À flor da terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro

Comissão Julgadora composta pelos Profos. Drs. André Luiz Vieira Campos, Beatriz Kushnir, Ismênia de Lima Martins, Paulo Knauss e Tânia Maria Bessone

CIP-Brasil - Catalogação na Fonte do Sindicato Nacional dos Editores de Livros P492a Pereira, Júlio César Medeiros da Silva À flor da terra : o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro / Júlio César Medeiros da Silva Pereira. - Rio de Janeiro : Garamond : IPHAN, 2007. 208p. ; 14x21cm ISBN 978-85-7617-123-2 1. Escravos - Tráfico - Rio de Janeiro (RJ) - História. 2. Rio de Janeiro (RJ) - História. 3. Cemitérios - Rio de Janeiro (RJ) - História. 4. Escravos - Rio de Janeiro (RJ) - Ritos e cerimônias fúnebres. I. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil). II. Título. 07-0784. CDD: 981.531 CDU: 94(815.31)

Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro Cesar Maia Secretário Municipal das Culturas Ricardo Macieira Diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro Beatriz Kushnir Gerente de Pesquisa Sandra Horta Revisão Argemiro Figueredo Projeto Gráfico Tecnopop [Theo Carvalho] Editoração eletrônica Editora Garamond [Matheus Graciano]

Editora Garamond Rua da Estrela, 3º Andar, Rio Comprido Rio de Janeiro RJ Brasil Tel (0xx21) 2504 9211 email editora@garamond.com.br tiragem 1.000 exemplares

À flor da terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro
Júlio César Medeiros da Silva Pereira

e para minha esposa e companheira Cristiana.Para os meus filhos Matheus. Juliana e Pollyana. . Amo vocês.

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. quero agradecer ao meu orientador Prof. Dentre elas. Sou imensamente grato à Profª.Agradecimentos Este livro é a soma dos esforços empreendidos por muitos. Manolo Garcia Florentino pelo auxílio concernente às questões engendradas pelo tráfico escravista inserido na sociedade brasileira. ainda que por meio de outras fontes. Na falta destas. dialoga com a sua produção historiográfica. pelo suporte e pelo cabedal de conhecimento que me foi confiado. Drª. que me proporcionou alguma tranqüilidade para que eu pudesse me dedicar ao tema. uso outras. suas críticas e sugestões me ajudaram a ter uma visão mais sóbria sobre os diferentes sujeitos históricos envolvidos na temática da morte e do cotidiano escravo do Brasil oitocentista. com o intuito de realizar uma pesquisa histórica para a compreensão de um tema tão hodierno e inquietante quanto a morte. Agradeço ao Professor Dr. enquanto sua sobriedade me fez refletir sobre a necessidade de um rigor metódico e disciplinado no fazer constante do ofício de um historiador. que embora não sejam completas. como devedor incondicional da consideração e do afeto de que fui alvo. Da mesma forma agradeço a CAPES pela bolsa concedida. José Murilo de Carvalho. do Departamento de História da Universidade de Campinas (UNICAMP). Sua amabilidade foi decisiva e suas críticas muito oportunas. Algumas pessoas foram de um valor incomensurável para a realização deste trabalho. por ter lido os manuscritos deste trabalho. Agradeço-lhe pela compreensão e pelo apoio. Dedico esta parte a elas. Talvez ainda não tenham inventado palavras que possam expressar a gratidão que sinto. Grande parte deste trabalho. ajudam-me neste momento tão delicado. Sua calma me deu a tranqüilidade necessária para a produção da pesquisa. Dr. Sei que tal feito não teria sido realizado sem a cooperação de várias pessoas e entidades que colaboraram da melhor forma possível. Cristina Meneguello. Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS).

e neste caso. pela criação do Concurso de Monografia do Arquivo da Cidade – Prêmio Afonso Carlos Marques dos Santos. minha esposa. amiga e companheira. que gentilmente me indicou fontes importantes para o desenvolvimento da pesquisa. e por vezes me incentivou. amiga de longa data. Com entusiasmo me ouviu. Miller. que muito me incentivou e providenciou para que eu tivesse todo acesso possível às fontes do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. pois se as tarefas e obrigações que uma pesquisa séria impõe pôs à prova nossa convivência. que atualmente intitula-se Secretaria Extraordinária de Promoção. devo isto a ela. Agradeço à Cristiana Pereira. . Ainda no campo da pesquisa. pelo incentivo prestado à cultura e divulgação do conhecimento. não posso deixar de agradecer à Secretaria Municipal das Culturas e ao Arquivo da Cidade. aos amigos da FFP e aos funcionários dos arquivos por onde escarafunchei documentos. muito obrigado. pela ajuda na pesquisa arqueológica e pelo debate travado em torno desta temática. O seu apoio foi indispensável ao longo destes duros anos. Defesa. dentre outros meios. Karasch. assim como à Dra. Beatriz Kushnir. Agradeço-lhes por esta oportunidade ímpar de publicar este livro. órgão da Prefeitura do Rio de Janeiro. De igual forma. Sua dedicação foi sem medida. A todos que me ajudaram. João José Reis e Joseph C. agradeço à equipe de trabalho do Departamento Geral de Patrimônio Cultural (DGPC). Agradeço à Samantha. que ouviram pacientemente alguns temas que inquietavam a mente deste aprendiz. acima de tudo pela sua paciência e compreensão. ambas foram vencidas pela convicção de que os “melhores passos são aqueles que damos juntos”. ainda que o seu tema de trabalho não caminhe por estas mesmas águas. Agradeço à Ana Beatriz pela indicação de várias fontes do Arquivo Nacional. demonstrado. diretora do Arquivo da Cidade. dedicado à preservação de acervos culturais. Desenvolvimento e Revitalização do Patrimônio e da Memória Histórico-Cultural da Cidade do Rio de Janeiro (SEDREPACH). Quero dedicar-lhe meus sinceros agradecimentos por ter transcrito o documento do abaixo-assinado que se encontra na Biblioteca Nacional e que está em péssimo estado de conservação e quase ilegível.Agradeço ao embaixador Alberto da Costa e Silva. aos historiadores Mary C.

ratificado em 1827 para entrar em vigor três anos depois. em 1814. Nele. Ele funcionou de 1772 a 1830 no Valongo. não podia haver pretos novos e sem esses não podia haver cemitério de pretos novos. Nos seis anos antes do fechamento. marquês do Lavradio. A história do tráfico foi outra. a um palmo de profundidade. saíam restos de cadáveres descobertos pela chuva que tinha carregado a terra e ainda havia muitos cadáveres no chão que não tinham sido ainda enterrados”. dos escravos que morriam após a entrada dos navios na Baía de Guanabara ou imediatamente depois do desembarque. antes de serem vendidos. O tráfico e a prática do sepultamento à flor da terra deslocaram-se para outros locais.Prefácio José Murilo de Carvalho “No meio deste espaço [de 50 braças] havia um monte de terra da qual. mas o cemitério foi de fato fechado. Funcionara antes no Largo de Santa Rita. . Os que não sobreviviam tinham seus corpos submetidos a enterro degradante. para a história da cidade como um local de horrores. O Valongo entrou. Assim o viajante alemão G. um mau cheiro insuportável invadia as redondezas e infernizava a vida dos moradores. isto é. em plena cidade. diante dos enormes inconvenientes da localização inicial. aqui e acolá. O cemitério foi fechado em 1830 em decorrência de inúmeras reclamações dos moradores que aos poucos tinham povoado o local e do tratado de extinção do tráfico imposto pela Inglaterra. Para todos. os escravos que sobreviviam à viagem transatlântica recebiam o passaporte para a senzala. Em tese. Freireyss descreveu o Cemitério dos Pretos Novos. Como conseqüência da exposição dos cadáveres. Após 1830. W. ordenou que mercado e cemitério fossem transferidos para o Valongo. mercado e cemitério saíram do Valongo. então. era o cenário tétrico do comércio de carne humana. faixa do litoral carioca que ia da Prainha à Gamboa. O vice-rei. agravada pela demora na inumação. A chuva descobria os cadáveres porque eram sepultados à flor da terra. O cemitério destinava-se ao sepultamento dos pretos novos. área então localizada fora dos limites da cidade. próximo de onde também se localizava o mercado de escravos recém-chegados. se não havia mais tráfico.

45 mil. escrito originalmente como dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entendeu. Projeto da prefeitura do Rio de Janeiro tenta hoje recuperar o que restou do local com a ajuda de pesquisas arqueológicas. antes e depois de 1830. se se pode assim descrever o tratamento dado aos cadáveres. aparentando fornecer frias estatísticas. cativos provenientes da África Central Atlântica. O cemitério é analisado em suas variadas conexões. foram enterrados mais de 2 mil pretos novos no Valongo. lá eram enterrados os que morriam. Júlio César soube manter a sobriedade exigida pelas regras de um trabalho acadêmico. naturalmente. Outra dimensão do tráfico importante para o estudo do cemitério era a origem geográfica dos escravos. O livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita. Mas pouco se sabe sobre as violências contra os mortos. Mais tráfico. Só neste último ano. A primeira tem a ver com o estilo. além do aumento do número absoluto de escravos. A partir da chegada da corte do príncipe D. mais escravos a serem vendidos. na verdade é ele mesmo um grito de denúncia. sua principal fonte de dados. É dessa violência que trata esse livro de Júlio César Medeiros. A principal conexão era. com o tráfico. entraram menos de 10 mil. praticadas em locais como o Cemitério dos Pretos Novos do Valongo e em cemitérios semelhantes que devem ter existido em outros portos de grandes desembarques de cativos. lá eram vendidos os vivos. e mais cadáveres a serem sepultados. sem dúvida. Em 1807.mais de seis mil escravos foram enterrados no Valongo. João em 1808. em 1828. em proporção cada vez maior. que a crueza da história em si era suficientemente eloqüente e que qualquer recurso retórico adicional serviria apenas para reduzir o impacto de sua brutalidade. região de . A segunda diz respeito à maneira como o tema é abordado. O autor foi feliz no tratamento do tema. houve também concentração regional. cresceu muito a entrada de cativos pelo porto do Rio de Janeiro. foram quase 21 mil. No Valongo chegavam os escravos novos. Foram bem estudadas e são bem conhecidas as violências contra os escravos vivos. Nas primeiras décadas do século XIX. em seus múltiplos significados. Saliento duas entre outras virtudes do texto. Entraram. Forçado a enfrentar a intensa carga emocional embutida no tema. em 1822.

Sebastião Monteiro da Vide. para a comunidade. eles podiam avistar o local dos enterros. Dos barracões do Valongo.predomínio da cultura banto. D. ficava o autor capacitado para avaliar o que significava para eles o enterro sem ritual. encomendação ou sacramento. Mas o ponto forte do livro é a análise que Júlio César faz da violência cultural embutida nas práticas adotadas no Cemitério dos Pretos Novos. envoltos e amarrados em esteiras. esclarece Júlio César. reza. a morte era assunto muito sério para os indivíduos e. Ora. primeiro de Santa Rita. desde que inumado de acordo com os rituais. muitos dos pretos novos tinham sido previamente batizados. mais ainda. Mas sabiam-no seus parentes. uma entidade católica que cobrava do Estado pelo serviço. Apesar disso. O morto. No entanto. além de serem os enterros feitos em cova rasa. Traficantes queriam espaço mais favorável a seus negócios. os pretos novos. o dano moral causado pelas práticas usadas no cemitério era irreparável. mereceriam de qualquer modo algum respeito cristão por sua simples condição de seres humanos. amigos e outros companheiros de infortúnio. autoridades preocupavam-se com as condições higiênicas e sanitárias comprometidas pela presença de um campo tão pouco santo. mesmo não sendo católicos. um sem lugar. sem qualquer ritual religioso. católicos e tinham direito a um enterro católico. batizados ou não. os corpos eram enterrados nus. passava a integrar a cadeia que unia vivos e mortos. eram. Na cultura banto. “como se fossem brutos animais”. portanto. Ao determinar a cultura dos pretos novos. moradores exigiam a retirada do cemitério. como denunciou o arcebispo da Bahia. ele se tornava um desgarrado. às vezes ainda na África. . batizados ou não. A administração do cemitério era responsabilidade da paróquia de Santa Rita. Júlio César estuda também a relação umbilical do cemitério com a cidade do Rio de Janeiro e seus habitantes. Os que morriam talvez não tivessem tempo de tomar conhecimento do que aconteceria a seus corpos após a morte. Sem o acompanhamento dos rituais fúnebres. incorporava-se à comunhão dos antepassados. depois do Valongo. publicadas em 1720. nas suas Constituições primeiras do arcebispado da Bahia. ocupado permanentemente em atormentar seus parentes vivos. Do ponto de vista dos pretos novos. eram enterrados do mesmo modo que muitos escravos baianos no século XVIII. Os não batizados. Ela constituía um elo entre o mundo dos vivos e o sobrenatural. em vala comum e à flor da terra.

em estudos sobre a cultura da morte nas tradições católica e banto. apoiado em documentos de arquivos. tanto mais dolorosa por vir na seqüência de outra dor maior. a da escravização. que Júlio César nos revela. será preciso acrescentar agora o do Cemitério dos Pretos Novos. Ao horror dos navios negreiros e das senzalas. pois para ambos rompiam-se os laços sociais e culturais. um mundo de práticas desumanas. É este mundo marcado pelo sofrimento de uns e pelo desrespeito de outros. . em testemunhos de viajantes.Pode-se imaginar a angústia que tal perspectiva despertava nos cativos. Tanto sofriam os que iam morrer como os que sobreviviam.

i Aspectos geográficos da cidade: um lugar para morrer i. uma nefasta combinação ii. iv.Introdução Religiosidade e morte: lugares fúnebres no Rio de Janeiro dos séculos XVII a XIX i.ii Povos bantófones. a Kalunga Grande 141 iv.i Igreja e cemitério.ii Aspectos sociais e religiosos na América Portuguesa: i.iii As descobertas arqueológicas iii. última parada antes da travessia do Atlântico.iii Conclusão.iii i.iv The African Burial Ground. Sociedade e cosmogonia.iii Cemitério e moradores do entorno: mobilização e propostas para o fim do cemitério do Valongo 63 ii.iv Conclusão iii História e arqueologia: revelações e redescobertas 99 iii.ii O Cemitério dos Pretos Novos: padrões de sexo e faixa etária iii.v Conclusão iv Viver e morrer em África iv.i As doenças que freqüentemente faziam os escravos descerem à sepultura iii. uma combinação útil ii.ii Mercado e cemitério.i Portos. Referências bibliográficas Anexos 185 197 . um caso diferente iii.iv ii os sacramentos e as irmandades bem presentes na hora da morte Os lugares dos mortos e suas representações na cultura católica ocidental Conclusão 15 i 31 O cemitério dos Pretos Novos e o seu entorno ii.

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reconstrói o que. que teria Yale University Press. 1993. junto ao Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. segundo o seu entender. assim como vários historiadores do século XIX. ele julgava que o papel do historiador era o de “dar vida ao passado”. History and its Images: art and the Interpretation of the past. entre 1722 e 1830.15 Introdução Este livro é uma versão corrigida de minha dissertação de mestrado. Segundo 1 HASQUEL. Michelet. Nosso foco é o processo de criação e extinção desse campo-santo. cada historiador. Ele se ocupa da temática da morte e do sepultamento dos escravos africanos recém-chegados da África. Francis. sido uma das fontes de inspiração de Lucien Febvre. sobretudo em momentos de tensões e contradições sociais. a possível ausência de paramentos fúnebres no local. Procuramos realizar ao longo do texto uma análise dos fatos que revelam a especificidade do cemitério. Ou seja. no Cemitério dos Pretos Novos. p. New Haven: Francis Haskel1. Michelet. o embate travado entre moradores e poder público. Entretanto. de alguma forma. em seu tempo e a seu modo. A morte não é um tema novo. bem como a sua relação intrínseca com o tráfico de escravos. não se pode negar que. . o estudo do cemitério pode constituir uma proposta no mínimo desafiadora. para além de todas as dificuldades que a questão implica. fazer com que os mortos tivessem uma voz audível na sociedade de sua época. Sendo a escravidão um campo privilegiado para se pensar a nossa sociedade. teria sido o passado. no Rio de Janeiro. foi suplantado no tocante à prática e a questões epistemológicas. desejava. 240. apresentada em 2006.

Slenes. das alegrias e frustrações. Esta interdisciplinaridade nos proporcionou maior abrangência do cotidiano do homem. dos imponderáveis da vida. antropólogos. José R. O estudo da religiosidade não pôde ser deixado de lado já que. Disseram certa vez que “a morte havia ocupado os sociólogos. 3 Idem. O homem forma possível nosso campo. Karasch. 16 . Os principais deles foram realizados por Philippe Ariès. A partir deles construímos o cenário no qual os atores sociais desempenham seus papéis e se movimentam. tais como Jacques Revel e Carlo Ginzburg. uma outra faceta da história de pessoas simples que trazem nos atos mais corriqueiros demonstrações de comportamento que nos ajudam a entender como os homens se relacionam entre si. Manolo Florentino. a decifração do catolicismo dito “barroco” seria um passo irrealizável. sobretudo. Os trabalhos de Mariza Soares e Marina de Mello e Sousa nos dão a chave para o entendimento desta questão tão peculiar que é a nossa religiosidade. Os mesmos foram importantíssimos para a criação de um diálogo para o tema da morte no Brasil imperial. procuradiante da morte. também são fundamentais para o tipo de abordagem e o tratamento dispensado às fontes. centrados na produção francesa a respeito das diversas atitudes e sensibilidades coletivas diante da morte. poetas e agentes funerários. Estes momentos podem tratar da lida diária. da fadiga. ressalto os trabalhos realizados por João José Reis e Claudia Rodrigues. Rio de Janeiro: Francisco mos o referencial teórico de recentes Alves. 237. foram de igual valia no tocante ao entendimento do funcionamento do trafico transatlântico e sua influência no cotidiano escravo. dos desencontros e contradições. Philippe. do nascimento e. Pinto de Góes e Robert W. ambos no campo da microanálise. por causa de um movimento que caminha na direção de resgatar momentos do cotidiano. haja vista o interesse cada vez maior pelo tema por parte da historiografia. Os trabalhos sobre a morte compõem o campo de referência deste livro.2 Para um panorama das diversas atitudes Para circunscrevermos da melhor frente à morte. Hoje. da morte. 1989. No Brasil. os estudos empreendidos no campo da escravidão. p. Isso se deu. ver: ARIÈS. das esperanças e ilusões. sem ele. empreendidos pela história social e das mentalidades. Ao lado destes. e Michel Vovelle2. Ao lado destes nomes. esta afirmação não é mais verdadeira. pintores. tais como os de Mary C. outros historiadores. estudos sobre a morte. mas não os historiadores”. por que não dizer.

o problema não estava na morte. as atitudes ocidentais perante a morte se dividiriam em quatro etapas: a morte “mansa”. perdeu esta capacidade de presidir à própria morte. e a “morte proibida”. e tinham seus corpos abandonados pelos campos sem cerimônia ou rituais. 238. a “vossa morte” que expressava uma preocupação da família com os seus. Este pode ser um indicativo da mudança de comportamento do homem ocidental frente ao momento derradeiro da vida: a morte torna-se um fato asséptico. Como exemplo. apascentar gado. Este tipo de morte era uma morte indesejada.3 Ele encenava. carregada de ignomínia e humilhação. O mesmo autor chama atenção para o fato de que as pessoas “ideal cultural”. pela miséria. Ars moriendi. que retratava um homem no leito de morte. do primeiro milênio da era cristã. p. Huizinga chamou esta “boa morte” de 3 Idem. dançar e até manter relações sexuais. e mesmo administrava a própria morte e o único modo de salvar a sua alma era ter uma “boa morte”. Este quadro ilustra muito bem o pensamento do homem medievo a respeito da morte e todas as suas implicações. dos 750 anos seguintes. visto que. período que foi do século XIX até o começo do século XX.5 e com certeza. longe do espaço do lar e da realidade cotidiana. antes fazia parte da vida em comunidade. pertinentes.C. madas pela peste negra. que vigorou nestes últimos trinta e poucos anos. Sobre este tema. no mesmo se apropriavam do espaço dos cemitérios para período. é preciso notar que o autor avança quando demonstra um “mapeamento da zona desconhecida da consciência humana”. segundo Philippe Ariès. a morte “pessoal”. que foi amplamente usada no meio artístico. e sim na forma pela qual o homem a encarava e para ela se preparava. que invertiam a prática . Contudo. pela figura do médico.4 O homem moderno. no entanto. rosto voltado para o oriente. com as mãos cruzadas. sobretudo para o primeiro século d. beber. já que a morte não era estranha ao cotidiano medieval. muitas pessoas morriam vitijogar passa-tempos. Ariès analisa os costumes fúnebres dos primeiros cristãos. Ela deixou de ser algo inexorável e passou a ser intermediada. Segundo Ariès. Para além de todas as críticas que se possa fazer a este modelo de análise. tomemos uma das obras mais populares no século XV. 4 Idem.17 Sabe-se que na Alta Idade Média. 237. expirando a alma que é recebida nos céus. “o moribundo desempenhava o papel central num drama sobrenatural”. sobretudo. conduzia. Daí talvez a expressão: L’art de bien mourir. cercado por santos e demônios que reivindicavam a posse de sua alma. p. que ocupa hoje o lugar dantes preenchido pelo padre.

dos patrícios romanos que sepultavam seus mortos extramuros. Com o advento do cristianismo, o morto voltou a ter um contato com os vivos e assim permaneceu por muito tempo. O problema de sua análise talvez seja o de ter pensado as atitudes da sociedade de uma forma tão compartimentada. Mas este fato não tira o mérito do seu trabalho.

Ainda segundo este autor, por volta do século XIV as sepulturas não são mais apenas covas que pertencem a alguém, ou a uma família, algo que se passe de geração a geração, mas paulatinamente passavam a representar um monumento, uma peça de um jogo em que a intenção era proclamar aos vivos as virtudes imperecíveis dos seus habitantes, já que o desejo de ser lembrado após partir desta vida motivou a construção dos grandes túmulos.

5 Robert Darnton observa que Ariès, ao estudar as atitudes do homem diante da morte, toma por modelo o homem letrado pertencente a certa elite européia, assim Ariès ignora as mudanças de atitude ocorridas ao longo do tempo, vivenciadas por outras pessoas, de outras classes. Por outro lado, Vovelle, segundo Darnton, por usar como fonte os testamentos, consegue analisar estas mudanças com mais profundidade. Cf. DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette: Mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. pp. 245; 249. 6 Philipe Ariès. Op. Cit., p. 62. 7 RODRIGUES, José Carlos. Sentidos, sentimentos. In: Alceu, A Revista de Comunicação, Cultura e Política, pp. 50-51. 8 Philipe Ariès, Op Cit. pp. 37-41.

Na longa duração, o tempo quase imóvel do qual nos falou Braudel, algumas mudanças foram acontecendo no tocante ao comportamento do homem diante da morte. Lentamente, as concepções sobre o “fim da vida” e “vida eterna” foram sofrendo várias alterações. A idéia de que as pessoas ressuscitariam coletivamente passou a dar lugar à idéia de que alguns, de acordo com a sua vida terrena, poderiam se deparar no além com Satanás, o “chifrudo” a lhes atormentar eternamente no inferno. Parece que tal idéia proliferou no imaginário da época, principalmente por volta do século XIV.7 No intuito de fugir do tridente do “astuto”, devia-se buscar uma vida mais regrada e comedida e, sobretudo, submetida a um aferimento, ou seja, uma balança na qual os atos são medidos e pesados. Com efeito, a figura da balança passou a decorar o interior dos templos no intuito de lembrar aos fiéis que deveriam ter sempre em mente que os seus atos estavam sendo pesados por Deus e que os batismos e confissões não eram mais, por si sós, garantidores de uma vida eterna feliz, nem garantia da salvação.8 A hora da morte é a hora de se colocar tudo em dia e de se preparar para caminhar sozinho em direção ao além, seja ao encontro de Deus ou do diabo. Era a hora do Juízo Final.9

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O importante a partir de então era ser 9 RODRIGUES, José Carlos. Sentidos, sentimentos. p.51. 10 Idem. 11 Idem. enterrado próximo dos santos e dos 12 Para um estudo detalhado sobre o tráfico mártires, junto à igreja e, se possível, transatlântico, ver: FLORENTINO. Manolo dentro dela, muito embora ela não Garcia. Em costas negras uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de pudesse comportar todos. Esse fenômeJaneiro (séculos XVII e XIX). Rio de Janeiro: no se estenderá por toda a Idade Média Arquivo Nacional, 1995. e foi amplamente verificado no Brasil. Desta forma, tanto na Europa como no Brasil, os poderosos faziam valer o seu status até mesmo na hora da morte, sendo inumados dentro das igrejas, ao passo que os pobres eram sepultados nos adros, ou ao lado da igreja, não tão perto como gostariam de estar de seus santos. Uma outra mudança pôde ser notada. Com o passar dos anos, as sepulturas que na Idade Média podiam se dizer “coletivas”, assim como as festas, a “morte” e a “ressurreição”, cederam lugar às sepulturas individuais, assim como individual era a responsabilidade de encarar o juízo eterno. Por volta do século XIV, as obras de arte não são mais as catedrais nem os castelos e sim os túmulos. O importante consistia em subtrair os seus à vala comum. Mais tarde, entre os séculos XV e XVII, se daria a apropriação dos túmulos,10 que já passariam de geração a geração e, gradativamente, o indivíduo e as famílias vão se apropriando do lugar do enterro. O movimento inverteu-se. Os “poderosos”, que dantes eram enterrados dentro das igrejas, ao menos na Europa, passaram a construir igrejas para nelas depositar os seus restos mortais.11 Em suma, pode-se notar que a partir do século XIV até o século XIX, mesmo o sepultamento, ou seja, o local de inumação, vai se diferenciando de acordo com a classe social à qual pertence o morto. A desigualdade terrena se reflete na hora derradeira em que a alma vai prestar contas do que fez na terra dos vivos. Cria-se uma separação entre “mortos” e “mortos”. Os estudos sobre a escravidão no Brasil formam o outro recorte desta pesquisa. A partir da leitura de trabalhos de Manolo G. Florentino, pudemos compreender a lógica do comércio escravista na praça mercantil do Rio de Janeiro durante os séculos XVIII e XIX. O pioneirismo de seu trabalho ajudou a traçar a rota do tráfico escravista, assim como comprovou a diversificação de investimentos dos traficantes e o seu crescimento financeiro. Ao mesmo tempo, seu trabalho demonstrou que a região da África Central Atlântica se apresentou como um manancial de escravos para o comércio no Rio de Janeiro.12

Manolo Florentino, no trabalho Em costas negras, sua tese de doutorado, trabalhou basicamente com relatórios de entradas de navios negreiros no Rio de Janeiro, inventários post mortem da capitania do Rio de Janeiro e escrituras de compra e venda. No momento da elaboração da nossa dissertação, o desafio que se me apresentava era o de trabalhar com fontes completamente diferentes, a saber, documentos paroquiais, relatos de viajantes e jornais de época e verificar se as conclusões coincidiam ou não com as de Manolo Florentino. Ao longo do trabalho, fui surpreendido pela verificação de que minhas fontes pareciam estar acopladas aos documentos utilizados por Florentino. Isto me fez entender que o Cemitério dos Pretos Novos estava circunscrito à lógica escravista, que, por sua vez, gerou registros, os quais, por mais que fossem diferenciados, dialogavam com a mesma questão: a escravidão. Ainda sobre o tráfico escravo, os trabalhos de José Roberto Pinto de Góes são esclarecedores para a verificação de como o tráfico influenciou de forma decisiva a reorganização da vida escrava. Para este autor, o aumento do tráfico verificado após a virada dos oitocentos desestabilizava a demografia escrava, dado que cada vez mais africanos aportavam compulsoriamente no porto do Rio de Janeiro. Esta diferenciação notada principalmente no número de homens que suplantava o de mulheres gerava uma desigualdade na família escrava, ao mesmo tempo que abria aos crioulos uma gama de possibilidades que ia desde o casamento até a obtenção de um trabalho mais ameno, já que na hierarquia escrava sempre havia um “africano”, um preto novo, para os serviços mais árduos. No campo da demografia, os estudos de Robert Slenes demonstraram a dinâmica da família escrava em uma África transplantada para as Américas, principalmente para a região sudeste. Foi a partir do seu trabalho que comecei a compreender que os escravos conseguiram, apesar de todo o infortúnio, trazer consigo um cabedal cultural próprio e imprescindível para a nova vida no Brasil. Seus códigos culturais foram reelaborados e reinterpretados à luz de uma nova situação que se lhes impunha e eles lhes deram uma coesão de ações que só podem ser entendidas quando tomamos conhecimento de sua cultura. Tais códigos culturais, segundo Slenes, foram trazidos principalmente da região da África Central Atlântica, ou seja, a grande área Bantu, tão cara ao nosso trabalho.13 Foi desta forma que compreendi que qualquer que fosse a resposta encontrada sobre o morrer africano, deveria vir do outro lado do Atlântico, ela estava

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entre as margens do rio Zaire e Zambeze, no planalto catanguês, em Luba, até o que conhecemos hoje como Camarões. Ou seja, a região bantófone da África Central. Um outro ângulo nos foi aberto pelos 13 Os trabalhos de Robert Slenes são fundamentais para o entendimento da trabalhos de Laura de Mello e Souza e família escrava e das tradições africanas Mariza Soares. Ambas perscrutaram recriadas no Brasil, ver: SLENES, Robert W. a religiosidade católica brasileira e “Malungu, Ngoma Vem!” África coberta revelaram traços importantes de nossa e descoberta no Brasil. Cadernos do Museu da escravatura. N.1. Luanda: Ministério da sociedade. Mergulhada em maços e Cultura, 1995; ______. Na Senzala uma flor: as maços de processos inquisitoriais, esperanças e as recordações na formação da família escrava. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Laura de M. e Souza buscou revelar 14 SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra um outro aspecto da religiosidade no de Santa Cruz. São Paulo: Cia. Das Letras, 1986. Brasil. Ela procurava rebater críticas e p. 88. 15 Idem, p. 100. 16 Idem, p. 130. mostrar o quanto a religiosidade brasileira não poderia ser tomada como uma cópia infiel da européia, e sim como algo extremamente novo e “multifacetado”.14 O método da autora é partir da análise documental, particularmente os autos inquisitoriais, traçando o perfil imaginário da época, não deixando os menos privilegiados de fora, haja vista que as prostitutas, feiticeiras, escravos, sodomitas e párias aparecem através das penas dos escrivães e revelam o cotidiano e parte da religiosidade no Brasil colônia, ainda Terra de Santa Cruz, palco da Primeira Visitação. A partir de seu estudo, pode-se perceber que nem tudo fora festa, pelo contrário, esse algo multifacetado foi duramente perseguido fazendo com que o folguedo desse lugar a muitas lágrimas.15 Segundo ela, e eu concordo, não se pode dizer que o catolicismo era fingido e, sim, autêntico ao seu modo; não era conceituado, coisa que faltava por definição, e sim vivido. E vivido em todas as suas esferas, em todas as suas facetas.16 Uma colônia escravista, vivendo as contradições da desigualdade, teve de recriar seus hábitos, seus costumes e culturas. Esta recriação de costumes, ou laços culturais, deveria surgir em um ambiente que lhes proporcionasse segurança e distinção. Segundo Mariza Soares, este espaço seria o das irmandades, um local de convivência possível e de sociabilidade.17 Mariza Soares pesquisou um grupo de cerca de 200 africanos oriundos do reino dos Makis, situado no atual Daomé, durante o século XVII. A autora conseguiu traçar o perfil do grupo até então nunca estudado, sob o ponto de vista da

21 22 .religiosidade. Com efeito. p. os mortos e os ritos fúnebres”. Devotos da cor. seguidos por estes autores. 1991. João Reis abordou a questão do negro africano sob a ótica de uma história social da escravidão e contribuiu para o entendimento das atitudes do homem perante a morte no Brasil. No Rio de Janeiro. relatos de viagem. pois foram fundamentais no sentido de formular uma abordagem da temática da morte e do próprio Cemitério dos Pretos Novos. São Paulo: Novos e. tal como era entendido aquele episódio. Rio de Janeiro. Identidade étnica. como Rodrigues. assim como registros paroquiais. eles serviram de Norte no momento em que as tempestades acinzentavam a visão de um porto seguro.18 e. 18 Idem. p. correspondências eclesiásticas e administrativas. relatos de memorialistas e documentos cartoriais. Para Soares. Baseada em uma variedade de fontes impressas e manuscritas constituídas de crônicas. procurou reconstruir como as questões da morte “eram enfrentadas pelos cariocas”. João Reis demonstrou que a revolta que abalou as bases de Salvador. A morte é uma festa. ela buscou 17 SOARES. A partir daí.20 ou seja. a partir daí. Seu trabalho foi o ponto de partida para a minha pesquisa sobre as irmandades e a sua inserção da vida do cotidiano escravo. em 1836. “foi um episódio que teve como motivação central a defesa das concepções religiosas sobre a morte. Mariza de C. um apoio na hora de se providenciar um funeral cristão. Ritos fúnebres e revolta também citou o Cemitério dos Pretos popular no Brasil do século XIX. Claudia Rodrigues seguiu o mesmo caminho. 133. Recorro ainda aos estudos de João José Reis e Cláudia Rodrigues. atenuação de uma vida árdua. 49. abriu-se o campo para uma nova interpretação das ações do homem fora da concepção estritamente econômica. na Bahia. religiosidade e escravidão recriar. 176. principalmente. se baseou em Companhia das Letras. 19 Idem. 2000.19 A leitura do seu trabalho me possibilitou o entendimento sobre o motivo que levava os africanos a “aderirem” às irmandades e a reapropriação que estes fizeram dos ritos católicos. Ainda que estes não tenham sido seus objetos principais de análise. quem sabe reinterpretar. João José. deixaram alguns indícios dos caminhos trilhados. Soares pp. colonial e seus laços culturais. com o intuito de entender e no Rio de Janeiro no século 18. p. 20 REIS. as irmandades são uma “via de acesso a distinções” que eram buscadas por aqueles que nelas viam alguma possibilidade de mudança. a sociedade Civilização Brasileira. Ao se debruçar sobre a Cemiterada. 165-168.

as indicações deixadas por ela foram de grande valia para a nossa pesquisa. levantando questões ainda tão caras ao nosso povo que passa pela reflexão da contribuição do papel do negro na sociedade brasileira e o resgate da sua memória. 14. p. forma dos sepultamentos. e o seu processo de transformação a partir da proibição dos sepultamentos em igrejas. não tenho a vã pretensão de ter respondido a todas. Olhos de madeira: nove reflexões sobre a o empobrecimento e esvaziamento distância. Decerto que a noção de estranhamento desperta outra postura em relação à observação de acontecimentos do passado. Rio de Janeiro: das durante o século XIX no tocante à Secretaria Municipal de Cultura. para quem a noção de estranhamento é um antídoto eficaz para todo historiador que não queira incorrer no erro de “banalizar a realidade”. 22 dos cortejos fúnebres. p.23 Sua preocupação central talvez tivesse 21 RODRIGUES. tais como: por que aparentemente os escravos recém-chegados recebiam um sepultamento precário? O que fazia com que tais escravos recebessem este tratamento? O que motivou o fechamento do cemitério de forma quase que abrupta? Quem foram os tais pretos novos? As respostas a essas perguntas poderiam desvendar outras facetas do cotidiano escravo. sem perguntas e. São Paulo: Companhia das Letras. GINZBURG. 41. p. sem respostas. Carlo. Claudia. 2001. pois ainda que ela tenha abordado superficialmente o Cemitério dos Pretos Novos por este não constituir o seu objeto central de estudo. No que tange a referências conceituais.na Cidade dos Vivos: Tradições e transformações fúnebres no Rio de Janeiro. 12. obviamente. Na verdade. Lugares dos Mortos sido a de perceber as mudanças ocorri. mas espero estar contribuindo com o debate acadêmico. Assim. posso identificar em seu trabalho o ponto inicial para as pesquisas que empreendi sobre o cemitério. segui as proposições de Carlo Ginzburg. Desta forma. 23. bem como 1997.23 Busco os detalhes às vezes quase imperceptíveis. tão corriqueiros que nos induzem ao perigoso caminho de aceitarmos como normais todos os acontecimentos. Ao falar sobre as lutas para o fechamento de cemitérios intramuros. procurei na microanálise a resposta para perguntas ainda não feitas. 22 Idem. DGDI. Foi com o intuito de tentar responder a estas indagações que me lancei nesta pesquisa. . ela conseguiu mapear os “lugares” da morte no Rio de Janeiro oitocentista. sem questionamento. Rodrigues analisa o Cemitério dos Pretos Novos no momento em que os moradores demandam seu fechamento. Entretanto.

25 Logo. A história entre certezas e inquietudes. Roger. a elucidação para uma das facetas mais cruéis do escravismo brasileiro que aqui transparece no “descarte” e apodrecimento de corpos lançados à flor da terra. 25 Carlo Ginzburg. 27 VAINFAS. uma vez que se propõe a pp. os funcionamentos escolares [. p. Esta análise demonstrará que o simples fato desta morte ser a do “outro” implica a forma diferenciada das práticas culturais relacionadas à morte. Ao colocar o espaço funerário na categoria central 24 . não mais somente como números. À beira da falésia. Cf. 2002. nas representações. p. as formas primeiro. conforme assegura Vainfas. Um outro caminho traçado foi o de tentar decifrar a cosmogonia banta. um cemitério específico em uma circunstância singular. Sendo assim.27 a nova história cultural não nega a aproximação com as outras Ciências Humanas. revela traços comuns a toda uma sociedade. Lisboa: Difel. 2002. Ronaldo. Op. Cit. p. Ginzburg. a da morte e do sepultamento de escravos boçais. 16. a possível ausência de rituais de sepultamento. Busquei em uma história aparentemente banal. 1990. cultura como “o conjunto de atitudes. p. 41. tabelas e quantificações. ver: CHARTIER. UFRGS. São Paulo: próprios das classes subalternas em Campus. Carlo. GINZBURG. Esta pesquisa práticas e representações.26 Não cremos que haja incoerência em agrupar métodos de ambos os domínios.. devo o conceito de CHARTIER. principalmente como ela representa e entende a morte de “si” ou de “outrem”. códigos de comportamento protagonistas anônimos da história. tal como as mentalidades. A história cultural.] o que significa construir os de cultura como prática e seu enfoque novos territórios do historiador por meio se baseia na representação e apropriada anexação dos territórios do outros”. Rio dialoga com autores da nova história de Janeiro: Editora Bertrand Brasil. Os crenças. Ao as estruturas de parentesco.. Porto Alegre: Ed. entre foram imprescindíveis. mas como uma prática em si. cultural. os caminove reflexões sobre a distância.24 Ao segundo.. o olhar sobre o cemitério de escravos. admite o conceito de longa duração e os temas do cotidiano. os rituais e as crenças. no caso. ção. 26 gens de cunho histórico. 61-79. já que. 16 certo período histórico”. a morte passa a ser um objeto de estudo. São Paulo: nhos alternativos para novas abordaCompanhia das Letras.Outras ferramentas de análise também 24 Para a idéia de representação. 68. Tentei desenvolver uma visão aproximada do sentimento vivido pelos pretos novos ao verem seus entes queridos serem sepultados naquele campo santo. 2001. como Roger Chartier e C. Roger. É assim que “O aparecimento de novos objetos e seu questionamento: as atitudes diante da o livro tem dívida com historiadores vida e da morte. porque propõe o conceito de sociabilidade. Olhos de madeira: buscar.

por sua vez. pouca gente sabe da existência do Cemitério dos Pretos fia sobre o século XIX foi a de deslocar Novos. Uma das características da historiogra. na Gamboa. quase inexistente. a mesma pesquisa comprovou que as práticas inumistas. A avaliação e a quantificação deste documento possibilitaram a verificação da dinâmica do sepultamento dos Pretos Novos. É a partir desta observação que tento provar como o fim do tráfico legal influenciou de forma decisiva o fechamento do campo santo. dificultando avanços em seu esclarecimento. em criar uma análise que abarque todo o momento conturbado do período joanino até a abdicação de D. Cada aparente detalhe adquiriu. dentro da sociedade escravista brasileira do primeiro quartel do século XIX. jazia tão esquecido quanto a localização real do cemitério.25 da análise. os traficantes de almas. Pedro I. de 1824 a 1830. O corpus documental da pesquisa está centrado no livro de óbitos da freguesia de Santa Rita. A complexidade do tema está. valor e significado na intrincada rede de relações entre os vários elementos constitutivos da trama do discurso cultural. há muito.28 Basta citar que.28 Ao longo da pesquisa. o momento da elaboração de um novo projeto político que. justamente. calçamento. Contudo. pude observar o quadro das interdependências entre agentes e fatores determinantes de experiências históricas. em muitos casos. zona portuária do Rio de a questão da morte e do sepultamento Janeiro. demonstrando a sua estreita ligação com um in- . salubridade de logradouros públicos –. o cemitério se apresentou cada vez mais colado ao tráfico de escravos transatlântico. redescoberto recentemente. menos urgente. permaneceram inalteradas. assim. tangenciava em grande parte os interesses dos poderosos. além de passar por um plano de remodelação da cidade – higienização. tornando-a um assunto secundário. É nesta direção que este livro caminha: busco em um velho livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita indícios de um passado que. dos escravos para a periferia das temáticas centrais da política brasileira. até mesmo dele dependente. encontrado no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Este recorte temporal localizado no fim do século XVIII e início do XIX revelou-se um período candente da política nacional e. mesmo após o encerramento dos trabalhos no Cemitério dos Pretos Novos. Isto contribuiu para que o tema fosse quase apagado do imaginário nacional. ainda hoje.

encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. ou sepultamentos em igrejas. Não havia trabalhos anteriores de historiadores dedicados especificamente a esse cemitério. Na verdade. No mesmo acervo. bem como textos que indicam como a sociedade bantófone tratava com o sagrado. à luz do discurso clerical. traficantes e poder público. Ao longo de toda a pesquisa. outra parte destes abaixo-assinados. nem grandes generalizações. bem como editoriais de jornais da época. Além disso. De maneira dispersa. como é o caso das cópias dos abaixo-assinados de vários moradores do Valongo que pediam ao governo o fim do Cemitério dos Pretos Novos e a resposta das autoridades constituídas. procuramos privilegiar os relatos sobre os sepultamentos africanos na África. as Constituições primeiras do arcebispado da Bahia foram de igual valia para compreender em que grau os escravos recém-chegados poderiam ser. Tal documentação foi trabalhada no sentido de tecer uma malha secundária. eram os atores sociais desta história. “merecedores” ou não de um sepultamento cristão. As ações do poder público foram examinadas a partir de outras fontes primárias localizadas no Arquivo Geral da Cidade. Mas não busco teorias gerais. como não poderia deixar de ser. O uso da documentação do cemitério da Ladeira da Misericórdia foi imprescindível para que se tentasse entender para onde foram muitos dos corpos dos escravos recém-chegados após 1830. As dificuldades para esta pesquisa não foram poucas. Fontes dispersas e esparsas limitaram o alcance da análise. em certa medida. senhores de escravos.tenso tráfico transatlântico e uma intricada rede de ações demandadas entre Igreja. ela é o suporte para a contextualização do tema e um medidor sintomático das ações efetivas daqueles que. O caso 26 . mas nada mais especifico. escritos por diversos autores que discutiram a escravidão no Brasil. o porvir e os cuidados funerários da passagem. o Arquivo da Santa Casa do Rio de Janeiro se mostrou providencial para este tema. Existem vários trabalhos que tratam de maneira geral a mortalidade escrava. dando também um lugar privilegiado aos historiadores da morte e relatos de viajantes do primeiro quartel do século XIX. mas não menos importante para esta temática. procuramos ter o cuidado de lançar mão de uma ampla leitura de temas afins. já que alguns deles já haviam sido anteriormente batizados. Finalmente.

voltamos os nossos olhos para os vizinhos do cemitério e suas reclamações ao poder público. matrimônio e morte. procuro descrever como a cidade do Rio de Janeiro se apresentava aos seus moradores como um lugar inóspito. gera a necessidade premente de se buscar mais mão-de-obra escrava. disposição para formular novas respostas. este lugar inóspito. ao mesmo tempo que recria laços de solidariedade em torno da morte. levantaram questões e nos ajudaram a prosseguir. os escravos passaram a ser “as mãos e os pés do senhor”. desde a labuta no eito. desde o nascimento. Esta precariedade dificulta a vida do morador e encurta a sua expectativa de vida. Em um segundo momento. organizo este trabalho da seguinte forma: No capítulo 1. durante o século XIX. os escravos recém-chegados ocupam o lugar mais baixo desta hierarquia. Caminhar por um caminho tão novo não teria sido possível sem o auxílio de muitos interlocutores que sugeriram. É possível que o desvelar das práticas funerárias africanas possam contribuir para o entendimento do motivo pelo qual os escravos se filiavam às irmandades. procuro demonstrar a especificidade do Cemitério dos Pretos Novos e a sua ligação com setores da sociedade escravista que dele necessitam na lógica do mercado dos escravos. incentivaram. No capítulo 2. cortados pelo aprisionamento em terras africanas. A recriação dos laços culturais. Nesta trama de intrincadas relações. espero contribuir com este pequeno ponto. Esses laços estão presentes. Como o padre Antonil observou. nas irmandades. contudo. até o seu sepultamento. sobretudo estes que morriam tão logo desembarcavam no porto do Rio de Janeiro. forjando a nossa religiosidade. assim como grande parte do mundo conhecido até então. reunindo-se em torno dos seus santos de devoção. de conformação geográfica difícil e desafiadora. Em uma sociedade que se torna cada vez mais hierarquizada. . nos ajuda a compreender o quão rica e plural é a nossa devoção. durante o século XVI.27 do Cemitério dos Pretos Novos é tão específico como específica deve ser a análise proposta. indicador de como a sociedade foi forçada a enfrentar novos problemas sem. Para tanto. sobretudo. passando pelo batismo. Recebem um tratamento diferenciado em tudo. A nossa contribuição talvez seja a de trazer mais luz sobre a temática da morte dos escravos. O entendimento desta rede que se estende em várias direções. se deu de uma forma nova e única. Por outro lado.

XIX. Jules Michelet e eram os pretos novos e de onde eles a História que ressuscita e dá vida aos homens: foram retirados e. t. Oeuvres Complètes de Michelet. IFCH-Unicamp. o auxilio de que eu mesmo terei necessidade. Paris.. 2005. nossas lágrimas logo estancadas. II: Jusqu´au 18 Brumaire. 1982. Esse magistrado é a história. Através da tradição e da oralidade. Eu exumei para uma Segunda vida. Ao final desta breve introdução. p. e exige que alguém cuide dele. 268. t. um magistrado deve encarregar-se disso. No capítulo 4. tanto na cultura católica ocidental. como na cultura africana.. Tese de Doutorado. Campinas. p. Dei a muitos dos mortos. em 1872. para a lei. cada pessoa morta deixa um bem. a justiça é mais digna de confiança do que nossas ternuras desatentas. XXI (1872-1874). Se não trazem respostas. Nunca em toda minha existência perdi isso de vista. sua relação com o tráfico escravo e o conseqüente final do cemitério. a documentação dos 29 Michelet. procuro estudar as causas da morte de muitos escravos. sem saber ao certo qual das respostas escolher. no fim da vida. a contraposição das visões e reformulações do sepultamento e da morte. volto a imaginar o que Michelet queria dizer com “dar vida ao passado”. Apud SCHREINER. o dever do historiador. ao mesmo temUma leitura da emergência do “povo” no cenário po. Para quem não tem amigos. para além do Atlântico: a África é Préface”.No capítulo 3. revisitada no intuito de se saber quem Flammarion. termino com palavras do próprio Michelet. compreender como os africanos historiográfico francês da primeira metade do século lidavam com a morte no seu cotidiano. cedo demais esquecidos. a demografia deste campo santo distribuída por sexo e faixa-etária. ao menos levantam algumas questões que nos deixam em suspenso durante tempos. Seria dar voz aos mortos? Ou apenas ser capaz de ouvir e entender as palavras que nunca foram pronunciadas? Ainda na dúvida. 161. revela o conflito que se refletia na forma dispensada ao sepultamento do escravizado praticado na América Portuguesa. sua memória. prefaciando a sua célebre obra: “Histoire óbitos dos pretos novos nos remete du XIXe Siècle. Sim.29 28 . Michelle.

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Religiosidade e morte: lugares fúnebres no Rio de Janeiro dos séculos XVIII a XIX
1.1 ASPECTOS GEOGRÁFICOS DA CIDADE: UM LUGAR PARA MORRER

Fomos ao cemitério. Rita, apesar da alegria do motivo, não pôde reter algumas velhas lágrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo, com meu pai e minha mãe. Ela ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos anos. No caixão do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, então pretos, enquanto o mais deles ficaram a envelhecer cá fora.

Não é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples, - a inscrição e uma cruz, - mas o que está é bem feito. Achei-o novo demais, isso sim. Rita fá-lo lavar todos os meses, e isto impede que envelheça. Ora, eu creio que um velho túmulo dá melhor impressão do ofício, se tem as negruras do tempo, que tudo consome. O contrário parece sempre de véspera [...] a impressão que me dava o tal do cemitério é a que me deram sempre outros; tudo ali estava parado.1

O texto acima nasceu da pena do romancista Machado de Assis, em Memorial de Aires. Nele, o Conselheiro, que é o protagonista, não ri nem chora, não ama nem detesta, apenas compreende. Essas reflexões sobre túmulos e cemitérios são próprias de alguém que fala de um ente querido que se foi2 e dão o tom ao diário, ainda que o autor estivesse demasiado preocupado em não carregar demais nas tintas da melancolia. Com efeito, essas linhas podem expressar,

de maneira bastante clara, as atitudes do homem diante da morte e do seu cuidado com o lugar onde jazem os seus antepassados como um referencial de vida que ameniza, ainda que temporariamente, a dor da separação. Um dos maiores feitos do cristianismo foi o de conseguir, dentro da tradição semita, se impor como uma religião inumista. Não por acaso, Orígenes advertira na obra Contra Celsum sobre o cuidado que se devia ter com relação aos mortos, bem como o uso da procissão fúnebre.3 Da mesma forma, na procissão fúnebre medieval já se encontravam elementos que perdurariam por toda a Idade Média, ou seja, cantos, o carregamento de estandartes, da cruz e as relíquias dos santos.4 Os primeiros cristãos tinham o cos1 ASSIS, Machado de. O Memorial de Aires. São Paulo: Ática, 1976, p. 14. 2 É preciso notar tume de sepultar os seus mortos com que essa obra foi escrita após a morte de ritos próprios e em lugares separados, Carolina, esposa de Machado de Assis. De fato aos quais chamavam de coemeterium ela contrasta, dado o seu tom de desengano e às vezes de melancolia, da obra anterior ‘Esaú (palavra latina derivada do grego e Jacó’, de 1904. 3 CATROGA, Fernando. O céu koimètérium, forjada a partir do termo da memória. Cemitério romântico e culto cívico Koimâo, que tem por significado “eu dos mortos em Portugal, 1756-1911. Coimbra: Minerva, 1999, p. 41. 4 MONTEIRO, Antônio faço dormir”). Nesses espaços, com o Xavier de Souza, A sepultara eclesiástica, pp. 3-5. intuito de fugir da perseguição vigenIn: CATROGA. Op Cit. p. 42. 5 Ibidem p.43. te, os cristãos se reuniam para celebrar o seu culto. Mais tarde, a construção de igrejas se daria ao lado das criptas e catacumbas e, a partir do século IV, primeiramente os reis e, mais tarde, todos os comuns, passariam a ser sepultados dentro das igrejas. A morte passara, mesmo que de uma forma simbólica, a pertencer aos cuidados da Igreja, porquanto abadias, irmandades, corporações religiosas e de ordem terceiras passaram a dominar este terreno que se tornava de jurisdição sacerdotal. Era o enterro ad Sanctus.5 Quanto aos aspectos da cidade do Rio de Janeiro, pode-se dizer que proporcionava aos seus habitantes uma vida difícil. Na verdade, a cidade já nascera apertada, e por volta de 1660, o censo acusava uma população de 3.850 pessoas, dentre as quais 3.000 eram índias, as portuguesas somavam 750 e as pessoas negras totalizavam apenas cem almas.6 Seria difícil crer que a população da corte chegaria, em 1821, a 333 mil e que os escravos somariam a metade dessa população.7 Entrementes, no século XVI, a cidade se encontrava espremida entre os morros do Castelo e Santo Antônio; já perto do porto, as casas encontravam como limite o morro de São Bento e o da Conceição.8

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Entre estes últimos, situava-se a região chamada Valongo, que mais tarde, no século XVIII, ficaria famosa por abrigar um grande mercado de “almas”, do qual nos ocuparemos mais adiante. Com o tempo, o morro do Castelo, 6 ABREU, Maurício Almeida. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO/ local do início da colonização, já Zahar, 1987. Passim. 7 J. Roberto Pinto Góes, não pôde mais comportar toda essa de, São muitas as moradas: desigualdades e população, nem mesmo os prédios hierarquia entre os escravos. In: FLORENTINO, Manolo & MACHADO, Cacilda (Org). Ensaios públicos. Logo, a Casa da Câmara e sobre escravidão (1) Belo Horizonte: UFMG, Cadeia, principal símbolo, ao lado do 2003, p. 202. 8 Antônio Xavier de Souza pelourinho, da correção dos infratores, Monteiro, Op Cit., p. 32. teve que vir a se instalar cá na várzea de Nossa Senhora do Ó, a qual mais tarde viria a se chamar Terreiro do Carmo, atual Praça XV. A partir daí temos um novo pólo de irradiação da cidade no sentido norte e sul. Qualquer dos viajantes que por aqui chegasse logo poderia ter notado as ruas de traçado relativamente regular, retilíneo, numa trama enxadrezada em que se destacava a rua Direita, atual 1º de março, e a rua do Ouvidor. O mesmo viajante poderia ver grandes estabelecimentos rurais como o de Matacavalos, atual Riachuelo, e Capuruçu, que hoje é a rua da Alfândega, ambos em direção ao sentido norte da cidade. A água potável era, sem dúvida, um dos problemas mais antigos da cidade. Para resolver o problema do seu abastecimento, foi feito um aqueduto, idealizado pelo governador Ayres Saldanha, em 1719, que traria água do rio da Carioca para o Campo de Santo Antônio. O aqueduto conhecido como os Arcos da Lapa terminava em um chafariz que fora construído no local onde dantes existia uma lagoa, que, aterrada, se transformou em um movimentado ponto da cidade, freqüentado, sobretudo, por escravos (no atual Largo da Carioca). Esse chafariz localizava-se diante da rua da Vala, atual Uruguaiana, e era transversal à rua do Cano, hoje Sete de Setembro. Não era rara a imagem de escravos que aproveitavam a hora de buscar água para seu senhor para colocarem a prosa em dia, talvez falando das lidas diárias, e tomavam conhecimento de novos navios que atracavam no porto apinhados de mais pretos novos. É interessante notar que, mesmo em 1829, em pleno século XIX, aquela região ainda tenha sido percebida como um local de ajuntamento de escravos, concentrando uma boa parte do fluxo urbano. Como relata o reverendo Walsh, nessas raras horas, se distraíam ou se afrontavam:

Um dia estava olhando esse cenário extraordinário através das janelas do Convento de S. Antônio quando, de repente, toda a praça ficou em polvorosa. Os homens atiravam suas latas, as mulheres espirravam água para os lados e a polícia usava o chicote; todos brigavam, gritavam e riam na maior confusão.9

Voltando à época da conformação 9 WALSH, Robert. Notícias do Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia: EDUSP, 1985, p. 211. espacial e ocupação da cidade, nota10 ABREU, Maurício de Almeida, Op. Cit., p. se que a área urbana ultrapassaria os 32. 11 RODRIGUES, Claudia, Op. Cit., p. 32. 12 limites do morro do Castelo, chegando ABREU, Maurício de Almeida, Op. Cit., p. 32. até o Rocio, atual Praça Tiradentes. Entretanto esse centro era, sobretudo, ocupado por gente sem condições de mobilidade espacial, que precisava ficar sempre na cidade, a fim de conseguir alguns réis. Grande parte era formada por brancos pobres, escravos de ganho ou negros libertos que ganhavam a vida com trabalhos esporádicos no porto.10 Na região central, os trabalhos de carregamento de bagagens, de navios, de carroças que partiriam dali pelas ruas sujas e mal acabadas da cidade, eram mais freqüentes, sendo, portanto, um local mais propício para quem necessitava de algum dinheiro e que não tinha renda. Já as pessoas mais abastadas, nos séculos XVIII e XIX, que tinham maior poder de locomoção, iam em direção à Lapa, Catete e Glória,11 ou seguindo os passos de Carlota, se dirigiam ao Flamengo, Botafogo ou a São Cristóvão,12 sendo este último o local no qual a Família Real procurara tomar “melhores ares” que os do Centro do Rio de Janeiro. Sem dúvida, a chegada da Família Real em 1808 foi a propulsora de muitas transformações do espaço urbano, abrindo estradas, calçando ruas mal acabadas e aterrando locais alagadiços: A vinda da família real impõe ao Rio uma classe social até então inexistente. Impõe também novas necessidades materiais que atendiam não só aos anseios dessa classe, como facilitam o desempenho das atividades econômicas, políticas e ideológicas que a cidade passa a exercer. A independência política e o início do reinado do café geram, por sua vez, uma nova fase de expansão econômica resultando daí a atração – no decorrer do século – de grande número de trabalhadores livres, nacionais e estrangeiros. 13

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o que. de escravos novos. região essa que pertencia à Freguesia de Santa Rita. foi feito um aterrado. compreendendo uma reentrância que tomava toda a atual Praça da Bandeira e Leopoldina. hoje o Campo de Santana. chegaríamos à Praia do Valongo situada entre o morro do São Bento e o da Conceição. dando maior extensão territorial à Corte e funcionando como um escape para a população que ali habitava. A partir do morro do Castelo. para onde iria a família real. Em seu prolongamento tínhamos a Freguesia da Glória. que impulsionava a economia do novo Império. entrecortada por mangues e o mar. por sua vez. Por outro lado. que se estendia na direção do morro do Livramento e mais ao norte fazia divisa com uma área de mangue que era contornada pela estrada do Mata Porcos. requeria mais e mais dos escravos. tínhamos a Freguesia de São José. que mais tarde viria a ser aterrada. estaríamos nos domínios da Freguesia da Candelária. o Paço Imperial e a Cadeia. cada vez mais intensa. Daí em diante já era a Praia Formosa. “a ocupação desordenada e a falta de uma política metódica de limpeza e saneamento. que deveria ficar onde hoje temos a avenida Presidente Vargas. onde havia grandes estabelecimentos comercias.35 A partir de então. afinal. a cidade começa a sofrer transformações várias que irão proporcionar à classe dominante uma melhor condição de vida. atual Palácio Tiradentes. e o Caminho do Engelho Velho. se restringia praticamente a quatro freguesias: se chegássemos ao Rio pelo Largo do Paço. eles se tornaram as “mãos e os pés do senhor”. Nessa região se desenvolviam as atividades do comércio exportador e importador. Havia também a Freguesia do Santíssimo Sacramento. nas décadas seguintes de 1820 a 1830. Praticamente paralelo a esse caminho. compreendendo a Praça da Constituição até a Freguesia de Santana. No sentido oposto. com o Passeio Público e a Igreja de Santa Luzia que à época se situava à beira-mar. aliada às características climáticas”15 e à região. como se pode ver. local no qual se erguia a igreja de mesmo nome e o Cemitério dos Pretos Novos. tendo como ícone a famosa e já citada rua Direita. faziam . que será viabilizada com a vinda. o de São Cristóvão. A área urbana do Rio de Janeiro. pois.14 O Rio de Janeiro possuía uma configuração espacial de muito difícil acesso. compondo as partes mais antigas da cidade. trajeto mais fácil para se ter acesso a dois caminhos principais. atual Praça XV. que ia da Ilha das Cobras ao morro do Castelo.

). Op. 35. Cit. pelo padre José de Anchieta. Os cuidados já haviam sido tomados quanto à distribuição dos bens. Neste sentido. pp.18 Como disse Cruls: “até então para os mortos de categoria havia sempre uma catacumba no claustro dos conventos ou uma campa no chão dos templos. tudo já havia sido atestado antes e só restava aos seus o cumprimento das ordens. pessoas de certa posição social e que os seus pudessem arcar com as despesas do sepultamento. quando não do próprio altar. através de testamentos. 17 João José Reis. em terreno contíguo. Cit. os cuidados eram providenciados a fim de que a vontade do defunto fosse respeitada. as igrejas no Brasil recebiam os corpos de seus fiéis desde que tivessem sido. 34. Reis e do Império eram realizados ad Sanctus. tanto de colonos como de escravos. 36 . In: idéia da “boa morte” ainda estava ALENCASTRO.16 Rodrigues. 32. a mortalha com a qual deveria ser enterrado. do hospital da Santa Casa da Misericórdia. os injustiçados e escravos. pois. na vida secular. quanto mais alta a posição social do defunto. O modo do funeral. a hora da morte era administrada pelo moribundo de forma calma e serena. Aparência do Rio de Janeiro: notícia histórica e Neste sentido. 15 Claudia Rodrigues. de Claudia Rodrigues são abrangentes a ou seja. 34. Cit.da cidade uma constante fonte de epidemias que traziam a morte em todas as direções. nas igrejas. no Rio de Janeiro.”19 Tudo era organizado para que este momento da morte transcorresse dentro da mais perfeita ordem. Maurício de Almeida. Entendia-se dentro do pensamento católico que o momento da morte era o fim do corpo. Luis Felipe. 18 Claudia pessoa e o seu local de enterramento. Desta feita. (Org. p. Ao lado do hospital. A vida rude na Colônia. p. História da vinculada ao momento da morte da vida privada no Brasil. foi erguido um cemitério para o sepultamento das pessoas que lá morriam.17 Assim. nesse tempo. p. estava entregue nas mãos do serviço. tos durante o período colonial e parte Op. 14 ABREU. lidade ainda marcada pela época medieval. J. certas práticas e rituais eram entendidos como fundamentais para o sucesso no porvir. mas o início de uma vida no além. p. para a qual o homem deveria estar vigilante. o que significava maior possibilidade de uma vida feliz no além. praticamente voluntário. estar enterrado em uma igreja era estar perto de Deus. 19 Gastão Cruls. Op. o local e a igreja. maior sua proximidade com o templo. 234.. O cotidiano da morte no Brasil Oitocentista. dentro de uma mentadescritiva da cidade. 16 Os estudos de J. p. 95-141. Sabe-se que no Brasil os sepultamen13 Ibidem. a esse respeito. que havia sido fundada em 24 março de 1582.

que visitou o cemitério em 1832. geralmente com a cabeça virada para os pés do outro. o seu destino era o Cemitério dos Ingleses. Em todos eles. Então é realizada a cerimônia fúnebre para todos eles.20 e o dos mulatos. arborizado e à beira da Praia da Gamboa que. “o dos pretos novos. foi aberto um cemitério na Praia de São Cristóvão. por causa da forma precária com que funcionava o da Santa Casa. Algumas vezes nus. Tal cemitério havia sido criado em função do “Tratado de Amizade”. J. que visitou o Brasil em 1828. São colocados de lado. que estava sob os cuidados dos Franciscanos. J. Reis ressalta que “o Cemitério dos Ingleses no Rio de Janeiro estava adaptado à concepção de uma necrópole longe da cidade”. o descuido com o sepultamento era uma marca permanente da maneira com a qual eram administrados. Nunca estive neste lugar sem que houvesse quatro ou cinco corpos esperando para serem enterrados e ao sair sempre me encontrava com outros chegando. Cruls chamou de “mais ou menos clandestinos”. onde é hoje o Largo da Carioca. que são colocados nas covas sem caixões. É por isto que Maria Graham. no antigo Largo de Santa Rita. entre Portugal e Inglaterra. são depositados sobre um estrado numa casinha que fica no meio do cemitério. já “desaparecido”.22 O cemitério da Santa Casa chamou a atenção do reverendo Walsh. onde até 1825 houve um cruzeiro”. observou admirada o referido campo santo: . até que haja um número suficiente de corpos.21 A estes dois últimos. mas normalmente envoltos em lona. margeava o campo santo. Era limpo. e que também sepultava escravos. pela forma descuidada com que ali se praticavam os sepultamentos: O enterro é muito simples. Só em 1839.24 No caso de o morto ser um protestante europeu. datado de 1810.23 Até então. que se situava no Campo do Rocio e depois Largo de São Domingos. naquele tempo. com sua localização na Gamboa. que também ficou a cargo da Santa Casa e era conhecido como Cemitério do Caju (mais tarde renomeado como Cemitério de São Francisco Xavier).37 o de Santo Antônio. nenhum destes cemitérios citados até aqui conhecia práticas de sepultamento organizadas em bases regulares. Antes de serem enterrados aí. uma vez que os seus corpos eram deixados “à flor da terra”. faz-se uma cova profunda onde os corpos são colocados.25 O cemitério dos ingleses não se parecia em nada com o cemitério da Santa Casa.

320. p. p. tinham o espaço distribuído mais uniformemente. entre estes e as estradas algumas árvores magníficas.26 Com efeito. sempre junto aos vivos. o contraste entre ambos 20 Ibidem. Maria. uma vez que não praticavam sepultamentos em igrejas.. Os sacramentos “da Santa Madre Igreja” eram sete: “o primeyro. O completamente diferentes dos cemitécotidiano da morte no Brasil oitocentista. 23 Robert.27 Entretanto. a variedade de espaços funerários oferecidos pressupunha a própria diferenciação entre mortos. amenizada pela presença de árvores que. em certo sentido. em frente a este edifício ficam varias pedras e urnas e os vãos monumentos que nós erguemos para relevar a nossa própria tristeza. pp. p. os que viessem visitá-la não se sentiriam incomodados. 170. 27 Maria Graham. Op. p. 25 João José Reis. aqueles em conventos e uma grande maioria em cemitérios que deixavam os corpos à flor da terra. he o Bautifmo. 237.Julgo um dos lugares mais deliciosos que jamais contemplei. se viesse a ser sepultada ali. Cit. Já no catolicismo. 1956. Por outro lado. Op.. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Cit. mostrando a Salvação do Senhor para com o homem. a ponto de Graham afirmar que. 22 Ibidem. Cemitérios católicos eram Rodrigues. dominando lindo panorama. lugar funerário para os protestantes 366-7. Viagem ao Brasil. os cemitérios católicos apresentavam um ambiente tumultuado. Os protestantes.. sem “distinções” aparentes entre os defuntos. O fegundo. consistia em uma visão mais serena. Inclina-se gradualmente para a estrada ao longo da praia. 24 Claudia era notório.. p. 38 . Walsh. em todas as direções. Cit. 26 GRAHAM. que vez por outra rezavam por eles uma missa em sua memória. 21 Ibidem. conferiam ao local uma sensação de paz. ASPECTOS SOCIAIS E RELIGIOSOS NA AMÉRICA PORTUGUESA: OS SACRAMENTOS E AS IRMANDADES BEM PRESENTES NA HORA DA MORTE O sacramento consistia para o cristão no sinal que simbolizava o sagrado e fazia o papel de ligação entre Deus e o fiel. estes nos adros. 1. Uns sepultados sob a nave.. 367. rios protestantes: a representação do 130.2. de certa forma. os corpos sepultados pelos católicos ad Sanctus estavam. Op. no ponto mais alto de um belo edifício. no qual corpos insepultos se misturavam à terra deixando uma sensação de desespero e desorganização.

& do Reyno do Ceo”. Livro. Op. 33 Ibidem. & porta por onde fe entra na Igreja Catholica & fe faz o que o recebe. passando desta forma a ser um “filho de Deos. & Spiritus Sancti”. Propostas. esses sacramentos representavam uma união íntima de Deus com o homem e por isto situavam-se em momentos cruciais da vida. Cit. Constituiçoens primeyras do Arcebispado da Bahia feytas. 1º. em caso de extrema necessidade. se interpõe como a verdadeira porta da de Jesus. e reverendissimo batismo como “porta de entrada para senhor D. padre. Livro. O quinto. acompanhando a existência da pessoa. Penitencia. 1º. deveria dizer: “Ego te baptizo in nomine Patris. porque o batismo praticado pela Igreja Católica há muito. ao que se sabe não há registros de casos deste tipo ocorridos no Brasil. & feyto herdeyro da Gloria. Matrimonio” [sic]. título X. título XXII.. segundo as Constituições primeiras. as crianças de até 29 Vide. O quarto. No Brasil. o céu”. ela Coimbra: No Real Collegio das Artes da Comp.39 Confirmaçaõ. ao realizar o batismo. o primeiro indicado era o batismo. sem o qual era impossível ao homem gozar o paraíso. & filij. tem rem o sacramento por imersão. O terceyro. Cit. fem o qual nenhu dos mais fará nelle o feu effeyto. O feptimo.. (sic.30 O sido o de aspersão. e ao mesmo tempo se coloca aceytas em o Synodo Diecesano que o dito senhor celebrou em 12 de junho do anno de 1707. ou mesmo fazer parte da Igreja: O bautifmo he primeyro de todos os Sacramentos. salvação. 3º. Ordem. & momento em que a Igreja classifica o ordenadas pelos illustrissimo. Op.31 e muito embora as Constituições rezassem que. Por exemplo. também na hora dos últimos acertos antes de passar para a eternidade. capaz dos mais Sacramentos. 31 Muito embora oito dias de nascidas eram levadas às Vide ressalte que o batismo deveria ser por pias batismais pelos pais na presença imersão.32 . qualquer pessoa pudesse batizar. 30 Vide. do nascimento até a morte. Um outro “effeyto” do batismo era o seu poder. no 28 VIDE. Sebastião Monteiro da. Extrema Unção. título X. Sebastião Monteyro da Vide. de perdoar pecados e mesmo faltas graves. cõmunhaõ.) como a única capaz de realizá-lo. para os participantes da mesma fé. 565.28 Antes de tudo. estes sacramentos tinham uma seqüência que acompanhava o desenvolvimento do homem. Segundo as Constituições primeiras. a fim de recebeterra ao longo dos anos. livro. crê-se que tal costume caiu por dos seus padrinhos.29 É importante que se ressalte que. 32 Ibidem. e. O fexto. 1720.

porém. e o padre os batiza em massa e com um só nome. como nos casos dos angolas. mas também na África. muitas vezes em número maior de cem. Após se assegurar de que os escravos não haviam recebido o batismo nos portos africanos. a partir daí. buscando a sua “conversão”. ter acesso ao Reino dos Céus. Nota-se que a preocupação premente do batizador é a de levar o escravo a deixar as velhas práticas tidas como pagãs. são eles batizados antes de embarcarem. Várias páginas dela versam sobre o cuidado a se ter para com o batismo de escravos. o padre deveria fazer as seguintes perguntas aos cativos: Queres lavar tua alma com a agua fanta? Queres comer o fal de Deos? Botas fóra de tua alma todos os teus peccados? Não has de fazer mais peccados? Queres fer filho de Deos? Botas fora da tua alma o demonio?33 Após as perguntas serem respondidas.34 Daí fazer com que os escravos ingerissem o sal seria o mesmo que lhes fazer renegar os seus poderes místicos. a abstenção do sal conferia o patamar de um feiticeiro com poderes bastantes para retornar voando à África ou saber as coisas ocultas aos homens. os servidores da Igreja têm nisto uma boa renda.35 40 . A ingestão do sal era um outro costume evitado na religiosidade africana. sua cultura e submetê-los a um novo dogma. como ele assim relatou : Em Angola e Benguela. Na cosmogonia banto.O cuidado com o batismo dos escravos também foi contemplado nas Constituições. característica das religiões antigamente chamadas de animistas. os batismos não só eram realizados no Brasil. dada à adoração de astros e antepassados e uma forte relação com a natureza. os escravos poderiam ser batizados e. Como o padre recebe pagamento por cada escravo pode-se imaginar que sendo tantos escravos que embarcavam. Segundo o viajante alemão Freireyss. tais como a adoração de outros deuses. O processo é muito especial: ajuntam-se todos.

nota ao texto. dizia o padre: seu nome é Pedro. ou que efetevaõ em duvuda fe foraõ. Op.] para que um pároco as batizasse. há descrições que se aproximam bastante das condições ditadas pelas Constituições até na África. no qual a Igreja Católica buscava impedir o avanço de práticas consideradas desvios da fé e.. p. como vimos acima. Para além da questão da crítica feita pelo alemão ao lucro escravista. 38 Charles R Boxer. Livro 1º. que venhaó das ditas terras fem ferem bautizados. antes de aspergir com um hissope água benta em toda multidão[. era batizada no porto do Rio de Janeiro. Apud: Mariza de C. Neste sentido. EDUSP. e pondo-lhe na língua uma pitada de sal. título X. Mary C. o qual. 343. ou naõ. como o que foi relatado por Charles R. Não era cerimônia muito demorada. Itatiaia. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808-1850).. 123-4. 243. como era recomendado pelas Constituições.. quer-se destacar o fato de que. No entanto. 1602-1686. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola. São Paulo: Companhia das Letras.41 Segundo Freireyss. 35 KARASCH. mandamos fe faça muyta dilligencia por averiguar a verdade” Vide. G.. ele não era observado em vários aspectos. ele reaparece junto ao uso do sal e da água benta. EDUSP. quando chegada sua vez. Belo Horizonte. Viagem ao Interior do Brasil. neste. segundo ele. São Paulo: Editora Nacional. Soares. somos tentados a perguntar qual era a abrangência deste código sinodal.W.37 A despeito do batismo em massa.] no dia do embarque eram levados à igreja das proximidades [. 37 A questão dos batismos terem sido feitos em África ainda não está clara. visava a uma valorização da mercadoria humana. 2000.. se não a maior parte.. as Constituições aventam a possibilidade de que muitos escravos viessem sem o batismo. Pelas condições naturais impostas aos escra- . Porém. A historiografia tem demonstrado que muitos escravos. cf: “E porque os efcravos. se realmente os escravos eram batizados na África. eles estavam aptos a adentrarem as portas da nova religião em toda a sua plenitude e serem feitos “filhos de Deus”.]. teriam pleno direito a um funeral cristão com todo o ritual Católico e em solo sagrado. em certo sentido. 1982. p. o batismo às vezes era realizado sumariamente e em massa nos porões dos navios. o seu João. algumas centenas de cada vez. 36 FREIREYSS. São Paulo. & outras peffoas. Ed. como o do relato de Freireyss. A cada escravo. seria difícil tomá-lo como um documento fidedigno do cotidiano religioso.. a qual depois de batizada dobrava o seu valor perante o comprador. que coftumaõ vir de terras de infiéis. à espera de embarque [. 1973. o seu é Francisco e assim por diante. Se muitas regras eram quebradas. 36 Muito embora saibamos que as Constituições primeiras foram redigidas num momento singular. 257. pp. p. barrar a própria reforma luterana que ganhava terreno no Velho Mundo. Cit. Os escravos destinados a serem exportados por Luanda eram alojados em barracões. já que. Boxer: 34 Ibidem. póde acótecer. dando a cada qual um pedaço de papel com o nome por escrito.

na qual as velhas práticas pagãs deveriam ser evitadas a todo custo. negro. compulsoriamente eles eram incluídos no novo meio cultural. gatos ou cavalos. gatos e cavalos. um era branco. e sede felizes. estais a caminho de terras espanholas (ou portuguesas) onde ireis aprender coisas da fé. recebendo logo após um nome cristão. muitos negros eram admitidos no clero e. eles seriam filhos de Deus a caminho de um lugar distante onde aprenderiam as coisas da fé. os quais celebram nas igrejas junto com os brancos.] Em parte isso pode ser responsável pela admissão de negros nas ordens sagradas. Ele implicava. os escravos eram exortados a não se deixarem levar pelas antigas práticas. sois já filhos de Deus. não era difícil se ver padres negros celebrando missas. para os escravos. sobretudo. O reverendo Walsh. Agora podeis ir. Também não se deve incorrer no erro de julgar que o sacramento do batismo consistia apenas em um ato exterior. dentre as quais: comer animais tidos por impuros. sendo submetido a um novo Deus. Os dogmas eram de fato ensinados. deixai de comer cães. um modo de imprimir-lhes a nova religião. ninguém. Ou seja. os senhores deveriam verificar se os escravos já haviam sido batizados. marcar o “nascimento de uma nova vida”. esquecei tudo que se relacione com o lugar de onde viestes. como se vê na continuação do relato de Boxer: Então. pode-se imaginar que o escravo tenha sido forçado a comer o chamado “sal de Deus” ao qual se referiam as Constituições. a não ser as pessoas das classes inferiores. Voltando às recomendações do arcebispado da Bahia.. outro mulato e o terceiro. consagra seus filhos a ela [. mera formalidade para se poder ser aceito tanto no meio religioso quanto no social.. De agora em diante. assim.”38 Após receberem o primeiro sacramento. um intérprete negro a eles se dirigia com essas palavras: “Olhai. Eu próprio vi três padres numa mesma igreja. como no caso de cães.vizados. segundo o intérprete. que veio ao Brasil como capelão da comitiva de Lorde Strangford relatou o que viu assim: Os atrativos que a Igreja oferece são tão poucos e a remuneração tão limitada que os homens de famílias prósperas ou de mais cultura sempre preferem uma ocupação mais atraente ou proveitosa. na mesma hora.39 42 .

de um santo de cor ou de uma Nossa Senhora preta. 158. p. Cit. Não só os padres negros eram bem aceitos pela população escrava.43 Com efeito.41 Pensar desta forma seria não levar em conta as necessidades mais prementes do homem. a auto-identificação da população que. de vez em quando. mento de uma disposição da própria Igreja em motivar o surgimento de padres negros. Op. exclamou certa vez um negro velho que se achava perto de nós quando viu surgir em meio à procissão a imagem de um santo de cabelo encarapinhado e lábios grossos. levar a termo a obra evangelizadora. São Paulo: Ática. é fácil entendermos o que o reverendo Walsh achou . 39 SOARES. formando antes de tudo um espaço possível de sociabilidade. 133. Mariza de apenas pelos baixos salários ou falta de C. ainda que por vias e interesses diferenciados. Mariza de C. o velho exprimiu exatamente os sentimentos visados com tais expedientes. mas os santos também o eram. Como bem frisou Kidder: Nenhuma outra classe se entregava com maior devotamento a tais demonstrações religiosas que os negros. 69. particularmente lisonjeados com o aparecimento. permeada pela ação dos leigos num momento em que a própria Igreja se mostra impotente para.. 44 Daniel Parish Kidder. a admissão de negros no interior do Caio. enquanto seres humanos. como veremos nos capítulos a seguir. bem como dar espaço para a criação de irmandades de homens negros. Robert. 41 BOSCHI. retirando a capacidade de que vejam as irmandades como um espaço de sociabilidade. o clero negro emprestou à Igreja uma nova face na qual a cor do Brasil refletia. uma outra faceta de nossa religiosidade foi.. p.42 Esses leigos transpassaram a Igreja. qualquer possibilidade de luta e de resistência. Boschi chamou de “sincretismo planejado”. Não é possível acreditar que as irmandades “escamoteavam o permanente conflito de classes”. “Lá vem o meu parente”. 69. 257. Cit. Op. Não que isto tenha sido o que Caio C.43 Diferentemente do que pensava Walsh. Sabedores disto. Cit. Pensar assim seria retirar dos escravos.40 ou seja. desde a necessidade de aceitação até o convívio no meio dos seus. e. Seria não enxergar a multifacetada religiosidade praticada nos trópicos. Os leigos e o poder. clero pode ter sido motivada não p. p. pp. 42 Ibidem. 1986. servindo de apoio para as práticas religiosas em comunidade e veículo de ligação entre o povo e a direção clerical. pôde unir esforços que amalgamaram a vida religiosa. 40 WALSH. Op. no seu transporte de alegria. um plano “ardiloso” arquitetado no sentido de fazer os escravos serem cooptados pela nova religião. p.134-139. Reminiscências de viagens e permanência nas brancos para o cargo. mas do nasciprovíncias do Sul do Brasil. sozinha. com certeza. Da mesma sorte.. 43 SOARES.

todos são homens que. e extrema-unção. pelo menos na teoria.45 separar o “óleo de oliveira bento pelo bispo”46. um irmão carrega uma cruz. 44 . transportado por seis pessoas. a fim de que os sacramentos lhe fossem enviados. uma vez batizados. Ao fundo. o doente deveria comunicar ao padre de sua paróquia. segundo J.48 bem como os irmãos que seguem à frente também o são e estão vestidos com (o que deve ser) o hábito da irmandade. Além destes. Mais distante. em anexo). que impediriam os pretos novos de receberem um sepultamento no mínimo coerente com as normas clericais. se é que existiam. Após tomar ciência do fato. se posiciona uma fanfarra composta por negros que tocam instrumentos de sopro e percussão. passaremos a analisar a unção do enfermo. Depois.47 O padre segue sob o pálio. Em plano mais afastado. que portam seus mosquetes em ombro armas. retratou o momento no qual o viático repleto de pompa chegava à casa de um doente (figura 1. Segue a penitência. via familiares ou irmandades. diante da casa da enferma. O sino da igreja era tocado para chamar todos os fiéis a acompanharem o viático. a fim de verificarmos quais seriam os mecanismos. a eucaristia. e mais os sacramentos da ordenação e do matrimônio. tais como toalhas e incensório. ou mesmo ao cair enfermo. pertencem à irmandade do Santíssimo Sacramento. a unção dos enfermos. no Rio de Janeiro. percebemos que os pretos novos. o padre deveria preparar o viático. estavam aptos a ingressar nesta nova religiosidade. momento da comunhão entre homem e Deus. se participava de uma. para que por meio dele se fortalecesse a fé dos já batizados. no qual o primeiro toma parte do corpo de Cristo. o batismo é o primeiro de todos os sacramentos. sacramento no qual o homem pedia perdão dos seus pecados e culpas. Haveria então algum outro fator que impediria o sepultamento digno? Ao pressentir a morte. Por enquanto. Debret ressalta que se trata de um viático completo e não é difícil concordar com sua interpretação. pleno acesso a esta. ladeado por dois outros que trazem tochas. pois a casa que o recebe é nada menos que um sobrado. extrema-unção. em 1820. aos que estavam doentes. no caso daqueles que estavam em vias de morrer. Reis. Após. J. tendo.deveras estranho: “No Brasil vêem-se negros celebrando as missas e brancos recebendo o sacramento de suas mãos”. e os utensílios.44 Como dissemos anteriormente. Para efeito da nossa pesquisa. Debret. há uma guarda composta de soldados. vem o sacramento da confirmação.

A morte também era um momento de reparação moral [. E após o padre fazer o sinal da cruz. 49 REIS. título XXIX. Se fosse constatada a negligência por parte do pároco. 104. E depois de rezar um Pai-Nosso e uma AveMaria. já que as pessoas que participavam recebiam o perdão das faltas cometidas em retribuição pelo feito. e mesmo testamentária. João José. o doente poderia partir em paz. ele seria punido com a suspensão do ofício pelo tempo de um ano. Op. se... depois de haver melhorado. Depois. p.53 . p. faõ concedidas muytas indulgencias pelos Summos Pontifices: & o noffo Prelado lhes concede os feus quarenta dias. 105.. pois pelo mesmo caminho que ele e o “acampamento” vieram. 113. quando o padre se despediria do povo que participou do viático dizendo: “A todas as peffoas. 16. Cit. não tivesse providenciado o viático. 46 Conforme o Dicionário contemporâneo da língua portuguesa Caldas Aulete. Velhos pecados da carne eram corrigidos na hora da morte. também podendo culminar com a prisão no aljube. João José. 53 Ibidem. deveriam retornar até o lugar de onde origem. Robert.” 50 Absolvido. 51 VIDE. A morte é uma festa. Cit. e quantas vezes fosse preciso o viático iria até o enfermo. o doente então confirmaria. título XXIX. 52 Ibidem. e aspergir o óleo. 192. p. 159. 95-141. p.” 52 Como se pode ver. 50 REIS.) o doente depois de cõmungar por viatico e viver alguns dias. Com efeito. que acompanharaõ o Santiffimo Sacramento.. p. E. por ocasião dos visitadores outras irregularidades fossem descobertas.49 Logo após a reparação moral. Op. que. uma das características do momento da morte é com certeza este momento de reparação dos danos causados. Havia uma pena prevista para o pároco que deixasse uma pessoa de sua freguesia morrer sem o Sacramento da Eucaristia. ou. & quizer comungar mais vezes por viático”. O cotidiano da morte no Brasil oitocentista. o padre demandava ao doente se ele de fato pedia perdão a todos por algo que tivesse feito.51 deveria comunicar novamente ao pároco.. 47 VIDE.. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.) sacramento da Eucaristia que se administrava aos doentes impossibilitados de sair de casa ou aos moribundos”. tornar a perigo de morte.45 Ao chegar à casa do enfermo. As Constituições também recomendavam que se “(. pp. Como assegura: 45 WALSH. Logo em seguida. participar de um viático era vantajoso para os participantes. o enfermo ouviria: “Indulgentiam Vc. título XLVII. ainda que avisado. viático é o “(.] Fazer justiça aos que ofendera significava limpar-se para enfrentar a justiça divina.. o padre deveria saudar os presentes. O viático não se desfazia na casa do enfermo.. 104. o enfermo ouviria o padre ler um texto eclesiástico sobre o Corpo de Cristo. 48 Jean Baptiste Debret. deveria exortar o enfermo a pedir perdão a qualquer um dos presentes que o moribundo tenha ofendido.

conforto.54 sob pena de excomunhão. já que o mesmo documento proíbe o uso de altar móvel ou fora de “Igrejas. Ermidas. Nestes casos. “se for decente”. Como nas gravuras de Ars Moriendi. procuraria de todos os modos ganhar a alma do moribundo e levá-lo para o inferno. o pároco deveria ministrar os sacramentos ao moribundo rapidamente. & auxilio na hora da morte. cercado pelos seus familiares e amigos [.] seres sobrenaturais invadiram o quarto e se comprimem na cabeceira do ‘jacente’.57 46 . As mulheres de qualquer estado civil estavam proibidas de saírem no viático “antes do fahir o Sol. neste momento derradeiro. para nos dar efpecial ajuda. Neste caso. mas devagar e com calma se percebesse nele sinal de que não morreria de imediato.56 Philippe Ariès já chamou a atenção para o fato de que. como definio Sagrado Concilio Tridentino. o moribundo deveria ser exortado a se arrepender dos seus pecados e males praticados em vida. se o enfermo não tivesse melhorado e estivesse prestes a morrer. dos séculos XV e XVI: O moribundo está deitado. O viático não poderia sair à noite. De um lado a Trindade. Satã e o exército de demônios monstruosos. do outro.Vide insiste na necessidade de se levar à missa doentes que morrem em lugares ermos. onde não há gente para acompanhar. no pensamento do homem medievo. salvo se o doente estivesse em perigo de morte. a hora da morte era um momento de uma batalha sem igual. conforme prescreviam as Constituições primeiras: He o Sacramento da Extrema Unçaõ o quinto dos da Santa Madre Igreja. ou Oratórios aprovados”. Todavia. iftituido por Chifto Senhor noffo. Em seu leito de morte.. o moribundo deveria resistir bravamente às tentações que lhe sobreviessem. prescrevia que se realizasse a missa na casa do doente.. de grande utilidade para os fieis. & perigofas. a Virgem e toda a corte celeste e. ou de um vizinho. tão dominado pelos dogmas religiosos. em que as tentaçoes no noffo commum inimigo coftumaõ fer mais fortes. ou depois de pofto”. O “astuto”. de difícil acesso. a fim de que a sua alma fosse assunta ao céu. fabendo que tem pouco tempo para nos tentar. no qual se procurava de todas as formas arrebatar a alma do morto. mas com o cuidado para que não se faça disto uma constante.55 A hora da morte era vista como um momento de intenso combate entre a luz e as trevas.

com efeito. Isto mostra que as pessoas de fato recorriam à igreja a fim de obter uma “boa morte” e queriam ter os seus pecados perdoados. gravura do livro Ars Moriendi. p. Ariès reproduz uma 53 Ibidem. dar saúde ao enfermo.62 . Cit. querendo-fe elle reconciliar. O propósito da extrema-unção era o de perdoar os pecados “ficando aliviada a alma do enfermo”. Nele.093 casos.8% receberam todos os sete sacramentos. em sua santa sabedoria. 191. um ato importante da vida religiosa. Cit.61 Entrando em cafa do enfermo dirá: Pax huic Domui. 58 Ibidem. o enfermo já estava à beira da morte. dada a Cruz a beijar ao enfermo. quando o padre chegava à residência. e levar com paciencia as dores da enfermidade”. & naõ as dizendo de còr: & ungirá logo o enfermo com os ritos. 8. Trata-se os naõ podem vifitar. “ou em todo. o ouça: & logo continuará o mais Ritual. 59 VIDE. Título XVIII. e demônios se digladiam pela alma amoeftando a todos a que logo fe confeffem. a imagem de santos que “antes que lhes apliquem medicinas para o corpo.1% dos moribundos recorreram ao sacramento. Claudia Rodrigues ao se debruçar sobre os pedidos de sacramentos da Freguesia do Santíssimo Sacramento.58 As Constituições. Cit. intitulada Tentação na Título XXIX. 56 Ibidem. o que se quer é que o jacente a enfrente com resignação. uma vez que seguiam a orientação tridentina. do final Op. observou que num universo de 4. ou em parte”. & cerimonias ordenadas pela Santa e Madre Igreja. & ao menos hua véla acefa. p. no Rio de Janeiro do século XVIII. 54 VIDE. Op. XLVII. & curar. p. reafirmavam o valor da presença do padre e do sacramento. passando diretamente à extrema-unção. e dos casos analisados. assustado a batalha travada.47 No texto acima. 57 ARIÈS.2% receberam apenas a extrema-unção.. de um moribundo que contempla declarando-lhes. 31. 47. aguardando apenas o dia da ressurreição. p. & pofto oleo fobre uma mefa. permite que ela chegue para seus filhos. 55 Ibidem. lendo por elle as preces. A morte deve ser aceita como um desígnio de Deus que. por lhes eftar prohibido por direito e por Conftituiçaó” após da última investida de Satanás. p. 60 Vide exorta aos médicos convicção. o médico não podia visitar mais.. do século XII. q para ifso deve eftar aparelhada cõ toalha limpa. Destes. Tem de confessasse. ter plena convicção da sua salvação e Cf: Vide. a fim de trazer conforto e alívio. Op.59 A morte não é evitada nem é este o seu propósito. se o enfermo não isto o jacente não deve vacilar. 112. 160 encarar a morte tranqüilamente e com confiança. Livro 1. 50. Título XXX.. não havendo tempo de o padre ministrar os outros sacramentos. tratem primeiro da alma. Ao contrário. que fe affim o naõ fizerem. e confortar. “para quem na agonia da morte poffa refiftir aos affaltos do inimigo. por três visitas e admoestações.60 A extrema-unção era.193. o que significa que na maioria dos casos.

descobrimos que não poderiam ter sepulturas cristãs os que se recusassem a receber os sacramentos. o padre deveria fazer as seguintes perguntas: O teu coraçaõ crè tudo que Deos diffe? – sim (resposta do escravo).66 Se houvesse dúvida da morte. “mas fó nos cinco fentidos”.. com certeza por causa do forte pudor da época. O teu coraçaõ ama fó a Deos? – Sim.63 Se o enfermo estivesse muito mal. os sacerdotes deveriam ungir nas costas das mãos e não nas palmas. naõ fará mais por diante. auditum. Assim.”67 No caso da extrema-unção ser ministrada a um escravo. a parte pelo todo.65 Ou seja. As mulheres não poderiam ser ungidas nas costas nem nos peitos. orelhas. Queres ir para onde está Deos? – Sim.[. não se fizesse a cerimônia às escuras: a vela simbolizaria a luz que iluminaria a viagem do morto em direção às mansões celestes. per iftam Sanctam Unctionem &c. principalmente a extrema-unção. De novo nos inquirimos se os recém-che- 48 . para que. & fuam piiffimam mifericordiam indulgeat tibi Dominus quidquid deliquifti. boca e mãos.]Porèm fe. deveria haver ao menos uma vela acesa. o enfermo morrer.. Se ao final o enfermo ainda estivesse vivo. o sacerdote diria: “Si vivis. mas nenhuma negativa quanto a algum tipo de escravo. sem dar tempo de ministrar todas as unções. impedir os escravos recém-chegados de serem sepultados decentemente. Eram cinco: nos olhos. per vifum. Queres morrer porque Deos assim quer? – Sim. prestes a morrer. num momento tão delicado e carregado de tensão. segundo os dogmas da Igreja. Quando enfim o jacente estivesse prestes a morrer. guftum. nariz. enquanto fe eftá ungindo.64 nem os homens nas costas se houvesse perigo de vida. as costas das mãos representando as costas do doente que não pode ser movido. Deos há de levarte para o Ceo? – Sim. adoratum. o sacerdote deveria dizer: Per iftam Sanctam Unctionem. & tactum.68 Analisando as Constituições primeiras a fim de verificar o que poderia. então o padre deveria dizer as preces faltantes. o padre poderia omitir uma ou todas as preces e ministrar as unções.No domicílio do moribundo.

enterraremfe os corpos dos fieis Christaõs defuntos nas Igrejas. Johann Emanuel Pohi. quem não poderia receber a extrema-unção eram os “meninos que naõ tem ufo da razaõ”. & que eftiverem em peccado publico”. & affitir às Miffas. título Liv. “doudos. Livro 3º. eles não poderiam ser sepultados em campo santo. Claudia. Resta sabermos se o Cemitério dos 61 RODRIGUES. 201. os que entram em batalha ou perigo em alto mar. os justiçados. título XLVII. Livro 1º. Título XLVII. ao participar de uma local destinado ao descarte de escravos procissão. p. 200. Cit. Cit.. ao colocar o morto perto dos vivos. 196. 200. ele classifica como solo sagrado. título XLVII. p. Voltando ao texto do jesuíta Sebastião 69 Ibidem. título XXXII. A vida comunitária estava basicamente circunscrita às freguesias e estas ligadas à igreja. Livro 1º. Op. antigo & louvavel na Igreja Catholica. 68 Ibidem. Viagem ao boçais. e o fato de se sepultar em templos: “He coftume pio. 67 VIDE. no sentido de mostrar ao homem a finitude humana. Mas nenhuma menção no sentido de excluir os pretos novos. Op. Cit. ou seja. Ele não está de todo esquecido. e “doudos perpetuos”69 salvo tenham recebido o sacramento em algum momento de sanidade. Op. Monteiro da Vide. 200. & defacifados”. encontramos o que Livro 4º. 63 De Pretos Novos era de fato considerado conformidade com o recomendado pelas um cemitério cristão. & Oficios Divinos. justificando os sepultamentos ad Sanctus.71 Outra característica deste tipo de inumação é o fato de não excluir o morto da vida da comunidade. ficaria claro o motivo da forma de título XLVII. p. 201. 70 Ibidem. os pretos novos não poderiam receber a extremaunção. 66 Ibidem. . Pohl. Por outro lado.49 gados. e a necessidade de uma vida pia.. tese. já que as igrejas são locais onde se reúnem os fiéis e a comunidade comparece para a discussão de assuntos comuns. 65 Ibidem. sepultamento precária praticada ali. a igreja age pedagogicamente.179. 64 VIDE. & cemiterios dellas”70 lembra o bispo do arcebispado da Bahia. Uma vez confirmada esta hipóinterior do Brasil. “excomungados impenitentes. ou apenas um Constituições. Cf. a que todos os fieis concorrem para ouvir. p. Neste caso. pode presenciar o quarto cheio de velas. 46. Orações. Livro 1º. efpecialmente dos feus. tendo à vista as fepulturas fe lembraráõ de encomendar a Deos noffo Senhor as almas dos ditos defuntos. 585. 62 VIDE. 843. Porém. E prossegue explicando o motivo de tal ato: porque como lugares. segundo o tal documento. 71 Ibidem. p. Cit. Op.

local no qual as almas. Maria Graham ao visitar o Brasil pôde presenciar um cão arrastando um braço negro. Ela ainda comenta que um negro novo quando morre. bem como os mosteiros e conventos. condiçaõ & qualidade que seja. enterrado. & menos rigorofa fe naõ deve cumprir. Ele reclama que em visitas ao Arcebispado havia visto muitos senhores que enterravam seus escravos no mato. Logo após explicar o motivo dos sepultamentos ad Sanctus. applicados para o accuador.73 Contra estas práticas. O texto condena o sepultamento em qualquer outro local como uma prática inconveniente para os verdadeiros cristãos. a fim de livrá-los do “purgatório”. fejaõ enterrados nas Igrejas. por vezes nem sequer é enterrado: amarram-no num pau e à noite é atirado à praia “de onde talvez a maré o possa levar”. Os mortos estão junto dos vivos. “como fe foraó brutos animaes”. Os parentes encomendam missas pelas almas dos seus entes e amigos. enterrado apenas sob algumas polegadas de areia. com certeza. & fuffragios do efcravo defunto. & naõ em lugares naõ fagrados. como cães e em solo não sagrado. & mãdamos.74 e impõe pena para que assim se proceda: Mandamos sobe pena de excomunhão mayor ipfo facto incurrenda. segundo a Igreja Católica. ou mãde enterrar fóra do fagrado defunto algum. ainda qie elles affim o mandem: porque effta fua difpoffiçaõ como torpe. Sabe-se que dependendo das posses dos defuntos.72 Nota-se que Vide entende por solo sagrado os templos erigidos pela Igreja ou com sua licença. até serem transportadas ao paraíso. e que ao mesmo tempo. Vide dirige as suas admoestações explicitamente.Os mortos que estão dentro das igrejas. fendo criftaõ bautizado. são vistos pelos seus sempre que os mesmos visitam os templos para assistir às missas. o arcebispo complementa: Portãto ordenamos. que peffoa de qualquer aftado. aguardam algum tempo. Também entende por solo sagrado os cemitérios administrados por estas instituições. q todos of fieis q nefte noffo Arcebifpado falecerem.75 50 . muitos senhores nem sepultavam os seus escravos. nem sempre se conseguia um sepultamento Ad Sanctus. & de cincuenta cruzados pagos do aljube. ao qual fe deve sepultura eccllefiaftica. ou cemiterios.

p. ou em um cemitério conforme as posses do finado. ao ter o controle sobre a morte e o sepultamento. ou outro batizado poderia ser sepultado sem os Sacerdote de feu mando”. da mesma assegura que “Conforme a direyto. Livro 76 sacramentos devidos. “levam os corpos para frente das igrejas para recolher esmolas e. Cit. Finalmente. É ela quem vai conduzir a procissão fúnebre e avisar aos irmãos do falecimento. nenhum cristão que tenha sido defunto pode ser enterrado fem primeiro fer encomendado pelo seu parocho. 74 VIDE. É neste momento que entra em cena a irmandade à qual o falecido pertencia. quecer ou fechar os olhos para o fato de título. Cabe a ela a parte burocrática neste momento de pesar para os familiares. Também se deve deixar de lado a possibilidade de que os pretos novos não pudessem receber uma inumação cristã. Cit. Desta forma.51 Pelas Constituições ninguém poderia ser 72 Ibidem. colocando-se como único espaço a ser procurado. IV. Livro 4º. 76 Ainda sobre este assunto. Op.78 . A prática de tais sepultamentos não estava amparada pela legalidade da norma eclesiástica. Fica claro que havia motivos outros para a falta de cuidados eclesiásticos naquele cemitério que não passavam por nenhuma ordenação clerical. Livro 4º.”77 Como se pode ver. Op. Op. VIDE. Não se pode es4º. título Liv. fazer valer o testamento na presença de um clérigo e sepultar o corpo. p. que a Igreja procura neste momento legitimar a sua ação como única qualificada a realizar os sepultamentos. Vide evocava o direito canônico.. o Cemitério dos Pretos Novos se encaixava na qualificação de solo sagrado. só restava velar o corpo. 812. Desde a procissão até a sepultura. cõforme fua vontade. Ou seja. pois era administrado pela igreja de Santa Rita. pertencia a uma jurisdição eclesiástica. ao mesmo tempo que impede que outras pessoas possam praticar os seus próprios ritos. Vide deixa subentendido que. 77 VIDE. 73 GRAHAM. que bem lhe parecer. 844. tudo passaria por ela. 845. sepultado fora de solo sagrado e o texto 75 Ibidem. possuindo até livro de óbitos para este fim. No caso de irmandades sem recursos. Conclui-se que se deve descartar a hipótese de que o motivo que levava às práticas sumárias de sepultamento era por se tratar de um cemitério clandestino ou de solo não sagrado. ou adro. Cit.. Cit. ela impede que novas práticas religiosas ajam de forma legítima. & mandar enterrar feu corpo na Igreja. se não recolhem a quantia necessária abandonam o morto para ser entrado pela ‘misericórdia de Deus’”. Op. p. Morrendo de fato.. & devoção. título Liv. comunicar aos parentes. 141. Maria. ou após a saída do viático. p. que concedia: “a todo o christaõ eleger fepultura. por serem escravos. nenhum forma. Daí por diante o trabalho se concentrava em sepultar o defunto em uma igreja. nem em nenhum outro dogma religioso.

O fenômeno das irmandades só pode ser entendido no Brasil setecentista à luz das práticas das manifestações religiosas na qual a vida religiosa e a civil estão imbricadas. as coisas não iam tão bem. pouco assistida pela metrópole que. Com início no século XIV. até o morrer. por outro. Pode-se citar como exemplo das dificuldades que atingiam a todos o fato de que nem mesmo a antiga igreja de S. de conformação geográfica difícil. o Rio de Janeiro era um exemplo de cristianização incompleta. desde o nascer. mas também nas casas. quando lavrava o óbito. a data. Ela se apresentava para o indivíduo como um campo de ação possível para a viabilização dos anseios mais diversos. Assim. Voltamos a lembrar que o Rio de Janeiro. Sebastião estava imune às dificuldades e à pobreza e. a força motriz que faz igrejas e capelas é a própria devoção dos moradores da cidade. suprindo as carências mais imediatas de uma população colonial. tornando-se praticamente indissociáveis. a religiosidade católica do século XVII se encontrava perpassada pela ação de leigos. a condição jurídica e os padrinhos. Ao mesmo tempo. Porém. neste mesmo período. em livros próprios. nesse aspecto se dividiam conforme a etnia em irmandades de suas preferências. segundo as funções do Padroado. era a responsável em lavrar.79 Os leigos agiam também através das irmandades e é nelas que se dava o espaço de sociabilidade. nessa época. várias práticas religiosas e movimentos reformistas colocaram em xeque a autoridade papal e seus dogmas de fé. era ainda um local muito inóspito. estava relegada a segundo plano na questão políticoadministrativa. forros ou escravos que. a partir da Europa. assim como difícil era a vida de seus habitantes. os nomes de batismo. Pois na perspectiva do catolicismo tridentino. a ordem estamental do Antigo Regime se fazia notória nas próprias procissões e representava vários valores impressos 52 . nem mesmo a sua elevação a Sé minorou a sua penúria. Neste momento. no próprio fazer da religiosidade doméstica. quer fossem brancos. Haja vista a reforma luterana ter abalado definitivamente uma série de práticas religiosas concernentes à salvação dos fiéis. se pelo lado civil a igreja demonstrava o controle através da manutenção de vários documentos. Faziase presente em todas as fases da vida do homem. A Igreja se fazia presente em todas as camadas da população e do convívio social. em certos aspectos. Para a estudiosa Mariza Soares. as fases mais importantes da vida do homem colonial eram registradas pelas penas dos párocos. quando. as cerimônias eram realizadas nas capelas e nas igrejas.

p. Mariza de C. no momento da morte. são enterrados no interior das igrejas. as irmandades agiam através dos irmãos que. 153. Assim. segundo a religiosidade católica.. Construído em 1722. extremamente hierarquizada. transferido para o Valongo em 1769 e possivelmente extinto em 1830. Cit. a da “honra e distinção”. na morte: “Os defuntos os sacramentos e um ritual funerário cristão. no Largo de Santa Rita. mesmo que morte administrada pelo moribundo. arregimentavam nos momentos de extrema necessidade dos seus as providências cabíveis ante o desamparo do Estado Imperial e as dificuldades econômicas. que deixava aparente um corte profundo que tangia até mesmo a vida religiosa que. pode-se notar como desde o princípio a diferenciação social era refletida no cotidiano da população. 80 SOARES. dependendo apenas da caridade das irmandades que se apresentavam como a solução para uma “boa morte”81 e do risco de se deparar ao final da vida com um cemitério como no caso do tema deste livro: o Cemitério dos Pretos Novos. não existe chão para tantos mortos. 79 Ibidem. p. Um bom exemplo disto era o próprio posicionamento dos santos e das irmandades durante as procissões.. Mary Karasch bem assevera que: Entre as razões mais importantes para reunir dinheiro entre os escravos pobres estava a de garantir um enterro em terreno consagrado para si e para suas famílias e rezas por suas almas. uma estava na roupa. os escravos estavam relegados ao último lugar. em se tratando de pretos. Op. 133. Como se tratava de uma sociedade 78 SOARES.. p. escravos evitavam as valas comuns ao se filiarem às irmandades que cuidavam dos preparati- . Enfim. desde a das famílias mais bem classificadas Idade Média aos nossos dias. Aliás. Mariza de C. o Cemitério dos Pretos Novos era destinado exclusivamente a pretos novos.53 e compartilhados pela sociedade colonial. ARIÈS História da morte no Ocidente. 81 Entendemos como “boa representação da sociedade colonial morte”. Cf. com bem modestas. a Op. Passim. revelava as camadas de uma sociedade desigual. neste caso. 143. denominação dada aos escravos recém-chegados da África. Cit. não só as procissões. nas casas.”80 Nesta situação. Gamboa e Santo Cristo. mas. Este cemitério de escravos ficava na área antes conhecida como o entreposto do Valongo. o que de certa forma também refletia a hierarquia dos santos. embora fossem de maioria leiga. que hoje compreende os bairros da Saúde.82 Com efeito. mas os cortejos fúnebres pareciam manter uma lógica.

Mary C. Quanto ao enterro ad Sanctus de escravos. 54 . tornaremos a discutir os motivos que levavam os escravos a temerem as valas comuns e a falta de rituais fúnebres e. 84 KARASCH. de Carvalho. 85 SOARES. pode destacar vários fatores que levam os escravos a se filiarem a uma. em sua pompa. 87 Quanto à observância dos preparativos das irmandades na hora da morte. Cit.85 Claro está que existiam outras finalidades para as irmandades dentro da vida de escravos e libertos. Por hora. Op. Mariza Soares também afirma que: O medo de ter o seu corpo insepulto ou ser sepultado sem honra pela Santa Casa faz com que os pretos queiram um funeral cristão. Cit. p. as horríveis valas comuns da Santa Casa aguardavam seus familiares e amigos queridos. Por isso os ritos não apenas homenageiam o morto. dentre elas. 347. doenças. ou ad Sanctus.83 Mais adiante. 86 A historiadora M. cuidar de alforrias. 347. erigir igrejas e capelas através de doações.. tais como cuidar dos irmãos nas horas de necessidade. por conseqüência. Cit. Tudo era pago e o transporte em rede barateava os custos e economizava por suprimir o esquife. um dos motivos mais importantes para formar irmandades e participar delas era sepultar os mortos. Todavia.. Vide: SOARES. Mariza de C.. a procissão fúnebre e o uso de mortalhas. 195.vos dos enterros dos mesmos. o transporte e o sepultamento com a presença de um religioso. p. Op. 283. Mary C. escravos e libertos tinham de ter também suas próprias igrejas. morrer sem os sacramentos ou como indigente não era uma idéia aceitável entre os cativos. em cemitérios.84 Cientes do falecimento de um irmão.. de alguma forma. p. p. Claudia Rodrigues. assim como a missa e as velas. não se pode negar que a morte dos escravos era um fato tão importante para eles que a preparação para tal evento levava à construção de 82 KARASCH. Karasch afirma que: A fim de realizarem funerais respeitáveis que honrassem os mortos. 173-238. pp. Em suma. quanto à escolha da igreja do sepultamento. 83 SOARES. Cit.86 e até mesmo funcionar como via de acesso para distinções dentro desta mesma sociedade.. preparar a mortalha adequada. Op. o estudo realizado por Claudia Rodrigues é de suma importância uma vez que se detém com vagar nestes itens. 176. Mariza de C.. Op.. de Carvalho Soares analisa de forma precisa os compromissos de várias irmandades e. basta-nos compreeder que. M. mostram o poder da irmandade em cuidar de seus membros e enterrar seus mortos. mas. pp. 152.. o Cemitério dos Pretos Novos.. De outro modo. ajudando-o a trilhar o caminho para o outro mundo. caberia à irmandade encomendar o corpo.

às margens do Nilo. 3-5. Desde tempos remotos. O corpo do defunto sai de sua casa em cortejo. não só a morte era tida como uma viagem. Op. já teciam idéias sobre o morto que atravessava o rio Nilo em direção à terra dos mortos.88 Desde a Idade Média até a Idade Moderna. Em verdade. passa entre os transeuntes. o carregamento de estandartes. Antônio Xavier de Souza. Com efeito. 89 MONTEIRO. João José. 90 REIS. p.. a um momento de transição ou morte no Brasil oitocentista. também de mudança. indistintamente. muito menos no Cemitério dos Pretos Novos. como que se visitasse pela ultima vez os lugares pelos quais ele havia passado em vida. pp. como no caso das procissões fúnebres. os egípcios.. situados no norte da África. a procissão fúnebre conservou elementos particulares. eram convidados a participar das chamadas procissões do viático. os negros podiam ter a certeza de que seus corpos e os dos seus entes queridos não seriam largados nem no Cemitério da Santa Casa. guiado por religiosos e animado por cânticos que lembravam aos vivos que todos. “a saída triunfante dos vivos anteciparia uma entrada equivalente no Além”.91 Tais procissões costumavam.3. 1. tais como os cantos. Fato é que em muitas sociedades. como se fosse um momento no qual a dor da perda funcionasse como amálgama de pessoas antes estranhas que tinham em comum apenas a questão de que a morte. principalmente num lugar de . desde muito tempo. Um longo caminho a ser percorrido iluminado por velas.55 laços sociais nos quais era tecida uma pequena rede solidária. haviam de se encontrar perante o trono do Juízo Final. OS LUGARES DOS MORTOS E SUAS REPRESENTAÇÕES NA CULTURA CATÓLICA OCIDENTAL Sabe-se que em quase todas as culturas 88 CATROGA. 41. Cit. a 124. 91 Ibidem. mesmo na América Portuguesa. p.90 Esta idéia de deslocamento espacial e viagem.89 A morte continuava a ser representada como uma passagem. Uma vez nelas. em um barco dirigido pelo deus Anúbis. ser acompanhadas até por estranhos aos defuntos que. Op. p. Fernando. palavra “passagem” é repleta de sentidos. a morte está relacionada a uma viaCit. visava sobretudo a uma integração do morto o mais rápido possível com sua nova morada. 96. O cotidiano da gem. da cruz e as relíquias dos santos. mas vários rituais reforçavam esta representação.87 que tem a sua localização retratada no mapa a seguir. e gozando de todas as outras benesses. ao passarem.

In: Acervo AGCRJ. PLANTA DA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO. 56 . em 1812. EM 1812 Fonte: Planta da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.MAPA 1.

. p. no início do século XIX.95 O cortejo composto do padre. uma vez que é convidado pelo dono da casa a segurar uma vela. Prossegue: Nós entramos em uma casa de bela aparência e subimos ao primeiro andar. quando foi intimado não só a participar do cortejo fúnebre como a carregar o caixão do morto. não poupava ninguém. em parte por curiosidade.”93 O estrangeiro branco não se escusou a participar da cerimônia.. ainda em 1817: “Um homem me pára em pleno dia pelo colete na esquina de uma rua. 94 ARAGO. onde pôde observar a forma pela qual as pessoas ali reunidas se comportavam diante da perda de um ente. a criança morta está repleta de adornos e adereços que não deixam de ser representações da posição de destaque da família que. o viajante acompanhou o cortejo fúnebre até a casa do morto. como obser. Apud: João José Reis. Johann Emanuel. 115. e pedras preciosas [. vindo de coche. pessoas de todas as condições. Cit. num aposento.. que no caso também era uma criança. encontrasse o cortejo. não só se ajuntavam ao préstito. Em parte por educação. 102-3. va Arago. tinha a obrigação de descer.. O cotidiano da morte no Brasil eram convidadas a fazê-lo. rezando. Viagem ao interior estavam impedidas de participar. pp. como quem. aparentemente abastada. 46.94 Nesta família enlutada. pessoas desconhecidas não 92 POHI. dos irmãos de irmandade.115. antes do Brasil. iluminava uma figurinha pálida que duas damas enfeitavam de flores. Uma centena de velas acesas. O viajante alemão Pohl.57 poucos recursos.] o santíssimo era levado ao enfermo. A participação é tão aberta que o viajante é convidado não só a observar o morto como a participar do ritual. quando de passagem pelas ruas do Riode Janeiro. assim anotou as suas observações: Se [.oitocentista. por sua vez. desocupando o lugar para o sacerdote e acompanhando o carro a pé. curiosos e pessoas que acompanhavam. p. 93 ARAGO.. e me pede se não quero lhe dar o prazer de acompanhar o pequeno Jesus. . fitas. p. ia até a residência do morto. se sentiu prestigiada pela presença do viajante estrangeiro em sua casa compartilhando daquele momento solene. O mesmo ocorreu com John Luccok. Op. por exemplo.92 De fato.] o senhor da casa me veio beijar a mão e me dar uma vela acesa.. Dali.

98 Ibidem. p. 39. o rosto pintado. é tratada com muito menos cerimônia nestes ritos supremos. Op.. John. colocam um defunto numa espécie de rede. Cit. Logo em seguida ao falecimento. costura-se o corpo dentro de uma roupa grosseira e envia-se uma intimação a um dos dois cemitérios a eles destinados para que enterre o corpo. que dele terá. levam-no através das ruas tal como se estivessem a carregar uma qualquer coisa. não havendo para essa faceirice outros limites além dos que lhe impõe a habilidade dos amigos sobreviventes. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil tomadas durante uma local do sepultamento. 97. João José. uma excelente impressão. carregando-o pelas extremidades. tal como melhor parece quadrar com uma dor profunda. um 88 CATROGA. p.. 100 Ibidem. Fernando. 39. Talvez o autor quisesse enfatizar o contraste. a cabeça enfeitada com uma guirlanda de flores ou coroa de metal. acompanhava o corpo inerte transporCit. ao fim do dia. uma espécie quase que de corrida. 41.96 A sorte de um defunto de posses foi retratada por Luccock. O cotidiano da morte no Brasil oitocentista. dependuram-na num pau e. 39. em anexo). outro grupo composto pelos irmãos da 96 REIS. os cabelos empoados. Reis. ele passa a descrever o funeral de um desafortunado. dava mais dramaticidade à cena. Foi o que procurou retratar Debret (figura 2.. conhecidos e transeuntes. 99 LUCCOK. aglomeravam para observar a cena. p. querendo demonstrar como a posição social do morto pode influir nos rituais de sepultamento: A gente mais pobre.97 Logo após o inglês retratar esta procissão solene. Cit. Aparecem dois homens na casa. irmandade.98 58 . que visitou o Brasil de 1808 a 1818: Por outro lado. Op. Os cortejos saíam ao pôr-do-sol. Os míseros despojos do homem vão cobertos de todos os galantes atavios de um dia de festa. John. As pessoas se estada de dez anos nesse país de 1808 a 1818. 97 LUCCOK. O percurso deveria findar na igreja em que fosse acontecer o sepultamento. John. Op. Fica assim o defunto em condições de comparecer perante o guarda das chaves dos céus e de ser por este apresentado ao Juiz das almas. ou pelo menos os pretos. ao que nos asseguram seus delegados terrenos. sob o ritmo de uma fanfarra de negros. como ressalta J. mas sim numa pressa indecente. p.o morto seria transportado para o 95 LUCCOK. sob a sombra da noite que. p. J. não o levam nesse passo lento e solene em perfeita procissão. tado em uma esteira. em meio de alto vozerio e com ar de grosseira alegria.

Em uma cidade sem recursos mesmo depois do translado da Coroa para a Colônia. uns por cima dos outros. Quase não é preciso acrescentar-se que nesses cemitérios assistiam às mais repugnantes cenas aqueles que entendiam de escolhê-los para campos de suas observações. de alguma forma. Porém. os corpos são nela atirados sem cerimônia de espécie alguma. pois os corpos eram estendidos em sentido contrário. e pondo eles em sério perigo a saúde da cidade. Se acontece de pelo caminho encontrarem com mais um ou dois que de forma idêntica estejam de partida para a mesma mansão horrível. ali. com seis pés de largo e quatro ou cinco de fundo. Dentre esta. ao menos na presença do inglês. sendo o mau cheiro intolerável. os corpos foram cobertos de terra. de atravessado e em pilhas. em seguida. justamente para que coubessem mais corpos nas mesmas valas. O cemitério escolhido é o da Santa Casa. Abre-se transversalmente. Outro detalhe é que de novo vemos um sacristão negro que quase automaticamente procede a sepultamentos “em série”. Neste sen- . de maneira que a cabeça de um repousa sobre os pés do outro que lhe fica imediatamente por baixo e assim vai trabalhando o preto sacristão. construíram ou retrataram esta trama. põe terra até para cima do nível. Contudo. a morte era um fato comum entre a população.59 Este típico funeral da gente de menos posses parece ser realizado por uma irmandade e o escravo ter tido em vida poucos recursos. existia uma ordenação espacial.99 Ainda que sumariamente. uma longa cova. para os mesmos. enquanto não houver uma reforma. Finalmente o viajante passa da descrição para as suas próprias observações sobre o que ele julga necessário que se faça no tocante à saúde da cidade. 100 CONCLUSÃO Até aqui visamos a costurar da melhor forma possível as representações sobre a morte na América Portuguesa levando em conta os diferentes tons pintados por aqueles que. o acesso à sepultura eclesiástica era algo difícil de ser conseguido e praticamente impossível fora dos laços das irmandades. os que mais sofriam a mortalidade eram justamente os escravos. que não pensa nem sente até encher a cova. põe-nos na mesma rede e levam-nos juntos para o cemitério. quase que por inteiro.

resta concluirmos que os pretos novos morriam antes de se filiarem a uma irmandade que se fizesse presente na hora de partir desta para outra. percebemos que o fato de serem escravos novos não lhes era empecilho a um sepultamento digno. ao analisarmos a documentação sinodal. Entretanto. Foi então que.tido. amenizando os horrores de terem os seus. 60 . os escravos buscaram no poder leigo a fuga das valas comuns da Santa Casa da Misericórdia. ou a eles próprios. dentre os escravos ainda existia um grupo alijado completamente da possibilidade de ter um sepultamento ad Sanctus. deixados à flor da terra. Em face ao exposto. ao qual eram oferecidas apenas as covas do Cemitério dos Pretos Novos.

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séculos atrás. Alguns agentes envolvidos na urdidura desta trama social podem nos dar subsídios explicativos para esta questão. O Cemitério dos Pretos Novos e o seu entorno 2. principalmente os recém-chegados. UMA COMBINAÇÃO ÚTIL Chegando ao fim desta minha vida de pecador. IGREJA E CEMITÉRIO. e vê a igreja que empresta nome ao logradouro. participando da luz inconversível das inteligências angelicais. devemos recuar um pouco e buscar na origem da formação geográfica social da região do Valongo. envelheço como o mundo.63 Capítulo 2. as especificidades que fizeram da hoje Matriz um alvo de disputas acerca da questão mortuária. ela teve grande influência na vida dos escravos. já escrevendo com o meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro Melk. não faz a mínima idéia de que tal igreja desempenhou um papel importante na sociedade brasileira. encanecido. à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta. Então. local onde ela está inserida. A manipulação deste espaço e o uso de um discurso de posse legitimado pelos dogmas cristãos ocidentais forjaram a diferença entre as culturas que aqui se encontravam em posições diametralmente opostas.1. enquanto. uma disputa de poder. sobretudo pelo poder de sepultar a outrem. deixemos que al- . De fato. apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos magníficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir. ou seja. Mas antes de nos determos sobre ela.1 Quem passa hoje pelo Largo de Santa Rita.

João Batista e Santo Agostinho. envolta em um hábito preto e com um crucifixo nas mãos. muito conhecida na Europa. A santa protetora dos que sofrem despertou a fé de novos devotos. 111. O que se sabe é que a festa ganhou tamanho vulto que. Algum tempo depois. Em 1721. 1 ECO. 2 Rita de Cássia era devota de Virgem Maria. A morte no Brasil oitocentista. o casal resolveu instalar a imagem em um terreno próprio. de Andrade. As mulheres casadas eram as pessoas que mais usavam a mortalha preta. uma santa italiana. Depois de viúva.5 64 . Cf. Na sala da família. Conforme ressalta Vieira Fazenda. Manoel Nascentes Pinto mandou fazer uma imagem da santa. No Brasil. mas foi impedida por não ser mais virgem. fazendo uma capela dedicada à santa.3 A família de Manoel Nascentes Pinto se instalou com a família na rua do padre Mattoso Rosário. ajudou na construção da América Portuguesa. 48. que tinha um número cada vez maior de devotos. o fidalgo iniciou as obras e a pedra fundamental da igreja foi lançada. com ele permaneceu casada por vinte anos e teve dois filhos gêmeos. com recursos próprios que provinham de sua rede de relações com o governo colonial. Tradução de Aurora Batista e Homero F. na casa da família Nascentes Pinto. p. que passaram a celebrar todo dia 22 de maio. Reis. O nome da rosa. vítima de tuberculose.guns atores que talvez ainda não tenham entrado em cena recebam a devida luz dos holofotes e passem ao centro do desenrolar desta cena. como tantos outros. requisito da época. Op. a partir do século XIX.2 Homem de posses e tido em alta conta pela Coroa portuguesa. desejou entrar para o convento Agostiniano. considerada então a santa das causas impossíveis. 3 BRASIL. 1983. que foi posta na antiga capela da Candelária e restaurada em 1740. no século XVII. para ser usado como mortalha (paramentos fúnebres). bem como a sacristia. Umberto. 21. Gerson. Segundo a tradição católica. Quando o fidalgo português Manoel Nascentes Pinto chegou ao Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. viera acompanhado de sua esposa e de seus dois filhos e. Ali adquiriu um terreno ao pé do morro da Conceição. História das ruas do Rio e da sua liderança política no Brasil. número que crescia ano a ano. deve ter chamado a atenção da população colonial. O Papa Urbano VIII a beatificou em 1627 e Leão XIII a declarou santa em 1900. casou-se com um homem rude. Mais tarde. p. Cit. a capela-mor já estava erigida. aos setenta e seis anos. um dia de devoção à santa. dentre tantos outros pertences. tanto na Bahia quanto no Rio de Janeiro. o seu hábito preto caiu na preferência do povo. p. mas desconhecida na América portuguesa. o quadro da Santa de imagem austera. o consistório e os principais alicerces da nave. trouxe em sua bagagem.. o fidalgo Nascentes Pinto conseguiu fundar o templo. recordações e lembranças: um quadro de Rita de Cássia.4 Com os recursos financeiros necessários e as “relações” firmadas junto à Coroa. Morreu em 1457.

Op. Vol. não lhe foi difícil. Cit. elaborado pelo Sínodo Diocesano. Em 1719.65 À época. que se encontra eivada por ações de leigos devotos. O ofício consistia em estar presente na Alfândega vistoriando tudo que adentrava o porto do Rio de Janeiro. Cf. Com efeito. haja vista que tudo o que passava pelo porto havia de levar o selo da Coroa. Homem de recursos e de muitas relações. tomo 93 da RIHGB Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. o selo passou a ser resfriado e preso por um cordel e depois costurado sobre os fardos de mercadorias. segundo Vieira Fazenda.. 5 Folder da Igreja de Santa Rita. 7 O processo de selar as mercadorias. p. 9 SOARES. 133-4. p.7 É dispensável dizer que o emprego era extremamente rentável. conhecido como Constituições primeiras. Dr. 133..9 A religiosidade católica no século XVIII.. 8 Sobre as dificuldades financeiras do clérigo. 4 “Não foi difícil a Nascentes levar a cabo o seu louvável projeto. 147.10 . na Bahia desde 1707. denominada barroca. Mariza. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Cit. Op. Destaquem-se alguns pontos: o primeiro é o modo como Nascentes Pinto erigiu com meios próprios uma igreja. pelo porto do Rio de Janeiro entrava grande parte das mercadorias com destino à América Portuguesa. Manoel Nascentes Pinto ocupava o cargo de “sellador mor”6 da Alfândega. p. veja o que já foi dito no primeiro capitulo desta dissertação. José Vieira.. no intuito de levar adiante a obra de evangelização dos gentios. a falta de recursos e a necessidade da participação efetiva de leigos. 114. angariar subsídios pecuniários para o almejado intento” conforme: FAZENDA. Op. Tratava-se de um emprego vitalício que lhe fora concedido por bons serviços prestados à Coroa. 10 SOARES. consistia na colocação de um selo pequeno feito de chumbo derretido em formato de disco e pregado com barbante diretamente nos fardos. p.114. Mariza. Cit. nas capelas e igrejas por eles construídas. Vieira Fazenda. 114. repito.8 Mariza Soares demonstrou a ação e a interferência leiga na seara eclesiástica. 1927. trabalhos recentes têm demonstrado como o poder leigo passou a ocupar paulatinamente um espaço deixado pela Igreja. já que a Igreja não dispunha de bens nem recursos para tal. Op. 6 Vieira Fazenda. caracteriza-se por uma grande participação dos leigos. p. indicando a necessidade de uma ação doutrinal efetiva por parte da Igreja. Como este processo estragava os fardos. foi publicado um código eclesiástico. S/D. que realizam cerimônias religiosas em suas casas. Cit. Afinal. A autora nos chama a atenção para o caráter regulamentar dessa ação sobre a religiosidade colonial tanto dos leigos quanto do clero. o qual comprovava que haviam sido pagos os impostos da dízima necessários para a liberação da carga. analisado no primeiro capítulo. do qual gozaram todos os seus até 1822.

José Vieira. sem sofrer nenhuma interferência eclesiástica. como é o caso do Rio de Janeiro. não chega a ser efetivamente implementado no Brasil na primeira metade do século XVIII.Neste momento. 12 VIDE. dada a dificuldade de acesso ao dispositivo competente do bispado. nas igrejas e também nas casas.. Cit. ainda que rezasse expressamente contra a construção de templos sem a permissão do bispado. 115. Os leigos agiam também através das Irmandades e nelas se dá o espaço da sociabilidade. 134. propagado a partir do século XVI pelo Concílio de Trento. a ação lei- 66 . o que comprova que o clericalismo romano.. Isso nos faz pensar em pelo menos duas hipóteses: A primeira seria o fato de Nascentes Pinto. mostraram-se infrutíferas em vários aspectos. 13 Idem. A publicação das Constituições primeiras12 visava a um reordenamento das práticas religiosas na América Portuguesa com o intuito de impedir o surgimento de novas heresias e desvios da fé. sellador-mor da Alfândega. ter conseguido levar à frente o seu intento sem maiores impedimentos por parte do corpo diocesano. e as cerimônias eram realizadas nas capelas. a religiosidade católica do século XVII se encontra traspassada pela ação de leigos. Cit.11 Não se trata de questões relativas à di11 Idem. a construção da capela de Santa Rita por parte dos Nascentes Pinto. Op. dificilmente se realizaria em tempo hábil. é a de que o próprio clero no Brasil não gozasse de recursos financeiros para a construção e mesmo reforma das igrejas e. especialmente no bispado do Rio de Janeiro.13 Se de fato esta norma das Constituições primeiras fosse observada. até então praticamente desconhecida do povo brasileiro. p. que não exclui a primeira. p. É este fator que permite que os Nascentes Pinto construam sua própria capela em devoção a uma santa. A segunda possibilidade. Op. 14 FAZENDA. mesmo nas cidades onde existiriam condições para isso. mas de uma atitude de não cumprimento das recomendações resultantes do novo modelo eclesiástico. por ocupar um cargo privilegiado dentro das esferas de ações da vida pública. No entanto. ficuldade de acesso ou mesmo à falta de religiosos. Dr. ou mesmo sem sofrer embargo. dentre eles barrar a ereção de novas igrejas e capelas. neste sentido.

Em primeiro lugar. por sinal. tão caros ao catolicismo barroco. em segundo lugar.14 mas o futuro lhe reservaria algumas surpresas desagradáveis. As Constituições primeiras recomendavam que os escravos fossem sepultados. bem como o próprio porto. que por sua vez cumpriram o papel da evangelização. da qual. Entretanto. título extensivo a toda a sua descendência. ainda que escravos. Em escritura datada de 13 de março de 1721. a santa das causas impossíveis. trazia a comodidade necessária para o sepultamento dos escravos novos. Manoel Nascentes Pinto demandou constar como “padroeiro perpétuo”. o acordo foi lavrado e a igreja entregue à irmandade. Contudo. novas fórmulas e associações. se apresentaram como um sinal de poderio. o que os senhores insistiam em desobedecer. foi também o fundador. região noroeste da cidade e com a Praia D. As irmandades usufruíram do sepultamento ad Sanctus e os escravos novos ainda não possuíam um lugar próprio para este fim. cabe ressaltar o fato de que a criação do Cemitério dos Pretos Novos não foi um ato isolado. porque o cemitério estava fora do perímetro urbano da cidade. sob várias petições do doador. A administração da morte e a condução dos ritos fúnebres. ou seja. Estudos recentes têm mostrado como no Brasil foi forjada uma religiosidade que implicava a apropriação de novas práticas e ritos. e que toda sua família recebesse um jazigo perpétuo dentro do santuário. mortos por ocasião do desembarque. enterrando-os pelos matos. Manoel. . O espaço destinado ao sepultamento obedeceu a requisitos de primeira necessidade. a proximidade com a praia do Valongo. já que o único cemitério existente no momento era o da Santa Casa. o patriarca da família Pinto doou o templo à irmandade de Santa Rita. fora das muralhas que haviam sido construídas para proteger a cidade de São Sebastião. não se pode negar que a Freguesia de Santa Rita foi a grande beneficiária desta escolha. nem mesmo dado ao acaso. Após construir a igreja. A escolha do local para as inumações e sua proximidade do mercado de escravos sob a jurisdição da igreja de Santa Rita. em 1722. Mas nem mesmo a influência de Manoel Nascentes Pinto o impediu de ter dissabores com a Igreja com a qual colaborara. Foi justamente diante da igreja fundada por Manoel Nascentes Pinto que o Cemitério dos Pretos Novos foi criado. não foram de forma alguma casuais.67 ga estava livre para agir com o objetivo de levar a cabo a propagação da fé na colônia portuguesa.15 enquanto os mosteiros enterravam os seus mortos.

fundar a igreja da santa de sua devoção. Seu pedido não era de todo impossível. lhe aferiu renda e prestígio. a carta régia datada de 9 de novembro de 1749 estabelecia a criação de mais duas novas paróquias. por sua vez. A Freguesia de Santa Rita já foi um 15 Conforme vimos no capitulo 1 desta publicação. uma urbe que possuía poucos espaços 19 Que por sinal deve ter mudado de físicos habitáveis. logrou êxito. não muito longe do Cortume do José Costa.19 revela que Nascentes Pinto arrogava-se o título de Padroeiro da igreja. Op. o Códice 241 do Conselho Ultramarino. assim como a vitória de ser tido por padroeiro-mor da mesma. ao mesmo tempo. As igrejas escolhidas foram Santa Rita e São José. e assim poderia apresentar o vigário da igreja. direitos a solenidades e sepultura perpétua ad Sanctus. Cit. De sobra. pp..17 Se por um lado Manoel Nascentes Pinto logrou êxito na construção da capela. 115-116. o bispo deveria escolher a nova Matriz e restabelecer o limite das respectivas freguesias. Já a igreja que empresta nome à freguesia foi identificada com o antigo sítio de Valverde. bem como. o cargo desempenhado por Nascentes Pinto. de sua área era tomada por pântanos 16 e charcos. intimou Manoel Nascentes Pinto a ceder a igreja. hoje no Arquivo Histórico Nacional. uma vez que a construíra. ou seja. Antônio do Desterro. os anos que se seguiram lhe trouxeram um dissabor que o perseguiu até o fim da vida. deve ter servido na manutenção da própria igreja. 115. por sinal. Dr. A renda lhe viera das taxas sobre as mercadorias e sobre os sepultamentos. mas não menos importante. que. do Cruzeiro de Mármore e do famoso Chafariz de Santa Rita.Por último. 68 . o que dificulta a sua localização exata. trouxe a reboque a primazia sobre um cemitério de escravos recém-chegados e o lucro dele advindo. 18 Idem. Bento. José lugar de intenso convívio social em Vieira. já que grande parte numeração. O documento citado por Vieira Fazenda. 17 FAZENDA. Segundo Vieira Fazenda. O frei D.18 Tal ordem gerou uma contenda entre o fundador da igreja e a Corte eclesiástica. na Alfândega do Rio de Janeiro. Nascentes Pinto recorreu da decisão e a pendenga se prolongou durante anos. ter cadeira cativa na capela. 16 Idem. o bispo encarregado deste serviço. p. Conta Vieira Fazenda que no beco de Gaspar de Gonçalves as crianças se divertiam nas tardes de sol. já que seu pleito era o mesmo da Freguesia de São José que. entrecortado pela valinha e a chácara dos Frades de S. o prestígio fez com que ele conseguisse implantar a devoção a uma santa desconhecida.

Dos privilégios pleiteados pela família Nascentes Pinto. festejavam a folia. salvo exceções em que era feita uma concessão a “alguns indivíduos ou instituições” que provassem tal privilégio. No centro do quadro vemos crianças de colo e negras em trajes simples retratadas em um momento de trabalho. Na pintura. como se descansassem da viagem. Observa-se que a figura feminina é predominante. enquanto dois cãezinhos. o artista conseguiu captar o momento no qual várias escravas se aglomeravam em torno do Chafariz para buscar água para os seus afazeres. não demandaria mais contra o prelado. marcado pela disputa do prestígio e da honra. reunindo forças para a continuação das tarefas diárias. bebem das águas que transbordam do chafariz. sem ver o seu pedido deferido. despreocupadamente.69 Entretanto. há poucas representações. por interesses terrenos e atemporais. Neste episódio. intitulado Largo de Santa Rita (figura 3. caso fosse curado. faleceu e foi sepultado no solo da igreja que fundara. um homem de chapéu circula como se regulasse o serviço no entorno do chafariz. Em termos de iconografia da igreja de Santa Rita. que completa a cena pitoresca do cotidiano escravo. com folguedos. O que temos é um quadro a óleo do pintor Eduard Hildebrandt. No meio do grupo. datado de 1846. Nascentes Pinto não apresentou tal distinção e. Seu filho Ignácio Nascentes Pinto levou à frente a disputa. em anexo). ou que apresentasse eclesiásticos que não o rei de Portugal. após cair gravemente enfermo. e a igreja foi entregue à autoridade eclesiástica. Há mulheres aos pés da fonte. mas. apenas um permaneceu: o direito de serem sepultados dentro da igreja do patriarca. estão representados os participantes da Folia do Divino que. no canto esquerdo da cena e abaixo. Em outra parte há outras como que envolvidas em animadas conversas. fez o voto de que. no canto esquerdo da tela. a Lei do Padroado vigente à época impedia que outra pessoa fosse o padroeiro de uma igreja. a pretensão por direitos de Nascentes Pinto caiu por terra quando estes colidiram com os interesses da Igreja. Assim ocorreu. acusado de ter erigido o templo sem licença da Igreja. Do lado direito da igreja de Santa Rita. já que buscar água para o senhor constituía um dos serviços mais corriqueiros de uma escrava. despontavam as duas torres da igreja da Candelária voltada para o mar. . acima.

Por trás dos escravos, a imagem da igreja de Santa Rita aparece imponente com sua torre única despontando sobre o azul celeste, deixando transparecer um ar de respeito e proteção. A igreja é justaposta de tal maneira que une o grupo de escravos à Folia do Divino que se aproxima, como um sinal de comunhão, um espaço possível de sociabilidade entre pares. Entre estes, temos um espaço aberto, ocupando talvez, não por acaso, quase que o centro do quadro: este era o local em que foi fundado o Cemitério dos Pretos Novos, em 1722, que à época do quadro já não existia mais.20

20 Havia o velho casarão do Aljube, criado pelo bispo D. Antônio de Guadalupe para ser uma prisão eclesiástica, que foi depois ocupado pelo júri e mais tarde foi derrubado pelo Prefeito Pereira Passos. Juntamente com o Beco do João Batista, da Rua Estreita de São Joaquim, do fim (do Beco) do Ourives e de um lado da Rua dos Pescadores. Dela os presos saíam para serem enforcados, passavam antes pela igreja de Santa Rita para ouvirem o último sermão. Dr. José Vieira. Fazenda, Op. Cit., p. 115. 21 Gastão Crulls. A aparência do Rio de Janeiro, p 221. 22 Idem, p 222. 23 “Desde a epidemia de varíola ocorrida em 1694 no Rio de Janeiro, esses enterros haviam sido delegados à Santa Casa de Misericórdia que, no início do século XVIII, passou a fazê-los no Largo de Santa Rita” Cf: RODRIGUES, Jaime. De costa a costa: Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860). São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 301.

Tudo isto denota que, pelo menos até a primeira metade do século XIX, a igreja de Santa Rita gozava de certa notoriedade. É correto afirmar que a mesma era tida “por igreja dos malfeitores, porque os condenados à polé, de passagem obrigatória a sua porta, nela recebiam as últimas consolações”.21 E as tais águas buscadas em sua fonte eram tidas por milagrosas, conforme relata Gastão Crulls.22 Ora, se a igreja de Santa Rita era famosa por causa da festa do Divino que passava em sua porta, ou pelas notícias dos condenados à morte que faziam dela parada obrigatória antes de subir ao patíbulo, deve ter ficado mais notória ainda depois do incremento do tráfico de escravos após a virada do século XVIII. Pode ser que epidemias tenham aumentado neste período, e até mesmo um pouco antes.23 Ao mesmo tempo, a falta de cuidados com o translado compulsório de escravos dever ter sobrecarregado a cidade com tantos corpos dos que faleciam em decorrência da nefasta travessia. O mercado ainda se situava na rua 1º de março, antiga rua Direita e os escravos desembarcavam na antiga Praia do Peixe, atual Praça XV, em meio a cargas das mais variadas. Ali mesmo eram vendidos ou levados ao mercado, e os mortos encaminhados para o Cemitério dos Pretos Novos, no Largo de Santa Rita. Na próxima seção analisaremos como foi a relação entre este antigo cemitério e o mercado de almas que o alimentava.

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2.2. MERCADO E CEMITÉRIO, UMA NEFASTA COMBINAÇÃO
Do tempo em que o mercado de escravos estava encravado na Rua Direita, temos poucas informações. Uma referência é a reclamação, feita pelos vereadores e endereçada ao rei, em 9/12/1722, na qual faziam ciente à Coroa de que senhores de engenho e lavradores reclamavam do fato de que nunca conseguiam comprar os escravos que desejavam, pois ao chegarem só lhes restava a alternativa de comprá-los nas mãos daqueles que chamavam de “atravessadores”.24 É o próprio governador do Rio de 24 CAVALCANTI, Nireu Oliveira. Desembarques, In FLORENTINO, Manolo (Org.). Tráfico, Janeiro quem sai em defesa dos ditos cativeiro e liberdade: Rio de Janeiro, século XVII-XX. “atravessadores”. Em carta sobre a Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, venda de escravos novos endereçada p. 38. 25 Carta de Antônio Pedro de Miranda ao rei sobre o comércio de escravos Apud: ao rei, Antônio Pedro de Miranda, em CAVALCANTI, Nireu Oliveira. Desembarques, 1722, conta que a venda de escravos pp. 38-39. 26 Idem. 27 Idem. que vinham para esta cidade era “pública e comum para todos aqueles que os procuram ou querem comprar a fim de satisfazerem com o seu produto não só os Direitos Reais, mas também os fretes e letras que se costumam passar sobre os ditos escravos”25 e que não era preciso ter dinheiro em espécie, necessariamente, haja vista haver pessoas que compravam “fiado para tornar a vender alguns daqueles que são bons, mas comumente só o fazem no resto da carregação”.26 Os sãos eram vendidos rapidamente, mas os doentes, ou seja, os “refugos”, demoravam um pouco mais. Assim, seus compradores, após cuidarem de suas chagas, recolocavam-nos à venda na cidade. Pode parecer espantoso, mas nas palavras do governador, eram os “pobres que não têm outro modo de vida” 27 que se davam a este tipo de negócio e dele sobreviviam. O missivista informa ao rei que, desta forma, independentemente do tempo de exposição, todos podiam ter acesso à mercadoria humana. Os mais ricos compravam os sãos, os mais pobres compravam os moribundos, mas mesmo estes não perdiam dinheiro, pois após curar os escravos de suas enfermidades, vendiam-nos novamente por um preço satisfatório. Em suma, Miranda termina por defender estes pequenos compradores, pois, para ele, estes não eram ricos nem “atravessadores”, como o que constava das Reclamações dos compradores de escravos, que os reclamavam porque nunca chegavam a tempo nos leilões, só lhes restando comprar nas mãos destes pequenos comerciantes, taxados de atravessadores. Para o governa-

dor do Rio de Janeiro, a existência destes pequenos negociantes era importante, sobretudo porque assim baixava o tempo de espera pela venda dos escravos, diminuindo a mortalidade e minorando a perda financeira, como se pode ver a seguir: Antes são convenientes e mui úteis a este grande comércio semelhantes compradores, como meio eficaz de se conservarem os comerciantes e traficantes dele, porque chegando a esta com os ditos escravos, tendo pronta saída nos mesmos, cuidam logo em voltar ao resgate ou compra de outros e não tendo forçosamente se hão de arruinar com a demora por causa da mortandade que experimentam por inseparáveis do seu tráfico a falta de comodidade de os custear.28

Em razão do descuido e da falta de uma 28 AHU, Avulsos Rio de Janeiro, organização na hora da venda dos escravos, os cx 84, doc 19, Apud: CAVALCANTI, Nireu Oliveira, Op. Cit., p. 38-39. comerciantes de escravos sentiram a neces29 Carta do Marquês do Lavradio sidade de um novo local de mercado, pelo Apud: Brás Amaral. Os Grandes menos mais ordeiro, no qual pudessem chegar mercados de escravos africanos In: Factos da Vida do Brasil, pp. 148-149. com presteza tão logo aportasse um navio ne30 Idem. greiro. Pelo visto, a reclamação dos senhores de engenho não foi ouvida pelos vereadores, e o mercado continuou a funcionar ali até a administração do Marquês de Lavradio. E os escravos mortos continuaram a ser levados para o Cemitério dos Pretos Novos, ainda situado no Largo de Santa Rita. É o Marquês, quando ocupante do cargo de vice-rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, por volta de 1769, quem nos conta como o negócio era feito no antigo mercado: Havia... nesta cidade, o terrível costume de tão logo os negros desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrar na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus (...) e fazem tudo que a natureza sugeria no meio da rua.29

O Marquês não perdeu a oportunidade em recomendar que não mais se fizesse o comércio dessa forma e expulsou do centro da cidade os mercadores e o seu mercado. Minha decisão foi a de que quando os escravos fossem desembarcados na alfândega, deveriam ser enviados de botes ao lugar chamado Valongo, que fica

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em um subúrbio da cidade, separado de todo contato, e que as muitas lojas e armazéns deveriam ser utilizadas para alojá-los.30

O discurso evocado por Lavradio empresta voz ao pedido dos senhores de engenho por um novo local mais ordenado, ao mesmo tempo que se insere em um novo projeto de remodelação da cidade e da limpeza urbana. Sendo-me presentes os gravíssimos danos que se têm seguido aos moradores desta cidade de se conservarem efetivamente, dentro da mesma, imensos negros novos que vêm dos portos de Guiné e Costa de África, infestados de gravíssimas enfermidades, assim adquiridas na viagem, como das que lhes sobrevêm depois de saltarem em terra, pela falta do cuidado e comodidade com que deverão ser tratados, dos quais se acham sempre cheias a maior parte das ruas e casas dos comerciantes, [...] donde se acham, para serem vendidos, com a introdução de novo com os que estão chegando daqueles mesmos portos e costa, de que têm resultado contagiosas queixas.31

A mortalidade escrava, assim como as 31 ANRJ, códice 70, v. 7, Carta do Marquês do Lavradio, p. 231. Apud. CAVALCANTI, Nireu epidemias que assolavam a colônia, Oliveira. Op. Cit., pp. 47-48. 32 Idem. 33 Idem. motivaram clamores contra o mercado. Nele o comércio não é atacado diretamente e, sim, o local e a forma pela qual era praticado. Após lembrar ao rei que o pedido é antigo, mas que fora sempre negado – referindo-se à reclamação dos vereadores que citamos anteriormente –, o Marquês aponta os únicos padecedores deste mal: Deixaram de atender sem haver razão em que se fundarem para o bem comum de verem prevalecer os falsos interesses particulares, querendo, pois, aplicar o remédio às gravíssimas queixas, que têm infeccionado todo este país com imensos danos dos seus moradores, que, vendo-se assolados, reduzidos à última miséria e oprimidos das ruínas de tantos estragos, bradam, gemem e suspiram aflitos e desconsolados pelo alívio.32

“Os oprimidos das ruínas de tantos estragos”, que gemiam e suspiravam aflitos não podiam mais tardar em serem atendidos em seus “justos clamores”.33 Era tempo, segundo o Marquês, de se acabar com

35 A intenção era. expostos no mercado.. Nireu Oliveira. Nireu Cavalcanti afirma que a mudança do mercado “marcou a região do Valongo como a do espaço do comércio e do enterramento dos mortos. [grifo nosso]34 A ordem dada por Lavradio foi severa: os escravos que não fossem vendidos não sairiam do Valongo “nem depois de mortos”. A seu lado um chafariz veio fazer-lhe companhia em 1839. Cit. Freireyss relatou que o referido campo santo podia ser visto pelos escravos vivos. ainda que em segundo plano. 74 . para se enterrarem nos cemitérios da cidade. depois de dada a visita da Saúde. Freireyss. que vêm dos portos da Guiné e Costa da África. Mesmo porque as covas rasas. 360.W. 37 CRULLS. notícia histórica e descritiva da cidade. Cit. Não raro. onde se conservarão. Para Luccok. p. John. p. hoje não mais existente” cf. Gastão. quiçá os enterramentos intramuros. de bordo das mesmas embarcações que os conduzirem. num cemitério a ser construído para os pretos novos” 38 e isto proibiu o enterro de tais escravos nos tradicionais cemitérios da Santa Casa e mesmo o do Largo de Santa Rita. num trecho que passou a ser chamado de Rua do Cemitério”. no primeiro capítulo deste livro. cujo meio tinha um cruzeiro erguido para almas dos escravos cujos ossos debaixo dele tinham ficado para sempre. que deixava defuntos expostos à luz do sol. 39 Idem. 36 “Diante da igreja havia uma pequena praça quadrada. sejam imediatamente levados ao sítio do Valongo. Aparência do Rio de Janeiro. desde a Pedra da Prainha até a Gamboa e lá se lhes dará saída e se curarão os doentes e enterrarão os mortos. 38 CAVALCANTI. “feitas à flor da terra. 34 Idem. p. 49. chuvas violentas bolsavam-lhes podridões” 37 e se apresentavam como mais um fator influenciador na decisão do Marquês.39 Conforme vimos no mapa 1. 134. Cf. deixavam os corpos quase insepultos. ordenando.36 Com efeito. a forma de enterramento dos escravos já era precária desde o Largo de Santa Rita. sem poderem jamais saírem daquele lugar para esta cidade. 39. G. Op. que tanto os que se acharem nela. Entrementes. p. retirar os cemitérios de dentro do perímetro urbano. como os que vieram chegando de novo daqueles portos. sem saltarem à terra. Op. Santa Rita continuaria a administrar o campo santo que passaria a ser localizado “no caminho da Gamboa.... foi um dos motivos do Marquês demarcar o Valongo como o lugar no qual se “enterrarão os mortos”. por mais justificados motivos que hajam e nem ainda depois de mortos. Viagem ao interior do Brasil. Posto isto. este tipo de sepultamento. Luccock. W. o próprio Vice-rei determina: Os negros novos.o mercado e colocar o incômodo local de venda fora dos contornos da cidade. porque o novo cemitério era bem próximo ao mercado. 35 Tão próximo era o Cemitério dos Pretos Novos que o viajante G.

. diferentemente da situação anterior. Concomitantemente. para depois Op. na qual várias casas espalhadas pela rua Direita e adjacências da Praia do Peixe exibiam seu comércio cada uma em seu tempo. após a sua liberação. a mortalidade escrava deve ter aumentado sobremaneira. estes deveriam ser enviados para a quarentena em uma das ilhas da baía de Guanabara. Cit. também descrita por R. pertencentes. como sabemos. Tumbeiros: o tráfico de às vezes uma muda de roupa e tinham escravos para o Brasil. p. os doentes eram radicalmente separados do contato dos sãos e levados para ilhas próximas a fim de permanecerem em observação. Dito de outro modo. deviam desembarcar na Alfândega. não sem antes haver percorrido certas etapas do processo de venda como o pagamento de impostos sobre todos os escravos acima de três anos41 e a quarentena de oito dias a partir da decisão de Lavradio: Cada navio que chegava ao porto do Rio carregado de escravos deveria primeiro ser vistoriado pelo médico da Saúde. uma vez que. antigamente. a fim de serem registrados. pagarem as taxas etc. o mercado passou a ser regulado e abastecido regularmente com as “peças da Índia” como o único local possível para a obtenção de escravos. em 1769 o mercado foi transladado para a referida rua do Valongo. Conrad como “longa e sinuosa”40 e que dava acesso direto ao porto (veja o mapa 1). suas chagas cuidadas. O Valongo. Nireu Oliveira. Neste novo sistema. 42 No período da quarentena. recebiam 40 CONRAD. p. sem os cuidados médicos .. Ainda que não tenha sido este o intuito primeiro do Marquês. 49. tratá-los e revendê-los – os chamados pelos senhores de engenho de “atravessadores”. e imediatamente depois serem enviados para o Valongo. São Paulo: Brasiliense. 58. deu nome a toda parte nordeste da cidade que hoje compreenderia os bairros da Saúde e Gamboa. 41 Idem. 1985. serem entregues aos mercadores que os conduziam até a rua do Valongo. 42 CAVALCANTI. a mudança do mercado para o Valongo saiu-se como um golpe contra aqueles que viviam de comprar escravos doentes e moribundos. à Freguesia de Santa Rita. Por ela passavam os escravos recém-chegados e eram acomodados em barracões. Robert E. como preferiu chamar o Marquês – nos quais cabiam de 300 a 400 escravos. a concentração de toda a mercadoria humana em um só ponto da cidade facilitou o acesso de consumidores. Assim se deu até o fim do tráfico negreiro.75 Desta feita. Neste momento. onde se estabeleceram grandes galpões – ou armazéns. caso se constatasse haver doentes.

enquanto outras tantas embarcações menores cuidavam de transportá-los para outras regiões litorâneas. Brand. estrangeiros e escravos. Ao mesmo tempo.43 Por volta de 1817. Ali os traficantes pagavam as taxas sobre os escravos acima de três anos. Casas comerciais. E pela descrição do viajante C. da Corte ou fora dela. os escravos devem ter morrido mais que dantes. depósitos de armadores e trapiches apinharam esta região nordeste da cidade. Sumacas. o mais velho poderia ter doze ou treze anos e o mais novo. já havia em torno de 34 grandes estabelecimentos comerciais no Valongo. em vez disso. Os navios negreiros que chegavam passavam antes pela Alfândega. Os que sobrassem seriam transportados para outras regiões. meninos de um lado.45 e só então os africanos eram levados à costa em embarcações menores. Se a intenção do Marquês do Lavradio foi a de primar pela limpeza e organização fazendo cessar o “terrível costume” dos escravos recémchegados fazerem suas necessidades em público.44 e essa região passou a ser um dos locais mais freqüentados do Rio de Janeiro. patachos e bergantins desembarcavam escravos. não mais de seis ou sete anos. assim como minimizar o número da escravaria morta. 76 . de ambos os sexos. isolados em leprosários e afins. a fim de serem leiloados. de importação e exportação. dizia que os africanos eram espancados e jogados no chão ‘entre mil imundícies. encurralados em miseráveis habitações’. quase nus. mas. A primeira loja de carne em que entramos continha cerca de trezentas crianças.previamente recebidos. Comerciantes. provavelmente ao menos uma vez teriam trafegado por aquela região portuária. e recriar um espaço destinado exclusivamente ao comércio. que ali esteve em 1783. não nos é difícil imaginar a precariedade do local. Os coitadinhos estavam todos agachados em um imenso armazém. o comércio incentivou a expansão na direção norte da cidade. Já o cais do Valongo vivia anos de intensa agitação por causa do movimento constante de embarcações que nele atracavam. meninas de outro. um outro relato indica uma situação bem diversa: Um relato dos primeiros tempos de funcionamento do mercado contesta essa perspectiva otimista: o espanhol Juan Francisco Aguirre.

p. tudo o que vestiam era um avental xadrez azul e branco amarrado na cintura. longe do olfato e da visão dos homens da “boa sociedade”. 44 Idem. em uma área afastada do perímetro urbano. à margem dos problemas advindos com o crescimento urbano. como descrevemos acima. onde ela. Brand. Cit. nente em “manilhas e libambos” e nos 48 Conrad. não é demais lembrar que o Valongo naquele momento não era tão povoado e o cemitério estava. fim do caminho percorrido levava à p.48 Tudo isto fazia com que muitos já chegassem mortos. ou para os que morriam no Valongo. Apud. [. o Cemitério dos Pretos Novos era o destino certo. o 43 RODRIGUES. a partir daí. Cit. 73. Op. No entanto. deste modo. a partir de 1769. Cit. Caprichosa e costumeira. De costa a costa. 298. O Cemitério dos Pretos Novos funcionava como que acoplado às necessidades da sociedade escravista. para alguns escravos. hepatite. disenteria.] o cheiro e o calor da sala eram repugnantes.. desfazia e recriava novos círculos de afetividade.46 Não obstante. um no translado pelo interior do conticompanheiro de aflição. sua Op.. p.3.47 Segundo Conrad. 45 KARASCH. tumbeiros. 76.. 25.. 299. Jaime. Mary C. Op. um novo parente. teimosa. não encontramos reclamações sobre ele. deixando cada vez mais em foco as práticas inumatórias vivenciadas no Cemitério dos . continuamente alimentado pelo tráfico negreiro. 47 Com efeito. a morte dentro presença se fazia constante entre os dos navios negreiros deve ter desagregado várias famílias que. Mary C. anemia. 2.. ter encontrado no malungo ao lado.77 para melhor inspeção dos compradores. KARASCH. CEMITÉRIO E MORADORES DO ENTORNO: MOBILIZAÇÃO E PROPOSTAS PARA O FIM DO CEMITÉRIO DO VALONGO Após a sua transferência para o Valongo. muitos já partiam para o Brasil tendo contraído malária. Para os que morriam ao entrar na Baía de Guanabara. ou semimortos. deveriam malungos desde a captura na África. p. 46 C. cada vez maior de cativos. que despejava no porto um número. morte. oftalmia e escorbuto. o mercado de escravos parece ter passado à esfera de uma discussão periférica. passagem do século XVIII para o XIX. Para este momento.

o primeiro quartel do século XIX presenciou um adensamento populacional na região noroeste da cidade. nos quais pediam que o cemitério fosse transferido para um local “mais remoto”. as pessoas. em razão de nunca serem bem sepultados os cadaveis. tais como calor. na qual se acreditava que “matérias orgânicas em decomposição. Como vimos no capítulo 1. em 1821. especialmente de origem animal. Logo. os “gases” emanados dos cadáveres foram acusados de serem os causadores de várias doenças. Como a forma de se sepultar os escravos à flor da terra não mudara. A partir de 1820. século XVIII. estudando a “cemiterada” na Bahia. Seguir os vestígios do Cemitério dos Pretos Novos é. também. dizem os moradores abaixo asignados do bairro do valongo que elles com assento suppes já não podem sofrêr mais daminos nas suas saúdes. a partir de um dado momento.49 João José Reis alerta que fora justamente no século anterior. geralmente versando sobre o mau cheiro ali exalado. e acusando-o dos miasmas que grassavam na cidade. principalmente os defuntos que eram inumados nas igrejas e os sepultados no Campo da Pólvora. Não tardou muito e. como tão bem por ser muito 78 . que se alastrara por toda a Europa.Pretos Novos.50 A corte não tardaria a ser invadida por tais pensamentos e os moradores do Valongo se queixariam com freqüência. 51 Passemos ao primeiro deles: Senhor. a doutrina dos “miasmas”. que se acham citto entre êlles. o “cheiro dos defuntos” começa a incomodar as pessoas. “em razão dos grandes males” produzidos à população local. não demorou muito e a população local começou a sofrer as dores de ter um cemitério mal cuidado por parede-e-meia. seguir os rastros deixados pelas reclamações e ofícios de queixas contra este. “formavam vapores ou miasmas daninhos à saúde”. por cauza do cimiterio dos pretos novos. chega à conclusão de que. os vizinhos do “indesejável” cemitério redigiram dois requerimentos endereçados ao príncipe regente. o qual passou a ser odiado por seus vizinhos. João José Reis. com ele. O comércio seguira o mercado e. especialmente pela comunidade científica da França. direção dos ventos. podem-se encontrar vários protestos que descrevem o cemitério da pior forma possível. sob influência de elementos atmosféricos”. sobretudo na própria Freguesia de Santa Rita e no seu entorno.

50 Idem. a vossa alteza real seja servido mandar que seja transferido pª outro lugar que seja mais proprio cuja graça esperão Rio de Janeiº 3 de Obrº de 1821. (doc 6). João Ignácio da Cunha pede que um representante do poder público. p. me informe sobre tudo quanto antes. que vai por copia. que o anexou e acrescentou de seu punho as seguintes palavras: Mando-me [ilegível] O principe regente informar p requerimento. João José. João Ignácio da Cunha. 52 BN. provações e males Rabaiolle pela transcrição de todo este abaixovividos pelos moradores. por ser hoje huma das grandes povoaçôens. envio-o por isso os motivos e malles allegados. Ofício de João Inácio da a despeito de seu português precáCunha a José de Bonifácio de Andrade e Silva. por que umildimente. em que pedem s’[. 51 RODRIGUES. o tal requerimento chegou às mãos do Intendente de Polícia João Ignácio da Cunha. Em 13 de outubro do mesmo ano. p. (doc 7). p. rio.. O príncipe regente era exortado.. a transferir o cemitério para outro lugar.. 71. Op. 30. I-4.4. Claudia.. 75. 54 Idem. em socorro de seus súditos. Antônio Carlos Ferreira. palavras. a fim de prestar contas na Secretaria de Estado.53 O motivo assinado. Op.A morte é uma festa. precisas: contou 53 Agradeço à historiadora Samantha das dificuldades. Antonio Carlos Ferrª [Costa]. resume a situação em poucas interpondo o seu parecer sobre o cemitério dos Pretos Novos. .79 inproprio em similhante lugár havêr o referido cimitério. o ocorrido.54 No ensejo de se informar do ocorrido. dos moradores do bairro do valongo. Deos ge a V. Rio em 13 de outubro de 1821. porém. em outro logar mais remoto attento os malles. [sic] 52 O escrivão encarregado de notificar 49 REIS. Cit. lembrando o que já ocorria com o cemitério desde o tempo em que se situava no Largo de Santa Rita. Assim o fez Luiz de Souza . verifique in loco as condições do campo santo. Cit. para poder dar conta na compettente secretaria d’estado. era o dos corpos nunca serem bem enterrados.] o cemiterio dos pretos novos. M. no caso o juiz de crime de Santa Rita. que tem produzido o que s acha naquelle sitio.

por conseguinte.. em vestes de padre. menos um campo de futebol dos dias atuais. He que passo informar. em 1821. a braça vale 2. na entrada daquele espaço cercado por um muro de 50 braças em quadra. de sepultamentos. p. Há de se ressaltar que a visão que impressionara a retina do juiz de crime.56 ou seja. lendo um livro de 80 . e que nelle hão de ser enterrados: e alem disso está hoje quaze todo circulado de cazas. 56 Segundo Dahas Zarur. e o cemitério do Caju tério era pequeno. O problema proposto é que.ª igualmte se verificando incommodos q soffrem os habitantes daquelle lugar com tão dezagravel vizinhança. era muito alto. Freireyss estimou tinha 50 braças.55 O juiz verifica que o espaço do cemi55 Idem. em q me manda proceder às necessárias averiguaçoens sobre o requerimento de alguns moradores do Valongo que se queixão dos graves incommodos que sofrem com a vizinhança do cemiterio. Eu me dirigi àquele lugar. equivalendo a 110 metros. por causa do intenso tráfico negreiro. como veremos adiante. Freireyss. e ahí observei ser este muito limitado em gde numero de pretos que morrem. 21 de Obro de 1821.2 metros. o volume de mortes e. foi muito similar à que teve o viajante alemão G. quando da sua visita ao Cemitério dos Pretos Novos em 1814. e q levo à presença de V. W. Por outro lado. Em cumprimento do offº de Vsª de 13 do corre. Ver: Cemitérios da Santa Casa da Misericórdia do o cemitério deveria medir mais ou Rio de Janeiro.Vasconcellos. o cemitério em 50 braças. estava assentado um velho. (doc 8). tais escravos não eram bem sepultados. juiz de crime de Santa Rita à época: na mesma semana se abalou até a região do Valongo para fazer as averiguações. só estas só estas razoens já serião sifficeintes para semelhante fim: Quanto mais que pelo summario da testenhas a que procedi. Luiz de Souza Vansconcellos. Ele assim o descrevera: Próximo à rua do Valongo está o cemitério dos que escapam para sempre da escravidão. Illmo intendente geral de policia O Juiz de Crime do Bº de Sta Rita. R.. em q se enterrão os pretos novos muito próximo às suas casas. S. 157.

para que as cinzas fossem mais bem absorvidas pelo solo farto de corpos. a visão é de deixar 59 FREIREYSS. Op.. sem se darem ao trabalho de fazer uma cova. pelo menos em 1814. aqui e acolá. Op.. G. apenas. 1573-1639.. Mais ao fundo. 134. Finalmente chegou-se a melhor compreensão.81 rezas pelas almas dos infelizes que tinham sido arrancados de sua pátria por homens desalmados. é preciso que se note que. alguns pretos estavam ocupados em cobrir de terra os seus patrícios mortos. deixando muito por ser coberto: No meio deste espaço havia um monte de terra da qual. usado pelos dre encomenda as almas. o mau cheiro é insuportável. o que indica a existência de algum tipo de ritual realizado pela igreja naquele local. mas o fato é que os corpos se amontoavam no centro do terreiro e tal acontecimento levou o alemão a supor que os corpos eram queimados uma vez por semana. 01. saíam restos de cadáveres descobertos pela chuva que tinham carregado a terra e ainda havia muitos cadáveres no chão que não tinham sido ainda enterrados. estavam apenas envoltos numa esteira. rior do cemitério. W. e a uns dez passos dele.. É provável que tal “livrinho” fosse conhecido “aparelho de bem morsimilar ao Breve Aparelho e modo fácil para rer”. OR: 135. e. Cit. Provavelmente procede-se o enterramento apenas uma vez por semana. Cit. no intepadre Estevam de Castro. Com efeito. havia a figura de um religioso. W. “um pouco de terra” sobre os mortos.58 no qual lê preces pelas almas ajudar a bem morrer um Cristão de autoria do dos negros. p. do qual existe um exemplar na BN.05.59 Custa-nos acreditar. 134. Nus. G. passando em seguida a sepultar outro. amarrados por cima da cabeça e por baixo dos pés.. estarrecido o alemão acostumado a ver e visitar cemitérios europeus: outros negros que jogam. p. religioso deve ter nas mãos um muito sacramentos ou atos referentes à hora da morte. Mas de uma coisa Freireyss tinha certeza: o cheiro era insuportável. Seguindo a descrição de Freireyss.. queima de vez em quando um monte de cadáveres semidecompostos. jogam apenas um pouco de terra sobre o cadáver.57 O viajor nos informa do ritual aparen57 FREIREYSS. 58 Os aparelhos de bem morrer consistiam em um te: um velho envolto em vestes de papequeno manual eclesiástico. como os cadáveres facilmente se decompõem. Poderia ser o caso de um ritual simplificado por causa do grande . o padres na hora de proceder à extrema-unção.

seu negócio poderia estar fadado ao fracasso. porém. em 1821. mesmo depois de os moradores terem reclamado formalmente da existência do cemitério. ou não. não localizamos nenhuma outra documentação que confirmasse.volume de escravos que lá adentravam.61 O comerciante atacou frontalmente a administração do cemitério. que José Maria era um comerciante. o próximo passo foi relatar as suas impressões sobre aquele sítio e intimar os reclamantes para deporem como testemunhas sobre os motivos que os levaram a pleitear o fechamento do cemitério. Note-se. “cincoenta anos” de idade. O primeiro a ser ouvido foi José Maria dos Santos Lopes. e os das autoridades não fazem menção ao fato. Voltando às averiguações do juiz de crime no Cemitério dos Pretos Novos. nenhum religioso a encomendar as almas. E assim se fez. respondeu: Que sabe por ver e pressencia o grande e mão cheiro que esalla o cemiterio dos pretos novos a ponto de se fecharem as janelas por não se poder tolerar e por isso arruinadando a saude dos moradores da quelle lugar. A impossibilidade de fazer preces individuais fez com que o religioso ficasse rezando postado à porta por onde passavam os defuntos. esta foi a única diferença entre os relatos dele e o do juiz de crime. 82 . os reclamantes prestaram seus depoimentos. os rituais fúnebres por parte da Igreja cessaram. branco. portanto sete anos mais tarde. Em outras palavras. ou o juiz fez sua visita em um dia no qual não havia nenhum “velho com vestes de padre” encomendando os mortos. O juiz não mencionou nenhum pároco.60 Perguntado pelo conteúdo na petição dos moradores do Valongo. Contudo. nada pior que “uma tão desagradável vizinhança”. E isto. solteiro. em 1821. Em dia e hora marcados. Disse ser natural do Porto e ter matrícula de comerciante e jurou “aos santos evangelhos dizer a verdade”. sendo a causa disto grande numero de corpos que ali enterrão e sendo o terreno muito pequeno e pessimamente administrado e q athe chega a estar os corpos vinte e quatro horas sem serem enterrados e mais. O relato de Freireyss é único. na década de 1820. a encomendação das almas. de modo que nem mesmo tal figura fora percebida. Porém. Se seu negócio estava naquela mesma região. Isto nos faz supor que. na casa do juiz de crime de Santa Rita.

Cavaleiro da Ordem de Avis. Disse ser natural de Lisboa. Jurou conforme os anteriores e confirmou o teor do que havia sido dito antes: Disse que todo o alegado nelle he verdade. 61 Idem.. pois que ele testemunha tando naquelles sitiu huma casa para ir espairecer pelos [.. O seu testemunho confirmou os anteriores. pois. O testemunho da terceira pessoa arrolada como reclamante deveria ter um peso mais elevado perante os outros. sofrer grandes malles” e que “do semiterio dos pretos novos exalão por todo aquelle contorno a ponto de elle” e todos “aquelles moradores terem suas” famílias trancadas “de dia e de noite com receio de serem pestiados”. casado. Novamente o cemitério é considerado pequeno para tantos sepultamentos.63 O último a testemunhar fora José Alves Carqueja. Também “jurou aos santos evangelhos” e prometeu dizer a verdade sobre o argüido. “cincoenta e quatro annos”. Disse que sabe por ver e presenciar que o cemiterio dos pretos novos he sumamente prejudicial a toda aquella gente. em razão do cemitério. viúvo e Cit. José Francisco Moreira.. “quarenta annos” [sic] de idade. não podia abrir as janelas. branco. 62 Idem. mas.] pelo grande fedito que daquelle semiterio exalla tanto por ser o terreno muioto pequeno para tantos corpos pára serem mal interrados e por tudo isto se faz inhabitavel aquelle sitio e mais. digno de alta distinção na sociedade imperial. elle testemunha e os não moradores esperimentão sofrem grandes feditos que continuadamente que exalla daquelle semiterios dos pretos novos e obriga a que elle testemunha e os mais conservem suas janelas feixadas continuadamente e disse. de idade um pouco mais avançada que o primeiro. (doc 9). 64 Idem. Dito de outra forma. Tratava-se do tenente-coronel Joaquim Antonio Almeida Pinto.] he prohibido [.62 Segundo seu relato. (doc 9). Moreira comprara uma casa naquela região para “espairecer” ou respirar melhores ares. Ofício de João Inácio da Cunha Op. (sic) 64 . dado a negócios. ter “quarenta e quatro annos” e morar “junto ao cemitério”. Aos seus olhos deveria ter sido dinheiro jogado fora. Relatou saber “por ver esperimentar. havia investido certa quantia de dinheiro sem que isto lhe trouxesse benefício algum.83 O segundo reclamante a ser ouvido foi 60 BN. branco. 63 Idem. (doc 9)..

Com efeito. todos eles portugueses e quase todos comerciantes.65 A figura de um religioso descrita. deu lugar a “uma pequena cruz de paus toscos mui velhos”. Esta pequena amostra dos moradores do Valongo nos apresenta um grupo formado por brancos. o muro baixo deixa ver corpos insepultos e outros defuntos sendo sepultados por dois negros. oito anos atrás. Definitivamente. dividido do quintal de uma propriedade vizinha por uma cerca de esteiras.Como se pode ver no depoimento acima. Mais tarde anexou aos autos o seu seguinte parecer: O espaço que constitui o cemitério é muito pequeno para nele enterrarem tantos corpos de pretos novos. além disso são mal enterrados. eles não queriam ter por vizinho o referido campo santo. se havia um prejuízo certo era o de ter um comércio fechado continuamente. e a terra do campo revolvida. como se não quisesse crer no que lera através dos relatos documentais. Um segundo aspecto importante seria o de que tal grupo. no mínimo letrado. São estes mesmos que atacam veementemente a administração do cemitério como a culpada por tanto desmazelo. e no meio uma pequena cruz de paus toscos mui velhos. aos fundos. e aqui e acolá. no ano seguinte. como os que ordinariamente para ali são mandados. No entanto. que não se cansam de fazerem covas fundas. e juncada de ossos mal queimados. porém sobre tudo me admirou a nenhuma decência do lugar. Este estado de coisas motivou os moradores do Valongo a reclamarem por direitos. em 12 de março de 1822. Entrementes. pedaços de corpos expostos 84 . A cristandade ocidental estava representada no local. porque esse trabalho está confiado a um. sem nenhum tipo de cuidado. e pelos outros dois lados com mui baixo muro de tijolos. teria conhecimento das doenças ou miasmas que poderiam contrair por respirar o ar putrefato de corpos insepultos. à volta da cruz tosca. o que deve ter feito com que os odores dos cadáveres insepultos incomodassem sobremaneira os vizinhos. escravos. o intendente de polícia João Ignácio da Cunha se dirigiu até o cemitério a fim de constatar ele mesmo as condições deste. símbolo da religiosidade cristã ocidental amplamente difundida entre os fiéis. o caos era completo: na esteira que delimita o cemitério. ou dois. O que comprova não se tratar de um cemitério clandestino. os corpos eram deixados à flor da terra. Pelo lado do fundo está tudo aberto.

Grande quantidade de comércio varejista. Preço era também o que estava em jogo no sepultamento dos escravos. José Vieira. seria criada a Freguesia de Santana. hoje está rodeado de prédios habitados de moradores: não é fácil porém achar-se terreno (. (série Estudos Históricos). 414.. mas um acordo estabelecia que mesmo o cemitério estando em solo da jurisdição da nova freguesia. alegando a perda da renda advinda dos sepultamentos. Casa da Moeda.67 O adensamento populacional abordado no capítulo 1 aparece aqui como a razão pela qual o cemitério está rodeado de casas. se situava nela.69 O vigário de Santa Rita logo interveio. em 1814. João Ignácio reconhece que a situação não era fácil. aonde foi construída a Estação de Ferro D. uma vez que “pertencia a outra freguesia. Dr. Ora. 410-411. 39-42. Senado Federal e estação de Ferro. Op.. São Paulo: Hucitec. porque naquele tempo era muito menor o número de pretos novos que se introduziam nesse porto. e longe é um tanto incômodo para a condução dos cadáveres. Pedro II. 69 Segundo Marilene Silva. Negro na rua: a nova face da escravidão. pp.) para servir de cemitério. e local. dificilmente se acharia um outro lugar tão ou mais cômodo. Marilene Rosa Nogueira da.) do atual vigário. Situado junto à praia e à rua do Valongo.66 Mas isto não é tudo. Voltamos a enfatizar a questão da localização estratégica do cemitério. A antiga igreja foi construída em 1878. foi criada a Freguesia de Santana. em prejuízo dos rendimentos e (. o que se vê é. a freguesia de Santana surge em 1814 e tem como sede a Antiga Sé. Brasília: CNPq. a igreja de Santana. Cit.. . e próprio para cemitério dos pretos novos no tempo em que foi para isso destinado. A população era na maioria de baixa renda e aglomeravase em cortiços. o signatário passa a explicar a natureza do cemitério: Se aquele espaço de terreno. era suficiente.85 à luz do sol. na Rua Barão do Capanema.. em prejuízo dos rendimentos e [ilegível] do atual vigário”. Inspetoria de Obras Públicas. uma disputa de poder travada.71 65 Idem. p. novamente. 66 Idem. e então pertencia a outra freguesia. e por conseqüência muito menos morriam. 71 Idem.. não se pode dizer.. continuaria sob o controle de Santa Rita.. Entretanto. com a transferência da jurisdição ao pároco dessa freguesia. pela renda de 400 réis cada sepultamento. 1988. pagos pelo senhor à Santa Casa da Misericórdia.) as circunstâncias (. pp. que o é presentemente.70 Depois de algumas controvérsias. naquele tempo o lugar do cemitério era despovoado. o Ministério da Guerra. Conforme: SILVA. 67 Idem. Quartel General do Corpo de Bombeiros. 70 FAZENDA. porque perto não o há. 68 Idem. demolida em 1856.68 Como vimos anteriormente. O intendente menciona em seu relatório que o cemitério já foi alvo de disputa. denunciando a falta de “decência do lugar”. desta vez. ainda que não para os moradores.

como é sabido. pois parece ter usado apenas esteiras. Algumas destas irmandades gozavam da licença de possuir esquife próprio. 86 . e a Santa Casa fornecia a mortalha ou o esquife para buscar o corpo. Controlar a morte. o que diminuía a despesa.Não encontramos registros do valor do sepultamento pago à paróquia de Santa Rita. Ao fim. confrades de associações ou sodalícios religiosos. como qualquer outra irmandade o fazia. referente à licença. ou um bem próximo. por cada sepultamento. mais uma vez Santa Rita saiu vitoriosa e não seria um exagero afirmar que não foi por acaso que o vigário José Caetano Ferreira de Aguiar. conforme expressou Vieira Fazenda: Os cadáveres dos captivos. tenha sido eleito senador no mesmo período. Ademais. a Freguesia de Santa Rita devia economizar em esquifes e mortalhas. poderiam ser inumados no interior. pagando por isto a taxa de um cruzado. Logo. tinha o monopólio de todo o serviço funerário. acreditamos que a Freguesia de Santa Rita cobrasse este mesmo valor ou um pouco menos por cada escravo sepultado. várias irmandades possuíam licenças para procederem com os sepultamentos de seus irmãos. conferia status e mantinha o poder. Posto isto. e que o seu retrato figure na galeria de benfeitores da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. 400 réis. em 1822. O restante do negócio seria feito ao modo realizado pelas irmandades. os senhores pagavam o mesmo valor. Apesar de a Santa Casa possuir o monopólio dos sepultamentos desde o acordo firmado com o governador Castro e Caldas. sobretudo a dos outros.72 Pelo visto. A pesquisa realizada nos arquivos da Santa Casa da Misericórdia revelaram documentos que comprovam que de 1836 a 1840. O restante era lucro certo. uma vez que nem mortalhas nem esquifes foram notados quando da visitação do intendente geral de polícia. pagando de cada enterro a quantia de um cruzado à Misericórdia. a qual. mas acreditamos que o valor seja este. pároco de Santa Rita. do dinheiro percebido por cada sepultamento. nos adros e dependências das respectivas igrejas e capellas. se deveria retirar apenas um cruzado à Santa Casa. tudo nos faz crer que os trabalhadores do cemitério – os dois negros relatados – eram escravos.

119 escravos no Cemitério dos Pretos Novos. que contrate o terreno que lhe fica contíguo para aumentar o cemitério existente. somos inexoravelmente levados difuntos han de ser sepultados estando reprobada a pesquisar a quantidade de sepultados la cremación de los mismos. ele reúne os códigos mais antigos da isto que voltamos novamente ao livro Igreja que estavam em pleno vigor à época do de óbitos de Santa Rita e verificamos Cemitério dos Pretos Novos). Livro de Óbitos de escravos Em nossa análise. conhecimentos e probidade.º Los cuerpos de los fieles corpos. 74 A administração eclesiástica foi considerada culpada. e fundamento das reclamações. que o cerque todo de muro alto pellos quatro lados. as sugestões incluíam o aumento do terreno por aquisição de algum contíguo. para aferir o real teor Pd. Voltemos às observações feitas pelo intendente de polícia que. mantes denunciam que o espaço do 75 “Todos deben venerar y respectar los cadáveres y los lugares en que están depositados para su cemitério era pequeno para tantos descanso... 1824-1830. y os que se atreven a violar los sepulcros no referido campo santo. que cuida em fazer enterrar bem os corpos. e finalmente que olhe para a decência. e o zelo pela decência ao sepultar. Ofício de João Inácio da Cunha. além do quê. pessoas capazes de sepultar os corpos.. dado o número da Freguesia de Santa Rita. O intendente de polícia não estava errado em passar o caso à observância eclesiástica. 75 .. Desta feita. expressivo de vezes em que os recla74 BN. já que o próprio Direito Canônico previa que o lugar do sepultamento dos fiéis era inviolável. finalmente. 73 o que daria o número de 1. Um número incrível se levarmos em conta que o Cemitério dos Pretos Novos deveria ter mais ou menos o tamanho de um campo de futebol. 73 ACMRJ. Op. Maroto. Foi por 55.87 72 Idem. a igreja de Santa Rita é vista como a única responsável pelos sepultamentos. Instituições de Direto Canônico p. e é de esperar do seu caráter. Sin la voluntad del difunto. Cit. (Apesar de o código ter sido impresso em 1919. a cujo distrito pertence o cemitério.019 sepultamentos por ano. Como se pode observar.. muros altos que impeçam que os odores se espalhem. ao menos na o cementerios son castigados con severas penas” década de 1820. que de 1824 a 1830 foram sepultados 6. Así pues: I. que ponha pessoa capaz. não podia ser cremado para que pudesse se encontrar com Cristo no advento da Ressurreição. o corpo do defunto deveria ser respeitado. e decoro do cemitério como deve. passa às providências a serem tomadas e arremata: Que se ordene ao vigário da freguesia da Santa Rita.

77 Relatório de Francisco Manoel de Paula a ordenara ao provedor-mor da Saúde João Severino Maciel da Costa. maço Is 4. também. 302.2. a situação dos enterramentos não era muito diferente dos praticados ad sanctus. Entretanto. De costa a costa. Aquela pilha de documentos do abaixo-assinado que analisamos anteriormente caiu sobre o colo do provedor. Jaime. o provedor-mor da Saúde que recebeu o caso. A reclamação era antiga.77 O pedido do provedor logrou êxito. Ele reclamou por não possuir médicos suficientes. Era preciso que se provasse. abalou-se para a região do cemitério junto com a comitiva e. o mal que o cemitério causava. Jaime. De costa a costa. pouco importava o que era feito do corpo. Afinal. por meio da ciência. pôde testemunhar ocularmen- 88 . o provedor não tinha os meios para realizar uma “tarefa extraordinária”. Apud: se” 76 se o Cemitério dos Pretos Novos RODRIGUES. porque havia apenas um médico e um cirurgião. fatos começaram a demonstrar que o assunto não era de fácil resolução.Os documentos do Arquivo Geral da Cidade não nos possibilitaram verificar se o cemitério de fato fora aumentado ou se fora trazida uma “pessoa capaz em fazer enterrar os corpos”. 303. pois se tratava. foi dada a ordem para que a Provedoria-Mor da Saúde se pronunciasse sobre o cemitério. estavam sempre nas vistorias do porto. Parece que o vigário não atendera à ordem dada pelo intendente de polícia. da qual importava a salvação. A morte estava dentro dos limites da religiosidade. Ou seja. De Paula. por sobrecarga de trabalho. quando parecia que as coisas se encaminhavam no sentido de fechar o cemitério. nem levada em conta. o seu primeiro relatório não foi animador. A discussão religiosa não é mencionada. Porém. foi presto em dar respostas à sociedade. p. Havia de se ter muita perspicácia para se desviar dos assuntos da fé. circunscrita ao perímetro da fé. Tão logo ele recebeu o contingente de médicos pedidos. Neste sentido. de legitimar um cargo criado há pouco. Arquivo Nacional. enquanto se buscasse um novo meio de provar os males trazidos pelo campo santo. “Uma portaria de 8 de outubro de 1824 76 RODRIGUES. as reclamações dos moradores voltaram à tona dois anos mais tarde. como os anteriores. 10 de outubro Francisco Manoel de Paula que averiguasde 1824. p. os quais. considerado mero invólucro da alma. causava males à saúde. Neste contexto. No entanto. porque a Igreja afirmava a supremacia no tocante a estes assuntos. e nesse ponto estava longe de ser resolvida.

as reclamações dos moradores do Valongo. Em 23 de janeiro de 1829. 79 Idem. com os moradores mobilizados novamente para pressionar o poder público: Nesta ocasião não podemos deixar de lastimar que a imundície.79 esperava-se que o laudo emitido pelos médicos. que embaraçam a corrente do ar necessária para conduzir as emanações do cemitério para fora da povoação. de maneira que a pouca profundidade ficam os cadáveres mergulhados em água.89 te o que ocorria na região. não se mostraram fortes o bastante para pôr termo aos sepultamentos naquele lugar. dos Matadouros. dos açougues. 26.78 O provedor observou as mesmas condi78 Idem. sepultasse de vez o nefasto cemitério. 23/1/1829. nada mudara desde as primeiras reclamações: O dito cemitério no lugar em que se acha causa prejuízo à saúde. praticamente estavam em meio a poças d’água.] pela sua situação local ser muito baixa. II-34. por ter o terreno muito pouca altura de terra sobre o pântano. e comodidade geral dos moradores do mesmo bairro [. ções precárias. representantes da cientificidade. 80 Biblioteca Nacional. Os médicos não podiam chegar a outra conclusão. o que deve atacar muito a saúde dos mesmos vizinhos. e receberem os vizinhos próximos imediatamente a evaporação emanada do cemitério.80 O teor do publicado é praticamente o mesmo de 1822. Entretanto. por ser muito baixa a situação do terreno. agora. apareção em todos os pontos da Capital. e aguas empossadas. A esta época o cemitério já está “cercado de casas habitadas por todos os lados”. o editorial do jornal Aurora Fluminense rompeu esse silêncio e publicou um editorial contra o “cemitério dos Pretos Novos”. e que portanto deve ser removido para lugar competente. com o agravante de que 3. por ser muito pequena a superfície do cemitério relativamente ao número de cadáveres. sendo além disso de crer. Voltavam às mesmas reclamações após sete anos. e finalmente por se achar cercado de casas habitadas por todos os lados. ainda que acrescidas e afiançadas pelo saber científico. mas muito apto para aumentar a putrefação dos mesmos. Jornal Aurora Fluminense. o mangue da Cidade nova. despejos. o desaceio das cadeias. (sic) 81 . Cemitérios. e cercada de casas.. Como se pode imaginar. sendo um terreno desta natureza não só impróprio para consumir os corpos. a não ser a de que o cemitério fazia mal à saúde dos moradores. os corpos insepultos. que ali se enterram anualmente.. 81 Idem. cujos miasmas putridos se espalhão por toda a athmosphera. Depósitos de negros novos. que haja descuido do modo de fazer as sepulturas por ser isso entregue a um negro coveiro.

Pode ser que o editorial esteja falando sobre os sepultamentos ad sanctus. Cit. fora de povoado. a expressão “à flor da terra” é a mesma usada para o modo pelo qual se faziam os sepultamentos no Cemitério dos Pretos Novos. posturas municipais que regulassem 2ª edição. era imprescindível para cuidar da salubridade e a reorganização do espaço urbano. He para desejar que a nova Municipalidade. uma alusão direta ao cemitério de escravos recém-chegados da África. Nota-se uma forte influência do higienismo que procura legitimar e tomar para si. Jornal Aurora o espaço público. dentro da cidade. Uma legislação eficaz. Passim. para não estarmos respirando em todos os ângulos a putrefação dos corpos mortos. Rio de Janeiro: Graal. Fluminense. um novo campo de ação. o jornal cita o depósito de “negros novos” numa referência ao mercado de escravos do Valongo. logo que seja instalada. que. que atacão(sic) ou mais ou menos a saúde publica. neste sentido. ou seja.84 A proposta é a de que se deixasse a prática de sepultamentos intramuros.. e um clima benéfico. saneando as prisões. Dentre estes fatores. Op. onde os odores e miasmas seriam afastados do contato com os vivos.Vê-se que ao chegar os anos 1830. O poder público talvez tenha se mostrado frágil e incapaz de responder com uma ação mais enérgica no tocante às questões dos sepultamentos. até então quase que indissociável do espaço sujeito às ações eclesiásti- 90 . açougues e matadouros. muito embora o documento não lhe faça referência direta. No entanto. se são neutralizados por hum Ceo. 1983. e sepultados à flor da terra. Jurandir Freire. aliado ao Estado. 84 BN. lance os olhos para tantas desordens. e se procurasse criar cemitérios fora da área urbana. podem com tudo combinadas com outras causas produzir doenças epidemicas de todo gênero. as condições precárias às quais se referem o artigo não eram mais toleradas. Ordem médica e norma familiar. [sic] 82 Clamava-se com urgência por novas 82 Idem. mas atacadas como o principal fator desencadeador de doenças. ou seja. 83 COSTA.83 Como ressalta o editorial: Mas o que concorreria muito desde já para assegurar a salubridade ao nosso Rio de Janeiro seria a formação de cemitérios.

posteriormente transformado em Imperial Colégio de Pedro II.91 cas. A Carta Régia de 20 de janeiro de 1736 observava que os vereadores não eram mais subordinados aos governadores gerais. obras. a Câmara passou a legislar cada vez mais. 88 Idem. ampliando as suas atribuições e despachos. . após 1840. posturas. criando as municipalidades em todas as comarcas. Cit. 87 Noronha Santos. foros. Finalmente. A sua jurisdição abrangeria: inspeção pública. tida como “especial”. abrindo ruas e concedendo licenças para edificações. Crônicas da cidade do Rio de Janeiro. em 1º de outubro de 1828. quando o rei de Portugal havia diminuído o poder do Senado da Câmara subordinado-a aos governadores gerais. concedeu à alta corporação o título de “Senado da Câmara”. interferindo no espaço urbano. cadeias. no século XVIII. Tal ação enfraqueceu em muito as ações da Câmara. Depois de 1809. a Câmara começou a ganhar cada vez mais força no campo das ações decisórias no poder público. sem preterição dos direitos estatuídos pela provisão de 14 de março de 1748. já que o poder do governador estava acima da esfera de ação dos senadores.. 242. O Senado da Câmara foi extinto e criada a Câmara Municipal.87 85 Com o advento da descoberta de jazidas de ouro em Minas Gerais. Uma nova resposta formulada diante do estado de coisas por que passava a nação. A Câmara Municipal se apresenta neste momento como o locus privilegiado para este debate. Por este motivo é que se fez necessário um aparato jurídico mais refinado que abarcasse questões tão caras à população da Corte. bem como a legislação sobre novos cemitérios. ampliando as suas atribuições e despachos. sesmarias e o ensino do Seminário de S. a municipalidade foi reformulada: foi feita a divisão das províncias em distritos. É disto que o jornal Aurora Fluminense discursa em seu editorial. ainda que ela mesma não se mostrasse pronta para este embate. com a Corte instalada dentro da colônia e extinta a figura do governador geral. no dia de Santa Isabel. Joaquim. 86 A provisão de 14 de março de 1745 “regulou a recepção dos vereadores nas festas religiosas. Resta-nos compreender até que ponto este aparato jurídico consegue fazer frente aos entraves que impediam que a Corte obtivesse as mudanças necessárias para o bem da sociedade. Op. o primeiro lugar ao lado da irmandade da Santa Casa”. 240.88 É provável que o cenário político estivesse se desenhando cada vez mais para o abarcamento de novas questões do cotidiano da população da Corte. A carta de 14 de março de 1757. p.85 A partir daí. cabendo à Câmara na festividade da Misericórdia. a qual conferia exclusivamente a “el-rei a prerrogativa de exarar despachos no alto de petições levadas à sua assinatura” Cf: Noronha Santos. como vimos anteriormente. p.86 A carta de 1757 concedeu à alta corporação o título de “Senado da Câmara”. higiene.

conservação – não dera nenhum resultado.91 afirmou o juiz. devido a um decreto imperial de 1828”...2. coloca-se a cidade em um plano ideal de limpeza. p. Um outro ponto importante é que o juiz Luiz Bastos menciona o fato de ter recebido vários requerimentos da parte dos moradores insatisfeitos que clamavam pela transferência do cemitério. os moradores continuavam mobilizados em combater o cemitério.. aparentemente. Segundo este.89 Repare-se tão somente que o signatário. 91 Idem. em 1829. a Câmara deveria ser incumbida da transferência de cemitérios para fora dos templos. no Valongo. As esteiras.92 para. q de ordinarias sempre necebem alguma couza de corrupção dos corpos nelas envolvidos. como os corpos não eram sepultados. Cemitérios. 90 AGCRJ. e hoje com arruamento erguido) cheio todo em roda de esteiras. restava apelar para a questão ética. Neste sentido. que remetia o 1839. proximo ao morro da saude. Já que todos os esforços anteriores haviam redundado em nada. soma novos argumentos para sustentar o seu discurso: Tendo-se-me feito varias representações sobre o danno. Cit. e do mau estado. alegando ser o “assunto da competência da municipalidade.1. “bem como tudo o que fosse relativo à saúde pública”. em q se acha o mesmo Cemiterio. Códice 58. serem lançados em covas. que apenas um palmo resta para cobrirem-se os corpos que nelas se lançam aos pares”. a despeito do tempo passado e da luta inglória. estas esteiras rompiam-se. por meio da idéia do discurso de higiene. desta vez. Claudia. dentro do qual não se pode conceber a co-existência da imagem do indesejável cemitério. [sic] 90 Se o discurso anteriormente utiliza89 RODRIGUES. fazendo 92 . “Negros novos”. próximo ao morro da problema à esfera dos sentidos físicos Saúde. q á saude Publica rezulta da existencia do Cemiterio dos negros nóvos. Ofício de Luis Paulo de – como o mau cheiro e a péssima Araújo Bastos.Neste contexto. das quais o juiz fala. 77. tornava-se necessário procurar mostrar o mal que o cemitério causava à cidade em geral. é que o Juiz Presidente da Câmara da Corte Luiz Paulo de Araújo Bastos remete um ofício à Câmara Municipal. “Covas abertas tanto à superfície do terreno. q em huma capital civilizada exista o q ali se encontra: hum pequeno terreno (q alias está colocado no meio de muitas casas habitadas. são aquelas nas quais os corpos eram enrolados. então. Entretanto. 1829do contra o cemitério. procurando descrever o cemitério em profusão de detalhes. Op. no aproveitamento desta municipalidade recém-nata. fui eu mesmo á aquele lugar e admira-me. o que demonstra que.

espero q quanto antes VSS procedão como as Leis mandão. q nellas se lanção aos pares. desde 1º de outubro de 1828. Como ele arremata adiante: Cóvas abertas tanto á superficie do terreno q apenas hú palmo resta para cobrirem-se os córpos. morto em uma esteira era uma prática quando a nova municipalidade havia comum na África. eis o q eu mesmo. torno a repetir vos: [ilegível] he todo da atribuição desse Illmo Senado tanto pelo lado da Saude Publica. mas sabemos o seu teor por intermédio do juiz Luis Paulo de Araújo Bastos que. 66 paragrafo 2 titulo 3 da mesma Ley do 1º de Outubro do anno passado. e em geral de todos os habitantes da Corte. senão removendo-o d’aly e fazendo-se hum novo. a qual diz q a Camara proverá sobre estabelecimento de Cemiterios fora do recinto dos Templos. dizem não lhes ter como pedir a dar providencias. sido reformada e. sobre o tema: Recebi o officio de VVSS de 28 do mez passado. 93 AGCRJ. e q a Ley do 1º de Outubro do anno passado apenas providencias sobre estabelecimentos de novos Cemitérios acedem como o Regulamento do Provedor da saude só trata da maneira de fazer as vizitas aos navios. tendo em vista que a lei de 1º de outubro não legislava sobre antigos cemitérios. a fim de se tirar este foco de corrupção. . Contudo. e por isso advertindo á sua consideração e providencias. em q respondendo ao meu de 14 do dito mez relativo ao Cemiterio do Valongo. Á vista de taõ pozitiva não sei q outra Authoridade pertença este negócio.2.93 com que as vísceras dos mortos ficassem expostas ao tempo. insatisfeito. era incumbida da saúde da cidade. e direi q quando lhes dirigi este negócio foi tendo em vista mui particularmente o disposto no art.1. não sei q a Ley trate de cemiterios futuros e náo dos atuais. como vimos. Desta documentação não há vestígios.93 As atribuições do Senado estavam 92 No quarto capítulo desta publicação observaremos que o enrolar do corpo do corretas. a resposta do Senado não foi animadora: responderam que não podiam fazer nada sobre o assunto. e mesmo quando tratasse de nóvos não vejo como aquele do Valongo possa ser remediado. q estão neste porto Não posso concordar com VVSS. se vale a saude dos habitantes d’aquele lugar. conferindo a esse fim com providencias tal authoridade Eclesiastica do Lugar. e peste d’entro [ilegível] mesmas moradores. Códice 58. como pelo do Cemiterio. voltou a responder ao Senado.

mais a aprainha á saude Publica he o Cemiterio do Valongo no Estado em que eu vi. q mais prejudique. Outrossim. problemas mais sérios. e dizem q por [ilegível] só sem colhido. Os atores sociais envolvidos nesta trama.Alem disto para [ilegível] este negocio as suas providencias [. q agora se fez por ordem. Por outro lado. pairam como que incólumes ante os problemas propostos e dele não fazem caso algum. Bastos. com se me affirma. A resposta para isto pode ser clara e surpreendente. mas sim na Ley de 30 de Agosto de 1828. mais uma vez. e pertençáo desde aguns annos. administradora do campo dito santo. 94 . Enquanto em uma camada mais baixa. Os problemas de fácil resolução e que não encontravam a barreira do interesse próprio eram rapidamente resolvidos. transgressor e transgredido caminham de braços dados. Quanto aos “infelizes moradores” só restava seguir de requerimento em requerimento e receber a visita de inspetores que nada podiam fazer. athe par aqueles habitantes. na esfera superior. assinou uma matéria no Jornal do Commercio. os representantes do poder lutam e medem forças. incapaz de poder dar conta de antigos problemas que afligiam a vida da população. ou remessa de huma para outra authoridade. ao mesmo tempo que seus quadros não são dotados de um poder cabal contra os que lhe infringem as regras.. ou que. a burocracia se equilibra entre inspeções e pareceres para tornar pública à população a sua vontade. aguardando uma solução. os traficantes de escravos e a Igreja. empurrados de instância em instância. e mostrar força perante a segunda. como o Cemitério dos Pretos Novos.94 A burocracia herdada da estrutura da América Portuguesa mostravase. pois eles andão em requerimentos. a qual no Artigo 1º diz q pertence ás Camaras respectivas a inspençáo sobre a saude Publica : ora se ha objeto. Pela minha parte tenho respondido e feito neste negocio quando posso. Falta coragem ao poder público para acusar abertamente os primeiros.me] tambem naó no Regulamento do Provedor da saude de q VVSS falao qual sendo unicamnete por objeto a Inspeção da saude Publica do Porto do Rio de Janeiro. a saber. eram protelados. q VVSS fação oq me pareceu do [ilegível] officio. obrigando-os a fazerem o que era necessário. ainda em 1829. tangessem interesse particular. ou alguma vistoria. náo se chamem infelizes. direi.

e ajuntamento de aguas.95 uma cópia do seu primeiro requerimento. A acumulação de corpos mortos no recinto de huma Cidade tão populosa. VI. como aquelle que sentimos. lançado para fora do perímetro urbano. para dar lugar a todos os corpos. que seja contraria aos ventos mais dominantes. Códice 58. deve ser huma origem fecunda de infeccão. imagem de tal campo santo confronJornal Aurora Fluminense. de “facil escoamento de agua de chuva – 3. [sic] 96 Nota-se que o modelo europeu está posto para o articulista como o desejado e digno de ser imitado. que se soffrem no Rio de Janeiro. pois que alude às questões sobre os sepultamentos e os lugares destinados a este fim. de 17/2/1829. e a hygiene nos recommendão que os mortos sejão sepultados no campo. para que os miasmas. o autor pede que os senadores antes de votarem sobre a nova municipalidade. Cemitérios. n. mas não menos importante na visão do Observador: “que fique longe das habitações o mais que for possivel. eram as seguintes: Em primeiro lugar. 406. O bom senso. reforçava a tese de que um cemitério em más condições era inadmissível. sem se bulir no lugar das primeiras covas”.97 Em segundo lugar. aonde alias não se experimenta hum calor tão violento. e concorrer para o grande numero de enfermidades. não sejão levados pelos ventos ao povoado” 98 e por último. conservação e restauração. tava-se com o modelo de cidade que “Sobre o depósito de pretos novos e a necessidade de um cemitério”. longe dos rios. No transcorrer do artigo. clamando contra o “foco de corrupção”. e comprehendida em circulo tão limitado. de São Paulo.1. 95 BN. se queria forjar. e em certa distancia das povoacões: he isto mesmo o que hoje se pratica em quasi todos paizes da Europa. que o “terreno fosse enchuto.” 99 . bastantemente vasto. citadas pelo Observador. algo a ser erradicado. em respeito á povocão. durante quatro annos pelo menos. observem o exemplar número 25 do jornal Observador Constitucional. O Cemitério dos Pretos Novos se inclui na imagem negativa da cidade. A do Commercio V. que rapidamente desenvolve todos os principios de putrefacão.2. e não é por acaso que o próprio jornal Aurora Fluminense. na voz de seus redatores. situação tal.95 O discurso nascente da higiene emba94 AGCRJ. nº 145 de 23/1/1829. 96 BN. que dahi emanão. As qualidades. Jornal sava o clamor pelo fim do cemitério. 97 Idem. combinado isto com o modo do transporte dos cadáveres.

A morte vimentou neste sentido. Jobim aponta como causa das doenças no Rio de Janeiro vários fatores tais como o “clima”. bexigas. está posto sob a égide da Igreja. João José. De um lado.100 Citemos por exemplo a tese de José Martins da Cruz Jobim. 100 Para mais aclaramento sobre este tema. e que morriam tanto ou mais que no período antes de 1830.101 Nesta obra. pp. As fontes raiva. nem nenhuma menção ao fato nos jornais da época. os “mangues” e finalmente os “sepultamentos nas igrejas”. As moléstias que mais afligem cou várias teses que denunciavam o a classe pobre do Rio de Janeiro: lido na sessão pública de sociedade de medicina. quanto aos pretos novos. Um escravo novo do qual não sabemos nem nome nem origem. nem ofícios. 101 José Martins de Medicina do Rio de Janeiro publida Cruz Jobim. geralmente eram francesas. temos uma população 96 . Todavia. CONCLUSÃO Neste capítulo. sua história desvela em si uma faceta característica da sociedade escravista vivenciada por ambas as culturas. mas de grande valor para se dimensionar a preocupação com a saúde naquele momento. de outro. 254-269.A comunidade médica também se mo98 Idem. por sua vez. Já. intitulada As moléstias que mais afligem a classe pobre do Rio de Janeiro. 30/6/1835. baseadas 102 Idem. 99 Idem.102 Ao fim e ao cabo. sarnas e pneumonias. muito menos o navio que o transportou. p. publicada pela SMRJ em 1835. pois nesta data se deu o último sepultamento. ver: REIS. 7. sabe-se que estes continuaram a chegar aos milhares. temos os traficantes que lucram com o tráfico negreiro na mesma proporção em que trazem mais escravos. hepatite. a “posição geográfica”. nossos esforços se direcionaram no sentido de traçarmos uma história do Cemitério dos Pretos Novos. nem gazetas. foi lançado à flor da terra da mesma sorte que todos os seus antecessores. A Sociedade é uma festa. em problemas reais e imaginários. o número de mortos está relacionado com a existência de cemitério que. o Cemitério dos Pretos Novos cessou os seus trabalhos de inumação e os moradores do entorno enfim se viram livres do indesejado local de sepultamentos. Mas para onde foram os seus corpos? É o que tentaremos expor no próximo capítulo. ainda. Segundo ele doenças eram: sífilis. em 4 de março de 1830. tétano. Sem nenhum outro documento localizado. por outro. perigo dos sepultamentos nas igrejas 7. o cemitério foi fechado. e de cemitérios intramuros. p.

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reivindicando os seus direitos e o afastamento do campo santo para fora do perímetro urbano. No centro desta queda de braços está o Estado, engessado e incapaz de dar respostas satisfatórias frente aos problemas que surgem. Alijados do poder decisório, os que sofrem as agruras da escravidão e perecem não são de forma alguma respeitados em termos de sua religiosidade, amplamente desconhecida pelos seus opressores, representados pelos “homens da boa sociedade” e senhores de escravos, amparados pela conveniência clerical. Há ainda os vizinhos do cemitério, que enviam suas petições demonstrando o seu poder de mobilização frente aos problemas impostos pelo tipo de sepultamento ali realizado. Se suas ações são incapazes de sozinhas resolverem a situação, não se pode negar que grande parte das ações do Estado se deu através da manifestação dos moradores. Foi a partir dela que as comissões foram enviadas em visita ao Cemitério dos Pretos Novos. Finalmente, podemos ressaltar que o 103 Bíblia Sagrada de Jerusalém, Mateus, cap. VI, vers. 9, parte b. estudo do Cemitério dos Pretos Novos pode, em certa medida, nos revelar como eram as práticas das inumações no Brasil, pelo menos do século XVII aos meados do XIX, e mostrar que mesmo na hora da morte, o cuidado com o corpo inerte nem sempre foi uma preocupação entre os homens. Desta feita, a forma e o lugar no qual se é inumado variam de acordo com a posição social do morto, o que nos faz lembrar a oração que dizia, certamente carregada de outro sentido: “(...) assim na terra como nos céus”.103 A desigualdade terrena espelha uma desigualdade nas práticas inumistas e nos locais de sepultamento, já que o local do sepultamento está carregado de implicações simbólicas forjadas ao longo do tempo pelos homens das mais variadas culturas.

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Capítulo 3. História e arqueologia: revelações e redescobertas
3.1. AS DOENÇAS QUE FREQÜENTEMENTE FAZIAM OS ESCRAVOS DESCEREM À SEPULTURA

Ao classificarmos os escravos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos podemos seguir uma regra básica nos estudos sobre escravidão: dividi-los em boçais, ou pretos novos, e ladinos. Porém, tendo em vista que se tratava de um cemitério destinado a boçais, a presença de escravos ladinos, ao menos na prática já inseridos na cultura vigente, é no mínimo algo digno de menção. Muitas Joaquinas Conga, Ritas Angola, Marias Rebolla, Paulos Moçambique e Josés de Nação foram ali sepultados. Nossa fonte indica que 247 ladinos foram inumados no Cemitério dos Pretos Novos: seus nomes foram lançados no livro, ou seja, não eram indigentes, e seus donos compareceram no campo santo e pediram para sepultá-los, sob a égide da Santa Igreja.

Se o espaço do sepultamento era diferenciado de acordo com a posição social que o morto ocupava em vida, é difícil precisar com exatidão a causa de termos ladinos sepultados em um cemitério de recém-chegados, já que estes ocupavam o último patamar da hierarquia escrava.1 Poucos destes ladinos devem ter recebido os sacramentos. Apenas o escravo Ambrósio, sepultado em fevereiro de 1825, recebeu o batismo, mesmo assim em “caso de perigo”;2 e o escravo Manoel, de quem não sabemos o sobrenome, pertencente em vida

a José Dias Camargo, foi sepultado “amortalhado em panos brancos”,3 o que demonstra que já havia adotado a religiosidade cristã ocidental, ou que o seu senhor fez questão de sepultá-lo desta forma. De todo modo, apenas estes dois escravos dentro de um universo de 247 registros receberam algum tipo de sacramento. É provável que a questão de terem recebido ou não os sacramentos estivesse atrelada à vontade dos seus senhores e, desta forma, desde que estes estivessem dispostos a pagar as contas dos paramentos, a Igreja não faria objeção alguma. Por outro lado, este pode ser o motivo de eles estarem em um cemitério de pretos novos, já que ninguém poderia ser inumado nas igrejas, ainda que nos adros, sem ter recebido os sacramentos. Contudo, estes 247 ladinos representam apenas 4,03% do total de 6.119 escravos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos, ou seja, uma taxa ínfima dentro de um universo do qual a maioria era composta por recém-chegados. Talvez estivessem sepultados ali mais por exceção do que por regra. Também podemos ressaltar que a 1 SOARES, Mariza de C. Op. Cit., p. 137. 2 Este tipo de batismo era ministrado ao enfermo falta de laços culturais recriados na quando se suspeitava de que alguém iria América Portuguesa por parte dos morrer sem ter tempo de chamar o padre, africanos fez com que muitos fossem então este recebia o batismo rapidamente e no leito de morte. 3 Arquivo da Cúria sepultados no Cemitério dos Pretos Metropolitana do Rio de Janeiro - Livro de Novos, uma vez que não pertenciam a Óbitos da freguesia de Santa Rita. Fl. 107. nenhuma irmandade que cuidasse das suas mortes, como vimos no capítulo 1. Para os pretos novos, ou seja, os escravos recém-chegados, isto é completamente compreensível, pois morriam tão logo aportavam em novas terras. Mas como explicar que escravos ladinos tivessem o mesmo fim? A resposta talvez seja a de que o tempo destes em vida tenha sido curto, não deixando tempo para que se filiassem às irmandades, ou que a morte tenha chegado tão de surpresa que não tenha lhes deixado tempo de se preparem como era devido. Este pode ter sido o caso de Antônio Cabinda, marinheiro do bergantim Dezengano (sic), um navio negreiro recorrente em nossa documentação por causa da grande quantidade de escravos que transladava para o Brasil. Antônio Cabinda adoeceu e veio a falecer em agosto de 1828, e não teve outro destino senão o Cemitério dos Pretos Novos. A vida agitada daqueles que se davam ao trabalho marítimo pode tê-lo impedido de tomar as precauções de praxe com relação à vida futura.4 Sem destino certo ou paradeiro, foi ceifado pela morte em solo brasileiro e o seu corpo jogado ao lado de outros tantos.

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De costa a costa. Jaime. na falta de uma nomenclatura que desse conta do motivo do falecimento. 6 WALSH. através das irmandades de homens de cor? A esta questão. e que ela surja devido ao estado doentio do estômago. Op. como no caso do Amaro Mina. tenha mandado sepultar algum ente querido. Manoel.119 óbitos registrados no período de 1824 a 1830. prendamo-nos às causas que levaram os escravos à morte. 175. varíola – uma doença que grassava entre a população carioca daquele tempo. registrava-se o mal como “moléstia interior”. ou mesmo liberto. Cemitério dos Pretos Novos.6 É provável que algum tipo de doença tenha levado muitos escravos ao hábito de comer terra. ver: RODRIGUES. de que nenhum escravo ou liberto 5 ACMRJ . qual seria o motivo pelo qual os africanos não mandavam sepultar ali. muitos escravos possuíam outros. Por outro lado. Op. comendo terra e cal. Mas é de suposição geral que essa tendência seja o efeito e não a causa da doença. motivo pelo qual não temos mais dados sobre o que deve ter levado estes escravos ao falecimento. Cit. 205. pois muitos sofriam este sintoma. que fora sepultado amortalhado em panos brancos. assim anotou: Os negros freqüentemente causam doenças a eles próprios. levantamos uma hipótese no último capítulo..101 Um outro dado importante é o fato 4 Quanto à lida diária dos marinheiros. Debret também notou este problema nos escravos: . o diagnóstico era precário e. falecido em outubro de 1828. Vários estudos mostraram que. como acontecia nas igrejas. que se assemelha a uma afecção que na Europa acompanha a verminose nas crianças.Livro de Óbitos da freguesia de tenha mandado sepultar alguém no Santa Rita. falecera de bexigas – ou seja. ou um seu escravo. Porém muitos relatos de viajantes deram conta desta faceta da vida escrava. Tal exigência somente seria feita mais tarde. Há poucos dados sobre a causa mortis dos falecimentos. como capelão entre 1828 e 1829. nenhum escravo. Ora. Fl. e que muitos deles foram sepultados em igrejas através das irmandades. a ciência não possuía meios de tratar eficazmente muitas das doenças da época. algo emblemático o fato de que dos 6.5 Não havia à época uma legislação que obrigasse a se registrar a causa mortis. quando esteve aqui na expedição do Lord Strangford. O reverendo Walsh. Cit. É sem dúvida. No momento. no Brasil.

Cit. o que incorria na crença de um mundo paralelo raro. Jean Baptiste. sem nenhum empecilho. o convívio por vários dias em um ambiente infecto como os tumbeiros. como muitos da época. um vírus extremamente resistente aos agentes físicos externos. Tal enfermidade foi considerada uma doença infecto-contagiosa exclusiva do ser humano. de comer terra. alguns escravos se atiravam nas águas influenciados pela crença de que reencontrariam os seus ancestrais na África. resistente a mudanças climáticas extremas. O suicídio de escravos não passou despercebido pela retina do reverendo inglês. Op..156.7 Debret. escravos se davam a este hábito após o espelho d’água.8 Em outra ocasião. 8 WALSH. 208. via navios negreiros.Atrás da dona de casa. Salva a tempo. e em pouco tempo eles todos apunhalam a si próprios ou mergulham na mais profunda e terrível melancolia. Causada pelo Orthopoxvírus variolae. nem incólume por suas mãos. uma doença tão comum no Brasil Colônia e Império. na casa de um anfitrião. p. uma vez que a transmissão podia ocorrer 102 . Já em nossa fonte ao menos um escravo morreu de afogamento. valendo-se da primeira oportunidade que lhes aparece para tirarem a própria vida. notou 7 DEBRET. encarregada da aborrecida tarefa de espantar as moscas e mosquitos agitando ramos revela ao europeu o exemplo de um acréscimo de infelicidade pelo espetáculo doloroso da máscara de zinco com que o rosto da vítima esta coberto. p. Walsh ficou sabendo de uma escrava da Guiné que se atirou ao mar a fim de dar cabo da própria vida. que assim registraram: São grandemente propensos ao suicídio (os negros do Gabão). 9 ACMRJ . era propício para a propagação da doença entre os escravos. Cit.. permaneceu em repouso por algum tempo até se recobrar do ocorrido.11 Ao mesmo tempo. Op. Fl. ou se matavam por qualquer outro meio. 10 vontade deliberada em buscar fugir da Muitas sociedades antigas admiravam a vida escrava e alcançar a morte.10 Outros tantos foram vitimas da varíola. a doença se instalou no Brasil. não imagem que se reflete na superfície da água. uma de suas jovens escravas.9 não raro. índice sinistro da resolução tomada de morrer comendo terra.Livro que certos escravos possuíam uma de Óbitos da freguesia de Santa Rita. Tem havido casos em que uma leva de dezoito ou vinte desses escravos toma a firme determinação de pôr fim à vida.

João José mandou sepultar huã escava nova cuja marca ignora-se por se não poder conhecer pela muita bexiga. Estas erupções evoluíam para pústulas. por ocasião do registro no livro de óbitos. dor de cabeça. nas costas e falta de ânimo.13 . 1824-1830. 13 ACMRJ . de quem fiz este registro (grifo nosso). de bexigas. durante a qual um escravo infectado transmitiria a doença a outros companheiros de infortúnio.fiocruz. não resistiam e morriam.Livro de Óbitos da com o período de uma viagem entre freguesia de Santa Rita. do vírus coincidiria mais ou menos apenas a causa mortis nem sempre era lançada.htm>. br/ccs/glossario/variola_p. Estas bolhas se chamavam. retirado do livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita: Em vinte e quatro de novembro de mil oitocentos e vinte e seis. Neste caso o escrivão registraria como no exemplo abaixo. Angola e Rio de Janeiro. 12 Acredito que um número período de 7 a 17 dias de incubação muito maior tenha morrido de varíola. vinda de Benguela. na linguagem popular. de forma que o signatário. não conseguia nem ao menos identificar a marca feita a ferro em brasa no corpo do escravo. quadro clínico que permanecia de dois a cinco dias. pequenas bolhas cheias de pus que provocavam dores e coceira intensa. o 19/12/2005. o vírus da varíola permanecia incubado de 7 a 17 dias. rosto e depois se espalhavam por todo o corpo. que se manifestavam na garganta. Acessado em a doença ainda no porto africano. boca. Muitos. Uma vez instalado no organismo.103 de pessoa para pessoa e geralmente pelas vias respiratórias. o vírus se estabelecia na garganta e nas fossas nasais causando os seguintes sintomas: febre alta. Logo após. A recomendação era a de esperar até que o corpo produzisse os anticorpos necessários e vencesse a doença por si mesmo. No caso de o escravo ter contraído 11 Disponível em < http://www. Não havia nenhum tipo de tratamento para esta doença. O período que mais ou menos coincidiria com o desembarque no porto seria o momento em que a doença assumiria a forma mais violenta: a febre baixava e começavam a aparecer erupções avermelhadas.12 seus corpos estavam cobertos de “bexigas”. e o contato de qualquer parte do corpo infectado com os olhos causava cegueira. falecida a bordo do bergantim Economia. porém. Nossa documentação acusa que 24 escravos faleceram de varíola.

A questão da varíola é de fato muito importante. já que eram obrigados a pagar a taxa de importação sobre cada escravo vivo. 2. caso o escravo doente viesse a falecer no período de quarentena ou nos armazéns do Valongo.17 No citado documento o provedor-mor pede aos agenciadores que tenham cuidado com a “carga humana” por estes enviada. além de infectar outros escravos. era injusto ter de se pagar por eles.S-4. de pela saúde do porto e influenciado acordo com a lei de 20/5/1826. para que a doença não invadisse com tanta freqüência os portos brasileiros.A questão das bexigas14 era um caso de saúde pública e afetava. no referido documento encontrado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. conforme: Leis pelos traficantes de escravos. que a causa da alta mortalidade escrava era a péssima condição higiênica dos navios negreiros. os bolsos dos traficantes. 232. A discussão gerada em torno deste tema ganhou vulto no sentido de se saber se os escravos já estavam doentes desde que partiam da África ou se contraíam a doença no Brasil. embarcados para o Brasil já traziam a varíola. ato que os traficantes relutavam em cumprir. 18 Idem. 16 Arquivo Nacional explicações aos agenciadores africanos do Rio de Janeiro. 15 Os impostos alfandegários eram cobrados somente sobre os vivos. Fazenda.16 O provedor-mor da Saúde. o trabalho de Sidney Chaloub tratou das questões epidemiológicas no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX. botando a perder toda a carga. Manoel Vieira da Silva.15 No entanto. 76. já que muitas vezes estes escravos não conseguiam ser vendidos ou os consignatários não os reclamavam. Ao mesmo tempo. I.19 principalmente a questão da resistência escrava à vacinação. sobretudo. zelando 14 Idem. 17 Arquivo Nacional e portugueses para saber se os escravos do Rio de Janeiro. Com efeito. os importadores reclamavam que se os escravos já vinham doentes. já que morriam logo após. em 1804 e 1805. p.18 O signatário reforça a idéia de que os doentes deviam ser levados para o Lazareto. o provedor-mor da Saúde reconhece.S-4. o tráfico de escravos sempre esteve na pauta do dia nas discussões do Senado no sentido de se saber se o mesmo era ou não um meio pelo qual a varíola entrava no Brasil: os senadores contrários a esta idéia defendiam que o surgimento de epidemias na Corte não estava ligado ao fluxo de 104 . I. baseada em preceitos culturais e religiosos. Fl. 1810. Para um período posterior. ressalta que muitos escravos morriam de sarampo e relembra as epidemias que se abateram sobre o Rio de Janeiro. o importador se via obrigado a pagar pelo seu sepultamento. pediu do Brasil.

dos quais “de muita bexiga não se conhecia a marca”. no período de incubação da doença. de uma vez só. a extinção do tráfico era vista como um passo importante para a erradicação da doença.105 escravos que entravam compulsoriamente ano após ano no Brasil. quatro. Gomes Filho mandou sepultar. Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita.22 Em 25 de agosto de 1826. foram lançados ao solo do terreiro. pois datam do mesmo período dos dez escravos com varíola sepultados por ele anteriormente. Jaime. e muitos deles foram lançados em um só registro. Rio de Janeiro. 22 ACMJR. 1935. Para se ter uma idéia. cinco. São Paulo: Editora Nacional. o mais importante higienista e historiador da saúde pública no Brasil do século XIX associou sistematicamente a ocorrência de varíola na cidade às condições do tráfico negreiro. José Pereira Rego. São Paulo: Companhia das Letras.20 A suposição da supressão do tráfico negreiro. 23 Idem. eram homens. e sobre eles não foi observada marca alguma feita pelos traficantes. 20 RODRIGUES. O livro de óbitos do Cemitério dos Pretos Novos fomenta essas questões.23 Dado o alto número de escravos infectados de varíola em uma mesma embarcação. pode-se comprovar que a doença se alastrava no interior do navio e colaborava para o aumento da mortalidade escrava (isso sem contar que muitos cativos poderiam ter sido vendidos já infectados. Cf. Passim. sete. no qual não havia sintomas aparentes). Mas a doença não passou despercebida aos olhos do escrivão. Typographia Nacional. fazia o percurso Rio de Janeiro–Benguela–Moçambique. . desde 1830 a 1870. ou seja. ainda no primeiro quartel do século XIX. estava diretamente ligada às questões de profilaxia pela qual passava o país. só em agosto e setembro de 1826 foram sepultados 39 escravos. o traficante Miguel F. dez escravos! Os mesmos foram lançados em um só registro. que assim assinalou: “muita bexiga”. Vieram de Benguela. O bergantim Luís de Camões. Esboço histórico da epidemia que tem grassado na cidade do Rio de Janeiro.24 Todos vinham de Benguela. no bergantim Luís de Camões. 1996. pois o julgavam como o principal veículo pelo qual a doença adentrava a Corte. havia senadores que defendiam o fim do tráfico. 1872. Veja também: O. Desta feita. Desconfiamos que estes escravos também tenham vindo no bergantim Luís de Camões.21 19 Ver: Sidney Chaloub. 21 Pereira Rego. 1824 a 1830. em um só dia e juntos. O infame comércio. 24 Idem. 22. p. Em oposição a está idéia. e aos pares. Freitas. pelo que demonstra a documentação em análise. Doenças africanas no Brasil. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. O capitão era José Joaquim de Souza e Miguel Ferreira Gomes era o traficante responsável pelo negócio.

26 João Gomes Valle foi um dos maiores traficantes de escravos do Brasil e. Lá os enfermos deveriam ser tratados antes de serem expostos no Valongo. ainda ocupante do cargo de provedor da Saúde. juntamente com os outros dois citados. a construção de uma enfermaria poderia ser importante para se impedir o aumento da mortalidade escrava. Por essa razão. reclamava veementemente contra o fato de os traficantes recalcitrarem contra o pagamento de um tipo de “internação” de escravos doentes no Lazareto. aparece recorrentemente em nossa fonte.28 Entretanto. Isto pode ser um indicativo de que cada 106 . No entanto. o documento propunha aos três maiores traficantes de escravos. depois de curados. produzem para os ditos proprietárias o interesse annual de vinte mil cruzados: e por consequencia na hipotese mesmo de gastarem na obra cem mil cruzados. Manoel Vieira da Silva. 28 ACMRJ .S-4. O seu maior argumento he que neste Porto entrão annualmente vinte mil escravos. os quais. 27 “Acuzão estes revoltosos de excessiva a prestação de 400 rs por cada escravo para os proprietários do lazareto. 1. Em 1811. 1. lavar. pois achavam a quantia exorbitante. DOC 1811Provedoria da Saúde. muitos traficantes reclamavam do incômodo de transportá-los até a ilha e. e conrrespondente a hum fundo trez vezes maior” (sic): ANRJ. em frente ao litoral de Inhaúma.Posto isto. fundando este excesso em reflexões de huma notória futilidade. O provedor nos dá as pistas para as circunstâncias e o motivo pelo qual o novo Lazareto fora criado: 25 Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. à compra de remédios. vestir de roupas nóvas e os observar por certo espaço sobre as moléstias de que costumão vir infectados: assim se executou. a construção de uma enfermaria. 8 em 1828. por sua vez. curativos e utensílios. ainda mais em se tratando de lugar de difícil acesso. João Gomes Valle.27 Muitos dos escravos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos vinham do Lazareto: 2 em 1825. se mortos. tinháo hum lucro de sumamente expressivo.25 Este antigo Lazareto era situado em uma ilha na Baía da Guanabara. se recusavam a pagar. I. José Luís Alves e João Alves de Souza Guimarães.S-4.Provedoria da Saúde.26 Os escravos cuidados ali teriam a sua estada paga pelos seus senhores ou seus consignatórios num valor de 400 réis. para o cemitério. DOC 1811. nem todos vinham do Lazareto de João Gomes do Valle. segundo o provedor. fazendo-os ali sustentar de alimentos frescos. 1824-1830. 11 em 1827. que a 400 rs. Tal valor era destinado. reconduzi-los para o Valongo ou. Tendo com evidente fundamento /estabelecido pelo alvará de regimento de 22 de Janeiro de 1816 que os Pretos novos antes de se exporem à venda publica fossem dezembarcados em hum lugar devido qual a ilha do Bom Jesus. como pretendia o provedor da Saúde. I.Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. o que motivou o missivista a redigir tal ofício.

. 31 recorriam a ervas. a . não podemos desprezar o fato de que. faziam curativos e usavam ventosas. vava pelo esquadro do eurocentrismo. chás. “consolador generoso da humanidade negra. Debret. Nireu Oliveira. 32 Idem.. Cit. pôde notar e retratar a imagem de um cirurgião negro que. muitos comerciantes viviam de curar e revender escravos doentes chamados de “refugos”. na rua. ele fornece os medicamentos mediante pagamento”. segundo ele.29 Nenhum destes 21 escravos citados era ladino.107 dono de armazém dedicado à venda de escravos continuava a cuidar dos seus doentes. ainda coubesse legalmente a construção e manutenção de um Lazareto para os próprios escravos que importava e para os escravos de outros comerciantes de menor monta.34 mas para o pintor nenhum mal podia se comparar ao causado pela “cachassa” (sic) que ceifava a vida de muitos escravos. 30 KARASCH. 36 Ver: FLORENTINO. Retornando à construção do Lazareto. e Debret. Op. se livres. ainda que infrutífero. cirurgião.35 e que não deixava de ser um modo. ele dá suas consultas de graça. no tocante às questões econômicas. congestões. Cacilda (Org). quase sempre sem recursos próprios. 360. como vimos anteriormente. na Santa Casa.33 Pela observação do artista francês ficamos sabendo que as doenças mais comuns dos escravos. Ademais. p. Ensaios olhar europeu que aferia o que obsersobre escravidão. a erisipela. na primeira metade do século XIX: eram “os furúnculos. muitas vezes unido a uma velha sarna mal curada”.. pp.31 Debret afirma que muitos destes cirurgiões vendiam amuletos e talismãs. visto que os escravos ladinos eram cuidados por seus senhores e. Cit. Com efeito.30 Porém não se deve esquecer que muitos escravos do Brasil oitocentista buscavam outras soluções para as doenças que não os meios ortodoxos medicinais. Manolo & MACHADO. mas como os remédios receitados comportam sempre alguma droga. mandavam que os médicos da casa tratassem os seus escravos. metido no tráfico de escravos e no comércio de importação e exportação na praça comercial do Rio de Janeiro. pois os senhores abastados. Op. 194. p. enfartamento ganglionar. A fim de evitar a própria morte.32 mas somente os pobres recorriam ao que Debret chamava de “charlatões”. muitos negros se davam à prática de 33 Debret. e que outros Lazaretos existiam paralelamente ao dos grandes traficantes no qual se pagavam 400 réis sobre cada doente. C. Cit. o vírus venéreo. Cit. 40. 360-2. eles 29 CAVALCANTI. de se escapar da vida real. mandingas. Op. a um homem de grosso trato como João Gomes Valle. Jean Baptiste. Op. 35 Idem. atendia sua clientela. a despeito do seu 34 Idem. Jean Baptiste. Mary. p.

PADRÕES DE SEXO E FAIXA ETÁRIA A verificação da quantidade de sepultamentos praticados no Cemitério dos Pretos Novos é um outro fator importante para o entendimento do funcionamento dos trabalhos de inumação.36% do total.23% do total. de dezembro de 1824 a dezembro de 1825 foram sepultados 1. notou-se que. temos as escravas adultas. a grande maioria composta de adultos do sexo masculino. como já demonstraram alguns historiadores. que aparecem com 104 pretas novas. ou seja. esta mesma observação revelaria a mortalidade escrava nos momentos cruciais para os recém-chegados.2. retornamos ao livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita. conforme a tabela l. fonte privilegiada para o entendimento da lógica do cemitério. a fim de verificarmos a demografia do campo dito “santo”. Partindo de 1824-25.lógica escravista no Rio de Janeiro oitocentista seguia a norma da diversificação das empreitadas econômicas. ocasião da abertura do livro. Por outro lado. O CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS . 108 . a morte destes no intervalo de tempo entre o desembarque e a venda. 815 pretos novos.36 Um traficante de escravos gozava de alta influência no meio governamental. Em segundo lugar. novamente. correspondendo à taxa de 9. e realizamos a quantificação dos dois anos cruciais para o referido campo santo. a ponto de o próprio provedor-mor da Saúde sair em defesa de seus negócios. o que representava 72.126 escravos. Mas seria possível averiguarmos quantos morreram e foram sepultados no Cemitério dos Pretos Novos segundo a faixa etária e o sexo? Foi com o intuito de tentar responder a estas questões que. 3.

00 Fonte: Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. em termos de taxa de mortalidade. contra o total de 33 molequas [sic] novas.00% do total. dos jovens e crianças. se furtava aos jovens. Na mesma tabela agrupamos.00 7.109 TABELA 1. no Cemitério dos Pretos Novos. o que. jovens do sexo masculino com idade entre 8 a 15 anos.01 72. Os dados organizados nesta tabela tam. Percebe-se nitidamente que o número de homens é sempre maior. Foram sepultados 57 corpos de moleques novos. escravos jovens com idades entre 8 e 15 anos. Góes & Florentino afirmam que: . Sexo e Faixa Etária dos Sepultados Homens Crianças (moleques novos) Adultos (Pretos novos) Mulheres Crianças (molequas novas) Adultas (Pretas novas) Cria Outros Total 37 # 57 815 33 104 35 82 1. respondendo por 3.36 3. Os números de entrada de escravos mostram que o número de homens sempre é maior que o de mulheres. fato que gerava um problema na demografia escrava. nos leva a inferir que os homens morriam mais que as mulheres. SEPULTADOS NO CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS DE 1824-25.28 100. Livro de Óbitos de escravos da Freguesia de Santa Rita. perfazendo 3.38 A documentação também indica que muitas “crias” – crianças entre 0 e 4 anos – foram sepultadas no cemitério. sob a categoria “outros”. muitos acima desta idade já era tido por adulto. somando cerca de 5%. a morte também não escolhia idade. SEGUNDO O SEXO E A FAIXA ETÁRIA.37 Escravos ladinos. os 82 escravos ladinos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos. 38 A nomenclatura da antiga classificava como “moleques” os bém indicam que foram sepultados. Se a escravidão não 2 anos aos 7 eram chamados de “cria” e com idade inferior eram tidos por “inocentes”. No ano de 1824 para 1825.12 9. ou seja.12% do total verificado. 35 crianças foram inumadas ali. 1824-1830.23 3.126 % 5.

Slenes este acrescido da convivência em uma intitulado Na senzala uma flor: as esperanças e terra estrangeira. 40 Para um estudo sobre a família escrava. Na média. os serviços do eito 39 GOES. ao longo dos últimos seis anos do cemitério. seguindo os mesmos padrões de sexo e faixa etária. Quais seriam as mudanças substancias entre estes dois momentos? A tabela 2 revela-nos que o número total de escravos sepultados foi de 678. ças. cativeiro e liberdade. o número de escravas continua sendo bem menor que o de homens. Manolo.29% e 0. buscasse a obtenção de mais braços Manolo (Org.40 Outros dados interessantes também foram retirados desta documentação paroquial. apenas 5. já que a desigualdade de gênero se mantinha sempre no mesmo patamar. por outro lado. a dificuldade para a contração de matrimônios. e em tempos de grandes desembarques chegava a ser sete homens para cada três mulheres. masculinos que femininos.).12% do total. Seja como for. Pinto de. mesmo entre as criande Janeiro: Nova Fronteira. a formação de laços familiares. Morfologias da infância escrava: Rio de e a labuta diária faziam com que se Janeiro. o dado mais significante é o decréscimo do número de sepultamentos. 1999.44%. J. problema p. deveria ser outra barreira a ser transposta. Foi assim que. vide o trabalho de Robert W.39 A lavoura cafeeira. Tráfico. com o intuito de verificar se. Procuramos quantificar o último ano do cemitério. 210. cujas possíveis razões analisaremos adiante. mas nota-se aí um leve aumento do número de homens entre os jovens. R. In: FLORENTINO. respectivamente. Com o número de as recordações na formação da família escrava. as crianças representavam apenas dois entre cada dez cativos.O desequilíbrio entre os sexos variava segundo as flutuações do tráfico. Rio homens maior. enquanto os escravos homens perfizeram quase 92%! Já moleques e molequas também apresentam um número quase inexpressivo. 0. ou seja. FLORENTINO. quantificamos os dados referentes ao ano de 1829-30. 110 . a taxa de mortalidade se manteve estável ou não. séculos XVIII e XIX.

na Alfândega do Rio de Janeiro.38 91. com o intuito de encontrar o número aproximado de mortos naquele ano. antes mesmo de serem vendidos. SEGUNDO O SEXO E A FAIXA ETÁRIA Sexo e Faixa Etária dos Sepultados Homens Crianças (moleques novos) Adultos (Pretos novos) Mulheres Crianças (molequas novas) Adultas (Pretas novas) Cria Outros Total 41 # 2 621 3 40 3 9 678 % 0. pelo menos no desembarque dos navios negreiros. no Valongo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. Segundo os historiadores Manolo Florentino e João Fragoso.23 100 Fonte: Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. seu número absoluto. usamos a tabela confeccionada por eles com o número de escravos que entraram no porto do Rio de Janeiro de 1790 a 1830 e a cruzamos com a quantidade de escravos sepultados. respectivamente o início do livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita e o ano que coincide com o seu fim. no ano de 1825. 42 Fragoso e Florentino. verificar o tráfico negreiro é de caráter primordial para o entendimento das relações escravistas e da manutenção da máquina econômica da Colônia. Para a nossa pesquisa. . confeccionada por Manolo e Fragoso. c. 1986. 1824-1830. A tabela 3 refere-se à entrada de escravos no porto do Rio de Janeiro. nos deteremos apenas nos anos que vão de 1824 a 1830. Apêndice. no Cemitério dos Pretos Novos com sociedade agrária e elite mercantil no Rio de a taxa de importação de escravos em Janeiro.111 TABELA 2. Cruzamos os dados dos sepultamentos 41 Escravos ladinos. a fim de verificar quantos escravos morreram.44 1.92 0.42 Desta feita. 2ª edição. de 1790 a 1830. Livro de Óbitos de escravos da Freguesia de Santa Rita.59 0. SEPULTADOS NO CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS DE 1829-30.1790-1840.44 5.

876 9.722 Ano 1804 1805 1806 1807 1808 1809 1810 1811 1812 1813 1814 1815 1816 1817 N°de Escravos Ano 9. ESTIMATIVAS DO VOLUME DE ESCRAVOS AFRICANOS DESEMBARCADOS NO PORTO DO RIO DE JANEIRO. sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro.500.180 35. número jamais alcançado dantes.602 13. conforme a tabela 1.350 19. como afirma Manolo.1790-1840. 2.TABELA 3.44 Segundo ele. no 112 .640 9. em relação aos anos anteriores.857 10. De 1818 até 1830. Com efeito.. o que também não deixa de ser uma soma considerável.080 21. A partir de então. 26. 1790 –1830. Ano 1790 1791 1792 1793 1794 1795 1796 1797 1798 1799 1800 1801 1802 1803 Nº de Escravos 8.200 1818 1819 1820 1821 1822 1823 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 N°de Escravos 25.5% ao ano.180 escravos.267 6. Se escolhermos o ano de 1828. através do livro de óbitos do Cemitério dos Pretos Novos. FEITAS POR MANOLO E FRAGOSO.330 17.320 9. 1986. morreram ao desembarcar no porto do Rio de Janeiro.000.010 18.080 almas. ed.58 Fonte: FRAGOSO.910 11.100 20.780 8. quando somou 25. c. os números sempre se mantiveram na casa dos 20. passaram pelo porto do Rio de Janeiro 166. em seu livro Em costas negras. a explicação para esse aumento se deu justamente pela vinda da família real.420 28.689 9.370 13.011 11.890 13. notamos que o tráfico transatlântico se intensificou a partir do ano de 1818.044 escravos.075 9. alcançou cerca de 4%. acrescida da expansão da lavoura cafeeira e aliada à sensação que os traficantes tinham de que a qualquer momento o tráfico poderia cessar. no ano de 1825.343 9. no mesmo ano. sabemos que entraram. neste ano.230 africanos.667 23.43 com exceção do ano de 1832.230 18.390 15.820 10.220 21. ano em que o total de escravos trazidos para o Brasil foi de 19. Observando-a atentamente.030 20.060 26.750 45. João & FLORENTINO.368 10.250 TOTAL 706.870 8.921 7. essa média se intensificou a ponto de alcançar um aumento na média anual de 4.670 47.171 18.500 25.630 28. No nosso caso. Manolo Garcia. sabemos que 1. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. logo podemos verificar que a taxa de mortalidade.900 19. Através dos dados de Florentino.111 9.

conforme observado na tabela 2. a perenidade do comércio de almas remete. Morfologias da infância escrava: Rio de Janeiro. A construção do escravismo no Novo Mundo: 1492-1800. a fim de preencher a lacuna deixada pelos mortos. a necessidade de se trazer mais escravos. I. 2003. baseados justamente no argumento de que entravam no Brasil 20. verificada após 1828. 44 Manolo Florentino. paradoxalmente. 45 Idem. 27. Em costas negras. Cit. até cessar por completo em 1830. em números sempre crescentes. os traficantes reclamavam do pagamento para o Lazareto do valor de 400 réis.3%. Rio de Janeiro: Record. O que teria levado a esta drástica diminuição no número de sepultamentos? A mortalidade estava em queda? Três hipóteses possíveis podem ser usadas para explicar esta diminuição: a primeira seria a de que os traficantes estivessem tomando . R. Pinto de Góes e Manolo Florentino. Como assevera Blackburns. encontraremos o percentual de 2. p.Provedoria da Saúde. resultava na necessidade de se importar cada vez mais. S-4. 1.113 qual o cemitério chegou a sepultar 1. percebemos que somente uma taxa de mortalidade tão alta poderia justificar a existência do cemitério. ao próprio tráfico. 47 J. sobretudo homens. Desse ponto de vista. “os fazendeiros calculavam que os jovens africanos levados para suas propriedades tinham uma expectativa média de vida de pouco mais de sete anos”. p. Ademais. Robins.000 escravos anualmente e que o valor pago por todos estes daria mais lucro aos donos do Lazareto do que aos próprios comerciantes que os importavam.45 Esta “perenidade da vida escrava”. contra 45. 210. Cf: Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Quando temos esses dados. é primordial que retornemos à questão da diminuição da quantidade de sepultamentos no Cemitério dos Pretos Novos.46 No Brasil. 46 BLACKBURNS. previamente calculada e prevista. em que mais mortes significavam. 54. DOC 1811.. conforme assevera Florentino: 43 É interessante notar que em 1811.049 escravos recém-chegados. séculos XVIII e XIX. p. tradução de Beatriz de Medina. Mas a alta mortalidade escrava daí derivada tramaria para a constância da incapacidade colonial em suprir internamente de braços as empresas exportadoras. como vimos anteriormente. Op. no limite.47 Neste momento. em alguns lugares do Agro fluminense.670 que adentraram o porto do Rio de Janeiro. p. dentro de uma lógica de importação de mãode-obra escrava. os escravos raramente chegavam aos 50 anos. 410. muitos dos que sobreviveram ao momento do caos do desembarque dos navios negreiros faleceriam logo depois de estarem com os seus novos donos.

Esta assertiva pode ser feita se levarmos em conta que. pode-se afirmar que a mortalidade poderia ser diminuída caso a viagem fosse encurtada e. assim.) essa característica poderia ser um dos fatores que levava as embarcações de dois mastros (brigues. às inovações tecnológicas ocorridas Rio de Janeiro. Entretanto. que poderia encurtar o tempo de viagem. e finalmente a terceira hipótese seria a de que os corpos estariam sendo inumados em outro lugar. espaço disponível e mortalidade. uma viagem entre Angola e Rio de Janeiro levava cerca de 60 dias.. 101. 96. patacho. Arquitetura naval: acredita que um dos motivos da queda imagens. 49 CAVALCANTI. uma embarcação mais ligeira representaria menos mortes durante a travessia e uma recuperação mais rápida por parte da escravaria. 109. 108. a taxa de mortalidade em trânsito apresentou um percentual de 5% nos navios que faziam o percurso entre Luanda e Rio de Janeiro. um registro oficial dos mesmos. não havendo. Comparando-se a mortalidade do século XVII de até 30% com a taxa de mortalidade de 5% do XIX. sumacas e bergantins) a estarem entre os tipos prediletos para o comércio negreiro da repressão mais intensa promovida pelos ingleses. um número maior de bergantins é notado no tráfico negreiro. Miller 48 RODRIGUES. tais como o avanço tecnológico na produção de embarcações. o número de óbitos ocorridos pós-desembarque também deveria ser menor. notamos que uma viagem menos demorada aumentava a chance de os escravos sobreviverem ao penoso translado. Jaime. Embora os bergantins carregassem menos escravos devido às suas limitações espaciais. Cada vez mais. textos e possibilidades de descrições dos navios negreiros. 51 Idem. p. contra a taxa de 30% do século XVIII. Cit. Op. p. da mortalidade pode ter sido atribuído Manolo (Org.várias medidas para diminuir o número de mortes.48 Este avanço proporcionou uma diminuição no tempo de transcurso transatlântico. Nireu Oliveira. Neste período.). Nessas condições. é bem verdade que não se pode estabelecer uma relação direta entre tonelagem. In: FLORENTINO. a segunda seria a de que os corpos dos escravos mortos não estariam sendo registrados. no início do XIX. Partidário da primeira hipótese. p. nas primeiras décadas do século XIX. séculos XVII-XIX. em meados do século XVII. neste sentido. p..49 Já de acordo com Cavalcanti. cativeiro e liberdade.51 114 . 50 Idem.50 Porém. Tráfico. É lógico que uma viagem mais veloz poderia apresentar um transcurso menos traumático e com menos tempo para a propagação de doenças.. eles eram velozes (. a mesma viagem chegou a durar no máximo 40 dias.

Nela procuramos tabular as embarcações segundo a quantidade de escravos sepultados por cada uma. analisamos os dados obtidos no livro de óbitos. segundo os padrões das embarcações e montamos a tabela 4. . bem como os anos de suas respectivas viagens.115 Com efeito. no intuito de verificarmos se a premissa de que o uso de uma navegação mais rápida diminuiu o índice de mortalidade podia ser aplicada no Cemitério dos Pretos Novos.

53 18.60 100% # % # % Brigue 00 00 09 0.33 239 14.32 277 17.41 14.55 Bergantim 11 0.20 Sumaca 00 00 00 00 Total 19 1.15 46 2.64 50 3. 1824-1830.35 3.66 % # % # % # % 1824 1825 1827 1828 1829 # 00 00 00 00 00 00 00 1830 % 00 00 00 00 00 00 00 # Total % 112 837 293 88 236 59 1.04 5.73 43 2.09 5.66 2.52 1826 # 26 256 43 26 93 00 444 27.07 3.82 1.73 0.71 505 00 10 0.60 12 0.61 46 2.116 TABELA 4.55 Navio 08 0. TIPOS DE EMBARCAÇÕES E AS RESPECTIVAS QUANTIDADES DE VIAGENS DE 1824 A 1830.60 13 0.624 6.49 02 0.18 9.12 Escuna 00 00 52 3.82 31.07 Fonte: Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.63 Galera 00 00 74 4.89 51.67 124 7.05 50 1. 52 .53 3. Livro de Óbitos de escravos da freguesia de Santa Rita.72 35 2.80 27 1.16 261 16.64 22 1.07 66 4.06 60 12 10 03 157 15.61 0.76 119 7.69 0.

logicamente. na aparecem em 1824. apenas 50 escravos são sepultados por eles.. nem um registro há.5% dos sepultamentos. até chegar ao ano de 1830 sem nenhum registro. em 1828.624 52 Consideramos para a confecção desta tabela apenas os dados que possuíam a registros de escravos sepultados referência ao nome da embarcação. 93 sepultamentos. Fonte: ACMRJ. passa a registrar números cada vez menores. os bergantins voltam a registrar um aumento no número de sepultamentos. em 1826. chega a responder. pessoas. lanchas. 1824 -1830. Entretanto. Op. Porém os seus tipos: escunas. pelos vários tipos de embarcações. bergantins. De costa a costa. um outro tipo de embarcação pequena. Cit. e em 1829 eles tornam a apresentar uma diminuição no número de sepultamentos. 17. Conforme o gráfico 1. pelo segundo maior número. montado com os números da tabela 4.documentação.53 53 Excluímos.72% do total. últimos os de maiores tonelagens.32% dos escravos. vê-se que as escunas. Para a sepultando. Veja RODRIGUES. em 1826. navios.117 A partir destes dados. os ladinos e os Observemos que os bergantins não pretos novos dos quais não aparecem. assim computamos o número de mortos em nosamente até responderem. cada embarcação e os classificamos segundo por 256 mortos. mas sobem vertigi. 5. Sendo estes dois demonstram uma queda a partir daí. apenas 119 nomenclatura e compreensão das tonelagens. brigues. Passim. galeras. 277 pretos novos. Jaime. 15. em 1827. 7. . Contudo. ou seja. o navio nos quais faleceram. Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. porém ligeira.76% do total. temos 1. Em 1830.

Em primeiro lugar. percebese que o movimento de crescimento do número de ocorrência dos bergantins acompanha o crescimento. 118 . mais lentas que os bergantins. 74 escravos. do número de entrada de escravos. as galeras. quando cruzamos estes dados com o documento alfandegário com o qual Florentino e Fragoso construíram a tabela 3. 1824-1830. cruzamos estes dados com os números de entrada de escravos no porto do Rio de Janeiro. A exemplo do que fizemos anteriormente. a fim de verificar se era possível haver alguma relação entre o uso de determinados tipos de embarcações e a diminuição da mortalidade. Fonte: ACMRJ. 4. respondendo pela maior parte dos escravos sepultados.55%. Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. contudo. Porém. O gráfico 2 é o cruzamento destes dados. como já havia notado Klein. Por outro lado. só a partir deste ano diminuem as suas ocorrências. embarcações de grande porte e só de menor tonelagem que os navios. ainda que em uma escala inferior.Por outro lado. cresce no período de 1826 a 1828. Donde pode se inferir que a maior incidência de bergantins está atrelada proporcionalmente ao volume do tráfico negreiro. alcançam os seus maiores números em 1825. deixar de comparecer na documentação com menos de 3% dos sepultados. portanto. sem. percebe-se nitidamente que o número de bergantins.

Em 1827. maior é também o número de escravos recém-chegados. ou 17. quando discordou de que houvesse alguma ligação entre o uso de bergantins e a taxa de mortalidade. distribuídos dentro das categorias de pretos novos e ladinos. em relação a 1824. pois quando surgem mais negreiros bergantins mandando sepultar pretos novos.119 Entretanto. Esta quantificação seria importante.92 % dos sepultamentos. 25.4 % do total. Nela podemos verificar que a quantidade de sepultados em 1824 e 1830 foi a menor. ou seja. já que uma viagem mais com as daqueles que trabalharam com rápida poderia ser menos dispendiosa. somos forçados a concordar com Cavalcanti. pois demonstraria o momento de maior tensão entre o Cemitério dos Pretos Novos e os moradores do Valongo. Além do mais. e representa uma diminuição de sepultamentos da ordem de 16% em 1830. um livro de óbitos. um ano conturbado para a política brasileira externa e interna. ano após ano. ano do início do livro. se os dados não provam 54 Um dos motivos pelo qual faço questão a ligação direta entre uma embarcação de registrar esta parte do estudo é porque ele demonstra que o historiador pode chegar às pequena e veloz com a queda da taxa mesmas respostas. documentações cartoriais.119 registros. usando fontes de natureza de mortalidade. verificados ano a ano. 1. uma embarcação veloz era imprescindível para se driblar a fiscalização que então principiava.43% e 0. Estes fatores podem explicar por que o volume do tráfico aumenta quando há mais bergantins e a diminuição das galeras. deve-se ressaltar que o diferente. Por outro lado.documentação paroquial. pôde nos ajudar na confecção da tabela 5.27%. 0. mais armações poderiam ter sido montadas em menor tempo. Já no ano de 1826.54 Portanto. de um universo de 6. perto da década de 1930. já que estes viviam a reclamar da superlotação do cemitério.55 o número de sepultamentos subiu para 1. teremos em 1825. pois somam uma quantidade muito pequena de dados. obtive em alguns aspectos respostas parecidas do o tráfico. Foi com esta questão em mente que fomos verificar a quantidade de escravos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos. e. ou alfandegárias. esta correlação entre tráfico e a quantidade de sepultamentos nos parece cada vez mais pertinente. Por isto.533. a quantidade de . Apesar de trabalhar com uma uso destes barcos pode ter incrementa. a maior ocorrência ou uso dos bergantins não se mostra ligada à diminuição da taxa de mortalidade. Desprezando os anos de 1824 e de 1830. respectivamente. A quantificação baseada na quantidade de sepultamentos.097.

Mary C. Os números são importantes.533 763 2.98 % da quantidade total de sepultamentos.5%.019 663 17 6.27 95. São Paulo: de 2.92 25. o ano de 1828 mostrou um 55 Com efeito.03 1. 1824-1830. respondendo EdUnicamp/Cecult. Campinas.483 721 1. a quantidade de RODRIGUES. nada mais que 0.46%. 12. QUANTIDADE DE SEPULTAMENTOS REALIZADOS ANO A ANO.68 1.43 32.71 24.20 0.40 16.98 10.56 analisando os óbitos da Santa Casa da Misericórdia.5 0. Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. Karasch.78 10. Anos Ladinos # 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 Total 02 74 50 42 74 9 00 251 % 0. chegou aos seguintes números: 2.019 inumações.27% do total. representando 10. TABELA 5.36 0.sepultamentos caiu drasticamente para 763.06 Pretos Novos # 25 1. o ano de 1830 registrou uma queda ainda maior. NO CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS. Entretanto. No ano de 1829 houve uma nova queda da quantidade de sepultamentos porque apenas 663 escravos foram sepultados. 2000. apenas 17 sepultamentos. mentos.824.53 Total # 27 1.81 0.945 654 17 5.060 para 1.23 11. O infame comércio. Neste ano.04 12.14 00 4.78 31. por 32. 120 . o ano de 1826 representou um período de transição na conjuntura novo aumento do número de sepultapolítico-econômica do Império recém-nato Cf. Entretanto.pp.43 17. Propostas sepultamentos alcançou o patamar e experiências no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). 99-100.023 1. a comparação com o número de sepultamentos no cemitério da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro pode ser importante para podermos comparar o número de corpos sepultados em cada um dos campos santos e suas especificidades. o que representa uma queda de 50% em relação ao ano anterior. pois demonstram a quantidade de escravos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos revelando variações consideráveis. Jaime.20 0.27 100 Fonte: ACMRJ.868 % 0. Por último.097 1. para termos uma visão mais contextualizada sobre o assunto.119 % 0.

só podem ser explicados à luz do funcionamento do tráfico negreiro. pp. o que demonstra que nestes anos não deve ter havido uma epidemia. RELAÇÃO ENTRE O VOLUME DE TRÁFICO NEGREIRO E QUANTIDADE DE ESCRAVOS SEPULTADOS NO CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS DE 1824-1830 60. 2. 2. esta variação que se apresenta de forma que em um ano tenhamos um aumento de sepultamentos. ou qualquer anormalidade que contribuísse para o aumento da mortalidade não só escrava como da população. intercalados por períodos de menos sepultamentos realizados. Op. GRÁFICO 3. 1828 e 2. os índices de sepultamento no Cemitério dos Pretos Novos. Ora. já que a quantidade de entrada de mão-de-obra escrava varia ano após ano. Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita.086 para o ano de 1825.000 ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ 50. 57 Ela não transcreveu os dados sobre 1829 e 1830 1826. como no caso dos anos 1826 e 1828.000 _______________________________________________________________ 2000 _______________________________________________________________ 30.000 _______________________________________________________________ 500 _______________________________________________________________ 0 _______________________________________________________________ 0 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 Escravos que entraram no porto do RJ Escravos que foram sepultados no Cemitério dos Pretos Novos Fonte: ACMRJ. conforme a tabela 5. demonstram uma variação contínua que evidencia a existência de um fator exógeno que interfere diretamente na quantidade de escravos sepultados. O gráfico 3 procura demonstrar esta relação.028 para porque o livro estava ilegível nestas datas.061 para 1834. Mary C. . 2..121 2. da mesma forma os sepultamentos.019 para 56 KARASCH. 1824-1830.014 para 1827. Em contrapartida.57 Nota-se que o número de sepultamentos se mantém quase que estável na casa dos dois mil por ano.000 _______________________________________________________________ 1000 _______________________________________________________________ 10. Cit. pois a Santa Casa não sepultava apenas escravos.000 _______________________________________________________________ 1500 _______________________________________________________________ 20.000 _______________________________________________________________ 2500 _______________________________________________________________ 40.. 192.

já que não consegue mensurar o número de escravos que morreriam anos após o contágio. 47. Logo. de fato. verificamos que o ano de 1828 representou o momento no qual a soma de sepultados no Cemitério dos Pretos Novos chegou a 2. assim como no ano posterior. confeccionado a partir dos dados quantificados por Florentino & Fragoso. ou por quais razões. visto anteriormente. de um olhar ajustado para um momento micro que reflete o instante fugaz que acompanha apenas os escravos que morriam tão logo aportavam no Rio de Janeiro. o tráfico negreiro agia de forma direta sobre a quantidade de mortos. mais escravos são sepultados no Cemitério dos Pretos Novos. o maior número registrado em todos estes seis últimos anos. o jornal Aurora Fluminense publicou uma série de editoriais sobre esta temática. Esta análise não deve ser generalizada para todo o período de vida dos escravos. Retornando ao gráfico 3.019. Com efeito. não que este aumentasse a mortalidade escrava. o que faz com que tenhamos o grosso das reclamações neste período. percebemos que o ano de 1828 foi o momento no qual entraram 45. é neste mesmo ano que as reclamações ganharam mais peso e as documentações são expedidas à Câmara. mas porque aumentava o volume de escravos transplantados para o Brasil. falta explicar o porquê de um número tão pequeno de sepultamentos em 1830: apenas 17 sepultados. nem os que se curariam. pode-se entender que. dissertação. ou observando o gráfico 4. a de explicar como. Estes dois 122 .670 almas no Rio de Janeiro e em 1829.58 Se a relação entre tráfico e quantidade 58 Quanto à mobilização dos moradores para o fim do cemitério.630. 1829. notamos que a quantidade de ambos segue um mesmo padrão. nem a camada da população escrava que fora contaminada em decorrência do contato com estes escravos no Valongo.Ao observarmos os números de entrada e o número de sepultamento. indicando que quando entram mais escravos no porto do Rio de Janeiro. o Cemitério dos Pretos Novos teria sido extinto em 1830. Mas o que se apresenta como um obstáculo pode tornar-se extremante instigante e talvez a parte de maior contribuição deste trabalho. na verdade. veja o capitulo dois desta de sepultamentos está demonstrada. Ao mesmo tempo. no intuito de acabar com os sepultamentos no nefasto campo santo. Por outro lado. a nova municipalidade de 1º de outubro do mesmo ano contemplava esta questão dos cemitérios intramuros. Trata-se.

no tocante às evidências internas. após ou em 1830. nem mesmo um aumento do número de sepultamentos nestes livros. não foi encontrado nenhum outro livro de óbitos que dê continuidade aos registros dos óbitos dos escravos. como explicar que tenhamos em 1830 um número tão baixo de sepultamentos. Se de fato o número de importação de escravos está diretamente relacionado com o índice de sepultamentos no Cemitério dos Pretos Novos.350 Fonte: FRAGOSO.630 _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 35. mas nenhum registro foi encontrado. ou seja. em 1830 o Rio de Janeiro recebeu 28. apenas 17 em todo este período. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico.870 47. Manolo Garcia. 45. 2ª ed.59 . Porém. Em primeiro lugar. O livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita de 1824 a 1830 termina com folhas em branco ainda por serem utilizadas. sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro. 1986. demonstrando uma interrupção abrupta nos lançamentos que apresentam desde janeiro sepultamentos cada vez mais espaçados. já que tivemos uma entrada considerável de escravos oriundos da África? GRÁFICO 4.250 escravos.060 26. Verificamos se nos livros de óbitos da mesma freguesia havia indícios de escravos novos sendo sepultados em igrejas. c..123 anos representaram o maior volume de entrada de escravos no porto do Rio de Janeiro. 1790-1840.400 25. João. QUANTIDADE DE ESCRAVOS QUE ENTRARAM NO PORTO DO RIO DE JANEIRO DE 1824 A 1830.750 28.180 28. FLORENTINO.

comprada previamente à Santa Casa. na capela da Misericórdia. filha de João dos Santos Roiz. sob a fórmula abaixo: 59 Por exemplo. Não foi verificado um aumento de sepultamentos em relação a antes de trinta. Sacristão Mor60 Este livro de óbitos foi aberto em 1824 e fechado em 1834 e era destinado a brancos. nas igrejas. de 1820-1832. o que indicaria que os senhores estariam sepultando pretos novos como se fossem ladinos. no Livro de Óbitos de livres e escravos. não foi encontrada nenhuma menção a escravos novos. o notário deveria lançar os dados do morto em um livro de óbitos. 60 Arquivo da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (ASCMRJ) . livro 2. Em primeiro lugar. Existem referências ao uso de mortalhas e hábitos de São Francisco. a pesquisa realizada no arquivo da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro foi providencial. pois encontramos em outra documentação indícios que comprovam que os pretos novos passaram a ser sepultados neste local.Ainda no tocante à busca por evidências do fim do cemitério. Tal livro deve ter-se perdido no tempo. havia uma ladeira chamada “Ladeira da Misericórdia” Nela eram sepultados os escravos e indigentes. No primeiro dia do mez de junho de mil oitocentos e quatro. mesmo depois de 1830. junto com o dinheiro para as custas do sepultamento. Entretanto. 1824 a 1834. após 1830. a inocente Maria. desde que tivessem sido encomendados por seus senhores. ou nunca ter sido escrito. A documentação se constitui de pedaços de papel que parecem ter sido bilhetes que eram transportados com os cadáveres por aqueles que os levavam até a Ladeira da Misericórdia para inumá-los.[ilegível] Joaquim de Duarte Nunes. os que o transportavam mostravam o bilhete ao pároco. mas não há menção alguma de que escravos novos tenham sido sepultados lá. mas tal aumento não foi constatado. para constar fiz este termo que assignei O. localizado na ACMRJ. os documentos pesquisados revelaram que muitas pessoas eram sepultadas na Santa Casa. de fato. Eis abaixo o teor de um deles: 124 . P. De posse deste papel com as informações do defunto que nós chamaremos de “bilhete”. Ao chegar o cadáver. no terreno que parece ter sido uma parte contígua ao hospital da Santa Casa. foi sepultado nesta igreja da Misericórdia. depois de encomendado por mim. O morto já devia estar envolvido em mortalha. mas os registros dos bilhetes foram guardados.Livro de sepultamentos. de Santa Rita. ao lado da capela. livres e escravos.

intrépido tocador de sino. depois de se aventurar a fazer badalar o sino da igreja.63 É bem verdade que nem todos os bilhetes eram tão minuciosos. Um preto forro. mas após 1833. Através deles. janeiro de 1833. morreu ao cair da torre da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens. janeiro de 1833. 31de janeiro de 1833 M. 2/11/1831. da Freguesia de Santa Rita. vai sepultar na Santa Casa da Misericórdia hum preto a marca “F” no peito esquerdo ficando a disposição do Senhor Juiz do Crime do Bairro São José. O bilhete é datado de 1833. escravo. portanto três anos após o fim do Cemitério dos Pretos Novos. como este: “Nome Maria Escrava da Senhora Joana Rosalina”. deixando certa lacuna no período pesquisado. Lata n. tal qual o livro de óbitos 61 ASCMRJ . Juiz do Crime do Bairro São José.1. p. a barca que trouxe o Rio de Janeiro (1808-1850). fato comprovado no fragmento abaixo: Do deposito dos Escravos novos vindos de Lourenço Marques vai sepultar na Santa Casa da Misericórdia hum moleque com a marca “F” peito esquerdo ficando este corpo a disposição do Exc. Lata n. 62 AN. Lazareto. 152. Olindo Couto. temos os bilhetes de forma sistemática. Um exemplo pinçado do ano de 1831 pode reforçar esta nossa proposição.Misericórdia. 64 Idem. de 1824 Apud: Carlos Eugênio Líbano Soares. Ij6-165. Como pode se ver.Misericórdia.125 Do deposito dos Escravos novos vindos de Lourenço Marques nas Barcas Zefirino. sabe-se que na ladeira não eram sepultados apenas escravos novos. Muitos eram bem objetivos. ele foi encaminhado para a Santa Casa.61 Estes bilhetes. Lazareto 31 de janeiro de 1833. a 1830. têm as informações do local A Capoeira Escrava e outras transformações no de falecimento. O juiz de crime não hesitou em enviá-lo à Ladeira da Misericórdia para ser sepultado. são de um teor simbólico imenso: “O anjinho .62 Muitos bilhetes devem ter-se perdido. capoeira.1. 65 Idem. com apenas o nome do defunto. apesar de o escravo ter vindo do Lazareto que se situava no Valongo. apesar de poderem passar despercebidos.64 Outros bem singelos e carregados de eufemismos. 63 ASCMRJ . 1831-1833. a marca do cativeiro e a data. o que indica que o Cemitério dos Pretos Novos já não existia nesta época.

Ora. crioulos. ainda mais que. o que o escritor quis destacar Gamboa. neste caso “rua do semitério da gamboa” (sic). havia urgência no sepultamento. desde então. difeà praia do Valongo. era que este menino não era mais escravo. sabe-se que o nome da rua na qual ficava o Cemitério dos Pretos Novos era rua do Cemitério. Pode-se inferir daí que. falleceu hoje pellas sette oras da manhã de huma gastro-interite crônica que terminou por diarréia estando enfermo ha mais de dois meses: pode-se dar sepultura três horas depois da pernoite. pois demonstra o modo detalhado pelo qual o atestador da morte se refere ao ocorrido: Attesto que Roque. que ligava essa praia Janeiro de 1833”. morador da rua do semitério da gamboa. não excedendo a quarenta destas sobre a terra. mas. puderam monitorar de forma mais apropriada a saúde dos cidadãos e saber as principais doenças que assolavam o Brasil. como o documento parece indicar. pois que já se tornara anjo e. para nossa pesquisa. em 1833 o cemitério não mais existia e todos os corpos de brancos. fez com se pudesse ter mais informações sobre a causa mortis da população. escravos.67 Desta forma.he Manoel. cuja presença dera nome ao que atestavam a condição jurídica de logradouro” Cf. o mais importante é que ela fornece o endereço do defunto. situava-se nesse lugar o Cemitério dos Pretos Novos. 67 “O acesso ao saco da Gamboa era possível através da Rua do Cemitério de Antônio Barboza Correa. a partir de 1830. 38. escravo. além das chácaras que o rentemente dos registros que vimos ladeavam. livres. preto de nação escravo do senhor coronel José de Amorim Lima. p. 126 . João Álvares carneiro (sic)66 Neste trecho temos quase todos os dados de que precisamos. História dos Bairros da Saúde. A obrigação de se ter um médico que atestasse o óbito das pessoas na Corte do Rio de Janeiro. livre das amarras da servidão. caso o cemitério ainda existisse. com certeza. enquanto vivo foi escravo 66 Idem.65 Neste caso. portanto. ao mesmo tempo que propiciou a confecção de boletins de estatísticas do governo imperial que. forros. Rio de janeiro 21 de novembro de 1834. Rio 25 de (atual Pedro Ernesto). O documento abaixo é emblemático neste sentido. seria praticamente impossível que mandassem o corpo de Roque para um local tão distante como o do cemitério da Ladeira da Misericórdia. Santo Cristo.

que ali se sepultão. e da localidade em que lhe se acha collocado. iam direto para a Ladeira da Misericórdia. em 3 de Agosto de 1833.68 Por conseguinte. se em 1833 já não havia o Cemitério dos Pretos Novos. é mostrar que em 1833 o Cemitério da Santa Casa sofreu uma superlotação por conta do fim do Cemitério dos Pretos Novos. o enterramento do corpos no que ora existe. sendo todos depositados em um mesmo solo. do prazo que lhe parecer razoável em diante. não existindo entre eles nenhuma separação quanto ao local de inumação. o acarretar a viração sobre a cidade. por hora.2. absorver uma demanda tão grande. tenha deixado de ser usado pelos traficantes de escravos como o único local destinado ao descarte dos corpos. e que movimentou parte dos meios de comunicação desfavorável às práticas de sepultamento ali exercidas. Cemitérios 1829É neste momento que o Senado da 839. dos terrenos publicos existentess fóra do povoado. encontraram-se dezenas de relatos de escravos recém-chegados sendo da Misericórdia se viu incapaz de sepultados na Ladeira da Misericórdia. Câmara voltou a sua atenção para aquele que representava o último cemitério intramuros. resultando d’estas circunstancias. não seria difícil que o referido campo santo. doc 6. 69 AGCRJ . que pela sua situação e capacidade sirva para aquelle fim.69 Seria desnecessário abordar a questão de superlotação deste cemitério. já que temos abordado este fato ao longo de todo o livro e o seu caso é similar ao do Cemitério dos Pretos Novos. um ou mais. Como este documento datado de 1833 atesta: Sendo o ambito do Cemiterio da Santa Casa d’Misericordia extremamente pequeno em relação ao numero de corpos. na cidade do Rio de Janeiro. e nelle faça estabelecer o Cemiterio da dita Santa Casa. O que desejo. Destarte. o próprio Cemitério 68 Outrossim. pela secretaria d’Estado dos negocios do imperio. a partir de 1829. com reconhecido detrimento da saude dos habitantes. Supomos que.127 ladinos ou pretos novos. Palácio do Rio de Janeiro. prohibindo.1. deve ter forçado os comerciantes de escravos a buscarem um novo cemitério. os miasmas que ali exalão: Manda a regencia em nome do Imperador. e acontecendo alem disso que a terra já saturada se tem tornado imprópria para consumilos. que a Camara Municipal D’esta Cidade Designe. A pressão exercida pelos moradores e pela nova municipalidade de 1828.Códice 58. é provável que os escravos .

o momento era de turbulência. uma vez que. a serem inumados na Ladeira da Misericórdia. não obstante o tráfico experimentar números extraordinários. FAZENDA. Com efeito. Em 1825. o Brasil firmava o tratado anglo-brasileiro. O infame comércio. o Brasil. 99-100.71 Sem prazos para recorrer do acordo. É comprovam que a nação brasileira provável que esta reforma tenha sido o vivenciou. lenta e gradualmente. agora considerado vil. Tanto no cenário interno quanto no externo. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. portanto um ano depois do seu reconhecimento como nação independente. estendendo-o até a cruciais para a política econômica ladeira que passou a se chamar Cemitério da Misericórdia. em 1829.72 128 .70 Isto explicaria o decréscimo de sepultamentos observado no Cemitério dos Pretos Novos. Por outro lado.mortos tenham passado. finalmente. Não teria sido mera coincidência o fato de Clemente Pereira ter conseguido aumentar o Cemitério da Santa Casa. transição na conjuntura político-econômica do Império recém-nato. desde que não envidasse esforços em suprimir urgentemente o tráfico de escravos africanos. José Clemente consegue reformar o cemitério da Santa Casa. 56. Pode explicar também por que os bilhetes nunca foram lançados em um livro próprio. 71 RODRIGUES. Dr. havia tido a sua independência reconhecida pela Inglaterra. por ocasião da publicação da nova Municipalidade. Jaime. p. já que o mesmo constituiria uma prova da entrada de escravos novos no país. no tocante à cessação do História da Santa Casa da Misericórdia do Rio de tráfico de escravos. que previa o fim do tráfico em três anos. Tal tratado seria ratificado em 13 de março de 1827 pela Coroa inglesa e o tráfico deveria findar definitivamente em 13 de março de 1830. sentido a partir de 1829 até se extinguir totalmente em março de 1830. em 13 de março de 1830 o Brasil se viu forçado a cumprir o tratado firmado com a Inglaterra. Diante disto. mas. a Câmara dos Deputados se viu inundada de propostas de supressão do infame comércio em longo e em curto prazo. o ano Janeiro. de 1826 representou um período de 1908. 72 Idem. desde 1828. ele já não existia mais. o referido campo santo também era acusado de ser um foco de miasmas. anos aumento do terreno. Pela assim chamada “lei para inglês ver”. inclusive. para todos os efeitos legais. as evidências externas 70 Em 1829. no biênio 1829-30. pp. Em 1826. José Vieira. o tráfico continuava. sanções previstas na lei para quem continuasse a se aventurar no negócio. trazendo. externa.

permaneceu tal qual era até a extinção do Mercado que lhe dera origem e lhe alimentava. que se espalharam pela Praia do Valongo e Valonguinho e que seriam transformados em cais. Aos poucos. Cit. Nisto também acreditou o memorialista Vivaldo Coaracy: Tão precárias e horríveis eram as condições desse cemitério. já sabedores de que o governo não conseguiria impedir o comércio de escravos através do Atlântico. os escravos são negociados às escondidas em vários barracões pela cidade.129 Às voltas com o tratado firmado com a 73 FLORENTINO. Araújo Bastos. O cemitério. Ao importarem cada vez mais (ver o gráfico 4). porém. .74 O memorialista.76 Neste momento. mal ficavam encobertos por uma tênue camada de terra. Mary C. em última análise.75 é. e passaram a inumar os ladinos em cemitério já existente e não exclusivo dos pretos novos. supôs que o mercado do Valongo não existia mais. os traficantes não pouparam esforços em dissimular o engodo da lei para a cessação do tráfico e encobrir o seu infame comércio. Em costas negras. 50. “os compradores de afriOp.. verificou-se que a produção cafeeira aumentara sobremaneira. Manolo Garcia.. o fim simulado do tráfico de escravos resultou no fim real do Cemitério dos Pretos Novos. Com efeito. lado a lado com sacas de café. pois. eles foram forçados a buscar um novo local de sepultamento que não evidenciasse a continuação das transações. em enérgico oficio reclamava da Câmara urgentes medidas de saneamento. para 1830. e do mercado do Valongo e do seu cemitério. seria uma prova cabal da existência do ato. no mesmo período da “lei para inglês ver”. 297. [dos pretos novos] onde os corpos eram envoltos em fétidas esteiras. p. 75 KARASCH. os barracões de escravos deram lugar aos trapiches de café. mas com o fato de o Valongo ter sido declarado ilegal em 7 de novembro de 1830. açúcares e produtos vários. canos acreditavam no fim próximo e definitivo do comércio negreiro. 74. milhos. que ainda em 1829 o intendente geral da polícia. p. já que. e tal crença influiu no mercado de africanos entre 1826 e 1830”. p. Memórias do Inglaterra que previa o fim do tráfico Rio de Janeiro. No mesmo período. bois. difícil de se precisar em que momento o Valongo deixou de funcionar como um mercado de escravos.73 e no lugar de sepultamentos também. Em 1830. que não foi uma testemunha ocular. 74 Vivaldo Coaracy. O fim do tráfico legal de escravos também resultou no fim da parada obrigatória dos navios negreiros na Alfândega do Rio de Janeiro.

A tarefa era a de reformar a casa onde passaria a morar o casal Petruccio e Ana Maria Mercedes Guimarães. os moradores do desalojados. Os pedreiros. a forma de se fazer os sepultamentos permaneceu inalterada. aguardavam a autorização para o início da obra. Em 1834 a forca que os africanos recém-chegados devem da Prainha (Praça Mauá) é retirada. E que ser sepultado sem os paramentos fúnebres não foi um “privilégio” do Cemitério dos Pretos Novos. os armazéns são destinados Valongo se viram livres do nefasto cam. por outros caminhos que 76 A expansão cafeeira.Obviamente. o Departamento Geral de Patrimônio Cultural da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro foi acionado. 50-56. os novos proprietários. História dos bairros da Saúde.º 36.3. pois ossos se misturavam à terra revolvida a cada vez que uma pá fendia o solo. na Ponta do Caju e na Baía de Guanabara. zona portuária do Rio de Janeiro estava em polvorosa. na Ladeira da Misericórdia a situação não era melhor e a superlotação foi um problema constante e recorrente. de súbito. reclamarem de corpos de defuntos lançados ao mar. Em 1837 um pequeno estaleiro foi colocado no lugar e. 77 AGCRJ costa marítima para dificultar as apre. independentemente de que se tivesse um lugar exclusivo ou não. Sob tais condições. os mortos que não foram transportados para a Ladeira da Misericórdia devem ter sido abandonados ao longo do percurso.Códice 58-2. ao mesmo tempo escravos na Rua do Valongo. pela manhã. Em 1831 foi extinto o depósito de po. sem local apropriado nem destino certo. se o lugar de sepultamento mudou após 1830. esta “evolução” da região desembarque. AS DESCOBERTAS ARQUEOLÓGICAS Em janeiro de 1996. Se no Cemitério dos Pretos Novos os escravos recém-chegados eram lançados em valas comuns. n. Qual não foi o espanto dos trabalhadores quando. “Corpos lançados ao mar”. 3. perceberam que algo mais do que o chão era quebrado. Gamboa. na Gamboa. pois a condição de ilegal era um grande projeto político-econômico.77 Entretanto. bem como o Instituto de Patrimônio 130 . após 1830. O que demonstra que o descaso e a violação ao direito a um sepultamento digno foram sempre praticados. os traficantes são não os pretendidos. Depois de muitas conjeturas sobre o que pudesse ser aquilo. a casa situada na rua Pedro Ernesto. Santo obrigava os traficantes a usarem toda a Cristo e Zona Portuária. ter experimentado condições piores de conforme o autor. entre um gole de café e outro.10. em 1830. Este deve ter sido o motivo pelo qual vários fiscais de crime. tido por santo. pp. ensões. Cf. força a modernização do local.ao café.

argolas e colares que os africanos usavam em seus paramentos. o Instituto de 1824-1830. o qual passaremos a examinar. 78 Conforme reportagem feita pela repórter Um trabalho arqueológico foi iniciado Sabrina Petry. em 21/11/2001. Encarregado com “hum chumbo no pescoço” cf.80 Na África. Foram encontrados vários artefatos de ferro. de 1824-1830. local volta ser pesquisado por arqueólogos”. 79 ACMRJ . se havia perdido a localização.78 Toda esta história talvez ainda estivesse encoberta não fosse o caso de o local do campo santo ter sido assim redescoberto acidentalmente durante a reforma de um imóvel particular. no livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita. Em 22 de setembro de 1826. havia caído no esquecimento e mesmo 94 e 95. como cachimbos. cerca de cinco escravos foram sepultados com “contas brancas no pescoço”. Edição 26.79 Curiosamente. 1824 -1830. Outros artefatos de barro.131 Histórico. da tarefa arqueológica. comprovando a capacidade dos africanos. contas brancas como um sinal de distinção. pois encontramos registros de escravos que foram sepultados com contas de vidro no pescoço. desenhos feitos por incisisões de linhas simples ou paralelas e que muitas vezes combinavam motivos indígenas. mas. no o meio acadêmico não possuía muitos bergantim Luís de Camões que foi sepultado estudos sobre o tema. Como dissemos acima.530. em anexo. que pudesse vir a ser aquela descobercaderno Cotidiano. do qual. Arqueologia Brasileira (IAB) emitiu um laudo técnico. no lugar destas. com relação à produção da metalurgia.Livro de Óbitos ta. 80 Um outro fato interessante foi o do escravo vindo de destino ignorado. . que atestam o aspecto da cultura material dos africanos que se distinguem pelas características da coloração escura. tais paramentos serviam para distinguir as etnias ou marcar uma determinada posição dentro do grupo social. ACMRJ . Contas de vidro também foram achadas no sítio arqueológico (figura 5. bem como instrumentos que podem ser do uso diário tais como pontas de lança. Naquele momento não se pos. Este fato confirma o que foi verificado por mim. há muito. grande resistência. sob o título: “Criado no Século no local para “salvar” o material des18 para enterrar os africanos recém-chegados coberto. o cemitério da freguesia de Santa Rita. sobre estes escravos não havia a marca forjada pelos comerciantes.ao Brasil. e cerâmicas também foram achados durante as escavações. Fls. Publicada pelo jornal Folha suía uma idéia clara da magnitude do de São Paulo. em anexo). figura 6.Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. e chegaram à conclusão sobre o motivo de várias ossadas terem sido descobertas naquele local: aquele era o Cemitério dos Pretos Novos.

Cit. Finalmente. No entanto. ou moleques novos.Foram encontradas várias conchas que.82 132 . escravos entre os 15 e 26 anos. Foi feito o salvamento de 28 ossadas. com idade estimada entre 18 e 25 anos. volto a ressaltar que não se trata do material encontrado no Cemitério dos Pretos Novos. verificar quem eram os sepultados naquele local (ver figura 7. a fim de que se adivinhassem quem havia sido o responsável por aquela morte. a popu81 Considera-se para este trabalho a nomenclatura da divisão etária apresentada lação do Cemitério dos Pretos Novos por KARASCH. 1%. co 5.. A análise dos ossos revelou terem pertencido predominantemente a jovens do sexo masculino. representavam 2% da soma. não só os aspectos da vida material africana foram desvelados. Também foram encontrados ossos de adolescentes entre 12 e 18 anos e crianças entre 3 e 10 anos. de 1824-1830. 82 ACMRJ – Livro de Óbitos da freguesia homens. 70era composta predominantemente por 71. Esta amostra. conforme a nomenclatura da documentação. ao menos na amostra recolhida. mas os próprios ossos dos escravos foram analisados para que se pudesse. a composição demográfica do cemitério. fazem parte da sedimentação do solo e não têm qualquer ligação com os africanos sepultados ali. pp. embora pequena. Como se pode ver no gráfide Santa Rita. e as crias. à luz da arqueologia. era 83% de homens. segundo arqueólogos. Os rapazes. local de uma escavação). eram 2% do total. crianças de 0 a 4 anos. ou seja. ou indivíduos. confirma o que a análise histórica tem demonstrado até aqui. em anexo.81 Já as mulheres aparecem no gráfico respondendo por apenas 9% dos escravos e são classificadas na mesma faixa etária dos homens. o antigo ritual de sepultamento no qual pequenas conchas chamadas de Os cauris eram depositadas junto ao corpo do morto.1830. KARASCH. Op. e que estavam entre os 8 e 14 anos. 1824. Como vimos anteriormente. Mesmo assim vale ressaltar que existia. Cf. as molecas novas. na África.

84 . logo. bem como a sua desproporcionalidade em relação às mulheres.83 o que confirma o relato do viajante alemão Freireyss e do juiz de crime de Santa Rita. em anexo). Obviamente.563 fragmentos proporcionou a verificação de que muitos ossos apresentavam marcas de queimação. ou seja. Voltando às contribuições arqueológicas. nota-se uma alta mortalidade. nesta faixa etária. a análise no universo de 5. foram queimados após a descarnação (figura 8. não se pode dizer o mesmo das crianças de 0 a 4. se por um lado havia poucos sepultamentos de moleques e molecas. A razão de a grande maioria dos escravos ser constituída por homens já foi contemplada anteriormente. DEMOGRAFIA DO CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS H om s en Cr Mo ian ças es ças Rapaz Mulheres Fonte: ACMRJ . porquanto os infantes eram incapazes de resistir às agruras do translado escravo. que já haviam denunciado este fato.Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. Resta-nos frisar que.133 GRÁFICO 5. estas eram as que mais morriam. 1824 -1830.

p. quando possível. tratava-se de um crânio infantil. Os problemas patológicos foram confirmados através de certos ossos retirados do Cemitério dos Pretos Novos que apresentavam sinais de maus tratos. Rio de Janeiro. outro fato importante foi detectado. M. em anexo). 15.. no Rio de Janeiro. p. Quanto à importância do uso do espaço geográfico como uma marca de distinção para o morto e sobre o morto.Através de uma microanálise na arca83 AGCRJ . podendo perceber que esta se diferenciava de acordo com a importância do escravo enquanto vivo. escravidão.mortalidade escrava no Rio de gura 10. era freqüente o caso de escravos que desenvolviam. baseados na idéia de que “A distribuição espacial dos sepulcros na área de templo cristão tendia.85 Por causa de uma alimentação precária baseada em uma dieta pobre de vitaminas B1 e B6. Ao se debruçarem sobre os sepultamentos de escravos. e dois entre cada três deles (28% do total) conseguiram ser enterrados próximos ao altar”. Tal marca era feita em várias tribos a Carlos. Os de menos recursos tinham de se contentar com os adros do templo. uma prática corriqueira entre os bantos. pode-se dizer que o trabalho de Carlos Egemann. portanto. Ensaios sobre feitos nos dentes da arcada superior. Um fragmento de crânio apresentou sinais de anemia ativa. 86 ENGEMANN. Já inseridos na especificidade do catolicismo brasileiro. Op. um Exposição. fim de definirem os ritos de passagem. na igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro. Ou seja. 84 Veja o capitulo 2 desta publicação.. Op. Marcelo de Assis e Manolo Florentino avança com maestria nesta seara. próximo do altar. por ocasião da morte. na Freguesia de Itambi. infecções. Desta feita: “somente metade dos cativos foram inumados dentro da nave.). rificação de uma marca tribal comum Carlos. como fraturas. MACHADO. ou a distinção de determinados grupos sociais. 87 ENGEMANN. entalhes Janeiro – 1720-1742. 17. suas marcas e escarificações faciais. anemias e degenerações (figura 11.195. Folder da da dentária (figura 9. Cit. C. a anemia. Um outro fato importante é que isto confirma as pesquisas históricas que indicam que a maioria dos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos era de origem banto..Africanos Novos na Gamboa: Um portal arqueológico. em anexo).87 134 . p.Africanos Novos na Gamboa. Estes ossos salvados permitiram a ve85 AGCRJ . e está em conformidade com as pranchas de Debret sobre os grupos étnicos.195. os escravos preferiam ser sepultados dentro da igreja e. entre outras doenças. In: FLORENTINO. Cit. em anexo).86 analisaram o local de inumações. do qual se estima que possuía entre 3 e 5 anos. p. (org. a refletir uma dentre as várias hierarquizações presentes entre os cativos”. 2001. Sociabilidade escrava e entre os angolas: os dentes limados (fi.

como o que foi ordenado pelo poder público. a pesquisa arqueológica não avançou mais no sentido de revelar outras questões cruciais para o entendimento do Cemitério dos Pretos Novos. Duane. Estive no IAB e lá entrevistei os responsáveis pela pesquisa arqueológica. por conta disto. Entretanto. Similarmente. caixões foram encontrados em meio à terra.4.135 Infelizmente. Igreja e poder público. a análise da composição do solo poderia mostrar se o cemitério sofreu alterações em seu tamanho ao longo do tempo. não havia mais nada a acrescentar ao que já fora publicado no folder da exposição dos Pretos Novos. do século XVIII. mas o que obtive foram as de que não fora feita uma pesquisa aprofundada e sim um “salvamento” e que. UM CASO DIFERENTE Entre as ruas da Broadway. Disseram precisar de verbas e recursos para esta finalidade. Sabia-se. vez por outra ossos teimavam em surgir do chão como que se brotassem do solo. com o intuito de buscar estas informações. ao fim e ao cabo. é capaz de continuar atuante quer tenha parceria ou não. recôndito. Enfim. por exemplo. estas questões poderiam ser a “pedra de toque” no que se refere à discussão entre moradores. mas também não é mais serva. Com efeito. pois. É livre e escolhe os seus companheiros livremente 88 e. Elk e Reade. verificar a posição em que os escravos foram inumados. somos obrigados a agradecer à musa Clio. indicando a localização do antigo cemitério de escravos da ilha de Manhattam. mais.89 . que não pretende ser rainha. ossos dos ancestrais dos negros norte-americanos. a descoberta deste fator poderia mudar o posicionamento das pesquisas feitas sobre a forma inglória com que os antepassados dos escravos foram tratados. ao longo da década de 1820 do Brasil oitocentista. O fato é que em maio de 1991. Conhecer a distribuição espacial dos corpos dentro do terreiro teria sido importante para sabermos como eles eram dispostos no solo e se de fato estavam entulhados conforme a documentação histórica indica. durante escavações de um prédio público. já citado neste livro. a poucos metros do centro da cidade. tais como. 3. que em algum lugar naquela região o solo guardava. enquanto nada mais se faz neste sentido. THE AFRICAN BURIAL GROUND.

African Burial Ground gações sobre a participação do negro Project. p. 35. p. New norte-americano na formação da nação York. 73 eram mulheres em idade adulta.Nele foram encontradas cerca de 20 mil ossadas. mortos por relâmpagos. A diferença básica entre o The African Burial Ground e o Cemitério dos Pretos Novos é que aquele pertencia à própria comunidade escrava. 89 gia. 91 136 . que indicavam o momento particular da morte ou a posição social do morto. mas 152 indivíduos eram crianças de menos de 16 anos de idade. Desta forma. a simples averiguação da posição dos caixões pôde revelar a preferência escrava em serem inumados com a cabeça na direção do norte. representando 49% da soma de todos os indivíduos.Tradução: Pedro Maia Soares. suicidas. Sherrill D. Por exemplo. Classroom Study Guide & Glossary. page 3. p. Op. entre escravos. 90 Idem. Cit. muitos africanos foram sepultados em posições diferenciadas dos demais. 35. pois no The African Burial Ground os escravos foram sepultados segundo os seus rituais e crenças. a pesquisa baseada em 314 indivíduos classificados segundo o sexo e a faixa etária das pessoas sepultadas demonstrou que 89 eram adultos do sexo masculino. neste caso.. abortos e mortos em batalha possuíam um tratamento mortuário diferenciado. São Paulo: Companhia das Letras. 242.. Pensando com a história. representando 28% do total. O principal fator de avanço foi a verificação da cultura escrava presente na hora da morte e como esta crença no além reorientou a vida dos vivos. 91 WILSON. indígenas e brancos pobres. Carl E. da antropologia quanto no da arqueolo. conseguiu aprofundar as indaWILSON. conforme o gráfico 6. nem nenhum escravo sepultando outro. Um outro fator de diferenciação é de que no Cemitério dos Pretos Novos não foi encontrado nenhum branco.90 No campo demográfico. tanto no campo 88 SCHORSKE. 2004. norte-americana. libertos. 2000. Sherrill D. Logo. representando 23% do total. Sabemos que na África. toda a forma de organização muda completamente. enquanto este estava debaixo dos auspícios clericais católicos. A pesquisa.

não em . pois após este período a expectativa de vida para ambos os sexos era praticamente a mesma.americano indica com precisão a qualidade de vida escrava que. neste caso. Por outro lado.137 GRÁFICO 6. Ou seja. Entretanto. Entretanto. quase não existe diferença entre os índices de mortalidade de homens e mulheres adultos. ceifava a vida dos que estavam em tenra idade. o momento mais delicado da sobrevivência do escravo americano era do nascimento até os 16 anos. uma vez que uma criança escrava dificilmente chegaria à vida adulta. Ambos aparecem quase que em proporções idênticas. há de se notar uma outra diferença entre o The African Burial Ground e o Cemitério dos Pretos Novos: a elevada mortalidade infantil presenciada no cemitério norte. isto pode explicar a dificuldade da reprodução do plantel escravo americano. Neste aspecto. DEMOGRAFIA DO AFRICAN BURIAL GROUN Mulheres Homens Crianças Fonte: ACMRJ . a pesquisa por nós realizada sobre o Cemitério dos Pretos Novos revelou um alto índice de mortalidade infantil.Livro de Óbitos da freguesia de Santa Rita. 1824-1830.

os traficantes souberam forjar em tempo hábil uma solução para o fim de um cemitério contra o qual crescia cada vez mais a indisposição da sociedade que o enxergava como o foco de muitos males. tão cara aos america.92 A questão étnica. Todos os anos o local é aberto à comunidade a fim de celebrarem junto aos seus antepassados. não contempla estas nos. já que este era o seu realimentador contínuo. Contudo. pois estão ligados e alimentados por ele.92 Infelizmente a Pesquisa de Egemann. Com efeito. exposições e conferências são realizadas com este objetivo. Enfim. em 1830. a fim de se confeccionar a árvore genealógica de muitos negros norte-americanos. na as principais patologias apresentadas classificação entre crioulos e africanos e no plantel dos senhores de escravos. deixo sinalizados os avanços obtidos quando existe vontade política em se preservar a memória. foi debatida através da pesquisa questões. peças. destinado e administrado por escravos. Na verdade. Uma verificação em um cemitério rural. a pesquisa no The African Burial Ground foi vastíssima e contemplou aspectos que ultrapassam até mesmo a abordagem que faço aqui. Palestras. está enfocada na diferenciação realizada. aos jovens (ver o gráfico 5). a sua contribuição talvez seja a elaboração de uma resposta plausível para o fim do Cemitério dos Pretos Novos. Diante disto. revelaria com muito mais nitidez a mortalidade escrava. não se pode generalizar estes dados para o cotidiano escravo. A análise do solo evidenciou do espaço utilizado para sepultamentos. CONCLUSÃO Confesso que esta análise densa. crioulos ou libertos. sim. está erguido um Memorial aos ancestrais do negro norteamericano. não arroga esgotar todas as questões suscitadas. exames de DNA estão sendo providenciados. na freguesia de Itambi. A comprovação da ligação tráfico/cemitério revelou que não havia.relação aos adultos e. são um espelho do tráfico escravista. Pudemos demonstrar que. Os comerciantes 138 . no Brasil. nenhuma outra resposta à questão do fim dos sepultamentos intramuros que não uma que pudesse contemplar o fim do tráfico. em Nova York. ao mesmo tempo. pelos escravos. a fim de não perder o foco das questões que creio serem importantes. pela qual perpassa uma preocupação em se traçar a radiografia demográfica dos escravos sepultados. Hoje.

pois constituía os indicativos de uma sociedade escravista e prova inconteste de uma ganância que ainda não fazia parte do passado. com a única diferença de que agora estes estavam camuflados entre os defuntos dos indigentes e dos brancos pobres. será fundamental para entendermos que tipo de experiência viveram os africanos ao saberem o destino que era reservado aos seus mortos. esta contradição que fez com que.139 deixaram de sepultar neste campo santo. pois. Contraditoriamente. conhecido como Ladeira da Misericórdia. ao mesmo tempo que dirimimos esta questão. Se não se pode entender o Brasil sem que se compreenda a África. que se apresentara como um elemento incômodo para o modelo de nação que se forjava no primeiro quartel do século XIX. ainda no período imperial. a forma continuou a mesma: a vala comum continuou sendo o destino dos corpos dos pretos novos. se fez urgente encetar o aniquilamento dos indícios do Cemitério dos Pretos Novos. o Cemitério da Santa Casa. Neste sentido. se o local de sepultamento mudou. de forma discreta e gradual. buscaremos verificar de onde provinham estes pretos novos. forjadas a partir de 1830. A observação do cotidiano da vida e da morte destes mesmos escravos. Com efeito. . na cidade do Rio de Janeiro. para passarem a utilizar. no Brasil. como quase tudo que lembra o Brasil. É. Entretanto. Desta forma. Por outro lado. A imagem do comerciante passou à ilegalidade. outras começam a pairar sinalizando as possíveis transformações. a ela. iremos. No próximo capítulo. algo que amalgamasse a escravidão com os ares de modernidade ainda incipiente da Belle-époque. o modelo buscado ensejava. o cemitério foi apagado com a memória dos antepassados escravos. suas origens e cultura. tudo o que pudesse lembrar a referida empreitada foi sendo apagado paulatinamente do cenário carioca escravista. bem como tudo o que era ligado ao seu infame comércio. pois. do outro lado do Atlântico. se mantivesse o tráfico de escravos e se camuflasse a morte e o sepultamento destes.

140 .

Rita. com a marca à margem no braço direito. 59 (Registro do sepultamento de um escravo no dos Pretos Novos e pertence ao livro de Cemitério dos Pretos Novos). Viver e morrer na África 4. O livro de óbitos nos conta o nome do traficante ao qual cada escravo fora consignado e quem foram os mandantes e as datas dos sepultamentos. início do livro.Livro óbitos lavrado pela Freguesia de Santa de Óbitos de escravos da freguesia de Santa Rita. o nome. vindo de Angola no navio Despique. Joaquim Antônio Ferreira mandou sepultar um escravo novo. aberto no ano de 1824 e findo 2 em 1830. 1824-1830. pudemos ter uma visão privilegiada referente ao local de onde vieram os escravos ali sepultados. transcrevemos todo o livro de óbitos. No tocante ao escravo.141 Capítulo 4. retirando dele todas as referências aos portos de origem de cada embarcação. Fl. 2 ACMRJ . término do livro. até março de 1830. e a condição jurídica do mesmo. Por esta documentação localizamos pelo menos 11 portos de origem das embarcações que cruzaram o Atlântico e incremen- .1. A KALLUGA GRANDE Aos dezoito de julho de mil oitocentos e vinte sete. cada registro traz a faixa etária. PORTOS. declara o tipo. do que fiz este assento (grifo nosso). de dezembro de 1824. No intuito de verificar a procedência dos escravos. Através da análise dos dados obtidos. 1824-1830. o capitão do navio e principalmente os portos de origem de cada um deles. ÚLTIMA PARADA ANTES DA TRAVESSIA DO ATLÂNTICO. Quanto à embarcação.Livro de Óbitos de es cravos da óbito de um escravo novo no Cemitério freguesia de Santa Rita.1 O trecho acima é um assentamento de 1 ACMRJ .

4 % do total. embarcados pelo porto de Moçambique que. tendo assim. mas a quantidade de escravos mortos por cada embarcação. Consideramos não o número de navios. nestes quatro últimos anos do cemitério. Logo após. 95 e 38 respectivamente. 12 escravos. Os dois portos juntos responderam.128 registros traziam os portos de origem. Com quantidades quase inexpressivas temos escravos que vieram dos portos de Quiliname. número correspondente a 28. que multiplicar o número de viagens pela quantidade de escravos mortos em cada uma delas. por último. 142 . podemos observar que neste curto espaço de tempo que o livro de óbitos abrange.taram o comércio de almas que alimentava o mercado do Rio de Janeiro. do outro lado da África. Entretanto. É com estes números que trabalhamos nesta seção. correspondendo a 29. O porto de Cabinda também figura na documentação: 309 escravos passaram por ele. Logo após temos os escravos vindos de Inhambane. o porto de Ambriz se destaca pelo envio de 229 escravos. o antigo porto de Angola foi o responsável pelo envio à Corte do Rio de Janeiro de 891 dos pretos novos sepultados. 9.3%. ou seja. De acordo com a tabela. Com uma vantagem um pouco maior. conforme se pode ver na tabela 6. Guiné com apenas um escravo novo sepultado (ver os principais portos no mapa 2).6% do total. com três escravos e.119 óbitos. figura em terceiro lugar com 11. Os dados indicam que do universo de 6. mas a quantidade de escravos falecidos em cada uma delas e a origem das mesmas. cerca de seis anos. com 282. ainda no início da primeira metade do século XIX. pelo menos 3. o porto de Benguela enviou 914 escravos. muitas vezes. Mina.2%. pelo menos para o Rio de Janeiro. Assim descobrimos não só o número de viagens das embarcações. Isto demonstra a clara supremacia comercial que o Reino de Angola desfrutava. Luanda e rio Zaire. 354 escravos vieram morrer na América Portuguesa.8% do total. por 57. assim.

3 0.19 0.22 30 Luanda 02 0.69 00 0.11 1.15 53 00 01 802 00 00 10 53 1.54 09 0.06 00 00 0.03 30 Rio Zaire 00 00 00 Angola 01 0.68 00 00 33.03 25.128 % 9.15 0.69 35 1.18 05 29 100 02 44 00 00 263 30 0.062 00 00 84 00 42 317 18 69 437 27 68 # total # 309 38 891 229 95 914 354 12 282 01 03 3.17 0.24 2.04 33 87 2.34 00 2.8 1.31 1.2 28.20 0.78 178 5.67 580 Fonte: ACMRJ.62 00 3.63 145 4.30 0.95 64 2.0 29.08 236 7.03 00 00 00 00 00 00 00 02 00 00 02 51 1.3 0. QUANTIDADE DE ESCRAVOS SEPULTADOS NO CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS SEGUNDO OS PORTOS DE ORIGEM.72 05 0.00 0.57 10.44 00 # % # % # % # % 00 00 00 00 00 00 00 00 0.09 100 Anos 1824 1825 Portos # % # Cabinda 01 0.89 2.54 1.12 06 0.63 159 5.3 3. Livro de Óbitos de Santa Rita.97 2.63 14 1.3 9.03 153 Ambriz 03 0.TABELA 6. 143 .06 1828 1829 1830 % 0.13 1.28 164 Moçambique 05 0.06 24 Benguela 09 0.03 0.69 72 2.92 3.43 04 0.76 5.28 37 1. 1824-1830.0 0.95 00 4. 1826 1827 % 2.2 11.95 398 00 00 00 00 12.19 01 0.25 0.40 00 00 8.05 0.4 7.15 82 Inhamba-ne 00 00 00 Guilina-me 00 00 94 Guiné 00 00 01 Mina 00 00 02 Total 21 0.86 13.06 1.06 18.

a partir de 1825 tiveram sua posição de supremacia desafiada por novos 144 . Isto era um reflexo de um comércio de escravos cada vez mais volumoso e acirrado pela concorrência entre reinos africanos em uma busca cada vez mais interiorizada de cativos retirados do sertão africano. S. Cada um destes portos possuía a sua especificidade e o seu papel dentro da relação entre a praça comercial do Rio de Janeiro e a Costa Ocidental da África. os portos de Luanda e Benguela. Klein. Fonte: FERREIRA. p. Dos sertões ao Atlântico.MAPA 2. que no período posterior – 1797 a 1811 – responderam “por mais da metade do comércio da África Ocidental” 4 relativo ao tráfico de escravos para o Brasil. 253. Roquinaldo A.3 porém. Segundo H. a década de 1820 demonstrou um alto crescimento em relação aos anos posteriores. PRINCIPAIS PORTOS AFRICANOS.

Ao eclodir em 1640. Florentino. desde então. conforme o mapa nº 3. p. p. tanto por causa da competição de novos entrepostos. p. 89. (Dep. segundo o autor. no qual o primeiro viu as rotas comerciais serem desviadas ou dominadas por novos agentes. 75. Cit. Nesta região passou a existir o porto de Cabinda. 1968/69. Este fato. por incentivo de Portugal. esta relação de comércio entre a região do Congo e o Brasil não pode ser dissociada da longa história de aproximação entre ambos. ou seja. In: Anais de história.. A África Central passa a conhecer um período de guerras constantes. de História FFCLA) Assis. A partir de 1820 ocorre a abertura total de novos portos acima do rio Zaire. Herbert S. especialmente no período de 1760-1830. secas sazonais e disputa por prestígio exacerbava o conflito. serviu muito mais para atrapalhar o comércio luso-angolano. ao norte. Brasil. 1975. e a Luanda ao sul. Op. BIRMINGHAN. o de Ambriz. 1825-1830. “transformando a área bantu do Atlântico em um cenário ideal para a produção de cativos” 6 em larga escala. tendo seus limites territoriais estendidos até o rio Zaire. Portugal. fez alianças. em que se busca através da pilhagem e da razia o abastecimento de novos mercados litorâneos chefiados por africanos ou portugueses interessados em manter o seu negócio. como pelo fato de que.5 3 KLEIN. A partir de então. Conforme assegura Manolo Florentino. 5 Manolo G.145 portos. o volume do tráfico tendeu a aumentar. Esta combinação de competição por mercados. é o que o exemplo da guerra entre os reinos do Congo e de Angola pode nos deixar. guerras. 6 Idem. surgiu mais um mercado.7 pois a produção de cativos mediante as guerras nem sempre surtiu o efeito que se desejava. David. ao se lançar ao ‘resgate’ das almas. quando legitimando uma situação de fato. o Congo ainda era muito parecido com o que Portugal havia encontrado um século antes. 102. Molembo e o rio Zaire. p. O tráfico de escravos africanos para o porto do Rio de Janeiro. da própria política implementada pelo governo luso. a Coroa abriu mão de seu monopólio”. aumentando a concorrência com os velhos portos de Luanda e Benguela. 4 Idem. em certo período. Ano V. “com a passagem para o século XVIII tem início a fase áurea do tráfico pela África Central Atlântica. Todavia. sobre- . com seis províncias principais e máquina administrativa centrada no rei. no interior do continente. como nos casos de Ambriz e Cabinda. 101. portos que se mostraram como grandes fornecedores de escravos. permitiu o “livre acesso de todos os nacionais a tal comércio”. travou contato. pelo menos não para os portugueses. 7 Birmingham afirma que no século XVII. os mercadores de escravos precisavam ir buscar suas presas cada vez mais longe. Mais ao norte de Cabinda. incentivou revoltas e se viu refém. Em costas negras.

Este número é um dos maiores encontrados para um mesmo 146 . 10 Idem. Manolo G. Os africanos traficados de lá tinham o estigma de serem preguiçosos. segundo Karasch. rio Zaire. estava agora ruindo de uma forma inexorável diante da guerra. 12 de julho de 1826. o negociante F. onde adquiriam escravos capturados pelos reinos Tios. p. não dados ao trabalho e com grande propensão ao suicídio. Em um único dia. muitos portugueses foram mortos ou expulsos.2% dos Cemitério dos Pretos Novos. Como o que sobressalta Florentino quando assegura que: “(. Op.tudo africanos que tiraram proveito do enfraquecimento do reino do Congo. encontrava-se outro grupo de africanos. 54. afirma que os traficantes cariocas 12 Conforme a tabela 2. 11 Pelo qual passaram 2. e tudo aquilo que representava o avanço conquistado pelos reis anteriores do Congo. Em costas negras.12 Destarte. Mas pode ser que muitos deles mesmos tenham sido vendidos como cativos nos portos de Cabinda. N. uma maior produção direta de escravos.10 Na verdade.) o exemplo português mostra que. Cit. todos pertencentes aos domínios da região conhecida por Congo Norte.. os reinos tios. 53. quando se tentou..13 Seguindo o rio Zaire em direção ao Gabão. todos do sexo masculino. tais como as praticadas no reino tio que guardava este antigo costume. do porto do rio Zaire. S. também conhecidos por nsundis ou tekes. principalmente das vias fluviais do próprio Zaire. que vieram a bordo do brigue Espadarte.8 FLORENTINO. responsá. a produção cativa adquirida daquela região era dividida entre o próprio porto de Cabinda.14 A terra do Gabão. Karasch pretos novos inumados no campo santo. e a mortalidade verificada no transporte negreiro era muito alta. através de guerras. Cit... Assim. É o que supõe Karasch ao relacionar os desenhos de Debret. de autoria de H.15 Uma indicação que confirma este relato pode ser verificada no caso dos pretos novos oriundos deste porto. ao retratar monjoulos e angicos. tal como religião e comércio.. os fez com escarificações faciais. que estavam integrados ao tráfico do Congo Norte. pois este. p.8 Quanto ao porto de Cabinda. faziam da guerra sua principal fonte de obtenção de escravos. desestabilizaram-se as rotas que secularmente alimentaram de braços os portos do Atlântico”.p.9 e de lá faziam conexões com os mercados do rio Zaire. feitos cativos pelos tios. Op.8% dos escravos sepultados no 104. Madruga (sic) mandou sepultar cinco escravos novos. 9 KARASCH. vel por 9.. 13 KARASCH. Mary C. no Rio de Janeiro. utilizavam Cabinda como base para 14 Idem. era conhecida como um lugar de febres. 15 Idem. suas “exportações comerciais em toda a costa ao norte do cabo Lopez”. Mary C. p. 51.11 e o porto de Molembo. Klein.

Cit. Conforme a tabela 6. no Rio de Janeiro. Mayumba. 52. p. indo abastecer o mercado de Cabinda nos barracões de Malemba. todos estes escravos da região do Congo Zaire eram conhecidos pelo nome genérico de congos 18 e cabindas. tal qual como a conhecemos hoje. verificamos que 891 escravos. De Luanda. 1824-1830. Ao lado destes e situados entre Cassange e Luanda.. Ademais. Cabinda viria a despontar em é praticamente o motivo pelo qual não número de exportações. mas um outro grupo de expressão numérica no Rio de Janeiro eram os angolas. eram deste porto.. Muitos destes escravos comerciados devem ter passado pelo mercado de Cassange. Op. isto poderia explicar o porquê de somarem apenas 0. p. 18 Este tráfico. pelos motivos elencados acima. denominavam-se “angola” “geralmente os cativos vindos da região central controlada pelos portugueses da Angola moderna. fazendo com que os traficantes que antes comerciavam na margem do Zaire. Loango.” 19 bem como da região compreendida entre este rio e Cassange. Mais tarde. estes escravos eram genericamente chamados de cassange ou poderiam ser inseridos dentro do grupo ‘angola’ se os traficantes estivessem se referindo ao porto de origem. Mary C. exportavam os escravos acomodados em barracões mais próximos. Uma vez no Rio de Janeiro. os ambaca sofreram a escravização pelos portugueses.. por causa da 16 ACMRJ . Entrementes. desviassem sua mercadoria humana mais para o norte. encontramos escravos oriundos do Congo. como é o nosso caso. um número que pode ser considerado alto em relação ao pequeno número de viagens. Pois. após 1840. 55. Madruga mandou sepultar mais três escravos novos. por volta de 28. sua capital colonial e seu interior. Neste período. a Angola daquela época não corresponde à área total de Angola. se de fato estes escravos eram preteridos em relação a outros. no dia 14 daquele mês.17 Outrossim. encurralados entre um grande mercado e um considerável porto de escoamento de produtos. que era porto de Luanda. No comércio escravista.4%. 19 KARASCH. o comércio feito em Luanda e na foz do rio Zaire foi duramente perseguido. Mary C. Op. outros tantos podem ter vindo do leste de Angola.147 dia em um mesmo navio. no intuito de fugirem da fiscalização cerrada. o vale do rio Kuanz. em especial de Luanda..16 Por outro lado. ao sul do . 17 pressão inglesa pela supressão do KARASCH. ou de Ambriz. onde viviam os lunda-tchokue. Cit. que faleceram a bordo do mesmo navio.9% dos sepultados no Cemitério dos Pretos Novos.Livro de Óbitos de escravos da freguesia de Santa Rita.

. na foz do rio Loje.23 que viviam nas planícies ao sul e ao norte de Benguela. Os chefes das tribos matamba e cassange. mbundas e mbwelas”. pp. p. Com o passar dos anos. Reis negros no Brasil escravista. 21 Marina de Mello e Sousa. 25 Idem. segundo Marina de Mello e Souza. Ambriz já se tornaria o principal porto da região do Congo. p. os mesmos comerciantes lusos já haviam chegado ao Zambezi. mbwila e lozi”.25 Por outro lado. a prosperidade do comércio fez com que Mosul conseguisse se separar de Mtamba que. que por sua vez eram chamados pejorativamente pelos ovimbundos pelo “termo depreciativo de ngangela” 22 estes eram “os luimbes. eram conhecidos por guanguelas.rio Kuanza. distrito periférico das relações comerciais de Mbamba. 131. 57-8. Cit. Cit. cubanos e brasileiros 148 . diante da concorrência dos traficantes portugueses estabelecidos em Benguela. não conseguiu impedir o crescimento do entreposto comercial firmado sobre o porto de Ambriz. Marina de Mello e. Depois. pelos holandeses.24 Ainda no século XVII..26 Comerciantes espanhóis. de onde passaram a comprar escravos em larga escala. Op. p. o chefe de Mosul pôde negociar diretamente com os estrangeiros a fim de obter armas de fogo e pólvora. Mary C. o porto de Ambriz. 57. luchases. 58. Op. não deixavam os comerciantes portugueses sequer avistar o rio Cuango”. (apenas 2. ao logo do século XVII. os quisssamas e os libolos também foram vendidos como escravos aos portugueses e exportados pelo porto de Angola.. No final deste mesmo século. local pelo qual passaram pelo menos 229 escravos que foram sepultados no Cemitério dos Pretos Novos. 24 SOUSA. com a ajuda de seus estados satélites. pelo fato de que já não 23 Idem. é um exemplo emblemático da relação escravista tramada entre traficantes estrangeiros e antigos chefes guerreiros na África. tais comerciantes conseguiram alcançar o alto Kuanza. envolvido em guerras internas. 26 Idem. desta vez internamente. 22 KARASCH. Com a separação. Souza ressalta que “os reis cassanges.. Estes desviavam os escravos fornecidos pelos ovimbundos para o porto de Benguela. agiram no sentido de barrar o acesso às savanas d´além Congo. podia se manter como uma grande Op. Ao fim do século XVIII. retirando de lá escravos dos reinos de “mbunda. seus principais parceiros comerciais.. fornecedora de escravos. 130.21 Tais escravos.20 Já Luanda aparece com um fraco 20 KARASCH. o porto de Luanda recebeu um outro golpe. um manancial de escravos do período. p.50%). 130. em território Mosul. Cit. Mary C. desempenho como porto exportador p. Seu posto de comércio de escravos fora implantado em 1640.

de acordo com a tabela 6. Ademais. uma área comercial das mais importantes da região de Angola que. estava a região do porto de Benguela. 131. Ao sul de Angola.149 dominaram o comércio de escravos dos portos de Loango. Na década de 1811. por conseguinte.28 A esta proposição. no século XVII. os comerciantes de Benguela. passaram 354 pretos novos. rompem-se os laços de comércio com os intermediadores. ao longo da década de 1820. Como se pode ver. Thornton. as relações do reino de Mosul corroboram o que já foi demonstrado pelo historiador J. pelo qual. registra o número de 914 escravos novos. a posse dessa tecnologia tornava-os mais capazes de conseguir escravos. poderíamos acrescentar que tão logo este desenvolvimento é alcançado através da venda de escravos. o acesso direto à fonte consumidora que. Cit. ou troca por armas de fogo. Cabinda. neste mesmo momento.2 % dos 3. eram os traficantes estrangeiros. a pressão inglesa pela . conforme a tabela 6. pois guerras bem-sucedidas lhes garantiam grandes suprimentos. sua venda aos traficantes. já que.3% do total verificado. os africanos foram impelidos a negociar escravos. ocupando os lugares deixados por franceses e ingleses. 29. Com efeito. porque sem esse comércio eles não poderiam obter a tecnologia militar necessária (armas e cavalos) para se defenderem de inimigos. 1400-1800. a costa do oceano Índico se apresentou para os traficantes como área de suma importância para a obtenção de cativos. suplantaram a supremacia de Luanda enquanto porto de exportação.. p.128 pretos novos dos quais se sabe a origem. em torno de 11. Op. fazendo com que se busque. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro: Elsevier. neste caso.153. A Inglaterra deixou esta pratica após a Revolução Industrial. No outro lado da África. 28 John Thornton. 2004.27 A obtenção de escravos e. Malemba e Ambriz. 27 A França se retirou do comércio na região em 1789 por conta da Revolução Francesa. cada vez mais. tradução de Marisa Rocha Mota. p. Segundo ele: Nesse cenário – ‘o ciclo arma-escravo’ ou o ‘ciclo cavalo-escravo’ –. chegando a competir com o tradicional comércio de Angola. para o caso de Mosul. ou seja. Conforme: Marina de Mello e Sousa. A África Oriental aparece em nossa documentação representada pelo porto de Moçambique. a região passou a ser mais procurada para o tráfico de escravos. impulsionava o desenvolvimento dos reinos envolvidos na obtenção de escravos vizinhos mediante a guerra.

30 KARASCH. No nosso caso.29 Favorecida geograficamente. Mary C. pp.09% de escravos novos embarcados para o Rio de Janeiro. Cit. através do desenvolvimento de tecnologias de transporte marítimo. Fugindo desta barreira e a fim de evitar o apresamento de suas embarcações. 1824-1830. de Moçambique possuía vários portos.. Estes dados sugerem pelo menos duas interpretações. Cit. 58-9.. estava inserida no tráfico intraprovincial. podemos frisar pelo menos duas coisas interessantes. Dois escravos novos foram sepultados em 1825. pertencente ao desembargador Garcez. a mando de Joaquim Antônio Ferreira. lagos. sob a grafia de Guilliname. 31 ACMRJ .. o porto de Mina figura com apenas 0.. mas também era ladina e não havia vindo de Mina e sim da Bahia. a primeira é o fato de ter sido um comércio bem pontual. diminuíram o tempo de viagem e. iaôs. Concomitantemente os traficantes.31 mas este era o ladino Graciano. visto que nos interessa o fato de que os escravos embarcados daquela região eram de uma região étnica específica. que o escrivão não tenha sido tão especifico quando do lançamento dos assentamentos quanto às procedências dos navios. Em outras palavras. pp. do interior de Moçambique. ou seja. segundo a documentação transcrita. conseqüentemente. em última análise. que começou nos anos de 1825 e aumentou sobremaneira após 1830. daí que tenha chamado de Moçambique a todos os portos daquela região. a segunda. os ngunis do sul de Moçambique.supressão do tráfico se abatia cada vez mais sobre a região da África Ocidental. os comerciantes cariocas iam buscar nos portos de Moçambique a sua carga humana. Op. Op. Deste óbito. o que. a região 29 KARASCH. a mortalidade em alto-mar. mas com 282 escravos (ver tabela 6). 150 . Quiliname figura em nossa documentação separadamente de Moçambique. em datas bem delimitadas no tempo.30 Por fim. e os senas. apenas três escravos minas foram sepultados no Cemitério dos Pretos Novos. Já em 28 de dezembro de 1824. Mary C.Livro de Óbitos de escravos da entre eles. aumentou o lucro e provocou uma inundação de moçambicanos no Rio de Janeiro. do vale do baixo Zambeze. nem uma nem outra hipótese desqualifica nossa fonte. e um em 1828. Um outro escravo mina foi sepultado no Cemitério dos Pretos Novos em 10 de janeiro de 1825. a escrava Ignácia Mina foi sepultada no referido campo santo. 58-9. Quiliname freguesia de Santa Rita. e Inhambane e o próprio porto de Moçambique. Karasch assegura que desta região vieram para ao Rio de Janeiro as seguintes etnias: os macuas. os de Mombassa.

o fato de Joaquim Antonio 32 FLORENTINO destaca a importância de Joaquim Antônio Ferreira como um dos Ferreira. diversificando a sua ação comercial e aumentado seu capital. além disso os dados demonstram que o traficante carioca não só se dava ao comércio transatlântico. à espera de ser vendida. que não aparece recorrentemente na fonte. Em outras palavras. 205. Fl. além de ser mina. ter mandado sepulséculo XIX. demons34 ACMRJ . de nome Amaro Mina. tar Ignácia Mina. teria participado da formação cultural da cidade. Se houvesse sobrevivido. Ignácia não foi a única preta mina que teve como destino o Cemitério dos Pretos Novos depois de falecida. ou. sobre os minas no Rio de Janeiro. sua vez havia vindo da Bahia.32 comerciante abastado do principais comerciantes do Rio de Janeiro do mercado carioca.33 Ignácia fora vendida para um comerciante carioca e ficara aguardando nos barracões do Valongo. Deste. faltando. Joaquim José Pereira de Faro compareceu à paróquia de Santa Rita. vindo a ser inumada no campo santo junto a centenas de escravos recém-chegados. Ela assevera que tais . Além disto. p. o fato de encontrarmos uma quantidade tão pequena de escravos minas sepultados no Cemitério dos Pretos Novos corrobora a hipótese da coesão entre um mesmo grupo étnico. como se envolvia no comércio intracosteiro. o escrivão observou que falecera “de moléstia interior. uma mesma região. que teria sido transplantado para o Rio de Janeiro.Livro de Óbitos de escravos da tra a compra de escravos dentro de freguesia de Santa Rita. dois anos para que o comércio de almas se tornasse ilegal. a despeito do fato de que a Bahia tenha no mesmo período recebido uma população escrava formada em grande parte por minas. se preocupara ao menos em tratar o doente. 1824-1830. no Rio de Janeiro. não suportara as agruras e falecera. o trabalho de Mariza de Carvalho Soares. sobretudo diante da morte. uma ladina. p. 33 Ney Lopes. responsável pelo Cemitério dos Pretos Novos e mandou sepultar um escravo seu. 146. Em costas negras. poderia ter colaborado para com a formação de uma cultura recriada através dos laços de solidariedade. que por Florentino. se não lingüístico. portanto. ver: Manolo G. em saber de que mal sofria o escravo. assim. ao menos. Entretanto. é o fato de que este é um dos casos raros que trazem no óbito a causa da morte do escravo. Bantos. seria mais uma das dezenas de pretas minas que viveriam na corte e.”34 o que demonstra que o senhor deste escravo. Malês e identidades negra. no século XIX. O que chama a nossa atenção para este escravo. 57. no entanto. sobretudo com relação ao sagrado. Em 16 de outubro de 1828. E. da qual os escravos se valeram. aponta para as características deste grupo africano específico.151 Primeiro.

de 1808 a 1830. PRINCIPAIS ETNIAS E ÁREAS ATINGIDAS PELO TRÁFICO. ngunis (sul de Moçambique)40. Mbwila e Lozi Macuas. a grande maioria dos escravos que aqui chegaram. reuniam-se. como alguns preferem denominar. de fato. Porto Cabinda Angola Benguela Etnia. Resta-nos analisar como viviam os africanos da África Central. milua (Lunda ) Angola/Benguela Mbunda. os reinos escravizados ou envolvidos no tráfico correspondiam em sua maior parte à região da África Central Atlântica. Mbwila e Lozi. oriundos do reino de Maki. Foi pensando nesta problemática que montamos um quadro com as principais áreas afetadas pelo tráfico (ver quadro l). era da região Central Atlântica da África. no entanto. luchazes. Reinos Reino/Região Luanda Moçambique Tios (tekes). QUADRO 1. o que faz com que concordemos com Slenes. em uma irmandade própria. margens do rio Zaire. ambaca quisssamas. pelo menos até onde se sabe. Congo/Gabão Lunda-tchokue. cruzamos as informações obtidas com as regiões fornecidas no mapa reproduzido por Karasch. no Rio de Janeiro. guanguelas.43 ou seja. verificaremos que a maior parte deles.35 36 libolos. pelo menos a partir de 1740. antes conhecida como Costa da Mina.africanos. África Central Atlântica. como se reagrupavam em comunidade e que aparelhos simbólicos usavam 152 . 41 senas(Vale do baixo Zambeze). eram do Centro-Oeste Africano.44 ou. luimbes. lagos. Gabão. “sobre as origens das nações africanas”. situado na atual Daomé. quando disse que “a escravidão no Centro-Sul.) Ao compararmos este quadro confeccionado a partir de dados de vários autores. era “africana” e “bantu”. iaôs (Interior de Moçambique)39. 37 mbundas.42 e chegamos à conclusão que. mbwaelas Benguela 38 Mbunda. Ao seguirmos os indícios das prováveis regiões que se tornaram fontes para a obtenção dos escravos que vieram para a região Sudeste do Brasil. Moçambique/Inhambanne (As respectivas fontes de consulta para cada região estão inseridas nas notas.

p. 57-8. Somente de posse destes conhecimentos é que poderemos traçar uma visão aproximada da experiência vivenciada pelos escravos recém-chegados ao ver os seus terem seus corpos deixados à flor da terra no Cemitério dos Pretos Novos. Em quase todas elas havia a palavra ‘untu’. Mary C... Cit. sem que nos voltemos para o outro lado do Atlântico. 232. Cit. 41 Idem. cerca de quase 2. 35 KARASCH. Cit. tendo desta forma o sentido de ‘povos’. 57. Tendo se principiado provavelmente no início da era cristã. p. Ki-zerbo assegura que: O problema da migração e da fixação dos povos bantófones não está ainda esclarecido. e ainda não estava terminado no fim do século XIX. 2002. 44 KARASCH. História da África Negra. É um fenômeno histórico de primeira importância que se desenrolou numa vastíssima escala de espaço de tempo. Reis negros no Brasil escravista: história da festa da coroação do rei congo. p. Tradução de Américo de Carvalho. Cit.45 Entretanto.153 para representar a vida. Op. Cit. Bleck que. Op. Volumes 1e 2. sobretudo. p. Op. Mary C. p. 7.. 45 SOUSA. Op. 12. em 1860. pp. Ou seja. Marina de Mello e. possuía “características lingüísticas e culturais semelhantes”.. 1972. Publicações Europa-América.2. que tinha o sentido de ‘gente’. e sim um “macrogrupo” que. a origem destes africanos ainda é controversa.. 4. p. 50. classificou um grande grupo lingüístico com este nome genérico. Mary C.. Op. Cit. pp. 39 KARASCH.000 línguas africanas. SOCIEDADE E COSMOGONIA O termo ‘banto’ deve-se a W. sentir e se relacionar com o mundo ao seu redor e o além. H. p. Como era sua cultura e o trato com o sobrenatural. É assim que passamos para a segunda parte deste capítulo. mas não representavam apenas um grupo cultural. Op. 37 KARASCH. Marina de Mello e. Mary C. em outras palavras. como lidavam com a morte.. este grupo preservava entre si certas características lingüísticas. Op.. 130. 53. desta forma de ver. Mary C. 40 Idem.. Belo Horizonte: Editora UFMG. ‘pessoa’. Joseph. 46 KI-ZERBO. 42 KARASCH. 36 Malungo. 58-9. Compartilhamos a idéia de que é impossível estudar o Brasil. 38 SOUSA.. Cit. POVOS BANTÓFONES. segundo Bleck. ao estudar. Ele chegou a esta classificação ao verificar várias semelhanças entre a estrutura lingüística de africanos da África Centro-Oriental.46 .. J. p. Segunda edição.. o seu plural. e o termo ‘bantu’ ou ‘banto’. Paris. 130. 43 Robert W Slenes. no momento em que perscrutamos as sociedades africanas em busca destas representações.

Comitini acredita que. 53 Idem. p.C. assim como a criação de gado.50 Ultrapassando os territórios de Camarões e Nigéria. seguiram pelo curso do rio “Sangha e do Ubangui até o Zaire e a zona de savana que se estende. 54 PRIORE. p. Carlos. 48 KICristo. uniram-se a outros falantes da língua banto vindos do leste. bem antes de 47 COMITINI. Op. e em forma de cheferias 154 . ao longo do Atlântico. trazendo consigo um processo de migração para o sul”..” Joseph KI-Zerbo. 73. as “organizações sociopolíticas se tornaram mais complexas. Rio de Janeiro: Ed. agricultores que já falavam o kicongo se davam ao cultivo do inhame.48 Aí deveriam ter desenvolvido técnicas do ferro. 49 Idem. a floresta equatorial se apresentou para a expansão banto como uma barreira quase intransponível ao seu avanço migratório. por volta de 400 a. 50 cas lingüísticas desceram pelos rios Idem. de forma autóctone.. Aí se encontra o núcleo central bantófone definido pelos lingüistas”. Ao longo do século VI. tenha contribuído para a expansão da língua banto como um tronco comum. novas ondas migratórias vieram do norte em busca de pastagens e campos férteis. por volta de 1500 a. 52 KI-ZERBO. 232. que tinham por hábito o cultivo e a armazenagem de cereais. o povo. p. p. aliada aos conhecimentos de metalurgia. Contudo. facilmente dominaram as populações autóctones. do Zaire ao reino de Angola”. legumes e dendê. África. Cit. 232. Cit. 139.52 Então devem ter seguido a crista montanhosa que se entende ao longo dos grandes lagos.. chegando desta feita ao “elevado planalto catanguês (Shaba) em país Luba. do qual derivaram outras ramificações lingüísticas... 1982. Joseph. p.53 Ao sul do rio Zaire. “tendo os povos negróides do Saara Renato Pinto. Venâncio. Joseph.47 O que está próximo Op. 2004. ou por “transmissão do Oeste ou do Leste ou mesmo do Norte”.54 Neste local.51 É possível que a superioridade numérica. Op.49 Ainda nesta região. prosseguiram em direção à África Central e. para o Ocidente. Mary Del. 51 “Beneficiado pelo domínio de armas Ubangi e Chari. Cit. Ancestrais: uma introdução à procurado ao longo dos rios e dos lagos história da África atlântica. durante séculos. grupos com essas característiZERBO. da savana zonas propícias para a sua vida agropastoril”. do que Ki-zerbo afirma ao dizer que 232. Achiamé. Rio de Janeiro: Elsever. deveriam ter ficado por um longo período até que a “utilização do ferro teria desenvolvido os recursos e a população a ponto de haver declarado uma pressão demográfica. daí se deslocando e utensílios de ferro. Estes outros povos compartilhantes de um mesmo tronco lingüístico ocuparam a região Centro-Ocidental e logo suplantaram numericamente as outras tribos que aí viviam.C. Seguindo circulares ou muitas vezes circundando a região da mata.

Cit. 59 MEILLASSOUX. as mulheres deixavam a condição de servas para serem participantes da comunidade e esta é uma “solução para sua integração”. E o aumento da produção agrícola. ou seja. a primeira organização dos povos falantes da língua banto. “uma estrutura social nascia dessa nova comunidade multiclânica e assim se formava uma etnia. no entendimento dos mecanismos que tornaram possíveis a obtenção de cativos e o seu uso e incorporação à linhagem.59 Assim. por volta de 1400 se formaria o Reino do Congo. C. Todos os participantes do grupo estavam unidos pelos laços de sangue e. Em tal caso. é atribuída à família do homem com quem ela é casada. p.155 se espalharam do litoral às nascentes do rio Malembo”. Quando o rapto é seguido de nenhuma regularização através de um casamento. Marina de Mello e. Cit. Op. que era a família. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Em torno desta célula. baseada em uma comunidade lingüística...57 É bem verdade que Meillassoux está se referindo ao modo pelo qual “os estranhos”58 passam a pertencer à tribo raptora e que aqueles eram tidos por servos. nas quais as mulheres eram obtidas fora do grupo de parentesco e passavam a incorporar a língua dos seus maridos. tirada do seu ambiente original. uma vez casadas. mas pode-se inferir que. Cit.. era uma forma recorrente. Marina de Mello e. Cit. sem direitos sobre sua primogenitura. 136. Nesta região. e os clãs como grandes unidades residenciais e lingüísticas. na qual os costumes e a língua eram mantidos.56 Esta hipótese está em consonância com o que propõe o antropólogo Claude Meillassoux: 55 Idem. p. nesta análise. Op. por pertencer à própria tribo. em última análise. 24. que se consolidava pelo uso de instituições similares”. 24. ao mesmo tempo ele ressalta que muitos destes cativos se tornavam escravos de fato. 56 SOUSA. A noção de ‘estranho’ para ele está contraposta à idéia de ‘parente’. não poderia ser escravizado. o rapto de mulheres. mais tarde. pela ancestralidade. por ter alcançado uma terra propícia ao cultivo. Sem embargo. p. “o qual. Claude. 24. 60 SOUSA. Op. a mulher raptada. Antropologia da escravidão: o ventre de ferro e dinheiro. o grupo se reunia.. confederações e reinos. deve ter sido “do tipo familiar”. Op. proporcionou que os mesmos se fixassem à terra formando vilas e cidades e. p. 1985. p. Meillassoux. 57 MEILLASSOUX.55 Marina de Mello e Souza ressalta que Ngou-Mve. mais tarde. esta forma de obtenção de cativos. Sabemos que se pratica mais nessas sociedades o rapto das mulheres do que a captura dos homens. o autor compreende que nos primórdios das etnias africanas.60 . privada da arbitragem que a intervenção de sua família permitiria. a expansão territorial era obtida por esta união matrimonial. 58 Meillassoux está preocupado. 136.

independente da terra que ocupavam. sugere que ambos supõem que esta “herança cultural” é o único instrumento capaz de abarcar a totalidade da cultura africana. 63 Idem. 66 Ney Lopes. sobretudo. talvez adquirida depois de séculos de migração dirigida a regiões de baixa densidade demográfica. é que suas raízes não eram presas a um ‘lugar’ em especial.66 e completa: 156 . ao se reportar a estes dois antropólogos. Baseado nestes dados. Tsci. e tantas outras. Ngoma Vem!” África coberta e patrilinear ou bilateral 61 ainda não descoberta no Brasil. M. como no caso de Ki. 86. I. W. Mo. Slenes. aliada à idéia de se preservar a memória dos antepassados. o grupo étnico ao qual pertence.62 Uma outra característica dos bantos. 147. A Ama. da rigidez de alguns tipos de “estruturalismo/funcionalismo”.64 Em outras palavras. Chi. Novas migrações eram vistas como possibilidades futuras de uma vida feliz. Am.. e a língua que se fala. Wa. (congo) por exemplo. e não no sentido que o eles. e a terra que ele ocupa. e outros. de onde vem. a linhagem é baseada em uma senso comum adotou de pensar ‘banto’ como ancestralidade comum que os une ao uma cultura. Cit. numa posição genealógica”63 independente do espaço que ocupavam – viam-se não como um indivíduo que deixou a sua terra e sim como “um fundador de um grupo que ainda estava por construir”. esta ancestralidade era revivida ou preservada no binômio famílialinhagem que. p. Ki. ki. 64 Idem. Para aos africanos que compartilhavam o tronco lingüístico banto. era sempre projetada para uma possibilidade futura. Bu. fugindo. Slenes. Bleck reconheceu que na gramática bantófone65 os nomes são sempre antecedidos de prefixos. a noção de ‘parentesco’. da qual trataremos mais adiante. por exemplo: Mu. nos ancestrais. a forma de se qualificar a 61 Linhagem que situa o indivíduo em uma dada sociedade sob a referência do pai ou da família africana banto sob os padrões mãe ou de ambos progenitores. embora se diferenciassem do “outro”. desde que mantivessem acesa a chama da ancestralidade. p. encontrado para os bantos. Lu Le. Voltando à questão do idioma. Lopes cita o exemplo de que “um indivíduo Nkongo. Ua. Um. assim. para Sidney Mintz e Richard Price. e outros mais. “Malungu. Shi. Ova. Si. seria a “herança cultural” comum a muitos povos da África Central. antropológicos como matrilinear. que distinguem o individuo. Ba. de o sentido correto do termo ‘banto’ é dado etnias. pertence ao Bakngo (Congo) e fala o idioma Kicongo (Quicongo)”. Desta forma. Op. 62 Robert W. Tchi. mesmo tempo que os preserva enquanto indivíduos.Contudo. mas “num grupo de parentesco. R. 65 A partir deste ponto usaremos o termo ‘banto’ dá conta de abarcar com precisão o no lugar de ‘bantófone’ por entendermos que sentido de parentesco e.

do sul e do leste do continente que apresentam características físicas comuns e um modo de vida determinado por atividades afins.67 Para fazer esta afirmativa. ainda baseia na Enciclopédia Brasileira Globo. momento os estudos sobre a África p. ele mesmo incorpora esta ambigüidade. 69 Claro está que o conceito de raça. já que tais grupos citados por ele ocupavam justamente a região central e austral da África. Nei Lopes se 67 Idem. Mas a partir deste ponto. Cit. entretanto. o complemento vem após o substantivo. dados que podem preconceito. o próprio conceito de ser questionados.] que o verbo correspondente ao ser português era freqüentemente omitido na construção das frases. nos idos da década de 1980. apesar de citar a confusão entre língua banto e etnia. tal qual na língua portuguesa.72 . 86. não distingue o grupo lingüístico das características antropomórficas nem culturais do grupo que analisa. levou ao termo genérico banto. completando o raciocínio da seguinte forma: Pelo uso. que sufixos. ademais. pois. o verbo. então. p. usado largamente por Lopes. 86.. que a análise produzida por Lopes até aí não incorre em erro. visto que naquele raça é hoje grandemente questionado pela própria Antropologia. era entendido assim por uma grande parte dos estudiosos.71 Apesar de identificar a confusão. ainda eram incipientes. para se designar a todos os habitantes da África Centro-Oriental.70 Vemos. radical e sufixo. Segundo ele. 70 Ney Lopes. Essa confusão. seriam as melano-africanas congolesas e melano-africanas zambezianas. 71 Idem.. adjetivos. Lopes ainda informa que na língua banto. Lopes ainda define claramente quais seriam as “raças”69 que falariam tal idioma. e hoje. quando ocorriam. Op. no momento de sua produção. ou seja. eram usados quase que apenas para indicar modalidades de ação do mesmo verbo. tal qual se conhece hoje. as sílabas são normalmente abertas”68 e que o sujeito vem antes do verbo. “os substantivos.157 Nessas línguas a composição das palavras e a conjugação dos verbos se faziam por meio desses prefixos e infixos também [. sob a designação de bantos estão compreendidos praticamente todos os grupos étnicos negro-africanos do centro.. ele a aceita e ressalta que “hoje”. antes do objeto direto. e verbos em geral decompõem-se em prefixo. compartilhada por muitos outros. sugere certo da edição de 1984. 68 Idem.

bem homogêneos. à espera de ser vendido. 76 John Thornton.. lidamos. quando muito. A conclusão reflete uma mudança na própria no qual a comunicação entre os mais idéia de cultura” e completa que estes estudos variados reinos não era de todo imposprocuram levar em conta as similaridades sibilitada. numa vasta área da África Central. 73 Robert W. em comunidades das mais variadas. particularista do que geralmente se supõe’. Vol.76 E por mais que estes grupos se subdividissem em monjolos. buscaVem!”. em questão de alguns dias. 262. se mostrou como um manancial de escravos. p. I. possuía uma diversidade lingüística menos pronunciada do que a da alta Guiné e menos ainda que na baixa Guiné. Logo. Slenes. pois todos em costa de Angola falavam línguas do grupo banto. 75 Idem. fugindo desta armadilha. lingüística entre eles. mesmos conceitos básicos do cotidiano p. no entanto [. 77 Idem. aprender o kicongo enquanto aguardava nos barracões. Op. 29. “Malungu. W. p. Dentre estes trabalhos. 8. transportado em libambos para o Congo. Na verdade.75 Pode-se também notar que a área da costa de Angola que. p. como tão similares entre si quanto o português é do espanhol.77 Já que delimitamos melhor o povo sobre o qual nos debruçamos. e os sete subgrupos são. em geral. 74 JOHNSTON. Slenes. portadoras cada uma de uma cultura que tinha mais diferenças que semelhanças. mos nas nomeações dadas às coisas e p. Johnston ressalta Jan Vansina e Renée C. p.. Cit. se for verdade que eles usavam os mesmos vocábulos-raiz. falante do idioma kimbundo. 143. Op. ajustando nosso foco de observação sobre estes que genericamente 158 . por sua vez seria um mbundo. como vimos anteriormente. Ngoma Vem!” África coberta e descoberta no Brasil. In: Robert W.Todavia. Thorton cita os exemplos do kicongo e do kimbundo. o autor cita Willy de Creamer. com três áreas culturais diferentes. podemos inferir que as formas pelas quais eles entendiam e se relacionavam com as coisas ao redor também eram similares.. também podiam falar o kimbundo ou kicongo. Fox. haja vista a proximidade entre a religião e o conceito de família. De fato. 11. Slenes. 17. Ngoma 74 e necessidades comuns. 72 Veja o que diz Slenes sobre isto: “trabalhos mais recentes. Estes são uns dos motivos pelos quais somos levados a criticar a orientação mais antiga da antropologia. Conforme: Robert que muitos dos vocábulos-raiz indicam. que insistia em classificar cada grupo etnolingüístico compartimentadamente em tribos isoladas. poderia. um africano tomado por escravo na nascente do rio Kuanza que. os “Malungu. Cit. aos atos as representações do que se entendia por mundo e..] têm mostrado buscamos entender que a “formação que. as línguas faladas por grande parte destes escravos. angicos e malembos. de uma identidade bantu” começara ‘a cultura é menos heterogênea e menos a partir de “um resultado complexo”.

podemos partir para o passo seguinte: verificar a forma pela qual estes se relacionavam com o sagrado e o além-túmulo. depois de explicar os motivos pelos quais foi levado a escrever sobre a origem do povo banto e sua língua. Altuna.79 Estes traços específicos.159 ficaram conhecidos por bantos. sem querer incorrer no erro das grandes generalizações. Para o padre Altuna esta possibilidade era uma forma real de se entender os povos que chamaremos de bantos. em grande parte. ambas não são conflitantes nem excludentes. p. os ritos e traços culturais são o que podemos ressaltar. No intuito de compreendermos o signi. Luanda: Secretariado ficado da religiosidade banto. é possível falar de um ‘povo banto’ ainda que subdividido em múltiplos grupos de características culturais acidentais muito variáveis e com uma história diversa e até antagônica. como um fato aglutinador que nos possibilita uma analise do grupo como um todo. Cremos que. Estes pontos são os que abordaremos para alcançarmos o nosso objetivo. é preciso que se demarque bem o que o autor entende. Cit. mos mão do trabalho do padre jesuíta 79 ALTUNA. independentemente da identidade racial. No livro.78 Este livro foi fruto de anos de pesquisa e nasceu. ritos e costumes similares. além da comunidade lingüística. 18 Raul Ruiz de A. Raul Ruiz de Asús. ter uma visão mais apropriada do todo. Não se pode perder de vista que o discurso produzido pelo padre busca a todo o momento justificar a religiosidade banto e sua conformação aos moldes do catolicismo. podemos. conservam um fundo de crenças. Raul Ruiz de Asús. Op. Muito embora ele coloque a religiosidade católica em um patamar de ideal mais elevado. ele compreende que muitos elementos da cultura banto são completamente coerentes com os dogmas eclesiásticos. além do nítido parentesco lingüístico.78 ALTUNA.. publicada em 1985 pela Arquidiocese de Pastoral. ao verificarmos estes traços comuns. o autor se ocupa da família e das linhas de parentesco. A Cultura tradicional banto. uma cultura com traços específicos e idênticos que os assemelha e agrupa. Trabalhamos aqui mais com o semelhante do que com as diferenças. e creio eu que ele o faz de forma satisfatória: Os bantos. em Luanda. lançaArquidiocesano de Pastoral. Antes de tudo. estas crenças similares. . 1985. Assim. que escreveu A cultura tradicional banto. Para ele. da experiência direta do convívio entre os africanos.

nas questões ontológicas. força vital exis- 160 . não ousaram nem pretenderam entender esta força vital como o Deus do catolicismo. uma vez que ela procura captar os acontecimentos sempre da óptica do homem.82 Com efeito. em comunhão. nota-se como os bantos compreendem que a vida não está completamente dissociada da morte. a tradição oral avança em pontos desprezados pela historiografia. ou seja. é preciso que entendamos o destaque que esta recebe dos africanos. que o autor entende por Deus: Para os africanos. justamente por acreditar que todas as coisas contêm um poder vital. mas ainda que não queiramos discutir a questão do ponto de vista da oralidade. Ao longo do seu texto. Durante muito tempo se pensou que os povos sem escrita são povos sem cultura. o Deus dos Cristãos e a força vital africana.80 Para o padre Altuna. as outras criaturas viventes e até os fenômenos naturais estão penetrados e acham-se. a energia divina está presente em todas as partes da criação. no sentido de separar o Axé. deveria haver uma forma de se buscar uma aproximação entre estes dois campos de forma que se tornasse válido o acréscimo feito por ambos ao conhecimento do saber histórico. de modo que os homens. o autor destaca a importância da vida para os africanos. porque nesta concepção “vitalista não há lugar para o completamente inerte e não existe o vazio”. mas isto não impede que conserve o passado e que os seus conhecimentos e cultura sejam transmitidos e conhecidos. ao se debruçar sobre a sociedade nagô. Deve-se ressaltar que outros trabalhos. Antes que ele mesmo aborde a temática da morte. na memória do mais velho. talvez por estarem fora da alçada religiosa. o que demonstra o seu esforço por harmonizar as duas crenças. o banto não pode conceber a não-existência. já que a própria sociedade estudada tem em alta conta a oralidade: Em África. A África negra não possui escrita. consegue operar esta divisão. desaparece uma biblioteca. E isto justifica o seu próprio estudo.O saber para ele está na experiência do povo africano. e a falta de uma escrita não se apresenta como uma barreira. Em nossa opinião. quando morre um velho. Juana Elbein dos Santos. esta “energia divina” é entendida por ele como Deus. A morte não é uma não-existência.81 Para o autor. por isso.

e esta só se pode ter de acordo com o nível de proximidade com os antepassados. pp.88 E o mundo se resumiria a um conjunto de forças hierarquizadas pela relação da energia vital. Só frisamos que o esforço de Altuna em classificar por Deus aquilo que os africanos possivelmente não entendessem como tal talvez residisse muito mais em questões políticas e religiosas do que em uma visão estritamente acadêmica. depois aos vivos.. 1976. antepassados. Dito de outra forma. 47. 85 Idem. 47. debilitado e sem forças se fica. 82 Idem. p. O africano banto Petrópolis: Vozes. os seria castigado e ele mesmo atingiria leitos dos rios. Altuna também destaca que esta vitali. florestas e pedras. 32. 55. dade que é vista e sentida no viver ban. 87 TEMPELS. os ancestrais seriam o elo entre a criação e o Deus único.. estar vivo é ter movimento. p. porque de outra forma os espíritos podem habitar as cachoeiras.86 Por outro lado. quanto mais perto dos antepassados e os agradando. “sabe que viver exige prolongar os seus Raul Ruiz de Asús. é contribuir para com a comunidade.Traduzido pela Universidade Federal da Bahia. 84 ALTUNA. mais cheio de força vital se está. mais fraco. com a comunidade. p. 86 A natureza também é dotada de vida. Présence Africaine. o outro. um trata dos bantos. 47. 84 para ela e por ela”. p. to está ligada à existência e à manuten. Os nagôs e a morte: Pàdè. ou seja. Placide. É desta forma que esta força vital resolve o problema da . dos nagôs. e que é distribuída de maneira hierárquica: primeiro aos ancestrais e defuntos. vegetais e minerais. iniciando pelos reis. p. é interagir.80 Idem. Paris. 1961. Op. Ao mesmo tempo. e por último aos animais. O primeiro uniu o conhecimento eclesiástico e filosófico a relatos etnográficos. o segundo é estritamente acadêmico e busca a todo o momento se distanciar de um possível anacronismo. já que o viver está relacionado à força vital. Por outro lado.47. ser um “ser com vida” pode ser uma atribuição não só dos humanos. Juana Elbein dos. 83 SANTOS. este viver em comunidade não pode ser entendido por um viver em igualdade.85 Em outras palavras. La Philosofie Bantue. de linhagens. Cit. p. pais e filhos. cuja origem é o próprio Criador. quanto mais afastados dos antepassados. conforme ALTUNA. Raul Ruiz de Asús. Àsèsè e o culto Ègun na Bahia. o viver não é entendido como um simples “viver” e sim um “ser com vida”. daquilo que os cristãos chamam de Deus. a felicidade e o sucesso poderiam ser interpretados como um acúmulo desta energia vital. Cit. o aniquilamento. 56. e os acontecimentos ruins e as privações como um decréscimo desta energia.161 tente em todas as coisas. Só se concebe viver 434.83 Guardam-se aqui as devidas ressalvas quanto à natureza dos dois trabalhos e com os grupos aos quais se pretende estudar. Neste sentido.87 Ainda na filosofia banto. 81 Idem. em comunidade. chefes tribais. laica. ção dos antepassados. Op.

Porquanto voltamos a insistir que o culto aos ancestrais constituía uma das bases principais. 89 MUNANGA. Banto Ontology. importantes das civilizações bantu. ou a força que um Chukwudi. Dezembro/fevereiro/. Anthropology Oxford. era indubitavelmente um “mal morrer”. ao menos por hora. é aplicada a injustice and every failure: all these are tudo que existe na natureza”. um dos ramos (28): 63-68. (Edited By) African Philosophy. 430. “o mundo das forças mantém-se como uma teia de aranha. é o fato de que morrer longe dos seus ancestrais ou mesmo de não poder venerá-los. tornar-se escravo deveria ser cair em desgraça. p. 63. Op. 1995/96. Placide. or fatigue. Para o padre Altuna. held to be.existência da morte. Kabenguele. ao mesmo tempo que funciona como um elo entre o homem e um Deus que habita em um mundo distante. o que se quer ressaltar. An dia fora outorgada pelo ser supremo. and are spoken of by Bantu as morrer significava perder completaa diminution of vital force” Cf. Bucknell University. da qual não se pode fazer vibrar um único fio sem sacudir todas as malhas”. depois os antepassados. pp. um ser influencia o outro com o intuito de aumentar a própria força. mas não única. every ao extremo da força vital. São Paulo to “entre os baluba. Emanuel mente a energia. Wound or disappointment. do sofrimento e das atribulações da lida diária. depression. Origem e histórico do quilombo na África.90 Por outro lado. mas diferentes na essência e no sentido. palavra ‘morrer’.89 Vê-se. Neste aspecto. homens e animais”.. Cit. Contudo. para os africanos. acarretando com isto o enfraquecimento de outro. a 63-68. Assim. Desta feita. da religiosidade centro-africana e tem. quando ainda do contato da catequese. que “ser” e “força” estavam inexoravelmente interligados. Não nos é difícil crer que africanos e portugueses. e o decréscimo da segunda interferia negativamente na existência da primeira. dentro da cosmovisão banto. Kabenguele. In: EZE.. pois. all suffering. um papel fundamental na manutenção da vida e da ordenação das coisas terrenas. 91 MUNANGA. sendo a mesma palavra utilizada “para 1998. Cit. que é uma privação 90 “Every illnes.91 Sendo isto para os bantos uma verdade. uma desventura causada por uma diminuição de força. estivessem falando de coisas semelhantes e comuns nas duas visões. Op. Revista USP. Seguindo este mesmo pensamen88 MUNANGA. p. das frustrações e infortúnios. assim era a cosmologia banto: no mundo invisível estava Deus. fundadores dos grupos 162 . a religiosidade encontrada pelos portugueses dentro da própria visão cosmológica banto possibilitou uma aproximação de significados entre ambas. TEMPELS. Kabenguele.

e “Sua influência sobre os homens é muito poderosa”. n 4 e reina longe dos homens. farto em dias. 93 Jan Vansina. um bem morrer. Já no catolicismo. os quais receberam a força vital do próprio Deus e são o elo entre Deus e o homem. Vive-se morrendo e morrendo vive-se. Cit. mas distante. cavernas. tais como rios. que podem ser benéficos ou maléficos. à linhagem tribal. jovem. o Criador” que a tudo dá vida Comparatives Studies in society and History 18. com uma numerosa descendência. interage diretamente com os homens: para se comunicar com a sua criação. os espíritos dos gênios que estão nos objetos materiais. Jan. p. p. montes. está aí uma outra semelhança entre a religiosidade banto e a católica: o papel do intermediário. teríamos os antigos heróis. Ambos são mortos que intercedem junto a um ser supremo pelos seus. 446. e interferem sem cessar no mundo visível. . já que os laços vitais não se rompem. Finalmente. Raul Ruiz de Asús.. por suicídio. assim como pastores e especialistas em magia notáveis”. esta ligação não se dá pelo parentesco. uma má morte. 94 ALTUNA. supremo.163 “primitivos de famílias”.92 Nesta concepção africana. Op. contrário à natureza e à harmonia. estão os “demais defuntos destes antepassados. já que a morte era entendida como apenas uma viagem: “no termo voltarão a encontrar os seus. por ações diretas da natureza tais como relâmpagos e catástrofes naturais seria uma ignomínia. Mas o que seria a morte para os bantos? Segundo Altuna. embora permaneça sempre a esperança ontológica”. Neste caso a relação está mais no campo da afetividade e da empatia. Central Africa: a theoretical study.93 Tal ser não (out. pp. A diferença fundamental entre as duas é que na cosmogonia banto a ligação ao ancestral está diretamente relacionada ao parentesco. 1976). para os bantos “a morte é um acontecimento brutal. estão em um patamar mais elevado. In VANSINA. Afinal. Cit. sem filhos. que se mostrará no catolicismo como o ‘santo’ e na cosmogonia banto como o ‘ancestral’. Os antepassados “Não são simples defuntos”. ou seja. Neste sentido. ele precisa dos ancestrais. que é o “ser 59. existe um 92 ALTUNA. assassinado brutalmente. cachoeiras. chefes.”95 Morrer fora deste contexto. 437. cheio de filhos à volta da mesa. Op. caçadores e guerreiros famosos. É ela quem vai nortear todo o grau de merecimento quanto ao papel de intercessor. não se precisa ser parente do santo para dele obter uma graça. Destacam-se os patriarcas dos grupos.. ser poderoso.94 Compreende-se um morrer de velhice. a seguir. ou seja. 458-475. Raul Ruiz de Asús. Depois. 95 Idem p. Religious movements.

ela se desprende do corpo. devemos passar da observação do clérigo jesuíta ao relato mais próximo das circunstâncias em que os fatos ocorreram. quem é o criminoso. Foi tenente-coronel de Milícias do território e feira de Bandire.97 Logo a família recorre a um adivinho para que diga quem enfeitiçou o morto e. ele pode se tornar o “muzimo”. sobre os costumes e os sepultamentos em Moçambique. em certas sociedades africanas: “Para al este é o princípio atuante que indica que muere. 444. Não obstante a convivência em solo africano.98 Para termos uma visão melhor desta questão. ou seja. Porém. 438. o qual voltará para aterrorizar a comunidade. Raul Ruiz de Asús. rer. y para los sobrevivientes. “buzima” aquele indivíduo foi o feiticeiro”. deixando apenas o corpo inerte. É claro que a escolha sempre cai sobre os desafetos da tribo e não há apelação. o seu poder de observação lhe conferiu a capacidade de descrever o que vira e aprendera nos velhos arquivos. Não há dúvida. e esta os animais também a El cadáver de la biología a la antropología. desfazendo a “umuzima”..” Já a vida biológica é chamada de su muerte. Cit. busca-se a causa espiritual da qual algum feiticeiro da tribo foi o agente. 65-66. porque no tenderá derecho como se realiza a vida. possuem. “Quando este a los funerales que se merece.pp.O autor destaca também que o “umuzi96 Idem p. era filho de pais emigrados do Porto. Quando alguém morre. por conseguinte. Ele nasceu em 1769.. ao mor.. vem a interrogar al difunto sobre las causas 96 morte. Por outro lado. o “buzimo”. Op. acompanhemos o relato de João Julião. por isto o Conselho de Guerra o culpou por 164 . em 1790 passou a morar na Vila de Sofala. A maioria das mortes é atribuída à ação mágica. conforme ALTUNA. al no poder princípio se separa do corpo. durante o primeiro quartel do século XIX. se este não for sepultado dignamente. de “buzima”. Thomas. 97 Louis Vicent Thomas assevera que a ausência do corpo é dolorosa ma” é a união da sombra com o corpo. se detém diante duma pessoa al é chamada “amagara”.e se move bruscamente. travou contato com o arquivo no qual encontrou vários documentos antigos que versavam sobre os costumes dos povos africanos. João Julião é portador de uma biografia que por si só já poderia ser objeto de estudo. em Macau. como veremos adiante. onde iniciou sua carreira como escrivão interino da Feitoria da Fazenda Nacional. porque. Por esta ocasião.” Louis Vicent. Então se pergunta ao próprio defunto quem o matou. a vida espiritu. p. um funcionário do governo português que escreve. Portanto. que responde com um gesto brusco. Chegou a Moçambique ainda pequeno. Fugiu da fortificação em 1832. 98 “O cadáver quase sempre se move.

Ao Oeste está Manica e a Leste o Oceano Índico. idade. é preciso que se compense a “perda dos mortos”.99 Com vistas ao nosso objetivo. A comunidade sente esta perda irreparável e cuida de encontrar os culpados e evitar que outras ocorram fora do tempo. ou mestre da Ganga que aotoriza este fim. SILVA. 100 Sofala foi uma terra importante comercialmente e ocupava a região central da atual Moçambique. no qual ele faz um relato sobre a morte de um africano em uma das aldeias. sendo que 62 destes foram vividos em Sofala. O antropólogo José C. 75. 102 RODRIGUES. 113. a Sofala de hoje está a 1190 km. SILVA. que fez carreira pública durante 38 anos como professor de instrução primária. aqui. De certa forma. Geograficamente. se algum destes for algum escravo. séculos XVII e XIX. resolveu escrever suas memórias sobre a região de Sofala. ao cruzarem o Cabo da Boa Esperança. e enterrado. 101 SILVA. já que o defunto não estava no momento certo de morrer. 1983. Etnografia e História das identidades e da violência entre os diferentes poderes no centro de Moçambique.. . Os portugueses.165 traição. O Gangueiro. conforme SILVA. p. Tabu da Morte. João Julião da. a pedido do governador de Moçambique. Rio de Janeiro: Achiamé. ou endoidecer que ocultar [sic]. ou familiar. João Julião da. aquele que preside esta cerimônia recolhe todos os bens do defunto e. todos os parentes presentes ficam conhecendo-os e decidem o destino a ser-lhes dado. direitos e obrigações”. de Maputo. e. 14. conforme o relato de Julião. p. Op. exerceu a atividade de comerciante e faleceu em 1852 com 83 anos de idade. Mais tarde Portugal resolveu impor o monopólio comercial sobre a região e lá construiu uma feitoria. 99 João Julião era casado com a filha do Governador Manuel Antônio Baptista Monteiro. a uma prática comum entre os bantos de se consultar os adivinhos e feiticeiros. Memórias de Sofala. Acaba esta cerimonia fazem vir todos os bens. que também escreve as memórias. e ao norte por Zambeze. são logo mortos. ali realizado entre africanos e muçulmanos (recebiam ouro dos traficantes para comprarem panos de algodão de Cambraia vindos do mar Roxo). E que se reorganizem as “relações sociais de sexo.102 Os bantos agiam desta forma ao buscar um culpado.101 Julião se referia. a morte não é aceita e precisa antes de tudo de uma resposta. p. José Carlos. fez carreira militar. e é limitada ao sul por Inhambane. Zacarias. e trastes do falecido sem falta algum sob pena de morrer. depois se empregou como Feitor da Fazendo Nacional e mais tarde tornar-se-ia Tesoureiro almoxarife.100 Depois de falecer qualquer pessoa. parentesco. até ser reabilitado e galardoado pelo governo em 1842. escolhemos as descrições dos costumes em Quieteve. quando. neste momento. A terceira geração de Julião foi representada por Guilherme. procediam a um inventário dos bens deixados pelo morto. procurão os parentes pellas adevinhaçoens particulares saber os feiticeiros que fizerão aquella morte: sabendo isto. ou segurados: e não pode isto ser sem sentença formal pronunciada pelo Gangueiro. Seu filho. Rodrigues explica que no momento em que desaparece um membro do grupo. tomaram conhecimento de tal comércio. Ezequiel da. propriedade. Cit. Herculano da. a fim de se descobrir o que causou a morte de um ente querido.

o chefe merece honra especial. já que estes eram vistos como portadores de poderes maus e capazes de levar alguém à morte pela diminuição da força vital. ou vendidos como escravos. Destes.106 Estas mortes eram terríveis e não deveriam ser ritualizadas de modo algum. feridos por raios. mal súbito.Por outro lado. “só recebem honras fúnebres as pessoas livres e socialmente bem comportadas”.103 Destarte. sobretudo. são retirados do seio da comunidade os indesejáveis. Entretanto. um futuro melhor e. Não é de se espantar que tantos escravos tenham vindo para o Brasil por terem sido condenados por feitiçaria na África. vingam-se do causador da morte. A família e a comunidade promovem o defunto à classe de antepassados. mas uma vida feliz aqui também podia implicar uma vida inglória no além desde que não houvesse o ritual de sepultamento. mas os estéreis. separar o morto da sociedade. que eram condenados à morte. cortando os seus vínculos com os vivos – porque acreditam que os mesmos poderiam voltar a aterrorizá-los –.105 Só viveria com os antepassados aquele que não tiver “desvirtuado as normas sócio-religiosas e. E vendidos aos traficantes nos grandes mercados. a culpa sempre recaía sobre um desafeto da comunidade. nem todos recebiam os ritos fúnebres. antes de tudo.107 Os escravos também não poderiam receber os ritos fúnebres. não havia nenhuma 166 . os com problemas mentais. na linguagem de hoje. um feiticeiro. Mortes sem rituais fúnebres impedem o restabelecimento da ordem. Segundo o padre Altuna. além disso. Com efeito. asseguram a proteção do antepassado e reforçam a amizade entre os dois mundos. ordenam a harmonia pacífica. leprosos. colheitas abundantes. bem como os afogados e enforcados não eram dignos dos rituais de sepultamento. quando não. Também é importante ressaltar que esta parte do ritual fúnebre intenta. Já que tais ritos significavam reforçar os laços de amizade para com os antepassados e inserir o morto em sua nova morada. Uma vida infeliz impossibilitava uma vida feliz no além.104 Outras mortes devem ser impedidas e o favor dos ancestrais passa a ser uma ajuda certa. e inseri-los junto aos ancestrais. o direito à ancestralidade. restabelecem a solidariedade e a ordem social perturbadas. realizou a continuidade e fortaleceu a solidariedade vertical”. ataques cardíacos ou.

106 Idem. Como veremos adiante. principalmente se fosse um rei. p. serem sacrificados até 15 bois e que as festas podiam se prolongar durante um mês. que é acompanhado pelos alaridos das carpideiras. 445. 444.108 “As festas poderão prolongar-se por um mês se o chefe for importante”. 111 SILVA. Apud RODRIGUES. te que fiquem a ossada enxuta. Cit. Se o falecido é maioral poderoso. 301. Raul Ruiz de Asús. a estas vozes acode toda a aldeia. 108 ALTUNA. p. De costa a costa. que descreve um ritual fúnebre completo. Op. p.109 103 ALTUNA. Cit. que também escreveu suas memórias sobre as possessões portuguesas. ou grande chefe.. Este relato é antropomórfico ao de Julião. e a este respondem os outros com refrém e cadência.. (segundo a pratica geral destas terras o mesmo entre Cristãos e Mouros) e o cadaver nú he estendido em huma Sanja especie de Esteira de Varinhas groças ligadas humas ás outras e cuberto com hum pano: por baixo tem varas gamellas em ordem a receber toda a materia que depoem o cadaver.. o desmazelo nestes ritos fúnebres pode considerar-se como a maior infâmia contra uma pessoa e o mais grave atentado contra a solidariedade sagrada”.167 intenção em se preservar a memória do escravo nem de alçá-lo ao patamar de antepassado. Sebastião Xavier Botelho.. Altuna relata que viu. ALTUNA. p.110 De acordo com este relato. 446. relatou estes funerais realizados em Moçambique desta forma: É estilo dos cafres quando morre algum deles sair-se de casa um dos parentes mais chegados do defunto e começar em altas vozes a pranteá-lo. maior era a exuberância do ritual. quanto maior a posição social do morto. Op. Cit. Logo que falecer qualquer Rey ou Principe Chefes de famílias seu corpo he lavado com agua morna. 109 Idem. 104 Idem. Raul Ruiz de Asús. maior era a festa. 105 Idem. Raul Ruiz de Asús. Jaime.111 .. 107 “Só se morre verdadeiramente quando os ritos fúnebres são realizados. 446. Cit. e principiam em pranto mui sentido em vozes entoadas: um dos principais parentes é que entoa o pranto. que nenhum de nós o suportaria. 79. nestas ocasiões. a que chamam ‘xembuximué’. ainda que houvéramos orelhas de bronze. o alto cargo ocupado pelo defunto africano é proporcional à pompa e à grandiosidade do funeral. Op. Botelho ao descrever o ritual de sepultamento em Moçambique. p. homens e mulheres dando grandes gritos.. Por outro lado. Op. Quanto maior o prestígio em vida. João Julião da. p. 110 Sebastião X. deixar um corpo exposto ou mal enterrado poderia significar um enorme perigo para a comunidade. acompanham o choro com toques de tambores. Dele podemos tirar alguns elementos importantes para a compreensão deste assunto. Mas isto não quer dizer que não sepultavam os mortos.

que os feiticeiros não se aproveitem de algum daquelles ossos. que eram acusados de usar os restos mortais dos defuntos para praticarem sortilégios. são de grande virtude para suas operações magicas: estando as gamelas cheias. quanto mais o de um rei.114 Se o corpo de um homem comum era temido. Reis registra que. o túmulo era definitivamente fechado e cada um voltava para sua casa. as entranhas eram retiradas. que dizem. todos da aldeia deviam ficar atentos. Outros relatos de sepultamentos também são reveladores da forma pela qual os africanos tratavam com o Além.O corpo do rei era exposto. enquanto isto não se dava. e estas ficão bem tapadas. Tudo isto diante da comunidade atenta e observadora. As carpideiras notadas neste relato eram comuns na África. estava ao lado dos seus antepassados. enterravam apenas parte do corpo. ela ficava à mostra até que caísse em uma bacia posta diante dela. vazão para gorguletas. e dos vizinhos.113 As vísceras devem ser guardadas justamente por causa dos feiticeiros.112 O ritual estava cumprido. Qualquer deslize no ritual poderia significar um infortúnio para os vivos. e ao sol posto juntão todos os Cafres daquella povoação. Este é um momento no qual o morto ainda não fora introduzido em sua nova morada. as mulheres com chocalhos as maons fazem o mesmo. o ambiente era tomado por um júbilo que tomava conta de todos os presentes. junto aos antepassados. Os umbundos. Todas as manhãs de madrugada. colocado em esteiras. Neste ínterim. e com cantos funebres. e o ritual caminha para o seu desfecho e o êxito está prestes a ser alcançado: o morto deverá ser colocado em seu devido lugar e a ordem restabelecida: Estão effectivamente de dia e de noite certos grandes de sua Corte de Guarda para embaraçar. estão a carpir. as mulheres assistiam aos berros à passagem dos mortos em sua 168 . em Angola. Lavado. com tambores. a cabeça ficava exposta de modo que toda a comunidade a pudesse ver. semelhantemente aos egípcios. em vários países da África. Julião continua a sua descrição do funeral do rei. bem parecido com o modo pelo qual eram sepultados os escravos no Brasil. Assim. J. Neste momento. e desta forma o restante secava ao sol até sobrarem os ossos. J. andão à roda da caza em que está depozitado o cadaver. o morto não ameaçava mais a comunidade. O funeral só terminava com o sepultamento dos restos mortais.

Todos participam. e que está prezente eternamente na sepultura unido aos ossos’ e por isso enterrão seus cadaveres em cova virgem. Participar do rito. vários viajantes notaram este costume entre os escravos. na Bahia. confere unidade à comunidade. (os quissamãs) geralmente que ha hum Eente Supremo a quem dão o nome de Murung.117 Vê-se o cuidado com os ossos e sabe-se que é medo de que caia em mãos de feiticeiros. João Julião da. ou grande Chefes de . ALTUNA. p. se faltar um.. e sim o coração he que rege todas as suas operações. ele fala do tempo de luto e finalmente do sepultamento do morto. no qual as mulheres e crianças. a cabeça. inteliligencias. Apertem-se para que a hienana (a morte) não os coma Apertem-se para que o leão (a morte) não os coma Apertem-se. Rio de Janeiro: Achiamé. gente armada e as mulheres preferidas do morto. 109. Logo depois ele coloca a ossada em uma gaemela envolvida em um pano branco. Cit. p.. depois os transporta em uma liteira (pinga) e o cortejo é feito por chefes. Op. Ele ressalta que. mata um boi preto e com a pele ensangüentada manda embrulhar os ossos e os cozer. Cit. e que depois de morto tudo se transforma em espirito a que chamão de Muzimo. era objeto de feitiçaria. sendo nomeado. João Julião da. 79.116 Voltando à descrição de Julião. 95. Cit. e nada mais sabem. o nome do roxedo é Mugomo. 115 João José Reis. cuja habitação he o Ceo que chamão de Goré e de ali he que governa tudo. cantavam: 112 RODRIGUES. 115 SILVA.. Pode assim o seu detentor invocar poderes mágicos. O novo rei. Não tem ideia alguma de Alma do homem. Às vezes seus corpos eram sepultados no leito dos rios para que nenhum feiticeiro os usassem para o mal”. e confere com os saldados que as guardam se falta algum osso por menor que seja. Apertem-se. cheguem mais perto. 79. Tanto é assim que os ossos são conferidos e guardados no túmulo dos reis. O próprio autor ressalta que. existia um canto entoado durante estas cerimônias. Cit. entre os banbara. Crê. O cotidiano da morte do Brasil oitocentista. 114 “Seus restos mortais como. formando círculos. 1983. vai até a rocha. 117 SILVA. 116 RODRIGUES. p.169 comunidade.115 Os tambores são usados nas cerimônias e acompanham o canto entoado. Tabu da morte. Já mais adiante. Julião fala dos ritos fúnebres no reino de Quissanga e o local de sepultamento.. e sendo de algum regulo. o guarda é morto. Op. José Carlos. p. Op. dentro de algum mato sombrio. no entendimento de José Carlos Rodrigues. Raul Ruiz de Asús. 446. José Carlos. p. por exemplo. Criador de tudo. depois de transcorridos oito dias: Os ossos são depositados num rochedo chamado Jazigo dos reis. Inhambaço. Op. p. 105.

o muzimo tinha os polegares amarrados aos artelhos para que não voltassem à aldeia. mas interage com o mundo e pode até fazer mal aos vivos. e a festa descrita aqui é semelhante à descrita 170 . que rodeão com espinhos. chefe de uma tribo. fazem festa. Entretanto. você não é mais da aldeia. Vadizimo é plural de muzimo. Este medo de que os muzimos retornassem foi notado por L. 105-6. p. João Julião da. vida. daí os espinhos em volta das sepultaras. V. na mata. ALTUNA. Op. mas com inteligência. aos seus vizimos matam vacas.familias enterrão-os na mesma povoação. José Carlos. Já os Edo. Raul Ruiz de Asús. Mas se o corpo tiver pertencido a um régulo.. e também em localidades mais pobres perto da sepultura deles. Ou seja. 119 RODRIGUES. p. Op. da Nigéria repetiam ao corpo do defunto em voz sisuda: “A partir de hoje. não tem mais filhos. Em lua cheia de novembro.. bem como os corpos dos inhambaços. talvez não tão adequadaimpedi-los de retornarem a este mundo” mente. ou cabra. em outras palavras. Thomas.. possivelmente afastadas. ele não possui a força vital. e isto tanto para os grandes chefes mortos com muita pompa. de espírito do morto. o morto é um muzimo. Op. Parece que tal pensamento era compartilhado tanto por bantos como por nagôs. adivinhos. Cit. os viúvos só saíam munidos de porretes. em Nova Guiné. você não tem mais parentes. como vimos ante118 Idem. pp. 120 SILVA. sacrificam e bebidas. o corpo deverá ficar dentro da aldeia. carneiro.120 É curioso que eles se reúnam a fim de cultuar os mortos no mesmo dia que a Igreja Católica destacou para lembrar os seus. Julião afirma que os corpos são enterrados em covas nunca usadas antes. A resposta para esta diferenciação entre locais de sepultamento é simples. 33: “logo depois de morrer enterram riormente. Cit. um ser não-vivo. 447. como os corpos dos mortos podem conferir poderes mágicos. p.118 Muzimo ou umuzimo. dentro de húa cabana. Cit. Em Uganda. a fim de se protegerem da sombra das mulheres mortas. é o nome dado ao que chaos feiticeiros com as pernas amputadas para maríamos. 104.”119 Os bantos criam que corpos insepultos deixam que o muzimo se desprenda deles e atormente os viventes que não os sepultaram. que relatou que. estes devem ser guardados dos feiticeiros e não há lugar melhor para guardá-os do que perto dos olhos de todos.

na forma que costuma dormir. o seu relacionamento com eles interfere nas colheitas. que na cristandade servia para ataviar o defunto quando da sua presença diante da corte celestial.122 O que nos chama atenção nesta passagem é o uso de mortalhas para se embrulhar os corpos. das quais depende a subsistência de toda a comunidade. logo não é de se estranhar . quando há seca.171 pelo padre Altuna anteriormente. fazem parte da lida diária. Se não tiver jazigo próprio. na religiosidade banto servia para inserir o morto na presença dos antepassados. Este fato fez com que os africanos não relutassem em seguir estas normas. por parte dos escravos. Nestas festas. pelo contrário. já que cada santo possuía a sua cor e mortalha propícias. A cor branca já era usada. que antecipadamente tenha pago ao Inhamaçango da terra: manda com dois panos e meio medir lugar para ser enterrado. como realizar todos os rituais simbólicos a fim de que o muzimo seja incorporado em sua nova morada. e sobre esta hum tecido de humas varinhas de páo e tudo muito bem amarrado com hum páo para levar á pinga. J. Os antepassados estão sempre presentes. Conforme o mesmo autor assegura: Uma amostra de mais de mil óbitos dos registros paroquiais de Salvador. não só de lhe destinar um local apropriado. e depois envolve em huma esteira. chega o momento de enterrar o morto. segundo Julião. Reis têm-se voltado para esta questão no Brasil. depois disto. Depois do funeral. Se o falecido não pertencer a outrem o amortalhão com hun pano branco. sacrificam e fazem imprecações e. dançam. Estudos do J. Logo que tiver falecido qualquer pessoa. em 1835 e 1836. a mortalha preta por 16% e o habito franciscano por 9%. que o culto aos mortos. J. Reis comprova um número grande de africanos sepultados em igrejas e amortalhados. pois.124 Este paramento fúnebre. cantam. revela que a mortalha branca foi usada por 44% dos mortos. É interessante notar que esta preparação para a morte. homem ou mulher. e os rituais aos ancestrais. J. era uma prática comum na África. chove. Lavão o cadaver com agua morna: e depois de vestido dobra as pernas e o fazem deitar do lado direito com a mão direita debaixo da cabeça.123 Africanos vários faziam constar em seus testamentos as cores das mortalhas de acordo com a devoção do seu santo. os antepassados são invocados.121 Vê-se.

A construção do escravismo seja. vos e forros na Bahia. Karash quando traz um relato de um 78. 128 SLENES.128 Desta feita. na esperança de que um dia retornassem à terra natal sobrevoando a kalunga. 112.] o mundo do além é habitado por ancestrais e espíritos diversos. desde que mantivesse um coração puro e. 63. recebeu explicações de um garçom que lhe afirmara que era comum entre os africanos recém-chegados a idéia de que seriam literalmente devorados pelos brancos. comedores de negros. 2003. cria-se que se um africano fosse transladado para a terra dos mortos.. Reis negros exemplo de “crença de canibalismo”. o sentido era basicamente o mesmo: linha divisória ou superfície. ou BLACKBURNS. o mar que banhava a costa ocidental da África era visto como um local de travessia para o mundo do além..127 Ainda sobre estas representações simbólicas. no Brasil escravista. Por outro lado. Cit. p. na cosmogonia oitocentista. 126 KARASCH.que ela fosse a preferida entre escra121 Idem. a kalunga. O cotidiano da morte do Brasil a própria cor branca. passar por ela significava morrer. 127 SOUZA. como na língua banto. para os kimbundos e umbundos. Op.129 De todo modo. o francês procurou indagar aos presentes o motivo do acontecido e. “tremia da cabeça aos pés”. Robert presenciado pelo francês Dabadie. p. era como um portal de passagem para o mundo espiritual habitado pelos mortos. O escravo retirado de baixo da cama. como vimos no capitulo 1.. que afetam a vida das pessoas desse mundo. p. ressalta o francês. representava a morte. vivesse em completa abstinência do sal. que precisavam dos como os europeus eram tidos por vivos para seus próprios fins escusos” cf: mortos. como o caso que vimos no primeiro capítulo. 10.125 É o que observa Mary no Novo Mundo: 1492-1800. Este é o sentido da canção cantada pelos escravos. 106. Rio de Janeiro: Record. mas também a esteira na qual eram sepultados aqueles que morriam na Santa Casa. p. ou. 112. que gritava aterrorizado se escondendo embaixo da cama de um hotel. 123 REIS. “o nascer de novo”. Mary C. não só o pano branco era comum aos africanos. e voltar por ela. 125 “Em algumas culturas Bacongo. a “kalunga”.126 Veja o que Souza diz a este respeito: O mundo visível é habitado por gente negra. 476. que W. p. Espantado. p. Ngoma Vem!” África coberta e presenciara “gritos agudos” de um “es.. de pronto. 124 REIS. Mesmo porque João José. Passim. Não nos 172 . cravo novo”. Marina de Mello e. A morte é uma festa. porque. de vivos. Ela. assim africanas os brancos eram considerados espíritos dos mortos. e que experimenta tribulações provocadas em grande parte pela ação de forças ruins [. 122 Idem. poderia retornar à África. João José. Robins. que nele aparece e dele desaparece através do nascimento e da morte.descoberta no Brasil. p. “Malungu.

pois o que queremos enfatizar é o significado de tais práticas dentro da sociedade africana e as semelhanças e diferenças das que se praticavam no Brasil. como já fica dito e deitado do lado direito.173 prenderemos a esta descrição. no sentido de provarmos o significado da morte e dos rituais de sepultamento na África. depois he que enterrão e vão a caza do falecido onde estão as mulheres. mas ressaltamos as semelhanças entre ambas. João Julião da. e pés. que todos porvão dellas húa dedada. a imagem do feiticeiro. mas creio que não seja necessário que nos estendamos mais. tão seja. maons. tomou neste vos a transportavam. como se fosse uma rede. lá longe. Cit.130 Julião traz diversos outros relatos. os elementos são recorrentes: barulhos. Como se vê. Acreditamos que a verificação desta utensilagem mental compartilhada pelos bantos demonstra a óptica pela qual eles observavam o mundo e as suas respostas frente aos problemas impostos no tocante a uma religiosidade externa e à própria escravidão. Hé acompanhado o préstito por todos os parentes presentes e os vizinhos e ao voltarem antes de entrar na povoação já encontra huma pessoa com certas papas. o que Julião chama de pinga. o medo de que roubassem o corpo do morto. mortos agora libertados do látego do patrão-tirano. Op. no caso do morto não ter em vida providenciado o jazigo. ao final africanos. e fazem novas lamentaçoens com estrondo e sendo pessoa de distincção com certo toque de tambor próprio para aquella occazião: acabada a choradeira vão todos lavar a casa. KI-ZERBO. Ou 129 “O culto dos defuntos. no ‘paí da Guiné. e depois de tapada a cova aliza-a por cima com água. p 59. iam juntar-se à assembléia venerada dos antepassados. até sublime: acreditava-se que os Julião observa que. os antepassados e seu culto. mesmo . mas existem mais fortes do que neste mundo. pelos africanos. cozinhadas com remedios. que deve corresponder a cerca de um metro e meio. Op.. iam fazer em sentido inverso a infernal travessia do Atlântico. O cadaver he enterrado em terra virgem. 287”. Os escravos sepultados pela Santa Casa eram transportados em varas. p. Cf.. Vogando sem entraves para o continente bem-amado. enfim. para saber se algum feiticeiro foi dezenterrar. do outro lado da ‘grande água’. os mortos eram colocados envoltos característico da religião dos em panos. Cit. estes fatos são bastante peculiares. assim como era feito contexto um significado comovente na África banto. para quem os mortos eram presas varas pelas quais outros escranão vivem. 130 SILVA. Seria por demais repetitivo fazê-lo. seria sepultado no solo na medida de dois panos e meio.

de simples aculturação nem assimilação de culturas. mas são reinventados ou unidos a um outro de sentido similar. Estes eram objetos mágicos. que lembra um prato. Com efeito. no Brasil. os africanos logo compreenderam que podiam adorar seus 174 . amarrados uns aos outros.133 Não é de se estranhar por que. mas sim de reelaboração de significados. e tais fatos já eram presenciados e praticados na África.132 O espírito ancestral ou da natureza podia se encarnar no inkise e servia para agilizar a “comunicação com o além nos momentos em que se pedia a intercessão dos espíritos para a cura. com duas figuras antropomórficas depositadas em seu interior. mas que foram amplamente reapropriadas e reelaboradas por ambas as tradições. nomearam as imagens dos santos de inkise. Sobre as duas figuras. retirados da natureza. temos um exemplo centenário de objeto com o qual os bantos se relacionavam com o além. usados pelos africanos em seus rituais. e os pregos amarrados seriam o caminho percorrido pelos escravos ao atravessarem a Kalunga. proteção e solução de problemas”. num antiqüíssimo inkise oriundo da África Central Atlântica. no centro do inkise. dotados de poderes místicos. O formato oval do objeto. os catequistas. pois.134 De fato. no início da cristianização do Congo. vemos pregos fincados no fundo. este inkise dotado de poderes mágicos era como um guia espiritual para aqueles que caíram no infortúnio da escravidão. a Kalunga Grande. Estudiosos afirmam que este curioso inkise seria uma representação simbólica da vida africana.no Brasil oitocentista. dispostos em linha circular que vão de um lado ao outro. a grande divisora entre o mundo da vida e o da morte. O que temos aqui são duas culturas diferentes. A interpretação do objeto é sem dúvida surpreendente. datado da primeira metade do século XIX. um pedaço de espelho. O historiador Tom Philips acredita que o espelho dentro do inkise simbolizasse o mar. No interior do objeto. sem que isto altere a sua essência. nos quais os símbolos antigos não são esquecidos. próprias. buscando uma analogia com a cosmogonia banto. seria a representação de um navio negreiro. Não se trata. Uma prova disto é a de que. no interior do inkise. os escravos tenham assimilado as imagens dos santos católicos e seus rituais. Neste caso. revestidas de sentidos díspares. Tal objeto é constituído do que seria um prato de formato oval.131 Mary de Priori e Renato Venâncio acreditam que os inkise estavam “diretamente relacionados à necessidade de proteção de uma linhagem” e tinham por finalidade homenagear os antepassados. que pelas proporções aparentam ser macho e fêmea.

Neste sentido. alerta-o contra possíveis repetições e. Mary de Priori ‘flexível’. sem. se não for violenta. Isto se daria pelo fato da capacidade 131 PHILLIPS. p. cf. Op. manifestada na honra à sua linhagem.. apagando-o definitivamente do seu porvir. sobretudo no campo religioso. nem mudanças radicais de atitude. abando132 Mary de Priori e Renato Venâncio.. Sem eles.135 Neste capítulo. 136 Pois aceitação de novos ritos. 144. cada morte “causa uma desordem porque sidade católica praticada na América a participação é perturbada e a interação Portuguesa. acompanhamos como a questão das culturas é reinterpretada e reelaborada através de lentes próprias que ora filtram. e a comunidade que emprega a terapêutica mais.. tal característica. Op. após morrerem. p. 134 Curiosamente. as para mal. Cit. foram sepultados no Cemitério dos Pretos Novos. vimos a importância dos ritos fúnebres dentro da religiosidade banto. no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. agita perdeu o seu significado africano. 135 SOUZA. 144. p. ou ancestrais.136 não se coloca o ente na ‘galeria’ dos antepassados. para completar o terror de se estar em terras de mortos. nar os seus próprios. Prestel. London: Royal Academy of Arts. Tom. Desta feita. 133 Idem. ao lado dos grandes guerreiros e chefes.. os cadáveres insepultos representavam. tais como Marina de Mello e. 1995. ALTUNA. Neste sentido. para os africanos. além de conseguir que a transtornada”. devoção afro passasse despercebida aos olhos dos senhores. novos valores. Foi “vendo-se algo tão familiar no cristianismo que este foi tão prontamente incorporado”. Op. (Edit By) Africa: The art of a Continent. modificou em muito a religiomístico-mágica para remediar o encoberto”. Muitos dos escravos que atravessaram compulsoriamente o Atlântico e que. antes de qualquer coisa. Op. não “cada morte entristece o grupo. 256. sempre o significado que lhes fora dado originalmente. Cit. Para o bem ou Cit. nega-se ao morto a capacidade de ter a sua existência continuada através deste rito. as práticas cristãs impostas. ora deixam passar partículas de experiências vivenciadas. p. reforçou em alguns sentidos e Renato Venâncio. Cit. não há rupturas. 436. centenas ou milhares de muzimos que viriam afligir os que sobrevivessem em terras brasileiras. todavia. por ser tão Missões cristãs na África denominavam as suas igrejas de “casa de inquice”. vieram de portos . New York. e sim uma capacidade de ler os novos objetos apresentados a partir do seu próprio instrumental cognitivo. da religiosidade banto em aglutinar Munich. não há a própria vida em comunidade. Contudo. eles teriam. p.175 deuses. sem ter de abandoná-los e que qualquer que fosse o nome que lhes dessem. 68.

não há a vida em comunidade. e que é distribuída em hierarquia: primeiro aos ancestrais e defuntos. africano. Estes partilhavam tradições religiosas comuns e compartilhado formas certos traços culturais comuns. iniciando pelos reis. do mesmo tronco lingüístico. pudemos perceber que os escravos recém-chegados deveriam ter ojeriza aos sepultamentos realizados no Cemitério dos Pretos Novos. das frustrações e infortúnios. cria-se que o mundo se resume a um conjunto de os feiticeiros se deslocavam transportados na companhia de animais. essas habilidades. vegetais e minerais. tanto do padre Altuna. depois aos vivos. p. desenvolvendo 137 Centro-Ocidental. tais como lobos. ainda na filosofia banto. chefes tribais. inclusive os escravos. teólogo jesuíta.. além culturais. O viajante alemão G. Neste capítulo verificamos qual foi a importância dos ritos fúnebres dentro da religiosidade banto. 110. era inconcebível que os seus corpos ficassem insepultos. Op. p. Julião da Silva. bem como também que. em grande parte da África banto. pais e filhos. como de vários funcionários da Coroa Lusa e contemporâneos do Cemitério dos Pretos Novos. tais como todos aqueles elencados anteriormente. um descaso para com seus ritos e o fim de uma possibilidade de continuar existindo junto 176 .138 De tais corpos se desprendiam os umuzimos que atormentavam os vivos e os castigavam por não terem feito o necessário para o descanso do morto. mas que conservavam entre si pouco se compreende em relação à formação e a característica fundamental de serem evolução da vida e cultura escravas na cidade. ter atravessado compulsoriamente a kalunga. do sofrimento e das atribulações da lida diária. Muitos destes eram 137 “A sociedade dos escravos era diferente também porque a maioria deles vinha do Centro-Oeste oriundos de tribos distantes do litoral Africano. Op. Vimos Cit. Durante séculos os povos da África Central tinham quase em sua totalidade da África lidado com a diversidade étnica. leões forças hierarquizadas pela relação da tigres e leopardos. para ter de morrer e ser sepultado em um lugar como este. 138 Em Moçambique.. Deixar um corpo nesta condição significava correr o risco de que os restos mortais caíssem em mãos de feiticeiros que poderiam usá-los para toda sorte de malefícios. Ainda que nem todos tivessem o direito aos ritos fúnebres. Sem eles. energia vital. Cit. Para estes escravos. Sem um entendimento dessas origens. De posse das narrativas e relatos. era uma violência simbólica cometida contra as suas práticas religiosas. que este se encontrava bem próximo dos barracões nos quais ficavam os escravos recém-chegados. Conforme a nota-de-rodapé. além do mau estado do cemitério. É desta forma que esta força vital celebra a vida e resolve o problema da existência da morte. eles as transmitiram para o Brasil” (grifo nosso) Mary C Karasch. e por último aos animais. cuja origem é o próprio In. Freireyss relatou. de linhagens. que falam praticamente dos mesmos fatos.antigos e novos. Criador. 36.

o morto haveria de ressuscitar em Cristo para a vida eterna. enquanto outros. se não eram sepultados nem recebiam nenhum paramento religioso? Se o fato de terem se tornado escravos fora acarretado pela diminuição da “força vital”. CONCLUSÃO A religiosidade católica entendia e representava a morte como um momento de grandes tensões. boçais. era este: o fim da trajetória material e imaterial de suas existências. o local da inumação era fundamental e representativo dos sucessos alcançados em vida. esperado na Glória. neófitos na fé e que. Entretanto. o cuidado com o corpo do morto era algo indispensável. Neste grupo de excluídos. Nesta representação. como reverter esta situação se a forma de obtê-la era justamente cultuando-os? A resposta está clara: o significado do Cemitério dos Pretos Novos. na procissão do viático e no uso de mortalhas que encobririam o morto. Estar perto ou dentro da igreja era estar perto de Deus. orações e sacramentos visavam a assegurar ao jacente o acesso ao Reino dos Céus. Assim. segundo o crivo católico. como ter antepassados. para os escravos recém-chegados. As exterioridades destes atos se refletiam no ritual. Satã tentava seduzir os homens na hora do derradeiro suspiro. esta religiosidade tem por premissa a distinção entre seus membros e o prestígio devido a cada um dentro de um papel estabelecido pelo criador. quando mortos são jogados à flor da terra em um cemitério mantido . uma vez que. a despeito de terem sido “resgatados” para aprenderem o novo dogma. Tal distinção faz com que alguns sejam merecedores de um sepultamento digno. à margem da sociedade. na leitura do testamento. são relegados a um sepultamento precário. Como poderiam sobreviver se não podiam cultuar os seus antepassados. são impossibilitados de entrar no “Reino dos Céus”. De um lado. dentro da doutrina eclesiástica. Temos então uma dupla exclusão: os não participantes do “Reino de Deus”.177 dos seus que já haviam partido. Ao mesmo tempo. rituais católicos compreendidos como missas. ensejado na Terra. a desigualdade do espaço funerário espelha a desigualdade terrena. estão os pretos novos. de outro. assim como os brancos pobres e párias da sociedade. onde os despossuídos desta vida são sepultados tal como viveram.

expurgando o mal de dentro da comunidade. africana. em um primeiro momento. que para eles é o momento no qual há a diminuição da força vital. Rio da dança. ele reorganiza a sociedade após a perda de um membro redistribuindo os seus bens entre os seus parentes. poderíamos. o tempo forte da “morte que suspende todas as atividades quotidianas”. os funerais elevam o morto ao patamar de um antepassado. 1999. ao mesmo tempo que ganham um aliado do outro lado da vida.1 é ultrapassado através de ritos simbólicos que reequilibram as forças que regem o mundo. por sua vez. uma ocasião de confraternização com os membros fundadores das tribos e clãs. desde que os rituais de sepultamento tivessem sido seguidos. A morte em sociedade esta perda – morte – através do som. há uma junção de práticas que remodelam uma nova forma de se relacionar com o sagrado. 47. diferen- 178 . representavam o momento da morte como a hora do encontro com seus antigos ancestrais. desta forma reafirmar os laços com o sobrenatural. o zelo para com o corpo do morto era importante. Por outro lado. Os bantos. segundo muitos grupos bantos. Dulce Duque Estrada). Charles . principalmente aqueles que não o sepultaram. a saber: a católica e a banto. destacar a dupla função dos rituais fúnebres praticados pelos bantos. Esta sociedade bantófone exterioriza 1 LATOUR. uma vez que este. já que os restos mortais insepultos representavam um perigo para toda a comunidade caso caísse em mãos mal intencionadas. do festejo e de certo regozide Janeiro: Companhia de Fred. sem nenhum cuidado para com os corpos daqueles que deveriam aguardar incólumes o dia da Ressurreição dos Santos. com o passar dos anos também será um dos antepassados. Da mesma sorte. Em um segundo momento. Revista Litoral: Luto de Criança. grosso modo. a não observância dos rituais o impossibilitava de se reunir aos seus ancestrais. cortando a relação de sua linhagem com o sobrenatural.de forma precária. “mortos vivos” que aterrorizavam a aldeia. se transformavam em muzimos. (Trad. A ocasião da crise social. jo. o africano seguia em direção à nova morada. um ancestral a zelar pelo povo.Henry P. Do encontro destas duas culturas e formas diferenciadas de ver o mundo. Os corpos insepultos. Sem a tensão de julgamentos pela conduta da vida pregressa. ou seja. descobrindo a causa do falecimento ou seu possível causador. buscando. Sintetizando. p. nem a recompensa pelas suas ações.

no ensejo de se apagar os traços da escravidão africana. Em meio a este embate. mas dos escravos em geral. E como se não bastasse. possuía por regra o não sepultamento dos corpos que ficavam dias à espera de serem queimados. das sepulturas individuais na África. além disto.179 te do seu estado anterior. não só dos pretos novos. em sua visão. eles enviam suas petições demonstrando o seu poder de mobilização frente aos problemas impostos pelos tipos de sepultamentos ali realizados. bem como sua cultura e tradições. em um local de poucos indícios de rituais fúnebres aliado à impossibilidade de se render culto aos antepassados. mas que guardam certas particularidades e delas não abrem mão. No pensamento banto. o de se preservar a memória do morto. No catolicismo se aguarda a ressurreição. Daí o aniquilamento dos vestígios do próprio Cemitério dos Pretos Novos. Contudo. É de posse deste conhecimento que 2 Quero reafirmar o fato de que dos 6. assegurando assim o reequilíbrio de forças. Para os bantos se espera o reencontro com os ancestrais em terras africanas. este ato está representado pela alegria de retornar ao convívio dos antepassados. a exteriorização deste ato tem um sentido pedagógico. A representação que eles fizeram do lugar foi a do descaso e da mazela que. não se pode negar que grande parte das ações do Estado se deu por meio da manifestação dos moradores. Assim.119 podemos ter uma visão aproximada do óbitos realizados no Cemitério dos Pretos Novos de 1824 a 1830. ao sepultar pretos novos e ladinos nas covas rasas da indigência. outro. Este apagamento do lugar de memória. se suas ações são incapazes de resolverem sozinhas a situação. foi forjado ao longo do século XIX. pode-se dizer que o desejo último seja o mesmo. os vizinhos do indesejado campo santo se esforçam por afastá-lo de suas residências: o cheiro incomodava e fazia mal. enquanto lugar de memória.2 Ainda pode ser feita uma outra leitura desta mesma cena. não há um só caso de que os pretos novos vivenciaram ao se um escravo ou liberto mandando sepultar o depararem com um cemitério coletivo. e que. De forma premeditada ou não. No catolicismo. Talvez só este dado seja suficiente para comprovar que os africanos não viam com o que por si só já era muito diferente bons olhos o Cemitério dos Pretos Novos. uma vez que foi a par- . Os rituais africanos e católicos se fundem dando origem a práticas simbólicas novas. cometia-se um duplo ato: condenava-os a uma segunda morte e os relegava ao apagamento de sua memória. Porém. já deveria ter sido fechado. o de lembrar aos vivos a necessidade de se ter uma vida pia.

Estes traficantes logicamente não estavam preocupados com os sepultamentos. refinando as suas críticas aos sepultamentos precários que se arrastavam por quase uma década. História do Brasil. Nele. desprezando tanto o tema humanista quanto o moral.4 Desta forma. era um mero lugar de descarte de corpos. 4 Ver capítulo 2. em 1826. em 1829. Este número em 180 . a dissolução da Assembléia Constituinte. Passim. Pedro I outorga a primeira Constituição. a Revolução do Porto em 1820. em 1822. Pedro em 1831. em 1823. No trato destas questões. ao menos no tocante a estas questões. culminando com a abdicação de D. é promulgado o Código Criminal. o Banco do Brasil é liquidado. a Guerra Cisplatina. é ratificado o acordo entre Brasil e Inglaterra para a cessação do tráfico. o quadro burocrático da época sentiu dificuldade ao tratar de questões complicadas e novas num momento delicado da política brasileira. O período joanino foi um período de grandes transformações no seio do Império. em 1829. o governo foi forçado a se mover. em 1825. O Cemitério dos Pretos Novos. a pressão dos traficantes de escravos. despeja um volume cada vez maior de escravos retirados da África.tir dela que as comissões de salubridade foram enviadas em visita ao Cemitério dos Pretos Novos. Do lugar dos sentidos físicos – cheiros fétidos e miasmas –. o governo muda seu posicionamento com relação aos sepultamentos praticados no Cemitério dos Pretos Novos. e a Confederação do Equador agita Pernambuco. 5 Ver capítulo 2. em 1824.5 Por outro lado. A Igreja se mostrou incapaz de zelar pelo cemitério e sepultar tantos corpos ao mesmo tempo em que o tráfico negreiro despejava um contingente cada vez maior de africanos no Brasil. definiu o cemitério como uma imoralidade e que a cidade do Rio de Janeiro não era compatível com a visão dos corpos insepultos. Os protestos continuariam a crescer. em 1830. e em face de grande agitação interna. E o resultado disto foi o de que o poder decisório do governo. 2002. Brasil e Inglaterra iniciam o acordo para a cessação do tráfico. Bastos. No plano interno. para eles. Em conseqüência das constantes reclamações dos moradores do Valongo. o Juiz Presidente da Câmara da Corte. São Paulo: EDUSP. D. o príncipe Regente decide-se por ficar no Brasil. muda-se para o espaço da estética – capital civilizada. se mostrou incapaz de responder em tempo hábil e de forma eficaz à urgência do tema. salubridade e sepultamentos tiveram de ser resolvidas.3 3 Só para se ter idéia dos principais acontecimentos da época: no cenário externo. e o fez com certa lentidão. Conferir FAUSTO: Boris. Foi no enfrentamento deste estado de coisas que as questões da higiene. deslocando-o do tema humanista para o tema moral.

a morte só seria uma festa7 se ela estivesse diretamente relacionada ao “bem morrer” e este. fazendo com que esta fosse forçada a mudar de atitude em relação a sua própria concepção quanto aos cuidados fúnebres. quer fosse Cultura. mas o tipo de sepultamento continuou o mesmo. Rio de Janeiro: Fundo de Cemitério dos Pretos Novos. Cláudia.. foi seguida da abertura de outros que viriam posteriormente. verificada no final do primeiro quartel do século XIX. não era o caso do Cemitério dos Pretos Novos. cabe lembrar que a canção 6 Canção africana Nagô. foi para isto que ele havia sido criado. encerramos este livro relembrando uma outra canção escrava. em 1722. Reis. quer fosse porque não havia motivos de dança. Ela faz com que percebamos que a concepção de uma vida melhor no porvir está presente em todas as culturas. A criação deste cemitério. esta pesquisa pôde demonstrar que a existência do Cemitério dos Pretos Novos estava intimamente ligada à do tráfico transatlântico de escravos. Porquanto não se pode pressupor desta diferença . A secularização do fenômeno da morte retirou em parte o poder decisório que cabia à Igreja. 8 Canto de escravo norte americano levou consigo. Parafraseando João J. forçara o surgimento de um cemitério extramuros. 7 REIS. nem como dizer adeus. Por conseguinte. Finalmente. Afinal. nagô que dizia “Oh Morte! Morte o 1991. fez com que os corpos abarrotassem o cemitério. mas que são diferenciadas e reelaboradas através do seu próprio instrumental conceitual adquirido ao longo do tempo. na Ponta do Calafate. Op.181 constante crescimento. O negro na cultura americana (sobre materiais de Alain Locke).6 In BUTCHER. Foi-se o cemitério. definitivamente. nos mesmo moldes. aberto em 1839. Ele partiu. no Caju. 163. pelo fato de um sepultamento precário. sob os cuidados da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Mesmo após o fechamento do Cemitério dos Pretos Novos. Por fim. o fim legal do tráfico levou à extinção do Cemitério dos Pretos Novos. in RODRIGUES. Cit. verificado após 1820. Dito isto. e dancem. Margaret Just. João José. sendo largamente praticada quer fosse no cemitério da Ladeira da Misericórdia. levantem-se . jamais poderia ter sido entoada no Costa Galvão. Nós o saudamos! Adeus”. nem saudações. em certa medida. p. a pressão da sociedade e do poder público. cantada no eito do sul escravista da América do Norte. esta forma de sepultamento continuaria a mesma. Porém.Um escravo faz um pedido antes de morrer. ou na clandestinidade que o tráfico lhe impunha.

Todavia. o desconhecimento de certas práticas serviu de base para a discriminação e o preconceito. tão marcantes em nossa sociedade. Quero encher a barriga a caminho da Terra Prometida. Quero um pote de melado aos meus pés. que.8 182 . não se pode deixar de resgatar estes indícios. Quando morrer. Um pão inteiro nas minhas mãos. suplantem a discriminação e o preconceito. herdados do nosso passado escravista.nenhum tipo de hierarquia nem juízo de valor. por fim. até que. não quero ser enterrado muito fundo. lançaram no esquecimento os indícios cabais de uma cultura que possuía sobre si o único pecado de ser diferente. durante muito tempo. No entanto. por fim.

183 .

184 .

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196 .

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Rio de Janeiro. Igreja de Santa Rita. Figura 4. Centro. Óleo sobre tela 43:62.Figura 3. O largo de Santa Rita. 1846. situada ao Largo de Santa Rita s/nº. Hildebrant. 5 cm. 198 .

Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.199 As imagens a seguir compuseram a exposição organizada pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal das Culturas. Figura 5. . Malheiros. Contas de Vidro. intitulada Africanos Novos na Gamboa. inaugurada no dia 16/11/2001. A. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). “Um Portal Arqueológico”. exibida no hall da instituição.

Escavações. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). Malheiros. 2005 CD-ROM Figura 7.Figura 6. 200 . Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. A. Figura 8. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Malheiros. Malheiros. Cerâmicas. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). A. Ossos queimados. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). A.

Malheiros. Patologia óssea. Figura 11. Malheiros. Dentes Limados. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). Dentes Limados. A. Malheiros. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.201 Figura 9. . A. (SEDREPACH/SMC-AGCRJ). . A. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Figura 10.

202 .

.

Impresso no Rio de Janeiro pela Sermograf.Esta obra foi produzida no Rio de Janeiro. A tipologia empregada foi Swift. . no inverno de 2007. pela editora Garamond. O papel utilizado para o miolo é pólen soft 80 g/m2.

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