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Condessa de Ségur - O Gênio do Mal

Condessa de Ségur - O Gênio do Mal

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O Génio do Mal
Condessa de Ségur
Infanto-Juvenil

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente. Composto e impresso por Printer Portuguesa, Indústria Gráfica, Mem Martins - Sintra para a Editorial Publica, com sede na Avenida Poeta Mistral, 6 - B - 1000 Lisboa Maio de 1986

1 Uma perua perdida
BONARD — Ó meu maroto! Perdes-me os meus perus em vez de os guardares! JULIÃO — Asseguro-lhe, Sr. Bonard, que cuidei bem deles e os juntei todos; não faltava nenhum quando os trouxe do campo. BONARD — Se não faltava nenhum quando voltaste do campo, também agora não devia faltar. Vejo muito bem que me estás a enganar; toma cuidado com isso; não gosto de desleixados nem de mentirosos. Julião baixou a cabeça e não respondeu. Recolheu os perus; depois foi tirar a água para a herdade, varreu o pátio, arranjou a palha para o gado se deitar, e não voltou para casa senão depois de ter acabado todo o trabalho. Começavam a sentar-se à mesa para cear. Julião tomou o seu lugar ao pé de Frederico, filho de Bonard. Este último entrou depois de Julião. BONARD (a Frederico) — Onde é que tens estado? FREDERICO — Estive em casa do correeiro, para mandar dar um ponto num arreio. BONARD — Estiveste duas horas fora! Havia então muito que fazer? FREDERICO — Foi o correeiro que me fez esperar; não achava o couro de que precisava. BONARD — Vê se te deixas de passeios quando vais em serviço. Não é a primeira vez que te censuro por estares fora tempo demais. Julião fez a tua tarefa e a dele. Trabalhou muito e é por isso que janta como nós; de outro modo não lhe teria dado senão sopa e pão seco. SRA. BONARD — Mas por que? Ele não fez mal nenhum, que eu saiba. BONARD — Não fez mal? Não sabes então que perdeu uma perua, e logo a mais bonita? SRA. BONARD — Perdeu uma perua! Como fizeste isso, malvado rapaz? JULIÃO — Não sei, patrão. Eu trouxe-as todas e a conta estava certa. Frederico pode dizê-lo, contei- as diante dele. Não é verdade, Frederico? FREDERICO — Palavra de honra que não me lembro de tal. JULIÃO — Como? Não te lembras de que eu as contei diante de ti e de que estavam lá as quarenta e oito? FREDERICO — Ouve lá: eu não estou encarregado dos perus; não é coisa que me diga respeito, e, portanto, não prestei atenção. SRA. BONARD — Mas, visto que não saíste do pátio, por onde é que ela teria passado? JULIÃO — Perdão, patroa, eu ausentei-me pelo espaço de um quarto de hora para ir buscar a blusa de Frederico, que ele tinha deixado no campo. SRA. BONARD — Viste entrar alguém no pátio, Frederico? FREDERICO — Disso não sei nada; parti imediatamente com o arreio para mandá-lo arranjar. SR. BONARD — É esquisito! Mas, mesmo assim não quero que os meus perus se percam! É a ti que isso diz respeito, Julião. É preciso que encontres a perua ou tens de pagála. Vai procurá-la nas proximidades; não pode estar longe. Julião levantou-se e procurou por toda a parte, mas não encontrou a ave desaparecida. Era noite cerrada quando voltou; toda a gente se tinha ido deitar e a casa já estava fechada. Julião estava muito pesaroso; subiu ao pequeno celeiro onde dormia. Um enxergão e uma pobre manta compunham o seu mobiliário; duas velhas camisas e um par de tamancos constituíam toda a sua riqueza. Pôs-se de joelhos, tirando do peito uma cruzinha de cobre que sua mãe lhe deixara.

eu perdoo-te a primeira vez. mas. afligia-se por parecer negligente e ingrato para com os Bonard que tinham sido bons para ele e o haviam recolhido. sede para mim uma boa mãe: protegei-me. meu bom Jesus. sou pobre e órfão. como de costume. apesar de ter procurado por toda a parte. Julião não respondeu. achaste a perua? i Porque não vieste ontem à noite dar a resposta? JULIÃO — Não achei nada. Fazei com que ela se encontre. e uma parte do de Frederico. SRA. A Sra. não serias obrigado a procurá-la. sois meu pai e meu amigo. Julião. se tornas a perder alguma. tenho confiança em Vós. Bonard deixem de estar zangados comigo e que o Frederico se lembre de que não faltava nenhum dos meus perus quando os trouxe. e encheu de água os baldes. Fazei que a patroa e o Sr. patroa. BONARD — Voltaste então muito tarde? A culpa é tua. pagá-la-ás. . foi dos primeiros a levantar-se. Enquanto esperava a hora de levá-los para o campo. não me abandoneis. Estou sozinho no mundo. fez o seu serviço. abriu as capoeiras. Vê se fazes com que isso não torne a acontecer. Resolveu nunca mais fazer os recados de que Frederico o encarregasse e não tornar a abandonar os perus até estarem recolhidos. quando a morte de seus pais o deixara só no mundo. Bonard não tardou a aparecer. Boa e Santa Virgem. Além disso. não podia explicar a si próprio como aquilo acontecera e temia que desaparecessem outras da mesma maneira. No dia seguinte. Julião beijou mais uma vez o crucifixo e deitou-se.— Meu bom Jesus — disse ele. que era sempre o último a começar o trabalho. estava inquieto com o desaparecimento da perua. se não tivesses perdido uma perua. E não dei a resposta porque toda a gente se encontrava deitada e a casa fechada quando voltei. meu bom Jesus. SRA. acordou Frederico. beijando-a — bem sabeis que eu não tenho culpa do desaparecimento da perua. mas não adormeceu logo. que dormia na casa. BONARD — Então. Que podia dizer? Ele próprio não compreendia nada daquilo.

o saco está na estrebaria. FREDERICO — Não me lembrei. tão admirado como seu pai. ouve lá: tu trazes-me cevada tendo-te eu pedido farelo? Frederico. BONARD — Mediram-no bem? FREDERICO — Muito bem. estava tudo pronto quando Bonard chegou com os cavalos. respondeu por ele. — Vem depressa. desatou o saco e. meu pai. não tenho nem um punhado. Bonard tinha-te dito. o meu pai espera-me. saiu de lá um grande rato. . Estou com pressa. FREDERICO — Estava lá. BONARD — Que é isto? Um rato! Como foi que se anichou um rato no saco? Apanhao. correndo. JULIÃO — Mas donde veio este rato? BONARD — Saltou do saco. O moinho não era longe. JULIÃO — Por que não foste lá. JULIÃO — Recolho os perus e vou já. BONARD — Trouxeste o farelo. o número de peruas manteve-se inalterável. FREDERICO — Sim. sem dúvida. estive a limpar os apriscos. boquiaberto.2 Duas peruas perdidas A semana passou sem contrariedades para Julião. antes que pudesse mexer no farelo. vai depressa ao moinho e traz-nos farelo. FREDERICO — Ainda vais perder tempo atrás dos perus. mas não conseguiu apanhá-lo. não respondia. Os seus perus estavam recolhidos e ele recomeçou a trabalhar. estão ali mais de dois hectolitros. sim. BONARD — Não deixa de ter a sua graça! Como se deixou enterrar sem tentar sair? Enquanto falava. quando Julião voltava do estábulo. pegou no carrinho de mão e partiu. FREDERICO — Anda! Acabas isso depois. Frederico começou a caça ao rato. uma segunda pancada aturdiu-o e Bonard acabou de matá-lo com uma pisadela. Uma tarde. Bonard chamou Julião. decidindo-se. mata-o. meia hora depois Julião levava a Frederico o carrinho com o farelo. deu uma vassourada no rato e este ainda correu mais depressa. Julião hesitou um instante. JULIÃO — E por que não vais lá tu? Eu também tenho de tratar dos estábulos. após ter contado os perus na presença de Frederico. Como é que ele lá entrou? É o que pergunto ao Frederico. JULIÃO — Olha que a conta está certa: quarenta e sete. que começou a correr pela cavalariça. Julião. pega depressa num carrinho de mão para trazer o saco de farelo. Eu recolho-os. ajudar-nos a matar um rato! Acorreu Julião com uma vassoura. antes de terem medido o farelo. Frederico? FREDERICO — Trouxe. mas sim cevada. Bonard entrou na estrebaria com Frederico. é preciso para os cavalos que estão a chegar. querendo evitar que Frederico fosse repreendido. sim. mas soltou uma exclamação de surpresa: não era farelo que de lá tirava. depois de almoçar? O Sr. Julião. Olhava para aquilo. mas. este chamou-o: — Julião. BONARD — Respondes ou não? Dizes que isto está bem medido e mandas medir cevada em vez de farelo? Bonard estava furioso. Bonard meteu as mãos no saco para tirar farelo. — Ora esta! Frederico. meu pai.

Julião estava consternado. que faças o trabalho dele. proibo-te. Bonard tinha dado aveia aos cavalos.. a colocá-lo no carrinho. tinha disso a certeza.. não tornou cá nem uma única vez. Repito-te que. Era a ti que competia recolher os perus e Frederico devia ter ido ao moinho. Quando fui ao moinho estava com pressa. quando Frederico o mandara ao moinho. hás de demonstrar-me isso não favorecendo a preguiça de Frederico. assim. obedecendo ao seu filho. JULIÃO — Farei o que me diz. pôs nisso toda a má vontade que lhe foi possível. Frederico tinha-me recomendado que não me demorasse para o patrão já cá encontrar o farelo ao voltar. contei quarenta e sete. Está-se tornando preguiçoso. Eles deram-me um saco que já estava preparado. porque sei bem que sou quem vale menos em casa do Sr. Resulta daí que uns trabalham de menos e outros demais... Julião queria ajudá-lo. Julião: se me estás reconhecido pelo bem que te faço. Desde que o patrão o expulsou. e desconto-te o preço do peru nos sessenta francos que te dá Bonard para os teus gastos. BONARD — Ah! Já chegaste. quero que cada um faça o seu serviço. É um defeito perigoso que leva a cometer muitas tolices. conta com cinquenta e cinco francos. Bonard como as coisas se haviam passado: Frederico encarregara-se de recolher e fechar os perus na capoeira. eu sei. meu pai. havia lá vários. BONARD — Contaste os perus esta tarde? Estavam todos? JULIÃO — Estavam. em lugar de sessenta.. SRA. grande tratante? Tornaste a perder um peru e desta vez não te perdoo. BONARD — Ouve. BONARD — E por que foi lá o Julião? Tiveste medo de te cansar. BONARD — Não gosto nada dessa troca de trabalho. Bonard. Foi o Frederico que os recolheu enquanto eu fui ao moinho buscar o farelo. mas Bonard não lho permitiu. e eu quero que o Frederico se conserve uma pessoa de bem. Falando sempre. senhor. já lhe proibi essas relações. e não era natural que alguém o tivesse roubado ou deixado fugir. enquanto Julião fazia a cama de palha que lhes era destinada. naturalmente enganaram-se e deram-me cevada em vez de farelo. Estas misturadas e complacências não trazem nada de bom. E ele vem algumas vezes aqui enquanto cá não estou? JULIÃO — Nunca. Julião contou à Sra. patrão. BONARD — Vai imediatamente. percebeste? Frederico. o próprio Frederico. Bonard foi para casa jantar. . este ano.— A culpa não é do Frederico. mas sim minha. não arranjei nem um momento disponível. Encontravam-se lá todos os perus. para o futuro. Bonard. mesmo assim. a pegar no saco de cevada. exceto. JULIÃO — Estou deveras contrariado por lhe ter causado um aborrecimento. Julião seguia-o de perto. depois de ter perdido tempo a procurar o carrinho de mão. Eu posso muito bem ir lá depois. Julião. mas. meu rapaz. começou a andar lentamente. O teu jantar hoje é sopa e pão seco. FREDERICO — Mas agora. há quase três meses. indolente. Quando os animais ficaram servidos e arranjados.. estavam lá os quarenta e sete. e com toda a certeza. vamos jantar. Julgava proceder bem. continua a encontrar-se com ele. sei que é esse o meu dever. obrigado a obedecer ao pai. que tem sido tão bom para mim e que me recolheu quando toda a gente me repelia. sim. a encontrar um saco vazio e a sacudi-lo. preguiçoso? Vai depressa levar este saco e pede farelo. daqui para o futuro. lá se decidiu a ir ao moinho. travou relações com esse grande tratante do Alcino. o filho do homem do café. BONARD (a Frederico) — Por que mandaste o Julião? Por que não foste tu próprio? Por que esperaste até à noite? FREDERICO (embaraçado) — Tinha muito que fazer. — Ei-lo enfim a caminho — disse Bonard quando Frederico partiu. patrão. — E tu. patrão. Sr.

surpreendido com o silêncio geral. começava a ter um vago receio da ideia de que ele lhe falava. BONARD — Mas diz qual é. porque estava de mau humor. eu não saborearia estas deliciosas couves com carne de porco. No fim de alguns instantes. mas sem falar. e depois para a mãe. Tinha muita vontade de interrogar Julião. mulher — disse ele — esperemos por Frederico para esclarecer o assunto e. com inquietação. ele explicou as coisas como um rapaz honesto e disse a verdade. entretanto. não sabia. digo que quinta-feira é a véspera de sexta. sem ninguém para guardá-los e recolher. que estavam lá os quarenta e sete perus? . Pôs na mesa uma terrina com sopa bem quente e um prato de carne de porco salgada de fresco. encheu de alegria Julião e o fez apreciar com entusiasmo a bondade do seu patrão. e comeu com belo apetite. Bonard. pai. — Fica aqui. garanto-te. levantou os olhos para o pai que o examinava atentamente. serve o jantar. não disse nada. No entanto. com couves. mas tê-lo-iam ouvido. fui eu que os contei e só encontrei quarenta e seis. SRA. ao mais bonito? BONARD — É precisamente aí que está a minha ideia. talvez seja boa. Quando terminou o jantar. dir-te-ei mais tarde. — Se não fosse o Sr. que se vende lá criação e que uma pessoa pouco séria. não me lembro disso. Frederico levantou-se para sair. mas como se compreende que um estranho venha ao nosso pátio sem ser visto. dá a Julião de jantar. Tornou a sentar-se. Enquanto esperas. A Sra.visto que ele os havia contado diante de Frederico. — Escuta. junto de sua mãe. Frederico entrou no momento em que se sentavam à mesa. Bonard — visto que fui eu própria que encontrei os perus abandonados no pátio. Bonard olhou para o marido. BONARD — O quê? Que queres dizer? Qual é a tua ideia? Porque tu tens uma ideia. BONARD — Certamente que tenho. mas tu esqueces que sexta-feira é dia de mercado na cidade. preciso te falar. vejo-o muito bem. BONARD — Isso é verdade. BONARD — Julião disse-te quantos estavam quando tu o mandaste fazer um recado? FREDERICO — Creio que não. sentia-se perturbada. coisas de que tanto gosto. BONARD (rindo) — Olha a grande novidade! Não precisávamos de ti para fazer essa descoberta! BONARD — Sim. e ele não queria deixar adivinhar a sua inquietação. meu pai. JULIÃO — Como! Esqueceste que os contámos os dois na volta do campo. Bonard ouvia e parecia contrariado. torcerlhe o pescoço e levá-lo. e que antes de partir para o moinho eu te repeti que o bando estava completo. cuja fisionomia grave lhe causava alguma apreensão. SRA. Não deixa de ter a sua graça que duas quintas-feiras seguidas nos tenha desaparecido um peru sem que Frederico haja dado por isso. BONARD — Sabes que falta um peru? FREDERICO (perturbado) — Não. ou talvez não. Frederico. que tenha tempo de correr atrás dos perus e de fazer a sua escolha para deitar a mão logo ao mais gordo. Tomou o lugar do costume. SRA. — Pois Frederico prometeu-me que os recolhia logo — respondeu tristemente Julião — e tenho a certeza absoluta de que foram quarenta e sete que lhe entreguei antes de ir ao moinho. SRA. — É impossível — replicou a Sra. cujo cheiro agradável. BONARD — Pois muito bem. facilmente poderia apanhar um peru. mas Bonard não o permitiu.

e que há quem vos tenha encontrado juntos muitas vezes. não o tenho visto. no entanto. JULIÃO — Pois olha. apesar da minha proibição. BONARD (severamente) — Sei. nem sequer prestei atenção a isso. . castigar-te-ei com severidade a primeira vez que te virem com esse tratante. E. papá. Frederico. Ouviste? Frederico baixou a cabeça sem responder. Bonard a lavar a louça e a pôr tudo em ordem. JULIÃO — Muito obrigado. pensativo e perturbado. meu pobre rapaz. Pois bem. pelo contrário. depois. para mim é bem triste. não te julgo tão severamente. isso é com o Julião. esquecesses duas vezes seguidas uma coisa que. para mostrares algum interesse por ele. mas. de cada vez que se perde um peru. como se compreende que. Não te quero com más companhias. como se compreende que tu. se algumas vezes não trabalho como devo. há um ano que estás em minha casa. devias prestar mais atenção quando te fala a respeito dos perus. tens-me servido o melhor que podes e creio que és um bom e honrado moço. BONARD — Não. é a segunda vez que te esqueces e isso faz com que eu pareça um mentiroso. um desleixado e um ingrato aos olhos dos teus pais. que é tão amigo de te fazer as vontades. voltando ao assunto. patrão. eu veja vaguear em volta da quinta esse vadio do Alcino com quem já proibi que te continuasses a dar? FREDERICO — Não sei nada disso. enquanto mandas Julião a recados. Mas ouve: sabes que não gosto de te bater. Julião ajudou a Sra. que continuas a falar-lhe. BONARD — Bem sei. Frederico ficou só. BONARD — Mas. Bonard saiu para dar de beber aos cavalos.FREDERICO — Não me lembro. eu não tenho os perus a meu cargo. o papá bem sabe. não é por má vontade. certamente. é tão importante? FREDERICO — Mas.

meu senhor. meu senhor.. pequena! Quanto custar elas? JULIÃO — Não são meus. mim não encontrar Sra. JULIÃO — Sim. levando os perus. meu senhor.. então. INGLÊS — Eh! Pequena. você não ouvir mim? JULIÃO — Ouço bem. do T. senhor. Julião. JULIÃO — Sim. se dirigiu para a direita ou para a esquerda. meu senhor: a Sra. você mostrar a mim Sra. INGLÊS — Mim não compreender muito bem. já percebo. meu senhor. No momento em que dava a volta à extremidade do bosquezinho. Adeus. Foi em vão que Julião parou. que não conhecia.. senhor. o inglês seguiu-o. Atrás deste bosquezinho. não posso vendê-los. INGLÊS — E então? JULIÃO — Então. eu falo bem o francês. Julião não respondeu: não compreendia o que queria aquele homem que falava tão mal o francês. meu senhor. INGLÊS — Onde poder vender elas? JULIÃO — Na herdade. não percebo.) . em seguida chegou-se mais. 1 Peru. E Julião. Bonard. quando um homem. INGLÊS — Pastar? Que ser isso. Sra. um pouco perturbado com esta obstinação. Vem. Tenho de guardá-los enquanto andam a pastar. HOMEM — Pequena. o senhor chama turcos aos meus perus. mas não percebo o que diz. Julião estava no campo guardando os seus perus. INGLÊS (no mesmo tom) — Estupidazinha! Mim falar francês como você. senhor. JULIÃO (rindo) — Muito bem. e temendo que aquele estranho lhe roubasse algum peru. cumprimentou-o e começou a andar. meu senhor — respondeu Julião. admirado com a pronúncia do desconhecido. E o senhor os quer para si? INGLÊS — Ser isso mesma. Bonard? JULIÃO — Lá adiante. pequena. dirigindo-se também para a quinta. Bonard. INGLÊS — Onde ser isso.3 O inglês e Alcino Poucos dias depois. ser tuas estes gordas animales? — Não. se aproximou e começou a mirá-lo atentamente. aborrecido com a conversa do inglês. avistou um rapazito que de lá saía. Só os recolho ao anoitecer. em inglês. JULIÃO — Eu não posso deixar os meus perus. não falar turca. INGLÊS (impacientando-se) — Você não perceber turkeys? Você não saber falar. HOMEM — Eh! Pequena. recomeçou a andar. E mim dizer a você: mim querer comprar estas gordas animales. (N. Você comer todas turkeys? Hoje? JULIÃO — Não. mas o turco não. comer.. mim querer comprar estes gordas animales. tolinha? Mim dizer que mim gostar muito de turkeys. Bonard. INGLÊS — Oh! Mim não conhecer. INGLÊS — Você não perceber. pastar? JULIÃO — Pastar. o inglês não o deixava. dirigiu-se para os lados da quinta com intenção de chamar alguém que o socorresse para recolher os perus. mim gostar muito de turkeys 1 . à direita e depois à esquerda. estas gordas turkeys. meu senhor.

por sua vez. mas mesmo assim não me parece que isso fosse um negócio sério. reconheceu o inglês. Julião refletiu um instante. Ele que vá à herdade falar com a Senhora! É ela quem vende a criação. Deixa-me fazer o teu negócio. ALCINO — Mas ouve. é a porta ao lado. JULIÃO — Sabes bem. Alcino observa-o com inquietação. — Mim querer comprar estes gordas turkeys. por acaso. que esperava a 2 Good morning. sentem que ainda não são horas de recolher. é uma excelente pessoa. meu senhor. de falar contigo. e depois. ALCINO — Então. Julião. o inglês. a quem cumprimentou. fazer um ótimo negócio com este senhor! Ele não olha a despesas. a caminho. JULIÃO — Como é que o conheces? ALCINO — Mora perto de nós. ALCINO — Pois olha. JULIÃO — É verdade. ALCINO — Como? Palerma! Pois não vês que sendo quatro francos o preço de um peru. escusas de contar comigo para levar o bando. — Bom dia. Eis a razão por que te chamei. e o pequena não querer.) . tirar-me-ei sozinho de apuros. e. meus perus. Julião fez silvar a chibata e os perus puseram-se a caminho. eu já lhe falo disso. não sou eu que te ajudarei. do T. não é preciso que te metas nisto. ALCINO — Então te decides? — Já decidi e recuso — disse resolutamente Julião. no entanto. não sei o que ele quer. (N. — Sinto que isso não era um negócio honesto. Vamos. não te fará mal nenhum. vender estes perus? Sabes bem que não são meus. mesmo assim. eu arranjo tudo e depois repartimos os lucros. meu amigo. ALCINO — Fazes mal. ALCINO — Mas ouve cá. é rico. não vejo o que ganharia com isso. visto que hesitei um instante. já te ouvi tempo de mais. enquanto eu perseguia os que se afastavam. meu caro. JULIÃO — Em primeiro lugar. good morning. Ouve cá. dirigindo-se a Alcino. se faz favor! Dê-me uma ajuda para recolher mais depressa os meus perus. JULIÃO — Mas eu posso. tu podias. Bonard. JULIÃO — Deixa-me. Julião reconheceu Alcino e arrependeu-se de tê-lo chamado. contraía-lhe os lábios um sorriso astuto. asseguro-te que fazes mal. Bonard? JULIÃO — Ah! Mas isso era um roubo! ALCINO — De maneira nenhuma. O rapaz voltou-se. a mim e ao Frederico. o Sr. receava que me levasse algum dos animais. ALCINO — Que me queres. my dear 2 — disse ele. sem te ter reconhecido. Alcino. vendias-lhe um dos teus perus por oito francos. Pagar-te-á um bom preço. mas ele teima sempre em me seguir. Alcino acorreu imediatamente e. Se hoje te chamei foi para me ajudares a levar para a quinta os meus perus que estão com vontade de se afastar. lá na herdade. JULIÃO — Nem eu peço a tua ajuda. meu amigo. Eu já lhe disse. Não percebo a sua algaravia. que o meu patrão nos proibiu. pelo contrário. ALCINO — Espere. visto que ela não perdia nada com isso. Julião? Não me chamas muitas vezes. podias guardar quatro e dar outro tanto à Sra. já te disse que quem os vende é a Sra. Julião. my dear: Bom-dia. eu gosto imenso de ti. Georgey quer um dos teus perus. e não nos afastemos. ainda que lhe vendesse por oito francos. visto que nunca ousaria confessá-lo à Sra. ALCINO — E por que tens tanta pressa de levá-los? JULIÃO — Porque desconfio deste homem que teima em me seguir a duas horas.Julião chamou: — Olá! Venha por aqui. Bonard.

apertou-o com as duas mãos. piscou os olhos e ia de novo começar a seguir Julião e o seu bando. Mim dizer a você: levar turkey. Sr. quer dizer. ao pé da cancela. do T. deu-os a Alcino e pôs-se a acariciar o peru. BONARD — Por que o chamaste? Sabes que tanto tu como Frederico. ALCINO — O senhor quer que eu leve o peru? INGLÊS — Yes. my dear: Sim. queria absolutamente ficar com os meus perus. my dear. que fala uma esquisita algaravia. chegava à cancela. 3 Yes. Georgey. que se dirigia para o lado da quinta e que eu chamei para me ajudar a conduzir os animais. embaraçado com o peru que se debatia. Limitouse a segui-lo majestosamente. O pobre peru. patrão. soltou um “oh!” de satisfação. estão proibidos de lhe falar. Georgey fez um “oh!” indignado. Georgey. Sr.) . de longe. Georgey. mas Julião não quis vendê-lo por menos de oito francos. Sr. largou o peru e este fugiu com tal velocidade em direção à herdade que o inglês perdeu toda a esperança de apanhá-lo. Mim julgar que pequena vender seus animales demasiada caras. Bonard estava no pátio. correndo. SR. Quando viu chegar Alcino com o gordo animal. Georgey. quando Alcino lhe fez um sinal para que se não mexesse. Pouco tempo depois. Aproveitando-se do momento em que Julião tinha deixado os perus para abrir a cancela. Durante este tempo. Mim não ser surda. ainda tive um encontro bem pior: Alcino. E depois. Embrenhou-se a seguir no arvoredo e encontrou-se ao mesmo tempo em que Julião no limite do bosque. porque posso encontrar alguém de casa dos Bonard. patrão — gritou Julião. apanhou um que estava pertinho da moita onde se encontrava escondido e levou-o apressadamente para o bosque. GEORGEY — Quanto custar. Você levar turkey. Julião recolhia os perus. avistando-o — voltei mais cedo para salvar os meus perus. eles vêem-me.alguma distância o resultado da negociação de Alcino. GEORGEY — Oh! As outras custar seis. Isso não ter importância. porque tem mais quinze dias que os dois últimos que o senhor comprou e está mais gordo. as calças. Você não perceber? Alcino procurou fazer-lhe compreender porque não podia levá-lo e aproveitou-se de um momento de indecisão do inglês para lhe entregar o peru e se escapar. SR. passando cautelosamente de moita em moita até alcançar o sítio em que o deixara Julião. 3 ALCINO — Mas é impossível. escancarou muito a boca. Este não saíra do mesmo sítio. um homem muito engraçado. não o perdendo de vista. você. Sr. conservava-se direito e imóvel. quase sufocado. BONARD — Mas que aconteceu? Tiveste algum mau encontro? JULIÃO — Julgo bem que sim. abriu as mãos num gesto involuntário. você levar turkey. patrão. (N. ALCINO — É verdade. E se eles pensam que eu o roubei? INGLÊS — Mim não compreender muito bem. O inglês tirou oito francos da algibeira. dizendo: Pequena ser uma patifezinha. — Patrão. INGLÊS — Não falar tão alto. saiu do bosque e encontrou-se com o inglês. ela sujar a minha quinta. O Sr. justificou os receios do seu novo dono. O inglês. ALCINO — Não posso. my dear? ALCINO — Oito francos. meu caro. sujou-lhe bastante o ainexprimível. Depois. para impedir que ele fugisse.

E vi que tivera um mau desejo e arrependi-me muito. quando ele me apanhou não havia maneira de fazer com que se fosse embora. JULIÃO (muito admirado) — Não é possível. mas quis certificar-se dela antes de dizer qualquer coisa a esse respeito. e depois. e que se fizesse isso era certamente às escondidas do patrão. há um instante. voltou-o de todos os lados e não viu nada que lhe desse a conhecer como fora roubado sem que Julião tivesse visto o gatuno. ouviram piar um peru. BONARD — E o que te fez desistir? JULIÃO — Pensei que havia de me sentir envergonhado se o senhor e a senhora soubessem. com certeza não é bonito. tive como que vontade de fazer o que Alcino me aconselhava. BONARD — Só acho quarenta e cinco.JULIÃO — Foi porque não o conheci. meu rapaz. muito. és um bom e honrado rapaz. Pareceu-me ter visto correr alguém no bosque. Apesar da confiança de Julião. Então. examinou-o. é porque essa ação merecia castigo. patrão. contei-os enquanto vinha andando. patrão. visto que acabei de contá-los já perto da cancela. o nosso. perdeu algumas penas e uma parte da cauda. patrão. Mas é conveniente contar os perus para ver se falta algum. que procurava passar através das grades da cancela. No momento em que iam recomeçar a sua contagem. JULIÃO — Eu ainda hesitei. patrão. falta-te um. e disse ainda para comigo que para me castigar a mim próprio havia de lhe contar isto tudo. E se sentes medo do Sr. disse para comigo: toma cuidado. mas é. sem dúvida nenhuma. patrão. BONARD — Fizeste bem. Bonard. Bonard contou os perus. Julião. Julião recolheu-o e exclamou alegremente: — Cá está ele. — Ó patrão. cá está o nosso peru. E por isso o estou fazendo. E Julião contou a Bonard o que se passara entre ele e Alcino. . Julião. que tem sido tão bom para ti. estão cá todos. patrão. Como conseguiram roubarem-me se eu nem um instante deixei de segui-los? Bonard pegou no peru. aquilo que não tens coragem de mostrar à claridade do dia. Adivinhou pouco mais ou menos a verdade.

(N. do T. e ele saudou-a com graça e delicadeza. a fisionomia da Sra. sir 5 . INGLÊS — Pequena. SRA. Deixar-me tranquila. um pequena abominável. meu caro senhor: fica para outra vez. uma selha e roupa branca. Bonard apressou-se a voltar a casa para preparar água. BONARD — Experimente tocar-lhe. BONARD — Entre. que eu lhe dou o boxe. — Oh. Mim estar um pouco enlameada e não ousar entrar em aposentos de senhora. do T.) Sir – Senhor. pôs-se em posição de quem se prepara para jogar o boxe. — Que quer. Julião correu em seu socorro e ajudou-o a levantar-se. meu bom senhor. tente somente e verá! O inglês. mas antes voltou-se para Julião e estendeu-lhe a mão. SR. — Meu pobre senhor! — exclamou ela. (N. Bonard tinha ouvido qualquer coisa da cena e da queda. do T. você roubar minha turkey. BONARD — Ora essa. ele ser um tratantezinha e mim esmurrar a ele. Mim não conhecer você. INGLÊS (oferecendo-lhe o braço) — Se senhora querer. INGLÊS — Pequena.) 6 My goodness! My God: Meu Deus! Meu Deus! (N. enquanto Bonard ria a bandeiras despregadas. o inglês atirara-se com tanta força contra Bonard. você ser ladra. você ser uma ladra! Julião. agora não está em estado de patentear a sua delicadeza. e Bonard teria apanhado um murro em pleno peito se não se houvesse esquivado a tempo. todo negro e ensopado. 4 Juliana você ser um pequena ladra. O inglês estava agora de pé. Bonard aproximou-se do inglês. ficou mudo e imóvel. BONARD (rindo) — Muito obrigada. A Sra. dizendo: — Mim perdoar você. sabão. você ser um good fellow 7 . que tropeçou e foi cair na lama da estrumeira. do T. de cabeça para baixo. aceitar braço. A Sra. senhor? Por que está insultando Julião? INGLÊS (sempre com os braços cruzados) — Juliana! Ser Juliana este pequena! Very well. senhor! Terá acabado enfim com os seus insultos? INGLÊS — Mim não falar a você.) . surpreendido. INGLÊS — Senhora ser muito boa. por única resposta.4 Uma sova bem merecida No mesmo instante chegou o inglês e dirigiu-se a Julião. gatuna. Deu dois passos. jogar boxe. entre. — O que havia de lhe acontecer! Queira entrar. para se lavar e limpar o fato. voltou-se e ajuntou: 4 5 Very well: Muito bem. encharcado numa água negra e malcheirosa. dirigiu-se a ele. saiu de casa e vendo aquele infeliz homem. Mim falar a pequena.) 7 Good fellow: Bom companheiro. Juliana. não se importe. (N. my goodness! Oh my God 6 — repetia ele num tom lastimoso. mim agradecer senhora. O inglês seguiu-a em passo cauteloso. O inglês olhou-a um instante. você ajudar a mim. Bonard agradou-lhe. cruzando os braços. mas sem sair do mesmo sítio.

grande desgraça. que. a Sra. tirando água à bomba. E antes que o inglês tivesse tempo de descruzar e estender os braços.) . nem parece que lhe aconteceu isto. em inglês. enquanto o Sr. A Sra. daqui a pouco. mas asseado. — Tome.. agora? Que apresentar a amigos minhas de Inglaterra? Bonard. — Provavelmente. Inglês. e foi ter com Bonard e Julião. BONARD — Quem é este homem? Que ar engraçado ele tem! Que andava a fazer. como não compreende nada. depois. SRA. não ficou com água. Foi ele sem dúvida que eu vi correndo através do bosque. Por mais que o inglês gritasse: — Oh! dear! Oh! goodness! Minhas papeis! Tomar atenção minhas papers! Não pôr água minhas papers! Você afogar minhas papers! Bonard não lhe levou o fato senão depois de estar limpo. E o pior é que. o sabão e a roupa. para a herdade. — É muito claro — disse Bonard. (N. INGLÊS — Oh! Senhora! Fye! Uma senhora lavar senhor! Fye! Shacking! 8 SRA. Avançou para Bonard. remexeu nas algibeiras e retirou de lá uma volumosa carteira que abriu. BONARD — Oh! Muito bem! O interesse não era meu. Tirou dela vários papéis que estavam num estado deplorável. não se zangou com os insultos que ele lhe dirigiu. nem mesmo parece que se molharam. um pouco úmido. Acabará de secar em si. SRA. nem com a sua injusta cólera. Georgey os desdobrava. que tinha acabado de se lavar. fechando a porta atrás de si. aquele imbecil. ele seguiu-o e vendo-o no pátio julgou que Julião o queria roubar. Enquanto falavam. senhor aqui está o seu fato. não nos podemos explicar com ele. correndo. O inglês agarrou na sobrecasaca. INGLÊS — Espere aí! Mim não saber que você ser marido de senhora! Um minuto. mesmo assim quis ouvir a história contada por Julião. por 8 No original. e disse com calma: — Não faz mal. não tem importância! Trata-se somente de fazer com que tudo isso seque. Eu vou chamar a minha mulher e ela dá-lhe uma ajuda. quer que o ajude? O inglês olhou para ela com um ar indignado. que lhe batia nos calcanhares. BONARD — É certo que o seu belo fato está um pouco deteriorado. postado diante do seu fato que contemplava tristemente. Sr. Olhou para os papéis. pôs-lhos a duas polegadas no nariz e disse com a voz sufocada pela emoção: — Patifa. Quando entrou em casa. para rebolar assim nesta porcaria? Bonard contou-lhe o que se passara e riram muito os dois. tremendo. Bonard mostrou-lhe a água. Bonard. Arranje-se sozinho. BONARD — Pronto. Oh! Eu torci-o bem. Bonard entrou na sala e viu o inglês com uma camisa tão comprida. que considerava o inglês como um louco. com os braços cruzados. Vamos lá. naturalmente vendeu o peru ao inglês e este julgou que Julião tinha encarregado Alcino da venda. por causa da aventura do inglês. Bonard saiu. Alcino deitou a mão ao animal quando Julião abriu a cancela. mas dê-mo.— Mas você ser uma pequena ladra se não dar a mim a turkey. mas a Sra. do T. desastrado como poucos. Bonard quis esclarecer o assunto do peru que ele reclamava. deixou por certo fugir o peru que voltou. Bonard agarrara no fato e levara-o para limpá-lo no tanque que havia ao lado. e bem ensopado. Voltarei a buscar o seu fato para limpá-lo um pouco. senhor. que se lavavam. celerada! Você ter perdido minhas papers! Ver. A Sra. ver? Os sketches (desenhos) de todas fabricações minhas! Os compreendimentos de todas máquinas! Que fazer mim..

enquanto o Sr. BONARD — Estás a chorar. um ladrão! SRA. BONARD — Aqui estão. senhor. ladrona Fridrico! Ele ter vendido a mim duas primeiras. (N. que limpava os olhos. excelentes! BONARD — Pois Alcino tinha-as roubado a Julião. a que nem o marido nem a mulher prestaram atenção. INGLÊS (rindo e esfregando as mãos) — Oh! Very well. oito. o nosso filho. Mim vir muitas vezes. estão bem secos. mim estar muito arrependida. o Sr. e aqui está o que ele ganhou em não me obedecer. mim fazer aos dois um boxe terrível.. desfez-se em cumprimentos e desculpas. Aquece-o o melhor que puderes. Alcino roubou-a de mim e vendeu-a ao senhor. Bonard olhou a mulher. Foi Alcino que a vendeu? INGLÊS — Oh. Frederico. Enquanto falava. tinha-o proibido muitas vezes de se dar com esse tratante do Alcino. my dear sir. Bonard ia passando e dobrando os papéis. gatuna? E Fridrico também? BONARD — Por quanto as vendeu ele? INGLÊS — Dois primeiros. Mestre.) . Master 9 Bonard. Ele dizer ser mais gorda. pensa que ele procedeu mal porque o levaram 9 Good bye. esperou. bom senhor. um pouco amarelos. poupa-o. deixe-me acabar. A Sra. não é verdade? INGLÊS — Oh! Sim. com certeza. Gastaram meia hora para aquecer o homem e enxugá-lo. por favor. a chegada da Sra. sozinho. INGLÊS (inquieto) — E mim não comer mais seus gordos turkeys? BONARD — Com certeza que sim. Master: Adeus. vendê-los-ei a quatro francos. nem parece que se molharam. Bonard. Mim pedir desculpa a você. Oh! Ladrona Alcino. INGLÊS — Oh! Alcino tão boa fellow! E Fridrico também! BONARD — Ele já lhe vendeu outras duas. Na verdade. Minhas papers. O Sr.favor! Mim querer meu casaca nos ombros e minha ainexprimível nas pernas. bem passados. O inglês deixou-se virar e revirar por Bonard diante de um lume muito vivo. seis. — Acende depressa o lume. Ele. BONARD — Com licença. do T. BONARD — Esse ladrão roubou-me a mim e ao senhor. mas sim minha. disse a Bonard. Quando esta entrou. gorda último. eu vou pôr o ferro ao lume para secar e passar esses papéis. INGLÊS — Isso não ter importância nenhum. BONARD — Oh! Bonard. BONARD — Escute. e faça por compreender: a perua a que chama turkey (não sei porquê) não é sua. enquanto tiver. tiritando. somente. Georgey era envolvido pelos vapores que a sua roupa exalava. mim não saber que senhora ser seu mulher. Quando voltar levará a sua conta. Good bye. Este pobre senhor treme que faz dó. não faria uma ação tão má. Georgey tinha-se vestido. a quem o marido fora buscar. INGLÊS — Oh! My goodness! Como Alcino ser um patifa. Bonard. yes! Alcino good fellow! Ele vender a mim tão bons turkeys! BONARD — Pois bem. num tom suave e moderado: — Mim esperar ter minha turkey. SRA. Quando se sentiu seco e quente. Georgey cumprimentou uma última vez e foi-se embora. aos quais parece ligar tanta importância.. nós boas amigas então. Good bye. SRA. por pouco que não faço o mesmo. O inglês fez um movimento. Quando mim tornar a ver a eles. mulher? E tens razão. BONARD — Assim o creio. BONARD — Foi Alcino que o levou a isso.

Confessa a tua falta francamente. meu pai. eu. parece-me que não. ele estava lá à minha espera. com o Alcino. soluçando: — Meu pai. patife.o... BONARD — Um rapaz sério não se deixa levar. perdoe-me. Julião obedeceu quase tão trémulo como Frederico. saiu de detrás da palha e dirigiu-se para casa. não te ouçam. Por que é que tens medo deste inglês? Tem um ar esquisito. JULIÃO (rindo) — Olha! que estás a fazer aí? Por que te escondeste nesse sítio? FREDERICO — Chut! Toma cuidado. tem a modo que um ar de maluco! FREDERICO — Ele falou de mim? JULIÃO — Não. Estava sempre a pedir o seu tarkei e chamava-me ladrão.. mas que disse ele? JULIÃO — Palavra de honra que não compreendi grande coisa. FREDERICO — Então posso entrar? JULIÃO — Por que não? Mas que é que tens? Estás com um ar tão assustado! FREDERICO — O papá está na sala? JULIÃO — Penso que sim. quando eu estivesse só. Conta como isso aconteceu e como pôde o Alcino vender os meus perus ao inglês.. o Alcino. Repara no Julião: é muito mais novo que Frederico. parece-me que é assim que ele chama aos perus.. não ouvi nada. foi mesmo agora. foi só de tê-lo encontrado com o Alcino. Mas que te importa isso? FREDERICO — Tens a certeza de que ele não disse nada a meu respeito? JULIÃO — Eu. tem só doze anos. Depois pôs-se de joelhos diante do pai e disse-lhe. Frederico. encontrei. — Segue-me — tornou ele — vem à estrebaria. sim. BONARD — De onde conheces este inglês? FREDERICO (chorando) — Eu. pelo menos. Que disse ele? Por que veio cá? JULIÃO — Não sei lá muito bem. A porta abriu-se e Bonard apareceu. BONARD — Por que estavas com o Alcino. apesar de tudo o que diz. Frederico fez-se pálido como um cadáver. esperando Frederico. ao anoitecer.. Eu somente fiz mal em estar com ele depois da sua proibição. mas não é mau. BONARD — Tu estás a mentir. Creio que ele não tem a cabeça bem no lugar. Julião. De onde é que o conheces? FREDERICO — Não o conheço muito bem. Já se foi embora? JULIÃO — Já.. apesar da minha proibição? Por que roubaste os perus de acordo com o Alcino. e vê como ele resistiu. FREDERICO — Sim. sabendo que ele estava inocente e sentindo-te culpado? FREDERICO (chorando) — Não fui. não o vi sair.. num tom de voz que despertou no rapaz todos os seus receios. Mandei Julião duas vezes fazer recados . Bonard fechou a porta. Enquanto o marido e a mulher conversavam tristemente. foi. FREDERICO — Alcino e eu combinámos encontrar-nos no bosque. Nisto viu a cabeça de Frederico a aparecer por detrás de um monte de palha. para vendê-los a este inglês? Por que consentiste que eu ralhasse duas vezes com o Julião. Julião havia recolhido os perus e tratava dos cavalos.. Bonard aplicou-lhe uma bofetada que lhe fez soltar um grito agudo. pedia-me o seu tarkei. E tu. batia-lhe o queixo. tranquilizado. — Segue-me — disse ele a Frederico. Queria-me esmurrar a mim e depois ao teu pai. Sei tudo.a isso. Vi o inglês na sala. BONARD — Como travaste conhecimento com este inglês que saiu daqui? Frederico não respondeu. foi o Alcino que roubou os perus.. vai-te embora...

como tu. que partiu imediatamente. em seguida. sabendo o que ia acontecer? E guardaste mais uma vez o dinheiro. a um velhaco. e mentindo aumentas a culpa e o castigo. pedindo-me para não falar daquilo a ninguém. eu estava pasmado. impeliu-o. afinal? Mentes. para cima do monte da palha e saiu da estrebaria. BONARD — E tu deixaste-te levar. para isso. pela segunda vez? E não te envergonhaste de roubar teu pai e tua mãe e de te ligares. Alcino fugiu e fui-me também embora. BONARD — E da segunda vez? FREDERICO — Passou-se tudo do mesmo modo. BONARD — E os dois francos? FREDERICO — Não os pude restituir. . Alcino tinha-se ido embora. nem sabia o que fazia. a um ladrão. antes que eu pudesse evitá-lo. sabendo que era um roubo? Nem sequer coraste. Alcino desapareceu por um instante e voltou com um peru debaixo do braço.para que ele não me visse com Alcino. fez o ajuste com o inglês. corri pelo bosque e encontrei-o com o inglês. Bonard agarrou Frederico e aplicou-lhe um rude corretivo bem merecido. depois. Alcino deu-me dois francos. levando o peru. deixando acusar Julião.

CAROLINA — O senhor tinha dito que comprava um peru e não trouxe nada. ele não está contente contigo. SR. GEORGEY — Mim dizer que ser raparigo ladra. ALCINO — A Sra. SR. mim querer almoçar com muita pressa. enquanto escrevia. GEORGEY — Ser todos estes raparigos que fazer disparates. Ser um amável dama. SR. E que ter mim? Coisa nenhum. Sra. GEORGEY — Sr. Mim perguntar a Sra. mim vir dizer a você que jovem gentleman 10 . Sr.5 Os turkeys todos Quando Bonard voltou para casa contou à mulher o que se tinha passado entre ele e o Frederico. good bye Alcino. Bonard chorou. que é um mentiroso. Alcino. Turkey correr e mim não poder apanhar ela. Georgey. ela dizer sempre verdade. E Alcino levar oito francos em seu bolsa. A Sra. voltou a sua casa e chamou a criada. Bourel. Não haver turkey em cozinha e menos oito francos em meu bolsa. — Carolina — exclamou ele — Carolina. Mim não compreender já seus argumentações. É um rapaz em quem se pode ter confiança. como você ser gatuna com turkeys. GEORGEY (com vivacidade) — Que dizer você? Juliana ser good fellow Ele levantar mim da lama preta e mal perfumada. Bonard. Quando o Sr. Ser incrível. Georgey. O Sr. Mim perguntar à Sra. mudou de fato e foi ao pequeno café do pai de Alcino. mas achou que o marido tivera razão. mim ter tirado e posto em mãos dele oito francos. Georgey saiu. Mim dar oito francos por uma gorda. vir depressa. vem cá explicar-te com o Sr. Good bye. Sr. Georgey. E turkey não ser dele. pensava no seu turkey e no meio de reavê-lo. BOUREL — Alcino! É impossível. Georgey. quem tem a culpa de tudo é o Julião. — Carolina. SR. Bourel. GEORGEY — Sra. do T. Bonard se enganou. Georgey. De repente uma ideia luminosa desanuviou-lhe a fisionomia. Alcino entrou e disse com ar hipócrita: — Estou muito aborrecido por lhe ter causado contrariedades. Bonard. por minha turkey. Cinco minutos depois. Bonard não lhe diz a verdade. ALCINO — Ó Sr. ele acredita em Julião. Bonard ser muito amável. GEORGEY — Mim ver este coisa mais tardiamente. porque não gosta de mim e só acredita no Julião. asseguro-lhe que o Sr. Georgey voltou à sua casa. GEORGEY — Sim. E mim perguntar coisa todos a Sra. my dear. eu gosto imenso de si e farei tudo o que quiser para lhe agradar e o servir bem. Você ir 10 Gentleman: Cavalheiro. SR. Bourel abriu uma porta do fundo e chamou: — Alcino. Bonard. SR. Dias depois.) . Sr. Sr. mim querer falar a você. Carolina acorreu imediatamente. CAROLINA — Que aconteceu? O senhor está indisposto? SR. bela animal e mim ficar sem coisa nenhum. Georgey. Tomar cuidado! Mim não gostar que outros enganar a mim. passar já do meio-dia. ele ter roubado a mim dinheiro de turkey. muito mal indisposta. Bonard. Carolina levava o almoço ao Sr. (N. E mim não estar contente. mim dizer a você que Alcino ser um gatuna. ser um gatuno.

ser stranglada. Vá depressa. Bonard. É.” Enquanto observava e refletia. BONARD — Tem uma algaravia confusa. Deve ter muito dinheiro porque gasta sem conta. porque tenho de fazer despesa com a alimentação deles. É muito cómico. Vá com todo pressa. e os Bourel sabem-no bem. depressa. stranglada. do rapaz que eu não gosto. retomou o seu passo normal. para construir e pôr a funcionar uma fábrica para um amigo. Bonard! CAROLINA — Ah! o senhor quer dizer estrangulado. você pedir a Sra. Estão todos bons para serem comidos. entre duas garfadas. BONARD — Todos ao mesmo tempo? Que vai ele fazer destes quarenta e seis animais. ouviu que a chamavam novamente da janela. A cabeça do Sr. julguei vê-lo morrer sufocado de tanto que comeu. ao que parece. SRA. Depenam-no como um patinho. Mas com este senhor é sempre tudo depressa. Georgey? SR. Bonard meu gordo turkey e você trazer turkey strangled. Veio. parece. senão os operários e o intérprete que transmite as suas ordens. que não percebe nada daquilo e o mandou vir de Inglaterra. Mim julgar que dever-se dizer strangled. corre a todo velocidade. Carolina partiu. CAROLINA — Mas que é strangled? SR. mas. CAROLINA — Mas ele recomendou-me tanto que os comprasse todos! SRA. que chega a dar vontade de rir. BONARD — Ouça. SR. Mal tinha dado dez passos. rindo. para obsequiá-lo. Georgey desapareceu e a janela fechou-se. “Ainda que perca alguns minutos”. Carolina tinha chegado à casa dos Bonard. GEORGEY — Yes. yes. não fugir para a casa de Sra. GEORGEY — Carolina. Sr. Por quanto os vende? SRA. ela morta. como ele lhes chama. CAROLINA — Vende-lhe os perus? Ele quer todos. não correr. Georgey. Como ele engana o Sr. sobretudo. Não o compreenderiam se não fosse assim. my dear. my dear. BONARD — Vive só? Que faz ele no nosso país? CAROLINA — Vive sozinho. Nunca tinha visto nenhuns tão tenros. SRA. Georgey! É uma dor de alma! Mas eu ainda o hei de desmascarar. Roubao. Ser mesmo coisa. Só ali encontrou a Sra. Mas é um bom homem. o barão Gergenil. GEORGEY — Você não saber que ser strangled? Você apertar garganta de turkey. SRA. SR. CAROLINA — Como ele vai ficar contrariado! Gosta tanto dos seus perus. Quando lhe servi os dois últimos. my dear. Para mais começavam a enfraquecer e perdiam todo o valor. E como é ele? É bonacheirão? Dá-me a . tão bons. que é preciso alimentar e levar para o campo? CAROLINA — Não. só quer dois por semana. Olha! lá está ele. Não posso fazer outra coisa. Não tem paciência. Bonard e todos semanas apanhar dois turkeys e mim comer dois turkeys. quando ficou fora do alcance da vista. não hão de fugir. só me tem a mim para servi-lo. BONARD (rindo) — Ah! Os meus perus deram-lhe no goto. com certeza. Onde arranjará todo o dinheiro que gasta? Não é o pai que lho dá. nunca vê ninguém. vai a sair do café Margot. SRA. se for preciso conserválos ainda três ou quatro meses.imediatamente com muita pressa a casa do Sr. Bonard e dar meus cumprimentações. mas vendo o resto na feira do mês que vem. pensou ela “os tarkei. não. GEORGEY — Você pagar o que pedir Sra. Bonard e comunicou-lhe o recado do Sr. porque é muito forreta. dizia ele. Está sempre a trabalhar. mas. CAROLINA — Quanto devo pagar por eles. BONARD — Vende-os a quatro francos cada um. posso guardar-lhe uma dúzia deles. mas quer todos guardados para ele. não há dúvida. Carolina principiou a andar depressa. isso já não é possível. você comprar todos turkeys da Sra. apesar disso.

Bonard lhe indicara e encontrou Julião com os perus. SRA. como é pelos Bourel. BONARD — Mas não os tenho cá. CAROLINA — Tem um feitio assomadiço e extravagante. creio eu? CAROLINA — Palavra que não. estão no campo. Sra. mesmo assim. aquele rapaz. há de encontrar Julião com os perus. tomou o caminho que a Sra. Pelo bosque fora e depois à esquerda. Alcino. escolha o que quiser. SRA. Vou-me afeiçoando a ele e custa-me vê-lo enganado a toda a hora. depena-o de uma forma lamentável. SRA. dê-me um dos seus perus para eu levar. . pai e filho. BONARD — Há de conhecê-lo. se voltasse com mãos vazias o meu patrão era capaz de adoecer. estou na terra a pouco tempo e conheço aqui pouca gente. BONARD — Ouça. vá pelo bosque fora e volte para o campo à esquerda. Bonard. até a vista. e pago ao Julião? SRA. Bem. CAROLINA — Temos de lá ir. visto que é só ele que lá está a guardar os meus perus. sobretudo. BONARD — Como quiser. é um grande tratante. mas é muito bom homem. Conhece Julião.impressão de que deve ter mau génio. CAROLINA — Entendido. não nos havemos de zangar. Carolina foi-se embora. não quero voltar sem peru.

Faz como Alcino. CAROLINA — Sempre és muito estúpido! Fiquei com os dedos adormecidos por me teres batido com tanta força. pensou Julião. será isto roubar? JULIÃO — Não sei nada disso. e se fala verdade? CAROLINA — Visto que te chamo pelo teu nome. é porque alguém me disse e esse alguém é a Sra. a mim e aos meus quarenta e seis bichos. e os pés em boa posição para o ataque ou para a defesa. Vá-se queixar. não há de tocar nos meus perus. Bonard me tenha dado ordem para isso. Se eu quisesse. JULIÃO — Tanto pior para si. Vamos. não me deixarei roubar terceira vez. contigo. o seu patrão utiliza-se de patifes como Alcino. com os punhos cerrados. Bonard. CAROLINA — És muito estúpido. Georgey? É o meu patrão. Julião fitava-a e sentia-se inquieto. “Mas não faz mal. Mas quando Julião viu que ela se curvava para apanhar o peru que tinha escolhido. Roubaram-me dois. e o maior não é o menos bicho. Sei eu por acaso quem a senhora é. são quarenta e sete. Bonard. JULIÃO — Não toque nos meus perus. JULIÃO — Tente e verá.6 As moedas de ouro do Sr. CAROLINA — Não és nada bem-educado. não é má”. meu rapaz. ofereça-me todo o dinheiro que tem. Bonard! Foi ela quem me mandou aqui vir para escolhê-lo. para ficar com o melhor. Não se apercebia da desconfiança de que estava sendo objeto. Depois pôs-se a examinar atentamente os animais. Mas Carolina andava mais rapidamente que os perus e não tardou a alcançá-los. JULIÃO — Ora. Julião. Isso não são maneiras de brincar. eu nunca a tinha visto. CAROLINA — Terminaste. deixa-me levar o peru e toma lá os quatro francos. Julião. para lhe mostrar que estava pronto a defender à mão armada o bando que tinha à sua guarda. ora! Conheço a história. Carolina não prestou atenção a isso. olhe que lhe fustigo os dedos a sério. Carolina soltou um grito. se quiser. Carolina encolheu os ombros e dirigiu-se para os lados da quinta. JULIÃO — Não quero que toque nos meus perus. JULIÃO — Não a deixo levar o peru e não quero os seus quatro francos. CAROLINA — Qual inglês? O Sr. JULIÃO — Vá onde quiser e deixe-nos tranquilos. maçador? Estás a fazer com que perca o meu tempo. que me oferecia também quatro francos para comprar um peru que vendia por oito ao tal inglês. fez com que os perus avançassem mais depressa. Georgey À medida que Carolina se aproximava. vou-me queixar à Sra. temendo uma nova aventura. não deixava de olhar para Carolina e fez sibilar a chibata. E Julião pôs-se resolutamente em guarda entre Carolina e os seus perus. Bonard e não dou coisa alguma sem sua ordem. vá-se embora. A inquietação de Julião aumentou. CAROLINA — Mas se eu comprei um à Sra. CAROLINA — Quarenta e seis bichos. mas não tocará neles sem que a Sra. Bonard. levava um mesmo sem tua licença. nada disso dará resultado. Quero lá saber do seu inglês! Só conheço a Sra. . Eu combinei o preço com a Sra. “Apesar de tudo. JULIÃO — Não quero saber dessas coisas. Toma lá quatro francos para pagar o teu peru. Já não acredito nisso. diga-me todos os insultos que lhe passarem pela cabeça. prontos a entrar em ação. aplicou-lhe uma chibatada nas mãos e avançou para ela com ar ameaçador.

podes ficar.. imenso de Juliana. como fez o Alcino. só dizia uma palavra. Vou-me pôr a andar com os meus perus. e afinal de contas fiz bem. o nosso ajuste. quanto mais lhe batia mais ria. mim querer levar ele com turkeys. não ralhar com Juliana. senhor. SR. BONARD — Que aconteceu. eu não quero de maneira nenhuma deixar ir o Julião para sua casa. BONARD — Não tenhas medo. BONARD — Mas ouça. Juliana ser um honrado pequena. do T. (N. ao pé de mim. em meus serviços. o Sr. procedeu bem. O inglês. e parece que rebenta a rir. Ver isto pequena? E o Sr. Sra. ele ter batido em meu Carolina. correndo. — Teve medo que lhe acontecesse alguma aventura como a do outro dia. Em lugar de se zangar pôs-se a rir. mim dar muita coisa a você. Bonard! Você ser tão amável.) You litle dear: Você. Georgey. um bom pequena. levantou-se e disse: — Você. Deixou de rir imediatamente.) . com muita força. Mim dar a você cinco 11 12 Money: dinheiro. Esta riu com vontade.. Julianinha: se você ir para casa meu. Venha. Como não a conhecia. Fui eu que a mandei cá. Georgey tirou a bolsa da algibeira. para casa meu. saiu da moita e chegou. excelentemente.” Carolina voltou à quinta e contou à Sra. rindo a bandeiras despregadas. fustigando-lhe os dedos o melhor que pude. caro pequeno. SRA. Quero conservá-lo na minha. Bonard o que se tinha passado. patroa. repare. O inglês começou a rir ainda mais. GEORGEY — Você ver? Estar cheio de dinheiro amarela. que vinha comprar um.devo zelar pelos interesses dos meus patrões. Quando se aproximaram. GEORGEY — Oh! Sr. vou fazer com que lhe dêem o seu peru. Estar muito bem. e a menina Carolina também. com o Alcino. Quis-me agarrar as mãos. querer esmurrar Carolina e bater a mim. — Oh! sim. SR. tinha medo de que ela me roubasse um dos meus perus.. do T. ele empurrar money 11 de Carolina. — É um bom rapazinho — disse ela. GEORGEY — Ouve. JULIÃO (perturbado) — Eu não sabia. o Sr. acariciando a cabeça de Julião. mas eu defendi-me com a chibata. você vir com turkeys. vendo o ar enleado de Julião. BONARD — Também eu. lá está ele a rebolarse. tão bom! Mim gostar tanto de honrado raparigo! SRA. E esta é a criada dele. you litle dear 12 — ajuntou o Sr. Bonard. hem? SRA. a menina Carolina. Bonard. Também gosto dos rapazes honestos e é por isso que gosto do Julião e não quero ficar sem ele. (N. Carolina. tarkei. Georgey quer um peru do teu bando e chama-lhe tarkei. enquanto eu defendia os meus perus dessa senhora. a culpa é minha. SR. ele ser um honrado raparigo. SRA. Mim gostar muito. mim gostar de honrados raparigos. BONARD — Mas. Julianinha. Bonard estava a ralhar com ele. SRA. senhor. CAROLINA — Muitíssimo obrigada! Acha que ele fez bem em me fustigar os dedos de tal maneira que ainda aqui tenho as marcas. Ah! Já está mais sossegado. Good fellow. Peço-lhe que me desculpe. julgou que a Sra.. ao pé de Julião. redobrou as gargalhadas e não conseguiu articular uma palavra. Georgey. Sra. Julião? Porque está o Sr. com grande surpresa sua viram. eu própria. Julião. que me queria levar um. venha. sempre a mesma: tarkei. Quando ela se foi embora. good fellow. Voltaram as duas ao campo e. Georgey contigo e porque se ri tanto? JULIÃO — Parece que ele estava aqui pertinho. Olhe. escondido numa moita. Deveria tê-la acompanhado para lhe explicar. mim querer levar Juliana com turkeys.

que tinha ido ter com ele e a quem nunca mais deixara sozinho em casa senão para o serviço necessário. Julião passou-lhe para as mãos as cinco moedas de ouro. Julião estendeu as moedas ao Sr. Carolina pegou nos dois perus e foi comunicar à Sra. Estou-lhe deveras agradecido. no. Então. separaram-se. Sr. Georgey foi-se embora sem voltar a cabeça. meu senhor. Bonard contou13 Beatiful: Lindo. Você dizer a Master Bonard. Bonard correram também para ajudá-lo. dizendo que iriam os três. O inglês afastou-se e conseguiu apanhar dois perus dos melhores: examinou-os. você perder juíza. Tome lá as suas belas moedas.) . obrigado. que quase lhe ia desmanchando o ombro. — Querido filho! — exclamou a Sra. my dear. Bonard. Bonard e a Julião o convite do Sr. my dear. Carolina quis também abraçá-lo e o inglês deitou-lhe os braços ao pescoço. Bonard soltou um grito e Julião disse-lhe: — Que tem. Julião fugiu e foi ter com os seus perus que se haviam espalhado pelo campo. e da Sra. Carolina. servi-los o melhor que possa e viver sempre com os senhores. terrivelmente. à força. GEORGEY (sorrindo) — Yes. Georgey. GEORGEY — No. Bonard. A minha felicidade é mostrar-lhes a gratidão que sinto. que abriu a boca e os olhos e ficou imóvel. Ser muito. ele ser pesados. my dear! Mim ter dito que querer e quando mim dizer que querer é porque querer. CAROLINA — Mas o senhor tem aí peru para oito dias. (N. Georgey. CAROLINA — Mas eles estão mortos! O senhor estrangulou-os? SR. Os perus estavam todos reunidos. Bonard abraçou Julião. Bonard ser pessoa muito bem! Vem. E meteu-as. A Sra. à Sra. my dear. Bonard? JULIÃO — Porque me recolheram quando fiquei órfão. Agradeço-te e quero-te muito. GEORGEY — Carolina.loiras. Georgey. rindo. que recuso a felicidade e a fortuna. Julianinha. Carolina e a Sra. BONARD — Julião. não preciso delas. Carolina foi ter com o patrão e olhou para os que ele segurava. mim rica. que chorava de alegria e comoção. meu Julião! Eu própria te aconselho a que sigas um patrão tão generoso. porque têm sido bons para mim há mais de um ano e eu estou-lhes muito grato pela sua bondade. mim querer comer turkeys. my dear. achou-os gordos e torceu-lhes o pescoço. um turkey todos dias. meu senhor. Bonard e à Julianinha mim querer que almoçar todos amanhã comigo em meu casinha. E a Sra. ser grande dinheiro.. Bonard agradeceu e aceitou. calar você. A Sra. SR. Em vão o inglês o quis forçar a aceitá-las de novo. que estás a fazer? Recusas uma fortuna e um futuro! SR. E. SR. mim ter turkeys. GEORGEY — Juliana. sinto-me ali muito feliz e gosto deles. SRA. Andou a correr por toda a parte para juntá-los. exclamando: — Beautiful 13 ! Beautiful! Julianinha ser uma grande homem. Mim pagar turkeys amanhã. BONARD — Vais deixar-me. durante esta longa cena. minha querida senhora. sempre turkeys.. Por que coisa gostar tanto de Srs. O que fazes é muito belo. patroa? Por que está com medo? SRA. meu rapaz. fico em casa do Sr. Quando Bonard voltou do trabalho com Frederico. GEORGEY — Bravo! Sra. O Sr. SR. imensa. a Sra. JULIÃO — Muito obrigado. mim dar a você sempre loiras. Não diga. do T. apertou-a e sacudiu-a com tanta força. mim ter strangled dois gordos turkeys. na mão de Julião. pegando-lhe na mão. você ir já com todo velocidade.

Frederico escutara em silêncio. BONARD (secamente) — Cala-te! Tu não tens valor bastante para apreciar o procedimento de Julião. . mas sim demasiadamente bom.lhe as aventuras da tarde. JULIÃO — Ele não é imbecil. Obrigado. Bonard riu muito e comoveu-se com o desinteresse e a dedicação de Julião. disse a Julião: — É então muito rico esse inglês imbecil? Devias ter guardado o dinheiro que te ofereceu. Creio que é rico. Quando todos se calaram. FREDERICO — Acho que foste muito estúpido em todo esse negócio. meu rapaz — disse ele — não esquecerei esta prova de amizade que nos deste. — Obrigado. mas eu não tinha feito nada para merecer o dinheiro que me dava e não quis aceitar o oferecimento que me fez de ficar ao seu serviço.

Mim haver mandado. perfectly well 15 ! SRA. desembaraçou os cabelos. GEORGEY — Oh! Dear! Calar você. Georgey. SR. mas eu e o meu marido não podemos 14 15 Stomach: Estômago. BONARD — Vai ter conosco à casa do inglês. Os seus compridos dentes descobriram-se até as gengivas. Lavou-se e esfregou-se tão bem que acabou por sair muito limpo de debaixo da bomba. foi pôr a vassoura na estrebaria e correu a lavar-se na bomba. Sra. Olharam-se todos com surpresa. Julião! São horas de te arranjares para irmos almoçar a casa do Sr. Julião acabou o trabalho. Sr. A blusa não é lá muito nova. Carolina apressou-se a levar o segundo peru. Georgey. — E tem passado bem. GEORGEY (serenamente) — Segundo turkey. Carolina. os olhos brilharam-lhe como brasas e começou a trinchar o magnífico animal. SR. (N. JULIÃO — E o Sr.. entre. mas limpa. mim pensar em turkey e não ouvir nada.. Georgey os esperava. — É preciso que vás asseado. GEORGEY — Oh! Que fazer. good morning por todo sociedade. só restava a carcaça. o inglês trinchou-o e quis servir grandes bocados como da primeira vez. para dizer qualquer coisa. Mim ter fome terrível por turkey. SRA. não querer mandar outra vez. SR. Bonard. BONARD — Está ótimo. quando mim mandar uma vez. GEORGEY — Oh! Yes.) . uma velha blusa desbotada. Sr. foi comprar uns gansos. Bonard? Você não comer tudo? Não acha muito bom turkey engordado por você? SRA. Quando mim cheirar turkey não dizer nada por causa de buraca de stomach.7 O almoço do Sr. GEORGEY — Bons dias. CAROLINA — Entre. Sr. onde o Sr. calçou sapatos ferrados e foi ter à sala com a Sra. com o pente da estrebaria que servia aos cavalos. GEORGEY (vivamente) — Segundo turkey. BONARD — O Julião esteve a pôr-se bonito para vir à sua casa. tirou a sua parte e. E Carolina abriu a porta da sala. meu rapaz. não vai? SRA. SR. SR. Bonard que esperava por ele cosendo roupa e o examinou com atenção. mas a Sra. bem lavados. do T. Bonard. Puseram-se os dois a caminho e não tardaram a chegar à casa do Sr. Sr. ensaboa-te bem. do T) Perfectly well: Perfeitamente bem. com muita água ficarei tão bem lavado como se me servisse do sabão da Sra. mas hás de comprar uma na próxima feira. Distribuiu-o com largueza pelos convivas. Carolina. mim sentir perfumação de turkey. só frituração de molha. SR. O pai Bonard esperava-os à porta. Georgey — Julião. Georgey. ser perturbamento para stomach. isso fazer a mim um buraco em stomach 14 . Bonard repartiu o seu enorme pedaço com o marido. Espero-te lá. exalando um aroma que fez sorrir o inglês. BONARD — Bem! Estás asseadinho. Georgey — disse a Sra. vestiu roupa branca. um quarto de hora depois. dá uma penteadela nos cabelos e vai ter comigo à sala. Vá depressa. Carolina sorriu do espanto geral. mim ouvir turkey. Para a mesa todo sociedade. Bonard. Georgey? — disse a Sra. Veste a blusa dos domingos. (N. assim. — Assim. o meu patrão está aqui na sala. todos nós lhe estamos muito agradecidos. Bonard. Carolina chegava efetivamente com o peru cozinhado a primor. Bonard.

(N. vou repartir com o meu marido. my dear.. — Misericórdia! — exclamou a Sra. BONARD — Perdão. Já nos tinha dado grandes bocados. Mim não querer dar mais beber. Dê o. nunca sufocar stomach. my dear. Georgey serviu duas chávenas a cada um dos seus convidados. enchia os copos e falava como uma pega. turkey nunca matar: turkey leve. GEORGEY — Stop 17 . Sr. Carolina. my dear. GEORGEY — Nunca. GEORGEY — Então. que não estava absolutamente nada furiosa. Georgey. (N. calar-se e correr com muita pressa. SR. o. Depois de coffee nós falar dia todo.. outro pedaça. preciso de me ir embora daqui a bocado. O Sr. você pequena favorecida.comer mais. GEORGEY — No. SR. Georgey. SR.. Não perceber o hare?. Carolina. my dear. você.. GEORGEY — Leve isso.. trazer coffee 18 e deixar nós em tranquilidade. hare. e o Sr.. lebra. SRA.) 18 Coffee: Café. Julião devorava. Sr. eles estar todos em reviravolta.. GEORGEY — Ser muito bom para tirar reviravolta. SRA. saiu a rir e apareceu trazendo a magnífica lebre com molho de geleia de groselhas. GEORGEY (a meia voz) — Ser engraçado muito. um pedaça. BONARD — Com muito gosto. BONARD — Mas tenho a certeza de que ele não fez nada do que há para fazer na herdade. Carolina. do T. querer ainda e sempre? Sinceramente? JULIÃO — Quero sim... Bonard ria e cantava... SR. Georgey pôs-lhe no prato um pedaço enorme. Georgey. As vacas. Carolina voltou um instante depois com o café. você comer bocadinho de lebra. (N. SR. Georgey. GEORGEY — Sra. um lebra? CAROLINA — Ah! Já percebi. Georgey.. my dear.. senhor! É tão bom o peru! Eu nunca tinha comido. vá depressa buscar lebra e ser bom raparigo como Julianinha. você não querer dar comer a mim o outro turkey e você furious 16 por este coisa. SR. declarando ter já comido mais do que podiam. GEORGEY — Sra. rindo e tirando o prato das mãos do Sr. do T. ria. Sr. Georgey insistisse. mas muito não. do T. Como dizer vocês? Um. Julianinha. mim recolher vocês em casa vossa. SR. Vá. yes.. Mim dizer bem. Por mais que o Sr. isso ser muito pequena pedaça. porque não perceber você? Ser por rabugice. SR. Julião comeu de maneira a contentar o Sr. Quando lua chegar. Bonard sentia a cabeça andar à roda e estava inquieta. comer turkey. Georgey. GEORGEY — Que ter vocês a fazer? Fridrico estar lá. devorava sem cessar. eles não aceitaram.. os cavalos e os porcos a tratar. no. terceiro. SR.. pobre Sr... Bonard não ter coiso nenhuma.. O senhor quer dizer uma lebre. nós todos partir ao mesmo tempo e mim ajudar em turkeys 16 17 Furious: Furioso. temos que fazer em casa. comprida animal.. SR.. SRA. Sr. Carolina. imensa engraçado! Você. Bonard. O inglês ria e esfregava as mãos. poucochinho.) .. GEORGEY — Yes. SRA. BONARD — Mas eu nunca conseguirei comer isto tudo. a Sra. Bonard. Dar seu prata. Bonard. E recomeçou a comer com mais entusiasmo. — O senhor mata o meu pobre Julião. E depois os perus ainda hoje não estiveram no campo. Com a lebre foram servidas ervilhas e em seguida um pudim. desgraçadinha! Mim dar turkey a você. Ficou só uma escassa metade do segundo peru. Carolina saltitava. SR.) Stop: Pare. que olhava para ele com visível satisfação e obrigava todos a beber em proporção com o que haviam comido.

patroa — exclamou Julião. poderiam acarretar desgostos ou. mim procurar honrado raparigo para tornar feliz e não encontrar ninguém. mas do qual as ideias originais e a linguagem extravagante. Georgey — disse ela — Julião fará o que quiser. Você bater mim muito. débil. pobre Julianinha. Bonard querer. sem força. Em que me poderei empregar?” E decidia-se a aceitar o oferecimento do Sr. meu Julianinha. Continuavam todos calados. Mim querer. Não chorar. ajudar a mim. Você consolarse. generoso. no a seu money. por caridade. uma pessoa que mal conhecia. Julianinha. mim querer ter ele. GEORGEY — Very well. mim pôr-se em ação. Mim dar vestimentas a Juliana. ser muito imenso bonito. em casa dos meus patrões?”. (N. Georgey apertou-lhe a mão com força. você ajudar Carolina. Bonard achou um meio de ganhar tempo. Durante alguns instantes o inglês esteve a vê-lo chorar. 19 Don’t cry: Não chore. Julião levantou para ele os olhos inundados de lágrimas. muita força. por seu lado. Recusar tão grandes vantagens para Julião seria uma loucura e também um egoísmo imperdoável. pelo menos. forte e robusto. mim gostar de você muito. toda gente querer. e dar a ele grande instrução e grande fortuna. que fazer ele com Sra. O Sr. muito simpática. mas tem de ficar lá em casa até que os perus sejam vendidos na feira. numa voz enternecida e muito suave: — Pobre Julianinha. “Que poderei eu fazer alguma vez para não estar. mas não conseguiu articular palavra. “Não têm eles Frederico para ajudá-los nos trabalhos da herdade? É crescido. — Sr. na verdade. Bonard? Guardar turkeys.minha Julianinha e conversar com Julianinha. dentro três semanas mim ir lá pedir Juliana. Mim começar: Escute minhas razões. Juliana. — Mas eu ainda não disse nada. Querer você? Sra. a Sra.. Quando passar três semanas você dizer a mim sim ou não. Georgey. SR. bom homem. que parecia ser. SR. beijou a mão que apertava ainda a sua e tentou falar. chorar por desgostamento deixar Sr. não sabendo o que resolver. Depois passou-lhe repetidas vezes as mãos pelos cabelos e disse. Julião. pagar master de leitura e de escritura e de contação e de desenhações e mim ficar com ele para meus contas e meu caixa. sou miúdo.. Escutar vocês ainda: mim ter grande multidão de money. coisas muito desagradáveis. Ser isto. Você bater em Carolina por causa de turkeys. Georgey não dissera mais nada. você fazer como seu vontade. mas logo se lhe apresentava ao espírito o desgosto de deixar os Bonard. imensa. Julianinha. desembaraçando ao mesmo tempo os Bonard do encargo que haviam imposto a si próprios de ampará-lo. Isso não ser instrução. e rompeu em soluços. Enfim. Bonard. Quando mim dizer “querer”.) . GEORGEY — Quando ser feira? BONARD — Daqui a três semanas. dizia ele de si para si. miserável homem muito solitária que não ter ninguém de quem gostar. Don't cry 19 . você dizer no. observava-os a todos. Ser isso muito bonita. Mim ir amanhã e todos manhãs fazer encontramento com turkeys. pensava que nunca mais encontraria uma ocasião tão boa de assegurar o seu futuro. e Sra. Então mim dizer em meu cabeça: Juliana ser honesto criatura. Mim querer fazer bem a pequena. do T. Olhavam todos uns para os outros e ninguém sabia o que responder. my dear. Mas perder Julião seria para os Bonard um verdadeiro e grande desgosto. ser mais bom ainda. ser admirável. guardar turkeys e bater mim e Carolina. a ingratidão que aparentaria aceitando o primeiro oferecimento feito por um estranho. Eu tenho só doze anos.

Alcino. saltara para a vala e ali se deitara ao comprido. Sra.. Georgey só viu Alcino que caiu no fosso quando saía do bosque. SRA. para a herdade.. surpreendidos. medonha. imenso hábil. horrível. Georgey. SRA. BONARD — Vai conosco. não vi nada. BONARD — Que está vendo. 20 No original. Georgey explicou-lhe com muita dificuldade que. exclamou: — Ah! Patife! Apanhei-te enfim! E correu na direção do bosque. O Sr. apesar de ser um pouco guloso. Alcino saíra de lá correndo. mas mal tivera tempo de abrir a boca e de mostrar os seus compridos dentes. SRA. quando Bonard. Bonard? Mim ter dito alguma tolice? Eh! Mim estar contente. Sr. que viste Alcino? Por que correste atrás dele? BONARD — Porque me pareceu que tinha visto Frederico. Pequena rir. em inglês. SRA. Não sei o que foi. BONARD (rindo) — Oh! Sr. BONARD — Tens a certeza de que estavam juntos? O Sr. SRA. A Sra. Sr. muito medo Fridrico comer turkeys em ausentação de Juliana. SRA. GEORGEY — Yes. os Bonard e Julião para voltarem à herdade. Georgey Que é? Eu não vejo absolutamente nada. Bonard tinha desaparecido por entre o arvoredo. Mim gostar muito fazer passeio em companhia vossa. Julião seguia-a. Pararam todos. Julianinha não ter muito gosto. Eh! Com muita rapidez! Master Bonard pára. Master Bonard não ver ele!. SR. Bonard não achou muita graça à história e apressou o passo para ir ter com o marido. então. ter um pouco. GEORGEY — My goodness! Mim ver! Mim ver! Ele correr! Saltar fossa e cair. Georgey pôs-se também a rir. Sra. Mim querer ver turkey. o próprio Julião sorriu vendo rir os patrões. Bonard já não encontrara Alcino e voltava. (N. tinha visto o que se passara na orla do bosquezinho. Bonard que se encontrava ainda na parte mais densa do arvoredo. ter muito gosto por comida. do T. ainda não tinha chegado ao bosque. escondido por um salgueiro cujos ramos caíam sobre o fosso. vendo-se quase apanhado. que o Sr. Bonard. A Sra. Georgey que não saía do mesmo sítio e queria ir procurar Alcino no fosso. que caminhava um pouco à frente. Saber bem turkey a ele.) . Georgey ficara um pouco para trás. Frederico não há de comer os quarenta e quatro perus. sem dúvida. Alcino ser muito. o inglês para acompanhá-los. Julião? JULIÃO — Não. GEORGEY — Que ter você. mim passear em companhia vossa. BONARD — Que foi isto? Viste alguma coisa. Georgey? SR. ao mesmo tempo em que o marido. E o Sr. Bonard chegou à herdade. queria apanhá-lo com a boca na botija. apesar dos chamamentos insistentes do Sr. GEORGEY — Fridrico ser gulosa! Fy! 20 Ser isso coiso feia. SR. Bonard. Ele entrar em arvoredo. SR. perseguido pelo Sr. O Sr. havendo ficado para trás. ter-se escapado! Bravo! Bravo! My dear! Ser muito bonito. mas não ter gosto. através do bosque.8 A falsidade de Alcino Todos se levantaram da mesa. Os Bonard não puderam deixar de rir. BONARD — É verdade. ter acabado choraminga.

BONARD — Que sabes tu a esse respeito? SRA. no entanto acho que não fez muito mal. mas depois de me terem feito correr durante mais de uma hora. FREDERICO (embaraçado) — Por onde não sei dizer. como queremos. pensando que te tivesse custado a fazer sozinho o trabalho da herdade e te sentisses cansado. De qualquer modo tenho de tornar a ver Alcino antes da feira. Frederico. saiu da estrebaria e entrou em casa. “Ia jurar que Alcino não estava só.BONARD — Eu não tornei a encontrar ninguém. SRA. . — Mas que susto eu apanhei! Um segundo mais e era apanhado. repousando um pouco. BONARD (no mesmo tom) — Por onde teriam passado? Estava tudo bem fechado. aquecer o teu almoço. BONARD — Fechaste-os bem? FREDERICO — Parece-me que sim. BONARD (secamente) — No entanto não tinhas muito trabalho! Dar de comer aos animais. cala-te! BONARD — Que tens tu. adormecido. Mal ele tinha saído. Alcino escapou-se. soergueuse e deixou-se de novo cair.” Aproximou-se de Frederico e empurrou-o levemente. Frederico sacudiu as palhinhas que lhe haviam ficado presas ao fato. o fato é que estavam lá. BONARD — Bem. FREDERICO — Ah! Já voltaram! Há muito tempo? BONARD — Há somente alguns instantes. tinham fugido para o bosque e de lá pouco lhes faltava para chegarem à cevada. mulher? Estás zangadíssima com Frederico. que vejo na estrebaria. lá isso é.. comê-lo e mais nada. disse ele de si para si. BONARD — Sei o que sei. Que sorte ter ficado escondido por aquela moita e ter entrado pela porta de trás. BONARD (a meia voz) — Está a dormir a sério! É singular. Frederico. suponho eu. vai-me buscar batatas e um bocado de carne de porco fresca à cave. ele entreabriu os olhos. FREDERICO — Mas os porcos fizeram-me correr muito. SRA. calcule o bonito estrago que ali teriam feito. tornando a fechar a porta. Bonard entrou na estrebaria e avistou Frederico deitado sobre uns molhos de feno e profundamente adormecido. não chegámos a combinar nada e. SRA. Frederico levantou-se. Como ele fugiu depressa Ah! Ah! Ah! E o diacho dos cavalos que ainda não jantaram! Felizmente não dirão nada. FREDERICO — E é verdade. como ele diz. bem. estava muito cansado. admirado com o tom seco de sua mãe. Se não o acharmos é porque ainda se encontrava com esse patife do Alcino e fugiram cada um para seu lado. Vai ver no estábulo. Encontrei-te a dormir na estrebaria. não tinha necessidade de repousar. SR. precisamos de dinheiro para que nos possamos divertir a valer. não quis acordar-te. Mas vamos ver se Frederico está na herdade. BONARD — Ora! Ele não estava cansado. “É espantoso!”. SRA. E foi-se embora. saiu muito preocupado e lá foi à cave. antes de o meu pai voltar.. parecendo admirado de ver que já tinha regressado toda a gente.

Todos os dias entregava a sua moeda de ouro à Sra. Georgey levantou-se. um dia. . A sua alimentação ficaria muito cara. Durante dois dias ainda. e da mãe.. Bonard. Bonard. voltou a sentar-se. estendendo-lhe uma moeda de ouro. Sr. JULIÃO — Isto é demais. às duas horas. Frederico fugia de Alcino. Julião sentia-se grato. pobre Julianinha. você. o triste fim do pai. se fazer favor. não. pedindo-lhe para gastá-la nas necessidades da casa. BONARD — O Sr. eu não posso conservá-los tanto tempo. mas inquieto com esta grande generosidade. e trabalham tanto os dois. têm só a sua terrazinha para viver. Sr. entrando — quantos turkeys resta a você? SRA. Ao deixá-lo. — Aceitar. — Sra. meu filho. — E você. como de costume. GEORGEY — Mim saber. Georgey. um gatuna. Julianinha — ajuntou. morta um ano depois. meu senhor. Julianinha. Bonard — disse ele. Georgey foi à herdade dos Bonard. Sentava-se ao pé dele. Georgey ia lá todos os dias. patroa. Georgey obrigou-o a aceitar a sua moeda. JULIÃO (com vivacidade) — Não. — Ser para comprar bluso novo. Você querer não dizer mal e Fridrico ser um vagabunda. GEORGEY — Muito bem. SR. No outro dia. o seu abandono. mim querer. se não receasse incomodar os meus bons patrões. muito bem. graças à sua bondade. Bonard. você não ser feliz? — perguntou ele. asseguro-lhe que. estendeu-lhe uma nova moeda de ouro que Julião recusou energicamente.. o Sr. não esquecerei nunca este rasgo do teu bom coração. de desgosto e miséria.9 O Sr. Tomar você. Georgey. a mesma visita e terceira moeda de ouro. mim ver verdadeiro coisa. Georgey. O Sr. a caridosa conduta dos Srs. mim dizer. Sr. — Ser para comprar um jaleca e um cobertura para cabeça. mim compreender. JULIÃO — Eu seria feliz. SR. Georgey comeu doze. não dizia nada dos seus projetos e queria ouvir contar todos os pequenos acontecimentos da vida do seu protegido. como na véspera. forçou-o a aceitar a moeda.. GEORGEY — E Fridrico ser um mandriona. Mim querer. SR.. Ser para comprar ainexprimível. Não são ricos. um patifa. mas. que morrera de cólera. é mesmo demais. aceitar — repetiu com um ar de autoridade a que Julião não ousou resistir. BONARD — Mas. mim dizer. é demais. na verdade.. ao pé de Julião para interrogá-lo e o fazer falar. GEORGEY — Sra.. Que infelicidade Frederico não se parecer com ele!” Na véspera do dia da feira o Sr. sem virar a cabeça. Julião levava os perus para o campo e o Sr. e a bondade que sempre lhe testemunhavam. meteu a moeda de ouro num saquinho e disse de si para si: “Oxalá que o inglês encha este saco. com passo grave e lento. No outro dia. apertou a mão de Julião e foi-se embora. GEORGEY — Julianinha. e sinto-me muito feliz por poder conseguir para os senhores um pouco de bem-estar. Georgey consegue os seus intentos Durante alguns dias tudo correu bem. BONARD — Bom rapazinho! Agradeço-te muito. SR. um. Bonard beijou-o. Seria uma fortuna para o bom Julião. que por vezes até ficam doentes. E. mim acreditar. mas. JULIÃO (embaraçado) — Não. tenho trinta e quatro. JULIÃO — Eu não preciso de nada. conservar turkeys para mim? SRA. A Sra. SRA. meu senhor. SR. a infância infeliz. a miséria dos pais.

habilidades de toda a espécie. dando seis francos por cada animal. GEORGEY — Sra. isso é demais. Dar Julianinha a mim.. mim do país de Irlanda.. continuas a guardar perus? Bonita ocupação. tu vais pregar alguma partida ao bom do Sr. GEORGEY — Oh! Yes! Mim inglês católica. GEORGEY — Bravo. boa tarde. E depois temia um pouco deixarse influenciar pelo mau exemplo de Frederico e pelos detestáveis conselhos de Alcino que aparecia constantemente e nem sempre podia evitar. Não quero isso. quando passou pelo campo onde Julião guardava os perus. SR. Bonard. BONARD — Ah! Não senhor. Julião. Vais à feira amanhã? JULIÃO — Ainda não sei. E o Sr. secamente. mandar-lhe ensinar toda a espécie de coisas. Julião limitou-se pois. mim não gostar desse generosamente. Sr. senhor. ter muito dinheira. que tinha sido tão bom para ele. Georgey apertou-lhe a mão. BONARD — Então como quiser. Você ser excelente para minha Julianinha e mim pedir grande coisa por caridade. Dar a mim Julianinha. saiu Alcino do bosque. mim gostar de justiça e mim querer forçosamente. Visto que paga a despesa. GEORGEY — Você merecer absolutamente bem. Bonard. Agradeço-lhe muito. Georgey. deve ser muito divertido. senhor. já paga generosamente. percebes? . ALCINO — Ah! Ainda estás zangado comigo. SRA. mas não tenho muito interesse nisso. SRA. GEORGEY — Você. há de ser generoso conosco. eu vejo. Mal ele tinha partido. absolutamente pagar dez francos. Leve-o. e prometeu que estaria pronto no dia combinado. Mim muito agradecer você. Julianinha ser muito feliz comigo. Julião desta vez não chorou. E depois eu e Frederico combinámos levar lá o inglês. SRA. Julianinha católica como eu. pelo que vejo. você bom criatura. SR. Mim pedir muito. A Sra. e deixá-lo ir à casa dos Bonard todas as tardes. Mim pedir a você Julianinha. sei que fiz mal e asseguro-te que não tornarei. mim pagar grão e todo o seu engordamento e todo o mais preciso e mim pagar dez francos por cada turkey. SR. Bonard. ter boa religião católica. Ele aprender tudo. SR. mim gostar enormemente muito de turkeys.. é um belo presente que me oferece e que eu não mereço. a suspirar. ALCINO — Ora! Encontra-se sempre um meio de arranjá-lo. Georgey. prometendo-lhe tornálo muito feliz. SR. eu sei. Mim querer. Georgey não se tornaria pesado a ninguém e que receberia uma educação melhor do que em casa dos Bonard. BONARD — Mas. Bonard. Mim vir no dia depois da feira. SRA. Não penses mais nisso. O Sr. teatros. Você não ver a mim em igreja vossa como vocês?. esfregando as mãos.. eu não quero que o meu Julião mude de religião. GEORGEY — Sra. Bonard quiser. Adeus. Georgey foi-se embora. BONARD — O senhor tem razão. porque não tens dinheiro. compreendia que em casa do Sr. anunciou-lhe o consentimento da Sr. como nós. na verdade! — Gosto mais de guardar perus do que de roubá-los — respondeu Julião. Por que não dizer nada? Mim fazer feliz Julianinha. peças engraçadas. não compreender. Tudo isso excelente. imensa. os ingleses não são católicos. senhora. ALCINO — Bons dias! Julião. JULIÃO — Mas tu não podes ver nada disso. disse que o tornaria a ver na feira e foi-se embora muito contente. começava a afeiçoar-se ao inglês. Bonard chorava e não podia responder. Você saber: mim querer. Georgey.SR.. agradeceu ao Sr. JULIÃO — Oh! Alcino. Sr. farei o que a Sra. mas depois da feira.. ALCINO — Fazes mal.

à falta do melhor.” .” Alcino. disse ele de si para si. Julião seguiu-o durante algum tempo com os olhos. Mas. ALCINO (caçoando) — Aborreces-me com os teus perus. é filho único e os pais nunca lhe dão nada para se divertir. que não teria sido uma grande falta surripiar em casa uma moeda de ouro. Eu e o Frederico vamos com o inglês. e se o Julião for com ele. cantando: — Tenho bom tabaco na minha tabaqueira. Os bens dos nossos pais não são nossos também? Além disso. podes contar com isso de certeza.ALCINO — Que partida queres que lhe pregue? Não seria difícil. Repetes sempre a mesma coisa! Se tens medo de que o teu inglês seja enganado. não precisaríamos do inglês palerma para facilitar as nossas diversões. dizia: “Ele vai. JULIÃO — Não é estúpido.. e sempre é uma razão para ir a essa feira que não me interessa nada. Mas o que é certo é que ainda nos há de ajudar sem o saber. porque ele é estúpido como poucos. “Vou mesmo”. vai com ele. Julga que por sua causa deixaremos de fazer os nossos negociozinhos. Se o enganaste com os perus foi porque ele tinha confiança em ti. Acho. podes impedir que o enganemos e protegê-lo contra nós. obrigamo-lo a fazer o que quisermos e depois dizemos que foi ele o culpado de tudo. Se tivesse querido escutar-me.. por seu lado.. “Peço à Sra.. Tenho bom tabaco e tu não hás de ter. Viva a alegria. Embriagamo-lo e depois havemos de ver. Bonard que me deixe ir. E talvez que daqui até amanhã eu encontre um meio de arranjar dinheiro. é-me indiferente. Alcino meteu as mãos nos bolsos e foi-se embora. Este Frederico é um maçador. Georgey e talvez lhe possa ser útil. não. acredita em tudo o que se diz. Vou com o bom do Sr. no entanto. podemos também embriagá-lo. é demasiadamente bom.. certamente que vai. julgava-te uma pessoa digna. viva o vinho. ALCINO — Vás ou não vás.. o inglês vai fazer-nos bom arranjo. o fricassé de frango e o café! São as únicas coisas boas que conheço. JULIÃO — Palavra de honra que não digo que não.

mas Julião antecipou-se-lhe. JULIÃO — Ah. — Patroa — disse ele. há de achar um meio de desacreditá-lo aos olhos do inglês. recolheu-os. o filho da casa! E tu então ias te divertir! Tu que estás aqui por caridade. Provavelmente dizem-te para ficares tu.10 A conspiração Julião voltou com os perus. JULIÃO — Parece-me bem que sim. hás de ir. meu filho. Mais uma razão para não deixar de lá ir. FREDERICO — Para onde vais? Quem é que te quer? JULIÃO — Não te incomodes com isso. desatou-o e espalhou em cima . JULIÃO (maliciosamente) — É verdade. Não hei de arruinar-te.. BONARD — Fala. A cinco francos por mês. Frederico ficou tão admirado que se deixou cair numa cadeira. BONARD — Dez francos! Vais ver o que tens. Um lugar tão cheio de atrativos. Frederico ia falar. Mesmo agora ia dizer-te que te preparasses para isso. Levantaram-se os dois. junto de homem tão fácil de enganar! E era aquele estupidozinho. “e de preveni-lo. podes estar certo de que te farei a vontade.” Ficaram alguns minutos calados. disse ele de si para si. é engenhoso e esperto.. ao que parece. mas mudei de ideia. tens de comprar muita coisa para que fiques convenientemente vestido. muito bem. JULIÃO (com tristeza) — Não estarei cá por muito tempo. Bonard que me deixe ir. Georgey. patroa. Julião ia ocupar o lugar que Alcino esperava e ambicionava. A Sra. adiantando-se — tenho uma coisa a pedir-lhe. Georgey. casaco. FREDERICO (surpreendido) — Como assim? Ainda ontem à noite disseste que não ias. FREDERICO (indignado) — Eu! Ora essa! Eu. Ali encontrou somente Frederico.. Bonard estava na queijaria. SRA. FREDERICO — Quem é que há de guardar os perus. Vou pedir hoje à noite à Sra. SRA. Georgey. se fores? JULIÃO — Não hão de morrer por ficarem um dia no pátio com uma ração farta. por isso agora tenho só dez francos.. meu rapaz. tirou de lá um saquinho de pano. Bonard ainda não voltara do trabalho e a Sra. que me quer para sempre em sua casa. é preciso tempo para uma pessoa ganhar com que se vestir. “Tenho de ver o Alcino”.” Julião observava a expressão sombria de Frederico e dizia consigo: “Não está contente. colocado! Em casa de quem? JULIÃO — Em casa do Sr. Bonard entrou para tratar do jantar. E abrindo o armário. sem olhar um para o outro. deu-lhes de comer e foi para casa. FREDERICO — Colocado! Tu. SRA. tem medo de que os vá impedir de enganar o pobre do Sr. bem sabes. o bom Sr. boné. contou-os. BONARD — E hás de ir. Felizmente ainda temos um dia à nossa frente. Não quer que eu vá à feira. uma coisa que desejo muito. roupa branca. — Não vais amanhã à feira? — perguntou Frederico a Julião. aquele pobretão que se ia aproveitar de todas essas vantagens. nunca me pediste nada. Já estou colocado. Calças. E dinheiro não te falta. FREDERICO — Mas é preciso que fique alguém para guardar a casa. para servir toda a gente. O futuro que Alcino procurava. JULIÃO — Eu gostava muito de ir amanhã à feira. JULIÃO — A patroa já me comprou muita coisa.

meu Julião. tirou a chave e colocou-a no esconderijo atrás do armário. SRA. BONARD — Aonde vais. BONARD — É singular! Vai ver se o encontras. Saio daqui muito cedo. Bonard. SRA. gasta-se mais de uma hora nisto tudo. tem de trabalhar muito mais. Frederico ficara pensativo. porque o Sr. BONARD — O jantar está pronto? Tanto melhor! Tenho uma fome devoradora. Posso então ir à feira? SRA. — Em geral não faz senão o que lhe mandam. FREDERICO — E eu. bem. portanto. JULIÃO — Há de fazer. BONARD — Deus te ouça. ficas cá para guardares a casa e tratar dos animais até que eu volte. BONARD — Então para a mesa! Aqui está a sopa. disse ele consigo “foi fazer as suas combinações com Alcino para alterar as horas. que voltava com Alcino. patroa. BONARD — Nem ouvi falar nisso. mas em lugar de ver se estava na herdade. SRA. dei-lhes o feno e arranjei a palha para se deitarem. BONARD — Certamente. nunca faria uma ação tão vil! JULIÃO — Obrigado. JULIÃO — Essas cinco moedas de ouro não são minhas. e a Sra. O principal obriga-o o pai a fazer.da mesa cinco moedas de vinte francos e sessenta cêntimos em miúdos. Isto é caso para admirar — disse ela quando Frederico se foi embora. atou o fio. daqui a poucos dias. estou-lhe muito agradecido pela sua bondade para comigo. SR. dá-me o teu prato. encontrou Frederico. Depois começou a fazer os preparativos para o jantar. E o Frederico. BONARD — Não. Frederico? FREDERICO — Vou ver se o pai já voltou com os cavalos e se precisa de mim. Julgava poder ir à feira de manhã e tem de estar em casa até ao meio-dia. Meia hora depois voltou Bonard. mas receio muito ter de procurar uma pessoa que te substitua.” Com efeito. BONARD — Como assim? Ele foi há mais de meia hora ter contigo para te ajudar a recolher e a tratar dos cavalos. e vou contigo para te comprar o que precisas. podes ir. — Vês. meu filho. Julião ajudava-a o melhor que podia. meu filho. ele deixa de contar com a minha ajuda e começa a trabalhar com toda a coragem. patroa. Georgey? Não. Julião. A Sra. mamã. visto que já lhes dei a aveia. pô-lo de novo no seu lugar. no fim de alguns minutos levantou-se e saiu. meu rapaz — disse ela — estás mais rico do que pensavas. Desde que eu me vá embora. “Certamente”. Voltei há muito tempo. e tu também. BONARD — E julgas. meu pobre pequeno. Agora que vamos ficar sem ti. Bonard tornou a meter o dinheiro no saco. pouco depois do meio-dia. SRA. meu Julião. onde está? Ficou a tratar dos animais? Deixaste-o na estrebaria? BONARD — Não o vi. posso ir logo de manhã? SRA. Sentir-me-ia bem feliz se ele mudasse de caráter. Julião. há de fazer. tomou o caminho da aldeia. o teu pai vai ficar muito contente. Bonard me disseram que o . A patroa sabe que eu as tinha dado para as despesas da casa. — Vens para nos espiar? JULIÃO — Vinha buscar Frederico. levei-os a beber. BONARD — Bem. — Que vens fazer aqui? — perguntou este último. pensava encontrá-lo aqui. SRA. Julião levantou-se e foi procurar Frederico. SRA. Julião não respondeu porque pensava também que teria de ser assim. agora as coisas mais pequenas é preciso que ele pense e que as faça. bruscamente. meu rapaz. que teria consentido alguma vez em te privar do pouco que possuis e que deves à generosidade do Sr.

Quando entrou. Toma cuidado! JULIÃO — Nunca o denunciei. Por que havia de começar hoje. meu pai. estou bem aborrecida por te ter feito correr sem necessidade. se me interrogarem. FREDERICO (inquieto) — Mas que hei de eu dizer? ALCINO — Dizes que foste ao campo pela travessa. Comam os dois. BONARD — Vamos. assim já não me perguntam nada. na véspera de deixar a casa? ALCINO — Então que vais dizer? JULIÃO — Ainda não sei. já é tarde: Frederico e Julião não se fizeram rogados. pensando que não deixaria de lhe convir uma ajuda. uma ceia feita com esmero. um dos novos operários da fábrica. começou a sua explicação antes que tivessem tido tempo de interrogálo. omeleta com toucinho. um dos quais estava desferrado. Já estão à mesa há algum tempo. devem estar com fome. vendo a charrua desatrelada. que. cá está ele. BONARD — Mas como é que ele me conhece. Então pensei que o meu pai estivesse no ferrador. Quando lhe perguntei se o tinha encontrado (porque vinha dos lados da nossa casa). BONARD — Vem acabar de jantar. FREDERICO — Bem. ALCINO — Isto é vexatório! Este tratante vai-te denunciar.. que não estava lá e voltei a correr. Julião entrou. comeram a sopa. BONARD — Obrigado. meu pobre Julião. está muito bem. conforme. tens sempre ideias para sair de apuros. Frederico deitou a correr para chegar a casa em primeiro lugar. E sem prestar atenção a Julião. vocês sabem isso muito bem. digo a verdade. meu pai.procurasse. era a última que Julião devia comer em casa deles. E acrescentou: — Mesmo sem entrar na oficina do ferrador. morcela e groselhas. pensaste que o teu pai tinha voltado pelo outro caminho. em dúvida. muito obrigado. mas quem foi o imbecil que te pregou a peta do cavalo desferrado? FREDERICO (embaraçado) — Não sei. FREDERICO — Ele não o conhece. SRA. respondeu-me que acabava de ver passar um homem com dois cavalos. Que encontraste um operário e que este disse que teu pai estava no ferrador para mandar ferrar um cavalo e que voltavas de lá quando encontraste Julião.. . porque eu nunca o tinha visto cá na terra. foi. meu rapaz. vi bem. penso eu. Ele que entre em primeiro lugar e que fale. mas onde está Julião? FREDERICO — Ficou para trás.

passamos somente para lhe dizer que me espere e que irei buscá-lo perto do meio-dia. O Sr... JULIÃO — Não. quando Julião acabou o seu trabalho. Georgey. SR. a Sra. toast. sem dúvida. SR. tenho de me ir embora. Bonard. SRA. que. Oh! Julianinha. GEORGEY — Então você ficar cá. SR. O Sr. é porque... você ficar em frente de porta meu e mim não saber. SR.. JULIÃO — Se a patroa não se importa. quer dizer. GEORGEY — Não incomodar coiso nenhuma. Georgey — disse Julião — desculpe o incómodo. SRA. é porque. JULIÃO — Sim. Bonard e Julião a sentarem-se à mesa e a comerem.. tenho de fazer umas compras com Julião e temos de estar de volta ao meio-dia. Bonard está à porta à minha espera. gostava mais que fizéssemos as nossas compras sem ele.. e. Georgey. hão de enganá-lo. Bonard esperar e mim não saber. Georgey desceu. que. Julião. Sr. muito creme..11 A partida para a feira No outro dia de manhã. aquela pequena refeição improvisada foi comida com prazer. Como não tinham ainda tomado nada. Julianinha. GEORGEY — Oh! dear! Sra. o Sr. Georgey e o levássemos? Certamente não consegue desembaraçar-se sozinho na feira. Julião. imensa ridícula. Ele não dizer nada. A Sra. SR. Bonard foi buscá-lo para irem à feira e puseram-se os dois a caminho. E. Ser muito malcriada. SR. Georgey obrigou a Sra. eu receio. Bonard descansava. Sr. mim querer comprar multidão de coisas. perdão. Carolina. Mim ir comer um pouco. GEORGEY — Mim gostar mais de ir neste momenta. venho buscá-lo. Georgey. Georgey. Sr. torradas. creme. antes que Julião o pudesse impedir. SRA... o chá e os seus complementos estavam na sala. BONARD — Tens razão. Por favor entrar. SR. Carolina! Depressa chá. Georgey enquanto a Sra. BONARD — Mas por que? JULIÃO — Porque. SRA. visto que vamos lá? JULIÃO — Ó patroa. Julião subiu a escada do Sr. muito chávenas. Georgey mastigou uma dúzia de toasts. SRA. Sra. BONARD — Não posso. Carolina. Bonard deu-lhe uma pancadinha na face e continuou o seu caminho. tão grandes . se nós passássemos por casa do Sr. roubá-lo. Com todo velocidade.... muito. mim satisfeito por ver você. mim querer ir à feira com você. BONARD — E por que não havemos de levá-lo já. BONARD — Diz-me. ser muito. GEORGEY — E o patetinho Juliana não falar de compras. senhor.. GEORGEY — Oh! my goodness! Sra. Julianinha.. Julianinha.. vinha mesmo pedir-lhe para esperar por mim até ao meio-dia. que ele queira pagar tudo. JULIÃO — Mas hão de lá estar mais feirantes ao meio-dia. um quarto de hora depois. Sr. Carolina desembaraçou-se tanto que.. GEORGEY — Que ser essa impacientação? Por que ser preciso ir você só? JULIÃO (hesitante) — Porque a Sra. — Sr. Foi um bom e honesto pensamento o teu. conversando com Carolina que acabava de se arranjar para ir também à feira. Mim pedir desculpas. Já me deu tanta coisa que me sentiria envergonhado. Bonard! Mim zangado.. Muito toast. Nós comer turkeys antes da feira.

fatos. vestidos. mas o Sr.como pratos. o tempo estava magnífico. Um cálice de vinho de Málaga acabou de reconfortá-lo. etc. pela hora de almoçar. presentes de espécies diferentes para outras pessoas que queria recompensar de pequenos serviços que lhe haviam prestado.. Enquanto eles compravam e o Sr. Bonard. saiu com a Sra. peúgas. depois de haver tomado a precaução de meter na algibeira um punhado de moedas de ouro. e. chapéu. Quatro daquelas fatias teriam embuchado qualquer outra pessoa. não estoirou nem se embuchou e levantou-se satisfeito. toucas para a Sra. Bonard e Julião. Georgey pagava e fazia outras compras por sua conta: xales. . sem impaciência. pegando no chapéu. Georgey tinha um estômago vigorosamente constituído. A cidade não era longe. Chegaram depois de meia hora de caminho. gravatinhas. para Julião. disposto a esperar.

estava mudo de surpresa. três ou quatro copos de vinho e temo-lo na mão. ou então Julião. de pagar os nossos divertimentos. é possível que Julião previna o inglês e consiga fazer com que não nos convide a acompanhá-lo. de tamancos e blusa. fazem-se muitas coisas em duas horas. pelo menos. FREDERICO — Mas não temos dinheiro para começar. Quantos francos são. pescou-o por aí. bons para comer. Vais ver. FREDERICO — E todo o nosso plano fica escangalhado. Os perus estão aqui. visto que o inglês quer comê-los todos. quero. bem gordos. não quero saber de ganhos ou de percas. E eu que penso em tudo.. disseram-me para vendê-los a quatro francos. ALCINO — Eu insisto nos quatro francos. tomei as minhas precauções. GRANDON — Bom.. Quatro francos pagos imediatamente. Estão bonitos. Grandon. são. ALCINO (rindo) — E tu é que vais guardá-los. E depois com meu pai sempre a vigiar-me. tinha corrido direito à cancela. Sr. e nem mais um real. se quiseres. nem menos um cêntimo. FREDERICO — Espero que não vás matar nenhum. são dez horas. É para serem comidos que os compro e não para revenda. dois minutos depois voltava com um homem corpulento. e se os vender pagar-lhos-ão a cinco ou seis francos. sejam os quatro francos. como tínhamos combinado. já não ousava resistir. Alcino estava já muito longe. disseste-me ontem. ALCINO — Tomas-me por tolo? Espera um instante que vou buscar o meu homem. ALCINO — Pois bem! Vou ajudar-te.. — Olhe. Julião vai impedir o inglês de nos distrair. ALCINO — Está bem. Grandon. mas que divertido! FREDERICO — Não fales nisso. diminuindo o seu número para que sejam mais depressa comidos. como vê. mas perco com isto. Sr... GRANDON — Isso é outro negócio. GRANDON — Bem. sinto-me furioso só de pensar nessa maçada. temos de arranjá-lo. Olha que eu não quero isso. três francos e cinquenta. FREDERICO — Qual homem? Quero saber. vá lá pelos quatro francos. ALCINO — Também pensei nisso. temos duas horas à nossa frente. — Sim. .. Escolha dois. cá estão os perus. Tremia só de pensar no que poderia resultar desse roubo descarado. são. Valem quatro francos a olhos fechados. O homem olhou com atenção os perus. certamente. Guardam-se para ele. pagos à vista. A audácia de Alcino assombrava-o.12 Um roubo audacioso — Então — disse Alcino. na verdade. a venda não te diz respeito. quando chegou — já se foram embora? FREDERICO — Estão todos fora de casa até ao meio-dia. perco. Julião está na feira com tua mãe. não é verdade? FREDERICO — Certamente. ALCINO (zombando) — Isso é outro negócio. Que coisa tão irritante! ALCINO — Deixa lá! Faremos dele o que quisermos! Não é tão santo como parece. e quanto custa cada um? ALCINO — Ora essa! Veja quanto quer dar. o inglês vai lá ter com ele. seu grande pândego! ALCINO — Dois perus a quatro francos. Frederico? Frederico não respondeu. estão em bom estado. GRANDON — Três francos! Está bem? ALCINO — Três francos! Está a brincar.

Frederico tremia e deixou-se cair numa cadeira. mas este agarrou-o pela gola do casaco e levou-o até ao armário da sala. FREDERICO — Os ratoneiros teriam roubado de preferência o dinheiro que está no armário da sala. subiu para a carroça e partiu a trote. FREDERICO — Mas isso não explica como desapareceram os dois perus! ALCINO — Muito bem. através dos campos. guardo o resto do . FREDERICO (assustado) — Que vais tu fazer? ALCINO — Já vais ver como eu te vou salvar. do qual eu não podia adivinhar a existência. com os demónios. certos. se a tua mãe vem um pouco mais cedo. quando saíste. que fizeste? Que é que me vai agora acontecer? Que hei de eu dizer para me desculpar? ALCINO — Mas que estúpido! Que estúpido tu és! Que falta de imaginação! Vais-te já embora comigo.GRANDON (rindo) — São sete francos. Estás certo de que há dinheiro cá em casa? FREDERICO — Absolutamente certo. partiram tudo. Vamos. depois. certamente. estimulado por esta ameaça. não era natural que os gatunos os deixassem ficar. Mais de cem francos. esvaziou-o. até! Dizes que saíste um pouco mais cedo. Temos de sair dentro de um quarto de hora e. eu levo os bichos. creio eu. que a mamã contou ontem à noite e que são do Julião. — Onde está a chave? — perguntou. despacha-te. como disseste há pouco. acompanhada de uma palmada. que tu. em tom imperioso. Frederico. Sr. não suspeitarão de ti. e que os perus estavam no pátio. apressou-se a meter dois gordos perus numa gaiola própria para a criação. mostrou-lhe o esconderijo onde sua mãe tinha a chave. Alcino abriu o armário e achou facilmente o saco.. estavam os sete francos. está tudo perdido. que conheces o esconderijo. não há tempo a perder. Julgarão que os ladrões. com uma alavanca partiu a almofada de uma das portas do armário e arrancou a fechadura. toma lá os sete francos. — Vês tu — disse ele — estamos ricos. como diz! GRANDON — Ora ainda bem! Olha. roubaste tudo isto. Grandon. temos com que nos divertir e ficaste livre destes dois aborrecidos bichos. Abriu a vedação. pegou no dinheiro que lá havia ficado. quando tivermos a certeza de que a tua mãe já voltou à herdade. foi o imbecil do inglês que os deu. já estou atrasado. Que é que tens? Não dizes nada? FREDERICO — Oh! Alcino. ALCINO — Do Julião? Cem francos? É impossível! FREDERICO — Tenho a certeza. Não sabes fazer contas? ALCINO — É verdade. Desta maneira. pensando que tua mãe não se demoraria. Corramos depressa. vamos divertir-nos a valer. Alcino contou o dinheiro. Metemos pela travessa e vamos para a cidade. com medo de que o rapaz reparasse que os perus tinham sido pagos a três francos e cinquenta em lugar de quatro. ALCINO — Dinheiro? Há cá dinheiro? Tens razão! Os gatunos não costumam estar com meias medidas. ALCINO — Dá-me a chave ou prego-te uma sova por conta da que hás de apanhar do teu pai se ele suspeitar que tu... tornou a colocar a chave no esconderijo e. que alguns ratoneiros esperavam... é verdade! Agora vejo que são sete francos. ALCINO — Isso é demais para um mendigo como Julião e. E ainda por cima hei de dizer ao teu pai que te bati porque me propuseste o roubo deste dinheiro. mas não entramos lá senão depois do meio-dia.. a tua partida para roubar os perus e vendê-los na feira. Frederico quis resistir à vontade de Alcino. ALCINO — Agora vem depressa. não tendo encontrado a chave.

Procurou reanimá-lo. é preciso que chegues com ar alegre. visto que conseguiram arrancar uma fechadura tão forte. porque o ricaço do seu inglês que lhe tomou amizade. Alcino teve receio de que o rosto consternado do seu amigo atraísse as atenções. E continuaram o seu caminho. desapareceram os dois por detrás de um outeiro. o qual sentia mais vontade de chorar do que de se divertir. não esqueças isto. E. — Vamos. prever que iriam roubar a herdade precisamente durante esses poucos instantes de ausência? Dizes aos teus pais que foi uma felicidade saíres mais cedo porque poderias ter sido morto pelos ladrões. — Nunca me dão nada. sim. embora devagar. Não te deixes ir nisso. indignado. Tomas um ar assustado. como um rapaz que acaba de se divertir graças ao inglês que quis pagar tudo. a herdade e tudo o que eles possuem? E. Frederico — disse ele — vê se espertas. . não penses mais nisto e continuemos. correu a tomar o caminho lateral e. o que é deles não é também teu? Não és tu o seu único filho? Não há de ser tua. Mas. não sei porquê. Julião não perde nada com isto. compreendo. o nosso caminho. como te disse já mais de uma vez. Podias. um dia. Aliás. FREDERICO — Sim. arrastando o infeliz Frederico. Querem que vivas como um mendigo.dinheiro. agora que lhe roubámos tudo o que possuía. Vejamos. adivinham imediatamente que os estás a enganar. fizeste com que cometesse uma ação bem má. De que tens medo? Não é um grande crime teres saído alguns minutos antes da hora. não hão de morrer por isso. há de dar-lhe o dobro do que perdeu. Onde está o mal? — Realmente é verdade — exclamou o fraco rapaz. o que é teu. Temos ainda de andar durante meia hora e creio que já não falta muito para o meio-dia. procuras os vestígios dos ladrões. Aos dezessete anos se é quase um homem. visto que nunca te dão nem um real para te divertires. aterrorizado. dizes que te lembras de ter visto passar malteses. tenho remorsos. não terás o direito de aliviar um pouco a sua bolsa? Achas que um rapaz de dezessete anos deve ser tratado como uma criança de sete? Tiraste. e depois ao pobre Julião que me causa dó. Detiveram-se durante algum tempo no bosque. ALCINO — Em primeiro lugar. FREDERICO (tremendo) — Eles naturalmente não me acreditam. Teus pais também podem perfeitamente perder dois perus. por acaso. ALCINO — Imbecil! A quem fizemos mal? FREDERICO — Primeiramente a meu pai e minha mãe. E quando te falarem do roubo tomas um ar consternado e exclamas: “Que felicidade eu não ter cá estado! Esses patifes ter-me-iam morto para que não os denunciasse. ALCINO — Com certeza que. Dizes que provavelmente eram uns poucos. podes estar descansado. ALCINO — Já vês que tenho razão. para não chegarmos tarde à cidade. se estiveres com o aspecto que tens agora. Temos aqui para muito tempo e não precisaremos mais do inglês.” Não esqueças isto também. pois. em breve. é importante.

BONARD — E os ratoneiros que andam por toda a parte. dobrou-o cuidadosamente e quis guardá-lo no armário. Tinha-lhe prometido estar de volta antes do meio-dia e já ouço dar meio-dia no campanário da igreja. é porque ele ainda não foi. SRA. na estrada. — Roubados! Roubados! — disse ela. meia hora perdida não é caso de morte. para trás da sebe. na volta de uma sebe. não vai lá ninguém. BLONDEL — Toda a gente está na feira. como tinha dito a Sra.. tirou o xale. Deitaram-se os dois de bruços. onde está? Ai! Meu Deus! Frederico. meu pobre filho. SRA. SRA. não encontrámos o Frederico. diz-se. Blondel comparticipou do terror da sua amiga. SRA. ALCINO — Então. Blondel. sem dúvida. SRA. A Sra. numa voz desfalecida. SRA. não tocaram nos fatos nem em nenhuma peça de vestuário. onde estás tu? SRA. BLONDEL — É porque está em casa. até me falta a respiração. Blondel. Blondel? É capaz de se impacientar e deixar a herdade e os animais ao deus-dará. Sra. depois chegou até eles um ruído confuso de risos e vozes e depois palavras distintas. BLONDEL — Porque essas coisas servir-lhes-iam de embaraço.13 O terror da Sra. está parada a conversar com alguém. BLONDEL — Deixe lá! São patranhas que nos querem fazer engolir. estão de costas voltadas. SRA. SRA. Bonard apoiara-se à parede. ALCINO — Depressa. toda a gente se encontrava na feira. sabe. Soltou então um grito que assustou a Sra. . Blondel. BONARD — É que ele não é muito dócil. BLONDEL — Deve estar aí agachado em qualquer canto. estava pálida como um cadáver. BONARD — Ora esta! Onde está o Frederico? Pensava encontrá-lo na cancela. Bonard entrou em primeiro lugar.. gritaram e levantaram-se as duas. Que haviam eles de fazer da roupa e dos fatos que poderiam denunciá-los? SRA. que matam mesmo. chamaram por socorro. Frederico soltou um grito abafado. não nos viram. — Vai tão depressa. Sra. Bonard! Mal posso acompanhá-la. Bonard De repente. BLONDEL — Que foi? Está doente? Sente-se mal? A Sra. Só muito tempo depois revistaram o armário e se asseguraram do roubo que tinha sido cometido. SRA. Chegaram neste momento à porta da herdade. BLONDEL — Ora! Demora-se mais logo à tarde. passaram através de uma abertura da sebe e agacharamse atrás de um espesso arvoredo. mas ninguém aparecia. BONARD — É porque tenho medo de fazer esperar o meu pobre pequeno. Durante alguns instantes não ouviram nada. SRA. que roubam. Sra. BONARD — Pobre Julião! O poucochinho que possuía! Levaram tudo! Admirome de que não tenham roubado mais coisas. — O armário arrombado! A fechadura arrancada! A Sra. que foi isso? Que aconteceu? FREDERICO (titubeando) — Parece-me que vejo a mamã. Ah! Mas já cá estamos. SRA. ali. BONARD — Mas o Frederico.

Bonard. mais morta que viva. A Sra. passaram revista geral no interior e no exterior. gritando mais do que ela e prodigalizando consolações que redobravam o desespero da Sra. muito assustado. que voltava muito descansadamente da feira. A Sra. BLONDEL — Ah! É bem possível! Os ratoneiros são tão malvados! Não conhecem Deus nem lei nenhuma! A Sra. A sua amiga acompanhava-a. Bonard. A duração desta narrativa teve a vantagem de dar aos Bonard tempo para se acalmarem. enfim. BONARD (surpreendido) — Frederico assassinado. minha boa e querida mulher? SRA. levantou a mulher. animais e coisas estavam nos seus lugares. degolado. esgotada por tantos gritos inúteis. Georgey e. nos apriscos. minha boa e Santa Virgem. as consolações da Sra. a correr por toda a parte. o que bastante me aborrece. porque não se vê sangue em parte nenhuma. os gritos das mulheres recomeçaram. pouco faltou para que juntasse os seus gritos aos da Sra. Vendo. voltou à primeira forma e soltou gritos capazes de acordar um morto. mulher. nos estábulos. num teatro de farsas com Julião. BONARD — Frederico. como eu Vos agradeço! Pensei que tivesse sido morto pelos ladrões. minha querida mulher! A Sra. À força de muito gritar acabou por conseguir socorro.. Georgey quis mimoseá-los aos três e levá-los a todas as diversões. Quando chegaram à capoeira dos perus e os contaram. BONARD (juntando as mãos) — Louvado seja Deus! Bendito seja Deus! Meu bom Jesus. velhacos. — Ah! Naturalmente degolaram-no ou mataram-no por asfixia. . apressou o passo e entrou ofegante em casa. SRA. e que os receios de minha mulher não se tenham realizado. em vão. num fosso. ouviu o apelo potente da Sra. das quais uma se aproximava da verdade. estrangulado? Que estás a dizer? Acabo de deixá-lo rindo como um bem-aventurado. estrangulado. enfim. Fizeram duas suposições. nas estrebarias. — Calem-se. Bonard. criaturas desqualificadas. minha pobre. meu bom Deus! Mas tu não estás boa da cabeça. com o rosto enegrecido e abrasado e os membros agitados por movimentos nervosos. que progressivamente se acalmava e voltava a si. Mas Bonard era homem. Blondel. que os seus esforços eram inúteis. vestiu-se e mostrou ao marido a fechadura e o armário partidos. procedia em lugar de gritar. procurando nos celeiros. Depois de ter corrido. a chamar Frederico. Bonard levantou-se. nas granjas. BONARD — Os ladrões! Quais ladrões? Meu Deus. limpou-a o melhor que pode. Blondel produziram o efeito natural. o Sr. depois de ter vendido bem. tratantes! E veja a sua maldade! Provavelmente deitaramno à água ou enterraram-no em algum sítio para que não pudesse denunciá-los. agradeçamos a Deus que as nossas perdas se limitem a dois perus e algum dinheiro. Blondel tomou então a palavra e explicou-lhe o que tinha causado o terror e o desespero da Sra.SRA. Bonard. com Alcino. tirou-lhe o vestido molhado. Frederico! Foi assassinado por eles. Blondel. esfregou-lhe as fontes e a testa com vinagre e viu. BONARD — Contanto que não o tenham assassinado! SRA. Eu bem lhe dizia que estes salteadores são demónios. num charco. Mas o Sr. combater com baldes de água pela cabeça. continuou a gritar. que a sua amiga procurou. o seu gado. viu a mulher estendida no chão. foi acometida por um ataque de nervos. reconheceu o marido e começou a soluçar ainda mais. a Sra. olhando em redor. BONARD — Que tens tu. pancadas nas mãos e penas queimadas no nariz. muito bem. satanáses. acerca daquele roubo que não conseguiam compreender.. procurando por toda a parte. mulheres — disse Bonard com autoridade — em lugar de gritarmos. deitou-a na cama. Bonard abriu os olhos. Bonard.

.As mulheres calaram-se. A Sra. BLONDEL — E depois.. onde andou de porta em porta a contar a aventura de que tinha sido testemunha. Bonard. que já se sentia feliz por saber o filho em segurança. Blondel continuou o seu caminho para a aldeia. vamos saber por ele o que viu e ouviu. E amanhã vou apresentar queixa ao administrador e à polícia. A Sra. aceitou. Frederico há de voltar antes da noite. Quanto à Sra. de bom grado.. . Bonard foi tratar dos cavalos. BLONDEL — E como se compreende que os ladrões se tenham combinado para vir roubar a herdade justamente durante a meia hora em que aqui não estava ninguém? SRA. abandonando assim a herdade e os animais. quem teve a ousadia bastante para vir despedaçar uma porta e uma fechadura numa herdade que se sabe habitada? SRA. Blondel. como foi que os ladrões tiveram tempo de cometer o roubo? SRA. — Além de que. ainda que falássemos até amanhã não ficaríamos sabendo mais. BONARD — E como. talvez se tivessem separado dos outros no bosque e vais ver que voltam provavelmente antes da noite — acrescentou Bonard. Quando terminaram o trabalho do dia. como puderam adivinhar que havia dinheiro neste armário? SRA. que não tinha perdido senão na aparência. BONARD — E se os perus foram roubados. estes perus talvez não estejam perdidos. vacas e poldros.? BONARD — Basta de suposições. — E depois — disse ela — nunca se ouviu aqui falar de roubos dentro das casas. em vista da calma da Sra. como a senhora lhe tinha recomendado. Esta confiança pôs fim às reflexões das duas amigas. fazer as suas contas e calcular os lucros inesperados que tivera na venda dos bezerros. Bonard. recuperou depressa a sua. a esperança que o marido lhe oferecia. que hão de conseguir descobrir os gatunos. começou a achar mau que Frederico tivesse saído antes da sua volta. depois de haver readquirido completamente a sua tranquilidade de espírito. marido e mulher juntaram-se na sala para cear e esperar o regresso de Frederico e Julião. BONARD — E por que se contentaram em roubar o dinheiro e não levaram roupa e fatos? SRA. A Sra. Bonard cuidou dos animais e procurou os perus desaparecidos. Bonard. porque não os levaram todos? SRA. boas mulheres.. BLONDEL — E se o Frederico só saiu ao meio-dia. A Sra.

SR. Georgey tapou-lhe a boca. os seus companheiros sentaram-se ao lado e à frente dele.. assim. Sr. O primeiro sentimento que experimentaram os dois ladrões foi um ciúme odioso do que eles chamavam “a felicidade de Julião”. Julianinha. os outros dois seguiram o Sr. cada vez mais surpreendido. O Sr. O rapaz. GEORGEY — Tudo que você ter. Mim dar já. Julião? Quem te deu esse belo fato? Nunca tive nenhum tão bom. bem verdadeiro? Então mim dar qualquer coisa a vocês. GEORGEY — Comer você. que foi o senhor que pagou tudo. O criado colocou diante do Sr. Mim querer silêncio. tinha. GEORGEY — No. comer vocês outros. Não reconheceram este último à primeira vista. se vocês não ser mais malcriados. um chapéu e sapatos de verniz. GEORGEY — Ser Julianinha. ALCINO — Tenho um primo que é dono de um excelente café. Julianinha. É tão bom. dois aos outros. si própria que ter comprado tudo. dois a Juliana. SR. de aletria. Georgey. Julianinha. Andar você. E depois mim dar uma admiração. Georgey. . Sr. Julião quis falar. senhor? — Oito. SR. levá-lo-ei lá. abriu a marcha. ALCINO — Aposto. SR. GEORGEY — Excelente almoço. senhor! Que manda Vossa Excelência? SR. você dizer a mim onde haver almoço excelente. Duas de cada um. SR. Mas não me dão coisa nenhuma. és tu. não dizer palavra. Qual deseja o senhor? SR. Georgey comprara-lhe um fato completo de bela fazenda azul-escura. Vocês três vir atrás de meus costas. de cebola. CRIADO — E que deseja o senhor? SR. não gostam nada de mim e ando sempre sem dinheiro como qualquer miserável. Georgey o mesmo favor.14 Um almoço no café Durante estes acontecimentos ocorridos na herdade. de arroz. GEORGEY — Todas. Se quiser. CRIADO (pasmado) — Quantas doses. uma surpresa a vocês dois.. GEORGEY — Dois a mim. o segundo foi um vivo desejo de obter do Sr. Georgey e chegaram dentro em pouco os quatro a um dos melhores cafés da cidade. Georgey tomou assento numa mesa de quatro lugares. GEORGEY — Ser verdade. SR... Georgey e dos três rapazes os pratos de sopa. Georgey e Julião. um aspecto de pessoa importante. GEORGEY — Rapaz! CRIADO — Aqui estou. Mim querer seguir Julianinha. O Sr. Julião obedeceu. eu que sou muito mais rico do que tu! FREDERICO — Mas que felicidade estares assim tão bem vestido! Sentir-me-ia contentíssimo se meus pais me tratassem assim tão bem. tão generoso! FREDERICO — E gosta tanto de dar! E as pessoas sentem-se tão felizes quando o senhor lhes dá alguma coisa! SR. Julianinha. CRIADO — Temos sopa de pão. GEORGEY — Você. Mim não querer. Frederico e Alcino haviam-se encontrado na cidade com o Sr. Georgey. levou duas doses de cada sopa. ALCINO — Como. O Sr.

foi buscar um peru inteiro. Georgey deu a Frederico e a Alcino as duas porções que haviam sido levadas em primeiro lugar. SR. e depois claret (Bordéus) branca. um pata. senhor. pôs uma asa enorme em frente de Julião e comeu o resto sem notar que a sala inteira e os criados o olhavam com espanto.. O criado. do T. Toma. sem cortar nenhum bocado. CRIADO — O senhor quer dizer uma coxa? SR. O criado levou duas asas de peru e quatro garrafas de vinhos pedidos. GEORGEY — Oh dear! shocking 21 ! Mim não dizer esse palavra imundo. GEORGEY — Trazer com toda velocidade champanhe. que era uma exorbitância. a seguir. Georgey não se apercebia da astúcia de Alcino. Georgey pediu ainda galinholas. GEORGEY — Que ter você? CRIADO — Cozido. trinchou o peru completo. depois de ter enchido o copo de Julião. você dar turkey. dizer-se: uma pata.. senhor.. GEORGEY — Que ter você? CRIADO — Perdizes. GEORGEY — Rapaz. que bebia sem parar. frutas de diversas espécies. 21 Shocking: chocante. Julião não ousou desobedecer e comeu.. mim ter sede. SR. Quando chegaram os pratos pedidos. mas. o Sr. seis. Você não compreender. Com muita pressa. Mim voltar. O Sr. SR. disse: — Ser muito. GEORGEY — Rapaz! CRIADO — Aqui estou.. lombo de vaca com batatas. vinho Borgonha branca. Julianinha — disse esvaziando o copo. GEORGEY (num tom autoritário) — Comer. SR. compotas. O resto do almoço decorreu do mesmo modo. para com mais segurança embriagá-lo.JULIÃO — Senhor.. Depois começou a misturar o vinho branco com o tinto. — Você beber. Bebeu de um trago uma garrafa de vinho que tinha na sua frente. Georgey deu uma perdiz a Julião. Georgey chamou: — Rapaz! CRIADO — Aqui estou. mim sufocar. mas ser bom comida. O Sr. Cortou três fatias de cabrito que deu aos seus convidados e comeu o resto. legumes. os outros dois fizeram o mesmo. O Sr. biscoitos e mais vinho.. Madeira. Alcino enchia sem cessar o copo do inglês.. E bebeu o vinho que Alcino lhe deitou no copo. é demais. CRIADO — Aqui estou. SR. (N. cabrito. e do número de copos que lhe enchia. tinta. mim dizer comer. SR.) . Málaga e conhaque. Turkey. tinta. O Sr. da mistura dos vinhos. O criado foi executar esta ordem no meio de uma gargalhada geral. senhor. enchendo ele próprio.. Julianinha. que Alcino se apressou a encher de novo.. sem cessar. cabrita. senhor. Quando lhe trouxeram a conta.. em inglês. quatro variedades de doce. GEORGEY — Oh! Yes! Mim querer perdizes. SR. SR. Julião bebia o menos que podia. peru. uma a Frederico outra a Alcino e comeu ele três. enquanto Frederico enchia o de Julião. peru toda. o de Julião. assombrado. — Oh! Yes. GEORGEY — Que ser isto? Dois garfados! Mim querer turkey inteiro..

. sacudia ligeiramente Julião. algumas na algibeira de Julião. Georgey acordado e pôs-se rapidamente em pé. O Sr. Sr. Asseguro-lhe. resmungou: — Quando vir o patrão hei de dar-lhe parte da mesquinhez dos seus criados. não tinha as ideias muito nítidas. Ninguém prestou atenção a isso. SR. Georgey ergueu-se sem responder e saiu. que estou envergonhado e muito triste. Quando acabou e todos se levantaram para deixar a sala. o Sr. — Que fazer? — perguntou de si para si. Apesar de o Sr. Alcino disse ao criado: — Traga-me o resto. Georgey e Julião dormiam profundamente. Olhou para todos os lados. com destreza. para introduzir cautelosamente a mão na algibeira do inglês e retirar de lá um punhado de moedas de ouro que meteu no bolso do seu colete. O teatro despovoara-se. Frederico. viu o Sr. Alcino pagou os quatro lugares. dá-me uma gorjeta. levantou-se e dirigiu-se para a porta. que nunca bebia. prometendo a si próprio recuperar largamente esse dinheiro.. horrível. sobretudo. este meteu-a na algibeira. Alcino e Frederico tinham-se ido embora. lembrou-se de tudo e ficou envergonhado por se haver embriagado em presença de três rapazes tão novos e. GEORGEY — Pobre Julianinha! Mim não ter nenhuma zanga contra você. Procurou Julião e viu-o dormindo sossegadamente a seu lado. a quantidade e a mistura de vinhos que tinha ingerido produziram os seus efeitos. sem falar. Alcino aproveitou-se da atenção dos espectadores dirigida para a cena. Explico-te daqui a bocado. Dirigiram-se para o lado do teatro. Estou pronto a segui-lo. Georgey foi o primeiro a acordar. CRIADO — Se o senhor quiser esperar um momento. Perto das oito horas da noite iluminou-se a sala e começou a encher-se segunda vez. Georgey. seguidos de Frederico e de Alcino. Julião. — Aqui estou. O Sr. seguido de Julião. Georgey e de Julião. Nunca mais caio em tal. não devia ter aceitado tanto. perante Julião. onde fizeram entrar o Sr. sentia-se mal seguro nas pernas. peço-lhe muita desculpa. mas começava a nascer a lua. esfregou os olhos. de quem seria protetor a partir do dia seguinte. Juro-lhe. sou eu que guardo a demasia dele. Georgey estar habituado a beber muito. E saiu. tinham bebido pouco e conservavam todo o seu juízo. procurou recordar-se. ALCINO — Chut! Cala-te. Mim fazer ação má. o Sr. e da sonolência do Sr. nunca bebo vinho. SR. Peço-lhe muita desculpa. Não sei o que foi isto.! Mim ser terrivelmente castigada! Enquanto corava e se acusava. Georgey. meu senhor. iam no entanto andando. Depois das farsas foi uma peça trágica. vou buscar a demasia. Sr. A peça continuou. meu senhor. Julião seguiu-o cambaleando mais do que ele. Georgey caminhava. — Por que fazes isso? — perguntou Frederico. toda a gente ria. Mim . Fora ali que Bonard os vira entre as duas e as três horas da tarde. Georgey e Julião. O criado levou a Alcino a demasia. CRIADO — E eu. GEORGEY — Mim nunca esperar. depois de ter posto. senhor? ALCINO — Está certo. Representavam-se farsas.Pôs as notas em cima da mesa. Alcino pô-la na mão do criado que muito descontente. cambaleando ligeiramente. — Meu senhor — disse enfim Julião — vejo que está zangado comigo. meu senhor. este foi acordado pelo ruído que faziam as pessoas que chegavam e pelos esforços do inglês. Estava já um pouco escuro. pobre pequena! Somente estar furiosa e corar por causa de mim. a rua estava cheia de gente. Sei bem que fiz mal. — Que contar a ele? Que dizer? Que explicar? Pobre Julianinha! Ser mim que ter dado bebida... mais habituados ao vinho e mais prudentes que Julião. Frederico deu-lha.

mim voltar amanhã. .ser estúpida criatura e você não fazer mal. não pedir desculpa. Bonard. good bye. não dizer nada mau para você. boa noite. Cá estar a cancela de Sra. Boa noite. little dear.

BONARD — Está bem.. Este último entrou em casa e encontrou os Bonard inquietos com a sua demora e a de Frederico.. Georgey só me acordou às oito horas. JULIÃO (com um ar embaraçado) — Não sei. o Sr. cambaleava um pouco. quer dizer que eu sou um mau rapaz.. vai-te deitar. BONARD — Enganado por quem? JULIÃO — Pelo. Onde está Frederico? Preciso lhe falar. BONARD — Meu pobre rapaz. não te aflijas. Não percebo nada. perdoe-me. patrão. portanto. patroa. tanto mais que não te embriagaste sozinho. não os vi quando acordei. — Ai! Meu Deus! Que está aqui? Dinheiro!. Tens um ar cansado. BONARD — Adormeceste! E só acordaste às oito horas! E foi o Sr. BONARD — Ouve. Alcino. SRA. JULIÃO — Perdão. perdoo-te de boa vontade. patroa.. BONARD — E ficaram juntos? JULIÃO — Não sei. SRA. Se foi ele.. Eu vou guardá-lo aqui ao lado. BONARD (dando um murro na mesa) — Com o Frederico? Mais uma vez! Depois de eu o ter proibido terminantemente! SRA. pelo. Georgey! Que quer isso dizer? JULIÃO (rompendo em soluços) — Oh! Patroa. — Ah! até que enfim. sem dúvida.. patrão. não fizeste isso com maldade. eu adormeci no teatro e o Sr. certamente não sabia o . patroa. Georgey pagou-te o vinho. BONARD — Mas por que se separaram? JULIÃO (baixando a cabeça) — É que.. Julião.15 O regresso de Julião O Sr. juro que não torno a fazer uma coisa destas! SRA. SRA. BONARD — Foi então ele que te embriagou? JULIÃO — Oh! Não! Patroa. depois o colete e tocou.. BONARD — Mas o Alcino não estava convosco. estava a almoçar. patroa. Há muito tempo que o não vejo. Julião tirou o casaco. SRA. JULIÃO — Não posso ficar com este dinheiro. termos ido para o teatro e depois adormecido. SRA. nos bolsos.. porque não se segurava muito bem nas pernas. eu é que devia não ter bebido.. — Vão julgar que eu as roubei! Mas como pôde vir parar todo este dinheiro à minha algibeira? Não me lembro de nada senão de ter almoçado. Georgey estava um pouco embriagado como tu? JULIÃO (hesitante) — Creio que sim. indigno da bondade do Sr. E fui eu à feira para impedir que ele fosse enganado! SRA. De onde veio isto? Não é meu!. noite fechada. foi por isso que adormeci. Estavam estupefatos. — Oh! Meu Deus! — exclamou Julião. deixando Julião na cancela. por acaso. Georgey. BONARD — Ouro! Por que razão tens ouro nas algibeiras? Ela e o marido contaram as moedas: eram dez e mais algumas moedas de prata. Bonard — Começava a estar inquieta. Georgey continuou o seu caminho. BONARD — Despe primeiro o teu lindo fato novo. JULIÃO — É verdade. um bocadito. BONARD — Foi talvez ele próprio que te meteu tudo isso na algibeira. Alcino e Frederico amparavam-no. e naturalmente o Sr. Eram nove horas e. Ó patroa. não calculaste que esse vinho te embriagasse. Embriaguei-me.. patroa. chegaram! — disse a Sra. Ouro... não prestava atenção. SRA. foi lá ter com o Frederico. meu rapaz..

.. Devo conformar-me. nunca teria pensado em deixá-los. — “Se não fosse isso. o pobre do Sr. “O que fazem os maus exemplos e os maus companheiros!” — pensou ele.. Ah! se não fosse este receio.. E pensar que devo ir para não os sobrecarregar. . não sentiria agora a vergonha de me ter embriagado. não sei nada. JULIÃO — Pobre Sr. BONARD — Que o roubassem! Como. SRA. Meus bons patrões! Se fossem mais ricos!. Georgey! E era por isso que me pedia perdão quando voltávamos! Parecia envergonhado! E eu que desconfiava do Alcino e precisamente por isso me decidi a ir à feira para impedir que ele fosse enganado! Deixei que o embriagassem e talvez até. Ó patrão. Encontrá-lo-ias deitado.. chorando sempre. para cuidar deles. não. rezou e chorou durante muito tempo. Eu estava ao seu lado e naturalmente enganou-se na algibeira.! E como o Alcino estragou o Frederico! Meus infelizes patrões! Quantos desgostos lhes virá ainda a dar! E eu que me vou embora! Ficam sem ninguém para ajudá-los... foi isso que lhe subiu à cabeça! Pobre Sr.. que o roubassem. no fim.. BONARD — Levas amanhã. meu amigo. que o Alcino... Queria metê-lo na sua e meteu-o na minha. diz o Sr. Julião adormeceu..que fazia. Georgey! A culpa não é sua.” E. hoje é tarde de mais. champanhe. e como bebeu demais..? JULIÃO (precipitadamente) — Não. Abade. Georgey não teria também de corar do seu dia de feira! Pobre homem! É pena! É tão bom. obrigou-o a beber.. deixe-me levar-lhe este dinheiro imediatamente. depois. Lembro-me agora de que Alcino insistia sempre com ele para beber e lhe deitava vinho branco e tinto. Uma vez ali chegado. não penso nada. patroa. Falei estouvadamente. para que ele não julgue que foi roubado.. Este desejou-lhes as boas-noites e foi para o seu celeirozinho.. Bonard e a sua mulher não responderam. não penso nisso. disseram a Julião que se fosse deitar. havia de ser difícil acordá-lo. Mas tudo quanto Nosso Senhor faz é para nosso bem.? Julgas que.

Quando se viram fora do teatro. E se ele se queixar. Assim. há de julgar que perdeu as moedas por um buraco que tive o cuidado de fazer no fundo da algibeira. visto que temos com que o comprar. Queres restituir-lhe o dinheiro. FREDERICO — Mas por que meteste as moedas no bolso de Julião? ALCINO — Para fazer crer que foi o Julião que roubou o inglês no caso deste ter notado alguma coisa. como sabes.. FREDERICO — Como? Julgas que Julião. é o teu pior inimigo. Procura-se nos bolsos deste e encontra-se o dinheiro.16 Os relógios e as correntes Que tinham feito Frederico e Alcino. ainda não tens nenhum. Tirei. não roubei. ALCINO — Muito bem. Mas falemos de outra coisa.. FREDERICO — Mas isso é abominável! Depois de teres roubado o Julião.. Não se dizem essas coisas alto. este que te presto. Georgey. tenho a certeza. cometes uma ação vil e queres que a atribuam a esse pobre rapaz! ALCINO — Aborreces-me com a tua piedade parva. salvei-lhe provavelmente a vida. FREDERICO — E se alguém lhe perguntar? . Ele estava embriagado. dormia e soprava como um búfalo. eu poupei-lhe o trabalho de escolher. Georgey e Julião. não diz mais nada: leva o seu pobre Julianinha e não pensa mais nisso. o inglês. Mas é necessário que cada um de nós tenha um relógio.? ALCINO — Não julgo. ALCINO — Pois muito bem! Tirei-as para impedir que outro qualquer as tirasse. O primeiro sujeito que aparecesse podia roubá-lo e até esganá-lo. nem mesmo pensará em contar o dinheiro. o excelente Sr. ALCINO — Que tens tu com isso? Esse Julião é um insolente. esvaziando-lhe os bolsos. E tu próprio. a resposta é fácil: o bom inglês.. Tinha prometido que nos daria um presente e não nos deu nada. não há de tardar muito. ALCINO — Não. não lhe torno a dar as suas loiras. que é um imbecil consumado. Gostavas de ter um relógio? FREDERICO — Pois claro que gostava! Um relógio! É preciso muito dinheiro para ter um relógio. apesar do que tens furtado a teus pais e a outras pessoas. durante este tempo? No fim do espetáculo foram-se embora cautelosamente. Acredita nisto que te digo. FREDERICO — Mas se nos virem com relógios hão de perguntar-nos quem no-los deu. FREDERICO — Ah! Compreendo. pois então! FREDERICO — Como? Roubaste-o? ALCINO — Cala-te para aí. e hão de julgar Julião um gatuno. por certo. vamos nós comprar o que mais nos convier. Vamos ao estabelecimento de um primo meu que é relojoeiro e com quem me dou. porque nunca juntei a quantia bastante para isso. Vê-lo-ás. Não sou tão estúpido como isso. Frederico perguntou a Alcino: — Por que meteste aquelas moedas de ouro no bolso de Julião? Onde as arranjaste? ALCINO — No bolso do inglês. tem trabalhado para ocupar o teu lugar em casa e para fazer com que te expulsem. ALCINO — Não. palerma! Gritas como se falasses com um surdo. É um verdadeiro serviço de amigo. e és estúpido como um ganso. com medo de acordar o Sr. o inglês. diz-se-lhe que foi Julião que não resistiu à tentação. Em primeiro lugar. FREDERICO — Mas o meu pai e a minha mãe pensarão no caso. que lhe tem amizade. FREDERICO — Mas se as tiraste da sua algibeira sem que ele soubesse.

nem tocava no seu. Toda a sala ria às gargalhadas com os ordinários gracejos de um palhaço que discutia . Se não fosse o medo que lhe inspirava o mau amigo. que quis que nós tivéssemos relógios. os teatros de farsas e os dançarinos de corda. Alcino pediu relógios. Frederico tinha o aspecto de um condenado à morte: sério. perigosa. com medo de que alguma pessoa das suas relações o visse e fosse falar nisso ao pai. RELOJOEIRO — Tiveste então uma herança? ALCINO — Não. — Agora — disse Alcino — vamos ver outras curiosidades. FREDERICO — Tenho medo de que me faças cometer uma ação má e. mais duas moedas de cinco francos que tinha dado o criado do café. faz duzentos e cinquenta. porque os negócios não vão bem. fico com ele. porque se somos descobertos estamos perdidos. Aqui estão os relógios e as chaves e mais um cordão. e mostraram-lhe alguns de prata. estes para cento e vinte. mais se ganha. contou dez. ainda para mais. com ar irritado. quanto maior freguesia se tem. E dirigiram-se para o local da feira. depois duas. senhor. Quanto tenho de dar? RELOJOEIRO — Não é difícil de contar: cento e vinte com cento e trinta. atormentava-o cruelmente. Os dois larápios foram-se embora com os relógios nos bolsos. Aqui têm. comprometido e assustado. RELOJOEIRO — Isso é diferente. silencioso. ainda não afeita ao vício. Alcino ria. O relógio causava-lhe mais medo que prazer. preço fixo. ALCINO — É verdade. ALCINO — Qual levas. ALCINO — Pago e levo. grande idiota. Frederico deixou-se levar para a loja do primo relojoeiro. não te posso dar crédito. rico e generoso. as barracas de prestidigitadores. Aqui está o dinheiro. Alcino estava orgulhoso e puxava muitas vezes pelo dele para mostrá-lo. RELOJOEIRO — Não. ALCINO — Então anda daí comprar um relógio. Estás quase com dezessete anos e és como uma criança de seis que tem medo dos açoites. não quero um demasiadamente caro: RELOJOEIRO — Está aqui um de cento e vinte francos que lhe deve convir. ALCINO (zombando) — Tu tens sempre medo. Alcino tirou da algibeira uma quantidade de moedas de vinte francos. falava com os vizinhos. repelindo com desprezo os de prata. Vê se consegues trazer-me o teu amigo. escolham. ou ele não compreende os outros. por acaso. ALCINO — Para que preço? RELOJOEIRO — Há aqui estes para cem francos. primo. Frederico. a sua consciência. certamente — respondeu Frederico. divertia-se. onde se achavam reunidos os pavilhões de animais ferozes ou amestrados. Mas tenho um amigo. que levaria depois ao Sr. — Estás então muito rico? — disse o primo. — Não tenho medo absolutamente nenhum e não sou uma criança. Frederico? FREDERICO — Não tenho a mínima ideia. Entraram em toda a parte.ALCINO — Sabe ele. — E eu — disse Alcino — decido-me por este. de resto. ou os outros não o compreendem a ele. ALCINO — Muito bem. Até à vista. Quanto custa? RELOJOEIRO — Cento e trinta. ALCINO — Hei de trazer-te e olha que te prestarei com isso um grande serviço. — Relógios de ouro — disse Alcino. RELOJOEIRO — Um momento. não! E. deram-nos que chegue para comprarmos relógios de ouro. sombrio. É a pronto pagamento. Ainda te dão açoites? — Não. é muito bonito. cento e trinta e por aí adiante. RELOJOEIRO — Até a vista. Georgey. teria voltado ao relojoeiro para lhe devolver o relógio e recuperar o dinheiro. sou eu que te dou. o que faz e o que dá? Tanto mais que. porque não regatearam. segundo me parece. e guardou o resto.

— (Alcino recusa outra vez) — Também tenho estas de ouro. — Para o colete — repetiu Frederico timidamente. por mais que olhasse e procurasse. Mas o arlequim e o palhaço tinham esgotado a alegria e o repertório. FREDERICO — Ó Alcino. ALCINO — Porque és um imbecil e um medroso. se faz favor. Não conversas. ALCINO — É isso mesmo. apressada para visitar novos divertimentos. dou-lhe o relógio e conto-lhe tudo. FREDERICO — Prouvera a Deus que eu não te tivesse acompanhado a esta maldita feira. FREDERICO (resolutamente) — Se me deixares. — É aborrecido — disse ele a Frederico. prometeu-lhe calar-se e ganhar coragem. inspiravamlhe suspeitas. não pôde encontrá-los. “Tenho mesmo a impressão de que são larápios”. Georgey. andaríamos atrás daquele estúpido inglês e do seu mendigozito. fala. E desta vez. retiraram-se e os espectadores saíram todos. Se te tivesse dado ouvidos. Teria de bom grado passado ali a noite. Não tínhamos adquirido os relógios nem tudo o que ainda vamos comprar. — (Baixo a Frederico) — Então.. deixo-te para aí.com o seu patrão arlequim. O infortunado Frederico. Pegaram em algumas. com os quais falava e comentava as habilidades e os bons ditos do palhaço. não tens mais coragem do que uma galinha. pousaram-nas e pegaram-lhes de novo várias vezes. peço-te que não compres mais nada. Têm aqui de prata. dizendo: — Quero. um animal! Segue-me. E é tal qual como se tu fosses o responsável de tudo. Frederico pegou nela. — (Alcino recusa-as) — e estas de prata dourada. — Cá estou eu reduzido à tua companhia que não é lá muito divertida. viríamos e voltaríamos com os bolsos vazios. há aí algumas muito bonitas. senhores? ALCINO — Correntes de relógio. que o joalheiro colocou instintivamente a . O joalheiro não as perdia de vista. No meio da multidão. Este relógio já me faz um medo terrível. ALCINO — Vamos. O ar descarado de Alcino e o aspecto perturbado e assustado de Frederico. imbecil. Escolhe. FREDERICO — De que precisam eles mais? Já os acho demasiadamente completos e caros. JOALHEIRO — Para o pescoço ou para o colete? ALCINO — Para o colete. ALCINO — Ah! Ah! Ah! És um estúpido. escolhe aquela de que gostas. Alcino viu-se separado dos seus amáveis companheiros e. vou levar-te ao estabelecimento de um bom rapaz que há de completar os nossos relógios. E o meu primo relojoeiro há de confirmar o que eu disser. e depois arranja-te como puderes. Desde manhã que ainda não senti senão desgosto e terror. se não ficares contente. Teria feito bem melhor se tivesse vindo sem ti. JOALHEIRO — Em que poderemos servi-los. ALCINO — Miserável! Decide-te a fazer o que dizes e deito as culpas todas para cima de ti. não olhas para nada e nada te diverte. Nunca se havia divertido tanto. Frederico. pensou ele. para que nem eu nem o meu rico e generoso amigo deixemos de ser seus fregueses. estão a olhar para ti. Frederico. senhores. Alcino estava ao lado de dois rapazes amáveis e risonhos. queres esta? Alcino mostrou-lhe uma. vou à casa do Sr.. cumprimentaram. ALCINO — Vais ver. e preparo as coisas de maneira a fazer com que te apanhem e te metam na prisão. Entraram os dois na joalheria. assustado com as ameaças de Alcino. sim — com uma voz tão trémula. JOALHEIRO — Ei-las.

senhores. — Muito obrigado. Alcino. não achou o relógio. vendo o rosto consternado do amigo. Anda. — Foi roubado. ALCINO (surpreendido) — O teu? Então o teu? Que fazes da corrente? FREDERICO — Guarda-a com o relógio que o joalheiro lhe prendeu. FREDERICO — Vais apresentar queixa? ALCINO — Não sou tão estúpido como isso! Para divulgar a questão e fazer com que me descubram? Era preciso dar o meu nome. — Tome lá — disse Alcino outra vez. toma o meu. — E esta? — Oitenta. — Suspeita de alguém? — No teatro. que as pagam no ato da compra? ALCINO — Certamente que sei. atirando para cima do balcão quatro moedas de vinte francos. o teu e o do relojoeiro. Guarda. senhor — respondeu o joalheiro com pronunciada delicadeza. Quis tirar o relógio para prendê-lo à corrente e não o encontrou: tinha desaparecido. ALCINO — Se é para te prestar um serviço. guardo-o como lembrança tua. é diferente. disse as horas que marcava o meu relógio — respondeu Alcino com voz trémula. Frederico. Por mais que procurasse e vasculhasse em todo o fato. caro senhor. prestas-me um bom serviço. Quanto custa esta corrente? JOALHEIRO — Oitenta francos. porque me pediram. Obrigado. aproveitou com alegria a ocasião de se desembaraçar do relógio. JOALHEIRO — O senhor deve apresentar queixa no comissariado da polícia. Os patifes! Tinham um ar tão amável! . FREDERICO — Olha. estive entre dois rapazes que usaram de mil delicadezas comigo e aos quais. o senhor? — perguntou o joalheiro. guarda tudo. Haviam de me perguntar onde arranjara dinheiro para pagar os relógios e tudo se descobriria. eu não tenho grande interesse por isto.mão nas jóias e puxou-as para si. senhor. Frederico. — Tome lá — disse Alcino. JOALHEIRO — Sabem.

Frederico quis fugir precipitadamente. repontava. O seu ar ousado e as indicações precisas que forneceu abalaram um pouco a convicção dos polícias. assim como o teu companheiro que afirma não ter coisa nenhuma nas algibeiras. Se o inglês nos vê. por sua vez. Alcino viu as horas no seu relógio. Sr. FREDERICO — Deixe-me. Continuaram a avançar. Georgey. sair do meio da multidão. o polícia tinha de ampará-lo e arrastar. chama-nos e estamos perdidos. POLÍCIA — É o que vamos ver. no momento em que roubavam o relógio a um original muito engraçado. fazes com que nos prendam se mostrares medo. Passado um instante. Frederico. indicava o relojoeiro que o vendera e o joalheiro a quem comprara a corrente. nem relógio. que tinha readquirido a alegria desde que se desembaraçara do relógio e da corrente. Enquanto fugiam assim ao perigo que os ameaçava. sentiu-se. como lhe chamas. Ao passarem diante de um café muito iluminado. nem corrente. — Que foi? — perguntou Alcino a um homem que falava e gesticulava animadamente. — Voltemos depressa. Alcino viu. desastrado. se estás inocente. Polícia. façamos de conta que queremos passar para o outro lado. Afirmava que o relógio e a corrente lhe tinham sido dados pelo excelente Sr. e os dois ladrões os dois amáveis companheiros. Apressaram o passo e misturaram-se com a multidão. Mas no mesmo momento sentiu-se agarrado pela gola. meu rapaz: mau sinal! Tens de vir com o teu camarada que possui um belo relógio e uma bonita corrente. Alcino segurou-o com força. apressaram o passo. POLÍCIA — Oh! Foges diante dos polícias. Ora estas coisas dizem muito mal com o seu casaco de fazenda grosseira e os seus sapatos ferrados. ALCINO — Vamos ver. Georgey. não menos assustado. toda a gente corre para aquele lado. Alcino achou maneira de introduzir no bolso de Frederico a segunda corrente e o ouro e a prata que lhe restava. — Devagar. Georgey — Que se passa ali no local da feira? — perguntou Frederico. Quando já estavam um pouco afastados. não tenho nada comigo. vais conosco à presença do Sr.17 Os polícias e o Sr. o que o escoltava disse-lhe com mais brandura: — Pois bem. há de reconhecer-te e ele nos dirá que não roubaste nada. Georgey. que caminhava à frente. enfim. Não o compreendem e ele próprio não compreende melhor o que lhe perguntam. Alcino. . viu um polícia. no entanto. ao voltar-se. apanhado. inglês que declarou terem-lhe roubado todo o dinheiro. HOMEM — São dois velhacos que os polícias prenderam. — Escapemo-nos — disse ele a Frederico — é o Sr. que o original era o Sr. o que vamos saber daqui a bocado. — Parece que os polícias prenderam alguém. Soltou um grito quando. Frederico tremia convulsivamente. juro-lhe. meu menino. deve ali haver qualquer coisa curiosa. — Onze horas — disse ele. o relógio e a corrente. Georgey e os dois tratantes que provavelmente também roubaram o meu relógio. com descaramento. com terror. deixou escapar uma exclamação: — Os polícias! E começou a correr mais depressa. meu amigo. que fala atabalhoadamente não sei que língua. O Sr. Estamos quase a chegar. Conseguiram. não tens nada a temer da polícia. Estou inocente.

GEORGEY — Ser isto! Ser minha reloja! Mim conhecer. Mim não querer ouvir seu voz horrível: gatuna. ser pequena Bonard. mim proibir palavras a você. tratanta. (N. sir. — Como é bom. Alcino não tinha nada consigo de suspeito. Uma coroa baronet 22 .. que já havia recuperado o seu descaramento do costume. reconheceu-o. Georgey. Georgey. Quando saíram da cidade. Bonard e Master mortos por vergonha de Fridrico. não havia que duvidar. ser Alcino. Mim estar seguro. Georgey. Sr. GEORGEY — Mim dizer: segurar língua. 22 Baronet: Baronete. ALCINO — Mas.. Eram as suas. à presença do comissário da polícia que fora verificar o roubo. — Mim saber. velhaca! Dar já a mim todo roubamento. pobre Sra. Lançou um olhar às moedas de ouro que eram guinéus ingleses. asseguro-lhe. soltou um grito de angústia quando o polícia lhe tirou de uma algibeira do casaco uma corrente e algumas moedas de ouro e prata. viu também Alcino e exclamou: — O pequena Bonard! Oh! My goodness! O pobre do Sr. A exclamação de Frederico atraiu a atenção do Sr. ser uma prenda. Bonard por razão de Fridrico ser gatuna como você.. velhaca. SR. — Estás mais rico do que supunhas. ser escuro. Bonard e o marido ficariam desonrados com o roubo do filho! Decidiu-se rapidamente. Mim ter dado coisas a pequena Bonard e ter comprado corrente. Ele vir comigo. no. Olhe.. Ser dois grandes patifas ter roubado. SR. — ajuntou ele. ALCINO — Foi Frederico. ver letras G. Georgey. com efeito.. a Master Bonard. que havia afirmado não ter nada nos bolsos. Bonard. daqueles maus polícias! SR. mas Frederico. — Mim conhecer. deixe. meu rapaz — disse-lhe o polícia. O Sr. isto ser para dizer sir Midleway. a mim e ao Frederico. mim falar mentirosamente por causa Sra. dar no momento reloja. foram ter com ele e começaram a caminhar à sua frente em silêncio. Georgey ficou como que petrificado. por nos ter defendido. POLÍCIA — Queira. patifa. mim ter dado. ser meia-noite. mim levar eles. Eis como mim ter falado contrariamente ao verdade. Georgey a repetir a ordem. guinéus que você roubar a mim. voltou-se. POLÍCIA — E o outro rapaz? O relógio e a corrente que tem no bolso não pertencem ao senhor? SR. meu reloja não ser assim. dois rapazes. Mim ter dado. este. Georgey e mostraram-lhe o relógio e a carteira com que fugiam quando haviam sido presos. não obrigaram o Sr. GEORGEY — Segurar seu língua. não fui eu. Mim ter dado coisas a pequena Bonard. senhor. Ser muito bonito. Quando os polícias lhe levaram os dois amigos. mim conhecer. senhor. Bonard. examinando a corrente. Fridrico andar em meu frente! Os dois larápios. Georgey.. isto ser para dizer: George Georgey. mim dar tudo a ele. Que fazer?! A pobre Sra. Deixe. começou a querer desculpar-se perante o Sr.. ver coroa baronet. E você. SR. corrente. Good bye. saindo do meio da multidão. mim conhecer. Mim ter dó. Ah! Você ter vontade de roubar! Você julgar Georgey imbecil como você! Julgar mim desculpar você! Mim saber tudo.. Sr. No. do T. no..G. Era preciso salvar a honra dos Bonard. Georgey aproximou-se. ladrona. Olhe.) . a papá Alcino. GEORGEY — Mentirosa. mim saber Sra. malcriada. Levaram os dois ladrões à presença do Sr. GEORGEY — No. imensamente contentes por se verem livres daquilo com tanta facilidade. Vir Alcino. ordenou que os revistassem. Mim dizer tudo a Sra. Ter letras. vir ver se a corrente e o ouro que achámos na algibeira deste rapaz são seus. completamente certo. Alcino.Chegaram.

soluçando. Georgey. mas ele não me deixou intervir e obrigou-me a comprar o relógio e a corrente. celerada. depressamente uma luz. não diga nada ao meu pai. Eu não queria. também. Fridrico. Amanhã mim dizer. Ser demais. — Oh! Sr. entrou em casa. a corrente e todo o dinheiro que a polícia lhe havia restituído. Perdoe-me. Mim querer dizer aos dois pais e dizer. Só vim a saber isto quando os polícias me revistaram. Meteu o seu dinheiro no meu bolso quando estávamos no meio da multidão que se juntou em volta dos dois ladrões. mim querer ir cama. falar um palavra. Georgey empurrou os dois rapazes. Frederico não esperou a sua vez e entregou ele próprio. — Já estava quase e a feira endoideceu-o por completo. Carolina. Ele espancava-me. puxando-lhe as orelhas. e mim querer dizer. mas o inglês fê-lo calar. Carolina ouviu-o passear ainda durante muito tempo e falar alto. fechou a porta. que se debateu violentamente. Sr. Georgey — exclamou ele — não pense que fui eu que o roubei. SR. Georgey agarrou Alcino. tinha medo.E o Sr. Mim voltar para a minha. O Sr. deu duas voltas à chave e subiu para o seu quarto. horrível! Alcino quis implorar clemência e acusar Julião. Foi Alcino que fez tudo e que me levou a proceder mal. SR. . mas foi em breve dominado pelos murros do vigoroso inglês. O relógio e a corrente passaram num instante do bolso do Alcino para o do Sr Georgey. Ir para casa sua e você. GEORGEY — Ele fazer muito bem. — Está doido! — pensou ela. GEORGEY — Mim proibir a você.

ALCINO — Tenho uma para mim. Alcino. vê o armário: arrombaram-no. primeiramente não pôde distinguir coisa nenhuma. e depois aquele bom Sr. refletia no meio de se sair bem daquilo. mas para ti não. e viu. Georgey. afligiamo-nos nós. estavam ainda à minha espera? Isso me entristece bastante. levantou os olhos para a janela do Sr. com quem voltei. o descaramento dá-lhe sempre bons resultados. Alcino. ALCINO — Deixas-me ou não tranquilo com as tuas choradeiras? Vai para casa. mas. não tens nada a fazer aqui. Abriu a cancela. “Vou tentar”. infama! Alcino.” Entrou. Georgey. caiu-lhe um balde de água fria por cima da cabeça e ouviu uma voz que dizia: — Patifa. com grande susto. um cobarde. BONARD — Enquanto te divertias. Frederico chorava. dirigiu-se para a estrebaria. acordou em sobressalto. que ele julgava deitados havia muito tempo. Tudo isso fez com que eu chegasse tarde. a mãe pensou que era arrependimento por tê-los inquietado. . obrigou-me a comer um bom jantar num excelente café. cuja porta estava aberta. Maldito seja o dia em que te meti nos meus negócios! FREDERICO — E maldito seja o dia em que te dei ouvidos ou te ajudei nas tuas roubalheiras! Se não fosses tu. se o Sr. voltou-se para todos os lados e não viu nada. porque o Sr. Encontrava-se só. Frederico. luz na sala. que dormitava com os cotovelos apoiados na mesa. um instante depois.. Georgey: estava fechada e com o cortinado corrido. meus pobres pais. Georgey conta tudo aos nossos pais! Dá-me um bom conselho. Foi a tua estúpida expressão que atraiu a atenção dos polícias e que fez com que nos prendessem.18 A cólera de Bonard Frederico e Alcino continuavam em frente da porta do Sr. A Sra.. Bonard. Bonard soltou um grito de alegria. FREDERICO — Como? Vais abandonar-me. agora que estou tão receoso e aflito? ALCINO — Quero lá saber de ti! És um imbecil. O próprio Frederico tinha desaparecido. Não tinha medo de ninguém e os meus pais gostavam por certo de mim como outrora. tomou o partido de voltar para casa e de se deitar. Frederico corria com quanta velocidade podia para chegar à casa dos pais. estávamos ralados julgando-te só com esse mau rapaz que é o Alcino. No momento em que dizia estas palavras. atribuindo todas as culpas a Frederico. BONARD — Fomos roubados. Surpreendido e um pouco assustado. com os punhos cerrados e os olhos faiscantes de cólera. onde contava passar a noite. mudos e consternados. FREDERICO — Que vai ser de nós. FREDERICO — Como. Georgey tinha-nos trazido Julião perto das nove horas. BONARD — Sabes o que nos aconteceu enquanto te divertias? Frederico não respondeu. pensei que estivessem deitados há muito tempo e absolutamente tranquilos a meu respeito. eu podia ser feliz e alegre como Julião. Não havia maneira de evitar uma explicação. Não dizes nada? Olha. tu que me levaste a praticar o mal e que arranjas sempre boas desculpas. Frederico pareceu perturbar-se. nem mesmo se via luz. Se soubesse não tinha ido à última representação no teatro. pensou ele “fazer como Alcino. SRA. sufocado pela água. meu Deus. batiam as duas horas no campanário da aldeia.

saí. Por que saíste antes de regresso de tua mãe? Mas fala. Sr. seguiu a mãe e encontrou Julião que andava varrendo a sala e arrumando tudo. Amanhã explicar-te-ás. Por que havia de vir? FREDERICO — Por causa do roubo. anda! Pareces um ganso a arregalar os olhos. ficou tão trémulo como sua mulher. BONARD — Mas sentes-te doente? Estás pálido como um morto! São os resultados de te divertires demais e de te deitares tão tarde. já é tarde. BONARD — Tens de te levantar. O Sr. caíra de joelhos no meio da sala. no. Ontem à noite. ajudava-o o melhor que podia. GEORGEY — Onde estar Master Bonard? Mim ter a dizer um terrível história a ele e a pobre Sra. Como poderia tê-los visto? De que havia eu de ter medo? Onde está Julião? O Sr. não sabia. Julião tinha realmente suspeitas que não queria deixar transparecer. Bonard. BONARD — Não. eles roubar a mim e meter pequena quantia em colete sua. perto das oito horas. em lugar de metê-las na sua. Georgey. mim não ter posto nada. pensava. Frederico temia que Julião tivesse adivinhado alguma coisa. despertaram de novo todos os seus receios.. Ninguém falava. Seja como for. O Sr. SRA. por acaso. Georgey com isso? FREDERICO — Não sei nada disso. Vai-te embora. levantado havia muito. Bonard. julgando sempre ouvir o Sr. Vem comer a sopa. encontrei muitas moedas de ouro no bolso do meu casaco: não são minhas. Mim compreender. mais inquieto do que quando chegara. veste-te e vem comer a sopa. A Sra.. Foram os ratoneiros. Devem ser suas.. FREDERICO — O quê? Que é? Os ladrões? SRA. Master Bonard. Georgey contou o melhor que pôde o que lhe tinha acontecido desde que . Frederico. Bonard não podia crer no que ouvia. abominable. mim saber. SRA. BONARD — Mas que se importa o Sr. Frederico. toda ela tremia. Georgey. creio que o senhor se enganou na algibeira. a mãe entrou e sacudiu-o. Olharam-se com desconfiança. SRA. Vir depressamente. Georgey naturalmente obrigou-te a beber como ao pobre Julião. Frederico não ousara deixar o leito e fingia dormir. eu estava ao pé de si. Quem é o ladrão? Conhece-o? Viste-o? FREDERICO — Não vi nada. obrigado a ceder. meteu-as na minha. BONARD — Vai-te deitar. tu não sabes o que dizes. Oh! Estar ali. patifas Alcino e Fridrico. BONARD — Olha. Tremia. que acabava de entrar. mim não tocar em nada. Não previra que o pai apresentasse queixa do roubo cometido na herdade. Anda. Julião. para dizer: ser Juliana. FREDERICO — Não tenho fome. Chegou por fim a hora de se levantar. não podendo escapar-se. Julião ficara consternado. BONARD — Como sabes? Viste-os. batiam-lhe os dentes. ladrão de Georgey.. Frederico acabava de comer a sopa quando apareceu o Sr. Frederico fingiu acordar em sobressalto e saltou da cama. Julião correu para ele. pode fazer-te mal. GEORGEY — No. foi para o quarto. saber? Pois se eu nem cá estava! SRA. de nada. Georgey veio cá? SRA. então? FREDERICO — Não vi nada. SR. quando me despia. Alcino patifa ainda mais horrível. Ser indignas. — Ainda bem que veio. vem comer. Estás a impacientar-me com essa cara embrutecida. SR. Frederico. Frederico levantou-se.levaram o dinheiro do pobre Julião e dois perus dos melhores. Ao romper do dia apurou o ouvido. Posso. Deitou-se. Bonard foi tratar dos cavalos. A mamã bem sabe. Mim ter a dizer a você: sua Fridrico ser ladrão horrível. SRA. O teu pai tomou o pequeno-almoço e depois saiu para ir apresentar a queixa à cidade. Não deves ficar em jejum. Frederico não se fez rogado. Georgey. Não sei nada. BONARD — Que jeito esquisito o teu! De que tens medo? FREDERICO — De nada. Enfim. o apetite virá quando começares a comer. Não fui eu que os roubei. mas não pôde dormir.

quase desmaiada numa cadeira. mim tomar resolução nunca beber demais um só bottle vinho. Contou como Alcino devia ter introduzido as moedas no bolso de Julião para fazer crer que fora este que cometera o roubo. saber o que fazer rapaz seu. a atestar a inocência de Alcino. que não fazer mais uma roubalhice tão má. — Pobres pais! Mim ter dever de falar. Papá ter dado Alcino uma pancadaria tão terrível que a miserável ficar deitada no chão. o arrastou para o quarto ao lado. BONARD (com desespero) — E eu que fui apresentar queixa! E agora vão chegar os polícias! E o meu nome fica desonrado! Miserável. Ser mim criminosa. Mas mim não poder fazer encobrimento de ontem. pobre Juliana não fazer nada mau! Ele não ter culpa de beber muito bebida de vinho. Vira-se ao mesmo tempo obrigado. Mim prometer. — Diz. Frederico tinha caído sem sentidos. arremessando-se para ele. Georgey. fora novamente roubado por dois rapazes que haviam sido presos e aos quais tinham encontrado o seu relógio. mim ter desgosto horrível. — Mim ter dito todas as coisas terríveis a papá Alcino. Por turkeys mim não haver dito nada e fazer descoberta que ser os dois pequenos ladrões. celerado! — Foi o Alcino! — respondeu Frederico com voz desfalecida. Mim ter feito juramento a meu coração. O Sr. pobre criatura. Bonard. — E o roubo do armário! — exclamou de repente Bonard. Frederico. Falou com emoção da dolorosa surpresa que sentira ao ver Frederico conduzido por polícias em companhia de Alcino. Mas mim dizer a vocês. para fazer crer que haviam sido ladrões. és indigno de viver! Não te posso ver. arrependida. Contou a generosa resolução que tomara de salvar a honra dos seus amigos Bonard. fazer embriagado pobre pequena. do qual a polícia procurava o proprietário e que era o que Alcino e Frederico haviam comprado pouco antes. e mim ter comprado todos turkeys para impedimento de roubar eles. Master Bonard. o estreitou nos seus braços vigorosos e. GEORGEY — Não ter medo. O inglês tinha aferrolhado bem a porta do quarto com medo de que Bonard lhe fugisse. Mim dar exemplo mau a pequena. louco de espanto e de dor. Georgey olhava-os com dó. Disse como achara o bolso vazio ao regressar a casa. Julião chorava baixinho. Ser muito imenso vil. não ficar desonrado. não quero ficar desonrado por tua causa! E a tua pobre mãe! Apontada a dedo! Mãe de um ladrão! Ladrão! O meu filho ladrão! E Bonard. a sua carteira e um outro relógio. que eram precisamente os seus. como voltara à cidade para apresentar queixa. SR. visto que os dois rapazes tinham sido presos quando andavam juntos. Mim crer Fridrico menos terrível. mim jurar. Julião amparava a Sra. e quando vira que Frederico tinha no bolso uma corrente de ouro e guinéus. miserável. confessa. Bonard deitara a cabeça nas mãos e gemia. mim assegurar. quando o Sr. A Sra. explicou como declarara haver-lhes dado tudo e como depois desta declaração os levara consigo. ser mau demais. Um só garrafa. fala. aterrado. deixara-se cair e não ousava mexer-se. tu sabias! — Estava cá — respondeu Frederico no mesmo tom. BONARD — E tu viste. Mim crer que Fridrico estar desgostada. mais branco que a cal. agarrou numa pesada tenaz e levantando o braço.encontrara Alcino e Frederico. Mim crer eles nunca mais roubar turkeys. Ele haver escutado abominável Alcino. precipitando-se sobre Frederico e agarrando-o pelos cabelos. Bonard e você. Mim ter vergonha horrível. Bonard soluçava. para pobre Sra. você. apesar da sua resistência. como enquanto procurava Alcino e Frederico. ia talvez descarregar um golpe mortal. BONARD — Por que o arrombaste em lugar de abrí-lo? FREDERICO — Foi o Alcino. mim . embora com desgosto.

abraçou-lhe os joelhos e dirigiu-lhe os mais tocantes agradecimentos. mim dizer como ontem: ser mim. — Master Bonard não ficar — disse o Sr. papá como Deus e você perdoar. ridícula. ser mau. Ninguém o acreditava. do T. que eu não o veja mais. lançou-se de joelhos aos pés do generoso inglês e. Master Bonard. GEORGEY — No. SR. Bonard. SR. o meu salvador! SR. não ser bom. Entre depressamente. — Fridrico ter grande assustamento. Fridrico muito desolada. Bonard. Julião tratava da Sra. minha pobre mulher. Eles ter razão. o Sr. Georgey. Bonard dirigiu-se para ela. imenso teimosa. Bonard. — E eu que me havia esquecido dele. O pobre do Sr. porque mim esquecer levar coisas em meu bolso. O Sr. cheio de reconhecimento. Georgey querer vestimenta bonita de Juliana para a feira. Bonard compreendeu bem a generosa resolução do inglês. Georgey falava. Eu não quero que julguem o senhor um ladrão. 23 Pocket: Bolso. Ao encontrar o pai. Mim saber. Abriu enfim os olhos e fitou com um ar assustado as pessoas que o rodeavam. isto. um bandido: Além de que ninguém acreditava nisso. vão fazer um inquérito. Ver. Ah! Sr. Fridrico muito arrependida. Georgey procurava em vão pôr fim a uma cena que o enchia de embaraço. Georgey abriu a porta e impeliu para a sala Bonard que hesitava ainda. uma pessoa rica. Mim dizer: mim. my dear! Ser demasiado para mim. Frederico continuava estendido no chão sem movimento. com o desgosto! — exclamou a Sra.) . Frederico foi levantado. Quando terminou a sua explicação. Georgey. lançou-se por sua vez aos pés dele. Mim saber que mim fazer tolices muitas e outros rir de mim. É impossível. Quando a Sra. soltou um grito de terror. O nosso salvador. mas não dever expulsar ele. o generoso Sr. só o conseguiu quando lhes mostrou o corpo do filho estendido no chão. — Tranquiliza-te. consola-te. não encontrar chave. Mim partir fechação e pegar dinheiro para divertir Julianinha e outros. juntando as mãos. Mim. pobre homem solitário. Deus perdoar sempre. Georgey. Mim voltar de feira tarde demais ontem. Georgey permitiu-lhe voltar à sala para consolar e tranquilizar a Sra. BONARD — É impossível. você bater mesmo um pouco. mim saber. o rosto de Bonard ia-se iluminando. Mim vir no dia de hoje para contar. ser maldade. Com a ajuda de Julião e do Sr. Fridrico sempre rapaz sua. O senhor. arrombar um móvel para roubar um pobre homem como eu. Georgey. ser mau. rico. GEORGEY — Acreditar muito perfeitamente. Mim. (N. arranjou tudo. despido. Quando Bonard se acalmou completamente. não há de haver desonra nem inquérito. Você. exclamou: — Oh! O senhor salva-me mais do que a vida! Salva a honra de todos nós! Salva o meu miserável filho! Evitou que eu cometesse um crime. pedir desculpa e fazer pagamento para indenização e mim fazer pagamento com loiras do pocket 23 de Julianinha. como o meu anjo bom. debateu-se durante uns instantes e perdeu de novo os sentidos. — Quanto a Frederico — disse Bonard — façam com que se vá embora. Georgey. GEORGEY — No. que não deixara de soluçar. abençoado seja! Hei de abençoá-lo toda a vida.arranjar tudo. no. mim querer. E explicou-lhe o plano do Sr. Georgey. deitado e friccionado com vinagre. desejar vestimentas. precipitando-se sobre o corpo inanimado do filho. impossível. Mim pagar bom jantar a polícias e tudo acabar bem. Georgey. Você ralhar a ele para fazer dever sua. Mim. À medida que o Sr. Estar muito bem. Georgey. o pobre Bonard.

Bonard ficar só com Julianinha.Sra. .

mas digam-lhe.. esgotado.. Pobre pequena ficar tão chocada. chegaram os polícias. Georgey.. Georgey foi ao seu encontro e apertou-lhes a mão à inglesa. encarregados do inquérito sobre o roubo praticado na véspera em casa de Bonard. ser esta! E mostrou-se a si próprio com o dedo. para roubá-lo.. E explicou-lhe o suposto roubo. socorro! Ele quer levar-me. Ser perigoso. Venha ver..... Mim querer fazer explicação só. E o Sr. visto que paga tão generosamente o estrago. Julião colocara as moedas de ouro em cima da mesa e ainda lá estavam. rapaz que você apanhar ontem na cidade ser filho de Master Bonard. mente.. como falava em expulsá-lo e sovar. mim mesmo.. Físico vir... — Vocês ver ladrão?. Bonard. Bonard. SR. Enquanto executava esta ordem. Julião obedeceu imediatamente.. Esperava os polícias. porque ser mesmo assim. Não o deixem. Não fui eu! — Venham embora.. Srs.. ele pensar sempre ser ladrão. você julgar ser ela um ladrão que estar em desesperamento.. sobre o travesseiro. Georgey levou consigo Bonard. A Sra. creio que o Sr. patenteando a Bonard todo o seu interesse e pesar. doente e imbecil. saber notícias de Frederico e levá-las a Bonard. — Mim querer dizer. Georgey. Bonard não sabia que fazer. e levame. Vejam. tão depressa se acusava de ter morto o filho. vejam como deita vinho branco e tinto ao Sr. Esperem! Esperem! Não foi ele.... mente... tão desolada. no momento em que Frederico gritava: — Não fui eu! Não fui eu!. é tão mau. Georgey. Sra.. impassível. Julgava sempre estar vendo Alcino ao pé do seu leito. — E apontou para o armário. Juro-lhes que foi o Alcino!. suplicava que o expulsassem.. ele disseme. — Olhe — disse o Sr. curar todos coisas... socorro! Vai chamar os polícias! Quer mandar prender Julião. Polícias. mas parecia não compreender nada e não saber o que dizia... Não acreditem no que ele diz. E Frederico caía. deixava-o falar.. olhe pobre Sra.. Vêem como ele o rouba? Reparem como mete moedas de ouro no bolso de Julião. SR. mim dizer a você outra coisa. Juro-lhes que foi o Alcino.. Não deve prender tão depressa. Ser bom físico. O Sr.. não fui eu! Deixe-me! Ai. Julgam que o Julião roubou. Georgey abriu a porta e mandou entrar os polícias. — Ele vai fazer-me mal. Meu Deus... mas recomeçava a gritar. Sr.. pelas suas palavras incoerentes... — Vocês ver roubo e arrombação!. Bonard não reclama mais nada. depressa — disse o Sr.. Pobre Julião! Algemam-no levam-no para a prisão. OFICIAL DA POLÍCIA — Como assim?! O senhor.. e a indenização que acabava de lhe oferecer. tenho medo. e no meu. Parecia por vezes adormecer. puxando-lhes pelos fatos. como prometera e Bonard. bom para fazer matar rapaz. eu vi-o. tudo o que se havia passado entre ele e Alcino. Georgey pôs-se a rir da expressão estupefata dos polícias.. Ia a todo o momento ao quarto do lado.. Aquele havia recuperado os sentidos. OFICIAL DA POLÍCIA — Não há mais nada a dizer. O Sr. Quer embriagá-lo. Ser isto!. ver sempre aparição súbito de vocês.19 A doença O Sr. foi o Alcino!. O Sr. o ladrão? É impossível.... Polícia. — Vocês fazer assustamento a ele. senhor. GEORGEY — Ser muito possível.. GEORGEY — Master Polícia. O Sr. . que eu morro. rindo.. O Sr. a debater-se e a dar a conhecer. Georgey — mim dar muito dinheiro. Não ter medo.. mas teve dificuldade em acalmá-lo... Socorro! venham todos. Os polícias retiraram-se. Georgey disse a Julião para ir chamar um médico. meu Deus! Que desgraça eu ter dado ouvidos ao Alcino.

Georgey acompanhou-os. — Pegar para comer e beber — disse ele, estendendo-lhes uma moeda de ouro. OFICIAL DA POLÍCIA — Peço perdão, senhor, mas não podemos aceitar. É um insulto oferecer-nos dinheiro por termos cumprido o nosso dever. Muito boas tardes, senhor. SR. GEORGEY — Mim estar muito, imenso desgostosa de ofender vocês, corajosa soldado — respondeu o Sr. Georgey. — Mim não querer isso, verdade verdadeiro, mim não querer. OFICIAL DA POLÍCIA — Assim o creio. O senhor é estrangeiro, não conhece os usos e os costumes franceses. SR. GEORGEY — Mim conhecer bem caráter francês; ser generoso, ser grande, ser muito amável e outras coisas. Mim conhecer, mim saber. Boas tardes, polícia francesa. Os polícias foram-se embora rindo. O Sr. Georgey voltou para casa. — Mim ficar para escutar físico. Mim querer saber que coisas ser preciso para Fridrico. Sentou-se e ficou à espera. Julião não tardou a voltar acompanhado pelo médico. O Sr. Georgey introduziu este imediatamente no quarto de Frederico. O Dr. Boneuil tomou o pulso ao doente, examinou -lhe os olhos injetados de sangue e prestou atenção à sua maneira de falar breve e sacudida. — Deve ter sofrido uma forte comoção, um grande susto. Há quanto tempo está neste estado? SRA. BONARD — Há três ou quatro horas, Sr. Doutor. O interrogatório e o exame continuaram ainda durante algum tempo. O resultado da consulta foi um tratamento imediato e ainda outras prescrições que a Sra. Bonard observou escrupulosamente. O Sr. Georgey retirou-se com o Dr. Boneuil e pelo caminho interrogou-o; o médico compreendia mal as suas perguntas, às quais dava respostas absolutamente incompreensíveis para Georgey. A conversa continuou assim até a porta deste último, que cumprimentou e entrou. CAROLINA — Então o senhor não traz o Julião? SR. GEORGEY — No, my dear, Sra. Bonard ter necessidade dele. CAROLINA — E quando virá? SR. GEORGEY — Mim não saber. Físico saber; mim não compreender palavras sem compreensão deste Sr. Boneuil. Ele falar, falar com um magpie. CAROLINA — Que é isso, senhor? Um magpie? SR. GEORGEY — Você não perceber? Ser espantosa! Você saber nada. Magpie ser grande pássaro que ter penas brancos e pretos, que falar muito sempre. Dizer-se das mulheres: ela falar como uma magpie. CAROLINA — Oh! O senhor quer dizer gralha! SR. GEORGEY — Muito justamente, uma gralha. Ser isso, muito justamente; como você, Carolina. O Sr. Georgey, fatigado com a véspera e a manhã desse dia, quis ficar em casa durante algum tempo a trabalhar nos seus planos e modelos de máquinas. Ia somente todos os dias de manhã e à tarde saber notícias de Frederico. Nunca deixava de perguntar a Julião quando iria. — Assim que Frederico estiver curado e a Sra. Bonard já não precisar de mim — respondia sempre Julião. A doença foi longa e a convalescença mais longa ainda. A presença de Bonard fazia com que Frederico recaísse num estado nervoso que obrigou o médico a proibir o pai de lhe aparecer, até ao restabelecimento de seu filho. Um dia, dois meses depois da feira, Julião entrou precipitadamente na sala onde estava a Sra. Bonard. — Patroa, sabe a novidade? O Alcino alistou-se no exército. Foi o pai que o obrigou;

deu-lhe a escolher entre ser soldado ou ser expulso e ficar sem dinheiro e sem abrigo. Antes quis partir como soldado. O olhar de Frederico animou-se. — Fez bem, eu gostava de fazer o mesmo. SRA. BONARD — Tu! Pensas nisso, meu pobre filho? É uma profissão horrível, a de soldado. FREDERICO — Não é tão má como isso. Vêem-se terras, arranjam-se bons camaradas. SRA. BONARD — Deixa-te de ideias. Não quero que sejas soldado, percebes? Teu pai com certeza também não quer. Para morreres em algum combate! FREDERICO — O meu pai! Quer lá saber disso? Que lhe importa que eu viva ou morra? Se não fosse o Sr. Georgey, já eu não existia há muito tempo. SRA. BONARD — Não fales assim, Frederico. Não esqueças o que se passou. Frederico calou-se, baixou a cabeça, ficando triste e silencioso. Desde a sua doença, nunca mais ninguém o tinha visto sorrir; poucas vezes lhe ouviam a voz; comia pouco e dormia mal e trabalhava sem entusiasmo. Nunca falava com o pai nem do pai. Evitava encontrar-se com ele e mesmo olhá-lo. Parecia que a presença de Bonard lhe causava uma sensação desagradável e até dolorosa.

20 O alistamento
Julião podia enfim cumprir o seu contrato com o Sr. Georgey. Três meses depois da famosa feira que havia sido testemunha de tão tristes acontecimentos, Frederico pôde retomar o trabalho e Julião tomou o seu lugar em casa do Sr. Georgey. O seu novo patrão mandou-o para a escola; Julião tinha boa memória, facilidade em aprender, inteligência e boa vontade; aprendeu em menos de um ano a ler, a escrever, a fazer contas e os primeiros elementos de todas as coisas que o Sr. Georgey lhe quis mandar ensinar. Toda a gente andava contente com ele; estava sempre pronto a ajudar em tudo, era ativo, condescendente e atencioso, servia o Sr. Georgey com um zelo e uma fidelidade que eram entusiasticamente apreciados pelo bom inglês. Este quisera muitas vezes recompensá-lo generosamente pelos seus serviços; Julião nunca aceitara nada; e quando o patrão insistia, a sua resposta era sempre a mesma: — Se deseja absolutamente fazer bem, Sr. Georgey, dê à Sra. Bonard aquilo que quer que eu aceite e que estou tão longe de merecer. — Very well, my dear — respondia o Sr. Georgey. Mim levar à Sra. Bonard. E entregava, com efeito, à Sra. Bonard, quantias das quais mais tarde saberemos a importância, porque o Sr. Georgey a tinha proibido de falar nisso, sobretudo a Julião, que ele muito estimava e a quem queria pôr ao abrigo da pobreza. — Ele recusar e mim não querer abandonar ele sem fortuna. Mim querer Juliana comer turkeys. Um dia encontrou a Sra. Bonard sozinha, chorando junto da lareira. SR. GEORGEY — Que ter você, pobre Sra. Bonard? Por que fazer você choramingações? SRA. BONARD — Ah! Sr. Georgey, como estou desgostosa! Já não consigo conter-me. Tenho de chorar para aliviar o coração. SR. GEORGEY — Por que coisa estar o coração de você tão pesaroso? SRA. BONARD — Porque meu marido e Frederico não podem suportar-se um ao outro, desde aquele dia terrível em que o senhor evitou uma desgraça tão grande. O pai não pode ver o filho sem que se sinta possuído de uma cólera que cada vez se torna mais violenta. E o filho tomou aversão ao pai e não consegue vencer este mau sentimento. Estou receando continuamente qualquer cena terrível. Esta manhã houve entre eles um princípio de discussão que, só com dificuldade, consegui que não fosse mais longe. Frederico queria alistar-se no exército. O pai dizia-lhe que um ladrão não é digno de ser militar. Disseram um ao outro coisas horríveis. Felizmente consegui separá-los, levando comigo Frederico. Mas, se se passasse uma coisa parecida na minha ausência, calcule o que podia acontecer. O inglês não respondeu: refletia e deixava-a chorar... De repente, levantou-se e foi pôrse em frente dela, com os braços cruzados. Sra. Bonard — disse ele, numa voz solene — ter você crença... quer dizer, confiança em mim? SRA. BONARD — Oh! Pode estar certo de que tenho em si toda a confiança. SR. GEORGEY — Mil obrigados, Sra. Bonard. Estão vocês todos salvos e satisfeitos. SRA. BONARD — Como? Que quer fazer? Como há de o senhor impedir o pai de corar por causa do filho, e o filho de ter rancor ao pai? SR. GEORGEY — Mim poder muito bem. Você ver bem depressa.

Boa tarde. Georgey. Onde estar Fridrico? SRA. ser preciso tornar paraíso. SR. E mim arranjar tudo muito bem.. Pelo caminho. meu pai ralha com ela. BONARD — Está a bater o trigo na granja. GEORGEY — Ser mau. Sr. patrão. patife. Você chamar Fridrico. A minha pobre mãe está sempre a chorar. Faz-me ameaças terríveis para me impedir de tornar a cair noutra. GEORGEY — Não deve ficar lá. SR. Estar muito bem. o Sr. Você querer? Dizer se querer. muito obrigado — exclamou Frederico.SRA. SR. seguiu-o maquinalmente sem compreender porque se ia embora. Mim conhecer coronel valorosa e fazer a ele recomendação para você. BONARD — Mas se torna a haver alguma discussão entre eles enquanto isso não acontece? SR. A casa é um inferno. sim. muito bom. Papá ficar gloriosa. radiante de alegria. mas o meu pai não quer e recusa certamente a sua autorização. Georgey saiu. Georgey. Mim não querer. Georgey queria fazer dele. SR. GEORGEY — Mim não pedir emprestada. apressou-se a ir buscar Frederico e levou-o para a sala. vir depressa atrás de mim. Sr. A Sra. Quando coronel dizer yes. Bonard. amanhã eu dizer toda meu intenção. SR. Georgey. — Obrigado.. mamã louca de felicidades e você contente e honrosa. Georgey. Sr. GEORGEY — Não haver nada. celerado. depressa. Bonard. o que acabava de saber pela Sra. mim enviar você com loiras para ser lá feliz. esta ladrona. Você ter vontade. Sr. Sr. CAROLINA — Mas. sou ali demasiadamente infeliz. Alcina ter partido. SR. GEORGEY — Mim dizer você ter dezoito anos. Fridrico vir para cá. Você. Você ter dezoito anos. Bonard. Bonard. Mim querer comprada. Sr. uma inferna. Não posso continuar a viver em casa do meu pai. GEORGEY — Carolina. muito surpreendido. diz ele. arranjar alojamento ao pé de mim. Você vir a ser bravo militar. boa e valente militar francesa. Georgey explicou a Frederico. Ir depressa comprar cama de patifa Alcina. Sr. A Sra. GEORGEY — Estar muito bem. Mim querer todos feliz. Fridrico. SR. Bonard não ser feliz. conforme pôde. GEORGEY — Muito bom. não menos admirada. e Frederico. my dear. mim escrever carta para fazer boa alistamentação. quero com certeza. Deve tornar-se soldado. Georgey observava com satisfação Frederico que tinha os olhos cheios de lágrimas de reconhecimento. Quer ou não? FREDERICO — Quero. Bonard não ser feliz. O Sr. SR.. poder. Você arranjar deitação. Quero. você ganhar cruz ou medalha e voltar imenso gloriosa. Georgey. deixou-o partir sem saber o que o Sr. Não me dirige a palavra senão para me chamar ladrão.. — Há um ano levo uma vida absolutamente miserável e é ao senhor que ficarei devendo a felicidade. que tinha realmente confiança no Sr. FREDERICO — Isso era o que eu mais desejava. GEORGEY — Procure na povoação. Georgey entrou em sua casa com Frederico. não há aqui ninguém que tenha uma cama para emprestar. CAROLINA — Mas. e mim querer. Você vir comigo. mas muito contente por ele deixar a casa e absolutamente certa de que era para seu bem. Você ser ainda bom criatura. O Sr. E o Sr. não tenho cama nem quarto para ele. mesmo nada. Mim dizer você poder ir sem autorização. Ficar uma semana. SR. Mim querer ver ele rapidamente. GEORGEY — Fridrico: haver dois anos você não ser feliz. Fridrico. . Você ficar com Julianinha. você não ver mais esta patifa.

Deve ficar aborrecido por eu voltar lá para casa. BOUREL — Para quem é que você quer a cama de Alcino? CAROLINA — Para uma pessoa que tem pressa. os dentes cerrados. Não ter necessidade para mim. Julião. Julião soube então a discussão que se passara de manhã entre o Sr. Sr. Pagar o que pedir patifa de pai. era por poucos dias. Carolina ocupava-se do arranjo da casa. Quando Julianinha voltar. Julião mostrou-lhe os seus cadernos escolares. e não ousando interrogá-lo a este respeito. Bonard. Você. exatamente feito. mim deixar à Sra. patrão? Não gosta muito de mim. Calculamento perfeitamente. fazer progressão de fabricações na França. gostar de você muito. Georgey. você encher mim de cólera. JULIÃO — Mas sentes realmente vontade de te alistar. Georgey. mas tenho então que deixá-lo? O patrão de quem tanto gosto e a quem tanto devo? SR. JULIÃO — Não sei como agradecer-lhe. GEORGEY — Ah! Julianinha. Georgey para felicidade de todos. você não ser encargo. Mim ser rica. GEORGEY — Yes. já a previno. apesar dele nunca ter batido nem injuriado ninguém. Frederico? FREDERICO — É a única maneira que tenho de fugir ao desprezo e à cólera de meu . fabricações como mim quer. mim estar cheio de exaltamento. Georgey. Vai com todo velocidade. my dear. Mas o Frederico. Bonard e o seu filho. Mim querer ver seus escriturações. Eles tão sós. Está lá em baixo com Carolina.CAROLINA — Quanto quer o senhor dar por ela? SR. que foram tão bons para mim. os movimentos bruscos e os murros que dava nos móveis. imensa. desceu à sala de jantar onde encontrou Frederico sozinho. e ele declarou que ficaria ali muito bem. SR. Georgey. encontrou-o a escrever uma carta. CAROLINA — Por isso mesmo calculo que não me peça muito dinheiro. Carolina mandou colocar a cama de Frederico num compartimento escuro ao pé da cozinha. toda a sua bondade para comigo! Eu gostava tanto de nunca mais deixá-lo. Bonard. surpreendido por saber Frederico em casa do Sr. Mim fazer por divertir-me. Embaixo arranjaram-se o melhor que puderam. compreendeu os terrores da Sra. Sua escrevinhação ser muito bonita. muito rica. os gritos estridentes. mas riqueza. Bonard. GEORGEY — Fridrico deixar casa seu. Mim ter acabado aqui estabelecimento de fábrica. mim querer saber seus lições. Desenho estar muito regular. Bonard e o meio de fazê-los cessar. assustavam-na muito os seus olhos faiscantes. JULIÃO — É que já há mais de um ano que ando a aprender. GEORGEY — E mim querer você aprender ainda um ano e então poder voltar para Sra. tão tristes. BOUREL — Olhe que não vale grande coisa. Você feliz em casa de Sra. GEORGEY — Carolina. ficar com instrução bastante. quando Julião subiu aos aposentos do Sr. Sabia que qualquer contrariedade o encolerizava terrivelmente e. um ano mais. SR. Sr. Carolina comprou a cama. Georgey. vocês dizer a ele que subir. Após larga discussão sobre o preço. Você ficar vermelha? Estar contente? JULIÃO — Estou muito contente. Uma hora depois. Bonard dinheiro para viver e para seu acomodamento. GEORGEY — Estar muito perfeitamente bem. Georgey examinou-os. O negócio foi discutido e não se concluiu rapidamente. Georgey. SR. encontrado pelo Sr. Isso ser melhor que fazer desenhações. SR. Ele fazer-se soldado francês. vá pedir explicação a ele. mim deixar a você dinheiro. Gostava também muito de voltar para casa dos Srs. não é nova nem coisa que se pareça. Carolina correu a executar a ordem do Sr. pequena. Fridrico também. o patrão sabe. Sr. O Sr. ver terras. os punhos crispados. SR. GEORGEY — Ir lá para baixo.

gostam imensamente de ti e têm muita razão. Frederico sentiu o coração aliviado depois desta conversa. deixou de estar triste e os seus bons sentimentos tornaram-se mais firmes. mas estou bastante arrependido. como fez minha mãe. meu irmão! Eu gosto de ti agora. sou teu amigo. que meu pai poderia já ter-se apiedado de mim e perdoar-me. Acha que faço bem em me alistar no exército. Julião. Frederico. procurou consolar-me. JULIÃO — Acho também que a tua maneira de pensar é boa. Georgey durante o jantar e esforçaram-se por lhe testemunhar o seu reconhecimento por mil pequenas atenções que ele recebia dando mostras de prazer e afeto. sobretudo? FREDERICO — Ficam ainda contigo. Ah! Se eu tivesse feito como tu! Se tivesse rejeitado os conselhos daquele malvado do Alcino! Se te tivesse dado ouvidos! Frederico estendeu a mão a Julião.pai! Se soubesses como sou infeliz há quase dois anos. o teu irmão. Quando eu for soldado ninguém mais pensará em mim. mas que será dos teus pobres pais. da tua mãe. Julião! Sê meu amigo. que a apertou nas suas. Tenho ido algumas vezes visitar o nosso bom abade. Falaram ainda durante muito tempo. FREDERICO — Meu querido Julião! Tive ciúmes de ti por seres tão bom! Detestei-te porque não quiseste proceder como eu! Perdoa-me. . Sinto de tal modo esse desgosto. JULIÃO — Sim. Julião lançou-se nos braços de Frederico. e se tiver a felicidade de ser morto em combate. Serviram os dois o Sr. talvez então me perdoem. é verdade. desde que recomecei a trabalhar com ele! Cometi grandes erros. Hei de guardar-te o lugar para quando voltares.

FREDERICO — É o que vou tentar. Georgey. Regimento de Caçadores de África SR. mandá-lo-ei para a Argélia. outra ao Sr. Abade. Georgey é bom! — disse Frederico com ar pensativo. Meu pai: Vou partir para me alistar no exército. Georgey uma carta remetida de Lião. não quero ir sem o seu perdão. depois da sua partida. Frederico pegou na carta e leu: Meu caro Georgey: Mande-me imediatamente o rapaz de que me fala e pelo qual tanto se interessa. limito-me a pedir-lhe o seu perdão pelo passado e a sua bênção para o futuro. Fridrico. Espero que não esqueça a visita que me prometeu. mas. Sentir-me-ei infeliz enquanto não possuir de novo a estima e a afeição de meu pai. Vais partir para voltar completamente mudado. SR. Georgey me assegurou que aos dezoito anos não é necessária a autorização do pai. Chegou enfim. meu bom Julião. Frederico. — Para que eu não ficasse só. Como o Sr. E o Sr. . Julião foi buscar papel. Ele leu-a e chamou Frederico. Afirmo-lhe que daqui em diante o seu nome será dignamente usado pelo seu infortunado filho. mil lembranças reconhecidas pelos serviços que me prestou e que não esquecerei nunca. Georgey voltasse. de tudo esquecer.Coronel do 102°. Tem de passar seis meses no depósito colonial. Georgey pegou no chapéu e saiu. Você ficar com Julianinha para consolação. Julião. JULIÃO — Não penses mais no passado. meu amigo. por isso deixa os teus antigos pecados: pensa só no futuro. sabes que um soldado deve ser tão corajoso de coração e de espírito como de ação. Encontrará aqui com que satisfazer o gosto pelas fábricas de toda a espécie. para lhe expressar uma última vez o arrependimento dos seus erros e a gratidão que lhe dedicava. caneta e tinta e pôs-se a fazer um trabalho escolar enquanto Frederico escrevia. GEORGEY — Amanhã ser preciso partir. foi ele próprio falar à mãe. — Como o Sr. não se preocupe com o seu futuro. Regimento de Caçadores de África Escreveu uma segunda carta ao Sr.. vai dizer à minha pobre mãe que venha abraçar-me esta tarde e amanhã outra vez. tenho de escrever a meu pai.21 As despedidas Cinco ou seis dias depois Carolina levou ao Sr. — Olhe — disse ele — ser resposta do coronel. aproximava-se a hora do jantar. Adeus. Passado este tempo. Traz-me as coisas necessárias para escrever umas cartas. Olharei por ele. antes de tudo deixar. à Sra.. FREDERICO — Amanhã! Já! Julião. GEORGEY — Ser mim que dizer a Sra. Frederico Soldado do 102°. Bonard. Bonard. e escreveu enfim uma carta que Julião devia entregar. E eu que o enganava e consentia que fosse roubado por aquele patife do Alcino!. Bertrand Duguesclin . Passou ainda algum tempo antes que o Sr.

Frederico e Julião sentiam-se felizes por vê-la tão resignada. SRA. demasiado afligida. BONARD — Espera talvez que Frederico lhe peça. cruzar dois braços e dizer: Sra. Mim ter dito docemente. Fridrico ir para a guerra. Sra. Mim dizer terceira vez: “Sra. não murmurando de bom Deus. Ela não chorar e dizer: — E mais quê? — Nada — dizer eu. suplicar a mim. Bonard. Bonard? Ele não vir? SRA.” Ela responder nada. mim morrer de impaciência! — Fridrico — dizer eu — estar muito. mas o Sr. Georgey se tinham sentido irritados com ele. mas não ainda. então contente perfeitamente feliz. — Que ser então? Diga. Georgey se lhe permitia que jantasse em sua casa para ficar tanto tempo quanto possível com Frederico. Mim dizer assim: “Sra. . ela julgar Fridrico morta. Bonard. SR. não é verdade? Ei-la. Ir muito longe. grande pena de ver choramingas terríveis de pobre Sra. chorar. mas dever partir amanhã para soldado. Bonard vir depois do jantar dos animales. Bonard estava tão contente por se sentir tranquila acerca da sorte do filho depois da terrível inquietação que lhe causara a engenhosa ideia do Sr. FREDERICO — Foi o que eu pensei. BONARD — Não. — No.. Sra. você excelente criatura. e mim julgar que ele fazer sempre bem. GEORGEY — Mim estar pasmada. que ter maldade. o vinho era bom. dar-lhe abraços. não morrer. Bonard rogar. Então mim ter a dizer uma coisa cruel. então? — No. Bonard durante uma hora. para não tornar ela demasiado surpreendida. bênçãos. impossível. logo que ele volte. ela muito furiosa. puseram-se a rir no fim. Carolina havia melhorado a refeição. — Estar muito doente. E depois ela dizer a mim que eu ser cruel. mim fazer muito bem. e não tiveram coragem de o censurar por ter feito sofrer inutilmente a Sra. que ao princípio da narração do Sr. meu filho. adivinhar o quê?” — Morreu! — responder ela. muito pasmada. no. Sra. consolações.” Sra. querer você ir ver a ele. A Sra. porque Bonard tinha saído para longe a fazer uma venda de feno que devia terminar com um jantar em casa do comprador. Bonard perguntou ao Sr. Master Bonard fazer mal. mim pôr-se em pé em frente de Sra. fale. haver muitas balas. mim querer. esta noite e amanhã outra vez. entrego-lha com certeza. A Sra. e escrevi uma carta que há de levar-lhe logo. Mim dizer: — Que ter você? Mim fazer de propósito. — Absolutamente nada. Bonard. O jantar foi bastante animado. GEORGEY — E seu marido. mas mim não querer.SR. ser horrível! Mim dizer nada a ela. Frederico agradeceu-lhe mesmo e esperou com impaciência a chegada de sua mãe. mim dever dizer a você que Fridrico. imenso excelente. Ver vocês dois. Bonard. mim esperar uma hora inteira de sessenta minutos. você muito meiga. Sr. Mim calcular uma hora! E ser uma hora. Bonard. não tive coragem de lhe falar nisso. SR. Bonard. Mim olhar e ver ela chorar tão enormemente tanto que não poder dizer palavra. no — dizer eu — não morrer. Bonard. BONARD — Fizeste bem. Esta foi mais cedo do que ele esperava. doente não — dizer eu. SRA. mamã. Mim ter desgostamento. Quando o relógio tocar mim levantar-se. Georgey que sentiu mais alegria do que tristeza. GEORGEY — Sra. Fridrico partir somente. seu rapaz. no. Frederico e Julião. ser preciso habituar-se você a pensamento cruel. Mas mim olhar relógio e dizer: “No. ser atormentamento terrível. dizer a ela coisa cruel. Georgey..

O Sr. Bonard à casa. fiel à sua promessa. bastante agitada para Frederico e Julião. comeu toda a gente reunida. mas é uma coisa mais forte que a sua vontade. esteve para vir comigo. muito triste. deixando nela um embrulhinho de moedas de ouro. Julião perguntou a Frederico se não queria dar uma volta pelos campos. Nesse dia. antes da sua partida. Encarregou-me de te dizer que te perdoa e te envia a bênção. Em seguida acompanharam a Sra. Georgey pelo caminho do costume. Georgey saiu enquanto ela se despedia de Frederico e lhe prometia uma última visita para o dia seguinte. Voltou então para casa. Disse que temia deixar-se arrebatar pela cólera. No outro dia. Vamos ter com o Sr. muito cedo. e prometendo que iria vê-lo durante a visita que iria fazer ao seu amigo coronel Duguesclin. no último momento resolveu ficar. O jovem agradeceu-lhe. Carolina levou-lhes o pequeno-almoço. Bonard. no momento em que ele subia para a carruagem. apertou-lhe a mão. — Não sei. pois era a última refeição a que Frederico assistia com sua mãe e Julião. A noite passou. antes de partir. O Sr. Georgey. bebeu só uma garrafa e não quis que os outros convivas bebessem mais do que uma. Encontraria por toda a parte recordações de Alcino e das más ações que me levou a cometer. SRA. Encontrou lá em baixo sua mãe. Georgey dispensou-o do serviço até à tarde. . BONARD (hesitante) — O pai agradece a tua carta. sente que procede mal. Quando acabaram de comer. mas. — E o meu pai? — perguntou ele. que acabava de chegar.Georgey. beijou-lha e saiu com os olhos cheios de lágrimas. Frederico foi apresentar as suas despedidas ao Sr. Frederico ficou consolado com estas últimas palavras e abraçou a mãe mais de dez vezes. Julião acompanhou o seu amigo até cidade e não o deixou senão na estação do caminho de ferro. As despedidas foram dolorosas. para consolar a pobre Sra. que lhe apertou a mão.

. e o coronel tinha a certeza de que ele seria dentro em breve promovido a cabo e depois a sargento. até. para nos contar no número dos seus amigos. sentia-se orgulhoso e não deixava passar uma única ocasião de falar a respeito do filho e dos elogios que o seu coronel lhe fazia. ficou encantado com esta descoberta. Tinha já tomado parte em dois ou três pequenos combates. fora citado elogiosamente duas vezes em ordem de serviço. de santo. não. Quando o Sr. que era péssima. Oito dias depois estavam reunidos e Frederico verificou. que sabia estar bem visto pelo coronel. Nenhuma palavra acerca do passado. escapa-se e eu é que sofro com isso. a glória do seu nome. Não. durante esse tempo? O acaso fizera com que ingressasse no mesmo regimento de Frederico. que Alcino fazia parte do regimento. para nos divertirmos. Georgey para a África. aproveitar-nos-emos do dinheiro que lhe envia o imbecil do inglês. Bonard enviou uma carta cheia de afeição e de incitamentos para Frederico. que não temos um real! Tenho de ensinar a lição aos amigos. os outros acabaram por mandá-lo passear. não sou tão estúpido a esse ponto. a esperança da sua velhice. etc. Conseguirei facilmente que caia na armadilha.. de bons exemplos. com terror. que calhou ser o da partida do Sr.22 Os maus camaradas Decorreu mais um ano sem que sobreviesse qualquer acontecimento importante. Que fora feito de Alcino. que lhe pedimos para nos dirigir. é fraco e uma vez que o tenha na mão. combinou-se que Julião voltaria para casa dos seus antigos patrões e que o Sr. o esquadrão de Alcino fora enviado para uma outra guarnição afastada. dia fatal. os tratantes!” Alcino foi com efeito procurar os camaradas. se preciso for. de bons soldados. o esquadrão de Frederico recebeu ordem de se juntar ao outro. dir-te-ei . O principal é sabermos como proceder. pensando que a excelente reputação de que ele gozava no regimento. numa palavra: “temo-lo na mão e havemos de conseguir que vá para diante. Mas um dia. não conseguem apanhá-lo. pobres diabos. somente. pelo contrário. Ele conhece muito bem o provérbio: “Diz-me com quem andas. De qualquer modo. Resolveu arranjar um apoio em Frederico. Farei de homem sério. Hei de lisonjeá-lo e obrigá-lo a travar relações com os meus amigos. atenuaria um pouco a sua. que têm necessidade de bons conselhos. Alcino. Georgey teve de partir para a Argélia. Isto tem a sua graça! E nós então. dizendo que são ótimos rapazes. vocês não o conhecem. em lugar de se envergonhar dele. evitava certamente a minha companhia se lhe falasse naquelas coisas. As cartas transformaram inteiramente a opinião de Bonard para com o filho. e para grande felicidade deste. pensou ele. Passado este tempo. tenho de lidar cautelosamente com Frederico. — Ouve lá. Era considerado um dos melhores soldados do regimento. que lhe enviava excelentes notícias de Frederico. Havia recebido duas ou três cartas do coronel Duguesclin.” E continuou com as suas recomendações e explicações. onde tencionava fundar novas fábricas. Georgey partiria para fazer uma viagem pelo sul da França e depois por África. não vão trair-se diante dele! Deitariam tudo a perder. chamando-lhe o seu querido filho. “hão de considerar-me mais e não continuarão a mandar-me fazer os piores serviços do quartel. “Quando virem que somos amigos”. ALCINO — Não. explicou-lhes que era conveniente lançar as vistas sobre a bolsa de Frederico e que para isso se tornava necessário dar mostras de pessoas cordatas. nos quais se distinguira. sossegadas. julgas que somos alguns tolos? Quantas vezes já repetiste as mesmas coisas? Sabemos muito bem como enganá-lo sem que te metas nisso.

três francos. Quanto custa cada um? GUEUSARD — Para que sejam sofríveis. Assim. seguido pelo seu bando. mas tenho com que os comprar. dizemos: valente como Bonard.. ALCINO — É exatamente o que eu penso. o seu inglês tornará a abastecê-lo. estou com uma dor de dentes de enlouquecer e não tenho nada comigo para comprar um. a limpeza da caserna está pronta. como o dia estivera ardente. ALCINO — E julgas. se pudermos. que importância tem isso? Não há de ir apresentar queixa depois de se haver embriagado conosco. Quando queremos elogiar um camarada. RENARDOT — Isso mesmo. ia pedir-te um charuto. ao todo. sem mesmo abrir o bico para piar? FOURBILLON — Quero lá saber que grite ou que pie depois de lhe haver despejado a bolsa! RENARDOT — E ainda que grite. lá anda ele no pátio. Têm. ALCINO — Bons dias.. Bonard. cá no regimento? O teu nome anda em todas as bocas. FOURBILLON — Costumas fumar? FREDERICO — Não. Mas olhem. 24 . camaradas. De quanto precisas? FOURBILLON — Isso depende dos camaradas. como eu. Gretinet. para festejar a tua chegada. Alcino.. e se és generoso como se diz.” GUEUSARD 24 — Arranja-te como quiseres. ora. sejamos todos granadeiros de Bonard. seremos todos como um só homem. FREDERICO — De mim? Mas a que propósito? ALCINO — Como? És então o único a ignorar que se não fala senão de ti. Sigam-me. ALCINO — Não lhe digo nem uma palavra a esse respeito. Os nomes dos soldados amigos de Alcino são derivados de palavras que designam suas más qualidades. meu caro Frederico. FREDERICO — Obrigado pela boa opinião que de mim fazem. Alcino. FREDERICO — Não seja essa a dúvida.. nós somos seis. creio bem que havemos de viver em boa amizade. ouvido falar de ti. E quanto a nós. GUEUSARD — Isso é o que vamos ver. mas vão por mau caminho. à nossa frente. magnânimo como Bonard. dirigiu-se para Frederico. tens de contar com quinze cêntimos. imbecil. mas acho que devemos começar por fazer com que ele pague as boas-vindas com umas garrafas de vinho e de aguardente e depois embriagamo-lo. Fourbilon de velhaco. de raposa. não tenho esse hábito. podes bem distribuir dois charutos por cabeça. mas como eu não fumo. FOURBILLON — Tanto pior. ALCINO — Façam o que quiserem. reparem no que lhes digo. vêm vinte charutos. pontual como Bonard. agora vais fazer as apresentações e lembrar a história das boas-vindas. Ora. contemos com quatro. bom cristão como Bonard. GREDINET — E em seguida depenamo-lo. como bons soldados e verdadeiros cristãos. FREDERICO — Dois é muito pouco. Não tenho charutos. que se deixa apanhar assim como um patinho. para nossa glória. de patife. todos procuravam respirar livremente antes da hora de recolher. Tenho muito prazer em conhecê-los. tendo-te a ti. deitaria tudo a perder. Não é verdade. Renardot. que tinha ido tomar ar. Guesard é derivado de vadio. camaradas? Não estou a brincar. Eis alguns amigos que te quero apresentar. TODOS — Pois claro! É verdade! É já uma coisa proverbial no nosso esquadrão.quem és. Se quiserem fumar em sinal de regozijo. GREDINET — E havemos de ser a flor do regimento. Bom. cá estamos nós alistados no mesmo regimento e bem diferentes do que éramos dantes.

FREDERICO — Agradeço muito o seu conselho. O coronel afastou-se e os amigos de Alcino aproximaram-se. Mas quero afastar-me um pouco para obedecer ao meu coronel. meu coronel. continuarei a olhar por ti. repito. Acho-os muito afáveis. na verdade. não hão de esperar muito por mim. outras ainda. penso eu! FREDERICO — O meu coronel nunca me deu senão bons conselhos e acho que tenho feito sempre bem em segui-los. RENARDOT — E então. Frederico. GREDINET — Mas que foi? Estás com um ar contrariado.e sentir a minha falta porque continuarei sempre pronto a obsequiá-los. como vai isso. não vão levar-te para maus caminhos. de hoje para o futuro hei de evitá-los. ALCINO (baixo a Frederico) — Fizeste bem. tão contrito pelo seu passado que recordava cautelosa e indiretamente. muito bem comportados e pontuais no serviço. Disse-me para tomar cuidado com os camaradas que têm má reputação no regimento. desconfiado ao princípio. sem que ninguém. Frederico. Alcino olhou para os camaradas e piscou o olho. meu rapaz? Há muito que não te via. Um dia o coronel encontrou-o rodeado pelo bando de Alcino e chamou-o. outras uma garrafa de vinho ou de aguardente. Reunimonos na camarata e esvaziamos uma ou duas garrafas à saúde do coronel. ALCINO — Assim nos queres abandonar! Que grande maldade isso seria! Havíamos de sentir imenso a tua falta. além de Frederico. pela nossa parte. CORONEL — Então. uma pequena perda ao jogo para pagar. Mas concede-nos um último serão. Imaginava ter neles bons amigos. não esqueças o meu conselho. dos quais a todo o momento lhe diziam mal. mas muito reconhecidos.FREDERICO — Olha. Estes compreenderam que não tinham tempo a perder se queriam executar os seus projetos e alcançar de Frederico o mais que pudessem. Mas a sua advertência não foi feita em vão. FREDERICO — Vocês não hão. sei que lhes dás dinheiro e andas muitas vezes com eles. CORONEL — Devem. Foi esta a primeira experiência de Alcino e seus companheiros. meu amigo. Vai à cantina. Não tinha ainda desconfiado deles. são pobres rapazes sem um real. havemos de evitar a tua companhia em lugar de procurá-la. Não se apercebia de que os seus supostos amigos o enredavam cada vez mais e o afastavam dos outros verdadeiros camaradas. ALCINO — Que te disse o coronel? Olhava para nós enquanto falava contigo. que bebem e te obrigam a beber de vez em quando. farás deles o que quiseres se lhes ofereceres qualquer coisa de vez em quando. Toma cuidado. apesar de ele ter sido . fazendo-lhe repetidamente novos pedidos. pudesse compreendê-lo. que temos nós com isso? FREDERICO — Deu-me a entender que vocês são alguns deles. Apesar das aparências. estar muito mudados para que tenhas deles uma opinião tão boa. Adeus. então. como eu. meu caro camarada. FREDERICO — E tenho razão para isso. aqui tens cinco francos. ALCINO — Ora essa! Não acreditaste nisso. Vou lá já. Por que te dás com aqueles indivíduos? São os mais mal comportados do regimento. Toma cuidado! Sabes que me interesso por ti e não gosto de te ver com más companhias. GUEUSARD — Mereces bem a reputação de que gozas. meu coronel. deixou-se convencer quando viu Alcino tão completamente modificado na aparência. ALCINO — Respeito a tua submissão. e. Desde então continuaram a servir-se da bolsa de Frederico. Estou bem informado a esse respeito. meu amigo. Umas vezes eram charutos. FREDERICO — Disse-me qualquer coisa que me desgostou e que lhes diz respeito.

surpreendido e satisfeito com uma submissão que não esperava.injusto para conosco. e separaram-se amigavelmente. . consentiu de boa vontade nesse serão de despedida. logo a seguir ao exercício. Prometeu ir ter com eles à camarata. Frederico.

ALCINO — Palavra de honra. seis garrafas de aguardente e de licores. ALCINO — Tentemos. ALCINO — E nós que nos esquecemos de beber à saúde dele! Viva o tenente-coronel! À sua saúde! E beberam um terceiro copo à saúde do excelente oficial. mais um copo à saúde dos pais. Devíamos ter feito as coisas mais suavemente. viam-nos sempre juntos. uns para os outros. temos ainda o serão. embriagando-o sem ele dar por isso. GREDINET — E não vem longe o dia em que havemos de chamar-te sargento. RENARDOT — E como o tenente-coronel fala de ti! Parece que és seu filho. GUEUSARD — Uma coisa adiada não está perdida. sempre o foste. Um quarto copo foi bebido à saúde do capitão. olha-te mesmo com satisfação. Vivam os Srs. és o melhor soldado do regimento. ALCINO — E não é senão um ato de justiça da parte do coronel. GUEUSARD — É porque tu és um bonito rapaz! De grande uniforme. Depois começaram os cantos. todos os nossos superiores te estimam. Depois do exercício. com entusiasmo. consternados. os gritos. De combinação com Alcino. GUEUSARD — Hás de ir longe. Os amigos passaram em seguida à aguardente que Frederico não supunha tão forte. bebeu. não ficaria admirado se um dia tivéssemos de te apresentar armas. não se encontra nenhum mais garboso do que tu. FOURBILLON — Não me admiro que o coronel te tenha amizade. com gosto.23 O génio mau Quando os amigos ficaram sós. olharam. agora já não precisamos usar de cautela. Eu já lhes tinha dito que vocês iam com muita pressa. ALCINO — Aquele piegas foge-nos. as lisonjas dos amigos haviam-no disposto bem. vendo-te chegar com as divisas de sargento. Frederico dirigiu-se à camarata. Alcino . Bonard! Frederico. como havia prometido. bebeu o vinho de um trago. é o nosso último dia. merece bem que bebamos uma garrafa à sua saúde. então é que teríamos dado no vinte. comovido com o pensamento de voltar à sua terra com as divisas de sargento. TODOS — Muito bem! A saúde do coronel! Viva o nosso coronel! Frederico não pôde recusar-se a beber à saúde do coronel. levávamo-lo vezes demais à cantina. sou eu que to digo. ALCINO — Os queridos pais! Como vão sentir-se felizes e orgulhosos! Temos de beber à sua saúde. Foram buscá-los à cantina por conta do amigo Bonard. os amigos já lá estavam. ALCINO — És pontual. A cabeça de Frederico começava a aquecer. GREDINET — Os teus pais é que vão sentir-se orgulhosos. encarrego-me de obrigá-lo a beber mais do que o necessário para fazer passar as suas loiras para o nosso bolso. depois um quinto pelo tenente. ali sabiam que Frederico pagava bem e entregaram aos dois amigos tudo o que eles pediram: dez garrafas de vinho. Gueusard e Gredinet encarregaram-se de arranjar o vinho e a aguardente. RENARDOT — E não é somente o coronel que gosta de ti. na forma. os risos. ALCINO — De que nos serve isso agora que ele está prevenido? GUEUSARD — Deixa-me proceder à minha vontade. Frederico falava. chamando-te meu general. Calcula como ficarão. ria e agradecia.

anos de prisão. SARGENTO — Parem. Tenho de fazer o meu relatório. SARGENTO — Toma cuidado! Um soldado que levanta a mão para um superior. — A mim. certamente. Alcino gritou. Não vais para a casa da guarda. pobre rapaz! Como vai ficar desgostoso amanhã quando acordar no calabouço. Um patife. o instinto da disciplina militar obrigou-o a obedecer maquinalmente. Quando os homens do piquete reconheceram Frederico. praguejou. sem resistência. correu em socorro de Alcino e. amigos! A mim Frederico! Vais deixar engavetar o teu amigo? Frederico. Frederico. Torná-lo-ei o mais suave que puder. Mas como se encontrava Bonard no meio daqueles borrachões. — A mim. lutou com o sargento para libertar o falso amigo. O barulho tornou-se tão forte que atraiu a atenção do sargento. Embriagaram-no. dizendo-lhe que desconfiasse daqueles tratantes. Nessa mesma tarde o coronel foi informado do que se passara. encontrava-se um pouco menos embriagado que os outros. Todos lamentavam Frederico! Alcino ainda se tornou mais . O sargento quis agarrar Alcino pela gola. O sargento subiu. espera-o o Conselho de Guerra. pelo menos.estava embriagado. foi fazer o seu relatório para ao tenente de serviço. O tenente passou-o ao capitão. E prometeu-me afastar-se dele. O próprio sargento participou desta impressão: só o reconhecera quando a força da guarda chegara. Estou bem aqui: aqui fico! SARGENTO — Isso é que vamos ver. ALCINO — Vai passear mais o teu Conselho de Guerra. mas já não tinha as ideias nítidas. que o fez cambalear. mas. para seu mal. “É impossível salvá-lo”. Do outro não me admira. mas sim para o calabouço. mas este repeliu-o. “agora que os homens o viram e o levaram para o calabouço. sem ter consciência do que fazia. pensou ele. gordo bochechudo. mas foi facilmente subjugado e levado. preparavam-se para tocar a recolher. E fez um movimento para levar Alcino. “Pobre rapaz!” exclamou de si para consigo. a triste notícia espalhou-se nos dois esquadrões. estavam de tal maneira que haviam esquecido o dinheiro de que tencionavam apoderar-se. quero lá bem saber de um canalha como tu. debateu-se. — Estes dois homens para o calabouço — disse o sargento. — Tarrenego! Que se passa lá em cima? Que diabo de barulho é este? Tenho de ir ver. Uma luta entre um soldado e o seu sargento é. Não se falava noutra coisa em todas as casernas. borrachão. — Os outros para a casa da guarda. Recomendou-o tanto!” Nessa mesma tarde. “Mau negócio! Impossível de remediar. gritando e cantando à porfia. praças da guarda! — exclamou o sargento. entrou e viu garrafas vazias no chão. Pobre rapaz! E o meu amigo Georgey! Vai ficar desgostoso. Entretanto acudiu a força da guarda. sempre a ser castigado! Ainda esta manhã eu tinha prevenido Bonard. demasiado tarde. fazendo com eles um barulho infernal e embriagado como eles? É incrível! Um soldado tão bom! Nunca esteve detido no quartel nem mesmo na casa da guarda. depois de lhe haver passado o efeito da bebedeira!” O sargento saiu triste e pensativo. cara de bolacha. que conservava bastante razão para ter mão em si. parem todos! Tudo para a casa da guarda! ALCINO — Não és tu que me fazes ir até lá. que ainda não se movera. Tenta somente e verás. os amigos ainda mais. houve grande surpresa e consternação geral. homens dançando. Frederico deixou-se prender. E Alcino descarregou-lhe um murro.

detestado porque calcularam. . que fora ele que obrigara Bonard a beber. causando assim a sua desgraça. e com razão.

um mau soldado. mate-me! SARGENTO — Então. chamou-me canalha e descarregou-me um murro no estômago que quase me deitou ao chão. meu sargento. meu pobre Bonard. a desonra: a vergonha para mim e para os meus! Oh! Meu Deus! SARGENTO — Eu fiz o relatório tão brando quanto possível. senão de me obrigarem a beber à saúde de tanta gente. meu sargento.. dos meus pais! É por eles e não por mim. FREDERICO — Alcino! Desgraçado! Que me fez! Foi sempre o meu génio mau. A esse. quando o sargento o foi ver e interrogar. meu sargento. empurrou-me. por favor. Pediram-me que lhes concedesse um último serão. com certeza! Pobre mãe! Que vai ser dela? Perdão. coragem! Gostam de ti cá no regimento. — Pobre rapaz! — disse o sargento. Porque estou no calabouço? Que fiz eu? Não me lembro de nada.. Os oficiais olharão à tua boa conduta. era demasiado tarde. O .. Quando estiveres mais calmo. encerrado no calabouço. Com o Bourel é outro caso. que é um tratante. Meu Deus! Meu Deus! Tende piedade de mim e dos meus pobres pais!. é horrível! Estava certamente louco! Oh! Infeliz. E antes da prisão. Bater no meu sargento!. — Meu pai. — Pobre Bonard! Se te houvesse reconhecido mais cedo. FREDERICO — Ah! É o meu sargento! Ainda bem que veio. Lutaste comigo! FREDERICO — Maltratei-o? A si. mas as praças da guarda já tinham chegado e haviam-te agarrado. a prisão! O sargento não respondeu.. Tem esperança. não o poupei: disse toda a verdade. SARGENTO — Até à vista. E eu. que nunca bebo. meu amigo. Mate-me. meu superior! Mas é a desonra. meio embriagado. pois não é por qualquer insignificância que se mete um soldado no calabouço. Talvez te absolvam. FREDERICO (torcendo as mãos) — Infeliz! Infeliz! Que fiz eu? Antes a morte que a desonra! Meu sargento tenha piedade de mim. apertando-lhe a mão. no que te diz respeito. FREDERICO — Alcino? Ele tocou-lhe? SARGENTO — Tocou-me! És muito indulgente. não compreendendo ainda a sua situação. Tem confiança. inclusive à sua. FREDERICO — Salvar-me! Meu Deus! Mas que fiz eu então. O Conselho de Guerra há de ser composto de amigos. Mas é medonho. um Satanás encarniçado em perder-me. infeliz! E o pobre Frederico caiu em cima da palha.24 Os prisioneiros Frederico. SARGENTO — Maltrataste-me. suplico-lhe. estorcendo-se e chorando.. deixeime levar por eles a beber à saúde daqueles a quem mais estimo. Estou com medo de haver cometido alguma tolice. um serão de despedida. meu pobre rapaz. foste levado por outros. é esta a primeira falta que cometes. FREDERICO — Procura animar-me. piedade.. que fiquei transtornado da cabeça. meu pai! Amaldiçoa-me. deitou-se na palha que servia de leito aos prisioneiros e adormeceu profundamente. bateu-me. ter-te-ia salvado. dizendo-me que evitasse as más companhias! O meu dever era ter-lhe obedecido e não tornar a andar com eles. Aquele pode estar certo do que o espera. Mas o código militar? Mereço a prisão. É muito bom! Agradeço-lhe... não acordou senão no outro dia. E o meu bom coronel que me havia prevenido de manhã. não desanimes. meu amigo. voltarei com o tenente para saber os pormenores do que se passou antes da minha chegada. à tua valentia. meu sargento? Diga-me. a quem tanto quero e respeito! A si.

o capelão visitou o pobre prisioneiro. entregue às suas reflexões. etc. Deixe-me sossegado e mande-me qualquer coisa para comer: tenho fome. Quando. acrescentou: — Que tratante não é este Bourel! Durante o dia. e nunca o faça experimentar os horrores que me ameaçam devido à minha falta. a Alcino. comovido. para ver se consigo compreender como um bom e valente soldado como tu pôde colocar-se na triste situação em que te encontras. Sim. Antes quero a prisão do que a cólera ou o tifo de que se morre nestas miseráveis casernas. Revelou-lhe. não faço caso de nada. Em lugar de censuras e palavras severas. inventem. nunca costuma recusá-lo aos que o pedem — respondeu o soldado. FREDERICO — Ó meu coronel. contando-lhe todas as faltas passadas. mas os teus antecedentes valer-te-ão. — Que quer? — disse este último. estendeu a mão a Frederico. se quiser obter um julgamento favorável. que lhe abriu o seu coração. meu sargento. recebo de si. Pela vida que levo neste imundo regimento! Ultrajem-me. o seu rancor. aproximou-se. foi uma grande consolação para Frederico. se conseguirmos livrar-te disto. depois da minha recomendação e da tua promessa. Frederico contou-lhe minuciosamente o que se passara entre ele e os camaradas e como havia perdido a cabeça no fim da orgia. meu pobre rapaz. colericamente enquanto o sargento saía. o consentimento. Imaginam que não sei o que me vai acontecer? Mas isso me é absolutamente indiferente. palavras de indulgência. Ele obtém-te. a ponto de não se recordar absolutamente nada da cena com o sargento. FREDERICO — Deus o abençoe. sei que hei de estourar um dia ou outro. Frederico ergueu a cabeça e reconhecendo o seu coronel levantou-se com prontidão. com efeito. odiento por vezes.nosso coronel há de ser o primeiro a fazer tudo o que puder por ti. o desespero que sentia por causa dos pais. O arrependimento poderia melhorar-te a situação e concorrer para que te tratassem com indulgência. O coronel. O sargento lançou-lhe um olhar de desprezo e foi-se embora. que a beijou efusivamente. mais tarde. lhe foram levar o comer. Encontraram-no sentado no leito e chorando. ele próprio. comovido. sem nada encobrir. causador de todos os seus . a indulgência do Conselho e podes estar certo de que o meu parecer há de ser favorável. que bondade a sua! CORONEL — Quis interrogar-te eu próprio. CORONEL — É um caso muito. certamente. FREDERICO — Obrigado. Nessa mesma tarde. somente. A porta do calabouço fechou-se e ele tornou a ficar só. SARGENTO — Quero ver se lamentas o teu procedimento de ontem. Pão e água a este. meu coronel. o sargento dirigiu-se ao calabouço de Alcino. — Tragam de comer a estes homens. — Tenho fome — repetiu Alcino. com certeza. nos sentiremos todos muito felizes. a desarmonia que havia entre ele e o pai. Depois. mintam. muito espinhoso! Não posso prometer-te nada. agradeço-lhe do fundo do coração. perguntou ao soldado se podia receber a visita do capelão da guarnição. O sargento contou-me o que se passou durante a visita que te fez esta manhã. nem de ninguém. pão e sopa para Bonard — disse o sargento ao soldado que o acompanhava. que Deus o abençoe a si e aos seus. Podes estar certo de que. Explica-me como foi que. ALCINO — Não mudo nada. tornaste a reunir-te àqueles maus companheiros e te embriagaste com eles. — Vou falar nisso ao nosso sargento. Quando se separou de Bonard. o coronel quis ir. com o tenente ver e interrogar Frederico. num tom brusco. O coronel. SARGENTO — Convido-o a mudar de linguagem. ALCINO (com modo carrancudo) — Pensam que sou algum imbecil! Conheço perfeitamente o código militar.

Quanto a Alcino.males. visto que somente lutou com aquele patife. Pensava: “A única coisa que lamento é que Frederico não tenha dado uma sova valente ao malvado do sargento. O bom padre consolou-o. incutindo-lhe coragem e deixou-o numa disposição de espírito muito mais calma e resignada. conservava todos os seus maus sentimentos.” . o que assim se torna bastante incerto. seria certamente condenado como eu.

do T. — Estende a mão e aceita. entre. SR. se tivesse tornado no que Frederico era. 25 Partridge: Perdiz. (N. já o esperava. GEORGEY — Bom dia. que Alcino acusava Frederico de dois roubos graves em prejuízo do Sr. — Entre. Soldado você ter bem feito. exclamou. o coronel. E o Sr. gansos pequenos feitas em banha. entrar e a sentinela voltava para ele a ponta da baioneta. que atribuía a responsabilidade desses atos a Alcino. O soldado não se mexeu. Tenho de lá ir. empadas de partridge 25 com muitos cogumelos. Pegue pequeno recompensa. Você esteve retido à porta este tempo todo por causa das ordens que tinha a sentinela. GEORGEY — Que ter você. imbecil e você ser bom soldado francês. Georgey e de um pobre órfão recolhido por caridade em casa dos Bonard. abriu a porta e desceu. GEORGEY — Um minuta. meu amigo. Quer passar sem se importar com o regulamento. por força. turkeys gordos. no momento em que o coronel apareceu. ser admirável. Georgey estendeu-lhe uma moeda de ouro. — Deus me perdoe — exclamou ele — mas é Georgey! Conheço a sua pronúncia. ser mesma coisa nada. Georgey enumerava os seus suculentos presentes. porque a sentinela é capaz de trespassá-lo com a baioneta. my dear coronel. ouviu uma discussão à porta. Empadas de salmão deliciosos. dentro de tigelos de barro. meu amigo. — Sentinela. com surpresa. Georgey. Georgey queria. o seu quarto está pronto. Leu com verdadeiro desgosto a meia confissão de Frederico. gordos e com cogumelos no estômago. CORONEL — Mas entrou. desde a entrada no regimento: o exemplo de todos os camaradas.. enfim. mim ser má. O coronel ria da surpresa do Sr. — Georgey!. SR. “Como pôde Georgey afeiçoar-se a um ladrão e recomendá-lo em termos tão entusiásticos e afetuosos?” Quando se entregava a estas reflexões. meu caro Georgey. Mim não poder ver você. lia atentamente os interrogatórios dos acusados e todas as peças do processo. por favor. Georgey sorrindo e recebeu a moeda de ouro. Mim sentir-se feliz de vê-lo. O coronel levantou-se precipitadamente. Empadas de fígado de patas gordos.25 Uma visita agradável Dez dias depois deste acontecimento. capaz de duas ações tão vis como criminosas. entre a sentinela e uma pessoa que queria entrar. estendeu a mão ao Sr. Ser só isto. continuou na posição de apresentar armas. Quer tomar alguma coisa enquanto se espera pelo jantar? SR. Bom dia. GEORGEY — No. my dear. O coronel ria cada vez mais à medida que o Sr. Pobre soldado francês não compreender nada: mim falar. Não compreendia por que razão aquele roubo não havia sido punido pelos tribunais e compreendia ainda menos que um jovem.) . O soldado fez a continência. Viu.. O soldado levantou a espingarda e apresentou armas. SR. O Sr. ele falar. sozinho no seu quarto. Mim ter estômago cheio e trazer a você coisas deliciosas. CORONEL — Entre. deixa passar. soldado francês? Porque não estender mão? — Descansar armas! — comandou o coronel.

. GEORGEY — Alcino! My goodness! Essa patifa abominável. Logo que recuperou a calma. O coronel já não ria. bateu-lhe. Você não poder proibir mim defender infeliz criatura muito. Georgey contou tudo e não esqueceu o arrependimento. não fala a nossa língua tão corretamente que possa pleitear qualquer causa. Você dar a mim Fridrico e não fazer julgamento. No entanto. O coronel agradeceu muito ao Sr. os outros bêbedos foram para a casa da guarda. Georgey procurando os meios de salvar Frederico. SR. no. Ele há de ter um advogado. e se Frederico consentir. o Sr. Mim trazer boa coisa a Fridrico: língua cozido com pele. essa tratante horrível. não esquece os bons petiscos. Entretanto chegou o piquete. a doença. teria abafado a questão. um seu conterrâneo chamado Alcino Bourel. o coronel interrogou-o sobre esta acusação. O Sr.. my dear. GEORGEY — Fridrico em calabouço? Por que coisa meter você em calabouço Fridrico. Receio somente que o prejudique querendo auxiliá-lo. SR. Os homens do piquete viram-nos todos quando acudiram a libertar o sargento. mim não ser imbecil. queijo que pesar trinta quilos. Quando falou ao seu amigo do roubo de que Alcino acusava Frederico. Frederico lutou com o sargento para libertar Alcino. SR. perseguir em toda a parte pobre Fridrico? CORONEL — Eram seis. Mas o Alcino também está preso. onde esperam o julgamento. CORONEL — Ah! Se eu pudesse. GEORGEY — No. mentirosa. mim querer falar por Fridrico. GEORGEY — Oh! My goodness! Pobre Fridrico! Pobre Sra. Alcino injuriou-o. . fumado. — Ah! Meu caro Georgey. soldado francês? CORONEL — Um mau negócio para o pobre rapaz. meu amigo. Georgey todos estes pormenores e prometeu-lhe que se serviria deles no decorrer do processo para fazer vingar a posição de Frederico. GEORGEY — No. SR. GEORGEY — Mim também servir-me deles. Alcino ser celerada. O Sr. CORONEL — Pois fale. meu caro amigo.. o seu Frederico causa-me grande inquietação! Ocupava-me dele quando você chegou. gatuna e outras coisas. Georgey pôs-se em pé de um salto e encolerizou-se terrivelmente contra Alcino. meu amigo. Bonard! Fridrico morto ou desonroso. você ser meu amigo. mim saber que dizer. CORONEL (sorrindo) — Você? Mas meu caro amigo. SR. Georgey comeu por quatro e adiou para o dia seguinte a visita ao prisioneiro. GEORGEY — Ele ter dez advogados. salgado com côdeas. Falaram ainda durante muito tempo: o Sr. Mim querer defender esta pobre miserável. mim dizer bem. Ele ter comer muito tempo.CORONEL — Vejo. GEORGEY — Que ter ele? Por que dizer você pobre Fridrico? Estar doente? CORONEL — Não. Coronel. o sargento foi ver de que se tratava. A hora do jantar pôs fim à conversa. que estava sendo esmurrado pelo Alcino e que era ajudado por Frederico. o coronel demonstrando-lhe a sua impossibilidade. e mim querer dizer ele ser celerada. ser mesma coisa. a profunda tristeza de Frederico e a sua transformação. os seus camaradas aproveitavam-se da amizade que os oficiais e o sargento lhe dedicavam. não importar isso a mim. ser muito excelente para ele.. nunca. Frederico vegetava tristemente no calabouço em que o haviam encerrado. fizeram uma barulheira infernal. está no calabouço há dez dias. e Master Bonard! Ele ter medo tão grande de desonramento!. SR. Embriagou-se instigado por um tratante. se quiser. que continua a ser o mesmo. imenso insultada. com cogumelos e fumada. SR. estão os dois no calabouço. como também nunca esquece os amigos. SR.

O capelão ia vê-lo tantas vezes quantas o permitiam as suas numerosas ocupações. Aparentou um ar satisfeito e manifestou-lhe efusivamente a sua gratidão por ter arranjado tão agradáveis meios de distraí-lo no seu desgosto. Mim saber tudo à tarde. meteu a mão na algibeira. Fridrico. muito mais terna. Sargento vai dizer que não ser nada. sentimentos idênticos de orgulho maternal. você haver empurrado somente Alcino. Georgey procurava meio de distraí-lo. mim estar tão desgostado. o Sr. Georgey ficou encantado. — Alhos. no entanto. como bem o merecia. GEORGEY — Olhe.” Estiveram alguns instantes em silêncio. Sr. tão afligido! Mim não saber nada ontem.levando-lhe todos os mimos que os pobres soldados de guarnição na Argélia podiam obter. Pistácios. enfim. O Sr. Você ter curiosidade? Querer ver? Mim saber. grato por tão feliz encontro. O Sr. Frederico estremeceu e empalideceu visivelmente. A carta da Sra. ter bons coisas para comer. Georgey. eis um grande cesto. e. Mim trazer consolação para estômago. SR. Georgey — “mim dar depois. contou-lhe muitas coisas . Não ser bater. continha. Mandavam-lhe alguns livros. coronel me contar. contava-lhe os ditos da gente da terra. surpreendido. lançou-se-lhe nos braços e apertouo contra o peito. Frederico sorriu. Georgey pousou tudo em cima do enxergão. Bonard. no dia seguinte ao da chegada do Sr. faziam. E julgamento ser excelente. E o Sr. tudo quanto podiam para suavizar a sua situação. GEORGEY — Que ser lutar? Nada. os cumprimentos que lhe dirigiam. levava-lhe cartas do pai e da mãe. Olhar! E o Sr. Frederico não pôde reter um grito de alegria. — Mim trazer a você novas excelentes de Sra. absolutamente. Encontrou-o enfim. Georgey. Certa manhã. Bonard. Georgey aproveitou-se do silêncio de Frederico para expandir a sua indignação contra Alcino e a esperança que tinha de vê-lo fuzilado em pedaços. — Mim ver coronel. SR. a empregada da cantina tratava melhor da sua roupa. Sr. ser ele que empurrar. Georgey retirou do cesto três línguas cozinhadas com pele e fumadas. mim queimar. nem bocado. celerada Alcino não ter nada. Todos três admiráveis. SR. abriu-se a porta do calabouço e Frederico viu entrar o excelente inglês. Cogumelos. e sabia bem o que continham. a felicidade que sentira ao saber que seu filho fora citado duas vezes em Ordem de Serviço. e outras coisas neste género que eram na presente situação outras tantas punhaladas para o infeliz Frederico. a gamela da sopa mais cheia e a ração de café mais açucarada. num movimento instintivo e irrefletido. FREDERICO — No entanto eu ouvi a leitura do auto de acusação e lá diz que lutei com o sargento. Bonard agradecia ao filho o ter honrado o seu nome. Bonard e Julianinha. demasiadamente comovido para poder falar. o seu pedaço de carne era maior que o deles. Georgey. correu ao encontro do Sr. Sentia-se comovido pela bondade com que aquele excelente homem procurava consolá-lo. Frederico verificava isto com reconhecimento e prazer e agradecia aos seus camaradas e superiores. Frederico olhava-o. que o observava. seguido de um soldado que transportava um cesto cheio de provisões. FREDERICO — Deus o ouça. Georgey! Agradeço-lhe a sua boa intenção. apertava-lhe as mãos e fitava-o com um olhar umedecido e grato. O Sr. ele dizer não ser isto grande coisa para você. Frederico procurava conter a emoção e dissimular a vergonha que sentia. você ser excelente criatura e os outros gostarem todos de você. o enxergão era menos duro. GEORGEY — Pobre Fridrico. Frederico. estas visitas acalmavam sempre a agitação do infeliz prisioneiro. se houver condenação. “A esse pobre infortunado ser justificado” — disse consigo o Sr. Um empada e uma presunto.

da aldeia. . de Julião e deixou Frederico realmente reanimado e contente com todas aquelas notícias da sua terra. da herdade.

26 O Conselho de Guerra
Poucos dias depois, reuniu o Conselho de Guerra para julgar Alcino e Frederico. Este último foi conduzido e colocado entre dois soldados de infantaria. Estava mortalmente pálido; tinha os olhos inchados das lágrimas que chorara toda a noite. A sua fisionomia aparentava angústia, vergonha e dor. Alcino foi colocado a seu lado. O ar descarado com que se apresentou, o olhar falso e mau, o sorriso forçado, contrastavam com a atitude humilde e triste do seu companheiro. Leram as peças necessárias, o ato de acusação, os depoimentos, os interrogatórios e chamaram o sargento para depor perante o tribunal. Este acusou Alcino com grande cólera e falou de Frederico em termos muito moderados. PRESIDENTE — Mas Bonard chegou realmente a tocar-lhes? SARGENTO — Para se defender, sim, mas não para atacar. PRESIDENTE — Como foi isto? Explique-se. SARGENTO — Quer dizer que quando Bourel o chamou, ele chegou ao pé de nós, cambaleando, porque o vinho o tornava pouco firme. Assim que se aproximou mais, empurrei-o; ele quis apoiar-se em Bourel, mas enganou-se, suponho, confundindo-me com este, e foi a mim que se segurou, cambaleando. Eu tornei a repeli-lo; ele voltou a cair sobre a minha cabeça e o meu ombro. Depois acudiram as praças da guarda e prenderam os dois; mas o fato de se ter apoiado em mim não quer dizer que me tenha empurrado; há uma certa diferença entre estas duas coisas. — Está bem, pode retirar-se — disse o presidente com um ligeiro sorriso. O sargento retirou-se, limpando a fronte; o suor inundava-lhe o rosto. Frederico lançoulhe um olhar de gratidão. As praças da guarda fizeram os seus depoimentos no mesmo sentido favorável a Frederico, acerca do que haviam podido ver. Depois de ouvidas as testemunhas, interrogaram Alcino. PRESIDENTE — Chamou ao sargento gordo, bochechudo e canalha? ALCINO — É verdade, escapou-me. PRESIDENTE — Empurrou-o? ALCINO — Empurrei-o e tenho muito orgulho nisso; ele não tinha o direito de me agarrar pelo pescoço. PRESIDENTE — Tinha perfeitamente esse direito, visto que o senhor lhe resistia e estava embriagado. Além disso, deu-lhe um murro. ALCINO — Não foi muito vigoroso. Eu não estava de posse de toda a minha força. O vinho, o senhor bem o sabe, enfraquece-nos os braços e as pernas. PRESIDENTE — Chamou os camaradas em seu auxílio, e especialmente Frederico Bonard? Porque os chamou, se não tinha a intenção de lutar com o seu sargento? ALCINO — Não me queria deixar agredir; o uniforme francês deve ser respeitado. PRESIDENTE — Foi devido ao respeito pelo uniforme que bateu no seu superior? ALCINO — Talvez o empurrasse um pouco, mas Bonard fez a mesma coisa. PRESIDENTE — Não se trata de Bonard, mas sim de si. ALCINO — Se falo dele é porque não ignoro que querem fazer recair todas as culpas sobre mim para desculpá-lo. PRESIDENTE — Repito que não se trata de Bonard nas perguntas que lhe dirijo, mas sim de si. Segundo a sua própria confissão, deu um murro num seu superior, chamou-o de canalha e apelou para os seus amigos, na intenção evidente de se libertar pela força. Tem alguma coisa a alegar em sua defesa? ALCINO — Ainda que tivesse, de que me serviria isso se estão todos decididos, de

antemão, a mandar-me prender e a absolver Bonard, que é um hipócrita e um ladrão? Ele é tão culpado ou mais do que eu. Isto é julgamento para rir. PRESIDENTE — Cale-se; não deve insultar os seus juízes e um camarada. Previno-o de que está tornando o seu caso ainda pior... ALCINO — Isso me é absolutamente indiferente se conseguir fazer com que condenem esse velhaco do Bonard, esse ladrão, esse... Nessa altura o Sr. Georgey levanta-se impetuosamente e exclama: — Mim pedir palavra. PRESIDENTE — E há de tê-la, senhor, quando chegarmos à defesa. Queira sentar-se. O Sr. Georgey sentou-se de novo, dizendo: — Mim pedir desculpa; esta patifa de Alcino pôr mim em furor. Alcino agita-se, mostra o punho ao Sr. Georgey, gritando: — Você é um mentiroso! Ligaram-se todos contra mim! PRESIDENTE — Reconduzam o preso ao seu lugar. Dois soldados levaram Alcino, que se debateu e a quem dificilmente conseguiam acalmar. PRESIDENTE — Bonard, é com desgosto que o vemos no banco dos réus. A sua conduta foi sempre exemplar. Diga-nos por que motivo lutou com o seu sargento, o que o coloca na presente situação. FREDERICO (com voz trémula) — Meu coronel, tive a infelicidade de cometer um grande erro. Fui levado a beber, a embriagar-me, e consenti nisso. Não posso explicar como me encontro no estado de degradação que me coloca perante a justiça. Não me recordo de nada do que se passou entre mim e o meu sargento. Fio-me inteiramente nele para lhe dar a conhecer a extensão da minha falta; estimo-o, respeito-o e de há quinze dias para cá expio pelo arrependimento e pelas lágrimas a desgraça de o haver desconsiderado. PRESIDENTE — Não se lembra de Bourel lhe ter pedido que o auxiliasse na luta que travou com o sargento? FREDERICO — Não, meu coronel. PRESIDENTE — Não se lembra de ter lutado com o seu sargento? FREDERICO — Não, meu coronel. PRESIDENTE — Vá! Frederico, pálido e extenuado, volta para o seu lugar. Chamam as testemunhas; estas atenuam o melhor que podem a intervenção de Frederico na luta. Os camaradas de Alcino confessam a trama urdida por este, os meios de lisonja e hipocrisia que haviam empregado; a compra dos vinhos e licores para mais seguramente embriagarem a sua vítima; o projeto de roubo que a própria embriaguez e a chegada do sargento haviam impedido de pôr em execução. As interrupções e os arrebatamentos de Alcino excitam a indignação do auditório. Depois de ouvidas as testemunhas, tomam a palavra os advogados; o de Alcino invoca a favor do seu arguido a embriaguez, a irreflexão do momento; promete que ele mudará por completo se os juízes quiserem usar de indulgência e conceder-lhe o perdão. O advogado de Frederico recorda os seus bons precedentes, a sua pontualidade no serviço, a valentia de que dera prova nos combates, o espírito de sacrifício já demonstrado, a camaradagem sempre patente, qualidades que o haviam tornado querido dos seus superiores e camaradas; recomenda-o insistentemente à benevolência dos chefes, tanto por ele como pelos pais, a quem a desonra do filho iria atingir mortalmente. Defende a sua inocência; prova que Frederico fora vítima de uma trama urdida por Bourel, que queria apoderar-se do dinheiro dele e aviltá-lo aos olhos dos seus superiores. Diz, por fim, que o Sr. Georgey, amigo de Frederico, se havia encarregado de explicar a indigna acusação de roubo feita por Alcino Bourel.

O Sr. Georgey sobe à tribuna do advogado, cumprimenta a assistência e começa: — Ilustres sirs, mim não poder impedir um indignação de meu coração, quando este Alcino, gatuna, acusar pobre Fridrico como ladrona. Mim saber tudo; mim ver tudo; ser Alcino gatuna! Fridrico ser imprudente, boa criatura. Ele haver seguido indigna amigo; julgar boa, verdadeira amigo. Ele saber nada de roubalhices horríveis de amigo. Fridrico não compreender muito bem que querer fazer, indigna criatura; e quando compreender, quando dizer: mim não querer, ser tarde demais; Alcino haver roubado a mim... E Fridrico não querer fazer ele, metê-lo em prisão. E quando bons polícias franceses prender indigna Alcino, este velhaca meter, no bolso de pobre Fridrico, reloja, corrente, ouro, e tudo. Mim dizer, para salvar Fridrico, ser mim que dar reloja, ouro e corrente. Polícias franceses dizer. “Muito bem; não haver gatuna.” E mim levar dois rapazes; e mim ralhar muito a Alcino e expulsar ele. E Fridrico estar quase completamente à morte, de desolação por prisão de polícias. E pai infortunado e mãe infeliz, quase mortos por honra perdida num minuta. Eis porque Fridrico ser soldado. E senhores ter capacidade ver que ser ele bom soldado, valente soldado, soldado francês, em valoroso, bravo regimento cento e dois. E, se este malvada Alcino conseguir desonramento, morte de pobre Fridrico, ele contente, ele encantada, ele feliz. E pobre Master Bonard e Sra. Bonard mortos ou palermas de terrível desolação. Que fazer ele, pobre acusada? Nada. Sargenta dizer: absolutamente nada. Somente cair em ombro de bravo, ilustre sargenta francesa. E por que cair Fridrico em cima de ombro? Porque tratante Alcino embriagar infeliz com abominável, horrível vinho. Ser ato de grande celerada, dar vinho horrível. E pobre infeliz estar em tão grande arrependimento, tão grande desgostamento! — (Mostrando Frederico e voltando-se para ele. — Ver ele chorar! Pobre rapaz, você chorar por sua honra, por seus infelizes pais! Você bravo como um leão terrível, você corajosa, forte sempre, em toda a parte; você agora abatida, humilhada, envergonhada! Seus pobres olhos acesos como sol, na frente de inimigos... tristes, abaixados, embaciados... Pobre Fridrico! Tranquilize seu pobre coração; seus chefes ser justos; eles ser bons; saber ser você uma honra de regimento; eles saber você não querer fazer mal; eles saber sua desolação. Eles abrir a você as portas do túmulo e dizer: Sai, Lázaro! Toma vida e honra! Tu julgar-te morto para honra. Nós dar vida com honra. Vai combater ainda e sempre por glória da nossa bela França. Vai ganhar a cruz da honra. Vai gritar ao hoje e sempre inimigo: “Viva Deus e a França”. Ouviu-se na sala um murmúrio de aprovação quando o Sr. Georgey desceu da tribuna. Frederico lançou-se-lhe nos braços, e o Sr. Georgey estreitou-o a si durante alguns instantes. O Conselho retirou para deliberar sobre a sorte dos dois acusados. A espera não foi longa. Quando voltou à sala: — Frederico Bonard — disse o presidente — o tribunal, usando de indulgência para consigo, em vista da sua excelente conduta, dos seus antecedentes, e em atenção ao seu sincero arrependimento, iliba-o de culpa e absolve-o plenamente, por unanimidade. Frederico levantou-se de um salto; o seu rosto, de uma palidez mortal, tornou-se purpúreo; estendeu os braços para o coronel e para os outros membros do Conselho e caiu redondamente no chão. O Sr. Georgey precipitou-se para ele; correram algumas pessoas em seu auxílio e transportaram Frederico, a quem a alegria quase matara. Não tardou a voltar a si; foi sacudido por uma crise de choro, que o aliviou e pôde então manifestar ao Sr. Georgey o vivíssimo reconhecimento que sentia, pois receara ter de sofrer pelo menos cinco anos de prisão e ver a caderneta militar maculada. Quando diminuiu o tumulto causado pela queda de Frederico, o presidente continuou: — Alcino Bourel, o tribunal, não podendo usar de indulgência para consigo, em vista da gravidade da sua infração à disciplina militar e conforme o artigo... do Código Militar, condena-o a prisão perpétua.

Os camaradas aplaudiram a sua resolução. ganha as tuas divisas de cabo e depois as de sargento. A cena que se seguiu foi tocante. — Mas vinho. enquanto esperas pela patente de oficial e pela cruz. Quando o Sr. talvez. cumprimos o nosso dever. CAMARADAS — De fato a tua absolvição vale bem dois dias de festa. mal tocara nas iguarias que o Sr. — Só um copinho no fim. fora de si. Dizendo estas palavras. por isso. FREDERICO — Todos os dias da minha vida passarão a ser dias de festa e de ação de graças a Deus e aos meus queridos chefes. Ele preso para sempre. conduziram Alcino. Georgey lhe havia oferecido. não sabia como exprimir o seu reconhecimento. estaremos a braços com um exército de árabes. que são todos uns velhacos. que os desprezo. Enquanto Frederico estivera na prisão. Brevemente. Ser um animal feroz horrível. Oxalá ele se arrependa e morra em paz com a sua consciência.Produziu-se um silêncio solene após a leitura desta sentença. CABO — Como o nosso bom capelão está contente! Como agradecia ao nosso coronel e aos outros camaradas que te julgaram! CAMARADA — E o tratante do Alcino como gritou e praguejou! Que bandido! FREDERICO — Peçamos a Deus por ele. Encontrou-o restabelecido do desmaio e aliviado pela perda de sangue que sofrera em consequência da agressão de Alcino. Os guardas subjugaram Alcino e levaram o sargento coberto de sangue. Quando acalmou o tumulto. O coronel ordenou que o pusessem a ferros. Georgey e Frederico tomaram conhecimento da nova violência de Alcino. agora é preciso que cumpras o teu. Frederico viu-se obrigado a guardá-las para evitar acidentes. CORONEL — Sossega meu rapaz. que se sentia inquieto por causa do sargento. tem três dias para apelar da sentença ou implorar a clemência imperial. — Levem-no — disse o coronel. Batete como o fizeste até aqui. — Sentir-nos-emos muito felizes — disse ele — ao verificarmos amanhã que ainda temos algumas. sossega. não — disse ele. Jurei nunca mais beber mais do que um copo a cada refeição. propôs aos seus companheiros de caserna banquetearem-se com elas na refeição da tarde. . Alcino precipitou-se sobre o sargento e antes que este pudesse refazer-se da surpresa. estendendo o punho cerrado para o tribunal: — Canalhas! Agora já não preciso medir as palavras. que exclamou. Pedi ao Sr. meus bons amigos. foi saber notícias suas. Frederico. ALCINO (vociferando) — Não quero apelar para ninguém. Georgey. o primeiro esfregou as mãos. Georgey tiveram um sucesso prodigioso. Os oficiais que compunham o tribunal foram todos saber notícias de Frederico. Capelão uma missa pela conversão daquele infeliz. causado por esta cena. dizendo: — Mim saber. ser muito bom. meus amigos. As iguarias do Sr. quero morrer. deixando Frederico só com o Sr. agredindo-o selvaticamente. que ainda contribuiu para que a refeição da tarde fosse mais alegre. lançou-o por terra. Foi interrompida por Alcino. que havia recebido muitos cumprimentos e se podia orgulhar de ter contribuído para a absolvição do seu protegido. Frederico. posso-lhes dizer a todos que os odeio. Toda a gente se retirou. — Condenado.

descarregando golpes de sabre. derrubou três. enfraquecido. sou sargento e estou citado para a cruz da Legião de Honra. soldados franceses. um terrível morticínio e foram praticados prodígios de valentia. Georgey ficou ainda dois meses com o coronel. ao atravessar uma das salas.27 Batalha e vitória O coronel havia previsto bem. Mim nunca ter visto combates assim. GEORGEY — Ser preciso ir. Frederico mal podia falar. então. Magro. Pegou na mão do seu antigo defensor e apertou-a nas suas. Mim ver muito bem. aproximou-se do leito donde partira o chamamento e reconheceu o seu amigo Frederico. SR. SR. voltar à terra. num hospital? FREDERICO — Estou aqui há três meses. infeliz? Você estar aqui. a quem fez prisioneiro. Mim gostar deste coisa. que conseguiu libertá-lo e ferir gravemente o chefe do grupo. Se pudesse mudar de ares. SR. não. Georgey. encontrando-se o coronel só e rodeado por um grupo de árabes. Depois foi montar algumas fábricas perto de Argel. tão desprovidas de força. Um posto avançado anunciou que se aproximava uma grande multidão de árabes. que manejou tão bem o sabre à esquerda e à direita. na verdade. GEORGEY — Sargento! Ser bonito! Muito bonito. Julgavam surpreender a praça forte. Mim ver tudo de cima de meu telhado. Fridrico ir. FREDERICO — Mas não posso. ser preciso. que estava ferido numa perna e não podia andar. Georgey. mas foram eles próprios colhidos de surpresa e envolvidos. SR. meu caro Fridrico. Ser muito bonito. GEORGEY — Mim ter subido muito alto em telhado. dos quais se defendia corajosamente. as cristas das montanhas. Sr. antes que pudessem refazer-se. vir. pancadaria. feriu e pôs em debandada o resto e transportou o sargento. O Sr. GEORGEY — E que ser você? Cabo ainda? FREDERICO — Não. Sr. ouviu que o chamavam. No dia seguinte foi mais uma vez citado em Ordem de Serviço e recebeu as divisas de cabo. dar pancada por todos lados. Ser lindo. sem ruído de um desfiladeiro. pálido. no qual o coronel não quis internarse. Um dia. Sr. Numa outra ocasião viu o seu sargento encurralado entre um rochedo e seis árabes. creio que me curaria muito depressa. Georgey exaltava com os êxitos do seu protegido e disse ao coronel depois da batalha: — Mim olhar sempre com óculo de aproximação. correr. Mim dizer bravo aos leões franceses! O Sr. um sinal de alerta despertou o regimento no meio da noite. Sargento e a cruz aos vinte e . Três dias depois do julgamento. Frederico caiu sobre eles. acudiu Frederico. mas parecia a sombra do vigoroso soldado que ele deixara dois anos antes. Os árabes saíam. mas receio bem não chegar nunca a usá-la! SR. estou muito doente com as febres que não querem deixar-me. andando a visitar um hospital francês. Georgey. GEORGEY — E o seu bravo coronel? FREDERICO — O regimento foi mandado para Napolléonville. CORONEL — Como? Mas onde estava? SR. Num dado momento. por saber que o inimigo coroava. Ser belo. e não conheço ninguém que possa fazer as diligências necessárias para isso. GEORGEY — Que ter você. Houve. Estou muito longe dele. é uma coisa difícil de conseguir. de preferência. Ser como regimento de leões. passados alguns instantes os dois esquadrões estavam a pé e formados.

Sr. graças à sua generosidade com ele e conosco. BONARD — Como? Em cima do seu telhado? Qual telhado? SR. Fridrico ser cabo. como seu rapaz estar soberbo. Que fazer Carolina? — O seu alojamento é muito perto. em seguida. Ver papá Bonard. graças aos doze mil francos que deixou a Julião. SR. Bonard. a mãe só tinha olhos para o seu filho. Oito dias depois. crescera um meio palmo e engordara muito. os seus largos ombros. com viva satisfação. ela vem. Georgey lhe dissera que não contasse senão à mãe. Georgey. Quinze dias mais tarde. ficavam ainda dois: um para Carolina e outro para qualquer visita. Quando voltaram à sala. Bonard não se cansava de abraçar e admirar o filho e de agradecer ao Sr. Georgey voltava sempre às batalhas. Três dias depois chegaram à herdade dos Bonard. e agradeceu-lhe calorosamente. aumentámos e melhorámos muito a nossa casa que dispõe agora das comodidades necessárias. Se desejar ter Carolina ao seu serviço. Todos admiraram muito Frederico. na herdade. a seguir. mas o Sr. radiante de alegria. E em outro combatimento ser sargento. Georgey. não falar de dezessete anos. E. viu. por certo. Ser serpentes contra leões. SR. o Sr. GEORGEY — Ser telhado de coronel. Georgey. Georgey. Frederico escreveu à mãe. nunca se cansa. um para ele e outro para Julião. Estás alto e forte para a tua idade. Depois de muitas conversas. o fino bigode davam-lhe um ar marcial que Julião invejava. — E eu que fiquei com uma aparência tão fraca — disse Julião. Georgey. sargento. SR. muitas e muitas perguntas e um belo jantar. GEORGEY — Oh! Yes! Mim querer muito bem! Mim querer ver meu alojamento em casa vossa. Em baixo ficava Bonard com sua mulher e Frederico. Mim ver meu óculo. FREDERICO — Achas-te fraco? Mas cresceste de tal maneira que estás quase irreconhecível. Ele se bater furiosamente! Ser belo! Magnífico! Como Fridrico bater em moiriscos. Mostraram a casa toda ao Sr. torcerse.um anos! Mim pedir por você. mim levar você comigo. propôs-lhe uma visita ao Sr. temos um belo quarto para si. que já lá não estava. Tratou. Frederico apertou-lhe as mãos. A Sra. o pai era todo ouvidos para o Sr. depois de ele . de boa vontade. Falar de vinte e dois. Bonard quis mostrar o seu sargento na povoação. aos altos feitos de Frederico. Georgey. Estiveram ali somente durante vinte e quatro horas. ser mais agradável. E seus magníficas divisas! E mim que ver chegar divisas sobre meu telhado. Lembra-te de que tens só dezesseis anos. O Sr. Estava de tal maneira belo e forte que se tornava difícil reconhecê-lo. Georgey levava-lhe uma licença de um ano. mirando Frederico por todos os lados. aos episódios com o coronel e o sargento. GEORGEY — E também mim querer alojamentação. Frederico lançou um olhar furtivo para o lado do antigo armário quebrado. E ficou pensativo a recordar o passado. para lhe anunciar a sua chegada com o Sr. — Não é como eu na sua idade — disse Frederico sorrindo. está em casa da mãe e trabalham em luvas. Sempre pronto para tudo. Abade. levar você para casa Sra. para repousar um pouco. mim obter. salvo a questão do Conselho de Guerra que o Sr. a tez bronzeada. O pai não se fartava de olhar para as suas divisas de sargento. Em cima havia dois belos e grandes quartos contíguos. Georgey e Frederico desembarcavam em Toulon. GEORGEY — Vamos. da passagem num bom navio e das provisões necessárias para a viagem. Frederico quis mudar de conversa. o Sr. depois de Frederico ter dado a conhecer o que devia ao seu bom protetor. moiriscos cair. O primeiro encontro foi comovente. aos rasgos de bravura. BONARD — E o fato é que faz o trabalho de um homem.

ao pé de uma ribeira muito abundante em peixe. A Sra. que não podes voltar à África sem perigo para a tua vida. não precisava. . como eu.se ter ido embora. Georgey. pegou-lhe numa das mãos. Bertrand Duguescl Frederico teve dificuldade em chegar ao fim. como paisano. triunfante levou o filho à casa de todas as pessoas das suas relações e à cidade onde procurou todos os pretextos possíveis para fazê-lo passar diante do posto da polícia. A alegria e a surpresa estrangulavam-lhe a voz. Espero tornar a ver-te. recebia a continência dos simples polícias e um aperto de mão do cabo. todo o trabalho se fazia entre os três. Carolina ficou sendo sua governanta. No entanto. Frederico não quis ficar inativo. ajudava a Sra. Mas. Georgey não dizia nada. por causa das suas divisas. o Sr. sob a direção da mãe. Georgey entregou uma carta a Frederico. Durante vários dias. Mas se evitasse assim. Carolina. não hesito em conceder-te a baixa de serviço. Bonard chorava. visto que o médico declara. Frederico procurava distraí-la. — Mas — dizia ele — tenho de cumprir o meu tempo. GEORGEY — Ser do coronel. Aí vai absolutamente em regra. restavam-lhe somente três meses daquela magnífica vida de família. Comprou. à hora do jantar. Quero darte eu próprio esta boa noticia e dizer-te que tenho pena de que não voltes. trabalhava como Julião. Teu antigo coronel do 102º. Georgey vivia feliz como um rei. Resolveu fixar residência naquela região. de nenhum jornaleiro. quanto mais se aproximava o momento da separação. a tua ausência. onde podia entregar-se ao prazer da pesca e da qual também quis aproveitar-se para montar uma fábrica. que sorria. que fosses. — Ah! Se eu tivesse dezoito anos — dizia Julião — que prazer sentiria indo em vez de ti! E com que felicidade daria a todos esta prova do meu reconhecimento! FREDERICO — Gostavas então de seguir a vida de soldado? JULIÃO — Não. que entrara com ela ao serviço do Sr. — Ser tão glorioso! Um dia. Georgey. rodeado por pessoas a quem estimava e que tinham por ele tanta afeição como reconhecimento. um dia. muito perto dos Bonard. O pai cumprimentava também e parava com prazer. gostaria mais dela do que de qualquer outra. Ele pedir notícias de sua saúde. Lamentava muitas vezes não poder continuar assim até ao fim da vida. O Sr. o que foi para Bonard uma grande ajuda. queimado por sua ordem. Quando acabou. pois eras uma das glórias do regimento. Faltam-me ainda três anos de serviço. que voltara com alegria para casa do seu antigo patrão. O Sr. segundo diz o Sr Georgey. — Ser magnífico! — dizia ele. SR. O fim da licença de Frederico aproximava-se. olhou para o Sr. Bonard. Georgey. mais aumentava a sua tristeza e mais disposto Frederico se sentia a participar dela. Regimento de Caçadores de África. Bonard a cuidar do lar e dos animais. os teus superiores e camaradas lamentam. Meu caro Bonard Junto te envio a baixa do serviço e a cruz que tão merecidamente ganhaste. uma bonita moradia. Frederico. mas. agora não. assim. FREDERICO — Excelente coronel! Que bondade a sua! JULIÃO — Que te diz ele? Lê. comprara um bonito aparador para substituir o armário fatal. para conversar e dizer duas palavras acerca dos combates contados pelo Sr. Algumas vezes enaltecia a vida militar.

bom cristão. religioso e trabalhador. FIM . Somente mim ter feito escrevinhações. é bom rapaz. Frederico acha nela as qualidades precisas para a felicidade do lar. e uma gratidão sem limites.apertou-a com força e levou-a aos lábios. para montar uma fábrica de arame. Frederico tem vinte e quatro anos. Bonard. O Sr. Georgey deu-lhe como presente dez mil francos e cinco mil a Paulina. BONARD — Oh! Sr. Bonard estava no auge da alegria. Rolavam-lhe grandes lágrimas pelas faces. não tornou a faltar aos seus deveres. saber que ficaria na terra e gozar a todo o momento da sua glória. Desde o desaparecimento do seu génio mau. sobretudo. caindo de joelhos. Sra. Georgey não diz que não. Ela nunca esquecerá o que lhe deve. O Sr. toda a gente espera assistir a um casamento antes de dois meses. A Sra. Georgey diz a todo o momento palavras que julga sutis. GEORGEY — Procurar ser muito feliz e depois dar um pequeno porção de amizade ao pobre Georgey. São todos tão felizes quanto o merecem ser as almas bondosas. não ser nada. — Seremos sempre os seus amigos sinceros e devotados servidores. Bonard. O Sr. Bonard manifesta grande desejo de tê-la por nora. sentimentos honestos. ativa e afável. mas que mostram claramente que aquele casamento lhe agradaria muito. tem dezenove anos. Julião conta passar a vida ao pé dos seus benfeitores que esperam ficar para sempre com ele. faz planos que explica a Julião e passam serões inteiros a fazer projetos. o Sr. executados em breve. ver o filho condecorado e sargento. muito só. e começou a construção de uma fábrica cuja direção e lucros se destinam à Julianinha. Fala muitas vezes ao Sr. Georgey na vantagem que este teria em se aproveitar da ribeirinha que atravessa a sua propriedade. Georgey! Nosso querido e digno benfeitor! Como poderemos agradecer? Que havemos de fazer para testemunhar a nossa gratidão? SR. Paulina cora e não parece descontente. afeição. Georgey nunca sentiu desejo de deixar os seus amigos e retomar as antigas relações. gostos simples. como ele chamava a Alcino. Levou para casa uma irmã mais nova de Carolina. GEORGEY — Não ser nada. mas não pôde articular palavra. A partir desse dia passou a haver na herdade uma felicidade perfeita. herdará alguma coisa. sem família. SR. que serão. sorri. bom amigo e. Quis falar. SRA. Há de ser bom marido e bom pai porque é bom filho. Georgey levantou-se e apertou-o nos braços. ele estar muito contente. era tudo quanto havia desejado. Mim não ter muito dificuldade em fazer a coisa. Encontrava entre os Bonard tudo quanto desejara: calma. Frederico casou e o Sr. provavelmente. — O senhor restituiu um filho a sua mãe. Frederico sorri. querido e excelente benfeitor — respondeu a Sra. boa. A nossa família será a sua.

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