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VIDA POR CONTOS Professor no Instituto Universitário de Lisboa e investigador no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, Francisco Vaz da Silva faz parte do comité redatorial da revista norte-americana Marvels & Tales. Lecionou cursos sobre contos maravilhosos nos EUA, onde tem obra publicada, na Islândia e em Portugal. Está a organizar o simpósio internacional sobre os Irmãos Grimm que decorrerá em Lisboa, em junho de 2012.

FRANCISCO VAZ
O imaginário do Capuchinho Verme
É verdade que, na sua origem e na sua essência, os contos de fadas são para adultos?

Contos Maravilhosos Europeus é o resultado
de 30 anos de investigação, onde se cruzam gatas borralheiras e capuchinhos vermelhos, belas e dragões, entre outras figurações repetidas em épocas e geografias bem distantes. O terceiro volume da coleção que revela «uma pré-história desta matéria literária» chega neste mês às livrarias.
Entrevista de CARLA MAIA DE ALMEIDA
Fotografia de PEDRO LOUREIRO
mundo à parte,sobrenatural.São também tradicionais, isto é,transmitidos de geração em geração em tradições orais. Dizer que são tradicionais refere-se ao modo de transmissão; dizer que são maravilhosos refere-se ao seu conteúdo.Os contos desta coleção são contos tradicionais e,dentro dos tradicionais,são contos maravilhosos.
Em que é que esta coleção os distingue?

Os contos são matéria simbólica e os símbolos,pela sua natureza, são multifacetados e prestam-se a inúmeras interpretações.Na origem,os contos não eram,de maneira nenhuma, dedicados às crianças. Eram histórias passadas de geração em geração,nas tradições orais da Europa e do resto do mundo,quando a infância ainda não tinha sido inventada enquanto conceito,como foi a partir do século XVIII. As crianças aprendiam a ser gente observando os adultos e ouvindo-os, tal como ouviam muitas outras coisas, nos serões e nas vigílias invernais, ou quando as mulheres ficavam em casa a fiar. Mas os contos eram para os adultos.
Continuando a clarificar: porque é que são chamados «contos de fadas», mesmo quando não as há?

Mas há. A designação refere-se a um produto específico que tem a ver com a adaptação das tradições orais à literatura aristocrática para crianças,no século XIX.Foi aí que as fadas se tornaram um elemento preponderante. Nos contos tradicionais não há tantas fadas,sobretudo aquele exagero de fadas estereotipadas,mas há o mesmo tipo de personagens,femininas e sobrenaturais,que estão num eixo entre o puro maléfico e o puro benéfico.
É correto designá-los sempre por «contos de fadas»?

A maneira mais correta de definirmos é como contos mágicos ou maravilhosos, porque se desenrolam num

Outras incursões neste domínio tiveram mais que ver com editar exemplos de contos literários – caso de Andersen – e, por outro lado, editar variantes literárias de contos tradicionais.Aqui sugere-se uma pré-história desta matéria literária,de quando estes contos eram contados oralmente, quando os seus esquemas simbólicos eram mais claros.É esta riqueza que se pretende enfatizar na coleção, estruturada em sete volumes

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SETE VOLUMES Depois das versões da Gata Borralheira e do Capuchinho Vermelho, Mulheres do Outro Mundo – Fadas e Serpentes é o terceiro livro da coleção «Contos Maravilhosos Europeus», lançada este ano pelo Círculo de Leitores/Temas e Debates. Em 2012, sempre com novas traduções e comentários, chegam os restantes títulos: Matadores de Dragões, Princesas Resgatadas; A Bela e o Monstro – Contos de Encantamento; A Morte Madrinha, Polegarzinha e Outros Contos; Branca de Neve e Suas Irmãs.

DA SILVA
lho é sempre altamente sexualizado
temáticos. Começo por fazer uma nova tradução das variantes literárias comummente conhecidas,mas a seguir alinho todas as variantes orais predecessoras que praticamente ninguém conhece, a fim de dar uma visão mais equilibrada e mais ampla.
No primeiro volume há uma versão da Gata Borralheira da China do século IX, seguida de uma série de variantes europeias. Como se explica a presença do mesmo tema em geografias e épocas tão distintas?

É a pergunta que os estudiosos têm sempre à frente do nariz.A primeira coisa que temos de perceber é que os contos não foram inventados por alguém que tinha uma caneta na mão. Não foi Perrault, em França, nem os Irmãos Grimm, na Alemanha,quem inventou a Gata Borralheira.É um tema que andava nas tradições orais, ninguém pode dizer desde quando.As mais velhas variantes de que há registo escrito são asiáticas,do Japão e da China.Pode evocar-se a ideia de difusão: ao longo de séculos,houve pessoas que levaram e ensinaram contos. Mas,para isso,era preciso que do outro lado houvesse já um interesse por esse conto,porque as pessoas dessa terra contavam qualquer coisa parecida.A grande questão é: desde quando é que os seres humanos contam histórias? Possivelmente,desde que têm linguagem.
Os contos de fadas sofreram as pressões culturais e religiosas do século XIX para serem limados nas suas arestas, sobretudo no que toca à sexualidade e à violência?

Até antes disso.Os contos foram passados para o registo escrito,como literatura para crianças,à custa de uma censura.Isso foi mais claro com os Irmãos Grimm,no século XIX.Eles queriam publicar as lendas,as histórias e a mitologia alemãs – estávamos em pleno movimento romântico – exatamente da forma que lhes tinham sido comunicadas. Foi o que fizeram em relação aos contos na primeira edição, que completa 200 anos em 2012. Mas foram alvo de críticas severas, por publicarem as tradições do povo,inexpurgadas,ao mesmo tempo que diziam que aqueles contos eram apropriados para crianças.Tinham de optar,e optaram por torná-los acessíveis às crianças.A partir da segunda edição,aplanaram esses materiais. Mas não foi tanto em relação à violência; mantiveram praticamente intocadas as cenas de sangue,de canibalismo,de mortes horríveis e dilacerantes… O que tiraram foi as questões morais, de incesto e de tudo o que rodasse em torno da figura da mãe.
Porquê a mãe?

Não convinha dar a conhecer histórias em que a mãe fosse canibal,que comesse o fígado da sua filha.Os contos deviam ajudar a fazer das crianças criaturas morais, por isso tinham de incorporar os valores vigentes.Deixaram de ser matéria de entretenimento entre adultos para passarem a ser matéria de educação para as crianças – as crianças da elite,da aristocracia,entenda-se.
Continua na página 88

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que possa dedicar-se mais ao seu trabalho» (p. 186), mas mais tarde confessaria estar «farta de ser mulher de um homem famoso» (p.236),porque para ela o marido era muito mais do que uma celebridade: «é toda a minha existência» (p. 296).A falta de reconhecimento dos sacrifícios a que se sujeitava em nome do génio trazia-lhe insatisfação: «Tenho de trabalhar em alguma coisa minha,ou a minha alma acabará por murchar [...].Cumpro o meu dever para com ele e isso traz-me alguma felicidade mas,por vezes,anseio por fazer alguma coisa diferente e nutro outros desejos» (p. 274). O que era uma alegria transforma-se,então,num fardo: «suprimir eternamente esse desejo [de ter uma vida intelectual própria], para servir um génio, é um grande infortúnio» (p.299). Era este o drama crucial de Sofia. Os seus sacrifícios nunca poderiam ser devidamente reconhecidos, porque o génio absorvia todos os méritos e ser mulher de um era tido como recompensa mais do que suficiente.Em vez de um ser autónomo, com sentimentos e aspirações próprios, a sofrer pela morte de vários filhos, a carregar a culpa pelas desconsiderações do marido,Sofia era vista como um apêndice, um dano colateral da obra,uma nota de rodapé marginal ou, na lenda negra, a responsável pelos tormentos espirituais do escritor. É possível que Sofia Andreevna tivesse conhecido uma existência mais feliz e realizada sem Tolstói.Por outro lado,dificilmente estaríamos a ler a sua biografia, cujo interesse prova que só as histórias das famílias infelizes nos atraem.

sico nos contos,a metamorfose,frequentemente expressa pelo canibalismo, por um lado, e pelo incesto, por outro. Sermos comidos por um lobo é a mesma coisa que pormos a pele do lobo. Acabamos por ser nós no interior de uma pele de lobo exterior.
No prefácio, ao referir-se aos contos de fadas como «um importante recurso espiritual», está a transportá-los para o domínio da crença?

Não. Os contos não têm nada a ver com crenças – é isto que os separa da mitologia. Digo que os contos são «um importante recurso espiritual» por causa do padrão que repetem, semelhante ao dos rituais de iniciação e das próprias fases da vida. Alguém, numa determinada situação, morre para essa situação e entra numa fase liminar. Depois de passar por provações terríveis,renasce para uma fase mais alta da sua existência.Este ciclo de morte/vida é apropriado pelos contos,não num sentido moralista mas num sentido pragmático e de grande otimismo, como quem diz: «Todos podemos passar por fases terríveis, mas essa fase não é um fim em si mesmo.» Os contos têm esse potencial catártico para as dificuldades do dia a dia.
O que não impede que sejam desvalorizados enquanto género. Isto explica-se pela ausência ou invisibilidade do autor, ao contrário do que acontece com o romance?

Se Angela Carter não é um caso único, pelo menos é raro.Ela tinha,como muitos autores contemporâneos,uma agenda específica, feminista e de esquerda.Por outro lado,foi alguém que estudou com muita minúcia o funcionamento dos contos nas tradições orais.Leu os contos do Capuchinho Vermelho e percebeu quais eram as suas engrenagens simbólicas, e que é característica das tradições orais assentarem num jogo de espelhos: as histórias funcionam com várias narrativas que se espelham entre si. A mensagem de Angela Carter surge quando lemos os vários textos que escreveu sobre o mesmo tema. Trouxe o Capuchinho Vermelho até aos tempos pós-modernos, feministas e pós-feministas,dando-lhe as torções necessárias para que o tema seja culturalmente relevante para leitores modernos,mas através dos esquemas simbólicos de antanho.
Há 30 anos que investiga os contos. O que justifica essa entrega?

ENTREVISTA DA PÁG. 68

FRANCISCO VAZ DA SILVA
Uma das coisas que os Grimm fizeram sistematicamente, em contos em que a mãe era uma má mãe – como a Branca de Neve, por exemplo –, foi transformá-la numa madrasta.
E de onde vem essa insistência nos motivos do canibalismo e incesto?

Uma das analogias nos contos é entre o ato alimentar e o ato sexual – o caso do Capuchinho Vermelho é óbvio. São variantes da ideia de incorporação, pela qual as personagens se transformam umas nas outras. Por aí vamos dar a um tema bá-

Sempre houve uma grande condescendência em relação aos contos.Por um lado, em relação ao que é chamado de «literatura oral»,expressão que é um contrassenso; por outro,quando se comparam os mitos e os contos.Há a ideia de que os temas dos mitos assumem uma dimensão cósmica, paredes meias com a religião e com os deuses, enquanto nos contos os mesmos temas já trazem uma dimensão caseira e comezinha. É como se os contos fossem mitos trivializados.Por isso,durante séculos, nunca afloraram ao nível da literatura. Hoje,são objeto de uma atenção renovada, não já tanto enquanto narrativas literárias mas na medida em que é cada vez mais reconhecido que tenderam a passar para novos meios. Isto é massivamente visível ao nível da publicidade e do cinema, que reciclam os velhos temas dos contos para o nosso imaginário atual.
Fala de Angela Carter como «um dos poucos e felizes exemplos» de variações contemporâneas dos contos de fadas. Foi-lhe difícil encontrar outros autores?

Tem a ver com o início do meu percurso como antropólogo,quando fazia trabalho de campo em aldeias do Minho. Apercebi-me de que, naquelas famílias, quando havia muitos irmãos,se acreditava que um sétimo filho arriscava ser lobisomem se não fosse apadrinhado pelo irmão mais velho. E a minha pergunta foi: porquê? Naquela altura ainda não tinha meios para responder,mas depois,ao estudar variantes portuguesas do conto do Polegarzinho, comecei a ver que os contos tratavam, de maneira simbólica, as mesmas questões que preocupavam as pessoas de carne e osso. Percebi, de repente, que eram relevantes para aquilo que as pessoas diziam e faziam no seu dia a dia.
Essa relevância dos contos permanece nas sociedades contemporâneas?

As pessoas das sociedades contemporâneas, como quaisquer outras, funcionam de acordo com esquemas simbólicos. A questão é: em que medida é que esses modelos simbólicos,específicos da cultura onde fomos educados,continuam a ser veiculados pelos contos? Já não é tanto pelos contos que se contavam há cem anos, mas por escritores raros como Angela Carter e sobretudo no domínio do audiovisual e da publicidade.O imaginário do Capuchinho Vermelho na sociedade contemporânea, por exemplo, é sempre altamente sexualizado – e porque é que isto seria assim, se o tema original não fosse já sexual?

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