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AULA N.º 2 Capítulo I Evolução histórico-política da tutela da pessoa humana

1.º - A Pessoa Humana no Pensamento Político Pré-Liberal a. Perspectivas acerca do fenómeno constitucional Podemos encontrar fenómeno constitucional: 1. Concepções estaduais 2. Concepções normativas ou positivistas 3. Concepções ideológicas Todas elas têm aplicabilidade face ao quadro teórico, ainda que, na prática todas elas não consigam apresentar uma verdade global. Analisemos cada uma em particular. 1. Concepções estaduais Esta concepção considera que o direito constitucional em geral e a constituição em particular estão intimamente ligados ao Estado. São produtos deste, identificando-se a constituição com a análise da responsabilidade do Estado, expressando aquele a vontade deste. A constituição expressa a organização e o relacionamento do Estado com os cidadãos. a. Critica i. Nem sempre a Constituição é um produto intencional da vontade dos Estados. Pelo contrário, pode ser vontade de uma comunidade que nem sempre é identificável com o Estado. Ex. As constituições costumeiras (Britânica). ii. Os Estados têm vindo na actualidade, a ser vulgarmente marcados pela transferência de matérias que eram tradicionalmente da sua competência para a competência de entidades supranacionais. É o que podemos chamar de Redução do Domínio Reservado dos Estados. Ex. Direitos Humanos. iii. O fenómeno comunitário tem vindo a evidenciar uma alteração fundamental do ponto de vista da integração e da aplicação das normas jurídicas. Efectivamente, as normas constitucionais têm de conformar-se com as normas de direito comunitário. Um no essencial, três perspectivas fundamentais acerca do

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exemplo evidente é o da constituição económica (art.85º da CRP) que não expressa a real situação económica do país, pois esta está obrigada pelos normativos comunitários. Com efeito, face ao direito comunitário, são alteradas as disposições constitucionais que brigam com as constituições dos Estados Membros. É o que se designa por Inversão do Estatuto da Constituição, uma vez que as normas constitucionais têm de estar em conformidade com as normas comunitárias. O Prof. Jorge Miranda tem, quanto a este ponto uma posição contrária, defendendo que, pelo simples facto da obrigatoriedade da revisão constitucional para a integração das normas comunitárias confere a predominância à Constituição perante o Direito Comunitário. Todavia, ainda que se façam estas críticas, não deixa de ser verdade que o fenómeno constitucional, é ainda eminentemente estadual. 2. Concepções normativas ou positivistas O fenómeno constitucional é na sua essência um fenómeno normativo. A Constituição é uma Lei, sendo o seu aspecto normativo a questão importante. Resulta daqui a Força Normativa da Constituição, ou seja, a Constituição é segundo este ponto de vista uma norma prevalecente. Esta situação está certa formalmente, uma vez que este é o princípio que norteia a Constituição. a. Critica i) O pressuposto desta concepção é o de a Constituição é resultado de um conjunto de normas escritas. Mas, nem sempre isto é verdade. As Constituições costumeiras, são um exemplo bem evidente de que não é assim. Deste modo, a Constituição tem força normativa, apenas enquanto os destinatários das suas normas assim o entenderem. O Direito não visa apenas a sua validade, mas também a sua efectividade. Podemos então questionar, se o costume contrário à Constituição é inconstitucional ou gera inaplicabilidade da constituição? A resposta vai no sentido de que a Constituição existe, quando existe Constituição oficial, ou seja, aquela que é efectivamente vivida. Ex. A Constituição de 1976 falava na transição para o socialismo, na sociedade sem classes, apontando uma matriz claramente marxista, todavia, a prática constitucional ia em sentido contrário, pretendendo a transição para o sistema económico capitalista tradicional da sociedade ocidental, sendo exemplo maior o pedido de adesão à CEE, logo em 1977. Por outro lado, a Constituição refere que as eleições legislativas, pretendem a escolha dos deputados resultando desta escolha a nomeação do Primeiro-Ministro. Na prática as

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eleições legislativas, destinam-se primariamente à escolha do Primeiro-Ministro e secundariamente, à escolha dos deputados. Fica claro que, a Constituição não oficial também traduz a existência de um poder constituinte não formal, tendo por via disso, um peso significativo do ponto de vista constitucional. ii) A força normativa da Constituição assenta em dois posicionamentos principais: - Força absoluta - Mera ³folha levada pelo vento´ Por este último aspecto, tem-se em conta que são as Revoluções que fazem as constituições, como fica patente no caso português. Das seis Constituições (1822, 1826, 1838, 1911, 1933, 1976), apenas a carta Constitucional de 1826, não foi devida a ruptura revolucionária, ainda que, em grande parte, se tenha ficado a dever a alterações políticas mais ou menos complicadas. Efectivamente, as Constituições não conseguem segurar a força dos factos. 3. Concepções ideológicas Cada Constituição é sempre expressão de uma dada ideologia. É a imposição de uma ideia política para a comunidade que visa obrigar, de que se trata. Para os marxistas, as constituições ocidentais, visam a imposição da ideologia capitalista, enquanto para o mundo ocidental, a constituição soviética era a imposição ideológica do marxismo. Mas, as Constituições expressam efectivamente uma ideologia? i) Todas as normas expressam uma ideologia, ainda que nem todas as normas constitucionais expressem uma ideologia. ii) Não expressar ideologias, pode, no entanto expressar efectivamente mais do que uma ideologia. É a Pluralidade ideologia. Uma Constituição deve permitir a pluralidade dos campos ideológicos, pelo que, assim sendo, não existe uma imposição ideológica.

b. A Concepção adoptada i) O Personalismo Constitucional O que é o fenómeno constitucional? A tónica da resposta deve ser colocada na PESSOA HUMANA, porque: a. O Ser Humano é a razão de ser do Estado;

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O Estado existe em função das pessoas e não o inverso. Resulta na ilegitimidade do exercício do poder do Estado, quando este trata a pessoa humana como uma coisa. b. O Ser Humano é a razão de ser do Direito A Pessoa Humana tem o Direito ao seu serviço. Quando uma norma jurídica impõe comportamentos contra a dignidade da pessoa não gera a obediência. É o Direito injusto. Implica algumas vezes a própria desobediência. c. O Ser Humano é a razão do Direito Constitucional A Constituição deve estar ao serviço da Pessoa Humana. Ela serve para limitar o poder e garantir o direito das pessoas, impondo uma tensão constante entre a Autoridade e os destinatários do Poder. Esta é a essência do fenómeno constitucional.

1. 1. O pensamento greco-romano As considerações acerca do homem e do valor da pessoa humana não é novo. Ele reporta-se à Grécia Antiga, e a Protágoras, para quem o Homem era a medida de todas as coisas, sendo que o objecto se apresenta em função do sujeito, donde resulta a liberdade de participação, como elemento fundamental do cidadão. A liberdade, apresenta-se para os gregos como uma liberdade de participação dos cidadãos e não como liberdade de pensamento, o mesmo é dizer, apenas se aplica aos cidadãos na plenitude dos seus direitos, com exclusão dos escravos. i) Sócrates, entende a existência de normas de conduta social de valor universal e permanente que todos podem descobrir, sendo o homem absorvido pela vontade do poder. ii) Platão (427-347), foi primeiro teórico do totalitarismo, entende o Estado como uma razão de ser do individuo, não estando o poder limitado. Do conjunto das suas obras, podem destacar-se como mais importantes, três delas: a República, o Político e as Leis. Forte adversário da democracia, procura acima de tudo criar um modelo ideal de Estado. Parte assim da análise da alma do homem, no sentido de estabelecer entre ela e a cidade um paralelo. A justiça asseguraria que cada classe preenchesse apenas a função correspondente à sua natureza. A cidade surge da incapacidade dos indivíduos satisfazerem as suas necessidades, pelo que o cidadão está inteiramente dependente da colectividade, numa subordinação idêntica à da parte ao todo.

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iii) Aristóteles, é o primeiro teorizador da ideia de Estado de Direito, no sentido em que o Estado é limitado pelo Direito, ainda que o principal dever dos cidadãos seja o de contribuir para o bem do Estado. Para Aristóteles, o homem é um animal político, distinguindo-se, por conseguinte dos outros animais por se encontrar integrado numa polis, que sendo o fruto da civilização, é o termo de um desenvolvimento de associações humanas cujas fases foram: família, tribo, aldeia, cidade. Entende que a constituição é a cidade. Se aquela mudar, a cidade tem de forçosamente ser diferente. O Homem e a Sociedade, são vistos do mesmo modo, pelo que os homens

distinguem-se dos outros seres porque caminham para os fins que lhe são próprios com consciência e liberdade, e não de modo fatal e necessário. O seu fim supremo é o bem. A perfeição consistirá em o atingir. Para conseguir atingir este objectivo, o homem terá de praticar as virtudes, que são distinguíveis em duas categorias: as intelectuais, passíveis de atingir pela educação e as éticas ou morais, que se adquirem pelo exercício e da vontade. Destas últimas, a que tem mais importância para a vida social é a justiça que corresponde ao exercício conjunto de todas as virtudes na vida de relação. Uma das suas características é a igualdade, que se assume como fundamento da coesão e harmonia da vida social. Esta pode, entender-se de dois modos diferentes, correspondentes a duas modalidades de justiça: a distributiva e a correctiva. Para Aristóteles, o Estado é a universalidade dos cidadãos. Que significa então para ele o cidadão? Trata-se essencialmente de um homem livre que tem para com o Estado um conjunto de deveres e recebe daquele um conjunto de direitos. O principal dever do cidadão para com o Estado é contribuir para o seu bem. Assim caracterizado o cidadão, fácil é de ver que nem todos na cidade são considerados cidadãos, pelo que importa, segundo ele distinguir entre cidadãos e habitantes. Os estrangeiros e os escravos são apenas habitantes. Também aqueles que pela sua idade, ainda não podem, ou já não podem participar activamente na vida pública, não são cidadãos. Uns seriam cidadãos em esperança, os outros, cidadãos aposentados. 1.3. O pensamento medieval O pensamento medieval vem trazer uma nova forma de entender o homem, especialmente pela mão de dois ilustres representantes da Igreja católica: Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino. i) Santo Agostinho limita o poder em relação a um fim ± a justiça. ³onde não justiça não há Estado´. A cidade de Deus é a comunidade de todos os que vivem segundo o

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espírito e buscam a justiça, e Abel é o seu fundador, onde os cristãos participam no ideal divino; a cidade terrena, é a comunidade dos que vivem segundo a carne e a satisfação dos seus interesses. ii) S. Tomás de Aquino, retomando a ideia de Aristóteles de que o homem é um animal social, sendo cada pessoa uma individualidade própria. O homem não pode viver isolado porque, só por si, não pode dar satisfação nem às tendências mais elevadas da sua natureza espiritual, nem às necessidades mais elementares. Tudo o que o homem sabe é adquirido na convivência com os seus semelhantes. O dom superior do homem em relação aos outros animais é a razão, mas este só pode exercer-se plenamente no convívio. Defende o direito de resistência e desobediência contra o Estado quando este atenta contra a pessoa humana, desde que aqueles direitos não sejam superiores à acção do Estado. A pedra angular da sua obra é a consideração de que o homem, além de animal político é um animal social. Assim sendo, a sua perspectiva sobre a origem do Estado, parte do pressuposto de que ele é «um produto da natureza social, racional e livre do homem que exige uma autoridade encarregada de procurar o bem comum e, portanto, que os homens esclarecidos e ilustres pelas suas virtudes e saber ponham a sua inteligência e a sua vontade ao serviço dos seus semelhantes, dirigindo-os». O homem está deste modo orientado para o grupo de que faz parte, pelo que cada indivíduo está para o todo, ficando a este subordinado. A sociedade e o Estado, sendo um produto da natureza, ou melhor, da inclinação natural do homem, correspondem a um agir que é consequência dos impulsos profundos e essenciais dos seres humanos. O Estado aparece tácito assim dos revelado num Aquele acto acto de cooperação, à assente satisfação num das

consentimento

indivíduos.

destina-se

necessidades humanas, nomeadamente as mais elevadas, que são o resultado da natureza eminentemente social do homem. O Estado vem representar o modo pelo qual o indivíduo realiza as suas necessidades, de modo que apresente um fim essencial que é o bem comum. 1.4. Humanismo e autoritarismo: a contradição da Idade Moderna A Idade Moderna traz a contradição entre humanismo e autoritarismo. Pito Della Mirandola, é um dos principais teorizadores da dignidade humana. O Homem é fonte de referência de toda a dignidade, que é um valor inalienável, natural e incondicionado. i) Maquiavel

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da hipocrisia.7 É com este autor que o autoritarismo adquire uma forte identidade. teorizando no sentido de que os fins justificam os meios. da mentira. da violação contratual. contraditória e complexa. 111 Cfr. se se quiser manter. não recuando na utilização dos meios para alcançar. podendo o Príncipe recorrer à guerra. e que o príncipe se deve aliar aos burgueses contra os senhores feudais e contra o papa. o príncipe deve usar o poder. bem como servir-se da fraude. É assim que na política interna ou externa. ao mal ou à mentira desde que isso seja justificado no quadro do Estado. Por isso explica porque é que o tirano mente e esconde a sua natureza sob a capa de uma completa honestidade. o maquiavelismo vai. 7 . quando refere "Resta agora ver quais devem ser os modos e disposições governativas que um príncipe deve ter para com os súbditos e para com os amigos. Procura determinar. No fundamental. (. estar preparado para poder não ser bom. prosperidade. E embora sejam manifestas as vozes discordantes em relação à obra de Maquiavel. glória. fazer baixar o nível dos fins da sociedade.) É necessário a um príncipe. da intriga e do assassínio como meios políticos. Em política os resultados é que contam. contraponto ao direito. pelo que todos os meios que permitam alcançá-los são bons. O poder é nesta óptica. e como sabe estabelecer um pacto com o Diabo. quais as condições de que depende a ordem e de como é possível estabelecerem um Estado estável. O Príncipe. MAQUIAVEL. e para usar ou não a bondade conforme a necessidade"1 pelo que ele se deve preocupar mais com o que é e menos com o que deve ser. que termina de algum modo. que o critério primeiro radica no interesse. Lisboa. pelo menos. com o pensamento medieval. império.. tais requisitos são passíveis de implementação. estabilidade. manter e exercer o poder. despido de considerações éticas ao mesmo tempo que o trata como o mais importante dos valores. O ideal do príncipe é definido então no Capítulo XV. no Príncipe obriga a olhar o poder como um facto. pelo que se preocupa em determinar quais devem ser as qualidades do príncipe e sob que critérios. da traição. obrigando a questionar a problemática do poder num sentido diferente do que até aí havia sido feito. Quer-lhe parecer desde logo. o certo é que ele. É esta obra. domínio da lei. reduzindo-os aos objectivos de facto existentes em qualquer sociedade real: ausência de dominação exterior..

destacando-se Frei Bartolomeu de las Casas. não entende razões que justifiquem a perda de liberdade de um povo por razões civilizacionais. Por outro lado. Em virtude disto. a de se saber se os indígenas tinham ou não direitos fundamentais e em que medida era possível impor a vontade do colonizador ao colonizado. criam no mundo ocidental uma nova situação. este fenómeno conduziria a um conjunto de reacções por um conjunto de jurisconsultos e filósofos que procuraram a refutação de tais teses. que além de estarem submetidos à lei divina e à lei natural. Francisco Vitória e Francisco Suarez. pode constituir-se em Estado. pela mão do Padre António Vieira. facto que conduziria a um conjunto de teorias que colocavam em situação de preponderância daquela em relação a esta agravado com o facto da consideração de que os naturais daquelas paragens serem considerados como seres inferiores e em alguns casos como desprovidos de alma. considera 8 . Retomando Aristóteles e São Tomás. O conjunto de autores considerados pertence substancialmente à Escola Espanhola de Direito Internacional. Considera ainda que. etnias e religiões. Francisco Vitória ± Para este jurisconsulto. sendo que a primeira era o resultado da sociabilidade natural do homem que exigia autodeterminação de cada povo assim como o ius gentium. considera que o poder político reside na comunidade. qualquer povo. sujeitam-se também ao direito positivo.8 1. sendo um deles a liberdade. Entende que o poder do Estado deve ser limitado e assente no reconhecimento da pessoa humana. uma vez que os índios tinham direitos naturais. os espanhóis também não tinha o direito de impor a civilização cristã. pretendendo responder a questões fundamentais como. destacando a existência de um direito de livre comunicação entre todos eles. a qual por sua vez o atribui aos governantes. Reforçando a tese tomista de que a comunidade política é concebida como uma instituição de direito natural. que cabe nos fins temporais do homem. e à Escola Portuguesa. organizados em estados. que é a do confronto com outras culturas. Frei Bartolomeu de las Casas ± opõe-se à obrigatoriedade de professar a religião católica imposta aos Índios. mas considera também que todos os povos. independentemente da religião professada. em nome da universalidade do género humano. A colonização do Novo Mundo e a questão dos índios das Américas As descobertas portuguesas e espanholas. por direito natural. se encontram unidos pelo vínculo comum da natureza humana. Francisco Suarez ± Aponta o direito natural como impregnado de princípios imutáveis. É por este facto um dos primeiros teóricos da comunidade internacional e do novo direito das gentes.5.

em contraste com as sociedades imperfeitas. pelo consentimento da comunidade ainda que. Iluminismo: Antecedentes do liberalismo O período do pensamento europeu caracterizado pela ênfase colocada na experiência e na razão. pela desconfiança em relação à religião e às autoridades tradicionais e pela emergência gradual do ideal das sociedades liberais. Lisboa. sendo o príncipe superior ao povo. Também a sociedade civil é perspectivada como uma sociedade perfeita. Entre os precursores do século XVII. distinguindo assim o corpo político da sociedade. mais que um conjunto de ideias estabelecidas. não sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo e que também não recebe a grandeza e majestade da pompa e aparato. resultando então. a qual conservaria sempre o direito de resistência. seculares e democráticas. As novas descobertas da ciência. e os filósofos políticos Thomas Hobbes e John Locke. como a família. algo que surge pela vontade de todos. Chegou-se a declarar que. como instituição dos homens e doação do Estado. 1992 9 . mas sim aos homens tomados colectivamente. É igualmente marcante na época a permanente fé no poder da razão humana. Foi empregado pelos próprios escritores do período. Por outro lado. dotada de poder político. iluminada pela razão. 2. O que pretende é a existência de um Império. IN/CM. Também designado como o Século das Luzes é o movimento que antecede a Revolução Francesa. o poder não pertence aos homens a título particular. a ciência e o respeito à humanidade. Padre António Vieira ± Constatação da brutalidade das acções dos portugueses nos territórios descobertos. Deste modo. ( o Quinto) de Cristo.6. edição de Maria Leonor Carvalhão Buescu. Porém.9 que o poder político é um produto da natureza racional do homem e não do pecado da revelação. da integração. o 2 Cfr.2 1. destacam-se os grandes racionalistas. estava contudo sujeito à lei eterna e ao próprio pacto estabelecido com a comunidade. mediante o uso judicioso da razão. o poder político é indispensável para a emergência de um corpo político. de uma comunidade mística. mormente o genocídio dos índios e a injustiça cometida. Assim o poder político é visto como algo de direito humano. como René Descartes e Baruch Spinoza. seria possível um progresso sem limites.ª Edição. da existência de uma ordem moral. História do Futuro. PADRE ANTÓNIO VIEIRA. convencidos de que emergiam de séculos de obscurantismo e ignorância para uma nova era. a teoria da gravitação universal de Isaac Newton e o espírito de relativismo cultural fomentado pela exploração do mundo ainda não conhecido foram também uma base importante. ao mesmo tempo que considerava o poder político emanando do povo e atribuído a um príncipe.

David Hume. Charles de Montesquieu. na Escócia. A experimentação científica e os escritos filosóficos entraram em moda nos círculos aristocráticos. antes um fim em si mesmo e sujeito de todos os fins. com enfoques bem diferentes. elas ficaram desacreditadas aos olhos de muitos europeus contemporâneos. o princípio supremo da moralidade. Surge o desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos. A doutrina da Igreja foi duramente atacada. Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau. entre os seus pensadores mais importantes. tendo como pressupostos a revolução francesa. Partindo da centralidade no âmbito da sociedade civil dos princípios da liberdade de cada membro da sociedade. como se referiu. daí as incoerências e contradições entre os escritos de seus pensadores. dotado de uma dignidade que exclui qualquer preço. e Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Um dos autores fundamentais do iluminismo é. nas colónias britânicas. da igualdade entre os respectivos e da independência de cada um deles. uma maneira de pensar. enquanto expressão de liberdade humana. enquanto instrumento tendente a alcançar a paz perpétua. Cesare Beccaria. na Alemanha. encontra nestes três princípios o estatuto jurídico nuclear dos cidadãos relativamente ao Estado e deste modo as bases fundadoras de uma constituição republicana. José II da Áustria e Carlos III da Espanha. embora a maioria dos pensadores não renunciassem totalmente a ela. na Itália. Entre seus representantes mais célebres. assim como serviu de modelo para o liberalismo político e económico e para a reforma humanista do mundo ocidental no século XIX. A França teve destacado desenvolvimento em tais idéias e. quando esta veio a incorporar inúmeras ideias dos iluministas em suas etapas mais difíceis. encontram-se os reis Frederico II da Prússia. O Iluminismo marcou um momento decisivo para o declínio da Igreja e o crescimento do secularismo actual. Encontra ainda na autonomia da vontade. adoptando uma perspectiva políticofilosófica assente no entendimento de que o homem não é uma coisa. o lema deveria ser "atrever-se a conhecer".10 Iluminismo representava uma atitude. surgindo assim o chamado despotismo ilustrado. Outros expoentes do movimento foram: Kant. Catarina II a Grande da Rússia. 10 . Imamanuel Kant. De acordo com Immanuel Kant. O Século das Luzes terminou com a Revolução Francesa de 1789. pois. figuram Voltaire.

e exactidão das leis. o medo. os autores diverge quanto à avaliação da situação do homem antes da instauração do estado civil. toma a caracterização do poder soberano como absoluto. Diz de imediato. de contrapor. pela simplificação das fórmulas. Soberania e carácter absoluto são unum et idem.. que se prende no entanto. A herança ideológica do liberalismo a. não são externamente obrigatórias. com a evolução que se verifica na época. Podemos basicamente indicar três abordagens: i) Hostil. Esta é assim caracterizada pela introdução da quantificação como metodologia de análise. mediante um pacto. Hobbes. Entende deste modo. a barbárie . como dois momentos distintos ou como dois modelos antitéticos de representação das relações humanas. É com o decorrer do tempo.º A pessoa humana e o contributo político liberal 2.) solitária. o são ao nível da consciência. para quem a vida do homem no estado de natureza é ''(. que a cooperação social é 11 . ao associar-se. Toda a sua teoria. mas antes. Mas. se o estado de natureza é pacífico ou hostil. vai entender o homem como um simples egoísta. são os elementos que governam a relação entre os indivíduos (O homem é o lobo do homem). a guerra.11 AULA N. para poder assentar as premissas do fundamento racional do poder. breve". portanto. pelo desenvolvimento das ciências naturais. segundo Hobbes. a pobreza. que se não fosse absoluto não seria soberano. mísera. Normalmente é apresentado como hipótese lógica negativa sobre como seria o homem fora do contexto social e político. qualquer limite ao poder soberano. a desídia.1. Quanto ao segundo problema. o conceito de estado natural e o conceito de estado civil. o isolamento. mas antes. vai mais longe. que estas não sendo como as leis positivas porque não são aplicadas com a força de um poder comum. nem segue as leis naturais ou divinas.º 3 2. que os homens concluem. não reconhece desde logo. Em face disto. que seria justamente aquela condição da qual o homem teria saído. dado que nesse estado "o domínio das paixões. repugnante. Efectivamente.. movido apenas pelo seu intuito de conservação individual. a ignorância e a bestialidade" . brutal. em guerra efetiva. da luta de todos contra todos. Trata-se. De Bodin. pelo que o Estado primitivo.. não havia sido. assenta numa concepção própria do homem. Os contratualistas Elemento essencial da estrutura da doutrina contratualista é o estado de natureza. como o afirmaram os autores clássicos fruto da harmonia. com os homens.

Surge o "grande leviatão. não lhe seria possível reprimir tais egoísmos individuais. que considera que em princípio o estado de natureza pode ser pacífico. Nasce dos indivíduos para conter os excessos dos indivíduos. pelo que o Estado encarna no soberano. reconhecidamente dois direitos inalienáveis do ser humano. porque de outro modo. Walther. entende-o como ser antisocial. No desenvolvimento da sua teorização acerca do homem. se os homens se submetem a um chefe. tem uma perspectiva de existência. para Locke. cit. leis e governo. deixando intacta a vida interior. Resulta daqui. a propriedade e a vida humana. e baseada numa alienação de direitos subjectivos. o poder governamental tem de ser absoluto. mas em guerra potencial. pese embora o facto. Impuseram-se assim. o que demonstra bem a sua adaptabilidade aos totalitarismos. mais no sentido de regular o egoísmo humano. É um monstro para a paz. este é então o Estado. Deste modo. o Estado forma-se como resultado de um pacto. ob. pelo que a sociedade não é mais do que do que uma ficção. pois que. estabelecido entre o homem.12 também melhor para os indivíduos do que a anarquia individual. (3 ) Theimer. para a estabilidade. e que apenas existem os indivíduos. de estes serem de cariz diferente dos totalitarismos contemporâneos. o Deus mortal. que o povo é incapaz de se governar.(3) Resulta assim. O poder só garante o status quo. mas que nele os direitos dos homens são sempre precários e a harmonia tende a perder-se. o Estado hobbesiano. só por meio da força é que se mantêm juntos. Este modelo. ao exercerem apenas uma opressão externa. que dadas as características individuais. Deste modo. Assim. do bellum omnium contra omnes e do homo hominis lupum. É uma transmissão que não significa mais do que a renúncia ao direito próprio de opor resistência. Nasce da guerra. que tudo domina. 67 12 . de outro modo. Assim. p. do que no sentido da sua dominação. só permanecendo estável se ampliado constantemente através da acumulação. confiam-lhe todos os seus direitos políticos. a soberania consiste no facto de cada um dos cidadãos transferir todas as suas forças e poder para aquele indivíduo ou aquela assembleia. como a Carlos II e ao seu absolutismo monárquico. não pode garantir a paz e a segurança". se nenhum poder superior assistir e regulamentar esses direitos. para estabelecer a paz e a segurança. através da aquisição de mais poder. assegurada pelo poder. vai servir tanto a Cromwell no seu absolutismo republicano. uma convenção social. ii) Pacífico. Devido à sua natureza anti-social e egoísmo.

Student Edition. em face da existência de um direito de usufruir da justiça privada. O primeiro passa para a sociedade onde é regulado pelas suas leis. Deste modo. como é evidente. faltava-lhe no entanto a possibilidade de determinação de leis iguais para todos. Esta criação da sociedade civil. entende que no estado natural o homem teria dois poderes. pelo que o homem ao abandonar o estado de natureza. seja. que seriam inalienáveis no Estado. 1988. pois que se tal se verificasse. liberdade e direito à vida) e por fim. London. Two Treatises on civil government.13 Locke parte da perspectiva inicial da consideração de existência de um Estado de Natureza. p. mas de modo livre e de mútuo consenso. através de um contrato originário. Assim. de que se havia despojado para a criação do Estado: o primeiro. enquanto o segundo. tal contrato baseia-se na liberdade. à liberdade. ser legitimo. nos limites da lei da Natureza. onde o homem seria inicialmente bom. Cambridge University Press. seria pior o estado social do que o estado de natureza. É em face disto que o estado de natureza seria um "estado de perfeita liberdade para ordenar as suas acções e dispor dos seus bens e pessoas como querem. que lhe permitia fazer tudo o que entendesse por necessário para a sua conservação e para a conservação dos outros. ao castigo das ofensas e o direito à propriedade leva-o a formular uma teoria da divisão de poderes. pois que. sem pedir autorização a ninguém nem depender da vontade de nenhum outro homem". O governo absoluto nunca pode. caracterizarse-ia por três elementos fundamentais. embora o estado de natureza. vai originar um Estado de Direito. de modo a permitir que se criassem condições para a existência de juizes capazes de regular os conflitos. 118 13 . cada um seria juiz em causa própria o que poderia. os homens teriam abandonado o estado de natureza. No fundamental. natural e um estádio pré-legal. a existência de um estádio pré legal. Criaria assim a sociedade civil. caracterizado pela plena igualdade e liberdade. o Estado. e o segundo que lhe permitia punir os crimes cometidos contra a lei natural. Este Estado de Natureza. entendido como o herdeiro dos 4 LOCKE. a preponderar os interesses em relação à justiça. A aceitação de que no estado de natureza. A sociedade civil é criada por uma decisão livre de homens livres. é outorgado no sentido de apoiar e fortalecer o poder executivo da sociedade civil. Contudo. Assim. Com efeito. teriam existido um conjunto de direitos naturais. pois. dos quais se destacam o direito à vida. a contrário do que pensava Hobbes. o elemento racional era determinado pela liberdade e pela igualdade. a saber: elemento racional. levar a que por fraqueza ou por interesses próprios. determinado pela existência de um quadro de direitos derivados da lei natural (propriedade. o elemento natural.4 Isto significa então que para ele o estado de natureza seria um estado de paz e cooperação sob o signo da razão. consubstanciada no direito de punir se faz sentir. não pretende entregar-se totalmente ao Estado. onde a justiça privada.

deveria funcionar um terceiro poder. segundo Rousseau. Mas. passando a viver no regime artificial de desigualdades. que descreve o estado pré-social da humanidade. A passagem deste estado natural. e de quem foram conferidos.14 homens livres do Estado de Natureza. que designa de poder confederativo. para quem o estado de natureza é um estado pacífico e harmónico. iii) Pacífico. trocando-o pela vida em sociedade? Por uma evolução desastrosa. Este novo Estado. onde não existe conflito ou escassez. pelo que seria o poder supremo. sendo o homem bom por natureza (mito do bom selvagem). contrário ao Estado Natural. é por conseguinte. Admite. como um estado de liberdade e felicidade. torna-se necessário verificar. sendo assim. Com efeito. perde parte dessa liberdade. onde os homens estariam submetidos a uma mútua dependência. adquire dois poderes: o legislativo e o executivo. é feito através da introdução de uma sanção eficaz para a manutenção dos direitos naturais. pelo que seria "bom" por natureza. Europa América. a que ele chama o direito de apelar para o Céu. que nasce a partir do momento em que cessam os vínculos de obediência dos pais para os filhos e vice-versa. deste modo o direito de insurreição. Tal pressuposto. originariamente teria nascido livre. de quem resultam. enquanto o segundo asseguraria a execução das leis no plano interno. No que respeita ao plano externo. Resulta daqui. o seu estado de natureza. é a única a ser verdadeira. porque motivos a teria abandonado. que é determinada por uma liberdade comum. é a família. se os poderes assim desenhados. Lisboa. Pub. permitiria a criação do mito do "bom selvagem".5 Entende que a mais antiga e mais natural associação humana. a partir do momento em que por força da vida de relação. para o estado social. a consideração de que o homem. se mantêm nos limites a que devem subordinar-se. Tal como refere "o homem nasceu livre e em toda a parte vive aprisionado". 11 14 . um poder subordinado. 19745. desencadeada por um acaso funesto: "os homens descobriram a metalurgia e a agricultura. Tal liberdade. é apenas uma delegação de poderes parcial dos indivíduos em certos homens Finalmente. E tal verificação deve competir ao povo. em que o homem além de livre e feliz. O Contrato Social. sendo consequência da natureza do homem. o homem ascende à sociedade civil. pelo que entende que o poder político. era inocente e puro. que contrariava a tese hobbesiana do "homem lobo do homem". Estas duas artes 5 JEAN JACQUES ROUSSEAU. O primeiro regularia o modo como deveriam ser reguladas as forças do Estado para a conservação da sociedade. sendo assim. p. É assim.

propõe como recurso à obtenção da liberdade. deste modo. um ser abstracto e colectivo que actua pelas leis de outro modo. J.. o problema se resolve com o contrato social. sendo geral. a quem fica a pertencer a autoridade sobre todos os participantes do contrato. ibidem (7 ) O contrato reduzir-se-ia aos seguintes termos "« cada um de nós põe em comum a sua pessoa e todo o seu poder sobre a suprema direcção da vontade geral. a desigualdade entre ricos e pobres e as correspondentes paixões.15 originaram a guerra entre eles porque deram lugar à propriedade. e uma vez que não é possível o retorno ao estado natural. cit.. O essencial do contrato é. existente no estado de natureza.. 33 (9 ) A lei é por ele entendida como uma declaração pública e solene da vontade geral sobre um objecto de interesse comum. Rousseau distingue-as claramente. a constituição de um contrato social a partir do qual seria possível não ser destruída a liberdade de cada um.8 O Estado é assim. Rousseau. tal como a vontade de onde provém. ou seja...6 Daqui decorre a necessidade de preservar a sua liberdade. Contudo. decorrente da impossibilidade de cada um atender sozinho aos seus próprios interesses.. enquanto a vontade de todos "olha ao interesse privado e não é mais do que uma soma de vontades particulares". Deste modo o fundamento do Estado seria o contrato social. tenham ingressado na sociedade. É assim que. cit. cit. não é a vontade de todos.7 É por conseguinte neste momento que nasce a sociedade política. p. Quanto ao terceiro problema. p. 22 (8 ) JEAN JACQUES ROUSSEAU op. Efectivamente.. A vontade geral "não olha a outra coisa que não seja o bem comum". Contrato. rivalidades e lutas. os contratualistas. esta vontade geral. Cfr. a formação da vontade geral. opondo-se às visões regressivas de uma idade de ouro baseada na harmonia e na abundância que seria anterior ao surgimento da família. e recebemos colectivamente cada membro como parte indivisível do todo. mas tão-somente a necessidade dessa vida. concordam em considerar que não há uma tendência natural para a vida em sociedade. Os contratualistas querem legitimar o Estado de sociedade (a civilização) ou modificá-lo com base nos princípios racionais onde o poder não assenta no consenso. para todos os indivíduos quem abandonando o estado de natureza. J.» JEAN JACQUES ROUSSEAU. Para escapar à destruição total os homens tiveram de associar-se em vez de se combaterem". 40 e ss 15 . razão pela qual a vida em comum nas suas múltiplas associações se dá em torno do indivíduo e não da colectividade. pp. da propriedade privada e do 6 9 e não sabe agir id. op. E para tanto.

propriedade e segurança). considera que o pacto social é inevitavelmente necessário após ter surgido a linguagem. o Estado justifica-se em nome da tutela das pessoas. Public. Aron. nasceu no solar de Bréde. um dos doutrinadores da sociologia". mas é apenas um dos capítulos publicados. No campo das ideias políticas. da propriedade. consistiria no exercício da vontade. Por seu lado. A sua obra considerada por Raymond Aron. o que significa que num estado onde existem leis e liberdade.. havendo entre eles múltiplas interferências (sistema de pesos e contrapesos). da liberdade e defesa e segurança dos povos. Montesquieu é então. a família e a propriedade privada De uma forma geral. (10) Como refere. as causas da grandeza e decadência de Roma. sendo que a segunda. através da separação dos poderes a qual é ao mesmo tempo um mecanismo de limitação dos poderes do estado. é preciso saber-se o que é a independência e a liberdade. da liberdade filosófica. perto de Bordéus. conhecer cientificamente o social enquanto tal. p.. D. Raymond. que tende a considerar como degenerativa a sociedade de seu tempo em relação à felicidade inicial do Estado de natureza. a sua descrição sobre o Estado parte tanto de uma especial concepção de liberdade política como de uma visão não especulativa de leis. Barão de Bréde e Montesquieu. para se poder precisar a primeira das distinções. sendo que para ele. executivo e judicial) que se encontram em pé de igualdade. Distingue assim. será ainda mais. o seu título principal e de maior importância para a filosofia e ciência política. tem na sua obra o espírito das leis.) Mas se o sociólogo se define por uma intenção específica. Lisboa.16 Estado. tenha grande importância. a liberdade política. 1991. (. aliás. um doutrinador da sociologia10. Quixote. Esta é a corrente moderada. o direito de fazer tudo o que as leis permitem. As etapas do pensamento sociológico. " ele é geralmente considerado um precursor da sociologia. entendendo pela primeira o poder fazer-se o que se deve querer. Charles-Louis de Secondant. o Estado garante estes mesmos valores. A separação de poderes conduz por seu lado a três grandes correntes: i) Divisão em três funções típicas (legislativo. embora. dado que vêem no contrato a única forma de progresso: mesmo Rousseau. pelo que esta será. como a grande precursora da sociologia. estes os princípios dogmáticos da Revolução Francesa e constitutivos da herança ideológica liberal (liberdade. não pode consistir senão num poder natural de se fazer ou não se fazer o que se quer que tenha em mente. cujo principal teórico é Montesquieu e está ligado ao constitucionalismo norte-americano e inglês. 31 16 . da primeira obra citada. São. Contudo.

representando o povo. antes através de uma natureza histórica. deve promover a execução das leis. cit.. Os governos republicanos seriam orientados pelo princípio da Virtude. mas não apenas de um modo redutor. A presunção será a de que. 35 17 . exercendo ao mesmo tempo. aos valores. Montesquieu.17 É assim que define as leis como. As relações entre os poderes são também definidas por Montesquieu. um terceiro poder: o de julgar. Desta divisão de poderes. o "Estado é livre quando o poder trava o poder". no sentido de evitar eventuais abusos.. em Democracia e Aristocracia. O primeiro exigindo rapidez de acção e de decisão. equilibrá-lo pela condição da liberdade política. 43 (12) id. que. em função daqueles princípios. e a Câmara dos Comuns. à religião. relações necessárias que derivam da natureza das coisas. a partir da qual os governos poderiam e deveriam governar. sempre que ele exorbita as suas competências. traduzida num equilíbrio de forças sociais. direito de veto sobre as acções do poder legislativo.. travar decisivamente o poder. A Republica. mas antes. O princípio do governo é o sentimento que deve animar os homens no interior de um tipo de governo. constrói. ser exercido por duas assembleias. O seu princípio é o de que os poderes na sociedade deveriam ser presididos por uma ideia de equilíbrio e por uma ideia de separação. A Republica divide-se.. deve à semelhança do que constata na Inglaterra. Existe em seu entender. Raymond. distingue assim dois poderes: o executivo e o legislativo. a Câmara dos Lordes. para que este funcione harmoniosamente". a partir da consideração que os regimes podem ser classificados quanto à natureza e quanto ao princípio de governo. representativa da Nobreza. e por conseguinte. Este poder judicial. uma teoria da governação. É em função de tudo isto. como refere Aron. As etapas do pensamento. para Montesquieu a ideia.. p. não é como em Locke. ligada aos costumes. por permitir uma condição de liberdade.12 Distingue três formas de governo. elementos que ligam o social. entendida como o respeito pelas leis e pela dedicação dos indivíduos à colectividade. a Monarquia e o Despotismo.. os (11) Aron. procura estabelecer uma divisão de poderes. as leis seriam sínteses da vida histórica de um povo. deveria ter por função principal ser o intérprete das leis. p. ou seja. A "natureza do governo é o que o faz ser o que é. ou seja. deve ser exercido apenas por um.11 Deste modo. O voto do orçamento deve ser anual. por sua vez. Assim. O segundo. mas a sua iniciativa e personalidade deve ser o mais reduzida possível. o poder legislativo deve verificar a medida em que houve uma correcta aplicação das leis. Partindo da análise da Constituição inglesa.

apenas ao sabor dos seus caprichos. destacando-se em grau de superioridade o poder legislativo. tendo este mesmo autor influenciado a constituição portuguesa a Carta Constitucional de 1826). as quais são a base de uma Constituição Republicana para alcançar a paz perpétua. Igualdade e Independência. tem como fim permitir a distinção das suas duas formas de governo: a democracia e a aristocracia. Deu azo à Constituição alemã do século XIX. Assim. Quanto à natureza do governo ela é determinada pelo número dos que exercem o poder. e os despóticos pelo Medo. como que infrapolítico. por considerar. Exprime a herança pré-liberal e o princípio da legitimidade monárquica. mas sem lei e sem regra. Em seu entender o Homem deve ser considerado como um fim em si mesmo e sujeito de todos os fins dotado de dignidade sem preço. desde logo. reconhece apenas um poder como fonte de legitimidade de todos os outros poderes o poder do monarca (tese da legitimidade monárquica). É a corrente designada de democrata radical e é a que é subjacente à R. que tanto a democracia como a aristocracia provém de um mesmo tipo base de regime. Esta classificação das formas de governo é bastante diversa das definições clássicas. O Despotismo. distinguindo este da monarquia. Esta Constituição Republicana implicaria o princípio político da separação entre o poder legislativo e executivo impedindo-se que a execução das leis seja feita por quem as fez. um só exerce o poder. A Monarquia. Francesa. A existência da constituição depende de um acto de graça do próprio rei. à constituição austríaca e a francesa do mesmo século (nesta destaca-se como teórico Benjamin Constant. caracterizada como o respeito que cada um deve à sua categoria. entendidos como uma trindade: 18 . estando integrados nesta teoria ainda que com concepções teóricas diferentes. Defende a existência de três poderes no interior de cada Estado. mormente da aristotélica. como caracterizadora dos governos republicanos.18 monárquicos pelo da Honra. mas por meio de leis fixas e estáveis. iii) Na sequência da perspectiva de Kant e defendida por Hegel. A totalidade do povo ou parte do povo. A sociedade civil assentaria em três princípios basilares Liberdade. Immanuel Kant é o filósofo do Iluminismo e da Revolução Francesa. que seria o sentimento elementar. ii) Não reconhecimento da igualdade entre todos os poderes. a República seria o governo em que todo o povo ou parte do povo exerce o poder. aquele em que apenas um governa. Locke e Rousseau. o republicano. Apresenta a autonomia da vontade como expressão da liberdade humana e o princípio supremo da moralidade.

19 . Dois modelos fundamentais: i) escrita ± Europa Continental e ii) não escrita ou consuetudinária ± inglesa. Kant diviniza a obediência à lei e radicaliza a supremacia do poder legislativo. A separação de poderes garante que o Estado se configura dentro das leis da liberdade. O equilíbrio interno dos poderes do Estado conduz na lógica kantiana a um modelo de poder executivo subordinado juridicamente e controlado politicamente pelo legislativo.19 1. 2. No entanto. gozando de uma verdadeira autoridade natural para constranger o seu acatamento. Para além do princípio da separação de poderes como forma de limitação do poder. Influenciado directamente por Rousseau. É na harmonização dos diversos votos através de uma regra da maioria que se apura a vontade colectiva. Enquanto Rousseau divinizou a vontade geral. Como se apura a ³vontade colectiva do povo´? É a ³vontade concordante e unida de todos´. Poder executivo ± Governante e funcionalmente dependente do poder legislativo (inferior). Esta é o acto elaborado com intenção específica de definir o ordenamento do Estado e as suas relações com as pessoas. que é ao mesmo tempo a sua justificação e limite. revelando a soberania absoluta do poder legislativo e no qual surge investido de uma pura função formal de estabelecer o Direito. não é a regra da unanimidade que preconiza pois ³não é possível esperar a unanimidade de um povo inteiro´ contentando-se com a vontade expressa pela maioria. considera o poder legislativo como a verdadeira expressão de soberania ³vontade colectiva do povo´. Poder soberano ± Legislador e manifestado através da lei (superior). também a própria Constituição em sentido formal assume essa função. O texto constitucional pode configurar três hipóteses: i) Produto da vontade popular A Constituição impõe-se ao monarca ou dispensa o monarca ± Constituição de 1822 ± Corrente democrática. 3. Condena assim a desobediência ou resistência à lei considerando-as como o crime mais grave e mais punível porque arruina o seu próprio fundamento. Poder Judicial ± Pessoa do juiz e expressão do Direito (extracção de conclusão). a lei surge como expressão da soberania do povo e da soberania da razão e o principio maioritário surge como pedra estrutural da definição da vontade do poder legislativo. Esta perspectiva traduz-se na consideração de um Estado Jurídico. sendo proibido alguém opor-se à vontade do legislador. Por outro lado.

enquanto que ao Estado fica acometida a garantia dos direitos dos cidadãos. Carta Constitucional de 1826 iii) Modelo compromissório Neste caso. religião ou status social. a qual será tanto maior quanto menor a intervenção do Estado. Marxismo Para esta corrente o Estado liberal era o Estado representante de uma classe. o dirigismo do Estado. Era um Estado burguês. A crítica serve então de base para a justificação do modelo económico alternativo. juntam-se as duas legitimidades.O instrumento de garantia da limitação do poder (executivo sobretudo) é a lei. A crítica ideológica do liberalismo O modelo liberal sofreu de imediato fortes críticas provenientes de dois sectores distintos: Dos movimentos socialistas (marxismo. Esta intervenção é baseada essencialmente na Lei. O Estado liberal tem ainda duas grandes instituições valorizadoras da pessoa humana: 1. expressando por via disso a ideologia burguesa e evidenciando apenas a igualdade da classe a que serve. em que o texto é elaborado pelo Parlamento mas só entra em vigor se o rei concordar ± Constituição de 1838 e reforma constitucional francesa (1831). qualquer que seja. 2. anarquismo etc. Doutrina Social da Igreja 20 . a sua raça. 2. 2. 1. a qual tem relevância na expressão da vontade geral ± ideia de contrato social -. Assim contesta a posição do Estado e da classe dominante do modelo económico. pela qual todos os cidadãos têm o mesmo tratamento em face da lei. É uma das grandes influências do liberalismo.2. Os contributos do liberalismo A filosofia política liberal parte da existência de um Estado Mínimo. sendo este apenas o representante das classes trabalhadoras. Igualdade perante a lei.20 ii) Constituição de base monárquica A Constituição é elaborada pelo rei e este é a fonte de todos os poderes. O poder só actua sobre a esfera da sociedade civil se existir uma lei que o permita. O elenco de direitos fundamentais nas constituições ± Declarações de Direitos ± os quais são reconhecidos às pessoas de forma natural e que constituem limites ao poder.) e da designada Doutrina Social da Igreja. b. pelo qual a iniciativa económica deve estar a cargo dos agentes económicos.

que considerava de urgente resolução. a abundância da riqueza nas mãos de um pequeno número e a indigência da multidão. esquecido nas críticas do Sumo Pontífice. os trabalhadores isolados e sem defesa têm-se visto. com o decorrer do tempo. vem delimitar a sua esfera de acção no campo da sua intervenção. que acusa de instigadoras do ódio dos pobres contra os ricos. entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada». Ibidem Id. o Papa Leão XIII. este conflito não é fácil de resolver. a alteração das relações entre operários e patrões. é alvo. Efectivamente.21 A intervenção social da Igreja pode. pouco a pouco. que além do mais ia de encontro às concepções religiosas. Esta crítica implícita aos revolucionários. a Encíclica Rerum Novarum vem pugnar pelo empenhamento da Igreja nos problemas sociais. sobretudo pela acção do Papa Leão XIII. pelo menos grande parte dos problemas sociais: as Corporações. mormente no tocante às desigualdades sociais e aos grandes desnivelamentos que económica e socialmente se faziam sentir. n. dados os contornos de que se reveste. Ibidem 15 21 . Promovendo uma análise exaustiva dos factos que haviam dado origem à grave situação social. pugnando pelo regresso à ordem antiga. ser secularmente considerada. sem falar na corrupção dos costumes. e pela crítica às doutrinas socialistas. tiveram como efeito a deflagração dum conflito. 13 Rerum 14 Novarum. Daí que faça um apelo para a implantação da organização que julga permitir resolver se não na totalidade. além de que na sociedade existem «homens truculentos e astuciosos (que) procuram desvirtuar-lhe o sentido e aproveitam-na para excitar as multidões e fomentar desordens. sem as substituir por coisa alguma. como vimos. não resolvendo de forma clara a situação.1 Id. mas também não aceita que o problema se resolva pela via revolucionária. nomeadamente aos socialistas e marxistas. Todavia. principalmente no que se refere às Corporações. Assim. 15 O capitalismo resultante da teorização liberal não é. a maior confiança dos operários em si próprios assim como a sua coesão na adversidade.»14. as Corporações antigas. Significa que o Papa não estava disposto a calar durante mais tempo as injustiças de que a maioria da população europeia. por conseguinte.»13. os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas e assim. Apresentando uma voz crítica em relação ao estado da sociedade do seu tempo. embora só a partir do século XIX ela tenha assumido uma maior evidência. coloca o acento tónico no conflito social iniciado pelo «incremento da indústria e a evolução das profissões por novos caminhos. que eram para elas (classes inferiores) uma protecção. principalmente. refere que «o século passado destruiu. sob pena de não mais ser possível controlar a sociedade.

julga que a solução socialista de supressão da propriedade privada não é exequível. porque «o homem é anterior ao Estado. ao nível da inteligência. do talento ou da habilidade. distribuindo-lhes uma parte dos bens que eles proporcionam à sociedade. Antes que ele pudesse formar-se já o homem tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência (. o Estado deve preocupar-se. 13 Id. à qual desde logo será forçosamente necessário atribuir certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado». entendendo que o bem comum é essencialmente um bem moral. 16 Id. de forma igual. de modo que tem de atentar nos trabalhadores. n. 9 Id.. uma vez que julga ser o contrário. como prioridade. Mais. é em função daquele interesse que se obriga a prover à justiça distributiva que mais não é do que procurar cuidar. cada um na sua esfera». que não a permitem. n. 6-7 Id. Tal como S. propondo as suas soluções para resolução do problema social. aquilo que resulta da condição humana.)» de modo que «a propriedade particular é plenamente conforme à natureza». e o que leva os homens a partilharem estas funções é.22 Declarando o direito natural como inerente à pessoa humana. n. a diferença de suas respectivas condições». Tomás de Aquino. no sentido tomista. principalmente.. o direito natural é desde logo consubstanciado na família «a sociedade doméstica.. em estabelecer a equidade. devem visar o mesmo fim e trabalhar de harmonia. Defendendo um certo organicismo social. sociedade muito pequena certamente.18 Como resolver o problema social? Então que direitos e deveres devem estabelecer-se na sociedade e no indivíduo no sentido da solução do conflito social? A Encíclica Rerum Novarum preconiza que «todos aqueles a quem a questão diz respeito. todas as classes de cidadãos. 19 O Estado deve de imediato servir o interesse comum. 22 17 18 19 22 .17 Leão XIII procura perspectivar os factos. de modo global. uma vez que entre os homens existem diferenças tão grandes e profundas. 16 No mesmo sentido de Santo Tomás de Aquino e da corrente cristã de um modo geral. Além de que é a desigualdade que pode ser aproveitada em beneficio de todos e não o contrário. mas real e anterior a toda a sociedade civil. entende assim que «a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas.. Entendendo a impossibilidade da igualdade de facto na sociedade civil.. n.

sindical reclamando um certo 22 número de reformas que considera mínimos indispensáveis de justiça social´. a associação como fruto da propensão natural do homem. Assim sendo.. A concepção social da Igreja vai. n.. que ambas devem ser realizadas tendo em vista os fins morais do homem. face a este conjunto de pressupostos.) condena os abusos do individualismo (. é de importância crucial a manutenção da propriedade privada. se há operários que se recusam a entrar em seu seio. os patrões e os operários devem contribuir de modo significativo para a resolução do conflito. todavia.. a Rerum Novarum reconhece a ³legitimidade da propriedade privada e as vantagens económicas da iniciativa individual´21 afirmando. servir de baluarte à Constituição de 1933 e a todos os seus princípios económicos. cit. p. Tal contributo passa pela constituição das Corporações.. Dando origem ao cristianismo social. lhes fazem expiar a sua recusa pela miséria». para tanto.. não impedindo a associação do povo que o constitui. Ibidem 21 22 23 . no sentido de que se conformam com as normas de direito natural e respondendo à necessária e devida perfeição do homem. sociais e políticos. preservar os direitos da comunidade e dos seus membros e evitar as greves. Ainda vem reconhecer a necessidade da organização dos trabalhadores como forma de evitar os problemas decorrentes da concorrência assim como uma organização de empresários que. limitando-as. em conjunto com a Quadragesimo Anno. as Corporações deveriam ser destinadas a enquadrar a actividade individual e a torná-la mais feliz. 20 Id. tornar-se num dos principais pólos a partir dos quais a concepção corporativa se irá estabelecer e criar todo o seu corpo teórico-prático.. A Encíclica Rerum Novarum.. Finalmente. nomeadamente ³os deveres de caridade que cada um tem para com o seu semelhante (. No entender de Leão XIII. em negociação com aqueles. 193 Id. op. entendidas como desordens graves e atentatórias do interesse comum.20 As organizações associativas apresentariam assim um cariz de agrupamentos naturais.. vai. possam estabelecer as regras relativas ao trabalho e ao salário. 37 Costa Leite (Lumbrales). uma vez que «muitas delas são governadas por chefes ocultos e obedecem a uma orientação e que. àquelas cujos interesses não ponham em causa a própria sociedade.) e as violências das escolas socialista e anarquista. promovendo a remoção das suas causas. depois de terem controlado todo o sector do trabalho. João Pinto da. Noções elementares de Economia Política. neste contexto. como veremos adiante.23 Por outro lado.. leva o Estado a aceitar esse pressuposto.

pelo que a autoridade suprema do Estado traduz um chamamento da colectividade. A autoridade de um chefe decorre da necessidade sentida pela comunidade. concebendo um modelo de Estado assente nas seguintes ideias: a. enquanto pura realidade abstracta. criando a desqualificação da pessoa humana. enquanto detentor da sabedoria e da virtude.3. c. 2. A ideia de prevalência do interesse da cidade ou do bem dos governados. sendo que a ponte entre a sua dignidade não é realizada pela mentalidade do Estado e das restantes entidades económicas. O Estado tem a sua origem na satisfação das necessidades do homem. ao contrário de todos os outros cidadãos. e. pode mesmo justificar que aos governantes seja reconhecida. Que antecedentes do Totalitarismo? Podemos apontar quatro autores fundamentais: i) Platão Um dos primeiros autores a pensar o totalitarismo foi Platão. instrumentalizando o indivíduo em prol do Estado. O crepúsculo totalitário O Estado liberal evolui assim para o Estado Social de Direito e para o Totalitarismo àquelas duas perspectivas O totalitarismo levanta desde logo um problema para a pessoa humana porquanto nega a centralidade da pessoa. não basta que a lei afirme o princípio de que todos são iguais perante ela quando efectivamente o não são. d. nunca deverá existir para garantir a liberdade dos cidadãos em fazerem o que lhes agrada. A própria lei. b. Critica o formalismo do Estado liberal. Surge assim a questão da igualdade real por oposição à igualdade formal. a intervenção do Estado justificar-se-ia apenas com uma natureza supletiva e apenas quando as organizações privadas não tivessem condições de assegurar um mínimo de justiça social. «mas para os levar a participar na fortificação do laço do Estado». Partindo da discriminação entre indivíduos superiores e indivíduos inferiores. determinando que o seu governo seja confiado ao filósofo. A pessoa existe em função dos objectivos que o Estado define. a possibilidade de mentir. ou seja. 24 .24 Assim. confere ao Estado a faculdade de seleccionar os cidadãos. A pessoa humana não estava garantida. Na sua obra A Republica traça já as características do modelo totalitário.

tal como as crianças que tenham alguma deformidade. daquilo que é fraco iii. Modelo de sociedade sem qualquer referência à dignidade de todos os homens. Cristianismo como o triunfo da moral dos escravos e dos fracos sobre a moral dos fortes ii. Ao Estado compete. Defensor de uma concepção política extremista. Proclama a existência de diferentes tipos de homem considerando a ideia de igualdade subjacente ao cristianismo e à democracia. ii) Nietzsche A obra de Nietzsche é no mínimo polémica. sujeitando a procriação a um regime de autorização. Instituição de um sistema de controlo estadual do número de casamentos e da própria selecção dos nubentes. g. Em síntese a obra de Platão é totalitarista e anti-humanista. exercido pelos mais fortes. cujos contributos para o totalitarismo são. h.25 f. O modelo de Estado idealizado por Platão assenta numa base racista: os filhos dos indivíduos inferiores. além de estipular que a mulher tem os filhos para a cidade ou para o Estado. Crítica profunda ao papel histórico e social dos judeus c. As conclusões principais ao seu pensamento são as seguintes: i. assente na supremacia de uns em relação aos outros. O cristianismo é a favor dos «casos falhados» b. Acusa a religião cristã de tomar o partido. encerrando reflexões de cariz racista. Filosofia anti-cristã do ponto de vista dos valores: i. elogiando a crueldade e condenando a piedade. Valorização da guerra em detrimento da paz dando protecção ao forte e propondo o aniquilamento do fraco. promover a educação e a instrução da infância e da juventude no sentido de se tornarem homens esclarecidos. devam ser escondidas em «lugar proibido e secreto». iii) Hegel 25 . sem prejuízo de. ii. encontrando na predestinação e na raça de uns o fundamento último da legitimação dos governantes. defendendo um poder forte. estabelece as premissas de um modelo de estado totalmente desvinculado de modelos morais de actuação. aos filhos dos indivíduos inferiores não ser preciso dar educação. entre outros: a. iii.

se destruiria. O Estado seria assim a única salvaguarda do indivíduo. Mais: é apenas como membro do Estado que o indivíduo tem objectividade.26 Coube a Hegel a formulação de uma concepção transpersonalista dos fins do Estado que se opõe ao personalismo ou humanismo. Hegel elevando o estado a valor supremo. determinando a conformação da vontade de todos eles em obedecer: a desobediência dos súbditos é o maior inconveniente que se pode colocar a um governo. vocacionada para a prossecução da universalidade de fins. elevando-se acima dos interesses corporativos e da sociedade civil e integrando em si os interesses particulares e os interesses colectivos. partindo do entendimento do Estado como expressão da íntima unidade entre o universal e o individual. Podem assim encontrar-se três ideias nucleares subjacentes à formulação conceptual da ideia de Estado totalitário: i. a solução para a paz e o bem comum de uma colectividade que vivendo no seu «estado de natureza». encontrando no Estado. absoluta. A liberdade apenas se compreende no âmbito do Estado. ii. sendo aí que a «liberdade obtém o seu valor supremo». São quatro os principais totalitarismo: elementos reveladores da influência de Hobbes no 26 . o Estado procura preservar a universalidade. iii. assumindo-se este como senhor dos destinos e dos direitos daquele numa clara visão transpersonalista. passando a existir. O Estado de Hobbes encontra no terror ou no medo que inspira a aplicação aos súbditos do castigo decorrente de qualquer violação do pacto a principal fonte da sua autoridade. O Estado representa a plena realização da liberdade dos indivíduos. patindo de uma visão pessimista sobre a natureza humana. procede à sua divinização. A transferência de todo o poder e toda a força de cada homem para o soberano por via do pacto ou contrato que determina que este passe a representar todos os demais significa que a vontade destes se submete à vontade daqueles. O Estado é uma instituição forte. iv) Hobbes Pode ser considerado como uma das principais fontes do totalitarismo do século XIX. surgindo este como «a única expressão da vontade pública». afirma que o indivíduo apenas pode realizar a sua liberdade como membro do Estado. verdade e moralidade. Por outro lado. Em seu entender. uma unidade de todos e de cada homem numa única entidade: o Estado. Existência de uma clara subordinação do indivíduo ao Estado.

São razões de segurança que justificam o Estado. ainda que contenha muitos dos principais elementos do totalitarismo. O Estado detém o monopólio do exercício do poder legislativo e fazendo da vontade do soberano legislador o único critério de justiça das leis civis. assente nos seguintes pressupostos: 1. seja por se revelar interventor na vida dos súbditos e da sociedade. ii. Marginalização e desvalorização da pessoa humana perante o Estado. nomeadamente. criando-lhe mesmo o dever de não impedir a acção do soberano. porquanto a sua teorização é ara além do mais.1. afirmando também alguns limites ao Estado.27 i. O Estado é ilimitado no seu poder. face à capacidade de protecção do soberano e a existência de certos direitos alienáveis do indivíduo. iv. Este movimento de contestação ao modelo liberal. iii. A amplitude intervencionista do Estado exige uma total rendição do indivíduo ao Estado. sendo o terror e o temor que alicerçam uma obediência ilimitada por parte dos súbditos. 3º. vir-se-ia a expressar através de quatro modelos político-ideológicos fundamentais. Fascismo 3. Pessoa humana e Estado social de Direito 3. Combate à neutralidade ou abstenção do Estado ± dirigismo do Estado. A pessoa humana passa a considerar-se como um instrumento do Estado. Casos há em que são evidentes os retrocessos. seja por recusar qualquer ideia de separação de poderes no interior do próprio Estado. como é exemplo a Revolução Islâmica. Combate ao Parlamento e ao modelo de democracia representativa 2. a saber: 1. Hobbes não pode ser considerado o fundador do totalitarismo. transformando-se num monstro administrativo. Será que a evolução da história é feita de modo progressivo na valorização da pessoa humana? Ou é feita de avanços e recuos? Nada está garantido. Maoismo Estas experiências levantam uma interrogação fundamental. Nazismo 4. 3. Este conjunto de teorias conduziram a que no início do século XX se desenvolvesse um forte movimento de contestação ao liberalismo. face a Deus. Todavia. Centralidade dos discursos constitucionais e internacionais 27 . Sovietismo 2. contraditória.

Este modelo social surge com a Constituição de Weimar (1919) ainda que dois anos antes. na Constituição Mexicana já tenha tido uma primeira expressão. etc. mas não faz esquecer o papel do Estado que tem ao mesmo tempo de garantir os direitos de matriz liberal e de promover a criação de um novo conjunto de direitos. Paradoxos da modernidade: século XX ± a idade dos direitos ou dos contradireitos O século XX é caracterizado pela grande amplitude de declarações de direitos nacionais e internacionais e pelas expressões constitucionais de direitos fundamentais. à segurança social.28 No período subsequente há II Guerra Mundial evidencia-se um movimento de aprofundamento das instituições liberais. é a de que a dignidade humana exige qualidade de vida.2. também foi o século XX quem assistiu às grandes violações de direitos (Holocausto. a Constituição de 1822 já aflora a questão com a introdução do que pode designar-se de pré-história dos direitos sociais (direito de assistência e instrução pública). positivamente. Estes concretizam-se nas prestações solicitadas ao Estado e que ele é obrigado a prestar. o direito ao trabalho. discriminando-as se necessário. O modelo económico é o de uma economia social de mercado ± É o caso da Constituição Portuguesa de 1976. através do desenvolvimento do designado Estado Social de Direito. os direitos sociais. genocídios. Todavia. o direito à saúde. O século XX foi o século dos direitos ou dos contra-direitos? 28 . Neste existe a ideia de que centralidade está nas pessoas. É um Estado com preocupações e que defende a igualdade real de todas as pessoas. No essencial. 3. a ideia central do Estado Social de Direito. Revolução soviética. São exemplo. Em Portugal. o direito à educação.

etc). Resulta. ampliando-se assim a titularidade dos «direitos fundamentais» às pessoas colectivas e. o crescimento do número destes direitos conduz a um esvaziamento da importância daqueles que são efectivamente mais importantes. esta perspectiva nos tempos que vão correndo. se por um lado. Esta situação pode encontrar-se no Artigo 2. no pluralismo de expressão e organização política democráticas. tem evidenciando uma proliferação de direitos de direitos chamados fundamentais e ao mesmo tempo dando azo à sua internacionalização. os direitos fundamentais são determinantes para a pessoa humana. por outro lado. direitos dos estudantes. Debilitação do que é verdadeiramente direito fundamental 29 . pois ao lado dos direitos inerentes à pessoa humana. começam a surgir «direitos fundamentais» de certas categorias particulares de indivíduos (direito dos trabalhadores.ª AULA O Estado de Direito é por definição um Estado de direitos fundamentais. daqui a característica da Constituição portuguesa consagrar um Estado empenhado na garantia dos direitos fundamentais. Efectivamente. Esvaziamento do Estado de direitos fundamentais Verifica-se hoje o culminar de um progressivo alargamento da noção «fundamentalidade» dos direitos. visando a realização da democracia económica. às próprias entidades públicas. que levanta algumas questões nomeadamente a de saber até que ponto o Estado de direitos fundamentais é uma realidade adquirida e irreversível nos regimes democráticos? A resposta a esta questão deve analisar-se em função de três questões: 3. Todavia. social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa´. baseado na soberania popular. Todavia. Assim o aumento do número de direitos considerados fundamentais acontece por três factores principais: i. baseado no respeito pela dignidade da pessoa humana e ao serviço da inviolabilidade dessa mesma dignidade inerente a cada pessoa individual e concreta.3.29 4. um tal alargamento do conceito de «direito fundamental» acaba por comportar uma verdadeira debilitação ou adulteração da «fundamentalidade» do próprio conceito de direito fundamental. no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes. dentro destas últimas.º da Constituição da República Portuguesa ³A República Portuguesa é um Estado de direito democrático.

expressando a violação de direitos fundamentais até então dotados de uma integral protecção jurídico-criminal. mas o direito de antena dos partidos políticos e associações por exemplo. Com efeito. Convocação de referendos ou a pura aprovação de leis despenalizando a interrupção voluntária da gravidez. entendendo que a inviolabilidade da vida humana se circunscreve à vida extra-uterina. ii. c. b.º 101 30 . se não mesmo à vida nascida e saudável.23 mas. Desenvolvimento de uma «cultura de morte».30 Esta debilitação surge mais reforçada quanto se assiste à despersonalização de certos direitos fundamentais dotados de uma natureza de verdadeiros interesses difusos ou colectivos. um verdadeiro «Estado de direitos fundamentais». tanto mais que a preocupação é por termo à vida quando mais se precisa da vida (aborto e casos terminais). expresso através de um modelo de «Estado humano». A aprovação de leis permitindo a eutanásia em pacientes terminais ou em grande sofrimento. este último tende a esvaziar a importância do primeiro. assenta num projecto de sociedade mais justa e solidária. Deste modo. também o é. Evangelium Viate. Esta situação conduz a três fenómenos: a. na eutanásia e na possibilidade de utilização de determinada práticas que desvalorizam a vida dos mais fracos. n. enquanto expressão de um alegado direito de cada um dispor da sua própria vida. o essencial cederá perante o acessório. Esta questão conduz-nos ao desenvolvimento de uma certa cultura de morte por contraponto de uma cultura de vida. Ex. Neste contexto. Para além disso não está fora de hipótese a procura de reivindicação e qualificação como expressão de direitos fundamentais certos comportamentos que por acção ou omissão se possam considerar como ilícitos criminais ou actos atentatórios da dignidade humana. O Direito à vida é um dos direitos fundamentais. Ex: Reivindicação da existência de um «direito ao aborto» como direito de cada mulher a dispor do seu próprio corpo e de um «direito a se prostituir» nos mesmo moldes. um pouco por toda a parte se vai permitindo uma progressiva restrição do direito à vida. de que são exemplo a legalização do aborto. É preocupante o resvalar de garantia do direito da vida. convertendo-se este em fundamental e aquele em secundário. Ausência de norma s jurídicas reprimindo criminalmente a utilização indevida de embriões humanos com o científicas. intuito exclusivo de investigação ou experimentação 23 JOÃO PAULO II.

As exigências de uma satisfação contínua e intervenção reguladora e prestacional do Estado. Também a dignidade da pessoas humana é fundamental assumindo o primado sobre o principio democrático. Alargamento das tarefas materiais confiadas à Administração Pública. baseada na dignidade da pessoa humana e .4. ³A vida humana é inviolável´. iii. b. Resulta assim a ideia de Estado que tem de garantir tudo o que os indivíduos pretendem o que pode conduzir a um Estado de mau estar. 3.´. expressando uma paradoxal debilitação das formas mais débeis ou frágeis da vida humana. como resulta do Artigo 1. Um considerável intervencionismo público sobre a esfera da sociedade civil. esbatendo por via disso a esfera de liberdade do indivíduo. Pelo desenvolvimento da hipertrofia do Estado de bem-estar.. sendo que a dignidade pode ser vertical. É assim que o hiperintervencionismo do Estado no sentido de conformar a sociedade acabou por conduzir a uma «desprivatização» do Direito Privado. Ex. uma democracia com valores assenta na dignidade da pessoa humana. A concretização do Estado de bem-estar gerou três principais efeitos: a. obscurecendo a própria dicotomia entre Direito Público e Direito Privado. Uma democracia sem valores coloca a tónica na simples acção da maioria. resulta da imposição do Estado de um princípio de segurança (contra a vontade das pessoas). O uso obrigatório do cinto de segurança. originaram uma progressiva desvalorização do papel decisório do parlamento. mas muito antes. Uma democracia sem valores A Constituição da República Portuguesa. pelo que é a dignidade da pessoa humana quem delimita a democracia e não o inverso. pelo contrário. retirando ao indivíduo a possibilidade de manifestar a sua liberdade de escolha.º 1 promove o enquadramento da questão. Deve acrescentar-se. no seu Artigo 24º n. horizontal. quando existe vinculação ao respeito pela dignidade da 31 ..31 Isto quer significar que a vida nascente e a vida terminal se tornaram violáveis ou disponíveis. c. mediante um protagonismo reforçado do executivo. O Sistema Nacional de Saúde se impõe aos seus utentes a obrigatoriedade de ser consultado por um médico determinado. acompanhado de um crescimento da estrutura orgânica dessa mesma Administração. aliás no próprio contexto da Constituição que a vida humana não se inicia com o nascimento.º da CRP ³Portugal é uma República soberana. quando o Estado tem o dever de respeitar os direitos dos indivíduos.

transformando o cadáver em verdadeira propriedade pública? 32 . trazendo por conseguinte. Esta questão coloca-se em três aspectos fundamentais: i. assim entendidas perdem o critério. A «cegueira ética» no âmbito da biomedicina e da genética O progresso científico e técnico veio mostrar que quase tudo o que se tem como ficção no mundo da genética se pode tornar realidade. instrumentalizando-o e transformando-o num meio. Esta situação verifica-se quando se perde a noção de que a ciência está ao serviço do homem e não o inverso. Por outro lado.24 Na época actual. designadamente após a morte. congelação de material genético. sob as categorias da acção racional dirigida a fins e do comportamento adaptativo. Exige-se então que o Estado tenha de «substituir a sua tradicional ética negativa por uma ética positiva». revela. integrada numa sociedade tecnocrática que envolvendo uma autocoisificação dos homens. ii. Escravização do homem O problema coloca-se face aos transplantes de órgãos e outras manipulações. Será que poderá o Estado intervir no processo de disposição do corpo humano ou de partes autónomas do mesmo. a ciência e a técnica entendidos no domínio do progresso científico assume uma dupla função nas modernas sociedades: é força produtiva e ideologia. Esta evidência conduzindo a uma interdependência entre ciência e tecnologia. centrando-se na questão da disponibilidade do corpo humano em liberdade total pelo indivíduo ou pelo Estado ou pelo contrário se deve ser proibida tal utilização. As manipulações genéticas. a inseminação artificial pós-mortem.32 pessoa humana e auto-dignidade. Degeneração do progresso técnico-científico No decurso dos anos 60. Estas novas acções do homem conduzem a muitas questões e a um sem número de problemas jurídicos relativos à pessoa humana. começou a surgir a consciência de que a técnica e a ciência se transformariam na fonte legitimadora das instituições e opções políticas. é preciso ter presente que a pessoa é a razão de ser da ciência ou da técnica e não a ciência ou a técnica que está ao serviço da pessoa e não a pessoa que se encontra ao serviço da ciência ou da técnica. Ciência e a técnica. havendo mesmo quem as tomasse como uma nova «ideologia». o fim do seu objecto. uma subtil forma de exercício de coacções manipulatórias. impõe ao indivíduo uma determinada forma de vida. que se traduz na dignidade que temos por nós próprios (irrenunciabilidade aos nossos direitos).5. a clonagem. quando deixam de estar ao serviço do homem e o deixam de considerar como um fim. 3. o problema dos limites da própria investigação.

Assenta para além disso na ideia de uma sociedade onde não existe privacidade. Disponibilidade do corpo após a morte. Esta questão evidencia-se essencialmente no facto de que a dignidade humana não se extingue com a morte. HERBERT MARCUSE e JURGEN HABERMAS 33 . o modelo orwelliano de sociedade A explosão do progresso tecnológico no campo audiovisual.33 A liberdade de cada um sobre o seu próprio corpo acabará por redundar num verdadeiro poder absoluto de vida ou de morte de uns sobre outros: a liberdade converter-se-á em fonte de escravidão. na qual o Estado tudo controla. 2. restaurantes. A liberdade de que goza o estado transforma-se assim em escravidão para o homem. lojas. a substituir-se à declaração expressa de cada pessoa. Trata-se no essencial da utilização do corpo humano para experiências de índole científica. gerando conflitos entre a garantia de todos contra a invasão da sua privacidade pela simples captação ou utilização por terceiros da respectiva imagem ou de informações pessoais sem sua informação. Destas distinguem-se: 1. dotando-os de um estatuto de perenidade. O progresso tecnológico provoca uma restrição do espaço de liberdade de cada um. Não é possível a disposição do cadáver para certos actos atentatórios da dignidade do homem. sendo o modelo de Estado de Segurança. o prioritário. sem intimidade. Tem no entanto uma função positiva (segurança das pessoas) e uma função perversa (presunção de cada um não é inocente). etc). sem embargo de aceitar uma declaração expressa em sentido contrário. iii. A disponibilidade em vida ± principio da autonomia da vontade das pessoas e a gratuitidade da sua utilização. 24 Cfr. criando um consentimento tácito ou uma vontade presumida de todos se configurarem como dadores de órgãos e tecidos por morte. permitindo a captação de imagens e de sons e a sua subsequente transmissão e reprodução. metro. possibilitou que se materializasse e conservasse tais imagens e sons. É a utilização dos conceitos de televisão onde o controle das pessoas é feito a cada momento (bancos. fundado num principio de solidariedade entre os membros da sociedade. A utilização do corpo humano após a morte está abrangida pela dignidade da pessoa humana. Todavia. o Estado tem vindo.

mostra alguma resistência à intervenção normativa reguladora. Verifica-se na actualidade de que as novas tecnologias no domínio da comunicação envolvem multiplicidade de informação e rapidez de acesso a toda uma diversidade de destinatários. Concepção personalista da pessoa humana Três elementos caracterizadores da perspectiva personalista da pessoa humana: i. iii. CAPITULO II Coordenadas dogmáticas da tutela jurídica da pessoa humana 4º. o que traduz. A sociedade da informação. no reforço do pluralismo e um considerável desenvolvimento cultural e por outro. Quem é? Supõe-se a existência de um vínculo jurídico de uma pessoa e de um Estado. O cidadão Ideia de cidadão. iv.º Dimensão política da pessoa humana Apontam-se quatro vertentes a ter em consideração: 5. A cidadania 34 .1. Centralidade da dignidade da pessoa humana O homem tem de ser entendido como um fim e não como um meio. uma zona desregulamentada. estamos perante um apátrida. reúne todos os requisitos para se tornar a base de um verdadeiro império Relaciona-se com os meios de comunicação de massas os quais podem em múltiplas circunstâncias atentar contra a dignidade da pessoa humana. saber que está a ser filmado e tem o direito de recusar que a sua imagem seja captada´. O império das redes de comunicação. mormente quando se expõe a pessoa humana a um modo atentatório da sua privacidade. envolvendo elevados interesses privados que. ii. perante os outros e perante nós próprios. do Direito. é o que importa saber. ao gerar um conflito entre a liberdade de informar e a privacidade de cada um. Existem direitos inalienáveis da pessoa humana que o são perante o Estado.34 Existe o direito a cada um de nós saber ³quando entra em algum local. Quais os limites que se impõem à comunicação social. O ser humano como razão de ser do Estado. por um lado. Se não existir vínculo. Pessoa e democracia. da Constituição e como sujeito da história 5.

Pessoa e Nação: a comunidade A nação é uma comunidade de pessoas ligadas por um vínculo cultural. como por exemplo. Assenta aqui também o Principio das nacionalidades. A pessoa encontra-se integrada num espaço global. 5. de que são evidentes os exemplos históricos (judeus. Na sua relação com o Estado a pessoa humana assume a posição de povo. 5. Pessoa e humanidade: o legado internacional Conduz ao designado legado internacional. o mesmo acontecendo com a lua. pois este não existe sem aquele. 5. Pessoa e Estado: o povo Não se esgota no vínculo de cidadãos ou fora dela (os estrangeiros também têm direitos) a relação da pessoa humana. a língua. a cidadania não se manifesta apenas ao nível da possibilidade de representação do cidadão. não apropriáveis individualmente. enquanto dimensão cultural no presente e no futuro. a história comum e a partilha de ideais religiosos.3. dependendo esta fundamentalmente daquela. não sendo sobre eles permitido a criação de direitos de natureza comercial. pela possibilidade de intervenção nas decisões públicas. mas também do terrorismo). ou os recursos marinhos. mas também ao nível da participação política. palestininianos. o processo de descolonização. sendo assim necessário para a sua afirmação.4. Por outro lado. que é a própria humanidade não podendo dispor de certas matérias livremente.35 exige este vínculo assim como pressupõe a representação política. exprimindo assim uma noção cultural que liga as pessoas ao Estado. etc). O solo e o subsolo do alto mar. pelo qual cada Nação deve corresponder a um Estado (condutora da unificação alemã e italiana do século XIX e da autodeterminação dos povos. Ex. ou o genoma humano.2. o ambiente. e apelando para a ideia de comunidade (entendida como) e para a existência como traços fundamentais da unidade cultural. sendo este o substrato humano do Estado. sendo considerados direitos desta natureza a possibilidade que o indivíduo tem de eleger os seus representantes e ser eleito. 35 . A pessoa na sua relação com a humanidade conduz ao património da humanidade. o legado geracional. A pessoa relaciona-se com o Estado através do povo.

Poder religioso iv. ou seja. contrato individual de trabalho 6. Poder económico iii. Delimitação do estudo: o poder político 36 .º PODER POLÍTICO Capítulo I Noções preliminares 6. Conceito e tipologia do poder 6.na detenção da informação dentro da Administração .2. Poder inter-privados ± Autoridade entre particulares ± família.Meios de comunicação social v. Poder informativo Este pode subdividir-se: .36 5.1. Autoridade ± Delimitada em função do sujeito e respectivos destinatários. Quando não existe obediência o poder está em causa. 6. Poder político ii. Obediência ± Os destinatários da autoridade têm de aceitar as ordens de quem tem autoridade. ii. condicionada por quem a exerce.ª AULA TÍTULO 2. Quando se fala de poder é necessário ter em conta duas realidades: i. Tipos de poder Existem diversos tipos de poder i.3. Conceito de poder O poder político é parte do poder se entendido este de forma geral. face aos destinatários e face à matéria. É importante salientar que o poder não se esgota no Estado nem este tem o seu monopólio.

1. Marcello Caetano entende que o Poder político está obrigado a respeitar os limites naturalmente decorrentes da sua finalidade específica. Tipos de poder político i. Limitação do poder O poder é ou não absoluto? Deve ser limitado ou não? As respostas têm sido variadas. Por outro lado. Esta corrente foi desenvolvida por Jellinek. uma vez impostas aos cidadãos. Para Platão. Problemas históricos do poder político Um dos principais problemas que se coloca no âmbito do poder político é o da satisfação das necessidades da colectividade. a suficiência da vinculação jurídica por declaração unilateral da vontade e o carácter jurídico do poder político e da soberania. voluntariamente se submetem também. Poder político informal Traduz-se naquele que expressa o exercício de uma autoridade. mas que não é resultado directo de uma Constituição. o governante. Ex: o exercício do poder pelos militares. Para além disto. o poder político não é susceptível de outra limitação jurídica senão a proveniente das suas próprias leis às quais. Poder político formal Este traduz-se no poder expresso pelos órgãos identificados formalmente pela Constituição ± perspectiva normativista ou formal. Radica nele a génese do Estado de Direito (poder limitado pela lei). o poder deve ou não ser limitado pela lei? Esta questão coloca dois problemas: Autolimitação do poder ± o poder deve estar limitado pelos actos que faz. 7. que o governo justo é o governo das leis. para quem o Estado fica eficazmente obrigado. por vontade própria. sendo sábio não precisa de limites. às leis que elabora. Este tipo de poder escapa ao contexto normativo e jurídico. Constituição de 1933 (acordo tácito de que o PR deveria ser militar). ii. o que implica 37 . sobre três princípios fundamentais: a necessidade da «confiança social». pelo que são elas que se assumem como a centralidade ao invés do homem. entende por seu lado. Constituição de 1976 (grande parte desta constituição resulta de um compromisso entre a legitimidade militar e a legitimidade partidária ± Criação do Conselho da Revolução). Neste entendimento. Aristóteles.37 a. Esta satisfação evidencia as três questões que se colocam do ponto de vista histórico: i.

O Direito está na lei do Estado. mas os direitos individuais são. Coimbra. fonte de toda a Ordem jurídica. Todos os autoritarismos e totalitarismos se encontram neste caso. deve entender-se como todo o Estado que realize os seus fins por meios ou processos jurídicos. por sua natureza subordinada ao Direito vigente. Os fins do Estado são variáveis consoante a direcção política adoptada. Todos os órgãos do Poder político ficam sob o domínio do Direito. Reimpressão. os que a lei positiva conceder. Neste caso. Almedina. consistindo a autoridade num sistema de restrições só admissível n medida estritamente indispensável à coexistência das liberdades individuais. Estado de direito material ± O poder está limitado por regras. Hoje. não há nada a fazer senão acatá-la. resultando daqui a diferença entre: Estado de direito formal ± O poder é limitado pelo próprio poder. O Estado deve submeter-se à legalidade: o cidadão ao seu dispor o recurso aos tribunais para se defender dos actos do Poder ofensivos da lei e dos seus direitos. Neste sentido. mas os órgãos superiores que superintendem nos órgãos ou agentes dessa função devem também respeitar as leis existentes e as aplicações concretas que delas sejam feitas. 38 . Manual de Ciência Política e Direito Constitucional. A lei é feita e vigora à semelhança da vontade do poder.38 a subtracção ao seu império da zona própria das funções e fins das sociedades primárias e da pessoa humana. é particularmente importante no que respeita à função executiva. As regras de Direito são formuladas por via geral e impessoal: praticamente está na generalidade das leis ± na impossibilidade jurídica de o Poder exigir de certa e determinada pessoa qualquer prestação ou comportamento sejam exigíveis e todas as pessoas nas mesmas condições. o Estado de direito é aquele em que o poder político aparece como simples meio de realização e garantia dos direitos individuais naturais. O poder não pode modificar as orientações que lhe são externas. valores e leis que não se encontram integradas no próprio poder. previamente definidas ± a garantia fundamental dos cidadãos. Quanto à autolimitação. formando não só pelas leis positivas votadas pela colectividade ou em seu nome. o poder está limitado por acções que transcendem o próprio poder. Se a lei negar os direitos individuais. O rei está limitado por Deus e pela justiça. mas sobretudo pelas leis 25 MARCELLO CAETANO. apenas.25 Heterolimitação ± Poder está limitado por actos que não dependem dele próprio. O valor supremo da sociedade política é a liberdade.

mas é também. E cada um deve receber a remuneração adequada à sua contribuição para o todo (justiça distributiva). p. mas também existem limites de facto que condicionam o poder político (medidas impopulares tomadas pelos governos em proximidade eleitoral) ii. Ex: costume. ou seja. ainda que se entenda o carácter relativo da justiça ela não deixa de ser a realização constante do supremo valor jurídico. Existem assim poderes que o são de facto e condicionam o próprio poder político formal. sendo que se torna missão do poder político prover em maior ou menor escala à satisfação das necessidades complexas da cultura e da economia de um Estado. pretendia-se alcançar a Justiça.39 naturais decorrentes do dogma da liberdade individual originária. retribuição desigual. nas relações entre os homens ao arbítrio da violência individual certas regras ditadas pela Razão que satisfaçam o instinto natural de Justiça. não podendo ser realizado pelos indivíduos isoladamente ou sequer pelos seus grupos primários. Ainda deve relevar-se a questão da articulação entre o Direito e os factos. Direito inaplicável (A disposição constitucional da transição para o socialismo e da implementação de uma sociedade sem classes). os leva a apelar para um poder que congregue e oriente a acção colectiva e ao qual muitas vezes se atribui carácter mágico. Ex: Direito sem efectividade e que se torna num não-direito. Esta perspectiva foi a prosseguida no decurso do século XIX na tentativa de alcançar um ideal. ou seja a convivência entre o mundo do Direito e o mundo dos factos. Casos existem em que este último pode estabelecer uma ponte para o mundo do Direito. O mundo do Direito pode no entanto. Fundamentos do poder Trata-se da razão justificativa do poder. Estes seriam os três fundamentos do poder. nunca passar para o mundo dos factos. Através da segurança. Efectivamente a sociedade política existe para substituir. A segurança não é apenas a organização da força colocada ao serviço de interesses vitais. 299 e ss 39 . Finalmente. No conjunto de ambas o Bem-estar. 1989. alcançar relações de mútuo respeito e de equidade. nas permutas deve haver equivalência dos valores permutados (justiça comutativa). a garantia da estabilidade dos bens e da duração das normas e irrevogabilidade das decisões do Poder que importam justos interesses a respeitar. Porque existe o poder político? Qual o fim que alicerça o poder político? A razão justificativa começou por ser a Segurança o fundamento do poder: a instituição do poder político é um instrumento de defesa externa e de paz interna. Assim. É o desejo de bem-estar que. ou seja. Na justiça comutativa a regra é a da desigualdade para remunerar cada qual segundo os seus méritos: a serviços desiguais.

A Comunidade Internacional é desequilibrada. aqueles que se apossam do governo pela violência e caso manifestem a intenção de exercer o poder no interesse e para proveito da sociedade política. a. 40 . A única sociedade política com mecanismos coactivos de financiamento próprio ± poder fiscal ou financeiro. A legitimidade de exercício resulta do desempenho da função de acordo com os fins para que ela haja sido instituída. d.2. Comunidade internacional O poder político pertence a toda a comunidade internacional. Os governantes são-no de direito quando investidos segundo as normas que devem ser acatadas. não depende de nenhum outro poder. por quatro razões: a. Centro autónomo de produção normativa. Instituição de poder político mais directamente relacionada com as pessoas. 7. Formas institucionais de expressão do poder político Quem é que para além do Estado exerce o poder político? Podemos considerar a existência de três formas institucionais do poder político: i. Teoricamente existe desde Vestfália um principio de igualdade entre os Estados ± cada Estado um voto -. É a que historicamente mudou e desenvolveu o conceito de soberania (vontade permanente do poder) c. A legitimidade pode ainda distinguir-se quanto ao título e quanto ao exercício. ONU. com grandes Estados (potências) com assento permanente e direito de veto. Na prática nem todos os Estados são iguais.40 iii. b. A legitimidade de título existe quando o governante é investido no cargo de harmonia com as normas estabelecidas para a respectiva escolha e investidura. Estado É a sociedade política mais complexa. Legitimação dos governantes Designa-se por legitimidade de um acto a sua conformação com as normas que regem a a respectiva produção. Ex. b. ii. ou seja. sendo-o de facto.

. Neste caso.Não existe limitador ao poder internacional . O Estado como uma realidade necessária. b. União Africana).E é um fenómeno de criação dos Estados Membros. Por outro lado. O Estado é o alicerce de toda a humanidade. O poder político expresso pelas Nações Unidas obedece ao poder de facto dos Estados. CEI. Delimitação do estudo: o Estado Aqui surge um problema central: qual é a justificação do Estado? Algumas concepções pretendem justificar o papel do Estado: a. É aqui que o Homem se realiza e adquire sentido. Ex: Moeda Única. Hegelianismo. Vide Sistema Económico ± art. iii) Integração supranacional Integração dos estados em organizações superiores ao próprio Estado. porque: . mas não é tudo. Existe já uma prevalência do direito comunitário sobre o direito interno. o fenómeno da integração europeia é hoje um fenómeno que mais debilita a soberania dos Estados: O Estado foi expropriado desses poderes e as matérias da EU têm primado sobre o direito interno. Ex.º e ss da CRP 7. a aplicação dos factos em detrimento dos princípios. deve ter-se em atenção que a U. ou seja. União Europeia. Mercosul.Violação dos princípios das Nações Unidas. Razões explicativas do Estado: 41 . O Estado é uma entidade desnecessária e até ilegítima ± anarquismo. Na Comunidade Internacional o que se assiste hoje é a um fenómeno de integração supranacional (U. c.8. Esta situação tem sido historicamente um progressivo alargamento deste poder.41 c. onde se levou mais longe a ideia da criação deste tipo de poder. através da regra da Unanimidade. sendo que cada alteração dos tratados constitutivos tem de passar pela ratificação dos Estados Membros. não é absoluto. O Estado é a razão de tudo. É um poder duplamente imperfeito.3. Projecto de Constituição Europeia. é uma realidade relativizada. Nenhuma tem paralelo com a EU. Os grandes Estados assumem o comando dos factos até à violação das normas da ONU.E.

É o que caracteriza o Estado feudal. a que é dominada por indivíduos mundanos. Concepção teológica ± O Estado resulta da vontade de Deus ± origem divina do poder . O modelo desta teoria foi tirado do regime feudal. cúrias e tribos. na outra o amor de Deus. Na Idade Média. considerado parte da ordem criada pela graça divina. a doutrina cristã tornou-se mais positiva em relação a este. conduz a admitir uma fusão de grandes famílias patriarcais e grupos destas famílias com gentilidades. ii. Ambas se encontrariam em luta entre os homens: dum lado. sobre os súbditos. Ex. S. cuja divisão em gentes. Na doutrina portuguesa debate-se este sentido. Esta teoria parte do principio de que o Estado. Paulo -. graças à sua fé. no seu livro De Civitate Dei. uma comunidade cristã. Teoria patrimonial ± O que caracteriza o Estado é a ideia de património. fundamentando-se na Bíblia. Teoria patriarcal ± O Estado deriva de um conjunto de famílias que decidem juntar-se. Santo Agostinho desenvolveu a teoria das duas «cidades» a comunidade secular e a cidade de Deus. Outros entendem que a sua origem é satânica e não divina. contudo suficientemente as linhas da evolução histórica e a justificação geral do Estado para além de que apenas se poderia aplicar à forma monárquica do Estado. Ambas as «cidades» eram pensadas como ordenamentos concretos de relações entre os homens. depois de a Igreja ter assegurada uma posição forte e indiscutida no Estado. de propriedade. Procura um exemplo para tal no caso do velho Estado romano. atribuir aos chefes deste um poder idêntico ao da pátria potestas. A Bíblia apontava também o nascimento do Estado Hebraico a partir de uma família. a comunidade dos crentes que formam. A doutrina católica moderna conservou uma atitude positiva perante o Estado. 42 . partindo desta ideia sobre o aparecimento do Estado. Numa delas dominaria o amorpróprio. A ideia fundamental é a de que o poder soberano assente na propriedade da terra dentro do território do Estado. Primitivo Estado Romano e Hebraico. os vassalos e subvassalos ao passo que os terratenentes apenas podiam ser considerados como simples pertença da terra e do solo. em que domina o amor de Deus e do próximo e não o amor de si mesmo. do outro. Estava assim ao alcance das especulações jurídico-políticas. através do pacto feudal.42 i. historicamente deriva da família ou de um conjunto de famílias. Esta teoria não distingue. no qual o rei possuía a propriedade ou domínio sobre a terra e o solo e prendia a si. iii.

1. Capítulo II Estado: realidade histórico-jurídica 8. Estado pré-liberal É o Estado que caracteriza a organização anterior ao liberalismo. ii. Três regras no relacionamento do Estado com a sociedade: 1. A ideia da formação por via contratual da soberania do Rei encontra-se também na base da doutrina medieval do direito à resistência. O Estado garante qualidade de vida e a liberdade do homem.43 iv. Rousseau e Montesquieu e Kant. É com as teorias contratualistas que mais se difundiu a confusão entre o ponto de vista de uma justificação e o das descrições históricas. O Estado tem como principal função garantir a segurança e promover a justiça e o bem-estar dos cidadãos. cujo critério histórico é o liberalismo: Estado pré-liberal. 8. Estado oriental 43 . Concepção contratualista ± O Estado é um produto da vontade dos seus membros. Um exemplo desta natureza contratualista do ponto de vista histórico é o que encontramos na aliança contraída entre David e as tribos de Israel. Tem várias formulações. Locke. mormente para garantir os direitos sociais. O Estado assenta num contrato.º Evolução dos modelos de Estado Podemos considerar a existência de quatro modelos de Estado. anti-liberal e pós liberal. 3. Anterior ao moderno Estado Europeu e à ideia de soberania i. Intervencionismo ± O Estado pode e deve intervir em algumas circunstâncias. liberal. Neutralidade ± Ligada com a ideia de pluralismo e igualdade e imparcialidade 2. Fins do Estado: i. Subsidiariedade ± O Estado não deve esvaziar o campo de acção dos indivíduos. Só deve intervir nas matérias onde as pessoas o não possam fazer. Podemos considerar dois períodos: a.

Prevalência do factor pessoal ± O Estado é a comunidade dos cidadãos.Forma monárquica ± O monarca é entendido como um Deus . igualdade perante a lei e perante a actividade política .Diversidade de formas de governo iii. .O desenvolvimento da noção de poder político. devido á pequena extensão do território .Larga extensão territorial e aspiração a constituir um império universal ii. mesmo quando detém um vasto império em três continentes.Ordem desigualitária.Relativa pouca importância do factor territorial.Teocracia ± poder político reconduzido ao poder religioso .A progressiva atribuição de direitos aos estrangeiros e a formação do jus gentium como conjunto de normas reguladoras das relações em que eles intervêm 44 . .Reduzidas garantias jurídicas dos indivíduos . sendo um Estado de base municipal. como poder supremo e uno.Deficiência ou inexistência da liberdade fora do Estado ou redução da liberdade individual á participação no governo da Cidade .A consciência da separação entre o poder público (do Estado) e o poder privado (do pater famílias) e a distinção entre Direito público e Direito privado .44 Os seus traços mais importantes são: . Estado romano Roma constitui-se pelo agrupamento das famílias e das gentes. cuja plenitude pode ou deve ser reservada a uma única origem e a um único detentor .Fundamento da comunidade dos cidadãos ± A comunidade religiosa unida no culto dos antepassados . Estado grego Os seus traços mais importantes.Realce da isonomia. Apresenta como peculiaridades: . são: .A consideração como direitos básicos do cidadão romano não apenas do jus suffragii (direito de eleger) e jus honorum (direito de acesso à magistratura) mas também do jus connubii (direito de casamento legitimo) e do jus commercii (direito de celebração de actos jurídicos). hierárquica e hierática da sociedade .

A expansão da cidadania num largo espaço territorial iv. O Estado medieval É importante questionar se existiu efectivamente Estado medieval e o sistema que lhe está associado. o feudalismo.O conceito de dominium substitui o de imperium O Estado medieval em Portugal assumiu as seguintes características: Centralização do poder real Expansão de base territorial ou base marítima perspectivada de forma diferente por diferentes forças políticas Relevância das ordens as quais deram um aspecto corporativo ao modelo de Estado É com um modelo deste tipo que se chega ao século XVI. ligados por vínculos contratuais .Dissolução da ideia de Estado . Características principais: .Privatização do poder . tendo a seu favor apenas o título ou a extensão do domínio . numa cadeia de soberanos e vassalos. 45 .A realeza fica reduzida a uma dignidade ou prerrogativa no cimo da ordem feudal.45 .A ordem hierárquica da sociedade traduz-se numa hierarquia de titularidade e exercício do poder político.

O rei alia-se-lhes com o intuito de derrotar a nobreza e com isso centralizar o poder na sua pessoa. Trata-se de uma monarquia limitada na qual existe uma dualidade política entre o rei e as diversas ordens. 46 .2. Em Portugal a lei da Boa Razão da autoria do Marquês de Pombal é um exemplo evidente desta situação. Também o sistema de Administração Pública passa a assentar na hereditariedade dos ofícios. É a concretização da perspectiva de Luís XIV de que ³L´´Etat c¶est moi´. XVI e XVII.46 6. e conduzindo a um modelo positivista das fontes de direito. Outra característica é a da arbitrariedade do monarca pela ausência de regras no exercício do poder. garantindo apenas a regulação do sistema económico. Do ponto de vista da intervenção do Estado na sociedade ela verificava-se essencialmente no âmbito económico. O Estado absoluto Este resulta da sucessiva centralização do poder do rei. Estado assente na ideia de soberania . Estado liberal Este tipo de Estado é um produto do Iluminismo que se desenvolveu no decurso do século XVIII e que colocava o individuo no centro da vida social. transformando-o num Estado abstencionista. Podemos definir dois modelos: i. 8. Uma das suas primeiras características foi a da redução da intervenção do Estado na economia. As regras jurídicas passam a ser escritas. ii. As Cortes têm um papel importante ainda que se discuta o seu papel e em que circunstâncias o rei as devia convocar.ª AULA b. sendo que no fundo se tratava de saber até que ponto elas vinculavam o rei ou apenas serviam como órgão de conselho. os quais também podiam ser vendidos ou simplesmente alugados.Bodin. o que se vai verificando ao longo dos séculos XV. retirando assim expressão ao costume. O Estado corporativo É o resultado de um modelo de equilíbrio entre o rei e as diversas corporações.

composta de representantes 47 . o que conduziria à divinização do Parlamento e a separação de poderes (legislativo. passando a limitar-se a garantir a segurança e a propriedade dos cidadãos deixando o campo livre para a iniciativa privada. inalienável e imprescritível. exercido sob a sua fiscalização por uma Assembleia única. Foi a instituição de um democracia antiliberal. E assim delega o Poder Legislativo na Assembleia Nacional. de 1793. una. A soberania está em todos eles que. donde dimana todo o poder.47 O Estado não devia regulamentar a vida económica. sendo três poderes distintos.º. pois que tende à distinção rígida de autoridades que se encontra na fórmula constitucional de 1791 e depois na do ano III. com as dificuldades subsequentes. Os jacobinos pretendiam afirmar o poder soberano do povo. encontraremos consagrada uma concepção totalmente diferente na organização do poder político. resultando ao mesmo tempo a ideia da existência de direitos fundamentais dos cidadãos. não tem constituição». Da indivisibilidade da soberania resulta o corolário de que cada um destes poderes é soberano sendo a sua acção mero aspecto ou forma de exercício integral da soberania. o Poder Executivo no Rei. depois de proclamar a soberania da Nação. mas a fracassada Constituição Republicana de inspiração jacobina. executivo e judicial) passa a ser elemento determinante do Estado. Este modelo de Estado chegaria aos nossos dias a partir de duas interpretações distintas: i. e o Poder Judiciário nos juízes eleitos temporariamente pelo povo. Interpretação francesa da separação de poderes ± Constitucionalismo francês Nesta um poder não intervém na esfera de outro. A divisão de poderes parte do pressuposto de que pode limitar o poder. não a Constituição monárquica. A lei é função da vontade geral. indivisível. É logo no decurso da Revolução Francesa que esta fórmula inicia a sua vigência. no seu Título 3. A Constituição de 1791. Esta concepção afasta-se da inglesa e americana: nem é sequer a que se encontra em Montesquieu. não pode exercê-lo senão mediante delegação. Se considerarmos como expressão do espírito da revolução. atribuindo ao povo o poder supremo. Na declaração dos direitos do homem e do cidadão votada em 1789 se afirma que «toda a sociedade na qual não esteja assegurada a garantia dos direitos nem determinada a separação de poderes. A sua base de inspiração foi Locke e Rousseau. acrescenta que a Nação. traduzem um só Poder verdadeiro: o da Nação. e pouco se lhes dava por isso acautelar as liberdades individuais. como era usual até então.

Todavia. Para além de tudo isso. confiado a um só homem. Interdependência americana ± Constitucionalismo americano É característica fundamental a sistema de freios e contra-freios (checks and balances). assegurava a execução das leis. Os autores da Constituição americana fraccionaram as funções. contanto que o faça de acordo com as leis. e estabeleceram a colaboração forçada dos vários órgãos de exercício de cada uma. no decurso do século XX o Estado liberal sofreu a contestação quer 48 . E isto repete-se. faz as leis mas não superintende no governo. O conselho executivo. mas podendo as leis ficar suspensas se em metade e mais um dos departamentos um décimo das assembleias eleitorais primárias reclamasse a submissão a um referendum. Os tribunais são independentes mas podem anular os actos ilegais do Executivo e os actos inconstitucionais do Legislativo. Este é o modelo que se verifica até ao fim do século XX. O poder executivo era. bicameral. O Estado liberal assenta na existência de uma Constituição.48 eleitos e à qual fundamentalmente competia o poder legislativo. ii. As Constituições dos Estados membros do Bloco Leste seguiram de perto este modelo. O Executivo. sendo a lei o fundamento da actividade do executivo. mas com importância acrescida é a existência do princípio da igualdade (todos são iguais perante a lei). como simples emanação e delegação do poder legiswlativo e a este sempre submetido. O Congresso. embora o Senado possa impedir a nomeação de certos funcionários e a celebração de tratados. É o célebre sistema de freios e contra-freios (checks and balances) que Jefferson definiu como aquele em que «os poderes estão de tal forma repartidos e equilibrados entre os diferentes órgãos que nenhum pode ultrapassar os limites estabelecidos pela Constituição sem ser eficazmente detido e contido pelos outros». Finalmente importa dizer que o conceito liberal de Constituição política ficou assim reduzido à garantia dos direitos individuais e à separação dos poderes do Estado. subalternizado. em cuja elaboração não participa mas que pode obrigar a rever e ponderar pelo Congresso antes de as promulgar. sempre como mero processo técnico de evitar o despotismo. Na Constituição de Filadélfia encontra-se a fórmula de especialização dos órgãos e de recíproca limitação dos seus poderes preconizada por Montesquieu. eleito por essa assembleia de entre uma lista formada por um nome designado pelo sufrágio popular por cada departamento. tem plenos poderes para actuar. limitar a autoridade e garantir as liberdades individuais e não em homenagem a qualquer teoria abstracta. Tudo se reduz a fórmulas práticas de equilíbrio dos órgãos supremos do Estado com o objectivo concreto de impedir a concentração e o exercício despótico do poder. pois.

China . Estado post-liberal O Estado post-liberal é o tipo de Estado que resulta da crítica ao Estado liberal e que se evidenciou sobretudo a partir dos anos 70. . . Matriz corporativa Ambos os modelos são anti-parlamentares. Matriz marxista ii.Valorização do Parlamento .O Estado passa a assumir um carácter intervencionista e dirigista. pretendem a desvalorização do Parlamento como instituição do Estado. o qual assenta em dois modelos: .( neo-liberalismo) quer daqueles que o pretendem colocar definitivamente em causa (anti-liberais). Outras características fundamentais deste modelo são as seguintes: . criticando o Estado providência e a perspectiva social daquele tipo de Estado.4. a saber: .A personalização do exercício do poder.Principio da separação de poderes 49 . 8. através da sua presença ao lado dos agentes económicos e como condicionante da liberdade dos particulares. ou seja.Revogação dos valores fundamentais da pessoa humana (o individuo é um meio para os fins do Estado).Desvalorização e instrumentalização da pessoa perante o Estado.Modelo capitalista Em qualquer dos casos o forte intervencionismo do Estado manifesta-se. 8. Estado antiliberal Este modelo de Estado assentou em duas formas de expressão: i. .Modelo de concentração de poderes .Colectivista ± URSS. ambos os Estados apresentam características comuns.3. No entanto.49 daqueles que entendiam como necessário o seu desenvolvimento ainda que sem o colocar em causa.

A integração da União Europeia Convergência de um Estado com características preventivas de segurança subalternizando o valor da liberdade. Iniciou-se em Portugal com a Constituição de 1933.Força normativa da Constituição escrita Existem também diferenças fundamentais entre ambos os tipos de Estado: A Perspectiva do Estado perante a sociedade é para o Estado liberal marcadamente intervencionista com a aplicação dos direitos sociais e agindo como um agente económico. a redução das prestações sociais. O Estado post liberal pretende contestar o espaço de intervenção do Estado liberal pela crítica ao excesso de Estado protagonizado por este último. Estado Social de Direito.Desregulação de certas matérias . melhor Estado´ e de que foram principais percursores Ronald Reagan e Margareth Teatcher. Fragmentação do Estado A fragmentação do Estado ocorre por quatro motivos fundamentais: i. A Comunidade   50 . Para além disso. Internacionalização: a erosão do ³domínio reservado dos Estados Comunidade Internacional. etc -. Posição adoptada: A Constituição da República Portuguesa continua a consagrar um Estado de bemestar. preconiza ainda a redução do papel do Estado na economia ± principio de subsidiariedade e como consequência a privatização da economia. 9. O modelo de economia portuguesa tem fortes indícios da visão neo-liberal: .Privatizações e reprivatizações .Não há Estado de direito sem que esta separação se verifique .50 .Atribuição em exclusivo da função jurisdicional aos tribunais . afirmando o lema de ³menos Estado. Existe hoje e cada vez com maior evidência um conjunto de matérias que escapam à intervenção decisória do Estado.Progressiva deslocação do exercício da função legislativa do Parlamento para o executivo (Parlamento perde o monopólio do legislativo . A CRP mantém-se fiel à chamada do Estado social. Existe hoje ou não um modelo de Estado social? Depende da perspectiva.

Não é possível ao Estado criar fronteiras à comunicação. a qual estabelecia matérias face às quais o Estado tinha o domínio reservado. O que é o território do Estado? Não é apenas o Estado quem o estabelece unilateralmente. Intangibilidade Territorial. Globalização: a impotência do Estado Existe um conjunto amplo de matérias face às quais o Estado não tem por si só capacidade de as regular. ii. as pessoas. Hoje tais matérias diminuíram substancialmente. etc. Crimes contra a humanidade. Questões ambientais.º 7 ± Domínio reservado do Estado ±. Neste caso é o fim da reserva dos Estados e a delegação de competências para a ONU. Integração europeia: a soberania partilhada A União Europeia promove 3 tipos diferentes de situações: 51 . Áreas existem em que o Estado perdeu a plenitude dos seus pderes: recursos naturais ± Zona Económica Exclusiva. Torna-se cada vez mais necessária a cooperação internacional. Estes não são exclusivos do Estado: Apartheid. art. Tribunal Penal Internacional. Intervenção de outros Estados no território de outros para acções determinadas (humanitárias). iii. Exemplos: Definição do território.º n. 2. É impossível ao Estado disciplinar e controlar os capitais. Ideia de soberania partilhada. pois a sua dimensão é planetária. Actos que colocam em causa os valores da Comunidade Internacional. violação dos direitos humanos no Bloco Leste. Limitações: Comunicação: Internet. Os direitos fundamentais e a sua garantia. A descolonização e o principio da autodeterminação.51 Internacional é chamada a intervir cada vez mais em substituição do Estado. Tribunais de Tóquio e Nuremberga no pós I Guerra Mundial. China. no Rhuanda ou o caso Pinochet. Área económica. Tribunais para julgar crimes na ex-Jugoslávia. É após a II Guerra Mundial que esta situação se começa a verificar com maior acuidade e através da Carta das Nações Unidas. Estas não resultam da intervenção de um só país. sendo estes aspectos que escapam às fronteiras do Estado. Invasão do Kowait e de Timor pela Indonésia.

. sendo aqueles que tanto fazem parte da administração pública nacional. Os juízes nacionais também aplicam o direito comunitário: duplicação funcional do Direito. através: Nomeações políticas (Job for the boys) Partidos políticos controlam o Estado.52 ª Deslocações de matérias que apenas eram decididas pelos Estados e passam a ser decididas no âmbito da União ± fenómeno expropriativo das matérias reservadas dos Estados ± art. que visam influenciarem o poder. porque estes não podem ser alterados se que os Estados o aceitem expressamente ± a unanimidade é ainda a regra -.º n. A reserva absoluta já não é verdadeiramente absoluta. os tratados constitutivos da União estabelecem claramente a possibilidade de abandono sempre que assim o entendam os Estados readquirindo a sua soberania. 52 . etc. Processo de co-administração. Consequências sobre o direito ordinário e sobre o direito constitucional dos Estados. religiosos. pois a sua soberania se encontra limitada.Reivindicação de cada vez mais poderes por parte dos entes infra-estaduais . Estamos então num neo-feudalismo (divisão de poderes) em termos internos. como sejam as autarquias locais e as regiões autónomas. tendo assim faculdade de estatuir normas locais e regionais. os Estados ainda são os donos dos tratados. etc são colonizados pelos partidos políticos. regionais. como são órgãos da administração comunitária. b. Será que Portugal ainda é um país soberano? Indiscutivelmente não o é. as regiões autónomas. as autarquias.Colonização partidária: o Estado. Quais são os seus efeitos? .Assalto dos grupos de pressão e de interesse ao Estado: económicos. culturais. O Estado foi tomado de assalto pelos partidos políticos. Resulta daqui uma questão pertinente. Neofeudalização interna Existe hoje um conjunto de poderes internos dos Estados que se pretendem contrapor ao poder do Estado (entes infra-estaduais). Por outro lado. Finalmente. 164.º 1 da CRP -. c. Estes têm adquirido um conjunto de poderes legislativos e normativa. iv.

Como conjunto de homens livres. num povo situado num território. Comecemos então pela análise do primeiro dos conceitos caracterizadores do Estado: o povo.1. Diferencia-se do conceito de população. O povo tem de ser simultaneamente. Em face desta definição pode então entender-se que os elementos primordiais do Estado são. O conceito de povo compreende duas facetas distintas: um sentido subjectivo e um sentido objectivo. 10. ou seja. por ser uma sociedade política territorial. enquanto elementos informais. Os nacionais ± Com vínculo de cidadania com o Estado ii. Deste modo. Povo I. na qual o Poder além de funcionalizado se encontra despersonalizado: titular do poder é a colectividade e os governantes limitamse ao seu exercício. porquanto este respeita ao conjunto das pessoas que vive num determinado território. Os estrangeiros ± estes têm um vínculo de cidadania com outro Estado 53 . Enquanto comunidade política o povo aparece como sujeito do poder. órgãos que elaborem as leis necessárias à vida colectiva e imponham a respectiva execução. ele engloba pessoas dotadas de direitos subjectivos umas diante de outras e perante o Estado. sujeito e objecto do poder. O povo é um conjunto de pessoas que têm um vínculo jurídico com determinado Estado. fixada num território de que é senhora. Elementos do Estado O Estado consiste no essencial. compreendendo os estrangeiros e os apátridas. o Estado caracteriza-se assim. princípio activo e princípio passivo na dinâmica estatal. como suportes dos órgãos da mesma colectividade. por autoridade própria. e que permite diferenciar: i.53 7. pois que o poder é o poder do Estado. o território e o poder político. O povo representa uma relação de natureza jurídica ± a cidadania ± a qual liga a pessoa ao Estado. o povo. de que é senhor. e que dentro das fronteiras desse território institui. e a bandeira e o hino nacional enquanto elementos formais.ª AULA 19-11-03 Capítulo III Estrutura do Estado 10.

aquele que sendo titular de direitos políticos. e o cidadão não originário. compreendendo hoje: . etc). encontrando-se ligado a dois princípios fundamentais: a. e entre cidadão originário. aquele que por qualquer causa. aquele que adquire a cidadania por outra forma que não o nascimento. Historicamente. o qual adquire o vínculo de cidadania pelo nascimento. sendo o seu fundamento principal de que a cada nação deve corresponder um Estado. nem sempre cidadão e povo foram conceitos coincidentes. Povo é o sujeito do poder político a dois níveis. O conceito de cidadania não tem sido um conceito estático. sendo de destacar algumas limitações históricas: Liberalismo ± O povo era identificado com quem tinha capacidade eleitoral: Capacitário ± saber ler e escrever Censitário ± ter determinado rendimento económico Estado soviético ± povo identificado com a classe trabalhadora Estado nazi ± Povo segundo um critério genealógico (sangue) 10. 54 . o povo só existe através do Estado.Alargamento do sufrágio a todos os que têm capacidade para o exercer. Nacionalidade Esta surge como concepoção fundamental no século XIX na Itália e Alemanha unificadas.54 iii. Destinatário do poder político ii. a génese do Estado e a sua razão. pois ninguém pode perder esta qualidade. Legitimador do poder político Sendo o substrato humano do Estado. mas antes dinâmico. e cidadão passivo. Os apátridas ± Os quais não têm vinculo de cidadania com qualquer Estado. i. II. . não possue capacidade de participação política e por isso mesmo não participa na vida política do Estado (ex. porquanto tem vindo a alargar a sua amplitude. Uma distinção importante é a que distingue entre cidadão activo.1 Povo e Estado Não existe povo sem organização política. jus suffragii e jus honorum e que por isso mesmo participam na vida política do Estado.O ser um direito fundamental. 1. incapacitados. menores.1.

º 1. ainda que tenha sido um critério utilizado pelo Estado medieval. a qual se liga a nação.º. Cidadãos são os membros do Estado.ºs 1 e 3. etc. revelando o sentimento de pertença a uma nação e não a um Estado.). Na Constituição actual já não se fala senão em cidadania ± arts.º n. os sujeitos e os súbditos do poder. e 167. Povo e Cidadania i. b.1. O critério fundamental para aquisição de cidadania é assim o do sangue. e aqueles que não estão em contacto com ela ou só em contacto acidental.º 4 e 26.55 b. Autodeterminação dos povos Este conceito tem acolhimento na Carta das Nações Unidas e conduziu à autodeterminação dos povos de África. É o critério utilizado pelos Estados mais jovens e de imigração. Compete a cada Estado definir os critérios de aquisição e perda de cidadania. trata-se de um termo com maior extensão do que cidadania: são as pessoas colectivas que a têm assim como as coisas (navios. 55 . Este critério é o mais comum nos Estados de formação mais antiga. ou seja.2. os homens dividem-se em duas categorias: aqueles cuja vida social está toda submetida à sua regulamentação.º. os destinatários da ordem jurídica estatal. aeronaves. 59. 19. E aqui distingue-se da palavra «nacionalidade».º.º 37/81 de 3 de Outubro. A cidadania é a qualidade de cidadão. n. a considerar: a. ius sanguinis ± Segundo este critério os filhos adquirem a cidadania dos pais pelo simples facto do nascimento.º. O povo abrange os destinatários permanentes da ordem jurídica estadual. A determinação da cidadania de cada indivíduo equivale à determinação do povo a que se vincula. alínea f ± ainda que contraditoriamente a «lei da nacionalidade» seja a designação da actual Lei n. 10. Ao conceito de povo reporta-se o de cidadania. É da exclusiva competência de cada Estado definir quem são os seus cidadãos. ius soli ± O critério tem por base o local de nascimento. Existem dois tipos de critérios. significando a participação em Estado democrático. 4. n. Em face desta. pelo que é atribuída a cidadania pelo simples facto de alguém nascer num dado território. A cidadania só é possuída pelas pessoas singulares.

e por decisão da autoridade competente. ii.º. salvo prova em contrário. alínea a). os recém-nascidos expostos naqueles territórios (art. simplesmente a partir de um acto de vontade.acto de naturalização . 2.º) ou através de um acto administrativo . alínea d)].º). São portugueses. n. como é o caso do nascimento.º 1. como é o caso dos filhos de pais nacionais que residem no estrangeiro. Só a filiação estabelecida durante a menoridade produz efeitos relativamente à cidadania (art.(arts. Por Cidadania não originária. 1. . 1. Pode também adquirir-se através da adopção ± (arts. 1. ou seja adquire-se a qualidade de cidadão por mero efeito da lei. Presumem-se nascidos em território português ou em território sob administração portuguesa.º 1.º.º 1. n. 5.1.º e 4.º Lei n. por mero efeito da lei: . o Governo. i. 3. por meio. Ou seja. o adoptante. respectivamente da vontade unilateral do interessado.Os filhos de pai português ou de mãe portuguesa nascidos no estrangeiro.º. O actual regime de aquisição da cidadania portuguesa No caso português com a independência dos territórios ultramarinos colocava-se o problema da cessação do vínculo de cidadão nacional e da aquisição do vínculo por parte do novo Estado. 2. ± (arts. São portugueses de origem. . Esta é possível. alínea a). n. n. Diz-se Cidadania originária a cidadania adquirida pelo nascimento ou por acto ou facto jurídico que se reporta ao nascimento.1. torna-se necessário a declaração expressa de pretender a aquisição da cidadania ± (art.56 10.º).2.Os filhos de pai português ou de mãe portuguesa nascidos em território português ou sob administração portuguesa [art. se o progenitor português se encontrar aí ao serviço do Estado português [art.º. é a que é adquirida por qualquer outro acto ou facto jurídico. por mero efeito da lei e da vontade: 56 .ª parte].ª parte]. iii.º e 7.º 1. 1.º) ± como é o caso de um estrangeiro que casa com uma portuguesa ou vice ± versa podendo adoptar a cidadania do cônjuge se assim o declarar. 14.Os indivíduos nascidos em território português quando não possuam outra cidadania [art. e por efeito da lei e da vontade. 6. 1. por acto de vontade doutrem.º 37/81).º.º 2). Neste último caso. precedendo acto de vontade do interessado.

º 2 e 36. filhos de estrangeiros que aqui residam com título válido de autorização de residência há.º. O casamento passa a ser apenas um pressuposto da aquisição da cidadania. 3. A aquisição da cidadania não originária por efeito da vontade dá-se em três hipóteses: . n. n.Os indivíduos nascidos em território português. n. pelo menos. seis ou dez anos conforme se trate. Serem maiores ou emancipados à face da lei portuguesa.º).Os filhos de pai português ou de mãe portuguesa nascidos no estrangeiro.O estrangeiro casado com cidadão português há mais de três anos pode adquirir a cidadania portuguesa mediante declaração feita na constância do casamento (art.º 2 da Lei 37/81). Conhecerem suficientemente a língua portuguesa.º. . pelo menos. 1. 2. n. v. respectivamente. c.º. de cidadãos de países de língua portuguesa ou de outros países.º. Por outro lado. tanto podem adquirir a cidadania portuguesa a mulher como o marido. se declararem que querem ser portugueses ou inscreverem o nascimento no registo civil português [art. mediante declaração (art. alínea a)]. consoante se trate.57 . E a declaração de nulidade ou a anulação do casamento não prejudica a cidadania adquirida pelo cônjuge que o contraiu de boa fé (art. alínea c)]. n. não mais um modo de aquisição. n. Residirem em território português ou em território sob administração portuguesa.º). se declarem ser portugueses [art. seis ou dez anos. A naturalização continua a repousar no princípio discricionário exercido pelo Governo.º n.º 1): a. e que não estejam ao serviço do respectivo Estado.6. .º.º 1) .º. de acordo com o princípio constitucional da igualdade de sexos e de cônjuges (arts. b. iv. 1.º 3. há. 13. 57 . Comprovaram a existência de uma ligação efectiva à comunidade nacional. 4.º 1.Os que hajam perdido a cidadania portuguesa por efeito de declaração prestada durante a sua incapacidade podem adquiri-la quando capazes. respectivamente de cidadãos de países de língua portuguesa ou de outros países.º 3 da CRP).º 1. mediante declaração (art.Os filhos menores ou incapazes de pai ou mãe que adquira a cidadania portuguesa podem também adquiri-la. d. com título válido de residência. O Governo pode conferir a cidadania portuguesa aos estrangeiros que satisfaçam cumulativamente os seguintes requisitos (art.

a perda de cidadania nunca é definitiva ou irreversível.Se alguém tiver duas ou mais cidadanias e uma delas for a portuguesa.1. Por outro lado. a do Estado com o qual mantenha uma vinculação mais estreita (art. os quais não adquiriram as respectivas cidadanias por manifestação de vontade. Aos adoptados plenamente por cidadãos portugueses antes da entrada em vigor da Lei (art. através de uma forma comum de aquisição superveniente ou de uma das formas especiais já mencionadas. a não ser através de um acto de vontade do próprio e ainda que se venha a naturalizar noutro país nunca perde a cidadania originária. 10.2. 31. 26. II. na falta desta. À mulher que tenha perdido a cidadania portuguesa por efeito do casamento (art. 27.º). 58 . a aquisição de cidadania mediante declaração relativamente: a. Conflitos de cidadania Não poucas vezes surgem problemas no domínio dos conflitos de leis. Terem idoneidade cívica.º) ± o que é um novo caso de reaquisição c. 30. É o caso da dupla nacionalidade. f. b. perderam a cidadania portuguesa por efeito de aquisição voluntária de cidadania estrangeira (art. mas por virtude de independência reconhecida internacionalmente.º 4 do art. é vedada a privação com fundamento em motivos políticos. . nos termos da Lei n. . pode haver reaquisição. 29.58 e.Nos conflitos positivos de duas ou mais cidadanias estrangeiras releva apenas a do Estado em cujo território o pluricidadão tenha a residência habitual ou.º) ± o que.º).º da Constituição contém duas normas atinentes à perda da cidadania. só esta releva perante a lei portuguesa (art. Resulta assim que em Portugal a ninguém pode ser retirada a cidadania. outra de carácter negativo ou proibitivo: só pode dar-se perda da cidadania nos casos e nos termos previstos na lei. ou seja.2.º). uma de carácter positivo ou prescritivo. 28. Tendo em conta as modificações do regime da cidadania e por razões de igualdade de tratamento prevê-se ainda. não poderia abranger os naturais dos antigos territórios ultramarinos. O regime da perda da cidadania: I. a título transitório. O actual n. Aquele que a quis perder pode a qualquer momento manifestar a vontade em a adquirir. Possuírem capacidade para reger a pessoa e assegurar a sua subsistência vi.º 2098 e da legislação precedente. Aos que.

n. 4 e 5).3.º 3. e. desde que superior à maioria absoluta dos Deputados em efectividade de funções (art. de modo que se consideram os cidadãos.º assim como a cidadania de portugueses residentes no estrangeiro. n. 121. mas o número de deputados a eleger por eles. alínea f).º. A cidadania é regulada pela Constituição da República no seu artigo 14.º 1.ª parte.º 6).º 2).1. 2. (art. No referendo político vinculativo nacional participam os cidadãos eleitores residentes no estrangeiro com efectiva ligação à comunidade nacional. 121.º.Não envolvendo um cidadão português. nos termos de lei a aprovar por maioria de dois terços dos Deputados presentes. os quais têm uma cidadania limitada.59 . e competindo ao Tribunal Constitucional apreciar previamente se este requisito se verifica [art. . 2. não é proporcional ao número de eleitores aí inscritos (art. 297. A Constituição estatui: a.º 2). mas um cidadão com nacionalidade espanhola e francesa. 10.115. Se reside habitualmente num dos Estados em que tem nacionalidade deve ser tratado como cidadão desse país.2. em Portugal só pode ser tratado como cidadão nacional.ª parte]. n. d.º. São eleitores da Assembleia da República os cidadãos eleitores residentes no estrangeiro. n.º.Um cidadão de nacionalidade portuguesa e francesa. n. 223. os que se encontrassem inscritos nos cadernos eleitorais para a Assembleia da República em 31 de Dezembro de 1996 (art. n. 149. o critério é o da maior proximidade com uma das nacionalidades. os estrangeiros e os apátridas. ii.º 12 e art.º. tem por limite a incompatibilidade do exercício de certos direitos e da sujeição a certos deveres com a ausência do país. já.º.º 2. A condição dos cidadãos portugueses no estrangeiro O Estatuto das pessoas depende do seu vínculo de cidadania. os portugueses residentes em território do Estado membro da União Europeia poderão. A extensão aos portugueses no estrangeiro dos mesmos direitos e deveres dos portugueses em Portugal. b.168. para efeito de 59 . Se residir em Berlim. Em face do princípio da reciprocidade. em Portugal como é tratado? Dois critérios: i. e n. 15.º).º 2.º n. quando o referendo recais sobre matéria que lhes diga também especificamente respeito (art. c. São eleitores do Presidente da República os cidadãos portugueses eleitores residentes no estrangeiro com efectiva ligação à comunidade nacional (art.

Isto significa que: a. Este critério depende da dignidade da pessoa humana e da inserção dos direitos fundamentais no sentido decorrente da Declaração Universal dos Direitos do Homem (art. 232. ou seja. visto que as regiões autónomas e as autarquias locais se definem como entidades essencialmente territoriais.º. o qual determina o exercício exclusivo de alguns direitos a portugueses. sendo este determinante para o exercício do poder político no Estado. Só existe poder do Estado quando ele consegue impor a sua autoridade. b. A condição dos estrangeiros no Direito português O princípio geral do Direito português é o da equiparação. os estrangeiros e apátridas têm os mesmos direitos e deveres que os nacionais. A atribuição de personalidade jurídica internacional ao Estado ou o seu reconhecimento por outros Estados depende da efectividade desse poder. os direitos políticos e o exercício de funções públicas sem natureza técnica. e 240.2.60 eleição dos Deputados ao Parlamento Europeu.2. n. salvo em situação de necessidade. n.º 2.º 4 da CRP.º1). e. Os órgãos do Estado encontram-se sempre sediados. d. 16. Nas eleições para os órgãos das regiões autónomas e do poder local.4.1. 10. Território I.º.º 2).º 2. optar entre exercerem nesse território o seu direito de ou exercerem-no em território português. de igualdade ou de extensão aos estrangeiros dos direitos conferidos aos portugueses. sobre certo território. assim como nos referendos regionais e locais só participam os cidadãos eleitores residentes nas respectivas áreas (arts.º. 239.º 2 e n.º. No seu território. 15. c. como sejam. No seu território cada Estado tem o direito de excluir poderes concorrentes de outros Estados.º n. cada Estado só pode admitir o exercício de poderes doutro Estado sobre quaisquer pessoas com a sua autorização. e. Também o território se torna indispensável para o reconhecimento internacional dos Estados e para a participação dos cidadãos e do direito de efectividade do Estado. n. 2. n. Direitos reservados em exclusivo aos portugueses. Não existe Estado sem território. em nome próprio. 10. no seu território. 60 . É o que salienta o art.

º da CRP fixa as fronteiras do Estado português. contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largura do mar territorial) ± art. O território é um factor de identificação da comunidade e limite da autoridade do Estado. 57. Forma diferente é a da Contitularidade de território. A delimitação territorial comporta o seguinte território: Fronteira terrestre Fronteira marítima Espaço aéreo O Estado não pode alienar qualquer destes espaços. O Estado tem dentro do seu território. O artigo 5. ainda que esta fixação haja de ser reconhecida internacionalmente. 33. Também aos navios são aplicadas as leis do respectivo Estado. etc. Inferior na ZEE (Não pode estender-se para além das 200 milhas (art. No território do Estado pode aplicar-se o direito das regiões autónomas e das autarquias locais. quando um território se encontra sob a jurisdição de mais do que um Estado (ex: Novas hébridas ± francobritânicas. embaixadas. 1982) e na zona contígua (não pode estender-se para além de 24 milhas. A jurisdição pode ser exercida de forma: a. II. Direito do Estado sobre o seu território I. Os cidadãos só podem beneficiar da plenitude de protecção dos seus direitos pelo respectivo Estado no território deste.1. 61 . inalienável (o Estado não pode alienar o seu território) e exclusivo (sobre o território do Estado só este pode ter senhorio).º da Convenção de Montego Bay. Plena ± Quando aplicada no âmbito do território terrestre e marítimo. como é o caso da sua aplicação a Chefes do Estado.º da mesma Convenção) II. o direito de jurisdição territorial o qual é apresentado como sendo um direito ou poder indivisível (princípio da unidade jurídica do território). ainda que circunscritas na área de aplicação 10.2. Iraque ± EUA e Reino Unido).61 f. Deve realçar-se que dentro do território do Estado existem casos de extraterritorialidade. com a assumpção de privilégios aceites pelas normas excepcionais. ou b.

62 Existem ainda territórios sem jurisdição territorial. o qual abrange bens sujeitos.1. 10. O problema da limitação do poder pelo Direito O Estado é limitado pelo direito. por consequência. estando por consequência. sujeito a regras de proibição de alienação. ou seja. traduzindo-se no respeito pela autonomia destes últimos. Os direitos do Estado sobre o território correspondentes a jurisdição distinguemse dos direitos do Estado sobre parcelas do território correspondentes a propriedades no sentido de direito real ou de estrutura próxima da propriedade. um poder constituinte enquanto molda o Estado segundo uma ideia. 62 . ou seja. O poder político é. é a que decorre da limitação através de regras que impeçam o poder de invadir as esferas próprias das pessoas. sendo este o titular privilegiado no seu território. formal e materialmente. outra é o domínio privado. Poder político Todo o poder político está intimamente ligado ao Estado. ou seja. ou seja. territórios que são jurisdição de todos os Estados por serem considerados como património comum da humanidade (ex. um projecto. A limitação formal do poder é a que decorre da própria obediência do Estado às leis que faz enquanto vigorem. A institucionalização do poder político é feita através da Constituição.3. porque sem o seu cumprimento não subsistiria a organização indispensável ao perdurar do poder e seria destruída a segurança em que assenta a comunidade jurídica. uma vez decretadas. Estado e poder político 10.1. é através dela que se definem as regras de funcionamento do poder político. neste caso o Estado comporta-se como um particular. A limitação material. visto que as leis.3. implicando instrumentos jurídicos de garantia.3. desprendem-se de quem as tenha feito. consubstanciado no dinamismo próprio das formas jurídicas. Uma coisa é o domínio público. III. por seu lado. contenção dos governantes e defesa dos direitos dos governados. e estejam estes submetidos ao Direito privado. Significa disciplina do poder. ou seja. um fim de organização. territórios neutros nos quais nenhum Estado exerce soberania (Fronteira Iraque com o Koweit ± zona de exclusão). fundos marinhos). e territórios que pertencem a todos. valendo por si. conjunto de coisas públicas ou de direitos sobre coisas públicas. a um regime de Direito privado e inseridos no comércio jurídico. é a limitação do poder através da forma dos actos políticos e legislativos.1. 10.

b. Artigo 11. b.3. ii. ao contrário do que acontece no plano sociológico. o poder de fazer. legislativo e judicial. Reconhecimento do Estado ± Este elemento prende-se com a ideia de que o Estado só é Estado se for reconhecido internacionalmente. Constitutiva ± Sempre que é elemento necessário para que o estado seja reconhecimento internacionalmente.63 10. poder dos poderes ou aquele que pode determinar os outros poderes. No plano jurídico. Elementos formais Os elementos formais do Estado são: a. Natureza do reconhecimento i. decretar e alterar a Constituição positiva do Estado. O nome pode também ser alterado. e poder constituído. não sendo ele repetível e estando sujeito à natureza do regime (monarquia. Todos os Estados o têm. 10. O poder constituinte como poder de auto-organização originária é um poder da comunidade. 63 . II. c. Designação do Estado ± Todo o Estado tem um nome que o identifica. A pessoa colectiva Estado tem por substrato a comunidade. Símbolos nacionais ± Os símbolos nacionais são a bandeira e o hino nacional os quais são identificativos do respectivo Estado.4. independentemente do seu reconhecimento. c. Os titulares dos órgãos e agentes detentores das faculdades ou parcelas do poder político provêm da comunidade. ou seja. República Islâmica do Irão).2.1.Titularidade e exercício do poder I. poder emprestado pelo povo no exercício do poder constituinte: executivo. pelo menos em três aspectos: a. No âmbito do poder político é necessário distinguir entre titularidade e exercício do poder. república) e ainda ter outros elementos identificadores (República Popular da China. Daqui distingue-se entre poder constituinte. O poder é qualidade ou atributo do Estado e condição da sua existência. Declarativa ± Significando que o Estado já é Estado e portanto deve ser aceite. não é admissível separar a titularidade do poder da própria comunidade.º n. A titularidade está ligada ao povo enquanto conjunto de cidadãos dotados de direitos de participação activa na vida pública (os direitos políticos) e está subordinada ao princípio democrático.º 1 e 2 da CRP.

obrigando à revisão desta para ser possível tal alteração. 64 .64 Mudar qualquer destes elementos é violação à Constituição.

Decorrem daqui algumas questões. uma vez que. 11. 6. sendo que sempre que existe a primeira também existe a segunda. Representa a relação entre a comunidade.º da CRP). estamos perante uma descentralização menos intensa do que a segunda e correspondente à repartição do exercício da função administrativa por outras entidades. pelo menos a função administrativa está sempre em maior ou menor grau repartido por outras entidades. No segundo caso. Não existe hoje exemplo de centralização total do Estado. com excepção da função jurisdicional a qual não é descentralizável. importantes. Forma de Estado é o modo do Estado dispor o seu poder em face de outros poderes de igual natureza e quanto ao povo e ao território. Com base naquela relação é possível permitem diferenciar dois grandes modelos de formas de Estado. estamos perante uma descentralização políticolegislativa que determina uma opção política e que respeita sempre a uma base territorial. executivo e judicial).1. uma política e outra meramente administrativa. unidade ou pluralidade de ordenamentos jurídicos originários ou de Constituições.Estados Estados simples ou unitários Existem Estados simples ou unitários. a saber. Estados simples ou unitários e Estados compostos ou complexos. e unidade ou pluralidade de centros de decisão políticos. como Estado unitário descentralizado. podemos considerar dois tipos de descentralização. o poder político e o território.ª AULA 26-11-03 Capítulo III Estrutura do Estado 11. Face a isto. tanto podendo ser Estado unitário centralizado. quando existe uma única entidade estadual com a titularidade dos três poderes (legislativo. unidade ou pluralidade dos sistemas de funções e órgãos do Estado. A descentralização pode incidir apenas na função administrativa ou na função legislativa. a saber: quando existe descentralização da função política ainda se pode considerar a existência do Estado 65 . quando existe repartição interna do seu poder com outras entidades públicas. No primeiro caso. cujo critério de diferenciação reside na unidade ou pluralidade de poderes políticos.65 8. Formas de Estado I. quando apenas um centro de poder (art.

verificando-se . quando todo o território do Estado se encontra dividido em regiões autónomas ± Espanha. na qual há uma instituição a quem o direito confere persobnalidade jurídica para o exercício da função administrativa. Portugal é ou não um Estado regional? Não. expressando os interesses da população residente nesse território. dada a existência das autonomias regionais. Privadas (Ordens). 11. mistas (Entidades públicas e privadas). Ex. Base associativa. IV. ii.2. Base territorial. Portugal é um Estado com regiões autónomas. iii. Itália. e a segunda correspondendo à descentralização político-administrativa. correspondendo à primeira a possibilidade de criação de regiões administrativas as quais são uma forma de autarquia local (descentralização administrativa). Podem ser apontadas várias categorias de Estados descentralizados.66 unitário? A resposta a esta questão conduz-nos a considerar um terceiro tipo de Estado: o Estado regional. em que se criaram as regiões autónomas correspondentes às Províncias Ultramarinas. A descentralização administrativa pode verificar-se em três níveis: i. Institutos públicos. Estado unitário descentralizado ou regional A génese das regiões autónomas encontra-se na Constituição espanhola de 1931 e na actual Constituição italiana (1947) que contempla regiões administrativas.. destinando-se a prosseguir fins do próprio Estado. Autarquias locais. Esta pode assumir três tipos: públicas (Associação de Municípios). quando apenas alguma parte do Estado está constituída em regiões autónomas e regiões ou circunscrições só com descentralização administrativa. Estado regional integral. na qual existe uma determinada parte do território a quem a ordem jurídica confere poderes administrativos. 66 . na qual a ordem jurídica pode atribuir personalidade jurídica a uma determinada associação. i. Em Portugal é com a revisão constitucional de 1971. estamos perante exemplos de descentralização políticoadministrativa. E será que este é o modelo que explica aquela a existência da descentralização política ou pelo contrário. Estado regional ainda significa Estado unitário? No caso do direito português. Base institucional. Esta questão do pretenso Estado regional deve entender-se com base na diferença entre a regionalização e a autonomia regional. Estado regional parcial. diversidade de condições jurídico-políticas de região para região. I. ii.

A federação repousa na sobreposição. a lei definidora da organização institucional é um acto do Estado. dá-se quando aquele é integral e as regiões. b. Brasil. surge acima dos poderes políticos dos Estados nela integrantes. o desaparecimento das regiões dá origem a um estado unitário. EUA. ou seja. Estado regional homogéneo. os Estados federados. Ex. possuem faculdades de auto-organização e quando partilham o poder político. A maior semelhança possível entre Estado regional e Estado federal. o poder federal. Para o ser efectivamente tem de ter descentralização estendida a todo o território. enquanto no Estado federado os Estados participam autonomamente na modificação da Constituição do Estado federal. enquanto no estado regional. como é o exemplo de Espanha e de Itália. pertence ao poder central a faculdade de elaboração ou alteração dos estatutos regionais enquanto nos Estados federados existe uma Constituição própria. a questão de saber se quando existe um Estado completamente autonomizado se se está perante um Estado regional. quando as regiões autónomas têm mais poderes do que outras.3. EUA. No Estado regional. quando todas as regiões têm uma organização pelo menos uniforme os mesmos poderes. este irá dar origem à independência dos estados membros. ex. 67 . No Estado regional as regiões autónomas não participam autonomamente na revisão da Constituição. V. etc. Suíça. Estados compostos ou complexo Estados compostos são aqueles que se traduzem em Estados formados por outros Estados em que o poder político está repartido por outros Estados. Se o estado federal desaparecer. e iv. Estado regional heterogéneo. c. político-administrativa e a autonomia 11. Fica em aberto no entanto. Cabe no entanto distinguir entre estas duas realidades: a. o qual está repartido em função do território. porque um poder novo e distinto. Quando existe Estado regional? Quando todo o território do Estado está autonomizado. além de faculdades legislativas.67 iii.

É a transferência do centro para a periferia do ponto de vista dos poderes. b.o Estado federal -. já existe um modelo da confederação. Alguns pretendem ir ainda mais longe. Esta só ocorre em modelos de Estado com regime monárquico. quando se dá. b. Pedro. criando uma federação. Ex. altura em que deixa de ser uma república unitária. Não é um Estado composto. O mesmo titular é chefe de Estado de dois Estados. União real. sendo estes independentes juridicamente. Existe apenas uma entidade com soberania internacional . mas que dela se distingue. Estados soberanos que abdicam total ou parcialmente da sua soberania interna para dar origem a um novo Estado. sendo um fenómeno em que o Estado central reconhece autonomia às entidades infra-estaduais abdicando de parte dos seus poderes de soberania. Enquanto a criação de uma federação envolve o aparecimento de órgãos novos. Surge por efeitos do título de sucessão. como é o caso da Bélgica ou do Canadá. (Portugal foi União Real ± 1815-1822 ± com o Brasil). D. E esta da União Pessoal. Fenómeno centrípeto.68 O Estado complexo traduz-se numa associação de Estados que dá origem a um novo Estado. o qual pode ter sofrer dois tipos diferentes de desenvolvimento: i. na União Real mantém-se as instituições já existentes e que passam a ser comuns aos Estados membros. Filipes em Portugal. 68 . ainda que existam Estados com forma republicana. É o caso do Brasil após a 1. ao proporem que os Estados membros transfiram a sua soberania na ordem externa para a própria união. tendo os Estados federados algumas prerrogativas externas. Deve distinguir-se o Estado federal da i. Na União Europeia. Ex. EUA. Alguns dos poderes dos Estados membros já passaram para a esfera da União Europeia. quando o estado apresenta uma estrutura de Estado composto e que no essencial se aproxima da federação. não tendo os Estados federados competência na ordem externa. na qual as províncias se transformam em Estados federados. ii. Modelo da confederação. mas a união de titulares do poder político. não a união de Estados. A federação tem competência no âmbito de algumas matérias. Estado que decide dividir-se em outros Estados. respectivamente: a. Dois modelos de Estado composto: a. em que todos os Estados têm poderes no âmbito internacional. Ela é preponderantemente a forma de Estados monárquicos.º Constituição Republicana em 1891.

69 Estas situações conduzem por norma a que um dos Estados se transforme satélite do outro. em que cada Estado tem a sua constituição e ao nível da União. Das duas características expostas procedem os seguintes princípios directivos: i. iii. ou seja. administrativos e jurisdicionais. como resulta da Constituição. em que o poder político central surge como resultante da agregação dos poderes políticos locais. A Constituição exige a participação dos Estados federados na revisão da sua própria lei. que significa que só o Estado federal tem poderes na cena internacional. iv. Garantia de autonomia dos Estados federados. Assenta também numa estrutura de participação. v. a qual recobre os poderes políticos locais. Relevância da Constituição federal. Igualdade dos Estados. governativos. de modo a cada cidadão ficar simultaneamente sujeito a duas Constituições ± a federal e a do Estado federado a que pertence ± e ser destinatário de actos provenientes de dois aparelhos de órgãos legislativos. Dualidade de soberanias. cada Estado só tem a competência que resulta da constituição federal. significando que o Estado federal não pode invadir as competências dos Estados federados sob pena de inconstitucionalidade. Dualidade do ordenamento jurídico. Esta define a competência das competências.4. Interpreta-se o silêncio como aquilo que pertence à Constituição dos Estados federados. Na federação cada cidadão é simultaneamente sujeito da ordem jurídica do Estado onde residem e sujeito da ordem jurídica do Estado federal ± cada pessoa está sujeita a dois ordenamentos jurídicos . Esta é que determina o que é pertença do estado federado. ao nível dos Estados federados. 11. e a nível Externo. A Constituição é partilhada entre a União e os Estados federados. no qual o poder constituinte se faz sentir em dois graus. A Constituição define o princípio da paridade da representatividade dos Estados no senado (2 senadores por Estado) e atribuindo no Congresso mais peso ao senado assim como a igualdade dos Estados no apoio às alterações constitucionais. só ele podendo negociar e 69 . ii. a qual é observável a nível interno. independentemente do modo de formação. ± Os Estados federais em particular O Estado federal ou federação assenta numa estrutura de sobreposição.

11. Ex. Predominância federal. EUA e Suíça. Nas relações externas e segurança e defesa são três sectores através dos quais se desenvolveu um predomínio federal ainda que centrada no Presidente. o Brasil e a federação Russa. considerar Estados federais de mais de um tipo ou grau: Federalismo perfeito e federalismo imperfeito. É este tribunal que tem sido o agente da constituição. O tribunal superior é o Supremo Tribunal Federal. Duas matérias fundamentais: fiscalização da constitucionalidade das leis e resolução dos conflitos entre esferas de competência. vi. O segundo. Verifica-se também aqui o carácter vivo e dinâmico da Constituição. tendo-se verificado a passagem de algumas destas competências foram transitando para a competência do Estado federado por necessidade de defesa e segurança. Esta supremacia traduz-se em: i. Primado do direito federal ii. receber e enviar representantes diplomáticos e desencadear acções internacionais. Definição de princípios de competências que pertencem à própria federação. O primeiro só existe quando se verifica igualdade de tratamento entre os Estados federados e quando pode participar autonomamente no processo de feitura e modificação da Constituição federal. Existe também predominância dos órgãos jurisdicionais da federação. que tem a última palavra na interpretação da Constituição. Verifica-se na própria Constituição: A Constituição federal é prevalente face à dos Estados federados ± Constituição das Constituições. traduz a existência de um Estado com sobreposição sobre os demais ou um centro que comanda sem reconhecer autonomia aos Estados federados. Ela traduz-se numa supremacia da primeira em relação à segunda. Torna-se necessário para avaliar a concretização destes princípios. Ex. 70 . no sentido da sua interpretação positiva e na sua actualização. O sistema jurídico complexo dos Estados federais É na relação entre a Constituição federal e as Constituições dos Estados federados que se deve procurar a explicação para a complexidade do sistema jurídico dos Estados federais.70 deliberar sobre Convenções Internacionais.4. Entre o Estado federal e os Estados federados existe claro predomínio do Estado federal.

De que depende? Da possibilidade de cada um conhecer as regras que se lhe aplicam e cada um antecipar a conduta do Estado e de outros particulares que interfira na sua esfera jurídica. sendo que no actual modelo (Estado Social de Direito) os fins são.1.º fim do Direito. formal ou real. Vários critérios: i.2. É o 1. Esta não é uma regra absoluta. ii. Estes variam consoante o modelo de Estado. se for injusto não é Direito (concepção adoptada ± subjectivismo jurídico). Principio da não retroatividade da lei (a lei apenas dispõe para o futuro). a qual pode ser.71 9. Aqui a justiça confunde-se com a igualdade. tendo o Estado o monopólio do uso da força ± coercibilidade ± para a garantir. que representa a coexistência pacífica entre todos os membros da sociedade política. Por igualdade formal quer-se significar que não pode haver discricionariedade entre os 71 . sendo a afirmação do Estado de Direito. 12. Só existe justiça quando são cumpridos os imperativos daquelas duas igualdades.1. Fins do Estado O Estado tem a sua existência no cumprimento de determinados fins. Interna. é a certeza e estabilidade.ª AULA 03-12-03 Capítulo III Estrutura do Estado 12. Porque o Estado só a assegura garantindo a segurança. A Justiça É o 2. Justiça e o Bem-Estar. O Direito só é Direito se for justo.º fim do Estado. fiscal e leis que sustentam as liberdades e garantias dos cidadãos. Externa. a Segurança. 12.1. 12. Individual. que tem como principal fundamento o Direito. mas é-o em relação à lei penal. que representa a defesa da colectividade perante o exterior. pois sem ela nada mais está garantido. A Segurança A segurança é o primeiro fim. Fins. funções e poderes do Estado.1. iii. Esta pode ter várias acepções: i.

3. já representa uma das idéias prosseguidas pelo Estado Social de Direito e com o bem-estar dos cidadãos. que significa que este só deve intervir quando tal não seja assegurado pelos indivíduos. A função executiva é a função pela qual o Estado prossegue a aplicação das normas mediante actos de administração e jurisdição. Esta função compreende as funções política e técnica. Bem-Estar O bem-estar é considerado como estando associado aos princípios constitucionais de garantia da pessoa humana.2. executiva e judicial. Dividem-se em função legislativa e função executiva. que é a adoptada. Pode haver diferença de tratamento. 12. Esta subsidariedade foi desenvolvida pela Igreja Católica. É uma igualdade de certo modo. Funções do Estado I. b. A função legislativa é a actividade pela qual o Estado cria o seu Direito positivo. A função política caracteriza-se pelo facto de definir os interesses públicos fundamentais a serem prosseguidos pela 72 . Não jurídicas ± Definem-se por serem actos materiais não se destinando à aplicação do Direito. A igualdade real não deve então ser absoluta. A igualdade formal proíbe a arbitrariedade de tratamento. mas antes. deve associar-se à promoção da igualdade de oportunidades. É uma igualdade de partida. Existem inúmeras classificações doutrinárias. E neste sentido. utópica. A igualdade real. no sentido de impedir que o Estado passa a ter uma actuação sufocante na sociedade. as duas mais influentes classificações devem-se a Marcello Caetano e Jorge Miranda. Para Marcello Caetano. classificam-se em dois grupos: a.72 cidadãos que não encontre fundamento natural bastante. sendo a mais comum a que distingue entre função legislativa. por ser absoluta é incompatível com a dignidade da pessoa humana. mediante a imposição de regras gerais de conduta social. Deste decorre o principio da subsidariedade de actuação do Estado.1. Jurídicas ± Destinam-se a criação e aplicação do direito e traduzem-se em actos jurídicos. 12. As funções do Estado são as actividades do Estado com vista à realização dos seus fins. Hoje. A igualdade real pretende que todos tenham as mesmas condições no resultado. mas tem de ter fundamento material bastante.

bens.73 colectividade. A função técnica caracteriza-se na actividade de satisfação de necessidades supletivas pelo Estado em termos de prestação de serviços e produção de A classificação de Jorge Miranda é a seguinte: 73 .

ausência de hierarquia relações responsabilidade política. significa jurídicas Constituição. no interior de aparelho de órgãos e serviços. Função administrativa Satisfação quotidiana prestação serviços. não imparcialidade tratamento particulares (imparcialidade significa que o Estado. ao (às liberdade o que não não da desde de pelo ao às (v. a ordens e instruções (hierarquia descendente) recurso (hierarquia ascendente) mais Coordenação ou e com menos e e a hierárquico prossecução interesse que público).Iniciativa (indo encontro necessidades) Parcialidade (na do o no dos impede ao das funcional.Órgãos (políticos ou governativos) e colégios em conexão directa com a forma e o sistema de governo . logo). nenhum subordinação. não favorece. ou não promulgação obrigatória) de sanções específicas.74 Funções Função (Legislativa governativa política sensu) política e ou stricto Critérios Materiais Definição global público. Estado. sujeição. ou Critérios orgânicos .g.Havendo pluralidade de órgãos. não prossegue na auxilia o interesse público. e apenas de interesse e os do interpretação dos para direcção meios dos fins do Estado subordinação a regras escolha. centralização concentração 74 . do primária e Critérios Formais Liberdade discricionariedade máxima. de bens constante e . cada sistema Dependência com ou ausência jurídicas das e necessidades colectivas. senão quanto conteúdo. quanto e esta menos tempo havendo circunstâncias. porque apóia. escolha adequados atingir.

Regulamentos Actos internos ² Instruções. As funções correspondem os seguintes grandes tipos de actos do Estado. tribunais.75 interesse particular. de actos jurídico-públicos: Função legislativa ² Actos de conteúdo normativo ² Leis ² Leis Constitucionais ² Actos constituintes e leis de revisão constitucionais De eficácia externa ² Leis sticto sensu De eficácia interna ² Regimentos de órgãos Leis Infraconstitucionais Função Política Função governativa ou stricto sensu ² Actos de conteúdo não normativo ² Actos políticos. e assim como não tem de se lhe opor razões diversas comum) Função jurisdicional Declaração decisão jurídicas. órgãos os formados situações de vida. estatutos. seja entidade. descentralização desconcentração. regimentos de órgãos administrativos. definição do através do pedido e necessidade decisão) -Imparcialidade (posição super partes) atribuição específicos. concreto em abstracto de do seja direito. Actos do povo activo Eleições Referendos (não normativos) Actos políticos Stricto Sensu ou de governos Actos de Direito Interno Actos dos órgãos governativos Actos de Direito Internacional Funções do Estado Actos de conteúdo normativo Actos de conteúdo não normativo Actos externos . por juízes. questões em perante -Passividade (implicando necessiadade pedido objecto de do de outra processo de do bem - Independência órgãos. regulamentos internos de serviços 75 . de de sem cada prejuízo recurso apenas para órgãos superiores (hierarquia ascendente) Em a principio.

em sintonia com a forma e o sistema de governo constitucionalmente consagrado. Com a associação das funções legislativa e governativa. Vejamos em particular cada uma das funções. em cada caso. a função governativa participa dos mesmos valores e do mesmo enquadramento institucional da função legislativa. pode afectar-se o sentido mais tradicional da lei ou de esta vir a ser instrumentalizada ao serviço desta ou daquela ideologia. Se os órgãos administrativos e jurisdicionais se aproximam.76 Função Administrativa Função jurisdicional . sob pena da sua inefectividade ± e. não se reduzindo por consequências às leis nem sequer aos regulamentos. Por outro lado. mais ou menos. Não é fácil assim separar a função legislativa da função executiva. de as criar e regular. porquanto a primeira tende de forma fácil a ultrapassar as suas fronteiras e a entrar na esfera da executiva.Actos jurisdicionais ou Sentenças latíssimo sensu Actos de conteúdo normativo ² Declarações de inconstitucional e de ilegalidade Actos de conteúdo não normativo ² Sentenças medio sensu e decisões interlocutórias II. já as instituições políticas são apenas aquelas que a Constituição cria ± e a Constituição tem necessariamente. conferindo ao Parlamento a possibilidade de intervir 76 . i. Função Política O especifico desta função reside na sua incindibilidade total da forma e do sistema de governo. Face ao esquema apresentado verifica-se que no exercício de qualquer das três grandes funções do Estado se praticam actos normativos. por toda a parte. Alguns autores falam mesmo na morte desta distinção.

no sentido da dependência hierárquica entre o órgão mais elevado e aquele que dele depende directamente. sendo através do quadro constitucional de cada Estado que se torna possível apercebermo-nos de tal separação. Quando assim acontece. porquanto existe a possibilidade de recurso de um particular que sentindo-se lesado pode recorrer para o órgão acima daquele que supostamente provocou a lesão. ii. pelo que esta deixaria de ser geral e abstracta mas passaria a ser individual e corrente. Na função jurisdicional define-se o Direito em concreto. Nos tribunais a hierarquia é ascendente. perante situações da vida. Do ponto de vista orgânico. Função administrativa e função jurisdicional Através da função administrativa realiza-se a prossecução dos interesses públicos correspondentes às necessidades colectivas prescritas pela lei. passando na actualidade a decorrer até das disposições da Declaração Universal dos Direitos do Homem. e ascendente. no sentido da possibilidade de recurso para os tribunais superiores. através da afirmação do princípio de que as funções do Estado devem estar repartidas entre os seus vários órgãos. Nesta função manifesta-se uma hierarquia descendente. 12. III. Existem entre as três funções zonas de fronteira muito ténues. existem constituições que definem poderes rígidos e 77 .3. a função jurisdicional tem sempre como fim fundamental assegurar a paz jurídica. no qual um só órgão detinha em exclusivo todos os poderes. o recurso para avaliar das competências que se atribuem a cada uma daquelas funções. enquanto a função administrativa visa garantir outro interesse que não a paz jurídica.77 generalizadamente ± lei medida ±. é o do critério teleológico. sejam esses interesses da comunidade política como um todo ou interesses com os quais se articulem relevantes interesses sociais diferenciados. Efectivamente. Assim. na apreciação da constitucionalidade e da legalidade de actos jurídicos. é contudo. a qual no seu art. mormente entre a função jurisdiciona e a função administrativa pelo que em muitos casos não se afigura fácil percepcionar as funções com muita clareza. Com o Estado liberal acentuou-se o critério da separação de poderes. existem nesta função relações de subordinação política. porquanto os seus órgãos têm uma base eleitoral que os diferencia. diferente.º o afirma expressamente. Poderes do Estado: concentração e divisão de poderes A concentração de poderes foi típica do Estado absoluto. 16. e em abstracto. A leitura que pode fazer-se da separação de poderes.

a competência. nem o agente forma ou exprime a vontade colectiva. Podemos considerar como elementos do órgão. i. II. Instituição.1. Representa a ideia de obra ou empreendimento que se realiza e perdura no meio social ii. no sentido em que cada órgão tem a ver apenas comas suas competências. Portugal tem uma Constituição flexível mais próxima do modelo americano. onde coexiste a separação e interdependência de poderes. Por órgão do Estado entende-se o centro institucionalizado de emanação da vontade intocável do Estado. quando abaixo do Estado existem entidades infra-estaduais que têm poderes autónomos. mas antes. a instituição tornada efectiva através de uma ou mais de uma pessoa física. Competência. a dar execução às decisões que dela derivam. A separação de poderes para além de horizontal (realizada entre órgãos com a mesma categoria) pode também ser vertical. III. O conceito de órgão distingue-se do de agente. São meios de natureza instrumental relativamente aos fins. das Autarquias e das Instituições Públicas. o titular. limita-se a colaborar na sua formação ou. Os EUA têm uma Constituição mais flexível. reflectindo-se ao nível das funções que podem ser exercidas por mais do que um órgão (função legislativa ± Governo e Parlamento) e na faculdade de impedir (Presidente da República através do recurso ao veto). A Constituição francesa é rígida. sob a direcção e fiscalização do órgão. o qual é o centro de decisão. o centro de actos jurídicos do Estado. 13. A competência traduz-se numa autorização ou legitimação para a prática de actos jurídicos (aspecto positivo) e num limite para essa prática (aspecto negativo). Teoria geral dos órgãos I. porquanto ele existe para daquele que o ocupa. Aqui a separação de poderes é horizontal. de que o Estado carece para agir. como é o caso das regiões autónomas da Madeira e dos Açores. Conjunto de poderes funcionais que o órgão detém e que lhe permite a prossecução dos fins da pessoa colectiva a que o órgão pertence. É uma modalidade jurídica que existe para além daquele que ocupa o órgão. dado o sistema de pesos e contra-pesos e a possibilidade de recurso ao veto por parte do Presidente. o cargo ou mandato e a imputação jurídica. a instituição. Órgãos do Estado 13. Resultam da competência os seguintes pressupostos: 78 .78 outras que os flexibilizam mais.

É a pessoa física que em cada momento ocupa o órgão. Representa o conjunto das situações jurídicas detidas pelo titular enquanto tal. b. O titular. Órgãos singulares e órgãos colegiais. Tipologia dos órgãos I. em dois órgãos. c. sendo simples os que. iv. consoante têm um ou mais de um titular. e complexos os órgãos. Quando o órgão age na esfera da competência de outro órgão o seu acto é inválido. Órgãos electivos e não electivos. e avultando entre os segundos as assembleias. Imodificabilidade da competência. outra ainda colegiais ( a Mesa e as comissões no Parlamento. os Ministros nos Governos). O órgão tem de acatar tal como ela lhe foi atribuída pela norma. Um órgão não tem competência quando não exista norma jurídica que lha atribua. Pelo menos por força da duração limitada da vida humana ou da capacidade física e mental para o exercício do cargo.79 a. uns singulares ( Ex. 79 . necessariamente colegiais. os Conselhos de Ministros gerais ou especializados. sejam titulares ou colegiais. O princípio democrático é o da renovação periódica por via. Os órgãos do Estado são susceptíveis de classificações estruturais (relativas à instituição e aos titulares dos cargos). Irrenunciabilidade da competência. A competência é um dever-ser. b. O cargo ou mandato. e o princípio republicano exige mesmo a limitação dos mandatos. A vontade privilegiada dos titulares dos órgãos é tida como vontade normativa da vontade colectiva a que o órgão pertence. Imputação jurídica. O órgão não pode deixar de a exercer desde que ela lhe seja atribuída por norma jurídica.2. para efeito de formação de vontade. directa ou indirectamente. Órgãos simples e órgãos complexos. apenas formem uma vontade unitária. As classificações estruturais são as que permitem contrapor: a. de eleição pelo povo. consoante a eleição é ou não o modo de designação de titulares. II. c. as secções do Tribunal Constitucional e de outros tribunais superiores). iii. que se desdobram ou multiplicam. É o fenómeno que se traduz em os actos praticados pelos particulares serem assumidos como actos do Estado. O titular é sempre temporário. v. 13. de classificações funcionais (respeitantes à competência) e de classificações estruturais-funcionais (em que se conjugam uns e outros aspectos). Princípio da prescrição normativa da competência. Todas as competências dos órgãos têm de ser fixados em normas jurídicas.

b. Assembleia da República. Órgãos primários e órgãos vicários. sejam quais forem os resultados da apreciação. governativos. c.80 d. consoante tomam deliberações ou actos consultivos ou pareceres. administrativos e jurisdicionais. b. Provedor de Justiça). mas podendo. consoante se movam segundo critérios políticos ou segundo outros critérios. Órgãos de competência originária e órgãos de competência derivada. c. em certos casos a norma admitir que uns órgãos venham a criar ou a constituir outros. III. f. órgãos de poder local) e não representativos. correspondendo os primeiros à regra geral. sendo estes. IV. d. Classificações estruturais-funcionais são as que levam a distinguir: a. Órgãos externos e órgãos internos. Presidente da República. de fiscalização ou de garantia. directamente provinda da norma jurídica. Órgãos constitucionais e não constitucionais. em razão das funções do Estado que desempenham ou em que intervêm. Órgãos representativos e não representativos. conforme possuem competência originária. e. Órgãos políticos e órgãos não políticos. sendo aqueles os que a Constituição cria e que não podem.g. ou competência delegada ou atribuída por outro órgão. em órgãos complexos. os que possuem competência interna. aqueles com compet~encia para a prática de actos finais com projecção na vida política ou nas situações das pessoas e estes com competência para a apreciação desses actos. os órgãos não electivos e os órgãos electivos sem representação política (v. assembleias legislativas regionais. Órgãos deliberativos e órgãos consultivos. sendo representativos aqueles em que a eleição constitui vínculo de representação política (v. Órgãos de existência obrigatória e órgão de existência facultativa. sendo os primeiros os que têm competência em condições de normalidade institucional ou para períodos normais de funcionamento e vicários os que têm competências de substituição (Presidente da Assembleia da Republica e o presidente da assembleia regional quando substitui o Ministro da República e a Comissão Permanente da Assembleia da República) decisões ou 80 . ser extintos ou eventualmente modificados por lei ordinária e estes os que não são criados pela Constituição e podem ser extintos pela intervenção do legislador ordinário. Classificações funcionais são as que contrapõem: a. Órgãos legislativos.g. Órgãos de decisão e órgãos de controlo.

Escolha de um número de membros de um órgão de natureza colegial por aqueles que dele já são membros. 13. Órgãos centrais e órgãos locais. 81 . a inerência e a eleição. É o sistema que permite converter os votos em mandatos e pelo qual os desejos dos eleitores são convertidos em vontade eleitoral. Sistema maioritário a uma volta. ii. Devemos distinguir dois tipos: i. Por norma conduz a um sistema bipartidário.81 d. Natureza jurídica Neste caso temos a sucessão hereditária. i. pressupõe círculos uninominais no âmbito dos quais. Tradicional dos regimes monárquicos e tem a ver com a transmissão do poder de pais para filhos. Cooptação. Modos de designação dos titulares I. Nomeação. Sucessão hereditária. A sua desvantagem principal é a da sob representação dos partidos menos votados e das minorias. os primeiros. a cooptação. como sucede com os órgãos administrativos e jurisdicionais. Eleição. consoante a sua competência abrange todo o território do estado ou parte dele. Natureza não jurídica Aquisição revolucionária ou golpe de Estado a.3. Sistema eleitoral. a nomeação. integrados em estruturas hierarquizadas de decisão. Designação de um titular de um órgão por outro órgão. II. b. Escolha pelo povo dos seus representantes através de um acto eleitoral. sistema britânico). Órgãos hierarquizados e órgãos não hierarquizados. Os mandatos são correspondentes ao número de votos. e. apenas um deputado é eleito (ex. A sua principal vantagem é a de proporcionar estabilidade ao sistema político. e os segundos não integrados. c. Debate entre sistema maioritário e sistema proporcional. d. Inerência. O primeiro promove a formação de maiorias parlamentares enquanto o segundo tende a promover governos minoritários. A titularidade de um órgão em virtude de já ser titular de outro órgão. no qual existem dois principais partidos que se alternam no poder. e.

850 27. que se caracteriza pelo facto de os eleitores serem representados proporcionalmente através dos seus candidatos.700 Uma lista obtém tantos lugares. iii.500 9.000 1. havendo divisão territorial em círculos uninominais.000 13.480 Ordenam-se os quocientes obtidos por ordem decrescente.. Método da média mais alta d¶Hondt ± Portugal.400 5750 4. Formas de escrutínio a.750 3.500 6. Consequência: Conduz a um sistema multipartidário.000 15.900 1. Círculos plurinominais Permite encontrar através de uma única operação o número total de lugares correspondentes à lista (quociente e resto) Divide-se o número de sufrágios obtidos por cada lista. Sistema representação proporcional.000 11.000 13.800 2. mas o candidato só ganha quando obtiver 5º% mais um dos votos. eleições Presidência da República em Portugal). 5. quantas vezes o número repartidor estiver contido no número de votos dessa lista Lista A Lista B Lista C 82 .000 7. até ao número de listas.533 Lista E 7. até ao limite do número de lugares a preencher.400 3.520 1. Ex: Lista A Divisão 1 2 3 2.500 5. sistema francês.666 Lista C 15.000 Lista D 7. que no decurso da segunda volta tende a ser temperado com alianças entre os vários partidos ou candidatos em concurso.500 11. 2.. ii. pelo que se torna possível a existência de uma segunda volta decisiva (ex.750 5.000 23.600 3.466 4 5 1. Desvantagem: dificuldade na constituição de maiorias estáveis. Ao último chama-se Número repartidor ou Divisor Comum 27.600 3. 3. 4. sucessivamente por 1.82 O sistema maioritário pode ocorrer a duas voltas.500 7.000 Lista B 23.

000/11.500= 2 23. quando a lei é feita pelo Estado que a ela se vincula Legalidade material. Jurisdicidade. no sentido de legalidade democrática Auto-subordinação. A legitimidade pode ser: i. Características: Legalidade formal. Princípios gerais Estes respeitam quer ao exercício da função legislativa.1.83 27. de acordo com o direito (as normas que vinculam a actuação das unidades públicas).Legitimidade dos governantes A legitimidade dos governantes reside na justificação para o exercício do poder face aos valores. Sistema misto ± Alemanha Combinação do sistema mioritário com o sistema proporcional. quando o Estado decide de acordo com uma norma.4. de título.000/11. Existe um círculo nacional ao qual concorrem diferentes listas de candidatos que podem ser eleitos e círculos uninominais restritos.500= 1 b. a qual advém do modo de designação do governante. de exercício. Cada eleitor tem dois votos correspondendo um para o circulo nacional e outro para o círculo uninominal restrito. inscrita na Constituição. ou seja. quer jurisdicional quer à governamental. que se traduz no modo de designação dos governantes através da aceitação por parte dos destinatários do poder. que se traduz na subordinação do Estado a princípios. regras. Actividade decisória do Estado 14.000/11. ii. sendo para o primeiro caso um sistema proporcional e para o segundo o sistema maioritário. onde apenas um candidato pode ser eleito. 1. critérios e objectivos existentes na comunidade política. Corresponde ao governante que foi designado nos termos da norma. 13. valores de natureza supra-positiva a que o Estado se submete 83 .500= 2 15. 14.

Igualdade formal. que é uma consequência do Estado Social de Direito e uma conquista do Século XX. 22. Igualdade material. Sempre que a administração tiver de tomar uma decisão.º). Tem como consequências: Acesso aos tribunais para exigir a reparação pela violação dos seus direitos. ou seja.º). 4. Esta é uma espécie de auto-tutela privada face a direitos lesivos/violadores de direitos. 2. Princípio da segurança jurídica. Serve para evitar que o legislador venha a agir no sentido de determinar a eficácia da lei. mormente no sentido da sua aplicação retroactiva 84 . que resulta de uma herança liberal. responsabilidade civil (aquele que lesa é obrigado a indemnizar o lesado (art. pela qual todos são iguais perante a lei. liberdades e garantias.84 Principio da legalidade e constitucionalidade. 16.º n. proibindo a existência de privilégios e imunidades.º). 21. significa que ele é o fundamento e o critério de adequação das entidades públicas. Direito de resistência (art. Principio da Justiça. 3. Igualdade (art. quando as entidades públicas decidem ou agem. que tem a sua fonte nos princípios jurídicos fundamentais que vinculam todos os que elaboram a constituição Os princípios gerais de Direito O direito comunitário e Internacional Público As decisões dos tribunais com força obrigatória geral Formulação negativa do princípio da juridicidade ± As entidades públicas do poder não podem ultrapassar os princípios da juridicidade Formulação positiva. deve optar por aquela que menos lesa os interesses e os direitos dos cidadãos (art. devem ter em conta as posições jurídicas subjectivas dos indivíduos. 13. mas também ao legislador e à administração.º.º. Princípio da boa fé b. 2.º e 266.º 1 da CRP) Esta vinculação dirige todas as funções do Estado.º1 e 18. Respeito pelos direitos e interesses dos cidadãos. Apresenta duas formulações: a. 9. 23. elas só podem agir quando existe uma norma que define a sua actuação. e que tem como corolários: a. direito de acesso ao Provedor de justiça (art.º n.º 2). que se traduz na possibilidade de não acatamento de uma ordem que viole os direitos fundamentais do individuo.º n. a qual não se esgota no principio da igualdade e não se vincula apenas à função jurisdicional. b.

Indirecta. 14. 7. administrativo. c. pela qual se exige que exista uma relação directa entre os meios escolhidos os quais têm de ser adequados para se atingirem os fins. quando são as próprias entidades públicas que pessoalmente o fazem. Principio da razoabilidade. ninguém pode ser culpado sem que tenha tido garantias de participação no processo. 9. 85 . quando não existe acordo ou consenso na sua base ± expressão por excelência da autoridade do Estado.85 e por via disso o direito cria mecanismos rígidos para a aplicação da lei com efeitos retroactivos. Unilaterais. no decurso do ano lectivo) 5. etc. b. que significa que os interessados devem colaborar ou participar na decisão de matérias que lhes dizem respeito. Directa. O Estado não pode alterar as regras do jogo a meio do jogo (por exemplo. pelo qual se pretendem alcançar o máximo de vantagens com o mínimo de custos. etc). mas não o devem fazer para além do que é estritamente necessário (conhecido como o principio da necessidade) 6. que se traduz no princípio da proibição do excesso ± as autoridades públicas quando agem podem lesar. do mesmo modo que as regras regulamentares só podem ser alteradas quando elas colidem com um processo já iniciado ( ex. pelo qual se impõe uma distância entre quem decide e o destinatário da decisão. o direito de audiência prévia dos interessados. 10. em concursos públicos. modelos de avaliação.2. 8. ou seja. processual. Ex. Formas de decisão 2. Principio da imparcialidade.Quanto à estrutura: a.4. Princípio da proporcionalidade.1. Principio da tutela ___. Princípio do procedimento adequado. que resulta da existência de normas definidoras da tramitação ou que conduzem ao objectivo final. como é o caso do procedimento legislativo. pelo qual se inscreve o balanço entre custos/vantagens. Principio da adequação. Formas de exercício da actividade do Estado 1. quando as entidades públicas criam entidades privadas para o exercício público ± exercício privado de funções públicas 14. a. Formas de exercício público É a regra geral. porquanto a actividade pública é exercida por entidades públicas. Princípio da participação ou colaboração dos interessados.

Formas de decisão públicas b. Bilaterais. Convenções internacionais . O destinatário está determinado (tem um carácter individual ou plural conforme o número determinado de destinatários): .Acordos entre Estados sujeitos de direito internacional público . quando existe encontro de vontades Podemos considerar cinco formas: i.2.1.Tratados solenes (objecto de ratificação pelo Presidente) .Protocolos entre entidades públicas iii.Acordos de forma simplificada ii. abstracção.86 i. pluralidade de destinatários e situações. Convenções de direito interno .Decretos judiciais b. Enquadramento histórico-teórico Para alguns não é possível limitar o poder do Estado.Actos administrativos .Regulamentos . Limites ao poder do Estado 15. Contratos de Direito Privado da administração v. Podem ser gerais ou de natureza normativa (generalidade. Quanto ao direito regular a. Individuais ou sem natureza normativa. Contratos administrativos iv. Formas de decisão de direito privado 13.Assentos Outras decisões judiciais com força obrigatória geral ii.Actos legislativos . Contrato judicial (contrato judicial pelo qual se põe termo a um litigio) 2. Quatro figuras: . pois o soberano não conhece limites pois negar-se-ia a si próprio (os limites possíveis seriam apenas de natureza 86 .

sendo assim um direito indisponível pelo Estado Três modelos de constituição portuguesa: i. Compromissória entre o monarca e o povo ± 1838 Actualmente nas constituições elas são a expressão da vontade popular O direito ordinário é limite ao Estado enquanto não pode por ele ser revogado O direito Internacional e o Direito Comunitário são um hetero-limite do poder do Estado (art. Autolimite ao monarca . 15. Limites não jurídicos O direito supra-positivo não está na disponibilidade do Estado.Partidos políticos (sobretudo os da oposição.6. os: . O Direito Comunitário é um auto-limite mas parte dele constitui um hetero-limite com uma base vinculativa (só vincula o Estado porque ele aderiu à UE).87 religiosa ou moral ou perante actos de auto-limitação do próprio monarca). O seu núcleo fundamental é a defesa de direitos naturais. O Estado está limitado por princípios jurídicos fundamentais que o transcedem e que estão fora da sua disponibilidade ii. entendendo que o Direito deve a sua existência ao Estado.º 1 CRP) O direito internacional Público convencional é um auto-limite. logo a questão da limitação é falsa. O poder do Estado não se circunscreve a limitações jurídicas. . Três ideias importantes sobre a limitação do Estado: i.Grupos de interesse 87 . pois o Estado só está submetido às Convenções Internacionais se as aprovar. Hetero-limite ao monarca ± 1822 iii.º. Também são limites não jurídicos. sendo possível a existência de limitações não jurídicas ao seu poder. enquanto para outros não é necessário pura e simplesmente limitá-lo porquanto o Estado identifica-se com a vontade geral enquanto outros ainda identificam o Direito com o Estado. pois é o Estado que define e poderá a voltar a definir os seus limites. 6. n. o direito pode moldar a sociedade (legalidade democrática) iii. O Estado tem uma margem de voluntarismo.1826 ii.

representantes de duas classes sociais apresentavam a legitimidade popular e aristocrática. Parlamento Como é possível controlar internamente a sua actividade. a. ao transformar o bicamaralismo em relação à forma do Estado. tendo uma legitimidade mais restrita e por consequência um peso menor. Mecanismos interorgânicos de controlo jurídico 16. Parlamento Britânico. Por um lado. Na UE discute-se se os Estados devem ter apenas um representante territorial no Parlamento ou se devem ter uma representação semelhante com a dos EUA. Bicamaralismo ± O Parlamento é composto por duas assembleias. tem representação proporcional de todos os Estados membros da União (Câmara dos Representantes) e por outro lado. i. Representa assim. sendo constituído por 100 Senadores ± 2 por Estado. Normalmente a segunda câmara tem menos poderes do que a primeira.Opinião pública . Mecanismos interorgânicos de controlo político 3. 88 . Este esquema foi copiado quer pelos monárquicos quer pelos EUA.Meios de Comunicação Social 17-10-03 16º Mecanismos de controlo do poder do Estado 16. Mecanismos intra-orgânicos 1. A Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes. Tipologia Três mecanismos de controlo do poder 1. Mecanismos intra-orgânicos 2.1.88 . uma forma de compromisso dentro do Estado da sua forma de Estado. Características da segunda Câmara 1.2. é a estrutura representativa do Estado federal (Senado). Este país deu um passo mais em relação a este sistema. sendo a distribuição da função legislativa confiada a duas câmaras separadas e independentes. respectivamente.

2. que é fixada para algumas reuniões por todos os partidos com assento parlamentar . o qual tem a possibilidade de os vetar. como aconteceu entre nós com a Câmara Corporativa servindo ao mesmo tempo para limitar a acção do Parlamento. que são realizados com a presença e participação de todos os grupos parlamentares. Controlo do executivo A partir do executivo dualista.Composição das comissões parlamentares. . o que lhe confere a perfeição do federalismo. b. que apresentam uma representação proporcional dos diferentes partidos. Assinatura ministerial dos actos do Chefe de Estado ± referenda -. de que ressaltam: . . 2.Determinação da ordem do dia.A composição da mesa do Parlamento. ii. as quais podem estar na constituição e no regimento.89 Nos EUA o Senado tem menos peso político do que a Câmara dos Representantes. A organização interna do Parlamento As regras e normas parlamentares definem a sua própria organização.. As maiorias qualificadas Aquela que é superior à maioria absoluta (2/3. Mecanismos internos a. R. acontecendo o inverso na UE que traduz um federalismo imperfeito. Promulgação e assinatura dos actos do Governo por parte do Presidente da República. servindo para limitar o Parlamento ao impor à maioria política governamental a um esforço de aproximação com as restantes forças para aprovação de determinadas leis.Debates na A. ou seja. podendo deste modo exercer poderes de veto ou de redução do âmbito da lei. assente em duas cabeças: o Chefe de Estado e o Chefe de Governo. iii. que também é definida em função da regra da proporcionalidade . a qual é definida sob proposta dos partidos com assento parlamentar. A segunda câmara podia servir para melhorar as leis. não cabendo a sua presidência ao partido mais votado sempre. 4/5) e traduz-se numa excepção. donde resultam uma multiplicidade de relações de dependência e coordenação.Comissão permanente da A. poderes partilhados e cooperação institucional. R. 89 .

4. Recurso ± O destinatário do acto pode não concordar e recorrer perante entidades diferentes daquele que praticou o acto d. 3. Administração No essencial existem quatro mecanismos principais: a. Quando o destinatário do acto reclama ± reclamação ± tratando-se da impugnação de um acto perante o seu próprio autor. Decorrente da sua independência eles não podem estar sujeitos aos governos. Princípio da dupla instância (decisões dos tribunais podem ser objecto de recurso para outro tribunal superior).Destituição do Presidente da República mediante acusação 90 . na medida em que tem de aprovar todos os actos do Governo que envolvam aumentos de despesa do governo. a. c. pela nomeação dos ministros pelo PR sob proposta do Primeiro Ministro d. Intervenção do Ministro das Finanças.O controlo exercido pelo Parlamento sobre o Governo . pelo que tem um verdadeiro poder de veto neste caso. ao revogar a sua decisão assim como o respectivo superior hierárquico do decisor. Estrutura colegial dos tribunais b. Controle dos próprios órgãos de decisão. Mecanismos interorgânicos de controlo político a.90 c. Poderes partilhados. Estrutura de instituição interna de controlo constitucional dos juízes ± Conselho Superior de Magistratura c. b. na medida em que integram diferentes sensibilidads na medida do respeito do pacto que sustenta o acordo e.3. 16. Tribunais Apesar dos tribunais serem independentes os juízes podem exercer de forma abusiva as suas funções pelo que se torna necessário garantir esta eventualidade. Governos de coligação. Queixa ± Denúncia de comportamento apelando ao autor do acto. Mecanismos internos . A queixa junto do Provedor de Justiça é relevante. etc. ao Parlamento ou à opinião pública.

como é o caso do Reino Unido. Discute-se a existência ou não de direito de intervenção militar na ausência de democracia num determinado país. estando os deputados neste caso. quando se trata da proposta orçamental. apreciação parlamentar do programa de governo ou a necessidade de confirmação parlamentar de certas nomeações. O Parlamento pode controlar o governo através das chamadas segundas interpelações (perguntas ao governo). No Direito português todos os tribunais são 91 .Voto bloqueado.4 Mecanismos interorgânicos de controlo jurídico a. Controle do Parlamento por parte do Governo: .que tem como consequência o governo poder fazer prevalecer o seu querer legislativo sobre a AR. comissões de inquérito (constituição norte americana). através da apresentação quer de uma moção de confiança quer de uma moção de censura ii. 112. Possibilidade de o Parlamento retirar a confiança política ao governo. Mecanismos internacionais i. prevê que os Estados da UE que se afastem da cláusula democrática sejam alvo de sanções ii. impedidos de apresentar projectos de lei que envolvam aumentos das despesas ou diminuição das receitas.º n.º 2 . b.Controlo jurídico sobre actos e pessoas No primeiro caso. .Fixação da ordem do dia no Parlamento reivindicando prioridade às propostas do Governo . Mecanismos internos . .A iniciativa do governo pode levar à dissolução do Parlamento. O Congresso pode desencadear uma inibição política do Presidente ± impeachement iii. 16. Tratado de Amsterdão. no caso português ser exclusiva. trata-se da fiscalização da constitucionalidade enquanto processo de controlo da actividade dos Estados. necessidade de aprovação de determinadas convenções internacionais.Paridade hierárquica ± art. que se trata de votar apenas os textos que o governo aceita . onde a Câmara dos Comuns pode ser dissolvida sob proposta do Primeiroministro e autorização da Rainha.Urgência no processo parlamentar .91 i.Iniciativa legislativa ± Esta pode.

No controlo sobre as pessoas. Mecanismos internacionais de controlo jurídico i.5 Mecanismos extra-orgânicos de controlo legalidade das decisões administrativas através dos tribunais 92 . Apresentação de queixas por parte de cidadãos no âmbito do comité dos Direitos do Homem v. liberdades e garantias e quando a norma não foi promulgada. e ineficácia. Origina inexistência do acto. Tribunal de Justiça da U. Acesso ao Tribunal Penal Internacional contra quem pratica actos contra a humanidade vi. quando a lei viola ostensivamente direitos.E. O TC exerce fiscalização concentrada pela qual apenas ele tem competência: Preventiva da constitucionalidade Ajuizar da inconstitucionalidade por omissão Declarar inconstitucionalidade com força obrigatória geral Das decisões de inconstitucionalidade praticada pelos outros tribunais cabe recurso para O TC. Responsabilidade criminal dos titulares de órgãos políticos b. apresentam-se duas figuras: i. Outros mecanismos existentes em convenções de Estados 16. A título excepcional pode ser reconhecida competência para desaplicar uma lei inconstitucional. Os Estados estão sujeitos à esfera de intervenção do TIJ iii.º CRP ± Fiscalização difusa. Tribunal Europeu dos Direitos do Homem iv.92 competentes para recusar a aplicação de normas contrárias à Constituição ± art. Responsabilidade dos titulares cargos políticos ± Lei 34/87 de 16 de Julho ii. quando a norma não foi objecto de referenda ministerial e quando a norma não foi publicada no Jornal Oficial. Podem ou não os órgãos administrativos fiscalizar a constitucionalidade das leis? Deve aplicar ou recusar a sua aplicação? Por via de regra os órgãos administrativos devem aplicar a lei inconstitucional. Fiscalização administrativos. 204. ii.

Caracterizam-se por quatro ideias: i. Crença num valor sagrado do mercado iv.93 Mecanismos que servem para controlar o Estado: a. Minimização do papel do Estado iii.Modelo económico de Estado ± abstencionismo ± em que os agentes económicos são essencialmente privados. a.Limitação do poder . Direito de resistência ± art. Centralidade do valor da liberdade.Matrizes da ideologia política do Estado ocidental 17. Apresenta vários corolários: .Expressão de uma classe ± burguesia e valorização da propriedade . Eleitorado Eleições periódicas Referendo b. Valorização da propriedade privada b. normalmente através dos meios de comunicação social c. Individualismo ii.Herança revolucionária na Europa continental .º 21 CRP Aula 07-01-04 CAPTÍTULO V Instituições e sistemas políticos do Estado 17º . Evolução 93 . Opinião Pública Nacional e internacional.1 Liberalismo Assenta a sua filosofia no sentido da liberdade como condição essencial do homem.

Relevância da segurança e ordem pública d. f. Preferência pela liberdade sobre a igualdade e. Valorização da história e da tradição b. A este critério não obedecem nem os EUA nem a Grã-Bretanha. Keynesianismo. Estado de Bem-Estar. através da intervenção do Estado. Modelo intervencionista do Estado. que ao Estado cumpre um conjunto de acções de intervenção económica. no sentido da sua garantia. recusando a legitimidade democrática e atribuindo preferência à legitimidade monárquica. Importância da religião e do modelo judaico cristão. Conservadorismo contra-revolucionário ± legitimistas do século XIX e opositores da Revolução Francesa 94 . pois os seus modelos têm raízes anteriores ao modelo do Estado de bem-estar.O Estado atribui a outros a regulação de determinados serviços: auto-regulação. ¡ iii. Até 1929 ± herdeiro do século XIX ii. Dogmas conservadores: a. Adversidade à ideia de colegialidade. É historicamente um movimento contra revolucionário contra a revolução francesa e contra igualdade liberal.Neo-liberalismo. De 1930 até finais dos anos 70. c. Importância da propriedade privada. Tipologia histórica: i. EUA e Grã-Bretanha. .94 No século XX podemos considerar três períodos: i. De 1980 a . antes necessitando da intervenção do Estado. Por esta grande parte dos Estados assenta as suas constituições num modelo de Estado intervencionista. Ligação entre autoridade e poder.Redução do peso do Estado na economia . Conservadorismo É o modelo político hereditário do período pré-liberal. de tal modo. O mercado não pode por si só dar satisfação em termos económicos. 17. decorrendo daqui limites.Fenómeno das privatizações .Cláusula constitucional de Bem-estar. que são definidos no quadro constitucional. .2.

sendo o rei a expressão do poder e portanto quem faz a outorga constitucional. Propriedade colectiva em detrimento da propriedade privada c.3. económica e cultural. 30 do século XX. com intervenção central do Estado 95 . iii. Socialismo democrático. do ponto de vista social. Estas ideias socialistas acabariam por vir a ser integradas em parte pelo modelo keynesiano e pelo modelo do Estado social. Economia de direcção central Características: Conduz à centralidade do Estado. É ainda uma resposta ao sovietismo da revolução russa de 1917. Conservadorismo restauracionista ± Está na base das cartas constitucionais francesa e portuguesa. cuja questão fundamental é a do compromisso entre as forças da burguesia e as forças do proletariado. Maoísmo. Modalidades: i. A sua influência faz-se sentir até aos anos 20. 17. ligando ao movimento da restauração dos Bourbons. Igualdade em detrimento da liberdade b. iii. Intervenção do Estado d. O rei aceita limitar o seu poder através da outorga da Carta Constitucional. Aceitação do capitalismo e da força do mercado b. Aceitação da ideia de pluralismo c. Socialismo Surge como instrumento de combate ao liberalismo e depende de quatro principais referências históricas: a. ii. Compromisso entre passado prérevolucionário e revoluções liberais. Preocupação social. caracterizado por ter como fim a construção da sociedade comunista e pela abolição do Estado e a ditadura do proletariado como figura transitória. Socialismo marxista-leninista. que assenta em 4 ideias base: a. Ideia da transição para o socialismo. Conservadoriso neo-liberal É uma confluência entre as correntes tradicionalistas e o movimento liberal sendo evidente nos últimos anos do século XX.95 ii.

a perspectiva neo-liberal do ponto de vista económico. O Referendo 96 . aceitando hoje. Semi-directa Decisão elaborada submetida a decisão popular ± referendo -. por poder contrariar a vontade dos representantes ± desautorização da democracia participativa -. b. Reconhecimento dos direitos fundamentais b. .Sufrágio universal .Sufrágio periódico Existência de instrumentos que permitam actualizar a representatividade. e. Pelo contrário. 18º Modelos político-constitucionais do Estado 18. Tipos de democracia pluralista a. que permite aferir a vontade dos representantes. nomeadamente através da implementação do referendo por exemplo.96 d. Mecanismo actualizador da democracia representativa. ainda que seja apenas um critério de decisão e não um critério de verdade. em freguesias com menos de 200 eleitores).2 Características gerais a. Designação de titulares poder político a partir do sufrágio universal c.Princípio maioritário. c. Democracia representativa A eleição é o processo através do qual o povo forma e expressa a sua vontade. Democracia directa O povo exerce o seu poder directamente e sem necessidade de interposição de representantes. Importância da hierarquia de normas e da jurisdicidade.1 Modelo pluralista 18. em populações reduzidas é possível (por exemplo. É impraticável para populações muito extensas. Importância dos partidos políticos dentro do Estado d. Alteração na perspectiva económica da intervenção do Estado. ainda que o Direito português olhe com desconfiança para o referendo. Controlo jurisdicional do modelo i. É necessário que existam alguns requisitos: .

Efectivamente. Principio limitação matérias susceptíveis de referendo. Os inimigos da democracia a.º da CRP. e só é admissível para aferir de assuntos relativos a tratados internacionais em face do art. Deve distinguir-se da iniciativa popular. dada a necessidade de conjugação de três entidades: PR. Pode dificultar a existência do referendo. quer por via legislativa quer através de convenção internacional e pode ainda funcionar como critério de integração de lacunas. Os limites das matérias a referendar resultam do n. porquanto ele exige intervenção directa do povo na decisão. Tem todavia a desvantagem de não assegurar a igualdade mas privilegiar os mais ¢ desorganizados ou ii. 115 n. o que significa que apenas algumas das matérias podem ser alvo de referendo. Correntes políticas anti-democráticas Como deve a democracia confrontar-se com elas? Aceitá-las ou exclui-las? Por exemplo em Espanha proibiu-se um partido político por se considerar inimigo da 97 . Governo e A. quando desencadeado por iniciativa de autoridades internacionais.º 5 da CRP. a legislação laboral. ainda que condicionado em função do n.º 4 do art. b.97 O referendo pode ser. enquanto na iniciativa popular ela apenas é submetida ao Parlamento através de uma petição colectiva.º 11 do art. Interdependência os órgãos de soberania. 115 ³ O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento´. excluindo-se questões de direito ou administrativas. o que conduz a que todos os órgãos de soberania estejam tenham de intervir no processo. quando desencadeado pelo poder do Estado e pode dizer respeito a parte do território nacional. 115. Impõe-se quando se trata da definição do referendo que se verifique: a. sendo que a AR apenas a aprecia e podendo não a considerar como relevante. O referendo tem natureza vinculativa.R. interno. b. a nível local ou regional ou internacional. serem questões de relevante interesses nacional e de carácter nacional. É ainda um acto político criador de determinada obrigação. tais como. Democracia participativa Resulta da ideia de que não se esgota na democracia representativa a participação/intervenção popular. hoje pode verificar-se que existem outras instâncias como o Direito Administrativo ou estruturas representativas da sociedade como por exemplo.

b. 98 . Defesa internacional a favor da democracia.98 democracia. do fundamentalismo. Não existe um princípio geral que aceite a intervenção armada para o restabelecimento da democracia interna dos Estados. O Direito penal político é uma forma fundamental para servir a democracia ainda que tenha o perigo de servir de instrumento do poder enquanto enquadrado num determinado modelo de democracia. b. Intolerância É o caso do racismo. Pode também impor-se regras de convivência e tolerância dentro do sistema. A defesa da democracia Deve a democracia tolerar os seus inimigos? a. iii. quer utilizados pelo Estado ou pela sociedade c. Terrorismo Que pode ser nacional ou internacional e é muitas vezes condutor ao Estado de Segurança Nacional.

sendo a sua base ideológica o pensamento de Rousseau. mas que influenciaria a Constituição soviética de 1917. iv. Ditadura de partido único Concentração de poderes num órgão singular. ii. Subordinação do jurídico ao político. Características gerais i. Tentativa de mobilização das massas num clima mais ou menos irraciona ao serviço do próprio poder. Ele é um meio ao serviço dos fins do Estado. Características Matriz soviética Apropriação colectiva dos meios de produção Assente na ideologia socialista. Modelo totalitário a. não existe pluralismo político (existe apenas a verdade oficial do Estado) iii. quer na formulação marxista-leninista quer na estalinista. Ausência de pluralismo de forma efectivo. historicista ou tradicionalista. Não há oposição legalizada. consubstanciado na Constituição jacobina (1793) que nunca chegou a entrar em vigor.99 AULA 14-01-04 18. com clara instrumentalização da constituição ao serviço dos detentores do poder. Podem considerar-se dois modelos principais: a. Democracia popular (totalitarismo de esquerda) i.3. Democracia orgânica (totalitarismo de direita) i. Características Estrutura-se na base da ideologia conservadora. Relevância da Nação e/ou da razão Relevância do partido único baseado no culto do líder 99 . Personalização do poder. O controlo estadual dos meios de comunicação social e de todas as estruturas económicas e sociais da sociedade. b. Desvalorização do ser humano perante o Estado. A Constituição real é diferente da Constituição formal.

sovietismo e maoismo. Procura ser uma via diferente entre o liberalismo e o comunismo. Sistema parlamentar Não existe sistema parlamentar sem responsabilidade política do Governo perante o Parlamento. Ao lado da estrutura administrativa do Estado existe a estrutura administrativa do partido. com o intuito de influenciar o modelo pluralista. A desvalorização da pessoa pela desvalorização do direito à vida (aborto e eutanásia) em função dos interesses. Importância da organização corporativa do Estado. Estes existem para o serviço do homem e não no inverso. no qual estes assumem o monopólio da representação política Preocupação do partido vencedor na alteração do aparelho de Estado para o instrumentalizar ao seu serviço. entre o capital e o trabalho.1. 100 .º Sistemas político-governativos do Estado 19. que na maior parte das vezes condiciona e influência a estrutura administrativa do Estado. Divinização do principio maioritário. 19. O individuo tem o primado face ao Estado. Isto pode chegar ao ponto de a revisão constitucional ser obra dos directórios dos partidos e fora do Parlamento sem controlo do próprio Parlamento.100 A preocupação de desenvolvimento de mecanismos de representação política alternativos aos do liberalismo ± sufrágio alternativo ± no sentido do combate ao individualismo liberal. Estado de partidos. Designada «cultura de morte» que se define na incoerência do modelo pluralista. Aqueles modelos consubstanciam-se em 4 regimes políticos: Fascismo. tais como: Perda de sentido do valor vida Surgimento de partidos não democráticos. Desvalorização do progresso técnico e cientifico. Também ao nível das Regiões Autónomas e das Autarquias o mesmo pode acontecer. Existe o perigo do modelo totalitário contagiar o modelo pluralista através de várias manifestações. nazismo.

Assim o rei passa a nomear alguém que expressa a vontade política do monarca mas a vontade política do Parlamento.101 Órgão autónomo em relação ao chefe de Estado e em relação ao Parlamento ± Governo -. Altera-se ao sentido da perspectiva da responsabilidade. onde o Gabinete desde o século XVIII veio obtendo uma progressiva autonomia face ao monarca. quando o Governo apenas necessita da confiança política do Parlamento. Gabinete Origem na Grã-Bretanha. Monista. sendo dele a orientação do Governo. 2. tendo por base a responsabilidade criminal do ministro perante a Assembleia. Assembleia e Racionalizado. Eixo fundamental é o Gabinete e dentro deste o Primeiro-ministro. A existência de um sistema bipartidário 101 . Pressupõe uma constante confiança política em relação ao Governo por parte do Parlamento. É ainda o caso do modelo norte-americano. Prevalência política do Gabinete sobre o Parlamento Parlamento dominado pela maioria e esta obedece ao seu líder e este por sua vez é simultaneamente Primeiro-Ministro. e manifesta-se de três formas: Gabinete. a. Parlamento ao retirar a confiança política ao Governo significa a demissão deste. i. O Parlamentarismo monista Responsabilidade exclusiva do Governo perante o Parlamento. Pluralista. Dois tipos de sistemas: i. O sistema Parlamentar de uma forma geral tem a sua génese na Grã-Bretanha. A responsabilidade política estava assente no Parlamento. Características: 1. O Primeiro-Ministro passou a ser o elo de ligação entre o Gabinete e o monarca. ii. logo existe uma clara correlação de forças. devido no essencial. A responsabilidade política é consequência histórica da responsabilidade criminal. Apresenta duas manifestações: Sistema orleanista e semi-presidencialismo. ao facto de este deixar de lhe presidir. quando o governo tem na sua base uma dupla dependência política: do Parlamento e do Chefe do Estado.

iii. etc.102 A representação política parlamentar tende a esgotar-se em dois principais partidos. Multipartidarismo desorganizado com a quase impossibilidade de alcançar maiorias absolutas e consequente instabilidade governativa 3. dentro do Parlamento prevalece a Câmara dos Comuns. Experiências históricas: Terceira República Francesa IV República Francesa I República Portuguesa Características: 1. Dentro das instâncias britânicas. amanhã pode estar no Governo. 4. Racionalidade 102 . mas é um instrumento para encontrar uma solução governativa possível. Supremacia total do Parlamento sobre o Governo 2. 3. ii. O Poder de dissolução não é instrumento nas mãos do Chefe de Estado para que possa consolidar a sua posição. Há quem fale na autonomização de um sistema político novo. Durante o período de uma legislatura podem suceder-se vários governos. mesmo quando o Gabinete está em vias de perder a maioria. Assembleia O primado da Assembleia sobre o Governo. 4. o Primeiro Ministro pode dissolver o Parlamento e apresentar-se a eleições. o Parlamento prevalece sobre a coroa. O Estatuto privilegiado da oposição parlamentar A ideia do Governo sombra é um estatuto de reconhecimento de quem está na oposição hoje. Possibilidade de uma maioria absoluta Parlamentar que se traduz na estabilidade do sistema. Verdadeira ineficácia política da responsabilidade do Governo perante o Parlamento Na prática é quase impossível que o Governo seja destituído pelo Parlamento e. face à perspectiva diferente da posição do Primeiro-ministro na Grã-Bretanha.

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É uma resposta ao parlamentarismo de Assembleia que pretende disciplinar de forma mais razoável e impedir a indisciplina política. Criam-se os mecanismos jurídicos que possam limitar a acção dos parlamentos sobre os governos. Mecanismos (existentes na CRP) a. Exigência de um prazo entre a apresentação e a votação de moções de censura, sendo este prazo essencialmente para permitir uma certa reflexão; b. Limitação da iniciativa dos deputados que apresentem uma moção de censura rejeitada. Estes deputados não podem voltar a apresentar outra moção num determinado período de tempo; c. Exigência de um número mínimo de deputados para ser apreciada uma moção de censura d. A não exigência de um voto de confiança ao Governo no início das suas funções, não tendo ele de ter uma desconfiança do Parlamento. e. Exigência de uma maioria especial para a aprovação do Programa de Governo e para a aceitação da moção de censura ± maioria absoluta -. f. Moção de censura construtiva. Quando é desencadeada a moção de censura, o texto tem a indicação de um nome do eventual sucessor do Chefe de Governo. O nome do candidato alternativo provém do maior partido da oposição ou fora deste. Modelo ideal para garantir estabilidade no sistema parlamentar. Exige-se a constituição de duas vontades: a do Parlamento e a do Chefe de Estado. A origem da Constituição de 1838 em Portugal assenta nesta perspectiva Características: 1.Dupla responsabilidade política do Governo, perante o rei e o parlamento, sendo a falta de confiança política de um dos dois órgãos, suficiente para a demissão do Governo 2. Diferenciação de legitimidades. O Governo na dupla legitimidade oscilava entre a legitimidade democrática do Parlamento e a legitimidade do Rei. 3. Natureza compromissória do modelo constitucional. O Parlamento apreciava a constituição e o monarca aprovava-a iv. Semi-presidencialismo Origem francesa, sobretudo a partir de 1962 na revisão constitucional da V República (1958). A partir daquela data o Presidente da República passou a ser eleito por sufrágio directo e a ter uma legitimidade democrática idêntica à do Parlamento e

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criou-se uma dupla responsabilidade política do Governo: perante o Parlamento e perante o Chefe de Estado. a. Identidade de legitimidade entre o Parlamento e o presidente b. Forma republicana versus forma monárquica Outros traços característicos: 1. Existência de poderes de intervenção política do PR i. Direito de veto político, pressupondo que só a maioria absoluta pode reaprovar a lei ii. Dissolução do Parlamento por ter poderes discricionários iii. Demissão do Primeiro-Ministro por quebra de confiança. Este aspecto evidencia que em Portugal, o sistema não é semi-presidencialista. Também em França o não é: é-o hiper-presidencialista, sendo este modelo raro nos sistemas políticos.

21-01-04 19.2. Sistema Presidencial a. Conceito, evolução e espécies Três características fundamentais: a. O Presidente da República é simultaneamente chefe de Estado e de Governo e exerce funções administrativas e legislativas. b. Não existe autonomia de um órgão de governo. Os secretários de estado são meros colaboradores do Presidente da República e são perante ele responsáveis. c. Nem o Parlamento pode destituir o Presidente da República nem o Presidente pode dissolver o Parlamento. Evolução A origem do modelo é americano ± Constituição de 1787 ± sendo a sua origem mais remota a figura do rei britânico dos séculos XVII e XVIII. Assenta num modelo de supremacia de poder que traduz um sistema de freios e contra-freios e interdependência na separação de poderes. Três grandes tipos:

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a. Presidencialismo perfeito ± Sistema norte-americano A influência de Montesquieu é elemento determinante, na base da teoria dos freios e contra-freios (pouvoir d¶estatuer e pouvoir d¶empecher). O primeiro é atribuído ao Congresso (Legislativo) e o executivo ao Presidente da República e legislativo. O poder de impedir assenta, no que se refere ao Presidente e ao Congresso em: i. Poder de veto ± Os diplomas aprovados pelo Congresso têm de ter o assentimento do Presidente da República. Este veto conduz o diploma ao Congresso e este só pode reaprovar o diploma com maioria de 2/3. O poder legislativo está limitado fortemente pelo Presidente. A lei é sempre fruto da vontade do Presidente e do Congresso. No final da sessão legislativa, se o Presidente discordar do diploma, pode usar o pocket-veto (silêncio do Presidente) não o devolvendo ao Congresso. Este é um poder suplementar do Presidente. ii. Força política do Presidente. Este é a expressão de toda a União, pois quer no Senado quer nos representantes a origem dos membros é determinante, enquanto o Presidente è mais abrangente. b. Congresso e Presidente Influência do legislativo O congresso faz as leis ± sendo que o Presidente pode usar o veto, mas quem faz o texto das leis é o Congresso. Ainda que o Presidente possa enviar mensagens ao Congresso procurando influenciar tal texto. O presidente está obrigado a acatar as leis e não pode deixar de acatar as leis. Quem tem competência para aprovar o orçamento é o Congresso. A nomeação dos mais altos funcionários da Nação depende da intervenção do Congresso, podendo recusar as normas propostas pelo Presidente. As comissões de inquérito, quando surgem dúvidas face ao Presidente ou a sua administração são propostas pelo senado. O Congresso pode desencadear acção criminal contra o Presidente ± empecheament ± no sentido da sua destituição. c. Tribunais, Presidente e Congresso

b. Presidencialismo adulterado ou imperfeito ± América do Sul (Brasil)

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A cessação da norma constitucional nem sempre significa o fim do texto constitucional. Passagem a Estado federado de Portugal. b. mantendo-se a sua identificação constitucional. Distinguem-se duas formas: a. Transição constitucional. Modificação dos princípios fundamentais da constituição. b.Limites materiais impendem a alteração do regime político. que origina a não aplicação das normas escritas da Constituição. que é realizada através de um processo de modificação da constituição. Art. Cessação da vigência da constituição 24. quando o principio era o da monarquia. Hiper-presidencialismo ± V República francesa. 25º.106 c. pela qual se provoca uma alteração do próprio texto constitucional (Como é exemplo a passagem de uma constituição monárquica para republicana). Constitucionais ± E que se insere dentro do quadro constitucional. desenvolvimento de Constituição económica de matriz capitalista quando a constituição apontava o marxismo e desenvolvimento do sistema parlamentar no século XIX. alteração da unidade de Estado. sendo exemplo. Processos aconstitucionais de cessação de vigência da Constituição São aqueles que se enquadram fora dos mecanismos previstos na Constituição a. restauração da monarquia em Portugal. 288 . normalmente pela via da força. uma transição constitucional. verificando-se neste caso. Caso português por excelência.2. Processos Constitucionais de cessação de vigência da Constituição Existem dois grandes processos determinantes da vigência de uma Constituição 1. Processos não revolucionários Normatividade constitucional não oficial. Revisão constitucional. Dissolução da Constituição nacional: A Constituição europeia 106 . quando existe sintonia entre maioria parlamentar e do Presidente. com respeito das normas constitucionais.1. pode voltar a ter vigência. Aula 11-02-04 24º. 24. Processos revolucionários Ruptura directa e imediata com o processo constitucional vigente.

cujo sentido não depende da interposição de nenhuma norma. sendo mais vagos e indeterminados. tendo estes. Em Portugal para que isto exista tem de haver revisão constitucional para altera o limite da independência nacional. art. O problema é o do art. Haveria aqui um fenómeno de transição constitucional. Os últimos preconizam mais do que uma solução.107 Esta ideia formalmente não pode fazer esquecer que materialmente a Constituição europeia já existe. 26. Estes dois tipos são o cerne das constituições de matriz liberal. Os princípios admitem convivência com princípios opostos. Horizontais e verticais. Funcionais são as que definem os poderes e competências dos órgãos. A Constituição nacional é uma norma princípio.Tipologia das normas constitucionais 26. subordinando assim a Constituição dos Estados. Relacionais são as que estabelecem relações entre as pessoas e o Estado ou entre este e a pessoa e entre as próprias pessoas. enquanto as regras só apontam uma solução concreta. Á luz da Constituição europeia os Estados não são iguais.1. ou não carecendo de um acto 107 . Principais classificações Normas regras e princípios. Tipos de normas e modelos constitucionais Orgânicas. enquanto as regras não o permitem sob pena de existir uma contradição. quer ao nível do governo. funcionais e relacionais Orgânicas são as que estruturam os órgãos. afirmando que o direito europeu prevalece sobre o direito dos Estados. Capítulo II As normas constitucionais 26. tendo de harmonizar-se. Neste âmbito duas realidades jurídicas: normas perceptivas. da AR dos tribunais ordinários e do Tribunal Constitucional.2. identificam o programa e estas podem ser exequíveis por si mesmas. normas programáticas. de tudo ou nada. donde resulta a pluralidade de sentidos possíveis. já existe uma Constituição Europeia. Materialmente. 85 e ss da Constituição -Constituição económica é claro exemplo desta situação. subalternizando o principio da igualdade dos estados federados tradicionais. são as que apontam caminhos. um grau de abstracção superior ao das regras. enquanto as regras não permitem grande amplitude. 10 da Constituição. pelo que em relação a determinadas matérias Portugal tem de conformar-se com as regras comunitárias. Hoje já existe uma transição constitucional.

A questão é saber quando se revela o sentido da norma.1.cada regra deve ser interpretada dentro do todo 108 . 27. Interpreta autenticamente a lei constitucional ou aclara-a: revisão constitucional autentica.que determina a intervenção normativa para a sua implementação. 27. Tribunais que interpretam as normas constitucionais .Habeas Corpus . Três vias: 1. Relevância dos factos e da historia nos factos.interpretação judicial Legislador. sendo que as normas relacionais que imponham uma abstenção do Estado. As normas programáticas exigem a intervenção do Estado. Publica ou doutrinal. Princípios de interpretação constitucional Cinco regras 1. Estas normas condicionam a Constituição do Estado. 31 . Interpretação constitucional 27. Princípio da unidade .108 legislativo para produzir os seus efeitos (igualdade entre homens e mulheres. Interpretação As normas jurídicas têm de determinar o seu sentido. A Constituição é aberta a uma pluralidade de intérpretes mas com interpretação prevalente pelo Tribunal Constitucional. Contexto histórico da norma: em foi elaborada e em que vai ser aplicada. Texto na sua literalidade.que é exequível por si própria. 65 -direito a habitação . Interpretação evolutiva. 3. Sistematizado dentro do ordenamento jurídico. Quem interpreta a constituição: A. via A.2. Dois tipos de intervencionismo: predomínio do Estado (modelo constitucional marxista) e total subalternização da sociedade (totalitarismos gerais) e situações onde o Estado intervém mas deixa ao mercado uma esfera ampla de intervenção.R. 2. o mesmo não acontecendo com art.Inserção sistemática e a norma valem dentro do diploma em que se insere e fundamentalmente à luz do quadro constitucional. são exequíveis por si mesmas) e não exequível por si mesma é por exemplo o art. a maior liberdade advém da menor intervenção do Estado.

109 constitucional. extraindo de normas jurídicas constitucionais um sentido que aplique ao caso concreto 4. Pós eficácia das constituições 109 . 5. Eficácia temporal Três ideias. O direito anterior cessa a sua vigência da constituição anterior. as normas constitucionais devem ser interpretadas de acordo com a organização politica da constituição. Máxima efectividade. 16 CRP. art. 28. Pode ter ou não vacatio legis 2. A constituição produz efeitos para futuro. a Constituição deve ser interpretada tendo em conta a interpretação política e social.através do estudo praeter legem.Conformidade funcional. Integração Ausência de regulação . Concordância pratica. soluçãõ preconizada pela consituição 2. 29. ainda que se faça sentir os princípios da hierarquia das leis. Na ausência dos anteriores pode ver o espírito constitucional e imaginar a norma que o intérprete criaria naquele caso. Interpretação sistemática 2.art. E antes da aplicação constitucional? O direito ordinário mantém-se em vigor desde que em conformidade com o novo texto constitucional -art. Analogia. 3. 3. 1. A constituição e o fundamento do ordenamento jurídico. Efeito integrador. 290 n. com recurso a integração para alem da Constitui 3.lacunas 4 vias de integração: 1.1-. que quando há interesses conflituantes deve procurar-se a harmonização das normas respeitando mutuamente as normas. 290 nº 2 E o direito constitucional anterior? Três hipóteses. o que significa que entre dois princípios se deve opta pelo sentido mais generoso aos direitos fundamentais 4. e possível que a nova constituição ressalve a vigência da constituição anterior .

Isto significa que mesmo com um texto constitucional novo as questões jurídicas mantêm a sua produção jurídica.110 Uma constituição cessa a sua vigência de varias formas. Mas muita da legislação em vigor provém de períodos anteriores assim como decisões judiciais que se mantêm em vigor assim como actos da administração pública. Hoje ainda se atende aos efeitos de normas jurídicas de constituições anteriores . tendo o referencial de validade a nova constituição mas é a norma constitucional ao abrigo da qual foram feitos que lhe delimita o conteúdo.eficácia pós morten dos textos constitucionais - 110 .

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