito retomar seu discurso para explicar a si mesmo. Em suas falas. 4. constitutivo do sujeito. Todo discurso é dialógico. Explique o esquecimento 1. origem e coerência de suas significações. Recorte algum texto e destaque a polifonia existente. em AD. você viu que:         O sujeito que produz linguagem também está reproduzido nela. A ilusão discursiva do sujeito consiste em pensar que é ele a fonte. A Formação Discursiva determina o que o sujeito do discurso pode/ deve dizer e o indivíduo a ela é assujeitado. Quando um pastor evangélico e um padre católico recitam juntos a oração do “Pai Nosso”. ao longo do dia. 5. 7. você acha que permanece sempre o mesmo sujeito de um mesmo discurso? Por quê? 6. O sujeito tem um caráter contraditório. o sujeito se coloca como a origem do que diz.

Mariani et al. ed. 1993. Campinas: Editora da UNICAMP. (Coleção Repertórios). In: INDURSKY. Michel. 2001. 1993. Campinas: Pontes. Campinas: Pontes. HAK. UESC Letras Vernáculas 81 Unidade II | Aula 1 . (Coleção Repertórios). 2010. Campinas: UNICAMP. ORLANDI.) Por uma análise automática do discurso. C. In GADET. 1995. de Souza Silva. ed. FUCHS. 1989. Mariani et al. p. (Orgs. FERREIRA. LIMA. 3. Belo Horizonte: Autêntica. Tradução de Tetrania S. MAINGUENEAU. Campinas: Editora da UNICAMP. A linguagem e seu funcionamento. O Aparelho Formal da Enunciação. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. T. HENRY. 2. Porto Alegre: Sagra Luzzatto.reuters. 1999. Décio Rocha. Maria Cristina Leandro (Orgs. A propósito da Análise Automática do Discurso: Atualização e Perspectivas (1975). 1999. Michel. http://br. 13-38.BENVENISTE. ed. Discurso e ensino. Helena Nagamine.com/article/topNews/idBRSPE632014201 00403 Acesso em: mar. 1996. Dominique. Freda. Silvana Mabel Serrani. Tradução de Eduardo Guimarães et al.) Por uma análise automática do discurso. BRANDÃO. REUTERS. p. REFERÊNCIAS CARDOSO. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. HAK. Lourenço Chacon Jurado Filho. Manoel Luiz Gonçalves Corrêa. ed. Françoise. As formas do discurso. In: GADET. Regina Bimbi. Campinas: UNICAMP. Tradução de Tetrania S. Paul Os Fundamentos Teóricos da Análise Automática do Discurso de Michel Pêcheux. 2. Tradução de Cecília P. O enunciado: pontos de deriva possíveis.). São Paulo: Cortez. Introdução à análise do discurso. Semântica e discurso. 258-270. Análise de textos de comunicação. Uma crítica à afirmação do óbvio. Émile. 4. Françoise. (Orgs. PÊCHEUX. PÊCHEUX. Eni Puccinelli. In: ____. ed. Sílvia Helena Barbi. 1997. 163-235. p. T. Problemas de lingüística geral II. 4.

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................................................................................................................................................................................................................................................ ................................................................................................................................................................................................................................Suas anotações ......................................................................... ............................................... .................................................................................................................................................. ...................................... ........................................................................................................................... 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identificar as condições materiais de produção em que o sujeito está inserido. relacionar o discurso ao seu contexto sóciohistórico. • • • • estabelecer a diferença entre condições de produção e formações imaginárias. relacionar condições de produção com Formações Imaginárias.aula 2 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO E FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS Objetivos Ao final desta aula. você deverá: • conceituar condições de produção e compreender sua relação com o contexto históricosocial. .

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1 INTRODUÇÃO Já vimos que o sujeito se coloca no discurso. simultaneamente ao sentido. através das Formações Imaginárias. N. são partes constitutivas da prática discursiva. Também as condições de produção. Campinas: UNICAMP. as condições de produção são instituídas no e pelo discurso. Unidade II | Aula LEITURAS PRÉVIAS BRANDÃO. ed. A realidade referencial. e não são estudadas fora dele. Para a AD.. como elementos anteriores e exteriores. estão postos no discurso. o contexto imediato e o contexto sócio-histórico.AULA 2 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO E FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS . UESC Letras Vernáculas 85 2 . mas todos são estabelecidos discursivamente. Introdução à análise do discurso.. Ao contrário. o sujeito e o destinatário não antecedem objetivamente o discurso. incluindo os interlocutores. 1995. cabendo a este apenas refleti-lo. 4. Helena H.

a mesma declaração pode ser uma arma temível ou uma comédia ridícula segundo a posição do orador. sujeita ao equívoco e à história. as instituições fazem parte da ordem de uma formação social. dentro de uma conjuntura sócio-histórica. os interlocutores formam as condições de produção desse discurso. o discurso deve ser visto em relação com a exterioridade que o constitui. A língua é sujeita ao equívoco e à historicidade. as instituições e as Formações Imaginárias. p. Ele está. o sujeito está inserido em determinadas condições materiais de produção de sentido. mas na relação com a exterioridade. “os sentidos não estão só nas palavras. Portanto. por realizar-se na interação verbal entre locutores socialmente situados. 30). “A linguagem. e do que ele representa. a língua. p. ou seja. as condições de produção são constitutivas da linguagem” (ABREU. o que anuncia. 77). bem ou mal. pois. em relação ao que diz: um discurso pode ser um ato político direto ou um gesto vazio. p. para “dar o troco”. Dessa forma. nas condições em que eles são produzidos e que não dependem só das intenções dos sujeitos” (ORLANDI. é porta-voz de tal ou tal grupo que representa tal ou tal interesse. ou então está ‘isolado’ etc. situado no interior da relação de forças existentes entre os elementos antagonistas de um campo político dado: o que diz. As condições de produção implicam a língua. não pode ser considerada independentemente da sua situação concreta de produção” (CARDOSO. p. as instituições sociais numa dada estrutura social e as formações imaginárias. o que é uma outra forma de ação política (PÊCHEUX. isto é. 1999. O sujeito funda a estratégia do discurso sobre uma antecipação que faz dessas imagens do destinatário. 86 Módulo 2 I Volume 8 EAD . As palavras não significam por si.Teoria da análise de discurso Condições de produção e formações imaginárias 2 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO E FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS Para a AD francesa. 1993. o contexto histórico-social. e as Formações Imaginárias correspondem à imagem do lugar social que o sujeito e seu destinatário atribuem a si mesmos e ao outro. o deputado pertence a um partido político que participa do governo ou a um partido da oposição. 25). Assim. o discurso é produzido por um sujeito interpelado pela ideologia e situado na história.Linguística III . 11). nos textos. Por isso “a linguagem é sempre relacionada à sua exterioridade. Estas produzem imagens dos sujeitos e do objeto do discurso. promete ou denuncia não tem o mesmo estatuto conforme o lugar que ele ocupa. Assim. Um discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas: por exemplo. a situação. 1999a. mas pelas posições que ocupam as pessoas que as falam.

Os protagonistas do discurso. p. acham-se representadas por uma série de ‘formações imaginárias’ que designam o lugar que destinador e destinatário atribuem a si mesmo e ao outro. um desses elementos pode se tornar dominante. portanto. mas a representação imaginária de determinados lugares. num discurso sobre o tema “liberdade”. 36). dir-se-á que o processo de significação é histórico” (ORLANDI. Ou seja. Finalmente. do professor. do aluno. As Condições de Produção são constitutivas do discurso em vez de serem meros complementos. o elemento dominante nas condições de produção é a ordem da formação social. no interior de uma instituição escolar há ‘o lugar’ do diretor. 26). uma relação necessária entre o dizer e as condições de produção desse dizer. é a imagem que o paciente faz de si mesmo. assim. em relação à liberdade: ele se acha livre? Ele se vê preso a medos? Condições de produção é a ligação entre as “circunstâncias” de um discurso e seu processo de produção (PÊCHEUX. as condições históricas são inerentes às condições de produção. 1996.Nas condições de produção de um discurso. na produção do discurso. 1999b. cada um marcado por propriedades diferenciais. na estrutura de uma formação social. Assim. 1993). Lugar deve ser compreendido enquanto espaço de representações sociais que é constitutivo da significação discursiva. No discurso que o diretor de uma prisão faz sobre o mesmo tema. principal. Há. o elemento dominante são as imagens que o paciente faz de si mesmo. porque o sujeito professor vai estar voltado para a representação que os alunos fazem dessa palavra. não são pessoas físicas individuais. “Quando se diz algo. conforme já visto. as relações entre esses lugares. objetivamente definíveis. “liberdade”. No discurso. que se acrescentam dados históricos para melhor delimitar a significação. Por isso. UESC Letras Vernáculas 87 Unidade II | Aula 2 o elemento dominante são as Formações Imaginárias porque o . a língua. p. a formação social e as Formações Imaginárias. a língua vai ser o elemento dominante nas condições de produção desse discurso. numa aula de filosofia. a imagem que eles fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro (BRANDÃO. alguém o diz de algum lugar da sociedade para outro alguém também de algum lugar da sociedade e isso faz parte da significação” (ORLANDI. “Não se dirá. numa terapia psicológica. porque tudo está condicionado pela imagem que os detentos formarão do representante do regulamento através de seu discurso. naquele momento histórico. isto é. 1995. Por exemplo. no discurso de um terapeuta sobre “liberdade”.

incluem: a) um locutor. não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como estão inscritos na sociedade que funcionam 88 Módulo 2 I Volume 8 EAD . A fala do professor vale mais que a do aluno.Teoria da análise de discurso Condições de produção e formações imaginárias p. É preciso considerar sua enunciação como o correlato de um certo lugar na estrutura da sociedade e sua representação no imaginário históricosocial. 1999a). na construção do sentido no discurso. Assim. aquele que diz e as suas razões para dizer. E essas relações de força são constitutivas dos sentidos nos discursos (ORLANDI. o discurso é determinado pelas circunstâncias imediatas: o aqui e o agora da enunciação. estabelecidas no interior do discurso. ato de discurso. de pai. do outro e do referente. Se o sujeito fala a partir do lugar de professor. os interlocutores. Aparecem através de formações imaginárias. os interlocutores. imaginariamente. numa determinada língua: é preciso que se escolham as estratégias para se dizer o que se tem a dizer para quem se tem o que dizer. a imagem que fazem de si. esses lugares sociais não aparecem no discurso objetivamente. Existem regras de projeção que estabelecem as relações entre as situações objetivas na formação social e as posições. do CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO: são constitutivas do discurso e incluem o contexto histórico-social. suas palavras significam de modo diferente do que se falasse do lugar do aluno. constitutiva da própria significação. de sacerdote etc. ao quadro das instituições em que é produzido. b) um alocutário: é preciso que se tenha para quem dizer o que se tem a dizer. locutor e alocutário atribuem um ao outro. o lugar de onde falam. relações de força. Portanto. de aluno. O padre fala de um lugar em que suas palavras têm uma autoridade determinada junto aos fiéis. f) um contexto em sentido lato: o discurso é sujeito às determinações histórico-sociais. que são representações dessas situações no discurso. sustentadas pela hierarquia dos lugares. As condições de produção incluem o contexto históricosocial. As relações sociais são FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS: são as posições. c) um referente: é preciso que se tenha o que dizer. e) um contexto em sentido estrito. a imagem que fazem de si e do outro e do referente. Por exemplo. isto é. g) os lugares sociais que. o lugar de onde falam. a relação que liga os sentidos às condições em que eles são produzidos é uma relação necessária. 18). de político. representações das situações concretas. Em outras palavras. tal como podem ser descritos pela sociologia. através de regras de projeção. o lugar de professor.Linguística III . O lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz. Essas condições de produção mostram que as escolhas de quem diz não são aleatórias. d) uma forma de dizer. Entretanto.

o escopo do discurso” (ORLANDI. Antônio se coloca a seguinte questão: o que a Receita acha da minha declaração. segundo o efeito que pensa produzir em seu ouvinte” (ORLANDI. 1999a. o que era um lugar social empírico. o que regula a possibilidade de respostas. Entre os protagonistas do discurso é estabelecido um jogo de imagens. O locutor tem uma imagem de si mesmo. juiz etc. como professor. Faz parte da estratégia discursiva “prever. 26). 39). Logo. 1996. Em toda língua há regras de projeção que permitem ao sujeito passar da situação empírica para a posição discursiva. Esta antecipação do que o outro vai pensar é constitutiva do discurso. mas suas imagens que resultam de projeções. fundar as estratégias do discurso (CARDOSO. situar-se no lugar do ouvinte. O jogo de imagens entre protagonistas do discurso é uma das condições de produção desse discurso. ou de outro. 1999. de acordo com essa antevisão do ‘imaginário’ do outro. padre. Esse jogo “regula a argumentação. antecipando representações. São essas projeções que permitem passar dos lugares empíricos para as posições dos sujeitos no discurso. Vamos imaginar que o cidadão Antônio tenha recebido uma correspondência da Receita Federal. pedindo esclarecimentos sobre rendas não declaradas. As relações entre esses lugares acham-se representadas no discurso por uma série de ‘formações imaginárias’ que designam o lugar que destinador e destinatário atribuem a si mesmo e a ao outro. p.no discurso. A Receita Federal. de tal forma que o sujeito dirá de um modo. a imagem que fazem do referente. para me enviar esta correspondência? O jogo de formações imaginárias não para por aí e pode se tornar muito sofisticado.. O emissor pode antecipar as representações do receptor e. Antônio se pergunta: o que a Receita acha que eu penso sobre minha declaração. ele tem uma imagem de si UESC Letras Vernáculas 89 Unidade II | Aula 2 . a partir de seu próprio lugar de locutor. p. Quando o juiz profere a sentença a um réu. p. 39). se transforma numa posição no discurso. para que me mande essa correspondência? Então ele imagina que a Receita tem uma imagem de que sua declaração sonegou imposto. por sua vez. se coloca a seguinte questão: enviando esta correspondência a Antônio. o que ele vai pensar sobre o que eu acho da declaração dele? Depois de ler a correspondência.

1999).Teoria da análise de discurso Condições de produção e formações imaginárias mesmo: “Quem sou eu para lhe falar assim?” Tem uma imagem do réu: “Quem é ele para que eu lhe fale assim?” E tem uma imagem do objeto do discurso. “Quem é ele para me falar assim?” e “Do que ele está me falando?” É. por sua vez. só pode ser a declaração do imposto de renda. ou temas correlatos. pois. também é uma condição de produção do discurso. através das formações imaginárias que o governam (DORNELES. e não as figuras concretas do juiz e do réu. No contexto. cada um faz antecipações das imagens que o outro está fazendo. ideológico 90 Módulo 2 I Volume 8 EAD . p. em que o imaginário tem sua eficácia. podemos fazer as seguintes distinções (ORLANDI. faz as mesmas perguntas a si mesmo: “Quem sou eu para que ele me fale assim?”. O gênero dessa correspondência. Outra condição de produção são as restrições que determinam os objetos e os temas. Além disso. um ofício formal. de enunciação c2 – no sentido lato: contexto sócio-histórico. o único tema de uma correspondência da Receita Federal para qualquer cidadão ou empresa. todo um jogo imaginário que preside a troca de palavras entre os dois. Vemos que. No exemplo acima. o contexto. o lugar de juiz é mais forte que o lugar de réu.Linguística III . 219): a) Contexto linguístico ou co-texto b) Contexto textual c) Contexto de situação c1 – no sentido estrito: contexto imediato. que é a sentença: “Do que estou lhe falando?” O réu. O sujeito do discurso estabelece relações com suas condições reais de existência. As identidades resultam desses processos de identificação. Na relação discursiva são essas imagens que constituem as diferentes posições. nas relações de força. 1996. Impossível a Receita mandar ao contribuinte um poema sobre o tema do amor.

RESUMINDO Nesta aula. que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora. isto é. nas ruas. não / eu voltarei. você viu que:     O sujeito está inserido em determinadas condições materiais de produção de sentido. campos e construções / somos todos soldados. que fornalha / no meu pé de prantação / por falta d’água perdi meu gado / morreu de sede meu alazão // Quando o verde dos teus zóio / se espaiá na prantação / eu te asseguro. 4) O que é lugar social? Dê exemplo. em que consistem as condições de produção do discurso? 2) O que são as Formações Imaginárias? 3) Distinga condições de produção sócio-históricas do discurso de suas condições de produção imediatas. o contexto. não chore. as flores no chão / a certeza na frente. a língua.  O sujeito do discurso estabelece relações com suas condições reais de existência. a imagem que fazem de si e do outro e do referente. As condições de produção incluem o contexto histórico-social. na música “Asa Branca”. 6) Comente as condições de produção do discurso sobre as dificuldades enfrentadas pelo nordestino. UESC Letras Vernáculas 91 Unidade II | Aula 2 . 5) Comente as condições de produção do discurso político contido no texto da letra da canção de Geraldo Vandré: “Para não dizer que não falei de flores”: Caminhando e cantando e seguindo a canção / somos todos iguais. vamos embora. armados ou não // Vem. a história na mão / caminhando e cantando e seguindo a canção / aprendendo e ensinando uma nova lição. de Luiz Gonzaga: Quando eu vi a terra ardendo / qual fogueira de São João / Eu perguntei a Deus do céu / por que tamanha judiação // Que braseiro. meu coração // Hoje longe muitas léguas / nessa triste solidão / espero a chuva cair de novo / pra eu voltar lá pro meu sertão. / nas escolas. amados ou não / quase todos perdidos de armas na mão / nos quartéis lhes ensinam antigas lições / de morrer pela pátria e viver sem razão // Os amores na mente. Condições de produção é a ligação entre as “circunstâncias” de um discurso e seu processo de produção.ATIVIDADE 1) De modo geral. braços dados ou não. não espera acontecer// Há soldados armados. o lugar de onde falam. os interlocutores.  Não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como estão inscritos na sociedade que funcionam no discurso. O discurso deve ser visto em relação com a exterioridade que o constitui. mas suas imagens que resultam de projeções. as instituições e as Formações Imaginárias. através das formações imaginárias que o governam.

1999a ______. DORNELES. Freda. Helena H. 1996. Françoise. Campinas: Pontes. 61-105. FERREIRA. Campinas: Editora da UNICAMP.Linguística III . ed. 1993. p. Elizabeth Fontoura. BRANDÃO. São Paulo: Cortez.). Sílvia Helena Barbi. 1999. Por uma análise automática do discurso. (Coleção Repertórios). 4. 4. Escola e Escola on line: alguns efeitos do discurso pedagógico midiatizado. Tradução de Tetrania S. 1999. Ana Sílvia Couto de. ed. 2. ______.). ORLANDI. Michel. In: GADET. 149-172. REFERÊNCIAS 92 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Mariani et al. (Orgs. N. CARDOSO. Discurso e ensino. HAK. Campinas: UNICAMP. PÊCHEUX.Teoria da análise de discurso Condições de produção e formações imaginárias ABREU. In: INDURSKY. Porto Alegre: Sagra Luzzatto. As formas do discurso. Discurso e leitura. ed. 2006. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Campinas: FE/UNICAMP. Belo Horizonte: Autêntica. Eni Puccinelli. O discurso do MST: um acontecimento na estrutura agrária brasileira. A linguagem e seu funcionamento. ed. Campinas: Pontes. 1995. Princípios & Procedimentos. 1999b. Análise de discurso. Análise Automática do Discurso (AAD-69). Tese de doutorado. Maria Cristina Leandro (Orgs. p. Introdução à análise do discurso. T. 4. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas.

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........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................Suas anotações ................................................. ........................................................................ .............................................................................................................................................................................................................................................. 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• estabelecer a diferença entre interdiscurso e intradiscurso. você deverá: • • relacionar transverso.aula 3 PRÉ-CONSTRUÍDO E DISCURSO TRANSVERSO Objetivos Ao final desta aula. identificar o pré-construído sob forma de discurso transverso nos enunciados discursivos. pré-construído e discurso .

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. 1997. Semântica e discurso. vindos do interdiscurso. tem fronteiras indefinidas e mantém relações dinâmicas com seu interdiscurso. No entanto. ed. Michel.. Nesta aula. 1 INTRODUÇÃO Já vimos que as condições de produção. o sujeito não tem consciência dos pré-construídos e considera “naturais” as discrepâncias que eles apresentam.AULA 3 PRÉ-CONSTRUÍDO E DISCURSO TRANSVERSO . Unidade II | Aula LEITURAS PRÉVIAS PÊCHEUX. UESC Letras Vernáculas 97 3 . Manoel Luiz Gonçalves Corrêa. 3. como se já tivessem sido dito antes. acreditando ser a fonte única de seu discurso. Isso mostra que a Formação Discursiva não é um espaço fechado. são constitutivas do discurso. através das formações imaginárias. Campinas: UNICAMP. vamos ver que a Formação Discursiva dominante incorpora enunciados préconstruídos. Silvana Mabel Serrani. Ao contrário. Uma crítica à afirmação do óbvio. Lourenço Chacon Jurado Filho. Ler da página 258 à página 279. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi.

produzidos fora dela. como se esse elemento já se encontrasse aí. provindas do interdiscurso. fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais. vemos que o pré-construído é ideológico. que o pré-construído é uma construção que se opõe ao que é construído na enunciação. p. o sujeito não tem consciência do pré-construído. tem caráter de verdade evidente e é um elemento produzido em outro(s) discurso(s). “Todo discurso mantém uma relação essencial com elementos pré-construídos” (BRANDÃO. p. Vemos. 1993. vindo do exterior e anterior para constituí-la. de pré-construídos e discursos transversos” (PÊCHEUX. de uma reconfiguração. a absorver elementos pré-construídos. como já-dito-em outro lugar. Ele não só “esquece” a fonte do seu discurso como também esquece que a esqueceu. Entretanto. 1995. O interdiscurso está intricado nas formações ideológicas e é formado pelo todo complexo das Formações Discursivas. Assim. p. no qual uma Formação Discursiva é levada. associando-os a seus próprios elementos. que. Assim. de outras Formações Discursivas. o sujeito assume como dado.Teoria da análise de discurso Pré-construído e discurso transverso 2 O PRÉ-CONSTRUÍDO Conforme já visto. sob a forma. enquanto irrompe nesta. anterior ao discurso em estudo.Linguística III . Ele é o lugar INTERDISCURSO: é o exterior específico de uma Formação Discursiva. portanto. o que é domínio de uma prática anterior. para constituí-la. 314). embora tenha sido assujeitado a este. recusam e transformam outras formulações” (MAINGUENEAU. Como sua Formação Discursiva é “invadida” por outras Formações Discursivas. 1993. “a toda formação discursiva é associada uma memória discursiva de formulações que repetem. todo discurso é dominado por uma Formação Discursiva. Podemos ver pré-construídos originados de discursos 98 Módulo 2 I Volume 8 EAD . em função dos seus interesses ideológicos. vindo do exterior e anterior. que se repetem nela. o sujeito se coloca como fonte do seu discurso. 115). 91). a partir de uma posição dada e numa dada conjuntura. 1986. pois é constitutivamente “invadida” por elementos “que vêm de outro lugar. Esses elementos de outras Formações Discursivas “invasoras” fazem parte do interdiscurso. enquanto irrompe nesta. isto é. por meio de discursos transversos. e incorporando-os na evidência de um novo sentido. uma Formação Discursiva não é um espaço estrutural fechado. Conforme já visto. pelo esquecimento-1. 6). Dessa forma. De uma forma mais geral. p. por exemplo. é “um traço do interdiscurso” (MALDIDIER. independentemente dele. que é o exterior específico de uma Formação Discursiva. determina o que pode e deve ser dito.

“como todo mundo sabe” e “como todo mundo pode ver”. Portanto. é levada. p. em geral. independentemente dele. Por exemplo. Esses interesses ideológicos correspondem à visão do discurso colonialista de que os baianos e. em outro lugar. O discurso transverso se origina no interdiscurso e é formulado no intradiscurso por meio da articulação. nunca teremos uma indústria forte em Salvador. devido à interferência do pré-construído. vemos que. sob aparência de autonomia. de um elemento originário do discurso estereotipado sobre o baiano. Essa repetição ou modificação não é intencional. isto é.. em outro momento. do discurso estereotipado sobre o baiano. no discurso sobre a industrialização em Salvador. a expressão “todo baiano é preguiçoso” é um préconstruído. impondo e dissimulando seu assujeitamento.estereótipos. isto é. originário do discurso estereotipado sobre o baiano: Como todo baiano é preguiçoso. consciente nem imediata. A articulação corresponde simultaneamente às expressões “como dissemos. O discurso não nasce da vontade do sujeito enunciador. 1999. racional e planejado. são incapazes de fazerem um trabalho produtivo. elementos pré-construídos. independentemente. O exemplo acima mostra um pré-construído no discurso sobre a industrialização de Salvador. o interdiscurso pode ser definido como aquilo que fala antes. e com a qual o destinatário estaria de acordo. e determina o sujeito do discurso sobre a industrialização de Salvador. anterior e exterior ao discurso em foco sobre a industrialização. se origina do interdiscurso. como se fosse uma coisa sabida por todos. expressões e proposições..Como todo baiano é preguiçoso. a palavra “baiano” pode ser substituída por “preguiçoso”. nunca teremos PRÉ-CONSTRUÍDO: é um elemento produzido em outro(s) discurso(s) anterior ao discurso em estudo. Isso aparece na superfície do discurso. Observe que não há preocupação em provar que “todo baiano é preguiçoso”.”. Ao contrário. UESC Letras Vernáculas 99 Unidade II | Aula 3 em função dos interesses ideológicos que ela representa. expressões e proposições. “que atravessam o discurso sob a forma de discurso transverso” (MITTMANN. mais precisamente. na Formação Discursiva sobre a industrialização em Salvador. podemos ver o seguinte enunciado: . os povos colonizados. no interior de uma Formação Discursiva dada. como se fosse uma coisa já dita antes. A Formação Discursiva sobre a industrialização em Salvador. Sabendo-se que “efeito de sentido” é a relação de possibilidade de substituição entre palavras. no interior de uma Formação Discursiva. produzidos no discurso estereotipado sobre o baiano. EFEITO DE SENTIDO: é a possibilidade de substituir palavras. a absorver . no exemplo acima. 271). Ele nasce de um trabalho sobre outros discursos que ele repete ou modifica. é oculta ao sujeito enunciador e se dá através do pré-construído e da articulação de enunciados do interdiscurso. Por isso. Todo discurso mantém uma relação essencial com elementos pré-construídos.

Assim.. O governo anterior era liderado por um conhecido político. como se não precisasse levar em conta a opinião dos outros.. terra de todos nós. como todo mundo sabe e como todo mundo pode ver. o discurso institucional do governo anterior: A Bahia no caminho certo.. que equivale às expressões: como já dissemos. sem que o sujeito se dê conta delas: (. – sobre a metafísica e o aparelho religioso: ‘Deus tem todas as perfeições exceto uma: ele não existe’. isto é.Linguística III . isto é.) a história do mau sujeito que telefona ao diretor da escola para pedir dispensa da aula e responde: ‘É meu pai!’ à questão ‘quem fala?’..sobre a repetição ideológica: ‘Não há mais canibais em nossa área. Este enunciado pertence ao discurso institucional do governo. o discurso não provém de uma única fonte. mas por um contemporâneo desconhecido que tinha o mesmo nome’.Teoria da análise de discurso Pré-construído e discurso transverso uma indústria forte em Salvador. mas é heterogêneo. a voz do slogan anterior ainda ressoa no atual. se responsabilizando pelo que diz. como todo mundo sabe e como todo mundo pode ver. no seio do processo de formulação do discurso institucional do governo. Esse domínio de memória pode ser definido como um conjunto de sequências discursivas que existem antes da enunciação da sequência discursiva em questão. agora. Assim. tome a posição de que todo baiano é preguiçoso. que se pode entender os efeitos de sentido que 100 Módulo 2 I Volume 8 EAD . criticado por seu estilo autoritário. O pré-construído aparece sob a forma de discurso transverso: todo baiano é preguiçoso. Pêcheux (1997. Isso faz com que o sujeito do discurso sobre a DISCURSO TRANSVERSO: é a formulação do pré-construído no fio do discurso. a frase principal do discurso desse governo era auto-afirmativa. – sobre o aparelho cultural e o culto aos Grandes Homens: (. em seu “domínio de memória”. ‘X não acreditava em espíritos e chegava mesmo a não ter medo deles. são duas formas de o interdiscurso manifestar-se no intradiscurso. destacando que a Bahia. Pré-construído e articulação. Um exemplo de pré-construído pode ser visto no atual slogan do governo da Bahia: Bahia.) ‘As obras de Shakespeare não foram escritas por ele. industrialização “funcione”. que dele se apodera a fim de a ele se opor.’. 181) cita alguns exemplos de discrepâncias provocadas pelo pré-construído. É a partir do domínio de memória. Observe que é como se esse discurso transverso estivesse articulado pelas expressões: como já dissemos. p. semelhante ao dos antigos coronéis rurais. através da articulação. comemos o último na semana passada’. se achando em “total consciência” e em “total liberdade. etc. portanto. leva em conta a participação de todos os seus habitantes. . Dessa forma. Do pré-construído e da articulação surge o efeito da evidência: o que todos sabem e todos podem ver. que tem em seu interdiscurso. O tema do discurso atual se opõe ao anterior.

O sujeito enunciador é produzido como se interiorizasse de forma ilusória o pré-construído que sua formação discursiva impõe. numa mistura surpreendente de absurdo. e o eixo “horizontal”. no seio de um processo. em condições dadas. uma relação entre o interdiscurso e o INTRADISCURSO: é o funcionamento do discurso com relação a si mesmo. dizendo. Dessa forma.flickr. e o que se está intradiscurso. ou seja. com a ilusão de ser a origem do que diz. terra de todos nós. o interdiscurso se materializa no intradiscurso.com/photos/drrosinha/4850974178/lightbox/ Figura 2 http://www.com/photos/joseserra/4791290469/sizes/o/in/photostream/ Toda formulação discursiva está colocada na interseção de dois eixos: o “vertical”.no familiar – Bahia. o que eu digo agora. As duas frases principais se ligam por uma relação de antagonismo (ORLANDI. aqui e agora. onde teríamos todos os dizeres já ditos e esquecidos. com relação ao que eu disse antes e ao que vou dizer depois. 1999).são produzidos pelo tema do discurso atual. organizando e ajustando sua formulação. Há uma relação entre o já-dito. Há um retorno do estranho – A Bahia no caminho certo . O “domínio de memória” representa o interdiscurso como instância de construção de um discurso transverso que regula o modo de doação dos objetos de que fala o discurso e regula o modo de articulação desses objetos (MAINGUENEAU. Esse ajuste acaba por desaparecer aos olhos de quem o enuncia. 1993). do pré-construído. fornece os objetos para a enunciação do tema do discurso atual. garantindo que o sujeito apareça como um eu. no interdiscurso (ORLANDI. que oculta o primeiro eixo e é aquilo que estamos dizendo naquele momento dado. O interdiscurso. O discurso do governo anterior disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito do governo atual significa. uma vez que os dois dialogam entre si. e de evidência. da linearidade do intradiscurso. por meio do slogan do discurso anterior. Figura 1 http://www. 33). o slogan anterior. p.flickr. DOMÍNIO DE MEMÓRIA: é um conjunto de sequências discursivas que preexistem à enunciação da sequência discursiva em questão. uma vez que os dois slogans se opõem. A formulação do tema atual está determinada pela relação que se estabelece com o anterior. no atual. representando o dizível. UESC Letras Vernáculas 101 Unidade II | Aula 3 . 1999.

posso agradecer a Deus por ser ateu”. embora pense que é a fonte autônoma do que diz. “como já dissemos.Linguística III . permite compreender melhor certas contradições em nossa fala. “como todo mundo sabe. sob a forma de discurso transverso. Podemos dizer que o discurso ateísta foi “invadido” pelo interdiscurso. por qual outra palavra ela pode ser substituída. assujeitado a ela. por um enunciado pré-construído do discurso religioso. E como o sujeito do discurso ateísta não percebe o absurdo do que diz? Não percebe porque o sujeito é interpelado pela Formação Discursiva dominante. de linha francesa. 6) Explique um efeito de sentido para a palavra Brasil. não deixo minha mulher ir sozinha a uma festa!” 2) No discurso da questão anterior. e “como todo mundo pode ver.Sou ateu. 3) Como é feita a articulação do pré-construído em discurso transverso. por meio das expressões implícitas: “como já dissemos”. explique o efeito de sentido. mais precisamente.Teoria da análise de discurso Pré-construído e discurso transverso PARA REFLETIR A teoria da Análise de Discurso. isto é.Você é ateu? . isto é. Graças a Deus! Observe que há uma discrepância no segundo enunciado. no discurso dado na primeira questão acima? 4) Que sequência. no discurso da primeira questão. Nesse discurso. 102 Módulo 2 I Volume 8 EAD . ATIVIDADE 1) Identifique o pré-construído. a articulação transforma o pré-construído em discurso transverso. no hino nacional brasileiro. Ou seja. pertence ao domínio de memória do discurso em foco? 5) Produza um texto de no máximo cinco linhas em que apareça um pré-construído. sob a forma de discurso transverso. “como todo mundo sabe” e “como todo mundo pode ver”. a substituição possível para a palavra “mulher”. posso agradecer a Deus por ser ateu”. posso agradecer a Deus por ser ateu”. no seguinte enunciado discursivo: “Como toda mulher é falsa. Imagine o seguinte diálogo: .

. de outras Formações Discursivas. vindo do exterior e anterior.”.. isto é. Intradiscurso é o funcionamento do discurso com relação a si mesmo. através da articulação. independentemente. no interior de uma Formação Discursiva dada. com relação ao que eu disse antes e ao que vou dizer depois. para constituíla. tem caráter de verdade evidente e é um elemento produzido em outro(s) discurso(s).  O interdiscurso é o exterior específico de uma Formação Discursiva.   O discurso transverso se origina no interdiscurso e é formulado no intradiscurso por meio da articulação. em condições dadas.. outro lugar. independentemente deste. o que eu digo agora.” e “como todo mundo pode ver.    O discurso transverso é a formulação do pré-construído no fio do discurso. da linearidade do intradiscurso. portanto.. onde teríamos todos os dizeres já ditos e esquecidos. no seio de um processo. e o eixo “horizontal”. pois é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm do interdiscurso. anterior ao discurso em estudo.”. representando o dizível.  O interdiscurso pode ser definido como aquilo que fala antes.  Domínio de memória é um conjunto de sequências discursivas que preexistem à enunciação da sequência discursiva em questão . A articulação corresponde simultaneamente às expressões “como dissemos. em UESC Letras Vernáculas 103 Unidade II | Aula 3 . Pré-construído e articulação.  Toda formulação discursiva está colocada na interseção de dois eixos: o “vertical”. enquanto irrompe nesta. que oculta o primeiro eixo e é aquilo que estamos dizendo naquele momento dado.. do pré-construído.  Efeito de sentido é a relação de possibilidade de substituição entre palavras. expressões e proposições.  O pré-construído é ideológico.. “como todo mundo sabe.RESUMINDO Nesta aula. você viu que:  Uma Formação Discursiva não é um espaço estrutural fechado. são duas formas de o interdiscurso manifestar-se no intradiscurso.

1993. In: INDURSKY. In: GADET. Langages. 271-277. Françoise e HAK. (Orgs. (Coleção Repertórios). Campinas: UNICAMP. Maria Cristina Leandro. Tradução de Freda Indursky.) Por uma análise automática do discurso. FERREIRA. ed. Discurso e leitura. T. REFERÊNCIAS MALDIDIER. 5-7. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. A Michel Pêcheux. ORLANDI. Manoel Luiz Gonçalves Corrêa.). Campinas: Pontes. 4. Novas tendências em análise do discurso. A Análise de Discurso: Três Épocas (1983). Mariani et al. p.Teoria da análise de discurso Pré-construído e discurso transverso MAINGUENEAU. In: _____ (Org. ed. 3. Silvana Mabel Serrani. Dominique. 1993. 1997. 2a ed. Uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi. Solange. 104 Módulo 2 I Volume 8 EAD . ed. Tradução de Tetrania S. p. 311-318. 1999. Freda. MITTMANN. PÊCHEUX. ______. 2. Eni Pulcinelli. Michel.). Nem lá. Semântica e discurso. Lourenço Chacon Jurado Filho. Mars 1986. 1986.Linguística III . Porto Alegre: Sagra Luzzatto. 81. Unicamp. p. Paris: Larousse. (Orgs. Denise. nem aqui: o percurso de um enunciado. 1999. Campinas: Editora da UNICAMP. São Paulo: Cortez.

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identificar os discursos indiretos livres . diferenciar os discursos diretos e indiretos.aula 4 HETEROGENEIDADE DISCURSIVA E POLIFONIA Objetivos Ao final desta aula. você deverá: • • • relacionar heterogeneidade discursiva e polifonia.

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Unidade II | Aula LEITURAS PRÉVIAS VOLOSHINOV. originário do interdiscurso. N. São Paulo: Hucitec. vamos aprofundar a noção de heterogeneidade e de polifonia discursivas. 1 INTRODUÇÃO Já vimos que o pré-construído. 1997. Nesta aula. através das sequências implícitas: como já disse antes. UESC Letras Vernáculas 109 4 . ed. Yara Frateschi Vieira.AULA 4 HETEROGENEIDADE DISCURSIVA E POLIFONIA . por meio do discurso transverso. constitui uma heterogeneidade. no intradiscurso.. Marxismo e filosofia da linguagem. isto é. Tradução de Michel Lahud.. De certa forma. o pré-construído. 8. se torna discurso transverso. como todo mundo sabe e como todo mundo pode ver. através da articulação. V. entretanto. com a entrada de novas vozes no discurso.

decisão”. Além do discurso indireto e do discurso direto. recorta as palavras do outro e cita-as. Os enunciadores são seres cujas vozes estão presentes na enunciação sem que se lhes possa. na antífrase etc. atribuir palavras precisas. efetivamente eles não falam. “aquilo que subjaz a ele e liga o seu mesmo com o seu outro” (CARDOSO. Trata-se de uma relação radical entre o interior do discurso e seu exterior (MAINGUENEAU. e pode ser não mostrada. sem que se lhes possa. na ironia. No texto acima. aspas. 1999.) lembro a história deliciosa do aborígene que. usa de suas próprias palavras para remeter a uma outra fonte do sentido” (BRANDÃO. o locutor. ENUNCIADOR: é o ser cuja voz está presente na enunciação.. uma vez que o outro é dado a conhecer sem uma marca unívoca. No discurso direto. lhe disse: ‘Você e sua gente não são muito espertos. entretanto. p. como no discurso indireto livre. como no discurso direto. O enunciado acima apresenta dois “locutores”. O enunciador coloca-se como tradutor do ministro e usa suas próprias palavras para remeter ao sentido dado pelo ministro: “pediu a eles que referendassem sua DISCURSO INDIRETO: ocorre quando o locutor. uma heterogeneidade constitutiva que não se encontra na organização linear do discurso.Teoria da análise de discurso Heterogeneidade discursiva e polifonia 2 HETEROGENEIDADE DISCURSIVA A heterogeneidade se refere à origem do sentido no discurso e é o seu diferente. 1995. apresentar pistas recuperáveis na superfície do discurso. Além disso. como podemos ver abaixo: (. p. isto é. entretanto. mas no interdiscurso. Por isso. 1993). A heterogeneidade pode ser mostrada. mas a enunciação permite expressar o su ponto de vista.. colocando-se como porta-voz. outra forma de heterogeneidade marcada.Linguística III . Uma forma bem conhecida de heterogeneidade marcada é o chamado discurso indireto em que o locutor. itálico. colocando-se enquanto tradutor. 17/02/2010. ao escrever. existem outras formas marcadas de conotação autonímica. Um exemplo pode ser visto na reportagem de Veja (17/02/2010. o enunciador narrador. é globalmente produzido por um deles. 18). mas a enunciação permite expressar seu ponto de vista. glosas. 58). vemos que a expressão “história deliciosa” expressa um ponto de vista do enunciador narrador. em que o 110 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Efetivamente eles não falam. p. 43): “O ministro pediu a eles que referendassem sua decisão”. p. atribuir palavras precisas. aquele que se constitui em falante. DISCURSO DIRETO: ocorre quando o locutor. a heterogeneidade constitutiva não é analisável. recorta as palavras do outro e cita-as. o enunciador narrador e o aborígene. “colocando-se enquanto tradutor. porque precisam de todas essas ferramentas simplesmente para andar no mato e observar os animais’ (VEJA. 50). colocando-se como porta-voz. contratado para guiar o cientista carregado de instrumentos refinados. usa de suas próprias palavras para remeter a uma outra fonte de sentido.

ou de afrontamento. mas considero muto conservadoras as posições do papa Bento XVI”. porque precisam de todas essas ferramentas simplesmente para andar no mato e observar os animais”. o comentário a seguir apresenta uma relação de afrontamento: “Sou católico. As palavras aspeadas marcam a presença do outro. 58). Um exemplo de heterogeneidade por meio de aspas já foi visto acima: (. Ou UESC Letras Vernáculas 111 Unidade II | Aula 4 . 90). não há ruptura sintática: a expressão aspeada e em itálico é ao mesmo tempo usada e mencionada. “As aspas designam a linha de demarcação que uma Formação Discursiva estabelece entre ela e seu exterior” (MAINGUENEAU. do itálico ou de uma entonação específica. 1993. pensou ela (www. ou ainda por meio de um comentário. a uma outra formação discursiva.. A heterogeneidade pode ser considerada o elemento constitutivo de práticas discursivas “que estão numa relação de aliança.. assinalando-as por meio das aspas. que pretenderia não estabelecer relação com o exterior. Como exemplo de heterogeneidade marcada. Isso mostra que uma Formação Discursiva se estabelece entre estes dois limites: um discurso totalmente entre aspas. ou de uma remissão a um outro discurso. funcionando como marcas de uma atividade de controle-regulagem do processo de comunicação. para indicar o pensamento de um personagem: Isto não pode estar acontecendo.locutor inscreve no seu discurso.) [o aborígene] lhe disse: “Você e sua gente não são muito espertos. Elas pertencem ao espaço enunciativo exterior. p. são atribuídas a um outro espaço enunciativo. do qual nada é assumido. num certo estado de luta ideológica e política” (CARDOSO. 1999. um ajustamento. Por exemplo. o do aborígene. as palavras do outro. uma glosa. e um discurso sem aspas. ele pode ser usado em romances. cuja responsabilidade o locutor não quer assumir. As aspas mantêm os termos aspeados à distância e constituem sempre um sinal a ser decifrado pelo interlocutor. que utiliza caracteres cursivos. sem que haja interrupção da sequência linear. isto é. Itálico é um tipo de letra. wikipedia). p. Na palavra entre aspas e em itálico.

São exemplos de glosas: “como dizem os especialistas”. Eduarda foi comida entre lágrimas. “para falar como os pedagogos” etc. Nesse caso. da imitação e da reminiscência. Na Wikipédia. outras visões de mundo. mas expresso pelo narrador. 1999. é o seu interdito. as vozes se misturam numa única construção linguística. As glosas podem ser interpretação e comentário sobre o sentido de um texto e marcam a heterogeneidade. o que constitui heterogeneidade discursiva. É. uma heterogeneidade não mostrada. 112 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Um domingo encontrou Eduarda na mesa do almoço. mas todo o mundo come e ainda acha bom (Fernando Sabino. Podemos encontrar ainda formas mais complexas. “se podemos dizer”. O Encontro Marcado). pernas para o ar. vemos o exemplo abaixo: Quando Eduardo ia para o grupo. O discurso indireto livre é uma modalidade de técnica narrativa. Por meio dele. a insistência do outro como lei do espaço social e da memória histórica.Linguística III . as “posições” muito conservasoras têm origem no papa e não no sujeito do discurso. e do personagem. 58). É o caso do discurso indireto livre. não há uma fronteira linguística nítida entre a fala do locutor e a do outro. sofrem.Teoria da análise de discurso Heterogeneidade discursiva e polifonia seja. da ironia. sem ser explicitamente mostrado ou dito. em que a fonte do sentido resulta de uma mistura do sujeito do discurso. em que a presença do outro não é explicitada por marcas na frase. em que se joga com o outro discurso. ausência. da antífrase. semi-desvelado ou sugerido. falta. diferenciando-se do outro. Um dia o pai lhe disse que aquilo era maldade: ‘Gostaria que fizessem o mesmo com você? As galinhas também sofrem’. mas também o que eles não falam. outras ideologias” (CARDOSO. o outro é justamente o que promove a abertura do discurso para outras posições. não apenas reproduzir indiretamente falas dos personagens. ficando implícito. da alusão. que é o narrador. ”Interdito. Cada glosa se apresenta como a exibição de um debate com as palavras. o que foi preciso ser sacrificado para que o discurso pudesse construir sua identidade. o outro deve ser concebido independente do plano enunciativo porque ele é constitutivo de todo discurso. trata-se de um monólogo interior. assada. Na heterogeneidade. Enquanto comentário. o narrador pode. Nesses casos. sonham. resultante da mistura dos discursos direto e indireto. mas pensam. “dizendo de outro modo”. do interior do discurso. O locutor procura construir uma imagem de si mesmo. mas sem transparência. deixava-a debaixo da bacia. desejam etc. as glosas já foram mostradas no exemplo do parágrafo anterior. p.

é: “burra como uma porta”. este enunciado não pode ser atribuído univocamente ao personagem ou ao narrador. em vez de o sujeito do discurso. quando ali ocorrem frequentemente assaltos. deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. O seu ponto de vista.O enunciado: “É. mas todo o mundo . a fonte do sentido. Observe que há duas fontes de sentido. o come e ainda acha bom. que relata as alocuções. UESC Letras Vernáculas 113 Unidade II | Aula 4 que é contestado pelo personagem: “É. “burra como uma porta”. bem tratada. e outra fonte que diz: burra como uma porta. um amor. o narrador. portanto. O duplo sentido da palavra DISCURSO INDIRETO LIVRE: mistura os discursos direto e indireto. três séculos de família. que a ironia subverte a fronteira entre o que é assumido pelo enunciador. O narrador disse antes que a galinha fora comida “entre lágrimas”. sofrem. De forma semelhante. três séculos de família. No exemplo acima. um amor”. mas todo o mundo come e ainda acha bom” representa uma reflexão do personagem. bem tratada. havendo uma discordância entre a voz do enunciador narrador. sofrem. mas todo o mundo come e ainda acha bom”. um amor.” Entretanto. O narrador reproduz indiretamente falas dos personagens e também o que elas pensam. Por exemplo. Tal ponto de vista é: moça linda. A fonte do sentido é uma mistura do sujeito do discurso. bem tratada. na verdade. mas não o ponto de vista que elas representam. a antífrase consiste na utilização de uma palavra com o sentido contrário àquele que tem normalmente. o enunciador narrador assume apenas as palavras. e do personagem. Vemos. nele ambos se misturam. e o que não é assumido por este: “moça linda. bem tratada. não se pode entender o discurso indireto livre: “É. p. 1993. tráfico de drogas e assassinatos. Na verdade. O discurso indireto livre só pode ser identificado no contexto. portanto. três séculos de família. fora do contexto do menino que gostava da galinha e a vê assada na mesa. como podemos ver esse exemplo: “Moça linda. sofrem. Nele ouvimos misturadas as vozes do narrador e a voz do personagem. três séculos de família. sonham e desejam. 77). burra como uma porta: um amor!” (Mário de Andrade). A ironia consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa. e a do personagem cujas alocuções são relatadas. “Um enunciado irônico faz ouvir uma voz diferente da do enunciador que expressa um ponto de vista insustentável” (MAINGUENEAU. uma que diz: moça linda. sendo este. nomear uma favela de “Paraíso”. sem que haja uma marca linguística distinguindo os dois.

é uma maneira de organizar a relação com o que se imagina . 1993. formulando hipóteses. Heterogeneidade mostrada incide sobre as manifestações explícitas. como POLIFONIA: ocorre quando é possível distinguir. “Refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso do outro. que várias vozes emergem do interior de um mesmo enunciado. o governo não quer mais decidir. em uma enunciação dois tipos de personagens. 1999. mas que a AD pode definir. quando tratamos da heterogeneidade. de toda fala estar atravessada pela fala do outro” (BRANDÃO. através do interdiscurso. Já vimos acima. 75).Linguística III . 1995. pelo posto (MAINGUENEAU. o pressuposto não é assumido. Depois foi retomado por Ducrot que lhe deu um tratamento linguístico. p. os enunciadores e os locutores. no exemplo dado: “É. há um enunciador sustentando que “o governo decidia antes”. e há um outro enunciador que se lhe opõe. indevidamente. sofrem. recuperáveis a partir de uma diversidade de fontes de enunciação. é uma “evidência” ideológica. Desta forma. atualmente. exterior. mas apenas uma crença representada no discurso. p. 141). p. mas todo o mundo come e ainda acha bom”. o primeiro responsável pelo pressuposto. E1 e E2. Vamos ver agora o caso da pressuposição. O sujeito não possui total controle sobre o que diz e como diz. ao afirmar que. a propósito da constituição de uma formação discursiva” (MAINGUENEAU. 114 Módulo 2 I Volume 8 EAD .Teoria da análise de discurso Heterogeneidade discursiva e polifonia indica uma dupla fonte de sentido no discurso. 91). . 1993. e o segundo. O discurso se constitui pelo trabalho do sujeito e de suas vozes e o sujeito se constitui pelo trabalho do discurso. uma relação radical entre seu “interior” e seu “exterior”. “O sujeito é apenas o suporte e o efeito” porque no discurso há uma relação radical de seu interior com seu exterior (HANAUER. “Heterogeneidade constitutiva aborda uma heterogeneidade que não é marcada em superfície. 3 POLIFONIA A polifonia é quase sinônimo de heterogeneidade e é um conceito que foi elaborado inicialmente por Bakhtin que o aplicou à literatura. não é o objetivo reconhecido da enunciação. 79). Vemos. p. No enunciado: “O governo não quer mais decidir”. que consiste em um processo de apresentar dois enunciadores. portanto que heterogeneidade do discurso é um funcionamento. A heterogeneidade do sujeito e do discurso mostra que a unidade do texto é aparente. Isso mostra a pluralidade do sujeito como origem do discurso e aponta para uma característica fundamental do discurso: a polifonia.

De um lado. posição de que se sabe. auto-destruidora. exterior. sendo o ponto de vista manifestados nas palavras atribuídos a uma outra personagem. fazer ironia não é negar de maneira mimética o ato de fala anterior ou virtual. Na ironia. Assim. “Esta estranha combinação de uma adesão e de uma recusa pode ser tratada em termos de polifonia. a posição absurda é diretamente expressa (e não mais relatada) na enunciação irônica e ao mesmo tempo ela não é atribuída ao enunciador. mas também de enunciação paradoxal. Por ‘locutor’ entende-se um ser que no enunciado é apresentado como seu responsável. na qual o sujeito invalida sua própria enunciação (MAINGUENEAU. em todo o caso.Podemos dizer que há polifonia quando é possível distinguir. o ponto de vista assumido é: “burra como uma porta”). uma enunciação irônica põe em cena uma personagem que enuncia algo de deslocado e do qual o locutor se distancia. “Trata-se de uma ficção discursiva que não coincide necessariamente com o produtor físico do enunciado” (MAINGUENEAU. um amor” quando. Tratase assim para mostrar que o enunciador se distancia com respeito ao ponto de vista absurdo (MAINGUENEAU. aliás. que é a origem do ponto de vista expresso na enunciação. 1993. faz-se ouvir uma voz distinta daquela do locutor: nessa perspectiva. apresentar a enunciação como expressando a posição de um enunciador. p. p. realizando-a simultaneamente. já que este só é responsável pelas palavras. o locutor não é assimilado ao enunciador. 1996). ele a considera absurda. enunciação. Assim. 1996. Ele se coloca como uma espécie de imitador dessa personagem que se exprime de maneira incongruente (dizendo. O enunciado irônico é diretamente expresso (não é uma citação) sem ser por isso da responsabilidade do sujeito da enunciação. mais que isso. “moça linda. em uma enunciação dois tipos de personagens. 99). de um outro. por exemplo. que o locutor não assume a responsabilidade e. os enunciadores e os locutores. É negar a sua própria enunciação. vista acima. bem tratada. 76). falar de modo irônico é para um locutor. Mesmo sendo dado como o responsável pela UESC Letras Vernáculas 115 Unidade II | Aula 4 . três séculos de família.

p. por noite. Haja massagista. Temos mais duas canções para estourar. o Rebolation (que as pessoas dançam como se estivessem equilibrando um bambolê). Quebradinha e Balacobaco. Os programas de TV estão todos atrás de nós”. 21. E ouvido.Linguística III . conta que. inventor do maior hit de Salvador neste ano. “E isso foi só o começo. chegou a entoar trinta vezes a música em cima do trio elétrico — sempre com o tanquinho à mostra. Cite e comente um enunciado em que aparece heterogeneidade não mostrada. informa. 74) Retire do texto: a) Um caso de heterogeneidade mostrada. O baiano (que mais?) LÉO SANTANA. Cite e comente um exemplo de discurso indireto. 24/02/2010. Escreva um pequeno texto irônico. (VEJA. c) Um caso de discurso direto. Cite e comente um exemplo de discurso direto. 116 Módulo 2 I Volume 8 EAD . d) Um caso de discurso indireto. b) Um caso de ironia. quase 2 metros de altura. Observe o seguinte texto: Ele rebolou tanto na semana do Carnaval que precisou chamar uma massagista para dar conta dos quadris doloridos. Cite e comente um exemplo de discurso indireto livre.Teoria da análise de discurso Heterogeneidade discursiva e polifonia ATIVIDADES 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) Cite e comente um enunciado em que aparece heterogeneidade mostrada.

você viu que:   A heterogeneidade se refere à origem do sentido no discurso. isto é.  A polifonia refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso do outro. não apresentar estas pistas. pelo posto. de toda fala estar atravessada pela fala do outro. O discurso indireto livre é uma modalidade de técnica narrativa. A heterogeneidade pode ser mostrada. a uma relação radical entre seu interior e seu exterior. e não mostrada. colocando-se como porta-voz. o primeiro responsável pelo pressuposto. são atribuídas a um outro espaço enunciativo. mas também o que eles não falam.   As glosas podem ser interpretação e comentário sobre o sentido de um texto e marcam a heterogeneidade. isto é.  A ironia consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa. As palavras aspeadas marcam a presença do outro. resultante da mistura dos discursos direto e indireto. o locutor. o narrador pode. e o segundo. o locutor. isto é. cuja responsabilidade o locutor não quer assumir.   No discurso direto. Por meio dele. E1 e E2. recorta as palavras do outro e cita-as. do interior do discurso. usa de suas próprias palavras para remeter a uma outra fonte do sentido. apresentar pistas recuperáveis na superfície do discurso.  A pressuposição consiste em um processo de apresentar dois enunciadores. colocando-se enquanto tradutor.  No discurso indireto. não apenas reproduzir indiretamente falas dos personagens. deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos.RESUMINDO Nesta aula. desejam etc. sonham. mas pensam. UESC Letras Vernáculas 117 Unidade II | Aula 4 .

Freda. Tradução de Maria Augusta Bastos de Mattos. Helena H.org/wiki/ Acesso em 14 fev. 1996. FERREIRA. 1995.wikipedia. Discurso e ensino.Teoria da análise de discurso Heterogeneidade discursiva e polifonia BRANDÃO. http://pt. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. 118 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Jeane Maria. Campinas: Pontes. N. _____. 1993. Introdução à análise do discurso. Porto Alegre: Sagra Luzzatto. 1999. Belo Horizonte: Autêntica. Elementos de lingüística para o texto literário. 2. Novas tendências em análise do discurso. 1999. ed.). ed. p. In: INDURSKY. São Paulo: Martins Fontes. Sexo seguro/voto seguro: a questão do sentido. 2010. 138-148 MAINGUENEAU. Maria Cristina Leandro (Orgs. Dominique. 4. HANAUER. REFERÊNCIAS CARDOSO. Tradução de Freda Indursky. Campinas: UNICAMP.Linguística III . Sílvia Helena Barbi.

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1234 unidade METODOLOGIA E PRÁTICA EM ANÁLISE DE DISCURSO Aula 1 Metodologia em análise de discurso Aula 2 Exercícios em análise de discurso Aula 3 Exercícios em análise de discurso Aula 4 Exercícios em análise de discurso .

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• aplicar os conceitos teórico-metodológicos em procedimentos na Análise de Discurso. propriedade e marca. • diferenciar discurso e texto. • conhecer as etapas da Análise de Discurso. . você deverá: • identificar os conceitos teórico-metodológicos básicos em Análise de Discurso. • compreender o tipo de discurso como uma necessidade metodológica relacionado com os objetivos específicos de cada análise.aula 1 METODOLOGIA EM ANÁLISE DE DISCURSO Objetivos Ao final desta aula. • compreender o recorte como uma unidade discursiva correlacionada a uma situação.

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AULA 1 METODOLOGIA EM ANÁLISE DE DISCURSO . de linha francesa. como a Análise de Discurso surgiu das insuficiências teóricas da linguística estrutural.. explicitamos e discutimos conceitos teóricos básicos da Análise de Discurso. na Unidade I. UESC Letras Vernáculas 125 Unidade III 1 .. especialmente no que se refere ao sentido. Aula 1 INTRODUÇÃO Já vimos. vamos estudar a metodologia da Análise de Discurso e sua aplicação prática. Agora. nesta Unidade III. Na Unidade II.

a religião etc. mas apresentam sentidos variáveis. um conjunto de enunciados que se originam de uma mesma formação discursiva. fazendo com que o sujeito obedeça a certas regras ou regularidades. as teorias e as escolhas temáticas” (CARDOSO. a cada época. é retraçada a trajetória dos processos históricos e sociais que vão engendrando os sentidos. A formação discursiva é um operador de coesão semântica do discurso – o que pode e deve ser dito . O sujeito e o sentido do discurso não são dados a priori. como dito e como dizer. o procedimento metodológico é como um movimento em espiral. Em AD. definindo as condições do exercício da função enunciativa para uma determinada área social. a depender das formações discursivas em que são usadas. O discurso é o modo de existência sócio-histórico da linguagem. econômica. Através dessa análise. os enunciados constituem as formações discursivas que são grandes unidades históricas. os conceitos. Essas regras ou regularidades são anônimas e históricas. ligadas a instituições sociais. a economia política. p. “no qual há uma alternância de momentos de análise linguística e momentos de análise discursiva” (ABREU. estabelecendo as formações discursivas. quando participa do discurso. Essas formações discursivas não são blocos fechados. O discurso é considerado. Analisar um discurso é analisar seu “processo de produção e de circulação de sentidos” (MARIANI. 1999.Teoria da análise de discurso Metodologia em análise de discurso 2 A METODOLOGIA EM ANÁLISE DE DISCURSO A teoria do discurso é a teoria da determinação histórica dos processos semânticos. Tal processo tem uma existência objetiva e material.e um sistema de restrições – o que não pode nem deve ser dito. seus processos discursivos. como a medicina. mas são constituídas por práticas discursivas que “determinam os objetos. p. identificar as regras e regularidades de sua formação discursiva. 1999. 126 Módulo 2 I Volume 8 EA D . a gramática.Linguística III . inscritos em relações ideológicas. 24). O que direciona a análise são seus objetivos e o tipo de texto selecionado para ser recortado. e o intradiscurso e seus efeitos de sentido numa linguagem histórica e ideologicamente constituída. O DISCURSO: é um processo regulamentado que dá conta de um certo número de enunciados. 110). Ou seja. estabilizados. as palavras não têm um sentido fixo ao longo dos séculos. geográfica ou linguística. ao mesmo tempo. isto é. 35). p. Assim. 2006. O que importa é compreender os encadeamentos entre o interdiscurso SENTIDO DAS PALAVRAS: as palavras não têm um sentido literal fixo. O discurso é um processo regulamentado que dá conta de um certo número de enunciados. Analisar um discurso é. as modalidades de enunciação dos sujeitos. O sentido varia conforme a formação discursiva em que são usadas. como enunciado e como enunciação. portanto.

fornecendo-nos pistas para compreendermos o modo como o discurso que analisamos se textualiza. seus diferentes modos de dizer. Portanto a análise linguística da nominalização melhoria é articulada com os processos discursivos em questão. Agora temos um objeto discursivo e tentamos compreender como esse objeto simbólico produz sentidos. com seus conceitos e método. em que circunstâncias etc. havendo sempre um ir e vir entre a teoria. não se discute se o nível de vida do brasileiro melhorou ou não. Nessa etapa inicial. um “dado inquestionável”. Nessa etapa. Para o analista de discurso. UESC Letras Vernáculas 127 Unidade III Aula 1 . o quem diz. Portanto.mas são constituídos no interior de sua formação discursiva. enquanto exemplar de um discurso. os sentidos das palavras mudam de uma formação discursiva para outra e os indivíduos se constituem como sujeitos na medida em que se inscrevem nas formações discursivas. como no caso das nominalizações. o que foi dito pelo sujeito em um lugar com o que foi dito em outro. é preciso seguir algumas etapas. Assim. O texto nem é o ponto de partida absoluto nem o ponto de chegada. Muitos discursos se valem das nominalizações para introduzir uma “verdade” já posta. em A melhoria do nível de vida do brasileiro com o plano real. a consulta ao corpus e a análise. As análises linguísticas estão sempre articuladas com os processos discursivos. relacionamos o dito ao não dito. para se chegar ao processo discursivo: Etapa 1: passagem da superfície linguística do texto para o discurso. Para se analisar um discurso. observa-se o como se diz. Portanto. o importante é a formação discursiva e não os indivíduos a ela assujeitados. Isto é. substituições entre palavras dentro de uma formação discursiva. isto é. Por exemplo. É nessa primeira etapa que se desfaz a ilusão de que aquilo que é dito só poderia ser dito daquela maneira. A AD. buscando compreender como ele cria seus efeitos de sentido. observa-se o que o discurso mostra em sua sintaxe e enquanto processo de enunciação. isto é dado como uma verdade já posta. intenta mediar o movimento entre a descrição e a interpretação. o substantivo doação deriva do verbo doar. Pela nominalização melhoria. a AD não é somente descrição ou interpretação do discurso. que são substantivos derivados de verbos. em análise de discurso. Parte-se de um texto. em que o sujeito se marca no que diz. para compreender o funcionamento discursivo. inquestionável. como ele cria as possíveis AS NOMINALIZAÇÕES: são substantivos derivados de verbos e podem servir discursivamente para introduzir uma verdade já posta. O texto é só uma peça de linguagem de um processo discursivo bem mais abrangente. mas busca analisar como ele funciona.

Por exemplo. Nesta etapa. o modo como ele cria efeitos de sentido. isto é. assim. se relaciona o funcionamento do discurso. A enunciação é um conjunto de operações que regulam a retomada e a circulação do discurso. Os resultados da análise tornam-se então disponíveis para que sejam interpretados pelo analista. e provocam nele reações – respostas imediatas e uma ressonância dialógica”. o que supõe que sua estruturação é uma questão social. um texto dado trabalha através de sua circulação social. com a formação ideológica. segundo Bakhtin (1997. O trabalho do analista “tenta dar conta do fato de que a memória suposta pelo discurso é sempre reconstruída na enunciação” (ACHARD. Dessa forma. p. por fora e por dentro. Nesse ponto. que não pode ser separado dos elos anteriores que o determinam. Isto significa que a situação de comunicação. 1999. isto é. uma vez que todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta para outro. traz marcas da situação de comunicação em que houve esta enunciação: uma cerimônia de casamento.Teoria da análise de discurso Metodologia em análise de discurso as formações discursivas. a exaustividade do processo discursivo. a constituição do processo discursivo. etapa 2 – passagem do objeto discursivo para a formação discursiva. A análise de discurso é uma posição enunciativa. deixa marcas no enunciado. uma categoria de análise em AD. ou seja. o texto ou textos particulares analisados desaparecem como referências específicas para dar lugar à compreensão de todo um processo discursivo do qual eles são parte. 17). ideológica. A enunciação está marcada no enunciado. Assim. um enunciado é a representação de sua enunciação. Etapa 2: passagem do objeto discursivo para a formação discursiva. “não há sentidos cristalizados. Essa estruturação do texto inclui o gênero discursivo que é. etapa 3 – passagem para o processo discursivo e formação ideológica. isto é. O gênero discursivo é. “um elo na cadeia da comunicação verbal. independentes. em que um sujeito histórico se esforça por estabelecer um deslocamento suplementar em relação ao modelo. à hipótese de sujeito histórico que fala. A metodologia da AD não objetiva a completude.Linguística III . 128 Módulo 2 I Volume 8 EA D . atingindo. relacionam-se as formações discursivas com a formação ideológica. p. portanto. Etapa 3: passagem para o processo discursivo e formação ETAPAS DA ANÁLISE DE DISCURSO: etapa 1passagem da superfície linguística do texto para o discurso. 320). com o afrontamento de posições de que ele faz parte. Nesse ponto. em que se deu a enunciação. o enunciado: “Eu vos declaro marido e mulher”. vemos que os sentidos das expressões linguísticas não se reduzem a valores de verdade.

Isso que aconteceu serviu para mostrar a podridão da elite dirigente brasileira: foi coisa de Deus. Nos recortes não há passagem automática entre as unidades e o todo que elas constituem. no jogo da interlocução. 19. Assim.mas sentidos construídos numa situação discursiva” (BRANDÃO. Cazarini (1999) fez os seguintes recortes:  Recorte 1 O vermelho da bandeira do PT é o sangue de Jesus Cristo na cruz. o mas não refuta mulher mas refuta o pressuposto ideológico de que toda mulher é burra. É muito comum que ela não refute o enunciado anterior. 98). Cada formação discursiva tem seus processos formadores de sentido. um recorte é um fragmento da situação discursiva e é fruto de um trabalho de construção teórica.. p. A campanha tem 30 dias e vamos trabalhar para ganhar a eleição. 12/5/93). em vez de ser automático ou predeterminado. isto é. são fragmentos de linguagem correlacionados a uma situação.O enunciado traz marcas da situação de comunicação 2. O que eu queria é que não se brincasse com o sentimento do povo. são fragmentos de linguagem correlacionados a uma situação. ao analisar o uso do discurso religioso pelo discurso político. os processos que regulam a substituição de uma palavra ou expressão por outra. (Diário Popular.1 O Recorte O recorte é uma unidade discursiva. p. UESC Letras Vernáculas 129 Unidade III Aula 1 . 1998.. ano 26. chega-se à representação das relações textuais referidas às condições em que foram produzidas. Figura 01 . isto é. 5. Ao analisar tais processos. mas um pressuposto ideológico. p. (Discurso em Canudos. n. Por exemplo: Ela é mulher. Caravana da Cidadania – Veja. isto é. Aqui. mas é inteligente. 26. Por exemplo. 4/9/94)  Recorte 03 RECORTE: é uma unidade discursiva.  Recorte 02 Eu não queria discutir o processo eleitoral nesse instante. o analista deve estar atento aos deslizamentos de sentido intencionados pelo locutor. mas através delas. O uso da conjunção mas é geralmente um índice de outras vozes no discurso.

133). para a historicidade de sua relação com o interdiscurso. Uma palavra apaga necessariamente outras palavras. onde uma palavra apaga necessariamente as outras palavras” que não podem ser ditas (CAZARINI. Quando se analisa o silêncio. desejada. busca correlacionar fragmentos de linguagem correlacionados a uma situação discursiva. Como SILÊNCIO: tem uma relação fundamental com o dizer. ele estará necessariamente não dizendo outros sentidos possíveis. O primeiro ponto é que o silêncio. tem suas condições de produção. que esses recortes são fragmentos de um discurso político. que há milênios guia os navegantes. ele é tão ambíguo quanto as palavras. um recorte entre o que se diz e o que não se diz. 1999).2 O silêncio Todo dizer é uma relação fundamental com o não dizer. Vemos. o sentido é sempre produzido a partir a partir de uma posição do sujeito. é forma de dominação. pode-se chegar ao funcionamento do discurso em análise (MARIANI. o discurso relatado etc.Teoria da análise de discurso Metodologia em análise de discurso A estrela do PT significa guia. mas. mas indesejados.10/94). 1. Os recortes discursivos não segmentam a língua. enquanto que o silêncio proposto pelo oprimido pode ser uma forma de resistência. O analista de discurso recorta os textos. Ambos produzem uma ruptura. em vez de ser automático ou predeterminado. Por outro lado. numa dada situação discursiva. isto é. A análise se volta para o processo de produção dos sentidos. que é uso do discurso Figura 02: Exemplo de discurso político usando o discurso religioso religioso pelo discurso político. o que se tem são pistas. não se tem marcas formais. p. publicação em Zero Hora. ao dizer. isto é. o silêncio pode produzir uma ruptura não desejada. Eles foram resultado de um trabalho de construção teórica do analista. como as negações. Inscreve-se nesse caso aquilo a que 130 Módulo 2 I Volume 8 EA D . por isso. tanto quanto a palavra. dada a diversidade dessas.. (Comício em Salvador. Mas é através desses recortes que se chega a mostrar que o discurso político está usando o discurso religioso. no caso. “Produz-se. o sentido do silêncio varia. por meio da análise de marcas gramaticais. Nesses recortes não há passagem automática entre eles e o todo.Linguística III . O silêncio imposto pelo opressor é exclusão. 1999. portanto. sendo que todos estão relacionados ao uso do discurso religioso. 2. assim.

263). 2. Em outras palavras. 152). A tipologia deve incorporar a relação da linguagem com suas condições de produção. o texto é o objeto UESC Letras Vernáculas 131 Unidade III Aula 1 . aquilo que consideramos como propriedade do discurso do tipo religioso pode ser encontrada numa poesia. mas segundo seu funcionamento. a interação não é reversível. mas pode se apresentar de uma forma mista. a comunicação mal sucedida). se comunicam entre si. que os discursos não se distinguem entre si de forma categórica. em contrapartida. Por exemplo. como o conceito analítico correspondente” (ORLANDI.se chama ruído da comunicação (ou seja. p.3 O tipo de discurso A noção de tipo de discurso é uma necessidade metodológica. o discurso pedagógico do tipo autoritário se opõe ao do tipo polêmico e ao do tipo lúdico. Os tipos de discurso são modos de ação que instauram uma forma de interação. 1996. Por exemplo. 1996. TIPO DE DISCURSO: é uma necessidade metodológica e está relacionado com os objetivos específicos de cada análise. Vemos. o discurso não tem necessariamente de se apresentar como um tipo puro. 1996. num discurso político ou no editorial de um jornal. Isso ocorre porque “os discursos se relacionam. 256). A grande diferença entre ambas está exatamente na noção de texto: “o discurso é tomado como conceito teórico e metodológico e o texto. p. Essa tipologia está relacionada com os objetivos específicos de cada análise. 1996. Há ainda a ruptura categórica entre interlocutores ocasionada pela destruição do contato: é o silêncio radical (ORLANDI. p. p. O tipo autoritário tem como uma de suas características substituir o objeto em debate por um ponto de vista imposto pelo professor. propriedades de um tipo de discurso podem também estar presentes em outros tipos de discurso. Por isso. Nesse último caso. “podendo possuir uma maior ou menor generalidade” (ORLANDI. Mesmo quando se estabelece uma tipologia discursiva. ou seja. as tipologias são de aplicação relativa. portanto. 159). Assim. deve-se analisar também o jogo de dominância tipológica. as posições de locutor e ouvinte não se alternam.4 Discurso e texto A Análise de Discurso não se confunde com a Linguística Textual. se sustentam mutuamente” (ORLANDI. Além disso. 2.

O discurso apresenta propriedades e marcas. ATIVIDADE 1) Oração do Pai Nosso: “Pai Nosso. concreto. Partimos do texto para chegar ao discurso. o que constitui uma marca interna desse discurso. Por exemplo. Por exemplo. Assim. esta mesma função é atribuída a Deus. enquanto a marca diz respeito à organização do discurso. Observe que muitas outras religiões não estabelecem a divindade como sendo “pai”. enquanto a marca diz respeito à organização do discurso. No discurso do Pai Nosso.” Partindo do texto acima da oração do Pai Nosso. Outra marca ou traço do discurso religioso é o uso do imperativo e do vocativo. mas livrai-nos do mal. assim na terra como no céu. faça o recorte de enunciados em que o discurso do crente se dirigindo a Deus apresenta elementos do discurso do filho se dirigido ao pai. enquanto formas próprias de discurso em que existe doutrinação: não matarás. Na família patriarcal é o pai que tem a função de prover alimento para os filhos. no discurso religioso. venha a nós o vosso reino. na família patriarcal. de análise. em que o sujeito crente se coloca como “filho” e Deus é estabelecido como “pai”. e não nos deixeis cair em tentação. O pão nosso de cada dia nos daí hoje. Conforme já visto. baseadas no mecanismo gramatical da negação. enquanto o discurso é um objeto teórico a ser identificado no texto. 132 Módulo 2 I Volume 8 EA D . perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.Linguística III . que estais no céu. é através de recortes do texto que atingimos o nível discursivo. 2.Teoria da análise de discurso Metodologia em análise de discurso empírico. A propriedade tem mais a ver com a totalidade do discurso e sua relação com a exterioridade. determinar a forma dessa relação entre traços e propriedades é estabelecer o funcionamento discursivo específico. seja feita a vossa vontade. santificado seja o vosso nome. A propriedade tem mais a ver com a totalidade do discurso e sua relação com a exterioridade. uma propriedade característica é a não-reversibilidade entre os planos temporal e espiritual. A forma como as marcas são usadas em relação à propriedade de um tipo de discurso é que o caracteriza e o define.5 Propriedade e marca PROPRIEDADE E MARCA: o discurso apresenta propriedades e marcas. Um outro recorte é a expressão “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Isso vai resultar no uso da forma semântica de antíteses. Podemos encontrar também o uso do imperativo no discurso do tipo publicitário: beba com moderação. o recorte da expressão “Pai Nosso” já apresenta um termo da relação familiar filho-pai.

O tipo de discurso é uma necessidade metodológica e está relacionado com os objetivos específicos de cada análise. constituída por fragmentos de linguagem correlacionados a uma situação. O texto é o objeto empírico da análise de discurso. Recorte deste texto enunciados do discurso escravocrata sobre a mulher escrava. Recorte desse texto enunciados do discurso tradicional sobre a relação mulher-homem.O discurso é considerado. O recorte é uma unidade discursiva. A etapa 1 da análise de discurso constitui a passagem da superfície linguística do texto para o discurso. enquanto o discurso é um objeto teórico e metodológico. mas apresentam sentidos variáveis. A etapa 2 da análise de discurso constitui a passagem do objeto discursivo para a formação discursiva. UESC Letras Vernáculas 133 Unidade III Aula 1 Nesta aula. você viu que: . 3) Cantiga de roda: “Teresinha de Jesus / de uma queda foi ao chão / acudiram três cavaleiros / todos três chapéu na mão. A etapa 3 da análise de discurso constitui a passagem para o pro cesso discursivo e formação ideológica. como dito e como dizer.          Muitos discursos se valem das nominalizações para introduzir uma “verdade” já posta. na família patriarcal. O que direciona a análise de discurso são seus objetivos e o tipo de texto selecionado para ser recortado. ao mesmo tempo. O silêncio tem uma relação fundamental com o dizer. enquanto a marca diz respeito à organização do discurso. ao longo da vida. como enunciado e como enunciação. RESUMINDO   As palavras não têm um sentido fixo. A propriedade tem mais a ver com a totalidade do discurso e sua relação com a exterioridade.Faça outros recortes no texto do Pai Nosso em que aparecem elementos do discurso do filho ao pai. // O primeiro foi seu pai / o segundo seu irmão / o terceiro foi aquele / que a Teresa deu a mão”. a depender das formações discursivas em que são usadas. 2) Letra da música popular Mulata assanhada: “Oh mulata assanhada/ que passa com graça/ fazendo pirraça/ fingindo inocente/ tirando o sossego da gente// Ah meu Deus que bom seria / se voltasse a escravidão / eu pegava essa mulata / e prendia no meu coração / e depois na pretoria / resolvia a questão”. um “dado inquestionável”. Uma palavra apaga necessariamente outras palavras.

Linguística III - Teoria da análise de discurso

Metodologia em análise de discurso

ABREU, Ana Sílvia Couto de. Escola e Escola on line: alguns efeitos do discurso pedagógico midiatizado. Tese de doutorado. Campinas: FE/UNICAMP, 2006.

REFERÊNCIAS

ACHARD, Pierre. Memória de Produção Discursiva do Sentido. In: ____ et al. Papel da Memória. Tradução de José Horta Nunes. Campinas: Pontes, 1999. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 8. ed. Tradução de Michel Lahud; Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1997. BRANDÃO, Helena Nagamine. Subjetividade, argumentação, polifonia. A propaganda da Petrobrás. São Paulo: UNESP, 1998. CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. CAZARIN, Ercília Ana. Relações entre o político e o religioso no discurso político de L. I. Lula da Silva. In: INDURSKY, Freda; FERREIRA Maria Cristina Leandro (Orgs.). Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 131-137. MARIANI, Bethania Sampaio Corrêa. Sobre um percurso de análise do discurso jornalístico – A Revolução de 30. In: INDURSKY, Freda; FERREIRA, Maria Cristina Leandro (Orgs.). Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 102-121. ORLANDI, Eni Puccinelli. A linguagem e seu funcionamento. As formas do discurso 4. ed. Campinas: Pontes, 1996.

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Módulo 2

I

Volume 8

EA D

Suas anotações
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aula

2

EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO

Objetivos

Ao final desta aula, você deverá: • ter uma noção da prática em Análise de Discurso; • ser capaz de aplicar conceitos teóricometodológicos básicos na análise de discursos; • ser capaz de aplicar os procedimentos de cada etapa na Análise de Discurso;

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Nayla e MESQUITA FILHO.AULA 2 EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO .. Vamos tomar aqui como exemplo de análise de discurso o artigo inédito “O discurso dos brasileiros sobre o Brasil: relações interdiscursivas com o discurso colonialista”. Odilon Pinto de.. Vamos ver agora a aplicação desses conceitos em análises concretas. os conceitos teóricos e metodológicos básicos da Análise de Discurso. na aula anterior. UESC Letras Vernáculas 139 2 . de RODRIGHERO. Unidade III Aula 1 INTRODUÇÃO Já vimos.

É reconfortante saber que o país nunca trairá nossas piores expectativas (MAINARDI.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso 2 O DISCURSO DOS BRASILEIROS SOBRE O BRASIL O discurso dos brasileiros sobre o Brasil é frequentemente marcado pelo negativismo.. O povo dócil. mas a interação entre formações discursivas diferentes. 13/08/2008). T Tal negativismo apresenta relações interdiscursivas com o discurso colonialista. suscitando. “provocando sua redefinição e redirecionamento. A cultura conformista. mas também. é comum ouvir-se. 1993. uma formação discursiva pode ser levada a incorporar elementos pré-construídos. Com suas humilhantes derrotas. procura-se apreender não uma formação discursiva. no interdiscurso. Assim.Linguística III . O espírito resignado. ainda que. estar fazendo também o apagamento de alguns desses elementos. 1995). 162)... comentários do tipo: “isso só acontece no Brasil!” Na mídia.) relação de um discurso com outros discursos (. Veja. possa INTERDISCURSIVIDADE: é a relação de um discurso com outros discursos. Interdiscursividade é a: (. produzidos fora dela. dizer que a interdiscursividade é constitutiva de todo discurso é dizer que todo discurso nasce de um trabalho sobre outros Figura 01: O discurso negativo do brasileiro sobre o Brasil e os brasileiros discursos (BRANDÃO. o chamamento de seus próprios elementos para organizar sua repetição. Em conversas informais. p. a transparência de sentido que nela se forma esconde “algo que fala sempre antes” (PÊCHEUX. no discurso 140 Módulo 2 I Volume 8 EA D . A personalidade titubeante. também podem ser encontradas afirmações do tipo: O aspecto mais gratificante de se torcer contra os brasileiros é que a gente sempre acaba ganhando. provocando. p. eles ajudam a ratificar todos os estereótipos mais grosseiros sobre o Brasil e os brasileiros. Cada medalha de bronze perdida pode ser comemorada como um triunfo. igualmente. O pendor para ser eternamente café-comleite. ao se referir a algum fato negativo. 1997. 113). Nesse sentido. em seguida.. o apagamento.) ao tomar o interdiscurso como objeto. Mas nossos atletas em Pequim merecem ser festejados por algo muito mais transcendental do que o mero sucesso esportivo. o esquecimento ou mesmo a denegação de determinados elementos” (MAINGUENEAU. eventualmente. Unicamp. Por isso. eventualmente. A formação discursiva que domina o discurso negativo dos brasileiros sobre o Brasil pode estar incorporando elementos produzidos no discurso colonialista. O caráter frágil.

2003. O discurso colonialista estabelece um mito fundador: No período da conquista e colonização da América e do Brasil surgem os principais elementos para a construção de um mito fundador. O segundo é oferecido.colonialista. 58). incluindo desde a paráfrase mais servil até as formas mais críticas. Dessa forma.) ‘visão do Paraíso’ e o que chamaremos aqui de elaboração mítica do símbolo ‘Oriente’.. Esse conhecimento cria a justificativa para uma relação de subalternidade entre metrópole e colônia. 111). ou seja.. da criação divina de sua história (Bíblia) e da criação divina do Estado. 2000. O que se espera é que o discurso negativo dos professores sobre o Brasil e os brasileiros apresente estreitas relações interdiscursivas com o discurso colonialista sobre o mesmo tema. a função estratégica do discurso colonialista “é a criação de um espaço para ‘povos sujeitos’ através da produção de conhecimentos em termos dos quais se exerce vigilância” (BHABHA. Esse mito fundador oferece um conhecimento sobre o Brasil como resultado da criação divina de sua natureza. vamos identificar características relevantes do discurso colonialista e vamos estabelecer relações interdiscursivas entre os dois discursos. o milenarismo de Joaquim de Fiori. p. de outro. A relação entre o discurso colonialista e o discurso do colonizado sobre si mesmo é complexa e multifacetada. Portanto. p. pela história profética herética cristã. O primeiro constituinte é a (. pela história teológica providencial (. Em Análise de Discurso. a partir da teoria medieval do direito natural (. O terceiro é proveniente da elaboração jurídico-teocêntrica da figura do governante como rei pela graça de Deus. O discurso colonialista se caracteriza por apresentar um conhecimento determinado sobre o colonizado. Vamos então sistematizar elementos do discurso negativo dos brasileiros sobre o Brasil. foi aplicado um questionário aberto entre cinco professores. com as UESC Letras Vernáculas 141 Unidade III Aula 2 .. identificandose as relações parafrásticas entre ambos.) e.) para os fundamentos das monarquias absolutas ibéricas (CHAUÍ. Para isso serão analisados os dois discursos. Vamos analisar aqui aspectos das relações interdiscursivas entre o discurso de professores brasileiros sobre o Brasil e o discurso colonialista. a pesquisa é qualitativa. Tal conhecimento ainda hoje pode ser encontrado no discurso dos brasileiros sobre o Brasil.. de um lado.. sem a preocupação de incluir percentagens significativas..

nosso objeto empírico de trabalho. 8. em sua maioria.. Finalmente. 2. 2. 7.. p. O texto é considerado aqui: (. esses enunciados serão agrupados. ainda falar mal? 10. 6. Cada resposta será considerada um texto. O que você acha de um espanhol falar bem a língua espanhola aos 05 anos de idade e o brasileiro. conforme estejam sob o domínio de uma formação discursiva positiva ou de uma formação discursiva negativa sobre o Brasil. serão estabelecidas relações interdiscursivas com o discurso colonialista. O que acha do Brasil? O que você acha do passado do Brasil? O que você acha do futuro do Brasil? O que você acha do povo brasileiro? O que você acha dos estudantes brasileiros? O que você acha de ser brasileiro? O que você acha de nossa aparência étnica? O que você acha dos produtos brasileiros? São melhores ou inferiores aos produtos importados? 9. 4. por meio da análise parafrástica e polissêmica dos enunciados.1 Formação Ideológica 142 Módulo 2 I Volume 8 EA D . discurso e texto: como unidade de análise que mostra acentuadamente a importância de se ter à disposição um dispositivo analítico compatível com a natureza dessa unidade (ORLANDI.Linguística III . 2001. 12). suas marcas e seus vestígios): como historicidade significante e significada (e não como: ‘documento’ ou ‘ilustração’): como parte da relação mais complexa e não coincidente entre memória. serão identificados aspectos do funcionamento dos dois discursos. O que você achou da situação do Brasil nas Olimpíadas de Pequim? Foi obtido um total de 50 respostas.) com sua materialidade (com sua forma. Não serão mostradas aqui todas as respostas. mas apenas as mais significativas para a análise. Em cada formação discursiva. 3. nosso objeto teórico. de onde será retirado enunciado do discurso sobre o Brasil e os brasileiros. Em seguida.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso seguintes perguntas: 1. 5.

Vemos que constituem duas posições políticas e ideológicas. 20. dos professores sobre o Brasil e os brasileiros apresenta duas forças confrontadas. Um povo [brasileiro] alegre. podemos estabelecer duas Formações Discursivas. na conjuntura ideológica atual de nossa sociedade.O primeiro passo da análise é identificar se o discurso dos professores sobre Brasil e os brasileiros.2 Formações Discursivas Segundo Brandão (1995). mas que nunca desiste de sonhar. confrontada com outras forças. foram produzidos os seguintes enunciados sobre o Brasil e os brasileiros (a numeração segue a totalidade de 50 enunciados produzidos): 1. a partir de uma dada posição ideológica UESC Letras Vernáculas 143 Unidade III Aula 39) e negativas (1. p. capaz de constituir-se numa força. em um dado momento. concluímos que o tema Brasil e brasileiros constitui uma Formação Ideológica. são as Formações Discursivas que determinam o que pode e deve ser dito. na conjuntura ideológica. porém sem cultura. dentro de uma determinada Formação Ideológica. pode-se dizer que é um bom país para se viver. capaz de constituir-se numa força. mais ou menos relacionadas às posições de classes em conflito. a partir de uma posição dada. num dado momento. porém desonesto. mais ou menos relacionadas às posições de classes em conflito. [Os produtos brasileiros] são ruins. FORMAÇÃO IDEOLÓGICA: é qualquer elemento ou tema. Aqui há liberdade de expressão religiosa. numa conjuntura dada. São inferiores aos importados. Assim. confrontada com outras forças. [O Brasil é] um país rico. Com certeza existem bons produtos [brasileiros]. na conjuntura ideológica de uma dada sociedade. é uma Formação Ideológica. a formação discursiva é um conjunto de princípios que determinam o que pode e deve ser dito. sexual e partidária. 20. 2. 27) Tendo em vista os enunciados mostrados acima. para a Formação Ideológica cada uma dessas posições FORMAÇÕES DISCURSIVAS: em cada discurso. Trata-se de uma organização de posições políticas e ideológicas. isto é. Assim. mas também temos inúmeros produtos de péssima qualidade. Apesar de suas dificuldades. 1996. 40). [O povo brasileiro é] um povo batalhador que muitas vezes vive uma vida de restrições. As respostas a cada pergunta se dividem em positivas (2. 19. 19. Podemos. 39. se apresenta tomadas de posições diferentes. então. Formação Ideológica é qualquer elemento. as Formações Discursivas “determinam o que pode e deve ser dito” a partir de (ORLANDI. dizer que a opinião 2 . Segundo Brandão (1995). ou tema. em uma dada sociedade. 2. Entre os professores. Acho o Brasil um bom país. 40.

‘embaralhando’ os limites entre diferentes formações discursivas. uma Formação Discursiva é constituída por um sistema de paráfrases. Na Formação Discursiva Negativa. (. 2. o tema Brasil e brasileiros.. (20) e (40) são dominados pela Formação Discursiva Negativa. conforme indicam os números entre parênteses: Paráfrase 1: [O Brasil] é um país sem cultura (1) [O Brasil] não é um país modelo (4) [O Brasil] não tem educação (4) Paráfrase 2: [O Brasil] do ponto de vista político é sofrível (3) Os políticos [brasileiros] são sem escrúpulos (4) Paráfrase 3: [O Brasil] é violento (4) [O Brasil] tem muita miséria (4) [No Brasil] há falta de respeito do homem pelo homem (4) Paráfrase 4: [O passado brasileiro] foi péssimo (6) [O passado brasileiro] não foi glorioso (8) 144 Módulo 2 I Volume 8 EA D . no discurso dos professores. sendo uma Formação Ideológica.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso sobre o Brasil e os brasileiros: uma Formação Discursiva Positiva e outra Negativa..) Enquanto a paráfrase é um mecanismo de ‘fechamento’. de ‘delimitação’ das fronteiras de uma formação discursiva. 39). isto é. a polissemia rompe essas fronteiras.3 A Formação Discursiva Negativa Segundo Brandão (1995.. estabelecidas a partir das 50 respostas dadas. instalando a pluralidade. a multiplicidade de sentidos. Os enunciados (2). em busca da preservação de sua identidade (. apresenta duas Formações Discursivas: uma Positiva e outra Negativa. Novamente. podemos concluir que. temos as seguintes paráfrases..Linguística III . (19) e (39) são dominados pela Formação Discursiva Positiva.) um espaço em que enunciados são retomados e reformulados num esforço constante de fechamento de suas fronteiras. p. Portanto. não vamos mostrar enunciados da Formação Discursiva Positiva. enquanto os enunciados (1).

porém desonesto (20) Paráfrase 9: É preciso maior investimento na área educacional (22) [Os estudantes] vêm sendo deixados de lado (23) Paráfrase 10: [Hoje] o estudante não estuda (21) O estudante não se preocupa com o dia de amanhã (23) O estudante. ficaremos “parados no tempo” por muitos longos e cansativos anos (11) [Quanto ao futuro do Brasil] só Deus dirá se vai haver melhoria na qualidade de vida da população (12) [Quanto ao futuro do Brasil] precisamos deixar de lado a utopia de que o Brasil venha a ser um país de primeiro mundo. viciados em relação aos estudos e só pensam em pesca. (9) [O povo brasileiro] é usado como “massa de manobra” para servir aos interesses da elite medíocre. especialmente nas eleições (16) Paráfrase 6: [O passado brasileiro] inclui a morte de pessoas [O passado brasileiro] foi pródigo em torturar. matar Paráfrase 7: [Quanto ao futuro do Brasil]. até hoje. quando tem oportunidade. sofra e padeça. inferiores aos importados (40) A vigilância sanitária sobre alimentos deixa a desejar (37) UESC Letras Vernáculas 145 Unidade III Aula 2 . expulsar. “desaparecer”. (25) Paráfrase 11: Os produtos brasileiros são ruins. racista. debochado (17) [O povo brasileiro] é alegre.Paráfrase 5: [O passado brasileiro] foi sem participação popular (8) [O passado brasileiro] manteve os privilégios da elite agrária (latifundiários escravistas) (8) [O passado brasileiro] faz com que seu povo. (13) [O Brasil] não tem um bom futuro porque não investe em educação e saúde (14) Paráfrase 8: [O povo brasileiro] é acomodado. não sabe o que fazer (24) Os estudantes são fracos.

cruciais para a compreensão dos discursos considerados. Com base nas paráfrases vistas. O Brasil é um país sem cultura nem educação. privilegiou as elites e faz com que ainda hoje o povo seja manipulado e sofra.4 O Espaço Discursivo Segundo Cardoso (1999). Nesse trabalho. por isso nunca será um país de primeiro mundo.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso Temos inúmeros produtos brasileiros de péssima qualidade (39) Paráfrase 12: Faltam investimentos em educação (38) O sistema educacional brasileiro não é adequado (39) As raízes de nossos problemas educacionais estão em nosso passado colonial (40) Falta justamente uma política de educação (41) O sistema educacional brasileiro é muito defasado (42) Essas paráfrases funcionam como um mecanismo de “fechamento” e de “delimitação de fronteiras” da Formação Discursiva Negativa sobre Brasil e brasileiros. O passado histórico brasileiro não teve participação popular. o espaço discursivo considerado é 146 Módulo 2 I Volume 8 EA D . não glorioso. delimitando um lugar específico da constituição dos sentidos. 2. 3. reafirmando uma avaliação negativa. podemos estabelecer os seguintes princípios da Formação Discursiva Negativa sobre o Brasil e brasileiros: 1. duas Formações Discursivas que se supõem manterem relações privilegiadas. 2. pelo menos. O Brasil é marcado pela violência e pela miséria O passado histórico brasileiro é péssimo. 6. Os produtos brasileiros são inferiores aos importados. O estudante brasileiro não estuda. o espaço discursivo liga. 7. 4. 9. Podemos então dizer que as paráfrases constituem princípios produtivos da Formação Discursiva Negativa sobre o Brasil e brasileiros. O Brasil não investe em saúde e educação. é fraco e só pensa em pesca. O passado histórico brasileiro é marcado pela tortura e morte de pessoas. não aproveita as oportunidades. debochado. A política brasileira é dominada pela corrupção. determinando o que pode e deve ser dito. 8. alegre e desonesto. racista.Linguística III . O povo brasileiro é acomodado. 10. 5.

Essas Formações Discursivas mantêm relações cruciais para a compreensão dos dois discursos.constituído pela Formação Discursiva Negativa. com a migração internacional. como dispositivo analítico. nacionalidades. um conjunto de conhecimentos sobre o tema abordado. p. no discurso atual dos professores sobre o Brasil e brasileiros. alguns conhecimentos já elaborados sobre este último discurso. e um dispositivo analítico. Bhaba propõe (2003. funcionarão como importante “canal” para dar legitimidade às novas práticas de hierarquização. a migração internacional fixará. O discurso colonialista atribui clichês aos integrantes de várias nacionalidades. Como. 110-111): UESC Letras Vernáculas 147 Unidade III Aula 2 . as representações coloniais serão atualizadas e redimensionadas nos países emissores. de imaginário. Além da exclusão material. Em primeiro lugar. Segundo BEM (2005. atribuídos aos integrantes das várias subalternidade. podemos deduzir os seguintes princípios da Formação Discursiva colonialista: I) II) III) IV) V) As O representações discurso coloniais legitima são atualizadas práticas e de redimensionadas colonialista novas hierarquização. nesse trabalho. vamos usar. estamos enfocando aspectos interdiscursivos entre o discurso dos professores sobre o Brasil e brasileiros e o discurso colonialista sobre o mesmo tema. Em segundo lugar. uma vez atualizadas. um dos importantes impulsionadores do turismo sexual são as representações. clichês específicos. portanto. por supor uma estratificação do mercado de trabalho baseada no pertencimento étnico. Ao analisar um discurso temos de ter um dispositivo teórico. uma Desse texto. Essas imagens coloniais. O discurso colonialista constrói uma subalternidade [entre etnias e nacionalidades] por meio de estereótipos. com esses estereótipos. 37). e a Formação Discursiva Colonialista. O discurso colonialista supõe uma estratificação do mercado de trabalho baseada no pertencimento étnico. concreta. construindo. Ele precisa. p. os conceitos e procedimentos da Análise de Discurso. Esses estereótipos passam a circular no interdiscurso social.

O discurso colonialista individualiza a alteridade como descoberta de suas próprias pressuposições.. Não pode haver um deslizamento inevitável da atividade semiótica para a leitura não problemática de outros sistemas culturais e discursivos. apropria. podemos deduzir os seguintes princípios da Formação Discursiva colonialista: VI. O objetivo do discurso colonial é apresentar o colonizado como uma população de tipos degenerados com base na origem racial de modo a justificar a conquista e estabelecer sistemas de administração e instrução.Através dos conhecimentos que produz. XII – O discurso colonialista. VIII.) Estas são estratégias teóricas que são necessárias para combater o ‘etnocentrismo’. o discurso colonialista manifesta uma vontade de poder e de conhecimento.) o discurso colonial produz o colonizado como uma realidade social que é ao mesmo tempo um “outro” e ainda assim inteiramente apreensível e visível. culturais e históricas.. ao delimitar uma “nação sujeita”. ansioso na mesma proporção em que é afirmativo.O discurso colonialista é etnocêntrico. IX. também repudia as diferenças raciais.Linguística III . X... o estereótipo é um modo de representação complexo. através da produção de conhecimentos.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso (. Sua função estratégica predominante é a criação de um espaço para “povos sujeitos” através da produção de conhecimentos em termos dos quais se exerce vigilância e se estimula uma forma complexa de prazer/desprazer. Há nessas leituras uma vontade de poder e conhecimento que. passa a individualizar a alteridade como a descoberta de suas próprias pressuposições. na mesma proporção. o discurso 148 Módulo 2 I Volume 8 EA D . ambivalentes.Na leitura não problemática que faz de diferentes sistemas culturais e discursivos. afirmativas e ansiosas. de forma bem preliminar..O discurso colonialista não especifica os limites de seu próprio campo de enunciação e eficácia. cria um espaço para “povos sujeitos”.. O discurso colonial é um aparato que se apóia no reconhecimento e repúdio de diferenças raciais/culturais/históricas.) estou me referindo a uma forma de governamentalidade que. (. XIIIO discurso colonialista. VII.O discurso colonialista faz uma leitura semiótica não problemática de outros de sistemas culturais e discursivos. (. XI. dirige e domina suas várias esferas de atividade. ambivalente e contraditório.Os estereótipos do discurso colonialista são representações complexas. ao deixar de especificar os limites de seu próprio campo de enunciação e eficácia. Desse texto.. ao mesmo tempo que reconhece.) que. (.. contraditórias e. XIV.

ideologia. exerce vigilância e estimula uma forma complexa de prazer/ desprazer. O povo brasileiro é acomodado. criando um espaço para “povos sujeitos” (XIII) Formação Discursiva Negativa O Brasil é um país sem cultura nem educação (1) e seu povo é acomodado. alegre e desonesto (8). formações sociais diferentes. XV. no discurso atual dos professores sobre Brasil e os brasileiros. não glorioso (4) e não investe em saúde e educação. Observando os princípios da Formação Discursiva Negativa. no discurso colonialista. por isso nunca será um país de primeiro mundo (7) O Brasil é um país sem cultura nem educação. dirige e domina suas várias esferas de atividade. por isso nunca será um país de primeiro mundo (7). no discurso colonialista. Constrói uma subalternidade [entre etnias e nacionalidades] por meio de estereótipos (V). Com um passado histórico péssimo. e os princípios da Formação Discursiva Colonialista. ao mesmo tempo em que reconhece. em relação aos povos subalternos (XIV) UESC Letras Vernáculas 149 Unidade III Aula Supõe uma estratificação do mercado de trabalho baseada no pertencimento étnico (III) 2 . O Brasil é um país sem cultura nem educação (1) com um passado histórico péssimo. debochado. Individualizando a alteridade como descoberta de suas próprias pressuposições (XI) É etnocêntrico (VII) e faz uma leitura semiótica não problemática de outros sistemas culturais e discursivos (VIII). alegre e desonesto (8) Os produtos brasileiros são inferiores aos importados (11) Atribui clichês aos integrantes de várias nacionalidades (IV). (1) marcado pela violência e pela miséria (3) O povo brasileiro é acomodado. debochado. debochado. alegre e desonesto (8) O Brasil não investe em saúde e educação.Relações Interdiscursivas Formação Discursiva Colonialista Legitima novas práticas de hierarquização (II). Na leitura não problemática que faz de diferentes sistemas culturais e discursivos. por efeitos de classe. trabalhador O discurso colonialista. delimita uma “nação sujeita” e dela se apropria. gênero. acolhedor. racista. simpático. alegre.colonialista exerce vigilância e estimula uma forma complexa de prazer/desprazer.O objetivo do discurso colonial é apresentar o colonizado como uma população de tipos degenerados com base na origem racial de modo a justificar a conquista e estabelecer sistemas de administração e instrução. em relação aos povos subalternos. o discurso colonialista manifesta uma vontade de poder e de conhecimento (IX). não glorioso (4) [O Brasil] é um país rico (1) é um país maravilhoso e tem todas as condições de ser um país modelo (4) O futuro do Brasil como país parece promissor (12) O povo brasileiro que batalha duro tem valor (16) O povo brasileiro é maravilhoso. racista. também repudia as diferenças raciais/culturais/ históricas (XII). sistemas diversos de colonização etc. podemos observar as seguintes relações interdiscursivas: Quadro 1 . XVII. racista.Existem posicionalidades deslizantes dos sujeitos. Através dos conhecimentos que produz.A governamentalidade. XVIII.

150 Módulo 2 I Volume 8 EA D . ATIVIDADES 1) A partir de três instituições sociais. Podemos até dizer que o discurso colonialista sobre o Brasil e brasileiros sobrevive e revive no discurso atual dos professores sobre esse mesmo tema. identifique um princípio básico da formação discursiva a favor e um princípio básico da formação discursiva contra o uso de cotas. pesquisas de opinião etc. na família patriarcal. Você pode tomar como base textos da mídia. 6) Retire de textos da revista Veja enunciados que pertencem ao discurso contra o governo Lula. relacionando princípios da Formação Discursiva Colonialista e princípios da Formação Discursiva Negativa. o uso da camisinha é atualmente uma formação ideológica. conversas informais. enunciados que pertencem ao discurso contra o produto anunciado. concreta. matar ou não matar os bandidos é uma formação ideológica. de conversar com Deus. nas orações religiosas. 7) Retire. conversas informais. identifique um princípio básico da formação discursiva que domina o discurso a favor de matar marginais e um princípio básico da formação discursiva que domina o discurso contra matar bandidos.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso 2. a questão das cotas raciais é uma formação ideológica. 4) Admitindo que. Do texto da oração do Pai Nosso. 2) Considerando que. nas instituições universitárias brasileiras. declarações etc.5 Considerações finais O quadro comparativo acima. Você pode tomar como base textos da mídia. mostra que há numerosas e intensas relações interdiscursivas entre ambas. são tomadas como base as relações familiares patriarcais. retire enunciados que pertencem ao discurso do filho se dirigindo ao pai. identifique uma formação ideológica em cada uma delas. declarações etc. textos da mídia.Linguística III . do texto de uma propaganda. no discurso atual dos professores sobre o Brasil e brasileiros. 3) Considerando que. sermões de padres. Você pode tomar como base. estabeleça um princípio básico da formação discursiva que domina o discurso contra esse uso e um princípio básico da formação discursiva que domina o discurso a favor desse uso. na instituição da igreja católica. 5) Nenhuma pessoa tem a experiência física. conversas informais. nas instituições policiais brasileiras. Por isso.

uma Positiva e outra Negativa. sem a preocupação de incluir percentagens significativas.  O primeiro passo da análise é identificar se o discurso atual dos professores sobre Brasil e os brasileiros. a pesquisa é qualitativa. incluindo desde a paráfrase mais servil até as formas mais críticas. em duas Formações Discursivas. isto é.   Em Análise de Discurso. Cada resposta ao questionário aberto foi considerada um texto. conforme estejam sob o domínio de uma formação discursiva positiva ou de uma formação discursiva negativa sobre o Brasil e os brasileiros. é uma Formação Ideológica. UESC Letras Vernáculas 151 Unidade III Aula 2 . você viu que:  A formação discursiva que domina o discurso negativo dos brasileiros sobre o Brasil pode estar incorporando elementos produzidos no discurso colonialista.RESUMINDO Nessa aula.  A relação entre o discurso colonialista e o discurso do colonizado sobre si mesmo é complexa. E desses textos foram retirados enunciados que foram agrupados. se apresenta tomadas de posições diferentes. os enunciados foram alinhados O dispositivo analítico usado nessa análise foram conhecimentos já elaborados sobre o discurso colonialista.    Identificada a formação ideológica. Em seguida foram identificadas relações interdiscursivas entre o discurso colonialista e o discurso negativo dos professores sobre o Brasil e os brasileiros.

Eliana Lourenço de Lima Reis. Dominique. Homi K. CARDOSO. Gláucia Renate Gonçalves. 4. São Paulo: Perceu Abramo. Discurso e ensino. Campinas: Pontes. ed. 152 Módulo 2 I Volume 8 EA D . REFERÊNCIAS BHABHA. MAINGUENEAU. Helena H. 2001 PÊCHEUX. Semântica e discurso. Mito fundador e sociedade autoritária. Tradução de Freda Indursky. 3. Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi et al. ed. O local da cultura. As formas do discurso. Arim Soares do. 1996. Belo Horizonte: UFMG. 2. ed. 2000. Campinas: Pontes. 1993 ORLANDI. A dialética do turismo sexual. Campinas: Papirus. 2003. 1995. Sílvia Helena Barbi. Campinas: Unicamp. Brasil. ed. Introdução à análise do discurso. 4. Marilena. 2005. Michel. Tradução de Myriam Ávila.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso BEM. Novas tendências em análise do discurso. 1999 CHAUÍ. ______ Discurso e Texto: formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes.Linguística III . Eni Puccinelli. Uma crítica à afirmação do óbvio. N. A linguagem e seu funcionamento. Belo Horizonte: Autêntica. BRANDÃO. Campinas: UNICAMP.

.................................................................................................................................................. .............................. . ............................................. ......................................................................................................................................................................................Suas anotações .................................................................................. ................................. ................................................................................................................................................................................................................................................. ................................... ................................................................................................................................................. ............................................................................... ............................................ ...................................................... ........................................................................ .............. ....................................................................................................................................................................................................................................................... ................................................................................................................................ 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. você deverá: • ter uma noção da prática em Análise de Discurso.aula 3 EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO Objetivos Ao final desta aula. • aplicar os procedimentos de cada etapa na Análise de Discurso. • aplicar conceitos teórico-metodológicos básicos na análise de discursos.

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. o artigo inédito: “O discurso sobre os ciganos na obra de Bartolomeu Campos Queirós”. Maria Lígia Andrade. UESC Letras Vernáculas 157 Unidade III 3 . na aula anterior. um trabalho de análise de discurso. Vamos ver agora outro artigo. de CASTRO. aplicando os conceitos e método da AD numa análise concreta.AULA 3 EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO .. como exemplo de análise de discurso. Aula 1 INTRODUÇÃO Já vimos. Vamos tomar aqui.

sonha em ser roubado pelos ciganos. Ao contar a história do povo cigano. tais como: Indez. que não tem origem. nem pátria definida. personagem da história.). que revela uma visão estereotipada desses nômades. é investigar se o tema 158 Módulo 2 I Volume 8 EAD . na análise de discurso. Ciganos. 2). alguns diziam. O primeiro passo. sei que os ciganos surgiam (QUEIRÓS. os ciganos montavam suas tendas em terreno vago. Como num sonho.. o menino.. e mostra a repercussão desse fato para os moradores do local.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso 2 O DISCURSO SOBRE OS CIGANOS NA OBRA DE BARTOLOMEU CAMPOS QUEIRÓS Em sua obra. que sofre por ser órfão de mãe e por não ter o afeto do pai. “povoado antigo”. escrever e fazer conta de cabeça. denso e distraído. enquanto pelas frestas de portas e janelas tantos olhos os vigiavam (QUEIRÓS. provocado pela presença dos gitanos. verifica-se o caráter de indeterminação dos ciganos. que abre a narrativa. Por parte de pai e O olho de vidro do meu avô. traço que faz surgir no sujeito não-cigano o medo de ser roubado e que contribui para a construção da imagem deles como pessoas ambiciosas e trapaceiras. Nessa narrativa. 1). 2004. para ele. revelando ao leitor a imagem cristalizada na memória coletiva do mundo ocidental: Eles deixaram a Índia. Outros falavam que vinham de terras da Espanha ou das areias de Portugal (. Escutei de outros que eram filhos de grandes florestas e procuravam uma passagem para as minas de ouro do rei Salomão. 2004. Bartolomeu Campos Queirós apresenta uma narrativa poética construída através do entrecruzamento da história desse povo. p. A narrativa fala da chegada de ciganos a uma pequena cidade. o mistério que cerca esse povo. Sem saber ao certo de onde vinham ou para onde iam. através do menino sem nome. segundo nos diz o narrador. recuperada pela memória discursiva. Reverbera nesses enunciados a visão de que os ciganos buscam sempre riquezas.Linguística III . o narrador traz para o texto outras vozes. Ler. Nesse enunciado. p. em busca de um caminho para se chegar ao sol. que. são a imagem da liberdade e da aventura. sempre perto do descampado da igreja. que experimentam um misto de pavor e mistério. Esse menino revela ser o mesmo personagem de outras narrativas queirosianas.

nem cavalos soltos nos pastos” (p. de Bartolomeu Campos Queirós. Isto é. Para isso. seus diferentes modos de dizer. É nessa primeira etapa que se desfaz a ilusão de que aquilo que é dito só poderia ser dito daquela maneira. confrontada com outras forças. as crianças ficariam UESC Letras Vernáculas 159 Unidade III Aula 3 . foram retirados os seguintes enunciados sobre os ciganos: (1) “A presença dos ciganos mudava o ritmo da cidade. relacionamos o dito ao não dito. ou tema capaz de constituir-se numa força. Segundo Brandão (1995). como ninguém sabia de onde vinham ou para onde iam. que é o discurso sobre os ciganos. Nesse ponto. então. Assim. desta Unidade III: Etapa 1: passagem da superfície linguística do texto para o discurso. Nessa etapa. em que circunstâncias etc. roupas não dormiam em varal. o que foi dito pelo sujeito em um lugar com o que foi dito em outro. em que o sujeito se marca no que diz. na conjuntura ideológica. observa-se o como se diz. “Ciganos”.dos ciganos constitui uma formação ideológica na obra. 2004). observase o que o discurso mostra em sua sintaxe e enquanto processo de enunciação. O texto nem é o ponto de partida absoluto e nem o ponto de chegada. E. Vamos. partimos do texto. partir do texto de Queirós e dele retirarmos os enunciados que se referem aos ciganos. O texto é só uma peça de linguagem de um processo discursivo bem mais abrangente. temos que iniciar a primeira etapa metodológica da análise de discurso. mas já estamos no discurso. buscando compreender as formações discursivas. na Aula 1. porque saímos recortando nele somente os enunciados que atendem aos objetivos de nossa análise. Portas eram cerradas. isto é. em uma dada sociedade. fornecendo-nos pistas para compreendermos o modo como o discurso que analisamos se textualiza. num dado momento. (2) “Com a chegada dos ciganos o medo passava a ser companheiro dos meninos: isto por contarem que cigano roubava criança. Agora temos um objeto discursivo e tentamos compreender como esse objeto simbólico produz sentidos. conforme já visto. já estamos deixando a superfície linguística do texto. Nessa etapa inicial. Do texto (QUEIRÓS. 2). Formação Ideológica é qualquer elemento. o quem diz. se constitui um afrontamento de posições ideológicas distintas.

e tudo ficava preguiçoso. promovia sonhos. invadindo ouvidos.. Analisando os enunciados acima. (3) “Á tarde. 5).. é o discurso sobre os ciganos contido nesse texto. a cor.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso perdidas para sempre” (p. em língua diferente que mesmo o silêncio quietava para escutar” (p. Não a arte de se equilibrar no arame. de suas bocas partia um canto bonito.” (p.) devem ter sido os ciganos os inventores do circo. Eles devem ter inventado a festa. (6) “Nas noites. criaram essa magia e encanto que o circo reserva ainda hoje” (p. e Análise de Discurso. andando pelas praças. 7). E mais que isto. Entre sons de violinos e guitarras. 10). (9) “Moldar e polir o cobre era herança que o pai cigano passava para o filho” (p. conforme mantenham relações parafrásticas. Esse conjunto de enunciados acima não é mais o texto literário de QUEIRÓS. 4). os vizinhos se reuniam em portas e varandas. 7). desfiavam conversas e suspeitas sobre a ventura dos visitantes. de balançar em trapézio ou de se expor às facas e fogo. vemos que eles podem ser agrupados em dois conjuntos. assentados em torno da fogueira. 9). isto é. quando chegava.3). (8) “Durante o dia os ciganos martelavam o cobre. (4) “E nas mãos que a cidade timidamente oferecia. construindo tachos” (p. Suspeitavam roubos. percorrendo a cidade. pintavam de luz a cidade” (p. de sentidos semelhantes. Em volta do fogo eles dançavam e mais dançavam. forte música saía das cabanas e. (7) “(. E aqui percebemos claramente a diferença entre Linguística Textual. estas ciganas – tiradoras de sorte – liam futuros cheios de amor e fortuna” (p. que se volta para o discurso. (5) “E as ciganas de coloridas saias. que estuda os traços de textualidade. a forma do circo. Trocavam olhares...Linguística III . com uma 160 Módulo 2 I Volume 8 EAD . 6).

a cor. Portas eram cerradas. (3) “Á tarde. pintavam de luz a cidade” (p. Eles devem ter inventado a festa. 6). a forma do circo. e tudo ficava preguiçoso. as crianças ficariam perdidas para sempre” (p. 7).. em língua diferente que mesmo o silêncio quietava para escutar” (p. invadindo ouvidos. Em volta do fogo eles dançavam e mais dançavam. criaram essa magia e encanto que o circo reserva ainda hoje” (p. os vizinhos se reuniam em portas e varandas. Trocavam olhares.. E mais que isto. desfiavam conversas e suspeitas sobre a ventura dos visitantes. de suas bocas partia um canto bonito. nem cavalos soltos nos pastos” (p. 2).) devem ter sido os ciganos os inventores do circo. 5). (7) “(. estas ciganas – tiradoras de sorte – liam futuros cheios de amor e fortuna” (p. quando chegava. roupas não dormiam em varal. de balançar em trapézio ou de se expor às facas e fogo. como ninguém sabia de onde vinham ou para onde iam. forte música saía das cabanas e. 10). Os seguintes enunciados apresentam relações parafrásticas em favor dos ciganos: (4) “E nas mãos que a cidade timidamente oferecia. 4). promovia sonhos. (5) “E as ciganas de coloridas saias.. Não a arte de se equilibrar no arame. Entre sons de violinos e guitarras.visão em favor ou uma visão contra os ciganos. UESC Letras Vernáculas 161 Unidade III Aula 3 .. andando pelas praças. Os enunciados abaixo apresentam relações parafrásticas contra dos ciganos: (1) “A presença dos ciganos mudava o ritmo da cidade. E.” (p. 7). (6) “Nas noites. Suspeitavam roubos. percorrendo a cidade. (2) “Com a chegada dos ciganos o medo passava a ser companheiro dos meninos: isto por contarem que cigano roubava criança.

Nesse ponto. E. os 162 Módulo 2 I Volume 8 EAD .Linguística III . Vemos. que o tema dos ciganos.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso (8) “Durante o dia os ciganos martelavam o cobre. (9) “Moldar e polir o cobre era herança que o pai cigano passava para o filho” (p. as crianças ficariam perdidas para sempre” (p. assentados em torno da fogueira. (2) “Com a chegada dos ciganos o medo passava a ser companheiro dos meninos: isto por contarem que cigano roubava criança. 27). nem cavalos soltos nos pastos” (p. 2). relacionam-se as formações discursivas com a formação ideológica. vamos identificar os princípios que regem esse discurso: (1) “A presença dos ciganos mudava o ritmo da cidade. o texto ou textos particulares analisados desaparecem como referências específicas para dar lugar à compreensão de todo um processo discursivo do qual eles são parte. construindo tachos” (p. apresenta duas posições ideológicas opostas. e tudo ficava preguiçoso. 1996. assim. a constituição do processo discursivo. Os resultados da análise tornam-se então disponíveis para que sejam interpretados pelo analista.. a segunda etapa do método de análise de discurso é a: (. atingindo. como ninguém sabia de onde vinham ou para onde iam. Conforme já visto na primeira aula dessa unidade. na obra de Queirós.3).) passagem do objeto discursivo para a formação discursiva. assim. As Formações Discursivas “determinam o que pode e deve ser dito” a partir de uma dada posição ideológica (ORLANDI. Nesta etapa. A partir dos enunciados parafrásticos contra os ciganos. 9).. p. Isso mostra que o tema dos ciganos nessa obra literária constitui uma formação ideológica. Portas eram cerradas. (3) “Á tarde. quando chegava. roupas não dormiam em varal. Passemos agora a identificar as duas formações discursivas que se originam dessa formação ideológica: a formação discursiva contra os ciganos e a formação discursiva a favor destes. 6).

(4) “E as ciganas de coloridas saias. Portanto. estas ciganas – tiradoras de sorte – liam futuros cheios de amor e fortuna” (p. andando pelas praças. a formação discursiva contra os ciganos determina o que pode e deve ser dito que: Os ciganos são ladrões Os ciganos roubam crianças Os ciganos inspiram temor por serem ladrões A partir dos enunciados parafrásticos em favor dos ciganos. forte música saía das cabanas e. enquanto pertencentes ao discurso sobre os ciganos. O discurso sobre o cigano é um processo que vem se desenvolvendo há séculos. Estes enunciados passam a nos interessar. 7). podemos inferir que os ciganos inspiram temor por serem ladrões. (5) “Nas noites. podemos inferir o seguinte princípio: os ciganos são ladrões. vamos identificar os princípios que regem esse discurso: (3) “E nas mãos que a cidade timidamente oferecia. em língua diferente que mesmo o silêncio quietava para escutar” (p. 4).. Do enunciado (1). invadindo ouvidos. de suas bocas partia um canto bonito. Portanto. Trocavam olhares. desfiavam conversas e suspeitas sobre a ventura dos visitantes. podemos inferir que: os ciganos roubam crianças..” (p. promovia sonhos. os enunciados recortados acima. UESC Letras Vernáculas 163 Unidade III Aula 3 . pintavam de luz a cidade” (p. Em volta do fogo eles dançavam e mais dançavam. Agora desaparece a obra literária de Queirós e passamos a compreender o processo discursivo sobre o cigano de que os enunciados acima fazem parte. Entre sons de violinos e guitarras.vizinhos se reuniam em portas e varandas. percorrendo a cidade. Do enunciado (2). já não nos interessam enquanto pertencentes à obra literária de onde foram recortados. 7). Suspeitavam roubos. Do enunciado (3). 5).

há séculos. podemos inferir que a música dos ciganos promove sonhos. construindo tachos” (p. E mais que isto. 10). “o interdiscurso é o conjunto do dizível. Os ciganos criaram a festa. em outro lugar. Segundo Orlandi. podemos inferir que os ciganos trabalham durante o dia. Do enunciado (6). Portanto. Do enunciado (4). independentemente. podemos inferir que as ciganas pintavam de luz a cidade. 89).. a cor e a magia do circo. o 164 Módulo 2 I Volume 8 EAD . podemos inferir que as ciganas predizem futuros cheios de amor e fortuna. podemos inferir que os ciganos criaram a festa. Finalmente. 9). Interdiscurso é o conjunto de todos os discursos. assentados em torno da fogueira. (9) “Moldar e polir o cobre era herança que o pai cigano passava para o filho” (p. os pais ensinam os filhos a moldar e a polir o cobre. a forma do circo. histórica e lingüisticamente definido” (1993. reverbera essa memória do discurso da sociedade ocidental Nesse sentido. aquilo que fala antes. Os pais ciganos ensinam os filhos a moldar e a polir o cobre. Eles devem ter inventado a festa. (7) “Durante o dia os ciganos martelavam o cobre.) devem ter sido os ciganos os inventores do circo. A música dos ciganos promove sonhos. o interdiscurso é a memória do discurso. o já-dito. Nos enunciados vistos contra os ciganos.Linguística III . numa dada formação social e num dado momento. Os ciganos trabalham durante o dia. circula um discurso em que o cigano é visto como ladrão. entre os ciganos. de balançar em trapézio ou de se expor às facas e fogo. Não a arte de se equilibrar no arame. Do enunciado (5). Do enunciado (8). imoral e facínora.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso (6) “(.. criaram essa magia e encanto que o circo reserva ainda hoje” (p. Do enunciado (7). podemos inferir que. As ciganas pintam de luz a cidade. a formação discursiva a favor dos ciganos determina o que pode e deve ser dito que: As ciganas predizem futuros cheios de amor e fortuna. do enunciado (9).3). Na formação social brasileira. a cor e a magia do circo. a cor.

colorido e também trabalhador. Trocavam olhares. que há uma relação interdiscursiva entre o discurso ocidental sobre o cigano e o discurso contra o cigano na obra de Queirós. através do discurso a favor do cigano.. fazendo pensar sobre o outro. que perpetua essa imagem. Essa visão manifesta uma relação interdiscursiva com o discurso da sociedade ocidental.” (p. 7). ignorante e herege. a cor e a magia do circo. bárbaro e perigoso: Os ciganos são ladrões Os ciganos roubam crianças Os ciganos inspiram temor por serem ladrões Outra representação constante nesse discurso ocidental é a que mostra o cigano como o indivíduo exótico e misterioso. mas ao mesmo tempo. pertencente a uma diferente etnia. aliando esse exotismo às práticas de bruxarias e ao paganismo (FAZITO. Suspeitavam roubos. o estereótipo cigano negociado com o imaginário gadjo. Os ciganos trabalham durante o dia. do imaginário popular sobre os ciganos e que a narrativa ficcional aqui analisada. até hoje.. Como nos diz Fazito (2006). o cigano é tido e visto como selvagem – um mau selvagem. Os pais ciganos ensinam os filhos a moldar e a polir o cobre. Os ciganos criaram a festa. 2006). Podemos concluir. identificado como sarraceno imoral. sustenta a figura de um indivíduo indolente. quando chegava. desfiavam conversas e suspeitas sobre a ventura dos visitantes. Na melhor das hipóteses. então. A música dos ciganos promove sonhos. e tudo ficava preguiçoso. os ciganos são mostrados como um povo alegre. Essa imagem também contribuiu para a visão estereotipada do cigano. em geral. festeiro. os vizinhos se reuniam em portas e varandas. de certa forma reforça. UESC Letras Vernáculas 165 Unidade III Aula 3 . Nessa formação discursiva. facínora e covarde. (3) “À tarde. busca provocar uma reflexão sobre a diferença e a alteridade. exercendo um fascínio sobre a população local por serem diferentes: As ciganas predizem futuros cheios de amor e fortuna. São essas representações que fazem parte. desde os primeiros contatos no Ocidente.preestabelecido. As ciganas pintam de luz a cidade.

166 Módulo 2 I Volume 8 EAD . de Jorge Amado.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso Através de uma narrativa curta e simples. 5) Da letra da música Asa Branca. cravo e canela. ATIVIDADES 1) Do romance Senhora. retire enunciados do discurso sobre o papel da mulher na sociedade. das imagens pré-construídas sobre o povo cigano. de José de Alencar. retire enunciados do discurso sobre as belezas naturais Brasil 3) Do romance Gabriela. de Luiz Gonzaga. retire enunciados do discurso sobre os coronéis do cacau. retire enunciados do discurso sobre o sofrimento do nordestino com a seca. Bartolomeu Campos Queirós nos leva a refletir acerca da representação do outro. 4) Ouça um sermão religioso e anote alguns enunciados do discurso sobre o pecado. 2) Da letra do hino nacional.Linguística III .

  A partir dos enunciados recortados e agrupados.  Finalmente. ed. Helena H. A identidade cigana e o efeito de nomeação: deslocamento das representações numa teia de discursos mitológicocientíficos e práticas sociais. conhecimentos sobre o tema do discurso em análise. Campinas: Pontes. ORLANDI. QUEIRÓS. ed. ed. partimos dos enunciados recortados para estabelecermos os princípios da formação discursiva em questão. através da identificação de relações parafrásticas e polissêmicas. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Na primeira etapa da análise. n. Na segunda etapa da análise. Dimitri. 4. jul. Campinas: UNICAMP. ed. partimos do texto para entrar no processo discursivo mais amplo. As formas do discurso 4.RESUMINDO Nesta aula.    Na análise acima. FAZITO. Introdução à análise do discurso. 14. você viu que:   Numa obra literária. 1996. N. Ciganos. vol. 5. 2004. e um dispositivo analítico. na terceira etapa foi feita uma relação entre a formação discursiva e a ideologia ocidental sobre os ciganos. UESC Letras Vernáculas 167 Unidade III Aula 3 REFERÊNCIAS . In: Revista de Antropologia. você pode inferir os princípios que regem cada formação discursiva.2. São Paulo. BRANDÃO. 2003. 1995. _________. Bartolomeu Campos. A linguagem e seu funcionamento. Em cada análise é preciso um dispositivo teórico. a teoria da análise de discurso.49. Esses enunciados recortados podem ser agrupados em duas ou mais formações discursivas. Eni Puccinelli. São Paulo: Global. você pode recortar enunciados pertencentes a uma mesma formação ideológica. o dispositivo analítico usado foi a visão ocidental sobre os ciganos. 2006./dez. Campinas: Pontes.

.............................................................................. ..................................... .................................................................................................................................................. ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. .......................................................................................................................................... ............................................ .................................................................................................................................. ....... ............................ ................................................................................................................................................................... ........... ..................................................................................................................................... ............................................................................................................................................................... ....................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................. ....................................................................................................Suas anotações ............................................................................................. ....................................................................................................... ................................................................... ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ ................................................................................... ............................................................................................................................................................................................................................................ .................................................................................................................. ..................................................................................................................................................................................................... ............................................................................................................................ ...................................................... ................................................ ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. ........................................................................................ ..................................................................... ....................................................................... ................................................................................................. ........................................................................ ................................. ............................................ ................ ..................................................................

você deverá: • • • ter uma noção da prática em Análise de Discurso. . aplicar os procedimentos de cada etapa na Análise de Discurso. aplicar conceitos teórico-metodológicos básicos na análise de discursos.aula 4 EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO Objetivos Ao final desta aula.

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de MESQUITA FILHO... Vamos ver agora mais um artigo. o artigo inédito “O discurso de gênero no Evangelho de Maria Madalena”. um trabalho de análise de discurso com base em um texto literário. Vamos tomar aqui. aplicando os conceitos e método da AD em numa análise concreta. como exemplo de análise. na aula anterior.AULA 4 EXERCÍCIOS EM ANÁLISE DE DISCURSO . UESC Letras Vernáculas 171 Unidade III 4 . Odilon Pinto de. Aula 1 INTRODUÇÃO Já vimos.

Apesar disso. Quem é essa mulher? A interpretação “errônea” de outros textos dos evangelhos chegou a identificá-la com Maria irmã de Marta. Maria Madalena. os evangelhos de Tomé e de Maria Madalena. A presença de tantos textos fragmentados pode ser atribuída. os seus maridos’ (www. foram encontrados. Se em Atos dos Apóstolos ela é aquela mulher subserviente. uma líder entre os primeiros cristãos e a mulher que Jesus tanto amou. De Maria Madalena. contendo uma lista de 60 livros apócrifos do Segundo Testamento.evangelhos). interpretação que ficou mais no inconsciente coletivo. que está junto aos apóstolos. nós encontramos uma mulher diferente da que aparece nos evangelhos canônicos.Linguística III . Maria. guardado e conservado por tantos anos. no alto Egito. as sociedades antigas eram dominadas pelo patriarcalismo. nos apócrifos ela é uma mulher que discute de igual para igual com os apóstolos e que tem liderança entre eles. mãe de Jesus. Como se sabe. escreveu o seguinte: ‘. Entre elas. com a mulher que ungiu Jesus e. destacam-se Maria Madalena. estas são importantíssimas no início do cristianismo. da mesma forma. Quem não “aprendeu” que Maria Madalena era prostituta? No entanto. 172 Módulo 2 I Volume 8 EA D . aos decretos e recomendações papais solicitando o não uso desses textos pelos cristãos. mãe de Jesus. os quais os cristãos deveriam evitar. LEITURA RECOMENDADA Acesse o site www.evangelhos para saber mais sobre esta descoberta. discípula de Jesus é uma “apóstola”. que lutou contra o movimento de mulheres cristãs. o texto está fragmentado. apocrifos. em língua copta. com a prostituta. em Nag Hamadi. mas que não tem liderança. Tertuliano. era a companheira de Paulo na evangelização. o que é pior. infelizmente. Ela batizava. em casa. Que elas se calem e que questionem. É conhecido o decreto Gelasiano (referente ao Papa Gelásio . E muitos livros apócrifos foram para a fogueira. além de outros fatores. Nos evangelhos apócrifos sobre Maria. Mas logo no início do Cristianismo a voz de Tecla foi silenciada. no ano 200.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso 2 O DISCURSO DE GÊNERO NO EVANGELHO DE MARIA MADALENA Em 1945. Tecla e Verônica. o que levava à inferioridade e dominação das mulheres.apocrifos. Daí a importância de se encontrar um livro como o de Maria Madalena. Tecla..falecido em 496)..

A hipótese é de que este evangelho explicite uma formação ideológica sobre a questão de gênero. apresentando enunciados que reafirmam o patriarcalismo dominante na época e enunciados que resistem a essa dominação da mulher. sujeitando a mulher a uma posição subalterna. com base na teoria da Análise de Discurso. de linha francesa. a fim de determinar se esse tema constitui uma formação ideológica no evangelho de Maria Madalena. O método a ser seguido iniciará com a identificação de enunciados opostos quanto à questão de gênero. Esse trabalho se justifica pela importância que as religiões cristãs ainda hoje têm na cultura ocidental. essa pesquisa pode contribuir para uma visão crítica de posições religiosas tradicionais sobre a mulher. Dessa forma. serão destacados alguns aspectos do funcionamento de cada discurso. serão caracterizadas as formações discursivas existentes. 2.Figura 01: O discurso de gênero no evangelho de Maria Madalena. por meio da observação de paráfrases e polissemias. Leonardo da Vinci (1452–1519) Fonte: http://commons. Em seguida.jpg O objetivo desse trabalho é analisar aspectos do funcionamento do discurso de gênero nos fragmentos do evangelho de Maria Madalena.org/wiki/File:Leonardo_da_Vinci_(1452-1519)_-_The_Last_Supper_(1495-1498). Finalmente.1 Análise dos dados Do evangelho de Maria Madalena foram retirados os seguintes enunciados sobre gênero: UESC Letras Vernáculas 173 Unidade III Aula 4 . Tais religiões são dominadas pelo antigo discurso patriarcal.wikimedia.

Linguística III - Teoria da análise de discurso

Exercícios em análise de discurso

Pedro lhe disse: ‘Já que nos explicaste tudo, dize-nos isso também: o que é o pecado do mundo?’. Mas eles estavam profundamente tristes. E falavam: ‘Como vamos pregar aos gentios o Evangelho do Reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, vão poupar a nós?’. Maria Madalena se levantou, cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: ‘Não vos lamentais nem sofrais, nem hesiteis, pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens. Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador’. Pedro disse a Maria: ‘Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos’. Maria Madalena respondeu dizendo: ‘Esclarecerei a vós o que está oculto’. E ela começou a falar essas palavras: ‘Eu’, disse ela, ‘eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: ‘Mestre, aparecesteme hoje numa visão’. Ele respondeu e me disse: ‘Bem aventurada sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois, onde está a mente há um tesouro’. Eu lhe disse: ‘Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?’ Jesus respondeu e disse: ‘Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão’. Depois de ter dito isso, Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. Mas André respondeu e disse aos irmãos: ‘Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso. Pois esses ensinamentos carregam idéias estranhas’. Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas. Ele os inquiriu sobre o Salvador: ‘Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?’. Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro: ‘Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?’. Levi respondeu a Pedro: ‘Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário’. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o homem perfeito e nos separaremos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou.

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Módulo 2

I

Volume 8

EA D

Os enunciados (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (11) pertencem ao discurso em favor da igualdade de gênero, isto é, igualdade entre a mulher Maria Madalena e os homens apóstolos.
Pedro lhe disse: “Já que nos explicaste tudo, dize-nos isso também: o que é o pecado do mundo?” - Esse enunciado apresenta uma atitude de respeito e de humildade de Pedro em relação à Madalena. Mas eles estavam profundamente tristes. E falavam: “Como vamos pregar aos gentios o Evangelho ao Reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, vão poupar a nós?” Maria Madalena se levantou, cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: “Não vos lamentais nem sofrais, nem hesiteis, pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens. Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador”. - Neste enunciado, além de uma atitude de respeito e de humildade, agora de todos os apóstolos, podemos ver também que Maria Madalena exerce um papel de liderança sobre eles. Pedro disse a Maria: “Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos.” - Aqui, o apóstolo Pedro, além de demonstrar respeito e humildade com relação a Madalena, reconhece a condição de ela ser a discípula mais amada por Jesus e a que dele recebeu mais ensinamentos. Maria Madalena respondeu dizendo: “Esclarecerei a vós o que está oculto”. - Neste enunciado, a própria Madalena se coloca como mais sábia do que os outros apóstolos E ela começou a falar essas palavras: “Eu”, disse apareceste-me hoje numa visão’. Ele respondeu e me disse: ‘Bem aventurada sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois, onde está a mente há um tesouro’. Eu lhe disse: ‘Mestre, Jesus respondeu e disse: ‘Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão’ - Neste enunciado, Madalena detalha a maior proximidade que tinha com Jesus, contando um episódio acontecido somente com os dois. Depois de ter dito isso, Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. - Neste enunciado, Madalena afirma estar repetindo palavras que Jesus lhe dissera. aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?’ ela, “eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: ‘Mestre,

Por outro lado, os enunciados (7), (8), (9) e (10) pertencem ao discurso patriarcal, contra a igualdade de gênero, isto é, contra a

UESC

Letras Vernáculas

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Unidade III

Aula

4

Linguística III - Teoria da análise de discurso

Exercícios em análise de discurso

igualdade entre a mulher Maria Madalena e os homens apóstolos: Mas André respondeu e disse aos irmãos: “Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso. Pois esses ensinamentos carregam idéias estranhas” - Neste enunciado, André duvida que as palavras de Madalena tenham sido ensinadas por Jesus. Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas. Ele os inquiriu sobre o Salvador: “Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?” - Aqui é o apóstolo Pedro que põe em dúvida a veracidade das palavras de Madalena Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro: “Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?” - Agora é Madalena que se põe em uma posição defensiva, mas resistindo contra as insinuações de ser mentirosa. Levi respondeu a Pedro: “Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. - Neste enunciado, é afirmado que competir com uma mulher é uma situação humilhante, inferior, para um homem. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o homem perfeito e nos separaremos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou. - Agora Levi afirma que Madalena diz a verdade, não por mérito dela, mas por ela ter sido escolhida por Jesus. A análise mostra que Madalena é vista, sobretudo, pela sua condição de mulher:
“Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher”. “Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de

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opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?”. Levi respondeu a Pedro: “Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário”.

Por isso, podemos considerar que as referências a Madalena são, principalmente, referências ao gênero feminino. Nesse caso, o evangelho de Maria Madalena apresenta o tema de gênero como uma formação ideológica, isto é, constituído por “um conjunto complexo de atitudes e representações que não são nem individuais, nem universais, mas dizem respeito, mais ou menos diretamente, às posições de classe em conflito umas com as outras. Cada formação ideológica pode compreender várias formações discursivas interligadas” (BRANDÃO, 1995, p. 90). A Formação Ideológica vista acima apresenta duas Formações Discursivas: uma formação discursiva patriarcal, de dominação sobre a mulher; e outra formação discursiva de resistência contra tal dominação. A Formação Discursiva é “um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definem, em uma dada época e para uma determinada formação social as condições do exercício da função enunciativa”, o que pode e deve ser dito (CARDOSO, 1999, p. 23). Para a AD, a historicidade tem uma realidade material na língua. A formação da opinião pública e a construção da memória social, por exemplo, são processos históricos que se realizam principalmente através de funcionamentos discursivos de contradição, repetição e indeterminação, entre outros: “Nestes processos, o que entra em jogo é um duplo movimento de construção dos sentidos: das palavras nas palavras e enunciação” (MARIANI, 1999, p. 109). O discurso patriarcal, que considera a mulher Maria Madalena inferior aos apóstolos homens, funciona mais por meio da desconfiança do que realmente por afirmações diretas:
“Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso.” “Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?” “Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?”
MEMÓRIA SOCIAL: é um processo histórico que se realiza principalmente através de funcionamentos discursivos.

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e da enunciação no movimento histórico e do movimento histórico

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quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. sobretudo. e b) um discurso contra essa 178 Módulo 2 I Volume 8 EA D . funciona por meio de enunciados positivos da própria Madalena. Após Maria ter dito isso. Depois de ter dito isso.” Estes últimos enunciados ora apresentam uma aceitação pura e simples da igualdade de gênero. as de que te lembras. uma vez que ela é a autora do texto evangélico em questão: Maria Madalena se levantou. também aparece em falas masculinas: Pedro lhe disse: “Já que nos explicaste tudo. quanto ao discurso sobre gênero.” Maria Madalena respondeu dizendo: “Esclarecerei a vós o que está oculto”. Maria Madalena se calou. o discurso em favor da igualdade. no meio dos apóstolos. Por sua vez. no meio dos apóstolos. eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador. se o Salvador a fez merecedora. 2. O mesmo discurso em favor da igualdade entre homem e mulher. aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos. nem hesiteis. com duas formações discursivas: a) um discurso a favor da igualdade entre homens e mulheres. apresenta uma formação ideológica. Conta-nos as palavras do Salvador. sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso E essa desconfiança está voltada. cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: “Não vos lamentais nem sofrais. à condição de gênero feminino de Madalena: “Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco?”. dize-nos isso também: o que é o pecado do mundo?” Pedro disse a Maria: “Irmã. sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. Antes. Daí a ter amado mais do que a nós. ora apresentam uma aceitação dessa igualdade por ter sido imposta por Jesus: “Irmã.2 Considerações finais O evangelho de Maria Madalena. pois Ele nos preparou e nos fez homens. entre os homens apóstolos e a mulher Maria Madalena. pois até aqui o Salvador lhe tinha falado.Linguística III .” Mas. louvemos sua grandeza.

perigo constante. perigo dobrado” pertence ao discurso machista ou ao discurso feminista? Por quê? 6) A frase de pára-choque: “Eu dirijo o caminhão e minha mulher dirige o fogão” pertence ao discurso machista ou ao discurso feminista? Por quê? 7) O vendedor bate à porta de uma residência. mas é inteligente” . e o discurso em favor da igualdade entre os gêneros. de domínio do homem sobre a mulher. no Brasil. A dona da casa vem atendê-lo: pois não! Ele pergunta: o chefe da casa está? E a mulher responde: o chefe da casa sou eu e meu marido! A pergunta do vendedor pertence ao discurso machista ou ao discurso feminista? Por quê? A resposta da mulher é um enunciado que pertence ao discurso feminista ou ao discurso machista? Por quê? UESC Letras Vernáculas 179 Unidade III Aula 4 . 3) O enunciado: “Ela é mulher.igualdade. Estes últimos ora apresentam uma aceitação pura e simples da igualdade de gênero. funciona por meio de enunciados explícitos da própria Madalena e de outros apóstolos. ora apresentam uma aceitação porque imposta por Jesus. 2) Cite três profissões hoje. com homem de lado. O discurso contra a igualdade entre homens e mulheres funciona mais por meio da desconfiança do que realmente por afirmações explícitas sobre a superioridade masculina. ATIVIDADES 1) Cite dois enunciados da cultura popular brasileira que pertencem ao discurso machista.pertence ao discurso de igualdade entre os gêneros ou pertence ao discurso machista de superioridade do homem sobre a mulher? Por quê? 4) O enunciado: “Mulher é o sexo frágil” pertence ao discurso machista ou ao discurso feminista? Por quê? 5) O enunciado: ”Mulher no volante. que não são desempenhadas por mulheres. no meio dos apóstolos. isto é.

MARIANI. que lutou contra o movimento de mulheres cristãs. 4.Linguística III . e uma formação discursiva feminista. In: INDURSKY. Bethania Sampaio Corrêa. O tema do gênero. no evangelho de Maria Madalena.evangelhos. p. Freda. de igualdade de gênero.    No texto analisado. Acesso em 15 maio 2009. FERREIRA. 1995. as referências a Madalena são. 1999. em língua copta. encontramos uma formação discursiva patriarcal. BRANDÃO. referências ao gênero feminino. no meio dos apóstolos. os seus maridos”. ed.  No evangelho de Maria Madalena. N. Porto Alegre: Sagra Luzzatto.. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. você viu que:    O discurso de gênero dominante nas sociedades antigas era o discurso patriarcal de superioridade do homem sobre a mulher. No evangelho de Maria Madalena. Sílvia Helena Barbi.apocrifos. 102-121. Em 1945. principalmente. escreveu o seguinte: “. 1999. Introdução à análise do discurso.. no ano 200.Teoria da análise de discurso Exercícios em análise de discurso RESUMINDO Nesta aula.). Sobre um percurso de análise do discurso jornalístico – A Revolução de 30. constitui uma formação ideológica. Discurso e ensino. Que elas se calem e que questionem. no alto Egito. em Nag Hamadi. Maria Cristina Leandro (Orgs. REFERÊNCIAS CARDOSO. o discurso contra a igualdade entre homens e mulheres funciona mais por meio da desconfiança do que realmente por afirmações explícitas sobre a superioridade masculina. www. Tertuliano. Belo Horizonte: Autêntica. funciona por meio de enunciados explícitos da própria Maria Madalena e de outros apóstolos. Helena H. em casa. os evangelhos de Tomé e de Maria Madalena. o discurso em favor da igualdade entre os gêneros. de dominação do homem sobre a mulher. Campinas: UNICAMP. 180 Módulo 2 I Volume 8 EA D .  No evangelho de Maria Madalena. foram encontrados.

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1234 unidade APLICAÇÃO DA ANÁLISE DE DISCURSO NO ENSINO ESCOLAR DE PORTUGUÊS. FUNDAMENTAL E MÉDIO .

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. você deverá: • analisar as implicações teóricas da Análise de Discurso no ensino escolar de leitura e interpretação de texto.aula 1 ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS Objetivos Ao final desta aula. • discutir aspectos da aplicação da Análise de Discurso no ensino escolar de leitura e interpretação de texto.

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ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS

LEITURA RECOMENDADA ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso e Texto: formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001.

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Aula
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1 INTRODUÇÃO
Você começou este curso vendo as limitações da linguística estrutural de Saussure para resolver a questão do sentido das palavras. Depois você viu os conceitos básicos teóricos e metodológicos da Análise de Discurso. Em seguida você viu a aplicação desses conceitos em análises específicas de discurso. Finalmente, nesta unidade, você vai ver propostas de atividades para o ensino escolar de português, com base em Análise de Discurso. Vamos iniciar com propostas para o ensino de leitura e interpretação de texto.

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Linguística III - Teoria da análise de discurso

Análise de discurso e leitura interpretativa de textos

2 ANÁLISE DE DISCURSO E O ENSINO ESCOLAR DE LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
Na atividade de leitura, o professor pode desenvolver no aluno a capacidade de identificar diferentes vozes que falam em um mesmo texto, uma vez que a polifonia é uma característica fundamental do discurso (BRANDÃO, 1998, p. 55). Um texto traz diferentes vozes anônimas e não só a voz do autor, como pode ser visto no texto abaixo:
O vice-presidente José Alencar garantiu aos políticos mineiros que não disputará o governo estadual, apesar de os médicos terem constatado as grandes vitórias que ele obteve contra o câncer que se espalhou no seu abdômen (VEJA, 24/03/2010, p. 56).

VOZES: a polifonia é uma característica fundamental do discurso.

No texto acima, por exemplo, temos três vozes: a primeira é a do jornalista que narra os fatos em terceira pessoa; a segunda voz é a do vice-presidente José Alencar, que fala aos políticos mineiros; e a terceira é a voz dos médicos que constataram as grandes vitórias de José Alencar contra o câncer. Desenvolver no aluno essa capacidade de identificar diferentes vozes leva-o a uma melhor compreensão do texto.

2.1 O leitor é co-autor Em Análise de Discurso, o leitor é co-autor do discurso. Ao produzir enunciados em um texto, o sujeito não pode dizer explicitamente tudo. Por isso, ele “pede ao leitor que preencha toda uma série de lacunas” (ECO, 1994, p. 9). Além disso, ao produzir o texto, o sujeito autor imagina um leitor ideal a quem se dirige. Esse leitor não é empírico, isto é, não é um indivíduo físico, é um ser virtual. Dessa forma, esse leitor imaginário participa efetivamente da escrita do texto. Por exemplo:
O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, entrou em campo para que grandes empresários saiam em defesa de Dilma Rousseff quando ela for atacada. O que Padilha tem pedido é que, a cada bordoada da oposição, um desses bravos empresários patriotas apareça para dizer que o Brasil vai muito bem, obrigado (VEJA, 21/04/2010, p. 56).

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No texto acima, não é dito o que são “Relações Institucionais”, quem é Dilma nem “bordoada da oposição”. O jornalista espera que o leitor seja competente para preencher essas lacunas deixadas. Além disso, tal leitor ideal participa efetivamente na elaboração do texto, porque determina o que deve ser explicitado e o que deve ser deixado em lacunas, fazendo com que o texto seja mais ou menos curto (elíptico). Portanto, o leitor ideal desse texto jornalístico é uma pessoa culta que acompanha o noticiário político. Observe, no entanto, que o leitor ideal não é uma pessoa física, um indivíduo, mas é uma criação do discurso. Esse leitor é apenas um lugar, um dispositivo, uma posição de leitura à qual o texto associa diversas características. Dessa forma, o texto acima pode ser lido por diferentes pessoas físicas que não correspondem ao leitor ideal criado por esse discurso.
Um texto que começa com ‘Era uma vez’ envia um sinal que lhe permite de imediato selecionar seu próprio leitor-modelo, o qual deve ser uma criança ou pelo menos uma pessoa disposta a aceitar algo que extrapola o sensato e o razoável (ECO, 1994, p. 15).
LEITOR IDEAL: o sujeito-autor pede ao leitor ideal que preencha uma série de lacunas deixadas no texto.

Para o professor, isso é importante na hora de escolher textos a serem trabalhados em sala. Cada texto cria seu leitor ideal e este deve estar próximo do perfil dos seus alunos (MAINGUENEAU, 1996, p. 88). Por exemplo, as lacunas deixadas pelo texto podem ser preenchidas pelos estudantes de uma determinada turma? Em sala de aula, o professor pode desenvolver atividades com os alunos para identificar quem é o leitor imaginário ideal a quem um determinado texto se dirige. Na propaganda a seguir, podemos analisar, pelo texto e pela imagem, algumas características do seu leitor ideal. A propaganda a seguir é de uma marca luxuosa de relógio e foi retirada da revista Veja (21/04/2010). Se observarmos a imagem da mulher no texto, com seu corpo bem cuidado e sua roupa elegante, podemos identificá-la como sendo de uma classe de alta renda. Observemos também o pequeno texto: TEMPO DE SOFISTICAR TEMPO DE DESEJAR TEMPO DE BRILHAR. O verbo “sofisticar”, associado à imagem dos modelos de relógio, se refere a um tipo caro de consumo. Finalmente, o verbo “brilhar” se refere ao destaque, ao status superior, conferido ao consumidor

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Análise de discurso e leitura interpretativa de textos

desse produto. Como essa propaganda foi veiculada no final de abril, a três semanas do Dia das Mães, a propaganda tem como leitor ideal os filhos e pais de renda alta, para que presenteiem suas mães e esposas com um relógio. Observe que a mulher que aparece no texto já tem idade suficiente para ser uma mãe.

Figura 02: Publicodade da Technos. Fonte: Veja, 21 abr. 2010.

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1997). Vemos. aquele a identifica como uma estranha. No caso da propaganda acima. que o modo de leitura de um texto é afetado pela posição sócio-histórica do leitor. o surgimento da sociedade capitalista e a publicidade na mídia impressa. associada ao consumo caro do relógio. a expressão TEMPO DE SOFISTICAR. É nele que podemos compreender o que significa o discurso da propaganda. associando o consumo de um produto aos sentidos de “sofisticar”. um lugar de leitura do consumidor. não são as condições empíricas imediatas que contam. Existe. ou seja. portanto. é diferente de selecionar um texto para leitura numa escola particular. como parte dos processos de identificação do consumidor. Ele tem sua identidade configurada enquanto tal “pelo lugar social em que se define ‘sua” leitura’ (ORLANDI. Além disso. onde se concentram as classes de renda alta. UESC Letras Vernáculas 191 Unidade IV Aula 1 . selecionar um texto para leitura numa escola pública. como leitor ideal. mas o seu lugar de produção de sentido. permanece o gesto da leitura sem que seja necessário o fato circunstanciado. afetado pela sua inserção no social e na história. na sociedade brasileira de mercado atual. Há um leitor virtual inscrito no texto: o leitor não esteja lendo empiricamente a propaganda. Por isso. Dessa forma. aparece como algo viável ao leitor de renda alta. “desejar” e “brilhar”. na propaganda acima. esse lugar histórico de leitura só pode ser datado após a invenção da imprensa. empírico. o modo de leitura de um leitor de baixa renda não é o mesmo modo de leitura de um leitor de renda alta. Cada texto fixa um “lugar” de leitura historicamente determinado (ORLANDI. É uma leitura em que não interessa a pessoa do leitor. Enquanto este pode identificar a imagem da mulher que aparece no texto como podendo ser sua mãe ou esposa. Assim. um consumidor em potencial desse produto. institui. Vemos. mas o leitor histórico que produz esse sentido. Não é o leitor empírico. portanto. O fato de poder ser identificado como propaganda de uma marca de relógio. O discurso capitalista de consumo é um lugar forte de interpretação do texto acima. 1999a. Este lugar se mantém mesmo que permanece desgrudada do ato concreto.O leitor é levado a um modo de leitura. p. 76). A “leitura” MODO DE LEITURA: o mo-do de leitura de um texto é afetado pela posição sócio-histórica do leitor. mas aparece como algo inviável ao leitor de baixa renda. O texto acima foi retirado da revista Veja. onde se concentram as classes populares. concreto do sujeito que lê para se representar como consumidor. que o discurso da propaganda não pode ser lido fora de sua história mais longa.

deve “sofisticar”. Além disso. há um leitor constituído em sua própria elaboração. aquele que o autor imagina e a quem o texto se dirige. quanto um seu ‘adversário’ (ORLANDI. 1999b. possíveis. isto é. ou imaginários). 9). o autor também supõe que esse leitor estará de acordo que a mãe. p. Já vimos que esse leitor é um filho ou marido com renda alta. “desejar” e “brilhar”? Podemos dizer que a relação básica que instaura o processo de leitura é a do jogo existente entre o leitor virtual e o leitor real. 1999b. já encontra um leitor aí constituído com o qual ele tem de se relacionar necessariamente” (ORLANDI.ele se identifica como um sujeito consumidor numa sociedade de mercado? . aceitando a cumplicidade estabelecida ou se opondo a ela: . 2. quando o leitor real. e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. quando o leitor empírico lê a propaganda acima. no Dia das Mães. a relação de um texto com outros (existentes. p. ele já encontra aí um leitor ideal constituído. “se apropria do mesmo. “desejar” e “brilhar”. na medida em que o autor supõe que ele vá considerar simpática a imagem da mulher mãe que domina a propaganda. devemos manifestar nossos sentimentos comprando 192 Módulo 2 I Volume 8 EA D . Na propaganda acima. mas também o que está implícito: aquilo que não está dito e que também está significando. trata-se aqui do leitor imaginário. Assim.Linguística III . Tanto pode ser um seu ‘cúmplice’ LEITOR IMAGINÁRIO: é aquele que o autor imagina para seu texto e para quem ele se dirige. no seu dia. Essas relações de sentido atestam. aquele que o autor imagina (destina) para seu texto e para quem ele se dirige. está implícito o discurso de que.2 A incompletude Quando se lê.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos Um leitor que é constituído no próprio ato da escrita. pois.ele se identifica com o sujeito que dá um presente no dia das mães para ela “sofisticar”. com o qual ele tem de se relacionar. Podemos dizer que há relações de sentidos que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele não diz. A partir dessa cumplicidade é que o autor sugere o produto relógio como um presente adequado à mulher mãe. aquele que lê o texto. a intertextualidade. mas poderia dizer. PROCESSO DE LEITURA: é instaurado basicamente pelo jogo existente entre o leitor virtual e o leitor real. Em termos do que denominamos ‘formações imaginárias’ em análise de discurso. Na propaganda anterior. considera-se não apenas o que está dito. Ou seja. 9). Esse leitor é um ‘cúmplice’. Trata-se do leitor imaginário.

em cada um dos seguintes textos. Os sentidos da propaganda vista passam pela relação dela com o texto imaginário sobre a compra de presentes. PROIBIDO FUMAR. podemos estabelecer uma relação de intertextualidade entre o texto da propaganda e o texto imaginário sobre comprar presentes no Dia das Mães. o efeito leitor (ORLANDI. diga ao povo que eu fico!” c) “A partir de hoje. Esse discurso não está dito. o sujeito-autor. por meio de um presente que faça a homenageada “sofisticar”. no texto a seguir. Na produção discursiva. tempo de desejar. eu sei que o Senhor é meu pastor e nada me faltará. “desejar” e “brilhar”? Portanto. o governo brasileiro será exercido a partir de sua nova capital. ATIVIDADES 1) Identifique o leitor ideal das seguintes placas encontradas em nosso cotidiano: NÃO PISE NA GRAMA. nele. O NÃO DITO: os sentidos de um texto passam pela relação dele com outros textos.” UESC Letras Vernáculas 193 Unidade IV Aula 1 . tempo de brilhar”. a posição sócio-histórica do leitor que afeta seu modo de leitura: a) “Meu filho Pedro. Se pensarmos o campo da leitura. Na propaganda em questão. como ela vai poder “sofisticar”. por um mecanismo de antecipação. antes que algum aventureiro lance mão dele.presentes. mas está o tempo todo significando. qual é o outro texto a que está relacionado: “Apesar dos sofrimentos e dificuldades pelos quais estou passando. Assim. Esse leitor imaginário tem renda média ou alta e expressa seus sentimentos. CÃO FEROZ.” b) “Como é para o bem de todos e a felicidade geral da nação. 2) Identifique as vozes existentes no seguinte texto: “Em verdade vos digo: nem todo aquele que diz ‘Senhor! Senhor!’ entrará no reino dos Céus. no texto da propaganda. há a inscrição do outro. Somente a partir desse discurso não dito é que se pode atribuir sentido às expressões: “tempo de sofisticar. Sem dar à mãe um relógio da marca Technos. situada no planalto central de nosso país!” 4) Identifique. “brilhar” e “desejar”. um leitor virtual. 2001). os sentidos que podem ser lidos em um texto não estão necessariamente ali. O sujeito-autor é então “guiado” por esse imaginário e constitui. no Dia das Mães. isso fica assim: a função-autor tem. projetase imaginariamente no lugar em que o leitor o espera.” 3) Identifique. O(s) sentido(s) de um texto passa(m) pela relação dele com outros textos. como seu correspondente. ENTRADA PROIBIDA. Brasília. assuma o reino do Brasil.

Discurso e leitura. São Paulo: Companhia das Letras. REFERÊNCIAS ECO. O modo de leitura de um texto é afetado pela posição sócio-histórica do leitor. ORLANDI. 4. O processo de leitura é instaurado basicamente pelo jogo existente entre o leitor virtual e o leitor real. MAINGUENEAU. Octavio. Elementos de lingüística para o texto literário. São Paulo: UNESP. Discurso e Texto: formulação e circulação os sentidos. 1996. Os sentidos de um texto passam pela relação dele com outros textos. 1999a. A propaganda da Petrobrás. São Paulo: Martins Fontes. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas. O leitor ideal é aquele que o autor imagina para seu texto e para quem ele se dirige. LAJOLO. 2001. _____. 1994. Subjetividade. argumentação. Seis passeios pelos bosques da ficção.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos RESUMINDO Nesta aula você viu que:       Em um texto podemos ter várias vozes. BRANDÃO. Dominique. _____. 194 Módulo 2 I Volume 8 EAD . polifonia. IANNI. Um Sentido Positivo para o Cidadão Brasileiro. _____. Princípios & Procedimentos. Tradução de Maria Augusta Bastos de Mattos. 1999b. O sujeito-autor pede ao leitor ideal que preencha uma série de lacunas deixadas no texto. porque a polifonia é uma característica fundamental do discurso. 1998. ed. Campinas: Unicamp. 1997. Marisa. Eni Puccinelli. Sociedade e linguagem. Campinas: Pontes.Linguística III . Análise de discurso. São Paulo: Cortez. Helena Nagamine. Umberto. Tradução de Hildegard Feist. Campinas: Pontes. In: _____.

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. você deverá: • compreender a leitura no seu sentido mais amplo reconhecendo os seus diferentes modos. • reconhecer a intertextualidade nos diversos textos. • reconhecer que as condições de produção da leitura são constituídas pela relação de posições históricas socialmente determinadas.aula 2 ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS Objetivos Ao final desta aula.

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Entrar na Sociedade Geral dos Cidadãos. Diana Luz Pessoa de (Org. p.. Caminhos da História. 119-130. 2000.). UESC Letras Vernáculas 199 Unidade IV 1 INTRODUÇÃO 2 . com base em Análise de Discurso. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.AULA 2 ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS LEITURAS PRÉVIAS ORLANDI. . Os discursos do descobrimento.. Aula Nesta unidade. Eni Puccinelli. In: BARROS. Trajetos do Político. Vamos continuar apresentando algumas possibilidades de uso dessa teoria no ensino escolar de leitura e interpretação de texto. você está vendo propostas de atividades para o ensino escolar de português.

Leitura. Ela é uma espécie de “julgamento”. A legibilidade é uma questão de graus e não de tudo ou nada. 200 Módulo 2 I Volume 8 EAD . A relação é social e histórica. em termos de escolaridade. Em consequência. podemos pensá-la como produção. sentidos e sujeito são determinados histórica e ideologicamente. “leitura” pode ser enfocada enquanto interpretação e compreensão. Público são as pessoas que leem efetivamente um determinado texto (MAINGUENEAU. pode ser entendida como atribuição de sentidos. uma posição de leitura à qual o texto associa diversas características. 1996). da sua realidade significante. “leitura” pode ser ainda um dispositivo teórico-metodológico de aproximação de um texto: uma leitura estruturalista de Freud. Texto e leitura são produções históricas. possível de ser trabalhada. tanto a leitura quanto a escrita fazem parte do processo de instauração do(s) sentido(s). na relação entre o leitor e o autor. 2. LEITURA: no sentido mais amplo. uma vez que o sujeito-leitor tem suas especificidades e sua história. Portanto. p. Num sentido mais acadêmico. Também pode significar “concepção”. como o leitor virtual e/ou o sujeito-autor. Nesse caso. como quando se fala em “leitura de mundo”. as possíveis leituras de um texto de Platão etc. entre homens. mas interage com outros sujeitos.1 Legibilidade LEGIBILIDADE: é uma espécie de “julgamento”. no sentido mais amplo. Se nos fixamos na “objetalidade” do texto. na relação entre o leitor e o autor. Na perspectiva discursiva. é apenas um lugar num dispositivo. mediados pelo texto. a leitura pode ser vinculada à alfabetização.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos 2 LEITURA Já vimos que o leitor ideal não é um indivíduo ou um conjunto de indivíduos exteriores ao texto: ele é uma figura construída pelo texto a serviço de seus fins. O leitor não interage com o texto. mediada pelo texto. Isso faz com que sejam múltiplos e variados os modos de leitura. 1999.Linguística III . Nesse caso. nossa vida intelectual está intimamente relacionada aos modos e efeitos de leitura de cada época e segmento social. à aprendizagem formal de ler e escrever. Finalmente. 7). A leitura é o momento da produção da unidade textual. Tampouco esse leitor ideal pode ser confundido com o que chamamos de público. Assim. pode ser entendida como atribuição de sentidos (ORLANDI. absolutizamos a mediação e perdemos sua historicidade e significância. numa relação sujeito/objeto. estamos destacando uma relação geral com a ideologia.

incapazes de preencher essas lacunas. Essa contextualização da leitura inclui a instauração do autor e do leitor. ao fazê-lo. Em sala de aula. cuja capacidade de compreensão dominasse as múltiplas determinações de sentido que jogam em um processo de leitura. p. podem discutir possíveis leitores reais. que diz por si toda (e apenas uma) significação. isto é. Sujeitos e sentidos se constituem simultaneamente num mesmo processo. de suas condições de produção. Dessa forma. da situação de leitura. traçar o perfil do leitor ideal de um texto. que assume formas diferentes. Em seguida. A relação entre os interlocutores e os modos de leitura faz parte do contexto. junto com os alunos. organizando formas diferentes de relação dos leitores com o texto. o professor pode estabelecer diferentes modos de leitura para um mesmo texto. o que é mais significativo nesse texto para o professor Z? O que significa X para o professor Z? Os diferentes modos de leitura vão depender do contexto em que eles se dão e de seus objetivos.quando “os interlocutores se identificam como interlocutores e. isto é. uma vez que sujeitos e sentidos são elementos de um mesmo processo. desencadeiam o processo de significação do texto (ORLANDI. c) num leitor onisciente. Os modos de leitura são variáveis e organizam formas diferentes de relação dos leitores com o texto: a) Relação do texto com o autor: o que o autor quis dizer? b) Relação do texto com outros textos: em que esse texto difere de tal texto? c) Relação do texto com seu referente: o que o texto diz de X? d) Relação do texto com o leitor: o que você entendeu? e) Relação do texto com o para quem se lê: (se for o professor). a depender da maior ou menor distância que se estabelecer entre o leitor virtual e o leitor real. Cada relação diferente dos leitores com o texto é organizada por diferentes modos de leitura. 10). não podemos pensar: a) num autor onipotente. b) na transparência do texto. aquele leitor capaz de preencher as lacunas deixadas pelo sujeito autor. o professor pode. em sua relação como sujeitos. cujas intenções controlem todo percurso da significação do texto. o da significação. Em sala de aula. 1999. UESC Letras Vernáculas 201 Unidade IV Aula 2 .

o professor pode fazer atividades com os alunos para que estes identifiquem não ditos que sustentam o que está dito no texto.Linguística III . não está dito que essas formas foram o nazismo e o comunismo. em suas posições relativas. o autor quis dizer que deseja uma situação X etc. para um católico carismático. é preciso levar em conta a “incompletude”.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos Por exemplo: a) O autor quis dar uma ordem. e mudanças no imaginário. as condições de produção da leitura são constituídas pela relação de posições históricas e socialmente determinadas. na visão de mundo. para um professor. Por exemplo. Por exemplo.) c) Esse texto diz do seu referente X que ele é (a). nesse texto. 202 Módulo 2 I Volume 8 EAD . isto é. o da significação. da qual derivam as noções de “implícito” e de “intertextualidade”. No ensino escolar de interpretação de texto. isto é. para um médico. mudanças linguísticas. são muito diferentes das condições de produção da leitura desse mesmo texto nos dias atuais. consideramos o que está dito e o que está implícito. (b) e (c). SUJEITOS E SENTIDOS: são elementos de um mesmo processo. valores. b) o não dito pode ser o que está suposto para que se entenda o que está dito. uma vez que há mudanças no simbólico. Na produção da leitura. B etc. isto é. e) Na relação do texto com o para quem se lê: o que significa o referente X. Assim. no ideológico. (ideias. enquanto pessoas físicas. O que não está dito pode ser de várias naturezas: a) de certa forma. d) Na relação do texto com o leitor. 11). Portanto. ou para um psicólogo? Esses componentes das condições de produção da leitura entram na tensa relação entre paráfrase e polissemia. numa dada formação social e num dado momento histórico. as condições de produção da leitura de um texto. o autor quis dizer que não está satisfeito com a situação X. Estamos falando de lugares sociais históricos. b) Esse texto difere do texto X (Bíblia. mas é esse não dito que sustenta o que está dito. Quando lemos. ”aquilo que não está dito e que está também significando” (ORLANDI. p. para um nazista. estilo etc. de determinadas posições. na Idade Média. no enunciado: “João deixou de ATENÇÃO Observe que não estamos falando aqui de sujeitos. ele sustenta o que está dito. letra de uma determinada música) nos aspectos A. isto é. (o que você entendeu?). em que se juntam o simbólico (linguístico) e o imaginário (ideológico). para um comunista. podemos estabelecer diferentes compreensões. Constituição Brasileira. verificamos o choque entre duas formas totalitárias de governo. 1999.”. no enunciado: “Durante a Segunda Guerra.

o(s) sentido(s) de um texto passa(m) pela relação dele com outros textos. Quando os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil.beber”. essa visão paradisíaca das novas terras descobertas tem relações de sentido com o texto bíblico sobre o mito do Paraíso. possíveis ou imaginários. e a fertilidade da terra é tanta e tão diversificada que o homem não precisava trabalhar para alimentar-se. isto é. que poderiam ter sido ditos. mas são inocentes. para se entender o que está dito. em sala de aula. e com o texto bíblico. Portanto. os sentidos do discurso do colonizador sobre a nova terra descoberta estão relacionados aos sentidos do discurso no texto bíblico sobre o Paraíso. nem sempre percebidas pelos alunos. CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DA LEITURA: são constituídas pela relação de posições históricas e socialmente determinadas. Portanto. Portanto. O professor. isto é. Assim. sobre as terras brasileiras. mas que poderiam ter sido ditos. Tais relações de sentido mostram que há uma intertextualidade.” etc. Entre os aspectos não imediatamente visíveis em um texto. como se pode ver nos enunciados ditos: “Em se plantando tudo dá” e “Os índios andam nus mas são inocentes”. a relação de um texto com outros textos existentes. eles tiveram uma visão paradisíaca da nova terra. Por outro lado. com textos imaginários. mas poderia dizer. “o(s) sentido(s) INTERTEXTUALIDADE: é um conjunto de relações de sentido que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele não diz. e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. Nesse texto. pode ser dito “O Brasil será heptacampeão em 2014”. UESC Letras Vernáculas 203 Unidade IV Aula 2 . mas o constitui significativamente. Por exemplo. Tais relações mostram a intertextualidade. “Encontramos o homem tal como era antes do pecado original” etc. pode trabalhar essas relações de intertextualidade. “O Brasil sempre terá o melhor futebol do mundo. no enunciado: “O Brasil será o campeão na Copa do Mundo de 2014”. saber ler é saber o que o texto diz e o que ele não diz. c) outras maneiras diferentes de se dizer o dito e que significam com nuances distintas. os enunciados ditos têm relações de sentido com os enunciados não ditos. mas poderia dizer. uma relação de sentido entre os textos produzidos pelos portugueses. isto é. se supõe que João bebia. o(s) sentido(s) dos textos dos colonizadores passa(m) pela relação dele com outros textos. e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. que significam com nuances distintas. as relações entre os lugares sociais dos interlocutores: aquele do qual falam e leem. Portanto. Dessa forma. outros enunciados poderiam ter sido ditos: “Encontramos o Paraíso bíblico perdido”. mas que são partes constitutivas do processo de significação. Adão e Eva andam nus. Podemos dizer que há relações de sentidos que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele não diz. estão as relações de forças. Nessa mesma visão. em que se juntam o simbólico (linguístico) e o imaginário (ideológico).

nos discursos católicos oscilam entre uma permanência. Por exemplo. Não lemos num texto aquilo que queremos. Só uma determinação histórica pode fazer com que apenas alguns sentidos sejam “lidos” e outros não. um conto de fadas e um cálculo matemático. Por isso. 204 Módulo 2 I Volume 8 EAD . Por exemplo. que se define pela atribuição de múltiplos sentidos ao texto. que se define relativamente a outras formações discursivas. Vemos. no Brasil atual. que a atribuição de sentidos a um texto pode variar desde o que podemos chamar de uma leitura parafrástica. portanto. 1999. se for de esquerda. para os católicos europeus e para os budistas chineses. A relação dos homens com as instituições é marcada pelo poder e pela ideologia. um texto produzido pelo Papa de Roma. em última instância. Tanto a formulação de um texto quanto sua leitura são reguladas. Dessa forma. Todas elas estão ligadas a formações ideológicas. E é isso que. mas ainda mantém seu domínio ideológico sobre parte da população ocidental. Não se lê da mesma forma um texto literário e um texto científico. a leitura de um texto do MST é regulada conforme a posição ideológica do leitor: se este for de direita. na atualidade. Tanto o reconhecimento de um sentido (leitura parafrástica) quanto a atribuição de sentidos (leitura polissêmica) se inscrevem na ideia de produção da leitura. na sociedade brasileira atual. se ela compreendeu menos ou mais do que “devia”. vai produzir as diferentes leituras de um discurso. só a referência à situação histórica permite dizer de uma leitura. tinha processos de significação diferentes. incluindo os diversos tipos de discurso.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos de um texto está(ão) determinado(s) pela posição que ocupam aqueles que o produzem (os que o emitem e o lêem) (ORLANDI. até o que podemos chamar de uma leitura polissêmica. 12). o discurso do MST sobre a reforma agrária vai produzir diferentes leituras nos partidos ideológicos de esquerda e nos partidos de direita.Linguística III . os sentidos. um lugar social subordinado ao lugar do Papa. Cada discurso se inscreve em uma formação discursiva. isto é. dado pelo autor. enquanto os segundos simplesmente o ignoravam. na Idade Média. Ler é saber que o sentido sempre pode ser outro. Por exemplo. p. Os primeiros tinham RELAÇÕES DE FORÇA: são as relações entre os lugares sociais dos interlocutores: aquele do qual falam e leem. Por isso. a igreja católica perdeu o poder político que tinha na Idade Média. teremos uma leitura de justiça social. Por exemplo. do jeito que queremos e para qualquer um. uma leitura que se caracteriza pelo reconhecimento do sentido que se supõe ser o do texto. teremos uma leitura de violação do direito de propriedade. a significação de qualquer texto tem a ver com a complexidade de elementos muito distintos.

e uma fugacidade. 5) Os textos a seguir têm relações com outros textos existentes. nos atos litúrgicos. que se avizinha do impossível. não pensem que vou dar a outra face”. como.que às vezes parece irremediável. tinham atacado os israelenses. no caso do discurso sobre a ressurreição de Cristo. como um filho pródigo”. 3) Assinale a única alternativa verdadeira: a) Somente os sentidos fazem parte do processo de significação. b) Leitura é atribuir sentidos a um texto. b) Os sujeitos realizam o processo de significação. conforme vista no texto acima: a) Leitura é identificar os sentidos produzidos pelo autor do texto. Identifique estes últimos: a) “Você voltou a seu país. e) “Nenhuma mulher deseja mais ser a rainha do lar”. José?”. f) “Não quero viver num Brasil do futuro”. para o uso das línguas vernáculas. b) Autor e texto. por exemplo. i) j) k) l) “O Brasil é um gigante dorminhoco”. d) Sentidos e sujeitos fazem parte do processo de significação. c) Leitor e autor. b) “Todos são iguais perante a morte”. g) “A mulher ideal é do tipo da Amélia”. como. 4) No enunciado: “Israel suspendeu o bloqueio contra a Faixa de Gaza” o não dito suposto para que se entenda o que está dito é: a) Israel tinha o controle da Faixa de Gaza. você perdeu tudo. d) Leitura é produção de sentidos pelo leitor. d) Israel tinha estado em guerra contra os países árabes. possíveis ou imaginários. “Quem madruga pega resfriado”. na Faixa de Gaza. c) “Antônio. UESC Letras Vernáculas 205 Unidade IV Aula 2 . c) Somente os sujeitos fazem parte do processo de significação. ATIVIDADES 1) Assinale a alternativa que apresenta uma definição de leitura. 2) A legibilidade de um texto é constituída na relação entre: a) Leitor e texto. b) Os palestinos. d) “A praça é do povo como o céu é do avião”. h) “O verde de nossas matas está virando cinza”. no caso do discurso sobre a mudança de uso do latim. E agora. c) Leitura é identificar os sentidos existentes no texto. c) Israel tinha estabelecido um bloqueio contra a Faixa de Gaza. “Quando me baterem. por exemplo. “Sou formiga e sou cigarra: trabalho e canto”.

Linguística III . ORLANDI. 1996. ed. São Paulo: Martins Fontes. 4.  Intertextualidade é um conjunto de relações de sentido que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele não diz. mas poderia dizer e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. o da significação. Eni Pulcinelli. Sujeitos e sentidos são elementos de um mesmo processo. É por isso que a mulher trabalha sempre pelos dois” (Dorival Caymmi). Elementos de lingüística para o texto literário. estabeleça para o texto: “Deus fez primeiro o homem. Tradução de Maria Augusta Bastos de Matos. em que se juntam o simbólico (linguístico) e o imaginário (ideológico). Dominique. a mulher nasceu depois. 1999. 206 Módulo 2 I Volume 8 EAD . As condições de produção da leitura são constituídas pela relação de posições históricas e socialmente determinadas. REFERÊNCIAS MAINGUENEAU. você viu que:     Leitura. no sentido mais amplo. Legibilidade é uma espécie de “julgamento”. na relação entre o leitor e o autor. pode ser entendida como atribuição de sentidos. São Paulo: Cortez.  Relações de força são as relações entre os lugares sociais dos interlocutores: aquele do qual falam e leem. Discurso e leitura.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos 6) Sabendo que cada relação diferente dos leitores com o texto é organizada por diferentes modos de leitura. As seguintes relações dos leitores com esse texto: a) relação do texto com o autor: o que o autor quis dizer? b) Relação do texto com outros textos: em que esse texto difere do texto bíblico? c) Relação do texto com seu referente: o que o texto diz da mulher? d) Relação do texto com o leitor: o que você entendeu? RESUMINDO Nesta aula.

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• reconhecer que a situação histórica é constitutiva do processo de leitura.aula 3 ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS Objetivos Ao final desta aula. . • buscar possibilidades de uso da Análise de Discurso no ensino escolar de leitura e interpretação de texto. você deverá: • analisar propostas de atividades para o ensino escolar de português com base na Análise de Discurso.

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Aparelhos ideológicos de estado. com base em Análise de Discurso. Vamos continuar apresentando outras possibilidades de uso dessa teoria no ensino escolar de leitura e interpretação de texto. Rio de Janeiro: Graal. Louis. UESC 211 Unidade IV 3 . Tradução de Walter José Evangelista. 7.. ed. Aula Letras Vernáculas 1 INTRODUÇÃO Nessa unidade.AULA 3 ANÁLISE DE DISCURSO E LEITURA INTERPRETATIVA DE TEXTOS LEITURA RECOMENDADA ALTHUSSER. 1985. Maria Laura Viveiros de Castro. você está vendo propostas de atividades para o ensino escolar de português. ..

Nos dias de hoje. é evidente. O mesmo não ocorre. a partir de um lugar social e com uma direção histórica determinada. ele era “lido” pelas forças oficiais de repressão como tendo sido produzido pelo movimento comunista internacional. naquelas condições históricas. Por exemplo. porém. esse fato passou a ter um sentido de arbitrariedade e imposição. cabendo ao sujeito-leitor apenas identificá-lo. O discurso resulta de um consenso entre indivíduos socialmente 212 Módulo 2 I Volume 8 EAD . pelos grupos sociais que combatiam o governo autoritário. porque estamos vivendo tal situação histórica. Tanto quem escreve quanto quem lê produzem sentidos. ao ser feita a leitura pelos alunos. ou seja. Quando o professor leva para a sala de aula textos. no romance Inocência. estamos participando do processo de produção e institucionalização dos sentidos. ele está facilitando a leitura dos alunos porque a produção do texto e sua leitura são feitas numa mesma situação histórica. não pode levar professor e alunos a acharem que o sentido do texto é transparente. A “evidência” aparente ocorre porque a situação histórica da época é constitutiva do processo de leitura e produção textual. publicados recentemente pela mídia. em certas condições sócio-históricas.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos 2 O ENSINO DE LEITURA No ensino de leitura. num sentido de combate ao governo para conseguir dominar o Brasil. Assim. o que esta é e quais seus mecanismos em termos de discurso (ORLANDI. Em sala de aula. quando o professor leva textos literários de séculos anteriores para trabalhar com os alunos.Linguística III . a determinação histórica é constitutiva dos processos de produção da leitura. antes da leitura pelos alunos. mais ainda. o que não ocorre mais nos dias de hoje. o pai acerta o casamento da filha com um vizinho fazendeiro. o professor deve contextualizar o romance na situação histórica em que foi produzido. Vemos. é preciso analisar seus processos de produção e o funcionamento da compreensão. Por exemplo. que a situação histórica da época é constitutiva dos processos de produção e de leitura deste enunciado. O enunciado: “Temos duas mulheres candidatas à presidência da república” parece ter um sentido “evidente” para os brasileiros. o professor não pode ter uma concepção passiva de leitura. No entanto. Quando lemos estamos produzindo sentidos e. portanto. Nesses casos. em 2010. Isso. entretanto. fato considerado normal e legítimo na época. durante a ditadura militar brasileira. Certos fatos narrados podem ter tido sentidos específicos na situação histórica em que foram produzidos. com um sentido de resistência democrática. como se o sentido de um texto fosse transparente. 1999). o enunciado: “Povo unido jamais será vencido” foi produzido e “lido”.

o discurso pede a co-presença de indivíduos (autor/leitor) no quadro das relações sociais (e não fora delas). isto é. O enunciado “Povo unido jamais será vencido” se inscreve na relação da língua portuguesa com a história do Brasil. Ignoramos que existe uma estratégia de propaganda das potências ocidentais. os muçulmanos são terroristas. há um modo pelo qual o leitor se instala no processo de produção de sentidos. Portanto. ideologicamente construída. isto é. representando. Cabe ao professor selecionar textos que se aproximem da linguagem e da cultura dos alunos. o cerne da produção de sentidos está no modo de relação (leitura) entre o dito e o compreendido. no contexto histórico da ditadura militar. que esse discurso funciona. a relação entre o dito e o compreendido. esse contexto histórico é constitutivo dos processos de produção e de leitura deste enunciado. nos é transparente. hoje nos parece “evidente” que. com cultura diferente daquela das classes médias. Nessa perspectiva. é forjada pela ideologia. Ou seja. mas esta. por sua vez. No exemplo dado anteriormente. no enunciado “Povo unido jamais será vencido”. No funcionamento da ideologia. a leitura. com o fim de nos levar a um processo de leitura que justificasse a invasão militar daquele país. no interior da UESC Letras Vernáculas 213 Unidade IV Aula 3 . variava conforme a posição sócio-políticoideológica do leitor. fazendo parte da história desse processo. pois. os professores de escolas públicas trabalham muitas vezes com alunos oriundos das classes populares. em geral. por meio de espessos processos de produção de sentido. 1999). Tal evidência. no entanto. A SITUAÇÃO HISTÓRICA: é constitutiva do processo de leitura e produção textual. É no contexto histórico da ditadura militar brasileira.organizados no curso de um processo de interação (ORLANDI. Dessa forma. o discursivo materializa o contato entre o ideológico e o linguístico. historicamente determinados. A aparente transparência de sentido em um texto não resiste à explicitação do processo de leitura e dos mecanismos ideológicos que aí estão jogando. no confronto de forças políticas e ideológicas. Por exemplo. A “naturalidade” dos sentidos é. Basta lembrar aqui a mentira propalada pelo governo norte-americano de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Nessa perspectiva. O discurso se inscreve na relação da língua com a história. nem por isso. o seu funcionamento se dimensiona no tempo e no espaço das práticas do homem. Vivemos a história. vai influenciar o processo de leitura que fazemos dos conflitos no Oriente Médio. Nossa vida cotidiana e os noticiários que passam pela mídia aparecem com um sentido evidente para nós. desenvolvida justamente para nos inculcar esse tipo de crença que.

O sentido de resistência popular democrática do enunciado “Povo unido jamais será vencido” foi construído no confronto das relações sóciohistóricas da época. se o leitor se opõe ao regime da época. No enunciado “Povo unido jamais será vencido”. mas são criados efeitos de sentidos: a) de resistência à ditadura. Vemos. manifestando a existência da materialidade linguística no interior da ideologia. os sentidos não pertencem ao autor nem ao leitor. 1999). o texto do tipo “oração”. mas foram ecos de outras situações históricas anteriores. as organizações estudantis. Por isso. mas decorrem da troca de linguagem. parte da igreja católica. os efeitos das contradições ideológicas e. Assim. que os sentidos não pertencem ao autor nem ao leitor. o professor deve contextualizá-lo em sua situação histórica. não é transmitida nenhuma informação específica. nas instituições (ORLANDI. a OAB. mostram a representação do ideológico no interior da língua. as forças armadas. principalmente. Ele pode mostrar como esse mesmo texto possui diferentes modos de leitura. representada na língua por “jamais será vencido”. Ao levar um texto. eles não nasceram naquele momento. Essa produção dos sentidos ocorre.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos língua. de outro. No discurso. e a violência repressiva dos militares. assim. de um lado. Os jogos imaginários em questão incluem o imaginário dos militares de ganharem pela força e o imaginário popular de que o povo unido. está ligado à instituição religiosa e tem características formais próprias. b) de agitação comunista. podemos falar de um “efeito leitor”. em diferentes instituições. inversamente. será o vencedor. mas são criados efeitos de sentido entre locutores. a ideologia de resistência democrática contra a ditadura se materializa linguisticamente nesse discurso. Dessa forma. Eles não nascem nem se extinguem no momento em que se fala. Além disso. mais cedo ou mais tarde. com seus jogos imaginários. historicamente fundadas e permeadas pelas relações de poder. atual ou de outra época. As instituições em que ocorreu essa produção de sentidos eram.Linguística III . e. permeadas pelas relações de um poder ditatorial. eles são construídos no confronto de relações sociais. para a sala de aula. Ao mesmo tempo. como o Pai Nosso. Os sentidos não nascem do nada. além de outras. até mesmo em diferentes 214 Módulo 2 I Volume 8 EAD . os sindicatos. mas decorrem das diferentes trocas de linguagem. o efeito da contradição ideológica entre o desejo popular por democracia. dando ênfase às instituições em que foi produzido e lido esse tipo de texto. Por exemplo. não temos transmissão de informação. representado na língua por “povo unido”. se o leitor é a favor desse regime.

a mãe e filhos. portanto. eles próprios. casais sem filhos. consistência etc. Autor e leitor são a origem.). tal contradição impediria que essas duas expressões tivessem um efeito de sentido de unidade textual. o efeito de sentido de unidade textual e o efeito-leitor decorrem do modo como o autor produz o texto. porque se pressupõe que a maior força de uma nação é seu povo. Da mesma forma. OS SENTIDOS não pertencem ao autor nem ao leitor. seguidas de novas informações. que os sentidos são partes de um processo. O sujeito autor e o sujeito leitor não estão presos apenas a uma situação imediata de enunciação. não-contradição. podemos admitir que a informação retomada era o pressuposto de que os manifestantes eram. uma vez que o inverso: “Povo unido sempre será vencido”. mas. mas são origem de sua unidade e coerência. o texto “Povo unido jamais será vencido” é consistente com a luta popular contra esse regime. Têm historicidade. o efeito de sentido de unidade textual decorre da relação do autor com o texto. Portanto. o autor e o leitor. na situação histórica da ditadura militar brasileira. mas decorrem da troca de linguagem. Tal incoerência não teria o efeito de sentido de unidade textual e exigiria o acréscimo de novos enunciados. formada pelo pai. Nesse caso. por exemplo. mas podem ser postos novamente em circulação em outras situações. progressão. na sociedade atual. Se considerarmos o enunciado: “Povo unido jamais será vencido” como sendo um texto. Da mesma forma. ainda. O efeito de sentido de unidade textual decorre da relação do autor com o texto e corresponde ao efeito-leitor de unidade da leitura (coerência. não seus militares. Como esta situação era a de uma ditadura militar. Quanto à progressão. em que há referência. não do discurso. também. mas são origem de sua unidade e coerência. A consistência se refere à relação do texto com a situação histórica de comunicação. Assim. tais sentidos não se extinguiram naquele momento. consistência etc. o efeito de sentido de unidade textual decorre da coerência. “povo unido” e “sempre será vencido” encerram uma contradição. da coerência. Como esse texto era repetido em manifestações públicas contra a ditadura. não-contradição. o professor deve comentar que. o núcleo familiar pode ser formado ainda por: mãe e filho. pelo motivo de que a união faz a força e esta traz a vitória. AUTOR E LEITOR: não são a origem do discurso. não são a origem de “O povo unido jamais será vencido”. e a informação nova era a de que “jamais será vencido”. mas não se limitam a ele. mas de sua unidade e coerência. o texto se constrói por retomadas de informações já dadas. é incoerente. isto é. por indivíduos solteiros. a uma situação histórico-social. o “povo unido”. à instituição família. Vemos. realizam-se num contexto. progressão. e. UESC Letras Vernáculas 215 Unidade IV Aula 3 . têm um passado e se projetam num futuro.países. pai e filho. Quando leva um texto aos alunos.

auto-identificado como “povo unido”. analisar o processo de leitura é analisar o modo de constituição e configuração desse efeito-leitor. ritmo cadenciado e rima. 1999. isto é. há três funções enunciativo-discursivas do sujeito: a função de locutor. consistência etc. da não-contradição. O autor. unidade e origem de suas significações. enquanto produtor de linguagem. O autor é a função que o ‘eu’ assume enquanto produtor de linguagem. podemos 216 Módulo 2 I Volume 8 EAD . que mostram a função autor. da progressão e da consistência. 104). Qual o princípio de agrupamento desse texto. O professor pode analisar com os alunos alguns aspectos estilísticos do texto.Linguística III . o que facilita sua memorização e repetição em coro. unidade e origem das suas significações. O enunciador. o autor é o princípio de agrupamento do discurso. as perspectivas com que esse “eu” se apresenta. a unidade textual e o efeito-leitor. finalmente. enquanto produtor de coerência. é o princípio de combate à ditadura. com o social (ORLANDI. progressão. a função de enunciador e a função de autor: O locutor é aquele que se representa como ‘eu’ no discurso. não-contradição. do ponto de vista da produção do texto. O autor é também a função que o “eu” assume enquanto produtor de linguagem. o locutor. enquanto princípio de agrupamento do discurso. isto é. O autor é a dimensão do sujeito responsável pela utilização da linguagem para se comunicar com o outro.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos Nas atividades de leitura. sendo esta função do sujeito a mais determinada pela relação com o social. O EFEITO DE SENTIDO DE UNIDADE TEXTUAL E O EFEITO-LEITOR: decorrem do modo como o autor produz o texto. aquele que se representa como “eu”. qual a sua ideia central? Que aspectos estilísticos são usados e como eles se articulam com essa ideia central? Se. o enunciador corresponde às perspectivas com que esse ‘eu’ se apresenta. Por isso. que origina e dá unidade às significações. Este enunciado. apresenta ainda. E. são as perspectivas de luta contra o regime militar. e o autor é o princípio de agrupamento do discurso. p. a função que o “eu” assume enquanto produtor de linguagem. Do ponto de vista da produção textual. gritado nas passeatas contra a ditadura. discutindo como esses fatores constituem. sendo a dimensão do sujeito mais determinada pela relação com a exterioridade. Dessa forma. o professor pode levar os alunos a mostrarem no texto as marcas da coerência. é o opositor à ditadura. como resultado da função autor. isto é. ao mesmo tempo. submetido a um princípio de agrupamento do discurso. No exemplo em questão. ele é determinado pela relação com o social de luta contra o regime militar. isto é.

UM CONSELHO Em sala de aula. etc. é o ‘leitor-ideal’ inscrito no texto. o sujeito é constituído pela interpelação ideológica e representa uma “forma-sujeito”. Tal ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos. à proibição de símbolos religiosos em instituições públicas e ao casamento gay. O alocutário é o ‘tu’ a quem o ‘eu’ do locutor se dirige. sua identidade de leitura configurada pelo seu lugar social e é em relação a esse “seu” lugar que se define a “sua” leitura. unidade. em “Povo unido jamais será vencido”.identificar três funções do sujeito. na emissão. “O sujeito do discurso é constituído pela interpelação ideológica e representa uma ‘formasujeito’ historicamente determinada. assim.). a função de destinatário. uma perspectiva de leitor construída pelo enunciador. ou seja. p. A categoria de sujeito é constitutiva de toda ideologia. destinatário. p. atribui um sentido de agitação comunista a esse enunciado. Portanto. p. A posição defendida pelo aluno nesses temas vai depender de sua inscrição no social. o aluno terá sua identidade de leitura configurada pelo seu lugar social. os alunos ligados a instituições religiosas serão contrários ao aborto. o aborto. como as cotas para negros nas universidades. A função do leitor é enunciativo-discursiva e constitui um sujeito afetado pela sua inscrição no social. leitor -. O efeito-leitor é. ele entra com as condições que o caracterizam sóciohistoricamente. do ponto de vista da recepção. seja qual for a determinação (regional ou de classe). e a função de leitor. seja qual for o momento histórico. numa ordem social dada. ao ler o texto. Desta forma.” Para Althusser (1985. o leitor que se inscreve socialmente a favor da ditadura militar. Ele terá. O professor pode então mostrar que. em um lugar específico (ORLANDI. 105). podemos identificar três funções correspondentes: a função de alocutário. Das três funções – alocutário. relativo à função autor do sujeito. então. é do leitor inscrito no social que se cobra um modo de leitura (coerência. a de autor) é a que está mais determinada pelo social. Assim. UESC Letras Vernáculas 217 Unidade IV Aula 3 . o professor pode trabalhar com temas polêmicos na sociedade brasileira atual. FUNÇÕES ENUNCIATIVO-DISCURSIVAS DO SUJEITO: do ponto de vista da produção textual. há três funções enunciativo-discursivas do sujeito: a função de locutor. Conforme já visto acima. o casamento gay. (1999. a função de enunciador e a função de autor. 1999. o destinatário é o ‘outro’ da perspectiva do enunciador. Em “Povo unido jamais será vencido”. 85). enquanto que o leitor que se inscreve socialmente em oposição a tal regime atribui ao mesmo enunciado um sentido de resistência democrática. que corresponde à função do locutor. na produção de leitura. o uso de símbolos religiosos em instituições públicas etc. esta última (como. uma vez que só há ideologia pela categoria de sujeito e de seu funcionamento em sujeitos concretos. 104). E o leitor é aquele que se assume como tal na prática da leitura. por antecipação. Segundo Orlandi. o efeito-leitor é determinado historicamente pela relação do sujeito com a ordem social. “A Ideologia é uma ‘representação’ da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência”. que corresponde à função enunciativo-discursiva do autor. pois. historicamente determinada pela situação de ditadura militar da época. Por exemplo. que corresponde à função do enunciador.

que a função da ideologia é transformar o indivíduo num sujeito que pensa. Assim. Essa transformação foi feita pela ideologia ou interpelação ideológica. No entanto. pois tal era a relação imaginária desse sujeito com suas condições reais sócio-políticas. o sujeito-leitor brasileiro de “Povo unido jamais será vencido”. a função social do sujeitoleitor se refere à relação que tem com seu meio sócio-histórico. o homem é. um animal ideológico. um espaço do interdiscurso do qual ela se apropria e repete. em relação àquele determinado tema. Toda formação discursiva tem um “domínio de saber”.Linguística III . Por exemplo. a partir da identidade de leitura de um texto. As passeatas contra a ditadura militar brasileira. a favor ou contra a união legal entre homossexuais. Assim. eram as situações imediatas de constituição do discurso de resistência democrática. Vemos. todo sujeito é ideológico. é diferente do sujeito-leitor atual. ou circunstância de enunciação. os indivíduos foram transformados em sujeitos. os sentidos serão diferentes. sente e age de uma determinada forma. Por isso. sob a forma de pré-construídos. e a de contexto sócio-histórico. “o indivíduo” se refere apenas ao corpo biológico e “o sujeito” se refere ao modo como esse indivíduo pensa. Orlandi (1999. portanto. Portanto. sente e age. que a categoria de sujeito é constitutiva de toda ideologia e que toda ideologia tem por função “constituir” indivíduos concretos em sujeitos. Dessa forma. Vemos. isto é. Em sala de aula. o professor pode discutir com os alunos as interpelações ideológicas que os transformaram de indivíduos em sujeitos diferentes.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos A interpelação ideológica que constitui esse indivíduo em sujeito é a de combater o regime ditatorial. isto é. No exemplo dado. É dentro desta última que se pode considerar a primeira. o do século XVII e o de hoje são diferentes”. pois. quando se enunciava “Povo unido jamais será vencido”. uma vez que têm ideologias diferentes. nos dias atuais. 106) afirma que: “o sujeito-leitor do século XIII. podemos ter um contexto imediato de passeata contra o governo. ou seja. por estarem situados em outro contexto histórico. por natureza. a situação imediata é o eu-aqui-agora da situação histórica. É esse “domínio de saber” que faz com que 218 Módulo 2 I Volume 8 EAD . que só podem ser entendidas dentro do contexto histórico daquele período. p. na época da ditadura militar. Existem duas instâncias de constituição do discurso: a de contexto de situação imediata. repetindo o mesmo enunciado. nas formas materiais de existência. É nesse jogo de dupla constituição que se localiza o funcionamento da ideologia. no tema do casamento gay.

nos implícitos. Tal domínio de saber é repetível. A legibilidade do texto vai depender de o sujeito-leitor ter conhecimento desse “domínio de saber” de cada formação discursiva. às classes populares. Em “Povo unido jamais será vencido”. um texto técnico sobre o funcionamento de um computador certamente será pouco legível ou compreensível. para quem não conhece o “domínio de saber” da informática. nas lacunas do texto.um discurso seja “legível” para o sujeito-leitor. pela violência etc. Também pode ser usado um texto técnico ou científico. consequentemente. por se originar do interdiscurso. Além disso. pode ser mostrado que é esse domínio de saber que torna o texto mais ou menos legível. desconheça seu domínio de saber vai considerar o texto com um grau muito baixo de legibilidade: que povo? Jamais será vencido por quem ou pelo quê? Em sala de aula. pela arbitrariedade. UESC Letras Vernáculas 219 Unidade IV Aula 3 . principalmente. pela tirania. pré-existindo à situação de enunciação e ao sujeito desta. nas elipses e nos pré-construídos. Em seguida. o professor pode identificar. Um sujeito-leitor que desconheça a situação histórica de produção desse discurso e. para mostrar como o texto se torna pouco legível. oriundo do interdiscurso: a) “povo unido” se refere. não está associado a um sujeito específico. o domínio de saber da formação discursiva em questão. pelo opressor. o discurso se apropria de um domínio de saber. Por exemplo. cujo domínio de saber seja desconhecido pelos alunos. b) “jamais será vencido” deixa implícito elipticamente que o povo jamais será vencido pela ditadura militar.

Linguística III . o que ele sente e o que ele faz em relação ao seu mundo histórico-social? 7) Ao comentar a participação da seleção brasileira na última copa. Nosso assunto deste ano é o Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e leitura interpretativa de textos ATIVIDADES 1) Assinale alguns aspectos da situação histórica atual que interferem na atribuição de sentido. 220 Módulo 2 I Volume 8 EAD . o que ele pensa. um comentarista esportivo fez o seguinte enunciado. queima esse papel. do ponto de vista da recepção dos ouvintes ao discurso do vigário. um vigário diz: “O Senhor é meu pastor. a fim de orientarmo-nos – que exerce sua atração sobre aquilo que a teoria de Freud introduziu de radicalmente novo no que se refere a esta função (LACAN. na Antiguidade. e com os quais não tememos comprometer-nos aqui. na oração do Pai Nosso. Identifique a situação imediata e a situação histórica deste enunciado. apostólico. 4) Ao pregar a seus fiéis. feita por um leitor e torcedor brasileiro. romano”. Pois bem. 8) Comente o grau de legibilidade do seguinte texto para alunos do Ensino Fundamental. 5) Na questão anterior. p. quanto pela consciência comum. 6) Quando um sujeito enuncia: “Sou católico. Mas não é só nessa teoria e nessa técnica que o eu tem sentido. 9). nada me faltará”. isso que faz justamente com que o problema seja complicado. a pessoa que não pagava uma dívida podia ser escravizada pelo credor. tanto pelos chamados filósofos. levando em conta a noção de “domínio de saber”: Definir a natureza do eu leva muito longe. A noção do eu foi elaborada no decurso de séculos. 2) Se você escreve um texto num papel e. para o enunciado: “O Brasil é pentacampeão mundial de futebol”. explique por que a Igreja católica substituiu. num programa de televisão: “O Brasil poderia ter tido um desempenho melhor na copa da África do Sul”. o destinatário e o leitor (ouvinte). justificando cada resposta. Em suma. a expressão: “perdoai as nossas dívidas. 1985. há uma certa concepção pré-analítica do eu – vamos chamála assim por convenção. em seguida. Identifique o locutor. em ano recente. assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. qual é o dito e qual é o compreendido? 3) Sabendo que. assim como nós perdoamos a nossos devedores” por outra expressão: “perdoai as nossas ofensas. é deste muito longe que vamos partir para voltar ao centro – o que nos trará de volta ao muito longe. identifique: o alocutário. o enunciador e o autor deste discurso.

Autor e leitor não são a origem do discurso. Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. a função de enunciador e a função de autor. As instâncias de constituição do discurso são: a instância de contexto de situação imediata. Rio de Janeiro: Graal. mas são origem de sua unidade e coerência. ed. A leitura é a relação entre o dito e o compreendido. As funções enunciativo-discursivas do sujeito são. ou circunstância de enunciação. ORLANDI. Aparelhos ideológicos de estado.   A categoria de sujeito é constitutiva de toda ideologia. do ponto de vista da produção textual: a função de locutor. e toda ideologia tem por função “constituir” indivíduos concretos em sujeitos. UESC Letras Vernáculas 221 Unidade IV Aula 3 . Discurso e leitura. 7. REFERÊNCIAS LACAN. O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. ed. Louis. Os sentidos não pertencem ao autor nem ao leitor. O funcionamento do discurso se dimensiona no tempo e no espaço das práticas do homem. Jacques. 1985. Tradução de Marie Christine Lasnik Penot. O efeito de sentido de unidade textual e o efeito-leitor modo como o autor produz o texto. ed. São Paulo: Cortez. Eni Pulcinelli. 1985. Unicamp.RESUMINDO Nesta aula você viu que:        A situação histórica é constitutiva do processo de leitura e produção textual. 2.  A legibilidade de um discurso depende de o sujeito leitor ter conhecimento do “domínio de saber” da formação discursiva em questão. Rio de Janeiro: Zahar. 4. mas decorrem da troca de linguagem. 1999. decorrem do ALTHUSSER. e a instância de contexto sócio-histórico.

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aula 4 ANÁLISE DE DISCURSO E PRODUÇÃO TEXTUAL Objetivos Ao final desta aula. você deverá: • analisar propostas de atividades para o ensino escolar de português com base na Análise de Discurso. reconhecer que a situação histórica é constitutiva do processo de produção textual. • • buscar possibilidades de uso da Análise de Discurso no ensino escolar de produção textual. .

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Portos de passagem. apresentar possibilidades de uso dessa teoria no ensino escolar de produção textual.. Paulo: Martins Fontes. nesta aula. S.AULA 1 ANÁLISE DE DISCURSO E PRODUÇÃO TEXTUAL LEITURAS PRÉVIAS GERALDI. com base em Análise de Discurso. Aula UESC Letras Vernáculas 225 Unidade IV 4 . você está vendo propostas de atividades para o ensino escolar de português. João Wanderley. ed.. 1993. 1 INTRODUÇÃO Nesta unidade. . Vamos. 2.

de Geraldo Vandré .... naquelas condições históricas... Vem.(4x) Fonte: http://letras..Teoria da análise de discurso Análise de discurso e Produção textual 2 PRODUÇÃO TEXTUAL No ensino de produção textual. vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer.br/ geraldo-vandre/46168/ 226 Módulo 2 I Volume 8 EAD . 1999). a partir de um lugar social de combate ao governo autoritário.terra. a letra da canção .. a partir de um lugar social e com uma direção histórica determinada. vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer.... é preciso analisar como funciona esse processo (ORLANDI. Assim... em certas condições sócio-históricas. construções Somos todos soldados Armados ou não Caminhando e cantando E seguindo a canção Somos todos iguais Braços dados ou não.. nas ruas Campos. Por exemplo.foi produzida.(2x) Pelos campos há fome Em grandes plantações Pelas ruas marchando Indecisos cordões Ainda fazem da flor Seu mais forte refrão E acreditam nas flores Vencendo o canhão. Os amores na mente As flores no chão A certeza na frente A história na mão Caminhando e cantando E seguindo a canção Aprendendo e ensinando Uma nova lição.. Quem escreve produz sentidos. durante a ditadura militar brasileira.. Vem.Para não dizer que eu não falei de flores.. Vem.com.. Vem. a determinação histórica é constitutiva do processos de produção de sentidos.. construções Caminhando e cantando E seguindo a canção. vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer.(2x) Há soldados armados Amados ou não Quase todos perdidos De armas na mão Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela pátria E viver sem razão. com um sentido de resistência democrática: Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores Geraldo Vandré Composição: Geraldo Vandré Caminhando e cantando E seguindo a canção Somos todos iguais Braços dados ou não Nas escolas.Linguística III . vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer.(2x) Nas escolas. nas ruas Campos.

devem discutir com os alunos para qual leitor ideal querem dirigir seus textos. mas o poeta foi lido como “subversivo”. representado na canção de Vandré por “Somos todos LEITOR IDEAL: antes de produzir o texto. A produção textual resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no curso de um processo de interação (ORLANDI. há um modo histórico de se produzir sentidos. Por exemplo. é preciso contextualizar o tema na situação histórica atual. o texto pede a co-presença de indivíduos (autor/leitor) no quadro das relações sociais (e não fora delas). o texto será dirigido a um leitor ideal militante do MST ou a um leitor ideal associado da UDR? Se o tema for o aborto. no interior da língua. como se esta resultasse apenas de uma inspiração imediata do aluno. se o tema for a reforma agrária brasileira. varia conforme a posição sócio-político-ideológica do leitor. É no contexto da ditadura militar que se dá a produção e o funcionamento desse discurso. Nessa perspectiva. o seu funcionamento se dimensiona no tempo e no espaço das práticas do homem. os professores. no confronto de forças políticas e ideológicas. o discursivo materializa o contato entre o ideológico e o linguístico. em relação ao tema. o efeito da contradição ideológica entre o desejo popular por democracia. o enunciado “Somos todos soldados. O discurso se inscreve na relação da língua com a história. o professor não pode ter uma concepção ingênua de produção textual. inversamente. o cerne da produção de sentidos vai estar no modo de relação (leitura) entre o dito e o compreendido. Na canção de Geraldo Vandré. Em outras palavras. armados ou não” se inscreve na relação da língua portuguesa com a história do Brasil. os efeitos das contradições ideológicas e. Nessa perspectiva. o aluno deve determinar a posição sócio-político-ideológica do leitor ideal. se o tema for o consumo de drogas pelos jovens. Sua canção foi lida como uma espécie de hino oficial dos movimentos populares contra o regime militar. Portanto. manifestando a existência da materialidade linguística no interior da ideologia. Assim. preso e torturado pelos órgãos de repressão.Vemos que a situação histórica da época é constitutiva dos processos de produção de sentidos nesse texto. 1999). UESC Letras Vernáculas 227 Unidade IV Aula 4 . Esta relação. no contexto histórico da ditadura militar. numa atividade de produção textual. Em sala de aula. Por exemplo. Dessa forma. Ao propor uma produção textual. qual a posição sócio-políticoideológica do leitor ideal sobre o tema a ser abordado. A SITUAÇÃO HISTÓRICA é constitutiva do processo de produção textual. no poema anterior de Vandré. representando. é preciso trazer para a sala dados estatísticos e comentários de diversos especialistas sobre a questão. o texto será dirigido a um leitor ideal religioso ou a um leitor ideal leigo? No funcionamento da ideologia. isto é.

Ao produzir um texto. Os alunos devem discutir esses confrontos e seus respectivos imaginários.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e Produção textual iguais. representada na língua por: “Pelos campos há fome Em grandes plantações Pelas ruas marchando Indecisos cordões Ainda fazem da flor Seu mais forte refrão E acreditam nas flores Vencendo o canhão. e a resistência de grupos religiosos e conservadores. a ideologia de resistência democrática contra a ditadura se materializa linguisticamente nesse discurso. com seus jogos imaginários. Ao desenvolver uma atividade de produção textual. 1999). Por isso. Os sentidos não nascem do nada. e costumes condenados pela Bíblia. Esse leitor ideal é um “efeito leitor” que vai sendo 228 Módulo 2 I Volume 8 EAD . muda a sociedade e não espera acontecer. nas instituições (ORLANDI. o aluno deve saber que não está transmitindo informações. vamos embora Que esperar não é saber. Os jogos imaginários incluem o direito de ser diferente. por parte dos gays.. O sentido de resistência popular democrática na canção de Vandré: “Vem. eles são construídos no confronto de relações sociais.. antes de produzirem seus textos. permeadas pelas relações de um poder ditatorial. principalmente. e a violência repressiva dos militares.” mostra a representação do ideológico no interior da língua. mas está criando efeitos de sentido entre locutores. é importante que ele tenha definido antes o seu leitor ideal. por parte dos religiosos e conservadores. Os jogos imaginários em questão incluem o imaginário popular de que o povo que sabe faz a hora.Linguística III . Por exemplo. a questão do casamento gay deve ser vista no confronto entre movimentos afirmativos dos homossexuais. como a parada gay. Quem sabe faz a hora. historicamente fundadas e permeadas pelas relações de poder. Não espera acontecer” foi construído no confronto das relações sócio-históricas da época. o professor deve contextualizar o tema no confronto das relações sócio-históricas atuais. Essa produção dos sentidos ocorre. Ao mesmo tempo. braços dados ou não”.

da coerência. O enunciado “há soldados armados” é retomado logo adiante com “nos quartéis lhes ensinam antigas lições”. “Somos todos soldados. a letra da canção anterior tem unidade e coerência: “Vem. o texto não apresenta nenhuma contradição entre resistência popular. o texto se constrói por retomadas de informações já dadas. não-contradição. os sentidos não pertencem ao autor nem ao leitor. mas. progressão. O sujeito autor não está preso somente a uma situação imediata de enunciação. seguido de uma nova ideia: “quem sabe faz a hora”. OS SENTIDOS não pertencem ao autor nem ao leitor. “Quem sabe faz a hora”. vamos embora”. Eles não nascem nem se extinguem no momento em que se fala. Dessa forma. Nesse caso. “Somos todos iguais”. a uma situação histórico-social. não-contradição. Da mesma forma. amados ou não”. braços dados ou não”. “caminhando e cantando” é retomado logo depois com “vem. de outro. Assim. consistência etc. “Há soldados armados. isto é. seguidas de novas informações. O autor é a origem. mas decorrem da diferentes trocas de linguagem entre ambos. o efeito de sentido de unidade textual decorre. não é transmitida nenhuma informação específica.). o efeito de sentido de unidade textual decorre da relação do autor com o texto. UESC Letras Vernáculas 229 Unidade IV Aula 4 . vamos embora”. na situação histórica da ditadura militar brasileira. A consistência se refere à relação do texto com a situação histórica de comunicação. Portanto. “Quase todos perdidos de armas na mão”. e ditadura militar. mas é criado um efeito de sentido de resistência à ditadura. Se considerarmos a canção anterior. progressão. seguido de uma nova ideia: “de morrer pela pátria e viver sem razão”. “a certeza na frente”. o efeito de sentido de unidade textual e o efeito-leitor decorrem do modo como o autor produz o texto. armados ou não”. mas de sua unidade e coerência. o texto inteiro é consistente com a luta popular contra esse regime. No enunciado “Caminhando e cantando e seguindo a canção. consistência etc. mas decorrem da troca de linguagem entre ambos. “Pelas ruas marchando indecisos cordões”. Como esta situação era a de uma ditadura militar. Nas atividades de produção textual. da coerência. “E acreditam nas flores vencendo o canhão”. que os sentidos não pertencem ao autor nem ao leitor. entre outros fatores. mas é origem de sua unidade e coerência. também. de um lado. Vemos. O efeito de sentido de unidade textual decorre da relação do autor com o texto e corresponde ao efeito-leitor de unidade da leitura (coerência. o professor deve levar os alunos a manterem a coerência e não contradição em seus textos. Assim. Quanto à progressão.criado ao longo da produção de texto. mas decorrem da troca de linguagem entre ambos. conforme já mostrada. assim. AUTOR: não é a origem do discurso. o que garante sua unidade. não do discurso. somos todos iguais. “Pelos campos há fome”.

isto é.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e Produção textual juntamente com a retomada de ideias já enunciadas. a unidade textual e o efeito-leitor. apresenta ainda. consistência etc. p. cantado nas passeatas contra a ditadura. as perspectivas com que esse “nós” se apresenta. O professor pode analisar com os alunos alguns aspectos estilísticos do texto. Qual o princípio de agrupamento desse texto. unidade e origem de suas significações. O autor é a dimensão do sujeito responsável pela utilização da linguagem para se comunicar com o FUNÇÕES ENUNCIATIVO-DISCURSIVAS DO SUJEITO: do ponto de vista da produção textual. o que facilita sua memorização e repetição em coro. 104). outro. é o princípio de combate à ditadura. como resultado da função autor. ritmo cadenciado e rima. que origina e dá unidade às significações. O autor é a função que o ‘eu’ assume enquanto produtor de linguagem. são as perspectivas de luta contra o regime militar: “quem sabe faz a hora”. O professor deve mostrar como esses fatores constituem. aquele que se representa como “eu”. o enunciador corresponde às perspectivas com que esse ‘eu’ se apresenta. submetido a um princípio de agrupamento do discurso. a função de enunciador e a função de autor. isto é. qual a sua ideia central? Que aspectos estilísticos são usados e como eles se articulam com essa ideia central? O efeito leitor decorre da função autor. não-contradição. isto é. armados ou não”. unidade e origem das suas significações. enquanto princípio de agrupamento do discurso. há três funções enunciativo-discursivas do sujeito: a função de locutor. é o opositor à ditadura. Na canção de Vandré. progressão. seguidas de ideias novas. “somos todos soldados. finalmente. numa dada ordem 230 Módulo 2 I Volume 8 EAD . a função de enunciador e a função de autor: O locutor é aquele que se representa como ‘eu’ no discurso. sendo a dimensão do sujeito mais determinada pela relação com a exterioridade. o autor é o princípio de agrupamento do discurso. ele é o mais determinado pela relação com o social de luta contra o regime militar. Por isso. a função que o “eu” assume enquanto produtor de linguagem. Do ponto de vista da produção textual. enquanto produtor de coerência. com o social (ORLANDI. O autor é também a função que o “nós” assume enquanto produtor de linguagem. E. há três funções enunciativo-discursivas do sujeito: a função de locutor. O enunciador. ao mesmo tempo. isto é. sendo esta função do sujeito a mais determinada pela relação com o social. Este enunciado. e o autor é o princípio de agrupamento do discurso. auto-identificado como primeira pessoa no plural: “(nós) somos todos iguais”. O EFEITO DE SENTIDO DE UNIDADE TEXTUAL E O EFEITO-LEITOR: decorrem do modo como o autor produz o texto. 1999. que mostram a função autor. O autor.Linguística III . enquanto produtor de linguagem. o locutor.

Vemos. resulta de uma interpelação ideológica e não de uma escolha intelectual absoluta e livre. Segundo Orlandi. (1999. criando um sentido de resistência democrática. Portanto. e toda ideologia tem por função “constituir” indivíduos concretos em sujeitos. A função autor do sujeito é a que está mais determinada pelo social. em “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. progressão. pois. que a categoria de sujeito é constitutiva de toda ideologia e que toda ideologia tem por função “constituir” indivíduos concretos em sujeitos. no Brasil. historicamente determinada pela situação de ditadura militar da época. num dado momento e em uma dada formação social. “O sujeito do discurso é constituído pela interpelação ideológica e representa uma ‘formasujeito’ historicamente determinada.” Para Althusser (1985. assim. enquanto enunciador de seu texto. O efeito-leitor é. um animal ideológico. Em sala de aula. sua identidade de autor configurada pelo seu lugar social. unidade. p. Por exemplo. a partir da atividade de produção textual. Vemos. a função autor do sujeito é constituída pela interpelação ideológica e representa uma “forma-sujeito”. Essa transformação foi feita pela ideologia SUJEITO E IDEOLOGIA: a categoria de sujeito é constitutiva de toda ideologia. relativo à função autor do sujeito. portanto. consistência etc. Assim. a função autor assumida pelo aluno em relação ao tema da produção textual resulta de sua interpelação ideológica. é do autor inscrito no social que se cobra um modo de produção de sentidos (coerência. em relação a um determinado tema. Portanto. Convém que o professor mostre ao aluno que a posição assumida por este. que a função da ideologia é transformar o indivíduo num sujeito que pensa. sente e age. ou seja. A interpelação ideológica que constitui esse indivíduo em sujeito é a de combater o regime ditatorial. porque a interpelação ideológica religiosa majoritária é a cristã. pois. o autor se inscreve socialmente contra a ditadura militar. UESC Letras Vernáculas 231 Unidade IV Aula 4 . sente e age de uma determinada forma. o homem é. Desta forma. todo sujeito é ideológico. Em “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. “A Ideologia é uma ‘representação’ da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência”. 85). 105). pois tal era a relação imaginária desse sujeito com suas condições reais sócio-políticas. não contradição. Ele terá.social e numa determinada situação histórica. em sala de aula. Conforme já visto. ele entra com as condições que o caracterizam sócio-historicamente. Portanto. p. na produção de sentido. temos uma quantidade muito pequena de muçulmanos.). “o indivíduo” se refere apenas ao corpo biológico e “o sujeito” se refere ao modo como esse indivíduo pensa. o professor pode discutir com os alunos as interpelações ideológicas que os transformaram de indivíduos em sujeitos diferentes. por natureza.

Dessa forma. sentem e agem. quando INSTÂNCIAS DE PRODUÇÃO DO DISCURSO: incluem a instância de contexto de situação imediata. Por exemplo. vamos embora. um espaço do interdiscurso que repete. Tal domínio de saber é repetível. Em “A certeza na frente e a história na mão”. vamos embora. se cantava “Vem. A legibilidade desse texto vai depender de o sujeito-leitor ter conhecimento deste “domínio de saber” marxista. Por isso.Linguística III . Um sujeito-leitor que desconheça tal domínio de saber vai considerar o texto de Vandré com um grau muito baixo de legibilidade: que certeza? Por que a 232 Módulo 2 I Volume 8 EAD . preexistindo à situação de enunciação e ao sujeito desta. um autor do século XIII. ou do século XVII é diferente do autor de hoje. uma vez que têm ideologias diferentes. a função autor está vinculada ao seu meio sócio-histórico. o autor contra o governo de “Vem. depois de apropriar-se dele. eram as situações imediatas de constituição desse discurso de resistência democrática. não está associado a um sujeito específico. isto é. à previsibilidade da luta de classes ao longo da história. Em sala. Além disso. e a instância de contexto sócio-histórico. ou circunstância de enunciação. transformando-os em sujeitos que pensam.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e Produção textual ou interpelação ideológica. É esse “domínio de saber” que faz com que um discurso seja “legível” para o sujeito-leitor. está vinculada ao seu meio sócio-histórico. b) “a história na mão” se refere às lutas de classes já ocorridas no passado. por se originar do interdiscurso. oriundo do interdiscurso: a) “a certeza na frente” se refere. Toda formação discursiva tem um “domínio de saber”. que vão assumir em seus textos. a situação imediata é o eu-aqui-agora da situação histórica. é diferente do autor atual que também seja contra o governo. que esperar não é saber”. isto é. As passeatas contra a ditadura militar brasileira. os sujeitos contrários ao aborto foram assim interpelados ideologicamente pelas instituições religiosas. o professor pode mostrar que o contexto de situação imediata da atividade de produção textual é a situação pedagógica de ensino de português. ou circunstância de enunciação. o discurso se apropria de um domínio de saber. e a de contexto sócio-histórico. Existem duas instâncias de constituição do discurso: a de contexto de situação imediata. que esperar não é saber”. No exemplo dado. sob a forma de préconstruídos. o professor pode discutir com os alunos as interpelações ideológicas que as instituições fazem aos indivíduos. Mas este contexto só pode ser entendido dentro de uma situação histórica atual do tema a ser abordado. É dentro desta última que se pode considerar a primeira. Em sala de aula. principalmente. O professor pode mostrar aos alunos que a função de enunciador. na época da ditadura militar. Mas tais situações imediatas só podem ser entendidas dentro do contexto histórico daquele período.

nos implícitos. criando o efeito leitor. do enunciado: “O Brasil lutou para ser hexacampeão mundial de futebol”. César! Os que vão morrer te saúdam!” Nos dias atuais. ambos com alto grau de legibilidade. construa um enunciado com que os jogadores de futebol poderiam saudar as autoridades políticas. LEGIBILIDADE DE UM DISCURSO: o sujeito autor deve usar um “domínio de saber” que seja conhecido pelo sujeito leitor. nas elipses e. pode ser mostrado que é esse domínio de saber que torna o texto mais ou menos legível.história na mão? Em sala de aula. De acordo com a situação histórica atual. . Leve em conta a noção de “domínio de saber”. O primeiro texto deve ter como leitor ideal crianças de sete anos de idade. o enunciador e o autor deste discurso. foram abolidos os espetáculos com sacrifícios de vidas. os gladiadores saudavam o imperador com o seguinte enunciado: “Salve. nas lacunas do texto. supostamente publicado pelo Ministro da Educação. sobretudo. 3) O deputado Paulo Maluf declarou: “Minha ficha é a mais limpa na política brasileira!” Identifique o locutor. o domínio de saber da formação discursiva usada pelo aluno em sua produção textual. em Brasília: “Sou contra a alfabetização de adultos porque: a) quem já sabe ler não precisa ser alfabetizado. Por isso. Antes das lutas. o espetáculo de gladiadores atraía multidões ao Coliseu. o técnico Dunga afirmou: “Todas as seleções que estão na África do Sul mostraram que podem disputar e vencer o título mundial. 4) Ao comentar as seleções participantes na copa da África. b) quem não sabe ler só vai atrapalhar os outros na escola”. nos pré-construídos. 2) Comente a incoerência do seguinte texto. o professor pode identificar. ATIVIDADES Assinale alguns aspectos da situação histórica atual que interferem na criação de sentido. respeitamos todos os nossos adversários!” Identifique a 5) Produza dois textos sobre a copa mundial de futebol. Em seguida. UESC Letras Vernáculas 233 Unidade IV Aula 4 situação imediata e a situação histórica deste enunciado. feita pelo autor. 1) Na Roma antiga. antes das partidas. o segundo texto deve ter como leitor ideal jogadores profissionais de futebol no Brasil.

br/geraldovandre/46168/. ed. As instâncias de constituição do discurso são: a instância de contexto de situação imediata.   Toda ideologia tem por função “constituir” indivíduos concretos em sujeitos.Linguística III . O autor não é a origem do discurso. você viu que:       A situação histórica é constitutiva do processo de produção textual. O efeito de sentido de unidade textual e o efeito-leitor decorrem do modo como o autor produz o texto. 4. e a instância de contexto sócio-histórico.2010. REFERÊNCIAS ORLANDI. Os sentidos não pertencem ao autor nem ao leitor. 234 Módulo 2 I Volume 8 EAD . ou circunstância de enunciação.terra.  A legibilidade de um discurso depende de o autor saber usar seu “domínio de saber” de forma adequada ao seu leitor ideal. Disponível em: http://letras. Discurso e leitura. Acesso em 28 jun. VANDRÉ. Geraldo.com. as funções enunciativo-discursivas do sujeito são: a função de locutor. Unicamp. A produção de texto se dimensiona no tempo e no espaço das práticas do homem. a função de enunciador e a função de autor. Eni Pulcinelli. 1999.Teoria da análise de discurso Análise de discurso e Produção textual RESUMINDO Nesta aula. Do ponto de vista da produção textual. mas decorrem da troca de linguagem. São Paulo: Cortez. mas é origem de sua unidade e coerência.

........ ...................................................................................................................... ...............................Suas anotações .............................................................................................................................................................................................................................................. .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... .. 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Ministério da Educação .

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