Luís Edmundo, com agudo senso de observação, extravasa, em O Rio de Janeiro do meu tempo, o seu imenso amor por

sua cidade, contando histórias e falando dos ambientes por ele vividos na virada do século...

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O RIO DE JANEIRO
DO MEU TEMPO

Mesa Diretora
Biênio 2003/2004

Senador José Sarney Presidente Senador Paulo Paim 1º Vice-Presidente Senador Romeu Tuma 1º Secretário Senador Heráclito Fortes 3º Secretário Senador Eduardo Siqueira Campos 2º Vice-Presidente Senador Alberto Silva 2º Secretário Senador Sérgio Zambiasi 4º Secretário

Suplentes de Secretário Senador João Alberto Souza Senador Geraldo Mesquita Júnior Senadora Serys Slhessarenko Senador Marcelo Crivella

Conselho Editorial
Senador José Sarney Presidente Joaquim Campelo Marques Vice-Presidente

Conselheiros Carlos Henrique Cardim João Almino Carlyle Coutinho Madruga Raimundo Pontes Cunha Neto

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Edições do Senado Federal – Vol. 1

O RIO DE JANEIRO
DO MEU TEMPO
Luís Edmundo

Brasília – 2003

EDIÇÕES DO SENADO FEDERAL Vol. 1 O Conselho Editorial do Senado Federal, criado pela Mesa Diretora em 31 de janeiro de 1997, buscará editar, sempre, obras de valor histórico e cultural e de importância relevante para a compreensão da história política, econômica e social do Brasil e reflexão sobre os destinos do país.

Projeto gráfico: Achilles Milan Neto © Senado Federal, 2003 Congresso Nacional Praça dos Três Poderes s/nº – CEP 70165-900 – Brasília – DF CEDIT@senado.gov.br Http://www.senado.gov.br/web/conselho/conselho.htm

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Edmundo, Luiz, 1880-1961. O Rio de Janeiro do meu tempo / Luiz Edmundo. -- Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. 680 p. – (Edições do Senado Federal ; v. 1) 1. Rio de Ja ne i ro (RJ), des cri ção. 2. Rio de Ja ne i ro (RJ), histó ria. 3. Vida social, Rio de Janeiro (RJ). I. Título. II. Série. CDD 918.1541

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Sumário

PREFÁCIO

pág. 13
INTRODUÇÃO

pág. 17
CAPÍTULO 1

Aspecto geral da cidade e de sua gente pág. 25
CAPÍTULO 2

A Rua do Ouvidor pela alvorada do século pág. 39
CAPÍTULO 3

Cais Pharoux e Praça Quinze pág. 55
CAPÍTULO 4

Largo da Carioca pág. 73
CAPÍTULO 5

A Praça Tiradentes pág. 89
CAPÍTULO 6

Rua da Misericórdia pág. 107

CAPÍTULO 7

Morro do Castelo pág. 121
CAPÍTULO 8

Morro de Santo Antônio pág. 145
CAPÍTULO 9

Largo do Machado pág. 173
CAPÍTULO 10

O palacete pág. 197
CAPÍTULO 11

O cortiço pág. 217

Vida do cortiço pág. 229 A vida noturna pág. 249 Teatro do tempo pág. 265
CAPÍTULO 15 CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 12

Cafés-concerto pág. 285
CAPÍTULO 16

Circo de cavalinhos pág. 301

CAPÍTULO 17

O Café do Rio pág. 309
CAPÍTULO 18

O Café do Globo pág. 327
CAPÍTULO 19

O Café Paris pág. 343
CAPÍTULO 20

Confeitarias, centros de reunião pág. 367
CAPÍTULO 21

A Colombo pág. 385
CAPÍTULO 22

As hostes novas da nossa literatura pág. 415
CAPÍTULO 23

Livros e livrarias pág. 431
CAPÍTULO 24 Outras livrarias da cidade pág. 449 CAPÍTULO 25

Carnaval de outrora pág. 475
CAPÍTULO 26

Carnaval de morro pág. 505

CAPÍTULO 27

Os esportes pág. 519
CAPÍTULO 28

Jogadores e jogatinas pág. 539
CAPÍTULO 29

O jornal na alvorada do século pág. 553 O Jornal do Comércio pág. 559
CAPÍTULO 31 CAPÍTULO 30

A Gazeta de Notícias pág. 567
CAPÍTULO 32

O País pág. 575

O Jornal do Brasil pág. 583
CAPÍTULO 34

CAPÍTULO 33

A Notícia pág. 595

CAPÍTULO 35

A Tribuna pág. 605
CAPÍTULO 36

A Cidade do Rio pág. 613

CAPÍTULO 37

O Nacional e o Jacobino pág. 621
CAPÍTULO 38

A Revista Contemporânea pág. 631
CAPÍTULO 39

O Correio da Manhã pág. 643
ÍNDICE ONOMÁSTICO

pág. 657

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Prefácio

foi certamente um dos melhores historiadores e memorialistas do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu 89 anos dedicados às letras, à boemia e ao prazer de fruir sua cidade. Ele, mais do que ninguém, a conhecia em sua história e geografia. Sua atividade de literato, que acumulava com a de jornalista do extinto Correio da Manhã, circunscreveu-se, basicamente, à história de sua cidade e, nos últimos anos de sua vida, às suas memórias. Como historiador, vale o destaque a duas obras especialmente saborosas: O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis e A corte de D. João no Rio de Janeiro, onde ele narra, com estilo leve e agradável, o quotidiano de uma vila tropical nascendo para sua condição de capital de um Império e futura República. Seus traços são realistas e humanos, sem nunca perder o humor. O Rio de Janeiro do meu tempo foi sua obra mais conhecida. Nela, Luís Edmundo extravasou o seu imenso amor por sua cidade, contando as histórias e falando dos ambientes por ele vividos na virada do século, em sua dupla condição de participante e testemunha.
UÍS EDMUNDO

14

Luís Edmundo

Nada escapou ao agudo senso de observação do escritor. Os tipos populares: o vendedor de carvão, o vendedor de perus, o leiteiro e sua vaca, a turca dos fósforos, o Barão de Drummond e seus palpites para o jogo do bicho. Os logradouros: o Morro do Castelo, o Morro de Santo Antônio, o Largo do Machado, a Rua do Ouvidor. Como se divertiam e se vestiam os cariocas nos primeiros anos deste século. As personalidades mais famosas: Pereira Passos, Ataulfo de Paiva, Paulo de Frontin, nomes que as novas gerações só conhecem pelas avenidas que os homenagearam, mas que tiveram influência marcante na vida do Rio. O livro de Luís Edmundo compõe o mais rico painel que já se fez sobre o Rio de Janeiro. Ao ágil e penetrante estilo do autor somam-se, nesta edição, primorosas ilustrações de autoria de J. Carlos, Calixto e Armando Pa checo, entre outros mestres, formando uma admirável coleção de estilos, variando do bico de pena detalhista da caricatura traçada a largos movimentos de pincel, mantendo o sabor típico da época. É nesta obra que mais se faz justiça à marreta civilizadora daquele que, seguramente, foi o maior prefeito que esta cidade já teve: Pereira Passos. Da provinciana, pacata e suja vila-capital, com menos de 600 mil habitantes, descrita por Luís Edmundo, com suas vielas imundas iluminadas a gás, aquela que veio a ser conhecida como “cidade maravilhosa”, Luís Edmundo vai traçando o quadro das mudanças impostas por Passos, sem dúvida um homem à altura dos tempos novos que apontavam para o que viria a ser de fato o século XX. “O Rio civiliza-se”, a famosa frase que marcou a administração modernizadora de Pereira Passos, poderia perfeitamente ser ressuscitada agora, quando os cariocas vão aos poucos adquirindo a consciência de sua cidadania e da necessidade de cuidar melhor de sua cidade para que esta possa voltar a ser maravilhosa, sem deixar de ser moderna. Obras como as de Luís Edmundo têm a virtude de mexer com a consciência das pessoas, de fazê-las parar para pensar. Consultar o passado com espanto crítico, sem saudosismo, é fundamental para respeitá-lo, mesmo que seja para não repeti-lo.

Luís Edmundo (1900) . E é com esta idéia em mente que nos propusemos a editar este livro.O Rio de Janeiro do meu tempo 15 Não se duvida que os cidadãos das metrópoles modernas como o Rio de Janeiro estão destinados inapelavelmente ao progresso. síntese de modernidade e antiguidade.

. fez seus primeiros estudos no Colégio Abílio. Introdução no Rio de Janeiro. Sua carreira jornalística se inicia no jornal Cidade do Rio. . “a peça em versos era um dramalhão. no jornal O País. já se interessava por leituras e demonstrava grande amor pelo teatro. Turíbulos.. .. . Luís Edmundo dedica-se à poesia com tendências simbolistas e neoparnasianas. o incentiva a desenvolver sua capacidade como poeta e escritor. . com honras de primeira página. um soneto que compusera para um concurso mas que não enviara. o Barão de Macaúbas. Por volta dos 10 anos escreve uma pequena peça teatral. José do Patrocínio. . Turris Ebúrnea. . seus livros de poesias: Nimbus.. . . seu diretor. Animado. . .. lança. . . que teve boa acei ta ção por parte da crí tica. encarregou-se de custear sua educação.. . em ASCIDO . . Tendo como padrinhos literários Coelho Neto. Medeiros e Albuquerque e Artur Azevedo.. em 1899. .. Por essa época. de família de origem modesta. encenada no quintal de sua casa em Botafogo. . mas a tragédia acaba em gargalhadas. . . da imprensa e do público. em 1900. em 1899. cujo diretor. . no dia 26 de agosto de 1878. . Publica. mas outros caminhos o interessam. . com a participação de crianças da vizinhança.” Aos 18 anos gradua-se bacharel em Ciências e Letras. que o contrata como repórter. seguidamente. . .

Olhos tristes. Não havia. na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. mocidade mais estouvada. 2 de agosto de 1944. mais boêmia. figura que fascinava as mulheres e provocava inveja nos homens. Para depois sofrer. Luís Edmundo relaciona-se com os poetas. Marinheiros cantando a canção da saudade Num coro de tristeza e de infinitos ais.”1 Freqüentava os salões da moda e os bares mais famosos da cidade e não havia quem não soubesse de cor e declamasse nos salões o seu poema de maior sucesso. num único volume chamado Poesias. Sempre pronto a adotar as novidades. Mais tarde reúne toda sua produção poética do período de 1896 a 1907. era por todos considerado o protótipo do dandy. eu sei vossa história sombria E sei quando chorais cheios de nostalgia.18 Luís Edmundo 1902. os modernismos. Andam neles agora a vagar. ao mesmo tempo. Viriato Correia ao discurso de posse de Luís Edmundo na Academia Brasileira de Letras. vós sois dois monges a rezar. . Olhos de quem andou na vida alegremente. E elegante. desde Catumbi ao Saco do Alferes. “Era moço. tão cheios de humildade. Como as velas das naus sobre as águas do mar. editado em 1907. desde Botafogo à Tijuca.. romancistas. Era já alto. Cansados de luzir.. cansados de girar. Elegantíssimo. mais irreverente e. bigodinho atrevido e uma basta cabeleira castanha que os ventos da Guanabara levaram quase toda. Todas as ilusões do vosso sonho ardente. “Olhos Tristes”: Olhos tristes. 1 Resposta do Sr. vós sois dois sóis num poente. a moda masculina refinada e esmerada.. para depois chorar. artistas e intelectuais que nessa época reuniam-se nos bares e cafés da moda para discutir as novas correntes e as novas idéias em voga no período da belle époque. Era rapaz. como a dança cake-walk (dança dos negros norte-americanos).. lentamente. mais simpática e mais amável. O sonho que passou e que não torna mais. com certeza. Olhos tristes. mais brincalhona. Ouço ao vos ver assim. mais jubilosa.

poetas e jornalistas”. além de vários colaboradores como Carlos Góis. mas que vivem somente a 2 Discurso do Sr. Luís Edmundo: “São em geral caóticos. amigos e inimigos. Martins Fontes e Emílio de Meneses. sem esquecer a burguesia que emergia à procura de um mundo novo. O nível das discussões se media através das correntes seguidas pelos próprios escritores e poetas: parnasianos ou simbolistas? Realismo ou Naturalismo? Havia um confronto acirrado de idéias e opiniões onde se digladiavam os mais conceituados mestres de nossa literatura. “viveiro dos novos. com capa ilustrada por Raul Pederneiras. a Pascoal. reduto de Humberto de Campos. lugar onde abancavam em ruidosas e férvidas tertúlias. entre outros. estudantes. literatos. mas nos jornais. confusos. nos salões ou nos livros. a Confeitaria Colombo. surgem as revistas direcionadas a um público específico de intelectuais.2 o Lamas.O Rio de Janeiro do meu tempo 19 O Café Papagaio. Não era nos cafés. 2 de agosto de 1944. com novas idéias. editados e compostos em sua maioria na Europa. onde grande parte desses célebres escritores ganhavam seu sustento e notoriedade. onde era possível encontrar Olavo Bilac. Do mesmo período e com o mesmo propósito de divulgação das expressões literárias. Sobre esse periódico depôs. Nesses lugares é que proliferaram as mais importantes tendências e os novos ritmos da cultura brasileira.. Silva Marques. jovens pintores. for mando uma trin cheira onde se en castelam solda dos vindos de toda a parte. Luís Edmundo – no ato de posse na Academia Brasileira de Letras –. cenáculo dos moços. por exemplo. A Revista Contemporânea. a parnasianos e a realistas. Alphonsus de Guimaraens e Coelho Neto. escultores. mais tarde. o Caré Paris. Cardoso Jr. não raro contendo manifestos literários que são ridículos e fofas declarações de guerra a líricos. . intitulava-se “revista (caricatura da época) literária: poesia e prosa” e tinha coma diretor Luís Edmundo. O Prefeito Pereira Passos surgida em 1899. o palco mais importante dessas disputas.

Fiúza Guimarães. em 1903. pelos nossos pintores quando retornavam de seus estudos na Europa. Batista da Costa.20 Luís Edmundo dar tiros para o ar. como reflexo da arte do momento. tendo escolhido Munique para seu aperfeiçoamento. implantou a arte decorativa e é o precursor. o prêmio de viagem ao estrangeiro no Salão Nacional de Belas-Artes. baratos e sentimentais. Suas ilustrações internas e a capa eram em estilo art nouveau. Seus colaboradores eram: Gonzaga Duque na crítica artística. ainda continuavam atuando nos moldes da Academia francesa. Luís Edmundo. que. José Veríssimo. Entre esses artistas Hélios Seelinger. Eliseu Visconti. considerado o mais brasileiro de nossos pintores. o Simbolismo e o Pontilhismo – estilos do pe ríodo chamado belle époque –. mas ainda com ares de novidade. São os estilos da burguesia. Almeida Júnior. Júlia Lopes de Almeida. Mas. Artur Azevedo. com o qual recebe. destaca-se por seu idealismo. os irmãos Timóteo da Costa e muitos outros que. do pintor Marques Júnior. Rodolfo Amoedo trabalha também nas pinturas para o mesmo teatro. Antônio Parreiras. Luís Edmundo. em Paris.) . João do Rio e Rodolfo Chambelland. alguns se destacavam e formavam o grupo dos renomados mestres de nossa pintura. denominava-se “revista artística. Outros movimentos estáticos. entre outros. * (Esse quadro pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas-Artes e encontra-se exposto na Galeria Eliseu Visconti. as pinturas do plafond.”3 A Revista Kosmos. chegam até nós trazidos tardiamente. formalmente vazios. Nesse quadro encontramos as figuras de Gonzaga Duque. apesar de terem tido contato com as novas correntes da arte européia. segundo alguns. de notória importância nessa mesma época. 1962... como o Realismo. Amigo querido e inseparável de Luís Edmundo. companheiro de todos os intelectuais. de Jorge Schmidt. que pertenceu a Luís Edmundo e que representa 3 Discurso do Sr. o Impressionismo. Afrânio Coutinho – no ato de posse na Academia Brasileira de Letras –. João do Rio (João Paulo Barreto). retrata-os no quadro Boêmia. do Impressionismo entre nós. Belmiro de Almeida. científica e literária”.* Existe outra tela. Prepara. Henrique e Rodolfo Bernardelli. do proscênio e do pano de boca do recém-construído Teatro Municipal do Rio de Janeiro. o grande responsável pela introdução do art nouveau no Brasil.

contribuindo. artigos. A partir de então. além de colunas de textos. sarcásticas e contundentes. os jornais modernizam-se. Como colaborador primeiro e permanente. um livro de poesias chamado Rosa-dos-ventos. todos o sabem. J. espaços para ilustradores e caricaturistas como Raul Pederneiras. para um anúncio de água mineral. surge. A opinião transmitida por esses jornais era de grande importância para os políticos. A função do caricaturista adquire maior importância e é como um termômetro onde são medidas as ações do Governo e dos políticos. Osvaldo Cruz é reverenciado por uns e criticado por outros. apresentando. mas também por suas legendas geralmente irreverentes. não só através do traço do artista. além de uma preocupação maior com a fotografia e com os anúncios. desse modo. mas é através das páginas de Luís Edmundo que essas mudanças se tornam mais vivas. ou a caricatura de Pinheiro Machado. em 1901. Nesse contexto. muitas vezes. a crônica literária. Nunca foi um jornalista que comparticipasse das lutas políticas do seu tempo. escritos. na qual o escritor aparece no meio da intelectualidade da época. As transformações da cidade o empolgam e a modernização desenvolvida por Pereira Passos é por ele aplaudida. mesmo assim lança. por nomes famosos. Em todos os jornais e revistas desse período podemos encontrar notícias. No entanto. pois podemos dizer que toda a obra de Luís Edmundo constitui uma grande reportagem. É o caso do anúncio do xarope Bromil com texto de Olavo Bilac. preferiu o lado menos combativo. Luís Edmundo aparece totalmente entrosado no jornalismo de sua época e deixando de lado a poesia. por volta de 1914. surgem suas crônicas citadinas e críticas literárias. sendo que através deles podiam avaliar sua aceitação ou não perante o público. Carlos. feita por J. Nesse momento de criação intensa em todos os níveis culturais. sob a direção de Edmundo Bittencourt. um jornal independente. Calixto. para o embelezamento da cidade. a crônica histórica. A vida mundana do Rio é efervescente e o entusiasma. Carlos. “Como jornalista. possuía grandes qualidades de jornalista. mas consegue erradicar a febre amarela no Rio. Mas. em 1919. uma reportagem . críticas e fotografias. Lucas e muitos outros. o Correio da Manhã.O Rio de Janeiro do meu tempo 21 uma sessão da Sociedade Brasileira de Homens de Letras. mais reais.

”4 Colabora também em outros órgãos de divulgação como os jornais O Estado de S. .”5 Homem de várias facetas. Paulo e a Gazeta de São Paulo. alegre e bem-humorado. que. além das crônicas corriqueiras. Escreve a peça Marquesa de Santos. Coelho Neto. Luís Edmundo participa também das “conferências literárias no Salão do Instituto de Música. em especial pelo século XVIII. Carmem Dolores. Essa atividade não o afasta de sua produção literária que. escreve para o Teatro Municipal a peça L’Appel à Raison. Xisto Bahia e João Caetano.. Com escasso material e grande dificuldade de documentação. encenada com grande sucesso pela companhia francesa Gestillat. setembro de 1952. que eram a grande moda. viaja a Portugal e Espanha onde remexe em arquivos.. O segundo. Este livro aparece em 1932 com sucesso da crítica e do público. “Tão grande é o amor pelo teatro. Luís Edmundo trabalhava também como corretor de companhias francesas de navegação e esse cargo o levou várias vezes à Europa. 4 5 6 Discurso do Presidente Austregésilo de Ataíde na Sessão de Saudade – dedicada à memória do Acadêmico Luís Edmundo –. 14 de dezembro de 1961. Luís Edmundo. recolhendo dados. Independência e. bibliotecas e conventos. João VI. D. premiada pela Academia Brasileira de Letras. gênero que nos vinha da França e que fascinava as platéias elegantes. grêmios. sendo ponto preferido de vários artistas. por essa época. 226 – 1980. Os mestres da hora. O Malho – Edição comemorativa dos 50 anos –. proliferam pequeninos palcos de amadores.”6 Apaixonado pela História do Brasil.22 Luís Edmundo histórica. Luís Edmundo lança-se numa infindável pesquisa sobre O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis. Alcindo Guanabara. Oscar Lopes. clubes. falariam de coisas graves ou frívolas para o encanto de uma humanidade tranqüila e acomodada. Abril Cultural. do centro ao mais remoto arrabalde ou subúrbio da cidade. onde se cultiva a arte que foi de Vasques. teatrinhos familiares. Medeiros e Albuquerque. João do Rio. reproduzido em Nosso Sé culo. Depoimento de Luís Edmundo. a pedido de Coelho Neto. Seu escritório ficava num sobradinho nas proximidades da Praça Mauá. pág. elegante. também o direciona para o teatro.

ministros e fâmulos. outrossim. dedica-se a revolver suas recordações. A esses livros sobre o Rio. candidatos e. invariavelmente tranqüilos acadêmicos.”8 7 8 Discurso do Sr. inimigos mortais da Academia.O Rio de Janeiro do meu tempo 23 A Corte de D.”7 Esses livros não são obras formais sobre nossa História. adultos e velhos do tempo e da roda do rei fugitivo. São também velhas histórias relatadas de maneira muito pessoal e distinta. Assim é. Discurso do Sr. o seu próprio passado. é o registro despretensioso. em 1942. a verve e a ironia. nas pessoas. Entusiasmado com o sucesso desses primeiros livros. cujo patrono é Raul Pompéia. Eleito no dia 18 de maio de 1944 para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras. passa para a pintura da vida pitoresca e íntima da corte portuguesa no Brasil. Em seu discurso de posse cita o Mestre Afrânio Peixoto: “Até chegarmos aos 30 anos. retratados nos aspectos físicos e morais e nos costumes. João no Rio de Janeiro. o maior reconhecimento concedido a um escritor. nós somos. por sua obra. mas Luís Edmundo abusa da imaginação e interpretação da realidade encontrada nas cidades. Recebe. depois. todos. é recebido por Viriato Correia no dia 2 de agosto do mesmo ano. “Da evocação social dos últimos anos da era colonial. por um miniaturista exímio. as lendas e os acontecimentos históricos e mundanos que ele reconstrói num relato vivo e vibrante. Essa cadeira. numa visão panorâmica da cidade. Luís Edmundo – op. onde não faltam os tipos característicos e conhecidos. com seguimento em Memórias. E assim será. algumas recolhidas em jornais e revistas de outros tempos. tem como fundador Domício da Gama. cit. mas fiel. nas ruas. completam a coleção: Recordação do Rio Antigo (1950) e Olhando para Trás (1954). soberanos e nobres. de episódios e costumes do Rio. . dos 30 aos 40. O Rio de Janeiro do Meu Tempo (1938). São suas memórias que se fundem em fatos corriqueiros. cit. a que não faltavam. Afrânio Coutinho – op. crianças. Assim foi. que muitas vezes se confunde com as memórias de sua cidade.

. 2 de julho de 1984 Caleche Desenho de Armando Pacheco 9 Discurso do Sr. na biblioteca de sua casa na Tijuca. Luís Edmundo continua suas pesquisas sobre o Rio de Janeiro. Ninguém mais carioca do que ele. cit. Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Não abandona as conferências sobre literatura e arte.”9 Luís Edmundo falece na sua decantada cidade. bairro onde viveu durante 25 anos. Afrânio Coutinho – op. única no Brasil isenta de espírito provinciano.. Torna-se bibliófilo e pesquisador do passado. também proferidas em Buenos Aires e Montevidéu. tendo sido sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras e homenageado por todos os acadêmicos numa sessão solene. Não são as histórias literárias particulares que representam o Brasil. no dia 8 de dezembro de 1961.24 Luís Edmundo Mas. e era possível encontrar nas paredes de sua casa quadros dos mais famosos pintores brasileiros que com ele conviveram. Ficam seus livros. e nenhum conhecia melhor os segredos desta metrópole admirável. torna-se um homem de gabinete. dedicada à sua memória. Piedade Epstein Grinberg. seu trabalho e a memória viva de uma cidade que talvez volte a ser como ele a amou: pitoresca e humana. De boêmio e poeta. sua obra. mesmo depois de tantas honras. mas o amálgama de todas realizado nesse extraordinário laboratório humano que é o Rio de Janeiro. sempre pronta a reagir pelo humorismo e pela sátira contra os ridículos humanos e as trapaçarias de certos políticos. . “O adorador do Rio de Janeiro sabia a razão de seu bem-querer.

desapareceu numa proporção notável. . . a multidão. quando a população negra. A massa de homens de cor. com . . o mesmo que se deu em Portugal. . . . que chegou a ser de mais de 10% da existente no país. . . O Rio de Janeiro do começo do século. . . é já bem outra. . . . que tomaram o caminho das cidades. dando-se. contudo. no século XVIII. . conosco. Entre nós essa população ascende a uns 20% ou 30%. Não obstante. . . em proporções embora diferentes.. Aspecto geral da cidade e de sua gente ASPECTO GERAL DA CIDADE E DE SUA GENTE – SUA POPULAÇÃO – RIO DE JANEIRO DE RUAS ESTREITAS E IMUNDAS – A AUSÊNCIA DE ARBORIZAÇÃO NOS LOGRADOUROS PÚBLICOS – O CASAMENTO – O TRÂNSITO – VEÍCULOS DE PRAÇA – BONDES DE TRAÇÃO ANIMAL – VENDEDORES AMBULANTES – PREGÕES DA CIDADE – O HOMEM DA VACA-LEITEIRA Capítulo 1 E O aspecto geral da cidade ainda guarda o cunho desolador dos velhos tempos do rei. dos vice-reis e dos governadores. começou a diluir-se. . . . . é bem menor que a de uns vinte anos atrás e isso apesar do surto da Abolição e do conseqüente abandono das terras de cultura por inúmeros pretos. a ponto de desaparecer por completo. . . . . com os anos.

de Baedeker no bolso e um chapéu-de-sol branco aberto. amarelão e triste. toldos de lona e uma floresta sem fim de tabuletas. porém. Estreito. de vielas imundas.26 Luís Edmundo menos de 600 mil habitantes. até. Quando muito lembrará certas cidades do setentrião africano. Em meio a isso tudo. François Coppée ou ainda a prosa intestinal do Sr. a mais linda e a mais adiantada das metrópoles do mundo. no centro. em 1901. Tânger. confete. e levados pela rédea do nativo. mas quase todos fendidos ou desbeiçados pelo assalto contínuo da roda do veículo. as suas toscas lojas de comércio. cerveja e serpentina – na rua os três famosos clubes carnavalescos: Democráticos. Afora o luxo do paralelepípedo. com uma agricultura que não cuida do plantio do que possa fazer concorrência a “nações amigas”. para alegrar a alma indígena. ou debaixo do braço. com a sua população descalça e malvestida. tudo isso numa evocação perfeita daqueles centros que a civilização esqueceu e que o civilizado só visita. com um comércio todo de estrangeiros. com os seus burricos pejados de hortaliça ou fruta. roliço e porco. já não lembra mais. então um carnaval de arromba. casimiras na França e até palitos em Portugal. suprindo a fronte consoladora do arvoredo. Camilo Castelo Branco. muitas vezes. Alexandria ou Orã. o que há na rua de menor importância. conformados. mandando buscar calçados na Inglaterra. vendendo a mercadoria. Por ele anda mal o homem de pés descalços. esse passeio é um pouco em rampa. uma procissãozinha ao Corpo de Deus ou. salvo algumas exceções. descontrolada e bruta. para arrancar-lhe do grotesco a diversão que o espírito blasé das correrias do progresso. com o espectro da febre amarela. Nós. acreditando que habitamos a mais branca. quase sem árvores para fazer a sombra das calçadas! Na parte central. forrada em aros de metal. vive a copiar os versos do Sr. a “Cafraria lusitana” dos primeiros decênios da centúria anterior. o calçamento das ruas principais queima quando da curva azul do céu o sol dardeja forte. as da orla do Mediterrâneo. sobretudo na do bairro.. é o que o linguajar pitoresco do . reclama. Tenentes e Fenianos. porém. cruzando o logradouro público. Rio de Janeiro de ruas estreitas. Os passeios são de lajes sólidas e altas. vivemos satisfeitos. em matéria de pavimentação. Feito em paralelepípedos alinhados.. de quando em quando. ao fundo. sem indústria. e uma literatura que. obrigado a bisnaga. de toldozinho esgarçado à frente e o homem de feição árabe.

de esguelha. porém. não na cor. desse áspero relevo de calçadas. e um carroceiro desbocado. que tinha. Morei numa rua. verdadeiros labirintos de covas e buracos. em torno. de tiririca ou grama. de tal sorte que se fica a pensar que a carroça é puxada por dois burros. doce feito de amendoins dourados. Por causa das chuvas e do trânsito contínuo de veículos. um burro aflito e suarento. a dos Junquilhos. mostrando. como a inteligência do homem não pode compreender toda a inutilidade desse esforço. . quase de metro a metro. arredondadas. são palcos de cenas como esta: uma carroça cheia. Vendedor de carvão Desenho de Armando Pacheco Ruas. Pé-de-moleque é guloseima da época. cavidades apenas comparáveis. a desfiar um rosário de injúrias. tendo. uma roda afundada até quase ao eixo em uma profunda depressão da terra. evocação grotesca. como que a dizer a saúde e a abundância do solo. há onde nem desses econômicos e singelos empedramentos se descobrem. em demasia. certos caminhos. a brandir um chicote ou um pau no lombo da cavalgadura que empacou. em Santa Teresa. mas em vão. cujo peso não é controlado pela prefeitura. Não pode o esforço do animal arrancar da depressão a roda. na profundidade.O Rio de Janeiro do meu tempo 27 tempo chama calçamento pé-de-moleque: por sobre a terra dura umas pedras pequenas. mas no exótico feitio. postas em relevo. florações de capim. puxando-a. postos em campo jalne de rapadura.

postos de banda. ou então uma vitória. completamente descida. de um só lugar. Vale a pena lembrar esses versinhos: Ó tu Que és presidente Do Conselho Municipal. que viviam a queixar-se do desmazelo municipal. Todos esses veículos mostram rigorosamente a capota descida. Se é que tens mulher e filhos. com a simples publicação de uns gaiatos versinhos. isso há muitos anos. em seus inúmeros rasgões. gritando.28 Luís Edmundo à paciência de seus incautos moradores. . os chicotes. com assentos de couro sovado. lustroso como um cromo. conseguiu do presidente do Conselho Municipal realizar o sonho de todos nós. puxado por um magríssimo cavalo de medíocre estampa. as crinas ou as palhas dos apodrecidos recheios. a mostrar. furiosamente. arrepiado e sujote. Para lá foi morar Artur Azevedo que. O muito rico possui um cupê de passeio. não raro. os paletós abertos. Cocheiros vestidos à vontade. pois grande preconceito. é viajar-se em carruagem aberta. pelo tempo. ainda. a desertar das calças. estalando. botas e longuíssimos chicotes. espécie de caDesenho de Julião Machado briolé.. sentados no alto de boléias oscilantes. Manda tapar os buracos da rua dos Junquilhos. Cidade de distâncias enormes e de raríssimas carruagens. de cor bege ou marrom.. com os seus cocheiros. quase sempre trazendo chapéus de palha ou feltro. uma caleça ou um landau. Traz sempre uma capota imunda de poeira. a camisa rota ou mal lavada. Quase um crime que a família semicolonial não perdoa. contados a dedo e custam verdadeiras fortunas por hora ou por Artur Azevedo cor ri da. Há o tíl buri. Os carros de praça são pobres. Há umas caleças estofadas e incômodas. todos magnificamente vestindo sobrecasacas fechadas. fumando.

O Presidente da República.. Tudo aqui. viaja em uma carruagem à Daumont. são os melhores do mundo. Ou: Os nossos elétricos.. cartola de reflexos. que. enormes e patudos. sem o menor favor. tem-se como estupenda conquista.O Rio de Janeiro do meu tempo 29 – Debochado! Diz-se que até de carro aberto anda! Para o dia do casamento há o luxo do cupê com dois cavalos platinos.. com o sota vestindo à jockey. em dia de grande cerimônia. torna-se necessário apelar para a polícia. Pela ausência de uma boa inspeção geral de trânsito. Carroça de um burro só Desenho de Armando Pacheco . carregados de correntes prateadas. por vezes. O bonde elétrico que é novo na terra. Cocheiro de sobrecasaca azul-marinho. de Paris ou de Nova Iorque e de Berlim. numa esquina de certo movimento. E para que um se decida a arredar primeiro. quando não é pior. a fim de deixar passar o outro. um melho ra men to capaz de co locar o Rio ao lado de Londres.. é sempre o melhor do universo inteiro.. enquanto os cocheiros se esmurram. mostrando laçarotes brancos caindo dos antolhos. Os jornais publicam: Porque os nossos excelentes bondes.. muitas vezes distante. enfeitada de flores de laranjeira em intenção à pureza da noiva. engasgam-se dois ou três veículos. esgotando todo um vocabulário de desaforos e de injúrias.

com o seu madeiramento agressivo. ainda. andam como bem querem ou como bem lhes parece. As plataformas vivem sempre apinhadas de soldados de polícia. bem junto à . O pingente é tradicional. até. exibindo cartolas ou chapéus de palha pintados a verniz preto. Os cocheiros do tempo não envergam uniformes. Por vezes o cocheiro grita. sem contar ditos da mais baixa natureza. falando alto. De uma feita (a história é velha) estava conhecido escritor. Sem o menor distintivo. chega a ser tudo que se ache a poucos centímetros do estribo do bonde. Andaime. e. velhos e ronceiros veículos chocalhando ferragens. catitamente postos ao centro de cabeleiras revoltas e enormíssimas. Por vezes guiam os carros trajando sovados fraques que compram aos adelos da Rua da Carioca. em geral puxados a burro. pelo tempo. sonolento e distraído. ainda atravancam as ruas sujas e estreitas da cidade. Andaime é o bailéu da casa em construção. voltando a cabeça para trás: – Olhem o andaime à direita! O aviso é feito ao pingente. como é. Nasceu com o primeiro estribo de bonde. discutindo coisas íntimas. de bombeiros. do qual se dizia que tinha o apêndice nasal dos maiores do Brasil. à vontade. que descansa próximo à linha. Já existe o “pingente”. o cavalo do soldado de polícia de ronda. ainda enchem. incômodos e sujos. a carroça que descarrega mercadorias.30 Luís Edmundo Navio-Sorvete Desenho de Armando Pacheco Os bondes. soltando baforadas de cigarro ou cachimbo. gargalhando. de navais ou de estafetas do Telégrafo ou Correio.

o cocheiro solta este grito. porque o homem vive a gritar a cada passo. Ao berro de um passageiro. porém forte voz.. não a voz de barítono ou tenor. dobra Machado Coelho! – Então pare. Quando chega aos pontos de seção ou terminais manda o regulamento que ele grite: – Ponto das passagens de cem réis! Ou então: – Ponto final! No tempo desse bondinho puxado a burro. após um psiu: – Passa pelo Mangue? Berra ele. quando.. que não tem as cordas vocais para repouso. o infeliz. por qualquer ladeirinha que suba. que fala da calçada.. por exemplo. Sorveteiro grita ainda: Desenho de Raul – O bonde não pára na subida!. numa alusão ferina: Carruagem presidencial Desenho de Armando Pacheco – Olhem o andaime à esquerda! Reclama-se para esse pobre cocheiro.O Rio de Janeiro do meu tempo 31 linha da passagem do veículo. no começo do século. . por sua vez: – Passa. por chalaça.. em seu ofício.

. grita assim: – Gueraalfas bazias pr’a bundaire!! E a negra da canjica: – Canjiquinha. fófo. féerro. Iaiá. metal velho para vender!. Há muita gente. soltando os mais histéricos pregões! É o português vendedor de perus: – Olha ôôô prú da roda vô ôôô a! – Olha ôôô avacaxi ôôô!. fófo! Berra o vendedor de vassouras: – Vai vasouôôôôôra. os vendedores. com as suas saias muito panejadas... Ulha a sardenha! A turca ou turco vendedores de fósforos: – Fófo barato. O homem das garrafas vazias. vai o espanadoire.32 Luís Edmundo Se são os veículos de praça um tanto raros. por causa delas saindo muito menos do que hoje. com o seu cesto à cabeça. grande é a mania da equitação.. O italiano do peixe: – Pixe camaró.. com as senhoras ainda saindo pouco e os homens... agitando na mão uma pobre lanterna de papel. cruzam vendedores ambulantes. Na rua de pouco trânsito. as mulheres vestindo à amazona. Gritam eles. muita. pastelaria feita com banha de porco e cujo recheio é um mingau detestável.. cama velha. em nada comparável às que se vendem pelas confeitarias.. mostrando gravatas brancas à plastrão.. uma gaze longuíssima a voar dos chapéus. E o comprador de metais: – Chuuuumbo. bem quente! À porta dos teatros quedam os vendedores de empada. a passear a cavalo: os homens de calças apertadas e de chapéu-de-coco. iluminada a vela de sebo: – As empedinhas spiciaes cum quêmerão Osvaldo Cruz e as azaitonas! Stam queimando! Não tendo o Desenho de Ofran quêmerão nam pagam nada! .

ao reclamar a ausência de camarão na empada. depois. Os ratos. são exterminados por completo. Diz-se que só na zona dos bacalhoeiros da Rua do Mercado e na de certos trapiches da Saúde. no seu comércio e que as revistas do ano repetem. se conseguiu um número de ratos maior que o de toda a população do Distrito! Gritam os mercadores desses malignos roedores: – Rato. não tem. explicando melhor: – É que há uns que gostom.. porém. Não tendo quêmerão. outros que não gostom. Quando a Repartição de Higiene manda matar os ratos que aqui festivamente recebem a bubônica importada da Europa.O Rio de Janeiro do meu tempo 33 Não têm nem sombra de camarão. Rato.. mas os fregueses pagam da mesma maneira. De um deles sei que. andam homens pelas ruas a comprar os roedores mortos. e com eles as pulgas. ouviu do vendedor: – É verdade. . Osvaldo Cruz. E continuou apregoando: Vendedor de perus Desenho de Armando Pacheco – As empedinhas spiciaes cum quêmerão estam queimando. E. Rato. Faz-se do grito uma canção popular que os próprios compradores cantam. nam pagam nada... de tal sorte obrigando o filho da terra a caçá-los. pondo em cheque a obra do diretor da Repartição de Higiene Pública.

mas não grita. publica um soneto que começa assim: Bravo! Limpa-se o Rio de Janeiro! Os homens limpos! A cidade limpa! Vai ser S. O Malho. Iaiá! Há o funileiro. sorvetão Sorvetinho de tostão Quem não tem um tostãozinho Não toma sor vete. não! Sorvete. sempre muito brancos e muito asseados. em 1903. de horrenda tradição colonial. que bate num prato de cobre com um badalozinho de chumbo. que nada mais é que a medida de um metro. Aos poucos vai-se limpando a cidade. Sebastião a mais supimpa Capital – por que não? do mundo inteiro! Sem a preocupação do mundo inteiro é que não se passa. e a vibrar uma espécie de matraca. apregoando em verso: Sorvetinho. o mascate vendedor de panos e armarinho.34 Luís Edmundo como já se havia feito com o piolho e o percevejo. com a lata de sua mercadoria envolta em panos. que contêm verdadeiros armazéns de mercadorias. Particularmente interessante e pitoresco é o preto vendedor de sorvete. dobrado em dois pedaços que se O leiteiro e a sua vaca Desenho de Armando Pacheco . sopesando caixas-de-folha enormes.

a baiana que se instala num vão de porta. felizmente.O Rio de Janeiro do meu tempo 35 ligam por duas dobradiças. Por vezes as praças coalham-se de Gamas e Cabrais. que usa barba passa-piolho e tamancas. ao mesmo tempo. a forma de navios. vendendo gelados em casquinha a tostão e a dois vinténs. com a esquelética vaca. o homem da manivela moendo. magro e pachorrento. é o leiteiro. é dos primeiros ambulantes a surgir na rua mal desperta. Caleche Desenho de Armando Pacheco O vendedor de leite. há a baiana do cuscuz. há o baleiro. a sua trunfa. da pamonha. Não esquecer que. E logo o homem da ajudância no serviço. atrás. incompreensivelmente. do amendoim e da cocada. com o seu lindo xale africano. os seus colares e as suas anáguas postas em goma. à espera da freguesia. tocando uma gaita de boca. posto à venda em carretas-realejos. porém. O caldo-de-cana é. chamarizes de crianças. no verão. esconde a sua tuberculose no fundo dos estábulos que recuaram para bairros distantes. puxando por uma cordinha curta o ruminante de seu comércio. a cana e a música. que hoje. o sorvete também se vende em carroças que tem. os doceiros de caixa. Por um copázio paga-se cem réis. duas ou três chocalhantes campainhas dependuradas ao pescoço bambo e pelancudo. fumando um cachimbo de nó de imbuia. capaz de transformar. mágico avisado. à vista do . por sua vez. O mais vergonhoso de todos esses ambulantes do começo do século. ordenhador astuto da alimária. esses.

para que possam. Bonde Desenho de Armando Pacheco Se a febre amarela. empacado na glândula mamária da leiteira. no qua dro. o bezerro. ou em louras esterlinas postas a ferrolho ao fundo de fortes arcas de ferro ou pau. ser ve apenas de elemento deco rativo. criminosamente. mas logo a focinheira de couro lhe chegam de novo. que não é do país. o lucro do homem da vaca que. desforra-se ceifando com o leite malsão que. esfaimado e tristonho. engana-se. quando não morre levado pela peste. Nunca as afecções gastrintestinais. e do melhor! Vem. Com três ou quatro ar rancadas vaza a teta. por sua vez. por uma enternecedora intuição patriótica. a vasilha com água e a vasilha do leite. de focinheira de couro.36 Luís Edmundo freguês. porque. em leite. poupa o nativo. para os cemitérios. enfim. graças à fraude do criminoso e traiçoeiro ambulante. esse. .. de preferência. entrar em função a mão calosa do vendedor. ceifando o leiteiro. no entanto. traduz-se em cadernetas da Caixa Econômica. quando a mão do ordenhador já não mais ordenha o leite recalcitrante. que é tanto mais violento quanto maior é a ânsia do triste em libar o alimento que tanto lhe recusam. há. na verdade. Quem pen sar que ele. vem o bezerrote para o trabalho com sucção. depois. sem que esse perceba. a água que está dentro de múltiplas vasilhas. aí. mataram tanto! Para compensar a perda desses inocentes. preso à cauda com sua pacata genitora. que vão aumentar o adubo das roseiras. vende.. a vida das nossas pobres criancinhas.

contra a vida das nossas pobres criancinhas. então duas forças temíveis: uma imprensa estrangeira que vive a defender o que ela chama “a liberdade do comércio num país que ainda precisa de imigração” e a corja da política que ainda vive dessa imprensa e que. É que ao lado do leiteiro. Carroça de burros Desenho de Armando Pacheco . entretanto. o governo. impede a ação dos defensores da saúde do povo. na ânsia de melhor defender os interesses dos que lhes garantem a pepineira e o voto. também. para não desgostá-la. As providências não surgem.O Rio de Janeiro do meu tempo 37 Os médicos da Higiene Pública sabem do que se passa.

nem tampouco a ruela achamboada que foi o pouso e a toca do Juiz-Ouvidor Francisco Berquó da Silveira. todo bordado de bananeiras e cercas de pau. a que lhe deu a nome. . . a de aspecto menos colonial. . . . aí pelo ano de 1659. ainda é a Rua do Ouvidor. . . . isso pela governança do Sr. a mais elegante. . no Rio de Janeiro. . . em 1901. . Capítulo 2 A Rua do Ouvidor pela alvorada do século A RUA DO OUVIDOR PELA ALVORADA DO SÉCULO – ELEGÂNCIAS DA GRANDE ARTÉRIA – COMO SE TRANSFORMAVA A RUA À MEDIDA QUE CORRIA PARA OS LADOS DO MAR – TIPOS ELEGANTES – AS SENHORAS COMO VESTIAM. 4º Vice-Rei do Brasil. Já não lembra. . Luís de Vasconcelos e Sousa. . . embora não lhe desse brilho. a mais limpa.. da época em que se chamava Rua Homem da Costa. . . estreito e curto. . COMO ANDAVAM – O “BOLINA” – LUÍS MURAT E NAPOLEÃO BONAPARTE – HISTÓRIA DE CERTO LANDAU DO PAÇO – TIPOS POPULARES – O “VINTE-NOVE” ARTÉRIA principal da cidade. . . . . aquele caminho de terra. . . .

muito bem barbeados. resplandecendo. que então se chama Praça Coronel Tamarindo. de andar térreo. capricho. sobretudo. o de número 112. como sempre. ao começar o século em que vivemos. e.. faiscando ao sol. Aí estão as lojas de mais requintado luxo e aparato. entre esses imó veis. A Rua. a Casa Sloper. muito mais freqüentado. que é o co ração da cidade. São rasgões claros em montras de cristal. Rua do Ouvidor. sabe-se que. é que palpita a vida elegante da cidade. a Rua. destoando na linha geral do casario ir regular e de vulgar arquitetura. envergonhado e triste da sua vetusta e pobre arquitetura. sabe-se que. do lado ímpar. a compras ou a passeio. Todo um bazar de modas.40 Luís Edmundo Pelo Indicador do Distrito. A parte de maior animação e maior vida é a que se fixa entre os quarteirões que se estendem do Largo do S. um pequeno . Nelas vêem-se caixeiros e patrões dentro de uniformes de linho brancos.. Nesse trecho. embora menos rústico que os outros. é apenas um pobre corredor entre tantos corredores da cidade. conjunto dizendo certa distinção. terminando em 158. que a municipalidade de então chama Moreira César e o povo. Francisco. muito modesta. pesado de telhas de canal. tentemos destacar as casas de comércio que nele são de mais projeção e popularidade. mostrando sorrisos e falando em francês. acaba em o número 155. como que posto de joelhos entre imóveis de dois. Vindo do Largo de S. de três ou mais andares. Sabe-se mais. possui 313 prédios e que a numeração. a Desenho de Raul primitiva. de madeira de lei envernizada ou mármore. de Noronha Santos. afetando maneiras. trânsito obrigatório dos que chegam dos arrabaldes à parte central da cidade. Francisco O velho Fred. de melhor clientela e consideração. arcos de entrada em boa cantaria. do lado par. vendedor de borboletas (lado ímpar) há o Café Java. ela. um ainda se encontra. até a Rua dos Ourives. muito limpos. contudo. com pouco mais de cem metros de extensão. embora mais festivo. Sem a intenção de re cons tru ir ri gorosamente todo esse trecho. a seguir.

o Restaurante Petrópolis. Casa Nascimento (músicas). Depois. mostrando vitrinas com gravatas. A seguir. o Pascoal e o Café do Rio. Temos chegado à Rua Gonçalves Dias. a do Staffa. graças a um jogo de espelhos. com uma célebre lanterna-mágica. com seus cartões-postais e o seu jogo do bicho. de que se equilibra no espaço sem encontrar nele o menor ponto de apoio. a Casa Édson. A seguir. de Uruguaiana até Gonçalves Dias: Casa Barbosa (roupas brancas). ao espectador. a Chapelaria Americana. a loja de bilhete de loterias de Domingos Conde. Porta do Hotel Ravot. guardando sempre o mesmo lado. a casa da viúva Filipone (águas de Vichy e músicas). a redação do jornal O Tempo. fazendo canto com a Rua Uruguaiana. a seguir. depois. que é uma ruazinha pobre.O Rio de Janeiro do meu tempo 41 restaurante. a prin cípio. A Notícia. a Confeitaria Cailteau. Prosseguindo em direção ao mar a primeira loja que vemos. depois. no edifício onde ficava o célebre Café de Londres (depois Leiteria Palmira). a Camisaria Americana. redação da A Tribuna. Casa Gomes (luvas). a Casa Dol (artigos para crianças). das bandas de S. vem a Casa Leonardos. por Cavanelas. Agora. há uma loja de artigos para homens. o alfaiate Raunier e uma leiteria da Companhia Laticínios. e o chapeleiro Watson. no primeiro andar. Tabuleta do calista Brito. A Inana. comprada. a Casa Lopes (perfumaria). Bastidor de Bordar. este último já no canto da Gonçalves Dias. agora. depois. uma mulher que. meias. loja de diversões do Pascoal Segreto. bem no centro de Uruguaiana. Começa a outra face do quarteirão pela Sapataria Costa. a Casa Nascimento (fazendas). suja e muito estreita. tendo no sobrado a Casa Vale. e. camisas. depois. dos irmãos Figner. e a última loja do bloco. novidade espetaculosa. a rua do lado oposto. Guardando sempre a . e as portas que foram da Gazeta da Tarde. vindo de novo. incrustada no edifício da Notre Dame de Paris. é a de Madame Coulon (roupas brancas). alfaiataria. a Casa Merino. famoso chapeleiro. um pe que no ci nema. no edifício onde se instalou. que é o direito de quem se encaminha para a Rua Primeiro de Março. de Madame Roche. Francisco: Charutaria do Madruga. a casa onde funcionou a Livraria de Madame Fauchon. Madame Rosenvald (florista). o Círculo de Imprensa. número de feira. sempre à nossa direita. Segue-se uma loja de perfumaria e a charutaria do muito conhecido Guimarães Pepe. Atravessemo-la. depois. Vem. dá a impressão. Vejamos. joalheiro Colucci.

o trecho do qual se pode dizer que forma o coração da cidade. a infalível ruma de tamancos! Desagradável e imundo esse trecho onde abunda o homem de indumentária reles. sempre à porta do seu magazine. atravessando a rua.42 Luís Edmundo esquerda. não irrompe o brado do italiano do peixe. também. A vitrine não mostra mais a graça. Isso quando em meio a esse linguajar áspero. o toucinho de fumeiro. como num campo. vamos encontrar a Casa do Everdosa (armazém de bebidas) a Casa Davi (papéis pintados). aos berros. o polvo seco em falripas. Entra no diálogo o homem do burro-sem-rabo. Casa de modas de Madame Dreyfus. sobrancelhas carregadas. atravessando a Rua 1º de Março. o badejo. Santo Deus! Ao invés de vitrines ou de lojas. de cesto ao ombro. Quando se avança. entretanto. a eterna. Jacinto Lopes (chapéus para homens). a animação. a berrar. o que se vê é o armazém mal arranjado e sujo. o peixe-galo e o bagre. Casa Madame Guimarães. crucificado em ganchos. já se começa a sentir grande diferença. em plena praia ou num deserto: – Ó “estupoire”. Esse. o Braço-de-Ouro. no sobrado o Salão Naval. Menor é o movimento. não parecem os mesmos. mesmo de aparência regular. figura popularíssima. e o Jornal do Comércio. em caminho do mar. espécie de Centauro da viação urbana. com as réstias de cebola dependuradas pelos tetos. Casa Fio-de-Ouro. a clássica. no ângulo da Rua com a dos Ourives. armazém de novidades do barbaceno Portela. onde a obscenidade de permeio resvala. ou o assobio do moleque que vende puxa-puxa e . vendendo a tainha. um pouco mais para diante e vai-se além da linha que defronta a joalharia do Farani. os homens das lojas. mande-me daí o Antônio. à mostra o bacalhau da Noruega. Casa Douvizi (chapeleira). Casa Pára-quedas (guarda-chuvas e sombrinhas). que chega banhado em suor a maldizer o sol. em meio a todo esse mostruário de comestíveis. atrelado aos varais do seu carrinho. O vendilhão retruca. o Castelões. o apuro e o bom gosto das primeiras que deixamos atrás. A caixeirada já se agita em mangas de camisa. o ruído. e. O País. no meio da rua. mantas de carne-seca enodoando portais. se descemos mais um pouco. Casa Simoneti. a Casa Carmo (luvas). e dos imóveis onde se instalam a Gazeta. por sua vez. Palais Royal e a Ourivesaria Luís de Resende. além da Casa Tour Eiffel. E. que “el” tem que “levar” o raio do cesto das compras à Saúde! E o Antônio responde.

orientando e prestiDesenho de Raul giando o comércio da Rua do Ouvidor. Imundo quarteirão! Ao tradicionalista. São francesas ou de nomes franceses. este caminho. porém. O povo no entanto. Rio dos tempos do Senado da Câmara. o grito tonitruante do carroceiro apressado. saiba-se. Pedro I. no co meço deste século. inúmeras casas francesas Lopes Trovão ainda dominando. as suas costureiras. Nós vamos en contrar. E não foi por outra coisa que no comércio da cidade a fortuna começou a sorrir para os vindos de França. criou-lhes embaraços de toda ordem. mandando o transeunte trepar para a calçada. num protesto passivo. no começo do século. sempre a estes últimos ia dando a sua preferência. porque ele quer passar com a carroça: – Olhe. porque é o Rio de há cem anos atrás. Madame Douvizi (chapéus . nesse trecho. as de Madame Dupeyrat (coletes). aí. Quando eles aqui chegaram. de ciúme e de má-vontade.O Rio de Janeiro do meu tempo 43 bate com o pauzinho em uma caixa de folha. dos irmãos da opa pedindo para a cera de Nossa Senhora dos Mercadores e do primeiro semafórico do Castelo. anunciando as naus chegadinhas de Lisboa. o trecho sujo e bulhento interessa. Madame Estoueigt (alta-costura). Merecidíssima fortuna. moveu-lhes uma guerra tremenda. atrasado e mofino. feitas à moda de Paris. comparando mercadores de cá aos de lá. Foram os franceses do tempo do Sr. ainda. à parte. limpando. os seus cabeleireiros e umas instalações completamente novas para nós. assim. é um tanto precária. Madame Coulon (camisaria). com as suas lojas de novidades. que criaram a elegância de certas casas de comércio da Rua do Ouvidor. ou. ó sua besta! Há de se concordar que a elegância da Rua do Ouvidor. Os palavrões. o varejo local. E cheira em demasia ao pouco amável tempo da Colônia. guerra de inveja. entre outras casas.

Fídias da tesoura.. apenas maduro. todo de seda da China com desenhos feitos a nanquim e uma abotoadura de xarão. As casas chamam-se Notre Dame de Paris. Madame Rosenvald (florista). uma dedada de pó-de-arroz na ponta do nariz. o Brandão e o Raunier. Herédia de Sá. de republicanos históricos que melhoraram de sorte com a mudança do regime e dos comendadores. todos de Cristo. desliza o Sr. Simões. Este último é o cortador de velhos conselheiros de estado. Passa o Dr. fitado de preto. que mandou buscar em Paris. um cravo vermelho esparramado à boutonnière. apenas quarentão. Tour Eiffel. embora mal. como um pintor assina um quadro ou um escultor uma estátua. Palais Royal.44 Luís Edmundo de senhora). artista maravilhoso que bem pode assinar as roupas que corta. que um autor francês. mostrando um colete fraise ecrasée e polainas cor-de-pérola. Simões. Por esse risonho corredor. Ataulfo de Paiva. Há na cidade mais três grandes artistas no gênero: há o Vale. chegou a comparar à Rua Vivienne. Madame Dreyfus (modas). engomado e risonho. mas já gorduchote. muito bem passado a ferro. Garnier (livreiro). com um famoso gilet-chinois. num veston cor-de-flor-de-alecrim. Carnaval de Venise. Paulo de Frontin Desenho de J.. Carlos Ataulfo de Paiva Desenho de Aires . obra e glória do alfaiate Almeida Rabelo. Cailteau (confeiteiro). passam os elegantes do tempo. por amabilidade ou ironia. Passa o Sr. de Paris.. Veste fraque cinzento. Lacurte (alfaiate). Passa João do Rio. mamando um vasto Portela Desenho de Calixto Dr. mas dos da categoria dos que sabem ler e escrever. L’Opera. que em matéria de coletes derrota o Dr. hirto. ainda não bafejado pela glória.. de barbicha em ponta.

e toda gente pergunta. entre alas de cavalheiros que recheiam as esquinas. domado graças a uma célebre redinha que se chama prussiana. de cá para lá. jovem sábio. solenemente. o bigode de ponta fina e erecta à força de pomada Hongroise ou em chuveiro vertical. esses cavalheiros. atirando olhares e sorrisos espalhafatosos para todos os lados. quentíssimas. que queres. em bandos. que ranzinzam. As senhoras vindas do Largo da Carioca tomam a Rua Gonçalves Dias. um bêbado. se tu não tens mais nada por onde se pegue?. fitando os outros de revés com um olho espantado de ganso. que vai passando. secretário de Legação e poeta.. como os seus versos.. pedindo licença. todos em tocaia. mostrando camisas mandadas cortar na Casa Coulon ou compradas feitas na Casa Dol. gesticulando. muito convencido. em geral. pelo Ataulfo. quando cruza sozinho. quase filtradas. Falando alto. espessas. os filhos. com a sua cabecinha loira de anjo Rafael e as mais lindas gravatas da estação. Filipe. de ombros algodoados. os carões aflitos surgindo de amplos chapéus de celulóide branco. É um Petrônio magnífico. para não esquecer o idioma da terra.O Rio de Janeiro do meu tempo 45 charuto de 22 centímetros. para um clima como o nosso. a reboque. quando não atravancam as esquinas por onde as senhoras passam espremidas. Guerra Duval. muito grande. verdadeiros donos da rua. Olhem. os cabelos um pouco fartos . um que morra em Paris. se está casando alguém no Meyer. Trazem. agora. ar rastando. para o Raul Braga. andam eles. Passa Humberto Gotuzo. arrimados aos portais das casas de negócio. o Sr. fazem ponto na “grande artéria” das quatro às seis. Todos esses leões-de-alfaiataria. os peraltas do século que nasce. um elástico negro de dois dedos de largura a prendê-los por debaixo do queixo. dois meses no Brasil. de lá para cá. se está doente. que usam casimiras da Inglaterra. um elegante de verdade. como mordomos de procissão. cocos ou palhas. logo. à Kaiser. o Filipe Barradas. o indefectível rolo de revistas e de jornais debaixo do braço. vem passarr todos os annes. vermelhas pelo calor da tarde. gravatas de manta. muito teso. duas fitinhas para trás. coletes de afogar. duras. cartolas. mas de muito talento: – Não me pegues na rroupa – este lhe respondeu: – Mas. aquele que gritando. faz escândalo.. um dia. colarinhos altíssimos e. se morreu. derrubando às senhoras que passam. um monóculo de fita larga no olho esquerdo. pisando solas de borzeguins batidas na sapataria do Cadete ou na do Incroyable. de gorgorão ou cetim (presas durante um tempo com vastos camafeus de quase duas polegadas de diâmetro). não raro..

Usam. As mulheres cariocas são figuras de marfim ou cera. já se sabe. os traseiros em tufo. o faille. como fazendas. Não há pintura de olhos. como vaidade. trazendo no bolso papier poudre para diminuir o suor do rosto. o infalível leque de seda ou gaze na mão. mostram cinturinhas de marimbondo. de abotoar ou presas a cordão. com um cabozinho enfeitado de madrepérola ou pedras de fantasia. Se uma aparece de lábio rubro ou de tez colorida. visões maceradas evadidas de um cemitério. afogueado pelo calor. cheias de subsaias. de lábios. Quando passam em bandos lembram uma procissão de cadáveres. respas que fogem de chapéus postos um pouco de banda e um tanto enterrados para a frente.46 Luís Edmundo no cangote. fica preso a um grampo de metal em forma de gládio curto. Brasileira não pode ser. Isto é. As senhoras vestem saias compridas. enrodilhados no alto da cabeça e sobre os quais equilibra-se um chapéu que. as nossas patrícias.. para não fugir com o vento. Diz-se pelas igrejas que é pecado pintar o rosto. calçam botinas de cano alto. sempre muito bem enluvada. ressaltados por coletes de barbatana de ferro. o chamalote. amplas. Todas de cabelos longos. Carlos . sungadas a mão. que Nossa Senhora não se pintava. Usam. E jóias. espécie de golas do casaco. Fumam cigarros de bout doré e usam perfumes no lenço e no cabelo. mas muito leve. que descem quase um palmo abaixo do umbigo.. nem de rosto. um tom rosado. o tafetá e o merino. pinta-se Humberto Gotuzo Desenbo de Aires Herédia de Sá Desenho de Calixto Pinheiro Machado Desenho de J. o surah. é estrangeira. nas unhas. apenas.

Dra. sob a forma impertinente de galanteios postos em clichês muito batidos. quando as nossas avós traziam as faces mais pintadas do que muita porta de tinturaria. quando sai para o ganha-pão. sobretudo quando são de bairros pouco condescendentes. quando? – Faço do meu co ra ção pe dras des ta calçada. A sociedade condena a pintura do rosto.. E clichê do Desenho de Renato tempo. Algumas repontam furiosas.. cheia de ranço e de usanças coloniais não deveria repudiar a que foi consagrado e bem-visto pelos antigos tempos.O Rio de Janeiro do meu tempo 47 à atriz quando entra em cena e a freqüentadora de casas de rendez-vous. Teixeira Mendes Com pintura ou sem ela. apesar de Nossa Senhora não usar carmim ou bistre. apenas de tempo em tempo mudados pela moda: – Tanta moça bonita e minha mãe sem nora! – Rainha. as famosas gracinhas de rua e que já eram dos velhos tempos em que as mulheres saíam no bloco das mantilhas. “seu pronto”? – Engraçado! – Quer dois tostões pela gracinha? – Ora vá lamber sabão! Alvarenga Fonseca Isso tudo também é clichê. por mais sisuda e precavida. muito conhecidos. na cidade. Mirtes de Campos Desenho de Calixto Tudo isso são frases consagradas pela época. quando Desenho de Calixto em passeio. a mulher. e que. sempre de fundo sensual. até os padres se pintavam. sofre o acuo do madraço plantado à esquina. pouca-roupa ou janota. . Clichê com clichê se paga. sem se lembrar que a cidade. É a época. não mate a gente! – Meu Deus. como os da Gamboa ou do Saco do Alferes: – Não enxerga. por mais austera que seja...

por ser descoberto enroscado à perna de um padre (que ele cuidou ser a perna de uma mulher). feliz ou amargurada. O tempo não conhece. Bolina é o cabo que ala para avante do barlavento de uma vela a fim de que o vento nela bata melhor. digno de figurar num compêndio de psiquiatria. até o termo da viagem. por Vendedor de balões de borracha Desenho de Raul O “Vinte-Nove” Desenho de Raul O “Mamãe” Desenho de Raul . E se a dona da perna não protesta. tem sempre uma perna de anatomia especial. em sua satânica manobra. que um bolina (contam) posto fora do bonde. bem como ao escândalo a que assistiram sem protestar: – Infelizmente é isso mesmo! Nunca se viu nesta terra classe mais desunida! De histórias de bolina vive a cidade cheia. Bolinas por quê? A expressão é náutica. sempre. esfrega. assim.48 Luís Edmundo Esses cavalheiros escaldadiços. E. vincula e enrosca-se. aos colegas indiferentes à sua sorte. à espera da aragem favorável. certa vez. logo. A princípio esse pernil cautchútico no joelho da galante vizinha bate. No bonde o bolina que escolhe. gritou. põe-se. Refinadíssimo velhaco! Esse cavalheiro. para tomar o bonde. do meio da rua... o bolina a mantém. também ala para avante do barlavento. cutuca. a bolinagem é generalizada. à feição da mesma. De tal sorte. um caso interessante.. quando abandonam as esquinas. passam a se chamar bolinas. como que feita de borracha. uma mulher bonita para sentar-se ao lado. as boas cargas de pau nem sempre agindo como medicina salvadora. Pode-se contar. ainda. a propósito. ainda. terapêutica eficaz para curar esse grande enfermo mental. Depois enlaça. prisioneira.. Adornado. na época. no qual se envolve a figura. desdobrável e contrátil como tentáculos de um polvo. O navio que marcha à bolina. ágil.

toma do guarda-chuva que a acompanha. oscilando sobre os trilhos. De novo um solavanco. um lugar vago Soldado de polícia Desenho de Raul ao lado de uma preta. muito abstrato e alheio ao que se passa. o veículo. E a negra. após uma violenta cusparada. de novo a perna do distraído ortodoxo sobre o pernil da negra. Há. a desenroscar-se.O Rio de Janeiro do meu tempo 49 muitos lados conspícua e respeitável. sem compreender a razão do terrível manejo. sumo pontífice da igreja positivista do Brasil. bem alto para que o bonde inteiro a ouça gritar: A velha Susana de Castera – A gente vê nesta terra cada velho Desenho de Raul sem-vergonha!. A perna puríssima do sacerdote toca. dos mais puros e mais completos sacerdotes do seu tempo. Homem sem falsos preconceitos sociais. toma de um volume qualquer e põe-se a ler. Teixeira Mendes. encara-a. um olho de víbora. Sentado. ela. entretanto. a um quarto ou a um quinto solavanco. do Sr. a sua perna da perna do sacerdote. para ir a Botafogo. e o atira como uma arma de defesa. É quando ela. que não mais se contém. tranqüila e a cochilar. que franze o sobrolho. Vai cheio. aborrecida. Mendes vai tomar. como uma jibóia cutucada espevitadamente. o seu livro. dos chamados caraduras. um bonde. brutalmente. Este. Súbito. porém. separando. Junto à velhota o “Papa Verde” abanca. sem querer. a perna da velhinha. . trepa sobre o primeiro veículo que lhe passa pela frente e que é um carro de 2ª classe. Simões da Silva Desenho de Marques Júnior distraído. homem de uma candidez – diga-se sem receio de errar – tão grande como a do próprio Cristo.. O bonde caminha aos trancos. tirando o cachimbo da boca.. de quando em quando.. afogueado e mau no semblante do homem Dr. reputação ilibada. e que pita seu cachimbo de barro. que continua a ler. surpreso. quase nonagenária.. grita.

sempre de mão no bolso. É o exórdio. pálido. um pouco demais. quando agem. as subsaias. além do bolina. E mais desaforado ainda é o olho que lhe vai ficando cada vez mais bruxuleante. põe-se a despir a pobrezinha. de ar de gentleman. Uma senhora de certa linha sentindo-o. a camisa. O tira-camisas é quase sempre um cavalheiro taciturno. O encarador não tem o olho desaforado do outro. de pasta caída sobre a testa. ela pára. Um olho a requerer cacetadas. saiba! De uma que perguntou a um desses biltres: – Nunca viu? – teve que ouvir esta resposta: – A senhora nunca me mostrou! Por vezes o marido dessas senhoras vem atrás e protesta: . como se fosse com as próprias mãos. as botinas.. a agir. esse louco moral.50 Luís Edmundo O Rio do começo do século.. então. as luvas. entre a multidão que formiga. nua.. uma criatura moça. desdobramento do platônico bolina. tendo diante dos olhos a Calipígia. porém numa indagação visual que. o colete. Tímido. Um tanto nervoso. há que se mostram ir ritadas. não confundir esse tipo singular com o do encarador. onde exista mulher. Prestem atenção. É o que o carioca conhece sob a denominação pitoresca de tira-camisas. olhando. porém. Está o homem como quer. Depois de alguns instantes. bonita e bem-feita. por um homem curioso. após um bom suspiro do imo peito. que pode passar. sendo impertinente. Tudo isso em plena rua. de mão no bolso e olho de carneiro morto. apenas. dele se vale sempre. baixa os olhos e segue.. quando chega. e com dois olhos que são como duas mãos atrevidas. Tira-camisas está à esquina da rua. nem sempre ofende ou escandaliza. talvez. É assim que à honesta e despreocupada rapariga. Tira-camisas. cada vez mais trêmulo e esgazeado. que já a viu de longe. mentalmente começa a lhe tirar o chapéu. mas. à distância. Bom será. no entanto. nuazinha em pêlo! Daí a colocá-la em poses plásticas absurdas não vai muito. O homem é desaforado. manobra cauteloso. com o cérebro. outro tipo possui digno do exame e da atenção de um psiquiatra. arrebata-lhe a saia. Outras. começa. por exemplo. descuidosa. Diante de uma vitrine. mais atrevido. E ao de saforo do olhar respondem com palavras: – Eu não sou quem o senhor pensa. em geral. súbito. contudo. e olho de fim de tocha.

Maridos há que não aceitam respostas e que vão logo caindo sobre o petulante. e que. Pela estreitinha Rua do Ouvidor não transitam veículos. importante cavalheiro. guardando as retaguardas conjugais. pondo-se à frente da carruagem. De uma feita. à vontade. aos arrecuos.. a não ser. Nessas contendas. sumariamente. rolista. porém. reponta sempre: – O senhor sabe com quem está falando! A frase é dita de tal maneira que não deixa de dar ao tipo que a pronuncia um ar. porém. Francisco. pelos dias das folganças de Momo. esses homens não se batem. ouviu a frase fatal: – Sabe com quem está falando? Murat não vacilou. os carros dos préstitos carnavalescos. que era metido a brigador. vindo dos lados da Rua do Teatro quer entrar pela parte da Rua do Ouvidor que olha para as bandas de S. certo landau. quase sempre. Vezes. há. de campeão de boxe ou de luta romana. numa troca de palavras com alguém.O Rio de Janeiro do meu tempo 51 – O cavalheiro deseja alguma coisa desta senhora? É do protocolo do encarador uma resposta como esta: – Peço mil desculpas. agressivos e violentos. dizendo ao guarda: . vai logo. a dentadura à mostra e retiram-se com dignidade e altivez. o regulamento estabelecido parecia definitivo: nada de rodas na Rua do Ouvidor! Era isso para um tempo em que a famosa Susana de Castera atingia o apogeu de seu prestígio entre nós. um que.. cheios de pigarros varonis. tida e havida como se fosse a favorita de príncipes. enquanto não chega o instante da pancadaria. os que são maridos. suspendeu a bengala e respondeu ao desconhecido: – Sei. a murros e sopapos. ameaçadores como leões de tapete. muito bem enluvado. O Luís Murat. – Não pode passar – diz o guarda de serviço. mas vai apanhar da mesma maneira! – E desancou-o. cheio de autoridade. Dela salta. é o Napoleão à paisana. assim. a mão crispada em bengalões de cana-da-índia montados em biqueira de ferro. medem-se. entre homens. na rua. apenas. mas sua esposa é a imagem viva de uma parenta minha. E época houve em que nem eles transitavam. ela que era apenas a mais audaciosa das cocottes! Acontece que. um dia.

na rua movimentada e alegre: o Dr. certo dia. cruzando a Rua do Ouvidor. abobalhado. com a cara do Deodoro.. Além dele existem: o Seixas. o Capitão Marmelada. Frontin. os de maior fama. o engenheiro Bezzi. Lopes Trovão. próximo à Casa Pascoal. Ouve-se. de língua suja e gestos estabanados. há o Jornal do Comércio. que formiga. ao homem cheio de importância e de luvas. compra “um pra eu”. Passa o homem vendedor de borboleta. à porta de Quintino Bocaiúva dizendo que ia receber uma conta. não pode transigir. barbacento e de óculos. O País e o Jornal do Brasil. Em meio ao bruaá festivo da multidão. sempre descalço. apenas interrompido pelo pregão dos vendedores de jornais vespertinos: – A Tribuna! A Notícia! São as folhas mais lidas à tarde. brinquedo da época. como que a dizer a coisa mais sensata deste mundo: – Nem que o carro fosse da Susana! Não passava. com um charuto enorme e sem lume. o Coelho Lisboa. porque é do Paço. indefectíveis.52 Luís Edmundo – O carro passa. o Tamandaré. Passam outras figuras importantes. a Gazeta de Notícias. E convincente. popularíssimo entre a gurizada. São quatro horas da tarde. em mangas de camisa e de quem se diz que levou uma esteira.. O guarda meneia a cabeça. Entre os matutinos. o Comendador Chaves de Faria. com voz aflautada vendendo a sua mercadoria: – Mamãe. não passará. O movimento da Rua do Ouvidor não pode ser maior. um pândego que grita a um pobre homem que vai passando: – Ó Vinte-Nove! Vinte-Nove é um tipo popular da época. até o aparecimento do Correio da Manhã. ao canto da boca. imundo. É um zunzum que agrada. o Mamãe. O veículo de qualquer forma. E o carro não passou. que vive. e o famoso Inteligente. e o seu guarda-chuva de cabo de volta. em folha-de-flandres. o Alvarenga Fonseca. quase sempre. Recebeu ordens. sempre . a Drª Mirtes de Campos. o General Pinheiro Machado.

em semanas a fio passadas a pão e água nos xadrezes das delegacias distritais. pedindo dois tostões. afora os berros do delegado e as farpas agudas das gazetas. por tradiDesenho de Marques ção. que foi soldado. o olho feroz. como que a engolir as palavras que ele costuma arrancar ao seu torpe vocabulário. em Penafiel. confundido? É que Vinte-Nove. Tem a face congesta. entretanto. pára um momento. debandam todas. o homem assim se domina. de mão tranqüila no chanfalho garantidor da ordem pública. afinal? Ele. mordendo a língua desaforada e suja. a boca imunda do homem.. Vinte-Nove. A este perguntaram um dia: – Por que te chamam o Inteligente. a fim de apedrejar aqueles que o provocam. quando se espera pelo despautério que escandalizará a freqüência elegante da rua. geralmente. que. porém. Mas. acaba de lobrigar.O Rio de Janeiro do meu tempo 53 integralmente bêbado – um que vive a dizer que foi comandante de bombeiros. verdadeiros calhaus que vai buscar ao fundo da alma sofredora. mostrando que o era. o anspeçada de serviço na zona. que conhecem. conhecedor das duras conseqüências das suas desenfreadas reações. se enchera de medalhas ganhas . que. Vinte-Nove colhe o apelo e volta-se. Chaves de Faria As senhoras. Por que motivo. junto à esquina mais próxima. por sinal. como ele. porém. O Seixas Vinte-Nove. antes de merecer os apupos.. as Desenho de Raul chufas da patuléia. Sente-se a boca do homem que vai rebentar em calão. o grito do farçola: – Ó Vinte-Nove! Desta vez. sofrendo a represália terrível. para a cachaça: – Porque sou muito burro! Repete-se. trazia sobre o corpo um uniforme. como um espeque. traduzidas. o cabelo em desordem. buscando descobrir o atrevidaço autor da chufa. sente-se que Vinte-Nove.

de alma refeita ou conformada. como uma sombra. ergue a cabeça grisalha. a continência de estilo: – Comandante.. enquanto que o pobre farrapo humano. mergulha na multidão onde se apaga. diante do vulto sereno do homem que veste farda. Vinte-Nove.. conciliador. como um pária. O guarda. comovido. como um cão.. sorri do gesto e do imprevisto. embora um tanto confuso..54 Luís Edmundo com brilho e honra nas campanhas cruéis do Paraguai. onde repousa uma velha e desbotada barretina e bate. que conhece o respeito devido à autoridade e à lei. perfila-se. dá licença?. embora um tanto humilhado. .

com recordações do grande corso. Desgostos há. Pharoux devemos. em 1816. . trazendo do tropel das lutas napoleônicas. rincão triste e sujo. porém. muitas vezes. . com certo aspecto de . . . . Devemos-lhe. exatamente. . . que foi glória em Wagram. . . para. Vinha de França. . a idéia da criação do primeiro hotel. era ainda bem moço.. depois. a almíscar e a bodum. podem levar um homem até ao suicídio. Não se sabe. todo o desmoronar daquele sonho. esvair-se pelas campinas ásperas da Bélgica. . bem vivo. que. . . Pharoux chegou ao Rio de Janeiro. . . . Muito. ... . das razões que o trouxeram à terra joanina. . . . no coração amargurado. porém. em um bocado de sangue e um bocado de fumo. em Iena e em Lutzen. cheirando a rapé. . Muito a esse Mr. por exemplo. . Capítulo 3 Cais Pharoux e Praça Quinze CAIS PHAROUX E PRAÇA QUINZE DE NOVEMBRO – O SALÃO DE VISITAS DA CIDADE – CATRAIEIROS E CATRAIAS – AS BARCAS FERRY – A PRAIA DO PEIXE – VEÍCULOS DE PRAÇA – OS BURROS-SEM-RABO – O INSTITUTO HISTÓRICO – PRIMEIROS AUTOMÓVEIS – OS IMIGRANTES – COMO CHEGAVAM UANDO Mr. .

de tal sorte provando que a glóDesenho de J. coisa muita de ver e apreciar. Não dizem. Contam os cronistas do tempo que. como talvez se acredite. comovidas. arrancada ao esterquilínio colonial. apenas a formosura. benefícios que outros nunca pensaram em nos trazer. erguido no prédio que ainda hoje existe no ângulo da Rua Clapp com a Praça Quinze. sobre a fachada. que os “toma-larguras” precediam.. seguidos do famoso criado-do-vaso. pelo tempo. o Sr. Que instalações! Que asseio! E os móveis de estilo. Que eles não criaram. O Hotel Pharoux era. instalado entre nós. Apareceu como uma maravilha. João VI quis conhecê-lo de perto. Apareceu quando ainda sorria pelas nossas ruas.56 Luís Edmundo grandeza e decoro. Benefícios e exemplos. de olho desconsolado e de beiçola pálida. João. Cata Preta. Note-se como devemos aos franceses que aqui nos chegavam. Era um imóvel de proporções avantajadas. nas plaBarão Homem de Melo nícies do Piemonte. calavam os seus pregões. junto ao casarão luzido. vindos de França. e que. a elegância e a distinção da Rua do Ouvidor. recordações amáveis para nós. se para lhe pedir novas receitas culinárias. amplos. este letreiro: Casa de Saúde do Dr.. em 1901. um belo dia. realmente. sobre toalhas alvíssimas? Era tão grande o prestígio desse palácio de fadas que até as negras que vendiam pamonha. . chegava até as caçarolas. na sua época. entretanto. todos forrados de tapeçaria ou seda? E os espelhos florentinos. com as molduras largas e douradas? E o gosto das flores postas em grandes jarrões de porcelana. em matéria de melhoramentos da cidade. Carlos ria de França. caminho da Praia do Peixe. Criou fama o francês. já viera o renome desse poulet Marengo. olhando para o mar. D. em letras colossais. uma vez que. capaz de honrar qualquer pátria estrangeira. pipoca e gergelim. Há por toda a cidade traços da passagem desses estrangeiros inteligentes e amigos. que um cozinheiro do corso heróico achou de criar. mostrava. até cá... E o recebeu em palácio. quando passavam. o Sr. embora em número muito diminuto. o hotelzinho do francês.

o turista que. sujos e vadios. sempre. sítio que se chamou Várzea de Nossa Senhora do Ó. de evocar a imagem singular desse amável francês. vendeu o seu hotel. também. Estamos no velho logradouro. Pharoux. de envolta com soldados. Não há fugir. Terreiro do Paço. como se vê em suave evocação. queda-se boquiaberto ante o cenário sem outro igual em toda a natureza! Salão de visitas. Quem. Rico e cansado. apenas transpõe a barra. amostra e idéia perfeita de quatro séculos de civilização e de sujeira! Não raro. vai logo pondo. O Rio dele se lembra. catraieiros. marinheiros. fatalmente. onde há sobras de melancia e de banana. Na moldura de um casario reles e achamboado. como foi. mal põe o pé em terra. finalmente. papéis velhos. Praça do Carmo. entre nós. guardas-fiscais. quiser falar do que outrora se chamou Largo do Paço terá. e com a maior saudade. muito tempo depois. pelo qual cruza e pára um andrajoso poviléu: negros e negras descalços. sórdido tapete de detritos. essa gente que chega. lugar do Terreiro da Polé.O Rio de Janeiro do meu tempo 57 Logrou Mr. mostra o largo um enorme chão feio e mondongueiro. casca de abacaxi e de laranja. mendigos e vagabundos de toda espécie. Largo do Paço e. carregadores. E é o salão de visitas da cidade. que ali viveu durante tantos anos. molambos. numa gravura de Debret. E foi morrer em França. mal cuidado. notável simpatia e larga popularidade. Por Vendedor de aves Desenho de Armando Pacheco cautela. lugar por onde trepa. . Praça Quinze de Novembro. tal qual. hoje. ainda de ar colonial. isso pelo ano de 1868. ponto de referência. Não fosse ele. o seu albergue e o seu cais. entretanto. solo irregular. vindo da Guanabara azul. o lenço no nariz. criador de benefícios em terra de gente grata.

. cascos vermelhos. embarcações que fazem o trânsito dos que chegam e dos que partem. buscando o frete e a gritar: – Quer um bote. cascos cor-de-cinza. porque os navios ainda não vêm ao cais. muito bem espichados. todas essas proas irrequietas formam um conjunto festivo e curioso. porque. Barcas Ferry.. em geral. . um chão alegre e colorido a palpitar: cascos azuis. que Deus haja. n’água. De ler os nomes espaventosos dessas embarcações: Leão dos Mares! Vasco da Gama! Não se fia! Cá vou eu! Adamastor! Estrela do mar! Nossa Senhora dos Aflitos! Ficam.. Marquês do Lavradio. pedem o que querem e se lhes paga. quase em ruínas. Rainey. os catraieiros. tal qual como no tempo do Sr. cobertos de tapetes. tabela. verdadeiras fortunas! O Brasil ainda é. cascos verdes. a balaustrada que olha o mar. freguês? – Vai ao das Messageries? Ou ao do alamão d’Hamburgo? Na hora do ajuste. não existe. botes e canoas a dançar. velha e desmoronante. com os seus pilares partidos. São brancos os toldos. por Th.58 Luís Edmundo Barcos Desenho de Armando Pacheco Lá está. junto à linha da escada. por isso. À esquerda de quem sobe do mar fica a estação das barcas. O melhoramento foi introduzido em 1862. para essa gente. Ganham. No entanto. o paraíso onde floresce a árvore das patacas.. Tabelas para catraieiros? Se a capitania do Porto ainda é deles! Deles o Conselho Municipal! Deles até os jornais!. de almofadas e panos de croché. na linha do cais. olhando. a resguardar interiores catitas. Sobre ela os ociosos se debruçam. em terra.

à noite. com a sua varanda Autor desconhecido olhando o mar de esguelha. as barcas. Vem. Embaixo do hotel. ervas. flâmulas e bandeiras. a sua louça de friso azul e caixeiros falando em francês. peixes. tagarela. Para o que perde a última condução marítima. pela enorme algazarra que levanta e pelo mau odor que exala. parte do cais às 12:30. de longe. goela escancarada e triste. negros de boca aberta. cinco e seis mil-réis. cordoalhas em novelos. o serviço para Niterói e ilhas da Guanabara. pequena e rasa. com quartos a três. em decúbito dorsal. em plena calçada. felizmente. como as de Alexandria ou do Cairo. em confusão caótica. ruidosa. E gritos de barqueiros: Pega! Larga! Atira! Amarra! Sobre os bancos de pau. fitas. mordem talhadas rubras de melancia.. A última embarcação que deixa o Cais Pharoux. experimentam suspensórios.. Eram eles tão poucos! Fazem. recesso onde o transeunte às vezes se alivia de íntimas aperturas. curvos em arco de bodoque. o Hotel de France. minúsculas casas de vender. chapéus de palha. Pouco adiante está o Arco do Teles. são muito concorridos por gente do comércio e que lhe fica ao pé. É um mercado digno da cidade colonial. galináceos. cães. há. em frente à igreja do Carmo. das que mercam tudo. junto à Rua Direita. denunciando-se. serviço regular e útil. discutindo preços. e senhoras vão em busca de pentes. Há os que mercam suínos. tipos acalorados. junto às lojetas pobres. para Niterói. a cuja sombra dormem. principalmente. diante das quais e. outros que compram legumes. Sempre é bom registrar o nome amável dos que aqui vinham trazer um pouco de progresso. homens. logo depois. No restaurant os al moços. Felisbelo Freire É pitoresco o hotel. crianças bulhentas escolhem gaitinhas de soprar. ... Na doca. frutas. herança gloriosa. velas em profusão. quatro. a Praia do Peixe.O Rio de Janeiro do meu tempo 59 aproveitando a idéia de Clyton von Toyl. lojetas. próximo. rendas e mil sortes de bugigangas.

60 Luís Edmundo Após uma boa noitada. rindo às gargalhadas. colares. a falar alto. cavalheiros de casaca. aqui. o chique é comer nesse antro. gralhando metálicos e retumbantes dialetos africanos. moqueca. como se estivessem nas feiras de Qu e li mane ou de Dandum.. mais adiante: – Pimenta da Costa. com as suas trunfas multicores e os seus saiões de chita amplos e rodados. Jardim Botânico e Catete. Ao lusco-fusco das quatro horas começam a chegar carruagens vindas das bandas de Quiosque Desenho de Armando Pacheco Botafogo. quase todos negros. azeite de dendê. ostras acompanhadas de vinho branco. onde um mundo se agita e vozeia e se expande. moradores e freqüentadores das famosas pensions d’artistes. Antes das seis horas já é uma babel ruidosa. onde se instala o alto meretrício. num cartaz: . urucum. no ar. vatapá. Preta baiana Desenho de Marques Júnior Lê-se. São raparigas moças e bem vestidas. vendendo figas-de-guiné.. Os carregadores. pelo romper da manhã. angu. O mercado desperta cedo. integralmente bêbados. erguen do. estão gritando: – “Óie” o carregadô! Grita-se da porta de uma barraca de frutas: – Mamão e jenipapo! Uma especialidade! E. São negras baianas. ou a berrar. os balaios vazios. cantando em falsete.

os mais exóticos quitutes. as caldeiradas de raia. o vermelho e o parati! Por vezes. colei às costas do suíno um escrito que dizia assim: AMANHÃ SARRABULHO DE. baiúcas onde. dias depois (de tal forma me havia impressionado o cartaz). Era eu menino. felizes. a completar o anúncio. as trunfas muito bem postas. a moqueca.. Ainda há tascas. cheio de muito boa-vontade e indulgência. o bacalhau assado na brasa e a tripa à moda do Porto.O Rio de Janeiro do meu tempo 61 Prus e capães du melhore.. Uma havia que se tinha na conta de ser sem rival na sopa de tartarugas. colares. soltando o pregão: – O bom robalo! O bom badejo! A cavala. de barriga para o ar. quando saem. pode-se fartar um homem simples. atrás da orelha. embaixo. E lembro-me que.. Só mesmo um nariz matriculado num curso de altos fedores.. as exalações pútridas desse imundo covil. aliviando-se à antiga portuguesa. a chinelinha de tapete. curta. na ponta do pé. servindo à maneira lusa: caldos-verdes nadando em grossa banha de porco. As ruelas do brutesco mercado são verdadeiros colchões de asquerosos detritos. vésperas de seu aniversário. na sua indumentária de chita e linho bordado e rendas. A negra baiana que serve é asseadíssima. sempre. De ver alguns fregueses. fartos. Os homens da banca de peixe postejam a mercadoria. surgem restaurantes mais ou menos garridos. cheirando a alho. em casa de meu avô. e onde não raro se anunciam quitutes feitos à maneira do país. o vatapá. São as famosas casas de vender petisqueiras. por quatro tostões. dois infalíveis palitos: um à boca e outro.. Ainda me recordo da vez primeira que por ali passei e vi. colado um cartaz que dizia assim: AMANHÃ SOPA DE A tartaruga. . de panças em arco. entre essas nojentas espeluncas. suportará. um desses pobres animais. e com pretensões a casas de certa ordem. o caruru. metido. sobressalente.. Tinha oito ou nove anos. Para o filho da terra há casa que vende o angu (“tá quentinho!”). munido de cola e de papel. por mais de dois minutos. tendo sobre ele. à porta. sabendo que se ia matar um porco.

É justa. o homem que delinqüiu num assomo de mando ou prepotência. tumulto. Os que fogem. também. a autoridade. debandam. Berra-se sem cessar: – Não pode! Até parece que. Se há quem fuja gritando. que são quase todos de duas rodas. e. por sua vez: “Que é que não pode?” . quem. mesmo de manso. e dos piores. enfim. pelo menos os que não têm tempo para fugir. no subconsciente do que protesta. Há alarido. Na parte do mar estão os carroceiros. de uma parte. Anos antes chamavam-no morcego. na hora em que rebenta algum conflito. o subconsciente) se o homem que representa o arbítrio do poder.62 Luís Edmundo A Praça Quinze fulgura ao sol. sincero e muitíssimo do tempo. onde as árvores rareiam. no Largo. por acaso. erguer. pelo gasganete. como a indagar. a autoridade. com as suas carroças. defesa. Berra-se forte. há. que tem seguro. assim. a voz contra a injustiça de El-Rei ou a autoridade real. escudo contra o rigor da canícula. pergunta. trabalham os gritos sopitados dos tempos da colônia. afinal. desafogar de corações! Apenas (muito guarda. sempre. menos jogo que tramóia. pela praça. e disputadas pela vadiagem trapenta que gosta de jogar a vermelhinha. na carreira que os salva a gritar: – Cai n’água! Lá vem meganha! Meganha sempre foi o guarda de polícia. que nos corrige. vergonhosa muamba com que o velhaco explora a ingenuidade do transeunte. gritando. em resposta ao que grita “Não pode”. a autoridade ou exorbita? Isso não vem ao caso. quando era crime. Berra-se sempre. Não pode! Alívio do imo peito. pondo os varais no chão. o homem desatrela as alimárias e deita os veículos. amáveis e propícios biombos. armando. o povo. Quando o sol rescalda o logradouro. mata-cachorro. chegue pelo Largo e proteste contra a ação policial em berros fortes: – Não pode! Não pode! Esse brado incontido. Por vezes. não falta nunca onde existem. a polícia prende os jogadores. Que as sombras são pouquíssimas. a idéia do poder constituído e da outra parte.

Contam os negociantes do lugar a engraçadíssima história de certo Agostinho de Oliveira ou da Fonseca. que a mesma voa pelos ares. o delegado. explicando: – Não pode é largar o homem. por vezes. onde. o que o público pitorescamente conhece sob a designação de burro-sem-rabo. num delírio de saltos e patadas. na prateleira dos paquês prontos para entrar na máquina. Escapou. no entanto. Lamentável equívoco que valeu a demissão dos responsáveis e explicações por parte do diretor. submissos.O Rio de Janeiro do meu tempo 63 Logo a gentalha estaca. lembrando os do Oriente. Delicadezas enternecedoras de uma imprensa que não é lá muito pródiga em rasgos dessa natureza. a relinchar como um cavalo. quando um não se sai com esta. entre as carroças. Serve. Preso o homem. criatura com quase dois metros de altura. encontra alguém. E o amarram.) Sobre o caso decorreram alguns meses. também de varais ao ar. ainda. Manda-se buscar um médico – o homem enlouquecera. via-se uma notícia com este título pomposamente esparramado em letras garrafais – BURRO SEM RABO! Pôs-se o homem da direção a arrancar. que aqui serve.. O homem faz-se de bucéfalo. Põe-se Agostinho. de tanto levar a sério a profissão.. . na delegacia. às oficinas dessa mesma folha. não escouceia nem relincha. (Não confundir anunciantes com leitor. ao que parece como justa homenagem aos que não devem ser confundidos com aqueles aos quais se pode chamar burros-com-rabo. por acaso. Os jornais nunca publicam em suas colunas editoriais essa expressão mais que popular – burro-sem-rabo –. solícito. e os que a compõem calam-se. aos seus anunciantes. É um pequeno veículo. os cabelos. acobardado. então. Mete-se no varal e puxa. acabou por dar em um guarda da Prefeitura tamanho coice que o aleijou de uma perna. apenas para transporte de mercadorias. que naturalmente lhe pergunta: – Por que o fizeste. outro coice na mesa do delegado e de tal sorte. como sinal de repouso. aquele diretor se encontrava. para revelar vocações decididas. Um belo dia. de indignado. Subjugam-no. aí. E morre acreditando-se alimária. Apenas. Agostinho? E o Agostinho. para onde o conduzem. zás. que. Certa vez saiu num jornal a indesejável expressão. Não esquecer.

com efeito. As mulheres. Em sua essência contava ela o seguinte: saindo da Rua da Glória e entrando na da Lapa. Do desastre salvou-se ileso o homem. canivetes e miudezas. por essa augusta porta . quando a gazeta foi aos olhos do público. imediatamente. Vinha o rondante de esquina e o Sr. o leitor como da mais desopilante das pilhérias. havia sido este atropelado por um bonde elétrico. pondo ferrugem nas tesouras e dedais arrumados nas montras de seus improvisados balcõezinhos. O açodado diretor muito sofreu com o ocorrido. a princípio. no entanto. como exige a dignidade da casa. uma vez que os chamados burros-sem-rabo quase tomam a notícia por malícia. Agora. porém. por substituir o outro. Deu logo por demitido o repórter que traçou a notícia. furiosas. está o Instituto Histórico. de quando em quando. que já vem do século passado fazendo parte da sua diretoria. E foi o que acabaram fazendo. E mandou compor. dela. Tratava-se. Max muito amável. que era diária. tesouras. Por vezes o povo reunia-se. ficando a cavalgadura. com o rabo decepado sob as rodas do veículo. vendedoras de bugigangas. grande sucesso fez a tal notícia. a conduzir um burro carregado de hortaliças. Na linha da Rua Primeiro de Março. as turcas podem ficar. Melhor era mudar. explicava: – Longe de mim qualquer idéia de repressão ou violência. vendendo espelhinhos. mas já muito benquisto e muito prestigiado. ainda não foi eleito secretário-perpétuo. ele chamava um contínuo e mandava-lhe atirar baldes d’água. rindo-se. certo vendedor ambulante. a nossa porta. O título primitivo estava certo. afinal. descolava as sombras dos espelhos que elas vendiam. É apenas segundo-secretário. até chegar à altura do casarão dos Vice-Reis. Max Fleiuss. Ora. de um burro sem rabo e não de um carrinho-de-mão. A água de Fleiuss. vinham pousar à porta do Instituto. botões. Bom será lembrar que o Sr. dizendo que ia lavar a porta. protestavam. novo título – “Carrinho-de-mão” –.64 Luís Edmundo Esbravejou. o redator que a rubricou e até o revisor que a revisão lhe fizera. em cuja calçada as turcas espalham caixetas de pau. Desde que eu possa mandar lavar. ensaiando o clássico “não pode”. Quando as turcas. que acabou.

já velho. afinal. forte. que não se sabe . Manuel Arcanjo. O caso faz bulha e faz escândalo. finas. de tração própria. D. Araripe Júnior e Noronha Santos. Afonso Taunay. o Sr.O Rio de Janeiro do meu tempo 65 onde S. e os Srs. pafs. o Conselheiro Olegário. Aquele ruído. João Luís Alves. Desenho de Marques Júnior Risos e fiaus! E esse clamor aumenta. Rocha Pombo. Pedro II. Max Fleiuss Desenho de Marques Júnior Afonso Taunay Desenho de Marques Júnior Coisa.. Ruído singular. sempre que se ouve. bem rente à parte arborizada que emoldura a elevação onde avulPreta mina ta o monumento a Osório. há povo junto. muitas vezes entrou a fim de presidir às sessões magnas do maior Instituto que no gênero existe. mestre dos mestres em assuntos cariocas. Há chufas. Dos lados da Rua Clapp. certo ruído que lembra o da caçamba a chocalhar pedrinhas. Mercado e Arco do Teles. Sousa Pitanga. há quem queira saber do que se trata. Felisbelo Freire. após uns pafs. cruzam o Sr. Rodrigo Otávio. a massagada dos jornais debaixo do braço. das bandas de Primeiro de Março. o Sr. a barba nos debruns. Barões Homem de Melo e Ramiz Galvão. de quem se diz que é um nacionalista vermelho. sem varais. sustentando uma caixa.. na sua sobrecasaca de sarja grossa. Escragnole Dória. Conde de Afonso Celso. aquela gente. o Imperador. No ponto do Largo que fica paralelo à fachada principal da Casa dos Telégrafos. Fernandes Barros. no país. de pouca monta: um veículo de rodas altas. pafs. Raffard. Vieira Fazenda. o Sr. M. presidente do Cenáculo. aquele vulto.

vieram na mesma época. aborrecidas com tanto escarcéu. falando no nome de Cristo. da Europa. condutor do veículo. sem casaco e. o apupo. de Maria e desejando a todos esses pedreiros-livres. quiçá. aqui. no entanto. procura a direção para mover o carro. pafs. automóvel improvisado. que cor ri ge o veículo da engrenagem. certo .. esse. a fim de o pôr em marcha. Quan do ele. e que não sabem mais que inventar. no seu livro Os meios de transportes. entre nós. e sobre a qual assenta a imagem de um moinho com as asas longas e movediças. fora por ele provocado. porém. furiosas com o andar do progresso. quando. recomeça ao fragor infernal de estampidos e estouros. que agita a curiosidade da patuléia e que é. a surriada. que aproveita a novidade. que era quem guiava a nova máquina. Desmaios naturais de um débil. crê que acertou. insistente e ridículo. – Não pega! – Põe no lixo! – Só atrelando um burro! Passam senhoras de idade que vão à igreja do Carmo. uma vez que o primeiro desastre ocorrido. que já é do século passado. mas o que trouxe José do Patrocínio. e. automóvel. Já o chauffeur. satisfeito. a aparecer. a arte de governar. reclame da Casa Moinho de Ouro. para poder anunciar os seus produtos. o seu delíquio. Bilac quis aprender com Patrocínio. que à patuléia faz sorrir e assobiar.. pince-nez de cordão. de quando em quando. O primeiro automóvel que apa receu no Rio não foi. sapatos de duraque. Que é a vaia que arrebenta. na Tijuca. que podia gabar-se de ser o precursor dos desastres de automóvel. Não concluiu o delicado curso. os pafs. bem pouco conhecido maquinismo que mal começa. sofre. Os carros que pertenceram a Guerra Duval e ao Capitão Cárdia. e. e aquele chocalhar que lembra pedregulhos em lata. pafs. a mais viva e original das coisas novas do tempo. trata de reajustar a estática do engenho. benzendo-se. as chamas do Purgatório e as mercês de Satã. muito antes. importante e afobado. sem chapéu. sem paciência. porém o de Patrocínio desembarcou primeiro. então. no Brasil.66 Luís Edmundo bem se é de ferro ou de pau. A pobre máquina. talvez. Dizia ele. O informe é de mestre Noronha Santos. com muito espírito. por fim.

mancham e desagradam neste asqueroso logradouro público está o quiosque. pertencente a cer to A. A nota ainda é de Noronha Santos. Huber. pagodes do Pei-ho. vendendo ao pé-rapado vinhos. um tabique. gueixas e mandarins. lascas de porco. empestando à distância e em cujo bojo vil um homem se engaiola. campos de cereja e de bambus. po rém. fumo. Dos tempos coloniais. Ornamento. Entre as coisas que mais enfeiam. tempo em que começam. Avareza. Assim era a lojeta de outrora. 80. Toque de graça e cor no quadro da paisagem. na falta do estreitíssimo quiosque.O Rio de Janeiro do meu tempo 67 dia. queijo e bacalhau. em meio a uma lição difícil. ain da hoje.. em que o dono é caixeiro. a tendinha à moura: uma porta. quimonos. o quiosque é uma improvisação achamboada e vulgar de madeiras e zinco. repulsiva lembrança que regeneradores da cidade. duas ou três prateleiras. Evoca. ao mesmo tempo. deixando Patrocínio desolado. de miséria e de desasseio. com telhados da China ou do Japão. de Vasconcelos. espelunca fecal. reevocam-na consentindo que se mutile e se transforme a loja brasileira em loja-feira.. Entre nós. em 1912). em 1908. Em qualquer parte do mundo o quiosque é uma ligeira construção de estrutura graciosa e gentil. côdeas de pão-dormido. o de frutas. ali. mussumés.. com as suas pinturas de laca. os exemplos de Passos.. a bele za da urbs refor ma da. broas. teve início o registro de termos de exames de condutores de automóveis. acolá. levou o engenho que guiava contra o tronco de uma árvore. sardinha frita. Velha e desagradável tradição. ainda conservamos a idéia do comércio estreito e pobre. Ergue-os a tradição em estilo oriental. Um dos primeiros chauffeurs desta cidade foi o Sr. de Prado e de Frontin. então. Só em 1906. en quanto esquecem o plano Agache. café. onde em cada portinha exígua um negócio se afixe: o de meias. J. partindo-o. . sendo que a primeira garage parece ter sido a da Rua da Relação. a aparecer mais garagens (14. como se vê. Miséria. aqui. o Fuji-Yama. infame tradição de mesquinhez. lembrando as dimensões de um oratório. na ânsia de destru ir. o de cigarros. e a loja não tem mais que algumas polegadas de largura.

fumando e cuspinhando o solo. tem raízes no solo. No largo onde paramos. A obscenidade vem depois. Antes do trago.. Noronha Santos Desenho de Marques Júnior Barão de Ramiz Galvão Desenho de Marques Júnior Vieira Fazenda Desenho de Marques Júnior Afonso Celso Desenho de J. ignóbeis todos. Depois. porém. Há disputas entre o homem do negócio e a clientela: . existem vários. enodoando a paisagem. à vontade. o pé-rapado cospe. recostados. Estão os fregueses do antro em derredor. Cada quiosque mostra. da boa. em torno. E da grossa. Os que aparentemente se salvam vendem bilhetes de loteria. Falemos. um círculo de lama. azafamado: – Dois não se faz. só três! Si quisére. suja. gozo e conforto. che i ran do mal. os chapéus derrubados sobre os olhos..68 Luís Edmundo Em todo o Rio de Janeiro do começo do século o quiosque afrontoso. Nova cusparada. dos piores. o logradouro público. vira nas goelas o copázio e suspira um ah! que diz satisfação. um tapete de terra úmida. Cada qual mais sórdido. cartões pornográficos e jogo-do-bicho. Para um cálice de cachaça há. De ver essa gen ta lha mal tra pi lha. dois ou três de saliva. pedindo: – Dois de cana! E o quiosqueiro. os braços na plantibanda de madeira. sempre. Carlos Tudo aquilo é saliva. Forças não há que o impeçam de existir. que sugere um balcão. dos outros.

metidos na moldura ampla e circular de enormes chapelões de .. reclamam os homens de negócio. Trazem. baús. por vezes. – Vá um pobre de Cristo bulir em tal gente! Na verdade é um perigo. Era um insulto. botes e saveiros.. aos brados. E sumariamente os queimou.. pelas escadinhas do Pharoux. na hora em que os apoquentam muito.. Os prefeitos desconversam. embora timidamente.O Rio de Janeiro do meu tempo 69 – P’lo bacalhau são dois tostões. então. com o sopro civilizador que tombou sobre a cidade no começo do século XX. e. Os quiosqueiros são unidos e fortes. seu burro! Contra o monstro do quiosque e a sua freguesia reclamam as famílias. um ar medroso e parvo. trouxas. em exclamações ru idosas largando por onde passam um cheiro ativo e amorrinhado que fica entre o do suor humano e o do alho cozido. Pobre e simpática gente que. armado de latas de querosene e de caixas de Autor desconhecido fósforos. E é como se fosse um tiro! Com Pereira Passos. o outro tostão. um belo dia.. desesperado e viril. mandam um pouco na terra. Os homens de Estado encolhem-se. vomitam as lanchas. reclamam até as gazetas. Há vezes em que me orgulho de ter nascido carioca. Por vezes todo esse logradouro feio e imundo enche-se de homens que desembarcam. sacos. fez o que se esperava que fizesse: surgiu na praça A turca dos fósforos pública. taramelando em voz alta. vindos das bandas do mar. Dizem todos: É uma vergonha! A cidade ainda é um povoado selvagem. Os fiscais engordam. abrem as gavetas ou as bolsas. com o provence! – Ponha na conta. os carões secos e tisnados pelo sol. o quiosque era mais que uma provocação. sopesando canastras.. o povo. São imigrantes que chegam. todos. Precisamos acabar com essa miséria! Mas ninguém tem coragem de com eles acabar. pacotes. Estava o grande prefeito a pensar no meio mais amável e capaz de liberar-nos do monstro quando.

como animais. Batem com os pés no chão. de escantilhão. gozando a luz.. O balcão. Por vezes. sonoramente. porque eles. acabou-se. afinal. Caprichos da amarela que faz a ronda sinistra da cidade. não as sabem escrever.. Que importa. Preferem ficar. – Ai..70 Luís Edmundo Braga. os homens de ar asselvajado e triste entreolham-se e sorriem-se. Éden Desenho de Raul do bem-estar e da fartura.. porém. a peste da cidade imunda que apodrece ao sol? São cartas. por cruzes. cheios de enlevo. Vive? É a prosperidade. deixando os da terra. Se sabem! Mas. car regadas de ferros e que vão raspando. imensas. que a maldita “amarela” de preferência escolhe. os que tombam para sempre. com enternecimento. certo. Descem. E morrer. para lá.. coitado.. ao fim do certo tempo. Sabem todos disso. Enterra-se. só restam dois – eu e o Augustinho. a riqueza! O lucro imediato. os pés em sapatorras de couro cru. e sempre escritas por mãos estranhas. as pantalonas coladas às gâmbias muito finas. enriquece. Terra da promissão. a cidade os fascina. os pobrezinhos. No campo não há peste. para se convencerem. Os outros. Olham o céu. O resto foi-se. o rico Brasil! Cá istá el! Cá istá el! Do bando enorme alguns sobram. aos trotes. Quem nela persevera. as anfratuosidades das calçadas. Aí o lusíada coitado. os embriaga. ao aventureiro ousado o espantalho da morte? Morreu? Pois. Por quê? Outra: O mano Manuel apanhou-a e de tal sorte que lá se foi. beiEscragnole Dória jando o ar! É o Brasil. sonhando as riquezas dos que voltam com as algibeiras pejadas de libras. Somos nós. os seduz. Morreu como um passarinho! E ainda mais outra: Do nosso conselho vieram 30. Que vem de tão longe coberto de pó. sentindo o azul. Contar. por isso. nos cemitérios. aqui. amarelas. obesos e comendadores. promissor. . O imigrante Desenho de Raul Que importa. vence. A terra é farta e dadivosa. contentes e felizes.

de sítios e de chácaras distantes que vão a bordo oferecer a essa gente trabalho. Campo! As histórias de risonhas. português. 600. Os navios chegaram sempre. da Madeira. – E a peste? – Que importa a peste! Não queremos! Não querem. 135. Pois não foi sempre. juntando. Matam-se de privações. entre árvores copadas e arroios cantantes. português.O Rio de Janeiro do meu tempo 71 Há senhores de fazendas. Campo? Dão-lhe as costas. de economias. 200. Não são mais lavradores. de Lisboa. – Não queremos. a seguir. 18 anos. Ar sadio. É a lavoura próspera. Manuel Luís. o campo que só lhes dá suor. de boca aberta. Não querem mais a função prosaica de cavoucar a terra. assim? E os tempos da Índia? E o Gama? E a pimenta? E a canela? A lembrança risonha do mercantismo heróico dos descobridores de outrora os embriaga e fascina. fome e aflição. garantia de um viver tranqüilo. Abade cobra dois vinténs por uma missa? O sossego. por exemplo. em- . obituário implacável: Manuel José de Oliveira. para as padarias. José Manuel de Oliveira. de prósperas empresas onde ele nunca entrou.. noutra página. José de Oliveira Guimarães. cheia de cobiça e de pasmo! Pensar-se na consideração! Ser-se chamado assim: o brasileiro do largo dos Trolhes! E com uma reputação assim: Dizem que até dá esmolas de dez tostões! Campo? Era o que faltava! No campo a fortuna anda de gatinhas. o verdasco bebido em jarros. dinheiro. Lê-se na página de um jornal: Pelo Congo desceram ontem 935 imigrantes. de alhos. Era o que faltava! Do campo vêm eles e de campo estão fartos. onde o Sr. ao abrigo da peste. Não dá glória e fortuna o enxó ou o arado. quanto conseguiu juntar como lucro da sua vendoca em Catumbi? Pra mais de dez contos-fortes! E sabe-se o que isso é. aos olhos da vizinhança. Vêm todos para as mercearias. já as ouviram eles antes de pôr os pés no vapor. sendo: do Porto. 24 anos. na província distante. que a amarela poupou com três anos de Brasil. guardando. Lautas bacalhoadas com entulhos supimpas. para as quitandas. a fartura. na pobreza do povoado. couves e cebolas.. E.

O que ele faz é o jogo do desesperado. . trezentos. um pedacinho de papel cheio de números e rabiscos. Desses..72 Luís Edmundo pilhando as libritas. Contam-se duzentos. a massa de imigrantes espalha-se. Nem aos bancos para as guardar eles mandam. muitas vezes de borco. outros. quatrocentos. A Fortuna ou a Morte. não consulta obituários.. talvez! O espírito forte e aventureiro do luso. porém. com campainha de aviso e sobre a qual eles dormem.. quantos serão os poupados pela peste fatídica? Nem um quinto. quinhentos. porque não sabem da existência dos mesmos. para maior comodidade e segurança. Pois sim! O seguro é a canastra de corcunda com fechadura de ferro. palpita. por falta de confiança em homens que dão. uns.. No Largo enorCarrinho de mão Desenho de Armando Pacheco me. em troca do ouro que entregam.

Capítulo 4 Largo da Carioca LARGO DA CARIOCA – DESCRIÇÃO DO LARGO – A RENDA DO ANTÔNIO PORTUGUÊS – O VELHO BANDEIRA. . . . No entretanto. RENDEZ-VOUS DE ELEGANTES. certo apelo partiu para a Metrópole. por sistema. aqui. El-Rei Nosso Senhor manteve o vandalismo. DEPOIS DA MEIA-NOITE M 1678. . . . . . Ruas e praças viviam desoladamente despidas de troncos e de folhagens. Pela Carta Régia datada de 6 de dezembro do mesmo ano. . As pobres construções é que sofriam com isso o castigo inclemente do . . . . .. nesta terra. . . . pedindo fosse sustado. o hábito vandálico de se derrubar. . VENDEDOR DE JORNAIS – OS MONARQUISTAS DA CONFEITARIA MENÈRES – RECORDAÇÕES DO VELHO CHAFARIZ – OS BALEIROS – JOGADORES DE “TRÊS-MARIAS” – OUTROS TIPOS DO LARGO – HEDIONDOS QUIOSQUES – O CAFÉ PARIS. . . por uma época em que protestar. era um tanto perigoso. . . E a derrubada prosseguiu. . . o esplêndido arvoredo da cidade. a cidade reclamava sombra e reclamara adorno. .

simples e feio. O Largo da Carioca não mostra. É um panaché notável.. Ora a cediça construção de baixo teto e telha de canal. vezes em frangalhos. Estilo goiabada. As edificações são feias. à frente. apesar dos ruídos que provoca o movimento da praça. com a sua cúpula muito branca e diante do qual. com ou sem compoteira. “compondo o estilo”. ao nosso olhar. sinistramente. de pés juntos. naturalizados brasileiros por mestres-de-obras do Porto. . uns chalezinhos suíços. Francisco da Penitência. espiam convalescentes em camisolas de dormir. mostrando janelões de sobrancelhas e as infalíveis compoteiras de louça. Se o vento sopra. coroas. em construções do gênero. Domina o Largo da Carioca. dos que se acabam e vão parar.. E impressionante.74 Luís Edmundo sol. sulcado pelos trilhos de ferro por onde cruzam os bondes da Jardim Botânico. no pequenino necrotério que fica quase junto ao chafariz. uma só árvore! É um triste chão calçado a paralelepípedos. por sobre a dura pedra. o Hospital da Ordem Terceira de S. diante do qual. sem gosto arquitetônico. mostrando platibanda. um sol violento. mostrando janelas sempre abertas e por onde. Enfada. no começo do século. param os coches fúnebres. A nota é melancólica. acaliçado e triste. Um casario reles. quase ao chegar à linha das fachadas. em tiras e quase sempre cheio de poeira ou de nódoas. irregulares. um toldo de cair. Para substituir a fronde consoladora e amiga. na altura do telhado. escuro. estrangeiros param disfarçando sorrisos que nos humilham e que nos fazem mal. irregular e mal varrido. Desgosta à vista. como os da Casa Menères. Outras vezes. estremecem as casas em torno e o ruído das rodas de aros de metal. prédio de um só pavimento. gretando esquadrias e portadas. ora o sobradinho. a poeira levanta. que estalava. Quando passam carroças ou carretas. ou então. ensurdece. Vezes. um casarão velho. há o toldo de lona. não raro. venezianas e postigos. pelas portas das lojas. ramos de flores e gente que soluça ou que chora. gebas. depois. toda vestida de luto. à direita de quem vem das bandas da Rua Uruguaiana. ouvem-se os berros ou lamentações dos que sofrem lá dentro. por vezes. de campo ou praias. de sótão. puxados. ao fundo. Umas vezes a casa é térrea. o cabelo em desordem e faces brancacentas. entram e saem grinaldas.

desembrulhou. oh. um alemão do comércio. e mais os membros da colônia alemã. o Emílio de Meneses chamou. nosso amigo. numa peanha de madeira.. – Mas.O Rio de Janeiro do meu tempo 75 Nesse lúgubre e fatídico recanto é que se encontra o famoso Chope dos Mortos ou Bar do Necrotério. O bar é freqüentadíssimo. no feito bizarro. que começa a engordar. cara de dedo com panarício.. roxo de tanto sangue. diz-lhe Tigre. Adolfo Mendelson. Desenho de Calixto Depósito. Bem junto ao bar fica o portão da Ordem. de xadrez. com muita prosperidade e muito espírito. um formidável canecão de louça antiga. peões e torres em duplicata. inclusive o próprio Bilac. Quem penetra o interior do bar encontra um ambiente modesto. o Holanda e outros do grupo de Bilac. seqüência natural.. a dos bondes. A esse. de mármore. vem depois desse portão. em cuja porta um . sob o retrato de Bismark. a cabeça em forma digitada. o Pedro Rabelo. sobre ela. um eterno cheiro de iodofórmio ou fenol e surgem enfermeiros de avental branco e barretinas da mesma cor. Ao fundo. conduzindo macas para doentes que chegam de carruagem. o homem acaba em cilindro. escritórios e agência. não sei bem se usual na Lapônia ou no Cáucaso. brasserie mantida por um alemão nédio e rubicundo. certo dia. de asa da mesma massa e tampo de metal. porém asseadíssimo. é jogo de casa-de-correção. O Depósito da Companhia Jardim O velho Bandeira Botânico. sempre. de um pescoço grossíssimo e vermelho. Freqüentam-no Emílio de Meneses. cartas de jogar. para mostrar ao Bastos Tigre um jogo russo. tabuleiros para os jogos de damas e xadrez. Alto. um desses grosse seidel dos bávaros. Ao centro. Foi no Bar do Necrotério que Glutner. Há nele um caixeiro. que ainda não morreram de febre amarela. que é popularíssimo. com essas dimensões isso afinal é mais do que jogo de xadrez. por onde escapa. revistas e jornais. complicado e enorme. uma mesa redonda. garçom de sala. um dia. Glutner. à noite. e.. glabro. uns oito bispos. sobretudo se considerarmos o número de suas peças – uns seis cavalos. perdendo a elegância dos velhos tempos do Encilhamento. o Plácido. obra de talha artística.

dentro de um oratório de jacarandá. Fortunato é espanhol. AMANHÃ SIM Em junho. de galhardetes e folhagens. a capela antonina se empavesa de bandeiras. quando . charuteiros. sem uma única árvore. Antônio Português reclama atenção e respeito. pintadas a verniz japonês. após as cusparadas de estilo. espocam os palavrões irreverentes dos devotos de Baco. Continuando a linha térrea do edifício. descascando nos pés e nos encostos. apitando. o Café Fortunato. um café que não sabemos se ainda é o que se chamou Café da Ordem. se esconde. no mesmo ponto onde hoje. encardida e sem árvores. está a capela do Antônio Português – Venda Santo Antônio. à esquina do Largo com a Rua da Carioca. Portão da Ordem Terceira da Penitência vendo-se ao fundo o Convento de Santo Antônio Desenho de Armando Pacheco Quando. em cuja base ele pregou um cartaz largo com esta legenda sagrada para ser lida pela freguesia: HOJE NÃO SE FIA. Depois da Rua da Carioca. Seu botequim é modesto. santo que se exibe no interior do estabelecimento. feia.76 Luís Edmundo sujeito. fazendo ângulo com a Rua Uruguaiana. sempre enfeitadíssimo de flores de papel e muito bem iluminado. com cadeiras Thonet. E. erigida sob a invocação do taumaturgo de Lisboa.. atrás de tabiques alugados a engraxates. etc. estreita. inesteticamente. doceiros. de boné. atrás do balcão das bebidas. estreitíssima. muito em voga pelo tempo. mostrando o santo no oratório. torta. dá saída aos carros. pela época de festejar o dia do Milagroso. bem defronte ao café já descrito.

vendedor de jornais. a desabar do teto.. onde cada um apregoa o que lhe traz dinheiro. Alguns. desses que ainda hoje existem em certos subúrbios da cidade. ocupando parte da calçada. numa confusão caótica. no gênero da primeira que já vimos. Como nos tempos coloniais. mostrando. aliás com mais molhados do que secos. e. a ostentar reles balcões de madeira e soalhos enegrecidos pela falta de asseio. A Rua Gonçalves Dias e a Rua da Assembléia aí se encontraram neste ponto. ponto movimentado e ruidoso. ou pela Rua Larga. largas portas com um corredor que lembra uma galeria e onde se amontoam vendedores de bilhetes de loteria. balcões de vender bicho. autêntico armazém de secos e molhados. dedos como os das mulheres. e. na mesma indumentária. calças. com os seus túneis de mercadorias. Atravessando a Rua Uruguaiana que tomba. Se atravessarmos a embocadura desta última. gordo. das mais elegantes das ruas pelo tempo.O Rio de Janeiro do meu tempo 77 anoitece. aí. nesta altura. Mais adiante. preto. nas abotoaduras. os respectivos donos. tomam professores que lhes ensinam a ler e escrever. com a sua . apenas. encontra-se um armarinho. largar balões. Os caixeiros cruzam em mangas de camisas. rosetas de ouro com pedras preciosas. camisas de meia e fitas em metros. Quando se fazem comendadores é que vestem. vêm homens para o centro do Largo soltar foguetes. cuspinhados pelos bêbados que aí fazem ponto. fazem mais. cobertores. cadeiras de engraxate. simpático.. não só do Largo como da cidade. o indefectível medalhão com brilhantes dependurados em cadeias de ouro. o velho Bandeira. bem em frente à mesma. mal dando passagem à freguesia e um dilúvio de ceroulas. em cuja lapela metem o sinal da comenda. ou bordados. encontraremos outra casa de fazendas. uma das figuras mais populares. peitilhos aporcelanados pela goma. grossíssimas. sem colarinho e sem gravata. então. sobre a praça. – Graxa! – Cavalo com 44. dos aparelhos de iluminação a gás das prateleiras. é o último! – O Tagarela a 100 réis! – São os gasparinhos da sorte! Anda-se mais um pouco e cai-se na Rua Gonçalves Dias. mostrando em cada esquina (os que a viram que informem) uma venda. com enormes pilhas de fazendas à porta. paletó. de jornais. alto. carregados de anéis. a fim de contornar o Largo. rendas.

Bandeira: – Seu dotô. diz que representam as quatro estações do ano: a Primavera.. Rocha Disse-me. discute. E ria. ele ainda há de sará esta perna. aí. divertido. O Espírito Santo de Maracanã parece que não gostava do preto. das frutas ou Andrade Figueira linguagem dos namorados. Junto ao Café. Fazedô de milagres como quê! E orgulhoso da sua devoção: – Olhe. seu dotô. pelo tempo.. É quem dá vida e alegria a esse ângulo da praça. gargalha escandalosamente. como trabalho. A Vida de S. o Testamento do Galo. o preto. Cipriano e do Dicionário das Flores. a Indústria e a Estrada de Ferro.. Também vende. O Edifício do Café onde se instalam o Restaurante e a Charutaria Paris é a mais aceitável das construções da praça. que nem moleque. o João de Calais. Sem as famosas compoteiras é que uma casa não passa.78 Luís Edmundo perna deformada por uma elefantíase. o Outono. se vesti e tocá para ingreja. é este: levantá de menhã. e nada menos de seis enormes compoteiras no telhado. ri. em frente. o Verão.. Seu nego.. Mais seis compoteiras de louça no telhado e seis estatuetas que o Fortunato do Café. um dia. Vosmecê. ainda há de me vê neste Largo tomando traseira de bonde. Desenho de A. qué chova qué faça sor. o Inverno. Pensou um instante e numa atitude de quem faz uma prece: – Santo bão! Santo de calidade. trabalho neste Largo o ano inteiro. Sem razão.. o edifício da Confeitaria Rocha & Menères. num barbante. tomá seu banho. folhetos de cordel: A História da Princesa Magalona. pelas portas de engraxates e que se vende a cavalo. dez janelas. ria. Espírito Santo de Maracanã deixou que a elefantíase o matasse. Mais porém um dia há que eu não trabalho nem nada – dia da Festa do Espírito Santo de Maracanã. Fala alto. É um imóvel moderno e amplo com três pavimentos. ao lado do Livro de S. mostrando sempre maravilhosa e clara dentadura. Francisco de Assis. . bem como as “últimas vontades” de todos os animais e ainda aquela literatura que a Quaresma então espalha. ria.

Quando desce de sua chácara da Gávea. um segmento vermelho do solidéu. as companhias são sempre melhores.. certa vez. oh. de repente: – Vê-se. revistas. de boa alpaca. além da marca do conhaque. jornais. junto a um caminho coberto de tiriricas e outras ervas. quando lhe salta. amando particularmente o convívio profano das coisas deste mundo. papéis. entre outras.. um vasto feltro cor-de-cinza na cabeça. dentro de seu hábito de monge. é um sujeito de espírito.. fazendo sátiras ao seu amigo. deixando ver. aí passa horas inteiras. que por aqui há muito que não passam mulas ou frades. posto um pouco de banda. No convento. diz sempre que prefere ao claustro de Santo Antônio o “claustro” do Menères. Conselheiro. porque. conversando.. . à mostra. Ferreira Viana. Nele pontificam. negro. andam sempre juntos. caminham ambos na parte posterior do casarão. zombeteiro. simpático luminar da monarquia. fumo e caixas de fósforos. assim. Frei João. Frei do Amor Divino Costa. o frade muito na chácara do Conselheiro. Este frade. livros.O Rio de Janeiro do meu tempo 79 O Menères Desenho de Marques Júnior Ferreira Viana Desenho de Marques Júnior Frei João Desenho de Marques Júnior A confeitaria mantém na loja um cenáculo monarquista. Vem do convento próximo. a quem quiser ouvir.. de quem se afirma ser muito menos do Divino que do Amor. Ferreira Viana não dispensa em sua intimidade. o velho Conselheiro Ferreira Viana. causeur admirável e homem de tanta franqueza que.. São os dois muito amigos. Ouve como resposta: – Nem medalhões do Império. bebericando. No forro das mangas largas e pesadas. o que não impede de viverem a trocar mordacidades e motejos. o Conselheiro muito na cela do frade.

o Imperador. um dia. de qualquer forma. é o Generino dos Santos. como. a mais pito res ca. do Jornal do Comércio. Quixote.. Angelo Agostini Desenho de Lobão De todas as figuras que por aí passam. a Confeitaria do Largo regurgita. e das meias-solas postas pelo Casimiro. vem sempre acolitado pelo Paulo. é a do Conselheiro Andrade Fi gueira. no alto da Gávea. esse Paulo que escreveu Vultos do meu caminho. Por vezes surgem o Tomás Drindl. temperamento jovial. o Costa Ferraz. Carlos de Laet. dos primeiros a chegar para a amável cavaqueira de velhotes. Visconde de Santa Cruz. filho do grande advogado Pires Brandão.. que o Emílio acabou por chamá-lo. quando não replica logo. também. que é o estribilho infalível na boca de todo homem de certa idade. Pouco assíduos. uma vez ou outra. o grande artista da Revista Ilustrada e do D. toma nota da laracha para vingar-se depois. embalsamador dos embalsamados. Eunápio Deiró é outro que nunca falta à hora do cavaco. Infalível. o Conselheiro Viana. mas. com muita graça. e Ângelo Agostini. Chegam homens de grande peso no Partido. tempo das botinas Miliet. na roda. quando se instala na chácara de Ferreira Viana. porém. figura das mais populares e queridas da cidade. vive recordando aquele “bom-tempo”. ainda. bom tempo é o da monarquia. ali. aludindo ao embalsamamento do consolidador da República. Constâncio Alves.80 Luís Edmundo Frei João. Ernesto Sena e Antônio Leitão. aparecendo. chama-o. poderemos citar. por vingança. Para agradar aos monarquistas. Para ele. Rodrigues Horta e Capistrano de Abreu que. a cofiar a sua barbela de coronel de roça. pintor alemão. De quatro às seis. que custavam 4$200. diariamente. à Travessa do Teatro e que custavam 1$600. o Conselheiro José Bento de Araújo. Acácio Aguiar. um que tanta caspa traz sempre às costas do paletó e sobre os ombros. José Caetano. metido numa eterna sobrecasaca da época de Sua Majestade. como o Sr. com direito a uma biqueira de ferro. o Deputado Américo Marcondes. as datas comemorativas da República e os nomes do positivismo. só para que não se pense que ele consente em usar qualquer coisa da . sempre de lira engatilhada para sagrar os heróis da pátria. leitão com farófia.

cético e displicente em questões de política. ouvindo o tonitruar do nariz figueirino: – Lá está o Andrade Figueira a convocar. Bilac. outras conspiraçõeszinhas nasceram na confeitaria Menéres. um dia. no dia imediato ao da revolução? Boca de praga. botinas pretas. com o seu clarim de guerra.. assunto teria de sobra para fixar com o seu lápis de mestre cenas de farsas extravagantes. um habeas corpus para vocês. por princípio. Organizou-se uma lista de conspiradores. murmura-lhe ao ouvido: – Nem pense nisso. estouros de gasosa. Chega sempre nervoso. depois. pedem ao Conselheiro Ferreira Viana que Desenho de Gil ponha nela o seu nome. eu meter-me nisso? – Ora essa. lançado à revelia de um povo. puxando pela manga do casaco o emissário da lista. .. que passava pelo Largo. cheio de alarmantes notícias e catarro. Sobrecasaca. homem! Pois você está doido. Sr. disse. calças brancas. este. João do Rio porém. cartola e guarda-chuva debaixo do braço. muito sério: – E quem pedirá. porém. embora se esvaíssem entre bombas de chocolate. De uma feita. quem ao Supremo vai requerer o necessário habeas corpus? Ferreira Viana. então por que. todo em desenhos de caramujos amarelos. de elástico. A revolução não chega a rebentar. Quando. com muito espírito. que se não fosse homem de respeitar os seus amigos. assoando-se com estrondo num vasto lenço de Alcobaça. as hostes monárquicas da Confeitaria do Menères. Conselheiro? E o Conselheiro. Rocha e Menères formam uma entidade comercial tão respeitável na praça como nas rodas da restauração. Preso Andrade Figueira. foram convocadas para um movimento de grande ação revolucionária. Até chegar-se a esse movimento. Essas hostes. capilé e as alegres gargalhadas do caricaturista Agostini.O Rio de Janeiro do meu tempo 81 República.

seco. É para aí que um populacho. Atravessando-a. que o Brasil acabou em novembro de 89. ó Menéres. porque ainda temos a febre amarela. ao contrário. certa vez. para o lado aquém da Imprensa Nacional. ramelentos. fazendo ângulo com a Rua de São José. o infalível raminho de arruda atrás da orelha. ao quadro. então. clarificando a raça. D. Ouve. Começo da Rua Treze de Maio. Mas não fala.. muito preta e mal-dependurada a um lábio tristonho e frio. um gigante que usa um bigodinho curto e loiro. em tamanca. são negros de gaforinha enorme. filho. o pigmento carregado. farejando. Discute. massa singela e augusta. o Agostini. Depois da Confeitaria do Menéres vem a casa de ferragens do Leitão. desce do morro de Santo Antônio. sentimentais e piegas. com 29 bicas de bronze. enormes. é absolutista e quer para o Brasil um Rei como o Sr. dos que pela praça andam a pedir um vintém para comprar um pão ou uma esmolinha para meu pai que está paralítico numa cama e não pode mais trabalhar. cachimbo de barro ao canto da boca. Vê. Menéres. Como adepto da monarquia. a namorar as pretas. Tu exageras. peremptoriamente. encontra-se. então povoadíssima favela e vem de outro morro. esmolambado e sujo. é o filósofo da casa. a bigodeira enorme. – Todas não. D. atrás do amor da Vênus de ébano. Menéres.. Pedro. o chafariz. A seguir a Charutaria Portugal e o Café Vitória. a surgir de três-pancadas. com ele acabando as boas coisas que existiam entre nós. põe as mãos para as costas e declara.82 Luís Edmundo Rocha é pequeno. muito sujos. como casas de uma certa importância. o Cru. Tal qual como no tempo da Colônia. São negras descalças dentro de saias vistosas e rodadas. pela famosa Chácara da Floresta. ou então como o Sr. torcendo vastíssimos bigodes. a lembrar o feitio de um templo. são molecotes seminus. de instante a instante. e faiscantes ao sol. feltros desabados. é palrador. diz-lhe. reprodutor e amigo. calças abombachadas. como lhe chamam muitos. Rocha “Calado”. mamando restos de charuto e a cuspinhar. Miguel de Bragança. o do Castelo. são manéis de tez morena. Nem falta. sempre muito polidas. Por vezes sorri velhacamente. Quando o deixam falar. Mete o bedelho em tudo. Além da Rua de São José está a Estação do Corpo de Bombeiros e a Leiteria Itatiaia. . a nota simpática do reinol. com um vasilhame de lata à cabeça.

baleeeiro! .. fazem o troco. sem cair. do jogador de futebol de agora. – Baaala. trepados pelos estribos.ro! Queimada e ovo! Notável agilidade. homens de sobrecasaca e de cartola. com essa gentalha alvoroçada e suja. conflitos. a desses molecotes de 12 a 16 anos. Não raro. berra-se. como uma nuvem de gafanhotos. vê-se. pulando de um para outro carro. uma parte do coração do Rio de Janeiro na aurora do século XX! Quando chegam os bondes que fazem a volta pelo Largo. com os imundos quiosques (nove ao todo!) que vendem café-caneca. na destreza e no desembaraço. o veículo sacolejando. ginastas consumados. aos sábados. cheios de passageiros. sem deixar cair a bandeja dos rebuçados que vendem. quatro em face à Leiteria Itatiaia. – São seis por um tostão! – Baleeei. assim. freguês. essa. equilibristas perfeitos. ainda. Sinhá. equilibrada na palma da mão. E dizer que é. baunilha e coco! – Biscoitos. de cortinas de oleado verde. Por vezes. herdeiros da ligeireza acrobática do capoeira colonial. vezes torcendo por curvas fortes. e.O Rio de Janeiro do meu tempo 83 Só não há quadrilheiros.. Contar.. de qualquer forma o cenário da praça. discute-se. aumentando o labéu do vasto logradouro. Estão colocados próximo ao Bar do Necrotério. Gralha-se à vontade. sem vacilar. Quando servem o freguês. o homem ágil que espanta o tardo europeu nas pugnas do campeonato e o supera. erguida toda para o ar. a revoada trêfega e assanhada dos moleques vendedores de biscoitos e de balas.. gritando com autoridade e importância: – Antonces. até quando eles estão em acelerado movimento. reunindo ranchos espetaculosos de bêbados e vagabundos em torno.. como é? Vomo vê isso! O quadro ofende. e mais dois bem próximos à Rua de São José. de espada à cinta. boné no alto da cabeça a coroar-lhe a trunfa. contam a mercadoria. brigas. É quando chega o meganha. balas ou biscoitos. Saltam como se fossem bolas de borracha. Nem o relho que estalava na hora da tamina. chocolate. há taponas. desenroladas para as bandas do sol.. cachaça e broas de milho. soltam as mãos do balaústre. senhoras elegantíssimas. – Balas! Quer balas? Hortelã. precursores. fazem mescla.

e se invectivam... entre os freqüentadores dos estribos de bondes. plantam-se junto dos quiosques. aos gritos de: – Ó gabrito! Carregadora de água – Ó macarrone! Depois. mas. atirando baldes de água e vassouradas. com o molecório das balas e biscoitos. esses italianos turbulentos.84 Luís Edmundo Carregador Desenho de Raul Café de quiosque Desenho de Calixto Vendedor de balas Desenho de Raul Bom será não esquecer. um jogo de pedrinhas. – Quatro! À espera da freguesia. simpáticos italianos. Pela manhã varrem escritórios e. atiradas sobre os ombros as faixas de pano de serviço. os carregadores de chapa. com estardalhaço. ou a murra. que apregoam: – A Gaazeta! O Paídze! O Djornáli do Gumércio. O Prazile! A Tchidate do Rio e a Notízia daa Tarde! Fazem liga.. alegres e gritões.. ou. então. feitas as pazes. Fazem mudanças. por época em que as casas não são ainda habitualmente enceradas. – Cinqüe. que se joga em italiano: – Due.. sem paletó. lavam assoalhos e soleiras de portas. meninotes louros e corados. descalços. e os vendedores de jornais. duas raças unidas e diferentes que se digladiam. em mangas de camisa. . o eterno pingente. sem ajuda de veículos. o pingente. dividem-se em dois bandos. na hora da encrenca. pelas esquinas. vão jogar para os lados do portão da Ordem as Três-Marias.. onde taramelam ou bebericam copinhos da branca.

movimento e até esplendor. Luís é que foi a banhos. Apenas não mais se mostra.. mas já sarou.O Rio de Janeiro do meu tempo 85 a cantar fados alfacinhas. Os homens. Esse tipo po pu lar ainda deve existir. santa féria que formou. Quando são longas o ledor resume-as. Nele há bulha. foi entregar à patroa a féria magra do dia. Depois da meia-noite o Largo maltratado e feio dignifica-se. ouvem atentos e comovidos. O Rei caiu doente duma perna. também. O carregador de chapa. A gentalha que desce dos morros para apanha d’água no chafariz. o seu cigarro: – Diz que em Lisboa vão abrir. o homem que leu e que falou recebe umas moedas e vai ganhar a vida a outra par te. Boas novas são as que relatam os grandes crimes. . Infor ma sobre o preço das pas sa gens de ter ceira clas se e está sempre a par das oscilações do câmbio. Para ouvi-las duplicam-se os ouvidos. na Inglaterra. há muito que desapareceu. por sua vez. como outrora. ou trossim. De vê-los quando chega a Mala da Euro pa. Gente trabalhadora. em torno. pondo o jornal debaixo do braço e enrolando. nem envelope. No fim. A política não interessa a essa gente. em torno ao ledor que lhes soletra as notícias da terra. Gente boa. Também não interessa a literatura. Há saldos por todos os lados. tam bém a es creve. hoje. mas não dá pa pel. Lê. Gente simples. há alegria. muito doutor. todos muito atentos e curiosos. uma rua tão grande como outra não haverá pela Europa. O Ministro do Reino declarou que os negócios do país nunca andaram tão bem como agora. as que descrevem grandes desgraças.. O baleiro. tranqüilamente. por aí. Nem mais simpático. E com esta qualidade altamente simpática – muita amiga de seu país. não raro. marejados de lágrimas. os olhos. para a Figueira da Foz. Co bra cem réis por pá gina. Vai-se mandar fazer dois enormes encouraçados. Não sei de quadro mais digno de respeito. agora. a cor respondência rece bi da. sabe o nome de todos os navios a chegar do Reino e os dos que daqui par tem para lá. São todos eles portugueses. o pensamento na pátria distante. O Príncipe D. Quan do há car ta para es crever e enviar à ter ra.

é grande moda. os guardanapos em tufo. o que lhes dá. Vale por maitre d’hotel.. Consola. Mais chique e melhor freqüentado. são gigolôs dos chamados de luxo. um prato de comida. apenas para pagar um copo de cerveja. que vão trincar um poulet Marengo. isso tudo é bom-tom. como enormes sorvetes. elegantíssimo. De Almeida. e essa carta de vinhos? Sagasta é o prestígio do refeitório. solene. o movimento da Praça referve. acompanhadas de velhos abrilhantados. João do Rio a fumar charutos da Bahia com capa de Havana e a dizer. num francês de Madagascar. em cupês particulares. obrigado a Chambertain. Todos olham o Lulu. Saltar de rolhas – pam! pum! e a gargalhada sonora das cocottes transbordando como o champagne em taças de cristal. a coçar. são as grandes cocottes que moram pela Richard ou pela Valéry. à cabeça. Quando os teatros fecham. um chapéu de papel ar mado em bico. erguendo na mão nervosa um formoso buquê de cravos brancos. e descem atravessando a sala do café que vai dar ao restaurante. senadores e deputados. brasseurs d’affaires. comme la boite est pleine. No tempo. Todos querem ser servidos pelo Sagasta. talvez. um charuto. – Garçom! – grita-se aqui. banqueiros. olhando a Marie Granger comer buîtres au Tokay ou o Sr. e. metidos dentro de copos de boca posta para cima. num halo de importância e de perfume.86 Luís Edmundo A jeunesse dorée da terra dá rendez-vous no Restaurante Paris. A sala do restaurante é vasta. são diretores de jornais. larga os olhos em torno àquela vasta e seleta assistência como que a procurar . Súbito. a dois sujeitos de casaca: – Mais. mon cher! Isso tudo é chique. isso tudo é elegante. de polainas brancas e monóculos. o Lulu de Almeida que surge. Todos querem saber para quem é o buquê. toda cercada de espelhos. O restaurante é o mais chique da cidade.. dentro de um smoking de bom corte. São atrizes que chegam. E acolá: – Sagasta. agrada e delicia. quiçá o passo um pouco vacilante. Falas. nas algibeiras magras. A hora é de encontro e ceia. as mesas cobertas por toalhas de linho tocando o chão.

O Rio de Janeiro do meu tempo 87 alguém. entregando-lhe o chapéu de papel armado em bico. e. alto. Num gesto. s’il vous plait!… Chafariz da Carioca Desenho de Armando Pacheco . fazendo rir a toda a gente: – Vestiaire. Acha-a. bem junto ao prato. Em um jarro de cristal. em face. Toma-a. planta o buquê enorme. Chama o garçom. seriíssimo. senta-se. Lulu procura mesa. diz-lhe. num tom solene.

. . PEDRO – O ACENDEDOR DE LAMPIÕES – COMÉRCIO DO TEMPO – A HORA DOS BÊBADOS – O GUARDA-NOTURNO DA ZONA – O HOMEM DA CARROÇA DE LIXO E O SEU BURRO SÁBIO PRAÇA Tiradentes. Pedro I. De Sua Majestade lhes dizer. . em 1901. com ruazinhas de macadame mal varridas. ainda conserva certos aspectos dos velhos tempos coloniais. não raro. . o jardim. se não é mais aquele logradouro melancólico que a gente pode ver na estampa de Debret.. por exemplo. À NOITE – FREQÜENTADORES DO JARDIM E A ESTÁTUA DE D. sem grandes perspectivas. Capítulo 5 A Praça Tiradentes A PRAÇA TIRADENTES. em uma certa revista do ano: . . do alto de seu cavalo. bosque selvagem e hirsuto. como a outros já disse. . armados em sotéia e onde. . até. moços de ares feminis. Ao centro. figuradamente. . com seus telhados rugosos e encardidos pela ação do tempo. . . alguns deles. em torno. . em estátua. e põem olhos acarneirados na figura varonil e guapa do Senhor D. . um jardim à Luís de Vasconcelos e Sousa. . esse quadro molesto ainda não mudou. . . O quadro do casario. . . . . e por onde passeiam. . . que falam em falsete. . se chega a ver a corda com a roupa que branqueia ao sol. . depois de oito horas da noite. um casario desordenado e feio. mordem lencinhos de cambraia. todo ele um espesso tapa-vistas de folhagem. .

E sobre o pedestal magnífico lá ficaram para sempre (e que fiquem!) belos e inofensivos. e ainda vivo. Na parte que vai do Teatro que hoje se chama João Caetano. a navalha. a armação da capota. Tão bela que acabou despertando. ao Moulin Rouge. por um progresso que. ávidos. Porque afinal. um veículo digno da cidade estercorosa. é decrépita condução de almofadas quase sem couro. atiravam-lhe pedras. no cérebro de toda aquela alvoroçada gente.. irritados.. se o símbolo não é amável. todo ele a fulgir como se fosse um cromo. e o seu lindo cavalo. durante cerca de 80 anos após a nossa Independência. perversos. que. um tilburizinho novo em folha. tão gastos e tão velhos se apresentam. digno de ver-se e admirar-se. Quem tais carros observa. afinal. e sem o menor conforto. Diz o grande Noronha Santos que a introdução desse gênero de carriola. vaiavam-no à socapa. Pedro. sujos à espera da freguesia. olhem que eu sou de bronze. senão o único que a cidade possui. o bom-senso. talvez (pois o informe que me prestou não tem mais de dois anos). A estátua. como sempre foram. aos gritos de: – Abaixo o recolonizador! Insânia. quando na Praça Tiradentes aparecia. Verdadeiros molambos. Conta um cocheiro antigo. um grupo exaltado de patriotas quis destruí-la. que não vem. velhas ferraduras. entre nós. fica pensando que os mesmos são os do tempo do Rei. O tílburi do começo deste século. aqui ainda vive solapado e oprimido pelo guante de vergonhosas tradições. vem da era joanina. como monumento. com os seus cavalicoques de pequena estampa magros. Quando surgiu a República. está uma fila de tílburis. de cavalo lavado e de couros brunidos. cacos de garrafas. a razão. e seu cocheiro de paletó aberto e bigodeira farta e retorcida. no começo deste século. embora não o seja de seus pobres filhos. com a sua capota imunda. é o melhor. porém. casualmente. Irreflexão. ferindo até o pobre animal! . o donairoso. a linha de arte é bela. invejosos.90 Luís Edmundo – Meninos. arrepiados. logo os cocheiros das velhas e desconjuntadas traquitanas. quando não lhe cortavam. quase sem painas. D.

cheias de fregueses até dez horas da noite. de abas pandas. porque os homens se recreiam. Ninguém se espante com o caso. fincados. em meio às lojas. soltando dichotes. de quando em quando. Malpostos. sapatorras de couro amarelo e cru.. calçando. vem à porta do seu famoso estabelecimento o Manuel da Cera. muito usado e ruço ou um chapéu de palha que. ensurdecedoras. aos socos. a ponto de chamar a atenção da polícia. Berra o Sarrapatilha. os chicotes.. verdadeiros mapas geográficos de cerziduras e remendos. se não é um coco eclesiástico. a derrubarem-se uns aos outros. um verniz preto que se vende pelas lojas de ferragens a seis tostões o frasco.. todas abertas. farrapentos. .. quando a alvoroço dos tilbureiros é grande. outro é o Manuel da Latada. trazem os paletós. estão eles em francas gargalhadas. iluminadas. para durar anos e anos. aos empurrões. Pois! Pra gozar. às vezes em correrias pelo Largo. Nas boléias abandonadas. de alpaca ou de sarja grossa. Um é o Sarrapatilha. Pra rir. Na cabeça um chapéu de massa. enorme. sujos. os cocheiros. de abinha dura. mostrando imundíssimas camisas e enodoadíssimas gravatas. integralmente. muito bem encaracolados. numa indumentária toda ela correspondendo. em grupos. E todos: – Ó Misarela! Por vezes. só há o dos bigodes. abertos. Enquanto esperam pela escassa freguesia. se registram acontecimentos iguais a este. quase todos. mais o outro é o Agostinho-vai-te-com-ela. Então! Cada cocheiro tem um apelido. provando a luta que aqui se travava para obter um pouco de progresso. sempre muito crescidos. nessa gente. berrando alto. rebrilhantes de graxa ou vaselina. Apuro. de se ouvir na parte extrema do Largo. onde está a Secretaria da Justiça: – Ó Misarela – o que vai com a negra de trunfa e manta – olha: toma uma pra ti.O Rio de Janeiro do meu tempo 91 Observe-se como. guerra aberta da tradição colonial contra a ânsia e até contra o direito de um povo que desejava e não podia melhorar! Os tílburis estão em fila. a bem dizer. pisando transeuntes e até os próprios animais. à miserabilidade de seus veículos. Que o resto. é pintado a verniz japonês. Tudo aquilo é piada. outra pra ela! Gargalhadas altas. na linha do Largo que avança para as bandas da Rua da Constituição.

dando fortes patadas no pedregulho das calçadas. um reboliço pelo ponto de estacionamento das carruagens. próximo. De repente. num coro escandaloso. Há um desgosto geral. Pela época. os médicos.. assobios. Espanta-se.. berrando todos de uma só maneira: – Aqui! Aqui! Aqui! E os veículos que partem numa arremetida louca. por vezes. E quer saber para que lado fica um Largo que se chama do Rossio.92 Luís Edmundo figura das mais populares do lugar. também se divertem. bate. baixote. sobre um vulto do que se pensa ser o de um freguês que vai precisar de tílburi! O homem.. que sobrevive à ofensiva. pausadamente. os que têm negócios urgentíssimos a tratar. ó sua besta! O homem sorri do propósito. Vem ver. Acaba de chegar. como ele diz. finalmente. sacudindo as caudas ramalhudas. Mas sempre uma alma generosa surge. pouca gente vale-se de tílburis. um tanto comovido. porém. berros. Cai um pouco de treva. caríssimos.. conta. na verdade. um silêncio meio hostil. onde você esta. Surpreende-se com tanta amabilidade. de varais e de capotas. É de Minas. Sorri com bonomia. correria estouvada de cocheiros. a figura macabra . dos lados da Travessa Silva Jardim e. Valem-se de tais veículos. os que estão muito apressados. num círculo de rodas. em mangas de camisa. dá a sua volta ao bigode: – Pagodeiras! Maroteiras! A rapaziada diverte-se! Os animais dos tílburis. então. a medalha dos brilhantes a ofuscar a iluminação da praça.. que. o focinho embiocado no couro de vastíssimos antolhos. que vêm. apenas. meneando de um para outro lado. Divertimento geral. gritos. consegue explicar. Mas fica sabendo onde é o Largo. sentir o estardalhaço “dos rapazes”. – Pois o Rossio é este mesmo largo. em fúria. aos relinchos. gordote. Se são caros! São. Ouvem-se vozes.. os loucos. O que deseja não é carro. um rodar enfadado e lento de carruagens que recuam. com efeito. Francisco. é informe. por vezes. sete horas. os milionários e. O relógio da torre de S. Depois. A agitação da praça diminui. logo. o informa. cada qual a trepar para o seu carro.

sem estímulo.O Rio de Janeiro do meu tempo 93 de um homem de cabelo em pé. a correr como um doido. e que vive a arrebentar-se. isso por um tempo em que Ator Dias Braga não se fala nem se glorifica entre nós o campeão da Desenho de Renato corrida a pé. olho trágico. .. porém. a correr. léguas e léguas. um homem que recebe da Societé Anonime du Gaz uma miséria. enfia o varapau numa fenda da lâmpada e acende o bico de gás. Ouvem-se então. não leva a sério a gritaria. faz léguas. na mão. Não porque lhe gritem. o coro de vozes insiste. a correr. o Diabo! Mostra-lhe a Cruz! É o acendedor de lampião que. a ameaçar os vultos que o acuam. a persegui-lo: – Profeta! Olha o Diabo! Olha a Cruz! O tílburi Desenho de Armando Pacheco O homem. lascas de pau ou pedra. de novo. Lá uma vez ou outra é que se volta ou pára. pelas ruas da cidade. um varapau enorme. a correr. em cuja extremidade superior há uma porção metálica que faúlha. Diante de cada combustor. pára. Quando parte. distintamente. avançando. sob a surriada de vadios. tão-somente porque lhe atiram bolas de terra. Traz ele. os gritos: – Ó Profeta! Olha. serenamente. perseguido por um bando composto de atrevidos garotos. feito ao pobre acendedor de lampiões. sem glória. É tradição no Rio de Janeiro essa pilhéria de mau-gosto..

. as lanternas dos tílburis e até as das caleças que fazem ponto junto à porta do Mangine. porque a cadeira não é a última da mão do cambista. Na charutaria que está junto ao Moulin Rouge. O povo co meça a invadir os teatros. que toma a oferta como recomendação. E foi..... Conta-se que a este. quando lhe perguntavam. Visconde de S. Os cambistas fazem a ronda dos guichês. porém... – Tenho aqui uma excelente cadeira bem junto à porta. mas a última na sua colocação dentro do teatro. E o outro. Luís de Braga. Compre-ma que é a última. a coisa passa. última como colocação na platéia. isso no fim de sua árdua e venturosa carreira: – Por que não te fazes comendador? Respondia sempre: – Porque sei ler e escrever! Comigo é só de barão para cima. as tiradas melodramáticas do Dias Braga ou as graças femininas da Pepa. Juca Florista e o famoso Luís Braga. . O espectador. Foram grandes cambistas desse tempo. desanda aos berros. Morreu rico e importante. bem junto à porta. líderes das pateadas. Sabia ler e escrever! No necrológio famoso mencionava-lhe a prenda. entre muitos. realmente. antes de morrer... Visconde. A praça. as lojas. começam os bate-bocas. por um mal-entendido. Protesta.94 Luís Edmundo A praça toda está iluminada. Iluminam-se as gambiarras do Moulin Rouge e do São Pedro. e com biografia e necrológio no Comércio do Porto. compra e paga o que lhe pedem. feito. amigo incondicional de todos os artistas. Celestino Silva (depois empresário). como câmbio. à hora do espetáculo. da Manarezzi ou da Delorme. Vai ao que lhe vendeu.. Os guichês dos teatros começam a vender bilhetes. dono de um solar. quando se vai sentar e vê aquilo que comprou. tapando-lhe a boca. E. a última. a do João de Figueiredo. Das oito às oito e meia o Largo inte i ro se agi ta. as discussões sobre a veia cômica do Brandão. ao centro. com a verdade: – Vendi o que lhe oferecia: uma cadeira ao centro.

Às 10½. no café. Do outro lado. no canto da Rua do Sacramento (ainda não se abriu a Avenida Passos). a anunciar: A INANA Revista de Moreira Sampaio Às 8½ (estão suspensas as entradas por favor) A vida dessa rua.. cheirando a fígado frito e a gordura de porco. dá ao logradouro uma animação só comparável à das gran des cidades. cantigas. no restaurante. o Peixoto. com a excrescência do Recreio Dramático. e. na esquina da Rua Sete.O Rio de Janeiro do meu tempo 95 Quando não vai representar para os teatros. ao fundo. e a Maison Desiré. Enquanto não acabam os teatros. o Brandão. deve-se. em cuja loja se reúnem os atores que organizam os famosos tiros. mostrando cartazes muito mal pintados. a merendar. sem contar as lojas que estão abertas. aos restaurantes onde se vendem iscas. está o Eugênio Magalhães. ainda muita estreita. O acendedor de lampiões Desenho de Armando Pacheco mais ou menos redigidos desta maneira: . apinhando-se de gente. e os cafés. confusão de vozes. até as dez horas da noite. e as casas de diversões. em grande parte. com peças como Os dois proscritos ou A restauração de Portugal em 1640. Honra e Glória. Tudo isso iluminado. espetáculos que se fazem para explorar o sentimento patriótico da colônia portuguesa. que. para não citar outras. atira-se na rua e está buscando os cen tros da alegria e de pa lestra. de gambiarras acesas. Hora da caixeirada. gritos. café então considerado o melhor do lugar. o Criterium. perto. em meio a essa gente que gralha mais do que compra cigarros ou charutos. Hora em que se co meça a cear. brados.. pelas portas. com alarde. no bar ou na casa de pasto. estão o Areias. agitação pela Praça. perto. na esquina da Travessa Silva Jardim. casas de comer de terceira ordem. diga-se de passagem. demos uma saltada à Rua do Espírito Santo. e que afixam. Mais adiante da charutaria do Madruga fica o restaurante Mangine. cartazes. é que fica o charuteiro Madruga. de novo.

que lembram chafarizes a vazar. atirando. que o lema na casa é este: lavou-estragou. para o homem. só porque vive a lavar-se em suor. ainda não visitado pela Saúde Pública. TRIPAS À MODA DO PORTO. curiosíssimo no gênero. casa de pasto ou frege-mosca.96 Luís Edmundo ISCAS COM ELAS OU SEM ELAS. VINHO DO MELHORE O povo sempre chamou a esse modesto restaurante. em 1901. os legumes. às goelas alegradas. as especiarias. embora o ingênuo. verdadeiras fornalhas contendo fornos. BIFES DE FRIGIDEIRA. de corpos imundos. o mesmo que era nos tempos coloniais: um antro de espurcícia e maus odores. De ver os interiores desses laboratórios de infecções intestinais. com manchas de gordura. o pó de carvão-de-pedra. que. o conheça por casa de petisqueiras. No solo estercoroso estão amontoadas as carnes. que sai do bestunto do cozinheiro. o pitéu. com entusiasmo. no entanto. regalo. acionadas a lenha bruta ou a carvão de coque. vasilhame que nunca foi lavado.. a uma freguesia que exalta. se evolui do porco. com as suas cozinhas enegrecidas pela fumaça. do que não sabe a gente. que é servida na sala do refeitório. na beirada dos pratos que vão para a mesa. um homenzinho que se julga a criatura mais asseada do mundo. Ainda é o manhoso negócio. quando calha. suor e humores por sobre o mantimento que trabalham. a mancha dos molhos que extravasam. de envolta com as varreduras em decomposição.. FAIJÕES. e onde – oh! ignomínia – muitas vezes são mugidos os fluxos nasais dos que. grelhas. o dia inteiro. sempre sob a pressão de um calor formidando. se endefluxam. a estalos de língua. Desse chiqueiro infecto. como nunca se lavou o alimento que é destinado a ir ao fogo. BACALHAU À PORTUGUESA. Há para o enxugo dos corpos suarentos uma toalha de pêlo. é que sai a petisqueira supimpa. no trabalho. estilhaços de lenha. caldeirões. é a que limpa. goles do bom verdasco: – Isso é que é o que se pode chamar um senhor caldo de untos! . muita vez. panelas. caçarolas. AO GOSTO DO FREGUÊS. sobre toalhas enodoadas de vinho. covas sinistras onde se agitam homens nus da cintura para cima. ou do homem para o porco.

Para atrair a freguesia. Canta. pelo nariz. o fígado de boi grelhado ou frito em banha de porco.O Rio de Janeiro do meu tempo 97 O grande prato da casa. À noite é rigorosamente preto. Um ajudante da cozinha. o freguês longe. Vem ele e abarraca. habilidades essas que se revolvem e se bipartem em pendões que por sua vez se espalham como raios de um candelabro para outro. A casa. o nome das iguarias que viu fazer ou sabe que se preparam na cozinha. Desenho de Armando Pacheco Sem elas são as iscas que se servem sem batatas ou cebolas. assa o alimento anunciando: – Iscas com elas e sem elas. levam cebolas ou até cebolas e batatas. em torno. estão os velhos e toscos candelabros de metal onde se enroscam habilidades feitas em papel. o caixeiro. arrancando à memória (porque também ele é analfabeto). fora os insultos fisiológicos que as mesmas vão deixando por essas horas de repouso. Durante o dia o papel pode ser branco. porém. por essa hora da noite. Chega o caixeiro para cantar a lista. especiais. porque as outras. Tem sorte de não ver. não tem. Isso. as que se fritam. O guarda noturno estão cheirando!. por isso. onde se frita ou onde se grelha a víscera do boi.. menu escrito. em geral. jamais.. tal o enxame de moscas que por sobre ele vem pousar. Uma folhinha de ano e uns reclames de vinhos portugueses completam a decoração do achamboado frege. o que há como cardápio. levam batatas. vem para a porta da rua um fogareiro de carvão. ou mais longe. azul. que.. até em meio à Praça Tiradentes. juntamente. . dormitam.. O olor do fígado frito sai do frege e desembesta pela rua afora. é a isca. indo agarrar. o insano revolutear das moscas. creme ou cor-de-rosa. porque não tem freguês letrado. ar mado de uma colher de cabo ou de um tridente de enormes dimensões. Descendo do alto teto. em plácido repouso. conforme o vento. a essa hora da noite. ou para os quatro ângulos da sala. simplesmente grelhadas.

caldo de untos. seis de vinho e um de banana. um de azeitonas. entre as iguarias anunciadas. ou cheira a distinção. Exemplo: – Temos iscas.98 Luís Edmundo – Temos: caldo verde. e ele cita um prato da véspera. Ótimos cantadores são os que anunciam rapidamente.. não. que se chama a madrasta. Por vezes.. tem mais!.. quatro das iscas. lá dentro. dando a impressão de que o peru tinha tido uma extração enorme: – Não. a memória do funcionário falece. calcula e retifica: – Alto lá. que conhece a matemática dos freges e as manhas dos seus garções. logo. .. mas que o freguês. não sem pôr um respiro. Logo a soma (mas em voz baixa): Vinte tostões.. vinte. logo escolhe: – Dê-me esse frango à cabidela. do especial (outra pausa). estufado com nozes! E o homem de dentro.. do melhor. quatro de bacalhau. coelho à Porcalhota. quando o cliente é de certa qualidade. com elas ou sem elas – batatas ou cebolas fritas na banha e feitas à minuta (pausa).. são dezoito. o caixeiro.. para a cozinha: – Salta um p’ru de caçarola. aos homens da cozinha: – Salta cabidela para um! O homem que o ouve. porém. que compreende o alcance do pedido. por esperteza.. mete na cantiga pratos finíssimos. caldo de tutanos. Uma vez ou outra... pensa um pouco. o caixeiro justifica-a em voz alta: – São dois de pão. O freguês.. no âmago da fornalha. dando importância à casa.. que é assim como quem diz uma pausa. Na hora da conta. por acaso. do gordo. Temos um bacalhau assado na brasa. que na hora não existe. Grita o caixeiro para dentro. que nunca o frege seria capaz de preparar. tem mais! Da lista cantada fazem-se especialistas certos garções. salva-o. abemolando a explícita resposta: – Não.. Temos paios de Lamego. com elegância. Pede-o o ignorante freguês. Cinicamente grita o caixeiro.

um bigode armado em arvoredo de zebu. ainda hoje. modesto restaurante de boêmios. Convidado para almoçar pelo pintor Hélios. Chama-se. entre nós. A propósito. ao funcionário da fumaça (cozinha). é um bife com um ovo-a-cavalo (essa expressão de gíria passou aos restaurantes de certa categoria. e também ficou). Autor desconhecido . Salta. A carroça de lixo logo ao nascer deste século. aumentar...O Rio de Janeiro do meu tempo 99 – Ou isso. Artur Timóteo da Costa e Hélios Seelinger. simplesmente. desfiada. a que ficou de um dia para o outro. uma história desse tempo. em que entram dois pintores. Certas expressões do calão culinário ainda existem até hoje: Está andando. Ou mande. por uma época de muita mocidade e pouquíssimo dinheiro. ao bacalhau. por acaso. é acrescentar. O homem que canta a lista tem dois dedos de testa. Um bife com ovo em cima. ambos. foi Timóteo da Costa parar ao “Zé dos Bifes”. espinha e chinês. – Sai uma espinha. que existiu na Rua da Carioca. ao arroz. O freguês escolhe. se não está esgaravatando a impingem das virilhas. o mesmo que – dê-me. é substituída por esta: Está na mão do artista. roupa-velha – carne-seca. expressão que. Enquanto canta tem os olhos no teto e está metendo o dedo no alforje do nariz. casa de petisqueiras. diz naturalmente o esperto funcionário do estabelecimento. tira. calça tamancos e fede a urina de gato. por vezes. Costelade-padre é a costeleta de porco. bastante conhecidos. acompanha um chinês! É uma gíria de restaurante que ainda não se perdeu de todo. que é como quem diz está sendo pre parado o que foi pedido. useiro e vezeiro nesses erros de soma. isso. Carregar no entulho é encher o prato com o molho ou qualquer outra coisa que a ele se mistura. um bacalhau com arroz? Assim o reclama o funcionário da sala. Carregar. com os quais engorda e alarga a bolsa das gorjetas.

não pode você. E com um gesto de complacência: – Faz-se! Não tinha o dono do restaurante dado dois passos. caro “Zé”. com a carne. E num tom melífluo: Olhe.. malicioso: – “Zé” amigo. mandou que se carregue na cebola e na batata. nas cebolas e nas batatas. já que você. quando Hélios ainda lhe diz. penso que talvez você possa mandar carregar. esquecia-me. trouxe logo o talher para o Timóteo. “Zé” do meu coração. quando o chama de novo o pintor. carregadinho na cebola. Hélios. também. não sem Artur Timóteo Desenho de Marques Júnior dizer: . logo. retruca-lhe Hélios. recomende aos da cozinha para carregar na cebola do bife. já que ainda não foi encomendado o prato. para pedir a prato desejado.. ouça cá. Olhe cá. então. um pouco. E “Zé”: – Carregar. vem “Zé” em pessoa. diz. também. Se nisso não vai abuso. E pede um bife com cebolas e batatas. amigo “Zé” mas. num gesto.. tão amavelmente. ao homem. um bife com batata. mandar que se carregue na carne desse bife? Amigo Zé soltou uma vasta e sonora gargalhada. embriagado num singular sorriso: – Querido “Zé”. E quando trouxe o prato. e para o seu amigo? – Ele espera.. agora. fala-lhe o “Zé” amável. Hélios. – Perfeitamente. Ia sair. cantar a lista e servi-los. que não a cante.100 Luís Edmundo Honrando a freguesia. do coração de to dos nós. Um! – Isso para o Senhor Palacete Guanabara antes de sua transformação Desenho de Armando Pacheco Hélios. na batata. Sr.

e afinal acabou arrancando ao fundo da algibeira o anúncio do novo estabelecimento. importância e tortura no começo do século. de um lado. na Rua do Carmo. muito alquebrado. de óculos negros. “Zé dos Bifes” foi uma figura bastante conhecida das rodas boêmias do começo do século. que o “Zé-dos-Bifes” achou de bom aviso suprimir no cartão: nome que é o programa de um homem que já foi dono de dois e conhece hoje. .. Cerrou as portas. mesmo porque. suarento. depois. certo dia (em 1903?) devendo à praça. muito velho. ao mesmo tempo. Remexeu nos bolsos da sobrecasaca. importante.O Rio de Janeiro do meu tempo 101 – Vá por quatro o que se paga oito em qualquer parte. entanto. levado. não poderia ser. já de categoria melhor e aonde iam. suando em bicas. depois. na Rua da Alfândega.. melhor que ninguém. que o título lhe havia sido sugerido por Camerino Rocha. outro restaurante. Abraçou-me com carinho. E ele me respondeu: – Ao contrário.. Até vou lhe dar um cartão. E que calotes! – E nunca mais. a sua mania de fiados e os calotes que levava. que acrescentara. recordou a Rua da Carioca. Pedro. rapazes do comércio e funcionários públicos. Hélios não trazia mais de quatrocentos-réis no bolso. Planeta do Destino. Contra a prosperidade dos negócios de “Zé”. “Zé-dos-Bifes” ainda vivia. perto da Prefeitura.. à Rua de S. Quebrou também. Na verdade o bife que custava quatro tostões foi o almoço dos dois boêmios nessa manhã feliz. Soube. todo amarrado dentro de uma dessas sobrecasacas que foram. já agora. negócio e freguesia. Encontro-me. com o amigo Zé. de outra forma. sempre trabalhavam dois elementos poderosíssimos: o seu coração bem português. além dos boêmios que tinham vindo como freguesia da Rua da Carioca. estudantes. o Planeta. que por sinal começava assim: Hotel Novos Horizontes. Montou. um rolo de papéis debaixo do braço. Inauguro um. ó Zé? – perguntei-lhe. uma vez. Em 1928. pensarás em restaurantes. e do outro lado a sua dilatada admiração pelos homens de espírito. no dia 2 do mês próximo. Tinha que ser assim. num parênteses. pois vi-o nos subúrbios desta capital.

afinal. – Abra esta porta. não raro aos berros. pelo tempo. você não pode pôr assim. Falei-lhe. no entanto. o morcego. os restaurantes. Nas horas mortas Apalpa as portas. eles. os cafés e os bares continuam ainda abertos até uma hora da manhã.. um sorriso à flor dos lábios. a espreitar pelos buracos das fechaduras. de Luís Peixoto e Carlos Bitencourt. Celestino Sila velho. A visão perfeita de um homem devorado por uma esclerose cerebral. sem a gente saber. em torno às mesmas. no meio da rua. privando-os de beber. Versos da revista Forrobodó. embora sem se conformarem com a violência da medida. um freguês como eu! Abra essa poorta! É nessa altura que aparece.. protestando. são atirados à calçada. nem de muitos dos nossos. Nada mais tendo que apalpar. das mais cômicas e das mais características de toda essa cidade. Pobre “Zé-dos-Bifes”! Fecham os teatros à meia-noite. ao redor da luz. Deu-me a impressão de que não se lembrava mais de mim. por muito tempo.Desenho de Marques Júnior . recalcitrantes. como mariposas. nem com a lei que regula o fechamento das portas do comércio da cidade. descobrindo as luzes interiores que ainda não se apagaram de todo. das casas onde se embebedam. o que bebi! Quero beber mais! Miserável. cheio de acha. Sorriu com indiferença. teimosos. a típica figura do guarda-noturno da zona. rondando. que é a dos últimos bêbados que. Comovi-me. de onde. O grande Ator Peixoto movimento do Largo cessa muito depois dessa Desenho de Marques Júnior hora. aos gritos. o homem. como me comovo sempre que revejo ou que evoco dias felizes que foram e não voltarão mais.102 Luís Edmundo pela mão de uma netinha. em geral. profundamente. Fecham-se as portas. porém. com o meu dinheiro. vezes até com setenta anos. É uma criatura. miserável! Paguei. os bêbados – é da pragmática – ficam ainda.

embora um tanto constrangido: – Não durmo. tendo. nos subúrbios. não estou aqui para prender. arrastando os pés. o apito de socorro. desce-lhe até as orelhas. Um guarda-noturno tem sempre razão. mas é preciso saber: o infeliz ganha somente 30$ por mês: É velho e sofre de reumatismo. coitado. Um deles. pendente como um escapulário do pescoço. Razão até quando dorme. de onde pende um espadagão enorme e quase sempre enferrujado. não se aperta. apitando. não seu doutor. trabalhava de sol a sol. O boné. o cigarro dependurado ao canto da boca. Um inferno! E os que dormem encostados às portas e às paredes. posto bem em evidência. E tem carradas de razão. no comprimento ou na largura.. menores de dez anos. de contínuo no Tesouro ou de operário nas oficinas da Central ou do Arsenal de Marinha. sem ser visto (o que às vezes acontece) mete o apito na boca e sopra. quando não é calçado a papel. Numa fita estreita. Cochilo. O esforço... após explicar como se bateu. O ouvido é bom. Não socorre. Na hora da encrenca. uma bolsa de fumo e uma caixa de fósforos. onde labora. Veste um uniforme de brim pardo. Ele mesmo diz. Saindo do emprego às 6 horas da tarde chegava a casa. Traz no estojo do revólver. não é extraordinário. em hora de rondar.O Rio de Janeiro do meu tempo 103 ques e com um emprego durante o dia. nos Campos do Paraguai: – Afinal de contas. de dois filhos e de três sobrinhos. capaz de servir a dois. o cuidado de virar de costas o chanfalho a fim de que não o roubem? . para recomeçar o trabalho da ronda às 10 da noite. de sol a sol. fica apiDesenho de Gil tando. eu estou aqui para rondar. mas chaHélios Seelinger ma por socorro.. na moldura de um vão de porta. Coitado. E enquanto este não chega. como se vê. Se não pode sair dela. às sete. franzido na cinta por um largo boldrié de couro.. E mesmo que dormisse? Velho tem sono leve. que eu fui encontrar roncando certa vez.. disse-me. ao invés de arma. antes. em 1865. para fazer o jantar dele.

entanto. para o tempo. sempre. Vomito! Por favor. um ruído singular. Corra. Esplêndido negócio! São quatro tostões. . nas janelas do Congresso dos Políticos. gorda. um ruído manso. alto. roncando. e ao lado a mulher de carnes bambas. veste-se nele um paletó e põe-se na parte superior um velho chapéu furado. por vezes. desenha-se uma leve. Largo e jardim estão completamente desertos. Quando traz o remédio recebe o troco de gorjeta. De abençoar as cólicas do outro e de lhe dizer. Na torre de S. de boca aberta. Toilete ligeira. assim. É a toilete matutina da cidade. Toilete do tempo. de camisola longa. em forma de agradecimento: – Deus que lhe dê. dê um pulo à farmácia da esquina e peça-me uma coisa capaz de abrandar-me uma cólica que me mata! Estou só em casa. através das vidraças corridas ou das venezianas de abrir. por causa dos mosquitos. Para espantar tico-ticos e pardais nas hortas. De resto tudo se fechou há muito tempo. Francisco ouve-se a badalada das três horas: bam! bam! bam! A cidade repousa. tome lá dez tostões. que vem de longe. Está sonhando. São os varredores da limpeza pública. passando um palmo da linha dos pés. sente-se a luz fraca e amarelada das lamparinas de azeite e adivinha-se o quadro íntimo e burguês do interior tranqüilo: o marido metido num vasto camisolão de linho. inofensivo e simpático. Súbito. já deve estar chegando a Botafogo. um chiar leve de palhas novas sobre o chão. com debruns de retrós vermelho na abertura da gola. coisa magnífica. E ele lá vai... dar conta do seu serviço. O último tílburi levando o último bêbado do Largo.. acordar o farmacêutico. em leito com cortinados de filó. Salva-se com isso todo o milharal. O guarda-noturno da zona está para o malfeitor como esse espantalho para os pássaros. mostrando punhos de rendas e laços de fita cor-de-rosa.104 Luís Edmundo Ser amável. varrendo o pedregulho das calçadas. Apenas. quase apressado. outra utilidade: – Sr. Na doçura da noite silenciosa vêem-se a praça deserta e as estrelas na altura. importante. tênue claridade que as cortinas de renda ou de cambraia das janelas apenas dissimulam. Dorme. Tem ele. por favor. que cintilam. guarda. toma-se de um pau em cruz. a cabeça cheia de papelotes.. dores de barriga iguais a essa. Pelos sobrados.

assim. não se queixa das ordens de serviço e. muitas vezes. mal o carroceiro põe. O que lhe dão. parte logo. Eia! A caminho. aqui. o burrinho que somente estaca quando vê a varredura em monte. . misteriosamente. E o manejo. De qualquer maneira o solípede avisado desmente as tradições da raça. o lixo da calçada. na carroça. adivinhando a ordem. esse homem e esse burro. para recomeçar. É quando se ouve a voz do capataz que comanda o grupo dos varredores: – A turma sai da calçada e ataca o centro! As vassouras ao ombro. à medida que continua. depois. que. sem protesto. em alguns conjuntos do gênero. obedecendo à orientação. enquanto eu apanho. tendo por acólito um sujeito que traz na mão esquerda uma vassoura curta e. o lixo. que se compreendem e se completam. É preciso notar que isso tudo é pelo Rio dos primeiros anos do século. avante! De resto. de quando em quando. Não falta nunca ao ponto. O da carroça.O Rio de Janeiro do meu tempo 105 A vassourada “pouco mais ou menos”.. que cessa. posta adiante. a carroça do lixo. os varredores tranqüilos caminham. na outra. um soturno rolar de roda chapeada em ferro sobre a pedra dura.. não pede aumento de ordenado. à sua frente. Depois. pode puxar agora. num ruído melancólico. E é assim. antes de Passos e de Osvaldo Cruz. vai crescendo. Quando cessa o ruído da carroça. sem esmeros. o carroceiro.. comanda o burro: – Pára! Que é como quem diz a um colega – Faça o favor de parar um pouco.. o que é melhor. vai-se automaticamente repetindo. atento e sábio. até que surge o desenho precário de um veículo. crescendo. prova que é inteligente e um funcionário com várias superioridades sobre o outro. o burro. que não tarda: – Ôôô – Esse ôôô! é uma expressão que se traduz pouco mais ou menos assim: – Colega. fica de orelha em pé. por sua vez. uma pá enorme... na personalidade. puxada por um burro manso que caminha a passo tardo. formam como que um todo só. esperando pela ordem nova. e que. aceita. pachorrentamente.

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Inteligente, pontual, solícito e discreto, é um burocrata completo, funcionário perfeito. Trabalha. Não sabe o que sejam reivindicações de classe, e, além disso, greve... O mais que faz, quando o fatigam muito, é sacudir a concha das orelhas, com rompante, mover, nervosamente, a cauda; mas, se o carroceiro comanda: – Ôôôô!, disciplinado e manso, continua o labor, pacatamente... Funcionário exemplar!

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Capítulo 6 Rua da Misericórdia
RUA DA MISERICÓRDIA E ADJACÊNCIAS – SEUS MORADORES – TIPOS CURIOSOS – O HOMEM DOS SETE INSTRUMENTOS – O VENDEDOR DE MODINHAS – CIGANAS – RECORDAÇÕES DA PRINCESA MATILDE – A MULATA ESTEFÂNIA – A “FUMERIE” DO CHIM AFONSO – A HORA DO AMOR E DA FACA

S RUELAS que se multiplicam para os lados da

Misericórdia: Cotovelo, Fidalga, Ferreiros, Música, Moura e Batalha, estreitas, com pouco mais de metro e meio de largura, são sulcos tenebrosos que cheiram mal. Cheiram a mofo, a pau-de-galinheiro, a sardinha frita e suor humano. O bairro é velho e miserável, remanescente de um casario que foi, entanto, o da melhor nobreza, pelos tempos dos Governadores Duarte Gouveia Vasques ou Salvador Pereira, aí pelo ano de mil seiscentos e tantos. Pífios sobradões expondo frontarias onde a cal branca dos rebocos mostra-se grisalha; paredes descascando roídas pela implacável lepra dos tempos, o pedregulho e o tijolame à mostra, telhados suando a lentura verde dos limos ou esbranquiçados, nos beirais, pelo brotar de cogumelos, telhas de canal partidas ou desbeiçadas. Casas, enfim, onde a gente adivinha, em fundos apodrecidos, pela umidade e

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pelos anos, gatarrões hercúleos e cães violentos, todos em fúria, a despedaçar ratazanas colossais, quase tão grandes como carneiros! Prédios que há quase um século não recebem uma só mão de tinta, um pequeno conserto na esquadria cumba e estalada pela idade, nos vidros partidos que se vêem remendados por imundos pedaços de papel, nas sacadas, mostrando ferros retorcidos e corrimãos covos pela ação destruidora do cupim. Tudo isso anda a pedir, aos berros, picareta, fogo ou terremoto. Surgindo dos balcões gradeados ou dos parapeitos das janelas, trapos a secar que o vento enfuna e balança: saias, camisas, meias e outras peças de roupa, postas por sobre cordas ou arames esticados à força de bambus. Atrás desses biombos que esvoaçam, alvissareiros, no ar, a vida humilde dos que nada têm, dos miseráveis e dos pobrezinhos... Moçoilas pálidas, com travessas de celulóide à cabeça, calçando tamancas de pau, trajando vestidinhos desbotados de chita, que cantam o:
“Perdão Emília Se roubei-te a vida...”

Rapazes de ar franzino, curvos, em mangas de camisa, de barba por fazer, à espera de empregos que não sobem andares de casas de cômodos, repinicando violas desafinadas ou ajeitando, em microscópicos espelhos, uma enorme pasta que então se usa derrubada sobre o olho triste. Vezes, entre essa nota de pobre coquetterie e de lirismo, o bate-boca infalível da gentalha, indo de sacada a sacada, num vocabulário torpe; ásperas tiradas que as crianças curiosas aprendem e que fazem sorrir os meganhas da polícia que, embaixo, cruzam, de barretinas derreadas no cangote, filosoficamente chupando charutos de dois vinténs. – Desce para a rua, ó, ladra de uma figa, para ver só como eu te amarroto essa cara sem vergonha! E, logo, a resposta: – Era o que faltava eu me misturar com tipas de sua laia, grande burra! Não me faz medo, você, nem o rufião de seu marido. Não tenho medo. Tome! Por vezes, num parapeito de janela, como a claridade de um sorriso, um vaso onde viçam flores, uma persiana de cassa branca compondo a vidraça de correr, e, atrás dela, um rosto virginal, indiferente ou

O Rio de Janeiro do meu tempo 109 triste, olhando a ruela que enxameia e que barulha. Nas calçadas, tipos andrajosos, guris desbocados e sujos, aumentando o trânsito e o ruído da betesga, aos berros, correndo, saltando de envolta com os cães vadios que ladram, com os ambulantes que passam soltando os seus pregões, aos que melhor se vestem, de mão sempre aberta, a implorar o vintenzinho para comprar puxa-puxa. Na venda da esquina que olha para outra ruela torva, o maduro assobia. E para as bandas do mar, longe, espaçados apitos de lanchas, de barcas que vão para a Praia Grande e de paquetes a partir. O quadro da viela, porém, agrada. É divertido. É pitoresco. Estrangeiros descidos no Cais Pharoux, corajosos ingleses, dos poucos que aqui descem, de roupa de xadrez, boné de pala e binóculo a tiracolo, indiferentes aos perigos da febre amarela, perdidos nesse dédalo miserável e rumoroso, param satisfeitos e divertidos. Fazem indagações. Tiram do fundo de duras bolsas de couro máquinas fotográficas... É a Suburra carioca, bazar risonho e colorido da miséria. Por que não fotografá-lo e retê-lo? Por esses lugares ainda cruza, como uma grande novidade, o homem dos sete instrumentos, um pobre-diabo que, quando se exibe, lembra um macaco presa de delirium tremens, coçando-se todo, dançando, multiplicando por sete a vocação e a solfa.

O homem dos sete instrumentos Desenho de Raul

Novidade de uns trinta anos atrás, que ainda provoca sucesso e espanto. O musicista é um italiano de bigode e pêra à Vítor Emanuel, dentro de uma roupa de belbute cor-de-abóbora, ru bro e envernizado de suor.

Rua da Misericórdia Autor desconhecido

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Outras vezes é o homem do fonógrafo, que arma um banco-xis, pondo sobre o mesmo a caixa da recente invenção, que a criançada, curiosa, rodeia. Ainda é imperfeitíssimo, o instrumento. E fraco. O som ainda se arrasta aos chios, anasalado e incerto. Não obstante, a gurizada por ele delira, boquiaberta, gozando a modernice. – Toca sozinho! “Camisa Preta” – “Que nada”! Desenho de Armando Pacheco – Toca! A música sempre interessou à plebe, música alegre ou triste, certa ou desafinada. Por isso os ambulantes da solfa são infalíveis na Travessa. O homem do realejo e do macaco não perde o tempo, quando por aí passa. E passa diariamente. Outro que nunca falta é o cego Saldanha, figura conhecida da cidade, baixo, rotundo e gebo, grande tocador de guitarra.
Meu Senhor de Matosinhos Que é dono deste arraiale, O mais pobre e mais catita Que hai em todo Portugale! Dai ao Saldanha, que é cego, Vossa ajuda, sem iguale.

Diz isso com os olhos cheios de pus, pregados nas sacadas de corda, por onde espiam através da traparia que esvoaça, mulheres gordas de lenço à cabeça e grandes argolas de metal dependuradas nas orelhas. Abrem-se os corações. Abrem-se as bolsas. Começam a tinir, no lajedo da calçada, as moedas de cobre. Apanha-as um molecote quase preto, que serve de guia ao cego e que deve, no mínimo, roubar-lhe, diariamente, a metade da féria. O grande sucesso do quarteirão, no entanto, é o Pedrinho do Largo, vendedor de modinhas, mulato sarará, que veste roupa de brim-d’Angola, sapato de corda e chapéu três-pancadas, com aba tapando o olho esquerdo, um olho bambo, sensual, que ele, por vezes, atira às janelas onde há raparigas que se dependuram, perguntando: – Tem a modinha do Olá, “seu” Nicolau, você quer mingau? E, logo, o mestiço pernóstico, pegando a deixa, com a sua voz esganiçada de vendedor de sorvete, respondendo, de chofre:

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“Mingau não quero, Eu quero é amor!”...

Traz debaixo do braço, em pacotes, nos bolsos e nas mãos, as obras-primas do repertório de modinhas nacionais. Não as apregoa, porém, pelos títulos, canta-as:
“Quisera amar-te mas não posso, Elvira, Porque gelado trago o peito meu, Não me crimines que não sou culpado, Amor, no mundo, para mim, morreu.”

Ou então:
“Nasci, como nasce qualquer vagomestre, Não sei quem foram ou quem sejam meus pais, Vivo nas tabernas, ao som das violas, Pesco de linha na beira do cais!”

Quando Pedrinho do Largo canta no beco, as sacadas de ferro transbordam de moradores, de interesse, de alegria e de emoção. Olhem à entrada da rua, silencioso, ouvindo o mulato que canta, respeitando-lhe a voz e o comércio, o homem do passarinho, que chegou para vender a boa sorte, e encher-se de alguns cobres. Como atributo de seu negócio, mostra uma espécie de plataforma erguida sobre um pau, uma gaiola cheia de canários tristes e, em face à porta da mesma, Outro aspecto da Rua da Misericórdia uma caixeta onde se arregimentam Desenho de Armando Pacheco vários papeizinhos dobrados e em cujas dobradas, colados a goma-arábica, estão grãos de cevada e de alpiste. Os pobres pássaros trabalham movidos pela fome. Quando o homem que os explora vai servir a um freguês, levanta a porta da gaiola e deixa escapar um canário. O esfomeadozinho avança logo para a caixeta onde estão as sortes e onde se cola o alimento que lhe prometem. Atira-se a bicadas, tentando comê-lo. É nesse momento que ele arranca um dos papeluchos

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da caixeta, embora sem conseguir arrancar o alpiste ou a cevada que nele pôs a mão do explorador. A sorte é, quase sempre, em verso:
Tu terás que ser feliz Espera pelo teu dia Que ele não tarda a chegar. Assim será. Deus o quis Terás dinheiro, alegria Na terra, como no mar. Espera pelo teu dia.

Enquanto não chega o dia o homem do passarinho vai engordando a bolsa da féria e emagrecendo, cada vez mais, o passaredo de seu comércio. No local, esse desvendador do Destino, tem por concorrentes as ciganas coloridas, que andam sempre em bandos de três a quatro, como ainda hoje, lendo o passado e o futuro pelas linhas das mãos. – Dá para mim uma moeda de dois tostões. Põe sorte pra você. Dinheiro bendito. Santo do céu. Diz sorte de vida. Diz presente, passado, diz futuro. Boa sorte para você. Sua família. Bota primeiro sua dinheiro na minha mão. Meninas casadouras descem de andares altíssimos, fazendo bulha com as tamancas, o ferro de engomar na mão, estouvadas e alegres, para que a cigana lhes conte, mais uma vez, o fado que hão de ter. E o que ouvem é uma repetição do que as espertalhonas vivem dizendo sempre, por toda a parte, a todas as que se querem casar e têm noivo ou que noivo não têm. – Namorado bonito. Você gosta dele e ele gosta de você. Mas tem uma que não gosta de você. E ele gosta dela. Põe outros dois tostões na minha mão e eu faz ele casar com você e não gostar mais dela... Os que acreditam nesses sortilégios vão à casa da mulata Estefânia, ao Largo da Batalha, onde o Destino se lê de todas as formas. A cidade, do centro ao mais distante arrabalde ou subúrbio, transborda Beco da Fidalga Desenho de Armando Pacheco dessas sacerdotisas do futuro, capazes,

O Rio de Janeiro do meu tempo 113 como se inculcam, de modificar a própria fatalidade, contrariando, assim posto, a morte, afastando a desgraça, impedindo males aparentemente fatais, só porque foram traçados pela vontade de Deus... Dão-se à prática da cartomancia, da grafologia, da quiromancia, da magia branca ou preta e várias outras espécies de feitiçarias. Há, por exemplo, entre elas, uma que os intelectuais da terra, com João do Rio à frente, conhecem por Princesa Matilde. Mora à Rua Santo Amaro, onde recebe às sextas-feiras. Seu marido é um excelente homem, que acha sempre muita graça nas excentricidades da mulher, muito cheio de vocação pelo seu comércio, pé-de-boi em sua loja, infeliz que quase morre de desgosto quando, em 1903 ou 4, o pintor Hélios Seelinger, que obtém, então, pela Escola Nacional de Belas-Artes, o seu prêmio de viagem à Europa, numa cabeçada deplorável, rapta-lhe a madama, com ela indo viver em Paris. “Princesa” Matilde é uma mulher de todos os diabos, que desdenha as sacerdotisas do seu gênero, exibindo cartas que lhe escreve a famosa Madame de Thebes mostrando um retrato que foi dado com a dedicatória de Papus, dizendo-se íntima de Sar Peladan. Usa perfumes do Oriente, excêntricos berloques e traz no dedo um anel onde se desenham, por dentro, as fases da lua, e, por fora, todos os signos do Zodíaco. As suas sextas-feiras são concorridíssimas. Lá vão, entre outros, para discutir o Ocultismo da Índia, o Cabalismo hebraico, o Esoterismo egípcio, Swendenborg, Allan Kardec, Comte, em panaché erudito, céticos como Gonzaga Duque, displicentes como o César de Mesquita, crédulos como Magnus Sondall, hierofante do
“E Sun pensou! E assim falou Sin-ur!”

sempre perdido entre os monumentos da literatura da Índia, citando o Ramaiana, o Maabarata, o Sacuntala e os Vedas, um pince-nez de tartaruga eternamente a resvalar pela ponta de um nariz retiforme; calculistas como o Padre Severino de Resende... Madame Zizina é outra grande sacerdotisa do tempo. Corcunda, não possui a fascinação física, nem mesmo o brilho

Rua da Misericórdia Desenho de Armando Pacheco

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intelectual ou mundano da “Princesa” Matilde, goza, entanto, de mais sólida reputação e popularidade. Ainda há a Candoca (bruxa de São Leopoldo), uma que é alta, vesga e que, às vezes, surge na Rua do Ouvidor acompanhada de um grande cão terra-nova, de focinheira de couro e de coleira de prata; a muito conhecida Barbada, da Rua Barão de São Félix, a espanhola Ximenes (19, Rua da Prainha), a Liberata, da Rua da Alfândega, a mulata Estefânia, etc. Por esnobismo, a mulata Estefânia interessa sobretudo aos que vivem na alta-roda. O exotismo macabro de seu antro de feiticeira, no Largo da Batalha, impressiona. A feitiçaria smart da “Princesa” Matilde, entre quadros Rochegrosse, móveis de estilo e tapetes do Oriente, parece suspeita. Casa de feiticeira é casa de feiticeira. Requer cenografia adequada, quadro especial, e, ao invés de luzes e frases de bom-tom, silêncio, concentração, um pouco de sombra e um pouco de mistério. O antro da mulata Estefânia, com todo o seu cabalístico conjunto, é um antro protocolar. Até chegar-se ao salãozinho onde ela nos recebe e que é forrado a cetim preto, sem o menor adorno, sem o mais leve ou fugitivo traço de decoração, onde, como peças de mobiliário, existem, apenas, duas velhas cadeiras e um gueridon de pinho, coberto com um pano de veludo carmesim, atravessa-se uma seqüência de corredores sinistros, de sombrias saletas, de lúgubres passagens, onde a claridade dos bicos de gás lança, pelas paredes e pelo soalho que range, as nossas sombras merencórias, que dançam, que crescem, que impressionam como se lançasse o macabro desenho de vultos apocalípticos. A mestiça é uma quarentona, pesada e feia, com o rosto largo coberto de sinais de bexigas, a grenha enorme, farta e encaracolada, a desabar-lhe pela testa, de tal forma que, quando ela põe as cartas sobre a mesa, os seus olhos se escondem além do bastidor capilar que a envolve toda, como se fosse mais uma nuvem negra na funérea negrura do aposento. É gorda e cheira a alfazema. Quando no Largo da Batalha surge um cupê de espavento, um landau de cortinas arriadas, ou uma berlinda das que têm persiana de pau, a vizinhança rosLampião a gás na logo: Desenho de – Casa de feiticeira! Armando Pacheco

O Rio de Janeiro do meu tempo 115 E acerta. São damas da melhor sociedade, vindas de bairros elegantes como os de Botafogo e Águas Férreas, que descem das carruagens, como que às escondidas, o rosto coberto de véus espessos, ou, então, à sombra de leques amplos e emplumados. São esposas enganadas, que vão em busca do amor que lhes fugiu, mulheres que sofrem o desprezo ou a indiferença dos maridos, que há mandingas e filtros que a Estefânia conhece e propicia, capazes de prender os homens, de desmanchar paixões ilícitas, de reacender, nos corpos frios, chamas que parecem extintas; são mocinhas casadeiras que, tendo recebido promessas de casamento, vêm, ansiosas, saber se os cavalheiros “casam mesmo”; são “senhoras-donas” que sofrem de asma ou padecem do fígado, em busca do que a Medicina do tempo não lhes dá. A todos a mestiça consola, cobrando dez mil-réis pelo consolo. Nunca o Destino pareceu tão barato a essa gente que roçaga sedas, trescala a patchuli ou aglaia e dá ordens aos cocheiros de cartola e libré cor-de-cinza, falando baixo e em francês. Os homens também freqüentam a sórdida espelunca, grossões da política, banqueiros, pessoas de responsabilidade na administração do país, membros, até, do Círculo Católico... Esses chegam mesmo a pé, corajosamente, embora venham, quase todos, das bandas que dão para Santa Luzia, em passinhos discretos e despistadores, até serem engolidos, de repente, pelo corredor da botadeira de cartas... A hora mais comum para as consultas é à tarde, quando casario, céu e figuras que passam, se fundem, perdendo as linhas e o feitio, dentro da mesma sombra; quando ainda não se acenderam os primeiros bicos de gás da iluminação pública e só o bondezinho do Carceller-Praça Onze, com os seu faróis ainda apagados, cruza velozmente, a correr, a voar, atopetado de passageiros, as mulas da atrelagem sovadas pelo chicote impetuoso de cocheiros eternamente atrasados no horário. No Beco dos Ferreiros há uma casa, a do chim Afonso, onde se toma ópio. É um sobradinho torvo, encardido, com bandeiras de vidro azul na esquadria desaprumada e feia e uma soleira de porta imunda, umedecida pelas crianças e pelos cães vadios, que nelas, muitas vezes, dormem e ressonam. Por essa porta, que é a boca de um negro corredor onde réstia de luz não entra, estreito, com assoalho podre, a vacilar sobre os barrotes, saem, por vezes, homens trôpegos, caras macilentas, tipos de ar melancólico ou imbecil. Nem parecem homens, senão

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Luís Edmundo

sombras, que mal se aprumam deslizando no lajedo acanhado da calçada. São fumadores de ópio, na maioria chins como o Afonso. No começo do século as ruas da Misericórdia e Fresca, com todas as suas travessas e ruelas adjacentes, formam o quarteirão onde eles se instalam, criaturas eternamente sorridentes, maneirosas e tranqüilas, que vendem peixe, camarão, sardinha, ventarolas ou cata-ventos de papel. – Piche, camalô! Ulha a sardinha! – Tchina vinde laque, vindarola e cativenti de papel! Apregoam com voz mélica ou ceceosa, jogada em falsete, e andam como aves assustadas, aos saltos, aos pulinhos. Alguns, até se azucrinarem com as vaias infalíveis do moleque das ruas, ainda trazem, sobre as costas, o rabicho da tradição mongólica, quando não o escondem em rodilhas sob o fundo ensebado dos chapéus. Moram às dezenas em casas sem a menor sombra de higiene e conforto e são, quase todos, fumadores de ópio. Por isso há várias fumeries, que se espalham pela zona, onde os viciados podem encontrar o que se encontra pelas casas do gênero, as de ínfima ordem, claro, entre os bairros populares de Tien-Tsin, de Ning-Po ou de Xangai, na China. A casa de chim Afonso, no gênero infame, é uma instituição modelar. Não conhece a Inspetoria de Higiene Pública esse laboratório onde se aprende a morrer de mansinho, nem mesmo outros que se derramam pela vizinhança, mas a polícia avisada, bem que os conhece, porque servem eles, muitas vezes, de refúgio a vagabundos e toda a espécie de degenerados, que os psiquiatras da Praia Vermelha só então é que começam, seriamente, a estudar. Chim Afonso nasceu na província do Pe-tcheli, tem setenta anos de idade e trinta de Brasil. É seco, é feio, é espectral, com a sua cara de luva de pelica velha, as suas orelhas despegadas de vitelo, o tronco seco e curvo. Na boca, sorriso alvar. Quando ele irrompe na viela rumorosa, os olhos muito piscos, aos pulinhos, fazendo cortesias, recebe, logo, a surriada dos guris que lhe correm atrás, quando não lhe atiram cascas de banana, bolos de terra e outros detritos das sarjetas, gritando: – China Salamaleco! Pelanca! Perigo amarelo! Muito do tempo essa expressão de aparência erudita, mais que glosada pela imprensa e que acaba na boca da ralé. Perigo amarelo também são os primeiros bondes elétricos, que, pelo fim do século, aqui

O Rio de Janeiro do meu tempo 117 surgem como um marco de progresso, jalnes de cor, a matar pelas ruas o provinciano carioca... Não é só Pelanca que leva cascas de banana ou de laranja, quando deixa o seu antro e cai na rua: os outros chins, quando saem da delícia do ópio, também apanham do molecório ensarilhado as sobras do desforço. Riem-se, porém. Defendem-se com a mão aberta, quando não corRua da Misericórdia Desenho de Armando Pacheco rem, aos pulinhos, fazendo ainda mais rir à criançada. Os que amam o pitoresco da cidade e gostam de observar o documento humano, quando querem sentir, de perto, um chim autêntico, de carão de cera, olhos tortos, rabicho e bigode mongol, procuram as bandas da Misericórdia e fartam-se de vê-los. A fumerie do Afonso tem o número quinze, no Beco dos Ferreiros. Penetra-se o corredor sombrio aos tropeços e caminha-se até chegar a uma cancela, que vive sempre trancada. Bate-se e, quando a mesma se escancara, vê-se a figura de um porteiro, outro chim, que aí pousa de cócoras, tendo ao lado uma espécie de banqueta e sobre ela uma rubra lanterna de papel. O homem jamais pergunta ao visitante ao que vai, porque na casa nada mais existe senão cachimbos com ópio e catres para dormir. Condu-lo apenas, após exageradas cortesias, ao Pelanca, patrão, que é quem prepara e acende o cachimbo ao freguês, gabando sempre a excelsa qualidade do tóxico que vende e é, ao mesmo tempo, quem lhe escolhe o melhor leito. A fumerie compõe-se de várias salas, sempre cheias de gente. Em cada catre há uma pequena almotolia de azeite onde uma chamazinha tênue e avermelhada, agoniza, a dançar. A quem penetre, pela primeira vez, o antro, o que mais impressiona, O china vendedor de peixes e no primeiro momento, é um cheiro hediondo, onde camarão – Desenho de Raul

entanto. coisas que o nosso ouvido não entende. O ambiente não se modifica. Adiante. que até parece que se desfaz à mais leve pressão dos nossos dedos. mostrando a cova dos olhos negra. quando lhe pomos uma prata de dois mil-réis nos dedos secos. de onde pende o pipo dos cachimbos. a um canto. são bocas aterradoras. As bocas. nus. a se torcer como uma cobra. completamente nu. máscaras da China antiga. Positivamente desagradável. como que comida pela terra. Mais adiante faz um troco. suam. atende acolá outro cliente que chega. fisionomias de desenterrados. nele se deliciando. que traz dependurada na cintura. no seu canto suavíssimo? A terra em que nasceu? Os montes do Kouen-Lun ou os do Iun-nan? As praias do Hang-Tchen ou as do Iing-Po? Casebres de laca e de bambu. entra de permeio. como as dos que morrem num espasmo de sofrimento e de dor.118 Luís Edmundo o do gás sulfídrico. a essência de cravo ou rosa. queima-se o sândalo. reluzentes de suor. Chim Afonso se espanta quando lhe dizemos que apenas queremos visitar-lhe a casa e ver. Estão os toxicômanos. porém. outro que parece cantar. as hediondas máscaras manchus dos tempos da dinastia Ming. E quando lhe perguntamos: – Ouve cá.. o benjoim. Que evocará ele. Diz coisas no seu idioma natal. que se desenham em meio à luz que bruxuleia. para vencer o olor vil.. O ambiente entontece. por que te . É um chim magríssimo e pequeno como uma criança. franzinos. Agrada-se. Há. Na bodega de chim Afonso esse odor mau é perfume. um deles que delira. Espanta-se. com pontes curvas. Há pituitárias. Quando a gente se abaixa e toca um desses corpos seminus. Alguns arfam. enfim. completamente. nesse instante. Pelanca acende um cachimbo aqui. remexendo numa bolsa de couro. Sorri outra vez. não raro. porém melhora. que reclamam o horrendo odor. da cintura para cima. São rostos cor de oca. forrados de esteirinhas cor de chocolate e manchados de suor. ofegam. Nas boas fumeries do Oriente. sobre catres que são verdadeiros cacifos de madeira. sente uma carne mole. Mete o dinheiro no fundo de seu alforje. Troncos esqueléticos. que sacode. gozam. como os que vemos debuxados nas caixas de xarão ou nos leques com varetas de sândalo ou marfim? Sonham. como se toma ópio. – “Brigado!” Sorri.

mãe deles. afobados. escuras e desdentadas. hein? Pelanca. . como a apelar para o espírito de Confúcio. há uma mancha parda do poviléu reunido e o eco de mil vozes que se chocam. As janelas abrem-se fragorosamente para se apinharem de curiosos. sorrindo ainda mais. do Arsenal ou da Praia de Santa Luzia. as cabeleiras em samambaias fugindo aos bonés de pano mole. São remadores do Arsenal de Marinha. tirando de bocas sórdidas. vêm dos lados da Praça Quinze. Os meganhas. cuspindo Desenho de Raul grosso e desmanchando-se em estrídulas e espetaculosas gargalhadas. No ângulo da rua escura. quando tudo parece repousar. de tórax pujante. as lanternas das hospedarias de última ordem lançando sobre as pedras das calçadas. Lá está o pobre. de galhos de ale crim espetados atrás da orelha. de apito na boca. laivos avermelhados. na calçada do Beco da Música. correndo de espadas desembainhadas. soltando baforadas absurdas. Vezes. toda a riqueza de sua vã filosofia: – Pelanca.O Rio de Janeiro do meu tempo 119 chamam os garotos da travessa. charutos O homem dos passarinhos mata-rato. o trânsito como que suspenso. muitos deles nascendo da parede. Pelanca. postos à pachola. em tons mortiços. pardavascos hercúleos. piscam ao vento sutil que vem da barra. Não importa! Quando a noite vai alta e os bicos dos lampiões de gás. cheios de ânsias por ver e por cheirar o acontecimento rumoroso. um grito – Ai! e um – Pega! Matou! Matou! Apitos. pelas esquinas dessas alfurjas ensombradas deslizam vultos enlaçados. levantando os braços. deixando sair da boca pergaminhenta e fria esta frase onde ele põe todo o fulgor da sua mentalidade.. de borco. A notícia do acontecimento não custa muito a se propagar: – Mais uma do Camisa-Preta! Passou a navalha na barriga do Juca Barulho e “abriu o arco”. quando sais à rua.. por quê? – responde-nos. dando dois saltinhos para o lado. são marafonas. as portas escancaram-se cuspindo para a rua homens em roupa de dormir.

. o mais povoado e de aspecto melhor. . . . Morada de tamoios. . defesa natural que o lusitano. Capítulo 7 Morro do Castelo MORRO DO CASTELO – UM POUCO DA SUA HISTÓRIA – A MONTANHA NO QUADRO DA CIDADE – VIDA DE SEUS MORADORES – COLÉGIO TICO-TICO – TATUADORES E TATUAGENS – O IRMÃO-DAS-ALMAS – MISSA DOS BARBADINHOS – A MACUMBA DE JOÃO GAMBÁ S MORROS de Santo Antônio e do Castelo.. é o Castelo. fundando aqui o povoado que se chamou Henriville. . . . de difícil acesso. Villegaignon. . . . pelos chãos elevados e distantes. . a elevação era um tanto escarpada em roda. vizinho ao mar. . . instalando-se na livre assomada das montanhas. depois. dele não quis saber. Entre os dois Montes. os que descem na escala da vida. . No Rio de Janeiro. . como Thevet informa. antes dos portugueses. no coração da cidade. e que seria a capital da França Antártica. . . vão morar para o alto. aproveitou para sobre ela fixar o burgo que se mudava da praia onde nascera. . o de maior relevo. junto ao Cara de Cão. . . são dois arraiais de aflição e de miséria. . . . .

pelo tempo. índios aliados. das marlotas e dos chapins de cetim. um templozinho ergue-se. um chapeuzinho. Em torno a paisagem era linda. onde. toda uma multidão. capitães e soldados da guarnição da terra. o arvoredo copava e o caule flébil do coqueiral vistoso erguia para o alto. de copa rígida. em massa. Diante da igreja havia uma espécie de pracinha. dando ao quadro feliz do povoado nascente amenidade e linha. o tacape e a . tempos depois. embora. paredes portentosas. dominando a bruteza da terra. na qual. vinda dos quatro cantos do morrete. o sacerdote de Deus. se ajuntava: homens de prol. de quando em quando. Era a civilização trazida pelo luso. posto um pouco de banda. casarões severos onde se instalou a sede da administração e da justiça públicas. o povoado feliz. sofrendo. abrindo em leques ou em repuxos. as sedas lavradas e brosladas da época. a investida do aborígine cruel. capas de baeta sobre os ombros. com a sua pluma. E como. Morro do Castelo terríveis se mediam. Que os homens de qualidade. à cabeça. capitães da armada. em permanente luta. por onde fosse o homem havia de lhe ir. fortes e nus e até damas que roçagavam sedas. ao pé. espanejando ao sol. irregular e feia. sempre. alegria e frescor. de Desenho de Armando Pacheco um lado. Ao selvagem da América a indumentária espaventava. esses. vestiam gibões de raso. por muito tempo. palmas frescas e largas que se arrepiavam ao vento. prestigiosas massas. Assim viveu. a fremir e a ondular. meias de chamalote cobrindo perna e coxa. colorida. que era a dos decotes amplos e quadrados.122 Luís Edmundo Bem no cocuruto da montanha foi que se construíram as famosas casas de pedra que punham o colonizador ao abrigo das flechadas inimigas. e. branco e garrido.

novamente os morros sendo causa das moléstias da cidade por concorrerem para o calor do clima. o Vice-Rei. todas as manhãs. na assomada do morro. homem de pituitária condescendente. porque lhe deram substituto. Santo Antônio. em direção à várzea ainda coberta de mangais e de lagoas verdes. Tendo. Grandes habitações aí se ergueram em meio a chácaras virentes. na parte baixa. num tosco paquebote. o Senado da Câmara. o pelouro. a partazana. por- . pelas encostas que iam ao mar. subindo a ladeira da Misericórdia. de tal sorte. a integridade do veículo e do seu esplêndido recheio. o sota e os criados de tábua. cruzavam garças e coaxavam rãs. havia muito. lá ia ele. destes. a pé. Em 1770 já estava toda a planície próxima construída. nos afligiam e preocupavam. pela hora do crepúsculo. em 1798. o Conde de Azambuja. assegurando. até bem tarde. dos mais frescos e dos mais tranqüilos.O Rio de Janeiro do meu tempo 123 flecha e de outro lado. mesmo porque. primeiro. E só não morou no sítio desejado o Vice-Rei. Alguns anos antes. nas mãos as cordas de travar. afinal. o ânimo gentio. malcheiroso e malsão. São Bento e Conceição. pelo menos na parte medeando entre Castelo. depois por ermos. até mesmo ao albor do século XIX. foram as casas e os quintais descendo. escorregando. num inquérito aberto entre os médicos desta cidade. tentou abandoná-la. guardava o morro a tradição de lugar dos mais sadios. por todos os títulos. no clima da cidade. sem prevenções contra o mau odor da terra que então não possuía sombra de menor higiene. que tinha sua residência junto à linha do mar. morada nobre. irregulares e íngremes caminhos. Para ativar o andamento das obras. indo fixar-se num próprio erguido pelos jesuítas. Serenado. notável médico na terra: “Eis aqui. puxado por seis mulas. continuando a viver onde os seus antecessores viveram. Foi o Castelo. pouso de abastados dominando a mais linda paisagem do mundo. o arcabuz. sítio. querido saber as causas reais das enfermidades epidêmicas que. teve o Monte esta condenação pelo Dr. Conde da Cunha. Manuel Joaquim Moreira. a peça de artilharia e a pólvora. esparramando. onde. arruada. morro abaixo. o mais nocivo é o do Castelo. porém.

a montanha. O que muito impressiona a quem galga os caminhos dessas íngremes e ásperas encostas é a série de paredões. Antônio Joaquim de Medeiros. mais lindos e de mais cômodo acesso.124 Luís Edmundo que é o que obstrui mais a viração do mar. também ouvido. não só a extinção dos charcos que a cercavam. penúltimo Vice-Rei do Brasil no Rio de Janeiro. sem luz. a gente. sendo que outro médico. das que são o “tombo da casa”. as “burras de trabalho”. amarelas e . a esse Monte do Castelo. onde iam morrer todos os ventos bons vindos da barra. e a história de tempos que se foram. por três caminhos diferentes: a Ladeira da Misericórdia. de ar desalinhado e pobre. a do Carmo. atendendo à mais franca aeração da cidade. porém. como a diminuição sensível do calor. de que se servem os que vêm do centro da cidade. homens de carão pálido e chupado. trepando pelos lados do convento da Ajuda. a não ser algumas construções espessas e sombrias. uma vez que com a terra do desmonte os entupia. Sobe. e da qual os que o dominam podem divisar as chácaras da Floresta e do Vintém. imediatamente. D. palácios retalhados em cubículos. Até o Governo do Sr. entretanto. promiscuamente. mulheres. mais forte e mais saudável”. maciços. baluartes antigos. A decadência do Castelo. sem o tapa-ar do morro. pela rua do mesmo nome. Fernando Portugal. inúmeras famílias. muitos deles com compartimentos mostrando divisões de aniagem ou tabiques forrados a papel. a lata do almoço embrulhada em papel de jornal. sem ar. para dormir. Um século depois. e. o morro. crianças de ar enfermiço. é um descalabro. fortes muralhas de sustentação. o cabelo por cortar. que nasce bem junto ao casarão da Santa Casa. gente que sai de casa pela madrugada. a montanha do Castelo ainda guardava residências de ricos e de altos funcionários da Colônia. Do seu lustre passado já nada mais existe. a barba por fazer denunciando moléstia ou penúria extrema. ainda. para exercer empregos em lugares distantes. onde se reúnem. só veio com a abertura de inúmeras estradas. revelando cenários mais lindos pelos arrabaldes e subúrbios distantes. alvitrou que se arrasasse. úmidas da água dos tan ques onde trabalham o dia inteiro. na cintura. com o surto garantindo. a do Seminário. alguns de dois ou três séculos e sobre os quais o casario assenta. vento o mais constante. solares que a indigência dos moradores do lugar transformou em reles casas de alugar cômodos. as saias de cima. em rodilha.

provocando os transeuntes com torpíssimas descomponendas ou aos berros. dependurando-se em penhascos. embora bulhentas e endiabradas. Todo um conjunto de telhados pardos e tristonhos. enxameando as casas. servindo. com coberturas de zinco enferrujado. Por entre todas essas construções. O casario é enorme. o corpo coberto de feridas. discutindo em calão e a pedrada. ora achatando-se em quintalejos e jardins. saltando fendas e barrancos. à imensa colmeia humana. As ladeiras que trepam para o morro são maltratadas e sujas. e. muita cor na folhagem variada e muito movimento na linha irregular do telhario esparramado e enorme. uma casa de rótula. os quintais. de varanda corrida. avultando em andares e telhados. Aqui. Estão sempre cheias de povo. construídas no “estilo feio e forte da Colônia”. em meio a tufos de trepadeiras e de crótons. com cercados de arame ou de madeira. Há. um antigo solar. espalhafatosas. na curva do caminho. dando vida e rumor à paisagem radiosa. ora galgando a falda acidentada da montanha. subindo pelos muros. modesta. o pé de chuchu ou de maracujá florindo à beira. como servem. Nas casas. em geral. quando se sobe o morro. a vida igualmente palpita e estua. sujas. cheia de gaiolas de pássaros e roupas a secar. porém. uma vida intensíssima. Têm. verdadeiros frangalhos arquitetônicos. Nos quintalejos. casebres ou casarões que trepam ou que vão rolando escarpa abaixo. com o seu bico entortado de chalé.. remanescentes.O Rio de Janeiro do meu tempo 125 secas. Lá vai ele. Gente que sobe. .. não é menor o movimento. erguidos numa feição desirmanada e chué: prédios desrebocados. encardidos. surgem barracos de madeira. sobretudo. aos murros. gente que desce. hoje tugúrio de pobre. aos atracões. no ângulo da cumeeira. embora. desfalcados na linha dos desenhos. De longe o quadro agrada à vista. desarrumado e confuso. terríveis. As casas. inúmeros barracos. de nobres residências. mais adiante. a sua veneziana azul-marinho. por vezes. não têm mais do que um ou dois andares. lambrequins em madeira. pelos combustores da iluminação pública. cercados de flamboyants ou de coqueiros. que a nossa vista alcança. cujo interior o olhar do transeunte devassa. ativa e rumorosa que aí se instala e vive. resguardando-o da inclemência do sol. essas ladeiras.

completamente. em meio à bulha infalível das crianças a gritar: Mamãe. ao lado de roseiras que viçam ou manacás em flor. com o seu Desenho de Armando Pacheco capucho de crochê ou de renda. para que os parapeitos se transformem em uma espécie de móvel. o poleiro do papagaio. de telha-vã e. Quem passa pela rua. As primeiras. ali. soalhos podres. Aqui. lá uma vez ou outra forradas com papéis de vinte anos atrás. pintados ou envernizados de amarelo. cheios de manchas de umidade. para que por elas possam sair e entrar. enodoados pelas mãos das crianças imundas. a mesa de pinho por envernizar. de portas e janelas.126 Luís Edmundo Caóticos. a cada instante. que vivem a correr. olha o Januário aqui! – Me la ar ga! Tudo sob um bára tro de cor das que servem às roupas a secar e um cipoal de bambus erguendo os panos lavados no ar. mais adiante. Porções de terra avermelhada onde. mesmo as que se colocam na linha da Ladeira. Paredes acaliçadas. uma cômoda de gaveta perra e maçaneta quebrada. inteiramente abertas. as crianças. além de movimentados. os clássicos oratórios de madeira. como mobiliário. a gaiola do pintassilgo. porcos que fossam. galinhas que cacarejam. a caixa de costura e mil outras utilidades domésticas. esses quintais de gente pobre. batidos pelo vento e pelo sol. duas ou três cadeiras de palhinha. a tradição de miséria vinda dos tempos da Colônia. com recheios de flores . os seus interiores. há cães que ladram. frias. tetos. vê casa e moradores nos detalhes mais íntimos. tortas e desconjuntadas. as segundas. de aparador ou mesa onde tudo se põe: o moringue Morro de Santo Antônio d’água. Interiores sem sombra de menor conforto. muitos. Em geral vivem todas essas casas. e. amassados baús de folha-de-flandres. em alvoroto. pois que devassa. desfraldados. sobre os móveis indistintos.

O Rio de Janeiro do meu tempo 127 de papel. o retrato do Mousinho de Albuquerque. tonteiras e falta de ar. é só para economizar a sola do calçado. a roupa de sair. e. não impede que venha para o parapeito da janela o moringue de barro. cheias de olheiras e sardas que trabalham cosendo para o Arsenal de Guerra e vivem se queixando de pontadas no lado do pulmão. pegando em tochas de seis palmos. se mandam. por esses miseráveis interiores. as trouxas da costura ao Arsenal. onde há um sofá de palhinha. os donos dessas moradas pitorescas são homens do comércio. sobre o encosto. nunca faltam e quando há procissão. herói da África. ainda se deixam martelar pela arte abastardada de pianeiros de ouvido. como atributo de elegância. antes de serem atirados ao fogo. umas moçoilas pálidas. pelos irmãos mais velhos. em roupagens de virgem. mesmo quando não o são. batidos uns contra outros. uma enorme toalha de crochê. o mobiliário melhora um pouco. está trabalhando para as solteironas da casa. porém. após o Morro de Santo Antônio caldo d’untos ou a bacalhoada da Desenho de Armando Pacheco pragmática. O luxo do piano. com trinta anos e já cheias de melancolia. de distinção e de chique. acompanham-na sempre. porém. Residências há que até possuem pianos. Passam a café ou a açorda de pão. vão para a porta da . já muita fora da moda e umas célebres mitenes que elas não dispensam nunca. no morro. Pobres raparigas de lábios brancos e sorrisos que fazem mal. o indefectível Santo Antônio que. cobertas de grosseiros filós e com coroas de flores de papel enfiadas na cabeça. às casas. porém. Quando soam dão a impressão exata do barulho que possam fazer uns tachos velhos. dos que vêm jantar a casa e que. se está de costas. pintado a verniz japonês. Vezes. dependurado à parede da sala de visitas. de rugas e cabelos brancos. Em geral. mostrando. À missa do domingo. Voltemos. velhos e estafados Pleyels que.

dando de comer.. nas gaiolas. D. Não pode ser outra coisa. desavergonhadas.. D. ao coleiro-do-brejo. que se abre. que aponta com o beiço.. sem pestanejar. no lugar. dessorando intriga. – Aquele velho sem-vergonha que vai lá (e inventando) e que saiu. Ah. – D. Declara. mas digo eu – replica a Quinota enredadeira –. Quinota põe a mão em pala sobre os olhos e trata de ver se reconhece o tipo. tem coisa aqui no morro. a vizinha. Hoje. São particularmente janeleiros os moradores do Castelo. as mulheres cosendo. depois. dependurado ao parapeito da janela. Um escândalo! – Saiu. parou. – Afirma isso suando maledicência. à graúna. ao canário. os homens areando os dentes. o palito espetado na dentuça podre e ar de grão-senhor. a braguilha da calça desabotoada. Quinota. a fera da Quinota. espiando. subiu. – Do namoro da mãe da Ermelinda – informa. não digo – retifica a primeira. uma terceira mulher de cara cheia de sardas e papelotes no cabelo. gozando a infâmia que perpetra. . Quinota. desceu. com ar de afetado ou de falso protesto. bem cedinho lá vinha ele a subir. e digo porque de lá “o vi sair”. um homem ou uma mulher a mostrar-se. não pode! – De que tratam vocês? – diz agora. A maioria vive nas portas e janelas abertas. agora.. lá em cima. Quando não sabem. porém: – Aquilo deve ser coisa da assanhada da Ermelinda. a subir. Se tem! Ontem. Ei-lo que desce. em mangas de camisa. que vai descendo. à tardinha. falseiam.128 Luís Edmundo rua. indagam. – Que é isso. Isso é marosca. lavando a louça das refeições. Olhe. indagando da vida de todo mundo. a exibir-se aos olhos de quem passa pela rua. um velho daquele jeito! – replica. ambas. além de uma gaiola. Não há casa ou casebre que não tenha. sabendo de tudo quanto se passa fora de portas. caluniam. que puxou pela fieira da conversa e não é das que mais gostam de mentir. agora mesmo. aquele velho caixa-d’óculos de cara cor-de-tijolo. – Não diz você. rompendo o quadro de uma janela. fazendo a barba ou aparando os calos... da casa das “burras”. – Dela ou da mãe dela. inventam. outra vez. repare bem. de novo.

O Rio de Janeiro do meu tempo 129 – E a coisa – afirma ainda – já dura há mais de um mês. está assobiando nos ss e errando na colocação de pronomes. Na mesa. não lhe perdoam aquele vestido azul que ela pôs. de sobrecasaca e calça de brim. fazendo esforços para acreditar. ar ranhado no reboco da parede. a boa “santa-luzia”.. que não gostam da Ermelinda. escrever e contar. foi pago pelo tipo. O homem vive pra baixo. a lição que escreveu a giz. vara com que a mestre-escola aponta. no quadro-negro da ardósia. . O professor do “Ginásio” é um mulatão gordo. apontando com a vara. vê-se. pelo tempo. dependurada à parede. encachoeira. este fonético letreiro: – Ginásio João da Fonseca – Primeiras letras – 2$000 por mês. Isaura! Ponho até a minha mão no fogo para jurar como aquele vestido azul. umas cocottes. ao que só ensina a ler. E embaixo. um b com um é faz bé. Quando chove. Quando ele fala. palmatória negra e sinistra. rindo às bandeiras despregadas: – Quá! Quá! Quá! Há lugares em que a descida do morro é deveras penosa. enorme. do que só aprende o que é estritamente necessário para poder vencer na vida. D. Tudo umas marafonas. como diz o seu Pires da botica. Ele a perguntar. colégio Tico-Tico. feita de papel e ainda uma vara de flecha. um b com um i faz bi. Um verdadeiro insulto às mulheres virtuosas. Cá temos na fachada de um prédio baixo. que a “burra-mãe” botou no domingo.. forrada com um jornal. Nada mais. Usa óculos. e que. Chama-se. pra cima. Colégio do muito pobre. ler e contar até as quatro operações. sobretudo. verdadeiro acinte à miséria do morro. reluzindo. bem em evidência. o aladeirado transborda. como nós. E as duas outras janeleiras. tem em frente uma mesa de pinho. Sentado sobre uma cadeira de pau. com um chapéu de palha cor-de-abóbora. com duas janelas que abrem para a rua.. A água não deixa ninguém subir ou descer. isto que um garoto qualquer escreveu: Colégio Tico-Tico.. e a meninada a responder: – Um b com um a faz bá. com a ênfase de quem pronuncia um discurso. mais a “cabeça-de-burro”. um pelinho no mento e deixa crescer a carapinha no cangote.

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As crianças, que estão sentadas em bancos de correr, sujas, descalças e pobrezinhas, aprendem pela cartilha de Felisberto de Carvalho. Quem não tem cartilha, depois da lição da ardósia, estuda na cartilha do colega ao lado. Há crianças que trazem, envolvidos em pedaços de jornal, pães com manteiga, carne ou sardinha frita, à guisa de merenda, mas só podem comer durante o recreio, que é dado na ladeira, sob o olho policial e atento do fessô, posto no quadro da sua janela de rótula, importante, severo, enorme, o cigarro ao canto da boca, a queixada de gorila sábio, em riste, mostrando a barbela pedagógica, agrisalhada e rala. Quando ele bate as palmas e, cheio de austeridade, grita para a gurizada: – Escola! –, é que o recreio acabou. E recomeça a aula. – Antonico – diz o mestre autoritário, em meio ao silêncio que então se estabelece, chamando à sua mesa um pequenote de ar tímido, vestindo terno à marinheira –, traga o seu livro. Vamos à lição. – O menino obedece. E, livro aberto, começa a revelar o que estudou ou o que sabe: – Letra B diz, começando, o guri, o dedo sujo sobre a letra, o olho um tanto apavorado no olho do fessô. – Muitíssimo bem! Letra B! Adiante! – sopra o homem, num berro. O pequeno estremece. Quer prosseguir e não pode. Novo berro: – Prossiga! Antonico rola nas pálpebras esquivas os olhos cheios de medo e pisca-os, verdadeiramente apavorado. Emperrou. A voz deu-lhe como que um nó na garganta. Quer falar e não pode. Na página do livro, como gravura, há um bote, muito bem desenhado e, sob o mesmo, a explicação do gênero da embarcação, em letras garrafais – BOTE. O professor, sempre aos berros, quer agora que Antonico soletre o nome que ele aponta com a unha longa e suja. – B-O... E o menino nada. – B-O, BO, T-E, TE... Vamos, agora a palavra toda. Bo...

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Convento da Ajuda Desenho de Armando Pacheco

Como o menino ainda não se mova, o mestre, atirando com um murro à mesa, berra de novo, de fazer até dançar no Observatório, perto, a agulha dos registros sísmicos: – Leia! E o seu dedo passa, então, numa ajuda afetada, não sobre as letras, mas sobre a figura do barquinho desenhado no livro e que explica a palavra escrita, o qual a inteligência amodorrada do aluno reconhece, logo, como sendo, em tudo, igual àquele em que seu pai, remador do Arsenal de Marinha, vive o dia inteiro a dirigir ou a remar. E quando, com novo berro, o professor insiste: – B-O, BO, T-E, TE, diga! Ganha ânimo o guri, que responde, então, desembaraçadamente: – Escaler! – Monitor, dois bo los no Antonico, dois bolos e as “orelhas-de-burro” na cabeça, a ver se ele amanhã estuda melhor esta lição. Ao invés de explicar, ao pobre, o erro em que ele está, fessô o que lhe dá é castigo. No colégio Tico-Tico ainda se ensina assim. Bem em meio à Ladeira do Castelo mora Florêncio da Palma, conhecido tatuador da Marinha, discípulo do Madruga, figura mais que conhecida na cidade, mestre na arte de tatuar e que, nas horas de sueto, dedilha o violão, criando canções que o povo, depois, gostosamente, decora e canta.

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Venha quanto antes D. Elisa Enquanto o Passos não atiça Fogo na cidade...

Florêncio, autor e cantor em voga, mais parece uma personagem arrancada às revistas regionais de João Foca, com a sua grenha a escorrer óleo de oriza, o seu bigode falhado e a sua pêra-mosca, à Floriano. É tatuador de marinheiros, com especialidade em marcas onde entrem símbolos da arte de navegar. Pela época, é grande moda a tatuagem entre a nossa Maruja, entre soldados do Exército ou da Força Policial. Foram os negros da África, aqui trazidos pelos portugueses, que introduziram essas fantasiosas marcas que se fazem na epiderme. Quando não vinham tatuados, esses negros aqui se tatuavam, obedecendo a velhas tradições regionais. Debret ensina-nos, por exemplo, que o monjolo tatuava-se, fazendo incisões verticais nas faces; o mina, fazendo uma continuidade de pontos salientes, provocados por tumefações que as agulhas de ferro produziam no rosto; o moçambique trazia, quase sempre, em sulco, uma espécie de crescente na testa, e assim por diante. Essas formas clássicas, entanto, degeneraram com o tempo, sendo, mais tarde, transformadas em símbolos, contando a vida amorosa dos tatuados, a profissão por eles exercida, etc. Os nossos índios pintavam-se. Algumas vezes lanhavam o rosto, braços e pernas, mas não se tatuavam. Pratica-se a tatuagem por incisão, por picadas ou por queimaduras subepidérmicas. Completa-se o trabalho com a ajuda de três agulhas que se embebem em anil, em tinta de escrever, em graxa, pólvora ou fuligem. Antes da aplicação das agulhas, traça-se o desenho que se deseja obter sobre a pele: um coração atravessado por uma seta, uma rosa, um navio, uma estrela, umas iniciais que se confundem ou entrelaçam, um nome, uma frase... Como bom tatuador, Florêncio da Palma tem o corpo coberto de sinais, e, como o seu grande mestre Madruga, também mostra, no peito, a imagem do Redentor. Além disso, espalhados pelas costas, braços, ventre, coxas, mãos e pés, sinais de Salomão, âncoras, datas, nomes de mulheres e ainda marcas misteriosas e indecifráveis. São, por sua vez, de um pitoresco exótico ou disparatado todas essas tatuagens. Sabe-se de um marinheiro, por exemplo, cabo em Villegaignon, que possui, pelo

O Rio de Janeiro do meu tempo 133 dorso, espalhada, em estético realce, toda uma esquadra, feita a bicos de agulha, nada menos que sete navios nacionais: o Riachuelo, o Aquidabã, inclusive todos os vasos de guerra em que ele serviu embarcado, desde que assentou praça na Marinha. Outros há que mandam tatuar o corpo com emblemas pátrios: escudos da Monarquia, armas da República, quando não se marcam com nomes de heróis da pátria. João do Rio diz-nos ter visto, entre tatuagens interessantes, a do braço de um soldado de polícia onde se escrevia esta legenda patriótica: – Viva o Marechal de Ferro! Os valentes da Saúde, da Gamboa e do Saco do Alferes tatuam-se bem como as meretrizes de ínfima classe, estas mandando marcar, pelos braços, pelas coxas ou pelo peito, o nome dos seus amados. Convém revelar, ainda, que os negros, outrora, introdutores da tatuagem entre nós, já bem pouco se tatuam pela época. Mais um esforçozinho e chegaremos ao cume do morrete. Descendo pela ladeira que subimos, lentamente, sem chapéu, um lenço de Alcobaça dobrado em quatro, apenas, como defesa à luz forte do sol, atravessado na cabeça, vê-se um homem vestido de preto, envolto numa opa vermelha de Irmandade, na mão esquerda uma vara de prata, na outra uma pátena cheia de moedas de cobre, prata e níquel. É o irmão-das-almas, de herança colonial, ainda cruzando por certos bairros da cidade, talvez um pouco diminuído na auréola de sua antiga simpatia, quiçá um tanto desmoralizado em seu prestígio de criatura que pede para a Igreja, mas, ainda fazendo, do seu ofício, um negócio mais ou menos rendoso. Nos bairros povoados pela elite, o irmão-das-almas já não cruza, como não cruza mais o centro comercial descristianizado, pela época, mas explora os bairros da pobreza, onde ainda se vê a beata que pede para beijar o Santíssimo e não esquece de largar, após o beijo, o vintenzinho da devoção. Desce o homem, saindo de uma curva da ladeira, quando se vê cercado, de repente, por um grupo de cães terríveis que lhe ladram às canelas. A figura do beato de balandrau enfeza e irrita a cainçalha, que os dentes maus e afiados exibe. A prudência ensina ao pedinte parar. E ele, por isso, estaca, tentando esconder a vara, sem o mesmo poder fazer com a rubra opa que alça e revoluteia, fraldejando no ar, razão de todo

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o incitamento da canzoada que lhe late alvoroçadamente. Esses latidos convocam todos os cães da redondeza. E, de tal sorte que, para salvar-se, trepa, o “irmão”, para um alto pedregulho que serve de muro à ribanceira, com o risco de rolar pela montanha abaixo, e aí fica como que ilhado, cheio de atenção e de receio. Há quem, de janela adiante, assista à cena e, cioso por defender o andador do perigo, em lembrete, as mãos pondo em porta-voz, grite-lhe pressuroso: – Irmão! Sem medo, empurre-lhes o Santíssimo! Aquela voz que rola do alto e cai no ouvido do pedinte como se fosse a voz do próprio Céu, mostra-lhe o caminho da salvação. Num gesto rápido, o homem em perigo toma da vara do Santíssimo Sacramento, que ziguezagueia no ar e, como uma clava de combate, fá-la descer, malhando, dispersando, desarvorando e vencendo a matilha furiosa. Com o gesto saltam-lhe as pratas, os níqueis e os vinténs da pátena. O homem perde o dinheiro, porém salva a opa, os pernis e o prestígio da Igreja. No alto do morro estão as mais pesadas construções erguidas, outrora, pelos jesuítas. Está o edifício do Observatório, com a sua cúpula magnífica e onde o Dr. Cruls, muito importante, vive a espiar manchas do sol, a calcular eclipses. Próximo, o mastro de sinais que anuncia a en trada dos navios no porto. Às doze horas da manhã há um balonete que sobe, regulando, com exatidão, a hora do meio-dia. É por ele que se acertam os relógios da cidade. Por ele, pelo tiro das nove, quando não é pelo cronômetro da Relojoaria Gondolo, próxima à Rua do Ouvidor, loja, então, de grande fama e nome. Próximo à igreja de Santo Inácio, está o Hospital São Zacarias e, mais adiante, a igreja de São Sebastião do Castelo, antiga Sé da cidade e hoje em mãos de capuchos italianos. Pobrezinha! Está pedindo muleta para não cair, de tão velha. Se vem, coitada, do governo de Salvador de Sá e Benevides, que a concluiu em 1583! Ao invés de cabelos brancos, a macróbia tem cabelos de limo, nos telhados. Lá dentro estão os ossos de Estácio de Sá, conquistador da terra, o que levou, no olho, uma flechada de índio. Teve seu esplendor o templo, e galas, durante muitos anos. Um dia, entretanto, um paredão apareceu fendido. Já do teto há muito que chovia, a água irreverente caindo na nave e encharcando a toalha dos altares. O cabido resolveu, então,

O Rio de Janeiro do meu tempo 135 assemblear em outra parte. Não fosse cair, da caduca cumeeira, uma trave qualquer pondo em risco o unto capilar de tão ilustres cônegos. A cidade já tinha escorregado para a várzea, onde templos inúmeros se construíam. Não foi difícil resolver-se a mudança da Sé para a igreja da Cruz, à Rua Direita. E a Sé mudou-se. E o velho templo lá ficou abandonado, caindo aos pedaços, com a sua averdungada cabeleira de limos e de hera, onde tico-ticos e coleiros chilreavam, satisfeitos, pelas horas de sol. No ano de 1842 capuchos italianos, sacerdotes seráficos, barbados como gnomos, tomaram conta da igreja, tentando restaurá-la. Fizeram o que puderam. A antiga Sé engalanou-se de floridos altares, e, de novo, naquele ambiente, onde a tradição velava, turíbulos cheios de incenso balouçaram-se. Cantaram-se missas e te-deuns, laus-perenes e novenas... Quando chegava o 20 de janeiro, a procissão vinha à rua, os frades barbadinhos, sob pálios coloridos, cantando loas ao Senhor... Há uma casa de pretos na Travessa do Castelo onde se pratica a liturgia jeje-nagô, culto fetichista, cerimônia cheia de complicações e de mistérios, onde se evocam almas do outro mundo e são manipulados “despachos”, feitiços que, quando postos nas encruzilhadas dos caminhos, têm a propriedade de criar malefícios, modificar vontades, corrigir a linha sinuosa que dirige o destino dos homens. Chama o povo a esses nú cle os de evoca ção e de ma gia onde o ho mem de cor, em ge ral, predomi na, canjerês, candomblés ou macumbas. O espírita convicto diz sempre quando deles fala: espiritismo de terreiro ou, então, baixo-espiritismo. No fundo tudo isso nada mais é que um panaché religioso: estulta corrupção do fetichismo africano que os negros aqui introduziram no tempo da colônia, temperado com um pouco de fé católica e muito dos processos kardequianos de confabular com o astral, feição empírica do Espiritismo, como o que praticavam os índios, nossos avós, quando, em bailados mediúnicos, evocavam os fantasmas de seus maiores, com danças bárbaras obrigadas a cantigas e a cauim. Em casa de João Gambá de Luanda, na Travessa Dançarina da macumba Autor desconhecido do Castelo, a macumba estadeia. Os ídolos que se

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evocam chamam-se Ogum, Xangô, Oxalá, São Jorge, São Cosme, São Damião e Santo Onofre. Como nas igrejas católicas, a entrada é franca, mas logo à porta há uma caixa de esmolas que, se não reclama óbulos para a cera de santo, pede para o espermacete da iluminação do templozinho, que se resume em dois ou três aposentos dando para uma área suja, onde em balaios de vime, arrulam pombos, cacarejam galinhas, cruzam jabutis e um truculento bode, preso a uma cadeia de ferro, cornúpeto e violento, marra, berrando atroadoramente. É a fauna do sacrifício que se transforma, depois, em macabros orixás ou feitiços. As galinhas são pretas, como o bode, os pombos brancos. Para os jabutis é que não se reclama uma cor especial. Notar que o santo da macumba ou canjerê a quem se oferece a vida do animal morto, não se alimenta senão do “espírito” do que representa iguaria, a inanimada oferenda, as sobras de orixá resvalando para o apetite do diretor do rito, para os cambotos ou para outras dignidades de funçanata pagã, após a cerimônia. Quando penetramos a sala principal onde a mesma se pratica, já a encontramos a transbordar de gente, moços e moças, velhos e velhas sentados, uns sobre cadeiras, sobre bancos de pau, outros, em pé ou pelo chão, de cócoras e até deitados. Lembrando o altar da liturgia católica, junto à parede acaliçada e triste do terreno, uma tosca mesa de pinho, mostrando dois alguidares de barro vidrado com os animais do sacrifício postos num molho feito de farinha e azeite-de-dendê. Sobre os mesmos continentes, mas, sem tocar a vitualha, ligando-os, uma espada longa e nua, toda manchada de sangue. Pelos ângulos do aposento, pequeninas peanhas com imagens grotescas: aqui, a figura de Ogum, ali, o vulto exótico de Xangô, acolá São Jorge, na sua sagrada cavalgadura, mais São Cosme, São Damião e ainda Santo Onofre, na imagem de um varão barbaceno, de ar pulha, vestido com a própria barba, estranha indumentária que o aspecto lhe dá de um bárbaro fetiche. Todas essas peanhas mostram, além dos santos, copinhos cheios de água, velas de espermacete, acesas, festivamente surgindo de quadros emoldurados e de onde saem, numa intenção decorativa, galhos de alecrim e flores de papel. Quando se chega para assistir às cerimônias do culto, “pai-de-santo”, que é o sacerdote sagrado do mistério, diante do improvisado altar, em atitudes de prece, ergue os braços ao céu. É o negro João Gambá, negro velho, septuagenário, já com a sua carapinha grisalha e a

O Rio de Janeiro do meu tempo 137 sua barbela curta e dura, esfiapando na queixada triste. Alto, magro, mesmo muito magro, traz, à cabeça, em forma de funil, um barrete daqueles que traziam, outrora, os velhos nicromantes. Quando marcha sob o panejamento de um balandrau de linho branco, que enverga, vai fazendo dançar macabramente, como dentro de um saco, a ossada que até parece que está solta, revoluteando aos boléus nas dobras complicadas da fazenda. Pai Gambá é íntimo do célebre feiticeiro Apotijá, o da Rua do Hospício, e do qual nos fala sempre João do Rio, nas suas conversas e nos seus escritos. Na Travessa do Castelo ele é o diretor de função. Quando, cabalisticamente curvado, Gambá beija o fio da espada que liga os alguidares e está cheio de sangue, os cambotos, espécie de sacristas praticando a acolitagem da cerimônia, tomando o gesto como início do cerimonial, movimentam-se em saracoteios pacholas, dando a direita aos médiuns, os que hão de receber, depois, o espírito do astral, procurando posição, cada par diante de uma faca de cabo negro, que se finca no solo como que marcando a divisa do lugar onde o drama religioso terá de ser desenrolado. São sete as facas; sete os médiuns e os cambotos, sete. É quando se ouve, fora, um canto suavíssimo, espécie de litania soprada em bocca-chiusa, lembrando um coro dos céus, que vem descendo. Num ângulo da sala penumbrosa já os homens da solfa litúrgica se moveram, vários instrumentistas: negros, de beiçola farta, pardavascos de gaforinha em riste, vestindo ternos de brim-d’Angola, golpeando sanhudos berimbaus, mugindo o ventre gemedor de lancinantes cuícas, estourando atabaques, brandindo ganzás, agogôs o xequerês. Diz-se que o Gambá mantém no seu antro evocador a mais típica das orquestras macumbeiras da cidade. Com efeito, o conjunto regional é deveras singular. Apenas, a música que soa é um tanto exótica e confusa, solfa onde a bulha supera o pensamento musical e a harmonia desordenada martela em ritmo vivaz. Música monótona e plangente. O canto humano que continua, então, diminuído, dilui-se e perde-se por completo ante o fragor cavernoso da harmonia instrumental, que estrondeia a vibrar, em crescendo. Essa música exótica, espetaculosa e bárbara, que nos aturde e exaspera, muito impressiona, entanto, o fiel convicto que vive a reclamar incitamento e ebriedade nessa função de meias-sombras e mistério.

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Eis, porém, que, pela sala, irrompe, vinda não se sabe de onde, a figura magnífica de uma jovem mestiça, de peitarra tesa e ancas abauladas. Tem os olhos lembrando um resplendor. Resvalam seus pés ligeiros pelo chão, em movimentos sutis e compassados. Passa a linha cabalística das facas, saltando-a, sempre a fazer dançar: os braços, primeiro, em gestos como os de quem rema, ora para a esquerda, ora para a direita, depois; em sacudidelas violentas, em contorções e tremeliques, num delírio epiléptico, a despenteada cabeça que, do corpo, até parece que está de todo desarticulada. A dança da mestiça é sobrenatural. E impressiona. Deveria dançar assim Salomé em Maqueros, reclamando, de Herodes, a famosa cabeça de Yokaanã. Há um momento em que essa fúria recrudesce e a bailarina põe-se a bater, num gesto de quem pila, os pés no duro chão, cantando qualquer coisa que se perde e se desfaz no monótono ronco das cuícas, no cascatear dos xequerês. Súbito, um grito, um grito forte que reboa e, logo, a orquestra que suspende a toada cavernosa. A bailarina pagã, dobrada em arco para trás, está diante do altar, caída, em transe, torcendo os braços, os ombros, a cabeça. Vem O irmão-das-almas João Gambá assisti-la, engrolando seu linguajar Desenho de Armando Pacheco luandês. É quando, pela linha das facas onde se estendem os cambotos, os outros médiuns em sacudidelas violentas, em guinchos, aos urros como que em luta contra as forças sobrenaturais, desencadeadas e terríveis, vão caindo, também. Dentro de pouco tempo, o terreiro é um pouso de fantasmas. Cada corpo de médium guarda dentro de si uma alma diferente evocada do astral. Olhai, aqui, o cacique indomável que, num corpo de mulher, como a incitar hostes guerreiras em combate, berra, furiosamente: – Reçuru xingu ixê! Adiante, aquele que dá conselhos de mansinho, é um negro escravo desencarnado há mais de duzentos anos, cativo dos tempos da pletora do açúcar, em Pernambuco, pobre negro que acabou a trabalhar e a sofrer.

O Rio de Janeiro do meu tempo 139 Por isso, de seus lábios, que tremem de quando em quando, ouve-se que ele nos conta histórias de feitores, falando-nos em chicote e em polé. Na macumba, instruem-nos os que vão beber a verdade das coisas na Bíblia de Allan Kardec, só se manifestam espíritos grosseiros que ainda se prendem aos instintos terrenos da vida e ainda não se libertaram da crosta vil do atrasado Planeta; almas rastejadoras, indomáveis, violentas. Todo um mundo de sofredores, ralé curtida pela dor, à espera da grande luz de Deus, que tarda a vir, mas que um dia chegará. O espectador de baixo nível intelectual, entanto, com esses, comodamente, conversa, discute, fala, pede conselhos... Sabe-se de macumbas, nas quais em meio à multidão, são atirados grandes bodes pretos que agem como homens no cio; de outras com bailados bestiais, onde todos dançam completamente nus e na vertigem de lúbricos anseios, desvairados de lascívia, rolam pelo chão, ferindo-se, rasgando-se, possuindo-se, como nas bacanais pagãs. Quando essa ventania de luxúria sopra pelo terreiro, diz-se que é o espírito de Xangô que invade a cerimônia, sensualizando os corpos. Na macumba da Travessa do Castelo, Xangô é manso, acata as ordenações do nosso Código, respeitando as exigências da Polícia, sem abusos, um Xangô camarada, decente, bom rapaz... E não se solta o bode no terreiro da macumba de João Gambá... Às sextas-feiras pela madrugada, missa dos Barbadinhos, em São Sebastião do Castelo. A superstição carioca aí dá rendez-vous obrigado, uma vez por semana. Missa e bênção. Para ir a ela vêm fiéis contritos dos mais longínquos recantos da cidade, de cidades vizinhas, e de próximos Estados. A concorrência é enorme. É que a devota cerimônia possui virtudes especialíssimas, que a fama há muito trombeteia. Em nenhuma outra igreja, com efeito, diz-se, são os favores do Céu com tanta eficiência e prodigalidade distribuídos como aí. Na concorrência de milagres, por toda a vasta urbe, santos prestigiosos, com larga projeção e validamento junto ao trono de Deus, num chuveiro de graças, trabalham com prazer e afinco, no empenho natural de comprazer ou seduzir o fiel; nenhum, porém, pode gabar-se de distribuir favores como os que se distribuem nessa igrejinha virginal de morro. É, pelo menos, o que se espalha, o que se sabe e o que se vê...

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Na igreja pequenina do Castelo há várias missas, várias, dadas, até, diariamente; porém, a de virtudes excepcionais, na convicção do fiel que conhece a hermenêutica que rege os desígnios do templo, é a que se diz todas as sextas-feiras, às cinco horas da manhã. E essas decantadas virtudes de exceção, que tanto seduzem a alma em geral, mais fanática do que cristã, quais são elas? Resposta: múltiplas, sobretudo as que refletem a graça que consegue extinguir ou diminuir azares, fados maus, cábulas e caiporismos “endireitando” a vida dos que a possuem “torta”, vencendo, de tal modo, todas as fatalidades escritas pela mão do Destino, desmanchando “coisas-feitas”, pragas, maus-olhados... Queixa-se, alguém, de que a fortuna o abandona, que o ilumina a estrela má de alguma desventura ou que uma sina maléfica o persegue? – missa das cinco nos Barbadinhos, às sextas-feiras... Por isso transborda, sempre, o velho templo capucho pela hora da cerimônia maravilhosa. E nem a chuva consegue, mesmo quando forte, diminuir a clientela piedosa, toda ela, diga-se de passagem, sempre muito bem servida. Às quatro horas da manhã, nas vésperas de sábado, quando a cidade ainda dorme em silêncio, pontilhada de luzes, já andam sombras humanas subindo a encosta da montanha, massa piedosa que caminha em direção à que foi Sé, outrora. São desgraçados de toda sorte, gente batida pela adversidade, zurzida pela inclemência do Destino, sem a menor esperança de obter, por processos humanos, o que Deus não lhes deu; estomagados com a vida, pobres que desejariam ser ricos, ricos que se acreditam pobres, maridos infelizes, cheios de ansiedades de se fazerem venturosos, esposas enganadas, funcionários de Estado que pedem promoção em seus empregos ou melhoria de ordenado, jogadores que, se padece a ausência das graças reclamadas, a que se julga com direito, é porque está cheia de azar, de cábulas ou de enguiços, males dos quais, em breve, a cerimônia capucha terá que a libertar. São cinco horas da manhã, vai começar a missa. A nave está repleta. Só os círios do altar-mor estão acesos. Luz fraca e amarelada, ora aclarando os retábulos de ouro, ora arrancando às alfaias de prata cintilações suavíssimas. Pelo resto da nave, sombra. Sombra e mistério. Chegou o sacerdote, cheio de unção e barbas. E o acólito. As caçoilas recendem. As rosas frescas nos jarrões de porcelana sorriem à Virgem,

O Rio de Janeiro do meu tempo 141 preguiçosas. Diante da ara sagrada o capucho abre o missal de letras góticas. E reza. Fora, ainda há estrelas no céu velando o sono amigo da cidade que dorme. E sonha. Está de joelhos o devoto. E de mãos postas. Ainda não pediu a graça que deseja. Com o seu ar de sofrimento, ar desventurado e triste, por enquanto, prepara o seu ambiente, rezando uns padre-nossos, umas ave-marias... De quando em quando, sobre a imagem do Cristo, atira um olho amolengado, bambo, como que a lhe dizer: – Então? Cá estou eu! Pobre de mim! Vede-me bem. Vede e pensai O carola um pouco se não deve ser tomado em consideDesenho de Armando Pacheco ração o sacrificiozinho que um desgraçado fiel, como eu, faço pelo seu Deus. Aqui onde me encontro, hoje, contrariando hábitos antigos, pus-me fora da cama por horas em que as galinhas ainda dormem. E por amor à vossa fé, subi toda a íngreme encosta desse morro, e, o que é pior, de estômago vazio, sem uma côdea de pão ou xícara de café, mesmo sem leite, a consolar o estômago. Fiz e não me arrependo do que fiz, porque sei muito bem que um Deus amigo e justo como vós, por certo, não irá deixar sem paga um sacrifício destes... Depois dessa tirada que lhe serve de intróito é que o devoto começa, então, a contar, sempre com o seu olho tristíssimo, o caso pessoal que o trouxe aos pés do altar, pedindo, finalmente, aquilo que deseja, piedosamente, depois, baixando com doçura a cabeça e o olho melancólico, que, humilde, cai por sobre a lájea fria do templo, cheio de cusparadas. Já bateu no peito três vezes, persignou-se outras tantas vezes, ofereceu à divindade uma velazinha de seis tostões e está certíssimo de que terá o que pediu. Homem feliz! E que pediu ele? Que o desencabulasse o Céu, que lhe tirasse o azar, o caiporismo, pondo-o capaz de receber as graças das quais se crê merecedor e com o maior direito. O capuchinho, antes de abandonar o altar, fala à massa dos fiéis. Exorta-os. Diz coisas em latim. Suas palavras impressionam. Palavras amigas, que são como os rolos de incenso que as caçoilas sagradas

santificando o ambiente onde todos estão. paga ao sacristão para beber da sobra líquida que ainda resta do balde. esses fiéis não se contentam com a graça que o céu amigo lhes envia em fluidos espirituais. como as cintilações sutis das alfaias de prata. na conquista da vanguarda onde os respingos da água-benta sobejam como prova material do favor que dos Céus desce. que chegam a meter a mão suja e atrevida. Há-os. um Cristo de marfim. Por isso esmurram-se. nela molhando os dedos. no primeiro plano. trepando. frescas papilonáceas e onde se vê um pequenino altar com a sua toalha de renda e mais o necessário à prática litúrgica. depois. purificando. Ergueu-se a gruta em louvor da Senhora de Lourdes. É diante dessa área que vem postar-se o capuchinho. Junto ao pequeno altar está um rosário enorme. onde se mergulha o hissope. com ele traça. rumor.142 Luís Edmundo atiram pelo ar e se desfazem lentamente. Vem o pior. no entanto. artifício grotesco. já de hissope na mão. empurrões. no ar. um gole. que. a sorrir. morrendo à claridade da manhã. Num gesto paternal. palpável. um pequeno balde cheio de água benta onde mergulha um hissope. até. ombradas. junto à caçamba piedosa. erguendo o aspergidor sagrado. Para eles. Finda a missa. a bênção só pode ser objetiva. sobre a qual crescem. leves. a cruz do Salvador. Há fanáticos. Nesse momento. Xangô Desenho de Armando Pacheco Ganzá Desenho de Armando Pacheco . passa para um adro vizinho. seguindo o sacerdote e o sacristão. Há uma gruta nesse lugar. depois. na hora de se afastar o sacerdote. em geral. este já munido de um balde. que. persignando-se. É a bênção. do qual se dependura vasta cruz de prata e sobre ela. finda a cerimônia. em grandes contas de jacarandá. ciosos por sentir afundar-se-lhes nas entranhas a graça desencabuladora. há balbúrdia. a beata assistência abandona a meia-sombra da nave.

embora fossem. deixando a igreja dos Barbadinhos. mais outro que beija o Cristo encharcando-o de saliva. de olho policial e atento. entregue à inconsciência do mau fiel o símbolo sagrado. para pedir ao céu cabalístico da macumba o mesmo que pediram aos pés da Virgem ou ao raspar. E o marfim. porque. defende. O que ele. na hora do sacrifício da galinha preta e do pombo branco.. guardando o marfim e a prata. Sabe-se até de um que com ele esfregava: primeiro o cachaço. então. as práticas sacrílegas. é tão somente a prata. que sofra mais um pouco. Findo o cerimonial da bênção. A tudo isso assiste o guardião da igreja. Fanatismo de preto! Fanatismo de branco! Atabaque Desenho de Armando Pacheco Xequerê Desenho de Armando Pacheco . outro vem que com ele bate sobre o peito ou o equilibra na cabeça enquanto reza. indiferente a tanta ação sacrílega. Quem por nós no Calvário sofreu tanto. começam. Que prata é o que prata vale. cruzam a Travessa do Castelo. depois as costas e. a imagem do Salvador.. nessa ridícula postura. talvez. Vem um que enrola a fiada do rosário na cabeça.O Rio de Janeiro do meu tempo 143 Prendeu-se a piedosíssima enfiada a um gancho junto à Madona. E voltam à noite. Por vezes. e assim. esses que se acreditam piedosíssimos cristãos. no cangote.. reza um padre-nosso. desencavados em casas de penhores da cidade. não raro. as virilhas. Não protesta. O resto. muito tempo depois. finalmente. Pensa.. E põem-se a perguntar sobre o programa dessas sessões do culto jeje-nagô. aí. E ao pé da mesma pôs-se um funcionário do templo. onde está a macumba do preto João Gambá. quando não lhe morde os braços e os quadris. sacristão. desapareciam os Cristos e rosários desse gênero.

está sempre uma “baiana” sentada. diante de um tabuleiro de vender puxa-puxa. vistosa trunfa na cabeça. revelando a nudez do ombro. . bem junto ao começo do ziguezague que nos conduz ao morro de Santo Antônio. . . um pano da Costa. pamonha. amplas e cheias de ramagens. Capítulo 8 Morro de Santo Antônio MORRO DE SANTO ANTÔNIO – VIDA MISERÁVEL DOS SEUS MORADORES – CRIANÇAS E PAPAGAIOS – ASPECTOS PITORESCOS DO LOCAL – A NEGRA MARCOLINA – MENDIGOS – O BOTEQUIM DO CARRAZÃES – TOCADORES DE VIOLÃO – O CHORO. em vivas cintilações. Pedro I. João e de D. . Debret já as pintava no tempo de D. na parte que dá para a Rua Senador Dantas. Vestiam as mesmas saias rodadas. . . amendoim. . As baianas são a mais bela e mais pitoresca das tradições desta cidade. berenguendéns. por sobre o colo. . . os braços e o pescoço. bolo de arroz e cuscuz. . . . . . . . braceletes. . tal como ainda hoje se apresentam. jóias resplandecentes. e camisinha picada de rendas. cocada. em listras coloridas. pé-de-moleque.. tudo isso em . . . . A MODINHA E O MAXIXE – SERESTEIROS DA ÉPOCA – CATULO CEARENSE – AS GRANDES CANÇÕES DA ÉPOCA TRÁS do Teatro Lírico. . . . . colares. e.

como mercância. sempre com a mão esquerda. E quando pega. Assim eram há cem anos e ainda se conservam. mesmo de leve. os seus colares e seus berenguendéns. Deixemos. reverberando. as baianas. em seus vistosos tabuleiros. acendem uma lanterna de papel. quando o homem atiradiço deixa escapar. bonitas. assim. é que vivem ao redor dessa lanterna. um atrevido galanteio. novinho em folha e muito bem dobrado. o papel para os embrulhos a um canto em ruma certa. porém. sobretudo.. diga-se de passagem. arregimentadas em porções regulares e policrômicas. nãon. sorrindo.. porque a direita é só para receber e contar o dinheiro. o seu berrante pano da Costa. Só uma vez ou outra. com a mesma graça. de Sinhô do Bonfim. luzindo. ao lado da banqueta onde se instalam com as suas vastas saias de chitão. revolver ou apalpar o que elas expõem à venda. sem lhes dar trela. em tufo.. Limpeza. pega cuidadosamente. gentes. entusiastas da cor preta. a decorativa baiana com seu vistoso tabuleiro. é que a baiana indulgente sorri.. De perdê seu tempo. Têm a boca sempre cheia de iôiôs e de iaiás. a fingir que não os entendem. dictério ou chalaça. da boca. à guisa de anzol. deixe que io memo pego. descoroçoando-o: – Ué. moço! Comigo iôiô não tira farinha. De se abespinharem todas com qualquer pessoa que tente. tilintando. iôiô.146 Luís Edmundo confusão decorativa. num delírio de chispas e de cores. a frasezinha chistosa ou piegas do tempo. para galgar o ziguezague da Montanha. Os manés e os antuónios. sobre a grelha de um fogareiro pequeno. vendendo. e Nossa Siora de Maracanã. a ver se pega o peixe. para obedecer a posturas urbanas.. E elas. sou disso não. e. São quase todas moças. desconversando. . cochilando. À noite. sentadas. As guloseimas que vendem estão simetricamente dispostas. como mariposas ao redor de uma luz.. que está sempre. de notável virtude. Bolos de tapioca são por elas feitos à vista do freguês. – Mexa ahi nãon. E passam os dias inteiros. o mesmo alinho e singular limpeza. e que lembram os merinaques das damas setecentistas.

sem ambição. verdadeiros desprezados da sorte. andrajosas e tristes como os seus moradores. nada de campo. caídos de borco sobre a relva. Surge em 1899 um folheto com este título: Não podeTocador de violão mos pensar em imigração no Brasil. esquecidos da terra onde nasceram. sem descanso. A terra prende. gente que. a bem dizer. não sem acrescentar: já bastam os que aqui se identificam ao país. entupindo a cidade. sem ajuda de trabalho. disse um dia. sem a nacionalização Desenho de Raul dos serviços da cidade. em certa reunião assistida por mim. o coto do cigarro à flor do lábio. O número desses últimos enxameia a encosta por onde se vai subindo. uns. entanto. outros. pelo Estado do Rio. os autênticos. enjeitados em meio a gente válida. criando interesses e família. Raríssimos. recostados ao portal de sórdidas moradas. quando não se vão instalar pelas hospedarias da Rua da Misericórdia. esquecidos de Deus. um desses imigrantes aqui feito diretor de jornal. protegida que é pelos seus patrícios. não quer saber do campo.O Rio de Janeiro do meu tempo 147 Em Santo Antônio. Raros. malandros. outeiro pobre. o olho melancólico perdido na glória sorridente da paisagem – homens que não têm o que fazer e que trabalho não encontram devido à concorrência atroz que lhe fazem certos elementos alienígenas. porém. e que aqui se instala. monopolizando os serviços mais subalternos da cidade. Um ou outro de espírito aventureiro.. é mais rápido.. apesar da situação em que se encerrava na cidade. capoeiras. o que é pior. O lucro na cidade. Por elas vivem mendigos. vinda da outra banda. A maioria fica a fossar os balcões de comércio a varejo. Portanto. além disso. até as plantações de cana. Continua a lavoura sem braços e o Brasil a importar. muito raros. velhos dos que já não podem mais trabalhar. de sobras e de farrapos. vagabundos de toda sorte: mulheres sem arrimo de parentes. O opúsculo defende os . é que caminha mais um pouco e vai adiante até os cafezais de São Paulo ou de Minas. lojistas. em grande maioria. feitas de improviso. as moradas são. analfabeta e rude. crianças.

. faces sofredoras. doentes apoiados em muletas. figuras sinistras e merencórias. entre as bocas que aí estão.148 Luís Edmundo interesses da agricultura brasileira. chaga cruciante da miséria humana. No morro os sem-trabalho surgem a cada canto. tipos andrajosos. Faz-se um grande silêncio entre todos. os infelizes se reúnem e põem-se a declarar as suas sinas: – Pois se o Chico. afinal. com os donos da terra. abandonados e esquecidos dentro da sua própria terra. tudo continua como dantes.. mas como não coincidem.. depois que largou a fábrica não achou mais emprego! E depois. uma só palavra de queixa. Governo que não cuida de nós.. com aquela ferida nova que se lhe abriu no peito.. Vezes. eternamente. quando aqui sobra gente. – E o meu Alfredo. continuar assim. que também já lá vai para quatro meses. não encontra o que seja para trabalhar! Na semana passada foi ver se assentava praça de soldado na polícia. mas fica. Não se ouve. Santo Antônio dos desgraçados! Só . Cansa-se. coitado. então. não obstante. estão todos repetindo aquela frase audaciosa e aflita que ficou no ar e que cada um sente como se tivesse nascido do próprio cérebro. um suspiro ou um protesto. Uma terra tão rica e a gente a morrer de fome. a progredir e a engordar. impressionantes. velhos arrimados a bordões. de cabeça erguida. Isso não pode continuar assim! A tirada não é uma tirada de humildade. sem trabalho! Governo mau. mas isso não pode. lavra entre os nossos. que manda buscar gente fora. – Isso não pode ficar assim! Não pode ficar. esses interesses. Sorte madrasta que nos persegue desde que aqui nascemos! Ouvimos perto. Há em torno do que fala. entanto. De outra forma não se justifica a miséria que. com os dos políticos do tempo. de sofrer e de penar. Diz que lá também não há vaga. escaveiradas. um silêncio profundo. mentalmente. O morro de Santo Antônio é um verdadeiro arraial de infortúnio.. alguém que fala: – É. por esse tristonho acampamento de miséria. sorrindo. filha da santa fé que ensina o homem a sofrer e a resignar-se ante a injustiça e ingratidão do mundo.

o bronze. parco de decoração. O chão é rugoso e áspero. Casa de nababos! Os infelizes do lugar. obra de consumados artistas. enfim. A igreja vale milhões. o resto é resíduo. recamadas de pedras preciosas. Sentem-se melhor. ou em nichos juntos ao mesmo. por qualquer ponto rebentando com viço e com frescor.. Subamo-la. com toques de cinzel. onde sacerdotes de igrejas de seda cantam te-deuns magníficos. o vozerio e os ruídos de toda sorte. que é a igreja da Penitência. aí. .. sem grandes mármores ou sem retábulos de preço. adversidade. tristeza. madrinha da Independência. e folhagens que dão sombra. ossos ilustres. a se confundirem num só eco que ao nosso ouvido chega como um marulhar longínquo e intérmino de vagas tumultuosas rolando sobe a areia. conjunto que impressiona e escandaliza pelo fausto e de onde repontam o ouro. sob as lajes do claustro triste. vindos de toda a parte. dos cocheiros. ainda mais pequeninos e humildes. ruas sujas e rumorosas onde as rodas dos veículos estralejam nas pedras das calçadas. Se vale! Das mais ricas do país. o cristal. sem pinturas a óleo e o luxo das alfaias cintilantes. Obra colonial sem gosto e quase sem feitio. Trapos da história! A Imperatriz Leopoldina. o pórfiro. Toda uma grande jóia. Alcançamos.O Rio de Janeiro do meu tempo 149 a vegetação. Por isso preferem a missa na igreja do Convento. é suave. Fora da casa de Deus. com um interior dos mais simples. os telhados pardaços da cidade. em talha dourada. uma parte do povoado mais ou menos plana e onde se desenrola a cidade miseranda. Lá dentro. mármores dos mais custosos. casarão modesto. a prata. em caules. diante dessa opulência que esmaga e ofusca. os pobrezinhos. Frei Sampaio. Monte Alverne. alfaias de alto preço. madeiras das mais raras. embaixo. entanto. mansamente. coitados. A ladeira que sobe pelas bandas de Senador Dantas e que nos leva ao alto do morrete. é poderosa e rica.. a nave opima. vendo. Não fatiga. em linha caprichosa. lembranças gloriosas. com tetos pintados por José de Oliveira e Manuel Dias. que fica ao lado. mais próximos de Deus! A massa vetusta do mosteiro é pesadona e feia. Esboroa. graça e amenidade ao desmantelo ali gerado pela mão do homem. Conceição Veloso. sentem-se. um palácio de galas e de luxo.. escória. ouvindo os pregões dos ambulantes de envolta com os eia! aflitos.

arrebentado e decrépito. Coberturas de zinco velho. lataria que se aproveita ao vasilhame servido. É uma árvore plantada. baixo. recreia. a primeira coisa que deseja visitar numa grande cidade é o bairro da pobreza. Pior é quando venta forte. – Já viu White Chapel. O que domina o morro é o barracão de madeira e zinco. Tudo entrelaçando. em Berlim? Os pintores aristocráticos fixam. deve ser arranjado em declive para que não se transforme em poças. satisfaz. raramente ondulado. outra mais além. desaprumado e em frangalhos. por isso. Poucas são elas. feitas em folha-de-flandres. sem ordem e sem capricho. Algumas casas são construídas de pedra e cal ou tijolo. O chão. pelo que representa como assunto capaz de alegrar-lhe os olhos e o espírito? Nas capas das revistas elegantes. de madeira servida. incendeia. umas saltando aqui. a feira dos andrajos. entanto. mostrando soalho e teto de madeira. aspectos miseráveis da vida dos desprezados e dos que nada têm. Quando chove. O turista de bom-tom. com grande afã. Já notaram como a miséria interessa a agrada sempre. outra acolá. cada barraco é um forno onde ninguém fica. aqui. a figura andrajosa de um mendigo deleita. o zinco aquece. ao confortado. tábuas imprestáveis das que se arrancam a caixotes que serviram ao transporte de banha ou bacalhau. estilhaçadas ou negras. em molambos. desfaz-se. outras entortando acolá. a água penetra dentro da morada pelos interstícios do tapume. uma vez que todo esse material. mal fixadas. porque morre. Construções. pelo pitoresco que encerra. de cores e qualidades diferentes. em Londres? Tão curioso! – E Moabit.150 Luís Edmundo o arvoredo pobre de folhas. tapetes de tiririca ou de capim surgindo pelos caminhos mal traçados e tortos. em geral. que se apresenta como novo. Quando faz sol. remendadas. toscamente. . uma coisa que nasce já com muitos anos de idade. em meio a um casario cor-de-ferrugem. e cobertas com telhas de Marselha. Todo um conjunto desmantelado e torto de habitações sem linha e sem valor. que nada mais é que uma triste e comovente ruína. tomba e se dispersa pela encosta da montanha. apodrecidas. porém.

a pular. correndo isoladas ou em grupos pelos caminhos do povoado. erguendo no ar. um encanto! Que lindo ar de sofrimento na figura! Que espiritualidade nesse olhar que amortece! Que palidez encantadora nessa face onde a gente pode sentir o homem que não comeu há três dias! – Tão interessante! O drama do sofrimento alheio assim passa. Surgem crianças de todos os lados. mais ou menos perdidos ou apagados. Nas suas tropelias. um bom charuto entre os dedos. porém. no imenso claro-escuro das paisagens. só se aquietando quando divertidos na faina de empinar “papagaios”. sujas. pedaços de papel fino e colorido forrando travessinhas leves de madeira que o vento. a ser gozo ao bem-instalado na vida que a frui Tipo do morro superiormente. assim. relevo e corpo aos valores belos. desencabrestadas pelas ribanceiras. maltrapilhas. como nas velas dos barcos sobre as ondas. graças ao seu pitoresco. bate e enfuna. que servem para esquissar a graça dos contrastes. necessário como as sombras na natureza. aos empurrões. aos socos! Vivem. saltando cercas. dentro da sua camisa de seda. rompendo de portas que se abrem com fragor. irrequietas e turbulentas. enchem o morro de berros: – Larga! – Puxa! Mulata baiana – Torce! . dando nitidez. a gritar. re poltreado no mapple confortável. Existe mesmo quem não compreenda o mundo sem essas intensas contradições. como potros.O Rio de Janeiro do meu tempo 151 – Pois não é curiosa esta cabeça? Veja: pintei-a numa suburra de Chicago. – Oh.

há-os. sugerindo feitios diferentes. – Boa tarde – dizemos. Com uma pequena folha de papel de seda. debaixo desta fornalha de zinco que é a cobertura? – A gente já estemo habituado. um parecendo ter menos de dois anos e outro. muito longas. em geral. Num caixotinho. Olha-se o céu e o céu está decorativamente cheio de suaves notas de cor. apenas. nos telhados.152 Luís Edmundo – Dá descaída! – Garante a cabeçada! Diversão de guri pobre. porém. Pelas clarabóias das casas. Dentro dele há uma mulher despreocupada que canta. moço. antão. ainda. pendidos e enroscados. em frangalhos vistosos. Aqui está um barraco que a última enxurrada não desfez. pega e muda o catre do logá. Paramos um momento. quadrados. Continuemos. que nas vendas se marca por dois ou três tostões. é delírio no Rio de Janeiro. em fragmentos. enfeitadas com laçarotes de papel. estão dormindo. pelos enfeites em seta. ovais. quando há sol. mas entortou. vemo-los. uma lâmina de faca velha ou um palmo de arco de barril. porém. moço. em formato de disco. uma flecha de dois vinténs e um novelo de barbante. São esses artifícios. no começo do século. o papagaio. um caco de garrafa. . dos que em lugar de rabos de molambo mostram caudas de cadarço. a solto. Penetremo-la a fundo. ao lado. à espera do vento que os há de esfacelar de todo. fortes. papagaios de luxo. dois anjos cor-de-rosa. tudo isso para a hora das grandes lutas que se travam pelo ar. – Vocês não morrem de calor. que são esses brinquedos de papel. obtém-se a diversão. estrela e até imitando a forma de animais. pelos pára-raios das igrejas e até pelos fios telegráficos e telefônicos da cidade. em meia-lua. Com um pé-de-vento ainda pode cair de todo. – É mas a gente. das que conduzem nas extremidades. a nossa peregrinação pela favela angustiosa. – Ah! E quando chove? A água deve cair sobre o catre onde as criancinhas dormem. – Bá tarde. uns meses. passando roupa a ferro.

de novo.O Rio de Janeiro do meu tempo 153 Ri-se. “Pra que me havia de arrenegá? Lavo pra fora as minha roupinha. tô aqui. Primeiro de Março. ele – puliça.. porque café e broa é que aqui não nos farta.. Conselheiro Saraiva e Visconde de Inhaúma. Um dia pegô e Tipos do morro me largô só por via de uma tipa mais pió do que eu. Peguei... soprando o ferro de engomar com que labuta. moço. Agora. Pegaro. – Seu marido quanto ganha. entretanto. Vão com os filhos raspar as varreduras do Mercado. pela bocarra desbeiçada e partida. essa pobre gente desce outra vez a fim de buscar as sobras de restaurantes. mas. – Quero nãon. já não morre de fome. catar os grãos de café que vazam da sacaria e das carroças pela hora em que ele embarca nos armazéns do grande comércio exportador: lá para as bandas de S. fagulhas e fumaça. Bento. Home num presta! Dá uma cusparada e continua: – O pai desses inocente era puliça. graças a Deus. o qual espalha. longe. e me metero no xadrez da décima. por mês? – Escunjuro! Marido pro mode quê? Para o diabo! Cumigo nãon há disso mais. Os mais venturosos do morro são assim. Para obter água vão buscá-la ao chafariz da Carioca. pela manhã. Nãon me arrenego.. Ficam por vezes em fila.. puliça tem força no governo. mais um pouco. À noite. porque há ainda que ver e admirar. Carlos mei-me e fui tirá disforra.” E sorri. nhô sabe.. por preços vis. engomo e os inocente. Me arDesenho de J. Lavam e engomam para fora. Em Santo Antônio as mulheres trabalham muito. bandonei o caso.. pobres . – Quer que lhe deixemos qualquer coisa? E fazemos menção de remexer as algibeiras. Subamos. mostrando os dentes podres. Ganhava da gente podê inté morá na cabeça de porco. de meu. Fui. E eu que nem tinha riscado o home! Magine. Me abasta um cigarro. – E você é feliz assim mesmo? – Uê! Nhô já viu pobre sê feliz? A gente vai empurrando a sua vida com a graça de Deus.

Distribuem-se os pacotes à porta. mais outro! Tome! – Deus que lhe pague! Continuemos. enrodilhadas em xales cheios de remendos. ao colo. Crianças aos pinotes. como ontem? Dizem isso com ar súplice e triste. que tô de mal com você. Aqui está outro casebre. muitas vezes até cuspidos pelo cliente enfermo.. repete! Olha.. não raro pisada ou arrancada ao maço da retreta. o ovo que estava podre. crianças impossíveis. Tudo isso raspa-se para encher o embrulho feito na folha do jornal.. Pegue! – Nós somos seis por que não me dá.. punga de uma figa. ó. tu vai vê se eu não te estrupeço com calhau essa cabeça de burro! – Paga nada. – Me larga. Sr.. – Tome lá. A essa voz o outro passa-lhe a mão pelo pescoço. repete só o que tu disse pra tu vê. então.. porém. de portas e janelas abertas em cujo interior não há Outro tipo do morro Desenho de J. a salada de folhas velhas cheirando a percevejo-do-mato. mais um embrulhozinho. porque saiu duro. à espera do pacote consolador onde se encontra tudo que existe como sobra de alimentos em uma casa de comidas: o bife que o freguês recusou. de envolta com os restos que ficaram pelos fundos de ratos.154 Luís Edmundo mulheres.. Do lado de fora. a carroça do gari leva o resto. No dia imediato. pondo embora um sorriso de cortesia no lábio ressequido e melancólico. – Me laaarga! Subamos mais um pouco. – Vá lá. Carvalho. pobre e velho. ó “aquela”.. Dói o coração ver as mãos brancas e silenciosas dos que avidamente disputam todos esses sobejos corruptos e misturados. na man- . seu burro! Não quero brincadeira. crianças esqueléticas e cobertas de ranho ou de feridas. a subir. a correr pela ladeira do morro abaixo. Carlos vestígio de um só móvel. seu embrulho. – Tu logo me paga.

outro casebre e muita gente reunida em torno dele. Rompemos o bolo humano e atingimos a porta do barraco. duros. só pra ele. Na ribanceira. porém. apareceu com uma febrezinha.O Rio de Janeiro do meu tempo 155 cha forte de uma sombra enorme. Todos levantam o ombro repuxando o beiço como que a revelar. aureoladas de sol. sabem todos para onde vai. E suspiros. descalça. Minha ajuda na vida. No chão da casa. para o Largo. um casal: ela. . morro abaixo. ao lado. sentado. que é de terra batida. Ninguém fala. para o serviço. assim. por essas manhãs de chuva. sempre. – Era meu neto. Os po brezinhos. Amanhã. Qu ando o rabecão da Santa Casa vier. Vendia jornais no Largo da Carioca. cruzando as pernas angulosas. tristeza e enfado. a torcer aflito. – Morreu? – indagamos. E vozes. Desço. nua e fria. lá ia ele. o velho chapéu ensebado e sem feitio. Muita fraqueza. – Que há? Ninguém nos informa. muito séria. E vemos. que nem uma cova. Uma pontada aqui. por sobre uns jornais velhos. Sente-se nele o homem que a desgraça exaspera. Dobrando uma das curvas do caminho encontramos. porque não usa lenço. Um dia morre. assim tossindo. tendo ao regaço um pequeno que dorme. Tosse. maus. a uma velha sentada ao pé da porta.. as madressilvas e as tulipas campestres rebentam alegres e viçosas. pode ter. de olhos vermelhos de chorar. um corpo estatelado. Tem os olhares vítreos. não agüenta. todos os dias. “Seu” Barreto bem que me dizia: “Olhe que essa criança. baixinho.” Pois não morreu? Morreu! E eu que fique pra aí. Mesmo debaixo de chuva. Um dia. em frente. as mãos cruzadas sobre o peito. cor-de-cera. muito magra. sobre as tábuas de um caixote. mirando as unhas curtas e encardidas. como uma coisa atirada no mundo. nos dedos esqueléticos que são apenas um montão de ossos e de nervos. Aproximamo-nos. eu. muito triste. para onde irei? E põe-se a enxugar as lágrimas com as costas da mão. tossindo. adiante. coitado. depois de morto. sempre. – Se morreu! – responde-nos a pobre. talvez se atire do Cais Pharoux ao mar.. eu desço com ele. assim. num gesto simples. ele.

chavelhos de ouro. quem matou com um ar de estupor o Chico de Marocas. de nós outros. um sulco tétrico que existe nos cemitérios e onde se metem. Na rua é como um homem qualquer. enfim. porém. posta pra aí. vive isolada do poviléu do morro. que a teme como uma espécie de amiga íntima do Diabo. às sextas-feiras. vingando-se. . a valer. por isso. Já quisemos queimar a casa da bruxa. as mãos ósseas. sentada. no começo do século. pode a gente piorar. o antro da feiticeira é de aspecto muito pouco infernal. muito embora de alma abalada e triste. Nós aqui. não lhe respon de mos. afastando-se. em torno. muito entendida em feitiços e que. e deita fagulhas pelas goelas. onde as unhas em ponta se retorcem. seis. a bruxa. usa fraque e cartola. de buço de rapaz a sombrear-lhe o lábio cinqüentão: – Recebe visitas do Tinhoso. se transforma todo. Umas choupanas tristes e humildes. no morro. cinco. o Inimigo. a face encovada e sinistra. forte rapagão que tinha o corpo fechado a malefícios e doenças. à soleira da porta. tresanda a enxofre. porém. cochilando. o galho de arruda atrás de orelha. empresta para levar o corpo do que morreu à vala. quando entra na casa.. como as outras. ouvindo embaixo o ruído estrepitoso da cidade. de tudo que de mau acontece entre nós. corada. está a tenda da negra Marcolina. fingi mos que não a vemos. forradas de zinco. de porta desaprumada. os dedos compridos como garras. Nós. Dizem. vivemos como se ela fosse uma pedra da estrada.. Avancemos. autor. estendem roupas ao sol. Exteriormente. Ganha pés de pato. Todo o morro está farto de o ver. Santo nome de Jesus! E persignou-se. porém. quem acabou com a criação de galinhas da Maria Caolho.156 Luís Edmundo Rabecão é o ataúde do pobre que a Santa Casa da Misericórdia. promiscuamente. Em meio aos casebres que se dependuram na parte da montanha que olha para os lados que dão para a Rua dos Arcos. e trepadeiras. Quan do nos olha.. feia. após um moital baixo onde galinhas ciscam e lavadeiras.. Lá está ela. as mulheres. que. então. viçando ao sol. Quando fala. os nossos maridos e os nossos filhos. com isso. cantando. uma gorda. Foi ele quem trouxe a peste bubônica ao morro. Revelação da Srª Dª Rosa. e até sete mortos de uma só vez. Uma lástima! Não pense o senhor de se pôr de trelas com a sujeita. que perde a sua alma além de “entortar” a vida.

indagamos-lhe. todos trepados em bodes verdes. a mais horrenda das três Fúrias. Aproximamo-nos. não. A figura é realmente macabra. longa e fria: – Para obrigar uma pessoa que não gosta da gente. conheço as orações para aprumar a vida. em Lucíferes de olho ciclópico. – Para isso. avantesmas. a um canto. cheia de negru me e de mistério. com humildade e doçura. pra desmanchá coisas-feitas e dou consulta barata. e dois caixotes para sentar. lembra o vulto da Megera. Sem ter uma pergunta pensada. onde surgem avejões. Cipriano. há apenas no trapento interior uma pequena mesa de pau. A resposta confunde-nos.O Rio de Janeiro do meu tempo 157 Pita um cachimbo de barro. sei esconjurá. disforme e feia. pondo-lhe os dez tostões da pragmática na sua mão de esqueleto. fica a gente a pensar nas encruzilhadas de florestas fantásticas. Olhando-a. suando labaredas. Como imagem. feitiço de sapo. à luz do luar. curupiras e saci-pererês. meu sinhô. Vosmecê me dá dés tão e pode preguntá o que quisé que leva.. só para na mesma criar novos malefícios. vendo que ela desperta da modorra em que jaz e nos fita com ar de curiosa atenção: – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! – Para sempre seja lou vado. diz ela. baten do o sar ro do cachimbo na soleira da porta. no entanto. E como provocação. Como mobiliário. asperamente. lobisomens. – De sapo? . Penetramos a caverna sórdida da bruxa. mas lê na mão. E já levantada: – Deito carta. larga. as normas de S. de repente. não leio. como troco.. um tanto cautelosos. Perguntamos: – Vosmecê saber ler o destino na mão da gente? – Eu deito carta. meu sinhô. de chifres dentados como serrotes. resposta certa e remédio. ou em sabbats alucinantes. que se dependura a uma boca em pregas. e ao som de apocalípticas toadas. gostar. dançando em cemitérios. reunindo os espíritos maus que habitam a Terra.

cum pouco de água e a gente bota por cima uma peneira purquê. A gente o passa por baixo do ventre cinco vez. também. Depois. sempre com a mão dereita. dizendo: sapo. assim não tenha sossego – quem sabeis – nem descanso inté virá o seu coração para o meu. ainda. Cosido os oio do sapo. do sapo purquê intão a pessoa do trabaio fica cega. também.158 Luís Edmundo O sapo. o que eu devia fazê cum a pessoa que a mim me despreza para que ela ande cega sem a minha pessoa no mundo e não veja senão a mim no pensamento. ração. sapinho. Casebres do Morro de Santo Antônio Desenho de Armando Pacheco . E ela continuando: – A gente agarra um sapo. Pegando o bicho. que comem os condenados às sempiternas chamas. as pelezinha dos oio. assim como eu te passo por debaixo de mim. pru mode fechá bem e ele não vê. dos grandes. fêmea se fô trabaio para muié. a gente pega de uma aguia cum retrós verde e cose os oio do sapo. senão. Mas aí é preciso não furá com a aguia o oio. o sapo morre e a pessoa do trabaio morre. porque é o alimento preferido pelo Diabo. em nome de Lúcifer eu cozi os teus oio.” Despois. sapinho. macho. se fô trabaio para home. sapo vai para dentro de uma panela grande. como então ficamos sabendo. é animal de grande força cabalística. a gente deve rezá assim: “Sapo.

A bruxa recebia Múcio Teixeira. No máximo pode ter uns noventa. Abriu a boca horrenda numa risada explosiva. apenas. vilipendiado pelos anos.. e há muito reclamado pela terra.. Dizem. que a negra tem cento e trinta anos. para viver. outrossim. . vançuncê qué sabê quem vem aqui toda sexta-feira. com certeza. Não tem. – Quem é? – Seu dotô Murço Teixeira. por siná que me paga muito bem? Um moço muito conhecido na cidade. o sortilégio.O Rio de Janeiro do meu tempo 159 Outro aspecto do morro de Santo Antônio Desenho de Armando Pacheco – E é coisa garantida? – Só se Deus quisé. – Mas você trabalha com o nome de Deus? – Uê.. mas. Pobre corpo esquecido de Deus. então na parede. então. Marcha arrimando-se a um bordão. pela miséria. um registro de São Jorge dizendo: – Esse aí é meu pai! Negra Marcolina explora. às práticas da magia. sincera: – Pois é. vançuncê deve de conhecê ele. roído pelo sofrimento. os seus vizinhos. conhecido poeta gaúcho.. arrastado. A negra Marcolina aponta-nos. Deus não é pai de nós todos? – Você nunca viu o Diabo? – Credo! Deus me livre! Aí no morro é que eu já ouvi essa história que o Diabo vem me vê neste barraco às sexta-feira. no fim da vida. sem ajuda de espíritos malignos. a carcaça em molambo.

um bom coração e piedade cristã. No lusco-fusco da madrugada parecem sombras marchando a pé. entretanto. do que não possui por teto senão uma folha de zinco. por sítios onde não dizem aos vizinhos o que fazem. porque os outros. mais agarrados ao Céu. Rezam. pedindo “bença meu sinhô”. Quanto mais miseráveis. cem ou mais anos. nos cantinhos de sobra. os olhos apagados e tristes.160 Luís Edmundo Marcolina é tipo popular e conhecido em todo Santo Antônio. Pedem. de filhos que foram morrer nos campos do Paraguai. exibindo as mazelas que carregam. Suplicam. tísicos em último grau. esses aboletam-se pelas casas de cômodos da Rua da Misericórdia ou becos adjacentes. ne gras velhas com cara de rato seco. nem do que vivem. leprosos. como o da Glória. Nessa parte do morro residem inúmeros mendigos. as podridões . Não a perdem nunca. oftálmicos. óbulo. elefantiásicos. vagarosas e curvas. pa-joões fistulentos. arrastando pernas cobertas de panos sujos de sangue e pus. muita vez. vão a templos mais dis tan tes e mais compensadores. falando da meninice do Imperador. no Largo do Ma chado. os reais. cedo desperta e vai-se arrastando pelo morro abaixo. o da Matriz de São João Batista da Lagoa. andando de pau na mão. O pior é quando chove! Pela hora em que os sacristãos abrem as portas das igrejas. eles já estão colocados ao ângulo dos portais. vão além. tocadores de sanfona ou vendedores de bilhetes de loteria.. Tomam várias cruzes de água benta. em São José. os que pedem por velhacaria ou mistificação. do ventre-livre e da Princesa Isabel. Moram. lamurientos e choramingas. atiram-se de joelhos sobre as lajes da nave. cegos de nascença. cheios de fome e de esperança. na da Ajuda. que dizem ter noventa. os pobrezinhos de Deus. Os membros fracos andam mais. mais devotos. a carapinha branca. quando não vão morar para os subúrbios distantes. assim. em Santa Rita. Os verdadeiros. Todo esse rebotalho lazarento e melancólico. dos que já não podem mais descer do morro nos dias de grandes hemoptises. remanescente de vidas que por vezes foram prósperas e felizes.. Vai ouvir missa na igreja do Parto. Em Santo Antônio os mendigos também moram de esmola. São todos uns reles trapos humanos. Instalam-se eles. Depois é que vão para as portas onde ficam de cócoras. A primeira missa é a deles.

. cai na pracinha. aí. onde reúne malandros seresteiros. o rolozinho do tempo. caraça à antiga. magras.. importante e severo e a caixeirada vende. as mãos pálidas. – Uma esmolinha pelo amor de Deus! O amor de Deus que os não consola. Tem cinqüenta anos de idade. em franja de reposteiro. encrenca que.. Gente que entra. Gente que sai. protetor desvelado de todos os seresteiros da zona. Pela porta do negócio a freguesia cruza. bom coração. Caímos numa espécie de largo onde as edificações têm melhor aspecto e onde está o armazém-botequim do Carrazães. grande tocador de violão e de guitarra. – Laranjinha pingada. – Vá. É um tipo pitoresco e simpático. o Deus que só lhes dá em esperança ou em paciência o que recebe em súplicas e em lágrimas de sofrimento e de dor. camisa de peitilho engomado. uma! – Maduro no copo grande. ou em bolo desce e vai pela encosta de morrete abaixo em meio aos gritos do “não pode!” “enche!” apitos e a algazarra infernal das mulheres e das crianças. gretado e imundo. ele mesmo seresteiro de marca. resvala para fora. pretexto para uma barba passa-piolho. cheios de aflição. se azedam ou se inflamam. Com o pretexto de beber alguma coisa penetramos a sórdida vendoca onde o Carrazães paga o bicho. sempre na mesma baiúca movimentadíssima. quando a cachaça estimula. como a dos tempos do Visconde de Inhaúma. sujas e côncavas. conflitos e bordoadas. os olhos bovinos. choros. ou de tristeza. figura de grande prestígio no lugar: bom homem. copázios da “muito-boa” em martelos de três dedos. o cabelo em cerda de porco.O Rio de Janeiro do meu tempo 161 que os acabam. dois de cana. . em riste. quase sempre. muito gros sa e muito vermelha. descuidosa.. começando entre os pipotes do bom verde e a caixotaria do bacalhau. serestas e. como complemento às discussões que. quarenta de Brasil e quase trinta de morro. onde há cantigas ao violão. sobre um balcão de pinho. tamancas e o mais lindo sorriso alvar com pondo uma bocar ra de ju mento.

pedem bicho. pro mode mandá o dinheiro. mexendo a abotoadura das cravelhas. sem olhos. fechado na altura do pescoço. um grupo de atentos admiradores. E. Faz ressoar os bordões sonoros e profundos do “pinho” gemedor. e mais outro no cavalo. até aqueles que. cheirando mal. A melodia é triste. onde está o relógio e o armariozinho do fumo e das caixas de fósforo. ativos. Lavadeiras de cachimbo dependurado ao canto da boca. for mados em platéia numerosa e aquecida. velho. dentro do peito. então. o coração . que se arrasta aos soluços. multiplicando-se afanosos. como as das máscaras da tragédia grega. metida. em. tristes. Do meu triste viver? A modinha da época guarda ainda a feição lamurienta que tinha há um ou dois séculos. está um tocador de violão. E exibe o conteúdo em questão. as mãos às costas. preso por um alfinete de fralda. próximo a uma mesa que assenta num chão de tábuas negras. Que se não tivé otra. Funga. pigarreira. O homem que dedilha o intrumento suavíssimo é um mulato de gaforinha densa e bipartida. tra vez. Ao fundo do estabelecimento. aos lamentos e aos ais. abrindo lenços encarnados em forma de bolsas. triste o cantador. de uns doze anos. então. de cabeças pendidas. a ponta do charuto apagada e curta. umas faces duras. um no jacaré. Depois cospe. Estão todos eles atentos e comovidos. Ainda é uma coisa monótona e plangente. a escutam. uma orelha suja e despegada do crânio. erguendo nas mãos um triste embrulho de papel: – Mamãe mandô dizê que a calne seca que o sinhô mandô pra ela tá podre e já tem bicho. – Dois estão no urso. muito reluzentes de saliva. um fraque de sarja. umas tiras negras de charque velho e comprido. Depois. cuidadosamente. começa: Não sabes que te amo e que te adoro Que vivo a padecer? Não sabes dessas lágrimas que choro. enlevados. torno. servindo os bebedores de aguardente.162 Luís Edmundo Chega um negrinho magro. E os caixeirotes de sobrancelhas em tarja e mangas arregaçadas. atrás da orelha. as faces hirtas e profundas. triste é o ritmo. o pé sobre um caixote de banha e. E.

por vingança. entrelaçadas. Desdobrada em queixumes. almas irmãs. coqueirais. Às estrelas pergunta por teu nome Que elas. São estátuas. palmeiras. o violão segue-lhe as pegadas como que aos tropeços. onde ninguém se move e quase não se respira. não teriam os homens. por uma só e íntima lembrança. nem maior contrição. apertadas e unidas pelo instinto do sangue. onde há cascatas. continuam petríficos e imóveis. maior recolhimento. desdobra-se a paisagem radiosa. E esse amor que aniquila e que consome Meu pobre coração. maior envelo.O Rio de Janeiro do meu tempo 163 a bater. felizes.. filho da terra que viu transformar-se em cinzas a taba em que viveu. com ternura e com graça. O próprio Carrazães. a paisagem risonha da pátria em que nasceu. Olhemos essas figuras que o drama melódico reúne. todo um canto amassado em lágrimas de melancolia e de saudade. comove-se sentindo o arfar daqueles corações e até a caixeirada ativa que serve sobre o balcão a dose de capilé ou da cachaça faz mover. também escravo de outro branco. saudade de negro chorando. solfa merencória e tormentosa. lembrando a alma antiga e infeliz dos homens do Brasil. os dedos do executor por sobre as primas e os bordões cambalhoteando em acordes. No subconsciente. frondes espessas. a desenhar. Reparemos na importância patética desses vultos simpáticos onde ninguém fala. dirão. risonha e verde. A bater e a filtrar todo o fel amargo daquela dor que escorre e que é a um só tempo consolo à aflição. . certo. A toada é gemedora.. queimada pela mão do colonizador. Vai amalgando os corações. urdida no idioma bárbaro. imagem amiga de uma terra moça. que é estrangeiro e de alma contrária à nossa.. algumas patrícias. Sofrendo a melodia que apunhala. com cuidado. nas senzalas. solenes e hirtos como estátuas. num cenário de imensa claridade.. que era o rei. A canção desenrola-se. aflige. Estão as almas todas em comunhão. sol de ouro e céu azul! Brasil! Brasil! Se todos rezassem nesse instante. mágoa contida e recalcada do branco nativo. o vidro e a louça de serviço para ouvir melhor. aos tombos. no fundo de cada peito. umedecendo os olhos. melancolia que foi do índio. A letra. a harmonia sincopada e sutil.

então. O que nós conversamos. dá um fosfe. À lua pálida e silente. transforma-se. os poemas da melancolia e da saudade. num eco jogral e ativo de harmonias bailães. que o violão. – Ó Chico. Desata. abalroados pela alegria. ora em floreiros gráceis. Empurrões.. Mas. gargalhadas. A reação transforma logo o ambiente. Em troca deste amor! Múcio Teixeira Desenho de Julião Machado Impressiona a dolência e a taciturnidade do pensamento musical. mas sem cotação. No começo do século o violão é um instrumento querido e cortejado pelo povo. aqui ao Fulgêncio. Lá uma vez ou . verdadeira diurese de pessimismos e tristezas. reentrando. está finda a modinha que desmaia num trêmolo suavíssimo. ora em acordes irrequietos e folgazes. Violão e modinha. os dedos célebres. ponteando a golpear com graça e com deleite o sonoro metal dos atroantes bordões. casta flor! Que me dás o desprezo. continua escorrendo: Pergunta à brisa plácida e tremente. indiferente. movem-se. Aos doces gaturamos. Sabem também das minhas esperanças E quanto eu te hei de amar! São estrofes românticas vazando todo o lirismo lânguido e meloso dos poetas de quarenta anos atrás: Porém não sabem que a chorar somente Eu vivo. revelando a alma desanimosa e apaixonada de um povo.. de súbito. O homem que fez gemer o instrumento sorri sobre as cordas que ainda fere e que domina. – Xá vê um cigarro. Os homens. E de tal sorte. tentando apagar o pensamento lúgubre daquilo que cantou. em torno. Sabem de cor a cor das tuas tranças E do teu meigo olhar. aí. desoprimindo os corações. nascido para cantar a desventura humana. sem a menor entrada nos salões do que se chama “boa sociedade”. Cusparadas. umedecendo os olhos. falando. blandiciosa.164 Luís Edmundo E a toada.

pondo a gravata de plastron. como um homem sem colarinho e sem gravata. que aprendem pelos teatros que freqüentam. ele é o primeiro a abandonar o leito onde repousa e ir. Também não entra nesses ambientes de elegância e chique. que a serenata está na rua. embora fique com o direito de procurar. a cantar. por instinto e prazer. sem cerimônia. Contudo. na calçada da rua. Preconceitos herdados. Quando a cidade adormece. lá vão eles ferindo violões. por ermas ruas e revéis caminhos. quando acompanhada ao piano. assim mesmo. venturoso. pé ante pé.O Rio de Janeiro do meu tempo 165 outra. só porque o dançam nos teatros e é folgança de plebe. as nossas sinhazinhas e sinhás não só cantam o que a canalha pela rua canta. porque. em tais lugares. por horas em que todos dorVendedor de jornal mem. cavaquinhos. as cavalariças ou as cozinhas da residência elegantíssima. quando rebenta. E que ninguém se espante. os chapéus . e isso mesmo muito à socapa. o maxixe. andam grupos de seresteiros. às escondidas do papai conservador e tradicionalista. os passos do corta-jaca ou do balão-caído. Se acaso nela bate à porta. É o fruto proibido saboreado à socapa. umas com as outras. divertidas e alegres. tolos preconceitos vindos do tempo em que o Brasil não era nosso. go zando. ainda. num despertar gostoso dos instintos da raça. não passa da soleira da mesma. colar o ouvido atento à frin cha da janela. na casa brasileira. soluçando. sabendo que esse papai conservador e tradicionalista que não quer em sua casa tocatas de violão e passos de maxixe. na Autor desconhecido doçura da noite cheia de luar e de mistério. Dele também não quer saber a morada do nobre. o canto que lá fora soluça amargurado. porém. gemendo. como dançam. se admite ou tolera. por sua vez. Isso. Em grupos numerosos. bandurras e bandolins. Atenção. é que esta última. quanto ao maxixe. muitas vezes. motivos do bailado nacional. em êx tase. também ensaia. também. que é o pai amigo do samba dos nossos dias. sem violão e sem cantigas. a voz da serenata. diante do espelho de cristal. No Rio da assomada do século não se compreende lua no céu sem serenata. de quando em quando.

acompanhadores eméritos de violão ou fortes soadores de instrumentos de sopro. porteiro do Senado. a cantar. Tafi. o caso é diferente. cantor e acompanhador notável. notáveis intérpretes: Quincas Laranjeira. apenas.. Paiva Gama. funcionário exemplar da Estrada de Ferro Central do Brasil. o famoso Quincas. soturnos. não raro. em adágios plangentes que. frascos da “branca” ou de vinhaça. notável compositor e que acaba mestre da banda do Corpo de Bombeiros. Álvaro Nunes. No choro. denominado o rei do clarinete. Fonseca Barros. os sincopados tangos de Ernesto Nazaré. Juca Fortes. o que. instrumentistas de nomeada. Carlos de Meneses. então considerada a melhor da cidade. Geraldo Magalhães. Na primeira avulta a voz humana ferindo a melodia. Benjamim de Oliveira. provocando suspiros. Sátiro Bilhar. a escorrer ternura. Patolá. Coelho Guét. No repertório dos chorões estão as valsas langorosas de Francisca Gonzaga. e saudades. Cipriano de Niterói. Guerra da Paraíba. por sua vez. na época. schotischs de Nicolino. Belisário. Possui a modinha. homem que molha de lágrimas a voz quando canta. Aurélio Cavalcanti. profundo conhecedor de música regional. subalternizando todo o conjunto harmônico da massa instrumental. Albertino Pimentel. Soam.. o sofrimento é flor que se cultiva. Nomes? Anacleto de Medeiros. Costa Júnior e Sinfonias Ornelas. quando morre. Alfredo Timbó. Neco. boêmio desregradíssimo. até que venha a luz do dia. Leandro Santana. a voz humana não se escuta. que os instrumentos suspiram melosamente. José Rabelo. Horácio Telberg. depois. mas. De dois gêneros são as serenatas que se fazem entre nós: a serenata de cantigas e a que se denomina choro. Ventura Careca. festejados e popularíssimos. deixa como último desejo que o enterrem com o seu querido violão. alguns até prêmios do Conservatório de Música. contramestre da banda de música da Escola Militar. pai do Pixinguinha. assim a tocar. o muito popular capitão Rogério. músicas patéticas. Veloso.166 Luís Edmundo de sabados no sobrolho. Joãojoca. Francisco Borges. pistonista de fama. grande oficlidista. Andam léguas e léguas. Todos eles chorões agaloados. mais tarde. adocicadas. Breimer.. de J. Eduardo das Neves. orquestrador brilhante. nos bolsos dos paletós. um dos .. Entre os grandes chorões do tempo encontramos. os instrumentos gemedores. Eustáquio Alves. possuindo voz de espantosa sonoridade. Alfredo Viana. Cristo e Assis Pacheco.

Longe disso.O Rio de Janeiro do meu tempo 167 fundadores da A Noite. Pouco se imprimem. como Epitácio Pessoa. todos eles conhecedores profun dos do instrumento. muitíssimo brasileiras. bem nosso. não incluir. como mais tarde se lançam os nossos sambas cantados. O que . porém. juízes como o Dr. A qualidade da produção.. Mário Cavaquinho. supera a quantidade. Nem às centenas. na época.. Itabaiana de Oliveira. Casario no morro Desenho de Armando Pacheco O brio do compositor. senhor de notável execução. sobretudo. de boca em boca de cantador. sobretudo. outrossim. no meio desses eméritos cantadores e tocadores de violão. Nilo Peçanha. enobrecendo-o como outrora Castro Alves. com a mania de tocar clássicos. executando-o com galhardia. Músicas originais e. Melo Morais Filho. Artidoro da Costa. Frutuoso. anualmente. não admite a introdução do mais leve motivo estrangeiro na solfa indígena. o que foi professor de esgrima na Escola Militar. Ma nuel Já come. na época. quiçá um pouco envergonhado da sua virtuosidade. altos funcionários do Estado como Pinto da Fonseca. Tudo original. o que não impede que corram. Quem não tem talento para criar. então ministro de Estado e depois presidente da República. mas não se mete a músico. E por que. de tal sorte tentando internacionalizar o instrumento patrício. vai quebrar pedras. nomes ilustres. pelo carnaval. logo. ainda. Tobias Barreto e Laurindo Rabelo? As modinhas desse tempo não são lançadas. historiador e cronista da cidade. essas originais cantigas. Castro Afilhado. e. Leal.

Urdida no mesmo gênero. de um sentimentalismo encantador. variações descabidas e até cômicas. desta forma: Tu tens o tipo da mulher que me faz cenas. Pesco de linha na beira do cais. Amor. por esse tempo? Canta-se: Perdão. Meu Deus que noite sonorosa O céu se vê todo estrelado está em voga também. Mostraram-me um dia. escrito assim: Tu tens o tipo da mulher que me fascina que muito se canta. para mim. por vezes. delas. é haver. ainda. por exemplo. se roubei-te a vida Cantiga langue. morreu. Mestiça formosa De olhar azougado. por todo o primeiro decênio do século. entanto.. assim: Quis um dia varrer-te da memória. À sombra de enorme e frondosa mangueira sucesso desabrido que dura. infalível no repertório de todo bom tocador de violão... dançando.168 Luís Edmundo acontece com isso. Há o verso de famosa modinha. vinda dos tempos de Floriano. ainda faz vibrar primas e bordões: Nasci como nasce qualquer burgomestre Não sei quem foram ou quem são meus pais Vivo nas tabernas. é outra que esfalfa os cantadores. Porque gelado trago o peito meu. Emília. então. Tocador de violão Desenho de Armando Pacheco Não há cantador de violão que não tenha no seu lírico repertório a cantiga do Quisera amar-te. no mundo. . Na roça.. Elvira. ao som das violas. A modinha do Vagabundo.. mas não posso. como a que começa. E o que se ouve mais.. Não me crimines que eu não sou culpado.

Guimarães Passos. Serias minha até morrer! Muito padece Meu coração por te querer. Uma há. cantada com a música do Profundo dissabor que me devora. porém. Tu não te lembras das juras e perjuras que fizeste com fervor. um belo poeta. lança a Casa-branca-da-serra que.. na alvorada do século: De lira em punho Vou pra rua Quando a lua Se mostra no céu mais bela. inspira a canção do Desenho de Marques Júnior rato: . Daquele beijo demorado. Outra ainda que se canta bastante.... que consegue ser a mais decorada e a mais popular de todas – a que glosando a descoberta feita por Santos Dumont. passa para o piano e do piano para os florilégios. a do Só assim serei feliz. E brilhou lá no céu mais uma estrela. se eu pudesse. prolongado. A campanha organizada por ocasião da Benjamim de Oliveira epidemia da peste bubônica. onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado que coitado de saudades já morreu.O Rio de Janeiro do meu tempo 169 E a modinha do Coqueiro? Tu não te lembras da casinha pequeninha. ainda. da lavra de Joãojoca: Ah. em meio a todas essas populares modinhas. do violão. canta-lhe a glória do feito: A Europa curvou-se ante o Brasil. que selou o nosso amor? Enaltecendo o gênero nacional. da direção dos balões. Há. Apareceu Santos Dumont.

. Menina sem “arame” Vá rodando. É por esse tempo que surge Catulo da Paixão Cearense. De voga e grande. popularizadíssima: Bolim bolacho Bola em cima e bola embaixo Por causa do caruru. rato.. goza.... O arroz... para dois. Dele é o superfamoso: . Rouxinol.. chega bem. fugindo um pouco ao lamuriento repertório da canção nacional cantada nos chopes berrantes da Rua do Lavradio e no Passeio Público.. Mas. rato. Semeei no meu quintal A semente de repolho. Versos servindo de estribilho chistoso a belas quadras. Quem não come da castanha Não percebe do caju Não entende do fubá... mais tarde consagrado como o maior poeta regional do Brasil. um pouco no mesmo gênero. rato. Você quer mingau? Mingau não quero. de laranjeira. Nasceu-me um velho Careca.170 Luís Edmundo Rato. vai até para os teatros de revista. não me ame. para um. Cá o degas Não vai lá por piegas. escrevendo poemas que encaixa com muito chiste em músicas já consagradas. pelo Geraldo de Magalhães: Seja moça um primor De beleza e de amor. rato! Por que motivo tu roeste o meu baú? Rato. também.. Eu quero amor. Faz também enorme sucesso a canção do seu Nicolau: – Olá seu Nicolau. Com uma pipoca no olho.. como estas: Meu galinho de campina.. a cançoneta do Arame. Catulo Cea ren se Desenho de Mar ques Júnior A canção do Bolim bolacho. Não há dinheiro que pague Beijo de moça solteira.

na indumentária . a pobrezinha então cantada por Catulo. em curva de bodoque. velhacamente. viela lôbrega. não pode ser igual à que se canta cá fora. Vem sangrar meu sentimento E em tormento Põe-me as cordas a vibrar? Um dia. vamos encontrar o poeta do Luar do sertão cantando nos salões de Botafogo e das Laranjeiras. Há quem afirme que devemos a Catulo. Modinha para ser. Que diferença! Num ambiente de elegância e de chique. os reposteiros dos salões da haute-gomme. luar. Exª conhece a minha última produção. Vem. e. o cantador de cabeleira e olho bambo... lançava o lundu brasileiro pelos salões alfacinhas. Arrufos.. A modinha. embora isso muito mais tarde. dentro do quadro da sua tradição: morro. porém. em cenário seu. certo cronista nosso tem a idéia de comparar o cantador ao velho Caldas que. A princípio.. E o maxixe. de tal sorte reabilitando a canção patrícia e popular. só pode ter glória. vilipendiada pelo preconceito desnacionalizador. nos salões de etiqueta. decotes e cavalheiros de casaca. entre senhoras de bom-tom. na Lisboa do século XVIII. Começam o violão e a modinha a forçar. é coisa banal e falha. a alta-roda ouviu Catulo. ouvindo-o em casa de Coelho Neto. penetra no palácio do Catete. perguntando a Mme. aí. que se canta com a música de um tango de Nazaré. por excentricidade. modinha. quase elegante. sente-se mal. um Catulo de smoking e de sapatos de verniz. botina reiúna e chapéu três-pancadas. Palma de martírio? Quando um Deus cruento. realmente.O Rio de Janeiro do meu tempo 171 Ai ladrãozinho Esse lábio de coral!. o violão debaixo do braço: – V.. um Catulo incompreensivelmente smokingado. reclama ambiente próprio. Que de 1906 em diante.. como se canta. Daí por diante começa o poeta a lançar Talento e formosura. Brejeiro.. Mais um pouco. aproveitando a oportunidade. Azevedo. logo se populariza. Outro espicha sobre a gazeta em que escreve um suelto achando da maior elegância e do melhor bom-gosto a idéia da modinha em família. a queda do preconceito que vedava a entrada da modinha em uma casa de família de certa distinção. Juramento. logo atrás. sobretudo quando o cantador não usa gaforinha.

muitas vezes. Mata-me. com ênfase.. Que a morte é linda Dada por tua mão.. anda! Quem mata o cantador. por isso mesmo. sob as janelas de Julietas tez marrom. São. além disso. ó meu amor. modinhas profundamente nacionais. que cheire a sarro e a cachaça. pela época. a alma simples do povo. os seus loucos jatos líricos despedidos. com todos os seus matadores românticos. realmente.172 Luís Edmundo plebéia. é um soldado naval. das que. As do morro de Santo Antônio cheiram a fumo Aimoré e a parati. Mata-me. por cantadores de voz trêmula e esfandangada. não usam papelotes no cabelo. o cigarro dependurado ao canto da boca melancólica. cantiga onde se possa sentir a alma chã do que sofre. solfa. cuspinhando. imensamente nossas. Maxixe carioca Desenho de Calixto . por questões de ciúme. os seus arroubos de sentimento.

. . . . barulhos de asas e o amigo chilrear de pássaros alegres. . . . . os planos de perspectiva no cenário grácil da natureza. aqui e acolá. por onde cruzam os bondes que vêm de Botafogo ou de Águas Férreas. roçando o verde esmeraldino dos gramados. . . . . . . . . velhos e apodrecidos pelo tempo. . surgindo de altos e densos tufos de folhagens as eternas folhagens que. revoluteando ao sol. ensombrado jardim onde palmeiras viçam. Uns bancos de madeira. . .. espalham-se. . pelas curvas do alambreado macadame que se destaca. . . desde os tempos coloniais. . em cima. Capítulo 9 Largo do Machado O LARGO DO MACHADO – RECORDAÇÕES DO PADRE JOÃO – O CAFÉ LAMAS – FREQÜENTADORES DO MESMO – O GAMBÁ E O BODOQUE – CÔMICA HISTÓRIA DA INAUGURAÇÃO DA ESTÁTUA DE CAXIAS – UM SÓSIA DE SANTOS DUMONT – FESTA DADA AO GRANDE AERONAUTA NO PARQUE FLUMINENSE O COMEÇO do século o Largo do Machado é um logradouro tranqüilo e pitoresco. . . insistem em cerrar. Isso embaixo. nos parques públicos. na doçura da sombra fresca e cheia de tons azuis.

existia. dominando a praça e o jardim. ainda de aspecto . as caleches e vitórias. chapéu mole e charuto de preço baixo. os infalíveis. diz-nos mestre Noronha Santos no seu precioso Indicador do Distrito. só chama ao logradouro Largo do Machado. entanto. a molecagem das balas. Não esquecer os tílburis.174 Luís Edmundo Chamou-se ao Largo do Machado. de aspecto colonial. isto é. jogando as “três-marias”. vozeiruda. Em 1843. em meio ao casario reles que compõe a fisionomia incaracterística das praças: velhas construções. ao ser construída. cuspinhando grosso e a discutir aos palavrões e aos gritos. Um pouco dispersos por essa parte do Largo. alegre. “Ilha dos Prontos”. O jardim avança. primitivamente. O gradil que o cerca. um ano após a inauguração da igreja que ainda hoje é matriz da freguesia. esmolambados. um pouco sobre o lajedo da calçada partida e imunda. na fachada. depois. Em volta. tornando um pouco estreito o caminho destinado ao trânsito de veículos. sobre o lajedo das calçadas partidas. estafadíssimos veículos. com o fatídico catranca em mangas de camisa e bigodeira hirsuta. que fazem ponto na linha da Rua das Laranjeiras. dando impulso e fortuna ao baixíssimo negócio. nessa altura. homens de pés descalços. Junto a ele. Campo das Pitangueiras – Campo das Laranjeiras depois. passou a se chamar Largo da Glória. os sórdidos quiosques. “Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico” é o que se lê gravado no alto do edifício que serve de estação aos bondes. um açougue mostrando. porém. O povo. a berrar e a feder. um enorme machado. com os seus eternos cocheiros de paletó desabotoado. erguidos numa arquitetura severa. espetado numa queixada sempre lustrosa de suor e com a barba por fazer. desde a menoridade de Pedro II. sujos. outro nos bondes que hão de vir e para os quais sobem em bulhentas e gárrulas revoadas. um olho no “galo”. Em 1901 não existe o refúgio que se chama. muito velhos e muito desajeitados. o nome que ainda conserva até agora – Praça Duque de Caxias. é horrível. bebendo parati. na sua jaula de madeira e zinco. torto e sem sombra da menor pintura. Em 1869 tornou. Do Machado? Por quê? Porque na parte que tinha próxima à estação dos bondes. como anúncio. outrora.

Originalidades do varejo carioca. digno de especialíssimo registro: em caixas de madeira. pobre e simples. e. pela época. dando saída aos veículos. sem papagaio e tenda de quitanda sem garnizé. comércio de marafona. depois. Se é um estabelecimento de primeira ordem. À esquerda do edifício do Jardim Botânico. ao centro da loja. na inferior. na parte superior. Na parte térrea. de porco e de carneiro. servido com torradas. Porta larga. que não possua o seu cachorro. tais bichos não existam. por mais ordinária que seja. que aí serve de agência.O Rio de Janeiro do meu tempo 175 joanino. uma loja de ferragens e na parte fronteira. com o seu par de auscultadores de borracha e uma fendazinha para o níquel da auscultação. logo. muito queimadas e apenas visitadas de manteiga. a linha urbânica da praça. uma sala de espera. não há loja. dos primeiros gramofones que chegam ao Rio. sonolento como um guarda-noturno. no gênero. Esse açougue tem. À direita desse salão. latitudinalmente. deitado na soleira da porta. as portas do já famoso Café do Lamas. um lavabo. dois. sem gato. mostrando. com estas palavras: “Ponha aqui”. possui. uma ou outra evoluindo para aquela novidade que o espírito zombeteiro do carioca por vezes chama de “estilo compoteira”. está a Casa de Laticínios. Mais além. bancos envernizados. café modesto. e o cepo. refúgio familiar onde se toma. mescla de cacau. que se decora de um espelho eternamente baço. e. com vida e peso na história do Largo. e onde há um despachante que vive a atender condutores e atender o público. gretado. que ainda se cortam de pão cacete. Ao lado. ao fundo. bem no lugar onde existiu o famoso machado. Pelo tempo. farinha de trigo e açúcar. sujo e fedendo a carne podre. açougue. além de leite e sorvetes de fruta. que preside. Enfim. . por onde entram e saem veículos. um célebre chocolate-pirão. em duríssimas rodelas. como tabuleta de seu negócio. enodoados panos sobre os quais se exibem quartos de boi. com panos de brim branco a forrar as portadas. pode ser que em uma ou em outra destas últimas casas. larga porta de serviço. para os passageiros. “cem réis”. gordo como um cônego. Não esquecer o caixote de mocotós. sem cachorro é que ninguém encontra. um cão peludo e enorme. porém. mostrando um letreiro gravado em metal. cera ou sementes. pelo seu vulto e posição. Também não há loja de chá. sempre. uma porta de açougue. o Araponga. fazendo a volta da Rua do Catete.

sapatorras amarelas. um velhinho vermelho e triste. de envolta com os “uês”. Súbito.176 Luís Edmundo Sobre as lojas da leiteria. a figura do mestre-sala que aponta na sacada – anunciando. carnavalesca e dançante. seu bruto! – E logo o vozeirão do Manel a dessorar ternura e galanteio: – Ah! Grandíssima burra! No fundo. é homem de alma cristã. aos coices. tudo isso é sociabilidade e amor. De ouvir os diálogos e os muxoxos sestrosos das mulatas. Monsenhor Molina é o pastor das ovelhas do arrabalde.. rebentam frases líricas. no amaneirado das figuras. As famílias passam pela calçada. com domingueiras obrigadas a capilé. São onze janelas dando para uma sacada de grades prateadas. São mulatinhas sestrosas que mordiscam lenço de renda cheirando a água-flórida ou a patchuli. bem como as cozinheiras que. salgam-lhe a sopa. aos empurrões. das schottischs e das valsas. o sobrado onde se instala. a matriz.. Apesar de padre. o donaire gentil dos minuetos. Uns ruídos secos de varinha de junco numa estante de metal e logo os compassos de um schottisch. deixando queimar o arroz. calças abombachadas e peitilhos de pregas que lembram enormíssimas lasanhas. depois. em namoro com caixeirotes de pasta descida sobre o olho esquerdo. de óculos de ouro e nariz em lâmina de canivete Rodgers. entre os janeleiros em galhofa. galhardetes. ansiosas por não perderem a festa. como esta: – Não enxerga. Na parte oposta fica a igreja da Glória. em voz suspirada e terna: “chostes”. com as pretas que vestem de branco e trazem laçarotes de fita cor-de-rosa no cabelo. logo que cessa a bulha estrupidante das polcas e maxixes. à quadrilha francesa e a rolo. É quando. num desabafo bestial e lúbrico de sentimento e carne. Nas noites de festança a sacada enche-se de convidados e sócios. E enquanto deslizam os pares. os fornecedores do varejo local. com decorações a “giorno”. evocando. no dia de folgança do clube. os “prumodes” e os “havera de sê” e mais o guincho histérico das negras pisadas ou esmurradas pelos manés. entre “ais” gritados ou escandalosas gargalhadas. uma sociedade recreativa. Até os ateus . flâmulas e outros enfeites de papel. identificando. dança langorosa em que os pares resvalam. gozando o quadro. manés de bigodeira retorcida em chifre de carneiro.

na hora do confessionário. uma espécie de Golias tonsurado. popular e boníssimo. Recebendo. de tanto viverem sem o menor movimento. de fitas. de plumas e de brocados. nascido na Alemanha. o livrinho dourado da missa. A nave transborda de vestidos de rendas. para fazer movê-las. de tal sorte provocando protesto por parte da senhora e grande espanto em toda a sacristia. E. no peito. São senhoritas de cinturinha de marimbondo. A igreja está repleta. gordo. conta-se uma história verdadeiramente interessante. frescas. As creandzinhes que goste da Djezuz Grista. carregadas de anéis. na sua áspera e teuta dicção. pronunciou: o velha descarada. velha devota de cabelos brancos. de cartola. que há muito ele não via comparecer às solenidades religiosas da igreja. quando se amotina a Escola Militar e a notícia corre que. sob o comando do general Travassos. coitado. como ele. caminho do Catete. ninguém falta. uma senhora de avançada idade. na sacristia da igreja. quis. do funcionalismo público e do comércio. as portas do estabelecimento. Não lhe ajudando a língua.” Faltam as criancinhas às lições de catecismo. perras. agradecendo a Deus aquele minuto de emoção e derriço. Tão popular e querido. . as insígnias votivas do Sagrado Coração de Jesus. como faltam as mamães. bancários.O Rio de Janeiro do meu tempo 177 descobrem-se quando ele passa. hora de namoro e entrevista.. Funciona dia e noite. de olho pregado nos gabirus. De tal sorte que. sorridentes. No domingo. ele. chamá-la de “ovelha desgarrada”. num tom de cândida censura. descem os alunos pela Rua da Passagem. uma vez. assim é que se manda chamar. nem se abrem.. não podem fechar. Os gabirus. De padre João. gorjeira de barbatana e filó. não defem faldar. a bater pelos gabirus. alto. a torcer os bigodes para as gabiruas. mitaines e broche obrigado a camafeu. mole. rapazes do esporte. no pescoço. certa vez. imobilizadas nos seus gonzos. No começo do século o Café Lamas é um cenáculo de estúrdios e irrequietos boêmios: estudantes. velhotas vestindo gorgorão. porém. e. e as gabiruas. gracejando. esquecido. Suas portas não se fecham. nas mãos finas. só o padre João. enchendo com a sua vasta enxúndia toda a sacristia e falando assim: – “Djezuz Grista não goste tas creandzinhes que faldam as littzões da gadtcismo. um esperto carpinteiro. artistas. amplos chapéus à “Gainsborough”.

. na verdade. duas ou três da madrugada. quanto me dá você. dizem. ao zelo do empregado e. com monograma de ouro. Morro da Viúva Desenho de Armando Pacheco . E arrebata-lhe o samburá. um dia. grita-lhe. fumar o último charuto. ao vê-lo a remexer um cesto chegado da padaria. em ar de censura: – Olhe lá. açodado. ordens deu para que se lhe aumentassem. O garçom da roda.. moreno. cinco tostões ao ordenado. pelo fim do mês. amigo. o patrão. Vive em íntima relação com a freguesia... – Gambá. certo caixeiro novo. com uma focinheira de marsupial sempre muito bem escanhoada. Lamas. num gesto de quem quer dizer: – Tire pra lá as suas unhas! Achou graça. o proprietário do negócio. na Gávea. Constantino. ouvindo a última do Emílio.178 Luís Edmundo O noctívago que mora em Botafogo. em Jardim Botânico ou nas Laranjeiras. por esta piteira? Olhe que é de âmbar. Ordens do Sr. que. o mais conhecido. ao recolher. é figura que bem pouco aparece no café. embora com ponto certo e regular em algum café do centro da cidade. que roscas não se apalpam nesta casa. Tão pouco. para tomar o último chope. dá sempre a sua “chegadinha” ao Lamas. não raro num comércio estranho ao do estabelecimento. aí pela meia-noite. contada pelo grupo literário presidido pelos bigodes do Bastos Tigre. por isso. o mais prestigioso e popular do café. é o Gambá: baixo. uma.

aí. Passe a piteira. – Dou-lhe mil e quinhentos. mete-se no “Araponga”. querendo empenhar uns pássaros dentro de uma gaiola. é que os vende. peça de 100 por 25? É sempre negócio. o Gambá.. uma vez que o tino de comerciante não anda parelhas com o tino de agiota. Olegário Mariano Valem 200! Desenho de Marques Júnior – Purupupés? – São uns pássaros do Norte. depois. mas têm raciocínio de homem. com monograma.. de calças brancas. amarelos. Vem ele. cor-de-ouro. então. brochados a ouro-banana. Só bebe.... No fundo do estabelecimento. em duas malas gordas. amplo chapéu de palha e. Empresta sobre um décimo do que dá. mas. os pés negros à custa de verniz japonês e que. abotoaduras. o simpático Gambá.. Quando não reclamam os objetos empenhados. dão palpites para o bicho. mete o material empenhado. dizer. Gambá fez negócio aceitando aves que nunca existiram. discutem. cigarreiras. à noite. relógios. O que ele faz é o penhor. são como os papagaios. quando ausente do serviço. Um museu de coisinhas: piteiras. Aí.. alfinetes de gravata. em frente. muito contente: – Imaginem que acabo de dar. encharca-se. descoraram escandalosamente... de pés negros. depois de fechar o negócio. falando. Gambá. mas sempre por preços ínfimos: – “Seu” doutor quer comprar-me um guarda-chuva de seda e cabo de prata. Um dia aparece um sujeito. ao fim de um ou dois meses. não faz transações de compra. saiba-se. Gosta um pouco de beber. 20$ por um ca sal de pu ru pu pés. por semana. Conversam com a gente. botinas rangedeiras.O Rio de Janeiro do meu tempo 179 – Quanto precisa? – Três mil-réis. Dizem que. lite- . agora mes mo. Purupupés não existem. pura invenção de quem lhe vendeu dois autênticos pintainhos.. porém. Gambá.

Tome nota do que fico devendo. gritador. – Fica por isso mesmo! Bodoque tem propósito e espírito. logo.. são dois e seiscentos. nele se vingando. Depois. Não perdoa ao Lamas ter nascido português. pelo tempo. Depois.) . “sem arame”). Vem correndo Bodoque saber o que o homem deseja. o pensamento em Filipe III e no 1640. Você desculpe. sempre que pode. E ele. o Bodoque.. desagravando a Espanha.180 Luís Edmundo ralmente. são dois mil e seiscentos. o garçom que o substitui. Felizmente o pessoal da delegacia próxima freqüenta o Lamas e tem por ele fundas simpatias. com uma grande aversão ao luso. liberalidades que. estou sem níquel (no tempo diz-se. em linguagem de gíria. a lesar o patrão. de cerveja.. revelam a forma dramática de verdadeiras reivindicações patrióticas. já é a grande xícara de café acompanhada de um enorme pão. E o homem: – Um café pequeno. Vezes. discute. (Média. Bodoque.. Espanhol de nascimento. É grito de média. Tem para com os fregueses liberalidades de pasmar. por andar um pouco curvado.. Eu pagarei amanhã. Bodoque. no fundo.. Ótima criatura.. briga. sem pestanejar. – Pequeno? – volve-lhe Bodoque – mas o seu grito não é de café pequeno.. que logo desanda aos berros: – Garçom! E esse café? Onde estão esses garçons? E as xícaras? E o açucareiro? Raio de casa! E dizer que isto aqui é um estabelecimento de primeira ordem! Barulheira de todos os diabos. Bodoque. é um estudante que lhe diz: – Bodoque.. deixando de receber do freguês o que ele deve: – Deve nada! – Mas. só mais tarde é que aparece.. faz escândalo. Um dia entra pelo café certo freguês impertinente.

a vida da cidade. digníssimo enterro. – Pelágio. sobretudo a sua parte malsã. Miguel Austregésilo. Este homem. a consternação é geral. Saúda o Gambá. Pelas 10. Carlos Silva. um que esteve ao lado do Floriano. Leopoldo Magalhães Castro. “abrindo o ponto”. na Ordem Terceira da Penitência. e a notícia do seu passamento chega ao Lamas. autêntica e completa enciclopédia da vida do carioca. muito negros e piscos. começam os boêmios a chegar.O Rio de Janeiro do meu tempo 181 Quando morre Gambá. Pelágio Borges Carneiro. casado com a filha do coronel Feitosa – Augusto Bento dos Guimarães Feitosa e Silva. merece uma atenção especial. os olhos de raposa. Joaquim Sales. As grandes rodas do café formam-se para a parte da noite. fazem-lhe. do Batalhão de Engenheiros. seco. Entra no café. Pedro Delduque. inaugurando a roda. Quintino Bocaiúva Filho. Antônio da Silva Carrão. descobrindo caras. numa homenagem sincera e tocante. O primeiro que surge. por acaso. Gustavo Van Erven Desenho de Marques Júnior Bastos Tigre Desenho de Marques Júnior Senta-se. o que comprou a . senhor: Antônio Bento Lima de Albuquerque e Paiva. no Tesouro? – Sim. espécie de calepino da fraqueza humana. que conhece. varrendo as mesas. como ninguém. firmado num grosso bengalão de castão de prata. Pede um café com leite. mata-borrão de notícias escusas. um leve bigodinho tapuia a sombrear-lhe o lábio franco e sensual. moreno. é o Pelágio. quem é Antônio Paiva. alto. Pelágio e outros nomes hoje ilustres. pelas 11 horas. você sabe. em 93. 2º escriturário do Tesouro. o chapéu no alto da cabeça.

que está mudo.. se não for assim.. Pelágio não é apenas dicionário biográfico. por sinal. entrando com a memória: – Está errado! Não foi assim! De resto o homem não é de Mato Grosso.. de repente.. espremido. o Gusmão. com a mania de cães de caça. pai da Cassilda. daria vários volumes do mais espesso dos dicionários de nomes próprios.. Hortência Varela em 3º.. ganhou no Clube dos Políticos sete contos. O Passos mandou dizer ao Rodrigues Alves que só aceita a Prefeitura se lhe derem poderes discricionários.182 Luís Edmundo casa do comendador Fagundes. por favor. até as 11 horas.. e acaba de dizer que o que ele tem na perna é uma úlcera. Ela em 1º lugar. Antônio Marcos Fontenele Gusmão. tempos depois. O Dr. dentista. ele que escolha. e carregadinho de notícias como um ouriço-cacheiro de frutas apetitosas. Mas já perdeu tudo. bate com ela na mesa e grita.. Pelágio. que. basta! Pelágio. com muito espírito: – Lá vem o último “clichê” da Noite. e ainda sobraria Pelágio. Pelágio. então.. no concurso em Petrópolis. Barbosa Romeu examinou o Lontra. . para poder lutar contra os ceboleiros da Praça do Mercado. por 30 contos. a que teve o prêmio de beleza. também. no café. é gazeta. o coto do cigarro entre os lábios. recostado na sua Thonet de palha e junco. seguindo a conversa. O pai. gago.. espalma uma das mãos. a arrastar a bengala de biqueira de ferro pelas mesas por onde passa.. sem dizer. o chapéu no alto da cabeça. Antônio Torres – isso. outro prefeito. Nasceu em Caxias. e gazeta informadíssima. Alípio Inocêncio Melo da Fonseca Matos. É do Maranhão. a Laura Porciúncula em 2º e D. vai deixando as novidades: – O Flores.. Por sinal que o presidente do júri. quando se junta aos lamistas não pode ver Pelágio entrar depois da meia-noite. À medida que vai entrando. que era. Por vezes ele sai para voltar mais tarde. o muito conhecido Fonseca Matos. Marcílio Anselmo dos Guimarães Fagundes. De se dizer: – Mas.

Martins Fontes. pelos rapazes. Félix Bocaiúva.. abrigos mais distantes e menos indiscretos. Marcolino Fagundes. Dava o quintal da mesma para os fundos de uma casa onde residiam três mocinhas. Sanches de Barros Pimentel. contristado: – Pobre úlcera! Pelo começo do século.. Deodato Maia. muito cortejadas. Augusto Show. Paulo Pires Brandão. Nhonhô Murtinho. Na ausência de travesseiros. O pior é que a retrete de que a rapaziada se servia. Gustavo Van Erven. João e Mário Bastos. César Mesquita. Tomás Lopes. Luís Paulino. Quintino Bocaiúva Filho. para as suas urgentes aperturas. porém. iam buscar. Niepce da Silva. Emílio Kemp. Emílio Amarante. Carlos Silva. Alfredo Santiago. colocada na parte posterior do prédio. entre outros. durante muito tempo. Alfredo Barros. um de hálito horrível. ficava inteiramente devassada pelos olhos das jovens raparigas. Pedro Delduque. Joaquim Sales. Antônio de Oliveira Castro. . Faulhaber. freqüentam o café: Ferreira Viana Filho. Oscar Lopes. o grupo do Barros Coque. Há. naturalmente. Isso vexava enormemente os estudantes que. A porta da casa não se fechava. Alguém. Resolve-se. Jarbas de Carvalho. para conforto dos boêmios. e da qual fazem parte. Viviam elas. máscara de papelão. José e Olegário Mariano. Cásper e Nelson Líbero.O Rio de Janeiro do meu tempo 183 E o Tigre. Tomás e Gustavo Aguiar. Leopoldo Cabral. sobre uma terrasse que dominava esse quintal. Nunca. mobilizavam-se os Sonnet e os Corpus Juris. ao qual chamam. lendo. visitando a república nela esquece Desenho de Aires uma enorme cabeça-de-burro. o Sérgio Falcoeira. Alcides Maia. o dia inteiro.. Carlos Freire. em um sobrado por cima da venda de certo Ricardo. após um Carlos Silva carnaval. com muita propriedade. “Arroto de urubu”. uma espécie de albergue noturno de estudantes. Giordano e Iago Laporte.. Gregório Fonseca. Sousa Costa. o grave problema da retrete. muitas vezes. ainda. Essa república foi. fora. o José Luís. Joanico Calvet. com “república” no Largo. o 29. flertando. cosendo. Alfredo Deambres. Cândido de Campos. Leopoldo Magalhães Castro. Gastão de Carvalho. um dia. Genésio de Sá e Campos Júnior. Antônio da Silva Carrão.

um de bigodinho louro e olhos azuis. todos os estudantes se recolheriam. sempre de preto. automaticamente. o pobre calhau das ruas.. José. Chama-os em voz alta. Sr. nervoso. com um níquel na unha. toda esta meleca. a fim de que. figura popular. o famoso “Camarão”. na cabeça velho chapéu de palha esfrangalhado e torto. já se sabia. tapava o corpo com um lençol de cama e com a maior fleugma marchava para o quintal. que degenerou. por vezes. o José Galinha. uma vez que combinação havia entre a rapaziada: sempre que a cabeça-de-burro funcionasse no quintal. pelos que sobrassem. de se lhe ouvir a voz na Praia de Botafogo: – Cambada de burros! Lavam-se de vinhos caros e não me dão um níquel para beber. riam. a barba por fazer. José Galinha. Para beber. As moçoilas riam. digno igualmente de nota.184 Luís Edmundo dessas que se enfiam pela cabeça e vão até o pescoço. chapéu-de-coco a cobrir-lhe o carão largo e vermelho. grande bebedor de cachaça e freqüentador das soleiras do Café. porque antes de ser. mas não podiam identificar o mascarado. que todo mundo despreza. um íntimo: – Ó Bastos Tigre! – Ó Bocaiúva Filho! – Ó Antônio Austregésilo! Grita. E é para já. em tipo de rua. Vá embora! . É quando o Constantino.. pince-nez de cordão e verbo agressivo e fácil. depois. ainda. corre espavorido.. entre os habitués do Lamas. teve negócio de aves no Catete e galinhas vendeu. o gerente. já. Aqui não se quer berreiros. E já que falamos no Camarão bom será não esquecer. como se fosse. comprando a paz: – Tome lá e musque-se! Vá gritar à porta do Araponga. coitado. outro tipo. em frege. enfiava a cabeça-de-burro. não se descobrisse aquele que faltava. Veste sempre um sujo fraque sobre o busto nu. Que não se esqueça. Não faz parte da roda. Desde esse momento o estudante que desejasse ir à retrete.. Bandidos! Não sei onde estou que não lhes atiro com um paralelepípedo nas cabeças! Seus burros! Viro. Conhece o nome de todos os boêmios da roda. deles. porém não falta ao café depois de certa hora da noite. bigode de brocha velha. desafiando a curiosidade das moçoilas. o carão sujo.

sorrindo-lhe. Desacato à autoridade! Polícia de mequetrefes! Prendam-me ou eu vou aos vidros. Como o homem fora. gritando. logo. receosos. não se fazem rogar os da polícia. segundo conta. José Galinha não regula como deve. Com o pouso garantido e teto amigo. Tem razões para tanto o Constantino. para acalmar o desvairado. partindo-lhe a vidraçaria das janelas. Quando.. mandar na vontade de um homem como eu! E olhe que se eu entender que vai o paralelepípedo na loja é porque vai mesmo! Constantino.. dirige-se à delegacia do Distrito e atira. Miguel Austregésilo Desenho de Marques Júnior Pelágio Desenho de Marques Júnior . pelas cinco ou seis da manhã. no xadrez.. enrodilha-se e ronca até quando Deus quer.. então? Que é isso? Que disparate é esse que está você fazendo aí. sobre o “prontidão” de serviço.. Isso é o que serve para ele.. quando dorme. É quase um negócio. fazendo-lhe sinais amigos com o dedo. Estende as folhas de papel sobre o lajeado frio. como que a dizer baixinho: – José Galinha. porque. como você. à residência do delegado distrital. invariavelmente. imediatamente. entra para a prisão levando uns jornais velhos. acabar em paralelepípedo. vou onde mora o delegado e ponho-lhe as vidraças da casa em fanicos. assim. na verdade. E a coisa pode. por duas vezes. – Percebeu? Se quiser! E batendo com as mãos sujíssimas no peito: – Era o que faltava: um rouxinol-da-índia. sente o boêmio cansaço e sono. encafuam-no. gosta de certo conforto. muito bem. bate em retirada. tão alto.O Rio de Janeiro do meu tempo 185 – Vou se quiser – responde ele enfiando o níquel no bolso da calça. porque. este discurso mais que decorado: – Polícia de mequetrefes! Prendam-me. se não me prendem.

enche e transborda o café do Lamas. por noite de grande ópera. Parte integrante da vida do café. se não possui selo. esse hino não sai da boca e da memória dos boêmios. quando um deles encontra outro e se saúdam. Rana. cantando certa marchinha irrequieta e buliçosa. Com a cabeça diz que não. origem de espirituosíssimas pilhérias: Há de se chamar Gonçalo. orgulhoso. Cataplana. pivot das mais estapafúrdias blagues. Num bonde. que põe. que. Mata aquela Ratazana. como hino pátrio. exército. acaba adotando a marchinha gostosa. Com as palavras do verso ou com o simples enunciar da sua airosa melodia. Chegam os irmãos Austregésilo. lamistas com lamistas entendem-se à distância. Olé! Há de se chamar Gonçalo! E que diz o paspalhão? Com a cabeça diz que sim.. durante muito tempo. marinha e outros característicos de um Estado. na galeria do Teatro Lírico.186 Luís Edmundo De uma a uma e meia da manhã ativa-se o movimento. um olho posto no Gambá. cantam-no os patriotas. servem como ficha identificadora. por exemplo. a sua cafeteira de serviço. logo. as cabeças descobertas. Carlos A república lamística da Praça Duque de Caxias. o Miguel à frente.. dois compassos da solfa. é sempre cantarolando ou assobiando os primeiros compassos da musicazinha. de pé. em meio à multidão de um comício ou qualquer outra multidão. aprumados. Na rua. Nem é preciso evocar toda a comprida versalhada: Há de se chamar Gonçalo! Olé! . Nas grandes festas da “nação lamística”. alfândega. em continência. tem bandeira – a gravata rubro-azul do Bastos Tigre – e constituição. trauteados. Álvaro Tefé Desenho de J. por sinal que mais liberal que a da Suíça.

Os garçons do estabelecimento. vários componentes da roda. fazendo gestos de quem toca castanholas. Levantam-se. cabalisticamente. quando servem a qualquer um da roda. ao lembrar a comodidade da roda. conhecido por Gonçalo. durante um tempo. assustando a espanhola: – Olé! Há. que aparece sempre em companhia de Nhonhô Murtinho. passa pela mesa dos boêmios um tipo estranho a todos. alguém. soa como “Olé” num jeu de mots detestável. curiosos. meio-velhote. Deleque e Talduque. este posta-se diante do Fonsecote e grita: – Há de se chamar Gonçalo! E o Tigre. em companhia de certo Fonsecote. Pedro Delduque de Macedo. que há “lamista” na zona. Deluque.. como no final de uma jota aragonesa. melhor: um belo dia. leva mais adiante o canto sibilino. imediatamente. em uma das mãos a cafeteira e noutra a leiteira. Se ao “lamista” apetece o café simples. eufonicamente. foi. mais este: – Gonçalo! E se o deseja com leite. gritou. Daluco. . sem a menor combinação. num berro. perguntam sempre: – Há de se chamar?. aos primeiros compassos musicais enunciados. O homem é conhecido de vista. sugerido pela audácia do Bastos Tigre. pondo fim à deplorável confusão de nomes: – Há de se chamar Gonçalo! Outra vez entra no café a Guerrerito. termina o verso. porém ninguém lhe sabe o nome. logo. – Quem é o sujeito que a acompanha? – indagam. Joanico Calvet e Carlos Silva. porém. formosa estrela do Moulin Rouge. na perpetração de um ignóbil trocadilho em francês. não se acertando com o seu nome: Daldaque. vindo do fundo do café. em um complemento ao ritmo do verso: – Au lait! Que. um dia. só porque. acrescenta ele..O Rio de Janeiro do meu tempo 187 Quem tal ouve fica sabendo. Bastos Tigre e Miguel Austregésilo. empinando o busto.

mas. à inauguração da grande estátua. é que não me lembro dos senhores. resolvem passar a noite no café. porém. Os jornais publicam que os presidentes brasileiro e argentino devem inaugurar o monumento. futuramente. eu. Mais chope. projeção muito maior.. que sorri amarelo. Esse Gonçalo. presidente da República Argentina. em carne e osso. roupa de brim pardo e vasto chapéu-do-chile. como se vai ver. porém. Gonçalo. no dia imediato.. consagração mais viva e mais jocosa. assim fala: – Os senhores estão me reconhecendo.. Nesse momento. num ar solene. no Largo do Machado. enternecido e melífluo. naturalmente. Está no Rio. Chope para aqui. fica o amigo – e isso o fazemos como prova da maior estima e da mais alta consideração – autorizado a pagar não só as consumações por todos feitas. Seis horas. em visita a Campos Sales. para nunca mais aparecer.. nesta mesa. hoje. O hino dos “lamistas” tinha tido. marca registrada. um dos “lamistas” levanta-se e atira-lhe. imediatamente: – Há de se chamar Gonçalo! O homem pára. Chama-se o homem Gonçalo e é fazendeiro em Minas. como as que. Em 1900. que estoura.188 Luís Edmundo cavanhaque piaçábico num queixo cor de rapadura. possam ser ainda feitas. inaugura-se a estátua do Duque de Caxias. este discurso: – Além da intimidade que os “lamistas” não desbaratam com qualquer Gonçalo. sem demora. e. a fim de assistir. Pergunta natural: – Quem será esse intruso? E o coro uníssono. . dirigindo-se ao Miguel Austregésilo. chope para acolá. como o Pelágio. ingressa. porém. alguns boêmios do Lamas. Quatro horas da manhã. O homem sorri. acaba pagando a despesa. ou noutra parte. o Miguel Austregésilo e o Tigre à frente. aqui. o grande general Roca. em sua amável companhia.. O homem abre os braços. Na véspera do dia marcado para a solenidade. Cinco.. autêntico. na roda. legítimo. no mês de agosto.

E os outros. Haroldo Reddy. Lá chega. Não fica uma sem ter o seu representante. essa estátua? Provaríamos. Há uma representação do Exército. unida. Pelágio faz questão de representar a corporação dos guarda-noturnos da Freguesia da Glória. enfim. em cinturão. Isso sem atendermos à conveniência de irmos dormir um pouco mais cedo. passa. representantes. até o Reddy. marcha para o centro do Largo. Para encurtar razões. grande amigo dos boêmios e ainda maior bebedor de uísque. atrás. arvora-se em representante do general Roca. Claro que. E não há forças humanas capazes de convencer aos soldados do palanque que o mesmo faz parte da “comissão oficial”. Só é barrado o Pelágio por causa da gravata e a sua espada de junco. Pelágio. Sr. os soldados perfilam-se. fora. Olham para a praça. Tigre é escalado para orador oficial.O Rio de Janeiro do meu tempo 189 Eis senão quando. como evitaríamos ao Roca e ao Campos Sales a fadiga de um cerimonial que. outra da Armada. E vai entrando. porque é a hora do almoço. de todas as outras organizações militares. onde há um palanque guardado por dois autênticos soldados do Exército vestindo grande gala. – Acham todos louvável a proposta-Pelágio. Todas. com o seu nariz iluminado a uísque. Diante da importância dos “representantes” que formam a “grande comissão inauguradora”. nele atravessando a bengala. além de ser cheio de indigestos discursos. um que mora no Hotel dos Estrangeiros. é feito numa hora imprópria. como se fosse uma espada. todos. E a “grande comissão”. – O orador e a vanguarda da “comissão oficial” incumbida de inaugurar o monumento – diz o Miguel Austregésilo aos cérberos do palanque presidencial. imediatamente. empregado nos Telégrafos. Põe uma barretina de jornal à cabeça e transforma a gravata. que traz ao pescoço. e vêem o sol pondo laivos de ouro no casario branco e nas calçadas. Miguel Austregésilo representará o Presidente da República. em massa. das de laço borboleta. não só a nossa ânsia de prestar ao grande herói uma homenagem de patriotas. Campos Sales. que cabeceia de sono. tem uma idéia gentil: – E se nós inaugurássemos. nestas condições. com tal açodamento. .

Pois você não vê que nós não temos público? Onde viu. bem com a de seus heróis. Dr. pára para ver de que se trata. que sobre as guerras holandesas de Pernambuco tem conhecimentos aproveitáveis. avançando para a balaustrada do palanque. pare. esse poleiro de águias plúmeas e implúmeas. para realizar coisa condigna. dois de seus alunos. entre os boêmios..] Maurício de Nassau. Quando Bastos Tigre vai recomeçar a sua oração é que se lembra como ignora. que. abordando os que atravessam a praça. Quando ele começa. pela praça o professor Ortiz Monteiro. Tigre e Miguel Austregésilo. nesse momento. Ingressando no pavilhão-de-honra. e por completo. .. formam uma multidão talvez um pouco maior que a “comissão oficial”. Lembra-se. você. o grande herói batavo a quem o Brasil deve o José Galinha relâmpago de uma civilização que. a dizer: Santos Dumont – Nós. Coça a cabeça. lente da Escola Politécnica. e.. porém. É quando Tigre lhe desfecha.190 Luís Edmundo na qualidade de representante da Guarda-Noturna da Freguesia da Glória. – Pare.. a escadinha do palanque e vai até o Lamas. Enfim. reconhecendo. a vida do grande Duque de Caxias. convidando-os a assistir à grande inauguração. iluminou a América. a história da Guerra do Paraguai. durante o século Desenho de Raul XVII. naturalmente curiosas. unidas a outras que chegam. Tigre toma posição. Vai passando. brada solenemente: – Meus senhores. Tigre. a oratória oficial. o bigode em riste e o olho um tanto acarneirado de cerveja. sempre acaba arranjando umas dez ou doze pessoas que. Ortiz Monteiro. inauguração de estátua sem povo? Desce. tranqüilamente. [Pigar ro. que começa assim: – Povo da minha terra. os “lamistas”. porém.. à queima-roupa. meu professor na Escola Politécnica. metida no palanque. Miguel Austregésilo inCaricatura do Malho terrompe-o. para saber a explicação de tanto berro..

grita logo um. Mas.. 40 minutos e Tigre não sai de Pernambuco. meus senhores.. tentando estancar a verbosidade do Tigre: – Basta. E estremece. a comissão.. arrancando de seu cinturão de gravata.. afinal. meus senhores.. em coro formidando! – Vivôôôôô! Não há música. vox Dei. mas o coro dos “lamistas” supre a ausência das charangas. a falar. os “lamistas” fazem evoluções patrióticas. o espadão de junco. a ação patriótica de Calabar. quase na fronteira da centúria XX – sente um vácuo. a gritar: – Inaugura! Inaugura! Vox Populi. esse grande Calabar? Um traidor para Portugal. desatado o laço da armação de pano. saciado de Maurício de Nassau. Passam-se. citando os Guararapes e o Monte das Tabocas.. do fundo do século XVII. começa. grita.O Rio de Janeiro do meu tempo 191 Está o homem no seu elemento. em torno à estátua do grande general. a figura do grande herói brasileiro surge para a eternidade da glória. Tigre disserta com eloqüência e serenidade. todos avançam para o monumento e. de carneiro morto: – E que foi. que ele desejava ver liberto da tirania lusa. cantando com alegria e fervor: . “Viva o Duque de Caxias!”. o povo. onde se encontra a figura luminosa do herói de Itororó. à luz franca do sol que já envolve a praça.. portanto. por sua vez. Cada vez que o orador tenta olhar. e todos respondem. para o Brasil. apenas mostrando o bigode em demasia arrepiado e um olho exageradamente triste.. de discurso! Inaugura! Inaugura! Inaugura logo essa estátua! Ora. porém.. um herói. a falar. Não larga a redingota de Nassau. E de cabeças descobertas. continua: – Maurício de Nassau. orador. De repente. povo. Pelágio. que já está cansado de tanta guerra holandesa. representante oficial da Guarda-Noturna da Freguesia da Glória.. É nessa altura que. agora.

confundindo alhos com bugalhos. após haver descoberto a direção dos balões. um delírio de festas na cidade.. das me lhores que visitam a Amé ri ca do Sul. ao descrever a 2ª cerimônia de inauguração. com rinque de patinação. sobretudo italianas. Olé! Há de se chamar Gonçalo. muito magro. muito apreci a das pelo nos so mundo ele gan te. tipo metido a literato. noticiou que o povo – pasme-se! – havia. Tomás Lopes Quando Santos Dumont aqui chega. na história. no dia seguinte. Mata aquela Ratazana. hino “lamista”. quase todos. como é de esperar. Desenho de Gil de França.. vasto parque de diversões no gênero Luna Park de Paris. logo. leva em sua companhia. que algumas vezes surge em companhia de Santos Maia.. é o rendez-vous obrigatório da melhor sociedade do Rio de Janeiro. entrava. que é dos mais atraentes e mais chiques en tre tantos outros organizados para saudar o grande brasileiro. muito alto. dos irmãos Aguiar. para . Os alemães que dirigem o Parque Fluminense organizam. habitués do aristocrático Parque. Na parte do Largo que demarca a linha da Rua das Laranjeiras está o Parque Fluminense que. feio e empregado na Alfândega. singularmente. O hino de Miguel Austregésilo. O mais interessante é que um jornal.. Os citados freqüentadores do Lamas são. Na noite desse memorável espetáculo...192 Luís Edmundo Há de se chamar Gonçalo. certo Luís Costa. descido pelos boêmios. provoca. no Lamas. no momento de se mostrar a estátua. Gustavo e Tomás. uma vez recomposto o pano das bandeiras. durante os primeiros anos do século. dançado e cantado canções patrióticas. um espetáculo. Rana Cataplana. a que foi assistida por Campos Sales e Roca. esplendidamente iluminado. e um ótimo teatro onde se exibem companhias de teatro ligeiro.

a passar pela figura do valoroso aeronauta. é. da companhia do outro. leva na cabeça o plano de penetrar no Parque Fluminense. na ocasião em que ele vai cruzando a praça. para isso. chegamos a pensar que a blague do aduaneiro consistia em apresentar o autêntico por um falso. O homem. Luís Paulino Desenho de Nem é necessário dizer aos porteiros: – Este Marques Júnior é o Dr. onde nunca vai por falta de dinheiro. Todos. o luxo de se revelar blagueur. por vezes. um homem que nada mais é que o sósia mais perfeito que Dumont poderia encontrar em dias de sua vida. o sósia do grande aeronauta. é apenas contrabando. logo. ingenuamente. partem do café. Trabalha. O novo Santos Dumont é. positivamente. são oito e meia da noite e os jornais que tratam do espetáculo do Parque dizem. claramente. Esse poeta aduaneiro. a atenção de toda a gente: – Viva Santos Dumont! – Viva o maior dos brasileiros! Quando o falso homenageado chega à porta do estabelecimento de diversões está cercado por mais de duzentas pessoas. valendo-se. cuidadosamente. de passagem. Santos Dumont. o seu cabelo partido ao meio e uma gravatinha marcando o centro de um muito alto colarinho de ida e volta. com o seu bigodinho curto. o reconhecem. numa chapelaria da Rua Sete. sem pagar. não sem soltar. dá-se. Seis ou oito rapazes. que o grande inventor fará sua entrada solene de nove às dez. logo. que se chama João Brasil. na verdade. esse estranho e pasmoso chapeleiro. . constatado que a aeronáutica. em escova de dente. E nessa noite. gritos que chamam. de assombrar.O Rio de Janeiro do meu tempo 193 apresentar aos companheiros da roda. que também usa cabeleira e pince-nez de cordão. a novidade que encontrara à porta de certa chapelaria do centro da cidade. quando se apresenta no Lamas. que se presta. com o jovem Dumont da chapelaria à frente. nele. Apalpado. como réplica física. Diga-se. logo uma avalanche de boêmi os sur ge dispu tan do as hon ras da sua com panhia e a hi pótese amável de entrar no Parque sem pagar. vê-lo. coisa tão perfeita que. em matéria de semelhança.

que não escapa a muitos metidos na blague. pelo Parque. A bilheteria começa a fazer.. O que comem e o que bebem esses boêmios! Nesse momento um dos alemães. será oferecer-lhe uns sólidos e uma champanhazinha. e de tal sorte. o seu grande negócio.. antes de ingressarmos no camarote de honra. Veuve Cliquot. que. ainda duvidando se o homem é ou não é. Luís Costa. é homem do maior apetite. Mostra dignidade. aplomb. dezenhor doktor. o vendedor de chapéus. são cercados por múltiplos garçons conduzindo pátenas cheias de sanduíches. largos e cerimoniosos. gozando o que.194 Luís Edmundo Os alemães do Parque. Os alemães dão. ordens no sentido de satisfazer o desejo do gênio aeronáutico. Exª o rei do ar. gelada. O Costa.. Brasil. afinal. Além disso. o autêntico.. gostosamente. grandes parasitas à boutonnière. num brinde um tanto tímido. imediatamente. que formam a comissão de recepção.. – Desforra-se o poeta. ao lhe falarem em ir para o camarote de honra. mantendo o homem das taças de champanha perto. Tudo para Sua Exª e os amigos de S. como em pastelaria. grande marca da época e altíssimas tulipas de cer veja loura. se possível. autêntica. E o que há a fazer. nos seus cumprimentos afetados. erguendo a taça. farta-se. improvisado em agente de ligação entre o homenageado e os incumbidos de recebê-lo e conduzi-lo até a porta onde funciona o teatro. em suas mais vivas predileções. a primeira volta. a glória da chapelaria nacional e o seu numeroso séquito. mas que faz rir. e champanha. a pé. saúde e muites lembrances e muites recomendatzons. de ar solene. acorrentado ao seu olhar magnetizador. representa bem o seu papel. de outra forma. O Parque a encher-se de povo.. . croquetes de camarão e de galinha. antes de terminar. um sanduíche em cada mão. aí. não poderia gozar. tanto em carne. louros e sorridentes. protesta logo: – S. afagando a miséria em que vive. e até um certo ar científico. Parecem bonecos articulados. Santos Dumont – diz ele – jantou muito cedo e muito mal. a todos. estão casacalmente vestidos. frios de toda sorte. porque termina assim: – Ao grande prezilerras. Exª o Dr. saudando às cabeçadas. saúda Santos Dumont. pães-doces.

porém. O povo. encontra-se o bando dos penetras e blagueurs: o Costa. saudando o grande vencedor da máquina de voar. um caso profundamente lamentável.. citando o inspetor da Alfândega. depois. que se vê empurrado para uma das famosas gôndolas que formam o mecânico brinquedo. No Lamas. Era. quando o Santos Maia. espécie de montanha-russa giratória. que os filhos beijem as mãos ao chapeleiro.. gozando a simplicidade do seu grande patrício. carregando com aquele Santos Dumont o pivot. alferes conhecido. sem pince-nez. fica logo dividido: uma parte achando graça e desculpando a farsa. mesmo porque o homem dos sanduíches já está em atitude de se ir embora. dá-se. nesse momento. outra tendo à frente o alferes ludibriado. e que roda bulhentamente. sentindo em ondas o vapor do champanha. que chega de surpresa. como manda. Do carroussel passa-se para o teatro. o sinal de um murro no olho esquerdo. ainda. ignorando a blague ali tramada pelos rapazes. Estão as coisas nesse pé. O Costa. pelo braço da função demostênica. um carroussel enorme que existe no coração do Parque... não só saúda num discurso violento e em palavras repassadas de patriotismo e entusiasmo o grande herói presente. em carícia. Difícil. no cérebro. para os farsistas.O Rio de Janeiro do meu tempo 195 O diabo é que o chapeleiro não tem o dom da palavra para responder à gentileza do alemão. com a sua meia-literatura. recordar detalhes. porque o homem chegou mais cedo e já está lá fora a discutir com os alemães.. A coisa complica-se. atira-o fora do camarote não sem berrar para o chapeleiro: – Fuja você. um castigo exemplar.. ciente da ocorrência. a reclamar. nesse momento. em companhia da senhora e dos filhos. Novo discurso do poeta aduaneiro. o verdadeiro Santos Dumont a discutir a sua identidade. É quando o Costa lembra que poderão dar uma volta no carroussel. faz um agradecimento rápido. arranca-o. o orador completamente esquecido da hora que corre e avança. furioso. Em meio a muita alegria. Certo oficial do Exército. preço . aos vivos aplausos do povo. interrompendo a mastigação. É um salve-se-quem-puder. com efeito.

saltou o muro do jardim do teatro.. a calça rasgada de cima abaixo. sem chapéu.196 Luís Edmundo da sua perigosa e condenável blague. repetida pelos estudantes. pelas estações da Central.. para salvar a pele. Essa pilhéria é. caindo em uma chácara dando para a Rua do Catete. depois. que transformaram um dos colegas em rei do ar. Quando se tem vinte anos. Cavalarianos da Polícia Desenho de Armando Pacheco . o qual vai recebendo.. das iras do alferes e de outros. fúria de um prego na ocasião em que o pobre. por onde passa.. as homenagens da multidão maravilhada. por ocasião da partida de Santos Dumont para São Paulo. o chapeleiro.

. é. canta em bacia de mármore ou granito onde peixinhos vermelhos nadam à sombra azul de amarantáceas alegres. nuas e brancas. por onde as carruagens passam. um casarão amplo. . . por sua vez. . Júpiteres tonantes. entre canteiros túmidos. que dois portões interrompem: um. . . . . com ruelas de cascalho ou areia. . outro. . trêfegos Cupidinhos de asa. . erguido em meio a um enorme jardim. Apolos e outros deuses notáveis do Olimpo. . com menos flores que folhagens e por onde espiam Vênus em cerâmica do Porto. . RESIDÊNCIA DO ABASTADO E SUA DESCRIÇÃO – CRIADAGEM – GRANDES SALÕES DO TEMPO – COMO SE DIVERTEM OS ELEGANTES DA CIDADE – MODAS – O PRÊMIO DE BELEZA DE 1901 – ESPETÁCULOS DO LÍRICO – CULTURA ARTÍSTICA DA ÉPOCA – ROMANCE DE UM CRISTO DE MARFIM PALACETE. Minervas de capacete. . carcás e flecha. . sombrio. .. a grande residência do começo do século. . largo. ao sol. . Capítulo 10 O palacete O PALACETE. coloridas. . plásticas e lustrosas. . Marca o limite do jardim uma grade esguia e prateada. quase sempre. Bacos. . Ceres. . . Um repuxo sonoro. . . que viçam. mais estreito. que serve ao movimento da casa e ao ingresso das visitas.

Há o “Nova Friburgo”. em Voluntários da Pátria. e o “Paranaguá”. os palacetes . à Lapa. um pardavasco pachola. em louça. quase sempre. sob vastos chapelões de carnaúba. Francisco”. Está quase sempre fechado. adquirido pelo Governo da República e cujo interior maravilhoso é de um acabamento capaz de rivalizar com os mais ricos palácios do mundo. tendo aos pés. Por vezes vêm os ladrões e roubam o cão-de-fila. o do Marquês de Abrantes. usando uma sobrecasaca cor de café-com-leite. um cão-de-fila. o “Carapebus” e o “Tocantins”. botas de cano com rebordo amarelo. em atitude cerbérica. o “Diogo Velho”. A lista completa alcançaria uns trezentos espalhados por toda esta cidade. geralmente. Atrás da casa enorme. “Figueiredo”.. Catete. “São Mamede”. o parque imenso. no Catete. apenas. o “Loreto”. Senador Vergueiro. próximo a Santo Amaro. “Cockrane”. ou a figura escanifrada de um moleque. “Pinto Lima”. em Botafogo. Em 1901 os mais belos palacetes ainda são os vindos dos tempos da monarquia. pressuroso que corre para atender aos que chegam e faz mover o largo portão de ferro de onde se dependura uma campainha neurastenizadora. que é. com um lindo e vistoso parque interior. jardineiros em mangas de camisa. onde se instala o Ministério das Relações Exteriores. regando. o palacete. Em São Clemente. à Rua das Laranjeiras. cartola.. e orelha atenta. “Barão do Flamengo” e “Gabizo”. a legenda fatal – Fidelidade. o “Itambi”. Não esquecer o clássico caramanchão de trepadeiras onde se conversa ou se namora como dentro de um bosque. cavando. pelas ruelas do jardim. em São Cristóvão. à Glória. perto. à Glória. no Largo do Machado.. o que pertenceu à Marquesa de Santos. à Praia de Botafogo. onde mangueiras e ameixeiras frondosas e amigas ramalham: a chácara. o “Mesquita”. no Catete. sedutor de criadas. o “Fialho”. “Mairink”..198 Luís Edmundo Junto a este último. a cavalariça e a morada do cocheiro. não raro de olho duro e revel. em Senador Vergueiro. o do “Itamarati”. “Assis Martins”. no mesmo sítio. literalmente forrado de aventais brancos. que não cansa de pular e de bater. o de “S. “Barão de S. Cornélio”. em Conde de Bonfim. Laranjeiras e Águas Férreas. Marquês de Abrantes. grande tocador de violão. de quando em quando. com sua horta verde. por exemplo. cantando. Como mostras de vida exterior.

moringues. em prata. na qual se dependuram algumas almofadas ou. esquadrias esculturadas. um relógio-cuco e mais uma eterna oleografia representando a ceia do Senhor. espécie de requerimento ao Divino para que ele não falte nunca de dar. lambris altos. mostrando fundos e costas de tapeçaria. de barro. e de onde se projetam candelabros riquíssimos. é importado. um pano de crochet. cópia da pintura de Da Vinci.. muito da devoção nacional. da Itália. Sobre as paredes. telas com molduras largas e douradas. bem nosso. pintados por grandes nomes da pintura do país. num abuso. por vezes. que domina os salões. com mesas elásticas enormes. num contraste violento. quase todo. Como característico. O mobiliário.. à casa. cadeirinhas doiradas e flébeis.O Rio de Janeiro do meu tempo 199 se arregimentam. pelos vãos de janelas abertas. em meio à reles e esboroante arquitetura da cidade. uma cadeira de balanço. o pão de cada dia. nesses salões de comer. austeras. forrados a vermelho. espantam pelo luxo interior: tetos de estuque. Palacete Carlos Rodrigues Desenho de Armando Pacheco . que se forram com panos de belbute caindo em franjas e sobre as quais se colocam vasos com pés de avenca ou samambaias viçosas. vitrinas e outras peças de mobiliário carregadas de adornos no gênero.. Vem muito da Inglaterra. da França. em regra. sobretudo. do tom de ouro. em geral. Essas residências. e. então.. em bronze ou em cristal. As salas de jantar são discretas. todas em mármore. destacados e solenes. ricamente emoldurada. mesas com incrustações de bronze novo. talvez. É o Luís XV. custosas salas de banho. com raros e custosos tapetes e cortinas. amplas bergères com panos de seda adamascada. E a manteiga.

vinte e dois criados. amplos. com a qual um homem já pode conversar e discutir.. Ainda se conserva. que as viagens constantes melhoram e refinam. que é o que se ocupa do dote. homens da horta. pelas tábuas de engomar. por exemplo. em Pernambuco. se está de costas. o verão. feio. fala vários idiomas e nas reuniões de família já não é. do irmão ou de um parente mais velho. como na época do açúcar. um par de chinelas de tapete sob o leito e um oratório de pau. do Colombo Clube. seja ao lado da mamãe. do Parque Fluminense. está arranjando casamento. jardineiros. mas companheira inteligente. Educam-nas em casa. A mulher já tem outra instrução. um pouco. e um Santo Onofre.. para o serviço de recados. Casa cedo. Não perde espetáculos . apenas.. que mora em São Clemente. que usa uma espécie de fraque feito com a própria barba. em Minas. para a limpeza dos assoalhos e dos vidros. como no tempo do ouro. têm sempre um indefectível cortinado de filó. habitué do Cassino Fluminense. arranja o casamento em Petrópolis. em geral. porém. onde passa. cocheiros. santo magro. pelos tanques de lavar. por causa do mosquito. quem possua mais. Pelas cozinhas. na arrumação da casa. moleques para copeiragem. elegantemente. em geral.. E. possui. É assinante do Lírico. a multidão de criados dos tempos da escravidão. As famílias tomam governantas inglesas e alemãs para seus filhos. E não mandam. das cavalariças. mas já sai bastante. Há. não raro. negros e negras. as filhas a internatos.200 Luís Edmundo Palacete que pertenceu à Marquesa de Santos Desenho de Armando Pacheco Os quartos de dormir. para isso contratando os mais afamados professores. com um Santo Antônio que. Ainda não sai sozinha à rua. Rui Barbosa. lá isso é verdade. o belo sexo que se expõe e agrada pelo palminho de cara ou pela graça da toilette.

de transformá-la em cidade maravilhosa. Barão de Quartim. na Rua do Riachuelo. atiradas por umas ruelas que cheiram a urina de cavalo e fígado frito. que jamais cansa de visitar. teatros brasileiros ou portugueses. como o Apolo. porém. inglesas ou alemãs. Os transatlânticos saem pejados de passageiros. Não freqüenta. sobre a lama e as pedras velhas da feia cidade Desenho de Marques Júnior de Mem de Sá. Rua da Constituição. o plano das reformas que haviam. o Recreio Dramático e o Santana. Paris. nas Laranjeiras. Visconde de Bebé de Lima e Castro Schmidt. depois de uma amável vilegiatura por lugares como Londres. em Laranjeiras. que se explica pela ausência. em Santa Teresa. Senador Vergueiro. italianas. espanholas. o Lucinda. teatros de plebe. Reginaldo Cunha. por Paris. Vieira Souto. no Pharoux. Com que tristeza aqui se desembarca. Rocha Marques Júnior Faria. Maurício Haritof. à praia de Botafogo. de ambientes capazes de interessar a uma elite. Conde de Figueiredo. em São Clemente. Roma. Adelaide Muniz de Sousa. em Botafogo. e ainda mais. por um público de nível intelectual pouco exigente e que funcionam em verdadeiras pocilgas. Francisco Pereira Passos. geralmente. praia de Botafogo. platéias for madas. Em 1901 Pereira Passos ainda não traAlfredo Varela çou. manchando com o seu casario esboroante e a massa de um poviléu esfarrapado e sujo. Contudo. onde o quadro bucólico retempera. em São Clemente.O Rio de Janeiro do meu tempo 201 de companhias francesas. embora trocando-a muito por Petrópolis. mais tarde. estão os de: Paulo Leuzinger. Heitor Cordeiro. O diabo é a volta. Abstenções siste máticas. Oscar Varady. Madri ou Berlim! Como fere a vista e ofende os brios do patriota e o cenário desagradável da cidade abandonada e triste. Visconde Ferreira de Almeida e Desenho de João do Rego Barros. infames casas de diversões. Há ocasiões em que se torna necessário tomar passagens como muitos meses de antecedência. Germana . em Voluntários da Pátria. Augusto Weguelin. Viaja-se. o mais lindo recanto criado por Deus sobre a face da Terra! Entre os grandes salões do Rio. nas mesmas casas de diversões. Espairece-se. uma sociedade elegante sempre existe.

Roberto Gomes e Raul Régis de Oliveira. Humaitá. Paulo e Chico Passos. Italina Bezzi. Vera Roxo. numa vivenda admirável e onde. só recitando em italiano. Félix Cavalcanti. muito embora outros. nesses esplêndidos salões. em Marquês de São Vicente. com festas estupendas. Não esquecer o da residência de Dionísio Cerqueira.. Fernando. causeur magnífico. e figura central e viva. que depois é presidente do Estado do Rio. apolíneo. Entre os homens. alegre. cantam e recitam: Gustavo Van Erven. e do mais puro. diseur admirável. Ângelo Neto. Quando recebem em sociedade. Guillobel. entre outros: Arrojado Lisboa. Leonor Joppert Bastos Cordeiro. Elizabeth Wright. Raul Veiga. Cândida Kendall. um palco nesse gênero. Astréia Paim. na sua casa. Gustavo Van Erven. por exemplo. como o duque d’Aumale. Pereira Passos. Kropf. Augusto de Carvalho. Tobias Moscoso e Meira Pena. em São Clemente. Em algumas residências elegantes organizam-se espetáculos teatrais. Elvira Gudin. os Guinles. o “Emanuel dos Salões”. Luís Guimarães Filho.. Domingos Braga.202 Luís Edmundo Barbosa. louro como uma libra esterlina. ainda existam. Léu de Afonseca. Mimi Machado. Fernando Durval. igualmente. João Lopes. Henrique de Holanda. fulvo e alto. dizem versos. São estes os salões que podem ser citados como os de maior projeção no tempo. Dinorah e Sara Rasteiro. sabendo declamar. estes dois últimos sempre muito amigos. almoços e jantares ao ar livre no quadro maravilhoso de uma natureza sem igual. constrói. o belo Augusto. que mora em Todos-os-Santos. levando o sentimento da moda ao excesso. Pinto Lima. muito unidos. Ataulfo de Paiva. cantor. cinqüentão mas ainda muitíssimo elegante. pela época. e cantam: Bebé de Lima e Castro. Herédia de Sá. Burle. Simões da Silva. siamês do Ataulfo. Mary Sayão. São leões da moda. nas Laranjeiras. pianista. Matos Fonseca. Adalberto Guerra Durval. quebrando monóculos de cristal. Juvenal Pacheco. O Conde Diniz Cordeiro possui. seu irmão. muitos outros. Adolfo de Azevedo. cuja elegância já vem dos tempos da velha monarquia. Rui Barbosa. muitos. um teatro de amadores. Nair de Tefé. gentleman perfeito. . Humberto Gottuzo. “dignificador dos subúrbios”. costuma prender seus convidados semanas inteiras. onde representam. por vezes. como poucos. membrudo e forte. Henrique Marques de Holanda. comunicativo.

como as usadas durante a revolução francesa e. superiora do Convento de Santa Teresa. o sapateiro oficial dessa roda. feitas de castor. autor da famosa poesia “O Sapo e a Estrela”. casa-se. como pela sua alta distinção. ressurgidas em 1830. como astro. gravata de plastron. a cartola. muita e boa. Cristina Desenho de Armando Pacheco Moler. que não a contrariou nos seus desejos de ser esposa de Jesus. musa inspiradora de um grande poeta. e com muito espírito: . por assim. Bebê. mas. a sobrecasaca. Outra de grande formosura é a filha de Capistrano de Abreu.. Alice Monteiro. porém. Josefina e Germana. todas. Quando ela se faz monja. depois. O Raunier e o Lacurte são os grandes alfaiates de fama. por um colete de fustão branco. algumas afuniladas. colarinhos muito altos. que é bela como é espirituosa. o grande bloco. Almeida Rabelo e Vale vêm já se impondo. às vezes. dizer. A moda. Muito bonita é também Bebé de Lima e Castro. Lola. ainda. coletes de seda de várias cores. onde o escritor figura como batráquio e. os da Chapelaria Watson. É por esse tempo que surgem os “pingas”.. Orlando Teixeira. No verão o homem ainda usa roupas pesadíssimas. o pai. de tal sorte acabando Raquel Belo. as Pitangas. o fraque fitado. formosuras fulgurantes. a Palacete Montigny Cosme Brito. Stela Wilson impressiona pela sua beleza. Chapéus. Zaíra Muniz. Bebé Fontes. O Incroyable é. dura pouco. de São Paulo. diz apenas aos seus amigos. Elegância e formosura. não obstante. Usa-se. A elegância da mulher é notável. depois. aí está. na família Belo. O colete de sarja ou de seda é que se substitui. umas famosas meias-cartolas. Raquel Palhares.O Rio de Janeiro do meu tempo 203 Claro que ainda se esquece muita gente. belas são as irmãs Carneiro da Rocha. depois. Há ainda a citar: Italina Bezzi. Maria Antônia Carapebus. Os mais ousados usam uma faixa de seda em lugar de colete.

Outras senhoras devem ainda ser lembradas pelos seus grandes dotes pessoais: a Baronesa de Santa Margarida. famoso concurso de beleza. abre. também se faz freira. porém possui uma grande distinção pessoal.. Essas. Sal vador San tos. em quinto Maria Garcia. Eleonora e Brasília. Oscar Go dói.. Madames Pereira Passos. bela. que se apaixona por um dos Guinles. Belas são as irmãs Parkison. Varady. E é elegantíssima. que. lentamente vão-se casando. se casa com Alfredo Rui Barbosa. e aos poucos se transformando em austeras mães de família. até 1905 e 6. Desenho de de mocidade e de vida. Rui Barbosa. Antônio Azeredo e Guillobel. jornal que então se publica na cidade. Mada me Varady não é. outrossim. Em segundo lugar coloca-se Diva Augusta de Carvalho. as senhoritas que. em terceiro Odete de Carvalho. ter o Cristo na família! E logo como genro! Antonieta Paz. Guil lo bel. em quarto Alzira Guimarães. Heitor Cordeiro.204 Luís Edmundo – Quando pensei. Nicola Tefé. A Rua do Ouvidor. Heloísa Figueiredo. Viscondessa de Schimidt (Tatá). depois. para saber qual a mais bela das cariocas. quando não Henrique de Holanda Cavalcanti vão levar ao sepulcro dos claustros um pouco de graça. Marques Júnior Devemos citar. Antonieta Godinho. em 1901. Antonieta Saldanha da Gama. Pinto Lima (Piúca). Outras belezas classificadas: Viúva Bezanila Desenho de Marques Júnior Zilda Chiaboto Desenho de Marques Júnior Maria Carapebus Desenho de Marques Júnior Brasília Parkison Desenho de Marques Júnior . eu. Passos de Castro. entre as já senhoras: Luísa Sodré. É tipo. Cavalcanti (mãe de Félix Cavalcanti). O primeiro prêmio é atribuído a Marina Braga. positivamente. de rara formosura.

dos nanzuks. Alice Maia. que se arrepanham com mão direita. quando soltas. até provocando a morte. Lili Sabrosa. com isso. das mittaines. ao borzeguim de botão. Maria Pia Carqueja Fuentes (a linda Maria Pia!). mas. das nobrezas. frutos e fivelas. Lelé Araújo. o pavoroso instru men to de su plí cio feito de lona. Lília Pullen. Evangelina Ramos. seis saias. dos suraths. indispensáveis como complemento de uma toilette. os pés. que é feito apenas com intuito de saber qual a carioca mais bonita no primeiro ano do século. dos pongés. espera! Estou bonita? Pois então aperta mais! Estouram. Vejamos. escondendo. como o aparecimento do abotinado e até do sapato para passeio. defor mando-o. Começo da reação à botina. vem depressa. Amelberga Rocha. dos molmols. durante cerca de oitenta anos. Desaperte este colete. comprometendo. quatro. e. Armanda de Oliveira. aço e barbatana de baleia.O Rio de Janeiro do meu tempo 205 Maria Emília Ayer. cheios de plumas. o espartilho que faz a cinturinha de vespa e que sorri da voz avisada dos médicos. Dinorah Rasteiro e Hercília Carvalho. comprimindo-o. à bota-de-atacar. Vera Van Erven. cinco. que fazem o encanto da vista dos outros. Vem correndo. Violeta Costa Couto. Perfumistas do tempo: Gallet. fitas. que. dá tantos ais. Antonieta Gomes Pais. Tempos das saias de baixo: três. viveu cingindo o busto da mulher. Maria. do conselho dos sensatos e até das zombarias. dos leques. flores. dos chapéus enormes.. o que há em matéria de moda feminina. dos adamascados. que eu temo Estourar como um foguete. dos failles. agora.. mas como rojões de lágrimas. – Ai. muitas vezes. das casas. Tempo das laizes. tempo das meias rendadas no peito do pé. enfermando-as. Houbigant e Deletrez. enfim. – Oh. Está em moda o es par ti lho. – Nhánházinha está tão bela! Mas. . dos motejos e da sátira de uma literatura que nunca o defendeu. todas muito compridas. que se equilibram sobre cabelos em coque e que se prendem por compridos estiletes de metal. vem. Não há preferências sociais no concurso. vísceras importantes.

a polca. Foi no Cassino que. Chesnau e Doré. porém. Madame Guimarães. aqui. Um carnet regula os compromissos das danças. Cabeleireiros: Schimidt. a ele se dirigiu. a mazurca. desrespeita-se o carnet. Sapateiros: Ross.. Palavras sacramentais com que se iniciam os rodopios da velha Danúbio Azul. porque todas as senhoras por ele tiradas para qualquer contradança “já tinham par”. quando fora dos seus salões. É no Cassino Fluminense. . Vem dos tempos da Família Imperial essa instituição famosa e por ela muito freqüentada. o schottisch. Dreyfus. – V. Exª dá-me o prazer desta valsa? – Com todo o gosto.206 Luís Edmundo Heloísa Figueiredo Desenho de Marques Júnior Raquel Palhares Desenho de Marques Júnior Eleonora Parkison Desenho de Marques Júnior As boas costureiras chamam-se. Rebouças! Teria dito? Em 1901 os bailes da velha sociedade. intimamente. que tinham desmerecido. na primeira valsa. retomam o fulgor e o luxo de outrora. Chapeleiras de fama: Douvizy e Barandier. tendo observado que o grande Rebouças. que a nossa sociedade se reúne. “não encontrava” com quem dançar. o Conde d’Eu. um dia. Estoueight. da Patinadores ou da Sobre as Ondas. à Rua do Passeio. Às vezes. As noites do Cassino são feéricas. Cadete.. Dumorthout. a quadrilha. Dança-se a valsa. mestiço de talento. dizendo: – A Princesa Isabel terá um grande prazer em tê-lo como par. durante o primeiro decênio da República. Luveiros: Cavanelas e Formosinho. um tanto. Dr. As toilettes deslumbram em meio às luzes e aos adornos de um salão que ainda é dos maiores da cidade. Incroyable.

os leques. bufando de calor. o cabelo completamente derrubado sobre a testa. apenas. a elite dos tempos de S. ouvindo as damas que fazem mover. – Quando subirá para Petrópolis este ano? – Em fins de dezembro. mas não muito. percorridos com delícia. Quando a música cessa. talvez. A Tijuca e o Silvestre são lindos passeios. com sua ridícula entrada forrada de espelhos. diluída ou conjugada à elite republicana do Sr. vindo da enseada.. como dizia a Baronesa de Canindé. a dois de fundo. Gustavo da Silveira – V. aproveitando a valsa: – Não. solenes. não existem. ainda contunde a pituitária do transeunte? ∗ ∗ ∗ Nós vamos encontrar o Teatro Lírico. já sem brilho. logo.O Rio de Janeiro do meu tempo 207 O cavalheiro. que podem ser. O teatro. está mais velho. mas. mas. esperando o convite da pragmática: Mme. Dança. Há trechos à beira-mar... por essa época.. Pelos . como a Praia de Botafogo. Os caminhos são péssimos. Tem melhor técnica de cantar. Às corridas vai-se. mal lustrada e requerendo aposentadoria. nervosamente. molhadíssimo. com uma escada de honra mostrando marcas autênticas de cupim. Não possuímos passeios agradáveis onde se possa espairecer umas horas. o colarinho. de difícil acesso para as carruagens que ainda são à tração animal. já devolvido ao seu antigo esplendor. passeio obrigatório dos pares. E banalidades oportunas: – Gostou da Berlendi? – Prefiro a Palermini. mais feio. Pedro II. como fazer se as ro das dos cu pês ou dos landeaux dan çam na anfractuosidade dos pedregulhos desalinhados e o zéfiro pútrido. a poeirada é enorme. de braços dados. ao tirar a dama.. dobrando no cachaço. prefiro um sorvete de abacaxi. Majestade. Campos Sales. tesos. Dr. parques ou jardins propícios à elite. oferece-lhe o braço. o Sr. Os cavalheiros dizem essas coisas batendo com o lenço de linho num rosto porejante de suor.. Exª aceita um cálice de licor? – Desenho de Marques Júnior para responderem. D.

nota-se que o teatro já começa a ser pequeno para a população de uma cidade que continua a dobrar. – Oh! Gor do. onde se instala a estudantada. espectadores elegantíssimos. Palacete Bahia Desenho de Armando Pacheco No salão do espetáculo o mesmo luxo de toilettes. sem o seu espectador. do trote.208 Luís Edmundo corredores mal-iluminados a bicos de gás. lembrando tortas e estreitas vielas mouriscas. a platéia com cadeiras de braço confortabilíssimas. da graçola. vastos camarotes. Apenas. com lugares até para dez pessoas. cobertas de jóias e escandalosamente perfumadas. no entanto. conservando a tradição da assuada. agrada pela comodidade. Assentos amplos.. Até as galerias. da chufa. ausência absoluta do que se chama “lugares cegos”. uma cadeira ou ponta de galeria. A sala é feia e velha. Não há uma frisa.. Quando dão pelo homem Astréia Paim Desenho de Aires e pelo vidro? . que conduzem à platéia. uma varanda. a mesma grandiosidade de aspecto e a poupança de outros tempos. Apenas. são amplas e agradáveis.. os homens de casaca. Praia Grande! – Vai-se rifar o magricela da fila C. um camarote. verdadeiramente britânica. cruzam. ainda são muito irrequietas e gritonas. senhores em grande decolleté. mas além de uma acústica magnífica. tira a mão da ca reca! Ca belo não cres ce puxando!. sempre muito elegantemente posto. de vinte em vinte anos. – Senta.. que não acaba de limpar o monóculo. que vem de tempos que lá vão. regularmente. essas mesmas galerias.

outro dia. Um dia. ficou! Desenho de Marques Júnior Lá está ele! Lá está! Mentira! Não está. de qualquer forma. O comendador não teria tido. Vai-se metendo por debaixo da cadeira! Lá vai ele! Ora essa é muito boa! Cebolas. a procurarem. o homem que se esconde. dentro de um saco de violoncelo.. Nos intervalos o homem.. jamais. vítima das ensarilhadas galerias. durante uma temporada. metido a elegante. encolhendo-se todo. porque lá vai vaia! E mais outro: – Está querendo furtar-se à nossa vista. não faça isso! Gargalhadas. não faça isso! – Cebolas. é. Um dia “vêem-no” se esconder. E. afinal. organizam Marina Braga prêmio de beleza em 1901 uma farsa interessante. fugindo às vaias. a coragem de ficar. em peso. assobios! E os da platéia. porém. na orquestra. que acaba. é “reconhecido” e apupado pelas irrequietas e bulhentas galerias.O Rio de Janeiro do meu tempo 209 – Olhem só a casaca do barbadão que está passando o lenço no nariz! O defunto era mais gordo! Certo comendador Guimarães... que pusera o disfarce capilar só “para fugir ao apupo”! – É o Cebolas! Lá está ele. Nem assim. outro estudante. Cebolas é um sujeito de cavanhaque na linha dos camarotes de 2ª classe. particularmente. quando descobrem o homem. – Comendador das cebolas! – gritam os rapazes das galerias. por só entrar para a pla téia depois de começar o espetáculo e saindo mal o pano desce. Cebolas acaba por não aparecer mais no teatro. percebendo os rapazes o manejo do comendador. debaixo das cadeiras. hoje. gritos. Um deles grita: – O comendador das cebolas. a rapaziada esquece Cebolas. o de cavanhaque! . num intervalo. dando ao público a ilusão de que se diverte com o homem: – Lá está ele e tonto porque o descobrimos! Ó Cebolas! Foge.

de segunda. tanto de seu espírito como de sua cultura. com a Carelli. e uma em première – Saldunes de Leopoldo Miguez. bem como outros objetos de arte e de valor. entre casacas. rios de dinheiro! Em 1902. a porcelana de preço. que canta a Boêmia. onde se pratica o torneio da frase entre ademanes e sorrisos. de Puccini. 5$. cadeiras de segunda classe. todos dessa . Demitresco. Muniz de Aragão Embora um tanto isolada da vida prosaica e Desenho de Aires reles da cidade comercial. o bibelot raro e antigo. entre outras celebridades. Caruso. o móvel de estilo. duas em reprise: Guarani e Schiavo. Nesse ano levam à cena três óperas brasileiras. ambientes superiores. depois. e Zanatello. 60$. que aqui estréia com Rigolleto e canta. Ardito. fauteil de orquestra e de varanda. 40$. espirituais. onde avultam. a Livia Berlende. no Lírico: frisas e camarotes de 1ª classe. todo esse mundo elegante vive uma vida elevada e digna. E ganham. temos a Darclé. Trá-los o empresário Milone. A exposição realizada. que nos traz a Stinco Palermini. em 1903. vêm sempre ao Rio de Janeiro. Os salões não são. galerias. mas. Frederici e Didur. apenas. As grandes vozes do mundo. de Carlos Gomes. Nos anúncios do dia 26 de setembro são estes os preços das localidades. a Tosca. de bronzes de nome. a Lina Cassandro. pagam o aluguel do teatro que não é do governo numa média de conto de réis por espetáculo.210 Luís Edmundo Em 1901 o grande empresário é o Sansone. Inocente. enfim. finas e estudadas cortesias. pelo Centro Artístico. 12$. cenáculos de polidez e de bom-tom. assim mesmo. artisticamente decorados. em 1898. sobrecasacas de bom corte e amáveis. ao lado de telas de mestre. 3$000! Convém observar que os empresários. fazerem-se aplaudir. Anselmi. Na regência da orquestra. por essa época. assim como os catáloFamília Tefé Desenho de Aires gos de leilões que possuímos.

A existência do Centro Artístico. são. uma bela galeria. que eram escritores e jornalistas. pelos meios que a oportunidade aconselhasse. para sempre desaparecidas. Morales de los Rios. por aqui. Eugê nio Gudin. Alberto Nepomuceno. João do Rego Barros possui grande quantidade Desenho de de quadros. Pradilla. o retrato de Bobadela. pela Arte. obra-prima do salão do arquiteto Bezzi. Ubaldino do Amaral possui ótimas telas.B. a coqueluche dos amadores desse começo de século. da autoria de Rina. está na galeria de João Alves Mendes da Silva. João Lopes Chaves. A galeria do Barão de Quartim passa por ser uma das melhores da cidade. outras. havia nesse tempo. em meio a cavalheiros de poderosa projeção social. Augusto Veguelin. como o famoso Rembrandt. Veyrassat. Ziem. em casa de Félix Durtain. entre os artistas de artes plásticas. o retrato de D. Os pintores da moderna escola. Coelho Neto. PeMarques Júnior dro I. mármores da melhor procedência. depois. nas Laranjeiras.A. Excelente pinacoteca é a de Luís de Resende (ofertada. Alfredo Beviláqua e Artur Napoleão. porém. E já que falamos no Centro Artístico. Honório Ribeiro possui um Martírio do Bispo de Verona. no Brasil – e que não teve a vida das rosas de Malherbe. fornecem as melhores provas do amor e do acatamento que. Rodolfo Amoedo. com os seus Fellipo Carcano. Morales e Marcini. Chapot Prevost. entre os músicos.O Rio de Janeiro do meu tempo 211 época. Luís de Castro.. Leopoldo Miguez. umas transferidas. Renolló. Dal Oca Bianco. para as galerias da nossa E. Teixeira da Rocha. por si só basta como índice dessa mesma cultura que se criou à revelia das influências subalternas de uma cidade de mercadores incultos. atribuído a Domenechino. e de um Governo perfeitamente desnacionalizado e displicente. por Debret. convém lembrar que à frente dele se achavam nomes como os de Olavo Bilac. sobretudo franceses. Bernardelli e Girardet. como talvez se pense –. favorecer e dignificar o gosto pelo Belo. Willic. Fábio Ramos possui quadros de Vinet. sobretudo os franceses. Em grandes salões transbordam as telas de mestres antigos. que é uma maraHortência Rio Branco vilha. que se propunha. obras de arte. . Henrique Marques de Ho landa. os italianos e os espanhóis. o Barão do Catete.

a de Henrique Baiana. a de José Carlos Figueiredo. Augusto Weguelin. José Carlos Rodrigues. Aurélio Figueiredo. a de Calmon Viana. Artur Azevedo. Outras? Ei-las: a do Visconde de Schmidt. a de Luís Rafael Vieira Souto. a de Filinto de Almeida. Millet. pouco mais ou menos) e restaurados por Veríssimo do Porto. a de Inácio Porto-Alegre. os seus Vinet. a de João Evangelista Viana. à Escola de Belas-Artes). a de Júlio Delaje. a de Insley Pacheco.. ar rancados à velha Sé de Coimbra (1535. João Alves Mendes da Silva. que são doze maravilhas! Outro notável colecionador é Antônio de Figueiredo. a do Barão Homem de Melo. São ainda colecionadores do gênero: João Alves Mendes da Silva Ramos. a de Jerônima de Aguiar. a de Fábio Ramos. a de Augusto Weguelin. Desenho de Marques Júnior Numerosos colecionadores de móveis antigos e objetos raros. com Sorolla.212 Luís Edmundo depois. Júlio Delaje. Mignar.. possui ainda. a de José Carlos Rodrigues. Honório Ribeiro. São ainda colecionadores de móveis: João Viana. Condessa de . a de Francisco Pereira Passos. a de Antônio Azeredo. M. Luís da Cunha Feijó. Cabanel. a de José Avelino Gurgel do Amaral. Augusto Weguelin. a do Visconde Taunay. a de Francisco Ramos Pais. Antônio Azeredo. a de João Duarte. Calmon Viana. com um Greuse admirável. entre eles. comprado no leilão Portalis. Francisco Pereira Passos. ao lado de peças admiráveis. a de Artur Napoleão. os seus Ziem. a de André de Oliveira. o Imperador D. João Viana. doze painéis esculpidos em estilo Luís XIII. La jeune fille à l’agneau. Sampaio Viana. a de Maurício Haritoff. Pedro I. a de Adalberto Faria. possuidor de vários móveis que pertenceram ao palácio de São Cristóvão. com os seus magníficos Henner. Entre os mais importantes colecionadores de cerâmica estão: Barão do Catete. Visconde Ferreira de Almeida. Carlos Rodrigues possui. além de uma bela coleção de quadros. a do Barão de Sampaio Viana. uma notável coleção de gravuras e águas-fortes. talvez a melhor do Brasil. Visconde Ferreira de Almeida e Viscondessa de Tocantins. Cunha Vasco. um famoso piano de armário com marchetaria de bronze e as armas de S. Leon Morand e Filinto de Nícia Silva Almeida. a do Visconde Figueiredo.

José Carlos de Carvalho. José Carlos de Carvalho. Honório Ribeiro. José Carlos Rodrigues. Con des sa Tocantins. Vieira Souto. Barão do Catete. João Rego Barros. Custódio Veloso Laje. João Viana. Honório Ribeiro. Mendes da Silva. Francisco Pereira Passos. Nuno de Andrade Prestes. A. Vieira Souto e Francisco Pereira Passos. Cunha Vasco. Colecionadores de outras curiosidades artísticas são. Auré lio Fi gueiredo. Cunha Feijó. Barão de Sampaio Viana. desDesenho de Aires lumbrado o visitante. João Viana. Visconde Ferreira de Almeida e Salvador Sereno. Aurélio de Figueiredo. A valsa Colecionadores de tecidos e bordados e Desenho de Calixto rendas: Condessa Tocantins. Na Exposição Retropectiva do Centro Artístico. Desenho de Marques Júnior em geral: João Viana. Calmon Viana. Madame Otoni Colecionadores de bronzes e de metal. Vieira Souto e Júlio Delaje. João Alves Mendes da Silva. Barão S. A mais bela e a mais rica coleção de porcelanas é a de Oton Leonardos. Francisco Pereira Passos e João Viana. Barão de Sampaio Viana. Francisco Pereira Passos. já havia. Alves de Brito. com as suas porcelanas e suas . Cunha Vasco.O Rio de Janeiro do meu tempo 213 Tocantins. em Sanches Pimentel nove lindas vitrinas. Aurélio Figueiredo. Barão do Catete. Barão Mendes Totta. Madame Labat. Barão do Catete. Júlio Delaje. Fábio Ramos. Júlio Delaje. ainda. no ano de 1898. Insley Pacheco. Fábio Ramos. o Barão Sampaio Viana. Se bas tião de Pinho. a coleção de J. Jóias e leques e bibelots colecionam: a Condessa de Tocantins. Francisco Pereira Passos. João do Rego Barros. Leopoldo Miguez. Ferreira Araújo. Leo pol do Miguez e Ave lino Gurgel do Amaral. Joaquim. Colecionadores de vidros e cristais: Barão do Catete. Leopol do Miguez.

. observando. existiram dando interesse e fulgor à nossa vida social. das 365 portas da igreja de Santa Sofia. porque muitos foram eles. está um Cristo pequeno. logo. os atribuídos e Benevenuto Cellini. engalanado e em festa. . cantando. tem uma plangência singular. seria. E os romances dessa sociedade? Ora. Nele Madame pousa o olhar piedoso.. blandiciosamente. o preceito cristão da Roma papalina. às quais se misturavam estatuetas. soluça um piano Pleyel.214 Luís Edmundo jóias. trêmula e assustada.. A um canto do salão. um tanto fastidioso. de olhos acarneirados. ela atônita. E de sua voz. todos de inestimável valor. em sua residência. pendente da parede. É quando Mefisto. diz-se que tem o dulçor penetrante de seus olhos profundos. Ele enlevado. quando canta. da escola de Dipoene e de Sicione. É o coup de foudre. inebria-se e quando terminado o melíssono chilro. Não há quem mais loas cante a Nossa Senhora no coro das igrejas. trêmulo. camafeus. quem mais se confesse. rigorosamente. Madame é piedosíssima. repete com freqüência. a Dürer. medalhas. Ao fundo da sala enorme. Nessa noite a romanza de Tosti que ela.. O político. porém. a voz de Madame. buscando salvação. Madame é linda. beija-lhe os dedos.. em sociedade. terno e prazenteiro. que se ergue. depois disso.. A flecha certeira de Cupido. Fala-lhe da criselefantina e de Bizâncio. ele e ela conversam... de marfim. cheios de inteligência e de virtude. A soirée vai em meio.. o orador da Câmara. a João de Bolonha.. grande talento tribunício – recebe. entre nós. uns grandes olhos escuros e meigos. em Constantinopla. como que modulada em seda. Registrá-los em série completa e justa.. langues. miniaturas e mil outros objetos de arte. Sente Madame a brasa daquele lábio na sua mão aveludada e fria e quase desfalece de emoção. a acariciar as almas. comungue. bibelots.. romances. num transporte que a todos impressiona. toma a figurinha ebúrnea que junto a ambos se coloca e põe-se a discorrer sobre a arte do marfim. sempre.. Vem dos tronos de Salomão e de Penélope. estático. afinal. Junto ao lugar em que se acham. N. o casal L. discute Jesus de marfim. Tantos! Um deputado moço e belo. e.

entre as jóias que ela deixou. Madame. guardando a prenda.. Doutor! Acaba. Acredita-se que vá. acabam de desaparecer misteriosamente. . Sei bem! Cristo. em favor da esposa abandonada. como ela.. feliz! O marido. ela – deixando sobre a secretária do esposo.. Passam dois dias e pelos quatro cantos da cidade voa esta história. O Cristo. na verdade.. nunca! Ele que é pai. E por sinal que continuando a Desenho de Aires não fazer milagres. Que ela o guarde como lembrança daquela romanza que cantou. Não me abandonará. tonta. – O Cristo de marfim não apareceu na secretária do marido. carrega dentro do coração esta esperança risonha: Cristo estará comigo. tem confiança na alma cristianíssima da mulher. é bom e é forte.. assim. Que os levou um navio da Messageries Maritimes.... Cristo não abandonará a quem. – E o Cristo? – perguntaram todos. também. Sr. São todos. E pensa bem. papéis.. e N. que assiste a tudo. daquele minuto prodigioso que ele não esquecerá jamais. – Ora. E até ela. porém abandona-a. dinheiro. que ficou. os Cristos de marfim. Acaba ofertando-lhe a ebúrnea imagem do Salvador.O Rio de Janeiro do meu tempo 215 Numa rajada eloqüente e brilhante vem até os artistas da matéria nos séculos XVII e XVIII... daquele primeiro encontro em seu salão. Ele... objetos. ao deixar a casa do deputado. essa! Uma prenda tão rara e tão custosa. também Gabi Coelho Neto embarcava. depois de se haver despojado de todos os bens que possuía. raciocina. porém. até as mais insignificantes jóias que possuía. que é contada de ouvido a ouvido: – X.. como único objeto de valor na corbeille da raptada. Não sabem fazer milagres. por ele vive e se devota e sacrifica. Não me abandonará. saberá defender-me. que é pai. E protetor das almas puras. Diz-se ainda que tomaram rumo da Europa. enlevada. E no Cristo..

. HISTÓRIA DE TODOS – DE CAIXEIRO A SÓCIO E DE SÓCIO A PATRÃO – COMO SE TRANSFORMA UMA POMBA EM ABUTRE – MORADORES DO CORTIÇO – TIPOS CURIOSOS – O ITALIANO DO REALEJO E O SEU MACACO A RUA que os poderes públicos desprezam e a Repartição de Higiene olvida e desampara. em caracteres apagados.. . velho. . . . com a sua lanterna de ferro e vidro. A SUA LOJA E A SUA VIDA – HISTÓRIA DE UM. depois de um muro acaliçado. como num arabescado de hieroglifos. . logradouro onde o capim e a tiririca viçam escandalosamente. Capítulo 11 O cortiço O CORTIÇO – SEUS EXPLORADORES – O VENDEIRO. à benda da esquina. suspensa ao alto. Antônio Guimarães. . . está o portão do cortiço. ao lado de frases ignóbeis. . rude e desmantelado pelo tempo. . a descascar pelos rebocos e sobre o qual o garoto vadio traça. . . . ainda se pode ler. . . . . . . desenhos de anatomia impudicas. numa intenção de anúncio: Vila Nossa Senhora do Bom Jesus de Braga. . . mais este informe: Tratar com o Sr. . e a sua tabuleta torta onde. . . . E abaixo desses dizeres.

que neste recanto da América o sol é mais intenso. o que serve uma genebra ao freguês. a vida mais farta e o futuro melhor. O saco é pobre. porém. todas elas.. frio. confiante e tranqüilo. A sua história é igual à de quase todo aquele que. Cabedais grossos. leve buço e ar melífluo. canonizado em vida. História triste. deixa que ele o conduza e o encaminhe até nós. E seguras. como num pedestal. quase à escovinha. o que é melhor – consciência de uma mentalidade sem par. O coração. na terra mirrada e pobre onde nasceu. aqui chega. negro. com o seu cabelo rente. Os seus caixeiros. – Armazém Três Hemisférios. é cheio de alegrias e doçuras. mas tem centelha. também. e. O sofrimento fê-lo humilde. policiando a caixeirada ativa. para sempre. um dia. Por isso é impermeável a sugestões e a conselhos. Está podre de rico.. atento... Bizarra interpretação das porções de uma esfera justificando velha rivalidade comercial. a cara por lavar. pela resignação e pela dor.. porque são. Homem de idéias próprias. saco às costas. pequeno e vazio.. Merece simpatia o meninote e inspira compaixão. uns três simpáticos. descrença e fome. como o pai. vindo de Portugal. O resto são histórias. ainda criança. aparafusadas no cérebro. na gleba ingrata. Pobre pai! E pobre criança! Havia na terra deles um poeta que cantava assim: . o primeiro. Rico de experiência. a sua bochecha corada e as suas tamancas de couro cru. Guimarães & Cia. e o pai lhe diga. em mangas de camisa e de tamancas.. o lápis atrás da orelha. “Três”. trepa para um navio. é o que é mesmo. “Dois” é o da outra esquina.. Porque sofra. debaixo de uma sobrancelha que é um caramanchão. a barba por fazer. Vejamos o Manuel da Pavoa. dessorando autoridade e importância. É bem um tipo de marçano da época. a descer em bico sobre a testa. Bom já era. Não sabe ler nem escrever. e. ágeis rapazolas de 12 a 16 anos e que ele explora como três veios de ouro.218 Luís Edmundo Antônio Guimarães – sucessor de Ferreira. ao fundo do balcão. O que ele acha que é. O Guimarães é o que acolá está.

Quando o pobre imigrante ingressa na sórdida vendoca onde há de perder. Chega à proa de um vapor. capados e perus. uns mulatinhos imundos. a mesa. farrapentos. uma negra de beiçola gorda e mama vasta. Manuel Ferreira & Cia. há muito. . O pequeno arregala os olhinhos meigos. é. o prato que ele encontra. galinhas. Há uma idade em que no coraLavadeira ção os conceitos caem e ficam. lavados de lágrimas e murmura: – O pai que o diz é porque o sabe. bons. o ensino e futuro. Antônio. à guisa de trunfa. De uma lista de bordo: Antônio Manuel da Silva. 204. manchando para sempre aquele meigo e terno coração que jamais sonhou com a maldade dos homens. chegam milhares. muita submissão e respeito. adiante. Manuel Antônio da Silva. se não é ótimo.. E. cheio e farto. roliça e cheirando a bodum. Na casa em que vai morar o pobre escravo branco já mora. como as Desenho de Raul pedras que se atiram a um poço. e. Na hora de embarcar ouviu isto: – Para com teu patrão. como ele. mesmo o de ser mãe de todos os filhos do Sr. moça. Só falta a rubrica comercial – Cif. na falta de teu pai. com as cores do rosto. que vivem como ofídios sobre o chão. como um barril de sebo.. a desgraçada. com um lenço de caramujos amarrado. pelo menos. a inocência e o caráter. cedo ou tarde. meu rico filho. Antônio da Silva Manuel – uma chave. que outro não será o que há de te dar. uma tina de bacalhau. consignado a uma firma comercial qualquer. um engradado com um porco. coitado! Que vem de tão longe. a negra escrava. de envolta com a fauna doméstica que anda solta pelo quintal e pela moradia: cães.O Rio de Janeiro do meu tempo 219 Ai o lusíada. na cabeça. Rio. de anca de égua. Coberto de pó. Faz o serviço da casa inteira. gatos. obra da Rita Inácia. Rua do Mercado.

ó garoto. isso tudo. sobre uma tábua nua. diz. o patrão –. ainda. sempre. recém-chegado à terra. o dedo na balança e um olho no freguês. repetindo sempre. por malícia. Cresce. estica a perna desse 4 e faz 7. um litro do melhor Alto-Douro. Quando vai levar as compras no caixotinho. mais tarde. Erra nas somas. Mostra crostas de sujeira no peito. Com a idade vai aprendendo a conhecer o mundo pela filosofia do patrão. Quantos banhos tomas por semana? E ele. à casa do “sr. São 20$! Veja-me aí uns trinta cadernos de fregueses “mansos”. Sem travesseiros. mostrando os dentes amarelos. quando trapaceia no peso.. Duzentos gramas de vinho em oitocentos de água dão. No caderno das compras põe 4 ao invés de 2. coitado. calculadamente. sempre e a favor da “casa”. Café com mistura de milho. nem sabe o que é um naco de sabão. que. Carne-seca ardida por fresca. Não lhe ensinam hábitos de asseio. pousada sobre dois caixotes. carregado de limo. engorda. muito natural. nós é que não podemos perder essa banha que rançou. que fica em frente. e que lhe mancham a boca fresca. por vezes. e de cenho carregado. A pobre alminha vai-se corrompendo e achando. lesados. dizem-lhe sempre: – Cheiras mal. nos braços. assim mesmo. Não tem escova de dentes. – Ó “Sor” Antônio – berra. sorri. transformado em cabaz. moça e gentil. o que não lhe sai nunca da boca: – Eu cá sou “plu” direito! Com esse patrão instrui-se.. na adição final. uma toalha ou um pente. Engana-se no troco do freguês. O pé já não entra na tamanca. no pescoço. Aprende a roubar. Caixeiro de venda Dos trinta. sem cobertor. Vende o podre por bom. não raro dando-lhe valor de 9. e meta mil-réis de banha na conta de cada um. com ele.220 Luís Edmundo Dorme o escravo branco. Doutor”. aprende a burlar e a mentir. oito apeDesenho de Armando Pacheco nas reclamam contra a malandrice do .

instrui-se.. com medalha cravejada de brilhantes. ainda têm preconceitos de Preta lavadeira honra e confiança na polícia. Carlos pelo baú. onde se vêm dependurar as negras e mestiças da vizinhança. perícia. em ouro do Porto. ao modo de fazer uma declaração que seja falsa.. Da venda dizem que foi engano. mais uma vez. Se o número dos protestos aumenta.. toma de umas libritas. “Eu cá sou ‘plu’ direito”.. porém. “Manso” é o freguês que não protesta. Exímio em todas as burlas. a primeira coisa que faz é lesar o seu velho patrão. nesse particular. por acaso. que lhe aplica multa. freguês de alta consideração. nova operação. impontual ou caloteiro. de tal sorte. pondo de lado o bacalhau e fazendo concessões à farinha de mandioca. aí. Aprende a subornar o fiscal da Prefeitura. assim mesmo. que enrosca e é um anzolzinho catita. Possui um espelhinho de meio palmo.O Rio de Janeiro do meu tempo 221 vendeiro.. o ardil. que quando chega o interessado. que está dizendo.. Antes. revela. A isso sempre se chamou diluir (e ainda se chama. Começa. sendo que “brabo” é o gritão. aos 35 já fazendo parte da firma. a destrocar o B pelo V. passa Desenho de J. num vocabulário de gíria. desde a maneira de aproveitar uma estampilha. sempre. até cobrir-se. Tudo ensi- .. possui vasta cadeia de relógio. das já servidas.. dizendo como o patrão: – Eu cá sou “plu” direito! Interessado aos 30 anos... de todo. dois mil-réis. não dando. Mas sobram. dessorando empáfia. a ter barriga. onde mira o bigode lustroso à banha. De quando em quando vai à delegacia. a soma desejada. Desaparece o prejuízo dos vinte. E. aprende a sonegar o imposto.. também. apesar de pretas. Se o caixeiro pilha. abrasileirando a fala. quase sempre um doutor que anda de tílburi ou caleça e tem assinatura do Teatro Lírico. o prejuízo do taberneiro. dorme ainda numa tábua nua. Porque há mães que. intimado. das que ele entrega sempre ao homem do fisco. e fica sabendo que é um são princípio de honradez lesar-se o sócio.). o patrão roubando ao sócio (quando este existe na casa) e ouve o homem pilhado.

a negra. – Ó bigode de arame! – (alusão aos que. alminhas puras como a dele o foi. Nada mais natural. monopólio da leoa. feio e miserável. manda buscar à terra novos escravos brancos. mas cheio ainda de ambição e de coragem. Não prestar atenção aos brados da garotada irreverente e bulha. É por esse tempo que ele recebe do Reino. monta outra venda. para mantê-lo ereto. a que lhe ferve as “coives” e que lhe paga em filhos cor-de-castanha o que lhe dá em loucuras de amor. muito embora sem juba. que está ao fundo da venda. pensando no que foi. por serviços prestados à pátria. centenas de infelizes apodrecem às pilhas. com o seu agressivo cheiro de sabão e sua morrinha estonteante de suor. geralmente. usam uma famosa pomada que se chama Hongroise). Porque cortiço e venda andam. Apenas. propõe ao sócio uma separação de sociedade. Na polícia as coisas arranjam-se. E pensa no cortiço. sujo. para nos confundir e nos troçar. lembrando minúsculos oratórios. Aí.222 Luís Edmundo nado pelo patrão. aos montões. Recebe uns dinheiros e sai. . O leão é ele mesmo. sem ar. só dele.. sem conforto. conjugados. com a sua tosca linha de casinholos sem luz. que ver ao pé do leito de dormir. Juntando o que recebe às libras do baú. ao lado do armazém de secos e molhados de sua propriedade – O Leão da Furna. – Ó Cartola! – (cartola é todo sujeito que usa colarinho ou gravata). E como aprendeu com o outro a viver e a ser “plu direito”. portanto. para explorar e corromper. O homem que mora.. assanhada. ∗ ∗ ∗ Penetramos o cortiço que se esparrama diante de nós. numa promiscuidade criminosa. meio rico. Estabelece-se. que é a estalagem. por sua vez. a comenda de Cristo. muito bem. que já nos viu e. o prato de comer. leão de unhas afiadas. E é assim que um dia surge a Vila Nossa Senhora da Lapa dos Navegantes. leão do comércio. come. se reúne em grupo espesso. depois disso.

. dançar o seu grande sabbat. Boca Negra! Não ter medo.. e. Este onde penetramos acaçapado e enorme é todo em edificação de um só andar. Em geral o cortiço é de um único pavimento: uma portinha e uma janela. logo. Além das crianças há os cães. com uma galeria avarandada. Perigo de morte. uma valente brochadela de tinta. e uma infalível grade de madeira pintada de amarelo. aí está ele. Esse arruamento. gradis tortos. servindo a cada um dos pisos. Para construir a pocilga infecta. sobretudo. A construção é nova e já cai aos pedaços. porém. ao fundo. muito desconfiados. Um montão de remendos. principalmente os de certa categoria. pronto. onde as epidemias podem dar rendez-vous e a Morte. de soslaio.O Rio de Janeiro do meu tempo 223 – Dá um tostão pra gente! Que ninguém. em gesto de satisfazer tal desejo. O arruamento é em forma de betesga: casinhas tanto à direita como à esquerda e. uma janela. porém. uma linha baixa de tabiques onde se instalam as imundíssimas retretas. descuidados. pelo peitoril das janelas das casas. – Isca! Pega! Morde ele. mais para o âmago do monstro. indolentemente a dormir ou a lamber as patas. com arrogância e presunção. que reconhecem. por cima disso tudo. . o ladino empreiteiro lançou mão de material cansado ou antigo: caibros velhos. que ficam pelos beirais do pardieiro. novinho em folha. Cachorro de cortiço é como cachorro de louça em jardim de casa rica – não morde. a salvo da gurizada que os maltrata. Avancemos. os estranhos ao lugar. com ares de que identifica. macabramente. uma portinha. Dá-se. Pode ficar em cacos. porém. decrépitos portais. cães que rosnam severos. levantando as orelhas. supimpa. caia na asneira de pôr a mão no bolso. fechando-o. Há-os. telhas enegrecidas pela umidade e pelo tempo. sempre repletas e disputadíssimas. a praga numerosa dos gatos. todo ele. no máximo. o cortiço. como largura pode ter. de dois e mais andares. pondo o rabo entre as pernas e que nos vêm cheirar as calças. portas em desaprumo. Além de inúmeros cães. foco pestilencial. uma gorjeta ao homem da Prefeitura.

Nem a cordoalha falta. A roupa branqueja em pilhas e trouxas. completando a alvissareira nau. tábuas.. desde que não sejam brasileiras ou portuguesas. Gente de várias raças de todas as cores: pretas. depois. pranchas. bancos. pendendo de enormes bocas. todo um mundo de cacarecos. cavaletes de madeira. “turcos”. É uma babel enorme! . chamam-se “carcamanos” ou “malacachetas” aos italianos. suspensas à viração. o movimento de vaivém dos moradores. mulatinhas flébeis. roupa cantada”.. “Roupa batida.. mesas. em meio a vasos com tinhorões. tinas cheias d’água. crioulas de saias rodadas e cachimbos de barro. cada um com a marca do seu proprietário e que bambus altíssimos levantam. nesse lugar exíguo e movimentado. num caos terrível. gaiolas com passarinhos. sírios. cadeiras. e imunda. espanhóis. intercadentemente. armada em grande gala. de ar andrógino e ademanes sentimentais. sobre as pranchas pousadas em cavaletes ou espalhadas pelo chão.. mas transformado sempre em coradouro de roupa. os franceses. Cada bambu é um mastaréu. não deixa de ser pitoresca quando as roupas pelas cordas.. Lembra uma galera enor me.. que as lavadeiras batem roupa e cantam. torcida. bacias de enxaguar alguidares para o preparo do anil. Se é feia. tinas com samambaias. É aí. em geral. de braços grossos e peitarra forte. Sob o tremular dos panos que gotejam de cima. e mais três de cada lado. Para os moradores. chins. galhardetes e flâmulas. servindo-se da água trazida à cabeça e que se vai buscar ao fundo da estalagem. na sua confusão de sórdidos objetos. a betesga. impando ao vento e a sacudir no espaço. Os alemães são “chucrutas”. atribuídos às residências e onde se aglomeram. Lavada e. alemães. e as mulheres. dentro de grandes e sovadas latas. italianos. são sempre “madamas”. é posta em cordas ou em esticados arames. portuguesas sobrancelhudas e vermelhas. que vão de casa a casa. das de querosene.224 Luís Edmundo obra de nove metros: três destinados ao trânsito dos moradores. porque é destino das lavadeiras lavar cantando. os sírios. quando os há – raríssimos – são “franciús”. os portugueses são os “abacaxis” ou os “galegos”. ao centro. embaixo. numa agitação contínua e rumorosa. ficam borboleteando no ar.

uma peça de roupa que o pé imundo do garoto sujou.. o amolador de facas. de tesouras e de canivetes. a sorrir. a se mexer. amendoim.. como as moscas que sentem o açúcar.. o do puxa-puxa e das cocadas. a corar. torradim! Depois é o mascate batendo a sua vara. assanhados. em geral é tocando uma espécie de pífano. Crianças soltas.. de novo. no chão. Pisando o meu trabalho! Moleque sem-vergonha! Assim fala uma pobre lavadeira.O Rio de Janeiro do meu tempo 225 E essa gente toda sabe falar. assobia.. alegres. passam correndo.. o homem da canjiquinha quente. adiante. que vou contar a tua mãe. discute e briga. Até o vendedor do “gasparinho da sorte” busca a freguesia do cortiço. charutos. ali discute outro.. quando não bate uma espécie de matraca. O homem do realejo e seu macaco Desenho de Raul . exultam. um terceiro. fósforos e miudezas. Mais longe outro rezinga. ante a chegada dos penúltimos. torradim.. Lá vem a preta que vende o amendoim torrado. por entre bambus e tinas. não raro sobre a própria roupa posta. – Menino desgraçado! Deixa-te estar. o doceiro-de-caixa. junta-se o ruído dos pregões. como demônios. Passam o vendedor de mocotó. – Ó. formando exames em torno. lha ú. n’água. À bulha das crianças. ao sol. Os garotos. desabridamente.. o “turco” que vende cigarros.. Aqui berra um. obrigada a pôr. o vendedor de angu. berra.

nenhuma. E o símio fulvo. AÇÃO ENTRE AMIGOS Rs.. por vezes. velho e em forma de funil. aos saltos. Esse homem. com objetos minúsculos que lhe atiram. Ação Entre Amigos. “unidades”. apenas domadas pelo olho do italiano. ora por sobre a caixa do instrumento. sobre a cabeça. Vende a “sorte-grande” e vende o bicho. que lhe morre nas costas.. atormentando-o com esgares. que vai “descarregar” à venda do Antônio que. da Calábria.. de cauda em S. Traz uns 15 ou 20 bilhetes iguais. O tocador com seu macaco. INTRANSFERÍVEL PRÊMIO: Um relógio de níquel Remontoir com um pequeno defeito. nele. por sua vez. Usa roupa de veludo e.. geralmente em segunda mão. no bolso. irrequieto. que está movendo a manivela de metal. e fogosas. corda e ele não anda. é tão querida e desejada como a do tocador de realejo. “dezenas” e “centenas”. 200 anexa à loteria da Capital Federal a correr no dia 30 de Maio de 1903. preso a uma correia enorme. descarrega. piscando os olhos e fazendo caretas. severo e atento. O instrumento está dependurado sobre o ventre. nervoso. guinchando. traquinas. um chapéu de castor sujo. traz no bolso uns bilhetes de rifa. tômbola de pequeninas utilidades. ora sobre o seu ombro. porém. na Casa Labanca ou na Casa do Seabra. . correndo pelo final do número relativo ao primeiro prêmio da loteria e que são vendidos a 100 e 200 réis. com berros. à Rua do Ouvidor. com assobios. nº 551 – Pode-se saber qual é o pequeno defeito do relógio. Dessas figuras que entram no cortiço.226 Luís Edmundo – Anda amanhã a roda! É o 3545! O último! Mentira. O instrumentista é sempre italiano. depois. moço? – Pequeníssimo. A gente dá. magro. Já as crianças que deixaram os doceiros estão em torno do animal. vende “grupos”.

muito longe e distante é sempre o quadro de uma lembrança carinhosa que a alma lhes enche de saudade. esfregando-a. as cafuzas românticas deixam cair da pálpebra tremente uma lágrima fria. a falar. afastadas do mundo. enlevado. recordação que ao mesmo tempo é sofredora e amável. acariciando saudades. debruçado de olheira. que ele toca em andamento de marcha-fúnebre. Mamma mia. apenas. posto no pires da gorjeta. três peças o instrumento tristíssimo: a Lucia de Lammermoor. a sorrir e a cantar. Não raro. . transidos. porque o que elas Desenho de Raul vêem. o olho preto. abemolada e choramingas. como aquele doce pungir de acerbo espinho de que fala o Garrett. de níqueis ou vinténs. fartamente. batendo-a.O Rio de Janeiro do meu tempo 227 Como repertório traz. e. avivando tristezas. que soluça. depois. que o macaquinho vive apresentando a todos. e que. mas sem vê-lo. Cerram-se lábios de emoção. se enche. canção napolitana. então. concentra-se para ouvir a toada lírica e dolente. olhos postos O taberneiro no céu. O mulherio que trabalha na roupa. a Serenata de Schubert. e passa de leve. para arrancar as entranhas à mulatinha sentimental que acha o italiano o homem mais lindo do mundo. As artérias latejam devagar.

. a alegria congênita reage. . que ressurgem da alma aflita. . que. .. Berros: – Bastião! – Não sou . Não duram.. aos poucos. . as cantigas. / Quesada cum mó pai. . . .. . Falas. as toadas lúgubres que o realejo açulara. . muito. São mestiças estropiando melodias em voga: A sombra / De enorme e frondósia / manguêra. de novo.. . cheia de melancolia e de saudade: São portugueses expectorando fados: Ó minha mái. Referve a bulha das crianças. . Por isso. as canções vão se alegrando. . entanto. minha mái. ... . Gritos: – Dª Maria! – Cá vou eu. Gargalhadas aqui e ali repontam. no pobre. ... . francas e escandalosas. / Na bêra da estrada / Da tarde ao caí.. Capítulo 12 Vida do cortiço VIDA DO CORTIÇO – O TIPO DO MALANDRO – GÍRIA CARIOCA – CANTADORES DE VIOLÃO EM FAMÍLIA – QUARTO A DEFUNTO – CASAMENTO DE POBRE – ANIVERSÁRIOS NATALÍCIOS – BAILARICOS DE ESTALAGEM – FOGUETES E BALÕES – MÁ-LÍNGUA – BRIGAS – A HORA DO GUARDA-NOTURNO. . . Cascalham aos risos. . das roupas batidas pelas tábuas. . . . . Assobios. PÓS o jato lírico do homem do realejo que abandona o cortiço.

. cheia de dentes podres e onde se espeta um palito novo ao lado do cigarro.. mirando as unhas roxas ou de olhos postos sobre a roupa nas cordas altaneiras. sacudindo o tórax franzino. se por acaso ri. e. No pescoço. fechando embaixo. lenço de faille azul. na farmácia de Seu Quincas. agitando o abombachado das calças. paletó de um só botão. batido em toldo de barraca. em adeuses febris. dê um pulo. de novo. rebolando o traseiro. calças de linho. os pobres tuberculosos cheios de tosses e de pressentimentos. como acenos fatídicos do mundo. mostra uma boca larga. sobre a linha dos olhos. no fundo das baiúcas.. Manduca da Praia anda como um marreco. já ouvi! E o formigueiro humano que se apinha. das de elástico. que lhe dá casa e comida. – Pedroca. cheios de tosse e medo. magros. da bebidinha e da boa fatiota que ele vai buscar na Rua S. depressa. feia. caída sobre a testa marrom. brancas.230 Luís Edmundo surdo. à casa de rótula de uma francesa velha e gorda. que lava e engoma para fora. receando a morte. duras à força de goma e de trincal. em barafunda plena de vida e de estridor. movimentado e ativo. Vive à custa da pobre mãe. faixa e o luxo de umas botinas inteiriças. para tosse. desenrolada no ar. Relógio com chatelaine de cabelo no bolso da calça e um chapeuzinho três-pancadas. . Lá estão eles por sobre os leitos simples. Vá correndo! Água-de-flor para tosse! Por causa de misérias como esta é que Manduca da Praia repenica o violão e canta com chiste a solfa gaiata do Ai ladrãozinho Esse teu lábio de coral (Tem dó!) Dá-me um beijinho Não te pode fazer mal (Um só!) Manduca da Praia “trepa na goiabeira”.. e peça a ele para mandar um tostão de água-de-flor. Ninguém ouve. das chamadas “reiúnas” de “sartoarto” e sempre furiosamente engraxadas. Jorge. Tresanda a água-flórida e a Clorilopse do Japão. o violão sempre na unha. só não lhe pagando o vício do fumo. em que jazem. agitado e feliz. Mostra a cabeleira encaracolada. o que vale dizer que é um tanto cabra. sempre apagado e mole de saliva. tristíssimos. brancos.

Não arranja nada. o violão. ora com outro. que tem um nariz enorme. O cabra vinha zarro para tirar sua desforra e fazer sua deferença. dando-se à importância. Carlos puó far niente. Não dei tempo ao bruto de comparecer com os argumentos.. Os jornais deram. a feiticeira espanhola. vindo da “teorga”. saudando os conhecidos do cortiço (Ba tarde!. desculpando a feiticeira e o seu feitiço: Cantor de modinhas – Com quel naso de carnavale non se Desenho de J. sabe acender paixões em peitos frios. muito orgulhoso das suas calças brancas. Chega às sete da manhã no cortiço.. a Candoca.... Quando ele parte. por causa dele.O Rio de Janeiro do meu tempo 231 que cheira a alfazema e que. alegre. Na estalagem há também quem por ele seja capaz de tanto. Na verdade. cheio sempre de imagens imprevistas: – Saía eu. Ronca até muito depois do meio-dia.. Pudera! A italiana do 22 é que diz bem.). o bom corte do terno feito na Tesoura de Prata à Rua da Saúde: – Que elegância! – diz-se. como ninguém. de tardinha. Não se pode. Por vezes. já se quis suicidar três vezes. por exemplo. honte. que põe cartas e que. na verdade. de pelicano. só o prestígio daquelas botinas brunidas e fulgurantes como dois sóis. Gabam-lhe a voz. uma solteirona. o “pinho” entre os dedos. Come. quando risca na minha frente um cujo.. pára conversando no pátio da estalagem. “amarrar namorados” e pôr homens em “bom caminho”. da sua bipartida gaforinha. veste-se e vai embora. num estilo vivaz. há um movimento de admiração que o envolve e acaricia. cantarolando. do chatô para ir ao choro do Madruga. no Agrião. ingerindo ácido fênico. já com o seu pé na casa dos quarenta e que não sai do antro da Laura. para dormir. Sacudi longe o . meio sarará e que eu me recordei de haver estragado num dia de festa no arraial da Penha por motivo de Ermelinda que então vevia comigo. Fala em gíria carioca. maneiroso e gentil. Manduca da Praia. ora com um..

de novo. Pois não é que quase matei o home! Caiu de borco. como em certos capinzais de Catumbi. Os seresteiros que freqüentam os lupanares de São Jorge. fama e glória nos conflitos da zona do femeaço. e cresceu para mim. seu Jagodes? Você sconfiou? Encolheu de caramujo e sortou a cusparada. vestido de fato inteiro. quando o grilo estrilou. Manduca é o tipo perfeito e acabado do capadócio de alcoice. Fiz uma figuração. a maneira de aplicar um Brincando de roda Desenho de Raul . mas não extinguiu a capoeiragem.232 Luís Edmundo pinho. levantei o rabo-do-corte e pus-me de guarda à espera do avanço. e. E quando eu lhe preguntei: – então. só de lambuja. mandei-lhe um baiano. Vôte! É quando pega de ajuntar gente. meganha. sem abusar do ferro. dancei de velho e fui. cascando o quengo na caixa do catarro do bruto. Foi quando lhe senti.. Regente e Núncio. Não caiu. e. no Rio Comprido e São Cristóvão. logo. no Largo do Moura. na altura da bomba do respiro. Em 1901. Depois. sem tomar aragem. nos dedos o brilho da sardinha.. Mergulhei. Aí. o esporte condenado ainda se pratica e floresce. Sampaio Ferraz deportou capoeira. E uns jeitos de “não pode”. Se você não agüenta o tranco diga. indo acomodar os ossos na limpeza da calçada. Veio de caveira. Olvidei a ofensa e disse para ele: – Não dou em home deitado. que ele teve que sair barra-a-fora. rufião seresteiro. com nome. abri o arco e caí no mundo. calcei o bicho. Na minha meia-hora vou longe. Marombei. Cocei-me achando logo a ferramenta. que eu sou do povo da lira e tenho o corpo fechado. Fui saindo de barriga. Cuspiu de novo. aprendendo. Vi sangue. entre fuzileiros-navais e guardas da polícia. em cursos ao ar livre. ali dão rendez-vous. que eu vou me embora. Ele que queria era me cortá! Enguli barriga. Virou cobra.

Com o suó de meu rosto! Mas. que qué? Afinal di conta eles são moços.. Manduca da Praia. Cada eleição rende-lhe algum dinheiro. cataduposamente. Loquacíssimo. Na semana em que há voto.. quando as coisas tocam . amigo do Edu ar do das Ne ves. Sempre a ciência desse esporte deu. que se encharca na água da tina. glória da modinha brasileira. o “Cospe-lon ge”. logo. conta ela: – O pai (Deus que lhe fale n’alma) já era. varre até onde acaba a casa. que. A Tesoura de Prata recebe. D. é cabo eleitoral do partido do governo e sua escora nos colégios eleitorais. conhece. Por vezes. que guarda no bolso da calça e que lhe serve para cortar e afiar uma enormíssima unha. exibindo-se. valor dobrado.. querem se adiverti. deixa. garantindo com a vontade do partido o que ele chama a soberania nacioná. um canivetinho de madrepérola. por cálculo. negro palhaço.. Quem sai aos seus “não diz asneira”. sorrindo vaidosamente. toda babada de satisfação e de vaidade. Que o falecido podia andar sem um tostão no bolso. às vezes. Na Casa III. fazendo pendant com um sinal de cabelo que ele traz ao lado esquerdo do rosto. ao deixar o cortiço. por exemplo. a francesa do Manduca passa a ser caixa do partido. A capadoçagem do cortiço. Não sabe dar um rabode-arraia e.O Rio de Janeiro do meu tempo 233 bom “rabo-de-arraia”. marreta do ofício. nodoso e forte. encomenda de mais um terno. Emília. mas. tem até calos. É tranqüilo.” “Cospe-longe” é “família”. mora Virgulino. Felizmente a política salva-o. como ele. Fala em voz alta. apenas. como arma. na mão vasto cajado de Petrópolis. a pobre mãe. a sua calça de listrão. Por isso vive Manduca abusando do jogo e criando casos com a polícia.. uma “trave” ou outras figuras clássicas do jogo de agilidade nacional. Pois sim! Eu que o diga. como ele diz. berrando. Manduca da Praia. eu que arrancava ao fundo da tina o dinheiro para aquilo tudo. É loquaz. passar uma “rasteira”. relaxar a sua camisa de peito duro. mas. e o seu pé de verniz?. aos homens. campeão do cuspo à dis tân cia. assim. um quebra-queixo a fumegar na boca. Não conhece fumaças de lutador. porém. onde comparece sempre eriçado de facas. de navalhas e de cédulas. apresenta outros tipos interessantes. autor da famosa ode a Santos Dumont: “A Europa curvou-se ante o Brasil. uns poses. Não usa francesas.. sempre.

dramático..... pleno de cachaça – desejando que a caulda – quer dizer cauda – do Deus Momo – pensar que o grêmio também é carnavalesco – se aderrame sobre vossas cabeças como... suspiro cândido de minha alma. do qual é orador oficial Virgulino. carnavalesco. desta maneira. terminou um dos seus bestialógicos: – . obrigada a arrastar esse véu puro. branco e imaculado de donzela na. no gênero.. em tempo algum. associação idêntica.. quase desaparecida sob a vastidão de um véu branco.. todo recamado de flores de laranjeiras: – E. chuverio. lama. recua. beneficente e familiar Terror das Criolas do Morro do Pinto. pétalas.. aí. um canecão de folha. tal o de ser empregado público e não ir à repartição.. contemporiza.. em um dia de carnaval.. assim. rosas! No gênero desse maravilhoso discurso só o que um companheiro nosso. posteriormente.. jamais. agora. Sua extrema palrice guindou-o ao provecto cargo de orador oficial do grêmio recreativo. à do clube morropintense. ouviu de um pobre pai.. realiza um grande ideal na vida – aliás o de todo bom brasileiro –.. o “Cospe-longe. metendo-se sem demora.... de.. ainda.. pela hora da sobremesa do banquete nupcial. pútrida. filha das minhas entranhas. no caminho da paz. que nunca sejas tu.” Os sócios tinham organizado um Vendedor de caixas piquenique na Baía de Guanabara e acha- . “Cospe-longe”. eu também ergo a minha dérbil taça pra sodá os arrepresentante da imprensa – mostra na mão. quase sempre com raiz no cortiço. um. certa vez. dizem que.. a taça levantada para a inocente moça. Contínuo do Tesouro. no dia do casamento da filha. da. na colidade de orodô oficiá desta sociedade congênere. que se relate. de.. saudando alguns repórteres que foram visitar a alegre agremiação. homem da privança e da intimidade desses núcleos recreativos.. o que se passou num grêmio da Rua do Catete.234 Luís Edmundo as raias da violência. prostituição! E já que se recordam alguns surtos de pitoresco dessa sociedade modesta e amável.

da velha mãe. discutindo e brigando com a família. dos quais o mais velho é um guri de nove anos. Morena fria. a garrafa do álcool. cospe e toca violão. bem marcado. quar é o itinerário. Nos pés. tal o número exagerado de remendos que reúne. despenteado. dorma branco e chapéu de paia com fita azur. e nove filhos. porém. Traz calças de algodãozinho que lembram um mapa geográfico. à figura simpática do Virgulino. e que o pessoá terá que embarcá todo. e solta um berro interrompendo a toada lírica: . Bom será. rebrilhando num vasto banho de vaselina. e o seu sinal de cabelo. um associado que se levanta e indaga: – Já que estomo cumbinado que o piquenique será na Ilha do Fundão. Presidente.. e. O itinerário é: –.. cinqüentão e falador. ingrata. chinelos cara-de-gato. Volvamos.. sobre ela. muito bem tratada. porém. carça branca. “Cospe-longe” ataca a modinha de sua predileção: Helena. Em dado momento. na hora de dormir. Carlos Olha. Achegas para o anedotário do malandro carioca. ambas lavadeiras. no Pharoux. nas lanchas Orga e Mariquinha. por um daqueles dias de sueto e violão... uma garrafa de parati. em companhia da mulher. informando solenemente ao associado: – O itinerário já foi discutido na assembléia passada. Fuma. Morador de cortiço Desenho de J. solitária e convidativa. sentado à porta do cubículo onde se ensardinha. percisa de sabê. na intimidade do cortiço. porque o homem é originalíssimo quando canta ao mesmo tempo conversando. mas desacompanhada de cálice ou de copo. O presidente levantou logo a sessão.O Rio de Janeiro do meu tempo 235 vam-se reunidos para dar as últimas providências sobre a folgança em projeto. Está em mangas de camisa... Junto ao banco em que ele está sentado vê-se uma mesa. ouvi-lo cantar. pardavasco. apenas com a sua unha de palmo e meio. quando se vai dissolver a reunião. Sr. de repente..

onde está esse caneco que ainda não chegô? Tu não ouve? O caneco chega. Meu peito ardia De fogo e de paixão. Teu lábio acaricia. recomeçando-a: Helena ingrata. burra de muié. prosseguindo a cantar . o primeiro verso da modinha. encomendando ao padeiro que chega: . o homem tocando. Cospe. a reclamar coisas da mulher. seu purcaria. sem-vergonha! Ó criança mais desgraçada! Óie só! Pois não é que esse menino lava a cara mas não lava a oreia? Onde se viu isso? Vá já se lavá direito na tina. diabo! Tu qué virá de catrâmbias pra ficá logo lejado de uma perna? Menino ruindade! Já te assentando-te aqui! Ao lado de teu pai. exaltando-se. afinal.. que retoma. agora com a mulher: – Floripes.236 Luís Edmundo – Muié. Agora é para falar com o filho pequeno de 7 anos: – Ó Antonico desgraçado! Desce dessa tina.. que vem do tanque. senão tu leva uns tabefes pela cara. Essa curiosa cena continua. Cadê ele? A mulher que lava. esbraveja. dizendo amabilidades. insensivelmente. distante. muito espantado: – Antonico. a brigar ao mesmo tempo com os filhos. pois você bota parati e não bota caneco. entre os resmungos da mulher. justamente. Morena fria. suspende ainda o pensamento melódico que entoa. É quando ele retoma. aos que passam. E como não veja o caneco do parati que reclamou. enquanto não lhe assento com o violão pelas fuças! E. cantando. não ouve a reclamação do marido. o fio do seu cantar: Teu riso mata.. olhando as orelhas e o pescoço do filho. a cantar: A lua de prata No céu se acendia! Pára. que te espinafra todo! Raça de cachorro! E. Mas. continuando. De novo se interrompe. de novo.

resvala e cai com a cara dentro do alguidar do anil. um tostão de rosca e um meio-napoleão de Petrópis. . E o Chico vai. o olho fosco. cheia de emoção e de pasmo. sem modificar a seqüencial natural do verso. vem informar. portuguesa. E todos querem ver o Chico. da casa IX. A sinistra notícia corre de boca em boca. trepada em bancos. descansado! A cólera que revela. me traga três de biscoito quebrado. seu Bernardino. saboreando o caso. a alegria da garotada. lá vai ele. como remate àquela Lavadeira de cortiço audição familiar: Desenho de Raul – Raio de vida! Um home nem pode ficá um dia em casa pra mode tocá seu violão. o olho vago num Cristo de madeira. Emudecem as crianças.. despedindo-se da vida. atirando o violão para um canto. só parando. até pelos parapeitos das janelas.. que se agita e bate palmas. a garrafa do parati para outro.. Cessa a roupa de bater. Diante das gargalhadas que espocam.. E riem todos. a sua vela de cera na mão. seu filho. a boca aberta e o pernil já de todo esticado. de vez. desfaz-se súbito. toda azul e sentindo. em torno.. não vai. numa atitude de desespero. Faz-se uma romaria à casa do moribundo. impressionados com aquela vaga de silêncio. em cadeiras. Porta e janela da casinhola triste onde ele morre estão abertas de par a par. vêm as lavadeiras saber do que se trata. é que berra. É nesse momento que a Adelaide. Os próprios cães. põem as orelhas em pé. Enche-a literalmente. que insiste em trepar pela tina. já está de olho vidrado e com a vela na mão. A massa dos moradores do cortiço aproveita e invade-a. olhando a cara do guri. logo de noite. Há gente cercando o leito. divertida com o espetáculo. que o Chico. com trêmolos na voz..O Rio de Janeiro do meu tempo 237 – Olhe. porém. quando o garoto. berrando o canto amargurado. Aí.. que estrebucha. gostosamente. As lavadeiras não cantam mais. que estava nas últimas.. Sem esquecer a toada.

Eufrásia casa a Miloca com certo Luís. menos alegria pelas festas em que os habitantes do cortiço comemoram datas de aniversários natalícios. firme. para o terreiro da estalagem. beber.. com uma coroa de flores-de-laranja. A história do rei que ganhou um cesto de abacaxis. coberta por uma espécie de cortinado de filó branco. é uma que o Bento acaba de contar. empregado da Companhia do Gás. oitenta pessoas! É o cortiço inteiro! Empurrão daqui. como a pugnar por um direito: – Que diabo! Não empurre! Que eu também quero ver! Essa gente morre. hirtos e solenes. mas das boas. evidentemente. – Nada. que repousa sobre a coxa. no seu vestido de cassa branca. E todos. é verdade. deixando passar. em riste. porém se diverte. mostrando a mão que aperta.. empurrão dacolá. apenas. caído. e que se fecha até os pés. vulgo “Lua Cheia”. batizados e casamentos.. pondo a direita. para assistir ao espetáculo: dez. de preto. Engalanou-se. a minúscula morada da noiva. Imóveis. vai ela. Vezes. também de flores-de-laranja. uma voz esganiçada de mulher que berra. recordando os detalhes picarescos da anedota: – Quá! quá! quá! quá! quá! quá! quá! quá! Muito boa! Talvez haja menos bulha. Para velar um morto que está na sua alcova.. esses vultos silencio- . ela. enfiada na abertura do colete. um lenço a lhe amarrar os queixos. um bouquet. na atitude em que o rei de copas segura o cetro. em súcia. de mãos postas sobre o peito..238 Luís Edmundo E cada vez mais gente para cheirar a cena. por isso. vinte. palrar. Talvez. na mão esquerda. napoleonicamente. sentados num sofá de palhinha. D. à espera dos cumprimentos. discutir. De repente. Diverte-se até fazendo quarto ao defunto. Desde que chegaram da pretoria e da igreja que se conservam na atitude espectral em que se acham: ele. diante da barulheira que provoca os risos e até as escandalosas gargalhadas. das felicitações e dos convidados. Na porta do XI. um parente do que morreu vem à porta do cubículo saber de que se trata. emprestadas. velhas. sujas.. um braço duro. gravata branca e umas luvas brancas. Lá estão os noivos no aposento principal.

Antônio. o infalível doce de coco. . Não falam. do legítimo!.. Não sorriem. e o rolo em polícia.. do Porto. por festas interessantes.. aí. São dois noivos de pau.. Ou de pedra. A noiva. É o protocolo.O Rio de Janeiro do meu tempo 239 sos e tranqüilos assim ficam a noite inteira. outrossim. Ainda é o protocolo. Come-se sem paletó. fregueses do Sr.. agradecido. pedem mil e novecentos e até dois mil-réis! Essas festas acabam sempre em bebedeira. numa idêntica inflexão de voz que parece sair do próprio sofá em que sentam: Noivos à espera de cumprimentos Desenho de Raul – Muito. Só quando chega um convidado para saudá-los é que essas estátuas vivas movem-se um pouco. certinhos. por aí. Quando as crianças se batizam há sempre jantares obrigados a canja de galinha e porco com farófia. É nesse momento que a dona da casa abre uma garrafa de vinho fino. nós. num só prato.. não sem chamar a atenção de todos para a mesma: – Olhem esta! Adriano Ramos Pinto. todas as iguarias.. Mil e oitocentos a garrafa! E é por sermos. Não se levantam.. – Meus parabéns! – diz o convidado. que é o champanhe dos pobres. a bebedeira em rolo. E os dois juntos. avança a mão que lhe sobra no serviço de segurar o bouquet. porém. As comemorações de aniversário valem. que. Arma-se no terreiro a mesa das refeições. o noivo os dedos que lhe restam no trabalho de segurar as luvas. até a sobremesa...

Não dorme. na seção a pedidos. anunciou. é a criatura mais feliz do mundo.. e. ar pachola. Quando por essas festas há danças. de quem se diz que é muito preparado ou bem falante. Todas essas dádivas ela as põe em cima da cama. cheia de babados postos em tuyauté. É lembrança de pobre.. Faz que Balões vai mas não vai não. O marcador da quadrilha é sempre um sujeitinho pernóstico. Ganha presente. Caminho da roça.. que se mostra forrada com uma colcha de filó. que se chama militar. Dão-lhe uma travesseira de cetineta cor-de-abóbora com uma fronha de crochet. Poeta. mazurca. E o que se dança? Uma polca pulada. porque o crochet espeta. saudando Dª Felismina da Conceição (Finoca) que hoje colhe mais uma cheirosa flor no jardim de sua preciosa existência. que tem recortado o pedacinho do jornal para botar num quadro e que já disse. etc. Salve 5 de maio de 1901!!! Dª Finoca. chostes (schottisch). um “Vejam só! Essa gente não tem mais o que fazer. Ché de dames (chaine des dames). as danças fazem-se no terreiro.. depois .”. A xícara que ela recebe é de uma senhora que. entre sorridente e babosa. calça bombacha. como se usa na época: “Os passarinhos alegres ao romper da aurora do dia de hoje cantarão no poleiro da Amizade. pela manhã. ao lhe dar um grande abraço. a quadrilha. valsa.240 Luís Edmundo Dona Finoca faz anos? Já o Jornal do Brasil. tendo estes dizeres bordados a retrós preto – Durma bem. por vezes. recita.. Em geral usa fraque de aba curva e tesa como a de um rabo de galo. Promenades pra direita (promenade à droite). Recebe uma xícara de beira dourada com a palavra Amizade e que custou 800 réis – sem a caixa – no Bazar do seu Florêncio. marcada em francês (!) com marcações assim: Ana vai tu (en avant tous).. gaforinha ao vento e botinas rangedeiras. murmura-lhe ao ouvido: – Não repare na insignificância do presente. Vorta que Desenho de Raul lá vem a sogra.

de Luís Guimarães ou Luís Pistarini. rodinhas. por isso. Perdem-se braços. É o delírio da festa bárbara. Nós devemos ao prefeito Pereira Passos uma das primeiras posturas municipais proibindo a insensatez desses fogos na cidade. balões. etc… A barraca. em meio à bulha delirante dos guris. elas. pernas. Aqui na minha mão! E quando ele tomba para ser despedaçado pelas mãos de muitos: – Tasca! Se há foguetes para soltar.O Rio de Janeiro do meu tempo 241 da quadrilha. Cai cai balão. Ardem imóveis. de incêndios e de outros desastres. pistolas. é pousada sobre um caixote. na hora da subida dos mesmos. que possui uma lanterna japonesa iluminada a vela de espermacete. traques. busca-pés. Grande alegria para os moradores do cortiço ainda é a subida dos balões. bombas. buscando as flechas como troféus! A época é. versos de Casimiro de Abreu. cobrinhas. tradição colonial. vão as crianças todas.. chuveiros. na sua minúscula aparência. Grandes festas do cortiço são ainda as dos dias de carnaval. Constituem. em bico de chalé.. uns oratoriozinhos de madeira. um divertimento infantil dos mais característicos e espalhados por toda esta cidade. que armam as famosas barraquinhas para a venda de fogos artificiais. Lembram. as barraquinhas. Pedro. cegam-se pessoas. a correr. – Subiu! Vivôôôô! Viva Santo Antônio! Viva São João! E depois: – Cai cai balão. pela época. foguetes. mas que não se pode admitir nos grandes centros populosos. . salta-moleques. estabelecendo. São os balões. até para os infratores. estas últimas interessando particularmente às crianças. estrelinhas. que se compreende no campo. as da semana santa e as da quinzena que vai de Santo Antônio a S. O dono do comércio é um pequenote radiante da sua improvisada e importante função. São os foguetes. que se faz no terreiro. pesadas multas. transbordantes do que então se fabrica como fogos de recreio: bichas.

tratem. muito risonho – nós.. o cortiço imundo. olhai pro chão pro chão. os velhos e um ou outro que. Em dado momento. rabiscam cartas. Nas Barraquinha de fogos noites de estio. Dentro do casario só ficam os doentes. fiquem sabendo. quando quiserem me provar simpatia. carneirão neirão. fazem-lhe uma grande manifestação. recebe abraços. excelência. nós da comissão dos festejos. Olhai pro céu. de resto. o cortiço pobre. neirão. relêem antigas e sovadas revistas. porque são feitas para o bem do povo.. outros de cócoras ou sentados. discursos. curioso.. uns deitados. à vontade. Mesmo sem as festas da tradição. As crianças brincam de roda: Carneirinho. quando se inaugura um túnel para Copacabana. o cortiço. então. vêm todos fugindo à fornalha para o lado de fora. foco de moléstias. em grupos. antes. é sempre um ajuntamento de gente feliz e alegre. lá vai ele. ou vêem um livro de estampas. até o largo portão de entrada. Ouve. para o terreiro aberto ou céu rutilante de estrelas. sob a luz mortiça de lampiões de querosene ou de velas de sebo. de acatar as leis que faço. quando o casinhoDesenho de Raul lo abafa. pro chão.. e de outra feita. A maioria esparrama-se fora.. – Somos nós que os soltamos – fala um dos dirigentes da manifestação de apreço. alto e amigo. cumprimentos de toda sorte. pacientemente. uma girândola de foguetes.. – Pois estão os senhores multados – diz-lhe Passos.. Apesar de ser homem pouco afeito a bajulações. . – Onde estão soltando esses foguetes? – indaga o grande prefeito. fechando-lhes a cara –.242 Luís Edmundo Certa vez. Pouca gente.. pela terra fresca do terreno comum.

Emília. Já a sinhora me biu esta? . circula com as novidades de cada um.O Rio de Janeiro do meu tempo 243 É por essa hora de descanso e de sossego. agora. por que motivo dona Lora diz que a Chinoca. A portuguesa do homem que vende galinhas e que parece não tomar parte naqueles mexericos de comadres. tenha paciência. trabalhada pela língua impenitente das mulheres. E tome cusparada para a direita. – Ora! A quem o conta! Trabalha. que pediu em casamento a Chinoca. de cabeça toda branca. é do Anastácio. A Hermengarda. da casa XVIII. em sinal de desprezo pelo velho. mas aquele filho que ela traz no bucho não é do marido.. aquele velho gosmento. numa pergunta insidiosa: – E o que me diz a senhora do velho Meneses. que a gazeta do cortiço. É o mexerico que referve.. aí. – E depois disso. não pode mais levar flores-de-laranjeira? Por quê? A isso ninguém responde. a língua viperina de Maria das Dores. os disse-me-disse do dia e da véspera. casando. uma pequena de oito anos. enquanto a pequenada divertida canta. ou de nojo pelo mau cheiro de rato morto. não é por falar mal. indaga. uma menina de 15 anos? – Digo que o que ele precisa é de uma boa carga de pau no lombo. comenta: Peixeiro Desenho de Armando Pacheco – Uma desabirgonhada que stá a se m‘ter pla cara do intaliano do paixe. D. curiosa: – Mamãe. hálito de rato morto. para deixar de ser assanhado.

que se Paulinho não te quebrar a cara quem a quebra sou eu! A preta velha. a meninita Francisca. na verdade. afobada. tira o cachimbo da boca e solta uma gostosíssima gargalhada. trança caída nas costas. quando aquele escaramelado de uma figa sai-se-me com esta: – Otávio. o álcool. Olá se há de!.. porém. Rolo e complicações naturais com a polícia. compreender um cortiço sem rolo. pitando. 16 anos. na esquina. menina? – Eu estava conversando.244 Luís Edmundo Mete o bedelho na conversa. rebentando em soluços: – Deixa-te estar.. e tu pode é acabá na pretoria. com o Otávio. furiosíssima com o desavergonhado do Maurício e os seus deboches... deixa a graúna. na mão.. São fatores principais de desordens nessa Babel grotesca: o caráter rixento do filho da terra e a sua suscetibilidade impressionante. ∗ ∗ ∗ Descrever o cortiço e não falar nos distúrbios que estão sempre a agitá-lo é silenciar sobre a parte mais importante de sua vida. logo. Não se pode... pasta sobre o olho. cachorro. a preta Marfisa. aí. que está de cócoras. que então se absorve imoderadamente. os atritos fatais que a convivência das crianças e mulheres Amolador Desenho de Armando Pacheco . afirmando que lhe há de mandar quebrar a cara pelo irmão. E. – Por que. Depois cospe. nervosa. Depois rosna: – Quebra nada!. que chega da rua. nessa altura. e que tira. Ajeita o xale sobre os ombros. o cachimbo da boca: – Uê! pur isso é que ele entra lá sempre pela minhã levando. um bagre deste tamanho. Eis. vamos ao circo que isso por aí não tem mais futuro. encosta a cabeça no muro e dorme.. agora mesmo.

Um verdadeiro inferno. sempre.. a doçura da ação policial e. Voltando. uma diante da outra. os primeiros. ofendida. humanamente. de cera. dá por falta do sabão que. que. – Não pode uma pissoa deixare o raio do savão ao canto de sua tina que logo o não abafem! Cambada de ladras! E. que chega à porta do casinholo e chama-a: – Ó Maria! Lá vai ela ver o que seu homem deseja. Súbito. muito amigas. a frouxidão da Justiça na aplicação natural das leis. não se faça muito de besta comigo. porém.. pacíficos. gente de ordem e de trabalho. finalmente. pôs as mãos nas cadeiras e retrucou: – Se isso de ladra é comigo. mas não da sua cozinha. brutalmente. vôte! (dá uma cusparada). evitam. – E quem é você pra me amiaçaire assim. ao sair. o marido da primeira. É quando se arma o rolo. Já a mulata em frente fuzilou um olho violento. Você. cotruca do diabo! E zás. violentamente. dessa maneira. mal colocara sobre a tábua de lavar e que. cheia do mais vivo mau-humor. pegando na peça de roupa que ficou por torcer. desaparecendo. despede a tábua. Ora. o italiano e o chinês são moradores. vai bater na cabeça da outra. Nem de gelo. rude. pouco afeita. Está armada a encrenca. portanto. em geral. por isso mesmo. como se batesse na cara da surripiadora do sabão. O português. não raro degenerado em conseqüências lamentáveis. o incendimento nacional. sua grande negra? retruca a outra. como podem. aos desconcertos e às bravatas quixotescas da corja indígena. escorregou. reagem. caído entre o caos das coisas que ali se barafundam e enredam. berra logo. porém. mais ou menos disciplinados e tranqüilos. o espanhol. Daí a engalfinharem-se é um momento. Estão a portuguesa e a mestiça a lavar em suas tinas. Não são. – Negra. sim. ó Manuel! – berra a portuguesa. Em dado momento os provocados. Como não seja mulher de guardar o que sente.O Rio de Janeiro do meu tempo 245 provoca. embora. porque assento-lhe já esta tábua de roupa pelas fuças. – Vem d’aí. Que eu não ia roubá a miséria de um sabão. . com ela bate na tábua de esfregar.

– Lá de insultare naon – retruca o outro –. isso. Briga-se. quando não acaba Desenho de Armando Pacheco numa poça de sangue. por motivos ainda mais fúteis. Engalfinham-se os dois. logo. ouviu. antes de receber o que já es pera. talvez. porém. entre o prestígio do músculo e a inteligência do O turco vendedor de miudezas e fósforos gesto. Após o escândalo da desordem. Essa é que é a burdade! Mas cá indiscunsiderações não nas admito. nas não pode ser de outra forma. desfere. mas denunciando violentíssimos propósitos. Do que tem que acabar na polícia. o murro. Do grosso. afetando calma. às vezes. Banzé. Arresponda dereito porque de carqué forma eu tenho mesmo de lhe quebrá a sem-vergonha da cara. – Meta-se com a sua vida. um tanto brutal. E dirigindo-se ao “portuga”: – Então vosmecê tem a corage de pô os mocotó na minha Chica seu galego? Vamo vê isso. A luta trava-se. o comentário que surge e que geralmente acaba por criar novas situações: – Você toma o partido da Maria porque é tão boa como ela! Grande bruxa. para separar as mulheres que se atracam e lutam desesperadamente.246 Luís Edmundo – Ó Sr. sua burra! Largo da Lapa Desenho de Armando Pacheco . E está o homem a fazer o que deve quando surge diante dele o marido da mestiça. então. fique o cabra sabendo. A maneira com que ele tenta separá-las é. que cando me pus aqui tanto me pus plu baim duma cuma d’oitra. naim que benha de mó pai! E. Manuel! Lá vem ele a correr.

que acabam fazendo a ronda da estalagem e que lembram. namorados da lua. um rouquenho e triste marulhar de vaga. o rabecão da Santa Casa. Ruídos. ora. Como sinais de vida humana... filosoficamente. Guimarães. um sinistro coaxar de rãs. Não raro. toda manchada de catarro e sangue. se desenham misteriosamente. esperando-a.. as faces encovadas. Às 10 horas da noite tudo repousa. Tudo. naturalmente. de quando em quando..O Rio de Janeiro do meu tempo 247 – Burra é você. E a vida. continua. tipa ordinária. já de outra coisa se fala na estalagem. andam os gatos. de olhos cercados por olheiras roxas. sobre esteiras podres ou sobre catres de palha pejados de molambos... o guarda-noturno de ronda. ora. em corcovas de amor. a lanterna solitária que balouça e bruxuleia iluminando com a sua luz mortiça.. a tabuleta sinistra. para que uma voz entrecortada de soluços atire um brado angustioso... indo fazê-las fora. de boca fria. à benda da esquina. trêmula. uma ou outra vidraça que se ilumina por uma luz que vem de dentro e onde sombras aflitas. olhando. São os pobres que esperam a morte. Até os tocadores de violão não ousam aí fazer as suas líricas serestas. Sombras. que anuncia: Vila de Nossa Senhora do Bom Jesus de Braga. porém. amarelada e baça. Tratar com o Sr. arrebentando calhas.. São os tuberculosos que tossem. Ruídos cavernosos. tipa! Passada uma meia-hora. ou em tombos pela anfractuosidade dos telhados. Sobre os muros. pondo em sobressalto os cães que dormem sob os beirais partidos do casario tranqüilo e melancólico. mas que se perde pela noite escura: – Morreu! Deus meu! Como eu sou desgraçada! – Mais um! Comenta em plácido sussurro. . a miar. despedindo-se da vida. da estalagem. estalando cumeeiras. ∗ ∗ ∗ Dorme cedo o cortiço. uma dessas janelas abre-se de repente. na rua solitária que cruza em frente.

. sem os naturais recursos . . . . embora. . pelos caixeiros de um comércio que os prendia até tarde. rapazes esses que. pelos rapazes que ainda não faziam esporte. ambientes agradáveis em matéria de conforto. a grande massa da população vivia mal. . na rua. eram como cabras ou potros num terreiro. muito mais ruidosa. alimentada. SEUS FREQÜENTADORES – O BOÊMIO RAUL BRAGA – OUTROS BOÊMIOS UEM acreditará que o Rio de Janeiro do começo do século teve uma vida noturna. para viver. . nas lojas que só se fechavam às dez horas da noite. era ela intensíssima. quando se soltavam. . . . como foi a nossa no começo do século. Só os ricos podiam criar. sobretudo. Capítulo 13 A vida noturna A VIDA NOTURNA DA CIDADE – HÁBITOS DE BEBER – O QUE SE BEBIA – UM POUCO DA HISTÓRIA DA CERVEJA E DOS NOSSOS BARES PELO COMEÇO DO SÉCULO – O “BRAÇO DE FERRO”: SEUS PROPRIETÁRIOS. . . . e. relativamente muito mais ativa. . . os prazeres que não podiam encontrar na morada triste e vazia de qualquer aprazimento. e. . . finalmente. . sobretudo. sobretudo durante o estio. . .. . pelos que buscavam. quando a casa de residência se transformava numa verdadeira estufa. . . muito mais alegre que a de nossos dias? Frívola. .

sem ar. em restaurantes e outros lugares públicos de reunião e convívio. onde ficavam refrescando até o momento do suplício de recolher para o leito. pelos cafés e até pelos logradouros mais centrais da urbe. por esse tempo. por essas noites de espairecimento e alívio. a tornar ainda maior a ardência da cama. iam pelos bares. diga-se de passagem. tão discutida e bem maior. de chapéu na mão. com música. com um vasto cortinado de filó.250 Luís Edmundo de defesa que em outras partes do mundo já então se empregavam para suavizar os rigores da estação. como na idade colonial. loquazes e tarameleiros. onde se dormia de pernas abertas. até uma. quando anoitecia. Bebia-se pelas compoteiras! No . três e quatro da madrugada. ver as famílias. ou ficavam. Iam para os jardins dos teatros. pelo tempo. Espaireciam. buscarem o respiradouro das janelas ou o da calçada da rua. em qualquer desses lugares. relativamente. fora. por vezes muito espesso. bebia-se demais. então. nela prendendo. permaneciam. na casa inconfortável. só ficavam as mulheres e as crianças. duas. sobre lençóis que escaldavam. em music halls. sobretudo nos arrabaldes ou subúrbios. o rosto todo coberto de suor. O pobre filho da terra vivia a beber a “água da quartinha”. em geral. com a casa brasileira igual a qualquer casa de qualquer país muito adiantado e progressista. em passeios intermináveis. excelentes espetáculos em teatros. bebia-se como talvez não haja idéia de se haver bebido no Brasil. do consolo de largos ambientes arejados. Os homens saíam. sem luz. em alcovas estreitas. que a de hoje. a triste lamparina de óleo de colza queimando a noite inteira diante da oleografia do Senhor dos Passos ou de Nossa Senhora da Conceição. parados pelas esquinas. bebia-se muito. camisa sobre a pele. De tal sorte esses interiores abafavam que era comum. Daí a vida noturna que tínhamos. comodamente o homem. em grupos. a falar. Por isso. a discutir. mas que era a única defesa que existia contra o implacável mosquito. a rir. Desenfadavam-se. E às vezes. Somente. a gola aberta e as mangas arregaçadas. com alegria. tão falada. com mulheres. indo em busca. por esses lugares assim. bufando a abanar-se com uma eterna ventarola de palha. Refrescavam-se. prendendo a família inteira. Não nos faltavam. a passos lentos. Ainda se dormia.

em mangas de camisa. os piores defeitos. enorme. casas que então surgiam muito asseadas. matava o abuso do álcool. a barba crescida. em questões de saúde. sórdidas baiúcas onde o labrego continuava a vender a vinhaça malsã. o pé felpudo. só para negociá-la. que malbaratava o fígado. é a campanha que aqui sempre se fez após a nossa emancipação política. Quando eram obrigados a ter a cerveja que as firmas alemãs haviam tornado tão boa como qualquer similar estrangeira. com dosagem mínima de álcool. coisa velha no mundo. exigindo o uso de bebidas frescas e saudáveis. a aguardente de cana e outros produtos da indústria portuguesa de bebidas. E um dos motivos foi a campanha sistemática que lhe faziam os negociantes de vinhos estrangeiros. ou mais. que o colonizador para cá trouxera mal surgimos para o mundo. pondo em perigo de miséria todo o sistema vascular. atribuíam-lhe. Antes das tentativas feitas para tornar a cerveja uma bebida nacional por excelência. Por um anúncio do Jornal do Comércio datado de 1836 depreende-se que o uso da cerveja. por outro lado. então. entanto. que criava a novidade de um tipo de bebida adaptada ao nosso clima. sujo. só para afastar o novo concorrente do mercado. fortes e capitosos vinhos procedentes do Porto e da Madeira. A indústria da cerveja.. entre nós. não consentisse que até 1822 entrasse no país outra bebida a não ser o seu vinho. que tínhamos como os melhores do universo. porém. causticava o estômago. os nossos avós. no frio. o que não se compreende. Era. contra os exageros consagrados. endêmica. logo. quase sempre. a bebida. Compreende-se que Portugal. A displicência dos poderes públicos. o que se procurava beber. muito bem postas. produtor de vinho. bebiam-na . Boicotavam o produto não o recebendo na loja para o vender. como o nosso.. do Paraná e de S. Num país tropical. a sobrar na tamanca do ofício. de um lado. os rins e o coração. para aquecer. tais negociantes. em nada parecidas com as famosas tendinhas. e. pelo fim do século. de tal sorte obrigando os interessados na tentativa nacional a criar bares e brasseries. para refrescar. contra ela fazendo o que hoje fazem contra o vinho nacional. do Rio Grande. E as nossas predileções eram todas pelas bebidas portuguesas. ainda era pouco conhecido pela época. parelha com a ignorância do povo. Paulo. não pôde reagir. Mais que a febre amarela. era o corrosivo de 14 graus. corria. fazendo-lhe uma estúpida campanha de difamação. e vendê-la.O Rio de Janeiro do meu tempo 251 calor.

as chamadas pedras. da Dinamarca. vendidas em chope. ainda. Stoffel. as das Interior do “Braço de Ferro” Desenho de Armando Pacheco Fábricas Veloso. . Havia. da Holanda.252 Luís Edmundo importada. entre nós. Floresta e Tombal. já se bebia. a Bock-Ale e a Guarani. E. à Rua Visconde de Sapucaí. Eram importadores: Frederico José e João Batista Frederizzi. no Rio de Janeiro. Marcas menos importantes foram a da Cervejaria Sacramento. de Cristiânia. Comércio. a da Guarda Velha e Logos. de Nicolau Passos. A Fábrica Gabel teve notável clientela. e a Norvegian. Heckescher & Cia. a Hainekens. Stampa e Ch. são muito antigas. branco. Santa Maria. As marcas Teutônia.. com largas tampas de metal. pelo fim do século que passou. Além dessas canecas havia. Quando surgiu o século.. a Carlsberg e a Aliança Pal Ale. isso. Maschle. as fábricas iam-se multiplicando pouco a pouco. canecões bojudos. ainda. a de Pinho & Leite. entre outros. Da Alemanha vinham: a Pá e a Dois-Machados. cerveja brasileira. Antes da República. Mentges Cia. As primeiras tentativas industriais no gênero. a Franciscana. F. Stampa. apesar da campanha contra ela. Leal Rosa. a Guiness e a Porter. com o intuito de sustar a importação desse produto que já podia ser feito no país. em copos que afetavam a forma de canecas de vidro com asa. feitos em barro cozido. Olinda. Bramina. na Noruega. H. da Inglaterra. altos e grossos. já tinha lançado quatro grandes marcas que foram como quatro dardos ferindo de morte os propagandistas dos álcoois fortes: a Brahma.

entretanto. pelos fins do século que passou e começo deste. entre nós. contudo. tragicamente. Não esquecer. Esse estabelecimento. uma tripa extensíssima. conhecido primitivamente entre os alemães. por isso. bares e restaurantes de comidas quentes e frias. não se repudiava o vinho. os estabelecimentos de maior projeção na propaganda da cerveja. o de Robert Knoff. brasseries. dos raros dignos desse nome. Havia ainda o bar de Henrique Heitman. que já tivemos na cidade. que ficava na Rua da Assembléia. Cavaleiro. vieram depois. indo para a loja nº 103. Lapisk. rendez-vous de gourmets. comprimido entre dois bondes. 117. também. entre eles Carlos Wehrs. figura de grande projeção no Clube Germânico. resolvendo as questões de câmbio e de partido. o bar Necrotério. entre nós. em seu estabelecimento. no lado oposto da mesma rua.O Rio de Janeiro do meu tempo 253 Cristal. com magnífica salsicharia. ainda. O bar Lapisk era outro. Entre os mais notáveis lembremos o Zum nachte spotzer. que depois abriu o famoso restaurante da Bolsa. por Zum Schlauch. aí pelo ano de 1901 transferia a sua sede. tinha uma excelente voz de tenor. onde. 102. o mais conhecido e o mais freqüentado. à Rua da Assembléia. Malzbier e Fidalga. De todos os bares. porém. assim chamado pelos freqüentadores por se achar colocado junto ao necrotério da Ordem Terceira da Penitência. sobretudo pelos boêmios desse tempo. este com voz da qual se pode bem dizer que foi das melhores existindo. isso porque lembrava. na mesma rua. grande número de cantores brasileiros. recordman dos torneios da cerveja que então aqui se fabricava e que morreu um dia. mantendo fina e numerosa clientela. o bar de Albert Prechel. muito conhecido. também bebidas em chope. O Stadt München e a Maison Desiré foram. pelo tempo. que nele se reuniram. era um alemão de gordura fenomenal. onde os grandes banqueiros e os grossões das finanças e da política almoçavam. reunindo. ponto onde hoje existe um pequeno . espalhavam-se pela cidade. o de Vicente Pirassi. foi o do velho Jacob Wendling. da conhecida casa de música que ainda guarda o seu nome. Os pequeninos bares. Heitman. em frente ao lugar onde hoje existe a Casa Heim. no corredor em que nascera.

com um infalível traço de ironia debruando-lhe a flor do lábio franco e sorridente. mais tarde. e era de vê-los. pouco depois dessa primeira transferência desaparecia e o caso é que pelo ano de 1905 ou 1906 passou a ser conhecida. de caixeiro passou logo a gerente. sobretudo. as carnes hirtas. E Adolf. Zum Schlauch. Esse o alter Jacob. vermelho. com o seu bigode de guialonga. positivamente. os cotovelos fincados no mármore da mesa. na época da mudança para o 103. mamando a cana longa do seu enorme cachimbo de Nuremberg. vencendo pugnas memoráveis e até abatendo. por Braço de Ferro. que é história muito diferente da que até já saiu. tranqüilo e pachorrento. o qual graças à sua atividade. as cabeças unidas. sempre dependurado do lábio tranqüilo e frio. Quando ainda negociava na sua primitiva Schlauch. O braço de Adolf era. com grande melhoria de instalação. porém. os músculos retesados. pouco depois. a sócio. que se notabilizou como um terrível campeão no jogo. urrando. por aí. e. que se chamava Adolf Rujaneck. sendo que. fazia-se proprietário definitivo do bar. sempre muito piscos. Era um tipo pequeno. A denominação primitiva. o velho Jacob. desenvolto. os ossos firmes. passou a funcionar na Rua da Carioca. Pelas mesas colocadas ao fundo do estabelecimento juntavam-se os homens para matches sensacionais. deveria ter sessenta e poucos anos. gemendo. publicada. férreo. Jacob Wendling tomou a seu serviço um rapaz brasileiro. grande. Adolf. ciosos de derrubar um o braço do outro.254 Luís Edmundo restaurante. e. os que se consideravam dos mais possantes bíceps da cidade. em golpes extraordinários. a uma aguda e clara inteligência. para assistir a essas refregas relevantes. embora filho de alemão. de olhos de raposa. magro. a casa. época em que. mas era rijo. Por vezes. e de tal sorte se dedicava ao esporte da queda-de-braço. cabelo à brosse carré. Os desafios eram constantes no bar. E por que Braço de Ferro? Saiba-se a história verdadeira da origem desse nome. como muitos dos rapazes de outros tempos. não há muito tempo. as faces cheias de sangue. nesse lugar ficando até 1927. Não era positivamente um atleta. um braço formidável. Lembrava o velho Jacob uma figura evadida das páginas do Simplicissimus ou do Fliegende Blätter. chegava. presa de esforços inauditos. o seu ar bonachão e um clássico cachimbo de cana longa. mantendo o prestígio de seu braço . em 1907.

ainda hoje existe na Rua da Carioca. obrigados a louça quebrada. numa noite em que este. com o nome Adolf. depois de certa hora. Apesar de parecer. arnica e xadrez da polícia. especialmente importado da Alemanha. com efeito. da Baviera. tiro de revólver. Pois Adolf não meteu Raul dentro de um vasto tonel de reclame. fama e aureolando-o de glória. tão do começo do século. No bar do velho Jacob. freqüentadores da brasserie. Desde essa época. monstro alto de dois metros e tanto. Recorde-se. estava inconvenientíssimo. proprietário do bar tradicional que. a fina flor da colônia germânica domiciliada entre nós. Duas portas. toda essa estrangeirada tranqüila. muito bêbado. relíquia feita em jacarandá mas com tampo de mármore. No 103 da Rua da Assembléia a loja era melhor que a dos tempos do Zum Schlauch. feito logo após a proclamação da República. a que ele pregou ao Raul Braga. louros e obesos teutões. coisa extraordinária. no leilão do Paço. Não era. por bom preço. Muitas partidas e boas pregou aos seus amigos boêmios. Viviam. Ambiente mais vasto e mais cuidado. entre outras. completamente tomadas as mesas da cervejaria. um tipo de precária expansão. ao invés de uma. apenas lixadas. que durante muito tempo serviu de anúncio à cerveja Bock-Ale. talvez. contudo. Foi o braço-de-ferro de Adolf que deu nome ao bar. O informe nos é dado por Ludwig Voit. Esse móvel histórico. divertindo. tonel que ficava dividindo a sala do bar da . ganhando apostas sobre apostas. heróicos bebedores de cerveja. tinha ele um fundo alegre. que eram a nota infalível da casa. lembrando as dos Pichor-Brau. não raro. quando a não sobressaltava com aquelas explosões de ânimo que degeneravam em pavorosos conflitos. ships chandlers e os boêmios da terra. que eram de madeira clara. dando-lhe reputação. seu antigo sócio e. Como clientela.O Rio de Janeiro do meu tempo 255 terrível. era disputadíssimo pelos freqüentadores. outros estrangeiros. mantendo no campeonato do jogo a ceinture d’or que não mudava de dono. Entre essas mesas uma havia que pertencera ao Imperador e que o velho Wendling comprou. cônsules. Adolf Rujaneck era figura central. franco e era engraçadíssimo. que tal denominação surgiu e pegou. Mesas em maior quantidade e um serviço de delicatessen. pelos dias que correm. consignatários e capitães de navios.

porém. Adivinhava-se o homem como um gato que quisesse subir numa parede lisa. logo que se viu dentro da almanjarra. de dentro para fora. De uma feita veio até um velho banco. a mão nervosa. Sentindo-se incapaz. acabando por quebrar. invalidado pela ausência de um pé. tentou. nervoso. os seus proprietários e até a freguesia. A idéia do tonel fora. sacudia-se todo. seco de qualquer cerveja. Custou. no Cais da Lapa.. aos poucos. como talvez se pense. em fantástico estrondo. Ah. Era o único meio capaz de dar à freguesia. Era no seio dessa disforme almanjarra que se guardavam vassouras velhas.256 Luís Edmundo sala onde existia um tabuleiro de bagatela. O boêmio não se deixou. não! Ofereceu resistência heróica. o olho congesto. todos os guarda-chuvas que ia. voltava. de quando em quando. Pequenino. Tudo havia-se tentado. Não podendo. um pouco de sossego. aos empurrões. subia-se por uma pequena escada de três ou quatro degraus. indefectivelmente. tentar escalada e fuga. cair sobre uma prateleira. bengalas e guarda-chuvas esquecidos pela freguesia (a época era a dos guarda-chuvas e da bengala) e mais inutilidades do estabelecimento. em riste. já seriamente aborrecida e alarmada com as truanices do boêmio.. todas as bengalas. mordia os que o seguravam.. um tanto violenta e imprevista. aperitivos em conserva para servir na hora das salsichas e das almôndegas. E voltava irritado. pepinos. derrubar o tonel. um enorme recipiente de vidro onde o Adolf curtia couves-flores. não havia outra. E Raul. cioso como estava o Adolf de pôr um paradeiro à mais escandalosa de todas as suas bebedeiras. o inconvenientíssimo. mas. aí foi uma noite encerrado. mas foi. Começou. . insultando o pessoal da casa. virá-lo. conduzir mansamente. Raul. achando no ventre do pipaço. diga-se de passagem. no Campo de Santana. cebolas. Quatro garçons agarram-no como se agarra um porco e com ajuda do escadote atiraram-no para dentro do barril. a atirar sobre a cabeça da clientela pasma. mesmo porque todas as forças anteriormente feitas para afastá-lo do bar tinham tido resultados improfícuos. quis ele. o cabelo em desordem. para além do Largo do Machado. Atirava com os pés. ao fundo? Para alcançar a boca desse tonel diogênico. quiçá. Até então. teve uma idéia genial. todas as vassouras. saía um garçom a arrastar pelo braço o impossível Raul e ia deixá-lo longe..

caso ele. não sem acrescentar ao mercador: – Com linha crua forte e um anzol. em meio às suas delirantes chocar rices. Fernando. Como passassem no caminho por uma casa de artigos de caça e pesca. Dois conjuntos prontos para qualquer pesca. que tinha um bocal enorme e de onde os legumes em vinagre eram retirados por uma colher de pau. os caniços como armas sobre os ombros. mas. de sandava. pagando o que bebiam. a grande espanto de toda a gente. reponta-lhe o gaúcho. com pepinos pescados por nós mesmos! Referia-se aos pepinos que o Adolf curtia em manso e escuro lago de vinagre. resolutos. E acabou por declarar-se pronto a garantir a despesa das salsichas. Volta-se para Raul e trata de exAdolf Rujaneck plicar: Desenho de Marques Júnior – Comeremos no Braço uma boas salsichas de Francfort. entre cebolas e couves-flores. Esse mes mo Raul e Fer nan do Ca loé (boê mio ga úcho meio do i do. nela entrou o sulista. – Pois vamos comer ao Braço-de-Ferro. E tu? Raul confessa que seria capaz de comer alguma coisa. . conseguisse pescar algum. quan do diz ao primeiro o segun do: – Tenho fome. conto uma história amena. descendo a Rua do Ouvidor. Raul observou-lhe. a dar ti ros de re vólver para o ar. Aceitando Fernando o desafio. onde dobraram. que pepinos não se pescam com anzol. partiram ambos a passos largos. como nas fitas americanas onde en tram assuntos do O velho Wendling Desenho de Marques Júnior Far-West) bebiam numa tenda da Pra ça do Merca do. que. por vezes. aí. pedindo dois caniços. até a dos Ourives.O Rio de Janeiro do meu tempo 257 Desse recipiente. E partiram.

sem ciência. coisa assim capaz de pescar até pirarucus no Tapajós ou no Amazonas. uma ciência. uma infâmia”. aproveitando a trégua. No Braço-de-Ferro. Adolf. fora de si. receoso que lhe quebrassem o frágil recipiente de vidro. o anzol raspou o dorso de todos os pepinos mergulhados. bebem sem necessidade. porém. às vezes. um círculo de curiosos. é uma necessidade. vai sobre ambos atirando. qualquer coisa de sólido. embora um tanto complicado. Emílio de Meneses. .258 Luís Edmundo Achou pilhéria. Durante quase uma hora. embriagar-se.. Muito. por vezes. abusando do álcool. e boa pontaria. com articulações de metal. Fernando fere qualquer coisa que não se esfarela. Todos. tendo à mão a vasilha. com fúria. Enraivecido. sofriam o embate. todos os pepinos e todas as cebolas que vai achando mergulhados no vinagre.. instrumento perfeito. exclamando: – Vitória! – Perdão – diz-lhe Raul. E como hábil pescador fez logo manobrar a flexível cana. por sua vez. em torno do bacio de vidro. infamemente se embriagando. que ainda não se perdeu de todo: “beber. A originalidade da pesca criou logo. que consentiu no ensaio. com o seu braço de ferro tenta imobilizar o gaúcho. e a levanta fora do lago de vinagre. apoiado pelos demais que assistem àquela inconcebível pesca – isso não é pepino. é talo de couve-flor! – É pepino – berra. O gaúcho lançou o anzol. o Raul. É quando Adolf. Em dado momento. a fio.. enquanto Adolf e Fernando lutam. ao caso. que consolida a fama de intrépido bebedor. num gesto rápido. saber beber.. também livraram-se dos ataques terríveis do aço em ponta. sem ferir um só! As cebolas. vai deixando pelas mesas por onde passa este axioma. passavam-se cenas edificantes. o sulista. Bebe-se muito por todo esse Rio de Janeiro. porém. – É pepino! – É couve-flor! – É pepino! – É couve-flor! E das afirmações vão as vias de fato. mas. Só as couves-flores. esfareladas.

mas em forma de rosca de parafuso! Naturalmente pergunta-se-lhe: – Por quê? – E ele. para os que bebem. sem se perturbar. liba. na hora de beber.. um dia: – Ah. Dificilmente se diz. com um risinho de doçura e simpatia. assim mesmo. moreno. vivendo como vive. de barba andó. A época. Comentários. para não arrancar o pão das pobres lavadeiras! Que diz Guimarães Passos. sempre que leva alguém a beber? – Vamos levantar o moral! Emílio.O Rio de Janeiro do meu tempo 259 Plácido Júnior. a propósito.. um que é meio boêmio? Raul Braga Meio boêmio! Meio. é das maiores indulgências. então. de alguém que ultrapasse. que se saiba. de manhã até horas tardias da noite. o Neves? Um alto. pela época do Encilhamento. Frase deliciosa de outro grande bebedor desse tempo: – Afinal não bebo água por uma questão de puro sentimentalismo. respondendo: – Para que nela. é que é um boêmio. no começo do século. mais epicurista do álcool que um viciado vulgar. homem. – Sabes que a Sinhazinha vai casar com o Neves? – Espere lá. o que bebo. todas . a beber. um Petrônio magnífico.. – De sentimentalismo? – Sim. magro. afinal. porque Desenho de Calixto não volta para casa carregado a braços. o limite normal das conveniências – É um bêbado! – Pois sim! No máximo o que dele se pode dizer. assim nos fala. as preocupações de elegância que dele faziam. do poeta Bilac: – Emílio não bebe. quem me dera uma garganta sensível como a que possuo.. não foi homem do qual jamais alguém pudesse dizer que fora visto a ziguezaguear pelas ruas. que conserva. possa ir passando bem devagarinho.. que trabalha no Tesouro.. e.

as que maior dosagem de álcool apresentam. na hora de maior trânsito.... capela. como se olhássemos para a estátua de um gênio. bebeu. Lá veio ele com vaso e tudo. O vinho quase todo ele é por- . o Raul Braga. pela época? Afora a cerveja. todos os espelhos do restaurante. todas as bebidas existentes sobre a face da Terra. E ainda mais uns três uísques. a seguir. Vieram. que então aparecem anunciadas por cartazes lindos e vistosos. tenda ou botequim. com sifão. virá a se chamar pau-d’água. desprezivelmente. ontem. em geral.. que era considerado boêmio inteiro! Olha-se para esse que. sozinho. certo dia. – Fulano. na cabeça. Depois pediu dois absintos. porque não dá escândalos no bar ou no café. Feriu dois garçons.. depois. cavalgando tonéis e integralmente bêbados? E que espécie de bebidas bebem os homens do Rio de Janeiro. tendo comigo bebido três “virgens”.. enternecedoramente. entre sorrisos da maior benevolência e “ahs!” da mais viva e mais sincera admiração. e. depois. de preferência. Pois as marcas de cerveja Brahma. Puxaram-no. ao jantar. Curioso como o sentimento católico vive sempre de mistura com todo esse desenfreado culto a Baco. uma garrafa de Madeira. com camisa de fora das calças e um canudo de papel em forma de mitra. Passou uma rasteira no guarda-noturno. com deferência e com respeito. como apareceu.260 Luís Edmundo as noites. Ia ficando ruim. Fugiu para os fundos da casa. no Ervedosa. Para consertar foi necessário tomar meio litro de conhaque... chama-se. agarrando-se ao vaso da retrete. pregados em todas as esquinas. que apenas começa a se impor. De outro que bebia muito falava-se. porque não aparece em plena Rua do Ouvidor. À brasserie. Um homem extraordinário! Ao ato de beber chama-se erguer a hóstia. as mais fortes. quando se quer pedir uma dose de vinho do Porto. Não quis ouvir o delegado. Pede-se num balcão “Sangue-de-Cristo”. Os desmandos de um grande bebedor contam-se. como se contam façanhas gloriosas. de meias. mais três ou quatro genebras. assim: – Quebrou toda a louça da mesa. sempre. não mostram figuras de frades gordos.

Itália ou Alemanha. foi pouco mais de 3 milhões. em lugar desses 90 milhões. mostrando as iniciais R. No entanto a maior parte do vinho que aqui se vende como ótimo. onde a uva portuguesa. mas em escala muito reduzida. porém. os vinhos de França. O comércio. C. E o que se importa. desta maneira curiosa: R – roubalheira. basta lembrar. por esse tempo. Quer isso dizer que. O carioca. finalmente. para esta parte da América. também oficiais.O Rio de Janeiro do meu tempo 261 tuguês. e o que se vê pelas estatísticas. é todo ele falsificado ou “batizado”. V. isso só no que se refere a vinho comum. de vinho português. para uma população como a de hoje. isto é: Roubalheira completa. em geral. é que. há quem garanta. C – completa. nada menos de 90 milhões! Noventa milhões! O que se dá. pela época. do puro ou de zurrapa? Uma enormidade! Para se ter uma idéia do que isso é pelo começo do séEmílio de Meneses culo. que se chega a importar de Portugal. nem pinga! Os poderes públicos não se mostram muito interessados na repressão dessas anomalias. da Itália e da Áustria aqui nos chegam. de 1932. P – pinga. vinho. à guisa de reclame. P. de Espanha. Naturalmente. N. Queda fantástica! Para explicar tão vultoso consumo de vinho vindo do Reino. brejeiramente explica o significado das iniciais.) Possuía o Brasil. A velha frase de fazer azia em caixa de bicarbonato é desse tempo e aplicada sistematicamente aos vinhos de França. num ano – 43. teríamos que importar. com raras exceções. nesse mesmo ano. só algumas vezes entra. o que se importou. basta lembrarmos isto: o . Vêem-se pipas expostas ostensivamente nas lojas. naquele tempo. V – vinho. A famosa Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal transborda o mercado do Rio com seus produtos. uns 22 milhões de habitantes. Espanha. citando estatísticas ofiDesenho de Calixto ciais. N – nem. se bebêssemos como outrora.000 litros! (Estatísticas do Ministério da Agricultura.400. faz contra esses vinhos uma perseguição feroz. vinho de Portugal. da Alemanha. porém.

se não se modifica. cerveja é virgem loura. expressões de um refinado carinho para indicar todas as bebidas. por vezes. você com essa mania de não beber cerveja. E todos esses álcoois tremendos a cidade vive a absorver em quantidade fantástica.. a tendência dipsomânica do carioca ou não se modifica a sua preferência em matéria de vinhos. Vem o duplo.. bebe-se muito. Bebe-se por gosto. uma fonte pública. para não fazer feio. tão depressa. absinto. – Beba. por obrigação. autêntica.. até enfeza os outros. Pede-se um cavalinho quando se quer tomar um uísque. branquinha. Por exemplo.. com pingos de Fernet ou Bitter. hoje. E ainda há a ginjinha.. . enorme.. traga um chope duplo. para o seu Gonçalves! Amigo Gonçalves sorri amarelo. comemorando a descoberta portuguesa do Brasil ao invés de umas folhinhas de desfolhar. vermute do pobre. para não desmanchar prazeres.. feitos na mesma pedra ou de pedra ainda mais rica. na Avenida. aqui. ou nos jardins da Beira-Mar. pelo tempo. a laranjinha. aperitivo nacional particularmente querido e apreciado. São as famosas abrideiras. este. toda de mármore. por vício. A alcoolatria indígena tem. talvez tivéssemos arcos triunfais ou estátuas várias a Baco ou a outros deuses do Olimpo. por ser chique. homem! Seja dos nossos! Aqui é assim. Pede-se num balcão: – Uma patrícia com botões dourados – o que equivale a pedir uma aguardente da terra com pingos de Bitter ou Fernet. dignificado por fantasiosas misturas.. – Ora.262 Luís Edmundo exportador portuense Adriano Ramos Pinto manda de Portugal aos seus fregueses do Rio de Janeiro. como prova de gratidão de outros exportadores. uma espécie de xarope que dá ao líquido um adocicado sabor. a aguardente de cana (também do Reino) e o nosso parati. a genebrinha. seu Gonçalves. aguinha. esplêndido chafariz que ainda existe no nosso jardim da Glória e pode ser visto por quem quiser. Uma fonte pública! Quer dizer que. Ó garçom. E assim se chama ao parati água de Nossa Senhora. mostrando uma certa contrariedade. com goma. como lembrança. Além do vinho português. prêmio do céu.

Por fim começamos a cuspir em nós mesmos... É quando se pensa em levá-lo. já lambe os beiços e não mais protesta.. Não fica. passa de brilhante a baço... Cuspimos o bonde todo. então. voluptuosamente.. É a conta.. tem um sorriso lorpa de aquiescência amável.. acham muita graça. As suas pernas são como se fossem de pano. o bigode. No fundo. Todos riem. Se visses! Na rua cuspimos a calçada do estabelecimento. ó garçom! Amigo Gonçalves. com a maior naturalidade e desplante – uma pândega de rapazes! Outra: – Não imaginas. levado em charola.. Se cuspimos! Cuspimos até a chapa do condutor. como um fardo. – Ó Gonçalves. como uma trouxa. faz um corta-jaca! Vai firmar-se no molambo das pernas e cai.. Lá vai Gonçalves. Empurrado. porém antes cuspimos as mesas todas. os copos. tudo isso representa a grande diversão de uma roda de estróinas. amarelo como um pedaço de cera.. de um só gole. a frase de lépida. ele próprio. No fundo. vai ficando aos poucos sorumbático. Foi uma dessas . aí.. suando como um lagar. encharcando-se. ao todo. Antes.. dá então o sinal do primeiro vômito. – Ó Gonçalves. como nos divertimos! Éramos sete. Vem o duplo. O olho aí. Saímos. a perra. obra de uns 80 chopes.O Rio de Janeiro do meu tempo 263 Bebe empurrando. todo. o batismo! Põem o Gonçalves em pé. – Traga outro duplo. para o amigo Gonçalves. Todinha! Tomamos o último bonde que ia para as Laranjeiras. mas começa a engolir a música. como uma séria obrigação. Gonçalves. de alegre e comprazido. E quando chega o terceiro duplo o amigo Gonçalves vira convencido.. o cabelo. a fim de vomitar em casa. Bebemos. O homem da brasserie queria fechar a casa. o balcão.. Chama-se a isso. canta a Marselhesa! Gonçalves tenta cantar. No fim. mas vai.. as canecas de louça. até a soleira da porta de sua residência. ontem. Arrepia-se-lhe o laço borboleta da gravata. um pensamento delicado. Bebe a goles largos. de olho mais brilhante e a frase muitíssimo mais lépida. amigo Gonçalves mostra-se um tanto alegre.

.264 Luís Edmundo pândegas! Ríamos.. como ontem nós nos divertimos. ríamos!! Se vocês soubessem.! Trecho da Rua do Hospício Desenho de Armando Pacheco .

luvas brancas com punhos de celulóide. . . . E o freqüenta com a maior assiduidade. mostrando uma reles entradinha de ladrilhos. uma ruína dourada. . uns espelhos muito velhos. . empresários e até público. . . . O melhor teatro da cidade é o Lírico. . . . . Capítulo 14 Teatro do tempo TEATRO DO TEMPO – O “LÍRICO” E OUTROS TEATROS – ATORES E ARTISTAS DE MAIOR NOME – PITORESCOS INTERVALOS – FREQÜENTADORES DE GALERIAS – A CLAQUE – REPERTÓRIOS – PALCOS DE AMADORES CARIOCA do começo do século ama particularmente o tea- tro. . Não esquecer o pulgueiro que é notável. . . . As que existem são reles barracões. . peças.. muito sujos. . . cercada de espelhos. nas noites de grandes premières. . envergonhados lugares onde sobra o mau gosto e falta a sombra do menor conforto. . . muito enodoados e uns porteiros de apresentação grotesca e mal-ajambrada. Em compensação – e isso é pelo menos um consolo – sobejam os atores. . sorrindo debaixo de densas gaforinhas postas em caramanchão e usando. . Só não possui boas casas de espetáculos. .

a mais fresca e a mais amável das recordações. é um casarão de precária grandeza. o Lírico. Pedro II. saudando para direita. quando daqui saiu. nos espetáculos de ópera. descalçava as botas e calçava. refeição que era conduzida em um recipiente de porcelana. O pobre homem não se desconcertou: saiu em chinelos. isso sim. logo que chegava ao teatro. na carruagem. que estava no Rio. príncipes. durante o primeiro intervalo. Uma noite o Rafael. O caricaturista português Rafael Bordalo Pinheiro. como se sabe. págs. guardando. sem imperador e sem canja. que. morre na sombra de uma serena e Autor desconhecido amável simplicidade. sem destaques Manarezzi chocantes. em chinelos. 29 e 30): “O imperador do Brasil. não se conteve e disse: – Mais. Pedro II. o grande ar tista dos Pescadores e de El-Rei Junot. metia-se no camarote. onde o grotesco. para esquerda. quando aqui chegou e lhe mostraram a almanjarra vazia dos ouropéis com que se ataviava nas grandes noites de espetáculo. muito antes de ser a mesma conhecida em Lisboa. com regalo. uns chinelos. tinha a pesar-lhe nas veias o sangue do pai e do avô. foi pé ante pé. da Imperial Família. Pedro de Alcântara. mil vezes o S. meteu a mão pela cortina e roubou-lhe as botas. uma princesa austríaca. metido em uma caixa de pau e envolta em grossos panos de lã. que herdou distintas qualidades de sua mãe. Em 1901. nós a saberíamos. O que se conta. atravessou em chinelos a multidão. I. aconchegante casa de . como verdade. a ser real. o nosso segundo Pedro forrava-se de um bom caldo de galinha ou de uma boa canja. c’est un cirque! Era o Imperial Teatro de D. foi contar para Portugal uma história curiosa. a história. por ele vivida nesse teatro antes do alvorecer do século XX e que Raul Brandão.266 Luís Edmundo A grande atriz Réjane. contudo. que a Monarquia enobreceu e a República democratizou. é que. desceu até ao pátio e meteu-se. ainda. Penso. de bem pouca compostura.” Não sei se o caso é verdadeiro. Como teatro. nos descreve em suas Memórias (vol.

sempre muito bem iluminada. que se chamou. acústica razoável e cadeiras. Japonesinha. onde chega. de abrir e de fechar. Por vezes têm nomes edificantes. fora. Chamam-se: Alice Cavalo-de-Pau. as mesmas que os autores de revista metem nos quadros que fazem representar e que assim se retratam: Neste mundo fementido Adoramos a folia. todas elas fazendo enorme sucesso. Maria Joanete. o Recreio é o teatro preferido pelo que então se chama “alto-madamismo”. e que. No jardim alegrado. que as examinam como se examinassem qualidades de seda pelos balcões das casas de fazenda. onde há chalés que se alugam a tanto por mês e crianças descalças que jogam o “tempo-será”. Berta Chuchadeira. de quando em quando. olhando na praça. Adelaide Chove-não-Molha. Marieta Meleca. Os outros teatros não valem nada. No fundo. com camarotes que mostram corrimãos de belbute. sorrindo aos homens. Que o público.. goza de preferência.. ou antes de começarem os mesmos. No entretanto. sem flores e quase sem plantas. a Bancada Mineira. também. cheirando raminhos de violetas e malva. São sacerdotisas de Citera. todas elas em toilletes escandalosas. na platéia. muito bonitas e alegres. Recreio Dramático. Não passamos sem Cupido. por ocasião do intervalo dos primeiros atos.. Rosa-dos-Ventos e Laura Portuguesa. Anita Quiiandetra. vindas de Minas. moradoras de uma pensão à Rua Maranguape. elas não passam. Nas horas de intervalo toma-se um refresco feito com polpa de tamarindo. no buffet do 1º andar. sem Mercúrio. De ver. o contínuo movimento de pedestres e veículos.. lembra uma estalagem. Augusta Mulata. Não esquecer um grupo de cinco raparigas. Xandu. de mesas e de fre guesia. nesse jardim. com pretensões a jardin-d’été. na hora do intervalo. todo ele.O Rio de Janeiro do meu tempo 267 espetáculos. Somos filhas de Vênus. há uma bica . uma espécie de galeria descoberta. Chica Polca. as artistas de aquém-cena. as madamas. Mariquinhas Quinhentos-Réis. o afinar monótono e insistente dos instrumentos da orquestra. com muito espírito e por muito tempo. que é um salão enorme e vazio de garçons. dentro de um jardim empedrado. piscam um olho terno e escurecido à força de rolha queimada ou bistre.

finalmente. paga aluguel de casa. De quando em quando os navios das Messageries. sem o menor favor. aflita e mal fechada. fazendo um sucesso louco. ceifa-as às dezenas. desdentado. Isso. muito melhores que as nossas. que não respeita nem os empresários. nesse tempo: em artistas. e. é verdadeiramente notável. lindas e guapas raparigas. o Fênix Dramática. ou de revista. o Variedades (que se chama. Gente escolhida a dedo para agradar no Brasil. é que vai refrescar a goela ressequida o homem de paletó de brim. a flor dos teatros da Itália. depois. ao pé. as companhias portuguesas. impelidas pela miséria da terra. Muitas se transformam. Nessa bica. o Politeama. de drama ou de tragédia. desde que cai o pano. identificadas a este abençoado torrão. depois. em repertório. que mereceu até uma crônica do João do Rio. vive a gritar. em anafadas e honestas mães de família. o Lucinda. companhias espanholas com os melhores conjuntos de Madri. sem uma caneca de folha. da Royal Mail. o Guarda Velha. vêm em busca da fortuna. de grenha hirsuta. porém. empregados e impostos. cheias de rugas e de filhos. o número das estrangeiras. e até em montagem. É uma lástima. com as mais robustas notabilidades do teatro de Paris. de um lado para o outro: – O resumo da peça a duzentos réis! Há ainda. que aqui chegam.268 Luís Edmundo velha. Moulin Rouge). não impede que as companhias que funcionam no Reino modifiquem os seus projetos de receita. uma ruma de impressos debaixo do braço. elencos italianos de ópera. ou Navigazione Italiana desembarcam troupes francesas de comédias. Há várias companhias nacionais. porém. Todos esses centros de diversões. de opereta. mais ou menos ativos. onde envelhecem. funcionam sempre a transbordar de povo. Por vezes a febre amarela. que nos trazem as mais lindas mulheres de Portugal. para o espectador que não quer beber a cerveja do botequim que aí há. Não olvidar os famosos corpos de coros dessas últimas empresas. sem um copo. no Brasil. como teatro: o Santana. o Alcázar Parque (no Beco do Império) e o teatro do Parque Fluminense. o Apolo. Vingança de homem que tem o negócio. e que. e buliçosos repertórios de zarzuelas. na Praça Duque de Caxias. deixando de incluir novas e . com uma voz horrível e que.

Celestino não aceitou a pretensão de Grijó. charutos de Havana. porque foram vendidos inúmeros lugares desmarcados. deixando o teatro. há de morrer tarde ou cedo. uma série de espetáculos. Pouco tempo depois morre Celestino. na Rua do Lavradio. não falta. e os cambistas pedem por cadeira. que é a que ainda existe. de todo o . aqui. um tanto encanzinado: – Você não me cede o teatro. excelentes amigos no armazém da bagagem da alfândega e oferecem aos jornalistas. então. que custa 3$. para que fosse transformado em uma escola pública. uma proposta a Celestino. quando chegam. aqui. Nas rodas teatrais. depois. Nos dias dos espetáculos as lojas fecham mais cedo. então ter-lhe-ia dito. Alguns deles não se mostram. e até 20$000! E quase não se pode andar no teatro. e. E bom será lembrar um deles. 10. que está velho e doente. nem nenhum outro. conta-se de outro modo a origem dessa casa de instrução. lugar onde representar. ainda ganhando dinheiro com isso. que têm. podem comer em pratos de ouro. o Celestino Silva. E. no tempo. Um ator. no Apolo. hoje. A dificuldade. se me não engano. porque eu arranjarei as coisas para isso – foi a resposta do empresário. Os empresários. certo dia. Abrem-lhe o testamento e nele está a doação do teatro para fazer-se dele uma escola. em condições de ensinar aos outros o que não haviam ensinado a ele. fez. tal a de dar. Grijó.O Rio de Janeiro do meu tempo 269 freqüentíssimas viagens ao Brasil. A chegada dessas companhias de Portugal representa verdadeiro acontecimento. Companhias portuguesas assinam contratos com um e dois anos de antecedência. afinal. mas você. ingratos para conosco. público. darei eu os espetáculos que bem quiser! – Não dará você. no entretanto. que morreu podre de rico. 15. além da lotação! Não esquecer que isso é por um tempo em que a colônia portuguesa domiciliada no Rio de Janeiro ainda é uma verdadeira potência. Os jornais abrem colunas. passam a outros os contratos assinados. é ter palco. gravatas de Paris e outras propinas em seda ou em tecido mais ordinário. onde fez o melhor de sua fortuna. respeitável força. quando não podem vir. dona de todo o alto comércio desta praça. 8. o Grijó. porque. 5. Ouro é o que ouro vale.

enorme. está representando muito bem. diante de uma platéia respeitosa e atenta. amador de blagues e que está sentado na platéia: – Sabemos. o que é do comovente papel: – Fui ladrão! Bem sei! Roubei! Roubei.. sim. senhora. profundo.270 Luís Edmundo varejo. vem à linha das gambiarras dizer. combinado com um jovem escritor a tradução de certa peça por 300$. No Recreio Dramático. que.. continua: – “Sabes. Lucília Pérez Desenho de Marques Júnior Delorme Desenho de Marques Júnior Amélia Lopiccolo Desenho de Marques Júnior Apolônia Pinto Desenho de Marques Júnior . num tom de voz cavo.. duro e trágico.. e. que estapafúrdio motivo. tendo ele. Dia Fragma. declama: – “De todos os nomes que possuo. por acaso.” E arrancando do corpo uma capa negra. conforme se vê pela rubrica da peça. quem eu sou?” Resposta de Medeiros e Albuquerque. Dias Braga. como havia quem o chamasse. já não me lembro mais. mas paguei. só lhe pagou 150$. senhor. Representando o Conde de Monte Cristo. a Honra. com portugueses senadores e deputados na representação nacional. é o Senhor Dias Braga.. para pô-la em largos panejamentos sobre o braço. com ênfase e escola. Braga. quase subterrâneo. Dias Braga é rei. bastará um só para te fulminar. De outra feita.. dos melhores jornais e de outros instrumentos de prestígio em qualquer esfera da atividade nacional. Representa-se o dramalhão de Sundermann. alegando. por sinal. acrescente-se ainda. um braço de manequim.

belo homem.O Rio de Janeiro do meu tempo 271 Não contava. – Eu não escrevi essa asneira! Brandão. ele. No anúncio desse espetáculo (Gazeta de Notícias. bom artista. que está na platéia. dedos crispados. o cabelo em pé. abrindo enorme boca: – “Eu sou de uma família que mata!” Luís Murat. enviando ao local do espetáculo mais um esguicho suplementar. furioso. Certa vez assistia ele aos ensaios de uma peça de Raul Pederneiras. corrija você o erro atroz.. o qual grita. a par dos naturais cuidados do comandante do Corpo de Bombeiros. em dinheiro... repetindo o resto.” Há o ator Brandão. berra Dias Braga. olhos congestos. quase analfabeto. ao ator: – Seu Fulano.. faça-me o favor! . de março de 1901) existe uma nota assim: O último quadro da peça representa uma praça. com o jovem tradutor assistindo ao espetáculo. quando um dos artistas. solta um solecismo qualquer. que sabe de cor. – Grande besta – diz baixo o Raul. mete um apito de socorro à boca e sopra. do fundo de um camarote. como se recitasse o padre-nosso: – “Lago que a brisa mal encrespa e já se julga oceano. Ainda está me devendo 150$000! Das Duas Órfãs.. fazendo a platéia rebentar em riso: – Pagou. está errado! Isso não pode estar aí escrito! Repita a frase. E o Brandão. comovida. Pode-se calcular a enchente nesse dia. sabes tu que é o amor?” E a platéia. por essa época: Eugênio de Magalhães. Dias Braga representa uma peça intitulada D. enchendo a face de rugas. dizendo com particular sucesso a famosa frase da Morgadinha de Val Flor. Sebastião. mas só metade. rei de Portugal. mas de uma inteligência sempre muito pronta e viva. ao centro da qual há uma fogueira onde é queimada viva a judia Ester. num murmúrio de oração.. Em 1901. em cena. de Pinheiro Chagas: – “Criança louca. São nomes de cartaz. espetáculo comparável aos que então se chamam tiros e com os quais se arranca à colônia portuguesa o que se quer.

dize a esta grande besta onde está o erro. Onde está? Brandão podia ter desconcertado. morde os punhos. E Raul. mas saiu-se. nem pelo ..272 Luís Edmundo Guilhermina Rocha Desenho de Marques Júnior Leopoldo Fróis Desenho de Marques Júnior Nicolino Milano Desenho de Marques Júnior Alfredo Silva Desenho de Marques Júnior Repete-a o artista. furioso. com voz de trovão. Na verdade. porque. Brandão desaba sobre o ator. porém. Há o Eduardo Leite. artista discreto. – Uma grande cavalgadura. desanimado.. Ainda não está certo! – Ainda não está certo! – berra mais forte o Brandão. que eu. é o que você é.. tão-somente devido a casos mais ou menos graves e onde entram mulheres.. Ainda uma vez o homem repete a cincada.. um gigante. logo. mas de cujo talento pode-se dizer que não é medido pela sua altura. onde estava o erro. com grande linha. eu não sei onde está o erro. de novo. De Matos diz-se que tem uma pronunciada devoção por Vênus. que eu até tenho vergonha de lhe dizer! Matos é outro ator muito querido da platéia. Brandão – diz-lhe o artista. errando numa coisa tão simples! – Mas. ele sabia. por favor. no mesmo erro. a voz de um homem que esteja a falar de dentro de um baú. de cena –. – Queira repetir. apenas com uma voz horrível. com esta: – Ó Raul. a Brandão: – Continua a burrice do homem. tanto quanto o ator. afinal. Furioso. as companhias por ele montadas. Raul. logo se dissolvem. Mostre-mo o senhor para que eu me corrija. incidindo.. Sr.

brandindo na mão nervosa e satisfeita o talão das entradas. estarrece. seja dito de passagem. no começo de sua vida de artista. em tournée. criatura que até lhe parece dizer. O homem da janela é o próprio bilheteiro do teatro!. os que estão pelas janelas. populariza.. o Machado Careca. recuam. não recua. O benefício. Vezes o espírito das comédias em que vive cria-lhe situações de um cômico irresistível.O Rio de Janeiro do meu tempo 273 volume de sua voz. Grande dançador de maxixe. dos mais populares e queridos. de casa em casa. o hábito é ir o beneficiado. porém. que é um ator muito feio mas muito engraçado. Dobrando uma esquina. uma criança de 16 anos. o único daquela manhã de diligência e pesquisa. Ninguém.. por exemplo: Peixoto vai ao sul do país. batem os postigos. muito naturalmente. aos que nelas se mostram. Lá vai Peixoto com os bolsos recheados de talões. desapontado e triste. fecham as venezianas. Peixoto. apetecida gorjeta com que os empresários de outrora engabelavam os seus artistas. os que quedam pelas portadas ou janelas encolhem-se. se apaixona loucamente. os bilhetes da sua festa de Arte. . Há o Leonardo. Esta. é o quarto dado na semana em que o grande ator pensa realizar o seu. Defesa natural de um povo já explorado por múltiplas e inesgotáveis sangrias. o Colás. notabiliza o Fandanguaçu: Esse passo de massidras Que tem esquisita alcunha. sabe fazer rir. Por esse motivo. eu mesmo. as portadas. na janela onde está... o Bragança. desaparecem.. porém. entre atores brasileiros. de porta em porta ou de janela em janela.. Não é do siri-sem-unha Nem também do jocotó. onde me vê. onde faz benefício. oferecendo. meu amigo? – Quando. Chega a certa cidade. como ele.. que é pequeno e de escassa população. antes.. de súbito. ou pelas portas. vendo-o de longe. por quem a Maria Lina. Peixoto percebe o vulto de um homem que. num sorriso acolhedor e amigo: – Pois aqui estou eu. No lugar.. aqui. à cata do amável espectador. lhe sorri com simpatia – o primeiro. e está para perguntar ao homem: – Um ou dois bilhetes. Há o França. Peixoto é grande nome do teatro nacional por esse começo de século. Avança o beneficiado.. Sr.

com a boca. quando este regia a orquestra do teatro onde se representava. o que deu um tiro no Nicolino Milano. grande. embaixo. Em geral. Esses os principais artistas do chamado teatro nacional. como se chama então a parte mais elevada da sala de espetáculos. os joelhos e até as perDesenho de Raul nas. Alfredo Silva. Estefânia Louro. o ruído da multidão romana. Blanche Grau. Heller.274 Luís Edmundo Há. o de Pepa Ruiz. depois. Cinira Polônio. porém. que levantou o pano antes do tempo. podem passar. realmente. uma vez que elas todas aqui vêm ter. Lopiccolo. devido a um descuido do maquinista. no Cinira Polônio Quo Vadis. João Barbosa. é aberta em balaustradas ou se limita por uma simples grade de ferro curta. de empregados no comércio e pequenos funcionários. representando em nosso idioma e que vamos ver inscrever-se. mas não passam. Apolônia Pinto. que estreou imitando. o Mártir do Calvário.. nos elencos indígenas. Rangel Júnior. encômios extraordinários. Manarezzi. um nome que foi.. Ismênia dos Santos e Hermínia Adelaide. As galerias nos teatros de época representam uma nota muito curiosa. Olímpia Amoedo. que o viu fazendo o Cascard da Zaza. Podem. Entre as atrizes citem-se Delorme. a torrinha. Eduardo Vieira. a arquigraciosa Pepa. Bellegrandi. que recebeu da Réjane. com a sua freqüência de estudantes. espanhola de origem. Helena Cavalier. ensaiador dos mesmos os pés. Quanto aos do teatro estrangeiro. Rose Villiot. sobre a qual os espectadores se debruçam e por cujas fendas. Adelaide Coutinho. mas que um dia apareceu fumando no alto da cruz onde deveria estar pregado. porém. vários artistas dessa época que não podem ser esquecidos: Campos. Olímpio Nogueira. Cite-se. por que uma . Ferreira de Sousa. criador do Desenho de Calixto Cristo. Louro. a relação a dar seria a das maiores notabilidades do mundo.

cavalheiros.. pilhérias. bata mais para mim. quando. Olhe. sem globo. posta na caixa do teatro. não anuncia. você não bata tanto. os músicos da orquestra afinam os instrumentos. uma linha de inúmeros bicos de gás. por exemplo. pelo tempo. que com ele trava um diálogo discreto e amável como este: – Ó seu Manduca. minha senhora. com sorrisos indulgentes.. ali. os seus pregões e vão se acendendo as gambiarras da ribalta. que tiram o paletó e outros que protestam: – Não pode! Veste! Enquanto os freqüentadores da platéia. antes. discussões em voz alta. não recebe um vintém pelo serviço. na hora da saída. chufas. Se a campainha. a subida do pano. com função regulamentada e certa. ou acolá a forma curva de um joelho: – Tira a “bola”! Por esse alcandorado sítio há sempre conversas. mal surge a ponta incauta de um pé além da linha marcada pela tradição. gostou do meu trabalho? Por vezes.. chamando-os à cena. para comodidade do espectador: – Tira a “lancha”! E. seja ela boa ou má. – Pedro. antes do espetáculo. forte. e depois. a torrinha protesta. Toda essa gente é uma espécie de dependência burocrática da empresa. – Isso. ou do resumo da peça levantam. como sinal de que já vai começar o espetáculo. erguem para o ar as cabeças curiosas. de balas. apito. como deve. incumbida de vitoriar os atores. toques de campainhas. de dizer a um grande ator ou a uma grande atriz que. Vê o espetáculo de graça e tem direito. Apenas. na hora. . encarregada de aplaudir a peça. os vendedores de refrescos.. por distração.. sem tardar: – Está na hoooora! É na bancada dessas galerias que fica o corpo da “claque”. o homem da claque é honrado com o pedido de uma atriz. assim com certo ar de intimidade: – Boa noite! Então. atrizes e autores. seu Pedro.O Rio de Janeiro do meu tempo 275 das diversões do freqüentador desses lugares a baixo preço é vigiar essas aberturas e gritar. surge aqui. ditos. aplaudiu. para a Manarezzi. que são. Para a subida do pano. logo.. como costuma bater.

Não arranja nada.. figurar como novos bouquets a cair no palco vindos das mesmas galerias.. muitas vezes. os bouquets pagos pelas atrizes. Berra-se por vezes: – O Dr. Ficou melhor! Ator Machado E o teatro.. militares de galão. uma nota de cinco mil-réis. ao teatro sem despender muito dinheiro. O resto é para me atirar flores. dizendo: – Olhem-me só para isto! No Lírico. Pede. que pôs uma casaca nova! Uma rodada de palmas pela casaca nova do Dr. no fim do segundo ato. com indulgência e certa simpatia: .. Euclides Barroso cortou o cavanhaque. povo que não quer fazer grande toilette. Gente educada. Ataulfo! E desaba uma barulheira infernal. Fala. inchadas de bater. explicando: – Guarde lá dez tostões para você. um par de mãos rubras. sorrateiramente. saem pelas portas do fundo do teatro e vêm outra vez. Estudantes das escolas superiores. atirados das galerias ao palco.. glosando o Autor desconhecido cavanhaque cortado do Dr. O delegado. a estudantada organiza. quando não lhe passa. pessoas que querem ir.. Nos dias de benefício ou de première. então. amanhã. enquanto o pano não sobe. sobe. em peso. todas as noites. Ataulfo.276 Luís Edmundo Diz-lhe isso. Barroso: – Ficou melhor! Ficou melhor! Ficou melhor! A polícia intervém. Na primeira oportunidade a platéia sofre o apupo e a pilhéria da torrinha. Nos grandes espetáculos de ópera. ou secretário da empresa. no fim do espetáculo. verdadeiros espetáculos de comédia: – Olhem o Dr. a torrinha é mais fina. A maior glória de um homem que faz claque é mostrar ao empresário. Diz-se. em pessoa.

a intenção do arquiteto não foi bem aproveitada. Apenas. detonam garrafas de champagne.000 francos? Entre o pano que desce e o pano que sobe. embaixo. absorvido. aquela antecâmara com porta de fechar e cortina de correr. também. Transbordam taças. nas frisas.. Dr. Soares. o desenrolar sinistro de uma tragédia pungente. vultos que passeiam carregando um morto e um sussurrar trêmulo de violinos na orquestra. ao que parece. encantam pelo bom-gosto e impressionam pelo luxo. criando. Por vezes. A sala. o hábito inveterado das . 12. mais pelas cabeças que vê. pois o senhor não sabia que a Colombiana possui uma camisa de renda de York que custou. no momento. sabem-lhes de cor os nomes. Pensava na hora do champagne das cocottes. As famílias que lhes copiam o feitio das blusas. incorrigível boêmio. As grandes cocottes são figurinos obrigados nas récitas de assinatura. grita Renato Alvim. por vezes. que pelo próprio espetáculo: – Livra! Nunca vi terra para ter mais carecas do que esta! Os intervalos dos espetáculos são sempre muito interessantes. nesses entreatos. em Paris. diminuía ou matava. à cunha. sabia o que fazia. grande espetáculo em premiè re. Teatro cheio. conhecem-lhes os amantes e. por exemplo. No palco. pois essa época coincidia com a criação dos cabarés-clubes que.O Rio de Janeiro do meu tempo 277 – Rapaziadas! Certa vez. várias celebridades anunciadas para cantar. Da torrinha. Quando Chico Passos construiu o Municipal. No Lírico. começa o espetáculo. matando os cafés-concerto. está com todas as luzes abertas. talvez por esquecimento. onde se exibem. por certos camarotes.. o que interessa é a moda. as gargalhadas são menos elegantes. mostrando toilletes maravilhosas que surpreendem pela novidade. embora variando de acordo com o ambiente de cada teatro. hoje chefe de uma seção da Caixa Econômica. na platéia. até as suas menores intimidades! – Então. a forma dos chapéus e o talhe dos manteaux. O pater familias pigarreia. As senhoras honestas entreolham-se. súbito. ópera nova.

No drama ainda estamos na peça de grande lance. espavorido. Muito de ver. teatro. Mil-réis por doze cartuchos. há tiros ao alvo no jardim. saíram. Quanto a repertório. de cruz alçada. certa noite. com expressões que cruzam no ar como punhais afiados. na platéia. os biscoitos Sinhá.. e gritam: – Ou crê ou morre! O delegado que presidia o espetáculo prende os boêmios. Jaime Guimarães e Luís Costa. Os boêmios. ficam em pé. são os cavalheiros que.. De um desses improvisados stands. em marcha batida e de arma ao ombro. e a cena se interrompe. de binóculo em punho. Em alguns teatros. ainda.. dos solilóquios trágicos. ainda. Representava-se um quadro da Inquisição onde um padre qualquer discutia com um certo judeu. refrescos.278 Luís Edmundo Dias Braga Desenho de Armando Pacheco Olímpio Nogueira Desenho de Marques Júnior clássicas champanhadas elegantes com demi-mondaines nos camarotes do teatro. tentando impor-lhe a fé cristã. indo esconder-se em seu beliche. ou retorcendo a ponta de agudíssimos bigodes. ameaçadores e sanhudos: Ah! . apontam as armas para o israelita que está no tablado. enquanto os ambulantes cruzam gritando o resumo da peça. tomando a sério a brincadeira. dois incorrigíveis boêmios. que tinham combinado a escandalosa farsa. leques e ventarolas. balas. penetrando a sala de espetáculo. a namoricar para as frisas ou para os camarotes. O pano estava já em cima e a peça em cena.. onde a situação angustiosa não falta e a tirada declamatória é nota de maior relevo e do melhor sucesso. porque o ator visado. abandona o palco.

França Júnior e Artur Azevedo. E o grande Dias Braga. com Artur Azevedo e Moreira Sampaio. Jupira e Carmela fazem delirar platéias. nas peças de Mr. na platéia. pisando o palco Desenho de Marques Júnior do Recreio.O Rio de Janeiro do meu tempo 279 Miserável! Quando não são frases redondas. . do Sr. em fuga. porém. Francisco Braga e Araújo Viana mostram-se. sendo que as deste último já evoluem para um teatro mais moderno. Quanto a peças musicadas. Na ópera. que espadana. encharca as vestes do protagonista e faz desmaiar. berra de fazer estremecer as vidraças do S. Martins Pena. as senhoras românticas. que vive com os olhos em Mounet Sully. numa voz metálica e possante: – “De todos os nomes que possuo bastará um só para te fulminar!” Na comédia estamos ainda. soluçam e se desfazem em lágrimas: – Ai. Leopoldo Miguez.. longe. Labiche. no tempo. impõem-se. imorJoão Barbosa redoura glória de França. pondo. com pequenas variantes. as tinturarias próximas fornecem o sangue. mantemos bem alta a tradição brasileira da boa música. põe-se D’Ennery em português. de alma Desenho de Marques Júnior amassada como o pão. não correspondem aos anseios do público por esse gênero de espetáculo. Assim posto. quase meio quilômetro distante do seu freqüentadíssimo teatro. choramingam. agradam. Saldunes. cheia de pavor e faltas de ar. Os autores da terra. A revista do ano é ótima. de cabelos em pé. Pedro de Alcântara. nas de Manuel de Macedo. meu amor! Para sublinhar a tragédia aflitiva. os cardíacos.. dolente e característica. Ártemis. Assis Pacheco e Francisca Gonzaga na partitura. adeus. ao mesmo Rangel Júnior tempo. no poema. Nicolino Milano. que harpejam. porém. que continua moça. gente que abala. Alberto Nepomuceno.

capaz de garantir a realização de um espetáculo que se faz. Pelas livrarias da cidade é comum a procura de peças. por mais despovoado que seja. o do Elite. e cujo favor. há o teatro do Ginástico Português. Cristóvão. Rapazolas. de França Júnior? – Que há. o do Grêmio de Botafogo. Além do Hodierno. andam a perguntar: – Tem as Doutoras.. onde se cultiva a arte que foi do Vasques. aí. o do Tijuca e o do S. que. Não há recanto da cidade. Há-os em Catumbi. que espera a picareta de Passos. nas Laranjeiras. e. por Brandão Desenho de Calixto mais remoto. no Itapiru. em Cascadura e até em Jacarepaguá. que não se orgulhe de possuir um palcozinho. o Hodierno Clube. Dessas organizações. que bem definem o louvável sentimento de um povo que se civiliza. tendo por ensaiador o melhor técnico. proliferam pequeninos palcos de amadores. o único que se mendiga (e esse mesmo do céu) é de uma noite sem chuva. quase sempre. grêmios. Possuímos.280 Luís Edmundo Tão grande é o amor pelo teatro. entusiasticamente mantidos por expensas próprias. desses grupos espontaneamente organizados. por essa época. no centro. do Andaraí. na Saúde (Clube Talma). no Campinho. sociedades e tertúlias. instalado no casarão do Teatro Fênix. clubes. de tal sorte provando que a arte de teatro está ainda longe de decair. como Lucília Pérez e a Guilhermina Rocha. saem grandes artistas como Leopoldo Fróis. teatrinhos familiares. que no gênero possuímos. o velho Heller. o do Clube da Gávea. embora sem luar ou sem estrelas. ao ar livre. o que é melhor. do centro ao mais remoto arrabalde ou subúrbio da cidade. Xisto Bahia e João Caetano. que sonham glórias de galã. uma numerosa e entusiástica platéia. núcleos onde o bafejo oficial não entra ou a subvenção dos cofres públicos só pode ser tomada por pilhéria.. um grupo de amadores. como comédias em um ato para um grupo de cinco rapazes e duas moças? .

em geral. No dia de espetáculo. Um deles é Ernesto de Sousa. por onde deslizava.O Rio de Janeiro do meu tempo 281 – Quanto custa Fantasma Branco. com o seu teatrinho à Rua Muratóri. sem poder subir. Vários animadores viveram muito por esse gênero de divertimento e instrução: o Dr. metida num quadro todo de vegetação e de montanhas. um pedaço de papel vermelho.. devotados com entusiasmo ao teatro. ainda existe. Chagas Leite. médico . puxado a burro. À última hora faltava. cedo lá estavam carpinteiros. uma deliciosa vereda arrabaldina. só por causa do pote! Arranjava-se. professor da Escola de Medicina. depois. por ele erguido no Andaraí. Conheci um dos primeiros palcos. porém. pai do Gastão Penalva. I. com outros.. muito depois da hora marcada. um leque. em franca popularidade. tarde. quase de hora em hora. no chacarão de sua residência. porque o sentimento de previsão nunca foi atributo certo de técnica incipiente do amador. um sapato. e já o amador podia entrar em cena. que. cortando sarrafos. autor de peças. na Rua Barão de Mesquita. qualquer coisa – uma cabeleira esquecida pela Casa Storino. tardo e melancólico. lá não estava. um bondezinho da C. pintando fundos. maquinistas. bandeiras.. de músicas e monólogos. fundou. – Alguém tirou daqui o pote de carmim para as pinturas? Um pote deste tamanho? Ninguém havia tirado. Ernesto de Sousa. talento multiforme. estandartes. sempre. de Macedo? Vêem-se animadores notáveis. um adereço. um vestido. mostrando um ar de frescura e de saúde. Bandeira de Gouveia. V. E o pano. o famoso Grêmio Dramático do Andaraí. o Dr. um tijolinho de aquarela. fixando flâmulas. se não me engano. corado. de cançonetas. O pote. à sombra tutelar de altas e frondosíssimas mangueiras... ajudância voluntária e bulhenta. Começavam os espetáculos. num recanto pitoresco da que não sei se ainda hoje se chama Rua Leopoldo. e com eles a solicitude de um grupo de amigos e vizinhos. capazes de levar amor por tal coisa ao máximo dos sacrifícios. no entanto. pregando tábuas.

. Francisco Valente. Paiva Júnior. Laura Cunha. José Bastos Viana. embora baixinho: . diretoria. Particularmente brilhante o elemento feminino: Lucília Pérez. Costa Velho.. que atribui a demora a um descuido do maquinista. hoje promotor público. houve no Instituto Profissional um festival supimpa. Além dos grêmios. Frederico Costa. É o fim do dramalhão. por um grupo de amadores. Davina Fraga. Francisco Braga. Anazias. perfeitamente organizados. há os palcos que se improvisam por toda parte. Que noite de espetáculo! No último ato da peça Tasso morre. como nota infalível nas grandes festas. esperam. Augusto Bracet. Constança Teixeira Bastos. obrigado a música e palco. “representando o Kean como ninguém”. uma espécie de João Caetano da amatória teatral. Frederico Costa. Ferreira de Sousa Desenho de Marques Júnior Os espectadores. dramalhão de polpa. pai do pintor Gaspar Magalhães e habilíssimo cenógrafo. do Jornal do Brasil. Chovem palmas. Ricardo de Albuquerque. e estão a ver em que param as modas quando a voz do próprio intérprete de Tasso. Tasso cai como um grande artista! É a morte do homem.. Humberto Taborda. porém. em homenagem ao belo artista. Margarida Taborda. Estêvão Pires Ferrão da Gávea. caindo de bruços sobre o tablado. oficial de marinha. Guilhermina Rocha. Augusto Bracet. Teixeira Júnior. sagrado pela crítica européia.. Arinos Pimentel. capitalista. ouve-se. não quer descer. pai. Cunha Júnior e Lupércio Garcia.282 Luís Edmundo da polícia.. filho (pintor). E os que representavam? Castro Viana. vindo da Europa. o que morreu no desastre do Aquidabã. que emperra. Joaquim Teixeira. escritor e cônsul. Representou-se o Tasso no Cárcere. Alice Pinto. cheios da mais viva emoção. Silveira Serpa. Coelho Magalhães. Valentina Bandeira de Gouveia. hoje corretor de fundos. Quando aqui chegou.. bandeira e sede. advogados. O pano. Júlio de Freitas Júnior. Florência Pimentel. Ademar Barbosa Romeu. com estatutos.

E não descia. a óleo. ainda mais negra.. Chico. porém. de mulher. obrigando o amador a levantar-se e a correr para os bastidores. tem uma espécie de vertigem. mas de um negro retintíssimo). também preta. imóvel. surpreso. Certa vez o grêmio catumbiense anuncia um drama de espavento. cheio de embaraço e comoção: – Branca! Branca! Que tens tu que estás tão pálida?! E o espetáculo. encrencado. desce o pano! Rebenta na platéia estrondosa gargalhada. a simular o cadáver de Tasso: – Você trate de levantar. no gênero. porque eu já fiz o que podia e esta coisa não desce. preso numa dobra de corda. uma negra-crioula. põe a cabeça de fora e grita para o amador. que continua de ventre sobre o palco. que é o de um drama pungente. diante do gesto do noivo. pondo a mão num móvel. É sabido que um grêmio dramático de pretos existiu no bairro de Catumbi. . representando peças musicadas com grande sucesso. em cena. aí. desses que reclamam lenços em duplicata para a hora do sofrimento e da lágrima – Branca de Castela. É da peça o que o preto.. mesmo. um retrato. quando surge no aposento Branca de Castela. diz à preta. para não cair. coisa Desenho de Marques Júnior melhor. mais retinta que o príncipe.. Vejamos o final do drama. O pano continua suspenso. Certo príncipe. está beijando. Castro Viana Há. de improviso acaba numa desopilante e engraçadíssima comédia. a qual. noivo de Branca de Castela (vive-o um jovem crioulo elegante.O Rio de Janeiro do meu tempo 283 – Ó Chico..

e de Madri. pode orgulhar-se. . aqui. . pelo tempo. . no assunto. no momento. . de gozar conjuntos que são. Poucas cidades da Europa. . . existentes pela Rua do Lavradio. E não se incluem nesse número as bulhentas casas-de-chope. como nós possuímos. . . . Porque. . . . . . . também aqui vem ter a nata dos elencos que são exibidos pelos music halls de maior fama. nada menos de seis grandes music halls. número tão elevado de centros de diversões desse gênero. possuem. formados com o que de melhor existe. as notabilidades de centros culturais como os de Roma. . na . . assim como nos chegam.. . no começo do século XX. Capítulo 15 Cafés-concerto CAFÉS-CONCERTO – DESENVOLVIMENTO DOS MESMOS ENTRE NÓS – ARTISTAS DE PROJEÇÃO PELA ÉPOCA – CANTORES NACIONAIS – RECORDAÇÕES DE GIZANETTE DELABORDE – CHOPES BERRANTES DA RUA DO LAVRADIO E RUAS ADJACENTES – TÍPICAS FIGURAS DESSAS CASAS DE DIVERSÕES DE TERCEIRA ORDEM – MARTIROLÓGIO DE UM PIANO OSSUI o Rio de Janeiro. que se organizam com o que de melhor se encontra. E o Rio. entre nós. para o teatro sério. que os cultiva com particular amor e carinho. apresentando programas supimpas. Paris. . . de Londres. pela face da Terra. de Berlim. com palco e música. ainda. . . . .

é a que mais agrada ao público do music hall carioca. cascadeuses. grivoises. assim. O canto lírico não se fez para o café-concerto do Brasil. encontrá-la no Rio. cantores de cançonetas ou canções. transformistas. gommeuses. à Rua do Passeio.. excentriques. A cançoneta montmartroise. de Londres. malabaristas. cada uma se inculcando como detalhista de um gênero à parte. exotiques. composto exclusivamente de homens e de cocottes que nele dão rendez-vous. As cançonetistas francesas. surgindo no palco do Guarda-Velha ou da Maison Moderne. vindas embora da Inglaterra. histriões. fenômenos de toda a sorte. no Rio de Janeiro. E.. Dançarinas. mais tarde. como ela não viva apenas disso. Nada mais. a Block (casa de tijolinhos).. ganhando rios de dinheiro. da Europa e da América. porém. Apenas. suja. verdadeiras fortunas. pantomimeiros. existem. a Tina Tatti. a Richard. que é a capitania dessas habitações provisórias e onde se escorcha a pobre estrela. por exemplo. tão notáveis quanto essa pensão que os grossões da política e da administração freqüentam: a Valery. excêntricos. O que nele se ama com fervor é a canAurélio Cavalcanti Desenho de Calixto çoneta brejeira e leve. no Moulin Rouge de Paris ou no Winter Garden de Berlim. mágicos. uma dançarina de fama causando enorme sucesso. maliciosa ou pornográfica. Cantoras do gênero lírico. pululam. que se revela na apresentação do albergue mais ou menos elegante e que corrige a deficiência em matéria de conforto dos nossos afrontosos hotéis. são elas: copurchics. Outras pensões. no Alhambra. seis meses depois. e. . dia a dia prolifera. Por isso. não conseguem fazer grande sucesso. sentimentales. sobretudo a que se acomoda à tendência patrícia pelo double-sens. estão sempre chegando. como lá. a indústria da pension d’artiste. domadores de animais. por isso. e. diseurs e diseuses. pelos paquetes. palhaços. internationales. De se ver. fazendo o mesmo sucesso e ganhando aqui. da Alemanha.. A famosa Susana de Castera possui no gênero uma pensão modelo. que ali deixa integralmente o que ganha no teatro. da Espanha e sobretudo da Itália. também.286 Luís Edmundo Europa e na América do Norte. musicistas exóticos.

. e. O Pavilhão Internacional. com umas mesinhas de ferro pintadas a tinta verde. erguido junto à place Pigalle. dentro de um delicioso quadro de amendoeiras aprateleiradas. com o seu moinho simbólico.. a Maison Moderne. aquele pêssego dourado ao sol que eletrizava platéias fazendo dançar o mais formoso e o mais infecundo dos ventres nascidos em terras do Islã? Lembras-te? E a Maria Regina.O Rio de Janeiro do meu tempo 287 Possuímos como casas desses espetáculos: o Moulin Rouge. o Guarda-Velha. finalmente. começava a tirar as roupas feitas . a cantar. de caramanchões e de palmeiras. o Cassino. no Largo do Machado. o nome e a graça das boas artistas que nesse tempo tanto te impressionaram. empresário Desenho de Marques Júnior A Guerrerito Desenho de Marques Júnior Ó tu leitor. Cateysson. um pouco. no Beco do Império. a “turca”. tens boa memória e os rins um tanto comprometidos pelo excesso de todas aquelas canecas de Bock-Ale que bebeste como hoje não se bebe água. o Alcázar Parque. esse. metido no sopé da montanha de Santo Antônio. o Parque Fluminense. que cantava o “cheribiribi”? Chirribiribin Che bel bambin. que já passaste dos cinqüenta. uma que trouxe para o Guarda-Velha o “deshabiller d’une parisienne” e que. um hediondo barracão feito de madeira. erguido justamente no lugar onde se ergueu o lindo edifício do Liceu de Artes e Ofícios. Lembras-te da Abdel-Kader. pintado a vermelho e em tudo igual ao famoso Caf-Conc de Montmartre. no lugar onde hoje existe o edifício Pascoal Segreto. italiana. para os lados da Lapa. Havia a Jeanne Cayot. na Praça Tiradentes. só depois de criada a Avenida é que aparece. vem comigo recordar.

hein? Até hoje parece que não surgiu. vestida à hussard.. a gritar: – Vira. Bons tempos. hein? E a Boriska. Com a sua figurinha de Saxe ou de biscuit. que “espáduas”. O delegado. bem à mostra.. no camarote oficial. Hélios Seelinger Da Guerrerito dizia-se que era a mais linda espanhola que já tinha desembarcado no Brasil. mas. também. Vira! Mas. Dizem que bem. os olhos postos nas espáduas formosas da mulher. Lembrava a maja de Goya. lembrando um junco.. plástica e vivaz que.. Boriska! Vira! E ela virava. de botas e chicotinho na mão. E torcia depois o bigode. leve. por aqui. em cena. alucinado. . que nós todos tínhamos como um grande “técnico” em assuntos femininos. flexível. a Guerrerito! Dançava uma jota aragonesa que nos levava para o céu. passava por ter inspirado ao Radical. dando-lhe olhadelas sentimentais. Tu sorris? Tu sorris porque tu gritavas. diante da platéia alucinada e aquecida. Como era bonita. logo. dominava platéias? Tinha umas espáduas admiráveis. aquela húngara alta. batendo palmas. Mulher de verão! Acabou casando. mal vinha ela para cena.288 Luís Edmundo no Paquin. o povo começava. arruinou uma porção de velhotes. fina. fechava com muita dignidade a sobrecasaca. na Itália. ao som das mais cascateantes castanholas... soltando suspiros lânguidos. lambendo os beiços. De tal sorte que. francamente. a endireitar na lapela. coisa igual. o distintivo de sua grande autoridade. sorrindo. Todo o Rio de Janeiro vivia apaixonado pelas espáduas da mulher. forte. aqui entre nós. sempre de bom corte e punha-se a aplaudi-la também. quando a loura Jeanne perdia as calças. ficando nuazinha em pêlo. A censura policial da época era amabilíssima. esta frase sutil: – Isto é que é mulher para o nosso clima! Guerrerito enlouqueceu uma legião de moços.

Quis formar-se em medicina. nos últimos dias do século. em Paris. deles se retirou fazendo aqui vida tranqüila de estudante. na Casa dos Artistas. E acabou formando-se. risonhamente. conhecera Verlaine e todo o bando simbolista do Mercure de France. Pascoal Segreto Autor desconhecido Gabriel Pinheiro e Xavier d’Almeida ensina- .O Rio de Janeiro do meu tempo 289 Outra espanhola notável foi a Carmencita. que foi uma espécie de Mimi da nossa vie de bohème no começo deste século. il lazzo Senza lazzo non posso andare. Cantava. Bom será não esquecer a Duvernail. a Diana de Liz.. sorria. Que sobre ela. A Tit Comb era uma americana meio maluca. que fazia umas poses plásticas que escandalizavam a platéia e outras. Il lazzo. entanto. uma de linha sinuosa e ofídica. a Diemer. não passava daí. como a Blutte. botas e rebenque na mão. a Marinetti. Depois de correr o palco de vários cafés-concerto da cidade.. a Cecile Dubois. il lazzo. a Frossart. grande sucesso fez a Jenny Cook que hoje envelhece.. informem: Raul Pederneiras. Fora da intimidade de Rollinat. Uma Mimi. da famosa serpente do Paraíso. mas. que mandou engastar um brilhante enorme em um dos seus dentes incisivos e andava pelas ruas da cidade vestida de amazona. as irmãs Moreno.. A Lina de Lorenzo era uma italiana descarada que cantava il treno e il lazzo.. a Lina d’Arteuil. as irmãs Rinaldi. a propósito. a Inês Álvares. fale-se em Gizanette Delaborde. excentricamente casta e por isso mesmo sem Rodolfo e sem amigas Musettas. para não citar outros. que até parecia descender. Entre as inglesas. entre as mangueiras de Jacarepaguá. Era moça. Gabriel Pinheiro. dançava. Tinha o perfil das madonas de Botticelli.. Sabemos lá!. a Bellard. era linda. Calixto Cordeiro. Renato Alvim. conversava.. diretamente.. a Lucette Deval. o que poderá causar surpresa a muita gente que a não conheceu de perto. E já que se fala em gente desse tempo.

Rollinat. Fumavam-se cigarrilhas de Havana e do Egito. um eterno turbante cor-de-marfim com listras azul-marinho na cabeça. Quando Camerino dobrava a rodada da bebida. nela se matriculando. então. aí. os que pintavam ou desenhavam faziam croquis e charges. erguiam-se loas aos artistas da predileção do grupo. Dá-se. tosco lavatório e uma estante de livros. afastava-se a cama da parede e nela oito comodamente se metiam. Desenho de Renato Quando sobravam. Os que eram poetas diziam versos. em menos de um ano aqui fez todos os exames de preparatórios exigidos pela Faculdade de Medicina. aborrecido com a bulha infernal que se fazia. Uma vez o dono da pensão. um fato extraordinário. Versos de Baudelaire. a peça mais importante do aposento. uma pequena mesa. cerveja que das garrafas se esvaziava em um jarro de louça do lavatório. cansado de receber reclamações de vários hóspedes. Era o guarda-noturno da zona quem ia descobrir a cerveja “marca-barbante”. Destruíam-se com retumbantes frases reputações literárias. a cerveja na modesta proporção de uma garrafa por pessoa. de bout doré. Dierx. que era o que se bebia citando Hoffmann e o anel dos Niebelugen. num quarto olhando para a Rua do Resende e onde existiam apenas uma cama de ferro. Leconte de Lisle. numa modestíssima casa de cômodos da Rua do Riachuelo. ainda. sentava-se a Gizanette à maneira hindu. Os outros Luís Moreira iam ficando sobre os móveis que sobravam. Morava. E estava armada a tertúlia. que era o nababo da roda e quem pagava. Na mesa. o cavaco ia até pela manhã do dia seguinte. um cabide de pau. por onde todos bebiam. que era pequena. Verhaeren. quiçá um tanto desaforado. Residia no último andar da mesma. e outros poetas eram recitados com fervor. aparece à porta do aposento. diante do imprevisto desabafo. pagos pelo Camerino Rocha. onde recebia todos os seus companheiros de boêmia. Um dos boêmios presentes. Richepin. pega de um revólver e detona-o três vezes. para o alto. Quando os boêmios eram muitos.290 Luís Edmundo ram-lhe o nosso idioma e como ela trouxesse uma ótima recordação das suas humanidades em França. causando um barulho de todos os diabos. O homem dos desaforos cai em decúbito .

presa de um delíquio. Os boêmios carregam-no para a cama de Gizanette e o Xavier. devem-se recordar. excelente voz e uma figura escultural. sendo desse tempo. ainda hoje. A mulher com esse dinheiro.. Sei que tornou ao Brasil aí por 1906 ou 7. Bom será. recordando essas artistas. que já vinha do teatro de revista e que era engraçadíssimo. Quem. no entanto. quem sabe. do seu fraque de homem. 25$ para pagar os dias de aluguel do quarto. . de sua clínica. estava sem um vintém. Tinha. E dos artistas nacionais só dois fizeram realmente sucesso: Leonardo. Além disso. Faltam à rapariga. das suas maneiras excêntricas. dele nunca mais se retirando. que já devia ao guarda-noturno três remessas de cerveja. No dia imediato – ordem de mudança. emérito divulgador das cançonetas de Artur Azevedo.O Rio de Janeiro do meu tempo 291 dorsal. até. bengala. Gizanette não foi uma cançonetista de nome senão para os que conheciam de perto os seus dotes de espírito. aqui. um masculino chapéu de palha derreado sobre a testa. passou muito rapidamente pelo music hall. num Estado do Sul. reanima-o no fim de certo tempo.. dela.. lembrar que os homens que cantavam foram sempre mal recebidos pelas nossas platéias de café-concerto. um fraque que ela punha sobre uma saia rodada a bater-lhe pelos tornozelos. e Ernesto Sousa. O nosso Camerino. Foi quando o boêmio dos tiros teve uma idéia para acalmar o senhorio: – O Xavier apresenta a conta dos seus cuidados clínico ao homem. perfeitamente. Os que estudaram Medicina no começo do século. e Geraldo Magalhães. não se recordará. que Geraldo cantava fazendo delirar a platéia? E à medida que o angu descia Meu peito ardia. para onde seguiu antes de 1905. paga o quarto e com os 5$ restantes faz a mudança. lendo estas linhas e sorrindo por ver o seu nome muito pouco disfarçado. monóculo. um indefectível livro debaixo do braço. Mas esse ardor. Não era da pimenta Era só de amor. do famoso Angu do Barão. Não me recordo se Gizanette acabou formando-se no Rio ou fez o resto do curso em Paris. porém. sobretudo os estrangeiros. muito bem casada e. médico. Nada menos de 30$000.. – E foi o que se fez. Vive hoje.

Dr. carregando bouquets e corbeilles com rosas e parasitas. Néu da Fonseca teve pela graciosíssima atriz uma paixão desabrida.. – Claro que é – retruca o outro. Gizanette Maria Lino. que começou a vida cantando nos chopes-berrantes do Passeio Público e Rua do Lavradio. Aqui. que faziam do nosso Néu um acabadíssimo Otelo. não podem entrar – atroa o tipo. um truculento Cérbero. Zelos de cinqüentão. com ordens terminantes de não deixar entrar. ali. – Tenham paciência. mas enviou. criança ainda. anos depois.. por lá casou e. certa vez. Não pôde. . dançando no Luna Park. por esta noite. graça. beleza. de guarda. – São ordens recebidas do Sr. Ora. Geraldo. Ciumeiras. Plácida dos Santos. simpático. Vai o homem de confiança. é a dançarina de maDesenho de Armando Pacheco xixe que Duque. Néu não pôde ir ao teatro. plantar-se à porta da outra. com uma turma de admiradores da mesma. numa voz que a todos faz tremer. é outra grande figura que domina platéias. para postar-se à porta do camarim da amada. voz simpática. Contratado para cantar em Lisboa. noite de festa artística da estrela.. Néu. de claro timbre e do melhor volume. Essa Maria Lino. lá fez sucesso.292 Luís Edmundo Ou então: A mulata da Bahia Não tem osso É carne só. E está ele mantendo em custódia a encantadora Lino. que alia a uma estouvada mocidade. nem rato! Remanescentes de sangue mouro. que é espadaúdo e forte. ao que se diz. faz triunfar em Paris. é dos mais queridos dos cantores nacionais do seu tempo: um pardavasco alto.. não entra nem rato! – E a ordem é para todos? – indaga Fontes. forte. e com uma linda voz abaritonada. quando chega Martins Fontes. obteve até o suficiente para viver sem mais pensar no futuro dos filhos.

segurando-o pelo braço – diga-me uma coisa: foi toda essa baderna de loucos que você levou. Passa-se uma semana e entra o Carnaval. saem num bloco improvisado. tentando descobrir o Fontes. em pessoa! Papai que quer nos bater! Papai que quer nos bater! E num ruído infernal os outros filhos debandam. segunda-feira gorda.. E tudo ficou assim mesmo. carregando um estandarte com esses dizeres: Cordão Carnavalesco Filhos do Néu. e. que já vai entrar na Rua da Carioca: – Olhem papai Néu. o Sr. desvencilha-se da mão que o segura e tem uma idéia genial: sai gritando. enquanto Cérbero ia indagar do contra-regra se. Dr.O Rio de Janeiro do meu tempo 293 – Mesmo para mim. há uma semana. em busca do bloco. como doido. e com mais brandura: – Vossência é filho do Dr. Néu.. esbarram com o nosso homem... carregados de corbeilles e bouquets. quando . Bugrinha. por acaso. muito sério. sem rival no gênero. dançarina de maxixe. como que a contar o número dos componentes do grupo e. No Largo da Carioca. Os empresários. Afinal um filho. de cara amarrada. ao mesmo tempo. Néu da Fonseca? E Martins Fontes exaltando-se: – Claro que sou. meu caro poeta – diz-lhe Néu.. um deles. que era um homem de espírito. Mais artistas nossas que tiveram nome nos palcos de café-concerto: Aurora Rosane. ao camarim da Maria Lino? Fontes. que sou filho dele? O homem ficou espantado. de uma arrancada. não se deu por achado. ali! Olhem papai Néu. Néu soube do caso. mas. é impossível que papai tornasse extensiva esta ordem a mim (e apontando para os companheiros) e para os meus irmãos. um corpo que era o de uma estátua grega.. na Colombo.. acabou por sorrir.. escandalosamente. também. E foi empurrando os companheiros. – Venha cá. Os nove rapazes do grupo Martins Fontes. Néu da Fonseca tinha nove filhos e todos homens. na verdade.

Geralmente uma Desenho de Marques Júnior sala estreita e funda. preto. É um centro de diversões modesto. umas tantas mesas. para dizer. o famoso negro Eduardo das Neves. quando não é um simples estrado de madeira. entre os artistas do repertório indígena. onde o ticket de entrada é substituído pela obrigatoriedade de Leonardo uma consumação qualquer. também. sem a menor decoração. o que pode dar-se ao luxo de exibir cançonetistas francesas. porém. o quadro noturno das exibições. não esqueciam de acrescentar: rainha do maxixe. ao que passa pela rua. o music-hall de espavento. supre para o homem de pequena bolsa. O chope-berrante das ruas do Lavradio. lugar para onde os artistas sobem para cantar. Benjamim de Oliveira. à porta. Lapa e adjacências. onde o salão termina. O rei era o Leonardo. de tal sorte velando. malabaristas japoneses ou números de pantomima americana ou alemã. Que não se esqueça. autor da conhecida modinha que sobre Santos Dumont o país inteiro cantou e onde havia este gozadíssimo verso: A Europa curvou-se ante o Brasil Farusca Desenho de Marques Júnior Maria Lino Desenho de Marques Júnior Bugrinha Desenho de Marques Júnior Lembre-se. Visconde de Rio Branco. ainda. sem maior aparato. como o Neves. umas tantas cadeiras e um palco minúsculo. Os mais impor- . na parte posterior da casa. um pára-vento de madeira pintado em negro. entre nós.294 Luís Edmundo lhe punham o nome no cartaz.

ultrajando o tímpano do ouvido. em meio a um vozear que aturde. em fúria. Mas agrada à patuléia que traz no subconsciente as solfas nostálgicas do Congo ou de Moçambique e os batecuns ábsonos do indígena tupi. 6ª. Quase ao chegar à Rua da Relação. do morro do Pinto. aos trambolhões e aos pulos. quadragenária e feia. ataca os compassos de uma cançoneta que uma truculenta francesa. à Rua da Saúde. porém. ou ao grupo carnavalesco Terror dos Inocentes. quase sempre mestiço. E é assim que. Vinhos de Adriano Ramos Pinto. . última. o programa da noite. patuléia feliz que não suporta outro gênero de tocador quando vai dançar ao Grêmio das Flores. O pianista. Esse homem. nos contunde. atirando sobre o indefeso e frágil instrumento punhadas violentas. a melhor de mesa. há um desses modestíssimos berrantes. sobre o qual um pianista. de peitarra vasta e de voz enorme. com o intuito manifesto de impressionar a massa: Quem aventou a mulate Foi dirreitinhe prr’o ceô. rival do grande Ernesto Nazaré. a harmonia brutal que ora se arrasta e ora cambaleia. Há. autor das melhores músicas de salão que se dançaram pelo tempo. os que mostram apenas um modesto e estafadíssimo Pleyel de aluguel. o desenho melódico que. à direita. em tudo que executa. violão e cavaquinho. enquanto com a sua mão esquerda compõe. começa a berrar sobre o estradote. Entremos. ou o clássico terceto de flauta. a cadência sincopada do batuque africano. Salutaris. tem do ritmo uma compreensão original. ao fundo! – Cajuada. É um bárbaro. tocando às vezes de ouvido. exercita a sua musculatura. porta! Nas paredes cartazes – Bebam água Caxambu. Fes um producte cotube De se tirrar o chapeô. cabeleira em palanque e gravata-de-laço-borboleta. onde se bebe e onde se gargalha. ao teclado submisso. com a outra arranca. compositor de fama. Vilar d’Além. de tão forte. São nove horas da noite e quase não há um lugar vago na sala onde se fuma.O Rio de Janeiro do meu tempo 295 tantes estabelecimentos possuem orquestras de cinco ou seis figuras. pois ama. de fraque. que terminou uma valsa de Aurélio Cavalcanti. bulha apenas interrompida pelo grito do gerente avisando ao garçom desatento: – São duas “tampas”. E num vasto papel borrado a nanquim. Dubonet – aperitivo.

Pelo menos é o que está no programa que se espeta na parede suja e escalavrada do estabelecimento. – Ventarolas e leques a quinhentos réis! Já os das mesas perto do piano começam a pedir. O homem já está batucando forte o instrumento mal afinado e bulhão e a platéia. palmas à francesa. acompanhando-o de . e que se inculca chanteuse internationale.. chama-se Fanny Latarin. ficaremos sabendo que a artista. encharcando mesas. antes de refrescar a goela do amável espectador. à multidão bulhenta. Se consultarmos o programa da noite. – Aqui são seis duplos! – E aqui dois. Vêm esses recipientes trazidos pelos garçons. Sinfonias Ornelas.296 Luís Edmundo Batem. E un Pernaud fils. leques e ventarolas. que dá início ao espetáculo. O pianista não quer outra coisa senão esmurrar o piano. compositor de músicas regionais Desenho de Marques Júnior Floriano de Lemos Desenho de Marques Júnior A cerveja serve-se em copos de vidro ou barro. Não esquecer o homem que vende. desfraldada. todos. pianista! Corta-jaca! O pianista sorri complacente. findo o último couplé da francesa: – Brejeiro.. flutua... seguindo o ritmo molemolente do samba crioulo. O seu fraque movimenta-se. a sua cabeleira balouça e a gravata-de-laço-barboleta. salpicando vestes. molhando assoalhos. de Nazaré. estes últimos com tampa de metal. por um tempo em que o ventilador é quase um mito. em braçadas.

na ponta do pé.. o piano. O tipo fala à . ai que massacre! De nada me serve o lecre Receio que me embonecre Este sor que pinga a lacre. a mais. quando ela marcha deslocando as ancas.. Que estação de Curitiba. Veste ela a indumentária das pretas da Costa da Mina. Outra valsinha de Aurélio Cavalcanti. por riba. de bico negro. à negligé.. cotuba! O número dois do programa é preenchido por Bibinho. que despeja sobre o auditório uma versalhada em calão muito em voga e que começa assim: Ai que calô. Na cabeça.. girando no ar. – Aí. em arrancos violentos. nome do repertório nacional. todas essas coisas dançam. ou rufando com a ponta dos dedos a caixa de fósforos. à luz das lâmpadas acesas. Pra esse cabra que afoba Com pouca surumanduba.. um schottisch do jovem Floriano de Lemos. Vontade de comê ocre Misturado com assucre. um pano listrado de negro. ou uma polquinha de Francisca Gonzaga. uma trunfa de seda azul. Sobe ao estrado a mulata Farusca. o pianista. que espia através do crivo da camisinha bordada a miçanga. a torcer o busto. Vou já tomar um fiacre Antes que o mundo me enchicre. colares. o peito nu. Depois. de novo. mostrando a mama gelatinosa e sensual. Diz também que eu não sou teba. A chinelinha encarnada. Só mesmo muita suruba. Que casaca não tem aba E ainda diz. Mas no borço – nem um nicre! Tenho vontade de bocre. pulseiras e berenguedéns. sobre a ombro. O número é regional. cintilam e tilintam... um maxixe de Ernesto Nazaré. estremecendo.. Quem diz que o mundo se acaba É salafrário ou pereba.O Rio de Janeiro do meu tempo 297 assobio. batendo o compasso com o punho fechado no tampo da mesa. Brincos. perto de Coroboba.

e. começam as manifestações do devaneio alcoólico. O barulho escandaloso dos risos começa nessa altura a ter uma sonoridade singular. aureolado de glória! O repertório patrício sempre garantiu. o compasso feito pelas bengalas. a propósito de tudo. O gerente não faz outra coisa senão apaziguar os ânimos: . As vozes enrouquecem. Por isso vai-se recrutar ao morro de Santo Antônio. Recorda o drama da nacionalidade. então. redemoinho. sacudindo. É quando gritam do fundo da sala: – Parafuso! Parafuso é um detalhe coreográfico do bailado brasileiro. berra: – Corta-jaca! O corta-jaca é passo de maxixe. as mãos nas ancas. remexe. A nervosidade na massa que se movimenta é manifesta.298 Luís Edmundo alma indígena. aí. vazios e em altas rumas. pelas palmas e os evoés! Toda a assistência segue o ritmo langue e sincopado do maxixe. lembrando o meneio da pua fincada na madeira. executa os últimos acordes do maxixe agitado. fustiga o Pleyel. Reclama-se. E à medida que a mulata simula o parafuso e baixa aos remelexos. todo banhado em suor. firmes. Às 11 horas da noite. sovando. vilipendiando o Pleyel. É a evocação impudica e brejeira do lundu da colônia. em voga. rebola. furibundo. quando os tonéis do chope se enfileiram. o aplauso cresce. a dança dos terreiros. entusiasmada. aí. O pianista. em delírio. A platéia delira pelo número e. num ambiente de simpatia espiritual. E ela. sucesso e receita. com a dançarina regional. indefeso. pelo acicate da Volúpia. canta. sem piedade. espiraleia e enrola. Mulata Farusca termina entre berros atordoantes o número sensacional. entusiasmado. no chope-berrante. Ouve-se. pela época em que as Vênus africanas despertavam. aquele em que o corpo da mulher imita um instrumento que torce. às vielas da Gamboa e da Saúde. o sangue reinol. O pianista. que era um pouco do mouro e era um pouco do bode. numa área triste do estabelecimento. em volteios. lentamente. a seresteira e a cantora de samba. a exclamação estruge e o barulho exaspera. É a Lascívia que dança. Berra-se alto.

espremem-lhe um limão verde nas orelhas. Nesse momento de nada valem a voz amiga do dono da casa. como essas trovoadas de janeiro.. – A frase é do tempo. Diz que vai buscar reforço à repartição central. de paz ou de indulgência. que resista ao homem de mau álcool. voa. Os senhores podem se sentar. ou a importância do suplente importantíssimo. Toma de uma cadeira e sacode-a no ar. passa breve.. – Vai começar a inana. Carregam o homem que levou as garrafadas para o fundo do estabelecimento. E aquele que quer brigar. Todos berram. E. desaparece. porém. . agitados. a presença dos guardas da brigada de polícia. Isso tudo faz bem. O gerente manda apanhar os cacos. não há espírito de conciliação. o que bebe e quer brigar. dão-lhe uma dose forte de café... a beber. põem-lhe um lenço com amônia sobre o nariz. que é perto.. reclamando ordem. Isso tudo acalma. briga mesmo. deitam-no sobre um catre. Perfeitamente.. a alegria de toda aquela gente continua inconseqüente e bulhã.. com vida. Por vezes.. entanto. Tudo. O suplente importantíssimo corre. Todos se levantam. não há cordura. Todos gritam: – Não pode! Não pode! – E a barulheira referve. Há de se fazer como os senhores querem. que erguem no ar.O Rio de Janeiro do meu tempo 299 Geraldo Magalhães Desenho de Marques Júnior Ernesto Nazaré Desenho de Marques Júnior – Está bem.. recebe uma chuvarada de garrafas e copos pela cabeça.. Em troca. Os guardas puxam pelo chanfalho.

na caixa do instrumento e que se entrelaçam como uma espessa maçaroca de arames ou de cabelos. a sua cabeleira e a sua gravata avoejante. dentro. importante e suarento. fleumático ante o vigor do escândalo e o reboliço do motim. alheio à bulha. é o pianista... toda a flanela do abafador e isso sem contar as cordas em falripas. esbordoando o Pleyel de aluguel. por isso. arrebentadas. . com o seu fraque. insensível à grita.300 Luís Edmundo É quando se vê. Lá está o homem. o que ficou no seu posto. que o último indiferente ao distúrbio. o pianista implacável. um móvel infeliz que já perdeu todos os marfins do teclado.

Em 1901. derramados pelos arrabaldes. os seus palhaços espaventosos dançando a chula. . dos que se fixam na parte central da cidade. as suas esfandangadas charangas. o programa da noite do espetáculo. onde. com os seus pitorescos abarracamentos de lona e corda. . esses ingênuos e alegres espetáculos. logo pela manhã. o miudinho. em clichês xilografados. . . no dia de função. Capítulo 16 Circo de cavalinhos CIRCO DE CAVALINHOS – PALHAÇO E OS SEUS ESCANDALOSOS ANÚNCIOS PELAS RUAS DA CIDADE – ARTISTAS DO TEMPO – O PINTOR HÉLIOS SEELINGER E A SUA ESTRÉIA COMO TONY NUM CIRCO DE BOTAFOGO – AVENTURAS DE ANTÔNIO PARREIRAS ALE hoje a pena recordar os circos de cavalinhos. . . . . . . além de uma pantomima que era com que se encerravam. . . . os circos constituem a diversão dileta do poviléu que não pode ir ao teatro e muito menos freqüentar music halls com programas no gênero. exibem-se os retratos dos notáveis da troupe e que os mais exagerados adjetivos apresentam a exaltar escanda- . . . . . . cantando ao violão e números de acrobacia. . ou grandes circos estrangeiros. recebem. em larga folha de papel impressa.. . As casas de família. . . . quase de todo desaparecidos. mais ou menos. . de cavalos. sempre. de feras rugidoras.

o mais homem-canhão do mundo inteiro. João Krupp.. engolidor de espadas e outros instrumentos cortantes e perfurantes. explicando – números estupefacientes! Exemplo. – Além do que se anuncia – informa o homem que distribui o impresso. À tarde. uma famosa chula de três pernas! Teremos na próxima semana o homem que engole pianos. em letras colossais. Em frente à porta principal de entrada armou-se um palanque e dentro dele. A superformosa ecuyère Manola Dias. mesmo os de cauda. formando um séqüito bulhento e alegre. em bolo. do abarracamento de lona embandeirado e festivo. a nova dança do Toni. separando a pista da caixa onde os artistas. Aquém de uma cortina larga. há sempre este letreiro. desafinadamente. na sua clássica indumentária de saltimbanco. Grita o homem de cara pintada. na sua sela. discípula da fenomenal Rosita de la Plata. troando. O estupendo Mangandu.. sai a cavalo um palhaço. músicos. poses extravagantes e ouvindo o coro gritado da gentalha bulhã que o acompanha: – Hoje tem espetáculo? – Tem sim senhor! – Hoje tem goiabada? – Tem sim senhor! – Palhaço o que é? – É ladrão de mulhé! Enquanto vai passando o palhaço irrequieto e gritão. instrumentos de sopro e baterias de ruído. enchem-se as bancadas de pau. tangendo. fazendo.. onde. lugares custando 5 e 10 tostões e uma fila sombria de cadeiras beirando a pista. com uma malta de crianças e desocupados atrás. borrado num pedaço de pano branco: Hoje – Grande Espetáculo. ficam. ensardinhados. seguindo a curva regular do vasto anfiteatro. com os seus brados.302 Luís Edmundo losamente: Estréia hoje o arquicélebre palhaço Eduardo das Neves. no coice da comitiva.. estão os pata- . famoso homem-canhão. Na hora da função. para o espectador de elite. e um cavalo matemático. as suas berrantes vestimentas e a sua jucundidade. em repouso. solícito. um distribuidor de programas vai fornecendo ao público alarmado e curioso os papeluchos da reclame e informes especiais sobre o espetáculo da noite ou de espetáculos a vir.

estreou. quando lhe faltava um palhaço ou outro número qualquer de certo vulto. o Bacalhau. ensarilhado e bulhento.. por um capricho de boêmio.. nesses alegres e pitorescos circos. sempre. À frente dela está o Anquises Peri. da parte onde o mastro central se ergue. nesse vasto recinto de espetáculos. Rompe fronteiras. sobretudo. o Feitosa. recorria aos talentos do sobrinho. um número qualquer. os dois amigos. tocador de violão. num circo. Há o Eduardo das Neves. uma família inteira de célebres ginastas. com grandes inclinações para coisas de palco e que era. Certa vez. juntos. Do alto. o Bob. de um círculo vistoso de metal. como palhaço. corre mundo. belo e forte rapaz. fazendo cenografia para teatros. seu companheiro e amigo. contorcionistas turcos. ambos. Tinha Feitosa um tio. guapos mocetões que envergam librés vistosas. mostrando um céu de lona. Era Hélios. Muito ganhavam. certa vez. famulagem do circo. os braços cruzados sobre o peito. formam uma babel enorme. para fazerem. dono de certo circo em Botafogo. uma cena . antes da sua partida para a Alemanha. tem uma idéia. e que. aluno da Escola Nacional de Belas-Artes. por uma época em que os cenógrafos eram poucos. onde aperfeiçoou estudos de pintura. onde se aprumam e se enfileiram bojudos lampiões de querosene. apupos. no circo. recebendo do povo. dos fundos lisos do panejamento que o grande mastro do barraco estica. Bons palhaços. as redes desarmadas e um báratro de cordas. os trapézios. Possuímos. gente de todas as raças e todas as nações: ecuyères francesas ou alemãs. chufas e outras manifestações de desagrado. a fama singular dessa família. amigo e companheiro de um Feitosa. pelos últimos dias do século que se foi. malabaristas japoneses. provocando um sucesso formidável? O caso deve ser registrado porque é deveras divertido. Não esquecer que a iluminação. o Benjamim de Oliveira. tal a de convidar Hélios Seelinger. Quem acreditará que Hélios Seelinger. altíssimo e em forma de funil. na maioria. pelo tempo. jorra do meio. a família Peri. Palhaços brasileiros. absurda. como ele. consagrado pintor patrício. não se sabe por que – dichotes. comedores de fogo e prestidigitadores de diversos países. Os artistas do elenco.O Rio de Janeiro do meu tempo 303 queiros. cobertas de galões e de alamares. trapezistas suecos. convidado para substituir.

E. em primeiro lugar. a equilibrar na cabeça um chapeuzinho eclesiástico. Continuo a tacar o violão e tu repetes o manejo.. e logo atrás.304 Luís Edmundo mimada de grande efeito e onde deviam figurar: um clown e um tony. convém não bater com força. Eu não te vejo porque. a noite do espetáculo. o instrumento entre os dedos. pisando forte e é assim que. vai. magnífico. Feitosa explica: – Entro eu. inocente tramóia. com o meu violão e procuro. ao bater com a bexiga. guiado pelo outro. obedecendo ao que foi ensaiado. Farsa reles de circo. uns minutos depois. dentro de uns formidandos colarinhos. em vestimenta de tony. Claro. o ensaio dessa balorda. ao convite. desses de copa rígida. Soa a campainha do sinal. que sempre aceitou coisas ainda mais loucas. na caixa. quando tu entras em cena. arrancando-lhe acordes. É o número. e. É a hora. Volto-me e tu foges fingindo-te medroso. muito pequeno. É ires chegando e logo desferindo. porque dessa forma poderá machucá-lo. trazendo uma bexiga de ar na mão. aplica-lhe (porém. surgindo de uma peruca ruiva e escandalosamente arrepiada. para entrar. do ponto onde me fui sentar. dedilhando-lhe. não se esquece de lembrar que. diante do público. na pista. Entra o clown Feitosa. de grande efeito para os freqüentadores habituados a esses assuntos de entremez. com a sua gravata de três metros e os seus sapatos de légua-e-meia. E pigarreio. caracterizados. a que eles devem representar. logo.. Na farsa farei eu o clown. De leve. um tanto aborrecido. Sento-me. diante do êxito que começa a obter. absurda. como se estabelecera na rubrica. afinal. estou de costas. O circo cheio. em passos cautelosos. um ponto qualquer onde sentar. aquiesce. E depois disso tomo pose. faz um sucesso enorme. apenas entrando. a pose de quem vai cantar.. quando lhe fala. uma primeira bexigada. Enfim. Envaidecido. Entra com garbo. põe-se a ensaiar o extraordinário número. faz-se ali mesmo. Hélios. Estou eu a mexer nas primas e bordões. ficarão os dois irreconhecíveis. e. o Feitosa insistindo a explicar ao Hélios que. sobre a minha cabeça. volta-se Feitosa e em voz baixa lhe diz: . pé ante pé. Hélios. Sentindo a bexigada forte demais. Chega. com força) a sua bexiga de ar. ao primeiro pigarro do clown.. Estão os dois amigos prontos. apenas. mas.

A princípio o Feitosa tenta defender-se com o frágil violão que ergue entre os dedos. sobre o infeliz que mal se conserva em pé. como esse em pouco se esfalece na luta desigual. a torto e a direito. o que consegue finalmente. Daí por diante tony. brioso. deixando cair. mas. E sem mais esperar por novo pigarro. no solo. por sua vez. como um louco. gozando a provocação daquela bexigada. de novo. Mais forte. fá-lo tombar por terra. com a sua bexiga de ar. com força hercúlea. atira-lhe na cara tão forte e tão certeira bexigada que o pobre cambaleia. Feitosa sobrepuja o pintor. batendo-lhe. porém. Inebria-se o Hélios.O Rio de Janeiro do meu tempo 305 – Hélios. da mão. arranca-lhe. mal o outro apanha o instrumento. procura um “corpo-a-corpo”. bate na cabeça do amigo. que o outro perde o controle de si pró prio. de tal forma. estrepitosamente. deVelho portão do Passeio Público Desenho de Armando Pacheco sesperadamente. vai desferindo golpes sobre golpes. E de tal forma e . O triunfo alucina-o. Dessa forma estás me machucando! O poviléu gargalha. estonteado. como ensinei. o violão. a bexiga de ar. com exagerada força. que a multidão aplaude e açula. O palhaço Desenho de Armando Pacheco Hélios.

à arena. pouco mais ou menos. levanta-se. havia me impressionado. como se sabe. uma estupenda e extravagante farsa. E lá fui eu ao circo cheio de curiosidade. mestre Antônio Parreiras. certa noite. uma senhora estava. isso sim. roto e desarvorado. sem cabeleira. rotas. porque na primeira fila.306 Luís Edmundo com vontade o surra que o deixa todo encolhido sobre a pista. principalmente quando se recorda que Hélios. coisa muito de ver e admirar. uma sobrancelha postiça dependurada ao canto de um olho. como um caramujo. com um pavoroso chapéu. as calças abombachadas. Nesse gênero de espetáculo. cena mais divertida e mais gozada no circo de Botafogo. frutas e até legumes. por esse tempo. que eu era. de flores. por sua vez. quando. glória da pintura indígena. não sei se toda ela de lona betumada ou de borracha e que se mete na pista natural e toda se enche de água. estreou como tony na pantomima nacional. novidade não sei bem se dos fins ou do começo do século em que vivemos. bojuda. armado de um vastíssimo cacete. . Fala Parreiras: – Creio que o caso se passou com a Companhia Frank Brown. a berrar. ao que se sabe. vasto chapéu de plumas de avestruz. muito aborrecido. para voltar. desses que foram moda e escândalo de uma época. então. que lançava. Sei. cheio de fúria. logo depois. bem em frente ao lugar onde se colocara. pelo instante de tréguas que o outro lhe dá. de fitas. infame. isso. ainda muito moço e cheio de entusiasmo pelos que se chamavam grandes circos. Um verdadeiro tapa-vistas. mostrando-lhe as ceroulas. há uma pista enorme. à vista dos espectadores. também rasgadas. numa voz de mata-mouros. Ao meu lado direito havia um cavalheiro idoso. de maneira tão cômica. em um circo. Naquela semana não se registrou. Estava eu sentado na segunda fila de bancada do grande anfiteatro e assistia ao preâmbulo da farsa que já se representava. de vingança e de ódio: – Deixa acabar de todo este espetáculo. pelo mundo e pela primeira vez. O anúncio da nova pantomima onde se afirmava que a arena das representações se transformaria em um lago. que então te mostrarei como se racha a cabeça de um homem! Contava eu esse caso a Parreiras. ele achou de me contar o papel que lhe coube. gorda. para sobre ele jogar-se. pela mesma época em que Hélios Seelinger. uma famosa pantomima aquática. vai à caixa do circo.

sem demora. bufando. a perguntar-lhe. dentro da pista cheia d’água onde se representa a pantomima. tentando sair com fúria. que é o seu chapéu. De repente. das suas órbitas arroxeadas. eu.. Diz isso num tom de voz muito alto e escandalosamente. por alguns instantes. na auréola singular de seu chapéu disforme: – Se eu tivesse a meu lado um cavalheiro. profundamente. – Não o tiro. ranzinza. colocados atrás desse tabuleiro hediondo de plumas e hortaliças. de lábio trêmulo: – Quem é biltre. grande biltre! Vejo. Que melhor fora não ter vindo ver a pantomima. Exª tirasse. a senhora que não quer observar a cortesia que deveria observar para com os espectadores.. de costas para a arena cheia d’água.. imediatamente. senhor – volve-lhe ela. irrequieto. qualquer coisa que irrita a criatura do chapéu. torna-lhe o tipo. num gesto rápido e violento. a sua insolência seria. nervoso e aborrecido. mete-lhe a mão no peito e com tal força que a atira fora da bancada.O Rio de Janeiro do meu tempo 307 Observou-me o homem.. porejando raiva. aí. tão valioso serviço. castigada. Eu lhe agradeceria. o chapéu. como eu. torcendo o bigode. que se levantou. esse chapéu que é enorme. os olhos congestionados. que quase nada via do ponto em que se achava. Um mergulho imortal. Retruca-lhe a mulher nervosa. – Malcriada é a senhora. cheio de mau-humor. não. minha senhora? – Biltre. E vai continuar quando o cavalheiro do protesto. pois vejo-a que se volta para ele a rosnar uma frase qualquer onde eu percebo esta expressão – malcriado. seria um grande favor se V. o homem de pé. Nervosidade ainda maior do homem não conformado com a resposta e que me diz. Ele é tão grande que me impede de ver o que se passa pela pista. olhando a mulher de face. sem se conter. bate no ombro da mulher do chapéu e pedincha: – Minha senhora. repita. arisca – porque eu estou num circo e não estou num teatro de ópera. desabafando. Tossia. é o senhor! – diz cheia de indignação e de coragem a mulher irritada. a concertar o mais insolente e ameaçador dos pigarros. Ainda vejo a pobre criatura com o .

saudando o público. rápido. à tapona. E sinto-me ridículo. batendo palmas: – Muito bem! Muito bem! Só então tenho eu da enorme realidade em que me colocara uma noção exata. Num gesto. a gargalhada. a gritar.. mas noto. eu me fizera ator do circo Frank Brown. em síntese. Sem querer. que o circo inteiro aplaude a atitude que tomo. em alvoroço. entanto.. como a mulher. A cena. Ouço eu. o que ofendera a mulher. num gesto precipitando-a no improvisado lago. quase resvalo. Parreiras e Hélios Seelinger ainda vivem e poderão confirmar. apenas. caindo dentro d’água. entrando na pantomima aquática! A mulher do chapéu e o homem do protesto eram dois atores do circo. a gritar. Mais que depressa faço o que se faz quando se tem vinte anos e já se leu Cervantes: atiro-me ao sujeito e ali mesmo. das histórias que aqui. é quem. pouco propício a lutas. Um vozerio enorme escuta-se. fizera-se melhor com a intromissão não prevista da minha ingenuidade. em torno. em largas curvaturas.308 Luís Edmundo seu vasto chapéu afundar-se. aí. que o meu imprudente e atrevido contendor. agradece. ouvindo. relato. entretanto. à medida que o mesmo aumenta o seu delírio. castigo-o. Escondo nas mãos as faces encendidas. sento-me no lugar de onde me levantara. a verdade e os detalhes. Do lugar. .

de alta elegância e melhor distinção é que se instala o famoso Café do Rio. com prestígio e renome. . Possuímos. . . desde os últimos dias do passado regime. e as calças brancas do Conselheiro Andrade Figueira. . . . . em todo caso. . O CAFÉ CHIC. Ataulfo de Paiva. . cartola e chapéu-de-chuva com um cabo de volta. mais dignas de lástima que de exaltação. Capítulo 17 O Café do Rio O CAFÉ DO RIO NA RUA DO OUVIDOR. SEU PROPRIETÁRIO – UM POUCO DE SUA VIDA E DE SUA HISTÓRIA – CAFÉ DE POLÍTICOS – A RUA DO OUVIDOR DEPOIS DA MEIA-NOITE – UMA HISTÓRIA ONDE ENTRA A ATRIZ RÉJANE CORAÇÃO da cidade fica no sítio em que se encontram e cruzam as Ruas do Ouvidor e de Gonçalves Dias. as polainas do Sr. . pretor no Méier. glória e viço dos estabelecimentos congêneres. No ponto chique. pela época. . NO PONTO CHIC. . botinas de elástico. .. . Nesse lugar de maior movimento. na verdade. . café chique. . .. são. Pobre chique! As nossas elegâncias. obrigadas a sobrecasaca preta. . . . em toda esta cidade. . . as gravatas cor-de-abóbora do Sr. Guerra Durval.. . . . A FIGURA POPULAR DE INÁCIO DE BRITO.

Não esquecer a coleção de espelhos. Armações pesadíssimas. como um pedaço de ouro. É tal o vaivém de gente. ainda por cima. os clássicos. desembarcando de Niterói. buscando a parte central da cidade. os infalíveis. Abrindo para a Rua Gonçalves Dias. pelo menos. na qualidade da madeira dos balcões e na robustez da louçaria. mandada vir. dos carros de S. que o homem que quer fazer da mesa ponto de reunião e de palestra. o movimento de entradas e saídas. o café não é de grandes rodas. aquele hediondo estilo de macarrões e pernas de gafanhoto. vai fazê-la a outra parte. pequeno. porém. do ponto chique. com tampas de mármores que ainda se importam de Lisboa. Mesas de pé-de-galo. retificando a curva dos bigodes engomados à la Hongroise ou postos a ferro pelos barbeiros de nome. bem ao centro. A freguesia é grande. os implacáveis espelhos. a cadeiAutor desconhecido ra onde está. falar e fazer-se ouvir. o ambiente de inquietação. Mauá e Ilhas. nem para tomar café! Salão vulgar. da Inglaterra. finalmente. um tanto cambaias e sovadas pelo uso. rendez-vous obrigatório dos que descem dos bondes vindos de Botafogo. . sobem Ouvidor. não aparece. ser tratado com mais atenção e menos pressa. No entanto. quiçá. das Laranjeiras ou da Gávea. Francisco. E eclética. Cristóvão. diante dos quais os elegantes da época alinham os plastrons das gravatas (que levam um camafeu oval. ainda vindas da Áustria. no Cais Pharoux. Muito grande. dos que chegam e saltam no Largo de S. Na casa chique. Não pode ser. Vila Isabel ou Engenho Novo. Lâmpada em estilo “art-nouveau” sem que lhe cobicem. de desordem e de alarme. com fundos de palhinha. em sítio onde possa. Aí vive e floresce o grande Cafedório. Grande riqueza – isso sim – nos panos de cristal dos mostruários. tem oito portas.310 Luís Edmundo Está o afamado estabelecimento num ponto magnífico de grande trânsito. como todo o mundo o conhece. como cabeça de alfinete). e duas para a Rua do Ouvidor. Cadeiras de fábrica Thonet. toda. todas em estilo art-nouveau. dos que. que foi a tortura de uma época. o bom-gosto. corrigem a posição das lustrosas cartolas. o murmúrio de vozes.

por sobre a mão aberta. em tombos. No café brasileiro. sobretudo a certa hora. ora dirigindo-o. Seiscentos réis. é pouco. sobre as mesas de mármore. O choque da louça contra a louça ou contra o mármore faz-se de tal maneira que nenhuma das peças se biparte. apressado. na verdade. como pelo ruído que provoca o pessoal de serviço. todo esse tumulto desenfreado e intenso. em meio ao cascatear ensurdecedor das louças em manejo. e. atende ao interesse do dono do negócio. uma ruma de seis. num esbarrondar hiperacústico que excita. por exemplo. de oito ou dez bandejas. como doidos. porém. Ruído perene e forte de objetos em choque. Assim posto. agasta e ofende os nervos. E mais notável. confuso brouhaha que a gente ouve de longe. portanto. sem que delas. lembra um malabarista oriental.O Rio de Janeiro do meu tempo 311 O café do começo do século. Cada garçom. ao menos. na hora de as pôr à feição do homem da cafeteira. que até parece que se lascam e se quebram. Vem dos guichês da copa. erguendo. impressiona e espanta pela nota bulhã. o freguês que consuma.. sobre as mesas. a seguir. mesmo o de clientela mais fina e mais distinta. ou . sobre as mesas. pague os níqueis da despesa e vá-se embora. os seus pires e as suas colheres. azáfama de comício popular. Isso. ainda. uma cadeira. como se fossem plumas ou leves bolas de papel. uma mesa. há muito de característico a fixar. em cambalhotas por entre os seus dedos ágeis e adestrados. sobretudo nos dessa época. em fúria. Notável é o despencar que ele faz dessas mesmas pátenas. com a sua louça acamada. num ruído de bombardas que arrebentam. em dez minutos? Seis cafés. ora executando-o. é o bilboquetear nevrótico. todas elas sobrepostas. aos berros. com quatro lugares. nesse espaço de tempo rende dois mil e quatrocentos. atiradas de roldão. em raspões. Marulhar de feira. com as xícaras. No fundo. não só da multidão que o invade. aos gritos. Por isso. entre nós. Quanto pode render. rodopiam. quando trabalha com as suas xícaras. O comércio é o comércio. que se arrisque a endoidecer em meio a toda essa agitação. se não vai. todo esse dinamismo. em centro de palestra ou hall de clube. escapula uma simples colher. que ele faz. que acha sempre que uma sala de café não pode ser transformada em saleta de espera. sonoros.. E a torre não oscila. enquanto os pires lépidos.

chocalhando-os na mão. duas: uma “sem” outro “com”! Nessa balbúrdia histérica berra até o freguês. o pé leve. o líquido fervente que lhe escapa. ardoroso. no ar. da altura da cabeça do freguês. berra também. pensa que o homem que o serve enlouqueceu e espera por loucura maior. É incrível! Um estrangeiro. pelo garçom. célere. aqui mães-bentas! Bota! Pediu mais quente! Média e torradas. Um verdadeiro assombro! O que já consumiu e vai embora. seguido. – Serve! Louça! Quarta à direita! Açúcar! Última ao centro! Tira! Vira! Carioca. É um artista perfeito. de alguns berros: – Serviço! Feito! Olha o café. dinheiro e galinhas. Faz trocos atirando níqueis para o ar. plantado à sua frente: – Simples ou com leite? Responde-lhe com um grito. vezes de cima. o garçom mais próximo solta um berro ainda maior: – Pag’ ’qui! Curioso também é esse homem que cobra e anda pelo café aos saltos. o olho atento. o homem que serve jorra na xícara. Paga. lenços. o homem da cafeteira. pronto para fugir ou desaparecer. também: – À inglesa! Pingado! Lugar para o açúcar! De longe. aqui! – espanta-se. em funil. não raro. ante esse inesperado e rápido manejo. Troca.. quase sem sentir: – Serve! Se lhe indaga. da boca e até dos vãos atrás da orelha. livrando-se da bulha que o alucina. saindo do bico. desses que sabem transformar ovos em pombos e que do corpo arrancam fitas. por contágio. sem que extravase uma só gota.312 Luís Edmundo racha. dos bolsos. aos vôos. . da cafeteira ou da leiteira. num lance de prodigiosa habilidade. em vigia. Toma o dinheiro. relógios. do alto. Arranca o papel-moeda de entre os dedos.. Lembra um prestidigitador representando num tablado. batendo com o níquel no mármore da mesa: – Recebe! Se o cobrador não ouve o grito. geralmente. desesperadamente.

dirigindo. João Inácio de Brito.. deixando o próspero Cascata. todos nascidos no Brasil: Manuel. Ri pouco. sempre envernizada de suor. Carlos Bueno Brandão Desenho de J. Brito é o que lá está. José e Inácio. O dono do Café do Rio é o velho Brito. Vem dos dias da fundação. a cheirar o serviço. o indefectível guardanapo. sob o braço. de pé. o Minis- . gordão. enriquecendo. Não lembra tipo lusitano. Mais parece um francês. diante de todos esses ginastas em serviço. Francisco Sales Desenho de J. do tempo em que os republicanos históricos. o “Mangonga” – comprido e forte. fala menos. É antigo na companhia de Inácio Brito. com frases retumbantes. platônicos conspiradores. É alto. Nota sensacional – é varejista e não é comendador! Fundou o estabelecimento em agosto de 89. o olho policial e vivo varrendo os recantos da sala. que foi seu. em mãos de outro. no Beco das Cancelas. ali se juntavam metralhando. português das ilhas. tipo da maior honra e da maior bondade. vigiando. bem junto ao guichê da copa. um curto cavanhaque a branquejar-lhe o queixo voluntarioso. de olho vivo.O Rio de Janeiro do meu tempo 313 E o gerente da casa. simpático. a cara longa e parva. os corifeus da monarquia.. Carlos O velho Brito Desenho de Calixto Na faina do café ajudam-no os seus filhos. ou dono. O mais antigo dos garçons é o Manuel das Cafeteiras. Carlos José Mariano Desenho de J.

no olho sombrio e bambo o monóculo de cristal. é o João do Rio. onde se bebia. muitíssimo sovina. após vivas maniveladas. que cruzam. sobre as mesas. nesta quadrinha feliz. a mesma que na manhã do 15 de Novembro. gente pacata e boa. Gente. no fundo. e garçons de jaqueta. num choque violento de ferros velhos. junto à escrivaninha do gerente.314 Luís Edmundo tério imperial e a cara-de-castanha-de-caju do “afrontoso Bragança”. que anda a pedir represálias. até a Rua do Ouvidor. morreu. basta que recordemos o seguinte: os bonJoão do Rio des da Botanical Garden. Exibe importância. meublé. dizem. Outro habitué do frango-de-caçarola é o Garcia Machado. forçando a nota da elegância e do chique. tapissé. grande bebedora de água gelada. Sobre o café está instalado um restaurante. a tração animal.. quando saiu à rua e soube que a República já estava feita. porém. Deu uma gorjeta ao coveiro Que. rideauné à la mode de Paris. uma idéia do chique. o calhambeque parava súbito. pequenina Sodoma. Deste houve quem lhe glosasse o “pãodurismo”. Mais espelhos. durante certo tempo. Era um rendez-vous de janotas e francesas. aborrecida. rodeado de livros e de jornais franceses. Mais art-nouveau. desatou a chorar com pena do “pobre do velho”. em taças do melhor Baccarat. Mais panos de cristal nas armações pesadas. com sanefas de reps nas janelas. Para que se possa ter. inofensiva. Aquele que almoça a sós. vinham todos. bem em face a esse mesmo Provenceaux. de surpresa. e o . dessora respeito. o bom champagne Veuve Cliquot. muito rico. Nesse mesmo andar existiu o velho Provenceaux. Desenho de Calixto descendo Gonçalves Dias. jarras que transbordam de flores. e da elegância refinada desse recanto idílico e civilizado. contra os patriotas que o queriam meter a bordo de um navio e mandá-lo barra afora.. porém. para lhe servir de epitáfio: Quando esse tipo lampeiro À cova fria desceu. Aí é que. onde faziam ponto. um monóculo atrevido e irritante.

Carrefour e adjacências. com os seus garçons de casaca e menu em francês.) É verdade que havia um sujeito munido de vassoura. em geral e com um chapéu de palha descido no sobrolho. senta-se e pede: – Canard aux champignons.. mal. o criado. Nem o Provenceaux. polido e ajanotado. acendia o seu coto de cigarro. posto à feição do sol. meus senhores. alegando: – Não cheira bem. A alimária. à boite chic. menos por desrespeito à granDesenho de Marques Júnior deza e à distinção do nobre sítio. negro. que dirigia de uma plataforma para a outra. A coisa custa um pouco caro. porém. vendo descer os passageiros. torce o nariz. os maus odores respeitavam. entretanto..O Rio de Janeiro do meu tempo 315 condutor. a iguaria. De tal sorte que o carrefour elegantíssimo. porém. ainda. rideauné à la mode de Paris. e. dependurado ao pes coço. pá e baldes d’água. recusa o prato. Os maus odores bailavam pela rua. (O Rio era isso. levantando o braço: – Ponto final! O carro volta para a Gávea! O cocheiro. mal se sentia repousar. mais atrevidos ainda. Serve-lhe. muito tranqüilo. descia para tomar o engate da parelha. O homem. E. que limpava o lajedo. aí. tapissé. e. ao invés de cheirar a rosas. que o condutor mudasse os costais dos bancos. subiam a outros andares dos imóveis. gritava. meublé. num gesto gentil. entravam pelas casas de negócio. temos que descrevê-lo. um tímpano registrador das passagens. . Certa vez. desaforadamente. O freguês. então... cheirava a estrebaria. Esperava. lembra Montmartre. um homenzinho que usava boné de pano azul-marinho e mostrava. um elegante vai almoçar ou jantar ao belo restaurante do hotel. transformava o solo em vergonhoso tapete de imundícies. Talvez dois. que por necessidade fisiológica. nesses curtos Antônio Carlos instantes. Um minuto. porém.

com brio. Sempre assim foi.. Sr. Guerra Durval. dúvidas. No dia em que não fizermos o que ora fazemos. Você. em sua própria terra.. é dos burros lá de fora. sempre. assistindo a reações de uma brutalidade verdadeiramente lamentável. Brito. depois de o ter cheirado: – O animal foi morto há duas ou três horas. por vezes. um bando desprezível de fantoches. você nada tem que ver com o que se passa – diziam-lhe. O caso é menos de nacionalidades que de pessoas. apenas. – Mas. o que faz todo bom patriota em seu próprio país e terá que fazer qualquer homem de bem. este cheiro.. Está em perfeito estado. . de tal sorte incendiou o ânimo nacional. esse. em meio a toda essa efervescência facciosa. apenas. Frase profunda do garçom. – Brito. desolado. entrou para a diplomacia e foi logo despachado para servir na legação do Paraguai.316 Luís Edmundo Sorriso do garçom que pede licença para cheirar o prato. então? – O cheiro. coitado. foram todos por nós queridos e respeitados. em 94. de resto. sobre esse fato. dirigida contra patrícios seus. Não tenha V.. Exª. petulantemente. desde a célebre “noite-das-garrafadas”. erguia os ombros. sabe disso melhor que nós. remanescentes daquela fauna patriótica que o Aníbal Mascarenhas e o Diocleciano Mártir chefiavam e que. é que. teimam em nos humilhar e dirigir. – Você é um estrangeiro digno e esses. Que aqueles que ora combatemos são. que aqui vive e que bem nos conhece.. não raro.. que até a muleta do mesmo Diocleciano pôde ser transformada em clava de combate. “Fazemos o que faria você. Doutor? Mas. líder das elegâncias nacionais. ∗ ∗ ∗ O Café do Rio foi sempre um viveiro de jacobinos. os atrevidos que dentro da nossa casa. O velho Brito. não se sentindo num ambiente propício. debaixo de seu teto. com justiça e com razão. do povo que hoje somos passaremos a ser. Era! Ah! Rio de Janeiro do meu tempo! Por essas e por outras foi que o Sr. pelos acontecimentos da Mindelo e da Afonso d’Albuquerque.

pouco tempo depois.. como foi. Se sabia! No fundo. quando o retrato do reformador do Rio. Rocha cos. por ser a mais linda de todo o mundo. sabia de tudo. com uma legenda infame.. no começo do século em que vivemos. uma ação determinada e dirigida apenas contra os quiosqueiros. excessivamente brutal e não raro sangrenta. Por uma época em que os poderes públicos combatiam. uma infâmia. a velha morrinha colonial. porém. houve logo quem envinagrasse o caso. Mandava servir a rodada do Bock-Ale. denodadamente. porém. em um deles aparece. até. o quiosque era. mais uma rodada de Bock-Ale. em meio à paisagem conspurcada pela mão do homem. que a mobilização patriótica de latas de querosene e de caixas de fósforos teria de realizar-se. Calhou que atrás de tão hediondas pocilgas. Felizmente. Essas. requerendo. a ele emprestando intenções obscuras ou subalternas. saem exaltados que parte tão saliente tomam na queima dos famosos quiosques. que diabo! a reação era brutal. coisa pior que fogo. jamais existiram.O Rio de Janeiro do meu tempo 317 Pois não sabe? E agora mande servir. . Naturalmente.. o menor caráter antiluso. reconstruindo. Podiam ser turDesenho de A. a cidade maravilhosa que passa. já de armas enferrujadas. quando desencadeado.” Brito estava a par de toda a triste e dolorosa verdade. ainda quartel-general de jacobinos. É verdade que. sendo. Sorria amarelo. do mesmo modo. pelo Mangonga. perfeitamente. ∗ ∗ ∗ Felizmente nós vamos encontrar o café. entretanto. na verdade. hoje. tarde ou cedo. chins. porém.. houvesse uns tantos portugueses e de alguns deles partissem provocações que Tavares de Lira cegavam a prudência do povo. Bom será explicar. desse mesmo ponto. E ele tinha no peito um coração português. no Largo de São Francisco. Parecia concordar. italianos ou suecos. que o movimento não teve.

a grandeza da cidade. atribuiu-se o movimento. esses estrangeiros. embora sem pensar que o que combatiam era o progresso e o futuro da própria terra. A máquina renovadora era de ação enérgica. somente. cada um deles representando um valor. uma delas pesando até. dos que passavam a inventar hostilidades só para aplicá-las aos filhos de Portugal. formavam. de parte a parte. deveria desaparecer. entre nós. Foi só o que aconteceu. Nada mais falso. porque muitos dos nossos houve que também os secundaram. que. porém. por si só capaz. mas sempre justa e cega na distribuição da justiça. E que não se diga. nela se colheram milhões e milhões de ratazanas. quiçá dos chamados de “bico amarelo”. outrossim. que com tão pouco não se impressionaram criando. sem a menor sombra de higine. Aos jacobinos. em grande parte. As medidas por ambos concertadas tinham caráter geral. Por sua vez o comércio luso mais importante. deu-se o delíquio da razão e. Nada mais injusto. por essa época. Os portugueses que. contra os reformadores. bem como todos os processos vexatórios de que lançavam mão alguns interessados na exploração dos mesmos. de qualquer forma. o melhor. excrescência do passado. ante a campanha contra a peste bubônica.318 Luís Edmundo O quiosque. composto de pardieiros. linha. serenamente como criaram. segundo o informe de um jornal da época. No dia em que esses interesses e esses valores se chocaram com as conveniências e os interesses imediatos do país. imensa fortuna representada pela massa de um casario tosco. Foi pelo desenrolar dessa campanha que acharam de inventar o jacobinismo de tão galhardos benfeitores. Também se disse que Osvaldo Cruz e Pereira Passos eram “jacobinos vermelhos”. as violências foram sendo praticadas. por ela fazendo o que até então ninguém havia feito. se instalava em meio a tais imóveis. três quilos e 700 gramas. A paciência do povo esgotou-se. uma colônia numerosíssima possuíam uma grande parte da fortuna imobiliária no centro da cidade. um interesse. não há dúvida. ∗ ∗ ∗ . de caçar todos os gatos da vizinhança. A luta fez-se tremenda. e tão velha que. como se vê. se ergueram.

do outro lado e. até por vezes. mamãe. que são a grande moda do começo do século: – Para frente é que se anda. À tarde o café é um verdadeiro pandemônio. na parte da Ouvidor que se encaminha para São Francisco. eu morro! – Como ela é bem-feitinha! Assim somos. empurrando os filhos que se armam de grandes chapelões de celulóide. sempre. encostada aos portais do edifício. oito e mais pessoas. congestionando-o. em risadas loucas. Rocha . batendo às portas da Pascoal. pelo meio da rua. não mate a gente! – Aí. felizmente. elas mesmas sob aqueles vastos chapéus transbordantes de fitas. não formam a parte maior desses ru idosos grupos. correta! – Meu Deus. São grupos cerrados e vozeirudos. menino! – Não me empurre. essas senhoras. de quatro. seis. – Oh. por esse Rio semicolonial do começo do século. em frente.O Rio de Janeiro do meu tempo 319 Voltemos ao Café do Rio. não raro com ditérios dirigidos às senhoras que passam: – Rainha.. impedindo o trânsito regular do logradouro. de flores e de plumas. constantemente tiroteadas pela insolência dos que. com efeito. em palestras ruidosas. Há gente trepada nas soleiras das portas. O curioso é que. em grupos que vão à entrada da Casa Everdosa. que criança mais impossível! Pedro Moacir Desenho de Seth Barbosa Lima Desenho de Raul Lauro Müller Desenho de A.. façam sempre muita questão de cruzar por aí. sobrando pelas calçadas. chegando ao canto onde se fixa a loja de Madame Coulon.

fracionando-se. logo! Ou mais ainda: – Comigo é logo a mão na lata. Não respondem.. chocando-se. pelo tempo. . general do Exército. no fundo. uma verdadeira laçada. embora uma ou outra vez soltem muxoxos secos ou desprezíveis. empurrões. Duas horas antes da passagem dos préstitos carnavalescos. “seu bruto”? – Bruto é você! – Vá lamber sabão! Vezes resvalam. aca riciando-lhes. uma preamar agitada. enquanto os aspirantes da Marinha destroem. animando-se até os que neles se empenham: – Brocha! Ou então: – Enche. olhando com o “rabinho-do-olho”. coçam-lhes a vaidade. com dedos de veludo. mas. – Não enxerga. outra crítica feita ao couraçado Aquidabã. alunos da Escola Militar saem para atacar. uma vez. sente a gente que essas frases vazadas em velhos e estafadíssimos clichês. com as sobrancelhas. gritos. berros. para o terreno do desforço físico e se resolvem a socos. A onda humana que desce das bandas de Primeiro de Março. São pisadelas. esses grupos.320 Luís Edmundo É verdade que essas senhoras não respondem aos ditérios. pode uma criatura passar por entre todo esse maelstrom humano. as coisas. nem untado a vaselina. o amor-próprio. a pontapés ou bengaladas. da Armada brasileira.. aí revoluteia. Nesse mesmo lugar. nesse mesmo dia. aumentam e criam. É hábito. palpitante e agitada. com os que compõem o trânsito normal da rua. achar-se naturalíssimo esse gênero de desforço. chufas. pelo tempo muito grossas e muito espessas. Pelo carnaval. protestos. dos pés à cabeça. destruir e incendiar um carro dos Fenianos onde surge certa alusão ferina a Pires Ferreira. “amarrando a cara” e dando. borbulhando. Expressões típicas de um tempo que foi de muita bordoeira e ainda maior ausência de compostura. que se armam junto às portas do café. em choque com os que vêm da Carioca ou São Francisco.

Armando Sérgio Ferreira. o dono do café. Miguel Austregésilo. Antônio Carlos. em meio a jovens oficiais como Tasso Fragoso. Horácio Antônio de Castro (hoje diretor da Mogiana). famoso autor de um livro de versos humorísticos. James Darcy. José Bento Tomás Gonçalves. José Luís de Araújo. Faz ele muito bem. Nicolau Ciâncio.O Rio de Janeiro do meu tempo 321 Inácio de Brito. essas tempestades de ânimos. o positivista. figura. Cacos de Garrafa. sorridente. Entre as figuras habituais da primeira podem ser citados: Marcolino Fagundes. lá fora! ∗ ∗ ∗ Na freqüência do café.. José Vicente de Araújo Silva. Na hora do “quebra-cabeças”. Precavido. Justino Paixão. do “fecha-fecha!”. Augusto Severo. vai logo fechando as suas portas. pesa a estudantada das escolas superiores. sobretudo a das Escolas Militar e Politécnica. Oscar Lisboa de Sousa. Brito coça o cavanhaque. quando elas andam no ar. muito magro. hoje grande nome da literatura do país. Defende o seu negócio. Hugo Araripe. Oscar de Almeida. de 3 até 6 horas. Manuel Rabelo. o terrível autor de rolos memoráveis. de cartola e monóculo. Bias Gomes Pimentel. Augusto Mendes. muitos: o João Neiva. conhecedor dos hábitos do tempo. Alberto Maranhão. Muitos políticos. Pedro Velho. Júlio Índio Parintins Pereira.. Defende a sua louça. Herédia de Sá. Miguel Calmon du Pin e Almeida. pelo tempo. O mundo que se acabe. Hermann Fleiuss e Ernesto Cruz Sobrinho. incorrigível boêmio. o aeronauta. Tavares de Lira. espírito de escol. “a raposa de espada à cinta”. no minuto trágico do “arranca-rabo”. Pedro . Entre os da Escola Politécnica. é que sabe sentir. estão: o poeta Bastos Tigre. Lauro Müller. que escreve o Saguão da Posteridade. que ainda não abandonou a Engenharia para cuidar da Medicina. Afonso Taunay. Guilherme e Eduardo Guinle. resguardado e tranqüilo. José Mariano. Mário Clementino de Carvalho. Djalma Ulrich de Oliveira. Alfredo Niemeyer. Luís de Sá Fonseca. subdelegado da Central do Brasil. Tobias Moscoso. da Bahia. Luís Furtado e Augusto Sá. depois ministro. Raul Veiga. Niepce da Silva. gordo e afável. com os seus coletes escandalosos. Lopes Trovão. como um barômetro. Defende o seu art-nouveau. de grande projeção no seu meio.

. seguidos de quatro praças. Alvarenga Fonseca. como o Matos Fonseca. “o leão da defluxeira”. Henrique Venceslau. Flores da Cunha. ao compasso brejeiro das suas buliçosas partituras. onde trabalhava e de onde era diretor da orquestra. Quando se fez a República e ele fazia dançar os quadris das Delormes. Haroldo Hime e Barão Peres da Silva. a falar. magro. Glicério e o preto Monteiro Lopes. certa vez. Daí chamar ele. que então assina Cláudio Júnior. Rosa e Silva. senhor de exóticas teorias sobre a música descritiva. Belligrandes e Lopiccolos. Chamava-se esse homem Marcolino Fabiano. Chegam sem achar sombras do menor conflito. Teixeira da Rocha e Henrique Bernardelli. admirável causeur. tipo alegre. o moço-artista levou. como espécie de secretário. Alcindo Guanabara. Estudantes de medicina e jovens médicos. ex-delegado de polícia. J. J. lindo rapaz. que muito lhe valeu durante os tempos em que teve de exercer tão espinhoso cargo. músicos como Júlio Reis. loquaz. a gesticular como se estivesse discursando. o rosto coberto de sinais de bexigas. Francisco Glicério. vêm dizer a Assis Pacheco que. o seu ilustre secretário e ambos partirem para o local. Do teatro. Lauro Sodré. bolsistas como Luís Gomes. sempre. Manuel Vitorino. Gastão Bousquet. Lá foi o Assis reviver a glória de Scárpia nos subúrbios. Sá Freire. nomeou-o subdelegado de polícia em Santa Cruz. Belmiro de Almeida. logo.. Ora. Nicolino Milano. chefe de orquestras. Pinheiro Machado. Irineu Machado. tipo de d’Artagnan de “meia-cabeleira”. bigode e pêra. Coelho Lisboa. pálido. Serzedelo Correia. Augusto de Vasconcelos. Tomás Delfino. suando reivindicações. um modesto músico. e Antônio Austregésilo. Sampaio Ferraz. o indefectível Cláudio de Sousa. figura obrigatória do café. Alberto Nepomuceno. com o seu sorriso de leitão assado. se prepara um formidável rolo. ao lado de figuras que ficaram pelo relevo de suas bem marcadas individualidades. Seabra. muito alto. Leão Veloso. chefe de polícia e que era um grande freqüentador dos jardins do Recreio. Barbosa Lima. feio e austero. pintores como Rodolfo Amoedo. Assis. Antônio Parreira. Júlio César de Oliveira. Abreu Fialho. . numa festa organizada no arraial. líder da raça negra. e Assis Pacheco. alguns: Almerindo Feitosa Gans. Leite Borges.322 Luís Edmundo Moacir.

. três bules de lata e meia-dúzia de canecas de louça ou folha-de-flandres. Mal ele parte.. vastíssimo madeiro. franze o sobrolho. a fim de terminar a já começada partitura.O Rio de Janeiro do meu tempo 323 que tem a encomenda de uma peça para o Apolo. A polícia vai agir. improvisado em prestigiosa autoridade. postas de peixe frito e lascas de bacalhau ou de presunto. queijo e fritada. Não esqueIrineu Machado Desenho de Storn . na calçada: um fogareiro de carvão. leite e capilé. à porta do Correio da Manhã. Copa e cozinha desse varejo improvisado enfileiram-se em linha. erguendo. num passo lento. trabalhara forte na cabeça piedosa do pobre sacristão da igreja local. outras casas do gênero. o conflito que estoura. Fabiano.. o qual. ∗ ∗ ∗ Quando o Café do Rio fecha e fecham. James Darcy um há que não foge. brada-lhe. o eterno coto de cigarro dependurado ao canto da boca melancólica. duas ou três panelas. avança. com os seus guardas de serviço. do maestro Assis Pacheco. na mão poDesenho de Raul tente. mate. sanduíches de carne. quando o guarda-noturno da zona aparece na sua roupa de brim. Entre os homens da desordem. faz pigarro e erguendo o braço para o desordeiro. deixa a sua gente no arraial e volta para a delegacia. que fica próximo. pela cidade. abotoada a sobrecasaca. no seu boné de larga pala e põe-se a apalpar as portas que já se fecham.. Água na fervura. segundo informações seguras. com a maior solenidade: – O cidadão está preso às ordens. porém. Debandam os desordeiros (que o tempo é de se pegar capoeiras e enviá-los para a ilha de Fernando Noronha). bem em evidência as insígnias de sua autoridade. É quando Fabiano. surge um arremedo de negócio onde se vende café.

muitas vezes. que trabalham à noite. os que se recolhem de noitadas boêmias. nem paga ao dono do jornal aluguel pelo lugar que ali ocupa. porém. na fila dos parcos utensílios. mas.. Se os leva! Vinga-se nos que pagam. a toalha de serviço. aprofundando-se no caso. À porta de cada jornal diário e matutino há sempre um negócio desses e com um homem assim. não raro. como está. Deles servem-se. o mesmo “manuel”. Cheira-a-bode ali está. acaba fiando. cascas de queijo. E tanto sabe que. rolhas. Para quê? Para que possam os homens da oficina. espinhas de peixe. não varre nunca a “loja”. rogado. de escarros e gordura. ao município. Leva calotes. Quem viu um “cá-do-pai” pode afirmar que viu os outros. Sabe muito bem disso. no tempo. Não sabe ler ou escrever.. pousadas numa tábua posta sobre dois caixões. Na pia batismal recebeu. Porque não só da gente das gazetas vivem os “cá-do-pai”. As comezainas. É do comércio. dependurada a um prego. arrumadas em pratos de papelão. por novidade. Por quê? Ninguém sabe dizer. o nome de Manuel. Está em mangas de camisa. usa tamancos e vive a esgravatar o alforje do nariz. de envolta com manchas de café.324 Luís Edmundo cer um balde d’água. Os jornais ainda não possuem. panelas e canecas. esse comércio. portanto. restaurante ou café próprio. elegantíssima – por curiosidade.. Deixa-a assim mesmo. quando clareia o dia e ele parte levando nos caixotes fogareiro. uma chacarazinha. de louça ágate ou alguidares de barro. na parede. a freguesia é enorme. os que saem dos bailes depois de 2 ou 3 da madrugada. O homem do negócio é um sujeito forçudo. Não fia. Vezes. Não paga. barba feita e tamancos envernizados. gente. imunda. Nem o leitor queira também saber. Assim diz ele. Dizem que possui para os lados da Piedade. Chama-se a essa tenda improvisada e ignóbil – “cá-do-pai”. de bigodeira vasta e sobrancelha espessa. achar para o estômago. por . Aos domingos vai à missa de paletó branco. O mesmo fogareiro.. Sabe que é necessário. É melhor. Deram-lhe a estranha alcunha de Cheira-a-bode. Manuel da Latada. É bom católico. imposto. qualquer coisa barata que comer. o balde e o mantimento que sobrou. o mesmo balde. e. toda uma alcatifa de restos de comida. “preenchendo uma lacuna”. quando vazio.

porém. – Mais. creio que ao Mário de Lima Barbosa. c’est le nom d’une entreprise comme celles des restaurants Duval et Chartier... a fim de cheirar o pitoresco prometido.. num dos últimos que visitou.. com o diabo do nome – “cá-do-pai”! – Mais. – “Qu’est que ça veut dire?” – perguntou ela. achando tudo aquilo très rigolo. então repórter da Tribuna. c’est une merveille – teria ela dito. Quando por aqui passou a Réjane. devorou. um Coq d’or ou uma Grande Taverne. trajando altas toilettes. somente. – “Cá-do-pai”. inteiro. le thé mate du Brésil. cobrando. certa vez. ficou resolvido que a grande atriz fizesse a tourneé dos “cá-do-pai”. noutro. Rodolfo Bernardelli Desenho de Calixto . então. pediu ela. E a coisa ficou por isso mesmo.. lhe respondeu.. após o espetáculo. ou depravação do paladar. num. um requeijão de Minas. Fosse.. que não compreendiam o francês. um Caveau des Innocents. Madame – alguém achou de lhe dizer. que a levasse a um lugar bem característico do Rio e depois da meia-noite. desgraçar-se explicando uma coisa dessas. à Paris.. Ninguém. os dedos todos cheios de gordura. dando gritinhos histéricos. pondo um remate à questão. Pois regalou-se! Riu muito.O Rio de Janeiro do meu tempo 325 pitoresco. É quando o “manuel”. Como não possuíssemos um Rat mort. vinga-se. sendo que. provou. por amabilidade. uma pessoa.. um sanduíche de sardinhas fritas. De tal sorte desviava-se a atenção da mulher da designação afrontosa. fez perguntas aos “manuéis”. o que bem entende. muito intrigada. entusiasmada pelo aspecto ou pelo cheiro da sórdida culinária. em companhia de todos os grandes companheiros da troupe.. E lá foi a mulher. que não pode valer-se do quilo de 800 gramas.

. a chupar. . que fica entre a Rua do Ouvidor e o Beco dos Barbeiros. que bem se pode. outros existem. . . à qual nem faltavam negros sujos e pelitrapos. . em tertúlias animadas e ao ar livre. À RUA GONÇALVES DIAS – O MENU ÀS AVESSAS DE BITENCOURT DA SILVA FILHO – O IMORALÍSSIMO BOCAGE – FREQÜENTADORES DE CAFÉ LÉM do Café do Rio e do Café Paris. . em meio à estrumeira e aos molambos da cidade semi-africana de então. naquela parte da Rua Primeiro de Março. uma rua larga de Dacar ou de Luanda. considerados como os estabelecimentos de maior concorrência e maior distinção em toda esta cidade. . O do Globo. . comicamente. . vendo os políticos da monarquia. . larga e triste. mandou que se chamasse “Boulevard Carceller” e que mais lembrava. . . mencionar. . NO CARCELLER – GLÓRIAS PASSADAS – CAFÉ AMORIM E CAFÉ CASCATA – O CAFÉ PAPAGAIO. que a Câmara Municipal. por exemplo. . um dia. .. todos muito espantados. embora sem grande relevo ou fama. . . . ainda. entanto. . através de canudinhos de palha. refrescos de pitanga ou de limão. Capítulo 18 O Café do Globo O CAFÉ DO GLOBO. . . . numa terrasse de poucas mesas sob o arvoredo choco e empoeirado da calçada. . . .

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O Globo, café e restaurante... Sala de loja vasta, funda, mostrando um tapete de oleado, com ramagens, cobrindo-lhe todo o assoalho, por certo muito gretado e velho, mesas com tampo de mármore negro e guarnições murais do mesmo mármore, compondo a linha da decoração severa, sóbria, e ainda não abastardada pelo delírio frívolo do famoso art-nouveau. Em 1901 o café decaiu; já não tem mais terrasse, nem tapete de oleado, nem fama. É um botequim vulgar, onde os elegantes tomam, de costas para a rua, uma famosa “média” de café, leite e pão quente, um pão-de-família, enorme, valendo por um sólido almoço e custando, apenas, três tostões. No sobrado, o restaurante com sala para banquetes e um mundo de recordações! – Era aqui que o Sr. D. Pedro II, moço, pela semana santa, após correr as igrejas, no dia da visitação, tomava, sempre, o seu sorvete de caju... Acolá, as armas do Bragança... Naquela mesa, um dia, Gaspar da Silveira Martins e o poeta Rosendo Muniz Barreto... Os muito jovens pintores Visconti e Batista da Costa, por vezes, sentam-se acolá... Glórias passadas! Glórias vividas! E esquecidas! No Beco das Cancelas, pouco adiante, está o Café Cascata, que foi do velho Brito, sempre cheio, sempre animado, com a sua harpista, eternamente a soluçar um velho minueto de Bocherini... Descendo o beco, na Rua do Rosário, o Café do Amorim, reputadíssimo, o que melhor sabe preparar a rubiácea, na velha afirmação dos entendidos. É uma sala modesta, porém muito freqüentada. Gente boa e de toda casta. São tabeliães dos cartórios próximos, de barba cer rada e óculos de tartaruga, uns homens hirtos e sinistros que não riem nunca e que espiam através de austeríssimos quevedos, cheios de dignidade e de aplomb; são funcionários dos Correios ou da Alfândega, discutindo o bicho do dia, concertando a cenCalixto Desenho de Raul tena que vão comprar à loja do

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Quem dá a sorte é Deus E nas loterias é o Camões

são negociantes, quase todos portugueses, gente simpática e alegre, em mangas de camisa e colete, mostrando, além de vastíssimas correntes de ouro ou platina, medalhões com esplêndidos brilhantes. Entram falando em voz alta, aos empurrões, em bando, a berrar pelo nome dos caixeiros, do gerente ou dos fregueses. São, em geral, comendadores ou beneméritos de Irmandades, com retrato a óleo na secretaria das mesmas, pintados por um certo Augusto Petit. Quando sabem ler, são assinantes da Mala da Europa e leitores da página dos telegramas do Jornal do Comércio. O Café Londres, de famosa memória, que ficava na Rua do Ouvidor, quase no canto de Gonçalves Dias, já não existe pela aurora do século. Há o Java, porém, mais adiante, com várias portas, deitando para S. Francisco. Se caminharmos um pouco, mais adiante, no Largo do Rossio, entre vários cafés de pouca fama, um encontraremos digno de registro, pela sua importância no local, o Criterium, onde param atores e mocinhos de voz aflautada, que usam pó-de-arroz e carmim. Para os lados da Rua da Ajuda há o Café do Miñau onde, por vezes, param boêmios. Não esquecer, porém, entre os cafés citados, outro café que vale atenção especial, o Café Papagaio, na Rua Gonçalves Dias, entre as Ruas do Ouvidor e Sete de Setembro. Aí viveu o velho Papagaio, que era uma sala aconchegada e simples, mas, sempre, com ótima freqüência, o balcãozinho do Fagundes, charuteiro, à direita posto, com a sua mercadoria à mostra. Ao fundo, as mesas de um restaurante, onde se comia um famoso porco assado, digno do triclínio de qualquer imperador romano. Nele Bittencourt da Silva Filho, pouco tempo depois elevado à categoria de diretor do Liceu de Artes e Ofícios, tipo comunicativo, inteligente, alegre, com uma eterna Pintor Amoedo Desenho de Raul preocupação de pilhérias inéditas, ofereceu a

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um grupo de artistas, certo jantar “às avessas”, cujo menu, impresso, era o que aqui se reproduz:
“Licores Café Morangos com creme Peru com farófia Couve-flor Peixe à brasileira Sopa de estrelinhas Vermute e outros aperitivos”

Tudo, como se vê, loucamente, rompendo a norma de velhas convenções. ∗ ∗ ∗ Entre o restaurante e o café, sobre um estradinho que um oleado vermelho enfeita e cobre, a bulha alegre de um quarteto, vibrando sempre trechos musicais da mais correta procedência. Harpa, flauta e dois violinos. Terminada a página musical, corre, sempre, o pires da receita, cada um dando o que quer dar. O tempo é de música nos cafés. O mais modesto possui a sua solfa, seja ela representada, apenas, por uma rebeca, por um piano ou por um preto cego tocando um violão ou uma gaita de foles. A orquestrazinha do Papagaio é simpática. E muito brasileira. Notar que a época é de grande exaltação da música, com ótimos autores: Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré, Paulo do Sacramento, Costinha, J. Cristo, Aurélio Cavalcanti...

Eliseu Visconti Desenho de Marques Júnior

Batista da Costa Desenho de Marques Júnior

Caricaturista Falstaff Autor desconhecido

O Rio de Janeiro do meu tempo 331 Tempo da modinha blandiciosa, que, embora um tanto choramingas, no seu ritmo que lembra o embalo da rede cabocla ou o agitar de um leque de palmeira, ainda é a grande música que sacoleja e afaga o coração do povo. Tempo do tango, que é o nome que então se dá ao samba; tango ou maxixe, reação timorata à melodia angustiosa herdada dos velhos tempos coloniais e que só entra em agonia, depois, com os surtos da remodelação por que passa a cidade, desfazendo-se com os bolores e as sombras do passado melancólico. O quarteto do Papagaio é muito antigo. Vem da fundação do café Paula Nei, quando aí chegava para tomar um parati pingado, engolir um conhaque, mastigar umas mães-bentas, não se esquecia nunca, do niquelzinho da música. E dava-o, sempre, com a maior boa vontade, com o melhor dos seus sorrisos, dizendo, invariavelmente: – Para que toquem uma valsa bem sugestiva e um tango bem debochativo! Solfa de Botafogo... Ruídos do Saco do Alferes... E enquanto gemiam os instrumentos de corda, contemplativo ou abstrato, ficava ele, num gesto muito seu, marcando com as sobrancelhas, o compasso da música ou com os dedos a rufar no mármore da mesa. ∗ ∗ ∗ À porta do estabelecimento, no seu poleiro de folha-de-flandres, não esquecer quem do negócio faz reclame e anúncio – um papagaio vivo, autêntico, em carne, osso e penas mas que não fala. Passa os dias no seu poleiro de metal, mudo, de olho redondo e de cabeça torta, olhando os fregueses que entram, os fregueses que saem, ao lado de uma eterna espiga de milho verde, mas que lhe deve ser monótona e sensaborona como a vida. Essa tabuleta viva dura, no entanto, pouco tempo. Um dia encontram, quando vão abrir a casa, o papagaio estiriçado e frio, o bico aberto, a língua negra e cheia de formigas... Dão-lhe, como substituto, um contraste, o Bocage, o mais falador e mais inconveniente entre os papagaios do Brasil. É um gramofone. Por que lhe ensinem coisas afrontosas, vive a repeti-las. Depois do

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Rio Nu e do Pimpão, que recebemos de Lisboa, jornalecos pornográficos que se vendem pelas ruas com o assentimento da polícia, nada há mais imoral em toda esta cidade. É um calepino de indecências, é um porta-voz de desacatos à moral do próximo. Um escândalo! O que solta este louro, do alto de seu poleiro, no ouvido das incautas senhoras que passam pela porta do café, arrastando pela mão os seus pimpolhos espantados! As “polacas” da Rua Sete ou do Largo do Rossio não têm, nas suas rótulas, escândalo tão vivo. Chega a vir gente de longe só para gozar as inconveniências do hilariante Bocage. E de tal forma abusa ele do direito de ser pornográfico, que a polícia intervém. Vende-se por isso o monstro que é substituído por outro exemplar de linguagem mais sã e de melhor virtude. Marques é o proprietário do café. Tipo amável, bigodudo, gordalhudo, pince-nez de cordão e ar de empregado público. Artur de Sousa e Poggi Figueiredo, estudantes, logo que começaram a freqüentar o café, certo dia, para pagar uma despesa qualquer, vêem-se, súbito, sem dinheiro. E perguntam ao garçom: – Quem é o dono da casa? – O de bigodes, acolá, ao fundo do estabelecimento. Poggi a ele se dirige. E fala: – Sr. Papagaio, desculpe... Marques olha-o curioso e um tanto sério... – Como o Sr. Papagaio talvez saiba, somos estudantes... Conta o que consumiram, da surpresa de se encontrarem sem um níquel... – Nós somos pobres, Sr. Papagaio, porém, somos honestos. Amanhã o Sr. Papagaio, terá seu dinheiro... E o Sr. Papagaio para cá, e o Sr. Papagaio para lá... Marques que, desde o começo da explicação, amarrara a cara, já se exacerbava com tanto Papagaio; uma vez que ele não sabia se era aquilo dito por ignorância ou intenção de chufa. Não se contendo, acaba, afinal, por arrebentar, dando um vasto murro no balcão: – Irra, que eu não me chamo Papagaio! Deixem-me de pagar o raio da despesa, mas, por favor, não me troquem o nome! Tudo,

O Rio de Janeiro do meu tempo 333 menos isso! Chamo-me Marques, como meu pai. Não tenho nome de bichos na família... Ora, esta cena, um tanto espetaculosa, presenciada por muitos, tem comentários e eco. Um belo dia, Marques, que é bastante desleixado, em matéria de toilette, manda frisar a bigodeira. Raul, endiabrado, mofino, chama um garoto, na rua, e dá-lhe uns níqueis para gritar à porta do café, pelo menos de 5 em 5 minutos: – O Papagaio frisou o bigode! Estava o estabelecimento cheio, a orquestra, em descanso, quando o garoto gritou, pela primeira vez: – O Papagaio frisou o bigode! Marques não gostou da tirada. Afinal, aquele grito era uma desconsideração perante a freguesia. Fingiu não ter ouvido. Cinco minutos depois outra dose de “Papagaio” e de “bigode”.

Mário Pederneiras Desenho de Marques Júnior

Navarro da Costa Desenho de Marques Júnior

Luís Peixoto Desenho de Marques Júnior

Fernando de Magalhães Desenho de Marques Júnior

Quando o garoto grita pela terceira vez, variando a frase, co laborando na pilhéria: – Olhem só o bigode do Papagaio espichadinho a ferro... Marques atira-se para a porta, de roldão, atrás do biltre, e ao seu encalço corre até quase ao Largo da Carioca. Por que havia de fazer o Marques tal loucura? Nesta mesma tarde, todos os garotos do Largo, em bando, vêm para a porta do café azucrinar o pobre homem. É preciso a intervenção da polícia. Assim mesmo, a molecagem, de longe, da Rua Sete ou dos lados da Rua do Ouvidor, grita, escondendo-se pelas portas da casas de comércio:

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– O Papagaio frisou o bigode! Raul, por esse tempo, é o líder dos trotes e das galhofas do café, esse mesmo Raul Pederneiras que, hoje, é lente da Faculdade de Direito, professor da Escola Nacional de Belas-Artes, compenetrado e austero. ∗ ∗ ∗ Raul, Calixto Cordeiro, Falstaff, Crispim do Amaral, Dumiense, Amaro Amaral, Hevêncio Nunes, Artur Lucas, Gastão de Melo Alves, Adamissick e Peres Júnior formam uma roda unida e certa. É dessa roda que nascem: o Mercúrio, o Tagarela, o Avança e o Malho, este último ainda hoje cheio de vida e de saúde. Vezes emendam-se duas ou três mesas, à tarde, ou à noite, para horas de cavaco. No Papagaio é que se forjicam, entre dois dedos de palestra, um café e um maço de caporal lavado (como se fuma nesse tempo!), as legendas que no dia seguinte hão de completar os bonecos que surgem nos jornais e nas revistas de melhor nome. O que se atira e o que se perde, como espírito e como verve, sobre o mármore dessas toscas mesas de café! A época é dos jeux-de-mots, de calembures e trocadilhos, corrompida expressão do humorismo e que nos chega da França, através do Rire, da Assiette au beurre, do Journal de Paris... Arrancamos, ao pobre idioma, o rude e perro linguajar português, que não se presta a certas agilidades, coitado, excêntricas combinações de palavras ou frases que, se não fazem rir pelos contrastes naturais, provocam gargalhadas, pelo estapafúrdio que encerram ou inculcam. Raul é um mestre no jeux-de-mots que faz moda. Terça o trocadilho como um florete. Fá-lo, porém, quase sempre, deformando-o, por boutade. Para rir. – Era uma vez dois anões que numa estrada se divertiam jogando dados. Veio a polícia e levou os anões. Moralidade – vão-se os anões, fiquem-se os dados... Calixto segue-o de perto na perLeonardo de Bulhões Desenho de J. Carlos petração do alucinante jogo-de-palavras.

O Rio de Janeiro do meu tempo 335 Certa vez traz ele, ao café, uma fruta do Norte, espécie de pinha, muito complicada, lembrando um pequeno abacaxi, com uma castanha, idêntica à do caju, numa das extremidades. Diz que conhece, que já comeu a fruta, garantindo que é ótima. Mostra-a aos outros, muito divertido, quando o Crispim do Amaral pergunta, curioso: – E você como a come? – Como como? – fez, logo, Calixto – Como como? Como, como como! Leva-se num teatro qualquer uma célebre peça de um não menos célebre autor, com este título: A Passagem do Mar Vermelho. É um desastre. À meia-noite chega João Foca, que também é da roda e conta, com detalhes, a queda formidável dos cinco atos que viu. Pobre Passagem do Mar Vermelho, com os seus risonhos cenários do Egito... Alguém diz: – Que dessa moxinifada fará como crítica, amanhã, a nossa imprensa? – O que fará? – diz o Raul. – Fará oh! Quando o Simas é acossado pelos perdigotos do Prudêncio, no Café Paris, vem fazer trocadilhos no Papagaio. E traz sempre um engatilhado para contundir o Raul. Raul responde. Simas re truca. O Calixto mete-se de permeio. E não acabam mais! Dizem que esses maníacos, quando se encontram na rua, a certa distância, e se vêem na impossibilidade de atirar, um sobre o outro, um trocadilho qualquer, põem-se a trocar as pernas... É o cúmulo! O que, talvez, pouca gente saiba é J. Carlos que foi um trocadilho do Simas que provoDesenho de Storn cou aquele incêndio formidável que consumiu há 30 anos atrás o vasto edifício do Liceu de Artes e Ofícios. Versão de Bastos Tigre que pode, entanto, deixar de ser verdadeira... Numa sala do Liceu estavam reunidos: Simas, Santos Maia, Camerino Rocha, Joaquim Viana e outros, quando chega o Raul, que faz

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um trocadilho qualquer, aproveitando o nome do Gaudêncio Neves, que volta ao Brasil, depois de dez anos de ausência, na Europa. Os jornais haviam publicado um telegrama de Paris, anunciando a partida de Gaudêncio. Depois, outro de Bordéus, informando o embarque de Gaudêncio. Mais tarde, dois telegramas: um, anunciando a sua passagem por Leixões, outro, por Lisboa e Dacar. O Simas encara-o, faz um muxoxo e retruca, querendo achatar o Raul: – Vocês agora vivem a falar do Gaudêncio por “dacar” aquela palha... Joaquim Viana, indignado, ergue a bengala. Camerino, que tem sob o braço uma garrafa de álcool, assusta-se, deixa-a cair no chão. Parte-se a garrafa, o Simas encharca os pés no líquido. É quando o Maia, a secundar o Joaquim, brada, furioso: – Mata! – E grita, de fósforo aceso, atirando-o sobre o líquido que se inflama. Simas, como um Satanás de mágica, foge, levando fogo na sola dos sapatos... Arde, porém o edifício todo... um prejuízo de cerca de 600 contos de réis! ∗ ∗ ∗ O garçom que mais serve à roda alegre do Papagaio é o Turíbio. Um bamba. Os bambas do tempo! – Turíbio, que é isto? Que quer dizer este ponto falso, em cruz, posto assim, na testa? – Estrupícios, seu doutor. Que querem! Na hora da encrenca não respondo por mim. Se o cabra ginga e quer me fazer alguma diferença, não consulto dicionário, vou logo de aríete em cima do bruto, que o engasgo. Vezes, tomo para o meu tabaco. Mas é da vida. Pancada não foi feita só para cachorro. É o que é. Ontem, levei, mas dei... Esse o linguajar pitoresco do Turíbio, que ele aprende nas alfurjas da Saúde ou do Saco do Alferes com o “povo da lira”. – Pois é, “seu” Doutor. Na minha meia-hora vou longe. Levei lenha na tampa-do-juízo, mas dei uma quengada no cabra que o cabra suou por quanto cabelo tinha... – Onde foi isso?

O Rio de Janeiro do meu tempo 337 – Na zona do agrião. Apito. Meganha. Estado-maior de grades... Simples ou com leite, “seu” Doutor? – Simples, Turíbio. Mas não encha a xícara. Anda no café gingando, a cafeteira e a leiteira do serviço, na mão, sempre muito alegre, sabendo o nome de todos, contando bravatas. Seu maior sonho é ser alferes da Guarda Nacional. – Para que, Turíbio? – “Seu” Doutor ainda pergunta? Para não gramar o lajedo frio da gaiola, subir de posto na hora do flagrante, mostrando a minha lagartixa de alferes no habeas corpus da Brigada! Ai, Ai! Então não vale mais bóia de sargento que caldo de cachorro? Quando Raul era delegado de polícia, certo dia, o prontidão traz-lhe, na hora da revista dos presos, o inefável Turíbio. Turíbio baixa a cabeça, envergonhado. – Você não toma mais juízo, Turíbio? Então, conte lá, o que foi isso? Quero saber como você veio parar até aqui... E o Turíbio, muito sério: – Cortei um português, “seu” Doutor. Já lavraram o flagrante... – Ah – fez Raul, franzindo as sobrancelhas – mas como você ainda não é da Guarda Nacional, vai já para o “lajedo da gaiola”. Você desculpe, Turíbio... É da vida... Turíbio comoveu-se. E mostrando um grande arrependimento: – “Seu” Doutor me desculpe. Eu sei que fiz mal. Não devia fazer. Se eu soubesse que “seu” Doutor era delegado deste distrito, palavra de honra que não fazia o que fiz. Ia cortar o homem noutra zona... ∗ ∗ ∗ Em 1902 ou 3 é que começa a aparecer o Olegário Mariano, que então colabora no Kosmos, sempre acompanhado de Luís Peixoto, que entra no café para mostrar os seus bonecos ao Calixto e ao Raul. Outro que também aparece e do qual se diz que tem um talento enorme, rapazola de uns 17 ou 18 anos, é o J. Carlos. Foi no Papagaio que conhecemos o Chico Loup, engraçadíssimo boêmio, depois repórter do Correio da Manhã. Endiabrado Chico Loup! Um dia levam-no a assistir a uma sessão cívica, onde Osvaldo

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Paixão, orador popular, vai falar sabre Tiradentes. Sala repleta. Muitíssimas senhoras. Chico Loup, de ar fatigado, de olhos baixos, displicente, espera o orador. Surge Paixão. Aplausos. E o orador começa: – Tiradentes, senhores, não morreu. Chico Loup remexe-se na cadeira. E Paixão, continuando: – Não morreu, meus senhores! Chico Loup remexe-se, de novo, faz um pigarro denunciador de profundo desgosto. É quando o orador, pela terceira vez, querendo afirmar que a memória do grande mártir “vivia na lembrança de todos”, repetiu: – Tiradentes, senhores, repito, ainda, não morreu! Loup, num bocejo, disse alto, mas tão alto que toda a sala acabou ouvindo: – Não morreu? Enforcadinho da Silva! Era um homem assim. São freqüentadores do café, entre outros, o Estêvão de Resende, tipo belo, forte, chicoteador de mariolas, Antônio de Freitas, o poeta Peres Júnior, Silva Marques, Navarro da Costa, Lima Barreto, Nicolau Ciâncio, Amorim Júnior, Joaquim Viana, Santos Maia, Orlando Teixeira, Rafael Pinheiro, Rodolfo Amoedo, Fernando Magalhães, Abreu Fialho, Narciso Araújo, Plácido Isasi, Leôncio Correia, Frota Pessoa, Bittencourt da Silva Filho, Deodato Maia, Belford Ramos, FigueiSchmidt, cabeleireiro redo Lima e Bastos Tigre. Desenho de Falstaff Por vezes, em seus raids alcoólicos, surge o Raul Braga, com grandes gestos, falando em voz alta, discutindo, berrando. Pedro Rabelo, no café, um dia, vendo-o que entra com o rosto todo manchado de graxa, rolha queimada ou coisa semelhante, diz-lhe, naturalmente: – Como trazes o rosto todo manchado!

O Rio de Janeiro do meu tempo 339 E o boêmio, logo, tomando uma atitude shakespeariana: – Cheio de manchas, como o sol! Outra vez, vindo da rua e sentando-se a uma mesa, explica, como geralmente o faz, em voz alta, no diapasão de um homem que fala num comício: – Fui a uma sessão espírita e estou tristíssimo. Disseram-me uma coisa profundamente impressionante. Trago dentro do corpo um “encosto”. – Um “encosto”? – indagam. E ele explicando: – Um parasita espiritual. Um mau espírito que perturba e domina o espírito que o Criador me deu. A ânsia que me leva, por vezes, a preferir licores, caros, whisky, champanhe e vinhos de Tokay, ânsia que de maneira tão violenta põe em choque o meu pobre orçamento, é obra desse intruso. Vejam a minha sorte! Ah, mas eu vou reagir com independência e rigor, provando que não me deixo dominar assim, que, afinal, sou dono do meu ser... De hoje em diante... E batendo com a mão espalmada na mesa: – Garçom, traga-me um parati, o mais infame que encontrar na casa. E aos amigos: – Que eu não sustentarei mais “encostos” vagabundos a whisky ou a Tokay. Era a que faltava! Deixem o fantasma comigo. Quem manda no meu corpo sou eu! Gonzaga Duque, Lima Campos e Mário Pederneiras formam, em geral, uma rodinha à parte. O menos assíduo é o Mário, grande poeta da Ronda noturna e das Palavras ao léu, sempre de ar tímido, pince-nez de vidros pretos, um maço de jornais e revistas debaixo do braço. Gonzaga Duque, que escreve, então, a Mocidade Morta, é a figura central dessa trempe simpática que só a morte pôde um dia desfazer. Uma figura heráldica. É alto, fino, elegante, usa uma barba à Cristo, negra e bem tratada, emoldurando o rosto pálido, onde dois olhos meigos e profundos brilham através de duas lentes de cristal. Lima Campos, dos três, é o mais expansivo e o mais alegre; trabalha no Conselho do Município e escreve nos jornais. A roda papagaiesca adora-o.

a revirar os olhos.. por exemplo. Resposta da preta ao mestre do idioma: – Eu também não sei lê. leia. Outros tipos curiosos da cidade. apenas um tanto discutidor. e. já mostrando aquela calva sessentona. assim. Essa mania cria-lhe algumas antipatias. o Sr. dentro deste soneto: . Hemetério terá. quando pode.340 Luís Edmundo Por vezes surge no café um dos homens mais populares da cidade – o cabeleireiro Schmidt. Entra com um lencinho na mão. A burguesinha do tempo. ouvem dois compassos de música. no alto da cabeça.. se esse bonde vai para o Matoso. Entre eles está o gramático Hemetério dos Santos. As senhoras. Em 1901 é um velhote ainda conservado. mandam-no chamar. espécie de Academia de Beleza e que fica próximo ao Papagaio.. não sinhô. a ela pediu: – Faça o favor. rebolando os quadris. que vai ao Lírico no bonde-de-ceroulas. Alfredo Rocha Uma vez. geralmente a imortaliza. coração de ouro. não podia ler a tabuleta do bonde. preto. “azulam”. que provocou do Raul o mais ignóbil dos jeux-de-mots: – Os cabelos do Schmidt. Sempre viveu.. muito míope.. quando precisam de um bom penteador. embranquecem. porém. No seu estabelecimento de postiches. não gosta dele. manda chamar o grande Schmidt para lhe pôr a trunfa à la mode de Paris. por vezes.. sempre dentro da sua sobrecasaca. em poltrona de varanda. coiffeur do Paço. tendo quebrado o pinDesenho de Storn ce-nez. Descobrindo a seu lado uma negra velha. também ali entram.. no tempo de Sua Majestade o Imperador. D. por mim. Pedro II. Emílio de Meneses.. minha senhora. nas têmporas. E quando ele não gosta de uma pessoa. O homem é um filólogo profundo. tomam uma xícara de café e vão embora. que passar à História. vive da concorrência das senhoras.

. no interior. Tigre alinha canções. Não faz congadas. Na vasta escola da ornitologia Se águia não é. É o mais completo pedagogo urbano! Pestalozzi genial. a bulha de cornetas e porta-vozes. que agitou todo o Rio de Janeiro. as loucas gargalhadas. diariamente. todo engalanado. sacos de confetti e de serpentinas.O Rio de Janeiro do meu tempo 341 Neto de Obá. máscaras. Um amador de pássaros diria: – Este pretinho é um pássaro turuna. Frota Pessoa. A sessão humorística “Pingos e Respingos” publicava. uma fa mosa quadrilha. Abreu Fialho sopra um canudo de papel.. que sempre terminava assim: “Só tu. J. Seabra. Calixto compõe estandartes. raspa Desenho de Calixto um reco-reco. por todos. decorada. Herbert Spencer de ébano e de guano É um Froebel de nanquim ou de azeviche No Pedagogium o grande e soberano Quer que com ele a crítica se lixe. no intuito de apressar a demissão do político. as chufas loucas. duas abóboras-d’água compondo a linha do seio farto. ensaia Lima Campos o rancho. pintado a piche! Major. também não é graúna. os berros. J. João Foca. num travesti... muito lida e. E o cordão cai na rua! J.. era Ministro (J. Gonzaga Duque Desenho de Calixto ∗ ∗ ∗ Durante o carnaval o café.. as bisnagas. de baiana. Seabra) quando o Correio da Manhã abriu contra ele uma severa. É o vira-bosta da pedagogia. À porta. não sais!” . É quando surge o Cordeiro Jamanta.. é um refúgio de Momo. buzinas de papel. Fernando Magalhães barulha um chocalho. o Príncipe africano. uma tremenda campanha. furiosamente. um pandeiro entre os dedos.. fez da cor preta a cor reiúna. Raul organiza préstitos. corta no maxixe.

de tal sorte esgotando as rimas em “ais”. barulhando caixas. O próprio delegado de polícia não pode resistir e ri. Quando os carnavalescos chegam ao canto do Café do Rio. bum. A quadra. lugar onde se vê o delegado de serviço. O governo.. de todas as bocas. porém. Sai a caminho do Ouvidor. batendo pandeiro. espirituosamente. todos acham. bum. Bum. seguindo os carnavalescos que cantam pelas ruas em busca das rimas em “ais”... embora anonimamente.. infalível nas blagues feitas ao ministro. comissário e todo um enxame de secretas e homens da polícia. Seabra. também.342 Luís Edmundo Durou meses essa arremetida espirituosa e na qual colaboravam. Raul brada. bum. Mentalmente o povo recitara a frase mais que decorada: “Só tu. que não deseja ver desprestigiado o seu ministro pelos foliões da rua. corajosamente. bum. E lá se vai o bloco a cantar. todos a dançar. carregando o estandarte de papel. o que o Lima Campos escrevera e todos já decoraram: Saem cordões tocando zé-pereira. Fernando Magalhães a brandir o chocalho. porque assim se completa: Saímos nós em grande pagodeira. Foca. Tigre. na sua estilizadíssima baiana. Grande atenção dos homens da polícia ouvindo a rima em ais. não sais!” Um delírio no famoso canto do Café do Rio. todos aplaudem. Expressas determinações de meter na cadeia quem recitar versos onde haja: “Só tu. Carnaval com estado de sítio e situação política complicada. Sai do Café Papagaio o cordão do Raul e do Calixto. Todos os anos pelos carnavais. bum.. burlando a determinação expressa do governo.. verdadeira avalancha de secretas. aos do grupo: – Canto! Música! É quando irrompe.. bum.. termina de modo cômico e imprevisto. no caso. com estandarte ao alto. uma gostosíssima pilhéria. não sais!” Além da polícia militar. proíbe alusões a Seabra. os maiores poetas do tempo. rindo do estado de sítio. Todos riem.. Calixto e Raul dançando “de velho” e o Jamanta com as duas abóboras-d’água no seio. . todos de orelha em pé. o pandeiro. Chega o Carnaval. Seabra. justamente quando mais acesa está a engraçadíssima campanha..

. . . . . . no momento de nascer. horríveis decorações. . com os dedos. gerente.. A própria sala é pequena. . postas nos intervalos dos espelhos. . . NO LARGO DA CARIOCA – O GARÇOM SALVADOR – HISTÓRIA ALEGRE DE DUAS GARRAFAS DE VILAR D’ALÉM – FREQÜENTADORES DO CAFÉ – CARDOSO JÚNIOR – LUÍS PISTARINI – JOÃO DO RIO – O BOÊMIO RAUL BRAGA CAFÉ Paris tem uma instalação chué. montada em púlpito e posta na linha que separa o café do restaurante. mostrando assentos de palha sujos e afundados. uma delas representando um pinto colossal. caixa. . . . . muito sério. Soalho de madeira. o tampo da sua escrivaninha de madeira. tamborilando. . . . . . . . espelhos. e o ar melancólico do Peixoto. quebrando o ovo. . Mesinhas de pé-de-galo. uma escrivaninha alta. Capítulo 19 O Café Paris O CAFÉ PARIS. . a cara gordalhuda do Garcia. Duas portas de entrada. . o lápis atrás da orelha. Não esquecer umas decorações a óleo. refletindo a falta de gosto do ambiente. . os espelhos da tradição. com tampo de mármore e cadeiras Thonet. Pelas paredes.

e. uma porta de comunicação com uma charutaria. Já pachou”. alta. o que é pior. Ao mesmo tempo um jornal publica: “O jovem artista Sr. e onde o Antônio (que fundou. É alto. olá. O garçom principal do café é o Salvador.. pondo calma. quando um freguês. É a grande simpatia do Paris. mas isso. hoje. e. dono do Vitória. lhe pergunta: – Salvador. se leva! Molha-se de sangue. Timóteo. uns 22 anos. os guardanapos em riste saindo dos copos virados. é ele quem desarma o contendor. capitalista. É solícito. Salvador tem. Serenado o conflito. bom. um dia. ou caixeiro de galão. há trinta anos. pela época. entoalhadas até os pés. as sobras do barulho. que foi isso? Responde invariavelmente: – “Chuchedeu. muito juntas. que foi. é forte. que também se chama Paris. em lugar não fácil de apagar. entanto. o seu me lhor trabalho. esse Salvador Gonçalves. Na hora do “rolo”. ou fim à refrega. o bull-dog pipoca ou a “marreta varre até onde acaba a casa”. dos melhores. à direita de quem entra. a Tabacaria Londres. de um bocado de lama e de um bocado de lixo. galego dos verdadeiros. numa das paredes do Café Paris. quando a cadeira zune no ar. Um torrão de açúcar esse Salvador Gonçalves. zangado com a pilhéria. bebe um copo d’água. trocando o B pelo V e chiando nos “ss”. ao lado. com os seus cabides metálicos e as mesas. e que. João Timóteo expõe. na Avenida) é uma espécie de associado. todos.. Leva. . como ele sabe – são cavacos do ofício. aposentado e feliz.. olha. deixa de aparecer-nos durante muito tempo. de uma confortável residência que trepa pelo morro de Santa Teresa. lava-se de arnica.” Surpresa até para o gerente do café. a cidade maravilhosa que ele viu nascer. vasta. Ao fundo está a sala do restaurante. afável e risonho. que vem de fora. Ainda fala à moda de Vigo. é corado e espadaúdo. depois. essa odienta pintura aparece com a assinatura do pintor João Timóteo. Tem um sorriso para tudo e para todos. hoje.. O café tem. aplaca a ira ao sanhudo.344 Luís Edmundo Não se sabe como. por vezes. toda forrada de espelhos. onde nasceu. de boca para cima. depois. põe uns esparadrapos na cabeça.

em meio a toda essa freguesia barata de mingau e de médias.. de costas para a rua. caricaturados. um níquel. dizendo aos caixeiros que o cobravam. fora do café. naturalmente. na hora de pagar. a modéstia da refeição. que representa a maioria dos boêmios freqüentadores do café. isso. levantava os braços.O Rio de Janeiro do meu tempo 345 Custa. no Avenida. mesadas. de poucas xícaras de café e muitos copos d’água. é uma gota da d’água no oceano imenso da risonha e abençoada miséria. Chama-se a esse pequeno lunch. dado num “bol” enorme. a famosa falange de prontos que ao chique estabelecimento menos vai para consumir que palestrar. Refeição de estudante ou de boêmio. que aparecem mais tarde. Os prontos do Café Paris. capaz de forrar. já são de outra espécie. dissipadas. e vejam se descobrem por aí. porém. Os de estômago débil. em 1901. boêmio de uma geração anterior. que duram obra. pagam Gelabert de Simas Desenho de Gil tudo o que consomem. Custa também 500 réis e dá direito a guardanapo. em qualquer bolso. devido à ausên- . bebia sem ter dinheiro. o qual nos seus raids alcoólicos pelos botequins da cidade. de louça branca. e. tranqüilamente: – Pronto! Revistem-me. “bucha” ou “almoço”. felizardos que usufruem ótimas mesadas. jornal de Cardoso Júnior. o mais exigente dos estômagos. aos que passam na calçada. pela mesma quantia. a fim de não revelar. há os que usufruem no jornalismo situações interessantes. em estúrdias folganças. apenas. como são. Há. “Pronto” é uma expressão da época. porém. Há quem devore a “bucha” às 11 horas da manhã. pelo lápis do grande Gil. A média de café com pão torrado – 500 réis.. a xícara pequena do café simples. como o Cardoso Júnior. em galeria. Apenas. com solidez. forram-se de um famoso mingau de maisena. como Camerino Rocha. que ficou e que se diz criada por certo Clímaco Barreto. de dois ou três dias. pintores novos que vendem quadros por bom preço. e que se come “sujo” de canela e com uma grande colher. agora. pois. com leite ou “carioca” – cem réis.

o garçom. discutem. grandes pince-nez de tartaruga. Abanca o homem. Falam. entre poucas pessoas). Santos Maia chama. Rodolfo Chambelland. Coloca-os tranqüilamente no mármore da mesa e de novo parte. Afinal. o Salvador e pede. mais ou menos freqüente. não sem pôr nas palavras que pronuncia. toda essa freguesia. com grande pose. pintor (o que hoje é lente na Escola de Belas-Artes e uma das glórias da moderna pintura no Brasil). volta com a bandeja cheia de copos d’água – oito. alegremente. Certa vez. que seria o orador da folgança. não despeja. hoje nenhum café? – indaga Salvador. O garçom afasta-se. nesse tempo. Sobre o mármore da mesa olha-se o que se vê? Dois cafés pequenos e dez copos d’água!.. reúnem-se doze rapazes: grandes cabeleiras.. recebe-se Rodolfo com uma salva de palmas. grandes e sonoras frases.346 Luís Edmundo cia. e pouco depois. Em torno de uma mesa. organizara-se uma “vaca” (expressão que hoje ainda se emprega como significando uma subscrição feita de improviso. ficando incumbido de João Timóteo guardá-la. agitam-se. – Então. Soma-se o resultado da mesma e encontram-se 6$800! Por um natural pudor.. destacadamente. Santos Maia. O autor destas linhas está incluído no bando. nem oito níqueis de tostão. às nove horas da noite. no soalho da sala. De véspera. . restringem as suas consumações. tão grossa e importante quantia não é depositada nos cofres do café. virada de cabeça para baixo.. – Nenhum – respondem os boêmios em coro. grandes chapéus desabados. Desenho de Marques Júnior No dia imediato. um certo ar de importância e volúpia: – Duas garrafas de Vilar d’Além! Vilar d’Além é grande marca dos vinhos do Porto. do níquel remunerador. quinze desses jovens e sóbrios consumidores (a sobriedade de tal gente é tanto mais notável quando se recorda que a época é de bebedeiras e de bêbados) resolvem homenagear um companheiro da roda.

sor ri dizendo: – São duas garrafas. Nota-se isso. e. vem ou não vem? Peixoto olha-nos. Vai. no momento do protesto. Salvador atende outros fregueses. alheio ao café e ao mundo. sorridente. que até agora não chegaram à nossa mesa.O Rio de Janeiro do meu tempo 347 – E esse vinho. Não dá impressão de que haja encomendado as garrafas. Gritamos em coro: – Pei-xo-to! E es-se Vi-lar d’Além. Salvador? – indaga-se. Promessa vã! Nada de vinho do Porto! Nada de Vilar d’Além! Há quem se irrite. caixa. que passa. que é como o de quem diz: – La irá ter. – Pedimos duas garrafas de vinho do Porto. A esperá-lo. Passado certo tempo: – Salvador! E esse Vilar d’Além. Mais quinze minutos. para a porta da rua. caixa. vindo da rua. Olha-se para os lados onde Peixoto está. e espera-se. um pouco. a fim de queixar-se do garçom. e vê-se que ele vira. com a mão espalmada. calmamente. Reclamamos as mesmas. entanto.. Espera-se mais uns cinco minutos. conversa-se. São decorridos uns vinte minutos. arrancando o olho filatélico às páginas coloridas do seu álbum. as páginas do seu grande álbum de selos. E nada de Vilar d’Além! Maia dirige-se ao Peixoto.. há quem se disponha a fazer um escândalo de todos os diabos. tem os olhos na coleção da Nicarágua. porém. não é assim? Pois eu vou providenciar. Está andando.. imediatamente. É quando chega.. que. faz-nos um sinal. de novo. a charanga bulhenta.. ainda. de um batalhão do Exército. ver. e.. O Peixoto. o . grande colecionador de selos. – Vem já. vem ou não vem? Salvador afirma que não tarda: Salvador Gonçalves Desenho de Marques Júnior – Está andando.

Na calçada da rua pára gente a espiar. tirando o chapéu a todos: – Meus senhores. afinal. naquela casa. não nos leva a sério. O Paris vibra diante do escândalo da oração. quatro? Seis? Oito? – Duas. providências. num improviso eloqüente.. – Perfeitamente. Explica o que sucede. Pergunta. – Quantas. visivelmente dando-nos a impressão de que. Duas. num gesto rápido. o caricaturista. e acaba pedindo. então. a quem manda no café. embora. Há quem aplauda. mostra-lhe uns papéis. gerente da casa. Ainda se espera um pouco. Vai ao Peixoto. E. então. possa a nossa roda ser possuidora do necessário para pagar duas garrafas de vinho do Porto! Levantamo-nos. ergue-se. positivamente. Gil. Domingos Ribeiro Filho Desenho de Gil Leonardo Freire Desenho de Raul Garcia promete nos atender. mais vinte minutos! Ninguém. muito risonho. fulmina Salvador e Peixoto. . acredita que casualmente. Mais dez. mais quinze. desenha o desaforo. muito cortês.348 Luís Edmundo Garcia. por isso. também.. indo tomar o vinho a outra parte. Salvador torce-se de riso. meio esquecido do número de garrafas. e enfia-se pelo salão do restaurante. embargando-lhe o passo.

cartões. Dos nomes deles. Trabalha na Alfândega. por um tempo em que agências de informações não existem. que o homem é “direito”. rapidamente. os retratos e cartas das amantes ou das namoradas. se sai é por causa do raio da caixa-d’água. logo. os conhecidos e até credores! Daí a intimidade verdadeiramente doméstica que se estabelecia entre freqüentadores e empregados. pelos dias que correm. para guardar. no começo do século. servem-se. ponto agradável de reunião e de palestra. o amável botequim que precedeu ao surto de remodelação da cidade. Não era entanto. De se perguntar a um garçom: – O Lourival Marcado vem hoje aqui. entramos para consumir e de onde. depois. o café. sem a menor preocupação de pouso ou de demora. no Méier. da mais rigorosa intimidade. nos cafés. comumente. onde recebíamos recados. A eles os homens casados dão. escreve nos jornais. sempre cheio. telegramas.. meio casa de família. referências sobre futuros inquilinos. . Lourival é de 8 às 10. E. a que horas? E ter-se. Alugue! Coisas. cartas. perigosas. como resposta: – A hora do Dr. não é dos que vivam mudando. sobretudo do que tem mulher ciumenta. é apenas um vulgaríssimo lugar onde. que acabam sabendo da nossa vida. Faz o seu “quinhentão”. sabem esses funcionários de sala de café. sem susto. num bolso. assim. logo depois. E não são enganados: Belmiro de Almeida – Pode. – Qual delas? – A Beloca. porém hoje ele não virá. embrulhos. Casa uma sobrinha.O Rio de Janeiro do meu tempo 349 O café. os amigos. Há quanto tempo mora ele na Rua Bambina? Vai para nove anos. em geral.. Os proprietários de imóveis. a que é filha do comissário da Marinha.. procuram. saímos. aluDesenho de Raul gar a casa ao homem. como nós mesmos. meio grêmio. por vezes. Então! E. o amigo. meio escritório..

eu tomo nota. então. exaltando Gogol. na costaneira. de tal forma a provar que a escola naturalista veio da Rússia e não da França.. atento. sério.350 Luís Edmundo ainda. reforçando o crédito do freguês. ao vê-lo. muita vez. passa-me aí uma “pelega” de dez. São oito horas da noite. seu doutor. do Café do Rio... As luzes do café estão todas acesas.. às cartas de fiança. essas. Para o fazer calar. à francesa. Já duas mesas se enchem deles. e até para assinatura da correspondência com certo risco. porque o que ele espera é o oportuno momento para disparar um trocadilho sobre a cabeça do outro. Lá está o Trajano Chacon. a palavra erudita de Chacon. Fala um garçom ao habitué do café. até logo. mas. Simas é um caso clínico que resvala para a rubrica da psiquiatria e que o Júlio Mário.. trocadilhista sorrateiro e vivaz.. arrasando o Balzac. por aqui? – Diga-lhe que fui a serviço para os O caricaturista Gil lados de Petrópolis. Peixoto. por exemplo. Ao seu lado. À tarde. de ar majestoso. muitas vezes. no tempo. temos . Simas é inconcebível. o que fundou a Ateneida. foi levado à falência por ter assinado um desses papeluchos. diz que estuda pacientemente. Vai-se a qualquer deles com a maior naturalidade: – Oh. que ele ouve. é coisa sagrada e séria. se ela aparecer de novo. Prestam-se de boa vontade. E por isso acabou morrendo de desgosto. Prebenda de ofício. É uma espécie de obrigação à qual nenhum garçom se furta. não ao assunto. são derivadas para os caixas ou para os gerentes. para o recebimento de missivas. Outros vão a somas maiores. Os boêmios começam a chegar. os dez voltam. Hoje sou todo da Chilica! As questões econômicas. logo. Pensa-se. aos endossos de letras. Quer que deixe vale? – Não. interessado no assunto. que vai saindo. na sua obsessão. O freguês da casa. – Que devo dizer. o que tem cara de toureiro andaluz chama-se Gelabert de Simas. O velho Brito. interno do Hospício Nacional de Alienados. Burla! Atento está ele.

A luta que temos para o acalmar! – Participo aos meus bons amigos (quem fala é Prudêncio) que vou fechar os bicos de gás. porém. Hélios Seelinger quer fazer um escândalo. cinco sonetos alexandrinos. pá e pá. garantindo buffet e fonógrafo. portanto. de quando em quando. Até aí. o ritmo do verso? Pensa-se. ouvida a ouverture do meu trabalho. e. em nossa roda. a fim de recitar o intróito do Rafael Pinheiro Desenho de Gil poema. vinte e oito cantos e um intróito em cinco sonetos alexandrinos! Quando sentimos a traição. e. quase desmaiamos.O Rio de Janeiro do meu tempo 351 que nos valer dos perdigotos do Prudêncio Machado. todos. quando em versos alexandrinos. Será o vate que está a marcar. diz a segunda. é injetar-nos um horrível poema de sua lavra. Pigarreou. um velhote falho dos incisivos e que vem rejuvenescer. obedecendo. que estás no céu (ou fora dele) atende Que é Prudêncio. Senhor. pá e pá. poeta da Bahia. começou: Oh! Deus. feita a sombra. Prudêncio Machado! Prudêncio morava em Botafogo. O resto. que impressionam o auditório. Lá vamos. parece que o cálculo alcançou a média de um perdigoto por quarteto decassílabo. sob a forma de laudas de papel na mão de Prudêncio. Somos uns vinte e oito. Prudêncio Machado! Certa ocasião fez-se uma estatística dos perdigotos de que ele era capaz de lançar durante o tempo que recitava um soneto. É perdigoto demais. muito bem. quem te fala do escuro! Diz o vate a primeira horrenda quadra. . batendo com a mão na coxa. O que Prudêncio quer. e um e um quarto pelo mesmo. intróito esse que sei de cor. porém. para um companheiro de todas as noites. entanto. ou trinta. é preciso notar que outra arma não tínhamos para vencer a impertinência de Simas. Certa vez convida-nos a uma folgança em sua residência de celibatário. que ele vai recitando é acompanhado de uns surdos ruídos: pá e pá. dividido em duas partes. satisfeito. a este título – “Pórtico – Nas trevas!” E continuando: – Que na escuridão completa seja. pá e pá.

Era o Hélios.352 Luís Edmundo Continua o poeta e os ruídos também.. poeta que se assina Antônio Zilo. Pá e pá. Pá e pá.. pá e pá.. dizendo: – Não recito mais. porém. sempre de preto. Oliveira Gomes. mas não se liga importância àquela frase breve e solta no ar. ao café.. Súbito.. filólogo.. a voz de Hélios. pá e pá. Volvamos.. Graças a tão cômica mas sábia providência. vermelho.. . Está o Lourival Santos. e malhava-o no cálculo de uma banana por perdigoto. Ouve-se. que sopra em surdina: – Passa a outra que a minha já acabou. porque estão me atirando bananas. pá e pá. Gustavo Santiago... Deodato Maia. e o seu formidando intróito. que esgotara duas fruteiras do homem do buffet. misteriosamente.. À mesa onde pontifica o Antônio Austregésilo. Maurício Jobim e o satânico Colatino Barros. livramo-nos de ouvir. num momento. continuando. Prudêncio. tão agredido pela crítica ao publicar O cavaleiro do luar. o seu jorro poético. está o grupo dos simbolistas. macabro autor de contos hoffmânicos. de luto pela gramática. que interrompe. em meio... o enormíssimo poema do Prudêncio Machado. enorme. Joaquim Viana Desenho de Marques Júnior Prisciliano Silva Desenho de Marques Júnior Trajano Chacon Desenho de Marques Júnior E o ruído das pancadas – pá e pá. continuando. e o Carlos Góis. até o fim. É verdade que se ouve. ao lado. Pá e pá. pequenino e dependurado a um pince-nez de tartaruga.. magro. a recolher-lhe os solecismos. ruivo. alma feita de arminhos e de sedas.

Ri. Está esculpindo períodos. Certo dia. tomando um lugar por outro. em vez da pia de abluções. Discute. Cai-lhe o chapéu. Senta-se. coroado de uma basta e lisa cabeleira. Olhem: aquele que acolá está. o pé. Sorri. muito pálido e muito bem penteado. nervoso. Temperamento singular! E as suas atitudes? Fala esgrimindo a frase. Fala. Levanta-se. O da direita. De corpo e de alma. de bigodeira em gancho e barba por fazer. É o Sr. magro. é o Vítor Viana. Pigarreia. furiosamente. Vem descendo da velha Índia do Mahabarata até cair sobre Nietszche (coqueluche erudita da época). Camerino vai e depois volta. burilando frases. Torce o pescoço. o braço. Vive sempre a protestar: – Bruna o seu vocabulário! Tapa os ouvidos para não ouvir prosaísmos. Ergue-os. Mexe-se na cadeira. doirando vocábulos quando uma porta que dá para o corredor abre-se. furioso: – Ínscio e bajoujo funcionário. num tique nervoso e antigo. Tem o culto do idioma. o que endireita o botão da polaina marrom. por sua vez. as pálpebras. em frente ao Mário Lima Barbosa. indaga a um garçom: – Onde é a pia das abluções? O homem inquirido. Tremem-lhe a mão.. Adora o clássico. O homem é um dínamo. discute entre amigos questões transcendentais. à esquerda. dono da casa de cômodos . Aos seus ouvidos as palavras em calão batem como pedradas. risonho e magro.. e dela surge a figura reles de um homem de espesso ventre. a perna.O Rio de Janeiro do meu tempo 353 falando muito pouco e a piscar. Manuel Vítor Viana Desenho de Marques Júnior Ferreira da Silva. no seu tugúrio à Rua do Riachuelo. Pisca. alborcador de sítios! Indica-me uma espúria e moncosa cloaca. põe-no em caminho errado: – Ao fundo. o tronco. tendo as mãos sujas. na segunda porta. é o Camerino Rocha. os olhos. de repente. Tomba-lhe o maço de jornais. Uma vez. O Emílio é que o define bem – “rã de laboratório”.

Carlos Nelson. A razão ilumina-o. a pintá-lo. Pedro Vaz. Castro Moura. E. o Jaime Guimarães. O homem que é prosaicamente interrompido na alocução brilhante que já convence. ainda. num ímpeto. e balouçando as guias do bigode. Nicolau Ciâncio. pede perdão e satisfeito parte. o Antônio Sales. Aguiar Pantoja e. Desenho de Marques Júnior Lucílio Albuquerque. recua irado. numa réplica física. as suas abas. fala. O “Sor” Camerino é bom hóspede. Benjamim de Viveiros Vital Fontenele. acreditando que o seu hóspede lhe tenha feito alguma saudação de despedida em idioma estrangeiro. É uma caricatura do Simplicissimus. alarma os alfaiates indígenas. da Silva! Silva pasma e sorri. onde passou seis anos. Discute. folhetinista. Rafael Pinheiro. Merece consideração. já com a sua graça moça levando o humorismo do Emílio à parede. Curva-se.) Essa peça de sua exótica indumentária.. Reflete. Sebastião Sampaio. feita em Munique. Há um grupo onde está o Bastos Tigre.. declarando-lhe a cor: – Fraise écrasé. largo e rabudo. Hermeto Lima. o Frota Pessoa. com cisnes wagnerianos. Azevedo Cruz.. Camerino deve três meses de aluguel de quarto. Vai. comedido. José Mariano. O fraque bávaro. Álvaro Benjamim de Viveiros. vai responder à afronta. como as tesouras. Silva Marques. afinal. Pensa. da Padaria Espiritual do Ceará e em bando enorme: Vitorino de Oliveira. Doutor deseja para o papel do seu quarto.. Acalma. Sente-se inoportuno. Joaquim Eulálio. quando lançada entre nós. empapelá-lo e quer saber: – A cor que o Sr. Neto Machado. escândalo no tempo. Domingos Ribeiro Filho. Não insiste. No grupo de pintores e escultores está Hélios Seelinger.. O Silva anda a reformar o pardieiro. Para retificar . e. Sr. atrás. outros.354 Luís Edmundo que o Camerino chama Solar de Apolo. o Leão Veloso Neto. chegado da Alemanha. dentro de um fraque. Dos que só devem três meses.. cruza. mas não responde. murmura. Gabriel Pinheiro. Júlio Tapajós. (Abra-se um parêntese para o fraque do Hélios.

E um livro interessantíssimo. quase a chegar ao fim do mês. como se usa na época. durante muitos dias.. simples segundo-tenente. o numeroso grupo dos rapazes da Marinha. de novo. em cada uma delas. sem ouvir o animal. na mesa dos pintores e escultores. Daí mandar. pelo extraordinário espírito que revela. Os caricaturistas chamam-se Gil (o grande Gil). Ainda hoje os homens que viveram no tempo recordam com saudade as blagues. aí pelos dias 25 ou 26. à frente do qual está Ubaldo Xavier da Silveira. ao Batalhão Naval. Malagutti fala. o Batista Bordon. Conta-se. Ubaldo ainda dorme! Uma pessoa da família sacode-o no seu leito: . desse que foi uma espécie de Emílio de Meneses do mar. o Lucílio Albuquerque. Lobão. Somente. por essa época. J.) Heitor Malagutti. um ofício à residência do mesmo. esta história curiosa: Ubaldo deixa de comparecer. Artur e Storn. muito surdo. bicho valente! Abre a boca e nem grita! No grupo dos músicos estão: Araújo Viana. (Feche-se o parêntese. Arnaldo Gonçalves. o comandante. aquartelado na ilha das Cobras. o mais galhofeiro e o mais original entre os seus pares. Parece que com menos de seis tostões a coisa não dá certo. tão surdo que uma vez. e as abas do fraque começam.O Rio de Janeiro do meu tempo 355 o erro do algibebe. que berrava. Jerônimo Silva. o Cunha Melo. ordenando que ele se recolha. Ouvem-no: os ir mãos Chambelland. sendo chamado para ver um porco que matavam a facadas. porém merecendo bordados de almirante. algumas moedas de níquel. Cândido. considerando-se preso. o Fiúza Guimarães. Há ainda. alucinadamente. Júlio Reis. Hélios lança mão do lastro metálico em depósito. a cruzar. Gravíssimo. tomando um giroflê. A vida anedótica de Ubaldo daria um livro. no quarto de Santos Maia. Giroflê é a cachaça da terra. Fato grave. comentou: – Eta. Patápio Silva. Albert Thoreau. os irmãos Timóteo. cachaça de Parati ou de Angra dos Reis. apenas pingada. todas elas de um sabor inédito. Vasco Lima. do simpático boêmio. à corporação. Não esquecer Belmiro de Almeida com a sua trêfega e encantadora maledicência.. imediatamente. Chega o ofício às quatro horas da tarde. quebra a monotonia do copo d’água. é necessário colocar-se. o Prisciliano Silva.

pouco depois. nem músico. Edgard Linch. Desenho de Marques Júnior ∗ ∗ ∗ São dez horas da noite. risonho. amável. Daí recriminações. Lavoisier Escobar. porém. Vasco Lima Chega um pouco mais tarde do Desenho de Marques Júnior que costuma. Gesticula. Ciro Cardoso de Lucílio Alburquerque Meneses e João de Sousa e Silva. Todas as mesas o disputam. e vem acompanhado de mais alguns boêmios. E ele a se diluir em explicações. Santos Maia acaba de dar a sua aula de grego a três “velhotes” que se preparam para certo concurso em um ginásio qualquer. em frases. encostado à porta do seu quarto de hotel. Há uma bulha infernal com a chegada do homem. Todas as mesas o reclamam. adernando de um ombro. a lauda do ofício. Cartago Barcelos. Etchebarne. seu amigo. de uma síncope cardíaca. feio. chistoso. sobre um nariz acuminado. responde semi-adormecido: – Ora. Abre. bolas! Pois então deixem-me dormir enquanto estou solto! Ao grupo de Ubaldo pertencem: Pedro Felício Brandão. Short. o pince-nez sem aro e sem cordão. onde se inscreve a ordem terrível. Augusto Show. num dia de carnaval. com a maior calma. aconchegando. indagações. Entra o Santos Maia. a boca. sorri filosoficamete. pequenino. sonolento. blagueur. Ubaldo senta-se na cama. Maia. Só aí sabe do que se trata. Feliciano Bittencourt. Antônio Nuguet. Não é literato. muito menos pintor . Olavo Machado. a cabeça ao seu morno e macio travesseiro. o que morre tragicamente.356 Luís Edmundo – Ubaldo! Ubaldo! Ubaldo! Acorda que estás preso! Despertado pelos gritos. e. então. a equilibrar. perguntas. ruidoso. nervoso. vestido de pierrot. olha a pessoa que lhe mostra.

farda que pertenceu. Botou creosotes. ao pai de Santos Maia. É apenas um homem de sólida e vastíssima cultura. Rembrandt. expressa-se assim: – Sinhô tá cu dô di denti? Óie. pode dar. Durante as noites de inverno. o pintor Hélios Seelinger dormiu dentro de um saco de violão. relíquia histórica dos velhos tempos do Paraguai. seu Zuão teve assim. a cura da tuberculose. servindo de calço às portas. cientificamente. nos bondes onde viaja. entulhando malas. aumentando a altura dos travesseiros. Explica um sistema filosófico. . a pitoresca Francina. aqui. uma inteligência brilhante. uns seis metros quadrados: três metros para ele. não passou. José. Francina. sórdida casa de cômodos. medido. por uma noite de inclemente frio. num aposento que olha para uma área suja. ao que parece. analfabeta e gorda. no máximo. no sobrado da mulata Francina. que lhe pôde arranjar a mulata Francina. Um dia levamos Carlos Góis. Sabe-se que. que faúlha. com quartos divididos por tabiques de madeira e lona. Por isso não deixou. muito devota de Santa Rita de Cássia. Mozart. de dia. à Rua S. é egiptólogo. sacas. equilibrando falhas do colchão. ali discute. Pegou. botou iodes. – Francina! – gritava o boêmio. O quarto do Santos Maia! Mora ele à Rua Santo Antônio. em casa. No seu quarto de boêmio andam os livros sobrando nas estantes. quando fala. de onde – dizem – é funcionário. também não passou. Francina. nesse quarto. rancou. lê sempre: na repartição dos Correios. única coisa capaz de aquecer. não passou. na falta de cobertor. Maia. o Caldeira enverga um velho uniforme de capitão de lanceiros. em casa. no café. passou. sobre as mesas. de ser o número mais aplaudido do repertório que o Maia organizava para oferecer. e três para o Plínio Caldeira. de noite. que era filólogo. aos seus amigos. que morre antes de ele se mudar para a casa da francesa Bordon. botou acide fênis. algumas mortas e não tem ainda trinta anos! Lê muito. e que. Carlos Góis zangou-se. conhece todas as línguas vivas. acolá critica Goethe. a ouvir o linguajar cacológico da mulata. armários e baús.O Rio de Janeiro do meu tempo 357 ou jornalista.

O burburinho é enorme. – Lê e não digere. Francina. as suas botas cambaias e aquele chapéu-coco que está na caricatura do Gil. Chega João do Rio. ainda. espetado ao canto do olho míope.. Santos Maia assombra pela jovialidade e pelo bom humor. Cortesias hipócritas! No fundo. é o mais robusto e o mais fecundo entre os da sua geração. Está cheio o café. que ainda não é o cavalheiro smart dos tempos áureos das edições do Garnier. com o seu veston modesto. Francina. que nesta moldura de jacarandá (e apontava para um quadro) sem ser lampião de querosene. saudando a todos. no lábio grosso e bambo. confusa. vanícola e mentecapta (a mulher derrubava a cabeça. o carcomido e sórdido assoalho da casa de cômodos. agradecida. aqui. Todos o detestam. Todos o atacam. mas. muito sério: – Diga. é cortês. enorme. seu Maia ? Esse é seu dotô Vítor Hugo! Até chegar a grande neurastenia que o isola de todos e que acaba matando-o. a começar pelo talento que. obesa. mostra polainas. . uma criatura néscia. e curto.. Já traz. João do Rio não tem amigos. E todos lhe respondem. Vamos. com sorrisos. o indefectível charuto. e.. com os seus cento e tantos quilos. – Qué arguma cosa.. a revelar modéstia. sô Maia? E o Maia. Negam-lhe tudo. o monóculo de cristal. todas as noites me ilumina o sono. sob o queixo escuro. uma verruga enorme). É expansivo. no entanto.. Ele passa e ouve-se que sussurram: – É uma besta! – Não tem gramática. Todos.. diga.358 Luís Edmundo Lá vinha ela. é alegre. aqui. fazendo gemer. Entra no café sor rindo. é sociável. E ela naturalmente: – Antão não sei. mas um simples repórter da Gazeta de Notícias. coçando. afinal. a estes senhores. sem favor algum. diga. quem é este. de tal forma provando que você não é apenas uma excelente dona de casa. no seu passo de gansa velha.

o pince-nez do Diniz Júnior.. com a sua pena. Colhe. um sorriso de máscara. Cardoso Júnior Desenho de Calixto Jaime Guimarães Desenho de Calixto Raul Braga Desenho de Calixto E sofre com isso? Dizem que sim. no entanto.. porque é sorriso falso e procurado. em torno. que sofre. a sangrar. E as razões de tanta maldade? João do Rio vive. porém. Quando morre.O Rio de Janeiro do meu tempo 359 – Vive a pastichar os escritores franceses... a semear ventos.. o que se encontra? O coração do Cândido de Campos. sentindo. Procura alguns afetos. é apenas para que se veja e se diga que ele está sorrindo. como que feito de papelão ou de pano. recebendo os pêsames de Lobão Desenho de Calixto homens que nunca o leram e nem sequer o . a todas essas misérias e torpezas... com um sorriso que nos faz mal. Só? Não. Florência. superior e displicente. se sorri. Atacam-lhe a honra. tempestades. molhado de lágrimas. coitada. das suspeitas e dos rancores. naturalmente. e dá-se um balanço nas suas amizades. Sente-se nele o homem que. No fim da vida muda um pouco. a muralha alta e fria de prevenções. e a pobre D.. Vão-lhe à vida privada. Afundam-no na lama! – Pois não sabias? Ora essa! Uma coisa que todo mundo sabe! E ele sorri.

uma tiragem louca! Nem queiram saber! As máquinas trabalham até às 11 da manhã! Fala como que a recitar um discurso. – Meninos. em ponta. Pouco nele se fala. nem mais brilhante. os seus infalíveis folhetos de propaganda e a sua pasta-de-rolo.360 Luís Edmundo conheciam! Ainda hoje a memória de João do Rio sofre as conseqüências daquele ambiente de aversões e de ódios. E quem o lê? No entanto. bate palmas. cheia de copos d’água. E bom humor. inteligência mais ágil. O que for! Onde o Cardoso chega. a porejar saúde. duro. Só tem amigos. assim como o Batista Bordon. e. você! Quando ele chega e olha a miséria da mesa. Chega falando alto. a vida. Pede outro. É quem dirige a palestra. se vocês preferem. os quadros do Augusto Petit. ruidosamente. quando lhe dizem: – Cardoso. Usa uma barbicha rala. Não cultiva pessimismos ou tristezas. E. – Ou uma vinhaçazinha. estrondosamente. Já à porta surge a figura entroncada de Cardoso Júnior. não acre- . e bem marcado. E todos ouvem com atenção e ternura. Campanha da boa vontade. a lhe fugir do queixo. para que todos ouçam. É um tipo esplêndido e viril. amplo. um queixo de anglo-saxão. os versos de Prudêncio Machado! O café que rejeitamos por sentir requentado ou frio. marrom e enorme. a literatura do começo do século não teve cronista mais garrido. Tudo é bom para ele: o mundo. só ele fala. ele acha ótimo. le bon géant com os seus eternos jornais. que acaba de aparecer. reclama café. Berra ainda mais forte: – É o meu metal de voz! Nasci assim! Fale baixo. os amigos. caindo entre os da roda como uma bomba: – Amanhã haverá um escândalo de todos os diabos! Vocês lerão verdades que nunca foram escritas! Cardoso Júnior é do Correio da Manhã. e vive embriagado com o sucesso estupendo de seu jornal. fale mais baixo. do meio da rua. – O tempo de ver vocês e voar ! E tomando a primeira cadeira que encontra. debaixo do braço.

por isso. de ar romântico – vasta cabeleira encaracolada.O Rio de Janeiro do meu tempo 361 dita na existência das notas de 200 mil-réis. apenas. num halo de olheiras roxas.. olhos profundos.. É pálido. pondo uma curta reticência em todo aquele dinamismo: – Tenho que andar. E olhando o relógio. Sr. – Vocês vivem a dizer coisas do João do Rio. levanta a gola do casaco.. resoluto.. muito pálido e expectora. o chapéu no alto da cabeça. – Esta minha bronquite ! . a ajeitar debaixo do braço a papelama dos jornais. cantarolando feliz. a gravata de laço à Lavallière. Cardoso Júnior não acredita também na maldade dos homens. Quando o tempo esfria um pouco. E enforque-se com a sobra. Atira para a mesa os níqueis: – Ciao! E lá se vai. . garçom. o passo firme. Frota Pessoa Desenho de Calixto Carlos Góis Desenho de Calixto Às 11 horas chega Luís Pistarini. Cardoso! – Pois pegue lá doze. enrola-se num cache-nez. É um ótimo sujeito. quanto se paga nesta mesa? Mil e quatro ou mil e seis? – Oito tostões.. das revistas. feliz. dos folhetos e a eterna pasta-de-rolo de cor marrom. que de tão lindo nome já goza entre os poetas de sua geração: tímido.. É.

entanto.. levantou-se e partiu. um lápis. suspende o que traça e pergunta: – Vejam vocês se gostam disto. às cartas de amor que recebeu. mais que em outros dias. a roda imensa. mas não esquece a roda. envelopes. nem copo d’água. Tem louros no campeonato. Afinal. Por vezes. o coração é músculo.. também. Sente-se isso no homem que chega ao café. precisa de exercício.. Nem café. E lendo: Acabo de ler agora o teu cartão. tentando mostrar-se tranqüilo. Correspondência de Cupido. Saúda. O amor é o seu esporte. em meio ao tumulto que o cerca. Por vezes. Arranca do bolso um caderno. vários bilhetes. Tudo quanto me dizes é mentira.. – Esta minha bronquite!.. Por vezes a tosse interrompe-lhe a estrofe abemolada e lírica. Senta-se. Pistarini abusa. Que é no café e de improviso que ele responde. põe-se a dizer outros versos. Não é um companheiro de todas as noites. Que saudades! Falo sinceramente. Olha. muito triste.. A saudade que eu tenho de vocês!” . Pistarini. alheio a tudo e integrado num sonho. “De Resende te escrevo.362 Luís Edmundo Chega tarde porque anda a namorar pelos bairros do Itapiru e do Catumbi. Recita pondo trêmulos na voz. num gesto largo. cuida da sua correspondência. cartões. Terminada a correspondência.. O exercício fatiga-o. Aconchegou ao pescoço o cache-nez de lã. cartas. passam-se tempos e tempos que ele não vem ao café. Não me crês? A vida aqui é uma banalidade.. – É a raiz de um dente que sangra – disse. derreado.. Gosta de recitar. do músculo. Dona Gracinda disse-me – a Jandira? Foi ao mês de Maria. pálido.. Uma vez vimo-lo... mesmo quando dela está muito longe. e. quando eu cheguei ao teu portão. olhando o lenço branco que se manchara de um ponto rubro. em verso.

longe. Rimbaud. mesmo com doçura. do Santos Maia. Tristan Corbière. o caminho da porta por onde bulhento e em reboliço assoma. Todos o recebem com indulgência e simpatia. citando. a bigodeira hirsuta e o olho congesto: – Que dizem. o laço da gravata desfeito. o mais louco de todos os boêmios. Todos o conhecem. Pfuff! – E to mando ares catedráticos: – Albert Samain. E rio. numa atitude melodramática. os papalvos do meu grande talento ? A frase é um clichê.. Olha de soslaio para a mesa da esquerda. um por um. o mais desatinado. Madame Rachilde. Sar Peladan e M.. ele entra sem que um garçom lhe estorve o passo. Conserta o pigarro. Depois. sem que a gerência pense em lhe mostrar. Le symbolisme. Conserta o bigode. Senta-se. mostrando três dedos sujos. – Decorem: três bestas! Prefiro o Doutor Vítor Hugo. a figura esquálida de um homem que mostra o cabelo em desordem.. erguendo o braço. aos da mesa. É o poeta Raul Braga. Eu te encontro.O Rio de Janeiro do meu tempo 363 Súbito. Vai buscar. Paul Fort. sem chapéu... recita. Jean Richepin. onde se fala alto e onde ele ouve que se discute Baudelaire. Conserta os punhos. Émile Verhaeren. Luís Pistarini Autor desconhecido Ah! Ah! Ah! Ah! . ó ventura! E esqueço a vida. no gesto de quem levanta uma taça de vinho: Ao menos no rubi que neste copo brilha. dourada mancenilha. Sol que transforma em luz o meu viver sombrio. Baixo. Comte de Montesquiou de Fezensac. – Três bestas – diz. uma cadeira e coloca-a entre as dos nossos. Verlaine e Rollinat. por aí. Pára diante das mesas. o nome dos Santos Maia que junto a elas se sentam. pois que a todos Desenho de Gil conhece. Lindo rubi do céu. Vocês andam com a cabeça cheia de Mercure de France..

Salvador é garçom avisado. Passava os dias escrevendo. Se possível. Sou testemunha do empenho que ele fazia para obter colocação. Ninguém acredita na minha regeneração! Prometem pensar no meu caso. Nela passou ele mais de seis meses. a correr. Fala baixo. Ia a um amigo. erguendo a taça imaginária.. entrando em minha casa constrangido... Completa regeneração. Devo seguir o meu destino.364 Luís Edmundo E mudando de tom: – Salvador.. esmolando um emprego. um lugar modesto. num gesto de afetada cortesia. O destino manda que eu seja um bêbado. generosamente. no rubi que neste copo brilha. do Silva Rocha não sai coelho... muito cortês. rebentou: “– É uma fatalidade dos céus. Já Salvador disparou para o fundo do café. esfregando as mãos. a recitar para o Garcia: Ao menos. pôr entre os meus dedos que se fecham. Vem o Garcia. todas as minhas relações. ou um giroflê.. procurando. gerente. modestíssimo. Salvador tem o senso da gota que extravasa.. insistindo. não pôde mais. Calixto Cordeiro conta-nos esta história singular: “– Levei um dia Raul para a minha casa. Sorriram de mim. como um homem que teme pesar a outro. e ponha o líquido na conta do bestalhão do Silva Rocha. Ora. notas de dez tostões! . por essa época. sentando-se à minha mesa. assim. onde pudesse trabalhar e ganhar alguma coisa. pondo no berro toda a bravura dos seus pulmões. pedir ao boêmio para não gritar assim. pedindo. moedas. embora. muito risonho. Rocha. ou procurando. mas não sabia que você estava aí.berra o boêmio. a sós comigo. ia a outro.. Volta-se e. gentilmente. Um dia. traga-me uma “geribita pingada”. Imagina tu que eu corri todos os meus amigos.. – Salvador!! . implorando. Vezes tentam. vexado. emprego.. na hora de comer. tirando o chapéu: – Você desculpe. como diz mestre Malagutti.. Como hóspede não sei de outro mais gentil. e. E de novo Raul Braga. Levou seis meses. Nem um copo de cerveja bebia. na rua. afinal. Depois.

Francisco. Fui encontrá-lo bêbado. gritando à estátua de Bonifácio. “Raul não voltou mais à casa.O Rio de Janeiro do meu tempo 365 “Chorou comovido e prosseguiu: “– O destino quer que eu seja um bêbado! “No dia seguinte”. no Largo de S. continua Calixto.” Storn. caricaturista Desenho de Leônidas .

. porém. . . de falar da roda de Pascoal. Lá é que davam rendez-vous os paredros da terra. . oficiando as grandes missas da intemperança nacional. No começo do século já existiam as duas confeitarias. mães-bentas. alimentada a empadinhas de camarão. CENTROS DE REUNIÃO E DE PALESTRA – TEMPOS DA PASCOAL – A TRANSFERÊNCIA DA RODA DE BILAC PARA A COLOMBO – SEUS FREQÜENTADORES – A HORA DAS FAMÍLIAS E A HORA DOS “CACOETES” – O ROCHA ALAZÃO – OUTRAS FIGURAS POPULARES UEM quiser fazer a história da roda literária da Co lombo terá. ainda. . ficavam já num segundo plano. Das quatro a mais antiga era a Pascoal. Havia. vinhos do Porto e Xerez. . da política. . . Quando se fez a claridade da República. . Foi na Pascoal que o grande Paula Nei ganhou foros de sacerdote de Baco. centros de reunião CONFEITARIAS. . a Cailteau e a Castelões. fatalmente. . . como casas de primeira ordem. Capítulo 20 Confeitarias. acabando por se fazer exemplo. . os grandalhões da literatura. . guia e escola dos jovens literatos de . . não havia melhor centro de reunião e de palestra. do alto-comércio e das finanças. . lá se criou. . . . . . estas. Lá foi que nasceu a chamada geração de Bilac. . . ..

pela época.. entanto. no entanto. “Papai Lebrão”. por isso. Perdeu. nos jornais. uma vez que as mesmas começaram. uma brochura espessa e mal impressa.. “Pai da roda”. porém. Conta-se que Bilac teve. desde o começo do negócio. alguém houve que apareceu trazendo. toda essa ilustre grei. Chamava-se ela Sertões. no apogeu do talento. onde está ela? Perdeu-se. . foi o homem que. pouco tempo depois. Para a Colombo. Lebrão. Cenáculo de semideuses – quase todos mortos no verdor dos anos. certa vez. faulhando. teve o grande contato com os fregueses. Num rasgado movimento de solidariedade. debaixo do braço. dissipado a bater. jamais. apenas. inspirava toda a sorte de desregramentos e desmandos. olhada com espanto e com carinho. lá se foi. rico talento. então. Surpresa singular. na confusão dos mots d’esprit. unida.. Houve quem perguntasse então: – Quem é esse sujeito? Ninguém sabia quem fosse! Ninguém podia recordar-se de tê-lo visto. um dia.. Verdade que. o que é pior. aos quais o romantismo. uma questiúncula qualquer com o proprietário desse lugar de gênios que foi a Confeitaria do Pascoal. das chufas e “partidas”. a obra que prometia e que esperávamos. Na atroada das frases. embora nas taças de cristal onde escorriam vinhos suaves e caros –. obra que andou de mão em mão. todos. a maioria do cenáculo. à Rua do Ouvidor. dissipado a sorrir. que só de literatos não vivia. não ficou o velho centro às moscas. Nei Desenho de Marques Júnior Seus filhos escrevem. Assinava-a Euclides da Cunha. muito da sua auréola e as reclames enormes de que gozava.. acompanhou-o. transferiu-se Bilac. Separam-se. daí por diante. E que reclames! Manuel José Lebrão e Joaquim Borges Meireles fundam a nova confeitaria no ano de 1894.. bebendo na confeitaria. a cuidar. e sem deixar. como lhe chamam. da Colombo.368 Luís Edmundo então.

graças a tão avisado princípio. feias. época em que prosperam. só a tabuleta. outro. a justiça devida ao desacatado primeiro. não se esqueceu da história amável de certo prato de lentilhas. Lebrão é inteligente. Quatro são as portas que dão entrada para a confeitaria. De grande.. Lebrão serve doses duplas por doses simples aos diletos filhos das suas entranhas espirituais. vingativo. loja e sobrado. um funcionário da polícia. Junto a uma delas. E o Lebrão. repelindo a insolência de um garçom. mais para o centro da sala. festejado e defendido. de bandeira de vidro e sobrancelhas de gesso. Integram-no à família literária.. Pereira Teixeira. muito agradecido. ambos aquecidos. a indústria dos vidros. E como pai é por todos querido. Lebrão esquece dívidas. beija-o na testa e chama-o de “meu pai”. é por este agredido. – Vocês. são mesmo uns torrões de açúcar. com a cabeça cheia de pontos-falsos.. atirando-lhe algumas bengaladas. ∗ ∗ ∗ No começo do século nós vamos encontrar a Colombo funcionando num prédio de mau estilo. no dia seguinte.. na Rua Gonçalves Dias. croquetes e pastéis. bem como toda a gama de petiscos da . fora. empadões. a dos espelhos e a dos móveis frágeis. com o número 34. Mostram as unhas. esquecendo os primórdios da agressão. há um empadário de ferro e de cristal e. ali mesmo. por onde espiam cinco janelas baixas. bem à vista de quem entra. pingando lágrimas. e. Teixeira. racha-lhe a cabeça.. de novo brandindo o seu cajado..O Rio de Janeiro do meu tempo 369 Lebrão fia. Vão. num painel enorme posto sobre um chassis de madeira da terra. na loja. desancam o funcionário da polícia. porque empadas. A época é de não se levar desaforos para casa. Vem Lebrão a correr do fundo da confeitaria. na casa. e até parece que. Salão pequeno. lendo a Bíblia. pesando no gradil da sacada de ferro. Teixeira castiga o biltre.. filhos. para as gazetas.. Certa vez. Mostram-se gratos. Eram. Espelhos curtos sobre as paredes com reles pinturas a óleo. depois disso. Guimarães Passos quando bebe demais. ambos a fumegar entre nuvens ligeiras de fumaça. Os leões da família literária rugem. maravilhas. toda em lona esticada. Pequenas mesas. a abraçar os da roda.

já que falamos nessa famosa toalha de empadário.370 Luís Edmundo regional pastelaria só se compreendem. quando ouve o freguês: – Creio que comi oito pastéis. a queimar. com a mão imunda. para que o freguês não abuse dos erros de soma. Às nove e meia da noite já ronda gente à porta... certa vez. no tempo. um balde d’água.. Cérbero. junto à pia de lavar as mãos. olha somente. no mínimo. a qualquer momento... Não confundir. ao fundo da loja. Há quem leve essa toalha aos lábios. no entanto. Fazem-se coisas piores. o seu Cérbero. Se lhe indagam. espremida.. não só a toalha como a prática de revolver. a maravilha de siri? Responde: – Dois tostões. com outra que existe. por isso. não intervém na escolha do manjar. pelo tempo. Cada empadário mostra. cor-de-chocolate.. há uma toalha enorme. conta.. Antes de fechar o estabelecimento. ainda mais as molhou. os chapéus . onde se limpa o dedo emporcalhado de manteiga.. Emílio de Meneses. a derrubar pilhas de empadas e pastéis.. que pesam no orçamento da despesa. as sobras do empadário vão alimentar o estômago da pobreza envergonhada. E na hora de pagar. lesando a caixa. a um funcionário da casa. montando guarda. o olho aritmético em vigia. A Diretoria de Saúde Pública ainda é uma repartição de cavalheiros que usam sobrecasacas e cartolas. Presa a um gancho que avança da armação de ferro. toalha que.. Quase sempre corrige: – Comeu nove. porém: – Quanto. mãos limpas e mãos sujas. das mais quentes ou das de melhor aspecto. deve dar.. Na escolha da iguaria entram. No mínimo. que passava: – Eh! Garçom. anti-higienicamente. mas que acharão ótimas. pelo empadário. à porta. o alimento que vai servir a todos. fiscaliza. Gritou. quando devorados a ferver. à cata das maiores peças. nela querendo enxugar as mãos. Homens de ar melancólico. traga-me um pano qualquer para enxugar esta toalha.

É por essa hora. sem mesada. com prazer. falando alto. vindo de Viena. nem mesmo tinha feito a refeição do almoço. Para iludir o estômago.O Rio de Janeiro do meu tempo 371 descidos sobre os olhos. ingênuo e simples. gingando. trazendo a mais vasta cabeleira já descida em terras brasílicas e uma barba em novelo que lhe dava o bíblico ar de um Yokonan que usasse croisé de sarja. Têm. aqui. sorvendo. o poeta José de Abreu Albano (filho do Barão de Aratanha). o passo tardo. alargam cinturões de couro. é magnífico! Será bom explicar-se que o boêmio em luta com a família e separado dela. polainas e monóculo. Manjar de deuses. de roupa de brim e enormes gaforinhas. Vezes. palmito e camarão. nesse dia. ergueu a massa inocente do beque. e saem. Gozam uma praxe velha e muito observada em estabelecimentos congêneres. pedem um palito. fumando cotos de cigarros. que está montando guarda à estufa. as primícias das sobras. esse torreão minúsculo. o suave olor fugido do empadário. dilatou as narinas. Nada pagam. Aproxime-se. ainda mornas. você. que aí está plantado à porta do estabelecimento? É um empadário. . feita de farinha de trigo. criança pálidas que choramingam. manteiga. esgravatam a dentuça podre. Comem. pouco mais ou menos. depois. Empada chama-se. um grupo de boêmios do Café Paris levou-o. que chegam os guardas-noturnos da zona. E Albano. Fartam-se. – Na verdade. Ouça o que lhe vou contar. à porta da Colombo. Regalam-se. todos eles à espera dos embrulhos de pastelaria ou doce que vão ser distribuídos como se fossem níqueis. mulheres de mantilha. uma série de tristes copos d’água. a uma pastelaria indígena. bebera. Vê. azeitona. bamboleando. no Paris. dançando no ar. ainda dentro do empadário. o “boa-noite” da pragmática. E o Santos Maia lhe disse: – Você chega ao Brasil sem conhecer os hábitos da terra. sestrosos. eles. Sorva esse cheiro bom que erra. o “muito obrigado” da boa “inducação”. de ferro e de cristal. onde estudava desde menino. não sem dar ao Cérbero. apenas. Quando aqui chegou. não jantara. pela hora das sobras e dos guardas-noturnos.

de hospitalidade. dezesseis. Santos Maia.... fora. comigo. toda e qualquer sorte de pastelaria. apenas.. para que possa você ter. homem. depois de nove horas da noite come-se. quatro. muito atentos. que um apetite de lobo atiçava e movia. gentilmente tirar o seu boné e dizer ao garçom de sentinela ao empadário: – Boa noite e obrigado! – Então? – insiste Santos Maia – convenceu-se? E o poeta Albano. É tradição da casa.. uma clara certeza. sem pagar. cinco. à beira da calçada. E os outros em bolo. em frente à porta da estufa de ferro e de cristal.. dez. mas ainda um país de generosidade. aqui mesmo. quatorze.. algumas empadinhas? Os que o acompanham declaram-se fartos. ainda. Repare.. a contar. Poeta Albano avançou. três. Poeta Albano arregala. olhe o guarda-noturno que está a limpar as mãos na toalha marrom. furiosamente.. Você que chega à terra depois de tantos anos de ausência. termina a sua última empadinha: – Aqui. as empadas que ele vai devorando: – Duas. num idioma de Goethe: .. então. diz-lhe a fim de despistar o garçom. mais que convencido: – Vocês. olhando um guarda-noturno que. – Coma você. aproveitando a trégua.372 Luís Edmundo É quando alguém lhe diz. iluminado num sorriso. arfa e desabotoa dois terços do colete. arrepiando a barba: – Pode lá ser? E o Maia: – Antes.. o esperaremos. O Brasil não é um país.. o olho míope. Albano olha e vê o guarda. precisa conhecer o que de novo há por ela. do que se diz. não querem comer. pondo logo em exercício a queixada nervosa. após o gesto da toalha. lentamente. que o alimento não guarda de um dia para o outro. Em dado momento Albano suspende a refeição. depois de ter comido o que bem quis. que nós.

quando acabar. dois boêmios seguram-lhe os dois pulsos. as regalias do guarda que o precedera no devorar dos pastéis e de empadas. pelo prestígio do idioma. em linguagem castiça. para chegar a Diógenes. para Albano. tamAbreu Albano bém. molhando a barba. vai ao balcão mais próximo. No intuito de impedir que Lebrão escape. que diz. Tradução: Euclides da Cunha “Sei o que devo fazer. no fundo. Ora.” Desenho de Marques Júnior Ataca. Ouve Lebrão a exposição fluente que. zela o outro. Maia pigarreia. a derrubar o seu chapéu enorme: – Boa noite e muito obrigado! – Peço desculpas – retruca o funcionário – barrando-lhe a passagem. Grande salva Desenho de Marques Júnior de palmas. . bebe-o voluptuosamente. não sem provar. logo. reclama um copo d’água. ao Cérbero das empadas: – Eu reclamo a presença do Lebrão! Vem Lebrão. não sem citar o seu desprezo pelas convenções e a riqueza criada pelo homem. fugindo aos surtos da retórica maiesca. de dar boa-noite ao caixeiro. saber do que se trata. – Ich sah den Nachtwachter – responde Albano continuando a comer. e dirigindo-se ao garçom do empadário. se um vive a zelar pela guarda das portas. que. Boa noite e muito obrigado. Começa mostrando como a filosofia evoluiu até a Grécia de Péricles. Toma a palavra. diz então. o poeta a vigésima empada! Depois. cortesmente. pleiteia. Observei o guarda. desconfiado. são dois mil-réis! Em seu socorro parte Santos Maia.O Rio de Janeiro do meu tempo 373 – Vergesse nicht dem Kelner besten – Dank zu sagen! O que ainda significa na língua do país: – Não esquecer.

porém. às vezes. em voltas pela parte central da cidade. – Que enorme prazer em vê-la! – D. frutas e até legumes. o pêlo das cartolas huit-reflets. simpático e amável quadro. morde uns sanduíches. em uma confeitaria. dentro de hirtas e solenes sobrecasacas. certos retratos da mulher de Luís XVI. Não obstante. líricos e tranqüilos. Quadro íntimo e burguês. para onde se instalam os gabirus de polaina e monóculo. após os beijos e abraços. . Até cinco da tarde as famílias imperam. Atendendo-os estão entre outros empregados: o França. dos bailes do Cassino. Aí. sente algum apetite. lançando olhares para a esquerda. para direita. um desquite amigável. não entra nunca em um café. muitíssimas saias. as Mundicas.. viva! Falam das noitadas do Lírico. o discurso é grande e belo demais para despesa tão pequena. É a moda. – Muito bem. de gentilezas e sorrisos e o que os da roda chamam “Maria Antonieta”. por lembrar as linhas de seu rosto muito oval e delicado. as Titas e as Lolós. apenas.. as Bembéns.. ∗ ∗ ∗ No começo do século a mulher ainda pouco passeia. bombons ou alguns confeitos. é um tanto freqüentada por famílias. da estação em Petrópolis. nas gazetas. entra. sai daí. um casamento.. Marocas. olhando por baixo de chapelões enormes e de onde se dependuram flores. “diplomata” de grandes ademanes. prova uns pastéis. Quase não sai à rua. Nas mesas. quando menos se espera. quando. muito menos em um bar ou restaurante. por isso. bebe um gole de Málaga. as frases da pragmática: – Como vai a saúdinha. A Colombo. a cotoveladas. Não raro. quando não sai um drama passional ou uma tragédia dessas que a gente lê. a mão esquerda movendo vistoso leque de papel ou seda. a mão direita arrepanhando as saias. completando a merenda com alguns doces. Às duas da tarde começam elas a chegar. limpando.374 Luís Edmundo – Muito bem! Muito bem! – Lebrão sorri e declara que. sobretudo quando de perfil. Vêm as Candocas.

Vão chegando as “madamas”. arrastando as bengalas de biqueiras de ferro. o que muito impressiona os que desconhecem detalhes curiosos da vida desta casa. as sinhazinhas. Um sarilho de ninfas e de sátiros. começa o êxodo. de uma para outra banda. depois de sofrerem duas horas de massagens no Salão Naval ou no Doré (barbeiro chique da Rua do Ouvidor). Buy. Táti. em massa. entram solenemente a derrubar chapéus-do-chile. a torcer as guias dos bigodes duros de pomada Hongroise para mostrar os brilhantes dos seus dedos cuidados.. os “caititus”.. O quadro representa. eternamente limpando o pêlo das cartolas. . na Anita Block. na Susana. mais ou menos majores da Guarda Nacional. A fase familiar do estabelecimento acabou. porém. derramando sorrisos. Os garçons. as sinhadonas. Os grandes capitalistas do tempo. agora. e ditos em altas vozes que vão de uma para outra mesa. Xerez de la Frontera.. Granger. um interior em Citera. Pompadour e Aglaia. do Flamengo e da Rua Senador Dantas. satisfeitos. Curaçaos. Os garçons são chamados pelos nomes. a razão de tão brusca saída.. na Richard. olhando o relógio do fundo.. Tokays. e a récua dos guabirus. o bouquet de violetas e a folhinha de malva. Não ficou ninguém na Valery. Ab-del-Káder.. carregadíssimos de anéis. os cabelos pintados a negrita. atrás. trescalando Coeur de Jeannete.O Rio de Janeiro do meu tempo 375 De repente. As cadeiras arrastam-se. na Bréia. mais contentes. Saiba-se. Chamam-se as divas que eles procuram ou que freqüentam: Margot. E todos. mais ou menos coronéis de jogo. os “coronéis”. Tina. É toda a nata do demi-monde. Nas mesinhas de mármore os cândidos sorvetes são substituídos por absintos. ou a endireitar. Pippermants. nas lapelas vistosas. Já o murmúrio é outro.. giram a roda do negócio. Marinete. Marthe. de qualquer forma autênticos gastadores. quase que ao mesmo tempo. as titias. E gargalhadas. Partem as mamãs. Olha-se o relógio – cinco e meia. ∗ ∗ ∗ Mutação de cenário na confeitaria. Charlote. O que existe de mais chique pelas pensions da Lapa..

a tez avermelhada. Em 1901 ainda é uma velhota esperta. Marinete. Prognata. Essa mulher goza. na política. tinha a sua casa. muitos deles. O Senado quase todo lá está. Não falta. já mudado do Largo do Rossio para a Rua do Passeio.376 Luís Edmundo Não esquecermos que entre elas está a que se conhece por Viúva de Pedro Álvares Cabral.. nunca. Seus olhos piscos. na igreja da Candelária. uma das figuras mais populares de seu tempo. vice-presidente da República. Táti.. enorme. outrora. diz-se missa. Margot. o Senador Rosa e Silva! Essa mulher. Em meio à elegância e à vozearia dos que falam. na Pension Valery. à frente dos seus representantes o próprio presidente. à Colombo. ∗ ∗ ∗ À porta do estabelecimento está o Rocha Alazão. É a primeira que chega – depois da hora das famílias – e a última que sai. mas o faro é de cão. a queixada sem pêlo. tricas de baccarat e de campista. na Pension Richard. abraçando-a na sacristia da igreja. a cabeça toda branca. a cabelancha ruiva. por sua alma. batendo-se. Quando lhe morre a mãe. cujas pernas cancanistas ilustraram a mocidade risonha de nossos avós. depois. Suzi. que era uma espécie de Bastilha onde a autoridade não podia penetrar. tem um ar de moço de cavalariça. pardos. galhardamente. de sobrecasaca e de cartola. noitadas em clubes como o dos Políticos. por ela. mal-ajambrado. graças à qual ela não pode ver os pés. Benevides. Fonsecote. de um prestígio enorme. Rocha é inteligente. alforriados. Nomes: Rabellote. no tempo. Sócia de quase todos os centros de propaganda abolicionista da época. na Casa dos Tijolinhos ou em casa de Susana. lembram os da raposa. intriguinhas de alcova. Susana de Castera. bebem e dão risadas. saiba-se: na campanha da Abolição teve relevo magnífico. expansi- . fumam. e. então. Lyson. na magistratura e em outras altas profissões do país. por cima de uma peitarra enorme. gorda. sempre atulhada de pretos fugidos. Granger. quem escreve estas linhas encontra o mais respeitável e importante que existe. em prol da liberdade dos escravos. discutem-se os grandes assuntos do demi-monde.

aos amigos.. entanto. no intervalo do espetáculo. pede a Emílio de Meneses 400 réis a fim de garantir a passagem do bonde. a cor da gravata do “mordido”. enquanto vibra. – O Rocha – afirma-se.. – Hoje não pode ser. filho. verbo de “mordedor”. Pede.. risonho. com a mão. Há. escovando-lhe.. Infames trocadilhos. . está no seu posto de honra. a elegância dos seus ternos.O Rio de Janeiro do meu tempo 377 vo. alguém. Quer se saber quem com tanto talento imita o animal. Rocha. como se diz na época. Como sabe “morder” Rocha Alazão! E como se glosa a sua tradicional proficiência! Leva-se. nos bastidores. uma sonata de Beethoven. – Pois tu ladras lá dentro e vens morder. certa vez. uns cinco mil-reizinhos. mas tem o horrível vício de pedir. desta maneira: – Rocha “morde”. – Quem será? – indaga-se. – Quê! – diz-lhe o Emílio. vê se me arranjas.. onde ele opera. Rocha pede com certa dignidade. mas não ladra. a começar pelo dinheiro. ao menos. Desenho de Marques Júnior – Então.. passa-me o tanto. para “morder”.. na época. na Rua Gonçalves Dias. Rua da “Passagem”. exaltando sempre. tudo. a gola empoeirada do casaco. para se fazer amável. que. de tocaia. O verbo “passar” é. por coincidência. cá fora? Rocha. quem conteste. Nessa mesma noite surge. Para pedir. Está à porta. tocaiando o próximo: – Oh. Trago apeGranger nas mil e tanto. simpático.... Daí dizer-se que o Rocha vive do “passado” e chama-se a Rua Gonçalves Dias. o seu aspecto de saúde. uma peça de Coelho Neto – Ao Luar – onde há latidos de cão. para hoje.

três dedos. Traduza-se o sinal por esta frase: – És capaz de me emprestar três mil-réis? Se o amigo responde negativamente. Não se sabe. A roda literária que o admite em seu seio. sentindo a negativa à última consulta.378 Luís Edmundo Talvez fosse para ele que o Emílio. à guisa do serviço. – Pois não receba. mostra-lhe só dois dedos. Que o homem.. habitualmente. Vezes. você é uma subscrição pública! – Eles é que me dão – declara Rocha. um fiapinho de lã. não se desilude. Rocha! Há coisas que podem até refletir sobre nós. furioso.. gritou: – Deixe o fiapo aí!. gentilmente. bamboleando a cabeça. – Cinco tostões! Não se descreva. trabalha com duas mãos: mostrando. a ponta do indicador na intersecção da falangeta com a falanginha. e da outra. com uma. por vezes. desculpando-se. o dedo em vertical. Rocha levanta a mão e mostra-lhe. por parte de meus amigos.. .. Tradução: – E dois mil-réis? Caso a cabeça de novo balanceie. responde. ao sentir alguém que lhe pedia dez mil-réis e que. uma vez. por decência. distante. É vexatório! Você não é um homem. provas tão delicadas de consideração e de amizade! E vai. algibeirando os “cobres”. ainda. da manga do paletó tirava-lhe. aí. – Era o que faltava! Deixar de receber. mostra-lhe o homem. insistindo: – Um mil-réis? Se nada. então. um dedo só. Rocha. protesta contra esses excessos de pedir: – Acabe com isso. Exemplo. no espaço. o gesto complementar com que ele. depois disso. para agradá-lo.. no ar. perde a compostura.. assim. a retórica é substituída por acenos. muitas vezes. Rocha descobre um amigo que está em uma roda. a marcar meio dedo.

– Então. Dinheiro? E o meu habeas cor pus? Creio que já firmamos um contrato. aí fora. daí fazendo o seu ponto estratégico de assalto. “mordia-o”. Ficava ele. Um verdadeiro inferno para o pobre dono da confeitaria. Fica o meu amigo. porém. Como notasse que muitos lhe escapavam. Sairia perdendo na transação. voltavam todos. Dava no mesmo. a fim de ficar. no entanto.. Espantava os fregueses. que não era negócio. encontrando o generoso amigo. então. para o Rocha. num ar de ataque.. Lebrão aumentou-lhe a mesada.. Apenas. de longe. muito antes de ele entrar na Colombo. Rocha aceitou a esplêndida proposta. vindo do lado da Rua do Ouvidor. do lado de fora da casa. vamos fazer uma combinação: no dia 1º de cada mês o Sr. Os tabelionatos davam menos. de tocaia.. zás. diz o outro.. Rocha disse. No dia 1º de maio recebeu o dinheiro. o homem continua. subindo a rua. proibido de me pedir dinheiro pela rua. irá ao meu escritório comercial receber cinqüenta mil-réis. semaforicamente. indo esbarrar o tipo. um tabelionato em Óbidos. mesmo pelas proximidades da casa.. livre para sempre. porém. comendador.. mas reclamo habeas corpus para a via pública. arranjou um comparsa que. dele. Ficava ele. Durante certo tempo. certa vez: – Sr. Os fregueses viam-no.. E ele. No dia 3. Declarou. – Vejamos. aí. firmado nesse mesmo contrato. dia 28. muito sério: . que não aceitava a idéia. Não quis. E. na Colombo. Era abril.. se aproxima. ao Lebrão. Rocha. dele.O Rio de Janeiro do meu tempo 379 Houve um tempo em que o Lebrão pagou ao Rocha para não freqüentar a confeitaria. peremptoriamente. com a condição de Rocha não estacionar mais à porta. então. Dou-lhe mesada. na calçada da rua. lhe dava com o braço o sinal de – “Mordível” à vista! Rocha atirava-se. um pequeno favor. Rocha. logo. – Certo. numa rajada. Lebrão ficava louco. certo. até pensou em arrendar.. eu lhe vinha pedir. risonho e amável. sempre que a clientela lhe dizia: – Rocha está agindo. e. Sr. Certo comendador rico e vítima dos assaltos constantes do boêmio – conta-se – ter-lhe-ia dito. à esquina da Rua Sete.

no fim de certo tempo. diga-se de passagem. Afinal todos vêem. – Vejo. Sr. – Adiante. outrora. diz-lhe um. Maceió traz. Chega Rocha Alazão. Venha o Sr. disposto a provar aos alunos a inconsistência das agressões da escola positiva. Põe Alazão o olho no óculo. conta a quem quer ouvir o que se segue: – Rocha cursou Medicina. e nos diga o que vê. cônsul aposentado e ainda vivo. um dos espíritos mais finos e mais aristocráticos. Sicrano diz. os micróbios mudados nas palhetas. E dispõe-se a mostrar aos seus discípulos uns tantos micróbios já classificados. – Olhe o Sr. um microscópio. espia. – Muito bem. Fulano. Os colegas sorriem. Henrique Marques de Holanda. uns traços em forma de vírgulas. Chama o aluno. que a refutava ou dela escarnecia. Foi aluno do famoso professor da Faculdade. Barão de Maceió.380 Luís Edmundo – O comendador não poderia fazer a fineza de adiantar-me 20$000 pelo que me deverá pagar no dia 1º do mês próximo? Esse homem não é um iletrado. Examina-o e entrega-o de novo ao aluno. – Veja agora. professor. certa vez. momentos de espírito que ainda hoje podem ser gostosamente citados. E viveu. fá-lo espiar pela lente do aparelho e dizer o que vê. – Não vejo nada. – Como? Não vê? Passe para cá o aparelho. e diz tranqüilamente. Era por um tempo em que a teoria microbiana recebia golpes tremendos do comtismo. pois o amigo está vendo o micróbio do cholera morbus.. também. da roda literária da Colombo. Em dado momento o professor chama o aluno Rocha. claramente. Sr. . também. Sicrano. o que vê. – Sr. para a aula. olhe por este óculo e diga-me o que está vendo. Que de outra forma não se pode compreender a simpatia de certos intelectuais por ele.. E o Sr. Barão. Rocha. como se diz ou se supõe.

Os prefeitos da cidade. Como a cidade é um crivo de buracos. – Impossível! Veja.. Maceió enfurece-se. terminada a obra. É a mesma cidade colonial de 1801. eu vejo. garantir fortuna. já porque nela não nasceram. sabe-se. atentamente! Repare. cai dentro do buraco do Lebrão..O Rio de Janeiro do meu tempo 381 – Nada! – continua o Rocha. a gargalhar. Exatamente!. cavouqueiros da Prefeitura. Esse buraco é uma delas. O transeunte que vem apressado. O buraco do Lebrão? Coisas do Rio antes do Passos. uma volta. atrasada e fedorenta. na mesma. A cidade é uma vergonha para a civilização americana. duas orelhas de jumento. novamente. e catrapus. estrangeiros que não se podem interessar pela terra onde mandam. abrem profunda cova. lá no fundo. então se não vê. ou prestígio na política. e. já porque só buscam. em sua maioria.. Ora.. naturalmente. E com energia: – Olhe. respondeu: – Agora! Professor. Rocha pôs. da mais ousada e petulante farsa.. Continua o aluno a dizer que nada vê e a aula inteira a gargalhar. coisas que. A turma inteira ri. fruto da mais deslavada fantasia. Duas orelhas de jumento! Uma vez. repare bem. bem no fundo. tropeça no lajedo de calçada. para fazer-se uma obra urgente. Rocha. descendo a Rua Gonçalves Dias. Mas. parecem. açodados e ativos. mãos solícitas. quando V. apenas. o olho no vidro de grau. em frente à Colombo. registradas no tempo. certa vez. Exª baixa a cabeça. meios de estabelecer. refletindo o que se passa cá por fora. no começo do século.. tendo posto sobre o monte de terra que lhe fica à beira este amável letreiro: . Sem tirar nem pôr – suja. talvez possam parecer. correndo atrás de um “mordível”. não a fecham.. ao menos. pouco se nota o aumento de mais um. gostosamente. olha a boca hiante do abismo – aliás sondável – faz.. ao famoso buraco do Lebrão. Vamos. depois de um instante. às gerações futuras. porém.

manda o Conselho tapar. A imprensa glosa o caso. E o coqueiro cresce. Coelho Lisboa Desenho de J.. que façam reclamações pelas gazetas. festeja-o. faz sucesso. O povo. uma fossa lamacenta e cheia dos mais sórdidos detritos. rega-o todas as manhãs.” Rocha Alazão Desenho de Gil É o cúmulo. Um teatro chega a anunciar uma revista que. E graças a esse “caso de honra” que o humorista cria. a pilhéria do Tigre. um coqueiro de dimensões razoáveis. Só não dá cocos porque um membro do Conselho do Município. Canta-se. Gemem prelos. toma por um acinte feito à corporação. alegre.. Chama-se O BURACO. Lebrão pede aos foliculários. então representada. a crescer. e dentro de dois meses avulta de tal modo que acaba dando sombra em torno. Carlos . nisso tudo.. esta quadrinha: “Sepultura de Prefeitos. mais ou menos depois. e à noite. Há comentários chistosos sobre o caso.382 Luís Edmundo Cuidado com o buraco. E o coqueiro a crescer. Quando chove. à qual pertence. com o sol. o famoso buraco.. na chácara de um amigo. então. planta-o na grota funda. É quando Bastos Tigre tem uma idéia genial – consegue. Acha-se. a cova torna-se em pequenino lago. que freqüentam a sua confeitaria. sem querer. a mando do Lebrão.. No buraco que aí está Já caíram dois sujeitos Um terceiro cairá. muita graça! Mas a cova persiste. O “Lagosta”. vendo-o. nela.. caixeiro.

O Rio de Janeiro do meu tempo 383 ∗ ∗ ∗ A roda ainda é de eméritos bebedores. certa vez. no entanto. em que ele amou as idéias e por elas se bateu. mas o balcão da gerência é vastíssimo. num soneto imortal. circunstância que não o impede de. E vice-versa.. Ama o luxo. clangora e esfandanga em retumbos de tacho. quase preto. No argumento. Por exemplo. é sempre pronto.. na massa popular. . uma voz que. entre outros quem os substitua com vantagens. num improviso. jornalista e orador popular. gritar. Patrocínio em prazeres se afoga. muito sério e cheio da maior convicção: – Nós. chegando mesmo a criar. depois. Tem como redação uma sala modesta. deselegante... um grande nome.. na Rua do Ouvidor. essa massa que.. Isso vencendo a voz de timbre mau. gordo. é o seu jornal. De sua sinceridade dizem horrores. Orando. Emílio descreve-o a fazer um discurso. os latinos. com desprezo ou ironia: – Preto cínico. Cultiva a imagem romântica.. quando ele cruza na Rua do Ouvidor.. que assim começa: Esse Cícero cor-de-chocolate Pela cana rachada de um discurso. as viagens. Nei e Pardal Mallet já não existem em 1901.. o conforto.. Usa as opiniões como as gravatas. Mulato escuro. ataca-os amanhã. José do Patrocínio. quando desfere o conceito. Houve um tempo. se acotovela e diz. há. A Cidade do Rio.. que trabalha com relevos de artista.. incisivo. É de estatura meã. quando se eleva um pouco. Os homens que hoje en grandece.

crianças que . . solícito. . Palmas. gritos que anunciam: – Saem dois sorvetes! – Um anisette e um cacau! – Suspenda a tamarinada! Há gente que se aglomera em torno do caixa afobado. . PEDRO RABELO E PLÁCIDO JÚNIOR – HISTÓRIAS DE EMÍLIO DE MENESES – O PADRE SEVERIANO DE RESENDE – RECORDAÇÕES DO NAVIO DA LAPA – MENELIK.. . . . Capítulo 21 A Colombo O MOVIMENTO DA COLOMBO À TARDE – BILAC. Um arrastar bulhento de cadeiras. . cavalheiros que reclamam. . . por onde espiam cabeças e de onde vem um confuso tinir de talheres.. dirigindo o serviço: – Atende segunda à esquerda! Pelo guichê da copa. . . Psts. . . Burburinho maior. Giram. . . . E o gerente. ativos. . Brados: – Aqui. senhoras que fazem perguntas tolas. de vidros e cristais. GUIMARÃES PASSOS. . . os garçons. garçom. . .. um espocar alegre de risadas. Vozes. . . de louças. O CÃO DA CONFEITARIA E A SUA GLÓRIA ÃO quatro horas da tarde. .

como se vê. todos eles respeitosa e calorosamente saudados pelos garçons. a medalha de ouro e de brilhantes a balançar na pança comendadora! À porta de entrada eis que surge. Alto. além das mesas. elegante. um pequeno bigode. mostra duas pupilas dilatadas por extrema miopia. franca e sensual. um príncipe das letras – Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. falando em voz alta e explicando as miúças da importância que entrega: – Tiro de cinco. à espera dos trocos. Carlos Emílio de Meneses Desenho de Gil . de repente. dezoito. curvo. É por esse momento que começa a grande azáfama da Colombo. Segue! O estranho linguajar é um código usual de taberna ou café. como um bodoque. que cumprimenta abrindo os braços. Olavo Bilac Desenho de J.386 Luís Edmundo choramingam. magro. A todos atende o homem assediado. enquanto garçons. São três e dois de sobra! Cartucho de níquel. pelo caixa e até pelo Lebrão. boa. os balcões e as vitrinas de doces e confeitos. entregam notas ou moedas. também aceita e assimila. os lugares onde pousam os empadários. momento em que começam a chegar os figurões das letras. Na linha da boca. Prata suja. os tabuleiros. porém. instante em que a freguesia enche. sem perturbar-se na contagem do dinheiro. destrinçando despesas. É vesgo. em suas expressões que os homens do serviço logo entendem. mas que o ambiente elevado.

Outras observações postas à margem da sua curiosa ficha antropométrica: memória prodigiosa. responde. Sabe-se. É por essa época que. quando se abala. ou doença ? Bilac sorri. Manuelzinho. Espírito traquinas. Todos o discutem. isso. Seus defeitos são os da roda. as blagues. Defeitos da época. encontra certo amigo. Dá mesmo a impressão de que não pensa em outra coisa. Grande popularidade. Predileção por Shakespeare. dele nos dando a impressão de uma criatura integralmente feliz. Pouco orgulho. Só uma vez muda. querido. Todos o recitam. indaga por sua vez: – E isto. a banha suína da papada do outro. tendo tido. Sangue-frio. Diga-se. que o artista é filho da cidade. Vive entre os algodões em rama da admiração nacional. com dois dedos nervosos e fortes. Superstição. mimado. de qualquer maneira – vive a dizer. é estupidez ou gordura? Esse espírito de ironia e de galhofa acompanha-o. que o poeta não acredita em Deus e queixa-se do fígado. um pouco. Os constantes gracejos de Bilac! . um duelo. ainda. – A vida é bela. A adversidade respeita-o. Generosidade levada ao excesso. até a morte. acaba matando-o. depois. por ela. e os mots d’esprit. Falso cepticismo. amarelo. Ama as boutades. que tens aqui. por motivo de política. anda. Sensualidade. admirado. purgado quase seis meses de cadeia. ao sair de um restaurante. por questões de literatura. e. Grande nome. anos depois. que assim lhe fala: – Como estás magro. homem de muita banha e pouco espírito. impressionado. sacudindo. Muita estroinice. impressionado pelo mal que. Bilac! Como estás desfeito! Que será isto? Impressão minha. Musset e Hugo. mede um metro e oitenta e não gosta de música. A adversidade não gosta muito de homens que gracejam. Os novos perdem o dom da palavra quando lhe apertam a mão pela primeira vez e os velhos falam-lhe como a um grande mestre. Todos o conhecem. entre os meus dedos. Quase infantil. Nada de paixões duradouras.O Rio de Janeiro do meu tempo 387 Em 1893 Guimarães Passos escreve-lhe a biografia. e. Dante.

que é de alugar cômodos. clara e musical. Saúde e fraternidade. que aqui aparece sonhando com a nomeação de professores. Dá-lhe piparotes na barriga.. escreve um ofício assim: “Niterói. que é “bolina” declarado. certa vez. isso dentro de prosódia rigorosamente brasileira.” A propósito de certa senhora que guarda. quando hoje em dia Alguém pergunta por mim: Eu e a minha hipertrofia Vamos indo. regulando. Um dia. Demita-se o tesoureiro Por falta de assiduidade. fluente. Acha-lhe “imensa piada”. Vítor solta esta frase enorme: . a fim de reformar o falar brasileiro. nossa prosódia pela prosódia portuguesa. a perna À perna de outro esqueleto.. redonda. Encostará.” Além de poeta. imaginoso.388 Luís Edmundo Na secretaria do governo do Estado do Rio. Bilac é grande e velho amigo de Vítor. Sacode-o pelo braço. “Quando entrar na vida eterna.” Bilhete que manda de Paris a alguém que lhe indaga da saúde: “Respondo. Nesse particular ele não faz a menor concessão. dedica esta quadrinha. E lavre-se a portaria. Como é que só com dois quartos. assim. ao qual não faltam os recursos de uma voz sonora. um número impressionante de hóspedes. em sua casa. vindos de Portugal. Pecadora impenitente. burila este epigrama: “Mulher de recursos fartos. logo. erudito. em meio à discussão. é orador brilhante. Dás pousada a tanta gente!?” A Guimarães Passos. 10 de janeiro. assim assim. Leva um dia à parede Jaime Vítor. Que entrega a Tesouraria Ao poeta Luís Murat. Todo vestido de preto. O decreto ou o alvará.

explica-lhe as razões de sua iniciativa. Em 1901. em frases cintilantes. Guimarães Passos bebe.O Rio de Janeiro do meu tempo 389 – “Spremos qu’un dia inda isso se f ’rá”. preste atenção: eu spro. “sprança” em vez de esperança e “sprar” em vez de esperar. que conjugar o verbo. “seu” Vítor. supimpa. em Alagoas. lembra o “Fogo-foguinho” da Marquesa de Santos. como guarda de honra. Ama. Coelho Neto. Casa. Aqui se instala. com marcas de simpatia.. situação na roda e nos jornais. “seu” Vítor. um bacalhau do Porto. Comove-o. na Colombo. mais tarde. Bebe demais. Não conhece ninguém. A eles se dirige. Linda dentadura e um bigode em sarilho.. “Seu” Vítor não pôde deixar de rir diante de tão velhaca pilhéria. o príncipe das letras traz a reboque. Lobo. conjugue o presente do indicativo do verbo que eu tenho por esperar e você por “sprar”. Isto é. glória. que a fazia como poucos. enfeitando-lhe o lábio grosso. preste atenção... sempre. – Está errado. mas sem dinheiro. benquisto e relacionado.. terá fatalmente. tem logo bons empregos. é um janota. bastante. blagueur. Descobrem-no. Bebe muito. Sabe o que faz.. comida no G. retruca Bilac. Ao comandante do navio o jovem clandestino. Se você diz. que é um homem de espírito. Luís Murat e Alberto de Oliveira. assim. Entrando. O primeiro espadaúdo e forte. vai a bordo de um navio que parte para a Guanabara e deixa-se ficar. ele espera. autêntico. de nome não só conhece. está errado. fama. pois as credenciais que pôde apresentar são ótimas. dependurado ao poeta e a coisa acabou numa bacalhoada violenta. ele spra. tu spras. importado diretamente da Noruega. O próprio Emílio de Meneses afaga-o. Uma vez. E de tal sorte que o outro acaba trazendo-o até o Rio. Pedro Rabelo e Plácido Júnior. como adora: Bilac. Chega. “seu” Vítor. três poetas: Guimarães Passos. É recebido acaloradamente. tu esperas. Um dia encontram-no a marchar seguro às . onde nasceu. mas continua boêmio. fresco como uma flor. E Bilac logo: – “Seu” Vítor. Vítor conjuga: – Eu espero. com um par de costeletas a manchar-lhe o rosto amorenado e longo.

bambos. ora numa das varas de ferro. Ao segundo.. uma vez. Antes tenta o clima da Madeira. Teve de ir à Suíça. com alguma fome. Há um postal (dirigido ao Henrique de Holanda?). chamam o “Pipinha”. faz versos. proprietário da famosa Pipinha Invencível. Para obtê-lo. Não consegue dormir. em um quarto trepado no segundo andar de Pedro Rabelo Desenho de Calixto uma casa de cômodos. um pouco de vida aos seus pulmões exaustos.. Por que. à Rua Uruguaiana. Que ela me pague em saúde aquilo que seu vinho me levou. meigos. e onde se vende. Morava ele para os lados da Saúde. Isto é. Certa ocasião chega Plácido a casa. Seguiu viagem. cheio de esperança e bom-humor. em passo onde se sente certa prudência e ritmo. no entanto. – Que fazes aí. onde piora. E ele. se ele é tão magro e tão franzino? A coisa vem dos tempos em que o vate freqüentava a taberna do Babo. os olhinhos velhacos. ainda em 1901. o desejado encontro de contas que o poeta muito desejava. Não “morde”. A noite é de .. muito lentamente. uma grande rosa fresca à boutonnière. no qual o poeta. escreve: “Acabo de chegar à Madeira. sem níquel e. o melhor álcool de cana vindo de Parati e Angra dos Reis. Plácido Júnior. o que é pior. na Suíça. Tem sua linha. porém. E em Paris. Morre. onde quer morrer – em Paris. o indefectível cigarro dependurado ao canto do lábio grosso e sensual. nunca. o “Pipa”. continuando a dedilhar as varas do gradil: – Estou tocando harpa! E abusa tanto do instrumento que morre cedo. depois de meia-noite. a mão. ó Guima ? – perguntam-lhe..” Não se fez. quando por lá passa indo buscar. Às tardes da Colombo não falta. não cursa a escola do Rocha Alazão. entanto.390 Luís Edmundo grades do Passeio Público. certo dia. e anda sempre sem dinheiro. ora noutra. Pipinha escreve na Notícia.

uma prata de cinco tostões ou um níquel de duzentos réis. do telhado da casa próxima. e. Num pulo rápido. ó infame? O outro está transido de pavor. na miséria em que vivo. É um espanhol pequeno... O desgraçado treme. pescando aqui. junto. uma nota de cinco mil-réis. com a idéia de ter diante dos olhos um verdadeiro malfeitor.. talvez algum pivete. ali.. subjugado. – Só tenho isso. Não faço por menos. passou. Escreve na Gazeta de Notícias e tem um cargo qualquer no Conselho do .. magro.. feroz: – Que vens buscar. aqui. a murmurar: – Perdão! Pergunta-lhe o boêmio. romanticamente. somou num bolo – quatro mil e seiscentos réis... E ele fala: – Vou soltar-te. salta. vacila ao cair de joelhos. e vai-te embora!. assim mesmo. Cruza os braços. com efeito. livremente. comovido. olhando-o.. porém. pelo menos. que o não entregue à polícia. rápido. “seu” doutor? – faz o gatuno. Nada mais tinha. pedindo que o não mate. Plácido toma-o pela garganta. “seu” doutor. em decúbito dorsal. caindo-lhe no quarto. Afinal eu tenho entranhas. Plácido. o vate da Alma Alheia. No fundo a recrear-se. sentinela avançada de um bando de malfeitores.. acolá. Abre a janela.O Rio de Janeiro do meu tempo 391 grandes calores. um papelucho de mil-réis. Tudo. – Porém?. O último dos três é Pedro Rabelo. atirado sobre o leito. O homem começou a meter a mão nos bolsos do paletó e das calças. partiu. E o outro. Deixa-o.. pelo amor de Deus! No coração do boêmio jorra um fio de mel. – Tens que deixar aqui. que. – Passa. Recebe a de um autêntico ladrão. Guimarães Passos E o homem a choramingar: Desenho de Calixto – Solte-me. um momento.. espantado. E. espera a visita de Morfeu.

E o pensamento em casa. Ninguém o viu. em deformações gaiatas de tipos. Lá chega. agora. de seu tempo. num teatro. brilhante. à noite. Pai de família. Oscar Lopes Desenho de Marques Júnior Goulart de Andrade Desenho de Calixto O Emílio de 1901 já não é mais aquele bilontra ajanotado dos tempos do Encilhamento. Sua vida. quase uma cartilagem de tão fino. janta e arquiva-se.. Sua prosa incisiva e mordaz é toda uma seqüência amável de jeux-de-mots. com a silhouete. de uma desorganização organizada. figura obrigada das primeiras sensacionais no Teatro Lírico. atenção. porém. meus senhores. Um dizer cheio de vida e de simplicidade. naturalmente.. ali. cumprimenta os da roda e parte. ou em qualquer casa de chope. em boutades. Cristóvão. Que o homem. quando muito.. por aí. No máximo. bebe o último calisto de conhaque. sempre muito mal-equilibrado na ponta de um nariz longo. Mora em S. na sua excêntrica desordem. jamais. ainda perdeu o que lhe . Engordou. um eterno pince-nez de cordão. quase sem gestos. leve. que vai passando. gracioso. Desvarios. E. nova. Sua boêmia. tem sempre o olho no relógio. se os faz. imprevista. tem método. acolá. e de coisas. no Moulin Rouge. a barriga do Emílio de Meneses. ou sete. é só até as seis da tarde.. Carregado de embrulhos.. quando batem sete horas. pálido.. sem teatro. repontando aqui. o homem de maior prestígio nas rodas boêmias. Atenção. de costumes. De ver a atitude côncava dos que o ouvem. é uma boêmia de horário. É magro. silenciosos e atentos. Rio d’água a correr. É um conversador admirável: vivo. das madrugadas elegantes no Restaurante Campestre do Jardim Botânico..392 Luís Edmundo Município.. trabalhada em planos humorísticos.

O Rio de Janeiro do meu tempo 393 dera a jogatina da Bolsa. como um látego em chama. umas gravatas bulhentas e um chapéu-do-chile. Lopes tros. emergido de sólida papada. Mostra dois olhos pequeninos. talvez. ou sacudindo os ossos. Às vezes ele sobe e vai. banha e chapéu. E de Poemas da Morte alva caudal derrama. o carão largo e vermelho. quase a tocar a gola do casaco. Juvenal (sem Pacheco) e de bigodes grossos. Jogando a banha farta. à Rua da Alfândega. Vibrando-o. Parnaso acima. todos os anos. usa ternos comprados feitos. Fere os ouB. dos inimigos nossos E da língua fatal do Emílio de Meneses. santo Deus. benzendo-se três vezes: – Livrai-nos.. a opulência da Rima Lhe dão de egrégio poeta a quebradeira e a fama. Bigode. Sua lira é um carcaz de agudíssimas setas. Quando conclui a sua chufa e em torno espocam fortes gargalhadas. Por vezes fere fundo. que ri. sorrindo. num epitáfio traçado para ser posto em sua campa: Morreu em tal quebradeira Que nem pôde entrar no Céu Pois só levou cabeleira. dá-se um fato deveras curioso: quem mais goza do suco da pilhéria é ele próprio. No verso cultiva a sátira. O impecável da Forma. um bigode gaulês. a suspirar. a gargalhar. ousadamente esgrima.. na casa do Filomeno. É gordo. “Extraordinário!”. dois sorrisos travessos e mordazes. os “É boa!”. desses que se vão a lavar por 3 mil-réis.. . Fala-nos Desenho de Raul dele o Bastos Tigre: O florete sutil de um pérfido epigrama Não há quem. Exclama. Ao vê-lo a turba alvar de tartufos soezes. De próprio punho confessa a sua crise financeira. como o Emílio. em amplas curvas e de guias finas. Em vez dos ternos do Raunier. outros não riam. como. “Colossal!”. Ai de quem do seu verso a estultícia deprima.. então.

não o rasga.. à guisa de epitáfio. fez o retrato. A frase que diz. infeliz com o casamento. e o Pinto não pode Botar a cara de fora. o epigrama que Desenho de Marques Júnior escreve passa a medida das conveniências. Foi avô dos próprios filhos. senhor das maiores orelhas já vistas por olhar humano. não a refreia. ter-lhe-ia inspirado este engraçadíssimo epitáfio: Quando esse amador de éguas Viu da terra e cova espessa. aliás.. O resto. com certo prestígio na roda. Sai bigode. jamais. por acaso. nestes versos: Este foi dos mais completos Sem nunca sair dos trilhos. tarado amável. De outro.. Bigode.. sai bigode. nesta terra em que elas concorrem com as dos mais alentados jumentos.. Nem os bigodes do Pinto da Rocha escapam! O Pinto chega à janela Para ver surgir a aurora. Pois foi pai dos próprios netos. Para João Laje teria mandado. Da cova. Um deles. o acicate violento das suas sátiras. esta estrofe supimpa: Quando ele se achou sozinho. por vezes.. se é violenta ou brutal. Os dourados do caixão. outrossim. E forma. Surrupiou. na escuridão. Para o Bandeira Júnior.. . O necessário é que ela tenha espírito. De uma orelha fez a cova E da outra fez a tampa.. traça esta quadrinha: Morreu depois de uma sova E como não tinha campa. Disse a cova: – Abram dez léguas Para o lado da cabeça.394 Luís Edmundo Até os seus íntimos amigos sofrem. Maria de Bragança Melo Se. rigorosamente verdadeiro. de mansinho.

Pela manhã.. no ar. como um perdulário. inciso e feroz: – Pois não vês logo? Febre de mau caráter. de todas as perversidades de sua geração.. avançando. eivadas de bom-humor ou de perversidade. Posto o termômetro. onde ele está. voltam. À meia-noite. e batem-lhe no peito. Vômitos. Febre. O melhor de seu tempo passa o poeta na Colombo. afinal. que o que sucumbe é um jornalista de ética. . na realidade. um dia. Que Emílio assume a paternidade de todas as anedotas. febre ainda. a bebericar. que leva o bodoque do Emílio a sério. porém. quarenta graus. como Bocage assumiu todas as pornografias perpetradas no seu tempo. a fumar. como últimas do Emílio! Não raro.. entanto. Três esculápios à cabeceira. do Rire. Como se morre assim! Diga-se. muito feliz. Diante da nova triste.O Rio de Janeiro do meu tempo 395 Chega-se ao grupo. O boêmio Raul Braga. gozando pouca simpatia entre os que estão presentes. Fala: – Venho das Laranjeiras. Que lindo livro daria o anedotário desse homem. (O nome pouco importa. um tanto vesga. atirando. não o deixa sem resposta. embora. queda o grupo em silêncio. as flechas que ele desfere. que.) Que desgraça! Agonia! E explicando melhor: – Ontem chegou à casa. ricocheteiam. Venho de ver Fulano. formada em torno da sua pessoa. Venho de lá vendo o termômetro marcar quarenta e dois. por sentir a auréola de acolhimento. a esmo. É a cova. que espécie de febre é essa? E o Emílio. tarde. Eis. o mais lindo de seu espírito. apenas. alguém de ar triste e preocupado. da Assiette au beurre ou de Simplicissimus.. mais alta – quarenta e um. Dor de cabeça. Quantas vezes nos contam legendas do Punch. mas amigo do Emílio. trinta e nove graus. um interpela o homem da notícia: – Mas. entre os que o formam. Conferência. de curiosidade e de admiração. Médico. rigorosamente aproveitado! Apenas o livro teria que ser mais grosso do que ele próprio e assim mesmo excluindo as facécias de outros e a ele atribuídas.

O homem lembra o Moisés do Buonaroti. e ninguém sabe. – Pronto! – diz-lhe o Emílio. espessa. o grande artista dos Poemas da Morte volta à roda. mantendo o dedo ameaçador. e.396 Luís Edmundo Uma vez. longe. ∗ ∗ ∗ A nota da elegância que a dá. por alvitre do próprio Emílio. Vem voando de onde está. que pôde servir. na Colombo. dessas que buscam. quase a linha dos olhos. Ora. de improviso. Chega. sorrindo em meio à capilosidade que o mascara. para nascer. E está ele a conversar diante do seu vermute quando. Guerra é a melhor Luís Murat Desenho de Marques Júnior . com o dedo em riste. barba que lhe desce. pergunta aos circunstantes: – Sabem vocês por que razão deixou crescer. secretário da Rua do Ouvidor. Por ele indaga. todos eles poetas que escrevem versos de pés quebrados. no ar. na Colombo. apontando para o rosto do poeta. então. de cachimbo da paz. um que. furioso. num tocante sentimento de solidariedade com os seus colaboradores. Chega magro e barbado. pagou-se-lhe um vermute e um charuto. para esconder a cara! Como o caso tivesse algum espírito.. como uma ameaça de uma trágica vingança: – Deixou crescer. constata-o. sobre a linha do ventre. ainda. contam-lhe do poeta certa perfídia que o envolve. E Raul. a barba? Ninguém responde. nesse dia. reflete um pouco. chega o Raul Braga. mas não o reconhece. aparece puxando de uma perna. Raul fita-o. após seis ou oito meses passados sobre um leito de dor.. jornal do Serpa Júnior. é o Guerra Durval. este sujeito. às vezes. barba cerrada. justamente. para o “seu troco de corpo presente”. onde sofreu operação gravíssima.

alguém relata Que ele faz versos para só grafá-los Com letras de ouro. mera questão de rima. são ambos vistos na sala do Cailteau. Dá lições de elegância todo dia Às portas da Colombo. feitos de algodão em rama. sendo que não é. De um editor que queira publicá-los. Injustiça de Tigre. vol-au-vent literário. como o Serpa. um inocente refresco de limão. torreifelesco.. Adalberto. que vive a olhar os outros com um olho de ganso. através de um canudo de palha. moreno.. apenas. Lopes é o que consome de pé.. Suas estrofes têm um sabor novo. mas do país inteiro! Quanto à jeunesse dorée de fancaria. não mostra na máscara rija e semibárbara de sua bem marcada face. apenas o Brummel da Colombo. a alma de um vate ou de um . escrevendo um soneto que ficou: Este Petrônio de confeitaria. É um sujeito entroncado. E não claudicam. onde faz ponto. E é por isso que o poeta não se faz benquisto da colombiana roda. Alto. uma blague escarrada. Destoam. duro e insolente. Vol-au-vent literário. automóveis e cavalos. forte. Blague de parnasiano. Possui duzentos contos e anda à cata. É uma esplêndida figura de homem. Dias após.. com pose. da cantilena parnasiana. é realmente um elegante. Tigre recolhe a “injúria” e vinga-se. e Guerra a sorver. ∗∗ ∗ B. Um dia esse arranha-céu humano deita um olho fatal sobre a bigodeira plebéia e arrepiada do Bastos Tigre. Cujas grandes conquistas são sem conto. no tempo. em lâminas de prata: Tem carros. É o exemplar mais acabado e pronto Da jeunesse dorée de fancaria. Não receia ser posto num confronto Com qualquer mestre da diplomacia. a pose que ainda guarda até hoje. Tigre diante de um altíssimo caneco de cerveja. em voga. em colóquio amistoso. junto ao balcão. por cima de uns ombros quadrados.O Rio de Janeiro do meu tempo 397 coisa dessa gazeta literária.

calcem-lhe umas babuchas.398 Luís Edmundo sonhador. é assíduo freqüentador das tardes da Colombo. De pouco cérebro e de muita tripa.. demasiado pessoais e ridículas. o padre. Martins Fontes Desenho de J. Esse monstro de palha e de toucinho. Essas contendas. que vive decorado pelos amadores de boas rimas. definindo uma deplorável mentalidade muito fundo-de-botica. Severiano de Resende. livro ingênuo e bom. por vezes. O Emílio não gosta dele: Empertigado malandrim pachola De polainas. Que há de fazer.. Falta ao físico do poeta certa expressão de candura lírica. Mandou pôr nas botinas meia-sola E abandonou de vez Porto das Caixas. ∗ ∗ ∗ Não falta a essa roda de bebedores o prestígio da Igreja. descomedidos e orgulhosos. Seus olhos. também não gosta do Emílio: Esse que a forma lembra de uma pipa.. muito jornaleco-de-roça. toda esta gente cheia de talento e de verve. Das que vazam cachaça em vez de vinho. na verdade. Carlos Ele. ainda conseguem fazer sucesso pelo tempo. num constante friccionar de suscetibilidade e vaidades pueris? Há um tempo em que B. coriscam. descidos do Altas ou do Draa. em companhia de Sinhá Flor: A mais cheirosa flor de Pernambuco. na vida ociosa dos cafés e de confeitarias. monóculo e bombachas. que a figura será a de um mouro. Lopes se afasta da Colombo e anda pelas “capelas” do Everdosa e do Babo. A barba é rala. vivos demais. desses tisnados pelo sol. por sua vez. cheirando a almíscar e benjoim. Vistam-no com um albornoz. nascida em fúria numa queixada máscula e atrevida. . verrúmicos. justificando a autoria dos Cromos. negra..

trescalando perfumes. Seu gesto é musical. Latejam carnes. Salomés em Maqueros. . quem sabe. perturba. no Teatro Lírico! Quando ele começa a falar. senhoras de Botafogo. É um frêmito de volúpia que passa e faz. antes da dança e do festim. e excita. naves transbordantes de gente. coitado. cerrar os olhos com dulçor. Na fantasia do retábulo barroco. aquece. As beatas velhas persignam-se e fogem abandonando a igreja. vencidas. rendez-vous de elegância e de chique.... sua figura moça avulta. roçagando sedas. dos landaux.O Rio de Janeiro do meu tempo 399 Alfredo de Ambris Desenho de Marques Júnior Rotellini Desenho de Marques Júnior Lindo homem. que vêm mais para ouvir o homem. depois. encanta. pecaminosamente. vestindo a primor. Arfam. a ramalhar rosários. E a fila dos coupés. É por isso que o perfume evolado dos turíbulos perturba tanto. o pensamento no Senhor.. Um sucesso mundano que impressiona a padralhada que não se barbeia e ainda toma rapé.. calçando no Incroyable. irradia. redonda. dos phaetons. o menino Jesus é ele. Quando prega. Linda inteligência. os seus sermões provocam uma assistência enorme. o Anti-Cristo. que está falando.. de gente boa. mandando cortar batinas na Casa Raunier. túmidos. São verdadeiros recitais literários.. Profano incenso! As mulheres. Sua voz é clara. em parada. diga-se sem mentir.. da Tijuca. Para elas é o Anjo Revel. como uma nota pagã.. educada e fina. máscula. à porta da igreja. que o sacerdote de Deus. os seios. fica completamente esquecido nos braços pios da Virgem. porque o outro. como por uma grande noite de ópera. das Laranjeiras. o credo na boca. têm sobre ele os olhos fascinados.

padre Severiano!. francesa e linda. o cálice vazio de vermute: – Minhas filhas! E as mamãs. Com muita compostura Severiano as recebe. sobre certos pontos obscuros do catecismo. dia de jejum...400 Luís Edmundo A Colombo. a que João do Rio cita nas suas Religiões do Rio. menos às sextas-feiras. costureira da Rua do Ouvidor. todas as provas do reconhecimento que uma devota pode dar a um sacerdote e uma mulher a um homem. no intuito de robustecer a fé cristã... de longe. asinhas de frango.. a mordiscar. teve grande paixão pelo padre. empurrando. Afirma-se que ele não manda aos seus sacristães essas provas de ternura feminina. Severiano não consegue.. há senhoras da mais alta sociedade que o procuram até em casa.. muito cuidadinho. comovidamente.. como se afirma.. gozando a graça cristã do quadro. converter os grandes ateus da roda. num gesto de sacrifício e de piedade. em discretas e amáveis olhadelas.. como certo. O que se sabe. . Há gente de toda espécie que o disputa na hora do confessionário. porém. E muito cuidadinho com os gabirus.. que na sua bucólica residência da Rua Tavares Bastos. tirando o charuto da boca. camarões recheados. Sabe-se mais. ele a recebe todos os dias. enchendo-o de perguntas sobre os dias das novas prédicas.. Grande pecado. é que. também. Afirma-se que a célebre “Princesa” Matilde.. íntima de Madame de Tebas. Há moçoilas que lhe vêm beijar os dedos. depois. com risinhos histéricos e ademanes beatos. padre Severiano de Resende converteu certa Valentine. Lembre-se de que é pecado namorar. por causa do padre. contramestra no Palais Royal.. Má língua! Não se sabe. – Bênção. croquetes de siri. Acredita-se. – Deus as abençoe. minhas filhas. que pululam. formosas e virtuosíssimas senhoras.. sabe-se que a costureira amável deu a ele. sacerdotisa do futuro.. algumas vezes.. Na Colombo.. lembra um recanto pagão de sacristia.

desgostam os doutores da igreja. Depois. mais outro. Vem um e diz-lhe que o padre usa ceroulas de seda (que horror!). beija-lhe o anel de ametista e sai. sem hora de vermute. Há um pasquim. sem Colombo. e dentro de um paletó de sarja cor de cinza e de um chapéu-do-chile. passadas entre libações de todo gênero e boêmios sem religião. que vivem a cantar a Grécia. Não é mais o mesmo. O caso é que o Arcebispo não tem mais ouvidos para queixas. gorda e vulgar. Curva-se ante o grande varão. João do Rio explora até em livro! Jornais facetos da terra andam a publicar-lhe o retrato em charges desrespeitosas. outro que manda comprar. E o Arcebispo.. após. que ele escreve nos jornais. É nesse momento que Severiano sente pesar-lhe a batina como uma vestimenta de ferro. As suas crônicas profanas. obra do Vale ou do Raunier. a afrontosa mania de meter. E fala-lhe docemente. rodapés de gazetas sérias vivem a glosar-lhe os hábitos. ignóbil papel. respeitoso. um hediondo pára-águas! Que horror! Saudando o Emílio. frase que o Sr. entre mulheres de mantilhas (que não gostam de padres bonitos) e bons católicos ainda melhores jogadores de manilha. O homem acaba de perder a auréola. o aplomb. Alarmada ou ciumenta.. que vai além. afirmações surgem pretendendo provar. só para fazer corte às atrizes.. Afrodite e outras deusas nuas do Olimpo? Um verdadeiro escândalo. é apenas um joão-ninguém. atirando às urtigas a carreira eclesiástica.. aliás bem pouco de acordo com a dignidade mantida pelo clero. sob o braço. acaba por lhe acenar com uma paróquia em Minas.. dele ouve: . que refletem na Igreja. revistinhas grivoises e que é assinante do Le Cochon. Numa delas o padre chega a falar em “esbórnias de jejuns”. o Rio Nu. até. uma figura chata. Foi-se-lhe a distinção. tanto êxito ofende a modéstia dos outros. muito além. em Paris. E as suas tardes na Colombo. que o padre freqüenta a casa da Susana e o antro do Chico-Bumba! É o cúmulo! Arcoverde manda-o chamar. sem roda de Bilac.. escritas com freqüência nos jornais. que não cita nem a metade do que sabe ou do que lhe contam. mostra-lho. vindas de toda parte.O Rio de Janeiro do meu tempo 401 A Vigararia-Geral vive alarmada com os sucessos do padre. que fala dos folhetins de crítica de teatros. entrando na Colombo. Vamos vê-lo. Enfim. porém despido de ordens. Naturalmente. sem o prestígio estético das suas lindas vestes sacerdotais.

402 Luís Edmundo – Severiano. próxima ao edifício onde funciona a Biblioteca Nacional. se tu pensas que assim te mostras menos padre. o magnífico! Mora no Navio da Lapa. uma casa quase abandonada. baixa. E diz uma grande verdade. enganas-te. em lugar de chuveiro para banho. todo remendado. como o dos barcos sobre as águas do mar. quando faz blagues. quando ora. de piloto. Banville. a alegre ruína. Oscar Lopes é o imediato. pelo cupim. grita: – Quem vem lá? É a senha. é bengala de batina! ∗ ∗ ∗ O benjamim da roda é Martins Fontes. Olha que guarda-chuva. Fontes. há mais de ano. o Goulart de Andrade.. às vezes.. faltam-lhe várias telhas. e em verso: Hugo. o que existe é um cano de chumbo. salta sozinho e esgota a caixa-d’água. de cima. que existe para as bandas do largo do mesmo nome. que impressiona profundamente aos que o conhecem quando conversa. sempre. Leconte. Usa um pijama com alamares.. antigo. quando dele fala aos novos. quando escreve. o que fica em casa. dão aos que sobre elas caminham a impressão do roulis ou do tangage. Fontes é o oficial-maior do Navio. o oficial-de-dia. sem trinco e que se amarra com uma gravata velha. Serve. De qualquer forma um poeta parnasiano. C. logo: – Passe de largo! Não desce escada de corda. as vigas que suportam as tábuas onde se pisa. – O maior de vocês todos – afirma Bilac. no caso contrário. entupido e. mas.. tem o W. Heredia. que. O santo deve ser dado em francês.. que pertenceu ao Luís Paulino. co midas aqui e ali. decrépito sobrado que o Município condenou e onde uma meia-dúzia de boêmios se instala. o oficial de serviço grita. fecha o portaló. . que é. Navio porque o assoalho da casa balança. e empurra a porta da rua que não tem chave. Não possui vidros nos caixilhos das janelas. que é uma cancela torta. feitos de ligas velhas. Quando chega uma visita para “bordo”. com um tampão de madeira e pano que. por vezes. É um rapazola com cara de bebê-chorão..

que ele pintou no mesmo pano. de fralda recortada em bicos. dourado ao fogo. Foi um rolo sério. que era um modesto cordão que vinha pacatamente de Madureira deixar seu estandarte no Jornal do Brasil. os camarões. alusão aos aplausos que ele. septissílabos de camarão. a lagosta e outros componentes do mistifório culinário formando constelações. No prato. sempre. se mete a ajudá-lo nesse manjar de deuses). mas que ainda serve ao fogão dos moradores da loja. o Oscar Lopes (que. a clara em plenilúnio de banda de porco. é a bandeira. Curioso. numa cozinha onde. branca e com esta legenda em latim: Redde Cesari quae sunt Cesari. à frente do estandarte. açulando César Lopes ante a aparição da nova embarcação: – Eia! Avante! Abordagem! Martins Fontes é um ser extraordinário. simbólica figura que deve representar o flibusteiro da Lapa. a comezaina tem fulgurações celestes: o sol é o globo maciço de uma gema de ovo. como a barca de Noé por sobre as águas. de folha-de-flandres que arqueia um pouco. é uma camisa velha. a Balança. saiu à rua e dele os jornais se ocuparam. reclama de quem admira a imagem do horrível casarão. em hipóteses. a Grande-Ursa. registrando o distúrbio que Martins Fontes provocou no Largo da Carioca. composta de alexandrinos de lagosta. onde o Fontes berrava como louco. César Lopes. o Sagitário. todo um mapa do céu. arvora-se em cozinheiro do navio. sonetos com consoantes de apoio nas azeitonas ou no palmito. com o Cruzeiro do Sul.. sulcando ondas tempestuosas. Conhecem todos os tripulantes uma famosa mayonaise do boêmio. conseguidas à custa de muito anil e graxa de sapato. quando a equipagem do lapense deu com o Navio Esperança. vão sendo sacrificadas as portas interiores e até o tabuado do assoalho ou do teto de certos aposentos. na falta de lenha. em forma de estandarte carnavalesco. Esse estandarte. nesse barco loidiano. o Escorpião. tudo isso parnasianamente rimado em azeite francês. não raro. a lua. colocado nos fundos do pardieiro. um cano de chaminé. que César Lopes imaginou para ser desfraldada no mastro da popa. sem mangas.O Rio de Janeiro do meu tempo 403 Fontes.. por vezes. em vinagre inglês e mostarda alemã. num carnaval. segundo explica. A bandeira. . baladas em folha de alface.

avó de Oscar. é que percebemos que ele não é dos nossos. “mulhere” e “preguntare”. Despede-se de Oscar Lopes. em meio. atravessa o jardim em busca da mensagem tenebrosa. quase em lágrimas. pelos cálculos. grande irmão. (assinado) – Álvares de Azevedo Sobrinho Martins Fontes”. dlin. na mais estreita comunhão. espírito de seu espírito.. Mobilizam-se lenços. Parte pela manhã. a voz clara do estafeta.. Aberto o telegrama. adapta-se de tal forma ao ambiente em que vive. pelas duas ou três horas da tarde...404 Luís Edmundo Um dia. Oscar. a campainha do portão que sacoleja forte: dlin. Vive entre brasileiros. porque tem muito talento. Como tal. E. que só quando diz “opreta”. justamente nesse dia. a Petrópolis. um telegrama triste. um caráter sem jaça. Nada! De repente. Sob um bico de gás congrega-se a família. oito da noite. vai ele. compenetrado e sério. dez.. deve ser dada de um instante para outro. dlin. Um encoraja o outro. Ora. Clemente. alma de sua alma. de Fortaleza. até. em seguida.. corre. no entanto. em companhia de Goulart de Andrade. é João Lopes quem o lê. Volta nervoso. a confirmação da nova que. Seis horas da tarde. É português de nascimento. Desenho de Renato ∗ ∗ ∗ A roda possui um grande caricaturista e ainda melhor ilustrador. esta notícia enorme: “Oscar. A família reunida. irmão de verdade. Lê alto. meia-noite. como se fosse embarcar para a China ou para o Japão. numa rajada. aos . Julião Machado. “ningain”. Com pena. no Ceará. espera. em S. Padre Severiano de Resende Desenho de Belmiro onze. em Petrópolis faz um luar magnífico. a família Lopes recebe. Entra em agonia a velha mãe de João Lopes. que berra: – Telegrama! A família precipita-se. um coração de ouro. apenas.

orientando o desenho. muito pálido. estupidamente. numa época em que João Laje. não assinarás o trabalho. Conto. Bilac chamava-o. que lhe vigiava de perto as maroteiras e o topete. amansa-jacobinos. sem ofender ninguém. pouco antes de morrer. só para não magoá-lo. podendo até. Julião curva-se ante a ordem de seu patrão e sai. Julião. escapole-me o canivete. ao autor destas linhas. com a mão esquerda. com talento. um lanho enorme. Julião permaneceu impossibilitado de trabalhar para João Laje. Nem poderei desenhar tão cedo. mudar-se o traço do mesmo. maquina uma caricatura ignóbil para fazer acompanhar de uma legenda infame. de costumes (nossos costumes) de pessoas (nossas pessoas) com chiste. era sovado e confundido por Edmundo Bittencourt. Vai para casa fazer o que se lhe pede. Faz crítica de acontecimentos. ao mesmo tempo. um fato extraordinário. Às sete da noite entra pelo O País adentro. para se colocar neutro num sério caso que já atirava brasileiros contra portugueses e. quase decepo um dedo. Chama Julião. seu empregado. . Pede para as sete horas da noite a charge viperina. zás. patifão de marca. com muito espírito. no indicador da mão direita. E durante o tempo em que se manteve a polêmica entre os dois jornalistas. não desejando desobedecer às ordens de quem lhe dava aquilo com que pagava a casa e com que comprava o pão. havia propositadamente se ferido. não sem acrescentar: – Por causa das dúvidas. referido por José Malhoa. quando desejava pôr em relevo a interessante fibra moral do caricaturista. mas. São duas da tarde ou três. Veja! Tira os panos que envolvem a mão e mostra-lhe. e. ilustrador da folha. Julião trabalhava no O País. E assim fala a João Laje: – Ao apontar um lápis. em artigo que escreve. a propósito de Julião. e dá-lhe a encomenda. para melhor despistamento. por eles querido e admirado. Laje. para vingar-se de Edmundo. a mão direita envolvida num grande pano. porque os exaltados nacionalistas que dele se aproximavam refreavam os seus entusiasmos patrióticos. Não fiz o desenho. com graça.O Rio de Janeiro do meu tempo 405 mais rubros e extremados nacionalistas.

Sonora e irônica gargalhada de Bilac. Fala Bilac: – Tu que também nasceste na risonha Itália. Quando eles se sentam. um camarão. riscados a lápis. De Ambris. ao garçom encarregado de servir à mesa. jamais. Afetando. o garçom entrega o menu em mãos de Bilac. responde tranqüilamente o outro. e outros boêmios.. italiano. é gambero! É boa! É mesmo muito boa! – E é! – faz o outro. indaga do ingênuo De Ambris: – Que quer dizer gambero na tua língua. depois.. de sua magnífica cultura. de seu espírito. displicente. já de volta. assim. forte. louro. como flor. Percebe-se que onde ele chega. Entre eles o poeta descobre uma fritada de gambero. gambero é camarão? – Gambero não é camarão. fala ao gerente do estabelecimento. sobretudo. discretamente. Nove e meia da noite. às tertúlias literárias da Colombo.. simples. ó louro filho da Toscana? – Gambero é camarão –. Uma vez vai jantar em companhia de Bilac. e. Fingindo. . sorrindo. em italiano. a maior das naturalidades. Sabe muito bem o que é. De Ambris sorri. um lírio.. ensina-nos. língua tão bela e rica! Ou tu não viste jamais. insiste ainda: – O amigo De Ambris quer nos afirmar que camarão. porém. ingênuo. sem demora. naturalmente. tanta inocência num homem de sua idade. meigo. ignorância. Sr. por sua vez. É alto. que acrescenta: – Como se pode esquecer. em um restaurante italiano à Rua da Assembléia. funcionário da Agência Havas e que não falta. sempre. Chega a nos enternecer tanta doçura. e o grande poeta levanta-se buscando o lavabo distante. Bilac.. Vários pratos já não existem. responde. jornalista. De Ambris é uma flor e. – Pois eu contesto – diz Bilac muito sério – e vou provar. Chega o homem que serve. que me sobra a razão: – Garçom! – chama. Bom. em dias de tua vida. Como homem.406 Luís Edmundo Outro estrangeiro benquisto e admirado é De Ambris. aqui. como advertência ao freguês..

O Rio de Janeiro do meu tempo 407 De Ambris olha o homem. e escapole por sua vez. todos italianos. ainda de chapéu à cabeça – enquanto. nunca tivessem comido camarão em toda a vida. mas. Depois vão com ele. Na hora de sair. O gerente.. De Ambris. muito lentamente. é o que é.. que é perto.. que já foi por ele preparado. refestelado. porém. mas. já na rua. aturdido: – Como não é? Baixando os olhos o garçom sorri e vai embora. Vocês é que só ouvem esses pobres-diabos que. Repete a pergunta. O gerente perturba-se. . eu vou até o quarto buscar o meu tira-teimas. – Um momento – diz ele. que eu vos mostrarei as minhas síncopes de memória. Vamos até a casa. inadiável visita a um amigo.. Fontes despede-se. Vão encontrar o boêmio. não compreende a intenção do sorriso. Muda de assunto. A casa de De Ambris é no Flamengo. longe. a dona da mesma recebe-o com um sorriso suspeito. gambero não quer dizer camarão. e. um dicionário qualquer decide esta fútil contenda... geralmente. caminho do dicionário. responde De Ambris. pretextando.. retira-se não sem ter. Há como que um acordo telepático. E a dizer: – Todos desta casa. com Bilac. são indícios de moléstias graves. De Ambris aborrece-se.. De Ambris tem o ar de um homem assombrado. que em italiano. a lustrar os borzeguins. depois. sai primeiro. fazendo esforços para não sorrir. e entra no brinquedo. – Síncopes de memória. Martins Fontes. apressado. Sei o que digo. e. Falam ambos no idioma comum. que gambero não é camarão. que faz parte do gru po. um olhar inteligente. um pouco. De Ambris deve amanhã ir ao meu consultório. porque essas síncopes de memória. peremptoriamente. porém. de uma saltada. talvez. já me afirmaram. embarafusta por uma loja italiana de engraxates. numa cadeira. Bilac chama o gerente. logo. por sua vez. Os amigos retêm De Ambris um pouco. muito sério afirma. Assim que o grupo chega. O jantar é profuso e alegre. não.

prossegue. a correr. onde De Ambris trabalha. Maria fuma. a fim de não revelar a infalível derrota. assim. lê. que vai à Colombo só para comer croquetes de siri.. contudo. de propósito. Ei-la – Gambero. surge em meio a essa roda de literatura da Colombo. porém. ∗ ∗ ∗ Há uma jovem e bela mulher que. que se telegrafe a Rotellini. com um volume do dicionário. a página comprometedora. muito antes. o Guima – e feitos à moda da Suíça. vendo chegar De Ambris e os seus amigos. em São Paulo. No dia seguinte a resposta do diretor do Fanfulla bate na Agência Havas. diretor do Fanfulla. – Da Suíça? E onde viu você siri na Suíça? E o Guima.. terrível: – Tu. pensava na visita de Fontes. entanto. farsante. deveria estar o vocábulo gambero! É quando Bilac. na questão! Parte o telegrama na mesma noite. erguendo o braço no ar. Afirma. Chama-se ela Maria de Bragança e Melo e diz-se prima do rei de Portugal. com Severiano de Resende. De Ambris. fizera um trabalho impecável. Maria bebe e discute. enorme.408 Luís Edmundo Volta espantadíssimo.. Bilac propõe. conhece a grafologia e detesta o Magnus Sondall. um dia. arrancaste. Maria cultiva as ciências ocultas.. aí. uma boina da mesma cor derrubada sobre os olhos negros.. Despedem-se todos. malfeitor! Confessa! Fontes. justamente. o magnífico.. um que é hierofante e prega o nudismo numa praia da ilha do Governador. explicando: . explicando: – Pois não é que me arrancaram a página do livro onde. de preferência. Quando a dona da pensão sorria. brada. – São muito bons – diz-lhe. não raro. grande amigo da roda. Deve ser. nunca foi camarão! (assinado) – Rotellini.. por horas em que os guardas-noturnos estão dor mindo. Arrancaram? Mentira! Tu a arrancaste. É por vezes. não podia compreender o desaparecimento misterioso daquela página. Volta Bilac ao telégrafo.. aberto. toda de preto. A blague. para que sirva de árbitro. vivos e expressivos. que esses homens de espírito se divertem.

Foi roendo o corpo inteiro.O Rio de Janeiro do meu tempo 409 – Por isso mesmo. mas ninguém vê. da autoria do Emílio. morreu no Amazonas. pelo tempo do apogeu da borracha. Trepa. às vezes. Essa Maria de Melo. certamente. para um tílburi e voa para as bandas da Saúde. Essas croquettes de siri. Roeu-se todo. garante-me que os versos foram escritos para o Guarda. que é de cor preta. com um grande G. Os dedos e as mãos roeu. certa vez. o oxigênio Que existe. mas nada sabe dizer se eram. O Guarda. Henrique Marques de Holanda. acompanhado de sua senhora. Outra quadrilha. está no bar que havia numa dependência do mesmo. também são feitas sem siri. vagamente pernambucano. Maria. mas. quando. imediatamente. na Colombo. se planta à porta da confeitaria. Lembra. Diz-se fisiólatra e amigo do famoso Sar Peladan. a torcer um bigode maior que o do Bastos Tigre. que é uma espécie de consultor-técnico de que lanço mão sempre que dúvidas me surgem na evocação das figuras de outros tempos. Viveu anos em Paris. em Botafogo. Dá-se ares de gênio e é um emérito roedor de unhas: Roía as unhas primeiro. E morreu. Grande apaixonado da Maria Melo é um certo Olímpio da Guarda. os mesmos... Pereira Passos manda construir o Pavilhão de Regatas. tal qual. quanJulião Machado do assiste a uma cena edificante – o proprietáDesenho de Gil rio ou arrendatário do elegante negócio impede que nele entre o conhecido político Monteiro Lopes. do mesmo autor e com o endereço ao gênio do grande roedor de unhas. aqui chegada nos primeiros anos do século. Gênio. onde os navios fazem o serviço de . dizem. tipo melancólico e bem vestido que. mais tarde. é essa: Olímpio da Guarda é um gênio. não se sabe bem se pensando ainda na formosa Maria.

A Álvares de Azevedo. Acaba mal. pergunta-lhe Bilac: E a Capital? E a Capital? E a Capital? Álvares: – Vai muito bem. gazeta que tem uma vida efêmera. É ela. – Mas. que foi a maior já assistida nas platéias cariocas e que acabou no meio da rua. em Niterói.. mas sempre chegam: Félix Bocaiúva. tu não és casado? – lembra-lhe alguém.. Não se lembrava. Era.. logo. Maria de Bragança e Melo é muito popular. creio. do maestro português Otávio Keil. moreno. porém. cerca de trinta. foram sem o menor resultado. A Garra. Félix faz questão de ser incluído na lista dos fundadores. Guima: – Acaba mal. vai muito bem.. robustos estivadores. a famosa Capital. Félix. Quando estudante. das primeiras aqui instaladas. vai muito bem. Casanova e Raul desenham. Henrique Marques de Holanda. por exemplo. do Artur Guaraná. Também. idéia. a barba curta e em bico. todos homens de cor preta. à maneira de andó. é uma figura singularmente expressiva e particularmente estimada. a propósito do periódico. nesse dia.. que invadem. chefiando grupos de aplauditistas ou de vaístas. Acaba mal. mas. Um dia improvisa-se.. Dentro de minutos volta. onde Calixto. E querida. Por ocasião dos sucessos da ópera Dª Branca.. que chega. na Colombo. o bar. com o auxílio intelectual da roda. em uma luta sangrenta com a polícia.. Os esforços do boêmio. Ele e as suas eternas distrações. Álvares de Azevedo Sobrinho é o que monta.410 Luís Edmundo carga de mercadorias. as galerias do Lírico em constante sobressalto.. possui uma voz quente e afinada de barítono.. sem que o seu arrendatário possa ter tempo de articular uma só palavra de protesto. dentro de vários veículos. trazendo... ouve.. em meio a esse cenáculo de literatos e de boêmios. finalmente. Também. que vamos encontrar. sempre. Também. Uma vez funda-se o Clube dos Celibatários. Holanda: – Também. Não esquecer os que chegam mais tarde. trouxe.. uma curiosa e divertida quadra. Holanda fez tudo para impedir aquela famosa vaia. Forte. Aqui funda a Voz do Povo e um semanário ilustrado.. depois à frente de um Albergue Noturno e de umas célebres Cozinhas Econômicas. ..

Uma vez Zeca enumerava as viagens feitas na Europa. O caso provoca enér gica reclamação di plomática da nos sa parte. Patranha inocente de Zeca! Dizia isso fumando cigarrilhas turcas. chegan do do Rio à ci da de onde há muito exercia o seu pos to num gran de ambi en te de ad mi ra ção e simpatia. anos passados em França. é outra figura das de relevo nessas reuniões literárias. entretanto. poeta. belo cultor do verso parnasiano. pede transferência de posto. Alberto Ramos. Zeca. Holanda.. na Ásia. As satisfações categóricas e imediatas pedidas ao governo português. E estava a discorrer quando o Amorim Júnior o interrompe: . no Japão. ocorridos entre os dessa composição heterogênea de caracteres de impulsões. na África. filho do Patrocínio. o Zeca. o avô de Zeca não tinha nada de hindu.. esse gran de ami go de Portugal. Zeca do Patrocínio! As viagens que ele fez. Mentira. por ab sur das suspeitas. os príncipes que ele conheceu. no Pendjab. é vi olentamente me tido na cadeia. dorée sur tranche e com gravuras a cor.. agrada-o. É positivamente encantador. sobretudo quando se mostra como uma edição correta e aumentada do Barão de Munchausen. Holanda está sempre agindo para que a corrente se conserve unida e forte. tu pra lá”. próximo à fronteira do Afeganistão. sendo enviado para a França onde fica durante muito tempo. que ele amou. que não poupa muitos. já com um lindo nome nas letras. afaga-o. que nasceu em Mianvali. na intimidade do “tu pra cá. ao de sembarcar. na Oceania. bem como Leôncio Correia. na Nova Zelândia.. Zeca! – Meu bisavô.. na Itália. ainda. côn sul em exercício do Brasil em Lis boa. cintilante espírito que começa a ser dilapidado pela mais desenfreada das boêmias. Não esquecer. e todas apaixonadas pelo bel hindou que era ele. edição de luxo. nasceu em Maxambomba. Espécie de reajustador dos desequilíbrios constantes. aliás. em Marrocos. Seu prestígio nas tertúlias da Colombo é enorme. na Alemanha. felizmente. Emílio. respeita-o. na Arábia. as mulheres mais lindas do mundo..O Rio de Janeiro do meu tempo 411 Mais tarde. liquidam a questão. na China.

Certa vez aparece esta quadrinha recitada. por exemplo. jornalista e autor dramático. de quem se diz que escreve um livro sobre Nietszche. todas as tardes. disse: – Não prossiga. ack- . para tomar um “Mônica”. à socapa. oh. enrodilhado sobre um grupo de malas postais. nada entenderá. não é. o que rido Ca xambu. como talvez se pense. Henrique Chaves. vai um dia. é repórter. Há.. composta só de homens de livro e homens de jornal. E o Manuel do Aveiro. que cambada de Chaves! Que grossa patifaria! De dia é o Henrique Chaves. Foi para ele.. entretanto. e que. um de bigodes manchus e voz caver no sa.. a sono solto. Manuel. Estive tomando as minhas notas. do Olimpo. César de Mesqui ta.412 Luís Edmundo – Pare aí. o Costa Nogueira. a bordo de um navio. Com todas essas estadas em cada país você já está com 108 anos! Amorim Júnior é outro com fama de espirituoso conversador. ainda. E dirigindo-se ao garçom: – Faça o favor de arranjar um pedaço de giz para que este cavalheiro possa tomar algumas notas. da Tribuna. Domin gos Car doso. ninguém sabe. se escreve. o Gastão Bousquet. a serviço... Dermeval da Fonseca. vendo que escrevia notas a lápis no punho da camisa. de quem Leôncio Correia tanto nos fala. alusão a certo Melo da polícia que passou por possuí-la em idos tempos. Há. a Vênus do Melo. mas que não logra a simpatia dos da roda? O homem fede a sardinha assada e muda roupa branca só de quinze em quinze dias. De noite é o Chaves Faria! A roda. Empregado dos Correios. desce. vivem a cortejar a mesma deusa que. “seu” Zeca. depois.. já cor de chocolate. acktor. porque na hora do vapor largar ele está dormindo. na confeitaria: Oh. Oscar Rosas. Há quem afirme que esses Chaves. na Pascoal. na Colombo. muito amigos. Chaves de Faria. o Costa Nogueira que pronuncia ackitividade. Entra no bar que no mesmo existe e acaba desembarcando na Bahia. porque você. A deusa é Vênus. sempre juntos. que o Nei. nos seus punhos.

Pobres! Um houve. o nome dos heróis tombados no rumor da esplêndida batalha. muito a propósito: – Às oikto horas e trinckta minucktos. querendo saber a hora em que o espetáculo começa: – A que horas começa o ackto? Respondem-lhe. o desastre de Aduá e o nome de Menelik era erguido ao pináculo da glória. coração de ouro. junto a uma área suja. amarelo e manchado de branco. ao Lebrão. em 1896. Boca-Negra. repetiam. dias após.. Certa vez pergunta ele. o nascimento de três cachorros. nas ruas. tinha dores de parto. que se salvou – macho. num teatro. uma cadela enorme. do Guyans ao Danakils.. porém. de gente que ele até nem conhece! ∗ ∗ ∗ Quando em março. guerreiros da antiga Líbia entoavam cânticos festivos em louvor ao rei etíope. generosamente pagando as despesas de todos. com clangor. quando na sisuda Roma o pavilhão tricolor velava-se de crepe e as multidões. Daí vir o Lagosta informar. baixinho. ainda de olhos fechados. quando. meu caro. Dois morreram. e os seus indefectíveis embrulhos.O Rio de Janeiro do meu tempo 413 triz. Menelik Desenho de Calixto . na parte traseira da Confeitaria Colombo. os telegramas da Havas anunciavam. em ponckto! Não esquecer o Olímpio Nieméier.

414 Luís Edmundo Esse foi que recebeu o nome de Menelik. a gana Então lhe chega. pelo tempo. Dizia. Come até as cinco da tarde. Leôncio Correia Desenho de Falstaff Ele é um cão que não morde. depois dessa hora. É um ser que raciocina. os mordedores! Não há. Parte integrante do negócio. um ser que pensa. Dá-se ao respeito. gordo. pintando-o. . rola para os pés dos literatos ou então para os das cocottes e. farto e feliz. pouco tempo depois. Que detesta o que é mau. Menelik cresceu. muito bem. E que é dotado de uma sorte imensa! Somente abana a cauda por debique E trata com suprema indiferença Certos amigos como o Rocha – o Henrique. mole. Raramente as persegue. Procurado. consolado. pela mão das sinhazinhas e nhanhãs. que ama o que é chique. Querido.. Em 1901 é um cão espesso. Mas quando mordem o Lebrão. A pobre mãe. dado pelo Lebrão.. ele as olha de revés. que vive portas adentro da confeitaria. Com quem vive em constante desavença. peludo e sonolento. talvez. aí ressona. e. herói de uma época. meus senhores. que era de raça terra-nova. idéia de cão mais popular em toda esta cidade. ocioso. que amava os grandes nomes e particularmente detestava a Itália. o Emílio de Meneses: Não é um simples cachorro o Menelik. ganhou cachaço e ventre. Engordou. finou-se. Quando as cadelas moças passam na Rua Gonçalves Dias. e morde. Conhece toda a atual vida mundana E o segredo de todos os amores Desde a Tijuca até Copacabana.

. . . . . .. Entre dez moços que fazem literatura. Guerra aos ignaros copiadores das Odes funambulesques e dos Trophées. . . O que não pode continuar – acrescenta-se – é essa arte de representação direta. . . . . oito pensam assim. . de outro lado. É a moderna escola.. Novas maneiras para criar a emoção! Processos novos para apresentação de uma forma simples. . . . . Capítulo 22 As hostes novas da nossa literatura AS HOSTES NOVAS DA NOSSA LITERATURA – MOVIMENTO SIMBOLISTA – FIGURAS CURIOSAS DESSE MOVIMENTO – A COROAÇÃO DO POETA LUÍS DELFINO – ANARQUISMO E SOCIALISMO – RELAÇÕES EXTRAORDINÁRIAS – DOURADA E RISONHA MISÉRIA UANDO o século começa. e. de um lado. as hostes novas da nossa literatura vivem assanhadas pelo simbolismo. violenta oposição à prosa dos que vivem de ancinho de ouro e remexer o lixo vil das sensações terrenas. que se chama realismo na prosa e parnasianismo na poesia. natural e de todo contrária à habilidade dos malabaristas das letras. prosaica e vil.. . . . . . Vão ruir por terra – diz-se – as tendências ronceiras que dominam as elites intelectuais. . É a dourada esperança de um grande renascimento literário. . .

uma miséria. porém. temos o simbolismo gongórico do Sr. prega o novo credo. Nada de literatura de peso e de medida. pelos dias que correm. Singularidades da terra americana. como pauta de Alfândega.416 Luís Edmundo E de onde vem todo esse programa de reformas? Da amada França. pagando. a convenção de fórmulas que o tempo e um uso imoderado tornam antipáticas e cediças. desancando os “velhos” da literatura: – O que eles querem.. “tão fundo onde já não havia mais Deus”. por vezes. Tudo exageração ou hipérbole. em caixotes embarcados no Havre e aqui recebidos pelos livreiros Garnier e Briguiet. do ritmozinho certo. o pronomezinho levado a sério só para não dar dores de cabeça ao Dr. afinal. que escreve o Cavaleiro do Luar (poema simbólico onde existe um famoso “oceano de erisipelas”). exageradamente levantando o queixo do Sr. nunca. um homem que até parece ficou todo preto de tanto estudar gramática. com a métrica do Castilho. vate que já resvalou da crista de um soneto para o funil de um tremendíssimo abismo. Efeitos do calor e da umidade. assim como possuímos os colarinhos de dez centímetros de altura. feita para a delícia do paladar do burguês que pensa devagar e não muda. Gustavo Santiago. observando regulamentos e estabelecendo horários. E. as idéias importadas passam tais as formigas que se vêem através de grossos vidros de aumento. do hemistíquio. No Brasil. Fora a poesia da consoante de apoio. Pode-se mais admitir. Ataulfo de Paiva. a mecânica das coisas. Pelo rio Amazonas há vitórias-régias onde cabem. Gustavo Santiago. da estrofe recortadinha. como os das estradas de ferro. ignobilmente. retificando as dobras de uma enorme gravata posta em laço Lavallière. que é coisa ainda mais incômoda e muito mais alta. o número de sílabas de um verso concordando. Hemetério dos Santos. por princípio. o respeito pelo adjetivo com a acepção rigorosa do dicionário. À porta do Garnier. é o status quo. dez e doze siriemas em concílio. facetadazinha e torcida como uma rosca de tostão.. Detestemos. por Figueiredo Pimentel Desenho de Armando Pacheco burrice ou por hábito! . apenas.

um dia.. sal e pimenta-do-reino. sem tirar nem pôr. – Ouça – responde o poeta: – eu. fomos todos nós.. na assomada do século. a “múmia” do Machado de Assis. assim. Memórias de Brás Cubas e D. pessoas amigas da vizinhança e da família. quando morre. Os anos. vinagre. assinando futilidades que se conhecem pelos nomes de Quincas Borba.. Quando Fagundes dos Santos. por vezes. que acaba um famoso poema medieval intitulado Dona Urraca. Casmurro. no “homem do chuchu”. que ele o é. ontem. o excêntrico e simpaticíssimo Santiago que ainda compra. não.O Rio de Janeiro do meu tempo 417 Assim fala o revolucionário Santiago. pondo as mãos na cava do colete. é ele. um bom velho. não raro recitando com voz untuosa e trêmula: Eu sou como o formoso Cavaleiro Que adormeceu à branca luz do luar. E. onde o poeta recebe a corte de seus inúmeros admiradores. tu malhas “os crostas” e os “medalhões” da literatura indígena. que cada poeta com talento é um príncipe. o pai inclusive. porém. em uma ilha. à porta do Laemmert. houve quem te visse saudar. pencas e pencas de violetas para transformá-las em salada. porém. leva para a cova a lágrima sentida de todos nós. e sou. por isso. formoso Cavaleiro. estudar. diante da família escandalizadíssima. mas. Certa vez declara ao João do Rio: – Penso como Louis Dumur.. que come em casa. em São Cristóvão. depois. Penso. português de nascimento e cheio de remorso por ter tido a idéia de mandar o filho. a Coimbra. E nunca mais que pôde despertar!. um pouco. entra com o . tiro-lhe o meu chapéu. como uma homenagem ao literato sem talento e sem obra que vive. acabam transformando esse bom e querido poeta que. com molho de azeite. por essa época risonha em que os vinte anos nos floriam. em símbolo. entanto. – Gustavo – perguntam-lhe certa vez –. feliz! A sua ilha é um terraço para os lados da Rua de São Januário. por aí. cravando-nos dois olhos que faúlham através das lentes fortes de um grosso pince-nez de tartaruga. E nunca mais. tal qual. Assim. em versos livres e loucos. ao funcionário exemplar da Secretaria da Viação. também.

fatalidades. o literato do país. somente. E quando dizem: – Ainda – toma um ar triste de cônego em jejum. na revista Rosa Cruz. indo contundir as glórias de ultramar. preferiam. Gregório de Matos. decorado por todos nós e que se intitula: Deuses de pé-de-barro. sacudindo crinas e cauda. Coppée e outros . De uma carta de Saturnino Meireles a Maurício Jobim: “Se eles tiverem a audácia de inaugurar o busto da azêmola do Casimiro. transpondo oceanos. sempre. a “azêmola” do Casimiro de Abreu. davam coices na família.. A coisa vai ao ponto de se ter uma vaga desconfiança de que. à prata de casa. com efeito. juro-te que me suicidarei de vergonha e de asco. Tobias Barreto? Uma “zebra”. Toda uma literatura de solípedes! Que é Castro Alves para esses novos? Um “jumento”. do crítico..418 Luís Edmundo seu perfil de cegonha velha na Livraria Garnier. Santa Rita Durão. jetatura. ergue. Cláudio Manuel da Costa.. “Mula” é o Sr. todas essas glórias da literatura do país relinchavam. na hora da refeição. Essa irreverência. porém. esse desrespeito pelos consagrados é a coqueluche do tempo.” Depois da “besta” do Gonçalves Dias. Orlando Teixeira benze-se sempre que encontra José Veríssimo e vive a declarar que. as mãos aos céus. assim escreve: “Esse mulato pretensioso e besta que se chamou Gonçalves Dias”. piedosamente. no Passeio Público. a primeira coisa que pergunta é se um sujeito vesgo e tolo que acode pelo nome de Olavo Bilac ainda tem a mania de escrever versos nos jornais. na intimidade da casa. maus fluidos. O sarcasmo da geração moça atravessa fronteiras. e que. referindo-se ao cantor dos Timbiras. azar. Leon Dierx. Théodore de Banville. Félix Pacheco. num famoso artigo. um feixe de capim ou umas falripas de alfafa em lugar de um bom ensopadinho de camarão com palmito ou um peru de forno obrigado a recheio de farófia. emanam. Outras ilustres “cavalgaduras”: Tomás Antônio Gonzaga. Álvares Azevedo – uma vulgaríssima “égua”.. Não se vilipendia.. José de Alencar. pedindo ao Divino transforme o vate de Ouvir estrelas em um útil pé de couve ou em frade Gustavo Santiago Desenho de Marques Junior de pedra.. Leconte de Lisle. às sextas-feiras. Carlos Fernandes reduz a glória de Coelho Neto a cacos.

que em 1901 . lastimáveis mediocridades que o destino lançou sobre a face da Terra só para ofender o bom gosto e a inteligência do próximo. Guerra Durval. Antônio Austregésilo. Madame Rachilde. De Vítor Hugo. é o poeta Adalberto da Guerra Durval. Mallarmé. pela nova brotoeja literária. porém. Os que provocam a admiração dos escribas novos chamam-se: Baudelaire. entre nós. Viele Griffin. o imperador do realismo. Um dos mais atingidos. quando descobriu que não tinha talento algum.. Dessa legião de novos e de loucos que enche as portas da Livraria Garnier... Figueiredo Pimentel. há muito de interessante e pitoresco a dizer e a contar. Oliveira Gomes. aos oitenta anos. ∗ ∗ ∗ Os paladinos da idéia nova são. Carlos Fernandes. Émile Verhaeren.. Guerra Durval Desenho de Gil Heitor Mallagutti Desenho de Gil Bom será lembrar que Cruz e Sousa já está morto quando começa o século. estes: Félix Pacheco. Zola. Nestor Vítor. Santos Maia. Castro Meneses. não passa de um cavaleiro abusando do direito de dizer sandices. Azevedo Cruz. Daudet e Anatole são dois bocós. finalmente. Colatino Barroso. Todos os deuses por terra! Todos! O Olimpo literário.O Rio de Janeiro do meu tempo 419 ídolos parnasianos são. entre esses jovens autores. Orlando Teixeira. Verlaine. Paul Fort. Vamos por partes. não fica vazio. para toda essa mocidade estouvada e irrequieta. Neto Machado. diz-se que é um pobre-diabo que morreu de desgostos.

. voa. Na noite negra do inverno branco! Branco-negro de água-forte. em sete pernadas.... Figueiredo Pimentel. à noite... pela segunda vez.... livro detentor de um enormíssimo sucesso e onde há versos assim: Ontem à noite. Um cão veio uivar à porta Da minha noiva morta......... Ontem. Veio e soprou-o a negra morte... sete vezes chamam-no: Adalberto! Adalberto!. Ardia o meu círio branco E.. desgraçadinho Que pede esmola! Era o padre de hissope e de estola. e desaparecem. onde existem versos loucos.... Cobria-a de dor e de goivos! . na redação da Rua do Ouvidor. foge. vão à Colombo assassinar. vão ao esconderijo do nefelibata.... um mendigo.. escapole. correspondente do Mercure de France. à meia-noite.... Certo.. Bateram à porta de mansinho... como este: . Batem à porta... Depois.. sete parnasianos. Bateram doze badaladas.. como a porta não se abre.. Guerra..... é autor de Livro Mau. À meia-noite...... avisado. trancando-se a sete chaves. o simbolista... As carnes arrepiando.. munidos de sete abóboras-d’água.... atiram as sete abóboras no corredor de entrada do edifício... Oliveira Gomes Desenho de Calixto . Aspergiu-a.. Depois na noite negra de nuvens arroxeadas Vieram sete assassinos E no meu peito cravaram sete espadas! Orlando Teixeira Desenho de Artur Lucas Lidos que foram esses versos.... outro seduzido pelos exotismos da cor rente nova.... Os sete poetas..420 Luís Edmundo se faz autor de Palavras que o vento leva.... Doze corujas piando. Adalberto Guerra Durval.... cabalisticamente.

na noite escura. saber se o corpo apareceu.. para dizer: – É mentira. papai não morreu. larga e preta. descrevendo o enterro de sua mãe. Escre- ... a tua dentadura Como se fossem pérolas de Ofir. Figueiredo ainda não é o smart do movimento das elegâncias do Binóculo. cor de pombas “mansas”. de poucos anos. a preparar uma grande. Outro. comendo doce de jaca. já usa umas escandalosíssimas polainas. vê-se obrigado a explicar as razões da misteriosa tragédia: tinha impresso para ser atirado ao público um romance. mas. etc. o chapéu e uma carta dirigida ao chefe de polícia. sem aro e de onde pende uma fita de chamalote.. vindo dos fundos da casa. surge. não.. Alberto de Oliveira. Figueiredo.. e dedinho na boca. estando. longa. de plastron. descreve-o deste modo: E. ó mãe. Certa vez os jornais anunciam o suicídio do escritor.O Rio de Janeiro do meu tempo 421 Maldito seja o ventre De minha mãe! Que me. na Gazeta de Notícias. no caixão. Eu vi cair Da tua boca.. O suicida. U e V são trocados como na época quinhentista. de cara suja. coisas de um pitoresco encantador. que trabalhou depois nessa Gazeta de Notícias em que trabalhou seu pai.. que vai dar os pêsames à viúva. Até a grafia do idioma que se fala no país sofre com o surto da nova escola. a conter lágrimas e a distribuir consolos quando esse Alberto Figueiredo Pimentel. uma sensacional reclame. para isso. em meio à Guanabara. depois da indiscrição do filho. depois). enorme. está na sala de jantar. com o pseudônimo de Chico Botija.. Atira-se da barca.. uma gravata de seda. e ia lançá-lo (como o lançou. encontra-a de olhos secos. Um há. por exemplo. Por vezes a crítica revela. falando desses jovens escritores. tufada em peito de pomba gorda e um monóculo quadrado. fedelho. então. E está comovido a fazer o elogio do morto. que em seus poemas nos fala de: dentes ebúrneos. Mora em Niterói e escreve no Fluminense. deixando sobre um banco da embarcação a capa.

também. etc. usando uma barbicha melancólica sob o queixo. Por essa época publica Carvalho Aranha o seu segundo livro. em capa de folha-de-flandres. acabe em dois grossíssimos nós. auiuar por avivar. A ânsia de alarmar o burguês chega ao ponto de intervir até na feição material do livro. e com um sistema de encadernação constando de um cordão que. de quando em quando. depois. de Antônio Austregésilo. Os pronomes pessoais são sempre grafados com maiúsculas. justificando o título. livro que ele imaginou em forma circular. segura um desses poetas pela gola do casaco e aplica-lhe surras tremendíssimas. manchada pelos dedos dos tipógrafos. a impressão feita. por essa época. depois de metidos em tinta negra de imprimir. pela rósea Notícia. o bloco encadernado. de 30 e. amarelo. quatorze versos distribuídos por catorze largas páginas – uma linha de verso por página impressa em papelão de respeitável grossura. reagindo contra a brochura vulgar. Amor. em círculo. Há as oficinas tipográficas da Aldina. Rosa Mística. impresso nas sete cores do prisma.422 Luís Edmundo ve-se: vsval por usual. dá-se com Estácio Florim. que traz uma capa representando um carvalho e uma enorme aranha caranguejeira! O livro Manchas. é um sujeito triste. é plaquette de 60. com pseudônimo de J. Medeiros e Albuquerque que. situadas na Rua da Assembléia. e assim por diante. porém. que são muito procuradas por . não Me digas Que isso é Ódio ou Vingança. até às vezes. É quando Cardoso Júnior pensa em publicar o Primeiro Soneto. O que está em moda.. ah. Melhor. Eu Te direi. num formato que ofende a vista do leitor. de 8 e 4 páginas! Mário Pederneiras publica Agonia e Rondas Noturnas. porque é o dos velhos Memoriais da Casa Laemmert. rompendo o centro das páginas. Júlio Afrânio (Afrânio Peixoto) dá-nos o seu livro de estréia. aparece de capa branca. possuidoras de uma bela variedade de tipos Luís Delfino Desenho de Marques Júnior elzevirianos. Eu. bem como certos vocábulos da predileção do autor: Não Me digas.. que não acha quem lhe queira publicar o Lua-Cheia. dos Santos.

não raro apresentando manifestos literários. a parnasianos e a realistas. Das publicações desse tempo. surge depois. sabe-se que a mesma se propõe “editar as óperas de Arte. para se impor e vencer. A Rosa Cruz. Após vem a revista Vera Cruz. Oliveira Gomes e Antônio Austregésilo. já está no seu 3º ano. no entanto. Colatino Barroso reúne adeptos da nova escola e jovens de outras tendências literárias numa associação que se chama “Os Novos”. só a tipografia do Leuzinger. somente. caóticos. fundadas pelo Schmidt. Revistas de arte e jornais de literatura de menor vulto e pertencentes a novos. um corpo de colaboradores de elite e é magnificamente impressa. A Meridional. também. de seus Associados e as de profanos. não passam de idéias fugazes. de Neto Machado. não logra uma existência longa. porém. formando uma trincheira onde se encastelam soldados vindos de toda parte. publicação do mesmo grupo literário. Depois delas. desde que se lhes encontre Alma”.. de Félix Pacheco. no gênero. a registrar. amigos e inimigos. Revista e Associação. entanto. Em 1901. confusos. no Largo do Rossio. quiçá a melhor aparelhada de entre as publicações... depois.. consta. também. As oficinas da Kosmos. com sede no velho edifício onde funciona o Liceu de Artes e Ofícios. uma verdadeira revolução nas artes gráficas do país. Em 1896.. Empresa editora sem sombra de capital. então. a que consegue ter vida mais longa é a Revista Contemporânea. em geral. ainda. . existem ainda a Máscara e a Delenda Cartago. a dar tiros para o ar. Dirige-a o autor destas linhas.. das linhas desse papel curioso. que são ridículas e fofas declarações de guerra a líricos.O Rio de Janeiro do meu tempo 423 todos esses novos. que dão apenas poucos números. Esses periódicos são. Pelo famoso Decálogo que a associação então publica. e que conseguem fazer. de Elísio de Carvalho. A idéia da fundação de uma revista Palas. Bom será não esquecer. a Ateneida. A Tebaida. só em 1904 aparecem. mas dura pouco. dirigida por Trajano Chacon e onde Hélios Seelinger se revela um grande artista ilustrador. com porta principal voltada para a Rua Treze de Maio. mas que vivem. Tem. aparece já no começo do século.

curiosa e pitoresca. brigando por um galinheiro onde as galinhas são poucas. anda a pedir quem seriamente a registre. de Guerra Junqueiro. Bem inferior. anda-se atrás de outro para substituí-lo e não se encontra. e de passagem. no Brasil. pobrezinho. Cruz e Sousa. ilhado na sua timidez. por um tempo em que o preconceito pelos homens de cor é bem maior do que se pensa. Irradiado de França. Luta. A história.424 Luís Edmundo Anelo de todo novo. de um Eugênio de Castro e Desenho de Marques Júnior até de um Cesário Verde não será como a luz de uma vela de sebo comparada ao esplendor do sol no pino do meio-dia. barbando nos debruns e que de preto. porém. porém. que dela se possa ter uma idéia rigorosa e precisa. Quando morre. diga-se. contrário à ânsia de conservar. vendo-o passar. Certa vez. Para o nosso movimento. Cesário Verde e os Simples. Antônio Nobre. até certo ponto. Admirável. ao lado Colatino Barroso de um Nobre. O movimento português. anseio natural de demolir. simpática. triste. numa alusão desapiedada à cor verdoenga do mesmo fraque: – E ainda dizem que este rapaz não é uma esperança da pátria! . solta esta frase infeliz. o novo surto promissor chega-nos aqui ao mesmo tempo que chega a Portugal. porque não será nas rápidas linhas de curtos depoimentos. Pequeno. descamba para o verde. vive pobremente longe de rodas literárias. é figura central. dentro de um triste e sovado fraque. Só os livros de Eugênio de Castro. do movimento simbolista no Brasil. de todo velho. entretanto. numa existência de misérias e de sonho. denunciadora de mocidade e de vida. francamente. e pelo tempo. sinceramente. Rinha de frango com galo feito. nesse particular. o próspero José do Patrocínio. valem por toda a literatura aparecida no gênero. o negro magnífico. criador do Missal e dos Broquéis. da porta da Cidade do Rio. mas é um poeta inferior. como este. supera o brasileiro. aninhando-se.

Neto Machado. é um grande. – Anda de luvas para não pintar os cabelinhos da mão – informa a língua ferina de Emílio de Meneses. ainda. Chega mesmo a correr que ele hostiliza os vitoriosos do Parnaso e os “reis” da Prosa.. No camarote de proscênio lá está o grande e querido poeta. É um velho lírico que tange uma velha e fatigada lira. a propósito. para atirar à cara da bilacada (como então se diz) jactanciosa e vil. uma noite. então.. caída da boca de um boêmio no Café Paris: – Pudera! Defunto não faz sombra! Contar. Frase que se ouve. com “os Guima. Entrada franca. Guinchos. muito à feição parnasiana. engalanado para o receber. Fala o orador oficial.. Glorificam-no. o resignado e amável Luís Delfino. de óculos e rabona. por isso. ignominiosamente. ao Teatro Apolo. Levam-no.O Rio de Janeiro do meu tempo 425 Morre antes de findar o século Cruz e Sousa. com os Rabelos e os Bilacs”. de charola. sem o menor elo literário ligando-o a essa estúrdia e nervosa mocidade. berrando: – Vitória! Vitória! Loucos e delirantes aplausos. Grande salva de palmas. indefectivelmente enluvado. passa da platéia ao camarote. mostrando a barba e o cabelo (de um negro singularmente retinto). Lenços no ar. feroz hostilizador da facção simbolista e irritado com a coroação intempestiva do príncipe. por sinal que. príncipe dos poetas brasileiros. Depois. o Sr.. Apenas. não vive. porém.. uma campanha soez de indiferença ou desprezo. pousada numa almofada de seda verde e amarela. Provas? A coroação de Luís Delfino.. num vôo acrobático. violentamente. Luís Delfino. um extraordinário poeta. assim posto. com os boêmios da Pascoal ou da Colombo. em tertúlias literárias. vazando em estrofes que são urdidas. em meio a toda essa confusa agitação literária com muito esnobismo. Vai ser sagrado o homem. Várias bandas de música. Não há outro melhor. vindo dos tempos de Casimiro de Abreu e de Gonçalves Dias. a coroa de glórias. que fica na Rua do Lavradio. dos quais sofre. que não quer magoar os ímpetos de . À figura do poeta o teatro delira. Discurso de homem que escreve a História do Brasil em dez volumes. Para enterrá-la na cabeça do poeta. príncipe dos poetas brasileiros. diga-se de passagem.. E o grande. Berros. um magnífico. Foguetes.. muita insinceridade. com quase oitenta anos. Rocha Pombo. uma triste e açucarada alma de sonhador.

Kropótkin. dentro de caixotes vazios. coisa mais moderna.. pintando-lhe os cabelos. por isso. depois. ora movendo a cabeça coroada de lírios. uma pesada intrujice. ora agitando a sua mão hirta e enluvada. – E a outra? . pela Roma de Spartacus. enfim. sim. Idéia com cabelos brancos.426 Luís Edmundo toda aquela ardente mocidade. antes de Cristo. judia. também. quase todos. Uma para o chefe de polícia. esconde.. toma ares sinistros de conspirador. de sabão. Dejean. finos e escandalosos. o assassino de Carnot. embelezando-a. melancolicamente.. em matéria de idéias sociais. anjos ou semideuses. Vaillant. desaba o chapéu no sobrolho.. Alberto Thoreau. de lírios brancos postos em curvas de repuxo.. compondo-a. pede para falar mais baixo. ajeitando-a a seu modo.. De resto. quando se lhe pergunta sobre a existência dessas bombas. na recomposição de uma sociedade moderna. a todos procurando agradecer. longos.. Aplaude-se. Maia. não existe. duas! Não diga a ninguém. A idéia é velha. o protomártir.. mas que a mocidade da época trata de rejuvenescer. caricaturista francês. uma ficção. Acha-se pouca a liberdade do homem. já traçado e para desencadear na primeira oportunidade. pela gravata de plastron e pela rabona. a igualdade. duas bombas de dinamite.. o emprego da dinamite e do punhal. levanta a gola do casaco. para nós todos. Brousse. E. e ainda outros idealistas são. pelo tempo. povoado só de preconceitos antinaturais e estúpidos. pela barba. Plecards. Vem do ano II. No quarto de Santos Maia. que abandonou a pátria só para não fazer o serviço militar. Essa plêiade de jovens literatos não prega somente a revolução em assuntos de letras. Ravachol é um ídolo que trazemos no coração. acaba informando: – Duas bombas. Lê-se Bakunin. Karl Nestor Vítor Desenho do Calixto Marx. Há quem tenha um programa de violências. socialistas.. o mundo inteiro. passa. prega-a. os olhos marejados de lágrimas. como exemplo. a fraternidade. em olhadelas cuidadosas para os lados. pela Grécia de Ágis. lágrimas que lhe pingam. E é assim que somos.

usam camisas da Coulon. A outra bomba havia sido destinada. São todos assim. E acha que não é pouco. Não se pode absolutamente dizer. – O Sr.. raspa. a outra é segredo.. entanto. Que venha essa revolução que chega mesmo a calhar. Doutor que assim diz é porque sabe – rosna o pobrezinho.O Rio de Janeiro do meu tempo 427 – Ah. entre a gente nova que escreve. Tipos assim como Camerino Rocha e o Trajano Chacon. a certo Alberto Pereira da Silva. E olhe que já não é o primeiro que assim me fala. põe-se a seduzi-lo com propósitos dourados: – Raspa. porém. também revolucionários. alegre e brincalhão. Dieu que la faiblesse en a une âme si forte! Já resmungava o velho Corneille malicioso e avisado. de Houbigant.. O doutrinador. deviam os cabelos da cabeça. Olhe o preço por que está o pão de tostão. verdadeiros nababos aos olhos dos que só possuem um terno e até os jornais do dia vão ler às bibliotecas públicas. que é mesmo a vergonha do trigo! E o bacalhau. alfaiate. santo Deus. chamando o proletário por tu. com ar de propaganda da doutrina. liquida a sua despesa. Thoreau e mais uns dois ou três boêmios. Aglaia. que não está longe o dia em que a besta do teu patrão é que será o vassoura do estabelecimento e tu dono de tudo isto. mas fazia-se disso um imenso segredo.. Muitos deles há que se vestem no Raunier. Há-os. não são muitos. seu doutor? – Não. calçam no Incroyable. Quer um homem ver o Dias Braga no Recreio e não pode porque a cadeira custa uma fortuna! Pente. pela hora da morte! Ganha-se uma miséria. Os ricos ou abastados. não larga nem um níquel de gorjeta! Paga em solidariedade social. saiba-se agora. terminado o serviço. por exemplo. um desses jovens escribas entregar os queixos a um barbeiro e logo. Botafogo está cheio de palacetes. . fricção. meu velho. os socialistas e anarquistas de 1901. fumando charutos de dois mil-réis. porém. um que era alfaiate com loja num sobradinho na Rua da Constituição. e a quem Maia. por enquanto. A bomba era para o Pereira. Vai.

mostra-nos. Pobreza honesta.. Lembrar que. Sempre alegre. vocês. querendo acertar: – Talvez uns seiscentos contos de réis. organizam. sorrindo. vêem-se todos os meus dedos do pé. por mais que queira. uma abotoadura de ouro cravejada de brilhante. Há companheiros que não acreditam na existência das notas de 500 mil-réis. dizer. Até o Rafael Pinheiro. que é rico. Há um velho uniforme de oficial dos tempos da guerra do Paraguai que. interiormente. sinceramente. na Avenida. não escapa: Mas... O fraque de Júlio Reis é negro à custa da pau-campeche e infusões de café. O famoso chapéu de prepúcio que o poeta Albano usa. meu Rafael. tem a sua estranha forma devido a rupturas consecutivas da copa. por onde passam os notáveis da miséria indígena. perguntando: – Quanto pensam. à porta do Laemmert mostra-nos.. risonha e boa! Armando Vaz.. os canos das metralhadoras são dispostos um ao lado do outro. e turmalinas. Lopes. Não posso compreender.428 Luís Edmundo Bastos Tigre. Os charutos de João . usa. nas noites de frio. dos que se compram na Praça do Mercado por mil e quinhentos. orador popular que pelo tempo é um nacionalista vermelho. os seus borzeguins sovados e sem biqueira. São duas metralhadoras de cinco canos. risonho. em caricaturas que fazem época. no apogeu de sua glória de poeta. durante muito tempo. um famoso chapéu de carnaúba. No quarto de Santos Maia dormem poetas brilhantes. a alfinetes. Camerino Rocha. qual. que vivem das empadas das 10 horas da Casa Pascoal e da Casa Colombo. e Gil. quando tu passas Cheirando a white-rose e a quebradeira. estragos que se reparam com o arregaçamento das abas pregadas.. em 1903. dizendo: – Olhem. e sem fumaças. B. um dia. a famosa Galeria dos Prontos. que isto dará no prego? Estou a ver o Luís Pistarini. serve de cobertor a muita gente. depois de quedar-se algum tempo examinando a jóia. em sonetos admiráveis. na época. Como tu andas agitando as massas Sem nunca ter as massas na algibeira.

deixa certa vez de ir. ontem. a um célebre jantar em casa do Pantaleão Macedo. começaram por aquela formidável canja de capão com azeitonas. marchando a pé. muito freqüentada pelo epicurismo não menos aprimorado do Heitor Mallagutti. dois tostões! Florêncio Rocha. são. naturalmente. recordando o que comera: – A canja de capão com azeitonas. berrada de longe. Mallagutti encontra-se com o Rocha. por motivo grave. mas custam cinco. pintor. é encontrado. sem um níquel no bolso: – Vou almoçar. Rocha aí perde o ar melancólico e sorri: – Aquele molho de alcaparras! E depois. tal de devorar os qui tutes famosos do Macedo. filho. já se vê. num gesto que quer dizer: – Aonde vais? Resposta do Rocha.O Rio de Janeiro do meu tempo 429 do Rio são grandes. sob o sol canicular... Antônio Austregésilo Desenho de Calixto Cruz e Sousa Desenho de Calixto E o Mallagutti. e depois? . aquele célebre peixe de forno com molho de alcaparras. na Rua da Lapa. gozando: – Vocês. um terrível boêmio. mas depois. dele indaga. na Gávea! Esse boêmio.. de ar catacúmbio.. caminho de Botafogo. tivemos o que há muito não tínhamos. perguntando pelo menu da véspera. que. que possui o estômago de Luculo e o apetite de Pantagruel. Mallagutti. mantendo a sua larga e viva marcha para o Sul. um dia. bela cultura. de bonde. No dia imediato... São onze horas da manhã e companheiro que vem em sentido contrário. deplora a ocasião que dá como perdida. na altura do Catete. inteligência que faísca.

quando sente alguém que. – E depois? Eis senão quando. Vai andando. abandonando Rocha. salada de alface com pimentões.430 Luís Edmundo Depois. vermelho e importante. lançando. É um amigo de infância. Finalmente. tinha vindo um ensopado de jilós com carneiro e lascas de presunto. velho e querido amigo que Mallagutti não vê há quase vinte anos. põe um rugão na testa. Mallagutti? E depois? . Compreende-se a expansão. o Rocha que não se conforma com a brusca interrupção do diálogo gastronômico que mantinha com o pintor e que lhe pergunta. fartando-se em espírito. Mallagutti. Essa. que retoma o seu ar fúnebre. despede-se do amigo e toma rumo oposto. o enlaça pelo pescoço. entre risonho e comovido. vê-se um sujeito que chama pelo pintor: – Mallagutti! Mallagutti. Olha e é o Rocha. curioso pelo final do menu do pantagruélico jantar.. – E depois? – indaga o boêmio. como uma flecha. E ficam. nervoso. referindo-se ao inacabado menu. depois de muito tempo. conversando quase outros vinte anos. carinhosamente. querendo ainda saber o que se havia comido na véspera: – E depois. de todos aqueles primores culinários. atravessa a rua para cair deliciado nos braços do outro. pelo menos.. embora pela mesma calçada.. e mais fritada de maxixes e um peru com farófia. na calçada oposta.. de quando em quando. é a impressão do Rocha. os dois. sem pensar que o boêmio ainda o espera. um olhar terrível para a calçada oposta.

. italianos. pelo espírito. ainda se estuda o nosso idioma pelas obras dos clássicos portugueses. o infalível busto de Camões em terracota. continue a nos vir. . . continua imoderado e incondicional. O prestígio do livro francês. Gemem pesados guindastes de alfândega arrancando. As montras das livrarias resplandecem. com uma coroa da mesma massa na cabeça.. velhos e novos. mais do que . . afinal. as obras de Gil Vicente e de outros marechais das letras lusas. . ingleses. . . porém.. . de fora. . . Como tudo. . Contudo persistimos franceses. espanhóis e portugueses. em espessa maioria. . . Capítulo 23 Livros e livrarias LIVROS E LIVRARIAS. alemães. .. . . Não há biblioteca sem o seu João de Barros encadernado em carneira. à funda obesidade dos saveiros. . livros de toda a parte: livros franceses. que nos instrui. . lemos. e. A LIVRARIA GARNIER – UM POUCO DA SUA HISTÓRIA – LITERATOS DA ÉPOCA FREQÜENTADORES DA GRANDE LOJA – “GÊNIOS” E “BESTAS” – A MANIA DOS CARTÕES-POSTAIS – OS INFALÍVEIS FREQÜENTADORES DA “SUBLIME PORTA” O COMEÇO do século lemos bastante. . . Com que avidez o lemos! Nos colégios. . que o livro. en- tanto. pena. sempre. O QUE SE LIA. . . .

não alcançam grandes tiragens: mil. em Paris. sem compromisso de paga. Pelo tempo. é popularíssimo. Raimundo Correia. O que temos.. por um bom romance ou livro de contos. e a sussurrar pelos cantos: – Mil vezes cocheiro de fiacre. Luís Murat. Em geral. E ótimo. em primeiro lugar. não presta: a natureza.. que presidente da República. e o Quaresma. os mais importantes editores são: o Garnier. ou entregues ao editor.. em matéria de literatura. quando começa num modestíssimo lugar. Há ocasiões em que quase disso nos convencemos. apagado por um sentimento de esnobismo que envenena toda uma desfibrada mocidade. o céu. Paga-se a um bom autor. Gonzaga Duque. logo a seguir. são impressos por conta do próprio autor. Para os livros de versos. não há tarifa. Coelho Neto.. por isso mesmo. Lopes e Guimarães Passos são os poetas mais lidos e festejados. o clima. no Brasil!. por uma novela popular. a livraria mais importante da cidade é a Livraria Garnier. Verdadeira campanha de descrédito contra as coisas do país. abundantíssimos. Alberto de Oliveira.432 Luís Edmundo nunca. então. Bom. pois vem de 1846. sem a menor exceção. Valentim Magalhães. dois mil. Tem 55 anos de existência. gente de boas cores no rosto mas que vive sentindo-se infeliz. entre nós. o amor. o Laemmert. que edita o que de melhor se escreve no país. que se especializa em edições de obras científicas ou sérias. onde se vendem. Carlos ∗ ∗ ∗ Em 1901. Os grandes romancistas que vivem e que então mais se editam são: Machado de Assis. Tudo. só o que vem de França. porém. B. Olavo Bilac. e depois. editor de baixas-letras e que. Os livros que imprimem. de quinhentos mil-réis a um conto de réis. As exceções à regra são raras. o café. Aluísio Azevedo. só o que vem de fora. sistematicamente ridicularizado. diminuído. ao lado de livros importados . a diminuir por esnobismo tudo que seja nosso. no máximo dois mil e quinhentos ou três mil exemplares. Palhaço Desenho de J. de cinqüenta a quinhentos mil-réis.

À porta do estabelecimento. com uma faca de marfim e.. Os selos carimbados punha-os de lado. já podre de rico. livreiro em Paris. os empilhava. guarda-chuvas. talvez para vender em França. daquele senso prático e econômico que encontra. metido sempre num sórdido veston de alpaca negra. como papel para notas. as calças brancas. Morreu deixando quase sete mil contos. de aspecto modesto. À cabeça gorro de veludo. o nome do proprietário: B. e cheio. O tipo flagrante do petit bourgeois das charges de Gavarni ou de Doumer. artigos de papelaria e escritório. Fê-lo Pedro II. assim. Garnier. Fazia todas essas coisas lamentando-se: – Ah! si j’étais riche comme mon frère! O irmão era o grande Garnier. numa caixa. Ernesto Sena pinta o popular livreiro como uma das figuras mais interessantes da Rua do Ouvidor de seu tempo. Não abria uma carta recebida sem examinar-lhes o selo. charutos e drogas medicinais. que acabava deixando-o como novo em folha. mas sempre muito amarrotadas.O Rio de Janeiro do meu tempo 433 de França.. como a do Briguiet. com borla. bengalas. Pingo de lacre que caísse no chão era pingo aproveitado. cuidadosamente. E dizem até que. editor em Paris. espantava os garçons. não como prêmio a tanta sovinice. para bilhetes.. depois a parte não escrita. de mestre Molière. amplas. legando toda a sua imensa fortuna ao irmão. quando ia ao restaurante. Garnier – O “Bom Ladrão Garnier”. ativo e resmungão.. aproveitável. Abria os envelopes em que vinha a sua correspondência. na explicação maliciosa do comprador carioca. pois. com o miolo do pão de tal forma limpava o prato em que comia. profundo co nhecedor dos processos mercantis do astuto e prático francês. a ele próprio. À pobre mulher com quem vivia maritalmente deixou apenas 80 contos.. comendador da Ordem da Rosa. a gente. estatuetas. a colecionadores. porque o mesmo podia estar sem carimbo e. eram montadas com dez contos de réis. aproveitando a última migalha ou o vestígio do molho. depois. para aproveitar. cômodas. por uma época em que as livrarias. em letras negras e altas. no Avare. . mas porque era o fornecedor oficial do Paço e por serviços que o monarca prestava.. L. um dia. para fichas de livros. a transbordar.

Os acadêmicos monopo- . pela mesma. fogueteando pela loja.. Vive a contar histórias da Indochina. o tradutor oficial do francês do Lansac. Possuímos todas elas. atendendo a um freguês que chega e manda embrulhar La morale chez Ibsen.. ao gerente: – Pronto. uma carninha para o gato.. Lansac! Ora.. Lansac é bom sujeito. acolá. sem condecoração. ou Jacintíssimo. a Hedda Glaber. onde passou anos e onde quase deixou as cordas vocais. a dizer ao caixa: – Paga só vinte e dois! Ora. ora atendendo aqui. pingos de lacre. Jacinto Silva. a influir nas opiniões acadêmicas. hoje. não as leva? Olhe que aqui. Já se reconstruiu o prédio. de Ossip Lourier: – E as obras do homem. Lansac é quem dirige os destinos da grande livraria. apenas. As cadeiras interrompem o trânsito. o que a sua livraria cobrava do Erário Público. doze cadeiras. imponente. a alma da livraria. muito se lê Ibsen. ∗ ∗ ∗ No ano de 1901. em “contas de chegar”. E o Jacinto é um só para servir a todos! Anda. Faz perguntas.. Falta-nos. que é o da grande moda. é o Jacintinho. Quando descansa. morto Baptiste Garnier. Dizem que chega. por isso. deixa sempre. quando vai cear ao Restaurante Paris. Má idéia. pontualmente. Não raro intervém nelas. muito moço e já desaforadamente careca. põe as mãos atrás das costas e vem cheirar as conversas.. Sr. tipo vulgar de francês. Pequeno. não põe gorro de borla na cabeça e. até. O encarregado da gerência usa terno cortado no Lacurte. comentários. que ainda lhe emprestam à voz o som cavo e rouco de um fonógrafo roncando dentro de um baú..434 Luís Edmundo pagando. A nova loja é vasta e de ar catedralesco: alta. Os fregueses só querem ser por ele servidos. O caixeiro principal da loja... espalham-se. ali. cor-de-canela.. saltando de uma banda para outra. no osso da costeleta. que esgotou. bela. Anda a par de todo o mexerico literário. Já não se aproveitam os selos de correio. e com alguma geografia.. nem envelopes velhos. O pessoal da casa só vive a consultá-lo. na boca de Bilac. Inaugurada a nova loja.. mas sem barba. magro.

Sabe-se de quem vá ao Garnier. Múcio Teixeira. com isso. com José Veríssimo. nesse tempo. Mário Pederneiras e Lima Campos. na hora de maior movimento. Gonzaga Duque. Alberto de Oliveira. forma no grupo João Ribeiro de Pedro do Couto e Fábio Luz. Piora das suas cordas vocais. são retirados. ainda não é acadêmico. Os escri to res da província. porém. Sílvio Romero. Coelho Neto (às vezes). an tes de qual quer vi - Osório Duque Estrada Desenho de Marques Júnior Sílvio Romero Desenho de Marques Júnior . mais tarde. Araripe Júnior. aí pelas 4. mal chega dos ao Rio. grande desgosto. João Ribeiro. Lansac tem. são os grossões da Academia que. que. Gustavo Santiago Pantoja. Medeiros e Albuquerque. Constâncio Alves. formam junto à escrivaninha do Jacinto. 5 e 6 da tarde. Há o grupo de Machado de Assis. o Severiano de Resende e o Curvelo de Mendonça. Joaquim Nabuco. Fica ainda mais rouco. Há. por sinal que provocando zanga e açulando mofinas nos jornais. só para co nhe cer de visu os nossos auto res. Rodrigo Otávio. como a uma feira de curiosidades. porém. outros grupos que se espalham pelo interior da loja e onde pode a gente encontrar o Osório Duque Estrada. Bilac. Carlos Pombo.. Tais assentos.. Rui (às vezes). Nestor Vítor e Xavier Pinheiro.. Cria-se a famosa questão das cadeiras dos 12 apóstolos..O Rio de Janeiro do meu tempo 435 lizam-nas. em geral. por exemplo. Maximino Maciel. Mário de Alencar e Clóvis Beviláqua. Vários são os grupos que na loja se formam. com Rocha Desenho de J. Raimundo Correia. o Sousa Bandeira.

através de sua prosa monumental. de quem se diz que nunca teve um inimigo e de cuja boca. exclamou: – Afinal. timidez: – Vai passando bem? Temperamento singular o desse homem. bondade. Quando ele entra. na livraria. nos lábios o mais franco dos sorrisos. como ao da repartição onde trabalha. roubado. pondo veludos na voz. um Goldwin. ∗ ∗ ∗ Machado de Assis jamais falta ao ponto da Garnier. . Queria um Golias. só aquilo?! Queria mais. não pôde se conter. por isso. Sentia-se. vão à gran de livra ria ver os gran des literatos. o chapéu entre os dedos. que se ouvisse. arqueiam se espinhaços: – Mestre! E. como um Paul Pons. protesto ou recriminação. revelando candura. pequenino. rompendo a curva augusta da “Sublime Porta”.. derrubam-se chapéus. truculento como um campeão de luta romana. que outra não é senão a de arco monumental que dá ingresso à livraria. ao lhe apontarem o nosso Coelho Neto.436 Luís Edmundo sita ao Jardim Zoo ló gi co. – Com aquela cara de barbeiro de Sevilha? Sabe-se que um deles. ou um Hércules. furioso. jamais rolou uma áspera palavra denunciando queixa.. logo. rostos de todos os lados. que se voltam para lhe ver a figurinha frágil. concertando mesuras. cerimoniosa e agitada. distribuindo cumprimentos. na vida. ao Museu da Bo avista ou à Ga le ria de fi guras de cera do Pascoal Se gre to. É figura regular. peso-pluma. Sonhava o escritor. Não raro essa curiosidade se transforma em desapontamento. – E aquele de polainas e monóculo que está acendendo o charuto? – É o Guimarães Passos. e desapontado. Fala em surdina. magrinho.

agora. É. Devemos nomeá-lo ainda hoje.. sofre ainda mais que aquele que pediu e a quem não pôde dar. onde trabalha. Diz isso. proibida pelo médico. Já a vaga. Tem náuseas.. nesse momento. Proscreve dos seus hábitos o café. a proibição do médico. a contar o ocorrido. Para ser agradável ao esculápio. momentos depois. conversando..O Rio de Janeiro do meu tempo 437 Passa a vida sorrindo e concordando. Poucas vezes afirma. Por timidez. não se revela. a sopesar uma bandeja enorme. que tudo pode e tudo manda. não podia. quando recebe a visita de companheiro de infância e de colégio. Está na repartição. por bondade... Nem uma simples gota. há muito que foi dada. Socorrem-nos. pôs de lado a prescrição do médico e esqueceu-se do mal que lhe poderia advir. recusar-lhe o café! Não raro passa por um despersonalizado. calmo. também. põe-se. então. aceita logo a tirânica medida.. Parece que vai morrer.. Num gesto natural de cortesia.” . chega.. dizem que nasceu. entanto. Certa vez o médico proíbe que ele tome café. Na livraria à Rua do Ouvidor. o homem que escreve: “Fulano nasceu na rua tal. Não beber! Se isso te altera a saúde! – Que querem! – respon de ele. Machado explica-lhe. o pretendente ao emprego e velho companheiro toma de uma xícara e oferecendo a Machado: – Beba você.. O mal que lhe fez o café! Querendo fazer uma gentileza ao amigo. então. penando. Com precipitação Machado aceita a xícara e põe-se a beber a essência da rubiácea. Entre ânsias. isto é. – Mas podias alegar. ternamente. Sofre por isso. naturalmente. tem já um candidato. Se ele não sabe dizer – não! O contínuo de serviço. não se define.. porém.. A ninguém. o seu café.. cheio de contrariedade e de tristeza. a impossibilidade de atendê-lo: – O ministro. – Ao homem eu já havia re cu sa do o emprego. que lhe vem pedir certa vaga existente na secretaria. – Ora essa! – dizem-lhe. quando esbarra no impossível. para um parente seu. daí talvez não tivesse nascido. E é por isso feliz! Não sabe dizer não. Sofrendo. com esse eterno receio de molestar o próximo. sente-se mal. cheia de xícaras de café. O que lhe pedem faz e.

começa a escrever para os jornais. pode. que vai entrando. abrindo os braços.. e. Dr. Florência e ficou.. dentro de um fraque cinza. Caminha como um seu alexandrino: com pompa. – E acha V. a mão que move.. murmurou-lhe em surdina: – Oh! minha senhora. esse jovem que o senhor deve conhecer e que anda a publicar crônicas pela Gazeta de Notícias.. Machado. E prosseguindo: – Que juízo faz o senhor do talento do meu filho? Machado de Assis não conhecia D.. a figura que arqueia.. – Perfeitamente.. glória. é meu mestre. terso.. a ele se dirige: – Dr. que quase nada lera.. já apavorado. num gesto largo. mas. minha senhora. Que nele tudo é ritmo: o pé que avança. num momento. . agora. compreendendo a causa daquela indecisão.. muito moço. dando mostras de homem comovido. Ela. pensando na resposta. ∗ ∗ ∗ Esse tipo viril. parnasianamente. então. ereto... Certa vez D. Exª. alto. Machado de Assis. indeciso. Raimundo Correia Desenho de Raul um fraque hirto e sem dobras. Machado. porém. mãe de João do Rio. explicou-se melhor: – Meu filho é o Paulo Barreto. de João do Rio. Florência Barreto. encontrando-o na livraria. há muito que andava para lhe fazer uma pergunta. é o poeta Alberto de Oliveira. arregalou os olhos.. gentilmente. altivo. quando o escritor..438 Luís Edmundo Sua frio quando lhe fazem uma pergunta. que lhe poderei responder? – diz ele. João do Rio. Entra como que a controlar a medida do gesto. o que saúda de olho meigo e sorriso fatal. solene. seu filho.. por isso..

pisar. dois bigodes agudos e encerados. assim: “Dr. o ritmo. irritado e violento. a página infeliz. muito negros e tranqüilos. o lugar onde os homens se reuniam para o cavaco e para a desídia. menos isso! Manda que arranquem. – Doutor! Tudo. – Doutor! – teria dito. Ainda lembram. centros onde se manejava. um retrato e por baixo uma legenda. quase ofensiva aos seus foros de vate ou ao seu plectro de ouro. É Dierx. o escândalo de críticas restritamente pessoais. A própria voz é compassada e musical. sem demora. o que escreveu a Lira do . Alberto de Oliveira”. que o Garnier edita. involuntariamente... só porque encontra na página primeira de um volume de suas Poesias. menos isso! Doutor! Alberto de Oliveira só queria ser poeta. Pois esse homem.O Rio de Janeiro do meu tempo 439 Em hexâmetros saúda: – Como vai? Como está? Nele tudo é medida e proporção. desnorteia. esses laboratórios de desentendimento onde as línguas de ponta serpenteavam seteando as almas e as reputações. o calo do poeta Antônio Lamecha.. um tanto. outrora.. Rima. o grande poeta. recorda a harmonia de um pêndulo. Os cultores do verso. como um trabuco em festa de arraial. Na verdade. adoram-no. Cenáculos de vaidadezinhas. um belo dia. de invejazinhas. os ourives da forma. Se o douto Sr. As livrarias da época ainda conservam um pouco a estreita mentalidade das boticas que eram. Usa chapéu de feltro inglês de abas esparramadas e a cuja sombra amiga repousam. Cadência. por exemplo. de Carlos Dias Fernandes Desenho de Armando Pacheco vingançazinhas. nunca foi outra coisa. Sílvio Romero. Tudo. – Tudo.. Acordo. tranqüilo e controlado.. Perde o hemistíquio. no homem. Pudera! É o Leconte de Lisle do idioma.

põe sempre. E à tarde. sobretudo quando descobre. Bestas são os desprezíveis seres que a opinião pública consagra. desculpas. Já com o vaselina desfaz-se em atenções e cortesias. a catadura antipática e desprezível do “gênio”: – O meu amigo vai bem? E o “vaselina”. latejando rancores. Cada rapaz que escreve. Como. as bestas mantenham sobre os gênios idéias inteiramente diferentes.” Isso ele traça e assina. existe. e. para discutir o artigo. sem nada dizer. e acabar a demolição ad vitam aeternam da glória do escritor. torpe calhamaço que fede a erudição. logo. os que se julgam roubados no conceito público. a desmanchar. no fundo.440 Luís Edmundo meu sofrer.. no dia imediato. um tipo singular.. entre ambos se movendo sem o menor atrito. Além do gênio e da besta. não por um indivíduo descuidado. hostilidades tenebrosas. E é por isso que esse semideus das letras divide os literatos freqüentadores da Garnier em dois grupos distintos: o das bestas e o dos gênios. e não lhe pedir logo. perto. gênios e bestas vivem num completo desentendimento. porque. ainda. vai espetar-se à porta da Garnier. as vítimas dos erros dessa mesma opinião e da estultícia acadêmica. porém. Quando chega. levando em conta tanto um como outro. por acaso. untuosa e amável criatura. o vaselina. pelo tempo. a afetá-las. vai passando. Cada soneto que publica ou cada conto que assina eleva-o do solo mais um palmo. dois dedos frios no chapéu. sem admiradores. importante e orgulhosa.. arrisca-se a passar. à porta. por estupidez ou engano e que a Academia engole. cheio de importância e charuto. e Lamecha trepa para uma gazeta e arrasa-o: “A História da Literatura Brasileira. arrastando uma bengala de Petrópolis. a “ilustre besta” e encontra. mas por um literato sem talento. Gênios. tem-se na conta de um ser privilegiado e que se faz respeitar. suavemente. mas com um enormíssimo talento. para mostrar cordura e polidez. o “gênio” em seu caminho. Chega. por vezes.. como se arrastasse uma adaga de gancho. aproveitando a vaza: – E o Mestre? Como vai? . nada mais é que uma moxinifada imbecil. por vezes em mentidos sorrisos. sem leitores ou sem nome. escrito por certo energúmeno que acode ao nome de Sílvio Romero.

os boêmios!. médicos. a folhear brochuras. é o Sr. São advogados. ante o salamaleque. Carlos a barba por fazer. gente que seja nossa.. alto.. José Veríssimo. engenheiros. agitada. sempre aparece lá uma ou outra. berra pelas rodas em que anda. usa o cabelo crescido. silenciosamente. encontrar um intelectual amigo. as botinas cambaias. Vezes surgem tipos exóticos. com freqüência. para que todos ouçam. dardeja.. . barulha. esta frase que em sua boca tem foros de um clichê: – Nós. numa só frase: – Raça de pulhas! O “gênio”. Não obstante. caindo sobre a gola do casaco. de ar histérico e cintura de vespa. mortalmente ferido.. Machado de Assis? – Não. quase todas atrás de romances franceses. em geral. estudantes que entram para ver novidades literárias. Adora o luar e a giribita. Por dentro um resplandecer de coisas escovadas e brunidas. Isso por fora. por cima do pince-nez de tartaruga enfitado. ou o Mulato. escasseiam. Recolhe a casa de madrugada e.. minha senhora. a pensão onde come.. de nariz de tucano e ar triste. roupa sovada e gravata borCoelho Neto boleta. acolá. um crítico muito importante. que não sabe a gente quem sejam nem de onde vêm. o olho que lembra uma boca que escarra e trata de fulminar os dois. de Aluísio Azevedo. dar dois dedos de palestra. Deve o quarto em que mora. Anda quase sempre sem punhos e traz Desenho de J. São 5 horas da tarde e a freguesia. aquele é o Sr. Há senhoras. de Júlio Ribeiro.O Rio de Janeiro do meu tempo 441 Ao lado o “gênio”. a Araripe Júnior Desenho de Marques Júnior perguntar se já saiu a nova edição da Carne. As que lêem assuntos nacionais. aquele senhor. Jacinto. a investigar lombadas. andando pela comprida linha do balcão. – Ó Sr.

em atitudes provocadoras e plásticas. todas as cocottes de França. ainda é a de comprar por 2 e vender por 4. pelo começo do século. é o Bilac. vesgo. Sr. Por favor. serve. e a fazer o encanto das famílias. com o nome por baixo.. o delírio do bilhete postal ilustrado só começa a inquietar-nos em 1904. E atrás de Otero e de Cléo. Moda. Chega Moura de Paris. e enriquecendo. por exemplo. A bela Otero. num salão. num postal! – E arrancando a uma carteira de veludo seis postais com a efígie da Cléo de Merode.. mostrando a perna. Cabeças de Cléo de Merode surgem nos gabinetes de dentistas. Tão bela. em 97 ou em José Veríssimo 98. – Como o senhor seria amável se dele me conseguisse o autografozinho. é um quadro para se dependurar abaixo do espelho de Veneza. em 1901. que com ele conversa. Jacinto.. serve. de tal sorte. Claro que se ele escrever uma quadra ou um soneto. A novidade impressiona.. com o tí tulo Súplicas e Blasfê mi as e que Desenho de J. passa. em seis poses diversas. o autografozinho. depois. entre estes cartões. É para a minha coleção. é o Bilac? – Perfeitamente... o colo..442 Luís Edmundo – Ah! E o de chapéu de palha. . neste país. O principal é a assinaturazinha.. é a apresentação desses postais. só para encaixilhá-los. a provar. o que escreveu uma brochura satânica. que muita gente os compra em séries. a princípio. O que vier. porém.. Um vidraceiro da Rua da Quitanda cria disposições artísticas para a coleção das fotos em passe-partout de cores. que a boa arte. um e o assine. com seus primeiros cartões. foi aqui introduzido pelo Castro Moura.. é o delírio que empolga o carioca. Carlos aca bou trocando Apolo por Mercúrio.. porém. e mesmo até bem pouco antes da Grande Guerra. o seio. A bem dizer. da bela Otero e de outras artistas do Paris-plaisir: – Ele que escolha.. melhor será. a obsessão. De enlouquecer o pobre Jacinto! O cartão-postal que.

dando dia e hora. corações de veludo sangrando rosas vermelhas. maníacos interessantes. pintadas a óleo ou a aquarela. Depois dos cartões. negociante importador que coleciona. Emílio de Meneses. frases sobre o amor. Marcam-na. em espantosos relevos. organiza aqui um famoso álbum com pensamentos em prosa e verso. como estas: Amor eterno! Sofro. um dia serás minha! Quanto dói uma saudade! Dou-te o meu coração e a minha vida! Cartões há um de aspecto escultórico.. sobre a mulher. um dia. manda um dia. Se até os presidentes da República não escapam às investidas dos colecionadores! Certo deputado pela Bahia manda. quando este vai indagar dos motivos da entrevista marcada. vêm os álbuns para os mesmos. ao Presidente Rodrigues Alves. com versozinhos. fixando paisagens. pensamentos. eis que o pai da pátria. chafarizes que deitam tiras de papel pelas bicas.. sobre a felicidade. bocas que se beijam... mas. No instante de ser recebido pelo chefe da Nação. feitos em crostas. muito naturalCastro Moura Desenho de Marques Júnior mente. numa ânsia de louvável panteísmo.. dos nossos melhores escritores. sempre. Um verdadeiro tormento para quem tem destaque. por sinal.. No fundo a quadra de Emílio.. um telegrama com pedido de audiência. reproduzindo figuras célebres. reproduzindo quadros conhecidos ou notáveis. declara apresentando-lhe um postal: . Conhecido tenente do Exército. fica célebre.O Rio de Janeiro do meu tempo 443 Há postais em cartolina. fama.. de legendas patéticas. nome ou seja estafeta dos Correios. professor da Escola de Equitação. acompanhados. que. pensamentos sobre a árvore. sobre a “Mulher e o Cavalo”. quadra tão satírica que o homem desgostoso resolve acabar com a coleção. nada mais representa que uma justa reação contra a causticidade e o incômodo que aos homens de letras impõem os homens da mania. e com os álbuns. A certo Faria. Os namorados preferem os que representam corpos que se enlaçam. platinografados. fingindo água.

tudo cor-de-pérola. e. em companhia de Pedro Rabelo. a democracia e os relógios Patek Philipe. coitado. nervoso. Verseja copiando o Camões. um ar sorumbático. dentro de bainhas de veludo. João III. Seu maior tor mento é sentir-se dentro da sua sobrecasaca de sarja e no século XX. aí pelo ano da graça de 1550. o de barba à nazareno. O homem era para viver no reinado do Sr. o frango de caçarola do Restaurante Bri - . No grupo em que forma João Ribeiro há um tipo muito interessante. o do poeta José de Abreu Albano. mas. pantufas de seda e espada de punho de ouro ou prata com guardiões de esmalte. junto ao guichê da caixa. poeta e juiz em Niterói. juntos: Sílvio alegre. pela época das carochas e do Santo Ofício. Desenho de Marques Júnior Chega Olavo Bilac. Tem grande ternura pelos novos. porém. eternamente. muito ligados. procurando o lápis do Raul ou o do Calixto. – Menino. venha cá. recolhido a um manicômio.444 Luís Edmundo – V. quase sempre. Detesta o automóvel. entram.. amofinado. uma pasta debaixo do braço. de Plácido Júnior e Guimarães Passos. Fala como escreviam Diogo do Couto e Fernão Lopes de Castanheda. D. o nariz ornitológico. em bora um tanto anquilosado pela mania do clássico. Veríssimo chocalhando a sua vozinha flébil de gaita velha. o que eu desejo é que V. Vive a elogiá-los. queixando-se dos calos. espírito simpático. umas coisas muito interessanFábio Luz tes. muito amigos. Acaba. se possível. duas linhas a respeito do herói. Não demoram. de gibão desgolado. Abalam. Exª perdoe. com o seu vozeirão tonitruante de leiloeiro ou de orador em comício popular. entretalhado de cetim. Cruz e Sousa. Continue. Sílvio Romero e José Veríssimo. achando tudo ruim: os versos do Sr. você publica. ultimamente. como era de esperar. O que discute acaloradamente com o Rodrigo Otávio. que o ponto deles é a Colombo.. pela época. é Raimundo Correia. Exª ponha sob esta linda cabeça de Napoleão a sua assinatura. Por isso vive desgostoso.

o Hermetismo.. uma vez. Gustavo Santiago sussurra poemas simbólicos. Ataulfo acabaria entrando para a Academia de Letras. todos. mostra sob o queixo uma barbela caprina e ruivacenta e de quem se diz que pratica o nudismo e o amor livre nas praias er mas da cidade. a teosofia ocidental e até o Mefistofelismo e o Mandalismo vindálico. mas não é muito do seu tempo. não possui. longe das vistas da polícia. Leu por exemplo. Um infeliz vivendo de barba em riste. o Cabalismo egípcio. em meigos Alberto de Oliveira e venturosos serafins. em tiradas cheias de arestas e de bílis. Rocha Pombo faz História e sorri. Passam João do Rio. feio. o Esoterismo. mas aconteceu. o seu charuto Desenho de Calixto e a sua glória.. Autor desconhecido Ainda não é o Mago da Sétima Palmeira. Discute. o Ocultismo da Índia. e o caso é que o mesmo lá está. que usa pince-nez de cordão. M. .O Rio de Janeiro do meu tempo 445 to. Múcio Teixeira. habitué na roda. Fábio Luz prega idéias anarquistas. aos dias de S. que o Sr. Pedro do Couto também sabe ler as mãos.. como o Albano.. mal-humorado. comprimindo Aguiar Pantoja à parede. Tem quase trinta anos e é virgem. o rosto que lembra do ho mem que deses pe ra.. Osório Duque Estrada encharca-o de pessimismo.. a pintura nefelibata do pintor Hélio Seelinger. com Pedro do Couto. o Imperador.. neurasteniPedro do Couto zadoras. um espírito tão velho. como vive. ostrificado à lembrança da velha monarquia. mas já é amigo do hierofante Magnus Sonhal. A um canto. Nestor Vítor solta gargalhadas satânicas. ou eternamente sonhando mistérios capazes de transformar-nos. um longo. Múcio. o monóculo a tapar-lhe o olho negro e melancólico. Tudo de acordo. que chupa uma ba rata ou um limão. vivendo.. Ninguém acreditava.

. Pede. O que ele quer. a cabeça. arredios. afinal. Pare com isso porque eu. loquaz. porém. e quando Deodato diz. Cruz e Sousa era um tipo sin- Oliveira Lima Desenho de J. de modo tal. mas. imaginoso. espírito desempoeirado.446 Luís Edmundo ∗ ∗ ∗ Um dos freqüentadores da Garnier. eu já vos direi porque urge arranjar esse dinheiro.. Certo dia vai ele presidir a uma reunião no Centro Sergipano. fazem eles uma existência à parte. ar redonda períodos. indicando que tão cedo terminará o seu discurso: – Filhos da minha terra. em Aracaju. mas alonga-se um tanto na oração que profere. Deodato é um orador fluente. toma a palavra o Deodato Maia. austeros. que está a seu lado e que se põe a discursar. é o Martinho Garcez. que corre afavelmente todas as rodas. alegre. murmura-lhe. o concurso de todos os sergipanos. afirma. Martinho. pela porta da livraria. de Cruz e Sousa.. Com cento e cinqüenta contos. belo.. todos. Temos que sair. Quando a sessão. empurra com força o relógio para dentro da algibeira. Estou atrasado. discípulos. Abre a sessão consultando o relógio. Carlos . que está com pressa. nervosamente.. pago a estátua! ∗ ∗ ∗ Vezes. secos. que toda a sala o ouve: – Oh! Deodoro. assim. o poeta negro. Félix Pacheco. Nestor Vítor. Arabesca frases. Saturnino Meireles.. São como o poeta negro que em sua torre de marfim viveu sempre insulado e tristonho. vai terminar. e do qual se contam vários ditos interessantes. é que se abra uma subscrição para erigir-se. puxando-o pela aba do casaco... por favor! Acabe esse discurso. Maurício Jobim e Tibúrcio de Freitas. uma estátua a Tobias Barreto. até morrer. Martinho coça. o monumento se fará. Altivos. Dão-se a importância. morto em 99. surgem os do grupo do Antro: Carlos Dias Fernandes.

. Pavio que arde sem gás. paupérrimo. defendendo a autonomia literária do Brasil. E aponta-se como dele estes ver sos que nos foram revelados por Carlos Dias Fernandes. Era violentamente patriota. contra o ensino do idioma que se fazia através dos Lusíadas de Luís de Camões. Antro? É o quarto do Tibúrcio de Freitas. os do grupo do Antro. as evitava. lendo um discurso de Joaquim Nabuco. Foi dos primeiros a se rebelar. além de um talento enorme. vivendo da renda curta que lhe dava um lugar modestíssimo na Estrada de Ferro Central do Brasil.O Rio de Janeiro do meu tempo 447 gular: pequeno. falava pouco e ainda menos sor ria. de um negro baço. Com fama de selvagem. seriamente comprometida pelos comendadores de Cristo e da Ordem de Santiago. retintamente brasileiro. assás Machado de Assis.. então. trepando sobre o segundo . profundos e expressivos. Nesse particular não o copiaram seus discípulos.. assás Machado de Assis. Morava num remoto subúrbio. quiçá. cheirando a Olimpo e a negócio”.. Rodrigo Otávio Desenho de Marques Júnior Não era Cruz e Sousa figura da Rua do Ouvidor. Diz-se. possuía. Tímido. franzino. livro que ele. cheio de filhos. irreverentemente. Não procurava relações. Oh! zebra escrita com giz. Sai-lhe o “Borba” por um triz Plagiário de Gil Blás Que de Lesage nos diz. tinha dois olhos langues. Carranca de chafariz. extasiado e feliz diante de Tibúrcio de Freitas. chamou um dia “compêndio de geografia em verso. Embora sempre infenso à Academia. Machado de Assás. voz branda e maneiras gentis. Pega na pena e faz zás. aqui. Assis. vimo-lo. o mais amado de seus discípulos: Machado de Assás. antes. uma vez. anacrônico e parvo. traços de caráter particularmente simpáticos. Assis. Pobre Camões! Diz-se que não gostava também de Machado de Assis.

Reduto de entonados sonhadores. O Antro é impenetrável. cabalisticamente. mas. Loja maçônica. Apenas. por ouvir dizer. se encontram a desoras.. . em tertúlias memoráveis. Turris eburnea. o arrebatado Carlos Fernandes à frente..448 Luís Edmundo andar de um velho e desmoronante imóvel na Rua do Senado e onde esses cardeais do simbolismo. Da existência dessas tertúlias sabe-se. no Garnier. primazes da nova idéia. Grande Oriente da literatura nacional.

aí vão ter em primeira mão. Pequena e simpática loja. os de obras francesas. . As novidades científicas. . São três portas. . . . numa organização lembrando a das livrarias inglesas. alemãs e inglesas. . .. . recebidas da velha Europa. . porque as vende muito mais em conta. . . . na Rua Nova do Ouvidor. . é considerada uma das melhores da cidade. correndo a extensa linha das paredes. . . . . . Não tem a apresentação espetaculosa da Garnier. . Há um serviço de catálogos admirável e todas as revistas bibliográficas do mundo estão à disposição da freguesia. sobretudo. . um salão muito comprido. balcão centro e as estantes altas de cinco a seis metros. . não obstante. . Capítulo 24 Outras livrarias da cidade OUTRAS LIVRARIAS DA CIDADE E SEUS FREQÜENTADORES – A LIVRARIA BRIGUIET – O LIVREIRO QUARESMA – OS IRMÃOS LAEMMERT – EXCENTRICIDADES DO LIVREIRO FRANCISCO ALVES – ALFARRABISTAS – ADORADORES DE CAMILO CASTELO BRANCO – BIBLIOTECAS E BIBLIÔMANOS DA CIDADE LIVRARIA do Briguiet. . nem mesmo a do Alves. . No sobrado. Faz séria concorrência aos livreiros importadores. . possui estoque variado e numeroso. o escritório e o depósito.

Barão Homem de Melo. Afabilidade. dizendo bem dos colegas.. na Rua de S.450 Luís Edmundo Briguiet é um gentleman. Que ele as corre todas. mais ou menos Rui Barbosa assim. Joaquim Nabuco. Medeiros e Albuquerque. muito natural. em geral. Pandiá Calógeras. primeiro-caixeiro da loja. abstrato. O José de Matos. sem atitudes desagradáveis. todo curvado. até as dos alfarrabistas. após a tournée que faz às outras livrarias. os fregueses curiosos acotovelam-se. Rui fala pouco. É muito da livraria do Quaresma. dá a impressão de um homem superior e feliz. avaselinado e carinhoso: – Sr. cumprimentando. Graça Aranha. Os oradores parlamentares. Caixeiro do Garnier. como a do Martins. Arrojado Lisboa. o dorso das encadernações e das brochuras postas latitudinalmente sobre a linha extensa dos balcões. baixo. e a do Paiva. Sílvio Romero. a varrer com o seu olho de míope. vagando entre pilhas de livros como dentro de um grande sonho. algumas bem distantes. Xavier da Silveira. Júlio de Novais. quase diariamente. achando tudo bom. quando sai do Senado. Cândido de Oliveira e Pedro Ivo. Artur Orlando. deitando-lhe olhadelas contundentes. sério. Na caixa está o Louis Saintive. monosDesenho de Seth silabicamente. Fez a prosperidade da loja sorrindo. Tem maneiras distintas. Tipo sem pessimismos. sem arestas. Conselheiro. como primeiro-caixeiro. Veríssimo. à Rua da Lapa. por vezes. Cordura. e no balcão. murmuram frases de admiração. sempre todo de branco.. José. vem logo para saudá-lo. Boa freguesia: Eugênio de Sousa Braman. quase todos eles. embora não adquirisse o feitio ronceiro do negociar. são. atencioso e risonho.. Quando aí ele chega. que freqüenta a escola de amabilidade do patrão. à Rua General Câmara. o grande Rui. de respeito. O Sr. muito certo. . Lá é que Rui Barbosa faz ponto certo e recebe recados e cartas. Conselheiro é homem de poucas palavras. próximo ao Campo de Santana. fora do palco da política. com ele adquiriu a prática do negócio. Linha.. o Louis Laber.

que o informe é seguro e de mestre. que traz. porém. pôs-lhe por cima do pince-nez de aro de tartaruga aquele olho profundo e dogmático que ele. Como preço. Sr. não lhe disse nada. pondo em evidência a novidade alfarrábica: – E isto aqui V. levado pelo José de Matos.. no entanto. vive num ambiente fechado de jacobinos vermelhos. Desenho de Seth alto. Apenas. Diga ao Quaresma para remarcar isto. escudeirando-o sempre. por acaso: – Tem. entre sentencioso e amigo: – Isso. o José. como se estivesse a falar com a vassoura do estabelecimento. cheio de naturalidade e de desplante: – Excertos. Vocês. Se fala! Certa vez. encadernada em brim pardo. ainda com a sua dicção lusitana muito pronunciada. após examinar a obra.. E lá vai o livro à remarcação. José é uma edição popular do Graça Aranha Quaresma. a começar pelo patrão. Sr. José. que lhe fazem uma guerra de morte. é exorbitante! Os catálogos ingleses não pedem nem a metade pela 1ª edição. simpático. punha sempre quando lhe batia ao ouvido um aparte bajoujo ou estapafúrdio. Conselheiro? Eu cá sempre ouvi dizer incertos – quase a acrescentar: – E é o que deve ser! Rui. cheio de corpo. fala demais.. E com o seu eterno ar de abstração e displicência.. Conselheiro? E o Sr. ativo. E o José. já tenho. continuou tranqüilo a remexer o alfarrábio. até estampas em cores. José. Rui pergunta-lhe. Exª já viu. Conselheiro. nesse dia. no Senado. os Excertos de Castilho? E o José. . mas.O Rio de Janeiro do meu tempo 451 Uma ou outra vez é que se volta para atender ao cumprimento dos que se lhe aproximam com mostras de intimidde ou de carinho. marcaram mal o volume. você. português de nascimento. sempre em luta comercial e política com os livreiros lusitanos.

. mas não era nada brasileiro. sai-se-lhes com esta: a mamã que Desenho de Calixto tos conte!”. Isso. Ele é quem conta. não sou eu. quando lhe vêm dizer ao ouvido: – Ó Zé. E vai cuidar dos seus fregueses. entre nós. A literatura infantil. – Diz isso raspando sempre calmamente. frases inteiras ficavam indecifráveis para as nossas crianças: “E o petiz que andava às cavalitas do avô vendo o marçano que trazia o cabaz pleno de molhos de Jacinto dos Santos feijões verdes. E não conhece desânimos. uma vez que as diferenciações entre o idioma falado nas duas pátrias eram já notáveis. e com certa constância: – Reajo! Sofreu muita guerra. na época. invariavelmente: – Quem defende Portugal. tem iniciativas. Quaresma não era jacobino. vinha toda ela de Portugal. para isso.. por exemplo. José. era muito bom português. muita deslealdade. Não realiza integralmente o que deseja. com a unha forte e ar displicente. Até certo ponto. de tal forma que. muita picuinha. audácia. E por ele se esforça e trabalha como poucos. mas isso. desinteressado: – Lérias! Deixá-los! E. Seu sonho é abrasileirar o comércio de livros. como a maioria dos textos desses mesmos livros. um plano. levanta os ombros. é o Sr.452 Luís Edmundo Ante às explosões de tão áspero nacionalismo. e. . quando se meteu no negócio. Traça. Fizeram-no. para nós ela representava um contra-senso. consegue muito. também. meu amigo. tanto que as nossas crianças não entendiam. não sem declarar. por vezes. é demais – ele responde. no entanto. a gordura traseira do cachaço. para chegar ao que é. cheio do melhor espírito. por vezes impertinentes. Como homem de negócios. João de Sá de Camelo Lampreia e o couraçado Adamastor.

Lira Popular. da trova patrícia. e os poetas do gênero começam a aparecer. porém. E surgem ainda outros que colecionam. Os que se importam. com o Cancioneiro Popular.. anos depois. Uma ou duas semanas após surge o primeiro volume da série: Histórias da Carochinha. História da Avozinha.O Rio de Janeiro do meu tempo 453 Quaresma manda chamar o Figueiredo Pimentel (que mais tarde encontraremos fazendo outra obra meritória e bem nacional. lança a famosa Biblioteca dos Trovadores. O Álbum das Crianças. brancos. que se vendem até pelas portas dos engraxates. possui a pertinácia do caboclo. estimulada. vão ficando sob a poeira das estantes. Quaresma. grandes cabeleiras. que ainda não é o interessante poeta regional. se conhece. No começo do século não há seresteiro cantador de violão que não procure a bibliografia do Quaresma para refrescar o repertório.. lenço no pescoço e chapéu desabado. pardavascos. e logo. uma campanha terrível. cresce. num barbante. embora sob a aparência fútil de crônicas diárias. palpita. Lira de Apolo.. Os livros começam a fazer um sucesso espantoso. então. mas toda uma biblioteca para os nossos guris. Histórias da Baratinha. Por vezes a loja enche-se de rapazelhos de calças abombachadas. a seguir: Histórias do Arco-da-Velha. em bandos rumorosos. Trovador Marítimo. a perguntar em que livro da série saiu o Perdão Emília: . mas que já se revela um versejador cheio de imaginação e de doçura. a Lira Brasileira. Os Meus Brinquedos. Faz finca-pé e acaba dominando o mercado. Trovador Moderno.. que. Entusiasta da modinha brasileira. negros-crioulos. na Gazeta de Notícias) e pede-lhe. Talvez os alemães. desbastando pilhas de brochuras. pondo em xeque o vinho português. Trovador de Esquina e Serenatas. em linguagem diferente da que se fala no país. a cavalo. Graças a essas brochuras. Contra Quaresma abre-se. a canção popular. não um livro. Cantor de Modinhas. quando aqui lançavam a cerveja nacional. Surge impresso Catulo da Paixão Cearense. Teatro Infantil. amadores do assunto. não sofressem tanto. do nosso vate popular. Choros de Violão. reconstituem e escrevem poesias de todo o gênero e que logo vão formar mais volumes da popularíssima e pitoresca coleção.

toda uma legião de cantores.. essência... . de seresteiros. roçando. a importância do Sr. cavaquinhos.. muito sujos. vozeiruda. É toda uma freguesia perguntona. aos gritos. a sobrecasaca do Conselheiro Rui. o Espanta-Coió. é o Trinca-Espinhas da Travessa da Saudade. espalhafatosa.. o Janjão da Polaca. Cândido de Oliveira. ou experimentando flautas. que arranca notas de dois e cinco mil-réis do fundo de lenços de chita. José de Matos Desenho de Marques Júnior Henrique Laemmert Desenho de Marques Júnior quando deve sair a nova edição do Trovador Brasileiro. Quaresma e José de Matos vão dando maniveladas ao negócio. Em meio a toda essa multidão que referve. a jurisprudência do Sr. nata da ralé. vem a noite em meio. não raro. José Veríssimo. não raro aos empurrões. Coelho Rodrigues. postas em capas de espavento. Dr.. o violão debaixo do braço.. o Chora-na-Macumba.. armados em carteiras. É o Chico Chaleira do morro do Pinto. oboés. no Mangue. sumo. para comprar as brochurinhas. a flor da vagabundagem carioca. de sereneiros.. que traz a “Casa Branca da Serra”: Na casa branca da serra Que eu fitava horas inteiras Entre as esbeltas palmeiras Ficaste calma e feliz.. A turva lua vem surgindo além. a sisudez do Sr.454 Luís Edmundo Já tudo dorme.

Aos livros dessa literatura popular e pitoresca juntem-se. para indagar. Além do famoso Dicionário. Larousse das cozinheiras. folhas e frutos. Essas novelas cruciantes. dispostas a dilacerar. revelador de uma técnica admirável em matéria de sedução e amor. escrevem frases como esta: sou tua até morrer!. relativamente. só comparável. que ainda vivem de espeque à beira das calçadas. em prestígio. e “gargarejo” sob a janela das casas de sobrado ou em lírico semaforismo com senhoritas em janelas ainda mais altas. brochuras sobre feitiçarias. porém. dobrados em abraço. ou à Joaninha do Jornal do Brasil. porém. Chave essa que se anuncia como um verdadeiro tesouro da fortuna (!). que. como se lê nos anúncios do catálogo. como o Livro das bruxas e outras adaptações do Grande Livro de S. onde se encontra a Arte de fazer sinais com o leque e com a bengala? O cavalheiro pertence à falange melancólica dos namorados do começo do século.O Rio de Janeiro do meu tempo 455 A clientela da livraria popular. melenas caídas nas orelhas. poucos. casamentos. Palpite. também. os livros do Quaresma não passam) e o Orador Popular perfidamente lançado pelo jacobino Aníbal Mascarenhas. para desbancar a glória do Rafael Pinheiro. que entra de olheiras fundas. Os que se editam. em estilo elevado. ar rancando.. aproveitando a cura de silêncio que faz o grande Lopes Trovão. a desgraçada! de Eugênio Elisiário. (sem os etc. Julietas cloróticas que atiram bilhetinhos perfumados à água-flórida. Seu. Cipriano. ainda. o Secretário poético ou coleção de poesias de bom-gosto. em falripas. o coração humano. aos jornalecos Mascote. seguida de um Perfeito decifrador de sonhos. por exemplo. procuradíssimo. com voz de quem recita Casimiro de Abreu: – Quanto custa o Dicionário das flores. O do mocinho pálido. pela época.. próprias para serem enviadas por escrito ou recitadas em dias de aniversários. batismos. são tremendos. Elzira. são todas escritas no gênero daquele arquifamoso folheto que . contendo.. Outra grande descoberta do feliz editor é a Chave de ouro do jogo do bicho. a morta virgem!. possui outros tipos de fregueses. como que escritas a ponta de faca ou canivete. em cursivos românticos. fazer declarações. Maria.. a melhor maneira de agradar às moças. etc. com ar de embalsamado. Romances para o povo. etc. enciclopédia de bicheiros.. garanhões platônicos. e onde.. é o ídolo das multidões. Quaresma é também editor do Manual dos Namorados.. no Senado ou na Câmara. bem interessantes..

um dia. das mais sensacionais de seu tempo. em pleno Rio brasileiro de Pereira Passos. dentro do nosso país. à estribeira. com o Zé de Matos. Antônio Torres acusa-o. Artur Orlando Desenho de Marques Júnior Joaquim Nabuco Desenho de Marques Júnior O livro. que. um pouco da história dessa Mulata. poderia ter merecido o epíteto de impertinente. aliás. agora. aproveitando certa reportagem. no máximo. não conheceu o Rio da triste herança colonial e que o grande escritor português pintou. Conte-se. escrito sob a influência da escola naturalista. publicada nas colunas do Jornal do Brasil. romance de Carlos Malheiros Dias. José é bem a Livraria do Povo dos seus espetaculosos anúncios. enriquece.456 Luís Edmundo se chamou O filho que esporeou a própria mãe e virou bicho cabeludo. caminha. pelo fato de ter sido escrito por estrangeiro. com tintas verdadeiras.. portanto. Quando Torres fala da sua elegante e confortável mesa de redator do O País. pela época. fala sem conhecimentos de misérias passadas. já na Avenida Central. a propósito. mas nunca o de ofensivo. Em 1901. de haver editado A Mulata. Quaresma. O romance. num belo halo de simpatias.. apaixona literatos e leitores. alegando que o mesmo nada mais é que uma deslavada ofensa ao Brasil. que ficou célebre nos anais da bibliografia nacional e que tantos desgostos deu ao seu autor. foi com- . Torres. porém. a loja da Rua S. querido de todos.

como que a definir um estalão moral que não era. Quaresma editou outras novelas de feitio brejeiro. porém. com o consentimento da polícia e sob a tutela das frouxas leis do Brasil. assinar a obra. por vezes pompeando títulos estercorários ou despudorados – para melhor iniciar os instintos de um povo infeliz –. tipo esse que. por esse tempo (1896 ou 1897) havia. bom seria lembrar que. que aqui viveu muitos anos. Não deu. literatura que se publicava. Além da Mulata. Como uma carinhosa homenagem ao país onde sempre viveu – sentia-se bem e tinha bons amigos –. aqui. Essas obras. porém. pelos jornais. Foi Quaresma quem impôs: “Nome ou nem quinhentos-réis pelo romance”. Malheiros Dias não queria. diga-se de passagem. mas um seu irmão. de tal forma. Acabou concordando. positivamente. estrangeiro. Amaral achincalhe que se fazia às coisas do Brasil era uma tradição! Lembrando essa tradição. No tempo esses livros sofriam a concorrência desleal e poderosa da literatura picaresca editada pelo Cruz Coutinho. porém. com colchoaria no centro da cidade. ao editor. Carlos achava-se numa penúria extrema. A obra. o lucro que ele esperava.. não muitas. . E embarcou. que ela não estivesse à altura de sua projeção literária. hoje.O Rio de Janeiro do meu tempo 457 prado por quinhentos mil-réis. Carlos Malheiros Dias riscou do número de suas obras a brochura que o nacionalismo exaltado de Torres condenava. apareciam em reclames feitas pelas nossas gazetas. E ilustradas com Cândido de Oliveira gravuras obscenas. não o de Lisboa. precisava de dinheiro. ficará lembrando a estréia de um dos espíritos mais brilhantes entre os que hoje constituem a glória da literatura portuguesa. a sua casa e a mercadoria que se dispunha a vender. Uma vergonha. certo Antônio de Tal. fazendo concorrência à literatura escandalosa do Cruz Coutinho. talvez. ansioso por embarcar para Lisboa.. reproduzir a hediondez de seus anúncios. a princípio. que nem por metáforas podemos. anunciava. de qualquer forma. o nosso. Se o Desenho de A. pensando.

ambos muito simpáticos que vêm tentar o comércio do livro entre nós. bengalas e guarda-chuvas. organiza a Enciclopédia do Riso e da Galhofa. é ainda mais antiga que a Livraria Garnier. logo a firma se impõe e prospera. expulso do Brasil. A Livraria Laemmert.. por isso. sem instrução. como mais tarde a rival francesa. uma idéia. para animar o seu negócio. apenas saído da noite colonial. esse patife teve. mais culto e mais inteligente. água de Seltz. a casa faz vida fácil e feliz. é o mais moço. Foi. O outro. O primeiro. substituindo a esfera azul com os dizeres Ordem e Progresso por um autêntico urinol de beira e asa. A loja não possui. começa a girar. Qualquer. Vem de 1833. Quando. ainda sem escolas.458 Luís Edmundo Não contente do estúpido achincalhe. Eduardo. O mais curioso. da minoridade de Pedro II e da glória risonha de Feijó. tendo em faixa larga os dizeres de suas camas e de seus colchões! E içou-a na fachada da loja. que se .. por decência. Com as suas águas. mais esperto. e. porém. Em qualquer outro país teria sido sumariamente linchado. certa vez. é mais ativo. as suas músicas e os seus livros. pelo tempo. mais homem de negócio. num agravo ainda maior aos brios e à dignidade da Nação.. publicação que se coroa de êxito extraordinário. e conseqüentemente. irmãos de sangue. Quem tiver dúvidas sobre este caso. logo depois. mal desovado da opressão lusa. amáveis setentrionais. tal a de mandar fazer uma bandeira nacional. mais velho. a Casa Garnier. sem hábitos de leitura. condoído da melancolia nacional. então na Rua do Ouvidor. aqui vivido. deixam de ser enumerados aqui. É quando o bom Eduardo. ambos de Baden. não pode dar-se o espetáculo singular de manter varejos onde só se vendem livros. além de livros. a manejar lepidamente o idioma da terra. indague de qualquer carioca que tenha. Graças ao justo equilíbrio que se estabelece entre os dois. É preciso lembrar que o país. vende. porém. E edifique-se com detalhes escandalosos que.. E é assim que em 1839 vemo-la lançar a famosa Folhinha. é que o bandido achou jornais que o defendessem. onde o espírito de Eduardo colabora. o Almanaque. por essa época. tem como proprietários Eduardo e Henrique Laemmert. em 1884. de Colônia e músicas impressas.

como talvez se pense. um homem só capaz de frívolos labores. os dois irmãos ganhando. a obra de Goethe. no Alcázar. Não obstante. Pelo correr dos anos a livraria segue de vento em popa. em sadias e boas gargalhadas. um pouco. o pecúlio. quando lhe passa pela porta. é quase uma choldra. o Rio do Sr. não é. muito importante e formalizado. velejando. que já não é mais aquilo que ele deixou. Pelo menos é quem traduz do alemão para o idioma nacional. onde ele sente estiolar-se o vago remanescente de sua amarfanhada madureza. aumentando. Mendes de Aguiar Desenho de Marques Júnior que já tem 40 anos de Brasil. depois. o seu rival Garnier (que não aceita. Fausto. mesmo depois do desaparecimento da gôndola. para o temperamento sonhador e irrequieto de Eduardo. a paz assinada em Paris). furioso. E o pratica. no entanto. emperrado por vários séculos de pessimismos e atávica tristeza.O Rio de Janeiro do meu tempo 459 dispõe a sacudir. saudoso. Fica na casa mano Henrique. Esse Laemmert amabilíssimo. Zacarias. negociando. Pedro II. o diafragma indígena. do triunfo da Susana. com o renome. Daí fazer-se de proa à pátria amiga. no Senado. a dessorar empáfia e altivez. enchendo-se de cãs e a ver com um sorriso de mofa. também. dependurado a um cantinho de lábio. que o Antônio Feliciano de Castilho aproveita. para meter em verso. atrás do seu balcão envernizado de amarelo. Laemmert acaba sendo um dos tipos mais pitorescos dessa enfestonada Pedro Quaresma viela que se chama Rua do Ouvidor e Desenho de Marques Júnior que pelos fins do século XIX é uma col - . Ama o grave. dentro das suas eternas calças brancas. amando somente o humorismo e a blague. embora sem a Alsácia e sem Lorena. e da oratória do Sr. após a guerra de 70. mas uma nação que o gênio de Bismarck enrija e glorifica. muito teso.

ia. certa vez.. cavaleiros smart. um número valioso de edições. no seu livro sobre o velho comércio da cidade. quando o livreiro sonha fazer-se o maior editor desta cidade. do crescimento do cabelo.. . buscar. e a terceira. do grande Euclides da Cunha. Mostra uma instalação luxuosa. Punha. Em 1901. mandou. para então retornar à primeira. na ca beça. de início. as pequenas casas concorrentes de seu comércio. e desanda a comprar. as outras. A Livraria Francisco Alves ainda não é a potência que se revela. especializando-se na edição de obras científicas e sérias. três perucas. anos depois. Freqüentam-na os que freqüentam o Garnier. sobretudo didáticas. bigode e “moscas”. outra mostrando-os já um tanto longos. e já forrados com aquelas espessas sobrecasacas que foram o suplício do tempo.. na França. com o tríplice artifício. o livreiro. nós vamos encontrar a antiga livraria sob a gerência de Gustavo Masow. a menor. Lá pousam mais o Figueiredo Pimentel. uma a mostrar os seus cabelos curtos. o Eduardo Laemmert pulmão atravessado pelo punhal que lhe Desenho de Marques Júnior cravou Jarbas Loretti. desaparecido o último dos Laemmert. um dia. representando a cabeleira rente. Valentim Magalhães. ao caso se refere. a torto e a direito. desplumando-se. afinal. e. que tem. Mendes de Aguiar e Elísio de Carvalho. Inglês de Sousa. quase todos de cabeleira. com cabelos longuíssimos.. Não esquecer que entre os grandes livros que então aí se edi tam está Os Sertões. Sousa Bandeira. Tudo para dar a impressão.. ótima clientela e uma loja ampla e bem fornida de obras. Ao descobrir. a isso impelido por uma questão de honra. Nesse manejo cômico viveu Henrique Laemmert muito tempo. Sena. que envelhecia como as velhas paineiras. Afonso Celso. até chegar à última. Já possui. Euclides da Cunha. assim pondo. de olho na folhinha.460 Luís Edmundo meia movimentada e rumorosa. sucessivamente. entretanto.. onde cruzavam negociantes franceses.

muito sério. servir este sujeito. largue a porcaria desses dicionários e venha cá. No fim da vida melhora um pouco. entrando logo para o varejo de secos e molhados. Exª é mesmo muito tola. deixe o raio dessa escada. Negócio mais limpo.O Rio de Janeiro do meu tempo 461 Francisco Alves nasceu em Portugal. quer saber com que intenções disse ele. Com as senhoras. Mas não o esgravatem muito. por vezes.. Veio para cá. Exª diz isso. o que é melhor. minha senhora. muito bem. entanto. Não entendeu.. porque o tamanco lá está. Pensa? Diz. Alves. fez-se empregado de livraria. Exª diz isso. afinal. é que ele se mostra um tanto cortês: – Se V. mas é porque V. meu caro senhor! Ora essa! Mas. ao fundo da venda. É pequeno.. Por sinceridade. Um dia. pondo de parte charques e cebolas. saltar de um momento para outro.. E de tal sorte por ele se apaixona que acaba grande livreiro e. zanga-se com um rapazote que lhe vai comprar uma gramática e manda-o a um lugar aonde. Quer falar ao Sr. consertando os óculos de ouro: – Com que intenções. Sem retóricas. podre de rico. queira V. minha senhora – Se V. a suportar os coices do patrão e a língua suja e asselvajada dos seus colegas de ofício. sua besta. Devia ter sido um bom caixeiro. Mais inteligente. Sem rebuços. o que tanto ofende a sua esposa e a ele. podendo. com intenções puramente comerciais! O outro ficou perplexo. Na loja vive sempre aos palavrões e aos berros: – Oh.. continuando: . embaixo. não se deve mandar. Momentos depois surge na loja o pai do guri.. ao menino. Alves olha-o de revés. Exª me perdoar. nem aos seus próprios pensamentos. uma vez que é homem que não gosta de mentir. remanescente daquele varejo de charque e cebolas. magro. em que viveu por tanto tempo. míope e muitíssimo desbocado. menino. Certa vez. lembrança dos dias em que passou de tamancos. nunca. o lápis atrás da orelha. Sem eufemismos. No fundo. um bom filho. E Alves.

na roda do comércio. Aqui. Meu caso é diferente do seu. se ela é branca. mas tem uma linda e penetrante inteligência.. E retruca: – Olha lá. sou o que quis ser. por acaso? A casca grossa do Alves! Francisco Alves Desenho de Marques Júnior O alfarrabista Paiva Desenho de Marques Júnior Tancredo de Paiva Desenho de Marques Júnior Pode não ter cultura.. Escolhi. isso não tem a menor importância. se ao invés de estar na minha casa.. afinal. por que é brasileiro? Porque o desovaram aqui! Ora. afinal. Seus propósitos. pelo menos. preta ou azul. meu amigo. chama-o brasileiro de arribação. se é mesmo aquilo que eu disse que era. para enfezá-lo. E você. estivesse à mesa de um príncipe ou de um embaixador. assim posto. ou se não é! Conheço-a eu. que é de negócio. Sei lá. uma espécie de homem que casa por amor. Francisco Alves. e não com a noiva que lhe arranjaram pai e mãe. porque quis ser brasileiro. sendo. porém. essa é muito boa! Eu.462 Luís Edmundo – Claro que. Está-se a ver. Um dia – acabava ele de naturalizar-se – entra-lhe pela casa adentro conhecido literato que. por vezes. em ar de troça.. Nós nos criamos assim e assim havemos de ser toda a vida! Intenções puramente comerciais. . Alves sente-se ofendido. Mesmo porque eu não tenho o prazer de conhecer a senhora sua esposa. eu sou. hoje o que o meu coração mandou que eu fosse. são de causar espanto. eu não diria ao seu filho o que aqui lhe disse.. Há muito mais mérito em ser brasileiro como eu sou que em ser brasileiro como você é.. Sou um homem de princípios. sou brasileiro consciente. menino. Eu sou brasileiro.

cheirando a detrito de cavalo de tílburi. Alves. como tu. E champanha. Zangou-se. Outras filhas de Citera das de alto coturno e fama. havia de te copiar os caprichos e as manhas. de sua champanhazinha. embora solapado por um clericalismo intransigente e um superinveterado A Colombiana Desenho de Marques Júnior . É franco como é bom. até. Era quando o poeta. mas foi perguntar ao Guima: – E esse Sardanapalo.. pontifica Carlos de Laet.O Rio de Janeiro do meu tempo 463 Possui Alves. pondo as mãos à guisa de corneta. disputando-te essas criaturas que tu amas e que morrem de amor por ti! Nesse dia Alves levou o Guima ao Campestre. vem cá! Lá vinha ele.. gritava-lhe ao ouvido. por vezes chamava-o. O homem tem o sentimento do belo. Pagou-lhe o jantar. Gosta de sua ceiazinha. vão buscá-lo à loja.. no Jardim Botânico.. E ama. Vezes é. do bom. ∗∗∗ À Livraria Azevedo. quem é? – Um homem que amava superiormente as mulheres. rua ainda muito estreita.. forte e alto. dorée sur tranche.. que sempre foi particularmente blagueur. na terceira ou quarta repetição da pilhéria. a ceia. É homem muito sério em todos os seus negócios. do fino. para que todos que estivessem na loja o ouvissem: – Sardanapalo! Alves. meio boêmio. sobretudo. da sua francezinha. Sabe gastar. Não tem alma de forreta. que fica na Rua Uruguaiana. porém. lindo espírito. as encadernações de luxo. como bom livreiro que é. e que. pequenino. muito suja.. do melhor. Generoso. E apreciáveis. Bilac. se vivesse ainda hoje. outras qualidades. em meio à faina do serviço: – Alves.. nervoso. pelo beiço. zangou-se. de uma lealdade mórbida. agitado. A famosa Colombiana trouxe-o durante muito tempo.

Laet é um tipo forte. disparando motejos e ironias. pince-nez de cordão.. Temperamento de ação e de combate. papai disse. de nunciando o espírito mordaz de seu autor: – Dando uma aula no Pedro II. frágil e delicada. acirrado. batendo com o cabo de volta do guarda-chuva no balcão do Azevedo: – Eu tenho sobre vocês uma virtude enorme. não se sabe bem a que propósito. Prazer de homem. guarda-chuva de alpaca. Não concordo nunca! E morreu discordando. maçaroca de jornais debaixo do braço. Tem a mão pesada. ardente defensor . lá em casa.464 Luís Edmundo monarquismo. Costa e Cunha e outros professores que freqüentam a loja. Laet. e é o próprio Costa e Cunha quem nos conta esta engraçada história. Alfredo Gomes. certa vez “o paradoxo do avesso”. ao florete. entre grupos de filólogos como Fausto Barreto. Costa e Cunha chama-o. sobre a fauna simiesca do Brasil. Tem a palavra fácil. o queixo manchado por uma barbicha rala. Hemetério dos Santos. o Castro Lopes. ontem.. gramático dos mais conspícuos. uma figurinha amável. respirando um ambiente de hostilidades e ferezas. dando ao que dizia um certo ar de discrição: – Ah! Quanto a isso não sei. o sabre. junta-se. às vezes. ao professor Alfredo Gomes. que nós descendemos de macacos. Não me meto em questões de família. dissera. fala ele. acesa. Seu pai deve saber melhor que eu. carregado de ferros. em geral com estrondo. Na polêmica. um dia. Dava um ótimo caricaturista. E cruza-o. como um guerreiro das cruzadas. cuja fisionomia talvez fosse capaz de impressionar o próprio Darwin. conta-se que. Maximino Maciel.. Interrompe-o um aluno: – Professor. Laet olhou o pequeno. Vive despejando sátiras. Revelando uma grande intolerância. À roda larga de professores que aí sempre vêm ter.. prefere. Para fazer rir. Se pudesse estaria sempre pelejando. Ama as deformações de coisas e fatos. como qualquer outro. Platéia curta. e respondeu. espécie de peso-pluma da pedagogia nacional. mas animada. simpático.

a ler o Jor nal do Co mércio.. em 1901. Gere o estabelecimento o Felicíssimo Machado. rir e pensar. ilustrando-se. de quando em quando. deixando aos filhos a tarefa de espanar as lombadas dos livros e atender à freguesia. Maria I. como faziam os inconfidentes mineiros em Vila Rica. ∗∗∗ À porta da sua livraria.. O Azevedo. arrancando.. logo. Se na pia batisDesenho de J. nas últimas. pelo Costa e Cunha e pelo Maximino Maciel.. a lembrança daquele velho relho colonial.O Rio de Janeiro do meu tempo 465 da língua brasileira. imediatamente. fremindo pelo espaço. com elas fazendo. quase ao sair no Largo da Carioca. Nem os anúncios lhe escapam! Lê tudo. Lê pachorrentamente o seu jornal. de inesquecível memória. Por isso. assustadoramente. despreza-o... abre. chupando um charuto de tostão. impregnando-se das novidades da véspera. já é morto. quando alguém chega para lhe dizer. dono da livraria. o pince-nez acavalado na bicanca vermelha e grossa. a todos. José. o seu manhoso pigarro. fazendo.. no tempo da Srª D. – responde. a provar que útil lhe foi o tempo .. o nome de Felicíssimo. trabalhador infatigável. E decora o que lê. A fortuna não gosta Carlos de Laet dos bons. em colete. Não raro surge em meio a esses doutores de gramática o vozeirão simpático de Joaquim Abílio Borges. o jornal. homem cheio de honra e de bondade. Pachor ra de homem. ele. Em 1902 monta casa sua. sempre muito aplaudido pelo Pedro do Couto. são feitas com cautela.. o Barradas. É que ainda anda sobre as nossas cabeças. quase a portas cerradas. Mal chega à loja. Carlos mal recebeu. porém. fora. está o Monteiro. coitado. assim: – Então. No tempo as discussões sobre o assunto não aparecem nos jornais. está vai-não-vai. A fortuna. Pobre Machado. com as suas atitudes paradoxais. de informes curiosos. à Rua S. gozando a fresca da manhã. alfarrabista.. refestelado na sua Tho net de pa lhinha.

debaixo do braço. hoje. para São João Batista. envolvendo-se em nimbos de poeira.. Monteiro não cansa de informar e de instruir os que.. O camilianista. já discorrendo sobre o grande incêndio que houve na cidade de Nova York e que vitimou 196 pessoas. pelo dia que corre. por vezes. desbasAutor desconhecido tando pilhas e pilhas de brochuras. como está num enorme cartaz forrando o fundo do estabelecimento. não trazem o Jornal do Comércio na cabeça. às quatro horas da tarde. de pata leve e de nariz no ar. sem ferir lábios e gengiva. Anda pelas livrarias como os perdigueiros no dédalo dos bosques. Vá. obra rara do mestre. em geral. e guarda-chuva de alpaca. como ele. E é assim que. porém. Compra e vende livros usados. em menos de três minutos. nessa faina ativa e tormentosa. o rosto. alfarrabista em escadas. já criticando a descoberta feita pelo americano Sample. E que ninguém se espante se ele souber. Há quem colecione livros de Camilo como quem coleciona selos “olho-de-boi” do Brasil. Enterra-se. 515. que fazem os serviços de bordo. de cabo de volta. saindo o féretro da Rua das Laranjeiras. sujando as mãos. À livraria do Monteiro vão muitos camilianistas. grosso pince-nez de tartaruga. depois disso. capaz de palitar sozinho. é um indivíduo que cheira a armário velho. Por sinal que compra pagando mal e vende cobrando bem. as partes brancas e engomadas da camisa.. Procura-a com afinco. de um palito automático. uma pessoa . miniaturas ou caixas antigas de rapé. usa sobrecasaca.. uma dentadura completa. para isso trepando Monteiro. revolvendo prateleiras. já deplorando a queda do Ministério francês.466 Luís Edmundo despendido na leitura longa e circunstanciada do jornal: – Pois já morreu. atrás da Infanta Capelista. Camilo Castelo Branco é uma nevrose. apresentam-se. cartola. o preço pelo qual o Bazar Francês está vendendo os seus canivetes de madrepérola. mais brancos e mais asseados. e da qual dizem que só 12 ou 13 exemplares existem. Na época. Carregadores de carvão. de olho atento e vivaz. porcelanas.

comprometendo a vida do camilianista Joaquim Abílio impressionável e sincero. como se elas fossem feitas de renda. nesse momento.. tem você. aludir-lhe à mania. cheio de esperança e coberto de pó. porque não deseja desafiar a ganância do mercador com demonstrações exageradas de júbilo pela descoberta. para regularizar a sua compra. o homem..O Rio de Janeiro do meu tempo 467 lembrar a um desses senhores a inconveniência da tarefa. Alexandre Herculano atribuído ao grande mestre. Só não ajoelha.. O Clero e o Sr. Vale a pena ver-se o homem devorado pela emoção. por acaso. ilumina-se. dando sopros amáveis na hipotética lombada do folheto ou. virando-lhe as folhas. Leva-o. depois. O próprio chapéu-de-sol com cabo de volta arfa pelas pregas da fazenda. E paga contentíssimo.. tais como a ruptura de vasos sanguíneos. porém. como se metesse uma grande estrela do céu. exulta. quase sempre. é um livrinho de 19 páginas. provoca complicações funestas.. O que ele descoDesenho de Marques Júnior bre.. Súbito. que essa descoberta. Cai-lhe do beque o pince-nez de tartaruga. palpita-lhe sob o braço contra o coração descontrolado e ardente. estremece. com carinho.. criticar-lhe o propósito. mete na sua estante a jóia bibliográfica que mal se apruma nas suas dezenove pequenas páginas. contrito. A Infanta Capelista vale sacrifícios maiores. Se chega para visitá-lo outro camilianista. síncopes cardíacas. em suas prateleiras? Vasto carão de espanto do outro: . no momento. ao escrínio da estante e tenta desarvorá-lo. Paga. com o folheto na mão: – E isto. a cama de dormir. Em casa.. perguntando. logo. Não é a Infanta Capelista que ele encontra. Se não tiver dinheiro suficiente. muito pálido. filigrana de ouro ou tessitura de arminho. o que lhe pedir pela obra. será capaz de vender até os móveis da sala de jantar.

Uma coisa que todo mundo sabe. a bigodeira e a barba desalinhadas a manchar-lhe a face branca e amiga. cinco mil-réis. em matéria de livros sobre o Brasil. português. três. Tudo porque não pode encontrar a Infanta Capelista.. com todos os seus relâmpagos de sorrisos e de consolações. o mais vultoso estoque da cidade. Não lhe pagam? Martins. sem o lucro de um níquel. ∗∗∗ João Martins Ribeiro... ele aceita quatro. porque se o que lhe compra não pode dar. entretanto. nem está no Inocêncio! – Ah. embaixo. achando o mundo incompleto e a vida coisa vã. Você veja. pé da folha. só para manter o fogo sagrado do negócio e guardar o freguês. Em 1901 já é o “velho Martins”. volume II. últimas linhas. de altura mediana. tem casa de alfarrabista na Rua General Câmara. em Eu e o Clero. não são muito comuns. o “Vende-sempre”. O pobre camilianista. porém. por um livro. isso é que está! – Não está! – Está! – Você diz que não está porque você viu errado.. Uma coisa que todo mundo sabe! Instantes como esses. Folheto impresso pelo Francisco Xavier de Sousa.468 Luís Edmundo – Sim. não se aborrece. continuando para o verso. é sempre uma criatura desgraçada. até. senhor! Isto é raro! Raríssimo. – E quanto quer que lhe pague pelo volume? . Protege os estudantes sem recursos. no fundo. Fia. É um velho simpático e bonachão. por isso. entregando-o. Lisboa. E mostrando a sua erudição Maximino Maciel Desenho de Marques Júnior bibliográfica sobre as obras do mestre: – Página 243. Viu em Camilo. 1850. Quase a Infanta Capelista! – Depois. os pobrezinhos que vão sem calçado para a escola. O homem conhece bem o seu negócio e possui.

O Rio de Janeiro do meu tempo 469 – Leve a gramática. Não custa nada. Outras vezes é um desgraçado que lhe entra pela casa, a suar, pejado de livros e papéis. Martins sente a miséria do homem, no olhar, na humildade da voz, na palidez do lábio... Os livros, porém, não valem nada, palha, na linguagem vulgar do alfarrabista. Lixo. Fala, porém, o coração do Martins ao homem desalentado: – E quanto quer você, por tudo isso? – O que o senhor quiser dar... Martins mete-lhe na mão uma cédula de dez mil-réis: – E leve também o seu embrulho. Leve-o... Num lote de alfarrábios, comprado, certo dia, o velho livreiro encontra um manuscrito interessante. É uma História do Brasil, para ele, completamente desconhecida. Separa-a. Não a põe à venda. E o que ele separa é apenas a História do Brasil de Frei Vicente do Salvador! Capistrano quase desmaia de emoção, quando folheia o códice precioso. Sabendo o que para o Brasil representa o achado, resolve, logo, oferecê-lo à Biblioteca Nacional, gesto que o próprio Capistrano registra no prefácio que faz à obra do primeiro historiador brasileiro do Brasil. Martins é um excelente homem, mas, muito excêntrico e cheio de inconcebíveis e insensatas birras. Certa vez resolve não mais sair do prédio onde reside e onde está estabelecida a livraria, e dele nunca mais arreda pé! Não passa da soleira da porta. Não atravessa nem atravessará, jamais, a rua, para falar a um vizinho, para espantar um gato que lhe entre na loja. Quando lhe falam, mais tarde, nos melhoramentos que o prefeito Passos faz por toda esta cidade, levanta os ombros como se ouvisse falar de reformas na China: – Melhoramentos! Morreu sem ter conhecido a Avenida Central, sem saber que coisa era o cinematógrafo. Via o Ferramenta, o famoso Leão dos ares, subir em seu balão, da loja, e como bom português, aplaudia-o, mas nunca entrou num automóvel.

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Um dia, na casa em que reside, verifica-se um caso de febre amarela. Chegam funcionários da Repartição de Higiene a fim de expurgar, severamente, o prédio, conduzindo os moradores ao Posto Central de Desinfecção. – Vá quem quiser, que eu cá, não vou – diz ele. Intervém a família. Os vizinhos. Os amigos. Lembram-lhe os malefícios que podem resultar da sua teimosia. Nada convence o velho obstinado, teimoso, que continua a repetir: – Vá quem quiser, eu cá, não Elísio de Carvalho vou. Desenho de Pacheco Afinal, se era para desinfetá-lo que o desinfetassem ali. E tanto insiste e tanto bate o pé e nega-se a obedecer que as autoridades resolvem mandar, da repartição, um vasto tambor sanitário, para nele se meter o Martins. Está o homem como quer. – É preciso enfiar-me nessa armadilha? Pronto! E lá vai ele para dentro do tambor, nuzinho em pêlo, radiante, achando muita piada ao caso, animando o pessoal de serviço: – Vamos, rapazes, e agora, toca a desinfetar! Sabe que a fantasia vai lhe custar um dinheirão. Mas que seja! O que ele quer é manter a palavra, não torcer. O resto não tem importância. Vezes as suas birras passam a casmurrices desconcertantes. Certa vez deixa de vender a Santos Maia um livro sobre o Brasil, só porque, embrulhando o volume, ouviu-o dizer que comprava a obra para arrancar-lhe uns mapas, desinteressando-se do texto, que julgava antiquado e malfeito. – Pois já não me leva mais o livro – diz, arrebatando às mãos do outro o volume embrulhado. – Pegue lá, de novo, o seu dinheiro. – Por que, Sr. Martins?

O Rio de Janeiro do meu tempo 471 – Porque eu sou vendedor de livros, não sou vendedor de mapas! É o que é. Sai Santos Maia e, ele, zás!, arranca os mapas e os rasga em pedacinhos, não sem dizer a quem o observa, em tão absurdo manejo: – É que o gajo pode agora mandar comprar o livro, por outro... Pode comprar, pode, mas, não há de levar os mapas. Como bom lusitano, ele ainda guarda na alma a brasa daquele ciúme mouEuclides da Cunha ro que se transplantou para esta parte da Desenho de J. Carlos América. Sua esposa passa 40 anos sem sair de casa. E sem direito de receber, quando ele está na loja, até as pessoas masculinas de sua própria família! Uma vez que ela recebe, sem seu consentimento, um irmão que chega, repentinamente, de fora, e ao qual não vê há muitos anos, Martins faz-lhe uma cena terrível. Conta-nos hoje uma sua nora, a casada com Alberto Martins (e ainda residente na mesma casa onde existiu a velha livraria, na Rua General Câmara, 345), que, uma vez, logo ao casar-se, indo sair com seu esposo, ouviu do sogro esta frase terrível: – Com que então o Sr. meu filho casa-se a fim de ter mulher ou um pano-de-amostra, servindo, também para os olhos dos outros? Estranha mentalidade a desse homem que, em pleno século XX, conserva a mentalidade de vassalo de El-Rei D. João V ou monarca ainda mais antigo. Na Rua da Lapa fica a livraria do Rodrigues de Paiva, pai desse Tancredo Paiva que, ainda hoje, anda por aí, cinqüentão ágil e perro, tão inteligente, tão conhecedor de seu ofício, livreiro e escritor, modesto, útil, sabendo ver e contar como bem poucos, viga-mestra onde repousam os bibliógrafos da terra que andam atrás de raridades que não vão jamais a alfarrabistas. O velho Paiva, além de vender e comprar alfarrábios, é também editor. Suas edições, porém, são todas de acordo com o seu comércio de livros. Quer dizer que não edita obras de autores novos, senão antigas; as que se referem ao Brasil, exclusivamente, e lhe parecem raras

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ou de todo desaparecidas do mercado. Seus serviços à Brasiliana, assim posto, são notáveis. Tinha fama de jacobino e de brigador. Sena, quando o evoca numa das suas crônicas pintando os fins do século que passou, dele nos fala como de um turbulento, um rolista que, pela época do Encilhamento, andava a disparar garruchas à porta da Pascoal. Tiros de pólvora seca. E, isso mesmo, para espantar uns tantos exploradores que queriam transformar a Rua do Ouvidor em sucursal da Bolsa. Embora ligado aos “vermelhos” do florianismo, Paiva é homem tranqüilo. Sua livraria é um tanto afastada do centro, mas, é preciso observar que a clientela para a qual ele trabalha é toda de gente que lhe dá encomendas diretas, e com a qual ele diretamente também se entende a domicílio. Pesquisador emérito. Verdadeiro detetive do livro. Vai descobri-lo onde ninguém o espera. Ganha, por isso, muito dinheiro, ganha, mas, como é um mão-aberta...

O livreiro Martins Autor desconhecido

Evaristo de Morais Autor desconhecido

A livraria de Jacinto Ribeiro dos Santos, na Rua de São José, foi fundada em 1850. Tem, portanto, mais de meio século de existência. É de aspecto modesto, porém é a que edita as melhores obras jurídicas do país, livros de Teixeira de Freitas, Viveiros de Castro, Nabuco de Araújo, Martinho Garcez, Morais Carvalho e Carlos de Meneses. Livraria dos desembargadores, dos juízes, dos advogados e dos estudantes de Direito. Espalham-se, ainda, pela cidade, outras livrarias. A Evangélica, por exemplo; a de Francisco Uttley, à Rua do Clube Ginástico; a da

O Rio de Janeiro do meu tempo 473 Federação Espírita, à Rua do Rosário, 141; a do Sousa Lobo, no prédio nº 81 da Rua Sete de Setembro (vendida ao Alves, depois, em 1902); a do americano Tucker, na Rua da Ajuda; a Lombaerts, fundada em 1848, por João Batista Lombaerts – o que adquiriu as oficinas do Sisson, e que edita a Estação, jornal de modas, à Rua dos Ourives; a livraria David Corazzi, à Rua da Quitanda, muito freqüentada pelo bom estoque que sempre apresenta de livros Pires Brandão portugueses; a de Leandro Pereira, à Rua Desenho de Marques Júnior do Ouvidor, 74; a Savin, à Rua da Quitanda, 3; a do Nunes Brandão, à Rua da Quitanda, 6; na Rua S. José, 17, a livraria do Cunha, magro, seco, sofrendo muito de asma, organizador, em geral, dos leilões de livros que aqui se fazem... Quando rompe o século XX, a maior biblioteca particular existente no Rio de Janeiro é a de Cândido de Oliveira. A de Ramos Paz coloca-se em segundo lugar. A de Rui Barbosa pode ser colocada em terceiro. Outras, porém, muito importantes, ainda existem: a de Sancho de Barros Pimentel, a de Henrique Alves de Carvalho, a do seu irmão Lafaiete, a de Coelho Rodrigues, a de Ulisses Viana, a do Visconde de Ouro Preto, a de seu filho Conde de Afonso Celso, a de Carlos de Ulisses Viana Carvalho e a de Pereira Passos. São essas Desenho de Marques Júnior as principais bibliotecas da cidade. A de José Carlos não é, pelo tempo, a que mais tarde consegue ser; não obstante, pode já ser incluída entre as nossas grandes bibliotecas, em 1901. Elísio de Carvalho que, pela época, casa-se com mulher rica, instalando-se na Rua do Riachuelo, organiza uma notável biblioteca de moderna literatura, mandada buscar diretamente à Europa: livros franceses e ingleses, espanhóis, italianos, quase sempre em edições de grande

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luxo, volumes impressos em papel de Holanda, China e Japão, coleções raras e caríssimas. Empresta livros a todos os seus amigos e mesmo aos que o não são. Exemplares únicos aparecem, no fim de algumas semanas, pelos balcões dos sebos da cidade, outros desaparecem para sempre, sem que se saiba, exatamente, onde... E a caixotaria a chegar da Alfândega, e mais os pacotes, as faturas, os catálogos... E o Elísio, como um nababo, a encher as Capistrano de Abreu estantes, dele, dos amigos, dos sebos da Desenho de Marques Júnior Rua de S. José... Esse delírio bibliomânico, do qual se aproveitam honestamente, diga-se de passagem, certos intelectuais pobres, da sua maior intimidade, só acaba quando o dote da mulher se esgota, no dia em que a uma roda de amigos, no fundo da sua linda e rica biblioteca, folheando uma coleção de affiches de Mucha, posta em volume numa edição valendo muito mais de mil francos, ele diz, embora sem grandes apreensões e cuidados: – O pior é que o dinheiro acabou. Felizmente prometeram-me um emprego, aí numa repartição qualquer... Nesse momento Elísio de Carvalho, o bibliômano mais moço da cidade, não tem mais de vinte anos. Convém não esquecer que, por ocasião de sua morte, anos depois, lega à sua família uma biblioteca importante, riquíssima, sobretudo, em obras históricas sobre o Brasil e sobre a América.

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Capítulo 25 Carnaval de outrora
CARNAVAL DE OUTRORA – TEMPOS DO ZÉ-PEREIRA. SUA VIDA ATÉ O COMEÇO DESTE SÉCULO – CIDADE DE MASCARADOS – FANTASIAS DA ÉPOCA – OS TROTES – SOCIEDADES CARNAVALESCAS – PRÉSTITOS – FIGURAS DO CARNAVAL CARIOCA – O CORDÃO, ALEGRIA DO BAIRRO – AS CANÇÕES DE DEUS MOMO

CARNAVAL foi sempre, entre nós, uma festa de plebe. E de rua. Zabumbadas. Pandeiradas. Gaitadas. Gritos: vi-vôô! Berrarias: Evoééé! Desafogo grosseiro da massa. Ventura desalinhada de almas impetuosas e rudes. Alegria tresloucada e pagã. Em 1852, para aumentar tanta balbúrdia, como um fantasma, surge o neurastenizante zé-pereira! Sete ou oito maganos vigorosos, tendo por sobre os ventres empinados satânicos tambores, caixas de rufo ou bombos, por entre alucinantes brados, passam pelas ruas, batendo, surrando, martelando, com estrondo e fúria, a retesada pele daqueles roucos e atroadores instrumentos. É um desabafo estúpido e brutal de criatura que sente a necessidade de cantar, de bater, de bramir a alegria em cachões, que lhe vai n’alma. Que, se o

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homem de elite, quando venturoso, sorri, o da plebe, em geral, feliz, expande-se em ruídos, gargalha, espinoteia e dá patadas. A princípio, o zé-pereira é um préstito de fragoroso alarido. Batecum. Estrondear de pelicas. Berraria caótica e hiperacústica de sons loucos, de brados, loucos, de barulheira louca. Não se canta. De resto, as palavras não seriam ouvidas, ante o ensurdecedor e reboante conflito de estrondos e retumbos que a fúria de braços vigorosos arranca, violentamente, ao oco das caixas, dos bombos e tambores.
Dig, Dig, Dig, Bum. Dig, Bum, Dig, Bum, Dig, Dig, Dig, Bum. Dig, Bum, Bum, Bum.

Só quando aqui nos chega a marcha buliçosa dos Pompiers de Nanterre, que o povo carioca barulha e o assobio de moleque pela rua desafina e consagra, é que se consegue um pouco de armistício para o ouvido do próximo. Habeas corpus feliz. Trégua amável. Não há rancho carnavalesco que não cante.
E viva o zé-pereira Que a ninguém faz mal, E viva a bebedeira Dois dias de Carnaval! Ta, tara-ra-ra Ta, tara-ra-ra Ta, ta-ta-ta-ta.

Logo, porém, recomeça o tã-tã cavernoso das pelicas em sova, enquanto a massa estouvada e bulhenta ondula, rola em fúria acesa pelas ruas estreitas da cidade, como uma roda de fogo movida por Satã. É o negro. É o branco. É o mulato. É o Brasil. É toda a na cionalidade borbulhando, estorcendo-se, saltando, bocas em os. Faces hílares pingando suor ou zarcão. Trejeitos. Saracoteios. Chufas. Guinchos. Loucu ra ge ral. A rua co a lha-se de doidos. Os que têm juízo, fo gem... Os irracionais, habituados ao homem melancólico, rosnam e, desconfiados, olham-no de soslaio. E continua a multidão aos boléus,

O Rio de Janeiro do meu tempo 477 pelas ruas, sanhuda e desenfreada, na sua infatigável barulheira, sem se deter, sem diminuir, sem afrouxar aquela nervosidade que a todos desnorteia. Há quem desame a rajada terríssona e iracunda, capaz até de romper os tímpanos do ouvido, matinada formidolosa que os sentidos contunde e perturba e exaspera, mas há também quem com ela se encante e se embriague, sorvendo-a como quem sorve canjirões de vinho. A mais perigosa de todas as bebedeiras é a que põe dentro do coração de um homem triste o favo da alegria e do prazer. Chega a matar. Que há quem morra de contentamento, como quem morra de dor. O zé-pereira é português. Sente-se. Na alegria desabusada que desperta, no ruído infernal que precipita. Achou, aqui, clima propício. Ficou. Faz bem na terra onde a alegria é pouca; reconforta, estimula, atiça, alenta, anima. Quem tiver ouvidos de tímpano fino ou delicado que os tape ou fuja. Que a alma rude do homem que trabalha e sofre o ano inteiro precisa expandir-se em grosseiras e reais alegrias:
Dig, dig, dig, bum. Dig, bum. Dig, bum.

Trouxe às plagas da América o pavoroso ruído, certo José de Azevedo Paredes, que pelo nome não se perca. Era um rapaz filho do Porto, simpático e brincalhão, com loja de sapateiro, ali à Rua de São José. Parece que a idéia de zabumbar nasceu-lhe do hábito de bater solas. E Paredes, dizem que as sabia bater como bem poucos. Questão de pulso. Vigor. Ritmo. Na hora de despedir o Palhaço Desenho de Armando Pacheco peso da vaqueta era como se vibrasse o martelo dos couros. Zabumbava. E zabumbando, zabumbava tanto que estourava e partia bombos e tambores. Um arrebenta-pelicas de primeira! Foi grande sucesso a novidade, logo que apareceu. Depois, delírio. Acabou desespero. Aflição.

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Pelo começo do século – 1901, 2, 3 – o zé-pereira ainda vive. Em vésperas de carnaval, as vitrinas das casas de instrumentos de música enchem-se de tambores, de bombos, de caixas de rufo. Há-os para todos os preços e todos os tamanhos e feitios. Não existe associação carnavalesca que não possua sua formidolosa bateria. O zé-pereira passa a ser uma espécie de hino sem palavras desses grêmios, bandeira de ruídos, símbolo sagrado dos domínios caóticos da Folia e de Deus Momo. As grandes sociedades colocam-no à frente dos seus préstitos quando fazem festivas passeatas. Só depois de 1904, com a remodelação da cidade e o natural cancelamento de certas tradições alienígenas, é que o zé-pereira começa a esmorecer.

Zé-pereira Desenho de Armando Pacheco

O Rio civiliza-se, diz-se pelos jornais. E os ruídos bárbaros são convidados a desaparecer de uma cidade que começa a cultuar a civilização! Acaba aí por 1906, 7 ou 8, como todas as coisas acabam, mas com esplendor e com glória, isso, após ter interferido, poderosamente, nas alegrias patrícias, avivando-as, exaltando-as, durante cerca de meio século. Querido e festejado, o lusitano zé-pereira, desde que surge aqui, vive num ambiente propício e amigo, como se vivesse em casa própria. Projeta-se na vida nacional. Atua sobre a política, que é também de zabumbadas, e até sobre a literatura, que é bastante caótica e um tanto carnavalesca...

O Rio de Janeiro do meu tempo 479 No começo do século a quantidade dos que se mascaram é, realmente, notável. Desde cedo, andam grandes massas coloridas pelas ruas, soltando risadas escandalosas, casquinando, fazendo soar gaitinhas, apitos, assobios de barro ou folha, ora em correrias desordenadas, aos saltos, aos guinchos, aos berros, ora a falar em falsete. O Rio transforma-se numa cidade alegre de mascarados, onde todos, mais ou menos, se divertem. Só o aristocrata, o elegante, que foi à exposição de 1900, em Paris, mora em Botafogo ou em Águas Férreas muito cioso do seu chapéu haute-forme, comprado na Rue Royale, e dos seus vernizes, mandados fazer ao Incroyable, foge aos desvarios de Momo, trancando-se no seu palacete de grades prateadas, quando não abala, a correr, caminho de Petrópolis. O Rio da época ainda é um miserável povoado, sem grandes hotéis de luxo, sem numerosas carruagens e, sobretudo, sem conforto e sem chique. A cidade é de comendadores analfabetos, burgo co mercial estrangeiro e pobre, desagradável ao olfato, onde vicejam apenas velhas e prosaicas tradições com as quais os espíritos de certa distinção vivem em desacordo, quando não vivem em luta a mais aberta e acesa. Não há lugar, portanto, onde o aristocrata possa se divertir. Por isso sai ele da cidade, ou quando fica, isola-se. Os velhos de ontem, os que conheceram os folguedos de Momo logo após a Guerra do Paraguai e até os dos últimos anos da monarquia do Sr. D. Pedro II, particularmente brilhante, dizem todos que, em matéria de fantasias e máscaras, as festas a que eles aqui assistiram, os anos 1901, 2, e 3, foram e ficarão sem rivais no Brasil. Um verdadeiro delírio de travesti. Por essa época, com efeito, todos ou quase todos, se fantasiam. E se encaretam. Na massa colorida e agitada, o que mais predomina e o que mais impressiona são as indumentárias de “diabo” de todas as castas e feitios. Num país católico, como o nosso, com procissões ainda saindo pelas ruas, as crianças beijando, pelas calçadas, a mão dos padres e o comércio de cera para promessas fazendo a fortuna de veDiabinho Autor desconhecido

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lhos ateus, não deixa de ser curiosa a solicitude com que as boas mães de família, devotas do Coração de Jesus, não querem saber de outra fantasia para seus filhos, que se divertem, aos pinotes, dentro de maillots vermelhos e sarapintados com guizos e lantejoulas mostrando com brejeirice e garbo, além de outros atributos dos filhos do Inferno, longas caudas de algodão em rama, enrodilhadas na cintura. Há pior, entretanto. Muito pior. Há cavalheiros carolas, por exemplo, freqüentadores dos sermões do Padre Gonçalves, grandes devoradores de hóstias e de missas, que se exibem vestidos a Mefisto, de pêra e chavelhos de ouro, calçando meias escarlates e trazendo aos ombros uma capa negra, de mil dobras, decorada por feíssimos dragões. Os Satãs, de máscara horrenda, com lagartos e cascavéis saindo pela boca, olho em bugalho e unhas de gavião, pululam. Sem conta são os demônios verdes, em tudo iguais aos que a Srª D. Maria I via dançando nos parques de S. Cristóvão, pelas suas noites de fe bre e de loucura. E os Plutões, os Belzebutes e Lucíferes descaudados, os Demos de cauda curta, os Satanases com pé de pato e outros gênios do Inferno, vomitando enxofre e fagulhas pelas ventas? E, quando esses impertinentes gênios do mal, que, em fúria, penetram até pelas igrejas que estão abertas, indo aos saltos, aos berros, atrás de pobres e transidos sacristães? Todos esses desacatos e irreverências acabam por desgostar, profundamente, os notáveis da Mitra, o Sr. Arcebispo da cidade inclusive, um santo e benquisto varão que não com preende, nem pode explicar tão deploráveis desatinos, principalmente quando pensa que isso se passa num país como o Brasil onde Santo Antônio de Lisboa chegou a atingir o posto de coronel de infantaria, com nome até no Almanaque do Ministério da Guerra. As gazetas católicas, que também não compreendem nem explicam o que se passa e as aturde, mais decisivas, embora sem grande senso prático, desancam os que não se pejam dessas familiaridades comprometedoras e incompatíveis com a alma de um bom cristão. Nada conseguem, porém, essas gazetas. E é justamente, por essa época, que o número de diabos começa a aumentar. Depois dos diabos estão os dominós, como disfarce de maior preferência do carnavalesco carioca. Dominós até feitos em veludo (para um clima como o nosso, imagine-se!) em meio aos que se fazem em chita, em cretone ou em cetim. Com um lençol o habilidoso do

ó sol. os que ali estão. Máscaras de renda. dança! Se há princês ao lado ou próximo. o seu enorme bastão. na direita. com o catongan. Na mão esquerda. vistosos tricórnios de oleado. destacando sobre a véstia gema-de-ovo o bofe de renda. ora fincando no olho terrível da máscara. ó velho. já se vê. de sapatarras de verniz com longuíssimas fivelas. o velho com ele dança – sem música. que caminha passarinhando. bengala. os instruídos nos bailados da “chula” e do “miudinho” vestem-se de “velho” ou de “princês”. casaca preta de alamares. de cetim. lembrando os dos faricocos. É um exercício diabólico em que os pés ora resvalam. Os dançarinos que conhecem os segredos da coreografia patrícia. enorme. com o seu capuz. De repente. mais dança de pés e de pernas que de tronco. que é a olho em túnel. sapateado de origem africana. Dança a chula. longas e negras. que adora em particular o tipo e a sua estranha coreografia: – Dança. Ó raio. a marcha irregular. movimento agitado de pernas que se juntam e que se ajustam. sobretudo as que evocam os dominós das mascaradas do século XVIII. com os seus capuzes altos. ora se entrecruzam. não raro cain- . apenas seguindo o compasso das palmas que lhe batem.O Rio de Janeiro do meu tempo 481 tempo improvisa. a luneta magnífica. por vezes. ora erguendo. nas cabeças descapuchadas. ou trazendo. uma fantasia no gênero. suspende a lua Bravos ao velho que está na rua! Assim canta o poviléu animando o selórico. Sobre os ombros uma peçorra de papelão. com descaídas rítmicas na calçada. a sua gola e o seu grande mistério. atirado negligentemente para as costas. Na falta do princês. para estabelecer o equilíbrio da figura. uma vez que o busto tem que se manter ereto. calções apertados. os braços movendo-se. Muitas dessas impenetráveis fantasias fazem-se de seda e mostram distintos propósitos de estilização. dança sozinho. mostrando face escanhoada e um rabicho. pano ou couro. O velho é sempre evocação grotesca da figura de um selórico setecentino. o brado da patuléia. no paço. apenas. luneta.

A dança do velho só. A multidão. descolombinados e esquivos. com cartolinhas fincadas nos crânios lisos por carapuças feitas de meias de senhora. como os de Villete. O velho. a de bebê-chorão. traça a letra K! Difícil. e que. entanto. aplaude e continua pedindo: – Corta-jaca! – Basta! Provou! É “cuera”! Naturalmente a dança do velho com princês que é quem. vestindo macacões de criança. com o bico do pé. A letra K e a letra R são as mais difíceis de fazer nesse bailado singular. a fralda da camisa do lado de fora. os tonys capazes de fazer chorar o próprio Momo. faz um sucesso enorme. as caras cor-de-lua. tiras. posta em círculo. Nesse jogo de mem bros inferiores. cada qual buscando demonstrar. mais que o outro. o velho está fazendo.482 Luís Edmundo do em desfalecimentos procurados para fazer tombar o corpo. a dizer para os companheiros. ainda mais envergonhados do que eles: – Como estamos horríveis! Há uma fantasia inexpressiva. bor- Rei dos Diabos . figuras espaventosas. no lugar onde dança. que deve estar sempre no seu prumo majestoso e senhoril. Homens de dois metros de altura. clowns fúnebres que vão se mirar nos cristais das vitrinas das lojas. agilidade e maestria. pelas regras da coreografia carnavalesca. é muito mais interessante. nomes. os palhaços são todos melancólicos. é dança do mesmo modo apreciável. deve provocá-lo “puxando a fieira”. não se sabe por que. que a gentalha da rua conhece e explica: linhas. são tristes. Os nossos pierrots. desenhos: – Gostei do Jota! – Roda de carro! Bonito! – Velho. As fantasias de pierrot abundam. os concorrentes caprichando no arabesco do bailado. porém. executa-as. entanto. à custa de polvilho e alvaiade. que Desenho de Calixto se vê muito.

pergunta que todo mundo. quase sempre. Vezes vêem-se trios impressionantes como este: um “padre” levando ao braço direito. sob a nuvem policrômica dos confetti e dos laçarotes de cor berrante das serpentinas que esvoaçam. revoluteia e. A rua. embriagada. pelas desajeitadas coreografias. Descobrem-se por vezes.O Rio de Janeiro do meu tempo 483 rada de tinta esverdeada ou de um tom de chocolate. Grande extração têm ainda fantasias de morcego. que vai saindo: – Você conhece-me? . tendo-se metido dentro de um misterioso dominó azul. onde uma multidão assanhada gira. umas roupas. um lugar para enfiar uma correntinha ou uma corda. repete. costelas pintadas a tinta branca. Homens inteligentíssimos vestem-se de burro e andam com feixe de capim debaixo do braço. Na boca desses animais existe. – Você me conhece? O Rio está cheio desta frase banal. com varetas de velhos guardas-chuvas. Como se diverte a patuléia com tudo isso! Os que não possuem dinheiro para comprar máscaras fantasiam-se de “sujo” ou de “pai-joão”. mostrando. depois de certa hora. dentro de uns balandraus negros. Acha no caso uma enormíssima graça. assim. toda em cores festivas. mostrando cruzes. O povo assanhado ri. com bonecos e mamadeira debaixo do braço. para isso. pergunta ao Machado de Assis. às patadas. uns morcegos de cara de rato e asas arregaçadas. a “morte” e no esquerdo o “diabo”. que os fazem dançar e recebem. em desenho grotesto. Há os que saem de “urso” e vestem. Andam simulando a Morte. e está pronta a fantasia. barulha. Os chicards dos desenhos sutis de Gavarni e que fizeram enormíssimo sucesso nos carnavais de há muitos anos atrás. tangendo campainhas. Aplaude. cediça e insistentemente. dependurada. vocações decididas. Há os que se fantasiam de “esqueleto”. toda em sons agitados. é um bazar agitado de canções. cobertas de algodão em rama. uma vassoura velha debaixo do braço. Um pouco de graxa na cara. andam a soprar gaitinhas. Um dia Bordalo Pinheiro (1900?). Que os “ursos” não andam nunca em liberdade pelas ruas. puxados pelos domadores. ainda aparecem risonhos. à porta de certa livraria. a cada instante. pelas ruas. que se achava no Rio. Vão eles. um paletó virado pelo avesso. não raro estragando a alegria dos outros. aos zurros. no manejo. níqueis e tostões.

que vão à frente. já se vê. Não são para a esposa. de quando em quando. O homem fecha a cara. se transforma em desagradáveis e impertinentes despropósitos. Chambelland – Compra jóias de 500$ e 600$ no Luís de Resende. duas crianças louras. ó Medeiros. aquele par de bichas. chefe de família exemplar . Exemplo. mofina.484 Luís Edmundo – Pela colocação do pronome – responde-lhe Machado. como rival. ambas em travesti. o pensamento sabe Deus onde! E o mascarado insistindo: – O pior. não é? Por esse “você me conhece” é que se inicia o trote. por exemplo. chufa. muita vez. quase todos os dias. que empurra. muitas vezes. Rafael Bordalo Pinheiro.. lá isso não são! Quanto custou. Você pode ar ranhar-se. à sua frente. para ele. dando o braço à esposa. Eu. seu Medeiros. Depois. porque moro perto daquela casa onde você vai. E o mascarado: Desenho de R. é o Sr. porque o transformam. mas que. Esse dichote é atirado a um homem de ar provecto. Tem os olhos em brasa postos nos filhos. e onde mora a mais bonita das morenas da Rua do Catete. um tenente de cavalaria. Não se meta com homem que use esporas. suíças já grisalhas. Ah. porém. curiosa. aver melha-se. Fala um troteador: – Aí. voltando-se –. Com ou sem porta-voz o trote é. rosna-lhe: – Grande patife! Para ele. e bem. em terrível tacape. sucumbida. pilhéria. Em 1901 ainda se passa o trote por um porta-voz de metal que a polícia acaba proibindo. espeFantasia de Diabo rando por mais. com rubis.. Põe-se a engolir saliva. intriga fazendo sorrir. troça. É nesse momento que a mulher. A mulher olha o mascarado do trote. com esse ar de pai de família! Quem o vê mal sabe o bilontra que você é. provocador de cenas pouco amáveis. que você comprou na quinta-feira última? O homem de cara fechada vai ficando pálido. Medeiros. o conheço. não raro. é que você tem. expressão de espírito por meio de palavras que.

a máscara. Para encurtar razões: polícia. num gesto de quem toma uma grande resolução. apontando o grupo onde ele vinha: – Aí vem o Medeiros. dão o nome de Raposo. chamando-o pelo nome. reconhecer no mascarado um amigo qualquer. temendo os troDesenho de Calixto tes que se transformavam. porque. aí. e ainda um Soromenho. delegacia distrital e o depoimento do carnavalesco. quando eu passava. fantasia. de cima abaixo: – Tudo brincadeira. sabe-se que. para o trocista implacável. nome que se inventaria no momento da aparição do mesmo. Medeiros. e vai começar o trote. teve uma idéia feliz. para o trotista. na ocasião de ser aplicado o inteligente manejo. por esses dias de entrudo. aos berros. ciumentíssima. todos nós avançaremos. Aparece um Soares. qualquer ação do mesmo”. aos empurrões. assim posto. como uma fera. depois. tratando. coitado. que nunca viu tal homem.O Rio de Janeiro do meu tempo 485 que nunca foi à Rua do Catete. De um muito boêmio. Perde o mascarado. E o pobre Raposo. Ao último. que. tal a ir juntar uns amigos dedicados e com eles estabelecer esta combinação: “uma vez esboçado o trote. quase morre de susto ao começar o seu trote.. para melhor despistar a mulher ciumenta. atingissem. mais um Cardoso. Espanto do Medeiros. nem sabe quem é essa mulher de quem o homem do trote fala. Por causa dos trotes os maridos com culpas no cartório não gostam de sair com as suas mulheres. a mulher e os filhos! Tudo brincadeira! Puro carnaval. de impedir. na luta que se trava. depois um Dutra. Atracam-se. até. em massa cerra da. . que mostra um olho pisado e a camisa de meia rota. não sendo percebido do grupo um tanto distraído. não podendo sair sem ser em companhia A dança do velho da esposa. desvencilha-se do braço conjugal e atira-se. eles. em cenas domésticas bem pouco interessantes.. quando chega. Soube que ele se chamava Medeiros porque disseram. nunca mercou jóias no Luís de Resende. recebe a violência do contra-ataque. Ficou combinado. nunca vi esse Senhor. completamente. Tudo invenção.

Bastos Tigre. Aluísio Fernandes.486 Luís Edmundo de repente. Súbito. como Desenho de R. aliás. diga-se. Pedro. para fazer .. primeiro dos grandes dias de folia. que tem a idéia pouco feliz de se casar uma semana antes das festas de Momo. Aluísio. vocês devem me dizer como e por onde me recoO “Velho” nheceram. que em 1907 ou 8 ainda era lá repórter. Arrastam-no para longe. imensamente. passa-se. onde se anuncia um formidoloso e retumbante baile de máscaras. atônito. de grande atualidade. essas barbas vendendo-se. onde habitualmente faz ponto. marchando em direção ao Teatro S. de casa. Vai ao Café Papagaio.. faz versos e se chama. lá encontrando a rodinha. Para não entrar em mais detalhes. Coisa. vamos dizer. bem fácil de dizer.. ao ouvido do marido boêmio: – Então seu malandrim. Luís Pistarini e de outros mais. É isso. num Carnaval. pelo tempo da guerra do Transvaal. isso quando apenas ensaia dizer. um português simpático. estando eu irreconhecível. coisa muito melhor. ao mascarado. aos gritos de “Raposo! É o Raposo! É o Raposo!” Rola o infeliz pela calçada. O máscara assusta-se com o rebate e ainda mais com os empurrões de 10 ou 12 mãos. que se compõe de Raul Pederneiras. por sinal. topa esse grupo de artistas com um mascarado qualquer. Chambelland estava! Arranca a máscara e mostra-se. vamos deixar a pobre Madame Aluísio Fernandes à espera do marido e caminhar com o bando dos boêmios que se juntaram no Papagaio. sem falta. quando o largam: – Ouçam cá: pelo menos.. entre bôers e ingleses. não sem dizer à esposa que voltará à tarde. sem poder se defender. como disfarce carnavalesco. a fim de conduzi-la à Rua do Ouvidor. sai no dia de domingo. Lá vai ele deixando-se arrastar. que está sobre o dorso de um burro. Uma rodada de chope. Calixto Cordeiro. Em caminho. O homem é um autêntico Raposo. Tomam de assalto o burro. já muito perto. o Raposo do Jornal do Brasil. metendo-se numas vastíssimas barbas postiças à bôer. Com esse marido terrível que. um sanduíche e o nosso Aluísio que se entusiasma. buscando fantasia.

. nas suas barbas de bôer. eloqüente. penetra no salão. desculpando-se. fica a beber e a dançar. sorrindo Dominó Autor desconhecido da pilhéria. Quando ele chega encontra toda a família. com uma perna quebrada sob as rodas de um carro. E. e toda a complicação advinda para socorrê-lo. não de cavalgaduras. até então. um sorridente porteiro declara que o baile é de pessoas. Oito ou dez braços vigorosos imobilizam esse imprudente e corajoso porteiro. coitada. Abala. inventa uma história deslavada. ovacionado como um deus! O delegado de serviço no teatro chega e desmonta o poeta. recordando-se ainda da promessa feita à esposa. e você sabe Deus por onde. e.. mandando retirar o solípede do salão de dançar. está sempre à espera do marido. onde chega com a luz clara do dia. o dia inteiro. Apenas. uma lágrima no olho triste e esse olho pregado no relógio. assim sendo. de pé.. sobre o animal. verborrágico.O Rio de Janeiro do meu tempo 487 uma entrada triunfal no teatro. se explica começando por dizer: – Ouçam-me vocês para me dar razão. enquanto Aluísio. A cena passa-se. porém. a correr. os que o ouvem fingem que aceitam as falsas razões enunciadas e vão todos se deitar. na cama de Aluísio. a mulher furiosa. a mãe. não possa bem compreender. e que. mas ninguém o toma a sério. a divertir-se. mentirosa e infantil. Ele. sem nada fazer ao bando papagaiano. solene. sem pensar em mim! . o pior de tudo.. na atitude de um Krüger ou de um Botha. O caso de um amigo. levá-lo para S. imediatamente. sem dormir: a mulher. de palavras que ele. Pára um pouco o boêmio e diz: – Se vocês soubessem como S. a choramingar: – Eu. aqui à sua espera. no estado em que se acha. nervosa e atenta. Não esquecer que Madame Aluísio.. em alvoroço. receosos do desperdício de avisados conselhos. À porta do mesmo. para casa. o burro não pode entrar. agora. Gonçalo de Niterói. o pai. que. Gonçalo de Niterói é longe! Aluísio fala.. Só às 4 da madrugada porém é que Aluísio pode pensar que já casou. talvez.

o que eu lhe conto e que é a expressão da mais pura verdade. já um tan to ir ri ta da –. agora. – Durma.. – Acredito.. brada-lhe. como ele insistia. sentando-se na cama. Acreditamos todos – diz-lhe a mulher. muito sério. – Hei de contar. com os seus trejeitos de bêbado. Gonçalo de Niterói. sentado na cama. portanto.. puxando o lençol para o corpo: – Se você visse quando o médico ia encanar a perna do infeliz. faiscando de raiva. para a mulher: – Parece que você não acredita nas razões que me desculpam. com dois olhos que são como dois afiados punhais. de repente: . Ouça bem. em demasia. Dizia isso a berrar. muito formalizado. ainda uma vez. porém. Pandeiro Autor desconhecido Máscara Autor desconhecido Irritada. o berro que ele deu! Coitado! – Durma! Pobre rapaz! Positivamente este mundo é um triste vale de lágrimas! – Dur ma – in siste. você parece que está pensando que eu me meti em troças carnavalescas.488 Luís Edmundo E ele. fingindo-se ofendido. Eu continuo a contar esta coisa porque não estou mentindo. para recomeçar a sua história... Afinal. a esposa olha para o marido. – Pois não durmo! – retruca ele. não quero mais ouvir as suas deslavadas mentiras. e. E cubra-se.. ainda. como o levamos para S. E o Aluísio. a mulher. de desespero e de vingança.

nesses dias de esplêndidas loucuras. que se agitam. documento fatal da sua truanice. Uma avisada postura os extinguiu. E o que encontra? – Céus! – A enorme barba de bôer que lhe cai em cascata. em meio aos quais se vêem braços nervosos que se levantam. que O “burro” se engalana de estandartes e flâmulas. Dentro de garbosíssimos e chibantes uniformes. Aluísio. na rua estreita e onde se metiam atroadoras charangas ou en surdecedores zé-pereiras. na formação de verdadeiras ondas humanas. onde flutuam chapéus.. na encruzilhada dessa rua com a de Gonçalves Dias que se estabelece o encontro dos mais ardentes foliões: estudantes das escolas Politécnica. também aí aparece uma vistosa plêiade de alunos da Escola Militar e da Marinha fazendo ponto mais abaixo. “seu” bruto! . arranque da cara. mostrando calças garance e dólmãs azul-turquesa. A parte central da cidade mais procurada pela multidão. indo de uma a outra casa. isto. Medicina e Direito. quepes. Passa-se. arcos de iluminação. reclamando atenção ou reclamando passagem. Não obstante. mas alegre. você que está ébrio e não sabe o que diz. os transeuntes amalgando-se uns contra outros. que ainda é a gás.O Rio de Janeiro do meu tempo 489 – É melhor que.. até quase ao umbigo.. É uma preamar agitada. onde as aflições do momento repontam em risos francos ou em gargalhadas escandalosas. turbantes carnavalescos. Durante certo tempo existiam uns célebres coretos chamados “de sacada”. em lugar de contar como foi. Aluísio olha. é a Rua do Ouvidor. Ardiam freqüentemente e serviam. dificilmente. porém. além de mastaréus com coloridos pendões de todos os países. Para a noite. nesse ponto. flores de papel. É.. além disso. de estorvo aos préstitos carnavalescos. festivos e deslumbrantes arcos. na parte onde se instalava o Café Londres. E aponta-lhe para o peito. mosDesenho de Calixto trando vistosas sacadas com festões de folhas de mangueira. lá uma vez ou outra surgem ásperas frases como estas: – Não empurre.

espera-se que os ânimos. para criar o maelstrom de um pavoroso conflito. tiros e os infalíveis gritos: enche.. e. Ao lado de homens que lutam de armas na mão. Rondam. mascotes da sociedade. divertidos. com o tempo. A época é das valentias. a soco. então. Gatos e Carapicus. viviam a espreitar. porém. gente que apanhou. soldados do nosso Exército. por um Você sabe com quem está falando? Por isso vivem as delegacias cheias. esses. com naturalidade. quando não estão animando os valientes que se batem. que não leva desaforos para casa. lincha. entre marinheiros e soldados. Gente que deu. Gatos. durante os ensaios do zé-pereira. que vão fazer a ronda das ruas centrais. A polícia não chega para tanto serviço. pelas janelas da sede. é a pompa do cortejo das grandes sociedades carnavalescas. pega-se com o “bruto”. mansos e amigos que. despreocupados. nesses três dias de folia. das descomposturas gritadas em voz alta começando. sobretudo. só pensam em tal 24 horas depois que começam a dormir os delegados. Para ajudá-la descem. das bengaladas.490 Luís Edmundo – Não empurro coisa alguma! Pois você não vê que os outros é que estão me empurrando. rebentam conflitos. gente que se prendeu para não dar. pancadarias. Assim foi sempre. É pouca.. que não sabe engolir desaforos de ninguém. pares alegres.. não pode. Não havendo mais para quem apelar. de bordo. acha isso uma coisa extraordinária. marinheiros da nossa Armada de Guerra. invariavelmente. sem o menor espanto. como vivem cheios os xadrezes. que vivem a apagar os começos de incêndios provocados pelas serpentinas. Só há um meio. dos desforços pessoais. Esses briosos servidores. porque a “besta”. gente que está ameaçada de apanhar. o povaréu que se reunia em . É o que se faz. Fantástico! Ninguém. “sua besta”? Só assim a onda se desloca um pouco. dançam. ao som das charangas que reboam. Por vezes. Aceita-se tudo. porém. Uma coisa que particularmente encanta.. por quê? Por que Carapicus? Havia no primeiro desse clubes numerosos bichanos. Em 1901 saem só dois dos grandes clubes: Fenianos e Democráticos. não aparecem. se refresquem. na via pública. É o povo que se diverte. a tapona e a pontapé. Os prontidões. Um inferno! Os delegados não dormem. para conseguir-se um pouco de paz: apelar para o Corpo de Bombeiros. também. É o Carnaval. a cantar.

Depois . os rapazes de ambas as associações vivendo na mais estreita e sincera camaradagem. carapicus. que os fez e brilhantes.O Rio de Janeiro do meu tempo 491 frente. pelo tempo. pecai à vontade Que é bom demais o bocado. muito em voga. Pecai. Com o esforço pessoal. num carro de idéias. pela época. o que preside. O informe é de Marroíg. Preito à Mulher. e outras ruas estreitas. com a viela do Ouvidor. muito embora dando ao público a impressão de adversários acerbos e terríveis. Para custear tão grandes realizações há um livro chamado de ouro. vingaram-se. que. Os carros. Glorificação dos instintos grosseiros do homem. e Fiúza são outros grandes artistas desses tão desejados cortejos. Os carros em 1901. como se sabe. por onde. de gatos. vermelhos e negros. como ainda é. todos eles passam. é o propósito manifesto de apresentá-los sob aquele profano e desvairado feitio que era o das velhas saturnais nos tempos de Roma antiga. faz-se um carnaval exterior de arromba. porém. sempre foi. aumentou praças. elegantíssima. Foram os Democráticos que deram aos da associação rival esse apelido grotesco de gatos. obrigatoriamente. estes últimos componentes do Clube Tenentes do Diabo (baetas por causa dos cobertores de baeta. alargou ruas. Há a contar. Apologia do Pecado. por onde tem que dobrar. Coliva. criou avenidas. ainda. essa monumentalidade que Marroíg achou de inventar para os carnavais que vieram anos depois. Carrancini. Essa rivalidade entre os dois clubes. vamos dizer de passagem. Os do Fenianos. idéia e luxo. não apresentam. 1902 e 1903 são pequenos. como a bandeira dessa grande sociedade). comida predileta de gato. são uma espécie de sardinha. em 1901.. Na organização dos cortejos dessas grandes associações carnavalescas. sempre. Isso dizem os Fenianos. nesse tempo. de carapicus e de baetas. com cortejos formidáveis de espírito e esplendor. refazendo a cidade colonial. quando Passos. que corre as casas comerciais da cidade. No começo do século gasta-se com um préstito carnavalesco de 30 a 40 contos. obtendo assinaturas e somas que se juntam às que existem nos respectivos cofres sociais. chamando aos alcunhadores. contudo.. Positivamente deficitário o sentimento católico do país. ao Vinho e ao Amor. porém. se possuem graça.

inteiramente nuas. a gritar: – Aurora! Aurora! Aurora! Índio de cordão Desenho de Calixto Outras Evas. a impressionar a Vigararia-Geral. E Aurora. correndo. hors-concours em questões de maxixe. quase enlouquece de alegria e de prazer: – Aurora! Aurora! Aurora! Filhas de Maria. dominando o público. com enorme sucesso. ainda existem. ante o esplendor da nova Eva.. rainha da canção brasileira. com a sua notável plástica. vencidas pela emoção da obra de arte que a bacante revela. Olga . a rutura acintosa dos mais sagrados deveres cristãos. Velhotes. nas alegorias pagãs. da cabeça aos pés. limpando nervosamente a vidraça dos óculos. pálidas e trêmulas. Entre as que assim se exibem uma há. a Paris. E esplêndida e despida “No triunfo imortal da carne e da beleza” mostra-se exaltando a multidão que. compondo a decoração desses suntuosos carros: Plácida dos Santos. Até as casadinhas cariocas. Vênus americana. pétalas de rosas. os corpos mal velados por maillots de finíssimas e transparentes sedas. atiram-lhe. Bugrinha. ciosos de ver melhor. só para dar. beijos. vem de longe. as mulheres apresentando-se quase como Frinéias no Areópago. Chama-se Aurora Rozani e é uma rapariga fresca de 20 a 22 anos.492 Luís Edmundo dos Lucíferes e Belzebutes. para trepar pelos plaustros que a reclamam. voando. Manda-se buscar Aurora onde estiver: no Rio Grande. que a todas sobrepuja.. que sempre foram muito ciumentas de seus maridos. Comba Paranhos. que andam invadindo as nossas igrejas e. a que a levou. seriamente. dos mais formosos e mais perfeitos corpos humanos que já viu o Brasil. batem palmas e atiram-lhe confetti e serpentinas multicores. no Pará ou na China. pressurosa. ao vê-la. fazem pigarros significativos e profundos. Eva querida. porém. conhecedores do assunto. das sacadas onde se acham. brilho e glória a esse Carnaval de rua.

Campos). Maxixe. Cabral Chuvinha. sem água. O povo sabe todos esses nomes de cor e é a gritá-los. para as quais se escolhem guapos e elegantes mocetões. Elpenor Leivas. que existiu na Rua dos Andradas e onde fun cionava. Neiva). que por eles ovaciona as mulheres e as aplaude. Cordeiro Jamanta! Esse boêmio. Cacareco (Herculano de Matos). nesse dia. Jamanta. Carlinda Matos. como o Coalhada (Henrique Leite Ribeiro). vão carnavalescos incorrigíveis. Nos carros de crítica. Lorde Craknel.. Chaby. D. Alda Paulisi. coberto de louros. Caturrita. bem como nas famosas comissões-de-frente. Lorde Sogra (Guilherme Ribeiro). conduzindo em triunfo o ilustre brasileiro. para saudar o grande Rui Barbosa. Cerca-Frango (Domingos Cordeiro). Rocambole (Vilas Boas. cuja vida carnavalesca anda a pedir. Marieta Melek. uma famosa Escola carnavalesca para a defesa dos carros de Crítica. Beatriz Cabeludinha. Cardoso Xuxu. Peru dos pés frios (Mauro de Almeida). Santa Lacraia. Elvira Xavequinho. Pedro II. Amélia Delahyte. ainda é a mesma alma alegre que conheceu as folganças de Momo nos tempos do Sr. Refestelo. hoje austero chefe de seção da Repartição Central da Polícia foi quem fundou. de tal sorte. apesar de ter hoje mais de 70 anos. Galo-Branco (Francisco Bastos) e o seu irmão Leopoldo. quando dão com o préstito popular. Marcolino Feital. fundador da grande e conhecida papelaria que até hoje conserva seu nome). Elvira Balão. Parado este em face ao famoso orador que . Jamanta. furiosamente. Rato-Seco. Paginação (H. Palhaço. Ferraz. um tanto atrasados do famoso curso especializado. Gostoso. não as linhas de uma crônica. Rigoleto. saiu. Pufista. Diplomata (A. que não vacila nunca. Gurucutuba. Colombiana. em companhia do Coalhada.. Não esquecer que. que chegava. um curso especializado para bebedores de uísque. manda atravessar o seu carro à frente dos que marcham. desse clube. que saem. Bem-te-vi (Henrique de Araújo Frongalhão). o que. Zé da Venda. obrigando a parar o préstito popular. o Baiano (Juvêncio). o Poeta Fogareiro.O Rio de Janeiro do meu tempo 493 Avestruz. também. o Jamanta.. na parte da Rua Direita e de quem vem do Cais Pharoux. Lorde Alisa (Duarte Félix). engraçadíssimo imitador de minhotos. Lorde Fera (Raul Goulart). os irmãos Cavanelas. da Conferência de Haia. foi que ele.. Roxura (Albano Macedo). Monção. está ele já próximo à Rua do Ouvidor. Morcego (Norberto Amaral). Luís Cordeiro. Raul Goulart. em companhia de vários carnavalescos. nas guardas-de-honra. mas uma obra em múltiplos volumes. Adriano Guidão. Os carnavalescos.

sem o menor exagero. logo. das janelas da redação do jornal. depois de amanhã saem os Democráticos com os seus préstitos à rua. representando uma enorme e vistosíssima garrafa com vários cavalheiros em torno. É escolher. enfim. gatos. para o remelexo e para a glória! Jamanta foi repórter do Correio da Manhã e a tortura de Heitor Melo. então à Rua do Ouvidor. Heitor deu-lhe. por sinal que começando assim: Caboclo velho. todo em gíria mômica. muito moço. – Sr. embora. se decida – Clube dos Democráticos ou Correio da Manhã. despachado. Para maior garantia de tão solene compromisso. coesos! O cordão está na rua! A “Aguia de Haia” à frente! Para o Castelo. de tal sorte obrigando os outros a suspender a marcha que então fazem. incapaz. Faça o favor de escolher. o que é mais importante. carapicus e baetas. Secretário. de crítica. a passagem do préstito dos Democráticos. mas muitíssimo severo. Assim posto. em pessoa. Em frente ao Correio da Manhã acontece parar um carro vulgaríssimo. uma vez que tenho a tomar sérias resoluções: Correio da Manhã ou Clube dos Democráticos. o que eu desejo é que o Sr. Chega. Luís Cordeiro. quando. na hora da saída dos préstitos... Sr. tarefa e séria. assiste. Jamanta coçou a cabeça e decidiu. batuta! Nós..494 Luís Edmundo acaba de desembarcar. Cordeiro – diz-lhe num dia de carnaval Heitor –. desfecha ele um discurso. porque eu não posso mais admitir que repórteres desta casa saiam em carros de críticas ou de alegorias pelas ruas da cidade. E terminando assim: Cotubas da minha terra. sem pestanejar: Correio da Manhã. uns quarenta minutos. em ponto quase fora das portas da cidade. Alguns momentos antes de retomar o cortejo . e. Sim. para terça-feira gorda. de dominar os ímpetos carnavalescos do maior dos foliões. ao chegar próximo à Rua dos Ourives. a fim de buscar notas sobre o carnaval nos longínquos subúrbios da cidade. arrastando. São sete horas da noite. Heitor Melo. autênticos filhos do Brasil e de Momo. parte-se um dos carros alegóricos.. todos eles a contar gracinhas. Dura a imobilidade do préstito. tranqüilamente. o estouvado Jamanta para a Estação de Santa Cruz. meia hora antes. o nome Correio. com as suas alcunhas carnavalescas. os carapicus do Castelo. Numa apoteose de aplausos havia penetrado o grande clube à Rua do Ouvidor. a grande terça-feira da folia. isso depois de ter.

um rosto rubro. berra para o lado de dentro: – Acabarás.O Rio de Janeiro do meu tempo 495 vistoso a marcha interrompida. o elevado gargalo da alegoria. o secretário. já perfeitamente reparado. um dos da alegre ronda ao cano da garrafa. no bojo da garrafa. que quase a deslocam do lugar onde se acha. num salto acrobático. porém. violentamente. sorri da pilhéria. em demasia estreita para deixar passar um homem. num trem da Central pelas alturas de Bangu ou Campo Grande. oh! diabo! Sai da garrafa! Sacodem-na. O coro. por sua vez. Fiúza Guimarães Desenho de Marques Júnior Luís Cordeiro (Jamanta) Desenho de Marques Júnior Heitor. de tal sorte. põe-se a bater no bojo enorme da mesma e a gritar: – Oh! Jamanta! Olha que tu morres sufocado! Riem-se os companheiros todos a gritar pelo Jamanta e a bater. caminho de Santa Cruz. como podem. morrendo. Plácida dos Santos ir saindo uma cabeça enorme. depois. eis senão quando Heitor. vê da boca da mesma. assim. aumenta e de tal sorte o apelo é feito. Jamanta. toda desDesenho de Marques Júnior penteada. que um dos que compõem. alcançando. com fúria. irreco- . sabendo como sabe. depois. o carro do desastre. e.

. abanando-se com um velho chapéu de palha. depois. contando uns 25 ou 26 anos e carnavalesco incorrigível. tido por um sujeito supercético em matéria de amor.. Ceia. com um filho. com a face voltada para a sacada do Correio. O homem. Depois. carnavalesco dos tempos do Clube X. todo sujo de poeira. no Clube dos Fenianos. berrar com todas as forças dos pulmões. Mais champanha. ainda uma vez. atira-lhe um beijo para.. esplêndido quadril. onde o olho terrível de Heitor Melo. fuzila. Sorrisos. Apertões. Era o Jamanta. dentro da sua graciosa fantasia. um peito nu. arranca a máscara de renda e de veludo. Jamanta. passeio ao Jardim Botânico. Verdadeiro coup-de-foudre. bufa. a fim de desvendar todo aquele mistério que o impressiona e amofina. que idéia! E de novo. champanha. belas pernas. mas. por uma bailarina – lindo porte. manchado de suor.. Tobião apaixona-se. Às cinco da madrugada Tobião resolve agir à valentona. sérios e profundíssimos desgostos: – Viva o Correio da Manhã! Viva o Clube dos Democráticos! Esses aloucados foliões. mas teimando em se esconder do secretário Heitor. Coisa impressionante para todos é o imprevisto e rápido inflamar do grande Tobião. rigorosamente.. entanto. sai. morrendo de calor. clube.. meu amor! E como ela negue revelar-se. – Não faça isso! – Ora. Por um carnaval anterior. do seu rosto formoso. Quando surge do cálido esconderijo. nervosamente. num gesto rápido e brutal.496 Luís Edmundo nhecível. A coisa vai andando. Paga-lhe champanha. num berro que lhe custa. por fatalidade. sorrindo com ternura. ele. senhores. Dançam.. em seguida. Tobias Garrido de Matos. havia se despido completamente. Sem ter outra saída. furiosamente. – Céus! . meio desfalecido.. com voz terna e adocicada: – Tira essa máscara. Pede-lhe. carro.. Grande companheiro de Jamanta foi o Tobião. e mais uns ombros nus. impenetravelmente mascarada. que no bojo incandescente da almanjarra. então. umas ancas magras e também nuas.. como o pai. Carro.

é a grande alegria do bairro. o cordão. com os seus archotes. é para fazer a ronda festiva do lugar. aí. bailados e retumbos. na cintura da dama.. .. mostrando botinas de verniz com saltos altos. que guarda a forma de uma concha. Essas noitadas alegres vão. Culto a Terpsícore. composta de flauta. vasto lenço metido de maneira a defender o colarinho. partidas coreográficas que uma orquestra minúscula.O Rio de Janeiro do meu tempo 497 É o filho.. isto sim. onde o próprio maxixe não se dança. fazendo a delícia de umas tantas ruas. tomando uns ares de autoridade e de importância. em 1901. entreabertos os lábios. O cavalheiro. num ambiente puramente familiar. Organiza. em regra. modestamente. além da madrugada. ao seu braço esquerdo. violão e cavaquinho. buffet. quase sempre. lembrando um violão. sanduíche de pão de milho e queijo de Minas. o terrível folião que ele tem diante dos olhos. O cordão. dilatar o horizonte de suas pretensões carnavalescas. onde se trinca uma boa sardinha frita. os olhos semicerrados. disse ao filho. como programa além dessas passeatas folgazãs. paletó fechando embaixo. com cantigas.. o estandarte em riste. ainda. pelo último botão. ao velho. No sueto das danças. Vive. um braço hirto e levantado em linha vertical. serões de dança (“arrasta-pés” ou “sovaqueiros”). os pares com as cabeças unidas. que é altíssimo. No pescoço. como que dependurada. e é visto como expressão de maus costumes. as suas músicas e aquelas pelicas tonitruantes. uma espécie de samba anadioso. o patusco espirituoso que sonhou que pregaria e acabou por pregar uma partida. estimula e deleita. sai. que se pratica num zoante arrastamento de pés. Da sede onde se instala. Dança-se o choro. quando dança. tem o dorso da mão direita. reto e endurecido a trincal. por sua vez. Conta-se que o Tobião. Esse cavalheiro usa uma enorme calça branca abombachada. de umas tantas casas e de um número pequeno de pessoas.. Não sonha. entre sério e compenetrado: – Agora veja lá se o senhor vai contar isto em casa à senhora sua mãe. que vaquetas fantásticas barulham na hora de estrupidar o zé-pereira. do louvor e do aplauso arrabaldino. que está. mas. muito compassado. o próprio filho. que se aperta nas extremidades.

ao saguão do Jornal do Brasil. um repugnante lagarto seco. essa festiva insígnia na benquista gazeta? Buscar popularidade. emoldurando rostos cor-de-canela. Nas mãos. por muitos dias ou semanas. existindo nos pontos mais longínquos do Distrito. atravessado nas costas. que lá fica exposto. a segunda. Vem para ser depositado Neste jorná que é o mais amado Entre os jorná deste Brazi. anúncio e fama. Isso interessa particularmente aos ranchos e aos seus diretores. que. A primeira para levar. faz-se um registro perfeito e acurado dos ranchos cariocas. com os seus brincos de metal. Seguindo esses selvagens de deus Momo. e. de novo. o nome de seus mentores ou dirigentes. Não há associação no gênero. em 1901. Só duas vezes sai o cordão de seu bairro e se dirige ao centro da cidade. por inteiro. à sede. o que é mais importante. com pompa e gáudio. sonhando as honras dessa portentosa vitrina e a seqüência amiga e natural de uma publicidade farta a seu respeito. Este estandarte consagrado Da cô do má e do rubi. reproduzindo. não venha ao Centro. Que vai fazer. aquele gentio fantasioso que figurava nas praças de curro. metido em vastos cocares de penas longas e coloridas. por vias de comunicação péssimas e complicadas. entanto. contando-se-lhes a origem. tacape. na boca. para trazê-lo. os clássicos índios das velhas folganças coloniais. pintados a urucum. Nas páginas editoriais do órgão popularíssimo. aljava ou um arco de guerra. o pendão social. parati. crédito. só para gozar do lindo privilégio. sempre. uma serpente ou uma pele dura de jacaré. aos pulos. numa ala vistosa de cabe ças de alcatrão ou fo gos-de-bengala.498 Luís Edmundo Para as gargantas sôfregas e sequiosas. de Bangu e até de lugares ainda mais distantes. muito altos e garridos. de Campo Grande. “água que passarinho não bebe”. À frente. a sua crônica. Há núcleos que descem de Santa Cruz. Vem à noite. saiba-se. Vanitas vanitatum et omnia vanitas. os seus colares de vidrilho. por ocasião das festas chamadas alegorias. um infalível apito de barro por onde silvam. mostrando. que dançam como se dançava na selva pré-cabra- . em frenético e bárbaro alarido.

assustada. o estandarte do “cordão”. ferrinhos. que chegamos. berrando. uma linda mestiça. empinado.. tendo a porta-estandarte ao centro. Anfitrites. geralmente. em marcha picada.. os paletós virados pelo avesso. por exemplo. Anca farta e roliça. soando bombos. são mulatonas de mamassa enorme. são negras gordalhudas. já velhuscas. mas da espuma loura de enormes taças de champanha. ora erguendo o pano simbólico no ar. tirando sons de latas de querosene vazias. ainda. estalando num corpete de seda. é um Satã de aspecto iracundo. o olho fito nas curvas que descreve o vistoso pano do estandarte. fulas. verdadeiras notas de alto artifício ou boa arte. no seu suave passinho. pois é pintada. ora abaixando-o em ondulações dificultosas e gráceis. por artistas como Hélios Seelinger. O grupo evolui postando-se em face à porta principal da gazeta. aos trancos. Carrega o estandarte. a vomitar estrelas. Marcha em passinhos de cabra. aos remelexos. Muita atenção. à Rua Gonçalves Dias. aos encontrões. Mostra o peito rijo. Belmiro de Almeida tinha garbo em dizer que os pintava. muitas vezes. cabrochas. aos rebolos. em sua mocidade pintou diversos distintivos desses. Quando aparecem Vênus. Quando não é o velho dragão. criada à custa de muita banha de porco ou óleo de oriza. caixas e tambores. bem em frente à redação do padroeiro animador desses bandos amáveis. como o das cabeleiras egípcias. são. Essa insígnia de carnaval constitui. rindo. Os símbolos de Momo. de cabelo comprido em queda sobre as costas ou em tufo. De múltiplos pendões sabemos pintados. muitíssimo nuas e em poses escandalosíssimas. em alguns núcleos. todas desafinando cantigas. Chambelland e Fiúza Guimarães. às umbigadas. Cinturinha menos de vespa que de marimbondo. aos tremeliques. com franjas e borlas pesadas de ouro.O Rio de Janeiro do meu tempo 499 lina. uma lira de Apolo ou uma cesta de rosas. de enormes gaforinhas. enfim. por ótimos artistas. aos . irmãos Timóteo. São negros retintos. farta e lustrosa capilosidade. Em torno. de carnes gelatinosas. Henrique Bernardelli. na apresentação desses espetaculosos pendões. não do fundo azul do mar. é que pouco variam. fazendo o jogo dos capoeiras. cheia de bandeirolas e de balõezinhos à giorno. todas elas. em movimentos sincopados. sempre cortado em ótima seda. brancas espevitadas e bulhentas. com a sua sacada garrida. surgindo.

Hurra! Viva! Evoé! Grita-se.. os bombos e os tambores. e. enquanto os componentes da diretoria. em furiosíssimas pancadas. a bandeira do jornal despenha-se. os seus próprios Chocalho Autor desconhecido nomes. e fazendo girar o pavilhão da grei em parábolas magníficas. os brandidores de vaquetas aproveitando o ensejo para rufar mais forte. O alarido é enorme. as caixas. cumprindo o seu dever de cortesia. Esses movimentos descomedidos e loucos do pendão querem dizer imensas coisas. rebramado de ecos longitruantes. o estandarte que palpita e ondula nas mãos da mestiça enlevada. quando a bandeira da casa. Depois. sobe. como uma benção. que enternece e encanta. de alto mastro erguido. após apre sen ta ções espetaculosas e as saudações da pragmática. Isto. aos estremeções. É do protocolo. . vindo cobrir. por exemplo: De longe chegamo! Carnavá! Para sodar-te! Trazendo nosso estandarte. tre pam pelas escadas que os levam ao redator de serviço e com o qual de ixam. É o ósculo de Momo. cheios de austeridade e de im por tân cia. que os ouvidos aturdem.. mais. É a cerimônia do beijo. Nosso missá Ia! curu-piribi! Viva a imprênsia brazileira Viva o Jorná do Brazi! Bisnaga de cheiro Autor desconhecido É nesse momento que. o nome do cordão. o estandarte entra e se dependura no saguão do jornal.500 Luís Edmundo saracoteios. Os panos coloridos se confundem.

. . complicadíssima. o que é muito simpático.O Rio de Janeiro do meu tempo 501 Vivem esses blocos sem bafejo ou ajuda oficial. recordando que há vaidades que reclamam sacrifícios maiores. espante. para sair. cheia do mais vivo entusiasmo pelas folganças de Momo.. sabe-se que disse a outra.. é verdade. São despesas. como réplica. rigorosamente. trabalhos. bulhento. primor de alfaiataria e cortada. Inconveniente.. a carnavalesca satisfeita. poSerpentina Autor desconhecido rém.. certo. metediço. E quanto custa a pompa das vestimentas que apresentam nesses torneios singulares? Uma cozinheira ganha 40$000 por mês? Pois gasta 20$000 no jogo-do-bicho e guarda os outros 20$000 para o carnaval. não admite cantares. O zé-pereira. Pedem licença e até pagam na polícia. Canta-se. pela oriAutor desconhecido ginalidade ou pelo luxo. Há. a de Rainha das Chamas. brincos e pulseiras. na época. – Tá aí cumo? – replica-lhe a outra. mas. Há criadas de ser vir que se metem em roupas que custam verdadeiras fortunas. que elas particularmente preferem. resplandecentes de colares.. sob a orientação dos últimos figurinos do Inferno. perturba-os. cordões que ensaiam líricas cantigas. O necessário é que a fantasia que Chocalho ela vai vestir escandalize. custosíssima. não muito. Há uma indumentária. E repisando: – Se só farta onze mês. E como elas sonham e vivem pensando nesses curtos adoráveis dias de carnaval! De uma. querendo antegozar as delícias de um folguedo ainda bem distante: – Carnavá tá aí. A época não é muito de canções. que se explica: – Se car na vá foi inda u mês pas sado? – Pois é – torna.

por exemplo. O bom-gosto tinha que banir o antipático e intrometido batecum. acaba.. A canção. O zé-pereira dura mais um pouco. engalana-se. Desaparecem as cantigas. Apura-se. Essa.502 Luís Edmundo apuram vozes. quando. Mais antiga será talvez a canção do velho: Bisnaga de metal Autor desconhecido .. repetem-se canções que foram moda. que vem depois: Iaiá me deixe Subir nessa ladeira Eu sou do grupo Do pega na chaleira. de repente. cantando. e já formosa e original. porém. Em 1905 dele já pouco se fala. pensa na revanche. em rufo. Na rua vão alegres. que é Limão de borracha nossa.. Do século anterior é o Abre-Alas. dos tempos de Floriano: Pé espalhado Quem foi que te espalhou Foi uma bala Que o Javari mandou. E o que se canta por esse tempo? Repisam-se. porém.. A canção ter mina por vencê-lo. Em 1903 ainda o toleramos... anos atrás. ofendida Autor desconhecido e humilhada. buscam melodias. surge um zabumbar estrondeador de pelicas. desdobra-se. Calam-se as vozes. Serpentinas Autor desconhecido Sucesso enorme ainda é o Pega na chaleira. muito cantado ainda: Ó abre alas Que eu quero passar Que eu sou da lira Não posso negar.

de 1902. Com versos de Bastos Tigre.. rato Por que motivo tu roeste o meu baú? Máscara de Diabo Autor desconhecido Canta-se ainda: Lavadeira do rio Cadê meu lenço? Está em Lourenço. Vem cá mulata. com as reformas que se fazem no Rio.. é um sucesso louco. .O Rio de Janeiro do meu tempo 503 Ó raio. Eu danço aqui. Eu vou fazê baruio Pra puliça me pegá. Não vou lá. Outra que muito no começo do século ainda se canta: Eu vou bebê. decora e repete. Danço acolá. rato. Ó ganga! E esta outra: Há duas coisa Que me faz chorá É nó na tripa E bataião navá. Sou democrata De coração... Suspende a lua.. 1903 ou 1904. aparece a canção do: Rato. não.. Eu vou me embriagá. Máscara de Dominó Autor desconhecido O Vem-cá-mulata. Depois. ó sol. Lindas e alegres canções que os carnavalescos cantam e que o povo aprecia. A puliça não qué Que eu dance aqui. Bravos ao velho Que está na rua.

imunda. nesse alcandorado recanto da cidade. . . . . infernal. Das quatro da tarde às nove da noite. GUIMARÃES. quase ao chegar à crista do morrete é que se instala. . . ufania e regalo dos moradores do lugar. . Capítulo 26 Carnaval de morro CARNAVAL DE MORRO – ENSAIOS DE CORDÃO – O CORDÃO TIRA O DEDO DO PUDIM E O SR. toda pintada de azul-marinho. Há um zabumbar furioso. Subamo-la. para os nervos e para o ouvido do próximo. . . . mudo. a bulha. . . . ou . sem armistício. Familiar. que nos levará ao alto da Conceição. . numa casa de porta de rótula. . . . porque. . feia. PRESIDENTE – A ESTRANHA FIGURA DO “GARANTIA” E O SEU CÓDIGO DE BOM-TOM – O MESTRE-SALA – CARNAVAL DE SANGUE – A TRAGÉDIA DO CORDÃO ESTRELA DE DOIS DIAMANTES Á ESTÁ a esconsa ladeira do João Homem. .. agora. . porém a de mil bocas: gritos. não do rude e atordoante zé-pereira. . Beneficente e Recreativa “Tira o Dedo do Pudim”. . já repousado. a barulheira referve. de moçoilas e rapazelhos que vivem ajanelados em casebres que se dependuram como gaiolas de pássaros pela íngreme viela torta. porém movimentadíssima. . tranqüilamente. saúda-nos. De longe. . berros. Dançante. a sede da Sociedade Carnavalesca.

para o penetra que se chama da zona. o intruso. O do Tira o Dedo do Pudim custou uma fortuna e foi votado em assembléia gerá. não se dá nunca por achado e. os seus amigos e penetras. E goza. há indulgências costumeiras. O penetra. escudo feito em folha-de-flandres. em geral. a sede desses grêmios. A sédea. um tranco. quase sempre. Penetra é sempre o tipo que invade. De resto. tipo forte e trastejado. sem convite. uns empurrões. em desenhos grotescos. Aí. pintado com as cores sociais. balbúrdia amável e festiva. petulante.. paremos. que diante de nós já se alteia a instalação modesta de jovem grupo. Suspendamos a marcha aqui. de tal sorte querendo deles gozar os proventos. volta. em confusão. que como quem diz. Subamos. confuso bruaá. mostrando uma mão que aponta com o dedo indicador para um disco enorme. sem temer nova reação do garantia. sobretudo se o corpo estranho. quer impor-se. A noite abafa. porém. mostrando o interior de um salãozinho que mal comporta a chusma de associados. A vizinhança é todo o morro. fiscal da sociedade e regulador da moralidade na casa. de envolta com o afinar de instrumentos de corda ou sopro. porém. A vizinhança. Embaixo. é contar com rigor. recalcitra ou. Vezes custa-lhe à audácia um ponha-se-lá-fora. sorridente e atrevido. Fevereiro. a ameaça de tranco. de empurrão ou de pontapé. E. sem ônus de despesa. fica. vaga lembrança de uma lua-cheia. Um dos grandes caprichos dessas agremiações mômicas é o papel da sala. liras e rosas que se entrelaçam. que é um homem de pouca ou nula suscetibilidade a par de muita perseverança. um pontapé vibrado pelo garantia. espécie de polícia do salão. parece satisfeita. que está suspenso ao teto. Tem que ser espalhafatoso e caro. a cidade tranqüila. Para os outros. quando não se estrepa. Portas e janelas estão par a par. o do lugar. não se desbarata. lampião a querosene. Rescalda. insistindo.. Desde que não haja abuso. Passam alguns minutos das dez horas. Claro. A luz do belga. prateados e como que em relevo se vêem. quando resvala . denunciando desafogo e alegria da massa ingênua que livremente se diverte. abertas. a postos. Na fachada. O salão do Tira o Dedo do Pudim é todo ele forrado de um papel azul cor-de-manto-de-Nossa Senhora onde. E mais um S e um C (Sociedade Carnavalesca) antecedendo as letras negras e garrafais do título: “Tira o Dedo do Pudim”.506 Luís Edmundo estrídulas risadas. que é um ás do clube.

definição de Brasil. transformando o rosto da assistência em verdadeiras cascatas de suor. É o grande homem da casa. o Antônio. Do sereno. e já lhe pro meteu a comenda de Cristo. com iniciais. e vive das migalhas da folia dos outros. não existem. abracinhos de três-pancadas. Lá está o presidente eleito do Tira o Dedo do Pudim retratado a crayon. alvar. uma enfiada de papoulas ou rosas. de crioulas e carnaval. É de praxe. festões de papel ou pano. honrado negociante desta praça. muitos deles vestidos com malhas de crochet. de cabelo à brosse carré e bigodeira enorme. O tempo é de pouco conforto pelo estio. Todos sabem disso. em maioria aproveitadas de cartões-postais? Isso é moda em casa do pobre. É um sólido prestígio que começa na poeira . que se dependuram pelos braços dos aparelhos a gás. É um amor. constantemente. calor. luz intensa e que não se multiplica apenas em velas. que é ministro de Portugal.O Rio de Janeiro do meu tempo 507 pela parede. Também em grande voga. espinhas curvas. É um homem sobrancelhudo e austero. que é a platéia que se forma na calçada da rua. Grandes apertos de mão. o retrato do presidente da sociedade. com loja de petisqueiras na Rua da Saúde – Parreira d’Aquém e d’Além Mar –. Vê-se da rua. como certas bolas de papel de seda. quase sempre entre uma ventarola de pregas e um porta-cartões feito em cartolina e seda. grande amigo de patuscadas. comenta-se gostosamente: – Beleza de papel! Luz cheirando a querosene. esses festões. num caixilho doirado e envolto em gaze asa-de-mosca. entram sócios e convidados. grotescamente emoldurando fotografias minúsculas. até o Sr. Ânsia ingênua de decoração. do seu prateado escandaloso. chispas alucinantes. mas sem a menor sombra de cartão ou carta. Conselheiro Camelo Lampreia. Carão bojudo. ornamento e pouso tranqüilo do mosqueiro. em diagonal. apagando-se num círculo de cinco ou seis papadas. ventiladores. aplicações de espelhinhos. armada em roscas de padaria. em bodoque. contas. é o Sr. Para as senhoras. Cruzando o teto. Estão vendo pelos cantos do salão uns enormes cartuchos de papel. Antônio Guimarães. Pela porta estreita do salão do grêmio. arranca. coloridas e fofas. de batuques. Por isso andam de mão em mão os leques e as ventarolas de papel. mas em quenturas. sorvete é regalo de rico.

sadicamente. as narinas sorvendo o ar. Viga-mestra do clube. Quando ele chega. o Antônio é um presidente como poucos. Curva-se. Apagam-se. quem. nesse conflito de olores desamoráveis. balouçando as guias do bigode. As leis da época garantem-lhe um lugar na política. Modesto Antônio! – Homem de valô e inconsideração – diz sempre. Há. não quer. o vigor. Equilibra-se. depois de fechar a loja das comidas. no grêmio. voluptuosamente. Do melhor. por exemplo.. o João da Gosma. a cananga-do-japão. o olho libidinoso fincado nas negras que suam e que tresandam. Franco. Do bom. Antônio Guimarães. É o seu fraco. beirando o cais da Saúde e ascende ao morro da Conceição. Só o petróleo agressivo e violento. Tresanda a bodum a sala. Mas.. a água-flórida e até o aglaia – que são as grandes essências da moda – nesses ambientes de transudação e de calor. Talvez deputado. Contenta-se com a comenda. perdem as virtudes trescalantes. encontre fragrância nesse fétido.508 Luís Edmundo da baixada. grande tocador de violão que violentamente o admira e tem conta aberta na Parreira d’Aquém e d’Além Mar. E não há perfume capaz de vencê-lo ou minorá-lo. Conselheiro Municipal. escancarando a bocarra sensual. estrugem as ovações: – Viva o nosso presidente! Vivôôôôôô! O Antônio baba-se por essas coisas. a individualidade. com fitas cor-de-rosa no cabelo. metidas dentro de vestidos de seda grossa. narinas tolerantes que nele se encantam e deliciam.. saído do lampião. Não faz questão de dinheiro: . dentro da sua rabona de sarja... O patchuli.. entanto. a mostrar um célebre colete de fustão branco com ramagens azuis. Um mão-aberta. que lhe contorna a pança magnífica. Não recendem. cabra pernóstico. Podia ser. pelo aladeirado da João Homem. O O maestro Turuna Desenho de Hélios Seelinger Sr. que espera. Dois quarteirões! Dois! Já é. agradecido. com volúpia. se quisesse. mantém-se um pouco.

que tem a gen te de fazê? E o homem do protocolo: – A gente forma tudo em torno dos reporte e grita: Viva a imprênsia! As dâmias põe a mão na cintura e sai de passo mole ciscando e .. quan do os re por te vié. que já foi o “vilce-persidente” em “exelcício”. com sete entradas na Casa de Correção e dois lanhos de navalha na altura de um queixo todo marcado de sinais de bexigas. e. No dorso da mão direita. pernambucana (faca) na cava do colete e leva sua vantage na hora do pé ou da marreta. É um tipo escalavrado pelo tempo. é o mestre-sala e ao mesmo tempo o garantia do cordão. É quem determina o que é de boa ou de má inducação. A alma ingênua e bondosa do labrego.O Rio de Janeiro do meu tempo 509 – O que a rapaziada quiser! E a rapaziada abusando. que vai da proa à popa – Inté depois da morte! Foi meganha (o mesmo que soldado de polícia). sovado pela vida. e um caco de molar. perde as estribeiras. entanto. as etiquetas na sociedade e as aplica. Mestre-sala avisado é quem conhece o protocolo. Bíblia do bom-tom. Cada negra fica com um pedaço do Antônio.. com uma gaforinha em pala resvalando de um testão enorme e polido como uma bola de marfim. enorme. quando ri. composta de um dente incisivo. rolar. Mas que seja! E o dinheiro a rolar. desmancha-se todo.. uma estranha e macabra dentadura. uma tatuagem representando o encouraçado Aquidabã e esta legenda. Usa navalha no cós.. – Viva o nosso presidente! Vivôôôôô! É nessa altura que o Chico Transação. Mostra. começa a lhe dar piparotes de confiança no pandulho e a chamá-lo: – Bichão! Cuera! Cobra-sarado! Bicho bão! Diante de tanta afabilidade e cortesia o Antônio desarvora.. pardavasco pachola e escovado. serviu como fuzileiro naval no tempo de Floriano. tesoureiro do grêmio. não leva a sério os abusos da rapaziada... É uma patuscada! Quincas Marreta. muito amarelo. calepino de cortesias que o grêmio vive constantemente a consultar: – Seu Qu in ca.. em sorrisos.

sem uma prova capaz de apresentá-lo. Ele é quem diz. – O cavaero queira desencastoá a perna dessa dâmia. Porteiro-mor. porque Quincas ainda é um belo pé-de-valsa. Obedecido. maneiroso. então. esfregando as mãos. Garantia é o Cérbero do respeito a observar na hora em que se dança. toma. pela época vagamente repórter do O País. Uma vez o Tira-o-Dedo-do-Pudim recebe um penetra de qualidade. o dente amarelo em riste.510 Luís Edmundo pondo o rabo do oio no estandarte. para poder penetrar na sede do cordão. não é porquera. comparecendo à porta com o seu sorriso amável e o seu bíceps tranqüilo. que. pondo um olho de suspeição e de implicância na indumentária apurada do ainda muito jovem Bittencourt. toma da palavra e desfecha sobre a cabeça do Quincas Marreta. desliza. que não seja o seu interessante espírito. e quase autor dramático. E é só. a caEstandarte do Cordão belancha pela testa enorme revolta e depen. E isso enquanto não viro bicho e lanço mão dos alimento que possuo para garanti a orde e a imoralidade da casa. Carlos.. alega a profissão de jornalista.Desenho de Armando Pacheco durada. que o crube é famia. na hora da schotisch. num gesto da mais profunda condescendência: – Aqui só entra sócio efektivo e kíkitis cum ricibo do mês transsakto. de uma rapariga. ao intruso que não passa da soleira da porta. é ele quem decide da entrada dos penetras. seu Antonho avança para os moço e arrecebe eles. sendo. Pronto! Aí.. quando não me obriga a reagi. – Vossoria mostre antão os seus dicumentos – diz o garantia. logo. ninguém como ele sabe fazer uma reverência com elegância e com galanteria. apalpações e outras inconveniências improibidas pelo regulamento da casa. e. Vigia encostamentos. . dançando. Carlos tem uma idéia feliz. Ora. Carlos Bittencourt. numa eloqüência condoreira.

. nesse ambiente. aos carnavalescos presentes. onde se junta a ralé do morro. mas as dâmias que eston no lado de fora. a gentalha que sobe da Saúde ou vem das bandas do Saco do Alferes e morro do Pinto. acabam entrando porque nada mais são que três boêmios. Agora digo eu a Vossoria: Vossoria entra. é famia. Fechou o tempo. – Bravo! É reporte! O home é bem-falante. Oiei as muié e obtemperei: – Vossoria pode ingressá.... afogueado. As damas. estropeça na carçada e os dois rola João Homem abaixo. Fez jeito de ciscá e eu ainda reobtemperei: – Vossoria não insista que se estrepa. E ainda hom de se casá mais. assim lhe fala o garantia: – Seu reporte me discurpe mas porém nós percisamos sê gente de rigô par causa dos abuso. Aqui dentro. Foi quando o Gaudêncio. porém. um preto que mostra um par de beiços que são dois grossos bifes sangrentos: – A ermã deste se casou-se aqui. É uma saudação ao rancho. Calixto Cordeiro e Luís Peixoto. nosso claurinete. não pode por via do itinerário que elas trás que não está de acordo com um salão de famia. é particularmente interessante. é milpes. Pega ele responde: – Se eu entro elas têm que entrá também. de sereno e que veio com Vossoria é que não pode entrá.. vestidos de baianas. fogo-de-vistas. ponto de cair na Rua de São Jorge. Resurtado: apanha o nosso claurineta um tapa-oio que vira dispois numa dispécia fraudulenta na básia no crânis que ele ainda inté hoje tá de cama. porém. todos. de pôr o pé no salão. seu reporte. as dâmias. meteu a cara no grúpo e grampiô o home. Nós casemo ela. Já se casaro nesta casa oito virge... e eu explico a rezão para Vossoria não ficá zangado. E apontando para Antônio Cheira-cheira. é que não tem nada com isso. dando umas cabeçadas com um guarda-freio da Centrá. Gaudêncio vê pouco. porque elas viero cumigo e num vortam. Seu reporte qué sabê? Trás antonte aqui veiu um moço que também se dizia sê da imprênsia. – dizem logo. E continuando: – Que isso aqui.. – Reporte! O documento está apresentado.O Rio de Janeiro do meu tempo 511 um discurso formidando. Dispois é que ela andou por aí. Ora a ladeira é ingres. a transbordar de gente. porém. secretário do cordão. é respeito. os caricaturistas Raul Pederneiras. girândola oratória. Um novo idioma que se . É lá fora. Vinha com duas dâmias de carção de circo. porém. Antes. Nós. O linguajar. Ele insistiu.

Um dia. e bambo. É um gorila. de batuta toda enfeitada com florzinhas de papel. a vara da regência erguida no ar. É um tipo silencioso. é nesse calão que se explica. para ocarina e piano – Foi ela quem me matou. desarrumando os pronomes. destrocando os bb pelos vv. na regência da charanga.. o olho sentimental na negra Casimira: – Vamo! Escola. Mãos enormes. Quase sem gestos. Não sorri. morre de amores pela Casimira. uma unha. Vejamo-lo. dizendo mel em vez de mele. a assistência delira. gordo. como singularidade. dando início ao ensaio das cantigas. num retesamento exagerado de cordas vocais: .. como lhe escapasse das mãos a batuta da regência. Guimarães. A solfa é dengosa e leve.... Vamo! E o coro: As barboleta vom pelo á. Outro figurão notável nesse meio. O Sr. Quando ele surge na sala. quando declara às negras o seu amor aceso. Até o Antônio Guimarães. dizem que Turuna regeu a música com a unha. As mulatinhas cantam-na pondo as mãos nas cadeiras. Traja roupa de brim riscado em xadrez. cabeça Desenho de Pacheco raspada a navalha e revelando um microcefalismo deveras impressionante. surripiando as consoantes finais. é o maestro Turuna. de uns três centímetros. nascendo de um dedo curto e grosso como um calabrote. muito lustroso de suor. preta fula que já lhe inspirou uma valsa em si bemol – Luar do meu amor – e uma schotisch em dó sustenido. tranqüilo. cor-de-gaiola e mostra. Pés enormes. Beiçola enorme.512 Luís Edmundo ensaia e que se vai formando à revelia do Senhor Hemetério dos Santos e outros filólogos de peso. presidente conheçamos. os pescoços em riste. pele em vez de pel.. negralhão alto. agora. muito comprida e muito bem tratada. muito teso. presidente. a remexer as roscas do bigode. a fartura dos seios empinados. adocicando a fala. Asclepíado Cordão des Turuna. longa. de olho lúbrico. Todos pruma só boca! As dâmias ao centro e os cavaeiros marchando em derredor do quadrilátero.

nas camadas populares. frangalhos humanos.. Emulação ativa. atravessam as ruas principais.O Rio de Janeiro do meu tempo 513 As barboleta vom pelo á. em meio a tantas. onde se espicham empregados de trapiche. Em 1888. sanguinário e brigão. para ir morrer longe. Não obstante. em pleno exercício da capoeiragem. para as bandas do cais empedrado da Saúde. provocadora e perigosa. se destacam: uma. a massa triste dos degredados. A toada ábsona. imoderado e bruto. em . ainda.. Naturalmente que a interrupção dessa prática e o fator tempo haviam de minorar os ímpetos do caráter indígena. passa pelo casario das ladeiras onde mil ouvidos recebem-na. catraieiros. um ano antes da proclamação da República. entre elementos raciais opostos. Lá é que vão se apagar os últimos compassos da toada magnífica: Queimô no fogo as asa frebi Dispois nom pode mais avuá.. que a fatalidade histórica. o homem mantém-se. de modo tão pouco amável. destacados à luz triste e amarelada de alguns bicos de gás. jogando a vermelhinha entre marafonas de cachimbos na boca. dura.. como eles do cordão explicam. voz ensaiada no comércio ingrato dos picolés do tempo. a da crioula Casimira. marinheiros. que se berra forte. espalha-se na doçura da noite silenciosa. desafinada e estridentíssima: voz de antenor. A rivalidade existente entre esses grupos glorificadores de Momo é coisa velha e conhecida. que a justiça portuguesa para cá viveu sempre a enviar. outra. das mais policiadas da cidade. os quais por mero sentimento esportivo. cafajestes ar mados até aos dentes ainda saem à frente das nossas bandas militares. concorrência. voz de alguém que canta dentro de um baú. forte voz de assoprano. O que caracteriza as camadas inferiores da nossa sociedade ainda é aquele espírito bárbaro e irrequieto. comprometeu e assolou. São divididos em dois grupos: o dos gaiamus e o dos nagôs. ansiosos e contentes. por vezes. quando se tomava como matéria-prima para colonização. gentalha do lugar. violenta. a do moleque Zu. Queimô no fogo as asa frebi Dispois nom pode mais avuá! Duas vozes. Son cor-de-rosa com listra azu. vindo de velhos tempos de domínio estrangeiro. onde a instrução penetra a custo. sorveteiro. rola pelas quebradas do morro.

E enquanto não provoca. os amadores que. a alegria e a cachaça acendem os ânimos desses tradicionalistas. se não freqüentavam as famosas escolas ao ar livre. De um desses malandros sabe-se que. ó gordo! Em 1901-2-3.514 Luís Edmundo desafogo selvagem. em pleno centro da cidade. ao que. Cá ficaram. pelo menos. a coragem do primeiro chefe de polícia republicano nos livrou da indesejável malta. nela plantou uma afiadíssima faca. não tinge as calçadas de sangue. ainda se adestram na arte de bem-aplicar no próximo uma boa rasteira. Quando serenam os . primeiro dia das folganças de Momo. instantes depois. os que formavam o corpo dos profissionais no manejo do pé e da navalha. A tiro. Os homens batem-se como feras. irritado com a lauta pança de um inofensivo e risonho taberneiro. esse homenzinho não se dá por feliz ou satisfeito. já não existem mais capoeiras à frente de bandas militares. é agredido. com a mais fria das naturalidades. tendo uma navalha dissimulada na extremidade de uma cauda enorme ou então guardando. cantando. pelo que ocorre. aí. Por ocasião do carnaval de 1902.. no entanto. não luta. raspando reco-recos. E o homem colonial é o que encontramos na rua vestido de diabo. Eram. Sangram-se. o cordão carnavalesco Filhos da Estrela de Dois Diamantes parte do centro da cidade enchendo um bonde que caminha para Botafogo. atacando. por vários sócios dos Filhos da Primavera. Até mulheres entram no conflito. estúpida e desapiedadamente. as gazetas da terra registram um caso que ilustra o que dizemos. até pacíficos transeuntes. que aí se plantaram de tocaia. grupo congênere e rival. sem que os poderes públicos possam tomar. sob as dobras macias de um misterioso dominó. Quando o veículo da companhia Jardim Botânico vai dobrar a curva da Rua Marquês de Abrantes para entrar na Praia de Botafogo. não sem dizer. que foi para Fernando de Noronha. medidas moralizadoras e eficazes. É uma refrega estúpida e sangrenta. cheio da mais viva satisfação e de descuido.... batendo pandeiros. Rolam aos bolos. um furador de saco de café ou um facão de cozinha. onde se ia cultivar o tenebroso jiu-jitsu americano. uma cocada ou um rabo-de-arraia. que assume as proporções de uma feroz batalha. batem-se a cacete e a navalha. No domingo. A faca. dançando. de surpresa. tombava para sempre: – Guarda este ferro. Pelos dias de loucura carnavalesca.

Destemidos do Catete.O Rio de Janeiro do meu tempo 515 ânimos. É uma homenagem simples.. em peso. e Jorge dos Santos. A seguir. um povaréu enorme. bombos e tambores. junto à Santa Casa. É um espetáculo magnífico. reverente. O caso é. Verdadeira mobilização de mascarados. E. chega tarde. lhe surge pela frente.. sem alcunha carnavalesca. com o seu estandarte envolto em crepe. e o número de feridos e contusos é enorme. o Boi. no campo da Honra e do Dever colhidos pela Morte. querem. uma carreta. Rainha das Chamas e Triunfo da Glória. pelo enterro das vítimas: Angelino Gonçalves. que então se instala no edifício da Faculdade de Medicina. súbito. Há mortos. Os caixões. levam enormes vantagens. com sacos de confetti a tiracolo. Centenas e centenas de homens vestindo as mais berrantes e excêntricas indumentárias de carnaval. os atacantes. São elas: Filhos do Poder do Ouro. a rua é um caudal de sangue. no entanto. Pelos lugares por onde passa. As senhoras persignam-se. São várias agremiações congêneres que. coroas e grinaldas. as caixas de rufo teatralmente em funeral. registrar o que sucede. vociferam. Quando chega a polícia. flores. também. realmente. paco- . Os jornais da época dão o nome dessas associações. caixas de rufos. com a cara pintada. Desce o préstito. Rezam. Os da Estrela de Dois Diamantes deixam a morgue organizando o préstito mortuário. caminho do Catete. negros e pobres. Maçãs de Ouro. o povo. porém tocante. embora os sócios dentro das fantasias as mais escandalosas e berrantes. que ondula. no dia imediato. Saem os corpos do necrotério. palmas. Se a tragédia afligiu toda a cidade! Às janelas das casas chega toda uma multidão de curiosos para gozar o quadro singularmente sombrio e melancólico. apenas lavados em sangue. vão à frente. Vale a pena. digno de registro. isto à Praia do Stª Luzia. homenagear os heróicos batalhadores de Momo. Vai o bando lúgubre e silencioso roçando as calçadas do Largo da Glória. os do cordão Filhos da Primavera. se descobre. quando. que é numeroso. Na luta. já os da Estrela de Dois Diamantes sucumbem ao peso de uma maioria preparada. carregando pendões carnavalescos.

E. já clangoram instrumentos.. subindo sempre. crescendo. clowns e pierrots carregam. Esse clangor aumenta. Rufam também: pram. rufos melancólicos. sem alcunha carnavalesca.. quando um dos ranchos tem a idéia de fazer soar. Comove. Agrada.. pram. é ven cido pelo planger das pelicas que as vaquetas barulham. nas calçadas. também. o cavo e surdo ru mor de instrumentos de sopro.. a bulha singular dos reco-recos. estandartes policrômicos desenrolados no ar. À frente.... Angelino Gonçalves. Destaca-se. É quando entra. logo acompanhando-a. os dois negros ataúdes que dominós.. ganha um ímpeto mais vivo. curiosos. num cristalino canto que se eleva. num coro harmonioso. avolumando-se. e Jorge Santos.. Ouvem-na. Pela Rua do Catete segue o formigueiro humano.. desenrolada. caminho de Botafogo. Depois. A toada impressiona. É profunda. sempre. sobre a pelica de seus tambores. quando rompe uma voz misteriosa.. E vão a marchar. Mais carnavalescos. manchas violentas e alegres de cor num cenário de luto e de tristeza. em ritmada e fúnebre surdina: pram. Mais povo. vulgo Boi. E . Aqui.. É serena. em adágio magnífico. incorporam-se à massa espessa dos acompanhadores.. em passo ritmado. A princípio desenha angústia. deixam passar os esquifes onde repousam os mortos. Domina. por sua vez. Vão todos em marcha lenta. Outros ranchos imitam-na. pram.. um dia. ali. pram. mais decisivo. aniRaul Desenho de Calixto mando-o. assim. De quando em quando novas adesões aumentam a cauda viva. Alteia-se. todos. que se encaminha para o cemitério. num crescendo suavíssimo. pram... Arredonda-se.. o ruído dos passos. diabos. mais ou menos disposta e aprazida. Depois.. rebenta. Ganha um pouco de vida a comitiva enorme. caminho de Botafogo. acolá. num coro a boca chiusa. A idéia é amável. Depois. É pranto e é sofrimento. Chega a impressionar a majestade do séquito pomposo com que nunca sonharam ter.516 Luís Edmundo tes de serpentinas debaixo do braço. todos. Aquece. Formados em continência. que vai.

Quando chegam ao cemitério. Toma corpo. E canalha. Desencadeia-se a folia.O Rio de Janeiro do meu tempo 517 dos pandeiros e chocalhos. vivendo em fogo a pantomima dos seus bailados singulares. que resvala para um motivo sincopado.. aos evoés! À frente deles. E mômico. vendo-se a parte por onde se atravessa. silvando. Os estandartes rodopiam no ar. os funcionários da Santa Casa entreolham-se espantados.. fala. É o samba! As mulatinhas começam a rebolar as sobras dos quadris. barulha.. cantando. E profano. anjos de mármore que abençoam. com fúria. de fantasiados álacres. Grita-se a mascarados. de arco. Ascende. entre cruzes de pedra. princesas e velhos. fazendo tremer a gelatina dos seios flácidos e disformes. Já alegre. Agitam-se pandeiros. A loucura é geral. fundos de pratos e reco-recos. hoje. saracoteiam negras crioulas de grandes saias rodadas.. lousas.. ciprestes. urnas funerárias e salgueiros. Entram os dois caixões aos boléus. pardavascos agitados. Dentro de pouco tempo o cantar ensurdece. Quando a cova úmida e fria recebe os corpos que se enterram e cruzam no ar confetti e serpentinas. massa colorida que se esparrama. que se agitam.. flecha e tacape. E há quem cante. E quem dance. ri. o cemitério está coalhado de máscaras. Clamor. já passou um bando de índios emplumados. gargalha. . Transforma o ritmo da solfa. Delírio. os mascarados que os carregam aos empurrões. a Avenida Mem de Sá Desenho de Armando Pacheco – Corta-Jaca! Castigo do corpo! Trama! Remelexo! – Vozeria. que batem a chula marchando na calçada: Rua do Passeio. de tão forte. raspam.

cheia de sinceridade e de vigor: – Viva o carnaval! Guiso Autor desconhecido . soberbo e colossal.518 Luís Edmundo Sabbat magnífico! Momo domina seus muito amados filhos. talvez achada no lugar. na sua negra e sinistra indumentária. É quando se vê um folião representando a figura da Morte. gritando forte aos carnavalescos que o saúdam. talvez autêntica. como se fosse ele a própria alma carioca que ali estivesse a gritar. subir para um mausoléu de granito. do seu trono invisível. tendo na mão esquerda um crucifixo de prata e na outra uma tíbia.

O FUTEBOL – OUTROS ESPORTES TÉ o fim do século que passou nós vivíamos. . sempre enrolada em grossos cache-nez de lã. então. . . era uma geração de fracos e enfezados. . a galocha no pé e um guarda-chuva de cabo de volta debaixo do braço. . mal aparecia no céu uma nuvem cinzenta. O que se fazia. . . Quando o francês Nicolau de Villegaignon. . . . . . . A geração que vai proclamar a República. Assim não foram. no mesmo sítio. entretanto. exceção feita dos homens que seguiam a carreira das armas. . Não se cuidava de cultura física. . que seria a capital da França . os índios. muitos anos antes da fundação da cidade portuguesa do Rio de Janeiro. era evitar esforços tidos como nocivos à saúde. indiferentes aos prazeres e às alegrias salutares do esporte. . de lânguidos e de raquíticos. a bem dizer. Mens sana in corpore sano não passava de uma frase inexpressiva e vaga do velho Juvenal. . .. aqui fundou o esquecido povoado de Henriville. . . . AQUI. Capítulo 27 Os esportes OS ESPORTES – A MOCIDADE DE 1880 COMPARADA COM A DE 1901 – REGATAS E NATAÇÃO. . CAMPEÕES DO TEMPO – AMÁVEIS LEMBRANÇAS DA PRAIA DO BOQUEIRÃO DO PASSEIO – CORRIDAS DE CAVALOS – PRADOS E OS TURFMEN DESSA ÉPOCA – COMO NASCEU. . . nossos avós.

ferida em nossa baía. da pugna. subindo encostas. de seu divino esforço. uma embarcação. imediatamente. velho e particular amigo dos portugueses. espécie de Golias americanos. Mas. sobre agilíssimas pirogas. Foi quando o Santo fez explodir. provocando um estrondo formidável. pôde encontrar os tamoios praticando a natação. glória do Santo Mártir. São Sebastião. E de tal forma desenvolta e possante que a famosa batalha das canoas. assim mesmo. e. correndo. destros e desenvoltos remadores que. atingindo cumes. nas dobras de uma nuvem cor-de-rosa – segundo rezam velhas crônicas –. arsenal bélico capaz de centuplicar a eficiência de um guerreiro civilizado. Diga-se isso. ou em atividade guerreira. descido do Céu. labaredas enormes. em pessoa. a espessura confusa das florestas. viviam cruzando as águas da formosa Guanabara. bem como aquela excelente pólvora que o acompanhava sempre. pedra e flechame de pau. cessou de combater. que. acabou dirigindo-a e vencendo-a. e isso é também das crônicas. rija. numa acrobacia até certo ponto pouco de acordo com a dignidade de um grande habitante do Céu. o mártir. teve que andar saltando de casco em casco. além de nadar e remar. se quis cantar vitória.. aí. por descuido. logo. sem o menor intuito de diminuir o soldado europeu. e de modo direto. no entanto. a perderia o luso conquistador se nela não interviesse. viviam saltando. palma de portugueses e de seus aliados. Gente de músculos encordoados. Mesmo assim houve um momento em que os índios se iam abeirando da vitória. nessa prova de afeto ao luso e desamor ao silvícola. sempre resultou o triunfo com que se coroaram as armas portuguesas. aqueles magníficos canhões e arcabuzes notáveis. O índio. principalmente quando em luta com adversários que combatiam a tacape. que foi quem. penedos. surto memorável que decidiu. Era a vitória do Céu. com pólvora e outras coisas de guerra. varando. certamente. que sempre temeu o sobrenatural. em rasgos magníficos e arrojados. dizem até os historiadores – de estatura fora do comum. a seguir. Por sinal que esse destemido santo e louvado guerreiro. a espessa caboclada vinda José Floriano Peixoto Desenho de Marques Júnior das bandas de São Vicente! . Eram homens plásticos e fortes.520 Luís Edmundo Antártica..

quels gens mal fichus. bebe absinto e. é toda assim. escurinhos. cheirando a patchuli ou a água-flórida. pasta e bigode de anzol. Toda uma plêiade de moços de olheiras profundas. em Paris. em fraldas. por todos. quando não ficam nas suas camas de cortinado de filó. todos dessa mofina geração. acha lindo o sofrer-do-peito. Bom será. sobre os folhetins do Sr. magrinhos. com pequena variante. e como lhe respondam afirmativamente. Tipos como o do atleta José Floriano Peixoto são olhados. aos cariocas. Não se pratica a ginástica do corpo. ninguém supera o jovem desse tempo. pelo fim da passada centúria. pequenininhos.. porém. toda bordada a retrós encarnado. desolada. à grande Severine (conta-se) são apresentados três patrícios nossos. românticas e pálidas. ∗∗∗ O Jornal do Comércio de 20 de agosto de 1846. os olhos. ainda insiste em recitar ao piano. A do sentimento basta. Artur Azevedo ou sobre romances franceses. Certa vez. aos suspiros e aos ais! Esses valentes soldados de Cupido são criaturas que se levantam às nove da manhã. Tocada pelo descalabro físico dos três apresentados.. revirando os olhos. com as cabeças cheias de papelotes. mordendo lencinhos de renda. como achega preciosa para a história do esporte náutico carioca. o olho e o nariz no ar. de meia-cabeleira. entretanto. “olhos talhados à feição de amêndoas”. sem se conter. levam horas para frisar o bigode. a ele pergunta. descreve-nos uma . comenta: – Mais. farejando Julietas. românticas donzelas.. na gola e nos punhos. ela. não lhes citar os nomes. entre curiosa e impressionadíssima: – Tout ça ce sont des brésiliens?. repetindo o café com leite.. com espanto...O Rio de Janeiro do meu tempo 521 O exemplo desse glorioso passado pouco serve. A mocidade de 1901. Tal a de 1880. de melenas caídas nas orelhas. por isso. a arrastar pelas pedras das calçadas enormes bengalões de biqueira de ferro.. nesse particular. marchando dentro de enormes sobrecasacas e coroados de altíssimas cartolas. aqui vivem como patéticos Romeus. tomando o apresentador pelo braço. E.. liricamente dependuradas pelas janelas de sobrado. assobiando (a época é muito de assobio) árias do Rigoleto ou do Trovador. a grande escritora. dentro de uma longa camisa que lhes baixa até os pés. ainda ramelentos. quiçá um tanto consternada. vive ainda da lírica do poeta Casimiro de Abreu. que.

no escaler Caranguejo. então. teve nessa data marco memorável. Depois vêm outras regatas. pelo ano 1862. entanto. Icaraí (1895). que realiza em 27 de agosto de 1876 a sua primeira corrida. Em 1851 a Guanabara coalha-se de canoas. que mais tarde. um páreo que é considerado dos mais brilhantes do tempo. que era em Santa Luzia. cortava a Guanabara vindo acabar na Praia dos Cavalos. recebe a denominação de Clube (1894) e. mesmo alguns anos depois. Surgem. Natação e Regatas (1896). em diferentes épocas. Vasco e Internacional têm suas sedes junto ao Passeio Público. No mesmo ano funda-se o Clube de Regatas Fluminense. Desafios idênticos reproduzem-se depois. Os clubes Natação. Toma o esporte certo incremento. uma corrida náutica que aqui se faz em 14 de julho de 1863. No ano de 1873. Grupo Náutico (1900) e Internacional de Regatas (1900). cuidando de regatas. renascendo. não sociedade organizada. ainda. pertencendo a um grupo chamado dos “Mareantes”. Em Botafogo. o Grupo de Botafogo. O Clube de Regatas Cajuense é fundado em 1885. por uma tra- . que se dispusessem a explorar o esporte. Boqueirão. uma vez que associações náuticas. no quarteirão que vai da Rua do Passeio até Santa Luzia. Em 1892 a Union des Canotiers incorpora-se às sociedades náuticas que surgem. Mariz e Barros.522 Luís Edmundo regata interessante. e uma primeira regata. Guanabara (1899). Em Paquetá. numa delas. Em 1887 surge o Clube de Regatas Internacional. Boqueirão do Passeio (1897). o grande herói patrício. a seguir: Gragoatá (1895). depois disso. não se pensa em tal esporte. Iniciativas. Vasco (1898). Durante a guerra de 65 a 70. no dia 3 de dezembro do mesmo ano. Flamengo (1895). aqui realizada entre duas canoas – Lambe-água e Cabocla. entre nós. o gosto pelos esportes marítimos. funda-se o Clube Guanabarense. ganha. Servia de raia o caminho que. meramente pessoais. realiza-se com um estrondoso sucesso. só muito mais tarde é que apareceriam. Parece que o gosto pela canoagem. nascendo no recôncavo da Jurujuba. Muito falada é. Os marinheiros da nossa armada animam particularmente esses desportos. e. porém. grupo. Fazem-se festas náuticas com maior assiduidade. segundo nos informa Alberto de Mendonça. que começam a interessar o povo. Esse número de sociedades serve para demonstrar como se intensifica.

um laço amplo. obrigada a laço. diga-se de passagem. servindo de instalação aos grêmios esportivos. porque muitos desses casinholos continuam a lembrar verdadeiras peneiras. . E como indumentária de banho traz umas calças muito largas de baeta tão áspera que. se querem fugir ao olho atrevido do vizinho inconveniente e ousado.. Às cinco horas da manhã esse trecho. que a picareta de Passos acaba por destruir. de madrugada. O que vale é que uma dama de respeito. no começo do século Desenho de Armando Pacheco Entre os velhos casarões. ganha um aspecto curioso.O Rio de Janeiro do meu tempo 523 vessa que se chama do Maia (lugar onde hoje assenta o Monroe e é o fim da Avenida Rio Branco). um blusão com gola larguíssima. não raro. Do mesmo tecido. casas de banho. os encontrados nesta prática devendo ser entregues à ação da Polícia”. As senhoras são obrigadas a forrar as paredes de tábuas com lençóis. toma o seu banho. se vê um boletim escrito assim: “É expressamente proibido fazer furos nestas cabines a verruma ou pua. entanto. não lhe pode cingir o corpo. Toda a roupa é sempre azul-marinho e encadarçada de branco. que serve de enfeite e. de tapume a uma possível manifestação de qualquer linha capaz de sugerir o feitio vago de um seio. mais tarde.. ao mesmo tempo. mesmo molhada. cobrindo o peito do pé. onde. existem. de tantos furos. junto a uma praia cheia de pedras. As calças vão até tocar o tornozelo quando não caem num babado largo... Literatura inócua e vã. às organizações esportivas melhor conforto e aos banhistas lugares mais dignos onde se banharem. Palanque – arquibancada do Fluminense. não raro entrando numa água onde ainda se reflete a luz prateada das estrelas. sempre. para dar. à marinheira. por essa época.

vastas toucas de oleado. vivos. Pedro Iório. depois de se persignarem. entregando a alma a Nossa Senhora dos Navegantes: – Não haverá por aí algum caranguejo. sempre. sempre atentos à clientela. amarrada a um poste de pau. às senhoras e às crianças. .524 Luís Edmundo Sapatos de lona e corda. senhor banhista? Uma vez. e aos quais as velhotas perguntam. ainda. certo boêmio provoca. distante uns 30 ou 40 metros do arrebentar das ondas. risonhos e amáveis tritões. Amêndola e Vicente Saliture. Paquetá Desenho de Armando Pacheco Mantêm. com franzidos à Maria Antonieta. esses estabelecimentos. ou exagerados chapelões de aba larga. a do Salvador. entre tais senhoras. funcionários solícitos desses estabelecimentos balneários. a tradição da corda que. entre eles o Frederico Crioulo. um escândalo que termina em um generalizado ataque de nervos. tostados pelo sol. ainda. com valentes nadadores. José Provenzano. Compra ele no Mercado uns vinte ou trinta caranguejos e siris. Há umas cinco casas de banho. a do Provenzano. cobertos de músculos. corda que serve de arrimo e garantia aos velhos. amarrados no pé e na perna. Ethere Astuto. em terra. tornando disformes as cabeças. Contam. por uma época em que os cabelos são uma longa. Na cabeça. vai por dentro d’água até amarrar-se a uma espécie de bóia. nessa praia. à romana. escura e pesada massa. no local e nas proximidades: a do Pinto. muito espantadas. a da família Saliture e a do Francês.

. pejadas de povo.. no intuito louvável de aristocratizar o esporte.. grita. mostrou como marinheiros imberbes salvaram. em 1903 ou 4. fugindo a uma próxima ressaca. O Boqueirão é um pequeno hospital. mas. em todo o caso. dizendo: – Rapazes! Foram músculos como os vossos que ganharam. prega partidas e quer divertir-se. No começo do século a terapêutica usa e abusa dos banhos de mar.O Rio de Janeiro do meu tempo 525 mete-os num saco que esvazia sobre a areia. . seu trono de ouro. E.. Para essa geração.. outrora. muito orgulhosos de suas linhas. um elegantíssimo pavilhão. dos que vão abaixo da linha do joelho. foi que o poeta Olavo Bilac. A enseada inteira se engalana para os dias do certame marítimo. mais tarde engrossada. Até as seis horas da tarde é um delírio no mar. que agrada e que faz bem. recordando as praias de Falero. pois senhora de qualidade não aparece nunca para banhar-se depois dessa hora. com charangas. a gente moça de Atenas. num gesto largo. pela época. exibindo-se em calções. de mocidade. mas dos longos. rebenta o “charivari” da pragmática.. Passos cria. não sem informar às velhotas que da água se aproximam: – Quase me matam. com danças e namoro. O banho de mar. a alma da velha Grécia. Os moços já começam a mostrar corpos rijos e bem desenhados de músculos. hoje os caranguejos! Há-os às centenas! Vêm de Villegaignon... receita de médico. Às sete da manhã a praiazinha vai-se fazendo vazia de famílias.. onde. Cruzam carruagens. um ambiente de alegria.. para cair em delíquios nervosos. Xerxes. logo. mostra os crustáceos tontos à luz fraca do dia que vai aparecer.. Respira-se. No lado do mar há barcas da Cantareira. dominando a raia marítima da enseada gentil. Além das barcas. sobre a areia da praia. que rema. Olhem. e festa. Há uma debandada louca. graças ao desvelo entusiástico de Pereira Passos. ainda não é recreio. as histéricas aproveitando o ensejo. Passos pensa em tudo. rebocadores e lanchas pejadas de famílias. um dia. na praia. O povo trepa pelo cais. As embarcações dos clubes náuticos estão sempre a chegar e a sair.. que é a hora das cocottes e da rapaziada bulhenta que nada. nele reunindo a melhor gente da cidade. não raro. em ronda singular. gente de Temístocles. a batalha de Salamina! As regatas fazem-se sempre no quadro maravilhoso de Botafogo.

ao luxo de exibir nada menos de quatro prados: o do Jockey. Jorge e Arlindo Goulart. Armando Leite Bastos. que. Alfredo Maldonado. sem possuir. sempre que quer. Hans Binder. atravessa a Guanabara de lado a lado. Albano Pereira. Francisco de Paula Costa. Celso Mafra. Ernani Pivaletti. além dos citados: Heitor Pereira da Cunha. Entre esses existem. Amêndola.526 Luís Edmundo Em 1898 o Clube Gragoatá vence a maior prova náutica com a baleeira Alfa. João Teixeira. Álvaro Bastos. um milhão de habitantes. o do Derby. ainda. Salgado Gusmão. Em 1900 vence o Gragoatá com a Vésper. Joaquim Barbosa. Em 1901 o campeonato é ganho pelo Boqueirão do Passeio. Em 1902 a vitória cabe ao Natação e Regatas com a iole Boqueirão. ainda. E todos eles cheios. as corridas de cavalos interessam e entusiasmam particularmente o carioca. Francisco Laje. Em 1903 faz-se campeão Artur Amêndola. ainda. o do Hipódromo Nacional e o do Turfe Clube. Carlos de Sousa Costa. D’Enrico e João Iório. São grandes remadores no tempo. E todos eles realizando corridas sensacionais. Martins. Sgrinelli. Paquetá Desenho de Armando Pacheco Mais que as regatas. Paulo de Azevedo. Claudionor Provenzano. Mota Melão. nadando. João Iório e os Saliture. O campeão de 1899 é o Botafogo com a canoa Diva. dá-se. outros nadadores. José D. Há um tempo em que a cidade. Jorge Mirândola. Belmiro Pinto. Gamaro. o poeta Jarbas Loretti. . no entanto. João Guimarães. O campeonato do remador só é criado em 1902. Bom será não esquecer. como Voight. Em 1904 é a vez de Abraão Saliture.

sob ação furiosa de chicotes. que timbra em mostrar ademanes polidos. os mais afoitos de sobrecasaca cinzenta. a valsa dos Patinadores. Chique. não obstante. nem tampouco aquele recanto magnífico do Epson. lugares de certa distinção. Não é ainda o amável prado. seguidas de caixas de rufo e alucinantes chocalhos. entanto. palpita de vida e de rumor. que a esses lugares sempre se foi menos para assistir a cavalos desabridos. de plumas. cerrando nos punhos. correndo em prélios tumultuosos. pelo dia do Grand Prix. modos aristocráticos. já é qualquer coisa que nos alegra e deleita. que é onde se introduz a nata dos freqüentadores. dédalo de becos tortos e mal varridos. um trecho do Bois de Boulogne. Os homens estão postos como se fossem assistir às corridas de Epson ou às de Longchamps. muito alto. Tempo dos boleros. de polimento ou lustrado à Nubian. maxixes buliçosos. em phaetons. o binóculo a tiracolo. pesados de flores. As senhoras.. que para gozar a polidez ou a louçania de um ambiente cheio de animação e espiritualidade. certo. distinção. o chapéu-alto da mesma cor. de frutos ou de laços de fita. As corridas começam ao meio-dia. dentro de saias de arrastar. de biqueira bem fina. as bandas de música atacam. Esse risonho cenário é um consolo. quando não clangoram. amplas.O Rio de Janeiro do meu tempo 527 Que se há de fazer. é chegar-se um bocadinho mais tarde. se na desamparada cidade não existem bons divertimentos. sempre carregados de braceletes espetaculosos. Faz esquecer a cidade longe e melancólica. ostentando vastos e ricos chapelões de palha. As arquibancadas dos sócios. dos blusões fechados no pescoço. de meia-cauda. flor à botoeira. suspensas graciosamente pela mão. em berlindas.. das mangas-presunto. a elegância das sobrecasacas do Raunier. onde a febre amarela vive instalada e feliz. Garçons. o salto à Luís XV. elegância. veículos de luxo. Até as cinco horas ainda chega gente. carregando bandejas com sanduíches . dos vestidos de Madame Estoueight. Quando a saia revela o pé. lustrosos como cromos e são conduzidas para o recinto das arquibancadas pelo braço de cavalheiros aprumados. As senhoras chegam em landaux. ampla gravata a plastron. num bruaá amável de massa alegre. das cartolas da chapelaria Watson. o que se vê é um borzeguim de atacar. onde se possa encontrar um pouco de elegância e de alegria? A alegria dos homens tristes do tempo. suja e comercial. com doçura. o Danúbio Azul. De quando em quando.

enquanto funcionários da casa fazem mover grandes ardósias. de cores e de sons.. após nelas terem escrito. Vozes. A Casa da Poule referve no movimento das apostas. de calça flor-de-alecrim. o verde das pelouses desaparece sob a massa de uma multidão que cruza agitada e que vozeia. décimos de poule. No encilhamento desfilam. São sempre rodeados de cavalheiros atentos. a soma de poules vendidas.. Casa poule custa dez mil-réis.. dessorando superioridade e ventura.246. ávidos por informes e palpites sobre os páreos que hão de correr. importantes. cegando os interlocutores com o brilho singular de seus . distribuindo comezainas ou bebidas. graduados do esporte.. ar recadando dinheiro. A casa de banhos da Rua de Santa Luzia Desenho de Armando Pacheco Embaixo.528 Luís Edmundo e refrescos cru zam aqui e ali. por nome de animal corredor – Maravilha. recebendo ordens. num quadro amável e distinto. à sombra de enormes chapéus-do-chile. estes cardeais do hipismo mal respondem. Severo. no entanto. 1. quebrando no dedo mínimo a cinza clara de enormes e gordíssimos charutos. a pedinchar conselhos ou sugestões. todos muito risonhos e afáveis. com enormes pedras de giz. os proprietários de coudelarias. que se vendem a mil-réis. coletes de fustão branco. Ressoam campainhas. sempre de Havana... Há. – Fecha! Vai fechar! E os guichês ainda apinhados de apostadores. Displicentes e de ar protetor e amigo. impregnado de perfumes franceses. Todo um esplêndido bazar de sorrisos. caçadores de palpites. ensobrecasacados. 935.

satisfeitos. os proprietários de cavalos. O país já é de inúmeros cavalos. ágil. os cavalos não prestam. encorajando o comércio dos quepes. relinchar promissor de tempos que hão de vir. instituição quase belicosa. continuam pregando a necessidade de desenvolver e apurar a raça cavalar. Por isso vai-se buscar um pouco de sangue puro a outras partes: à Inglaterra. capaz de vencer o vôo da andorinha. E coronéis de infantaria! Pertencem à Guarda Nacional. confiantes. que chegam dentro de enormes boxes vestidos de lãs. sabe-se disso.. lindo de estampa. pagando por bom preço as patentes. Os guindastes da Alfândega não cessam de descer garanhões. Os mentores do esporte nacional. na corrida. mas. graças a uma precária ancestralidade. Traje de banho de mar Desenho de Daniel Nunca floresceu tanto. . como os homens. melhor do que eles. que ativa o cio das nossas éguas. que ainda paga patente para defender a Pátria e que. e. Pelos campos de criação há um relinchar estrangeiro. São quase todos coronéis. à Alemanha. enquanto não chega a hora do grande sacrifício. porém. Os patriotas batem palmas e.. defende o orçamento do Ministério do Interior e da Justiça. como se escreve nas gazetas. se revelar o cavalo nacional. como por essa época. à França. por exemplo. cuidados e entretidos. à Argentina. das espadas e dos galões dourados. respeitável milícia. airoso.. elegante. quando.O Rio de Janeiro do meu tempo 529 anéis de preço. o hipismo carioca. um ser que se sonha feito só de aço e músculo. Sangue medíocre e pobre..

Neles é que faz ponto. Esse homem. criando para os jogadores interesses especiais. Joga-se até fora dos prados. vendendo-se poules. porém. pelos bookmakers. por vezes. cordão e um indefectível guarda-chuva. à porta. de cabo de volta. as corridas continuam risonhamente.038:740$000 e o Jockey-Club 878:077$000. a cifras extraordinárias. o catedrático. a ausência do verdadeiro espírito esportivo. que se tem por um técnico formidável em as - . a ponta de um cigarro melancólico dependurado ao lábio nervoso e seco. quando sai da repartição. debaixo do braço. É sempre um homem de ar sombrio. Enquanto. como entretenimento o mais sadio da época. atingidos? A Casa da Poule garante o funcionamento da máquina. além disso. Funcionam nas lojas de prédios localizados no centro da cidade. por parte da massa.. Em 1901 o Derby rende 1. que há de fazer a glória do turfe e a glória do Brasil. na verdade. lançam modalidades no modo de apostar. Têm. Servem aos que não se interessam diretamente pelo espetáculo de ver correr cavalos. Antônio de Oliveira Castro Autor desconhecido Oscar Cox Desenho de Marques Júnior Abraão Saliture Desenho de Marques Júnior Os bookmakers. Atinge o que se vende. espetaculosas ardósias de informações para o público e estão repletas de interessados no jogo. Que importa. se os ideais cogitados hão de ser. tipo curioso do hipismo nacional. pince-nez de tartaruga. geralmente empregado público. sempre muito concorridas. casas de apostas.. tarde ou cedo. ele não chega.530 Luís Edmundo ficam a esperar por esse corcel verde-amarelo. fanatizado pelo turfe. paletó de alpaca e chapéu de palha pintado a verniz japonês.

pela época.. José Júlio Pereira da Silva. quando repousa na repartição (como um ótimo empregado público.. até o nome do animal que vai ganhar. citando o nome dos jóqueis que o montavam e o tempo que levou nas carreiras. Danois. espécie de oráculo de Delfos. conhecendo tudo. Diamante. Lúcio Januário. o que deram as poules.. pelo tempo: Francisco Luís. São grandes jóqueis. Severo. por isso. O homem sabe coisas extraordinárias: a saúde do animal que vai correr. o estado em que se encontra a raia. sombras que não escrevem seções esportivas nos jornais. Alfredo Toon. o que é muito importante. igualmente. está lendo tudo o que sobre a próxima corrida divulgam as gazetas da cidade. Javari. Dr. vencedor do Grande Prêmio de 1901 (montado pelo jóquei José de Sousa. Canrobert. chamam-se Cyaxane. belo pro duto na cional.. Lourenço Júnior. Vanda. Conhece. . Os animais corredores.. Tomás da Costa Rabelo. se não está pensando. Lola. Lourenço Hess. Domingos Ferreira e Rogatiano. a capacidade moral do seu proprietário. Troiana. Um assombro! O catedrático. todos os informes. Arbitrária. Jaíra. Francisco José Calmon da Gama. é aquela fatalidade: – perde sempre! Mas vai ficando cada vez mais catedrático. Zeferino de Matos. Ramon Pequeno. filha do famoso The Money. João de Figueiredo Rocha. o peso ou a coudelaria de qualquer cavalo com matrícula nos prados da cidade.O Rio de Janeiro do meu tempo 531 suntos de corridas.. Oliveira Júnior. égua paulista de grande fama. José Eduardo. quando joga.. podem ser citados: Barão da Vista Alegre.. Além disso está apto a informar a filiação. Assis Brasil. Paulo de Frontin. Entre os turfmen mais conhecidos. deixando crescer a barba). Segre do. Vanda Zorai. a resistência física do seu jóquei. Domingos Silva. Marcelino. Menelha. Carlos Coutinho. Figueiroa. todos os comentários e potins urdidos sobre a próxima corrida. propriedade de Charles Colins) e que o público conhece pelo nome de Boi da Mooca. José Moreira Barbosa e Ricardo da Costa Ramos. como diz. Costa Ferraz. Abel Vilalba. na fazenda do Dr. nasci do em Pedras Altas. porém. a verdade sobre os cotejos que fazem ao lusco-fusco da madrugada e que morrem no segredo das sombras. Luís Rodrigues. o número de vitórias que ele já obteve. José Moreira Pacheco.

Essas violências salutares conseguem modificar. por vezes. o pendor para a trapaça. provocando conflitos. A mais rápida das carreiBúcio Filho ras era feita. não raro. até juízes de raia e de chegada. de resto. Nos prados do começo do século.532 Luís Edmundo ∗∗∗ A jogatina desenfreada que segue. os animais que corriam. Aos tribofes. pois não media. foi. Qual o velho que não se lembrará. ao lado do sentimento esportivo. cognominado o Maxixe. quando se descobrem. com violência. que ainda conserva o filho desta terra. se tribofes e patotas ainda se praticam. que vivia constantemente. proprietários de animais. cria. com as famosas patotas ou tribofes (burlas com que se explora a ingenuidade de apostadores). hoje. enquanto lhes arrasavam as arapucas armadas para os cambalachos. mas ainda existem. no mínimo. nem 500 metros. surrando jóqueis. vício nacional e antigo. talvez. alimentando o espírito mundano que anima o gosto pelas nossas carreiras de cavalos. ainda. . depredando as casas de aposta. Assim posto. já não prolifera a deslavada roubalheira de uns 20 anos atrás. entraineurs. do famoso prado que se chamou Vila Guarani. sempre. às vezes. quando os profiteurs do turfe começaram a apanhar surras memoráveis. respondem esses mesmos apostadores. Desenho de Seth muito das tendências da época. sendo o mais tribofeiro entre todos os de seu tempo. situações aflitivas. que existiu para as bandas da Praia Formosa e do qual se pode dizer que. a depredá-lo? Tinha o Vila Guarani uma pista quase em forma circular e curtíssima. para atingir as distâncias marcadas no programa. eram obrigados a volteá-la inúmeras vezes. em desordens. que degePaulo de Frontin neram. o que mais sofreu a ação violenta e justa da massa popular. entre 3 ou 4 Desenho de Seth voltas.

. após a 8a volta. à casa das apostas. Os atacantes. mantém a sua posição de início.. convicto da sua esplêndida vitória. como o total das vendas para o conjunto dos ani mais do páreo fosse superior a nove contos de réis. um milico. cocheiro da Companhia de Bondes Carris Urbanos e pelo público conhecido sob a pitoresca antonomásia de Chico Manivela. em regra. porém. Os que escapam à sanha popular caem no mangue que existe ao fundo. feita ner vosamente. num bem urdido tribofe. propositadamente. continua em marcha de passeio. E ambos incitam o poviléu a anular a ação do anulador com um ataque cerrado. a giz: “Atendendo às irregularidades verificadas neste páreo. escapando. ape nas. fiado! Imagine-se o escândalo! O administrador da casa de apostas. O vendaval humano derruba tudo. está-se a ver o lucro superior a quatro contos de réis para cada poule vendida. assim. comicamente. e que logo se faz. um excelente jóquei. uma vez que o jogo no cavalo que devia obter o prêmio. Aliás. Debalde gritam-lhe os interessados na patota: – Toca. A alta dire ção do prado.. O povo. assanha-se. A represália é magnífica. pela raia. Na hora da saída a égua. tem uma idéia feliz: à ardósia em que se registram os avisos ao público traça esta declaração. talões de poules e dinheiro. nem os ouve. anulado.O Rio de Janeiro do meu tempo 533 Certa vez a direção do prado marca para vencer. por ordem superior. a égua Pernambucana. que ainda falta uma volta! O montador não os compreende. É que o Chico enganando-se na contagem. porém. não pode pagar aos felizardos abiscoitadores de tão interessante lucro. fica o mesmo.” Nada mais cômodo. Nele se venderam. livros de registros. protesta. contara nove voltas em vez de oito. rápido. . O detentor de uma das poules premiadas. e. um bacamarte (animal de baixa cotação esportiva) chamado Rabecão vence o prélio sensacional. que é possuidor da segunda poule. duas poules. havia sido feito. continua com água acima do joelho. aplaude-o.. com a surpresa de todos. invadem o mesmo mangue onde a luta. e. São surrados os fraudadores que quase morrem de susto e de pancada. para onde fogem carregando papéis da escrituração das apostas. oficial de marinha muito conhecido. em grande dianteira. montada por certo Francisco Franco. Chico. Não fica uma só armação da mesma casa de pé. até que. pára de repente. Graças a isso. porém. o outro.

sobre cada uma das ancas..534 Luís Edmundo Copacabana 1906 Desenho de Armando Pacheco O mais interessante. e Marimba. sob a iniciativa de um dos diretores do prado. vagarosíssima. acontece que. quem aparece é Hirondelle. largas e de cor marrom. do mesmo porte. pintadas à aquarela. o nome dos tais apostadores que provocaram tão pavoroso conflito. francesa. nacional. porém. Corre o páreo e Hirondelle ganha a corrida. feita num dia de intensíssimo . de ponta a ponta. Nesse mesmo prado da Vila Guarani corriam duas éguas. Desse tempo. hoje. e o médico. na hora da corrida. Eram da mesma cor esbranquiçada. Ninguém joga. porém. apenas a égua brasileira mostrava. Ora. mas.. posteriormente almirante e nosso ministro da Marinha no primeiro Ministério da República. duas manchas em forma de meia-lua. Jogam. porém. o Dr. Entre ambas havia uma semelhança física notável. Brício Filho. há recordações ainda mais cômicas. hoje ainda vivo e que conta a quem quer ouvir a curiosa história que nós aqui registramos. muito veloz. marrons. da mesma idade. em forma de meia-lua. transformada. porém. pela perícia de um pintor. naturalmente. mostrando nas ancas. aí para uns trezentos ou quatrocentos mil-réis. Com o esforço da corrida. largas. quase sem cotação esportiva. Poule gorda. prepara-se. no bacamarte. jornalista de nome e fama. Hirondelle. um tribofe bastante original. certo dia. Inscreve-se Marimba para correr num páreo. os patoteiros urdidores do plano. as quatro manchas. é saber-se. O oficial de marinha era o então capitão-de-mar-e-guerra Eduardo Wandelkok.

por um sco re de 2 x 0 no primeiro dia e de 3 x 0 no segundo. 1902. o fogo purificador e infalível em todas essas terríveis e constantes refregas. Júlio de Morais e Félix Frias. Vila Guarani. Oscar Cox. nos dias 4 e 5 de outubro. como a Fênix da lenda. Não logra. chegam os da Paulicéia para buscar vitória. Não a levam. Os rapazes brasileiros do jovem clube batem a inglesada descida. Morais. forwards. dias depois. backs. porém. . porém. porém. E. resolve formar um conjunto de brasileiros com um time. onde se instala a sede do novo clube com o seu campo. Oscar Cox e Max Naegeli. não desanima. como sempre. Esse memorável encontro fere-se no dia 1º de agosto de 1901. goal-keeper. pois só depois é que se aluga por 100$000 mensais o terreno da Rua Guanabara. E é assim que resolve levar o seu grupo a São Paulo. Cox. grande sucesso. no entanto. e vai desafiar os da Association. quando transpunha a cancela da raia. a peleja. Luís Nóbrega. no começo do século. por lá. Depois é que veio o fogo na casa da poule. outrossim. descido pelo povo. a coisa não teve. Aqui. da outra banda da Guanabara. O entusiasmo pelo jogo. só muito mais Jarbas Loretti Desenho de Raul tarde é despertado entre o público. O primeiro a ser malhado. em 3. filho de inglês. a cacete. que é o primeiro no gênero. de sua magnífica montada. organizado na cidade. Pau lo. aqui. nesta cidade. de tal forma revelando toda a fraude. halfs. é o jóquei. em direção ao encilhamento.600 metros. Nesse primeiro conjunto nacional acham-se Clito Portela. impavidamente. desbotam as meias-luas pintadas a marrom nas ancas de Hirondelle. o número dos jogadores sendo maior que o número de assistentes. Jogam-no apenas os ingleses do Paissandu Cricket Club. Horácio da Costa e Santos. O futebol ainda é um jogo pouco conhecido entre nós. sócio do Paissandu. Vítor Etchegaray e Walter Schuback. renascia das próprias cinzas. o menor interesse por parte do público. nesse dia. e em Niterói os do Athletic Association.O Rio de Janeiro do meu tempo 535 calor. Parece que. Esse encontro fez-se no campo do Paissandu. Mário Frias. no ano seguinte. vin da de S.

mais dois frontões se inauguram: o Catete e o Coliseu. um incremento notável. Américo da Silva Couto. Robles. porque o tribofe neles vive provocando conflitos. secretariado pelos Srs. Álvaro D. Zalacain e Mazartine. Virgílio Leite de Oliveira e Silva. Cruz. Gogorza e Zolozabal. Manuel Rios. Domingos Moutinho. Cale. aqui. no momento. Mário Rocha. Em 1901 o Frontão Nacional possui pelotários como José. Ruiz Estudiante. bulha e entusiasmo. Desenho de Marques Júnior ∗∗∗ Nos últimos anos do século o jogo da pelota gozou. Toloza. vice-presidente. O Velocipédio possui Urbieta. Para isso necessita. Júlio de Morais e A. Heráclito de Vasconcelos. Mário Rocha.536 Luís Edmundo Cox anseia por campeonatos tumultuosos. Presidiu a reunião o Sr. Manuel Rios. em tudo igual ao que viu realizado na Europa. residência de Horácio da Costa e Santos. com o Frontão Brasileiro. A. Campos Sales. num prédio sito à Rua Marquês de Abrantes. pelotários brilhantes. Walter Schuback. 1º secretário. coordenar elementos e esforços. Mascarenhas. Haviam aparecido em 1888 ou 1889. C. Roberts. Muchacho. con - . Helu. o veterano Ruiz. Comparecem a essa reunião e são considerados sócios fundadores: Horácio da Costa e Santos. Cox. nasce. Artur Gibbons. porém. 2º secretário. não teve título designado. entanto. Logo depois. Bachiler. Walter Schuback. A polícia do Sr. Bilbao e Ugalde. tesoureiro. Domingos Moutinho. Oscar A. Hernani. Félix Frias. Mujica. Oscar Cox é proclamado presidente e eleitos para os demais cargos: Luís Nóbrega. João Carlos de Melo. com povo. Costa. funda o Fluminense Foot-Ball Clube. São todos eles espanhóis ou sul-americanos de origem espanhola. nº 51. Assim. Mário Frias. que se chamavam: Etulain. No dia 21 de julho de 1902. A. membros da comissão que. Eurico de Morais. Vítor Etchegaray. Félix Frias e Horácio da Costa e Santos. Américo Couto e Oscar Cox. no começo do Comandante Midosi século. vê-se obrigada a mandar fechar esses frontões. Luís Nóbrega Júnior. o primeiro clube de futebol carioca.

de toureiros e de touros. burocraticamente. Pelapus. ∗∗∗ Em fins do século que passou.. sem estripamento de cavalos. os insultos que lhes são ati rados. freqüentadíssimo por moradores da nossa cidade. isso desde os tempos coloniais. É a obscenidade. ainda hoje. outros para Niterói. mansíssimos.. por ocasião das grandes festas populares. e a depredação da casa da poule. benigna e humana tourada. nunca. pobres animais vendidos às portas do Matadouro de Santa Cruz.. é proprietário de bazares e de uma grande oficina de bicicletas. era a boa tourada à portuguesa. apesar de seu nome francês. A barulheira cresce. rebentam em impropérios contra os jogadores. o esporte do ciclismo possui. Lá continuam. Da cancha. É o calão. Referve. os frontões. que. Não interessaram. à nossa gente. que se chama Velódromo Nacional. os conflitos. gosto pelas corridas de touros. É a descompostura de sarjeta. brasileiríssimo. Venezia. as praças de curro de Sevilha. que corre com o nome de Elbe. onde ainda trabalha. à Rua do Lavradio. Alguns pelotários embarcam para São Paulo. revidando. finalmente.. Os espectadores. por ordem da polícia.O Rio de Janeiro do meu tempo 537 flitos que geralmente começam de modo original. de que se salpicam. com acrimônia. É nela que se reúnem os campeões do tempo: Kean. por vezes o tiro de revólver. Depois é que vem o murro. hoje. próximo à do Riachuelo. Nelson. de Madri e de Badajós. logo que percebem as irregularidades do jogo. o que se praticava. entre as escrivaninhas do Tesouro Nacional. no entanto. por sua vez. respondem os pelotários violentamente. Touradas com touros embolados. quase vacas leiteiras. que pode recordar as suas glórias esportivas. entre nós. Mandarim. Sotero. Nem assim. de touros mansos. os tribofes. uma excelente pista de corridas. lances arriscados para toureiros e aquela sangueira selvagem. o mesmo Pavageau. a bengalada. as depredações na casa da poule. no Brasil. onde funciona um estabelecimento do gênero. à Rua da Constituição. ∗∗∗ Nunca houve. porém. O povo não quer saber de touradas. o grande Pavageau. Fecham-se. época em que aqui foram introduzidas e até impostas. os bate-bocas entre pelotários e povo. o pontapé. E. .

o Rio Cricket.538 Luís Edmundo Em 1901 já não existe o Velódromo. estes dois últimos portugueses. o Touring Clube. São bons corredores da época. Taitu. Paulo de Meneses e Alfredo Gonçalves Vieira. o Atlético. do Velódromo Nacional. É o início dos bons tempos desse esporte. Cupê Desenho de Pacheco . Gavroche. que Combes. o grande campeão francês. Kean. em 1902. além de outras agremiações modestas. existem. é que dá mostras de certa decadência. Não obstante. Alberto Bittencourt. Pinheiro e Malhão. aqui vem. Em compensação. no lugar onde hoje está o Cine-Velo. então. Laborde. o alemão Hamburgo. mas para ser batido pelos nossos. Bildat. substituindo-o: o Clube Atlético de Santa Teresa. que dá corridas na Quinta da Boavista. que teve os seus tempos áureos com o Clube Atlético Fluminense. Além dos corredores já citados na lista dos chamados fortes. são conhecidos como excelentes pedais: Lagartijo. de Santa Teresa. o esporte da bicicleta.. Nevers. O pedestrianismo.. José Luís Cordeiro. De tal forma desenvolve-se. Barrière. substituindo-o. funcionam: o Velo-Clube. Titã. entre nós. que faz correr os seus sócios nos campos do Jardim Zoológico e o Velo-Sport. à Rua Haddock Lobo. entre muitos: Afonso de Castro.

. o que perdeu. portanto. a vida. na luta contra o feroz gentio aliado aos franceses. . . obedecendo ao edito. de tal sorte em tais jogos se entretinha que necessário se tornou fazer do que se havia então. Esconderam-se as cartas condenadas. . . um delito passível de multa ou de polé. por cândido regalo. . Sabe-se. Está em Baltasar Lisboa o informe. entanto.. . . Capítulo 28 Jogadores e jogatinas JOGADORES E JOGATINAS – O JOGO-DO-BICHO – COMO NASCEU – O BARÃO DE DRUMMOND E OS SEUS PALPITES – CENAS NO JARDIM ZOOLÓGICO – VENDEDORES DE BICHO – O BICHO E O CADERNO DE VENDA – A OBSESSÃO DO CARIOCA – EXPLORADORES DESSA OBSESSÃO – HISTÓRIAS CURIOSAS A PROPÓSITO DO JOGO E DE JOGADORES ELO tempo em que os portugueses aqui lançaram sobre o sonho de Henriville. com um olho. . . . . . que os soldados de Sá fundaram esta cidade com os baralhos ocultos nas virilhas. Quer isso dizer. . . . . . . . que a grei lusa. . . . foram estabelecidas penas tremendíssimas para todo aquele que fosse encontrado com baralho de cartas na mão. o capitão-mor Estácio de Sá. as bases de uma nova cidade colonial. fundada por Villegaignon. . quando desceu à terra generosa. .

então representando. entre nós. rigorosamente. a Real Fábrica de Cartas de Jogar! Rua da Ajuda Desenho de Armando Pacheco Como se vê. lançava. Razões de tão súbita mudança? As do Real Estanco. dizem que era até um grande jogador de “faraó”. como se vê pelo informe que está em cada livro impresso. por jogar. finalmente.540 Luís Edmundo Nascia. cartas de jogar. com a pugna triunfal do índio Ararigbóia e com a glória gentil de Uruçu-Mirim. pelo fim do século XVIII. O palerma do filho.. entanto.. Em 1811. não ia mais ao pelourinho sofrer penas de açoite. não faltavam oportunidades para fazer do carioca um jogador de truz. No tempo de Pombal. a louca. a bem dizer. José. D. não quis saber de idéias proibitivas sobre o caso. anexa-se aos prelos da Imprensa Régia do Rio de Janeiro. era a terrível lei posta de lado. o jogo. em quatro volumes! Vendia-se a obra augusta no próprio balcão do Estado. Já o peão. nem largava aqueles famosos vinte cruzados de multa. Em 1606. que começou a imprimir em suas reais oficinas. Em 1806 a Tipografia Real. exagerada soma. quase os bens de uma família inteira. para vender ao povo. assim. . sob o título Academia de Jogos. em Lisboa. jogo muito em voga. D. uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto. os desenhistas e impressores observavam. D. João. Apenas. a Imprensa Régia ainda as imprimia. os reis de copas – não fossem eles sair com a cara do Sr. Maria.

com um visporazinho a vintém. o tintureiro ambulante. com um grande anel de brilhantes no dedo. As loterias eram vendidas sem o menor entusiasmo. o jogo de cassino ou de cabaré. muito bem disposto. Nós jogamos. de envolta com sacerdotes. pelas famílias. entretanto. o homenzinho que almoça às 5 da tarde e chama ministro e governadores de Estado por tu ou por você. por esse tempo. então. sob a luz amiga dos bicos Auers. uma cidade de jogo. sem obstinação e sem delírio. – Amanhã anda a roda! Certas vezes. políticos e suicidas. havia esporte da pelota. mas muito poucas. o Rio de Janeiro. naturalmente. o jaburu ou. deu um palpitezinho para o touro ou para a vaca. Assim fomos nós. senhoras e até crianças! . ainda era.. caixas de Banco. na verdade. nem de jogadores. perna encostada. beliscão ou a bisca-de-sete e a burro-em-pé. Desenho de Raul Que andasse! Pouca gente jogava. como se jogava muito naturalmente.. obrigado a suspiro. o olho a dessorar vigílias.. o famoso “coronel de jogo”. a campista e o bacará. sem saber. sempre muito bem barbeado. com cocottes. desconhecíamos quase por completo. um vago personagem de romances e apenas concebido pelas imaginações mais ou menos irrequietas e abrasadas.O Rio de Janeiro do meu tempo 541 Nunca foi. opulência e ventura. esses. até os fins do século XIX. toda a população alucinada jogava – do Presidente da República ao mais obscuro criado de servir. Havia apostas em cavalos de corrida. pelos clubes fechados jogava-se raramente a roleta. de inquietação e de loucura. aparentando importância. educadores. presa do mais vivo frenesi. em qualquer parte. então. pais de família. O famoso tipo do jogador profissional. aqui. jogo era pretexto honesto de reunião ou de namoro. onde. sem obrigação. juízes. Casas de tavolagem? Havia-as. maelstron de vício. O jogo elegante. um homem pálido.. ao soprar o seu chifre de boi. mal pensando que dentro de pouco tempo teríamos que ver tornada esta beatífica e risonha cidade em um autêntico principado de Mônaco.

que aqui nascesse o chamado “jogo-do-bicho”. não durou muito tempo. viu-se de um momento para outro numa situação deveras embaraçosa. por ter saído. entanto. Em Rua da Misericórdia 1889 os homens da República suspendeDesenho de Armando Pacheco ram esse auxílio. tendo honestamente empregado quase todo o dinheiro recebido na compra de fauna estrangeira que. por ano. da cabeça do Barão de Drummond. era escolhida.542 Luís Edmundo Convento da Ajuda Desenho de Armando Pacheco Foi preciso para que esse delírio se mostrasse. época em que abriu as portas do seu parque de animais ao público (janeiro de 1888). tomando-o por favor feito a um amigo de Pedro II. O Barão. imprescindível numa cidade de certa cultura e importância. Restabeleça-se a verdade dos fatos. sem buscar. em terrenos de sua propriedade. antecedentes mais longínquos. com o qual se animava um estabelecimento de utilidade pública. Esse auxílio. uma subvenção de 10 contos. Nada mais falso. barão desse nome. recebia do Governo. . sitos no bairro de Vila Isabel. de origem obscura. passa. desde o tempo da monarquia. indevidamente. inteirinho. João Batista Viana Drummond. sobre ser bastante numerosa. fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Esse jogo. entanto.

Para que isso se desse. como se contava. estava ele. vinte mil-réis. apenas. não logrou a princípio. com ela recebia a indicação de um animal representando a possibilidade de um prêmio vinte vezes maior que a soma despendida. natural do México.O Rio de Janeiro do meu tempo 543 Corria o ano de 1892. Tinha esse quadro. . lentamente. Zevada lembrava a idéia da exploração do jogo. Era o jogo. substituindo-se. melhorando para Drummond as coisas. Iam. como se vê. revelando-se aí. tornava-se necessário. Foi em meio a essa crise muito séria que lhe apareceu certo Manuel Ismael Zevada. fosse o que havia de surgir num quadro de dimensões enormes. que. um tapa-vistas. porém. o nome das flores. feito em madeira. Custando esse ticket mil-réis. portanto. Rua do Lavradio Desenho de Armando Pacheco Era uma diversão ingênua que a imaginação impudente dos homens. que era trancado a chaves. com o projeto de um jogo de flores. em figura e por nome. O Barão achou a coisa interessante. o gostoso segredo. À tarde. franca simpatia do nosso público. içado a um mastro erguido à porta do jardim. Cada visitante do Jardim. mais tarde. As figuras dos animais que nele se guardavam eram muito bem desenhadas e coloridas. em um prédio que ficava à Rua do Ouvidor. por nomes de animais. no Jardim. caso lhe fosse a sorte favorável. próximo à Gonçalves Dias. descia o passe-partout. já por ele próprio tentado. embora sem grande êxito. quando comprava a sua entrada. a imagem do bicho vencedor. ao público reunido. Aos poucos foi crescendo o número dos visitantes do Jardim. seja dito de passagem. danou e perverteu. que o animal indicado no bilhete. viável e logo em começo do ano de 1893 lançou a idéia. habilitado a receber.

o chefe recebia vinte mil-réis de prêmio. ru ído. por imagem.. blagueur. E se mais tarde a sorte lhe era favorável. Diz-se que Zevada e o Barão vinham para o Jardim gozar a festa. um cavalheiro. um macaco.. Entrava toda a família. entregava ao bilheteiro uma nota de cinco mil-réis. um palpite para hoje! O Barão tomava um ar de profeta. sendo que muita gente para lá ia a pé. com três meses de existência..... como entradas! Já trabalhavam vários homens no guichê e o número de porteiros era elevado ao quádruplo. O Jardim engalanava-se todo. No dia imediato: – Sr.. A Companhia Vila Isabel não tinha. e que o povo. a Botânica. a este último. Barão. à tarde. vivia só a indagar pelos prognósticos do jogo. uma vaca. e dava . Barão! Sr.. . de caleches ou de fiacres. risos. começava a lhe dar a Zoologia. Era uma folia sem par! Música. O que a Zevada não dera. pedindo: – Um porco. Abastados. olhando o céu.. então: – Hoje dará o animal que. que só num domingo registraram-se cerca de oitenta contos de bilhetes vendidos. punha um dedo na testa e sentenciava.. a cobra. um camelo e um cachorro. flores.. Barão! E hoje. qual o bicho que dará? De novo o homem punha o indicador na fronte e de ar búdico. mais bondes para meter no tráfego. Era um divertimento amável que. Ironias velhacas do Barão. já dava um lucro razoabilíssimo.. mais se assemelha à mulher! Corriam todos ao guichê e era um nunca mais acabar de comprar borboletas! Descia o quadro. por fim. bandeiras.544 Luís Edmundo No guichê do portão. inteligência. acompanhado de sua mulher e de três filhos. em ganhos. – Barão. sem sorrir. murmurava apenas: – Inteligência. valiam-se de tílburis.

– Caracoles!.. graças à inteligência do jogador às loterias nacionais.. porco! Porco não é um animal que evoque inteligência. satisfeito. Está certo. Vamos encontrar.. mania e obsessão do cidadão carioca.. o Zevada ia espiar a féria. Barão. No fundo o Barão de Drummond divertia-se. Inteligência? – A inteligência que eu evocava. que a polícia já havia proibido no Jardim Zoológico. Arregalava o olho. com o animal pintado. incorporado. Sr. no burro ou no camelo. nem a dos senhores. Nesse dia o animal premiado era o porco. O famoso quadro do Barão. Rua do Riachuelo Desenho de Armando Pacheco Havia quem não se conformasse com o palpite e fosse perguntar ao Barão: – Mas. não era a do animal.. iam jogar no cavalo. esfrega as mãos.O Rio de Janeiro do meu tempo 545 Havia quem jogasse na águia. no começo do século. aí – respondia o Barão –. era a minha... o jogo-do-bicho. já . Rua Uruguaiana Desenho de Armando Pacheco Quando o Jardim fechava... afirmativa ou negativamente. porém os que conheciam as troças do palpiteiro.. regalo.

S. C. – Essa conta está errada – diz ele ao portador da mesma.” No fim do mês. um dono de venda. dessa época: “Dia 18 – banha 400 réis. for mando o vendilhão da esquina. com sua proibição. pelo ano de 1902. criava a comodidade do jogador. soma essa junta às infalíveis letras – I. o caso é que as famosas contas de caderno ou contas de chegar. Com o bicho ou sem ele. em Botafogo. A polícia. azeite 20 réis.? Que explicam. comendador analfabeto e gordo. C. o clássico I. depois. – E. ao fim de cada soma. estas letras? . S. Havia na Rua S. além de inúmeros book-makers. Certo dia. registre-se esta. que diabo quer dizer este grupo de iniciais.. no caderno da venda e nas famosas contas de chegar. Freguês novo. 1$600. foram como ainda hoje são – salvo exceções honrosas – enormemente aumentadas. mas o Rio todo jogava. Clemente. C. o homem dos secos e molhados. I. posto aqui ao pé da soma. por todos os lados. Até no próprio lar era o mesmo vendido. S. porco. à vanguarda. mais bicho que mantimento comprado no armazém. que é um do cumento curioso para estudo de uma época. uma vez que. afinal. De um caderno de compras. O comércio a retalho estava cheio de banqueiros do jogo. sem querer. como então se chamava ao ato de jogar. Em peso! E nem os famosos palpites tão do peito dos visitantes do Jardim faltavam na hora de se fazer a fezinha. Examinando a conta. homenzinho tão cioso de seus conhecimentos de escrituração mercantil que jamais esquecia de pôr. organizados pelas casas de vender bilhetes de loterias. acha o cliente grave erro de soma. E já que falamos no homem do armazém. muito das relações de quem traça estas linhas. que comercialmente se explica por estas palavras – Importe de sua conta. 500 réis. um caixeiro trêfego foi com a fatura à casa de um freguês. raro era o negociante da cidade que não bancava o bicho. acrescente-se. As contas para os fregueses era um seu empregado quem as tirava. favorável ao homem do armazém.546 Luís Edmundo não havia. palitos 140 réis. jacaré no antigo..

quando elas chegam a casa. Dr.. Aqui está Desenho de Armando Pacheco junto à soma – 48$600 –.O Rio de Janeiro do meu tempo 547 O homem desconhecia por completo o estilo comercial do vendeiro. no preço daquilo que compraram. E ao Jardim Zoológico ninguém mais vai. que a conta não está certa? Pois tem razão o Sr. olhe só para estes quatro de alhos e quatro de cebolas! – Não falam no dinheiro que apostam incluído.. aos book-makers do centro da cidade. De 2 e meia às 3 da tarde as cozinheiras entravam em férias. põe o olho no papel. mas sabia ler o seu bocado. Dr. O caixeirote. dois de cebola e quatro no avestruz. uma concorrência terrível. com isso. Dr. de dizer: – Qual esse seu Manuel da esquina está ficando cada vez mais careiro! Veja só se isso está direito. os escrúpulos do meu patrão. Loja de vender camisas – Explico eu ao Sr. patroa. Quem paga o bicho é a patroa. já passam de 2 e meia. e bem claro. veja bem: um I. também. Estas iniciais não só tudo esclarecem. – Não vejo como.. De repente. porque. toda a boa intenção do jogo. não esquecem. a lufada da notícia na cidade: – Urso. As cozinheiras que levam dinheiro para as compras pedem pelos armazéns de comestíveis: – Dois de alho. que é assim como quem diz: isso se calhar. toda a cidade está sobressaltada e atenta: – Já se sabe? Tiram-se os relógios. um S e um C. O jogo pelas mercearias faz. com 92! Urso! . Hora mestra do dia. – Está quase. como provam. matando-se.. hora de correr o bicho! De resto. ainda. sorri e trata logo de salvar o patrão: – Diz o Sr. logo. que não era ainda comendador.

Francisco. com o Dr. . – Eu tenho muito pouca sorte! Sempre que com ele sonho. ingênua e boa.548 Luís Edmundo A nova corre célere de boca em boca. esta explicação de sonhos: “Sonhar com: Seu Manuel da quitanda. esta manhã. A todos se pedia. mas conhecedora.. Depois. que havia sonhado com o barbadão de seu Antônio da farmácia entrando num barbeiro? Então? Urso! Era ou não era? Por vezes o marido.. acorda. que recebi de uma lavadeira. encontrei. com Maria Augusta.. certa vez. O palpite! O palpite! No começo do jogo. mal desperta o dia. Nas casas é um verdadeiro delírio! – Vejam! O meu sonho! Bem que eu queria jogar no desgraçado do urso! Não joguei. touro”.. Davam palpites os jornais. está aí! Isso diz a patroa à cozinheira. quem dava era o Barão. a fundo.. cavalo. É um azar! E dirigindo-se ao copeiro: – Eu não disse a você. Meia hora depois não há uma pessoa na cidade que não saiba o resultado do jogo. diariamente palpites que se Desenho de Armando Pacheco reputam “infalíveis”. não jogo nunca.. Telhados do Rio que publica. elefante. do 26. com o anspeçada da Marocas.. puxando-a aos safanões: – Filha. na cama. hoje é o dia da cobra! E a outra. vaca.. do elucidário dos sonhos do marido: – Por quê? Sonhaste com mamãe? Nas costas de um rol de roupas. colaboradora da seção de anúncios. E assim por diante. No Jornal do Brasil há uma famosa joaninha. porco: com seu Antônio do açougue. a mulher.

que representa o animal! As luneterias vendem. dezenas. viram as caçarolas. as arrumadeiras e as copeiras. o peixe com escamas. Chega-se a esta insensatez: procura-se o mesmo até nas falhas do clichê zincográfico. pelos sábios. um pobre pai. justo na hora de ver baixar .. Nem os grandes cometas encobertos são. representando bichos. 65. vão para as panelas os legumes com casca. Ficam todos a cocar. cheios d’água.. 15.. As cozinheiras substituem esses vidros de aumento por litros em garrafas de vidros brancos.O Rio de Janeiro do meu tempo 549 Há o palpite em verso: Contigo jamais me zango... no enterro de seu filho querido. Então? Não é uma cabeça de galo? Não é a lente. E enquanto o litro não dá o animal requerido. pondo as imagens impressas para a luz. Contigo não dou cavaco. em Barão de Drummond Desenho de Marques Júnior pleno cemitério.. Zilá. unidades. 24. é a imaginação da obcecada que cria a imagem nova do galináceo. buscando o bicho. Vêm os lavadores de prato. em caracteres alfabéticos. Sou teu cão e teu macaco. Vou contigo para o Inferno.. tão cuidadosamente procurados nos telescópios dos observatórios. em números: centenas. lentes para esse mister: – Olhe bem. Tudo por causa do palpite! Contam que um pai. – Vê. sim. em sinais cabalísticos. Há o palpite em imagem. 16.. veja na asa desta borboleta.. Rodam o vidro.. repara. queimam-se os feijões. o gato vem lamber a vasilha do leite. com particular freqüência.. patos por depenar. bem em cima. – Não vejo nada..

. Carioca.. entregando-o ao anspeçada de serviço. os dois mil-réis e o envelope. mandava: – Leve o meu jogo à loja do Sr. o Rio.. punha a autoridade. dentro de um jogo só. notou na mão de um serventuário do fúnebre serviço. De um deles sabe-se que recebia. fazendo a fortuna de certos delegados. o peru! Há um dia. Ajuda de Nossa Senhora. dentro de um envelope dirigido ao banqueiro do bicho. há quase seiscentos! Há o Antigo. um papelucho em branco e. Segurança. o Salteado. deixam de ser citados. um dia. ao bicheiro. a fim de receber o resultado. Notando que o delegado ganhava sempre. no seu escritório. Talismã da Sorte e dezenas de outros que. chegava-lhe de maneira curiosa. Lopes.. O anspeçada ia entregar o jogo e o dinheiro. o da Buraca. os quarenta da pragmática. que ficava em uma central da cidade. o Agave Americano. quarenta mil-réis diários! Essa quantia. E quantos ainda? Popular. diga-se de passagem. em que o jogo-do-bicho registra a maior homenagem que o carioca lhe pode tributar. de certo bicheiro muito conhecido. o jogo tem-se desdobrado de tal forma que. com uma nota de dois mil-réis. e revistas. Museu das Flores. como sempre. Aparece o Mascote. À tarde voltava.. Nessa altura. com um número. nos braços dos amigos. sempre. uma chapa. o da Companhia Industrial Americana. a eles. teve o anspeçada uma idéia. discretamente. Era quando trazia ao escritório do seu doutor. Moderno Loto.. Rebentou aos soluços. Não se conteve. Companhia Elegante. Ocidental. dizendo. De quando em quando a polícia persegue o jogo. Garantia. porém. porém.. Grêmio Fluminense. Estrela do Destino. gritando: – Dois mil e setenta e sete. repórteres e toda uma literatura circunscrita aos assuntos do jogo..550 Luís Edmundo à terra o morto idolatrado. Luz do Céu. Pela manhã. Um jornal diário! Um só? Vêm outros. juntou. jornal diário. o da Caridade. Nascente. o Moderno. O número da cova do que ia a enterrar. Industrial Brasileira.. depois. 10$ de seu bolso. para não fatigar. Ao entregar. Esperança. com redatores.

com muito espírito: – Tão anônima. nem os sacerdotes escapam. sempre. Entenderam-se... disse João do Rio. para pôr no palpite do delegado. De uma. Nesse dia o bicho não deu.O Rio de Janeiro do meu tempo 551 – Este dinheiro é meu.. Do bicho.. pobre homem que o que ganhava na missa. Apenas. velho amigo de minha família. Quando a perseguição ao jogo era muito intensa.. perdia... A polícia saber. soube sempre. In vitium ducit culpae fuga. O bicheiro ficou aturdido.. FOI SORTEADA A APÓLICE Nº 123 A DIRETORIA As sociedades anônimas desse gênero pululam. O latim é do padre Florêncio. . no jogo. que nem a polícia sabe onde ela é instalada! Ingenuidade do João do Rio. Telefonou à autoridade. pela época. coitado. pelos a-pedidos dos jornais apareciam notícias como esta: BOA SORTE SOCIEDADE ANÔNIMA...

. na alvorada do século. . coisa precária. . Começa. pelo artigo de fundo. nos beques estremunhados. . cloróti- ca e inexpressiva gazeta da velha monarquia. . ainda é a anêmica. . enormes pince-nez de tartaruga. . . Poucas páginas de texto. mas. acavalando. geralmente. . ar imponente e austero. . a isto é que se pode chamar artiguíssimo de fundo! . logo de manhã cedo. morna e trivial. senhores. rigorosamente vazio de opinião. Apenas. . . quatro ou oito. chã. babando admiração pela obra-prima e a dizer: – Sim. . . . ainda em robe de chambre e chinelo cara-de-gato no bico do pé. literatura cor-de-rosa e que os homens mais ou menos letrados do país sorvem. . um artigo de sobrecasaca. vaga. Capítulo 29 O jornal na alvorada do século COMO ERA FEITO – PAGINAÇÃO – SEÇÕES HUMORÍSTICAS – NOTÍCIAS INCOLORES – O INFORME POLICIAL – DRAMAS ANGUSTIOSOS E PUNGENTES TRAGÉDIAS – O ROMANCE-FOLHETIM – PALPITE DO BICHO – O A-PEDIDO E AS VERRINAS – ANÚNCIOS – A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE VENDIA CAMAS E COLCHÕES – DESACATO À BANDEIRA NACIONAL JORNAL. . .. . . . . . . espécie de puzzle de flores de retórica. cartola e pince-nez. que foliculários escrevem com o di cionário de sinônimos a um lado e um jogo de raspadeiras afiadas noutro.

ministro da Fazenda concedeu seis meses de liParanhos Pederneiras cença para tratar da saúde. Pedro Rabelo. surgem com o intuito manifesto de se confundirem com a seção necrológica da folha. ao 4º Desenho de Marques Júnior Escriturário da Mesa de Rendas de Corumbá. melhor aproveitando o que lhes sobra em verve para arranjos de pochades pelos teatros. nos folhetins de França Júnior. muito e com saudade. Traduzem-se contos de Armand Silvestre ou de humoristas menores. Desconhecimento das manchettes e de outros processos jornalísticos. pouco escrevem para o jornal diário. ainda são poucas e os clichês caríssimos. que mantém um corpo de caricaturistas e diariamente publica charges.. desenxabidas e bambas. quase não encontra seções humorísticas para ler. monotonamente alinhadas. nesses periódicos solenes. Pobres. onde lhe convier. O povo triste. As oficinas de gravura. Urbano Duarte. Emílio de Meneses e Bilac. que vive a reclamar razões para sorrir. entanto. nas outras gazetas aparecem. as mesmas. Humoristas são: Artur Azevedo. Tempo do soneto na primeira página. dedicado ao diretor ou ao redator principal da folha. jamais abertas. que já são. os mesmos. cuidadosamente pastichados. Ainda se fala. Das revistas francesas. mas. . Ausência quase absoluta de subtítulos. Vaga clicheria. de interesse bem curto ou relativo: O Sr. só uma vez ou outra é que. conhecidos nas imprensas adiantadas do norte da Europa. Gastão Bousquet. Colunas frias. Lá uma vez ou outra é que umas coisas no gênero. A graça nova e estouvada de Bastos Tigre ainda não saiu do saguão da Escola Politécnica. pela terra. numa seção que se chama Ecos de toda parte. recortam-se anedotas.554 Luís Edmundo Paginação sem movimento ou graça. muitas vezes. O País publica-as. As notícias que encontramos espalhadas pelas primeiras páginas são. para as raras revistas semanais que então existem ou para as horas de reunião e de palestra pelos cafés e pelas confeitarias. A não ser o Jornal do Brasil.. quando não são. diariamente. Títulos curtos. Semana”. no “Zé Caipora” e no “Dr.

que só vive a reclamar coisas pungentes e de sensação. aos 16 anos. visitou a igreja do Senhor dos Passos da Graça. escreveu isto: Quando teremos nós a ventura de ver a Capital do Brasil colocada no nível das grandes metrópoles do mundo e ufanarmo-nos. como elas possuem. Sr. Dumas. que possui um belo serviço de telegramas. E o corpo da notícia: Na flor-da-idade.. acabam como esta: A nacional de cor preta. buscando crimes sensacionais. certa vez. Entre as múltiplas coroas que cobriam a noite escura de seu caixão. Tais notícias.. escrevem.O Rio de Janeiro do meu tempo 555 Estado de Mato Grosso. regressando a palácio onde chegou faltando um quarto para o meio-dia. chupando cigarrinhos de palha: Suicídio. com a assinatura de Xavier de Montepin ou Ponson du Terrail. Lá uma vez ou outra é que surge unzinho explorado. com tragédias alucinantes. então. Comentam-se os comoventes crimes das grandes capitais do mundo. se novas palpitantes escasseiam? Há o Jornal do Comércio. A Dama das Camélias. que fazem o delírio das moçoilas histéricas e .. felizmente submetida ao critério do secretário do jornal. esticado. Não encontra. Luís Cordeiro. o famoso Jamanta. que residia na rótula 45 da Rua São Jorge. Por exemplo: “Lisboa. virgem e bela (Oh! destino infeliz! destino implacável!. ou O Conde de Camors.. Só o muito importante aparece. grandes e horrendos crimes? Quem nos salva das aperturas é o folhetim-romance de capa e espada. o Sr. foi ontem mesmo inumada no cemitério do Caju. desmesuradamente sentimental e florido.). O serviço dos outros é dosado. do Sr. uma vimos que muito nos impressionou: a do Grupo Carnavalesco “Pensei que fosse outra coisa. que lêem. Carlos. o patriotismo abalado. Não existem. na “cabeça” de uma nota de polícia. M. para agradar ao público. Atribui-se ao atraso do país a ausência de tragédias horrendas. 12. sabe Deus como. – S. Antônio Manuel de Sousa Júnior. porém. saindo. de Feuillet. É o título. em geral. alambicado e piegas..” A notícia de polícia começa sempre por um infalível “nariz-de-cera”. el-rei. com uma pontinha de despeito e de ciúme. de possuir. que os repórteres. em sua carruagem. D. Nasceu como nascem as rosas que se doiram ao sol meigo da primavera. hoje pela manhã. de gravata à Lavallière.” A reportagem anda louca.. Que fazer. também.

os chamados “bichos de dentro”. 7. propositadamente. desenrolando a sua grande capa negra. com falhas. ao romper da aurora do dia de hoje. aproveitados como lentes. que é mandado fazer. cantarão. Dói? Gelol. O romance do tempo! O folhetim de então! – O príncipe. exclamou – dois pontinhos e. o bicho. Desenho de J. no poleiro da amizade. em clichês. hoje é Cercar por todos os lados O macaco e o jacaré 301. cheguei a ficar assim. Ferreira de Araújo Autor desconhecido . tomou de sua espada e para que todos em torno soubessem que ele não era covarde. engolindo sentimentalmente soluços que se afogam em vastas catarreiras crônicas. outros bichos.556 Luís Edmundo o consolo das velhotas que as lêem à luz dos bicos Auer. Não esquecer o bicho. para que sugira quando impresso. Carlos Eu era assim. nesses jornais de grande aldeia. embaixo. as saudações feitas por ocasião de aniversários natalícios: Os passarinhos. depois. ao leitor. “doublé” Seção de anúncios relativamente de diplomata e homem de imprensa pobre: Bebam os vinhos de Adriano Ramos Pinto. no Jardim Zoológico. nas gazetas.. aí. estatelado no chão. enlevo das cozinheiras que vivem a estudá-lo através de litros de vidro cheios de água. entre parênteses – (continua). O Barão do Rio Branco. 22.. que colhe mais uma cheirosa flor no jardim de sua preciosa existência.45 Registro especial valem. obrigatório. desde que apareceu com o Barão de Drummond. Para apresentar esses clichês os poetas da folha escrevem quadrinhas em métrica descadeirada: Jogadores. avisados O meu palpite. olhando o conde que não se mexia. agora estou assim – Jataí do Prado cura bronquites e asmas. saudando Dª Filismina Roda da Conceição (Finoca).

Passa o cano pelo balcão da empresa. (Assinado) – Apanhei-te. Em meio a tais larachas. propositadamente truncando vocábulos e pondo em destaque outros de incidente significação. no jornal do dia imediato. E quanto mais austero o jornal. se aparecer amanhã no mesmo ponto. Meta-se comigo para ver com quantos paus se faz uma canoa. não fui pelo motivo que. . porém. que levou a lata da pequena e está por isso consumido de ciúmes. Linha a duzentos réis. J. Você é o Malaquias. divertem: MORADORES DE BOTAFOGO O bilontra de cavanhaque de bode que pára. Resposta. – Filhinho. que nem a título de documento podemos. Avisamos que. dono de uma loja de móveis. – Esperei-te toda a noite de sábado. que mancha reputações alheias. no centro da cidade. esses anúncios. anúncios das mazelas. espantam pelo imprevisto com que são estampados.. já deves saber qual é. as mais ásperas. que anunciava suas camas e seus colchões de maneira tão torpe. M. todas as noites. largando fezes e tostões. nas casas de famílias. vazando pelos interstícios. Um dos característicos do jornal da época é uma seção ineditorial que se chama a-pedidos. Ingrata. obrigando. Alguns a-pedidos.O Rio de Janeiro do meu tempo 557 Namora-se pelo jornal. Por vezes. Havia um certo Oliveira. as mais vergonhosas. entrará no cacete. espécie de esgoto onde extravasa o esterquilínio anônimo. aqui. mais amplas são as liberdades concedidas nesse esgoto imundo. repetir tais anúncios. no canto da Rua dos Voluntários com a Matriz. desavergonhadamente: A. (Assinado) – Olho Vivo. anda requerendo uma sova de pau. escritas com todas as letras. as pobres crianças a fazer perguntas inconvenientes aos pais. Ficam convidados os moradores das proximidades para assistirem o escândalo. pouco mais ou menos. no lugar combinado. por que não vieste? Responde senão eu morro! Resposta no dia seguinte: H. C. vestindo umas calças de apanhar-siri. a Olho Vivo: Gato escondido com o rabo de fora. Cavaquinho..

das legítimas inglesas – por 16$. Ao lado das grosserias e da desfaçatez de muitos desses anúncios. porque. jardim e quintal.. Aqui. a embarcar. mas. 4 quartos. 2 salas. Aluga-se uma em Laranjeiras. não por causa de seus anúncios. içou o Pavilhão brasileiro onde ele havia substituído a esfera com o lema Ordem e Progresso por um autêntico urinol. em viagem de recreio. Ou então linhas saudosas como estas: Casa. em compensação.. Quase nova. anúncios amáveis. à porta de sua casa de negócios. por vezes.. mais tarde. lê a gente. Preço: 85$ (Oitenta e cinco mil-réis por mês!). (Dezesseis mil-réis!). para o seu país de nascimento. . Em qualquer parte do mundo um tipo desses seria recortado em pedacinhos. apanhou apenas uns tabefes e foi obrigado. Quando rompe o século. dentro de vinte e quatro horas após a constatação do infame caso. um belo dia. como este: Botinas Clark..558 Luís Edmundo Esse patifão estrangeiro (Oliveira ou Ferreira) acabou sendo expulso do Brasil. ainda se fala muito na aventura do homem dos colchões.

É impresso em grande formato. como um velhinho curvo. . naturalmente. Quanto ao resto. . . Quando em contendas com os seus colegas. . setenta e quatro anos. NA ALVORADA DO SÉCULO – SUA SITUAÇÃO NA IMPRENSA CARIOCA – SEU DIRETOR – REPÓRTERES E REDATORES PRINCIPAIS – VASCO ABREU E O BARÃO DO RIO BRANCO – UMA BARONESA COM TRINTA ANOS DE MAIS – O CAMARÃO É A GALINHA DO MAR – MOULIN ROUGE. velho tonto. . . de barbas brancas e de pau na mão. . . porque nasceu nos tempos do Sr. evoluído dos tempos em que discutia a “Questão . Caricaturam-no. .. rugas na Gazetilha e. quase oitenta anos de idade. ainda está muito bem conservado para a sua idade e para o ambiente sisudo e conservador em que surgiu. . . exatamente.. . . . flatulências senis. . Em 1901 tem. . Pedro I e tem. . Capítulo 30 O Jornal do Comércio O JORNAL DO COMÉRCIO. Espanta pela massa.. . . nos A-pedidos. PONTO DE REUNIÃO DA REPORTAGEM DE POLÍCIA – O ESPÍRITO DOS LITERATOS DE ENTÃO HAMAM ao Jornal do Comércio – “Vovô”. estes chamam-no caduco. descobrem-lhe reumatismos nas Várias. . porém. se ele não possui a ligeireza da Cidade do Rio e a graça da Gazeta de Notícias. é que. A verdade. . quando começa o século. . . gaiteiro. .

lhe fazem as vezes. servir a todos. Não há empresa jornalística mais prestigiosa. Rodrigues não está. assina-o.. senhor de uma linda biblioteca sobre coisas do Brasil e uma casa de morada que é um verdadeiro museu de coisas de arte. procurando agradar. pelo tempo. o velho órgão. Até quem o não lê. surgindo de um assoalho bambo e um tanto carcomido pe los anos. então. que o Sr. de quando em quando. . sorrindo. a gerência. Dá a todos a impressão de um tipo esquivo. que é. que o Sr. enfim. a desfazer-se em gestos e em sorrisos. diretor do órgão importantíssimo. buscando informes em primeira mão. o solícito e prestimoso Adão. nem mais sisuda. um Botelho ainda sem barriga. na hora do serviço. magríssimo. contentar. e. com a pronúncia de além-mar ain da muito carregada. no 1º andar. Funciona. da política. é uma figura de certa projeção mundana. com o seu enormíssimo balcão mal envernizado de preto. Com Tobias Monteiro Desenho de Marques Júnior a própria gente do jornal não lida muito. Tobias. mas já vivendo na auréola de simpatia em que envelheceu. discretos e garantidos. na Rua do Ouvidor. um dia. A redação fica no sobrado. nem pensa que será. amaneirado. os graduados da tropa. mas. Leitão ou o Sr. num prédio antigo que cheira a mofo e onde as ratazanas cruzam pelas pernas dos redatores. falando na gerência. que o Sr. na loja. assoma a amável figura do Botelho que. informando. sem comenda. Não esquecer. atentos. os funcionários públicos. homem inteligente. hábito muitíssimo do tempo. de mangas ar regaçadas. A esse balcão. proprietário integral de empresa tão possante. como os bons merceeiros. o Adão. mais sólida.560 Luís Edmundo do ventre livre” ou a do “Imposto do vintém”. Rodrigues foi para Petrópolis. todos. Lêem-no. que vivem a emprestá-lo à freguesia. servida por muitas portas. José Carlos Rodrigues. os homens do comércio. afável. um caixeirote tímido. sempre envolto em mistérios..

dos artigos de peso. nem em Trastâmara Se atura já tão hórrida maçada. por ele publicadas em vários livros. A literatura histórica deve a Ernesto Sena umas achegas bem interessantes sobre coisas da cidade. pena irrequieta e alegre. Um deles. Júlio Barbosa Desenho de Marques Júnior . Dá um fim a essa terrível estopada. Depois dele. o Urbano Duarte. e é um gentleman que vive fazendo o giro dos salões cariocas. obra singela mas traçada com muita honestidade. Muito moço. Não vale isso o caroço de uma tâmara. diz ao que vai e abala. Pena ágil e brilhante. Ferreira. quando surge a República. Carlos Américo dos Santos. grande armador de blagues. e que não deixa em paz o Décio Coutinho. que é o Ernesto Sena. é que vem a figura simpática de um grande jornalista. que é quem cuida de assuntos musicais. o que se chama Velho Comércio do Rio de Janeiro. tipo jovial. Nem em Madagascar. onde penetra (dizem) carregando Cupido pela mão. fazendo versos satíricos a todos. português. humorista de fama. que faz crítica de arte. Juvenal Pacheco e o Vasco Abreu. a forma de notícias. Tobias é o redator principal da famosa gazeta. veste com certo apuro. ministro em Portugal. anos depois. vindo dos tempos em que os ho mens da reportagem nada mais eram senão uns simples portadores de notas. ainda. Júlio Barbosa. Rodrigues Barbosa. C. Há ainda o José Barbosa. Oh. então. Conversa uns instantes. Viridiano de Carvalho. manda chamar o Tobias Monteiro.O Rio de Janeiro do meu tempo 561 Quando chega ao seu gabinete. irritante e avacalhada. dando-lhes. ainda hoje serve a muito pesquisador de nossa História. que os redatores de banca redigiam. que é o cronista da Câmara: Oh! Décio! Acaba essa sessão na Câmara Que é cacete. Redator da primeira Vária. redator e velho repórter. na escala da importância. documento interessante da vida carioca. Décio! Acaba essa sessão da Câmara. Dá logo essa sessão por acabada! No Jornal do Comércio existe ainda uma figura de grande projeção em todo o meio jornalístico. o velho Joaquim Leitão.

risonho. ainda. sendo.562 Luís Edmundo Baldomero Carquejas e Fuentes. quiçá. gordo. as de polpa. escritas no dorso de impressos de sua secretaria. Autor desconhecido que. de bigode já grisalho. vestindo com certo apuro e andando devagar. como as de uma repartição. arrancando notas de toda a parte. muitas. entretanto. sempre. de sobrecasaca desabotoada. é outro repórter de grande coração. . Chama-se José da Silva Paranhos. dentro. de vasta papelada. e é nosso ministro do Exterior. As grandes notícias oficiais. o melon ou a cartola six reflets um pouco de lado. um repórter inteligente. as escadas do Jornal do Comércio. por vezes.. o Barão do Rio Branco sobe. torna-se difícil compreendê-lo.. Depois. como um funcionário pontual que chegasse saudando os companheiros de labor. gordão. não lhe paga. muito envernizado de suor e a falar num sotaque alfacinha que. alto. E de cavaco. um tanto original de maneiras. Baldomero. familiarmente. Penetra no salão da folha cumprimentando a todos. senta-se. sobretudo. vermelho. a todos chamando. É a sua hora de serviço. muitíssimo simpático. É um tipo de ar solene. que. arrastando o seu indefectível bengalão de biqueira de ferro. sobre enveJosé Carlos Rodrigues lopes e até pelas margens de documentos. as que se escondem de todo mundo. feitas umas a lápis. afável. Todas as noites. Ernesto Sena Há. sempre. Desenho de Marques Júnior que é bom não esquecer pois muito honra a profissão. voltam para o Ministério. referentes. de uma eterna sobrecasaca de sarja preta. depois. pelos nomes. calvo. contudo. um pouco rude no trato. põe-se a remexer os bolsos grávidos. à política externa do país. português de nascimento. de tão carregado. pachorrentamente. só ele as colhe e as faz publicar no Jornal do Comércio. sequer um só real. é. simpático. outras a pena. entre as nove e meia e dez horas. por tão alto serviço.

que. acaba de enunciar é um deles. diz-lhe Vasco Abreu: – Sr. o café! Depois que entrega o que escreveu e dá por findo o “serviço”. Barão. Lauro Müller. mostrando gola de Astracã. o Barão. caricaturas. dá-lhe como primeiro posto. Este que o Sr.. da Agência Havas – dizem. Sr. um dia. ousadamente. Tão grande é a camaradagem que se estabelece entre o velho ministro do Exterior e a gente da redação que. na casa. Arranje-me. além de espírito. Desenho de Marques Júnior . solene e muito sério. que eu já não protestarei. uma baronesa com uns trinta anos de menos. Exª vive. há propósitos que me desagradam profundamente. Repoltreado. como protesto. a capital da Rússia. por uma interessante coincidência. – E diz-lhe o nome. Não o nomeia. contínuo. olhando de face o audacioso contador de Américo dos Santos novidades.. – Otávio Fialho. gritando. o ministro.O Rio de Janeiro do meu tempo 563 Quando ele se põe a trabalhar. em Petrópolis. com estardalhaço. ninguém lhe fala ou o perturba. a rosnar que V. desenhando sobre linguados de papel. fazendo de Fialho um diplomata.. escandalosamente: – Sr. conversando. croquis. – Belo secretário para a Rússia – murmura rindo. Pica-se o Barão com o desplante do Vasco. o Sr.. quando traz a bandeja do café. o Alcides. por aí. responde-lhe severíssimo: – Olhe. tivessem linha e certo apuro de figura. Vasco. mas o ministro a seguir. dentro de um sobretudo elegantíssimo. a arrastar a asa à Baronesa de.. – Quem é este sujeito? – indaga o Barão ao redator mais próximo. Barão. que jamais quis nomear para a carreira senão homens que. sempre. ainda fica sentado. Só um homem. cheio. do melhor bom humor. olhe que há quem ande. tem audácia para tanto. Por uma noite de muito frio entra pela redação um rapazola. atira-a sobre a mesa.

solícito. num gesto muito seu de entortar a cabeça. querendo Joaquim Leitão prestar um serviço ao ministro. um dia. o gabinete francês. Exª. Barão e Barbosa. lembrando-se que ainda tem de o acompanhar a casa. inesperadamente. porém. Ao Criterium. é que irá me traduzir e desenvolver este despacho do nosso correspondente especial. Passam-se uns dias e Esculápio. E o Barão. diante do pobre Júlio. casadinho de fresco. Barão. que é o de redigir a parte relativa aos telegramas: – V. escrevendo. o Barão. O funcionário de guarda. Às quatro da manhã é que o ministro toma o café que epiloga a refeição supimpa. tristíssimo. recebe ele. de pena em riste. E começa uma ceia pantagruélica. para tomar um café. as luzes do salão de comer. que de outra forma não se faz ele. um redator ou um repórter para acompanhá-lo. Tarde demais: o café está fechado. no Brito. medroso de recusar qualquer coisa a Rio Branco. Come muito. audaciosamente. para as quais muita vez.. Sr.. ordem para um severo regime dietético. Barão. Entram. arranja. Já nada mais de quente existe para servir.. São abundantes. interdito. propõe-se a bater à porta do velho restaurante. os patés. sempre comeu. apela quando muito apertado seu serviço.. do médico. Faz-se. a devorá-la! .. – Só.564 Luís Edmundo Vasco Abreu não desdenha as familiaridades do Barão... derreado. sabendo Desenho de Marques Júnior que há no Stadt Müchen um vigia. a decifrar o imenso telegrama: Como se sabe. no entanto. idem. acende. sempre... Não se diga. Uma noite carrega com o Júlio Barbosa. que conhece tão bem a política européia. logo. Sr. pagar por tais serviços. os frios. Doente. logo. Quando sai do jornal. derrubado há dois meses. porque não sabe andar só. certo guarda-noturno. demasiadamente. Vão ao Java. e vê o Barão que se atraca a uma vastíssima travessa onde está uma enorme omelette de camarões. que surge no Itamarati. só a de galinha – diz-lhe este. Enfim. o repórter sem vencimentos.. – E como carne.

Completa conversão. vemo-lo bater às portas do Instituto Histórico. um dia. Apóstolo da idéia nefelibata. rebenta em iras contra toda a sorte de convencionalismo e tradições. aos poucos. Félix continua. as suas frases loucas e as suas atitudes escandalosas. porém. e ao triste fraque marrom de Tibúrcio de Freitas. surge diante de todos nós dentro de um elegantíssimo terno cortado no Raunier. O que se dá. então. pois se o camarão é a galinha do mar! Em 1901 faz-se repórter de polícia.. Certa vez. num apelo franco à esterilidade humana. Félix Pacheco. por meio das quais chega a senador e a ministro de Estado! . cá fora. ainda. Exa a comer camarão! – Ora. Não fica aí. o Félix. para combater a própria espécie. que. rapando no fundo da travessa o último crustáceo da fritada –. Dr. com que pretendia demolir formas arcaicas da nossa literatura. suscetibiliza e contunde. violentamente. que. de certo modo. que impressionava. barbando nos debruns. ligando-se ao grupo parnasiano. Baldomero Carquejas no jornal. é a conversão de Félix. ousadamente. ao ponto de mais tarde ser inteiramente absorvido pelo ambiente onde se introduz. pouco tempo depois. ante o que vê –.O Rio de Janeiro do meu tempo 565 – Sr. entanto. que então se cria. uma coisa que a mentalidade nova do cenáculo. que a mocidade trepidante do poeta. não se acomode à forma burguesa e conservadora da sisuda gazeta. Barão – berra o homem da medicina. outra vez. Essa entrada para o “provecto órgão” desola e espanta seus companheiros de cenáculo. Félix desbota-se para a revolução e desbota-se tanto que. Sr. alarmando o estreito meio literário em que vivemos. o jovem Félix da imDesenho de Calixto ponderada Rosa-Cruz. vê minguar os arroubos febris da sua juventude. muda. com as suas gravatas estapafúrdias. depois às da Academia de Letras e ainda às da Política. se a V. Exa eu disse que em matéria de carnes só as de galinha! V. replica-lhe Rio Branco. num acinte sem nome ao paletó de alpaca do Nestor Vítor. a primeira coisa que Félix faz. porém. Espera-se. Fundador do Clube dos Celibatários. trânsfuga. O cenáculo vive exasperado. em desafogos e rebeldia. é casar-se.

. que usa botinas com meia-sola. Félix. no saguão do Moulin Rouge. Manuel Ferraz de Campos Sales. o último a chegar e dos primeiros a querer partir. Machado de Assis um cágado. com três facadas. sempre. pelas façanhas do Manduca Calombo.. Félix Pacheco ainda freqüenta o Antro.. Saturnino Meireles e Nestor Vítor. sai. De lá é que ele. Tibúrcio de Freitas. mas porque é de uma mentalidade avessa ao prosaísmo da vida. invariavelmente. Do grupo é. pelo telefone. antes de correr as zonas do Distrito.. por vezes. A reportagem de polícia reúne-se. Carlos da Silva. república de literatos onde pontificam: Carlos Dias Fernandes. transforma os homens em rafeiros da melhor raça. Félix Pacheco é mau repórter. Ainda não foi absorvido pelo novo meio em que quer fazer vida. no Antro. que mata. para trocar o soneto de Baudelaire pela descrição do incêndio da Camisaria Lopes. achando o Sr. contra as instituições conservadoras. por essa época. berrando contra as “múmias” do Instituto Histórico. Félix. vulga Peito-de-ferro. isso. que é ainda do governo. demagogo de gravata Lavallière. da moral social ao governo do Sr. sempre de punho erguido. assim. na festa do Espírito Santo Barbosa Rodrigues de Maracanã. furioso com o prosaísmo da carreira. Verdade é Félix Pacheco que todos nós fomos. de alma alanceada e sucumbida.. sempre. o que ela faz. a estrofe de Mallarmé. Lembrar que se trata do Félix da primeira fase. às 10 horas da noite. pouco Desenho de Gil mais ou menos. contra a Academia e os homens da porta da Garnier. ou a de Verlaine. pela época. a decaída Maria da Conceição Desenho de J. achando “tudo isso por aí” errado e péssimo. Não porque lhe falte inteligência ou essa intuição de pesquisa que. depois. ainda é o espírito demolidor que conspira. ..566 Luís Edmundo No ano de 1901.

. não pode atacar ninguém. meio boêmio. . LOGO QUE ROMPE O SÉCULO – HENRIQUE CHAVES. DITADOR DAS ELEGÂNCIAS URBANAS E SUBURBANAS DA CIDADE O PRIMEIRO ano do século. . . . figura popular que os caricaturistas. . . . . porque não sabe. o monóculo. . . NA GAZETA – BILAC. . a quem a Gazeta de