As raparigas dão cabo umas das outras

BARBARA KAY
Fonte: http://www.catholiceducation.org/articles/parenting/pa0159.htm

Não há dúvida nenhuma de que, em matéria de bullying social, os rapazes e as raparigas são muito diferentes. Os rapazes esquecem-se rapidamente dos insultos; as raparigas nunca os esquecem.

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ão me lembro de as minhas colegas se meterem comigo quando era pequena. Mas lembro-me muito bem de não ter feito o que devia quando, num campo de férias, uma rapariga que estava alojada na mesma tenda que eu foi cruelmente humilhada; não éramos propriamente amigas e ela não era uma rapariga atraente do ponto de vista social, mas ainda hoje tenho vergonha do que não fiz.

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al como muitas outras raparigas, «Shira» tinha um diário. Uma das raparigas do campo descobriu-o e os pormenores íntimos das fantasias sexuais de Shira relativas a um dos encarregados foram lidos em voz alta, num coro de impiedosas gargalhadas. Ainda hoje me lembro com exactidão da cena, e da expressão de horror de Shira. E lembro-me igualmente da profunda empatia que senti relativamente a ela, a despeito da qual não tentei pôr fim àquela cena de bárbara crueldade. Os boatos correram pelo campo de férias, e Shira ficou com o Verão estragado. Pensando agora nisso, pergunto a mim própria até que ponto aquele episódio terá influído na vida e nas posteriores relações dela com outras mulheres. Nenhuma rapariga esquece uma traição deste calibre.

elizmente, Shira viveu a sua adolescência antes da era das redes sociais, de maneira que a mortificação que sofreu foi socialmente limitada e não ficou arquivada. Se fosse hoje, podia ter-lhe acontecido o que aconteceu a Phoebe Prince, uma jovem irlandesa de quinze anos de South Hadley, Mass., que, acabada de chegar à cidade e implacavelmente importunada no Facebook e por meio de mensagens pelas colegas (com o leitmotiv de «pega»), se enforcou no armário em 2010. Na sequência deste caso, há uma pergunta que

permanece: as raparigas serão efectivamente mais cruéis que os rapazes?

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arece que sim, de acordo com as conclusões de duas documentaristas, que são amigas e que concluíram ambas o curso na Pepperdine University em 2009, depois de terem ambas sobrevivido a campanhas de bullying por parte das colegas durante a adolescência. Laura Parsekian e Molly Stroud decidiram analisar os aspectos definitórios e o alcance deste problema num documentário de 2010, intitulado

Finding Kind. O filme, que foi
levado para o Canadá pela RBC Children's Mental Health Initiative, em parceria com a Workman Arts, foi exibido entre 9 e 11 de Novembro nas escolas de Toronto, tendo sido publicamente exibido em 11 de Novembro em Bell
Imagem: A melhor amiga de uma rapariga de dez anos diz-lhe que ela tem de fazer uma lipo-sucção. Imagem: «Um dia éramos as melhores amigas do mundo, no dia seguinte elas começaram a atacar-me, e eu nunca percebi porquê.»

«Nos dias piores, é um banho de sangue», observa um deles. Imagem: A melhor amiga de uma rapariga de dez anos diz-lhe que ela tem de fazer uma lipo-sucção. Imagem: «Um dia éramos as melhores amigas do mundo, no dia seguinte elas começaram a atacar-me, e eu nunca percebi porquê.»

as mulheres; os media sociais que não são controláveis pelos professores – e a lista é interminável.

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Lightbox. Parsekian e Stroud realizaram um filme muito simples e muito objectivo; acompanhadas apenas pelas mães e por um câmara, percorreram 15.000 quilómetros e atravessaram 28 estados americanos numa carrinha Toyota, conversando com milhares de raparigas e jovens de cidades pequenas, de subúrbios e de grandes cidades, raparigas de todos os níveis sócio-económicos e de todas as combinações étnicas, de todos os paradigmas familiares e de todos os formatos e configurações – magrinhas, gorduchas, bonitas, feiosas: não encontramos uma vítima «tipo» neste filme –, sobre as suas experiências de bullying com base no sexo.

filme alterna narrativas e cenas em escolas com testemunhos de raparigas que recordam ter sido vítimas desta prática. Todas elas começam a chorar quando falam do que lhes aconteceu. A que mais me impressionou foi Lori, que tinha 21 anos quando foi entrevistada: era uma mulher robusta, segura, mãe solteira e órfã, mas sem sombra de auto-compaixão; contou com grande à vontade que se sentia muito isolada, e de repente, ao dizer «Eu só queria uma amiga», desatou a chorar.

feminismo devia ter criado jovens mais auto-confiantes. Paradoxalmente, a ideologia deslocou-as do abrigo de uma cultura sexualmente modesta que dava mais importância a actividades não sexualizadas e à beleza interior, promovendo o materialismo e a sexualização prematura, que exacerbam relações negativas entre mulheres.

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uma escola, Lauren pede a uma plateia de raparigas: «As que se sentem inseguras levantem o braço.» Todas levantam. As autoras do filme não se mostram surpreendidas. Observa Lauren que «100%» das raparigas são alvo de bullying por parte das colegas, e que muitas delas acabam depois por praticá-lo. Os terapeutas e os investigadores entrevistados no filme confirmam o carácter universal da síndrome, bem como a respectiva violência.

ão há dúvida nenhuma de que, em matéria de bullying social, os rapazes e as raparigas são muito diferentes. Os rapazes esquecem-se rapidamente dos insultos; as raparigas nunca os esquecem. Os rapazes gostam de formar grupos e tem relações emocionalmente mais ligeiras; as raparigas têm uma enorme ânsia de intimidade e sucumbem de bom grado a uma tirania comportamental a fim de serem aceites.

enho quatro netas, a mais velha das quais faz oito anos em breve. Aparentemente, é nesta idade que tudo começa. Finding Kind encheu-me de temor; mas também tenho a esperança de que este filme – bem como o movimento «Kind campaign» que Persekian e Stroud fundaram para combater o bullying entre raparigas (Kindcampaign.com) – ajudem a encontrar uma solução para este pernicioso problema social.

ACKNOWLEDGEMENT

Barbara Kay "When girls ruin girls." National Post, (Canada) 16 November, 2011. Reprinted with permission of the author, Barbara Kay, and the National Post. THE AUTHOR Barbara Kay is a Montrealbased writer. She has been a Comment page columnist (Wednesdays) in the National Post since September, 2003. She may be reached here. Copyright © 2011 National Post

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crescente-se a isto a insegurança inerente às raparigas: os inalcançáveis padrões contemporâneos de beleza e elegância que assaltam a autoconsciência das jovens em filmes, anúncios e revistas de moda; os programas de televisão que promovem a competitividade, a desconfiança e a agressividade entre

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