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Nossa tradição educacional sempre negou a existência de uma pluralidade de normas lingüísticas dentro do universo da língua portuguesa; a própria

escola não reconhece que a norma padrão culta é apenas uma das muitas variedades possíveis no uso do português e rejeita de forma intolerante qualquer manifestação lingüística diferente, tratando muitas vezes os alunos como “deficientes lingüísticos”. Marcos Bagno argumenta que falar diferente não é falar errado e o que pode parecer erro no português não-padrão tem uma explicação lógica, científica (lingüística, histórica, sociológica, psicológica). Culturas onde as pessoas praticam mais a linguagem oral a escrita tem uma forte tendência em pronunciar as palavras “erradas” segundo a norma padrão, pois a linguagem oral se transforma, evolui com mais rapidez que a linguagem escrita, porque esta obedece decretos e leis para ser regulamenta. Toda língua varia Logo no início do livro, no capitulo que fala sobre o mito da unidade linguística, o autor explica que no Brasil não se fala uma só língua e, que existem mais de duzentas línguas ainda faladas em diversos pontos do país pelos sobreviventes das antigas nações indígenas. Além disso, muitas comunidades de imigrantes estrangeiros mantêm viva a língua de seus ancestrais: coreanos, japoneses, alemães, italianos etc. Segundo Bagno, não existe nenhuma língua que seja uma só, o que a gente chama de português não é um bloco compacto, sólido e firme, mas sim um conjunto de “coisas” aparentadas entre si, mas com algumas diferenças. Essas “coisas” são chamadas variedades linguísticas e podem ser classificadas como: diferenças fonéticas (no modo de pronunciar os sons da língua); diferenças sintáticas (no modo de organizar as frases, as orações e as partes que as compõem); diferenças lexicais (palavras que existem no português de Portugal e não existem no português do Brasil, e vice-versa); diferenças semânticas (no significado das palavras) e diferenças no uso da língua ( quando utilizamos artigo antes de nomes de pessoas). Ainda com referencias a variedades linguísticas, o livro nos fala sobre variedade brasileira, geográficas: a variedade brasileira do Norte, a variedade brasileira do Sul, a variedade carioca, a variedade paulistana... Além disso, existem outros tipos de variedades: de gênero, socioeconômicas, etárias, de nível de instrução, urbanas, rurais etc. Na palavras do autor, toda língua muda, sofre mutações por vários fatores (históricos, sociais, econômicos, etc.), como exemplo: se pegarmos textos escritos em português, do inicio do seculo XII, e compararmos com textos atuais, perceberemos diferenças no vocabulário e no modo de construção da frase, havendo casos onde será necessário a ajuda de um filológico especializado para compreendermos, realmente, o que está escrito em texto mais antigos.

não existiria uma explicação lógica e convincente sobre como tanta gente consegue cometer os mesmos “erros” ao mesmo tempo. psicológico.. “estropiado”. o autor faz críticas sobre como é vista e. não se deve considerar como erros fenômenos que acontecem de Norte a Sul do Brasil e. é referido como PNP. “musga” (música) etc. “errado”. “deficientes”. pragmático. classes sociais. com exemplos bem simples de entender. Características do PNP O PNP é natural porque sua lógica de funcionamento segue as tendências naturais da . a privilegiada. Uma vez que é estabelecido uma variedade como padrão. “tosco”. “pubrica” (publica) “arve” (árvore). como português não-padrão.. A Língua de Eulália. No entanto.. “fosfro” (fósforo). tudo aquilo que é considerado erro no ponto de vista PNP lingüístico tem uma explicação científica. a língua das crianças pobres e carentes que freqüentam as escolas públicas. ela ganha tanta importância e tanto prestígio social que todas as demais variedades são consideradas “impróprias”. quando na verdade ela simplesmente fala uma língua diferente daquela que é ensinada na escola. É também. do ou outro. Erro comum ou acerto comum? Na obra. O português não-padrão é a língua da grande maioria pobre e dos analfabetos do nosso povo. ele esclarece. se fosse mesmo erro. “corgo” (córrego). “pobre”. oprimidas pela terrível injustiça social que impera no Brasil. apresenta variedades de acordo com as diferentes regiões geográficas. Para ele. “rude”. logicamente. “inadequadas”. como se ela fosse a única representante legítima e legal dos falantes desta língua. “deficiente”. “Ingrês” (Inglês). Esses preconceitos fazem com que a criança que chega à escola falando PNP seja considerada uma “deficiente” lingüística. lógico. conseqüentemente. marginalizadas. o autor não considera erros “frauta” (flauta) . pois no momento em que se estabelece uma variedade como a padrão. mas histórica. E esta norma-padrão passa a ser designada com o nome da língua. que esse PNP. Bagno denominando todas as outras variedades. “frecha” (flecha). Por ser utilizado por pessoas de classes sociais desprestigiadas. “pobres”. o PNP é vítima dos mesmos preconceitos que pesam sobre essas pessoas.No livro. existentes em nosso país. “erradas”. que durante. econômica. “feias”. quase todo livro. de certa forma. social e cultural. “pruma” (pluma). faixas etárias e níveis de escolarização em que se encontram as pessoas que o falam. Ele é considerado “feio”. é imposta para todos os falantes do português a norma-padrão. Essa variedade legitima-se por motivos que não são de ordem linguística.. “pranta” (planta). ele também comenta e exemplifica que existem alguns traços linguísticos comuns a todas essas variedades.

Mas. memorizadas. O PP. falantes da língua portuguesa. enquanto as do PP têm de ser aprendidas.língua. que um falante escolarizado do Rio Grande do Sul possa se comunicar com um morador analfabeto das palafitas do Amazonas. sofremos tanto com a ditadura dos . apreendida. justamente para impedir que elas o desfigurem muito depressa. mas elas representam uma gota d’água num oceano de material escrito em PP. exigindo um treinamento lingüístico especial da parte do falante. o PNP se caracteriza por ter uma forte tradição oral. já que o domínio da língua escrita é privilégio dos que freqüentam a escola. é claro. por exemplo. ao passo que o PP é artificial por ser uma norma que sofre as limitações impostas pela sua padronização. embora a recíproca nem sempre seja verdadeira: um analfabeto terá dificuldade em entender uma conferência científica ou mesmo um noticiário de televisão que use uma linguagem mais padronizada. que dita regras para serem memorizadas e que exigem treinamento para serem obedecidas. Por ser uma língua familiar. O PNP é transmitido de geração para geração. desde. O PNP. Há manifestações escritas do PNP. As regras do PNP são apreendidas naturalmente pelo falante. ao mesmo tempo. que criam regras que são automaticamente respeitadas pelo falante. É esse elevado grau de semelhança que permite. O PNP é funcional porque trata de eliminar todas as regras desnecessárias e supérfluas. é um patrimônio lingüístico que é compartilhado no convívio com a família e com as pessoas da mesma classe social. que se repetem e se sobrepõem. Nós. que a escola realmente queira ensiná-las a ele. esse grau de semelhança permite também que um falante de português não-padrão aprenda as regras da gramática normativa. O PNP é inovador porque se deixa levar pelas forças vivas de mudança que estão sempre ativas na língua. deixa vir à tona as forças transformadoras da língua e evolui com mais rapidez que o PP. como eu já disse. é conservador e demora muito a aceitar algum tipo de novidade. decoradas. que tem o objetivo de se manter inalterado o máximo de tempo possível. natural. por meio principalmente da forma escrita da língua. O PP tem que ser adquirido na escola. que refreia estas tendências. Já o PP é redundante porque faz uso de muitas regras para dar conta de um único fenômeno.

aquilo que parece “errado” ou “estranho” no português não-padrão é. Seria possível a gente falar da diferença entre o real e o ideal. podem ser registradas. Irene.gramáticos que parece que pensamos e falamos um tipo de português e que. é uma normapadrão ideal. mas. coletadas. não existe um português-padrão de um lado e um português não-padrão do outro. oficial. reprimidas pela educação formal. se estou entendendo. de um lado. na verdade. em termos de representação ou imaginário lingüístico. escrita. inatingível e. resultado da ação de tendências muito antigas na língua. Esse falante pode até conseguir respeitar uma boa porcentagem das regras padronizadas. Seria algo assim? As variedades da língua são reais e concretas. nem mesmo o falante mais culto. a língua com todas as suas variedades de um lado e uma norma ou um padrão. cada um de nós fala uma variedade ou mais. mais preocupado em controlar sua fala ou sua escrita. como se encontram na . do outro. a massa de variedades reais. como eu já tenho estudado na faculdade. mais escolarizado. sim. mas que encontram livre curso na boca do povo. Essas variedades. temos que traduzir para um outro tipo de português que é: o português escrito. A norma-padrão é um ideal de língua. Como vimos mais uma vez — conclui Irene —. mas nunca respeitará todas elas. Mas nós não temos de ensinar nossos alunos a escrever de acordo com a ortografia oficial? — pergunta SÃlvia. concretas. que a gente tem como um modelo abstrato do que é “bom” e “correto”. uma abstração. na hora de escrever. a Eulália fala outra. gravadas. que são refreadas. Então. por não ser falado por ninguém. — É claro que temos — responde Irene —. do outro lado. na verdade. eu falo uma. podemos dizer que o que existe. Conforme vocês mesmas sugeriram. tia? Porque as variedades lingüísticas existem concretamente. pelas regras da linguagem literária. mas não podemos fazer isso tentando criar uma lÃngua “artificial” e reprovando as pronúncias que são um resultado natural das forças internas que governam o idioma. Já o padrão. em termos de realidade lingüística e social. aquela língua ideal. inclusive nas suas variedades cultas. pois ninguém obedece rigidamente a todas aquelas regras ali prescritas. seria.

essas variedades não se encontram isoladas umas das outras. Esse conhecimento permitirá que a pessoa escolha a variedade ou o estilo que quer usar num dado contexto. os conceitos de certo e de errado não são definidos de uma vez por todas. teve um contato ininterrupto com as formas lingüísticas consideradas padrão: foi obrigada a ler muito. Os pesquisadores engajados nos grandes projetos de pesquisa lingüística do português brasileiro chegaram à conclusão de que é o nível de escolaridade o principal fator a ser levado em conta na hora de classificar um falante e sua variedade. Por tudo isso é que muitos lingüistas brasileiros optaram pela classificação das variedades lingüísticas de acordo com o grau de escolaridade dos falantes — prossegue Irene. a falar em seminários. como se diz nas ciências sociais. etc. Assim também acontece com homens e mulheres. O que a história das línguas — de todas as línguas — nos ensina . mas isso é simplesmente impossível. para todo o sempre. compacta e sólida. Tudo isso é suficiente para que seja classificada como um falante culto. ou simplesmente um continuum. de contornos definidos. o rótulo falante culto é aplicado ao indivíduo que tem curso superior completo. Como tentei mostrar no desenho. conforme lhe pareça mais adequado às suas intenções comunicativas. Como tudo na vida e no universo muda. Supõe-se que a pessoa que fez todo o percurso da educação formal. o mesmo acontecendo com as demais etnias que compõem nosso povo. passando pelos onze anos de ensino fundamental e médio. mais os quatro ou cinco anos de um curso superior. a língua também muda junto com tudo mais. como se diz em Lingüística. O que vai determinar a classificação das variedades é a escolarização. Nesses projetos. Elas têm contatos umas com as outras. a escrever muito. O ponto que eu quero ressaltar aqui é a mudança da norma-padrão. Por isso é tão importante permitir a todos os falantes o acesso à escola e à norma-padrão. a ouvir aulas e palestras. elas não são “coisas” prontas e acabadas. elas representam um espectro contínuo. por todo o continuum. O que caracteriza um falante culto é justamente essa facilidade que ele tem de mudar de registro. Porque esse é o critério mais seguro para classificarmos as variedades lingüísticas no Brasil. Ao contrário do que as pessoas em geral pensam.sociedade. Elas têm muitas semelhanças e algumas diferenças entre si. — Verificou-se que os negros e os brancos brasileiros não apresentam diferenças lingüísticas sensíveis em suas variedades. Ele pode passear tranqüilamente por todo o espectro de variedades. numa dada situação. É verdade que existe uma pressão muito grande dos defensores da norma-padrão de fazer com que ela fique inalterada.

. Conforme a Sílvia já disse. escritas. também é verdade que a escola deveria se esforçar para que esse padrão absorvesse uma série de usos lingüísticos novos. quando os falantes dessas variedades aceitam sem resistência essas novas formas lingüísticas. e ganham até o status de regra obrigatória. Além disso. antigas. perfeitamente assimilados pelos falantes cultos. 173] parado no tempo e no espaço. A “pureza da língua” de hoje já foi “contaminação na língua” de ontem. dentro da escola. haja espaço para o máximo possível de variedades lingüísticas: urbanas. Essas classes privilegiadas vêem na norma-padrão conservadora um elemento precioso de sua própria identidade de grupo dominante. Por isso tanto empenho em conservar a norma-padrão inalterada. A norma-padrão tem um poder [pág. sem corrupções. no imaginário coletivo. Dessas classes dominantes emergem então os defensores do padrão. O que eles hoje defendem com unhas e dentes era combatido com todo vigor por seus ancestrais em épocas passadas. inatingível na prática em sua totalidade.. passam a integrar o ideal imaginário de língua “certa”. homogêneo. Para que as pessoas se conscientizem de que a língua não é um bloco compacto. que são principalmente os gramáticos normativistas e os professores de língua que seguem essa ideologia conservadora. faladas. Um esforço que. não importa qual for a intensidade da pressão normativizadora..é que. mas sim um universo complexo. modernas. Isso reduziria o abismo que existe entre o padrão lingüístico e o uso real da língua por parte dos falantes cultos. dinâmico e heterogêneo. Se é verdade que o padrão lingüístico será sempre um ideal. rurais. ao longo do tempo. acaba sendo feito em vão. 171] simbólico muito forte. [pág. quando as mudanças se cristalizam nas variedades [+cultas] e deixam de ser percebidas como “erros”. onde as formas novas não param de surgir. Mas a norma-padrão está sempre em atraso em relação às variedades vivas da língua. elas acabam se incorporando à norma-padrão. É por isso que a norma-padrão de uma determinada época é diferente da norma-padrão da época seguinte. a língua supostamente falada pelas camadas sociais de prestígio. como já sabemos. é preciso também que. Agora eu pergunto: saber a grafia correta dessa palavra prova alguma coisa? Saber como se escreve DISENTERIA significa que a pessoa . Ela representa. a norma-padrão vai sofrer alteração. rico. e já consagrados até na literatura dos melhores escritores. que detêm o poder econômico e político do país. cultas. concorrendo com as mais antigas até eliminá-las ou transformá-las em fósseis lingüísticos.. nãocultas. pura.

Não um valor lingüístico. isso sim. lingüisticamente. como ainda é feito. 189] italiano Maurizzio Gnerre. é como se a língua fosse a pessoa mesma. certo é o que pertence a uma minoria reduzida de cidadãos. a língua que ela usa para falar consigo mesma. suas crenças e emoções. vamos apresentar essa forma lingüística elitizada. Por isso o considerado bom. transmitir suas idéias. Em vez de ser usada como instrumento para a tal “ascensão social”. ao mesmo tempo. a norma-padrão serve como um poderoso arame farpado para bloquear o acesso ao poder. de um ensino que mostre que essa norma-padrão não tem. faz parte da identidade dessa pessoa. interagir por meio da fala ou da escrita. a língua que ela aprendeu com sua família e com sua comunidade. de separação. sobretudo porque a língua que uma pessoa fala. porque são duas construções gramaticais perfeitamente lógicas e coerentes. minoritária. Podemos. de mais lógico. querer simplesmente eliminar da realidade lingüística o para mim fazer. de mais coerente que as variedades usadas pelos falantes menos cultos ou analfabetos. Mas um valor social determinado pelo tipo de sociedade em que vivemos. Se assim é. proponho a valorização dos usos lingüísticos não-padrão. para expressar seus sentimentos. e que cada uma delas tem um valor diferente. E. para que ela não seja usada contra eles no processo perverso de exclusão social baseada no preconceito lingüístico. mostrar que há duas formas em uso. sim.sabe fazer bom uso dos [pág.. em concorrência. comunicar-se. nada de mais bonito. a norma-padrão termina servindo. Como escreveu o lingüista [pág. a todos os nossos alunos. para pensar. de mecanismo de exclusão social. Daí a importância que eu atribuo à formação contínua.. Em suma. influenciar seus ouvintes e assim por diante? Por essa questão é possível avaliar se o candidato é capaz de elaborar um discurso coeso e coerente? Não podemos mais. ininterrupta do professor de português — diz Irene. de segregação. — Não dá mais . mas de um ensino crítico da norma-padrão. 175] recursos da língua. bonito. sou a favor do ensino da norma-padrão. como muita gente ingenuamente pensa ser a função dela. um esforço totalmente inútil porque cada vez mais gente usa e usará essa construção.

não! — sorri Irene. É fundamental que ele esteja sempre a par do que está acontecendo em termos de investigação. 193] aos dogmas tradicionais. livros. lamentando a “ruína”. — Acho prova a coisa mais tola que já inventaram na escola. revistas. Irene. — É verdade — concorda Sílvia. Participar de congressos de especialistas. acompanhar tanto quanto possível o ritmo das publicações de artigos. a “decadência” da língua portuguesa. teses etc. agarrado à gramática normativa e [pág. e se deixando engambelar pelos vendilhões do templo gramatiqueiro.. — Aprendemos a história da nossa normapadrão. a “corrupção”. misturado com italiano e francês. de podermos saborear as delícias de um lindo poema popular. que tentam nos convencer de que só eles podem salvar o português do desaparecimento. todas elas muito mais interessantes e eficazes que prova. de avanço teórico no seu campo de estudo. monografias.. — Sem falar. não é de admirar que os estudantes não tenham afinidades com o ensino de gramática na escola. é claro.para ficar parado no tempo... cheia de contradições e incoerências.. de pesquisa. mostrando a distância que existe entre a língua realmente usada no país e aquela que a escola insiste em continuar ensinando como vimos os vários exemplos mostrados.. É preciso que o professor de português se apodere do instrumental teórico que a ciência lingüística pode lhe oferecer e transforme isso em prática de ensino. seu funcionamento. Se não fizer isso. vai acabar se transformando num mero papagaio repetidor da doutrina tradicional. . e até um pouco de grego e latim.. Existem Oitocentos milhões de outras maneiras de você avaliar o conhecimento dos alunos. é im-pres-sio-nan-te o tanto que a gente pode aprender com os supostos “erros” do português não-padrão! — diz Emília.. Graças a Deus. — arremata Vera.